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Full text of "Historia do descobrimento e conqvista da India pelos Portvgveses"

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I 

I 












os LIVROS QVARTO E QVINTO 

D A 

HISTORIA DO DESCOBRIMENTO 

B 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS PORTVGVESES. 

Com priuilegio ReaL M.D.LIII. 



HISTORIA 

DO 

DESCOBRIMENTO 

CONQ VISTA DA ÍNDIA 

PELOS 

PORT VG VESES 

POR 

FERNÃO LOPEZ DE CASTANHEDA. 



NOVA EDI^Xo. 



LIVRO IIII. E V. 



LISBOA. M.DCCC.XXXm. 

KA TTPOORAPHIA ROLLANDIANA. 

POR ORDEM SUPERIOR, 



!• % 



PROLOGO 

NO QVARTO E QVINTO LIVROS DA HISTORIA 
do descobri meo lo & conquista da índia peloa Portu*» 
gueaes. Dirigido á serenissima & exceleu tiaai ma Prín- 
ceaa dona loana nossa senbora* 

Por Fernão lopez de Caelanbeda. 

jfVniiguo custume he em Pérsia , & {) se guarda è to^ 
da Ásia serenissima & ezcelentissima Princesa nossa 
senhora, nenhtia pessoa visitar sem presente aelrey, 
nem a outras pessoas reaes : porque se lem por erandé 
sinal damor & obediência : custume roujio notaneT & di- 
gno de ser vsado era toda parte : por^ são nossos seflo* 
res na terra, & na que he sua viueroos : & temos nossas 
fazendas & nos dam leys per Q somos gouernados & re-» 
gidôa: & finalm&te nos mantém em paz & em justii^a 
qae be parte da bem auenturança deste mundo Polo 
que nSo somfite os deuemos de visitar cora presentes do 
{^ lemos, mas ter as vontades muy prõptas pêra «eu ser- 
nico. E seguindo eu este custume anêdo de visitar V. 
A. como seu vassalo lhe quis fazer hfi presente: mas de 
^ se pode ele fazer a V« A. princesa ião singular dos 
oBs dalma & da fortuna sobre todas tã excelentemente 
dotada , Q c5 bo muyto ^ lhe deles sobeja podião outras 
ser bê auSturadas. Deyxo agora a nobreza & antiguid»^ 
de de vosso esclarecido sani^ue de todas as partes , dos 
mais excdfites ftperadores Dalemanha , de tãtos & tão 
famosos & b6 anfiturados Reys do antigo & muyto no- 
bre sangue dos godos, abasta ser V. A. filha daQllea 
dous lumes do m&do ^ Carlos quinto rey dos Romãos & 
Em perador Dalemanha & rey de^Caalela & doutros Qes^ 

Kba & íora delia , & seftor de grftdes senhorios : coj» 
fortuna foy em tftto crecimfilOv 2| per seus capitften 

LIVRO IlII. * 



rompeo cõ eslrago espâloso ho c3po de FrâciscoRey de 
Fran(*a, que nele eslaua em pessoa com poder que pa- 
recia inuenciuel, & ho desbaratou & prêdeo com muylos 
senhores de Frãça : a quem ho Turco terror do mundo 
entrando com seu temeroso exercito por Vngria volueo 
as costas & náo ousou dir auante cÕ medo de pelejar 
eom sua magestade que linha diâte: & cÕ ardentissímo 
zelo da gloria do eterno Deos todo poderoso & da reli- 
gião christaâ, esquecido dos immensos trabalhos da guer- 
ra , penetrou polas frialdades grandíssimas da alta Ale- 
manha, & desbaratou* aquelas duas cruéis & danosas 
bes(aS) cabeças & colunas da péssima & abominauel he- 
resia luterana ho duque de Saxooía & ho Lantgrauio : 
& someteo todas aquelas terras que estauâo corruptas 
desta maiuada heresia a santa Se Apostólica: & fez ou- 
tras muytas & muy notaueb cousas, que deixo por não 
parecer. que screuo historia. Ho outro lume do inundo 
íby sua molher a empecalriz dona Isabel vossa may, 
exemplo de todas as virtudes, Q com tanto assessego go* 
uernou Castela, & os outros Reynos despanha: em tan- 
tos annps que S.tM. foy ausente, que nunca seus vas- 
salos ho acharão menos, &l pêra que lhe não ialtasse ne- 
nhúa cousa pêra ser a mais bem auenturada princesa 
do seu tempo, casou oom ho muyto alio Frincipe dom 
lohão nosso senhor herdeiro da real casa de Fortugal, 
& de seus grandes senhorios, oaoido do vesso real tron- 
co que não tem enueja a. neobu dos principes Cristãos 
assi em ser zeloso do culto diutno, piadoso pêra os po^ 
bres & necessitados, manifico liberal & benigno pêra 
lodos: amigo dos caualeiros ^ &- muy prõto 6 ouuir suas 
íaçaobas: & muyto dado a iodo estudo das boas letras, 
em qu8 se achão todas as boas & virtuosas inclinações 
que conuem a fau bom principe , & ^ohre tudo lhe deu 
nosso senhor hâ singular dom , que he tão sogeito a re- 
zão que posto que lhe pareça i\ lhe tè feitos grandes er- 
ros, cora Jhe darem rezão fica logo satisfeito. E pêra 
qoe ru© deten-ho e^ em cousas tam notórias, nem pêra 
que he ter iaio pof muyto, pois não se espera menos de 



S. A. senão filho do rtiuyío aUo & niuytô poderoeo Rey 
àò lobão nosso senhor, & da niuyío esclareoida Ra^rnha 
DowBL senhora voesos padres, que assi ho «ouberAo cfiar 
& insliluir, que juntamente cobd a boa inclinação naiuf 
tal de que ho eterno* Deos ho dotou sayo tal coroo he. 
Pois considerando eu sereníssima Princesa a singulari- 
dade & excelência de vossa real pessoa Sc vossa inaniíi* 
cencia , não achey de que lhe fizesse melhor presente 
que de cousas que sam de muylo mor preço que ouro^ 
nem prata, nem outras riquezas» Estes são os mílagro- 
80S feitos S armas que os Portugueses cujos descendentes 
hão de ser vossos vassalos fizerâo no descobrimento & 
conquista da Jndia: porque de que (em os Príncipes & 
senhores mais necessidade que de bõs vassalos, que os 
fazem ser amados de seus. naturais & temidos de seus 
imigos^ que lhes segurão seus Reynos , & acrecentão 
outros a seus senhorios, com que os faze» ricos, & es* 
tendem por toda a terra seu nome com muyto fítande 
louuor & fama. K bem sentia isto aquele grande Rey 
Dariu quando disse que queria tantos Zopiros como e* 
rão os gT&os da romaà , por ser Zopiro tam esforçado & 
prudente na guerra que lhe conquistou Babilónia, & as-« 
SI fizerão outros nniytos & bõs vassalos muy grandes & 
assinados seruiços a seus senhores, como bs historias 
antigas & modernas dão testemunho: que cotejados cÕ 
os que íizerfto os Portugueses ficâo muyto abaixo deles, 
pois os das outras nações acabarão , & os seus sempre 
permanecem: os Assírios, os Aledos, os Persas, cujas 
monarchias forão de tantos Reynos, de cidades tam no* 
taueis, de gente sem conto, emnobrecidas com tam gros«» 
aas riquezas, fortificadas com tão medonhos & espãto- 
80S exércitos que cobrião a terra & secauão os rios, to- 
dos acabarão & se desíízerão em pouco tempo: & estes 
Reynos no mundo tam celebrados ficarão sugeitos a ou- 
tros. A monarchia dos Gregos & dos Romãos que forão 
muyto mayores que estoutras, & í\ pareceo que auião 
de someler todo mundo a seu império quasi que não du- 
rarão nada pêra ho começo que leuauâo : & assi outras 

* 2 



inuylas de bárbaros, gregos, & latinos, que se apaga- 
rão ; de roaoejra ^ não ha nenh&a memoria delas. O que 
tudo foy por culpa dos vassalos destes monarcas, que ou 
pof treii^oSs ou por outras maldades forão causa de se a<- 
pagarem & desfazerem. O que não se pode dizer dos 
Portugueses, que eriSdo este Reyno de Portugal de tam 
pouca cousa como começou,, seruindo a seusReys c5 es- 
forço & lealdade sobre as outras naçoês, não somente ho 
engrossara em Espanha , nem se contentarão de ho esp- 
lender por Africa: mas abrindo nouos mares & desco- 
brindo nouos mundos, dobrando aquele espantoso cabo 
de boa esperança, estenderão ho senhorio de Portugal 
& ho fizeram conhecer em Ethiopia, Arábia, Pérsia, & 
nas índias. E não descansando ainda aqui seus brauos 
corações , ho leuarão ate a riquissima China pela banda 
do norte : & ate as odoríferas ilhas de Maluco pela bã« 
da do sul: cousa nunca cuidada em nenhu tempo, nem 
Ç entrasse em pensamSto humano pêra se fazer, & fo- 
rão de geração em geração tam leais todos, que sem te- 
mor de immêsos trabalhos , sem receo de medonhos pe- 
rigos sosteuerão ho senhorio de Portugal nestas partes , 
arrefgandoho de cada vez mais. Em tãto Q parece qu« 
a terra, ho mar, & a gen(e secôuidão pêra ho receber. 
Rezão teivho logo sereoisima & excel&lisimn prfncesa de 
fazer a V. A. presente das cousas de mayor preço que 
se aehão nestes reynos, ^ sam os milagrosos feitos em 
armas ^ fizerão os Portugueses no descobrimento & con* 
quista da índia, para que saiba V. A. que sam os me- 
lhores vassalos Q pode ser : & como a tais os trate , fa* 
uoreça, empare & ajude. 



AD INVICTISSIMVM LVSITANI^, 

& Algarbiorum Rege. loannem III. &c. Ferdinandw 
Coronellos de hÍBloria Indica nunc recens edita. 

JL oannes , quem Turca timei , quem Maurus adorai ^ 

Quemque pharetraias Perstdis ora tremit. 
Cui Partkuê , cui cedit Arabs , cui púnica tellus 

Scruúj ^ occiduo terra fretumque solo. 
Inclyia perpeiuis cur non tua gloria fastis 

Crescei y ^ ceiherei surjget ad astrapoli? 
Cum tua lysiades acri gens áspera hello 

Jkisa sii ignoiam Jlueiibus ire viam. 
Perque procellosum numerosis classihus cequor 

Cagai %n assueto barbara regna iugo : 
Qua vagus Euphrates^ qnà deuius exii Oroniesy 

Quaquefluit getídi» barbaras Isier aquis^ 
lamque pererrato superest nil denique mundo , 

Per freta lanqa iuus nanita victi iier. 
Q/uaque patei demitis tua magna potentia terris j 

Intemerata dei crescit vbiquefides^ 
Rex igiiur mérito tibi quis celeberrime rega 

Non grates ima pectore semper agat f 
Cum tiM stent adeo sacris onerata irophasis 

Limina y sint armis- tot freta vicêa tuis, 
Maxime rex regum Hiuhs , insignibus ambti 

Quem decor , ^ taníis ornai imaginibus. 
Fiue diu pátrias , nec te plaga lúcida cesli 

Auferat e nostro ciuibus orbe luis. 



Cândidas astra ptm' stm ^ caimr mdhi s vpe rsint ' 

In terris hominum quce dare iura queas. 
Tviic iam lysiadasque tuos^ gentemque beaíám 

jíspicieÈ superas promeruisse Deos. 
Qui bene pro pátria quondâ cecidere sub armis , 

Qui bene pro Christi relligione iacenU 
Felices animas , iam nunc super wthera raptas , 

Non vos indecores desinet ulla dies. 
Non vos liuor edax ^ non vos longasua ueíustas 

Arguet in pátrio non cecidisse solo. 
Dum Phcebus superas pulcherrimus ambiet orbes , 

Dum Tagus auríferas in maré veríet aquas. 
Vix vnquam virtus sine nomine vestra iacebit , 

Non erit in cineres fama sepulta suas. 
Nam casus rerum varias durosque labores 

Castanheda sacro proferet ore potens. 
Vincet §* etemis inimica silentia libris y 

Tollet ^ obscuro nomina vestra situ. 
nie quidem pátrias facta immortalia nunquam 

Defraudata suis laudihus esse sinei. 
Quce tibi tot victis rex inuictissime terris 

Gratatur forti parta trophasa manu. 

Eiusdem in aulborem epigraroma* 

JLjiuius historias quondam celeberrimus author 

Duxit áb astema posteritate decus. 
Dum scribií Latíum , commissaque praslia , nec non 

Missa sub hesperium Púnica regna iugú. 
Tu quoque lusiadum scriptor facunde tuorum , 



Immortale tuú nonien ad astra feres. 
Nam liceí exiguce landis res ipse re/erres 

Te íamen ai fandi copia prouehet^et. 
Ai cunífacia tuis scriptis ingentia narres 

Eueniei meriio gloria summa iibi. 

Amicí cuiufidã Castanhedae ad ipsum. 

X ani uartjs exculta modis facúndia , taníú 
■ Dicendi est lúmen , copia , visque iibi. 
F^t licei eúciguam rem scribas , arie magistra 

jiElemce fadas posteritatis opus. 
At modo quam scribis ianta est , vi vel sine docto 

Artífice y haud vnquam ihura timere queat. 
Ergo scripiori cum res amplíssima par síi 

Quod scribetur opus die fore quale putas. 



C€C€)€ee€C)e€ee€C€)e€e)«9(Ki3Q3()3(KicK)^^ 

HO QVARTO LIVRO 

DA 

HISTORIA DO DESCOBRIMENTO 

E 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS PORTVGVESES: 

No tempo que ft gouernou Lopo Soarez, do conselho 
dei rey dom Manoel de gloriosa memoria : & capitão 
do0 gíoeteB do Principe. 

Fiylú por Fernão Lapez de Caaonhedcu 

C A P I T V L O L 

J?e comofoy r formada a paz com a Raynha de Coulâo. 



D 



eapois Q ho gonernador foj S Cochim como disse no 
liuro terceiro: entendeo logo na carrega da pimenta Q 
aoia de mãdar pêra Portugal. E como parle dela ae auia 
de fazer em Goulão que algil tanto estaua aleuantado , 
oomo disse no liuro segundo : mandou ho gouernador lá 
certas naoa pêra que carregassem. £ foy por escriuâo 
deata carrega ha loSo aluarez de caminha. È juntamen- 
te mandou ho gouernador quem reformasse a paz com 
el rey de Couião : mas a quS se deu este cargo não lhe 
soube ho nome : E quê quer que foy assentou a paz com 
h&a irmaâ dei rey de Couião que se chamaua raynha : 
por ter algíta parte na cidade & assi em sua comarca : 
& gouernaua aquella terra por el rey Q ho mais do tS- 
po eataa no sertão como disse* E os capítulos das pazes 
for& estes , que a raynha mandasse fazer aa sua custa a 

LIVRO IIII. A 



2 PA HISTORIA PA IN0IA 

igreja do orago do apostolo sam Tkome qoe os «Kmros 
ifueímario & derribarSo quando matarSo fao feylor Ati^ 
tonio de Sá: como disse no liuro segundo! & que lho 
fossem tornadas as rendas qne tinha assi de terras co« 
mo de dereilos que lhe pagauão. E assi pagasse a ray* 
nha poJa fazenda dei rej de Portugal q«e fom tooiada a 
António de Sá quinhentos bares de pimenta: que polo 
nosso peso sam dous mil quíotaes : & que auia de dar 
carrega de pimenta ás nãos que bt fossem carregar» po- 
lo preço de Gochim. E <} el rey de Portugal mandaria 
ter cm CoulSo mercadorias que a gente cb terra com« 
prasse* E a tudo isto se obrigou per bda escríptura a 
raynba, & assi os regedores & polást Q sam os fidalgos^ 
de bo comprírem & goardarê. E isto fizerSo por lhes ser 
muyto necessária esta paz pêra conseruaçio da temu E 
logo começarão de pagar os dous mil quitaes : & foy da- 
da carrega aas nãos que despois de carregadas se torna- 
rão a Cochim : donde partirão c5 as outras pêra Portugal^ 

C A P I T V L O IL 

De como a$ mauros de Baticcãá se leuantarão : ^* m/atm- 

rãa xxuii. Portugueses* 

V endo os mouros da índia qne era falecido A fiSso dal- 
l>u{|rque a ^ auião medo como a mesma moKe : & que 
auia outro gouernador de que não tinhão experiência : 
determinarão dcsprementar que tal era : Sc assi como 
vissem que fazia , assi bo temerião , ou não terião era 
conta. E os que logo começarão de fazer esta experieiH 
cia forão 08 de Baticalá : em cujo porto estaua Simão 
dãdrade cõ hQa nao de que era capitão carregando pêra 
Ormuz: & andando algQa gente desta nao em terra trar 
uarão os mouros com eles brigas, em que forão mortos 
zxiiií. Portugueses, & os outros escaparão no batel. E 
não |)odendo Simão Dandrade castigar a^le insulto fao 
mandou dizer' ao gouernador & partiose pêra Ormuz. 



LIVAO nil. CAI^ITVLÓ ítí. 3 

C A P 1 T V L O IIL 

De como ho jfouemador vintou asfartalessas da cosia da 

índia : ^ do mais que/es;. 

Jl artida^ pêra Portugal as nãos da ear^a, despachou ho 
goueroailor pêra Malaca a hQ fidalgo chamado lorge de 
inrito que era eopeíro mor dèl rey de Portugal , Q bia 
proaido da oapitanki da fortaleza, & partio em hua nao, 
& foy em soa cSsenia em outra António pacheco que 
leoaoa a capitama mór do mar : & ambos chegarão a 
Malaca a saluemSto, & forão en(reguf>8 de seus carre- 
go0« £ partidos estes capitSes partiose ho gouqrnador a 
▼isíCar as fortalezas da costa , qne ateli não fizeta pof 
amor da carregação das nãos. E a primeira ^ visitou foy 
m áe Cali€iai« Cujo rey estava mayto agastado pola mor« 
te de Afonso dalbnquerquet & por ser antes de auer re« 
peita da embaiicada () mandara a el rey do Manuel : & 
flisja pot lio gouernador não querei! que mandasse eer-» 
taê nâos com jmsenta a Adem, que lhe Afonso dalbu* 
qfierque tinha concedtdo 2| mandasse , por^ era de fora 
d» centrato que ambos fezerSo sobre as pazes , não ho' 
Roeria ho gooe^nador coneentir. E sobre isto se quis ver 
aS e) rey s & sobre a maneira de que auia de ser a vis* 
ta oune grades altercações porque ho gouernador queria 
Q lhe fosse el rey falar á fortaleza , & el rey queria que 
0e vissem no çarame : & cada hd se injuriaua de tr ou- 
^e he- outro éstaua : & sobristo se gastarão doze dias : 
& ho gouernador quisera quebrar a paz & recolher a 
gente da fortaleza se lho não cõtrariarão os capitães & 
fidalgos. E por iim de tudo virãose antre a fortaleza & 
a cidade, não leuãdo cada bQ mais de três homSs. E 
coro tudo não tomarão cScrusam se mâdaria el rey as 
nãos ou não: & com tudo mandou as despois. E se ele 
nSo desejara muy to de cõseruar a paz que (inha , ela fi- 
caua quebrada. E daqui se foy ho gouernador a Cana* 

A 2 



4 DA HISTORIA OA ÍNDIA ! 

nor, Sc dahi a Goa : & foy surgir no porto de Balicalát 
& sabendoho ho seu rej cuydou ^ ho bia destruyr por 
amor dos Portugueses que hi matarão os mouros: & por 
isso quis temporizar coele, & mandoulhe muyto refres- 
co, & três mouros velbos: dizendo que lhos mãdaua pe* 
ra fazer deles o ^ quisese por quanto aqueles forão cau- 
sa do arroido em que matarão os xxiiii. Portugueses. El 
coeste comprimSto se ouue bo gouernador por satisfey-- 
to, & se partio pêra Goa: o Q deu grande ousadia aos 
mouros pêra Ibe perderem bo medo» £ dali por diante 
ouue ladrões pela costa que roubauão os amigos dos Por- 
tugueses, & a elles mesmos se os achauão desapercibi* 
dos. E ido ho gouernador por sua viagem, lhe deu hum 
temporal com que se acolheo a Anjadiua: donde man^ 
dou d5 Aleixo ae meneses a Ormuz por capitão mór de 
sele nãos carregadas de mercadoria pêra a fey toria ^ & 
mandoulhe i| soubesse se auia noua darmac^a de ruiaea 
no estreito pêra os ir buscar : & elle foyse a Goa, cujos 
moradores, principalmente os casados sabendo que leua« 
tia por regimento ^ a derribasse se achasse 4 ^^o era 
necessária, Ih^ derão por apÕtamStoa quanto rendia a al- 
fandega , & quãto rendião as tanadarias dos passos , & 
os dereytos dos caualos Dormuz, & assi as ilhas comar** 
cãs. E coísto muy viuas rezões, de quão importante era 
pêra se soster na índia ho estado dei rey áe Portugal , 
& oflTerecendose por cima de tudo a defSdela & sosten- 
tala á sua custa com lhe el rey somente dar arlelharía : 
& por amor disto não quiao gouernador poer em conse* 
lho se era bS derribarse Goa, & deixou ha estar, & tor* 
nouse a Cochim ^ onde auia dinuernar. 



LITRO iim CAPiTVLo nn. & 

C A P I T V L o IIII. 

De como Fernão perez dandrade partio de Malaca pêra 
a China y ^ de coma arribou com tempo* 

Há de G)chiiii espedio logo hfia carauela pêra Moçam-^ 
bique cõ recado aos capilães das nao» de Portugal que 
iii fossem ler ho âne seguinte, ^ se fossem ajuntar coe^ 
le em ludá ate õde esperaua de ir buscar os rumes, pê- 
ra que ho ajudassem se ouuesse de pelejar , porQ a gen- 
te que tinha era pouca. £ partida esta carauela, despa^ 
ehou ho gouernador a FernSo perez dandrade pêra ir a 
Bdgala & á China: & ouue antreles desgosto muylo 
grande^ por§ n2o leuSdo Fernão perez de Portugal em- 
baixador dirigido pêra- eirey da China senão quê elle 
quiseese: deu o gouernador este officro a hil Thome pi« 
rez que fora boticairo do príncipe dom Afonso , & deu* 
lhe bo gouernador este cargo por ser homem discreto 6c^ 
cunofio y & pêra conhecer moy tas drogas !^ lhe diziSo tj^ 
Muiã na China, & com Fernãa perez foy hfl António io« 
bo údcSo por capitão dii nauio. E nauegãdo por sua via-* 
gS foy (er a Pacè na ilha de çamatra, onde auiarde ear^ 
regar de pimenta pêra a China , por ser lét de muy to 
pre<20« E pêra fazer esta carrega estauftja emPacê loã-^ 
DOS impolim que fora cõ António Pacheco na consenia 
de lorge de brite : & hia fiizer esta carrega a Pacê pot 
valer lá a pimenta mais barata que emCochim. E ehe* 
gado Fernão perez a Pac8 , achou Q todo loãnes a oao 
carregada lhe ardera. E vendo Fernão perez ^ não ti<- 
Ilha carrega pêra ir á China, & ^ não podi» carregar ou* 
tra Tez por se lhe gastor a moução determinou de Ir a 
Bengala , & primeyro mãdou por loãnes a el rey de Fa* 
eè hfia carta dei rey dõ Manuel em reposta doutra sua 
damizidade , rogado lhe ^ quisesse consentir sua feyto- 
ria ê PacS ^ ^The era necessária pêra ho trato da Chi^ 
na: & tambS lhe mâdou ha presente. E sabêdo el rey 



6 mi HI8TOUA IM INUA 

como lhe leuaua loânes a carta & ho preaSte, mãdon ho 
receber poios principaes de aua corte (odos em cima da- 
lifantea cõ grande magestade, & per sua pessoa ho re- 
cebea mujrto M ^ & ae moatfcm mvyto ccntente e5 a a« 
mizade dei rey de Pwtvgai y. êc de qtierer ter feytoria S 
sua cidade, pêra o ^ deu conseatimfilo per hfia escrí*- 
ptura asaittada por ete Sc por al^Ss aoihores prineipaes 
do reyno* kto íeylo, determioádo Fes não penez de ir a- 
Bègakt fày priíoeyra a Malaca pcra. hi tomar a nao es^ 
pêra, ^ era da ordenança da: aaa eapitania: &; eh^ardi» 
lá nio aehou a nao ^ ^^ darmada: £ lorge de brito ca^ 
pilãa de Malaca quãdo sowbe {| ele bia pêra a China &# 
queria ior a Benf a£a , Ifae r^^reo mny €aitreitaiDeie 4 ^^ 
todo caso foste áCliiaa por se presa os^ir Q estaua lá pr&« 
so Rafael pereatrelo cò oa outroa Q fosão no jungo , eo^ 
aso diasa no Ikira terceyro: & posto ^ lha falecesse a nao 
espera, lhe éaria a nao aSets Barbara. E c6 (fuanto Fer* 
são pttez aa 4)nisera eaeuear de ir por aar gastada par^ 
te da saouçSa não poda ^ & pastiose leuaodo a camef » 
de Malaca,, & lorlo 8 saa cãsevaa ManucA fotcão Si An^ 
toaio lobo faleão ^ lioua nauira ^ & b& Duarte céelha 9 
hfi jungot & partio de Malaca a xv. Dagosto de mil &r 
qttiahantea & deaasejoa^. &r meado Setembro ehegoii }ua-» 
to da enseada da Gauícôchina : & foy de noy te com oa 
outroa capitãea das c5 terra, onde milagrosarnSle oa sal-* 
aoii nosso aenhoc 4 ^^ ouuerão de perder ê hSs baixos.- 
£ por. lhe ser ja ho veato por daoante pairarão aqai do* 
ze dias.. j£ ¥6dò que era por demaia piar ser a moaçãa 
gaatada^ ambarão a Malaca^ & Duarte coelho pedío li* 
cen<^ a Fernão perez pêra ir inuaritar a Sião, que co« 
nhecia ho reji de qaaado lá fora o& António 4e mtrasda 
& saiaa: qs» aaia. da fazer preneito. E tornado Fernão 
penez a IMalaca aabou Rafael penestreh> qae era chega* 
do da China eft tanumho ganho no enopre^ ^ leuou ^ 
fsiz de bit Tinta & eartifieou qua os Chis querião pua ft 
amiaada comi ea Poctagaeaea, & ^ eia jnuylo bea genter 



unto mi. CArrrrz.o v. T 

CAPITVLO V. 

Hm ^ moêteceo ^ jinrriqm Ume em P^yiL 

JL/espoM da partida de FeniSo peres pêra Malaea qft 
qaieem ir a Bengala^ Teado loftnes 4 i>âo tornaaa foyee 
m Makaea na aao que bi fieaua carregaada^ oil ten^ de 
íazet lá a nesma fejloría ^ae oynera de jfSáaer ea» PacS. 
£ bo eapitSo de Málaea j ebegado elle lá ^ dea por rogo 
de U»g9 dattwqaerqfie que «ioda ettaua em BlaliaGa a 
«afntaaia da sao a hfi Aarríciíe leme pêra qae fosse a 
Aflartabio porto de Pegd eom iMeoda dei tej^ St deiilhe 
aeneota Pertugueeee pêra iwn eoele ^ A; Ido tomou ae 
camioiío iiH joago de mones atroadores de Fegiá y & 
Jeuoobo aoasige pêra ím> aiandar a Maiaea eairegado 
«daiTM y & aia podeado lomat Mavlabfio arribou 4 boca 
do rio eode está Fegú y noaeata lagoas per efe aehaa á 
èorda dagm : fc a «foaoito está btta cidade ebaoM^da Co»- 
lai ^ae ba bo porto de Pega i oade por a6seiitÍRi6to do 
^ouecnader da tetra foy leaada a laiftda que bia na aao 
aoan hfi ieíto», & aljgds dos bossos pêra estarS eoele ate 
aa acabar de if«sdar & Auriqae leme ficou aa aao a bo- 
ca do rio ^ fc eom bo junga em sua eôpaithia , & comet- 
faadose a aao de carregar aeuberS^ ea sesbores do jQ^ 
go que os nossos (omarfio que estaua na barra carregAi- 
dose darrosr , & escSdaliaad^ disto ee íbrSo queixar a él 
«ey de pegú eS grandes brados diceado que os nossos 
aem oeobâ temor trasiSk» bo seu jango que Ibe tomarfio 
aem aenbfla rezfto pois tínbão paz coeles , pediodolhe <| 
ihes fizesse justi<^ , & os matasse a todos pois erSo la« 
drdes que se bo oâo farão, aâo tomarão b^joogo, nê 
Uio trouuerSo diante dos olhos, & oauido isto por ei rey-, 
porque queria ter coutStes os mercadores de que lhe vi» 
nba muyto proueito atiandou togo recado ao regedor de 
Cosmi que mandasse tomar todos os nossos que estauãe 
na feytoria , & quãdo não que os matassem^ E ho vege^ 



9 BA HI^TOAIA DA ÍNDIA 

dor 08 quisera auer por ma&a, mas não pode porque ho 
fey tor se goardaua , que foy logo auisado per mercado- 
res gentios do que el rey mãdaua. E ?endo os mouros 
seohored do jungo que estauâo em Cosmim , que se não 
podia ho feytx)r nê os nossos auer {K)r manha, ajuntaras- 
se com outros muytos, & assi algQs geolios, & derão na 
feytoria com grande Ímpeto, em que aueria quatro dos 
nossos com bo feylor & oyto laos escrauos dei rey da 
Portugal que logo acodirão á porta da feytoria com es- 
pingardas , bestas & lanças defendendose tão valente- 
mente, que não somente tolherão aos immigos que en« 
Irassem mas ainda matarão alg&s: o que visto poios mou* 
ros poserão fogo á feytoria que logo começou darder por 
serem as casas cubertas de palha. £ vendo ho feytor ho 
fogo, & que não tinha remédio sayose por detrás das 
casas em que batia ho rio, onde sa meterão ate a cinta, 
que logo os immigos acodirão sobreles com grandes gri* 
tas & frechadas sem conto, & pedradas* £ era cousa 
despanto^ & milagre euidSte coroo se defendião todos 
doze sem os immigos lhes poderfi empecer em espaço de 
quatro oras que durou .esta briga. E no cabo chegou ho 
batel da nossa nao onde se recolherão & se forâo á nao 
que estaua no rio* £ logo ao outro dia aparecerão por 
ele a bai^o obra de quatrocentos paraós cheos de gente 
armada & com muytas jangadas de rama seca, pêra que 
se não podessem tomar a nao a queymassem coelas. E 
vedo os Anrrique leme, & conhecendo ao que vinhão 
deixou ho jugo despejando a gente dele na nao, & em 
hâa charopana com que secarregaua, em que mandoa 
logo apõtar toda sua artelharia : & em os paraós chegan- 
do perto a mãdou desparar neles. E os immigos como 
erão {Quytos não deixarão de a cõbater, tirando multi- 
dão de frechadas , cercando a nao de todalas partes. E 
passando hii pedaço que a artelharia começou de jugar 
atroouse toda a <nao cõ a fúria dos tiros , & por ser po- 
dre & passada do bicho começa de cuspir ho breu por 
onde era furada, & íicauão os buraquinhos descubertos: 



MVRO IIII. CAPITVLO ▼• ^ 

& 5^ndo iDUytos , enlroulhe tanta soma dagoa que nem 
com bombas, nem cõ baldes se nSo podia esgotar, o que 
dea assaz de trabalho aos nossos , por{} se trabalhauâo 
em esgotar a nao, faleciSo pêra se defender dos immi* 
go8 que os combatião continuamente sem descatíçar, que 
ho podião fazer por serem tantos como disse : & se se 
qneriSo defender deles entrauaos a agoa de modo^que os 
metia no fundo: assi qne não sabiSo a qual acodissem, 
& três dtaB continos leuerSo este trabalho, que tãto du« 
rou a pelejasem nunca terem nenha repouso, porque co« 
iniSo pelejando: & toda a noyte vigiauão com medo que 
lhe náo queimassem os immigos a nao; E cd trabalho 
tão immenso aprouue a nosso seflor de os tirar do rio, 
leuando os bo batel á toa, & assi hõ calaluc de Malaca, 
& a champana. E vendo os immigos que os seguião que 
sajáo pela barra tornaranse, sendo hua hora ante do sol 
posto. £ os nossos ficarSo (8o cansados Sc ião roucos do 
Boyto bradar que não podião falar nem deitauâo roais 
^ue vSto : & tudo isto se fes sem nenhS ser morto nem 
luriào, &c dos immigos muytos, & muytos paraos arrd« 
badosy & outros metidos no fundo. E tudo isto erâo mi- 
lagres de nosso Deos todo poderoso. E vendo ho capitSo 
que a nao se não podia soster pola muyta agoa que fa- 
zia, repartio a gente dela & aríelharia, & mantimentos 
Ba champana , calaluz & batel que leuou a e&íe fim : & 
ainda a gente não era toda acolhida quSdo a nao se foy 
ao fundo & ficou a gauea por cobrir , & dali seguio sua 
xota pêra çamatra, & no caminho se perderão ho batel 
Sl ho calaluz com bQ temporal, & morrerão neles vintoy- 
to dos nossos & vinte laos. E ho capitão com os outros 
& aigils mercadores de Cosmi que se forão coele pêra 
yiuerem em Malaca foy ter ao porto de Pedir em çama- 
Ira , & hi os recoiheo ho rey & os teue cõ muyto gasa- 
Ihado três meses , ate Fernão perez tornar a PacS, onde 
tornou despois darribar da viagS da China , como direy 
a diante. 

. ... 

LlVao IIII. B 



10 PA H»STORIi 0A IMOIA 

C A P I T O L O VI. 



y 



De como dom Aleixo de meneses cheúou a Ommz ^ 

prendeo Simão dandrade^ 

Xarlido dom Aleixo de meneses pêra Orinux oom a» 
nãos de sua epnserttã chegou eoelas a saluamêlo, 9c 
maudou entregar a fasenda delas na feytoria. O que fa^ 
uoreceo mujto os nossos que Já estauão por estarem 
nnuyto tristes pola noua da morte Dafooso dalbuquerque 
que ja sabião, & teroião que os n»ouros se aleuantassem». 
E estando dom Aleixo em Ormuz daua mesa aos que 
querião ir comer coele , que erão muy tos.: & bfi dia 0ê^ 
tado comSdo êtrou bd fidalgo chamado Alattim àfons» 
de melo ainda moço j & deu hfla grande cutilada poh» 
rosto a outro chamado Francisco degá que comia á me^ 
sa de dom Aleixo. £ segundo se despois soube, íoj & 
causa de lha dar terlhe d^do Francisco de Gá hfiA bofis** 
tada quando hi^ pêra Ormuz , onde Marlim afonso aa 
aqueixou disso a Simão dandrade que ja lá estana, & m 
outros seus parentes Q lhe aconselharão que se vingasse 
onde podesse , & ele não achou outr-o melhor lugac qu0 
aquele : & assí como lhe deu a cutilada se acolbeo , & 
dom Aleixo com quantos estauão á mesa foy após ele ate 
a pousada de Simão dandrade onde se meteo, & dali foy 
Jogo passado por detrás aos paços dei rey^ donde foy pos« 
to em saluo, & por isso ho não pode dõ Aleixo prèder. 
£ sabSdo como quâdo fora a dar a ouliiada sayra da 
pousada de Simão dâdrade, aqueixouse muyto coele po-* 
lo consentir. £ ele disse que Martim afooso fizera muy- 
to bS de se vingar, & ele em lhe dar ajuda pêra isso, 
& assi outras palauras: pelo que dom Aleixo ho pren- 
deo sem lhe querer goardar hft aluara do gouernador em 
que ho isentaua de dõ Aleixo : & por mais requerimen- 
tos que lhe fez Simão dandrade lho não quis goardar, & 
tomoulhe a capitania da nao & deu ha a Frãcisco 



.'4*^' 



Lwwo mt« ckTvrwho rir. i \ 

rtjn de beifedo. £ em qaanto esteu^ em Ormuz ho te* 
lie preso na sua nao : & assi ho ieuou ate a índia , Õde 
Jio goueraador ouue por b3 feito o l\ tizera dd Aleixo. 

C A P I T V L O Vlf. 

Da segunda armada que fez ho Soldâo pêra niâdar á Inr 
àia cótru os nossos : ^ a causa porque lá nâofoy. 

jLN o limo segando foy dito ho 4le8barato da armada do 
Soldie j de que Mirocem foy por capiíáo mór á índia , 
&0 como ele se foy despois da ludia. E coroo bo Soldão 
iínha grande deaejo de lançar os nossos fora da índia ^ 
& assi ho tinha determinado, não disjstio de sua deter- 
nioaçio, & come^jou logo de mãdar armar outra frota 
aayor que a primeyra, que foy armada em quatro an« 
ftoa: 8c posta no roar & aparelhada pêra nauegar se af* 
firma que custou oytocenlos mil cruzados. E erflo estns 
^elas seys g^lés Kaes cada bfla do vinle sete l^cos de 
tces temoa em banco ^ & noue sotis.cada h&a de vint« 
ânco de três remos em banco , & doze fostas , hdas do 
▼ínte sete bancos outras de vinte cada hua de dous re* 
«MS cfl» banco : & fez pêra esta frota seys mii homCs de 
peleja em ^ entrauâo setecentos Mamelocos & trezen* 
tos Turcos, & mil mouros mogaueres de Tunez & dé 
Grada que falauáo espanhol, de que os quinhentos eráo 
espiagardeiros, & os cento bombardeiros, de que os vin^ 
ta erão mestres dartelharia & darteíicios de fogo, & os 
outros se chamauSo seniidores, & dous mil frecheiros & 
oatros tantos de lanças & espadas. E destes os qoinhen^ 
tos armados de sayas de m^úha , & dez darmas brancas 
& einco de coyraças: & nntre toda esta gente auia cin^ 
cpeata Christftos. A arlelharia desta frota forão cõio & 
des tiros grossos de metal , basaKscos , cães , pedreiros 
& outros* E trezentos 8& vintíe citico ben^ dé, metal, & 
mnytft poluora, & grande quantidade de pelouros de to» 
da sorte* Arasadá esta frota deu ho Sotdio a eapitani» 

£ 2 



DA HISTORIA DA IVDIA 

bfl Turco chamado çalmâo rex que fugira áoTar- 
ete galés de que andaua por capitão, & lhas (o- 
ier Si assentara coele viuèJa. I£ ja aolea disto 
ipo Q Afunso dalbuquerque gouernaua a índia, 
I çalnião rex que hu SoJdão queria mandar esta 
índia foy lá primeiro por seu mandado pêra ver 

armada, & hh nosso calafate ho conheceo que 
ifn Chaul, & ho disse a Afonso dalbuquerque. E 
ele (Ia lodía, disse ao SoldSo que facilmSle es- 
tie desbaratar a aossa frota, porque era de na- 
to bordo, que aHo podião nauegar sem vento, 

era de galés , que posto que não ouuesse ven- 
âo a remos : & como tomasse os nossos em cal- 
I auja de meter no fundo. E esta foy a causa 
he ho Soldiio deu a capitania mór da armada 

, 8c mandoulhe que fosse pola cidade de ludá 
asse com Miroccm que hl estaua & faria o que 
asse per hn regimento que llie tinha mandado. 

de çuez no começo Doutubro de mil & qui- 

quinze, & no camiobo se lhe perdeo hfla das 

cento & cincoeola homSs : Sc chegou a ludá 
de Nouembro,- & a dezanoue parlio dali com 
que tinha duas nsos que leuara de Diu que 
18 nossas , & hQ galeão &■ dali forão ter a Ca- 
e lhe Mirocem mostrou como ho SoklSo man- 
Szessem ali ambos bQa fortaleza, em que Mí- 
ria com quinhentos Mamelucos. E passados 
j que a fazíâo, escreueo Mirocem hQa carta 
o rey DadS por estar escandalizado dele de 
que lhe fizera quando passara desbaratado 
' por amor desta carta mandou el reyDadem 
Ddessem mantimentos aos de Mirocem, que 
lusa concertou com «jalniSo res 3 fizessem 

rey Dadem , & Mirocem lha foy fazer com 
mens, & prometeo cem cruzados a cada ha 
D hua cidade chamada Zebit sobre que for 
o Jegoas pelo sertSo. E com a esperâça da 



Lm» int. cáprtviA tnt. i » 

pTomrasa a tomarSò^ & na peleja matarSo hfl filho dei 
rej Dadetn. £ tomada a cidade apertarão os soldados 
fORi Mirocem <) Ihea comprisBe aua promessa dbs cem 
cruzados. Do que se ele escusaua, dizendo que lhos não 
podia dar pois roubarão quanto auia na cidade. O ^ Hie 
eles B& quiserâo leuar em conta & quiserSno matar se 
ele nâo pedira espa^ pêra mandar pedir dinheiro a çal- 
idSo rex , que sabendo e qtie passana , porQ não tinha 
dfnheÍFo mandou dizer aos soldados que ete íicaua por 
liador do dinheiro que esperassem , & a Mirocem que 
fugisse: pêra o que ele buscou maneyra & fugio & foy- 
se pêra çalmão res , que despois (| ho teue mandou re- 
cado aos .soldados Q se fossem embarcar, & § lhes pa«- 
garia : & que não esperassem por Mirocfi que era mor- 
to» E eles não quiserâo sem lhes pagar primerit». E de- 
terminando çalmãe rex com Mirocem de ir sobre Adem^ 
peste que tinha pouca gente mandou rogar aòs solda^ 
dos , que pois ho não querião ajndar que deitassem fa- 
ma que ficauão em Zebit pêra irS por terra a Adem 
Õde e\e hia, & eles ho fizerão assi^ & Salmão 8c Miro- 
cem íòríU) sobre Ad&, a que derão combate, & tomarão 
bé ba/aarte j Sc derribarão bd lã^o de muro : mas não a 
poderão tomar, & por não> terem gente não-quiserão pae- 
ear á índia & tornarãse a. Camarão; £ isto tudo soube 
dem Aleixo em Ormuz , j) yindo ho tempo de aua pai^ 
tida se partio pêra a índia. 

G A P I T V L O VIIL 

ff 

• ' • . . 

Do que passou Fernão caldeira com dom Goterre^ ^ de 

comofoy morto na Urra firme. 



Q 



uãdo bo gouernador hia de Portugal pêra a fndia, 
que chegou a Moçambiqife :^ hia na nao de dom Gcrfer- 
re hu Fernão caldeira que fora page Dafonso dalbuquer- 
<\ue , Q por mexericos fora preso a Portugal , onde dea^ 
pois de se liurar lhe fez el rey mercê , & lhe deu Jicêça 



14 '^ nk Uf9T€mU VA' INTOA 

pêra 6e tornar i índia , & foy oa nao 4e dom Goterr^ 
que hia por capitão de Goa, onde ele tinha sua molber 
& casa, & por auer hQa deferença em IVIoçambique cõ 
^õGoterre n&o quia ir maia^^oele, & tomou secretamen- 
te ha Qauio^ j& foyae com oulroa caminho da índia, on- 
de cuydou dachar Afonao dalbuquerque que )he valeria* 
E como soube que eataua em Ormus , & por amor da 
fortaleza que /azia não âuia de tornar ae nâo tarde , ile« 
aegperou de se poder aaluar de dom Goterre que auía 
de aer capitão de Goa oniie ania de morar ^ & por iate 
determinou de ae acolher á terra firme pêra Ancoacão 
capitão de Pondá, & leuotf muy ta fazenda com que tra«- 
tasse: & deapeia de aer lá tomou Ancoacão coele. lama^ 
nha amizade que aSo ae apartaua nunca dele & dauaihe 
todos oa proueitoa que podia ^ de modo que ae k% muj^ 
to rico* E deterninaiido dom Goterre de bo matar polo 
de Moçambique^ dcapota que foy em Goa trabalhou por 
M80) mãdando algCla que ho mataasem^ principalmente 
ibum' loão gomec «aerínão daieytoria de Goa, hon>ê em- 
iorqad9 qoe fes que hia àgrauado de dÕ Goterre , & 2| 
fagia per^ oa mouros : & por aer Cfarialão bo agaaalbD« 
Fernão ealdeyra, k daualbe doa seus caualoa em que aa- 
daase : & faaia eom Âncosojào que lhe fizesse honrra^ ^ 
Dão diaialindo c(S tudo isto loão gomes de ho matar as^ 
perou tempo pêra isao^ ale atie hd dia aayo Ancosoão a 
folgar pola terra a caualo , oc aendo bfta legoa do paasD 
de Beneatarim^ adiantouse loSo gomez com Fernão cal- 
deyra & matçu h^ á trei^ão eom hda Ian<ja a viata Dan- 
coação, que auêdo disso muyto grande menencoria man* 
dptf apoa k^ío gomet quê aé .aodfaia a Benaatarim ^ fc 
foy tomado í^ tratido diãte Dancoacfo^ que por aua mão 
lhe cortou a cabeça. O que aabido por dom Goterre^ fi- 
coa âiuyte mat eom Adcoseão com que dantes êataua 
liS^ & delerdúnQa do H vingar dele. 



CniRO IRC CAPITVLO 4X« 15 

G A P I T V L O IX. 

De como farão mortos quoÊTô dos nossos no sort&> do 

éockim. 

Xfiaernando iio gouernador em CocbT, M 6da4g6 cba^ 
nado Gaspu da< stlaa foy folgar á^ Urra firme & leuott 
•m toa companhia seu íriafto C]irigtouSe4e soum , lor^ 
ge de brito ^ Lopo de bnio^ Airda datílúé, Pefo fer- 
reira & Aulenio forreyra» E aodftdo á caça de patiSes 
como a genle da terra lhes queria mal sakou eoeles hd: 
eaimal t^m acompanliadò dè Naires^ dizendo l\ mata" 
nào 06 pauSea que erfto dos seus pagodea« K posto qae 
as Portugueses ae deaculpauão ^ ho ttão sábiáo^ oSo lhes 
▼aleo y & iio Caynal os quisera matar todos , & izerSo 
aa reooUier aos totmi cft muyta al^hotit-a^ ficando mortos 
q«atro cfiadoa destes fidalgos^ qtve ferSo presos-em ehe* 
gaado a Goebim per mandado éo gcuemador, porque 
fi>f&o aem aua Hcenqa^ E neafe inuerne 6kleoeo Diogo^ 
meadez de TascSeeiòs eapltto deCoeMm antes de ter 
aa a btt < lo ho tempo Aa a«a eepitaiiiav E por ho governa- 
dor ter por elrey de Portuga) estas Tagaute^^ déu esta 
ao íojUx Lourenço moreno de que era grande amigo; 
do 1| ae A três da silua aqueiaoo ao goaernador por eíi- 
trar na vagante de Diogo mendee, & por lhe nSo desfa- 
sar seu queixuiàe com lhe dar a capitania ficarfio de 
quebra^ E passado ho inuerno cbegeu dem Aleíso de 
neneses a Coehim , & contou ao goueraaâor o que sou-' 
bera da armada^ do Soldflo.. 



»A HISTORIA »A INOIA 



C A P I T V L O X, 

gouemador fortio pêra ho < 
a armçtda do somo. 



Coo. » «otta que dom Aleixo deu »« «?»«"»*^^* 
^i'1» do Sold4, determinou |le/« ^^^i^^^?*" ^^^ 
treito como tioba em seu ^^g^^tnSlo- E como ja coiwe^_ 

Goa ôde M auia dajatar a frola 4 »«»» d« ^^T^trlt 
S^íiríio a^ elas lir derradeiro, & de caminho f^^- 
ÍU^O asforlalezaíac prouSdo •« do «ej^a»;-^ PJJ 
qX ele determinaua ' de fazer bua i<ff^^^ ^"^^J 
?era ter , segura » feitoria g j^i '^^"J^ ^fs^^-es^C 
bTsLTaTauTl^^rX í^imbTchímrEÍtor rc. 
Síu^e- qíe SSa inuyta confi.«5a, x,ue estaua pco- 
S do da feytJria de Capanor , .& por ^ber que *íe n^ 
íl^r que oiro saberia assenUr a t«rra d^^^^^^f^^X 
tar aVnte dela , ouue PO^ "^J^Í^rE íssTL Tsst, 

l I1/ba ISí íSr^-i-i^Tq- -a seu criado í 
L1?eí?o dtsua Ssa. E dandolhe ho gouernador ho re- 
íimento do que auia de fazer ho despachou de Cananor 
f "èvs de laiíeyro peraGocbÍ4n dõde se partio peraCou- 
lilo. E ele partido , se partio também ho gouernador : & 
chegado a. Goa achou muytos inantimenU», rouyla poi- 
uora & muytas munições que lhe dom Goterre tinha 
prestes. E fazendo aqui alardo da gente & dog nauios da 
frota achou menos leronimo de sousa hfl fidalgo capUáo 
da nauio. E assentando que era fugido, Sc que nao po- 
dia ser era outra parte se não nas ilhas de Maldma, ue- 
terininou de ho mandar lá buscar , porque por as unas 
estarem de paz poderia hi fazer muylo dano com as la- 
zer leuantar : & mandou ho buscar por dom Fernando 



LIVRO IIII. CAPrrvLO X. 17 

vaõnoi^ a {j[ mandlou que por ir por capitão dfi nauio dai- 
lo bordo fosse pohi banda do mar das ilhas, & assi por 
João goDçaluez de castelo bf ãco capitão de hfla galé , a 
que por esse respeito mãdoti que fosse por antre as ilbas 
&& a terra firme, & a ambos deu regimento que se achas- 
sem leronimo de sousa, & não quisesse tornar coeles 
que ho metessem no fundo. £ despois disto ho gouerna- 
dor se embarcou pêra se partir , & estando embarcado 
soube dom Goterre per gStios da terra firme que esta- 
não prestes quatro capitães do Hidaicão pêra entrar na 
iftia como ho gouernador partisse , pelo que dõ Goterre 
apertou com bo gottémador que íhe deixasse* roais de 
quatrocentos homês que lhe deixaua, & mais artelharia 
que a que lhe ficaua. E ho gouernador lhe respondeo 
que abaslauão os homens & a artelharia que lhe íicaua : 
& quando os mouros ho apertassem tanto que deixasse 
06 passos da ilha & se recolhesse á cidade , & despois 
tornaria ele & os tomaria: o' que ele não poderá fazer 
aotes se os mouros tomarão qual quer deles ^ tomarão 
lambem a cidade. £ deixando ho gouernador Goa desta 
nanejra , se partio pêra ho estreito na entrada de Fe- 
uereyro de mil & quinhentos & desassete, tò hfia arma-- 
da de trinta & seys velas. s. quinze nãos com a sua em 
^ hia por capitão dom Aleixo de meneses , dom loão da 
Aiueiray dom Aluaro da silueira, dom'Dipgo da silueira, 
Aluaro barrete, Antão nogueira, António raposo, lorge 
de brito, Aires da silua, dom Garcia coutinho, Afonso 
lopez da costa, Francisco de tauorat, Gaspar da silua, 
Duarte de melo, 6on<jak> da silueira. R dez naoiosiSc 
carauelas, de que forão capitães. Pêro ferreyra, Anto*^ 
nio ferreyra fogaça, loão gomez cheira dinheiro, Tristão 
de gá^ Lopo de vilhalobos , Garcia da costa, Perolopes 
de sam Payo, Franoisco de gá, Femã de reseode, ho 
pintor: & oyto galos, capitães Lopo de brito, Ghristo^ 
ttâo.de sousa, loão. de meb. Dom Aluaro de castro, Di-* 
nis fernãdes de, melo, Dom Afonso de meneses, Aato^ 
AIO dazeuedo, António de miranda dazeuedo, & híL.ca^ 
UYAo iin. o 



r8 PA HISTORIA VA inUik 

rauêlâo, & kQ baíganliio. E hil junga em que bi3o qui^ 
nhentos nàirea dei rey de Cochini^ & por e«pilâo Diogo 
pereyra de Coohiin. E nesta froia ieuoti tm mti Portu- 
gueses, & Duaríe gaiuâo que bia por embaixador ao 
Preste, & Mateus embaixador do mesmo Preste. E par^*» 
tido de Goa foj fazer ago^da a ^eotorá, & seguindo 
sua viajfi pêra Adem ouue vista deia hu dia pota- me^ 
nhaã seys legoas alamar, & aii surgio & teve conaelho 
com os capitSes & fidalgos dà frota, a que declarou que 
auia de pelejar com os rumes. sé estèuessem no mar & 
não na t^rra, porque assi ho ieuaua por regimêto del-« 
rey seu senhor : & deu a dianteira a dd Garcia cduíh 
nho. E se os rumes nã eitiutesem no porto que surgi»* 
ria diante da cidade pêra tomar pilotos que ho tsuasseo» 
ale as portas do estreitp, & ali mandou aos eapitSes dae 
oarauelais & das galés que fossem ao bngo da costa , Jb 
que as velas qu6 achassem DadS Iheis não fíxessem míd. 
É checado ao porto Dadem com toda a frota , nfio a^ 
obaúdo os rumes surgio dentro na baja , & saluou a éí^ 
dade com a árteiharia & com as trombetas , & os C|j^i« 
tãés fízerâo despoís outro tanto , o que durou bem duaa. 
horas , & da cidade nSo respoiídeo ninguém» E estado 
pêra fazer conselbo do Q Aría , chegarão 3 ^apitaina 
ires mouros hõrrados em hCla barquinha com hlla bftdei- 
ra de paz , & postos diante do gouertiador lh% derlo M 
ehoues da cidade da parle do regedor dela, dizendo ^ ^ 
cidade & ele erUk) dei rej de Portugal. E bo gouern^ ^ 
dor as nSo quis , dizêdo Q por entáo não se que|^ de* V 
terem assef^t ar amieade por quanto hia muyto de prés* 
sa em busca dos rumes, que cuydando dachar nSf^Ie por- 
to fora ali ter: & pois os não achaua auia dir toscaloe 
a Ctfmarâo & a ludá, pêra Q queria i^ bo gouer»ador 
Dàdem lhe desse pilotos, & da volta assêlaria code ptfe 
& amizade. Do que se logo muytos espantarão ntU> to^ 
mar ho gouernador a cidade que lhe dauâo em paz, nem 
tomaif conselho se farta afi fortaleza ou não. £ tornado 
es mouros com esta reposta ao regedor Dad^S^ ficou elo 





UVBO IIII. C4MTVI4O Xi. 19 

júvj desalioado do naedo que tiuera, & «andou de noy- 
to fazer muy tos fogos poios muros & torrw em sinal de 
/bsU^ & tanger muytos inslormèlos. E ao outro dia mã- 
dou ao gouernador tantos paraós carregados de refresco 
4|ue eobriâo ho mar, & assi quatro pilotos ^ bo Jeuassem 
Ate as porias* £ sem mais bo gouernador faaser conselho 
do que faria se partio pêra as portas do estreito: ao dq^. 
antngo seguinte que era ho de Lasaro y mandando dian" 
tm a Diogo perejrra no jungo pêra tomar Rubaâs, & hi 
tomou h&a nao de mouros , com qtie esperou pelo gOp. 
aemador, ho qual efaegou quasi noyte is portas, & lo- 
^o se partio Q foy bé mao coASelho poios baixos & ilhas 
que ania dali pêra dentro, & quando vay bfla frota ta» 
manha eomo aquela era, pêra ir segura ha <ie surgir das 
porias pêra dentro com sol Sc leuarse ooele , & assi lhe 
sobreaeo logo hii tèporal tio furioso, que esteue toda fi 
frota em risco de se perder. £ a galé de dom Ainaro 
de castro desaparooeo , & creose que a comeo bo már : 
4c«itffe os 6dalgos que se nela perderio foy lorge gal- 
fittio de Duarte galuâo. £ correiído a frota «sta toiu 
otã foy amanhecer sobre bOas ilhas em Q se ouuera 
de (iaspedaçar se não amaabecera* 






f 



CAPITVLOXI. 

i De como ho gouernador rou&s que foleitnáo rex em se- 

\'*. nhor de hioá : ^ tinha hi varadas as gaWs : ^ deier* 

nmwu 4e pdejar eoele^ 

JL/estas ilhas tornou a proseguír sna viagem , & era c6 
pon^tes , ora com leofites chegou a rlte legoas de lu- 
dá : & aqui apareceo hila gekia que iãto que vjo a nos- 
sa frota ie íoy deveyta a ela: dizendo es fi hiâo nela 
r\ erfio dezoyto^ 4 erfio Chiislãos tfoo vinblo fugidos 
Ittdá. E feuados ao gouernador, disserãihe 4 ^t& ca- 
lafates & carpinteiros : & que traaiBoeeto turcos, & q«e 
toabaitooilíe nas ^^lés \ ^oleim^e tex tinha viaradas esn 

c 2 



20 DA HÍSTORTA DA ÍNDIA 

ludá. E contarão ao gouernador toda a historia de Mi- 
rocem, & de çoleimão rex: & que partidos Dadein an- 
tes daboearem ás portas do estreito lhes dera hil tempo- 
ral com que a galé de çoleimão se perdera da frota & 
fora ter aZeita: & Miroce/n. a Camarão: donde sem es^ 
perar por çoleimão se fora a ludá, & mandara varar as 
galés : & as duas nãos & ho galeão fícarSo por não se^ 
rem agoas viaas. E hi soubera como ho Turco desbara- 
tara ho Soldão, & ho matara, & lhe tomara toda sua 
terra: pelo que q^iando Soleimâo rex chegou a luda, 
Bflirocem ho não quisera recolher na cvdade, com medo 
de lha tomar por treição. E sabendo xarife parcate se^ 
nbor de Meca (que he como papa antre os mouros) a 
imizade Q auía antrestes dous;, fez paz antreles: mas lo- 
go MirocS a quebrou: querendo - matar çoieí mão com 
peçonha. Quò sabpndoho. saltou, em casa de Mirocem 

J)era ho matar : & elefugío pêra Meca : & por isso co- 
ei mão ficou seflor de luda^ &.leuâtou logo bãdeira polo 
turco : & escreueo . a xarafe parcate que logo lhe man- 
dasse Mirocem , senão que não seria amigo do Turco-^ 
porque aquele homS ho tinha muyto deseraido» £ ele 
lho mandou preso , auisando aos que ho ieuauâ que ho 
matassem no caminho, como matara. E despois disto se 
dezia Q çoleimão.rez queria ir ao cairo dar obediêcia ao 
Turco. E Q estaua tã desapercebido de gSle Q não teria 
mais de.cccc. ate ccccc. turcos: & ludá estaua fraca 
cõ hu muro baxo, & hfía fortaleza peQna, {| tomaria fa- 
cilmtS: por não auer lá verdadeira noua de ir o gouer- 
nador ^ sabendo como as galees dos rumes estauão va- 
.radas em ludá pubrícoú pola frota que as auia dír quey- 
mar. E na paragS onde soube estas nonas lhe deu hH 
pon3te muyto brauo com que a nao Dantonio raposo por 
ser velha se fby ao fQdo , & apartaranse da frota a nao 
de dÕ loão da aUueira & ho jungo de Diogo pereyra, que 
despois forão ter a Gamarão. E este ponête durou. obra 
de quinze dias, & durando lalo fez crer a lodos que era 
de todo a mourão doi poaentes : & por isso & por auer 



LITRO IIII. CAPIITLO XI» 21 

àiãs ^ na frota auia muyta falia dagoa cd que adoecia 
jDujla gente dizião todoa que arribassem a Camarão a 
tomar agoa. Do ^ ho gouernador se indinou grâdemen- 
te , & dizia Q os judeus & couardos dirião aquilo & não 
os caualeyros : jurado que não auia darribar a Camarão, 
mas ^ os auia de meter onde lhes não fossem boõs os 
pés n6 as mãos , & ali auia desperar ate passar ho po- 
nente, & quando durasse tanto que arribaria a Cama- 
rão, & tornando os leuantes auia de tornar a ludá & to- 
mala, por^ não partira da índia se não pêra isso. £ võ- 
ào a gente que adoecia 9 & ^ começauão aigfis de mor- 
rer: aqueixauãse pubricamenle do gouernador & tinha- 
Jhe ódio, & brasfemauâo deile : mas a elle não lhe daua 
disso nS queria tomar ho conselho de ninguém, & daua 
a eotender que de seu poder absoluto queria fazer tudo. 
£ com quanto a gête via que isto era mal, era tão obe- 
diente que morrião por não desobedecer r & muytos fi- 
.daigos teuerão desgosto cõ ho gouernador sobresta cõtu- 
. macia, & hu deles foy Duarte galuão, que sempre dis- 
se que ele não auia de pelejar cõ os rumes, n& queimar 
ãS galés* E andando coesle temporal , forão os mouros 
da terra dar auisò a qoleimão rex que estaua em ludá 
de caminho pêra Constantinopla a chamado do Turco. 
,£ como se soube na cidade a ida do gouernador, foy ho 
medo tamanho nos mouros ^ a começaoão de despe- 
jar. £ como çoleimão isto soube desembarcouse de hOa 
gaJee em ^ estaua embarcado, & foyse a terra, & dete- 
ue a gente cô boas. palauras: & ajiitando a mais que 
pode dos alarues da comarca fortaleceo a cidade, asses- 
tando muyta parte de sua artelharia ao longo da praya: 
de modo que se os Portugueses passassem lhes ficassem 
de rosto & os metesse no; fundo» 



• I • • 



k 






22 2>A HISTCmiA OA IlfDfA 

C A P I T V L O XIL 

De úomo ho fouimador chegou á cidade de ludá , ^ a 

cauía porque a náo tomou. 

Jr assados estòs quinze dias de ponSte^ aoodio hua ba- 
fuffe de leuante com Q a frota cbeg^ou a ludá, ^ he hiia 
cidade na costa Darabia cêlo & oyiSla legoas das por- 
tas do estreito & clxv. de çuez 4 ^^ '^^ ^^^ ^^'^ ^^ 
viote hfl grãos & roeyo largos da banda do norte. A 
duas legoas do porto lê muylos baixos , 8 ^ ba niuytos 
penedos , & daqui ten dous canays per t^ eatrão pêra 
ho porto & vão è Toltas, hú de Jeste oeste, outro de nor- 
deste sudueste , & qu8 vay por eles leua bo prumo na 
mfto & sam tâ estreitos que escassamente oabe bfia nao 

Ênt cada bil: & por isto esta barra be muyto perigosa, 
o sitio deata cidade be em terra tâo seca, que nâo ba 
nenbtk aruoredo nem verdura deruaa, & muyto pouoa 
agoa doòe , por^ cboue poucaa vezes : seria a este tem- 
po de mil vezínhos* As suas casas de pedra & cal sohra<> 
dadas, & de muytas geaeias & cbeminés. He n\uyto 
abastada de mantimentos que lhe v£o de fora, & de 
muytas mereaderiaa porque ali se ajuntauio todas as <| 
hiâo da índia pêra o cayro & Alexandria: & as destas 
duas cidades pêra á índia. A sete legoas desta cidade 
pêra bo sertão está a maldita casa de Meca, a que os 
mouros fazem suas romarias (oomo os Cristãos íazem ao 
eancto sepulcro de Hierusaiõ) por estar nela bo 4^ancar<- 
rfio, Q ehamão do abominauel Mafamede. Gbegado bo 
goueraador a estes baixos quedi^o foy surgir com toda 
a frota bua legoa da cidade, aa vista dela na praya : doa- 
do tambg a frota foy vista : & come<;arãlbe a tirar cò 
a artelbaria ^ estaua na praya. E os pelouros erão tam 
furiosos que fazião cbapeíetas no mar , & todos de ferro 
coado: & muitos cayrâ na frota. E na capitaioa se pe- 
sou bil que pesaua setenta arratfis* £ daqui mandou bo 



X.IVB* in. GA-piTiTLo nr. 23 

gouernftdor wndâr o8 canaeÍB por ^ AfSio de meneses, 
& por Diois feniSdes de ineb : que j^espots de soadadot 
Ibe forSo dizer a maneira doa eanaeis ^^& Q bS poder ião 
as galés entrar por eles, porS que sempre 'auião de ficar 
com 08 costados de rosto com a artelheria dos fmigoe, 
pelo Q nAo auifl de poder jugar coin a soa Q leuaaflo nas 
proas , & por isso oio poderiSo faser aetihfi dano coeia^ 
ites receberift tito da de terra, (} ou os meteria no fun^» 
do, ou os mataria a todos antes que cbeg assem a ter»« 
O S ouuido polo gouernador praticou o Q faria nisto c5 
à5 Ôontjalo coutinho: & c6 Afonso íopez da costa, que 
erão os deus mais ãtigos capitães da ã^ota : & assentou 
ooeies que se podesse mãdar encrauar a ar telharia que 
os fmigOB tinhão na pra^a que desse i^a cidade : porQ cíl 
a artelharía encrauada bo faria sem perigo. E quando 
dSo mi podeme enerauar que nio desse na cidade , por«> 
que estaua certo mataHbe a «rtelharia quantos ieuase , 
quando lhe não metesse as galés no fundo : & por^ a ar* 
iel4mria ee podesse mitfaor encrauar , que mSdasse queí^ 
mar aa duas nsos , & fao gateSo que ^etaufto surtos no 
porto : por^ c8 a reuolta do fogo perderíSo os f migos ho 
têtò da arteíbana. fi kto as(BJ6iado falou bo gouernador 
aecreiatnente c6 dsiis dirístSos ^ fQgit&o de ludá na gel- 
aa, eneotnendidcdfaes ^ quando fossem queimar as nãos 
ike fossem encrauar a arteHiaria dos fmigos. O qtie eles 
togo duuidarSo de faver auefido por inconueniente amuy« 
to grsttde vigia Q os rumeá tinhfio, & cõ ludo hogouer'- 
nador os mandou em bfla almadia, de v«I(a eS certca 
capitães Q forfto em batais eò atgtla gente a <|imar as 
nãos & iio galeSo. E oomia t«dois os da frbta estuuflo al<- 
ciorotçados & desejosos de dar na cidade , nSo sabendo a 
tençjk) tno/m que bo gouernador ma«daua qaeinwarasiiaos 
euydarâo que se ^ria con^&tar coieso : <& logo disserfta 
qoe náo auia de dar na cidade (A: assi se soube que he 
dtsae SoleimSo rex) & foy sobre tsso grsndc niormura* 
<^ per toda a frota. £ posto ^ as vines fora queimadas 
Di doua christSos vak> põdetSo eucmuar a artelbartu por 



24 DA HISTOnrA DA ÍNDIA 

a grande vigia que os mouros tinhão. £ com quanlo is* 
to foy inuyto secreto soubese logo^ porQ eles ho disseráo 
a Gaspar da siiua , em cuja galé se agasalhâuâo : & ele 
ho disse a outros de Q se rompeo. E sabSdo o gouerna- 
dor como se a artelharia nSo poderá encrauar íicou muy* 
to triste & agastado^ por perder tamanho gosto como 
trazia pêra dar na cidade: & tamanha bonrra como fora 
queimar a frota do soldâo, & destruir a^la cidade, on- 
de ele fora ho primeiro capitão Português que chegara : 
éc tão imenso trabalho como leuou co todos os da frota 
em chegar ali. E com muyto grade magoa de tantas 
perdas, que não podia encobrir no rosto, assentou de 
não dar na cidade , com receo de perder 4)uanto8 leua» 
tia. E pêra ho dizer aos capitães, £dalgos, & pessoas prl- 
cipaes da frota, ao outro dia ás noue horas chamou a 
cõselho: & jatos lhes disse, tt Bê sabeis todos como por 
mandado dei rey meu senhor viemos buscar a frota do 
soldão pêra pelejar coela, esperando S nosso senhor de 
a desbaratar, & desapresçar a índia dos rebates Q tinha 
cadãno cõ a esperancja de sua ida : & não a achado em 
Adê, nS em Gamarão, nos foy forçado chegar a esta ci- 
dade cÕ tãtos trabalhos, fadiga & perigos como passas- 
tes. E cuydãdo de a achar no mar a achamos varada, 
& os rumes em terra tão fortalecidos como vedes : & eu 
sey que estão per dom Afonso de meneses & Dinis fer- 
nades de melo , por quê mandey sondar os canaeis per 
4 auiamos dentrar no porto : que me disserão que sam 
em voltas: & tam estreitos, que as nossas galés em ^ 
fazia conta dentrarmos não podS entrar se não hijasdian* 
te das outras: & sempre com os bordos no rosto da ar<- 
telharia dos Imigos, Q primeiro que tomemos terra nos 
pode matar a todos & metemos no íudo : & nos a eles 
não podemos fazer nenhil dano, por não íicarS nunca a 
tiro da nossa arteliiaria que vay toda de proa. E ainda 
que eu tenho regimSto dei rey meu senhor que não 420* 
lejasse em terra se não no mar: cõfiãdo^m nosso senhor 
que nos ajudaria quisera pelejar coe^tc^ rumes 6 terra, 



LiVRO Iltf. CAPITVLO XtU 2» 

MB Dio (ora ho perigo grandíssimo da entrada em Q nos 
jXMÍeiíios perder. £ respeitando a de , & nSo ao desgoa- 
to que nos ha de ficar de nSo pelejarmos , não diga ne- 
Bb& de vos o que disserflo os cayados, que pelejassem 
pois aK estaoão: por^ posto que nossa vinda aqui fosse 
^soessa determioaçã , não se ha dauer respeito senão ao 
^ podemos fazer a nosso saluo : porque cometermos esta 
cidade com ficarmos vencidos nâo me parece Q he es- 
forço pois lhe não podemos fazer nenhQ nojo : & eles a 
-iios tanto, que nos matarSo antes que tomemos terra: 
•quanto mais ^ a gente que temos ^ pode pelejar he muy- 
to pouca , assi pola que morreo & he doente como poia 
que nos falece da nao de dõ loã da silueira meu sobri- 
fiho, & os malabares Q nos auiã de fazer grande ajuda 
oÔ soas firechas. £ ainda ^ta pouca (} ha pêra pelejar 
be necessário que se reparta , & fique dela goardando a 
irota: pofqne es imigos a não queirafi em quanto for- 
mos. Assi ^ nos fica tSo pouca gente pêra cometermos 
■Wk cidade que não faremos nada. £ acõtecêdo o 4} eu re- 
ceo peidersea a índia porQ nfio terão os seus reys q te- 
mer pêra se leuaotar cõtra as nossas fortalezas , (} sam 
-as qae importáo ao estado dei rey meu senhor, & Qymar 
as galees do soldão nenhQa cousa, èc tomar esta cidade 
snenosf porque elas aebandoas no mar sam nossas: E 
ela posto '^ não se tome não se perde nisso nada , pois 
por ser tão lôge da índia não se pode soster : & parece- 
se mujto mal aoenturarse gente em cousa que se ha 
de deixar. E acabando de dizer isto os primeiros ^fala- 
rão forão dom Gonçalo coutinho, & Afonso lopez d a cos- 
ta : & sem darê seus pareceres , disserão : Q qu6 tinha 
«visto mais cousas ^ ho gouernador ; nem qu8 era mais 
esforçado & por el rey saber que era assi confiara dele 
a índia, & pois a cdfiaua, & a ele lhe parecia l\ não era 
bê cometerse a cidade, que pêra l| era mais cfiselho de 
nlguS, se não tomarse ho sen que era ho principal. Do 
que todos os outros ficarão muyto escãdalizados , por^ 
crerão que ho gouernador tinha praticado ho caso com 

UVBO IIII. D 



28 PA HISTORIA ]U ÍNDIA 

gqueles douP) & por seus pareceres sonofi te, & pob sen^ 
não queria pelejar, sem tomar mais ho.de ningufi, & ^ 
deles fazia cqnla , & não dos outros* £ os mais veda a 
cousa como bia , se forâo cõ bp parecer da^les deus. G 
outros mais as&edos forSo cdtra iâso frendo dar reafiee 
por onde era qecassario pelejar dÍ2;õdo. Que cousa ver- 
gonhosa seria , & qom Q os Portugueses perderiSo todo 
o credito , nSo pelejar hCLa frota tam poderisea como ^ 
quela parecia^ com todo ho poder do soldão, quanto mais 
eÕ tam pouco como tinbâo sabido ^ eslaua naquela cè- 
dade. Porque os mouros auiâo de sal^r muyto bê a muy- 
ta gente Q ae embarcara naquela armada, que (isssauao 
de ires mil pessoas, & nSo auião de adaiiabar a Q U^e 
morrera na viagS : nem a Q lhe fallauA^ nem a Q estaua 
doente : & vendo que nâo pele^uXo creriâa que ej?a 4e 
medo : pelo ^ todo o que at^li tinhão dos PortugueMB 
auião de perder , & nâo os teriSo em conta , o que <er» 
tSo necessário que não fosse como soster as ferlaJiesMs 
da índia, a que os mouros logo poeriâo cerco como pen- 
dessem ho medo a quê as auia de defender : & por m^ 
somente era necessário pelejar, que posto que se cosresh 
se perigo no desembarcar^ não era tamanho, nõ tama^ 
nha perda morrerem nisso algus homês , pois nSo auifts 
de morrer todos , camanbo era perderse no credito das 
Portugueses & camanha seria crerS os mouros oomo ea^ 
taua certo crerS que por medo & não por outra causf 
deixauão de pelejar. E mais que pêra Q era farense tãr 
roanho caso da artelbaría dos imigos, que parepia deses<- 
perar da misericórdia 4^ nosso seâor, que tantas veaes 
liurara na ladia os Portugueses de muytos mayores per 
rigos que aqueles: & que assi os liuraria enlã: porll 
não mostraua ele seu poder se não Õde ho humano das* 
falecia : & por isso auião de pelejar. E cõ todas estaa 
rezSes , como erão ntiais os que forão de voto ^ não pe» 
lejassem , não se tomou ho |>arecer destes. 



LI7S0 UII. CáPITVLO XIII* ' 27 

C A P I T V L O XIIL 

IH como ha gouémador se partw pêra Camarão ^ 4" da 

muyta gente q lhe morreo. 

Jtiilmcado poU frota Q ho gouentador aSo atisa de dar 
na cidade ^ fby ho escândalo tamanbo cm toda a gente 
^ «a oouea espantosa: & dezião sem nenhtl medo que 
JsSe podia ser maiyor jodaria f\ a^la , não cometer hHa 
e\daâe tSo pequena oom tanta gente & t&o esfori^ada: 
& c& iâlas munições: \ tinha poder pêra pelejar cõ ho 
turco ^ quãto mais €om aquela cidade: & outras cousas 
H a gSte da guerra diz quando os seus capitães não fa- 
a6 aa cousas que lhes parece bê. E os Q erão do tempo 
4Afoflao dalbuquer(| trazia á memoria seus cometimen- 
tos sem medo : seu esforço & suas grandes vitorias. E 
^eaíio todos rauyias injurias contra ho gouernador por 
não cometer a cidade: & cõtra os capilitesporQ Ihocon* 
aanlUbi. E bfi ho sabia eUe , mas não ousaua de falar , 
k «staoa muyto triste. E pêra ^ver se podia amansar a 
geaie deitou fama que auia dir com os nauios peflnos 
4 eoata dAbâaia a ieuar Duarte galuão ao porto de Ma- 
çua : & assentar amisade com ho preste» Mas nS c6 is- 
to ae contentou a gente : & mais por amor que se dete- 
me ho gouernador algCIs dias por causa do tempo que era 
coatrairo pêra a partida : & forft neste espaço os da fro- 
ta muyto apressados dos tiros dos fmigos. £ passados 
.quatro dias se lançou na frota h& Chrístão chamado Lou- 
rè(jo catioo de Soleimão rex, que disse na galé de Gas- 
par da silua (Míde foy ter primeiro, que por^ não desem- 
iMWcaoa ho gouernador, & que esperaua mais, por^ So* 
Jeímáo rex estaua cA muyto grande medo dele : & assi 
quãtoa estauão aa cidade : & a tinbão despejada de suas 
fiiaidas, pêra que se ho goueraador a fitrasse as terS em 
aaino, & que se ele desembarcara em chegando, Q ain- 
da achara todo. B de tudo isto 4 Lourenço dezía , aão 

Dá 



a$ DA mSTOflíA BA KfUTA. 

disse mais nenhua cousa despois Q ho gouernadòr falou 
coele. E neste t§po virSo dá £rota poér em terra a bor-* 
da dagoa htla vara aruorada cõ bQa caria pendurada. JS 
cuydarKio os Portugueses que era algti autso forão atgfts 
por ela, & derãna ao gouernadòr, que vío que era de- 
Soleimão rex escrita em castelhano. E dizia que estan- 
do ele de partida pêra o cayco soubera sua vinda ^ pelo 
Q deixara de partir, por^ pêra tal ospede como he go- 
uernadòr , era necessário tai hoB)8 como ele pêra o aga- 
salhar: & tSdolhe a& pousadas prestes ho. via. partir sem 
querer pousar ^ ^ folgaria de saber a. causa. E entendi- 
do ho goueenador a rebolaria de çoieymâo, &comozoai* 
baua dele. Respondeolhe por escriplo,. dizendo (}. ele ln> 
fora buscar a A.d3 & a Camarão pêra pelejar coele , no 
que perdera, duas nãos & hila galo , &. polo nã aehar fo- 
ra ali ter ouy dando de ho achar no mar ode lhe mostras- 
se a võtade que trazia r & 4 ^o^ acfaaua em terra onde 
nSo podia sayr, & por issonâò pelejaua eoele, mas 4 
•se bia inuernar a Camarão, õde se ele quisesse ir par 
todo Agosto veria quâto melhor gasalbado lhe fazia do^ 
ele fazia a ele. E. deixada a carta em terrat foy tomada 
& leuada a qoleymSa, que não repricou nem foy buscar 
ho gouernadòr a CamarSo, porque sabia* Q no mar os 
Portugueses auião de leu^ a vitoria. E despois 4isto 
dous ou três dias se parlio ho gouernadòr pêra Camarão^ 
dizendo Q não queria ir a Maçua por nâ partir a arm»- 
da & ficar pouca cousa em cada parte :. porque çoley*- 
mão rex tinha armada , & sabSdo que hiao aparlados 
4iayria a eles, & daribeshia fadiga. E prosseguido sua 
viagem pêra Camarão, esteue a gente em risco de <nop- 
•rer toda de sede, por auer tão pouca agoa na frota, qiie 
pêra abastar não se daiia a cada pessoa mais« de meo 
quartilho dagoa pêra todo ho dia, sendo a^la paragê tão 
quente de seu natural, 2| não podem os homêsviuersem 
se lauarem todos muytas vezes & os abanarfi : & mais 
era grande calmaria, com que se deteue na viagena 
ho três dobro do que se ouuera de deter cd que a g6ie 



iiYBO . iiii. CAPrryjko xiiu .s» 

mais desmayaua, & muyta morria de pura sede que se 
Ibe secauflo . òa; bQfea &^ oiifrá>doépia\ E era medonha 
& piadosa couaa de ver os gemidos & clamores ^ todo» 
íaiiâo contra ho gi)uef ikador poios leUar a morrer sem fa- 
aer oeniiA seruiço a Deos nS a el rey : & assi chegou a 
Camarão em Mayo, que se mais tardara hii dia quasi 
toda a gente lhe morrera, por^ algiis nauios cfaegario 
aem bocado dagoa. £ se passarão na viagS trabaJho de 
sede, em terra passarão iminÇso de fome: porque como 
a ilha eslaua despouoada não se acharão mãtimeotos^ & 
na frota hião tão poucos que ninguém não comia maia 
que arroz cosido & h&a v^z no dia, &.quB podia pescar 
algQ pescada maslurado coele : & coesta fome lhe mop- 
teo aqui grande soma d« gente principaimente da do 
remo , & cayão mof toa como que fora pésle ^ & de fra- 
cos náu podiáo 08 viuos soterrar os mortos , & nunca se 
tamanho desbarato -vio de gftte .aomo este foy. £ cuy^ 
dando hagouernador {[ podessoiauer algfls.maatimentoe 
da teria firme mandou iá^ Jk os mouros 4 arão immigoa 
fc. sab\io como ho gouernadoç .não pelejara em ludá não 
aomête não-qoisecão d^tr^oa mantimentos, mas ainda ma- 
tãtio ãlgãã Portugueses, & ho «esmo aconteceo na ilha 
^e Dalaca^ mandado ho gjouernador ho caraneião a Ma- 
^ua a saber se, poderia hi. mandar Diiarte galuão pêra ir 
da bi ao Prestei^ & antre oa mortos foy ho oapítáu do 
earauelão, por euja morte d&u ho goueroador a capita- 
Aia ao pitoto 4 *® chamaua Pêro v^z deuera,.& não foy 
necessário mãdar o gouernador Duarte galuão, porque 
lòy nosso s^ãor de^ho leuat deste mundo, nesta ilha tão 
apartada dé sua natureza,, que foy grande perda por ser 
liôm& de taato preço como disse no liuro terceiro. 



SO Ak MBTOmA VA IJTDJTA 

■ 

C A P I T V L O xim. 

De como Evtor tadriguex de Caibra tó UcSpa da rainha 
de Couíâàfez kok casa de feytaria em Coulão. 

X? 

XlájloT rodrigu62 ^ bía por feytor a Gouião, despois 4 
partio deCocfaím chegou aCSoulS bo primeyro dia de (e^ 
uereyro de mil & quiahftlos êc deeassete , & logo foy fa* 
lar á rayàha de CoutâO) a quS deu hu presente <} lhe 
leuaua da parte do gouernador^ & oolrod aos seun rege- 
dores. £ estando jQtos ela & eles ihes requereo como 
leuaua por regimento Q per virtude da capitula<;ão das 
paaes Q estaua feyta maudassem IbgolF^er a igreja do 
apostolo sam Thome ^ & pagassem cento & sessenta & 
seys báre^ de pimêta Q (içarão deu6do do anno paissado 
dos quifthêtos que aruiáo de pagar como disse atras. • E 
res|)on(}erão f\ estauXo muyto prestes pêra cõprír toda a 
capituiâ^So das paaes^ poreoi <}Àé h^o não poma ser porQ 
a rainha estaua pêra partír ao outro dia a fazer guerra 
a el rey de Tranuancor seu vezinho qtie a tinha desa- 
fiada f & por isso bSo podia deixar aguefci empresa , & 
também por ter sua géte jonta 8c os pulas que auião dir 
coela : & que em quanto á>sse deixaria, dada ordem pê- 
ra que se ajuntassem os máteriaes pêra edificado da 
igreja ^ se auia de faser. E a mesma rainha disse apar- 
tadamente a Eytor rodriguez que lhe rogaua 4^'^ quan- 
to ela fosse á guerra não apertasse so1>re os dereytos & 
rSdas da igreja que se auia de fazer, que eia era obri- 
gada a restítujr por iudo ser dado a Pulas & Nairés 
muy prinòipaes que ho não auião dalargar sem ela ser 
presente. E apertando sobrisso em sua ausência pode- 
ria suceder híl roao recado de que lhe pesaria muy to, 
por isso lhe aconselhaua 1} esperasse ate sua tornada, 
porque ela compriria tudo como era obrigada: & que 
nisto descansasse , porque ela desejaua muyto de coser* 
uar a paz que estaua assentada , & que era grande ser^ 



wdar dei rey de Poftugal. O que Ibe Eytor nàúgnw 
agardeeeo jouyto de iua parle, & «e lhe oSéreceo muy- 
to pêra a aeruir : & vQndo a boa wolade que aehaua 
Ae\a pêra ho aeraÍQi^ dei rey de Portufai pediolhe apoa- 
sentaoifilo pêra poetar copi' aeu efitrioâo & bomês da 
fejrtona, eiD que podease bem agasalhar as mercadorias 
^ /euaua , & quando oâo ouuesse este apousentamSto 
lhe desse lugar pêra fazer biia casa pêra isso , que assi 
bo Jeuaua por instrução do gouèrnadbr ^ de quem sabia 
em segredo que determinaua de fazer ali hQa fortaleza 
trazendo bo vDeos do eatreito , per isso que se* lhe des- 
sem licen<^ pêra fazer a easa a fizesse em lugar que 
ibsse bo5 pêra fortaleza. £ a rainha lhe respõdeo , que 
posto que aquilo era fora da capitMla^çáo', das casas, que 
eia deaejaoa tanto de aeruir a d rey de Portugal, & de 
ter paz eaele i|ue era Qonteiiie.de dar.Jsigar peraae £1^ 
aer a eaaa fide Ibe a eie panoesse b&, & ao oútso dia 
Ibo asainacia cS^os reged^á ^.a isae auiâo de ser pre^- 
aentesu £ com quanto a laíiiba isto prometeo tão len^ 
BseníLe, \flue graades coatradtfèea pêra se còmprir : porl[ 
eome oa mourca da teri!a bo setiborSo & lhes pesaua em 
eaframo dè ar Portuguoies ali assentarem , pori|. tinbão 
•erio deilalos fora ^ oonaelharâai.aaa regedores i| per n» 
Bhii nodo eõsentsaaem íaieDie aquela casa , porque eom 
aome de feytosíaae aufa logo.de tornar for taieza^ coro ^ 
oa Portttgueaea lhe auiâo de toonar a terra y que assi ho 
costumauAo os Portugueaea , &jad. nome de fey tortas ti- 
Bhãe feytaa todas auais- foptaleziaa, & fizerâo com duU^a 
rainha 4 ae, ehamaua.de Gomorim. poc aer.irmaã dal ney 
de Comonnt, & com doua filhoá seus tSf consplhaaaem ho 
mesmo á rainha de C!oalão &..aos regedores.. £ com tu>^ 
do nonca poderão raou«r a eht nfi á eles, porque ela; por 
desabar nmyto a paz os< abrandou de maneyra que forâa 
muyto Qontentea de «far licdija pêra se hzer a caea: & 
também a jgaaede diligencia que poaBilor rodrigueaem 
os peitar & iHSCBuadir ^. Ihe.daaaem lugar pêra fazer a 
casa. £ jantoa eitm a rainha Ibe dsnSo â licença , moa<>- 



8t DA RISTORfA DA ÍNDIA 

trandose todos muyto desejosos do seruiço dei rey dé 
Portugal : & por^ bo lugar onde se auia de fazer esta 
casa foy deixado ê escolha Deilor rodrigoes, escolhe ho 
detrás do circuito da igreja que fora de saro Tbome, & 
tão perto do mar que se podia chegar a ele com htia 
pedra, começou logo de fazer bQ grande cerco de taipa 
com hil poço ^lentro da muyto boa agoa. 

C A P I T V L O XV. 

Do risco ^ correrão os Portugueses que estauâo é Coulãê 
em quanto ho gouemadorfoy ao estreito. 

xlLSsinado ho lugar em Q Eitor roárigoez auia de fazer 
B casa a rainha se partio pêra sua guerra deixando ho 
muy to encomendado aos regedores , Q bo fauorecessem 
& ajudassem em tudo o de que teuesse necessidade. E 
prosseguindo ele sua obra despois de ter feyto ho cerco 
-que digo , começou de fazer hfla casa sobradada cO as 
paredes de taipa & cuberta doía , & nã iioou pessoa em 
CoulSo que a nâo fosse Ter quando a fazíão : & os tnou* 
ros diziSo aos g^tios ^ aquilo era fortaleza , & que dali 
auião os Portugueses de tomar a cidade* £ como os 
gentios crê ligeiramente 4]ualquer cousa criâo isto , & 
indinauSose muyto contra os Portugueses prindpalmen- 
le despois que a casa foy acabada, & faziâlhe mil sobra- 
-carias & dauâlhe encontros .onde os topauSo, & vindo be 
inuerno se desauergonharâo maie a isso, porque sabiSo 
que ho gouernador era ao estreito. £ os mouros lhes fa* 
zíão crer 4 ^^ fumes fao auiâo de matar com quantos 
biáo coele: & tanto affirmauâo isto Q passando por jun» 
to dos Portugueses lhes brâdião as espadas nosoiboe, 
pêra os prouocarem a ira com que desembainhassem 
coeles pêra Xerê causa de se leuantarem , que doutra 
inaneyra não ousauSo com medo dos regedores que es- 
tes fazião que ae teuessem em si. E como Eitor rodri- 
jguez isto entedia mandou aos Portugueses j| não fossem 



UVftO IIII. CAPITVtO XTI. 83 

& cidade "nem sayssein do cerco da feytoria, & dissimu* 
laua com tudo por d2o vir a rõpimento & Jbe acontecer 
como a António de si. E asai esteue nesta opreasam 
ate que veyo noua de como lio gouernador era viuo & 
ficaua em Ormuz: & íj^ náo ousarão os rumes de sayr 
de ludá a pelejar coele : & isto quebrou muyto os spirí* 
los aos mouros, & temendo que ho gouernador os casti-» 
gasse polo passado ^ não vsarão de mais sobraoçarias cõ 
o8 nossos, & tambS os gentios. £ neste têpo veyo a rainha 
de CouISo de sua guerra que tambê fauoreceo Eitor ro«- 
àríguez, & os que estauão na feytoria & ficarão em paz* 

! C A P I T V L o XVI. 

jDe como dom Ftmâào de monrroi ^ loão gonçcduez de 
coado brãco tomarão duas nãos de mouros nas ilhas 
de McdditÂa. 

Jl artidos dom Fernãdo de morrei & loão gonçaluez.-de 
caalèlo branco em busca de Jerónimo ^e s^usa forão ter 
às ilhas de Maldiua , &l tomando a cada. bA por seu ca- 
bo como /euaoão per regimento do gouernador , nâo a- 
eharão lerònime dia sousa , mas derâbe^noua Q fora ali 
ler , & ^ se fizera logo na volta de MeHnde , êde se ou- 
iie tão mal com lio piloto & com ho mestre do seu na* 
vio Q lhes fez lembrar como ele hia leuaatado , & a pe- 
sa § tinbão por irfi coete , pelo (} determinarão de ho 
prender & leualo ao gouernador. E assi bo fizerão, & 
preso leronimo de sousa, se partirão com ho nauio pêra 
ho cabo de Goardafum òde esperauâo daobar bo gouer- 
nador: & neste -caminho por bo nauio fazer muyta agoa 
se mudarão a btla nao , & nesta mudada se tsoltou Jeró- 
nimo de sousa, & foy despois ter a Goa, & por isso dom 
Fernando nem loão gõçaluez bo não acharão* E andado 
em sua busca toparão duas nãos dei ^ey de Cambaya 
que auia annos que andauão fora de Cambaya tratado 
por muytas parles, & por isso traziâo muyla rtquega.^ 

LIVRO IlII. B 



B4 IVA HISTORIA DA llflXA' 

&» ándaua pet e&pilão delas hCl moura ckamado Cogea» 
quiM qae foy catíao cÒ qufilofi vinhao oas nãos 2) forfld 
tomadas (posto q êl rey de Cambaya eaUua de pas) 
porQ tfâc leaauflo cartazes. E despois de G>g^eaqiiini oik 
tiuo, comeo & durmio cõ taato repouso ^ & lanto dês»* 
raatainento <:otno se estioera em soa casa« E espantan^ 
dose daquilo dd Fernando & loio gt^ftijaltieB : disselbei 
ele que nSo se agasftaua port) aquilo era ventura (a que 
M mouros eh am£) iiAoibo)&Qqciando partir a de soa casa 
partirá pêra ser seu feytor & seu catiuo, por isso ^oão se 
aula degastar. E não ai^hando dom FernaUlo & loâo gon« 
çaluez mais presas^ & por se chegar ho inuerno, partira- 
se pêra G)chim) & dali pêra Goa^ onde leiiarSo as nãos» 

C A P I T V L O XVU. 

Do que fez dó loâo de Monrroi indo darmaia de Goa 

ate Chaul. 

MJJm quanto dom PernSdo & loão goa^aluez forlo áa 
ilhas de Maldiua mandou dÒ Goterre capitão de Gea a 
dom loâo de mõrroi seu sobrinho com sete fustas dar-^ 
mada ao iongo da costa ate aien de Gfaaul pêra fraer 
presas & segurar a nossos amigoa j| per ali nauegassem 
& forâo por seus capittoi domingos de seixas, A nrrique 
de touro, paios oerueira, Pêro jorge & outros dons a que 
não soube os nomes. E indo assi darinada foy ter ao rio 
do pagode ondo ate Ba<^im tomou hSa nao de mouros 
do mar roko carregada de mercadoria , & os mouros es* 
caparSo por fazerem varar a nao, & acolherâse a terra 
sem pelejarem : & estando na barra de Baçaim foy ter 
coele ii{i Aiuaro da madureyra que auia dias que anda« 
oa ieuantado & forasse pêra os mouros , & disse a dom 
loão que se queria tornar pêra os nossos , j} lhe fizesse 
esmola dalgfl dinheiro pêra se vestir. O que dom loão 
fez ae boa võtade , & prometeolhe que se quisesse tor- 
nar pêra os nossos de lhe auer perdão de dom Goterre 



tlTBÚ Ulf • GAPirVLD XVíU 3b 

do teuálaineoto qae fizera , & com o que lhe deu & a- 
jôotou poios. da araaada forão duzentos pardaos, com que 
AIuBTO da madureyra disse que se hii^ a Chaul atauiar 
do que tioba necemidade^ & que iá ho esperaria. Porê 
Bio bo fez awi ^ antes se foy a Dabul, & disse a Aliral* 
neJique onde dom loâo ficaua com a armada & que auia 
de passar a vista de Dabul , que se lhe quisesse dar a 
capitania mór das suas fustas 4 ^^ão qnatorze que ele 
iiiria tomar dd loAo & quantos iiiâo na soa armada. £ 
BAiraloieiiqtte sabendo que Akiaro da madure jra era ja 
mouro & ii2 Cbrislflo^ foy oon tente de ho faaer capitão 
nór das suas fustas. E nã sabendo dom loão disto nada 
partiose de Baçaim caminho de €roa & foy ter a Chaul 
donde era saindo achou a armada de Meliquias qoe era 
de qnatorze fustas^ A andaua por capitão delas b& va- 
lente mouro chamado Xequegi que fora aii esperar dcun 
loão pêra pek4at ooele, & em os nossos saindo do rio 
começMão de lhe ttrar is bõbardadas, & os nossos a eles^ 
4l apertarSaos tão rijo que lhes foy fopçado porSse da 
iMlrranento dos nossos , & fugirem pêra ho mar , & os 
MomoB os seguirão hfl pedaço & tomarão hfla ftMta de Q 
a gente se Jançon ao mar^ & aasi fiigio^ & por os immi- 
gos fugirem não os quis d5 loão seguir maás & seguio 
auante caminho de Ooa. £ neste mesno dia indo ala- 
aiar de Dabul foy topar com Aluaro da madureyra que 
ho esperaoa com sua armada toda encadeada como que 
^ería pelejar: & dõ loão disse aos seus que os come* 
tesaera, & iogo arribarão todos pêra os immigos oom de- 
4emioação de os ahairroar, & hiãe desparãdo toda sua 
artdharia, & os «mmigos parece que cuoerão medo de 
os esperar & desenoadearanse, Ic poendose htt pouco ás 
bembardadas oô os nossos ficando de balrtauento , fugi-* 
fio ao remo, saloo falia fusta ^ foy vacar em terra & fu- 
gio a gfite^ & os nossos tf tomarão eom a artelhaf ia que. 
tiBha« E ?endo dom loão qne não auia por ali mais qíue 
luer tornouse a Goa oom as duas fustas que tomou* 

É 

E 2 



36 BA HISTORIA 0A INDSA 

C A P I T O L O XVIIL 

Da entrada que fêz Dom Fernando numrroi na terra 
firme de Goa^ ^ de como foy desbaratado ^ fora mor^ 
tos muytos dos que leuaua. 

JLVecolhidòs dÕ loSo & dom Fernando a Goa, & come- 
çando de entrar ho inuernò , determinou dõ Goterre de 
86 vingar DancoscSo tanadar dePondá por amor deloSo 
gonuez' que lhe matara. E coesta determinação fez gran- 
de festa de touros & canas em dia do Spiríto sancto. E 
as festa» acabadas ajuntou a gente de caualo que seriflo 
sessSta bomês , & seyscentos piâes da terra em que en- 
traufto trinta dos nossos besteiros & espingardeiros , & 
-saindo de Goa tomou ho caminho pêra Benastarim ja de 
Dojte. E chegando ás duas aruores faz deter a todos, & 
ali lhes declarou como. hião a Põdá a destruyr Ancoecão 
por comprir muyto a seruiço dei reyfazerseassi, deman- 
dou que fosse por capitão da gente de caualo dom Fer- 
nando seu irmão, & irião coéle dom loão seu sobrinho, 
& outros fidalgos. E da gente de pé fosse por capitão 
loã machado que era tanadar mor da ilha de Goa. E 
disselbes que os mandaua a taes- horas , porque como 
Ponda era perto, podião lá chegar antemanhaã & dar 
DO lugar^ cujos moradores eslauão sem nenhua sospeyta 
de sua ida, & por isso os poderião tomar ás mâos^ prin- 
cipalmente ao Tanadar, que folgaria muyto (} lhe leuas- 
b6 viuo: porem que se Jhes amanhecesse antes de che» 
garem a Pondá que nâo cometessem nada, & se tornas^ 
sem, porque ele nao queria que pelejassem nem que se 
posessem a perigo , & coisto forão passar a Benastarim 
da banda da terra firme a gente em almadias , & os ca«- 
ualos a nado, & passados abalarão dom Fernando & loâo 
machado com sua gSte pêra Pondá ficando dom Goter- 
re com algCla gente em goarda das almadias ,> pêra que 
quando seu irmão tornasse achasse em Q passar. £ par- 



LIVAO IIII. GAPITVLO XVIIí, 37 

tídos dom Fernando & Íoão machado , loáo machado q 
Jbia diãte chegou primeyro perto de Pondá &.por isso es- 
perou por dom Fernando: & nesle (Spotomoodouspiães 
tle Pondá que vigiauão a terra, & destes soube que no 
lugar não auia nenhúa sospeíta dos. nossos nem se te* 
mJáo deles. E chegado dom Fernando^ disselhe loSo ma- 
chado o que soubera dos piâes, & pois a causa princi- 
pal de sua vinda era per<a tomarem Ancoscâo que lhe 
parecia que os seus piâes por irem desarmados & sabe- 
rem a terra & a Hngoa dela ho fariâa melhor que os 
nossos de caualo ^ hiâo armados & embaraçados oom os 
eaualos, & se auião dembaraçar mais por ser ainda de 
Jioyte, & por isso estar ião melhor em goarda dos piâes : 
Sc Q assi lhe parecia melhor que irem lá os nossos , & 
como dom Fernando pretêdia- esta faonrra- não quis que 
a ganhasse loão machado , & disselhe que pois a terra 
estaua sem sospeita de aua ida que bem poderiâo espe- 
var que amanhecesse & veriâo e que faziflo, & dariâo 
todos no lugar & farsehía ho feylo melhor que de noy- 
te : 8l a isto ajudarão leronimo de sousa & lorge de ma^ 
galbãesy & loão rodriguez pessoa, & loão machado lhe 
disse que pois assi queria ,~que assi se fizesse, mas que 
prouuesse a Deos que se nâo arrepêdèsse de não tomar 
seu cdselho , () era muyto -bÔ. JMas nâo ho (ornou dom 
Fernando, porque auia de ser o que foy : & como ainda 
auia hll pedaço por passar da noite não poderão os nos- 
sos estar tam calados que nâ fossem sentidos: & foy da- 
do auiso a Anooscão, que se leuantou muylo de pressa, 
& com a mayor parte da sua gente se passou logo aiS 
de hu rio que passaua por junto do lugar : & fez bu cor« 
po de sua gente, esperando ale ver o que os nossos que- 
riáo /azer, que em amanhecendo entrarão no lugar, cuy- 
dando* dom Fernando que tinha .muyto certo Anooscão : 
& quãdo achou ho lugar despejado vio quam mal fizera 
em não tomar ho conselho de loão machado. E nisto al- 
gfts dos nossos asfti de pe, como de caualo vendo estar 
^ immigoa em corpo , creceolhe» a cobiç£w de pelejar : 



38 ' . BA uiarotiA BA índia ' 

8c pansaailo a ponte cofiuidauânos pêra iaao , eaearaittu- 
çando coeie9, porque também lhe aayrâo algufi que iinmi- 
trauão ter boa vontade de pelejar. E vendo dom Fer- 
nando que aquilo não seruia de nada, mandou dizer a 
loSo machado «que estaua diante com a gente de pe , 
que fizesae volta por{| se hia. E dandolhe lugar passou 
loSo machado auante : & dom Fernando lhe ficon nas 
costas. Ancoscão que vio que os nossos se kiSo sem fa- 
zer mais nada , pareceolhe que era com medo , & com 
isso cobrou mais esforço , & foy dar nos nossos, ttrando- 
ihe muy ta soma de frechadas , & feriranlhe tam do rijo 
08 caualos , & os que estauSo encima deles , que des- 
mayarão, & começarão de fugir, & derio nos de diante, 
que tambê se desmandarão. Os immigos os seguirão: & 
como sabiâo que auião de passar por hum passo eslrèito 
polo pé de háas ribas , parte delles os forão esperar so- 
areias, & outra parte os hia seguindo, E em chegando 
a aquele passo, como os immigos que estauão sobre ai 
ribas ficassem muyto senhores dos nossos, apertaramnos 
tam brauamSte , ajudandolhe os debaixo , que matarão 
muy tos dos de pe, & dos de canalo ficarão quarenta an- 
tro mortos & feridos , & estes que forão feridos ficarão 
ali catiuos. £ antre os mortos forão lorge de magalhães^ 
loão Machado, & loSo rodriguez pessoa. E foy tama- 
nho ho medo dos nossos que os mais deles deixarão as 
armas pêra fugirê melhor, & a dom Fernando matarai»- 
Ihe bo caualo, & se lhe logo não acodirão com ouiro oiíh 
uerãno de matar, & assi foy ferido bo cauíilo de dom 
loão, & se os immigos seguirão ho alcanço aos nossos 
nenhfl não puuera descapar : & não os seguirão , porque 
ho primeyro morto dos nossos que acharão foy hfl loão 
rodriguez pessoa que cuydarão que era ho capitão por 
leuar boas armas, & por isso não quiserão seguir os nos- 
sos, que despois que virão Q os imigos os não seguião 
se ordenarão & forão ate chegar onde dom Groterre es^ 
taua esperado que lhe ieuassem Aniloscâo, & sem ele 
se tornou a Goa com tamanha perda como foy perd&- 



LfVRO mi. CAPtTVLO XHt. 39 

vense eorenla dos nossoe. £ vencida a batalha |ior An* 
eoacáo recolbeo fao deafiojo qae íbrão eanaloa , armas & 
catiaos , que seriáo ate dezoy to , & niato foy dado hQ 
recado do HidaicSo a AncoBCfio que ho fosae aeruir em 
hfta guerrs que tinka cmn Nizattâlaoe senhor deChaul, 
& aendo fon^do a A neoseâo de ir , temeo que ficando 
de puarra com d6 Goterre que lite tomaria aquelas tanfr** 
éarias que aoía pouco qoe íbe dera he Hidalcáo , & por 
ieso maiidott dizer a dom Goterre Q. ele nâLo tiniia culpa 
fio dáoo que ^ra feyío a dÕ Fernando 9 & ^ queria ser 
eeu amigo, & se bo- quisesse também ser seu & ter coe«- 
le paz eomo dantes que lhe daria os Portugueses que lhe 
ficarão eatíuoB. £. peru se isto assõtar se ho quieesse 
auia lá de mâdar hA homem konrrado pêra que ho as* 
sentaasei». Do que dom Goterre foy contente por ver t[ 
tinha a culpa do passado , & por foSo gSçaluez do cas* 
teio branco ser homem de eoníiança, & ler conhecimen- 
to cõ Aneoscâo àú tempo que fora ao HidalcSo por em« 
baiKador^ cchuo disse no liuro tereeyro, ho mãdou a An*- 
eoeeio com i\ assentou de nooo paa & amizade , & en<^ 
(regue dos eatiuos Q orfio dezoito se tornou a Goa.^ 

C A P I T V L O XIX. 

De tfomo o gmítmadúr queimou a cidade de Zeiia^ ^ dó 

que Ihejizerâo é Adem* 

XnuernSdo o gouernador em Camarão c5 tStos traba* 
(hoe de fome, doenças & mortes como ja disse : pola n&- 
eessidade dos mantlmenios que ho apertaua se partio na 
entrada de luibo posto f^ era cedo pêra os ir tomar a 
Zeihtj ou a Barbora ou a AdS. E leuando a rota pêra 
Zeiia , tardou algOs dias mais dos costumados por lhe 
serem es ventos contrairos. Esta cidade está na costa 
de Etbiepia a cico iegoas das portas do estreito de fora 
delas: está em onze grãos da banda do norte. Na terra 
em que «stá adsentada ha muyto grande criado de ga« 



40 DA HISTORIA DA. ÍNDIA 

do assi groBsa como miúdo, de /) he bem abastada da 
manleiga & de leyte. G>lhe88e tambS grade mullidão de 
trigo, ceuada & de milho, de maneira 2| he muy grossa 
de roâtimetos. Dá também a terra muyta soma dencen- 
00 macho & de mel , de que se faz muyta cera branca 
que seruS de mercadoria. A cidade he de bS tamanho 
& rasa á bwda do mar : he de casas de pedra & cal & 
de sobrados cubertas de terrados como as Dadfi. Seua 
moradores sam mouros & mercadores de grande trato & 
pela mayor parte sam pretos , assi homSs como molhe- 
res & algils brancos , & tratanse bem. Estes forão aui* 
sados por recado dos pilotos Dadê que hião cõ ho gouer- 
nador como hião Já , & por isso a despejarão eles de to- 
da sua fazenda , molheres & meninos , & ficarão algfls 
homSs, & assi os senhores de certas nãos que hi esta- 
uão de fora que Unhão consigo algQa gête de peleja. E 
sabendo eles da maneyra que ho gouernador hia, deter* 
minarão de lhe não dar cousa algua & defenderse se 
podessem : & por isso lhe não mãdarão recado despois 
de chegar, antes se mostrarão pola praya com suas ar- 
mas, & por isso determinou ele de dar na cidade & des* 
truyla. E acordado nisso com seus capitães^ ao outro 
dia em amanhecêdo se embarcarão todos com sua g&te , 
& os priroeyros que desembarcarão forão dom Garcia 
Coutinho Sc dom loão da silúeira: a que ho gouernador 
deu a dianteira, & ele desembarcou por derradeiro: & 
porque linha mandado que ninguém não bulisse consi* 
go ate ele não desembarcar , esteue a gente queda na 
praya, o que vendo os mouros começarão de tirar das 
nãos que estauão varadas algilas bombardadas, & outros 
se mostrarão nas bocas das ruas. O que vedo ho gouer- 
nador esteue suspenso po que faria, porque parecia auer 
gente na cidade pois lhe não fugião: & por derradeiro 
mandou a dom Garcia & a dõ loão que dessem cada ha 
por seu calx) onde parecião os mouros : mas não teuerão 
que fazer, porque detendose ho gouernador tanto em se 
determinar, nâp poderão Gaspar da silua & Aires da 



LfVRÔ IIII. CAPITVLO XíX. 41 

BÍhia, & António fenreyra fogaça sofrer as algazaras (} 
os moorofi faziSo , & remeterão a eles coin sua gente, & 
elles lhe sayrão ao enedtro como homCs determinados: 
& irendo que os nossos lhe tinfaão bo rosto coroo erâo 
|K>acos retirarSse logo pêra dStro da cidade , & os nos- 
608 carregarão sobreles & leuarannos ás laçadas fora da 
cidade antes de chegarem dom Garcia & do loSo. £ Si- 
mão dandrade mãdou dizer ao gouernador que podia en- 
trar , porl| a cidade era despejada. Do ^ bo goaernador 
ouue muyto grande menencoria , pareoendolbe Q Simão 
daadrade Ibe-mandaua dizer aquilo poio injuriar : 8c que 
daua a entender {} outr6 lhe leuara a bonrra de despe- 
jar a cidade, & disse controle muyto más palauras, & 
mandou despois que se passasse da nao de Francisco de 
tauora seu cunhado (com quS ^ndaua preso ) pêra a ga- 
lé de loão de melo & isto polo avexar. Entrada a cida- 
de acharão os nossos preso ho comitre do bragãtim de 
Grigorio da quadra capitão da armada de Duarte de le- 
mos {|^ se perdoo como disse no liuro segado, & disse ao 
gouernador que auia noue annos que estaua ali catiuo. 
J5 recolhidos algtls manlimStos da cidade , bo gouerna- 
dor lhe mádou logo dar fogo , por(| se a gente não em- 
baraçasse com be roubo & tornas^ os mouros sobreles 
& 08 desbaratassem. E posto fogo á cidade ardeo toda 
em quatro dias 2^ não ficou casa n8 cousa nenhua que 
não fosse queimada , & como ho gouernador estaua no 
porto nunca os mouros ousara dacodir ao fogo, .& quei- 
maranse grande soma de mãtimSlos que fizerão a9saz de 
mingoa aos nossos. Queimada a cidade , que foy b&a 
<H>usa b6 espantosa de ver: partiose bo gouernador pê- 
ra Adem, & chegado mãdou dizer a Mira mergenaque 
lhe mandasse Tender agoa & mantiroenlos por seu di- 
nheiro. £ sabendo ele como bo gouernador vinha, & ho 
pouco que fizera em ludá perdeolfae bo medo, & por fa-^ 
zer escárnio dele deteueo dez ou doze dias cÕ promessa 
de lhe dar maniimetos, & polo deter daualhe cada dia 
Ião pouca cousa , que quãdo se desenganou achou que 
xivao iiii. p 



42 PA HiaTORIA DA INIHA 

liaha gastado do que traaia ho Irea dobro do Ç lhe dò- 
rSo da cidade ; & eotâo cooheceo ho erro Q fez ê se nÍ0 
prouer em Zeila & queimar os manlínento» que quei* 
laou. E porque muytas Daoa de aua armada oa nio ti- 
ahão 9 ouue de tornar atras pêra os tomar ô Barbora. E 
DacJS atrauessou á coata de Etbiopid, onde ela está via* 
te legoas de Zeila: o que (oj má piloti^em porque ou* 
«era dir pola baada Darabia ate se poer leste oeste com 
barbora : porque daQla bSda fazifio as ag oas reuessa & 
kiSo brandas : & da bãda de Ethiopta erfto as corrfites 
tamanhas que hiSo pêra bo estreito com os ponentes que 
afracauSo na^le têpo ( por ser íím Dagosto ) § podia mais 
a agoa Q. ho vento, Sc nlo se podia aauegar por ai|la bAda. 

C A P I T V L O XX. 

De coma despois do gouemador partir Dãdem lhe mor^ 
reo mujfta gente , ^ a frota foy ter a dmersas partes : 
^ de como ele foy a Ormuz. 

.Hi por isso a nossa frota lA podia surdir auãte , & foy 
necessário pairar o ^ íoj com assaz de trabalho da gen- 
te que morria de sede~ & de fome. E andado assi sobre- 
ueo hu dia híla toruoada de ponente : & como ho gouer^ 
nador andaua enfadado dauer quinze dias que pairaua 
em dando esta toruoada que lhe seruia pêra a Tíagem 
Dormuz , determinou de se ir pêra lá & nâo fldar ali 
mais , & mâdou dar á vela sem fazer sinal que se par- 
tia: o que vSdo os capitães das nãos grossas se fizerâo 
também aa yela os que poderão , & assi outros nauios 
que se atreuerão a sofrer ho vento & seguirão após ho 
gouernador ^ se foy caminho Dormuz sem mais curar 
de Barbora, nem desperar polas outras velas da frota , 
{^ ficarão em grande risco de lhes morrer quanta gSte 
leuauão á sede , porque as g;alés & outros nauios dalto 
bordo pequenos, & assi alguas nãos grossas que não po- 
dejpão wfirer a vela com a toruoada ficarão com a neces» 



LIVRO Iin. CAMTVLO XX. 43 

8idade dagoa qae digo & cada dia adoecia & tnorria 
gente , ove era piedade ter como pereciâo cÒ sede : & 
aíoda 1^ filão ao \6go da terra, ningoê pola primeira hia 
buscar agoa, porQ ouuirão dizer Q se nSo achaua na- 
quela lerra por ger muyto seca. E porfi ho grande aper- 
to em que estauSo Ibes fez irê ver se auia agoa , & os 
primeyroa Q bo ^erSo forSo Gaspar da silua, Chrislo- 
iião de soQsa, Aires da silua & acharão mujta agoa, 
asai de chuuas ^ auia pouco que passarão, como abrin- 
do fontes. E a gête da terra os recebeo mafisamente, & 
ihea Tenderão algflas cabras & carneiros , & após estes 
forSo os outros capilSes de ^ algus quãdo isto foy não 
íeuanão ja niais Q mea pipa dagoa : & hft destes foy dò 
Alaaro da sílueira Q acertou de ir soo seo) outra copa- 
nhía a buscar agoa, & pola nS acbar se meteo tanto no 
eatrdtò que quãdo quis sayr não achou vento ^ bo aju- 
dasse ^ era passada a tnou^o, & por isso ouue dinuer^ 
«Hff no eslreko , & andou dfl cabo pêra fao outro a bus- 
car onde ínuemasse 9 no Q passou assaz de trabalho & 
fadiga: & \he fizerão da terra mil treiçSes em ^ lhe ma- 
tarão algfta g8te. E foy ter a bfl porto, 5de acbou bfi 
moitro que se ehamana Adão, por isso lhe pos assi no- 
ase, & ali inuernon não t^do mais de tinte quatro pe^ 
0oaa de cSto & trinta & quatro bomSs ^ leuaua quando 
partío de ludá 4 todos os mais dos outros Jhe morrerão 
de sede. £ inuernando aqui saindo fau dia dõ Aluaro 
em terra a fazer agoada, ficando ele soo com bd leroni- 
«10 doliuetra filho Dantão doKueira goarda niór da rai- 
Âba dona Lianor, & com hfl M^afonso criado do barão, 
foy morto por eles ambos por dizerS que tinha injuriado 
de palaora a leronimo doliuejra em vido na nao como 
iojnriatia a outros com fauor de ser capitão & sobrinho 
do gouemador. E despois da morte de dom Aluaro, le- 
ronimo dolineira & Bfendafonso se tornarão á nao, odde 
Bio bolio ningud coeles por os <] eslanfio nela serS os 
«aia doentes : íc despois da M á diáísr como os da nao 
ooMiMBi poi afronla andar asai antf^lea qifS lhes mata^ 

F 8 



44 ^A HISTORIA Bá INDFA 

ra ho seu capitão, leuantouse hQ loão roddgnez pao, 
valente caualejro, & tendo costas ê hu Mart! correa & 
outros matou por sua roão ás punhaladas a Mêdafonso 
sem. ho ninguém ajudar , & foy preso leronimo doliueí- 
ra, & assi foy leaado á índia onde esta nao foy ter des- 
pois de ho gouernador lá ser , & leronimo doUueira foy 
degolado por sealSça de Diogo lopes de sequeira (| che- 
gara de Portugal por gouernador : & assi passarSo muy- 
to trabalho todos os. ^ ficarão no estreyto , & Uies moc- 
feo muyta gente & forâo deles ter á Índia em diuersos 
lèpos despois de ho gouernador lâ ser , & outros forão 
ter a Ormuz, onde acharão ho gouernador 4 indo pêra 
lá foy ter a Calayate , dõde mâdou pêra a Índia dÕ A^ 
leixo de meneses cõ poderes de gouernador, pêra Q sou- 
besse na índia Q. era viuo: & cÕ dõ Aleixo mâdou a Pê- 
ro vaz d£Uora capitão do carauelâo y cõ recado a el rey 
de Portugal do ^ lhe acõtecera no estreito, & as causas 
porQ nã fora a judá, nS a Alaçua, n6 fizera fortaleza nas 
]K>rtà8 do estreito que el rey de Portueal nSo ouue por 
boas. E de Calayate se foy a Ormuz, deixado hi toda a 
frota , & em Ormuz achou tudo também assentado por 
Afonso dalbuquerque,. que não teue que fazer mais que 
verse cd el fej Dormuz, & deranse presentes hil ao our 
tro, & ficarão grandes amigos. 

C A P I T V L O XXL 

De cQtno ho Hidalcôo mandou çufalarim seu capitão com 
ir mia mil homés sobre a ilha de Goa. 

JL/esacupado ho Hidalcão da guerra de Nízamaluco por 
cõcerto que ouue atreles , determinou de tomar a ilha 
& cidade de Goa , parecendolhe que ho poderia fazer 
por ho gouernador ser fora da índia , & que não pode«- 
ria ser socorrida por não auer gente pêra isso*. E doesta 
determinação fez trita mil homCs de peleja^ em 4 ^ntra<- 
ttão cinco mil de caualo, & fez capitão.ttelw a çufola^ 



LIVRO Iin^.CAPlTVLO.XSrK 4h 

wm j de Q faley no liuro terceiro : parecenclorhé que' en- 
traria na ilha assi como da outra vez, & mandoulhe que 
a fosse tomar , dandolhe a capitania das tanadariSs de 
Põdá & Salsete. £ sabendo dõ Goterre ^ chegaua , on^ 
de claramente se via Q, bia pêra Goa escreueolhe hua 
€arta (porQ dStes erão amigos & se escreuião & visita- 
uáo cõ presentes) & dixia nela que fosse boa sua vinda, 
& {| lhe fizesse boa prol cõ as terras de Goa, que dizião 
que lhe dera ho Hidãleão ^ & que folgaua muylo polo 
ter poF veainho* E mandou ao portador desta carta que 
soubesse o que çufolarim determinaua, & a certeza do 
Bumero da gente que trazia, Çufolarim recebeo bè este 
portador, & por sospeitar 1| hia esptalo mais ^ a leuar- 
lhe carta deteueo obra deyto dias ,- porÇ dom Goterre 
Bio fosae auisado de sua determinaçfto que era Strar na 
ilha de Goa da maneyra que entrou quando a cidade se 
entregou a Afonso dalbuquer() como disse no liuro ter- 
ceiro. £ despois de dd Goterre mSdar outro messegeiro 
a <2u(blarim por ver que tardaua ho primeyro , lhe re&- 
pondeo' eUe por escripto, dizendo que hia tomar Goa 
que bo HidalcSo dera a Afonso dalbuquerque ate quan- 
do lhe aprouuesse. E. sabendo dõ Goterre Q a determi- 
nação de çufolarl, era entrar pelo* passo de Benesíari, 
& poJo caminho t\: ieuaua auia dír ao longo do passo de 
^ncalim ,. mãdou lá dõ Fernando por mar cÕ dez fustas 
éarmada,. de i) » fora ele forflo.por capitães Anrrique 
de touro-. Paios cerueira, Domingos de seixas, Pêro jor^ 
^,^.Pero'gomez casado S Goa & outros quatro, & leua- 
Tia perto de cõ bomSs , & logo ê chegado não virão- ne^- 
Bbfla gSte. E parecSdo a dõ Fernãdo Q ainda os !migos 
nSo erão chegados quiserasse tornar, se não quãdo sae 
Biu/lidão deles dâtre ho mato dado grades alaridos , & 
sayrão tão de supito que deitara hCla grade nuu8 de fre« 
«hu primeyro' Q os nossos desparassem a artelharia , & 
matarão hu marinheiro , & os nossos lhe matarão rouy- 
ios despois 9 começou de jugar & esteuerâo coeles h(l 
^ I^daço áa bombardadaa , ate que se retirarão pêra o 



46 0A SfSrORlA OA índia 

iDato, & lirauSo dãtrele rauytas frechadas. E porQ po* 
diâ fazer dãoo aos nossos d3o quis dõ Fernâdo ali estar 
msAi: & conlfitouse c5 ho dano ^ tinha feito aos Imi- 
gos , & por^ lho o3o fizessem mandou afastar as fustas 
hua & hua : & tornouse pêra goa, õde partio na madru- 
gada seguinte pêra o rio Dagaoi: & indo ao logo das 
prayas do de Benaslari , da bâda da terra firme achou 
muylo mais gente Q ao dia dates , por ir ali çufolar!. E 
os imigos vendo os nossos lhes derâo hda çarríada cõ es* 
pigardões & frechadas : & os nossos outra de bòbarda- 
das, CO (} matarão muylos: & antreles foj o que leuaua 
ho sombreyro a 4;ufolarim ^ que se soube despois 1\ se 
baldou cõ medo das bõbardadas , por nã ter por onde fur 
gir , se não por hOia ladeira em que ficauSo a melhor ti- 
ro. Ê em quanto os imigos passarão esteue ali dom Fer'- 
nâdo: & maiou muytos: & despois se foy poer na boca 
do rio Dagacim, pêra goardar a^les rios. E por assi par- 
recer bè a d5 Goterre & seruiço delrey de Portugal ti* 
rou da alcaydaria mór do passo seco a loão gonçaluez 
de castelo branco que estaua nela : pêra ajudar a seu ir- 
mSo a goardar aqueles rios por saber b8 da guerra pela 
muyta experiência f[ tinha dela , & ser moyto esforça- 
do. E mandou {| htta noyte fosse ele com a metade das 
fustas correr bo rio de Põdá , Si seu irmSo ficasse na 
boca do rio de Benastar! com a outra metade : & outra 
noyte fosse seu irmSo, & ficasse loSo gonçaluez. E isto 
porque se temia de os mouros entrarS em jangadas por 
ai|le rb , como no tSpo d Afonso dalbuqnerque , como 
disse no liuro iii. 



Lrmo ii]f« CAPirvid xzn. 4/í 

CAPITVLO X3EIL 

i)o 9U« yêtf àMi Qatêrre capitão dt Gca despoi» § $e vio 

cercado- 

V endo dÕ Goterre eomo Ho eerco não se escusaua do^ 
broa logo a gente em todos os passos da itba. £ porque 
sabia ^ quando Afooso de Albuquerque deixara Goa 
se Ibe Jeuantara a gente da terra^ por(| lhe não fizessem 
eutro t£to a todos os easados , gentios &l mouros tomou 
as molberes & os filhos, & meteolhas na cidade, onde 
Jbes deu gasalhado: & a eles mandou Ç ajudassem a 
guardar os passos da ilha aos nossos , o -que fizerSo de 
boa vontade por amor das molheres & filhos Q. tinhão em 
penhor. £ pêra Q tiuesse mantimentos em abastança & 
lhe Dão falecessem , mandou tomar quãtos auia na cida^ 
de, assr aos da terra como aos nossos r & mandou os me« 
ler nas casas que forSo do çabayo r perá dali os dar de 
sua m8o a seus donos : porflj)S não gastassem s& regra 
& despois lhes lalecessem. £ por^ tambS os cocos sam 
maotímêto mandou apanhar quantos auia nos palmares 
te recolheles nas casas que digo. £ cÕ isto mandou cer- 
tas espias ae arrayal dos tmigos pêra ter auiso do que 
{ufoiarim determinasse : & eie por t^rra visitaua cada 
dia todos os passos porque lhes não faltasse nada pêra 
sua defensam : & daua esforço á gente, que não ouues-* 
sem meda aos immigos por mais que fossem , porQ com 
ajuda de nosso senhor os auião de desbaratar. £ seu ir* 
mão dS Fernando por mar, & loão gonçaluez de castelo 
èrãco eomo disse corriâo todoa os rios sem estarê nunca 
quedos^ 



48 «^ OA BISTORIA 1>A IKMA 

C A P I T V L O XXIII. 

De como çufolarim assentou seu arrayal na Urra firme ^ 
^ do ardil q dô Goierre teue pêra se mataré muytos 
mouros. 

JJiDtre taxiio que dõ Goterre isto fazia asaeniou çufola- 
rim aeu arrayal detrás daqueles outeyros, que vão ao 
longo do rio de Benaslar!, & chegaua ate a baya Daua«- 
eioi , por^ ali determioaua de mandar fazer jangadas 
pêra passar á ilha de goa, como fizera da outra vez, qud 
passou em tem{)0 de Afonso dalbuquerQ : o que ele não 
pode nunca fazer, por^ era tão espiado poios nossos, 
que como as jâgadas erão no mar logo dê Fernâdo : & 
loSo gonçalues se lhe punha diãte com a sua armada, 
O Q vendo çufolarim não cusaua de cometer a enlrada 
da ilha: & com tudo não deixaua d^ mostrar que hoque^ 
ria fazer, & daua muytos rebates de noite, a ^ dom Fer- 
nSdo & loão gonçaluez acodião logo , que oõtinuamêle 
estauão no mar sofrendo imenso trabalho de grades tor^ 
mStas de chuuas & de v8to8, que as armas & os vesti'* 
dos lhes apodrecião noa corpos a eles & aos outros. £ 
todo ho mes de Julho sofrerão este trabalho, cÕ os que 
andauão coeles, sem nunca dormirS se não de dia. £ 
muytos se acostumarão a dormir em pé, como ^ dormiSf;- 
sem em cama. E vendo a gente da terra que estaua cõ 
os nossos que çufolarim não ousaua denlrar perdera to* 
do ho medo A tinha que entrasse na ilha: & os piães 
pedião a dõ Grolerre 4 ^ deixasse ir furtar ao arrayal 
do9 imigos , & Q assi lhe fariâo a guerra ., pois não po^ 
dião doutra maneira. E ele lha deu, mandando apregoar 
que por cada cabeça de mouro ou de turco daria h& 

Eardao douro a qu8 lha leuasse : & os piães pela ganhar 
ifise ao arrayal & como andauão do mesmo modo que 
os do arrayal, não os desenferêçauão deles, & podião 
andar por onde querião : & como ?ião tempo não fazião 



LiyilO IIII. CSAFITVLO UTIIII* 49 

ae d2o matar nòs imigres : & tomada» as cabeis as le- 
uaoâo a dd Goterre^ & dauãlhaa cò grades festas de tan- 
geres : & dom Goterre lhes pagaua logo : no (} gastou 
muylo^ 7X)rQ as cabei^as erflo moytas, que ho premio 
que daua por elas fazia não se estimar he perigo ^ cua- 
tauSo. £ Têdo dom Goterre ir tão de . wagar a «ntcada 
de çufolarim, escveueolbe que pêra ^ tardaua taoto em, 
entrar a ilha: & que se detemiiuaua de bofas^ j| lhe 
mandasse dizer ho dia, & Q Ike tirana as-fiistás do rio^ 
& a gSle da terra pêra poder desembarcar : joõ cõdiçáo 
que auia ée ir em pessoa com sua gente. £ ele refipoiíp* 
deo por escripto em letra Q nunca se soube Jec« 

€ A P I T V L O XXIIII. 

J)e com0 çtfolarim começou de dar bateria á noua fw^ 
taleza: ^ como lhe osswsios ^brarâo hú iíámeh com 
§ a dauãm 

fmdo '^folaiim que poír neiíbt modo bSo podia en<^ 
trar a ilha pola defbnsa (| acbaua nos nossos a: que nto 
.podia resistir por «to lar nauioe «em que s^á gente em^ 
bucasseLy detenâinou de 4lac ba ter ia. i nossa iiôrtaleaa 
de JBenastarím & atiasala por aquela maoeyra. £ come» 
4iiiha muyta genie mSdou .fazer bila noyte hfi pedaçe 
de muro defronte da. nossa fortaleza: que quando ama^ 
aheceo apareceo /eyto & asses^das nele algftas peçM 
daitelharia: & assi outras estancibs de bdmbardad aoldr 
-go do rio. peza vacejatè delas az aossas^ itudtas» £ conM 
£oj meabaã despararão es immigos-a sim artélhai^ia dè 
jDuro na nossa fortaleza '«m que nãoíeiz rneitbQ nojfoipor 
a arlelbaria ser pequena 8c de fereo^Ifo por iteo mai^diom 
iogo 42ufoIarim a Bilgão por hii-oaniela de metal ^ lá tiv 
ama pêra derribar cóeLs a nossa fiortaleza & derribada èh 
tear na ilha. £ sdbando dom Golerte que ' estar bembaa* 
da hia por caminho que aJeuMW^bQÍatemilAaieavreti^ 
mandou a hd Naique caawrim chamado Ralu que mos 
uvao iiii. Q 



-£d8te deiMptr , & iato por Aer borne esAxrçado : & ele fao 
-Iby é«eM Leuíào consigo, dez piãe&, & decepou os bois 
tdcMpoiât') que .entrarão pota aerra. £ posto que isto cau- 
<fon díílai^flQ' €101. k* tt bombarda , todauia foy ieuada com 
4ani4> goaisda ^ Haia jião pode mais decepar outros bois. 
£ assentado este camelo no muro^ começarSo os Imigos 
sle tírar ooel^^ & do priaieyro tiro deu em hft canto da 
lorne da menagem , & meteo por dentro bOa grade pe- 
jara & feia tremer de modo quo cayo <|uaiito estaua den- 
4ro. Eâ*je6te.teroipo.fistaua.dom.Gotefre dentro na mes- 
ma torre , mand&do assestar dous camelos pêra tirar a 
bombardeira deste dos immJgos & qnebralo, porque dou^ 
tra maneyra arrasaria a fortaleza. E eles assestados ti- 
rou ho condestabre com xuida liil & dambos os tiros er- 
rou a bombardeira, mas desapontou ho camelo de modo 
^iie ao ^seguindo iiro errou jbl torre ^ & dea pa mnraib 
iiuie oleficíbott .algBa . parte quevlogo^oy repairado tfom 
madeira : & dõ Goterre prometeo vinte pardaos ^ouro 
ao condestabre se lhe quebrasse ho camelo dos immigios^ 
A tirando ele bo: teVotôro tisq ^Jàm tírQn^hsr eõdertabre 
c5 hO' nossa camelo, i| 4>ftrette que des^aronà hfia eff 
ho dús Imígios^ & ne ár Mi toparSa os pelouros, & bo 
AOBso Jfae ieuou Jitíittisaca com qlie^Jio fez cair na praya, 
& pasisando auanÉe* entra poia bombardeira, âc poia boca 
^o camelo & espedaçou ho, & oÕ os ^pedaços matou qu»- 
iro bòbardeiros dos Imtgos, a que os nossos derâo bOa 
grande grita cõ prazer^ louuando nosso senhor. Quebra- 
•do este camelo mandou .d& Goterre assêtar hfla espera 
e» hil' outeiro- que está júto da. nossa fortaleza pêra dar 
4»ateria ao mn9o dos iosmágos com os dous camelos da 
fortaleza j de assi ho fazia , & de noyte mandava armar 
trabucos cô que dieiiaua pedras detrás do muro ondes* 
4iatrSo os ini^migos, de ique mataua muytos, .& dom Fer«- 
«ando & loc^ò gfi^aliiez varejauão de dia as suas estai»* 
<Ms, &^ dauSibe la«to trabaihò que mais se podíSe^os^ im^ 
^gOB ehaniaro^cadee ^exercaxfoies; 



t * . ^ ' 



LIVRO Hn. oamho ZXV. 61 

t 

CAPITVLO XXV. 

Do qnefimréBrmtt^à» naí$9$ n» arrm^ cfat immigoêy ^ 
deamw ho Midakúm mSéou huumtar ha cervo. 

JLâ duranéo asrii otm g^aerrm ja em Jígòêt4 ebtsgarSo a 
Ga« dnafl» oaoi. de Poriirgtil , ác «m Ma hia por capitão 
à&. fidalgo dnuDaéa Joio áãsúuma^ qvé partira de Por- 
tttgaL hu; amo pHnada por capitão mit da troa naos^ ele 
A hta^ S oatxa Francisco d» souaa mlíatas, & em oatra 
Antoaio de liaia« fi chegando a Moçambique) ácboQ ho 
mandado do foiíemador peva «e ir ajuntar ooele no ea- 
(reito« £ queredo laflo da aikmra cSprír este mSdado, 
9B pariio com o» dona capitâiea pena Quíloa , & estando 
hiJhe dea kA temporal muy ftirioso com qae a.naoDaa^ 
taoio de lima éeu á coeta & saluoeM a gente , & a c»- 
jNtaina eacapov cA €s amstos cortados ^ ^ i^e lhos nSo 
coftaxfto perderasse , &; pêra se foSo da silneira proner 
de maatoa foy necessário imiernaf em QuUoa , & ianer** 
gKm eoeio PraaciwBO de sousav B prouíde^ de mastos; nin^ 
da a aMuçSo se parti» pêra a ftidia fo-chegou a Goa 
aeale tempo da guerra, & cd sna ti nda se reformou dom 
Goterre de gftte & foaia a guerra mais áspera aos ittimi** 
goa ^ principalmente por mar com a frota de dom Fer- 
nando que nunea saya do longo de terra fazendolhes 
mnyfo mal. E bCL dia estando as fostas ao longo de ter^ 
va como costumauflo , disse faH Duarte taaares que an» 
dana aa fasta Danrrique de fouro a catres compabfaei«* 
roi^ 9 ele sabia que b«a das estancras dos fmieos tinha 
nuyto poueee (| a defbndessem que dessem nela, ft que 
M matariSb, fc tomariSo a arteibaría. E estes a ^9e ho 
disse erSo 6e;fs. s. Domfgos de seixas , Gomez rauadio, 
António ramos , EsteuSo dias , Diogo dauelesa & Anta^ 
BIO Nunez ha eaíVe daieunha : A, sendo eles sdtentes 
-sem he dizer ao idiiípilSo saltar Se em terra Mpitatoiénté 
A remetem á esfaficia que eÉtana doftonfo da ifosta 9^ 

Q 2 



:õâ X>A HI8TOAIA OA INOIA 

destauSo ale doze rumes com perto de c6 piSes canar!0| 
que vendo a\oi]8adiaí do8 íiòsaos.séirétirârSo algft tanto 
tirandolbes muytas frechadas,. & cinco dos rumes que 
virão que nSo acedia mais gètediègaranse pêra os nos- 
sos 9. qde. pòlegarâo coeles com tanto esforqo que 6 pou- 
co espa<20 os derribarão mortos. E nisto Anrrique de 
touro nSo £azia te não deaparar sua ar telharia, porque 
vendo ataUar os nossos em terra tao supitamSle , iícãdo 
aiuy saUeaiElo fez afastar a fusta pêra fora & desparar 
«sua arteihacia peca. os fauoreoer Siho mesmo fizerão os 
capitães* das outras Ajstas :. & isto estoruou que os oi^- 
tcos Imigps acodissem á estancia em que os nossos pe- 
kjauão, que despois de matarem es cinco rumes forflo 
cometer os sete que :e8tauão retirados cõ os piães que 
íbrão tão cortados de medo vSdo a determinação dm 
nossos, Q fugirão & deixarão a estãcia,. & os iieásos cop* 
4arão as. calaças aos rutaaes pêra as lettar a dÕ Goterre, 
& recolberansç á fusta sem neahfia afronta: do que çu- 
•felarim ficou muyto injuriado quando ho soube^ E con«- 
tinuando os nossos a bateria ao seu muro,, lho desfizera) 
em poucos dias, & sabendo cada dia bo Hidalcão nouas 
do que socedía no arrayal,. & quão poueo nojo çufolarim 
fazia aos nosisos, & por ser ja verão mandoulhe que^le^ 
uantasse ho cerco & se fosse» E ele ho fez , & ficando 
a ilha decercada, os Canarins que estauão nos passos se 
recolherão pêra suas casas com suas molheres & filhos 
que Unhão na cidade, & ficarão com grade credito nos 
nossos por quão bê se defSderão, & perdido todo quanto 
tinhão dates nos mQuroe por quão peuco fizerão. E le- 
uantado ho cerco veose logo^ pêra a cidade ho embaixa^ 
dor do Xeque ismael que estaua na terra firme, onde se 
foy quando come<jou ho cereo fingindo que hia visilar hfl 
seu amigo, & isto com medo de lhe parecer que por os nos- 
sos serô poucos & os mouros muytos auião de vencer: & 
também chegou dõ Aleixo de meneses quehiadeMazcar 
te, &deu noua do gouernador que ficaua em Ormuz, & foy. 
ae logo a Cochim a fazer a carga pêra as naoa de Port|>g%U 



ttvBiO mu CATvnmo xxyi. m 

C A P I T V L O XXVI. 

De como chegou á índia jáfUonio de mldanha par capi- 
tão mér de cinco nãos ^ ^ de como o gouemador ene- 
gou Dormuz f ^ do guejtz a Fernão dalcafoua. 

JL/onde este ãno de mH & quinlifitos & desassete par- 
•iio António de saldanba por capitão mór de cinco nao9, 
-eujoa capitães forSo a fora ele dom Tristão de meneses^ 
Manuel de lacerda y Pêro eosesma , & Rafael catanho , 
íl despois Dantonio de Saldanha poucos dias- partio Fei^ 
Bão dalcatjoua bii fidalgo ^ el rey mâdaua á índia pêra 
Tédor de sua fazenda isento do gouernador , porque ele 
^ ho euydado.& ocuparão da guerra não podra enten^ 
der na fazSda eomo compría a seruiijo dei rej : & Feiw 
não daloaçoua foj per oapitãa mór de tnes naoa com a 
•ua (| era dei rey, & as duas lifla de dom Nuno manuel^ 
Ic outra de Duarte tcistão hQ mercador, & esta arribon 
.ao Brasil onde innernou : & Fernão daloa<{oua dobrou cS 
ji outra ho' eabo & dobrado acheuse cò António de sa^ 
dan^ , & aáo querSdo k coele se apartou de sua oo»- 
seraa com tempo, & despois se ajuntarão em Moçambi- 
•^ue j donde forãá ter a índia & surgirão na barra de 
Goa: nã sendo ainda o gortiernador vindo Dormuz. & 
Fernão daleaqoua não quis esperar pelo gouernador (| 
lhe desse a posse de seu oflício & tomou a logo, tirando 
em Goa ho cuydado da fazenda dei rey a dom Goterre 
.que he tínba & enteniUa em tudo o- que ho feytor fasia* 
£ nisto ouu^ anlreles. aigfl escândalo , por interuirem 
mexericos que dom Groterre não fazia o Q deuia , & da-* 
quj mãdou Fernão dalcaçoua htt Fernão martiz euãgelbo 
a Diu ed fazêda dei rey pêra a v6der lá como feytor. E 
partido Fernã dalcaçpua de Goa foy êtfidendo por essas 
fortalezas no que tocaua á fazenda dei rey ate CechisK 
£ nisto chegou- ho gouernador a Goa q.ue rinha Dei^ 
jnu, & quando soube da vind^.de Fernão dalcaçoua & 



54 'S>A HISTOUA DÁ HfDTA ' 

ho officio que (razia, com que lhe tiraua a metade do 
mãdo que linha, moBtrouse disso muyto agrauado, & 
dizia pubricamente que se ele teuera parentes em Por* 
tug^al que? Fern8k> daJcaçoua nio fora á Kn4ia aquele of- 
ficio, ma& que 00 nâo tioba, & logo lhe quis roa4. £ es-» 
ses a quB^ Fernão dalcaçoua ttn^ tirado <lei»Um}«fera 
na fazSda indinauSo ho gouernador mais cõtrele, dizen- 
do que nâo era pêra ae sofrer ter ele védoo da fazêda 
que mãdasse mais que de : & aaat ha fez ho- geueros- 
dor I Q chegado a Cochio!* moatrSdoUie Fernão dalcaço- 
ua a prouisam de aeu officio , ele a^ beijou & mãdou que 
ae comprísse, mas por debaixo disso tinha raaaieyra com 
1} lhe tiraifa bo poder d usar de seu officio, & lodos ho 
ajudauâo a isso porque por amor dele queriXo mal a Fer- 
080 dalcaçoua, £c não ho via ninguém^. Do qua ele ait* 
daoa mujto acanhado & corrido, & nâo ousaua da bolír 
conaigo* £ taato. foy iato auante qae ainda qua sabia 
4)ue pêra. bo a»m aaguiate auía dir por gouerna&r da 
índia I^iego lopea de sequeira, disse- ao gouevnador Q 
se Qria tornar pêra Portugal , cò ^ ela foigaa noyto & 
4eulhe a nao & qoe^ Cora António die saldanha^ com quem 
Ibe também pesaua muyto na índia', porque leuacia a 
capitania mór do mar, & tiraua este cargo a dom Alei^- 
xo de meneses seu sobrinho, a qúè ho goueraavior bo ti-* 
Ilha dado , & isto ae dizia pubricamonte. 

CAPITVIuO XXVII. 

De como Fernão perez dandrade tomou apartíirpera a Ck^ 
na^ ^ da discrição da Chma ; ^ de seus costumes. 

Jhistando FeraAo perez dSdrade em Malaca diespois dai^ 
ribar da viagft da China, ouoe algtl escândalo antrele & 
ho capitão, porque loãnes impolim feytor de Pacem que 
se fora a Malaca pêra estar bi se arrependia & queria 
tornarse a Pacem com Fernão perez que auia dir lá car^ 
teghs para a Cbina ^ & porque bo capitão não quería> 



LIVRO ini« OAPITVLO XXVIU M 

^le fe aeoibeo por manha á nao lie Fernão perez , onde 
.bo capilSo ho quisera mandar tcoftar por força. E tendo 
.prestes pêra iaao a frota de Jtf alaca , coniieoeo a pouca 
4Pezâ€> que tinha & bo grande deaesniqo dei rey que se- 
sia, & arrependeose. E deepoís de pactiide Fernão pe- 
rez peta Pacem faieceo de doença^ & antes de seu fa- 
lecimento entregou a capitania a Nuno vaz pereira seu 
cunhado a quem tomou a menagem por ela 8l Iba fez 
•dar aos officiaes da fortaleza : do ^ António paoheco oa- 
pitSo mor do mar se agrauou muyto, dizendo que a su- 
-eessam da capitania era sua, porque quando Afonso daU 
buquerque tomou Malaca que se foy pêra a índia , dei- 
xou hd regimSto que falecendo j^uy de brito patalim que 
ficaua por capitão Ibe socedesse FeroXo perez dandrade 
que ficava por eapilfio mór do mar 9. & que na fey leria 
.estaua bii aluara dei rey. de Portugal , em que mandaua 
qae ate nio verem regimeoto seu se vsasse dos que A- 
ionso dalbut|uerqQe deixara. B som tudo isto Nuno vaz 
^o desistio da capitânia , antes prAdeo António pache- 
eo & Peto de Caria sobve suas menagCs por fazerem ban- 
lio conlrele.£ perero* António paoheco nSo se ouue por 
•preso, & estana na ilha daa nãos onde linha sua arma- 
da, 8c faziase doSte por nfto ir á fortaleza, que não que- 
ria ver Nuno vaz: com quanto ho eh mandaua visitar 
ft moetraua não ser seu immigo, se nSo que ho que fa- 
zia era por fazer juBli^« £ estando a couaa iiest-e esta- 
do 9 chegou FernSo perez de Paoem pêra ir á China , & 
nesse lempo que esteue em Malaea os quisera concer- 
tar & tfftca pode : & deiacando os assi se tornou a partk 
pêra a China no mes de hinho de mil & quinhentos & 
desassste , fc foy na nao espera que seria de duzentas 
toneladas , & em sancta Cruz Sknão dalcaqoua , & Pêro 
-soarea em sa neto Andfe, & lorg^ masearenhas em Sa^- 
etiago, & fej também coele lopge botelho em hfl jungo 
-éft mercador de Malacar ebawodo Curiâfraija, & Manuel 
4araujo em «Mrer de BufUta^ A em eiHro seu Anlonfo 
-loba faieSe, ^ -era Mki ^armeda' ée «eo^ ^elae-coM- ^u^ 



56 1>A HISTORIA HA INBIA 

partío pêra a China, cuja -costa eslá pouoo maia de quí-» 
p bentas legoas de Malaca nauegando pêra leste. He nda 
prouincia muy grade segando se diz, abastada de todos 
os géneros de mantimentos qoe se podem pedir, & as- 
si de todas as fruy tas que ha em espanba : ha nela muy- 
tas minas douro, prata & de todos os outros metaes^ 
criasse nela muyla seda & muy fina de que /azem muy^- 
los damascos, cetins, veludos, tafetás, borcado8.& bor- 
cadilhos, reubarbo, cânfora & canela muy lo fina, azour 
gue, pedrahume, porcelanas: & em tudo isto tratâooe 
mercadores chins que sam muy tos 8c muy rieos & nar 
■uegão em grandes jungos pêra fora da China, .& assi ha 
muy to almiz2|re, abar & he pouoada de muy tas & gran- 
des cidades cercadas de muros, torres .& ca u as em que 
Jia muy nobres edifícios, assi^^e /templos como de casaa 
rem que morSo aeus moradores, que todos sam gentios^ 
posto que em muy tas cousas parece que ouue CbrJslâoe 
jaaquela terra. Adorão hjtl too deos & têno por criador 
de todo míldo : Jk adora três imagBs dornSi» && tal he hfla 
4^mo a outra, & todas sam hCí homem isoo« AdorSo doas 
imagês de molheres que .cr& que sam sanctas , hiki se 
.chama NSma & têaa os mareantes por auogada, & eles: 
|)rincipalmenle lhe tem rauyta dcuaçâo, & lhe fazem 
jgrande festa, a outra se chama Conh&pui^ que dizem 
que foy 6lha da rey da China, & que se foy de casa de 
seu pay a fazer vida solitária em que acabou seus dias.: 
esta dieem que goarda a terra , tem a sua imagem hua 
pomba de bico vermelho. Tem também outras diuersaa 
imagês que adovão & todas em sumptuosos tempUs, a 
que eles chamfto varelas & sam da feyijSo que contSo os 
liistoriadores que forão as pirâmides do Egipto , & sam 
.obrados muy ricamente, & assi as suas imagSs que tem 
em altares da maneyra dos nossos. Nestas varelas mo- 
fSo frades que seruém a Deos & celebrão ao pouo os oC- 
ficios diuinos a sua maneyra, & reuestense com ornar 
mentos como quâdo antre noa os sacerdotes dizem a 
missa , ,& sam txe» & resito em htL altar por hCL liuro «n* 



LIVRO mr. cAf rrpio xxnu bj 

erlpto em Uagoagom que antrel^s be como oatrenoa bo 
latíiD, porque nfto a eniêdem todos, & destM iíaroe tem 
estes frades muytos. Nestas varelas ha dohnitoríos, eras* 
tae & outras o^oinas como nos nossos mosteiros^ & tem 
selogios de sd, & sinos de metal muyto bem feytos eom 
letras douradas , & tangSnos com martelos, & os fra<ies 
vestem Ji&as lobas compridas amarelas & andSo rapados, 
& bSo tem mais rfida qne quanta lhes he necsssaría pê- 
ra comer , & deles não comem carne nem pescado. £ 
assi como ha varelas de fsades , as ha tambcfm de frey-' 
zai ; . tem ob Chim lingoa própria , & no tÒ da íala pare^ 
cem alemSes* Sam assi homês como molherós alues & 
bem despostos, ha antreles homens letrados em diuer- 
aaa sciencias que se lem em escolas pubrícas, & de que 
se impriioã .muytos & bds liuros , & sam os Chios ho* 
mfis de singulares engenhos,, assi nas ^ artes lâbuaes co- 
mo nas macfaanicaa , porque isa òfficiaes de todos es of-- 
fieira que fazem ebras. mo jprtmaa oomei vemos nas per-* 
eelaaas^ cofres^ ncestos & outras. cousas' muyte polida» 
que vem de lá. Vsasse antsdesugeralmftte toda a poli- 
câa do inundo , & cmydão eles que a não ha em c^trá 
parte se jsák) na China, nem tem* por homsm 4io quenflò 
lie chim» Tratanse todos, muyto bem^assi to vestir co- 
mo no comer: & comem em mesas aJtas o5 toalhas ,^ 
goardanapos i& iaoas, & as ígorias apartadas em pra« 
teis, & tudo o que comem tomlo com garfo, & isto por 
limpeza.: sam geralmente homfis fracos pêra guerra, po- 
rem tem boas armas. a. corçoletes com suas peças, ter- 
qadoa de ferro. morto, alabardas, roncas^ \sn<^8 & fre* 
chás & alguas bombardas de ferro. Ha antreles ^raos de 
honrra, & segundo aam honrrados assi sia serúem : os fi* 
da^os que se cHapiâo mandarins amdfio a caoato^ & 
quando «ão polas ruas despejanlhás os Jiom&s baixos que 
estão nelas. He gente muj obediente a aeus mayares & 

Kardâo em estremo os regimentes^ de seu rey, que não 
mais que hfi em todo wy senhoria da'Cfaina^ & he M* 
dos mores príncipes que ae- sabe Jio n^^do asai de te« 

UVRO iiii. H 



sotftK^s ewíQ 4e gente ^ &.b9.geifti(»^ ohamnistt. filho dei 
deo4 Ã fl^bor do ttiyiido.: trás. bOa letra, que diz| que a 
pas bo^ fi^nhorde cima; á deu y j&.qúejiui^a a uinguem 
quifii ^ a. não aoJiaisa : Jio seruiçoida auaipessoa be. com 
cftpi^s; (001 flkujrtas molberes & múyU&kiABeebaiBi, &. 
tpd^t» :CaórSd . de ddtro de bfla ôiuy grAnde. oerca Sde el 
rey .tem os seus paços, & ali tem cadaihãa seu apou-" 
aeo^am&to, & tfi.molberes j^.as seruft & capados. Oa reya 
d4 Cbina soyão: de ser antigamente poreleyção, & de 
pouco tempo pêra ca beida ho íilbo prim^xo de qual-» 
quer de suas molberes & nâo das mancebas, oe outro», 
que não berdão estão em cidades, deputadas pêra isso 
metidos em fortalezas c& griUles gosordas & ali estão e5 
suas molberes & tè muytas mafieyras dedesenfadamen* 
tos , & nãx) saem dali. se não cobi licença dei rey & vão 
em. andas que não vem por onde vão^ El rej temjpostfr 
ley; em seu reyno. que todo bomft que for fora da China 
a outra, terra não tome á ela sopena de morte, porquo^ 
t$ qiie não ba na miuido milbor terra que a Cbina nS» 
maisr aMStáda de todas aá cousas necessárias pêra a vir 
da líumana, & quS vay a outra terra, he pêra lhe fazier- 
treição^ E os Cbinis que tratão.fora da Gmna morão na*' 
ilha da Veniaga que está dezoyto iegoas da cidade de 
Cantão principal da costa da cbina & grande porto de 
mar» El rey da Cbina não despacha nenhtla cousa da 
gouernãça de seu reyno , & pêra todas as cousas t6 oífi» 
ciaes que goueroão por ele , na justiça que be roór offi* 
cio do reyno, tS. três bpmês grades letrados que se cha- 
mão colous: & htL se chama colou grande, outro colou 
pequeno, outro mais. pe!}no: estes sam bomès velhos 
& conhecidos por muyto bõs homSs, & võ a merecer es« 
t0S cargos por letras & por bõdade, & seruS primeyro 
em outros officios mais baixos ate chegarem a ser tu- 
lítes que sam gouernadores de comarcas : & despois A^ 
cbaiicis qoe sam secretários, & dali sobem a colous qua 
he offlcio supremo; B' estes oíficios de colous vSnos a ter 
bomSs baixos , que não se olha se não que sejâo velboa 



bSs bomfis & letrados. Ha outros officios que cbainSo tu- 
tSes, & conqabfes & coMpirà :•'& esleft* toídog^tres secba- 
mSo conselho & gouernão cidades, & ho principal deles 
áe ii& lutãoi bft dé ser hottem letrado ^ Vettlo It bò ho-^ 
nem^ ho^oompim he ho MgniKlo &; ^he capitão dii {p4ier- 
ra & nâo he letrado , ho conquSo he ho teirccâro, & tS 
cargo das cousas da fazenda , & ho somenos deste con« 
flelmiu Coestes anda outro que se chama ceiut, qúé ha 
de ser letraído & conhecido per bd homem\ este despa* 
eha coon bo tutâovas ebuaás da jastlça>& tS càrgode ti^ 
fis aa inc^^figSes & 4^^^^ g^raes «qué manda a e)* 
wey. E t& graLíBea pòddi^ ^ & ha setí oficio nâo dura 
mais ]| fa&' anso^ oâ dos ccuiro&ridoiSo/por afinps. Ha ou- 
tros officios «enorÍM qne.evtw^iQiae chamA) {)uc1iaiícís,' 
amechacniy toeis, ítaos, pÍDBtque^8am almirantes Se, li-» 
cos que nio «eiibe da qne aecuiSo, & de cá(bk hQ ha três,' 
giide^ pequenof maia {lequeftOé.EèteB officiaeB todos Mi- 
dié ^ín snfkirea:«& prataém MÍn^irtfs .de pé^^t^ cadli hCT 
sefnndo-tral ho offi^ nasi^te» qktas^ihMítifias niai# ri* 
«ás ou menos & por. 6)as sàán^oophecubtf^ tensèi por hftaa 
tenoan quer Ihetf liaiíSo^diánAe emqQe^i/iãé^escdptas as 
Mrraa 'dotr oálcks^' & assi lhe .|euão<d(ãte' maças Mas 
de prata oátriíb^dMtanho aegfldo he ho ioffioie». Ho luais 
hSrrado sdbreird bé^o de^ seda amarela! dé treí todas , t& 
o mrais baiio de tafetá prelo jdedufaa três; Todofi andSd^' 
Buyto ott pkmeo acovpeinfaados de gÀicdarmaá segtldó' 
a dínidade do oficio^ fe<as8i lhe faw grades ou peQtios; 
TeeebbnBtos quando entrSo nas cidades em^^ gbuttniftó,' 
fc aasi lbe'despfl)Soi as ruas pdr onde-paèsam^ pori} ^uft-; 
do tSo por efaila leoSb difttebofnSi ^ btadSo^ lhas dM>^ 
jpejfi, & ao Oei«fl as^ despe^act^- de todo^ aèra ptretter ni«^ 

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C A P I T y L Q XXVIII. 

