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Full text of "Historia do descobrimento e conqvista da India pelos Portvgveses"

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t3Ò2) 



t' 



HO SEITIMO LIVRO 

D A 

fflSTORIA DO DESCOBRIMENTO 

conqvistI da índia 

PELOS PORTVGVESES. 

Feyto par Femô Lopez de Castanheda. 
Com priuilegio Real. Iôõ4. 



HISTORIA 

DO 

DESCOBRIMENTO 

£ 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS 

PORTVG VESES 

F O B 

FERNÃO LOPEZ DE CASTANHEDA. 



NOVA EDIÇIO. 



< * 



LIVRO VIL 



LISBOA. M.DCCC.XXXm. 

NA TTPOORAPHIA R O L I. A N D I A N 

POR ORDEM SUPERIOR, 



PROLOGO 

NO SEYTIMO LIVRO DA HISTORIA 

do descobrimento & conquista da índia pelos Portu* 
fiieses dirigido ao muyto alio & novyto poderoso Rey 
dom loão ho Terceiro deste nome nosso Senhor, Rey 
de Portugal & dos Atgfarues, daq»em & daiem mar em 
Africa, senhor de Guiné & da conquista ^ naueeação 
& comercio de Blhiopia , Arábia, Pérsia & da India« 

Por Fernão iopez de Castanheda. 

i^entença be de Túlio nas suas tusculanas, muyio alto 
& muyto poderoso Rey nosso senhor 2| a hõrra cria as 
artes & desejosos da gloria d^virtude, nos acendemoe 
pêra a ganhar. SentSqa verdadeiramSte muyto digna de 
8er notada pr\ncípa\mente dos príncipes & dos senho* 
res : porque se e/es nilo fauorecerem com hôrras & mer- 
cês as boas cousas que seus vassafos fazem, as8\ nas ar- 
mas, como nas letras: como era qualquer outro género 
de cilícios virtuosos com que a repubrica he ilustrada, 
não auerá nhQa pessoa que se de a eles, nem os siga« 
E por^ nos tempos antigos, as fac^anhas nas armas, á 
sciencia das letras, os singulares eng^enhos nas artes 
macanicas: se estimarão tanto dos príncipes & das re« 
pubricas em que se fazíSo, & se galardoauão muyto b6 1 
Ouue antre os Gregos, &.antre os Româos, & Atre os 
Bárbaros tantos & tão singulares capitães: tão esforça^ 
dos caualeyros, tão excelentes sábios & letrados de tan- 
ta erudição, & officiaes tão perfeylos em todas as artes 
macanicas, como largamSte contão as historias antigas 
& modernas, com que deixo dalegar por breuidade. E 
despois.que este fauor de hÕrras & mercês cessou de se 
fazer antrestas nações, aos que forão excelentes nas ar- 
tes que digo se forão elas perdendo, que nem cuue mais 



€a|>ti3e6 , nem cantil^jres , & fafecefSo o9 «•bm & Je- 
trados: nem ouue mais officiaes que nas artes roacani- 
cas se prezassem de ierem a6 perfeições que os ajriligos 
teuerão. E conhecendo V. A. isto Príncipe prudentissi* 
mo, desejando dennobrecer seus rejnos & senhorios, 
Irabalba tanto coAi sua suprema liberatidade de fater' 
mercês aos bornes que em todas as artes que digo sam 
singulares, pelo qiie mtjytos trabalhão por ho serem se- 
ias: & por isso t«m V. A. tanta copia deles, não so- 
mente seus naturais mas estrangeir<is , que de muylo 
longe correm à fa4i>a de suas mercês grandíssimas, O 
que também me deu animo pêra sair cõ a mostra de meu 
engenho, & trazer coele a luz : cousa de tanto seruiço de 
V. A. & honrra de setjs reynos cofno he estA historia do 
descobrimSto & conquista da índia pelos Portugueses. 
Cousa de tanta admiração & tão digna de se pubricar , 
que quSdo a Rayaha nossa senhora vio bo primeyro li« 
uro, disse a dona JMaria de noronha que Ibo deu. Que 
cousa tamanha como aquela , mais cedo se ouuera de 
pubricar , & nao ouuera destar escondida tanto tempo, 
& de ser auida por muyto miraculosa nos reynos estran* 
geirosr be impressa parte dela em Frâ^ja & se im[>ríme 
em Itália : poio qu6 mereço mercê pois fuy ho primeyra 
Português que tomey tão bonrrada empresa^ & Ibe dey 
fim tanto a mioba custa como nosso senbor Deos he tes» 
temunha : que por sua infinita misericórdia tenha por 
bem de alongar por imiytos anos a vida de Y. A* coui 
aerecentan»enlo de seu real estado pera^ue fauoreça com 
mercês a seus vassalos^ com que os prouoque a fasereni 
eousas porq<ue merec^ão sempre de serem tão nomeados 
pek) mundo eomo sam» 



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o SEPTIMO LIVRO 

D A 

HISTORIA IX) DESCOBRIMENTO 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS PORTVGVESES 

Em que se coniS o cfae eles fizerSo gouernandoa Lopovaz 

de saro payo, por tnâdado do muy ailo & muyio podero- 

• ao rey. dÔ loão nosso seohor , bo terceyro deste nome, 

Feylo por Fernão lopez de Castanheda^ 
CAPITOLO L 

De como foy aberta a terceyra socessam em que hia 

Lopo Vaz de sam Payo. 



E 



linterrado dom Anri?) de meneses, ajflCarSse lodos o9 
capiláes, fidalci^os, & pessoas principais na igreja de Ca* 
fianor, com Afonso mexia vedor da fazenda, qne hi a- 
certou destar: & ho licenciado loflo de soíro cuuidor gé* 
ral da índia, pêra abrirS a seenftda sobcessão da gouer* 
lian<^a da índia, que Jogo Afonso mexia abrio perante 
todos* Fim que se achou l\ socedia Pêro mazcarenhas 
que esfaua por capilâo de Malaca donde não |K)dia vir 
se não dali a onze meses por amor da monção. Com o 
<)ue todos ficarão còfusos por a índia ter necessidade de 
l^ernador, assi por ei rey de Calicut estar de guerra^ 
A tambe el rey de Cãbaya : como por esperar6 por ru^ 
mes «o Mayo seguinte, ou em Setfibro. Ê coroo Af5so 
nexía praticasse cõ algfis qu8 enlegeciâo por gouecnar 

LIVBO VII. A 



2 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

dor em ausência de Pêro mazcarenhas: disse loSo de 
sojro {} eslaua na pratica , que se poderã saber quê era 
ho da terceira subcessam : (} esse pois el rey coníiaua 
dele a gouernâça da índia, a gouernaria melhor 1\ outrS, 
& a esse deuiâo denleger ^ a gouernasse em ausência 
de Pêro mazcarenbas* O j| logo contrariou dÕ Vadco de- 
ça reprouando muj^to tal parecer: por(} ho da terceira 
subcessam na ora ^ fosse recebido por gouernador, pos- 
to que ale a vi^nda de Pêro mazcarenhas íicaua igoal 
coele è todos os seus poderes, assi na justiça, coroo na 
fazêda, do Q se na índia seguiria grade diuisam : por o 
que não se deuia dabrir a terceira nem el rey ho auia 
dauer por bS. E tambS o que fosse nela despois Q ie- 
uesse posse da gouernâça, a não quereria alargar a Pê- 
ro mazcarenhas & seria muyto grade reuolta. E deste 
parecer forâo aJgus fidalgos. E porS Afonso mexia ho 
nao quis tomar: dizendo que pêra se escusarê todos a- 
queles inconueniStes juraria o Q fosse na terceira sub- 
cessam nos sanctos euãgelhos , & assi assinaria hu auto 
<) disso faria: que tanto que Pêro mazcarenhas chegas- 
se á índia lhe alargaria a gouernança. E ele mesmo A- 
fõso mexia, & todos os capiíâes & fidalgos da índia ju- 
rarião tambê que ho fariâo fazer, & coisso ficaria a cou'* 
sa segura. O que a todos pareceo bem, & assi ho jura- 
rão & assinarão em hu auto () disso fez Vicêle pegado 
4 era secretairo, & assinado ho aulo, Afonso mexia a«> 
brio a terceira suboesâo em que se achou que sucedia 
Lopo vaz de sam Pajo capitão de Cochim. E sabido 
que ele auia de gouernar ate a vinda de Pêro mazcare^- 
fthas de Malaca, toroov Afonso mexia a jurar que via^ 
do Pêro mazcarenhas de Malaca faria que logo lhe Lopo 
vaz de sfto Payo entregasse a gouernâça da índia, & fae 
mesnK) ior&arâo a jurar os outros todos: & assi ho adsí*- 
Darão em outro aulo que Vicèie pegado tornou a £aaer 
4e8tes juramentos, aos três dias de fetiereiro de mil fc 
<)uiob3t08 & vinte seis. Isto fej to partirão ae todos pêra 
Cochim onde Afonso mexia entregou a gouernâça 4â 



LITRO VII. CAPITVLO 11. 3 

índia a Lx>po vaz de são Payo pêra Q a goueriiase ale a 
vinda de Pêro mazcareohas de Malaca, juVãdo primej- 
ro ele Lopo vaz de são Payo de ho fazer assi , & assi- 
nado em bQ auto {| disso fez Vicente pegado, Q tambfi 
foy assinado per Afonso mexia, & per todos os capitães 
& fidalgos Q se aií acharão & pelo ouuidor geral. 

C A P I T V L O lí. 

De coffio Lopo vaz de são Payo deAaraUm Mia armada 
de mauros de Calicut no rio de Bacanor. 

Jtlintregue Lopo vaz de sSo Payo da goaeraança da In^ 
dia despachou pêra BSgala Ruy vaz pereira & deu a ca- 

f litania do seu galeão a Manuel de brito, & assi mãdoa 
orge cabral por capitão niór de certos paraós as ilhas 
de Maldiua pêra fazer presas, que também se partio lo* 
go. E^ estes despachados, fezse Lopo vaz prestes pêra ir 
correr a costa do Malabar, porque soubesse eirey de Ca- 
licut que posfo que dò Anrrique era falecido !) auia qufi 
lhe auia de dar que fazer, & partio se deCochíni a seis 
dias de feuereiro & foy na galé bastarda de Q era capi- 
tXo d6 Vasco de lima & (brão capitães das velas grossas 
a fora os dos catures & bargantis Diogo dasilueira,dom 
Afonso de meneses, Manuel de brito, Manuel de ma- 
cedo, António da silua, Anrri^ de macedo, Diogo de 
mezquita & Lopo de mezquita. È deCocbim foy ho go- 
uernador corrMo a costa ate Cananor s8 achar nenbu 
paraó de Calicut , porl} os mais como disse estauão den- 
tro AX> rio de Bacanor , & algfls outros por esses rios Q 
nAo oMauão de sair. E estando Lopo vaz em Cananor 
tomando mantimStoe , lhe foy dada h&a carta de dom 
lorge telo que acodísse , porQ os paraós ({ ali estauão se 
^rião partir, & ele com a giBte 1} tinha não era fioderoso 
pêra Ih^s impidir a partida, por os mouros í\ estauão 
neles 6erS doze mil, & v8do Lopo vaz a grossa gSte que 
os mouros erão , mâdoo logo chamar Christouáo de soik 

A 2 



4 1>A HISTORIA DA INIMA 

fia & António da silueira Q eslauao em Goa pêra que 8è 
ajunlassein coele com a mais genle q podesbê ieuar: por 
ele ter pouea pêra bu feyto láo importâte como aquele^ 
& porque auia ainda de fazer algua deleita por amor dos 
mâiinietilos' que (omaua, mandou a Manuel de brito que 
se fosse êlretanto ajQtar com dom lorge telo> E tomar 
dos os manlimeníos, Lopo vaz de sam Payo se partio 
pêra ho rio de Bacanor : onde chegado soube como os 
mouros estauã grâdemcnte fortalecidos, não somSte de 
muyta arlelharia em eslancias ao longo do rio,, mas cS 
estacadas dum cabo & do outro cõ que estreitarão tan» 
to ho rio que ci nossa frota nào podia ir se nã a íío: & 
d'e biias estacadas ãs o^jtras estauâ dados cabos |K>r de- 
baixo dagoa pêra que os nossos nauios Scalhassem neles 
& niio podessem passar. E cõ tudo Lopo vaz determir- 
nou de pelejar com os mouros & queimarlbe os paraós 
& não es{>erar por Christouào de sousa nem por Antó- 
nio da silueira se tardassem : Sc pêra pelejar com as es- 
tancias dos mouros mãdou armar quatro baleis de malas 
que lirauão senhos tiros grossos pêra irem diàte, & a- 
pos eles as outras velas. £ vendo que não cbegauâo 
Cbristouão de sousa nem António da silueira não quis 
mais esperar, porque não parecesse aos mouros que lhes 
auia medo: & determinado d>e os cometer fez alardo de 
sua gente, que achou serem setecentos &. tantos ho- 
mens. E chamado a conselho pêra consuJtar cõ os capi«- 
tiHes & outras pessoas ho modo de que cometeria os !mi- 
gos foy mujto contrariado dos mais que não pelejasse 
com os mouros, alegando que pêra a grande for<;a de 
geuíe & dartelharia que eles tinhâo tinha ele muyto 
pouca: & que não se auia dauenturar bo gouernador da 
índia em cousa ta perigosa. E os mais dos que isto di- 
ftião era por quererem mal a Lopo vaz & terem onueja 
de gouernar a Indi^, q cuj<)ou cada bu djeles de bo e&- 
Jegerem pêra a gouernar em ausêoia de Pêro mazcace- 
nbas, & por isso lhe estoruauâo que não fizesse h& fey- 
to tão famoso como aquele seria por^ perdesse aquela 



lAVBO VII. CAFITVLO II. ^ 

hòrra. E eBtfiiiSdo ele suas tenções por saber quanto 
Jhes pesaua de ele gouernar a índia , disse que ficasse 
a cousa assi indelerminada ale ir ver ho rio , & ho de- 
jsenibarcadoiro, ^ viu na madrugada seguinte cõ a clari- 
dade da iua iodo em bQ catur^ & ein ouiros deus JVIa- 
•Buel de brilo, & Payo fodriguez dáraujo que escoibeo 
pêra isso por serem niuyto esforijados» E es mouros que 
viráo os calores tirauâlhes com a artelbaria dasebláciaa: 
-& erâo os pelouros tantos ^ se os catures n2o forào bê 
-cosidos com. terra não poderão escapar de serem arroonr- 
badiís & tuoriua quàtos yâo dentro, E com tudo passa- 
tSo muytu grande perigo: mas nê por isso Lopo vaz de 
.sam Payo nã deixou de ver toda a força que os mouros 
lifiháo: & ile voita lhes mâdou cortar os cabos que li»- 
inhào de h&as eiitacadas ás outras pêra desempidir ho ca- 
minho, & forào cortados per homSs que ho fizeráo de 
-mergulho. E feyto isto tornouse á frota, onde deu con- 
ta disso aos capitães & fidalgos fasendolbe a vitoria muy 
£ici) se cometessem os immigos: & os mais forão do 
parecer que iiobSo dates ^ nào se pelejasse. E como ea 
deste parecer erao mais que os que dizião que pelejas- 
se não ousaua Lopo vaz de dar remate a estes conse- 
Jbos , & diialauaho ale a vida de Christouâo de sousa & 
Dãtonio da siiueua , cujos pareceres cria que seriào Q 
pelejasse j & assi bo disserâo despois que chegarão : do 
.que Lopo vaz ficou muy to contêle porque linha por muy 
certo auer viloria dos imroigos. E ordenada a maneirai 
.de i) os auia de cometer, ao ou^ro dia que forâo vinte 
einco de Feuereiro em rompendo ho dia abalou pelo rio 
acima com sua gète que seriâo mil homSs, & forão ú«8- 
ta ordem os quatro bateis de manias na diâtoira, & no 
primeyro ya IVianuel de brito, no segundo Payo rodri- 
guez daraujo: & despois os bateis com bargantis & ca- 
lores a fio, & no derradeiro Lopo vaz com a bãdeira real, 
lodos toldados & embandeirados, & senhas peças darle* 
Iharia nas proas & berços poios tíordos , rompendo a bo- 
ga arrancada pelo rio acima cõ grande arroido de gritas 



6 !>£ niBTORIA m IKDIA 

& til§per de trombetas : & começando de descobrir as e#- 
lancjas dos inimigos começarão eles de tirar com seus 
tiros, & chouiâo os pelouros de serS muyto bastos, pe- . 
)o que os Portugueses forâo cõ mujto grande perigo W 
trabalho ate chegarem defronte da tranqueira principal^ 
dde Manuel de brito, Payo rodriguez & os outros dm 
dianteira desembarcarão com espStosa briga , por os im^ 
migos trabalharem quanto podiSo por lhes tolher a de- 
sembarcarão cõ bombardadas, espigardadas & frec bal- 
das. E rompendo os Portugueses por antrelas com e^ 
forço sobre natural abairroarão com a tranqueira, dé 
que com ajuda de nosso senhor fízerão fugir os ImigoB 
posto que se defendiSo marauilhosamente. Desbaratada 
a tranqueira, desembarcou Lopo vaz cô a bandeira real 
pêra recolher os Portugueses por não saquearem ho lu- 
gar que era dei rey de Narsinga amigo dei Rey de Por- 
tugal, & por isso nâo queria que lhe fizessem nhíi agra- 
uo, & tambS porI| bo ele não fizesse aos Portugueses 
que estauão em Bisnegar. E recolhidos os Portugueses, 
mandou Lopo vaz queimar os paraòs dos Imigfos que to- 
dos arderão, & assi hQa casa dalmazem que estaua chea 
despeciaria & droga pêra carrega dos pnraós : & em 
quanto se queimaua forão embarcadas oytSia peças dar- 
telharia que se tomarão na trãqueira , & as mais delas 
de metal. E esta muyto grande vitoria alcãçou Lopo vaz 
sem lhe matarS mais que quatro Portugueses & forão fe- 
ridos cento, & dos imigos forão mortos muytos segundo 
se soube pelo grande prato que por eles foy feyto è Ca* 
lícut: cujo rey sintio muito a queima daqueles paraós 
pola grande perda que recebeo em suas rendas & com 
quebra de seu estado. 



9 

C A P I T o L o III. 



De como Francisco de $á $e partia pêra ir a çUda , ^ 
. de como dom Jorge de metnseu Joy por capitão de 
Maluco,. 

jtl/ecolh ido Lopo vm de samPayo, partio se pêra Goa: 
& entrado pelo no de Pao^im ^ Francisco de sá jquB «&<• 
laua por capitão de Goa íi^ poandou per mugias vczm 
requerer qiH» náo passasae dali que bo nâ auia de reco^ 
Iher na cidade, por quáio nào era goueraador da ladia 
ae ndo Peru mazqarenhas ^ era por el Key que podia dar 
a gouernan<^ da lodia, ^ ele era feyío poios hom^ís que 
a não podiào dar , & p^r isso Ibe na auia dobedecer. E 
acaiuarii deGoa fJMdiaoa lambem Francisco de sá a fa^ 
zer esles reqiferinieiilos ^ mas Lopo vaz nã deu por elee^ 
ifL peaaou.auàie ale surgir diante do cais da cidade õde 
se passou bii giSld^ pedalo «m tequerimeAios Q Lopo 'vaa 
fUAodou fazer a Fràcitíeo de sá sobre Ibe abrir as porias 
da cidade que estauáo fechadas* £! Frãcisco de sá conr 
Ibe parecer .q^e tioba por si a c^iSAra da. cidade insistia 
fi nâo abrir : & por dt^rradejro «àdou abrir as parlas por 
amor de Cbrislouio de sousa que iflUrue<> nisso. £ en* 
trado Lopo vaz na cidade tirou a eapilaaia da fortaleza 
a Frflcisco de sá & deu a António da silueira de injene^ 
ses que linba casado per palauras de futuro com hQa 
sua Iliba 9 & a Francisco de sá mandou bo pêra Malaca 
I>era dabi ir fazer hQa fortaleza a çíida que he antre a 
liba de ^ma4ra , &. a da iaoa , cujo tey por se recear 
doutro seu vezií^bo Ibe tomar bo reyno mandara pedir 
ao gouernador dom Duarte que mandasse lá fazer hiia 
fortaleza: & () Ibe daria oiiijla ^pimenta & mais barata 
qoe em Coclii. £ (X>rque -el Rey de Portugal se reaea* 
lis que os Gasielhanos fossem tomar a^la ierru sahenéò 
a muyta pimenta q^ie auia nela n^a^daua ali fazer /orta« 
leaa : a cuja capkanin & eai^ de a (az^r deu a FcAcki» 



t 1>A HTSTOItlA DA ÍNDIA 

CO de saá por ser hu fidalgo de niuyto seruiço. E saben- 
do Lopo vaz que ele tinha e»Ce cargo ho despachou , & 
deulhe trezSlos homSs Q pêra este fejlo erão necessa^ 
rios, ^ fbrão embarcados em hCI gaieXo & duas galeolass 
& assi despachou pêra capitão de Maluco a dd lorge de 
meneses filho de dõ Rodrigo de meneses a quem dom 
Anrrique de meqeses sendo gouernador dera esta capi- 
tania, & deulhe cè homSs que fossem coele em deus na- 
uios: & a capitania mór do mar de Maluco deu a Simfio 
de sousa gaiu&o filho de Duarte s;aluSo , & dA lorge a» 
uia dir debaixo da capitania de Frãcísco de«á ale Ma« 
laca pêra onde partirão em Março. E no mesmo mes 
despachou lambem Lopo vaz a Mnrtífn afonso de mehy 
jusarte por capitão mór de seys velas pêra* ir fazer pre- 
6a8 ás ilhas de Maldiua, onde andando Martim afonso 
topou com híía nao de rumes ÍJ yão de Tenaçarim perai 
ludá & leuauão inuyla riqueza, & os rumes seriâo Cre- 
Kentos homõs. E Marti afonso posto qiie não leuana mais 
que ate cincoenta, com quanto vio ^ os rumes erão niuy- 
tos aferrou cneles com ho s^u nauio somente, & como 08 
rumes lhe tinhão muyta auantagem no numero esteue 
dous dias aferrado coeles éem os poder entrar pelejado 
muy brauamente. E neste tempo forão mortos muytos 
dos rumes & dos nossos algSs que entrarão a nao no ca- 
bo destes dons dias , & acabarão de malar todos os ru» 
mea^ & tomarão a nao ^ leuou a goa onde foy inuernar. 

C A P I T V L O IIIL 

De como Lopo vaz de sam payo côcertou Raix ocarafo 

CO Diogo de melo capitã dormuz. 

xjLtras fica dito como d8 Anri!} de meneses por {{ixu- 
mes delrey dormuz & de Raix xarafo escreuera a Diogo 
de melo ^ se temperasse em não dar causa a !\ ihe fi^ 
zessem mais queixume dele. E parece i\ não dando Dio* 
go de melo por estas carias ou por rezâo pêra isso (00- 



LÍVRO VII. CAPITVLO im. 9 

mo he mais de crer ) prSdeo Raix xarafo & Irataiiao tão 
asperamente, ^ deu matéria {| em hús Porquês <} aig^Qs 
praguentos fízerão na índia íizesê hQ que dezia. Por^ 
diogo de melo, xarafo dame dinheiro, Por!) ele diz velo 
▼elo , não sejas meu carniceiro. E sabSdo Lopo vaz e^ 
ta cousa como ya: & tatnbS por lhe Diogo de melo man* 
dar pedir 1\ ho fosse fazer amigo <^5 Raix xarafo antes 
de vir Pêro mazcarenhas : determinou lopo faz de ir lá, 
p^>rQ como conhecia pêro mazcarenhas por isento sabia 1| 
sSdo gouernador ([ auia de castigar rigurosamente a 
Diogo de melo se ho achasse cu{|>ado, & por ser seti pa- 
rente determinou de lhe ir acodir. E poendo em conse* 
)bo sua ida a Ormuz, fojihe muyto cõirariada: dizCdo 
todos, Q ainda l\ sua ida lá fora necessária a ouuera de 
deixar por el rey de Calicui estar de guerra , & por a- 
iier nouas de rumes : quanto mais nSo anendo nhua ne- 
cessidade de ir a Ormuz, & atiSdo talas pêra ficar na 
Ilidia. £ cÕ todas estas rezões não quis se não ir, & pê- 
ra resistir a armada de Calicul deixou por capilâo mor 
da costa do Ma/abar António de miranda dazeuedocS 
toda a armada de remo. E na fim de Março se partío 
pêra Ormuz indo na galé bastarda c5 dom Vasco de li- 
ma, 8c não leuou em sua companhia mais de quatro na« 
uio8 grossos de Q erão capitães do Afonso de meneses, 
Diogo da sílueira, Manuel de brito & Manuel de mace- 
do. E na trauessa do golfão teue grandes calmarias com 
1) se deteue muyto & lhe morreo rouyta g6te, & despois 
de muyto trabalho & fadiga f<»y aferrar a outra costa no 
porto de Galayate, cujo Xeque estaua ieuantado confra 
ca Portugueses por mandado dei rey Dormuz & de Raix 
xarafo polas auexaçôes que recebião de Diogo de melo. 
£ bo XeQ tornou a ser amigo dos Portugueses por lhe 
Lopo vaz de sã Payo affirmar ^ não ya a Ormuz ae não 
a deaagrauar el rey Dormuz & a Raix xarafo ae estauã 
agrauados, & pêra castigar Diogo de melo se ho mere- 
cesse. E assi como tornou este Xe{} a amizade dos Por- 
togueses, assi tornou bo de Mazcate: & Ido caminho 

UVRO VII. B 



iO BA HISTORIA DA ÍNDIA 

Dormuz achou na acuada de teiue KraQcisco de mendo* 
ça hu dos capitães da cõserua Deilor da sílueira, ^ com 
têjx» se aparlara dele & fov ali ler, & hi achou bíia naa 
de mouros ^ lomuu ^ despois foy veodida por niil par* 
daos. E dali prosseguio pêra Ormuz , onde chegado 
maadou logo sollar Raix xarafo, & lhe disse Q ufl ya a 
outra cOi>sa se não pêra ho fazer amigo coui Diogo de 
melo: Q se linha dele algSs agrauos ^ requeresse sua 
jusliça & 4 lha faria ainda ^ era seu parente. £ Raix 
:|arafo como soube este parentesco descuntiou de lhe Ijo* 
po vaz fazer justiija, & disse ^ náo queria nada Q lhe 
perdoaua , & ho mesmo fez el rey Dormuz auisado por 
Raix xarafo, & assi fícarà amigos cõtra sua võtade* E 
Lopo vaz reprSdeo Diogo de melo porC[ hò achou culpa* 
do, & assi licou inuemaudo em Ormuz. 

CAPITVLOV. 

De como Eytor da silueira do porto de Maçua mandou cha^ 
mar dom Rodrigo de lima , ^ sejoy a Ormtiz. 

Xliítor da sHueira 1\ per mâdado de do Anrrique de me* 
neses ho fora esperar ao cabo de Goardafum vendo qu^ 
se passaua ho l6[io de sua chegada foyse a IVlaçua , & 
chegado aa ilha deDalaca ho primejroDabril, eacreueo 
logo a dÕ Rodrigo de lima fazendolhe saber coum) esla^ 
ua em Maçua pedindolhe que ii)68e logo coele , & mã^ 
dou esla carta ao çohSo Darquico ^ lha mandasse. £ 
ele Iba mftdoa ao lugar de Barua õde ja estaua cõ ho 
Barnegais, & b& triste e5 todos os de sua companhia 
por terd por noua {| a índia era perdida & os Portugue- 
ses (oítos nM)r(o6. B esta carta Deytor da siluf^ira lhe foj 
dada na se^çunda oytaua de Paseoa a noy te : & logo dom 
Rodrigo esereueo ao embaixada do preste q^ie era ida 
a bQs lugares seus {| se partisse pêra Maçuá ondi^slaua 
a armada dos Portugueses : & a seg&da feyra despois 
da paseoela se par tio dd Rodrigo & fvy coele bo Baroe*» 



LIVRO Vir. CAPITVLO V. 11 

gaÍ8 pêra bo enlregar a Eytor da silueira, & leuaua dous 
mil homSa de malas & algua em caualos & aeyscêtoa de 
pé, & por amor da muyta gente gaalou a^ia somaaa to- 
da ê quinze legoaa Q auia de Barua a Blaçua , Õde che- 
gados entregou ho Baraegaia dõ Rodrigo de lima & o« 
de sua companhia a Eytor da siiueira com grande pra* 
eer, & midoulhes dar cincoêta vacas, & muylos carneí*- 
ros y & galinhas , & muyto pescado : & despois chegou 
ho embaixador ^ ho preste mandaua a Portugal. E em<- 
bareado Eytor da siiueira se par lio aos vinloyto Dabril, 
& foy fazer agoada á ilha de Camarão ho primeyro de 
Mayo , & eatftdo hi ho padre Francisco aluarez Q tinha 
assinada a coua em Q fora enterrado bo corpo de Duar- 
te galuão quâdo. ali faleceo vindo Lopo soarez de ludá 
desenterrou sua ossada pêra a leuar á índia, & isto se- 
cretarafite sem ho saber mais ^ Gaspar de sá feytor da 
armada , & ambos leuarSo a ossada ao galeão sam Lião 
em \ yão, & tfidoa metida acodio vento a popa cõ (| se 
£jtor«da siiueira pariío, & di6se Gaspar de sá a Fran- 
ciscu aluarez , ^ assi coroo Duarte galuão fora b5 ho- 
mem & acabara seus dias em seruiço de Deosj bssí Jhes 
daua Deos bÕ tfipo |)or ele. E aos dez de Mayo Q a ar- 
mada era auãie DadS & entrada no golfão Q lhe fazia 
roeto bo inuerno da Índia , se começou biia muyto gra- 
de íortDèla de vento cÕ que a segfida noyte c5 ho gran«^ 
de escuro ^ fazia se espalhou a frota & se perderão hãs 
dos outros cõ grandissinio trabalho doe corpos S darS á 
bomba pêra esgotarS a muyta agoa Q lhes entraua , & 
perigo das vidas do mar ^ os comia. E ooeste têporal 
foy forçado a Eytor da sikieirá arribar á cosia da Jndíá 
õde se achou só na enseada de Cábaya : & por ser ja in» 
oerno & nã ter Õde se acolher tornou a arribar ao goU 
ÍSlo cõ a mesma tormèta, andando sempre ás voltas Q nã 
podia nauegar doutro modo , & nelas se lhe gasiou todo 
ho Majro & sete dias de Junho , & por^ os mantimSlos 
4 leoaua nã erao pêra tanto lõpo foranselbe acabando, 
prifltetpalmete a agoa dç 2) se lhe foy a mayor parle cõ 

B 2 



12 JDA HISTORIA DA INBIA 

ho Iraballiar do oauio na lorniSta , & chegou a ser (ão 
pouca ^ andou a gète três dias quasi sem comer nada 
por não terem i\ beber. E neste têpo Eytor da silueira 
por dar exêplo aos outros foy ho prirneyro Q deixou de 
beber ^ & algua pouca dagoa que leuaua na sua camará 
a daua por sua mão aos doêles Q auía aigús ^. adoecião 
cõ fome & sede , ^ ele esforçaua cõ niuy to boa» pala* 
uras: & por<!| nâ sospeí(assem ^ bibia na sua camará 
nunca quis entrar nela neste tempo, & agasalhauasse 
na tolda : o í[ daua muyto esforço a todos pêra sofrer ta- 
manha fadiga, a ^ aprouue a nosso senhor de dar remé- 
dio cõ auerem visla de Mazcate a sete de lunbo hu dia 
a tarde, em Q ateli nê sãos nS doentes não tinhão bibi- 
do por de todo não auer agoa no nauio. £ andando ás 
voltas pêra tomar porto i\ não podião tomar por lhes ho 
vSlo ser cõírairo acodtrãibe duas fustas dos nossos Q ali 
andauâo darmada que lhes derâo agoa , & leuarâo ho 
galeão á toa ao porto de Mazcate: & tomados ali man- 
limStos se partio Eytor da silueira pêra Ormuz õde es- 
tauão 08 capitães de sua armada Q chegarão xxviii. de 
Mayo. E. chegado Eytor da silueira a Ormuz, dom Ro- 
drigo deu a Lopo vaz hQa carta ^ leuaua do Preste pê- 
ra Diogo lopez de siqueira, & bua roupa de seda cõ do- 
ze grades chapas douro de martelo, & ele lhe fez merca 
em nome dei Rey de Portugal de duzStos pardaos, & 
lambS ao embaixador do Preste doutros duzSlos, & man- 
dou logo tirar a mõte os nauios da armada Oeytor da 
silueira por terê necessidade de corregiujèto pola tor* 
naSta passada, & mãdou pagar soldo a sua gSte por^ nâo 
tinha ^ gastar por as presas ^ não fizera no estreito. E 
concertados os nauios, mandou na entrada Dagosto £y 
tor da silueira ^ fosse á põta de Diu esperar as nãos ^ 
foss6 do mar roxo pêra Cãbaya , & mandou coele Ma- 
nuel de brito* & Manuel de macedo nos seus galeões, & 
co quatro galeões & duas carauelas se partio |)era a põ- 
ta de Diu quasi na fim Dagosio, & ele & os eapitâes da 
sua armada tomarão hi por força três nãos de mouros de 



LIVEO VH. CAPITVLO VI. 1* 

Meca ^ yão f>era Diu em ^ se fízerâo tâk> boas presas 
que despois de vSdida a fazêda (| se tomou nelas mõ^ 
touse no quinto dei Rey sessSta mil pardaoa pagas as 
partes a fora os catiuos que forão muytos. £ por^ des- 
pois da tomada destas nãos nâo passarSo mais outras, 
partiose £y tor da silueira pêra Chaul , õde achou Lopo 
iraz de sam Payo Q auia pouco Q chegara Dormuz Q fez 
niuyta hõrra a Eitor da silueira poias presas & muyios 
catiuos í\ trazia de f\ as galés & nauios da armada se po* 
diâo bê fornecer. £ íby acerto j} hQ soldado natura! de 
Viseu vio ãtrestes catiuos !\ estauSo presos hO judeu i^e- 
Ibo (| moraua no rey no de Fartaque por õde passado ele 
cõ outros portugueses pêra Ormuz , j} se perderão na 
costa do mesmo reyno & yio muyto pobres : a^le judeu 
Telho j) estaua preso os agasalhou 6 sua casa , & lhes 
deu cõ (| se vestisse & despesa pêra bo caminho. E lem- 
brado este soldado deste bem !\ lhe fizera , pedio a Lo* 
Kvaz ^ lhe fizesse mercê dele, cõtandolhe a causa porí^ 
3 pedia: 8c ele \ha fez louuandolhe mu^lo a lêbrai^a ^ 
tinba do bè que recebera. E despois ho soldado ãdou 
coele pedindo aos outros- soldados dízêdo a todos ho 
bem Q lhe fizera ^ & a|fitoulfae cicoêla pardaos : & quã- 
do os mouros & outros judeus soubera isto dizião pubri- 
camète 1) outro bê n&o era agardecido senS o Q se fbzia 
aos Portugueses ^ & por isso lhes auiSo de fazer bê quS* 
do oa achassem ê suaa terras.. 

C A P I T V L O Vf. 

De como UmSdase Mdiq saca capitio de Diu dei rey de 
Câbaya deUrminoú de dar fortaleza aos Portugueses. 

±Xo quarto rey de Câbaya Q ouue nome çoltSo mado^ 
far teue hfi filho i] foy ho primeyro a ^ chamou Badur, 
que sendo moço nuindaua matar por lhe dizerê os seus 
feiticeiros ^ despois de home auia de dar miiyta oppres- 
sft ao reyno & ho auia de destruir por ser muyto mao. 



14 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

£ sendo Badur auísado disto fugio & foyse pelo mudo 
em trajos de jogue com Q andou por diuersos re;fno8 & 
quasi {} soube as lingoas de todos por ser muyio curioso 
de saber as oousas eslrãgeiras & muy êgenhoso, & indo 
ter á cidade de Chiíor no reyoo de Saga (Q como dia- 
se cootina cõ ho de Cãbaya) soube como seu pay era 
falecido^ & assi bú seu filho ^ por seu faleci m6lo lhe att* 
cedera no reyno, & 4 o^ senhores de Câbaya leuâtarão 
por rey outro seu irmão. E determinado dauer por esta 
^ía ho reyno ^ era seu de dereyto, descobriose á raynha 
Cremei! ( ^ estaua viuua & gouernaua o reyno por ho 
príncipe ser ainda menino ) pedidolhe ajuda & fauor pê- 
ra cobrar seu estado: o f\ lhe ela deu de boa vôlade ,.& 
fez cõ el rey do Mâdou seu vezinho senhor muy podero^ 
so 4 tambS lha desse: & cõ esta grande ajuda cobrou 
ele ho reyno em {| matou seu irmáo ê hua batalha des*- 
pois dalgQas f\ ouuerão ambos. E sSdo çoltâo Badur pa- 
cifico rey de Cãbaya começou de se querer vigar dalgds 
senhores do reyno j) seguirSo cõtrele a {>ar(e de seu ir^ 
mão , & ãtrestes foy MeliQ saca fiJho de JMeiiquiaz , l| 
era cãpilão de Dio, 8c receado ele Q el rey lho tomasse^ 
determinou de se fauorecer cÕ os Portugueses , & portj 
lhe parecia i} não auia gouernador na índia por ser ain- 
da ê Ormuz escreueo a Chrístouão de sousa i} lhe mã- 
dasse hil homS muy to hÕrrado , que lhe queria dar cÕta 
du caso de muy ta importâcia, pêra o que lhe eraneces^ 
eario fauor do gouernador & não quis escreuer o i) era 
por não ser descuberto: & por Lopo vaz estar S Chaul 
fo;lhe dada esla caria , & pola imizade i) sabia í\ auia 
anlreMelij) & el rey deCambaya lhe pareceo t\ por ne? 
cessidade se lhe queria encomSdar ^ & ele quisera ser o 
q fora a verse cõ Meli^ , mas foy por todos cõtrariado 
em conselho, dizendo j) não era bê que ho gouernador 
da índia fosse a cousa incerta : & acordarão ^ fosse £y* 
tor da silueira cõ a armada cõ (\ partira Oormuz, & ele 
foy cõlête & se partio logo. 



LIVIIO V|X. CAFITVLO WIU 1» 

C A P I T V L O VII. 

Do connlho ^ Hagamaàmut deu a Meliq sobre despir 

Diu : ^ como lho iouwu^ 

X^begado Eylor da síiueira ao {>or(o de Diu JMeliQ se 
9Ío logo coele & lhe cvoiuu ioda a imizade ^ auia aiiire- 
ie & eiRey deCa4iiba]ra de qu8 se nàu auía de frarpos* 
(o que reoòcdias«eui , porQ oào goardaua a ninguG sua 
paiaurii : & |>or isto queria pur se vingar dar a fortaleza 
de Diu a el Rey de Porlugal pêra ler seu fauor & aju- 
da quSdo ibe Ibase necessária^ porem que auia de t<*uar 
Ioda a arleJbaria & mQnújòe» que liiiba em Diu perala-^ 
^te bOa ilba nos KezlHiios Ôde queria fazer sua morada 
par se segurar dei rey de Cabaya, & ^ Ibe aaiâo de dar 
ametade do c) rendesse a ailaadega de Diu. £ algãas 
vezea ^ JMeii^ se vio eom iialor da silueira teue coele 
esta pratica »& aoer mais e&yio^ f^^^ mouros nuca »» 
cabfiu de se determinar porQ de seu natural sã descdfia'» 
ém : te eale tioba aigQ receyo í] deêpois ^ leuessè Dia 
Qâ Ibe daria nada, & fazia^bo ler Hagaanabmui a^le 
mouro seu parente de í\^ fatey alras que estaua coele , a 
quS pesaua tanto de dar Uiu aos nossos ^ desejaua de 
bo matar, & €omo nâo podia dissimulaua coele & dtzia^ 
lhe i| fazia inuyto hè de dar Diu aos Portugaeses por se 
segurar dei rey de Càbaya y porè i^ segura n<^a teria ele 
de Ibe darê ameiade do Q rendesse a alfandega de Dio 
deapuis Q bo tenessem, & ^ lhe parecia Q estando eles 
BO porto de Diu nâo se deuia de ir pêra laqnele : por(^ 
coroo os Portugueses nA ecào seu» amigos por natureza 
ae oào por interesse quS Ibes loiberia ^ ao embarcar de 
tua pessoa, nielheres h tbesouro ^ era grande bo não Uh \ 

masaem cõ indo y pêra ^ estado em sen |ioder Ibe alar* 
gase be Ibesouro & a que Uma pedia da rftda de Din. 
£ cemo Meii^ era desconfiado & andasse Ião cbeo de 
bimIo fesibo asu^yte grande esta dnnida de HagamabmiU 



IS DA HISTottlA Dá ÍNDIA 

q era seu parSle & amigo, & de quê confiaua t\ se doe« 
ria de sua vida & hõrra , & por isso o que lhe disse fez 
nele tamanha impressa Q sospeitou que aquilo poderia 
assi ser, & começou de se ãtreter em sua ida, & preg{|« 
tou a Hagamahmul o {| faria: & ele por lhe nS sair de 
todo da vontade Q sabia i) era dar Diu, disselhe l\ assí 
bo deuia de fazer pêra se segurar dei rey de Cambaya. 
£ pêra segurá<ja dos Portugueses Q nSo fizessem o quó 
receaua nÁo se deuia dembarcar coeles no porto: & de<» 
uia de dizer a Eytor da silueira que se (ornasse a Chaul 
fingindo algflas causas pêra isso, & despois de partido 
se embarcaria muyto a seu saluo & se iria, & ele fica*' 
fia em Diu pêra ho Clregar a Eytor da situeira í\ ioçd 
mandaria chamar despois de sua partida* E não sendo 
MeiiQ tão recatado como lhe era necessário teue pot 
muyto bõ ho conselho de Hagamahmut Q lho nSo daua a 
outro fim se não pêra que os Portugueses nâo ouuessem 
Diu , que determinaua de partido Melíque ho entregar 
a.el rey de Cambaya pêra se congraçar coele: & come- 
çando a embai'cação de Metique de se dilatar, ya Ha« 
gamahmut cõ recados a Eytor da silueira ao seu galeão 
dizendolhe da parte de Melique que sentia aluoroço nos 
moradores de Diu por verem a nossa frota no porto & 
começarem de sentir ^ lhe queria dar Diu , & que re- 
ceaua de se leuantarem cònlrele, por isso ^ deuia tor- 
narse a Chaul |>era com sua ida se assessegar a cidade, 
& assessegada tornaria. E parecendo a Eytor da siluei- 
ra que aquilo era arrependerse Melique mandoulhe dt" 
zer ^ do aluoroço da cidade lhe nfi desse nada , porque 
eoino a fortaleza estaua da banda do mar podia embar- 
car se hfla noyte secretamê4.e, & em se embarcando se 
meteria ele dentro na fortaleza , & como fosse nela lhe 
daria pouco poios aliioroços da cidade. Ao que Melique 
respondeo por conselho de Hagamahmut que ele nfio se 
auia dir de Diu sem leuar toda sua fazenda & artelhai' 
ria o que não se {x>dia embarcar so nSo por espaço do 
dias, & em quanto se embarcasse seria sua ida desça-' 



Liviio ' vt«, CAPítvíx> yrut. ' vr 

herta o que ele não queria , pof isso lhe parecia que se 
tleuta de tornar a Chaui & ele embarcariíi sua fazenda 
maia disãimaladainCie & sem aospeila da gftte 1} asse»* 
segaria c5 sua ida : & 48do tudo prestes ho niSdaria chac- 
inar, & assi se faria melhor & nr>aÍ8 a saluo de todos. E 
deaooníiâdo Eytor da silueira da verdade de MeKQ por 
estes recados, por. saber a verdade da sr^peita Q tinha 
de fhe não dar Diu, banqueteaua Hagamahmut & outros 
mouros que ySo ooele, & niandaualhes dar mayto vinho 
dnoas pêra qoe os embebedasse, por lhe parecer que be^ 
bados lhe diriSo a determinação de Meiiq. E Hagama^- 
famut como era prndSte StSdiao & fasiase muyto bêba- 
do: & porque se Eylor da silueira fosse dizialhe que 
Mefi^ nã lhe auía de dar fortaleza em Diu , & {) ho ti- 
nha ali pêra assentar b8 suas cousas cÕ el rey de Cá- 
bãya cO quS ãdaua tratado amizade* 

C A P I T V L O VIIL 

De como Eytor da silueira se tornou a Chaul^ ^ do mah 

^ fez Lopo vaz de sã Payo. 

Jli isto creo Eytor da silueira () seria aasi por() seerfiide 
ho feruor q vira 6 Melique pêra despejar liiu pareceo- 
Ihe que ao oufro dia ho despejaria, & vendo a ditar^ãé 
que punha, leue por certo que se arrependia da primey- 
va determinais : & assi ho escreueo a Lopo vaz pedin'*- 
dolhe que determinasse o que faria , porque lhe parecia 
-que sua estada era sem prbueito. Vista por Lopo vai 
esla earta, mostrouha em cSselho em que lhe foy dite 
por algus que ninpuertf podia melhor determinar o que 
£y(or úh silueira' faria nac|tiele negocio que ele mesme 
pois lá estaua & via o que passaua, de-q podia det^r^ 
minar o que seria melhor': )K>rque determinarse coeles 
que não trnhão experiência do que la ya era fazer cou^» 
sa ás escuras : & que podtXo com sua determinação dei» 
tar de tmio a j)erdef aqtiele negocio de que a el rey d4 
LIVAO vil. * c 



18 Z>A HISTORIA BA INBIA 

Portugal: resultaua tanta honrra & tanto proueito-, po> 
i$Bo que Eytor da silueira ho deternúnasse & aâ8i ho fi* 
^esse. Out-^os disserão ^ poi« devera tão froxo que es^ 
tando Ia & vendo o que passaua não sabia determinar o 
que faria ^ & bo màdaua pregQlar a quem bo nâo via^ 
<)ue não era bem deixar cousa de tanta importância em 
sua determinação, & que se màdasse homem que bo 
«oubesse fazer. E camo os pareceres erâo diiferêies , & 
(quasi tantos dtLa parle como da outra^ láçou6^ Lopo vaz 
da que diziâo que Eytor da silueira determinasse o qjue 
Jbe parecesse, pori) Ibe pareceo que naquilo lhe fazia fa- 
uor poF^ desejaua de ho ter de sua máo , sem mais a- 
tentar qu^uito melhor fora mâdar outro porque não fize- 
ra o que fez Eytor da silueira, a q.uem escreueo o que 
delermiiiara na consellio. E como a cousa ficou em seii 
parecer, & ele esleuesse enfadado deslar aii^ vendo co* 
ino Melique insistia que fosse a Cbaul, & crendo que 
bo fazia por nâo comprir o. que tinha prometido se foy 
sem mais cÕsiderar, que assi como podia ser que Meli- 
que mentia assi lambem falaria verdade- £ que bo loe- 
do que tinha dei rey de Cambaya lhe representaria mil 
inconuenienles pêra fazer bua cousa tamanha como deir 
xar Diu & dalo aos Portugueses. E partido foy ter a 
Cbaul Õde deu conta a Lopo vaz do que passaua è Diu.: 
& não ateBlando mais Lopo vaz naquele negocio não 
tornou a mandar logo Eytor da silueira a Diu ou outro 
com bua insiruçâo do que auia de fezer, ates ordenou 
de ho mandar ao estreito a fazer presas & que partiria 
dali ,. porque em quanto se apercebesse pêra a pariida 
se Melique mandasse recado pêra dar a fortaleza aco* 
disse logo. E isto- se assentou em conselho , & por^. as 
liouas da vinda dos rumes aa índia se começauâo daui- 
uar por certaa, pareceo bem. a Lopo vaz escreuelas a eJ 
Rey de Portugal , & í[ as leuasse Francisco de mendo- 
ça nii seu nauio,. por quem Ibe também escreueo a a>- 
bertura da sua sobcessam pola ausência de Pêro mazca- 
f enfaas , & como gouernaua a Índia : & porque podesse 



LJVRO VH. CAPITVLO Vltr. 19 

tír gente na armada do auno seguinie despachou logo 
Francisco de mendoça () parlío na entrada Doulubro 
porque chegasse a Portugal antes que a armada parCís- 
se: & tambê despachou pêra Moc^ambiJ} a Nuno vaz de 
castelo branco capitflo & feytor do nauio do trato de Cã- 
baya pêra çofala , a () mandou ^ desse auiso em MoçS-^ 
bi^ da vinda dos rumes por^ se hi fossem ler J} esteues* 
8§ apercebidos. E estas nouas dos rumes escreueo lopo 
vas a Goa & a todas as outras fortalezas , rogantio aos 
casados § quisessem seruir a el rey de Portugal em cer- 
tas cousas que lhes nomeou Q erft necessárias por amor 
da ?inda dos rumes pêra o Q não auia dinheiro ao pre-^ 
sente. O que eles fizerão de tnuyto boa vontade, & em 
Gochíni começarão logo h(l galeão & faua carauela , & 
hua gale : & de renouar a fortaleza que estatia dãnefi* 
eada : & em Gananor se abrio hfia caua muyto alta que 
cingisse a fortaleza , & em Goa hQ lanço de chapa no 
muro & fa3 galeão , & hda carauela, & hòa gale, & em^ 
Chaul outra gale, & mandou tambS Lopo vaz Fernão de 
Hioraís a Ormuz com poluora & outras cousas necessa-^ 
rias pêra defensam da /br<aleza« £ fejfo tudo íffto par- 
tíose pêra Dabul pêra ho destruir por «star aleuanlado, 
& posto que estaua assentado em cõselho {} Eítor da sil* 
ueira ficasse è Chaul , & dati se partisse pêra ho estrei- 
to, porque se Meiíque mandasse recado Hie acodisse: 
lopo vaz ho leuou cõsigo com toda a armada pêra ho mH^ 
dar de Goa, sendolhe requerido por todos os fidalgos que 
ho não leuasse porque se não perdesse Diu fior ele ali 
não estar se Melique mãdasse recado pêra ho entregar, 
& nâ quis se não leualo, & isto a requerimCt^ Dçitor 
da silueira^ porque ouue por afroDta ficar em Chaul 
com Chrístouão de sousa que daua mesa a todos os fi^ 
dalgos que ali inuernarão que erão rouytos, & assi a ou- 
tra muyta gente que todos folgauão destar em Chaul 
por Christouâo de sousa ser muyto largo de cõdição & 
apraziud. E porque Eítor da sHaeira não auia dandat 
tâo acõpanbado como ele, por não poder fazer o i^ue* 

c 2 



SO DA HISTORIA PA IN0IA 

ele faaia nâo quis ficar em Cbaul, & fez com Lopo vaa que 
ho leuasse a Goa : o Q foy a final causa de se desla vez não 
auer Diu* 

C A P I T V L O IX. 

De como ho Tanadar de Dábul padio paz o Lopo wm 

de sam Payo. 

XJ^e Chau] se foy Lopo vaz de sam Payo a Dabul com 
delermÍDaçã de o destruic porque bo (aoadar recolhia, ali 
mouros de Meca , & conseolia que carregassem suas 
sãos, & trazia alguas fustas darmada auèdo paz âUe el 
Rey de Portugal & ho Hidalcâo*. £ entrando pela barra 
dentro cÕ a gente prestes pêra desembarcar, sayo ha 
Tanadar a recebelo em hua almadia , por^ nao era a* 
quele contra quem ya Lopo vaz, se nSo ootro ^ lhe su--^ 
cedera no oflScio que desejaua de conseruar a paz Q es* 
taua assentada ,. & por isto sayo a receber a Lopo vas 
& descuipousellíe da culpa que leuera seu anlecesso» 
pedindolbe ^ lhe confirmasse a paz que estaua assenta^ 
da com os nossos, & que faria quanto quisesse, K ele 
lha cõtirmou com cõdiçâo que lhe entregasse as fusta» 
com sua artelharía ,. que logo entregou , & hQa nao de 
IMíeca que estaua carregada de pimenta, & que não a« 
colheria mais outras no seu porto. £ isto feyto partiose 
Lopo vaz pêra Goa., 

G A PI. TV L O X. 

jDo ^ ac6tec€o a António galuâo capitão de húa das nao» 

da carga ate chegar á índia. 