Dte coma Fernâa persz eJtigçu ao w^taâa ilha da venia^ 
ga^ ^ de comOiSe thc ouuera ae perder a frota. esUm^ 
do, no portoi 

ontiiuiando FernSo perea por tua viajem chegon átt 
ilfaLas 4a.ChÍQa em^ Agosto^ & bQ dia a tarde ouue vis- 
ta, delaa , & aasl de bOa armada de dcMse jdgw t^ ali an« 
daua |. & anda sempre na!|le iêfx> pesa góarda dos jun* 
gqsque vão tratar aChinat deSião^ Malaca., Patane 
& oiiJiras partes 9 i\lhe «S façSo mai. os* cossairos & la- 
droes de-Â na ChiiiHi ha.BmyioSi^assi. no Biar como na' 
t^rra; E . JPeroão. perez não Be ; solnre aalteoa coes ta firota^* 
poçqpe poloa Chi.D8.de sua oõpanhiâ sabia 4 ^ auiada-*^ 
cbar, & por ser tarde &!auer de i^auegat por anire iliias 
nâp.quís pastor au2t0'&paireUialisiQla.no7ié9 em;()»dis«í 
se a seu8 capifiSes^imâdassemilááeo prestes: soatarte* 
Iharia, & fosse a gSle apercebida pera^ pelejar se. por vftv 
tura os Chins ho- quisessem fáfeeir: .pOrftjq«e^ fossem d0 
maney^-a i}^ eles bo < não- entBdêssenl, ^^ |H>r aenhSimb* 
do físessem sinal de gueárasem^^eu recado,' &» ^ fDB9em> 
como bomSspatí&òos c6 suas nãos ;èbSdeíradás.(£ assi 
bo íiíserâo, & ao outro dia.coeieqf^rSo de nauegar leuann 
do os jQgos de Malaca no meyo, & Fernão perez faia 
diante & Simão daíeaçQua de trás , & nas ilhargas biâa 
MartiiQ guedesib Jorge Mascarenhas: & podião ir assir 
]X>v se^ ho mar brando & ho veto a popa, & nesíla ordA 
tirafcSo d^reyli&s per^ailba da Veniaga. Os Cbins. estar 
«ãOíjC^auas ganias postas» &. castelos armádosy &. paplin*^ 
dose em duas partes tomarão os nossos no meyo, À.co« 
meçarão de tirar ajgftas bftbardinhas (^ trazíão , & dado 
grades gritas chegauâse aos nossos: & vfido Q eles não- 
boNSo cõsigo n5 faziSo mbstra de quererem pelejar afãs* 
tauanse , & cd quanto os Chins isto fazíâo como os nos- 
sos disso não recebião dano deixauãse ir como quê bia 






Lit» mi* c^piTvio xxvm. et 

âe paz & hAo de guerra, & atsi forflo ate cbegarS á ilha 
da vefiiaga onde surgirão, & esta ilha está três legoas 
da^ ceala, & os Chis lhe cbamão Tamfio, & nos outro» 
da veniaga : porQ naquelas partes eha mão ao trato da; 
mercadoria veniaga : & nesia ilba se faz ho trato dai 
«D^vadoria dos mercadores es trâgevros ^ vão tratar á 
China que se apousentão em hCla grade pouoação^ br 
ba, & dali nã pode ir nenhft a algfl dos* lugares da^cos^ 
ta sem licêça do conselho de Cantão hãa cidade <| est^ 
dali dezeyto legoas, & ainda qiiãdo vão não entrão den*^ 
tro & pousam nos arrabaldes & ali faz& seus tratos; E 
pêra se isto assr fezer & armar as frotas (| andão por a"^ 
Qla parajfi, reside ho Pio, 4 ^^ como almirante de toda 
ii^ia eosta i htta vila chasoada Nantó (| está três legoas 
da veniaga, & dali faa saber ao cdselho de Catão os jil«^ 

rQ vê* & ddde sam fc 04 quorê, & Q'faz6da traaê : 
conseiiia determina o ^ se ha de fazer, & se he cou^ 
aa noua eaoread ho logp a el rej pêra Qseja auisado do 
^ pana. Chegado Fernão> perez ao perto de^ta ilba a« 
ehou hV Doaria coelho {| partira ooele a priraeyra vez ^ 
partfo da Malaca*, & inuernoa em Sião como ja disse, 
&auíaíifl mes Q chegara, & pelejou no caminho c5 trin* 
ta & três velaa^de coseairoa Q' ho teiier9a quasi rendid?> 
c& lhe HuitarA muyta' gente , & milagtosan>ente ho sal* 
«ou nosso seubor & lhe deu maneyra pêra poder fugir, 
Sl nesta peleja fez Duarte coelho fe^ahas^ se não po^ 
dê escfeuer. £ enformãdose Fernão perez desta ilha pot 
Duarte coelho 7 mandou dizer ao capitão moop da arma^ 
da doa Chioa Q^ ele era capitão mór da(|ia armada dei 
¥03^ da Portugal, ^ desejando de ter paz & amizade com 
el rey da Cbína lhe aiãdaua aeo êbairador Q ali trazia , 
& por isso nã quisera trauar eoele peleja , pedidolbe 4 
lhe desse piloto ^- ho leuasse á cidade de Cantão. Hò 
capitão mór lhe respõdeo í\' fosse moy bft vindo, & ^ po^- 
ks Chios q forão a Malaca se sabia acua dosPortogue*- 
ses: & pois vinha por amizade Q goardasse os costumes 
ém teria ^ evão fáaar saber sua vinda ao Fio de Nanió^ 



f^ VA HISTOEfA 9A ifCDU 

Sn ^ este lhe diria o ^ auia de íazer, parQ a elè nS od« 
nmha mais <) goardar ho mar. B tendo FeroSo perei ea- 
ta reposta, lae chegoa logo recado do Pio, em 4 '^ P^*^* 
fffltaua que gSte eráo, & ddde viobfto^ &:^ huaoauão. 
Feroão perez bo disse ao messegeiro, & Q poJaa obras 4 
ko goueraador Afonso dalbuquer2| fizera aos Chins ^ a* 
ehara no porto de Malaca quando a tomou poderia sa- 
ber ho desejo damizade Q el rey de Portugal tinha c& 
elrey da China & isso ho obrigara a mandarlhe seu êbai'- 
xador eõ ha presente Q lhe leuaua, pedindo mujl^lo ao 
Pio que lhe desse hil piloto Q o leuasse a Cãtâo pêra 
mãdar dali ho fibaizador 4 trazia : ao ^ ele respõdeo 4 
mãdaria recado ao cÔselho de CâtSo como era chegado, 
& segfldo a determinaçXo do cÒselho assí faria , per{| se 
nâo podia fazer doutra maneyra. E cujdando Fernáo 
perez que aquilo fosse logo , sayose pêra fora do porto 
com 08 nauios Portugueses com que determinaua de ir 
a Cantão , & deixou dentro os jungos : & estando astt 
de fora esperando por despacho^ sobreueo tamanho tem» 
porai de vSto (| se ouuerfto de perder todolos nauios cê 
darem á costa se lhe não cortarão os mastosí & assi es^ 
caparão pola misericórdia de nosso senhor , & este tem* 
poral não fez aenhil nojo aos jungos por estarê dentro 
no porto. £ ficando a nossa frota desenmasteada , qui* 
aera Fernão peres auer remédio de terra pêra a êmas«- 
tear , mas não pode porj| nunca es Chins lho quiserão 
dar : & isto porque não sabião o que ho conselho de Can* 
tão determinaria. E vendose Fernão perez sem remédio, 
remedeouse c5 bo seu,, & do masto do nauio de Mar«- 
tim guedez enmasteou ho de lorge mazcarenhaa, &con 
bo da nao de Simão dalcaçoua enmasteou ho nauio de 
Martim guédez^ & a nao de Simão dalcaçoua êmasteou 
com ho masto da sua que mandou meter no porto , on* 
de roalidoti a Simão dalcaçoua que ficasse por capitão 
mor em quanto ele bia a Cantão, pêra onde logo partio 
iodo no nauio de Mattim guedez : & ieuando em sua 
companhia lorge mazoarenbas no seu^ &.assi oi batejis 



UT10 mr. cAFivn.0 xxnr« 99 

âMBiM^damboB m nauios^ artilhados & apadeseado», 
fc partindo da ilha da T-eniaga foy^ surgir no porto de Nfl« 
tó que está na entrada de búrio de hfla legoa de largo, 
k por ele acima está a cidade de CantSo obra de vin* 
te cinco legoas de Nantó^ 

C A P I T V L O XXIX. 

De, como venio Ftmâú peresf qtie ha Pio lhe nâo qne^ 
ria dar despacho se fartío pêra Cantão y ^ do sUio 
de Cantão. 

l^urto Fernão perev ho Pio ho niandòn yisitar & lho 
mandou muyto refresco, mandandolhe dizer que nâo po^* 
dia dali passar sem recada do conselho de Cantão, & fa« 
tendo bo doutra raaneyra lhe pareceria que vinha mai» 
de guerra que de paz. £ Fernão perez lhe mãdou dizer 
pele fsytor da armada que ja lhe mandara dizer pelo seit 
nttsegeíro que a principal CMsa que mouera a el rey^ 
de Portugal seu sefior a mandalo á Ghina fora de dese^ 
jar^ amizade de' seu rey ^ & pêra se assentar ieuaua air 
M embaixador^ o que lhe parecia que nunca aueria ef- 
feyto com tamanha detenha camanha TsauSo coele , & 
porque ceela se perdia muyto do seniiço dei rey seu se^ 
nbor, lhe requeria da parte dei rey da China, & da sua 
lhe pedia muyto por mercê que lhe desse htl piloto oue 
ho leuasse a CantSo & licença pêra ir lá: & disto lhe 
mandasse logo a reposta , porque se lha não desse con- 
forme a seu requerimSto , ele passaria auãte & iria a 
CantSo como lhe el rey seu senhor mãdaua, & protes- 
tana de nãa encorrer por issoem nenhQa desobediência 
contra elrey da China nem em quebra dos costumes de 
sen reyno : &; que ele Pio ficasse obrigado a toda a per- 
da & a todo ho dãao que sobrisso recrecesse , pois não 
iaaia o que cumpria ao.seruiço dei rey da China, não 
estando ali pêra outra cousa. E mandou ao feytor que 
c5 a reposta do Pio ou sem ela tirasse hâ estormento cu- 



64 DA Hf STOSIÁ BA- W DIA * 

ja suBtancia fotfse este recado que lhe inaBdáua, .& man* 
deu ho feytor bè acompanbado de criados dei rey todoa 
veatidofl de festa ^ & diãte as suas trombetas. E ooeste 
aparate chegou ho feytor ao Pio, que ouuindo ho reca« 
do de FernSo perez & suas protestares S9 espantou de 
auer nos nossos tãta rezão , ^ ^^^íSo suas causas por tão 
boa ordê, por^ os tinha por barbares como os Chis tS a 
todas as outras nações & respondeo ao feytor que dis- 
sesse a Fernão perez que ele -lhe mandaria a seposta pet 
seu measegeijro^ $c foy que esperasse FeraSo -pérez ate 
ho outro dia que teria recado do TulSo de Gatão que 
era seu superior , que o que ele mandasse isso faria. £ 
mreoendo isto dila^S^ ^ f ernão perez mandou dizer ao 
Pio que esperaria pola reposta 'do Tu tão ate que a vica- 
ção vetasse , porque coela iria .por diante, & assi ho fes 
Sc nos bateys aue hião diãte 4los nauios J^ia ho seu pilo- 
to sondando. O que sabido pelo Pio lhe mandou hci pi*- 
loto que ho leuasse á cidade de Cantão^ que como dis» 
se he por aSle cio acima: 4)ue he ifermosa cousa de vec 
por auer nele .muytas ilhetas & delas se «cobrem dagoa 
çom preamar , & todas sam verdes & viçosas derua : & 
9eruê de p^^ccirem nelas grade multidão ^iadens & de 
patos que leuão ali em jangadas grandes £[ sam cerradas 
como casas , & tS hOa porta por onde saem as adens & 
Qs patos voando^ .& ao recolher se recolhem ao som de 
hd sino que tem cada jãgada , que conhecem tambê , 

Sue ainda que tanjão quatro sinos cada bttas acodem ao 
e sua jangada. iNa terra <le hda banda & doutra deste 
tío ha muytos lugares murados^ que tem muytas quie- 
tas , hortas, & muytos parques ^ & toda a terra muyto 
aproueilada: & por isso he muyto abastada de todolos 
maalitpentos. E junto da cidade he ho rio de largura de 
tiro de berço daltura de sete braças , ate três : <& anco- 
rão 9IÍ grandes jungos & a cidade está perto dele,À 
será de cerca algda .cousa mayor que Euora : & .tem os 
muros de largura de cinco braças, ambas as faceQ sam 
de cataria de pedra veripelha & mole^i he entulhado d? 



LlVftO IIII. CAUTVLÒ XklX. , , ** 

lerra ate bo mejo, & ameadò c8 ameas de setèírae & 
está sempre muyto Kmpo deruas por ordenança da cida- 
de. Tena este muro em roda setenta & oyto torres de 
sua altura todas entulhadas : & em cada hua está bQa 
irigia que tem hft masto aruorado pêra se poer hQa ban- 
deira no tempo, de suas festas. Tem mais esta cerca se* 
te portas : & pola largura tio muro: eada porta tem qua^ 
tro portas, hQa defronte da outra antes que chegu6 á 
derradeira. E cada portal 18 no muro hil postigo de ca- 
da ilharga : & as portas sam forradas de ferro: porS sam 
mais femoosas c| fortes. Sobrestas {)ortas ha grandes ca- 
sas de vigia: em {) cabfi quinhentos homSs, que tem ali 
euas armas defensiuas & oflensiuas : com que guardãô 
aqnelas portas tte dia & de noite, Ho muro da parte da 
cidade nSo he tambfi repairado eomo da banda de fera : 
*E'por ele ser tâo largo como digo fao entulharXo de ter- 
ra, & donde se ela tirou ficou hOa fermosacaua de grã*^ 
de altura que se enche dagoa da bida dâ rio: & não do 
sertão por4 vay por hCI alto: & nSo pode «obir ali agoa» 
Ssta caua Vè sele potes correspÔdStes A potta da cida^ 
de? & ledas sam grades & b8 obradas, & tomarão todai 
os dous terços da cidade Q nSo tfi outra fortaleza senSe 
as casas do Puchanci , !) he o Q a fi^ouerna em ausência 
do Tutâo, esias t8 aigâa apurScia de fortes: & por8 
d3o ho sam & sam térreas , porQ não ha na cidade ne- 
nMa casa 'que boneò seja (a ressãò não pude saber) ft 
sam toda» de taipa aeefeladas por fora -cÒ caí de irascas 
destras, & forradas por dentro de madeira grossa, 9t 
Jl^totadiís fármosament-é^ & todas tem oratórios com r€^ 
(auolos & ima^8d dos idobs dos Chins. Tem* todas pa- 
teoslageadés -de '^fermôsas pedras, & poços dagoa* que 
hAo be bdk , & asi mais delas tem aruores ás^portaá tj^T^ 
fazem sombras,* tem a cidade de seu muytas casas pèrd 
ee ofSciaes -que a gduernão , & sam pêra ver de feTmo4 
«as: tedas as tmisftéin poriaes -ítos cabos cfu *comèços ^ 
«lodo de arcos* 4río^pbaes^ -it sam de madeira mny*d 
bem lnuraidoâ^ ié ptfftodos & ha destes mais de q^mihen'^ 

LIVRO IlII. I 



66 - »A HISTORIA BA ÍNDIA • 

to8. Ha (aoibem nesta cidade muytaa varelas que aaqi 
as oasas dora^o dos Chins^ assi mosteiros como igrejas 
em que ba muylo singulares agoas. Tem esta cidade 
hd arrabalde de major pouoação que a cerca, & esleo^ 
desse ao longo do rio, & he muyto comprido & estrei- 
to: & assi nele como na cerca ba gente sem conto, fr- 
dalgos a que cbamão mandarins na Jingoa Chim , mei^ 
eadores & oíBciaes macanicos : & vendêse aqui cousas 
tão lindas que he cousa despanto. Por ordenança da ci*- 
dade as suas portas se fechâo em se poendo bo sol , j^ 
abrense em saindo, & isto por amor dos muytos ladrões 

3ue ali ha. E assi nisto como no mais he também regi* 
a que nâo tem enueja as milbores regidas Deuropa, & 
he ley do reyno não entrar da cerca pêra dõtro nenbiia 
pessoa estrangeira se não se for Chim , & por isso ba 
no arrabalde gente sem conto como ja disse, & no rio 
& na caua estão continuamente de úez mil paraós gran- 
des pêra cima & todos cbeos de gente & em muytos 
morão como em casas , & he de maneyra que parece 
que quasi ha tanta gente no rio como na cidade, |xirque 
tudo he cuberto dela : & não he marauilba por^ ali oto 

ha peste, nem guerra , nem fome. . . 

■ 

C A P I T O L O XXX.. 

jDe como ho capitão mór checou a Cantão, ^ de como de^ 
pois chegarão ho GÔquam^ Compita ^ ho Tutão. 

JuLo piloto ^ ho Pio mandou a Fernão pereis não ousos 
dêtrar em nenhft dos nossos nauios nem nos bateys k 
foy em hú parao seu , & seguia ho a nossa frota & po*- 
serão três dias em chegar a Cantão, porque Fernão per- 
fez surgia, de noyte. £ chegado ao porto da cidade sur^ 
gio pegado com a ponte principal, ondestaua hfi cais de 
cantaria ao nosso modo, & dali saiuou alidade com to» 
da sua artelbaf ia i têdo os nauios emban^ieirados , & a# 
estrondo da artelharia acodio ao cais toda a gentn dé 



unto iHf^ cávrrPLo xk« •? 

eMâda a fon a qoe estaua «lò rio em |)ara68 Gomô fa 
dSssa. E estando FernSo peraz aarto roandoulhe bo Pu« 
cMci gride de Cantão diaer , que m espantaua muy to 
fiado ele de pas segundo lhe tinbão dito, mostrar que 
Tinha de guerra no ^ fayía contra as leys que tinhSo que 
defendiio AenhAa pessoa natural nem estrangeira , nlo 
tirar diante daquela cidade aenbQ tiro dartelharia, nem 
aroorar bandeira nem lança ; & pois ele vinha de paa 
que aaai ho deuia de fazer. Ao que bo capitão lõór res« 
poadeo, deseulpandese de nio saber suas leys, & por is- 
ao Tsara do nosso costume que era tirar sua artelharía 
em sinal de festa & damizade , & por essa causa em bft« 
doirara sosa nãos, & não por quebrar suas leys nem^ cos-^ 
tomes, que ele aiodaria a goardar com todas suas forças 
como rassalo dei rey de Portugal muyto grande amigo 
dei rey da China , & por isso mandaua assentar coele 
paz & amizadOé B coísto ficou bo messejeiro do Pucban* 
oi satisfeyto^ & disse ao capitão mór que se nflo agas* 
taase de ho nSo despacharem logo, porque não podia ser 
mte não v\t bo Tutão que era sobre ho Puchanci & so* 
bre os outros, & este ho despacharia logo que ja erão a 
cbanraío a biia cidade vinte legoas daquela polo rio aci* 
ma como ja disse. £ também como os nossos chegarãe 
forio pregontados os ídolos dos Chins se b ião os nossos 
fior seu bem oo não, & bfls dizião que por bMs outroi 
por mal , porem que dali por diante goardassem melhor 
sua cidade, se melhor se podia goardar. E assi bo fize«' 
tfto eles, fc bo capitão mór não consentia <) nenhfl Chim 
entrasse nos nauios , nem que nenfaft dos nossos fosse a 
terra, & ho refresco que querião mãdauãno comprar aòa 
|>araos que estauâo no rio, nem menos conse^itio que 
nenbll jungo dos que entrarão despois dele surgissem 
)unto dos nossos nauios , & assi bo mãdou dizer ao Pu« 
cbanct , que foy disso contente. E assi ele como os mS,* 
éarine da cidade bo mandaeie visitar amiúde com muy* 
tos preeentee. E passados dous oo ires dias de sua cher 
grada ehegoo «Calão boConquflo grande^ que cesso dís- 

1 2 



e» JM Hf MOEU Ml INMA ^ 

86 he bfi do6 tres do conselho & da goueraafeijft htf itté- 
nor : & era capado como bo saiu o& destes cargos ^ & 
vejo polo no rouylo acompanhado, & Éayt» com grantfe 
aparalu & da hí a cinco d rãs Chegou bo Com{>im graá^ 
de, lambem pelo rio & com muyto mor aparato que* bo 
Conquão, porque também seu officio he mayor que bo 
do Conquam por ser capílSo da guerra como disse: & 
ho Gonquâo ho sayò a receber com toda a cidade» Esa». 
bendo bo capitão xaòr sua chegada ho mandou visitar^ 
com cuja visila^jâo ele mostrou que folgaua muyto, & 
afisi com ver os nossos. E respondeo ao- capitão moop 
que sua chegada íosse embora , que coroo chegasse ho 
TutSo em que estaua todo ho poder de seu despacho 
que logo seria despachado , & ele veyo seys dias des^ 
pois do Compim , a que se fez muyto mais solene rece« 
l^imento que a nenbft dos outiros. U vinha faoTutâo pe- 
lo rio abaixo em hO parao maraúilhosamente laurádo de 
jpa^janaria & cozido iodo em ouro , & toldado & emban* 
deirado de bandeiras de sedas de coores , que alem de 
ser muyto formoso era muyto rico. & .acompanhauãe 
muyta gele que vinha 6 outros paraós laurados da me^* 
ma maneyra & pitados douro & dazul^ & toldados £fi^m* 
l^ãdeirados pelo mesmo modo« JC era a gente tala que 
ho acomi|>anhaua , & a diuersidade de inslormentOB 4 
irazia, que parecia êtrar hQ grade príncipe. £ este dia 
foy embandeirada toda a cerca da cidade, assi poios mu^ 
ros como polas torres & S cada hQa estaua hu masto gros- 
so com hda verga atrauessada cd hila bandeira tamanha 
como híi papa figo de bua nao: & estas de diuersas & 
alegres cores, & todas de seda, & assi as dos muros que 
erâo muylas. Ho Côquãa, & ho Cõpi cõ todos essoutros 
oíEciaea sayrã a receber ho Tulâo acompanhados de to- 
da a genie da cidade, & todos vestidos de festa. £ em 
ele desembarcando no cães, despararão cinco camarás 
de falcão que estauâo ceuadas ))era isso^ porque ho tem 
por .grande festa.- £ sobi<io ho Tu tão em seu andor iòy 
rodeada de muyla gSle darmas ^ aalre os Chia ae ch^r 



UYKO IIU* CAPIVTLO XXXf. 6» 

iftSo Kiboós, & abalando pêra a cidade . biãò algfis destes 
bradado diante ^ despejassem as ruas Q hia jioTutâo. fi 
astfi se.faaia^À eom toda^esla solteidede chegou ás bua* 
casas onde ho. deixou a gSle que bp aeempapbaua. . 



C A P I T V L O XXXI. 

JDe coma ho cBpttâa mór m&bu recadp oõ 7W&>| ^ 
^y escrépto a ti rey de sua chegada ..E. de eQuw deir 
% arado Ao emba/ixadòr em Can fão u tomou á Uha Da-- 
' ucniaga^ 

i^abendo ho capitSo mór § bo Tutâo era findo 9 nian^ 
douibe recado pelo feytor da causa de sua vida na(|la 
lerra, & do embaixador ^ trazia perá el rey da Cbina, 
iíL.do presente qbe lhe auia 4e leuar^. pedindoibe quehò 
despachaste logo* F07 bo feytqr bem alaoiado com os ^ 
Iró.acompanbauâo que erio itíuytos criados dei rey & le<» 
aiatia diante as trombetas do capitão mór. E chegado a 
easa do Tutão que sabia' que ele hie, achou ho abompa** 
abado do Comquão & do Compim , & ho Tutâo estaua 
da mão ezquerda poF ser auido i)or lugar mais. borrado 
anlre os Chis & defronte deles estaua ho Ceiui que tir* 
ra as deuassas como ja disse.^ £ de todos bo feytor foj 
mUy bS recebido: & ouuido bo ceifado do capitão. mór , 
respoodeo logo boTulflo que sua vinda fosse mu.y lo boa, 
& qua tiuba ceela grande eÔlentamSto^ por estar enfoi^ 
mado de sua bondade & dos outros Portugueses.: & que 
el »ey seu senhor recebia muyla honrra em *se^. visitado 
de reys^ que estando no cabo dq mundo qõirião sua ã^ 
mizade : qua praaeria a Deosique seria' p«ra bê; & cõtê^ 
tamfilo de todos : & eoifitoiotitras alegres & corteses par 
lauraa, & cada hfi ,do8^4Ntítroe officiaes fee sobristo sua 
fala ao feytor ^^ piustrftdQ o. cÕtStam&Lo Q tinhao pola \ir 
da do . capKào , qiór y ^ pola amizade ^ et rey de Porlu^ 
^al {^ria cò el rey da China ^ ^ sabiSo ^ auia de folgar 
«4>eU., & ^ logo lhe e^i^eueiiã: & ale nft. veErfi-Suare^ 



ItO 1>Á Bír«TO»A BA. índia 

poeta nft poderia ho embaixador partir de Gaotáo: At 
que entre tanto lhe maiidariáo dar todo ho neceasarfo^ 
& ele & otf que ouueaaem dtr coele eooieriâo á custa dei 
rey da China ^ porque assi ho coatomaoa, & q ho n^ao'* 
dasse logo pêra terra cÕ ho presente que auia de leuar 
a el rey daChioa^ j>edindo também ao capitão mór que 
fosse a terra pêra ho verem & se alegrarfi coele. Do que 
se ^le escudou , dtaendo que nâo podia por nenbft modo 
por quanto el rey seu senhor lho defendia, que se isso 
nâafor» ele folgara mnyto de ho laz«r, & por lhe eirey 
seu senhor defender nâo podia consentir que se desse de 
comer ao embaixador á custa dei rey da China & aos 
que auião dir coele^ ^ despois de se ele partir pêra on* 
de el rey estaua êx&o fariSo o que quisessem , i mãdou 
logo ho embaixador a ien'a com ho presente {} auia de 
leuar. B este foy metido em hfla cata deputada perjiee^ 
tarem os taes presentes, & a ohaue dela se deu ao em^ 
baixad.or que auia nomç Thome pirez &> fbra boticairo 
do príncipe dd Afonso, & por eér discreto & curioso pa*> 
receo bem ao gouernador mandido coesta eitibaixàda', (| 
el rey de Portugal nSo, ho mandaua coela, antes cuy* 
dando í\ el rey da China estaua perto mandou a FernAo 
perez que man/iasse lá hi& dos seus capitães ^ ou quem 
lhe bem parecese. E ho gouernador nflo quis se n8# 
mandar este Tome pirez, que mandou com conselho doa 
fidalgos & capitães da índia, pelas causas i) digo, ft 
porque conheceria melhor que outro as drogas que auia 
fia China. £ dada a chaue da casa do presente ao em- 
baixador, forflo esoriptos os nomes daqueles que auiSo 
dir coele. B ho tutSd, ConquSo, & Compim escreuerSo 
logo a el rey da China « chegada do capitão mor, & tu*- 
do quanto fez & lhe socedeo despoie oue surgio na ilha 
da veniaga ate chegar a Cantão , & no mesmo lhe es- 
creuerão o Puchãci, Ceiui, Amechacis, Toeis, Itao Pio 
& Ticos : & htls dizião hê dos nossos , outros mal , ou- 
tros nê naal nem b§. E partidas estas cartas ho Puchieí 
por mandado do Tutão mandou apregoar na cidade qve 



todM podeMem oõprar cò os domm & venderlhe as mer- 
cadorias Q quiseasem^ & <)uft nenhil fof^e ousado de lhe 
fazer nenhum agrauo sob grauea penas ; & mandou á}- 
zw MO eapitao mór ^ue mAdaeae retado aoi iMifiíoS' qcre 
ficarão na ilha da veniaga que se viessem pêra Cantão y 

Krque ali descarregariâo,' & carregarião melhor que J4. 
} que ho capitão mór se escusou por os nauics estarS 
lá mais seguios que em Cantão. £ tambS porque se 
queria tornar pêra lá cofuo assentasse Õde auia destar 
jB terra a fas^a dei r^y , pêra que lhe Jogo foy dada 
ii&a GMa , & £oy estar nela hâ. eacriuãp da fey teria , & 
assi outros nossos pêra terê carrego da faa&enda» De 
4ue bo capitão mór mandoo leuar aJgOa, dizwdo qu^ 
como aquela fosse gastada ieuarilto outra : & soisto se 
começou, ho trato antre os Chis, & os nossos, & assi 
grande amisade j & ^leê^ hião a t^rl!a ^ aadauãp lá muy 
seguros , & tantas cousas contauão ao capitão mór da 
giàdeza & riqueza da cidade , & de sua abastan^ de 
mantimentos & nobressa de gente , Q ele a foy ver des^ 
conhecido , fc vio Q lhe diaifio verdade. £ c5 tudo C&- 
íáo era aldeã pêra outras cidades que ha pelo «ertão^ 
U vfido Fernão peres qnaato 4>ê da cidade ac: coatfttar 
não com a conuersaqfto dos Portugitesea , sf^aodpu '■ p^ 
dir liceo^ ao Tutão pefa &aef ihQa casa de pedre & 
cal na ilha DMieniaga, pêra estar nela ho ieytor dei rey 
de Portugal com- sua fasenda & a teiuesse segfira dos 
Biuyt«^ ladrdes qttb auÂa na marvfe na terra; & e Tu- 
líolbadeo»' 



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C A P I T V L O XXXÍI. 

Das armadas que ho gouemador mandou pera-f<^adã 

Indicu 

X arlidas pêra Portugal ad naós da carga ho gouernal^ 
-àot mandou dom loãò da ellueira a fazer affiizade coní 
OB reja dad ilhas de Maldhta <, & com elré^ de BeugalA 
&; deultie hfl nauio redóndo-em^quefoefie & bda galeo* 
ia de que foy por capitfíó loã<^ fidalgo capkão daorde^ 
tianqa em tempo Dalbnso dalbiiquerque, & Ml'bargan« 
tim de^ era capitão hâ Tristão barlnldo & hflQ 'caraue'- 
fa, a eujo capitão tíao soube hòn^meé B despois dá 
partida de dom loão^mãdou ho gouernador'4^ loâo gon^ 
çaluez de casteto branco por oapfiãe de^hfiaearauela, 
4 fosse correndo a costa de Cocbim ate Diu f & man^ 
doulhe que (ornasse Batícaiá, onde ^eiitaria bíí homem 
oõ bo feyjo^ pêra compilar todohò salitre' mie ouuesse^ 
assi oomo em Honor- & jMerg^u ^Sp 2) -quafquer sambai* 
CO q ftcbaste no c$minho-as6Í ooin «aittrè como ed caírô 
^ ho mandasse a Cocbiin peta lá lhe ser page, &dabi 
-se. iria a Chaul , ficsabería <io feyjor como es tau a & as^ 
aí a= tei!ra^ &'^se Ibe còa^prisse^ f star algfls di$s no' por^ 
fi^^era asisento da V^f^aque^ benesse. £ da bi se' iria 
e Diu -pêra saber lidUa><]a mér^id^i«^ dei reyse se des-* 
pacbaua & co«M^^es4aimY &q«M^1oda;a4MK) de caualoa 
que achasse fizesse arribar a Goa , metenda ^ilgfie Pof« 
tugueses em cada fada , & que achando algAa em algll 
porto, ou descarregando cauaios (| a tomasse pêra el rey 
«eu senhor, ate os mercadores serem ouuidos: & ho 
mesmo faria a qualquer nao ou zambuco Q achasse com 
especiaria, ou droga. E despoís da partida de loâo gÕ» 
çaluez foyse ho gouernador á cidade de Goa , dõde des* 
pachou a António de Saldanha pêra ho cabo de Goar-* 
dafum a fazer presas & dar vista a Adem pêra ver sua 
ilesposiijão 9 & deulbe hfta armada de ate dez velas i 



LFVRO IIII. CAPITVLO XXXII. 73 

quatro nãos grossas &tyutroB nauios, & forâo seus capfi*^ 
HeB SimSo Guedn de sousa, António ferreyra foga» 
ca, FernSo gonez de lemos, ^uno fernâdei de mace*» 
do, António de lemos & outros a que não soube os oo* 
mes. £ lambS despachou ho goueroador Manuel tle la** 
cerda pêra ir recolher algOas nãos que ficarão da sua 
armada ^ leuon ao estreito, & assi outros nauios de Por- 
tugueses que tratassem per esses lugares de -mouros flc 
fosse a Diu por Femão martiz euãgelbo , & mâdou coe- 
le a Garcia da costa irmão Dafonso lopez da t^osta , & 
ambos forão em nãos. £ chegado a Diu mandou recado 
a Metiquiaz por loAo fernandez de Santarém escriuão da 
«ua nao: -& por Mefiquiac ser muyto amigo de Manuel 
de lacerda, folgou muyto cS soa irinda: & assi lho man- 
dou díser, roandandome muyto refresco, & pedindolhe 
que não desembarcasse ate <que -ho seu pat-rão do mar Ka 
não fosse receber. E ao outro dia ho mãdou c5 muytas 
fustas todas toldadas & 'embandeiradas & artilhadas , & 
com muytos tangeres: & quando Manuel de lacerda de-* 
aembarcou , ho recebeo Méiiquiaz com muyto prazer, & 
Ibe fez niuyta festa todo aquele dia, porque de noybe 
Manuel de lacerda se recolheo á sua nao, & assi ho fez 
em bQ mes que ali est^ue , & ajuntaranse aqui muytos 
Portugueses, porQ a fora a que trazia Manuel de lacer- 
da eslaua ali loão gon<^luez de castelo branco na sua 
carauela & outros nauios. £ estado assi entrarão no por- 
to de Diu algilas das fustas de Méiiquiaz qu« vigiauão 
lio mar: & auendo vista da armada Datitonio de saldfr* 
Bha que hia pêra ho cabo de Ooardafum forão dar reca- 
do a Méiiquiaz, '& quSdo virão em Diu tãtos Portugue- 
ses , & aquela armada no mar cuydarão que era algua 
treyção pêra tomar a cidade, & ho mesmo pareceo a 
Méiiquiaz quãdo ho soube, & -por isso meteo na cidade 
mais gfite da que tinha : & esta que veyo de refresco 
dauSo muytos enoôtros aos nossos -que andauão i>a cida- 
de, & faziãibe outras sobraçarias.- E não as podendo eles 
eofrer bo disserãp a Manuel de lacerda, ^ue Jogo bo dís^ 
uvao iiiK K 



74 Bái JH$T«aiA DM ItiJHA r 

Be a Melíq4jiaz, pregulandolbe que era aquilo* £) ele lhe 
disse ^ dizendo que se não esleuera na cidade que os 
roais dos Portugueses forâo mor los. E Manuel de lacera- 
da lhe estranhou muylo cuydar ele Q per Ueií^So lhe a« 
uiâo de querer tomar a cidade , tendo amizade Sa paz; 
& disseJhe que el rey de Portugal não cosiumaua de tor 
mar as fortalezas por treição , se não por guerra quando 
se lhe não queriâo dar. E coisto se segurou Meiiquiaz 
& mandou despejar a cidade: & passado hii mes em Q 
se vendeo a fazenda que FernâQ mar4Í4nz feytorizaua^ 
quiserasse JManuel de lacerda parlic & leualo : mas de 
se escondeo por não ir coele , & diziâo que com medo 
do gouernador por estar ali da mãoi^e Fernão dalcai^ 
ua. E vendo Manuel de lacerda Q ho oào podia leuar^ 
partiose com todas as velaa que estauâo eui Diu & foy* 
ae a Cocbim ^ onde achou, ho gouernador. 

C A P I T V L O XXXIII. 

JDe como ho gouetnador foy luemar a Cochu 

XJe Goa se .partio ho gotiernacjíor pêra Cochím , ondtt 
auía dinuernar^ & hi achou grades brigas antre Afousa 
lopez da costa & Louren^^o moreno. E a causa fora por(| 
bii SOM criado sabendo que ho comprador Dafonso lopez 
tomara hu pouco de pescado a hii seu moço saltou na 
cozjnba do mesmo Afonso lopez & tomou quâto pescado 
bi achoU) pelo ^ Afonso Icipez ho foy espancar á sua ca^ 
sa: do que Lourêço moreno se ouue por muyto injurian- 
do por ser bomS honrrado , & dali por diSte andaua a- 
eompanhado de muytos homSs armados de laças & dou^ 
trás armas como que esperaua de vingar a injuria que 
dizia ter recel>ido^ & bua noyte saltou com bCl irmão 
Dafonso lopez da costa pêra ho matar: o que nào pode 
fazer. £ vendo isto algus fidalgos que estauâo em Cor 
ebim^ porque a oousa.nâo viesse a mais & se seguisse 
mài mal) pedirão a Aires da silua capitão da fortaleza 



UTMÚ IIIl*. QUPlTriiO SCtlII. Vb 

qae mandasse a Lourenço moreno que não trouuesse 
hoQ)8s arnuídot^ & quando nSo ^ufeesse se nSo trazelos 
que ho prSdesse. O que ele fez : do que LourSço more- 
AO se ouaa por muyto mcds inju<riado que^dantcs, & clie- 
gSdo ho goueroador aCoehim lhe fez queixume assiDa- 
fonso lopez como Daires da silua, & ajudou ho a isso 
Diogo pereyra àe Goehâm sen amigo muyto grande & 
(iriuado do gonernador, & ambos lhe afearSo bo caso 
^aodemente: & por isso & por ele estar algA tanto dea* 
conten te Dafonso lopez, sem^se mais enformar da cousa 
^eomo. passara, ho prendeo logo na pousada, defendendo 
á)ue não pousassem seus irmãos coele, & sem nenhOa or- 
àem de joyzo tirou a capitania a Aires da ailua & de* 
^mdouho pêra Malaca, pêra cada determinaua de man- 
dar dom Aleixo de meneses com poder de gouemador 
-pêra concertar a deferença que lá auia antre Nuno vae 
-pereyra & António' pacheco sobre a capitania da forta- 
4eEa : o que soube por Verissimo pacheco irmão Danto- 
fiio pacheco que obeg^ra então de Malaca, & lhe disae 
^ne despois da partida de Feraflo peres pêra a China., 
JVuoo vaz se concertara com António pacheco , pêra \ 
{fonernassem ambos Malaca : no 4 ^ ^'^ fiando se fofa 
pêra a fortaleza da ilha das nãos donde estaua. E dea- 
fioís dalgfis dias vindo hd dia ambos da igreja^ ho toraar- 
-rio vinte homès Q Nuno vaz pêra isso tinha & leuarfino 
 fortaleza, onde Nuno vaz be mandou metef na eouaw 
£ sabendo ele veríssimo paeheoo a prisam de seu irmão 
ae acolhnra no aauio cefieeÍQtoda que era capitão, asH 
]K>1o não prfiderem eomo pêra vir dizer ao gouernador 
«ate caso como passa ua , & pêra concertar esta defere»» 
:ça & meter de posse da capitania de Malaca a Afonso 
jopez da costa que a trouoera de Portugal, queria bo 
fouernadcxr maadM dom Aleixo. 



K 8 



76 Há: Hf 8T0AIA lU INDTA ^ 

C A P I T V L O XXXIIIL 

De como dam Aleixo de menese$ chegou a Malaca ^ a- 
chou q lhe fazia guerra el rey de BintÔo^ 

JLi presle» a armada em que auia dír partio deCoehim 
8 Abríl^ indo ele 6 Sanlíago menor ^ & Afonso lopez da 
costa na espera pe^na , & Duarte de melo \ leuaua a 
capitania mór do mar de Malaca em h& jungo : & iriâo 
nestes nauioe bê trezentos Portugueses , & muyla arte- 
}faaria & mumcjões 8& mantimêtos de que Malaca tinha 
necessidade* E vendo Aires da silua que kc mandaua 
ho gouernador nesta frota degradado s8 nenhõa caus»^ 
determinaua de ko matar ás punhaladas & irse pêra os 
mouros : & tirarãno disso Christouão de sousa, Francis- 
co de sousa tauares & Manuel de lacerda. E todauia ãr 
tes de sua partida quis perguntar ao gouernador a cau* 
•a porque ho degiadaua, & foy lho pregular indo coela 
estes três. £ o gouernador ho não quis euuir antes h^ 
Spurrou muyto rijo dizendo que se fosse. £ partido dom 
Aleixo em Abril de mil & quinhStos & dezoyto chegou 
a Malaca , onde achou que eí rey de BintSo era vindo 
ao Pago hu lugar desoyto legoas de Malaca, pelo rio at- 
eima , & tinha feyta hfla forte trSqueyra em Muar cin- 
co legoas de Malaca no mesmo rio , & tinha bi muy ta 
gente , assi na terra como no mar em lancbatas , & por 
capitão- h{| valete mouro malayo chamado c^ancotea de- 
raja: & este corria a Malaca por mar & raataualhe ot 
pescadores que andauão pescando, & assi outros nossos 
amigos q híão tratar c5 suas mercadorias : de modo que 
BJnguem ousaua de sayr fora, & não somente fazia isto 
no mar, mas também salteaua a terra muyto amiúde 
que ninguém estaua seguro. £ chegado dom Aleixo sol- 
tou António pachaco & meteo de posse da capitania da 
fortaleza Afonso Jopez da costa, & da do mar Duarte* 
é/à melo y que logo sayo ao mar com sua armada , cujoa 



LIVRO liir. CiíPlTVLO XXXV. 77 

capilAes íbrfio ele , Diogo pacbeco , Pêro de faria & aa- 
0] outros , mas nem por isso a armada dos Imigos dei^ 
xaua de correr como dates, & ouue muytos recontros 
com a oossa armada & sempre lhe fugia teuando a 
peor. £ assi andarão ate Q Fernão perez veyo da Chi- 
na, como direy a diflte quando os nossos destruyrão es- 
to tnnqaeyra de Moar. 

C A P I T V L O XXXV. 



Em que se escreuem as Uhas de Maldiua^ ^ o que ha 
nelas. E de como dom loão da siluetra assentou paz 
^ trato com el rey de JUbtldàuju 

JL artido dom loSo da sííueíra de Cocbim, seguio sua 
rota pêra as ilhas de Maldiua, Q se affirma serem ses- 
senta legoas da costa do Malabar ou pouco mais , & be 
fau grandíssimo arcepelago delas.: & dizem os mouros 
nauegantes ^ sam doze mil & eorfita & oyto , & come- 

rai» mac de monte Deli Ode estão os baiiu»8 de Pádua, 
vão por a^la sorda contra Malaca» E como disse na 
diseritíU) do Malabar , tê os mouros (|. estas ilhas forão 
terra firme, & que se fez em ilhas com bo mar Q cobria 
a terra do Malabar, & correo pêra esta & feia em ilhas, 
& ko Malabar ficou terra firme.. £ isto parece ser assi 
por quam juntas estas ilhas sam btlaseomoutras&quam 
pequenas, que andado eu antrelas ho vi: as primeyrae 
eam quatro pequenas & rasas como ho sam quasi todas, 
& hfia delas se chama Maldíua , & desta se chaniâo to- 
das em geral as ilhas de Maldiua^ & nesta ha hâ rey 8l 
em outra ilha que se chama Cãdaluz ha outro , & a es- 
tes obedece a gête das outras, de que muytas sam des^ 
Coaoadas por amor da grade multidão de mosquitos que 
a nelas. £ nas {| estão da banda do sul dizem que ha 
muy ta prata & muyto boa , & em- todas ha muytos pal- 
mares que dão coquos de cujas cascas se faz ho cayro*, 
^ue he boa mercadoria pêra leda a lndia> em Q fazeuL 



76 2M «6VORIA DA TIfMA 

doie todd a <;ordoaJlyi que «e neJu ira^U^y assi pêra haog 
& nauios eoino pêra outras eoiuas. Ha nestas ilhas muyr 
to pescado Q seco lhe cbamSo moxama Q ieuão por <ner- 
cadoria a rouytas partes , & assi hQs búzios brancos pe- 
quenos a que chamâo cauris que serufi de moeda miúda 
em Bengala , porque sam mais limpos que bo cobre de 
que a auião de fazer, que dizem que lhe cuja as mâosu 
FazSse nelas muytos & muy ricos panos douro & de se- 
da , & dalgôdZo que anlre os mouros valem muyto pêra 
seu vestir: pÕe também aqui ás toucas os melhores vi- 
gues douro & de seda 1} em outra parte do inildo, & asti 
ha muytas tartarugas cujas cÕchas sam muyto boa mer- 
cadoria pêra Cambaya. Achasse tamJbem nelas ho mais 
âmbar & ho mais íino que se acha em outra parte af- 
gQa, & diz3 os seus moradores que se faz desta maney« 
Ta. Bem dentro do arcepelago destas ilhas, nas mayores 
delas ha muytas eruas cheirosas de que se mantém hiiafl 
grandes aues que se oríSo nestas ilhas., & a que os mo- 
radores chamão anacangripasqui. EatM» aues se amei- 
joSo 8 hiias rochas questfto nas mesmas ilhas ao loogo 
do mar, & ali deitâo seu esterco que he ho âmbar: & 
he de três qualidades, ho primeyro he brSoo & este he 
muyto fino, & achasse nas mesmas rochas que fica p^ 
gado assi como as aues ho deitâo, & chamãlhe os da teiw 
ra ponáhambar, que quer dizer âmbar douro, Sl vai mais 
que todos porque se acha pouco, & com muyto mór tra- 
balho que os outros (lous que sam pardo & preto, qtie 
se fazem do branco : que estando nestas rochas que di- 
go per tempo vê a cair no mar cõ grandes tempestades 
de ventos , & caido este âmbar em grandes pedaços an- 
da no mar ate 2^ sae em aigiias prayas, & chamanlhe 
cuambar, Q quer dizer âmbar dagoa, porque por ser 
muyto lauado tem perdida grande parte da fineza , & a 
-outro chamSo manimbar, que quer dizer âmbar de pes- 
cado , & he preto : porque tem que sendo pardo foy co- 
.luido de Baleas oo doutros peixes muyto grades que ha 
antrestas ilhas ^ & nâo ho peé^ndo disistir ho tonurão a 



LIVRO IIII. CAVITVLO XXSíVU 79 

laçar asBt p#eto, & este vai pouco por ter perdida qua- 
8Í toda aua virtude. Os moradores destas ilhas polaniayor 
parte sam gentios & tem a lingoa malabar, luas em Mal- 
diuã & CaiKlaluz ha muytos mouros malabares : sam os 
moradores boniês pequenos & não preslâo pêra guerra , 
& assi tem poucas arinas. Sam geralmente grandes fei- 
ticeiros, em tanto que visiueimSte lhes vem falar os dia- 
bos: tem como disse duus reys que- tem grandes tesou- 
ros de prata & dambar.£ indo dom lofio da silueira por 
sua viagê despois de faser algQas presas em nãos de 
mouros nossos immigos foy ter á ilha de Maldiua per^i 
assentar trato com el rey, com quS se vio em terra com 
ar reféns que Jbe derão. E el tey ho recebeo com gran^ 
de festa estado acompanhado de muytos senhores seus 
!va8sa/os, & ele atauiado ao modo dos reys do malabar, 
que assi se seme em toda maneyra de seu seruiça, & 
assi tem os pa<;o8 como eles. E vendose dom loâo com 
el rey assentarão paz perpetua: & que ho gouernador 
podesse mandar assentar feytoria em sua terra,, onde 
lhe mandaria vender todo bo cairo de que teuesse ne«» 
cessidade, & assi as outras mercadorias que auia nas 
iJ/ias, onde dd João esteue eapesando a mourão pêra Bfi- 
gala , & assi ficou ate Q veo. ' 

C A P 1 T V L O XXXVl. 

De como ho capitão mór do mar jánUmio de saldanhá 
foy fazer presas ao cabo de Goardafum ^ ^ do qu4 
lá fez. 

JtjLo capitjki mór do mar António de saldanba que par-* 
tio de Goa pêra ho cabo de Goardaíum chegou a ele 
com toda sua armada em que leuaria passante de tre* 
zenlos dos nossos , & hi fez algQas presas nessas nãos 
de mouros que sayão do estreito pêra a índia a comprar 
auas mercadorias: & como ho mais do que leuão quan- 
do vão he dinheiro ^ fez ho capitão moor com os outros 



80 DA nifllTORIA DA TNDTA 

capilSefl muy ricas presas. G daqui aodâdo a vista da 
cidade Dadem foy ter ás portas do estreito com deter* 
minaçSo dêtrar nele & saber afgda noua da armada dos 
rumes, de qae todauia se tinha sospeita que auia dir á 
índia. E poendo sua det-erminaçSo em conselho com 
seus capitães , foy acordado que náo entrasse no estrei* 
to, porque se entrasse seria forçado inuernar nele por 
ser larde, & inuernando lhe morreria toda a gente: & 
por isso cessou de sua determinação & foyse inuernar.a 
Ormuz: & fazendo volta pêra isso se determinou que 
desse na cidade de Barbora que está dali a vinte cinco 
legoas tornando pêra ho cabo deGoardafum na costa ^e 
Ethiopia em onze grãos da banda do norte abastada de 
muytos mantimentos que ha na mesma terra , em que 
também -ha mujto ouro^ marfim & cera que lhe trazem 
do sertSo-: & por isso he de grande trato <, & vSo a ela 
rouytas nãos <Dadem, & do reyno de Camhaya com suas 
mercadorias, & leuão destas da terra. Seus moradores 
sam mouros & todos faláo arauia : tem rey sobre si tam- 
bém mouro, & paga parias ao preste & leuantaselbe aas 
vezes. E chegando ho capítflo mór com sua armada ao 
porto desta cidade acboua despejada de todo que os seus 
moradores fugirão com medo dos nossos sabendo que 
tornauão das portas do estreito: receado que dessem ne* 
les. E primeyro que se fossem da cidade a despejarão 
de suas fazendas : & por isso os nossos quando desem- 
barcarão , nem achar&> quem lhes resistisse , nem me^ 
nos acharão que roubar, & não teuerão mais que dar lo- 
go á cidade que ardeo toda. E isto feyto tornouse ho 
capitão mór a embarcar com sua g6te, & partiose pêra 
Ormuz onde foy ter em Mayo & hí inueruou^ & em A« 
Ifosto ne tornou pêra a índia. 



LITRO 11 II. €Af»irrLO X3KVII. 6 1 

» • 

C A P I T V L o XXXVII. 

Em que se escreue ho grande ^ nhoêtado reyno de 

Bengala. 



n 



'cm loSo da silueira (\ eataud em Maldtua esperando 
ppra ir a Bengala , parlíoae vinda a roooçãQ, & aem \he 
acdlecer coasa que 8eja de eoDtar a noue dias de Mayo 
de mil & quinhetoa & dezoyto foy surgir na eidade de 
Chelígã eidade de BSgala, que he bu reyno dos mayo- 
res &. maia ricos & abastados reynos de toda a índia. 
Tem cento & vinte legoas de costa pouco mais ou me* 
fios ao longo daquela enseada a q os Cosmógrafos eha- 
«nã aígno gSgelico por amor do tío ganges que se vajr 
ali meter no mar Indico per duas bocas, & outras tantas 
legoas tem pelo sertão ao Idgo do 'Gãges , d&a parte & 
tloutra: de modo que ocupa grande parte de terra, de 
que algua he montuosa & a outra cbaã : he geralmente 
iDuyto abastado de mantimfitos, & muyto imiis que to- 
dos os outros reynos da Fndia , assi de trigo como dar- 
roz, de gado grosso & niíudo de que ha críaçfio sem con- 
to: & assi ha miiyta caça de montaria &*dakenaria, & 
de muyto pescado & fruytas, & tudo iâo barato «qoe pa- 
rece cousa imposstuel, porque hfl boy por grade que se- 
ja nSo vai mais que duas tangias que pola nossa moeda 
sam seys vínieis, bOá dúzia de bt>as galinhas faâa tan- 
ga, hil fardo dat roz que sam tre» alqueires dee rs, & as- 
ei ho mais. Fazse em ^todo este reyno muyto & bo cai^u- 
car, & leuSno è fardos pêra outras partas » & fazense 
mujlas conseruas de gengibre, de que ha muyto & de 
froytas despínho êc doutras. Grianse também neste rey* 
no muytos caualos do tamanho de facas Dfngraterra : 
nace gerahnête por toda «esta lerra muyta pimenta lon- 
ga, & grande soma dalgodão de que se fazem muytas 
eortes de panos itouyto delgados , hfis bra^ncos Sc ouiros 
pintados , ic todo ho fiado de que ae tecem he fiado em 
uvao iiii. L 



roda. Metesse por este reyno como disse no mar ho rio 
gãges por dòus forais & dá f òí dA i do ou tio ha oyiêia 
léguas : os gSíios deste reyno tem a sua agoa por san- 
U , a rezão dÍMo nâcf a pude saber ^ vão todos a lauarse 
nele, & assi doutras parles: & he hua das grandes ro- 
marias que ha anlreles , & crera que lauandose com a 
sua agoA ficão limpos de todo* seu« pecados, em tanto 
que a el rey de NarMdga por^ não se pode lá ir lauar 
lhe traxfi cada sonana pola posta iift barril dagoa & la- 
uasae coela» Ho aaeiaiento dele não se âabe onde be : 
ettâo situadas ao longo dele dfia parte & doutra muytai 
U muy formosas i^idades^ principalmente hda que se 
chama goiiro que eatá por ele acin>a €& legoas do mar, 
& será de bS feytas quatro legoas de comprido, &c a lar* 

5 ura he pouca : he rasa porem muylo iorte ^ porque da 
iftle a cerca fao ganges^ Íl por detrás h&a aiagoa graa* 
de & Ainda que nadarão nela nãos de quatrocentos to^ 
neis ; & detraa desta aiagoa vão grandes matae em qiM 
ae crião mujtbs ali/antes^ tigres, on^s & outras alima^ 
rias brauas : & pof qae estes mataa fortalecem a cidade 
xiâo querem os reys de BSgala que se eorlem, & fior íb* 
so isam muyto bastas* Ha nelas muyios & Bobree edífi* 
cios, assi de mesquita» eocao.de caaaa de aeahores que 
andâo na eorle dei rey de Bengala, que aqui iem aea 
assento em hua sumptuoéos pa^ ^ sam taaaaabos o^mm 
a cidade Deuora, as casas aam térreas lauradas douro & 
dasul, & tea» muytos palies & jardins, & muylo abae- 
tada de mãlimetiloâ. He pouoada de mouroe & de gen^^ 
tios , & morão nela muytM estrangeiros , assi Persianoe 
como Coraçoaes, Rumes & Abexina» {[ vinda ali ter cò 
auas mercadorias se deixarão ficar vendo a grossura d^i 
terra. Os Bêgalas sam homês bê a))efisuado6, diecreloa 
& muyto falsos : as molberes sam fermosaai, & aasi hua 
como os ouiros se 4ratâ muyio limpamête eai seu vesti- 
do, & sam muyto dados a comer bem & a beber, & a 
outros vicios, & seruense nobremente, & os mais doa 
aeruidores sam capados pot amur das moltxeres de que 



Lint» inr. capittui -xskvii. B1^ 

gam muy ciosos, & pêra lhe oulharem por suas faien- 
das. Ha em Beagala outras muylas cidades, assi polo 
sertão , G0D10 ao longo do g;ançes {| aqui estreita roais 
H^iie ain oiUcas partes : & do gouno a v!te iegoaa polp 
ganges acima acaba ím> raypa de Bengaia em biia forta* 
leza chamada Gori que está da banda dalém : & di^em 
<m mosros 4 aÍBdm 4aii a cem Legoas se jaauega e^« jriflu 
Na «oala do mar nio IA mUe «eyjio mai# que dons pe^ 
tas em doas cddjides faia clia«ada Càe^tígão vinte Icgeaa 
dfta das fozM do ganges : & neste porte se eerregio & 
descarreg flo priiietpaJin£le as* meMadarias 4|ue wA dou- 
4ras partes a BSgala & de BSgula pêra obídos eefnos-: 
A B ^fiuMlega desta cidade «ISde viey to « m\ .rcy de Ben- 
gala t bo outro porto ee chaDia Sartegie na noutra fo9 do 
g<ges ojrtenta legoas por mar «de Chetíglo^ mas nSe l)p 
de Aama«lio traito >neai a sna adrande^^ nâe seode «tanto 
«asno estontna. EA mjr de Bengala lie mouro «& «emesse 
com giJUle estado & muyta pdieia^ & ppr lestado t^ tf es 
feoefos de mesicas, a do 43eu reyno, Ae iDlamnf a & 4e 
iCamlMqqk, & de todos tem lauf tos moácos, Jc teS Wl can- 
tor nnór 4 1^ doee «sil crinades 4e rendia* Das portara 
a .détro se seroe ceai «arpados <)tte por tempo (9% gr a|>- 
-éee aenbores &, geuemaderee de cidades ^ Jia fingoa ida 
-teira se ebanfio laseam^ no betaie4| ooma UielançSo 
cânfora de ber4ieo ^ de ^ vat na iadia a ctacoftta orusa- 
àoê Ao «rratel, Jc desta «eâfora que vaajr necasfio queele 
«e e sp o mm kHk eospsdor dòurô itft ík> «ea ca m are yro doili 
aiil eracados de «Ua« He mnjto naie rieo *de tesouro í( 
senba rey da índia, & «my to poderoeo >de ^ftte^ assi de 
eanito oome de pé^ & for mso Um crisede^e & f ^g^' p9- 
peas algis *reys fie «seaihoses seus aeaiahos, ^ *por ele êdt 
moúio muyUm gitios do reyiia se iteeoarfio paoaeos. 



< I 



L % 



84 . : BA HItTOSIA DA IN0tA 

C A P I T V L O XXXVIIL 

Dt coTUko d6 loôo da silueira aportou na cidade de CAe- 

tigâo y ^ do ^ lhe aconteceo. 

JL/e&pois de dom loão da silueira partir de Maldiua pê- 
ra Bengala foy aferrar sua costa a noue dias de Mayo 
de mil & quinhêtos & dezojlo, em !\ surgio na barra da 
cidade de Cbetigão: muyto abastada dagoa, tanto Q 
por cada rua corre hQ ribeiro & seruesse por pontes, ae 
casas térreas & de taipa cubertas doía» Cidade de gran- 
de trato por auer oeia muytos mercadores & todos ricos, 
& por isso se tratâo muyto b6: & he gouernada por hil 
gouernador a Q os da terra chama iascar , & he vassalo 
«dei rey de Bengala. E sabendo eJe Q o capitão mór es- 
taua na barra cõ medo de lhe fazer mal por se achar 
desapercebido pêra se defender, lhe mandou pedir pas 
cõ hil presente de refresco. Ao ^ ho capitão respõdeo ^ 
-era contente de lhe dar paz, & por estar doente se.aâo 
via logo coele pêra a assentarê do modo Q auia de ser, 
-Ç como se achasse melhor se verião & a assentartSo. £ 
sabõdo ho Lascar Q tinha eapaqo pêra se fortaleoer, for- 
taleceose logo cÕ husa tranqueira de duas faces Q n^an- 
dou fazer diante do poTto ètulhada darea, & artilhada cõ 
algilas bombardas roqueiras cÕ determinação de se de- 
fender dos oossos. E mandandolhe ho capitão mót dizer 
Q lhe mandasse vSder algiis mãtimêtos. Respondeo <| os 
não auia na terra. O ^ ele tendo amao sinal por saber 
^ toda Bengala era muyi abastada deles, nâo quia gas- 
tar mais tSpo, & mandou tomar per Tristão barbudo hfta 
champana ^ estaua surta no porto carregada darroz,^ 
era dfl Chatim da mesma cidade, & aos brados ^ derâo 
os que estauSo na champana acodio grossa gSte darmas 
da cidade á praya , & começarão de tirar frechadas aos 
nossos 4 leuauão a Ghâpana , que vSdo tanta gète jun- 
ta deteueranse tirandoíhe bombardadas. £ como se a 



LIVHO IIU. OAFIVTIX) XXXVIII. 86 

couM ani trauou mandou dom loâo em aoconro de Tri»- 
tio barbudo ho seu batel cô geote & artelbaria, & asai 
João fidalgo Da soa galeota , & cõ. sua vinda se ateou a 
peleja de maoeyra \ durou ate noyle sem dos nossos 
morrer nenbO & dos immigos muytos. Do Q bo Lascar 
ficou tâo meneocorio Q determinou de se vingar, & lo- 
go a<}ia noyte mãdou fazer prestes c6 calaluzes que ti- 
aba, & aotemanbaâ se èbarcou neies cÕ sua gSte ^ se- 
ria obra de cinco mil bomès os mais deles frecbeiros. E 
sabêdo dõ loâo bo apercebimSto dos Imigos por suas es- 
pias j apercebeose tambS pêra bo dia seguinte , & fez 
embarcar a roór parte de sua gSte nos .baleys do seu 
nauio & da carauela , & no bargantim , & na galeota : 
& mãdou a loão fidalgo ^ vindo os !migos fosse pelejar 
coeies ieuando esta gête Q serião cêlo & cincoSta bomês 
.portugueses, & ele auia de ficar no naoio & oa galeota 
pêra lhe dar costas & fazer tirar cò a artelbaria auSdo 
-disso necessidade: por(| dali Ibe auia de dar muyto mór 
ajuda (^ indo coeies á peleja* £ como os nossos estaufto 
prestes pêra receber os !migos , em os vedo abalar ja 
nienhaã clara lhe sayrão tirandolbe a galeota, & ho bar- 
gátím ^ bião diãte muytas bõbardadas, & assi a capitai- 
Ba & a carauela, & como os imigos vinbâo muyto jutos 
começSo os tiros de dar por eles & fazerlhe algfl dano 
de que eles começarão dauer medo , & mais por não Je- 
uarfi artelbaria que não tinhão outra se não a ^ ficaua 
oa tranqueira , que posto i) jugaua não fazia nenhâ no- 
jo aos nossos, Q de cada vez lho fazião mayor, arrõban- 
dolbe algfls calaluzea dos diãteiros. £ parecCdo ao Las- 
car que por esta causa os j| bião diante auerião medo 
Xdandou ca mudar pêra trás, & ele pos se na dí aleira cõ 
oa traseiros, & estes como viubão de nouo, & cõ ho Las- 
car 9 08 csfor^iua porfiarão hQ pedaço por aferrar os 
flossos, sofrendo bo Ímpeto da nossa artelbaria ^ fez ne- 
les assaz de dSno : & os. nossos ^ bS bo viâo não os dei- 
xauão aferrar , porQ, pêra quantos os Smigos erâo irlbea 
hià muyto mal. ae os abairroasaem , & por isso ba não 



B6 BA HUTOMA DA INMA 

«ootentirlD desparSdo «empre sua arleliiaria eai roda vi- 
ua : & rSpfido por antreiet nuttyUa vezes da (| lhe ar- 
rombarão muylcs calaluaea, & Ibe matarlo & ferirfio 
muyUt {pente, efi o 2} desinayarSo^ de isaneyra ^ por 
«ais <]ue ho Lascar oa eaforçaaa nOca os pode ter & 
fugirão pêra terra , & oa noaaoa oa não quiaeri seguir 
por aerft lAtoa & eles tio poucoa, & cStètaraoae eò o que 
tiiibâo fey lo & c5 lhe tomarft cinco calahiaea. E vSdo 1k> 
Laacar 4 os noaaoa ho não aeguirSo 4eÍTDuae eatar no 
xnar pêra ver o (| maia fasiio & eiea oSo (iaerlo maia t( 
tornarae pêra ho capitão mór, ^ lhe fes muyia feata por 
aua vitoria , & acrecentou ana armada cõ oa cinco caia- 
•Intea dos f mí^oa : & vSdo ele 4 <e iraiiaoa a giíerra aA 
quia eatar tão perto da cidade , reeeãdo qae ihe poaea- 
aem de noyte fogo a frota , & dístermialdo de ir pousar 
jQto dQ ilheo (} ae falia ao mar mea legoa da cida«te, 
maadou Id loSo fidalgo tia aua galeota a aondalo pêra 
ver ae tinhão bO aurgidotiro. E ho Laacar <| aioda eata- 
ua ^ae mar v8do apartar a galeota tia oatra Arota , «dea* 
poia ^![ ^f\o pêra Me Ma pareceoHie 4 ^ poderia toaiar 
fWl\ fosia caima , & aR lhe podertSo aocorrer a capitai- 
iia aC a caraiiela , & eaforçãdoae niala '& noa aeua re- 
meirea ^ remariio rijo , vMo 'Q a galeota era qaaaí pe- 
gada c5 ha ii^kee , ariAca do port^a o5 toda aua fniia at 
hoga arrãea;da^ dtdo oa aeua hàa -gfita «eS praser de ihe 
^recer 4^ tinhio a galeeta tomada* O 4 vdde lio capi- 
tão mór mldou logo ho bargtt! & ea doua bataya a ao- 
-correla, a (| oa imigoa por aerS muytoa ê demaeia aper- 
tarão tãto 1} por maia bôbardadaa aê «apmgandadaa 1^ oa 
«oaaoa tirarão «fio deixarão de «chegar á galeoita, etãoee 
aeruirã oa aK>aaoa dai^gAsa patielae de imAucto q tioM 
«aa forâo tão poucas q«e le^go ae gaataiAo*: & <oê tmh- 
gol «08 ^trarão, poalo que aobriato íey Ma «apeva peleja 
-em que oa noaaoa hoi»er8o mny eaCerçadamente, dev- 
-ribando muytoa doa Imig^oa: (| oomo -erfio demaaiada- 
«lente -maia que oa 4ieaao8 «ca ««traria feriado Joa 4odo8 
^ aMytaa fnphadafa* & lavando 4»8i ai ^peleja, Ol Mtan- 



.f 



?. 



LI VÃO mu CAPITVJLO XJiXVilU 67 

do OB ironigoB hils pelejando com os ooMoe & outros 
pegackis cõ bo leme da galeota, & atoandoa pêra a le« 
sarem á cidade^ poBlo Q os Doasos pelejauão cbega Tri»> 
iSo barbudo & os baleis & rompem pelos imigos como 
corisco, princípaIffiSle Tristão barbudo que cbegou pri* 
meyro, desparaodo sua artelharia &laoçftdoos8eusmuy- 
tas f>anelas de poluora ^ leuaufto nos calaluzes dos !mi« 
gos c|ue logo come<^So de arder, & os imigos com me- 
do se IsDijauão ao mar: & coesle ardil em muy pouco 
espaço íoj a galeota desapressada dos Imigos que a \i^ 
TÚAo cercada, & como loão fidalgo & os seus ficarão so** 
mente cõ os immigos que estauâo dentro na galeota k>« 
go os fizerão despejar^ que todos se lançarão ao mar com 
inedo, & ela fioou cfaea doutros muytos ^ os nossos ma* 
iarão : & aprouue a nosso ssnbor ^ nenhâ doe nossos 
nâo fliorreo, neai então aS despois de mujtas feridas de 
todos ficarão feridos. £ desapressada a galeota que se 
ea em corpo cd bo bargãtim & bateis desbaratarãse os 
lanigos & fugirão pêra a cidade , & passando por diãle 
óm capítaina & da catauela ibrão seruidos de muitas bõ* 
bardadas: & assi se recolberão com muytos calaluzes 
queymados & metidos no fundo & muyla gente morta 
& ferida. £ vwido bo Lascar quão pouco ganhaua na 

K erra 9 toraoo a a^ndar pedir paz ao capitão mór por 
CfaatMB de Choramaadel, promeleodolhe de Ibe eon*- 
aentir trato &a cidade, & darlbe todos os manlimfttos de 
que tettesse necessidi^e, & disto deu arrefens com que 
A pax ficou segura : & despois Q se comecpo a coauetaa*^ 
ção dos oossos com os da cidade^ íby a amizade tanta 
que fao capitão mór tornou os arreíiBs, & assi ficou ali ale 
passar bo iauerno Q ki auia de ter : roas oorao. bo Las^^ 
car era faomem de pouca fee & ebeo de trei<jãO| não du- 
rou oNíyto 4 goardar a fee Q proasetera, & kgo ^bsou a 
pas : cuidando ^ por ser tnaerno poderia tomar os nos^ 
aos, ÂL ajiltlando muyto grande fusta deu sobre os noa- 
nos ^ se defelKteràe também Q os fiserfla afiístar : &, as« 
mi se iorAoa a gossm a rcBonar, & eoue snuytas petojas 



88 BA HfSTORTÂ DA ÍNDIA 

Stre OS b06808 & os imigos, assi no mar coroo na terra^ 
fe quis nosso senhor ^ os nossos vencerão sempre. E 
vehdo dõ loão (| a guerra hia em crecimenlo, foyse do 
porto pêra a barra por tirar os nossos dopressam, & não 
se foy de todo por ser ja inuerno. E estando aqui soube 
híi dia que polo rio acima dali a hOa legoa estauão na 
borda dagoa ceKas jangadas de fogo que os immígos 
queriâto lançar pêra lhe queimarem os nauios. B porque 
isto era cousa de muyto perigo, determinou dom loâo 
de lhe atalhar com mandar queimar as jangadas onde 
estauão , & assi por conselho de todos mandou lá Tris* 
tão barbudo ^sapitão do barganlím , íj foy , & não acha- 
do nada «e tornou : & tornandose ja a vista da frota ho 
alcançarão cinco lancharas em fj hiâo trezentos frechei- 
ros. E Teceãdo dom loão que tomassem Tristão barbu- 
do ho mandou socorrer per hfl Gaspar fernãdez cauatey- 
TO fidalgo morador em Pombal , qne «nandou no seu ba- 
tel com quinze Portugueses, &o batel leuaua híl falcão. 
E como Gaspar fernandez era muyto esforçaik) fez re- 
mar ho batel tão rijo que chegou primeyro ás lancharas 
que ho bargantim , & cô a foria dos remeyros foy eti* 
uistir com hQa que hia na dianteira , & em chegando a 
ela se deitou dentro cõ «eus companheiros , posto que 
os immigos perfíarão bem cd laçadas & frechadas por 
lhes defender a entrada, mas não poderão: & em os Por* 
tugueses entrando matarão algus derles & os outros com 
medo se lançarão ao mar & saluarãse na terra que era 
perto* E sendo esta despejada tornouse Gaspar fernan- 
dez ao batel com os outros & remete a outra ianchara IS[ 
vinha parele : & porS os mouros não ousarão desperar & 
forão varar em terra dôde forão as frechadas tantas so* 
bre Gaspar Fernãdez & seus cÕpanheiros que os trata* 
rão muyto mal de feridas, & porque lhe não podião che- 
gar virarão sobre as três a que Tristão barbudo tiraua 
ás bõbardadas. E os mouros como virão que ho batel hia 
controles tendo ja desbaratadas as outras duas lancharas 
á'ugirflo ho mais qae poderão^ & Gaspar fernandez as 



, LIVRO IIII. CAPITVLO XXXIX. 89 

não seguia por estar inuylo mal ferido de hGa frechada 
em bfla perna Q não se podia ter, & assi os oulros lam-^ 
bS, de que morreo hCl filho do mesmo Gaspar fernandez^ 
que com a ajuda de nosso senhor foy o que desbaratou 
as lancharas com seus cõpanheiros , sem Tristão barbu- 
do ter que fazer , posto que sua vontade foy boa pêra 
lio ajudar. E desbaratadas as lancharas se forão pêra 
dom loSo a cuja vista se fez este feyto, & a quem Gas* 
par fernandez leuou a lãchara que tomou. E prosseguin- 
do bo inuerno por diante foy a agoa tanta que choueo ( 
que apodreceo toda a enxárcia dos nauios da armada ij 
& dom loSo com toda sua gente passou muyto má vidsq; 
assi cÕ a grade inuernada como com fome : & vendo a 
/rota sem enxárcia & que nâo podia nauegar mandou 
em hfla bidea de^-pescadores que estaua hi perto tomar 
quátas redes tinhâo, & delas mandou fazer em terra 
cordas pêra as enxárcias. E estando nisto veyo ho Las- 
car com muyta gSte pêra ho^estoruar, & ouue hua muy- 
to grande peleja antreles & os nossos. E despois dis- 
to tornou a auer paz antre ho Lascar & dom loSo , de 
^ se ele não fiou sem lhe o Lascar dar arrefSs , & S« 
tregue deles se tornou ao porto. õde ainda esteue quin«« 
se dias fazendo fazSda. 

CAPITVLO Xf XIX. 

• « 

Cbmo vido ho Lascar de Cketigáo â nâo podia tomar ho 
capitão mór lhe armou kâa treiçaoy ^ de como ho nos- 
so senhor liurou dela^ 

JCj neste tempo que era ja no cabo do inuerno lhe che« 
gou bu êbaixador c) dizia ser do sel&or da cidade Darra- 
cão, & daí sua parte lhe deu hd rubi que despois foy a- 
ualiado eln seyscêtos cruzados, & quatro paraós carre- 
gados de mantimentos , dizSdolhe da parte do senhor 
liarracão, que pola fama que tinha delrey^de Portugal 
desejaaa de ter amizade coele & que teuesse trato em: 

UVRO IIII. M 



90 X>A HISTORIA JDA ÍNDIA 

sua terra. £ sabendo ele que eslaua naquele porto, lhe 
roandaua pedir que quisesse ir ao seu, onde acharia mais 
verdadeyra amizade que naquele, [lorque a gête daque* 
la terra ondestaua era muy falsa & enganosa : & bem 
lhe pesaua das mentiras & enganos que ho Lascar de 
ChetigSo vsara coele & sabia que auia dusar se hi mais 
esteuesse, por isso que se fosse pêra a sua cidade & lá 
assentaria feytoria. £ isto tudo era mentira, que Têdo 
ho Lascar que não podia desbaratar dom loão : quis ver 
M ho podia desbaratar com este ardil que concertou coes* 
te senhor Darracão também vassalo dei rey de Bengala, 
a que se mandou queixar da de6truy<;ão que dom loâo 
fizera em Cbeiigão. £ cuydando dom loão que a embai- 
Kada era de verdade , partiose com bo embaixador que 
lhe disse Q dali a ArracSo não auia mais doyto legoas, 
que era por hu rio acima em cuja foz achou muytos ca* 
laluzes & 'lancharas que agoardauâo por ele com muy* 
(o refresco: & dos que estauão nelas foy recebido c5 
grande festa, & por dito do embaixador entrou por este 
rio acima, onde Ibe dizia que eslaua a cidade, & qoe 
poderiâo ir por ele oe seus nauios, & dez legoas por elo 
acharão hfta estacada, & ali estreitaua ho rio tanto qu# 
escassamente a capilaina podia caber: & a fora isso era 
ho aruoredo tão basto dua parle & doutra que cobria ho 
rio. Dom loão não quisi passar dali, parecendolbe que 
lhe querião f^zer treii^ão, & dissimulou com ho embai- 
xador, dizêdo que ho seu nauio não podia passar, & ^ 
ho não auia de deixar soo: j| se ho senhor Darracão ali 
quisesse vir se não () se tornaria. £ coeste recado seiby 
ho Sbaixador & não tornou mais : & vedo dõ loão Q pav- 
sauão seys dias sem tornar não esperou mais & tornou^ 
se crendo de todo í\ aquilo era treiçào , & tornandose 
achou no meyo do rio comei^adas grades estacadas q 09 
iriouros fizerão despois ^ ele passou , pêra !\ lhe tulhe^^ 
sem a passajS & lhe tomassem os nauios & ho matassem 
com quantos hião na frota: o que se fizera se não sa 
tomara tão asinha , & ele não achou niaguem nas euia^ 



1.ITBD IIII. CAPITVLO XL« 91 

eáãas por(| os ^ as íazi&o fugirSo tabddo Q se tornaua. 
£ võdo ele 'Q ná rinba bo seilor Darracão nem seu re- 
cado náo quis mais esperar & partiose pêra afilha de 
CeilSo onde sabia Q hoGouernador auia de ir fazer bua 
fortaleza. E partido leuanloaselhe lobflo fidalgo, & tor- 
Douse aa boca deste rio Darracão a fazer presas 3 nãos 
que sabia l\ auião de sair delle^ & pêra dissimular roft- 
dott bfl presente ao senhor Darracfio por dous dos nos- 
sos, odandandolbe dizer que ho capitão mór fao deitara 
ali pêra assentar paz coele por quanto não poderá espe- 
rar sua vinda por ser tarde & ter muyto (\ fazer 8 ovh 
tra parte. E vendo bo senhor Darracão os nossos que 
lhe leaarão este recado com bo presente mandou os lo- 
go matar: & ja que se não pode vingar no capitão mót 
quilo fazer 8 loão fidalgo, mãdando muytas lancharas fc 
calaluzes com gente de guerra pêra que bo tomassem , 
(\ assi bo ouuerão de fazer se nosso senhor ho não liura* 
ra milagrosamente, pelejando com os immigos quasi to- 
do ha dia em que quasi bo teuerão entrado & lhe feri» 
tBo corêta dos seos , -& não teue outro remédio se não 
úortar as amarras com que estaua surto, & com ho ven- 
to que ventaua acolheose sem os immigos ho poderem 
alcan^r, & dali se foj & andou por outras muytas par- 
tes em que Hie matarão algus homSs & catíuarào outros 
sem fazer nenh&a presa , & por derradeyro tornouse á 
índia onde ^ouernaua Diogo lopez de eequeyra que Ih^ 
perdooa« 

O A P I T V L O XL. 

De como Jorge tnaxcarenkas foy a terra dos Lequios ^ 

do que lá passou. 

JLIeâpois de Fernão pérez estar etú Cantão soube qtie 
passada a cidade de Catão bia bfla terra niuy grande 
ao sueste !) se chamaua Lequia: terra muyto ^ica dou- 
fo U 4e prata, sedas soltas & tecidas, porcelanas & con- 
tras asercadortas cemo 4ia China : & por isso fltiia li 

H 2 



92 1>A HISTORIA DA' ÍNDIA 

\ grandes noercadores. £ pêra saber ^e era assí mandou 
laa lorge roazcarenhas que foy ter a hila cidade chama- 
da Chjncheo, em que lhe pareceo que auia mais rica 
gente que em Cantão, & que vsauâo de mais policia, 
& soube que dali hiâo cadãno quatro jungos a Malaca 
anles <) fosse dei rey de Portugal carregados douro & 
de prata em barras , & c5 outras mercadorias mais ri- 
^às Q a da China, & trazião em retorno mercadorias da 
índia , & com medo dos nossos não forão laa mais : & 
dos Chins se prouião das taes mercadorias , & por isso 
cõprarão bem as que lorge mazcarenhas leuaua , & ele 
os prouocou a dizerem que hirião dali por diante a Ma- 
laca. Mas não ho fizerão despois assi , porem em quâto 
ali esteue achou muyta amizade & boa cõu^rsação na 
gente daquela terra , que he gStia & alua & toda fer- 
mosa^ & tratasse muyto bem. 

C A P I T V L O XLI. 

JDe como sabendo ho cíwitão mor Fernão perez ho aper^ 
to em que estaua Malaca se partio da ilha da ventaga^ 
^ de como chegou a Malaca. 

X^espois de partido lorge mazcarenhas pêra Lequia^ 
chegou de Malaca á ilha da veniaga ho jugo de lorge 
aluarez que deu recado ao capitão mór de como a sua 
partida chegara a Malaca dÕ Aleixo de nieneses c5 A- 
fonso lopes da costa & ao Q bia: & Q Malaca ficaua a- 
ppessada dei rey de Bintão por estar no pago & trazer 
no mar grade armada. £ por ho capitão mór saber co- 
mo ficaua Malaca, & a necessidade que tinha de socor- 
ro, determinou de se partir na entrada do mes de SetS- 
bro por ser Stão a própria moução, porque no meyo auia 
grandes temporaes & çarrações : 8& também porque a es- 
te tempo era ja chegado recado dei rey da China que 
fosse ho embaixador. Assi que por tudo isto determinou 
ho capitão de se partir pêra Malaca , pêra o que man- 



LIVRO Ilfl. CAPITVLO ZLI. 93 

dou por terra recado a lorge mazcarenhas que eslaua 
na cidade de Cbincbeo que se fosse á iiha da veniaga 
como foy: & ele vindo mandou ho capitão roór recado 
*ao Tutão de Cantão como se partia, encomêdãdoJhe 
muyto ho embaixador Q hi ficaua de caminho pêra elrey 
da China. E ficando assi assentada a paz na China, & 
sabidas polo capitão mór muy miudamente as cousas de- 
la pêra as contar a el rey de Portugal que por isso se 
deteue quatorze meses naquela terra, partiose pêra Ala-, 
laca na entrada de Setembro de dezoyto, leuando muy- 
ta Ti<|za assi douro como doutras cousas, que todos os 
da armada hião grandemente ricos. £ chegado ao estrei- 
to de Cincapura achou hi htia nao nossa de Q era capi- 
tão Diogo pacheco que dom Aleixo mandara ali darma* 
da, pêra que esperasse Fernão perez 8l se ajuntasse coe- 
le pêra ho ajudar se lhe saisse a armada dei rey de Bin- 
tão, porque se temia que viese desapercebido de gente 
& dartelharia. £ ajuntandose Fernão perez cõ Diogo pa- 
checo foyse a Malaca, onde chegou estando a fortaleza 
ê muyta necessidade , assi de mãtimentos como de di- 
nheiro & mercadorias que não auia nela cousa algua : 
& Fernão perez deu dessas mercadorias (} trazia, s. seda 
solta, damascos, cetins, pedrahume, cobre, pregadura, 
& outras cousas que em JVIalaca tinhâo muyta valia, & 
Jogo se venderão muytas delas a Guzarates, que estauão 
em suas nãos no porto de Malaca , & do dinheiro que 
derão por elas se pagou soldo á gente que coisso se re» 
mio em algua maneyra da fome ^ padecia , & dali qui- 
sera Fernão perez ir a Bègala pêra assentar lá paz & 
trato como trazia por prouisam dei rey de Portugal, vis* 
to como èm Malaca não auia necessidade dele por auer 
hi gfite que abastasse. £ não foy por dom Aleixo lho de*** 
fender por h&a prouisam do gouernador, dizêdo que era 
ícais seruiço de sua alteza irse dereyto á índia, & isto 
por ler dada aquela ida a dom loão da silueira seu sobri- 
nho que lá Iby como disse. £ sabendo Fernão perez como 
não auia dir a Bengala, entregou a mercadoria que leua« 



»4i PA HliTOKU PA índia 

ua pêra ]á na fevloría de Malaca que se vendeo aos Ben*- 
galas {) ali vinhão naquele lêpo^ & coislo ouue dinheiro 
na feyloría por hÚ8 dias, & Fernão perez esperou em 
Malaca pola mouçfio pêra se ir á índia com dom Aleixo. 

C A P I T V L O XLII. 

De como ho gouernador se partio pêra a ilha de Ceilão 
a fazer háa Jortaleza : ^ de como mouros de Calir- 
cut acôselharâo a elrey de CeUÓo que lhe não desse 
fortaleza. 

JjLo gouernador como disse inuernou em Cochim este 
anno de dezoyto, & nele fez prestes sua armada pêra 
no verão seguinte ir fazer hila forialeza á ilha de Cei* 
lâo como lhe el rey roadaua em seu regimSto : & neste 
inuerno mandou por terra ao capitão de Goa que na 6ra 
Dagosto mandasse a Cochim a seu irmio dom Fernan- 
do monrroí com as oyto fustas de Goa pêra ir coele a 
Ceilão. E tèdo tudo prestes & prouida a fortaleza de 
Cochim se partio pêra Ceilão quasi meado SetSbro» B 
apressouse (ãto a partir porque não chegasse antes de 
sua partida Diogo lopez de sequeyra que espera ua que 
fosse aquele anno por gouernador da Índia, & se fosse 
antes de sua partida ficaua ele cÒ «eu trabalho perdido* 
Assi ^ partindo como digo foy ele em hiia galé de que 
era capitão Denis fernãdea de melo: & a fora esta gate 
híâo outras quatro, de que kião por capitães Chrístou^ 
de sousa, Gaspar da silua, António de mirada dazeue^ 
do , Manuel de lacerda , Lopo de brito & dom Fernan- 
do mõrroi com suas oyto fustas ^ bião debaixo de soa 
capitania, & assi leuaua mais outros capiíãee cujos no- 
mes não pude saber nS ho numero dos nauios da arma- 
da , {^ leuaua doytocenCoa ate nouecentos bomês todoi 
Portugueses ^ não queria outros pêra a guerra. E pas- 
eados quatro ou cinco dias ^ partio de Cochim , chegOQ 
« Ceilão com toda a frota : & indo pêra tomar lio potto 



LIVHO llfl. CAPITTLO JCLII. 9& 

de G>lainbo flobreueolhe venla ponteiro, & por nfió que- 
rer pairar errou ho porto de CoIQbo & foj aferrar bo de 
Gale, Sde em outro tempo fora ter dd Lourenço dalmei- 
da como ja disse , & neste porto se deteue btl mes & 
meyo por amor do tempo que não terçaua pêra poder ir 
a Columbo, & em todos estes dias esteue sempre no mar, 
Sc doa nossos capitães sayrão muylos em terra a fazer a 
carnajem. R andado hfl dia António de miranda & Ma«- 
nuel de lacerda em terra , sobreueo muyta gente arma- 
da & comeleo os nossos que se fioserâo em soro de pe- 
lejar coeies , mas eles se retirarão logo , & os nossos se 
ajuntarão que andauão espalhados & se côcertarâo, & 
Manuel de lacerda se pos diâte, & António de miranda 
de trás , & coesta ordem se forfto êbarcar seguindo os 
immigos após eles & os nossos fazião muytas voltas pe^ 
ra os fazer deter, & assi se embarcarão sem nenhti pe« 
rigo. Desta maneyra esteue neste porto ate que concer^ 
tou ho tempo com que se foy a Columbo , & surgindo 
aqui mandon recado a el rey dizendolhe da parte delrey 
de Portugal seu senhor que pola amizade que tinbão a** 
uia dias, lhe rogaua muyto que lhe deixasse fazer bOa 
fortaleza em bOa pdta ^ tinha aquele porto, & não pêra 
niais que pêra ter segura bua feytoria que ali tinha de^ 
terminado de assentar pêra proueito dambos de dous, 
& pêra ter gente com que bo ajudasse quando teuesse 
dela necessidade , & a segurança da feytoria não a que^ 
ria dele nem de seus rassatos os Q erão gStios, que bem 
sabia qoe todos erão muyto leaes & verdadejros, se não 
por' amor dos mouros que erão immigos dos nossos, & 
como tratauão em sua terra receaua que fizessem o que 
fizerão em Caltcut: & por esta causa queria a fortaleza. 
Ao que el rey respondeo que era contente. E neste tem^ 
po estauSo em Columbo algas mouros de Calicut, & sa* 
bfido como el rey concedia a fortaleza íicarão muy agas-^ 
tados vendo que de todo lhe còrtauão as raizes nos me- 
lhores portos 4 auia na índia pêra seus tratos, por-* 
çtte \A sabiAo da fortaleza ^ se fazia em Goulfio : & po^ 



96 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

isto se ajunlarSo aigQs desses prinoipaes, & disselhe 
iifi deles» 

A amizade {| ha tâto tempo que temos couligo, & 
a grande obrigação que sabes em que te somos por boas 
obras que nos fizeste , nos da ousadia pêra te reprender 
do íi nos dizem que (Ss feyto, & pêra te aconselhar se 
ainda podes tomar conselho: porque este bem podes crer 
que to daremos bõ polas causas ^ digo. E espantamonos 
inuyto de nolo não pedires antes de conceder a fortale* 
za aos frangues que nos dizem que concedeste , o que 
fiâo podemos crer pola pouca necessidade ^ tês disso ou 
nenhQay! porque se tu foras hU reyzinbo tão pobre que 
ouueras denrriquecer com a amizade dos frangues , nos 
mesmos fôramos de parecer que os conui darás com a 
fortaleza , & não ^ esperaras que ta pedirão : mas tu es 
tão grade Benhor de terra, tão poderoso de gente, tão 
rico de tesouros que te não falta nada pêra seres biimuy* 
to grade senhor^ muyto rico & muyto noderoso. E tudo 
isto queres escurecer & apagar com dar licen<^ Q gen«* 
le estrangeira tenha fortaleza ê tua terra , que não be 
outra cousa se não htl freo pêra te enfrearem de cada 
vez que teuerem de ti desgosto, & mais os frangues de 
que temos tãta experiScia que ho fazem assi : que ja 
que se eles querS assentar em tua terra hão destar á 
tua vÕtade & não tu á sua, porque? quã ganha maia 
nisso tu ou eles: tu sem eles muyto bem [xxles vender 
tua mercadoria a tantos & tão diuersos mercadores co- 
mo ta cada dia vem buscar , & eles não te trazfi outra 
& tS necessidade da tua, nem podem viuer sem ela, & 
tu sem a sua: & ainda se de tua terra ouuera nauega* 
ção pêra outras & temeras que te tomassem tuas nãos 
cõ que eles ameação a 4nuylo5, tambS por esta causa pa* 
recera bem dare^ lhe fortaleza por te liurares de suas 
mãos, mas não tendo nenhQa necessidade por bua via 
nè por outra de te meteres nelas & fazerelo es muyto 
de culpar, & ^ di^as que tomas exemplo em el rey de 
Çalicut que lhe quis resistir & nã pode, faze tu coqm 



tiVRO IIIX« CAPITVLO Zlllf. 97 

^)e fez , porque ja pode ser que te. terce melhor a vêtu^- 
•ra que a e]e , & iendo assi ficas ho mais honrrado rej 
•de toda a índia acabando aquilo em Q niuytos princi- 
^es dela faltarão, & não sendo não serás de culpar pois 
fizeste o i) podeste : nem perdes nada, por^ tua própria 
terra te da a renda que tês, & não ho mar como a el 
rey de Calicut, & os frangues não podS viuer sem ti, 
& tanto ás de ganhar coeles por paz como por guerra ^ 
«ntes em a tentares coeles pêra te liurar de sujeição te 
^erão em melhor conta, por isso não lhe des fortaleza 
tão leuemente , & defendelhe a desembarcação, que (Ss 
gente & poder pêra isso, & nos te ajudaremos. £ se os 
frãgues querem o que ha em tua terra venhâo carregar 
a ela como fazê os outros mercadores, & não ta tomfi 
com nome de tratar nela, por!} nenhfl dos que nela tra- 
lão te pedirão nunca fortaleza. Coisto ^ os mouros dis- 
serão a el rey o persuadirão tanto que se arrep&deo de 
dar a fortaleza , & fizeranlhe quebrar a paz : & tSdo as- 
sentado de ho fazer assi andando ainda recados antrel« 
& ho gouernador pêra se assentar onde se auia de fazer 
a fortaleza , mandou lançar mão dalgiSs nossos que forâo 
a (erra dessa gente baixa, & mãdou os prender. 

C A P I T V L O XLIIÍ. 

De como ho gouernador sayo em terra ^ desbaratou os 
imtffos ^ se forialeceo nela ^ ^ de como lhe el rey per 
áio paz ^ ele começou aforUdexa. 

Mjj tãto que forão presos como el rey tinha sua genie 
junta, & tudo prestes pêra a guerra mãdou na noy te se- 
guinte fazer na ponta que ho gouernador pedia hOs va- 
lados que seruião de tranqueira, & sobreles raandoti as- 
sentar algQas bombardas de ferro que lhe derão os mou- 
Tos, & assi algas espingardões & pos sua gente que era 
muyta em goarda daqueles valos, & os mouros coeles^ 
& amanhecendo começarão de tir^r coessas bombarda/i 

LIVRO IlII. N 



98 9A SltTOftlA lU fNBIA * 

4 tinh2o aoR noMos iQ esUuáo no mar. E sabhio isto pe^ 
lo gouernador oõ oõielbo doã capUáoi & fidalgos da fro^ 
ta^ determiaou de aayr em lerra a pelejar com oa iaimí^ 

ri Si íoinarlhe a ponta por furc^, & faeer a foftahesa, 
hfi dia âtemanbafl se embarcou com ioda aua gSte noa 
baleys, & em amanhecendo abalou para terra, onde d&- 
fiembarcott primeyro que todos cÕ a bâdeira real, & des*- 
póÍ8 o9 outros capitães. Os imaígos neste tempo nâo fa* 
siSo se oâo jugar com sua aridharia, defendendose muy«- 
io rija, & ferirão & matarão dgfis dos nossos^ &Jiumde- 
ies foy Veríssimo pacheeo» E oõ tudo os nossos passa^- 
ráo auante tirando muytas espingardadas & sétadas, & 
chegarão aos valos , & pelejarão com os immigos que se 
defenderão hu pouco oõ moyta viuessa, & apertados dos 
nossos desempararâo os valos & fugirio sê nenhfl con*- 
eerto : & Christouio de sousa os seguio com a gente de 
0ua capitania ate hít ribeiro dagoa que era hQ pedaço 
dos vatos fazendo neles muyta destruyi^âo, & passando 
08 imnigos ho ribeiro fizerão rosto aos nossos, & por ser 
hú pouco longe dõde ficaua ho gouernador, náo quis 
CJiristouâo de sousa passar dali & lornouse pêra Õde ele 
íicaua. E diegaado a ele lhe disse. A senhor que trat* 
zeis aqui caualeyros que cõquistarão ho mudo. E ele 
em vez de os louuar mais, respoodeo que pelejauâo co« 
mo bestas. E por ser ja tarde & ho lugar não ser forte, 
fião pareceo ao gouernador que os nossos iicariâo ali se^ 
guros aquela noyte, & por isso se tornou á frota cd pro- 
pósito de tornar ao outro dia a terra como tornou com 
toda sua gente, & achando despejada a ponta dos im- 
fiiigos mandou &zer nela hQa trãqueira Q chegaua de 
luar a mar por eia ser estreita. E feyta a trãqueira bre* 
uemeole foy logo assentada algQa artelharia pêra a de- 
fender dos immigos se viessem ^ & os nossos se alc^arâo^ 
detrás desta tranqueira q (icauâo goardados de todo pe«- 
rígo. E sabido fjor elrey a determina<;âo do gouernador 
qiie pois fazia tranqueira determinaua de fazer por for- 
ça a fortaleza , arrepeodeose de ter tomado ito oomelho 



híUnO IIU. CAPITVLO XUIU 99 

dos mouros : & vendo que em que lhe pes se auia de fa- 
zer a fortaleza, quis mostrar Q era por soa vontade, & 
polo seu regedor mandou dizer ao gouernador í\ ele co- 
nhecia ho erro que físera em quebrar a pataura que lhe 
dera de faser paz eoele & darlbe fortaleza. E arrepSden- 
dose de seu erro lhe pedia perdão, & pedia Q lhe esque^ 
cesse ho passado & fossem amigos: & Q ele era muy 
contente de consentir que fizesse a fortaleza, & pêra is^ 
so lhe daria toda ajuda de que teuesse necessidade. Ao 
que ho gouernador reapftdeo que pois el rey lhe nlogoar* 
dará a palaura i\ lhe tinha dada que não auia de fazer 
paz coele sem pagar alg9 tributo a elrey seu eenhor, 
porque a fortaleza ele ganhara por força a terra em que 
a auia de fazer ainda que* ele não quisesse. E vendo el 
rey que ho gouernador estaoa apoderado na tei^a , b 
qoe lhe poderia fazer muy to mal por a sua g«iite náò 
ser boa de guerra , mandoulhe di^er que pagaria ho íri* 
bato se fosse cousa arrazoada &; com que podesse* B 
ele lhe pedio dez alifantes oadãno ^ &; qualvoeêtee baha« 
rea do canela, & vinte anéis c& senhaa pedras fioaa das 
^ se achauá na ilha^ do que el rey foy contente* E fey* 
ta disto hfiaeseriptura que el rey assinóii ^ come(^e« hn 
gouernador de fazer a fortaleza de pedra & barro pela 
acabar mais asinha, porque era detSça fazerse cal pa^ 
rela , se lhe bia obegãdo ho tempo em (} ee a»ia 4ir pe* 
ra Portugal sq viesse gouernador como esperaua? & pof 
ler el rey contente , k que ee lhe não leoanlasse outra 
vez mãdoulhe algfls presentes cem Q bo cSfirmou f sua 
amizade. 



• * 



N 2 



100 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

■ • 

C A P I T V L O XLIIIL 

De como Diogo lopez de sequeira partia pêra a índia 
por gouernaaor dela ^ ^ de como chegou lá* 



N, 



este ãno de mil & quinhêtos & dezojto em que se 
acabauão tres annos Q auia Q Lopo soarez gouernaua a 
índia , mãdou elrey de Portugal por gouernador dela a 
Diogo lopez de sequeira seu almotacé mór , que como 
disse no liuro seg&do fora descobrir Malaca. £ despa- 
chado de todo ho necessário pêra sua partida, partio de 
Belero a vintesete de Março do sobre dito anno leuãdo 
hAa armada de dez nãos grossas, cujos capitães forãoeie, 
Garcia de sá , Ruy de meio que ieuaua a capitania de 
Groa, dom loâo de lima que hia prouido da de Caiicut, 
dom Aires da gama irmão do conde almirAte: por capi- 
tão de Gananor Gonçalo rodriguez Dalmada , loão go* 
nnez cheira dinheiro^ Pedro paulo íilho de Bertolameu^ 
Pêro cabreira & outro, E toda esta frota bem fornida 
diirtelharia & de boa gente de peleja, porque Ieuaua ho 
gouernador por regimento ^ fizesse hua fortaleza em 
Diu, & que fosse descobrir ho porto de Maçuá & leuas- 
se lá Mateus que dizia ser embaixador do Preste; & a- 
chando que era verdade mandasse coele outro êbaixador 
ao Preste pois Duarte galuão falecera. E partido ho go- 
uernador de Belém, chegou a Moçambi(}, & aos sete de 
Setèbro á barra de Goa & sem vsar do officio de gcuer^* 
nador, se partio indo correndo essas fortalmaaem que 
tSo pouco não vsou dele, porque sabia que Lopo soarez 
tinha hua prouisam que gouernasse a Índia ate partir 
pêra Portugal, & por isso não se quis Stremeter nas cou- 
sas da gouernança nem pousar na fortaleza : o que lhe 
todos louuarâo muyto & ho teuerão por muyto humano. 



LtVRÓ irif. OAPITVLO XLV. 101 

C A P I T o L o XLV. 

De cútno Afonso lopez da eosta foy c6 o$ outros capitãeê 
pêra tomar a irctnqueira de Muar ^ Be tomou sem ho 
jazer^ ^ dú ardil com que el rey de Bintáo quisera to- 
mar Malaca. 

t^hegado Fernão peree a Malaca com sua armada , & 
não cessando a guerra que el rey de BintSo fazia aos 
nossos requereo Afonso lopez da costa a dom Aleixo que 
íinba os poderes de gcuernador, que pois ali eslauSo 
juntos tantos dos nossos que fosse sobre a tranqueira de 
JMuar & a tomasse, pêra que lançasse ei rey de Brntão 
doi>de estaua & a nossa fortaleza ficasse líure da guerra 
que ifae fazia. E dom Aleixo mostrou hfl regimento do 
gouernador em que H>e mandaua Q ele em pessoa não 
•aisse em terra a fazer guerra : porem que mandaria 
coele todos aqueles capitães que a fosse ele fazer. Pêra 
o qoe se logo aperceberão per mãdado de dom Aleixo 
que ficou em goarda da fortaleza: & Afofiso lopez da 
costa se partio pêra Muar hft dia de madrugada & hia 
em hOa galeota, & bião coele Duarte de melo capitão 
mór do mar, Diogo pacheco, Pêro de faria, Fernão pe- 
rez dandrade, Simão dalca<joua, lorge mazcarenhas & 
outros capitães em galeotas , lancharas, & em bateis to- 
dos artilhados & apadessados , & leuauão trezentos Por- 
tugueses, & antreies cento & vinte fidalgos & caaaler- 
ros todos escolbMos, & três mil homSs da terra : de que 
erão caf^tães ho BSdara & ho Lascar , & hia btia soma 
de gente pêra fazer hil honrrado feyto. E indo assi che- 
jgarfio a tiro de bombarda da fortaleza , & não poderão 
passar dali por ser baixa mar de todo. Do que todos fi- 
carão rooyto tristes por irem muylo aluoroçados pêra 
pelejareiD cÔ os tmmígfos com esperança em nosso se- 
nhor que oi desbaratarião. Afonso lopez da costa se pos 
^ «9ielhe eõ* ai^tes fidalgos & capitães & cS ho BSdara 



102 J>A HiaTOBIA 9A mMA 

& Lascar sobre o í\ faria , & disserâo algRs í\ seria bo 
desembarcar ali & ir por. terra ate a transira, & Q os ba- 
(evs fossem no mais ^ cÕ os remeíros & híí bombardeiro 
em oada bil pêra poderem ir , & assi pelejarião com os 
jmmigos: o que bo Bondara & Lascar conlradisserão , 
dizendo que aquela terra era toda alagadiça danibas as 
bandas do rio, & os Malayos coslumau^o muylp meter 
estrepes vntados derua, & que assi lhe parecia que d%- 
uia destar aquela , por isso que não era siso ir por ler^ 
ra , que ou auiâo dir abalrroar com a tranqueira ou 98 
auião de tornar. E coislo acordarão Afonso lopez & 09 
putros do conselho que esperassem a maré, & coela iríSo 
aferrar a tranqueira , & entre tanto estariao ás bombar- 
dadas com os immigos que lhe nâo auiâo de fazc^r nojo^ 
polas arrombadas que leuauSo. E assi bo fiíerio, & áa 
bombardadas começarão dOa parle & da outra, & algfta 
dos nossos forâo feridos que morrerão despoia, & anlre* 
les foy ha fidalgo chamado Aluaro de sousa, E eslanda 
Disto recreceose hQa paixão antre Afonao lopaa da coar 
ta & lorge mazcarenhas por onde se desmanchou a dcb 
terminação em que estauão , & sem fazer maia nada $9 
tornarão pêra a fortaleza , o que foy causa doa ionmigoa 
cobrarem mór coração contra 00 nossos, & os peraegui^ 
rem mais que dantes, & como a sua aroiada aodaua 
sempre no mar não ousaua ninguém de Lraner manti*» 
mentos a Malaca, pelo que veyo a s^r a fome tam^anba 
que coela & cÕ ho niuyto grade trabalho da guerra co^ 
meçarâo todos dadoecer , & nao ficarão sãos mais Qu^ 
cento & vinte , & estaua a fortaleza em grande perigQ 
de se perder se el rey de Bintão fora sobrela^ ii>a9 el« 
que ho oâo sabia, & parecendolh^. que a não podaria to^ 
mar por guerra, aproueítouse de seus ardis pêra a (oiBar 
por manha. E pêra saber que tae« estauão .09 nossos ^ 
por(} não podia tomar lingoa que lho dissesse mãiiou b^^ 
embaixador ao capitão aobre lhe çono^ter p^s^ea; & p^r^ 
mór dissimulação lhe mandou hu alifãte dfi presente ^ a 
que mandou dar peçonha d«t#r<nÍQafl«^ qp^ p8» dniMPSi 



LivM rni. <!Ai^rrrtiOitLv. 103 

mais de trinta dias , porque neste termo esperaua daca- 
bar sua treiçAo. Ê assi mandou pedir ao capitão que lhe 
mandasse seu embaixador pêra se acabarS dassentar es- 
tas pazes. £ cuydAdo dõ Aleixo 4 isto tvdo era verdade 
polas mostras Q vta de ser assi , 06 conselho de todos a- 
l)les fidalgos & capitães ^ ali estauão mfldou hQ embai- 
xador a ei' rey de Bintâo cÕ sota Cbaixador, & deulhes 
ínscrução dos capítulos das pazes. £ chegado este êbai- 
xador a ei rey de Bintio, esteue ele determinado de o 
matar & a quantos biâo coele , & teae sobrisso cfiselho 
CÕ os seus Q lhe cõselharão ^ o ná fizesse , por^ fazSdo 
o impederia dauer efleito o í\ tinha ordenado pêra tomar 
a nossa fortaleza, & por isso o nâ fez & fazSdolbe muj^ 
la borra, & dâdoibe dadiuas muy ricas os tornou a mâ- 
<dar a Malaca, cÒcedêdoihe as pazes cd quantas cõdiçdea 
o êbaixador leuaua. E cttydando el rey que os nossíus es» 
(arião descujdados, cdfiados na paz que estaua assenta- 
da pos & obra sua treição, & togo despois de poocos diaa 
que bo nosso embaixador foy em Malaca mandou htia 
frota de setenta lancharas bem fornidas de gente & dar- 
teibaria , em que bia por capitão mór bil que sendo re- 
gador de Paeem matou bo rey {) era nosso amigo & se 
fez rey , & pêra se segurar no reyno se confederou com 
el rey deBItSo, & ho foy ajudar na guerra cõtra os nos* 
0OS. £ por terra mandou tambfi el rey de Bintão muy ta 
gente deitarse em cilada sobre a fortaleza : o que pode 
fazer fmr a terra ser mnylo cuberta daruoredo muy bas* 
to , & de grades & altos beruaçais & sê nenbus cami- 
nbos<, & por isso se a gente podia esconder sem seY vis- 
ia , & ainda i\ bo fosse os da terra não ho auião de di- 
zer, porque pareeendolbe que os immigos estaufto da- 
uantajem qaerião antes seguir a sua parte que a dos 



104 i>A HISTOBIA i>A INJ^A 

C A P I T V L O XhVL 

Í>e como el rey de Bitão pos em execução hú ardil pêra 
tomar a nossa fortaleza , ^ de como os seus forão des^ 
. haraiados pelos Portugueses. 

Jl oBta esta cilada acodirâo os iromigos por tnár^ & hua 
nianbaã muylo cedo sendo baixa mar chegarão á ilha 
das nãos ondeslauão algus dos nossos, & assi nas nãos 
que ali eslauã surtas; & assi como os imigos ?inb3 af- 
iliados, de caminho desembarcarão muyíos áe\e.B na ilha: 
& supilamente derãò sobre os nossos ^ ainda dormiSo 
bS descuydados de lai vinda, por eslarS cõ6ados nas 
pazes. E como os imigos os tomarão de supito poderão 
JDatar algQs primeiro, que entrassem ê acordo de se de* 
/ender: o {j[ os Imigos não esperarão, & recolheranse Io<- 
:go. E em quanto isto fizerão bus: outros se chegarão ás 
nossas nãos & deitarão nelas fogo, que por estarS mor 
Jhadas do orualho da noite passada , & a menhaã ser 
muyto fria não pode pegar nelas mais ^ em algQas obras 
•mortas, A grita da gente foy logo ouuida na cidade ^ 
donde não poderão acodir por ser baixa mar. E como 
ouue maré sayrão algiis capitães nossos, sem ho capitão 
do niár, com obra de quarenta homSs em algiias lan^ 
charas: & foranse dereitos aos imigos, que em os vedo 
abalar começaranse de retirar pêra ho mar, como ^ fu* 
gião: & isto porj| os nossos lhes parecia ^ erão a mór 
parte dos que estauão na fortaleza : & os mais sãos, & 2| 
alargandoso eJes ao mar sayrião os da cilada, & t.oma«* 
rião a fortaleza , & eles entre t«ito tomarião a frota , & 
assi fícarião. senhores de tudo. E porem os nossos por^ 
vião que a frota dos imigos era muy grande: & que no 
mar largo os cercarião & trataria mal ,. por serem pou- 
cos, não quiserão passar auante : & tambS por ser tar- 
de, & nao terem ainda comido, & estarem fracos. E 
vendo os immigos que os não seguião íizeranse ao mar: 



LIVRO IIII. CAPltVLO ÍÍ.VI. 105 

& OS nossos se tornarão a Malaca , onde desembarcarão 
a lempo 1\ os da cilada começa uão de sayr pêra tomar 
a fortaleza, & pêra isso vinhao todos ajuramentados, per 
juramento que fizerSo a el rey de BintSo, que ou eles 
ftuião de tomar a fortaleza ou morrerem sobrisso todos, 
& pêra segurança de ho comprireno como lhe eles tinhSo 
prometido, lhe deixarão suas molheres & filhos em pe* 
nhor. E ja a este tempo os nossos erâo saydos da forta- 
leza á pouoação dos da terra ^ eslaua alem da ponte, & 
repartiranse polas bocas das ruas , em l\ mnyto de prés- 
sa assestarão algils tiros dartelharia com ^ impedirão 
aos immigos que não chegassem á fortaleza : & nisto 
chegarão os nossos que hião do mar, & ajuntaranse cof- 
ies 8c teuerão os immigos que não passassem , & ajuda* 
uãnos os da terra que se ajuntarão logo coeles , & dei- 
xaranse ali estar porque vião Q se não afaslarião os imi- 

Íos como bomSs que todauia determinauão de romper. 
l assi era , porque esperauão pbr mais gente, que che- 
gou aquela noyte cÕ muytos alifantes, & cometerão a 
nossa tranqueira que estaua daquela banda ao longo do 
mar: o que os nossos virão por fazer iQar muy claro, as- 
si os que estauão em terra como outros que andauSo«m 
bateys armados ao longo da terra. E assi hQs como ou- 
tros começarão de tirar com sua artelharia, que despa- 
rou nos alifantes que estauão diante: que espantados 
do estrôdo das bombardadns & cõ in«do delas fízerão vol- 
ta muy rijo sem os seus ayos os poderem ter : & em vol- 
tando tomarão tão de supito os que lhe ficauão detrás ^ 
derribarão muytos deles & os trilharão, & arrebentarão! 
passando por cima deles, & ficauão tantos mortos & a- 
iejjados que era pasmo, & se os nossos forão mais que 
poderão sair a eles matarão muytos sè conto, mas por 
serem poucos não quiserão que saissem , que eles bem 
se conutdauão pêra isso. E coesta perda doirarão os im- 
migos de cometer aquela vez os nossos , não porem que 
se afastassem de sua vista, & sete dias com suas noytes 
tornarão a cometer os nossos , que a tanto se estendia 

LIVRO IIII. o 



106 I>A HI8TOBIA DA ÍNDIA 

ho termo em que eles Unhão jurado a el Rey de BiotâQ 
que tomarião a nossa fortaleza, que todos quantos ali pe- 
Itjauâo tinhSu isto jurado. E os nossos ho (izerão tão es- 
forçadaoienle ajudando os nosso senhor Q aqui supria 
com sua misericórdia, que sempre os fízerSo afastar, & 
por derradeyro fugir desbaratados ficando deles muytos 
mortos, & indo muylos feridos, & dos nossos uão mor- 
jreo nenhQ» E não aproueitando nada este ardil, tornou- 
se el rey dePacem muyto triste pêra el rey de Bintào: 
E por vingança ja que não podia empecer aos nossos 
em oolra cousa mandou malar alguus que estauão tra- 
tando em Pacem , por onde se soube que ele era ieuan- 
tado. E porem ei rey de Bintão não deixou por isto de 
fazer guerra aos nossos & correrlhe cora sua frota que 
continuamente trazia por mar & daualhe assaz de fadi- 
ga, & a mór era doa mantimentos que lhes tolhia. 

C A P I T O L O XLVII. 

JDe como Duarte de melo capitão mór do mar de Mala^ 
ca foy com^ outros capitães sobre a trâqueyra de Muar 
^ a tomou. E de como dom. Aleixo mandou dom Tris* 
tão de meneses a Maluco assentar amizade com o$ 
seus reys. 

Jtlistando a cousa neste estado , deu nosso senhor ma- 
neyra aos Portugueses pêra tomarem esta tranqueira de 
Muar, de que lhe faziâo tanto dano. E assi foy que nes- 
te têpo vinha da ilha Dajaoa hQ grade senhor iao que 
coro sua molber & casa hia morar a Malaca, parecen- 
dolhe que da hi trataria melhor ^ Dajaoa, & leuaua três 
jugos carregados de fazenda & de seus escrauos, que 
erão muytos & todos casados : que assi ho costumáo na- 
quela terra como ja disse. E em indo pêra Malaca foy 
tomado da frota dei rey de Binlão & leuaràlho com sua 
molher, que por parecer bê a el rey de Bintào trabalhou 
por auer parle coela sS ho Iao ser disso sabedor, & pe* 



LÍVIO Mil. GIFITVLO XLVH. 107 

ra ficar ooela mais á sua vontade lhe deu a capUaoia 
da frola que trazia contra Malaca , dandolhe esperançi 
que ainda ho auia de deixar ir pêra Malaca com sua ca* 
sa. E cuydando ho lao que seria assi, aceitou a capita* 
ma & seruia a ho melhor ò podia pêra lhe ganhara von- 
tade que ho deixasse ir. Do j} el rey de BíntSo eslaua 
bê fora por amor de sua molher^ & dilataualhe a licSça 
de dia em dia: o que entendendo holao determinou de 
fugir pêra Malaca , & fugio hiia noyte do Pago Õdesla* 
ua com el rey de Binlão , & acolheose em hQas lancha- 
ras polo rio abaixo, & chegando á tranqueira que se fe- 
chaua de noyte com portas chamou as goardas , & no<- 
meãdose lhe abrirão, & ho deixarão ir cuydSdo que hia 
correr a Malaca como fazia outras vezes. E saido da 
tranqueira não tardou mea hora que chegarão certas 
lancharas que hião após ele por mãdado dei rey de Bin* 
tão que logo soube ^ era fugido, & por acharem que era 
ja fora da tranqueira ho não quiserão seguir , & ele não 
parou ate Malaca & foyse pêra a nossa fortaleza, &deu^ 
ee a conhecer ao capitão: dizSdolfae a causa porque hia^ 
8i contoulhe que a trãqueira não era tão forte com muy- 
ta parte da banda da terra como da banda dagoa , & 
que se a cometesse por terra a tomaria, & que ele mes- 
mo iria com a gente que fosse por terra , & que obriga- 
ua a cabeça a tomarse logo. O que foy posto em conse- 
lho , em que alg0s disserâo que aquilo parecia treiçlo 
das que el rey de Bintão costumaua, fe que se fundaria 
em mandar gente ou tela em cilada como aula pouco 
que fizera pêra tomarem a nossa fortaleza em quanto os 
^Portugueses fossem sobre a tranqueira, porque sabia que 
auião de ficar poucos , & pois eles erão tão doStes & os 
sãos tão poucos , que seria muy to grande perigo repar^ 
tiles § duas partes, ^ se não deuia dir sobre a trãquei* 
ra se nã goardarse a fortaleza delrey j) era o que mais 
importaua ate que a tranqueira se podesse tomar sem 

E erige: & outros disserâo que se aquilo fora treição 4 
o lao oão ousara de vir com aquele ardil^ porque tinha 

o 2 



los DA HISTORIA DA ÍNDIA 

certo Dialarõno lanlo Q a treiçao se eotendesse, & ihait 
estado ele em poder dos Portugueses com quõ queria ir 
ijor terra a dar na trãqueira, que de necessidade se a*» 
uia de tomar com ajuda de nosso senhor , porQ doutra 
inanejra não podiSo ser liures do trabalho ^ padeciâO) 
porque toroandoa, logo os imigos se auiâo de mudar pe** 
ra outra parte como costumauâo, & nâo iinhâo outra se 
Dão ho pago que ja era mais longe, & lhe darião me- 
nos opressam ^ & mais que )a teriSo algu fôlego primey- 
ro que os immigos lá assentassem. £ quanto ao perigo 
em que diziâo ^ ticaua a fortalesui por se a gente repar- 
tir que Hão iriào sobre a tranqueira mais de cento & vi- 
te dos nossos, & os outros ficaria: que ainda Q nâo fos- 
sem iodos sãos abastauão pêra defõder as eslâcias aos 
immigos, posto que viessem & ficaria húa lanchara es- 
quipada pêra que em vindo fossem chamar os que fos- 
sem sobre a tranqueira que |)or ser perto tornariâo lo- 
go. E praticados estes dous pareceres & bê examinados 
foj determinado que fossem sobre a tranqueira, porque 
sem a tomarem não se podião desapressar daquela guer- 
ra , & que nio fosse lá mais que Duarte de melo com 
aeus capitães que iria por mar com sessenta Portogue* 
ses, & quinhentos frecheiros Malayos, & por terra iria 
hfl fidalgo chamado Manuel falcão cõ outra tanta gète 
& iria coele bo lao, & Afonso lopez , dõ Aleixo & os 
outros que lá íorão da outra vez ficariâo è goarda da 
fortaleza com ho resto da gente. Isto assentado partiose 
Duarte de melo indo ele em hOa galé & leuaua hu ba- 
tel grande cÕ quatro falcões por bàda & hú tiro grosso 
por proa pêra aferrar a tranqueira : & assi todos os ou- 
tros capitães leuauão seus bateis & lancharas bem arti* 
Ihados & com arrombadas, & por terra foy Manuel fal- 
cão cõ a gSte que digo, & partirão véspera de todos os 
sanctos de noyte, a horas que ao outro dia pela menhaâ 
chegarão todos juntamente sobre a tranqueira, de que 
Diiarte de melo desembarcou com sua gê te obra de 
dous tiros de besta , & mandou aos bombardeiros que a 



LIVIIO llll. CAFITVLO XUVII. 109 

varejassetD dali com a artelbaria, que tâbem comei^^ou 
de tirar cõ a sua aos Poriug^ueses , que nêpor isso úei^ 
2arão de de9embarcar & ajuolarse com os ovlros Q biSo 
por terra, em que se acbacão cora miiylo Irabalbo & pe- 
rigo por eia ser Ioda alagadiça & chea destrepes, & a** 
ner muyta lama de grande cboua que fora na ooyle pas- 
sada, & ainda enião auia algua : & os nossos não linhâo 
por Õde ir se nSo por alguas veredas tão estreitas quB 
não podião ir se não a tio, & por isso se ferirão aiguii 
B08 estrepes de 2| morrerão por serem eruadoa, & atí* 
itestes roorreo bo lao que b>a. cõ Manuel falcão, que 
com quàto hií seu escrauo bo leuaua ás costas não dei- 
xou de se estrepar. Coeste tamanbo trabaifao fc perigue 
cbegarão á trãqueira roropSdo per antre mujtos pelou* 
ros Q lhe dela tiraiião , & doi^ primeyros ^ ebegarão íb^ 
rão Manuel falcão, & António lobo falcão seu ^obrinbo^ 
& Manuel falcão foy logo ferido de bQa bõbardàda Qlbe 
«spedaqou hila perna, & cayo ao pede btía palmeira qua^ 
«i morto, & 06 nossos ficarão sem capitão, porque Doar» 
te de melo-^fic^a com a sua g&ie detrás da de Manuel 
falcão ^ quando desembarcou ja bo aobou diante, & por 
ser a terra tão apertada ficou detrás, & caindo Manuel 
falcão da maneyra ^ digo, bCi loâo fernandes de Santa* 
•Tê escrioão da nao de dõ Aleixo que se ali acertou dÍ8« 
Be a Diogo pacheco j) bi estaua. Seftor pois bo capitão 
he ferido, & vedes bo perigo em que estamoa façamos 
eorpo cõuosco & day Santiago na tranqueira, porque se 
tardarmos matamos bão estes tiroa, & ele disse <Q não 
queria tomar a^le cargo pois Ibo' nã derão : porê Q des*^ 
se Sátiago & Q pelejaria como lascarim. E disSdo isto 
ajStaranee coele Manuel pacheco seu irmão, António 
lobo falcão, Diogo brandão do Porto, loão guedez de 
Sátarê, João fernandez, & todos jti tos na dianteira dá 
outra gente remeterão á tranqueira com ^ ja os nossis 
iiauioa estauão á bateria, & ooméçouse bua muyto bra* 
na & mui ferida peleja, porqife dambas as panes erãb 
OB pelouros tão bastos 4 ^^ ô^o enxergaua nada cõ bé 



110 DA HISTORIA XU ÍNDIA 

fumo da artelbaría, & as espingardadas nSo tiohSo c5» 
tO) & as frechas, assi darco como de saraualanas cobria 
ho^r, & ho chão cuberlo de sangue dos feridos. E asai 
durou a peieja b6 duas horas, por^ òs imigos defeodian*- 
-se corao homSs {| querião antes morrer ^ perder ho lar- 
gar em {| estaufto, & soubese ^ durando assi ho cÕíliLo 
da peleja, hfi yalõte mouro chamado çançarná deraja 
disse ao seu capilão ^ da outra vez ^ os nossos vierao 
sobre a tranqueira (} ele pelejara muyto valentemente , 
& !| a ele capitão se dera toda a hõrra & a eie não , 4 
ae auia de saluar 8 quãlo tinha tempo & Q ele morreria» 
£ acabado de dizer isto fugio, & parece Q adiuinbou a 
morte do capitão , |)orque em pouco espa<;o despois de 
sua fugida foy morto de hOa espingardada ^ lhe tirou 
hii dos nossos chamado Gonçalo fernandez gancho, & 
ele morto os seus se desbaratarão & fugirão, & a tran- 
queira ficou em poder dos nossos cõ grade mortindade 
dos imigos & antreJes forão mortos quasi trezentos rajas 
que sam homès <^omo antrenos cõdes ou outros senhores 
de título j} hião dar socorro a elrey de Binlão & forão 
caiiuos muytos com hu 61ào dei rey de Sião que hi es* 
taua também ajudando a el rey de Bintão. E despois 
deste ser conhecido ho mandou ho capitão a seu pay 
que mandou por isso ha jQgo carregado de mantimentos 
com que se os Portugueses restaurarão. E vendose Duar<i- 
ie de melo com aquela vitoria seguio auante com pro^ 
posito de ir ate ho Pago onde esfaua el rey de Bintãe 
qqe era dali treze legoas, & deitalo fora, & a quatro 
ou cinco legoas pelo rio acima achou ho tão entulhado 
& atrauessadas nele tantas aruores que os immigos ti- 
nhâo lançado a este frm que nunca pode passar, & por 
isso se tornou , & mandou destruyr de todo aquela for« 
taleza em que achou sessenta tiros êcepados & outras 
muyias armas. E coeste despojo & muyto grande vito^ 
ria se tornou pêra M ialaoa^ onde foy recebido com grau*- 
de solenidade. E com tudo el rey de Bintão não desis»- 
iio da guerra que fazia a Malaca, & sempre lhe corria 



Llf JK> mu CàPITTIX) XI.VIII. 1 J 1 

wa armada <|ua de cada vw era maia poderosa , & ele 
fez outra fortaleça no Pago Ôdeetaua: & dali faaião tam- 
bém por terra os aaltos que dantea fasíão.Edetpoisde»- 
ta vitoria de AAuar ja em Dezembro despachou dom A** 
leixo dom Tristão de meneses y & mâdouho a JMJaluoó 
DO nauio Santiago em que lorge maxcarenhas viera da 
China , & deulhe cartas dei rey de Portugal , & presen* 
tes pêra os reys das ilhas de Maluco que fossem seus 
amigos & lhe deixassem ter trato em suais terras f)era 
auer ho crauo que ia auia* E despachado dom Tristão 
partiose dõ Aleixo pêra a Índia em Dezembro do anno 
4e mil & quinhentos & dezoyto- 

C A P I T O L O XLVIII. 

Do que aamUceo ifm Malaca despois da partida de dom^^ 

'Meixo de nuneseê; 

Mjj coele se foy a^mayor parte da gente que estaua em 
Malaca por saberem que estaua muy escandalizado Da* 
fonso lopez da costa, que por ser de forte condi<|ão se 
aoJtara em faJar cõtreíe aljgflas cousas em sua ausência : 
o que ele sabia , & por isso lhe não deu muyto da gSte 
que se foy coele. Do (| pesou gráderoente a Afonso lo* 
pes por qu2o pouca lhe ficaua ficfldo de guerra , & era 
tão pouca ique por conto nSo chegauâo a mais de seten- 
ta Portugueses. O que logo soube el rey de fiintâo, & 
deternainqlndo de tomar a fortaleza & a nossa pouoação 
mandolTcometer pazes a Afonso lopez, & tão desapega- 
damente que se gaslarâo algfls dias sem auer eõcrasam, 
& 08 embaixadores delrey hião mnytas vezes com em* 
baixada a Afonso lopez Q de cada vez que hífio os 
luandaua saluar com a arielharia da fortaleza em que 
se gastaua muyta poluora que despois fez grande min- 
goa. E nestes dias destas embaixadas fezr el rey nil & 
setecentos homès, & por mar bua armada doy tenta & 
fiiBOo lancbacaa : & como quer que as embaixadas an- 



llt DA HISTORIA DA ÍNDIA 

dauâo gobre pazes parecia a Afonso lopez que a cousa 
estaua segura. E esperatido bu dia polo embaixador dél 
Tey de BinUo pêra se tomar concrusain nas pazes, ex 
{[aparece na própria manhaS a armada que digo cõ qui- 
nhentos homSs que derão logo no porto & poserão fogo 
a duas nãos de mercadores que hi estauâo & a hiia galé 
flossa desemmasteada sem lhe os nossos poderem acodir 
por ser a maré vazia & sem ela não poderem nadar os 
nossos nauios pêra irem ao porto. E estando os nossos 
da banda do mar ouuirSo hQa grSde grita no sertão da 
parte da nossa pouoação Q está junto da fortaleza. E es^ 
ta grita dáuSio mil & .duzentos -dos immigos que hião 
por terra cometer a cidade com muytos alifantes arma- 
dos: & repartidos em duas partes ^auia de cometer hQa 
a pouoação grande & outra a pequena que era a nossa, 
com que Afonso lopez ficou muy abastado por os nossos 
serõ tão poucos como disse: & por isso & por não saber 
se os da terra lhe terião ordenada algua treição não ou* 
saua de sayr da fortaleza em pessoa pêra pelejar coro os 
immigos que não lhe faJecia esfor^ pêra isso : posto (| 
os seus erão poucos. E com tildo por mostrar aos immi- 
gos que os não temia, & que ho soubesse também a 
gente da terra, mandou a hCl Fernão de lemos que com 
dez dos nossos se fosse á entrada da ponte & acodisse á 
pouoação grade, & a hfl Prãcisco foga<;a mandou que 
acodisse com doze pela parte da nossa pouoação , & assi 
bQs como os outros cÕ quanto virão a demasiada auan- 
tajem que lhe os immigos tinhão determinarão de pele- 
jar coeles esperado que Afonso lopez os socorresse , & 
esperãnos com muyta ousadia, ajudando os tambfi a 
gente da terra que logo acodirão ho BSdará & ho Las- 
car oÔ seus piães , & os imigos se forão emburilhar coe- 
les ás frechadas & azagayadas , & começouse hQa pele- 
ja muy trauada. E vendo Afonso lopez como a gSte da 
terra era em ajuda dos nossos acodiolhe com a gente 
que lhe íicaua leuando diante dous berços encarretados 
Gom que fizerão muy to grande dano nos immigos , ma* 



LIVRO IIIK CAPITVLO XLVIII. 113 

lAiiâo moylos por andarem juntos , & coíiso ós fizerâo 
afafflar: & os nossos também se retirarão obra dil tiro 
cie pedra pêra a fortaleza» E como neste tempo come- 
çou dencher a maré, mandou Afonso lopez a Duarte 
de melo capitão mor do mar que acodisse ao porto, & 
apagasse ho fogo 2} andaua ateado nas nãos, & deulbe 
I rio ta homSs que se repartirão por cinco lancharas & 
bu bragantim , hd batel grande de que erão capitães a 
íbra Duarte de melo, Francisco fogaça, dom Rodrigo 
da situa , Diogo mendez , Fernão figueira, Carlos caruar 
lho, & Grauiel gago, & cÕ tão pequena armada pêra ca- 
manha era a dos imraigos com a esperãça em nosso se- 
xihor se forão chegando a eles dado ^andes gritas de 
prazer por parecer que os não temião. E chegando a ti- 
ro de berço começa de desparar a artelbaria dii cabo & 
do outro, & acertou quedem a lanchara de Grauiel ga- 
go tirado a primeyra boro bardada se lhe acèdeo fogo na 
poluora com que abrío a lanchara & se foy supitamenté 
ao fundo, & quantos ãdauão nela dos nossos se afoga- 
rão por estarem armados. E durado a peleja foy morto 
Diogo mendez capitão doutra lanchara de hua bòmbar- 
dada que lhe leuou a cabeça, & por derradeyro os no»* 
SOS ho fizerão tão esforçadamente que deitarão os immi^ 
gos fora do porto, matando algQs. E desacupado ho por- 
to apagarão ho fogo que ándàua nas nãos & na galee. 
£ assi acabou a peleja daquele dia no mar & na terra; 
& com quanto os imroigos se retirarão não se íbrão de 
lodo , por(} era sua determinação de tomar a fortaleza , 
& posto que pola primeyra não ieuassem ho melhor dos 
nossos n8 por isso cessara de sua empresa, por^ como 
erão muytos & os nossos poucos parecialhes Q os vence- 
rião por derradeyro, & que por poucos que matassem 
os eosecarião. E por isso os da terra assêtarão suas es- 
tãcias hQ pedaço da cidade onde se recolherão , & os 
do mar surgirão jQto de hiia ilha perto do porto a cuja 
sombra esteuerão : & como foy menhaã tornarão a co- 
meter os nossos por mar & por terra, & pelejarão coeles 
LiVEO iin. p 



114 9M HI6TOKIA 9A ÍNDIA 

Mie 9é dez horaa do dia que se recelherSo a miae ertan-f 
cias i & tornará a pdejar da véspera aie a noyte. £ ia^ 
(o íizerão dezaeete dias continos eili que derão mujlo 
graode opreasam & (rabanho aoa nossos, q n]ilagrosaiii6« 
te saiuou nosso seftor de serem todoe tomados segundo 
arídauâo cansados , & feridoe & desueiados de oáo dor-» 
mir, porc} vigiauão oÕ medo qae os imigos os náo lo* 
Biassem, & de que sempfe leuarâo a vitoria pola pieda^ 
de de nosso senhor^ E cuydando os innnigos do mar j) 
acabo de tanto tempo nflo estariSo os da nos6a armada 
pêra lhe resistir , os quiser&o afórrar ^ & acharão ne4eg 
tâo poderoea resistficia como se aquele fora ho primejro 
dia da peleja: & por isso nã qiiiiieráo mais brigas coe* 
les,. & Aigirâo que não tornarão mais, & bo mesmo 6* 
serão os da lerra ^ de que morrerão nestes dias muytos , 
% dos do diar acharão por conia que íbrão ikizentos, & 
quinze (} acharão soterrados na ilha em que se acoihiào, 
& doe nossos não morrerão mais de quinze fi todas ea^ 
tat pelejas. E com quanto el rey de Bintão soube quão 
pcruco nojo 08 seus hzerão aos nossos nà desistio da gner* 
ra y fc foyse assentar em- hii lagar ^ se chamaua Pago 
donde a fazia de cada vez mayor assi |ior mar como pof 
terra. 

jíqui faíg fm ho quarto liuro da historia da índia. E 
$egMse ho quinto no tempo q a gauemou Diogo Icpez dê 
iêfueirà. 



'c«í)ee)()€e)e)c>ee€ee)€€e)e<<i(i(99933^ac)^^ 

JLIVRO ÔVJNTO 
a A 

fflSTORIA DO DESCOBRTMEJNTO 

B 

CONQVISTA DA índia 

PJSL06 PORTVGVESES 

JVo tempo que a goneraoii Diogo lopèe de sequeira por *im»- 
dgkdo do iúuicimímo rey dom Munuel dm gloríoea mitma^ 
ria* 

Fíf^o per Ftmím kp€M de caãtanheéLat. 

CAPITOLO I. 

Jhi.camo Jj^p^tmoÊm^afUÊ^egou et tffmemamçm 'dm Jnâimm 
.Diogp kpet dcHqwura ^ ee.pBnth pêra Parimged. 

jLV)eiorin^4a a M^nade Sbre ho gpeuer nadar Lofioisoa» 
4reE & eJ Fey- de GeiJSo deaeOMbaroou jba gooernador Jg 
^rpouseirtome ttoi Lbfia If dft ide d«nliie da nonaie tranqueis 
^ra^ & tôdo quairi.acabaída a/ertek^a qttB:aeria oa.fifli 
4e NoeeDbra^ ehegiou dono loSe.daisikietiEatde BomgBl^ 
dôde parlio como.diaae^.fc e gonMtuidac.lhçideUia^Gapir 
tanía da fortaleza, & por aer ainda mancebo deu a ca- 
pitania mór do mar a António de mirada dazeuedo ho- 
mem anti|9^o na índia & que sabia bê da guerra, & deu« 
lhe hfla armada cÕ que andasae naquela parajem pêra 
goarda da fortaleza, como pêra fazer presas nas nãos de 
nossos immigos, E isto assi ordenado parliose o gouer- 
nador pêra Uochim com determinação de fazer em Cou- 
Ião outra fortaleza por ter licença do rey de Coulão pê- 
ra fazer hOa casa forte , & ter prazme da raynha pêra 

p 2 



116 BA HISTORIA BA ÍNDIA 

coeste nome de casa forle lhe deixar fazer hQa fortaleza 
por peita que por isso lhe auião de dar. E ho gouerna- 
dor cessou desta determinação por saber que era che- 
gado Diogo lopez de sequeira por gouernador , & prós- 
seguio pêra Cocbim , onde foy recebido cõ rouyta honr- 
ra de Diogo lopez de sequeira que foy coele ale a for- 
taleza j & dali por diante ho vísitaua muytas vezes : & 
não quis entêder em nada da gouernança da índia em 
quanto Lopo soarez esteue nela saluo em repartir 09 na- 
uios, & despachou loa gomez cheira dinheiro pêra as 
ilhas de Maldioa, onde elrey de Portugal mandaua que 
fizesse hQa fortaleza & fosse capitão dela. E porque sa- 
bia que Baticalá estaua leuãlado mandou a dom Afonso 
•de meneses em híla galé darmada que fosse surgir so- 
bre a barra de Baticalá, & lhe tomassem as nãos ^ saís- 
sem de ddtro: & ho mesmo mandou a Ghristouão de 
sousa ^ fosse fazer a Dabul , ^ foy em hCia galé por ca- 
pitão mór de Ruy gomez dazeuedo & de Lourenço go- 
dinho que bião em duas carauelas, & mandoulhe que 
ÍOSS& por 60a & tomasse duas fustas das Q lá estauão^ 
& por rogo de Lopo soarez sentenceou Diogo lopez ho 
feyto da justiça contra Geronimo doiiueira que matou 
dum Aluaro da siiueira como ja disse, & Iby degolado. 
£! fey la a carrega das nãos entregou Lopo soarez a In- 
-dia a Diogo lopez de sequeira per hfi estormfito pubri- 
€o , declarando a gei>te que ficaua nas fortalezas , & as 
peças dartelharia. R isto feyto partiose Lopo soarez pe* 
ra Portugal , onde chegou a saluamento. 



Lívio r. OAFinrLO flY. 117 

C A P I T V L o 11. 

De como ho Qouernador tomou ei rey de Baticalá aa o- 

bedkncia dei rey de Portugal. 

Xartido Lopo soarez ho gouernador ee partio pêra Goa 
em laneyro de tnil & quinhêtos & dezanoue deixado por 
capitão de Cocbim hfl ifidalgo seu sobrinho chamado An- 
tónio corcea em quâto Aires da silua não vinha de Ma- 
laca , & lirouha a Lourenço moreno , & leuou toda a ar- 
mada da índia , & de caminho visitou as fortalezas de 
Calicut & de Cananor, & foy ter com dom Afonso de 
meneses que estaua sobre a barra de Baticalá, cujo rey 
sabendo que ho gouernador ali estaua foy o seu medo 
tamanho de ho destruyr Q logo lhe mandou pedir per- 
dão do leuãlamenlo passado , & pedrrlhe que ho tornas- 
te a receber por vassalo dei rey de Portugal, porQ esta- 
aa prestes pêra pagar ho tributo que dantes pagaua , & 
mais pagaria tantos mil pardaos pêra os gastos da arma- 
da. E ho gouernador foy contente , & assi se fez : & is- 
to feyto partiose pêra Goa*. 

C A P I T V L O III. 

De conto Chrislouão de souea foy darmada tobre Dabul: 

^ do que lhe lá aconíeceo. 

JL arlido ChristouX de sousa pêra Dabul foy ter a Goa 
oade pedio a Ruy de melo que estaua por capitão na 
vagáte de dom Geterre que lhe desse as duas fustas que 
ho gouernador mandaua, & dãdolhas tornou a sua viagõ 
pêra Dabul , & por ser ja tarde aehou oa noroestes muy 
rijos q lhe erão por dauante , & ho não deixauão surdir 
indo alamar : & por isso & por a carauela de Ruy gomez 
ser zorreyra deu a longa, porque cõ ho em paro da terra 
Uie |iareceo que náo fossem os vqplo^ ião fijo^r £ com. 



318 JM HlfTMU m fVWA 

tudo a carauela de Ruy gomez não pode (er coele n8 
cÕ as oulras velas & ficoQ a trás. E indo Cbrislouao de 
sousa assi soube que dSlro no rio de Citapor eslaua car- 
Kgando bQa nao de tnonros nossos Imigos posse na bo- 
ca do rio, & mãdou a hu eapiíio dij Calur que leuaua 
em sua conserua que fosse tomar a nao. E vendo ho os 
mouros que a carregauâo entrar délro no rio fugirão pê- 
ra terra & deixarão a nao sói, & bo capilfto do Catur a 
atoou & a leuou a Ghrialouâo de aousa, {| metendo nela 
qu6 a goardasse a leuou em sua conserua , & daqui I^ 
uádo sua rota abatida foy surgir na barra de Dabul, o»- 
de «oube por algas da terra que lhe forâo vender refres- 
co, que em quanto se deteisera em Cilápor a tomar A 
nao passara Ruy gomee & fora ter a Dabul , onde lhe 
logo sayrão as fustas. E ealádo coele ás bombardadaa 
ae lhe acendera bo fogo na sua poluora cÕ que a cara- 
-eela foy toda queimada & quantos estauão nela saluo 
4i8a molher Portugueaa que osnKHiros caliuar^: & que 
.Queria sete ou oyto dias q.ue aquilo acoaiecera. O 4[ 
Cbrietouão de acusa creo por achar ainda algfla roadey*- 
ra da carauela , & iioou m«yto triste por aquele desae- 
tre, & quiserase vingar dos tnouies se lhe fiayrãò, maa 
nQca ousarão,, nem ele não foy buscalos por estarem 
muyto dentro do ria* E atiedo obra de doze dias que a- 
quí estaua forâo os ventos tantos & tão brauos que não 
podendo ^'ie oem ca oe troe sofrera amarra lhe vfoj for* 
ii^do arribaren) a hSa enseada chajoada doa Malabarea 
que era abrigada pêra estar hi ate amainar aquele vea^ 
lo, & hl queimou hOe pouoai^o por aer de nossos !mi* 

g)s. £ amainado ho \èío da hi a algOis dias se toraou a 
abul, onde soube <)ue em quaalo eslenere na ensea- 
da dos Malabares eacalando bo ^t o chegara bQa nao 
de Cananor em que hia por capitão fail eacriuân dn noa- 
aa feytoria que íeuaua.fazèda dei rey de Poríuc^al pêra 
ae vender em Cambaya (& esta paaaou de noyte pola 
enseada onde eataoa Cbrialouão de souaa & por iaso a 
«não ^io) & eivegando defioole de DabuMba aayrâo mb 



MVRa v# CAFirriicr iis. 119 

SàêlàB & meleriína do fundo com bombardadas. E ytn* 
do Ghristoiífto de soma que ho dâDO que aa fustas faziào 
bia em creciaièto, deteriainou dentrar no rio & viogar- 
•e^ & porque não lioha maotimeAtoB os foy tomar a 
Cbaul aa nossa feyloria ondesiaua por fe^or hfl Diogo 
paez^ & em iocnàdo de lá pêra Darbttl quis dar em Cà* 
lãci bfl lugar de mouros cinco iegoas dele por ser de sua 
}iirdii;áo, í esiaua metido por hii rio acima obra de roea 
iegoa. E chegando á fos do rio deixou ali a galé & a ca* 
raiteia sorlas por nJko poderê nadar nele, & êlrou no Ga» 
tnr fustas & bateys em j) teuaria ate cento dos nossos ^ 
& chegou ao higar três boras ante manbaã, mas fazia bá 
Jilar tào etaro que parecia dia. Os immigos tanto que 
sentirão os nossos fugirão logo, íc a rezão de os sentirS 
tão asinha fuy porque esta gête a mór parle da noyte 
anda acordada : os nossos seguirão hQ penca a pos os 
immigos & deizarãaos por ser noyte , & tornaranse a 
queimar bo lugar Q era grade & aoia nele muytas mes-» 
quitas, & queimaràno todo despois de bo roubarfi, & as« 
ai duas nãos que bi estauào varadas. Isto feyto recolheo- 
ae Chrislouâo de sousa á praya pêra se embarcar, fe bi 
esperou por alg&s marinheiros Q ainda fícauâo roubando. 
£ estando assi esperando sobreueo bd Tanadar d&a ta«* 
nadaria dali a duas Iegoas , & sabêdo do dia dates que 
os nossos estauão na foz dÍo rio de Galaci bialhe socor- 
rer & leuaoa trezentos piães Canarins todos frecheiros , 
& em os nossos os vendo alooraçaranse muyto, & disse* 
rio a Gbristouão de sousa que fosse pelejar coeles, do 
que ele foy cõtenie , & assi pêra isso como pêra reco* 
Iher os marinheiros que Ibe licaudo no lugar abalou logo 
pêra eles, & eles mostrando moyio esforço bo sayrão a 
receber, & bo cercarão por diante & polas ilhargas tira- 
do frecbadas sem coto: Gbristouão de sogsa por{) lhe 
Bfto frecbassft os seus estando jfltos mãdou os espalhar 
da mesma maneyra ^ se os imigos espalbauão , posto Q 
Mie algiVs disserao Q melhor seria apinbuarfise pêra hfla 
pwte h ficacS os Imigos descobertos á nossa artelbaria 



120 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

^ lhes Urasse do rio í\ os despachasse logo: & Chrislo^ 
u3o de sousa náo quis^ parece (} por de desejar de pe« 
lejar. E espalhados os nossos, trinta espingardeiros & 
Algus besteiros {| auia aotreles desfecharão nos imigos 
& fízerSnos afastar, & os nossos se começarão de rec(^ 
íher espalhados como digo, & (âto ^ quasi se nã vião hQs 
aos outros. E os Imigos l\ virão este descõcerlo açoda- 
rão logo sobreles apertado os muylo cÕ frechadas & fe- 
rindo dessa gête baixa {| hia mal armada, Q começou 
de fugir cÕ menos cõcerto do que leuauão : sem Chris* 
touão de sousa nS os outros capitães os poderS ter, & 
v<6do ele isto deíxouse fícar c5 os Imigos , fícâdo coele 
Frãcisco de sousa tauares & outros principaes & fazião 
volta aos Imigos pêra os deter, & eles se reCirauão pêra 
os cansar, & despois voltauâo sobreles. E assi forão ate 
a praya voltado hQs aos outros b6 quatro vezes em i\ a 
peleja foy b6 ferida assi diia parte como doutra: & tã 
perãada ^ em chegarfi os nossos á praya gastarão bi 
três horas , & cõ os feridos Q se hiâo embarcar & c5 os 
outros Q fugião se desfizera os nossos tãto {) nã chega- 
rão CÕ Cbris touão de sousa á praya mais ^ ate trinta no* 
inSs, & ainda aqui dapertado dos imigos se nã achou 
mais l\ CÕ dez pêra sembarcar de ^ hú era Frãcisco de 
sousa tauares, & aqui passou Christouão de sousa grade 
perigo, & esteue quasi perdido por^ erão ja êbarcados 
todos os nossos se nã ele cõ os dez !\ digo , & a maré 8- 
chia & daualbes a agoa pola cinta, & os imigos choujão 
frechas sobreles, & coesta fadiga quasi Q nã podião a- 
judar a Sbarcar Christouão de sousa !\ ho não podia fa«- 
zer sem ajuda por ir armado em hii arnês inteiro, & era 
necessário tomarSno S peso pêra ho melerS no batel ^ & 
os imigos nã dauão vagar pêra isso. E vSdo eles o i^ os 
nossos tinbão em ho fazer & cuydãdo ^ nã auia quê lhe 
resistisse meleranse pola agoa , & chegauanse aos ba* 
leys & ás fustas lâçãdo mão dos remos pêra os tomar: 
& quis deos !\ a este tempo estaua ja Christouão de sou- 
aa embarcado & os outros 4 ho ajudarão, & vedo a ou- 



LIVRO V. CAPITVLO Hlf. 121 

sadia dos tmígos mãdoulbes (irar cõ a arteiharia, de ^ 
logo fugirão (icâdo muylos mortos, & dos nossos morreo 
JiQ bõbardeiro & fosfio feridos IrioU. Feylo is lo porQ 
Christouão de sousa trazia por regimSto do goueroador 
{^ ale a Strada de laneyro fossS em Goa as duas caraue- 
las § Jeuaua pêra irS cÕ António de saldânha a Ormuz y 
mandou a LourSço godinho Q se fosse , & ele ficou com 
a galé, fustas & catur, & cÕ tSo pouca gète fi não era 
nada pêra a das fustas de Dabul l\ era muyla Sc elas bê 
artilhadas foyse a Dabul & surgio na barra , Õde achou 
loão gõçaluez de castelo branco Q por mãdado de Lo«- 

fo soarez estaua & goarda dela com três fustas, & per 
fla carta que lhe Christouão de sousa deu do gouerna- 
dor se parlio pêra Goa. 