JN este ãoo de mil & cooecxxvi. partirão de Portugal 
pêra a índia quatro nãos sem capitão raór de que forao 
capitães Frãciscodanhaia, Tristão vaz da veiga, António 
dabreu que leuaua a capitania mór do mar de Malaca^ 
& António galuão filho de Duarte galuão, que pariio 



LivKO yir. câFiTVLo X. ei 

rferfadeiró de ioàç>B a dezas^ye de JMayo : que sQca 
ateli partira nao lã larde. E chegaado á cosia de Gui- 
se andou oela cereuta dias boca na volla do naar hora 
na da lerra seai poderem sair dali fora: porque como 
«qui correm as agoas em demasia pêra terra cõ a en- 
chente da maré por muyto que de noyle se alargaufio 
pêra ho mar não podia ser tanto que quádo amanhecia 
Bão se achassem pegados cõ terra , porque nSo |)odião 
romper a grande for<;a dagoa. £ como António galuâo 
enlefidesse algQa cousa da pilotagem , dizia muylas ye^ 
ses ao piloto ^ ibssem na volta do mar pois Unha venlo, 
que poeto ^ fosse escasso que quanto mais se empegas** 
sem lhes alargaria» £ ho piloto niio queria dando suas 
retÕes ^ Autunio gaiuâo recebia cõtra sua võtade por Jhe 
não parecera boas, mas nao lhe queria tomar seu officio 
de mandar a via. E andado neste trabalho foy ter coeU 
iiã nauio que ya da ilha de sam Thome pêra Portugal , 
& aabendo que a nao ya pêra a Jndia lhe disserâo deú 
que ae tornassem pêra Portugal porque ja n&o ttnhão 
teiopo pêra irem á Judia aquele ãoo por ser na fim de 
luDhc 9 & Q estauâo ainda na paragem do cabo do mon* 
Ce : com o que a gSte da nao ficou confusa & aluoroça«* 
da pêra requerer ao capitão que se tornassem , assi por 
ser tarde, como por a nao pender muylo & ser lemero* 
aa de veia: porem António galuão oe assessegou esfor* 
^jando oa que esperaua em n€>sso senhor de i^assar aque* 
íe anno a Índia. £ veiMlo ho piJoto ta mestre do nauio 
como queriãe prosseguir sua viagem , disserâo ao piloto 
da nao que porque nSo se alargaoa da terra & fazia ho 
caminho pêra ho cabo de santo Agostinho, porque a^la 
era a verdadeira nauegaçSo , pelo que ele pedio perdão 
a António galuão de não qverer tomar seu cõselho que 
efitâo aprouou por hò : & daK por diftte se fez na volta 
do mar, & quis nosso senhor que lhes alargou sempre 
bo vento & fizerão coele seu dereito caminho, & porem 
dando éa velas quando as ootras amainão <| assi era ne* 
eesaario por aer mu;to tarde. £ porque a gftte se agaa^ 



22 1>A HfSTORfA DA ÍNDIA 

taua com andarem tanto, António galuSo poloa animar 
& tirar ho -medo que tinbSo mandaua sempre ter pfto & 
vinho 8obre cuberta pêra que coineaaem & bebessem, & 
alambor & pandeiros pêra tangerfi & cantarem: porque 
doutra maneira morrerão todos de pasmo. E como Anto* 
nio galuXo vio ho erro (\ ho piloto fizera em nSo se em- 
pegar da costa de Guiné nât descansou mais sobreie & 
tomou anlre si cuidado da via & de cartear: 8c era tâo 
certo nisso que fazendose ho piloto & outros eft as ilhas 
de Tristão da cunha passadas, sempre perííou que nft fie 
no próprio põto !\ disse Q as auiã de ver as virão, do ^ 
fao piloto & os outros se espantarão muyto. E nauegan* 
do com muyto (rabalho se poserão 6 altura de trinta & 
noue grãos, & dali começara a deminuir & por se faze* 
rS com ho cabo dobrado no mes de setêbro em () ouue- 
râo desiar na índia, pareceo ao piloto que ja aquele âno 
não poderião ir a ela, ainda () António galuão j^ria ir 
por fora , do que se o piloto agastaua tanto , ![ disse á 
gente que os (|ria leuar a perder, porque os vStos auião 
ja de ser leuanles, & as agoas corriSo muyto naquele 
tempo pêra ho estreito de Meca , onde os auião de )an* 
çar como ja lançarão outras nãos, Sc este auia de ser ho 
derradeiro remédio qnãdo os deos quisesse saluar mila« 
grpsamCte : mas que ho mais certo era ^ antre monção 
& moução que era ho mes doutuhro & de setSbro auião 
dachar tala calmaria naquele golfão Q auiã de morrer de 
fome & de sede, & isto quãdo escapassõ dos muytos bai- 
xos & iihas & rastinguas ^ auia nele« E coestas rezòes 
& com outras prouocou quasi todos a que fizessem por 
força ir António galuão por dfilro quãdo não qijisesse 
por sua vòtade. & primeyro ho piloto è nome de todos 
lhe fez hiia fala em que lhe daua todas as rezões que 
digo & outras muytas pêra não ir por fora se não por 
dentro, & inuernar em MoçãbiQ. Ao j| António galuão 
respondeo que não auia dír se não por fora, & Q espe-^ 
raua em nosso sftor de passar aquele ãno á índia, roga* 
do muylo a todos que lhes parecese bem lio Q dizia, & 



LIVRO vu, CAPiry^o x* M 

imítfHnc)o*RÍato ebamou bo piioio ao mastre, Q. aoia no- 
na fisteoão diaa pêra Q bo ajju^asse coolra o capitão 
foyu iodosecàe da aoa pafle, ao que ele respSdeo que 
Ottca deos quisesse ^ fosse cõtra iat pésgoa , qufito Biais 
aeodo seu capíláo, a qu^ era obrigado dobedecer^ & 
/Bõislo ficou a cousa asst. £ cõ ludo lendo o pilo lo os 
mais da sua parle detet niíooti de leuar a nao a iVloçãbi*- 
§ue mandando gouernar pêra lá, bo {| sabSdo Ântonio 
galttâo oiandbu Jogo gouernar pêra onde queria, p<>lo 
<i)ue bo piioio Ibe emcâpou a nao,. & fez fazer bu aulo 
de Goinu ibe o eapilSo lomaua bo seu oificio & Qria n>e- 
ier a nao no fundo reíJrSdolbe da parte delrey 2|, ibe deir 
xasse Jfizer seu ^eaminbo & coino António galuao visse 
^ bo oiélbor cffa ir pot fora nâo quis se não íazer bo que 
ibe parecia bem : jk disse {| eJe mâdaria a via : & por^ 
Ibe nâu- mudasse a derrota tiaba de noile & de dia bOa 
agoiba na sua camará em {| via pêra onde gouernauão ^ - 
& encomCdauase a nosso sftor mandando dizer missa lo- 
dos oa dias, & á noíVe a Salue Sc as ladji^ynbas & rogaua 
a nosso sfior ^ lhe valesse» £ era tam deuoto , Q que* 
brâdolbe bo garoupez cÕ búa loruoada nS quis § se co&* 
cerlasse ao oatpo dia por ser dia saneio, nè ao outro ^ 
era domlgo , cd qjuãto o mestre se queixaua ^ perdião 
viagC sem a eeuadeira, & todauia não quis António gal- 
uao <} se corregesse bo garoupez poi sei S os dras 1^ erâo, 
lio qUe parece que d^y permissão diuina por%. se andarão 
iiai|ie8 doua dias lalo quãto o mestre qn^isera ouuerão 
dir varar por cima dos baixos dos abrolhos que eslão em 
dezasele grãos da bàda do aorta, & sSdo perlo da Jinba 
comequulbe dadoecer algOa gente ^ ele fez curar cÕ lan^ 
ia diligencia ^ Ibe nã raorrea nSguS , bo Q foy mujlo 
despanlar, por4 ali morrfi sSpre muylos. E despois ^ bo 
piloto vio quã bõ conselbo fora* bo Danlonio galuão em 
ir por fora ,. & ^ esperaua de ser muy cedo eò a costa 
da Índia |>ediolhe perdão doa re^risuêtes ^ lhe fizera, 
louuãdobo do melboc piloto do mundo :. & kido ja perto 
da cosia da Índia acbaràose anise as ilbaa de Maldiuai, 



84 DA HISTORIA 3>A ÍNDIA 

& como 9H (odas rasas com a agoa & nê bè piloto n6 dck 
nhu dos que yão na oao forâo aK nãca fiearfio muytoi»- 
gastados : & mais porque viâu. hfiB 4>aixo8 por firoa ^ a«- 
rebdtauão em frot , ho ^ visio por António gaiuao se ao- 
foio a gauea com ho mestre , ( porc) ho piloto desacoroí^ 
coou ) pêra descobrir de lá a terra & por onde aoiâo diR^ 
& assi chegon aos baixos i\ conkeceo que erâo de pedra 
viua, peto ^ lhe pareceo que ao iògo deles auia de ser 
alcantilado, & mandou fazer caminho ao derredor dele«| 
& em se poendo ho sol mâdou tirar aigQs tiros pêra l[ 
acodisse gSie de terra se a ouuesse, de ^ soubesse dde 
era. R logo sayo de hiía ilha hua almadia bS esquipada 
•em () ya bd velho com quinze ou vinte homSs quacb^ 
gado abordo da nao entrou dentro, & dele sodbe Anto^ 
nio galuâo !\ era sftor da^la ilha ^ auia nome Gafar bfia 
das de Maldiua & que ya bem nauegado: & foy coelé 
ate bo outro dia em amanhecSdo que sayo dantée as 
ilhas, & poslo ^ ho mestre & piloto cÕselhaufi a Anto^ 
Oto gaiuao ^ nSo deixase ir os das ilhas ale ho poerete 
na costa da índia nSo quis di^êdo ^ aA^a não fazer ho 
^ deuia ficaria a gSte tam escandalizada que ainda ^ 
irissem outra nao nã lhe acoderiã & a deixarilo dar á 
costa , & galardoSdolhes a boa obra l\ lhe fízerão os dei»- 
xou ir, & partidos daqui hti domtgo na fím doutubro 6 
amanhecido ouuerSo vista de doze velas & arribado a 
elas virSo terra & ao longo dela hõa grade armada 2} com 
fao terrenho se faaia na toMa do mar^ & das doze velas 
i| parecerão primeiro, & neste tempo foy conhecida a 
terra ^ erSo as serras de Calicnt ? & a armada era de 
Malabares , & as doze velas cuidauâo serem de rumes 
que era a própria moução pêra virem , & os nossos es^ 
tauâo ja prestes pêra pelejar que em amanhecendo se 
a|)erceh#>o António galuâo, & nisto hfia das doze velas 
chegou á nao, & conhecSdo que era dos nossos saluoiiw 
os com hua grande g^^^^ ^ & entrarão aleus na nao que 
disserto a António galuâo como estaua defronte de Ga^ 
licut que estaua de guerra & de lá era a armada «que 



LIVRO VII. CAPITVLO XU 2b 

Yião, & que ho tempo o8 lançara ali vi-ndo pêra Cuchim 
das ilhas de Maldiua com fazenda pêra a feíloría, pe* 
dindolhe que os leuasse em sua conserua porque não li- 
ahâo arieiharía , & ele ho fez assi & a armada de Calí- 
cul não ousou de os cometer , cu jdando que todos erãd 
darmada & forãose meter no porto , & António galuâo 
surgio defronte por lhe ser ho vento contrairo pera Co« 
ebím 9 pera onde queria ir , nSo temendo ho perigo que 
era estar tâo perto dos immigos, & ali pedirão mujto to- 
dos os da nao a António galuão que pois ho vento era 
a popa pera Cananor & pera Goa que fossem lá & que 
farião muyto proueilo em ?Sder hi suas mercadorias^ 
porQ vSdendoas em Cochim como era ho derradeiro por- 
to auíão de fazer barato delas. £ escusandose António 
galuão desta ida por recear que não tornasse a Porto* 
gal no ãno seguinte por quão tarde era, lhe disserão que 
isso queriSo eles, porque como a nao era grande & nãe 
linha na índia Õde innernar irião a Ormuz em que fa- 
rião muyto proueilo éobrãdo sua fazSda , & quando tor-* 
nassem seria mais cedo & poderião empregar de vagar t 
& como isto era perda deJ rey não quis ÂDtonio galuão 
Ç se ãzesse , & acodindoJhe tempo foyse a Cochim onde 
achou as outras nãos que aquele anno partirão de Porta-- 
gah 

€ A P J T V L O XI. 

De como d rey de Portugal mandou que Lopo vaz de 

sam Payo fosse gouernador^ 

Jii chegados a Cochim Francisco danhaya & Tristão 
vaz da veiga ^ erão capitães de duas nãos derão a A' 
/80o mexia vedor da fazSda doas vias de cartas <) lhe 
leuauão dei Rey de Portugal , & neslas achou ele dons 
ina<^ de subcessões da gouernança da Tndia por faleci* 
B»%io de dom Anrrique de meneses. E pera saber co« 
mo aquilo era leo hila de duas cartas que lhe el Rey es*- 
creoia que dizia« 

LIVRO VII. j> 



26 VfA HISTORIA DA ÍNDIA 

« Afont^o mexia, eu el Rey vos enuio muylo saudar» 
Per duas vias vos enuio nesla armada que nosso senhor 
leue a saluamêlo dous sacos de cartas & despachos daa 
eousas dessas partes que ouue por meu seruiço C| agora 
fossem, &' leua hu dos sacos Tristão vaz daueiga & ou- 
Iro Francisco danhaya: (omay as cartas que váo pêra 
vos & as do capitão mór lhe day & assi todas as outras 
ás pessoas a que vâo, & não tique nhOa que náo seja 
dada, & aquelas que esteuerô fora donde vos esteuer* 
des mandayíhas dar & vão a todo bõ recado. E nesta ar^ 
mada me enuiay hú rol de como forão dadas aquelas 
que destes ás pessoas onde vos estais, & ho modo que 
ieuestes em enuiar as outras q vào pêra as pessoas que 
csleuerê fora, & tomay disto bõ cuydado, porí| ho ey 
por muylo meu seruiço serè dadas todas as ditas cartas: 
as prouisões ^ vão das subcessões da capitania mór, tê** 
de na£[la boa goarda & segredo q cumpre a meu seruiço 
como de vos confio. Scripta em Almeirim a vinte dias 
de Março Pêro dalcaçoua carneyro a fez de mil &c quí** 
iihStos & vinte seys: & das outras prouisões ^ ja la t&« 
des nâo se ha dusar, & as lereis ê boa goarda & mas 
trarei:) quando S bora vierdes, el rey. A outra carta era 
do teor d^sla , se náo q nâo ttnba esta partícula derra-% 
deira. E vistas pelo vedor da fazenda, pegouse a esta 
particuJa derradeira que das prouisões das subcesões !\ 
estauã na índia nâ se auia dusar: & por isso determi* 
liou dabrir estas q yão de nono, & dizSdo ^ era hita cou«* 
sa que cumpria muyto ao seruiço dei Rey, fez ajutar na 
sé de Cochiai dom Vasco deça capitão da fortaleza, ho 
bcericeado loâo do soiro otiuidor geral da Índia, loa ra- 
belo feytor de Cochim , Duarte teixeira tesoureyro das 
mercadorias , com outros officiaes da fazSda & da Justi* 
^a, & assi os capitães da armada de Portugal & outros 
âdaigos & caualeyros da Índia. E juntos todos lhes ieo 
aquelas duas cartas que lhe el Rey escriuia : & despois 
lhes disse que è hCia delas parecia bem claramSte nâo 
querer el Rey que se vsasse das subcessões que eslau2a 



itivRo vif . CAPirvLO xr» 27 

•jia índia se não daquelas que ali inandaua , & que de- 
rogaua as que eráo abertas^ pelo que queria abrir as ou- 
tras , & ver quem el Rey inandaua que fosse gouerna- 
dor pêra ho auerS por esse. Ao que dom Vasco de^^ 
disse que por dizer na aua carta que das prouisftes que 
esiauSo oa índia não se vsara, não se entendia que se 
srsasse das () ySo posto que as da índia fossem abertas: 
porque se ei Rey aqoiio quisera que assi bo declarara^ 
« que escreuera pareeendolbe que as sobcessfies que es- 
tauâo na índia não erão abertas, mas sendo ho como $^ 
Dia de mandar qne se não vsasse delas & ficar em ta» 
-manha obrigação como ficaua aoa I| daua a gouernãça 
da Índia & )ha tiraua sem nhQa causa pelo que mãdaua 
ter em miiyto grande segredo as subcessões , & pois el 
Rey não mandaua , que posto que fossem abertas as ^ 
^esiauio na índia , que se abrissem as (} mãdaua de no- 
vo que lhe requeria da parle dei Rey que as não abritf- 
me, & não desse causa a auer diuisSes na índia, que e»- 
taua claro auer ^inlfe Pêro mazcarenhas cuja era a g^ 
-oeroança de dereyicy: & aquele que se achasse na nona 
-tubcessam cuja a goueraan^ não era , pois ei Rey não 
mãdaua que lha dessem : & se ele queria ^erair sua bU 
tesa , que lhe lornasse a mandar a noua subcessam c6 
declaração do porque a nã abrira. E deste parecer de 
^ Vasco forão muytos, & outros com bo vedor da fa« 
senda que se abrisse a noua subcessam. E> ele disse a 
éom Vasco & aos outros qne de ser mal oo bem abrirse 
a noua subcessam, que ele daria conta de como bo A- 
xera , & ^ a auia dabrir : & assi ho fez contra v>on(adb 
da mayor parte dos Q ali estatião. 



B 1 



28 DA HISTORIA J>A iNDIA 

■ 

C A P I T V LO XII. 

fit como Lopo vaz de sann payo Joy declarado por 90- 

uemador. 

jOLherlaí a noua subcessão Fernão nunez eficriuâo da 
fazenda a leo em alta voz , dizendo 

« Eu el Rey faço saber a todos os meus capitães & at* 
caydes mores das minhas fortalezas da índia, capitães 
das nãos, nauios das armadas que nas ditas partes âdão^ 
fey tores & escriuâes de minhas feytorias , capitães d« 
Aaos, nauios i\ vão pêra vir cõ ã carrega pêra estes rey- 
Bos , fidalgos , caualeyros , & gele darmas Q nas drtas 
partes andarS & a todas quaes quer outras pessoas & of*- 
ficiaes da justiça & fazêda a 4 este meu aluara for mos- 
trado, Q pela muyta confian(;a que tenho de Lopo vaz 
de sam payo fidalgo de minha casa, que nas cousas d« 
Q ho encarregar me saberá b6 seruir : me apraz que 
sendo caso que faleça dõ Anrrique de meaeses, Q ora 
•fae mea capitã mór & gouernador das ditas partes da ín- 
dia ^ nosso Senhor não mãde, subceda & entre na dita 
capitania mor & gouérnança, ho dito Lopo vaz pêra ne- 
la me seruir, cô aquele poder, jurdiçâo & alçada que ti- 
nha dada ao dito dom Anrrique de meneses, & me a- 
praz que aja em cada h(i ãno em quanto me seruir na 
dita capitania mór & gouernança , dez mil cruzados, s. 
cinco mil em dinheiro, & os outros cinco mil em pimS- 
ta comprada do seu dinheiro ao partido do meyo, toma- 
do & nomeando seu risco nas nãos & nauios Q nomear 
que vierS pêra estes reynos, segundo crdenãça dos par- 
tidos do meyo, E entrado assi ho dito Lopo vaz na dita 
capitania mór & gouernança da índia, enirará na capi*- 
tania mór do mar que ele lem, António de miranda da- 
zeuedo, com ho ordenado que coela tinha ho dilo Lopo 
vaz de sam payo, & no cargo que ele ao tal tempo te- 
uer, prouerá ho dito capitão mór ate eu prouer: & não 



LIVRO VII. CAPITVLO XJI. M 

estado fia índia ho dilo Lopo vaz ao tempo do faleci- 
mento do dito dom Anrrique, por ser vindo pêra estes 
rey nos ou sendo falecido, ou falecSdo despois dêtrar & su- 
ceder na dita capitania mor & gouernanija, S quafquer 
destes casos entrara por capilão mor & gouernador Pe*- 
ro mazcarenhas que está por capilão de Malaca: & aue- 
ra bo dilo Pêro mazcarenhas, os ditos dez mil cruzados, 
de seu ordenado de capitão mór & gouernador , daquela 
maneyra que os ordeno ao dilo Lopo vaz, & Strará Pê- 
ro de faria na capitania de Malaca, õde o dito Pêro maz- 
carenhas está & auerá ho ordenado da capitania de Ma- 
laca. £ estado ele por capilão S Goa prouera ho dito 
meu capitão mór na dita capitania, a pessoa que lhe 
parecer que pertence mais a meu serui^o ate eu prouer, 
& auerá ho ordenado da dita capitania. E porem volo 
nolefico assi, & vos mando a todos em geral & a cada 
hu em espicial, que vindo ho dito caso se cumpra, & 
goatde inteyramente este meu aluara como nele he con- 
teudoy & a quall^r dos sobTedilos que entrar na dita go- 
uernâça obedeçaeis , & cumpraes seus requerimentos 
'& mandados, assi como bo fazies ao dito dom Anrri(]|, 
•& como sois obrigados de fazer ao dito meu capitão mór 
& gouernador, & em todo ho deixai vsar, do poder, jur- 
de^ao , & alçada, que ao dito dom Ânrrique tinha dada 
por minha carta , sem duuida nem embargo algQ que a 
elo ponhaeis, & mando ao meu vedor da fazenda que 
em cada hu anno em quanto me seruir na dita capita- 
nia mór & gouernança, lhe mande pagar os ditos dez 
mil cruzados na maneyra sobre dita* Feyto em Almei- 
rim , á quatro dias Dabril , lorge Rodriguez ho fez , de 
•mil & quinhentos & vinte se]^s. E estes dez mil cruza- 
dos que ordeno que ajão os sobreditos por anno, será 
naquele próprio modo, forma & maneyra q os tenho da- 
dos ao dito do Ânrrique, & ho ordenado de António de 
miranda dazèuedo entrando na capiiania mór do mar se- 
rão doos mil cruzados por anno.. s. mil em dinheiro & 
mil em pimenta bo modo sobredito de como a ha dauer 



30 l»â HISTORIA DA ÍNDIA 

ho dito dom Anrrique, posto que diga Q ha dauer be 
ordenado de Lopo vaz. El rej. Lido este aluara, foy fey- 
10 bu auto por Fernão nunez escriuão da fasSda da a- 
bertura daquela subcessam , ^ foy assinado pelos mais 
dos que ali estauâo, porem a mais da gSte assi altos co- 
mo baixos estranhauão muyto abrirse a{|la subcessam ^ 
& dizião ^ bo vedor da fazfida fizera hOa cousa muyto 
errada & roubaua sua hõrra a Pêro mnzcarenhas que por 
dereyto era verdadeyro gouernador, & que Lo{x> vaz de 
«am Payo nâo faria bem daceitar a gouernança que nio 
era sua : & que vindo Pêro mazcarenhas esperauão que 
ouuesse na índia grande reuolta por ter nela muyto mais 
valia Q Lopo vaz de sam Pajo. E bS parece que adiui- 
nhando el Rey de Portugal estas reuoltas Q se poderiâo 
seguir, como soube per Frãcisco de mendoça que d5 
Anrrique de meneses era falecido & lhe subcedera Pêro 
tnazcarenhas por cuja ausência Lopo vaz de sam Payo 
gouernaua a índia , por atalhar ás dinisòee que poderia 
auer mâdou logo Pedreanes frSces em hQ nauio c5 reca~ 
do ^ auia Pêro mazcarenhas por verdadeyro gouernador: 
& este se perdeo na ilha de sam Lourenço & nSo ouue 
effeyto o que el rey qutsera. E declarado Lopo vaz de 
sam Payo por gouernador , & auêdo ho vedor da fazCda 
por esse, despachou logo dom Anrrique deça qoe lhe Io* 
uasse a Goa (onde lhe pareceo Q ho achasse) a subces- 
sam, & por ele escreueo hOa carta á camará de Goa em 
t)ue Ihescreueo o que fizera pêra (} soubesse ^ Lopo vac 
de sam Payo era gouernador & o teaesse por esse : & 
sabendo híi Thome pirez capitão áH catur esta noua, 
partio logo de Goa 6 busca de Lopo vaz pêra lhe dar es- 
ta noua & ganhar as aluisaras & achou ho em Dabul de 
caminho pêra Goa. E sabida a noua pola armada , os 
mais dela eslranharSo muyto o que fizera ho vedor da 
fazSda, porque todos queriilo antes que Pêro mazcare- 
nhas fosse gouernador () Lopo vaz de sam Payo que 
continuando dali sua viagem chegou a Goa, onde sendo 
recebido como gouernador deu a capitania mór do mar 



LIVRO VII. CAPITVLO Xfff. SI 

a António de miranda dazeuedu & a de Goa a Pêro de 
faria. E deixado em Goa a Eylor da silueira pêra que 
fosse ao esireilo, se parlio pêra Cochim. 

CAPITVLO XIII. 



De como Hagatnahmvt se leuanUm com Diu j 4^ ho deu^ 

a el rey de Camhaya. 

Jl arlido £y tor da silueira de Diu desesperado de se fa« 
ser fortaleza, Meiique saca l\ faiaua verdade & espera* 
ua de comprir o que pronielera , começou logo de ho 
despejar, & mandou sua arlelharia a laqueie pêra onde 
determinaua de se ir. EHagamabmut a quê pesaua lan* 
(o como disse de Meli() dar Diu aos Portugueses, & (ra^ 
aia grade diiigêcia polo estornar, leuãiouse bum dia cõ 
m cidade por el rey deCàbaya, sendo Meli^ em húa sua 
qnmiâ duas legoas de Diu : do q a geie foy colete por 
Ibe pesar mujilo de se ele ir dali c5 Meliq: & leuàiada 
a cidade /ogotí/ig^amabmut ho fez saber a el rey deCam* 
baya, mádaodoihe dizer o ^ Me/i^ úelennmaua ^ & pe- 
dindolfae a capitania dela, & Cj ihe mSdasse gête. £ el 
rey sabendo este recado partio logo pêra Diu. H, sabfido 
IMelil) o ^ Hagamahmul linha feylo, conheceo então a 
falsidade do conselho {| lhe dera em fazer ir Eytor da 
•ilueira pêra Chaul, õde cuydádo ^ ainda estaua Lopo 
wa% de sam Payo lhe mádou dizer o (] passaua, pedindo^ 
lhe {) Ibe acodisse, jiorque esperaria ate sua vinda. £ 
Christouão de sousa por nâo ter ac mada ^ lhe mâdasse , 
niftdou este recado a Goa Q foy dado a Eytor da siluei- 
ra 9 por ho gfueroador ser partido pêra Cocbim: & Gy« 
lor da síJuHra como ho soube partiose logo pêra Chaul 
iodo coele muytos fidalgos & outra gente , mas sua ida 
iby fora de tSpo & sem proueito por nâo estar em Chaul 
qnàdo MeliQ màdou ho recado ^ s^ hi esteuera ainda se 
poderá auer Diu, a Q primeiro ^ chegasse a Chaul che« 
g^oo el nj de Caaibaya eÕ grade poder de gSie, & Me- 



32 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

li^ escassamête pode auer híia fusta em !\ fugio pêra Ta-< 
£[te. C ludo isto se sabia em Ghaul quando chegou Ey* 
tor da silueira, Q do mar mãdou dizer a Cbristouão da 
sousa ^ se tinha algu recado de Diu !\ lho mâdasse. E 
ele respõdeo !\ a(}la fortaleza era dei Rey de Portugal , 
& se a ele tinha por essa <) fosse lá & saberia ho reca- 
do ^ & se assentaria o í\ deuiSo de fazer , & se não ^ se 
fosse em bora. E pareofido a Eytor da silueira (| por ca- 
pitão mor da^la armada lhe deuia Christouão de sousa 
de roâdar ho recado, insistia Q lho mâdasse & não {|rta 
lá ir, & tambS por recear (| como lá fosse lhe tomasse a 
armada & mandar outrS a Diu. E dãdolhe Francisco de 
sousa tauares palaura de não se fazer tal se foy á forta* 
leza, & ê cõselho lhe disse Cbristouão de sousa o ^ pas- 
sana em Diu (} era escusado ir lá: pelo ^ se assStou (} 
não fosse & tornasse a dar cola disso ao gouernador, & 
não fosse ao estreito, por ser certo !\ çoleimâo raix per 
mãdado do turco passaua á índia cÕ hua grade armada 
de turcos & ^ estaua na ilha de Camarão fazSdo bua for-- 
taleza, & ho mesmo escreueo ChristouSo de sousa ao 
gouernador por Eytor da silueira, ^ ass6(ado isto sa 
partio logo pêra Goa onde não achado ainda ho gouer* 
nador se partio pêra Cochim. 

C A P I T V L O XIIIK 

Do grade aluoroço q auia na geie da India^ dizédo § Ia>- 

po vaz nâ era gouernador. 

Jl ar ti do ho gouernador Lopo vaz de sam Payo da ci- 
dade de Goa, chegou a Cochim, õde ho vedor da fazen- 
da era também capitão, Q na armada do anno presenta 
the mâdara el Rey de Portugal prouisam pêra ho serjun- 
tamente com vedor da fazSda. E sabSdo que Lopo vaz 
de sam Payo era chegado ho recebeo com muyta festa 
& ho tornou com todos a jurar & obedecer por gouerna- 
dor da índia : & como em Cochini estaua jClla a mayoc 



LIVRO VH. CAPITVLO Xfttt* 11 

parte da gente dela , & bs mais erão afeyi^ados a Pêra 
mazcarenhas & desejauão que ele gouernasse vendo ^ 
se fazia ho contrairo pobrícamSte , estranbauSo muyta 
o que ho vedor da fazenda fizera em abrir a noua sob* 
cessam de Lopo vaz de sam Payo despois de Pêro maz« 
earenbas ser jurado & obedecido por gouernador, & cba- 
mado pêra gcuernar, & que lhe roubaua sua honrra & 
justiça. -E era a onião que fazião sobristo muylo grandoí 
& auia bandos aotre os da parte de Pêro mazcarenhas ^ 
& os do gouernador, & perfiauSo com muyto perigo sobro 
qual era gouernador por dereyto auendo palauras bte 
com os outros & desafios & pelejas^ & era a reuolta ta-^ 
tnanha sobristo em Cochim que nS se ouuia nunca ou- 
tra cottsa, & pêra mais ajuda chegou na seganda oyta« 
ua do Natal hu jungo a Cochim que deu noua que Pere 
mazcarenhas ficaua embarcado & partira pêra a índia ^ 
<| agrauou mais nos de sua valia o que lhe ho vedor da 
faz&da fizera. E ho gouernador como soube a noua da 
▼inda de Pêro mazcaTen\\as, porque ele soubesse prímey- 
To que chegasse a Cochim ^ não era gouernador, & não 
6zes8e aluoroço mãdou ho terlado de sua subcessam , & 
ho do auto que se fez quãdo foy jurado & obedecido por 
gouernador a Anrril\ figueira feytor & alcayde mòr de 
CoulSo com hQ regimento que tanto qtte Pêro mazcare- 
fibas chegasse ao porto lhe fosse mostrar ao mar ho ter- 
lado da subcessam & do auto , & se ho outiesse por b5 
lhe fizesse muyto gasalhado, & doutra maneyra que ho 
não acolhesse na fortaleza. Partido este recado pêra Cou- 
lSo, porque ho gouernador sabia que se dizia pubrica- 
mente que ele tomaua por fori^a a gouernani^a a Pêro 
mazcarenhas pêra dar a enlêder a todos que não era as- 
si por conselho do vedor da fazenda mandou ao derra- 
deyro dia de Dezembro chamar a sua casa Bastião de 
sousa , Felipe de craato, António galuâo, Francisco da- 
Bhaya & Tristão vaz da veiga capitães das nãos da ar- 
mada l\ auia de tornar pêra Portugal, que parecia Q por 
essa causa podião dizer sfi affeic^ão o que lhes na!)[le ca* 

LIVBO VIU B 



34 ' BA HISTORIA DA fNDIA 

•O parece^Be, & perante António rico que aquele atino 
Ibra de Portugal por secretario disse o que se dizia por 
parte de Pêro mazcarenbas contra a. sua subcessam. £ 
por ele não fazer justitja dos que tão ousadaniète diziSo 
mal dele ^ & queria ver se por bem se queriâo enmen^ 
dar, que lhes pedia como a fidalgos que tinháo tanta re» 
zSo de falar verdade que liuremête lhe dissessem com 
íuramSto dos santos euágelbos o Q lhes parecia da sua 
subcessam , & se Stêdiâo (} por virtude dela era gouer* 
nador: & logo bo secretario lha leo. E lida, como quer 
Q ho gouernador lhes pregQtou simprezmète o Q lhes pa^ 
recia de sua subcessam , & se o fazia gouernador: assi 
simprezraenle disserão todos & cada bú por si, que ti* 
nbâo por cousa muyto clara ele ser gouernador por sua 
siubcessam , & que assi o queria el Rey , & assi bo jura* 
jfLo que lhes parecia. E Tristão vaz acrecentou mais^ 
dizendo que por se eui tarem cousas que seriâo deserui* 
qo de Deos & dei Rey, ele gouernador bo deuia de ser, 
& também por estar em posse da gouernança : & quan* 
to a se ele ou Pêro mazcareolias ho deuião de ser por 
justiça, era necessário ver todas as prouisões passadas 
& por as não ler vistas bo deixaua de dizer. E a isto se 
calou bo gouernador, & disse qiye assinasse o Q dissera, 
por^ de tudo António rico fez hu auto Q ele & os ou^ 
tros assinara. E a mesma pregOta , & polas mesmas pa^ 
lauras fez bo gouernador a bd Frey loâoDaro da ordem 
de sam Domingos homem letrado, que por mandado dei 
Rey de Portugal fora pregar á índia, que jurou ao ga^ 
nernador ^ ho era por dereyto por virtude da sua pro«- 
iiisam: & pêra ser mais notório a todos ho diria na pre^ 
g«içâo Q auia de fazer no dia seguinte ^ era da Circun- 
eisam de nosso senhor, & no cabo da pregação- disse as 
murmurações que auia contra ho gouernador por parte 
de Pêro mazcarenhas estranhandobo muyto, porque Lo- 
po vaz de sam Payo era verdadeyro gouernador , dando 
pêra isso as melhores rezões que pode, & aifirmando que 
^ssi ho sustStaria em Paris & em Salamanca & em Por* 



LIVRO Vlf. CAFITVLO XIÍMU 16 

tugal pêra ondestaua embarcado , pelo que ee deuía de 
crer ique falaua verdade pois dI tinha necessidade do 
gooernador , de quS não era tamanho amigo como de 
Pêro mazcareahas : porem qne auía de diter verdade^ 
& requereo ao gouernader da parte de Deos que lhe lè^ 
brasse bS que tinha nas mãos hOa cousa de tanta impoiv 
tancia & de tSto peso como era a gouemança da índia: 
& que pois el Rey de Portugal a conãaua dele^ que H14 
requeria da sua parte que castigasse graoissifDaaienta 
quft fizesse aluoroqos ou mouesse duuidas na sua proui^ 
aam , & que os degradasse de Cochi se fosse neoessa^ 
rio. B o gouernador bo fez assi, & degradou logo a hum 
Simão toscano que fora criado de Pêro mazcarenhas^ 
por^ era ho priocípaJ que affirmaua que Pêro mazcare* 
nhãs era gouernador , & ^ ho gouernador ihe roubaoa 
sua justiça : & assi degradou pêra Chaul a Vicente p#» 
gado polo mesmo caso & aqniria mnjtos () tiuessê sua 
iroz. E durando estas reuollas que de cada vez etSe 
majores forão aeabmdas de despachar aa nãos da carre» 
ga que aufâo djr i^erã Portugal de que forão capitães 
lUstião de sousa^ Frácisco daobaja, Trislâo ras da vei- 
ga & António galuão, ^ partidos de Cananor seguirão 
sua viagem pêra Portugal, ieuando António galuão a 
ossada de seu pay Duarte galuão: i\ ho derigo Frãcis» 
CO aluares trouoera á Índia de Camarão vido do Preste t 
& António galolo a ieuou mujlo secretamCte na nao 
por a gSte do mar ter Q se perderá a nao em Q for wst^ 
po morto. £ estas nãos chegarão todas a Portugal a sali- 
uamento. 



s 2 



36 DA HlSTOmiA OA INOIA 

C A P 1 T V L O XV. 

De como ChrisUmâo de sousa aiqniâo de Chaul deUrmi- 
nau q Lopo voz de sam payo não era gouernador. 

V icente pegado que foy degradado pêra Chaul pelo 
gcuernador, despois que foy lá por se vingar dele, di»- 
86 aChristouão de sousa que era verdade que bo gouer- 
Dador & ho vedor da fazêda estauão coocerlados de nãa 
darem a gouernança a Pêro mazcarenhas , aífirmãdo que 
Lopo yaz de sam Payo era verdadeyro gouernador & não 
ele : & que assi bo roandaua el Rey de Portugal em bua 
prouisam que dizia, que em caso que Pêro mazcarenhas 
csteuesse por gouernador ho deixasse de ser , & ho fos- 
se Lopo* vaz de sam Payo , & mostroulhe ho lerlado da 
carta do vedor da fazenda : em que el Rey dizia que das 
subcessões ^ estauão na índia não se vsasse: & assiho 
terlado da subcessam de Lopo vaz de sam Payo que yie* 
ra de nouo. E parecêdo a Christouão de sousa que ho 
líédor da fazenda fizera o que não diuia em abrir a no* 
«a subcessam : pois Pêro mazcarenhas estaua declarado, 
obedecido & jurado por gouernador, & Q el Rey na par^ 
ticula da carta a Q se ho vedor da fazSda pegaua não 
mâdaua , que posto que Pêro mazcarenhas fosse gouer- 
aador se abrisse a noua subcessam : pareceolhe muyto 
mal ser Lopo vaz de sam Payo gouernador , & muyto 
peer a determínai^ão com que Vicente pegado Ibe dizia 
que estauão ele & ho vedor da fazenda, & que seria for- 
çado auer na índia diuisam que seria cousa muylo per- 
judicial , por ser certo estar Çoleymão raix em Camarão 
com a armada do Turco pêra passar á índia, & que a- 
uia de ser na moução de Àlayo ou de Setembro. E pêra 
saber que meyo nisto tomaria, ajuntou a conselho ho ai- 
cayde mór, íeytor & outros officiaes da fortaleza com 
muyios fidalgos que estauão coele: & VicSte pegado 
disse a todos o Q dissera a ele só. £ lidos os terlados da 



LIVRO VII. CAPITVLO XVI. 37 

^arta do vedor da fazenda , & da prcuisam do gouerna- 
dor : propoa Cbrislcuão de sonsa ho caso, & todos dísse- 
rSo que thes parecia o que disse que parecia a ele, & j| 
Jjopo vaz de sam Payo não tinha nbum dereyto na go- 
uernança polas rezões declaradas: mas porque se escu- 
sasse diuisam antre duas tais pessoas , & os males <| se 
deJa seguiriâo, era necessário que se posessem em jus~ 
liça pêra se julgar por dereyto & nft por armas de qual 
deles era a gouernança : & que isto deuia descreuer lo* 
^o a Lopo vaz de sam Payo , desenganando ho que nSo 
aoia dobedecer por gouernador a quem isto refusasse 
antes auia de ser conireie t & que mandasse esta carta 
a Francisco de sousa tauares que a desse a Lopo vaz de 
«am Payo. E como este era ho mesmo parecer de Ghris- 
touão de sousa , escreueo a carta & mandou a a Fran- 
cisco de sousa que a deu ao gouernador em Goa como 
direy a diante» 

CAPITVLO XVL 

Do juramento § ho gouernador fez em Cockim. 

. X endo ho gouernador por muyto cepto estarB os rvt- 
mes em Camará fazèdo b&a fortaleza pêra despois de 
feyih passarem á índia , determinou de os ir buscar & 
pelejar coeies : & porque sabia que ãdauão muylos Por- 
tugueses em Choramfldel^ escreueo a Ambrósio do re- 
go que lá era feytor & alcayde mór que lhes dissesse da 
sua parle !\. logo sopena de tredores se fossem a Cocbim 
porque compria assi a seruiço dei Rey, & que perdoaua 
aos Q fossem obrigados á justiça quaesquer culpas que 
teuessem : porem como ho eles não tinbão por verdadey- 
ro gouernador não lhe obedecerão, Sc tambÍE^ em Cocbim 
muytos não se querião embarcar pêra ir coele, dizendo 
p\ibricaméte que fingia ir ao estreyto por nâo estar em 
Cocbim na chegada de Pêro mazcarenhas por n& se poer 
coele Peio mazcarenhas em dereyto sobre a gouernanr 



88 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

ça, & por 1880 não auião dir coele nem obedecer a aeas 
mandados. E diziase isto iSo soltamSte , & pnnhase tS« 
to por obra que se embarcauãa mujrto |K)Uoo8. E que^ 
rendo ho gouernador atalhar ao castigo 4 í^to merecia , 
& fazer notório a todos Q partia com tenção de ir pele» 
jar com os rumea: hfi domingo estado á missa em ho 
sacerdote leuantâdo a hóstia disse em voz que podesse 
ser ouuido. Eu juro naquela hóstia consagrada em que 
está ho verdadeyro corpo de nosso senhor lesu Christo 
que me parto com tenção de ir buscar os rumes & pele^ 
jar coeles, & pêra lhes toruar que não passem á índia* 
£ por esta ser minha determinação, mando a todo ho« 
tnem Português tirando aos fronteiros da fortaleza qua 
se embarquem comigo, & quem ho não fizer sayba cer* 
to que será grauemète castigado. E coeste juramCto & 
amoestaçSo que ele fez se embarcou a gente toda cren- 
do ^ auia dir pelejar com os rumes : & antes de se era* 
barcar deu há regimento a Afonso mexia em que lhe 
mandaua que não recebesse a Pêro mazcarenhas como 
a gouernador, antes se quisesse desembarcar em Co« 
chim coroo gouernador lho defendesse por armas. E coes- 
te regimêlo lhe deu hQa carta pêra ele de grandes con^ 
solações sobre a mudança (\ el Rey fizera de ho fazer se- 
gQdo sendo primeyro. E feyta esta diligêcia se partio 
deCochim, ê laneyro de mil & quinhentos & vinte sete: 
& chegando a Cananor deu a dd Simão de roeneses ho 
mesnK» regimento ^ deixara a Afonso mexia, & hi dei- 
xou por capitão mor de certos.bargantins a hii fidalgo 
chamado lorge de sousa pêra que goardasse a costa do 
Calicut: & ho primeyro de Peuereyro se partio pêra Goa, 
& em balicalá achou Eytor da silueira que lhe disse o 
que fizera em Diu. E a certeza que Christouâo de sou- 
sa tinha da estada dos rumes em Gamarão, & como por 
seu conselho & requerimentos não partira pêra ho es- 
treyto : & dali escreueo o gouernador a Christouâo do 
sousa ho fundamento que leuaua dir pelejar cõ os ru- 
mes, pedíndolhe que lhe mandasse a armada que ta^ 



LIVRO TU. OAFlTVhO XYti. 89 

Wtse & a gête que Ibe aobejanse da ordenada á fortal^ 
sa« £ partindo daqui pêra Goa achou no caminho Fer^ 
nào de morais que vinha Dormua, de cujo rey the deu 
carlae, & do capitão da forlalesa, & do fey tor : ern que 
lhe faziào queixume de Raix xarafo de counas que ti»* 
oba cometidaa contra ho seruiço dei rey Dormuz que 
por Í8go bo prfidera, pediodoihe todos trea que log^o man» 
ilasse por ele, porque em quanto esteuesse em Ormua 
aempre auia de fazer maldades. 

C A P I T V L O XVII. 

JDe como $e assentou qu€ ho gauemador n6ofo$u a Ckt^ 

marâo. 

\^hegado bo gouernador a Goa, jutos lodos os capitães 
4t fidalgos prlcipais da armada oo mosteiro de sam Fran* 
«isco com os mestres & pilotos dela Ibe propôs a estada 
dos rumes è Camario, £L.como queria ir pelejar coeles* 
O que íodoa ouuerào /X)r mujto escusado por quã pou* 
ca gente tinha , & qoe seria wuyíQ graade doudice ir 
cometer hila tão poderosa armada como os rumes tinfaâo 
estando eies em ierra , & acordouse que ho gouernador 
inuernasse em Goa y & que \indo no verão seguinte ar- 
mada de Portugal leria mais gCie Sl poderia ir esperar 
os rumes aa fx>nla de Diu onde os tomaria trabalhados 
da viagem & com a artelbaría abatida pela passsgem do 
golfão: & desta maneyra com ajuda de nosso senhor os 
desbarataria de todo. £ de tudo isto fes bo secretario 
^íi aulo ^ todos assinarão. £ sabendo a genie comum 
€omo ho gouernador não auia dir buscar os rumes, logo 
começou de dizer que essa fora sempre sua determina* 
^<o posto que jurara bo contrairo, que bem sabião que 
Bio deitara aquela fama se não por /ugir de Pêro maz^ 
carenbas pêra não se poer coele em dereyto, & dizião 
outras muytas cousas em despreao do gouernador , por* 
que Terdadeyram^nte criào que ho nào era se não Pêro 



J 



40 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

Diaeoarenhas. E desenganado bo goueroador que d2o a* 
uia dir a Gamarão, mandou Manuel de macedo a Orreus 
pêra que trouuesse Raíx xarafo preso a Goa pêra ser 
eastigado se iio merecesse , & mSdoulhe que tornasse a 
inueroar a Goa, & mandou logo ao capitão moor do mar 
que so fosse ate Cochím leuãdo grade vigia sobre não 
errar Pêro mazcarenbae , & Q achando ho Ibe dissesse 
da sua parte que se fosse inuernar a Cananor ou a G># 
cbim, por^ assi cumpria a seruiço dei rey seu senbor: 
& quando não quisesse se não ir a Goa que tornasse 
coele ate a barra, donde ho não deixaria passar ate lha 
n$o fazer saber como ali estaua, & deulhe bua carta pe« 
ra Pêro mazcarenhas que se quisesse tornar a Malaca 
que Ibe daria mayor ordenado do Q tinha a capitania* 
£ a causa porQ ho gouernador receaua que Pêro mazca* 
renhas fosse a Goa, era porque vendo ho a gente comum 
& muytos fidalgos q erão da sua banda aueria aluoroço & 
se faria diuisam , & bo farião poer em dereyto com Pe* 
ro mazcarenhas , & não queria estar nessa auentura. 

C A P I T V L O XVÍII. 

De como foy morto Gaspar machado , ^ outros Portu-* 

gueses. 

Xassãdose estas cousas na índia , Pêro mascarefihas (} 
estaua por capitão de Malaca , mandou S laneiro deste 
anno de vinte seys bO nauio pêra a índia , a cujo capi- 
tão não soube ho nome, E foy em sua companhia hil 
Gaspar machado, t\ ya em hti seu jungo c5 sua fazenda 
Q era muyta, & nauegando por sua viagem forão ter ao 
cabo de Comorim , onde tomara Patemarcar hO valete 
mouro , ^ ãdaua por capitão mór de hQa armada dei rey 
de Gaiicut de cincoenta & dous paraós! & ya caminho 
de Ceilão a fazer guerra a el Rey , por ser amigo dos 
Portugueses : & quis nosso Senbor Q ho mar andasse pt« 
cado, & fizesse grade marulho, pêra os Portugueses 4 



Limo VH» CÁPirvLO xtx. 41 

yio no nauio & no jugo escaparê a Patemarcar , Q se ca 
aferrara os tomara, & eJe bem os quisera aferrar mas 
não ousou , por^ cõ a marulhada não se lhe desfizessem 
08 paraós cÕ ho nauio, & cS bo jungo (} erão majores, 
& mais fortes que os paraós , & por isso nSo ousou da« 
Cerrar coeies, & cÒ tudo posse de bairrauento deles, & 
tirouiiies muytas bombardadas, com í\ lhes ferio, & ma- 
tou muytos bomSs , & antreles foj Gaspar machado , & 
asaz teuerâo que fazer os outros em se acolher: & forão- 
se a Cocbim, onde aebarão falecido dõ Anrrique de me* 
oeses. 

C A P I T V L O XiX. 

De como Pêro tnascarenhas soube que era gouernador 

da índia , ^ do quefez^ 

Xorge Cabral que foy por capitão mor de certas fustas 
ás ilhas de Maldiua, vendo como Pêro mazcarenhas era 
^ouernador , determinou de \he \r dar esla noua a Ma- 
luca, CÒ fundamento^ )he daria a sua vagante, da ca- 
pitania de Malaca por a/uíssaras da úoua ^ lhe /euaua. 
£ assentado isto cÕsigo, partiose pêra Malaca na fusta 
em i) andaua : & deu a noua a Pêro mascarenhas l\ era 
gouernador da índia, per falecimento de dom Anrrií} de 
meneses: E Pêro mascarenhas lhe promeleo a capitania 
de Malaca quãdo se fosse pêra a Jndia : & da hí a at6;us 
dias, foy certeíicado de todo (} era gouernador da Jndia, 

Eir António da silua de meneses, que lhe deu a carta 
afonso mexia , em l\ Ibe dizia que era gouernador , & 
]io mandaua chamar : & ho auio Ij foy feyfo d^ sua sob- 
cessão: o íj tudo visto pelo alcaide mór, feytor, & offi- 
ciseis da fortaleza, & assi por outras pessoas honrradas 
q estauáo nela, foy Pêro mascarenhas obedecido por go- 
vernador da índia. K isto feyto fezse prestes pêra se par- 
tir pêra a índia d Agosto, c5 lençflo desperar ho ieuã« 
te na ttha de Pulopnar , Q be 8 Setêbro , ^ se chama a 
mouçâo pe{|Da, cÕ que se iria pêra, a índia. E antes {^ 

LIVRO Vfl. F 



42 J>A filSTOEIA PA índia 

parlisse deu a capitania a lorge cabral. Ho ^ Aires da* 
cunha quisera impedir: dizêdo Q a capitania períScia a 
ele, por ser capilão mor do mar, porq quando ÂfooâQ 
dalbuquer^ ganhara Malaca que se fora pêra a índia, 
deixara: que falecendo Ruy de brito {| ticaua por capi- 
tão da forlaleza, sucedesse na capitania Fernão perez 
dandrade, !\ era capitão mór do mar, & despois passara 
el rey do Manuel hQ aluara, ^ estaua na feytoria: que 
nas cousas de Malaca se goardassem os regimSlos ^ A-* 
tbnso dalbuquer^ hi deixara, & assi se guardara na de-» 
ferença q Nuno vaz pereyra teuera cÕ António pache^ 
CO, sobre a capitania, por Oíiorte de. lorge de brito, co- 
mo disse no liuro Quarto : & por isso ^ a ele Aires da 
eunha pertencia a capitania da fortaleza, & não a lorge 
cabral , fazendo .sobrislo re^rimentos 4 Pêro mascare- 
nhãs Q lha desse. Ao que respondeo, ^ tudo quãlo Ai* 
res da cunha dizia era assi , se a capitania vagara por 
sua morte , mas ^ vagaua |>or entrar na gouernâqa da 
índia, & por ser gouernador, era sua a dada da^la va- 
gante, & a podia dar a quem quisesse, & {K>r isso a da- 
i)a a lorge cabral, assi por aiuissara das nouas Q lhe le- 
uara, como por ser hú fidalgo de muyto merecimSto por 
aua linhajem, & por muylos serui<^os (| tinha feylos a el 
rey. E com tudo Aires da cunha protestou de Pêro mas- 
çarenhas lhe pagar a sua custa ho ordenado da capita- 
oia. E querSdo Pêro mascarenhas partir cÒ a determi-^ 
nação (} digo: os pilotos lho re^reráo ^ não partisse ^ 
porque não auia da poder ir a índia na^ia mouçâo, mas 
liião quis deixar dir: & parliose ê hu nauio caminho da 
ilha de Pulopuluar , õçle estado surto, lhe deu tão brauo 
tdporal de vSto , ^ ho masto do nauio quebrou por três 
liugares , & esteue muyto perto de se perder, & escapa- 
do Pêro mascarenhas desta borriscada, tornouse a Ma- 
laca pêra se aparelhar ^ nã podia assi proseguír sua via-v 
gem , & è Malaea aeiíou Frãcisco de sá oè a armada 4 
leiíaua pêra ir fazer a fortaleza ê çunda: & coele ya dd 
lorge de n^eneses por capitã de Malnco , per prouisâa. 