CAPITVLO nií. 

De como ho gouernador despachou certos capitães pêra 

diuersas partes. 

íJe Baticalá se foy bo gouernador a Goa , donde má- 
dou António de saldanba capitão mór do mar cÕ hOa ar<* 
mada ao cabo de goardafum a fazer presas , & a saber 
se estauão os rumes 6 ludá pêra os ir buscar como trá- 
cia por regimento. E sabêdo aqui como fora queimada 
a carauela de Ruy^ gomes dazeuedo & metida no fudo a 
nao de Cananor, pareoêdolbe i\ fora por ciilpa de Chris- 
touão de sousa ho mandou logo chamar por António ra- 
poso capitão dfl nauio cÕ qu8 mandou loão gõçaluez de 
castelo brãco Q auião de ficar ê Dabul , & por ser ja 8- 
trada dinuerno quando chegarão não foy necessário fica- 
tè íáj & tornaranse cô Christouão de sousa a Goa dõde 
se forão a Cochi por ja lá estar ho gouernador. A Q 
Christouão de sousa mostrou como não tinha culpa na 
carauela nfi na nao : & por isso ho gouernador lhe pedio 
perdão de bo mãdar assi vir de Dabul. £ porQ ho gouer- 
nador foy auisado () em Coulão auia algii aluoroço de 

1.1 VBO Y« a 



1^2 PA HISTORIA DA ÍNDIA 

guerra por bOa fortaleza fi hi queria fazer ho íeyíor Ey-* 
tor rodrigoez, niâdou lá loão gdçaluez de castelo brâco 
oÕ Ires fustas darmada , & ^ não auSdo () fazer £ Cou- 
lio fosse fazer presas ao cabo de Goardaffl & tornasse a 
iiiuernar a Cochi : & asei por fao goueraador saber de dS 
Aleixo de meneses^ & de Fernão perez dSdrade, & dou- 
tros fidalgos Q chegarão de Malaca ho aperto ein ^ fica- 
ua cõ a guerra dei rey de Bintão Q era necessário nS- 
darlhe socorro: determinou de lho mSdar por António 
corroa filho Daires corroa que foy morto ê Calicut ê 
tempo de Pedraluarez cabral, a que tinha dada hda via* 
gero pêra a China , & (} de caminho iria por Malaca. £ 
por neste têpo lhe mostrar Simão dandrade hfi aluara 
dei rey per ^ mandaua Q querêdo ele ir á China despois 
de vir de lá Fernão perez seu irmão {) fosse. Não deu 
ho gouernador esta ida da China a António correa, se 
não a de Malaca soroête , & a ida da China deu a Si- 
mão dãdrade a que despachou logo, & se parlio em hAa 
nao: & após ele partio em outra hii fidalgo chamado 
Garcia de sá com gfite em socorro Dafonso lopez da cos» 
ta: ít despois mãdou è hfla armada de três velas por 
eapitão inór a António correa, a'^ den em regime to ^ 
decercada Malaca fosse assentar pazes cÕ el rey de Pe* 
gú, & das três velas íbrão capitães, ele de hiia nao, An- 
tónio pacheeo de hCia earauela que Jeuaua a capitania 
mór do mar de Malaca, & hft Frãeisco de se^ira ê hi 
bargãli'. B nesta armada fi parlio de Coch! a seys de 
Mayo forão cSto & cicoêta roriuguesei^ 



LlVaO V. OAPtTVLO V« 113 

CAPITVLO V. 

De como a raynha de Caulâo deu consentimento pêra se 

fazer fortaleza. 

JLJesejido Lopo soarez no (Spo Q gouernaua a índia de 
fazer bua forlalesa em Coulão , ouue licença dei rej de 
Goulão pêra fazer hQa casa forte em que a fazenda dei 
rey de Portugal esteuesse segura, porque ho nS estatia 
na casa i\ estaua feyla. £ esta licèça ouue cõ determi- 
oaçá de cõ nome de casa forte fazer bua fortaleza, por(| 
tinba peia isso consfitimSto de Alepãdari : Q ássi eecba-* 
maua a raynha de CoulSo, & coeste fundam5to tornaoa 
de Ceilão ( quSdo lá foy fazer a fortaleza ) se nfio acha^ 
ra certeza de ser cbegado por governador da índia Dío^ 
go lopez de sequeira^ I| auisado por Eytor rodriguez fey^ 
tor de Coulão do !) pessaua a cerca da fortaleza, lhe dea 
comissam pêra Q por bO aluara prometesse á raynha tre6 
nil rajas 2) sam moedas da terra fi vai cada b&a trila & 
treê rs & htl terço em i[ pola valia da nossa moeda se 
mfftauflo cêto & trinta & dous mil rs, & a Chaneipuiá 
âeu gouernador & muyto grade priuado mil fanões de 
Cccb! !\ vai cada hA desasseys rs, em Q pola moeda por* 
tuguesa mSlSo dosásseis mil rs: & isto poríf dessem corM> 
«enlimSto pêra se fazer a fortaleza, & algãa desta copiA 
Ibes auia logo de ser paga , & a outra despois da ferta*^ 
leza acabada : & isto por6 s6 ser fey ta guerra aos Portu* 

Sueses, nS por el rey de Comori, nS pola raynha & seue 
lhos, nê menos por ela raynha de Coulão* Do {| ela foy 
muyto cÕtSte, oflrecendose cõ seus pulas a morrerS c5 
toda sua gSte sobre se a fortaleza fazer & darê pêra a 
edificação dela toda a ajuda Q podesse ser, posto Q sa- 
bião {| auião danojar nisso muyto ao rey grSde de Cou- 
iSo, & cobrar por Imigos ho rey de ComorT & a raynha 
& seus filhos : & porem 1} lhes nâ daua nada disso por 
seruirfi a el rey de Portugal por cujos vassalos & serui- 

a 2 



124 DA HISTORIA J)A ÍNDIA 

dores se (inhSo como se propriamSte forão Portugaeses. 
E pêra mayor segurança a mesma raynba por sua pes« 
soa entregou E;tor rodriguez a hOs três irmãos Naires 
Q morauão ao derredor dõde auia de ser a fortaleza que 
viuiáo cõ a raynba de Comori, & erSo grades senhores 
& punhão em cãfK) seyscêlos Nayres de peleja , & bo 
mais velho auia nome Vnireypulá, ho meão Baíapuiá- 
goripo , & o mais moço se cbaroaua coulégoripo* É es* 
tes lodos Ires tomarão sobre si bo feyior & prometerão 
de ho ajudar em quanto podessem : & Eytor rodriguez 
se cÕceriou muyto secrelamêle cõ Vnireypulá Q bo aju- 
dasse, & ^ em quanto durasse a obra da fortaleza lhe 
daria cada dia bQa raja. E sendo bo gouernador auisado 
de tudo per Eytor rodriguez, Ibe deu comissam pêra () 
começasse a obra. E como 6 Coulão foy sabido 4 se a- 
uia de começar, foy cousa despâto ho rumor & aluoro- 
ço ^ se leuãtou, assi antre os mouros como ãtre os gè* 
lios : aí^ixãdose todos disso. E ei rey de Comori & sua 
irmaã ajQtarâo muyla gSte, dizêdo ^ ^r^ P^f^ ir6 sobre 
Eytor rodriguez , & o matarS cõ quantos estauão coele. 
£ sendo ho gouernador auisado deste aluoroço mãdou iá 
como disse a loão gõçaluèz de castelo brãco por capitão 
mór de três fustas 6 socorro : mas na foy necessário por^ 
a raynba de Coulã & Ghaneipulá erâo tão verdadeyros 
seruidores dei rey de Portugal & desejauão tãto seu ser- 
uiço ^ apazigoarão tudo, & a raynba de Comorim cessou 
de sua fúria, cõ quãto ficou S grande ódio cÕtra os nos- 
sos. E vedo Iu£Ío gõçaluèz como ali nã auia Q fazer foy- 
se ao cabo de Comorim , dõde s3 fazer nenhuas presas 
se tornou a Cochim. 



LVno T. MPITYLO VI* V2Í> 

# 

C A P I T V L o VI. 

De como Eytor rodriguez de Coimbra começou de edijir 

car a Jòrtaleza de Coutáo. 

-.^paciíicandofie mais a cousa determinou Eytor rodri* 
guez de começar sua obra : & encomCdâdose a nosso se- 
'Dbor, bo mais dissimuladamenle '^ pode eomec^ou bú dia 
-dabrir os alicecea dado ele as primejras enxadadas , & 
ajudado ho CbristouSo de bairros & Duarte varela seus 
'gSrros, & assi hQ Luys Aluarez i| eslaua por capitão 
de bua galé, & Gaspar ferraz & Afonso ferraz seu ir- 
mão, & bo padre Prácisco aluarez vigairo da igreja de 
§ã Tbome, & outros i\ per todos fazião numero de vinte 
>sete Portugueses & dous pedreiros da terra , & quàdo 
dous mil Naires <) ali lê bo rey grade de Coulâo ( pêra 
cõseroação do estado da terra) virão os grades aliceces 
^ abria Eitor rodrigoez tornaranse a aluoroçar, dizêdo Q 
erão pêra fortaleza & não pêra casa , pelo ^ ele os mâ- 
•dou atuprr & ficarão mais estreitos, porS de largura de 
-dez palmos, & assi como bia abrindo assi hia fazendo a 
parede da cerca da fortaleza Q fez de cõprimeto doytSta 
& cinco palmos & de largura de setenta & cinco, & tS- 
do a parede daltura du bomS: assêtarão os nayres dei 
rey de Coulão <) tamanha cerca n&o era se nã pêra for- 
taleza, & aqueixaranse disso á raynha de Comori porQ 
tinhSo a de Coulão por sospeita nas cousas dos Portu- 
gueses, a qu& se queixou logo a raynha de Comorim, 
dizêdo ^ bo não auia de sofrer, & mãdou a sua g6te Q 
se posesse S armas. O Q sabido por Eytor rodriguez nã 
quis ir cÕ tamanha obra auãte, por apaciticar a gente 
& não ter dÕde se defendesse se lhe fízessem guerra, & 
atalhou bo vão da cerca cõ bua parede ficado a bQa par- 
te a casa da feytoria, & a outra a fortaleza, com q prós- 
seguio auãte, dizSdo f\ era a casa da feytoria. Porem 
os Naires dei rey de Coulão, n6 a raynaa de Comori & 



I2iS 9A aiSTOlIil DA IHDIA 

seus dou8 filhos nSo assessegauSo n8 perdião os ciúmes 
f| linhS daquiJo ser fortaleza^ & hora lhe tolhião os pe- 
dreiros , hora 08 cauoufiiros : outras vezes se aj&tauão 
pêra irê «sobre Etlor rodriguez^, & de tudo bt> auisaua a 
raynha de Coulão & seus pulas, apressando ho, Q se po- 
sasse na major altura ^ podesse : por^ lhe parecia j| a- 
uião os ifnigos de pelejar coele. £ ele ho fazia assi, en- 
comSdandose sempre a dosso senhor de què era muylo 
amigo ^ ho ajudou ate poer hua torre no primeyro so- 
brado. È por sçr auisado Q dia de Páscoa auião os imí*- 
gos de pelejar coele deata(>ou 6tâo.as bõbardeiras í\ ateli 
teuera carradas por não étSderè que era fortaleza, & as* 
sestou nelas sua artelharia. E recolhido dentro na torre 
cõ a gente Q digo , amanhjeceo assi dia de Páscoa : o ^ 
deu tamanho espãlo aos imigos i[ náo ousarão de bó co^ 
meter cÕ medo da artelharia :. do ^ a raynha de Coulão 
& seus pulas ficarão muyto ledos, & mandarão dizer a 
£ítor rodriguez {| não temesse. dali por diante aoe !mi»- 
gos, porque ja não auião douaar de bo cometer, &quan>» 
do ho quisessem fazer ^ ela com todos seus vassalos 9h 
uião de morrer sobre ho defender. O qite the ele agan- 
deceo muyto, pedindolbe que os deixasse chegar aa for^ 
taleza pêra ver como pelejauão oe Portugueses: por6 os 
imigos não ousarão de ho fazer, & dali por diante abran- 
darão da fúria ^ trazião, nê fizerSo mais sobranqarias 
aos Portugueses. £ neste tempo foy ali ter hum fidalgo 
chamado Garcia da costa deSantarS cõ hfla galé de que 
era capitão, Q ho mandou bogouernador persa fauorecer 
& ajudar £itor rodriguez: o que ele fez oÕ muyto ouy- 
dado & diiigScia. 



LIVROMV. CAPITTLO Vll« 127 

. C A P I T V L O VII. 

Ikí grande seruifo ^ a raynha de Couiãofez a d rty de 

Portugal. 

vyooi inu^r to* grande trabalho^ atsi do imiMUò {) era muy 
lbrU3 ^ ehuuas & t& veios, òono eò temor«6 de g^uerra 
àia Eilor rodri^èc proaseguindo S sua obra, nfio sonifi- 
te na íbrtaieui^iBaa na da igreja do afK>8tolo mui Tho* 
me, ^ tâbS começoQ , por{| a raynha de Coulão, & ho 
regedw & oulros puláa ihe fasiio dar Ioda a pedra & 
ouiroe mâteríaea j| erão neceasarioi pêra estaa obras. E 
8B8Í linbio todos eu jdado deJae como se forão Portugue* 
aee, nâo lhes }eiDbrfld0 Q.faztãa nisso pesarão tej de 
GoulSo, n6 que . isscâdaKzauão a raynha de Conoorf & 
seus filhos, Beai que cajSo em ódio do pouo/O que pa*^ 
veeitt milagre de nesso -senhor terS os gentios tanta 
fee & amisade cd os Portugueses Q assi os fauorecião. 
£ de todo isto £ítor ? odriguez auisaua ho gouernadoT ^ 
4 lhe mandoa ^ fosse assi c& a obra cdnio bia , por^ se-« 
ria coele na eniráda Dagostò. E' cÕ qu&io Eiior rodri-t 
guez tinha esie trabalho de fazer a fortaleza, nSo dei<« 
xaua de êlfider na pimSta ^ areia de oftprar pêra a car- 
rega^fto das nãos ^ se es])erauAo aquele aano: & soube 
^ erão abertas na serra doas grandes estradas per que 
andaoflo a Ibroiiga três mil boy* de Cbar^tnandel , dfide 
leoauão^ arroa a Coulfle & Caicoulâo, & 8 ^retorno' pitiie^ 
ta de seus termos* £ Têdo ele camanfao perjuyzo isto 
era pêra a carregação das nãos de Portugal, queixouse 
disso aos regedores de GaicoulSo, rei)rSdolhe Q vedas- 
sem ^ nS se leuasse ai|la pimSta. Ao {) respõderão (| 
nã podiSo fazer nisso nada por sayr a piroeta de luga- 
res de Bramenes a () nSo podiSo ir á mão : & por isso 
ho rey de Caicoulão perdia seus dereylos, mas não po* 
dia aí fazer se não perdelos. E vSdo Eylor rodriguez ho 
mao remédio Q ali tinha , escreueo ho ao gouernador : 



128 JDA HISTOMÁ DA INDfA 

Q nSo achando pêra isso remédio lhe nâo respSdeo, & 
enlão se socorreo ele á raynha de Coulão por saber 
quao(o desejaua ho seruiço dei rey de Portugal , & pe* 
diolhe que inãdasse por quinhSlos dos seus Naires fazer, 
hd sallo na cáfila dos boys de Choramandel, & que os 
escarmentassem de maneyra que não fizessem mais a- 
quele caminho, & que prometia de dar cem cruzados 
por cada cabeça de homS ^ lhe dessem da cáfila. E ^ 
raynha por seruir el rey de Portugal se cÕcertou con^ 
fau rey irmSo doutro, per cuja terra as cáfilas caminha- 
uSo que lhe daria quinhentos Naires pagos á sua cust^ 
com que fizesse guerra a seu irmSo porque deiíaua pas*- 
sar a cáfila por sua terra , porque nâo passando por^eJa , 
nã tinha caminho por outra parte. E este mesmo rey 
que auia de fazer a guerra a seu irmão., antes de a co* 
meçar fez com os quinhentos Naires da raynha de^Cou- 
lão ha salto na cáfila de Choramandel em que matou 
cinco homSs dos que blão nela, & tomou muytos boy^ 
& grande soma de pimenta^. com que os outros ficarão 
tão escarmentados que desistirão de todo daquele offi* 
cio, & logo as estradas forão carradas : dó que a raynh^i 
de Coulão mâdou pedir aluisaras a Eyior rodriguez no- 
tificaodolhe o Q era feyto, & que em satisfação daquele 
seruiço que fizera, a el rey de Portugal, & do gasto que 
fizera cora os quinhentos Naires a que .pagara h& mes 
de soldo, queria que lhe esperasse aquele anno por du-* 
zentos & oyt&ta bares de pimSta que dioia: & isto por 
estar pobre & gastada das guerras passadas. O Q lhe 
Eytor rodriguez fez : cõ que ela ficou muy to contente. 



^ ■ ^ 



LlVftO V. CAPITTLO VIII. J29 

C A P I T O L O VIIL 

De como ho jmuemador foy ver hú porá que se fazia 
antre hús Cainuies na terra firme ^ ^ do que lhe or 
^teceo^ 

JAI o começo deste inuerno que bo gouernaáor teue em 
Cocbiin sucedeo auer hfi para antre certos Caimaes vas- 
salos dej rey de Cochim & dei rey de Caiicut sobr-e cer* 
ta.^eferença que tinbão. E este para quer dizer Ba sua 
Jiagoa batalha de desafio , em que se ha dauerigoar a 
verdade, & assi coiiio ham rey ou senhor faz a outro 
qualquer oflensa: bo oflfendido desalía o que bo oSeft- 
deo pêra se darem batalha campal , & ajuntão pêra isso 
toda sua valia damígos & ^^ssalos : & se ho ofTendido 
tem mais gente que o que ho oflendeo dalhe a batalha 
em pubrico , & se não ho mais secretamente que pode« 
E sabendo ho gouernador que se daua esta batalha a 
mea legoa de Cocbim polo sertão foy a ver acompanha- 
do de quinhStos homens em que auia algiis fidalgos^ & 
todos com capas & espadas somente : & foy bo gouerna<- 
dor ê tones polo rio ate õde se auia de dar batalha , & 
ali desembarcou^ & ãtre os ^ auiâo de dar batalha , & 
08 Q a auião de ver sertão quatro mil honoSs a fora os 
nossos. £ come<^da a batalha, quis hil nosso bõbardei- 
ro fauorecer ho Gaimal dei rey de Coch! cõlra ho dei rey 
de Calicut , ajudãdobo cõ hQa espada dambas as mãos, 
O í\ vedo ho Caimal como {|ria mal aos nossos, remete 
cõ parte de sua gSte a algils deles i\ ãdauão espalhados 
tirãdolbe muytas frechadas: ao ^ ho gouernador acodio 
logo ) & recotheo os nossos : & feylios todos S hQ cor|io 
se quisera tornar se ho deixarão, por!) os naires como 
homCs escãdalisados dos nossos os seguião, apertando 
06 «om frechadas muyto bastas : & por se o gouernador 
desembara^jar não quis •{| os nossos trauassê coeles, se 
nlo q «e defendessem: porque erão muytos & se a bar 

I«IVRO V. R 



130 ]>A HISTORIA DÀ IN0IA 

talha se trauasse passarião os nossos nial por serS pou- 
cos: & por isso ho gouernador se recolhia ho melhor Q 
podia, & os iinigos aperlauâo todauia íã rijo Q ho pu- 
fihâo è muyto perigo, o i\ vSdo algQs fidalgos se pose- 
râo diâle dele pêra ho emparar das frechas, & ho pri- 
meyro foy Chrislouã de sousa Q logo foy ferido de hOa fi 
hQ braijo , de ^ despois foy aleijado & assi forão feridos 
outros & mortos cinco, & antreles forâo Diogo de pina 
filho de Ruy de pina. £ despois Q os imigos virão t\ os 
nossos nâo querião pelejar coeles , & tambS por acodirS 
aos companheiros ^ ficauâo na batalha deixarão os ir. E 
vendose ho gouernador desapressado dos imigos fez reco- 
lher os mortos, & foy se a Oochi onde leue ho inuernO) 
«m ^ mandou cõcertar a armada pêra ho verão seguinte* 

C A P I T V L O IX. 

De coma mouros de Cambaya tnatarâo a loâo gomez 
nas ilhas de Maldiua com outros nossos. 

ostras fica dito como loão gomes cheira dinheiro foj 
ós ilhas de Maldiua pêra fazer lá hua fortaleza : & dea- 
pois t\ foy ê iVlaldiua achou ^ era aJi escusada fortale- 
za , & % abastaua hfla feytoria pêra ho trato I| ali auia 
dauer. £ assi ho fez & ele ticou por feytor, & tèdo mãr 
dada hila nao fora em ^ forão aígus criados seus Q nã 
ficarão coele mais ^ ate oyto doe noasos & al^iis da ter^ 
jra Q serufão na feitoria forão ali ter certas nãos de moto- 
ros de Câbaya, Q como erão nossos Imigos & virão loâo 
11'omez cÕ tão pouca companhia, determinarão de ho 
inalar & tomar quanto eslaua na feytoria. E assi ho íi- 
zerâo , & ioão gomez morreo defendêdose tão esforçar 
damCte como ele pelejou sempre nas pelqas S Q se ar 
ehou H era muyto valSte caualeyro: & assi acabou seus 
dias com quantos eatauão coele, & despois de morloii 
roubarão os mouros a feitoria & leuarâo tudo sem ho 
Yey da terra ousar de resísiir por nã ter gSle de peleja» 



LIVRO V. CAPITVI>0 X^ 131 

E ho gouernador quâdo ho soube nâ [iode fazar.oada 
Daquilo por os mouros Dão serem de lugar certo. 

CAPITVLOX. 

JDe como despois Dantonio carrea socorrer Malaca s€ 
pariio peta Pegú a assentar amizade. 

X arlido António correa S socorro de Malaca seguio 
por sua viagê) & indo atraues de Ceilão por ser inuer- 
no lhe deu hõa tormSta cõ ^ se apartara dele os outros 
nauios & ele ficou só, & assi foy ter a PacS : & dali fojr 
ler a Malaca õde estaua Afonso lopez da costa 3 (ama- 
nho aperto de gqerra como disse, assi por mar como por 
terra que lhe mia el rey de BintSo ^ estaua ê hiia po« 
uoação por dentro dil esteiro ^ se chama Pago ^ sae do 
rio de Muar, & tinha ali hOa forte fortaleza de madei* 
ra, & maodaua sua armada pola costa de Malaca, & fa<- 
gía arribar ao pago todos os jogos Q hião s^ Malaca , & 
outras quaesíjr velas ^ leuauão mercadorias ou manti^ 
mStos. £ por esta causa nâo hia nenhila vela a Malaca, 
peio H estaua õ grande aperto de fome, & valia bQ^ 
gania darroz ^ não leua mais {} b&a canada hQ cruzado 
& bfla canada de vinho ho roesmp, & por falta dele aui^ 
dias quando António correa chegou (} não se dizia misr 
sa, & os imigos vinbão muyto amiúde correr por terra 
a fortale^ , & por os nossos serê poucos & muyto doen- 
tes não ousauão de sayr a eles, nõ som^e fazer trãquei* 
ras fora da fortaleza pêra dali defenderê ho impeto do^ 
Imigos, porQ teroião Q ali os tOQiass^ segundo erão muy« 
tos & sobejos & eles poucos por ja a este tempo Sim^ 
dâdrad# ser partido pêra. a CKioa &.leuar cõsigo toda 4 
gSte Q fora eoele da índia* E por ho capitão de Malaca 
estar neste tamanho aperto folgou em estremo cÕ a che*^ 
gada Dantonio correa Tj com os mãtimetps ^ leuaua da 
Índia desaliuou algu tanto os da fortaleza da fome ^ pa- 
decião : & dali por diãle se dissera missas por amor do 

R 2 



r 



131 BA HISTORIA DA INDfA 

vinho Q Í6U0U j & começouse de sCtir menos ho cerco : 
& por^ os nossos ficassem mais desapressados tomou 
António correa cargo de defender bua trâqueira í^ esta- 
ua da bãda da fortaleza hO pedaço afastada dela , & cõ 
8ua defòsam ficauSo os da fortaleza liures dos rebates 
passados. E assi foy, pori) vindo os imigos como dates 
acbarâo na trftqueira António correa bS acÕpanbado des- 
pigardeiros & de besteiros & dalguas peças dartelharia, 
de Q os imigos receberão algtl dano, & por serem muy- 
tos bo não estimarão nê deixarão de correr como dates, 
& quasi ^ dauão cada dia rebates, pricipalmSte despois 
^ entSderão ho socorro Q era vindo porí) então insistião 
mais ^ da primeyra 3 vêcer os nossos , por^ não cuy* 
dassem õ cõ medo do socorro afroxauão de lhe fazer 
guerra, & cÕ isto dauão assaz Q fazer a António correa 
cõ contino trabalho dòs rebates i} lhe dauão, a ^ aco* 
dia com muyto perigo de sua vida & QbrãtamSto do cor* 
po, & fadiga do spirito porQ não comia nS dormia se nã 
armado : cõ tão imSso trabalho viueo dous meses sem 
nunca lhe neste tempo matarem nenhQ dos da sua com* 
panhta, antes matando ele & eles muytos dos immigos: 
com que se escarmentarão de maneyra que afastarão seu 
arrayal pêra mais lõge, & afroxarão muyto de suas cor- 
ridas. E fjcãdo os nossos mais desaliuados da guerra & 
mats seguros pareceo bê a António correa de ir a Pe* 
gú , assi pêra assStar paz cõ el rey pêra os nossos írê lá 
tratar & virS de lá mãtimêtos a Malaca, como pêra os 
trazer logo pola necessidade ^ auia deles. E despacha- 
dos os jQgos da China & doutras partes !\ com sua es- 
tada ê Malaca se atreuerão a partir, partiose pêra Pegú 
na nao em que fora da Índia, & íby primeyro a Pacê 
carregar de pimfita Q era bÕ emprego pêra la. E carre- 
gada a nao partio do porto de Pedir quarta feyra qua* 
torze de Setembro do anuo de dezanoue , & dabi seguia 
sua rota pêra Pegú. 



LIVRO V. CAPITVLO XU 133 

C A P I T V L O XL 

Em ^ se escreue ho reyno de Pegú ^ seus eostumes. 

líiBte reyoo de Pegú he na enseada de Bêgala da bâda 
do fiul por Õde comarca cÕ outro chamado Tenaçari , & 
do norte cÕ ho de Bêgala, de Q está cfito & vinte legoas 
poia costa do mar per hua põta Q se chama de negrais , 
& em a dobrado fitrão logo em bQ rio grftde Q se chama 
Cosml onde começa ho reyno de Pegú : ^ terá de cos- 
ta ate cincofita tegoas. Da bâda do ponSte tem ho mar 
indico & do leuãte ho reyno de Brema & Dauá, Q se 
estende per hQa corda de serras muy altas Q tê desta 
parte de ^ ha ao mar em htias partes trinta & ê outras 
corSta legoas, (| he a largura deste reyno, em Q ha muy- 
tas mõtanhas cÕ grades matas de alto & espesso aruore- 
do em {| se crião multidão dalifantes , de vacas & bufa- 
ras brauas & porcos mõteses & veados, com ^ os da ter- 
ra fazê muylas mõtarias principalm&te os grades senho» 
res. Ha neste reyno muytas minas douro, mas nã se ti- 
ra polo rej defêder por^ nã (Jreria tirar a gête outros 
metais de ^ ha muytos na (erra : ê que se da tambS 
moyto lacre & muyto fino, & ha nouidade dele muyta 
& pouca : procede de hO género de formigas Q ho crião, 
ho bÕ he de canudo , bo somenos he de pão. Ha robis 
sem coto, & os melhores Q ha 6 outras partes, çafiras, 
espineias & outra pedraria: de Sião lhe vem muyto bei- 
joim & almizquere. Ha grade criação de canalos do ta- 
manho de facas dirlanda, & assi tè ho andar, & todo ho 
2do não come mais i) erua : destes se seru6 assi na paz 
como na guerra : dasse nesta terra geralmète muyta so- 
ma darroz , & criãse infinitos porcos & gaHnhas grades 
& boas, 4e vacas & ouirogado miúdo ha arrezoadamCle, 
& assi ha muyta diuersidade de fruytasr de modo Q he 
muyto abastada de mãtimStos, & por isso os leuão por 
mercadoria pêra Õde os aã lia. He esta terra toda muj- 



134 0A HISTORIA DA fNIMA 

to sadia, nssi pêra os naturais como pêra os estrSgeiros, 
& nSo se cria neta nenhO bicho pe<;onhSto : he Ioda cor- 
tada de grades rios !\ nacS nas serras ^ disse & deles 
sam muyto altos, & êtra a maré Qetet: a mayor parte 
das pouoai^ões sam ao logo deles , & se he em parte es- 
treita sam as casas de hua parte & da outra ^ & cada 
casa tem hQ paraó pe^no pêra seu seruiço. A pricipal 
cidade de todo este reyno se chama Pegú , de ^ ele lo^ 
ma ho nome situada ao logo do rio de Ck)aml em Q es* 
tão outras cidades notaues assi como Dixára , que está 
na pota da barra, & Dalá mais acima & Degil quatro 
legoas da barra, Sirião & Gosmi que está dezoyto le* 
goas da costa & ateli chegão os jOgos ou nãos estrãgei* 
ras , & dali vão em champanas da terra ate Pegú ^ ha 
auante oytSta legoas ou pouco menos. E assi estão ou* 
trás cidades de Gosmi ate Pegú a í) não soube os no* 
mes, & muylas delas sam cercadas de muros & cobelof 
a nossa maneyra, & tudo de cal & ladrilho. Ha outro rio 
principal ate cincoSta legoas deste, l\ se chama JVflarta* 
bâo de cujo nome está em sua praya situada hQa fermo** 
sa cidade sete legoas da barra tâbS porto pricipal em í[ 
se fazS as jarras martabanas Q leuão á índia, & assi ou* 
tra muyta louça de massa de porcelana , porem não tão 
fina como a da China, nê daquelas cores & pinturas. 
Nestes rios & em outros muytos ha muytos & bõs pes* 
cados diuersos dos nossos salua saués: vendese ho pes^ 
cado viuo em paraós cbeos~ dagoa. A geote deste reyno 
comilmSle he formosa, principalmente as molberes: os 
homês sam de meaã estatura de membros grossos, ba* 
ços como mulatos fracos pêra guerra : suas armas sam 
espadas de ferro níK)rto do tamanho das nossas & muyto 
mais largas cd bainhas de pao: tê padesea tão altos co«- 
mo ha homS de coyros dalifantes cÕ veraiz por cima & 
capacetes do mesmo. E tamb5 costumão armar a cabe* 
ça & costas cõ hQas peles dus bichos Q tem conchas 
muyto fortes, & laudeis acolchoados: tS lanças de ferros 
compridos & pelejâo a pé & a caualo .& em aUfantos ^ Si 



LIVRO V« eAPITVLO XU 136 

nos rios em paraós. Tem algfias espingardas & botnbar- 
dinbas de ferro & algQas poucas de melai coni ielras 
chins, no Q parece que aquela terra foy senhoreada de* 
les em outro teropo, porque tambê ha ainda sinos dos 
chis cÕ as suas leiras , & assi ídolos. Ho capilâo que be 
vencido na guerra quando torna pêra sua casa não se 
serue polas porias porQ se dantes seruia, se nâo por oth- 
trás ate restaurar sua honrra. Ha neste reyno grades o(^ 
ficiaes doBcios macanicos , assi douro como praia , ferro 
& pao, & pintores muy singulares» A g3te natural des- 
te reyno be gStia (ainda Q algus sam mouros ) adorâo 
ídolos de diuersas feyções hús de figura domS du palmo 
daltura, & dahi ate do tamanho díi gigante, & oulros 
tá altos como a mais alta torre & muylo bem obrados, 
& estes de cal & tijolo us oulros de metal & de pao, & 
todos dourados & pinlados de muylas cores, & deles tfi 
três rostos : & dizõ os Pegús (| signiticâo ao deos gran*- 
de criador do mundo, & os oulros a oulros sanctos Q fo* 
râo de boa vida & caualeyros. Adorâo lâbõ a hiis edifi*- 
cios t^ chamão varelas feytos ao modo das dos Chins co- 
mo disse atras, saluo que sam todas raocii^as de cal & 
tegelo reuocadas por cima dQ betume de lacre, & por 
cima dourado douro de pão, & nas põlas tS hils barões 
de ferro cÕ hua poma & sombreiro de metal eercado da 
eãpainhas, & nestas pomas mete peças douro & pedra* 
ria ^ offrecê: a menor varela destas he dallura de qua*- 
tro braças, & daqui pêra cima em grande qualidade, 
assi como se escreue que erão as pirâmides do Egiplo. 
£m todas as pouoaçÔes deste reyao ha muytas & hua 
mayor que todas, na cidade de-DegCi está hQa tão alta 
que se vé a mór parte do reyno, & a esta vay muyia 

Êente em romaria por hfi certo dia do auno. Estas vare<^ 
16 adorâo por deos , & diaem (| assi como ele be gran* 
de aesi as faaS grandes , & ao derrador delas ha casas 
de Ídolos & outras em Q pregão. Tem esta gele lambem 
outros templos como mosteiros em que moráo os seu» 
eaoeidotes a.^ chamão Kolis komèi caridosos, principal 



186 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

mente aos estrangeiros, & em hfls morXo trezentos & 
em outros quatrocentos: estes traz& as cabeças rapadas, 
& arrancão os cabelos da barba : vestem húas roupas de 
mSgas que lhes chegfio ao peito do pé & encima outros^ 
panos compridos & estreitos a maneyra destoias. Estes 
não conhecem molheres despois que se met& nestas ca- 
sas & he lhes defeso : viuS apartados da conuersação dos 
outros homSs. Estes mosteiros sam de madeira muyta 
fortes & dourados em muytas partes, t6 sinos grandes 
& pernos como os nossos, & deles mayores que os que 
estão em Santiago de Galiza, com letreiros & muytos 
lauorea ao derredor , & vsam destes sinos nas cerimo- 
nias de sua seita. Antrestes Rolis ha hiis principaes a 
que os outros obedece , & em todo ho reyno ha hii so- 
bre lodos que tem por home sancto. Destas casas hClas 
tem rSda que lhes dotou quê as edificou, ou dos lugares 
onde estão, outras sam pobres, & os que viuem nelas 
se mantém desmolas. Também ha destas casas de mo- 
lheres que rogão a deos poios defuntos que as fundarão^ 
TS também outras casas que não seruê se nã de ter 
Ídolos como em tesouro, principalmente hOa em espe- 
cial em Q ha tantos grandes & pequenos que assomão a 
cSto & vinte mil, & cada dia metem muytos que oflTe*- 
recém pessoas : a casa em que estão he muyto grande 
& de grande comprimento, cÕ hfls poyaes altos de tige* 
Jo , & polas paredes hQs vãos como almarios cheos de 
Ídolos pernos & por cima os grandes: em cada lugar ha 
hila casa pubrica que serue destarS nelas ataúdes dou- 
tra feyção dos nossos com muytos lauores dourados & 
lamanbos !\ sam necessários doze & quize homês pêra 
os leuar, & nestes leuão os finados a 4inisr a certo lu- 
gar fora das pouoações, & segundo a calidade da pes- 
soa assi leua bo ataúde, & assi lhe fazem ho fogo com 
que a queimão^ que a hfls ho fazem com sandolos & a 
outros com outra lenha. Crem i\ ha outra vida despois 
desta, mas não como nos cremos, jejuão |x>r sua deua- 
^ trinta dias no anno & não come se não á noyte : ne^ 



LIVRO V. OAPITVLO XU 137 

le tSpo ha muytas pregações & outras cirioionias de suas 
idoiairiiís. TS que quê leua ho alheo que na outra vida 
fica caiiuo da pessoa a quê ho leuou , tem 2} matar cou* 
sa viua pêra comer Q he mao , & muytas veses mSda el 
rey apregoar por sua deuação ^ não roa lê nê pesque, & 
a pena não se executa' muy lo por^ quê Cê cargo disso 
Jlies dá lugar por{| lhe peita , & por isso afogão os por- 
cos ê rios quando os ^fê matar nã morre nbua pessoa 
por justiça^ & quando comete crime porQ mereça morte 
degradãno pêra os lugares da costa ou peraralg&as ilhas. 
Ha taixa pêra h& homem que mata outro pagar certa 
cousa segundo a calidade do morto a seus erdeiros ca 
a seu senhor, todo ho natural deste reyno que tem se- 
nhor quando morre lhe fica a fazêda, & os herdeiros fa- 
zem hu presente ao senhor segfldo he a cantidade da 
fazenda, & ele lhe faz mercê dela : & desta maneyra do 
pião ao caualeyro, & da hi pêra cima ate el rey. Casafli 
€8 homês cõ hila só molher, & deles com duas Sc três 
o que os outros tem por má cousa : ao tempo que as mo- 
Iheres andão pêra parir lhes faaê no quintal das casas 
em que morão fada casa. de terra & canas como sain as 
outras 9 & nestas estão trinta ou corenta dias despois de 
paridas, & tem por mal entrarem em suas casas sem 
passarem estes dias. A gente deste reyno comflmente 
he bê ensinada & de melhor condição q^e outros ne« 
nhãs gentios, & falão verdade, & mais chegada aos nos^ 
SOS costumes que outros algfls, & come o que nos co« 
memos o que outros não fazem : & parece (| seriâoOhris- 
tãos sem trabalho se os connersassem & doutrinassem, 
tralanse todos bem. Ha antreles homês letrados em ou"» 
tra lingoa que tem a fora a própria. como anlre nos ho 
latim , escreuê em papel com tinta & tem escripiuras 
antigas : a cortesia que vsam he leuantar as mãos dian* 
te do rosto, & se a pessoa he de mór i^alidade que a que 
lha faz não responde assi, mas faz hO geito disso: vsam 
de rouy ta policia os nobres em sjbu seruiço , & seruense 
das portas a dêtro com anãos dQ que ha muytos oo rey^ 

LIVRO V. s 



J38 VA' HISTORIA DA ÍNDIA 

DO , & ami «ooi naolherea pequenas corcouadas detraa & 
dianle & quebrânas énn crianças pêra este fim pori) não 
eroprenhem, & nestas tem suas senberas grande con- 
fiança. Tem estes nobres muytas maoeyres de folgar a 
ibra montear {} costumSa muyto, & húa he -meterense 
em paraós que tè, assí grandes como pequenos deles de 
hú soo pao, & de tal maneyra que leuflo por bainda cem 
remeyros de pãgayo, & dourados & pintados, & no meyo 
huík casa de madeira do mesmo modo, & nas proas bOa 
deuisa: & ha outra feição de paraós que tem porciroa 
outra ordem de remos compridos, & os remeyros testi* 
dos de libré. E metidos os senbores nestes paraós, a* 
postão com outros a quem 'mais remara, & leuão ins^ 
trumentos que tãgem & remão ao seu som : cousa muy<> 
to pêra ver, & el rey vay ver esta festa a húa casa que 
tem pêra isso no meyo do rio, & ali está ho preço da h* 
posta, & 08 juyses que ho defterminâo. E os da aposta 
aam muytos, & infinita gente polo rio & pola terra a ver 
esta festa em qUe se fazS grades gaatos. Andâo estes 
senhores em andores muylo ricos pintados & dourados , 
deles cubertos & outros dioscubertos & leuãnos dez & 
doze homês. Ho andor dei rey & de seos filhos sam de* 
ferentes dos outros 5 terê os tirãles forrados de-marfim, 
& (S por honrra ir& acòpanhados de nuyta gSte de pé: 
os estrãgeiros não |>odfi andar nestes andores se não per 
mercê dei rey. Neste réyno não se iaura moeda, & cor^ 
rem por ela h&as bacias velhas de ^ se seruirão & sam 
de fuzileira, por peso se compra tudo coeias: ho peso cu* 
mO se chama bica ^ he dous arratês & meyo & tem cem 
miticaes & comprado è ouro & leuado a Choramandel 
ou á índia vai de mil & quinhentos ate mil & seysc&tos 
rs como outra* mercadoria. Ha neste rey no grandes & 
rjcos mercadores que tratâo todos em lacre, & na pe- 
draria que disse, & em almisquere, ouro, prata & bei** 
joim, &. mantimêlos, & jarras martabanas & ontra lou* 
ça branca que se faz na terra : & todas estas mercado* 
rias vem doutras partes, de que trazè^ emprego de cou* 



LIVRO .▼. «APrrrui xt. U9 

sas l\ nSo ha na terra» El rey he gelio & seruesse cÕ 
grade estado / poucaa \ezô6 tétú gkieÉsráJcom seus vezi- 
niioa : ho roais do tempo reside na cidade de Pegu- em 
que tS hfls muyto graades paços de tnàdeiraaleuan la- 
dos do chão roujto polidos com ouro & pinturas: sani 
cubertos de telha mourisca^ tê. grade ierp^jro diáte, & 
ao derredor deles sam tudo aipêderes ou estrebarias da^ 
iífantes & de caualos* He miijto dado;á cai^ 5 princi^ 
palm6t« daiifantes, de que toiDa^muyloé & feytos.man* 
SOB manda vender os que lhe sobejSo: traz na sua, corte 
muytos fidalgos & senhores: tSpor agouro ver abutre^ 
& por isso nos^ seus palcos eslâo sempre vigias pêra í) 0$ 
«nxotem* Tem por costume ho principal senhor do reyv 
no ser ano do prineipe & sua molher lhe dá-ho ley». 
te, porQ sendo ien ame alo .a>»lreiçÍopor.M4i> cansai 
fieruese el rey de capados deBengala que vem portem^ 
po a ser grades senhores na reylio & » mandato : & 11* 
cha el rey Q lhe sam leaes , & que não pretSdfi se nâe 
«eu serui<jo porqoe nâo tem dntrS. Em b&a .cidade*deslé 
rey no a i\' nâo soube* ho nome está joato deJa na borda 
de b& grande rio hu templo & diante dele no rio ha hãa 
grande soma de peixes 4)uasi do tamanho de tubarões 
<fDe tem três ordSs de dentes &. as bocas rouyto grfldes^ 
Ã. sam tãa domésticos que batendo cofn a mfio nagoa & 
chamando^ es por caertò nome, acod^em muyloa abrindp 
a boca^ & m genie lha* mete arsm* nela. Cousa muyta pei- 
ta espaetar pereba rk^lser grande» ft^^demaré per(p db 
mar nfto se mudaneni s^gtiÁ eereMí i^onliaes: & dlzérti 
que sam daquele templo, lt> tèkiM^ue:<i|ii84iiata algO qa;e 

oSo viue deSfloiabft 41UÍ04 ,:.:;>.;•;.. «^ 



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140 HA HirroaiA 0a índia 

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C A P I T V L O XII. 



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Dc como António correa assentou pazes ePegú. 



artido António correa pêra este reyno de Pegú foy 
«urgir na barra de Martabâo a viole sete de Setembro ^ 
onde as agoas corre tanto que em deitando ancora ac6* 
deo bo auste fogo no escouuem , & ele surto acodiráo 
logo pilotos da barra pêra ho melerê no rio como mele- 
jão, & foy surgir diãte de JMartabão, & dali mandou 
por embaixador a el rey de Pegú que estaua bê corêta 
íegoas polo sertão a hQ António paçanba natural Dalan- 
4)uer & por seu escriuào hQ Belchior carualho, & pêra 
Jio acõpanharê algQs. dos nossos ate sete ou oyto, & assi 
Sofio coele piães da terra. E chegado António paçanba 
á cidade de Pegú íalou a el rey ^ & despois de lhe dar 
liu presente que lhe leuaua, lhe deu a êbaixada da par- 
te dei rey de Portugal, cuja concrusam foy assentarè a*- 
jnizade Íl trato , & que pêra isso bia aquele seu capitão 
António correa ^ fícaua no porto de Martabâo, onde po- 
ileria mandar hú hom6 principal de seu reyno, pêra \ 
ambos em nome dei rey de Portugal & dele aasentasseoi 
as pazes. Do que el rey foy cõtente, & despachou logo 
pêra isso a bíl çamibelegâo principal de sua casa, & 
assi bo rolaz mór do reyno, que como -disse tem por san- 
to pola grande âu^tinõcia \ fas. E chegados todos a 
Afartabão viose Aniooio correa em bua mesquita con 
^mibelegâo &;com ho Rolis mór. E leuou consigo ho 
seu capelão com sua sobrepeliz, porque ele & ho Rolís 
auião tambS de jurar as pazes em suas leys , & na mes- 
quita se assentarão todos quatro no chão sobre húa al- 
catifa. £ çamibelegão tirou de hQa buceta de marfim 
bua folha douro batida do tamanho de hila nossa de pa- 
pel escripta de suas letras, em que se cdtinhão os capi- 
tolos das pazes da parte dei rey de Pegú ^ ele auia de 
jurar : & disse a António correa que lha mandaua el rey 



LIVKO V. CAPITVLO ZIII, 141 

de Pegú pêra a leuar ao gouernador da índia Q a man- 
dasse a ei rey de Portugal, & b&4loliz disse Q prouues- 
se a deos que fosse aquilo por bem* £ tudo isto decla* 
raua bfl lingoa , & logo tirou kil grande maço dolas em 
que estaua escripla sua seita: & as letras erão tudo ós 
com pontos bus com mais outros com menos : & ele & 
-çamibelegão & António correa poêdo todos três as mãos 
sobre aquelas olas jurarão cada bu por si em nome de 
iieu rey de manterS & goardarem a paz & amizade se* 
gundo se continba nas capitulações, £ despois fizerâò 
bo mesmo juramento António correa, çamibelegâo & bo 
nosso capelão sobre bo cancioneiro geral Q bo capelão 
acertou dabrir nas obras de Luys dasilueira: na que 
fez sobre bo ecclesiastés de Salamão ^ começa vaidade 
das vaidades, & não quis que fosse bo liuro dos euan- 
gelbos , porque lhe não pareceo rezão jurar por eles a 
qufi não cria neles , & mais porque sabia que aqueles 
Aão auião de goardar bo juramêto se não em quãto lhes 
fosse necessário goardalo. £ juradas as pazes , & 6can* 
•do os nossos em grande amizade com os da terra come- 
çouse antreles bo trato: & ficou aqui António correa 
ate bo mes de lunbo do anno de vinte que era a mon- 
ção pêra SSalaca» 

CAPITVLO XIII. 

JDe eomo jánlonio pacheco ^ outros forâo catiuos pelos 

Aenês ^ a causa por§* 

J^espois de partido António correa pêra Pegú Afonso 
lopez da costa capitão de Malaca que estaua muyto car- 
regado c6 António pacbeco ser capitão mór do mar ^ 
Ibe auia medo por ter dous irmãos & sentia de st que 
por sua forte condição Ibe podia dizer algfla cousa de 
que se escandalizasse , & ieuantarsebia contrele. £ dei- 
tando sobristo suas contas acbou que bo melbor seria 
não bo ter ali ^ & por isto buscou achaque pêra fazer 



I4t DÁ HYSTOMA DA ÍNDIA 

autos dele^ dizeodo que ho desacataun, & ^ ja se leoan* 
tara cÔtra Nuno vaz pereyra sendo capitfto, & prSdeo 
ho & preso ho tnandoo pêra a índia na nao espera de 
que era capitão Gaspar da costa irmão dele Afonso lo* 
pez , & indo de viagfi forão dar hQa noyte na ilha de 
Gamispola onde se perdeo a nao, & a gente se salaou. 
E estado ali sem remédio pêra se tornarS a Malaca fo* 
rão hi ter certas lãcharas dei rey Dachê, que andauã 
darmada^ & como erão Imigos dos nossos pelejarão coe^ 
les, & por serê muytos os matarão despois de se defen» 
derS muyto bS, & matarS muytos Imigos. E âtonio pa- 
checo, Gaspar da costa, Diogo fernãdes, Grigorío gon* 
^alues do Algarue, & outros três de muyto feridos cayv 
rão, & assi os tomarão & forão catíuos* E despois os 
mandou Garcia de sa resgatar sendo capitão de Malaca 
na vagante d Afonso lopez da costa, que adoeceo des^ 
pois diaso : & porQ sabia quão difícultosamente ali auia 
dauer saúde poios ares de Malaca serem muyto roins, 
determinou de se ir pêra a índia pêra ver se podia iá 
eárar. E por(| não tinha em {} se ir reconciliou cõ Gar- 
cia de sá, com qu6 eataua mal: & cõcertou coele qu% 
lhe daria ho têpo j} tinha por seruir da capitania r & t\ 
lhe desse ele a sua nao. E sabendo isto ho alcaide mór 
quisera ir á mão a isso: & poerse era dereito cÕ Afon- 
so lopez: & ãboa ouaerã sobrisso palaú/as roís. E por 
derradeiro a capitania ficou a Garcia de sá: & Afôso 
lopez partio pêra Cockim em Dezebro do ãno da xil. 
& la morreo despoia^ aoies ^ho gcMiernador chegasse 
do estreito. 



UTRO V. GAPlTyi.D XXflI. 143 

C A P I T V L O XIIII. 

Do ^ bo gouemadorfez em Cochim na entrada do verão : ^ 
de como António de Saldanha chegou Dormuz. 

JL/elerminftdo o gouernador de ir no fioo seguinte a* 
queimar as gaiés dos rumes ^ eslauão S luda & fazer 
bua fortaleza, fez se prestes naQle inuerno do ânodexix. 
& passado bo inuerno , porQ n2o podia partir senão dali 
a cinco meses, mâdou entre tftto fazer guerra á costa 
de cãbaya fior hii. fidalgo chamado Christouão de sa, que 
agora he frade da ordè de sani Frácisco, a ^ deu a ca* 
pitania mor de três galés: cujos capitães a fora ele fo<^ 
fão dõ lorge de meneses^ & lorge barrete de beja : & 
mãdoulbe ^ na entrada de Janeiro fosse coele em Goa. 
E a causa do gouernador mádar fiuer esta guerra a cã-> 
baya era, porQ Meiiquiaz capitão de Diu cõtra as pazes 
2| assStara cõ Afonso datbuquerj) trazia dissimuladamen* 
te fustas pola costa ^ matauâo os nossos se os achauão 
de b6 Iflço , & tomauão as nãos de nossos amigos , finais 
mSle 4 ^^ ^^^ guerra encuberta: & porisso bo gouer-^ 
nador mandou a Cristouã de sa Q nfto perdoasse a ne» 
nbiaa cousa de Cãbaya : o Q ele fez assi despois Q foy na 
costa, & desejaua muyto de topar cÕ Xequegi capitão 
das fustas de Meiiquiaz Q nOca ousou de sair sabêdo Q 
Cbristouão de sá âdaua pola costa, onde fez mujtas pre- 
sas & matou mu3rtos mouros , & despois se foy a Goa 
como lhe bo gouernador mandara : & tambfi na entrada 
do verão checou António de Saldanha á põta deDiu vin*** 
doDormuz Õde fora inuernar, & ali fez algQa» presas c6 
os seus capitães, pricipalmente Diogo de saidanha seu 
sobrinho capitão de hQa nao, & LourSço godinho capi* 
tfio de hOa earauela, i} abairroarão ambos htta nao de 
mouros Q foy ter á barra de Diu & aferrandoa pelejarão 
c8 os mouros [) se deí(Bderâo hft pouco, & despois se r&^ 
derão & 08 nossos capitães 6trarão a nao & a roubarão^ 



144 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

de muylo dinheiro, & nã foy tSo secrelamSte i\ ho não 
soube António de saidaoba, & fez sobrisso tSntas dili- 
gScías Q ouue a mayor parle do dinheiro, & dahi se foy 
9k Goa & de Goa a Cochinoi ao gouernador (| lá estaua. 

C A P I T V L O XV. 

De como par tio de Portugal por capkâo mór da armada 
da índia lorge dalbu^aue , ^ de como dÓ Luys de 
ffuzmâo arribou ao brasa por lhe qbrar ho lem>e. 

iAI este anno de mil & q-uinhSlos & dezanoue parliope* 
ra a índia hua armada de dezasete velas grossas de ^ 
foy por capitão mór lorge dalbuquerQ que S têpo Dafon- 
80 dalbuquerQ fora capilãe de Malaca, & hia prouido 
da mesma capitania na vagãte Dafonso lopez da costa* 
Forão os capitães da frota ho iloutor Pêro nunez pêra 
vedor da fazenda da índia cÕ ha regiraSlo em que el 
rey tiraua ao gouernador todo ho poder , & mãdo que 
dantes tinha na fazenda & ho daua a ele Pêro nunez,, 
& assi ho auia por isento da jurdiçâo do gouernador nos 
casos ciaeis & crimes. E coeste officio íeuaua mil cru« 
zados dordenado cadãno , & t^ podesse mandar cadSno 
polo índia cê quintaes de pimenta cÒprados polo seu di* 
nheiro, & assi cS quÍDtaes de cobre que compraria a el 
rey pelo preço Q lhe custaiião na casa da índia, & ^ 
mãdasse cadãno a Portugal Ires caixas forras & dous es-* 
crauos, & Jeuaua vinte hom6s pagos aa custa dei rey 
pêra iio acompanhará. Ho outro capitão foy Diogo fer^» 
nãdez de beja pêra capitão da fortaleza que el rey de 
Portugal cuydaua que estaua feyta 6 Diu , Rafael cata* 
pho, & Rafael pereslrelo pêra ir6 aa China nas nãos em 
q hiâo : & ho outro capitão ^ hia em hQa nao de dd Nu^ 
no Manuel, Pedreanes francês, Christouão de mSdon<;a, 
Manuel de acusa , Pêro da sílua , laconie IristSo , dom 
Diogo de lima, Lopo de brito pêra capitão de Ceilão, 
lo^o rodrigu^z «DaUnada, Garcia chainho pêra feylor do 



/ 



LIVRO V. OAPITVLO XV; 145 

jMalaca, & outro capitão a () dSo soube ho nome, & dÕ 
Luys de Guzmão bíi fidalgo oagtelhano ^ hia 6 hu ga« 
Jeâo. Partidas estas nãos de Lisboa arribou do Diogo da 
-lima a Portugal, & nâ foy a^ie âno: & os outros segui* 
râo auãte todos em conserua bo mais do têpo , saluo dd 
X.uys de guzmâo õ logo se apartou: & auSdo quinze 
dias 2) passara as Canárias ouue vista* de búa carauela. 
E sabêdo do Luys do seu piloto, {} era da Mina & ho 
dinheiro í) poderia trazer , disse ^ pêra ^ queriSo mais 
•índia ^ tomala, & irense polo estreito de Gibraltar, & 
em leuãte se fariâo mais ricos. E isto disse secretamSte 
-ao piloto como í| ho atentaua pêra ver se ho faria : & 
lio piloto fez J) cuydaua {} ho dizia zombando , & assi 
Jhe disse tarobõ que não tomassem a carauela. £ este 
piloto era Português natural de Lisboa, & parecendo- 
lhe muyto mal o f^ lhe dissera d5 Luys em se apartan- 
do dele ho comunicou cò quatro irmãos Q hiâo no galeáo 
naturaes Deuora, cujos apelidos erão galuões caualey* 
108 muyto esforçados & de grandes espíritos, por^ isto 
sempre foy natural nos deste apelido: que lhe promete- 
rão, ^ se dom Luys quisesse fazer o t\ não fosse rezão 
^ lhe resistirião. E estes se apartarão logo da cduersa- 
^o de dÕ Luys & nâo comerão mais coele nê jtigarão , 
em tanto ^ bê eotendeo ele !\ ho entêdião, & f} Jhecom- 
pria dandar dereyto, por^ lhe nã auião de sofrer outra 
coiísa, pelo ^ determinou de fazer corpo de gente i\ te- 
uesse de sua mão , & fez hQ rol de todos os castelhanos 
j) hião no galeão & achou serC cincofita : & a estes roã- 
dou dar do vinho & da agoa (} ele bibia ^ era ho melhor 
dizêdo j) bo fazia por^ erã fidalgos : & assi começou de 
fazer outras soberbas aos Portugueses. E a primeyra 
despoís desta foy querer tomar hila pipa dagoa Sc outra 
de viobo a hQ Francisco fernandez ouriuez (| fora seu 
ospede è Lisboa & lhe fizera lá muytos serui^os, & pê- 
ra lhos pagar ho fizera ir á índia. E tomandolhe ele as-* 
si ho seu vinho & agoa, por se queixar disso, dizendo 
Q outras mercês esperaua dele ^ quisera ho mandar me* 

LI VÃO ¥• T 



146 IVL HISTORIA DA ÍNDIA 

ter na bdba. Ao Ç logo acodio bo piloto com os galuSes, 
dizõdo <} não fazia jusii^a cÕ soÕ que lho não auíão de 
efisentir. E receando dom Luis que ho ãzefisem , & que 
«e leuaniadse a gente coeles, porque os que linha por 
61 erão poucos disdimulou cò Frâcisco Pernaodez & não 
lhe tomou aa suas pipas nfi ho mandou meler na bÕba, 
& disse ao piloto que pêra ^ trazia punhal: *& isto por 
hu que trouue daquele dia em i| lhe disse que tomassem 
a carauelaida Mina, & respondeolbe muyto crespo: 4 
queria ele ao seu punhal que lhe não fazia nenhu pei^ 
juyzo : mas ^ fizesse ele como faziâo os frades (| todos 
bebia ho vinho roim & ho bõ, & Q nã auia antreles ex- 
cep<2ão, & assi fazião os Q hiâo pêra a índia t & Q se 
são daua vinho escolhido nê agoa se não aos capitães & 
ao piloto & mestre, & se lho não quisesse dar ^ Itm não 
daua nada , porem que folgaria de ho ver dar a outra 
gente* E dõ Lujrs se calou , nè nenhii dos seus não fa» 
lott nada : & dali por diante sempre ouue desgostes atra 
ho piloto & ele & ele não ousaua de bolir polo ver liomt 
desprito. E indo assi tanto auãte como ho cabo de boa 
Esperada, lhes sobreueo hCl temporal com ^ lhe quebrou 
bo leme por baixo da cana obra de hu couado : & por 
dali por diante não gouernar bê (ainda Q ho remedia* 
rão) disse bo piloto ^ se não atreuía a dobrar ho cabo 
c5 a^le leme, por aquela tormêta não ser nada pêra ou- 
tras que autão de vir, & por isso fez bo capitão consc'- 
)fao sobre arribarS , & acordarão (\ arribassem ao Brasit 
porQ dali não perderião viaj3 & iriâo inueroar a Moc^am*^ 
bi^: por^ tornado a Guiné, onde algQs dizião que tor* 
nassè auiâ de tornar a Portugal. £ coeste acordo se fí* 
zerão na volta do Brasil , de que ouuerão vista despoís 
de trinta diaa, & correndo algíis portos dele sem acharfi 
madeira de que podessè fazer leme , forão ter a hOa 
baya grade õde ho piloto, capitão & carpinteiro sayrâo 
a ver a terra cõ obra de trinta homõs: & despois de a* 
eharS muyto aruoreéo de que se poderia fazer ho leme, 
em se querêdo. tornar ao gaieão , parecôdo ao capitão $ 



Limo V. CAPITVLO XVI* 147 

se poderia ali vingar do piloto das defereiKjas que teue- 
ra coele veolhe a falar nelas, & a dizerlhe más palauras. 
£ lio piloto posto Q não Unha da sua parte mais Q hú 
primo seu & ho carpinteiro, & ho ca|ntão tinha os ou- 
tros que erâo vinte seys, não lhe sofreo o {} lhe dizia^ 
& leuido de hua laça que trazia enrreslou no capitSo 
que arrancou da espada, & assi os da sua parte : & bo 
primo do piloto & ho carpTteiro (izerSo ho mesmo, & co* 
me<^i»e antreles hti brauo jogo de cutiladas, que ho pi* 
loto era talète horofi & fazia terreyro cõ a lança & ho 
primo & carpinteiro lhe goardauão as costas. O que v8* 
do ho eapítão, & ^ nâ se acabaua a cousa tSo asinha 
como ele cuydaua, disse ao piloto. Aa irmão comigo. E 
eie respondeo oõuosco pesatal. E coisto lhe cometeo ho 
capitão amizade & a fizerão logo, & jurarão todos de tet 
segredo no que passara , porque se não escandalizasse 
do capitão a gente do galeão, que ficou bo carpinteiro 
ferido , & por isso se não pode ter segredo & quasi que 
ae ifipeo, mas como nã foy de todo ninguS fez c&ta<lis60. 

C A P I T V L O XVL 

Das brigas tpjoR dÓ Jjuys de guzmâô õuue côhoseujyir 
loto , ^ de como os brasis matarão perto de sessSta doê 
nossos. . 



p 



assado isto mandou bo capitão bo mestre a terra pe^ 
ra mâdar fazer ho leme & leucu ho carpinteiro assi feri-* 
do como estaoa^ & foEão coele dous bombardeiros que 
lenarao dous berços tom que fizerão hiUi estancia pêra 
•e deftfiderS se a gente da terra lhe quisesse fazer mali 
& isto porque sabião que de sua natureza cowè os es-* 
trangeiroB. E oomcçXdose de fazer ho leme começou de 
creeer muyta gfite da terra, que be da maneyra que ja 
àisÊB ix> liuro primeyro , & auia aqui formigas muylo 
grades & peçonhfilas, & crianão em aruores em ninhos 
que iii íaaiAo da StyK^ Ç antre nos os faafi as anduri^ 

T 2 



r^8 DA HISTORIA DA INDfA 

nbas. Tfdzia esla geie os inaniimetos Q auia na terra ^ 
como lambS coley a trás, & dauSnos aos nossos por.an- 
zoios, alfinetes & outras cousas baixas, & não auia quê 
o» entSdesse se não por acenos , & de cada vez creeiâo 
mais a ver os nossos & ho galeão : de ^ se muyto espan- 
tauâo mostrando <} nunca tal virão , & conuersauâo com 
06 nossos pacificamente & eles coeles , & forâo algús a 
hQa pouoaçâo ^ estaua dali a bua legoa. E auendo oyto 
dias que se isio cõtinuaua leuou ho piloto ho leme ve- 
lho a terra pêra lhe tirarem os ferros ^ tinha pêra he 
nouo que se acabaua : & não podSdo os nossos aíalo pa- 
la área em Q atolaua rouyto ajudarãlhc duzentos Brasis 
mandando os a isso hu que os chamou cõ hila cabaça 
cbea de pedras com que fez muyto grande rogido, & 
destes auia muytos âlre aquela gente. £ alado ho leme 
Õdestaua a estancia dos nossos foyse ho piloto ondesta-* 
na ho arrayai dos Brasis que era de redes armadas so* 
bre estacas ou presas a aruores , & nelas dormiâo. E 
yend4> os Brasis bua molher que ho piloto leuaaa lodua 
se chegauâo a vela como a cousa noua & diziâo turoar- 
gatu !\ parece que antreles he palaura despanto. E es- 
tado assi chegou hfi homS que parecia de corenta annos 
alto de eorpo & bem desposto & nu , & trazia ho cabeia 
enrrodiUiado ao derredor da cabeça , & trazia hfl cinto 
de lobo marinho forrado dossos dalimarias, & jua cinta 
bflft espada despi nha de peixe de cinco palmos de com* 
prido fc na mão hú manchil de ferro muyto velho: & 
em chegado Q falou y logo todos os outros se calarão & 
esteuerão prõlos a ouuir o que diria ^ no que paraceo 
que era se!k>r deles , & logo foy dali hti bradando como 
pregoeiro , & quantos ho ouuião se assentaufio caiados a 
ouuir o Q pregoaua. Isto íeyto mãdou este que parecia 
rey ou senhor dar ao piloto muyta soma de mâtinientos, 
& isto segQdo parecia cuydando que fosse ho capitão do 
galeão, por^ ele ieuaua hú pelote vermelho & h&a espa* 
da na cinta, & hua adarga notia embraçada, & os ou-* 
tros nossos ho acompanhaufto^ & dandolhe tambê ho pi* 



LIVRO V. CAPITVLO XVi; 149 

loto dessas cousas Q ieuaua iornouse pêra òde se fazia 
bo ienie. E estalido comSdo chegou ho carpfnteiro (que 
âdaua )a em pé) do arrayal c& outro nosso & dísserão^ 
Day ao demo esla geote, ^ nos leuarSo a hiia nruore 
em cujo pé auia hila abelheira , & acenarãnos que fizés- 
semos ho buraco mór do que era : & feyto cõ hfla ma- 
chadioba Q (irauão os fauos disserãnos que nos fosse- 
mos, & nSo querendo nos fazelo logo encararão bê cen- 
to 08 arcos em nos cõ as frechas embibidas , & por isso 
nos Yiemos. E dizendo mais que se despachassem dali 
& {| se acolhessem ao galeão , & Q não fosse mais nin- 
gu8 ao arrayal : côlrarioulhes ho piloto , dizSdo Q era 
moyto boa gSle & pacifica. E acabado de comer tornou- 
se ao arrayal cõ certos dos nossos , dõde dahi a obra de 
lifld Jiora vê grande numero de Brasis a correr & grita- 
do, trazêdo algQs as armas do piloto & de seus compa- 
nheiros como que os deixauâo mortos , & dão sobre os 
BosBOs que erão sessenta & três <} esiauão na estancia , 
donde comec^arão de jogar os berços que não fizerão ne- 
nhQ nojo nos Imigos por se baquearem todos , & como 
erão muytos inueslirão com a estancia, de que os nos-* 
M8 se começarão a defender áa cutiladas o ^ fizerão por 
espaço de hãa hora recolhendose á praya : & neste tem- 
po poucos & poucos forâo dos nossos mortos cicoSta & 
três, & os dez Q ficauão se laçarão ao mar & anlreles 
forão ho mestre & ho carpinteiro, J\ com os oyto se sal- 
narão no batel, Q chegou nesta conjunção: & ho mes- 
tre se foy logo ao galeão, & disseo ao capvtãa, a Q não 
pesou nada da morte do piloto & dos galuães & dos ou- 
tros ^ hião coele por se ver desapressado pêra u que pa- 
rece q ja determinaua de fazer, & ele foy a terra cõ 
corenla homõs pêra trazer os lemes, & os itnigos se a- 
fastarâo com medo porque hião todos armados & reco- 
lherão os nossos os lemes & do velho acharão menos bda 
fêmea, &c assi a ferram8(a do carpinteiro & do calafate. 
£ tornado 1k> capkão ao galeão deteuesse ainda ali três 
dias pêra se acabar ho leme , & neste» dias repartio ho 



150 DA HISTORIA J>A INBIA 

fato do piloto poios castelhanos de sua valia , & pêra si 
tomou hu pelote de graS^ que mãdou desmanchar & fa« 
zer pola feyçSo du Q tinha a figura do Damadis de gau« 
Ia Q estaua pintado em híi seu liuro, dizSdo !\ no mun- 
do auia dauer dous Âmadises, & Q hd era ja morto, & 
ele era ho outro, & coisto outras muytas rebolarias: & 
sabendo du marinheiro chamado loào velho que ho leua** 
ria a Moçambi^ deulhe a pilotajS do galeão & partiose 
despois do leme acabado. E auSdo cinco dias {} partira 
sem fazer caminho se não ao mar, fez meirinho do gar* 
leão a hu castelhano chamado sâto torrezno, P^^^^ mor- 
rera no Brasil o ^ ho era: & logo aQle dia a tarde ho 
meirinho pedio a todos da parte do capitSo as chauea 
das caixas dizendo Q as queria ver pêra ver se acbaua 
nelas fazSda Q era furtada dos ^ morrerão em terra , & 
cuydãdo todos que era aquilo assi lhe derâo as cbaues 
leuemente: & auidas pelo capitão mãdou tomar quãtaa 
espadas, punhaes & coyrac^aa os nossos leuauã nas cai-* 
xas : & isto aos Portugueses somête , pelo Q algQs d&» 
los se forão ao capitão , & disserftihe que pera{| lho 
tomaua as armas & ele respõdeo ^ pêra nâo peieja<^ 
rem hOs cõ os outros: & se não fizessem mais laaoa 
recados do ^ erã feitos. 

C A P I T V L O XVIL 

De como dô Luys de guzmâ se aleuâlúu c6 hú galeão de 
que hia por capitão^ ^ do qjejs aos portugueses ^ ho 
não q%Userâo seguir. 

Xsto feylo logo ao outro dia pola menhaS amanheceo 
ho capitão na tolda armado em hu arnês transado, & hd 
estoque nuu nas mãos , & coele c!quoenta armados os 
mais castelhanos & os outros estrangeiros de que se con-^ 
fiou : & fez vir diante de si a Frãcisco fernãdez ouriuez, 
<^ujo ospede fora em lisboa: & despois.de lhe mandar 
deitar h&s grilhões lhe disse q se cõfe&sasse por^ ho a# 



/ 



uia de matar, porl][ tinha determinado de lhe dar a mor- 
te CO o piloto & cÕ 08 galufies polas repões que passa- 
rão. £ sem bo roais querer ouuir ho mandou confessar 
por h& clérigo, que estaua cercado daqueles armados. E 
ho capitão passeaua pola tolda rezado muy to alio , & de 
quãdo em quãdo apressaua ho clérigo que acabasse a cou<- 
fissam. £ neste tempo os Portugueses eslauão no cõués 
muyto tristes vendo & ouuindo tudo o Q passaua, & por 
não terem nenhuas armas não podião resistir ao Q ho 
capitão fazia: & Sião virão que por lhe nâo resistirem 
lhe tomarão as armas & acharãse muy alcãçados, & co- 
mo eles estauão desarmados & os castelhanos armados 
deizarãse estar no conués, & também porque algQs ^ 
quiserão subir á tolda os nã deixarão os castelhanos per 
mâdado do capitão, Q não fazia se não apressar ho clé- 
rigo que acabasse de confessar ho seu ospede, & ele se 
detinha pêra ver se se lhe faia a^la fúria , & não se lhe 
indo acabouse a coníissam : & acabada foyse ho capitão 
ao seu ospede Q ho esperou assentado ê giolhos com as 
mãos aleufttadas pedindolhe pola paixão de nosso senhor 
que ho não matasse, & ele não dando por isso com muy- 
ta crueza lhe tirou hii reues com ho estoque que (inha: 
& cortoolhe hiia mão cõ ^ se ele quisera emparar, & 
ehegoulbe ás queixadas , & logo ho vazou com hQa es* 
tocada com que morreo , & após isso ho mandou deitar 
ao mar. Feyto isto despejou a tolda dos armados pêra 
ho conués ficado soo na tolda com ho mestre a Q man- 
dou dar ao apito: ao que se todos ajuntarão ao pé do 
masto ^per mandada do capitão , ^ lhes disse. As leys 
imperaes & as Q agora fazem os reys defendem com gra« 
iies penas os leuantamentos cõtra os reys & príncipes, 
ou contra os que tem suas vezes, principalmente cõtra 
seus capitães ^ andão na guerra, ou que vão parela: 
porque pêra ela ter boÕ 'effe3/to ha dauer tanta paz an- 
tro os que a hão de fazer €omo em htl conuenlo de fra- 
áes^ porque doutra maneyra em vez de a terem com os 
eontraicos a lerão consigo^ & por isso em Leuanteonde 



152 OA HISTOSffA DA INIM^ 

86 a guerra mais exercita que 3 outras paKes. Os capi-^ 
tâes tê tamanhos poderes que por muy pouca cousa en* 
forcâo soldados, & lhes mandão cortar as cabeças^ quã« 
to mais {K>r tamanhas como he leuantarse contra hQ ca- 
pitão: & porque eu soube certo por proua abastante pe* 
ra mi que aquele bomê me queria matar bo ma-t^y & 
nã por crueza como cuydarão algQs, porque eu tinha re- 
cebido dele boas obras s8do seu ospede , & isto me lê* 
braua pêra ho saluar se poderá , mas não pude por^ h(l 
tredoro não se pode poupar por mais boas obras que te- 
nha feylas : & se não castiguey este delito logo como ho 
soube foy porque erão roais na conjura<^âo, & ho princi* 
pai era ho piloto de quem não podia fazer justiça por 
ser a seguda pessoa despois de miro & mais poderoso 
que eu : & se eu quisera castigalo como merecia ouue* 
ra bandos & perdêramos nos todos: & Deos que sabia 
a determinação que ele trazia contra m! sem lho eu me* 
recer permilio ^ roorresse no Brasil tão neiciaroSte co- 
mo morreo, que ho mao pensamento que trazia ho ce- 
gou pêra Q não conhecesse que ho auião de matar mos- 
trãdolho nosso senhor tão claramente : & porque aquela 
peçonha que ainda íicaua na^le homem vos não empe*'* 
çonhentasse a todos ho matey^ no que fez o que deuia^ 
porque com sua soo morte atalhey as de muytos, & não 
pus a cousa em processo de justiça, porque a proua não 
era bastante pêra ho condenar por esta via , & ajudey- 
me das leys da guerra & do poder que dão aos capitães, 
de que sey que el rey de Portugal não deixa vsar aos 
seus, & não quer que va tudo se não per via ordinária 
de processos, & não perdoa a homem que mata outro, 
& por isso eu não ousarey de tornar diante dele, nem 
menos dir aa índia diante de seu gouernador, & quero 
me ir a outra índia que he mais segura & onde todos 
faremos mais proueito, & esta he no mar de leuante fi- 
de andaremos a toda roupa , & eu vos seguro que em 
ho anno ganhemos mais do que valera a carrega da es- 
peciaria que esle galeã poderá trazer da índia, & ali 1^ 



LIVRO V» CAPITVLO XVII. 153 

naremos muyto boa vida refrescado cada dia em terra o 
que nâo ouueramos de fazer na índia, por isso qu5 qui^ 
ser ir comigo diga mo, & quem não também, porque 
eu lhe dou a fee de fídajgo de lhe não ter por isso má 
vontade, & de ho deitar na primeyra terra que tomar- 
mos. Isto dito chamou logo cada hh por seti nome pêra 
Azer rol dos que quisessem ir coele & dos que não, & 
aos ^ lhe dizião que si daua juramSto de lhe serem leaes 
& morrerem coele, & soos dezaseys Portugueses ouue 
que não quiserão ir coele nem ele os pode conuerler a 
isso por roais que lho persuadio, & outros ouue que se 
assentarão no rol dos que auião dir , & a estes que não 
quiserão lhe mandou lançar griltôes, dizendo que ho fa"» 
2ia por não fazerem algOa reuolta , prometendo de os 
lançar na primeyra terra q\xe tomasse : & pêra os ter 
mais seguros do Q ele receaua mandou os meter de noy* 
te em hlia corrente & dormião no conués , & mandou 
poer ao pee do masto h& mandado seu & assinado por 
ele, em que dizia que dali por diante qual quer Portu- 
guês que fosse ao fogão em quanto lhe fizessem de co^ 
ner que fosse açoutado & pregada a mão dereyta no 
masto, & a mesma pena teria todo o () de noyte não dis- 
sesse : ou da vigia, sou foão vou fazer tal cousa, Sequem 
como fosse Aue Maria por nao não fosse requerer sua 
regra, & quem mijasse na amurada do nauio» E dali pr 
diante como quem se temia tinha de contino doze ho- 
mSs armados que ho goardauão aos quattos. Diuulgado 
este mandado acertarão dous Portugueses de pelejar no 
fogão & ele os mãdou açoutar, & pregar as mãos no mas- 
to* Do ^ 08 Portugueses íicarã muyto indignados conlre- 
]e, & se arrepederão muyto de se assentarS no rol, nem 
lhe darem aafés de lhe serem leaes, porQ vião que lhe 
Bão goardaoa a que lhes dera , & conceberão i^mh* 
sho ódio eontrele que ho matarão ee teuerão armas , 
mas não as tinbão, que cõ quanto se assentara pêra 
irfi coele, ele não se íiaua deles. £ cada dia enuenta- 
na achaques pêra lhes fazer mal , porque ho não queria 
Livao V. u 



104 SA HISTOftlA PA IN0IA 

seguir , coro quanto lhes deu sua fq , que lhes não ti- 
uesse por isso má vontaile» 

c A p I T V L O xwni. 

X)e como dô Luys mafidou enforcar cinco Portvgue^ 
ses: ^ do mais (pie fez: ^ de como deixou ho gcdeâo 

JL^eteriDiuado do Luys de se leuantar disse ao mestre 
do galeã que se lornassem , & 4 ^o metesse polo estrei- 
to de Gibraltar , por^ la ele sabia por onde auia de ir ,, 
prometendolhe de lhe cortar a cabeça se ho assi não fi- 
zesse. E ho mestre uâo podendo ai fazer , lhe pedio htL 
estorinento pêra sua guarda, & saber el rey de Portu- 
gal que ele não tinha culpa: & ele lhe deu logo ho es- 
tormento ho mais autentico que pode ser: & dali feze* 
fèo volta pêra ponête.E indo assi disse hQ dia dom^ Luys 
que ele sabia que os presos determinauâo de ho matar: 
& por isso os queria mandar enforcar que se cõfessas- 
sem : & logo mâdou dar tratos de polé a bu deles cõ do- 
ze camarás de falcão , pêra {| confessasse a verdade se 
ho querião matar : &c dissesse se sabia se entrauâo todos 
Qesta conjuração ou deles* E com dór dos tratos o que 
os recebia disse sem ser assi , que os da cÕjuração erão 
trinta. £ nisto se pareceo que com medo ho dezia, por* 
que os nossos não erão mais de desaseis & os outros não 
falauão coeles» E )>orÍ8so disse do Luys quando lho ou« 
uío Q la hião algOs dos seus : & mandou logo chamar hu 
loão esteuês português , que cuydando Q era pêra lhe 
dar tratos se deitou ao mar. E então aiBrmou mais dom 
Luys que era verdade o Q dezia : & mâdou enforcar cin- 
co dos presos, & quer&do enforcar ho carpinteiro do ga« 
leão, pediraniho os castelhanos, dizendo que lhe desse 
a vida , pois fizera ho leme aem que não poderão naue- 
gar: & dom Luys lha deu, & aos outros que estauão 
pêra enforcar : & dali por diante deixou os outros : & 



LIVRO V. CAPITVLO XVIII. 1Ô5 

indo ja na volta das ilhas, desejando bo meslre de lhe 
fugir, disselhe que ali auia húa poiioaçâo de Portugue- 
ses de sesaenta vezinhos, que iria ali fazer agoada & 
carnagS de Q tinha necessidade* E islo com determina- 
ção de Yer se podia ali fugir. £ dom Luys lhe disse que 
fossem, Sc assi forSo ate auer vista das ilhas & surgirão 
antre ho iibeo do coroo & a ilha das froles : & estado bi 
pêra mãdar a terra chegou hi hQ mercador da ilha ter^ 
ceira em hfla carauela pêra a leuar carregada de trigo: 
& vêdoa dom Lujs meteose no seu esquife com algda 
bofoSs armado* secretamente : deixado por capilSo bu 
castelhano chamado Bezerril: & chegando á carauela 
disse ao senhorio dela , que dom Luys de gusmâo capi^ 
tâo daquele galeão por el rey de Portugal , que hia pê- 
ra a Jodia lhe mandaua bSa carta que lhe logo deu, em 
que desía, que indo ele pêra a índia arribara por lhe ^- 
brar bo leme {} fora fazer ao Brasil, onde os Brasis lhe 
fisatario bo piloto & outra muyta gente, & por isso lhe 
fora for<;ado toroarse pêra Portugal , & hia muyto de»^ 
troçado (\ lhe pedia por amor de Deos 8c da parte dei 
Toy de Portugal que fosse coele ale lá pêra lhe acodir 
-se teuesse necessidade. E cuydando ho mercador ^ era 
assi por seruir a seu rey foyse logo ao galefto cõ o pilo*- 
4o & outros, & de todos dd Luys deitou mSo & prSdeos 
& tomou bo dinheiro que ho mercador leuaua pêra cd^ 
prar ho trigo ^ erSo sessenta mil rs. E passados todos 
06 da carauela ao galeã deu a capitania dela a Bezerril, 
arlilbãdolba , & apadessâdolha muyto bd: & deulhe por 
mestre & piloto a hil Português i} era casado Ires vezes 
em Portugal & por isso fugira de lá , & por isto se fía- 
«a talo dele dõ Luys como dii castelhano. E pregut an- 
do dd Luys ao meslre do galeão pola pouoação da ilha 
leoott bo á ponta delgada , & nâo ho quis leuar ao pro* 
prio porto, pori} dali delerminaua de fugir, & dom Luys 
mandou a terra hft castelhano a dizer da sua parte ^ 
qufi quisesse trocar carnes por azeites & vinbos que foS" 
ae ao galeão. Istò4Nibido logo (òtílú a ele três bornes prin* 

u 2 



166 PA HISTORIA BA ÍNDIA 

cipais Q lhe leuarâo bu grade seruiço de refresco, & ete 
os prendeo, & porque lhes disse que os não auia de sol- 
tar ale lhe não darem cada bu dez ou doze vacas que 
as mandassem pedir a suas molheres. £ tSdo ele mao- 
dado este recado apareceo outra carauela, ^ determina- 
do dd Luys de tomar mandou sele marinheiros ao es- 
quife dando lhe os remos Q tinha em seu poder , porque 
se lhe não fossS c5 ho esquife. E estado os marinheiros 
esperando por eie no esquife, disse bfi deles aos outro». 
Que oulhais. E outro respõdeo. Corta cabo pesataK E 
estes erão Portugueses : & cortado ho cabo foranse pêra 
terra remando a todo tira , & derSo auiso á carauela ^ 
-dom Luys quisera tomar Q tambê fugio. E os marinhei- 
ros chegados a terra, requererão na pouoação que pren- 
dessem ho castelhano Q lá andaua , porQ dom JLuys era 
jfeuantado, & assi foy feyto: & os vezinhos da pouoação 
Q seriâo vinte vigiauãse dali por diãte de dia & de noy- 
te biã dormir por esses matos. Passado assi isto apare- 
ceo bua nauela que vinha de guiné: & visla por dom 
Luys mamlou a ela Bezerril na carauela, & quelbemao» 
dasse amainar de sua parte, & se não que a metesse no 
fundo, & ela amainou logo, & ho capitão, mestre & pi- 
loto forão leuados a dõ Luys, Q os ameaçou cõ tratos se 
não dissessem o que traziâo: & eles ho disserão logo que 
erão trezentos escrauos, algalea, marfim & pao verme* 
Jho , & Q a armação era de Duarte belo hQ armador de 
Lisboa, & abaldeado no galeão quanto vinha na naueta^ 
«ssi mercadoria como mantimentos passou a ela os pre? 
SOS que leuaua. E em quãto se isto fazia, determinan* 
do ja ho mestre do galeão de fugir pedio líceça a dom 
Luys pêra ir ver hQa sua irmaã que auia dias que lhe 
dissera (| linha ali Q auia rauyto tempo Q a não vira : & 
por se dd Luys não fiar dele ho não deixou ir a terra , 
mas mandouho na bateira da carauela cÕ dous castelha- 
nos Q ho nã deixassem sair se não § lhe falasse do mar. 
£ chegados perto da terra ho mestre teue tal manha Q 
juntamêle os empurrou & deu coeles no mar, & ele se 



MAVÍCO V. CAFITVLO XM. 1 67 

lançou apM eles , & em quãio os tomaoSo se acolheo a 
terra leuãdo consigo ho eslormento Q lhe dô Luys dera, 
^ sabendo Q ho mestre era fugido mSdou hã canhado 
•seu irmão de aua molhef ^era Portuguesa oô hQ seguro 
«sen ao mestre pêra '4 ^^ tornasse; £ o cunhado como 
foy em terra mandonlbe dizer qoe se fosse pêra ladrão* 
'£ despois disto esteue ali dÒ Lnys quatro dias com cal- 
•maria, & vindolbe vSto se partio pêra as Canárias, & 
jio caminho tomou hOa carauela carregada de f)asleJ j| 
•hia pêra Fraudes & hfl nauio carregado de pescado , & 
tendo quatro velas chegou ás Canárias & tomou porto 
jia Gomeira onde vèdeo toda a fazèda Q leuaua, & togo 
Be rompeo Q hia leuantado cÕtra ei rey de Portugal , & 
eobristo ouue taes rezdes cõ bo capitão Q lhe mãdou ti- 
.rar ás bombardadas á fortaleza, dõde lhe tambè tirarão 
.& quebrarão a verga do galeão , Q vendo ele ^ não po- 
.dia nauegar sem ela por não ter outra mudou ho fato & 
«arielharia dele á carauela de bezerril : & deixado ali ho 
iraleSo & as outras velas se loy na carauela caminho de 
Senilha. 

CAPITVLQ XIX, 

J}e como os mauros matarão a Manuel de sousa ^ core- 
la dos nossos em hba agoada , ^ como despois se per^ 
deo ho galeão* 

jy^ este têpo 8 isto sueedeo a dõ Luys de GuzmSo , se 
apartou tftbS da cõserua.de lorge daibuquer^. por mais 
não poder fazer outro capitão da frota Q auia nome Ma*- 
Buel de sousa & hia fi hfi galeão, que despois de passar 
jnuyto trabalho de tormfitas foy ter na parajS de Mo- 
çambi^ na fira deSetCbro, & parecSdolhe Q poderia ain- 
da passar á Índia nã qnis tomar Moçambi^ (posto ^ ti- 
nha necessidade dagoa) & passou auante, & como ja os 
leuãtes cursauão fez muy pouco caminho por serê por 
dauante, pelo ^ lhe foy forçado ir buscar a costa do ca- 
bo de Goardafíl pela tornar agoa, por^ pôr falta dela le« 



]68 9A BfSTOftlA DA INDfA 

uaua a mais da gSte do6te, & c^ida dia lãçaua mortos ao 
mar. E indo coesta fadiga tseguio tanto por a(}la volta Q 
cuue vista de çacotorá, {| nâo poda ionaar por ho vento 
ser porcima dela ^ lhe fioaoa ponteiro, & por isao arri« 
bou á costa : & auendo vista de terra se deixou ir ao 
logo dela caioinho de Melínde pêra ver se achana 5de 
tomasse agoa , & foj ter a hâ lugar de mouros chamado 
Mâtua em cujo porto surgío, & surto se foy a terra cõ 
ho piloto leuaudo oorêta homCs armados pêra tomar agoa 
por força quãdo nâo podesse doutra maneyra. E chegan- 
do a terra achou hOa muy boa fonte afastada do lugar 9 
& começando de lòraar agoa chegarão algus da terra a 
vender galinhas & outros mãtimêtos mostrido ([ter pa2« 
No Q cofiados os nossos , descuídarãse tSto ^ lhes ficou 
ho batel em seco b8 mea legoa do mar cõ a vazante da 
maré o que vSdo Manuel de sousa chamou os nossos & 
meteo-se coelee a leuar ho batel pêra ho mar a força de 
braços & de peitos. E vendo os da terra (^ andauSo Mp 
^la fadiga ajfltanse perlo de dous mil homés cõ soas aiw 
mas j & dando nos nossos os matarão todos Q nJlD ficim 
nenhu & tonoarão ho batel: os do galeão leuarão logo 
ancora por^ lhes não fizessem outro tanto , & sem ter 
qu5 mãdasse a via toiiiarS por remédio mâd ala hocootra 
mestre {) sabia disso algil pouco, & foranse ao iôgo da 
costa quasi sem esperãça de saluaçâo ^ porQ por serem 
os mais muyto doStes auia tão poucos Q mareasse as ve^ 
las Q não podião marear mais Q ho traquete, & coele nar 
uegauão pêra Melinde, porQ por não auer qu8 soubesse 
mandar a via nâo podião seguir outra rota, & indo asst 
chegarão a outro hjgar de nipuros chamado Hó}a, e«i 
cujos moradores acharão paz & amizade & lhe venderâe 
manlimenlos , & por isso se deteuerão seys dias no seu 
porto , & por hil desastre lhes ficou ho mestre em terra 
cõ seys homSs sãos: o que lhe fez muyta mingoa, por(| 
não ficarão mais Q seys sãos ^ podessem marear ho ga«- 
leão , & assi forâo caminho de Melinde a Deos & a v8« 
tura sem saberê onde era pori| não tlnhão quS maudaoi- 



86 a via , & por isso errarão Melinde passando ao mar 
dele , & forão dar eoi hfta ilha jfito de Quiloa onde ho 
galeão deu em hfl baixo & ali se perdeo , & os mouros 
da tetra se ajuntarão todos & matarão quantos hiSo no 
galeão, saluo hil moço que era sobrinho do mestre, ^ el*" 
réy de Zambízar tomou pêra aí. £ mortos os nossos a* 
jútaranse oa reys de Quiloa, de Zanzibar, de Pêfaa & de 
JMonfia & partirão antre aí quanto se tomou no galeão ^ 
que acabou desta matteyra com oa que hião neie» 

C A P 1 T V L O XX. 

De como lorge dalbuquerque com algús capitães de sua 
armada inuemarâo em Moçambique ^ outros passa^ 
râo á índia. 



p 



f. 



aatando cates capitães estas desauenturas , ho capi- 
tão moor lorge dalbuquwQ foy ter a MoçãbiJ), onde por 
ser tarde inuernou com sete capitães da frota ^ tambd 
bi forSo ter. E estes forão ho doutor Fero uunez , Dío- 
o feroandez de beja , Rafael catanho , Rafael perestre- 
b, Pedreanes francês, Ghristouão de mendoça & laco- 
me trístSo. £ Pêro da silua, Lopo de brito, Garcia chai- 
nho, loflo rodriguez dalmada & outros passarão á índia, 
& forflo ter a Gochim estado hi ainda o gouernador a {} 
disserão a frota ^ partira de Portugal , & Q lhes parecia 
S lorge dalbuquerí) cÕ os outros capitães inuernauâo em 
Moqambiq. E por ho gouernador saber se era assi 8c por 
ter necessidade deles peia a viagê do estreito (| auia de 
fazer êtrando Agosto os mãdou buscar a MoçâbiQ per 
h& Gdi^lo de Loulé capitão de bua carauela , a Q mã- 
dou ^ lhes dissesse ^ bo fossS buscar pelo estreito ate 
hidá pêra onde ficaua de caminho. 



I€0 DA HISTORIA DA imiA 

C A P I T V L o XXI. 

De como o gouemadorfoy ver a fortaleza de Coulâ, 

JL/espachado Gonçalo de Loulé ^ & dando Ho mar jazi*- 
go partiose o gouernador pêra GouISo a dar remate á 
jortaleza & fauorecer os Portugueses i) lá eslauão: & 6 
quã(o hía deixou por gouernador a dõ Aleixo de mene- 
ses pêra ^ acabase de fazer a carrega da especiaria 4 
auia dir pêra *portugal. E «le. foy em hua gale acõpa- 
nbado doutras duas, a cujos capitães não soube os no- 
mes nS do ^ passou S CouhSo , saluo () esteue hi passãte. 
de Ires meses dSdo remate á fortaleza a ^ foy posto no- 
me são Thorae por hõrra deste bS auêtucado apostolo: 
cujo sitio he forte por natureza & em lugar Q pode bS 
defender a ^trada do porto aos Imigos oft hfi poço def 
agoa muy sabrosa quasi pegada ^ela. A cerca da for«< 
taleza tinha de canto a cato oyiSla & cinco palmos &> 
de vão setenta & cinco: iizerSse (res torres, a da. me*, 
nagê & outras duas Q íicâo êTriâgulo, Q quâdo Jugasse 
a artelharia hâa nã podesse fazer, nojo a outra. E cd Ixi'-. 
do não se pode acabar esta obra cõ quanto bo gouerna*. 
dor hi foy & esteue ate Nouerobro , i) como digo forão 
três meses : & na fira de Nouembro se tornou pêra Co- 
chim dõde despachadas as nãos da carrega se foy a goa 
dde tinha toda a armada Q auia de leuar a ludá , onde 
determinaua de ir a^le anno de vinte & pelejar cÕ os ru- 
mes & queyraarlhe as galés & fazer hâa fortaleza 8 ludá 
ou em Adè onde visse que era melhor, pêra !\ tinbajun- 
tos todos os petrechos necessários, & de Goa despachou 
por capitão de Ceilão a Lopo de brito, & por capitão mór 
do mar António de brito seu irmão,. & por^ tinha carta 
do hidalcão ^ queria coele amizade & ^ mãdasse hii ho- 
mo de confiãça com Q a assentasse, determinou de man- 
dar a loão gõçaluez de castelo branco Q lá fora 8 tempo 
Dafonso dalbuquert^ y & sabia a terra & lingoa. 



LITRO V. CAPITVLO XXII. 161 

C A P I T V L O XXII. 

Dt como loâo gonçaluez de castelo branco foy por em" 

batxador ao Hidalcâo, 

.Há deul^e hfla carta de crSça pêra o Hidalclo & hua 
instrução do i) lhe auia de dizer, l\ era folgar muyto 
cõ sua amizade > & {} folgaria de fazer o 1} lhe requeria. 

E {| auendo amizade Streles ele daria maneyra co- 
mo mandasse hH embaixador a Portugal & escreueria a 
el rey tudo o ^ lhe comprisse, & pêra ser melhor des^ 
pachado ^ iria code a Portugal ho mesmo loão gõçalueas 
^ lhe roandaua, ^ não bia lá por outro respeito se nã 
pêra Ibe dizer o Q queria delrey de Portugal. 

£ pêra (| visse Q queria cõcrusam na amizade lhe 
Bão queria pedir as tanadarias de Banda ate Cintacora 
como Afonso dalbuquer^, somSte pedia a Dãlruz pela 
necessidade j| linha de madeira pêra as armadas da 
índia. 

E {} lhe pediria as fustas de Dabul & apertaria muy-> 
to H lhas desse (odas y & não (JrSdo lhe desse a mayor 
parte, & sobrisso lhe apontaria os muytos Portugueses 
que matarão em nauios que tomarão. 

E lhe diria <} era cõtête de dar seguro ás nãos de 
Dabul fjera nauea^arS como as de Cãbaya , & tãbS das-^ 
sStar feitoria em uabul : & lhe daria Kcen<;a pêra mãdar 
duas nãos a ceilão a carregar dalífantes: & pêra mãdar 
por caualos a Ormuz : cõ tanto que fossem pagar os dei 
reitos a Goa: & (he daua seguro pêra seus mercadores 
leuarS a Goa suas mercadorias & tirarem outras. 

£ ^ se algQs portugueses andassem na terra 6rme 
lan^^dos cò os mouros eie lhes desse seguros em nomo 
dele gouernador: & por este capitulo os auia por bõs & 
firmes, 

E mais Ibe deu hfi presente pêra ho hidaleão, cQ 
que se par(io de Qoa, na entrada de Feuereiro bê acO# 

liVRO V. X 



]|^9 Slà HHTiymiA DA INMA. 

panhado: & Toj ter ondeslaua bo hidalcâo que não quis 
dar a (a nadaria ^ ho gouernador pedia, E a cabo de htl 
âno ee tornou pêra Goa. 

C A P I T V L O XXHL 

jye como indo ho goiternador pêra a cidade dé Juda se 
lhe perdeo a nao em § hia. E de como não podSdo ir 
a ludafoy^ surgir á ilha dA Mofua. 

X endo ho gouernador prestea sua paitida pêra luda, 
entregou a goueraâjqa da Índia a d& Aleixo 4e meneaea 
a Q mandou ^ foase inuernar a CochI: & parlioae ho 
fouernadoF pêra- luda a íreae de Feuereiro deM. D.xx. 
cõ hOa frota de xxiíii. velaa. a. dez naoa grossas, de que 
erâa capitães ele^ Diogo de saldanha, António ferreira 
ibga^y SimSo guedez 4e sousa. Feraã gomez de iemoa« 
Pêro da ailua. Pêro gomez teixeira ouuiitor geral. Anto* 
yio de brito caçador mof dei rej de Portugal. António 
raposo. E dous galeões, capitães António de saldaniia & 
dd loão^ de lima. E cinco galés cujos capitães forSoCris- 
ftouão^ de sousa. Geroaimo de sousa. Cristouâo de sa^ 
Dinis fernâdes de melo. lorge barroto de beja. E qua* 
tro nauios redondos^ capitães Mignel da inouta. Gaspac 
douiel^ Nunofernãdéz €ke macedo. Anri^ de n>acedo. E 
doas earau€las lalrnas capitães Louren^ godinho: &Pe* 
99 i^aa de vera^ U hâs bargãtins pêra serui^ da frola< 
Partido h^ gouernador de Goa aos noue de inar<{0 , che- 
gou a Mete onde desp^is de hz^v agoada nandoii quei<* 
B»ar ho lugar, ^ estaua despejado: £ seguindo daqui sua 
rota pêra ho estreito, aparecera por dauãle da frota h&4 
narruazes fie aiei»ros, a ^ o^ outros capitães se forâo 
•m os vendo: £ querSdo ho gouernador ser dos prin»ei« 
ms ^ chegasse a eieSy por^ os não roubassen»^ mandou 
deixar ho caminho do pego Q leuaua & rodear por derre« 
dor de hOa rastiuga, por onde eujdou § atalhaua: pos- 
to que contra vontade do i^ole y Q disse Q auia medo 



Licito t. ckpxrfviy xxiiu I63 

de ir dar ca lUgft bsíÍTLo : c^nio foy dar por fao gooernn- 
dor oSo qverer se nfio que fosso por Õdo «ieíia : & ali 
se perdeo a nao: & âcodindo fogo algus nauios que biSo 
perto aaioarAo a gente com algd fato, porem a fazenda 
gTMsa, «rtelharía & munições pêra a fortaleza qúe se 
auia de faeer, tudo se «li perdeò^ & o gouernador se pas- 
00a ao f aleâo Danteniò de «akJànha, & dali tornou a aua 
viagem pêra ludá , Sc ch^od ás portas A deitaseys de 
Março 9 & ali esteuerSo moytos dos nauios dá armada 
quaii em Mco : & nisto atrauessôu h(ia gelua que foy to- 
nada pola galé ée leronimo de sousa , & de treze mou- 
ros que hiSo n^la soube ho gouernador que erSo vindos 
a ludá mU ft dtixentos homSs em ajuda dos runf^ed, què 
armário seys galés quo mandauSo a 2ebit 6desiaute híià 
^paobia de rumes, & isto pêra que os concertassem c& 
^1 rey Dadém com qtiB estauâo em discórdia : & cScer^ 
iados esteuessem em Ad€ a sua obidieneia, tò condit^ò 
^ dali Ibea deijcasse fazer guerra aos nossos que hí fob^- 
«em faaer presas. E estas galés sabendo ^ ho gonernador 
bia, fugtrSo logo pêra ludá ondift forSo dar nouas dé Búh 
ida* £ sabedo o gouernador í| orâo passadas, prosseguiò 
aua viagfl pêra ludá indo polo mar ma)^or, fc cd muylb 
tnibaibo áé sargir muyias vetes & dar vela outras tan- 
tas, k, andar muyto pòuco, se pos oénto & vinte íegoás 
de ludá ^ & estado áll surto com vento éoniraifo faQs á 
▼ista doa outtos , desesperado de pod^r Ir áuaftt^ thá^ 
moa a conselho todos os capttSes dá frota, & preguntod^* 
Ibes q foria c5 tempos tfto desuairados como ali $ehau9o. 
Ao que todos responderão 2) erfio geraes , & ^ 096 po^ 
dião ir por diante se não cõ muyto trabalho & risco de 
andarem ali hfl mes, & por derradeiro nã poderS che« 
gar a ludá. E pois Lopo soarez quando lá fora chegara 
na^le tempo a quinze legoas dela & nelas posera quin- 
ze dias , Q fariSo eles que estauflo c8to & vinte : por is- 
so era per6a escusada querer ir roais auSte, & era per- 
der tempo. E parecendo isto a todos os capitSes & pi- 
lotos , aoordarSo que deixassem a viajem de ludá , & 

X 2 



164 lU HISTORIA DA INOfA 

pois a deixauSo fossem á cosia da Abexia ao porto áã 
ilha de M<içua ^ lhe Maleus dizia, dõde se podia ir á 
corte do Presle» E não se atreuendo os pilotos mouros 
que biâo na frota ir a Maçuá sem tornarem a auer vis^ 
ia da ilha de Ceibão onde tornarão, & com muyto tra- 
balho & fadiga foy a ver vista da ilha de Dolaca na prí- 
inejra oytaua de Páscoa: & seguindo dali pêra Maçuá 
no próprio dia em se poendo ho sol virão os nossos nele 
Jiua bandeira preta de feyi^o de rabo de galo , & muy- 
tos affirroauão per juramento que a vião bolir. E aos dez 
dias Dabril chegou ao porto da ilha de Maçuá, que es* 
tara dous tiros de besta da terra fírme em quinze grãos 
da bãda do norte , em (j auia bua muyto grande f)ouoar 
ção de mouros, ^ posto que a terra era do Preste não 
lhe obedecião por estarem no mar. Sam todos pretos as^ 
si bomSs como molheres, & ãdão nus da cinta pêra ci- 
ma : sam grandes mercadores & muyto ricos , principal- 
mente douro que lhes trazião do sertão onde tratauão, 
& assi marfim, mel, cera & escrauos Christãos que eles 
fazião tornar mouros, & despois de tornados erão muy- 
to mais Imigos dos Christãos (J os mesmos mouros ; de 
Q erão muy estimados por serem valentes homês. Os 
moradores desta ilha sabendo que ho gouernador bia 
fugirão com medo despejãdoa de todo : & foranse pêra 
hil lugar da costa chamado Arquico que eslaua duas 
Jegoas da ilha, & ali tinha ho Preste hu capitão a quem 
se 08 mouros entregarão cõtandolhe a causa porque : & 
sabendo ele como ho gouernador bia despedio hh reca- 
do parele. 



LIVRO V. €APITVLO XStai. 1^6 

C A P I T V L O XXIIIL 

De como ho gouemador chegou ao porto âe Maçuá ^ ^ 
de como soube que Mateus era verdadeyro embaixa- 
dor do Preste. 



N. 



O porto desta ilha de Maçuá estfiiião duas grandes 
nãos de mouros de Gãbaya, & assi muylas geluas de 
mouros doutras parles, que coroo virão a nossa frota se 
leuarão logo, & dando á vela se acolherão por esse es^ 
treito a diante, & leronimo de sousa deu caça ás nãos 
& aferrou coro hOa que queyroou & ho bargãtim foy a- 
pos as geluas ate defronte Darquico hfla boa vila de ca- 
«as de pedra & cal , de que se espantado os nossos, co- 
roo nâo podião alcãçar as geluas se poserâo a olhala : & 
nisto virão vir de terra hQa almadia com três horoSs que 
abordado com ho bargantim se lançarão dentro, pregun*> 
tando aos nossos por arauia Q homSs erão , & por ela 
lhes foy respõdido que erão Chrislãos vassalos dei rey de 
Portugal , & dous deles fi ho ouuindo betjauão os pAs ao 
capitão com pracer , dizêdo. Christão , Ghrtstão lesu 
Cbristo filho de sancta Maria, pedindolhe () os leuasse 
AO capitão mór da nossa frota, por^ lhe leuauão hfla car- 
ta do capitão Darquico & cõtarãlhe eoroo ele soubera 
dos mouros de Maçuá {| a^la frota era de ChrTstãos , & 
bfl deles pedio licSça pêra lhe ir affirmar Q si era & lo- 
go se foy , & os dous ficarão , de Q bQ era Christão A- 
bexim & outro mouro, & ãbos forão leoados ao gouema- 
dor que ia estaua surto-, que sabSdo cujos erão lhes fez 
jnuyto gasalhado com grande aluoroço por se ver 6 ter- 
ra de Christãos , & despois ho Chr tstão lhe deu a carta 
que lhe leuaua , & assr hfl anel de prata que lhe ho ca- 
pitão mãdaua è sinal de paz , c} ele tomou com muyta 
festa por ser sen , & mandou ler a carta que dizia 2} ho 
capitão Darquico daua muytas graças a nosso senhor 
deoa porque erão compridas as profecias 4 ®1^* tinhão 



1 66 DA HUTOltlA DA mm A 

naquela (erra ^ dizimo que auião de vir GhristSos á ilha 
de Maçua , Sc por isto Q eles sabiSo desejauSo muylo 
sua vinda : & pois ho gouernador era ho sefior do mar 
que ordenasse da terra o que ibe hé parecesse, porque 
«le com A fé 4]ue tinha de wer a^ia frota de Christâos 
não despejaua a vila & os estaua esperando, pedindolhe 
que lhe mâdasse hfi sinal de paz & damizade. E oauT- 
das estas pàiauras poios da capitaiaa , cboranâo os mais 
i^om prazer de se ver oa{}]a terra de Christãos que auia 
tato temix) ^ estaua escõdida. Ho gouernador despois de 
dar de vestir aos do capitão, mãdoulhe hiia bandeira de 
damasco branco com bOa cruz vermelha em sinal de paz, 
& respondeolfae cô outra carta , & (ornou os a mandar 
AO barganlim, & quando par tio desparon toda aartelha- 
ria da frota em sinal de festa, & antes do bargantim 
chegar a terra htt pedaço laoçouse fao mouro a nado, pe- 
ta Q fosse dar noua primeyro que fao bargantim chegas» 
se da bandeira i^ leuauSo ao capitão. O que sabido em 
Arquico foy ho aluoroiqo tamanho assi nos Christãqs cok 
mo nos mouros, que bS duas mil almas forão corrCdo Í 
praja: & vendo ho bargantim que cbegauaaoportodei- 
tauSse no mar com grande alegria & pegauão dele pêra 
o leuar a terra* E nisto veo ho capitão da vila & rece^ 
beo a bãdeira com grande reuerencía, adorando a cruz 
& fawnáo mujlo gasaihado aos nossos, mandou ordenar 
sua gente em procissam & ooela foy a bàdeira leuada á 
vila, & foy truorada sobre as suas casas: & por^ Ibe ho 
gpuernador escreuia ^ se queria ver coele, & assi ver 
algQs fradas dQ mosleyro chamado Bissam !\ estaua daK 
a vinte iegoas mandou os logo chamar, & ho barnegais 
^ quC ele era stigeito. E barnegais hm nome doficio que 
naquela terra he como condestabre , marichal ou fron*- 
teiro mót: & estendiase sua jurdição da vila Darquico 
ikle a cidade de çuaquS que sam sessenta legoas polo 
siertão^ & eira vassalo do Preste k tinba cõtinuamete 
guerra com h& rej mouro comascãm da^ia terra. E iste 
^yto oiSdoa kx áusr aogatt^rnador^ que^e^ir^ tanta 



foy ver * Hfaa de Maçiia per» lepartir púlfis eaotf Auy* 
tas cialeroas dagi^a dooe 4 ^i^ diziâo ^ auia nala : & aa- 
8Í achoa Q erfio aHx. & lodaa choaa & fechadas cõ eha- 
ue peta ho terbpo da necessidade. £ repartidas as cis^ 
terna» pêra ae toiaM faMr& agoada, vio toda a ilba pêra 
leuar deia enformaçAo se ainda em algft tèpo quisesse 
laãdar fazei ali hiút ÍMrLatexa^ & Tk> ^ tinba muyto b& 
per ta garrado & de bõ fuado : & a parte da ilba ondesr 
lauâk> aa cisternas era de pedra & a cmtra pareeia f^r* 
tada ao mar^ & nMHidaadea medir aehou ^ tiaba fl»il & 
doaeolaa braças de roda, & ^ era oomprida, & do meja 
onde era mais estreita tinha de largura ccx). & em htk 
dos cabos duzentas &• seseêla & em outro ccL E auia 
»a lerra grade criaqfto de vaeae, & oiujlas gazelas, & 
(antas lebres que as mataufto os aossoa a pé, & do maia 
era mu^ deapoata pêra se fazer neta quàlo quisesseia. 
£ toraandose bo gouernadoc pêra o gaJeão vio ¥ir por 
terra bfi hoiaé de caualo eõ quatro bo^s diante, & pare<^ 
cSdotlie. ^ seria algii recado parele lAandou chegai ho 
esquife a letra, & bo de caualo se chegou á agoa bra^ 
dftdo. GhrislJtoa CbrisISoa. lesu Gbristo filho de saneia 
2Aaria, Hi trazia hfia caita grande de porgaroinho estfi^ 
dida, & pitada nela a iinagê de nossa senhora cÕ ho me- 
nino lesu no.eoK)^ & de cada parte hú anjo & abaixo 
os apóstolos. £ apresentando os bo^s ao gouernador 8- 
tnm ed outros dous no esquife tão sem medo eeflM> que 
eonoersaia sempre ci os nossos. £ bo gouernador ot re* 
cebeo muyto bS & beijou a imagS muyto cõtenie de ver 
ho acatamento & veneração que os Abexins fazião á i« 
»agê : & preguntando ao ^ a trazia a causa de a trazer^ 
respõdeo ^ pêra testiasunho de sua cbrístindade , & ^ 
ko eapitâo lhe mandara t^ a levasse, de ^ tambS lhe ileu 
iifta carta em ^ lhe escreuia a que tinha feyto. £ estais 
do este bomfi com bo gouernador, preguutou a Alexan- 
dre dataide ^ era ho lingoa se ouuera na índia noua de 
h& homeaa ^ ae ehamanafiSateus Q fora a hu8e<or os noa* 
aoa à Incba. £ aabSdo is4e bo gouernador jpera saber 9k 



168 líÁ HISTonrA Dá INBIà 

verdade de Mateus disse ao lingoa ^ fizesse 1} nSo sa* 
bia dete nada, & que lhe pregQtasse que bomê era. E 
ho Abexim ibe contou quem era, como eu ja disse no 
}iuro terceiro quando a raynha Helena ho mâdou á In-* 
dia : & chegados ao galeão ho gouernador mandou por 
Mateus que hia cÕ Pêro gomez leixeira, & como ele 
chegou foy cousa estranha ho grande praser ^ os Abe-r 
xins mostrarão coele & beijauâlhe a mão: & elec5muy« 
tas lagrimas daua graças a nosso senhor !| ho deixara 
etiegar a tepo em í\ se mostrasse ser sua embaixada ver-» 
dadeyra & outras boas palauras : & mandou dizer ao ca^ 

Êitão Q mandasse dizer ao Barnegais & aos frades de* 
íisam ^ viessem logo em todo caso. E sabido em Ar* 
quico que Mateus estaua no porto de Maçua ao outra 
dia ho foy ver muyta gSte & preguntauâo por abima 
Mateus. E abima em sua lingoa quer dizer padre como 
ja disse , & assi ho bonrrauSo eles beijandolhe as mftoa 
& os vestidos, que os nossos folgauâo muyto de ver por 
se certificarem {^ fora verdadeyro embaixador , & não> 
echacoruo como algQs immigos Dafonso dalbuqueri} dei« 
tarão fama Q era quando foy á índia & despoís em Potm 
lugal , por ode esteue em descrédito ate aquele tempo. 

C A P I T V L O XXV. 

De catno ho capitão Darquico foy falar ao gauema-' 
dor , ^ despois ho forâo ver noue frades do mosteiro 
de Bisam. 

jfxo outro dia sabendo Ko gotiernador que erSo fugidos 
pêra terra três dos nossos da galé de lorge barroto, ma- 
dou ho ouuidor geral a terra que os fosse buscar, & ^ 
pedisse ajuda ao capitão Darquico se lhe fosse necessa-* 
ria : & também lhe pedisse da sua parte que nãotardas* 
se mais em se ir ver coele , por^ ele por não deixar a 
frota soo ho na fazia. £ sabendo ho capitão como os no6«* 
ws erâo fugidos os mandou logo prender da ht a cinca 



UVRO T. CAPITVLO XXV. 169 

legoas onde os tomarão: & ao outro dia se foi com ho 
ouuidor a ver ho gouernador acompanhado de muyla 
gente & foj por terra, & chegado a (iro de bés4a do 
iDar desparou a nossa frota toda suaartelharia, de que 
€4e 6coii tâo espantado que não foy mais por iiiánle & 
tremia todo. O que entendendo ho ouuidor lhe disse a 
causa do desparar da arlelharia : mas ele não se segurou 
coisso & deizouse estar quedo, posto que chegarão ai- 
gfls fidalgos H ho gouernador mãdou pêra ho acompa«> 
nharS ale a capitaina. E ho ouuidor que entSdia seu me^ 
do não quis apertar coele que fosse á capilaina, porQ re- 
ceou que entrasse nele alg&a desconfiam^a , & por ieso 
iio íoy dizer ao gouernador, aconselhandolhe que fosse 
a terra a verse cd ho capitão. O i} ele fee leuando Ma- 
-teus consigo, & despois de se receberem com grade a- 
mor abraçãdose, assentaranse em três cadeiras :& ím> 
capitão fora do medo que' tinha começou de dizer que 
daua muytas graças a nosso senhor Deos por se ccmiprir 
hua profecia que (inhão quç dizia 1\ auião de vir Chris- 
tãos ao porto de Maçuá: & pois era comprida que lhe 
pedia da parte de Deos todo poderpw) f{^e se cfoardasse 
anlreles aquela paz & amizade que ele meanro Deos mS- 
dará ter aos seus discípulos emnomedetodopoooChrís- 
tão. E 2) presopondo ele que isto auia assi de scv, ho vi- 
nha ver & a quantos vinhão coele como <a Christâos, & 
que auia tão longo tempo que se desejauão naquela ter^ 
ra, & <]ue fosse certo que faia pêra fazer quanto lhe mã^ 
dasse, somente porque era Chrislão & por trazer oonai- 
go Cfarislâos, & que ao mesmo viria hoBarnegais que 
chegaria ate três dias. E ho gouernador lhe respSdeo 
que a paz & amizade estaua muy segurada aua parte ^ 
& assi de todos os nossos: porque ele não viera ali se 
não pêra esse fim , & segurouho quanto pode , & por a 
calma ser grande se deteuerão pouco. E ho gouernador 
lhe deu em sinal damizade fafia espada & outras cousas 
com que ele folgou muyto: & coisto se desptdirSo, & o 
capitão caualgou em hfi caualo 4 trazia a destro, & to- 

LIVRO V. Y 



170 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

naodo bQa lança correo ho capo com muyta desenoclta* 
ra & ár. E chegado a Arquico, chegarão hi noue /ra« 
des do mosteiro de Bisam que hião falar ao gcueroador^ 
que sabendo sua vinda mandou logo lá ho ouuidor pêra 
que viesse coeles , & ooele Alexandre dataide pêra lio» 
goa^ & forSo por lerra em caualos, & assi tornarão com 
os frades que hião a pé por lho mandar assi a sua re» 
gra. E sabfido ho gouernador como hião os sayo a rece- 
ber á borda dagoa nos bateys que hião lodos embãdei^ 
rados & cõ as trõbetas, & dali os leuou com grade festa 
de folias ao galeão, onde todos os clérigos da frota & os 
calores do gouernador os estauão esperando no bordo do 
galeão com suas sobrepelizes vestidas & h&a cruz leuãr 
tada, & ate os frades entrarem cantarão ho cato de BA*- 
dictus d&s Deus Israel. E em os frades entrando toma*- 
rão a cruz & adorarãna com lanta deuação & reueren- 
€Ía que não auia qu6 não desse muylas graças a Deos 
de ho ver : & despois de adorarS a cruz íizerão muyto 
acatamento a Mateus. Despois disto o gouernador lhes 
mandou dar de comer na sua camará tâmaras , nozes & 
outras fruytas, porque não comião carne nem pescado^ 
& en£)rmandose deles particularmente do seu mosteiro 
& da sua regra deulhes licença pêra i\ fossem com Ma- 
teus á.nao em que ele vinha. E despois destarem lá hfl 
pedaço se tornarão pêra Arquico & foy coeles ho ouui- 
dor ^ ho gouernador mandou pêra ir ver ho mosteiro de 
Bisam 9 & ver o que lhe os frades disserâo dele, & deu- 
Ihe hQa carta pêra ho próprio capitão Darquico que che- 
gara de casa do Barnegais onde era, que estoutro Q dis- 
se não era ho próprio & ficara em lugar do outro, & 
nandoulhe hil presente* 



LjyjRQ V. CAPITVLa XXVI. 171 

C A P I T o L o XXVI. 

J)q súíq (fe mosteiro de Bisam , 4- da regra que goardâo 

os seus frades. 



.l^hegado 



o ouoidor a Arquioo, & sabendo ho capitSo 
que queria ir ao rooaleiro de Bisam mãdoii a hu seu ir^ 
mão que fosse ooele coro quinze piães, & deulhe duan 
mulas pêra dous dos nossos que hiSo coele ; & ho majo- 
rai dos frades porQ não auia dir logo mandou coele hS 
frade chamado EsleuSo ^ & pariido Darquico começou 
de camiahar por iida terra despouoada em que auia muy^r 
ta caça de veaçâo & rouylas gabelas» E ao outro dia cor 
neçoo de topar em magotes muyta gente de pé & d? 
eiiualo« que vinhSo em mulas: & estes erSo da compai- 
ahia do Barnegais ^ vinha. E despois desta gente achou 
quatro mulas a destro & quatro caualos tamanhos com^ 
08 Dandalozia, & hQ pedaço atras vinha, ho Barnegais % 
H ha tiro de besta dele se deceo ho irmão do capilâ# 
Darquico & lhe foy falar , & ho Baroegais não deixou 
dâdar em quanto lhe ele falou. Ho ouuidor em cheganí- 
ádo ao Barnegais deceose pêra lhe falar , & ele deteue 
iiQa mula em que hia: & era homem de boa estatura 
magro & laçado hCl pouco por diSte. Seria de sessêta aUr 
nos : vinha vestido de pano branco dalgodão & cuberfo 
com hjl bedem muyto fino. Chegado ho ouuidor a ele 
beijoulhe a roupa sobre bu giolho, & disselhe que era 
ChristSo que vinha na frota que el rej de Portugal maoi- 
4ara ao porto de Maçuá, pêra seruiço de Deos &do Presr 
te Sc exaligamento da fee catholica. Ho Barnegais lhe di»- 
ee que sua vinda fosse muyto boa, & que auia de ser 
com niuy grSde trabalho pois era de tão longe , & por 
falar com ho gouernador se abalara de sua terra, & pois 
hía ao mosteiro de Bisam que tornasse logo, porque der 
aejaua de falar coele antea de se ver com ho gouernar 
éof^ & niãdaua coele atais gfile , & ele nSo quis. £ ar 

Y 2 



1 7 S BA RI8T0 atÁ DA índia 

Eartado do Barnegais começou de caminhar por antre 
Qas serras ao longo de húa ribeira terra mujio grossa 
& viçosa , em que auia tãta criação de gado vacufl que 
vio por onde hia bem oyto mil vacas^ & na coroa de bua 
darias serras 6 htl escapado estaua hOa borla dorlaliça 
& larâgeiras, & junlo coela bua cerca j) cercaua hii mos* 
teiro , em {) o ouuidor entrou , & á porta da igreja bo 
recebeo hõ frade velho & deulhe a beijar h&a cruz, & 
despois entrarão na igreja que era quadrada sem capela 
móf & na cabeceira tinha hfi altar quadrado que não 
chegaua á parede cuberto de panos pretos & não auia 
outro , & estaua nele a ]mag3 do anjo saro Miguel , & 
afastada deste altar atrauessaua hâa corrediça de se^a 
"que chegaua de parede a parede, & por todas elas es* 
tauilo pintadas mujtas ímagSs de sanctos^ & antrelas a 
figura de sam lorge como a nos temos, & a de Moyses 
€Õ as tauoas da lej, & todas cuberlas cÕ panos. E nes- 
te mosteiro não estauão mais i| ojto frades, & as celas 
erSo redodas cuberlas de palha c& curucheos & cruzes 
nas pôtas deles, & linha bQa boa horta em que auia par* 
rejras , limoeiros , figueiras & pessegueiros cõ pêssegos 
limpos da frol & era em Abril, & daqui se parlío ho ou- 
uidor pêra ho mosteiro de Bisam que está sobre ho pico 
de bfia serra cercado ao derredor onde chegou despois 
de véspera, & aa porta da cerca ho receberão algiis fra- 
des cujos habites erão túnicas & mantos de teadas gros- 
sas amarelas & os capelos fejtos como murças, & cada 
b9 tinha encima da cabeça híia cruz, & coeles estauão 
q^ulze moços de qualorze anos cada hfi , que erão orfòos 
& criauânos os frades por amor de Deos : daqui foy le- 
uado' a outra cerea c} cercaua a igreja a cuja ))orla ho 
fizerão descalçar por^ auia denlrar deniro: hy aqui re- 
cebido- de sete frades cõ capas de borcado de IMeca da 
manejra que 16 os nossos frades nas festas , & os cinco 
tinha cada hú sua cruz teuaniada, & os dous senhes re- 
iauolos de nossa senhora. Goesles estaua ho majorai do 
mosteiro também com hâa capa cÕr bú pedaço de /^eda 



LIVRO V. CAPITVLO XXTI. Í7S 

lanc^aclo em cruz ao pescoço, & atei outros frades seos 
capas, & bft deles toniou ho ouuídor pola mSo & ho me* 
teo na igreja ^ era feyta pela viloia da do oulro moslei- 
ro: & DO altar tinha hd retauolo grade de pao em {| es*^ 
tauSo as figuras da sanctissima Trindade todas três de 
bOa igoaldade & idade, & nos câtos do retauolo as ima* 
•gfis dos quatro euãgelistas como as ba ãtre nos. Auia 
mais outro altar em que eslaua hfl crucifixo com oossa 
senhora de bâa parte & sam loâo da outra , & hOa ima- 
-gfi de nossa senhora do pranto muyto deuoia, & outras 
^uas imagês. E assi auia outros dous altares de nosso 
«enbor & de nossa senhora, & polas paredes muytas pin- 
turas de santos. Tambè lhe foy mostrada a sanchristia , 
em A auia muytos ornamentos de seda & muylos cáli- 
ces douro & de prata, & outras peças do culto diuino: 
& assi lhe forão mostradas todas as officinas do mostei» 
IO, de que nSo faltaua nenhila pêra ser como os nossos, 
mas não tinha mais que hQ sino & este de cobre sem 
badalo, & tãgiâno cÕ bfi maço: & por derradeyro lhe 
mostrarão hfla sepultura alta cercada de candieiros que 
acendião ás vezes. £ visto bo mosteiro assentouse bò 
ouuidor cora bo mayoral dele que auia nome Samara 
cbrislus , & coeles cinco frades velhos & muyto magros 
^ue parecião de boa vida, & ho mayoral lhe contou que 
auia trezentos & cincoenta annos que a()le mosteiro fo- 
ra edificado por bia horoê sancto chamado Pheirpo cuja 
sepultura era aquela grande que vira, & Q os frades da* 
quele mosteiro & todos os outros da terra do Preste e-^ 
fão da ordè de sancto Antão, & (} se mãtinbão todos dè 
seus trabalhos , que cauauão & roçaufio & faziIo> por a- 
^)as serras muytas laueiras, & tinhfio grande criação de 
gado & de mulas que vendião pêra suas necessidades , 

ÍorI} as esmolas erão poucas & os dÍ2Ímos leuauaos ho 
laruegais : & disselbe que a \ey euaogelica fora prega- 
da na^la terra polo euãgelista saro Mateus, cuja ossada 
estaiia em Alexandria , & l\ tinhâo a briuia em j) não 
linbio mais que três liuros desdca, & que tinbão as e^ 



174 BA HinOttlA DA índia 

pistolas de sam Paulo: & ^ coslumauão de se cftressar 
como cometião ho peccado. E q crião c} nosso senhor 
dera poder n sara Pedro de absoluer & condenar^ & que 
ele deixara bo mesmo poder a seus subcessores. É a 
causa por^ não reconheciâo por superior bo nosso. Papa 
era . por ser muy to longe dali a Roma , & auer muytos 
mouros & turcos no caminho. E a isto lhe disse bo ou<> 
uidor se lhe queria dar hCla caria dobediScía pêra ho 
nosso Papa & outra pêra el rey de Portugal & eie disse 
Q si, roas tornou logo a dizer que era ja noyle. E ao ou- 
tro dia era sábado, & que não auia de falar coele nfi fa- 
zer nada, por^ ho goardauão á honrra de nossa senhora 
assi como ho domingo , & por isso não auia descreueri» 
Ii8 ele auia de poder aeoardar pois vinha Ião depressa^ 
mas que lhe daria hfi liuro que mostrasse a el rey de 
Portugal & ao Papa , pêra que vissem em que criio 08 
Chrislãos do Preste , & logo Ibo deu , & era de oy tauo 
em letra da sua lingoa. E coisto se despedio dele , & 
ele foy leuado a húa cela em 2| estau2o duas lauoas por 
cama & hCla piedra á cabeceira , & bua m.aota pêra esh 
bertura. E estas camas LinhSo os frades, porque em ti^ 
do trataiiSo muy to mal seus corpos & fazíão áspera peop 
dença^ de que parece qae se nosso senhor seruia & oi»- 
uia suas oraçfies , & que estauão por fortaleza da Cbriap 
lindade que jada daquelas serras pêra dentro: nem he 
pêra crer outra coMa estaedo iSo cercada da seita de 
Mafamede & nSo sé lhe pegar nada : porque da banda 
do estreito tinha ho rey de Zeiia & de Barbora & tx>da 
a{|Ia corda, & da outra parte Magadaxó, & coiros rey» 
com Q tioha guerra : & da bâda do Cayro a traués de 
çuaquS sessenta legoas acima de Maçuá tinha hu re|r 
mouro senhor daquela terra dantre ho Preate & ho Cay- 
ro cõ que bo Barnegais tinha sempre guerra como ja 
disse. Assi ^ estar esta terra tâo inteira oom suaChrit- 
iandade tendo tâo má vezinhã<^ não era sem grade <nia- 
terío de nosso senhor. E assi Kcolhido ho ouuídor a aua 
cela 9 lauoulhe hd frade es pós com agea quête, & dee- 



LIVUO V. CAPlTTIiO ZXTfl. 175 

£018 lhe deu de cear pão de trigo , & de ceuada, & mel 
; cebolas ^ & vinho de mel ^ porque bo não auia duuas ^ 
aA ibe deu outras igoariaa porque os frades não comião 
carne nem pesoado^ & pêra fao caminho lhe deu da par^ 
le do mayoral duas gamelas de farinha & mujlas cebo^ 
las^ & limões: porque não auia dachar que comer. £ 
ao outro dia que era vespora da pascoela em amanhe** 
eendo se partio ho ouuidor pêra Arquico^ & chegou laa 
ho domifigo seguinte. 

C A P I T V L O XXVIL 

De como ho gouemadot se via com ho Bamegais ^jfp- 
rarâo ambos de dous amissade em nome de seus s^ 
nhores. 

\Jmde aciíoii a!da ho Baraegais Q ho gouernador sabfi^* 
do {| hia pêra AirquiGo bo mádou receber por António 
de Saldanha ) & por António de brito caçador mor dei 
rey de Porlugal: ^ ferio muyto bem alauiados, assi de 
suas pessoas como dos Q os acompanhauJIo, em ^ em 
Irauão trinta espingardeiros & outros tantos besteiros^ 
& forâo t<^r cd bo Barnegais duas legoas al§ Darquico i 
& sabêdo ele quê erão fezlbes muyta hõrra & mostrou 
muyto prazer cõ qjia vista , & quando se tornarão pêra 
a frota Jbes disse que dissessem ao gouernador ^ logo 
ao outro dia ho iria ver. Mas ele não foy, por([ bfis mou«- 
ros questauão S Arquico moradores de IMa^uá pesando** 
Ibe desta amizade (} nosso senhor ordenaua antre bo go* 
uernador & bo Barnegais , por^ sabião Q auião de ser 
laçados da terra : & por isso persuadirão ao Barnegais (} 
não fosse falar ao gouernador, pori| coroo estaua tâo po* 
deroso no mar prfidelo hia & nã bo soltaria ate lhe não 
dar grades tesouros , porQ os nossos erão muyto cobiço- 
sos : & tãb& por ele ser mais honrrado ^ bo gouernador^ 
deuia ho geuerimdor dir onde éle estaua. £ vSdo ho go* 
iiemador cono eks nfto bia mãdoulbe recado per hix Fer« 



176 .'DA niSTOltlÁ DA ÍNDIA 

nâo dia2 qtte sabia a lingoa : pedindolbe que fosse por(| 
/coijDprJa tmiyto a seruiço de Deos & de Preste. E ele 
respõdeo ^ fosse ho gouernador a Arquico & bi se ve* 
riáo. E tendo dada esta reposta chegou ho ouuidor, & 
sabendoa lhe foy logo falar , & mostrando que a não sa» 
bia, lhe disse i\ queria esperar pêra ho acompanhar 
quando fosse ver ho gouernador. E dizendolhe ele o que 
tinha dito a Fernão dias, respondeo ho ouuidor ^ P^^^ 
nenhfl modo podia ho gouernador deixar a frota: & ain^ 
da que poderá pois ele era Christão & dezia que deseja- 
ua de seruir a Deos , que não deuia 4]auer por mal ir 
ver quem 'ho hia buscar de tão longe, & não pêra seu 
iateresse se não pêra exalçamSto da (è de lesu Cibrísto 
nosso senhor. E aobrísto ouuevantreies muytas palauras, 
persuadi ndolhe ho ouuidor que fosse , & ele escusándo- 
se: ate que ho ouuidor lhe disse que ho gouernador não 
deixaua dir senão pori) as nãos não podiãochegara Ar* 
quico nem os/oulros nauios ofrandes, & que podendo ele 
fofa: & Q os verdadeyros Chrtatãoa nã deuião de ter 
pontos donrra sobre o (| compria a seruiço de Deos : . & 
ho mesmo lhe disserão ho capitão Darquico & outros fí* 
dalgos (Q se souberão 4 os mouros erão isausa daquelas 
duuidas maíarãnos a todos). E vendo ho Barnegais a 
perfia ^ todos tinhão ceele , disse l\ se visse ate onde 
as nossas galés podiâo chegar, & que hi viesse ho go* 
uernador & ali se viriao. E disto não aprouue ao gouer* 
nador quando ho soube, pareceodolhe Q aquilo era al- 
gQa roindade, & mandou lá António de saldanfaa sobrís* 
so^ que não pode mais acabar se não que se visse õda 
as gales podessem chegar. E ho gouernador ho não quis 
por não parecer outra cousa ao Barnegais : & ao outro 
dia se partio nas gales & nauios pequenos, & nos ba- 
teys em qae auia de desembarcar, em Q leuaua muytas 
armas alastradas pêra irem secretas que não sabia o que 
aconteceria^ Ho Barnegais estaua ja esperado bem a- 
fastado do mar com duzStos de caualo & dous mil de pé. 
Ho gouernador desembarcou com toda a gente ^ & ' 



LrVRO V.' CÀPITVLO TXVÍU 177 

x»nidoa posta ém ordem ao loogo do mar apartouse cd 
es fidalgos (cujos pajés biSo armados pêra ho Barnegaís 
rer as Bossas armas) & meteose em hQa tenda que man« 
dou armar pêra esta vista : & ainda sobrisso ouue deba« 
tes , porque ho Barnegais não se queria abalar donde 
estaua, dizSdo que fosse lá ho gouernador. B por impor* 
lunações de Mateus ScDantonio de saldanha oõsentio j| 
mouessem a pé eie & bo gouernador ábos a bua dõdes-» 
tauão, & {} no lugar em Q se ajtltassfi se falariSo: & a* 
jfttaranee bQ b6 tiro de besta do mar em hd grflde capo 
verde, & por este espa<;o 6cou deles a gfite d& & do 
outro. Cõ o gouernador biSo os capitães da frota , & cõ 
ho Barnegais cico seflores dos <) vierão coele : & abra* 
cftdose cõ moyta cortesia se assêtarão em hiias alcatifas^ 
èc cò todos os rigores passados estauão tão c5tSles de 
se verem (| todos lho Sxergauão, & ãbos derão muitas 
graças a deos poios aj Citar. E bo gouernador começou Jo- 
go, dizSdo. Ho muyto poderoso rey de Portugal «eu se- 
ftor desejado de prosseguir a guerra (| seus antecessores 
fizerão sempre aos mouros : c5 que não somCle Ibe ga- 
nharão a terra de Portugal, roas outra muyta -6 Africa, 
desejado de os destruyr a continuou sempre do lêpo 1| 
reynou ategora : & não se conlêtãdo c5 a S faz em Â- 
frica a mãda fazer na índia, & no estreito oe Meca por 
ser certo i) nele tS os mouros suas rayzes, l| ele queria 
destruyr de todo: não estimando os grades gastos & 
despesas que nisso faz com bo trabalho de seus vassalos, 
})orque b® pêra seruiço de nosso senhor Deos. E t;6do 
ele por noua I) ho Sperador da alfa Ethíopia era Chris- 
tianissimo , desejado sua amizade por este respeito ma** 
dou aos seus capitães mores & gouernadores da índia ^ 
mãdassê descobrir polo efetreito se ha algtl por lio de seu 
seflorio : & como ho misericordioso deos ajuda bSs dese* 
jos, assi ajudou a executar este, inspirado na raynha 
Helena mãy do Preste t) mãdassesHa êbaixada a eirey 
meu se&or por Mateus 2) aqui está: o (} parece nã ser 
sê mistério muy grade : & () quer nosso seikor 4 ^^ ^j^** 

LIVAO V. z 



178 DJ HI6TOmiA DA I19DIA 

t6 estes dom prlcipes pêra total destruyçio dos mouros: 
fc q assi como lhe a eie aprouoe (| ho apostolo sã Ma- 
teus denQciasse nal}la terra a ley euãgelica : (| assi teue 
por bS que por outro Mateus que era ho embaixador 
soubesse el rey meu senhor ho desejo Q ho Preste tinha 
de sua amizade : pêra que ajuntando ambos seus pode^ 
les desarrejgassem daquelas partes a seita de Mafame^ 
de , & por esta causa mandou el rey tneu senhor sen 
embaixador com Mateus pêra assentar cõ ho Pceate paz 
& liãça pêra sempre, í\ morrera como Mateus sabia: & 
dali se nào [K)dera roais tornar ao estreito. £ eu me ey 
por muyto ditoso dos impedimentos que sucederfio pêra 
isso, pêra eu ser ho corretor desta amizade & lian^a^ & 
ser ho primeyra por quem el rey meu senhor ha de ter 
▼erdadeyra nulicia do Preste, & quâdo vim ao estreito 
fi>y meu intento ir primeyro a ludá a pelejar com a ar- 
mada dos rumes, & da volta despejar dos mouros as 
ilhas de Dolaca & de Maçuá & entregalas aos capitães 
do Preste 8c fazer eom sua licença bua fortaleza , qu6 
1^0 poderá ser por se me perder htta nao em que trazia 
os pertrecbos pêra isso. E coistu acabou. E ho Barne* 
gais respondeo. Louuado seja * ho poderoso Deos pêra 
sempre, que permitio que se compi^issem as proficias 
que tínhamos do ajâtainSto doS Christãos cõoosco. B 
bem creo eu que pêra isso auer eíTeyto inspirou ho Spi* 
ritu sancto na raynha Helena que mandasse Mateus 
por embaixador a el rey de Portugal, pêra que com ho 
Fresle fossem irmãos por liaúr*a, pois ho sam em lesu 
Chrtsto nosso senhor^ & no cuydado que tem de fazer 
aos mouros. E pêra isto auer effeyto abaley eu de fão 
ICge como venho , & pêra á guerra dos mouros ho Pres- 
te dará toda a ajuda de gSte & dinheiro que for neces* 
saria : & se ele visse despejadas Dolaca & Maçuá auer 
se hia por mór senhor do que he : & mais se visse em 
qualquer delas hQa fortaleza dos Portugueses que ele 
&ra á sua custa somente qtie eles a goardem. E despoís 
desta prática & concerte q^ue fizerào > ^ ho gouernadof 



/ 



LiytO ▼. OAFITTtO KXVIfl. 179 

iHindatSie hQ M^haixador ao Preste em nome do) rey de 
Portugal, lurarão árabes cada hii em nome de seu se^- 
^hot ainísade & líâça pêra todo sempre: & ho Barne- 
^ais )urou priméyro, dizendo em voz alta. Eu juro oesr 
le sinal da crua em que padeceo nosso, senhor em nom0 
Áo Preste meu senhor & no meu de sermos amigos dos 
Amigos do Cbristianiesímo rey de Portugal 9 & immigos 
àe todos os seus immigos , & amigos de todos os seus 
vassalas & seruidores, & immigoe dos immigos da fé da 
nosso senhor Iqsu CbrJstQ : a que peço !\ se goarde an« 
Irenos aquela paz.& amizade que ele mandou i) se goarr 
dasae autre os seus apostobs. £ bo goueroador fez ou* 
Iro jufameato pelas oaesoiaa palauras. 

G A P I T V L O XXVIII. 

De como bo gauernador mádcu dom Rodrigo d€ Uma 

por ^baixador ao Preste. 

Xurada esta amizade com muyto grande alegria de to- 
dos que se chegarão logo de boa parte & doutra esteue-* 
râo ainda ho gouernadiM* , & ho Barnegais faiado em al- 
guas cou^ias : & ho gouernador lhe deu dous. corpos de 
ooiraças ricas & h& arnês iteiro & espadas , adargas & 
punhais & dous bedês de seda & outras peças ricas. E 
despedidos hQ do outro Tecolheose ho gouernador aos ba- 
teis, & ate se embarcar não quis ho Barnegais partir: 
& isto por cortesia, & despois se partio pêra Arquico, 
dõde aquele dia mandou ao gouernador hii caualo&hQa 
mula & cincoõta vacas que ele repartiu peia fro(a, em 
4 aula grande aluoroço, principal mSte antre os fidalgos, 
por se abrir caminho pêra exi^fçamSlo da fé catbolica 
em lugar Õde todos trazíâo tâ^ pouca esperança de se 
achar: pori^ todos (como dwie) tiiínâo a Mateus por 
miotiroso nem faziâo conta de mais que de ho poer em 
lerraf & vendo ho conlr^iro aluoraçauanse todos com 
prazer de auceder taflibe^)^ & a muitos tomaua desejo 

Z 2 



180 3A HlfifòttlA 3A'ílfDfA 

de irem por embaixadores , asei pêra seruirem a Deoi 
& a el rey de Porlu§^al, como pêra ver6 a corle do Pres- 
te : & algOs pedirão esta Sbaixada ao gouernador, & ele 
a deu a hu (ídalgo chamado dÕ Rodrigo de lima, & por 
8oía embaixador & escriufio da embaixada htl lorge da- 
breu deluaa , & Hngoa dela loâo escolar , & forão coelea 
hil Lopo da gama & Francisco aluares clérigo & outros 
ate treze. E despachado dÕ Rodrigo & Mateus se par* 
tirão pêra Ârquico leuando dÕ Rodrigo eslas peças pêra 
fao Preste, quatro panos darmar de figuras muyto finos, 
hllas coyracas de ?eludo carmesim cõ as outras peças 
liouradas , oc hOa espada & hú punhal douro , & dons 
berços de metal c5 suas camarás dobradas , & dous bar* 
ris de poluora. & hfi mapa com todas as terras que el 
rey tinha na índia cÕ cruzes postas nelas, & ê algQas 
imagSs de nossa senhora, & hiis órgãos. & hQ crauicor- 
dfo y & hQ tangedor pareles , & pêra a raynba Helena 
mandou hda meada daljofar grosso com hOa cruz de ru- 
bi#, & pêra ho mosteiro de Bisam incenso & pimenta 
& panos de seda pêra ornamentos & hua campa , Sa pa- 
nos pêra vestiarra dos frades, & a IMateus mãdou dar 
algilas peças de que se ele contentou, & ho gouernador 
& António de saldanha forão cçeles hfl pedaço. £ Dar* 
quico forão ao mosteiro de Btsam ôde se finou Mateus. 
£ éalí partio dõ Rodrigo pêra a corle do Preste: de eu- 
ja partida os mouros daquelas partes ficarão muyio tris- 
tes Q temião muyto ajQtarse ho poder delrey de Portu- 
gal cõ ho do Preste & destruyrênos , & dízião que pois 
irota de tamanhas nãos como o gouernador leuaua che- 
gara á ilha de Maçuá , ê cujo caminho auia tantoa bai- 
xos & ilhas que dali por diante cada dia irião lá as nes- 
sas armadas, & chegarião ate çuea, & parecialhes aqui- 
lo Cciminho pêra se destruyr sua sei la como tinhão por 
profecia de muyto tempo: & cõ medo do gouernador díes- 
jtejarâo os mouros a ilha de dolaca & se forão pêra a terra 
firme. E despoís da partida de dõ Rodrigo ho gonernadof 
a mãdott queimar, & dahí se parlio pêra Ormua. 



LltmO^ ▼« CAPITTLD XXIX. 181 

« • ' • • • . 

C A P I T V L O XXIX. 

Do § aòõteceo a Oóçakf de lauh indo pêra Mofãbique^c(h 
mo ouue a arulharia do galeão de Manuel de sousa. 

vTonçalo de loule qoe hia od recado do gouernador aoa 
capitães Q ÍDuernauflo è Mo^^mbiqoe deapois Q aira- 
«leasou ho goifâo Q ouue via ta de terra foy ao longo defa 
ate Magadaxo : em cujo porto queimou duas nãos j| ea- 
taaSo á gelua aem achar nenfaila resistência dos moií- 
voa, & daii foy ter a Patê, & l^rendo entrar eo porto 
pêra tomar agoa , coroo ho seu pitoto nfto sabia bo ca- 
nai por fide se entraua deo em seco sobre aree em que 
a caranela ficou assentada* £ eniedendo os nossos que 
eom a maree lornarião a nadar esteuertto esperando ate 
-bo ontro dia que tornasse: & amaMbeeêdo virSo Vir da 
cidade obra de tresentos paraés peqaenos earregadee de 
gente que chegando a tira de bõbarda da carauela pth 
rarflo poSdoae todos a fio onlbando a carauela, & astí 
#s(euerão ate qae ?eo a marte : êi eiitfio se apartou bê 
dk>s paraós remando & ehegouse perto da carauela, ft; 
Jbll doa que vmhfteneie sabiou os n08so# em lingea Pei^ 
tngaee, & pregttando Q bnecauio naqcrela Hfrra. Ao 
qne os nossos responderSo ^ buscaaão m<tim6ios, & por» 
que achauSo poQco fundo nâ onsaaio dentrar no porto^^ 
vogandoihe que os leuassem a «le &^ lho pagarião. £ 
parece ^ os mouros por se nSo fiarem dos nossos nS se 
quiserfio atoar cd a carauefo, fc dtsserSo qUe se fizessem 
á vela , & que os seguissem , & que assi es teuarião. JÊ 
ea nossos tornarão a repriear que os leuassem á toa , & 

Kr eles nunca quererá lhes alirarfio cõ Mê falcão pêra 
íB fa2er medo : que eles ouueráo tamanho que fugirão 
pêra os outroa, que logo cumeçarSo de remar & chegar** 
se pêra a earauela tangfido muytos rnstormetos de guer» 
ra: oa nosaoe q«e se temerão que es aferrassem os !mi* 
gos de spara fâo hA cameAs § dsu^ oe principal paraó II 



W2 Itt: HUTOMA SUk Itiwn 

meteo ho no fundo & a gele ficou sobre a agoa nadando, 
& por lhe acodir çoçobrarão oíilros Ires paraós com ho 
pego da gSte. £ vendo os outros que ficauão nos paraós 
liO'dã«iO' ^ tfaes podm facer a nossa arlelbortir fugirão /pa- 
ra a cidade deixando os !\ andauâo nadando ^ <](^ visto 
por Gõçaio de loule como ficauSo desempatados mandou 
ia hu MaPti correa j} cõ outros sete fosse no batel a ma- 
laios. E ele ho fes assi & matou muytos, & recolbeo dêr 
fadado de malar hHs tresi, de que hu era homem velho,, 
ic recolhendo os chegoii ha mancebo a bordo pedindo 4 
hO' recolhesaem porl[ se afogana de cansado , & .por náo 
't3aber ao balei & Martim correa auer medo de çoçobrar 
4io não quis tooiar, >& ele aioereo logo de hiia laçada que 
trazia: a^ que ho mouro velho deu h& grande sospiro., 
& os outros dous comedirão de chorar , & os nossos se 
YorSo para a carauela , & como ho capitão estaua deae^ 
fperado de /poder enirar rm porto por nSo íer quS lhe iik- 
^ainaMei disse )Q desse» loirmêto aos tras catiuM & ^ 
^les ho insinitriSo.: & 4>*®^^'^^'^^^^'^ ^^ v^elho «le-ace- 
mwí âQs dous ^ ho dissessem^ & hd deles ho n^ostrouc 
ÍC( aob&do. ho piloto da carauda dose braças se faz á v^bp 
iu Sc eatroij oo -por to ^de aurgio anire buas aaos ^ kí 
^stauA»,.«& «â. auSdo*qsii6*.resia(iaS6.tfi8-rowbard as^nosssa 
de mu}r.ta ri^za i} aobarâ nelas , & nâ «abôdo lado ho 
4Íespojo oa oaraueJa o .{} súbejou carreg-arão ê hu sâboco 
pêra o leuarô atoado ate Melinde , onde esperauâo de 
vSder o Q teuaujb, & ali lhe resgatarão ho mouro velho 
'<) era senhor de Patê posto que então ho não sabia Gd^ 
çalo de loule : &. partido daqui foy ter a Melinde & nea 
légoa da cidade achou hp mestre que fora do galeão de 
jManuel de sousa & outros seys ^ em hQ paraó biâo fut- 
.gidos de Hoja ondesíeuerão catiuos ale enião, &^m 
.Melinde soube como se perdera ho galeão & quS ou Hera 
iio despojo. £ delerOEiinando Gdçalo de.loulé de cobrar 
.ioda a artelharia;do galeão leuou de Melinde híi mouro 
de Moça4nbiq4iei{[ 'aabía ondeakavay qiue era!fMi iJha de 
ZansBiibar, qa 4^ P$ba'& na d» Monâia. £ paas^do Gã- 



Lima v.cMãwvjMxxx. 18S 

^1o de loidé por estas iUiMíiha dwâo 09 reys com me^ 
do & cobrou 'toda a arlelbarhi.qiie nenbAa tieoo se não 
a^Q lisJia eli rey • ée «Mèinçs* fi ccrbpMla^^€la arteibarisi 
foy ter a Odoçaoihique liâ 6m de Feuereyro despèia de 
paasat JiGa nuylo grande tortnema* ^ 

C A P I T V L o XXX; 

• 4 

De como lorge dalbtiquerque polo recado do gouernador 
se pariio an huàca deli c6 dílyús capitães dos que m- 
uemarão coele. 

Jbi chegado a. Mo^bi^ deo ho recado 4 trazia do^go* 
uernador a lorge daibuquorqèe^ & eUis 1k> praticou com 
os outros capitães : & acordouse que lorge dalbuquar- 
^e con Dsogo» tufimaà^de be)a\ i^hriBteuão de aíèr 
doca., Ra&et catanbo &iKafael.:fierbslreio fosseto fausK 
car o gouernador 9 & koidqulor.Pero niuiez icasaefM 
ser vé^s da faiesda9i& conifosotttfofi capitães .se tòs»* 
se *dMe;lo á iodi^^ parque sOibo getternador larcUssie 
■o estreito como. podia ser isuesse* saoe que ssâdassó 
carregadas peca Poriugi^ £ islo assê^ado piirtiose lor-» 
ge dalbsqueri^ sA os i^apitâes ^ digo tu oõ Gõçalo de 
loiíle quaddo: íoy lèp9 &. sc^goirão sua- derroca pêra bo 
eabode Goardafuni ^«e, be de quinhentas iegoas de Mo* 
Çambique, & aii 'seheu.iiouas ^si^mobo gouernador eca 
entrado So satteitor&fqoereMiío lorge dai buquerqtue en* 
trar nele es feytcsès das- mais das nãos da cgnserua ^ 
eráo'de spernadases &eire<|íuerieffto mlu^to eslrestaniente 
és parti»<>(^sil ncif d»< iRoettigal • ^ n|l iewse as nãos dos 
Bsercsiddres fto.eslseiito^-qifte se podilb perder, & perde» 
riio i^CBidct Sua -nHiMadonà se iiMieriiasseni no estnrifo 
fc mttyU) ;n»its ^eoi oip if -a' Portugal bo aoao seguiste, 
títaMÉo disso esietmfltos &*'iÍMSends suas -protestações 
sobre Jorge* dalboquerque. <|»e«>fos4e «obsigado a* pagar 
tudhs as i{)erdas quieifectèeesseaQf aos^tèercadores dé as 
suas oaos entrarem' no estreite , fiel^ que lorge dalbu- 



IS4 BA mST/OHU 1>A/ tNDfA* 

quQrque nSo quis entrar tocaãdo certidáo do t| íhe os 
íey tores requeriSo : & motieo ho também a nSo enílrar 
parecerJhe ^ «^waua mai« eokso bo s^uiço dei rey^ 
& tomou seu caminho pêra Orrous, õde determinaua 
desperar ho gouernador. E seguido por sua TÍagS cô 
grades tormfitas ate ho cabo de Roçalcate , & como ho 
dobrou o deixarão & foy surgir no porto de Calayate, & 
aii esperou ho gouernador por lhe parecer assi melhor. 

C A P I TV L O XXXI. 

De como lorge dalbuquerque mandou prender Raix xa* 
- badim regtdor de Valayate , ^ do grande dano ^ rece^ 
btrêo 06 nos^^ qtierendoho prender • 

joLo tSpo 7| lorge da|ibuquer(| chegou a esta vrla esta» 
ua nela por regedor hQ mouro chamado Raix xabadim 
cunhado de Raix xarafo goazil Dormus; E este Raix 
xabadim estaua mexerícadoí com el rey ^Dormua , ^ ho 
tinèa mandado chamar rouytas veze»: '& ele receando o 
§ era nunca quis ir, o () mais iodinou el rey & deseja-» 
ua de ho pr6der , & não ousaua faseio de pra^ por sa* 
ber que era b5 eaualeyro , & j) se auia de defender o5 
a gente que tinha. E deaconíente disto soube que lill 
Duarte meodez de vascõcetos j) andaua darmadana^l^ 
costa tinha muylo estreita amisade & oonuersaçflo c5 
Raix xabadim em (aoto que muylas vezes se hia coele 
darmada , & por isto lhe escreueo hfia carta muylo se-^ 
cretamente em ^ ^^^ pedia j) mankcsamlente prendesse 
Raix xabadim , porl| sabia que ninguém ho f^odia (àzer 
melhor : prometSdoUie por isso muy tas mercês. E se por 
vê (ura naquela conjun<^ cbegassem ali algfllM nãos de 
Portugal, que lhe pedisse da sua parte aos capitães que 
lhe prfidessem Raix xabad! : & ho mesmo escreueo dÕ 
Garcia coutinbo 'capitSo da fortalesa de OrmuK. E ten- 
do Duarte mondes este recado como chegou lorge dal-í> 
buquerque lhe foj dar eonla dele nostrandolhe as ear-: 



LIVRO r. CAPITVLO XXXT. 1 84 

tM 1) t]nha\ que tambê iorge cialbuquerQ mosíroQ aos 
capitães da frota com qufi p09 ho caso em conselho, & 
assenlouse que se prendesse Raix ícabadim na noyle se- 
guinte, & no começo dela iriâo os capitães da frota c5 
a melhor gente de suas nãos ajuntarse por popa da ga- 
lé de Duarte mSdez & no seu batel iria em seu lugar 
dom Sancho anrriquez seu cunhado & genrro que faia 
por capitão mór do mar de Malaca, & no de Diogo fer- 
nandez porQ estaua doente & sangrado iria Diogo rabe- 
lo seu cunhado, & Duarte mSdez iria a casa de Raix xa- 
badim ás horas ^ costums^ua, & dom Sancho lhe iria nas 
costas cÕ a gente: & em Duarte mendez entrado entra- 
ria coele & prSderião Raix xabadim. E assi ho quiserão 
fazer, roas não poderão, por^ parece que ele entendeo 
a cousa & estaua a recado, éc nã quis mãdar abrir a 
Duarte mSdez: & chegado dom SaAcbo com a gente 
quando vio !\ não queria abrir quis ^brar as portas & 
entrar por força , ao () acodio a gente darmas de Raie 
xabadim Q estaua defrõte das suas casas alojada ê tSdas, 
& começouse hfl jogo de laçadas muy áspero, & Stre 
tanto dom Sacho entrou por força em casa de Raix za- 
badim od Duarte mfidez, & hfl Eytor de Valadares, & 
Rafael catanho, & como não erão mais acharão dfitro 
qu6 lhes resistisse, pelejando muy fortemSte, & lodos 
quatro ho faziâo muy esforçadamSte. E estando nes'te 
perigo, a gente de Raix xabandim pelejou com os nos* 
608 de maneyra Q os fez retirar pêra a praya ferido & 
matado neles , & como os fizerão retirar acodirâo a Raix 
xabadim Q entfidendo ^ ho Qrião prSder se deitou de 
hu terrado abaixo por hflas cordas Èl fugio, & ficarão os 
seus q tinha das portas a dfttro, 1} dom Sacho & os ou- 
tros três fizerão recolher aos terrados das casas , & eles 
ficarão senhores dos baixos. E síntíndo () os imigos tor- 
nauão sobre as casas & não vendo nenhO dos nossos fe- 
charão as portas & poseranse de dentro pêra se defen- 
der se lhas quebrassem, & quando os mouros virão que 
os não podião entrar poserão fogo ás portas pêra os quei- 

UVEO y. AA 



18C BA HISTORIA DA ÍNDIA 

mar : & nislo quis nosso senhor ^ acodio Diogo ferDã* 
dez de beja cÕ gente, que cÕ quanto estaua doente & 
sangrado nao se pode sofrer sem se achar na^le feyto, 
& acodio despois que a peleja foy trauada. E indo polo 
noar ouuio a grade grita que hia em terra, & chegado 
B ela com muyta pressa achou os nossos encâtoados na 
praya & muj^íos feridos , & aigús mortos : & sabêdo a 
cousa como passaua esfor^jou os nossos & remeteo coeles 
aos mouros, & apertou os tão rijo que os fez fugir por- 
que cuydarào que quantos auia na frota hiáo sobreles : 
& leuando os de ven<cida foy ter Áa casas de Kaix xa- 
bandim onde dom Sancha estaua com os outros em gran- 
de perigo. £ Rafael catanbo lhe bradou de hUa genela 
<)ue mandasse matar ho fogo que estaua pegado nas por* 
4as, parque «nataua a ele & aos ouiros, & querendo os 
D06SCN9 apagal<# começarão de chouer sobreles zaguncha- 
tias & frechadas Q os mouros íirauão de sobre os terra- 
dos doutras casas, que ja os Q estauâo nas casas de Raiz 
xabandim erão fugidos por cordas per ^ se deitarão. E 
apagado ho fogo sayo de denlro dom Sancho ^ estaua 
muyto ferido & após ele os outTos. E sabêdo Diogo fer<- 
nàdez que Raix xabadim era fugido, não teue mais ^ 
fazer & mandou embarcar os feridos que furão cincoen- 
ta & mortos vinte, & dos mouros nâ morrerão mais de 
três : & todo esta dano receberão os nossos por Duarte 
mendez saber mal ordenar ho feyto & dom Sancho ho 
seguir nele. E por este feyto ficarão os nossos em muy- 
to descrédito com os mouros, & Kaix xabadim com gra- 
de fama de caualeyro esforçado por lhe saber também 
resistir* 



LIVKO y. CAPITULO XXZII. 187 

C A P I T V L O xxxir. 

m 

Da grade tormêta que o gouemador passou saindo do es^ 
treito 9 ^ como se perdeo a galé de leronimo de sousa ^ 
^ dos que morrerão nela. 

X artido ho §^ouernador, Diogo iapez de siqueira da ilha 
de Doiaca pêra ir inuernar a Ormuz seguio sua viagem^ 
& aos sele dias de Mayo passou por Camarão , & aos 
quiDze passou a9 portas do estreito & foy surgir Õde se 
perdeo a sua nao de t\ ainda cobrou três ancoras , & a 
vinte híi dias dele chegou a Ad5, onde passados tree 
dias ae partio pêra Ormuz & na parajem da ilba da Ma* 
deira achou muyto grandes çarraçôes & tormentas coni 
que os roais dos bateys dos nauios çoçobrarSo : & assi 
ftbrio a galé de leronimo de sousa & se foy ao fOdo nha 
& meleose dentro com treze ou quatorze fidalgos que 
hiâo coele, dizendo que pois todos auiâo de morrer que 
melhor seria saluarense os fi^dalgos que os outros, E hH 
destes era hQPero da silua dalcunba ho cafre irmão Da- 
fonso telez senhor de Capo mayor 8c ouguela , 8& quise* 
ra meter na barquinha hCla arca encoirada , que leroni- 
mo de sousa não consenlio que se metesse dizendo que 
09 faria çoçobrar , & I) se ele não deíxaua meter mais 
gSte por irem boyâtes & nSo ço<;obrarS como queria le* 
uar hiia arca que pesaua por três homfis, & nã lha quis 
deixar meter: do que Pêro da silua auendo menencoria, 
disse que pois a sua arca não hia na barquinha que não 
auia dir neta & tornouse á.galé dizêdo que esperaua em 
Deos que se auia de saluar melhor que os que hião na 
barquinha. E vSdo híí seu primo chamado Manuel gal- 
uão íiiho de Duarte galuão que se tornaua á galé, tor- 
nouse coele por ser muyto seu amigo: & leronimo de 
sousa se foy vendo Q de todo em todo Fero da silua não 
queria se não ficar na galé, onde não tardou muyto que 
não morreo cõ quantos ficarão coele por se a galé ir ao 

AA 2 



I8S BA HISTORIA BA INU A 

fundo & nSo auer quem lhe acodisse. E leroDimo do 
Bousa se foy oa barquinha com Anrríque home filho de 
loâo homem & Pêro borges, & outros fidalgos ate onze^ 
& tirarão caminho da costa Darabia onde por mHagre 
de nosso senhor chegarão a cabo de dous dias, escapan- 
do de mares muy grossos & altos. E desembarcados a* 
codio logo a gSte da terra que erão mouros, que conhe- 
c6do serem Cbristâos como lhes querião grande mal co* 
roeçarão logo de os atormentar com pancadas, boreta- 
das, & arre peides : & como eles não vião tempo nem ti- 
nhâo cÕ que resistir sufriâo tudo com paciScia pêra ver 
se podião escapar da morte» E despois de roubados de 
quanto leuauâo vestido , Q ficarão nus se forão ao longo 
do mar pregutando por CaJayate, Õde se querião ir assi 
por ser de nossos amigos como por terem por certo £[ ali 
auião dachar a nossa armada ou algus Portugueses , & 
íbrão assi ao lõgo do mar caminho de cem legoas des- 
calços & despidos^ ^ era cousa piadosa de ver como hiSo 
torrados do sol & magros de muyla fome ^ Sc de grande 
sede que passauão, & cortados de muytas pãcadas Q re- 
cebião dos mouros & fracos do immenso cançasso & fo- 
diga sem comparação que lhes causaua bo caminho: & 
assi furão ter a hika cidade vinte legoas deCaJayate, cu- 
jo senlior era vassalo dei rey Dormuz, & quando soube 
que os nossos hião assi os mandou leuar perante si, & os 
deteue algfls dias pêra tornarem ensi & se esforçarem , 
& fezlhe aestes dias tanto gasalhado & bõ tratamento ^ 
mais não podia ser. £ despois de vestidos dâdolhe di- 
nheiro pêra ho gasto do caminho os mandou a Calayale 
& coeles certos criados seus per^ ^ fossem seguros. 



LIVRO y« -CAPITVLO XXXIIK 189 

C A P I T V L O XXXIIf. 

De como o governador foy ter a Calayate ^ dahi a Or- 

muz onde muefuou» 

x!i8cap3do ho gouernador daquela grfide tormenta Q 
digo não deixou de ir com mares muyto grossos & çar- 
rações ale ho cabo de Roçalgate , que se faz na entra- 
da do estreito da Pérsia, õde entrado com a armada a- 
chou grande calmaria Q não se afastauão as veias dos 
mastos : & a causa era começar ali ho verão , & da lor- 
meta passada ser ja inuerno na costa que dura do cabo 
deGoardafum ate ho de roçalgate Q começa no mes Da- 
hril & acaba em Setembro: & por isso os nossos acha- 
rão tamanhas tor melas por ai}la costa* £ pareceo cousa 
de admiração que em espaço de duae legoas auia em hA 
cabo calmaria & ho sol estaua muyto claro, & em euiro 
ho ceo muylo escuro & nuuSs muyto grossas & grande 
tormenta. E chegado ho gouernador a Calayate ondes- 
laua lorge daibuquerque soube do desmãcho que se fi- 
Bera na prisam de Raix zabadhn : & muyto agastado 
disso tirou a capitania da galé a Duarte mSdez de vas* 
conceios polo achar culpado, Sc ho prendeo & assi ou- 
tros: & porque auia dir inuernar a Ormuz nã quis leuar 
mais que as galés & oauios pequenos , & as nãos gros- 
sas & galeões deixou os í) fossem inuernar a Mazcate 
debaixo da capitania de lorge dalbuquerQ, onde se des- 
pois forão. E pêra estes capitães darem mesa á gête 
que ficaua coeles fezlbe mercê do dinheiro det rey pêra 
sua despesa, & todos ho tomarão, saluo Francisco de 
sousa tauares capitão da nao sancta Cruz : a Q ho go- 
vernador a deu naQle porto, & por seruir elrey deu me<^ 
sa á sua custa em que gastou muyto- por ser nobre fidal«- 
go, & prezarse muyto de fazer tudo bem feyto. £ ho 
gouernador se foy a Ormuz onde teue ho inuerno com 
grandes, festas que lhe fizerfio el rey , & Raix xarafo«. 



190 DA HI8T0XIA DA INBIA 

C A P I T V L O XXXIHI. 

De como foy por capitão mór da armada pêra a índia 
lorge de brito , ^ do que €U)onteceo ao galeão de Ruy 
vaz pereyra com hã peixe. 

xXnles disto se foy de Portugal as^rauado dei rey dom 
IWanuel hu Perna de niagalhâes (de que iíz menção no 
liuro terceyro) & coeste agrauo se foy pêra ho empera<* 
dor Carlos rey de Castela , a l[ fazSdo crer que as ilhas 
de Maluco erSo suas (como direy a diante) foy por seu 
mãdadò por capitão mór de bua armada a descobrilas. 
E sabido isto por eirey dom Manuel , quis atalharibo 
com mandar hOa armada a estas ilhas pela via da India^ 
pêra que prendesse a Fernão de magalbães se lá fossa 
ler. E pêra este feyto escolheo hH fidalgo chamado lor* 
ge de brito (de que faley tambS no liuro terceyro) por 
confiar dele que ho faria bem, & em muyto segredo lhe 
disse sua determinação com juramento que a não des* 
cobrisse a nenhOa pessoa se não na índia, & mais lhe 
disse que faria hfia fortaleza S hOa das ilhas de Maluco 
onde lhe melhor parecesse, & deulbe quinhfitos homfis 
pêra leuar a Maluco, & artelharia & munições pêra es- 
ta fortaleza, & assi oíficiaes {} nela seruissem. lã todoi 
estes officios deu el rey a quê lorge de Brito lhe pedío 
que os desse, & por não ser descuberto pêra onde lor- 
ge de brito hía dizia em todas as prouisões dos oflScioa 
que erão pêra onde lorge de brito fosse. E por el rey 
êcobrir mais sua ida lançou fama que hia fazer hija for- 
taleza na ilha de çamatra, & a fora isto deulhe el rey 
prouisões pêra ho gouernador da índia que lhe desse a 
armada & a gente que lhe pedisse : & sobre tudo lhe 
deu a capitania mór da armada que aquele anno de vite 
auia dir pêra a índia* E os capitães de sua conserua fo- 
rão Gaspar da silua Q leuaua a capitania da fortaleza 
de Gbaul que el rey mandaua fazer, Pêro lopez de sam 



I 



LIVRO V., CAPITVLO UXIIII. 19) 

Pajro capitão doutra que se auia de fazer nas ilhas de 
Maldiua, Pêro lourSço de melo que leuaua bQa viagem 
pêra a China, André diaz alcayde pequeno de Lisboa 
que hia pêra fazer a carga, Lopo dazeuedo, Pedro Pau- 
lo, Manuel de sousa capitão do galeão reys magos que 
auia de ficar na índia, Ruy vaz pereyra doutro galeão 
] auia nome sam Kafaei , que também auia lá de ficar. 
i o que acõteceo a esta armada na viagem eu ho não 
0oube, somSle a Ruy vaz pereyra que a vinte sete de 
piayo sendo cincoêta legoas das ilhas de Tristão da cu^ 
nha, lhe deu biía grande tormenta de vento: & logo a 
hQ sábado véspera da Trindade na paragê do cabo bo 
Beguio hu peixe muyto grande dos ^ chamão peixes 
Bombreiros, & rodeando bo galeão três ou quatro vezes 
da derradeira ho aferrou poia bâda de bòbordo leuãdo 
ele metidas todas as velas com vento galerno , & tanto 
j} ho peixe ho aferrou teueo quedo como se esteuera 
surto, & tinhao cingido com a cabeia na amura, & ho 
rabo no leme: com que deu nele duas pancadas que der- 
ribou dous gormetes que hião a ele, & era tão grosso que 
cbegaua com hfia espadana á mesa da goarnii^ão & muy* 
lo« lhe poserão a mão nela. E receando ho piloto & bo 
mestre ^ ^cobrasse bo galeão: mamiarão amaynar^ho 
traquele da gauea, & lio cõdestabre bo quisera ferir cÕ 
bQ pique & não Ibo cdseniirão , & socorreose ho capitão 
a nosso senhor , & hu clérigo se reuestio , & com buas 
relíquias na ir^ comec^ou de rezar, & quis nosso senhor 
que auendo bu oytauo dera ^ ho peixe linha aterrado 
ho galeão ho desaferrou , & deitou puJa boca duas ou 
Ires vezes grades golpes dagoa no cbapiCeo, & tornou 
após bo galeão que seguio ate ho quarto da modorra ren- 
dido. E cõtinuàdo daqui Ruy vaz pereyra sua viagem 
foy ter a Mo^^ambique, õde soube que Jio gouernador 
inuernaua «m Ormuz ^ & por ser inuyio JoeAo bo foy es** 
perar.a Alazcate. 



19t DA HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O XXXV. 

De como António correa despois de chegar a Malaca 
foy sobre a iranqueyra do Pago ^ a desbarakm ^ fez 
fugir os immigos. 

V inda a tnouçSo de Pegú pêra Malaca , parliose An- 
tonia^ correa leuando a sua nao carregada de lacre & 
doutras mercadorias , & seys jQgos carregados d arroz , 
vinhos, azeites & carnes. É de caminho foy ter a Pa* 
cero , onde achou três nãos de mercadores de Bengala 
carregadas de mercadoria ; de que era capitão mór hii 
capado chamado Gormale, & querendo António correa 
que fossem a Malaca pêra pagarem lá os dereytos de 
sua mercadoria na nossa feitoria lhe daua Gormale hfl 
conto de rs, & ^ ho deixasse ficar em Pacem, & que 
ali pagaria os derejtos a hu feylor nosso que hi ficasse, 
& não querSdo António correa ho leuou cÃsitço caminho 
de Malaca , dandolhe seguro de lhe n.1 s^^r la feyto ne* 
nhã mal. E passando poios baixos de Capaciá em dia 
de corpo de Deos Q foy véspera de sani loão deu a sua 
nao em seco & ficou na vasa sem perigar ate que tor* 
fiou a nadar com a maré & dahi foy ter a Malaca Õde 
achou por capitfto Garcia de sá, & foy muito bS recebi- 
do deie & de toda a gSte: porque poios muytos mãti- 
mSlos que trouue licou a terra (ao abastada ^ oy tenta 
gantas darroz vaiião hu cruzado valendo dantes ho mes- 
mo quatro. E ho Lascar dizia que António correa era 
sancto que tirara a fome da terra: & também coesta 
fartura, a gente dei rey de Bintão que tinha cercada 
Malaca leuâtou ho cerco, & se recolheo ao Pago onde 
el rey estaua. E por£[ estando ele ali sempre auia de 
mandar correr a Malaca & darlhe muyta oppressam, as- 
sentarão Garcia de sá & António correa que era neces^ 
sario laçado dali fora, & que António correa ho fosse fa- 
zer, & fosse por capitão mór, & pêra isso par lio de Ma- 



LIVUO V. CAPITVLO XXX^. 193 

laca a qufze de lulbo, & forão coele estes capitSes, 
Duarte de melo, Duarte furtado, Duarte coelho, Ânr* 
rí4 leme, Manuel pacheco, Bertolameu dafonseca capi- 
tão das lancharas de Malaca , Prãcisco de sequeyra , 
Carlos carualho, Diogo díaz, Christouâo diaz, Ruy men- 
dez, loão salgado, & outros a que não soube os nomes 
que por todos erão trinta em nauios redõdos, carauelas, 
galés, lancharas & hfl Bargantim, & em todos quatro- 
centos & cíncoSta bomSs ate quiobètos. s. cèto & cin- 
co&ta dos nossos & trezStos dos da terra , & ele hia em 
htla galé & foyse dereyto ao rio de Muar que be largo 
& alto como ja disse & bS pouoado de gSte dQ cabo & 
do outro & dambas as bSdas he aruoredo tão alto & tá 
basto que nfio se ve ali sol se nSo ao meyo dia : por es^ 
te rio dStro ate seys legoas se faz hfla boca dQ estreito 
^ se chama Pago , & por ele acima estaua hda pouoa- 
ção muyto grade do mesmo nome em que el rey deBin- 
tão moraua em hdas grades & sumptuosas casas cerca« 
das todas destancias dartelbarias , & ho esteiro atraues^ 
sado de rouytas & fortes estacadas : & na entrada dele 
pelo rio grande estaua hQa fortíssima tranqueyra de duas 
faces muyto larga & ambas de paos ferros (} sam quasi 
tão grossos como mastos & da mesma dureza do ferro 
que não apodrecem nagoa , & entulhado de troços dos 
mesmos paos & doutros com hQa porta no meyo que se 
fecbaua por onde enirauão & sayão as suas lancharas^ 
& nesta trãqueyra estauão assStados arrezoadamête de 
tiros dartelharia , & em goarda dela bii capitão dei rey 
de Bintãò com muyta gête de peleja , & por isso como 
pola fortaleza da trãqueyra parecia a el rey de Bintão 
Q estaua ali muyto seguro, & não somSte a nossa arma- 
da que ele sabia Q auia de ser pequena, mas a mais 
grossa do mfldo a não auia de desbaratar. E entrado 
António correa por este rio que he lodo em voltas foy 
por "ele ate a trãqueyra dos immigos & surgio na derra-* 
deyra Tolta detrás de hua ponta ondestaua seguro da 
fitta artelharia, & ficaua tio perto da tranqueyra que ott** 

LIVRO y. BB 



194 J)â KISTOIIA PA IlfMA 

uia bo 15 da fala doa iBimigoa, & de noyle naiidoa 
piar a Iranqueyra por b{l lorge loeaurado feylor da aua 
Dao que sabia bem a lingoa malaya, & foy em h& ba« 
lanço Q 86 rema de pangayo, & por isso não ieuaya JData 
Q iiQ soo remeirOi, pelo que nfio foy sepíido nem visto 
com a grande aombra do aruoredo* R chegando á Iran*^ 
queyra ouuios faiar bua «õ os outros, & díziSo que ea* 
teuessem preslM porque os frangues eslauão á poria : & 
passado bo quarto da iix)dorra tornou com recado a An«* 
tonio correa a que oontoU o que ouuira , & que no ru-- 
mor da gele parecia que era muyta* António correa 
cbamou Ivgo a conselbo, & os capitães da armada & pes-» 
soas principaes dela : & despois .de ihea contar o que 
Ibe lorge mesurado dissera , disselbes. Se nesta guerra 
aenbores foreys tâo nouos como eu aou , & eu táo anti-» 
go como vos : parecerame que era necessário es£:)njai^ 
uos pêra esta batalha : mas pois eu ^ sou nouo nela ea* 
tou esforçado com a confiada que lenho em noaao ae-» 
nhor, & por vos ter em minha companhia, que &reis 
Vos <)ue quasi tendes de juro vencer a estes mouros, & 
vos mostrou nosso senhor taolaa vezes seu poder em oa 
vencerdes sendo tão poucos & eles talos que cobriâo a 
terra & bo mar : por isso ey por escusado querer dar 
esfuri^ a quem lio tem pêra si & pêra mi, se não dieer* 
nos que prazendo a nosso sefior como for manfaaã dare*^ 
mos na Iranqueyra , leuâdo diante Duarte de melo na 
aua caraueiar pêra ^ nos faça caminho & possamos sobif 
poios mastos & ftxarcia dela : & nenbu de voa tirara 
com sua ar telharia ate que eu nâo faça ainal com hfla 
espera q^ue l^euo« £ isto aasentado tornarâse os capitlea 
aos nauioa, & postos em ordem como foy manhaã abala* 
rão a remo pêra a trãqueyra , & a carauela bia á toa , 
ft. em descobrindo a. ponta desparou a artelharia dos im-- 
Biigos com bo seu espantoso Ímpeto, & por estar dalto 
Bâo fez n4>jo aoa nossos, que tambê em deseobrifKio a 
põta começarão de jugar com suas bombardas, começa* 
cio primeyro Antouio correa com a aua espera & ajua* 



LIVRO V« CA^ItTLO XXXVU 195 

toose ho fQHio delas conn o que m dos Imigos ISqauSo, 
& fe28e dambos bOa neuoa tão grossa & negra que tudo 
ficou escuro: porfi os nossos pelouros varejauão tfto rijo 
poia tranqueyra I| os imniigos se espantarão & fugirão 
vendo que neste tempo chegou Duarte de melo á tran<- 
queyra & abairroou coda, o que eles não cuydauão que 
podia ser, & por isso fugirão, pelo que os da carauela 
que em abairroando começarfto de subir poia enxárcia 
tião acharão na tranqueyra quem lhes resistisse , o ^ 
disserão aos outros & abrirãlhes as portas por Ode õtra- 
rão muyto ledos com grandes gritas de louuores a nosso 
senhor, principalmente António corrCa pòr alcãçar tão 
facilmente bOa tão famosa vitoria como aquela foy, por^ 
x\ue tanto mõtaua vficer cÕ ho medo !\ lhe ouuerâo , co^ 
mo pelejando. Entrados os nossos acharão muytas pa- 
nelas darroz co2Ído & outras igoarias (} os immígos ti- 
nbão pêra almoçar que estau^ ainda quentes, de ^ 
almoçara : & despois apanharão afgtlas alcatifas que 
•acharSo & recolherão aos nauios vinte peças dartelba*- 
Tia de metal , em que auia algíis berços com as espe^ 
iras dei rey de Portugal. 

C A P I T V L O XXXVI. 

De c&mo el rey êe Bintâo com toda sua gétefuyto dó 
Pago por medo Dantonio correa , ^ como foy quey^ 
moda ^ destruyda aquela Jorça. 



E 



como a principal cousa da{}le feyto era lançar fora 
do pago a el rey de Brtão: determinou António correa 
de ho fazer, & assi ho disse aos seus capitães: com que 
assentou que Duarte de melo ficasse na boca do estrei- 
to com ho seu naaio de fora no rio, & ele cõ es pequ^ 
nos & bateys entrasse polo estreito: & assi se fez indo 
ele diante de todos em hfl batel apadessado por lhe nie 
faterè nojo as frechas () os Imigos lhe poderião tirar de 
4erra. E porque foy anisado que tinhão serrado qoaaí 

BB 2 



196 ná msTOEU DA inhia 

lodo a^le aruoredo dauibas as bandas do rio pêra bo der* 
ribareoi nele com cordas Q lhes íinhâo atadas nas pon* 
las Unto ^ os nossos entrassem por ele pera coisso ibe 
impedirem a pass<ijem : leuaua diante de si húa machua 
& vinte carpinteiros nela cõ macbaiJps pera desíazerem 
as aruores em troços & desembaraçarem ho caminho, 
que tâbem eslaua alrauancado com as estacadas, & por 
isso leuaua ele aparelhos no seu batel pera {| os Q hião 
nele fossem arrâcãdo as estacadas : como arrancarão com 
juuyio trabalho, & coele cortarão também os carpinlei* 
ros o que os imigos derribarão em os nossos entrando. 
£ coestes embaratjos fízerâo os nossos algQa detença em 
chegar ao pago, porem chegarão c5 m u; to grade es- 
panto dos imigos que sempre cujdarão {} os estoruas- 
aem tãtos impedimentos. E vendo el rey como hiâo a- 
juntou sua gente que era muyta & muytos alifhntes de 
castelos junto das suas casas que estauão em hil teso 
clua bãda do esteiro que partia a cidade polo meyo a i| 
daua seruentia hCla ponte de madeira 4 ho atrauessaua, 
& os imigos estauão a vista dos nossos fazendolhes gra- 
des rebolarias de gritas, & desparando sua arlelharia: 
de que os nossos não (izerão conta , & com grande ím- 
peto poyarão em terra, & primeyro Afunso vaISte Q era 
bo alferez, & António correa que quisera leuar a gente 
em ordem , mas não pode : {xirque nem ela tinha sufri- 
moto pera isso, nem a multidão de frechas que os im- 
migos desparauão os deixaua: & do meyo do teso arre- 
metem a eles chamando [)ulo apostolo Santiago, corren- 
do a quem primeyro chegaua aos immigos, que vendo 
a fúria dos nossos , & represeptandoselhe diante o ^ ti- 
niião passado pera chegar ali , ou poendolhes nosso se- 
nhor hQ terror muy grande como he de crer , sem mais 
pelejar começao de fugir a quê mais podia , & os nossos 
após eles derribando muytos mortos por esse chão & 
deixarannos logo por não saberem a terra que não quis 
António correa que lhes sobreuiesse algil perigo. £ á 
porta das caaaa dei rey fez muytos caualeyros por me- 



LIVRO V. CAPITVLO XXXVII. 197 

morta de tflo famosa vitoria como aquela foy sem dos 
nossos ser nenhQ ferido nem morlo, & dos imroigos muy- 
tos & catiuos : & saqueadas as casas dei rey & a cida- 
de, em que se ouue muylo & muy rico despojo a fora 
a arlelbaria foy tudo queymado, & assi a frota dei rey 
que estaua recolhida no estreito em que auia bem cem 
caialuzes , lancharas & mâchuas & algus dourados nas 
proas & popas em que el rey costumaua dandar: & es- 
tes eslauão cheos de poluora & de lenha y & )x>rque os 
nossos os nSo leuassem lhes poserSo os immigos fogo em 
fugindo, & a dous destes dourados mãdou António cor- 
rea apagar o fogo & meos queymados os leuou a Mala- 
ca , & desta vez ficou el rey de Bintáo tâo destreinado Q 
se acolbeo a Bintâo que era perto de Malaca , pêra on- 
de se partio António correa despois de queymar a kran^^ 
queyra, & laa fuy recebido com rou^ta festa pola liurar 
de tamanho cerco & de fume tão apertada. 

C A P I T V L O XXXVII. 

Do façanhoso feito que cinco dos fwssos fizerâo defendet^ 
dose de Raja çudameci ^ de sua gente que matará» 
quasi toda ^ lhe tomarão húa lâchara. 

S^endo António correa è Pegfl, el rey de Pacem que 
era tirano & tinha tomado ho reyno ao próprio rey que 
matara leuantouse contra os nossos q.ue estauSo em Pa- 
cem & erão vinte quatro criados de dom Aleixo de me- 
neses & de dom loão de iima , & todos forão mortos & 
tomarãlbe muyta fazenda que tinbão dei rey de Portu- 
gal j & destes fidalgos , & doutras partes que valia se- 
tenta mil cruzados, & pola guerra que el rey de Bintãe 
fazia a JMalaca não se tomou disto vingança , & despois 
que António correa a liurou do cerco, mandou Garcia 
de sÀ a Manuel pacheco em hfia nao em que andasse 
darmada de Pacem ate Achem, & não deixasse entrar 
em aeiib& destes dotis portos nauio algfl nem seyr, nem 



I9S BA IfrOTOMA DA INBrA 

€of)sen4Í8M qoe saydseni deles a pwcar, porque esta era 
a mayor guerra que se lhe podia fazer, & deulbe vinte 
doe nossos antre soldados & marinheiros r & parlio IVla^ 
fiuel pacheco pêra laa quasi na íim Dagosto , & como 
chegoH foy logo senlido, porque nem lhe ficou pescador 
qae não toafiasse , nem deixaoa entrar nenhQ nauio es*- 
trangeiro & se aperfiauão metia os no fundo. E andado 
assi por lhes faltar agoa mandou Manuel pacheco fazer 
agoada em hu rio chamado lacaparl hQa legoa do de Pa^ 
cem Sc forflo no batel a fazela no mais de cinco horoSe^ 
Antonfo paçinha Oalanquer, loSo dalmeida de quinlela 
criado Dantonto correa, António de vera do Porto, Fran* 
cisco gramaxo mo<^ da camará da condestrabesa ft 
ho barbeiro da nao, & os romeiros, & a nao (içaria hSa 
Jegoa a lamar. E feyta agoada, & tomados palmitos co** 
me^arSo de se sayr do rio : & iristo acode sobreles tan«* 
ta soma de gSte dambas as partes do rio que foj ceusA 
despanto velos & as gritas que dauão, & as frechas que 
lhes tirauão , porque lodos estai?ão magoados deles pola 
guerra que lhes fazião, & como os nossos não leuauão 
arrombadas que os emparassS, íizerànas das adargas 
poendo as dianteiras nos bordos do batel, & as cosias 
hús nos outros, & em pouco tempa todas as adargas (o^ 
Tão empenadas: & quis nosso senhor que nenhO não foy 
ferido, & eom muyto trabalho sayrão do rio tirando ca» 
snnho da nao: & indo quasi a meyá legoa dela, não po^ 
<Ierão surdir por mais que os remeiros remauão por cres- 
cer a maré & ventar a viração ^ tudo era controles. B 
estando nesta fadiga ex que saem do rio de Pacem trefe 
grandes lancharas cÕ mil homês de peleja segQdo se des«- 
l>oÍ8 soube: & hia por capitão delas hfi mouro lao muy« 
to valente caualeyro, que auia nome Raja çudameeí ca- 
pitão mor do mar dei rey de Pacem, & as Lancharas 
hião huas das outras a tiro despingarda, & a capitainA 
hia diante , & enxergauase logo pola bandeira que teua^ 
na , & todas hião a boga arrancada por chegar ao nosso 
l>atel , .& os q hião nele vendo que da nao lhe não po^ 



LIVRO T. CAPlTVliO aCXXTII. 19» 

diSo aaeodir por nfio auer em que: & que a eapitaína 
dos iiDiDigos lhes hia eiiegando, & que i»2o tinbSo re« 
médio se nosso senhor não aeodia, encomendaranse a 
ele mf%jU} deuotamenle, & asei a nossa senhora: & es« 
forçados coisso acordarão qua tanlo que os imniigos a* 
balrroassem coelea trabalhassem pelos entrar pola proa 
da lanchara, porque eomo era estreita podersehião ali 
ajudar deles melhor que em outra parte, & mais que em 
a lanchara abalrroido pegasse ho barbeiro com as mfios 
nela & a tenesse ho mais que podesae. £ assí bo fez, que 
em os immigos chegando lançon as mâoa na Lanchara 8c 
a teue como a poderá ter hfia abairroa, & com quanto 
as gritas que os immigos dauão, & os instormentos que 
tangiio, & as frechas que tirauâo era pêra espantar a 
mojtos, quanto mais a tão poucos como erSo oe nossos z 
tleã confiados em nosso senhor & em sua gloriosa madre, 
bradando por eles de todo coração se arremessarão na 
proa da lancfaara, & dali oom esforço milagroso começão 
ÉB laçadas com 00 inimigos & matar, assi os lascarins 
como os remeyros que a nenbâ perdoauâo. E os immi* 
gos que biâo muyto fora de lhes parecer que seria por 
os noasea não serê maia de quatro ic eles poio menos 
trezentos assi remeyros como lascarins: vCdo qiie oe 
nossos pedejauão daquela Hkaoeyra começarão de se lan-^ 
far ao mar , & outros ee retirarão pêra a popa da lan*-' 
chara ondeataua Raja çudainecí que se pop diãte dos 
aeus pêra resistir aos nossos & durou aqui a peleja qua* 
si bíia hora em que os nossos k)T&o todos feridos : mas 
eles pelejarão tambè com ajuda de nosso senhor, Q he 
de crer que os ajudaua: que não somente matarão a 
major parte dos inimigos, & outros (izerão laçar ao mav 
mnjto feridos, & hõ derradeyro foj Rajaçudameci fe- 
rido de cinco lançadas, que parece que se lançou mais 
pêra se vigar da fraqueza dos seus que pcra safuar a 
^ida, porque despois que foy no mar nadando com os- 
pés & com hfia mão, com a outra mataua quantos podia 
alcãçar com bH rico terçado 4 trazia : & assi andou ate 



too BA Hirranu ba tndia 

que se sumío debaixo dagoa , & as duas lancharas que 
ficauJío a iras vendo aquela desbaratada, ou despois que 
começarão de ver que ho auift de ser não ousarão de 
passar & lornaranse : no que parece bem que quis nos*' 
80 senhor dar vida aos nossos , porque segQdo estauão 
feridos & cansados se os immigos chegarão a eles ali a- 
eabarão suas vidas: & com vitoria tão milagrosa como 
esla foy Bcarão 'senhores da lanchara & se forão pêra a 
nao despois que vazou a maré: onde todos derão wuj^ 
tas graças a nosso senhor por tamanha mercê como a«> 
qtiela foy : com que os !migo8 ficarão tão espãlados Q 
assi auião medo dos nossos assi como do fogo & não ou* 
sauão de boiir consigo. E recebendo el rey de Pacera 
perda grandíssima desta guerra, mandou dizer a Ma*^ 
nuel pacheco que pagaria a fazenda dos nossos qup fora 
tomada .em sua terra , & que fizesse paz coeie: & assi 
ho assentarão ate saber de Garcia de sá se era conten- 
te , & ele ho foy despois ^ el rey de Pacem comprio o 
que dizia 9 & Manuel pacheco leuou a lanchara que os 
nossos 4juatro tomarão a Malaca: & por memoria do 
milagre que nosso senhor fez lhe mandou fazer hQ aN 
pfidere cuberto & a pos nele sobre hQs vasos pêra que 
durasse pêra sempre. E vinda a moução pêra a índia 
como quer que Malaca ficaua liure da guerra : partíose 
António correa pêra Cochim & leuou cõsigo aqueles 
cinco por quem iiosso senhor fez ho milagre. 



LIVRO V. CAPITVLO ZXZYIII. 801 

c A p I T v L o^ xxxvni. 

De como st leuantarâo contra Eytor roãriguez capitão 
da fortaleza de Coulâo a raynha de Coulâo ^ ade 
Comorim. 

Jtjjytor rodriguez capitão & feytor da fortaleza de Con^ 
lio tendo a quasí acabada despois de ho gooernador ser 
partido pêra ho estreito, mandou dizer á raynba deCou*^ 
Ião per Gaspar ferras & Luys aluarez escriuSes da fey- 
toria, que lhe mandasse pagar setenta & cinco bares de 
pimenta que lhe quebrarão no peso da que comprara pê- 
ra a carrega das nãos, como lhe os seus feytores«& cor* 
retores ficarão de pagar: & assi duzentos & oy tenta ba* 
res de pimenta que deuia da soma que ficara de pagar 
pola fazenda que.se tomou a António de sá quando ho 
matarão, & que lhe mãdaua pedir esta diuida por quan* 
to acabaua no anno seguinte seu tempo & se auia de ir 
pêra Portugal , & auia de dar conta pelo que tinha ne* 
cessidade de arrecadar o que lhe diuião, porque o que 
lhe sucedesse não auia de querer arrecadar as diuidas 
que ele 6zera. Ao que ela respondeo que pagaria os du- 
zentos & oytenta bares que deuia do cõcerto das pazes : 
porem que se ouuera dauer respeito pêra lha quitarfi ao 
grade fauor & ajuda que dera pêra se fazer a fortaleza 
que sem isso não poderá ir por diante: &. quanto aas 
quebras da pimenta que as não auia de pagar , porque 
não se pagauão em Cochim nem em Caicoulão. Ao qne 
ho capitão reprícou 9 dizendo que se fizera seruiço a el 
rey de Portugal, que ele era tão manifico que lho paga*^ 
ria muyto bem , porque assi ho vsaua com aqueles que 
ho seruião* £ quanto aa quebra da f>imenta também a 
deuia de pagar ou mandar aos corretores que: a vende- 
rão que a pagassem : porque aqueixandose ele da pi» 
menta que era molhada lhe disserão ho regedor, ^esi* 
eriuães, & corretoxea que se pesasse a pimenta, &ae 

LIVRO V. cc 



209 M. HISTOMA JSk TNBIA. ^ 

deitasse ao aol três ou quatro bares, & despois de seca 
se repesasse & o que se achasse que quebraua que ele 
a faria pagar aos corretores , ou a pagaria , & 4 ^^^^ ^® 
lisseDlara. Ao que a rayoha respondéo como dãles & ho 
mesfDo fez bo regedor, raoMraadose ambos muylo des- 
contStes Deytor rodriguez : & a mesma reposta d«râo 
outra vez que lhe ele tornou a mandar outro recado co- 
mo ho primeyro. £ de tudo £ytor rodriguez mandou fa- 
ser h& auto pelos mesmos escriuâes que leuauSo os te* 
eados, porque bo goueraador quando tornasse do estrei« 
to soubesse como passaua a cousa , & Ibe oão posesse 
Culpa se a raynha se aleuantasse contra a fortaleza : O 
que ele receaua porque sabia quão aluoroçada era ar- 
queia gente, & quâto se escandalizaua de qualquer co««* 
M, principalmente ae tocaua em seu interesse. O qua 
ele bem receou, porque tanto que a raynba vío que lha 
pedia a pímeota de verdade, & que não podia deixar da 
a dar , agastouse coisso muyto ; porque sempre seu fun* 
damenlo foy que a nâo auia de pagar & lha quitariãô 
polo muyto fauor que deu a se fazer a fortaleaa, & coes» 
ta tenção ho daua» £ vSdo que lhe saya em branco to«- 
fnou pêra remédio de oâ pagar nenhila pimenta leuan* 
larse & fazer guerra aa fortaleza, & mais que via bo 
tempo desposto pêra isso por a pouca gente que auia na 
&>rtaleza que a defendesse, &c ho pouco socorro que po^ 
dia ter por bo gouernador ser fora da índia & ieuar con^ 
sigo toda a gente darroas dela. £ pêra poer em obra sua 
determinação^ persuadio á raynba de Comorim que a a^ 

Í* idasae a esta guerra eom duus filhos que tinha, & que 
>go tomariSo a fortaleza & mataríão quãtos Portugueses 
eslauão dentro. B coneertadas ambas , chamarão (am^ 
hem em. sua a^uda aigOs mouros. £ tendo entre si fey» 
4o este concerto^ esperamk) tempo pêra ho executarem, 
acertarão bfi. dia seesi^nta Bigairis de irem da parte de 
Comorim pêra a fortateza carregados de conchas dos- 
ins & d^ lenha pêra fezerem eal , & hia coeles hQ ho» 
Deitor soárignea: o quesabido por Alai anatriuirí 



hil dos Rlhou da raynba de Gainorim^ nuodox eerloy 
Nairas seus, &. assi aJgtU vouroa que Ibe espalhasaiein a 
lenha & concha' .& os espancassem. O Q eles logo 69e* 
rao, & ho Português que hia com os Bigarins fugio pê- 
ra a fortaleza, & contou o que passaua a Ejtor rodrí- 
guez, que não lhe parecendo ainda o que era porque a- 
quiio fora feylo perNaires da parte de Comorim se manr 
dou aqueixar ao regedor delrey de Comorinv per Luys 
aiuarez & Gaspar ferraz escriuães da feytoría. E sendoi- 
Ihe feyto este queixume, ele dissimulou : dizendolhe quQ 
lhe pesaua muyto do mal que os Naires fízerSo: & quã- 
do Eytor rodriguez quisesse mandar leuar algQa cousa 
pêra a fortaleza da parle de Comorim que lho mandasse 
dizer, & que ele daria hfi mSdado pêra que não fizesr 
sem mal a quero a trouuesse : & ho mesmo queixume 
mandaoa Eytor rodriguez á raynha deCoulâo, mas. ela 
oS ho quis receber , & fezse partida de Coulão. E por* 
que ele foy anisado que se dizia na parte de G^morim 
que se lá fosse ter algú Português que lhe auião de cor* 
tar as pernas & matalo, mandou ho preguntar á raynha 
de Comorim se era assi , & isto per há Malabar escr.U 
uão da feytoria que nSo ousou de mandar laa Português. 
£ a raynha & seus filhos responderão que ateli fora sua 
vontade de os Portugueses irem a Coulâo: mas que da- 
li por diante se algfl laa fosse que ho auião de mâdar 
matar. O que sabido por Eyior rodriguez mandou que 
nenbQ Português não fosse mais a Coulao. E auendo 
dous dias que isto assi andaua soube que hCLa nao dQ 
Malabares ^ eslaua no porto tomaua hua noyte pimen- 
ta , & auia dacabar de carregar no mar , & lhe auião de 
Jeuar a pimenta em tones: & tendo vigia quando hiãp 
os mãdou tomar por hO loão de Chaues meirinho d^ 
fortaleza que foy em hu catur, & tomou sete tones car- 
regados de pimenta com quantos remeiros hião neles. O 
que sabendo a raynha de Coulâo os mandou logo pedir 
a Eytor rodriguez, & ele não lhos quis mandar, dizen- 
do que lhe pedia que lhos deixasse castigar porque lhe 

cc 2 



204 DA HISTORIA DA INDlA 

tinbSo leuado mais de seys mil bares de pimSta , & por 
isso erão caliuos dei rey de Portugal: porê Q ele falaria 
cÕ os officiaes da fortaleza, & (} tudo se faria muyto a 
seu seruiço como sSpre se fizera : do Q a rainha ficoa 
muyto descõlête. E cÕ quãto Eytor rodriguez lhe mã- 
dou 08 romeiros ao outro dia ela os nã quis ver, & ho 
regedor de Goulão que estaua coela disse a Luys aluarez 
que os leuaua, que pêra que os leuauSo então se lhos não 
quiserão mandar quando lhos pediâo. E como ja tudo 
esleuesse muyto danado contra os Portugueses, começa- 
rão os Naires que hi estauão de dizer que matassem 
Luys aluarez & os que hião coele : o que lhe bo lingoa 
disse: pelo que ele nã esperou reposta da raynha & foy- 
se bo mais asinha que pode pêra a fortaleza onde achou 
acolhidos muytos Cbristãos de Coulâo, que fugirão fiera 
lá com medo de Matanatriuiri que os roandaua matar 
por amor dos remeyros que estauão presos : & logo a 
raynha de Coulão & a de Comorim defenderão gerai* 
mente que nenhum oíficial da terra não fosse mais tra- 
balhar nas obras da fortaleza , nem leuassem lá manti- 
mCtos: E assi se fez. O que v6do Eytor rodriguez bo 
escreueo logo a dom Aleixo de meneses que eslaua em 
Gochim , pedindulhe que lhe mãdasse vinte besteiros & 
espio gardeiros pêra defender coeles a fortaleza : pedin* 
dolhe também que lhe mãdasse alga dinheiro de que ti- 
nha necessidade pêra acabar duas torres que estauão 
por acabar. A que dom Aleixo respondeo que não auia 
espingardei ros nem besteiros f| todos bo gouernador le- 
nara ao estreito, nem tão pouco tinha dinheiro que vi- 
rifto as nãos de Portugal & então lho mandaria. E ven- 
do Eitor rodriguez tão mao remédio, buscou dinheiro 
que tamott a õzena cõ que acabou sua obra» 



LIVRO V. CAPITVLO XXXIX. 206 

C A P I T V L O XXXIX. 

De como a raynka de Coulãp ^ a de Comorim quisferâo 
tomar a fortáleisa por treiçâo ^ não poderão. 

JL/elenninSdo as raynhas de Goulão & de G)iDoritii dê 
tomar a nossa fortaleza : parecendotbes que por guerra 
lhes seria dificultoso , determinarão de a tomar por trei* 
içflo: o que concertarão com aqueles três irmãos mala- 
bares Q atras disse. s. Vnirey pula, Balapulá goripo, 
Coulegoripo que morauão com a raynba de Comorim. E 
s maoeyra da treiçâo auia de ser fingindo terem agra«> 
vos dos íilbos da raynha de Gotnoil, & auião de come- 
ter Ejtor rodriguéz que queriSo viuer com el rey da 
Portugal & seruilo: & fingindo medo de serem sintídos 
não auião de querer falarfhe na fortaleza se não na igre- 
ja de sámTbome & isto de noyte, onde se fosse ho ma- 
tnriào com quantos fossem coele , & com gente que es- 
taria prestes tomarião a fortaleza. E isto assentado fa- 
2ianse os três irmãos muyto amigos Deitor rodríguez^ 
mandandolbe muytos auisos fingidos do que as rainhas 
determinauão : no que ele não atStaua pola amizade que 
dantes tinbão coele. E com tudo não brão á fortaleza , 
mas mandaoanlbe muytos auisos fingidos, & mostrauan- 
se grandes seus amigos & seruidores dei rey de Portu- 
gal ate fingirê de quererS tornar a assêtar a paz <} es- 
taua {|brada : & nisto andarão algfls dias ate que man- 
darão dizer a Eytor rodriguéz ^ bo não podiâo acabar. 
E cbegado ho inuerno em que determinarão de executar 
a treição () trazião forjada, mandarão dizer a Eytor ro- 
driguéz per hu Ctiristão de Caycoulão chamado JMatias^ 
^ue a fora bo rey grade de Goulão estar muyto mal coe- 
)es por ajodarS a fazer a fortaleza, & assí os principaes 
& pouo da f^rra : indo brfi dia a casa de Ramatreuiri fi- 
lho da raynba ée Comorim , & efe os não quisera ver 
& fizera 4 dormia ^ no Q ífaes fizera muyto grade desfa- 



^OÇ 9A BI8T0BIA DA ÍNDIA « 

uor y & mais que aquilo lhes parecia véspera de os des- 
truyr , o que temíábò iQity to |i)pp yefem a ti^f ra tão aluo- 
roçada contra a fortaleza, & que sè quererião vingar do 
ódio ^ lhe tínbêo pola ajudarem a fazer: & por outra 
parte posto que assi nSo fosse ^ & qaisesseo) as. raynhas 
que eles lhes ajudassem contrele naquela guerra i) sabia 
que lhe auião de fazer, que ficauâp deslruydoa, porque 
fabião que elas não auião de leuar bo melhor da guer- 
ra , & elea não ganfaarião mais que fícarenlhes os Portu- 
gueses por ímmigos, o que eles não querião por nenhil 
preço: por isso se os ele quisesse receber pêra viuereoi 
cõ eirey de Portugal , & lhes dar ho soldo que lhes da* 
ua ho r^y grande, que assentarião viuenda cõ el rey de 
Fortugai & serião seus pêra sempre , & morrerião na 

fuerra ) esperauão« E vendo Eytor rodriguez como am* 
as as raynhas eslauão de guerra: & que aqueles Ires 
irmãos ho ajudarião muyio nela, assi por serem princi'- 
paes da terra, como por ajuntarem a hu repique seya 
eentos Naires, & serem tão vezinhos da fortaleza: par 
receolhe bê aceitar ho partido que lhe cometião , sobr^ 
o que se conselhou com Matias , & despois cô Christo- 
uão de bairros seu genrro, & alcayde mor da fortaleza, 
& assi cõ outros officiaes & homês hõrrados dela. E per 
todos foy acordado Q os três irmãos se deuião de tomar 
por criados dei rey de Portugal , com lhe darê a morar 
dia & soldo que tínhão do rey grande de Coulão, quo 
erão corenta cruzados a cada hu por anno: & bo soldo 
& ordf^nado da terra quando de suas pessoas & de seus 
Naires se quisesse seruir na guerra. E isto assinado por 
todos os que furão no conselho, mandou Eytor rodrigueíc 
dizer aos três irmãos por Matias que fossem sós á fortar 
leza pêra assentar coeles a viuenda com el rey de Por^ 
tugai: do que se eles mostrarão muyto alegres, porem 
escusaranse dir á fortaleza^ porque não fosse sentido da 
^ête da terra o que querião fazer: nuis que á boca da 
noyte se ajuntarião coele na igreja de sam Thome ond« 
leuaria os principaes da fortaleza & peranteles lhes ju^ 



UWt» T. OAPITVLO KXnX. f Of 

rmriá <de comprir o que assentasse oodes : & Isto com 
tea^ de terew quinze mil àomeos em cilada , & ena 
quariíte hOs matasseiii Eytor rodrif uex & os que ho a-» 
oomf afibatsio, os loutros eatrariáo de supilo na IbrUle' 
ca qee auia destar aberla, &. a lomariâo. E nâo caindo 
«tnda Cylor rodríguez nesta treiçâ , lhes respddeo que 
basaaeaem outra nsíBeyra pêra assentar seu partido 
por^ b5 sabião que auia bQ anno que não saja da for- 
taleza nS auia de sayr por nbua maneyra, & quando os 
irmftos virão que nào podiio acolher Eyior rodríguez 
disserão que pois ele nâo podia ir á igreja que dizião 
que «Msem BB «oyte seguinte seus gCrros bo alcayde 
mor , & Duarte varela & Luys aluarez escriuâo da fer- 
toria , & eles abastaríio pêra fazerem o q ele fizera : & 
Isto pêra os matarem , porque sabiâo que eomo matas- 
sem estes que erão os principais com <| se Eytor rodri* 
guez auia de delBder faciJmente lenariâo a fortaleza nas 
ttàos. E quis nosso senhor que quâdo foy a boca da noy- 
te em que auia de ser a treição ^ Ey lor vodriguez se a* 
choo mal sentido , & mandou dizer aos três irmãos que 
por essa realo nâo pbdia praticar com ho alcayde mór 
BÔ com es outros que auiáo dir , o que auião de fazer 
que ficasse pêra outro dia, & que ele lhes mandaria di« 
ser ouádo. £ passados dons dias lhes mandou dizer que 
aqBela noyte fossem á igreja & se faria ho concerto. E 
Como eles eitaaâo desapercebidos pêra a tfeiçâo, res- 
ponderão que aquele não era b& dia pêra fezer mudan- 
ça que ficasse pêra outro l[ fosse bè: & logo após aque- 
la reposta lhe mãdeu dizer Balapulá goripo ho principal 
da Irei^fto que na mesma noyte queria ir á fortaleza pe- 
» assentar coele por si & por seus irmãos. E como to- 
do erão mStiras nà foy, & fez esperar Eytor rodriguea 
■te nea noyte 5 & em amanbecêdo lhe mandarão todos 
^e outro reeado , que eles não bião aa fortaleza por 
«o dwerem eeus parfttes q«e nio se fiassem dele, & po» 
"•o nto ousanj* dir , que lhes mandasse por arrefens 
RMB K«wroB & outM» àioiii6s hounwkw que «cassem ew 



SOS nA HI8T0AIA DA fN0IA 

sua cata em quâio fossem aa fortaleza j k H irião logo* 
£ isto com determinação de entSo acabarem soa Irei- 
ç2o pêra o que tinbão quize mil homès como dates : maa 
quis nosso senhor iembrarse dos Portugueses, & abrío 
os olhos do entendimento a Eytor rodriguez, pêra quo 
visse claramente a treição que lhe q^ueríio fazer, & 
respondeo que não queria coeles partido nenhCi que es** 
teuessem como dantes. 

CAPITVLO XL. 

De como a$ raynhas mandarão cercar afortakxa. 

V. endose os três irmãos desesperados de poderê fazer 
a treição ^ determinauão , disserãno aas raynhas: que 
consultarão coeles que pois não podíão tomar a fortale- 
za por treição § a tomassem por guerra, porque não po- 
dia ser ^ tão poucos Portugueses como eslauão nela a 
defendessem a tanta gSte como elas tinhão, & mais em 
inuerno que era ja ho mar çarrado por serem dezanoue 
de lunho : & parecia que não podíão ser socorridos , & 
logo ajiltarão bis xv. mil naires & por capitães os três ir- 
mãos 9 a ^ derão cuydado da^la êpressa. E têdo esta 
gole juta pêra darS na fortaleza hu Arei grade seruidor 
deirey de Portugal & amigo de Eytor r^rigoez êtrou 
de supito na fortaleza cuberto cõ h& pano por não ser 
conhecido , & lhe disse que se goardasse porque estaua 
muyta gente junta dos immigos pêra ir logo pelejar coe- 
le. E isto dito sem mais detença se tornou a sayr: o 
que ouuido por Eytor rodriguez mãdou cortar hfias pai* 
meyras que fazião hO êcuberto dÕde lhe podíão dar com- 
bate. E andado hQs sete ou oyto homá cortado as, a- 
codio Bala pula goripo agrauandose de as cortarem, & 
após ele se descobrirão tão de supito quinze mil homSs 
Q os Cbristãos da terra que morauão ao derredor da for- 
taleza não teuerão tempo de meter nela suas fazSdas ; 
& ho melhor que poderão se acolherão a ela cÕ suas mor 



1.IVIK) ▼. CAPITVLOXU 209 

Hieres 8c filhos: & isto poderão fazer porque* n arlelha- 
ria da fortaleza jugaua tnuyto rijo que assi ho mâdou 
Eylor rodriguez como vio os ímmigos, com que matou 
deles obra de vinte cinco em quanto durou ho combate 
que foy ate noyte, & eles roubarão & queymarâo as ca- 
sas dos Christâos da terra (| se acolJberâo á fortaleza^ 
& matarão hu Português chamado leronimo vaz que ã» 
daua fora da fortaleza por hu homizio , & dous escrauos 
& b&s quatro carpiteiros & pedreiros da terra^ por^ tra- 
balhauão na fortaleza. E nesta rf>uolta deitarão muyta 
peqonha no poço da fortaleza & em outro seu vezinho^ 
que matou logo quantos peixes andauão neles, & des- 
pois ho mandou Eytor rodriguez alimpar & fazer nele 
hQ forte repairo pêra ho defender aos immigos , que Io- 
go assentarão algOas estãcias com bombardas roqueyras 
^ mouros i} ali inuemauão lhe emprestarão das suas 
nãos, & coesta artelharia tirauão á fortaleza & «om muy- 
tas frechas: mas [)or ser a artelharia fraca não lhe fa- 
tião dano, & porque a nossa lho híto fizesse muyto fize- 
rão rouytas cauas pêra se acolherem: & isto de noyte 
que de dia não ousauâo de trabalhar por não «e desço* 
brirem a artelharia, com 2) os Portugueses tirauão posto 
que era de noyte atinando ao tõ das enxadadas. E coes- 
tes tiros perdidos matarão algQs dos immigos, que tam- 
bém tinhão tento quando os Portugueses falauão, & ti- 
rauão muytas frechadas pelo que era necessário nos da 
fortaleza de vigiarfi armados: & noue dias continos te- 
uerão este trabalho, & assi de corridas i} os !migos fi^ 
sião á fortaleza de <) sempre fícauão no campo pas- 
sante de vinte mortos cõ a artelharia, & dos Portugue- 
ses forão feridos algQs de frechadas & antreles foy Duar- 
te varela genrro Deytor rodriguez ^ tinha consigo ate 
trinta homês de que cinco estauão muyto doCtes: & 
ooéstes esperaua era nosso senhor de se defender a ta* 
nianha multidão dimigos como defendeo não tendo na 
fortaleza roais que arroz, porem pêra oyto meses, & 
este se comeo na fortaleza èo^ido em agoa tal em quão- 

LIVAO V. DD 



210 HA HISTORIA DA ÍNDIA 

to durou ho cerco, & ás vezes ralos pêra que lhes pàh 
recesse que comião carne. 

C A P I T V L O XLI. 

De como dô Aleixo de menesei mandou socorrer a forta- 
leza de Couláo per dom Afonso de metieses. 

N. h„» , «. taigo. p<«rto oerco «>b,e . fo,...«. . 
hu Ghalim de Cochim seruidor dei rey de Portugal que 
estaua em Coulâo , par tio logo pêra Cochítn & foy dizer 
a dom Aleixo de meneses o que passaua* E vendo ele 
ho perigo em que fícaua a fortaleza por a poiíca gente 
ò tinha pêra a defender, mandou em seu socorro dÕ A- 
fonso de meneses filho do conde dom Pedro niuyto es- 
forçado caualeyro , que foy em faúa fusta com dezanoue 
humSs mal armados & sete deles espingardeiros, & hil 
priuco de biscoito, & duas pipas de carne, & duas cai^ 
teirolas de poiuora : & com quãto era inuerno quis nos- 
so senhor dar jazigo ao mar que a fusta foy a saluamen- 
to & 6 poucos dias chegou ao por lo de Cuulão, onde os 
immigos a seruirão com assaz de frechadas & bombar- 
dadas & com hQ espingardão ferirlo ho comitre da fus- 
ta de hua perigosa ferida : & dom Afonso se vio em gra- 
de fadiga porque não tinha paraó em que podesse de- 
sembarcar, nè Eytor rodriguez nSo tinha nenhú que tu- 
do lhe queymarão os immigos. E vendo que nâo auia 
•utro remédio, mandou hQ homem a nado, que fosse di- 
ser a dom Afonso que se chegasse tanto a terra que po- 
scsse nela ho esporão, & que desembarcaria com gête 
que lhe mãdaria da fortaleza, & mandou ho aicayde oiór 
eom vínle bomCs: & em saindo da fortaleza começou 
de jugar a artelharia que estarua daquela banda, porque 
embaraçasse os immigos que por serè tantos não tinháo 
em oonta os pelouros. E vendo que dom Afonso desA- 
bareaua poserâo fogo ás suas bombardas , & desparauáo 
freebaa sem coalo, & foy k&a bem perigosa desemba»* 



XJVSO y. CAVITVU) XLlé Sll 

caçSo. E com tudo aprouiie a nosso senhor ^ nenbli dos 
Portogueaes dSo íoy ferido ^ & todos se recolherão 8 
saiuo á fortalesa com as arinaa & adargas bem cubertaa 
de frechas : & coes te socorro cbegau^ os que estauâo 
nela a cincoSta^ com que os immigos teuerão grande 
éespraser parecendoihes que de cadauez que a forlale* 
sa teuesse necessidade de socorro lho mãdarião de Co- 
chim. B 08 mouros ^ bi inuernaufio & desejauão muylo 
de ver tooiada a fortaleza lhes diziâo que nSo se enga- 
nassem y porque em Cochini não auia mais gente com 
que podessem socorrer a fortaleza posto que disso te* 
nesse necessidade, porQ a leuara bo gouernador toda ao 
estreito: & mais que aquela fusta não hia pêra mais 
que pêra leuar a Cochim os que estauão na fortaleza, 
por isso que trabalhassem pola arrobar porque os não le- 
uasse : & deapois tomarião a fortaleza. E cuydando os 
Naires que isto era assi assestarão hQa bombardeta gros- 
sa na fusta & afadigauãna muyto rijo, & mataranlhe hG 
remeyro. O que vendo Eytor rodriguez assentou com d5 
Afonso que fossem tomar aquela bombarda, pêra o que 
snjrfio hQa ante manhaã com trinta homens & remete^ 
rio aa estancia, & derão nos Nayres que a goardauão: 
tt que acodio logo Balapulá goripo que era ho capitão 
daquela estâcia, & começarão de pelejar & logo Duarte 
varela a qoe era encomêdado que com certos homSs to* 
masse a bombarda remeteo a ela pêra a tomar , mas a^ 
charãna liada no repairo cÕ hQs cabres tão fortes que 
niica 08 poderão cortar com as espadas : & vendo que a 
não podião leuar a deixarão, & também porque a gen- 
te recrecia muyto à foy forçado a Eytor rodriguez ^e* 
colherse o 2} fez cõ algua afrõta, & ficarão sete dos ira* 
noiges mortos , & mais leuaranJbe a camará da bombar- 
da com Q por hãs dias lhe impidirão {} não podesse ju* 
gar ate que £aerão outra, & dos Portugueses não foj 
nenhfl ferido. E não deixado ainda os immigos de per- 
seguir a fusta com outras boiubardas miúdas, acordarão 
dona AiSso Sc Eytor rodriguez de a mandar a Cocbim# 

/ DD 2 • 



212 DA HISTORIA BA ÍNDIA 

£ asâi ho fizerão, & por ho mar âdar ja inuyto grosso 
não pode mais chegar que á cale & hi inuernou , & co- 
mo a fusta se parlio de noyle que os immigos a nâo vi- 
rão partir , quando foy menhâ que a não virão cuyda- 
rão (| a gSte da fortaleza se fera nela coroo lhe os mou- 
ros dizião, & mais porque não parecia ninguê pola for- 
taleza : & 08 mouros lho affirmarão mais. E cuydando aa 
raynhas que era assí mandarão a seus capitães que des- 
sem na fortaleza & a tomassem : pêra o que se aj&tarâo 
todos cõ grades alegrias de gritas & de tàger de trõbe- 
tas, & melhocando suas eslãcias remeterão á furlaieza 
& começarão de lhe dar bateria cõ suas bombardas , & 
porque a principl era a porta da fortaleza, Hl Eytor ru- 
driguez se temeo que a quebrassem mandou poer algQs 
liomSs em hQa goarita que estaua sobre a |xirla pêra ^ 
a defendessem com grades pedras & panelas de poluo- 
ra , & fez seu capitão a híi Pêro lourent^o criado dei vey 
de Portugal , & ele pes se em baixo no pátio da for- 
taleza com vinte homês armados & mandou abrir a 
porta pêra que os immigos entrassem se quisessem. 
£ venda eles a determinação dos Portugueses nâ ou- 
sarão de cometer a porta , mas tirauâo multidão de fre- 
ehadas , & os Portugueses espingardadas & bõbarda- 
das, & as8Í est^euerão bS duas horas & se tornarão os 
Smígos a recolher a suas estancias ticãdo mortos obra 
de triia & dos nossos nhú» 

G A P I T V L O XLÍI. 

Do q socedeo na guerra aos Portugueses ^ aos imigos. 

V endõ as raynhas & es' príncipes quão pouco dane fa- 
ziào aus da fortaleza estauâo niuyto abastados, em tan- 
to que qutserão disistfr da guerra se os mouros lhes- uS 
foráo a mão eslranhandolho muyto: & prometendtilbe 
que os P(»rlugueaes se auião dentregar, assi de casados 
de se defenderem como d^ fome ^ os auia dapertav. £ 



LATRO V. CAPITVLO XLII. 213 

de8e8|)erado8 de socorro por ho gouernadar ser ao estrei* 
to õde o8 rumes, ha attiâo de desbaratar^ & Dáo auia da* 
uer qu6 socorresse a fortaleza , por isso que esperassem 
de a tomar, & fizeranlbe outra camará á bombarda gros^ 
aa tal como a que lhe tomarão os Portugueses & deita* 
na pelouro de ferro de peso de dez arratSs cÔ que tor^ 
oaráo a tirar á fortaleza, & lhe desmancharão os curu- 
cbeoa das torres, com quàlo erão muyto fortes: porem 
nas parede» dos iuuros uâo amegauâo os pelouros nada , 
& Dào auia dia £[ não metessem na fortaleza eêto , assi 
desta bombarda como doutras mais pequenas : & Deos 
aeja luuuado nunca ferirão nem matarão ninguém , sal^ 
lio hii escrauo de dom Afonso de meneses. E com toda 
esta opressani Q oa da fortaleza tinhào, princípalmSte de 
comerem táo mal como digo sintiáse tão esforçados pêra 
fazer mal aos Imigos Q quas» todoloa^ dias sayâo da for- 
taleza a cortarlbe os palmares , que era a mayor ofiensa 
& dano (} lhes podiâo fazer, & assi ho sintià eles muj- 
lo, especialmente Matanatriuiri qu« estaua por capitão 
ée h&a eatãcia onde era a principal dealruyção dos palr 
mares ^ os Portugueses fazião. por terem ali os immigos 
grande colheita: de que os Portugueses sSpre nestas 
saydas matauão algu» dos que lho sayfio a defender. E 
ho capitão desta gête que saya era as mais das vezes 
46 Afonso que nesèe cerco seruio muylo bem. E vendo 
Cytor rodriguez como os Imigos sayâo a defender ho 
cortar das palmeyras, mandoulhe deitar hua cilada de- 
Iraa dOs valos dobra de quinze espingardeiros & bestei- 
ros, & mandou a Duarte varela que cõ dea bomês fosse 
cortar aa palmeiras da parte da estàcia de Balapulá go** 
ripo, que logo sayo .a lho defender com algQs Naires-, 
êe que ca da cilada materâo sete ou oyto, & Duarte var 
vela se recolheo ^ seguindo ho os imigos : a que fez ro»> 
to junto do potjo como muytu bÕ caualeyro- que era , & 
mandou aos besteiros & espingardei ros que diessem bQa 
^urriada noa imigos, & assi ho fizerão : & hfl Simão ai* 
uarez criado de Eytor sodriguez acertou a Balapulá^ go- 



tl4 Mk 0T0VOHM DA IHMA 

ripo h1}a espiogardada por ambas as cozas ^ Ikas vmoq 
fc {{broolbe bo osso dOa que logo cayo no cbSo : ao que 
Duarle rareia acodio pêra bo tomar & eoele Luys atoa* 
rez escrioSo da fejtoria, Afonso ferras, António da con* 
ta , Diogo de gouuea , Pêro lonren^ & outros oaoalej- 
ros, & trauoose hfia braaa peleja por sobreuir tanta geo* 
te dos Imigos que quasí afogana os nossos , & por íssô 
nSo poderão catiuar Balapdá gorípo j & Duarte varela 
foy ferido c5 bOa espada na sola de bft pé, & Afonso 
ferraz foy ferido doutra de (| dcspois morreo, & Antó- 
nio da costa de duas frechadas, & assí outros: & reco* 
Iheranse com muyta afrõta, & nem por isso deixauSo 
de sayr a cortar os palmares, o que fasião eada dia, & 
de cada vez matauáo gente aos imígos & lha feriâío^ & 
dos nossos náo morrerão mais que estes ^ digo. E assi 
durou ho cerco ate oyto dias Dagosto em 4 acontecerão 
outras muytas cousas que não escreuo por ordS por as 
não saber particularmfite , mas os Portugueses bo fize;- 
rão sempre tãbS cÒ ajuda de nosso senhor ^ os imigos 
se espãtauão : 9l assi foy este bii dos borrados 2^ os pof^ 
tugueses fizerão na Índia. 

C A P I T V L O XLIII. 

De cama a raynha de Camorim pedia paz a Eytor ra- 
driguex ^ se kuâtau ho- cerco dafartalezeu 

JLIesenganadâs as raynhas de Coulão & de Comori» ^ 
não podião tomar a fortaleza pois bo não poderão fazer 
8 perto de dous meses que estauâo sobrela, arrepende^ 
ranse muyto de terS come<;ada a guerra, porque rtâo 
que fizerão nisso sua perda. E a raynba de Comori m 
quisera ijne pedirão paz ao capitão, & a de Goulão lhe 
disse que ele auia destar esoãdaiizado delas & nã auia 
de querer paz, que melhor seria -maudala pedir a dom 
Aleixo de meneses Q ficaua por gouernador. No 4 ^ ^^X** 
nha de Comori não quis consentir, dizendo que a qiism 



tia fiâêr» B guerra a eete auia de pedir a pas. E a ray^ 
aha da Ccuiâo nft quÍ8 se oáo mandala pedir a do Alei-- 
ze^ a quem mandou bil seu pula pedindo perdão 4o qu# 
fisera, ic proaietddo de aer dali por diante niu^^lo lidi 
a el rey de Poriugal^ pedindolhe que maadaase lá coni 
qii6 asMUtasâe a paz i^ iiorqae nãò ae ainsuia a asaeota- 
ia com Bytor rodriguez* E doui Aleixo despachou logc 
fiera ir6 fazer eate negocio Diogo pereyra de Cochinn^ 
íl Cberinaaiarcar' & Patemarcar «icufM que íossem coa.- 
le. E 6lre tanto que hiSo a rayniui d« Gooaorioi ^ da- 
aejaua dasaentar paz eom EyLor rodriguez iȉdouibe re- 
cado por bOa nioiber Cbriatáa da terra chamada CochU 
4iale muyio conhecida doa Portugueses ^ que chegou a 
f)oKa da fortaleza hOa aoy te do(s oyto dias Dagosto re^ 
dido bo quarto da pntiiac & conhecida quem era dei^ 
pois de chamar, & dizendo que queria fklar a Eytor rc*- 
driguez da parte da ra^oba de Comorim^ foy leuada 
diante deie: & ficando coai> doo Albnso & com hc at- 
cayde niór, & Luj^s aluarez ascriuâo da feytoria. £la lhe 
disse j| a raynha cie Coinorini Sganada pela de Coulãa 
^ lhe auião de loroar a fortaleaa per hfl ardil ^ Balapu»- 
]à goripo & seus irmâcs tinbio ordenado pêra isso ^ se 
leuantara cdtrde & lhe fizera guerra, do que se arre- 
pendia iDuy to & confessaua que errara : & lhe pedia ^ 
quisesse eoeJa paz, porque queria ser nouyto grande sen- 
uidor dei rey de Portugal, .& daria pêra a fortaleza lo^ 
da a prouisam de mantimentos de que teuesse necessi- 
dade: & dali por diante mandaria a seus filhos &c a sua 
gête que mais nSo fizessem guerra á fortaleza. £ pre* 
guntada por Eytor rodriguez se trazia algQa carta de 
crSça da raynba : & dizendo que não, lhe respondeo que 
a trouuesse ou viesse algú puiá principal coela, & que 
entfio responderia a bem de feyto. E ela disse que si tra- 
ria , porQ a raynha desejaua muy to a paz : & assi foy 
que logo ao outro dia á noyte ao quarto da modorra tor* 
DOU & coela Chanei pula muyto pricipal na casa da ray- 
nha que entrou com seguro Deitor rodriguez , a quem 



me DA mnotiíA ba nmtK 

despois da dar ha grande presente de niantimfitos cia 
parle da raynba , lhe confírmou também com hil seu re- 
cado ho mesmo que Gochicaie lhe dissera a noy te. pas- 
sada, pedindolhe que al6 de cõfirmar a pa^, lhe quises- 
se dar seguros pêra as suas nãos nauegarS , & que de- 
uia de folgar de lha cõfirmar por a nossa fortaleza eslar 
em sua terra, & ser feita contra sua vontade & de seus 
pulas : & mais por nâo I}rer mandar assentar paz cd dft 
Aleixo como fizera a raynba de Coulio, se nSo coele. 
£ contou a Ejtor rodriguez como sabendo a raynha j| 
Diogo pereira estaua em Caicoulâo, (| vinha por man- 
dado de dom Aleixo pêra assentar as pazes c5 a raynha 
de couião , lhe mãdara dizer Q nâo entrassem em Cou- 
láo, se não que se acharia mal. B de tudo isto Eytor 
rodriguez mãdou muytos agardecimentos á raynha, & 
da sua parte lhe outorgou a paz , promet^dolhe que 
quando se ouuesse dassentar de todo, ele apresentaria 
ho muito grade seruiço l( ela fazia a el rey de Portugal 
em desistir da guerra & socorrer á fortaleza a tam b5 
tempo. O ^ ela estimou muyto, & fez logo afastar a sua 
gente de guerra : & mãdou aos seus areys que mandas- 
sem aos pescadores de sua terra que leuassem cada dia 
pescado á fortaleza. E tambS a raynha de Couião desis- 
tio da guerra: & Eytor rodriguez ficou desapressado de- 
la , sem em todo ho tSpo que durou lhe ferirS nem ma- 
tarS mais que os que disse« 



uvn> y. CAPiTvxx» xuiii. 217 

CAPITVLO XLIIII. 

De eofno Cherinamarcar , ^ Patêmarcar mauros eslor^ 
uarão que a ratfnha de Coulâo não assentasie a pax 
* que cometia^ ^ de como se fez despoie. 

Dabendo Eytor rodriguez como Diogo pereira & Pa(e* 
marcar & Cherioa marcar eatauSo em Cailecoulão , & 
•fiâo ousauã de passar dali cõ medo da raynha de Como- 
rim , escreueo a Diogo pereira que se fosse em hQ tone 
por mar á fortaleza ^ & que os mouros se fossS polo rio: 
& assi ho fizerão, E chegado Diogo pereira a fortaleza 
disse a Eytor rodriguez como dd Aleixo ho roSdaua ali 
pêra reformar a paz cÕ a raynha de Goulão: a cujo re« 
^rimento aqueles dous mouros vinhão. Do que se Eytor 
rodriguez aqueyxou muyto, dizSdo que a{|les mouros 
erã imigos dos portugueses, como ho erâo quantos auia 
na índia, & que lhe parecia que por sua causa se não 
auia de fazer a paz , que ele não cõcedesse sem a ray- 
nha comprir logo híis apontamentos, i) forão os seguintes. 

Que dStro naquele anno auia de pagar duzentos & 
oytêta bares de pimenta que deuião a el rey poia fazS- 
da que fora tomada a António de sa: & assi set^ta & 
dous bares i) deuia da quebra do peso da pimenta da 
carga do anno passado: & mais treze bares que se mon- 
tauão em certo dinheiro que lhe deuia , como estaua 
per conta certa. 

E auia de pagar todo quanto se roubara assi aos 
Portugueses^ como aos Ghristãos da terra, quãdo se pos 
ho cerco á fortaleza : & assi todo ho dano que receberão 
em quanto durou a guerra descrauos ^ fugirão pêra os 
imigos : & mais auia logo de correg^r todo ho danefica- 
mSto que na fortaleza fosse feyto. 

E que os der«yio8 da igreja de sam Thome que ho 
modelcar dos mouros tinha tomados despois da. guerra 
lhe íbssê logo (ornados : & por castigo disso se dessem 

LIVRO V« E£ 



pêra sempre á igreja de sam Tbome lodos os dereytos 
que pertenciSo á lúezquiliai dos mouros. E que os mou- 
ros de Cocbim^ Cananor & doulras partes que ajudarão 
fiaqueia guerra nSo podessém mais tomar a Coulão , so- 
mente terifto fai seus feytores* 

Que BaiapuJá goripo & seus irmãos pola ireiqão que 
quíserSo fazer em tomar a fortaleza mudS sua viueitda 
pêra hQa legoa da fortaiexa, & achando >o6 de Ofaaiigu»- 
cheri pêra a fortaleza os podessê malar* 

Que a raynfaa de Coulão & a de Comorim & os re- 
l^edores poia treição & guerra qtie fizerâo fiag assem cen 
bares de pimenta, & assi ae obrigassem :a dar dotie mil 
bares pêra a carrega que se esperaua de fazer , & isto 
|X)los preitos de Cochim» 

£ que dissesse á raynba & ao regedor Q se iião qui* 
aessem outorgar & comprir estes apontamentos qoe sou*- 
bessem certo que em todos os portos dei rey de Coulão 
não ficaria nao asai suas como deslrangeiros ^ não fos- 
sem (ovnadas ou metidas no fundo como de iaxnigos. 

E coest«»s ap6tamèi08 foy Diogo ppreyra falar á raj- 
nha de Coulão indo coele Luys aluares escriuão da fey« 
teria , ficando por eles arrefens nà fortaleza : & forão 
coeles Patemarcar & Cbeírinamarcar, que tanto que Ibes 
foy lido perâte a raynha ho aponlamêto que dizia que 
auia de pagar a quebra da pimenta, não ho poderão so- 
frer, & apartandose logo com a raynha lhe disserão 4 
ae auisaase que por nenfail modo assentasse a paz com 
a condirão daquele aponlamento, porque não somente 
ela era perdida em pagar a qtrebra da pimenta & poer 
lai cosluni<e, mas os mercadoi-es de Cuchim & de todas 
as oMraa partes em que ?endíâo pim^ta a el rey dePoi^ 
tugal. £ como u raynha cria muyio De«tes mouros, to- 
moo teu ^naelho & não quis «issentar a paz r & assi se 
tornou Diogo pereyra 6o«le« pêra a fortaleza sê tomate 
Aenhik assento com a r^nynha^ E este auiamento derâo 
em 08 dom Aleixo manckr a Coulão : do que se Eytor 
ffodriguez queixou muyto od Diogo pereyra, por^ logo 



umo T*'CAnvTLOtn*Y. 

fòj certificado do conieibo f}ii« derio an tajrnba j & dis^ 
isdbo desenganando os que se a rajnha nâo pagasse a 
4bra da pimeDta. <) ela .perderia asais. do que ganhaiiia^ 
& ho mesmo auia de ser dali por. diante em Cocbi tt nas 
outras partes onde se tompraua pimSta para carregaçie 
das nãos. B vendo Diogo pereyra que sua estada em G>ii^ 
Ião era debalde toraouse a Cocbim oÒ os mouros, & eom 
quanto nâo ee lomoa assento, na pas, nSo tomarão aa 
ra jnhas a fazisr guerra á fortate2a & despoia se fea a pas, 

C A P I T V L O XLV. 

De como ho gauernador paríio Darmuz pêra a índia ^ 
09 nosiOÈ tomarão duas nãos dt mouros , ^ do num 
qtsepasmn^ 



H 



.O gooernador que ínoeraaiM em Oripuc deixando 
assentado tudo o que era necessário se parlio pêra a In*- 
dia na fim Dagosto, 8c foy ter a Ma2cate onde estaua 
a armada dos nautos grassos, fc ali foráo (er ooele os 
mouros que hiBoem goarda-de leronimo de sousa & dce 
outros nossos. £ sat»endo^ho gou^rqador o que passaua^ 
-fez mercê aos mouros., & mandou por eles hil rico prc^ 
sente a sen sefior polo gasalhado qoe fizera aos nossos c 
& despoia se partvo pêra a índia & leoou a rota da pon- 
ta de Diu, & naquela trauessa topou -per diuersas ver- 
tes duas naoa de mouros^ que forão tomadas & hAa se 
rendeo sem peleja, & outra tomou por força darmas Ruy- 
naz i)ereyra ( que se ajuntou em Mazcate com bo go* 
uernador) & ajodoubo Nuno fernandez de maeedo, & 
foj tomada cõ morte de moytos mouros que se defende- 
rão valentemente* E tomadas eatas nãos foyse ho gooer*- 
nador dereyto á pSta de Diu com determinação de bo 
tomar se bo acbasse pêra isso , que assi dizia que Ibo 
mandaua el rey seu senbor se Ibe não dessem nele for- 
taleza : & porem que fosse sem morte de gente. E isto 
não dizia ele de praça , somente que bia pêra recolher 

SB 2 



220 BA HISTVnA «DA nfOTA 

Fernão martínz euangeiho que estaua hí por feyto^ auia 
finoB : & chegado á barra surgio &c mandou chamar Fer* 
nâo marliz^ de- quem soube que Meliquiaz não eaiaua 
em Diu que bo mandara el rej de Gambaya. fazer guer- 
ra aos reabuios , & que em aeu iugar deixara Melique* 
aaca seu filho ^ & por seu goueroador h& seu parente 
mouro & lariaro de nação chamado hagamahmui, & ^ 
Diu estaua forte com baluartes que tinhão muyta arte- 
Iharia: & de contino estauão no porto cincoêta sessenta 
fustas bem artilhadas. E sabido isto polo gouernador 
chegou ali Gaspar da silua, que como disse leuaua a 
capitania de hQa nao da armada de lorge de brito: Q 
passado bo ínuerno partio coele de Moçâbiqúe onde iúr 
iiernou , & foj tanto abaixo que (oj ter a Diu j & co- 
jihecédo a nossa frota se chegou a ela, & deu ao gouer- 
nador bila via de cartas que lhe trazia dei rey de Por^- 
tugal y em que lhe mandaua S nâo lhe querèdo el rey 
de Gambaya dar fortaleza em Diu que fizesse guerra a 
Gambaya & procurasse por tomar Diu com ho mayor 
resgoardo que podesse que lhe não matassem gête. E 
•abêdo ho gouernador Q Diu estaua tSo forte, dissimu* 
lou pêra outro tempo, & màdou dizer a Melique, que 
pois seu pay ali não estaua. que não se queria mais de- 
ter , & foyse a Goa com determinação de tornar sobre 
Diu com grade armada. E sabendo em Goa como aque- 
]e inuerno fora morto de noyte loão viegas alcayde mór 
da fortaleza, não fez sobrisso nada: posto que se dizia 
pubricamente que bo mandara matar ho capitão, & de 
Goa se foy a Gochim , onde achou lorge de brito cõ os 
capitães 4 inuernarão coele saluo Gaspar da silua: & 
lurge de brito lhe deu cartas dei rey de Portugal , em 
Q lhe mãdaua fazer muytas cousas como direy a diante. 



\ 



IiIVftO V. CAMTVIiO XLVt. 821 

C A P I T V L O XLVI. 

Dt como Meliqutaz tnandou hú embaixador ao gauerna- 
dar pêra saber se se apercebia pêra ir a Diu. 

jyieliQflaca íilbo de Meli^az capitão de Diu vSdo a 
pouca detença que o gouernador tízera no seu porto. E 
aabèdo detf|x>Í8 a frota que fazia era Cocb! , porque logo 
«e aoube |:)elu8 isouros, soapeitpu se seria pêra ir sobre 
Diu: porque ainda Q a paz eslaua assentada àtre seu 
pajr & eltkiy de Portugal bê sabia que a linha quebra- 
da, cÕ trazer as fustas que trouuera daraiada todo ho 
ie.aipo de Lopo soarez assi cõtra os nossos , con»o cdtra 
aeus amigos, & (} ho gouernador podia cÕ rezão fazerlhe 
guerra : & 4 ^^na aquela armada pêra ir sobre Diu , & 
por cdselbo de Hagamafamut, pêra saber se era assi & 
abrfldar bo gouernador dalguã cólera se a teuesse : mã- 
doulhe bQ êbaixador, que foy hEl mouro borrado chama- 
do Camalo, a ^ principalmête encomendou rouylo que 
trabalhase por saber ou Ctender cõ Q determinação ho 
gouernador fazia aquela armada : & deulhe bQa carta de 
crença pêra ho gouernador a quem mandou dizer que 
lhe pesara muyto de se ir tão asinha do seu porto, por 
lhe não poder fazer parte dos seruiços que desejaua co- 
mo seruidor dei rey de portugal & muyto grande ami* 
go dos seus gouernadores , & pois ho não poderá ver bo 
mandaua visitar por aquele embaixador, & saber se man- 
daua dele ou de sua cidade algiia cousa : porque ho fa*- 
ria como vassalo dei Key de portugal Q era. E mandou- 
Jhe bQ carro triunfal muyto fermuso & marchetado cd 
muytos laços de marfim , & pêra bo tiran m quatro bois 
dandadura, ^ são de muyto preço: & tinbão os cornos 
muyto bè dourados, & este mouro íoy em btia naueta: 
& chegado a Cochim deu sua embaixada ao gouernador 
& ho carro (} lhe leuaua : cõ que elle folgou muyto pê- 
ra hò mandar a elrey seu senhor, como mandou nas nãos 



2St 9à STSTOWA nx nmiA 

I) aquele 2no forSo cô a carrega pêra ho reyno. E sen- 
do ho gouernador auisado por algos Q bo sospeiíarã que 
Caraalo vinha a descobrir terra se era pêra Diu a arma- 
da que se fazia : não ho quis despachar k, deteu^o cmtt 
dissimulações ale que ho leuou consigo quando partio pê- 
ra Diu , porque não Fosse dar noua a Meliqueaz que hia* 

C A P I T V L O XLVIL 

De como Meliâsaca ^ Hagamahmuí souberão que hú go^ 
uernador nia a Diu ^ de como se fortalecerão^ 



D, 



'espachadas as nãos da carga que auiSo de ir pêra 
porlugah pariiose pêra goa para da bi $e ir a Diu & le^ 
uou em sua conserua ho embaixador de MeKqoeass, qué 
enlêdendo bem ho porque ho gouernador ho dettnbâ cd«- 
nio se vio no mar apartouse hua noite deie , & tiron teu 
caminho pêra Din onde chegado contou a Meliquesaca 
& a Hagamahmuí o que entendera no gouernador , & 
como lhe fugira : & caindo ele na mesma sospeita que 
ho seu embaixador tinha, forlaleeeo logo Diu bo mais ^ 
pode. Do baluarte do mar ao da terra atrauesson hdá 
cadea de ferro muyio grossa: íji se leuãtaua & abaixa'» 
ua , pêra ha nossa armada não poder entrar. E se fosse 
caso que se aquela cadea quebrasse ou cortasse mandou 
a de dentro dela poer certas nãos cheas de pedra & de 
terra cd ròbos por baixo tapados pêra ^ue em a cadeá 
quebrando os destapasse & se fossem ao fundo, & im-- 
pedissem que á nossa armada não podesse entrar no por^ 
to. E forlaleeeo os muros & baluartes de mais artelha- 
ria do (} tlnhão, & detrás desta cadea estauSo as suas 
fustas muyto bem artilhadas, & a fora a muyta soma 
dartelharia : & moniçoSs que tinha, ajfttou a mais gSie 
de guerra ^ pode a f(»ra a que tinha de contino que era 
toda escolhida. E àssi ficou Diu hfla força grandissima* 



Li9W> v* CAPiTin.0 zunii. 223 

G A P I T V L o XLVIII. 

Xte Dom» ào gauemador st partio peru Diu , ^ chegou 

ao seu porto. 

JL/evporô que Jm ftbaixador dei rey de Cabaia desapa- 
irec«Q ^ conterua do gauernador: seguk> ele por sua 
«viagem : & TÍsitâdo dpe cacninfao as fortalezas da cosia 
tcj ter a Ooá : onde despois de sua chegada , chegou 
Anlonio correa de Malaca: Q achado noua-e Cochi da 
mia i\ ho gouernador ieuaua, se foy iogo após ele pêra 
-ser no feyio de Diu. £ acabado ho gouernador de se fa- 
cer presies de todo em Goa: se par lio pêra Cfaaul onde 
jio estaua espetando parte da armada : que com a que 
àía ooele se auia dajuotar ali toda. E chegado a barra 
de Chaul fez oo mar conselho com lodos os capitães da 
Irola, & fidalgos, & pessoas pricipais ^ hião nela. Em 
9^ declarou como lhe ei rey mãdaua tomar Diu se lhe 
3ião desse nele fortaleza : & ali foy assinado per lodos Q 
Diu se deuia de tomar se lhe não dessem fortaleza, por- 
<)ue ftão se tomando se criaria a li hCia força que despois 
daria muyto que fazer, & Q pêra ho trato de Malaca cò- 
pria muyto a serui^ dei rey de Portugal : de ter forla^ 
leza 'è Diu. Isto determinado mao4ou ho gouernador a 
hfi fidalgo chamado Pêro lourenço de melo capitão de 
ha galeão, que por saber bd das cousa» da guerra fosse 
4iãte, com ha caualeiro chamado lorge diaz cabral Q 
4inha ho mesmo saber: que aprendera ê Itália cõ muj- 
tas mostras de grande Talõtia , & que vissS âbos a des*^ 
posii^ de Diu : •& por onde se poderia cõbater aufido 
«dÍMO oecessidade : & atsi mãdou coeles algos capitães 
^ fustas & bargantis. £ abalou após eles com todo ho 
mio da armeda que seria bem doilenta vetas, antre 
nãos grossas , gaiedes , nauios redondos , gales , carauev 
las, fustas, & bargantis, de que os oapitàes principais, 
fcrâo dom AMao de meneses , dom lobão 4e lima , 



824 1>A HI8T0EIA DA índia 

ChristouSo desá, Ghristouão correa, Ruy vaz pereira , 
Pêro lourêço de melo , Dinis fernãdes de melo , Fran- 
cisco de mendoça, André de sousa cbichorro, Lopo da* 
zeuedo, dom lorge de meneses^ Diogo fernandez de be- 
ja, Frâcisco de taoora, António de brito de sousa, Ge- 
ronímo de sousa, Frâcisco de sousa tauares, António 
raposo, Rafael perestrelo, Rafael catanho, lorge dal- 
bu(}rQ , lorge de brito, André diaz, Pêro da silua, An- 
tónio correa, Aires correa, Fernão gomez de lemos ^ 
Nuno fernãdez de macedo, Gdçalo deloole, António 
de brito, Gõçalo pereira, Gaspar doutel, & Manuel ve- 
lho. E nesta armada hião perto de três mil Portugueses: 
& ela muylo bS apercebida dartelharia , & de grade sor 
roa de munições de guerra: ([ a parecer de todos era 
pêra lomar Diu. A cuja barra ho gouernador chegou na 
entrada deFeuereiro, & ao surgir da armada : por Ghris- 
touão correa & Gõçalo de loule hirS surgir diante de 
dom. lohão de lima que ja estaua surto: ouue ele menSr 
corea, & por nao ter lugar onde surgise diante deles: 
se não á lagia leuouse & foy surgir sobrela. E por dom 
lohão surgir naquele lugar : parece que cuidarão algfia 
capitães 4 6^^ P^r^ baterS a cidade per mar. E come- 
çouse toda a gSte daluoraçar, & poerse em armas : & de 
certos nauios tirarão algOas bõbardadas , & foy a cousa 
de maneira, {} os mouros cuidarão verdadeiramSte Q os 
^rião cometer : & se os portugueses ho 6zerâo tomara a 
cidade por auer nela pouca gête , & essa cÕ grade me- 
do: porê acodirâ todos aos muros & baluartes. E Ha- 
gamahmut & MeliQ se mãdarão logo fiixar ao gouerna- 
dor dizêdo: <} se auia pazes atrele & ÍVleli{)az, ^ como 
]he ()ria tomar a cidade. K ele respÕdeo í\ não ^ria, que 
aquilo era desmãdo de gête de guerra: que esteuessem 
seguros. E mandou logo a todos os capitães que este- 
uessem quedos : & a do lohão de lima : que se leuasse 
donde estaua & saisse pêra fora : & querõdo ho ele fa- 
zer não pode por vazar a maré, & ouuera de ficar S se- 
co : & perderse ho galeão se lhe não acodirão fi baleia 



LIVIK) V* CAPITVLO XhíX. 22õi 

05 4 hò refaocarilo pêra fora» E se os mouros ^ cstauâo 
nos mnros posarão fogo a sua arteiharia melerâo niuy* 
toe dos nossos nauios no fundo. E-sabSdo ho gouerna* 
dor ho risco Q correo bo galeão de dõ lobão de lima , & 
pola reuoUa de ^ foy causa: ouue tamanha menêcoria 
1\ bo mâdou chamar & prSdeo tirandolhe a capitania do 
galeão. E passada esta fúria ]} lhe algus 6dalgos falarão 
bo soltou , & lha tornaua a dar : & ele a não quis agra» 
uãdose muyto do gouernador, & tornouse pêra Cocbi. 
E ho gouernador deu a capitania do galeão a Nuno 
fernãdez de macedo : & a sua carauela deu a Manuel 
de macedo seu irmão. 

CAPITVLO XLIX. 

, De como ho gouernador se f>io c6 MeliqueMca ^ com 

Hagamakmut. 

irleliquesaca & Hagamahmut que virão no seu porto 
hfia frota tão poderosa como ho gouernador leuaua , ou- 
verão grade medo de ho gouernador Qrer tomar a cida- 
de : & se algQa esperança' tinhão de não ser assi , era a 
nossa feitoria que estaua 3 Diu. E por isso prederão 
Fernão martiz euangelbo ho feytor : & outros ^ estauão 
eoele, pêra que não fu gíissS" pêra a frota. E despois da* 
uer algas recados antreles & ho gouernador sobre Ibps 
mãdar pedir Fernão martiz & eles lho não quererem dar 
Foy concertado antreles que se vissem: ho que tam- 
bém Hagamahmut não queria consentir porque se re- 
ceaua que nesta vista fosse tomado pelos nossos com 
Sleliquesaca, & por derradeiro se virão ãbos cÕ bo go- 
uernador õde se chama a calheta ? & este lugar escolbeo 
ho gouernador por ser enformado por Pêro lourSço de 
melo & por loro^e diaz cabral , l\ tinha a cidade daquela 
parte ho muro baixo: & se fazia ali bOa grande praya, 

6 que se podia dar cÕbate ou escalar a cidade. E pêra 
ho gouernador ho ver cõ os outros capitães : quis que a 

Livao V. FF 



226 1»A HMTORIA DA ÍNDIA 

vista fo88e ali , & que ele estaria no mar com algfit oa-^ 
pitSes. £ Meli^saoa & Hagamabmut em terra com al*>^ 
gfla gente , & asai -se fez. E a concrusão de sua pratica 
fi>y dissimular ho goueroador que nâq hia pêra tomar 
Diu , nem faeerlhe guerra : somente hia cÕ a^la arma- 
da por mandado dei Rey de Portugal seu senhor: pêra 
da sua parte pedir a Meliqueaz que lhe deixasse ali fa« 
zer falta fortaleza em Q podesse ter s^ura sua feitoria , 
porque lhe não acontecesse ho que em Caiicut, Couiào^ 
& Malaca 9 acontecera, & oão querendo que a fizesse: 
() nâo deixasse estar fai roais sua feitoria, & ^ subrisio 
lhe dissessem ho que determinauâo. £ eles respdderào 
que IVleliqueaz não estaua na cidade, & que eles nâo 
podião dar fortaleza : nem entregarlhe Fernão martiz 
com a feitoria sem licença de Meliqueaz: porque em 
quanto a tiuessem na cidade eslariSo seguros de lhes 
não fazer guerra: & isto disse Hagamabmut por queen- 
tendeo no gouernador que lhe auia de fazer guerra. B 
posto que ho gouernador repricou a esta reposta , não 
toroarfio outra cõcrusão : & assi se afiarlarão. £ Haga* 
mahmut A>rtaleceo logo a^ lugar: porque como era 
muyto prudt^nte eolendeo bem ho gouernador que de* 
terroinaua de dar na cidade por aquele lugar. £ aqui se 
fez despois bii baluarte, a que os nossos chamarão de 
Diogo lopez por se chamar assi ho gouernador que foj 
eausa de se fazer , em se entender nele que auia de co* 
meter por ali a cidade que com hú baluarte naquele !»• 
gar âcaua íbrte de todo« 



C A P I T V L O L. 

De como ho gauemaãor sb muámA , éo €onselhú que tí* 
nha de tomar Diu : ^ de €omo mandmi ver bo rio de 
Madre faha pêra fazer hi fortaleza. 

JL/espois disto nio se soube a causa porque afroxou ho 
gouernador do impeto eô que hia pêra tomar Diu 9 & 
esfriou iSto disso: que sem querer ofiselho pubrico S que 
proposesse as causas que auia pêra ho nSo tomar, & caí- 
da hA disese ho ^ lhe parecia. Chamou hu dia a sua ca- 
mará (onde estaua so c5 ho seu secretario) a cada hil 
dos seus capitães: & fidalgos da frota, E dizialhes bS 
eabeís que foy aqui nossa vinda por mSdado dei rey meu 
senhor pêra tomar esta cidade, que eu ouidey l\ podes<- 
semos tomar: pola calheta que os mouros fortalecerão 
logo, depois que virSo que eu vi quam fraco eitaua bo 
muro daquela bãda , & pêra sairmos em terra & esca^ 
lala , os muros sam moyto attos , & nela ha muyta gen* 
te : vede o i} poderemos fazer , & pêra lhe darmos bate- 
ria do mar, dizemme os bombardeiros que lhe nSo ]xv- 
deremos faser nojo, porque não tirarão certo com ho ai^ 
far dos nauios, agora vede ho que vos parece. E quan^* 
do os eapitaSs, & fidalgos: se virão perguntar daquele 
modo tendo assentado quanto importaua tomarse Diu, 
se Meliqneaz não desse fortaleza: ficarão muy espania«> 
dos daquele modo de fazer conselho. E entendendo no 
gouernador que não queria pelejar todos por lhe fazer a 
'Vontade, disião que não pelejasse, & do que cada hll 
dizia fazia ho secretario hum termo & assinauamno. Mas 
Francisco de sousa tauares que tinha do gouernador 
que se Diu se combatesse esteuesse antre fao baluarte 
do mar & bo da terra na sua naç ; por lho nssi pedir^ 
não iiie parecendo bem ho que ho gouemndor dizia, não 
quis dizer se não a verdade, & disselhe que por mais 
gente que** aquela cidade tiuesse, nen |xir mais altos 

FF 2 



2S8 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

que os muros fossem : que deuía de desembarcar & tra- 
balhar |)or escalar a cidade, porque oâo bo fazendo assi 
pareceria grande couardia, & os mouros perderião de lo- 
do ho credito que tinbão em nos : & terião ousadia de 
andar com suas fustas. E outro tanto fez Diogo fernan- 
dez de beja que lhe disse com grande menencorea, que 
ja era tempo que se não fossem saÕs de Diu & que nâk> 
se auiâo de ir ate lhes não ^brarS os braços & as per- 
nas ^ & ^ níica auiSo de ter outro tempo como a^le per 
ra lomar Diu. E cõ tudo ho gouernador não quis pele- 
jar : do ^ 86 todos espâtauão muyto & auia atreles gra- 
de murmuração. E quando a gente darmas vio que se 
tardaua em dar combate a cidade: 6caráo lodos muyto 
descontentes, polo grande aluoroço que ieuauâo pêra a 
combater , & muytos dagastados diziSo mal do gouerna* 
dor: & que nâo podia ser se não que fora peitado de 
Meliquesaca que não pelejase por não tomar a cidade: 
& assi outras cousas Q diz a gête miúda quando os pri« 
cipes ou capitães nâo fazê as cousas segQdo seu pare- 
cer : & depois disto foy Fernão marliz ho feylor de Diu 
<:d recados de Meli^saca & de Hagamabmut ao gouemar 
dor & tornou a eles co reposta sobre lhe darè lugar pêra 
fortaleza , & que ficaria a hi Diogo fernãdez de beja cõ 
gente & nauios pêra a fazer. E Diogo fernandez foy a 
terra alguas vezes ver bo siiio onde se faria , & tomar 
medidas do chão que seria necessário, & tudo erâo dis- 
simulações. E neste iSpo mãdou ho gouernador Anto* 
nio carrea ao rio de Madre faba cinco legoas de Diu, 
a ver se se poderia bi fazer fortaleza porque bõ sabia 
que a não auia de fazer è Diu, & mãdou coele lohâe 
de Coimbra píbto m<Sr da índia pêra sõdar ho rio & bã 
Diogo de la pu&te mestre das obras de pedraria pêra 
ver bo »itio da terra, & se auia pedra pêra fazer cal: 
&; forão S hfta cotia por irè mais dissimuladamête, & 6- 
tradoa dStro na barra do rio forão lohâo de coimbrã & 
Diogo dela puCte por ele acima na barquinha da cotia 
ate a pouoação de IMIadre faba pêra tomar Sformaçâo 



MVRO V. CAPITVLO lil. 229 

daquilo a () biSo : & vSdoos os mouros hir daquela ma- 
neira como são sospeitosos, sospeitãdo i) hiâo fazer ai- 
gQ mal prêderSnos & mâdarãnos a Meliquesaca, & au6- 
do visla da cotia õ que Âníonio correa Ãcaua^ esbõbar- 
dearãna de maneira ^ correo muyto perigo de a mete- 
rem no fundo : sem António correa se poder sair por 
ser enchente de maré: & sayose com vazante sem mais 
esperar porque bem soube que erâo presos lohâo de 
coimbrã & Diogo dela puSte, {| achou em poder do go- 
uernador quando chegou a ele, que lhos tinha Melique 
mandado logo como lhos derâo. E eles disserâo ao go- 
uernador que se podia fazer húa boa fortaleza em Ala- 
drefaba. 

C A P I T O L O LI. 

De como auendo ho gouemadcr dir inuemar a Ormuz dei- 
xou na índia em seu lugar a dom Aleixo de meneses. 

JOj por isso determinou ho gouernador de a fazer na- 
•quele rio pois oão podia em Diu : porque dali aueria 
trato pêra Malaca: & pêra çofala & faria tanta guerra a 
-Diu Q Meliqueaz aueria por bem de ter verdadeira paz 
com os nossos, & se forc^adamente não ouuera dir inuer- 
nar a Ormuz cometera de fazer logo a fortaleza , mas 
oão podia por esta ida que auia de fazer: & determi- 
nou de fazer a fortaleza quando tornase , & que teria 
«ais tempo pêra isso. £ em sua ausência deixou ho jx)-* 
der de gouernador a dom Aleixo de meneses : a quem 
mandou pêra Cochim cÕ as gales pêra hi inuernar, & 
que na entrada do verão segulte tornaria coelas a IMa- 
drefaba cnde ho acharia fazendo a fortaleza. E despa- 
chou alorge dalbuquer^ pêra Malaca: & que fosse com 
dom Aleixo ate Cochim onde lhe daria embarcação, & 
assi a lorge de brito pêra Maluco & Rafael catanho & 
Bafael perestrelo pêra a China , nas suas nãos : & todos 
Ibrão debaixo da bãdeira de dõ Aleixo ate Cochim. 



230 Dl HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O LIÍ. 

De como ho gouemador mandou pedir a Nizamaluco 
senhor de Chaul lugar pêra fazer húa fortaleza : ^ se 
partio pêra Ormuz» 

JTarlido dõ Aleixo de meneses, por ho gouemador ter 
necessidade de mantimStos pêra a viagS Dormuz foy to-> 
maios a Chaul : & deixou no porto de Diu a Diogo fer- 
nãdez de Beja por capitão mor de Manuel de Macedo 
& de Anríque de macedo capitães de duas carauelas, 
pêra que recolhesse Fernão marlinz & a feitoria, que 
bê sabia Q lhe não auiâo MeliQ nem Hagaroahmul de 
dar fortaleza. E mandoulhe Q tãto que ouuesse a feito- 
ria , ^ lhes pubricasse a guerra, & se fosse a Ormuz. E 
despois disto como digo se partio pêra Chaul : & por os 
noroestes serS rijos se foy a ilha de Danda, que tinha 
porto abrigado , & hi lhe ieuarSo os mãti mentos. E de 
Danda mâdou Fernã camelo por embaixador a Nizama- 
luco senhor de Chaul pêra que lhe deixasse fazer hQa 
fortaleza em Chaul: & ele espedido, se partio pêra Or- 
muz na fim de Feuereiro: & forSo coele estes capitães 
Nuno fernãdez de macedo, Chrislquão de sá, Ruy vaz 
pereyra. Pêro lourêço de melo, Lopo dazeuedo, Frãcis- 
CO de sousa tauares. Francisco de tauora. António de 
brito de sousa, Pêro da siiua. Ayres correa. António 
correa , Gaspar doutel , Gonçalo pereira , & Manuel ve- 
lho. E despois de ir ter a Mazcate foy fazer agoada a 
Teubi ou Teiue como lhe todos chamão. E partido da- 
hi na entrada de Mayo dia de snncta Cruz, apareceo 
hQa nao de mouros Q vinha de Ormuz: & ho primeiro 
capitão que chegou a ela foy Frãcisco de sousa tauares: 
& entregandoselhe os mouros a leuou ao gouernador, 
que posto que soube ^ era de Cãbaya, & que leuaiia 
seguro, lho não quis goardar, por amor da guerra que 
lhe auia de ser feyla, & mandou tomar a nao pêra el 



LIVRO V. CAPITVLO mi. Í81 

rej & quâtos hiâo nela : & forão achados nela vinte mil 
pardaos eoi tangas & fazenda que valia roais , & ho go^ 
uernador pedto a Francisco de sousa tauares que fosse 
Aeia te Ormuz pêra ir b6 goardada : & eie o fez assi. 

CAPITVLO LIIL 

De como Diogo fernâdez de heja ouue Fernão martinz , 
^ o$ outros que estauâo ê diu^ ^ se foy pêra Ormuz. 

JL/iogo fernâdez de beja ij íicaua no porto de Diu pêra 
fazer a fortaleza: bõ enlendeo, ^ lhe não auia IVielique 
saca de dar lugar pêra a fazer: & que tudo aquilo forâo 
manhas pêra antreier ho gouernador que não tomasse a 
cidade: & Q ho fizerâo ali 6car por dissimulação, cuy* 
dando ^ tendoo em Diu teria a nossa paz segura. É ten- 
do ele isto por certo, trabalhou por auer Fernão mar- 
tinz & os outros na nao, em que não ouue tamanha goar- 
da despois Q se ho gouernador foy como dantes. É por 
isso ouue facilmente a fazenda dei rey com cor de ser 
bo fato dos nossos que estauão em terra. E despois de 
ser a fazenda na nao recolheose Fernão martiz hua noy- 
te com os outros: & logo ao outro dia Diogo fernâdez 
mandou pubricar a guerra a Meliquesaca, mandandolhe 
dizer que despois de Meiiquiaz assentar paz com AfÕso 
dalbuquerque : os guuernadores da Índia lha goardarão 
sempre, & ele nâo: pori) logo em tempo de Lopo soa- 
rez armara fustas & fazia guerra a nossos amigos, & 
mandara fazer represaria no nosso feytor que nunca 
quisera dar ao gouernador com quanto lho mandara pe- 
dir tantas vezes: & cuydando que ho enganaua lhe pro- 
metera ibrtaleca que ho gouernador sabia que lhe nã a- 
uia do dar, nS bo deixara ali pêra mais que pêra ver 
se podia aaer bo feytor & os outros nossos, & que ago- 
ra que os tinha soubesse que el rey de Portugal man- 
daua quebrar a paz, &; que lhe fizessem guerra dali por 
diaoie : & %us Ibo Úsàa saber porque os Portugueses não 



231 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

íazião guerra aa ireição como os mouros se na de pra* 
ça. E despois que Diogo fernandez mandou este reca- 
do a Melíquesaca, disselhe F^ernão martlz que se fos- 
sem logo porque as fustas de Diu auião de sayr logo a 
pelejar coele, & que corria risco porque andauãocõmuy- 
ta gSte & artelharia, £ Diogo fernandez se rio, dizendo 
que se viessem Q as meteria no fundo, & vinda a maré 
sayrão logo as fustas & Agamahmut por capitão mór, & 
mãdou jugar toda a arteiharia mui forlemSte , & que se 
chegassem aos nossos nauios & que os cercassem, prin- 
cipaJmSte a nao de Diogo fernandez, em que ferirão 
muytos & matarão algQs, & apertarão tão rijo pêra a 
cercarem com quãto os nossos lhe tirauão com arlelba** 
ria que a Diogo fernaniftz lhe pareceo mal esperalos que 
erão muytos em demasia, & estaua ja em tãto aperto 
que lhe foy necessário cortar as amarras cõ que estaua 
surto, porque não ouue vagar pêra leuarem as ancoras, 
& ho mesmo fízerão os outros nauios, & dado aas ve- 
las acoiherãse todos três a Ormuz: õde chegarão auSdo 
dez dias ^ o gouernador chegara. 

c A p I T V L O um. 

De como partirão de Cochim. lorge dalbuquer^ pêra Ma* 
laca ^ lorge de brito pêra Maluco. 

J^om Aleixo de meneses que foy pêra Cochim des- 
pois que laa chegou despachou lorge dalbuquerque que 
auia dir por capitão pêra Malaca, & seu genrro dom 
Sancho anrri^z por capitão mór do mar* E sendo pres- 
tes a armada que auia de leuar, se partio de Cochim a 
vinte cinco Dabril de mil & quinhentos & vinte hO, & 
ele foy @ bua nao <} auia nome sancta Barbara, & Ra- 
fael catanho que hia pêra a China em outra, & Dinis 
fernandez de melo em hQ nauio: & íriã nestas três ve-^ 
las perto de duzentos homês darmas todos Portugueses 
& atreles muytos fidalgos & gête escolhida; & desjK)is 



LIVRO V. CAPITVLO LV. 233 

ãe partido Jorge dalbuquer^partiose lorge de brito pe- 
va ir a Maluco a aeys dias do mes de Mayo , & leuou 
-faãa armada de oyto velas, de que a fora eie que hia nQa 
nao fora por capitães Chrislouão correa dum galeão, 
Francisco godis, & Gbrístouão pinto de dous nauios de 
gauia: & Lourenço godiobo de biia carauela, & Antó- 
nio de brito seu irmão de lorge de brito doutra Q ficou 
em Cocbim acabando de se aparelhar, & Gaspar galo 
de biia fusta. E em toda esta armada não leuou mais 
de trezStos homSs, porque os que hião dirigidos pêra ir 
Goele lhe fugirão quasi todos como souberão que auião 
de ir a Maluco, ^ ho descobrio bo gouernador tanto que 
TÍo as prooisões de lorge de brito, & isto por lhe O^ver 
mah « 

C A P I T V L O LV. 

De como dom lorge de mtnytteMfag em ajuda dei rty de 

Cochim, contra el rey de Calictu 

jLri este tSpo auia guerra antre os jreys de Cochi & de 
Galicu , como sempre ate li fora : & a causa era por a- 
mor da morte dos príncipes de Cochim que ho rey de 
Calícu passado matara na batalha que ouue coeles no 
passo do vao: & porque queymou Cocbim & ho destruyo 
como disse no liuro primeiro desta historia : & manda- 
ua ho costume dos reys de Cochim que qualquer deles 
auia de vingar esta injuria, cõ matar qualquer rey de 
Galicu, 00 outros tã tos dos seus pr!cipes, como forão 
mortos pela gête de Galicu no passo do vao: & que a-* 
uia de fazer outra tal destruyção em Galicu como fora 
feito em Cochim , & despois lauarse ei rey de cochim 
nos tanques dei rey de Galicu : & coisto fícaua satisfei- 
to & vingado de sua injuria. E porque ainda nenhQ rey 
de Cochim tomara esta vingança duraua a guerra an* 
trele & ho de Galicu , que como era mais poderoso de 
gente, hiaihe sSpre melhor na guerra: & pórisso el 
rey de Cochim pedio • socorro a dõ Aleixo de meneses 

LIVRO V. GO 



t^it BA HfSTOftU SMl ÍMDIA 

que fícaaa por gouernador, que posto que e1 rey de cà> 
licu era aroígo <iel rey de Portugal^ não negoii bo bo^ 
corro a el rey de Cochíoi poJo eoater que não foete des- 
baratado , fícaua el rey 4e calicu mais poderoso, do que 
era cousa muyto perjudícial pêra bo eslado dei rey de 
Porlugai : & mandou eni sua ajuda a dom lorge de ma- 
neses fíibo de dom Rodrigo de meneses oaualeiro de 
muyto esforço^ com que mandou tríaia Portugueses bés^ 
teiros & espingardeiros com que pdejon tá valentemêie 
em ajuda dei rey de Cccbim cõlra el rey de Calicu, que 
bo desbaratou muytaa vezes: & em que dÕ lorge fei 
cousas muyto assinadas que não conto particularmête ^ 
porque as nSo soube se não em soma. E vendose d rey 
de Calicu desbaratado tãtas vezes recolbeose pêra suaa 
terras que dantes andaua pelas dei rey de Cochim , que 
não sabia seruiqos nem honrras que não fizesse a dom 
]x>rge Q teoe consigo lodo bo inuerno com licença de 
dom Aleixo pêra estar seguro dei rey de Calicu t. 

C A P I T Y L O LVI. 

JDé eomo sabendo el Rep de Portugal quã mal se ga$^ 
tauão a$ rendai do reytw Dortnuz , 'ínandou recolher 
Q que sobejaua do gasto do regno : ^ pêra ho saber 
tnandàu que otmesse officiaes Portugueses nalfandc'^ 
ga Dormuz. 

v/uande Afonso dalbuquerque temeu a primeyra vet 
Ormuz despois de desbaratar Cojeatar & sua armada 
fezse eirey Dormua que êtãe era vassab dei rey de Pot^ 
Uigal por se dar por vencido. E pedindo m!a a Afonso 
dalbuquerque, fezae vassab dei Rey de Portugal, & 
eoefessou per bQa escriptura pubrica assinada por ele & 
per Cojeatar, & poios principais Dormuz, & assinada 
de seus selos ^^ da mão dei rey de Portugal recebia bo 
reyno, & se obrigaua dali por déãte a pagaribe vinte miJ 
aaiafina cie parias cadãoo : & esie contrato mostrou el 



VSVW[> m» CAFITVEOi LHU 23 & 

9^ de Port|^0l| ileupoia a deuterca Ikeolo^os qua Ihâ 
tlisMsaeni 89 ko reyno. Dorniuz era aeu, & dizeodolhe 
que ai ^ ho Iene dali pM diante por seu. E sabêdo que 
era tiranizado polés gõaais Dofat>ua ^ gastauão mal tre« 
sealoa mil cruaades que Ibe dizião que rendia a masaa 
4Ío fejno^ determinou de saber ge era assi , & achando 
•er vefdade auelos & fazev deles todo bo gasto do reyiio 
& ho resto ajutala em tkesouro. E\ ineca isto quis poer 
oflSeiaee na alfandega Dormus & nas outras dos Qutros 
ittgar^s de reyno & mandou ao gouernador por h&a pro^r 
alisam {) foj na armada de lerge de brito que fosse mc*r 
4er de posse estes officiaes que mandaua, & 6zes$e duas 
fertaleaaa Qm Ormua a fora a que estaua feyta , hua no 
JBáààl que era eade descarregauio as naos^ & outra em 
outra parte, pori} pêra seguvãça da terra erão ambas ali 
necessárias , & ^ as prouesse ambas dartelharia & de 
gente, em que eniraríflo oytèta homfis de caualo : & ^ 
nenb& dos nossos pousasse na cidade sé não qi^e se re*- 
colhessem todos n estss fortalezas porque esteuessem ali 
•eguros se se el rey Dormuz quisesse aleuantar pov a« 
BKNT dos officiaes que se punhão , fe que posesse no mar 
hoa armada pêra mór segurança da terra. E pêra capi- 
tão Dormuz qnandaua el rey de Portugal a Diogo de me- 
io c6 grades poderes que arribou da ilha da madeira co- 
mo ja disse , ^ 6cou dom Garcia Coutinho na capitania 
em que dantes estaua. E assi mâdaua el réy de Portu- 
gal que ouuesse em Ormuz almotacé mor Português, & 
^ue dali por diante ouuesse ballças & pesos como os de 
Portugal, & que dissesse ho gouernador a el rey Dor<- 
muz Q aquilo nao auiade ser mais que aquele anno, pê- 
ra o que ele despois saberia, & assi lho escreueo pedl- 
dolhe H se não escãdaliaasae , por4) tudo era pêra seu 
proueito. E despois 4le ho gouernador estar em Ormuz 
deu a carta dei rey de- Portugal a el tey Dormnz que 
lhe escreuia sobre aquilo & pediolbe lieCça pêra ho exe«- 
eutar* E el rey Dormu« ficou bem ealteado com tal no- 
n» y porque vio 4 &4^MÍo era tomarlhe ho reyno, & mosi- 

GG 2 



336 BA HISTORIA BA ÍNDIA 

trou que daua liceDi^ de boamenle, porj} Ibe parecei 
que te a não desse que ho priuarião do reyno: & disse 
ao gouernador que era necessário falar aos officiaes mou* 
ros pêra lhes tirar ho escândalo i) disso auião de ter. B 
eoi vez de lho tirar aqueixouselbe do Q lhe fazião, do 
que se todos indinarão muylo, & diziâo que não era pê- 
ra se sofrer. £ Raiz xarafo que era goazil por morte de 
Raix noradim seu pay foy o que mais senlio isto ^ ne- 
nhfl por amor do seu mando que era mór que ho de to» 
dos: & como ele era muyto prudente, & via que ho 
tempo não era por eles , conselhou a el rey & aos offi* 
ciaes que dissimulassem, & não mostrassem oenhQ des- 
contentamento polo ^ ho goueroador fazia , porque se 
bo mostrassem lembrarlhehião temerse de seleuantarem^ 
& temfidose disso deiíaria tala força em Ormuz , assi 
no mar como na terra que não podessem coela posto que 
se quisessem leuantar, por isso que fizessem muyto b6 
rosto: porque quanto ho gouernador lho visse melhor 
tanto mais seguraria : & disse a el rey i| lhe dissesse ^ 
bo reyno Dormuz era dei rey de Portugal , que podia 
fazer dele o Q quisesse, porque de tudo ele & seus vas- 
salos erão contêtes , & assi ho disse el rey , & que po- 
sesse ho gouernador os officiaes quando quisesse. E a- 
uido este cõsen ti mento, forâo postos os officiaes ^ el rey 
de Portugal madaua prouidos pêra isso , que erão Ma- 
nuel velho por juyz dalfandega & prouedor das rSdas -do 
reyno, Ruy varela por tbesoureyro, & por escriuães Mi- 
guel do vale, Ruy gõçaluez da costa, Vicente diaz, Nu- 
no de erasíOy Diogo vaz, & quatro mouros: de que h& 
auia nome Cojehamet, homem amigo na alfandega Dor^ 
muz, & que sabia muy bem os segredos dela, & este os 
disse a Manuel velho que por seruir el rey peítaua este 
& outros pêra ^ lhe descobrissem a verdade do que ren- 
dia ho reyno : & assi estaua c5 Manuel velho por goa* 
ail dalfandega Raix delamixa irmão de Raix xarafo ho- 
mem fiel & grande amigo dos nossos. E postos estes of- 
ficiaes nalfandega, pos se também por almotacé mfx bft 



LIVRO T. CAPITTU) LVII. 237 

loflo lopet, ^ mandou por seu regimeoto que ouuesse 
«m Ormuz pesos & balanijas como 6 Porlugal : do. que 
06 iodo ho pouo escandaliaou muyto, & diziào que ja iio 
reyno Dormuz era de todo dos nossos^ & i| os mouros 
erflo seus caliuos. £ porem el rey era muyto bem Irala* 
do , & dauaseihe largamêie bo necessário pêra seu gas* 
ió : & Raix xarafo era somente ao que vinha mal deste 
partidO) porque se lhe tiraua gastarense per sua mâo as 
ffidaa do reyno & tiranizalo^ o que enl&o não podia fazer. 

C A P I T V L o LVII. 

De como tendo el rey de Narsinga desbaratada ho Hi- 

dakâo mandou dizer a Ruy de . melo' €apUáo de. Goa 

guejosse tomar as. t a» adarias da terra Jirme^ .^ de €09^ 

. mo as tomou ^ficarão dek rey de PortuyuL < 

JL assando se isto 6 Ormuz suoedeo na Indiá, que es^ 
tando ho Hidalcâo pêra ir cercar Goa com seys cêtos 
mil bom&s de pé & de caualo & cem bombardas grossas 
com deter uúnaçflo de a tomar : querendo nosso senhor 
acodir a tamanho perigo como este fora pêra os nossos, 
se leuantou supitamente guerra aoire ho Hidalcâo & el 
rey de Narsinga , & em hfla batalha fby ho Hidalcâo 
desbaratado & lugio com perder muyta gente. E prosse- 
guido el rey de JNarsinga a vitoria , lhe tomou a cidade 
de Rachol & a de Bilgão , & outras moytàs : pelo que 
aquelas tanadarias da fralda do Balagate vezinhas de 
Goa ficarão desemparadas. £ como el rey de Narsinga 
por ser tão rico como ja disse nã tinha necessidade de- 
las, & desejaua de auer todos os caualos que hilo a Goa, 
& que ho Hidalcâo náo ouuesse nenhO , mandou dizer a 
Ruy de mele capitão de Goa ^ ele tiaba ganhado por 
ibrça darmae ao Hidalcâo a cidade de Bilgão com^ toda 
sua comarca ate ho mac, em que aiiia tanadarias que 
rendido mais^ de cincoenta mil. pardaos douro, de que 
fazia doa^ a el rey de Poriugai pêra todo sempre por 



S3t ML HISTOBIA UA HORA 

aner da aipixade ^ aenpre cieaejara de ter coele, & por 
amor dauor todos os caoalos Q faiâo a Goa que fosse do 
ealre taolo UMnar fwsse das tanadarias. fi despoía do 
rSdo ko goQOfnador )bo nadaria seu embaixador pêra 
assentarem suas oooeas. £ Ruy de melo lhe respondeo 
<som muytos agardecimentos assi de sua parte como do 
gouernador, prometCdolbe que acerea dos caoalos se fa- 
ria tudo o que fosse resâo , & que ele ficasse contente» 
E determinando de ir tomar a tanadaria de Salsete que 
estaua mais perto, ajuntou duzStos de caualo dos nossos 
todos moradores em Ooa, de que ele hia por capitão, & 
perto de setecentos de pé os mais deles dos nossos , & 
espingardeyros Sc béitairo&, cuja capitania deu a Ruy 
jusarte de melo eeu sobrinho : & passandoee a Salsete 
em ainiadias Sa jl^das , como nao acbou ninguém que 
lhe resistisse tomou logo posse dai^a tanadaria por el 
rey de Portugal. E assentada a terra que assentou em 
obra de dez dias se tomou pêra Goa deixado por tana- 
dar mor a Ruy jusarte, a que deixou vinte cinco de ca<- 
ualo doa nossos & cincodta es pingar dei ros de pé^ & seys 
efitos piães da terra os mais deles frecheiros ,. & orde* 
nados [x>r suas capitanias : derxandolhe por regimento 
que tomasse posse das tanadarias de Poodá & Bardes , 
& posesse nelas taoadares Portugueses logo nomeados, 
que Ibe obedeceriâo. E Ruy de melo nâo se deteue mais, 
porque nSo era necessário que como não auia quê de- 
fendesse a lerra abastaua Ruy jusarte com aquela gSte 
pera a tomar & assentar. E tornado ele pêra Goa, Ruy 
jusarte se /oy a Pondá, & tomado posse dela pos hi por 
tanadar a António raposo alcayde mór de Goa & casa- 
do nela & despois tomou as outras & Ruy jusarte tinha 
seu assento em terra de Salsete no pagode de Bardes: 
& tinha por seu fejtor a hO dos nossos casado em Goa 
que auia nome loio lobato, & por seu esoriuão Aluaro 
barradas, & eles arrecadauão as rendas de todas as ta* 
nailarías que Ruy jusarte visilaua dali dondestaua. B 
auendq dous meses que estaua em posse dela/i leue por 



certeza que bifio sobrele dous capitães do HidalcSo, que 
96 bia restauranik) dá roiia de Haòhoh E como perdia 
tanto naquelas tanadarias quis ver se as podia cobrar, 
^ pêra isso tnaiidftUa «quistos dons capiiftes f^ue digo 
ambos Canários^ bâ chamado MaAafqan ic outro Rapa- 
naique com três mil piftes, & não mandaua outra geo* 
(e ^ assí por auelr os nossos por poucos como por Vtt ne- 
cessidade didla pêra a guerra que ainda tinha com el rej 
de Narsitiga. £ sabido isto por eert^o de Ruy jwarte^ 
mandou togo recado a Ruj de meio qve amanbeceo hH 
dia em Salsete com toda a gente de «auâio de Qoa qoè 
era a que disse* fi junto oõ Ruy jutorte esperarão ^ 
viessem os immigos: que não vierão cd medo do sooor^ 
fo que era vindo a Ruy j«sarie : & sabCdo Ruy de me^ 
h que eslauáo recolhidos em três aldeãs determinou éé 
tf sobreles ^ & logo naquete dia H^ chegou á nieá noyt» 
partio pêra lá por não ser sentido & chegou lá anlema*^ 
nhaã) & pesta sua gente em ordem deu na primeyra ai» 
dea. E sentindo ho capitão dos immigos os nossos não 
se atreuendo a lhe resistir fugio logo , o que võdo soa 
gente fez cetro tanto r de modo Q os nossos não teuerão 
trabalho coeles , & Ruy de melo mâdoo que dessem nos 
da terra cuydando Q se defendessenl , o que eles não ft* 
terão polo que Ruy de mele mãdou que ès não matas*^ 
sem , porem que os catUiassem : & fbrâo oàtiuos cento 
fc trinta almas ^ fe logo os outros capitães fugirão, & 
Suy de melo tornou a assentar a terra : 8i sabido pot 
ela ho desbarate deetee capitães nà ousarão outros de 
tornai a tascas es sessee que ficarflo em paz. 



t40 DA HlSTOftlA OÁ ÍNDIA 

C A P I T V L O LVIII. 

De como Raix xarqfo prouocou ho sogro dd rey Dor- 
muz que ho fizesse leuantar contra os nossos. 

V endo Raix zarafo como os officiaea Portugueses per* 
inaneciâo na alfandega Dormuz tinha disso tamanho des- 
conleotamento, como a quem se tiraua ho vso do di- 
nheiro que ela rendia que ele gaslaua dantes á sua von*^ 
tade: & auendo isto por injuria lhe daua muyto tormen- 
to : & com grande trabalho ho encobria : porque não en* 
tendõdo ho gouernador o que ele sentia não se aperce- 
besse pêra. o que determinaua de fazer que era leuan- 
tarse, & nisto era lodo seu cuydado : porque leuãtando- 
se & deitando os nossos fora Dormuz , não somente lhe 
parecia que 6caua liure da sugeição em queeslaua, 
mas ainda ficaria senhor dei rey & do reyno assi como 
ho erão os goazis antes que esteuesse a obediScia dei 
rey de Portugal. E trazendo este propósito não lhe a« 
ehou outro melhor remédio pêra que ouuessie eíTeyto que 
prouocar ao sogro dei rey Dormuz que lhe parecesse bem 
este leuarvlamSto. E nisto ouue pouco que fazer, por-^ 
que ele era hu Xeque que antre os mouros sam auidos 
por sanctos, & este era ião immigo dos nossos ^. dizia 
aos mouros que muyto mór merecimento tinha ha mou« 
ro de matar hu frangue que de dar quãlo tinha desmo- 
las & fazer quantas romarias ou uesse no mundo. E co^ 
mo ao Xeque lhe pareceo bem leuantarse elrey cõtra os 
nossos, comeqou de lho conselhar: & como todos os mou- 
ros pola mayor parte sam desagardecidos logo el rey to- 
mou seu conselho sem lhe lembrar em quanta obrigação 
era aos nossos que ho liurarão do caliueiro em que ho 
tinha Raix hamet: & tendo ho Afonso dalbuquerque em 
seu poder , & assi a cidade lha tornou , & a ele deu li- 
berdade, & fez rey liure com tanta honrra como disse 
no terceyro liuro. E determinado el rey de se leuantar. 



LIVRO V«''CAPITTLO LIZ. 241 

& malar ióàoi os nossos: mandou fazer gente á terra 
firme per hU monro chamado Aliramahmet morado, em 
que Raix xarafo tinha grandexonfianija: & assi. tornou 
eirey em sua graça a Raix xabadim , aquele que lorga 
dalbuquerque quisera prender em Mazcaie como disse ad- 
iras, & mandoulhe per sua carta questeuesse na fortaleza 
D.orfacão, & ali estaria com gête de guerra ale ver seu 
secado. 

C A P I T V L O LIX. 

De como ho capitão mór AnUmio correa pelejou etn Ba- 
barem com, ti rey Mocrim ^ ho desbaratou. 



N, 



este tempo estaua leuantado contra ei rey Dormus 
hum rey seu vassalo & tributário, {} se cbamaua Mo- 
crim rey da ilha de Baharê, de Q ja faley no liuro ter- 
ceyro & senhor de hOa cidade chamada Laça no sertão 
Darabia , duas jornadas do mar dõde se crião os melho- 
res caualos Darabia , & tem grande comarca , & dela 
parte a Cáfila, que daquelas partes vay a Meca, cujo 
•caminho he jornada de dous meses porque vay de va* 
gar: & assi era senhor de hQa fortaleza que ha nom^ 
Gatifa na terra firme Darabia dez iegoas de Babarem. 
£8te era casado com hQa filha do senhor de Meca & ti^- 
nhãno os mouros por sancto, & era muyto esforçado & 
valente caualéyro: & despois que se leuantou cõtra el 
rey Dormuz & lhe nSo quis pgar as páreas que pagaua 
dates trazia muyto grande armada de terradas que pas'- 
sauão de cento & corSta , & esta fazia arribar a. Baba*- 
rem quãtas nãos hiâo dos lugares daquele sino pérsico 
pêra Ormuz : com o Q ei rey perdia muyto do <\ rSdía a 
sua alfandega: a fora as páreas !\ perdia de Mocrim. E 
vendo ele como lhe ho gouernador punha ofiiciaes Por- 
tugueses na alfandega pêra recolherem as rendas que 
rendesse, disselhe que pois era vassalo dei rey de Por- 
tugal que lhe tornasse Mocrim a sua obediência , dan- 
dolhe conta do que passaua auia anQos« O. que lhe ho 

LIVRO V* HH 



242 I^A HISTORIA DA mDtA 

gouernador cõcedeo: & deieraiinando de bo fazer asti 
disse a Aotooio correa seu sobrinho que ele lhe tioha 
dada a capitania mõr de hiia armada que aaia de inan«^ 
dar á poala de Diu a esperar as nãos de presa ate que 
ele fosse: & que aula de noandar outra a Baharem dí-^ 
sendoihe a que , que visse se a queria antes. £ eie a 
quis por ser de mais hoorra que de proueito, & deixou 
a da ponta de Diu. E sabendo Diogo fernandez de beja 
que bi estaua como António correa engeitara a capita- 
nia mór da armada de Diu por ir a Baharem , foyse lo- 
go ao gouernador & mostroulhe bil aluara dei rej pêra 
lhe dar a capitania mór da armada de Diu que ateli nS 
mostrara pola não tirar a António correa por ser muyio 
seu amigo ^ & bo gouernador lha deu. £ aceitada por 
António correa a êpresa de Baharem, partiose pêra lá 
a quinze de lunho de mil & quinhStos & vinte hO & hia 
em bu. galeão : & forão seus capitães Gonçalo pereira 
que hia em outro, & Fernandeanes de souto mayor que 
bia em bQa galé , & loão fiereira em bua carauela , 8c 
Lourenço de moura , & Cbristouão çarnache em duas 
fustas, & em outra outro, cujo nome não soube: & nes- 
tas Telas hião quatrocSlos Portugueses, & hia coeie Raiz 
xarafo capitão mór da armada delrey Dormuz que era 
de duzentas terradas em que hião três mil mouros mil 
& quinhenios frecheiros & outros tantos lanceiros, & no 
caminho ibe deu bti temporal que fez arribar a frota dei 
rey Dormuz , & os nauios da nossa , saluo a capitaina 
& a carauela de lohão porejara, & eoele som&te chegou 
a Baharem & surgio diante de btka cidade do mesmo 
Bome muyto grande de easas grades de pedra & cal con 
chaminés , & varadas |)era sol & gelosias nas geneias fc 
ali tinha el rej Mocrim seu assento, & por esperar por 
António correa, de que tinha certeza (} sabia bem da 
guerra^ estaua bem apercebido, & tinha a cidade cerca- 
da da banda do mar de bua tranqueira de duas faces do 
largura de dez palmos entalhada de terra & darea com 
algas porlaes pêra seiuõlda da firaya , & assentada nela 



XtlTRO T.v (UFITVLO LIX. 243 

nuyla artdbaria , & goardaoina dose mil Arábios pos- 
tos em estancias , & tinba trezentos de eaualo a mayor 
parte acubertados, & quatrooentos Persianos frecheiros, 
& vinie rumes espingardeiros cd aigfis outros que tinba 
insinados a esse officio. E chegado A ntonio oorrea afia* 
harém sorgio ao mar ondesteoe seys dias esperando por 
sua armada qne se ajuntou coele no cabo deste tSpo, 
saioo duas fustas, de í\ bfia arribou a Ormuz & a outra 
veyo despois de ele ter desbaratados os immigos. E che-» 
gados os nauios , & assi a armada dei rey Dormui quis 
António correa saber a gente que tinha pêra rer se po- 
dia poyar em terra , & não achoo mais de duzentos & 
Tinte homens que fossem pêra poyar em terra , de que 
os cento erSo fidalgos & criados dei rey, & os cincoenta 
espingardeiros & besteiros. E os outros bonsens darmas 
dos da índia , & a outra gente era do mar que auia de 
ficar em goarda da armada : & com quanto se achou 
com tão pouca gente, & sabia que a dos immígos era 
tanta como disse assentou de poyar em terra com con- 
aelbo dos outros capitães & éos principais da frota : es* 
pesando todos em nosso senhor que os ajudaria, & qui- 
sera cometer os immigos véspera de SStiago, se nSo fo* 
ra por Raix xarafo , qne por certas cirimonias de sua 
aeyta não quis então: & por isso alargou a cousa pêra 
es vite sete de luiho, que foy hfi sábado & quisera co 
aseter com sua gele por hQa parte , & que Raix xarafo 
4MHnetera coro a sua por outra pêra se ver o que cada 
hSí fazia. E ele nã quis, dizendo que el rey de Portu- 
gal & el rey Dormuz erão irmãos, por isso auia sua gen- 
te de ir junta: & islo era com medo segundo despois 
pareeeo. E acabado ho conselho , os capitães se tornar 
rào a seus nauios , & eles com sua. gente se confessarão 
& encomêdarão a nopso senhor: porque ho feyto era 
muy perigoso por a gente des immigos ser tãta^ que ar 
ma bS trezentos pêra cada bil dos nossos: porS Antó- 
nio correa tinha tamanha confiança em Deos & em no»- 
aa senhora que esperaua de Jeuar a vitoria , & toda ar 

HH 2 



244 J>A HISTORIA DA IN 

quela Doyló se lhe encomendou muy deuatamente. E 
quando veyo ao sábado pola manhaã se embarcou cõ sua 
gente nos baieys & barquinhas da frola, & Xarafo com 
sua gente por ser muyla se pos em grandes jangadas de 
madeira que os paraós das suas lerradas auião de rebo« 
car: & saindo ho sol abalou António correa com todos 
os seus pêra terra leuando a dianteira Ayres correa seu 
irmão que hia cÕ ho seu guião , & hião coele cincoenta 
homens espingardeyros & besteiros & assi algus íidal* 
gos. E como ja era baixa mar & diâte da cidade fosse 
ho mar muyto aparcelado tocarão os baleys a liro des- 

Í)ingarda dela: & não podendo dali passar arremessouse 
ogo a gSle nagoa que lhe daua pola braga sem auer 
quem a fiodesse ter« António correa sayo também pola 
agoa & mandou ficar nos bateys a hum Tristão de eras* 
to homem de confiãça, a que mandou que não recolhes- 
se nos bateys ninguém sem seu recado. EIrey IMocrim 
estaua neste têpo na tranqueyra com sua gente ^esfor* 
çandoa como valente caualeyro & fazendo jugar sua ar- 
telharia que desparaua muy amiúde , de Q Ueòs mila- 
grosamente Hurou os nossos , que sayrão na praya bem 
cansados : & logo Ayr^es correa que leuaua a dianteira 
como d^sse arremeteo aa tranqueyra com os que ho a- 
companbauão per antre muytas frechas sem conto & pe- 
louros despingarda que os inimigos tirarão: despois que 
os nossos forão na. praya que por mais qne elas forâo 
não deixarão de remeter á tranqueyra y onde logo os es- 
pingardeyros & besteiros matarão muytos mouros^Sc dos 
nossos furão feridos Ayres correa de duas frechadas & 
outros muytos. E estado em grande períia, os nossos por 
entrar & os mouros por lho defender: chegou .António 
correa com a bandeira & com ho resto da gente em eor^ 
po , & deu Santiago nos mouros per hua aberta que es- 
taua antre a tranqueyra & as casas , & foy ho ímpeto 
dos nossos tão furioso que íizerão retirar os mouros pêra 
dentro da cidade matandoos ás laoçadasv E nisto acodio 
el rey com hit tropel de gente de caualo , & hii grande 



LIYSO y. CAFITVLO Ln. 245 

magote doutra de pé diante , & dão nos nossos tão de 
supito, & apertando os tão rijo ferindo rouylos deles que 
os (izerão retirar pêra a praya: andando ei rey sempre 
diante dos seus & poèdose nos lugares mais perigrosos & 
pelejando com tanto esforço que era cousa despanto : & 
€òmo os imigos fizerão retirar os nossos carregauào de 
cada vez outros de nouo, & como as suas lanqas erão 
fiiuyto mais cõpridas que as dos nossos chegauâlhe sem 
lhes eles poderem chegar: & por isso recebiâo mu^^to 
dano tanto que não ho podendo os nossos sofrer se re«- 
tirarão bem pêra junto dagoa. E foy a reuolta tamanha 
que Ayres correa foy derribado com grandes feridas de 
lanças & frechas & carregarão sobrele muytos mouros 
pêra ho matar & ferirâno de treze laçadas despois de- 
derribado 9 & se não fora por Aleixo de sousa & Ruy 
eorrea f\ lhe acodirão matarãno: mas eles pelejarão am« 
bos tão valentemente, & matarão & ferirão tantos mou«- 
ros que os (izerão afastar & liurarão Ayres correa fican- 
do ambos muylo feridos. El certo ^ íizérão hú feyto di- 
no de grande memoria, & em que ganharão muyta honr- 
ra : & por outra parte também António correa teue as- 
saz que fazer, porque mandaua como capitão, & pele^ 
jaua como soldado com que tinha dobrado trabalho de 
lodos & andaua muyto cansado & ferido no braço de*- 
rey to , & assí a mayor parte de sua gente, porque toda 
pelejou aqui com marauilhoso esforço ajudando os nosso 
aenhor: porque doutra roaneyra não he de crer que tão 
poucos como os nossos erão resistissem a tão grande 
multidão de inimigos, matado & ferindo muytos deles-: 
& a ei rey matara nesta reuolta dous caualos em que 
andaua, hfl primeyro & despois outro: & também os 
mouros ficarão tão cansados & feridos que lhes conueo 
apartareose pêra descansar, o que foy grande fôlego pe- 
ia os nossos que também fizerão ho mesmo. E Anionio 
correa mandou leuar seu irmão & outros muytos feridos 
aos bateys. £ isto feyto que sen lio que os nossos esta* 
não algu tãto descansados tornou a arremeter aos mou- 



•48 BA HIS1Y>XTA DA INIXIA 

ro6 , bradando todos por nossa senhora : & parece que 
poios seus rogos desfechou nesta arremetida hfl dos nos* 
SOS espingardeiros a sua espingarda em el rey & ferio 
ho em htia coza tão mortalmête que lhe foy forçado sayr* 
se da batalha, & coele algOs de caualo dos mais hõrra** 
dos. £ ele ido como os mouros se virão sem capitão fu* 
girâo a quem mais podia, & por António correa ter a 
sua gente rouylo ferida & cansada, & ele estar do mes* 
mo modo deixou os ir & nã os quis seguir, posto í\ muy* 
tos bradauão que os seguissem : & oontentouse cõ a mer* 
ce que lhe nosso senhor fet em lhe dar hQa tão famosa 
vitoria como esta foy em obra de duaa horas sem dos 
nossos morrerem mais de cinco , & hCl deles foy hil fi* 
dalgo chamado lorge pereyra, & hii noourisco Christio, 
Daotonio correa, que em toda a batalha ho defendeo da 
morte , adargando ho sempre com hiia adarga , & de 
muy to frechado cayo morto : & farão feridos sessenta & 
tantos os mais deles de lançadaa a mão tente , & doa 
mouros a fora el rey liAocrim que morreo dabi a dous ou 
três dias morreo ho gouernador de Bahavè : pessoa muy« 
to principal & seys homès principais aeue parentes, & 
trinta de caualo & trezStos de pé, & muytos feridos : & 
forão mortos muytoa eaualos desp!gardadas. E por hfir* 
ra desta tão famosa vitoria, deu despoís o muyto alto & 
muy to poderoso rey dom loão de Portugal ho terceyro, 
a Aatonio correa que podease meter em hO quarto do 
escudo das suas armas a cabeça dfi rey mouro , que a* 
gora trás , & outra por timbre no elmo em memoria dt 
dei rey Mocrim que lhe despois foy cortada. 