LIVXO Vííé CáPiTVLO TXm il 

de dom Anrrique de ineneses, ^ lhe Pêro mascarenhM 
confiriDOU , & lhe deu outro oauio que fosse em sua cd-* 
panbia , a fora ho em ^ ya : a cujo capitão nâ soube ho 
ooine: Sc assi lhe deu mais gSte da j| ieuaua, & muoH 
ções Sc maadoalhe que fosse pola via de Boroeo , pêra 
ee descobrir aQla nauegaçSo pêra Maluco, i\ era mais 
curfa que pela via de Banda, & dãdolhe regínièto do <| 
auia de fazer, parliose dom lorge caminho de Borneo-: 
& porQ Simão de sousa gaiuSo, que ya por capitã móc 
do mar de Maluco, soube () Pêro mascarenhas determi** 
naua, de ir sobre Bintã pêra ho tomar: & soube qui 
pouca cousa era a capitania mor do mar de Maluco: & 
quão poDco podia neia serutr a el Rey de Portugal, que 
era pêra o ^ a ele pedira : nã quis ir a Maluco: & íicoa 
e Malaca pêra se achar na emfiresa de Bintão: que ti^ 
oha j{ auia de ser hCka cousa de muyta honrra & fama^ 
a 4 ora iDuyto inclinado. 

CAPlTVLO XX, 

£m q se escreae ho sitio ^ a fortaleza da ilha de Bintão. 

V endo Pêro mazcarenhas que lhe era forçado esperar 
a mouçao grande pêra a índia: & achandose com a gen* 
te que Francieco de sá femra, determinou de ver se po« 
dia coeia tomar Bintão j) tãta guerra fazia a Malaca. B 
assentado em conselho que bo fizesse, pHtiiose com hãa 
armada de dezanoue velas, s* hO galeão pequeno, hua 
galé, quatro nauios redondos, dous bargãtins, dous ba«> 
teis de matas, quatro lâcharas & cinco calaluzes : & a 
fora Aluaro de brito que era capitão da galé em que yà 
Pêro mazeárenhas, forão capitães Frãcisco de sá, Aires 
da cunha, António de brito, Duarte coelho, Fernão ser*- 
tio Deuora, Simão de sousa ealuão, loão parheco: & 
aos outros não soube os nomes. Irião nesta armada tret- 
sfilOB Portugueses & sey^cCtos Malayos, de que yão por 
capitXes dctts mouros hearrailoB, hft chamado tàanaya 

F 2 



44 BA HISTORIA DA INIMA 

raja, o outro Tuã mafamede. £ coesta armada ae pai<- 
tio pêra a ilha de Bintão que na Imgoa Malaya quer di- 
zer estrela : & por isso el rey de Bintão tinba por titulo 
fuuyto borrado cbamarse rey da estrela. laz esta ilha 
sessenta legoas de Malaca auante do estreito de Ginca«> 
pura pegada com a terra firme, que hCi estreito rio que 
se vay meter no mar aparta dela ^ ao ioogo deste rio ha 
pedaço da foz dele está situada hQa boa pouoaçSo cba- 
luada Bintão f)ouoada de mouros Aflalayos, onde fao rey 
que foy de Malaca se recolbeo despois que per António 
eorrea foy lançado do pagode, como disse no liuro quin--* 
to & a tomou ao senhor dela A era seu vassalo : & des- 
pois que el rey que foy de Malaca se apossou dela , a 
fortificou grandemente pêra se defender dos Portugue* 
ses eom receo que tinba de irem sobrele. £ a maneyrã 
da sua fortaleza foy esta, 8 bua baya pequena onde se 
ho rio mete que be bo porto da cidade: fez ao longo d& 
canal que se ali faz em voltas hQa estacada pêra ficar 
tão estreito Q hila gale não podesse virar nele. £ esta 
estacada era de paos muyto grossos metidos em cibos 
de grades mós: & despois d« metidos deitauão as moé 
no mar, & que se yâo ao fOdo, & eles ficauão pêra ci- 
ma fora dagoa em boa altura, & doutros paos tão gros- 
sos como mastos de nauios ^ naquela terra se cbamão 
paoa ferros mandou fazer hQa tranqueira entulhada qu6 
cercaua a pouoação cm redddo eom seus baluartes dos 
mesmos paos tambè entullàados, & com suas portas que 
se fecbauão & abrião, & em bua pote que atrauessaua 
)k) rio pêra seruentia da ilha & da terra firnie estauão 
dous baluartes na entrada & saída deU : & nelas & na 
tranqueira amn trezStos tiros dartelbaria. £statranquey* 
ra que cercaua a pouoação tinba em lugar de caua três 
ordês de estrepea com as põtas beruadas & postos 6 re- 
ues bils pêra quS qiiisesse entrar y & outros pêra quS 
^luisesse sair. £sta pouoação era fundada em terra úe* 
iiassa & apaulada , & por isso todas as casas estauão sb^ 
bre esteos de pao aleuantadas da terra & secuiaose por 



LiyRO vir. Ci^PlTVLO XXts 45 

^ontM ou niinhoteiras, salão a» dei rey, que eslãuSo so- 
bre ha oiteyro da banda do aeftão. 

CAPITVLO XXL 

' De como Pêro nvaxcarenhm foy sobre a Uha 



-Há oauegaudo Pêro tnazcarenhas pêra esta Uba, passou 
muito grade trabalho no caminho por ser muyto roii», 
& iodo per canaeis ^ se fazíâo antre hu grande arcepe- 
lago dilbas , & chegado eõ toda a frota , surgío de fora 
da barra, & dahi mãdou sondar ho canal da baia per on* 
de auia dStrar, & foiho sondar Duarte coelho, Q lhe dis- 
se, que era Ipossiuel poder eolrar a nossa frota sem ar« 
ráncarS primeyro a estacada: & mais desembarcando 
xlianle da transira, nã escaparia nbu dos Portugueses 
^íuo, segudo a muyta soma darlelharia ^ tinha, & a fo^ 
9a ÍMo II& se poderia Strar por ser muito alta. E sabido 
por Pêro mazcarenhas este perigo , determinou dStrar 
:pela ponte por onde se seruião pêra a terra firme , od»> 
•de nâo auia tâta arleJ/iaría, & pêra segurar esta poste, 
& poder melhor êtrar por eia : determinou de a mandar 
abairroar por hú dos nauios redondos , & coele mãdaria 
arraacar a estacada , pêra entrar toda a frota : & por^ 
jsto era cousa de muyto perigo , escolheo peta ho £eizer 
ho Fernão serrão Deuora Q tinha por esforcjado , & era 
capilão du dos nauios como disse, a 4 ^^^ cincoêta Por« 
tugueses pêra ho ajudarê a este feylo: & fortalecido bo 
Bauio de largas & fortes arrombadas , Q podessfi resistir 
aos tiros dos imigos , & assi de boa artelharia : Strou na 
^aia indo atoado a doua calaluzes porque fosse bem pe- 
jo meo do canal, & ali começarão os {| yão no nauio dar- 
rancar as estacadas, no ^. passarão tamanho trabalho ca^- 
manho nS se pode imaginar , trabalhando continuamête 
•ao cabrestante , c& que arrãcauão as estacas a for<;a de 

Í eitos, & de braços, cuspindo muytas vezes sangue cò 
o trabaUu), & eomo as estacas eri muylas, & a deténs 



46 HA HlfTOafA DA ÍNDIA 

ça muyto grande ero as arrancar, surdíSo IS pouco , {| 
ao mais que adaufto cada dia, era ho cõ|)rinièto de hBa 
corda desparto, & coesle vagar gastarão oyto dias em 
chegarõ defrõle da trâqueira, donde as bõhardadas lo- 
go forão (anlas que era medo ouuilas, quanto mais ve-» 
laa : & danefícarâo ho nauio de modo , ^ se eão forSo as 
arrombadas fora lodo arrombado & metido no fundo» E 
andando os Portugueses nesta fadiga , apareceo hSía ar* 
joiada ao mar j} ya demandar a barra de Bini&o. 

C A P I T V L O XXII. 

■ 

De como foy desbaratada a armada que el rey de P6m 
mandaua em socorro dei Rey de Bintâo. 

I rey de Bintão eooio vío a frota de Pêro mazcard* 
nhãs, & tinha dele noticia qne era muy to caualeiro & de^ 
terminado, tenoSdo de se ver coele em afronta, mandou 
muy depressa pedir socorro a el rey de Pâo seu genrro 
& vezinho, que lho mandou logo de trinta & Ires ian*> 
charas em que irião bem dous mil bomês & mujrtos man*> 
timentos. E esta era a armada que pareceo ao mar : & 
porque Pêro mazcarenhas se receou que chegada está 
aaisse a dei rey de Bintão fc tomassem a sua no meyò 
& lhe dessem fadiga, não quis esperar que chegasse: & 
determinando de ir pelejar coela no mar leuando parta 
da sua meteose em h& baianeo, & corrSdo toda a frota 
disse sua determinação aos capitães , que lhe pedirão 
muy to que não tomasse aquele trabalho de que ho eles 
escusariâo, & que ficasse eiin goarda do porto porque 
assi seria melhor. E fazCdo seu rogo mandou quatro lan«- 
charas & cico cafaluzes (a cujos capitães nã fioube os 
nomes) que fossem pelejar com a frota dei rey de Pão, 
& mandou por seu capitão mór Duarte coelho: & tendo 
andada hua legoa donde fícaua Pêro mazcarenhas che^ 
garâo a tiro de berço da armada dos immifSfos a que co^ 
naeçarâo de tirar com sua arlelbaria , & ele^ com meda 



LIVHO VII. CAPITTLO XX 11. 47 

dela os meter no fundo fugirão logo leuãdo a proa em 

hQa ilha que eslaua dali legoa & niea ale onde lhe os 

Portugueses derâo ca<;a, inalandolhe inuytos com a ar- 

telharia , & de vinte três lancharas que chegarão pri« 

meyro toda a gSle saltou era terra & fugio poia ilha & 

aa lancharas foráo tomadas pelos Portugoeses ^ as outras 

dez DÍo podendo aferrar a ílba passarão auante & aco« 

Ibiáse: o £| vJèdo Duarte coelho porque não escapassem^ 

saitou com algiis dos que yâo coele em bfi balanço da 

sua lãcbara , & a forqa de remo deu após eles, tirando^ 

lhes com bfl meyo berço que bo balanço leuaua por proa, 

& nhum dos outros capitães ho seguio por estarS lodos 

ocupados em tomar as lancharas que digo. E vSdo os 

mouros ir ho balanço só virarão a ele indo obra de hfia 

legoa auante da ilha: & ele com quãto vio quãtos erão 

06 que voltauão sobrele, não deixou de ir por diante, & 

vendo os mouros sua ousadia teueranse , & ele lambem 

ae leue porque lhe pareceo doudiee cometer tantos c5 

tão poucos como leuaua se não quãdo não podesse fazer 

mais. E tornado os mouros a ir parele , ya pareles : & 

detendose detinbase: & isto tízeráo por (anfas vezes Q 

sobreueo a noyte, de que a estas horas era muyto per^^ 

to, & os mouros fnerãse na volta do mar, &* Duarte 

eoelho se tornou pêra os outros capitães & forãse todos 

pêra Pêro mazcarenbas com as lãcharas que tomarão 

aos mouros carregadas de roantimdtos: com que ele foN 

gou inuyto &; teueo por pronostico da vitoria que auia 

dauer dei rey de Bintão, & assi ho disse a todos esfor- 

^do os pêra a peleja. 



43 DA HISTORIA DA ÍNDIA ' 

G A P I T V L O XXIÍI. 



De como Fernão serrão pelejou com Laquesnmenã. 



D, 



desbaratada esta armada, tornarfto os do nauio de 
Fernão serrão a seu trabalho, darrancarê as muytas &' 
muyto grandes estacas que estauâo metidas peio canal 
por onde auião dir á põle : em que se virão em tama« 
nho perigo & leuarão trabalho immenso quanto não se 
pode cotar, porque híís tinhão os peitos abertos das bac^ 
ras do cabrestãte, outros tinbSo os braços moidos de (a« 
par os muytos rombos que a artelharia dos immígos fa- 
zia no nauio, que não cessaua de tirar de dia nem de 
Doyte com que ho esburaeaua todo, & era nele a agoa 
tanta com toda a diligencia Q os Portugueses fazião po« 
la esgotar , que quasi se yâo ao fundo. E coesta tama-^ 
aba fadiga que lhes durou quinze dias, quis nosso se- 
nhor Q vencesse seu trabalho a força dos immigos, & 
chegarão á (»Õte dado hSa grade grita & aferrarão coela. 
O que sabido por el rey agastouse tanto que deshotírra- 
ua os seus de muy asf)era8 palauras, pelo que algus in*" 
tentarão de fazer dar ho nauio á costa, & como foy noy- 
te na vazãte da maré lhe cortarão as amarras de mer- 
gulho : & sintido 08 Portugueses que caçaua acodirâa 
logo & surgirv^o outras ancoras que tinhão a pique, & 
forrarão as amarras de cadeas de ferro |X)r lhas não cor- 
tarem. E vendo os mouros que não podiâo fazer nada se 
tornarão muyto enuergonhados : & el rey mãdou então, 
a Laqueximena que com quinhentos bomSs em Õze lan- 
charas que tinha varadas fosse pelejar com Fernão ser- 
rão & ho tomasse, çuydando que a muyta artelharia dá 
tranqueyra impediria aos outros nauios que lhe não aco- 
dissem, & mandou que tirassem roda viua, & entre tan- 
to La{}xímena foy aferrar ho nauio de Fernão serrão que 
bem trabalhou por não ser aferrado desparando assaz de 
bombardadas : jiorem como as lâcharas erão rouytas nã 



LV(í)BLO Vil. CAniTLO XXflI. 4» 

se pode (olber a alguas que ho não abairroassem por proa 
& logo sallarâo muylos mouroe dentro , & àpos estes a- 
ferrarão outros & Scherão bo nauio, & outros que não 
podiâo entrar tirauão de fora lâuytás frechadas: & os 
que estauão no nauio como erão muytos apertarão tâ9' 
rijoooBi os Portugueses que por niais esforçadaoiête 
que peJejauão oS' leuario ate ho eonues : & aqui foy a 
peleja muy braua & Fernão serrão foy derribado com 
»uy(as feridas , porS era tão esforçado que se leuãtou 
logo & tornou a pelejar com muyto esfor<^. E com tudo 
08 sens estaufio tão feridos que não podiSo escapar se a 
este tempo não sobreoierão Pêro mazcarenbas & Duar- 
te coelho cd algQs Portugueses, que onuindo as prímey* 
rã8 bombardadas do nauio acodirâo logo em hQ balanço 
por escaparem da arleiharia que tirana da (ranqueyrav 
£ chegado ás lancharas, porque the elas impediâo 4 não 
entrassem no nauio deitarãlhes dêtro panelas de poluora 
com <4ue começarão darder, & os f migos por não«e quey-» 
marem hOs se deiUuâo ao mar, outros faziSc afastar aa 
lancfaaras & desabafarão ho nauio & fugirão : o que os 
mouros que estanão dètro n&o sinlirão cÔ ho arroído da 
peleja. £ desabafado ho. nauio, entrarão Pêro mascare- 
nhãs & Duarte coelho com os que yão coeles , & ajuda- 
rão Fernão serrão também que nhd dos mouros escapou 
de niorie , sS dos Portugueses morrer tihum posto que 
todos eslauão muyto feridos, pelo qtie Pêro mazcarenbas 
quisera õ se forão pêra os curarem , & Q iriâo outros 
em seu lugar: & eles não quiserSo, dizendo que em 
quanto teaessem Yida não se auião de tirar daíi : o que 
lhes agardeceo muyto & louuou seu esforço , & curados 
todos se tornou aa frota. 



LIVBO VII. 



60 TUA BISTOUIA PA IKBIA 

C A P I T O L O XXIIII. 

De como Pêro mazcarenhas tomou a cidade de BiitíâQ* 

V endo Pêro mazcarenhas a gfâde ousadia dos lacMjroa 
em lhe quererS ioinar bo nauio a sua. viata, ouue medo 
que Ibe queywassem a frota eÕ balsaa de fogo, & por 
isso não quis noais dilatar de qomeier a cidade , & aa» 
sentou de ser pota ponle cooào linha determinado, oma. 
porque os mouros ieriâo disso receo por amor do nauíoi 
i| estaua pegado eoeki , & poerifto nela toda a força de» 
aua defensam : determinou de Ibea fazer crer que auia» 
den(rar pela (râqueira, 6de mandou bSa noyle fazer bOai 
eslâcia de pipas & cestos de campo cheos de terra en» 
que mandou assestar Ires berços, & assi mâdou fazes 
com enxadas bua iarga estrada. £ Laqzimeoa que estat- 
ua por capitão oa tranque}' ra bo mandou logo dizer a el 
rey, & ^ Ibe mandasse mais gente. £ ele bo fez assi, & 
niuytos mouros ^ estauâo em outras partes se passarão 
pêra ali cuydando que por aquele lugar auião os Portu** 
gueses de cometer a entrada , & era bo aluoroço rouj; 
grade anlreles crãdo que ao outro dia auiàu de ser mor- 
tos todos os Porluguesesa £ oomo toy noyte l?ero maz«* 
carenhas mâdou a Sunaya raja ^ desembarcasse^eõ os 
piães Malayos & se pusesse detnia da estâcia das pipas, 
& HS8i corSta Portugueses : & mâjdoulbes Q Ipeuesaem t&* 
io ^ 8 vSdo íiigo em qualquer doe baluarlea d» piíte, p^ 
aessS ÍDgo aos berqos. & tangesse as in&betas, & díessd 
grades gritas comoQ deaembarcauão pera^ cometer a trà* 
queira. £ deixado a frota ondeslaua por não aer* sentido 
se embarcou nos baiacus & mãcbuas ,& desembarcou 
bê pcra baixo na terra fírme que ticaria bQa legoa da 
pote, pêra ode tomou ho caminbo ^ fez cò trabalho gran* 
dissiaio & perigo, & por milagre de nosso aeniior não se 
perderão todos, por^ yâo por vasa em ^ atolauão ate a 
cinta & ate debaixo dos brat^os , & por antre buas aruo- 



LIVAO TIU CAPVmj^ xxniK Ô I 

rra 4 chanâo mãgues (| dei (ao as raízes pêra cama & ÍU 
câo jcomo 08 pés das meamas aruore«i , & como era es^ 
curo marrauâo coeles, & se não fora bo eslbrçD que ihea 
nosso seflor daua este trabalho abastaua pêra os debili* 
iar tanto que não ficarão per* faserem cousa I) prestas-» 
«e, por({ ySo todos Siameados, molhados & {(brâtadus* 
iS com tudo cbegarilo á ponte hda hora autemaobaã & 
tio esforc^doe & inteiros eomose enlão se jeuaníaxao da 
eama, & achario Feroáo serrão prestes com sua genle 
com fBuylas panelaa de fioluora , com j) logo poserão ho 
4ògo a hfl baluarte que «staaa na entrada da ponte em 
^indo da iJha , & nele estaua por capitão hfl mouro cha« 
mado TuSo raja, & ho baluarte era de madeira & entu» 
'Ihado & fef^ndo bo fogo na madeyra começou logo dar* 
der» E a isto acordarflo os mouros Q estauSo neíe , que 
cuydando que Pefo maacarenhas auia de cometer pola 
trSqueyra estauilo muy descuydados de cometer por ali^ 
*& por isto & por estarem deeoetados de tigiarS toda a 
noyte adormecerflo : & aeor4ados com ho arroido do fo» 
•go sayranse do baluarte por não arderem nele, & acodí* 
rfto a hfl postigo com j} se a pSie fechaua , cujas portas 
t>6 portugueses tinhfio acerca arr&badas & Abradas de 
lodo, remetera ao postigo Ayres da cunha ec loSo pa- 
ctK^co & êlrarfto em ^ pes aos mouros que lhes resisliâo 
brauamente, mas eles matando algus dos dianteiros en- 
trarão dSiro, & a pos eles quantcs estauâo fora: & co- 
mo os mouros virão entrar os primeyros desmayarão lo- 
go, & /ugirSo hSs pêra as casas ^dei rey ou<ros pêra a 
tranqueira ondestaua Laqueximena, a quem Sanaya ra»> 
]ja em ^vSdo ho fogo no baluarte da ponte deu log4) reba- 
te pela ordem q<«e ibePero maecarenhas mAdon. Laqtie- 
ximena estaua Ião confiado em lhe parecer que era im'** 
fioasiael entrarem os Portugueses por ati que não se ai^ 
^uorai^u nada com o 1\ Sanaya ies, &. estaua muy segu^ 
to, ae não quando algCls que fugíáo do baluarte da pon^** 
te forão dar coele, fugindo dos Portugueses que yão a 
pos eles, então tbes acodlo Laqucximeoa com sua gèt^: 

o 2 



A2 VÁ HISTORIA Oá TNDrA < 

porem os Portugueses yão tão desnudados & com tXo 
brauo ímpeto. E os mouros ficarão tão espantados de os 
verem dêtro na cidade^ que não.dando por Laquexime^ 
na fugirão pêra as casas dei rey & os Portugueses após 
eles matando & ferindo muylos. E el rey estando muy* 
to fora de lhe parecer que a cidade se podia entrar es? 
taua desbonrraado algQs que lhe affirmauâo que era eo^ 
trada ^ & mandauaos que fossem goardar a tranqueira : 
& nisto começou denxergar os seus que yão fugindo, & 
então creo que entrarão a cidade , & tendo escassamea» 
te tempo pêra caualgar em bQ alifante fugio íkando sua 
easa assi como a tioba , & os Portugueses yão tão dese* 
jesos de bo too^arem que derflo a pos ele : o que ele sin^ 
lindo se deceo & embranhouse no mato que era muy es«* 
peso, & por isso os Portugueses ho não quiserão buscar^ 
& foranse em busca de Pêro mascarenhas que acharãQ 
pelejando com híi capitão chamado Laxa rajja que se de« 
íendia com passante de mil mouros ao derredor dú bar 
Juarte ondestaua de que os mais morrerão & ele fugio 
ferido de duas espingardadas r & assi forão outros muy* 
tos mortos & feridos ate as dez horas do dia que se ar 
cabou este feyio,. ^ foy hu dos marauilhosos que os Por* 
tugueses fizerão naquelas partes de ^ aprouue a nosse 
senhor que não morreo nhil somente forão feridos algils^ 

C A P I T V L O XXV. 

Do qfiz Pêro mazcarenhas despois de tomada a cidade, 

X ornada a cidade logo três mercadores estrangeiros & 
ricos quebi morauâo se focão a Pêro mazcarenhas a pe- 
diflhe ^ lhes fizesse mercê das fazSdas pois erão estrã* 
geiros. O 4 P6r<> ma2carenba& fez de boa võtade coqi 
cõdição qiue lhe auiâo de dar mantimenXos os dias quê 
ali et^teuesse j pelo Q derâo arrefens : & despois mandou 
Fero mazcarenhas saquear a. cidade em. que se ouu0 
m<uy rico despoja principalmente nas casae dei rey : & 



LiVfto VII. eArmvo kiv« >M 

tmnx iori aeindas Ireaeoiaa peçdi cUrteibariay & 'iDoytas 
deiae que forio tomadas aos Portugueaes. E rtiubada a 
eidade foypoato bofojo áv^trâqueyfas & kraiitarles '^ d^ 
rou três dia8>& litdo ardeo dé iiaoeyra.qué aie oa.paos 
<)tte .eatauio metíciba dt^baUo do ciliáo acdçrák) : & Pena 
onaacairenhaa ealaua iào iDa^geadò do^ fncryU).iiral que cm 
mouroa desta terra tiobSo feyto. aoa Porlugueaea^ qua 
não ae aueado por vingado do que Ibes fez^&.tanibeas 
pêra ver se podia tomar e| rej qve sajbia.queestaua na 
liba mâdou fazer nela muyias entradas a seus capitães , 
principalmente pot e\ t^y de Dnga |;rãde aiuigo dos 
Portugueses que vinba pêra bo ajudar com bua armada 
4fi desQyto lancbÀras & «aialuzes : & este pi>rque nSb 
pode ser na tomada da. cidade ajudaua aos Portugueses 
a correr a ilha^ em que ainda foráo mortos muytos mou- 
r4>a& qatiuos dou4.mU:«& isto.foy feytoem quinze dias 
í^ Pêro mazeareiiba# i^ajteue. na cidade despoia que a to^ 
'mou^ £ vendo el rey h» dane que se iazia em sua gen»- 
te, & Be. ali maia esteuesse que licariâ^ semnhQa foyse 

Íera bii lugar cbamiido Vgõtana onde despois morreoi 
] espalhada a noua como Pêro mazcarenhaa tomara Bin* 
tão & era el rey ^Aigido iby ter ao ^ era dantes senbof 
de Bintão qge moraua n^ terra firme y pêra. onde se for 
ra despoia que Ibe el rey de IVlalaca to,mou aquela ilba*, 
& sabendo como Pêro mazcarenbas a ganhara por for<;a, 
pareceolbe que dele a tornaria a. cobrar cõ se fazer vas*' 
aalo dei Rey de Portugal , logo Ibe foy falar com sua li- 
ceu^y & tizerâo pazes com coodii^ào que ho:senbor da 
Biniáo nio fizesse nela nbiia fortaleza , nem auia de ter 
armada, & quando aiguô Ibe fizesse guerra que bo de<- 
fendessem os Portugueses : & dali por diante foy muy- 
•to grande seu amigo. E isto fejto despaebou 9 Francis- 
co de sá que fosse a <2unda a fazer &>rta)eza & deulba 
•trezentos Portugueses que se embarcarão em sete oa- 
uios, de cujoa capiíâes náo soube çoais non^es que bo 
de Francisco da saa & de Duarte coelho <^e ieuaua a 
alcaydaria mór da. fortaleza s^ sefizesse« E partido Fran*- 



Ò4» DA «trrORIA 0À IHB1A 

cisco de sá, pnrtiose Pêro oiazcarenbaB pêra MaJaca*^ 
onde lhe foy feyto inu3r solene rec^biiDenio , aasi polca 
Porluguesea coiiro peioa da terra porque U)dos ganrbaoSo 
a)U3rto na destruição diei rey de Btotâo com que se li- 
uraráo daa grandes guerras que tifibâo assi coele come 
com outros rejs que ho ajudauao que vddo ho destruin- 
do os mais fizerSo pa« com Pêro raazcarenhns , & dnK 
por diante foy Malaca muylo ennobrecida & abmlada 
de mercadorias & mantimentos. 