IifTRO V. CAPITVLO LX. 247 

C A P I T V L O LX. 

De como morreo ti rey Mocrim. E de como Anioniú cor*- 
rea mandou a sua cabeça ao gouemador com a noua 
da vitoria , ^ da sepultura que lhe foy feyta. 

V encida a batalha chegou Raix xarafo a António cor- 
rea com sua gente : com qoe ateii esteuera nagoa sem 
desembarcar, esperando o que sucedia aos nossos» £ sê 
eles forão vêcidos presumiose que se ouuera de leuantar 
cõtreles, & isto estaua ciaro polo ódio Q lhes tinha, & 
puio q deixaua ordido em Ormuz. E António correa dis* 
simulou coele ho desauergonhamêlo de desembarcar 'a 
tal tempo, & mãdou aos seus mouros que seguissem ho 
alcanço aos immigos. E eles remeterão pola cidade mos- 
trado que ho faziáo, mas despois que forâo dentro não 
ho quiserâo fazer & meterãse a roubala : onde logo An* 
tonio correa entrou com a bandeira tangendo as trom- 
betas diante, & foy ter ás casas dei rey que erâo rouy 
grandes & sumptuosas, & junto delas achou hQa galeo* 
ta Q os rumes tinhão feyta, que algus Ibecõselharãoque 
mãdasse queymar: mas ele não quis» E feytos ali muy- 
tos caualeyros, fidalgos & outras pessoas honrradas que 
lho requererão , não quis mais passar auãte por ser tar* 
de Q era meyo dia , & tornouse aa frota pêra fazer cu- 
rar os feridos, & deixou a cidade em poder de Raix xa* 
rafo: que tomou dela posse por el rey Dormuz, & dd 
eamínfao mãdou António correa poer fogo a cêto & co* 
reota & sete terradas Q el rey Mocrim tinha. E na noy- 
te seguinte estando todos dormindo se aceiídeo ho fogo 
na bitacora da capitaina, & foy a reuolta tamanha que 
todos os feridos se leoantarâo a aeodir, & era ho fumo 
tamanho ^ não auia qoè podesse decer abaixo a apagar 
bo fogo, & despois de muyto trabalho foy apagado. B 
nesta enuolta quebrarãa os pontos das feridas quasi a 
todoc 06 feridos > & foy oeccssaffio tornarSnos a cuidar: 



248 IML HISTORIA DA TNBIA 

ruas niguS ho sen tio com ho grade prazer que tinfaSo 
da vitoria passada. Ao outro dia foj António correa a 
terra com os que poderão ir coele pêra laçar a galeota 
qij« disse ao mar: & aqueJe dia lhe fez ho terreyro com 
mujio grande trabalho por a tranqueyra dos immigos 
estar diante j| nâ era ainda derribada: &.ao outro dia 
a lançou ao mar com muyta fadiga^ por^ os nossos erâo 
poucos & não podião',.& os.de Xarafo não ajudáuSo: & 
António correa ajudauaooino. qualquer com quanto es- 
taua ferido no braço dereylo, em que padeceo grande 
dor, & por auer a galeota pêra el rey sufria íudo« B 
lançada ao mar lhe pos nome Mocrina por amor iiel rey 
Mocrim : & deu a capitania dela a hu Gaspar corria, 
E auendo cinco dias que fora a batalha , foylhe dílo por 
hu mouro da terra, & por outro de Raix xarafo q «I rey 
Mocrim era morto, & na ooyle seguinte ho auiâk> dir 
enterrar a Catifa. É Raix xarafo lhe re^reo ^ ho mã- 
dasse tomar ao caminho f>or quanto fora tredoro a el 
rey Dormuz , & era necessário que lhe cortassem a ca* 
beça, & que ele mandaria a isso sua gele. £ António 
correa ho consentio, & foy hu parSte de Raix xarafo 
chamado Raix çadradim ^ foy por capitão de doze ter* 
radas cÕ que tomou ho corpo dei rey IVIocrim & ho le* 
iiou a António correa !\ lhe mandou cortar a cabeça: 
que os mouros de Raix xarafo cauacarão por dentro tão 
sutilmêle que ficou a pele do rosto com os olhos & na* 
rizes : & despois a rechearão dalgodão cÕ hua aselha na 
moleyra por õde se podia tomar, & parecia viua: & An* 
tonio correa a mandou a Ormuz ao gouernador com a 
noua do que tinha feyto, & leuou a Baltesar pessoa & 
Ruy correa q forâo ê hila fusta. E coesta noua recebeo 
ho gouernador muyto grande prazer cô os nossos, & el 
rey Dormuz com os mouros, & fizerão todos muyto gran* 
des festas. E ho gouernador foy dar graças a nosso se* 
flor á igreja com todos os fidalgos. E ele & el rey Dor* 
muz mãdarâo fazer hfla sepultura a esta cabeça na pra- 
ça Dormuz : por honrra de cuja foy & por memoria Dâ^ 



LIVRO V. CAPlTVtO LXr. «4.9 

(onio correa & dos que íizeráo aquele feytb, & forâo a- 
bertos neia dous letreiros bCL na nossa lingoa, & outro 
na Persiana que diziSo. 

A quinze dias do mes de Mayo de mil & quinhen* 
tos & vinte hS , chegou ho gouernador Diogo lopez de 
sequeyra a Ormuz, & achou ho reyno de Babarem & 
CaCiTa leuSíado contra el rey Dormuz, & mandou lá An- 
tónio oorrea seu sobrinho eò sete nauios & quatrocentos 
fcomfis & pelejou com Mocrim rey da dita terra , & a 
sua cabeça jaz aqui : morrerão muytos mouros & algfls 
Chrtstãos & forâo muytos feridos. E os mouros vSdo seu 
desbarato lhe 8tregarâo logo Catifa : & também trouue 
Jiãa galeota que os rumes 4inhSo feyta que agora anda 
-em poder dos Portugueses. E ho gouernador mandou fa- 
^er esta sepultura por honrra do rey que morreo como 
hÒ caualeyro^ & por memoria dos Chrjstâos. 

C A P I T V L O LXL 

De como lorge dalbuqufr§ chegou a Pacêj ^ determinou de 
restítuyr no reyno ho príncipe q leuaua da índia. 

X^espots de lorge dalbuquerj) partido pêra Malaca eom 
a frota l\ disse, seguio sua víagC ate chegar á ilha de 
^matra & surgir xío porto de Pacem , pêra {) se f>odes- 
«e restttuyse na^ie reyno ho príncipe herdeiro dele co- 
mo lhe ho gouernador dera por regimento. E surto nes- 
te porto cK)m toda sua armada , teue maneyra cotno fez 
saber aos principais de Pacem a causa de sua vinda. E 
isto em segredo, porque ho tiratio ho tião soubesse & se 
posesse em recado. E eles com ho aluoro<;o da vinda éh 
sea verdadeyro rey f| muyto desjRJauSo, «e forâo os que 

fioderâo secretamente a capilaina: & hi lhes mosiroti 
Off^e dalbuquerq«e ho principe & ho Moulãna : (} eles 
folgarão muyto de ver, & lhe disserâo qúe' sua vontarle 
era muy boa pêra ho receberem por senhor , mas que 
Dfio cmsattâo. «ooa medo de Tirano. E .nesta^ pratica sou^ 

LIVRO V. II . . - 



fiÕD BA HI6TOR(A I>A ÍNDIA 

be lorge dalbuquerqu<3 que bo Tirano es4aua mâyto 
furialeciJo em hua forlaiesca julo da pouoa<^o que erU 
húa iegoa pelo rio acima : & era hQa írãqifre^ra larga 
feyta em quadra que cercaua lida pouuai^âo pequena on* 
de ho Tirano moraua perio da outra grande que Ibe fr- 
caua como arrabalde. E nesla Iranqueyra aikia muyia 
artelharia : & da banda do norte era cercada de aapal & 
ierra apaulada, & linha a entrada dali per h&a ponte. 
£ em hú canto da bâda do 8ul tinha hua porta, & ila- 
•quela parte era cercada de caua chea dagoa. Defitro 
4le«la tranqueyra no meyo da pouoaqâo estauâo as CMM 
4o Tirano ceroadas doutra trâqueyra da mesma maney- 
fa da de fora cÕ duas [lOrtas pe^naa, hQa da4)anda do 
■sul & oulra de leste. £ a fora- esta fortalesuisef tâo Sof^ 
te esjtauâ nela seys mil homens de peleja, os mais deles 
frecheiros, 6c muytod de zarauatanas. £ com -quâto loc- 
ge dalbuquerque isto soube: como era muyto esforcjado, 
& sabia ^ ho printipe tiaha jtistii^a pêra oquirir ho rey- 
no, determinou de pelejar cõ ho Tirano se não quisesse 
j>or bfi soltar bo rejrno: & a«8i lho mBnd(^u disser. Do^ 
se ele eiicusou , duêdo ^ ho reyno era seu , & mais que 
queria ser vassalo dei rey de Vortugal , & pagarihe j)»- 
reas : ^ l^rge dalbu^r^ engeítou , dizêdo que el rey de 
Portugal nã queria por vassalos senão 4^ dereytos her- 
deyros dos reynos, & nâ os ^ os tinhâo por íorça. E v^ 
do a contumácia do Tirano, determinou de pelejar coelec 
& pêra bo notiticaT a seus capitães, os chamou a conse- 
ibo , & aj^atouse ooeles faQ hdalg.o chamado Alanuei da 
2[ama -^ hi era chegado de Malaca è híl nauio darmada 
|>era fazer arribar a Malaca os jdgos de Pegú, ^ poir 
nâ irê a Malaca hião iik^scarregar a Pacê. £ jutos os ca- 
j>itães , lorge dalbu^r^ lhe propôs ho regimêto ^ trazia 
ílo gouernador acerca de restituyr ho ppicipede PacS é 
aeu rey no : & bo ,poder de gSte ^ tinha ho Tirano, & co* 
IDO estaua fortateoido. E a gête que ele tinha que não 
aeria mais ^ du^Stos ÚQ^ nossos. £ todos forâo dacordo 
Q pelejasse, & •§ nosse sefior os ajudaria poiA tinhftoa 
justiça de sua parte. 



C A r I T V L o LXII. 

D€ coma «/ rey Dauru foy 9obre Poict pêra pelejar c6< a 

tirano ^ tinha q reyn» vswrpaép*, 

JL endo isto assentado acertou de chegar a Pacem^ ei 
wj Ddttffu com. grande exercito ^ que tinha gi^crrc^ com 
ào Tíraiu^) & hia pêra ho destrujr por amiur do prioci-. 
pa que era 8e>u parêle. E sabida por lorge. dalbuquer-. 
que sua cjhegada, porque era amigo dei r^y de Por(u-t 
gal., lhe nadou dizer por hu mouro natural dç Paqem : 
que ele era ali vindo pêra restituyr ho priocipe d^ Pas- 
cem no re>Bo, & dealruyr aquelet Tirano Q ho linha 
Tflurpado. E porque sabia que era amigo dei rey de Por- 
tugal^ Ibe pe<lia que se.afaalaBse donde fosse. 9 peleja ^ 
& lhe deixasse a ele sò aquela empresa : & porque a sua 
gente, & a do Tirano toda andaua du trajo mandasse 
aos seus ^ no dia da batalha posesaem na cabeça bfta 
ipamos verdes pêra o^ desenf<^ençarem dos immigos , 
porque os nossos auiSo dauer por esses a todos os que 
00 não teuessem. E el rey Dauru foy disso contente, & 
mandou pedir a lorge dalbuqueique que lhe fizesse mer-» 
oe do despojo ^ ficasse dos immigos despois que os nos-i 
Bos não quisessem roais : porQ esperaua em Deos que 
lhe auía de dar vitoria. Feyto este concerto, fex lorge 
daibuqiierque saber aos naturaes da terra como adia de 
dar na trâqueyra & em que dia , & maadouihes que ae 
afastassem do caminho. por onde auia dir, & que teues^ 
sem outro tal sinal como ca Aurus* 



II 2 



259 nà HisVDftiÁ Dá índia 

C A P I T O L O LXIII. 

De como lorge datimquerq desbaratou ^ matou em 
hum combale ao Tirano que tinha wurpado /io reyuo 
de Pacem. 

V iodo ho dia em ^ 8e auia de dar ho combate, eslS^ 
do oa noaaoa cõfessadoa daquela ooyte oa ansului^o hú 
cferigo aote manhaS^ & despois de almoçaretn furase 
pelo rio acima ooa baleya ale onde detteoibarcarào , & 
em lerra f«*z lorge daibuquerque Ires eacoadrões de «ua 
genle que erãu duzêlos homèa: do primeyro f^ íoy de 
geaneola homens era capitão dom Sacho aorríquez , & 
hiau coele Rafael catanbo, & Dinis fernaiidez de meio, 
Du segOdo que era doutros tantos íoy dom Afonso de 
meneses filho do conde de Cantanhede cauale^yro muy^ 
to esforçado. Ho terceyro leuaua lorge daibuquerque 
eom ho restante dos duzentos homês, & acompanbauà* 
DO Manuel da gama, António de IMiranda dazeuedo, 
Garcia chainho, Ejtor de Valadares, Fracisco boearro: 
& outros fidalgos & cauaieyros. C nesta ordem ao som 
de suas trombetas abalou pêra a fortaleza ao logo de hQ 
esteiro que passou per hOa ponte , & senão dous tiros 
de espingarda donde desembarcou á fortaleza, & dtk ca» 
bo & do ouiro estaua todo ho caminho cbeo de gente, 
assi da terra como dos A urus Q todos estauào è fauor 
do pricipe & fazia grades alegrias. E chegado dom San* 
cho perto da fortaleza começa a artelbaria a desparar, 
& a nossa espingardaria lhe respondeo, queporser muj« 
to pouca soaua muy pouco : porê começou de fazer muy- 
la obra, porque os nossos sem nenbil medo cõ quâto e» 
rão poucos remeterão á tranqueyra pela banda do sul, & 
cbegaranse a ela derribando muytos dos immigos com 
as espingardas. JVIas como eles erão tãtos como disse 
sostinbâse muj esforçadamente : & nisto chegarão dÕ A- 
fonso de meneses & lorge daibuquerque com seus es- 



LIVRO V. CAPITVLO LXIII. 253 

quadrSes, & tomarão ioda aquela banda da tranqueira 
encheu, combaièdoa muy fortemenle. E vendo Dinis 
fernandez de noelo quào ocupados oa iniigoa eslaufio na 
defensa da tranqueira, renieteo á poria Q eslaua da* 
quela banda cò JManuel da gama, &l E^Iujt de valada-- 
res, & Francisco bocarro: & arrombarão a porta com hft 
yay & vê : & ainda nâ íoy arrobada quado mu^^los dos 
inimigos acodem a defendeia com frechadas láo bastas , 
assi darco como de zaraualana que quasi {^ ocupauào to* 
do bo vão da porta. E cõ tudo os quatro entrarão ás lan* 
^das, & após eles outros muytos: & aqui se renouou a 
batalha cõ grande fúria. E era milagre de nosso senhor 
yer tSo poucos como os nossos erao antre tanta multi- 
dão dimmigos. E sabêdo iorge dalbu{[ri[ como a forta* 
jeza era êtrada acodio á porta & entrou dCtro, & cÕ sua 
tnirada se recolherão dos imigos pêra as casas do Ti- 
rano , & outros pêra a banda do norte : & os nossos fi* 
earãu de rosto com as casas do Tirano que como disse 
estauào cercadas em redondo doutra tranqueira tão for* 
te como a primeyra. E aqui estaua a principal fori^a 
desta fortaleza por ho Tirano ter ali suas molberes & tí- 
Uios, & as dos seus principais & suas fazendas. E lor* 
ge daibuquerque a cometeo cõ sua gente feyta em h& 
esquoadrào, &. h&s tirauão cÕ as espingardas aos que 
estauão encima, outros sobiào por escadas que pêra isso 
leuauào , & sem temor das pedradas , frechadas & laB« 
^das dos imigos se guindauào a cima, & dali saltarão 
embaixo após os immigciS que ja de quebrados se retira- 
não, & abrindo bua das |H>rtas que a trãqueyra linha 
entrarão os outros que estauão de fora : & apertarão táo 
rijo com os immigos, que não tSdo corai^ão de se de* 
fender por verem \ de cadauez os matauão mais come- 
çarão de despejar pêra a banda do norte, & saySose per 
niia pote que estaua daquela parte com suas molberes 
& filhos. E começando os imigos de vazar por aquela 
ponte , foj ÚÒ A fonso de meneses por acerto ler a ela 
com corenta dos nossos. E desejoso de matar ainda mais 



254 Mi Binom/k DA. flTDIA 

do8 immigos doi Q aquele dia tinha morios deu neles» 
oom o8 que hião coele^ & apertou os tão rijo que oa fes. 
tornar pêra dentro. E vendo eles H^ lhes não fioaua onde 
se podessem saluar , determinarão de morrer defenden- 
dose, & assi bo íizerão que nenhum não íicou do Tira-^ 
ao ale ho menor , tirando algus que catiuarão & assi 
muytas molheres^ & a peleja duraria trea horas de reio«< 
gio, em que morrerião dos immigos três mil aegudo sa 
despois soube, & os quatrocentos forSo dos principais, 
& dos nossos morrerão quatro & (brSo muytos feridos: a 
<|ue foj mais milagre de nosso senhor que furija humana* 

C A P I T V L O LXIIII. 

De coma ho principefoy recebido por rey de Pocê: ^ de eon 
mo lorge delbuquerquefez kãaforlaleza em Pacem, 

JL ornada a fortaleza foy saqueada pelos nossos & ho ron 
sulho que lhes 6cou Coy logo apanhado [^elos Aurus, cu-i 
jo rey se foy pêra lorge dalbuquerQ, & lhe deu ho proh 
íaça de sua vitoria com palauras de muyta alegria polo 
tirar de trabalho & mais de duuida se vencera ou não: 
& ficou muyto mór amigo & seruidor dei rey de Portu^ 
gal que dantes por ter tais vassalos. E sabendo lorge 
dalbuquerque que ho Tirano fora morto na batalha com 
oa que hu seguião, & que não auia dauer oontradição 
em resliluyr ho principe no reyno, mandou logo dar pre- 
gões que todos os da terra se ajuntassem pêra lho en-« 
tregar. O que eles íizerão logo aquele dia: & com muy-r 
to prazer lhe forão fazer reuereneia ás casas do Tirano, 
onde ho lorge dalbuquerque apousentou. E obedecido 
ho principe por rey, & entregue da cidade: tornouse 
lorge dalbuquerque com todos os nossos a armada que 
estaua na barra: a cuja entrada da banda de leste de- 
terminou de fazer hua fortaleza pêra assessego da terra, 
& pêra estar a feytoria dei rey de Portugal que assi ho 
trazia por regimento. E aquele era ho melhor lugar poc 



I/IV«0 y« CAMTVXíO LXV. 2^5 

estar pegada com ho mar por i>nde podia »er socorrida c 
& mandou dar oonla de^ta delerminav^ão a el rej^ : pe- 
dindolbe que pois el rey de Portugal queria tambè ter 
ali aquela íorlalesa pêra seguran<;a de seu estado, & não 
ibe ser le^la outra treição como a passada que ho aju- 
dasse a fazeia: & pois nao tioba necessidade da que ho 
(irano deixara por estar pacifico na cidade, que a man- 
dasse desfaeer : & Ibe mandasse a madeira pêra fazer a 
que dizia, & geie f>era que a fizesse. Ao que logo el 
rey satisíee ê tudo , & a fortaleza foy feyta em breue 
lempo com muros , baluartes & torres de madejra , âc 
4^roada de caue. É ela acabada & muyto bem artilba-- 
da deu lorge daU>uquerque a capitania a dom Sancho 
anrriquez seu gfirro, & deixou feylor, escriuães & ou«- 
4ros officiaes & -cê boniSs por todos. £ posto que Anto^ 
Jiio de miranda daseuedo lhe requereo que lhe desse a 
capitania da fortaleza, porque ho gouernador lha daua 
{x>r ha aluara ^ lhe mostrou. E ele não quis, dizendo 
que ho gouernador não podia passar tal prouisam , por 
el rey lhe conceder que pudesse dar por 4re8 annos a 
cteipilania de qualquer fortaleza que fizesse: 8& assi ficoQ 
àò ^cho por capitão da fortaleza. 

C A P I T V L O LXV. 

Jie como lorge de brito foy morto em Achem com outros 

muyíos xle sua armada^ 

Jl rossegoido lorge de brito por sua naoegaçSo perA 
liAalaoa foy ler á l^irra da cidade Dacbem na ilha de ç2H 
matra, j| he reyno como atras disse, & he bua cidade 
^râde ao pé de bOa lòbada i\ se faz àtre a cidade & h& 
rio, de modo i) a louisbada lhe fica por padrasto. He de 
easas térreas de paredes de terra cobertas doía, somen^ 
4)0 as casas dei rey tem algua polioia : he muyto abas<- 
teda de mantimeoios , pouoada de mouros, & seu rey 
«M iaodbeas mouro & tkalia pouoò estado & pouca ren^ 



Bõ6 Aá ifieTORIA DA índia 

da. E com ludo grande guerreiro & capital immigo doa 
Portugueses, & trabalbaua por lhe fazer quanto mal po^ 
dia: & porque lorge de brito sabia isto, & principal- 
mente por cobrar a fazenda que ali fora tomada de dom 
loâo de lima & doutros fidalgos como disse atras surgio 
na sua barra. E surto dentro no rio, mandou dizer a el 
rey que se espantaua muyto dele querer ser immigo dos 
Portugueses sendo todos os outros reys da ilha de cama- 
Ira seus amigos , mandandolbe apontar o que lhes tinha 
feyto, principalmente a tomada da fazenda que digo: 
irogandolhe que logo lha mandasse antes que anoyteces* 
se , & não lha mâdando que iria por ela. El rey despe* 
dío ho messegeiro com dizer que responderia : mas não 
respondeo, porque não determinaua de fazer cousa ai* 
gua do que lhe lorge de brito pedia, antes lhe resistir 
quãto |K>desse pêra o que se percebeo ho melhor que po» 
de esforçando sua gente. E vendo lorge de brito que 
tardaua a reposta dei rey, deuse por respondido que 
queria guerra, & chamando a conselho seus capitães & 
outros homens honrrados da frota : propôs aigfls males 
que el rey Dacbem tinha feytos aos Portugueses, polo 
que deuia de ser casUgado , antes que tomasse mais a- 
treui mento do que tinha. No que todos acordarão que 
se fizesse, & q4ie ao outro dia pola manhaã desembar- 
cassem : o que receado el rey Dachem trabalhou polo 
impidir, mandando fazer aquela noyte hua estancia so- 
bre a lombada em que mandou assestar algus berços pê- 
ra que tirassem aos nossos, não somSle ao desembarcar, 
mas se quisessem sohir acima: & mandou a hii seu ca- 
pitão que a goardasse com obra doytocentos mouros os 
mais deles frecheiros. lorge de hrilo como foy manhaã 
abalou pêra terra nos bateys da frota com a gente de 
lanças, espadas, & adargas. E os besteiros & espingar- 
deiros hiâo todos na fusta de Gaspar galo apartados, por- 
que auião de ir na dianteira, & hião assi pêra desem- 
barcard logo juntamente & se porem de golpe em or- 
dem: o que não poderia ser iadò espalhados pel6s ba* 



ÍAVUO V. CAPITVLO LXT. «57 

teys. B logo a desauentura que aqui auia dáconlecec 
começou logo aqui de dar sinal ^ porque como vaiasse 
ainda ho terrenho & a fttsta era grande & hia bem car* 
regada nSo a deisaua de remar tâto como os bateys ^ 
hiâo mais boyantes & se remauSo melhor: o que foy 
causa de chegarem a terra muyto primeyro que a fus-> 
ta j & em desembarcando começão os mouros de despa^r 
rar os bercjos que estauSo na estancia , com que lhe nSo 
fitsiSo nenhO nojo por estarem muyto ao sopé da lomba-» 
da. O que vendo ho capitão dos mouros como era ho^ 
mem esforçado, quis ver se por sua pessoa cõ os seus 
podia deÍ(Sder aos Portugueses que nã sobissem pola 
lombada, & iançase corrêdo por hQa ilharga dela com a 
mayor parte dos seus: dando grandes gritas, & tirando 
muyta soma de frechadas. O qpe vendo lorge de brito 
]fae pesou <]e nSo esperar pela fusta em que hiâo os bes- 
teiros & PspíngardeiiK)s , & entSo conheceo bo erro que 
nisso fez , porque se os teuera muy facilmCle castigara 
aqueles mouros contra quem mandou que fosse Louren- 
<;o godinho com os de sua capitania pêra os fazer ter. 
£ parecendolhe que ganhada aquela estancia da lõbada 
não tinhão os mouros mais força, com desejo de se des^ 
pachar asinha não quis esperar pelos espingardeiros & 
besteiros, & remete cõ os outros capitães pel^a outra 
ilharga da lombada que estaua despejada , & não parou 
ate chegar á estancia: de que logo fugirão «sses mou- 
ros que hi estauão sem ousarem de Cazer nenhtia mos- 
tra de resistência , & a fugida destes & ver bo seu ca- 
pitão que pelejaua com Lourenço godinho a estâcia ga^ 
n-hada , forão causas pêra ^ ele não tardasse muyto em 
deixar a peleja & se acolher sem bfla parte nê outra re-» 
ceber nenbfi dano. Neste tempo estaua «I rey Dachem 
prestes com mil homCs muyto bem armados á sua vsan- 
ÇA & quatro alifant«s armados, & ouuindo estes a gri- 
ta & reuolta que hia onde estaua a estancia sayrâo aU 
gps fora da cidade a ver o que era : & em aparecendo 
vio os loSo serrão que era ho alferez de lorge de brito : 

LIVRO V. KK 



268 XU HISTORIA DA INMA 

& como bpinem fóua do siso sem lho ele mandar reiíie^ 
te pola ladeira abaixo pêra oDde aparecerão os imigos & 
após ele todos os outros quaado ho virão partir, sem va» 
ler a lorg^e de brito bradarlhes que se teuessem : porQ 
sua tenção era esperar poios besteiros & espingardeiros, 
& dar na cidade com toda a gète posta em ordõ. £ 
quando vio que não podia meter nela aqueles foyse coe* 
lês : os immigos que sayrão da cidade em vedo ir os Por* 
tugueses se recolherão pêra a cidade , õde el rey estaua 
eom toda sua gente & alifantes« E entrado os nossos a^ 
Bos os imigos que cuydaufto leuar de vencida, derão com 
bo corpo da gente que os cercarão antre as casas : & 
começarão de os ferir muyto rijo de todas as parles, as- 
si com frechas como com lanças darremesso cõ que lhes 
dauão muy mortaes feridas, de que os primeyros que 
morrerão forão loão serrão ho alferez, & hQ Ayres coe* 
}ho, & ha Gaspar fernandez que bia por feytor de Ma- 
luco borne muyto valente caualeyro, & tão conhecido 
por tal que disse el rey dom Manuel a lorge de brito 
quando lhe pedio a feytoria parele que era melhor pêra 
matar hil mouro que pêra ser feytor. E este Gaspar fer<- 
nandez foy tomado por hQ alifante que ho refinou pêra 
ho ar & da pancada que deu quando cayo morreo, ou 
ho acabarão díe matar os immigos que de cada vez aper^- 
tauão mais os nossos, {} pelejauão com muyto esforço | 
principalmête esses capitães & homens dobrigação: po* 
rem os Imigos erão tãtos & os tinhão tão apertados que 
Uies não aproueitaua pelejar : & todos estes ^ digo forâo 
feridos & mortos, & antreles lorge de brito: com cuja 
ittorte os Q ficauão forão logo desbaratados & fugirão 
seguindo os immigos após eles^ matando & ferindo ne* 
)es« E indo assi encdtrarão com Lourenço godinbo que 
hia caminho da cidade, & quando os vio vir daquela ma» 
neyra, voltou também a recolherse aos bateys, deixa* 
do desemparadoB os Q fugião sem os querer recolher 
nem fazerse em corpo coeles : pelo que os immigos lhes 
poderão ainda fazer mais mal & os seguirão quasi ate a 



LIITRO y. GAFITVLO LXVI. 259 

pmya, onde o9 nossos mais desaliuados dos inimigos sa 
recolherão aos baleys sem a fusta de Gaspar galo poder 
aíoda cbegar por dar em seco. E recoibendose os nossos 
hu L#uys raposo & Pêro veioso ãbos criados dei rey , & 
da criai^ de lorge de brito perguntarão por ele, & a* 
cbando que não era embarcado, dísserSo ^ nunca deos 
quisesse que sembarcassem sem ele, & lornaranse a me* 
ter antre os immigos a buscaló, & matando muytos de* 
len forão mortos: & coestes matarão os mouros bem se* 
tenta homês todos escolhidos & de nome, & forão feridoi 
muytos mais despan tosas feridas que lhes derão com lan* 
ças darremesso que lhes passauão as coiraças, mas estes 
viuerão despois. todos, & dos mouros morrerão muyto poa« 

C A P I T V L O LXVI. 

De como por morU de lorge de brito sucedeo na capt* 
tanta de Maluco António de brito seu irmão ^ do muie 
^pastou. 



R 



eeolbtdos os nossos c5 tamanha perda coníK> digo, 
Lourenço godinho se apossou da armada , & encomen* 
dou as capitanias dos nauios aos escríuães deles , & por 
conselho de todos se partirão logo dalt pêra bo {lorto do 
Pedir que he a diante, pc^rque não sayssem os imigos 
& os tomassem : & como os nauios não tishâo capitães 
ouue algíis que se quiserão leuãtar coeles & irse a di* 
uersas partes a fazer presas. E estando assi dous dias 
despois de ali estarê chegou António de brilo, & saben- 
do a morte de seu irmão foyse pêra a capitaina, onde 
antre outros papeis achou hQ aluara dei rey: em que 
lhe daua a capitania de Maluco por morte de seu irmão, 
& por ele tomou posse da frota , & foy de todos obede- 
cido por capitão mór, & proueo logo as capitanias dos 
nauios dado a do galeão de Christouão correa a hO fídal* 
go chamado António de melo, & a do nauio de Chris* 
touft pinto a Lourenço godinho , & a de Francisco go- 

u 2 



260 DA HISTORIA BA ÍNDIA 

diz a hB Francisco de brito chamauâo dos oiraais , & a 
da carauela de LourSço godinho a hu seu irmão Q auia 
home Pêro botelho, & a da sua carauela a hum Pêro 
lernandez piloto. E repartidas estas capitanias se foy ao 
porto de PacS onde ainda achou lorge dalbuquerque , a 
que aigfis amigos daluoroços & nouidades aconselharão 
^ podia tirar a capitania de Maluco a António de brito 
& dala a outrem ^ era a dada sua fK)r lorge de brito 
morrer debaixo da sua jurdiçâo, & não ser ainda feyta 
a fortaleza de 2| auia de ser capitão , & que ho aluara 
da sucessam Dantonio de brito não se entendia se não 
sendo seu irmão ja capitão da fortaleza : & por isto qui- 
sera lorge dalbuquerque lançar mão da armada* £ da- 
fendendose António de brito por muytas rezões, vierão 
a concerto que se os capitães da armada Dantonio de 
brito fossem contentes de lhe obedecer por capitão mór 
A ho fosse, & se a lorge dalbuquerque 2| ele podesse 
dar a capitania a quem quisesse. E forão tom^ados os 
votos dos capitães, mestres, pilotos & homès honrrados 
da armada, & por todos votarem i| querião António de 
brito por seu capitão mór Ibe ficou a capitania, & foy- 
se cÕ lorge dalbuquerQ a Malaca ondestaua Garcia de 
sá por capitão da fortaleza, que a entregou logo a lorge 
dalbuquerque por virtude da sua prouisam : & por nS 
ser ainda a nioução pêra Maluco ficou António de brito 
em Malaca ate ser vinda. £ com tanta & tão boa gente 
como se ajuntou em Malaca , cessou a armada dei rey 
de Bintão de lhe ir correr como dantes». 



N 



UVEO V. CAPITVLO LXVII. 261 

r • ■ ■ • ' 

CAPITVLO LXVIÍ. 

Dt como ho gouemador Diogo lopez de sequeyra tnâdou 
. por capitão mór Diogo fernandez de beja a Cambaya^ 
^ do que lhe aconieceo. 



D, 



^espois da partida Dantonio correa pêra Baharem em 
Agosto, mãdou bo gouernador que estaua em Ormuz a 
Diogo feroandex de beja capitão mór da armada que a- 
uia dir fazer guerra a Cambaya <| se partisse, & que fau 
esperasse da põta de Diu ate ho rio de Madre fabá oa- 
<le esperaua de fazer a fortaleza que ouuera de fazer 
em Diu. No que ho gouernador não teue neohu segre- 
do antes ho disse pubricamête. E coeste regimêto se 
partio Diogo fernãdez, cujos capitães ibrão, Nuno fer« 
oandez de macedo no çamorim grande , & Gaspar dou^ 
tel è hu nauio redondo, & Manuel de macedo em hfla 
carauela. £ partido Dormuz aos vinte Dagosto, & che- 
gando á costa deCambaya na parajem da cidade dePa- 
tane tomou ele deus zãbucos de mouros () hião da ojUra 
costa: & Nuno fernãdez ouue vista de hQa nao de mou* 
ro6 que lhe fugio, [)orque em lhe tirando h& bombardei- 
ro nosso hua bombardada deu na relinga da vela & rom^ 
pea, & em quanto a remSdarão acolheose a nao. £ dali 
íby logo ter coele outra muyto grande 1| hia do estreito 
& leuaua por cada banda dez bombardas roqueyras , fie 
hião nela cento fie vinte mouros brancos de peleja muy- 
tos deles espingardei ros a fora outros, fie molheres fie me* 
ninos, fie carregada de muyta mercadaria : fie ele lhe deu 
caça ate a encaualgar. VSdo os mouros que os tomauão 
parece que confiados na grandeza de sua nao : que es- 
pedaçaria ho galeão se ho encontrasse em cheo , poserão 
a proa nele indolhe de balrrauento: fie se ele não arri- 
bara ouuerãno de partir polo meyo , tâo poderosa era a 
>Aao. E como ela ficou tão perto do galeão mandou Nuno 
fernandez aos mais dos nossos que se metessem na ai* 



t6S HA HISTORfA DA INDIiL 

caçoua do galeão, & cobrir a entrada com hQ pano: por^ 
08 mouros vendo pouca gente lhe náo ouueasem medo 
& não fugisse , & assi foy : por onde a nao foy logo a- 
ferrada pi)r proa , a que cinco cm seis di>8 nossos acodi- 
râo com Nuno fernandez^ & entrarão dentro coele: & 
os outros 6carão de popa |K)r onde cuydarão que se a 
nao abalrroasse. E como os mouros se virão entrados 
arremeteram a António daraujo^ qve foy ho primeiro que 
entrou , & derãibe hOa cutilada por hua pern*. R bo se- 
gundo foy Aluaro de brito filln» de Nuno borges^ a que 
fertrSo na cabeça sobre hum olho: de maneira que logo 
bo derribarão, & a Nuno feraandez com bQ zagnncbe 
per hfla ilharga, com que lhe desenlresaolharam as cou^ 
raças. Os outros mouros também se poserão polo borde 
cia nao, & tirauflo muytas frechadas, pedradas, & bê^ 
píngardadas, & era a barafunda rauyto grande. É estl^ 
do os nossos que eatauSo na nao neste perigo, & sen» 
tindoho os que ficauâo no galeão socorrerãolbe. E dan- 
do Santiago noa mouros entrarão por |)opa, & destes que 
entrarão obra de quatorze começarão de pelejar com oe 
mouros: 1\ os outros meteranse logo a roubar a nao. E 
com a peleja dos nossos afroxarSo os motiroa de proa & 
desatinarão Nuno femandez, & os outros por aeodirem 
aos de popa: onde os nossos matarão a mor parte doa 
oiouros, princi fiai mete os bombardeiro» que logo os oo- 
nbecião poloa murrofifs: & os outros forão catiuos com 
toda a mais gente da nao, que foy Ioga passada ao ga- 
leão. E porque não au^ia agoa pêra tantos mandou Nuno 
fernandez a doos bombardeiros nossos que esteuessem a 
bordo com senhos marroSs & matassem coeles todos oa 
mouros bomSs : & assi ho fízerão, & deitauànos ao mar, 
& somente ás molheres & meninos derão a vida. E dea- 
pois de baldeada a mor parte da fazenda da nao no ga- 
leão : mandou Nuno fernandez a doos carpinteiros qiie 
Ibe fossem fazer dous rombos pêra se meter no f&do. E 
eles com medo fizerãolhos : tam pequenos que pode en- 
trar pouca agoa. £ iambeoi porque deapoia de aaidos^ 



LIVRO V. CAPITTLO LXVIII. 269 

algfis mouros que ue esconderão na nao , vesdo os rom- 
bos que Uie ãzerão : & sentindo como a deixauâo lapa* 
ranlbe os buracos , de modo que a nao se nam foy ao 
fundo. £ isto seria ate as noue horas do dia. £ cuidan- 
do Nuno fernandez que a nao ficaua bem arrombada dei- 
xou hã. 

C A P I T V L O LXVIII. 

De como Hngamaknmt saio com ala úas fustas de Diu a 
pekjar com os nossos^ ^ os desbaratarão : metSdo no 
fúdo Ao tèauio de Gaspar douteL 

Jji como isto fosse obra de seis legoas de Diu, ouuerão 
os mouros vista dos nossos. E sabendo ho Meli^az que 
ja bi estaua^ & sabia Q os nossos estauSo coele de guer« 
n, mádou logo a Hagamabmut ^ saísse cõ ate xviii fus- 
tas aos nossos , & ele ho fez assi : Com que eles quan-^ 
do virão as fustas ficarão todos bem agastados ^ porque 
como auiâo de passar Golfão trazião a artelfaaria abati* 
da: & as portinholas do lume dagoa calafetadas, porque 
lhe não êtrasse ho mar dentro, & vinbão os nauios assaz 
dempachadoa com fato : o que algQ tanto foy descuido 
dos nossos capitaSs, porque como ouuerão vista da cos* 
ta de cambaya : & mais tam perto de Diu logo se ou- 
uerão daperceber : & mais sabfido que as fustas lhe a^ 
uião de sair em auendo vista deles : assi que veado aa 

08 nossos quiserãose aperceber, mas elas não lhe derão 
lugar pêra isso. £ Hagamabmut mandou a duas que to* 
massS a nao dos mouros & a leuassem a Diu : fe assi ho 
fieerâo, & as outrae repartio pêra que pelejassem com 

09 nossos segundo lhe pareeeo Q abastarião pêra isso. £ 
como ho vCto era calma terça uaihe bfi pêra a peleja. £ 
os nossos quando virão repartir as fustas cuidarão ^ não 
fosse a cousa como foy : porem os mouros que ieuauão 
è determinação de os destroirem de todo, remeterão hOs 
& outros ao nauio ^ lhes coube: & eercarannos polae 
popas ) êí começaeâo de ee saotidir com a artelharia que 



264 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

trazião tn^iy boa , & os nossos ali nhfia pola causa ^ di* 
go^ principalmêto ao lume dagoa: que a dos altos co- 
mo as fustas erSo rasteiras não Ibe podia fazer nojo: 
nem os nossos nSo lho fK)dtão fazer cd outras armas ^ 
porQ os mouros tirauâo em roda viua tanta espingarda- 
ra » & frechada, que era pasmo. E ho primeiro nauio 
com que apertarão foy ho de Gaspar doutel questaua 
mais a lanço: & metianno no fundo quanto podião, bo 
que ele vedo : & que nSo podia escapar determinou de 
aferrar com os !migos posto que erSo muytos em dema- 
sia , porque por ser rouy esforçado lhe pareceo 2| se po- 
deria assi ajudar deles: & coesta determinação mandou 
atracar ho batel pêra se meter dStro com os do nauio: 
ho que eles não quiserãe dizendo <\ue os mouros erão 
tantos que parecia doudice cometelos : & «le resfiondeo 
qiie melhor era doudice que couardia porque não podia 
ser mayor que deixarse assi morrer como deixarão, por-» 
que não tardou muyto () sé acabou ho nauio dencher 
dagoa de popa: & adernado dela leuantou a proa pêra 
cima & foyse ao fundo, com morrerem os mais dos nos** 
808 : & algCks !\ escaparão nadado forão tomados dos mou- 
ros com grandes gritas que dauão com prazer de tama« 
nha vitoria, & muyto mais esforçados 2J dantes forão a- 
judar seus companheiros, que pelejauão com ho capitão 
mor & com Nuno fernandez, (que de Manuel de ma- 
cedo parece que não fazião conta por a sua carauela ser 

Cequena) & os que cercarão ho capitão mor Ibe derâo 
ua bombardada ao lume dagoa abaixo do conues que 
ho meterão no fundo se não acodirâo logo cS h& bacio 
de prata dagoa as mãos Q não se achou outra pasta de 
chiibo, & pregado hii coiro por cima vedouse a agoa 
que não entrasse: & cd tudo ainda ho ouuerão de me- 
ter no fundo segundo apertauão coele, se bo não defè* 
dera ho seu batei que era hií batelão grande com hCia 
tilha em que trazia hú camelo & dous falcoSs : que va- 
rejarão tã bem as fustas , q as fizerão afastar de lonje, 
& assi ficou liure ho capitão mor & não ihe matarão nin- 



LIVRO V. CAPITVLO LXVHI. 266" 

ffilB. E como Nuno fernSdez nSo leuesse outra tal de- 
fensão, o8 mouros I) ho cõbatiâo ho apertauã tã rijo que' 
quanto parecia sobela agoa do bordo ale a gauiá era' 
cuberlo de frechas que os Imigos pregauão nele : & coís-' 
to tanta bombardada que não se Ibe podia ningu6 em- 
parar. Porque estando hQ bÕbardeiro no conues com ha 
falcão as costas pêra tirar aos imigos , dalhe hu pelouro 
poios peitos & matooho: & outro entrou por hQa porti* 
nhola da despSsa do galeão 2}staua calafetada por ser ao 
lume dagoa, & leuou as pernas ao despenseiro, & hO. 
pedaço dum hombro a Aluaro de brito questaua ali feri- 
do: & passando auante matou hCia molher, & leuou hua 
mão a hú menino, & hiia nádega a h(i bomS : & assi fe- 
rio outras quatro pessoas , & forSo |K)r todas fiotse : & 
eutro pelouro () leuaua* de mestura hua roca deu na ca- 
beça do escriuão do galeão & leuoulba: & assi matou 
outro home criado do bispo (} então era de lamego, & 
agora he arcebispo de Lisboa , & ferio despois bê sele 
pessoas. E quis nosso senhor (} estando os nossos neste 
tamanho aperto começou de ventar algu vento que era 
antre terrenho & viração que assi como começou come- 
çarão os nossos de fazer caminho, mas nem por isso as 
fustas deixarão de os seguir ás bombardadas : porQ co- 
mo ho vSto era galerno podião com os nossos nauios , & 
apertarãnos tanto que os fizerão meter na enseada de 
Cambaia , indo com tãta necessidade dagoa ^ a cada 
pessoa se não daua mais que mea fiá dagoa por dia : & 
isto os apertaua mais que as fustas, se não quando lhes 
da hò^ trouoada seca : & foy tam rija que as fustas se 
acolherão ho mais (\ poderão, Sc tornaranse a Diu. E v8- 
do os nossos as fustas acolhidas surgirão, & surtos Ibe 
•obreueo outra trouoada molhada com que se fartarão 
dagoa : & após ela forão dar coeles dous zãbucos de mou- 
ros de Braua, carregados descrauos pretos, & Sãdalo 
brauo : & tomados fcMe ho capitão mor a Ghau) a tomar 
agoa & mantimentos, <|ue estaua hi hfi feytor nosso cha- 
mado Diogo paez & tomado ho de que tinha necessida* 

LIVAO y. LL 



266 DA HISTOaiA DA 1N0IA 

de toraousse a buscar ho gouarDador, pêra Ibe dizitr que 
nSo curasse de comeler faser fortaleza em Madre faba: 
porque soube <) JMeliqqeaz soubera dos qoasos que es<* 
caparão do nauio de Gaspar doutel , a delernioai^ão do 

fouernador de querer bi fazer forlaie^a em tornando 
>ormu% & logo se apercebera pêra lho defôder , & poc 
lalo foy grande mal descobrir bo gouernador sua deler-» 
minação como atras disse : que se a não descobrira po< 
derasse ali fa%er fortaleza. £ Diu não dera despois i%nr 
to trabalho como deu. 

C A P I T V L O UÍIX. 

4 

J}e camQ partio de Portugal dom Duarte de menese» 
por ffouemador da índia ^ 4" ^ como chegou lá com 
toda wa armada. 

Cabendo el Rey da Portugal que na índia começauãa 
dauer alúoroçoa de guerra , & 4 ^Ik^us Reys & seubo^ 
res comeijauâo de declioar da obediência & acatauieo^ 
to que dantes linbão ao seu nome: quis mandar hu go- 
uernador que tornasse a restaurar isto no primeiro esta* 
do. E pêra isao escolhea a dom Duarte de meneses ca^ 
pitão da cidade de Tangere em Africa, onde em uiuy« 
tos annoa li aba dado aasaz de testemunho de seu eafor* 
ço & valentia contra oa noouros em muytas batalhas quo 
vencera : & 8 lhe entrar (auto pola terra que chegou 
aos Motes claros (cousa que os mouros nQoa cuidarão^ 
& que os muylo mais espantou que todo ho passado) & 
por esta experiência que auia de dom Duarte, & por 
ser filho do cõde de Tarouca : prior do Crato & alfereu 
«aor de) Rey lhe deu ele a gouernanqa da índia €$ muy* 
ta auantajem do que ate li íisera aos outros goueraado-* 
M9. E despachada sua armada se partio de Lisboa a cin* 
eo Dabrii anoo de mil & quinbe«toa íl vintebu. E oa 
capitafis que leuou forão estes, dom Luis de menesea 
aeu irmão que leuaua a capitania mor do mar da ladiad 



LIVRO V. CAPITVLO LXX. 267 

Mârtim ntoííBO de melo de Santarém que leaaua hfla 
viajem pêra a China, fK>r capitão mor de Ires nãos a fo- 
ra a sua: cujos capitaSs erão Vasco fernandez Coutinho 
&, Diogo de melo, seus irmãos & PedromS irmão do es- 
tribeiro mor que hião por capitafis desta armada , & Fo* 
iião de melo da silua, que hia pêra capitão de Coulão & 
Vicente gil filho de Duarte tristão hum armador, E par- 
iida esta armada sem lhe acontecer cousa que seja pê- 
ra contar^ chegou a costa da índia em Agosto: & es* 
lando surta sobre Baticala, chegou hi dom Aleixo de 
ineneses ^ que como abrio a barra de Cochim se par tio 
com tre9 gales, de que erão capitães, dom lorge de me^ 
neses, Francisco de mendoça, André de sousa chichor- 
vo, que hia caminho de Madre faba a buscar ho gouer- 
nador Diogo lopez* E dando rezão a dom Duarte do es- 
tado em (| a índia estaua seguio sua via. E dom Duar- 
te ae foy a Cochim onde se apousentou na fortaleza , & 
eome<20u logo dusar do oflScio de gouernador. 

C A P I T V L O LXX. 

De tomo jínUmio correm ouue a ilha de Bahari^ ^ a for'- 
taleza de Califa : ^ se tomou a Ormuz. 

V^oroo el Rey Moor! foy morto, bfl seu sobrinho cha- 
mado Xequehamet a que a gSte da terra obedecia man- 
dou pedir seguro a António correa pêra Ibe hir falar pê- 
ra lhe entregar a ilha de Babarem & a fortaleza de Ca<- 
lifa: porque todos os da terra t\riHo estar a seruiço dei 
Rey de Portugal , & em sinal de aquilo ser verdade lhe 
mandou dous raualos Arabíosr E eate recado lhe leuoii 
bã mouro homS muylo aluo & rosado, vestido ao modo 
Veneziano de pancr de cor de bredo. E dado por Anio»* 
nio correa bo seguro viose com Xeque bamet, f\ Ihen^ 
tregou a ilha & fortaleza, com condi<;ão que lhe des^e 
pafisagpem pêra a terra firme a ele & a gente estrãgeira ? 
& AntoAio «orrea lha deu lambem cA coodi^, que não 

LL 2 



S68 .1>A HISTORIA DA ÍNDIA 

leuasse nenbQas armas dS cauaios de que tinha muytos, 
£ feila a entrega coestas condições , foj dada a passa* 
gem a Xeque hamet & a sua g6te : & passou os Raix 
xarafo nas suas terradas : & despois que passarão ho 
mesmo Xarafo foy tomar posse de Catita por el Rey de 
Portugal, & por el rey Dormuz. E António correa (ez 
l^ouernador de Babarem Raix bubacabum mouro Ara* 
DÍo capilâo principal, & muyto bom bomê de que a gen- 
te da terra foy muyto contente. £ restituído todo bo 
reyno de Babarem a el Rey Dormuz, & ficando tudo em 
|)az partiose António correa caminho Dormuz aos doze 
dAgosto & não esperou por Raix xarafo , por ler grade 
^eceyo que achasse ja ho gouernador partido |)era Cam- 
l)aia porque nâo leuaua em regimento que esteuesse em 
.Babarem mais que ate vinte cinco de lulbo: porque cd- 
pria ao gouernador partir cedo pêra Cabaia, porque de- 
.sejaua de fazer a fortaleza em Madre faba antes ^ de 
Portugal fosse outro gouernador. £ poia pressa ^ Anto^ 
nio correa teue de sua partida deixou dauer muytos ca- 
uaios & outras cousas ricas , que ficarão em poder de 
Raix xarafo & ele as deixou por fazer bo que deuia : & 
hir a tempo ao gouernador que fazia dele muyta conta: 
de quem foy muyto bem recebido chegado a Ormuz. £ 
el rey Dormuz bo mandou logo visitar dizêdo que ho 
não* f^zia {>er si por estar doente de bda perna. £ An- 
tónio correa bo foy ver, & ele lhe fez muyta bÕrra: & 
lhe mâdou dar hQ terçado douro , & hQa adaga , ambos 
muyto ricos & hQ caualo selado com bua sela & goarni- 
^ão de prata, & peças de brocado & outras peças de se- 
da: & a seu irmão {| hia coele outras, & huã adaga & 
terçado ambos ricos : & assi mâdou dar peças ricas a 
todos os capitães & fidalgos que forão coele na armada 

3ue ho acompanharão^ pedindo a todos muytos perdoSs 
e lhes dar tam pouco : porque se fora senhor de todas 
suas rendas como dantes que lhes pagara os gastos & oe 
trabalhos como merecião. £ despois de chegado Antó- 
nio correa , chegou da hi a algQs dias Raix xarafo QÒ 



Uym^V. CAPiTYLO tXXI. 2M 

0ua armada, & pairou muyto soberbo por hir com ob 
nossos & suceder a couta lã bem como sucedeo. 

CAPITVLO LXXL 

JDq conselho que ko pay dei rey Dormuz lhe deu ^ não 
. fizesse íreifâo (tos nossos. E de como a treição/oy des^ 
cuberta ao gouernd^Qr*. 

V indo Raix zaraCo de^BaharS trouue mais propósito 
de fazer cõ el rey Dormuz que se leuantasse , porque 
vinha muylo poderesode geie: que Ioda a da armada 
que leuou a Babarem era sua, & por ser goazii Dormuz 
& fijho de Raix floradim y cuja feitura erâo os mais de 
seus moradores tomou mor atreuimento pêra se leuan- 
tar : & por isso ialou logo com el rey como chegou : & 
sabendo que estaua em- propósito de se ieuantar persua- 
dio ho que permanecesse. E sabendo ho pay dei Rey 
que ele tinha esta determina<^âo como velho, sabedor & 
prudente lhe fez h&^ /aia: em que lhe trouue á memo- 
ria os benefícios que recebera Dafonso dalbuquerque è 
ho iiurar do catiueiro de Raix hamet, & em ho resti» 
tuir fio reyno iSdo tudo em seu poder : & que sempre 
ho tratara comoa filho, & assi recebera muytas amiza- 
des dos nossos : & posto Q el Rey de Portugal lhe to» 
maase sua fazenda não era de modo que lhe não ficasse 
largamente bo necessi^rio pêra seu gasto , & que poia 
ele não tinida dãles mais (porque ho resto se gastaua a 
vÕtade do goazii) não lhe desse gastala el rey de Portu- 
.gal porque eoiaso ficaua seguro das trei^Ss %ue auia em 
Or^muz: porque ele não lhe auia de tomar mais que a 
fazCda com partir coele, & ho goazii não somente se ar 
uia de contentar de lha tomar mas ainda a vida como 
costumauão : por isso que lhe rogaua que se não leuan<- 
tasse» E com quanto este conselho era como de pay, 
persuadia ho maic^ ha de seu sogro Hozeque que sem* 
pre ho matioAua que se leuantasse* E come^ãdosae ista 



trO 1>A HrSTORfA BA INmA 

dordenar, Raix de lamixá Q sabia parle desta couaa co* 
mo era grSde amigo de Manuel velho cd qu6 era cftpa* 
nheiro nalfãdega disselhe hum dia: que Raix noradim 
seu pay lhe deixara fieomCdádo- quando morrera que fos- 
se sempre muyto leal aos nossos , porque eles ho resli- 
fuirão em sua honrra Q lhe Raix hamel linha vsurpada 
fc ho vingarSo dele: & porque lhe ele prometera de ho 
fazer assi, lhe queria de8cobi'ir hfia cousa em qoe hia 
muyto ao gouernador: & isto fazia porque ho tinha pof 
irmão & queria que ganhasse as aFuisaras disso: St des- 
cobriolhe como el Rey tra(aua*de sejeuanlar, & deter^ 
tninaua de mãdar queimar a^frotardo gouernador por- 
quQ nSo teuesie em que se acolher: ou deixalo pêra 
despots 1) se fosse & (ornar a noas» fortaleza. B cuidan^ 
do Manuel velho que daria nisto gravide noua ao gouer» 
•fiador^ despois qqe soube que Miramahmet morado, & 
ho Xeque eráo os que mais conselhaoSo el Rey que se 
leuantasse: rogou a Raix dela miltiá que quisesse dizer 
aquilo ao gouernador, & ele disse (\ diria sendo ele liii« 
goa (pcfrque sabia bem e Persiana) & dizendo ele que 
si forâose a casa do gouernador hfl dia pola sesta, Me 
lhe descobrirão em segredo ho que disse: do que ho gCH 
iiernador não fez nhO caso nC recebeo coisso nhOa alté- 
ra<;So! &, Manuel velho dissimulou c5 Raix dela mixá 
dandolhe muylos agardioimSlos da par(e do gouernador. 
E ainda sobristo porque pareceo a Manuel velho ^ ho 
assessego Dormuz estaua na morte do Xeque, & de Mí^ 
ramahmet morado, ofereceose ao gouernador pêra os 
matar secretamête quãdo hiSo de noyte pêra casa dei 
Rey, per hA lugar secreto que lhe dissera Raix dela mi^ 
xá, & ho gouernador não quis. B não abastou este aut- 
so que lhe estes dous derão mas ainda sobristo Raix ha- 
toet outro irmão de Raix xarafo disse ao gouernador 
que se queria ter Ormuz em paz que quando se fosse 
pêra a índia não deixasse ni^ie ho xeque sogro dei Rey, 
& ho gouernador atStou tão pouco por isso que não lhe 
pbfgQnlou^ a eaosa porque ho dizia/ oèm como ho 



L IVW) V. CAPtTVLO tXXI. 87 1 

nem nieDO» tomou > seu ' contièlbo: £ ecòresle Ihè deu 
Frâcísco de sousa lauáres oulfo. Que Barbando eie Q Baix 
xabadim eslaua ê Orfacão da mão dei Rey Dormuz, 
que dantes se eoastrauá eaicáiidkliziAdò dde inandandoho 
prender : disse o ao gouernador & que lhe parecia a- 
quilo tnuyto mat, &' quèeea f>èfft: sei entender que ei 
Rey de Ormuz quelria ordeáar idgu» treiçâo, & por isso 
ho tinha ali : que deuia dir sobreie & tomaib. £ ho go- 
uernador fez sobrisso algQs cõselhos. £ acordousse que 
fosse sobre Orfucft & ^ ticícnesbe: &'por dbrrádeirò nào 
quis faseio pcic aer uiuyto-eonliado. Porem a verdade nào 
ee aeitbe saitto quie a^difisia qUe esCauà muyto des^son^ 
tente por elRey 4e Portugal nik> deixar em seu arbítrio^* 
& no pafèoer do conselho da índia a maneira de canao 
•a aiiiâo de poer oa noaeoe officiaea nalfandega Dor* 
nus se nâo taíxar lego -la ludo : fe éisia quel Rey e»« 
eriuia na área: & poir eete d&sg;bsU> parece que náot^om-- 
prio ele bo regimento dei Rey^ que* era mandarlbe que 
ozesae em Qrmus dkias fortaiesas , &. recolhesse a eiáe 
todoB os nossos que múraeão iora 4a fortalesa, onde áei^ 
xaria oyienla honiSa de cauak) , & do oiar hQa ÍK)a ar- 
mada : porque deeta maneira ficariXo os mouros enfrea- 
dos pêra se 080 leuantare^n : &.de ludo iato ho gouer** 
eador não íez cousa nenhâa^ mas ainda ho dinheiro que 
readia a alfandega, que el Rey roandaua que se reeo^ 
Uiese em hil celre ^ & que ho leuease Manuel velho en» 
poder, èM> entsegoo a el Rey Dormuz & lá estaua : & a 
frota ^ deixou a Manuel de sousa tauares capitão mor 
Dormuz, [ay hQ nauio em qiietele andasse, & hfla ca- 
Fauela de que ek^a dapitâo lobão de meira, & em bfla 
galeota FcBecisCo de sueaa fao brauo , & em hfla fusta 
Fernão daluarez dega^ & em tedias taro pouea gente que 
não era nada: ho que vendo ho. capitão da fortaleza dft 
Garoia continho lhe pedio & requereo que lhe deixasse 
mais gente ^ & que olhasse oom o. 6eaua a terra bol>4ar 
& ele Ibe deu então trezentos bomSs. £ disendo dòm> 
Garoia que era poufia gente y .'dôxeUrin. ho goneMador 



272 VÁ HISTORIA DA INBIA 

que deixasse a fortaleza & que a daria a quero a de^ 
fendesse com aquela gente. 

C A P I T V L O LXXII. 

De como ho gouemaãor tnuáou ho conselho que tinha 
de fazer fortaleza em Madre faba j ^ a começou 
em Chata. 



D, 



^eíxando ho gouernador Ormuz também apercebido 
pêra ho grande perigo em que fioaua, apercebeo su» 
partida pêra a índia. E dissimulando el rey Dormuz a 
treiçSo que queria fazer ^ rogoulhe que deixasse algom 
nauio pêra lhe leuar hii embaixador que queria mandar 
a. et Rey de Portugal, & assi hua lenda rica & outras 
peças que lhe queria mandar de* presente : que iingio 
que seslauão fazendo. E ho gouernador deixou a Pêro 
da silua de meneses capitão de hOa naoqoeleuasseeste 
embaixador: & isto feito partiose na (im de Setembro, 
com fundamento de fazer hua fortaleza no rio de Madre 
faba, & pêra isso leuaua a nao Serra de que hia por ca« 
pitão Aires correa, carregada de petrechos & muniçofia 
necessárias & algÓs rumes caliuos, pêra ajudarem ao 
trabalho. E chegando a ponta de Diu que não achoa 
Diogo fernandez de beja com sua armada , íicou espan- 
tado de ho não achar polo que lhe tinha mandado: & 
parecendolhe que seria a correr a costa foy surgir na 
barra de Diu. Ho que lofifo IMeliquiaz soube, & como 
também sabia que dom Duarte de meneses era chega- 
do pêra gouernar a índia , mandouho dizer ao gouerna- 
dor com tenção : que se hia pêra lhe fazer guerra que 
lha não fizesse : Porem ho gouernador não lhe respondeo 
fiada, & deixouse estar. Ho que vendo Meliqueaz man» 
dou logo muyta gente a Madre faba, receando que ho 
gooernador quisesse ir lá fazer fortaleza como tinha sa-* 
bido poios nossos, que tomarão do nauio de Gaspar dou- 
tel:: & asai mandou meter mai/s gente & arlelharia na0 



LIVRO Vr CAPfTVLO VXXíU %7l 

fustas que eslauam a vista do gouernador. Que eslan* 
do assi surto os Rumes cattuos que estauSo na nao Ser« 
ra quisserSo antes morrer que viuer catiuos, & por isso 
buscarSo maneira pêra poerem fogo em hum payol on- 
destaua poluora em que se acendeo de maneira que nun- 
ca lhe poderão valer que nSo ardesse anão &quasi quan- 
tos estauão nela, & foyse ao fundo. E ficando bo gouer- 
Bador muy to agastado por este desastre : & por se per* 
derS 08 perlrechos & muniçSes pêra fazer ali a forlate* 
Ea, & lhe serem necessários outros, & os não ter, & lhe 
parecer que os teria em Chaui : determinou de ir lá fa- 
^er a fortaleza , & por isso se foy pêra IA , & na foz do 
rio achou Diogo fernSdez de beja , que lhe contou co* 
roo lhe os mouros meterão no fundo ho nauio de Gaspar 
doutel & desbaratarão a elle & aos outros capitães: & 
como IMeliquiaz tinha fortalecido Madre faba , porque 
não podesse fazer lá fortalezas polo que se ele tfroa da- 
qtiela determinação: & assentou de a fazer em Chaul, 
sobre o que tinha mandado Fernão camdo ao Nisa ma* 
luco. E esta fortaleza fez por fazer algQa cousa , que se 
achaua corrido de não ter feito nada , & da pouca se*- 
gurança que deixaua em Ormuz, do que ele andaua as^ 
saz descontente, & assi ho dezia. E porque as nãos em 
que ãdauâo Lopo de azeuedo Sc Ghristouão de saa erão 
da carreira mandou os daqui pêra Cochim, & ele en- 
trou pêra dSCro do rio, & foy surgir com toda a arma^- 
da diante de Chaul, onde achou Fernão camelo com re- 
posta de Nizaroaluco, que daua licença pêra se fazer a 
fortaleza, com condição que lhe mandasse ali vender ca« 
da anno quatrocentos caualos Arábios. E com tudo pe-» 
saualhe muyto de se fazer segundo ho gonernador foy a* 
uisado : & por isso se confederou logo ho gouernadof 
com Mamonacodá bum mouro honrrado natural da ter4 
ra, & muyto principal nela: & ho peitou tanto que lhe 
deu maneira como ouuesse pedra & fizesse cal , pêra fa^ 
zer^ a fortaleza: & assi lhe desse madeira & outros ma-» 
teriais necessários parela. £ pêra se faser este concen 

LIVRO V. MM 



S74 BA HISTORfA DA ÍNDIA 

to bia bo gouernador cada dia a terra , & de noyte tor* 
jnaua a dormir a frota: & neste tempo mandou fazer hua 
tranqueira bem fortalecida darlelbaria pêra se defender 
se viessem imigos j em quanto fazia a fortaleza : & isto 
porque teue por noua certa que Meliqueaz se vinha a 
fiaçaira pêra ver se lhe podia impedir que não fizesse 
fortaleza^ porque ibe pesaua muyto de a ter tam vizi- 
nha de Diu : & porem despois se soube que MeJiqueas 
nXo era bo que bia a Bacjaim, se não Hagamabmut por 
seu mandado, & que íeuaua todas aa fustas : & por isso 
ho gouernador se fortalecia , & de dia estaua em terra 
dando ordem aos que tirauão a pedra & faziào a cai , & 
de noite bia dormir á frota , & a gente comi! ficaua em 
terra» 

C A P 1 T V L O LXXIIL 

De como dom AUyxo de Meneses chegou a Chauly ^ de 
como Hagamahmut capitão de Meliqaiaz carreo per 
mar aos nossos. 

JlN este tempo chegou dom Âfeyxo de meneses aChau)^ 
& cotou ao gouernador como era chegado dom Duarte 
de meneses por gouernador. E com tudo se deixou es* 
lar ate ser feila algfika parte da fortaleza: & auendo ai- 
gOs dias que dom Aleixo era chegado , se Jeuantou sih 
pitamente bu grande rumor antro a gente da terra, dí« 
tendo que vinha Meliqueaz. E como os nossos bo ouui»* 
sem foy tamanho ho medo em algOs, que se embarcarão 
)ogo sem mais esperar: & outros dezião ao gooernador 
que se embarcasse, porque Meliquiaz trazia muyto grâ* 
de armada & muyta gente, & se bo esperassem em ter- 
ra qoe os moradores ãeia se ajuniarião coeie & os trata« 
fíàú muilo mal. E bo gouernador não quis tomar tal con- 
•elbo: antes aeodio aos que se embarcauão, pelejando 
eoeles de palaura j>or^ se embarcauã sem aeu mádado 
deteueos. £ nisto veo ter ooele António correa, ^ com 
quanto oQuio bo rumor que bia , não deixou douuir bAa 



UVRO V. CAPITVLO LXZIII. 276 

missa que eslaua ouuidcIo : & acabada foy ajudar ao g<H 
ueroador a deter os que se embarcaiiflo^ que era sem 
eausa^ porque Hagamabmul era o que vinha, &.Dão Me- 
Jiqueaz : & este ainda longe , & trazia sua armada. E 
sabendo bo gouernador a verdade, mandou a dõ Aleixo 
que saisse ao mar a pelejar com os imigos , & que fos- 
se em sam Dinis, & que ho acompanhassem outros dous 
galeAes & a caraoela de Manuel de macedo , & as três 
{fales : em que por trazerem pouca gSte mandou ho gor 
nernador meter aigâa de sua armada, o que todos faziáo 
iie maa vontade, assi fidalgos como dos outros: & a re«- 
tfio disso era por andarem descontentes do gouernador, 
& por verem que aquilo não era peleja em que se e^ 
fihasse honrra, por ser de perigo sem se nineuem poder 
aproaeítar de soas forças. E com tudo Francisco de sour 
sa tauares se embarcou na galé de Francisco de mendo* 
«^ : & indo dô Aleixo polo rio abaixo acalmoulhe ho ven* 
to & nfio pode sayr dele , & virão os nossos que anda* 
uSo os immigos ás bombardadas com hOa nao nossa: & 
esta era de Pêro da silua de meoeses, que vinha Dor* 
muz onde ficara esperando polo embaixador & presente 
que el rey de Ormuz dizia que auia de mandar a-el Rey 
de Portugal : & vendo Pêro da silua que tudo erSo di^ 
laçdes náo quis mais esperar ^ partiose: & indo pêra 
entrar no rio de Chaul (opou os immigos que andauão 
nas fustas que ho cercarSo logo, tirandolhe muytas bom* 
bardadas : & como os nossos vi n hão desapercebidos não 
poderão aproueítarse de sua artelharía. E por e nao Ééc 
podre, & as bombardadas dos immigos muytas, mete- 
rãna no fundo : & ho capitão com os mais A viiihão t^Ia 
forão afogados: & algQs que ficarão sobela agoa forâo 
tomados. E antes da nao ser metida no fQdo quiseralbe 
d6 Aleixo socorrer por estar a vista: & mandou áb ga^ 
ies (| socorresse a remo, o l\ elas fizera, &. ao sair da 
barra como ja a nao era metida no fondío chegarão as 
fustas , & melerãose coele ás bõbardadas Iam rijo que 
os fizerâo deter: & na gaUé de d6 lorge matarão três 

MM 2 



N 



276 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

faomSs CO h& tiro & assombrarão muylos. E assí esteoe» 
tão ale a tarde que dom Aleyxo sajo fora : Dias como o 
vento era conlrairo foylhe forçado surgir na costa, & 
por isso não pode chegar ás fustas queslauâo a sua vis- 
ta : de Q aquela noite fugio hu dos nossos Q fora caliuo 
na nao de Pêro da silua, que contou a dõ Aleixo o que 
lhe acõtecera. E como foy manhaã os nossos se fízerSo 
á vela pêra pelejar com os imigos , que como os virão ir 
juntos em corpo, & ^ as galés & baleis íicauã coeles ela 
por ela: & cuydando que saisse toda a oulra que sabião 
queslaua dentro : relirarâse contra Baçaim, dõde torna- 
rão dali a dous dias , estando de fora da foz André de 
eousa dando goarda a hú nauio nosso que estaua e$pe« 
rando pêra entrar com a maré: & André de sousa he 
goardaua, porque em quanto ali esteuesse não viessem 
os imigos & ho metessem no fOdo, como íizerào a Pêro 
da silua. E sintindo dom Aleixo ^ estaua ainda no rio 
a vinda dos imigos: temêdo que tratassem mal Andr» 
de sousa sayo fora cõ sua armada : & vendo quã pouca 
era pelejarão coela ás bõbardadas : no ^ se deterião bS 
Ires horas : & morrerá algus dos nossos na galé Dandra 
de sousa : & Hagamabmut ticou muy soberbo de se ter 
tflto cõ os nossos: & por ver que não saya a outra ar* 
mada a pelejar coele, que cuidaua Q lhe auia medo. 

C A P I T V L O LXXIIIL 

De como os nossoi pelejarão aigúas vezes com Hagama^ 
hmui : ^ de cfjmo ho gouemador determinou de se par^ 
tir pêra Cochim. 

Jtii por se bo gouemador recear ^ os imigos saíssem oa 
ponta da barra, onde andauâo os cauouqueyros tirando 
pedra t>era a fortaleza, mandou a Francisco de mendo- 
ça que na sua galé se pegasse com terra, & impedisse 
que não sayssem os imigos em terra: & dom Aleyxo com 
a oulra armada lhe ficasse á vista dStro no rio. £ logo 



LIVRO V. CAPITVLO LXXIIIÍ. 277 

ao outro dia que iblo (oy íeilo em coi»e<^âdo a viração 
Q seria a8 dez boras do dia, íoy HagaioahmuI coUieier 
Francisco de roendo^ja, estando dom Aleixo com os ou- 
tros capitães a tiro de íalcão & a vista: mas por amor 
da viraijão que era por dauãle lhe não pode socorrer : 
& com tudo maodoulbe ajudar cõ a artelbaria, que os 
Imigos tinhão em. muyto pouca conta que lhe não fazião 
jienbu danno por as fustas serem rasteiras & ela tirar 
de longe. £ como Hagamabmul sabia que dom AJeyxo 
não podia acodir a Francisco de mendoça , por amor da 
ifiração que lhe era contrairá, apertauao muyto pêra bo 
abalroar: o que vendo seu comitre disselhe ^ arribas- 
sem porque duulra maneira não se podjão saluar: & por- 
que lhe tinhão ja quebrada a estanteirola, & desgoar- 
liecida rouyta parte das obras mortas. E com tudo Frá- 
45ÍSCU de menduça porque não parecesse Q fugia náo quis 
arribar dando vela , mas mandado arriar a amarra mã«* 
douBse alar por ela : & cbegousse pêra a nossa fruta & 
i^la parele, que a nossa artelbaria bo pode ajudar & nem 
por isso os imigos se deixarão de chegar auante^ & tor* 
oarão a jugar as bõbardadas muy fortemente, & durarão 
nisto bem quatro oras de relógio : & ficado muy tos mor- 
tos na gale de Francisco de mendoqa , & três na de dõ 
Jorge de meneses. Foysse Hagamabmut muyto conten* 
te, posto que com muy tas fustas desaparelhadas. £ dom 
Aleixo se deixou ficar porque não parecesse ^ se reco- 
lhia com medo dele : (} assi bo cuidaria os da terra, por 
terem para si que os imigos podião mais que os nossos 
& por isso se deixou ficar: & assi bo mandou àhet ao 
gouernador. £ posse na boca da barra ondesteue dous 
dias esperando por Hagamabmut quesiaua nos llheos de 
Cbaul dali a hQa legoa concertando suas fustas. E ven* 
ào dõ Aleixo que não bia foyo buscar leu ando as três 
gales, & a carauela de Manuel de macedo, & bQa fus- 
ta & bo batel de são Dinis com hfi tiro grosso, & bia 
i^le Francisco de sousa tauares, & dom Aleixo hia na 
gale de dom lorge de meneses. £ sabSdo Hagai^abmul 



278 BA HISTOBtA DA INIVA 

como dS Aleiío bo bía buscar, auendo aquilo por qne^ 
bra de soa honrra : & que perderia a genle da lerra bo 
credito que tinha nele de poder mais ^ os nossos , Ten- 
do que bo hiSo buscar: sayo a receber dom Aleixo, ft 
cometeo os nossos porem nâo com a fúria Q acostuma^ 
ua. E comeQouse antreles bu jogo de bombardadas , de 
que muyíos dos romeiros dos Imigos forão feridos , & 
dos nossos algfls. E vendo Hagamabmut bir a cousa da- 
quela maneira como ventou a viração, mandou surgir 
sua frota a balrrauClo da nossa : que também surgio po5» 
que por bo vento ser por dauanle nSo se podião cbegaf 
aos fmigos: & assi esteuerSo toda a noyte s^uite. E ao 
outro dia tornou dom Aleixo a pelejar com os imigos^ 
& jugarão as bombardadas ate que veyo a víraçjlo que 
os estornou: & então se tornou dom Aleixo a boca dâ 
barra, esperando que tornasse Hagamabmut como tor^ 
dou: & d5 Aleixo lhe saio: & despois de jugarem at 
bõbardadas se tornou a boca da barra : & por espaço de 
vinte dias teuerão este trabalho, sem se fazer de bflá 
parte nem da outra nbQa cousa notauel, se nSo desapa* 
relharense bQs aos outros com a artelharía : & mataren- 
se remeiros bQs aos outros. E neste tSpo mádou bo go« 
uernador fazer em bfia das pontas da barra da banda do 
sul hQ repairo a maneira de baluarte com cestos cheos 
de terra em que mSdou assentar algua artelharia , pêra 
que tirasse aos imigos quando fossem cometer dom A- 
leixo : pêra (} ho escusassS de pelejar cô ele, & tirar os 
nossos de perigo & trabalho. E bo cõselho de fazer este 
baluarte lhe deu hil caualeiro chamado Pêro vaz por 
niao homS de bS esforço sabedor da guerra por a costa* 
mar muito tempo em Itália ôde andara. E ho gouerna- 
dor lhe deu a capitania desta estãcia de que fazia tirar 
aos immigos quãdo vinhSo, que por isso nao tornarão da- 
li por diante tão amiúde, porque a artelharia lhes fazia 
dano. E com tudo Pêro vaz hia dormir de noyte á fro- 
ta porque os immigos ho não tomassS, & deixaua a ar^ 
telharia só. O que foy dito ao gouernador , & ^ prouest 



LIVRO V. CAJPITVLO LXXIIII. 879 

ee naquilo por{) os mouros não foMem de uoyie tomar a- 
queia artelbaria, E ele respoodeo, que como a auião oa 
mouros de tomar. E sendo ja na iim Doutubro mandou 
Gõçalo de Joule na sua carauela cõ recado a el rey de 
Portugal do que fizera em Ormuz , & como fazia aQla 
fortaleza : posto que mal dízêles disserão que mandaua 
nela muyto dinheiro , porque lho não tomassem quando 
chegasse a Portugal , & por dissimular a mandaua com 
aquele recado. E íazêdo ele a^la fortaleza^ punha grau* 
de diligencia por se acabar, cÕ quanto Hagamahmut não 
deixaua de lhe correr muytas vezes: & como ho gouer-» 
nador não tinha mais que vinte pipas de poluora quâdo 
se comei^ara esta guerra^ hiaselhe acabando quâio po- 
dia , & nãu lhe vrnha outra que mandara buscar a Goa, 
porque ja ho ofto tinhâo por gouernador, & esperauão 
cada dia por dom Luys de m^oeses capitão moor do mar 
pêra quem a goardauão. E vendo ho gouernadur Q lha 
não mandauão! & que se a que tinha se gastasse como 
se gastaua , que se gastaria de todo, & gastandese se* 
ria forçado arribar com toda a frota & deixar a fortaie^ 
za por^ 08 nosssos não terião com que se defender dos 
immígos, o que seria grande perda do seruiço dei rej 
seu senhor & abatimento de sua honrra : pelo Q deter«- 
minou de os nossos não sayrS mais a pelejar com os im* 
mígos, somente que os enxotassem da estancia que di^^ 
go. O que se acordou em conseího , & assi se fez dali 
por diãie , & se ouue algda peleja foy pouca cousa : & 
a estancia se fortificou mais & posarão nela quinze dos 
nossos que a defendessem com Pêro vaz. £ como não 
ouuesse poluora mais que pêra defensão, & a torre da 
menajem da fortaleza esteuesse no primeiro sobrado, 
posto que ainda não auia muro se não a tranqueira: de* 
terminou de se hir pêra Cochim, porque se lhe chegaua 
lio tempo da partida pêra Portugal: & auia de leuar 
oonsigo António eorrea, & dom AJeixo# £ determinan- 
do islo deu a. capitania da fortaleza a Anrique de in^ 
oeses , & a capitania mor do mar a Diogo feraandez tie 



ry 



1 80 BA Hf STORf A, DA INBIA 

beja , fx)r eonseBtímenío dos fidalgos capítaSs das gales, 
que auião de ficar debaixo da sua capiUnia: & Aoto* 
nio correa ho soube deles desimuladameDle, por mau* 
dado do gouernador que receaua i| não quisessem : & 
por isso não ousaua de lhe dar a capitania mor: & dei* 
zouJhe a nao Prol da rosa pêra em que andasse, & San* 
ta crus que era velba , & as ires gales em que ficarlo 
por capita&s aqueles j| âdauão dates : & hfia fusta & a 
carauela de Manuel de macedo : & leuou a outra frota 
de velas grossas & ele em sara Diais : cuja capitania 
deu a Prãcisco de sousa tauares. 

C A P I T V L O LXXV. 

De como dtspois de og imigog desbaratarem André de 
80UM chichorro , peUforâo com Diogo femandez de 
69a ^ ho matarão. E de como ho gouernador deu a 
4)apiiania do mar a António correa ^ sefoy pêra Co* 
chim. 

Jji estando Diogo fernSdez de fora da barra surto com 
sua armada, saio ho gouernador com a de sua conserua, 
& sorgio a oras do sol posto pêra esperar ho terrenho 
com que auia de faxer sua viajem. E nisto andaua Ha- 
gamahmut ha vista com sua armada , l\ nunca dali saya 
goardãdo a barra que náo entrasse nhu nauío nosso : & 
em quanto ali andarão tomarão algils por força em tem- 
po que lhe os nossos não poderão aeodir. E vendo os í- 
migos ho gouernador surto porque fazia calma , & os 
seus nauios que erão grossos não se podião ajudar: co* 
maçarão He ho rodear a remo fazendolhe sobrançaria co« 
mo quem tinha ho tempo por si, com ho que se Diogo 
fernãdez agastou muyto: porQ a sua nao em que tinha 
toda sua fazenda estaua dentro no rio onde receaua que 
entrasse os imigos, & lha metesse no fOdo como acostu^ 
mauão: & por isso mandou pêra a boca da barra André 
de sousa chichorro na sua gale que a goardasse se os 1* 



LIVRO V. CAPITVLO LXXV. 28 l 

fDtg09 quísetsem entrar. E ele ho fez assi: & sufgío na 
boca da barra 6 se çarrfldo a noUe. Hagama^btnut como 
fao vio sarla-foy logo sobrele cft trinia fustas^ & derão« 
lhe tanta bõbardada ioda a noyte que )he desaparelha- 
rão a gale : & despois tjtie fby de dia lhe matarão sete 
bonuSs & aleyjarão ê hit bra<^ Aleixo de sousa chicbor- 
ro seu irmão, & tinhãno abairroado pêra ho entrar. E 
estado neste aperto socorreo dom lorge de meneses que 
eslaua mais perto & tinha a gale mais remeira que at 
outras, & no meio do caminho tirou hQ tiro por sinal 
que hia: cÔ que se os de Ândre de sousa esfor^^arão 
tanto 4 cobrarão nòuas fori^as pêra resistir aos Imigos^ 
que 08 não entrassem: que sentindo ho socorro que vi- 
nha se ajuntarão todos de popa da gale. Ho que vede 
dom forge mandoulhes tirar cÕ hfl tiro grosso de proa ^ 
que dando por antre as fustas dos imigos arrombou al- 
guas: do que auêdo as outras medo se afastarão por 
roais -11 lhe Hagamahmut bradou Q ho não fizessem : & 
achando dõ lorge lugar por onde Strasse abairroou com 
André de sousa tirando os nossos muytas espingardadas 
& setadas! & como as duas gales se ajuntarão começou- 
se hfia grade peleja c5 os fmigos, que se afastarão de 
todo por sobre vir Diogo fernandez na gale de Francis- 
co de mendoça : & leuaua Ires bateis armados & hQ es- 
quife & cÔ sua vinda fugirão os imigos que nunca os 
Hagamahmut pode ter : & tãbft lhes matarão gSte & ar- 
lôbaráo fustas : & Diogo fernãdez Strou na gale Dãdre 
de sousa & v6do quã desbaratada estaua roandoulbe ]| 
ee fosse mostrar ao gouernador que estaua surto ao mar^ 
& e)e com dom lorge ficarão goardando a barra : & Dio* 
go fernãdez se passou á galé de dom forge, E ao outro 
dia em amanhecendo estado as galés afastadas por es- 
pa4;o de mea legoa hila da outra veyo Hagamahmut coiíi 
sua armada, Q era de trinta fustas, & achando menos a 
galé Dandre de sousa, creo (( de ficar ao oulro dia de 
todo destreinada não estaua ali, E como as outras galés 
tiAo erão mab de duas não as teue en^ conta ainda que 

LIVRO V. NN 



28S BA HISTORIA I>A ÍNDIA 

ho goueroador eslaua a vista por estar amarrado & ?en* 
lar terrenho que snbia que lhe auia dímpedír que oâo 
pudesse socorrer as galés : & por hío determioou de to* 
loar a de do lurge c|Ue es(aua na diàteira, & Çuy bo co* 
meter a remos dizendo aos seus sua determinação, inan» 
dandulhes que Irabalhassem por lhe quebrar bu masto 
& os reuio:^ por^ lhe nSo íugisse. E eles trabalharão por 
isso desp<»is (|ue chegarão a ela que foy em saindo bo 
sol, & cercandoa por proa começasse híi uiuy brauo jogo 
de bouilxudadas dua parte & doutra, & a fumaça era ta* 
manha que nem hQs nem oulros pareciào. E os nossos 
que estauáo nos bateys em ves dajudarem do lorge & 
Diogo fernandez acolberause com medo detrás da popa 
da galé porque os não pescasse a arlelbaria dos inimi- 
gos : no que Diogo fernandez nâ atStou por a grando 
ocupação !\ ele & dom lorge traziào em fazerd jugar a 
sua arlelbaria porque os não aferrasse os imigos, ^ tra» 
halhauã quanto podião por lhes chegar despois de lho 
lurarem bo masto por duas partes , & quebrada a mor 
parle dos remos : & arrombada & galé polo costado esd 
«ete ou oyto partes. O que vendo bo comitre dando ^ 
galé por despachada se ati mais esteuesse quis cear coe- 
Ja: & assi bo disse a Diogo fernâdez & a dom lorge s 
dizendo que ali estauâo na dianteira, & toda a fúria da 
artelbaria dos immigos quebraua neles, & que ceando 
Me meteriâo anlre os bateys , & a outra gale & ficariâo 
cm renque, & asst se repartenáo os pelouros dos immi* 
goê por hQs & poios outros, & não receberiâo tanto dâr 
BO» O que parecendo bem a Diogo fernandez niandaua 
coroo capitão mòr que se tivesse : porem dom lorge foy 
á mão ao comitre , dizendo que como se auiáo de cear 
se tinhão a mór parte dos remos quebrados, & bo não 
auião de poder fazer : antes sem necessidade mostrariâo 
aos immigos ho dano que ti^nbão recebido, & que por 
isso lhe fugíão. E os immigos crendo ser assi os segui- 
rião sem nenbu medo & os aferrarião, & tanto ganha^ 
rião de se cear 9 & sirancaado bua espada disse ao cor 



LlVmO V. OAPITVLO LXXT. 28S 

mitre que ho nlk) caaase.ninguem , ou qUQ Ihe.oorUria 
a oâbcçft eom aquela -espada, ae oâo que remaaaem a* 
uante, & mostrassem aos imoiigos que deaejauSo de lhe 
chegar, pêra l| lhe quebrassem a soberba Q tiubão, & 1} 
leuassê diSle os baleys () os auião muyto dajudar. O {^ 
pareoeo b8 a Diogo fernSdes & lhe iouuou s^u conselho^ 
E porque soube que os bateis eslauSo acolhidos detrás 
da popa da gale passouse lá pêra os faser passar auaii«. 
te, & estando sobre a postiça obainSdolhes judeus rapa«« 
zes porque fazião de vagar ho () lhes mandaua, S^bre* 
uem nesta cõjunção, hu pelouro da parte dos imígos: & 
deu em hu pião du. falcão, donde resualando foy dar a 
Diogo fernandes em hila ilharga, & meleolbe as armas 
por dentro da carne: & deu eoele no chão morto. E 
porque a gente nlo desmayasse com sua morte, Stes 
que ha vissem ho mandou- emburilhar em bua mSta dum 
remeíro: & assi ficou sua morte atabafada, que a não 
souberfio mais que algas l\ ali estauâo, que dom lorge 
esforçou. E trabalhauão por se defender com a artelha* 
fia, que todos erão ja bombardeiros, por ser morto ho 
condestabre & outros muytos. E nâo auia iquem man-» 
dasse a gale por ho comitre estar ferido, & quasi que 
nâo auia nhQ que ho não fosse : ou de bomba rdadas ou 
de frechadas. Ho que vendo os romeiros da gale dando 
a por desbaratada, como erão gentios & mouros, & que<* 
rião mal aos nossos por os trazerem calinos quiseranse 
leuantars & dizendo aos imigos que estauão perto ho 
estado dos nossos , chamauãnos que fossem tomar a ga- 
le. E dom lorge que os enteodeo, leua da espada & fe-^ 
rio sete ou oyto deles : de modo que os outros com me^ 
do esteuerão quedos. E porque não auia quem mandas^ 
se a gale, mandou dom lorge a bA romeiro mouro que 
sabia disso que a mandasse , & que lhe daua liberdade: 
& Ibe faria mercê, & ho mesmo fez a dez ou doze Chrisi« 
tios {} trazia degradados porque ho ajudassem a pelejar : 
& assi ho fizerio. E animandose os nossos coeste refres- 
co torttario a petejar de nouo. E prouue a oos^o senhor 

NN 2 



2841 XU HISTORIA Djl índia 

4 vendoos OS imiços assi tornar como quer Q os (inhâe 
por tomados, enfraquecerão, de maneira que ae afaata- 
rão , & roais polo dano que recebiáo dos nossos. E ven*- 
do oa dom lorge afastar por lhes amostrar que estaua a 
filia gSte esfori^ada : & assi pur amor da gente da terra 
Qétaua na praya vendo a peleja , ineteose na sua bar- 
queta coesses que couberào & íuy após elt^s hQ pouco: 
sendo ja meo dia, que tanto durou a f>eleja. K os da 
terra e&lauâo muj espantados de os nossos se liurarem 
dos imigos, & muyto mais de se eles afastarem semio 
tantos. E tornado dom lorge a gale maAd&m a surgir, & 
embandeirar com muyta festa porque cressem os uiou- 
Foa q4ie ticara a vitoria coele & IJies ^brar os corai^oês: 
&c esteue surto ate horas de véspera que veo a vira<^àu; 
que se f(»y pêra bo gouernador, & coatoulbe bo que pas^ 
saua. E auendo de leuar ba corpo de Diogo fernaiides 
a soterrar a terra , foy desarmado passadas quatro oras 
que era morto : & acharão que lhe não sairá nenhil san-> 
gue. E tirãdolhe hOa Cruz que tinha ao pescoço ihe co- 
meçou de gotejar pelos narizes , pelo que pareeeo l\ na 
Cruz estaua a virtude de lhe nao sair sangue, & porque 
pola morte de Diogo fernandez era necessário deterse 
no gouernador algus dias mandou dom Aleixo pêra Co- 
ebim na carauela de Manuel de macedo: & sentio tan- 
to a morte de Diogo fernandez pola afronta que qg nos- 
sos receberão ^ desejou de a vingar, & esteue com de- 
terminação de ticar na índia aquele anno por amor de a 
vrngar, & não lhe dera ficar na índia com oufro gouer- 
nador: porque tinha hQa carta dei Rey de Portugal, em 
que lhe daua poder que sendo caso que ficasse na índia 
cõ outro gouernador, que inuernasse em Cananor com 
trezent>os homens : em que ho gouernador nâo entetule- 
ría : porem não quis por algOa respeitos. E cõcerladaa 
as galés, & feyta aigOa poluora que se fez em pildes 
deu a capitania mór da armada que ficaua de Chaul a 
António correa ale* que chegasse dom Luys de mene* 
ses , & deulhe ho galeão sam lorge pêra andar nele : & 



LIVRO V. OAPITVLO ULXVl, 2Qi 

tnandeulhe que tisease ki^ baluarte na outra pon(a> da 
barra da baricia do norte, pêra que defendesse a entra* 
da aos imvgos : & porque eJe tiniia pouca poiuora reco- 
lhesse a armada pêra anire âbos os baluartes, & dali 
pelejasse coeles. E dado este regimenlo parliose pêra 
(3ochini biia quinta feyra vinte sete de De^êbro, & em 
Dabui topou dom Lu vs de meneses que bia pêra Chaui : 
& prosseguindo daqui sua viagem íoy ter a Cochim, on« 
de dom Duarle eslaua a|)ouseoiado na íorlaieza : & por* 
que ele sabia que bo goueraador Ik^ auia de ser ale se 
êbarcar pêra Porlugai por prouisam dei rey , & sendo 
gouernador auia de pousar na fortaleza, ilie mandou di- 
Eer como chegou que lha despejaria se quisesse pousar 
nela. £ ele náo quis, & pousou em casa de Diogo pe« 
reyra ate se embarcar. 

C A P I T V L O LXXVL 

De coma lorge daUmquerque capitão de Malaca ^ Ati" 
tonto de brito Jarâo sobre d rey de Bintâo , ^ do que 
lhes acofUeceo. 

iVIetido lorge dalbuQrque de posse dá fortaleza de 
Malaca vendo ho t&po desposto [>era se vingar do rey 
de Bitào & bo destruyr dt^terminou de ho fazer antes 
que António de brito se partisse pêra Maluco, porque 
eom a gète de sua armada , & a ifuo titiba da ordenan- 
çi de Malaca era assaz pêra por em eflfeylo sua determi- 
nação por mais íorte que BiotSu estevesse, £ com tudo 
cnfurmouse de sua disposi^o & sitio: que era per esta 
Bianeyra. He bOa ilha perto da t>erra firme , terra baixa 
& despesso apuoredo alto & grosso regado de muytas ri^ 
beyras pequenas. A |K)uoaç8o que be grade se chama 
BinlAo que quer dizer estrela. Está sil4iada ao lõgo do 
rio ou braço do mar que cerca a ilha: he de casas ter« 
reas euberras doía, saiuo aa dei rey que estào em híi al- 
to. Da cidade airauessa hQa ponte de madeira pêra a 



886 DA HISTORIA DA TNDÍA 

terra firtne^ & diãte dela ee faz ho porto a que entrio 
por ha caoaL Nesta ilha fez seu assento el rey J) foj de 
Malaca despoís que foy deitado do Pago iomãdoa a bfi 
mouro malayo seu vassalo que era senhor dela , & fortim 
ficou a grandemente : fasendo no canal algas arrecife9 
com muytas pedras que ht mandou deitar, & assi meler 
muytas estacas de paos muyto cÕpridos & grossos que 
faziSo a passagem por ali muy difficultosa & perigosa ê 
estremo , & os nauios auiio dir muyto de vagar por sev 
em voltas, & ficauão descubertos a muyta arlelbaria que 
estaua em terra ao Idgo em hOa tranqueyra fortissima 1} 
eercaua a cidade toda em redondo feyta dfis paos do 
bQas vigas que naquela terra chamSo paos ferro: por« 
que t6 sua natureza em eerfi tXo duros que não apodre^ 
cem nagoa , & era de duas faces & entulhada cÕ aetie 
baluartes da mesma madeira: de modo que era tão for- 
te ou mais que bOa de pedra. E aletn disto a terra da 
banda do senão era tudo vasa de boa altura: & de tudo 
isto fo¥ auisado lorge dalbuquerque , & porfi que se por 
dia sobir pola tranqueira eem escadas* E como este era 
ho principal ponto de que se ele esperaua dajudar pêra 
tomar aquela força, assentou de todo de ir sobrela, por* 
que desfazendose fioaua el rey também desfeyto perA 
^ão poder faser guerra a Malaca ao menos tão cedo. B 
praticado isto cÕ Garcia de sá , António de brito & ou** 
tros capitães Sç fidalgos; foy acordado per todos que 
compría muyto ao eeruiço dei rey de Portugal Êieerse a-* 
quela viagem , que começarão no mes Doutubro de mil 
& quinhStos & vinte bfl, & forão bem seys cè(os Portu^ 
gueses embarcado!S em nauios nossos & lancharas , de 
que a fora lorge dalbuquerque forSo capitães António 
de brito & os da sua armada, Garcia de sá, AnrríQ le^ 
9)6 cunhado de lorge dalbuquerque, Manuel de berre^ 
do, dõ Garcia anrriquez, Duarte coelho & outros fidaU 
gos & eagaleyros a () não pude saber os nomes. E eh»* 
gado lorge dalbuquerQ á barra de Bintão surgio com 
Wda a fcota : & auido conselho sobre a maoeyra qu« te^ 



LIVRO V. CAPITVLO LXXTI. 287 

riu p^rA d&r na cidade, aeordouse Q a nflo comeUste pe- 
lo canal do porto poia difficuidade & perigo que auia em 
ir por ele : & lanvbein por esíar no porto a ar ii>ada dei 
rey de Biniáu : tuat que coioelesse por bu baluarle da 
traoqueyra que eslaua da mão derejla afastado do por* 
lo por bum pequeno espacjo, porque por terra ihe iaria 
menoa nojo a arlelbaria Q por man Isto determinado que 
§uy bfl dia alarde, encoiaendaranse iodos a nosso senhor 
aí|la noyte por ser ho feyto muy perigoso, & manbaá 
clara desembarcarão leuãdoCrarcia de sá a dianteira com 
António de brito, & em poyaodo em ierra fc»y medonha 
cousa de ver a multidão das bomhardadas & espingar* 
4ada8 sem conto que deapararão os imigos : esforçados 
|X)r Laquexiweoa b& valentissimo mouro parente dei rey 
ide Bintáo & seu almirante do mar, & muyto espremft* 
tado & sabedor na guerra^ & por isso ibe el rey enco* 
mêdou a defensam daquele baluarte, em que os immi* 
gos virão que os Portugueses encarauáo, a que ele logo 
acodio com bem quatro mil bomês muytos deles esphi^ 
gardeiros & os outros frecheiros de arcu & zarauatana: 
& doutras armas diuersas com ^ tirauã aos nossos em 
roda viua: por2| em quanto os Portugueses desembarca*» 
rão, nunca ho ár esteue desocupado de liros de todos es* 
tes artifícios que digo: em lato ^ em bu momêto cairão 
mortos dos Portugueses algvis vinte : & íbrào feridos 
jpais de setenta. £ bft destes foy Garcia de sá, que pas«> 
aaado áuáte por antre tatus peíouvos de bftbardas & es^ 
pÍ49gardadds chegou cõ algíis de sua eõpauhia ao b«luar«> 
te ; poriji os mais como digo (orão derribados ^ feridos Ic 
inorti>9* E Garcia de sa achou ho baluarte de tal modo 
^ nuca {Kide sobir per ele : come fizerão cre0 a iorge 
dalbuquerque Q se podia sobii* sem escadas. £ pêra lhe 
não ficar nada por íazer du i^ bo obrigaua ko muyto es«» 
forço qoe tinha 9 madou a dous criados seus que ho a* 
Judassem a sobir, o q^ue eles fizerão c6 grade valStia,^ 
sem temor de infinitas lançadas que o» meures lhe arre^ 
Oieiisattào : & dn bua foy Garpiái. de sa. ferido em bfta 



288 BA HMTORIA DA TFÍDIA 

perna tS brauameale <[ oayo : & os mesmos oriados Ji« 
Cornarão & leuarâo a embarcar. E assí (oy ferido fafi A& 
esieuão de castro de bQa bõbardatla em bua perna: & 
leuSdoo bft seu criado ihe deu outra bõbardada na cab»- 
^a 2} ho acabou de matar. E foy tambê aqui morto hQ. 
fidalgo chamado lorge de melo: & outros a que nSo pu- 
de saber os nomes. E vendo lorge dalbuquerque tama- 
fibo destroço em lâ breue tempo, conheceo ho erro \ 
fez em se crer no ^ lhe disserAo, t\ se podia aobir a írã^' 
queira sem escadas & t[ nSo acertara em as não trazer. 
É assi em pé pos em conselho c5 alg&s capitães & &- 
dalfi^oa que seria bÒ recolberse , por^ não auia de fazer 
mais que matarêlhe & ferirClhe quantos leuaua; & re- 
colheose cõ a perda que digo : de que os mouros ficar2 
muyto soberbos, & tomarão ousadia pêra fazerõ tala 
guerra a lorge dalbul}rJ} como lhe despois (izerâo. 

C A P I T V L O LXXVII. 

De como António de brito se pariio pêra a ilha da laoa. 

X^espois deste desbarato recolhidos todos á frota forã« 
se á ilha de Cincapura : & ali se espedio António de bri- 
to de lorge dalbu^rl} & com sua armada de seys nauios 
seguio sua rota pêra a ilha da laoa , cujo sitio & fertili* 
dade disse no liuro terceiro, Õde foy tomar porto na ci- 
dade Dagacim: com determina<;ão de tomar mantimfi- 
tos , por^l estaua de paz cõ os Portugueses , do tSpo de 
Afonso dalbuquerj}: & despois de os ter tomados man« 
dou ho seu batel a buscar agoa a ilha da madura, quasi 
pegada com a da laoa: & cnydando os que hiâo no ba- 
tel ^ sayão ê terra de seus amigos sayrão muyto segu- 
ros : & como os da terra os virão descuy dados creceolhes 
a cobiça de lhes fazerS mal por a pouca firmeza de sua 
amizade : & derâo sobreles tão de supito t\ os catiuarão: 
& tomarãlhes ha batel cõ hOs berços f\ leuaua : & Antó- 
nio de brito oÕ quâlo re^peo.i) lhos dessem poia tinha 



LIVRO T. CAPITVLO LZXVIII. S89. 

pkx eft OS portugueses nunca os pode auer se nSo por 
resgate* B aqui ficou nesta ilha ale ho mes de lanei- 
ro eeguinle esperando mouçSo pêra a ilha de Banda , 
donde auia de parlir pêra Maluco como direy a diaa« 
ie no liuro sexto. 

CAPITVLO LXXVIII* 

De como Jorge dálhuquerq se tomou pêra Malaca : ^ de 
como Laqueximena lhe começou de fazer guerra. 

V endo el rey de BinlKo qoSo mal se ouuerSo os por« 
tugueses naquele feito, & camanho desarrãjo aquele fo- 
ra, teueos em muyto pouco, & tanto ^ lorge dalbuquer^ 
se desamarrou do porto pêra IVIalaca mandou a pos ele 
Laqueximena c5 obra de vinte IScharas darmada hê for- 
necidas de gSte & artelbaria , (| o Ha esbõbardeando , 
& lorge dalbuquerQ voltou algiias vezes sobrele pêra o 
abalroar: porê ele se goardaua disso, que nSo era seu 
fundamento senSo persigaiio & tomarlhe algii nauio se 
ho achasse desmandado. E asai foy ate Malaca , onde 
se lorge dalbuquerque rocolheo: & Laqueximena ficou 
no mar por onde andou dissimulando sem querer pelejar 
cS a nossa armada , posto {) lhe sayo por vezes , ate que 
vendo tSpo entrou no porto, & queimou dous jungos de 
mercadores carregados. E tornandose recolher acodio 
hu Gil simfies capitão de hQ bargantim cÒ certas velas 
^ estaufto prestes, & foy a pos eles. E vendo ele {) não 
erão mais de cinco ou seys, esperou as, por() vio ^ po« 
dia ali fazer presa. E gil siniAes ou de muito esforçado, 
ou por apagar a fama j) tinha de couardo, segundo se 
despois disse, vendoo esperar adiantouse dos outros: & 
foy abalroar coele : & como os mouros erão muyto mais 
2) os í} hião coele na lanchara foy deles entrado, & mor- 
to com todos os c&panheiros despois de pelejarS muy es* 
forçadamente & venderem bfi suas vidas. R os outros 
capitães vendo esta lanchara tomada pão ousarão de ir 

LIVRO V# 00 



st o '9A mSTOilf A DA ÍNDIA 

mais por dianle cd a peloja por serè muyto poucos , & 
recolheraase a Malaca. E despois disto lhe sayo imijtas 
veses a nossa armada , & oQca quis pelejar ooela , por^ 
bSo queria mais ^ andar fazendo aQles saltos: & desta 
maneira fazia a guerra de que os portugueses náo rece^ 
biá mais dano que a opressam da^les rebates, que co- 
mo a nossa armada andaua tambfi no mar podia ir mã- 
timentos a Malaca & estaua farta & abastada. 

CAPITVLO LXXIX. 



De <:omo Bastião de sousa partio de Portngal pêra fazer 
kúa fortaleza na ilha de sam Lourenço. E o porq a 
náo fez. 

lyi este Sno da mil & quiohdtot & vinte M^ deiermí* 
DOO el rey dom Manoel de Portugal de mandar fazer 
hiia fortaleza na ilka de sam Lourenço por ter por en** 
IbrmaçSo que auia nela muyta prata & gingibre ^ espe^ 
raua dauer : & tambfi pêra que as nãos da carga da es- 
peciaria indo pêra a índia fazerê ali agoada & ir3 por: 
ibra da ilha de sam Lourfiço Q era mais segura nauega- 
ção pêra se passar a índia que por Moçambique, & de- 
terminado de fazer esta fortaleza deu a fundação dela& 
Bimeira capitania a Bastião de sousa hu fidalgo naluraí 
eluas, de que fiz menção no liuro segundo, & deuJhe 
duas nãos de capitania, ele por capitSo de b&a, & ao 
da outra não soube bo nome. E nela biâo os ofliciaea 
Aetessarios pêra edi^carem a fortaleza : & assi fiedra , 
çai , & outros materiaes pêra sua edificação: & partido 
4e Portugal foy ter á ilha de sam Lourenço sem a outra 
oao que se apartou áe sua conserua por hua muyto gran- 
de & braua tormenta ^ lhes sobreueo : & nie achando 
aqui a nao esperou por eta algO tempo,&; vendo que não 
bia pareceolhe ^ era perdida: & por lhe falecerem os 
materiaes & o/ficiaes com Q auia de edificar a fortaleza 
a. deixou de (azer , & daii se Soj a MoçâbÍ4|Uíe, onde não 



aelioift » nao nMR- noua« dela : & por ser pftMada a ««nir 
içio de paasAP a IndJa cwm as detenças 2| fízefaouuedio* 
iieniar ent Moçãbique, dimde par lio pêra a índia no aih» 
oo de mil &. quinhentos & vinle doita: & atraoessaiKla 
aquele golfão topou a otitra nao cujo capitão lhe díaae ^ 
cbegaFa primeiro !\ ele á ilha de aam Lourenço & cujr* 
dando que era perdido se partira. E dali fora ambos tev 
a índia a saluamento : & lendo pafaura do gouernad^af 
que Ibe daria ajuda pêra tornar á iUia de sam Lourenço 
a fazer a for(al'eza , ckegou dom Pedro de castelo hraiH 
eo^ que com outros dous capitães partira de porlugal 
oo mesmo anuo, como direy a diante, & leuou hua pro« 
iiisam ao gouernador dei rey dom íoão bo terceiro da 
Portugal (que sucedera no rejmo por falecimento delrejf 
4lom Maniiel seu pAj ) em que Ibe mandaua que neuhfla 
ibrtalesa daa que el rey seu pay mandara faser na índia 
de nono, se fízese: porè qae as que esteuessem come* 
^das ae acabassem. E por esta causa nâo foy Bastião 
de sonsa fazer a fortaleza a ilha de sam Lourenço* 

C A P I T V L O LXXX. 

De como #e ItuarOarão oe^ Chins conlra os Poríufutse$ 
que tsUtuAo em Cantão : ^ prenderão ho embaizador 
dei Rey de PortugeU^ é* ^^ § estctuâ coele. 



D, 



'espois de partido Simáo dandrade pêra Malaca, Si 
ficando os Chins muy to descontentes dele , faieceo ei 
rey da China , que estaua muyto b6 com os Por(ii)g:ue« 
ses : & o que lhe sucedeo assi coroo era muy desuiado do 
sua condiçjlo, assi ho foy tambS em ser pouco amigo 
dos nossos : & logo ouuio ho embaiiador dei rey de Bín« 
tâo, que seu antecessor nâo quis ouuir em muy tos an- 
DOS ^ auia {| andaua na corte: & isto porque a primei- 
ra vez ^ Ibe falou Ibe disse muyto mal dos nossos, de 
que tambS ho disse a este rey que digo, cbamSdolbe la-< 
dfiões & que hiâa com pequena armada espiar as terras 

oo 2 



292 BI HISTORIA DA INNA 

alheâs, & despoia cõ ho muyto poder que tiohSo na ín- 
dia tornauâo a tomalas: & que assi fizerão a Malaca 
que era dei rey de bintão que estaua laçado fora deia 
aam causa. E por() 8e ele tinha por seu vassalo se so- 
corria a ele pedindolhe ajuda pêra se restituir em Ma- 
laca , & que lhe pedia muyto Q os nã consentisse em 
Sua terra , por^ sua ida lá não era se não a espiala pêra 
despois a tomarC: & ao menos que ho não fizessem por 
ela ser tão grande como era , lhe dariâo fadiga no mar 
úndé erâo muyto poderosos. E nisto foylhe noua do al- 
lioroço Q os que furão com Simão dãdrade deixarão em 
Cantão. E isto & o que lhe o embaixador dei rey de 
bintão disse, & outras causas que particularmête não 
pude saber, imprimiu lanto em el rey, & naqueles que 
ho aconselbauão , que mandou prender ao nosso embai- 
xador, & os outros questauSo coele, & mandou (| este- 
ucssem apartados hQs dos outros, & que lhe fosse toma- 
da toda sua fazenda, escripta & aualiada: & dizem hQa 
que cò tristeza adoeceo , & morreo ho embaixador : ou* 
tros q morreo com peçonha. E por^ eu nã pude saber 
as particularidades disto ho digo assí em soma: & tam- 
bê o mais que passou no aleuanlamSto da China contra 
os nossos: que ou polo el rey mandar, ou como quer 
que foy, os Chins tomarão em Catão os nossos quatro 
junges carregados de pimenta & sândalo, & outras mer^ 
cadorias í\ erâo dei rey de Portugal & de partes , estã^ 
do eles surtos no |K>rto, de que os nossos que biã neles 
se saluarão com assaz de fadiga , & se recolherão a hua 
nao de dÔ Nuno manuel que estaua surta: a cujo capi- 
tão não pude saber ho nome , se não que na defensa da 
nao ho fez fracamSte quando os Chins derâo sobrele, & 
se não forão os nossos dos junges que se acolherão a ela 
& a defenderão valentemente ela fora tomadas & não 
somente a defenderão, mas se tiuerão algil tiro grosso 
darlelbaria toda a frota dos imigos fora metida no fun- 
do, posto t\ era grande. E escapando os nossos deste pe- 
rigo acolheranse caminho de Malaca, onde chegarão na 



LIVRO y. CAFITVLO LZXXI. Z93 

fm de Outubro de mil & quinhentos & vinte & hfl, & 
4)erâo noua do leuantamento da china: & disso se tirou 
inquirição em JMalaca, que se leuou çarrada a el Rey 
de Portugal : em que foráo tiradas a limpo algOas cau- 
sas deste ieuanlamento ^ que como digo nâo pude sa- 
ber, & porisso as não disse. 

C A P I T V L O LXXXL 

JDe como Hagamahmut deu hú combate a :ántonio coT'- 
rea , ^ quisera tomar ho baluarte do outeiro ^ Jhy 
" desbaroUaao. £ de como dom. Luys de meneses chegou 
' a Chaul: ^ António correa sejoy pêra Cochim. 

Jl artido ho gouernador pêra Gocbim logo ao sábado se* 
gurnte, que forào vinte noue de Dezembro, foy Haga« 
mabmut surgir com a viração sobre a barra de Chaul, 
com suas irinta & seys fustas muyto melhor fornecidas 
de gente, armas, & artelharia que dantes: & trazia 
•iDuytos de sobressalente de casa de Melique fartaquis: 
& Abexins etn qtie tinha muyta confiança, por serem 

Eessoas de feyto. E Hagamahmut surgiu em lugar onde 
le a artelharia da nossa frota não podia fazer nojo : & 
ela estaua surta na barra antre ambos os baluartes. £ 
não querm António correa sair dali por lho mandar assi 
èo gouernador, por os imigos nãò pelejarem coele, & 
lhe fazerem gastar a poluora, que receaua muyto faltar- 
Ihe primeiro que lhe fosse de Cochim. E ao domingo 
vendo Hagamahmut que António correa não saya a pe* 
lejar coele, lhe esteue fazendo muytas algazaras, pêra 
ver se ho podia prouocar a isso. E ele que ho entendeo 
•deixouse estar ondestaua. E a segunda feira acabando 
de vetar ho terrenho , que seria as dez horas do dia , a* 
balou Hagamahmut com toda sua armada indo a remos, 
& chegando a tiro de bombarda dos nossos po» as fus- 
tas em ala diante deles, & começou de lhes tirar com a 
artelharia. E antonio correa lhes mandou, tirar com a 



t94 9ÍL BÊBmOmtM DA IMMâ 

8ua & niujr temperadarodeiiíe porqiifie se Hte ídki gasfatm 
a poluora. E a teiM^ão ide Haig^aroahinuti era vgat de hll 
ardil que Ibe dera bum Xeqae nafaiircde que era Xe-- 
qua de Chaul que encubettantervie qoería g:rantle mal 
aoa noMOff, & peaaualhe da (òftale^a qum se faxia era 
Chaui, & desejaua de os ver destroidos: & por isso orrart- 
dou cofiselhar a Hagamahmut que tomasse ho nosso ba- 
luarte da barra cfue esLaua ao |:ié do* ouleyro ondestaua 
bo facho dos nossos : & que se posesse ás bombardadaa 
eein os nossos r & entre ta abo niamfasse algOas íaatae a 
tomar bo baluarte que di>g#^ & desennbarcariilo em hiia 
calheta na costa^ & dali iria a gente ter ao biiluarie por 
cima do oiiteiro> porque o» nosses Ibe' não podessenr ti- 
rar com a aríeiharia : & ele daria guia que a leuasse, 
como deu por Hagama>hmut ser conlente do ardil. E pe* 
ra bo poer em obra mvindou a>partar ohrai de doze foslaa^ 
que se forão dereytaa á calheta detrás de outeiro, de 
que pojarão em terra obra de éutenit^- homês gente muj 
Jkjzida y & gurandoos bfit criado do Xeque encaualgarão 
bo outeiro onde estaua ho facho por hQ caminhe tã es^ 
fcreito que não cabia por ele anais que hâ* bomS diante 
do outro, & todo isto se via da nossa frota : & muy ou« 
eadamfile os Imigos decerfto de outeiro, & remeterflo ae 
baluarte {} estaua ao pé dele, pareeendolhes l\ ho nie 
poderia António correa socorrer por se defender de Ha* 
giamahmut: & que ho baluarte terra tam ponca gente 
que li)go ho tomaria: & ele pouca tinha, que nfto erie 
mais de trinta homSs, & estes escolhidos , que Antonie 
correa mandara ao sábado que fossem lá estar , recean» 
do que os imigos ho fossem tomar, & foy por capilâe 
destes hQ valente caualeiro & b6 pralioo na guerra que 
auia nome Pêro vaz por mão, que com os que ho acom* 
(ranhauão se pos logo em defensa, a que nenhOa apro- 
ueitaua por as bõbardadas sem conio que tírauão as fus** 
tas que deitarão os imigos em terra, & híia delas leuoa 
a Pêro vaz polas pernas , que âdaua sobre húa parede 
do baluarte , armado è bá arnês esforçando os seus , & 



ele cayo embaixo , & doutras n^orrerâ outro caualeiro 
chamado Simfio ferreira , & ho condestabre do baluarte 
& faú bombardeiro. E em quãto os peiouros assi chouião 
que era x^ousa espantosa , decerfto os fmigos tam deno- 
dados do cuíeiro que poserão as mãos na estacada que 
ceroaua bo baluarte, dando grandes gritas : & come^an*^ 
do de despender tanta frechada & espitigardada ^ue co* 
bríSo ho énr, E era cousa medonha de ver os nossos tam 
poucos metidos antre tantos, géneros de cousas pêra os 
matarem , & muylo de louuar a nosso senhor como ocí 
goardaua, & eles como pelejauSo & se defendião dos im- 
migos que os não entrassem , estando detrás de hQa se- 
be, qne disso era ho baluarte. £ todos ho fazião tam va- 
lentemfite, que nunca Româos, nem Gregos assi pele- 
jarão. £ António correa que tudo isto via, receando que 
06 mouros tomassem ho baluarte , mandou em seu so» 
corro a Ruy vaz pereyra »o seu batel, & a outro capi- 
tão em outro com obra de cincoenta ou sessenta honiês, 
em que hiã muy bons caualeiros. E vendo os fmigos es^ 
te socorro, tendo ho baluarte no aperto que digo, come- 
çarão com n>edo de se recolher de pressa : & os nossoa 
que os entenderão derão a pos eles & matarão muy (o» 
antes qiie se embarcassem & embarcados fugirão. E ha^ 
gamabmut ^ pelejaua com António correa como vio ho 
desbarato dos seus alargouse da peleja ao remo & foy 
surgir onde estaua dantes , leuando muytas das fustas 
desaparelhadas & arrombadas^ & com os mastos quebra- 
dos das bombardadas dos nossos, & muyta gente morta.. 
E dado António correa muylas graças a Deos de se ver 
aMÍ desapressado foy correr os nauios de sua armada 
pêra ver se auia algus mortos: & não achou nenhQs, 
mIuo dos remeiros , & estes poucos. E despois (by ver 
ho baluarte, em que achou mortos os que disse, & os 
outnos todos muyto feridos, & as adargas St rodelas co- 
bertas de frechas : & a de hik Pêro de queyros tinha vin- 
te & sete: & a de Manuel da cunha vinte cinco: & to- 
do ho baluwte Ht muyta parte ao derredor dele j ficado 



S96 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

delas: & ao derredor estauão trinta mouros mortos, que 
os do baluarte matarão: & pola praya quasi outros tan- 
tos que matarão os que forão socorrelos: & estes pare- 
ciSo (odos honrrados, em terS cab.iyas de chamalutes & 
fotas finas & ter<;ados de prata, & muytos tiuhão espin- 
gardas. E mandando António correa cortar as cabeças 
a todos as mandou ao nosso feitor de Cbaul chamado 
Diogo paez, que as leuasse a Xeque IVlafamede, por- 
que soube que os mouros de Chaul affirmauão que ho 
baluarte era tomado poios tmigos, & folgauâo muyto: 
priacipalmente Xeque Mafamede que dissera ao dia 
dantes que ao outro auia de ser o que auia de ser, co- 
mo que auiâo de matar todos os nossos. E quando os 
oiouros souberão o que foy, & virão tantas cabeças dos 
mortos, que eles cuydauão que auiSo de matkr os nos- 
sos ficarão muyto espantados. E ho Xeque conheceo an- 
tre as cabeças a de seu criado t\ foj mostrar ho cami- 
nho do baluarte aos Tmigos: & fez por ele grande pran* 
to. E ao outro dia mandou António correa enforcar po- 
las pernas em forcas que mandou faz<*r na praya, os 
mouros que morrera na peleja pêra que os vissem os das 
fustas. E ficou Hagamahmut coisto tam quebrado, que 
ounca mais cometeo os nossos posto que estaua diante 
da praya. E despois disto mandou António correa fazer 
ho baluarte, que foy feito em deus dias & meo muyto 
forte: & pos nele por capitão hQ Aluaro de brito, & 
deulbe vinte espingardeiros pêra ho goardar. E estan- 
do assi chegou d'm Luys de meneses a hua segunda 
feyra ao meo dia. E entregandolhe António correa a ar» 
mada, se foy pêra (?ochim em hQ galeão chamado sam 
Marcos. E foy coele dõ lorge de meneses : porque so* 
bre ter também seruido naquela guerra : & ser dom 
Luys seu parente lhe tiraua a capitania da galé em que 
andaua , & a deu a outro fidalgo chamado dom Vasco 
de lima. E despois de ser chegado dom Luys a Chaul, 
porque Meliqueaz tinha desejo de fazer paz com ho go- 
uernador , por ter fama de quam esforçado caualeiro fo« 



LITRO V. CAPiTVLO tXXXIf, 297 

ra em A frica mãdou recado a Hagamabront que nâo 6- 
«efie mais guerra aos nossos & assi ho fez* 

CAPITVLO LXXXil. 

De como Raix xnrafo ^ el rey de Ormuz se leuâtarâo 
cótra 08 nossos (pie tstauão na cidade ^ na fortaleza. 

JL artido ho gouernador Diogo lopez de sequeira pêra a 
Índia, começou de entrar era Ormuz a géte que Raix 
xarafo mandara fazer na terra firme : do que logo Goje 
Abexir estribeiro mór dei rey Dormuz deu auiso a Ma- 
nuel velho: com que tinha muyto grande amizade. E 
ele ho foy dizer ao capiiSo dom Garda coutinho que 
nâío deu por isso, sem lhe lembrar ho grande perigo era 
que estaua, E mandou dizer a el rey de Ormuz que pois 
dera presente ao gouernador, que rezão seria dalo Iam- 
b6 a ele. E el rey por dissimular coele lhe mandou dous 
caualos & hí^í terçado, & cinto & adaga ricos: & tambS 
porque esperaua de cobrar tudo muyto cedo. E nesta 
conjunção indo Manuel velho, Ruy varela, Miguel do 
vaie, Sc algQs outros folgar ate ho cabo da cidade forão 
auisados iK>r Coje abixir^ que nSo tornassem por onde 
híão porque os auiSo de matar , o que eles assi fezerão 
não tornando por ali. E tampouco não aproueitou saber 
tudo isto Dom Garcia pêra ter mays algQa goarda na 
fortaleza, & a mandar vigiar niilhor que dantes : nem pê- 
ra mandar recolher a ela muytos dos nossos que pousa- 
«So fora , porque os não matassem , se fosse verdade ho 
leuanlamento que tara claramente se dizia, & pêra ho 
qoe Raix xarafo com muyta pressa se fazia prestes, ar- 
mando muytas terradas pêra queimar com elas a nossa 
frota: & armando estancias de artelharia pêra combater 
os nossos na fortaleza. E de tudo isto ho capitão náo 
queria ver nada nem sabelo, posto que a obra se mos- 
iraua [K>r si & alem disso lho dizião: & tamanho foy seu 
descaydo , que mandandolhe hu mercador Baneane di- 

LIVRO V. PP 



t9ft X>A HISTORIA BA JNJMA 

ser |X>r h& scripto que fo8«e cerlo que na noyte segtiio- 
te se auiâ os mouros de teiumiar & enalar todos o8 ao^ 
SOS que pousauâo na cidade: Como que lhe dissera que 
bo leuantaaiento dos mouros era nientira que descao- 
sasse^ assi se deitou mu^^to descuydado ciu sua cama, 
eedi proaer a cousa nenhila : nem soisenie mandar a io* 
hão de meira capitão da caraueJa , nem a Fraocísco de 
sousa bo brauo capitão da galeota que fossem la dormir, 
& (içarão aquda noyt^e na fortaieta : £ aào abastou es- 
te escripto que lhe mandou ho Baneane, «ae a inda 
aendo Manoel velho anisado por fau«i mouro que olbaasa 
por si, parque ele ouuira aquele dia no bahasar (^ue hç 
a praça) hã pregão da parte <le Raix xarafoi que mar 
lassem todos os nossos que pousauâo na cidade, & qu^ 
auja gvãBde aluoroço nos mouros: & com i)uanU> Hàa^ 
ftuel velho disse isto a áom Garcia nâo fez mais que po» 
lo scripto do Baneane, «em Manuel velho com quanto 
isto soube se quis recoÚier a fortaleza nem deu aniso aoa 
outros nossos que pousauâo pola cidade que erâo a^uy* 
los , s» os officiais da alfandega & bo ouuidor que auia 
nom^ Aluaro pinheiro, & bo almotace mor, & os doen- 
tes que estauâo no spirilal. E. recolhidos os nos&os a suas 
pousadas com tamanho deseuyda. Aquela noyle q*ue era 
de bila terça feira na entrada de Noure^nbfo, estando to^ 
dos no primeiro sono : derâo os mouros aeles, •& primei*- 
fsmente ho Xabandar Dormus deu por mar tua nossa 
fusia «m qtie mão estauâo atais ^de dous .grometes , que 
<]ua'ndo sinl^irSo os mouros se esconderão com mtedo : i& 
bo Xabãdar Ibe raaiiidou poer ho fogo., & cuydAJQdo qjUie 
^cau^a de maneira q^:^ se aoemlesse logo, foisse.a cara*- 
-uela que deixou porque os nossos que estauâo nela ,co- 
meçarao de se fie fender com muylo esforço, .& por isso 
bo Xabandar os deixou. E se na .carauela À.:iia iii^ia ou- 
uera capitães & gente comeiauia tle ser: a frota dos i*- 
migos fora desbaratada, .& eles não poserâo 4^m efeito 
seu propósito. )E ido ho Xabamdar sairão os dous gor- 
metes que estauâo oa fusta , & apagarão ho fogo que 



LIVRO V. CAPITVLO UCXXH. 29 

andaua nela. E por esle feito que bo Xabamdar fez (am 
mal lhe mandou el Rey Dormuz poer h&a bealilha co- 
mo a molhar por deaonrra , & em quanto os mouros fa- 
si8o i§to no mar, cometerão outros a alfandega que es- 
taua dous tiros de besta da fortaleza, & outros as casas do 
ouuidor & dos outros nossos, que pousauao pela cidade^ 
dando grandes gritas com prazer de lhes parecer que 04 
auiXo de matar a todos. E crendo entSo Manuel velho , 
que era verdade ho leuantamento dos mouros trabalhou 
com os que pousauao coele , & quasi em camisa c5 lan« 
ças & adargas se acolherão fugindo pêra a fortaleza : o 
que poderão fazer por lhe ainda os mouros não teref^ 
tomadas as portas por onde sayrao. E quis nosso senhor 
^ era a maré vazia, que ao não ser não fx>dcra recolher*- 
se na fortaleza sem perigo de se afogarS, por ser ao lon* 
go dela cuberto dagoa cò maré. E vendo ja fao capitão 
dÕ Garcia Coutinho () bo leuantamento dos mouros era 
de verdade, achouse muy salteado por estar muyto de- 
sapercebido pêra sofrer cerco como se esperaua : & hq 
f^rincipal desapercebímento era não ler agqa que estaua 
m cisterna da fortaleza chea de lenha, & ela não tinha 
tmtra agoa nem lugar perto donde se ouuesse: & tamb9 
àu cobelo que estaua sobre a porta da treição !\ saya ao 
«nar estaua cheo de lenha, & nenhum tiro dartelfaaria es- 
taua concertado, nem posto onde auia destar, & a reuol- 
4a era muy grande pola cidade aasi da grita dos mouros 
€omo dos nossos, que ouue algfis que se defenderão, asr 
ei como foy ho ouuidor & algOs Ghristãos da terra qu^ 
se acolherão ao spirilal, & dali se defendião porqpe erão 
casas fortes, que outras forão logo arrombadas Sc mor- 
tos quantos estauão dentro, & elas queimadas. E por 
ser de noyte não quis o capitão que lhe socorressem da 
fortalesa polo perigo que se nisso corria. 



PP S 



300 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T Y L O LXXXIIL 

J)e como 08 mouro9 começarão de bater a fortaleza^ ^ de 
como dom Garcia mandou pedir socorro á índia. 

Hâ vinda a manhaã começou de se leuanlar grande la« 
bareda de fogo no niadraçal ou casas onde pousaua ho 
ouuidor, & assi oo esprilal^ que os mouros poserão po- 
ios não poderem entrar : poio que se couheceo na forta- 
leza que ainda ali estauâo algus dos nossos viuos, O 
que conhecendo dom Garcia mâdou os socorrer por vin- 
te cinco dos nossos, em que entrauão Manuel velho , 
Ruy varela, Diogo fbrjão, Vicente dias, & Goni;alo viei- 
ra, ^ lodos biâo bem armados. £ quãdo chegara aoMa- 
draçal onde pousaua ho ouuidor acharão alguOs mouros 
com que pelejarão, & saluarâo algOs dos nossos, & assi 
Christãos da terra , porem ho ouuidor era ja morto , & 
morreo aflbgado do fumo. E com ele & com outros que 
morrerão a ferro forão mortos bê sessenta^ E quando so 
os nossos recolherão teuerâo hQa grande peleja cõ muj- 
tos mouros que lhe quiserão tomar a dianteira, & muy- 
tos dos ímigos forão feridos & mortos : & os nossos fura 
todos feridos & se recolherão á fortaleza , & recolhidos 
dÕ Garcia se aparelhou logo pêra se defender, mãdando 
assestar a artelharia nos lugares necessários, & repartio 
as estãeias por esses principaeis que estauão na fortale- 
za. E assi se despedio lohão de roeira com recado ao 
gouernador de como a fortaleza ficaua cercada pêra que 
mandasse socorro : & Francisco de sousa ho brauo se 
foy logo pêra a sua galeota, que foy alada pêra junto da 
fortaleza porqoe os mouros a não queimassem. E nesie 
tempo estaua bua nao de Manuel velho carregada de tâ- 
maras (que em Ormuz chamão congo) pêra hir a índia, 
& por as tâmaras serem necessárias na fortaleza pêra 
suprirem por pão de que estaua muyto mingoada: a- 
eordouse q^ue a nao íbsse descarregada : & despoia de»- 



LIVRO V. CAPITVLO LXXXIII* 60i 

fèila para que da aua madeira se fizessem repairos a ar- 
teJbaria , & assi algQas eslaocias de que auia grade ne- 
eesidade, porque na fortaleza não auia nbua: & porque 
06 mouros auiâo de querer impedir cbegarse esía oao a 
fortaleza determinouse que Fraucisco de sousa com a 
enchente dagoa a leuasse a loa na sua fusta ate ho mais 
perto da fortaleza que podesse ser : & por terra acode^ 
lia Manuel velho cõ vinte cinco espingardeiros dos nos« 

005 pêra defender que não chegassem os mouros á praia, 

6 sairia pola porta da treiçâo defronte dode a nao esta- 
ua : isto determinado íoy logo posto è efeito. £ os mou* 
ros que ho virão acudirão logo muytos a pelejar eom os 
nossos assi com os qoestauáo em terra como com os que 
atoaufto a nao por mar apertando os íbrteroeate , & com 
tudo os nossos derão com a nao em seco junto da forta- 
leza : & por a peleja ser muy- grande^ & os mouros muy- 
tos , forão mortos algCls dos nossos assi na fusta come 
em terra, & hQ deles foy hum Gonçalo vieira homS muy 
esforçado, & os outros quasi todos feridos: & dos mou- 
ros também ho forão muytos, & algQs mortos: porem 
como digo a nao foy recolhida, & desfeita pêra repairos 
da artelharia, & pêra algílas tranqueiras de que despois 
ouue necessidade. £ neste tempo adoeceo Frãcisco de 
sousa que estaua na sua galeota com algQs dos nossos 
goardandoa que a não tomassem oa mouros : & por sua 
doença lhe foy forçado recolberse a fortaleza : polo que 
bo capilão mandou a esses principais da forlaleza que 
goardassem a galeota aos quartos, ho que eles refusarão 
por amor da estãcia da praya que varejaua a galeota. 
£ còselbarão ao capitão Q a não mandasse goardar^ por^ 
Ibe auião de matar ali a gête sem seruir de nada, & ^ 
seria melhor poupala pêra defSder a fortaleza : & ho ca- 
pitão tomou seu cõselho. £ iicãdo a galeota sem go^rda 
logo os mouros a queimarão» £ nestes dias chegou ao 
porto Dormuz bua nao do capitão (| vinha da índia car- 
regada darroz & de açúcar, & doutros mâlim&tos, & foy 

;ir diãte da põla em ^ estaua a nossa fortaleza : & 



èOl HA tfldtOftXA DA iNDtA 

Mbendo m fioMos a carega ^ a nao trasia 13 necessária 
peta èe teai|M pela necessidade (| auia de niJlíiiuSlos na 
Ibrlaltíza , quiserfio descarregar logo a nao, ho capitão 
nSo quis, nSo se soube e5 que determinação* E como {[r 
i^ue os fmigoÉ ádaoSo oiujto alerta pêra faserem dftno 
aos nossos teuerão a nao em espia sabSdo que trazia 
«lantíuientos^ êi bfia noyte lhe poserão ho fogt^, que an- 
dando bem ateado nela , foy visto da fortaleza de que 
Jogo ho capitão mSdoa tirar com a arteiharia cuidando 
i)ue fízesge coimo afastar os Imígos: que fazendo escár- 
nio dos nossos tiros porque lhe não empecião dauão 
frandes grilas. E tendo ho <;api(ão que não aproueíta- 
«lo os tiros, mandou a Ruy varela & a Manaei velho, 
i)»e fossem com algSs espingardeínos fazer afastar os 
mouros^ & eles ho fizerão assi saindo pola porta da treí« 
-çâò, & começarão de sacudir os mouros que não vião os 
«nossôs com a grade claridade do fogo que os cegaua. B 
>rendo os mouros que de cada .^^ mais caiâo muytns 
taortos afaetarãose antes que ho fogo se ateasse de todo: 
então chegarão os nossos, & npasfando parte do foge 
eatuarão ainda algfl arroz : que os ajudou a manter algfts 
dias. 

C A P f T V L O LXXXIIIf. 

Db como sabendo Mtinud de sonsa immres ^ el Rey Dor^ 
muz estana leuantado , foy socorrer a nossa fortaleza : 
^ do que fez em chegando. 

liim quanto isto assi passaua em Ormuz Manuel de 
Sousa tauares capitão mor do mar , andaua como disse 
guardado a costa dos noulaques: & por hfl grade tem- 
))oral que lhe deu se acdbeo ao porto de JVIazcale: on- 
de nesta conjunção foy ter Tristão vaz da veiga que es- 
taua por feytor em Calayate: & leuana cSsigo obra de 
trinta dos nossos: & eslanJo aqui chegou recado dei 
Rey Dormuz ao XeQ de Mazcato como ^ra leuanlade 
contra a nossa fortaleza, que 6zesse ele ho mesmo ^ & 



Livjio V. cAFvnhP m^muu ^09 

^e «er Jeai aM nowu» oq ppr oAO rc^MW^r ^be^kq^r a .^ 
Rey Dvim^z pareçMdibe qiue ^fio aiii«/49'|)6fief hjjr ftr 
MaQie coifi aquele fi^yio: i^wpddec) 4b «i Rf^D^rai»?» qu9 
ciiào auia 4e »er coniri^ qs ^o^m» » aiíjle^ i>mÍ9^ do fwr^V 
.a vida ppr jeií^ís: & >hp. nit^atoo <liali^ a ki^nu^l d# 0f>fiw 
ji que» tDQSUroo as caf taf d^l R^y I^^MiWZf q^die lhe d#ii 
j[K>r i^o «>uyíM agftrd^cwi^toa, e^ preiDessad^ ib^ 
^mwm fettaa i^ujlM wd^cee^ em .o^id^s iM Rt^ loLe Pofr 
4MgaJ fior aquf^i» «t^r-ui^^ qi^^^be ía^iia*^ jd^siAfilyiiiiN» 
ele4be4du A%ua« p^a9 ric^sr &.eato WUii4d0.0à^ ^'Ai^tf 
bo 9ie<|ui9 d^ Galaifit^, qmq aab^odo lip. fiwado dei r^y 
vDannuz niaiaii logo eisi^a Poriugu6s«« qii# ç^iaujio Oft 
Jfeitpn^t : & bo «[i^9«pi(^ fi^or^^a Tft8t4o Mas & ana oiitM» 
<qu9 /ofÂu cot^Je^-M la pHeu^fão^ & toipou.Aiedlpria? híb 

iambein Ic^âp dl) t^ipr^Nq^e búa p^dir .acHppirrp^A iodia:> 
& oottipu a Mian^pl d^^outsa bo iií^uâtamõlio^deli-.ey JL>^r 
^uz: ho {| aabido por ^l«^prd^ooAi sua pariida ppnà Pbt 
«pz i & di?u ha paraó ^ 4riKsia a Xr4aiao A(fiz da v^Âgia 
p^ra ir n«^ie cpm o^ ^ l/P^era d# Calaj^alo» £ fey.t^ iar 
Ap lenteadea Manu/el U# 80M^a em Trisião vaz que iaduir 
'Zia a F^Fj^iSo daluarez <^i:f>aicbe qp^ ^àí^ rosnem coeie n 
OrfDU^ , <& m fps^eiu ía^er pre^aa bm naoa úa» 4iioji*rQ8 
^ue eUo viobào ida India* Q qiae ^oleadeodo IV)d0u^| 
4e ^ouM dia^ifaulv^M & ipii^ou c^s^a berços qup únfaa bo 
4>«r:aó de TnH^^o v^a^?., ^ líi^wlbfií ^d? ^ pasaasae ap s^u 
^aleào, (& /qM^ )bi uvjà ifii&ais .aeguco. O qve Triâiâo vaz 
4)UMe por giraod? ^/[rõla^ Sa «av se.qAiis passar aogiSiÊHOv 
fintes deiAaAdo t^AaOíVej de :spius& Sie foy canuMbo Dor? 
muz, & eQi jbtfta agoada qu^ lamaii libe noalarão mouras^ 
dous bofiM^s^ & wilagrpsaaieiHe pode eai/ar «em Ormuz 
pola igraáid^ »f0»^ de ^pQurios qs^ andaua t^o jnar goar*^ 
4Íando qua odo leMcaaae Aepbu ^hmo boss# na tfortaleiza, 
E od ^i^io JMaoMelde aouaa kio sabia^ & assi ho gran« 
tde miiDfifo (d^ ijgextíe que fesilaiMi sobre a noas* forlaleza 
não i^viía 4evK)aF de Ib^ socofirej: : jífèo Jbe kiuJ^raBdo bo^ 



^04 DA HISTORIA BA l^DIA 

perigo que corria nisM, & a perda que perdia que erãe 
bem vi^te init cruzados que ganhara nas presas que ti« 
zera se se deixara andar poia costa , que de todas qu3- 
tas presas fizesse tiaha a sexta parte, por esta maneyra. 
Faxiase de todo ho roonte ires partes tirando prjmeyro 
«a vintena pêra ho gouernador. E destas três partes erão 
as duas ^pera ti Rey de Poriugai , & hua se partia peio 
weyo, ametade pêra ho capitão oiór do mar Dormux, 
"& a outra pêra a gente da armada. B partido Manuel 
de «K>usa cft Pendão ãaluarez çarnache pêra Ormicz ama- 
nheceo ha dia sobela ilha de Queixome, onde lhe açai- 
mou ho vento com qoe auia dStrar no porto Dorcnax , & 
por Queixome ser dela obra de legoa & mea foy Manuel 
de sousa visto da fortaleza, & conhecendose ser ele, iia>- 
bertdo dd Garcia quão pouca gente tra^íía, ooue medo 
qiie recebesse dano da armada dos mouros, que era <l6 
duzentas torradas beiyi artilhadaã & fornidas de muytos 
frecheiros & outra gente de guerra : & por isso mandou 
a Tristão vaz da veiga que artilhando bem hp paraó ena 
que viera ho fosse socorrei*, pojsto que estaua muylo fe^ 
rido de quando sayra na agoada^E ele foy leuando con* 
eigo algos dos nossos J\ forão poucos , & èm ho paraó 
saindo pêra ondestaiia Manuel de sousa, apartafanse 
niuytas torradas pêra atalharem ho paraó que se não fos» 
Be ajQtar cd Manuel de sousa , & chouião sobrele bõbar- 
dadas Sc frechadas sem cõto, & os !| hião no parao tãbS 
desparauâo espingardas & bõbardadas !) farte* E passa- 
do cõ muyto perigo ouuera dir ter em outro, poríj vgdo 
Manuel de «ousa virho paraó, & quão pouca gente tra- 
zia, cuydou que era cilada, &^ dettauão os immigos 
assi aquele paraó: pêra que cuydãdo ele que era dos. 
D0S80S ho deixasse chegar a si & ho metesse no fundo ^ 
& cuydou q«ue viria ah hum loão gonçaluez goarda mór 
Dormuz que era arrenegado, & querendolhe mandar ti- 
rar com hu tiro, chegou mais ho paraó & foy conhecido 
Tristão vaz: & por isso Manuel de sousa mandou que 
não lixassem. £ chegado ho paraó a ele determiotou de 



LIVRO V. CAPITVLO LXXXIIIT* 305 

86 recolher á ponta da fortaleza porQ começaua de de- 
cer a maré, & com grande presteza mandou a Fernão 
daluarez & a Tristão vaz que se atoassem polas popas 
á proa & popa do seu galeão , & deixando no paraó & 
na fusta algus homens darmas com os bombardeiros se 
recolhessem com a outra gSte ao galeão : o que eles lo- 
go iizerão. E em quãto se fez foy cuberto de frechas ho 
maslo do galeão, tãtas erão as frechadas que os mouros 
tirauão, & assi muytas bõbardadas de que nosso senhor 
quis goardar os nossos* E todauia Manuel de sousa se 
foy com a decente caminho da pÕta : o {} vendo os mou- 
ros por mais que os nossos lhes tirauão com a artelbaria 
se chegarão tanto a eles que entrauão na fusta & no pa- 
rao, & isto antes que Tristão vaz & Fernão daluarez se 
recolhessem com os outros ao galeão, & eles matarão ás 
laçadas quasi todos os que quiserão entrar. E hfl con- 
destabre da fusta chamado laques matou bem seys mou- 
ros com hd marrão, & os outros ho fízerâoali todos muy- 
to bem : porque a fora matarem todos os que quiserão 
entrar ferirão outros muytos. E recolhidos ao galeão fo« 
rão sempre pelejado com os mouros ate chegarem a pon- 
ta da fortaleza em cuja praya dom Garcia tinha manda- 
do assestar hOa espera com f\ tirarão aos immigos que 
seguião os nossos, & coeste tiro arrombarão muytas ter- 
radas & meterão outras no fundo, em que forão mortos 
muytos dos immigos , & dos nossos forão frechados oy- 
tenta, & hum morreo na batalha que durou de iK>la ma- 
fihaã ate hfla hora despois de véspera. E quando des- 
pois quiserão amainar a vela do galeão não podíão cõ as 
muytas frechas que estauão pregadas no masto, & des- 
pois que veyo a maré se fizerão na praya muyto gran- 
des bardas delas. E desta batalha ficarão os mouros da 
armada tão escarmentados que nunca mais ousarão de 
cometer Manuel de sousa ^ ficou no mar por amor de* 
goardar ho galeão & a fusta. • . 



LIVRO V. oa 



soe DA HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O LXXXV, 

De como os mouros derâo bateria á nossa fortalessa , ^ 

do que os nossos Jizerâo^ 

f endo Raix xarafo quflo desuíada lhe sayra a obra do 
peosamenlo que leuera de ieuar os nossos do primeyro 
lanço & malaios c6 lhes toiçar a fortalessa , delerininou 
de lhe dar bateria pêra coeia lhe desfazer os muros da 
forlalexa & enlralos : porque lhe parecia que vindo coe- 
les ás mãos Q se lhe não auião de poder defêder por quão 
poucos erão , & os seus serè doze mil homês & os mais 
deles de feyto: & destes erão seys mil frecheiros, & es- 
ptngardeiros. E determinando ele de bater a forlai<»za 
por conselho de hfi turco (| auia nome IMira aidel grade 
sabedor na guerra ^ mâdou faser bua eslãcia nas casas 
delrey & outra na casa onde fora bo nosso espiritai, que 
ficaua âtre a fortaleza & os paços dei rey, & afora os ti^ 
ros que tirauâo destas duas estâcias auia outros muytos 
espalhados poios paços que também tirauâo a fortaleza, 
& taro amiúde que não ousaua ninguô daparecer nela 
por aquela parte, por onde lhe os nossos não podião fa» 
zer nhft dano: & fazSdo os mouros muyto aos nossoe 
principalmente da estancia do spirital, ouue ho capitão 
eonselho de dar naquela estancia, por ser iúto da forta-« 
kza : & a casa ser fraca Q era de paredes de barro, & 
cuberta doía: & podiase arrombar com bQ vay & vem: 
bo que se encomendou a Ruy varela & a Manuel velho 
que ho fossem fazer, c& quarêta homês : de que os mais 
leuariâo panelas de poluora pêra logo pegarem coeias fo« 
go^ na casa em que estaua a estancia. E ao outro dia fi 
amanhecendo estando os mouros bem sem cuidado de 
os nossos saireni , sairão eles & derâo na casa tâgendo 
as nossas trombetas; & cõ hlla viga de que âzerâo vay 
& vem derâo c5 h& pedaço da parede no chão , que fez 
portal por onde os nossos podessem fitrar. Ao que os 



LIVRO V. CAPITVLO LXXXV. 307 

tnourot que goardaufio a estancia acodirSo logo cuidan* 
do que fo8s6 os nossos mais do que erão: & defendiSo* 
se fortemente se não forSo as panelas de poluora ^ os 
nossos leuauSo, cõ que algOs tirarSo aos mouros & quei- 
marãnos & e^les como lançarSo as panelas, seruifise des* 
pingardas que leuauão: & começarão a derribamos mou-^- 
ros H ho nSo podCdo sofrer fugirfio, matando c6 (udo 
dous dos nossos: que entrarão na casa & tomarão a ar* 
telharia, que leuarSo a nossa fortaleza, com ajuda dou* 
tros q lhe socorrerão pêra os aiudar a leuar a artelbaria : 
que coroo digo leuarão deixando posto fogo na estancia 
ou casa, cujos telhados arderão logo por serem doia , & 
ficou de maneira que os mouros não se poderão mais a* 
proueitar dela. E ficando Raix xarafo magoado de assi 
desfazer aquela estancia : & lhe leuarê os nossos a arte* 
Ibaria ^staua nela mãdou assestar hâ tiro grosso ao sopd 
doe paços dei rey , que iicaua defronte da porta prínci* 
pai da fortaleza : & estaua este tiro embuçado porque os 
nossos ho não vissem & se goardassem dele. 6omo não 
virão se não quando ele tirou hii pelouro de ferro coado 
com (} vazou a porta da fortaleza. E vendo ho capitão 
que (}bradas as portas ho fiirariao os mouros, acodio lo* 
go a mãdar entulhar por dStro a porta com área, & ho 
entulho foy tam largo que ho tiro não podia fazer nojo: 
& pêra quebrar ho tiro dos Tmígos mãdou assestar outro 
tãbem grosso na igreja, que estaua em hft cobelo de fo^ 
ra da porta da fortaleza. E por^ tinha por certeiro a hft 
António fernandez condestabre do galeão de Manuel de 
sousa, mandoulhe que lhe tirasse ho que ele fez: & 
quebrou ho tiro. Com cujo prazer os nossos df>rão hfla 
grãde^grita , & assi ficarão liures daquela estãcia : poré 
ainda ficarão aos mouros duas daquela parle, & outras 
duas da parle do mar, & hfla delas estaua na xabãdaria, 
que tirana ao longo da praya : que cora baixa mar era 
seruentia antre ho mar & a fortaleza, por dde os nossos 
andauão: & os mouros tirauão ali como j) lho queriao 
tolher. Ho que vedo Manuel de sousa mãdou poer de 

QOL 2 



SOS DA HISTORIA DA ÍNDIA 

fronte no mar a fusla de Fernão daluarez degácom gran* 
des arrombadas de cairo, por!) a artelharia dos Imigos 
lhe não fizesse nojo : & mandoulhe que tirasse aa esian* 
cia dos imigos, & assi bo fez ele: & eonio eles nSo ti- 
nbão com í\ se emparar dos nossos tiros morriào coeles 
muitos: polo que ouuerâo por seu barato daleuantar a 
estãcia, & com outras duas qiie ibes ainda ticauão da 
bâda do mar não cessauão iodas as noytes de bater a 
fortaleza por a!\\ã parte, & de dia com outras duas da 
banda do sertão: assi que continuamente Ibe dauâo ba* 
teria, com que não faziâo tãto nojo nos muros, nem nos 
cobelos da fortaleza por a artelbaria ser miúda, quanta 
era a oppressam que dauão aos nossos tolhSdolhes que 
não aparecessem* E coisto & com a fome que ja auia 
antre os nossos fugirão pêra os mouros algQs dessa gen- 
te baixa, & disserâo a Raix xarafo que na fortaleza auia 
grande fome : & que auia muitos doentes dela & do tra* 
balho que leuauão. E auendo obra de quinze dias que 
duraua a bateria, vendo Raix xarafo bo pouco dano que 
a fortaleza recebia: & quam seguros os nossos estauâo^ 
tomou conselho com Mira aydeL, ho turco que disse : que 
lhe acÕseJhou que escalasse a fortaleza, & ^ lhe parecia 
que a tomaria , porque a sua gente era muyto mais j) a 
nossa em demasia, & mais folgada, &. a nossa doenie 
& casada do trabalho 8& da fome : & que cometesse tam« 
b8 a porta do alcajde mór, quebrandoa com ha tiro. 
E parecendo isto hè a Raix xarafo mãdou logo fazer 
muytas eacadas pêra este feito. 



LITRO T. CAPITVLO LXXXVf. ^09 

CAPITVLO LXXXVI. 

De como os mauros qimerâo tscaiar a fortaUza : ^ m 
nossos lhes quebrarão as escmlas com a artelharia , ^ 
de como vetiiio os mouros ho dano que recebiâo dos no»' 
SOS com medo do socorro da Ináia despejarão a cidade. 