C A P I T V L O XXVI. 

De como Francisco de sá foy a çunáa , ^ do quB^e a^ 

coMeceo. * 

J nrtido Frâcisco de sá p6ra-<;u<la deufhe bCI tamanho 
tèporal de vSto Q os nauioa da armada se espalbârXo , 
& FrScísoo d^ sá & cu troe três capilies forft cada bft 
X^ seu cab<» , & Duarte codbo ^ ya em bila nao arri- 
bou ido 3 «ua côpanhia bua gate & bfi bargSLlim, & fo» 
rão ter á burra de iqâda Q iie hâa cidade {| está no cabo 
da tiha de -çamaira ao Idgo de bti braço demai"^ aparta 
a ilha de çamatra da iihft da I^aoa a mayori E ao derra^ 
dor desta cidade ha muyto grSde soma de pimSta tSo 
boa como a do Malabar : be t<erra fresca & bastada de 
mátimSlos, he pouoada de mourc»s, & lê rey sobre si ^ 
i?lb5 he nK)uro : & a esie t6po «^ ali ohtjgou Duarte coe- 
lho não era ja sefior da cidade ho rey ^ queria dar for- 
taleza se não a-Qle cõ qnS tinha guerra ^ lha tomou por 
força, & pêra se acabar de todo dapr>ssar dela estaua ne- 
la, & linha muyta gête de guerra : & era Imigo dos Por- 
tugueses, f)or^ sabia ^ ho rey a quS tomara a cidade 
os mâdara chamar, 6 sua ajuda & lhes ^ria dar fortale- 
za. E quando Duarte coelho ali chegou cõ o têporat l| 
digo , deu aa costa ho bargâtim (} ya C sua côpanhia, & 
saluaranse em terra trinta Portugueses f) yão nele, Q 
forft logo tomados poios mouros & degolados porQ ot íh 



LIVRO VII* CAFtTVLO XXVI. 65 

nhão por !mig08, & a nao de Duarte coelho & a galé IS- 
bfi se ouuerão de perder , ee os nosso senhor não salua- 
ra. E v6do Duarte coelho o Q fora feyto aos do bargã* 
tira tío ^ a terra estaua de guerra, &achftdosesein Fra» 
cisco, de sa tio Q era lêpo perdido eslar ali mais & foy* 
se como ho tempo abonan<2ou : & desta ida de Duarte 
eoelho, & do Q ja el rey sabia do outro seu antecessor 
^ tinha dada palaura de dar forlaleza aos Portugueses ^ 
euue ele medo ^ tornaasB cÕ grade armada , & por í^o 
tjfitou maia gSte da que tinha & fortaieeeose ho mais I) 
foúes £ estando assi tornou Frãcisco de sá cõ toda a 
sua armada ^ andou ajQtaiida por esses portos da ilha 
da laoa õde foj ter, & partio da cidade de Panaruca: 
& chegado a ^unda mâdou cometer a d rey Q )be den 
xasse fazer fortaleza como deiícaua seu antecessor: & 
sobre ele nã querer desembarcou Frucisco de sa cõ sua 
gdle pêra ho fazer por força.: & como os mouros erílo 
ntiytos & eslaufio b6 fortalecidos deffiderfio a desembar* 
cação aos Portugueses, matando algíts deles. E Francis* 
CO de saa vendo que não podia desembarcar se recolhoo 
a sua armada. E conbecSdo Q cÕ a pouca g6te ^ tinha 
nâ podia fazer nada tornouse pêra Malaca , Cde ja não 
achou Pêro mazcareohas Q era partido pêra a índia, & 
por isso não pode auer mais gSte pêra tornar a çunda , 
nê Jorge cabral lha pode dar, assi por ter pouca como 
por màdar na^le tSpo Gdçalo gomez dazeoedo cõ socor- 
ro a Aflaluco como direy a diãte: & por isto não pode 
Francisco de aá tornar mais a çunda, & se foy despoia 
pêra «• ]ii4ia. 



66 OA HISTORfA'BA nVBfA 

CA P I T V L O XXVII. 

De carno Pêro mazccírenhas chegou a Cochim , ^ querS- 
. do desembarcar lhe resiuio ho vedor da fazenda. 

V. ■ • ■ ". '• 

inda a motjçSo em ^ se podia ir pêra a índia-, parw 

tiose Pêro mazcarenhas cõ três galeões carregadog kla 

fazSda dei Rey & da sua, & de camfnho passou porCou-^ 

Ifio, õde foy recebido do feylor & aieayde mór Anrri^. 

figueira como gouernador (posto (| tinha regiicêlo em 

cdtrairo de Lopo vaz.de sam. Payo) & cõLoulhe tudo o ^ 

passara na índia despois de ser chamado [)era a gouer«* 

nar: do ^ ele ficou assaz dagasiado, & conselbouse do 

\ f^ria cõ bú SiniSo caeiro \ como gouernador fizera sea 

ouuidor geral & cÕ iifl Lançarote de seixas a ^ pelo 

mesmo modo dera officio de secretarro* E estes lhe con-* 

selbarão {| se fosse a Q)chi & iKsasse de muyto rigor cõ 

Afonso .mexia, porí| abrira a noua subcessam, porQ ele 

tinha toda a cui|ia S a abrir : porê que descansasse ^ 

posto ^ fosse aberta lhe não.perjudicaua ao dereyto 4 

linha na gouernâça por a sua subcessam ser prímeyro 

aberta. E parecèdolbe bS este cõselho, partiose pêra 

Cochi õde chegou ho derradeyro de Feuereyro. Afonso 

mexia ^ linha sobrele suas espias sabSdo como era che^ 

gado , lhe mãdou logo notificar poios juyzes de Cochi ^ 

& por Duarte teixetra tesoureyra das mercadorias, & 

por Manuel lobato escriuâo dii feytoria ho terlado da nor 

ua subcessam de Lopo vaz de sam Payo, &..boxegimfi| 

to {] tinha dele pêra ho não receber como a gouernador, 

& lhe requeresse da parte dei Rey \ obedecesse ao go* 

uernador pois ho era por aqla prouisam. Ao ^ Pêro maz- 

carenhas respõdeo cÕ muyta cólera ^ aQla prouisam nao 

era assinada por el Rey, & por isso não era obrigado a 

conhecela por sua : & ^ Afonso mexia como seu Tmigo 

a poderia fazer , & por essa causa lhe nã auia dobede- 

cer principalmêle por estar 8 posse da gouernãça \ ho 



LIVRO VII. CAPITVLO XXVII. 57 

iBesmo AfoDso mexia lhe dera & f) elea' merecia mui 
grade castigado pois sabSdo i\ era gouernadur ousauâo 
de \be fazer tais requerimêlos. E Simão caeiro como ou- 
uidor geral lho estranhou mtiylo dizendo que aquilo era 
caso de treição , & por seu cõselho ouue Pêro mazcare- 
nhas os juyzes por priuados dos officios & que sopena 
de perdimentos das fazendas não sayssem de casa des^ 
pois que fossem em Gochim , & mandou! hes tomar abi* 
to & tonsura , & fizer auto de sua prisam pêra despois 
proceder controles : & coesta reposta os mandou , Duar« 
te teixeira & Manuel lobato ficarão presos cÕ ferros no 
nauio porque insistirão mais no requerimento chamando 
gouernadur a Lopo vaz de sam Payo. O que sabido por 
Afonso mexia, lhe mandou requerer da parte dei Rey 
que lhe soltasse os presos que erâo officiaes de sua fa- 
zenda que se podia perder por sua prisam tornandolhe 
a requerer í\ obedecesse á prouisam do gouernador de 
que tinha regimento f\ ho não recebesse em terra por 
nenhua via & lhe resistisse com armas o que auia de 
fazer^ & que se quisesse algQa cousa que se fosse a Goa 
& hi acharia ho gouernador , o que se ele fizera fora li- 
ure da muyta deshonrra (| lhe foy feyta, & suas cousas 
se.fizerão melhor , roas não teue quem ho acÕselhasse, 
por^ Simão caeiro & Lâijarote de seixas cÕ quâlo vião 
ho rigor em ^ se Afonso mexia punha, & ho grande po- 
der {) tinha por seus officios, & quão pouco Pêro maz- 
carenhas, acõselhauâllie ^ leuasse tudo a for<;a de brar 
ço, & que desembarcasse, porque como fosse em terra 
seria gouernador: & como ele era muyto bo caualeyro 
& tinha animo pêra tudo parecialhe que tudo podia le« 
uar auanie, & por isso respondeo ao vedor da fazenda ^ 
ao outro dia lhe respôderia S terra porQ era quasi noyte. 
E temendose ele !\ Pêro mazcarenbas desembarcasse de 
noyte & entrasse na cidade por ser rasa , chamou todo 
ho pouo de Cochim a repiQ de sino : & cõ quãto a mui- 
tos parecia mal tomarse a gouernâça a Pêro mazcare* 
nbas, pelo í^ deuião á obediêcia portuguesa 4 oã dispu- 

LIVAO VIU H 



ftS OA HISTORIA DÁ INMA 

ta 86 M roSâados de aeu rey ou dos Q estSo em seu lu«* 
gar sam justos ou injustos , acodirão logo todos postos ê 
armas pêra fazerS o () lhes Afonso mexia mSdasse: & 
ête lhes notificou o ^ passaua cõ Pêro inazcarenhas , ^ 
jíSio Qría se não desembarcar cõlra ho regimêlo do go^ 
nernador: pelo l\ lhes requeria da sua parte Q tãto mo-» 
taua como da dei Rey pois tinha suas vezes ^ lhe aju- 
dasse a cõprir bo seu regimêlo t\ era defender cõ armas 
a desembarcarão a Pêro mazcarenkns & lhe ajudasse a 
guardar a praya aijla noyte. E eies ho tizerão de lK)a vd^ 
tade, & a praya se goardou cÕ tala diligêcia como ^ se 
goardara de imigos, & toda a noyle Afonso mexia gas« 
tou em mãdar re^rimStos a Pêro mazcarenhas t\ não 
desembarcasse , & Q se fosse a Goa & lá regresse sua 
justiça : & ele respõdeo a todos que em terra lhe respô* 
deria , & ao derradeyro acrecêtou mais ^ não aueria 5 
Afonso mexia tão pouca humanidade, {| como a Chris* 
tãos Q erâo ele & os de sua cõpanhia os não deixasse 
desembarcar pêra ouuirS missa. E sendo ele desenganan- 
do 1} nê pêra isso, nã quis se nã desembarcar porQ ti* 
nha inleligScia cÕ aigQs da cidade ^ desembarcasse coa- 

21a cor , & como fosse em terra se leuâtaríão coele obe- 
ecSdoo por gouernador, & prêderiâo Afonso mexia: o 
Q não podião fazer s6 ele desembarcar, & isío fez a Pê- 
ro mazcarenhas insistir em sair em terra & não se ir a 
Goa, & tãbem auer por grande afronta ter Afonso me« 
xia ousadia pêra lhe dizer Q por armas lhe defenderia a 
áesembarcação, s6do ele bOa pessoa tão principal na ín- 
dia, & tido )K)r rouyto esforçado pelos muytos feytos 
em armas ^ fizera. É como ele não queria começar bri- 
gas com Afonso mexia, & parecendolhe ^ desembarca- 
do desarmado as não queria coele, & tãbem de confiado 
que não ousaria de as cometer, & que os requerimen- 
tos passados forão mais pêra ho espâtar, que pêra ho exe- 
cutar, cometeo a desembarcação, indo cõ toda sua gen- 
te em dous baleis, & ieufldo ouuidor & meirinho com 
varas , & assi ele como todos os outros, tão desarmados, 



LITRO Vn# CAPITVI.0 XXVII. 6» 

que ate espadas nSo leiíauSo, E vendo A fonso mexia, (| 
não {|ria se nâo desembarcar, defendeolho como a !rni« 
go, fazendo me(er pola agoa os queslauão coele, & mã- 
dâdolhes () ferissem a Pêro mazcarenhas , & aos de sua 
cdpanhia, como a Imigos, & assi ho fizerâo: bradado 
Ptrq mazcarenhas & os seus que ho não íizessS, por(} 
eião Cbristãos, & nSo queriâo guerra se não paz, & co* 
mo pacíficos yão sem armas: & requerendolhes da par- 
te de Deos & dei rey ^ esteuessem quedos ho que eles 
nâo faztão nem podião fazer, porque Afonso mexia os nS 
deixaua, & andaua atreles sobre hâ caualo acubertado 
armado, bradado que os matassem como a immigos, 
f)oÍ8 desobedeciào aos mâdados de seu rey, & eles ho 
fazíão assi que os de Fero mazcarenhas não tínhão cÔ ^ 
ae defender. A genfe da terra que saio toda a ver isto 
eetaua muyto espantada , & assi era pêra espantar ver 
Portugueses fazer cousa tão fea, & mais em terra de 
seus luiigos : por^ não poderão eles fazer mais mal sos 
cio mar do (\ lhes fazião os da terra , ic conhecSdo Pêro 
mazcarenhas quã mao cõselho fora ir desarmado pois 
tlesembarcaua: & vendo que não podia desembarcar re- 
colheose, indo bem espancado, & ferido em hu braço, 
& assi ha seu parSte chamado lorge mazcarenhas fcy 
ferido de htin chuçada , & outros muylos , & todos espã» 
cados & pisados, & despois {( Pêro mazcarenhas foy no 
eeu galeão mandou fazer hCI auto do i\ lhe A (nnso me«- 
xia (izera s8do gouernador da índia: & a ele, & a todos 
os moradores de Cochím mandou apreg^oar por tredóres, 
ameaçãdoos ^ lho auiã de pagar se gouernasse a índia. 



H 8 



60 DA HI8T0KIA DA ÍNDIA 

C A P I T V L O XXVIIL 

De como não podendo Pêro mazcarenhas desembarcar 
' em Cananor se pariio pêra Goa. 

JtVecolhido Pêro mazcarenhas aos galeões não disistio 
Afonso mexia de goardar a praia, 8 quãlo Pêro mazca- 
renhas esieue no porto, receado í\ se melesse õ Cocbi 
& logo escreueo ao gouernador o ^ tinha feyto a Pêro 
mazcarenhas , mãdandolhe todos os re^rimõtos Q lhe fi- 
zera sobre (} nâ desSbarcasse & isto lhe mandou por Ai- 
res da cunha , Q tãbem Jeuou carta de Pêro mazcare- 
nhas pêra ho gouernador S c} lhe escreuia o Q lhe fora 
feyto per Afonso mexia, & por isso se ^ria ir ver coele, 
& o mesmo escreueo a muytos fidalgos Qstauã õ Goa, 
pedidolhes ^ determinassem se auia de ser Lopo vaz de 
sam payo gouernador ou ele, por^ nã ^ria se não justi- 
ça. E partido Aires da cunha coestes papeis mandou A- 
fonso mexia requerer a Pêro mazcarenhas ^ lhe man- 
dasse entregar os galeões que trazia pêra os mãdar cor- 
reger & lhe entregasse a fazenda dei Rey, & pêra ir a 
Goa se la quisesse ir lhe daria hua carauela.Do que Pê- 
ro mazcarenhas foy contente, pori| despois que arrefe- 
ceo da fúria que lhe causou a injuria que recebera, lem- 
brouse das que forâo feytas a Afonso dalbuquerque (a 
quem desejaua de seguir) 6 outro tal caso como a^le, 
& por isso determinou de não fazer nada por for<^a se 
não por justiça : & coesta determinação não quis reter 
08 galeões porque não parecesse que se queria fazer for- 
te neles, & entregouos com a ifazenda que tinhâo, & 
mudouse pêra a carauela com sua fazêda & criados. E 
coesta mudança os mais dos que vinbão nos galeões se 
forâo a terra por não caberem na carauela , & poio ve- 
rem coa-la determinação: & algus destes forão presos 
por mandado do vedor da fazSda, & antreles foy lorge 
mazcarenhas estando ferido da chuçada que disse, & as- 



LIVKO YIl^-GAFITVLO XXYIII. 61 

si' ferida cbroo esUua ho mandou ieuar preso a fortaleza 
de Coulâo , como a quem fizera grade crime : sendo ele 
fiessoa que linha bem aeruido el Rey , & fidalgo de sua 
casa. £ Pêro mazcareohas despois que se mudou a ca* 
rauela, pariiose pêra Gananor a esperar hi ho recado de 
Goa, por^ dom Simão de meneses capitão da fortaleza 
era seu amigo, mas achou a cousa muy desuiada do que 
cuydaua, porque sabendo dom Simão ^ estaua no porto 
lhe mandou logo dizer, Q lh« pesaua muyto de sua vin- 
da ser em tal tempo : que lhe não podia fazer nenhu ser** 
uiço sendo muyto grande seu seruidor, porque tinha 
mi^ndado do gouernador Lopo vaz de sam rayo a quem 
toda a genle da Índia tinha por gouernador, que ehe^ 
gando ele aquela fortaleza se quisesse ir a ela como hu 
.fidalgo tão borrado & de tanto merecimento como ho 
seu que ho recebesse com toda a honrra & cortesia Q 
ibsse possiuel : mas que se fosse com nome de gouerna- 
dor que lho não consentisse, & ele polo que deuia a sua 
lealdade não podia fazer outra cousa se não obedecer- 
Ihe como a pessoa dei Rey de Portugal c) representaua. 
Ao que Pêro mazcarenhas respÕdeo que não queria se 
não que comprisse com sua lealdade , & que não queria 
dele maiB que hQ catur em Q fosse a íjçsí pêra ir ainda 
mais raso que na earauela & com menos sospeita de 
querer por força auer a gouernani^a que não queria se 
Bão por justi<2a. O que lhe dõ Simão louuou muyto, & 
lhe mandou dar ho catur em que não quis leuar mais 
gente a fora os remeyros <) Simão caeiro & Langarote 
de. seixas & dous moços que ho seruissem, & ,com quan- 
to lhe veo á memoria ir se a Chaul pêra Christouão de 
gousa que tinha por amigo , & dahi fazer suas cousas , 
Dão foy por recear que fizesse como dom Simão, & mais 
pola fama que a-uia que era grade amigo de Lopo vaz T 

de sam Payo, £( por isto não quis lá ir & partiose pêra 
Goa parecSdolhe Q ho gouernador se queria poer coele 
em justiça,, & quando nào ^ os fidalgos que estauão coe- 
le lho farijão fazer. £ poêdose ho caso em dereyio a go* 



6> IML RffBTOMA UA ITfDIA 

uerfi2i^ seria sua por lhe dizer Simão caeiro que ho 
iQuyto que iinlia nela iba daua. 

C A P I T V L O XXIX. 

De coma ho youemador smAe o ijue Afonso mexia foz ã 

Pêro masscarenhas. 

J^yten da cunha {| leuana os recados de pêro niazca- 
renhas & do vedor da faz3da pêra ho gmiernador chegou 
a Goa a quatro dias de inarço^ & detilhe os papeis que 
leuaua , & vistos por ele , & sabendo por Ayres da ca<- 
flba o ^ se fízera a Pêro inazcarenhaa ouupsse por segu* 
ro na gouernança. B dando conta disso a Eytor da sil- 
ueira & a Pêro de faria & a aigús fídalgos de que se fia- 
ua^ lhe consetharão que p<»r nhu noodo consentisse que 
Pêro mazcarenhas fosse a Goa ^ por^ segildo a gSie es- 
taua descAíSte da abertura da noua prouisam, & tinha 
que lhe fora tomada a gouernança que vendo ho em Goa 
se ieuáilarião coele , por isso que ho nfio côsentisse en- 
trar nela : o qup pareceo bem ao gouernador , & escre- 
ueo logo ao capitão mór do mar que por ser grande in- 
GooueniSte ao seruiço dei Rey seu senhor ir Pêro mas* 
carenhas a Goa como lhe diziao os fidalgos que estauáo 
nela, lhe mandaua que fizesse de maneyra que topasse 
Pêro mazcarenhas & lhe requeresse da sua parte que se 
fosse an fortaleza de Cananor dÕde não sayria sem seu 
mandado, & não lhe querendo obedecer lho faria fazer 
por força , & preso ho entregaria a dom Simão de roe- 
neses de que cobraria conhecimento de como ho rece- 
bia, & quando se Pêro mazcarenhas defendesse ho me^ 
tesse no fundo se fosse necessário, fazendolhe primeyro 
todos os requerimentos & protestações i\ cumprissem, & 
escreueo húa carta a Pêro mazcarenhas dandolhe toda a 
culpa do que lhe fora feyto pois não quisera obedecer a 
seu regimento que lhe ho vedor da fazSda mãdara note- 
ficar , & por isso não tinha rezão de castigar ninguém 



LIVBO VIU GAFITTLO Xam. 63 

do que lhe pesaua muyto^ & quanto a yerae coele &coiii 
os fidalgos ^ estauão em Goa erâo todoa dacordo que 
ho nfto tia^sáe polo auerém por verdadeyco goueroador, 
& maiB qoe daria sua ida grande iorua<^ot a se fazer o 
que era necessário pêra ho recebimento dos rumes ^ es^ 
perauSo: & por isso ihe pedia mujto de sua parte fc re^ 
Qria da dei Rey seu senhor qué se fosse a fortaleea de 
Cananor como ho capitão mór do mar lhe diria, & dabt 
mandasse requerer o que quisesse. Coestas cartas des^ 
pedio logo Ayres da cunha a quem pola noua que lhe 
dera, & por lho ho vedor da fazenda pedir deu a feyla' 
ria & alcay daria mór de Coulâo & a tirou a Anrri^ fi- 
gueira que a tinha por el Rey , dizendo que fizera trei- 
no 5 receber Pêro mazcarenbas por gouernador. Parti-' 
do Ayres da cunha coestas cartas deu as ao capitão mór 
do mar , que nunca pode topar com Pêro mazcaronhas ^ 
& por isso não ouueefieyto o que ho gouernador mandaua# 

C A P I T V L O XXX. 

De como ho gouernador mandou q fosse preso Pêro ntaz- 

carenhas. 