Hl ordenâdose aasi islo , com que 09 dobsos correrão 
grande risco de serem loniados se ouuera eflfeiío, quii 
nosso senhor que fugio ha mouro da cidade pêra a nos- 
sa fortalesa, & descobrio o que os mouros fabricauào: 
o que afrigio 0^)^10 aos nossos, porque vião ho grande 
perigo que era. O ^ sabido pelo capitão ouue conselho 
sobre o que faria, & acordouse que pêra quebrarem as 
escadas posessê sobre as ameas dos muros & dos cobe* 
los vigas roujto grossas com grades pedras nelas & aia* 
^as por cabos : & nas goarilas & cobelos da fortaleza es- 
teuessem jarras de poluora & panelas pêra deitarem 8o« 
bre os Imigos. E porque se fosse cousa que cometessem 
a poria do alcayde mor, que serrassem logo os esteos de 
bua ponte que tinha diante por onde entrauâo, & que R* 
casse iSo pouco por serrar que quebrassem logo com 
qualquer peso, & que deilassS debaixo muyta ola & le- 
nha seca : pêra que caindo a ponte com os mouros lhe 
acodissem com poiuora com ^ se acfidesse a lenha & os 
queimasse. £ estando os nossos apercebidos como digo, 
sairam bfi dia os mouros com as escadas pêra escala- 
rem a fortaleza por bua parte, & vinha grande corpo de 
gente darmas coelas, dando grandes gritas de prazer 
cuidando que }a os nossos erfto tomados ; que logo aco* 
dirão ao muro & cobelos que estauão daquela parte , & 
despararão a artelharia nos imigos, que cumo vinhSo em 
corpo não somente matou miiytos deles, mas Qbrou a 
mor parte das escadas, que era o que os nossos preten- 
diâo, & com tamanho dano se recolherão os imigos. E 
raix xarafo vendo as si|as escadas quebradas não quis 



SIO HA HiSTOfIfA OA INMA 

tornar a intentar de fazer outras, porque lhe pareceo {) 
era escusado poder escalar a fortaleza, & tornou a dar 
bateria. E mSdou armar h& trabuco em hfi pátio dos pa- 
ços dei rey com que lançase pedras na fortaleza & ma- 
tasse o8 nossoe. E assi fora se os mouros souberflo tirar 
4M>m bo trabuco, mas nSo sabiSo, & erraufto a fortaleza. 
£ juQtamete coisto oome<^u de criar húa parede de oy- 
to pés de largo, por detrás doutra que estaua da banda 
de loeste em () tinbio hfla estancia, cÒ tençáo de orecer 
tanto a parede em alto (} sobejasse por cima da fortal^ 
za pêra asseniarfi ali a artelbaria & tirara dentro toque 
se assi fora , fora os nossos dest roídos & ningu6 nSo ou* 
sara daparecer. E fazendose assi esta parede Manuel ve«- 
lho que vigiaua daquela parle tSo perto daquela parede 
que ouuio bater hQa noite, conheceo que era obra que 
ee fazia, & chamou Ruy varela que vigiaua bi perto, & 
assentando que se fazia parede disserSno ao capitão , 
que despois que assentou que se fazia parede da outra 
banda daquela velha, mâdoulhe dar bateria com duas 
esperas , que atroarSo a parede de maneira que se fez 
bua abertura de dous dedos dalto abaixo, & assi fizerSo 
algOs buracos , por onde ho capitão assentou l\ se me- 
tesse jarras de poluora pêra se lhe dar fogo. E antes 
disto mâdoo poer muytos capacetes em paos ao derre* 
dor das ameas do muro quanto sobejassem hum pouco 
por cima das ameas , que cuydassem os mouros (} erjio 
homSs : & mãdou embandeirar a fortaleza & tanjer as 
trombetas & repicar ho sino àn vigia, pêra que os mou« 
ros cuidassem que era vindo socorro ú fortaleza, & lhes 
Qbrar os corações: o que eles cuydarSo ouuindo estas 
alegrias , & vendo tãtos capacetes & murrSes acesos. E 
na noite seguinte que fazia grande tormenta de vento 
nordeste forSo Manuel velho & Ruy varela leuando jar- 
ras & panelas de poluora que fizerão meter poios bura- 
cos questauSo feitos na parede velha, & coisso algua ola. 
B do pé da abertura fizerão hO formigão grosso de poU 
ttora ate a fortaleza : donde despois de recolhidos lhe 



LIMRO y. «APlfflOO IXXXNU B 1 1 

poserSo fogo, que correndo por ele enlrou pela abertura 
& deu na ola de que se aoendeo nas jarras & dali em 
húa eslãcia que ali estaua em que Jogo ho fogo pegou & 
dela saltou nos paços, & deles se CM>meçou dalear pola 
cidade começando de se atear em casas doía que esla- 
uSo nos lerradus, que como ja disse estão tam perto bihi 
dos outros |)ola estreiteza das ruas que logo saliaua ho 
íbgo dús nos outros , & nunca por mais que os mouros 
trabalharão polo apagar quando se começou datear na 
estancia nunca poderão: & ho grande vento que fazia 
ho acendeo táto que fez muyto grade perda nas muitas 
casas Q queimou pola cidade, & mais acabou de <lerri« 
bar a parede velha ode foy posto : & ela derribada ficou 
discuberta a noua que seria daltura de três braças , & 
de comprimento duia grade tiro de pedra : & do cobelo 
de Ruy varela, & do de Manuel velho, a deribarao com 
as duas esperas que digo, & também quebrarão ho tra* 
buço por ficar descuberto que se via da nossa fortaleza, 
& tudo isto,fa2Íão os nossos com grandes gritas & tájer 
de trombetas & repiear da sinos , (\ quebraua mu jto ho 
coração aos Imigos, vendo, quam mal lhos bia & que os 
nossos lhe não auião medo & não somente lhes foy feito 
este dano: mas outros muytos pola cidade com bfl cão 
pedreiro que tiraua tiroe perdidos & otttros muytos que 
deu no seu alcorão. E por isto & porque se Raix xará* 
fo temeo que viesse socorro da índia ^ tam supitamente 
como viera iVlanuel de sousa, & a nao de dojii Garcia, 
& ho parao de Tristão va£ : determinou cõ el Rey de 
despejar a cidade , & irse pêra a ilha de Queixome , íc 
assi ho fizerào despejand» primeiro a gente toda sua fa- 
zenda : & quando se el Key sayo com toda a gente da 
cidade , que foy bua noy te màdou Raix xarafo poerlha 
fogo porque se oe noseos não lograssem dela» 



112 - DA HISTORIA DA TNDIU 

C A P I T V L O LXXXVII. 

■ 

Do que passou antre os nossos despois que os mouros des^ 

pejarão a cidade. 

Mlá conhecendo eles a causa do fogo, como foy manhaA 
lhe fora acodir & bo apagarflo despois de ler feita muy 
grande perda, & apagado acharão ainda algOas taoaaras^ 
& cisternas com agoa, que se não acharão se perderão 
todos com sede por nSo auer na fortaleza agoa nenhfia 
& quasi nenhfls manlimen(os, porque auia perlo de dous 
meses que duraua ho cerco: & tamanha foy a estreite- 
za da regra por^ se daua a agoa, & os roãtimentos l\ a 
cada pessoa se não daua |K)r dia mais que dous peque* 
nos púcaros dagoa , & dous paSs mais pequenos que híl 
punho cada hum, & não comiâo coeles mais que hQas 
poucas de (amaras: 86 coesU regra não 6cou na fortale^ 
2a gato nem rato que não fosse comido, & assi se co* 
merão oyto caualos J\ nS auia mais na fortaleza : & es- 
tando os nossos cÕtenfes pola agoa que acharão nas cis« 
ternas despois da ida dos mouros, sobreueolbes hO gran» 
de desastre, pêra que lhe prestasse ^mal , & foy t\ como 
na cidade ficassem muytos gatos dos mouros como se vi- 
rão sem gente, hiãose com fome pêra a fortaleza, & en- 
trauão polas bõbardeiras, que os nossos taparão por se 
desapressarem deles : & como os gatos não acharão por 
onde ir á fortaleza : & a sede os apertaua deitarãse nas 
cisternas pêra beber nelas, & afogauãose dentro: & quãr 
do os nossos soubera isto^ ja estaua a agoa danada, po- 
r^ pola necessidade t\ tinbão coziãna, & assi a bebião: 
& com tudo perdeose muyta* E tornado a necessidade 
a crecer como dantes, ouuese conselho, que fosse Ma- 
nuel de sousa tauares com sua armada a buscar agoa: 
& primeiramente á ilha Dangão, que he hQa parte da 
de queixome. E por Manuel velho saber bS a lingoa foy 
no paraó com Manuel de sousa , & no caminho Qymou 



LIVRO V. CAPITVLO I.XXXVII. 313 

duas nãos de mouros que estauSo surtas: & não podSdo 
tumar agoa em Angão passou auante a hfl lugar chama* 
do Gidi quatorze legoas de Ormuz , & hi tomou agoa & 
se tornou com grande prazer dos da fortaleza, com quã* 
to a agoa nâo foy tanta que lhe matasse a sede: & a 
fome dos mantimentos era de cada vez mais. E ho mes- 
no auia antre os mouros porque indo eles buscar mãti* 
mentos á terra firme hião demandar a ponta da nossa 
fortaleza pela banda do norte , bo que entendendo os 
nossos os esperauSo ali no paraó & na fusta , & tomando 
os lhes daaSo fudo & muy poucos escapauão desta mor- 
te: peio () eles mudarão a seruentia peia banda dosut, 
onde parece que quis nosso senhor que se leuantou na- 
quele canal por onde as terradas dos mouros hião hQ ba- 
leato segundo seu tamanho & feição, & este as çoçobra- 
na com tanta diligencia que parecia !) não viera ali pê- 
ra outro fim : ho que vendo os nossos louuarão muyto a 
nosso senhor por Iam bom socorro conro aquele fora: & 
leuauão grande passatempo em ver como ho baleato ço- 
çobraua as terradas dos mouros, que vendose tão perse- 
guidos assi dos nossos como do baleato , não ousarão de 
sair de Queixome a buscar mãtimentos: pelo que foy a 
fome tamanha atreles que morrerão muytos. E cuydan- 
do eles que fosse assi antre os nossos , pêra ho saberem 
fizerão fugido a faõ mouro principal que auia nome Coje 
jeialtalebo, grade priuado dei rey Dormuz & conhecido 
dos nossos : com qu6 se deitou dando a entender que 
hia desauindo delrey dormuz. E sospeitando ho capitão 
ao que hia lhe mãdou dar pão & agoa muyto boa que 
tinha em jarras, dizendolhe !} comesse afouto í\ tinha 
muyto mantimento. E ho mouro bebia a medo como 
que receaua que fosse a agoa salobre dos poços da ilha : 
& quando a achou doce espantouse: & muyto mais por- 
que os nossos meterão hQ tanque de pao na boca da cis- 
terna que estaua chea de lenha, & ho tanque dagoa do- 
ce, de que tirarão perante bo mouro cS hu coco per hfla 
corda curta: & ele cuydoa que a cisterna estaua chea 

LIVRO Ym RR 



314 DA HISTORIA JU IWDIA 

Uagoa, & bo mesmo ibe (izerâo crer em bua (ulha a qu6 
6zerâo outro sobrado hu dedo abaixo das bordas, & co« 
brirãorio de trigo como que eslaua chea: do {| se ho 
luouru espantou muyto polo grande discurso do cerco ^ 
Hi como. ele não vinha a saber mais que aquilo lornous- 
se a Queixome dali a algOs dias. £ nisto bo capiíSo da 
fortaleza se começou de cartear com ei Rey Dormuz, & 
uiandaua fazenda a Queixome per hQ António ferDâdea 
cristão nouo & seu criado que era tingoa: & el í\ey lhe 
inandaua tao bem carias & presentes , bo que pareeea 
mal a esses tidalgos & caualeíros & officiais dei Uvy , & 
estranharão ao capitão ho que fazia : dizendo que bo 
oão auia de fazer assi porque eles estauào naquela for* 
taleza que era dei Rej aquém auiáo de dar conta dela* 
£ dizendo dom Garcia que ele era capitão que faria ha 
que quisesse 9 disserâolhe que não faria nem ho podia 
^er sem seu cõselbo, & quisseráono prêder & fazer 
oulro capitão: se não chegara oeste tem|)o dom Gon-- 
calo Coutinho seu irmão , que vinba da ludia em ao<* 
corro da fortaleza. 

C A P I T V L O LXXXVIil. 

De como dom Gonçah coutínhofoy em socorro da fariam 
leza Dormuz. E de como el Rey Dormuzfoy morta 
por mandado de Raix sara/o. 

Jl orque lohão de mei^ra qrue ho (oj pedir á índia cbe« 
gado a Cochim, õde aehou dom Duarte, & Diogo lopex^ 
deulbe as cartas de dom Garcia em que contaua bo es* 
tado em que ficaua a fortal^eza: sobre ho que ouuprão 
ambos conselho eoesses BUalgos capitaSs,& pessoas prin-* 
cipais da Ii>dia: em q Dk)go lopez dizia que por quan- 
to doQ) Luia de weneses capitão mor do mar estaua o* 
cupado na fortaleza deChaul que fosse logo em socorro 
dos Bossoa Francisco de sousa tauares no galeão sam 
Diais , & d& Duarte não qjuía diaeado que aq^uilo per- 



LIVRO V. OAPirVLO LXXXVIII. 31è 

(«ncia a dom Luis seu irmão ^ mandaria ho socorro que 
fosse necessário ate ele poder hír, & qu« hiria inuernar 
a Ormuz. E acordado isto screueolhe togo que madasse 
lio socorro, & ele mSdou a dono Gonçalo coutinho por 
ser irmSo de dom Garcia : & foy no s«u galeio qoo le« 
uou carregado de mantimentos, & com a gente neoes- 
«ária. E dissesse t\ dom Gonçalo em chegando foj pri* 
tneíro a Quejxome que entrasse na nossa fortaleza, & 
fisitou ai rey Dormuz aqisem vêdeo muyta parlo dos 
laaatimeotos que ieuaua, & por isso lhe deo muytas pe^ 
^as ríoas, afora bo dinheiro que se mòtaua nos mSti* 
noBtos. E desembaroado ele na fortaleza oessarSo ai 
dissensoSs que auia antre os officíais da fortalecia jc pBB^ 
eoae principais dela & bo capitão ! porque dom Gonçalo 
bo. fauoreceo com sua chegada : & coest^ socorro acaba* 
râe OB nossos de ficar de todo seguros dos mouros, antre 
quem neste tfpo agia grandes Imizadea principalmente 
âlre Raix zarafo, & Miramahmet morado, que era muy* 
to priuado dei Rey Dormuz porque el Rey lhe dormia 
com sua molher, & por esta priuan<^ lhe queria Raix 
sarafo grande mnl , & também a el Rey a que determi- 
nou de tirar a vida, & que faria Rey qu8 quisesse pêra 
ter toda a gouernança do reyno como no tempo passado 
teuera seu pay: & assentado isto com seus parentes, 
emcomendou a morte dei Rey a Raix xarnixii": que ho 
afogou secretamente com a corda de hG arco. E assi 
foy comprido ho que seu pay dei rey lhe pronosticou 

Juando lhe conselhaua que não se leuantasse cõtra os 
'ortugueses porque lhe não auião de tomar mais que a 
fazenda , & os mouros a fazenda & a vida. E morto el 
Rey fez Raix xarafo Rey Dormuz a Patxá roabmetxá 
que fora filho de Raix çafardim: a que Afonso dalbu- 
quer^ tomou Ormuz a primeira vez como disse no Iiuro 
BegQdo, & este fez Raix xarafo Rey porque lhe dormia 
c5 sua may : & morto el Rey fugio logo Miramahmet 
morado, & Raix xarafo ficou com toda a gouernança 
do Reyno. 

RR 2 



S16 lU U18T0RIA VA UIDljl. 

C A P I T V L O LXXXIX. 

Dê como Diogo hpez entregou a geuemança da índia u 
dom Duarte de menesesy ^* se purlio pêra Portugal. 

Jl assãdose estas cousas S Ormuz fezse prestes a arma- 
da Q auia de bir pêra Portugal. E) carregadas as naoA 
entregou Diogo lopez de sequeira a guuemança da ili- 
dia a dom Duarle de inenet»es, dandolbe ele conhecw 
mento de como a recebia com laata gente, tanta ar^ 
telharia, & tantos oauius. E isto feito einbarcousse Dio^ 
go loppz, & coele dom Aleixo de meneses, & outros 
iiiu^^tus fidalgos que tiuhão acabado de seruir seus cal^ 
regos aa Índia, & outros que hião pedir satisfação cfo 
«eus seruiços,. & em Dei&hro de mil & quinhentos & 
vintehura se partirão de Cuchim pêra Portugal, onde 
com ajuda de nosso senhor chegou esta armada a qu« 
Bam soube ho que aconteceu oa viagem. 

L A U S D E Ol 



AcAhoude de 6t»pFemip a presente obra per loSo da barreira de 
loft aluares em a aiuyto nobre & sempre leal cidade de. Coimbra^ 
Aos- XV. dias do mes de Outubro de M. D.liiú 



TAVOADA 

DO QVARTO LIVRO. 



C, 



APiTVLo I. De camofay reformada a pez amt a Raj^ 

nlia de CotUâo. Pag. 1 

Cap. II. De como os mouros de Batícalá se kiumtarão: 

^ matarão xxiiiu Portugueses^ 8 

Cap. 111. De como ho gouemador visitou as fortalezas da 

costa da Índia ; ^ do mais que fez. % 

Cap. 1111. De como remâoperezdandrade partia de Mala* 

ca pêra a China , ^ de como arribou com tempo. 6 
Cap. V. Do q acôteceo a Anrrique leme em Peyú. 7 

Cap. vr. De como dom Aleixo de meneses chegou a Or^ 

muz ^ vrendeo Simão dandrade. 10 

Cap. vii. Da segunda armada que fez ho Scldâoperamâ" 

dar á Índia cõtra os tuássos : ^ a causa porque lá não 

foy. II 

Cap. viu. Do que passou Fernão ealden^a eom dom Go- 

terre^ ^ de como foy morto na terra firme. 13 

Cap. iJK. De co^nojorâo niortos quatro dos nossos< no ser-- 

tão de Cochim. 15 

Cap. x^ De como ha gjouemador partia pêra ha estreito 
< a buscar a armada do soldâo. l & 

Cap. XI. De como ho gouernador soube que çoUimào rex 

era senhor de ludá : ^ linha hi varadas aã gales : ^ 

determinou de peidar coele. 1 ^ 

Cap. XII. De como ho gouernador chegou á cidade delu^ 

dáy ^ a causa porque a não tomou. 22 

Cap. xiiK De €omo ho gouernador se partio pêra Catnch 

râo 9 ^ da muyta gente q lhe merreo. 27 

Cai^. XI III. De como Eytor rodriguez de Caibra eô Itcí" 

fa da raisèhm de Goulâo fez hàa casa de feytoria em 

Coulâo. ao 

XV. Do risco ^ correrão os Portugueses que estauão € 

Omioo em çaimto ko gouernador foy no estreito. 



S18 TA VOADA. 

Cap. XVI. De como dom Femâdo de monrroi ^ loâo 
gonçaluez de coítelo brâco iomarôo duas nãos de mou- 
ros nas ilhas de Maldiua. 33 

Cap. XVII. Do que fez dÓ loâo de Monrroi indo darma" 
da de Goa ate ChauL 34 

Cap. x^iii. Da entrada que fez Dom Fernando numr* 
roi na terra Jirme de Goa^ ^ de comofoy desbaratado 
^ for& mortos muytos dos que leuaua. 36 

Cap. XIX. De cowjo o gouernador queimou a cidade de 
ZeUa , 4* ^ V^ Ihejisserâo ê Adem. 39 

Cap. XX. De como de^pois do gouernador partir Dadem 
Uie morreo muyta gente , ^ a frota foy ter a diuersas 
partes: ^ de como ele foy a Ormuz. 42 

Cap. xxr. De como ho Htdalcão mandou çttfolarim seu 
capitão com trinta mil homfs sobre a ilha de Goa, 44 

Cap. XXII. Do que fez dom Goterre capitão de Goa des^ 
pois ^ se nio cercado. 47 

Cap. XXIII. De como pifolãrim assentou seu arrayal na 
terra Jirme ^ ^ do ardil ^ dô Goterre teuepera se ma- 
tara muytos mouro9. 48 

Cap. XXI III. De como çufolarim começou de dar bateria 
á nossa fortaleza : ^ como lhe 09 nossos ^brarâo hú 
camelo com q a dauã. 49 

Cap. XXV. Do quererão sete difs nossos no arrayal dos 
immigos , ^ de como ho Hidalcâo môdou leuantar ho 
cerco. 5 1 

Cap. XXVI. De como chegou á índia António de salda- 
nha por capitão mór de cinco nãos ^ ^ de como o go- 
uemadar chegou Dormuz^ ^ do qatfez a Fernão dal- 
caçoua. 53 

Cap. xxvif . De como Fernão perez dandrade tornou a 
partir pêra a China , ^ da discrição da China : ^ de 
seus costumes. * 64 

Cap. xxyiii. De como Fernão perez chegou ao porto da 
ilha da veniaga , ^ de como se lhe ouuera de perder 
a frota estando no porto. 80 

«Cap. XXIX. De como vendo Fernão perez que ho Pio 



Ike nâo ^eria der despacho se pariw pêra Caníôo ^ 
^ do $Uw de Cantão. 6S 

Cap. XXX. De como ho capitão mór chegou a Cantão^ ^ 
de cotno despois chegarão ho CÔquam , Compim ^ ho 
Tutâo. 1^6 

Cap. XXXI* De como ho capitão mór mâdou recado aó 
Tutão , ^ foy escripk^ a el rey de sua chegada. E de 
como detxâdo ho embaixador em Cantão se tornsnu á 
ilha Dauenicíga, 69 

Cap. xxxii. Das armadas que ho gouernador mandou 
pêra fora da índia. 7 2 

Cap. xxxiu. De como ho gouernador foy iuemar a Co- 
chi. 74 

Cap. xxxiiir» De como dom Aleixo de meneses chegou a 
Malaca ^ cunhou q lhe fazia guerra el rey de Bintâo. 76 

Cap. XXX V. Em que se escreuem as ilhas de Maldiua^ 
^ o que ha nelas. E de como dom loâo da siluesra as-^ 
sentou paz d* trato com el rey de Maldiua. 77 

Cap. XXXVI. De como ho capitão már do mar António 
de Saldanha foy fazer presas ao cabo de Goardafum , 
^ do que lá fez. 79 

Cap. XXXVII. Em que se escreue ho grande ^ abastado 
reyno de Bengala. 8t 

Cap. XXXVIII. De como dô loão da sUúeira aportou na 
cidade de Chetigâo , ^ do ^ lhe aconteceo. 84 

Cap. XXXIX. Como vedo ho Lascar de Chetigâo § nSopo^ 
dia tomar ho capitão már lhe armou húa t^ei^êo^ ^ de 
coma ho nosso senhor Kurou dela. 8$ 

Cap. xl« De como lorge mazcarenhas foy u itírru do$ 
Lequios ^ do que lá wiesou. 9 í 

Cap. xli. De como sabendo ho capitão mór Fernão t>e- 
rez ho aperto em q%ie estaua Mulaea se paríSo da uhã 
da veniaga , ^* de como chegou a Malaca^ 92 

Cap. xlii. De come ho gouerimdor se partio pêra a ilha 
de Ceilão a fazer húa fortaleza : ^ de como inouros 
de CalicuV acéseiharãa a èlrey, de Ceilão que lhe »&> 
desse fortaleza. 94 



S20 TAVOADA. 

Cap« xi:.irr« Dt^ como ho goutmador sayo em terra ^ 
éesbaraiou os imigos ^ se fortaleceu nela , ^ de Círnio 
lhe el rey pedio paz ^ ele começou a fortaleza. 97 

Cap. XÍ.IIII. De como Diogo lopez de sequeira pariio pêra 
a índia por gouernador dela^ ^ de como chegou lá. 1 00 

Cap. xlv. De como Afonso lopez da costa foy c6 os ou^ 
tros capitães pêra tomar a tranqueira de Muar ^ se 
tomou sem ho fazer ^ 4* dã ardil com, que el rey de Bin-' 
tão quisera tomar Malaca. 101 

Gap. xlvi. De como el rey deBitÔo pos em execução hú 
ardil pêra tomar a nossa fortaleza , ^ de como os seus 
forão desharaiaàos pelos Portugueses. lOé 

Cap. xlvii. De como Duarte de melo capitão mór do 
mar de Malaca foy com outros capitães sobre a trã-^ 
queyra de Muar ^ a tomou. E de como dom Aleixo 
mandou dom Tristão de meneses a Maluco assentar a-* 
mizade com os seus reys. 106 

Cap xlviii. Do que aconteceo em Malaca despois dapar^ 
tida de dom Aleixo de meneses. 1 i l 



TAVOADA DO GVINTO LlVilO, 



c 



^APiTOLo I. De como Lopo soarez entregou a gouer^- 
nança da índia a Diogo lopez de sequeira ^ se partia 
pêra Portugal. Pag^. 116 

Cap. II. De como ho gouernador tornou el rey de Bati^ 
cala aa obediência dei rey de Portugal. l i7 

Cap. III. De como Christouão de sousafoy darmada so- 
' bre Dabul: óp do que lhe lá aconteceo. ibid. 

Gap. iiii. De como ho gouernador despachou certos ca- 
pitães pêra diuersas partes. 121 

Cap. V. De como a raynha de Coulão deu consentimen- 
to pêra se fazer fortaleza. 123 
Cap. VI. De como Eytor rodriguez de Coimbra começou 
' de edificar a fortaleza de Coulão. 125 
Cap. vf I. Dã grande seruiço q a raynha de Coulão fez 
• a el rey de Portugal. 127 



TA VOADA. 321 

Cap. VIII. De como ho gouernador foy ver hú para que 
se fazia arUre hú$ Caimaes na terra Jirme , ^ do que 
lhe acóieceo. 129 

Cap. IX. De como mouros de Cambaya matarão a loão 
gomez nas ilhas de Maldiua com outros nossos. 1 30 

Cap. X. De como despois Dantonio correa socorrer Mar 
laca se partio pêra regú a assentar amizade. 131 

Cap. XI. Em q se escreue ho reyno de Pegú ^ seus cos^' 
lumes. 133 

Cap. XII. De como António correa assentou pazes € Pe-^ 
gú. 140 

Cap. XIII. De como António pacheco ^ outros forão car 
tiuos pelos Aches ^ a causa por§. 141 

Cap. xiiii. Do q ho gouernador fez em Cochim na en- 
trada do verão : ^ de como António de Saldanha che^ 
gou Dormuz. 143 

Cap. XV. De como partio de Portugal por capitão mór 
da armada da Índia lorge dalbu^rque ^ ^ de como dô 
Luys de guzmão arribou ao brasil por lhe ^brar ho 
leme. 1 44 

Cap. XVI. Das brigas que dÔ Luys de guzmão ouue cô 
ho seu piloto , ^ de como os brasis matarão perto de 
sesséta dos nossos. 147 

Cap. XVI !• De como dÔ Luys de guzmã se aleuãtou c6 
ho galeão de que kia por capitão ^ ^ do q fez aos por^ 
tugueses q ho não quiserão seguir. 160 

Cap. XVIII. De como d6 Luys mmidou enforcar cinco 
Portugueses : ^ do mais que fez : ^ de como deixou ho 
galeão ^ fugio. 154 

Cap. XIX. De como os mouros matarão a Manuel de sou- 
sa ^ coreia dos nossos em húa agoada , ^ como des- 
pois se per deo ho galeão. 167 

Cap. XX. De como lorge dalbuquerque com algús capi- 
tães de sua armada inuernarão em Moçambique ^ ou- 
tros passarão á índia. 159 

Cap. XXI. De como o gouernador foy ver a fortaleza de 
Coulã. 160 

LIVRO V. SS 



Ztt TjàVOADJi. 

Cap. xxir. De como loSo gwiçaluex de castelo branco foy I 

for embaixador ao Etídalcão. J61 

Cap. XXIII. De -como indo ho gouernador pêra a ci" 
Jade de Juda se lhe perdeo a uao em q hia. E de 
como não podédo ir a Judajoy suryir á illia de Ma^ 
çua. 16S 

Cap. XXI III. De como ho gouernador chegou ao porto de 
Alaçuá ^ ^ de como soube que Mateus era verdadeyro 
eitd)aixador do Preste. 166 

Cap. xxy. De como ho capitão Darquico foy falar ao 
gouernador^ ^ dtspois ho forâo ver noue frades do mos^ 
teiro de Bisam. 168 

Cap. XXVI. Do sitio do mosteiro de Bisam ^ ^ da regra 
que goardâo os seus frades, 171 

Cap. XXVII. De como ho gouernador se vio com, ho Bar* 
negais ^ jurarão atnbos de dous amizade em notne de 
seus senhores. 17^ 

Cap. xxviii. De como ho gouernador mádou dom Ro^ 
drigo de Uma por ébaixador ao Preste. 17^ 

Cap. XXIX. Do q acôíeceo a Gôçalo de loule indo pêra 
Moçãbique ^ como ouue a artilharia do galeão de Ma^- 
nuel de sousa. 1 8 1 

Cap. XXX. De como lorge dalbuquerque polo recado do 
gouernador se partia em busca dele cô algas capitães 
"dos que inuernarão coele. 183 

Cap. XXXI. De como lorge dalbuquerque mandou pren- 
der Raix sabadim regedor de Calayate ^ ^ do grande 
dano q receberão os nossos querendoho prender. 1 84 

Cap. XXX». Da yrãde tormeta que o gouernador passou 
saiitih do esíretio , ^ eotno se perdeo a gale de Jeroni^ 
mo de sousa^ 4' ^^ V^ morrerão nela. I87 

Cap. xxxrii. De corno o gouernador foy ter a Calayate 
^* dahi a Otm%àz onde inuernou* i 89 

Cap. xxxirii. De como foy por capitão mor da armada 
pêra a índia lorge de brito^ ^ do que aconteceo ao ga- 
leão de Rta/' voz pereyra com hú peixe. . i90 

Cap. xxxv. De como AnUmio correa despois de chegar a 



TAVOAOA. 523 

Maiaca foy sobre a tranqueyra do Pago ^ a desbara- 
tou ^ fez juqir os immigos. 1 9 2 

Cap. XXXVI. Óe como el rey de Biníâo com toda sua gi^ 
te fugio do Pago por medo Daníonio correa , ^ como 
foy queymada ^ destruyda aquela força. J96 

Cap. XXXVII. Do façanhoso feito que cinco dos nossos Ji-^ 
zerâo defendendose de Raja çudameci ^ de sua gente 
que matarão quasi toda ^ lhe tomarão húa lâchara. 1 9 7 

Cap. xxxviii. De como se leuantarão contra Eytor ro- 
driguez capitão da fortaleza de Coulão a raynha de 
Coulâo ^ a de Comorim. 201 

Cap. XXX IX. De como a raynha de Coulão éf a de Co^ 
morim quiserão tomar a fortaleza por treição ^ não 
poderão. 205 

Cap. xl. De como as raynhas mandarão cercar afor^ 
taleza. 208 

Gap. XLf. De como dô jíleixo de meneses mandou socor^ 
rer a fortaleza de Coulão per dom Afonso de meneses. 210 

Cap. XLii. Do § socedeo im guerra aos Portugueses <f* 
aos ímigos. 2 1 2 

Cap. xliii. De como a raynha de Comorim pedio paz a 
Eytor rodriguez ^ se leuâtou ho cerco da fortaleza» 214 

Cap. xlhii. Ue como Cherinamarcar ^ ^ Patemarcar 
mouros estornarão que a raynha de Coulão não as- 
sentasse a paz que cometia , ^ de como se fez deS" 
pois. 217 

Cap. xlv. De como ho gouemador partio Dormuz pêra 
a índia ^ os nossos tomarão duas nãos de mouros , ^ 
do mais que passou. 210 

Cap. xlvi. De como Meliqueaz mandou hú embaixador 
ao gouemador pêra saber se se apercebia pêra ir a 
Diu. 221 

Cap. xlvií. De como Meliqsaca ^ Hagamahmnt sou- 
berão que ho gouemador hta a Diu ^ de como se for* 
falecerão. 222 

Cap. xLviir. De como ho gouemador se partio pêra Diu^ 

' ' & chegou ao seu porto. 223 

ss 2 



8S4 TAVOADA. 

Cap. XLix. De como ho gouernador se via c6 Meliquesa- 
ca ^ com HagamahmuL 225 

Cap. l. De como ho youemador se mudou , do conselho 
gue tinha de tomar Diu : ^ de como mandou ver ho 
rio de Madre Jabá pêra fazer hi fortaleza. 227 

Cap. li. De cotno auendo ho gouernador dir itmernar a 
Ormuz deixou ua Índia em seu lugar a dom Aleixo 
de meneses. 229 

Cap. lii. De como ho gouernador mandou pedir a Niza-- 
maluco senhor de Chaul lugar pena fazer húa fortale- 
za : ^ se partiu pêra Ormuz. 230 

Cap. Liit. De como Diogo fernãdez de bga ouue Fer- 
não martinz^ ^- os outros que estauão êdiuy ^ sefoy 
pêra Ormuz. 231 

Gap. £.1111. De como partirão de Cochim lorge dalbu- 
querq pêra Malaca ^ lorge de brito pêra Maluco. 232 

Gap. lv. De como dom lorge de menesesfoy em ajuda 
dei rey de Cochim contra el rey de Calicu. 233 

Cap. lvl De como sabendo el Rey de Portugal quâ mal 
se qastauão as rendas do reyno Dormuz , mandou re- 
colher o que sobejaua do gasto do reyno : ^ pêra A# 
saber mandou que ouuesse officiaes Portugueses nalfan- 
dega Dormuz. 23 é 

Cap. LYii. De como tendo el rey de Narsinga desbara^- 
lado ha Hidalcão mandou dizer a Ruy de melo capi- 
tão de Goa que fosse tomar as tanadarias da terra Jir" 
7ne , ^^ de como as tomou ^ ficarão dei rey de Por^ 
tugaL 237 

Cap. LViii. De como Raix xarafo prouocou ho sogro dei 
rey Dormuz que ho fizesse leuantar contra os nossos. 240 

Cap. Lix. De como ho capitão már António correa pele- 
jou em Baharem com el rey Mocrim ^ ho desbara- 
tou.. 241 

Cap.. lx. De como morreo el rey Mocnm. E de como 

António correa mandou a sua cabeça ao gouernador 

com a noua da vitoria y ^ da sepultura que Ihefoy 

feyta.. ^ 247 



TAVaADA. 82S 

Cap. LXir De como lorge dalbuqu€r§ chegou a Pacé^ ^ 

determinou de restiiuyr no reyno ho pnncijjé q leuaua 

da índia. 249 

Cap. lxii. De como el rey Daurufoy sobre Paccptra 

. pekjnr cõ o tirano q tinita o reyno vsurpado. 2ó 1 

Cap. LXiiu De como lorge dulbuquerq desbaratou ^ ma- 
íou em hum combate ao Tirano que tinha vsurpado ho 
reyno de Pacem. 2ò2 

Cap. lxiiii. De como ho príncipe foy recebido por rey 
de Pacê: ^ de como lorge dalbuquerque fez huajor^ 
taleza em Pacem. 2ò4» 

Cap. lxv^ De como lorge de brito foy morto em Achem 
com outros muytos de sua armada. 2ô5 

Cap. lxvk De como por morte de lorge de brito suce^ 
deo na capitania de Maluco ArOonio de brito seu ir^ 
mão §- do mais q passou. 2ò9 

Cap. i^xvii. De como ho gouemador Diogo lopez de se* 
^ueyra mãdou por capitão mór Diogo femandez de be* 
ja a Cambaya , ^ do que lhe aconteceo. 2(>l 

Cap. Lxviii. De como Hagomahmut saio com algúas 
fustas de Diu a pelejar com os nossos ^ ^ os desbara- 
tarão: metédo no Judo ho nauio de Gaspar doutel. 263 

Cap. lxix. De como partio de Portugal dom Duarte de 
meneses por gouemador da índia y ^ de cotno chegou 
lá com toda sua armada^ 266 

Cap. jlxx. De como António correa úuue a ilha de Ba- 
haréy ^ a fortaleza de Califa: ^ se tornou a Or- 
muz. 207 

Cap. lxxi. Do' conselho que ho pay dei rey Dormuz lhe 
deu q não fizesse Irei^ão aos nossos. E de. como a trei- 
çâo foy descuberta ao gouemador. 269 

Cap. lxxu: De amio Ao gouemador mudou ho conselho 
que Unha de fazer fortaleza em Madre f aba ^ ^ a co- 
meçou em ChauL 272 

Cap. lkxiii. De como dom Aleyxo de Meneses chegou a 
Chauly ^ de como Hagamakmul capitão de Meliquiaz 
correo per mur aos nossos.' 27 é 



tf< TA VOA BA. 

Cap- LxrrfiT* De como os nossos pelejarão aJffúas vezes 
com Hagamahmut : ^ de como lio (jouemador deter^ 
minou de se partir pêra Cochim. 276 

Cap. lxxv. De como despois de os imigos desbaratarem 

André de sousa chichorro , pelejarão com Diogo fer^ 

nandez de heja ^ ho matarão. E de como ho gouer- 

fiador deu a capitania do mar a António correa ^ se 

foy pêra Cochim. 280 

Cap. Lxxvr. De como lorge dalbuquerque capitão de Ma- 
laca 6f* António de brito forão sobre el rey de Bintâo ^ 
^* do que lhes aconteceo. 286 

Cap. Lxxvrf . De como António de brito se par tio pêra a 
Hha da laoa. 288 

Cap* r-xxvfii. De como lorge dalhuquerg se tornou pê- 
ra Mcdaca : ^ de como Laqueximena lhe começou de 
fazer guerra. 289 

Cap. Lxxix. De como Bastião de sousa partia de Portu^ 
gal pêra fazer hãa fortaleza na ilha de sam Louren- 
ço. È o porâ^a não fez. 2yo 

Cap. lxxx. De como se leuantarão os Chins contra os 
Portugueses que estauão em Cantão : ^ prenderão ho 
embaixador dei Rey de Portugal^ é* os ^ estauã coe- 
le. 291 

Cap. Lxxxf. De como Hagamahmut deu hú combate a 
António correa , ^ quisera tomar ho baluarte do ou- 
teiro ^ foy desbaratado. E de como dom Luys de me- 
neses chegou a Chaul : ^ António correa se foy pêra 
Cochim. 293 

Cap. lxxxii. De como Raix xarafo ^ el rey de Or- 
muz se leuãtarão côtra os nossos que estauão na cidade 
^ na fortaleza. 297 

Cap. lxxx 1 ir. De como os mouros começarão de bater a 
fortaleza^ ^ de como dom Garcia maridou pedir socor- 
ro á índia. 300 

Cap. lxxxiiu. De como sabendo Manuel de sousa taua- 
res ^ el Rev Dormuz estatia leuantado, foy socorrer a 
nossa fortaleza : ^ do que fez em chegando^ 302 



TAVOADA. 327 

Cap. txxxv. De como os mouros derão bateria á nossa 
fortaleza , ^ do que os nossos Jizerâo. 306 

Cap. Lxxxvi. De como os mouros quiserâo escalar afor^ 

taleza : ^ os nossos lhes quebrarão as escadas com, a 

arielharia^ ^ de como vendo os mouros ho dano que re- 

cebião dos nossos^ com medo do socorro da índia despe^ 

jarâo a cidade. 309 

Cap. lxxxvii. Do que passou antre os nossos despois que 
os mouros despejarão a cidade. 3 1 2 

Cap. lxxxvii I. De como dom Gonçalo Coutinho foy em 
socorro da fortaleza Dormuz. E de como el Rey Dor^ 
muz foy morto por mandado de Raix xarafo. 314 

Cap. Lxxxix. De cQnw Diogo lopez entregou a gouer^ 
nança da índia a dom Duarte de meneses ^ ^ se par- 
tio pêra Portugal. 316 



FIM DA TAVOAPA* 



HO SEXTO LIVRO 

D A 

HISTORIA DO DESCOBRIMENTO 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PÓLOS PORTVGVESES. 

Feyto por Fernão Lopez de Castanheda. 

Impresso em Coymbra. 
Com priuilegio ReaL M* D* LIIIL 



) 



HISTORIA 

DO 

DESCOBRIMENTO 

CONQ VISTA DA ÍNDIA 

PELOS 

PORTVGVESES 

P o tt 

FERNÃO LOPEZ DE CASTANHEDA- 



KOVA BDIÇXO. 



LIVRO VI. 



LISBOA. M.DCCC.XXXIIL 

KA TTPOORAPHIA ROLLANDIANA« 

POR ORDEM SUPERIOR, 



eec)ee)eeeeececce€ee€M)()3CK)(KKi(K}(icK}Q^ 

HO LIVRO SEXTO 

DA 

HISTORIA DO DESCOBRIMENTO 

E 

GONQVISTA DA ÍNDIA 

P£LOS PORTVGVESES: 

Em que se gob16 o que «les fizeráo do tempo que « 
gouernarão dõ Duarte de meneses^ Dom Vasco da 
g^ma conde da Vidigueira & almirante do mar Indico. 
£ dom Anrrique de meneses per mandado do inui- 
•clisfiimoRey dom Manuel de gloriosa memoria: &do 
muyto alto & muyto poderoso rey dom loão seu filho 
ho terceyro deste nome nosso senhor* 

Feyto por Fernão Lopez de Castanheda. 

CAPITOLOI. 

De como dom Luys de meneses capitão mór do mar da 
índia foy socorrer a fortaleza Dormuz , ^ de como 
partia pêra Malaca Martim Afonso de melo Coutinho. 

X artido Diogo lopez de siqueyra pêra Portugal, par* 
tiose o gouernador pêra a cidade de Goa pêra da hi 
mandar em socorro da fortaleza Dormuz a dom Luys de 
meneses seu irmão Q eslaua fazendo a fortaleza êChaul. 
£ chegado a Goa mãdoulhe ho galeão sam Dinis em ^ 
auia dir a Ormuz , & mandoulhe ho regimõlo do que a< 
ília de fazer. E porque a capitania deste galeão era de 
Francisco de sousa tauares, de que atras ííz menção: 
deulhe ho gouernador em satisfação a capitania de b&i^ 

LIVRO VI. A 



2 BA HISTORIA I>A IMniA 

galé real em que ho mandou aCbaul pêra Sdar darmada 
ate Dabui |x)r capitão mór de dez ou doze fuataa : & in* 
do de caminho queimou no rio de Zinguizara & no do 
Betele algilas tiaos & cotias, hClai varadas & outras car- 
regadas de mantimentos. E chegado Frãcisco de sousa 
a Cbaul , pariiose dõ Luys pêra Ormuz ^ 8c for2o coele 
Rui vaz pereyra^ Manuel de macedo, Ânrrique dema- 
cedo 9 capitães de galeões & Duarte dataide, Lopo da- 
zeueâo . & Peio vaa trauaqos capitães dai nacs. B ele 
partido, partiose pêra Goa JMartim Afonso de melo Cou- 
tinho que ajudaua a fazer a fortaleza , & partiose por 
ter a viagê da China pêra onde auia dir. £ chegado a 
Goa despachou ho gouernador & par tio se pêra Cochim 
leuãdo debaixo de sua capitania Vasco fernides Couti- 
nho & Diogo de melo seus irmãos, & Pedromê irmão de 
Francisco honoê estribeiro mór, & coestes se auia dajil- 
tar em Cochim Ambrósio do rego que auia dir em ha 
jungo: & de Coobím se partioMartim Afonso pêra Ma- 
laca em Abril de mil & quinhentos & vinte doas» 

C A P I T V L O IL 

De como ho gouernador deu a capitânia de Chaul a Sfi^ 
mão dandraae^ ^ mâdou goardar a costa de Cambaya. 

jlLo gouernador ^ estaua em Goa onde auia dinuernar 
despois que mãdou ho galeão sam Dinis a seu irmão 
dom Luys pêra ir nele a Ormuz como disse , deu a ca- 
pitania de Chaul a Simão dandrade que era vindo da 
China, & casara per palauras de futuro com hiia sua fi« 
lha bastarda, & deulhe aquela capitania em casamento: 
o que não podia fazer pola ter Ânrrique de meneses hú 
bõ fidalgo que lha dera Diogo lopez de sequeira sendo 
gouernador , & polo regimento lha podia dar os primey- 
ros três anos por ele ser o que a fizera & não se lhe po* 
dia tirar se não por erros. £ dada a capitania a Simão 
dandrade , partiose pêra Chaul cA hâa armada de obra 



LIVRO VI. CAPITVLO H. 8 

de doze fustas que auia de goardar aquela costa das fus- 
tas de Diu , & auia dandar repartida ê capitanias , de 
hfla auia de ser capitão inór Frãcisco de sousa tauares, 
doutra dom Vasco de lima de Santarém, & doutra IMíar^ 
tim eorrea do Algarue : & ate Cbaul auia dir Simão 
dandrade por capitão mór , & hião nesta frota duzfitos 
homens. £ de caminho quisera Simão dandrade desem- 
barcar em Dabul & pelejar com sete mil homês Q esta- 
uão nela por lhe ho tanadar não querer dar duas galés 
que hi fizerão turcos : & estando ja nos bateys cÕ sua 
gente pêra saltar em terra ouue ho tanadar tamanho 
medo que lhe mãdou dar as ^alés com ^ seguio seu ca- 
minho pêra Chaul. £ chegado lá Anrrique de meneses 
lhe entregou a capitania da fortaleza pola prouisam do 
gouernador^ porque vio Q riã auia de poder fazer outra 
cousa, & deuia a este tSpo três mil pardaos que gasta-* 
ra na fortaleza oom dar de comer & outras cousas de 
8erui<20 dei rey de Portugal. £ metido Simão dandrade 
aa capitania da fortalessa, repartio as capitanias das 
fostas como trazia por regimento : & os capitães mórea 
se forão a goardar a costa, em que fizerão muyto dano 
por todos aqueles rios. £ acertando Martim eorrea den« 
trar nò rio do Betele que he muyto fresco sayo em ter* 
ra com obra de vinte cinco dos nossos : & metêdose por 
ho espesso palmar foy assi ate chegar diante de btia 
grandes paços de muytos pátios , jardis & varadas : & 
diante da porta do primeyro palio estauão assStados no 
chão muytos homês & molheres pobres. £ saindo de 
dentro hii hom6 leuantáranse todos muyto de pressa , a 
.qu8 primeyro chegaria a ele: mas ele deixou todos & 
foysé a Marti eorrea , & fazendolbe sua cortesia como 
mouro Q era assentouse coele 6 ha poyal: &ali em pra- 
ticando lhe deu conta como a^les paços erâo de hd grã*^ 
de senhor mouro, que auorrecido das- cousas do mudo 
vittia ali apartado & gastaua ho seu com aqueles pobres 
que auia & com outros, a {} conlinuamente daua esmo^ 
1^ de dinheiro, trigo & arrpz : de que ele era o esmden 

A 2 



4 2>A HISTORIA DA INDTA 

E oistò Bájo ho próprio seobor mouro^ & tnoslrou folgar 
muyto de ?er os. noasog, & fazSdolhes muyto gasalhado : 
66 assentou cò Marlim correa , com quê esteue prati- 
cando ale que foy hovas de se tornar á sua fusta , onde 
lhe mãdou duas vacas , galinhas & fruyta. E nesta pra- 
tica perguntando Marli correa ao mouro a causa porque 
fazia aquelas esmolas, ou que satisfação esperaua delas, 
KespÒdeo que era tanto de sua condiçSo fazer bfi que 
ho fazia poio gosto que nisso ieuaua. 

C A P I T V L O III. 

Do que aconteceo a Marlim correa andando darmada. 

3jj outra vez lhe aconteceo ^ foy ler a h&a fortaleza 
despouoada onde achou hum Brameae velho que os nos* 
608 catiuarão^ & polo não quererem soltar despois que 
foy nas fustas rogou a Martim eorreu que ho r^esgalasse 
por dez pardaos , & que lhe desse licença, pêra ir por 
eles. E ele lha deu jurãdolhe ho Bramene polas linhas 
que trazia ao pescoço qAie tornaria, & a ele nSo lhe da* 
na de não tornar por ser velho & nSo lhe pedio ho res« 
gate se não zombando-: roas ele que jurara de verdade 
não ho teue assi. £ auendo hii pedaço que era partido 
tornou cõ oyto galinhas ás costas: & quando os nossos 
ho virão ficarão espãtados de ho ver tornar y & ele pe- 
dio a Marlim correa muyto perdão de^ão poder tornar 
mais cedo: & lambem que lhe perdoas^ de Jhe não po- 
der dar todos os dez pardaos que lhe prometera, porque 
por sua pobreza não podia dar mais que seys que logo 
tirou, & polo resto trazia aquelas oyto galinhas. E es^ 
pantádo Marlim correa da grande verdade do Bramene, 
& deGoardar tam bem seu juramento: lhe não quis to- 
mar ho dinheiro, & polas galiahas lhe deu dous panos 
pêra se vestir , & mais hu seguro assinado por ele pêra 
que nenhQ Português ^ ho tomasse lhe fizesse mal\ B 
coislo se foy ho Bramene muyto contrate , & ele se foy 



L»VRO VK CAPITYLO IML fr 

neolhemio peraChaul, & na enseada doaBramenes B<h 
hre huas vacaa qoe os nossos quiaerâo matar por nâoie- 
uarem carne euue hfia peleja eojn bem oylocentos mou* 
ros^ de que os nossas ou ue^âo a vitoria & os fizerfto fu** 
gir : & despois foy sobre bú. lugar que se despejou com. 
medo dos nossos , & assi se recolheo a Chaui a inuei- 
nar , onde lambem se oa outros capitães recolber&04 

Ç A P I T V L O IIIL 

De como dom làvys de meneses â kia em socorro Dar-- 

muz chegou- lá^ ^ do que fez. • 

JL/om Luys de meneses que hía* caminho Dormuz che» 
gpu laa na õtrada de Mayo : & fiorque domGareia eou»> 
linho que estaua por capitão da furlaleza Dormuz tep 
acabado ho tempo de sua capitania, ho tirou dom Luya 
dela^ & a entregou a htl íidalgo chamado loão rodrigues 
de noronba que a tinba por el rey de Portugal, & df«- 
pois entendeo em fazer que se tornasse a pouoar Or^ 
4nuz , porque sem isso não ae podia suster a forlaleza 
-por lhe faltarSos mantimentos que n&o yinbão por não 
auer mouros na cidade. £ sabendo ele que não se podia 
isto fazer sem v^tade de Raix xarafo;, trabalhou pola 
aquirir oíTrecendoIbe pi^rdSo de tudo o ^. tinha, feyto no 
leuantamenlo dòl rey Turuxá: & em sua morte: & aasi 
.todos aqueles que nisso fossem culpados: & que se tom 
nassa a pouoar a cidade Dprmuz. Mas como Raiz xa- 
jrafb linha determinado de não tornar a poder dos Porlu^ 
gueses , posta que nisso se perdesae ametade da renda 
do reyno nuca quis : nâo respondendo ,ppi:em claramente 
a dom Luys Q não queria se não desapegadaroente, & 
mais porque Ibe parecia que dom Luys não trazia tanta 
gente que ousasse de pelejar em terra. £ sabendo os 
capitães da frota & outros fidalgos como Raix xarafo 
temporizaua com dom Luys^ conselhauãlhe que não cu* 
rasse de mais dilações y & que pelejasse com Raix xa- 



S MA HfSTOXTA BA ÍNDIA 

rafo : porque eerio eetaua que pois linha em sen poder 
el rej I>oriDuz, & gouernaya ho reyno que nflo auia de 
querer tornar a poder doe Portugueses que lhe auiSo de 
tirar todo ho maodo que tinha. O que dom Luys não 
quis fazer, nem menos poer isto em cõselho pêra sede* 
terminar o que parecesse melhor* E vfido que era escu- 
sado porfiar maia com Raix xarafo que fizesse o que lhe 
requeria , determinou de lhe procurar a morte : porQ ele 
morto el rey Dormuz pouoaria a cidade , & muy to se- 
cretamente mandou cometer ^ ^^ matasse a Raiz xa- 
mixir o que matara el rey Turnxit maadftdòthe offre« 
cer ho goazilado Dormuz^ se ho fizesse , porque sabia 
que posto que Xamixir era parente & capitão de Raix 
xarafo , que era a sua lealdade tão quebradiça que por 
qualquer peita a quebraria quanto mais por tamanha 
como era ho goazilado Dormuz. Eassi foy que Raix xa- 
mixir aceitou de boa vontade a empressa, mas ^ aãe 
poderia matar loj^o a Raix xarafo por andar muyto a re- 
cado que se temia de dom Luys. £ despois de ele ido 
se obrigou a fazelo per hil assinado que lhe disso mã- 
dott : & ficando dom Luys descansado coele mandou di- 
xer a Raix xarafo, que pois queria mudar a cidade Dor- 
muz aa ilha de Queixome Q lhe não daua disso porque 
lambem de lá auia el rey Dormuz de pagar as páreas 
que era obrigado a pagar a el rey de Portugal como se 
esteuesse na iiha dormuz : por isso í( as pagasse & a va- 
lia 4a fazenda que Ibra tomada a el rey de Portugal & a 
seus vassalos. Do que ele foy contente , & assi ho fez. 
JÍm com quãto Raix xarafo não queria tornar pêra Ormuz 
não deixaua clauer paz antre os Pwtugueees & os mou- 
i6s , & tinhão t(ato hAs com os outros^ 






C A P I T V L a V. 

De eomo dó Oarcu^ anrriquez ^ brg4 dalbuqutrque che^ 
. gearão ás ilhas de Banda^ ^ da èií^ripçâo destas ilhas. 

Xorge dalbuquer^ oapitSo de Malaca vendo ^ el rey de 
Bintâo afroxaoa da guerra qite lhe comoqoa de fazer, 
k 4 podia escusar a^gua gente da que tíeba : deternib- 
nou de mandar pop capitão á ilha de Banda a dom Gar^* 
eia awrriquea.sea ccnihado per ser aquela capitania eou-* 
sa d^ muy ta proueito j & deulhe hú nauio* redondo em 
^ fosse com. a gente que podia escusar. £ despachado 
dom Garòia^ partíote pêra Banda na ftirada de laneyro 
de mil Sl quinhentos & lâote dous:. & Sdo de caminho 
pola ilha. £>ajaoa aeboti ainda An4onío de brito no porto 
Dagacim, & como hia dè viagem seguio sua lota ScAn^ 
tonio de brito par lio apõe ele pêra as ilhas de Banda, ^ 
estSo em quatro grãos & hu ten^ da banda do sul , Sc 
sam três que fazem toda» antre si bum muyto bõ porto 
ât redondo eomo alagoa : a mayor delas se ehama BS« 
dá , á meã ftiira^ b a mais pequena Gunuaper que na 
lingoa da terra quer dizer serra de fogo : & assi ho be 
ela que arde continuamente , & por isso he desabitada. 
£ Banda como digo be. a .principal j. & ha nela muytas 
amores que dão a noz & a maça & nacem poios matos 
eomo outras aruores : sam do tamanho de grandes pe^ 
reyras , & assi- tem as folhas ralas & os esgalhos ^ & os 
pés sam Usos como os das larãgeiras & nas folhas se pa- 
rece com pessegueiros, & assi dão a frol como a sua. 
Ho fruito qiie dão estas amores he a noz í\ chamamos 
nozcada que naoe oomo hA pêssego , & no tamanho & 
na cor se parece ooele : & despois de ser de vez a oo« 
ihê & a deitSo a secar ao sol ^ & assi eomo vay secado 
se vay abrindo. & lança hflas folhinhas que sam a maça» 
E tiradas todas estas folhinhas fica ho oarouço deste po<* 
mo que he a noz^ que despois de lhe sfer tirada a maça 



A UA BISTORIA BA ÍNDIA' 

fica ainda cuberCo de h&a caspa preta de cor de casta- 
nha, que despois de ser muyto seca se espede por si 
da noz. Bste pomo ho fazem em verde em conserua da* 
çQcar: k he muyto estimado en toda •parte por sei 
muyto medicinal & saber muyto bem, & também fazem 
dele olio que aproueita muyto pêra frialdade. Apanhada 
esta noz & maça a dSo os da terra aos mercadores es» 
trangeiros a troco de panos baixos : & por faQa corja de- 
les Q na itfaa valera a dinheiro ires cruzados lhe dâo hft 
bahar de maça 1^ sâ quatro quintaes ^ & da noz lhe dao 
sete bahares. Eísta ilha he pouoada de gentios homfis 
pobres & pouco polidos, & de presença despriziuel, não 
tem rey a que obedeç8o<, tem cada {MHioaçáo bii rege-* 
dor a que chamSo Xabandar , & nSo lhes obedece se 
não por amizade. As pouoaçSes sam de casas térreas 
cuberlas doía: a principal se chama lutatâo^ Ao porto 
deâta ilha chegou Anlenio de brito -em «Feuereyro & hi 
achou ja dom Garcia anrriquez, que lhe disse como hi 
soubera de certa certeza que forâo ter ás ilhas de Ma- 
luco duas nãos de Castelhanos que carregarão de cnauo 
& se tornarão , deixado dez ou doze homfis na ilha de 
Tidore a modo de feytoria: &ho como .estas nãos Já íò^ 
rã ter foy assi. 

C A P I T V L O VL 

De como Fernão de magalhóes fez crer ao Emperador 
(Jarlos rey de CaêUla que as tlhas de Maluco erâo de 
sua amquisia ^ de como as foy descobrir. 

Jtl/eynanJo elrey dom Manuel de Portugal se foy pêra 
Castela hd Fernão de magalhães, de que fiz menção no 
liuro terceyro quando Francisco de sá & Bastião de sou« 
sa se perderão aos baixos de Pádua que ficou no ilheo. 
Este por se vingar dei rey dom Manuel , mostrâdose a** 
grauado dele lhe fez ktla grade treyção : que foy dizer 
ao Emperador Carlos quinto deste nome que era tey de 



LIVRO VI. CAPITVLO VI. ff 

Câstela, que pota repartição da conquista que se come* 
çou de faaer^^tre el rey dÕ loão bo segundo de Portu- 
gal , & el rey dom Fernando úe Castela qiie nâo ouue 
effeyto: erão de^eu descobrimento & conquista as íibas 
de Bãda & as ^e Maluco, dandolbe pêra isso algúas re*- 
zÔes : que como nã ouue quem as contrariasse por par- 
te dei rey de Portugal, & erão em fa'uor do emperador, 
& pêra seu proueito lhe parecerâlo bem & bo creo sem 
mais examinar a verdade do que Ibè diz^ia Feroâo de 
magàlhãeis, & asai a hum Ruy faleyro qúe, também hia* 
eoele mais por fazer treyçâo a el rey de Portugal qud 
fK>r outra cauaa & faziasse grande astrólogo, mas não 
sábia iiadA.:..& tudo o que fingia que sabia era ]x>t bâ 
spirito familiar que tinha segundo se deapois soube. B 
estes dous fizerãcr «crer ao Emperador que estas íihae 
que. digo ecãodaaeu descobrimento & conquista, &.se 
ihe oflãreceiâo a lhas descobrir por fora dà naiuegaçdo da 
índia:: & pêra. eale descobrimento se concertou bo £m- 
l^radoTicain certos niercadores que lhe armassem cinco 
Baos-^m Seuiika^ de que deu a «capitania mór a Fernão 
de mai^alfaães , ' &. mãdou coele aba astrólogo chamado 
Attdrea de sam Mártim, pêra que por astrologia .visse 
se podia alcSçar ia saber a altúila de leste a oeste de que 
se.esperaua mnylo 'dajiidar pêra ho dereito deste desço-: 
brimento. E &>j este astrolego com FemSo de maga- 
Ihães , porque ao *lèpo de sua partida se escusou Ruy 
faleyro dir coele: porque parece que soube polo seu fa« 
miliar quSo mal auia de suceder aquela viagem aos que 
a «fizessem^. & deu. a Fern^lo de. magalhâes bil gninde 
regimento de ..trinta, capítulos, pêra ^ por três nianey* 
ràs podesse conhecer, a distancia &l deferen^ça. que an^ 
dasse de lealeti oeste :'^ ele fazia ser caasaimny fácil 
de saber porque sabendose se poderia saber certo se es- 
tas ilhas de Maducò & JBâda erão do descobrimento & 
eonquista de Castela ou não. E coeste regimftlo se par- 
tio. FeYnâo de) raagaJbães iem laneyro de mil & quinhè- 
los &. vinte por-icapitão raóç da frota do Emperador , de 

LIVRO VI. . B 



10 JPA ntBTOMA JM UffMA 

que forSo por capitães eie na sao Triodade & por leà 
pik>lo hú EsteuSo goniez Português , Lnjs de mêdoça 
degradado 4a oao YÍU>ria, & IiÂo .de ear^ajeiia natural 
de BargoÊ da nao eaocto António ^ & Joio serrto natu-» 
ral de Freixinal da nao Sãliago, & Gaipar da queixada 
da nao conceição & piloto loáo Carualbo Português* 
Hiâo nesta frota ate duzètos & cidooenta homès , em Q 
entrauâo trinta & tantos Portugueses de Q soube estee 
nomes, Aluaro de mezquita destremoc, Sc hfl da sihia 
de Coimbra, Martim de magalhfles natural de Lisboa 
fc moço da camará dei rey de Portugal , Estauflo dtaa 
filho dii abade da beira , Gonçalo rodriguea ferrejro n»f 
tural de Leyria, Afonso gonçaluez natural da serra da 
estrela, Nuno criado do conde de vila nona, & hum 
Rabelo. Partido Fernflo de magaKiies eoesta frota do 
porto de SeuiLba foy ter ás Canárias , & dali leaou a ro* 
ta do Brasil , & Còrão ter ao porto de sancta Luaia en* 
de fizerão agoada* E dali indo ao «bngfo da costa contra 
ho sul tomarão bo porto de sancta Mariar & passarib fao 
cabo frio & ho rio doce que he.bfta grande enseada a 
que não virão cabo^ & peserão seys dias em passar dfia 
ponta a outra & sempre por agoa doce , de que fiaer ão 
agoada. £ veado os capitães da frota one Fernão de pa^ 
galhães queria passar deste rio doce nzeranlhe grandet 
requerimentos que não passasse^ & que ho descobrisse: 
porque assi ho leuaoa por regimento do Emperador , a 
que se desobedecesse y soubesse que lhe não auião do* 
bedecer. E eie lhes respondeo por boas palauras, que a 
seruiço do Emperador eompria passar ele auante: pos^ 
que. doutra maneyra não podia dar fim a sua empresa» 
£ passou ficando os capiiães Castelhanos , & msí os pi- 
lotos & mestres muyto descontentes dele , tanto 4 de» 
terminarão de ho matar ou leuãtarselhe, diaendo qua 
não sabião onde os leuaua. Porem Fernão de magaJhães 
não soube disto nada: & naoegando por sua viagem 
sempre a vista de terra c&tra ho sul foy ter na entrada 
Dabril a btl rio grande a ^ pos nome de sam lulião oa 



&IVM TA OliriTVLO Wt. ti 

éoÊ jiates ^ 4 ^^ *on corenta :& nooe^ graos , & a terra 
era Ioda escaluada sem aruoredo aem eruaa & mujto 
fria 9 & a gente dela vestida de peles & muyto pobre : 
& pori} entraua ja ho inuerno que ali começa em Abril 
& dora ate Oytubro, determioou de inueroar ali,* pêra 
o que raeteo a frota no rio que mftdou descobrir por 
loãó serrão , & em quanto foj descobrilo fiíerao os tree 
capitães conjuração eõ algfls outros de matar Fernão de 
magaUiães & tornarse pêra Seuilha , determinando de 
dizer áo' Enifierador que bo fizerão por èle oAò querev 
goardar «m regimento Sc fazia caminho muyto 4bra do 
qoB lhe ale mãdara. E sendo isto sabido pqr ele , teue 
maasTra como se sayo logo pêra fora do rio com sua 
nao , não mostrando ser sabedor do Q se lhe ordenaua ^ 
antes dissinniJando grãdemente. £ ^aydo lòra comuni* 
con «a eoueà cõ ho oouidor darmadai dãdolbe mindamen'- 
ta aa rcoAes porQ não quisera deaoobtif Jio ri^* doce. £ 
como (H^' aquela tu> esgana de ir ter^M» vèrdadeyi^ 
«anâiiho de: Maluco: .Icvpera isto a««r «fieyto cfipria 
aauyto âusemejuiitii^ dantes «apitftes, porque doutra 
«nani^eá não auiãoidhuMess^arnoeetiiiçodoSnyperadoPí 
•B por^ 9e não p^íafaoer detesjuati^a^eto -grade ;alu<i»^ 
foço & perigitx da^gfe&te da iV«ta , tsna «eoessáÂo^ Vsftf ae 
iftalgUa manba fera se matar Luys ée oKendoça qu^ ^a 
u o^bttija ida K^oujttieeçSo ^ Sc a €fntm tedos se^uilh^', por^ 
morto este logo todos fícarião assessegados & nãe-aiiek 
ria mais amotinações: & bo Emperador seria seruido 
como ele desejaua* £ concertouse que ho mesmo ouui* 
dor ho matasse ás punhaladas j fingindo que lhe leuaua 
hum requerimento de Fernão de magalhães que sayse 
pêra fora do rio onde ele estaua, & fosse de noyte por- 
que ouuesse menos reboliço & os outros capitães lhe não 
acodissem. £ indo ho ouuidor aa sua nao coesta dissi- 
mulação cft companhia apercebida pêra ho caso , estan- 
dolhelhsendo ho requerimento ho matoii ás punhaladas 
ajudando ho a isso os que hião com ele. £ logo ho ou- 
uidor & os seus conteçarão de bradar que viuesse ho 

a a 



12 Dji uraoRiA OM mmiA 

£mperador.& morrwflê os.qoe IhetmBtéífeifireê. J^ io-< 
ipãiio posse da aaoi polo Efnperador mandou aos oiari-* 
nheiros que saysem peta fora com a nao & fossetn.sur* 
gir jijato de Fernão de.roagalhaes, & assi ho fizerão. E 
como foy manhaã mandou ele dizer aos outros doas ca- 
pilães que se desseffi se não que lhes meierta as naoa 
no fudo. E sabido isto poios marinheiros da. nao de loâo 
de Cartagena alargarão as amarras & forâo ter sobre a 
nao de Fernão de magalhães, em que .ele logo enlroa 
& prendeo a Fernão de carlag^na em ferroe^ & despoís 
aGa$pap de queixada, a que no mesmo dia mandou de* 
goiar .& esquartejar com pregão que pubricaua a causa 
povqite : & outro, tanto mandou fazer a- Luys de mendo* 
ça ainda que estaua ja morto ^ & a loão de cartagmia 
porque- se achou que* não tinha tanta culpa degradou fao 
pêra sempre pêra aquelas partes, & assi a Ihjib clérigo 
culpado neste xnaleficío. E esta supita & áspera jostiqa 
pos grande espanto na gente da frota ^ & dali por diãte 
foy Fernão de nagalhães muy temido* £. nibto chegou 
loão serrãa que fora descobrir .ho rio onde ae lhe perdeo 
a nao, & ^e escapou com quaniosthião coele & se toiv 
nou .pêra onde eslaua FerDã<> de magalhães., que man- 
cou logotinr^is quatro saosa monte pêra se corrcgf^ 
xem^ porque andauão. muy to abertas & .daneficadas & 
Aão poderifto solirer a oomprida viagem que estaua por 
fazer. 



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LlVaO VI. OAPITVLO Ytl. 13 

C A P I T Q L O VIL 

De como Fernão de magalhâes mostrou hum regimento 
que leuaua do faleyro pêra se conhecer a altura de les^ 
te a oestCi E do que hum astrólogo que hiu na frota ^ 
os pilotos dela acordarão. 

Vyoncertandose ae nãos Fernão de magaihâes mostroo 
aos pilotos & ao astrólogo Andres de sam Marti tu bo re- 
gimento que leuaua de Ruy faleyro acerca de se poder 
saber a altura de leste a oeste como ja disse. E visto bo 
regimento por lodos, mandoulbes Fernão de magaibães 
que dissesse cada hum o que alcançaua a saber, & sts 
so podião aproueitar dele em sua nauegaqão, E os pilo- 
to» responderão . por escrípto4|iie não se podia vsar da-> 
quele regimento, nem aproueitaua pêra se nauegar por 
ele. E assi bo assinarão: & bo astrólogo respondeo bo 
mesmo st todosr os capi tolos do regi moto que erão trinta 
SaluO' áe quarto que dizia que pola conjunção que a ida 
.tem com. as estrelas fiias, & com ho sol' se pode saber 
âquebúa terra dista, da ontra na altura de leste a oes«> 
te. Ediasé a este capitulo que* não auia* outro caminho 
.pêra. alcabçar a deférBça da altura de norte a sul a dé 
hnte a oeste se não aquete nem ele ba sabia; E acres- 
centou aiiida outras muytasconjunçdes & oposições, ft 
pêra mor clareBa disso fes sobrisso bfl tratado em que 
alegou nbuyta astrologia, & disse ^ aquela regra em 
muy sabida, por todos !os {astrólogos >& cosmógrafos. £ 
•per éla estando e}e'4iaquele porto no meèmo aiíno a de* 
.lasele Dábril' que fora ko ecíipse do sol vira & notara 
'pdo eclipse que aK' tomou , qtie bo meridiano daquele 
iperto .distava .do de Seuiiba donde partirão sessenta & 
liuili grãos de norte a sul. O que sabido por Fernão de 
aMgaábãés & p^los pilotos: foy por todos aprouado p^r 
b5, & quando virão que a. distancia dos grãos era lata 
^uisefãna dimínoir & encurtar a derrota que aieli íize- 



14 SA HISTOBIA DA tSVlA 

tSo , porque se temião de sair do lemite de Castela & 
poserâo ho mesmo porlo em algfias oartas que ieuaufto 
arrumadas em branco , & hfls ho poserflo em corenta & 
três grãos, outros em corenta & sejs: mas a verdade 
foy posta nos papeis & liuros em ^ as eseriuifio, cnj- 
dando que não auifto nunca daparecer como despois pa- 
recerão & vierSo ter ás mãos dos nossos, pelos quaes se 
mostrou Q as ilhas de Banda & de Maluco sam do de», 
cobrimento de Portugal , & aiada atem de Banda três* 
grãos & meyo « & de Maluco dezasseys. 

C A P I T O L O VIU. 

De wmoFemão de magaUtâes pastou ho egtrtito de todot 
os sonetos f foy Ur á ilha de Cubo: ^ de como foy 
morto em htàa batalha com dnu capitães seus ^ outra 
gente, 

Jiintrado ho mes Doutubro q«e ao «oabaua iio innerao 
daquelas partes, determinando Fernão de magaihães da 
prosseguir aquele deseobrimenio que fazia com tamanb* 
falsidade & deslealdade, deu a capitania da oao de loto 
de Cartagena a seu primo Aluaro ds mesquita, & a de 
Lujs de meadoça a sea cunhado Duarte barbosa & a 
de Gaspar de queixada a Joio serrão. E feyto isto par- 
tiose nó mes Doutubro? & indo ao longo da costa do 
Brasil dahi a cento & tantas legoas «e aohou metido 
com toda sua frota em kQa grande enseada , <fc não po- 
dôdo tornar pêra trás foy por eja ate chegar dde faomar 
se metia pola terra , & Fernão de magaihães mSdou le- 
go sondar a boca dele , & poio grande fundo O se aefaau 
conheceo que era estreito Q se fazia do mesmo mar o- 
ceano , assi como se faz ho de gibraltar : pelo que fíoou 
muyto ledo, porque lhe pareceo que aquele ostneito *- 
lua de cortar toda a terra do Brasil ate dkegar ao mar 
por dde ele cria qjue poderia nauegar pêra lMalmà> sem 
ter necessidade de ir pola nossa aaueguçâo ; o que eie 



UTaO VI.' CAPITTLO vin. IS 

receaua muyto por não topar nauios Portugueses, & de- 
terminou de descobrir a^le estreito pêra ver se chegaua 
a outro mar, porque se chegasse dana a sua nauegaçSo 
por muyto boa. £ assentado nisto pos ibe nome a baya 
de todos os sonetos por chegar ali em tal dia. E dando 
conta de sua determinaçio aos Portugueses oome<^u de 
nauegaf por este estreyto, & entrado por ele era a boca 
de largura ho espaço Q tomauão duas nãos bCla iBto da 
outra 9 & despois se alargaua ate hfla legoa , & de cada 
vez de mór fundo que lho nSo achauSo, & de hfta parte 
& doutra auia muy aHas serranias oubevtas de neue. E 
era terra desaU^tada & sem verdura nem aruoredo, nem 
parecia nenhu gado nem alimárias brauas. E indo assi 
acharSo que ho estreito se íazia em duas bocas. O que 
vendo Ferafle de magalhães mfidou a Aluaro de mexqui-. 
ta que fosse por htta delas ate ho cabo, 8c despois se 
tornasse ali , te que ele Êiria outro tSto : & quem che- 

Sasse primeyro esperasse pêra saberem o que aèhauflo ^ 
:; verB o que auifto de faser. E «oeste cõcerto partirão^ 
& Fernfto de mâgalhXes seguia por aua rola a diante 
por antre aquelas grandes & altas serranias eubertas de 
neue^ ate que começou dachar outra terra em que auia 
hiias aruores altas (j[ pareciâo éedros & assi outro aruo- 
redo : & assi Iby ate ho cabo daquele estreito que vio 
que se acabaua no mar oceano, & que a terra por onde 
se fazia aquele estreito ficaua cercada de mar de duas 
partes, O ^ visto por ele tornouse a paragem donde se 
apartara Daluaro de mesquita peva saber dele o que a« 
ekara por sua derrota. E chegado nSo ho achou , te es« 
perando por ele algts dias nilca veo , |)orque segfldo se 
despois sottbe ho seu piloto com à gente da nao se ie- 
uantou controle , & ho prendeo porque náo fossem mais 
auante & se tornassem : como tornarão pêra ho rio de 
sam luliSo, onde recolherão a I080 de cartajena que hi 
ficara degradado & se tornarão pêra Seuilba , dizendo 
que Fernão de magalhães era doudo, & que min lira ao 
Êmperador, porque não sabia ddeslauão Banda nem Ma* 



16 DA HISTORIA X>A ÍNDIA 

luco. E vedo Fernão de magalhâes que Aluaro de mes- 
quita oáo vinha não ho quis mais esfierar por se lhe não 
gastarem os mantimentos, & tornouse por.a{}le estreito 
por ddo saio ao mar oceiano : & a boca por õdo sayo a- 
cbou j} estaua em cincoêta &. cinco grãos de norte a sul 
pêra a parte do «ul , & dali roãdoU Fernão de magalhâes 
Q fossem buscar a linha, equinocial, porQ sabia pelaa 
cartas mesiuas de Francisco serrão, & pelas cartas aa- 
tigas de marear que Maluco jazia «aquele paralelo da 
equinocial: & diminuindo na altura ate se poerxlebaixa 
dela nauegou .por ele cinco meses sem achar JMaluco , 
do que assi ele como os seus pilotos & ho astrdc^o se 
agastarão muyto, porque segiido se despois achou pe» 
los nossos quando tomarão hfia destas nãos na ilha de 
Ternate* A ffirmouse Fernão de magalhâes com hò as*- 
trologo & pilotos da frota que tinhão tanto andado de 
leste a oeste rdespois que sayrão do estreita que enSo 
çaydos do limite de Castela, & que entrauâo. ja muyto 

golo de Portugal. £com temor de toparem jgente nossa, 
; lambem com muyta necessidade dagoa, acordarão de 
deixar a derrota ^ leuauão , & nauegarão pêra a parte 
do norte ate que se poserão em des graos^ & ali acha* 
rão hft arcepetago de maytas jlhas: & tomado ali terra 
virão que ^ gente tinha paraós em que nauegaua, & 
trazia muyto ouro nos braços Sp nas orelhas, & queho 
resgalauão por ferro: $c. daqui ^ cincoSta Legoaji forão 
ter a hua ilha chamada Maçana que tinha rey, que fa* 
zendulhes muyta honrra & gasaliiado os leuou a outro 
rey doiilra ilha chamada Cubo Cjujo yassalo.eca, que re* 
cebeo com muyta jionrra a Fernão de magalhâes, &lhe 
fez muy b5 tralameato: principal mete despois que sou- 
be copf^o era capitão mór dd senhor tamanho como he 
EmperadoT,. ^e quem Fernão de magalhâes fez que se 
fizesse vassalo, & roais bo fez tornar Christão &.a sua 
molher, .& a seus filhos com muytos do seu rey no, & 
pQS lhe nume dom Fernando : & por seu consen tini ente 
íoy edificada hua igreja da auocação de nossa. Senhora 



da vièoria em que ee celebraisa ho offido dioino. £ es- 
tando nesla amizade , el rej rogou a FernSo de maga- 
Ihães que ho ajudasse contra outro rey seu vezinho se- 
nhor de hua ilha chamada Matão que lhe não queria o* 
l^edecer, & sobrisso tinhão ambos guerra. £ por el rey 
ser vassalo do Eroperador, Fernão de magalhãeg lhe 
deu a ajuda que lhe ped4a, & pelejou duas vezes com 
ho rey de Matão, & dambas lhe tnatou muyta genl«« 
£ não querendo <;om tudo obedecer a el rey de Cubo 
pelejou coele outra v^z , & desta foy morto & desbara- 
tado: porque el rey de Matão tinha Biandado fazer 
muitas couas cheas destrepes no lugar onde auía de ser 
a batalha , que em se começando de dar fez que fugia 
com «ua gente. E Fernão de magalhães contêtandose 
coisso os não seguio , & reooíhenda sua gente dão os 
immígos nele, & dão coele nos estrepes onde matarão a 
ele & a Duarte barbosa, & a loão serrão com vinte 
tantos homSs , fie os outros se recolherão aos bateys , & 
metendose nas naes se tornarão pêra a ilha «de Cubo« 



<3 A P í T V L O IX^ 

eyçâo que el rey de Cubo fez aos Castelhanos em 
e matou mnytos deles , ^ de como escaparão fugin* 
. E do que passarão ate chegarem aa ilha de Tiaóre 
hHa das 4thas de Maluco. 



do. 



T, 



-ornados os CasteHianos aa ilha de Cubo , & vendose 
desemparados do seu capitão moor, & de quem os guí-as-» 
se pêra onde auião de ir quiseranse tornar dali. Ao que 
loão caruaHio piloto da nao de loão serrão acodio, di- 
zendo que não fizessem hQa couardia tamanha como ar- 
queia, & que oulhassem em quanta obri^a<^ão lltes fica-* 
ria ho Emperador se lhe descobrissem Bãda & Maluco: 
por isso que ho descobrissem que ele os leuaria lá. E a*^ 
nímados todos coisto, determinarão de prosseguir auar.** 
te , & deranlhe a capitania da nao. E standose aperce^ 

UVRO VI. c 




]• BA airroAiA pi inhia 

bencto pefâ tornar a aua viagem^ mandou elrey deMâ^ 
iSo amea^ eJ rej de Cubo que iria sobrele, & ho de^ 
trttyría se não malasae oa Caslelbaaue & lhe nSo tomaa- 
06 aa nãos. £ como ele estaua amedrontado pola morte 
da Fernão de magalhâea & doa oelroa ouue medo ao a«^ 
meaço^ & preme leo a el rey de Matáo de lhe fazer o 
que queria ; o que logo poa em obra, & pêra isso fingio 
fazer hila grande festa em que conuidou oa capilSes da 
(rola & os principais dela, pêra lhes dar hum banquete» 
porque doutra maneyra oa nâo podia tomar juntos, por* 
que despois da morte de Fernão de Ukagalhães hiâo pou«> 
eas vezes a terra por eonaelho de lofto caruaibo : que 
quikb soube que erão conuidadoa pêra ho banquete, Sik 
que ho querião receber lhes rogou mtiyto que ho nãofi-* 
aessem, porque tinha por sem duiMda que aquilo era 
Ireição. È poi muytas resâes que lhes deu pêra ho aer, 
»ão quisecâo se nâo ir a terra : maa e)e nâo quia ir, nem 
que fosse ninguém da sua nao, & mandou íettar aa An* 
coras , saluo hila sobre que ficou , & esta apiqae pêra 
se leuar logo se fosse necessário. E estando os Caste- 
lhanos comendo debaixo da hiias aruores com grande 
festa & el rey coeles , da neles a gente dei rey armada 
& matarão trinta & iantaa , & o;i outros se acolherão ál 
nãos que estauAo |ierto» £ poderanue fazer porque leão 
earualho mandou desparar alguas peqas darteltiaria , de 
que os immigos auendo medo não seguirão os Caslelha* 
nos, que despois dembarcados por ae verS que erão tão 
poucos que não abasíauâo pêra três naoe queimarão hila 
delas, baldeando nae outraa o que ieuauão, & partiran«it 
se por esse mar desesperados de saluaqão , porque loâo 
earualho com quanto lhes prometera que os ieuaria a 
Maluco , nem sabia ondestaua , nem pêra onde auia de 
nauegar : & sem leuar certa rola nem via se foy por 
esse mar onde a ventura ho leuasse , & foy ter a h&ar 
iUa^ chamada Puloaodo senhorio dei rey de Borneo, on- 
de tomarão dous homens que os Jeuarão aa ilha de Bor* 
neq : & mandarão dizer a el rey cujas erão aquebs naoe 



Jt qM Irasilo iDuylas mereaioriM pêra iralar se Ibm 
dfiwe itceaça pêra aairaiD em terra , & coela aairâo , 
mãdâdo el rey receber os doua capities iiorradamSte &/ 
€Ò gride festa. E leiíadas mercadorias a Lerra assenta- 
rio feyioria, & da hi a doua dias amaoliecerAo derredor 
àêM fiaoa Ireeentos & tantos paraós , & parecia {) pêra 
Uie tomarS as nãos. O Q eles entead^odo se fizerâo logo 
Á vela, & derâo em ciaoo juogos q^e e^taiJiSo no porto 
de que tomarão três em que acharão mujta riqueza qu^ 
ieuauflo de IMalaca dõde erSo, & catiuarilhe toda agô- 
le« £ feyto isto fòrAnse a hfta ilha despouoada ^ est^ 
iifaatada do porto , onde Ibe el rey de Boroeo mandou 
Jogo pedir os catiuos^ mandaiidollfte doua CasteJbaiaos d^ 
fejtoria: dizeado que Uie não mandaua os outros poR- 

rí ficaulo oolbando pola fasenda da feytoria. Ed^ran- 
os catíuoS) mandandolbe diser que ike mandasse ca 
Castelhanoa que lá estauSo : k por ho recado tardar hfl 
4lia cirjrdacio os CasILelhaiios que ibe querido fawr trei- 
-fAo , & por iaeo requererão a loáo. cariíaMio <| se ftartía- 
aeoi , & asai bo fieerSo deixando es ceropaoheiros eoi 
4erra com a faaenda, & (caSo ter a bua iifaa despouoada 
0nde derão pêdor ás nãos por andarem muyto abertas. 
£ dali forão ter a outra ilba cbamadaAfindanao, &dea- 
pois a outra que auia nome Sanguim. E andando perdi- 
dos & sem saber õdestauão Jiem esperança de bo saber 
nunca : & crendo que se cbegaua sua fim toparão com 
bo jfigo daCbiaa qw» bia de MaUicao : & au^o fala deta 
por acenos isouberfto que aiM^o de lomar atras 4^ dmro- 
ta que leaaiiáo, & tomarão pilotes que os leuarão áilba 
de Tidore , hfla das ilbaa de MaJuoe j oad^ cbegarão na 
fim Doutubro de mil & quinhêlos & vinte btt : cujo rey 
os receibeo muyto jbem , & diM ibe derlio erandes pre- 
aeotea^ diaSdo que erão vaasaios dei rey de CaateU fc 
Jio jaór aeidior daGbrístiadade, & por seu .mãdado biáe 
-descobrir aqudas iibas pêra ler itcato noks i& ae ele dia- 
ao fosse .cQat^aia que faria njssp tmuy.gr&de •proueito* B 
^caoido lal.rey dos {irascaites.que. lhe derão., idisse qoa 

c 2 



20 BA HI8T0MA Vá. INOVA 

elle & soa terra erâo dei rej de Castela , & que tha ei^ 
tregaua : & que soubera por seus feyliceiros que erão 
partidas cinco nãos pêra a{|U riba por mandado de hft 
grande rey , & por isso ele era vassalo dd rey de Ca»^ 
tela 9 & lhe obedecia conao a senhor : & que lhe rogaua 
que esperassem dous meses & que lhe daria crauo nouo» 
Ao que eles responderão que nâ podiâo esperar por se- 
rem as nãos velhas, & por isso se queriâo logo tornar: 
mas que dali a dous annos lhe prometião de tornar cõ 
cincoêta nãos carregadas de mercadoria : .& pregunta- 
ranlbe se hião os Portugueses a estas ilhas. É sabendo 
Q si , disserâo muy to mal deles chamado os ladrões , & 
prometendo que lhe auião de tomar Malaca, porc) dela 
ate Maluco tudo era dei rej de Castela, & rogarão a 
el rey que lhe fizesse vender esse crauo que se achasse 
na ilha posto que fosse velho porque coesse iriâo conten- 
tes. O ^ faziâo por se acolher Q temião Q fosso os Por- 
tugueses , & c][ os tratasse mal : í} bfi sabião Q não era 
Maluco de seu descobrimento pelo que tinbâo espceme»- 
tado naquela nauegação: & bem tomarão por partido 
tornarem a suas terras com a uída : & em quanto se a- 
juntaua ho crauo que auião de leuar ficarão cõ el rey 
fazeiKlo veniaga de suas mercadorias. 

C A P I T V L O X. 

De camiy el rey Daternate foy cometido dos castelhanos 
com amizade ^ a não quis 9 ^ de como carregarão 
duas nãos de crauo ^ huafoy ter a espanha , ^ outra 
êeqMis de partir arribou a Maluca^ 

Jtif estando aqui mãdarão oOrecer amizade a el rey de 
Ternate cõuidando bo com presentes pêra isso. £ como 
ele era seruidor déf rey de Portugal auia muytos annos 
não a quis aceitar, antes lhe mandou dizer que era va»- 
aalo dei rey de Portogal, & que a ele queria ter por 
ae&or & não outro ^ & mandou logo recado a lorge dal- 



LnVO TI. djlPlTVLO X. 21 

baquérqoe eapitãa de Malaca , em que lhe escriuia o 
que passaua : & as8i bo escreueo ao goueroador da Ín- 
dia & a el rey de Porlugal. £ estas cartas, mandpq eqi 
ha juDgo que roâdaua a Malaca, pedindo a eirey que 
mandasse prouer aquela terra pois era sua, & que man- 
dasse fazer nela hila fortaleza. £ vendo os Gaslelhanos 
como el rey na queria sua amizade disserâo a el rey de 
Tidore Q quando tornassem com a armada Q diziào ho 
fariâo vassalo do Emperador posto que não quisesse. £ 
el rey de Tidore vendo como -se eles querião ir ; oúao- 
dou apanhar todo ho crauo que se pode auer com que 
carregarão as duas nãos Q tinha, £ a moor parte deste 
crauo era dei rey de Portugal, & dos nossos que lá fi- 
cara do anno de mil & quinhentos & vinte de três jun- 
ges de Malaca que descarregarão na ilha de fiachão 
por não terem tempo pêra irem a Malaca, & hú deles 
era de Guria deua h& nnercador em que hia a carga dei 
rey de Postugal, do retorno da fazenda que Gaspar ro- 
driguez feytor mandou quando lá foy dom Tristão de 
meneses. £ muytos fardos deste crauo leuauâo os no- 
mes dos nos808.de cujos erão, & com a pressa que ti- 
nhão de carregar este crauo cõ medo que não fosse ter 
coeles algfta > armada nossa & es tomasse , cõprauão ho 
bahar a dez & a doze dobrões , & mais corSta barretes 
vermelhos : comprado os nossos ho bahar .a cruzado & a 
menos. £ carregadas as nãos deixarão os Castelhanos 
feytoria nesta ilha de Tidore com todos seus offieiaes , 
a ^ ficarão muyto cobre & outras mercadorias , & dei* 
xarãthe corentabombarclas & muytas bestas & espigar- 
das & outras armas prometendo a el rey de Tidore que 
l^uando tornassem auião de fazer hila fortaleza. E com 
isto -se par tio htla das nãos, de que era capitão & pilo- 
to loão carnalho em Dezfibro de mil & quinhentos & 
vinte hd: & partida foy auer vista da ilha Damboino 
que está atraues da de Banda, de que também ouue 
viata , & assi da costa da jaoa & dahí foy á ilha de Ti- 
mor Õde lhe fugirão dous caatelhanos ^ despois forão ter 



12£ JIA ítmORiA DA flNDIA 

a Malaca com deseuperaçSo de se a oao náo poder mi- 
nar, porque hia (So aberta que a cada relofio dauêo á 
bomba qualro veees ^ & por iaso a tirarão ali a mSte & 
a côcertarfto , no ^^ue 0e deteuerio ate Feuereyro de 
mil & quinbeHfttos & vinte dooa^ k dali oorloii pola al- 
tura do cabo de boa Esperança. £ fazeodose auãte deiâ 
cuydaodo que bo tinba dobrado, cortado dali ao noroeo- 
te foy dar no rio «do Ifante que está /quinze legosB de 
Moçambique. £ nisto ee mostrou quSo pouco aabilo por 
onde hiSo, por quantoa 'grãos aqui erracAo daltuca de 
leste a oeste, & daqui forffo pob nosso caminho ale toe- 
narem a Seuilba : & a outra nao dos caatelhanos que 
partio da ilha 4eTidore desppis desloutra >leeuou suadet- 
rota pêra a terra do Oarift Q he detrás 4a terra Aas an- 
tilbas. £ auendo deus meses que nauegaaa, foraoJhe>os 
ventos tSo contrairos a eua riageuD que Ibe foy forçado 
arribar ás ilhas de Maluco , & quando lohegou bichou os 
nossos fazendo bfla fortaleza na iiba de Teroatás , icomo 
direy a diante. 

C A P I T V L O XI- 

De como António de irtfia ^ dam Garcia mÊwriqu^z m 
partirêò pêra as ãhaa áe Maluco , ^ da àiscripçêo 
deitas iluas. 

.w^abido por António de brito oomo estauão CasteUianoB 
Jk Maluco, & como Unbio assento na terra: temendo ^ 
ieueaseni mais força da que tinbão^ requereo a dõGaf!- 
cia anrriques da parte dei Rej de Portugal 9 que por 
^quanto ieuaua pouca gSte peva pelqar com esrCaatelha- 
-nos & com os da terra & os sugigar , que fo9» c<»file 
com a gente 4 tinba pêra ho ^udar. £ viste per «dom 
Garcia conso aquilo era seruiço delrey aceyjtou de muy- 
to boa võtade fazeie sem lhe lembrar bo muyto que pe»- 
<dia de sua fazõda por não ficar em Bãda , em que lAin» 
iooto de brito assentou amicade & trato com os jla its»- 



&i¥BO ¥K CAPlWii» Xi. 23 

ra : & por memoria diMo pw bfl padrfto de pedra com 
aa armaa raaes^ & sobriaao leaerfla oe da terra coele hU 
gila deferença, & pelejarfio «oele& lhe ferirão algua 
faomfti^ & por darradejro ficarão amigos. £ viiulo bo 
mes de Mayo ^ era a aoiM^So pêra Maluco , pariir&se 
António de brito & dd Garcia com soa armada que era 
de ojto velas , & leuaiifta nela trezentos homèa. £ se« 
ipuindo por sua \\age- ebegarfto a estas ilbas qqe esl&o 
cem legoaa de Bâda : &. ettác» codas noroestesueste ^ â( 
sam cinca a fora outrat muytae de que se faa hfl gran^ 
de areepelago que ocupão grandiasífna distancia demar> 
£ estas cinco que digo que propriamente se chao^o a$ 
de Maluco sam as Q dão bo crauo^. que be tão estimado 
per todas as partes do mOdo. £ sam os seus nomes es* 
tee, Bachâ, Maquiem, Moutel, Tidore & Ternatet 
çstáo todas debaixo da equinocial^ & antre a de Ter* 
nate & a de BaebSo estão as outras trea« E a de Ter* 
nate que be mayor que todas está em bum grão da ban* 
da do sul. Todas eslas ilbas sam chãs poJas fraldas do 
mar, & dali se vay a terra aleuantando algu tanto ate 
duas legoas peio sertão : mas dali por diáte sam as ser* 
xanias tão grades & as rocbas tão altae & os aruoredos 
tão bastos ê^ qarrados que nã se podem habitar. K &to* 
das estas serras ha vieiros denxofre : & em híia da ilha 
de Ternate está bâa boca que continuamente lancha es- 
pantesas labareda» de fogo. Todas per estas duas legoas 
que digo sam cubertaa de muyto aruoredo brauo, & an* 
irek nacem as amores que dào ho crauo: de que prin* 
cipelmente ha mais emMoutel & Maquiem que em ne* 
•bfta ^as outras. As aruores que dão ho crauo sám do 
tamanho das que dão a noz , & em terem os troncos ii« 
SOS & a rama copada se parecem eom laranjeiras: porem 
as folhas parecése com as do loureyro* IMace bo crauo 
per todas elas em pin botas como madre stlua , & quido 
hé de yn está verde. Os {| ho apanbão se sobem nestae 
aruores fc com bQas canas de forquilha ho colhem & 
4fiitfto em hVíB cestinhos que trae& na cinta^ & nista 



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J24 DA mSTORTA Úk INDfA' 

quebrSo todos os raminlios & gomos que estas ar^iores 
metem tie douo, pelo que fíc&o tão daneficadas que ná 
éHo crflHo ho anno seguinte & se reformao nele perada- 
rS ho crano ao outro anno : de modo que pda mayor 
parle não dã nouídade inteira todos os anos. Apanhado 
ho crauo bo deitão ao sol a curar, onde anda muytos 
dias & se lorna roxo , & despois negro coroo ho vemos , 
de ho borrifarem com agoa salgada. Ha tambS outras 
nruores que se charoSo <^gu8 de cujo miolo se fnz pflo : 
despois de tirado bo deitão S jarras com agoa salgada, 
& passados aíg&s dias ho seção ao sol , & seco ho mo8 
& da farinha ou pó faz8 pão, que segundo eu vi he dá 
cor do nosso pão de rala , & «abe como pão. Outras ar^ 
tiores diuersas ha nes4as iibas, que hdas dão vinho ou-^ 
trás azeite, outras fruytas: & isto continuamSte qu^ 
não tem tempo limitado, & por isso não falecfi niica. 
Ha também grandes canaueaes de canas de boa grossur* 
ra ^ nacS cheas dagoa muylo boa , & quem vay polo 
mato & ha sede faz bQ furo em hii canudo destas & be^ 
be : ha tambS outras de que se ser ue ft gCte pêra acar^ 
re tarem agoa & vinho & azeite & fazerem de comer & 
sam da grossura dfl braço & de hâa coxa , & os canu- 
doe sam «omumente de <;oitiprimânlo dii couadò & co* 
uado & meo : & ieuão sete , oylo canadas. Nestas ilhas 
ha poucos mãtimenlos, •*& qnasi que vão todos de fora: 
Sc isto por ser a gente muylo guerreira & não se ocupar 
se não em guerras: porS a terra he fértil, & tão viçosa 
que em caindo a folha ao aruoredo logo lhe nace outra 
& nunca está sem ela : & as cabras que vem defora pa- 
rem doas vezes no anno , & as mais dous filhos de cada 
vez, & muytas três & algQas quatro, 8c as porcas tam^ 
bê parS duas vezes no anno, & as cabritas & leytoas 
ainda mamão quando logo emprenhão: & he tamanha a 
fertilidade desta terra que se vão molheres doutra que 
sejâo auidas por maninhas logo emprenhão nela. Ha 
tambfi nestas ilhas bfis bichos como coelhos que tê nai 
bar4'igaa Ms bolsos 4^mo aljabeiras , & quãde pareal' 



LIVRO VI. GAJ^ITVLO Xf. 26 

metem neles os filhos ^ & coeles dentro sem lhe cairei» 
Gorrè & saltão polas aruores dumas em outras: estes se 
chamão cucos oa lingoa da terra & sam rouyto bos pêra 
comer. Ha no mar muyto pescado & muyto bÕ, & hfls 
cangrejos do tamanho de centeias, & assi parecem: & 
tem bCis bolsos como pescoços de lagostas. E est^s saem 
do mar pêra ho mato a comer hua frui la qu€ ha na t^r- 
Ta que se chama Canária & he como amêndoas , & assi 
tem a casca , & eles a quebrão com os deles : estes sam 
•muyto gordos & muyto gostosos' pêra comer , tomãnos 
com candea despois que de noyte saem em terra, & co- 
mo v6 ho fogo estão quedos, & pêra os terem muytos 
dias 08 metem em bda jarra & os mantém com cocos 
•que comS* E com quanto ha nestas ilhas poucos manti- 
mentos, esses que ha nunca falecem nem ha nelas for 
me, porque vay a gente buscar cada dia ao mato ho 
comer de que tem necessidade, & viuem como na pri- 
Tnitiua idade« Todas estas ilhas sam muyXo fortes por 
natureza & arterfício, & tem portos em que os nauios 
-estrãgeiros podem entrar muy difficúltosamente , porta- 
rem todos arrecifes feytos á mSo. Suas pouoações saia 
<:omo digo pola fralda do mar ate duas legoas pelo ser* 
4ão , & as mais delas ou todas sam muyto fortes cõ cer* 
•cas de trãqueyras, & cauas & fortalezas de madeira. 
As casas sam de paredes de terra eubertas doía, som&- 
•te as mesquitas sam de pedra: os moradores sam moa- 
TOS, & auia pouco que tomarão a seyta deMafamede i| 
dantes erâo gentios. He gente bS despostaà mais preta 
que baça assi homSs como molheres: tem todos hua lin^ 
goa & tratanse muyto bem dos atauios do se» corpo, 
comtlmente não sam pêra trabalhar macanicamente : po- 
-rfi sam homSs engenhosos em carpentaria de macenaTÍa 
& em laurar de bastidor. Sã auiy to guerreiros & valStes 
-na guerra & muyto cruéis nela fi ho pay mata ho filho, 
& ho filho ho pay, & aos immigos <} matão oortâo as 
4»beqa8 que podem & pendufãnas ao pescoço poios ca- 
bélo8 , & isto è sioalde bõs caualejrrQB , & aem iaso nSú 

LIVRO VI. D 



f 



OA HISTOaiA DA ÍNDIA 

se tem por taes nè ganhão bonrra. Quando querê^ fazer 
aigúa cousa de sustancia ajuntanse mujrlos a codier era 
(| se embebedâo & despois de bêbados assenlao o ^ hâo 
de íaaser, & ho mais bêbado tS por mais iionrrado: não 
te nauios se não pêra guerra^ & sam de remo : os mayo^ 
res se cbamão coras coras & joãgas, & sam tão compri- 
dos que tem cento & oy tenta remos por bãda, & sam 
rouylo bem feytos. Não tê jungos nê outros nauios dalto 
bordo, porque não ha anlreles nenhus mercadores, nem 
ha antreles outra mer^cadoria que ieuar pei'a íbra se nX 
crauo , & este nâo bo ieuauio por não terê nauios pêra 
isso: & os da ilha de Bâda ho hiâo lá buscar ê seus jâ.^ 
os & ho comprauão muyto barato a troco de panos da 
ndia pêra se vestirS, 4 i^uauão á Banda os mercado» 
res de Malaca : & tambê a troco deles comprauão em 
Bâda a noz , ma<2a & crauo & não queríáo ir por ele a 
Maluco por^ gastauão na TÍagS quasi ho dobro do tem«> 
po que punhão de Malaca a Bâda ida por vinda, que 
erâo seys meses que partíSo de Malaca em laneyro & è 
Feuereyro chegauão a Bfida, & carregauâo em lulho 
em que parlião pêra Malaca & chegauão em Agosto, & 
pêra Maluco auião de partir de Banda emMayo, & che- 
gauão nele por nfto ser ho caminho de mais de cem le» 
^oas, & por amor da mou^o dos leuantes não podiãe 
tornar de Maluco se não em laneiro se achauão carga ^ 
& se nã auião desperar híl anno, & em Banda auião 
desperar ate lulho pêra partirem pêra Malaca. E por 
esta rezão não querião os mercadores de Malaca passar 
a Maluco & achauão em Bãda ho crauo : que despois ^ 
os Portugueses esleuerão em Maluco nâo trouuerào os 
Bandaneses mais a Banda. Os reys destas ilhas tem a 
seyta deMafamede, & conforme a ela casam com muy» 
tas moiheres & sempre tem húa por principal : eles & 
os fidalgos de sua corte a que chamão mandarins se ves^ 
iè ao modo maiayo & os bajus sam de seda rica com 
botões douro, & pedraria poias dianteiras & mangas^ 
Trazem arrecadas nas orelhas, & no pescoço colarei 



douro & cadeas, & nos braços manilhas, & assi se ves* 
(S as molhereS) & nas falieças ^ottkbfeirçs goarnecidos 
douro & pedraria & nas festas coroas douro , & por dó 
irazS panos brancos qiia cbamão 6sas feytos daatre cal- 
cas daruores ^ & nos brai^os manilhas de rota de Benga*- 
la Q sam caninhas delgadinbas, & rapão quâlos cabelos 
tem em seu corpo, & vntanse dolios cheirosos, & tra- 
b6 nas eabeças ISçoa atados* Seruense com muyto graih- 
de estado posto que nâo tô nenhua rSda , que cada lu^ 
gar be obrigado a darlbe btt tanto pêra comerem certos 
dias cõ toda sua casa , & isto em abastança. £ a mes* 
na manejra 16 os senhores seus vassalos , que se cha* 
mSo Sangag^es^ & a9ai os reigedores : porque cada rej 
tem sieu regedor qtie tem cuydado das cousas doréyno^ 
assi na paz como na guerra» E cõ quanto estes reys nãe 
tem renda aam tão venerados assi dds seus naturais có>- 
mo dos estrangeiros doutros reynos & tidos por hiiacouf- 
fa ti(o sagrada, qute posto () estem antre seus iinigos s^ 
dizè eu sou tal rey afastanse logo & danlhes lugar: &t^ 
por eostume se sam vencidos em algua batalha de nSe 
verem bo rosto ao vScedor se nft dali a seys om sete n^e** 
ses. A gète baixa os tem por tão diuinos que passande 

Eor diante deles tapfto os olhos & deitSse no chão d^ 
ruços por não ousarem* de lhes ver ho rosto, nS os no- 
meão se não por sol , liaa ou por npmes de cousas (} t9 
por muyto gr&des» Ede todos os reys desta» ilhas elrey 
de Ternate somente era amigo dei rey de Portugal , & 
lhe mandou pedir que fiaesse fortaleza S ma terra, & 
não quis amizade com os Castelhanos. 



D 2 



28 ÚA HISTORIA DA INDlA 

C A P I T V L O Xlh 

De como António de brito assentou amizade c6 a mág 
dei rey de Temaíe 4* com outros reys : ^ de como co- 
meçou a fortaleza de sam loão de remate. 

V^hegado António de brito a estas ribas (} foy na fim 
de Mayo, porQ sabia Q na ilba de Tidore estauâo oa 
Castelhanos j) tiearão bi cÕ feytoria das duas nãos da ar- 
mada deFernã de magalbâes quis ir iá primeyro ^ a de 
Ternate pêra tirar dali a^la feytoria polo grade perjuy* 
2o ^ fiiria á dei Rey de Portugal. £ indo lá cÕ toda a 
armada ouue ê seu poder os Castelhanos ^ ja não tinhâd 
Q feytorizar, & fezihe tSo bd gasaihado como ^ forfl Por* 
iDgueses : & leuãdo os dali se foy aa ilha de Ternate^ 
"CUjo rey era falecido, & sospeitauase Q el rey deTido^ 
Te seu sogro ho matara c5 pe(^nha ê b& baqueie por 
Tiflo (|rer ser amigo dos Castelhanos como ele era : & a 
raynha gouernaua bo reyno por hu seu íiiho erdeiro não 
ser mais de sete anos. E quando a raynha soube i| An- 
tofi-io de brito estaiia na barra da sua cidade, mãdoulhe 
^ boa hora de sua vinda polo regedor do reyno , & dí- 
zerlhe ^ el rey seu marido era falecido, & quando fale- 
cera lhe deixara encomCdado i| se os Portugueses ali 
ViessS pêra fazer fortaleza Q os agasalhasse muyto bê| 
& lha deixasse fazer ode quisesse, & lhes desse toda a 
fljada de j} teuessS necessidade : & (} assi ho auia de fa- 
zer. O Q lhe António de brito mãdou agradecer, & por 
a boa võtade Q achou na raynha determinou cÕ conse- 
lho de dõ Garcia ãrriquez & dos outros capitães de fa- 
zer a fortaleza naqla ilha, & pêra ver ho lugar em {[se- 
ria b5 fazela mãdou pedir licêça á raynha pêra desem- 
barcar: ^ lhe ela deu de muyto boa võtade, & mãdou- 
lhe fazer grade recebimèto per seus mandaris. E visto 
por António de brito ho lugar pêra fazer a fortaleza, 
começou de fazer hlla trãqueira pêra se recoll\er cõ a 



LIVRO Víé CAFITVLO XII. 29 

fazSda & artelbaria em quanto fazia a fortaleza^ roas 
primeyro asaenlou cô a raynha & cõ outros ê nome do 
rej da terra I| ele era cõlente de dar bu lugar a el rey 
de Portugal jà(o da sua cidade em ^ auia de ter bua 
feytoria cõ roupa & outras cousas Q os Bandaneses tra- 
zião de modo ^ a terra esteuesse abastada das tais mer- 
cadorias cõ cõdição Q bo crauo não se vêdesse a outros 
estrãgeiros & a troco de roupas ^ valessem mil rs secÕ- 
praria na feytoria o Babar do crauo l^ 8am quatro quin- 
taes Q saya bo quintal a cc. rs. E de tudo isto se pas- 
sarão escripturas assinadas por abas as partes : & porque 
António de brito nâ se fiaua da raynba por ser 6iba del- 
rey de Tidore ^ tínba por muyto sospeita na amizade 
dei rey de Portugal pola muyta Q tinba cõ os Castelha- 
nos , quis ter da sua parte algu da terra pêra (| bo aju- 
dasse & fauorecesse se a raynha quisesse fazer algtla 
ireyção: & este foy bfi Gacbil Daroés filho bastardo do 
rey ^ fora de Ternate pay do menino Q reynaua. £cÕ^ 
certãdo coele ^ bo ajudasse se bo fizesse regedor do 
reyno : trabalhou tãto ^ fez ^ bo fosse , posto ^ cõtra 
võtade da raynba & dos de sua valia t[ lhe queriãomal : 
'& por amor Dantonio de brito & de Cacb»! Daroés ^ ti- 
nha muytos de sua bãda bo dissimulará & mostrarão fol- 
gar de Cachil daroés ser regedor: porem a raynha quis 
dali por diãte mal a António de brito, & esperaua tem- 
po pêra lhe poder fazer mal, & assi bo cõcertaua secre- 
tamête cÕ seu pay el rey de Tidore, porQ Imha grande 
magoa de ver regedor Caehil Daroés Q^lhe tirana bo 
mãdo l| tinba dantes. E ele eõ bo fauor Dãtonio de hfh- 
to se ^ria absolutamête fazer senhor do reyno & &tudo 
o ^ podia bo seruia , dâdolbe autsos do ^ auia de fazer, 
& do ^ se auia de goardar. E se este homo nft fora se- 
gtldo as guerras I| despois socederão a Antoi^io de bri- 
1o , & as necessidades em Q- se vio nUea fizera a forta- 
leza nê sofrera estar na terra como esteue. E feyto re** 
gedor & acabada a trâqueyra , & metida dètro toda a 
lazSda & artelbaria Q (razia : & recolhida a armada deu- 



80 OA HI8TOBIA lU }HmA 

iro no porto 9 oomeçou de edificar a fortaleza è luobo 
dia de satn loão bautista do Sno de mil & quinbfiloa & 
vinte dou8. £ estado hi el rey deTernale & lodos seus 
Sâ^açes & mãdaris cõ rouyla gente do pouo y despois 
de dita bua missa cõ a mayor soi&oidade {| pode ser fo- 
rSo abertos os aliceces & assentadas as priíueiras pedras 
cõ grade arroido da artelbaria Q desparou toda & muyto 
tâger de Irõbeías* Ao i\ el rey de Ternate deu grSde 
ajuda cõ lodos os seus Sangages, & assi el rey ^e Gei- 
loio: porfi nâ aproueitaua por a gête não ser pêra traba- 
lho, & os Portugueses bo iinhão rouy grade na obra ^ 
fazião , & na deferSça ^ acbauâo nos inàlimétos da ter- 
ra aos ^ erâo ooelumados. 

C A P I T V L O Xill. 

De como Marti j^omo de meh coutmho chegou ca €%»• 

na ^ a achou de guerra. 

Seguindo Marlim Afoso de melo eoutinho peraMalaea 
foy ter a Pac8 , & bi deúou dõ André anrriquea por ca- 
pitão de fortaleza Q bo era por eirey de Portugal, & le- 
uou dõ Sancho anrriquez peraMalaea õde chegou fi Ii»- 
lho : & achado nouas do leuâlamôto da China partio lo> 
^o pêra lá & foy ê sua €onser^a Duarte coelho em bâ 
jugo, & de caminho fizerão os nossos muytas & muy 
ricas presas. E chegado a vista das ilhas da China no 
mes Dagosto do ãno de vinte dous lhes deu hQa toruo»- 
da com ^ payrarã« E passada esta borriscada apareceo 
a armada dos Chins de muytos j.ugo6 & caialuzes cheos 
de gSte de peleja, <) por a terra estar leuãtada cõtra os 
nossos os ãdaua eaperSdo. E auêdo os Chins vista da 
nossa frota logo se poserSo 3 som de pelejar chegãdose 
muyto pareia, & desparâdo suas bõbardinbas, & tirado 
muytas frechadas, E Marti Afonso i>orq ja estaua aui- 
sadú de suas rebolarias & queria paz nSo bolia cÕsigo& 
deiíauase ir. O 4 os ^^s capitães não quíserflo laier^ 



LIVRO VI. CAPITTLO Xini. 3 I 

& vfido j) os Ghifls os assoberuauSo muylo tDãdarão aK 
g;us desparar sua artelbaria, principaJmête Ambrósio do 
rego com Q lhe desaparelharão alg&s oauios & matarão 
g6ie, pelo 4 ^'^s se ouuerão de retirar vendo ho dfino ^ 
recebiáo. E ãbrosío do rego os começou de seguir, do i| 
JMartim Afotiso ouue grade menScoria, & muyto mais 
do dano ^ fora feyto aos Chis, & fez recolher Ambró- 
sio do rego. £ mâdâdo ho ir á sua nao se aqueixou 
muyto coele , & lhe disse palauras ásperas : & por ser 
de boa cõdição ho iiA castigou doutra maneyra. E se- 
guindo seu caminho foy surgir na ilha Dabeniaga ê híia 
baya de fora do porto , Õde tãb6 surgio a armada dos 
Chis ao mar , & afastada da nossa : porS tinha a cerca- 
da , Q não podia sayr ^ nao passasse por atrela. £ cõ 
4}uâto 08 Chis receberão dates algu dano dos nossos nã 
deixauâo de ihes tirar» 

CAPITVLO XIIIL 

De como Martim Afonso de melo quisera tomar a re^ 
formar a paz com os Chins ^ não pode. 

V endo Marti Afonso ^ os Chis insistião 8 mostrar Q 
estauSo de guerra , abordou cÔ seus capitães i) tomas- 
sem a^la noy te liiigoa pêra saberS a determinação dos 
Chins, & mãdarê recado ao seu capitã mór da causa 
por^ queriâo guerra cÕ os nossos estado dates S tanta 
pa2 , & a^ia noyte tomarão oa nossos cinco Chis Q faião 
ao logo de terra 6 hiia mãchua carregada de caruão. Po- 
rft estes como erão rústicos & não sabiâo mais <| fazer 
caruão, não souberSo dizer nada do {} lhes Marti Afon- 
so preguntou r & cõ tudo ele os veslio muyto bS , & mã- 
dou os ao capitão Inór dos Chis cÕ recado : diz6do Q ele 
vinba de paz, & c5 liiuyta mercadoria pêra tratar, &4 
«efaalia guerra s8 saber a causa, j} lhe pedia muyto \ 
lha mãdasse dizer ^ & 2| ele faria toda a enmêda ^ fosse 
possiuel se a guerra era por culpa dos nossos & se náo \ 



311 DA HISTORfA DA ÍNDIA 

lhe pedia Q a nSo quisesse coeles, & (] goardasse a paz 
q estaua assSlada. Coeste recado forão estes cinco ho- 
infis & não tornarão cS reposta, ales os Chis tirarão 
muylo mais Q dates , f orQ tinhSo recado do seu rey ^ 
não consentisse os nossos é nenhd porto sea. EMartim 
Afonso ainda se sosteue sem rdper a guerra a^le dia, 
por!| \he pareceo ^ os cinco por seVS rústicos não sabe*- 
TÍâo dar seu recado : & na noyte seguite roãdou tomar 
outra vez Kngoa, & leuarãlhe dous faomfis Q forão toma- 
-los em terra. E destes soube como el rey da China es* 
4.aoa rouyto mal cÕ os nossos, & e ^ tinha mãdado: por 
isso Q nã cu-rasse de recados nfi de falar S paz por^ tu- 
do era debatdc. E sabido isto por Marti Afonso^ os 
jBandou vestir & tornar a terra: & na mesma noyte em 

2ue isto foy soube por cinco dos nossos do jilgo de 
>uarte coelho que ficara a trás como surgira detrás de 
hiia põta por auer vista da armada dos imigos ^ auia 
medo Q ho tomasse, í\ ou mãdasse por ele ou lhe desse 
licSça pêra se tornar. E Martim AfSso mãdou dous ba- 
tíeys armados que niica poderão passar poios muytos pe- 
louros com Q tirauão os imigos : & cõ muytos feridos & 
quatro morlos se tornarão a recolher pêra a nossa frota. 
E vSdo Martim Afonso os nossos feridos & mortos <)hiã 
noa bateys ficoti m^iyto sentido: & determinado de pe«* 
lejar cõ os Chins pois eles querião guorra chamou a con-» 
selbo, em ^ -dos capitães & pessoas Q estauão no conse- 
lho foy muyto cÕtrariado Q não pelejasse por§ era dou- 
<lice : mas ^ ãzessera agoada porS auia dtsso necessida- 
de, & Q entretãto ho tfipo lhes diria ^ farião. Isto de- 
terminado foyse Martim Afonso a terra cÔ os bat^eys da 
frota muyto bfi armados , & sayo è terra a mãdar fazer. 
agoada, & era hfl pouco apartado donde estaua a arma-* 
*da: o ^ vedo os imigos apartarãse logo bS trinta cala- 
luzes & iãcharas & derão sobelos batoys ás bõbardadas, 
& foy a cousa tão de pressa ^ escassamSte Marti Afo»- 
ao teue ISpo pêra se recolher aos bateys cÕ os seus, dei* 
xãáo S terra pipas & jarras por Scher^ E recolhido com 



LIVRO ▼!. CAPITVLO XV. 33 

nioyta afrSta aos bateys se foy c5 outra iriuyto mayor 
ás nãos jugãdo sempre as bfibardadas c5 os imigos Q ho 
seguirão ale perto delas , & não chegarão por{| a nossa 
artelharia começou de jugar a Q eles auiSo grade medo 
•por ser muy to roais furiosa Q a sua , & por este medo 
Dã ousauão eles de rõper de todo a batalha cõ os nossos, 
se não ladrauãihe de íõge pêra ver se os farião ir. 

C A P I T V L O XV. 

' * 

De como ardeo a nao de Diogo de melo ^ ^ os Chis ío^ 
maráo a nao de Pedromê ^ matarão a ele ^ a ífuãtos 
tstau&o dentro. E de como Martim Afonso parlto pe^ 
rtt Malaca. 

V endo os nossos que os Ghis estanão de todo de guer- 
ra, & mais por mãdado do seu rej, & Q tinhão muytò 
pouco poder pêra os sugigar, aconselharão a MarliiB 
Afonso ^ se fosse 8 quStò se podia ir sem mór afronta^ 
por^ despois não poderia. E feyto de tudo auto t\ todos 
assinarão, assêtou de se partir: & ao outro dia se leuoa 
cô os outros capitães, & em desferindo as velas oome« 
içarão os Chins de se chegar paroles dado grades gritas^ 
& eoelas çurriadas da sua artelharia , & muytas nuuSs 
de frechas. PedromC & Diogo de melo {| lhes ficauãò 
mais perto se def^dião cõ muytas bõbardadas. E nisto 
acendeose fogo 8 hfl barril de poluora na nao de Diogo 
de melo, com ^ se ho fogo ateou de modo {) nSca se po« 
de apagar & a nao arrebStou & se foy ao fundo. E v&t 
doPedrom8 coroo rouyta da g8te ficou sobre a agoana^ 
dado, mãdoulhe acodir polo seu batei !\ leuaua fora, os 
Imigos acodirão logo 8 muylos jugos sobre Pedromem í) 
como ficaua cõ pouca gSte por amor da I| hia no batel 
teuerão os imigos lugar de lhe aferrar a nao por todas 
as partes: & entrarão d8tro tantos {| por mais esforça- 
dam8te que se os nossos defSderão todos forão mortos , 
saluo hií 2| se acolheo á gauea : & assi forão mortos os 

LIVRO VI. E 



84 IM BI0rOftU 2M INOlâ 

do batel poios Smígot !\ aâdauão nos calalueea ^ & oa !• 
migos nSo curarfto de Marti Afonso njl deVaaeo feroS- 
dez, nem DAbrosio do rego poios iliuylos tiros Q tirauáo. 
£ os ^ maíarS os nossOs na nao de Pedromê , despoia 
de mortos Ibes cortarão as cabeças & as recolherão & 
rottbarfio a nao de quanto tinha ate da enxárcia & an- 
coras, & cabos Q não ficou nada. £ dido grades gritas 
& tocado seus instrouStos de guerra se afastarão, & e- 
les afastados ho da dào de Pedromem que se acolheo á 
gauea começou de capear, & Marti Afõso mãdou por 
elè & irouuerãibo noyte, por(| foy grade trabalho aue* 
ffino por não auer Sxarcia por õde solassem á nao. £es^ 
te cotou a Martim Afonso como passara bo feyto, & lo- 
go em conselho Martim Afonso fez bua fala aos outros 
capitães sobre a vingâça dos mortos, dado pêra isso as 
rezões Q á paixão mais que a rezâo lhe insinaua i que 
lhe todos contradisserio , dando Outras mais viuas, por- 
que erh bS que nâo pelejassem , se não que logo fosse 
metida no fundo a nao que fora de Pedromfi : & na meêr 
ma noy te se parliâsem pêra Malaca , porque os Chia 
não òuuessem vista deles pelo perigo que lhes resultar 
va« £ pêra sua desculpa de Martim Afonso se fez hii 
auto destes pareceres ^ todos assinarão, & dele pedio 
ele h& estormento ao escriuão da liao pêra sua goarda ^ 
ic muyto contra sua VÕtade por ser de grandes spiritos 
mãdou executar o que foy acordado no conselho. £ me- 
tida a nao no fundo se parlio cÕ os outros capitães , & 
sendo ainda 6 Agosto que duraua a monção de Malaca 
pêra a China & pêra sua viagem lhe era ho vento cd- 
trairo, quis nosso senhor ^ lhe seruisse. £ indo por sua 
viagê tomou a via de çamatra pêra ir ver se tinha a for- 
taleza de PacB necessidade dalgOa cousa. 



unto Yf« GAFITVX.0 X¥l. 86 

C A P I T V L O XVL 

D^ cmio e^ rey Dackem numãou cercíxr a fortaleza de 
Paeem ^ é^ át wmo lhe ukcorrea Marúm J^onaQ de 
melo. 

Jlil rey Dachem daspoWi qie fbj a morte de lotge <ie 
brito & do8 outiíDB que norrerâo eoele , ficou tão Mbetv- 
bo J) determiiioii de «lestrajr 00 nossos oode pod^sne^ & 
Rio dar vida a neabâ. E sadbeDdo que estaua doata fov- 
taieaa efii Pacem ^ ic qiteBi 4va bo capitão ^ & qu£ pour 
ea gente tiaha : detemiixioii de a tomar. £ ftzendo o- 
bra de dons mil bomCs de peleja aoandoQ htim seu ca- 
pitão sofarefa, & inaiKlotttbe qae a queymasse porque e- 
ta de aiadeira. Ecoido bo eaaimho era curto & pM iei^ 
ra 9 em breue tempo derSo sobre a fortaleza : em que a 
este teaupii estauão ate seteala. bomês porque os outms 
«a íbrio oom dom Sancbo qvatido ae foy pêra Malacii^ 
A eom muyto poucos inaotimeiftos , mas oom boa arle^ 
Jharia & outras muníi^ões com que se oe nossos -deiendfv- 
rio dos immigos, & os nio deiíaráo cbegar aa fortale» 
sa : poio <| etes trabalbarSo muyto pêra a queyoiarem 
qae esse era ho seo int^lo. £ lambem os oossos tíiihão 
de Doyte grande vigia, & íaaiâo fegoa porque vissem M 
^os immigos chegauâo aia fortaleaa, & iinbâo miiyto 
grande trabalho, & estauXo em grande f)erigo por 09 
mantimentos aerem.miayio poucos se bo cerco durassfu 
E estsndo nesta faéiga cb^ou MarUm A1^3so de ineh> 
que vinba da€biaa^ & auendo es immigios viata 4a fre- 
4a que trácia, que eca de cinco velas grosaaa,, conhe- 
cendo qne era dos nossos leuan tacão ho ceiroo cooi m^ 
do.& fugirão linm dia antes que Martim Afonso che- 
gasse: & se ele não chegara tfio cedo dom Aadre ae vi- 
ra em i^raode aperto« 



B t 



86 lU HfSTOHIA* TfX INSTA 

C A P I T O L O XVII. 



De como se perdm 4z nao de Duarte dataide , onde ele 
morreo com outros. E de como ho gouernador de Maz- 
cate acodio aos nossos. 

XVeformada a paz como disse despois ^ veyo Setembro 
despachou dom Lojs as três nãos pêra a ladia com ho 
dinheiro das páreas & outro que se fizera da fazenda dei 
rey de Portugal : & porque Pêro vaz Irauaços hum dos 
^apitSes destas nãos estaua doète deu dom Lujs a ca- 

Eiíania da nao a Manuel velho ate a índia* C partidoa 
(ormuz chegarão a agoada que se chama de Cojeatar 
junto de Mazcate pêra fazerem agoada. £ estando ali 
surtos dia de sam Mateus aa noyte acodio hua tormen- 
ta de vento trauessam tão furioso & esforçado que le^ 
uou hOas nãos de mouros que estauâo em picadeiros hft 
grande espaço dtl cabo pêra ho outro, & arrancou ca^ 
sas, & dali a doze legoas fez perda que foy aualiadaem 
cincoenta mil xerafins. E este vento deu aa costa com 
a nao de Duarte dataide em hfls penedos , em que se 
fez em pedaços por não ter mais que hOa ancora , & 
morrerão algfts dos nossos; antre os quaes forâo Duarte 
dataide , & hu seu filho , dom Garcia Coutinho que hia 
coele pêra a índia, Vasco roartiz de melo & loâo rabe- 
lo. E quando a nao foy aa costa deu pola nao de Lopo 
dazeuedo & <}brouihe ho garoupez : que a fora este dan* 
no recebeo outro rauylo mayor de dous camelos , que 
assi como a nao jugaua de hum cabo pêra ho outro ju- 
gauão eles também & desfaziãna toda. E sabendo Ma* 
nuel velho a fadiga em que estaua Lopo dazeuedo com 

Í|uanto era noyte se meteo no seu batel com algds & 
oylhe acodir : & despois que ho deixou seguro se tor- 
nou aa sua nao andando ho mar tão alto que quasi se 
não pode embarcar. E tornado aa nao achou toda agen- 
te aluoroçada pêra fugir com medo de darem aa costa : 



LIVAO VI. CAFITTLO XYII* «7 

& eie lòmou dissirouladameale as armas a todos , por* 
que 86 não defendessem se os quisesse por força fazer 
estar na nao : dizendo que auíâo lodos de morrer ou sal- 
uala. O que fez ajudandolheseus criados que lodos ti- 
nhão armas. E fazendo assessegar a gente , & mandan- 
;do fazer as ancoras porlantes com a popa da nao por 
diante foy alargando as amarras, & gouernando a bom* 
'bordo & a estribordo se sayo da enseada da agoada & 
fojse meter no porto de Mazcate que eslaua hi logo, 
.onde se salaou. £ ao outro dia Xeque Reyxii Xeque de 
JMazcate a requerimento de Manuel velho mandou lan- 
har pregfto que nenbil mouro sopena de morte não to- 
onasse nenhiia cousa daquela nao que se perdera. £ ia- 
»ta fez ele por ser grfide seruidor delrey de Portugal & 
amigo dos nossos : & por isso mãdou tirar toda a fazen- 
da que hia na nao , assi dei rey como das partes & ar- 
telbaria por treze mergulbadoresí que naquela terra se 
chamão caroás. £ a fazenda dei rey erâo dous cofres 
em que bia bo dinheiro das páreas dei rey Dormuz, hum 
com tangas , outro com serafins : & neste hia bua ada- 
ga & terçado douro pêra el rey de Portugal, que el^ rey 
'£>ormuz ihe mandauáde presente comi bfta cinta. douro 
.de largura de mais de dous dedos & bum fio de pérolas 
«pêra a raynha*, & muytos fardos de seda solta , & da £»- 
vZenda das partes se deu ao Xeque a cinco por cento, 
.que coessa condiçSo a mandou tirar, & pola dei rey não 
quis nada. £ todos os corpos dos mortos forâo achados 
v&enterradoe. Feyta está deligencia com que se cobrou 
toda a fazenda dei rey por industria de Matíuel vélbo ès- 
.tando ele naquele porto lhe foy dito pelo Xeque deMazh 
cate que a agoada de Gojeatar era chegado hum criado 
.de Raix xaraío & seu capitão com gente darmas em bfia 
-terrada: que se temia que fosse pêra bo matar, por 
( quanto como sabia antes de d& Luys chegar a Ormuz 
ttãdara Raiic xarafo a Raix delamixá seu irmão por goa- 
zil de Galáyate. Eindo por terra cõ medo da nossa^ar- 
•mada passara a vista de Atazcate, Òde lhe eleXeQ sayra 



tS DA tflSTORIA DA IIlDrA 

oõ gQnte AO eedlro, por ser amigo doa nossos & imnigD 
dei rey Dormui por ler guerra eoeies : & neste Scdtro 
hu dos nossos ^ hia coele matara Raix delamixá cd hu 
espíogardada, & por isso temia ^ ho capitão de Raix 
rafo fosse pêra ho matar, Q ihe yaiesse pois fiora sempre 
leal aos nossos, & por essa causa Ike i^tiáo fazer mal. £ 
isabido isto por Man<»ei velho foy do seu batel com mui- 
tos dos D0S60S ondestaua a terrada: & dado de sapito 
nela prendao ho capitSo de Raiz sarafo (| bi estaua com 
os remeyros, somIMe porque a outra gSte era S terriL E 
preso ho capitão cò todos 'Os remeyroe os leuon á sua 
inao , & hi fez amigo ho capitão oooi ho Xe^ne« B íaCo 
feyVo (íifyêe cantina da índia cam Ijopa dBM«edo^ ác 
ibrão sorgir no poHo de Goa onde se entregou a faaenda 
^le^ rej que lenauáo^ 

C A P i T O L O XVIJI. 

De odmo dom Luys se tomou p»a a imém , ^ éa mtm 

^fue ptmoíu 

V endo oe capitães & ãdalgoa da armada de dft L»3« 
que não se podia acabar eom Rafx xarafo i|ue tornasse a 
pouoar Ormuz , indfnaransa muj^to cAtrele , & diziãD (} 
não se lhe deuia de passar hfla coma tão mal fieyta , Ic 
em q tanto mostf^ua ho mal 1^ qoería aos Portugneses, 
& ^ ho deuia de pagar nmybo bè , eõ dom Luys desem- 
barcar em Queixome ic destruir toda a terra & quando 
nã podesse logo fazerlbe guerra , guerreaia ate {| a dea- 
truyse , & <} dõ Liiys deuia de poer isto em conseiiw* 
E por8 ele cÒ quãto sabia o ^ dízião nã ho quis poer 6 
conselho & cfttentouse cõ ho assinado !) tinha de Raix 
:xamixir {| mataria Raix xarafo como fosse tempo. E die 
«le nã dar B Queixome nS querer tomar a cerca disso o 
pareoer dos fidalgos Sc capitães da frota y oe descãtenta- 
fão eles muyto ^ & assi a outra gSte : 8c sobfetudo por 
4k>. acbarfi mtijlo soko ao falar , kmào ter ena a^nta^ 



ser a Ii& bomè o 4 lhe vinha á võlade : & êè faaer Diais 
è Ormuz 4 o Q digo ae tornou pêra a Índia , & de ca- 
minho foy ter á põia de Diu pêra faaer hi inresas, E es* 
perando {lolaa nãos em Q aa auia de faaer lhe deu bii tS- 
poral €Õ Q por força arribou a Cbaul cõ sua armada , & 
da hi se foy a Goa : onde t&bê a gente estaua muj des- 
eontfite do goueroador, por^ dissioiuJaua muytas cousas 
mal fey tas ^ fazia Frãoisco pereyra pestana , & diziâo 
Q por lhe dar muytos paquetes & peças ricas» E tSo a- 
pressados se vifto os c a sad os de Goa cÒ a forte cõdiçâo 
de Frãcisco pereyra 4 elgfls se forão fora de Goa ^ & 
outros se lAçarSo na terra firme ^ & andarão cõ os mou* 
roa quasi todo ho tempo de sua capitania ^ & nSo auia 
nenhika justiça. E sabido polo gouernador bo pouco <| 
dÕ Luys fizera S Ormuz , determinou de ir lá ^ por(| as*^ 
si lho escreuera loA rodriguez de noronba & mâdou dd 
Lujs aCochi pêra fazer a carrega das nãos Q fossem die 
Portugal 9 de 4][ a^le ftno partirão no mais de três sem 
capitão mófy de ^ forfto capitães dÕ Pedro de eras to ^ 
Diogo de melo Q hia por capitão Dormuz, & dÕ Pedro 
de castelo brãoo 8 oaQle áno passou á índia & outros 
dous iaueriiarão õ Moçâbii}* 

C A P 1 t V L O XIX. 



i>e MWio par morte de Raia xabadim ^ Raix xarafo se 
úcoUieQ á noèêa fortoleza c6 medo de ho mataré o# 
m9uros: ^ de como $e. tornou a povoar a cidade 
Dormuz» 

X artido dom Luys Dormuz teuesse Raiz xarafo por 
seguro na gouernança do reyoo, por^ como ele era nru- 
dète bfi Gooheceo Q nX era a^le ho tipo em {) por força 
lhe auiâ de fazer fazer o Q não quisesse, E como hom& 
^oe £azia eõta ^ a cidade Dormuz se auia de mudar a 
Queixome , onde não auia <ie ter qu8 lhe contrariasse 
•ett mando por ficar a nossa fortaleza apartada começos 



40 « OA HMTORIÂ BA ÍNDIA 

de áe- deecujJar da griáe goárda^l trazia em saa pea**^ 
Boa, Q dos mouros não ae temía^ porJjMiramahmet mo-^ 
rado seu Imigo ja era deilado do roAdo, & os Q estauão 
Da corte erão seus parentes & criados a que fazia muy«^ 
to bS. E por isso lhe pareceo {| estaua seguro & esfriou 
de todo da goarda de eua pessoa : & o mesmo fes Raix 
xabadtm seu cunhado. O que v6do Raix xamíxir que 
por seu assinado tinha prometido a do Luys de os ma- 
tar não quis mais esperar , & achado de melhor i!L(p 
Kaix xabadkn mSdou ho logo matar por hfls frecheiros 
^ lhe tirarão á treyção, &o matara,. & nã quis tomaio 
jatamStc cõ Raix xarafo pori| the pareceo 4 aparados 
os mataria melhor: no.{| errou, pòr^ quãdoRaix xa?afo 
vio morto seu cunhado logo se goardou, & foy tamanho 
faò seu medo (} cÕ quanto tinha dous mil homês de pe^ 
leja, & Raix xamixir no mais de quinhentos não se fiou 
deles nê de seus parentra parecendolhe que todos erão 
cÕtfele, & não se atreuSdo a saluar em Queíxome €ugio 
secretamSte 8 iida terrada & acolheose á nossa fortale^ 
za, porque bem sabia quã leays os nossos erão, &: que 
mais seguro auia deslar antre eles que antre os mourões 
Raix xamixir que soube como ele laa estaua, mandou 
logo requerer a loão rodrigfuez de noronha que ho pren- 
'desse , porque ele era ti*edoro & tirano 5 fizera leuãlar 
Ormuz, & mandara matar el rey Tuxura , & fazia que 
se não pouoasse Ormuz , & por^ ele isto saMa eomo 
seruídor Q era dei rey de Port'Ugal prometera a dom 
Luys por hH assinado de bo matar, fe a seu cunhado 
Raix xabadim , o (} posera S obra quanto lhe fora possi- 
uel. E pois Raix xarafo estaua S seu poder Q ho pren^ 
desse polás cousas sobre ditas. O qae viste por loão^ ro- 
driguez ho prSdeo, & ele preso passouse logo el rey a& 
Ormuz €Õ todos os seus moradores. £ loão rodriguez ^ 
sabia o i\ dom Luys tinha prometido a Raix xamixir c0- 
prio lho dando lhe o goazilado Dormuz. O Q v^do Raix 
xarafo prometeo muito dinheiro a loão rodriguez 1\ ho 
soltasse & lhe tornasse a dar ho goazilado. ^ como ísta 



LtVRO Vi. CAÍITVLO Xt. 41 

era bfia cousa tamanha não se atreueo loâo rodriguez n fa- 
zelo, & prometeoihe (} faria cd o ^ouernador Q ho fizes- 
se : & pêra ho fazer vir a Ormuz The escreueo a prisam 
de Raix xarafo, & como a cidade Dorniuz era pouoada: 
& ^ era mujto necessário ir assentar a^las cousas , & Q 
não fosse coele Manuel velho nê Ruy varela : por^ assi 
compria a serui<^ delrey. Eisto foy instruçâ de Raix xa- 
rafo Q como sabia quã hè estes doussabião as cousas Dor« 
muz , & os males ^ ele tinha feytos não os (}ría lá por^ 
ho não danasse. E vista polo gouernador esta carta assfi-» 
tou de todo S ir a Ormuz pêra o J} se conieçou 4e fazer 
prestes. 

C A P I T V L O XX. 

De como dom Luys de meneses despachou é Cochi cerioê 
velas pêra diuersas partes ^ despois se parho pêra ho 
estreito. 

MJrotn Luys de meneses detpois l!| foy ê Coch! despa^ 
cbpu as nãos da carrega ^ auiSo dir pêra Portugal , & 
assi Pêro LourSço de melo pêra ir á China ^ ja do tem* 
po de Diogo lopez tinha hOa viagè pêra lá , & ele o nS 
quis deixar ir: & deu iicSi^a a Mart! AfSso de melo ju«> 
sarte Q fosse 8 hfl jfigo ê eua cGpanhia. E tãb8 despa- 
chou pêra Malaca a hil André óe brito que fosse tratar 
por a^las partes 6 hfia nao sua Q fizera á sua custa : & 
estes todos partirão S diuersos tSpos. E isto despachado, 
tornouse dom Luys pêra Goa, dõde o gouernador ho des« 
pacfaou c5 hfla armada de galeões, assi pêra as presas d<^ 
estreito como pêra ir ao porto de Maçuá & trazer dofif 
Rodrigo de lima J) fora por tíbaixador ao Preste joão : & 
mãdoulbe Q acabado isto se fosse inuernar coele a Or- 
muz. E i;oeste regimêto se partio dõ Luys pêra ho es* 
treito: & a fora ele qúe hia no galeão sam Dinis forão os 
capitães da sua armada, Nunofemãdez demacedo, Ruy 
Taz pereira, Fernão gomez detemos, AnrriQ de mace* 
"do, & 'Lopo de mesquita lodos capitães de galeSes. 

LIVRO VI, F 



4% Bà HlM^aiA 9i^ IN0IA 

C A P I T V L O XXI. 

J)é como indo o gaiiemadnr pêra Ortnu» tomarão húa 
mauros de Diu húa gaU a BuUiâo de tioronha. 

JL arlido dÕ Luys despois ^ ho gouarnador deu despa- 
cho a aigilas cousas ^ ficaua fazendo , partiose pêra Or- 
Dua leuando bila armada de seys galés, de que forão oa* 
pílaes Baalião de noronba, loSo togada, Dinis fernan* 
4^z.de melo 9 . Frâcisco de mêdoça, dõ Vasco de lima^ 
Frãcisco dè sousa tauares : & assi algíis nauios de ga^ 
uea, a cujos capitães nã soube os noines. Eatrauessãdò 
o golfão foy vista bOa nao de mouros Q bia pêra Diu : 
Íl oe prifAeyroa cafHtâes que a virão forâo bastião de 
poroaba & ioão foga<2a Q Ibe derão caça, & Bastião de 
noronba por à sua gale ser mais veleira que a de Ioão 
fogaça a alcançou quasi no)^te, & por essa causa não 
quis pelejar oõ oa mouros , mas mãdou amarrar .muylo 
b6 a galé cò a nao por^ se Ibe não fosse de noyte, pe» 
ra 4 eoi amanbec6do pelejasse cô os mouros, ^ v8do bo 
vagar do capitão leuerâno è pouco, & sintldo Q nã bia 
mais § ele só coeles, & fj a outra galé não parecia, de« 
terminarão de tomar a^la , & amarrãna poios maslos cd 
cabos muy grossos sem bo sintirS os Portugueses j| a? 
dormecerãp : & tãto Q amanheceo não esperarão os mou« 
roB ^ os Portugueses os comelessâ, & acodirão logo 
eõ muytas pedradas com ^ os desatinarão i| temera dê» 
trar a nao: & tãb6 por^ o capitão os nã animaua a is* 
8o« E vSdo os mouros sua franza, começara algQs de 
Qrer decer á galé pola proa da nao, Sc não ouue ãtre oa 
Portugueses quS Ibo ousasse de defêder polas muytas 
pedradas & yagiicbadas 4 vinha decima se não bíi mãr 
cebo filho do\Coudel mor, cujo nome me nã souberão 
dizer certo, & este foy ali morto pulos mouros sem lhe 
ninguê acodir: o {[ vedo eles decerão liuremête á galé 
aem aaer quõ lho defôdesse: ates os Porluguesea & ba 



eapítflo c6 medo se recolherto ao 18áa| dá fale, & dali 
por fiSo terfi roais colheita derSo cStf go no mar, & fao 
eapitão despio as coirai^s pêra poder meihor nadar , &> 
t>uuerãse os mais dafogar se não sobreuiera lofto fogaça 
na sua gale de Q os fidarlo apanhado. E posto I) loSo 
-fogAça tínba gSle S abastSça pêra pelejar cO os mouros 
i\ tinbio tomada a gale 4eBastiSo de noronha nloquis, 
-& fasSde ^6 ê ouira viaUa deisou a gale 6 poder dosinot^ 
ros q ^ leuarão a Diu , fc a 4erSo a Afeli^jaz o& quflta 
artelharia leuaua Q era mujta & muyto boa. Eislo pas^ 
sou l8e lõge das outras velas <la armada (} lhe uSe pode- 
tã aoodir, de Q todos os capitães da armada ficarão iinuy 
^escMalÍ2ado8, & se ouuerfio por muylo injuriados ! pod| 
oOoa eutra tal se acdtecera na índia , «S aoõteoeo des* 
-pois. £ ho gouerna<k>r mSdou prender fogo fbge<;a Sc 
"Bastiáo de noronha 8t*da bi a algfito dias-esmMoú* sol- 
tar. E sabSdo Meliquiaz como agalefbra tentada y te- 
ue bo governador 8 tSo pouca cj|ta ^ nfio qofs pa^ci^ete 
n& tornou a madar sua armada de fustas ao idgo- dacqf^- 
Uí de Cfibaya ^ & mãdou varar a gale : £c ^quãdo 4ilg0s 
f^slrSgefros hiáo a Diu amoetraualfaa , & c{HaMii4ie eemp 
os mouros a tomarão. E a tomada «desta gate deu muy- 
*ta ousadia aos mouros da (ndiap^ra tere os Portilgue- 

•ee em pouca conta. 

• « > 

C A P I T V L o XXII. 

De úOfno o yMemador chegado n Ormusí^ohmi Raík 

xarãfii. 

JL rosseguífido daqui bo gõuernador sua viagem peta 

Ormuz , cbegeu lá & ^Ò sua chegada folgarSo 'mujrto^ 

~:assi ObristSos como mouros crSdo (| pagai*ia Raix «ará- 

-fò f| estaúa preso os muytosSb muyto grid^s males ^ 

Ctnba feytos, assi a bils como aos -outros. AosChi^istflos 

no trabalho ia fadiga em ^Q os pos c(( ho leuítamSloDor- 

fMM tt «cerco ^a fortaleza , '& a perda ^ deu «a meytos 

F 2 



44 PA HISTORIA VA INPiA 

de soas faeSdas ^ & em ser cauea da morte dàlgffff aeus 
amigos & parftles. E aos mouros 8 lhes matar seu rey 
& os desassegar cd a guerra & darlhes muytos trabalhos 
eoeia, & 6 os tiranizar sem nenhOa piedade, tomado* 
lhes quâto tiohâo de cada vez Q queria. E pois estaua 
preso por culpas tão pubricas como auia tão pouco j|co- 
netera , esperauã todos que pagasse com a vida aque- 
las & outras secretas* E chegado ho gouernador a Or- 
muz foy por ires vezes a h&a torre ondestaua preso & 
falou coele perante loão rodriguez do ooronba capitão 
da fortaleza que terçaua grâdemente por Raix xaraíb 
xom bo gouernador pêra que ho soltasse & fizesse goa- 
zil , & tirasse os officiaes Portugueses da alfandega de 
Ormuz & das outras alfandegas, & que pagaria a el rey 
de Portugal mais corenta mil serafins que íaziâo sea- 
aeota mil cd os ^ pagaua dates, de que pagaria Ioga a- 
aaelade : & pagaria a valia da fazêda Q se tomara a el 
rey de Portugal na feytoria : & assi pagaria as partes o 
Q lhe tomara oo aleuãtamSto da cidade cõtra a fortale- 
za. E alê disso daria duzStos mil xerafins^ pêra o ^ bo 
gouernador quisesse, O ^ pareceo bê ao gouernador, 
mae receaoa dò Luys seu irmão q lhe não auia aquilo 
de parecer b6, por^ queria mal a Raix xarafo & dese- 
jaua de se vingar por^ por seu rogo não quisera pouoar 
Ormuz : & mais ^ auia de ^rer soster no goazilado a 
Raix xamixir pola promessa ^ lhe tinha feyto , & por is- 
so determinou de soltar Raix xarafo & fazelo goazil ates 
da vinda de d5 Luys pêra o Q fez conselho. cô ho capi* 
tão da fortaleza & algus capitães da frota, a q disse o^ 
Raix xarafo lhe cometia: & ^ a ele lhe parecia bfi, 
porQ era fiformado'^ Raix xamixir 4 seruia de goazil 
era muyto doudo & não sabia gouernar, & os morado- 
res estauão muy descôtêtes dele, &as8Í bo hião os mer- 
cadores ^ vinbã de fora , & jj nã daua a el rey seu se* 
Aor de páreas mais de vi te mil xerafins, & Raix xarafo 
daua Ix. mil & bõ pagos, & era bomS antigo na torra : 
& cõ sua prudêcia & siso a sabia bS gauernar, & tinba 



LIVRO VI^ CAPlTVIiO XJtlU 46 

neb credito: que lhe parecia ^ este deuia de ser goazil 
& oá o 4 o era. Eêlêdédo todos no gouernador ^ queria 
fazer aquilo, a lodoa pareeeo bõ: aaluo a AAaouel de 
Bouaa lauarea § era capitão mór do roarDoriDuz (^ diise 
.Q lhe nâ parecia bS, porj) auia muytos ânoa Q conuer- 
aaua Raix xarafo, & sempre lhe conhecera ser Imigo 
mortal dos Portugueses & ter desejo de os lan^r fora 
Dormuz : do j| era muyto boa lesleniunha a treyçâo que 
Jhes fizera no leuantamento Donnuz tendo seu pay , ^ 
ele, & seus irmãos recebido lanlo bem dos Portugue- 
ses, & assi ê não querer Q se pouoasse Ormuz, per- 
doandolhe dÕ Luys hu passado , & por isso dizia ^ não 
aomSle ho ná deuião de soltar nê dartbe ho goazílado, 
:iDas Q bo matassem se queriâo ter seguro Ormuz, & se 
.nâo que sempre aueria neie reuoltas. E deste parecer 
-foy Omís lernandez de melo : por^m como não erão mais 
•de dous preualecerâo os outros com quem foy ho gouer- 
nador. £ determinado isto de ^ foy feylo assinado por 
todos foy solto Raix xarafo & reslituydo no goazilado, 
& Raix xamixir & Raix noradim deitados fora Dormus, 
Q derSo tão boa mostra de seruidores dei rey de Portu- 
gal & damigos dos nossos na morte de Kaix xabadiqi & 
na de Raix xarafo pêra que nSo ouue tSpo ppr sua fugi- 
da. £ estes dous se forão Dormuz em híía terrada , & 
secretamente lhe foy dado fDdo por mandado de Raix 
xarafo: & esta paga ouuerâo por quererê seruir aelrey 
de Portugal : & este foy ho goazilado que lhe d& Luys 
prometeu. Do 5 os nossos ficarão muy escandalizados, & 
assi os mouros ot de todo perderão ho credito dos nossos, 
& dizião que quero teuesse muy to dinheiro em Ormuz 
sempre viuiria, posto que fizesse todos os males do mun- 
do* E metido Raix xarafo 8 posse do goazilado pagou 
logo ametade dos duzentos mil xarafls & das páreas ao 
gouernador, & pola outra ametade ficou em arrefSs b& 
'filho de Raix xarafo. £ na paga das partes se teue esta 
maneyra que dauão juramento a cada pessoa do que per- 
dera & pagauãlhe logo hu terço, & eles jurauão mais da 



46 10^ HfSTOHU DA INDÍA 

GM pttrderito, & tudo Ibe0 pagarão dwpoig de maneyra 
<iue nmytoa ficarão ricoa, E a fora iato que Raix xa^a£> 
deu ao goaernador Uie faaia cada dia «uytos aeraiças 
de moylaa cõaeruaa , fruytaa , carnes & peacadoa , & d»- 
goaa cfaeifOías: oo^q leuou a^le luerno moyto boa vida. 

c A p í\T V L O xxni. 

De como ãô Luys indo pêra dar na cidade de Xad lha 
despejarão os mouros , ^ do mais 4 f^ ^* tomar do 
estreito* 

Jl arlido dô Lays de Goa com sua armada aegaio a»* 
rota pêra ho cabo de Goardafum , o43de è poi»co6 dias 
•que eateue esperado polas aaoa de mouros tomarão co 
noBSOB capitães cinco. £ dali seguindo sua rota foy "ter 
ao porto DadS onde achou quatro oaoa que mãdou quey« 
ínar , & dali determinou de ir sobre hfl lugar de mouras 
•chamado Xael que está na mesma costa Darabia cin- 
«coenta & cinco legoas DadS indo pêra ho estreito : está 
«m quatorze grãos & h& coarto situado em costa braua 
«m que ho mar de contino anda rolado. He lugar grãr 
de , abastado & viçoso de todas as fruy tas que ha em 
Espanha: be de grande trato por auer nele muytos ca* 
ualos 9c encenso que leofio ^os mouros do Malabar 9c de 
Gambnya , Q leuão ali soas mercadorias a vender. Nei^ 
te lugar inuernão as naoa que vão pêra ho mar roxo se 
oã pod* passar por irem ja tarde, âc venkirem os ptí^ 
nentes que lhe sam por dauante, & dft Luys determi- 
4IOO de ir sobre este lugar por ser da obediScia dei rey 
DadS. E 'cô quãto eoube Q aura nele tnuyta g8te. Seno 
porto andaua sempre ho mar de leuadia quis ir dar nele 

forque andaua agastado de não ter ainda feyto tiadana 
ndia, fe aqui cuydou de ho fazer, mas os mouros ho 
tirarão desse ouydado, porq ou sabedo ou adioinhãdoao 
"Q ele hía despejarão ho lugar, assi da g6te como da mór 
Darte da faafida: demaneym que dõ Luva nfioleuen»' 



LITBO VI» CA»TVIiO XXHII. 47 

da que fazer. E coid tudo desembarcou com sua gentes 
que Baqueou ho lugar disso que auia oele (\ ainda fes 
algiis ricos. £ esUnda aqui leuanlouse hila torm&la iSo 
braua Q ouuerâo de dar os galeões á cosia y & aiijar&e 
ao mar a arlelbaria que eslaua sobre cuberla y & çoço* 
brouse b& esquife : & pola misericórdia de nosso senbor 
sayo dali ddLuys cÕ a armada & se partio peraJMaçuá, 
& despois queimou grandes nãos de mouros (} estauâo 
varadas ê terra. £ prosseguindo sua viagè pêra Maçuá 
despois de passar algâas lormêtas com Q se vio fi perigo 
foj surgir no seu porlo: & dali por iniercessam do ca- 

Eitão Darquico mandou recado a dõ Rodrigo de lima 4 
o esperaua ate dia de Páscoa que auia de ser ate quize 
Dabril) & se então não fosse coele que se auia logo de 
partir ) porque não podia mais esperar , & ficou espe* 
rando» 

C A P I T V L O XXIIII. 

De como dum Rodrigo de lima partio caminho da wrU 

do Preste. 

àS ú quinto iiuro fica dito como quâdo Diogo lopez de 
9iqueyra sendo gouernador da índia foy ao estreito, 
mádou do lugar de JMa^uá por embaixador ao Preste 
joão bâ fidalgo chamado dõ Rodrigo de lima , em cuja 
cÕpanbia íbrâo treze Portugueses, s. lorge dabreu , Lo» 
po da gama 9 I080 escolar escriuão da embaixada , loão 
gÕ^luez feytor & lingoa dela, Francisco aiuarez clérigo 
oe missa & outros ^ fazião bo numero que digo. Des* 
pacbado dÕ Rodrigo partiose do lugar Darquico aos trin* 
ta dias Dabril leuãdo em sua companhia ho embaixador 
JlSateus que faleceu no começo do caminho, per que ca<- 
aninhando chegou a h& lugar chamado Barua aos tíd* 
toito de lunho. £ este era cabe<^ do senhorio do Bar« 
Migais aquele que foy falar a Diogo lopez de siqueyraa 
lAaçuá como disse nu Iiuro quinto. £esle nome deBar<* 
Jiagaia quet dher f ey do mar que nagaia quer dizer rey 



48 DA HTflTORf A DA INNA 

na lingoa abexim & bar mar, & assi he ele como rey & 
(em coroa douro que lhe da ho Preste: & tè debaixo 
de seu senhorio sele senhores de grandes terras de (| 
tnuytos põe em campo quinze mil faomSs de lanças & 
escudos , & todos ieuão diante de si atabales , (| nSo po- 
dS trazer se nSo grades senhores: &assi tê outros muy** 
tos mas n3o tamanhos seHores como estoutros, & lodos 
seruS eõ ho Barnagais na gtierra , & ele & eles sam so- 
geitos ao Preste {| os despõe das senhorias quando quer, 
& lhes pagão muy grSdes dereytos : com {| acodC ao 
Barnagais & ele os paga ao Preste. E nestes dereytos 
entrão cl. cauaios. A este lugar de Barua chegoa d5 
Rodrigo dõde achou que do mesmo dia partira ho Bar* 
nagais doente dos olhos pêra outro lugar chamado Bar* 
ra: a q dom Rodrigo foy pêra lhe falar leuâdo consigo 
cinco Portugueses <| hiSo em mulas por!) nelas caminha-* 
uão todos. £ nest-e dia foy dom Rodrigo pêra falar ao 
Barnagais, mas não pode: ou não quis ele que lhe fa- 
iasse, & foy aquela noyte tnuyto mal agasalhado, & ao 
outro dia lhe falou. Estaua ele em hfia casa térrea dei« 
tado em hd catle, & sua molher assentada á cabeceira: 
& aprouettou pouco falarlhe dom Rodrigo, & pedirlhe 
auJamento pêra ho caminho porque lho deu bem mao , 
posto ^ tinha prometido ao gouernador de lho dar bÕ. 
£dÕ Rodrigo & os de sua companhia compradas alg^las 
mulas ^ lhes faiecião por ho Barnagais lhas não querer 
dar , se parlio : & despois de passar muytos trabalhos & 
perigos que não cdto por breu idade, chefi;ou hila legoa 
da corte do Preste, que como disse noTiuro teroeyro 
anda sempre no campo, & agasalhasse em tendas, de 
que antre boas & outras somenos auera seys mH. Ho 
Preste he tamanho senhor como disse no mesmo liuro , 
assi de terra como de gSte & de tesouros: andâonasua 
corte muytos reys & grandes senhores. He Christâo & 
seruese com pouco estado, porque ho não v6 se não seus 
priuados , nS se mostra a todos mais de três vezes na 
flúo. 6. dia de Natal, di4 dos Reys | dia da exa^ta^ da 



€ru2 de Setembro. E quSdo caminha também vay cu« 
berto que- ningiifi bo não Te: & quando lhe falão algtla 
^baixadores posto Q este Ade ele está falãibe por ter- 
ceira pessoa. 

G A P I T V L o XXV. 

• De como dô RodfHgo chegou á -cúrie âo PreHe joã. 

JL^om Rodrigo chegou como digo a hda legoa do ai%> 
rayal do Preste hua segunda feyra dezasete Doutubro-, 
& ali foy ter coele per mãdado do Preste ha seu mordo* 
mo mór que na lingoa Abexim se chama Adu^raz, & 
faia pêra goardar dom Rodrigo & darlhe o <| lhe fosse 
necessário. Elogo partirão dali () assi lho disse ho mor- 
domo mór , & S vez de irem por diante tortiarSo pêra 
(ras bem bâa legoa: dizendo ho Adugraz a dom Rodri« 
go (} não se agastasse porQ ho Preste' auia dir pêra a« 
quela parte a que eles hião.- E checados detrás dhQs ca* 
becos deeeranse & apousentaranse em tendas que lhes 
hi armarSo! & logo bo Preste se fby apousentar ali per* 
lo h suas tendas : & por seu mfldado foy dada a dom 
Rodrigo hfia boa tSda pêra pousar com sua cÕpanhia^ 
& quem lha leuou lhe disse {} era da pessoa do Preste, 
& ^ tal como aí}la não a tinha ninguém noarrayal: & 
que esta honrra lhe fazia ho Preste pc^r ser êbaixadof 
de rey Gbristão. E na sesta feyra seguinte vinte draa 
Doutubro foy dom Rodrigo chamado da parte do presto 
por h& frade que lhe disse () lhe leuasse ho presente & 
iodo ho seu fato & ho dos -de sua compan^hia porQ o que- 
ria ver. E por mãdado do Preste foy muyta g^nte pei^a 
acompanhar dÔ Rodrigo , Q nã quis teuar mais ^ o pre- 
sente l\ leuana. E indo assi bS acõpanhado chegou a 
fails arcos 2| se faziãodtãte das tSdas do apouseíitamSto 
^ Preste, & os arcos estauão 6 duas ordfis, & S cada 
b&a aueria bft xx. cobertos todos dé paoo brãèo & roxo 
antresachadoB hd de bfla «or & outro doulra: fe de bua 

LiVAO VI. o 



60 BA SI0TMIU DA INDffl. 

otàè a oiitra aueria bu e6pa<;o de cS pasaoa : & ettea ar* 
eo8 forio fey io9 por £azer feata ao fibaixador, por(| aasi 
diante das iCdas do Preste. Q um braças estaua hQa ro* 
xa que diziâo não seruir se não era grandes festas ou 
recebimentos. Aqui onde estauâo estes arcos aueria 
bem vinte núl homens poslos em renque de hua parte 
& da outra, & peio meyo ficaua hCLa larga rua. E todoa 
estes ssyâo a ver dom Rodrigo & os de sua companhia 
que hião lodos b6 vestidos & arrayados de ouro , & os 
Abexins se espantauâo por bo trajo dos Portugueses ser 
muy diflerenie doseu. Abaixo destes arcos estauâo qua* 
tro caualos ^ dous de cada parte selados de seiaa ricas ^ 
Sc assi os outros jaezes, & com cubertas de borcado a 
Biudo de cubertas dara»as , & nas cabeças grandes pe^ 
nachos & abaixo destas estauão outros muy tos tambft 
selados , mas aão com jaezes ricos como 09 outros* fi 
ipdo^ dd Rodrigo pelo meyo desta gSte cb^arão a el9 
Sé^ssenta hom& todoa b& vestidos, & hião quasi corren* 
do : pof que assi ho eostumão quaodo leuSo recados do 
Preste* E deapois 3^da sua parte di»rSo bft a dom Ro* 
drigo fopanse eoele :& chegado hit pouco Stes. dos arcoa 
achou quatro leões presos por eadeas que ho Preste 14 
por estado: & debaixo dos arcos primeyros estaufio as- 
isentados os quatro niayores senhores que andauâo aa 
corte do Preste , a que os (| biâo com dom Rodrigo fi-* 
aerão sua reuerenda ,, f\ he abaixar a mão derey ta ate 
ho chfto» £ asai ho fea dom Rodrigo & os Portugueses 
que parou ali com os c) hifio coele : & aueodo hít grada 
pedaqo Q ali eslaua cb^goo hii clérigo velho parête àú 
Preste & seu cõfessoc, de tãta valia & credito coele ^ 
era a seguda pessoa 3 seu se&orio despois dele & cba* 
mauase Gabeata. E este sayo da têda roxa S {[ ho Prea*- 
te estaua. Este pergiltou a dõ Rodrigo j| Qria & ddd^ 
vinha: & ele lhe respõdeo Q da índia, & leuaua €bai* 
xada ao Preste joão do capitão moor & gouernador daa 
lodias por el rey de Portugal. Coes ta reposta se foy ho 
Caboata, k. despois <»oraou. duas vezes a pregatM a 



Lmta Tf. oAPrmrLO xsiv. 51 

iheemii praftttft: & d^ dernudieirii vioee d6 Rodrrf^o tSb 
agfattado por nSò saber ho costume d« terra ^ ihediaaec 
Não aey 4 diga. £ elê lha disM Q diasoise o ^.quiscdse 
^ tudo diria ao Prasle* E dom Rodrigo não quis dizer 
iiiais 4 o q tinha dito^ diz6do ^ nâ diria maia por^ a 
embaixada í\ leuaua nSo a auia de dar a outrem se nãò 
ao Preste, ^ mãdou dizer a dõ Rodrigo pelo mesmo Ca- 
beata (( lhe mâdaase o ^ lhe mádaua hò gouefnadòr. O 
^ dõ Rodrigo fez cH parecer de todos oè Portugueses 9[ 
estauão eoele^ & dtregou ao Gábeatà bo presente Q Dio^ 
go lopez mandáua ao Preste em que entrauão estas pe- 
<;as, htia espada & bum punhal ricòs, qUatro pânos 
darmar deras , hfias oòuraças ricas com todo seu eom^ 
primenlo , dous ber<^s de metal , quatro camarás pare^ 
ies, & algfis pelouros & dous barris de poluora , híis or- 
gSos & hum maparoundi. Eeste era ho presente de Dio- 
go lopez , & dom Rodrigo acrecentou quatro fardos de 
pimfita da que leuaua pem sua despesa* £ despois de 
ho Cabeata ho ir mostrar ao Preste tornou coele onde 
estauão os arcos , & mandou estender tudo sobreles. E 
fazendo calaf todos , disse ho juiti<;a mór em roa alta , 
despois de nomear cada hQa das pe^s do presente^ qué 
todos dessem muytas graijas a nosso senhor por se ajun- 
tarem os Christtos, & se hí auia áigâs a que pesasse 
que chorassem 9 & os que íblgauão que cantassem^ B 
em acabando de dizer isto tieu a gente hila grande grii- 
ta dando graças a Deós. E coisto foy despedido dom Ko^ 
drigc bfi descontSte por não falar ao Preste , & assi hé 
foy por ibe não fszerem ho gasalhado que esperaua , Sç 
soube per algus Ghristãos da Europa que andáuão ná 
iM>rte que auia quem dissesse aos grandes senhores dela 
que conselhassem atí Preste que ho nSo deixasse ir nem 
aos de siia com|>anbia , -porque assi era ho costume da 
terra. E neste tempo se mudou hòPtiestâ donde estaua^ 
^ a dom Rodrigo lhe oonueo comprar mulad em que 
fosse ^ & boscsr quem lhe leuasse befato, por Ihò nãa 
^foeter mfldisr Jeuar 4io mofdeiao mór nem darUif» mufauiu 

6 2 



ht Bit HISTOSIA BA' IlfníA ' 

£ Teyo a eoasa a Uoto que donde dantes' lhe datiâo de 
comer aa custa do Preate passarão algus dias que IJio 
siSo deiSo, assi que em orne dias que auia que era 
chegado passou muytos desgostos ^ & não lhe aproueila» 
ua aqueixarse deles, nem mandar pedir ao Preste que 
ho ouuisse , & parecia que todos ho desprezauão : nem 
ho Preste estimou ho presente que lhe foy dado, & 
mandou logo dar tudo a igrejas & a pobres , porque os 
criados de Mateus lhe disserao que aquele não era ho 
presente que lhe el Rey de Portugal maodaua, & que 
ho tomara ho gouernador, & que lhe mandaua aquele» 
£ despois teue dom Rodrigo bem Q fazer em tirar isto 
da cabeça ao Preste porQ ho cria , & porê deu sobristo 
auytoa achaques. 

C A P I T V L O XXVI. 

De como ho Preste mandou chamar ho embaixador ^ 

não lhe falou, 

jLJLuendo onze dias que dom Kodrigo estaua na corte 
bua quarta feyra que foy ho primeyro dia deNouembro 
passadas duas horas da noyte ho mandou chamar ho 
Preste: & cuy dando ele que era pêra ho ouuir foy logo 
eaminho das tendas do Preste que estauâo dentro de 
hCLa cerca de sebe , em que também diante das tendas 
estaua hila casa grande térrea cuberta de bQ colmo que 
ha na terra que dura muyto, & estaua armada sobre 
grossos esteos dacifireste forrada de tauoaa mal pintadas. 
fiã entrada desta casa estauâo armadas quatro corredia 
ças de cortinas, a do meyo de borcado as outras de se* 
da. E diante desta casa se faziSo dous pátios, os quaes 
erão cercados também de sebe , & na porta do primey* 
ro estauâo certos porteiros , & estes deteueráo dom Ro^ 
drigo & ho não deixarSo entrar, per espa<^ de kúa ho- 
ra, posto que fazia grande vento & muyto frio, & do 
enfadados de esperar os da companhia de dem Kodrig^ 



LITRO vi; CAPITTLO- XXVI. bS 

tírarSo duas espingardadas : & logo lhe pergunlarSo da 
)>arte do Preste porque não traziâo D)aÍ8 espingardas : 
respondeo que porque não faiâo pêra guerra. E nisto veo 
ho mordomo com outros quatro principais da corte : & 
dizendo a dom Rodrigo que fossem pêra dentro , abala* 
râo indo ele diãte com os outros quatro em fieira , & 
nos cabos dous homens com duas velas acesas nas mãos« 
E entrando pelo primeyro pátio ate que forâo no segun- 
do , detinhãse de quando em quando; & dizia cada hum 
por si em alta voz. Senhor o que me mandastes aqui 
ho trago, & de dentro respondiào também em voz muy* 
to alta. Anday pêra deniro. £ a esta palaura por ser do 
Preste & licença sua abaisauão todos as cabe<^as, & pur 
nhão as mãos dereytas no chão por reuerencia. Feyta 
esta cirimonia muitas vezes pelo modo sobredito , disse 
ho mordomo mór & os outros quatro. Os frâgues ^ se- 
nhor me mandastes aqui os trago. £ da casa respondiãe 
que entrassem pêra dentro, & assi ho fizerão despois de 
ditas estas palauras muytas vezes, & ali acharão feyto 
hum estrado rico, & diâte dele eslauâo cento Sc sessen- 
•ta homens com velas acesas nas mãos oy tenta de cada 
banda : & todos ti nhão as velas em igoai compasso. To- 
do ho chão da casa estaua cuberto de esteiras pintadas*, 
& aqui se deteuerão. E estando assi de dentro das cor- 
ridiças,- foy hH page com hum recado do Preste a dom 
Rodrigo: em que dizia que ele não mandara Mateus a 
Portugal , & posto que fora sem sua licença , que ei 
Rey de Portugal lhe mandaua por ele muytas cousas, & 
pois lhas mandaua porque lhas não dauào* £ dom Ro^ 
drigo respondeo que por Lopo soarez não poder ir a JVIa- 
çuá , & por falecer Duarte galuão que el Rey de Portu- 
gal lhe mandaua por embaixador: mas que as peças que 
lhe el rey mandaua estauão goardadas na índia, & não 
as leuara Diogo Lopez pêra lhas mandar por aâo sercer* 
%o de poder tomar ho porto de Maçuá, nem leuauaMa* 
teus se não pêra ho deitar em qualquer porto que to* 
aaaae da Abexia^ pêra que despois que ho soubesse lhe 



IV4 DA mnonxA ba índia 

mandasse bo presente que Ibe el Rey de Portugal man» 
daua , & quando ho DeoB ieiiara a Maquá por desejar 
de bo visitar^ mandara a ele dom Rodrigo com aquelas 
peças que lhe dera, & pêra saber bo caminbo quãdo 
fosse embaixador dei Rey de Portugal. E coesta repôs* 
la lhe mandou pedir que bo ouuisse & saberia a verda» 
de: & tambC lhe diria por escriplo o que bo gouerna« 
dor Ibe mandaua dizer alem da carta. E sem bo Preste 
responder a isto bo mandou despedir, & dali a dous 
dias as mesmas horas da noyte mandou bo Preste cha«- 
mar dom Rodrigo, que foy & achou a casa que disse 
mparamfilada de borcados , & atauiada de cousas mais 
ricas que dantes & mais gente & toda muyto luzida , & 
mais velas & entrou com as cerimonias passadas : & os 
homens que ali estauio a fora os que linbâo as velas 
«stauão em ordem, bfts de híia parle outros de outra 
com espadas nuas na mão. E despois de bo Preste man- 
Hclãr pregtitar a dom Rodrigo polo Cabeata & pelo seu 
pajé moor muytas cousas sem propósito, lhe mandou 
dizer que jugassem dous Portugueses despada & adarga» 
E despois de sayrem dous mandou dizer que saysem ou>* 
tros dous: & por os dous primeyros bo não fazerem á 
vontade de dom Rodrigo, sayo ele com lorge dabreu* 
E acabando de jugar mandou dizer ao Preste que fizera 
aquilo polo seruir, nem bo fizera por outro nenhfi prin«> 
cipe ainda que lhe dera cincoCta mil cruzados, pedin* 
dolhe muyto que bo ouuisse & saberia o que lhe man*- 
daua dizer bo gouemador, & que ho despachasse pêra 
poder ir tomar a tempo a armada dos Portugueses que 
auia de ir ao estreito. A isto ibe respondeo bo Preste 
que ainda então chegara, & que nâo linha visto bum 
terço das suas terras que folgasse, & que iria bo gouer*- 
pador a Maçuá, & que lhe mâdaria recado & então se 
iria : & mais que faria ho gouemador fortalezas em Ma^ 
^uá , çuaquem & em Zeila , a que ele ajudaria com to^ 
dos os mantimentos necessários. E per fim de tudo nie 
i|ais. daquela vez oauir dom HodrigO| & mandoulhe qm 



LIW0 VI. CAPITTLO XXTIX* hb 

lhe mandasse por escrípto na lingoa Abexim e que ho 
gouernador lhe mandaua dizer. O que dom Rodrigo fez 
pêra Ter sé se podia despachar , & (teaesperado de lhe 
não poder fidar. 

C A P I T O L O XXVII. 

De como dom Modríga fcdau oú Prt$te joao. 

JLIespois disto foy ainda dom Rodrigo chamado do Pres- 
te algiias vezes & de nenhãa ho ouuto, & mãdou pergú^ 
iar a FrScisco aluarez niuytas cousas das cerimonias da 
igreja acerca do callo diuino : de que lhe soube dar táe 
boa rezão que ho Preste ficou contente, & mandou ir 
perante si Francisco alusrez , & mandou ho reuestir co* 
mo pêra dizer missa, & perguntoulhe bos sinificados de 
todas as pechas das vestimentas9.& ele lhos disse. Edali 
por diante íòy dom Rodrigo & os de sua companhia 
melhor prouidos de mantimentos que dantes , & foylhe 
dada hfia tenda em que se lhe dissesse missa ao modo 
da igreja de Roma, porque os Ahes^ns nÍo a dtzem assi. 
£ ho Preste mandou a todos esses senhores da corte que 
a ouuissem. O que eles fiaerão de boa vontade : & ho 
Preste & todes linhSo Francisco aiuarez por homem san* 
to, & pediaiilhe que rogasse a Deos per eies. £ hfla 
terça feyra deaanoue de Nouembro bem noyte foy dbm 
Rodrigo chamado do Preste pêra lhe falar. E ele foy 
coes tedos oa de sua companhia , & no primeyro pátio 
esteue grandes três horas primeyro que entraese, &des* 
pois entrou na casa que disse com as mesmas eerimo* 
nias que dantes entrou, & dMta vez achou muyto mais 
gente que das outras, & muyla dela eom armas, &asst 
eslauSa muyto mais velas, & a casa alcatifada de ricas 
alcatifas, & as cortinas de borcado, & os estrados de 
panos de seda: de modo 5 tudo estaua muyto dauSta^ 
gem da primeyra. E dom Rodrigo náo entrou nesla ca-i 
aa com mais de noue peasoaa cb soa. cempaiiiliia , & oa 



' 



66 DA HISTORIA DA INDTA: 

oulros ficarão de fora. E entrado dom Rodrigo forão a« 
bertas duas corrediças , de que dom Rodrigo & os que 
liiSo coele estarião comprimento de duas lanças que ali 
os mandarão estar. E abertas estas corrediças apareceo 
ho Preste que estaua detrás delas homem de roeaS es- 
tatura, que parecia de idade de vinte três annos, &de 
tantos era: de cor de maçaS bayones não muyto parda, 
ho rosto redondo & magro ^ os olhos grandes , ho nariz 
alto no meyo: começaualhe de nacer a barba. E com 
tudo tinha no rosto hiia grauidade de tamanho senhor 
como era : tinha vestida hua opa de borcado sobre hiia 
roupa de seda, na cabeça tinha hQa coroa alta, hQa pe« 
ça de ouro outra de prata, & polo rosto tinha hum tafetá 
azul como rebuço que lhe cobria a boca & a barba que 
hum pajé abaixaua de quando em quando que lhe pare« 
cia todo ho rosto , & despois ho tornaua a aleuantar & 
ficaualhe meyo cuberto. Tinha na mão hQa Cruz de pra- 
ta iaurada ao boril: estaua assentado em hua cadeira 
real sobre hum estrado alto de seys degraos cuberto de 
panos ricos, aa sua mão dereyla estaua bii pajé que tí« 
nha hila Cruz de prata, & de cada parte da cadeira dous 
com espadas nilas nas mãos, & nos cantos do estrado 
estauão quatro que tinhão senhas velas acesas. Em ho 
Preste aparecendo dom Rodrigo lhe fez sua renerencia 
abaixando a cabeça & poendo a mão dereyta no chão: 
& ho Preste oulhou parele, & logo lhe mandou pregun* 
tar pelo Cabeata como se achaua naquela terra, & se 
folgaua nela. Ao que respondeo que bem , & que folga* 
ua muyto nela por ser deChristãos, & se auia por muy* 
to ditoso de ser ho primeyro que a ela fora com embai*' 
xada. E despois desta reposta lhe mandou pelo mesmo 
Cabeata as cartas que leuaua parele do gouernador, & 
ho regimento que lhe dera, tudo na lingoa Abexim, que 
ho Preste leo per si. E despois disse que daua muytas 
graças a Deos pela mercê que lhe fizera em ver o quQ 
seus antecessores nunca virão, nem ele cuydara dever. 
£ que folgaria muyto que el^:ey de Portugal maodasse 



LIVRO VI. CAPITVLO XXVII. 67 

fazer fortalezas em Zeila , Maçuá , & çuaquem ? porque 
temia que os rumes se fizessem fortes naqueles lugares^ 
& fazendose dariâo grande opressam a ele & aos Porlu*- 
gueses. E querendo el rey de Portugal fazer aquelas 
fortalezas, ele daria todos os mantimentos que se ou- 
uessem de gastar nelas. E dom Rodrigo disse que si fa« 
jia , porque também desejaua de as fazer : & sobre isto 
praticarão bum pedaço. E dom Rodrigo se foy pêra sua 
tenda muyto contente de ter falado ao Preste : & ho 
Preste lambem ho ficou de sua embaixada , & de ter 
conhecimento dos Portugueses de que ouuia contar tan- 
tas façanhas. E logo ao outro dia mandou chamar Fran* 
-cisco aluarez , & lhe perguntou por muytas cousas da 
igreja Romana , & polas vidas de saro Hieronimo & de 
outros santos, & folgou muyto de as saber, & de as ver 
em hum Fios sanctorum que lhe Francisco Aluarez man* 
-dou. E no domingo seguinte mandou hum fermoso ca« 
valo a dom Rodrigo: & aquela noyte despois de estar 
dorno^ndo com todos os de sua companhia ho mandou 
-chamar : & ele foy , & entrou na casa onde ho Preste 
estaua com outra tal magestade como da outra vez : & 
diante das primeyras corrediças forão dados vestidos a 
todos os da companhia do embaixador da parte do Pres- 
te, de que se logo ali vestirão: & a dom Rodrigo de- 
rão outro vestido das corrediças pêra dentro» E vestidos 
todos entrarão onde ho Preste estaua : & ele lhes man- 
dou dizer pelo Cabeata que se podia ir embora comi to- 
dos os de sua companhia, & que ficasse hum frangue 
dos que dantes estauão na corte, & por^ele lhe manda* 
ria ao caminho as cartas que ainda estauão por escre- 
ver. E dom Rodrigo disse que não auia de partir sem 
reposta, & que esperaria quanto ele mandasse, mas que 
lhe pedia que ho despachasse a tempo que podesse ir 
tomar a nossa armada a Bflaçuá. E ho Preste respondeo 
per sua boca que lhe prazia , & se auia ele de ficar por 
capitão em Maçuá. E ele respondeo que posto que de- 
sejaua muyto de se ir pêra Portugal, que faria o que 

LIVRO VI. H 



58 DA HISTOftfA BA INPIA 

Jbe mandasse ^ porque sabia que nisso seruiria a el Rey 
de Portugal seu senhor. £ coislo ho despedío bQ Preste 
& toroouse pêra sua tenda. 

C A P I T O L O XXVIIÍ. 
Das brigas que auue antre lorge dabrtu 4r ^1^^^ Rodrigo. 

xXo outro dia que forSo vinte seys deNouêbro se paiv 
tio tio Preste supitamen te 'daquela parte pêra outra, 8t 
donde dantes hia encuberto que ninguém bo náo via 
fartio então descuberto encima du caualo acdpanhado 
de dous pajés & passou escaramuçãdo por diante daten«> 
da de dom Rodrigo: & logo se leuantou a gente toda ík 
se foy após ele , & dom Rodrigo também. £ antes de 
partir se íoj parele hii sefior cbamado lase rafael , que 
era clérigo, & assi htt capitão do Preste pêra ho goar- 
dar, & mandaranlhe dar cincoenta mulas & escrauos 
pêra leuarem farinha & vinho , & outros escrauos pêra 
lhe leuarem ho fato , & das cincoenta nâo lhe forâo da<* 
das mais de trinta & cinco, & das outras no mais de 
quinze & al^ils escrauos. £ de tudo tomou do Rodrigo 
bo melhor & ho mais , dizendo que tudo era seu : do 
que se todos escãdalizarflo muyto, principalmSte lorge 
dabreu & Lopo da gama porque nâo deu aos outros se 
não as peores mulas & peores escrauos & que não abas*» 
tauão pêra lhes leuarem bo fato. £ f)orem dissimularão^ 
$L despois que chegarão aa corte , mandando ho Preste 
perguntar per hum frade a dom Rodrigo como hia a ele 
& aos de sua companhia, & se lhes derâo tudo o que 
lhes mandara dar. £ respondendo dom Rodrigo que tu« 
do, disse lorge dabreu que não dissesse aquilo que lhe 
não derão todas as mulas: & as que derâo erâo tortas Jt 
cegas, & os escrauos velhos & náo valião nada. Porem 
1} assi como tudo era ho tomara dom Rodrigo sem dar 
Bada a ninguém. £ dizendo dom Rodrigo que nâo ú\a* 
aesse aquilo , por^ tudo era muy to perfey to : respondeo 



LITRO VI. cAPrrytjo xxviir. 69 

lofge dabren ^ que se tudo era perfeyto que ele ho li<* 
Bha, & a ele Ibo danão^ mas que dali por diante oão 
teria asai* £ bo frade se espantou inuylo douuir islo, & 
por não ouuir maia se foj côtalo ao Preste. £ despoit 
de e\e ido ouueráo lorge dabreu & Lopo da gama tais 
palavras que vierão ás lançadas & ás cutiladas, & Fran« 
cisco aluarez oa apartou, & lorge dabreu ouue hâa pe* 
quena cutilada S hâa perna : & ele & Lopo da gama (o^ 
tSío dettadoe fora da tenda» £ iabõdo bo Preste decrtat 
brigas & bo sobre que fora, mandou dizer a dA Rodrigo 
que entregasse as mulas & os e«erauos a bll homem que 
mãdou ft teuesse cuydado de leuar ho fato dos Portu» 
gueses, & que eles não fizessem mais que caminhar. E 
dom Rodrigo ho fez assi , & aquela noyte foy chamado 
do Preste pêra bo faaer amigo com lorge dab^^eo. E por 
mais que Ibo bo Preste rogou uotica qute , antes lhe pe- 
dio que ho mandasse apartar de sua tenda & a Lopo da 
gama. E ho Preste ho fez assi , & mandou os apcusen* 
tar na tenda de bum senhor da corte. E estando aqui 
cbegooae a festa do Natal, em que ho Preste mandou a 
Francisco Aluarez que lhe dissesse missa, que lhe ele 
disse Kgundo ho nosso costume , que bo Preste louuou 
mujto , & disse que lhe parecia qu« estaua no paraíso^ 
& vio confessar, & comugar os Portugueses, o que lhe 
pareceo em estremo bem : & assi ele como os gi^es& 
outroa de sua corle estauSo muyto contentes do culto 
drotno dos Portugueses & diziilo que erSo homSs san« 
ctoe. E também ouuirão todos as matinas do Natal que 
oa Portugueses disserâo muyto bem : &na noyte seguin* 
te á mea noyte tornou bo Preste a caminhar, & partio 
asai por passar s6 gente biis passos muyto ro!s & estrei* 
tos que tinha pêra passar, & onde morriSo muytas mu- 
las & gSte» E passados estes passos mãdou dizer ho 
Preste a dom Rodrigo, ^ ele tornaua a seu caminho, 
que njk) caminhasse mais do que lhe mãdasse. E com 
quanto os dias atras ninguém sabia onde ele hia , 8c a 
gente pousava oȇe acbaua bOa tSda brSca armada, a 

H 2 



60 ]>A HI&TORiA DA ÍNDIA 

que 86 fazia Gerimonia como se bi esteuesse bo Preste : 
começou enlfio de camÍDbar desla maneira; metido em 
hilas corlinas de seda roxa sem corridiças de diaoie & 
tão akas que ho cobriâo- a caualo» E estas er2o leuadas 
per bomSs cõ varas que bião da parte de fora, ele ves* 
tido destado^ & na cabeça bua coroa douro & de prata, 
caualgando ê bua mula ageazada de ricos goarDecim&- 
tos com ha rico cabresto de dous cabos sobre ho freo, 
por onde dous pajés leuauão a mula: ieuaua mais outros 
quatro, dous de cada parle, bils com as mãos sobre ho 
pescoço da mula, outros sobre as ancas. Diante das cor- 
tinas logo pegados coelas Ieuaua v!te pajés dos princi- 
pais, & estes a pé & diante deles hião seys caualos a- 
desiro , & diante dos caualos seys mulas cÕ ricos jaezes 
& goarnimentos , & cõ cada caualo & mula quatro mo* 
ços desporas cÕ bõs vestidos , & dous os leuauao pelo 
cabresto , & dous hiâo com as mãos sobre as selas cada 
hil de seu cabo. Diâte destas mulas hiâo logo vinte se* 
lihores dos principais da corte, & estes em mulas vesti- 
dos de mariolas de seda & bedês , & diante destes fi- 
dalgos hia dom Rodrigo & os de sua companhia por 
mandado do Preste por lhe fazer honrra: & dali a gran- 
de espaço não hia outra gente de pé nem de caualo, & 
hiâo corredores diante que fazião apartar todos. Leuaua 
mais ho Preste dous capitães da goarda q na sua lingoa 
se chamão Betudeles & sam grades senhores, & cada 
hu leuaua seys mil homens darmas, hu da mão ezquer* 
da outro da dereyta, & ambos fora do caminho & bem 
afastados do Preste, & se caminhão por terra que he 
forçado irem todos por hfi caminho, vay htl muyto atras 
do Preste & outro muyto a diante, & cõ ho diâteiro vão 
sempre quatro leões presos por fortes cadeas. Hiâo mais 
cõ bo Preste detrás dele duzentos homSs, de que os 
cento leuão cem jarras de vinho de mel cada bua de 
seys canadas, & outros cento com cestos cheos de pão : 
& coçstes vão seys homSs detrás deles {| os goardâo. £ 
^sle mantimento se recolhe nas tendas do Preste em ele 



LTVfiO VI. CAriTVLO XJCIX» 61 

deBcauateando : hiáo tambeo) diante desta gente astea* 
daa das igrejas da corte do Preste que sam treze^ & as 
pedras dará de todas : & cada pedra ieuâo qu^^íro cléri- 
gos de missa era hua cousa como padiola que leuão aos 
hõbros caberias de panos de seda , & vão outros cléri- 
gos de sobresalente pêra quando estes cansarem. Diaik- 
te de cada hia hião três homfis dordês, hii com hfla 
cruz aleuaotada, outro coro hii turibolo encensando, & 
outro diante tanjèdo hua campainha, & toda pessoa que 
vay pelo caminho em ouuindo acãpainha se afasta pêra 
fora, & se vaj a caualo deeesse, em tanta veneração 
4em aquela pedra onde se põe ho sacramento do altar* 
A gente que hia com ho Preste não tinha colo , por{| 
em espaço de quatro legoas não auia quem rompesse 
pelo caminho, nè por fora dele: seria a decima parte 
desta gente' teda limpa & bS tratada, & a outra gente 
€om& em j|ha muitos pobres» £ nesta gente não en«- 
Irâo os grandes senhores & fidalgos , porque com cada 
hfl na quantidade da gente com que abalão pouoarSo 
hQa boa crdade ou vila Despanha^ & hirião bem cem 
mil em caualgaduras de mulas a fora as que hião ades- 
tro que seriâo três tâtas, & a fora as de carrega que 
Bão tem conto : te a fora os caoalos que erào muytos» 
£ era cousa fermoda de ver tãto numero de gfile & da- 
limarias : & cousa muyto pêra espantar como auia terra 
que os manteuesse, porque a corte do Preste he muyto 
abastada de mantimentos. 



C A P I T O L O XXIX. 



. « « . - • 



De c^mo ho Preste despachou dom Rodrigo de limeL 

jlVssí caminhou ho Preste ate chegar jflto de hua graor 
de igreja da auocaçào da sanctissima Trindade pera.a 
ía2eff consagrar, & pêra mudar a ela a ossada de seu 
pay que estaua em outra pequena junto daquela: &aqui 
chegou ho primeyro dia de laneyro do ãno de vinte bià^ 



€it JDA tfiarottA m iitoia 

onde fo^ r«eebkb de derigoa & frsulea que pamaríSoâe 
vinte mil. E têdo aqui ho Preste seu avrayat em kQa 
pratica § teue cotn do Rodrigo per tercejra pes&oa Uie 
deu alg^us açhaquea sobre Ibe nSo darem, o que lhe elrej 
de Parlugal mádara q«iSdo Ibe mãdaua Duarte i^aluSo 
por embaixador, & na mesma pratica lhe mâdou ftízer(| 
se fora no tempo cfios; reya passados & mio lauara nkvyta 
roupa que lhe não fiserâo nenbua huirra: ãtifiie ele ike 
fazia mciyta. A que dom Rodrigo respondeo (| tinha re* 
cebido8 S suas terras niuyCos agrauos, asst de desprezos 
& de roubarem^ a ele, & aoa de soa companhia vestidos 
& quaal^ leuauão pêra eomer, &l três ou quatro vezes 
os* quiserâo matar: & que. se morressem naquebi terfa 
auvão dir ao paraíso, porquie morriloi wartyres , porqiM 
tudo sofriSo por seruirem a Deos.&;, a el Rey de Portu* 
gal. E que doutra maneira fora Mateus honrrado: em 
Portugal, por dixer que era; seu embaixador, & que 
doutra era ele, pediodalhe que fao despachasse pêra se 
bir» E o Preste resfiondeo Á bem sabia a honrra ^oe 
Aflateua recebera aasi na Ineia oomo em. Portugal ^ & 
que nio ouuesse menencoren ^ logo ho. deapac havia St 
muyto á sua vontade, &; co|sto ho despedioé E no dia 
dos EUys seguinte, se bavlixou ho Preste com sua mo» 
Iber^ & sua may 8c bo Patriarca^: & outra muyta gen»- 
te, ^ assi sr iornâo a bai]ti|:ar eadane naqiKpte dia se* 
gOdo seu costame^ E ho hautisma foy em htl ta«icfn# 
grande forrado de tauoado cuberto de. pano dn)god2a eu* 
cerado: & despois que está cheo dagoa () hfi clérigo 
benze & lhe deita okto , enlr& hè Preate no tãque per 
bus degraos que tem : & hfl clérigo que foy seu mestre 
homjt* de grande idade ^ lhe R>e(e trea vezes a cabeça 
debaixo d^goa: dizSdo. Eu te bautizo, em nome do pa- 
dre, do ftibo, & do spirito santo^ E. despois de bauli- 
sai}o, se íby a kfl cadaíalso () estaoa junto do tanque 
cefcado de eocredi<jas de tafetá , peta que dali sem ho 
xerem visse quâtoe se bauUzaukoi. B bautÍ2afdo ele & 
iMlheãr & sua maj &.he Patríarca^se baiitizonsgraa^ 



de numero de gente: & também mãdou conuidar os 
Portugueses, peta se bautiz^rS niaâ náoquisserâo. Des- 
pois disto sem mais passar cousa ^ de contar seja, ten- 
do lio Preste despadiado a dom Rodrigo ^ mádouo cha- 
mar pêra fao faser amigo úô lorge dabreu, &. por maisi| 
lho rogou nunca quis, antes lhe pedio dÕ Rodrigo, que 
ho deieuesse dous meses despois de sua partida porque 
não fosse coele, qne erli certo que ho queria malar, fi 
ho Preste iicou muyto descAtente de dom Rodrigo nâo 
querer fazer ho que lhe n^gauà: & despediohc/ sS ho 
querer ver, & eõ menenooria lhe nao quis dar Vestidos 
de borcado que tinha parele , & pêra os outros. E per 
ha dos Betudetes, mandou a Franciseo aluares hua 
Cruz de prata , & hfi cajado da medma laurado de tau^ 
pia, por posse da senhoria que lhe tinha dada: Q erti 
. faseio bispo 'daqueles lugares dd mar Roxo. E despois 
de dõ Rodrigo se ir pêra sua tenda^ lhe mãdou ho Pres- 
te trinta Õças douro, & cincoenta pêra os de sua com*- 
panhia , mâdando que destas ouuesse lorge dabreu , & 
os que estauão c6 ele sua parte , & assi dessem carre^ 
gas de farinha que mandou, &oyto mulas, de trinta que 
lambem mâdaua : & pêra el Rey de Portugal mãdou per 
Abdenagó seu pajé, hila coroa de sua pessoa douro Sl de 
prata : & que dissessem a el Rej de Portugal que lha 
mandaua como de filho a paj , & que lha mandaua co<^ 
mo cousa, prezada, & por ela lhe apresentaua todo fauor 
ajuda & socorro de dinheiro, gentes, &maniimento8que 
lhe fossem necessários , pêra fortalezas & armadas Q 6- 
sesse no estreito do mar Roxo. £ assi forão dados a à& 
Rodrigo cinco saquinhos de borcadò, & nos três hiâo 
três cartas , pêra el Rey de Portugal : scriptas em per* 
gaminho, em lingoa Abexim, Arábica, & Portuguesa, & 
duas pêra ho gouernador da índia : & estes metidos em 
h{| cesto forrado de pano & cuberto de douro, & asseia*- 
do ho fecho : & disse ao embaixador que se pdia ir quan- 
do quisesse que de todo era despachado. £ ele quisera 
falar ao Preste & nfto pode por se partir a madrugada 
passada pêra outro lugar. 



64 OA HISTOMA DA INDU 

C A P I T V L O XXX. 

De como dó Rodrigo se partio da corte do Preste , ^ da 

catisa porque iomou a ela. 

JL/espachado àò Rodrigo da maneyra que digo, partior 
se dia de Cinza treze dias de Feuereiro. E forâo coele 
dous filhos deCabeata, por cujas terras auia de passar, 
pêra ho goardarem & lhe darem polo caminho bonecea^ 
«arío, & hia lambem hum frade. E coestes «bia lorge 
dabreu ) & (icauSo afras de dom Rodrigo. E logo nas 
primeiras jornadas , lohão gõçaluez feyior da embaixá*- 
da , sobre paiauras que ouue cõ hu lohão fernâdez que 
ho seruia lhe deu com híí pao na cabe<;a: do que agra* 
nado lohão fernandez não quis ir mais com ho feytor) 
^meleose com dõ Rodrigo. Edahi a poucos dias, cami* 
fihando ho feytor só, saltou coele leuâdo hua lança com 
que. lhe deu duas lançadas em hiia mão, & nos peitos, 
onde ho ouuera de passar ao vão, se a lança não se de» 
teuera è htla costa: & sobristo foy lohão fernãJez pre« 
-80 por dom Rodrigo, & hda noyte fugio pêra lorge da- 
breu & assí escapou. E proseguindo [x>r seu caminho, 
forão ter cora dom Rodrigo ho mordomo mor do Preste, 
&. outro senhor, que lhe disserão <]ue os mandaua pêra 
fazerem amizades antrele & Jorge dabreu , por^ tícaua 
muylo descontente de partirem immigos, & irem assí 
apartados polo caminho: rogandolhe da sua parte que 
fosse seu amigo, & fossem juntos: & tãto lhe disserão 
J\ se ouue de fazer. E feyta a amizade , dera a cada 
Português sua mula da parte do Preste. E continuarão 
aqueles dous senhores co eles seu caminho, dizendo que 
assi lho mandara ho Preste , pêra os apresentarfi ao ch* 
pilão mór da armada dos Portugueses, porque ho Bar* 
nagaeis que ho ouuera de fazer fícaua na corte : & assi 
caminharão ate chegarem ao lugar de Barua, onde se 
deteuerão tanto que passou ho tempo , em que a .arma4 



LIVRO VI. CAPITVLO XXX. 64 

'âa dos Portugueses auia dir a Maçua pêra os leuar a 
lodia. E passado bo tempo, dom Rodrigo contra a ami- 
zade que tinha feyta com lorge dabreu, mandou ao fey- 
tor que lhe não desse manlimSto nem aos de sua com- 
panhia. Sobre ho que lorgé dabreu se queixou ao mor* 
domo mór do Preste, & ao outro senhor : polo que man- 
dara o chamar, & lhe afearão muyto ho que fazia, ro* 
gandolhe que desse ho mantimento a lorge dabreu, mas 
não ho poderão acabar coele : & cada hu se foy pêra 
sua pousada: ficando os Abexis muyto agrauados de 
dom Rodrigo, & espantados de sua crueza. E como 
iorge dabreu era esforçado, não quis vsar de mais ro- 
^os com dõ Rodrigo, & determinou de tomar hò manti- 
mento por força, pêra ã a tempo que todos dormião, 
«aliou em casa de dom Rodrigo ondestaua ho feytor ^ 
tinha ho mantimento, & com os de sua companhia ar- 
mados, despi ngardas , laças, & espadas: começou de 
^brar as fiortas cò hH vay & vem : & foy a cousa a tan- 
to, que hú criado de dom Luys foy ferido de hua es- 
pingardada, & ele se acolheo por hiia porta falsa á |K>u- 
eada do mordomo mór & do outro, que ãbos forâo pren- 
der lorge dabreu : & os seus por não terem poluora não 
se defenderão com as espingardas : & presos os manda- 
rão a outro lugar c6 goardas que os goardassem. £ nes- 
te tempo quisera ho mordomo mór & ho outro, fazer a- 
tnigos dõ Rodrigo & lorge dabreu mas não poderão : & 
por isso & por ser passada a monção de se irem na ar- 
mada da índia, determinarão de os tornar á corte: Sc 
caminhando pêra lá acharão ho Barnagaeis , que saben* 
do ho caso que era acontecido, reprendeo muyto bc 
mordomo mór &; ho outro de leuarem os Portugueses á 
corte , & disselhes que lhos deixassem , & bradou muy- 
to com dom Rodrigo , & com lorge dabreu , pelo que 
fiaserão, ^ ainda perantele ouuerão muyto mas palauras, 
do qiue ho Barnagaeis se espantou, & de ver quam pou- 
co amor se estes tinhão em terra estrangeira onde ha- 
uião d€v ser muyto amigos: & tomou a dom Rodrigo a 
LIVRO Vi. I 



66 nA HI6TOBIA DA IMOIA 

coroa & as cartas do Preste (| leuaua pêra el rejr do 
Portugal 9 & leuouos cÕsigo a suas terras , & deixou dff 
Rodrigo no lugar de Barua, & fo^^sse ao lugar de Barra 
cõ lurge dabreu; doade & ele & dom Rodrigo forSo 
despois leuados á corte do Preste. Mas coaM> nSo bo pude 
saber. 

C A P I T V L O XXXL 

Dt como dom Luys se tornou a partir da corte do FrtsU^ 

JCj estando na corte aos quinze dias Dabril , forâo dar 
das a dom Rodrigo as cartas q lhe dom Luys de mene- 
ses scriuia, que naquele dia fosse com ele em Ma<jua^ 
porque não podia esperar mais por amor da moução: & 
assi lhe daua conta do falecimento dW Rey dom Manuel^ 
& escreuia também ao Preste , pedindolhe que ho des^ 
pacbase logo. £ vendo dom Rodrigo & os outros comQ 
Daquele dia se acabaua bo praxo que lhe dom Luys pu<- 
nha \ fossem em Macjua: ficarão muyto tristes, por 
verem que auiâo ainda de ficar bú anno naquela terra: 
& muyto mais tristes, polo falecimento dei Rey dom 
Manuel. E acordarão em conselho de bo dizerem ao 
Preste : & logo começarão de rapar as cabeças hOs aof 
outros que naquela terra se faz por dó, & vestirem pa- 
nos pretos : & estando os Portugueses neste officio leua«- 
ranlhes ho jantar , & os ^ ho leuauáo vendo ho que fa- 
ziâo deixarão ho comer sem falarem , & forão dizelo ao 
Preste : que logo mandou preguntar per does frades a 
dom Rodrigo que Ibea ac&tecera. £ele não pode respon^ 
der com choro : & Francisco aluarez lho disse pelo cos* 
tume da terra dizendo. Cairam os estrelas & a Ifla , & 
bo sol escureceo & perdeo sua claridade , & não temos 
quem nos cubra nem quem nos empare, nem pay nem 
may que por nos seja, se não Deos que he pay de to« 
dos. El rey dom Manuel nosso senhor he falecido davi« 
da desle mundo , & nos ficamos órfãos & desempara* 
dos , & a esta derradeira paiaura Q quasi não pode di» 



Li¥tto VI. ci»itirf.o xxxr. 67 

zer com choro, aleuantarSo todos hii dorido prato: & os 
frades se forSo lambem chorando a dizelo ao Preste , 
que ficou muyto triste com aquela noua. Eem sinal de 
tristeza mandou apregoar , que por três dias nam se »- 
brissem aa tendas onde se vendia p8o , vinho , & carne, 
& outras mercadorias , & assi se fez, E passados os três 
dias mfldoQ chamar dom Rodrigo & os outros Porlugue- 
seê , & todos entrarão onde ho Preste estaua. E ele pre^o 
guntou adem Rodrigo quem herdara hos Reynos dei nej 
de Portugal seu padre, & ele disse que ho Principa 
dom lohão seu filho, & resp5deo ho Preste ^ não ouuefr» 
86 medo ^ ê terra de cristãos estauã, Q bÕ fora ho paj, 
& bd seria ho filho, & ^ ele Ihescreueria : fc dÕ Ro^* 
drigo lhe pedio Q ho despachasse , porque ho esperaua 
no .mar ho capitão mór da armada dos Portugueses, & 
que assi bo escreuia a aua alteza*! & ele disse que logo 
entenderia em^seu despacho, que lhe tornassem as car* 
taa de dõ Luys na sua iingoa : & dom Rodrigo ho fez 
assi. E como sabia ho vagar í) ho Preste tinha noa des^ 
pachos,' despedio logo hfl Português de aua còpanbia^ 
ehamado Ayres dínz, cd hii Abexim cA carias a dom 
Rodrigo: dandolbe a rezão por2| nã fora em Maçua ao 
prazo H lhe possera : pedindolhe ^ pêra ho ãno tornasse 
por ele. E nisto parliose ho Preste pêra outra parte, & 
tãto quefoy apousentado dom Rodrigo lhe pedio licen^ 
ça pêra se ir, & ho Preste lhe disse que não ouuesae 
medo, que ja tinha mãdado recado a dfi Luys xjne en* 

Kraase : & por importunação de dom Rodrigo, mandou 
hão gonçaluez ho feytor com eartM eu^s & de dft Ro^ 
drigo pêra dom Luys , & deulbe htla boa mula fc vestia 
dos ricos & dez onças douro , & mandou o3 eie dons 
criados seus t & dali a hfl mes & meo deapaobon dft Ro« 
drigo, & deu ricamSte de vestir aele & aosf outros, &a 
quatro deu cadeas douro c6 cruzes & a cada hfl euamu* 
)a , .& pêra todoa oy tSta ftçaa doura & cem panos de ae« 
da : & dãdolhet a sua benç^m os despedio. 

I 2 




68 nk HISTORIA DA INOTA 

C A P I T V L O XXXIL 

De como foram mortos quairo Portugueses i Arqaico. E 
de como dó Luys de meneses se pattio de Maçua. 

3j içando dom Luys de Meoeses no porto de Biaçua 8 
quanto forào chamar dom Rodrigo á corte do Preste, 
hiâo o6 Portugueses muytas vezes a terra & tralauâo cd 
os AbexiS) àtre os quaeis morauão obra de quanenta 
Rumes: ^ como Qriáo mal aos Portugueses náo podia 
sofrer veios antresi , & não ousauSo de lhes fazer mal 
porque erão muytos, porem dauâlbe dissimuladamenta 
grandes encontros, & fazianlhe muytos desprezos: ho \ 
eles entendendo ajuotaranse bfis doze , & sem ho dom 
Luys saber se foráo a terra armados de chui^s, & ro* 
delas 9 & desafiarão oa Rumes todos juntos: que não 
ousando de sair ao desafio, lhe disserio mansamôte que 
nao queriâo nada coeles : do que ficarão moy injuriados, 
& desacreditados com a gente da terra que vio ho de- 
safio. E logo ao outro dia que isto foy , forlo sete sol- 
dados a Arquico em hil paraó: que não sabendo hoque 
era passado antre os outros & os Rumes, não leuaram 
mais (| suas espadas. E vendoos os Rumes daquela ma-> 
Deyra, virão que tinhão tempo pêra se vingar: & ajun- 
tando algfis mouros derão sobre os sete , de Q matarão 
quatro, & isto òom grade estrõdo & arroido: & j} c5 
quãto os Portugueses erão Cristãos, nuca Xumagali sol- 
tão, ^ era a justi^ da terra quis Já acodir: sabendo \ 
os Rumes & mouros matauão os Portugueses : nem me- 
nos Arraiz jacob regedor das terras de Barnagaeis. £ 
somente hu fidalgo Abexim que auia nome Gabrizesus 
acodio ao arroido mas nã fez nada , nem trabalhou por 
valer aos Portugueses : & despois de mortos estes qua* 
tro fugirão os três, & acolbidoB ao paraó forão dar a no- 
ua a dd Luys. E os rumes & mouros temendo que fosse 
dom Luys tomar vingãça da morte dos Portugueses acoh 



LIVKO TI. CAPITVLO XXXllU 69 

IherSse ao senhorio de hfl Abesifiu chamado Dar feia, que 
com quftto soube ho mal que deixauâo feyio os não 
prendeo. E sabedo dom Luys a morle dos Portugueses, 
mandouse aqueixar ao Xuma^ali, dizendo que se ho lu- 
ear nã fora do Preste que el Key de Portugal tinha por 
jrmâo Q ele ho deslruyra pela morle dos Portugueses, 
& por isso ho deixaua de íazer & lhe fazia» EXumagati 
lho mandou agardecer , desculpado se lhe de não casti- 
gar os rumes & turcos porque os não poderá prender. 
Isto passado vendo dÕ Luys que não hia^ dõ Rodrigo ao 
prazo que lhe posefa, & ^ se lhe gastaua a mou^^ào pe* 
ra sayr do estreito: partiose deixando escritas cartas a 
dom Rodrigo , em que dizia a rezão porque não espera- 
ra por ele, & auisando ho que não se fosse de junto do 
mar, que pêra ho âno tornaria por ele: & ^ se quei- 
xasse ao Preste da morte dos portugueses. 

CAPITVLO XXXIIL 

De como dom Rodrigo se tomou á corte do Preste^ h 

tomou a partir. 

X artido dÔ Rodrigo da corte do Preste pêra ho fxnrto 
de JVIa^uá não andou muyto ^ não achou Ayres diaz & 
ho feytor loâo gon^^aluez com as cartas de d& Luys de 
meneses. E quando dom Rodrigo soube Q era partido 
não deixou de prosseguir seu caminho, & mais polo que 
lhe dÔ Luys dizia ^ não se apartasse de junto du marQ 
pêra ho ãno tornaria por ele. £ chegado a Arquico a- 
chou hi muytos iardos de pimenta & de roupa que lhe 
dom Luys deixara pêra seu gasto & dos de sua compa- 
fihia , & porque tinhão que gastar por lhes ho Presle 
mãdar dar todo ho necessário ate Q se íbssem : acordou 
c6 parecer de todo8 que mandasse ao Preste a metade 
da pimenta & da roupa,. & que lha leuasse ho feytor, & 
fosse coele Francisco aluarez pêra ler a carta de dom 
Luys ao Presle, em que se lhe mãdaua queixar damos-r 



% 



90 0A fifSTflItfÁ ]>A TNDfA 

te dos Portugueses, & pêra ambos requererem aoPree^ 
te que íísesse justiça. E islo assi assentado parecendo 
a dom Rodrigo que bo Preste faria muytas mercês a 
quero leuasse a pimenta , determinou de iha leuar ele 
mesmo 9l leuarlha toda pêra ho obrigar a fazerlhe mores 
mercês* E quando Francisco aluarez soube como queria 
ir & leuar toda a pimenta , estranhoulhe não deixar aU 
gua aos que ficauSo, mas efe nno quis deizarlha : &par* 
tiose ho primeyro dia de Setembro, & na fim de No* 
uembro chegou á corte do Preste que estaua em hA sen 
reyno chamado Fatigar. E apousentado dom Rodrigo 
foy falar ao Preste, & lhe deu ho presente que lhe le* 
uaua diz6do que não hia a mais ^ a lenariho , & deuihe 
a carta de dõ Luys de meneses que ifae escriuia acerca 
doa Portugueses que lhe matarão em Arqníco escrtpta 
em língoa Abexim que ho Preste leo. Edespois disse -^ 
lhe pesaua muyto de dom Luys não vingar logo aíjles 
Portugueses, & matar a qaãtos mouros «uia em Arqui« 
CO : & que ele mandaria fazer justii^a , & assi o fez. E 
da hi a algos dias despachou dom Rodrigo, & a ele & a 
Francisco aluarez déu triota oquias douro & cê panos , 
& mãdoulhes dar de vestir: & disselhes j| fossem de v»- 
gar porque auia de despachar h& embaixador que qu^ 
ria mãdar a el Rey de Portugal, pêra d soubesse qoãto 
desejaua: & que auia dir ooele ale Maçuá ho justi^ 
mór de sua corle pêra fazer justiça sobre a morte dos 
Portugueses, & perãte dõ Rodrigo disse ao justiça mór 
que prendesse todos os rumes, turcos & mouros, As 
Christãos {} achasse que estauão em Arqnico no tdpO 
que hi matarão os Portugueses, & os {| achasse culpa** 
dos em sua morte ou em não prenderè aqueles que os 
matarão, que os entregasse a qualquer capitão mór da 
armada dos Portugueses, pêra i} fizesse deles justiça co» 
mo lhe hè parecesse. É coeste despacho sê partio dft 
Rodrigo , & no caminho ho 4iloançarão ho justiça mór , 
U despois ho embaixador que mandana a Portugal que 
«uia nome Zi^asabo q«ie jera ja lá ^ fc sabia bem a lin» 



Livao TI. CAPiTVU> KXXflII. 7% 

Soa Portuguesa. Eindo todos por seu caminho chegará a 
iarua Q era perlo do mar, &. por ofto atfharê nenhfia no* 
ua da armada dos Portugueses se deixarão estar ale ser 
ftaasada a moii^ão' de poder vir, R neste tempo foy bo jus- 
tiça mór a Arquico^ & premieo Xumag^ali aoKiia, &Ga- 
bri Jesus & Árraiz jacob & Dafeia polas cousas Q disse 
atras, & leuou oa presoe á eorte, Õde disse ao Preste co- 
mo aquele anno nã fora a armada dos Portugueses ap 
estreito, & que os embaixadores ficauão no Jugar de Bar- 
ua: £(eje Jhes mandou logo recado que se fossem ao lugar 
de Aquaxumo que era melhor lugar que ho de JBarua, jc 
iii mandou dar aos Portugueses quinbeotaa carregas de 
trigo , cem vacas , cem carneiros , cem panelas de mel 
outras tantas de manteiga : & ao seu embaixador man- 
dou dar vinte carregas de trigo & outras tfltas vacas & 
carneyros , & outras tfttas panelas de mel & de mantei* 

f;a. £ assi esleuerão ali esperando ale Q foy a armada da 
ndia. 

C A P I T V L O XXXIIIL 

» 

De como ãó Luys de meneses saqueou Do/ar , ^ chegou 

a Ormuz. 

JL arlido dõ Lujs de Maçuá iby sobre Dofar hú lagar 
no estreito grande & de grande trato pouoado de ipuy* 
ta gente todoa mouros , que vendo a armada de dom 
Luys fizerao mostra de se quererfi defender, mas c^omo 
viráo desembarcar os Portugueses fugirão , & ho lugar 
foy sa<|ado & queymado. E deste lugar seguio dom Luys 
sua rota pêra Ormuz , õde chegou : & qoádo soube que 
Raix xarafo era perdoado & feyto goazil , & Raix xa* 
mixir fugido, estranhou ho muylo ao gouernador mos* 
trido grande menêcoria , & não podia ver Raix xarafo, 
& polo não ver se par tio logo em Agosto sem querer ir 
06 bo gouernador. £ chegado á ponta de Diu achou bo 
tempo ainda tão verde que lhe foy forçado arribar aOr^ 
mux & há esperou, & partiose pêra a Índia com ho go» 
uernador. 



72 DA HISTORTA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O XXXV. 

De como António fakyro se leuâtou com diê$imulafão de 
ir fazer presas ao cabo de Goardajum. 

vvomo quer ^ neste tSpo as liceix^s pêra tratar & fa* 
zer presas se dauã na índia liberalmSte , auia muyto 
poucos^ as não pedissem, & por isso antes Q dom Liiyg 
de meneses 7>artisse pêra ho estreito desta vez (Jdigo 
liQ António faleyro que andaua na índia: com ser as 
vezes Ciiatím & outrdfit lascarim , pedio licença a Fran- 
cisco pereyra pestana capitão de Goa pêra ir fazer pre- 
sas ao cabo de GoardafuíH^ dizSdo £[ Sdauão \íOV aii 
muytos mouros ao longo da tèira em terradas pe{)nasem 
Q passauSo muyto dinheiro díisiogares pêra os outros: 
& isto parecSdolheque andauão serros dos Português 
ses de Q ná seriãp vistos por andarS assí ao Idgo dacos* 
ta. E pêra Francisco pereyra lhe dar a licença de me- 
lhor võtade, lhe prometeo parte da presa, oú lhe deu 
logo cousa certa: & por isso lha deu , &.mais lhe>man* 
dou dar do almazem de Goa quatro berços & hu falòâo 
de metal que assi foy no partido. E a tSção Dantonío 
faleyro, segiido despois pareceo queria coesta cor deli- 
cèça pêra fazer estas presas Scobrir a maldade ^ auia 
dusar ê se fazer cossayro de toda roupa. E a fora ter 
pêra isso grande abelidade & ousadia, sabia muyto bS a 
iingoa Arábica & Persiana & outras. E auida a licêça 
de Frãcisco pereyra & os berços & falcão , artilhou hua 
fusta de cayro que tinha & hâ paraó pequeno: & con-- 
uocou pêra irem coele ale vinte Portugueses, hus orne- 
ziados & outros pobres, a que prometeo de lhes fazer 
as barbas douro, contãdolhe ho modo de que auia de fa- 
zer as presas. E tSdo certos estes soldados , cõcertouse 
cd certos Chat!s Portugueses casados ê Goa ^ tinhão 
hfla terrada Dormuz & htí huquer de Cananor \ auião 
de^Jeuar. carregados de fazêda pêra tratarõ èCalayate & 



LlVftO Vn CAPITVLO XXXV. 73 

Mazcate dÕde auiâo de trazer caualos è retorno : & õ 
quãlo 86 ho huquer & a terrada acabauS de carregar 
niãdou diftte a huFrãcisco faleyro deSetuuel (} 8e fosse 
na fufita & na terrada cÕ os outros Lascarins esperalo a 
Chaul , & assi o fez : & Strãdo no rio de Chaul cõ a 
fusta pêra fazer agoada, inãdoulhe Simão dâdrade capi- 
tão da fortaleza tomar ho leme & a rela , Q FrScisco 
faleyro teue maneyra pêra a auer & sayose logo. Edes« 
pois de vido Antooio faleyro c5 a terrada & huquer £>- 
rã fazer agoada á ilha das vaeas : & estado hí fora ter 
coeles hfls dous mercadores Persianos S bua cotia (} ião 
de Diu pêra Pérsia, & leuauão roupa fina de Gãbaya <( 
valeria seys mil pardaos, {J António faleyro lhes roubou 
cõ quãto leuauão seguro. E despois de os meter a tor- 
mCto j)era cõfessarê se tinhão mais, os catiuou & aos 
serutdores -^ erã muy tos mãdou meter a bãco na fusta & 
Bo paraó pêra remarS. E despejada a cotia & metida no 
Ado, partiose pêra a outra costa cÕ as velas de suacfi- 
serua indo ele na terrada , & como ainda lá era inuerno 
era lhes ho vS(o quasi por dauãte , & aohauão ho mar 
muy grosso em tâto ^ com os grandes mares lhe saltou 
fora^ho leme da terrada, & andarão três dias sem ho 
poderfi meter, & nisto passarão muyto grande perigo 
de se perderfi cõ se verê mil vezes alagados. E tornado 
ho leme a meter passara auante & forão aferrar terra na 
costa Darabia obra de ireze legoas de Calayate, & jun* 
lamente cÕ a terra<la, a fusta & ho paraó, & ho huquer 
descayo & foy ter perto de Dofar & hi se perdeo cõ quã- 
to ieuaua , saluo noue homSs todos Chatis sobre () logo 
acodirão muy tos mouros pêra os matarS -sabendo ^ erão 
Christâos, mas eles se deíBderão tarobõ com as espin«* 
gardas que leuauão {} se saluarão & forão ter a Dofar 
cujo Xeque por ser amigo dos Portugueses lhes fez ^nuy- 
lo gasalhado & lhes deu com Q se cobrassem & pousa- 
das, & lhes disse 1) ficasse coele ate Q ali fosse ter algfl 
nauio de Portugueses em ^ se fossem , & assi ho fizer&>. 

LIVRO VI. K 



74 9A BiaTQXlA JDA INMA 

C A P I T V L O XXXVL 

De camQ Antónia faleyfrú foy itr a Càlagcát ^ detpoi^a 

í)f^ar : ^ do que fez* 

V^oaheckdo por Aatonio faleyro ondeataua tirou pêra 
Calayate y onde foy surgir & hi vendeo a fazfida ^ rou* 
bára aos mouros na ilha dav vacas , & eles se lhe resga« 
larâo por dinheiro ^. lhes foj emprestado por oviUos i[ 
oonheeiâo. Eooroo ele deternoinasse de executar homai 
Ç hta fazer, disse aos Lascaris § ião coele, ^ bo XeQ 
lie Cakiyate lhe deuía certa soma de dinheiro (| lhe ná 
quisera pagar, ates sobrisso lhe fizera algfia offeosa, por 
isso 4 se auia de vingar dele : & isto senda hoXe^ grâ* 
de amigo dos Portugueses &. vassalo dei rey Dormus, 
vassalo dei rejr de Portugal , & se se queixara a el rej 
Dormuz ou ao capitão da fortaleza eles lhe fizerão joaií» 
ça: por& segftdo outras maldades !^ eate Aotonio £atey«» 
IO despoia ooroeteo, mais he de crer {| ele queria roo* 
bar a^le Xeque por saber que tinha dioheijro qoe por Um» 
deuer« £ dada cfila aos seus Lascaris do Q determinaua, 
roiiou a fusta 8c ho paraó diante da porta das casaa do 
Xeque que estauão na praya perto do mar , & daii lha 
tirou ISta bombardada^ ^ ^^ Xeqoe por nâo se ver des* 
truido Ibe mâdou quinbStos xeratins com ^ se conlètoa 
& ho deixou ; & tendo perto de seys mi) xerafíos eõ os 
da roupa ^ roubara aos mouros ficcoestes recottieos sem 
partir cd oa Lascaria: do ^ eles ooine<|aràa de murmu-» 
rar ãtre si^ & algCta Q estauão desembaraçaéoa domizíos 
Bá quiserào ir mais coele^ & se forâo na torrada (} foy 
a outro porto carregar de caualos , & antrestes ^ se fo* 
iSo foy bit Manuel sardinba Deuora^ & os outros fica* 
rão^ assi por serè omiziados como por esperarè i| aidA 
aueriã algua cousa. E ficado coestes ^ digo^ se foy car* 
ttinbo de Dofar ^ porQ ali esperaua dencber as mâoa se* 
gundo bo dizia aos Lascarins , & ia por capitSo da fus« 



LIVRO vk càríTTho xxxvr. 76 

ta & Franci>co faleyro no pAraó. E «slâdo surto perto 
de Dofar pêra tomar a Goa, foy ter coeie de madrugar 
da bua nao de mouros do estreito Q ia carregada da ín- 
dia: & sintiodo 08 mouros ^ ali estauã Portugueses fi- 
zera volta ao mar. E António faleyro os seguio na fus* 
ta &; no paraó, & os alcftçou logo por lhes faltar ho ve- 
to: & os mouros não quiserA pelejar n8 iâ^jarse ao mar 
parecSdolhe ^ se resgatariâo S Dofar, & por isso Anlo- 
BÍo faleyro os tomou todos ^ & erâo muytos & deles ca- 
sados Q leuauão suas molheres & filhos : & daqui sa foy 
ao porto de Dofar, & surto mâdou dizer ao Xeque Q so 
ihe í^ria ofiprar aQla nao assi como ia , & mais {) quâto 
lhe qría dar por oâ queymar quatro grSdes nãos de aietr 
cadores nouros ^ estauâo no porto meãs descarregadas» 
£ sabido este recado poios úoue Portugueses (| disse j| 
estauâo cd o Xeque foriae logo a António faleyro, & cd* 
jtarâibe a piedade de f\ hoXejl) vsara coeles 3 seu inlbr^ 
tunio rogádoifae Q não fizesse nenbii mal 6 seu porto ae 
oiefios ate os nSo recolher, do Q ele foj cõlSte. Eciiy** 
-dado ho Xe<| que António Êileyro lhe agradecia ho bC 
<)ue fizera aos ooue , & auedo ^ estaua seguro deulbes 
licêça (\ se fossS. O Q lhe eles agradecerão hè mal , ^ 
recolhidos com António faleyro lhe acrecêiarSo ho dese*^ 
jo !\ tinha de roubar as quatro nãos {) estauâo no porto, 
& tornou a mâdar cometer ao Xe^ se lhas {|ria cõprar» 
Do Q se ele espâfou muyto, & respõdeo i| não esperauâ 
a{}le galardão do bê Q fizera aos Portugueses , pedindor- 
Ibíb que nâ fizesse mai aos <) estauâo no seu porto« E 
isto respõdeo ho Xe^ pêra 4 êtretâto Q andauâo estes 
recados se fizesse forte cd hfla tranqueyra ^ mâdou £»- 
-Bcr: 21 bd vio a roTdade Dfltonio faleyro, & !^ lhe aâ 
auia de goardar amizade. E feyta a tranqueyra duraa*- 
do ainda os recados mio esperou que António falei reco- 
meçasse primeiro a peleja, & ele a começou mandandor 
lhe tirar cõ algílas b&bardadas, & por isso António f»^ 
leiro nâo pode roubar as nãos ooaio quisera , & posibe 
iio fogo: & como as bõbardadas erã muyto bastas, & 

K 2 



. J 



76 9A HISTORIA DA ÍNDIA 

ele n3o podia fazer nada cõ as suas , afastouse perâ lio 
mar porque ho não matassem. 

C A P I T V L O XXXVII. 

Do 6 acôteceo aos sete pariugueses 6 ião na nao â Anto^ 

nio faldro môdaua pêra CalaiaU. 

V endo António faleiro que nSo Unha ali mais Q fazer^ 
determinou de se hir pêra outra parte , & por^ a aao 
dos mouros ho não pejasse , mandou a pêra Calai ate a 
vSderse hi a fazenda , & mãdou por capitão dela ha 
AfÕso de soure, & deuihe seis Portugueses pêra sua cÕ- 
panhia, & algOs dos remeirosCanarls, por^ não se fia^ 
tta dos mouros : & praticado õde faria agoada por anão 
não ter agoa, disse ho seu mesmo piloto, ^ de caminhe 
a tomariáo & híia agoada Q ele sabia Q estaua perto , & 
coisto se par tio a nao indo perto de terra : & como na- 

2uela costa Darabia as serras sã muyto altas, & ho mar 
ca coelas abrigado do vento , & fazia calmaria , singra- 
va a nao muyto menos do !) sofria a pouca agoa ^ leuar 
na , & pêra ^ abastasse ate chegarS a agoada , não be- 
bia a gente mais ^ a fiá por dia cada pessoa, & coroo 
as calmas erão grades morria muylos mouros de sede, 
& cada dia os deitauão morlos ao mar : & coeste traba- 
lho fora ate Q htt dia disse ho piloto da nao (} ja esta- 
vão de frftte da agoada (} mãdassS tomar agoa : & estaria 
quatro legoas de terra segftdo seu parecer, <) cÕ a cal- 
maria nã podia a nao mais chegar. £ como a ida a terra 
era perigosa, por ela ser de mouros & imigos dos por- 
tugueses , nã ouue nhfl dos Q ião na nao Q quisesse ir 
fora se não se lhe caisse por sorte : & deitadas sairão ^ 
fossS fazer a agoada: hu Afõso da veiga, & hCl lohão 
sirgueiro chati, &. outro, & saidos esles deulhes Lott<- 
renço de soure alguas teadas & outros panos baixos, cÔ 
^ afagasse a gSte da terra se fosse necessário : & oft 
suaa espingardas se êbarcarão no paraó da nao ^ de 4 



LIVRO VI. CAPITVLO XXXVII. 77 

partirão as oyto oras do dia. K como cõ a calmaria (| 
fazia as agoas corresse moy to : não poderã os Q rema- 
não ho paraó remar cõ t&ta força Q não descaisaê muy* 
to, & tãto Q chegarão a terra duas oras ates de 8oi pos* 
to, & oulhãdo pêra a nao acharão Q ficara muyto acima 
dõde forão ter : & chegados a terra mãdarão os mari- 
nheiros auer se achauão agoa, Q saidos ê terra fora sal- 
teados daigiis mouros Q os esperauâo 6 cilada , por^ os 
vira das serras quãdo ião : & dando sobreies |)era os 
matar ferirão algús, & Jogo se acolhera todos ao paraó : 
& recolhidos os remeiros forão mais pêra baixo õde não 
achara nhfia cõtradição, & fizera agoada ê hiias fõtes 
solobras Q estauão ãtre certas palmeiras ao lôgo do mar, 
& so) posto se partira caminho da nao, indo todos bem 
cansados do trabalho, de remar & de fazerem agoada, 
& de quasi não comerem aquele dia , & assi da grande 
calma que fazia. E tudo isto foy causa de os remeiros 
enfral^cerè tãto Q de todo não poderão remar por mais 
pãcadas 1\ lhes os Portugueses dauão Sc por mais amea- 
^8 da morte {| lhe fazião, pelo i} cõueo aos Portugueses 
remarC: & parecêdolhes ^ serião perlo da nao por^ a 
não vião cõ ho grade escoro Q fazia começarão de bra- 
dar pêra ^ ouuindoos na nao lhes fizessem algfl fogo a^ 
atinassem , mas como a nao estaua muyto mais longe 
do Q cuydauflo pelo muyto que tinbão descaydo nficaos 
oauirão : o Q lhes quebrou muyto os spiritos que erão 
os {| ajudauâo a remar t^ as forças ho muyto remar lhas 
tinha quasi gastadas , & as mãos esfoladas de Q lhes 
corria sangue, & como desesperação de não chegarem 
tão cedo á nao os debilitasse muito começarão de dor- 
mir descansados & tristes : porê ho cuydado os acorda- 
ua, & ás vezes remado, & as vezes dormido amanhe- 
ceo sê chegarfi á nao nè a verS : nem quasi Q podião 
ver a terra , dõde partirão ao dia dates , pelo (} conhe- 
cerão que tinhão muyto descaydo: c5 o Q desacoroçoa- 
rão tãto {} nê os Portugueses nem os Canaris podião ve- 
mar. E vedo 4 ^ ^^o não paxecia, acordarão Q se ter-^ 



76 DA HieTOBffA DA INOIA 

fiaseS a terra pêra verS Be a podiSo ver daa serras & 
narcandose coela se lornariâo: & como ftdauão caosa^ 
úoê & fracos de não comerè não poderão chegar a terra 
se nâ quasi soi posto, & deitarão fateixa afastados de- 
la, porQ se algQs mouros esteuessê em cilada não dess^ 
aobreles & os posessS 8 perigo, & dali foy Afõso da 
ueiga a terra a oado leuâdo IiQa Jâça diante de si , jp 
não achado nenhfi impedimêlo se sobio na serra , & ou>* 
Ihaodo pêra hftas parles & outras quanto podia alcançar 
€õ a vista nAca pode ver a nao. E coes ta triste noua s^ 
tomoa ao paraó, cÕ que loib sirgueiro quasi ficou mor*- 
lo: ho outro Português foy tambS a terra em se poêdo 
ho sol , & sobido na serra ho mais {[ pode tâo pouco vi<^ 
a nao. E estftdo assi oolhâdo vio passar a frota em (Jd9 
Luys de meneies ia pêra Xaei como disse atras, pelo ^ 
eonbeceo ^ se a nao esteuera dde a deixarâk) {[ a Sxer^ 
gara como Sxergou os galeSes , & ela estaua a!da lá , 
mas tinhão tanto descaído o5 bo paraó I| era tamanha 
distancia dÕdestau2o á nao {| a não podiSo enxergar* B 
vendo Lourenço de soiire (^ ho paraó nSo tomana pare<- 
ceoibe Q fora tomado de moiM*oa : & desesperado de tor- 
nar pattiose ao outro dia pola osanhaâ auêdo dous 1} es** 
peraua por ele. E indo caminho de Calayale saltaras 
coele Nouta^s í\ saot hus oossairos mouros !\ aad&o por 
ali , & malâdo os Portugueses toaiarSo a nao. 

C A P I T V L O XXXVIII. 

De como foy ter hú mmtro câ o$ três Portugnesu q eêta^ 
uão no parao^ §r do remédio que lhes deu nosso senhor 
pêra escaparem du morte. 

V endo aquele que fora a terra ^ era por de mais ou* 
Ihar pola oao tornciuse ao parao, & disse aos cõpanhei- 
ros ho pouco recado Q trazia: do Q todos ficarão tSe 
tristes como requeria tasoanho desastre, porque estauao 
^eai perigo de iMurie por nâ» tstè quo comer nem em qii0 



LIVRO TI. CAf imo XU^IIf. 79 

Bauegar & pêra tayrem em terra era pouoada áé mooroâ 
immigoB doa Portugueara , priu6i|NiiiitSie polo dâf>o ^ 
António faieyro fizera & faria por a^la eo0la. Esintindo 
oe renteyroa bo mao remédio^ auia fugirão todOB acfue* 
la noyle^ Sc quando amaubeeeo ealauão 00 trea compa** 
nbeiros lâo fracos dauer dottS dias que nft comíão quasi 
nada que eatauâ pêra espirar^ &coeaia necessidade lan^ 
çariky enzotoa ao mar ooai que pesearflo algil peixe {} eo«- 
pierão cosido etu bú caldeirão em ^ bo coaerãe 6 t^^rrâ. 
£ veodoae como digo aem nenbfl remédio , acordarão 
que eaperasaem ate bo dia seguinte pêra ver se viâo A 
nao que por ventura se mudaria dòde a deixarão ^ & 
quãdo não , que então se auenturassem a irS no pamé 
ao togo de terra ate Mascate , fc comerião trigo cozido 
diiís quatro aiqaeyres <} acertarão de ter em bfil fardo 
que deitarão no paraé pêra lastro: & assi comeriio algil 
pescado (} tomasse* Eassenudos nisto vigiarft bo paraó, 
& de quando ft quando biãe a ierra a- tet se parecia a 
nao : & este meseoo dia despois de lioras de véspera es^ 
taiido oulbando pêra terra virão supilamète sayr detrás 
áii penedo bik mouro mfleebo da te desoyto annos cõbõa 
feta na cabeça , & bit- pano encacbado & nas mãos bf)» 
mea là^a. £ euydando A £Miao daueiga^ era cilada des^ 
parou b&a espingarda ^ tínba eeuada ^ & se bo monro 
não se baijara matara bo-, & em bo pelouro passando 
leaantase & dado cfisigo no loar nadou cõ muyto grade 
pressa ate chegar ao para6 bradando como que dizia 
que tbe não fizessem mal : fc em cbegâdo ao paraó foy 
sieiido dentro, fc deepoie que tornou a cobrar bo ibie-* 
go Q tinba qoasi perdido eõ medo da esptngardada, co* 
me^^a de íatar & v6do ^ bo nào eotèdião ajudauase lam- 
bi dacenos. E quis nosso seAor dar gra^ aos côpanhei* 
ros Q eniSdessè o Q dizia ^ ^ era l| ele andado encima 
da serra onde goardaua gada os vira sayr da nao & che- 
gar a tenra & tornar pêra a; nao & despela pêra terra, 
& 4 a nao se partira aljla' manbáã, ft por auer dó deie» 
Ibo irjiiba diser per» ^ não esperasíft por eta, & 4 eede- 



y' 



«9 »A HISTORIA HA.ItfDIA 

uiSo dir a bfla pouoação de mouros chamada Mele ^efrv 
taua dali perto^ cujo Xeque era amigo dos Portugueses 
Sc os agasalharia ^ & {| se quisessfi Q lhes fizesse algfia 
cousa !\ ho faria de boa võtade. E ealSdêdo os cõpa* 
nheiros o que ho mouro dizia alegrarfise credo ^ nosso 
sefior era o Q lho mfldaua pêra se saluarê & derâlhe por 
isso muylas graças, & rogarâlbe í\ lhes fosse buscar ai- 
gií manlimSto pêra o Q lhe derio quatro lagas, prome* 
tSddhe se lho leuasse de lhe darS leadas & espadas 4 
lhe mostrarão , & ele promeleo de tornar ao outro dia 
as mesmas horas , & assi tornou cd h& fardo dapas 4 
sam hÒQ bolos de farinha de trigo ^ os mouros coiuS, & 
hu cabaço cheo de mel brãco & cinco galinhas, .& disse 
lhes da parte do XeQ de Mete i\ se fosse {larele, por^ 
folgaria muyto de os agasalhar & C| os teria ate auer& 
algu remédio pêra se tornarS á índia ou irS pêra Or-; 
mue. E dado eles ao mouro quanto lhe prometerão, lhe 
Fog^ão -^ fosse dizer ao XeQ que lhe rogauão muylo {|. 
mãdasse por eles por^ por não saberS a terra não .|K>de- 
rião aceitar a pouoação , & iãbS eslauão tão fracos 4 
pão se atreuíâo a xemar: & que se mandasse por eles 
lhe dariâo a^le paraó 8& quauto tinhãonele. E ho mou- 
ro lhes promeleo 4 aquela noyle mâdaria ho Xe(} poc 
eles : ft, assi mãdou que duas au Ires horas ãte manhaã 
chegarão a eles quatro Cafres 6 hua almadia câtiuos da 
Xe(| que hiâo por eles, & cãtãdo ao seu modo em si- 
nal dalegria os tomarão de toa & se fora, & de madru* 
gada chegarão defrÕte da agoada Q ho piloto mouro di- 
zia , 2) era hua leuada dagoa ^ saya da serra 8c caya n& 
praya. E tomado ali os Cafrc^s agoa tornarão a seu ca- 
micnho, & è amanheoSdo chegarão a Mete, & quâdo 
íoy ao desSbarcar loão sirgueiro não queria sair è terra, 
dizèdo (| lhe parecia ^ ho Xel| lhes auia de fazer trei-. 
çâo. E por nisto auer al^ua detSça, & ho XeQ ser bõ, 
home & discreto pareceolhe o Q era , & por isso se foy 
6 hQa almadia ao paraó leuãdo hftas cotas na mão per^ 
cezaua ao seu costume. E chegado ao paraó^ disaelbe á 



LIVfK) Vr. CAPITVLO XXXW. 81 

Vttígoh Portugoesa ^ víesBem ^bora , & {][ folgaua tniiylo 
eÕ sua vinda: ^ fisessê cõía ^ estauao âtre Porlugue* 
868 , & fazSdo o8 desembarcar os leuou pêra as suas ca-* 
sas que erAo muyto boas & sobradadas & os apousentou 
em bOa em que esleuessem apartados, & ali forão muy-» 
to bem agasalhados , & assi ficarão naquela pouoa-ção. 

€ A P I T V L O XXXIX. 

De como António faleyro se tomou pêra a índia ^ ^ do 
mie sucedeo aos ires companheiros que estauão com ha 
Xeque de Mete. 

xVntonio faleyro despois que mandou a nao pêra Ca- 
layafe foy se por a^la costa em que fez algflas presas de 
dinheiro (} jfito cÔ o <} ja tinha determinou de se tornar 
á índia, por^ por os males 4) tinha feyto por al|la cosfa 
não ousou dinuernar 8 nenhii lugar dela, n6 menos 8 
Ormuz fxnr amor do gouemador Q fora sem sua licS^a, 
& por() ele nã queria tornar a Goa por não dar parte 
das presas a Frâcisco pereyra Q sabia Q lhas auia de to- 
mar se lhas nã desse, foyse dereyto á ilha de Dada <| 
está antre Chaul & Dabul, ^ aK inuernou, & despois 
ouue perdão do gouernador: & assi ficou sfi castigo de 
tamanha maldade & treição como a(}la foy, poH) sendo 
miiytos lugares da costa Darabia amigos dos Portugue* 
ses os escãdalizou de ta! modo cS ob danos & males ^ hi 
lez Q ficarão mortais fmigos dos Portugueses , & dese^ 
jauão de se vingar deles: pelo () bds Xeques vezinhos 
do Xe^ de Mete sabSdo Z{ tinha em aua casa os três 
Portugueses {} forão da companhia Dantonio faleyro, lhe 
mandarão estranhar muyto agasalhalos , requerendolhe 
que lhos desse senão que irião sobrele & ho destruyrião. 
£ temendo ele que ho fizessem assi por «erem muyto 
poderosos & ele pouco, contou o que passaua aos trea 
companheiros, mostrandose muyto triste de os não po* 
der ter rogandoibes que nã ouoessÇ por^jnàí de 09 niã«> 

LIVAO VI, I. 



82 DA HI8T0HIA PA ÍNDIA 

dar pêra caáa doutro Xe^ seu parSie, Q moraua dali cer- 
tas legoas, & i) este os mâdariá a Caixê, cujo rej era 
grade amigo dos Portugueses , & dali aueriâ seu reme-> 
dio. £ mâdou cocles hu seu prioro ê outro paraó b6 es- 
quipaJo, & assi hiá hu seu. E ido por seu caminho ao 
]dgo de terra )he sayrão trita almadias carregadas de 
D)ouro8 armados pêra os lomarê, de ^ se liurarao coda- 
rê ás veias dos paraós: & como ho vêtò era fresco dei- 
xará as almadias aladas. E despois disto foj ter coeles 
hii tiauio de Portugueses' que era da conserua de dd 
Luys de Aieneses, & faia por capitão dele híiCusme pin- 
to criado do mesmo dõLuys: a quê os três cõpanbeiros 
colarão o Q lhes acõtecera, & a obrigação em ^ erão ao 
Xeque, pedindoih^ ^ os leuasse nò nauiò: do que ele 
foy cÕtéte, & por isso deixarão ho caminho que Jeuauã 
& se espedirão do primo do Xeque a quS mandarão por 
ele ho seu paraó, & hfia arroba despeciaria Q pedirão 
pêra isso : & assi algílas peças que poderão auer , man* 
dandolhe muytos agradecimStos pelo b3 que lhes fizera, 
& pedindolhe perd&3 de ho nS poderê melhor seruir, & 
ho nauio se foy a CaixS , è cujo porto estado surto so* 
breueo tamanha tormSta de vSto & chuua ^quãtasnaoi 
estauâo no porto se perderão feytas 6 pedaços em terra; 
& assi outras que auia pouco que partirão que arribarão^ 
& assi quãtas se acolherão ali que se acolhiâo de fora, 
& os mares erão tS grossos & altos Q quâdo as õdas {|- 
brauâo S terra ètrauão por ela dõtro gràdespaço: & 
cayrão no lugar mil & quinhStas casas jiltamen te Q se 
amassarão todas. E foy a destruyção tão espantosa & 
medonha que não auia quê não pasmasse de a ver: Sc 
€Ò tudo hò nauio de Cosme pinto ficou ê saluo & sêpre 
se teue sobre as aceras. £ cessando a tormSta foyse a 
Ormuz, & assi se saluarão os três cõpanheiros, saluo 
loão sirgueiro que cÕ a tormSta que digo arribou a Cai» 
xem em híl nauio de Chatis a Q se mudou pêra se tor** 
nar á Índia, & quando arribou ho nauio deu aa cosia 
em que se espedaçou com morte de quantos hião nelew 



LIVRO Tf. CAFITVLO XL. 63 

C A P I T V L O XL. 

De como os mouros ganharão as tanadarias de Pondá 

^ de Salsete. 

JlXo HidalcSo I) tinha grSde magoa de ver possuir as 
tanadarias de PÕdá & de Salsete a el rey de Portugal 
«ndaua sempre esperado (6po pêra as cobrar , & vSdo o 
gouernadcr & dÒ Luys seu irmão fora da índia que em 
Goa não ficaua mais gête Q os ordenados á fortaleza , 
determinou de as tomar, & pêra isso mâdou híif seu ca- 
pitão & seu parSte cõ cinco mil homSs de pé & de ca- 
<nalo^ jI) entrado pola comarca das tanadarias come^^ou 
darrecadar as rSdas pêra bo Hidalcão, & foy ter a bAa 
aldeã Ôdestaua btt André pinto tanadar pe^no cÕ sete 
ou ojto Portugueses ^ todos forfio mortos saldo ele, que 
-escapou muyto ferido & se acolheo ao Pagode de Ban- 
dorá, ondestaua hum fidalgo chamado PernSo^anes de 
Souto mayor, que era Tanadar mór Q tinha ali sua es- 
tScia , por bo Pagode ser forte & cercado de muro de 
pedra & cal: & tinha cêto & cinquoSta Portugueses , 
de que os trinta erão de caualo, & trezStcs piSes da 
terra. E como Fernão eanes era muyto esforçado, «m 
os immigos chegado sobre bo Pagode saydlbes ao encon*- 
tro , & foy desbaratado por desarranjo dos seus : & eS 
muytos feridos se recolheo ao Pagode. E ficando os im- 
migos por isso muyto soberbos, ho teuerSo cercado dous 
dias. E neste tempo foy noua a Goa a Francisco pereyw 
ra, que erflo mortos quantos estauflo no Pagode: pelo 
Q mandou logo António correa de Goa cõ certas fustas 
pêra trazçr os que escaparão. Com cuja chegada Fernão 
eanes folgou muyto: &vendose fauorecido cS âlgfta g8^ 
te que António correa trazia, que podião meter no lu- 
gar da Q tinha ferida : determinou cotn conselho de ir 
Buscar 08 fmigos & lançalos fora da terra , pêra bo que 
mandou S sua^ bmica:. & oáo lhe lenirão áè\^ outra nfo* 

L t 



fi4 J>A HISTORIA DA ÍNDIA 

ua , 8e nã que passarão por biia aldeã chamada Verná 
da hi a ie^oa & niea , mas que nao se sabia onde esta- 
uào. E como Peruâo eanes era muylo esforçado, & lhe 
parecia que sabia bem da guerra: assentou que os ini- 
migos biâo fugindo com medo, & Q com qualquer gSle 
os poderia desbaratar : & partio logo após eles, leuando 
vinlecínco Portugueses de cauato, & cêto & vintecinco 
de pé, & trezS(u8 piâes da terra: & ao outro dia a oras 
de véspera passou hfl rio que se chama bo do Sal (três 
legoas donde partira) & no cabo de b&a grande & fer- 
mosa veiga que se faz da banda dalém : a (iro de bom- 
barda ouue vista dos immigos, í\ estauão descansando 
.ao pé de hum oyteiro. Que em vendo os Portugueses se 
leuãlarão logo: & como estauão espalhados & erfio cíco 
mil, pareciào múyio mais do que erâo: bo que crendo 
os Portugueses se espantaram , & dizião que aqueles 
erão muyto mais dos que forão sobre bo Pagode. E v&- 
do Fernão eanes este espanto, deteueos pêra os esfor- 
çar & disselhes. Senhores de que vos espantaeis? por- 
que não erão mais os imigos que nos cercarão do ^ es- 
tes sãa, que se bo fora não leuanlarâo tão asinha bo 
cerco, & de se auerfi por poucos, pêra contra nossas 
forças nos alargarão : & assi espero em nosso Senhor 
que lhes ha agora de parecer pêra nos fugirem, &coes* 
ta esperança c| iodos auemos de ter como Christãos , 
auemos dje dar neles , por() posto que fossem mais do 
que vos paressem y não temos melhor remédio Q pelejar 
4 se nos Cremos recolher não temos se não ho Pagode 
que he muy longe , & se voltamos estes perros hào de 
crer qae h|9 cÔ medo, & por isso nos hão dapertar , de 
maneyra que mais dano nos hâ de fazer sem pelejarmos 
^ pelejado, & ^ n«s não siga, corcenMS muyto perigo 
è passar este rio Q temos passada, t>orque a maré en- 
che & ele he estreito^ & os de pé esta certo não acha<> 
rê vao, & os de eaualo duuido, & pois em voltar & em 
pelejar ha perigo, auenturemonos antes ao da peleja 
ijue he com honrra, que ao do fogir que pêra Por tugue» 



LlYttO VI. CAPIfVlO XC. '85 

8M'he tflo' vergonhoso & áe tàta desonra: & pârecfido 
isto bem a todos acordarão que se fizesse assí, E estado 
nesta pratica cuydando osimoiigos qué se delinhào 
«com medo deles forânos eonieler, feyto» ein duas bata- 
4ha8 em Q auia muylos de eaualo acubertados, & bua 
delas cometeo os Portugueses de rosto, & a outra lhes 
tomou a traseira pêra ficarem cercados de todo & nflo 
lerè por onde fugir, porQ das ilhargas ttnhSo ho rio &fao 
-mar. E vedo Fernão eanes que ho queriâo cercar , ana- 
tes de ho cercarem disse aos seus Q não auia mais que 
lesperar £| desse Santiago nos immigos & assi ho iizerào, 
& abalado fugirSo os piàes da terra: & os Portugueses 
ficarão cento & cinquoSta, que bSo era nada pêra ta- 
manha niuitidào de mouros r & parece que foy milagre 
de uossu Senhor não se sumirê todos antreles de mujtas 
feridas que todr»8 receberão dos primeiros encontros, & 
furão mortos cinco de cauaiu, & quasí todos os outros 
feridus, &antreíes Fernão eanes com hu zaguncho dar- 
remeso Q lhe passarão ho cor<jolete pela ilharga ezquer- 
da & ho ferirão , & a hfl Diogo de moraeis criado do 
•Duque' de fiargant^a cortara de hu pé quanto lhe saya 
fora do estribo, & prouue a nosso Senhor por sua pie- 
dade que atnda Q Fernão eanes foy tão mal ferido nem 
|)or isso desacorçiiou. , âlea oom mujto esforço feria nos 
jmniigos, ajudando os seus como bom companheiro, éom 
que os esfor<;cu taotoque não pelejauãio como cento St 
quarenta & cinquo, se não como que furão cinquo mil, 
ferindo & matado muytos dos mouros : & antreles foy 
ho seu capitão, pelo que os desta primeira batalha per- 
dido ho esforço se desbaratará logo & fogirâo: & com 
bo Ímpeto Q leuauão derlo na segada batalha que vinha 
pêra tomar as costas aos Portugueses, & desbaratarão 
08 que estauão nela^ que também fugirão cuydando (^ 
erão 08 Portugueses que dauão neles, & assi fugirão 
hiis & outros: & era rouyto pêra louuar a nosso Senhor 
ver como fogiâo sendo tantos : Fernão eanes não os 
quis seguir por estar tam mal ferido como estaua^ &. 



86 J^M HISTOUIA PA INMA 

ter toda siiaj^ente cuuyto fedida ^ &. c>6 caunlot mottofl? 
& quia no88o Senhor que lhe nâo matarão mais j) ca oiiK 
quo que di88e^ & do8 mouros seg&do se despoja soube 
forão mortos mil, & os mais deles humõs escolhidos, co*' 
mo se viu na riqueza das CaJbaias das toucas & dos ter* 
^ados que lhe forfto tomados pelos Portugueses despoia 
<\\ie ficarão seguros no campo: Ôde por ser ja perto da 
iioyte Fernão eanes se deixou estar ate que amanheceo 
I) hus aos outros como melhor poderão se leuarão õde 
António correa estaua com as fustas: em que se ann 
barcarão muyto fracos, & se os mouros acertarão de 
tornar nam escapara nenbfi. E António corree os leuoa 
pêra Goa onde muytos morrerão despoia das. feridas* B 
•como Francisco pereyra não leue gente que raâdasse á 
terra firme, pêra apabar de deitar dela os mouros: te^ 
uerâo eles tempo vendo que não hia ninguém tomarão 
aquelas tanadarias que rendião cincoenta mil pardaoa 
douro pêra el Key de Portugal:, o que não acontecera 
ae o gouernador inuernara na índia, porque ouuera din* 
uernar em Goa donde logo socorrera com* gente, .& ae 
acodira em quente teuera pouco.que fazerem deitar ob 
mouros fora segundo eslauão espãlados do brauo pelejar 
dos Portugueses. E ganhadas estas tanadarias, mandoa 
ho Hidalcão outro capitão que fez seu assento em Pon* 
dá : & porI| este tolhia que nâo fossem a Goa mãlimeii* 
.tos da terra firme ^ fea Francisco pereyra paz eoele« 



1 1 



• 1 • 



; ■ . . . » í . 



LIVRO VI. cá»im^ xm. 87 

C A P I T V L O XU. 



* I 



De ixmio húa dm nãos da armada.de Fernão de tnaga^ 
Ihâes que hia pêra Espanha arribow a Maluco ^ i^ Joy 
tomada pelos Foríttgueaes, 

Mj azendo AdIodío de brito (como disse atras) a forta- 
leza de Maluco oolDo os ares erào difiereotes dos da In^ 
dia;, & assi os maDlíil:iêios,. adoecialhe a geote, do que 
èlè lomaua nouyta paixão , & assi por não achar aquela 
faifcilidade que espera tia pêra faser a forialeza, nem a* 
lliizadò na rajuba de Térriate» £ coisto adoeceo lambe, 
não que caísse em cama: más blla roim disposição dò 
çkescQUteo la mento que tinha ^ & arrepèdiase bê de ter 
aceitada a^la empresau £ andando assi soirbe que aolÕ^ 
go da Costa «de hOa ilha chamada Bataobina cincoenta 
legoas da de Ternate «indâua húa das duas nãos doa 
Castelhanos Q partirâo.4e Tidore, que arribara do ca^ 
minho por fazer muyia agoa & nâ poder sofrer ho mar^ 
& de iraser doêle toda a gente andaua como perdida 
sem poder tomar terra* O que sabèdo António de britO| 
pedio a dom Garcia anrriquá^ que fosse por ela , & ele 
foy noseo nauie indo em soa cõséruaCachilDaroes em 
hfla cfva«a , & em outra hia hft- Duarte de resende es* 
criuão da fey toria: de Maluce;, que despois foy feyior & 
leuaua desasseys ' Porlugueses. E chegado dom Garcia 
onde a nau andaua achouha surta, & mãdou a ela Duar* 
te de resende que chegado á ela bradou, & a gSte es« 
laua tão doCte & tào' fraca que ninguê lhe respõdeo, 
pelo que Duarle de resende entrou d6lro com a gSte 
armada. £ caydãdo os Castelhanos que os querido ma^ 
tar |)edirào misericórdia, & ho seu capitão que se cba- 
maua GÕ(^*alo gomez da espinhoba foy falar a Duarle de 
resende, & lhe contou sua desauentura: & ele ho segu- 
rou & leuou a dõ Garcia , em cujo poder se meleo com 
quantos estauão na nao, & dali se tornou a Ternate, & 



88 Và HISrORTA DA INDtA 

a entregou a António de brito com lodnfl os Castelhanos 
que forâo curados & «i^asalbados como Portugueses, & 
na nao fnrâo achados liuros do astrolo^^o sam Marliiu ^ 
hia oÕ Fernão de magalhães & falt*ceo na viairem, & 
assi dous planispberios de Fernã de magalhães feytoa 
por Pêro reynel , & outras .cartas grandes do caminho 
dos Portugueses ate a índia , & quarteiroSs dela ate 
Maluco , & todos errados : & asst forfio achados os li- 
uros de todos os pilotos 4as nãos da^la armada , & dos 
verdadeiros pareceres dafJJa viagS : em Q se achou por 
eles mesmos ser Maluco & Bâda do descobrim£to de) 
rey de Portugal : & todos estes liuros &; instromêtos £>« 
rio entregues por António de brito ao feyior: & tãbê 
foy achado Df>ata nao hii Gaspar rodríguee Português, ^ 
estando em Ternate por fejrtor de muyios Portugueses^ 
ao tempo que os Castelhanos «cbegarâe a Tídóre fugia 
pareles, com a fazenda que tinha das partes, & se hía 
coro eles pêra Castela:: polo que António de bri-to lio 
mandou degolar , c5 pregão que pubricaua sua cuVpa« 
£ estando esta nao .aqui enrta deu á costa assi eoioo 
estaua carregada com. hiia irouoada que sobreueo^ & 
perdeose cotn quanto tinha: & esta (iin ouue a armada 
de Fernão de magalbaSs & ele, ^ foy jmízo de nosso 
Senhor pola treiçSo (} (ez a seu- rey em lhe <)ner falsa* 
mSte tirar ho que era seu , & possuya cè tãio }»ato U-* 
lulo , & cõ ter gastada nisso tSta parte de sua fasEfida. 
£ despois i| esíes castelhanos for«%o sãos, os mXdou A ih 
tonio de brito pêra Malaca: & leuouos dAGarcia arriba 
Q partió pêra lá na entrada de faneíro, de mil & qui** 
nb&tos & vinte três: onde foy ter em SetAbro do raeSf 
mo anno. E dahi os mandou lorge dalbaquerf} pêra a 
índia , donde lhes foy dada embarcação pêra Portugai« 



LlVmO VI. CJkPITVLO XLII. 89 

C A P I T V L O XLII. 

De como os mouros da ilha de Tidore , matarão vmie 
tantos Portuaueses. Pelo que se começou a guerra âtre 
António de brito , ^ el Rey de Tidore. 

xjlo tSpo que António de brílo começou de fazer a for- 
taleza , andaua hum tio dei Rey de Ternate degradado 
da mesma ilha, ja do tempo de quando seu jrmão era 
viuo , que ho degradara por causas que pêra isso iene. 
£ como este IfSte soube que el Rey seu jrmâo era mor- 
to, quisera que lhe fora levantado ho degredo, & tor- 
narse a sua terra: ho que Cachil daroes estrouou^ te- 
mendo que se ho outro tornasse, que lhe tiraria todoito 
mando que tinha na terra que era muyto grSde, E vS^ 
dose este Ifante sem remédio, despois que soube i\ An- 
tónio de brito fazia a fortaleza, quis ver se por ele «e 
podia tornar a sua terra : pêra ho ^ se fby a cidade de 
Ternate & se meteo na mezquita, donde mSdou dizer 
a António de brito Q se queria tornar Christão, eõ al- 
gils outros, que lhe desse seguro pêra entrar na cidade, 
porque se temia de Cachil daroes que logo foy disto a- 
uisado. E se foy a António de brito & íhe disse: ^ por 
nenhu modo aquele homS auia dStrar na cidade, por 
ser nela muy odioso, & se querer leuantar contra ho 
Rey passado , que por essa causa ho degradara , & assi 
outras muytas rezôes : por onde não era bem que tor- 
nasse , dando cor Q se ele consentisse que tornasse , & 
que se leuantaria a terra contrele: ho que António de 
brito temeo. E como ainda tinha a cerca da fortaleza 
por fazer , & tinha mnytos doentes , nSo ousou de bolir 
consigo: & posto que lhe pesou muyto de não fazer a- 
Qle home Christão, mãdoulhe que se fosse, porque lhe 
não podia valer, & ele se foy. E se este homft se fizera 
Christão, em pouco tCpo ho forão todos os daquela ilha, 
segfldo auia pouco que erão mouros : & desta ytt ficoir 

LIVRO VI. M 



to 0A MiarOEiA DA INMA 

a terra tão aluoroçada, (} António de brito teue asas 
que fazer em a tornar a pacificar) 8g assi tinha miijto 
trabalho em não auer na feytoria nenh&a roupa ^ gastar 
pêra auer por ela mantimentos &couMa necessárias pê- 
ra se fazer a fortaleza, & muyto maior ho teuera, se 
não chegara de Malaca hii fidalgo chamado dd Rodrigo 
da silua ê hu nauio , em que leuaua fazSda pêra a fey- 
toria, com ^ se remedeou dalguas necessidades que ti* 
nha, & coesie nauio vierfto tambS algus jungos de Ma<- 
iaca y & de Banda , ^ doutras partes y a buscar Oauo 
como acostumauào: bo que sabido António de brito ^ 
determinou de bo nao consentir, porque queria .Q fosse 
iodo ho Crauo pêra el rey de Portugal , por esse aer.ho 
fim pêra i^ mandaua ali fazer aquela fortaleza: & ma« 
dou pedir aos reyg comarcãos em cujos senhorios auia 
Grauo, que ho não cõsintisaem vender a outrem se tiâo 
ao feytor dei Rey de Portugal, Sc, isto mandou especiaK 
mente dizer a el Rey de Tidore , porque soube que es* 
tauâo è seu porto certos jungos de Bàda, que com seu 
íauor deterininauâio seus donos de carregar, & isto lhe 
mandou pedir S^ requerer por hu António lanares, que 
foy em hiki fusta, com vinte tantos Portugueses, & 
mandoulive que quando el rey não quisesse mandar ir os 
jungos de seu porto, que os fizesw ir ás bonbardadass 
ho ^António tauares fez com tanta e^iorbítancia que el 
Rey & a sua g^e fiqou em ejitremo escandalizada dele, 
inas poK Ai^tonio taiuares estar no mar & ter artelbaria, 
não ousou el Rey de bolir cocle : & estando ele no por-^ 
lo ))era acabar de esgotar outros jungos se hi fossem 
carregar, deulhe ht%a toruoada com que a fusta deu a 
costa, & Aottonio tauares & os outros se saluarão em 
1içrra com muyto perigo: mas aproueitouthes pouco, 
p/c)rqu:e corioo a gent<^estauai escandalizada, como os vio 
a^si desbaraUdoa^ remeteo aeles cõ suas armas, Scma^* 
^a^âonoa a todos : & tomarão a fusta íic act^lbaria. Ho 
^ue sabendo António de brito, mandour logo prendes 
^Igfi» carpiaieiroa dei Rey d» Tidore , que ihe êpresia«* 



LIVRO VU CAFITVLO XLIf. 91 

Th pêra fazet hu nauio que lhe faíift , & despe» de os 
prõder, mandou dizer a el Rey deTidore ho porque os 
prendera , requerèdolbe que lhe mandasse logo as ar- 
mas dos Portugueses, a fusla, & artelharia que lhes 
fora tomada , & os mouros !\ os matarSo pêra fazer jus- 
tiça deíes, ao que não satisfazendo el Rey, determinou 
António de brito de lhe fazer guerra: ho que IheCacbrl 
daroes cõseihaua que fizesse, pêra ter dele mais oeces^ 
sidade do ^ tinha, & dizialhe ^ se deixasse assi passar 
aquele atreuiménto dei rey de Tidore que cada dia ho 
teria pêra ho oífôder: & que a raynha & seu filho ho 
ajudariâo posto que ela fosse filha dei rey de Tidore & 
ele seu neto: o q era contra rezão, nem a rainha ho 
quis fazer, & posto que não fosse de praça secretamen<- 
4e mâdaua aos seus que flão ajudasse a António de bri- 
to cõtra e) rey seu pay, & que se leuantassem contra 
os Portugueses. Do ^ Cachil Daroes auisou logo Antó- 
nio de brito, & lhe conselhou que metesse a raynha & 
seu filho na fortaleza, & que coisso seguraria a terra de 
iodo. £ sobristo ouue António de brito conselho coes- 
ses fidalgos & caualeyros i\ estauão coele , & os mais 
deles lhe aconselharão Q por nenhu modo bolisse com a 
raynha nem c5 el rey, porque metendo os na fortaleza 
86 leuantaria a gente contreles & Cacfail Daroes nâo 
«eria poderoso pêra os apactficar , que melhor seria le- 
uar a raynha por bê* E António de brito não quis to» 
inar este cõselho pola instrução que linha de.Cachtl Da» 
roes : & querèdo ho poer em obra soubeho a raynha & 
fugio pêra hiia serra & dali se passou pêra seu pny & ho 
rey ficou: & porque não fugisse lambe recolbeoo Ali* 
tonio de brito na fortaleza tratãdobo como rey, que era 
cõ todo seu estado sem lhe faltar cousa neobiia. £ com 
tudo vendo a gSte da ilha como ho seu rey esiaua me*^ 
tido na fortaleza & ho não detxauão sayr dela ficarão 
muy descontentes parecSdoihe que era preso^ & ouue 
algOs aluoroços em algús que Cachil Daroes apajSfou, 
mas não que a gente ficasse de todo b6 com António de 

M 2 



92 VA HISTORIA DÁ íffDtA 

brito nem bo querião ajudar na guerra cSlra el rey da 
Tidore por ser pay da sua rayoha: do que Anlonio de 
brito esiaua muj agastado, porque por ter poucos Por- 
tugueses & doentes, & linha a fortaleza por acabar não 
ousaua de os apartar de si, nem de os auenturar á guer- 
ra: & a que queria fazer a el rey de Tidore Qrialha fa- 
zer com os Terna tes cõ propósito de Ibe derrabar coeJes 
«eu poder : pêra que quando os Portugueses fossem te- 
uessem menos que fazer, pêra o que pedio conselho a 
Cachil Daroes que lho deu muyto bS, & foy Q mâdasse 
pregoar polas pouoações da ilha que qualquer pessoa 
que leuasse cabeça de Tidore a António de brito, ou 
lho leuasse caliuo que Ibe daria por cadahu hu pano fi- 
no. E como erSo cobiçosos por ganharem aquele preço 
começaríão logo de fazer saltos na ilha de Tidore , co^ 
ino começarão, & erão tantos os ^ matauflo que não 
auia panos que abastassem pêra lhos psgar, & tambft 
dos Ternates morriSo muytos , & desejarem seus pareis 
tes & amigos de vingarem suas mortes foy causa de a 
guerra se atear, & começouse de fazer muy crua dam*- 
baa as partes, & os da ilha de Bachã & deGeilolo aju* 
dauâo tambfi aos Ternates por amor de ganbarfi os pa- 
nos. E com toda esta gente que era contra el rey de 
Tidore desejaua ele tão pouco paz nem amizade com es 
Portugueses pelo escândalo que tinha deles que Donca 
a pedio a António de brito, n6 se lhe desculpou do 
passado. E neste tSpo mandou Anto|iio de brito desco- 
brir outra nauegaçã pêra Malaca pota via da ilha deBor* 
neo, que Ibe di8serâk> qneera mais breue que a da ilha 
de Banda, & mãdou a isso ê bfi nauio hfl Simão dabrea 
seu parente que partio de Ternate em lunbo: & por^ 
que não soube o que lhe sucedeo na viagS não direy 
mas se não que ehegou a JMalaca em Nouõbro hii mes 
despois de dom Garcia anrriquez que fora pola via de 
Banda y & auia onze meses que partira de Ternate. 



LIVRO VI. CAPITVLO XLUf. 93 

C A P I T V L O XLIII. 

De como dÓ Pedro de castro pos a obediência dos reys dt 
Zanzibar ^ Pemba as ilhas de Querimba que Uie de- 
sobedôciâo. 

Xauernando dom Pedro de castro & Diogo de melo em 
Moçambique como atras fica dito chegarão ao alcaydo 
-mór da fortaleza hQs êbaixadores das ilhas de Zanzibar 
& Peba : pedindolhe que pois erão vassalos dei rey de 
Portugal lhes desse ajuda pêra sugigarem a seu senho* 
rio as ilhas de Querimba que sendo suas selbes reuela^ 
rSo cÕ fauor dei rey de JMombaça , & nelas lhes tinhão 
tomados hiis zambucos & morta alg&a gSte. Ouuida es* 
ta embaixada pelo alcayde mór por quanto não era po- 
deroso pêra dar ho socorro Q lhe pedião requereo a Dio- 
go de melo & a dom Pedro de castro que socorressem 
aqueles reys, porque seria grade seruiço dei Rey de 
Portugal. £ por Diogo de melo não poder ir foy dõ Pe» 
dro sem ele, & foy no batel da sua nao cõ arrombadas, 
& escolheo pêra ir no esquife Christouão de sousa , de 
que faley nos liuros atras ^ hia por passageiro & leuaua 
a capitania de Chaul , & coele & com dÕ Pedro forSo 
outros fidalgos & gente darmas em paraós da terra , & 
serião por todos passa te de cê homês dos nossos. £ in- 
do ao longo da costa chegarão a hila das principais ilhas 
das de Querimba hfl bÕ peda^ antes de sol posto, em 
^ auia htla pouoação de mouros & eslaua em goarda 
dela hH sobrinho dei rey de Mombaija com gête degoar- 
niçâo & coela ajuntou toda a da terra que era muyta: 
& vendo vir os nossos cuydando Q os enganassem say- 
rflo á praya cÕ mostra de paz , mas quãdo virão os qo»> 
006 armados recolheranse peia a ponoai^So, & poSdo em 
saluo as molheres & filhos com outra gente que não po- 
dia pelejar , & assi ho mais que poderão deixara se es- 
tar eom soas armas pêra defeiider& a terra» £ nisto eh»» 



94 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

gar^ o8 nossos a terra , & dom Pedro fez deles deus 
esquadrões , & ele com hQ & ChristouSo de sousa c5 
outro entrara na pouoaqão cada hu por seu cabo era que 
acharão grande resislêcia : porque ho sobrinho dei rey 
de Mombaça era esforçado & cõ a gSte que tinha de- 
fendiase bem , & assi se começou a peleja muy braua 
espalhandose dÕ Pedro &ChrÍ8touão de sousa cõ os seus 
pola pouoaçâo : & durando assi a reuolta » bu fidalgo 
chamado António galuão filho que fora de Duarte gal- 
uâo, que ia com dom Pedro se perdeo de sua compar 
nbia, & buscandoo com outros que ho acompanhauão^ 
foy ter cõ sete ou oy to dos nossos , que pelejauSo com 
muylos mouros , que por serS muy tos os tratauão muy 
mal com muytas feridas que lhes tinhão dado. E cher 
gado António galuão, ajudouos também que fez fugir 
os mouros , & foy ajudar a Chrislouão de sousa , que 
estaua em grade aperto cõ hils mouros , dentro em hua 
casa , onde ho Christouão de sousa fez muy esforçada- 
mente matado muytos , mas ficou ferido. E neste tem- 
]x> na parle onde pelejaua dom Pedro , foy morto ho so- 
brinho dei rey de Mõbaça, pelo que os mouros se de»> 
baratarâo & fugirão, ficado muytos mortos: & dos nos- 
sos , forão feridos a fora Ghríslouã de sousa , Gaspar 
prelo seu criado, Nuno freire, Luys machado, & ou- 
tros algQs, & ja de noyte que se a peleja acabou se re- 
colbeo dom Pedro cõ os nossos a húa mezquila junto do 
mar onde estêue aquela noyte. E por saber ante manhã, 
que entraua gente da terra firme na ilha a se ajiilar 
com os mouros 9 & tornarS sobrele, ho que se podia fa- 
zer cõ a maré vazia, mãdou a António galuão que fos- 
se cõ algils dos nossos a lho estrouar, & ele não pode 
ir logo , por estar com febre , & despois que foy bem de 
4lia se foy ajuntar com António galuão, & dera nos 
mouros & matarão muytos , & fizerão fugir os outros. £ 
Toubada a pouoaçSo em que se achou despojo , que va- 
leria duzStos mil cruzados^ foy lhe posto fogo & ardeo 
4pda : sem dõ Pedro querer muylo dinheyro ^ lhe os 



LIVRO VI. CAPITVLO ZLIII. 95 

mouros dauão porque ho não fizesse ^ 8& ele não quis 
porque ficassem escaraniSlados ^ & não se leuanlassem 
mais contra os reys de Zanzibar , & PSba , a cuja obe* 
diencia os tornou, & assi os oulros das outras ilhas , 
que vendo estes desbaratados & castigados , se torna- 
lão a obediêcia dos reys : & estado ainda aqui dÕ Pedro 
alagarão se os paraós , em que os nossos tinhâo carre- 
gado ho despojo que ouuerã dos imigos & perdeose to-» 
do: feylo isto partiose dÕ Pedro pêra Moçãbi que, t&do 
mâdado diante Cbristouão de sousa & os outros feridos. 
£ partido dali por ho batel ser muyto pesado & roao de 
remar & dar muyto trabalho, determinou de ho mandar 
a Merlinde, pêra õde ho veto era a popa, & por hoba-^ 
tel ser grande sofria ho mar, & ele iria no esquife ao 
longo da terra pêra JMoçãbique, & deu a capitania do 
batei a António galuâo, & começando de caminhar, es* 
tãdo dom Pedro surto è htla |>equena enseada, estando 
ele dormindo despois de comer, saiose dÕ ChristouSo de 
castro seu primo, & assi os outros em terra, onde ou* 
uerâo bum recõtro com muytos Cafres, que os tratarão 
tão mal y que os fizera recolher ao esquife muyto feri*« 
Ú08 , & isto por lhes acodir dom Pedro que acordou ao 
arroido, & se não acodira todos lurSo mortos: & ven«^ 
dose assi dom Pedro tornouse pêra ho lugar de ^ parti- 
ra, Õde achou ainda António galuão que nâo era parti- 
do, & aquela noyte morreo dò Cbristouã de castro, fi- 
lho de Felipe de castro , que foy hd dos feridos. £ por 
dom Pedro ser parente Dãtonio galuão & muyto seu a* 
migo , rogoulhe que deixasse ho batel , A: fosse coele no 
esquife, & assi ho fez: & no batel mftdou por capitão 
a dom Roque de castro sea jrmão: & ele tornou a seu» 
caminho pêra MoçãbiQ^. 



96 DA HISTOltrA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O XLIIII. 

Do qve Antcnio galuãofez em Catangane tamãdose pêra 

Moçambique. 

Jji indo ao longo da costa foy ler coele hQ zâbuco car» 
regado de manlimStos, em que ião Portugueses, & por 
algíís respeitos que pêra isso ouue, mudou dom Pedro 
ho conselho de ir no esquife : & deixado nele por capi- 
tS a António galuSo, foyse diãte no zSbuco. E António 
galuão ficou no esquife , S ^ passou asaz de trabalho , 
de fome & de sede , com todos os de sua companhia : & 
estando . três legoas de Moçâbij] pareceo hiia legoa ao 
mar 9 que era hil zSbuco, a que derâo caça cò ho es- 
quife a vela , & fizerãna varar em terra , na praya de 
hfia pouoaçâ chamada Cotâgone, pouoada de mouros 
que estauâo de guerra cd os nossos. E quando António 
galuSo chegou a terra, ja os moradores dela descarrega- 
uSo ho zâbuco que logo deixarão, & remeterão aos nos^ 
808 ê desembarcado: & trauouse antreles hua peleja, 6 
que 06 nossos ho fizerâo tambfi , que leuarão os !mígo8 
ate ho lugar a que logo poserão ho fogo t & por lhe os 
immigos acodírem deixarão os nossos, com que teuerão 
tempo de tornar ao zambuco & deitalo ao mar, & acha- 
rão nele algus mantimStos, & assi tomarão algus paraós 
Q estauão no porto. Isto acabado que os nossos estauâo 
no mar , ex vê de terra hú paraó cÕ sete ou oyto homSs 
que chegarão a bordo do zambuco Õde eslaua António 
galuão, a que h& velho que vinha no paraó apresfitoa 
bu presente de galinhas & fruylas da terra, & disselhe 
por htl lingoa que trazia que era de Moçambique, que 
ho ia ver & aos de sua cõpanhia : pêra ver homês que 
sendo tão poucos teuerão tamanha ousadia que sayrâoS 
terra a pelejar com tamanho numero dlmigos, & {| assi 
lhe tomarão o zambuco sem nenhii perigo: & assi lhe ia 
pedir que lhe fizesse mercê daquele zambuco & dos pa- 



LIVRO VU CAPfTVLO XLIIII. 07 

raós ^ tomara naquele porto, & que íicarião por seus 
pêra sempre. E dizia isto de maneyra que António gal- 
uão enlêdeo que dissimulaua pêra lhe fazer algõa trei* 
çSo. E entêdendo isto fez que os queria preinder, & 
disse ao velho Q ele tinha sabido como os daquela po- 
voação erão imigos dos nossos, & lhes tinhâo feytos al- 
giis males. E pois ele sendo dela lhe fora falar sem se- 
guro '& pêra ho «nganar que ho engano auia de ficar 
coele, & ho auia de catiuar cÔ os mais de 6ua compa-^ 
shia: do que ho velho & os outros que erão mancebos 
ficarão trespassados de medo, & deitaranselbe aos pés 
))edindo misericórdia, & confessando que vendo qu« por 
força ho nSo poderão vScer quiserão prouar de ho fazer 
por manha com ho deter ate que vazasse a maré, <)ue 
vazaua tanto que lhe auia de ficar ho nauio em seco, & 
êtão determinauão de ho tomar: pedindolhe que poisos 
Portugueses erão piedosos, & quanto mayores erros lhes 
fazião, tanto mais perdo»uão, &essa fama tinhão, que 
lhes perdoasse, & que eles fícariâo obrigados a seruirem 
quaesquer Portugueses que ali fossem ter em quanto vi- 
vessem , & lhes acodirião em suas necessidades : & assi 
fao deixarão encomêdado a seus decSdStes l\ ho fizessS. 
£ António galuâo lhes perdoou com condição que lhe 
vendessem algOs mantimentos & que ho soltaria & aos 
outros. E prometendo ho velho que si <]eixou os man- 
cebos em arrefens, & ele foy poios mantimentos, com 
que tornou trazendo muyta gent-e carregada de cabras, 
capados, galinhas, ouos & outras mujtas cousas pêra 
comer. E entregue tudo a António galuão soltou os ar«- 
reféns, & ficou ali dous dias refrescando & neles fez 
paz com os da povoação, pêra qve agasalhassem os nos^ 
808 quando ali fossem ter & lhes dessem ho necessário, 
& pêra isso lhes alargou ho zãbuco & os paraós que lhes 
tomara. E deixando a terra pacifica se foy pêra Moça m-- 
bique, Õde achou dom Pedro & os outros que ali inuer^ 
nauão fazendo hCla casa de nossa senhora que se cha* 
ma do. baluarte. 

LIVRO VI. N 



98 1>Á SMTOMA DA INIHA 

C A P I T O L O XLV. 

i>€ eomo dom Pedro de easiro che§tm a Goa ^ se ferde& 

« nia nao na barra. 

V inda a idoih^So pêra a lodia «e partirão estea capi« 
ISea que ali inuernauSo , Diogo de melo pêra Ormuz , 
Õde soube que estaua ho gouernador , & dom Pedro de 
castro pêra a índia & chegou aa barra de Goa em Âgos* 
lo. E estando a geote ioda em terra, véspera da As^ 
8ua)p<2à de nossa senhora se leuantou hiia Ião braua & 
medonha tormenta no mar que parecia que tudo se fun* 
dia, & a nao de dom Pedro que se cfaamaua a Nazaré 
por ser velha começou dabrir & fazer agoa per muytat 
partes : o que sabido por dom Pedro acodio logo €K>m aU 
rua gente com quanto auia muyto perigo ao sayr da 
barra por os mares andarem muy grossos, & por a nao 
ter necessidade de gente que lhe acodisse fazia a Fran* 
cisco pereyra pestana capitão da cidade ir por força. B 
António galuão se embarcou em hum batel com seus 
criados & amigos, & seys ou sete que forSo de seu pay, 
& foy dos primeyros que acodio, & era tamanho ho ma- 
rulho que andaua no rio por onde hia que não hião a* 
goardando se não quando ho batel auia de çoçobrar, pe* 
k> que hum Simão vaz pedío a António galuão que ho 
mandasse poer em terra, & ele ho fez com dó dele^ & 
em ele saltando saltarão outros dous, & se acolheram^ 
£ não he despantar, porque segundo muytos me conta- 
rão ho mar & ho rio andauão tão espantosos com ho fu- 
rioso vento que os reuoluia, que [>arecia que querião 
destruyr tudo : & que era hum dos sinais dantes do dia 
do juyzo, & assi ho achou António galuão auendo tís* 
ta da barra em que asdauão os mares tão altos que pa^ 
recía que chegauão ás nuuSs. O que vendo algils mo* 
radores de Goa que ião no batel, requererão a Anloniu 
galuão que não sayse do rio porque se perderia. Ao que 



LIVRO VL« CAiPITTLO XIX. 99 

ele respondeo, que nâo cuidassem que ia a nao por ter 
laa fazenda & a aaluar q«e a nSo linha, & não ia se 
não ajudar a dom Pedro a saluar aquela nao que era 
dei Rey de Portugal com quem viuia , por isso Q não 
auia de deixar dir por ma>^or tormenta que fizesse que 
nosso senhor os ajudaria, & eles insislião que não podia 
ir nem auia dir porque se perderia. E insistindo nisto 
o que gouernaua ho batel encaminhou pêra (erra, & 
António galuáo ho fez gouerpar pêra a nao ameaqando^ 
ho i} ho mataria , & a qu6 dissesse que não fossem por 
diante, & valeolhe os que leuaua da sua parte, porque 
00 isso não fora fizerãno tornar pêra terra , & poendo a 
proa naqueles mares & rompendo, por eles com mujto 
perigo de sua vida por as ondas comerem ho batel, che^ 
gou (ão perto da nao que lhe lançarão dela hQa beta 
por onde ho batel foj alado a bordo , onde não podia 
•chegar com a grande resaca dos mares que empuxauão 
•ho batel muy 15ge. £ entrado António galuão na nao 
com os seus achou dom Pedro com os que estauão na 
nao em muyto grande afronta, por não poderem vencer 
a muyta agoa que ela fasia, nem prestou a ajuda que 
ele & 08 seus lhe derão. E vendo dom Pedro que a nao 
não tinha remédio se não perderse mandou acodir aa fa* 
senda dei rey que lhe lembraua mais de saluar que a 
flua , porque vendo hum seu criado quã )3ouco lhe ela 
lembraua a respeito da dei rey , lhe disse que a man«> 
dasse oulhar porque ae perdia toda. Ao que ele respon- 
'deo muyto roeneBcorto : A dei rey queria eu salua, que 
da minha não me dá nada que ae perca. E assi ho fei 
que deixou perder muyta parte dela por saluar a dei rey 
«m que leoou assaz de trabalho. E vendo por derradei*- 
ro que a nao nSo podia escapar , mandou dar aa vela & 
varou em terra* que era a maré chea: & coeste ardil ae 
aprouey tou mnyto do que ia na nao , & ela acabou ali , 
aem da cidade ouaar ninguém dacodir cò medo do ma? 
ae não AnU>nio gahião. 

N 2 



100 lu HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T O L O XLVL 

De eamo ho gauemaáor mandcu BaJUsar pessoa por enw 

baixador oú Xeque ismaeU 

Jbistando ho goaernador em Ormuz foy Raix xarafo cer- 
tificado que algus capitães do Xeque ismael nâo deixa- 
uão passar as cáfilas que ião com mercadorias pêra Or- 
muz, dizendo que ho fazião porque el rey Dormuz de- 
uia ao Xeque ismael cinco mil xarafins de páreas que 
lhe nSo querião pagar. E porque desta represaria perdia 
el rey Dormuz muyto em suas rendas , pedio Raix xa* 
rafo ao goueroador que mandasse rogar ao Xeque ismael 
que fizesse alargar as cáfilas pois el rey Dormuz era vas- 
salo dei Rey de Portugal com quem ho Xeque ismaei li- 
nha paz & amizade: & quanto ao que lhe el rey Dor- 
muz deuia fariSo conta & lho pagaria : & sobristo man- 
dou ho gouernador hfla embaixada ao Xeque ismael com 
que foy hum Baltesar pessoa caualeyro da Ordem de 
Santiago que foy bem acompanhado dalgfls Portugueses 
de cauaío & piSes pêra os seruirem, & foy em sua com- 
panhia Abedala califa embaixador do Xeque ismael que 
niica se mais fora da índia. E partido Baltesar pessoa 
Dormuz foy ter a hua cidade chamada Lara em terra 
de Pérsia que era de hum senhor mouro que se chama- 
ua rey como disse oo liuro terceyro: & era vassalo dei 
rey Dormuz. E por ele não ser rey verdadeyro , Balte* 
sar pessoa não fez dele tanta conta como ouuera de fa« 
zer , & mandoulbe hum presente que por ser de pouca 
cousa el rey não quis tomar. E com quSto Baltesar pes- 
soa determinou em conselho de se lhe ir mostrar, pêra 
que el rey visse ho aparato que leuaua : & a mostra a- 
uia de ser, não que ho fosse ver a sua casa se não pas- 
sarlhe pola porta. O que Abedela califa contra disse : 
dizendo que não deuia de ir por^ sentia Q el rey estaua 
escãdalizado dele, & que lhe podia acontecer algum pe* 



LIVRO VI. CÀPITVLO XLVI. 101 

rigo. £ Baltesar pessoa por conselho dos nossos nSo quis 
se nSo ir, & ele & os de sua companhia forão muy bem 
atauiados & acompanhados despingardeyros. £ sendo 
perlo das casas dei rey em bOa rua estreita sayolbe hum 
tiorpo de mouros ao encõtro, & hum mouro lhe deu com 
hfta porra de ferro na cabeça cõ que o deitou muyto fe- 
rido do caualo abaixo. £ nisto forão as pedradas tantas 
das geneias & as frechadas & zaguchadas, que por pou- 
co que os nossos não forão mortos & todos fugirão por 
dde melhor poderão, & despois que se ajuntarão foy cu- 
rado Baltesar pessoa & outros, & partiranse & foráo por 
suas jornadas ao campo do Xeque ismael, em que virão 
muytas & muy notaneis cidades , assi como a de Xiraz 
que he de Ix. mil vezinhos & foy tamanha em outro 
tempo (} era muyto roayor do Q agora be bo Cayro, & 
daqui vem dizerem os mouros da Pérsia que quando Xi- 
raz era Xiraz , era ho Cayro sua aldeã , & tornoa assi 
por amor das guerras com que foy destruyda , & a ci- 
dade deTabriz da mesma grandeza, & assi outras muy- 
tas de muy nobres & sumptuosos edifícios , & pouoadas 
de gente muy luzida , como António tenrreyro conta em 
ho seu itenerario, em que largamête escreue toda esta 
terra. £ daqui foy por seu caminho ate cheg<ir a h&a 
jornada do arrayal do Xeque ismael , onde chegou hum 
recado a Baltesar pessoa do mordomo da casa do Xeque 
ismael que em lingoa Persiana chamão Vaquit , que se 
deixasse ali estar ate lhe mandar recado qué fosse. £ 
isto era segundo se despois soube, porque naquele tem- 
po fazia ho Xeque ismael hãa festa que na sua lingoa se 
chama Nouoruz, que quer dizer festa da primauera, 
em que se auiâo de ajiltar quantos capitães & senhores 
auia em seu senhorio: & por querer que Baltesar pes- 
soa & os outros nossos os vissem , os mandaua ali espe- 
rar por ser passo por onde todos auião de passar. £ por 
este recado do Vaquil se deteue ali Baltesar pessoa dez 
ou doze dias, que tanto se deteuerâo os que digo em 
passar assi de noy te eomo de dia : & foy cousa despan* 



lOC HA HISTORIA DA INMA 

•to a gente que passou de causio , & os cattetoe carre- 
gados de fato. E passada esla genle y & alojada no ar- 
rajal , bo Vaquíl mandou dizer a Baltesar pessoa ^ fo»- 
se, & assi o fez. E ates de chegar ao arrajal obra de 
hAa legoa bo forão receber certos capitães com ate cio- 
coenla de caualo todos vestidos de festa, & por fazerem 
bonrra aos nossos conuidauSnos de quando em quãdo 
com muytas caixas de confeytos & outras fruytas verdes 
& com vinho que lhes trazião em garrafas de prata , & 
assi forão ate bo arrayal , onde alojados os nossos em 
suas tendas , foy visitado Baltesar pessoa da parte do 
Xeque ismael : a que mandou dizer que sua vinda fos- 
se boa j & que descansasse porque lhe auia de fazer 
quanto lhe requeresse, & alem disso muyla meroe, por- 
que queria grande bem aos frangues por aparecerem na 
índia , & a conquistarem quando se ele ieuantara por 
rey em Pérsia. 

C A P I T O L O XLVIl. 

De como faltcto ho Xeque ismad sem dar despocho a 
Baltesar pessoa : §* de como hum Jilho 4 Ike sucedm 
ho despachou. 

JL assados algus dias despois da chegada de Baltesar 
pessoa ao arrayal , veyo ho dia da festa da primauera \ 
bo Xeque ismael auia de fazer, em amanhecendo foy 
alcatifado hum grande espaço de chão diante das ten- 
das do Xeque ismael que tomaria dous tiros de besta ^ 
& sobre as alcatifas muytas fotas de seda em lugar de 
toalhas, em que forão postas muytas & muy diuersas 
igoarias & grande soma de garrafas douro & de prata 
cheas de vinho. E isto porque ho Xeque ismael daua 
aquele dia banquete geral a todos os mouros Q estauão 
no arrayal. E primeyro que se assentassem a comer (or 
râo dados da sua parte aos reys & capitães vestidos de 
ly^foadosi cetins g veludos & outras sedas forradas de 



LIVRO VI. CAPITVLO XLVII. Í03 

forros de pelo muyto finoã , & espades goarnecidas dou- 
ro & |)edrar]a , no que bo Xeque ismael gastou trezen^ 
los mil cruzados, & nâ os tinha em estima por ser muy- 
to liberal. £ destas peças /orflo também dadas a Baile- 
sar pessoa & aos de sua companhia. £ vestidos todos 
destes atabios, assentaraose a comer: & Bailesar pes- 
soa com os nossos comerão em htia mesa hum jogo de 
malhSo da do Xeque Ismael, que também comeo no ban- 
quete, & estaua vestido em biia cabaya de cetim bran- 
co bordada de tela douro, & hum roupão encima de ce- 
tim laranjado bordado do mesmo. £ ho estrado que era 
muy rico estaua cuberto de froles , & de todas as igoa- 
rias que lhe forSo postas mandou aos nossos por lhes fa- 
zer bonrra* Acabado ho bãquete que durou muyto gran- 
de espaço , passouse ho Xeque ismael a hum pauelbão 
de borcado, junto do qual estaua aruorado hum masto 
que tinha na ponta húa guindaresa pêra sobirem & de- 
cerem h&a lança que estaua aruorada sobre este masto, 
& tinha na ponta afia maçaã douro vazada tamanha co- 
mo hfia laranja que tinha trinta cruzados. £a este mas- 
to arremeterão certos capitães & fidalgos que estauâo a 
caualo em seus postos dila parte & doutra , & isto ao 
som de muytas trombetas. £ chegando quasi ao pé do 
masto pararão & tirarão a maçaã que digo com seus ar- 
cos, & o que a derribou se deceo do caualo & a tomou, 
& por honrra lhe mandou ho Xeque ismael dar de be- 
ber , & despois tornou a caualgar & a tirar com os ou- 
tros a outra maçaã que logo foy posta , de que se gas- 
tarão muytas , & assi acabou a festa da primauera. £ 
despois disto por ho Xeque ismael ser muyto doente de 
epelensía ou por outra causa que se não soube ele nun- 
ca ouuio Baltesar pessoa antes ho andou detendo ate 
que morreo da mesma doença , & por sua morte se foy 
Baltesar pessoa aa cidade de Tabriz, porque no arrayal 
não estaua seguro de morto & roubado, nem em Tabriz 
ho não esteue se aáo era h&as casas muyto fortes. £ se- 
pultado ho Xeque ismael, socedeo esi seu senhorio hum 



104 30A HISTORIA DA ÍNDIA 

SOO filbo que tinha chamado Tharoaz çollSo de idade de 
•quinze annos : & este despachou despoís Baltesar pessoa 
sem ibe conceder nada do que pedia nem fazer deieoe-^ 
nhã caso, & assi se tornou descontente. 

C A P I T o L o XLVIIL 

De como se partia ho gouernador pêra a índia , ^ de 
como chegarão as nãos de Portugal. 

JL/espachado o Sbaixador Baltesar pessoa , partíose ho 
gouernador pêra a índia, & ho primeyro lugar dela a 
que chegou foj Goa, onde achou Eytor da silueira íilho 
do Coudel oiór que {)artira aquele ãno de Portugal por 
capitão mór da armada pêra a lodia, & forSo seus ca* 
pitâes Manuel de macedo, Siinâo sodré, dom Antónia 
dalmeida, Francisco da cunha, Pêro dafonsequa, Vi-^ 
cente gíl : & quatro destes capitães iouernarão &Eytor 
da silueira passou cÕ os outros: & de Goa se foy ho go*^' 
uernador cora bua grande armada aCochim, &de cami* 
nho foy visitando as fortalezas da costa, que toda an- 
daua chea de paraós de Malabares darmada & roubauão 
os Portugueses que acbauão desapercebidos. E a causa 
disto eca que como os reys & senhores da índia estauão 
de paz, & os Portugueses nâ tinhâo guerra em !\ se o- 
cupar tratauão todos , & ho gouernador lhes daua pêra 
ISSO licença , dízendolbes quãdo lha daua que fossem a 
recado, porque os não matassem os mouros, de ^ não 
se deuião de fiar posto que ouuesse pazes: porque quan- 
do as auía se vingauão eles do mal que recebião na 
guerra. £ isto sabia ele por experiência: & destas ij* 
cenças se seguio inuylo mal , porque os Portugueses se 
desauergonharâo tanto que não se contentauão coro tra- 
tar, mas quando achauão nãos de mouros nossos amigos 
pediãlfaes dinheiro porque os nã roubassem , & eles lho 
dauão por escapar. E tanto foy isto em crecimento que 
06 de Galicut se queixarão a seu rey.que não era Nam* 



>- 



UVItO.Vf. CAPITVI^O XWX. 10<> 

J>e«idaHio' <)ue auia pouco que falecera, & o t)ue lhe 8u- 
cedeo queria grande mal aos Portugueses , & por isso 
& por ver quío mal se lhe goardaua a paz: determinou 
<le se vingar dos Portugueses ^ & mandou armar em lo* 
£lo8 seus portos 9 & fazer muytos paraós que seruissem 
de ieuar pimenta a Meca quando não pelejassem , & 
andauSo os Portugueses tão dissolutos que os mouros os 
lomauão desapercebidos & matauãnos: o que não sesa^ 
bia aleli por os Portugueses cuydarem que os mouroa 
auiâo de goardar a paz & eles não* 

C A P I T O L O XLIX. 

J)o § acanteceo a dom Pedro de castro ^ a António yal^ 

uâo em CalícuU 

■Hé iodo ho gouernador visitando as fortalezas da costa 
foj ter aCalicut ondestaua dÕ loão de lima por capitão 
da. nossa fortaleza* E estando no porto forão alg&s fidal^ 
<gos jantar coele,.& antre estes foy dom P«dro de cas* 
tro, que. despois de comer se foy aa cidade dos mouro$ 
com seys ou $ete Portugueses. E andando laa como os 
mouros andauão daleuanto, & tinhfto dissímuladanQcntQ 
worlos algus, quiserão.. fazer bo mesmo a dom Pedro: 
querendo armar brigas com os que hiãocoele. Eele fa* 
•zendo que os não entendia começou dabalar pêra a forr 
(aleza : o que vendo, oa mouros apertarão coele & feri* 
^anifae três ou quatro ^ que logo deitarão a fugir. E in^ 
ido asai acertouse que António gal.uão ia em busca d^ 
.dom; Pedro, acompanhado de quatro liomSs seus criaT 
idos : & quando vio oa feridos conbecendo que erão de 
^om Pedro, pareceolhe questaiia em perigo |k>ís os seu^ 
^ssí . vinbão, & por isso abalou correndo pêra ho socOP^ 
rer ou morrer coele, & a poucas passadas ho achou, rot 
deado de muytos mouros armados : & dom Pedro os de- 
tinha que não pelejassem , dizendolhes que porque não 
goardaufio a paz* £ com a chegada Dantonío galuão se 

LlVfiO vu o 



]0S 2>A HISTORIA DA ÍNDIA 

pode dom Pedro retirar pêra a fortaleaa por h&a rua es* 
treita, leuaodo os seus diante & tícaoJo detrás cõ bo 
rosto pêra oe mouros ^ que os seguião batendo os escu* 
dos & brandindo as agomias, & dando grandes euquia- 
das com o que os afrontauáo muyto: & nisto passou a 
diante bu mouro grande de corpo acompanhado doutros 
muytos , & com muyta soberba se chegou a dom Pedro 
pêra bo ferir, & deteue a agomia por dom Pedro, & 
António galuâo & os outros leuareni de suas espadas: 
& porem assoberbauaos tanto que António galufio com 
licença de dom Pedro ho desafiou que ele & outro sa 
matassem coele soo. Mas ho mouro que vio tanta con*- 
erusam, respondeo fora de propósito, dizfido que no 
mar se os fossem buscar saberiâo pêra quanto erSo. {I 
dom Pedro lhe disse Q ho saberia iogo se ele passasse 
dondestaua : & ho mouro se calou & deixouse ficar com 
os outros , & dom Pedro se foy em paz< E eom quanto 
ko gouerBador isto soube nflo fez iobrisso cousa nenbfia^ 
êí foyse a Cochim , & leuou toda a armada sem deixar 
BenhÃa na costa. 0() vedo os mouros deCalient se em^ 
Imrcarão logo darmada & passarão a vista de Coch! : flt 
}x>sto 4 ho gouernador ho soube dissimubu , e6 o Q os 
Mouros teuerã tamanha ousadia que entrarXo no rio de 
Cochim dando caija a algllas nãos de Portugueses mei^ 
cadores , sem ho gouernador ter de ver coiss^o , fc diria 
4 qiíeria entregar a índia de pas ao gouernador q viee^ 
se no âno seguinte : pelo (\ os mouros se atreuerAo a 
Matar tantoa Portugueses Q nttca e tBpo doutro goueiv 
ftador matará tãtos. £ eome ho gouernador foy fi CochI 
despaeliott Baatiâe^ de Sousa & Mari! corroa a ^ tinha 
dada hfia viag<^ pêra BSda , pêra Ade se partirão & f€fj 
por capitão mór de três nauios Bastião de sonsa que foy 
ê h&, & Marti coirea em outro & Aires coelho em oi»» 
tro. 



UVBO yU OAPITVXiO X«. 107 

CAPITOLO L- 

De como el rey Dachem combateo a fortaleza de Pacem^ 

JCil rey DacbS como atras fica dito jjria tamanko mal 
aos Porlugueaes Q todo seu pQsaiofilo era em fazerlhee 
ho mal que podasse ^ Sc em tomar a fortaleza de Pacem 
pêra se fazer rey daquele reyno^ & de toda a ilha d0 
Çamatra pêra dali conquistar Malaca : & despois que 
por amor da chegada de JMartim Afonso de melo Couti- 
nho aPacem leuantoa bo cerco da lortalezai como tam-- 
bS dime tornou a ajuntar gente, & foy cercar a fort^ 
Jeza de Paeem onde dÒ André anrriquez estaua ainda 
por capitão cõ a mais da gente que tinha dofite, & a 
aaS^ & que podia pelejar era muyto pouca , & por nfto 
-saber bo numero dela nS ho dos immígos ho nSo digo; 
joem BMUos ho modo que el rey Dachem leue nesta 
guerra , porque bo não pude saber per ordB : saluo iQ 
«estando el rey sobre a fortaleza chegou Bastifio de squ- 
4Ht com os capilSes de sua oonserua , & surgío na boca 
éo rio de Paeé que he hua legoa da fortaleza , nfio sa- 
bendo como 4Ò André estaua cercado , & por ser tarde 
-Bâo desembarcou. E sendo el rey auisàdo de sua che- 
gada, cuydoii í(| era socorro que vinha á fortaleza; && 
attles que enUraase nela deterreinon de a tomar aquela 
.noyte confiado na mnyta gente que tinha, & a^i bo 
disse aos seae capitSes, encomendSdolhes que esfor^jae- 
aem sna gSie |>era isso, representddolhes (} como ca mur 
roa & baluartes da fortaleza erfto de madeyra & auia 
dias que se fizerão aoiSo destar podres & coro pouco 
trabalho os derribarião, & derribado qualquer lanqo lo- 
go era 61 rada & os Portugueses mortos por serem muy« 
to poucos. Ecoeste esforço forSo os immigos cometer a 
fortaleza despois que foy nojte , & deles com escopros 
& macetes trabalhauâo por cortar ho muro pelo pé , ou- 
tros punhão escadas & sobiã ao muro & baluartes , ti* 

o 2 



lOè lU BI8T0RIA DA INDIÀ 

rando muytas frechadas, outros irazião alifanles: pêra 
despois de corlado ho mara com os escopros lhe poerG 
as testas & ho derribarem. E a esta grade reuolta aco- 
tIfo dom A odre, assi com os sãos como com os doentes : 
& pêra ver o que os imigos faziáo, mandou acSder muy- 
tas bombas de fogo poios muros & baluartes , cô que os 
Portugueses enxergarão muy bem o que os Imigos fa- 
ziáo, & todos muyto esfort^ados lhes começarão de resisn 
tir , hQs laçando sobreles panelas de poluora & outros 
muytos arteficios de fogo, & outros tirando myylas es- 
ptngardadas: mas como os immígos erSo sem conto pe* 
Ta os poucos Portugueses Q se defendiSo , quasi j) nS 
auia defensam pareles , por^ os niò podiâo caber polas 
escadas JJríSo entrar polas bocas das bõbardeiraa a que 
os nossos logo acodiráo & os fazíão tornar as estocadaa 
& lançadas, & assi durou a peleja hú grade pedaço^ em 
que foy morto hum dos Alifantes, & tãtos dos immt> 
gos que os outros ouuerâo por bê de deixar bocombale^ 
assi por verS ho grande numero dos mortos como por es- 
tarem muytos feridos : & dos Portugueses não morreo 
mars que hâa molher que foy morta por desastre com 
bfla frecha heruada, & forão feridos algfia, & bS deles 
Toy Manuel mêdez de vascdcetos, & ca ootros hoosfis 
baixos. E esta vitoria foy milagre de nosso Senhor, por- 
que segundo os Portugueses erão poucos, & os Imigos 
muy loa, se ele não acodira com sua misericórdia lifto 
poderão eles escapar, porque afora os !migos serem 
muytos erão muyto esforçados, & aoezados a pelejar: 
& esforçados por seu rey^ que ficou muyto espantads de 
os Portugueses se lhe poderem defender. 



ttvRO vt. chnmo iã. 1D9 

C A P I T V L o U. 