V/omo quer que a mayor parte da gente ^ estaua em 
Goa assi altos como baixos fossem de parecer que a go- 
nernança era de Pêro maacarenhas sabendo que era na 
índia, & que auia de ir a Goa aluoraçaranse muyto per 
a sua vinda, & dizião pubricamente que ele era goutT- 
nador & nâo Lopo vaz de sam Payo, & f\ vindo ele ho 
ajodariâo a seio, & logo se começarão bandos antreies, 
& 08 que tinhão i\ ho gouernador ho era, & a cada can« 
to auia ajuntamentos & perfías dfls com outros sobre cu-- 
)a era a gouernan^a , & auia grande aluoroço & vniâo 
pola cidade. E sabendo ho ho gouernador , disse ho a 
seus amigos pedidolhes conseliio : & eles lho derão Q de- 
uia de a^andar goardar ambas as barras de Goa , por- 
que hi era ttais certo lomarse Pêro mazcarenhas Q no 



/ 



64 1>A HISTORIA DA HfOIA 

mar dde bo capitão mor do mar bo poderia errar^ & mX- 
dasse \ ali fosae tomada a meiiagè a Pêra mazcareDhaa, 
que ee fosae á fortaleza de Ganaaor donde oão fiayria 
sem seu Biandado, & Dão querendo dar a menagem que 
foase preso em ferros, & asai bo leuassem a Cananor. 
£ ho principal deste conseibo foy Eytor da silueira a 
quem ho gouernador daua mil pardaos dordenado des- 
pois que António de roiranda seruio de capitão mór do 
mar, & isto [K3r ho. ter de sua parte por ser pessoa de 
credito & ter muylos parentes 4 ho gouernador cuyda- 
ua que serião de sua valia por sua parte : & porque Pê- 
ro mazcárenhas &. os de sua parte cuydassem que era 
assi, cometeo a Eytor da siJueira que ho fosse prender : 
do que se ele escusou porque lhe parecia bê prenderse 
pêra ho aconselhar mas nã pêra ser ho executor, por* 
que sabia quãto todos os fidalgos da índia lho estranha- 
rião« E vendo bo gouernador que se escusaua mandou 
a Simão de melo seu sobrinho & a António da silueira 
de roeneses seu genrro que fossem com grande armada 
goardar ambas as barras de Goa & prendessem Pêro 
mazcarenhas não querendo dar a menagem , & que Si- 
mão de melo ho leuasse a Cananor & ho entregaria a 
dom Simão preso em ferros de qu6 cobraria conbecimS» 
to de como ho recebia , & que assi ho êtregaria quãdo 
lho lio gouernador mandasse , & eles se partirão pêra as 
barras a houe de IVIarço com (amanha armada & chea 
de tanta gente como se forão esperar os rumes, o que 
aiuuroçou mais os da parte de Pêro mazcarenhas & di- 
zíâo que bS mostrAua ho gouernador ^ queria gouernar 
por força pois não queria Q Pêro mazcarenhas fosse á 
Goa por não se poer coele em derey to , & se teuera. por 
certo telo na gouernança Q lhe oão dera nada de ir a 
Goa, & \ posto que ho mandasse prender 2) a gouer- 
nança auia de ser sua, & diziáno de noyte em lugar que 
ho ouuia , & eie dissimulaua por não auer moor aluoro- 
ço : & porem era tamanho 4 ^^^ podia ser mayor , & 
algus se yão aqueixar do que ho gouernador fazia iu> 



LIVRO. VUk CAUTVLO XXX. 6& 

goardic^) de sam Francisco de Goa que era homem le- 
trado, dizendolhe que polo que deuia a €eu habito lhe 
deuia destranbar o que fazia a Pêro mazcarenhas, & eie 
respÕdia que não auia que lhe estranhar porque fazia 
justiça: & que responderia mais largamSte no cabo da 
pregação que auia de pregar ho domingo seguite, & dis- 
se isto ao gouernador pedindoihe a sua prouisit pêra a 
ler no púlpito , & prouar por ela que ele era verdadeyro 
gouernador, & ele lhe rogou muyto que ho fizesse. E es- 
tãdo ho gouernador presente com muytos capitães & fi- 
dalgos, leo no cabo da pregação em alta voz a prouisam 
per (\ Lopo vaz de sam Payo era gouernador. £ despois. 
Q prouou por muytas rezões que ele era verdadeyro go<- 
uernador {o t\ ningué negaua se a subcessam de Fero 
mazcarenhas não fora aberta primeyro) disse ho por^ 
fazia aquela declaração , & que dizia a todas as pessoas 
que dizião que ho gouernador lomaua por força a gouer- 
nança a Fero mazcarenhas !\ vissem bem o que fazião , 
porque a fora lhe assacarem hQ grande falso testemu- 
nho cometião treição contra el Rey cousa mtiyto auor- 
recida Slre os Portugueses póla muyto grande lealdade 
de que sempre vsarão sobre as outras nações: & posto 
Q ele era Castelhano não auia vergonha de ho confes* 
sar, mas. que a auiclo dauer os que lhe fazião dizer a- 
quilo, & que duuidauão em cousa tão clara como era 
ser Lopo vaz de sam Payo gouernador por dereyto & 
não por força : & que b5 sabião todos quão pouco par6- 
tesco tinha coele nè com Fero mazcarenhas, & quão 
pouca necessidade tinha deles nem doutra nenhõa pes* 
soa deste mundo, & que ainda que lhe algos assacatião 
que ele não falaua verdade, o {} se ele fazia prouuesse* 
a Deos eterno que no inferno fosse confundido, & lhe 
tirasse logo a fala se ele dizia se não o que entendia,' 
& assi ho juraua polo deos Q aquela manhaã teuera nas 
mãos , & |)or tãto requeria da parte do Sancto padre ao 
vigairo geral que hi estaua que passasse hUa carta des- 
comunhão em que ouuesse por escomungados a todos os 

LIVRO VII. I 



M BA HnroHiA DÁ índia 

ò diMeaoem que ho goaemador bo não era por derejto, 
ic pagasses dez marcos de prata pêra a sé & nSo po« 
dessem ser absolutos se nSo polo bispo do Funcbal , & 
K^ria ao ouuídor geral & a todos os fidalgos Q oulbas- 
tem |jor (amanha cousa cosmo aquela era, & que soo* 
beesein (odos que as goardas que ho gouernador punha 
Das barras não era por se lemer da vinda de Pêro niaz- 
earenhas se nao por não auer aluoroços: & cuydando 
que ficauão todos erétes eoesta fala ^ Lopo vaz de sam 
Payo era gouernador por derejto ealouse , & logo Fero 
de faria capitio de Goa Uie pedio a subcessani & a bet<- 
jou & pos na cabe^ , dizendo que a obedecia, & pregil- 
lado a todos se faaíão outro tanto disserâo que si , & do 
que ho goardiSo disse, & disto mandou fazer hu anto 
pêra sua 8egnran<;a, & se aprouettar dele quando fosse 
tempo, Sl por seu mandado fo; ho o»uidor gerai pokaa 
casas desses fidalgos ^ se acharão* aa pregai^o, & ho as-* 
ainarâo por amor que disserâo l^ obedeciâo á prooisio 
que bo goardiSo lera, & os que assinarão, forão Pêro de 
£»ria, ho fejior Miguel db vale, Eylor da silueira, Fran« 
oiseo de soasa tauares , Gõi^alo de sonsa , Ruy gomez 
dag rã, dom lorge de oraste, Manuel de brito, dÔ An- 
tónio d^ silueira , Vaseo da cunha , Diogo da sMueira ^ 
dd Afonso de meneses, Geronimo de sousa, Anrri^ de 
macedo, lohane mSdez de macedo, Dic^e de macedo, 
Manuel de carualhal , António mddez de brito, Frâcis* 
CO da silua. Pêro descocoar, & dõ Vasco de lima, & lor- 
ge de irmA| porQ não- quisserSo assinar foran» presos so^ 
bre suas menagfts , Sl asai por^ mpslrarão ser da parte 
de Pêro mazcarenba», & ao oulro dia foi este auto aa« 
sioado pelos que estauã nas barras, que forSo António 
dai silueira ,. Simão de melo, dom lorge de noronha, lor-» 
ge de melo, dÕ lohão lobo, dom Anrrique déqa, lohão 
pereyca, Francieco oorrea^ António ealdeira, Gomez de 
souto mayor, Lopo correa, Franoiseo de brito, Pajo roíz 
daraujo, Gracia de nrdo, António mender de vascon** 
celos^ Nuno pereyra^ Frãcisco fenreira^ Gaspar da sil- 



LIVRO yff« CAIPtTVLO XXXI. GT 

mi , Fernfto de inoraeis , Fernão roiz barba» E atsi foy 
assinado polo capilA oiór do mar, que chegou a este 
tempo 9 & peloH eapiiáea Q yjlo coeie. 

C A P I T V L O XXXC. 

De e&ma Pêro moMCãrenhas fey preso em ferroe • 

JL^ auegando Pêro maacarenhaa pêra Goa^ topou cd GA- 
'i;aio g^omez dazeuedo, hfl fidalgo de ^ soube a armada 

3bo esCaua esperando pêra ho prenderem por mandado 
o gooernador. E como ele ;a posto em sofrer tudo fao 
^oe lhe fizessem , & nâo fazer mais que requerer sua 
justiça , não lhe deu nada & passou auanle , & tãb6 por 
uSo ter onde se ir : & despois de sapartar de G&^ goh 
mm chegou á barra de Pangim aos dezaseis de Março. 
E tanto que foy visto fbe saio hfl bargantim tirSdolhe 
bombiirdadas por alto pêra 2) amainasee como amainou ^ 
i& depois de ser leU('>do a António da sihieira & lhe nSo 
qnerer dar mensgem t)e se ir meter na fortaleza de Cu* 
nanor & não sair sem mandado do gouernador , lhe foy 
deitado hO griHiSo. B entregue a Simão de melo ho ie- 
uoti a Cananor, & forão presos Simfio^aeiro, & Uk;a- 
9ote de seixas, & leuados ao (ronco de Goa, onde forSo 
bem carregados éê ferro. E entregue Pêro mazcaiienbaB 
a dò Simflo de metieses , por Simão de melo cobrou da- 
)e hH eonheeímfito de como ho recebera, & que assi ho 
entregaria quando lho pedissem , & coeie se (ornou ao 
goueroadfH*, Q se ouee por seguro com a prisão de Pa- 
ro mazcnrenhas , & assr ho fteou : fkottf coela se asseM- 
gnrã todos os aluoroi^os 4[)ue auia, & ni acuem falou mais 
ê Pêro mi)zcarenbas , temendo que ^he não fizessem ce^ 
mo a ele, & mais perderão a «sperani^a de se realaarar, 
E neste tempo Francisco de sousa lauarea t\ (inba a 
carta de Chrislouão de sousa , ifue com os de Cbaul se 
acordou q eeereuesse ao gooernaNJor, Hm deu , cuja sue^ 
Hincia era eepiiarae mtryte dele, eêpennéetfe por Rtêt- 

I 2 



CS .BA HISTORIA DA ÍNDIA 

'mes cada diá, que Iraziâo tamanho poder como ele sa- 
bia : & sendo ho dos nossos tã pouco querelo ainda de- 
minuir, cõ bo diuídir em duas parles & fazer diuisão, 
que è todas as parles era a mais abominauel cousa que 
podia ser, quãto mais na índia ^ & naquele iSpo, que 
se lhe parecia que a gouernâça era sua , que se posesse 
em justiça cÕ Pêro mazcarenhas quando viesse de Ma- 
laca, & nã quisesse que se determinasse por armas co» 
mo parecia que queria, & quê teuesse dereito esse fus-- 
Be gouernador , porque ele não queria que bo fosse hii 
•roais que ho outro, nè lhe queria que se posesse eni de- 
leito, se nãii por não auer diuisâo na índia: & Q assí 
Jho pedia rouyto & requeria da parte dei rey : certefícan- 
duihe que não auia dobedecer, se não a quem se poses- 
se em dereito. Vista esta carta pelo gouernador, achou- 
se muyto salteado, por ser Christouào de sousa bo prin- 
cipal capitão de toda a índia, & que tinha a mayor par- 
le da gente dela de sua parte, por dar rouyto mayor 
mesa que todos os daquele tempo, & muyto mais abas- 
tada & melhores igoarias, & daua dinheiro a muylos 
que ho não tinha, & ser de muyto folgar, & muy fami- 
Jiar com todos, polo que continuaiBgteinuernauàêCbaul 
roais tidalgos & gSte que & outra parte ^ & por isso bo 
gouernador ticou asaz agastado, em lhe parecer ^ Ibe 
não obedeceria pois nâ se deterroiíl^ra cõ Pêro masca- 
renbas se não .por força , & isto Ibe fez crer que nã era 
ainda pacifico na gouernaoça, & não mostrou esta car- 
ta se não aos que tinha por amigos, que ficarão coela 
abalados , por ser Cristouâo de sousa a pessoa í\ era , 
& conseiharão ao gouernador i) Jhe mãdasse notiticar a 
prisão de Pêro mazcarenhas, & como se fizera sem nbQa 
diuisão, que fora aprouada polo capitão mor do mar, & 
polo capitão de Cananor, & por lodos os capitães & fi- 
dalgos da índia, & bo obedeciâo todos f>or gouernador, 
pediodolhe que pois nâ auia diuisão, que obedecesse, 
& escreuesse bua carta a Pêro mazcarenhas, como auia 
a sua prisão por boa , & Ibe conselhasse que desistisse 



LIVRO VII. CAFITVIiO XStXí. 69 

de pretender a gouernãça. £ sabido isto por Crislouão 
de sousa como quer Q não pretendia neste caso mais 
que na auer diuibão, folgou nauj^to de a cousa se fazer 
•tão pacificaniSle : & deu por isso niuytas graças a nosso 
aeobor, mas não que lhe deixasse de parecer muyto mal 
^a prisão de Pêro mazcarenbas , & muyto peor nSo lhe 
darem a gouernauça, que lhe parecia ser sua por derei- 
to, & que pelo que deuia ao seruic^o dei rey, & a obri- 
gac^âo que tinha de sua menagem & fidalguia, ^ deuia 
dobedecer por gouernador a Pêro mazcarenbas , & nào 
a Lopo vaz de sam payo, mas poendo diante que fazen- 
doo assi se renouaria a diuisão que eslaua apagada^ & 
.que se desfaria ho corpo da gente da índia, que se po- 
dia conseruar, cõ auer por boa a prisão de Pêro maz- 
carenbas, & atalhaua aos que erâo da sua parte, vendo 
Q ele era da do gouernador, bo seria tambê, & eslãdo 
4odo0 juntos & côfurmes os ajudaria nosso senhor, & lhes 
•daria vitoria doa Rumes, t\ náo vindo na mouçáodeMayo 
.estaua certo virem na de Setebro, & achando diuidida 
a gente da índia, seria muy leue cousa ganbar@na, com 
não escapar nhil dos nossos, & por isso lhe pareceo bê 
com cÕselbo dos principaeis que eslauâo coele, que não 
somente screuesse ao gouernador, que ho obedecia por 
esse, & auia a prisão de Pêro mazcarenbas por boa, mas 
tâbõ a toda a Índia: & screuesse a Pêro mazcarenbas 
còforme ao que lhe bo gouernador rogaua , & a quem 
screueo esta carta. 

m Senhor por este parsio ouue bua caria de V. S. S ^ 
me largamfite da conta do negocio dãtrele, & Pêro maz- 
carenbas, muyto folgara de o saber primeyro, porque 
dera antes meu parecer s3 afei<jã, como V. S. de mim 
cré & espera. E quanto senhor ao que diz que todos o- 
bedecerâo a sua prouisâo, eu tâbê digo ^ lhe obedeço, 
no alto, & no baixo, como a gouernador que be por pro- 
uisâo dei rey nosso senhor, & sei certo selo V. S. por 
morte de dõ Anrrij) de meneses Q Deos perdoe» £ quã- 
to ao que be pasmado sobreste caso, me pareceo escusii-* 



70 nk «sroRiA dia fNUA 

do meu parecer , por ho negocio ter ja fim Deot seja 
louuado, lAo 0em aíuoro<^ & sem diuísão, ho <} sempre 
pedi a nosso senhor, & estaua asas confiado Q se faria 
b6 polo V, S. ler ãlre as mãos & pois está feyto Canto ê 
cc^ncordia & pae, não falo nisso. A carta pêra Pêro a^is- 
carenhas vai aberta, pêra se lhe parecer bem mldarlha^ 
se não faija ho que quiser. Beijo as mftos de V. S. -de 
Chaul a vTte cinco de Março. Cristouão de sousa. 

E a de Pêro mazcarenbas dizia. 

*t Senhor fuy emforniado do senhor Lopo vas, de todo 
ho caso dàire vos & ele , & assi vi suas prouisôes & os 
pareceres desses senhores que se acharão em Cochim, 
& certo tudo foy feyto por seu estilo, & como estas cou- 
sas estem 6 pontos de dereito, ^ muyto bS sabem algfis 
dos questauão presentes, não vos pareça senhor ho con- 
Irairo, se não Q por todos, assi leigos coroo por esses 
dous frades ^ ho deuS detender, & ser sem sospeita por 
seus hábitos, & mais afirmandoe cÒ juramSto, forão suas 
prouisôes auid«^ |x)r boas: & certo a meu ver, a vonta- 
de de Saalteza era selo de per falecimento de dÕ Anr- 
rique : & de todas as outras cousas , eu não fuy enfor- 
mado se não a tSpo í\ tudo estaua feyto, por isso foy 
escusado meu parecer, & pois tudo esta pacifico, a- 
uei vossa prisão em paciência, porque certo ít)y neces- 
sária, assi polo Iji vos eâpre, como por euitar aF^ílas ses- 
peitas domSs que desejão diuisões, ho ^ pêra ho tempo 
em ^ estamos fora tão danoso, () muyle melhor fera sei^ 
des ambos mortos : Quisuos senhor screuer esta , posto 
^ de Vios não tenha recebida nhua despois de vossa vrnh 
da, pêra nela vos pedir por mercê como acima d^ge a* 
jais paciScia eo«i vossas cousas , & queirais fazer este 
seruiço a sualteza, de vos nâo lembrardes agora de vo9<- 
sa honrra , por não vingardes vossa prisão , cousa tãto 
cõtra seu seruiço, & certo recebereis assí^nada mercê de 
tão notaiiel seruiço, & não demouâo vosso bS conselho-, 
algflas cartas de fidalgos da Índia, porque certo qu6 
vos ho oontrairo aconselhar será vosso immigo y, & fíSb 



LIVRO VII. CAUTVLO ILXXI. 7 1 

deteja de vomas cousas serem feyla^ a vossa hõrra co- 
mo eu. Veja senhor bo {} de ml mSda nes(a terra & fa- 
loei , não tocando nestes negócios ( por ja terS fim ) co- 
ifio seu seruiclor & amigo que sou de muylos dias. Beija 
silor vossas mãos, de Ghaul. Cristouâo de sousa. 

E assi esòreueo a dom Sim&r de meneses & a ou- 
tros muytos fidalgos do que ho gouernador ficou muyto 
contente parecendoihe que ho tinha da sua parte, & Pe« 
ro mazcarenhas também ficou satisfeito quando ?io a 
sua carta , porque entendeo nela que nâo auia sua pri« 
sam por boa se nSo pela pacificação da Índia & por se 
escusarem diuisÕes, & teue esperança de lhe parecer 
ainda bem poerse ho gouernador coele eu) dere^^lo sobre 
a gouernâça se bo dom Stmào soltasse, em que ja co**- 
roeçaua denteirder què Iro fatia ^ por lhe ter prometido 
que coroo fosse inuerno lhe tiraria os ferros, pedindo- 
Hie perdão de lhos nio tirar mais cedo por recear que 
fao gouernador ho soubesse* E isto deu ousadia a Pêro 
mazcarenhas a mãdar hQ requeri m&lo ao gouernador per 
hu Dinis camelo tabalhSo pubrico de Cananor, euja 8us«* 
taiieía foj que ho gouernador se posesse coele 6 justiça 
& não leuasee ao eabo a ibrça ^ lhe fazia tomandolhe a 
gcuemança ^ fbe el Rey dera jivot estando por todas as 
perdar & dãooa que disso recebesse, & requerendoUre 
lambem ^ eoltasse a Simão caeiro & a Lançarote de sei- 
xas pêra requererem su^a justiça pois os tinha presos sem 
serem eu>pad«É. £ dado este* requerimento ao gouerna- 
dor, ele he> roavpeo acabaB>db de ho ler : pelo ^ Dinis ca* 
meie iiSer oveou* dfesperae a reposta Sc fugio pêra Cana-' 
iior. E logo Besta «onjunçáo indo ho gouernador á for-^ 
taleza pasBaifdo por diãle da porta do troco Simão caei^- 
ro & Lánfarete de seixas Hke requererão a grandes bra- 
dos que es mandasse soltar pêra requererem a justiça 
do gouernador Pêro mazcarenhas, ft por isso os mandou 
carregar de ferro mais do que estauão , & defendeo sob 
graues penaa que nidguem sobreste caso de Pêro maz- 
eaienhas Hie desM mais requerimentos se não ao secre* 



72 BA HISTO&f A Dá INPIA 

tario porque ele responderia , & mandou apregoar Q so^ 
pena de morte ninguém fosse ousado de nomear por go-> 
uernador a Pêro mazcarenhas: que sabendo coroo fao gú- 
uernador roropera ho seu requerimento a Dinis camelo 
& lhe não dera outra reposta, lhe pedio disso bfl estor- 
mento que lhe ele deu. E não responder ho gouernador 
a este requerimSto, fez parecer a dom SimSo que toma* 
ua a gouernança por força, & parecendolbe mal come- 
çouse dabalar pêra lhe desobedecer, & nâo Q ho dises- 
ge a Pêro mazcarenhas. 

C A P I T V L O XXXII. 

• ê 

Da causa ^ Eytor da sUueira , ^ Diogo da silueira , íe^ 
uerâo pêra serem côtra ho gouernador. 

X ubricado por cristouão de sousa que auia por boa a 
prisão de Pêro mazcarenhas , como ele era (lessoa tão 
principal na índia, & de Q se fazia muy ta conta, o» 
mais dos que erâo da parte de Pêro mazcarenhas, ven-* 
do que era daquele parecer, ho teuerão tambS por bom, 
& crendo ^ assi cumpria ao seruiço de Deos & dei re^ ,* 
ássessegarão de seus aJuoroços, principalmente em Goa,* 
era que cessarão supitamSte os ajuntamentos & perfíaa 
que auia dantes , com ho que ho gouernador ficou des-* 
canssado, tendo que estaua em paz: pelo que começou, 
de sapercebcr do necessário, pêra a vinda dos Rumes, 
assi como mandar varar nauios, & fazer outroe de nouo, 
& fundir artelharia, & fazer poluora & pelouros. E nes* 
te tempo na Strada Dabril, lhe pedio Eytor da silueira, 
que mandasse Pêro de faria seruir a capitania de Ma- 
laca de ^ estaua prouido, & que lhe daria a. de Goa, 
do que se ho gouernador escusou, porque Pêro de faria 
tinha lambem a capitania de Goa por el Rey, & estaua 
em sua escolha tela , ou deixala , & por isso ho não po* 
dia fazer ir a Malaca sem soa võtade, & com tudo ele. 

lhe falaria nisso, & se quisesse ir a Malac| lhe daria a 

f 



LIVRO VII. CAPITVLO XXXIT. 73 

de Goa, & falandolhe, respondeo Pêro de faria que nâo 
queria ir a Malaca, ho que Eyíor da sHueira nâo creo, 
quando liio bo goueraador disse, & pareceolhe que como 
estaua necessitado domes pêra se susi&tar na g;ouernaii** 
ça, que faria com Pêro de faria ^ nâo deixasse Goa, 
por bt) ter consigo que era grande seu amigo , & pare- 
oendolhe islo nâ quis receber palauras de comprimen- 
tos, que ho gouernador ieue coele, dizSdo que lhe pesa* 
ua de lhe não poder dar aquela capitania mas ^ outra 
cousa aueria que \he desse: & ele respondeo que não 
auia que lhe dar, & que bem sabia dele a verdade, & 
que lhe- não auia dSlrar mais em casa, ho que ho go« 
uernador sofreo polo tempo em que estaua, & dali se 
foy logo Kyior da silueira muyto agastado & indinado 
cftlra ho gouernador, & cotou o {} passara coele a Dio- 
go da silueira seu parente & amigo, conselbandolhe que 
lhe pedisse a capitania de Malaca, pois a Pêro de faria 
Dão queria seruir, & éle ho fez assi : & ho gouernador 
respondeo que lha dera de boa vontade, mas que Hia 
são podia dar, pola seruir lorge cabral, a quem Pêro 
mazcarenhas a dera sendo jurado por gouernador, pelo 
que lorge cabral a não alargaria sem ver prouisSo de Pê- 
ro mazearenhas, & indo ele sem ela a Malaca, seria fa- 
zer la outro aluoroço como auia na índia , & por isso ho 
não podia prouer do Q lhe pedia, do que se ele mostrou 
muyto agrauado, & não quis receber nhus comprimen- 
tos do gouernador, porque todos então pela necessida- 
de que sabião que tinha deles se lhe querião vender 
muyto caros , & ajudarse dele com fazerem seu prouei- 
lo: & crendo que não tinhão nhf) de sua amizade nem 
de serem de sua valia pois lhes nSo daua o que lhe pe- 
dião, pareceolhes muylo mal ser ele gouernador, & que 
tinha por força a gouernança a Pêro mazearenhas que 
era ho verdadeyro fifouernador & por tal ho ouuerão, & 
logo lhes pareceo bem que ho gouernador se posesse 
coele em dereyto sobre quem ho deuia de ser. E assen- 
tado isto ambos,, começarão de prouocar outros fidalgo» 

LIVRO VII. K 



74 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

qu0 fossem de sua openiáo & íizerão coeles que a te» 
uessein & forâo estes, dom António da silueira, dom 
Tristão de noronha, dõ lorge de crasto, Vasco da cu*** 
nba, dom Anrrique deça, dõ Francisco de crasto, Nu* 
po fernSdez freyre,* lorge da silueira, Frãcisco daiaide, 
Jorge de melo, Diogo de miranda, Ayres cabral, Simfto 
sodré, Marti vaz pacbeco & Simão delgado quadrilbei*» 
ro mor. £ acquiridos estes & outros muylos homSs pot 
sua parle, logo bo escreuerão por terra a Pêro mascare* 
nbas, & sua determinação: por isso que trabalbasse com 
dom Simão que bo soltasse, & na entrada do verão se 
fosse a Goa , & fariâo cõ bo gouernador que se posesse 
Goele em justiça sobro cuja era a gouernança. E esta 
carta foy assinada por todos estes fidalgos que digo, ^ 
vista por Pêro roazcarenhas a mostrou a dom Simão, di-» 
sendo que pois aqueles fidalgos ho querião ajudar que 
porque bo não soltaria ele sendo tamanbo seu amigo, 
fe pois nisso seruia a Deos & a el Rey, & aflSrmasse que 
Ibe prometeo de lhe dar a capitania mór do mar se ho 
fizesse, & tirala a António de mirada porque não era 
sua se ele fosse gouernador que ficaua sem poder auer 
efleyto a segQda subcessã de Lopo vaz de sam Payo que 
bo fazia capitão mór do mar, & dom Simão Ibe prome- 
teo de bo soltar se aqueles fidalgos permanecessem em 
ser da sua pnrte: & que escreuesse a seus amigos que 
tinha em G^cbim pêra saber se tinhão ainda sua voz, & 
que requeresse a António de miraoda & ao vedor da 
fezemia que pois erão na índia pessoas tão principais fi-» 
aessem com bo gouernador que se posesse coele ê jusli-' 
ça : & ele ho fez assi , & lhes mandou sobrisso grandes 
Fcqueriínentos cô cartas a seus amigos que lhos apre- 
aenlassem, & como bo vedor da fazenda era rtiuylo re^ 
catado tenviase de Pêro mazcarenhas ter algOas inteli-» 
gencias em Cochim , & por isso tinha suas espias pêra 
lhe tomarem quais cartas ou papeis que lá mandasse, & 
acertarão de tomar bíia carta que ouui, & tinha bo so- 
brescrito tão riscado que se não pcKlia ler, & por isso fião 
soube pêra quem ena & dizia. 