De tonvo dom André anrriquez despgcu a fortaleza de 

Pacemé 

JSlC outro dia cajdando do» André Q os inigos toi^ 
•tiassèm a dar outro cõbate, eiD amanhecendo foy vis^ 
•lar a gente que esíaua nos baluartes &. muro da foriah 
<leaa, a Q vio encostadas muytas esquadas que os imigus 
deixarão oõ presisa na noyle passada, & dõ André man- 
fdou a Simão toscano feytor que cÕ aigfls Portugueses as 
-fosse quebrar, & assi ho fez. £ nisto chegou Bastião de 
'Bousa com os capitaSs de £ua cõserua, que ião nos bsh 
teis com a mais de sua gSte:.& desèbarcados êlraruo 
na fortaleza, & apartando dom André Bastião de sousa 
& os outros capitães^ lhes coalchi a grande mingoa que 
tinha de gente, & de mantimentos, que erà tã poucos, 
-que lhe não abastarião dons líieses, & que não lhe pó- 
dião ir outros dahi a seis mesee y & que a fortaleza era 
de madeira cousa muyto fraca , & que os imigos a po- 
dião queimar hua noyte. £ porque não pude saber par- 
ticularaiente a conerusão qiie^ se. nisto iomoU , 'uem ho 
-conselho que sobristo fizerão, nfi as .rezbfts que derão 
lio nfto digo: se não querendo tantos Portugueses que 
podiSo bem defender a fortaleza, a maior poder que ao 
^delrey DachS^ & tendo mantimentos narmada de Bas- 
tião de sousa pêra ho te^ipo que ho nerco pod.era durar^ 
-despejarão a furlaleza & a deixarão aos mouros : & ta» 
Bianha foy a pressa de se irem, que deixarão toda a ai- 
telharia, cuydãdo que corria muyto perigo em a embar- 
cara , pola detença que nisso podião fazer : & assi dei- 
xara a casa da poiuora chea dela^ sem lhe poerS ho fo- 
go primeiro por os imigus não sintirfi sua ida : posto ^ 
*fi se quer&do êbaroar poserâ ho fogo a h&s formigueiroe 
ide poiuora l\ iao dar na casa do almaaê deia^ !\ começou 
;cle arder: mas os moucos .ho «pagarão logo. Equâdo vt 



110 JDX HTSTOniA »A ÍNDIA 

rão a pressa que os Portugueses leuauão polo rio abai- 
xo, como honiêa que fugíão, derão fogo a arlelbaría 
que lhes ficaua & tirarãoine coela, dado coisso grandes 
apupadas : Sc assi ficou elrey Daebfi pacificaoieote ãér 
Dhor daquela fortaleza, tfido è muy to pouca côta os Por-* 
tugueses : & ficou tão soberbo , que dali a poucos dias 
tomou ho reyno de Paceas j porque bo goueniador dele 
▼eodo ir os Portugueses não ousou de ficar sem eles na 
torra & leocu dSsígo el rey que era ainda iiio<^« E de»* 
pois ganhoa elrey Dachem bo reino Dauru comarcão 
deste : & elrey Dauru fugio pêra Malaca , onde ele & 
lio de Pac8 viuião muy pobremente. E checado dom. 
André & Bastião de sousa ondestauâo oanaotos^ dete- 
uerâose três dias : & deepois Ibrâose pêra Malaca Mxóm 
ohegarão a saluamento. 

CAPITVLO Lll. 

De côMú 4l mg de sfimâAs numdêu fuster guerra m Ma^ 
laca : ^ de como fay morto AmriípM kme ^ oolror 
capitães. 

I rey de Btntáo que era tmigo mortal dosPertugae» 
ses, não cii5Kla«a «fica se nflo como lhe faria guerra pê- 
ra os destruir & desarreigar de Malaca , pêra o que de 
GÕtídp se apercebia, E tSdo jftlas oytenta & oineo lan* 
charas fornecidas de muy ta & boa gdle , & dartelharia 
as entregou ao seu almirante La^ximena, pêra que fos* 
se sobre Malaca & Ibe fieesse a mais guerra que pode 
se : & ele se partia ao faaeré B indo htía tarde com si 
armada ao logo da costa oyto le;{;oas de Malaca, foy vis- 
to de Duarte coelbo qoe ia ê bfta naueta soa a laser 
presas á costa do reyao de Pataiie. E ponque sabia qne 
em Malaca não auia sospsita daquela armada porque 
não tomasse es Portugoeses desaperrcebidce, como foy 
4ioyte se fes «a ^olta de Malaca: Ade cheirado cfitoo a 
ierge 4aUiuqtteiQ: om qtie 4a. O qvè ealmlo por ele ies 



ÍÁVIL^ VI. Q4PITVS.0 LIf« III 

conselho ^ ê que todos forão dacordo que se fosse logo 
pelejar com aquela armada : porqiae não a desbaralando 
daria muyta opressão á fortaleza andado no mar^ & lhe 
tolheria os manlimètos & mercadoriaa que iâo de fora : 
pêra bo que logo partio dom SaMho anrriquez capílSo^ 
ooór do luar de Aflaiaca, que hy em hH galeão de que 
era capitão seu jrmâo dõ António anrriquez, & fòrSe 
coele Duarte coelho na sua naueta , & Jflaauel de bev* 
redo ê hHa galeota , & seia capitães outros em seis lan- 
charas , que se chamauflo Anrrique leme, Francisco 
fogaça, Diogo leurCço, Fernão daluares cassados, lohão 
de seria, & Afonso iuys, Sc partio caminho do rio de 
Aluar onde estava Laqueximena o5 toda sua armada, & 
dõ Sacho, Duarte coelho, & Manuel de berredo, por* 
que 06 seus nauios efáo grandes ião ao mar , & as lan*» 
charas muyto perto da* tersa , i& indo assi armouse hiia 
torneada do noroeste que lhes seruia a popa : o Q vendo 
dom Sancho anuiinoii &.fez sinal de conselho* È jutos 
os capitXes , lhes propôs dom Sancho como aquelas tor^ 
uoadas vinhão com muyto grande vento, & pêra entra*- 
rem no rio de Muar que era largo & fundo, se a agoa 
deceese faria tamanho escarceo que os meteria no fun»- 
do, & mais Q era tarde: por isso lhe parecia bê mete*^ 
v6se no rio de Cação que era pequeno y & eslaua pri«- 
meyro t\ ho de Muar. Os Q erão ãtigos na^ia terra & 
sabião b8 da guerra fora todos daquele parecer , & di'- 
ttião Q se fieesse assi : &os outros que auia pouco Q vie«> 
rSo de Portugal & são sabião da guerra disserão, Q aquie- 
to era medo & que não se auia de fazer. £ por ser# 
mais que os outros Ic terem mais vozes, se assentou em 
tomarem seu parecer : diafidolhe os outros que quando 
se vissem cõ os immígos, então se saberia qufi auia me-- 
do. £ em partindo, & sendo mea legoa do rio de Muar 
desfecha a t-orooada & dá na nossa frota: dom Sancho, 
Manuel de berredo & Duarte coelho que híãe de lar^o 
amainarão, & os capitães das seis lãcbaras derão cftsigo 
dentro ao rio de Muas^ & três iâo diante çon « foD^jik 



1 1 C 1>A RI«TOHIA DA WmL 

do vento rompendo pela grande manjUiada*' que ho rio 
fazia, furão dar antre a armada dos iinmigos, de quo 
iago aJgús 06 aferrarão, & como era mujtod & os Por* 
tugueses poucos matarãnos a todos » & eõ iio praser quo 
os mouros receberão 4e ver os Portugueses daquela ma* 
i^eyra & terS 'por certa siia'morte, ileuStarSo tamanha 
grita {| reíenia por tudo ao detredor: & após ela desfc»* 
charão seus sinoa ,. bacias , &. outros instromôtos, que 
isso abastara pêra alagar os Portugueses , quanto mais 
èo grande escarceo da ag;oa que alagou a Jancbara da 
Francisco fogaça, & Dãrrique leme^ que com quãtot 
ião c6 ele forão afogados , & assi os xíe FrãciajBo fogaça 
aaliio ele , & outros Ires :.& a oiiira foy varar è hiía va- 
sa onde se méteo toda, & valeoihe í[ era ja noyte 8cfa- 
sia escuro, & por isso os mouros os não forão acabar de 
«atar: &quis nosso Senhor- -dar. tamanho eaforço aFran* 
cisco fogaça & aos outros Ires.^ quenie pegarão na Aan^ 
chara éncomendandosé a aossia Senhora, & assi como a 
ebaraarão com muyta deunçAo^a^sirela lhes valeo, que 
BS mesmas ondas que alagarão a lanchara^ a leuarão a 
^rda da vasa ê ^ue a outra /oca varar, & ajuntandose 
Francisco fogaça & seus cdpanhelros que eaiauão nela^ 
vazarão a sua da agoa t\ tinha^ &.cõ trabalho im^nsoa 
poserão em nado estando ja ho rio marnso , & fiseranM 
]M-e8tes pêra que em amanhecSdo se fossem pêra boga* 
íeão de dom Sancho., porque, tioutro modo nâo tinbâe 
«aloação segudo a muúidâo dos Iroigos: que siniiudo 
«orno estes Portugueses estauão no rio fioseranse a lerta 
]>era em amanhecSdo darê aobreies , & Àssi ho fízerão.t 
que 3 saindo do rio com a lus^do dia, espedense cinc# 
láeharas dos mouroa d^pus eles remando a boga arrau* 
cada^ & alcançados nounaros a.bâJrroarão,.acometen«^ 
doo8.com brauo impeto de grílaa^ sõ deânstcomCtos^ 
& muytas.freohadas^ lamçadas.^ & arremeaos^ a que oa 
Portugueses., resistirão iJom. maraftiíhoao «feforço , & le^ 
liando fadiga grandidsíma em sai defender^ & matado & 
Jecindá) jBiuytoBidos iopufiof^.&çnocx^o ideies algus & fir 



cando feridos muytoe^ se desetnbara^aTAbedM iiio)ircs&;> 
se acolherão ao galeão de dd SaDcho^ ^ue sabendo ho) 
que passaua mandou recolher ao gsUeão.ot^fjeridod^, úe^ 
que hu Sdj Francisco fogaça. ^R querendo àam. Sancho 
vingar aquele dano , sem mais cè^elho mandoo a Ma*^ 
i)uel de berredo ^ & ao capitão da lancl^ara de Francis** 
CO fogaça, que fossem surgir na boca do rio de Muar, 
parecendolhe que abastariâo perá detérê os !migos que 
não saíssem do rio, & que enlretanlo veria veto (por- 
que, era calma) & ele, & Duarte eoelfao sé irjft ajuntar 
coeles, & defenderião os immigos que nSo^saissem do 
rio, & mãdaria recado a lorge dalbuíjrque, que }he\ 
naridasse socorro p^ra pelejar coeles : & Mlinuel de ber* 
redo & bo outro capitão, com quãlo virão que» dom Sai)-' 
cho lhes mandaua cousa muyto desarrezoada , porque 
pêra a grãd« multidão dos immigos, claro estaua que; 
bo perigo era ma^to certo, & porque não parecesse que» 
bo temião forão, por^m. ainda bem não chegarão a bo- 
ca do rio, sem lhe os mouros dar6 lugar ptera» surgifrem 
es aferrarão, & em muylo pouco espaço os^sumirão ma*i 
tandoos a todos , & tomara a galeota & a lanchara : âc» 
coesles, & com os que morrerão dentro no rio afogados^ 
& a ferro, forão por todos sesenta & oinqao Portiigue*' 
ses, & atreles morreo afogado Ânrrique leme -imtíyto es- 
forçado caualeyro como atras disse, & dos das 'fustaai 
que se alagarão se saluou anado.hum Thome lobo^ qu^ 
se foy por terra a Malaca, & pps noue dias no eaminba 
por andar de noyte somente, Sc ainda poueocimi- medo 
dos Reymões, & doutras muytas & feras airmarias que 
ha pola terra: & pela ocupação que os moiros teuerãa 
em matar Manuel de berredo &«o8 outros^ não entende^ 
ião em dom Sancho, & em Duarte coelho, que se .os 
cometerão ouuerão de passar mal, ou perder as vidas 
segundo os mauros estauão vitoriosos. B vendo dom 
Sancho a cousa como passaua , & que oão podia faser- 
nada que . prestasse contra os immigos ^ acolbèose <i)«fra^ 
Malaca cosa ho ySlo que Ibe sobretieo. -E-L^ueitiiiifffkb 
Livao VI. ' p 



114 im: SI«K>«IA D$k wmà. 

como er* MÒedOr na g^uorra, & conhecia que ho dano 
qua fiíera aos iiossoi fora mais por desastre de mao re- 

SimeotOi qua por couardia dos Poclugueses, & esforço 
« sua gaaU ooolODlouse ooin ho foyío, & nio quer«n-> 
do osperar a viogan^ que os Portugueses quereriâo to« 
mar do passado^ pariiose pêra Binlaiki^ 

C A P I T V L O LIII. 

Da cume /oy tomada kú twuio na cidade J0 Pâo^ onde 

/of-ia mort» aig^ Farisugueses. 

X oTModo doai SaacKo a MaJaca quisera tornar a bua* 
car os monrus ^ & por saber que erio idos se deixou ea- 
lar« E lorge dal¥uquerque deu Jiceuça a hfi Aoiooío de 
]Maa > mo^u da iNiuiara dei Rey de Portugal , que fosse 
em hik junge seu á ilba de iaoa y a fazer faxenda aua Sc 
de par loa, ik forJM> em aua coropanbia ires Poriuguesea, 
de ^ue bi\ se cbamaua Bernaldo drago hoBEiA aotigo ena 
Bllalaea« £ toroaodose da laoa pêra Malaca y arribei» 
com tempo á cidade de Pão situada na oosta perto de 
11 alaca » eujo tey sendo amigo doa Poriugueses , el rey 
da Bial&o lossata por geocro dandolbe bfta aua fiàba poc 
melhor: fc a eausa que lio moueo a esle parentesco íoj 
porque eale rev fizesse guerra aos Portugueses ^ cdt»- 
•oauSo muylo ue seu porto & a costa do aeu reyno. £ 
eale eaaamento fojp muylo secreto , porque em quâta 
nSo ae soubesse el rej de Páo fizesse mujío dSno soe 
Portugueses secrelamOie. £ sem eks sabwem a canaa 
eoaiQ passaua foji Anlaoio de pina tcsr ao porto deata e>* 
dade de PSo. £ cuidado ele ^ el rej era amigo dos Por- 
tugueses como dàlea y mSdou a terra basear mSlimStoa. 
£ sabSdo ei rejf como ho jwgo estaua no perto, mâdou 
pregutaj: a Anloaíe de pina^ sa lhe era necessária de 
8i*a cidade maia algâa oram, & ^l. lha midaria dar de 
boa vâlade , 9l mftduulhe mujrto refreaee : & a^la ney te 
de^pechott sele. lâohara» oS dozfitos & ey tania faomSa da 



lAvuo VI» oâPiwXiO um. 115 

peleja^ afeita os remeiroa, que erão ho dobra: qtie em 
amanhecendo abairxoarão ko juago per todaé as parlea. 
£ Antoaio de pina ^ Bei^naldo drago , Sl oa ouirot dous 
Portugueaea pelejarão ate que maia não poderão, k 
deapoia de inatarS algíia doa foiigoa , foy morto ho acri- 
uão do ÍQogo: & António de pina^ Bernaldo drago, k 
outros dous Portugueses folfio ealiuoa , & ho juogo to- 
mado com qoaolo linha ^ & todo iby entregue a el rejr 
de PãOy que muyto ledo mandou logo oa catiuoa a el 
•rey de Binião; qoe deipoia Ihea cometeo j) ae tornaasê 
monroa, fazeodolhea grandea ameaçia ae bo não quiaea- 
sem ser» E elea com muyta eonatanoia lhe respcwiderâo 
que fizesse bo que quisease j pet que nflo a «ião de dei* 
xar a soa tey ^ era a verdadeira , por tomarem a aua 
aeita que era toda falsidade. E Temlo et rey (| estaoSo 
firmea ê seu propósito^ mãdoo meter cada ha por sl 6 
hua b&barda & desparar eoelea^ & aaaí forão eapeda^a- 
^oa por coorfessarem a noasa aanta fé, & morrerão innr- 
tirea. £ diato nlo M soube erm Malaea da hi a bã b^m 
iempo. 

C A r I T V L O LIIIL 

I>€ oomo Jby mmrto Andn de btytú mo porto Jk Fão ^ 

«tMrof PormguaeSé 

Há antea de ser sabido mSdou lorge datbu<|uer]) a dom 
Sacho que foase fazer presas á toáta- de Palane , & foj 
no galeS de que era capitão dom António seu jrmão, 
em que lenar ia bem trinta PorUrgtteaiv i & ft oMro na* 
^uia, foy AinbffOtfio do Mgo ^ ^ué levaria evtrae tantos: 
& ele partido, chegou da Inclia a Malaca André áé bri- 
to , que ia na sua nao que ja disse atras. E como leua* 
ua iifta Ifeearça do fouérnaifor que trstaasc pet oiide^ui- 
•aesae, ed aprati mento de lotge dalbuqverque ae partio 
•pêra Siio^ leeando cmiaigo em sim eompaahm ate dova 
PoTtogueBee ) fe de eaminbo taraanáo de fiíflo eurigfa 
PAo para tomaor aaantimtloe» £ aabfsidoo H êef-^ 

p a 



ir6 OÁ HISTORIA PA INDIIL* 

mandou sobrele suas lancharas, de i} amanheceo hâdm 
cercado : & por os Portugueses serem poucos, fora Jogo 
ahalrroados, mas sobre a entrada dos mouros na sao, 
foy couaa espantosa ver como os Portugueses a defen- 
diSo , ferindo bQs , & matado outros , & não auèdo pav- 
te na nao a (| nãk> acudissem com ptósteza marauiíhosa : 
-]M>r6 como erâo poucos, & os mouros sem conto, que 
'podíâo pelejar em roda viua, porcj cansando btis Strauák> 
outros , ho que os Portugueses não podiâo fazer , com^ 
carão de cair hfls mortos, outros ^uasi , das muyto grâ- 
.des feridas que tinbSo , & assi íbrâ pouoos & pouco8(, 
ale que nSo ficou mais que bd jrmão Dandre de brito 
(a que não soube bo nome) j] pelejaua com bua espada 
dambas as mãos , com que fea t^ousas tão marauilbosas:, 
^. os imigos cuydauâo que era diabo, porque duas vezes 
axorou a nao deles com e8|>atosa matança , & da 8egui>- 
da vêdose tão desfalecido das» for^s & tão cansado, que 
não se atreueo a d^fôderse mais ^ & por não ser catiuo, 
ou morrer a mãos dos nK>uro8, atou muyto depressa nos 
pés duas camarás de falcão & deitouse ao mar: .& dei- 
tado, tomarão os mouros a nao. £ isto soube despois 
por hum Francisco de brito Christão da terra, que ia 
'ba mesÂa nao por (eytoV & Hngoa Dandre de brito, que 
por ser da terra ho não matarão os. mouros, £& foy des- 
pois ter a Malaca. 

* í 

C A P I T V L o LV. 

Me camú i6 Sacho ârriquez^ ^ dó AnUmio ârriquez /o- 
râo tnortos no p^io de Pão y.^ lhes faj^ tomado hú 
. galeão* 

JL/om Sicbo qne partio de Malaca, pêra Patane cò 
'Ambrósio do rego chegou lá em paz, & despois de far- 
seer ao que ia, que nào conto porextsnso polo não sa* 
ber , lornouse com Ambrósio do rego , & leuando a rota 
00 Malaca : apartaranse com hú temporal que lhes deu^ 



híVkO VT. CAPITVLO LT. 1 fíf 

& Ambrósio do rego que ia mais ao mar que dÒ Sacho 
fiegu-io auante, & dom Sancho que ia mais á lerra arrN 
bou , & foy tomar a barra de Páo Õde surgio ^ cuydãde 
que el rey era ainda amigo dos Porlugueses , & se dei^ 
-xott estar ate ho outro dia que abonançasse ho iSpo* £ 
estado ali ho mandou ei rey visilar com hu presente pê- 
ra saber quem era, & sabendoho ho tornou a mâdar vi- 
sitar cÒ mais magestade, mandandolhe a boa ora de sua 
TÍada com muytos ofiTrecimentos damizade, & alguns va» 
cas &. bufaras & outros mantimSlos, & tudo isto foy ce- 
uo pêra ho tomar» £ foy acerto que ao dia dantes fora 
ali ter Laqueximena , & determinando de tomar algiis 
Dauios nossos que sabia que tomauão aquele porto, me- 
teose dentro no rio & tinha escondida sua armada, que 
era de trinta lancharas: & sendo anisado por el rey, de 
-como d5 Sancho estaua na barra , sayolhe em amanhe- 
cendo leuando em sua companhia dez. lancharas dei rey 
que erão corenta em que ião mil & duzentos homês de 
peleja, & os Poirtugueses erãò trinta. £ quãdo dom San- 
cho vio tanta gSte sobresi & que não tinha nenhil remé- 
dio se Dão pelejar, disse aos Portugueses: Cõpanheiros 
com a esperança em orossoSenhar que nos dará esforço , 
não temos outra saiuação se não pelejar bem, & da sua 
parte vos peço que queirais ates morte cõ honrra que 
catiueiro cÔ vitupério* E coisto repartio ai|les trinta õ 
ambos os bordos do nauio, & a proa deu a seu jrmão, & 
ele ficou na popa, & em cada parte destas auia sete lio- 
mSs, saluo na proa & popa que auia oyto 6 cada h£la, 
& os Smigos qne os virão tão poucos começarão de gri- 
tar com prazer de os terem por mortos : & apartandose 
qualro lancharas cercarão ho miuio polas quatro partee 
que digo, aferrado por todas elas, & começase húa me- 
donba peleja , os mouros por entrar , & os Portugueses 
por tho defender : & estas quatro lancharas esieuerâo 
hum pedaço aferradaa sem a gele delas poder entrar no 
nauio, & foy, morta algiia parte dela, & doa nossos 
muyto feridos & algiis mortos: & não podendo os moor 



118 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

ro8 mais sofrer a batalha apartarão se pêra chegareis o o* 
íros de refresco. E do Sancho vendo que se os seos es- 
leuessem assi repartidos l\ os auião os mouros de desbaib- 
ratar mais asinha, recolheos lodos á tolda, parque att 
tinhão roais com que se fortalecer, & se vingariâo bm^ 
Ihor dos immigos antes que morressfi, & assi foy, que 
matarão tantos que estauáo hOs sobre os outros : mas 
como os mouros erão sem c5to, &6trauão hiis de refres^ 
CO cada vez Q outros cSsauâo , & eles não podiâo fazer 
outro tãto: carregarão sobre eles tãtas feridas Q muitos 
mortos delas , & outros de fracos do muy to sãgue í\ ti- 
nhão perdido, & cassados do tmfiso trabalho da peleja 
cairão todos, & assi leuerlo os mouros lugar de osfitrar, 
& acabarão de matar os j) estauão meos viuos , que a 
neohii perdoarão polo grÂde dano que tinhão fejlo noa 
Imigos: è cujo poder ficoo ho nauio oõ mujta & boa ar- 
ielharia Q ienaua. 

C A P I T V L O LVI. 

De como lórge dalbuquerqtu mandou ptdir Bo€arro ân 
youerfwáar éa índia ^ lho mandím. E de eomo bo 
gouemadw fag hmirnar a OrmMZ. 

./jLmbrosio do rego com bo lemporal que disser \ dera 
a ele & a dom Sancho iodo de Patane arribou comodisK 
se^ & foy por outro cabo ter ao estre3rto de Cincapn- 
ra, onde esperou sele ou oyto dias por dom Sancho^ & 
vendo que não ia pareceolhe que seria passado, & \ 
passaria de noyte, & por isso se foy pêra Malaca, onde 
tão pouco não achcMi noua dele: pelo que lorge dalbo- 
querque, & dom Garcia aarriquez, que era chegado de 
Maluco presumitão que seria morto. £ nisto chegou Baa- 
iião de SGMsa,. & dom André ãrriquez,. com todos os ou- 
tros que ião de Pacem : & cd a nona da perda daquela 
fortaleza íby grande tristeza em Malaca , por as cousas 
4m Pecluguesea irea era tflia dediíiaçflo naquelas paa^ 



LIVRO VI» CAFITVX.a LVI« 119 

tet) & u dos mouros em tanto crecimentO) & por et 
rey Dachê te ir faaendo táo poderoso que era quasi ou-^ 
tfo rej de Bintfto, & ãboa estaua certo darem muyta 
opressão a IMaiaea. E porque lorge dalbuqiicrque se te- 
meo que el rey de Binlão maodasse sua armada correr 
a AAaiaoa , com que ihe tolheria os mantimentos , mS^ 
dou a dd Garcia aorriquez que se fosse poer sobre a bar^ 
ra de Bíntão, & que lhe fizesse todo bo mal que podes-* 
se ) & trabalhasse porque a sua armada não saísse , te 
deulhe quatro velas , de que fosse por capitão mór. s« 
dous nauios ele capitão dum y & Aires coelho do outro, 
& dous carauelões , a cujos capitaSs não soube os no- 
mes. E neste tempo por ser bo mes de Dezembro que 
era moução pêra Índia, se partirão algfts nauios pêra 
Gochím, em que iorge dalboouerque screueo ao gouer^ 
Dador a guerra que auia em Malaca , & a necessidade 
em que iicaua , assi de gente , como de nauios , & i9- 
do ho mais que acontecera aquele anno em Malaca: Sc 
assi Ibe escreueo como António de brito nSo queria es^ 
tar mais na capitania de Maluco , pedindolhe que Iba 
desse peta dom Baocbo seu genrro , ou pêra dom Gar-^ 
cia seu cunhado , ue ele fosse morto : & tflo bem íh^ 
mandou bil mai^o de cartas Dantonio de brito, em que 
Uie pedia Q prouesse Maluco de capitão , por ele se á^ 
ehar doeDte , & enfadado naquela terra. É partidos 00 
Baoíoa que leoavão eete recado, chegarão a Cochim on-* 
de aeharãa bo geuernador apereebendòse pêra tornar a 
Ormvz. £ sabendo a ivesa de Malaca, & bo qae lhe lor^ 
ge dalbuqMvque screuia, deu a capitania mór do mâr 
de Malaca a bum fidalgo- chamado Martim afonso de 
soasa, jrmão^ de lehfio de sonsa , senhor da Ericeira, èH 
erdenoulhe b&a armada qae leuaiise de sete velas. s. trea 
Muiios* redoAdoe^ de que forão capitães ele, André de 
vergas, Aloavo de brito, & quatro fustas, capKals An^ 
tonio de melo, André dias, Vasco lourenço, & outra 
aque nãb soabe ho nome , & ^ulbe duzêtos Port^gue^ 
ses» JK.despadMda esta armada paftiose ho goa^nodel^ 



1*2(1 ^A HISTOSIA DA ÍNDIA ' 

pêra Ofmuz onde auia dir inuernar, pêra arecadar ha 
dinhejro que Raix xarafo ficara deuendo a el rey. de. 
Portugal & ás partes , & leuou os galeões que n^ ser^: 
uião na índia ho tempo que auia destar em Ormuz por^ 
ser nela inueino: & deixou a armada de remo que era^ 
necessária pêra goardar a costa , que não se vazasse, a. 
pimSta da costa do Malauar: Scesta deixou a dom Lu^. 
de meneses seu jrmão, com os poderes de gouernador. 
em sua ausõcia, & regimento que inuernasse èCocfaim^ 
por estar mais perto de Galicut : de cujo rey auia algua» 
sospeyla ^ se leuanlasse cõtra a fortaleza* ^ 

CAPITVLO LVII. 

De come partirão oyto nãos , ^ cortnta paraós , de Ca^ 
. licui carregados despeciaria pêra Meca. 

.V endo 08 mouros de Calicut ho grande doscuydo do 
gouernador, que os não castigaua por nenhiia cousa da 
quantas fazião , cobrarão muylo mais esforço do Q ti- 
nhão pêra fazer guerra aoa Portugueses, & conselhauão. 
a el K.ey que sq leuãlasse cõtreles & quebrasse a paz^ 
pêra ho que fizerão acabar .muy tos paraós, &.oylo nãos 
muyto grandes 9 que auiao de carregar per^ Meca na-i 
quela moução: & auiSo dir em sua goacda corentapa^ 
raófi também carregados , & isto sem pedirem licença a 
dom Luys , o Q era cÕlra o «cõlrato das |)azes : & a fora 
isso determinaua el i*ey de Calicu»! de mâdar híia grflde 
armada a pelejar cõ os Ghristãos de Crãganor : & da hi 
sendo tempo ir sobre Gochi, & ele auia dir por terra 
pêra lomar a cidade a el rey -de Cochi como g outro td-. 
po íizera hii seu ãlecessor como disse no liuro primey*: 
ro. E quis nosso senhor ^ tudo isto foy sabido por dãt 
loâo da sílueira capitão de Cananof .^ ho escreueo a áÒ 
loão de lima capitão da fortaleza de Galicut Q logo mã« 
dou chamar Gogebequi & dele soube í\ era certo, & ^ 
^ naps & paraós Q auião dir a Meca auião de sayc pew 



LirRO VI. CAPITVLO LVMI. líl 

PIO de Cbale (Q faz a terra S ilha) por nfio serS visUs 
da nossa fortaleza. E pêra mais credito foy mostrar es* 
tes nauios ao feytor de Calicut: & coesta cerleza ho 
mãdou dÕ loão de lima dizer a el rey de Calicut eslra^ 
nhandolho grandemSte pois era cÕlra as pazes» E el rey 
lho negou justiíicandose mujto. E c5 tudo dõ loão roã- 
dou sõdar ho' rio de Chalé, & achando ^ tinha fundo & 
krgura pêra entrarS nele galés & outros nauios, escre- 
ueo todo o ^ passaua a dõ Luys, conselhãdolhc ^ antes 
de sayr ho inuerno se metesse no rio de Cbale & tomas- 
se as nãos & paraós quando saysem: porí} fazSdoho as* 
si atalharia aos p&samStos i} el rey de Calicut tinha -de 
fazer guerra á fortaleza. IVIas dõ Luys nâo quis iomat 
este cõselho, posto Q «ra muyto bõ, & as nãos & paraós 
partirão pêra Meca, onde forão ter carregadas de muy* 
ta especiaria & droga, & assi forSo outras muytas nãos 
de todos esses portos -de Calicut sem auer quem Ibes 
contrariasse. 

C A P I T V L O LVIII. 

De como os mouros de Bintão aueymarâo no porto de 
Malaca ho nauio de Simão dabreu ^ matarão quantos 
estauâo coele. 

v^omo quer {} todos os mouros comarcãos de Malaca 
íbssem muyto amigos dei rey de Bintão na hora J\ ele 
fazia guerra a Malaca, se leuantauão logo & não leua* 
tião mais mantimentos á fortaleza, nem os de fora {| 
>hos leuauSo ousauão de lhos ieuar c6 medo da armada 
dei rey de Bintão Jj os nã tomasse: & por isso como el 
rey de Bitão come<jou a guerra, começarão logo de fal- 
tar os mãtimStos. E porque quanto a guerra fosse em 
mayor crecimêto estaua certo faltarem mais , & não os 
poderem ir buscar por amor dos immrgos que andauão 
Bo mar : quis lorge dalbuquerque roandalosr buscar c5 
t&po, & como dõ Garcia Q ho ouuera de fazer era aBin«. 

LIVRO VI. a 



Ita lU HISTORIA VA |N2MA 

tão, pedio lorge dalbuquer{| a Garcia chaíaho feytor Q 
bo fizesse, assi por ser oauaieyro muj^to esforçado, co«* 
mo por ser despois dele a seg&da pessoa na fortaleza. O 
{| ele aceitou de luuylo boa võtade posto ^ a ida era pe** 
rigrosa, & por nào auer oauios em Malaca mais que ho 
em ^ Simão dabreu fora de Maluco, & iiu jugo dei rey 
que não seruião pêra a ida, leuou quantas manciiuas& 
balões auia em Malaca que sam como boas.almadias, & 
nestas acompanhado de algús Portugueses se foy aoloa« 
go da costa ate ho rio de Muar cinco legoas de Malaca 
onde auia de buscar os mantimentos. £ andado os bus- 
cado acertarão de chegar a Malaca quatorze lancharas 
dei rey de Bintão, cujo capitão mór sabendo quão de- 
sapercebida estaua a fortaleza , assi de gSle como de 
todo género de nauios de remo: & Q no porto estauão 
algus nauios grades , determinou de os queymar , pêra 
o Q entrou em rÕpSdo a alua sesta feyra dSdoSças na 
baya da ilha das nãos, a cuja sombra ho nauio de Si* 
mão dabreu estaua surto, & ele estaua dStro cõ treze 
Portugueses 1) cada noyte ya dormir ao nauio. E como 
era ja no quarto dalua em ^ ele & os seus estauão des- 
uelados dos outros quartos adormecerão^ parecSdolhes ^ 
estauão seguros de rebates dimigos, & por isso não sin- 
tirão 08 mouros, Q se os sintirão defenderão cd a arte- 
Iharia que lhes não chegassem como chegarão, & os ib- 
rão aferrar quatro grandes lãcharas. £ nisto fora sinli* 
dos por Simão dabreu Q bradou aos seus {[ acodissem ^ 
& todos cõ suas espingardas acodirão muy prestes, Sc 
os {|[ as não tinhão remeterão aos berços do nauio & des« 
parãnos nos mouros que assomauão ja aos bordos, & dão 
coeles nas suas lancharas feytos em pedaços, & estes es^ 
carmentarão os outros de tal maneyra que não prouarão 
mais dentrar no nauio , & das suas lancharas pelejaufto 
com os Portugueses muy brauamSle. E foy milagre ^ 
uidente de nosso senhor não os entrarem logo segado 
erão muytos & eles poucos : & assi durou a peleja hi* 
pedaço em que morrerão algijs Portugueses & dos moiv* 



LIVRO VI* CAPITVLO LVin. J23 

ro0 tnoytos. O Q vendo ho seu capitão inoor , & () se a 
peleja fosse auante daquela maneyra que lhos tnatarião 
todos buscou oQlro ardil pêra acabar mais asinha de ma- 
tar 00 Portugueses & queymar ho nauio , & foy mãdar 
poer ho fogo a bd jDgo que estaua sem gfite &sem car- 
rega : & ho fogo bem aceso como a maré vazaua ma»> 
doulhe cortar as amarras & sostelo cO cabos ^ lhe tl- 
jQbSo dados ate ho ajuntarem ao nauio deSiroSo dabreu, 
sem ele nS os de sua companhia poderem resistir Q nã 
chegasse a eles. E despois de chegado os immigos ho 
atoarão á mesa da goarnição do nauio ^ fc a outras pai^ 
(es pêra que se sosteuesse : & nilica lhe os Portugueses 
poderão contrariar por amor das muytas frechadas &eth 
pingardadas a lhes os immigos tirauão: &tamb8 por a- 
mor delas os Portugueses não poderão cortar as abalrroas 
com q ho nauio estaua abalrroado, poeto i\ sobrisso mor- 
TerX quasi todos : ^ foy muy piedosa oo«sa de ver mor- 
rerem assi hfls homês sem se poderft defender : & muy- 
to mais despois ^ ho nauio começou darder juntamente 
e6 ho jungo que fazião hila espantosa & medonha labaf- 
reda com soarem dêtro os grandes gritos que dauão aí- 
gds Portugueses que ainda estauão viuos : a qiie lorge 
dalbuquerque não podia mandar socorrer por não terem 
que fosse ho socorro j que tudo o que em que podia ir 
era fora como disse: pelo que de estaua rooyto triste flb 
tinhase por mofino de lhe matarem assi a<fueies boitiSs 
diante dos olhos sem Ibes poderem valer. Ecomo a ma-- 
goa (| tinha era grande, pareceolbe ^ lhes poderia mafl^ 
dar socorro em hfl giropaneo nauio da laeé ( que serue 
de leuar mantimètes) que nê fínbtf masto nem velas, 
& coro a pressa do socorro sem lhe mandar m^t^r ar(^ 
Iharia, nem lhe lembrar qne estaua desaf>areltmd«^ man- 
dou embarcar nele obra de trinta Portugueses de setenN 
ta que teria , &; mãdouUies qne fossem socorrer ao na- 
uio que começaua darder : & eles éomo erão obedientes 
& por não «parecer que por medo ho deixauão de faser 
ae embarcarão com quanto vião ho perigo em que yão 

a 4 



I2é BA HISTORIA DA ÍNDIA 

|>or não leuarem arleiharia & ho GiropSco ir tfio desa- 
parelhado como ya , & que estaua certo malarênos os 
ttiouros seiD poderem socorrer ao nauío : o <) entenden- 
do lambem hâs dous capelães da fortaleaia , reí^rerâo a 
lorge dalbuqoer^ da parle dei rey ^ nâo mâdasse os ho- 
jbSs Q mãdaua no giropâco, dàdoíhe as rezões ^ digo 
.pêra os nâo mandar, & mais que ticaua tão pouca gête 
Da fortaleza Q mortos aqueles a gente da terra a toma- 
ria & a daria a ei rey de Bíntào. Eele estaua tão agas- 
.lado que não queria ouuir nem entender ninguê, & fez 
embarcar os trinta cõ grades brados. O que eles fize- 
rão, & como ho giropanco, nem tinha vela nem remos 
acodia mal ao leme & fazia muytos lós, & com hd que 
fez foy dar em seco que parece que foy cousa de nosso 
senhor [lorque se chegara ondestauao os immigos todos 
ouuerão de ser mortos. E vSdo lorge dalbuquerque ho 
giropanco em seco mandou desembarcar os Q yào nele: 
Ic entre tanto os que estauâo no nauio que ardia vendo 
que nâo podião escapar lançaranse ao mar cuydando que 
se saluariâo, & nele forão mortos poios immigos , & ho 
escriuflo do nauio que auia nome Francisco fernaudee 
cuydiíndo de lhe ir socorro, & que escaparia nâo se 
quis deitar ao mar & sobiose na gauea & da hi ao mas- 
tareo , donde |)or derradeyro se deitou ao mar & foy 
morto poios immigos que com ho prazer da morte dos 
Portugueses fazião grandes alegrias, & assi com verem 
aider na nauio & ho jugo que arderão ate horas de ve^ 
p^ra sem ficar nada deles do que parecia sobre a agoa: 
do que os mouros ficarão muyto soberbos & teuerâo os 
Portugueses em muyto pouca conta por lhe não pode- 
rem acodir. E isto ganhou lorge dalbuquerQ de mandar 
fora toda a gente que tinha em tempo que lhe corrião 
os immigos, & por derradeyro Garcia chainho não trou- 
ue maniimetos que matassem a fome dez dias & a sua 
ida fez tamanha perda« 



LITRO TI« CAPITVLO UX. 125 

C A P I T O L O LIX. 

De como Laqueximena tomou na barra de Bintão dous 
carauelóes da construa de dom Garcia anrriquez. 

JLndo as cousas dos Eorlugueses de cada vez peor nes- 
tas parles dom Garcia anrriquez que eslaua sobre a bar- 
ra de Binlão fazialhe quàto mal podia, & nã saya n6 
entraua vela nenfaila q ele nã tomasse , & fazia algils 
saltos 6 terra , o que el rey de Bintâo sinlia muylo & 
se auia por muy injuriado, & tinha por mayor feyto es- 
te de dõ Garcia que quãtos os seus tinhão feytos con- 
tra os Portugueses , & aqueixauase cÕ Laqueximena de 
não tomar aqueles quatro nauios , & ele lhe dizia que 
não auia ainda tempo: porque era necessária muy la in- 
dustria pêra os tomar , porque por força não podia ser 
por os Portugueses terem muy ta auantagem aos IVla- 
layos , & que as suas vitorias forSo por desastre & nã 
por eles serem tão bõs bòmSs de peleja como os Portu- 
gueses. B Laqueximena trazia grandes espias sobre dom 
Garcia pêra ver se ho podia tomar em dtscuberto , ate 
que hfl dia soube que fazia agoada em húa ilha junto da 
boca do rio de fiintão , & que os nauios grades erão oa 
que tomaufto agoa , & os caraueldes estauâo em vigia : 
& como ho soube aayo do rio com aiguas lãcharas de 
sua armada, mandando aos seus capiíães que se por 
ventura os dous caraueldes os cometessem que fizesse 
que fugião ate os leuarem perto da boca do rio onde íi^ 
caua a outra armada com que os tomaria. £ assi ho fr- 
zerSo, & como os capitães dos caraueldes virão que as 
lancharas erão })ouca8 , & estauá costumados a leuarem 
ho melhor delias , cuydarão de ser assi daquela vez. E 
dado ás velas remeterão a elea, tirandolbes com sua ar* 
telharia, & os mouros comu estauâo anisados de Laque- 
ximena fizerflo volta como que fugião. E os Portugue- 
ses cuydãdo que era asai seguiânos , & com ho vento 



que era fresco chegarSo roais aaioba do que quiserlo á 
boca do rio ondeataua Laqueximena, que logo sayo com 
aa outras lãcharas a remo com que cercou os caraueldes 
Sc os aferrou St entrou com sua gente ^ de que se os 
Portogueses começarSo de defender cora rauyto esfor- 
ço^ mas aproueitoulhes pouco: porque temendo Laque- 
ximena que acodísse dò Garcia & que lhos tirasse das 
Tnhas se os achasse fora do rio : em se começando a pe- 
leja mandou a certas lancharas que rebocassem oscarSí» 
uelSes & os metessem no rio, porque poios baixos Q ti* 
nha bem sabia que dom Garcia não auia de poder en- 
trar nete com os nauios por serem dalto bordo, & os 
Portugueses com ho tento da peleja n2o sintirão que os 
leuauão se não quãdo se acharão dentro no rio*. È isto 
se fez tão depressa (| dom Garcia lhes não pode valer , 
posto que logo aoodío , mas deteuesse aigCl tanto em le- 
uar a ancora sobre Q estaua surto : & isto foy causa de 
ele nem Aires coelho chegarem a tempo, & ele se agas- 
tou tanto de ver leuar os caraueldes ^ que assi como ia 
Á vela mandou meter ho nauio pola boca do rio bS ooo- 
tra vontade do piloto, Q disia que se perderia, & assi 
cMiuera de ser por ho rio ser 8 canais muyto estreitos 3c 
em voltas & ter raslingas & arrecifes era Q bgo ho na- 
uio foy varar, Íl por grade raiiagre sayo» E ae Laque- 
xiroena não temera a sua artelharia, também ho toma- 
ra , mas vingoose 6 tomar os dous carauelões com mor- 
te de quantos estauão dentro que vSderão nuvyto b8 
suas vidas com morte de muytos mouros : mas no pra- 
zer dos viuos foy tamanho de tooMrem assi estes cara- 
ueldes & ma tare quãtos yão dentro, que não estimarão 
08 mortos. E el rey de Bintão raantiou fazer por isso 
grandes festas. E vendose dom Garcia com aqueles dous 
caraueldea perdidos, não quis ali mais andar & tornouse 
a Malaca onde aohou feyto ho grade dano que disse. 



UTRO VI. GAPETTUO LX« 127 

C A P I T V L O LX. 

De como ti rty de Bitâo mandou cercar Malaca por mar 

^ por Urra. 

y endo el rey de Bintão quâ bõ lhe sooedia a guerra 
Q tinha cò os Portugueset ^ determinou de lha fazer 
mais aperlada por mar & por terra : parecêdolhe j^ po- 
deria tomar a fortaleza, pêra o Q mftdou vlte mil ho- 
mêa, quatro mil 4 auiío dandar por mar cõ La{|ximena, 
& desaseys mil Q aui2o de cercar Alalaca por terra , de 
que deu a capitania mor a hfl Português arrenegado ^ 
andaua coele 4 ^^ cbamaua Anelar dalcunha. £ chega<* 
dos estes a Alalaca desembarcou bo Anelar SHupe^ Õde 
assentou suas estâcias: & Laqueximena ficou no mar 
goardando ho porto que não entrassem nenbfis manti- 
mentos nem nenhús nauios outros. £ lorge dalbuquer- 
que nfio Ibe podia resistir por não ter mais de dous na* 
uios^ nem menos tinha gfite, porQ nSo aueria mais 4 
ate oitSta Portuguesea: posto que auia mu j tos piães da 
terra a soldo dei rey de Portugal : mas dos Portugueses 
se faiia conta pêra cousa de feito. £ per eles repartio 
lorge dalbuquerque as estancias pêra as defénderfi , & 
estas erâo da pouoaijão dos Portugueses Q estaua fora 
da fortaleza antrela & a põte por onde se seruiSo pêra 
a pottoaçã dos quelins. £ porQ não soube coroo estas es< 
tãcias ibrão repartidas bo nSo digo. £ erão os Portugue- 
ses tão poucos pêra goardarfi a fortaleza & as estâcias 9 
que em algfias não auia mais que três Portugueses , se 
nao que tinbâo consigo muytos piães da terra. £ com 
quanto erão tam poucos estanão muyto esfor^^dos pêra 
resistir aos !migos. £ na cidade dos Quelins nSo pos 
lorge dalbuquerque estâcias, asai^por não ter gSte pê- 
ra isso , como por ser cercada de muros de pao pola 
parte por onde os imigoe a podião comet» : & estas a 
gente da terra as vigiaua de noite. £ déspota de Jio 



123 VA HTSTOSIA DA INDIÀ 

Auelar assentar suas estScias, mandaua cada dia correr 
á cidade dos Quelins: & cada di-a tinhâo peleja com os 
Portugueses, em que morria muylos dos imigos: & os 
Portugueses tinhão Imenso trabalho com pelejarem cada 
dia, &i vigiar6 cada noyte, & morrerS de fome, que 
não comiâo mais l\ arroz cozido ê agoa: & quasi todos 
estauâo doStes assi do trabalho & da fome, como de fe- 
ridas. E era cousa de milagre poderem pelejar , & de-: 
feiíderse aos !migos , Q erão tantos 8c tão folgados. £ 
por^ o Auelar isto sabia se queixaua muyto cõ os seue 
como nS fazião nada cõtra homSs tão desbaratados : & 
hila noyie determinou dêtrar á cidade dos Quelins, cu- 
jos muros sabia 4 estauã podres, & mãdãdo leuar muy- 
los escopros & maqos foy cometer ho muro no quarto da 
modorra, de Q cÕ os escopros (oy derribado bu laço do- 
bra de sessêla passos : & como fazia escuro nâ forão vis» 
tos das vigias, se não quãdo virão cair ho pedaço do 
m^uro Q cayo cõ grande arroido: & è caindo entrarão 
logo 08 Imigos, & achara muytos dos da terra Q acodi;* 
r2o ao estrõdo do cair do muro, & estes for«1o todos 
mortos, & dali se meterão aigíls a roubar. E nisto foy 
dado repi^ na pouoação dos Portugueses, & dos primey- 
ros ^ acodirã foy Nicolao de sá ^ agora he contador dos 
cotos dei rey nosso senhor, que pousaua junto da ponte 
& leuaua cõsigo três esp!gardeyros Portugueses, & assi- 
acodio Aires coelho, & quãdo chegarão acharão os piães 
da terra pelejando cõ os iramigos , & defêdiâo <) não ê- 
Irassem por a(|le portal mais dos ^ tinhão entrado, & 
os Portugueses Q digo os ajudarão cõ suas espingardas, 
de modo ^ os deteuerâo ^ não entrassem , & acodio a 
gente que estaua nas estãcias. E como os immigos sín^ 
tirão a gele que acodia, foranse leuando algils catiuos^ 
& os que íicauão nas casas a roubar forão despois todog 
mortos. E assi liurou nosso senhor a fortaleza de ser to. 
mada, que ho fora se os immigos entrarão todos na po. 
uoaçSo dosQuelis. Ecomo foy manhaã lorge dalbuquer» 
que -mandou refazer ho boí^ueyrâo do muro. E despois. 



1 

. LIVRO VI. CAPITVLO hXU ^ Í2^ 

disto tornarão os immigos a perfilar se poderiSo Slrar , 
inas nSo poderSo, porque os Portugueses lho defendião, 
& durou este cerco ainda hum mes : & porque dali por 
diante podia chegar socorro da índia leuantarâo os im- 
migos bo cerco da terra & foranse a BintSo , & os do 
mar ficarão ainda algus dias ate que também se forão» 

C A P i T V L O LXT. 

De como Martim Afonso de sonsa fay fazer yuerra a el 
rey de Bintâo ^ ^ aos reys de Pão §r de Palane. 

iyXarlim Afonso de sousa que ia pêra Malaca chegou 
lá na fim de lunho, onde achou que valia hQa galinha 
cinco cruzados & hú ouo dous vintSs & htla gata darroz 
hQ cruzado , & os honres ^^ parecião desêterrados de nS 
terS cor , & sua ida deu grade alegria , assi aos Portu- 
gueses como á gSte da terra : & logo lorge dalbuqueri} 
lhe êtregou a capitania mór do mar de Malaca , & a ti- 
rou a dom Garcia anrriquez seu cunhado , a que a dera 
por morte de dom Sancho. E Marti Afonso lhe deu hfla 

Srouisam do gouernador em Q lhe daua a capitania de 
laluco pêra htt de seus cunhados. E por se lorge dal-' 
buquerí} desapressar da guerra dei rey deBllâo, mãdou 
a Marti AfSso ^ se fosse cÕ cinco velas' })oer sobre a 
barra de Bintão dõde não deixaria sayr a Laqueximena^ 
& tolheria ^ não entrassem por mar mãtimètòs na ci- 
dade : & partio de Malaca cõ h&a armada de cinco ve- 
las, de cujos capitães nã pude saber os nomes mais que 
a Vasco LourSi^o. E chegado á barra de Binlão esteue 
sobrela três meses em l\ lhe deu muyto grande opres- 
sam , tolhendo 1} não entrassS nenhâs niantimêtos nem 
mercadorias, & que não sajse de dentro cousa nenhtla, 
que nem os pescadores ousauão de sayr a pescar. E em 
todo este tempo nunca Laqueximena ousou de sayr a 
pelejar coele : & neste tempo que Martim Afonso ali an* 
dou lhe morreo algtla gente por ser aquela paragénr 

LIVRO VI. K 



OQ m UWTQUk DÁ IMOU; 

doentia, & por egsa causa oâo qaia ali andar mais & sa 
foy a faaer guerra a el rey de Pâo pêra viogar lu> mal 
que tinha feylo aos Portugueses, & ali queyniou muy« 
tos juDgos assí de Pao cooio da laoa, em que forãa 
jliorlos bem seys mil mouros : & catiuou latos i| nã ou^ 
ue Português que a seu quinhão não ouuesse dez cati- 
uos. £ despois de fazer destruyçâo espantosa foyse aa 
cidade de Patane , cujo rey era tâbem immigo dos Por- 
tugueses , & no porto achou algus jungos que também 
queymou & antreles luim rouyto graode que naquela 
hora chegaua da laoa, & vinha nele ho mesmo rey de 
Patane, que com bõ duzentos mouros saltou ao mar 
com medo do fogo & todos forâo mortos as laçadas pe<^ 
Ips Portugueses. £ v6do os da cidade este destroço no 
mar temerâse de ser outro em terra , & por isso despe« 
iai;ão a cidade assi da mór parte dà fazêda como de ioda; 
a gSte: pelo ^ Martim Afonso quando sayo em terra 
^Sq achou com quem pelejar, Sc queymou a cidade U>^ 
da ale não ficar mais que ho campo em que esleueray 
Sf, quantas orlas & palmares auia ao derredor. E dei-* 
xando ho nome dos Portugueses com muyto credito & 
muylo temido por a^las parles se tornou pêra Malaca, 
que esleue por hCi tôpo muylo prospera. 

C A P I T V L O LXII. 

De comofoy começada a guerra âtre AnUmia de brita 
^ el rey de Tidare : ^ de comofoy morto lorge pint^ 
da silua ^ outro9. 

jnLlras fica dito como Bastião de sousa & Martim coiv 
rea partirão de Malaca pêra a ilha de Banda , õde che- 
garão ao lugar de Borinlé & hi acharão Marli afonso de 
melo jusarte ^ auia quatro meses Q eslaua de guerra cô 
a gête da terra, em 4 milagrosamêle se defendeo pon 
não ter mais de sete Portugueses & setenta laca &Cliia 
&; os Imigos serem muy tos» £ por não poder saber par« 



Li?Ko VI* cAvnruo lxit. 181 

iicnlamCte o ^ tueedeo nesta fuerra â nlo Mcreuo , & 
08 IflDigos como BaBtiâo d« sousa chegou alargarão log<^ 
-bo cerco. £ ficado Marli afonso magoado da afrõta \ 
recebera dos fnsigos, pedio a Bastifio de acusa (\ ho aju-^ 
dasse a ?Igar deles ; do Q se ele escusou , di^fido l\ ia 
fazer sua fazfida , & sobristo se desauiarâo Sbos Q Bas- 
íiá de sousa se apartou pêra a cidade DalutatS & hi se 
apousfitou c5 Mari! correa em hfla tranqueyra que fize« 
rão. £ estando assi chegou a Bauda bum Gaspar galo ê 
bCla carauela de Maluco, que por mandado Da utonío de 
brito ia pedir a Martim Âfouso algQa fazenda & manti«- 
mentos de que tinha muyta necessidade por amor da 
guerra Q começaua com el rey de Tidore, pêra o qu0 
lhe pedia (} ho fosse ajudar cft os mais Portugueses que 
esteuessem em Bãda, & Q fariSo em Maluco muylo pro^ 
ueito por auer aquele anno muyto crauo^ & quando não 
teuesse mantimentos que os tomasse a quantos merca* 
dores esteuessem em Banda , pêra o que lhe mandou a 
carta dos seus poderes, em que lhe daua eirey a jurdi- 
qfto da ilha de Banda : & da hi a poucos dias Q Gaspar 

Íalo chegou faleceo. £ vagando a capitania da carauela, 
tastiSo de sousa a quisera tomar & dala a b& Francisca) 
de sousa seu sobrinho , dizendo Q ele tinha ali jurdic^ 
por estar por mSdado do gouernador da índia, & Mar-^ 
tim Afonso ho nfio consentio & tomou ho leme & as ve^ 
las da carauela pêra se ir nela a Maluco: como foy & 
leuou cdsigo outros dous ou três jflgos de Portugueses^ 
& foy coele Martim correa. £ chegados á ilha de Ter« 
nate forSo muyto b6 recebidos Dantonio de brito, que 
tinha despachado htl íklalgo mâcebo chamado lorge pKo 
da silua natural Deluas pêra ir faser a guerra a e\ rey 
de Tidore em quãto se ajuntauSo os reys & sangajes i| 
António de brito tinha mSdado chamar a socorro, & es-*- 
taua embarcado pêra partir, & por Marti correa ser seu 
parSte se foy coele a terra , & deixado ho apouseniadò 
se partio em hti nauio , & ia coele em outro hQ Lionel 
de Kma parile Dantonio de brito , & leuou hfi batel êé 

R 2 



13S 1>A HISTORIA DA INBrA * 

ba calaluz bfi esquipados pêra fazerfi sallos é terra ! 
Iiestas velas irião bem corenla Portugueses. E partido 
iorge pito foy surgir sobre ho porto da cidade de Tido* 
re , & em pouco tSpo Ifae fez muyta guerra , tolhèdoihe 
os mantim^tos ^ & saindo muytas. vezes S terra a fazer 
saltos de lhe caliuar gente & tomar gado. O Q el rey 
Aentia muyto, principaimête a tomada dos mantimentos 
de t\ tinha grftde necessidade por a muyta gSle Q esta^ 
na junta pêra a guerra !\ esperaua : por^ a fora os seus 
vassalos , muytos vinhSo por ho terê por home santo. £ 
vSdose el rey assi perseguido de Iorge piÃto, inuêtou 
b& ardil pêra ver se ho podia tomar, & foy meter em 
hua calheta ^ estaua hfi pouco afastada da cidade bfla 
boa armada de paraós que ficaua encuberta cõ grande 
& basto aruoredo Q a cobria , & de noyte despedio hua 
coracora pcra ho mar, Q em amanhecSdo aparecesse da 
parte doutra ilha chamada Geilolo dõde lhe trazião man* 
timStos: pêra ^ cuydâdo Iorge pinto ^ a coracora eys 
leuaua se fosse a ela , & ela fugiria pêra a calheta, em 
cuja entrada atrauessaua hua rastinga em ^ ho batel de 
Iorge pinto por ser pesado encalharia , & seyriâo os< ^ 
estauão dêtro & ho niatariâo. E posto isto è obra ama- 
nheceo a coracora ao mar , & vSdoa Iorge pito cuydoa 
Q era de mãlimêlos determinou de a tomar como tinha 
lomado outras, pêra ho ^ se foy em bu calaluz em que 
iazia a^le» saltos, & leuaua consigo seis Portugueses, 
& não quis dar rebate aLionel de lyma parecèdolhe que 
ele só abastaua, & vendoho os da coracora ir pareles, 
6ngirSo ^ virauão as velas pêra fugirem & que semba- 
raçauão , & nisto se deteuerâo ate que Iorge pinto foy 
perto: & então remando a boga arrancada se acoHierâo 
á calheta onde estaua a cilada , & entrou sem tocar na 
restinga por demandar pouco fundo: & ho calaluz que 
demãdaua mais por amor da artelharia que leuaua en* 
calhou em entrando. Eem os mouros da cidade ho ven- 
ào assi dão sobrele cÕ grandes gritas, & cercaudobo por 
todas as partes tirauanlbe muytas frechadas^ & arremô» 



LIVRO VU CAPITTLO LXIII. 138 

flD8 aem conto. E com quanto se ele vio em (amanho 
perigo, não Ibe faleceo ho grande esforço t^ue linha, & 
esforçando os seus os ajudou a defender tirando todos 
«nujtas lançadas & espingardadas , mas não lhes apro- 
neitou nada : porque os mouros erão latos que os feri- 
rão tão brauamente Q do muyto sangue que lhe saia das 
feridas enfraquecerão, de maneyra que ora htis, ora 
outros 5 cairão todos sem se poderem ter» £ nisto che- 
gou Lionei de lyma em hft batel bem armado dartelba- 
ria, & fornecido de gCle : & vendo ho calaluz uaQle es- 
tado não se alreueo a socorrelo, & tornouse pêra oodes- 
tauão 08 nauios. £ se apertara os immigos com a arle- 
Iharia que leuaua , ainda saluava algus dos Portugueses 
que estauão viuos. £ vendo os mouros a pouca defensão 
do. calaluz entrarão deniro, & cortarão as cabeças aos 
Portugueses, & a cincoenta ou sesenta mouros de Ter- 
sate que andauão com eles, & com as cabeças de todos 
«arramarão os seus paraós: & cÕ grande prazer se íbrão 
ao porto da cidade, onde forão recebidos dei rey com 
outro tanto y por se ver liiire de tamanha opressão. 

C A P I T V L O LXIII. 

Do' que aconteceu a Martim etfonso de melo jusarte , co^ 

meUndo hú lugar de mouros 

Cabido este desastre por António de brito ^ iicou tão 
agastado que mandou logo chamar Lionei de lyma & 
que leuasse os nauios , & assi ho fez. £ se neste tSpo 
não esteuera junta na fortaleza a gSte que era chamada 
pêra a guerra, António de brito desistira deha, mas por 
ser junta proseguio auante* £ fi quãto se Gachil daroes 
embarcaua coela, foy assentado que Martim afonso.de 
noelo jusarte j fosse com os nauios Portugueses surgir 
aobre a barra de Tidore , & forão seus capitaSs , Lionei 
de lyma , & Adartim correa : & partindo bua noyte de 
porto de Talangai^ ckegeu em amanhecendo a 1 idore^ 



13é lU HISTOUIA XU llfMA 

& surgio na câ^beta onde matarão lorge pTiilo Sc oa ou* 
iroê : & como aui£o ali deatar sem fazer nada ale irCa- 
chii daroes, determinou Martim afonao com conselho dos 
capilaSs & fidalgos, de ir dar em h(ia pouoaçâo demoQ«- 
ros , que disse ha Gaspar dalmeida que estaua dali a 
hCla legoa ao Idgo do mar 1| se poderia queimar facil- 
mente , & pariio pêra lá no quarto da modorra por n2o 
passar de dia a vista deTídore, & se soubesse ondeia^ 
& com quanto partio assi cedo por ir contra Tento & 
maré, era ja de dia quando paissou a vista da cidade. 
Donde sospeitando os immigos ao que ia lhe sairio em 
muy tos paraós , que os nossos fizerão tornar voltando a 
eles ás bombardadas, & desapressados dos immigos fo« 
rão surgir na poucac^So, que njlo era mais de dez oudo* 
ze casas com hua mezquila, & os mais moradores des* 
pois que Gaspar dalmeida vira aquela pouoaçâo, se mu* 
darão pêra ho pico de hi&a rocha muy to alta , cÔ medo 
da guerra dos Portugueses , & ali se fortalecerão : & pê- 
ra estrouarem a solnda aquém lá quisesse sobir contra 
sua vontade , atrauessarão dous paraós em dous passos 
de hua vereda, que se fazia muyto íngreme do pé da 
rocha ate o lugar, pêra darem coeiea pela rocha abaixo, 
& leuarem dencontro quantos sobissem. Ecõquãto Mar- 
ta afonso vio que ho lugar era de muyto perigo oa sobi- 
da, determinou de aobir pois ali estaua, porque não 
parecesse aos mouros que ho deixauão de fazer com me- 
do: & porque ho tirar oe paraés donde estaaão era ho 
mais , & quanto meoos fossem a isso tanto era mais se- 
guro , acordarão que hA só homem os fosse tirar, & es- 
te foy Martim correa que se ofereceo pêra ho fazer, & 
foy : & por ho lugar estar muyto alto, & os mouros tei- 
rem lento no crepo da gente não ho virão sobir, & an« 
iea de chegar ao prymeiro paraó, foy ter eoele hii cléri- 
go que cbamauâo Gomez botelho, que desforçado buscou 
m^neyca pêra ir ter coele^ & ajudalo a derribar ho pry- 
meiro paraó ^ & ho mesmo fez htk Francisco lopez bu- 
IhiQy que oa.ajiiéQU a dernkar ho segundo, Sc oomo Mt 



LIVRO VI. €Af ITVIO tXmi. 1S6 

(0 MiMift BMis perto do logaf , & ho estrondo Q fes iiin 
do pola vocba abaixo f<^ muy grande, BfBlirãonooamoiJH 
to& & acodicfto a ver ho que era , veado os Ires pola ro* 
cha acima , & Marlim aíbnso cõ os outros ao pé dei» 
pêra sobír,. começâo de sacodir muytas pedradas , &de 
deitar grandes galgas, de que Martini correa, & os 
dous se saluarâo em hiia lapa que se fazia na mesma ro- 
cha: & isto das galgas acabou logo, porque em se oa 
mouros mostrando, começfto os espingardeiros de Mar- 
lim afonso de tirar suas espingardas com que os fiaerâo 
recolher detrás de hA muro Q tinhão daquela banda: Sc 
desembaraçado ho caminho^ começou Alartim afonso de 
sobir indo diante com seis ou sete homês & es outros 
após ele. £ vendo os mouros sua determinação , torna* 
ranse a descobrir pêra defenderem a sobida , & os es« 
pingardeiros tornarão a tirar, & h& que ia detrás de 
IMartim afonso tirou tão certo , que lhe deu pola espa- 
doa dereila , & passando ho pelouro as armas &trou dS* 
tro no corpo, & foy a ferida tão má que caio logo desa- 
cordado. É por este desastre tamanho não íbrão os Por- 
tugueses mais por diante, & se tornarão pêra os nauios 
em que se embarcarão com IMartim afonso , queimando 
primeiro a mezquita, & as casas que estauão na praya. 
£ dahi se forão pêra Ternate, por mandado Dantonio de 
brilo. 

C A P I T V L O LXIIII. 

Í)e como foy ferido Francisco de sousa^ ^ ohtroa Por^ 

tagueses^ 

Issiue dagastado de quain mal lhe socedfa a guerra a 
quisera de todo deixar, se não ibra por amor deCachil 
daroes, que vendoho assi lhe disse que ele queria fazer 
a. guerra com a> gente da terra, somente mandasse hu 
capitão Português, cem ate vinte Portugueses de que 
se fizesse cabeça : & que iria logo tomar hu lugar que 
Ml chamaualKlariaco,^ principal lugar da ilha deXidore: 



DA HISTORIA DA ÍNDIA 

pêra ho que lhe deu hll fidalgo chamado Francisco de 
sousa, & vinte Portugueses^ & parlirSo lodos com gran« 
de frota, em que yão mil & quinhStos homês da terra , 
em que enlrauâo muytos MandarTs, & os vinte Portu« 

fueses. E chegados onde auião de desembarcar desem* 
arcarão, & forãose caminho de Mariaco, que he hil 
lugar muyto grande situado em hâa serra quasi nomeo 
da ilha, onde antigamente residião os reys de Tidóre:* 
& despois por se pouoar a fralda do mar , fizerão assen* 
to na cidade que agora tem. Este lugar era cercado de 
tranqueiras de hiia face, & a lugares tinha alg&a caua, 
& com isto estaua algii taoto fortificado. E chegados a 
este lugar, tomoulhe Cachil daroes as seruentias S que 
pos algua da sua gente , por lhe não poder yr socorro : 
& disse a Francisco de sousa que ficasse de hQa bSda 
ao pé do lugar, & ele iria pola outra que era mais alta : 
& tanto que fosse em todo cima, daria a sua gente hda 
grita a que ele acodiria com os Portugueses , & darião 
no lugar & bo tomariâo. E proseguindo Cachil daroes 
pêra ho lugar, sem ser visto nem sentido dos morado* 
res , por a terra ser cuberta de muyto basto aruoredo ,. 
sairão algCis do lugar cuydando que bo podião fazer sem 
perigo, & estes forS logo sentidos dos que goardauão as 
seruentias, que deitarão após ele*s dando algilas gritas: 
com que se Francisco de sousa enganou , cuydando ser 
Cachil daroes que daua no lugar pela banda por onde 
fora, ao que acodio logo pola sua com grande pressa. 
£ como Cachil dardes não era ainda chegado ao seu 
combate, nem os mouros recebessem opressão, acodi- 
rão todos onde Francisco de sousa cometia , & ás pe^ 
dradas & frechadas se defenderão de tal maneyra que 
os Portugueses forão todos muyto feridos. E ho mesmo 
espingardeiro Q ferira a Martim afonso, ferio ali a Fran- 
cisco de sousa por hfta coxa & isto de desacordado, po- 
lo que lhe foy necessário afastar se pêra ho lugar em Q 
ho deixou Cachil daroes : que sabSdo o Q passaua lhe 
foy acodirt, & muyto agastado daquele desastre, jurou* 



LIVRO VI. CAPITVLO \.XV. ' 137 

em sua ley de nl(o se partir dali ale não tomar ho lugar, 
Sl asai bo screueo a António de brito, pediadoihe que 
não se agastase polo que sucedera, porque erâ desastres 
de guerra , & que lhe mâdasse Martim correa com vio-* 
te Portugueses, por(} ho tinha por tão esforçado & sa-* 
bedor na guerra, que com ele acabaria muyto a sua 
bonrra : & com este recado mandou Francisco de sou« 
sa •& os feridos. 

C A P I T V L O LXV. 

De como por indtistria de Martim correa , foy tomado 

ho lugar de Mariaco. 

y endo António de brito quantos desastres lhe acdte- 
ciâo naquela guerra, determinou de a deixar de todo, 
& não mandar a ela nenhfli Português , & fiijarrarse na 
fortaleza com cento & trinta Portugueses que tinha, & 
esperar ate irfi os jungos de Malaca : & nào quis man- 
dar Martim correa que fosse ajudar a Cachii daroes, 
nem bo mandara se ho mesmo Cacfail daroes lhe não fo-* 
ra pedir que ho mandasse, & por isso lhe deu licença 
que fosse cÕ vinte Portugueses. Eescreueo aLionel de 
lima que estaua no porto de Tidore, que ho fosse acô-» 
panhar com a mais gente que podesse, tirando a do seu 
nauio que deixaria a recado: & dizia em hua carta {| 
se Marti correa se quisesse meter em algOa cousa de 
P^<*Íç^9 4 ^le Ibe requeresse da parte dei Rey que ho 
não fizesse, & não querendo se não fazelo que lhe les- 
se aquela carta , & requeresse da sua parte aos que ho 
acdpanhauão que ho não ajudassem. £ recebidos por Lio* 
nel de lima estes recados logo se foy ajuntar c8 Marti 
correa, leuSdo cÕsigo quinze Portugueses, que cÕ os 
que Martim correa tinha erão trinta & cinco, Q vendo- 
se coeles, & cÕ a gente de Cachii daroes apressouho 
que cometessem ho lugar, polo ver estar muyto frio nis^ 
ao : & ele 4he disse que bo faria quando lhe viesse von^ 

LIVRO VI. 8 



188 ]>A HISTORIA DA ÍNDIA 

tade^ porque ainda lhe nfto vinha. E por isso determi^ 
DOO Marti m correa de bo cometer com os Portugueses, 
-cS tençSo que vendo Gachil daroes a cousa trauada aco? 
deria com sua gSle. £ dando disso conta a Lionel do 
lima^ ele lhe requereo da parle Dâtonio de brilo que 
ho não fizesse : & aos outros que bo não ajudassem most 
trandolbe a carta de António de brito ^ em que manda? 
ua que lhe não obedecessem : & eles bo fíterâo assi sal-» 
uo hfl lane mendez caualeiro muyto esforçado, que se 
lhe oflfreceo ao ajudar com sua pessoa, o {[ lhe JMarlim 
correa agardeceo. £ dando a entender a gente que não 
queria cometer ho lugar pois ho dão queriâo ajudar, fa- 
lou aquela noyte com loane mendez , & concertou coele 
que ao outro dia pola menhaã cometessem a tranqueira 
per bua parte , que ele sabia que estaua fraòa : & que 
iriâo ambos com dous seus criados : & oyto mftdarins 
dos de cacbil daroes , que conhecia por esforçados , & 
como fossem dentro que a sua gSte lhes acodiria, & 
desta maneira se despacbarião dali. £ porque Martim 
correa sabia (} por aquela parte auia buas caniçadas de 
ifora da tranqueira : mãdou aos mandarins Q as desfezes* 
sem, & vissem se auia estrepes, porí| os costumSo muy» 
to naquela terra : & sabendo que as caniçadas erão des* 
feitas & que não auia estrepes , ao outro dia em ama- 
nhecendo se foy da sua estancia com a cõpanhia que 
digo: que erão por todos doze pessoas: & chegados á 
tranqueira virão que auia por aquela parle pouca gente 
por auer de fora grande mato & má seruentia j>era se 
chegarS a ela : & estaua da banda de dêlro háa casa 
térrea cõprida, & dereito do meo dela erão os esleos da 
tranqueira ralos & curtos. £ estando assi vendo por on«- 
de auiSo de cometer, apareceo bd mandarim vestido 
em hfta roupeta de graã, cÕ bua gorra do mesmo: & 
nela bua pruma : que logo foj morto cõ hãa espigarda* 
da que lhe tirou loane mendez. £ nisto acodirâo algfis 
bomõs a bua goarita {| estaua sobre a^la parte , dõde 
lhes tirauão pedradas & outros arremessos : & lhes dei* 



LIVRO VI. CAPITVLO LXV. 139 

IaqIo tXtft soma de terra que fazia tamanha poeira que 
nXo se enxergauflo htta aos outros* Ecomo os de dentro 
vião Q os de fera erão taro poucos , parecialhes que era 
impossiuel poderê entrar: & ja que entrassem ^ erão tá 
poucos y que eles abastauSo pêra os matar : & por isso 
faziSo a cousa caladamfite , que não se sintia senão nas 
estancias vezinhas: & tirauão suas pedras & arreroes'- 
608, & deitauão a terra cuydando de cegar os Portugue» 
ses : & no que cuydauão que lhes fazião mayor dano os 
aproueytarão mais : porque como da terra que caya se 
fizessem grandes & grossas nuuSs de pó^ que cobrião 
Martim corroa & os outros , teue ele tempo , de com 
sua ajuda arrancar bfi pao da tranqueira que era (ao 
grosso , que polo lugar que ocupaua pode Martim cor^ 
rea caber dilbarga & a pos ele loaoe m&dez , & despois 
os outros: & tomarão hQ terreiro que se fazia diante 
da casa ^ que estaua ao Mgo da tranqueira. £ como os 
mouros os virão dentro comei^use antreles muy grande 
aluoroQO, acodindo logo os das estancias vezinhas dao«> 
do grandes grilas porque os ouuissem polo lugar. E co«> 
mo Lionel de lima estaua perto^ em ouuindo a grita a* 
codio logo com todos os Portugueses sospeitando ko J| 
era , & entrou polo portal A achou feyto : & ajuntousa 
com Martim correa pelejando todos marauilhosamente , 

Eorque os mouros creoíão muy to : & ouue atreles hfta 
raua peleia , que durou hfi pedaço primeyro que che« 
gasse Cachil daroes por estar muyto descansado, & 
cuydar que não se auia dentrar tão asinha. E como ele 
chegou espalhouse sua gente por todas as partes, & de« 
rão DOS mouros de que matarão todos , saluo obra de 
cento que se acolherão sobre fatias aruores , 6de os Ca* 
cil daroes mãdaua matar as espingardadas , se não fora 
Martim correa que lhe pedio as vidas, & ele lhas dep 
muvto pesadamente , dizendo que era seu custume in- 
uiolauel , que em toda a batalha onde ya el rey ou quê 
representasse sua pessoa, de morrerS todos os immigos 
que não se querião dar a mercê antes da batalha , ou 

8 2 



140 JOA HI8T0BIA BA ÍNDIA 

do combale. E em sinal que Cachil daroes perdoana aoa 
que eatauSo sobre as aruores , bebeo agoa pola põta do 
seu cris, que he sinal de perdão: & com isto se dece« 
rão os mouros, que como disse erão cSto, & os morlos 
forão trezentos. E dos Portugueses não morreo nenhO.^ 
nem dos ^ os ajudauão: &Martim correa foy ferido em 
hfia perna de hil arremesso : & os mortos todos forão 
mâdarSs & os mais parentes dei rey de Tidore : & outra 
gente não auia no lugar, porque tanto que lhe foj pos^ 
lo cerco ho despejarão dela & das fazêdas & por isso 
não se achou cousa que fosse de roubar. E despoía €Ío 
feito acabado estando Marti m correa descasando yio ir 
contra si dous homès bu deles Mandarim & velho, & ho 
outro de menos idade comitre de hfi paraó, & este le* 
uaua dependuradas duas cabeças de mouros, & fugia do 
outro 4 'bas queria tomar, & chegado a Maríim correa 
lhe íez queixume daquilo: & por^ ho velho cd muyta 
instãcia pedia a Martim correa^ lhe desse hua da^lag 
cabeças pêra a depfidurar em hu paraó de Q era capitã ; 
& quiseralha tomar & ho outro as aferrou gritado ^ lhe 
Dão tomasse sua honrra Q ganhara com muyto trabalho 

Eera a dar ao mandarim, que em quanto durara a pe- 
ja do lugar esleuera dormido & coisto se foy* E ali 
soube Martim correa que todo aquele que apresentarão 
rey sete cabeças dmigos despois de dar algtla batalha 
que ho faz caualeiro , & ho faz fidalgo , a Q chamão 
mandarim, se ho não be, & hão por muyto grande 
honrra apanhar muyias cabeças» E acabada a matãça 
dos moradores do lugar foylhe posto fogo, & ardeo todo 
sem ficar cousa aigiia. & da fortaleza vio António de 
brito, & os que estauão coele as chamas do fogo: & 
porisso & por recado de Martim correa foy certificado 
Q o lugar era idestruido*. 



LIVRO VI. CAPiTVLOLXVI. 141 

C A P I T V L O LXVL 

JDe como prosseguindo Martim correa ^ Cachii Daroes 
. a guerra tomarão muytos lugares que el rey de Ttdore 
tinha na ilha de Maquiem. 

JL/estruído esle lugar ouue Cacbil daroes conselho cõ 
jMartiin correa que fossem aa ilha de Maquie, de Q era 
«metade delrey de Tidore & a oulra dei rey de Terna- 
te & a tomassem : & assi ho fizerão. E ao primeyro lu- 
gar dei rey de Tidore que chegarão, estando no mar 
& tão perto de terra que se poderia ouuir : deuse htl 
pregão na coracora do camarão que em sua lingoa quer 
dizer almirante , que soubessem os moradores do lugar 
Q naquela frota ya certo numero de Portugueses que 
yâo vestidos de ferro (& isto polas armas) & que leua- 
iião os paraós cheos de cabeças dos Mãdarins de Tido^ 
re , que bé podiâo vingalos : porê que deuião de dar o« 
bediencia ao regedor Õachil daroes que ali ya , porque 
lhes não fizessem outro tanto como aos de Tklore. E a 
este pregão sairão todos os do lugar á praya, & quando 
virão a multidão das cabeças dos mortos moslrarãose 
muy espantados, & determinarão de se entregar, & as- 
si ho fizerão logo ao outro dia pola manhaã , & cada hfl 
leuaua algOa peça que apresentaua ao regedor, & isto 
de sua vontade , & não dobrigação : & dada obediência 
ao regedor ^ se tornauão pêra suas casas , íkãdo vassa- 
lo» dei rev de Ternate : & desta maneira se entregarão 
todoa os lugares que el rey de Tidore tinha nesta ilha. 
£ a causa de lhe darem primeyro ho pregão Q disse , 
era por ser costume da terra , que quando auiãô de fa- 
aer guerra a algtta gente pêra que não dissesse despois 
que os tornauão a treição, lhe aoião de noteficar como 
lhes querião fazer guerra , & a gente que tinfaão , & as 
armas que leuauão , assi defensiuas como ofSsiuas > & s^ 
He entregauãoy eatão dauào aquelas peças de sua võla^ 



142 DA Hf0TOltTA DA ÍNDIA 

de , & nSo lhes fazião mal. E se respõdiSo que não a- 
uiâo medo & eeUuâo prestes pêra se defenderem , dali 
por diante os podião combater, & tomar por treiçâo, & 
por todos os ardijs Q podessê sem terem nisso culpa» E 
não tendo mais que fazer naquela ilha , se tornarão a 
nossa fortaleza. 

C A P I T V L O^ LXVIL 

De como Martim correa , ^ Cachil daroes destruirão hê 
lugar Dogane , ^ se tomarão a Temate. 

V endo António de brito quSo bem lhe sucedia a guer- 
ra, nã quis deixar de a proseguir. B porque ainda fica*- 
ua hú lugar a el rey deTidore, que tinha na grade ilha 
de Batochina sessenta legoas de Ternate, tornou a 
mandar Martim correa com corenta Portugueses, &6oer 
Je foy Cachil daroes , & bo camarão ^ que forão pola ilha 
de (5ajoa pêra se ajuntar com eles bo rey dela , como 
ajuntou; & dali se forão todos a ilha de Batochina sobre 
fail lugar chamado Gane, Q seria de bê duzfitos vezinhos, 
& as casas todas sobre esteos de madeira cujas paredes 
erão de barrotes , & em lugar de tauoado tinbão por cv- 
ma hOas esteiras de canas rachadas, & por de baixo dai 
casas auia algíks assentos pêra se a gente assentar de 
dia , & estas casas erão assi feytas , pêra que no tempo 
da guerra se defendessem melhor dos immigos, porque 
sobem ás caças per huas escadas leuadi<^8 de canas, 
que como são em cima as poS ao longo das paredes & 
iicão mu3ito segupos: & pêra oSenderem aos immigos 
se lhes entrão ho lugar, enrolão as esteiras pêra as i- 
Ihargas das paredes , fc tirão per antre os barrotes aos 
que andão por baixo, com paos tostados, & pedras, & 
frechas , & com fate arpftes de ferro , aque chamão tãr^- 
ranas, que trasem atados em moytas braças de cordel 
que enrolão no braço dereito pêra que lhes fique sempro 
ho cordel na »9o , & se acerlão , puxão pelo cordel ato 



LIVAO VI* CAPITTLO LXYII. 14t 

chêgârS ho homS a 0Í , & cortanlbe a cabec^ : & estas 
armas sain muy temerosas & perigosas : & de que se 
seruS muyto quãdo lhe os Imigos entrSo os kgares^ 
porQ tem lâ pouco engenho 4 lhes não sabe cortar os 
esteos das casas & derribarlhas , nem ousam de se che<>* 
gar junto delas c5 medo destes arpoes & doutros arre* 
messos : este lugar era cercado de bua banda de bila 
vala muyto alta per onde entrata bo mar , & bo alaga* 
ua quãdo era necessário: & por outras partes era cer^* 
oado desteiros & de vasa, de modo que estaua muyto 
forte ) & tinha a entrada muyto perigosa» £ cõ tudo 
Martim correa disse a Cachil daroes que bo cometes- 
sem: & forão pêra entrar pola bãda da vala, que náo 
podiSo as corasooras nadar por outra parle , mas logo 
encalharão sem poderè passar auãle cõ estacadas Q os 
mouros ali tinbão feitas , por onde as corascoras que e- 
rio grandes não podião caber : o j| vendo os mouros se 
meterão muy de pressa em paraos pequenos, & se che- 
gara per antre as estacas bo mais perto. que poderã dos 
nossos , & tirauãibes muy tas frechadas , & arremessos , 
& eles dissimulauão por rogo de Cachil daroes pêra que 
se chegassem mais & lhes tirassem com as espingardas : 
de qoe os Inigos nâo sabião nada por não terem nunca 
visto Portugueses. £ vedo os Martim correa bõ chega- 
dos desparon a sua espingarda ^ & bo mesmo fez Cachil 
daroes, & outros que as tinhãe: com que derribarão 
mortos muytos dos Imigos : & os outros como entende^^ 
râo ho jogo fugirão, indo 8 seu alcani^o mtiytos pelou- 
ros de ber^ , que lhes despararão nas costas , que ma- 
tarão & ferirão esses Q alcançarão : & despejada a esta- 
cada foy logo cortada & arrancada. £ têdo as corasco- 
ras lugar pêra Strar se chegarão tam perto das casas que 
lhes cbegauSo com os berços , mas como não lhe podia 
dali áaeer muyto nojo, saltou Martim cx)rrea em terra 
Goai de£ Portugueses que yão coele na coracora do ça* 
marao , que tambè desembarcou com os mouros de sua 
capitania , & porem acharão lanta tasa , & alê dela b{^ 



144 •* 0A HfSVOlltA DA ÍNDIA ' 

esteiro tâo alto que nâo poderSo chegar ao lugar : & fbjr 
forçado erobarearense outra vez, pori) Cachil daroea não 
estaua ali 9 & ya por outra i>aoda , & de lá mandou cba* 
mar Martim Corrêa , que se foy parele. E poio achar 
frio em cometer ho lugar ate os imigos gastarem os ar* 
remessos que tiohão, remeteo a eles c5 esses Portugoe* 
ses & mouros que leuaua, ás espingardadas , metMose 
pola vasa , em que auta muytos strepes , de que hu ho 
ferio em hft pé, mas ele nSo deixou de ir por diante ate 
chegar a hQa tranqueira que estaoa daquela parte que 
despejou dos imigos ás espingardadas cora os outros: Sc 
despejada entrarão no lugar , & após ele Cachil daroee 
cÔ os de sua capitania. E vedo os Imigos Q nft tinhft 
outro remédio, derSo cSsigo encima nas casas leuSdo 
após si as escadas , cuidSdo <) se auiSo de defender co- 
mo outras vezes , mas nSo lhes derSo os Portugueses 
esse vagar, que logo atando bisalhos de poluora nas 
pontas das lanças lhos punhSo encima dos telhados com 
murrSes acesos , & deles se pegaua ho fogo nos telha* 
dos que erâo dda seca , em que logo se aceodeo muj 
brauamente & ateandose de hfias casas em outras : a- 
cendeose hum espantoso fogo per toda |t cidade, & 
coela per toda ela se aleuantou hãa grande & dorida 
grita que dauSo as roolheres & meninos de que as casas 
estauão cheas. Equerendose liurar do fogo remetiSoaas 
portas pêra se lançarem abaixo onde viâo estar os Por* 
tugueses cd as I3ças leuStadas pêra os receberC nelas, 
& cõtudo se deytauão: & assi morrerá muylos quey- 
mados do fogo , & outros a ferro : & forão calinas bem 
dozentas almas , & antrelas ho foy tambS ho mesmo se* 
nhor do lugar, com toda sua casa. Ecomo teuerâodes* 
truydo este lugar de todo, embarcarãose MarUm Cor- 
rêa, & Cachil daroes & tornarSose a Ternate, onde 
António de brito deu a Martim correa a alcaidaria mor 
da fortaleza, & a capitania m6r do mar, porque ficasse 
coeie mays tempo, por ver quanto era pêra seruir eirejr 
por seu esforço & valentia. . > 



LlVfK) VI. CAPITVLO LXVni. 14Ô 

C A P I T V L O LXVIII. 

De como ti rey de Tidore mandou pedir pazes a António 

de òrito : ^ ele Ihas^^nâo quis dar. 

V-^om a destruycjâo deste lugar Dogane ficou el rey de 
Tidore inuylo ^brado da soberba que tiuera contra os 
Portugueses, & bS arrependido de ter guerra coeles, & 
cobroulhes tamanho medo, ^ não se tinha por seguro 
em nenhfia parte: polo que mandou hfi embaixador a 
António de brito, fjedindolhe pazes, oífrecendose a pa- 
gar a el rey de Portugal toda a perda & dano que te** 
uesse recebido por sua causa: & lhe daria a artelharia 
que tomara na fusta : o que António de brito nSo quts : 
& respõdeo que ainda não estaua bê vingado dele« E 
dali a algQs dias forâo tomados no mar pelos Portugue- 
ses duzentos homens vassalos dei rey de Tidore, ^ An<* 
tonio de brito mandou matar de muy cruas mortea. O 
que não somente punha grande temor em el rey de Ti- 
dore , mas em outros reys comarcãos daquele arcepela- 
go: & todos se liauão por amizade com António de bri- 
to, & antrestes foy ho da ilha chamada Grambocanora, 
que mandou a António de brito hfis doze homês 6 híl 
paraó, a ![ naQla terra chamâoOurâo soãgue (} quer di- 
zer home diabo. £ isto por^ por arte diabólica se fazS 
inuisiueis, & êtrão por Ôde quer& & fazS muy to mal: 
& por isso hão aQlas gSles grandissimo medo deles , & 
se os acolhem logo os matão. E porque estes ourfies 
soangues se fazem inoisiueis os mâdou el rey da GrS^ 
bocanora a António de brjto pêra ^ lhe fossem fazer 
saltos á ilha de Tidore, & matassem nela muyta gSte, 
do que António de brito^fez escárnio, & eles forão por 
seys ou sete vezes fazer salíos em Tidore , donde trou- 
iierão de cada vez aouy tas. cabeças de homens que ma- 
tauSo: do que a gente de Tidore andaua muy to espan- 
tada & atormentada, & espiarãnos hila noyle onde dei« 

lilVRO vu T 



146 ]>A HISTORIA BA INJDIA ' 

xauão ho seu paraó & tomaranlho & eles ficarSo embre- 
nhados pola ilha, & cada ooyte fazião fogos aos de Ter- 
nate que estauão defrõle que fossem por eles, & por is- 
Bo farão & acharão onze , & ho outro nunca mais pare« 
ceo, pelo que Âatonio de brito fez disso muylo mais es- 
cárnio que dantes, ainda que lhe CachilDaroes aíirma- 
iia que era assi , & que se faziâo inuisiueis. £ por An-* 
tonio de brito dizer que se ele metesse no tronco hum 
da^les que ele nã se sayria Ihenlregou Cachil Daroea 
hum que lhe leuarão p^a justiçar. E António de brita 
ko mandou meter em hum tronco pola cabeça, dizendo 
que se se dali saysse que creria fazerse inuisiueJ 9 âc 
mandou ho goardar muyto bem hua noyte. E quando 
Iby ao outro dià não ho acharão no tronco^ do que An-* 
tonio de^ brito ficou muyto espantado. £ porque d rey 
de Tidore não dissesse que lhe fazia a guerra com arte 
diabólica, não quis que fossem lá mais osOurões soa»- 
guês 5 & maadaoalha fazer continuamente poios Porlu* 
gueseg com o que el rey viuia muy atormãladoé 

C A P I T O L O LXIX. 

De como d rey de CkUtcut começou de fazer guerra €Ui 

fortaleza êissimidadamâe. 



p 



assãdose estas cousas em Maluco , el rey de Calicut 
que estaua determinado de fazer guerra á fortaleza dos 
portugueses , apereebiasse pêra isso quãto podia , & as* 
si os mouros de todo seu reyno, que ajuntarão quasi du- 
zentos paraós darmada , de que corenta auiao dir carre* 
gados de especiaria a Meca em goarda das oyto nãos 
que disse atras, & assi outros muytos ate os poeremde 
mar em fora da costa do Malabar. E ho capitão moor 
desta armada era bum valente mouro chamado Cuiiaie 
de Tanor. E da partida desta armada que foy logo na 
entrada do verão foy anisado dom loâo de lima capitão 
da fortaleza de Calicut , per hum Português arrenegado 



LITftO VI. CAPITTLO UKÍX, 147 

-que andaaa c5 os aKHjros chamado Basti io^ filho de hum 
ouriuez de Lisboa que fora moço da eafiela deJ rey dom 
IMaottel^ & por ser mujlo amigo de dom loao (ainda 
que era mouro) Ihescreueo bíia carta da partida desta 
armada , & que auia de passar ao longo da fortaleza 

Í^era a tomar se esteuesse pêra isso : o que logo dom 
oSo como isto soube escreueo a dÔ Luys que estaua em 
Cochim^ pedindolhe !\ maadasse hiia armada a goardar 
a costa: o que ele nSo quis, nem sayo de Cochim se 
não em Outubro indose derejto a Goa onde esperaua 
que ha gouemador fosse ter Dormuz* E vendo dom 
ioAo de Uma como lhe nã acodião de Coefaim, segurou 
a fortaleza do combate que se lhe podia dar por mar , 
com fazer bum baluarte de madeyra com que a porta 
da fortaleza fioana também emparada da banda domar: 
pêra o que. mandou pedir carpinieyros ao regedor da ci'- 
idade, que como sabia a guerra f\ el rey determinaua de 
;fazer aa fortaleza nSo queria dar os carpinteyTos. Gdom 
Joáo f ola pressa que tinha começou ho bahiarte com ho 
jcsondestabre da fortaleza (} era muyto Sgenboso & insi- 
naoa algfls Portugueses a laurar a madeyra. O ^. visto 
•poio regedor, por dom loSo nSo sospeilar algfla coasa 
da guerra que estaua determinada lhe deu 08carpintey>> 
ros cõ que ho baluarte foy muy asinha acabado. E nSo 
tardou nada que apareceo a frota dos. mouros, & hum 
paraó dela se chegou a terra pêra ver se poderião tomar 
-a fortaleza: o que vendo dom loSo lhe mandou tirar com 
três .tiros grossos^ & hum espedaqou ho paraó : & os ou- 
tros arrombarão algds dos que yão ao mar. E vendo Cui- 
ti^e quanto dano recebia sem desembarcar, conheceoo 
que receberia desembarcando ^ ic por isso passou auan« 
te. E dom loSo se mandou queixar ao regedor de Gali<» 
.out da vista que esta armada deu aa fortaleza: dizendo 
que se el rey de Calicut queria guerra que lho decra- 
rasse , porque assi ho fazilo os caualeyros. Do que ho 
regedor se lhe foy disculpar: & el rey de Calicut quâ* 
do aoabé que dom loâo ho entendia^ mandou a buni 

T % 



148 . BA HISTORIA DA ÍNDIA 

Nayre que lho fosse matar. E como eles sam muyto o- 
bedieDtes a seu rey , determinou de ho fazer: fingindo 
que leuana hum recado dei rey a dom loão, £ indo ho 
Nayre coeste propósito achou ho assentado na ramada 
da fortaleza com algus fidalgos seus parentes, & infiou* 
se tanto querendo chegar a ele que ho entendeo dom 
Vasco de lima que hi estaua, & disse a dom loâo que 
jbo matassem. E ele não quis, mas mandou aos alabar- 
deyros da goarda que lho tomassem. E assi ho fizerão, 
& queixandose ho Nayre que leuaua hum recado dei rey 
a dom loâo , que lho deixassem dar , disselbe ele que 
bem sabia que não leuaua recado , se não que ya pêra 
ho matar, & que ho não mataua como lhe merecia por 
nSo quebrar a paz , & mandou ho pêra Calicut. E aii>^ 
da outra vez int6tou el rey de ho mandar matar por três 
Nayres que fingirão leuarlhe outro recado : por6 como 
ele ja andaua de sobre auiso entendeo os , & lambem 
os mandou prSder por os seus alabardeyros, & dísselhes 
que dissessem a el rey que soubesse certo que"ho não 
auia de poder matar por mais que fizesse : & se queria 
guerra coele que lha declarasse & que ele se defende- 
ria , & se não fora por quebrar a paz que. ele lhe comi^ 
cara ja de fazer guerra pelo que entendia nele. 

C A P I T O L O LXX. 

De como os mouros ^ Nayres de Calicut começarão a 
guerra cÔ dô loâo de lima capitão da fortaleza. 

V^om quanto a guerra assi andaua bazcofójada, não 
deixaua dauer coimersai^ão ãtre os Portugueses & os da 
cidade: nem os Nayres da feytoria não deixauão de ser- 
uir nela, & comiamSíe a gfite de Calicut desejaua a paz, 
& sós os mouros a não querião poio grade ódio que li- 
Jihão aos Portugueses , & conselhauâo a el rey de Cali* 
cHit que fizesse a guerra. £ eles matarão neste tempo 
bum Gonçalo tauares que dom loão mandaua com hum 



LIVRO VI. CAPITVLO UtX. 149 

recado ao regedor de Calicut , & assi outros dous Por- 
tugueses que yão coele : sobre que ho regedor não fez 
nada , posto que se dom loão mandou queixar dos mou^ 
ros« E vendo esses fidalgos que estauão com dom loãe, 
& as8Í ho feytor & alcayde roór & os mais de essoutra 
gente este desauergonhamenlo : & que auia dous meses 
que em Parangale iugar dei rey de Calicut matarão ou* 
tros mouros doze Portugueses, conselhauão a dom loão 
que fizesse guerra a elrey de Calicut pois lha ele fazia: 
porque que mais guerra podia ser que malaribe os Por- 
tugueses poucos & poucos, & que em guerra discuber* 
ta não lhe matara tantos, que não esperasse mais cau- 
sas pêra quebrar a paz, que nã podião ser roais. E pos* 
to que a dom loão lhe não falecia esforço pêra a guer- 
ra, não ousaua de quebrar a paz ate os immtgos não 
cometerem a fortaleza , porque assi ho tinha por regi- 
m6to: & por isso sufria todas estas cousas. £ sabendo 
ho regedor & ho Catual da cidade poios Nayres da fey- 
toria o que os fidalgos conselhauão a dom loão , temen- 
do que quebrasse a paz polo terem por esforçado , forã- 
no ver por dissimular : & a vista foy na ramada da for- 
taleza. £ queixandoselhes dom loão das cousas passa- 
das , & eles dando suas disculpas , tirarão dantre a sua 
gente certas espingardadas : do que eles auendo grande 
vergonha bradarão com a gente, dizendo que eles sabe- 
rião os que fizerão aquilo, & os castigarião muylobem: 
& porque não fizessem outra tal mandarão toda a gente 
pêra a cidade, & eles ficarão sós com dom loão, a que 
fizerão muytas mostras de ibes pesar do passado com 
promessa de ho enmêdarem com castigo, que ele creo 
que seria assi: mas como tudo era fingido, logo dali a 
dous ou Ires dias tomarão hus mouros certas molheres 
da terra Christãas que niorauào na cidade , & leuauan- 
nas a Coulete. E não querendo elas ir com os meures 
por serem Cbristaãs bradauâo poios Portugueses Q lhes 
valessem. £ foy sobrislo a oniàu tamanha que ho soube 
dom loão y & mandou rogar aos mouros que as não k- 



f 



150 BA HISTOBIA BA ÍNDIA 

uassem , pois erào Chritsiâas. E itfto querendo eles 00 
não leualas: mandouse queyxar dÍ8«o ao regedor, & ao 
Caiuai qual deles se achasse, mas nenhum se achou, 
nem nayres da feitoria, pêra que defendessem aosMoit- 
ros que não leuassem as molheres : o que vendo dom 
loão mandou certos Portugueses a defender estas mo- 
lheres, & ouuerâo peleja cd os mouros & as tomarão. 
Sobre o que se aluoroqou a genle da cidade, assi mou- 
ros como Nayres: & como tinhâo determinado de faze- 
rem guerra aa fortaleza , na mesma hora se deixou ir 
correndo pêra a fortaleza hum corpo de gente , que se* 
riâo trezentos homens os mais deles espingardeyros, & 
or serem tão poucos mando«ilhe8 dom loio ao encontro 
um caualeyro chamado Manuel de faria escriuâo da 
feytoria cd vinte cinco espingardeyros: mas ainda estes 
trezentos não chegauão aa fortaleza, quando todo bo 
resto da gente da cidade ya junta fiosta em armas , & 
com grandee alaridos se forão corrSdo aa praya pêra da- 
rem de supito na porta da fortaleza & tomardna. O que 
receado dom leão sajo logo &)ra com algQa gente petaa 
recolher Manuel de faria , & mandou desparar algiis li« 
ros por alto porque anão fizessem mal^, porque aioâanSD 
queria quebrar a [>az. E hq medo destes tiros fizerio 
deter os immigos, pelo que Manuel de faria se recolheu 
sem afronta: & dom loflo fazia grandes protestações 
perante hum tabalião pubrico que ele não mandaua ti* 
rar aqueles tiros senão por se defender & não por que- 
brar a paz. E coisto se recolheo aa fortaleza : & reco* 
Ihido tornarão os immigos a prosseguir pêra a fortaleza, 
& chegarão ate hils pardieiros que estauão perto dela. 
E vendo os dom loão ali estar sayo a dar neles com o- 
bra de cem homSs, dando a dianteira a hum Aiuaro da 
cunha seu sobrinho, que leuaua cincoenta, ãt domloSo 
com os outros lhe hia nas costas : & dando bfia arreme- 
tida aos immigos de que matarão algiis, se tornou a re- 
colher na fortaleza : a que os immigos tirara todo aque- 
le Aia muytas eepingardadas & freokadas. £ ao dia se- 



LlVma Vf • CJk9lTTU> LXX. 1 5 I 

guinte esteuerâo quedos sem fazer nenlifi reboliço de 
guerra. £ por isto Fuoacha hfi nayre cunhado dei rej 
de Galicut, que tinha certa tenqa cada anno dei Rej 
de Portugal , porque fauorecesse aos Portugueses do 
que era grande amigo , teue tempo pêra ir falar a dom 
loào, que ho deixou chegar á porta da fortaleia onde 
]fae falou. £ Punacha lhe disse com o rosto muyto tris"* 
te j que não se fiasse dei rey de Calicut 9 porque sem 
duuida lhe auia de fazer guerra , & isto lhe dezia pola 
obriga<jâo que tinha de seruir a el Rey. de Portugal. E 
despediose de dom loão chorando, & assi os nayres que 
seruião na feyloria que biáo coele : & deítandoselhe aoa 
pés lhe pedirão perdão de ho não poderem seruir naquel* 
la guerra , que se come^^ou dali por diante : & a dom 
loão não lhe daua nada dela por ser na entrada do ve«* 
rão, em que esperaua que fosse gouérnador de Porlu* 
gal que lhe socorreria: & por isso não mandou recado a 
M Luys de meneses que estaua em Cochim , & coma 
06 immigos se lhe metião antre htts pardieyros que es* 
tauão perto da fortaleza sayo aigâas vezes a dar nelea 
em i| matou & ferio algus , & hiia vez pos fogo aa cida<< 
de, de que queymou hfl grande lanço de casas: & so- 
bristo teue bua braua peleja com os imigos de que fica-* 
rão muytos mortos fc feridos , & dos Portugueses ha soo 
foy ferido. O que parecia milagre por serê os Portugue- 
ses muy poucos & os immigos muytos em demasia com 
quanto el rey não estaua na cidade , que se esteuera 
forão sem coto: & dali por diãte auia muytos rebates 
dbfta parte & da outra, & sempre nosso senhor seja lou* 
uado os Portugueses leuauào o melhor. 



lõS DA HISTORIA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O LXXÍ. 

De como dô Vasco da gama conde da f^idigueira ^ al^ 
mirante do mar indico partia de PorUigcU por viso reijf 
da Indta ^ 4^ de cofno chegou lá, 

^endo ho tempo chegado de dom Duarte de meneses 
que gouernaua a índia se ir pêra Portugal, m^ou ha 
iDuyto alto & muyto poderoso rey dom loão ho terceyro 
deste nome de Portugal que então reynaua quem gouer- 
nasse a índia. E este foy dom Vasco da gama cõde da 
Vidigueira & almirante do mar indico, a que deu a go- 
uernlcja da índia com titulo de viso rey, & deulhe hda 
armada de quatorze velas. s. sete nãos grossas, três 
galeões & quatro carauelas. Das nãos a fora ele forão 
capitães dom Ânrri{| de meneses filho de dom Fernando 
de meneses a que chamarão ho roxo que ya por capitão 
Dormuz , & na primeyra subcessam da gouernãça da 
índia per morte do viso rey^ Pêro mazcarenhas que ya 
na segiida & leuaua a capitania de Malaca , Lopo vas 
de sam Payo que ya na terceyra, & leuaua a capitania 
deCochim, Francisco de sá que leuaua a capitania que 
auia dir fazer na ilha de çunda, Francisco de brito que 
auia de ser capitão das três nãos do trato de Baticalá 
pêra Ormuz, & António da silueira. Dos galeões forão 
capitães dÕ lorge. de meneses filho de dom Rodrigo de 
meneses de que faley no iiuro quinto, dõ Fernando de 
mõrroi , & Afonso mexia que ya por vedor da fazenda 
da índia. Os capitães das carauelas forão Lopo lobo, 
Gaspar malhorquim, Christouão rosado, & Ruy gon* 
çaluez. £ fornecida esta armada de muyla & boa gen- 
te, armas & mantimentos, partiose ho viso rey coela a 
noue DabriJ do anno de mil & quinhentos & vinte qua- 
tro, & leuou muylo roim viagem de tormStas, com que 
se perderão da sua cõserua Francisco de brito, Christo- 
uão rosado , & Gaspar malhorquim que nunca mais par 



LIVRO Vr. CAPITVLO LXXT. lÒS 

recerSo. E ho Galeão em que ya dom Fernando de monr- 
roí se perdeo em Melinde, & nas outras velas morreu 
muyta gente & forão sempre espalhadas, & quem cfae- 
gaua primeyro a Moçambique par liasse logo pêra a ín- 
dia : & perto da costa dela fafia noite dos seys dias de 
Setembro ao quarto da alua tremeo ho mar muyto ri- 
jo, & por bÕ espaço: & pola primeyra se cuydou na 
frota Q daua em algds baixos de penedia ate quecayrSo 
no que era. E dali a poucos dias apareceo hCla nao de 
mouros que yão Dadem pêra a índia : & dÕ lorge da 
roeneses a tomou sem outra ajuda quasi a vista da fro- 
ta , & os mouros se lhe renderão cõ medo , & ele a le- 
uou ao visorey l\ logo mãdou meter nela hã quad*rilhei- 
ro & ha escriuão pêra verem o que tinha & oulharem 
por ela : & acharanlhe sessenta mil cruzados em dinhei- 
ro & duzfitos mil em mercadoria. E daqui a algQs dias 
foy surgir na barra de Chaul , & hi se declarou por vi- 
sorey que assi ho leuaua por regimento: & aqui este- 
ue três dias sem sayr 6 terra, nem consentir que pes- 
soa algQa saysse, saluo ho licenciado loSo de soiro do 
desembargo na casa da sopricaçSo que ya <;oeie [)or ou- 
uidor geral da índia, & Bastião Luys (} leaaua a escra- 
tianinha da matricula de Gochim que ho viso rey mãdoa 
que fossem visitar por ele a fortaleza de Chaul , & {| 
mâdassem apregoar em seu nome , que tirando os frS- 
teiros & casados lodos os outros se embarcassem logo& 
fossem eoele sopen<a de serem riscados do soldo •& man- 
timento: & mais lhes mandou que dissessem aChristo- 
uão de sousa Q era capitão da fortaleza, Q cheirando ali 
dom Duarte de meneses que era em Ormuz quãdo de lá 
tornasse que ho não consentisse desembarcar, nem lhe 
desse mantimento mais que pêra quatro dias: o que 
foj todo feyto. E assi como ho viso rey não quis que 
ninguém fosse a terra, não quis tampouco que pessoa 
algfla tirasse nenhõa fazenda da que trazia, no que deu 
muyta perda a muytos, porQ ganharão rouylo em a vèn- 
der€ aJi , nê menos quis deixar ficar nenhtl doente de 

LIVAO Ví. u 



164 JM HISTORIA PA IIUMA ^ 

muitos que jS/o oa armada, a que dera muyta parte d* 
aaude vereose em terra : & eles bem ho requererão ^ 
mas dSo lhes aproueiiou. £ daqui partio pêra Goa , & 
porque auia de desembarcar pêra ver a cidade, & fazer 
alguas cousas que comprião a serui<;o dei Rey , & fejr-r 
tas ir se a Cochim-, eocomeudou a goarda da frota a 
dom lorge de meneses, que ficou nela» E desembarca- 
do no cays de Goa foy rexebido coro a solemnidade cos* 
tumada : & aqui em Goa lhe fizerão queyxume de Pran- 
cisco pereira pestana , que estaua por capitão da forta* 
leza, de muytas injurias que linha feitas á major part^ 
dos cidadãos 9 & de muytas diuidas que deuia, que não 
queria pagar. Pelo que ho Viso rey lhe tirou logo aca^ 
pitania, & a deu a dom Anrique de meneses, dizendo- 
Jbe que compria a seruiço dei rey seruila, posto que 
fosse prouido da Dormuz. E a Francisco pereira máidpii 
bo prender pêra fazer justiça dele : & lhe fazia pagar o 
que deuia , com no mais outra proua , se n|[o com jura* 
mento do creedor, O que vendo Francisco pereira: ^ 
que muytos lhe pediSo mais do que deuia: mandou ler 
uar a casa do Viso rey onde ele estaua , esse dinheiro 
que linha: & pediolbe que não desse juramêto a ningu^ 
se Ilie deuia ou não, se não que mandasse pregoar que 
qutt quisesse dinheiro de Francisco pereyra que lho fos*' 
se pedir , & que lho mâdaria dar. E com tudo ho viso 
rey lhe fez pagar muyta parte do ^ deuia, porque do 
sua condição era muylo JMstiçpso: em tanto que sabõdp 
que forâo na frota duas molheres solteiras as mandou 
açoutar metidas ambas em hiia caga» £ isto porque fo* 
jão contra sua defesa^ ^ mandou apregoar em Belém 
antes que partisse pêra a índia : que nenhQa molher 
solteira fosse na arnvada sopena daçoutes, por euitar 
muylos peccados que se seguem de as leuarem como eu 
vi. E não aproueitoU' rogarem ao viso rey que não fize^^ 
se esta justiça, porQ estauão dous bomSs pêra casaf 
com aquelas molheres , & que não casarião se as açou- 
tassem | & não quis* £ também por lhe assi parecer 



LIVRO VU CAriTTLO UCTII. 166 

áienri defédec^ não Be recolheBse no spkitEl úe Goa tier 
Dhil dos doentes qi»e yão na frota, dizendo que el rey 
H9eu senhor nã tinha necessidade de ter na índia spiri* 
'tais : porqne auendoos se farião os homSs sempre doen- 
4e8, & pôr esta causa morrerão rouytos á mingoa, & 
*€n)tro6 que não tinbâo de que se mXter pedifio por amor 
•de Deos: o que aleli nSo se Tira na índia , & por isso 
fho estranhauão todos muyto. 

C A P I T V L O LXXII. 

De eamo ho viso rey chegou a Cochim^ ^ áo que fez. 

. J3I esta delê<{a que ho viso rey fez em Goa se lhe co» 
:roeçou htia doem^a de que despois morreo, & antes que 
«fosse em creci mento se partio pêra Gochim , deixando 
*por regimento a dom Anrrique de meneses que todofao- 
imem que ficasse em Goa & não fosse coele tirando os 
-casados & ordenados á fortaleza fosse riscado do«o]do 
:& do mantimento. E que de sua partida a dous meses 
todos os Portugueses que morauão no arrabalde fossem 
morar á cidade sopena de morte , & mandou aos de»- 
.'penseiros dos nauios de sua armada Q a cada dous ho- 
mês não dessem mais por dia Q hH arrátel de bizcoito, 
& mandou aos capitães dos naiiios dallo bordo que não 
deixassem meter ax^ada dous homCs mais (| bQa arcado 
comprimSto de hOa espada. E logo ao mar de Goa a- 
•chou dom Loys de meneses que ya pêra Goa esperar 
seu irmão, & leuou ho consigo pêra Cochim, Õde che- 
gou na fim Doutubro, & foy recebido cõ grande soljBni- 
•dade , & fat lhe entregeti lio doutor Pêro nunez ho offi- 
€10 de vedor da fazenda , em que auia seys anos que 
seruia, & polo el rey dom Manuel achar muyto bÒ, fiel 
& diligSte seruidor não quis mandar outro vedor da fa- 
senda despois que acabou os três anos, que he ho tem- 
*po costumado, antes ho deixou estar mais outros três 
tannos. £ porque ele lhe requnia liòBça pêra se ir por 

u 2 



lòB *JU HISTORIA DA ÍNDIA 

ser seu tempo acabado ^ ho deteue cõ rnnytas cartas de 
rogo, fauor: & fazendolbe rauylas meroes, & assi ho 
muvto afio & mujto poderoso rey dom loão nosso a^^ 
ttlKir, que a aiobos seruie.nioylo bem &, l^hes aproueitou 
s^a fazenda com muyla pnideneta sem lhes encarregai 
as GÕscienoías, nè escandalizar as partes, &donda daiw 
tea a pinafila <}uebraua em Portugal de trinta ale coren* 
ta quintais por cento, por a os mouros darem molhada, 
& cd muyta terra & área de meslura. Ele vÇdo isto Iba 
náo quis tomar,^ tu mãdou cbamar osChriatâos deCran- 
ganur que vendiâo esta pimenta aos mouros, & oom ^> 
lagos & dadiuaa & mayio boas obras i} lhes faaia feii 
coeles que não vendessem a pimêta aos mouros, ficllm 
tn>uuéasem pok>^ preço de mil & quinze ravcoflioestaua 
assentado t & eles iba leuauSo limpa & seear pda^^ue 
dali por di&te em todo aeu tempo não quebveu a^pimeih- 
ta em* Portugal maia <(^e a aete por eeeto, que^aõreefi»* 
tou^ muyto ao ganho da pimenta. Eassi secuia elrey enu 
lhe emprestar dinheíra por mintas veace j assi pêra a 
earrega ^ como pêra outras desfiesas , Sc assi em eoíraa 
ra^iytas eousas que nâo pude saber particuAarjuftte. O 1| 
sabendo ho vise rey, lhe fez muyta honrrá & fauor, & 
entregou ho officio de vedor da fazenda a; Afonso mexia 
que ho ieuaua de PortugaL 

C A P I T V L O LXXIII. 

De como Oeranimo' de smtsa foy goardar a coêta da íMqk 

X-^esembarcado ho viso rey em Cochim , porqne comeis 
çou dauer bandos antre os inuytos Portugueses queauia 
na cidade , mandou por escusar os males {| se deles se- 
guem q?ue ninguém desse mesa: do q«ie se seguio auer 
fome antre os soldados, assi por lhes ser mal pago seu 
soldo & mantimSto, como por auer na terra poucos mao* 
lirnStos. £ por esta causa he muyto neceisario darem 



LIVRO VI. CAPITVLO LXXIII, IW 

08 capitães & fidalgo» mesMi fiS se podem os soldados 
da índia sosler sem elas. E como a gente andaua indi- 
cada cdlra bo viso rey acabou toda de Ibe querer mal 
por tolher as mesas; & muytos por se liurareni dele se 
yâo pêra Cboramandel , & outras parles em ^ andauão 
JDra do seruic^ dei rey, & ate os mouros auião tamanho 
medo dele que tremião quando ho noroeauSo. £ tambfi 
^e yão deCocbim onde auia muyto tempo que morauão* 
£ esperando ho viso rey de ir sobre Calicut & destruy- 
-la pola guerra que el rey tinha cõ os Portugueses: & 
«m quanto acabaua algikis cotisaa mandou diante a goar» 
dar a costa a leronimo de sousa bu fidalgo de ^ faley 
nos liuros atras por capitão mór de b&a armada de na« 
uios de remo em que leuou trezCtos Portugueses* Eche* 
^ado leronimo de sousa sobre Calieut achou de dfitro do • 
firrecife corSta paraós de Malabares, de que era capi* 
tão moor bíl mouro que auia nome Cutiale de Capoca* 
tBy que (olhiáo os mantimentos que yâo por mar aa for- 
taleza. E auendo leronimo de sousa vista desta armada 
jfoy pelejar eoela, & começou ás bomhardadas: oô que 
também es mouros acodirfio loge come bemfis de feyto: 
& erão as bdbardadas tãtas de sua parte, que nunca ne«* 
jibA dos nauios da armada de leronimo de sousa pode 
aferrar nhfi dos cõlrairos por mais que nisso trabalhaí^^ 
vão. E assi esteuerâo duas ou Ires beras ate 1} sobreueo 
^ noyte q<ue os afiartou : & leronimo de sousa se deixou 
estar no mar com determinaijão de ao outro dia aferrar 
com os imigos* ou os fazer fugir, & assi bo disse aos ou* 
tros capitftes. E acordados nisto,, ao outro dra coolo a- 
manbeceo assi os Portugueses como os mauros tornarSo 
a come<;ar a peleja como ae dia dates. Porem os Porti»- 
gueses asst como lirauâo, assi remauifo pêra se chega- 
rem aos mouros: rompendo por antre aqueles pelouros. 
£ vendo os mowos sua. dle terminação, não ousarão des- 
perar com medo dòs Portugueses & foranse retirando 
pêra Coulete cÕ as proas neles, mas os Portugueses os 
.apertarão de maaeyra que virarão as popas « fogirãc^ 



1 68 WL HffTOXf A DA INDTA 

quanto podiSo, & com a pressa de fagÍKiO nlo poàerMa 
tomar Coutete & passarão a Cananor : & os Portug'! 
ses que os seguião os acabarSo ali de desbaratar 
muylo grande dftoo de mortos & feridos & paraós ar* 
rombados , & os outros forSo varar na praya de que a 
gente fugio pêra a cidade, cujos mouros fiMrlo mwfto 
tristes , por terem persuadido a el rey de Cananor €f9» 
cercasse a fortaleza : que vendo esta vitoria detistio 
dessa determinac^âo. E leronimo de sousa desbaratados 
os!migo8, âdou goardftdo a costa : Vfsitftdo ás vesea a 
fortaleza de Calicut , & prouendoa da mfltímClos* 

C A P I T V L O LXXIIÍL 

De duas grandes vitorias que dam lorge ítío ouue do9 

mouros de Cedicul. 

vyomo os mouros do reyno de Galicut andassem tfto 
dissolutos como disse atras polo pouco medo que auido 
aos Portugueses, nS lhes abastaua ieuarem^a M«ca qvXr 
la pimenta ieuaufio, mas ainda essa que lá nâo podiãt> 
leuar leuauSo aCambaya, & cada dia passauão c5 mujr* 
to grande soberba a vista da ilha de Goa, 6de nfto auia 
qu6 lhes contrariasse, porque hfi Luys machado 6\ko 
do doutor Lopo darca que tinha agoarda daquela^cot- 
ta, leuarao ho viso rey a Cocbl, & por isso nflo auia 
quem cÕtrariasse aos mouros: do ^ dô Anrrique de me- 
neses estaua miiyto agastado & ò auia por grande inja- 
■ria. E estando assi foy hi ter bSí mercador ê htta* fusta, 
que lhe dd Anrrique comprou, & armada darlelbaria, 
& fornecida de gente mSdou neiapor capit<o a dôlorfe 
telo seu sobrinho fílho de dd loâo telo, que fosse espe» 
rar os paraós de Malabares que y*ão com pimftta peca 
Cambaya. Ecomo dõ lorge eva faii dos esforçados & va- 
Ifites caualeyros que naquele tempo andauSo na índia, 
assi cõ tão pouca eouaa como era aquela fusta em'j)<idar 
«ta, começou da fazer ^ntir aos mçuros que andauafb 



LIVRO VI. GAP.ITVl.a IfXXUIK 169 

por aquela paragem : & como ya quantidade deles com 
que se atreuia perseguiaos áa bombardaijlag, & a hfls ar- 
rombaua ao lume dagoa, a outros desapareibaua de mas- 
tos & dôxarcias matando em. ^odos & ferindo &Hi|}'la gen« 
te: &como virauâo a ele facilmSto ^e li^^ €S<;oaua dan- 
ire as mãos pola ligeireza da fusta* £ sabêdo os mou- 
ros de Calicut como dom Igicge ali andaua, determina- 
rão, de ho tomar: pêra q que armarão trinta & oylo pa- 
raós que carregarão de pimenta & de. gête, & por ca- 
pilap mór htt mouro chamado China cuiiale pêra tcm^r 
dom lorge ^ que a este tempo trazia ja duas fustas & 
ires bargantios, a cujos capitães não soube os nomes, 
& traria nestas cinco velas ate sessCta bomSs os mais 
deles espingardeyros. E andando aos ilbeos queymados 
jfoy China cutiale ler coele com toda sua armada: & 
porque não pude salpief a maneyra que dom lorge teue 
«m dar a batalha aos mouros ho nã digo se não em sc^ 
IDa> que com esfor^D sobre natural os cometeo, & cõa 
ajuda de nosso senhor os desbaratou matando os Portu* 
gueses muytos mouros em sete paraõs (| tomarão carre- 
gado^ de pimfila & dar^elharia ^ & dous que fizerão dar 
á costa & os outros tugirão, & dos Portugueses não 
«norroo nenbú & for^o algus feridos, i^ reçolbepdo dun^ 
Jorge oa sete paraós que (ompu se foy coeles a Goa : & 
deixada ali i^ presa se tornou ao mar, onde dali. a aU 
gua dias topou com hOa nao de mouros de Calicut , em 
cuja goarda yão noue paracis muyíç i>em armados darte-í 
Ihafia íl fornidos de gente, & dom lorge pelejou coeles 
& matou com os seus lantps do^ nioHros qiie vararão c5 
08 paraós em terra ^ de que dom lorge tomou ires. £ 
também tomou a fiao Q «àa se podo ssluar, & coeta & 
com os paraós se foy a Goa , onde foy mu} to festejado 
oor duas vitorias tamanhas: de que os mouros do Ala- 
lubar ouuer^p tamanho medo l| n^o ousarão de tornar 
tãp asinhii ao mar; íicr assi ço^aeçarão 4p i^V^w os t^t>f- 
iLVguesep, 



Í6Ó DA HISTORIA DA INDf A 

C A P I T V L O LXXV. 

De como crecendo a doença do viso rey encomendou a go^ 
uernança a Lopo vaz de sam Payo capitão de Cochim. 

xV-percebedose ho viso rey pêra ir a Galicut , creceo- 
Ihe tanto sua doença que lhe tolheo enlSder nos negó- 
cios da gouernança: & por isso a encomSdoii a Lopo 
vaz de sam Payo capitão de Cochim , porque tinha ne- 
le confiança que ho faria bem. E também por^ com a 
autoridade de sua pessoa & de seu cargo , apaciíicasse 
as dieCsÕes que se começauão antre dom Luys & dÕEs- 
teuão da gama filho do viso rey que era capitão mordo 
mar sobre a gouernança da índia, porque dizia dom 
Luys que vindo seu irmão dom Duarte ele auía de go« 
uernar a índia & não outrem poi« era gouemador: & 
que nã se auia dir pêra Portugal em quanto ho viso rey 
esteuesse doente, porque se morresse ficaria gouerna- 
dor como dates. E coroo a gente da índia era afeiçoa- 
da a dom Luys tomaua por ele bando coníra a que foca 
aquele anno de Portugal qiie era com dÕ EsteuSo, que 
dizia que não auia de gouernar se não quem ho Viso rey 
quisesse, & que dom Duarte se auia dir pêra Portugal 
como chegasse Dormuz: & sobristo auia ajuntamStos & 
perfías , a que Lopo vaz de sam payo acodia corrSdo a 
cidade de dia, & de noyte : & impedia não auer brigas. 

C A P I T V LO LXXVL 

I}e coino dom Duarte de meneses^ chegou a Cochim. 

JCintre tanto que isto passaua na índia, ho gouernador 
dom Duarte de meneses que estaua 6 Ormuz se partio 
pêra a índia , & sem lhe acontecer cousa que seja de 
contar foy ter a Chaul , onde Cristouão de sousa poIe 
regímêlo que tinha do Viso rey nao consentio quesayssa 



LIVRO VK CAPITVLO LXXVI. 161 

'em terra : & assi lho mandou dizer : & em Goa lhe acoQ- 
teceo ho mesmo com dÕ Anrique, pelo que se foy. aCo«- 
chím. E sabendo ho viso rey como estaua na barra lhe 
mandou logo mostrar a prouisam de Viso rey da índia 
per Lopo vaz de sampayo, & lhe mãdou por ele hua 
carta messiua Q lhe leuaua dei rey de Portugal : & assi 
lhe mandou que em seu nome lhe pedisse entrega da 
índia 9 porque por sua doença lha não ya tomar , nem 
ele dõ Duarte podia ir a terra darlha, por el rey de Por- 
tugal Jhe defender que nSo desembarcasse por ho auer 
assi por seu seruíK^^ & que do mar dondestaua se po- 
deria prouer do necessário : & roSdou com Lo|x> vaz de 
aâo paio 9 Afonso mexia, vedor da fazenda , & ho licS- 
ciado lohão de soiro ouuidor geral da índia. £ chega* 
dos a dom Duarte , Lopo vaz de sam payo lhe deu a 
caria mesgiua dei Rey de Portugal que dizia. 

X^om lohAo per gracja de Deos Rey de Portugal , & 
dos Algarues, daquem, & dalém mar, em Africa, se- 
nhor de Guiné, & da Conquista, Nauegacáo, Comer- 
cio, de Ethiopia, Arábia, Pérsia, & da índia. Faze- 
mos saber a vos dom Duarte de meneses capitão, & go*- 
uernador da nossa cidade de Tangere, & nosso capitão 
mór, & gouernador nas partes da índia: que nos vos 
screuemos por outra carta, que auemos por b8 que vos 
venhais ft bóra pêra estes rey nos nesta armada. Porem 
vos mãdamos que tanto que vos esta for apresentada i 
entregueis a dita capitania mór, & gouernança, a dom 
Vasco da gama conde da Vidigueira, & Almirante do 
mar Indico, () enuiamos por nosso Viso rey a essas par- 
tes da índia: & não vsareis mais da dita capitajiiamór 
& gouernamja , nem das cousas da justi^^a , & de nossa 
fazenda, nem doutra algOa de qualquer qualidade & 
condição que seja que ao dito carrego toque & |ierten^ 
ça, & que dates vsaueis por virtude do poder, jurdic^ão, 
& alçada que lioheis , porque auemos por bem & nosso 
Livao VI. X 



162 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

seruiço, como por oulra carta vos escreuemos, que lio 
dito viso rey seja logo melido de posse de tudo j & vse 
logo do poder, jurdiçSo & alçada que leua per nosam, 
caria pntSte, sem mais vos entenderdes ein cousa algQ». 
Porem declaramos que ho tempo Q esteuerdes na Índia 
ate vos abarcardes possais estar eni Cochi ou S Caoanor 
qual vos mais aprouuer, & que acerca de vossos cria- 
dos & pessoas de vossa casa , & dos criados do conde 
▼osso pay que conuosco forão , & dos criados de dom 
Luys vosso irroáo, & de vossos cunhad4)S & pessoas 
suas: que ho dilo conde não entenda coeies em maney- 
ra aigQa, nem tenha sobreles nem sobre cada bii deles 
inãdo nem jurdiçâo & alçada que tínheis pela carta de 
vosso poder & alçada : resaluando porem que se vos ou 
os tais por algíias pessoas assi nossos naturaes cómodos 
mercadores da terra, & quaesquer outros de qualquer 
estado & condição que sejào, que lá ouuerem de ficar 
& nS ouuerem de vir nesta armada em que vos aueis 
de vir fordes requeridos^ citados & demandados, assi 
em casos ciueis como crimes vos possam a vos & a eles 
demandar perante ho dito cõde & ouuidor que coele ha 
de (içar, & não perante vos pêra se fazer comprimento 
de justiça. E sendo caso q quando ho dito conde che- 
gar á índia vos não ache nela por serdes fora dela apro<* 
uer algiias cousas de nosso seruiço: neste caso auemos 
por bem que ele dito conde vse logo inteiramente de to* 
do poder, jurdiçâo & a]ç<'ida que de nos leua como faria 
se vos achasse, & vos apresentasse esta carta peraihen^ 
iregardes a capitania moer & gouernança, por^ assi ho 
auemos por nosso seruiço, & sendo caso que por impe- 
dimento de doença vos dito dom Duarte vos não possais 
embarcar & vir nesta armada & ficásseis na índia: nes*- 
te caso auemos por bê que vos fiqueis , & vos recolhais 
com todos vossos criados & pessoas de vossa casa & 
criados dos sobreditos vosso irmão & cunhados que fica- 
rem conuosco em a nossa fortaleza da cidade de Gana-» 
Dor: & que esteia nela ate a vossa partida da índia & 



LIVAO VI. CAFITVtO LXXVI. IGZ 

úcis de^todoho poder, jurdiqãò & alçada ^ tendes de 
caj>Ttão moor & gouerDador da índia aobrelea, & sobre 
ho capitáo , alcayde moor , feytor & escriufies da feyio* 
ria da dita fortaleza. Ede todos seus casos ciueis &cri« 
tnes conhecereis & os julgareis como vos parecer jusli* 
ça , sem sobre os ditos nem sobre cousa sua que lhe to* 
que que seja dantre partes bo dito conde poder vsar do 
dito officio de viso rey, nem poder, jurdi<;ã & alçada 
que lhe temos dada, por^ queremos que tudo fíque a 
vos dô Duarte ate a vossa partída da índia , & manda- 
mos ao capitão, & ao alcayde moor, feytor &escriuSea 
da feytoria & a todas as pessoas que temos ordenadas 
f)a dita fortaleza deCananor que vos obede<;âo, & cum- 
prSo vossos requerimentos & mandados como a nosso ca- 
pitão moor & gouernador sobre as penas que lhe poser* 
des, assi nos corpos como nas fazendas: as quaes aue- 
mos por bem que deis a execu<;ão naqueles que nelas 
emeorrerem segundo forma do poder, jurdição iSc alçada 
l\ vos temos dada, & he cSteuda na carta do pí>der de« 
ta. E assi auemos por b6 ^ se entenda & ho façais no 
<:aso {} vos fosseis fora da índia por nosso seruiço, & 
viésseis a ela despois da partida das nãos pêra estes rey- 
nos, desta armada l| leua ht> dito viso rey pêra Irazerfi 
as especiarias, na qual vos aueis de vir. Resaluando 
por8 que bo dito poder & alçada que vos damos sobre 
todos os ajcima declarados se não entenderá em cou^a 
que to^ a nossa fazenda & tratos da índia: porque no 
que a estas causas tocarnão aueis de enlSder, nem vsar 
da dita alçada, & poder que vos deixamos nos casos so* 
breditos, por^ isto ha de ficar ao dito viso rey pêra ne- 
les fazer como vir que he justiça & nosso seruiço, & 
vsar de todo seu (>oder & alçada. R da entrega qae aò 
dito visorey fizerdes da dita capitania mor & gouernan- 
ça , como por esta vos mandamos cobrareis estormento 
pubrico, em que se declare as nãos & nauios que lhe 
entregastes, & a artelbaria & armas que anda neles, & 
assi as fortalezas & armas & artelbaria & mantimentos 

X 2 



164 BA HIBTOftlA DA ÍNDIA 

que nelas auia ^ & gente que andaua neaaas partes , & 
declarando a sorte & qualidade dela, & todas as outras 
cousas que ao carrego de capitão mór & gouernador to- 
carè pêra todo podermos ver* E como assi lhe entregar- 
des a dita capitania mór & gouernançai & cobrardes ho 
dito estorinento da dita entrega no modo que dito he^ 
vos auemoB por desobrigado de toda a obriga^^ao era que 
DOS sejajs pola dita capitania mór & gouernança: &vo8 
damos por quite & liure dagora .pêra em todolos tem- 
pos. E esta carta per nos assinada & asselada do selo 
redondo de nossas armas c6 ho dito eatormento tereis 
pêra vossa goarda. Dada em a nossa cidade de Euora 
a XXV. dias de Feuereiro. Berlolameu feroandez a fe%^ 
anno do nacimento de nosso sentH)r lesu Gliristo de mil 
& quinbetos & xxiiij. 

C A P I T V L O LXXVIL 

Ih como dó Duarte dé meneses entregou a índia a Lopo 
voz de Mm payo em nome do viso rey : ^ de como ho 
viso rey faleceo. 

V ieta por dom Duarte esta carta , & assi a outra § 
lhe e) rey escreuia, Lopo vaz de sam payo lhe deu ho 
recado do Viso rey que não desembarcasse, do que se 
dom Duarte agastou rouyto: & disse a Lopo vaz que 
não deuera de ser ho messageiro daquele recado, poys 
ho conde prior seu pay fora o que ho armara caualeiro : 

{lelo que nâo podia ser controle, nem conlra cousas suas. 
i lofK) vaz se desculpou cõ aquilo não ser cõtrele pois 
era seruiço dei rey de Portugal, cujo vassalo ele era. E 
sobre a entrega da índia teue dõ Duarte muitas duui« 
das, parecendolhe Q por ho viso rey estar tão doSle po- 
deria morrer, & ele ficaria ainda gouernador da índia: 
£ acodindo hoouuidor geraJ a estaa duuidas per via de 
seu officio dõ Duarte lhe chamou bacharel. £ ho ouui- 
dor respondeo que Bacharel & doutor & cauaieyro o auia 



LlVfiO VI. CABITVXX> uoLmu I6S 

ele dacbar p0ra o que cemp^iste ao seruíço de> rey. A a 
que Lopo vaz de saai Pajo acodio coid ho vedor da fa« 
senda, estraobàdo a dò Duarte oiqiie fazia. t£ despoie 
de Unias aa duuidaa que poe, entregou a índia a Lopo 
Vaz de 'aam Pay.o & ao vedor da fazenda y em nome da 
TÍ80 rey, & ho vedor da fazenda lhe deu h& pubrico es* 
tormento de conhecimenlo assinado polo viaorey & por 
testemunhas i^ue dizia. 

^aybfto quantos esle eslormento de conhecimento, vi« 
resa : que no anno do .nacimSto de nosso senhor leso 
Christò de mil & quinhentos & vinte quatro anos, aoa 
quatro dias do mes^de Dezembro do dito anno, em a 
cidade de santa Cruz de Cochim S ia fortaleza dei íley 
Dosso sebbor : estando hi« dom Viaaco da eama conde, d» 
Vidigueira , plmirante do mar indico, & viso rey das 
índias : disse qfte eie.xeoebia de dom DuaHe de mene-« 
ees gQuernador que foy nelas antes dele viso rey a .go- 
uernfi^ das ditas Índias do tempo que a elas chegou & 
as começou de gduernar , segado por suas prouisões & 
patentes Ibe era .manitado por el .Rey nosso senhor qua: 
as recebesse & gouernasse» As quaes. índias ele réce< 
beo, & disse ter recebidas, assi & da maaeyra que esr 
achoii & elas. agora estSo : & se ouue por obrigado de 
dar conta delas a sua alteza 9 &jouue por desoDrigad<» 
ao dito dom Duarte da obrigação que tinha de dar con- 
ta delas. £.ém testenbunho. de verdade lhe toandou delo 
ser feyto este estormento do recebimento delas. Teste- 
munhas^ estauXo pres^ites Lopo vaz de sam Payo, ea^ 
pitão desta fortaleza, Fernão martinz desousa, dom 
redro de Castelo branco, Afonso mezia vedor da fazen»- 
da da índia , Pêro mazcarenhas : & ho licenciado loãe 
de soiro ouuidor geral da índia» £ eu loSo nunez escri* 
uAo pobrico na dita cidade* por especial mandado do di'- 
to senhor viso rey qiie eMoescr^ul, & aqiUH meu sioat 
pubrico fiz. 



16 A . 1»A HiaTORTA: OA ÍNDIA 

J^ntiíeg4je d9 Duarte deste conheoiíiiMp, toraouse 
Lopo vaz de «ã Payo com os outros peraCockim ^ oDdo 
se também tornou* dom Luys de meneeea írrofto de doin 
Duarte , Sc disserão que pêra estar lá com eor de <e far* 
zer prestes pêra a Tiagfi de Portugal, mas que a verda^ 
de era pêra que se ho viso rey morresse a possarse da 
goaetfis^nça da índia peca dõ Duarte pois ele nâo podia 
lá estar. E sendo Lopo vaz de saiu Payo certificado di»» 
to, polo deseruiço de Deos & dei Rey que disso se po- 
dia seguir se foy a casa de dom Luys cõ ho vedor da 
fazenda & ho ouaidor geral , & lhe pedio muyto cortes-» 
siête que se embareasse iogo, porque asst eompria a 
aeruiço dei Eley. B porque dom Luys JiSa* queria y ^ke 
mâdou. da parte dei Rey de Portugal que.ae embaroaa^ 
so, se não que ho faria embarcar: entâoae embarcou 9* 
Sc ctíisso^ eessarâb mtiylos aluoròços/que se ordeaauSo« 
£.porque'fao viso rey sabia isto: & vôdo que^crecUrsea 
mal, & que desesperauâo de aua saúde &i vídaj nSoquia 
4per "sua morte ouui^sse a^íia reuoHa ate o abrir da» 
raoeg^ões: & por isso pedio á^ todos^os fícialged &^ capí-^* 
tães que ob^ocessem por gouernador a Lopor va^ de^ 
aaiQ payo.aLe Qiòssem .abertas c ii^eles Iht» promieiavto. 
E despois disto faleceo ho Viso rey em véspera de na«^ 
tai do anno de mil •& quinhentos í& vintef quatro-: fazS-» 
do todos oa autosde verdadeiro & fielGhrtàtâo^^ & foy^ 
enterrado na See de Cocbim. 

C A P I T V L o LXXVIII. 

De coma foy aberta a primeira subce9sam : em ^ ^ »* 
> chou dom Anrique de meneses por gcmemadfn'. 

Xjí logo ao dia seguinte despois de missa ajuntarSse n« 
see de Coehim 6om Lopo vaz de sam payo, ho vedor 
dafazenda , ho ouuidor^geralt & assi todos os fidalgoÉ, 
eapitaes, & o«tra geate honrrada, pêra se abrir a pri« 
^eira subcessam : & logo a mostrou ho vedor da fazea** 



LIVRO VI. CAFITV1.0 JLXXVIII. 1G7 

da garrada cd cinco sinetes: & dezia. Esta prouísam 
mfldaiDos que se abra falecendo ho c&de almirante do 
Vasco da gama viso rey da Índia, que nosso senhor nâo 
mande. E isto era assinado por el rey. £ aberta esta 
prouisam leose em vo2 alta polo secretario: & dezia. 

Noa el Rey fazemos saber a todos os nossos capit〻s 
das nãos & fortalezas da índia, capitães das nãos & na- 
uios ^ vão pêra vir com a carrega pêra estes reynos, fi- 
dalgos, caualeiros, gele darmas, que trazemos n.is di- 
tas partes da índia: & a todas & a quaesquer outras 
pessoas & officiaes a !\ este nosso aluara for mostrado: 
que nos pela muyta oõtíança Q temos de dõAnrique de 
meneses fidalgo de nossa casa , que nas cousas que bo 
encarregarmos nos sabem muy bem seruir, & dos d<')ra 
de si toda boa cõta & recado» Queremos & nos praz 
que falecendo dom Vasco da gama conde da Vidigueira 
& almirãte domar indico nosso viso rey da índia, que 
nosso senhor não mflde: bo dito dõ Anrique suceda Sc 
entre na capitania mor & gouernãça da índia pêra nos 
nela seruir cÕ aquele poder, jurdijção Sc alçada ^ tinha*- 
mos dado ao dito viso rey. PorB volo notiticamos assr, 
& vos mãdamos a todos em geral , & a cada bii em e^ 
picial, que vindo ho dito caso ho vecebais por vosso- ca^ 
pitão mér & gouernador nessas parlei, & llie obedè^ 
^aeis, & eumpraeis seus referimentos & mandados, assi 
como ho fazieis ao dito Viso rey, & como sois obrigados 
de o fazer ao nosso capitão mor & gouernador , & em 
todo ho deixeis vsar do poder , jurdiçâo, &al<;ada, que 
ao dito Viso rey tinhamos dada por nossa caria : sem 
duuida ném embargo á elo |>oerdes, porque assi be nos- 
sa mercê : & de ho fazerdes assi bem como de vos es- 
peramos, fareis ho que deueis & sois obrigados, & vòlo 
teremos muyto em seruiço. Feyto em Euora a dez de 
Feuereyro , ho secretario ho fez , de mil & quinhStos & 
vinte quatro. Eeste aluara era assinado por elRey dom 
loão de Portugal. B com qoanio dd Anrrique foy auido 
por gouernador de quantos ali estauã^, pola promessa 



1H8 DA HÍSTORfA DA INDÍA 

4 íizerSo ao .viso rey ^ não deixarito dobedecer por go^ 
uernador a Lopo vaz de sam Payo ate que dom Anriquo 
viesse de Goa, que logo mandarão chamar, & mandou- 
Jhe Lopo vaz de aam Payo hCla gale solil com duas fus- 
tas & dous barganlis em que viesse. E assi foj dom 
lorge de meneses capitão do galeão sam leronimo. JB 
Lopo vaz de sam Payo ficou fazendo prestes as nãos ^ 
auiâo dir pêra Portugal que erão cinco, & teue bS que 
fazer em soster Cochim em paz , porque auia nela pa8« 
sante de quatro mil homfis Portugueses em (| auia par- 
cialidades pola imizade que auia antre dom Duarte & 
seu irmão com os 6lho8 do viso rey que hi estauão. E 
por esta imizade auia também outras antre algfls fidaU 
gos & caualeyros (| erão de cada hQ destes bãdos : & 
porque de noyte não fizessem algil mao recado de pele- 
jas, Lopo vaz de sã Payo nã dormia nenhita: corrBdo 
a cidade com ho ouuidor geral , & acôpanhado de muy-* 
tos homês armados. Ede dia também atalhaua a brigas 
com palauras corteses y de maneyra que nunca em ta* 
manho :aj^fltamenlo as ouue: & em quanto forão cba*^ 
inair dom Anrrique de meneses, mandou por capitão 
mór de iiQa armada ás ilhas de Maidiua a bO fidalgo 
•chamado Simão sodré, assi a fazer presas, como pêra 
dar goarda ao Cayro q-ue dela vinha: & assi mandou a 
Ormuz quatro nãos carregadas de fazenda dei Rey do 
Portugal pêra a feytoria, & fez capitão mór António de 
.miranda dazeuedo de hiia armada que mandou ao cabo 
deGoardafum pêra fazer presas, que assi ho tinha ho ví- 
ao rey ordenado, & leuou (res galeões & hQa carauelas 
&L dos galeões forão capitães ele, Ruy pereyra, Fernão go* 
•mez de lemos. E mandou em h& nauio doy tenta toneis a 
Fernão martinz de 8ousa(| fosse buscar breu a Meliode. B 
despachado tudo isto ale vinte delaneyro, parliose lam- 
bem dom Duarte pêra Portugal com cinco nãos: & anão 
em que ya dom Luys de meneses desapareceo no cami* 
nho, que nunca se mais soube dela, &dom Duarte chegou 
a Portugal com as quatro &foyse perder em Cezimbraom 
onde a sua deu á costa. 



LIVRO VI. CAPITVLO LXXtX. |«9 

CAPITVLO LXXIX. 

De como dó Anrriq sabendo aue era qimemador^ se par^ 
tio pêra Cochim : ^ ao que fez primeyro. 

\Js capitães ^ leaauãa ho recado a dÕ Anrriqne deco^ 
mo era gouernador chegados a Goa lho derâo, com que 
ele deu mujlas graças a nosso senhor pedindolhe ^ fos- 
se pêra seu seruiço: porem aqueixouse de Lopo taz de 
sam Payo, & do vedor da fazenda quãdo soube das ve« 
las que linhSo despachadas pêra fora auSdo na índia tâ* 
ta necessidade delas , & da gSte que leuauâo por amor 
da guerra deCalicut & doutros reynos. & tâbS se quei- 
xou de lhe nSo mãdarS toda a armada que estaua em 
Cochim pêra se defender de quStos paraós de mouros 
andauSo peia costa: quã(o mais 2[ de caminho quisera 
darlhe busca, & (} lhe pagarão ho mal t\ tinháo feylo 
aos Portugueses : & a{)08 estes capitães () yão por dom 
Anrrií} chegou a Goa hij Sbaixador de Meli{)az pêra ho 
viso rey. E este era hii mouro (} auia nome Cidíale, & 
cõ a gente Q ho acompanhaua ya em seys atalayas das 
de Meli^nz : & este embaixador mâdaua Meli()az pêra 
descobrir se era ho vfso rey assi como soaua a fama , 
porque assi como visse assi faria: mandandose lodauia 
oOerecer por seruidor dei Rey de Portugal , & desejoso 
de sua amizade, & em sinal disso lhe mSdaua htl pre- 
sente de peças darmas , cubertas de caualos & outras 
cousas ricas. E sabendo Cidiale ij ho viso rev era faleci- 
do & dÕ Anrrique lhe sucedia, deulhe a embaixada que 
jeuaua, & quiseralhe dar ho presente, i) dom Anrrique 
não quis tomar, escusandose Q nflo ya parele. E quãto 
á embaixada disse Q despois responderia : & isto jiorQ 
bem entendeo a tenção de Meliqueaz l\ era descobrir 
terra, & tambS port) não queria ter paz coele por ele 
mesmo a ^brar em t&po de Diogo lopez de siqueyra & 
desejaua de ho castigar por isso: & mais porque soube 

LIVRO VI, Y 



170 ]>A HI6TOSIA DA INM-A * 

de doQ8 Portogueses i^ yão com Gidiale 9 á saa partíd» 
de Diu ficauSo hi duas naoi carregadas de madeira qu^ 
IMeliqueaz mSdaua a ludá pêra reforma<^o das gaiés 
dos ruoies 9 bi eslauão. E nS qilerêdo dd Anrrique cie* 
clararse cÒMeliqueaZt se não vsar de manhas como ele 
Ysaua : delerroinou de nã respõder ao seu êbaixador & 
delelo tãto sAe"!^ se enfadasse & se fosse sem reposta y 
& leualo a Cocbim. E isto assentou com conselho de 
Frãcisco de sá, Eylor da silueira^ António da siiueira 
& outros fidalgos. E porque as nãos da madeira ^ esta- 
uSo em Diu pêra ludá lá não fossem, mãdou logo a dous 
capitães de dous nauios Q estauão no porto de Goa Qse 
fossem a Ghaul & dissessem a Manuel de macedo {| hi 
estaua 1) se fosse coeles em ho galeão em Q andaua, & 
também a bQ capitão de biia carauela , & 4 ^^os qua- 
tro fossem esperar as duas nãos de madeira que yâo de 
Piu pêra ludá & as tomassem, porque não se desse aos 
fumes tamanha ajuda como aquela era. Elogo estes ca- 
pitães partirão, Sc dom Anrrique deu logo a capitania 
de Goa a Francisco de sá por ser ha fidalgo ãtígo na 
Índia, & de muyto seruiço & bomõ de grade confiãça. 
£ têdo prestes sua partida pêra Cochim , se partio 8 
duas galés & bfla galeota, & se não ibra leronimo de 
Sousa que se foy a Goa pêra o acõpanhar cõ algils pa* 
raós () trazia darmada na costa do Malabar ele fora b& 
singelo: purS nessas velas ^ leuaua ya bê acõpanhado 
de fidalgos & de caualeyros, & assi ya coele Cidíale 
nas seys atalayas, mas este o acdpanhou pouco: porq 
logo ates de ctiegarfi a Battsalá se fi)y pêra Diu sê Jicê- 
ça de dd Anrri^, & foy dizer a Meli4az tais cousas ^ 
ele não quis mais falar em paz« 



LIUSO VI. CAFITVU) LXXX. 17 i 

« 
• t 

C A P I T V L o LXXX. 

« 

De como âó Anrriq de meneses pelejou com hda armada^ 
. de Calicut ^ tomou dezoito paraós^ ^ de como m&Jem 
enforcar Mamele em Canmior. 

J? azSdo òò Anrríi} sua viagê hila manhaã Q seCideale 
achou meoos fora ouuidoB na frota muytoa tiros de bd* 
bardadas , & estes tirauão trita paraós de mouros MaJa*^ 
bares l^ tinbão cercado dõ lòrge de menesea em hil ga* 
leão em ^ eslaua na barra de Baticalá , & trabaibauSo 
polo meter do fundo & ele se defSdia muyto bS: & co* 
roo dõÂnrriQ ya perto chegou logo: os mouros ^ ouue- 
rão vista dele como tinhâo perdido ho medo aos Portu- 
gueses deixarSo ho galeão & fizerãlhe rosto desparãdo 
sua aftelharia & os Portugueses fizerão ho mesmo. £ 
porl) particularmête não pude saber como foy esta pe* 
ieja, não direy mais se não í\ os mouros forfio desbara- 
tados & perderão dezoyto |>araos ^ os Portugueses to* 
majrão cõ muyta artelbaria & catinos, a fora outros Q 
fprão metidos no fQdo , & forão mortos muy toS mouros 
& dos nossos algtts feridos. £ prosseguindo daqui dom 
Anrri{| pêra Cananor achou António de mirada {} ya 
pêra ho cabo deGoardafum, & por lhe parecer assi ser- 
ui<jo dei Rey de Portugal lhe tirou os capitães Q l^uaua 
& mãdou ^ (içassem na índia saluo ho dacarauela^ com 
2) mãdou {| prosseguisse pêra ho cabo de Goardafum & 
lá ae recolhesse á sua bandeira os quatro nauios {| tinha 
mãdadoa a esperar as duas nãos de madeira Q auião dir 
de Diu pêra luda^ & c5 as outras velas se foy a Cana-« 
nor: onde desembarcado soube do capitão da fortaleza 
como tinha preso JMamale ho mouro !\ disse no liuro 
quinto 4 el rey de Cananor por dissimular entregara 
preso na fortaleza : & li} sabia certo ^ el rey ho auia lo- 
go dir ver pa/a lho pedir por muyto dinheiro Q lhe ca 
outros mouros . de Cananor dauão por isso. £ sabendo 

y 8 



172 ,I>A HISTORIA DA INOU 

'dom Aorrique a teD<;ão