LIVKO VII. OAFITVLO XZXII. 7» 

« Senhor agora nouamente torno a fazer certos reque* 
riinentoa sobre a gouernança da índia por me ser reque- 
rido que o6 faça, lá senhor vos ha de ser mostrado hH 
deles , sey certo que vos ha de parecer bem fazelo pois 
a todos estes senhores digo poios mais deles parece mal 
Dão ho fazer dias ha, desejâo todos virlhe á mSo pode- 
rem aleuaniar ho seruic^o dei Rey nosso sefior, & nSo 
oonsentirem cousas que passam contra seu real estado 
de que leoi que se lhes pode dar muyta culpa por as 
eonsen tirem passar como passam : & porem como em 
Goa não fuy atequi visto nem ouuido, não passou ho 
4empo de fazer o 1) agora faço , beijaruosey as mãos por'- 
<|ue todo vejais, & ponhais ante vos que a António de 
niranda nem a Afonso mexia lhes não ha nunca de pa- 
recer bem gouernar eu a índia, porque gouernãdoa não 
Jbe pertence a h0 a capitania mór do mar, nem a ou*- 
iro a capitania de Gocbim o que lhes pertence gooer- 
Dando Lopo vaz , & por isso ho querem soster. E com 
tudo vejo !\ quer Deos tornar sobristo como cumpre a 
•eu seruíço, & ao estado real dei Rev nosso senhor. Bei- 
jo as mãos de vossa roerce deste Ginanor a vinte três 
Dabril de mil & quinhentos & vinte sete. Pêro ma»- 
carenhas. 

E vista esta carta pelo vedor da fazenda, respondeò 
ao requerimento de Pêro mazcarenhas que ho fizesse aé 
gouernador & não a ele , por^ lhe não podia requerer ^ 
ee posesse fi justiça sobre a gouernança Q era sua por 
prouisam dei Rey, & bo mesmo resfiondeo António de 
miranda , & ho vedor da fazenda mandou logo esta car^ 
ta de Pêro mazcarenhas ao gouernador pêra que soubes^ 
se sua determinação, que ainda a nflo sabia^ >& cnydaua 
que estana fora de tal pensamento. 



K 3 



76 BA HISTORIA DA INDfA 

C A P I T V L o XXXIH. 

< 

Do requerimento que os oMciaes da camará de Goajize^ 

râo ao gouemador. 

jL^aqui por díâle amiudou Pêro mazcarenhas os reque* 
rimêlos sobre se bo gouernador poer coele em jusiiça, 
assi ao vedor da fazenda como a António de miranda & 
ao mesmo gouernador que a nhu respondeo, antes pren^ 
deo algõas pessoas que Ibos apresenlauão. E Ejlor da 
i»ilueira^ Diogo da silueira & dom António da silueira 
com os de sua vaiia deixarão neste tempo de ir a casa 
do gouernador & acompanhalo como costumauâo dantes, 
Q que ele cuydaua que era fielos agrauos que teriáo das 
capitanias que lhes não dera, & dissimulaua coeies fa- 
asendolhes sempre gasalhado onde os topaua, nem tirou 
por isso a Eytor da silueira os mil pardaos que lhe man^ 
daua dar á custa dei Rey parecendolhe que coisto ho a- 
mansaría, & ho teria da sua parte com os mais amigos 
4 tinha: mas ele estaua ja tão determinado em fazer ^ 
se posesse em justiça com Pêro mazcarenhas que nb&a 
cousa aproueilaua ao gouernador pêra ho fazer mudaré 
£ vendo bo gouernador que os requerimêtos de Pêro 
mazcarenhas na cessauão desenganou bo por húa carta 
cjue lhe nâo fizesse requerimêtos, porque não se auia de 
puer coeie em justiça, que era fazer duuidoso o que ti* 
juba certo por prouisão dei Rey : do Q logo Pêro mazca- 
renhas auisou a Eytor da silueira, escreuendolhe que 
pois Lopo vaz nâo queria poerse em dereyto por seu re- 
querimento, que lh« ti^^esse ele com os outros de sua va- 
lia y & não querendo satisfazer que lhe desobedecessem 
& obedecessem a ele, porque se assi ho nâo fizessem 
que ae chegaua bo verão : & se naquele negocio se não 
tomaua primeyro algãa concrusam, que receaua que ho 
gouernador bo mandaria preso pêra Portugal, & assi não 
aproueitaria bo bem que lhe queriâo fazer. E vista por 



hífMò trti cAMVtLb^Aíiii. TV 

£j(or da silueira esta carta, mostrou a aos de staa Irga. 
'£ foy aeordado por todos que não era necessário faaer- 
8e enlão nhu requerimento ao gouernador ae não sendo 
Pêro mazcarenhas presSte: por tãto como fosse tempo 
ele fosse a Goa, & coele requereriâo ao gouernador que 
8e posesse em juslic^a , & quando não quisesse que lhe 
'desobedeceríâo & obedecertâo a ele. £ neste acordo fo^ 
Tão os officíaes da camará de Goa que tambS Eytor da 
«iiueira tinba prouocado a terfi a vos de Pêro mazcare- 
nhas, & assi muytos cidadãos de Goa, que todos assi- 
narão em bua carta Q Eytor da silueira escreueo a Pe* 
xo mazcarenhas deste acordo, dizendo mais que todos a- 
-queles que ali yão assinados perderião por ele as vidas 
& fazendas* E os assinados forâo duzètos & sessenta bo- 
rnes, de c) Pêro mazcarenhas ficou espâtado quando vio 
-a carta , por cuydar que ninguém quisesse ser da sua 
parte, & mostrou esta carta a dom Simão pêra que le<- 
uesse mais võtade de ho soltar & se animasse a fazelo 
vendo que tinha tanta gente de sua valia , & tornou a 
escreuer a Eytòr da silueira & aos outros , ^ toda via 
era necessário em quanto nSo fiodia ir a Goa requere- 
rem ao gouernador que se posesse coeie em justiça, & 
quãdo ho não quisesse fazer t\ ho prendessem , & assi 
ficaria a cousa segura por sua parte , porque sem duui- 
da se este feylo não fosse auerigoado antes da chegada 
das nãos do reyno, & bo gouernador bo fosse quãdo elas 
chegassem estaua certo ter mayor poder do que tinha, 
porque os capitães nâo auiâo dobedecer se náo a quem 
achassem em posse da gouernança , & coisso ho poderia 
prender em prisam mais apertada ate bo mandar pêra 
Portugal , & por isso era muy necessário fazerêlhe ho 
requerimento que dizia, & prenderSno quando nâo qui- 
sesse satisfazer a ele, & pêra que parecesse ^ trinhâo 
causa pêra Ibo fazer, fez pêra os fidalgos bum & outro 
pêra a camará de Goa em que lhes requeria que reque- 
ressem ao goiíernadur ^ se posesse coele em justiça so^ 
bre cuja era a goueraança^ E Pêra mazcarenhas insistia 



78 9k KntOtlA DA flIMA 

tanto neato ponto que se posesse ho gouernador coele 
era justiça 9 porque tinha por niuy certo que a auia ele 
de ter, & que iiie auiào de julgar a goueroança. Bstaa 
cartas, & requerimentos mandou por hum Mem vazcon 
sua procuração pêra requerer ^ lazer tudo quanto Ihei 
cumprisse, & ele partio por terra em lulho, & chegos 
a Goa na entrada Dagosto , onde rouy to secretamente 
deu a Eytor da silueira as cartas & requerimentos que 
leuaua que logo as deu aos pêra que yão. G a todoe pa^- 
recerâo bem os requerimfitos de Pêro mazcarenhas , A; 
M6 vaz apresentou na camará o que ya pêra os offi- 
ciaes: que logo fizerão outro ao gouernador que se po» 
sesse em dereyto com Pêro roazcarenhas sohre a ^uer^- 
nança & derSno ao secretario & coele o que lhes Pere 
mazcarenhas fizera. E ele os mostroa ao çouernador^ 
■que nâo respõdeo roais se nâo ameaçandoos se lhe fízes^ 
sem outros requerímStos: & ho mesmo faria se dessem 
reposta a nhii que lhes fizessem sobre aquele caso, oii 
Pêro mazcarenhas, ou a qualquer outra pessoa. E os oR- 
ficiaes disserâo isto a Eytor da silueira, dizendo que as^ 
si ho auião de fazer, por isso que buscasse seu remédio: 
porem que se a cousa viesse m ser necessária sua ajuda 
que lha darifio« E vendo Eytor da silueira a determína* 
çâo do gouernador^ acordou com os de sua valia, & com 
todos 08 2) tinbão a voz de Pêro mazcarenhas , que ele 
com os fidalgos fizessem bum requerimento ao eouerna^ 
dor que se posesse em justiça cd Pêro mazcarenhas «» & 
que ho dessem a ele mesmo, & que lho desse Manuel 
de macedo com hum escrioâo, & ele lho deu em saindo 
de sua casa. Ho gouernador ho tomon , & logo ho leo, 
& não deu outra reposta se não mandar Manuel de ma- 
cedo aa cadea & carrecralo de ferro, porque confra sua 
defesa fora ousado de lhe dar ho requerimento. E Ma- 
nuel de macedo tomou testemunhas de como ho gouer^ 
oador sendo ele fidalgo ho mãdaua meter na cadea com 
as pessoas baixas, & isto mais polo injuriar que por fa« 
cer justiça^ porque pêra isso aoia fortaleza Sde ho pren*' 



deweiD merecendo ele prisam tão graue, quanto maia 
que lhe fazia aeoi justiça pois ho prendia por lhe reque- 
rer que a fizesse de si. £ passando aquela prímeyra fu- 
fia ao gouernador mandou que fosse tirado do tronco, 
& andasse pela fortaleza com a menagem lomada: mas 
•le não quis se não estar na cadea pois da primeyra lhe 
nâo deráo a fortaleza por prisam, & bo escriuão que ya 
eoeie pêra dar ho estormento foy espancado & arrepela-' 
éo poio gouernador , & os seus criados ho ouuerão de 
■datar se não fugira» 

C A P I T O L O XXXIIII. 

De como ho gauemtuiõr prendeo Eytar da Btlueira ^ 09 

oftítrw fàalgos de sua valití. 

V endo Eytor da silueira & os outros fidalgos de sua 
▼alia o que ho gouernador fez a Manuel de macedo, pa- 
receolhes que era por de mais fazerlbe requerimentos 
sobre se poer em justiça sobre a gouernança porque ho 
não auia de fazer, & que estaua leuantado com a índia. 
E consultarão entre Si que era muylo grande desbõrra 
sua sofrerenno y & que el Rey lho estranharia : & (j a- 
quilo era causa muy abastante pêra prenderem ho go* 
aernador tomo Pêro mazcarenhas requeria. E assentan- 
do de ho fazer assí^ disserãno aos officJaes da camará de 
Goa , & a todos oe que erão da sua parte pêra lhe aco- 
direm com armas quando ouuesBe de é^r a primam , & 
começouse h(l grande rumor pola cidade , de que ho go-» 
uernador não sabia nada, & Pêro de faria lho descobrio. E 
logo que bo soube ^ determinou de prender a Eytor da 
silueira flc os outros fidalgos que serião dezasete , & co*- 
ihunioãdo ho com Pêro de faria. Ele lhe disse que asst 
be deuia de Oizer , porque se não auia de sofrer tama- 
i^ho desaoatametíto. E assentado íelo deuse parte a An- 
tonio db íftilueira 9l A 8imão de melo & a outros, pêra t\ 
ao outro diá m ftasem tortos armados secretamente a to- 



KO nk HISTaSIA DA ÍNDIA 

mar as ruas que yão ter a casa Deytor da silueira por^ 
deleuessetn os que lhe quisessem acodir: ÃqueFerode 
fana por ser capi(âo os fosse |ireoder, & bo gouernador 
estaria na rua noua pêra maudar genle em sua ajuda 
ou acodir se fosse necessário. E ao outro dia pola me« 
nhaã Q forâo noue dias Dagosto estando tudo ordenado 
ficou ho gouernador a cauaio na rua noua, & Pêro de 
faria se foy a casa Deytor da silueira que estaua hi mujr«* 
to perto em outra rua , & achou ja moyta gente ao der- 
redor da casa que ya acodir a Eytor da silueira, enten* 
dendo que ho gouernador ho niandaua prender: & por 
a cousa ser tâo supita não leuauão mais que lanças , & 
assi acodirão os fidalgos da conjuração sem mais armas 
4 as costumadas. E sabendo Eytor da silueira () Pêro. 
de faria estaua hi sayo a hQa genela & preguntoulhe que 
queria: & ele iho disse, requerendolhe que lhe desse a 
menagem. E ele respondeo que sobisse ele acima a to- 
marlba, & que lhe faria o que ele merecia^ pois, era tão 
roim fidalgo que aoeilaua ilo prender. O que vendo Pê- 
ro de fana mandou chamar ho gouernador, que foy lo- 
go leuando algua g;ente. E neste tempo era a reuolta 
muyto grande da genie que acodia ao gouernador & a 
Eytor da silueira, & todos com lanças & ordenauase hfla 
muy perigosa briga , porque os do gouernador leuauão. 
espingardas, & os fidalgos da liga estauão ja todos com 
Eytor da silueira^ & determinauâo damutinar a gente 
de sua parte contra ho gouernador pêra que começas- 
sem a peleja, & eles prosseguissem: porque por se lhe 
não dar toda a culpa do mal que se seguisse nã querião 
começar. E coesta determinação em ho gouernador che- 
gando, disse Diogo da silueira da genela aos da sua par- 
te que estauão na rua. Senhores não vedes isto que to- 
ma por força a gouernança da índia , não he bem que 
se lhe consinta. Ao que ho gouernador respondeo com 
ira , 2| por força a tomaua & a auia de tomar. E com 
quanlo os da parte dos fidalgos ouuirão estas palauras, 
nunca eles ousarão da bolir consigo porque vião que os. 



LI^O Vlf. CàMtfLO xmtiiii, '«i 

'fidatgoB estaufio quedos^-^ -ho gouetnador lhes bradou 
da rua que se dessem á prísam. B eies disserSo que se 
-não auião de dar, porque ete os não pqdia prender que 
«ra seu immtgo por lhe requererem que nã tomasse è 
gouernança' a Pêro macoarenhas , & sobristo lhe fizerUo 
algSiâ requerimentos. E Vèndo ele que se nSo queríSò 
tlar á prisam, deceose do caualo com muyto grande me- 
*ften^oría, & tomando hOa lança 8& adarga quis sobir acr- 
*t»a ondc^taua Eytor da silueirakiA^os outros, que po^ a 
-«ua gen(e estar mal armada & a do gouernador bem, 8t 
^principalmente |K)r lhes parecer seruiço dei Rey não sè 
'fazer o que estaua ordenado que auia de ser com (ama- 
*nbo perigfo , náo se quiserâo defender se nSo darse aa 
^prisam. O que foy grande bem, porque se se defenderão 
*Ouuera de sf^r hâa cousa mby fea pêra Portugueses 8c 
•poucos ouuerSo de ficar viuos. E 8 ho gouernador que- 
-rendo sobir poia escada, sayo ao peitoril dela Eytor da 
•ilueira, & disselhe que ele & os outros fidalgos se da- 
li&o por presos, eniSo pedio Pêro de faria ao gouernador 
-que se fosse, & que ele os teuaria aa fortaleta , & que 
-lhe deoia de dar aquela honrra de os leuar pois era ca« 
•pitão da cidade. E ho gouernador ho fez assi, & foy es- 
•fieralo á fortaleza onde foy logo com os presos que fbrão 
estes, Eytor da silueira , Diogo da siltoeira , Dòni An- 
tónio da silueira , dom Tristão de noronha , áò forge d« 
crasto, Vasco da cunha, Marti vaz pacheco, loriare da 
-«ilueira, dom Anrrique de<;a, Diogo de miranda, Fran- 
cisco dataide, Simão delgado quadrilheiro mór,* Nuno 
fernãdez freyre, dom Francisco de crasto,- Si itião sodré; 
lorge de melo & Ayres cabral. E enttados na fortaleza, 
bo gouernador lhes tomou as menag^s que em seus pés 
iiS alheos não sayssem dela, & disso foy feyto hQ auto: 
£ presos estes fidalgos , pareceo ao gouernador qae fi* 
caua em paz , porque muytos daquelrâ que erão da sua 
parte vendo os presos forão reconciliar logo coele, & an^ 
t reles forão os officiaes da camará, a que mandou que 
respôdessem ao requerimento de Pêro mazcarenbas ^ 

LIVRO VII. L 



lhe» Ibuarà Bl6 vaz que. ainda. eslaua em Goa: & f>Qr 
Gonofirazef ao gouerâHdor. responderão que ih^ aXo po- 
•díSo requerer que ae poseaae em iusU^a sobre a gouet» 
iDan^a pc^r aaberem que era sua por prouisam dei Heyi, 
;& erii obedecido por gouiernador por lodos os da lodia»: 
«& se fiobrisso Jhe requeressem que se posesse em juaiicja 
pareceria que despbedeqião aoe mandados dei Rey 9 a 
quS perlencia julgar cuja eca a gcueroao^a & nâo a 01»» 
.4rem, por lanio que w^ vioda a Goa era escusada, poa- 
^ue dSo seruíria de biaii^ que de fazer aluoro^o na gei^ 
\iò^ que era uecessarío que esteuesse quieta pêra |)eie- 
jar com os Rumes que esperauâo, requereudolbe da pafi- 
te dei Rej que não ibsse a Goa» £ bo goueraador ian»* 
bem respondeo largamen4e por parte da camará a }íi^to 
ttiazcarenhas 9 apdtaadolbe i> dereylo que iinba oa gi>- 
uernança^ & como era sua. £ de tudo foy fejfto quê ae 
deu a Men vâe com que se parlio pêra Fero maacare- 
Abas leuandolbe tanibem carias dos fidalgos presos e» 
i]Ue Ibe pedião que em todo caso foaae a Goa, porque 
4udo se feria b8. E partido MS vaa , porque \xç> goiiefw 
nador sabia que daqiH^lea fidalgos ^ eatauâo pr^os aJr 
gOs f>So linbâo culpa Sc por amor da amizade Deytor da 
ailueira forao na conjura<^ão mandou os pêra as pouaa^ 
4la8 , <& lambem' poios ler da sua parle , & eslt^s íorão 
Vasco da cunha, dom Trislào de oorooha, Marli m vaa 
|)»eb€«o, liírge da ailueira , dom Anrrique deça, CMog^ 
de mirada , Frõcisco dataide, SimSo delgado, Wuao /efw 
ft»ndez freyre^ dom Francisco de crajilo, Simôô «odré^ 
& a Eylor da silueira, Diogo da «ilueira, d4>m António 
da silueira & dom Wr^e de crasU» , por serem cabeças 
4a{|la cottjuraçào deixou <)S estar na forlaleza , & a Ayí- 
rea cabraU & a lor^e 4e melo por serê «M^ylo malaia 
Mnles & ahioraçador^es 4e pouo mandou os leuar á ferta»- 
leza 4e 6e>rMiatarim , *. íj os f>rendesfWHn em ferros- G 
no cabo Dago84o -temSdose aiíwla Deylor. da silueina ^ 
dos outros ^res que Ibe tperjudicassem & 4 wcreuiâo a 
Fero mai&careah^fi 4 fcMc a Gi4)í» os qaiaera mãdar a (V 



hWUO VII. CâFITVLO XXZV. 9% 

ebiin mm fafl bergantim : o que não careaeo de togpeiui 
•^ue pêra oiorrereni no mar oe nandaua por ter ainda h# 
tempo nmylo verde, Sc por mo ihe eiea requererflo niii|r 
eatretUmenie que os nÇo mandaaae por(| oa mandana « 
morrer, pelo que deixou de oa mandar & tinha aobrelea 
grande recado, & eiea também ho iinhfto sobre si por«- 
que se reeeauâo de peçonha , & andava a cousa tio da*- 
"•ada de parte a parte que tudo se podia recear, & de 
iado ae podia ter sospeita. 

C A P I T o LO XXXV. 

De €úmo Pêro maxcarenhae foy iAedecido por gouema- 

dor por dom Simão de meneses. 

J\. prísam destes fidalgos com ^ ho §fouernadbr cny* 
dou que (icaua mais seguro na gouernança ho ouueria 
de poer em risco de a perder: por^ sabida por Pêro ma«^ 
carenbas sua prisaro ^ & recebendo cartas deles da cau^ 
ia porque fora, & como se temi2o de os matar com pe» 
^nba , porque ja cometera de us matar no mar com oa 
mandar em tem{M) tão verde como os mandaua: teue 
ousadia de a|)ertar muyto com dom Simão -() ho soltas^ 
ae & obedecesse por gouernador, & desobedecesse hopo 
Vaz de sam Pfi^^o: pois ele como tirano quetia forc^a* 
mente tomar a ifouernança, prendendo aqeetes I) lhe re^ 
queriSo que se posesse coele em jostiça, & buscando ar* 
tes pêra os matar. E parecendo mu^toiiial a dom Simãe 
a prisam daquelas fidalgos & ho mais que bo ^onetoadoe 
fatia, disse a Pêro mascarenhas, que pois ho gouerna<> 
ddr se não queria poer em dereylo sobre a gouernãça aa 
não tela por for<^ , o I) lhe a ele parecia mityio mal Q 
tinha por deshõrra obedecelo por gouernador, & por ia^ 
so obedeceria a ele Pêro maaearenhas pois queria justi^ 
ça, o que fazia por pacifica^ da índia* E porque pa* 
recesae asai a todos ieuou Pêro mazearenbas aa igre)a 
da fortales». E jQtos ho feytw , & alcayde qiór, & fisai 

L 2 



DUlfoa offibiaes da justiça, & da fazeda : & algfls .fidal- 
gos & Lodoa o8 ou iros Q iDorauao na fortaleza & arrabal- 
de:. h& tabalião. leo em voz alta a subceasam de Pere 
jnazcarenhaa > que fora aberta por faleci mea to de doa 
Anrrique dé. meaesea, & ho auto Q foy feyto da eolret' 
ga da gouernança a Lopo vat de saro P.ayo que gouerr 
^fise a Índia em quaoto. Fero maxcareohaa não fosae 
ále Malaca, & a carta do vedor da fazenda per ^ bo maar 
dou chamar, & a subceasaro do gouernador com todos oi 
autos & requerimentos que forâo feytos da resistência 
que lhe ho vedor da fazSda fez ete Cochim ate aquele 
dia. E despois de tudo lido, disse Fero mazcarenbas. 
Tudo o que senhores ouuistes, vos foy iido pêra que 
saibais quSo sem rezSo & sem nhua justiça fuy injuria- 
do, preso & mal tratado: & que se nâo poderá mais fa- 
aer a bQ pubrico mal feytor que quisera entregar a la- 
dia aos mouros, do que me fizera, Afonso mexia em me 
espancar , & Lopo vaz ê me prender sobre a mercê (| 
me S. A. fez da gouernança da Índia por muytos &; muy-y 
to grades seruiços que nela & em outras partes tenbp 
feytos a S. A. & a ei Rey seu pay : & agora por.derra^ 
deyro Ibe segurey Malaca com destruir el rey de Bin-: 
tão, & parecendome que vinha receber a roerce que me 
fez por galardão de meus seruiçbs recebi tanta deshõrra 
& tamanha injuria como está notório, prineipaloiente 
Daioso nieiia que polo offiQÍo que tS me ouuera d^ fa^ 
iiorecer & ajudar querendo me Lopo vaz fazer força, & 
apacifícar a índia como pessoa tão principal nela por 
seu officio: & ele como meu iipigo foy o ^ a reooluea 
eom querer entender por me fazer mal o que a carta de 
sua alteza não diz^ & tem posta a índia em bãdos & dii 
uisões & è perigo de se perder, & Lopo vaz ho ajuda 
por sua parte em não se querer poer comigo em justiça 
que por lho não pedir quando ya a Goa me prendeo em 
ferros como a tredor , & por força tne quer tomar a go- 
uernança , & diz que por armas ú ha de defender, & bõ 
se parece pois prende & mal trata a todos aqueles que 



hVmO^VlU CàVlTVSX^ XXKV. 85 

lhe pedem jusli^a por minha parte. E pêra se isto ver 
mais claramente prendeo agora os principais fidalgos da 
índia com tanto rigor & aspereza como que forão com«^ 
fveAdidos em Ireiçáo, .& dizem me que ealá determinai 
do de vir cercar esta fortaleza & prfiderme cd ho senhor 
capitão sendo tâo certa a vinda dos rumes, & tudo isto 
^oíú bo mais que tem feyto sam mostras verdadeyras 
idestar leuãtado com a índia & desobedecer aos mãda-^ 
dos de sua alteza , & cõtrariar as vontades de seus vas^ 
4Milos que andão na índia, que aos. mais parece mal esta 
tirania de. que vsa. E pois bo ele assi faz, requeiro a veé 
se&or capitão, & ao feytor, & alcayde mór & a todos os 
outros officiais desta fortaleza da parte. dei Rey nosso 
senhor hQa vez, & duas & três: que vista a cõtumacia 
^ Lopo vaz de sam Payo de se nâo querer poer comi<» 
go em justiça sobre a gouernança, que coestes officiaes 
ma fitregueis pôr vossa parte, & me obedec^ais por go« 
uernador, pêra que coeste fauor & com outros que es- 
pero ho possa constranger a poerse comigo em dereyto 
.pêra que a gouernança fii} a cuja for & se pacifiquem 
estes bandos com ^ a índia está em perigo de se perder 
jpindo 08 rumes como esperamos. E coisto fez suas pro* 
testações de não ho querendo assi fazer lho estranhar et 
Hey , & auer por eles a perda que recebesse de ho nSo 
fazerem , pedindo de tudo esiormêtos com suas repostas 
ou sem elas. Mas não foy necessário, porque todos res* 
penderão ^ lhe obedecerião polaa causas que dizia : & 
Jogo foy jurado por todos & obedecido por gouernador 
da índia com grande festa. O que logo foy sabido em 
Cochim 9 & como foy tempo muytos fidalgos & outras 
pesseas honrradas que erâo de sua valia & inuernauão 
em Cochim se foxioi parele, & assi chegarão a Cananor 
algiís. capitães de nauios que erão fora da índia. £ a- 
cbando. que Fero mazcarenhas era obedecido por gouer- 
nador porque Lopo vaz de sam Payo não se queria poer 
coele em iustiça ficarão coele : & coisto estaua muy to 
fauorecide.^ 



6t IML meroftfâ ha niiirâ 

C A P I T V L O XXXVI. 

Doi requêrímentôi qme ft% Pen mazcaremkm a L&f$ 

voz ae iam Payo^ 

vybedecido jiero maseareshM por goiíernâdor, Sc vêdo^ 
se tão fiiuoreeido t delerminou daiier de sua parle a 
CbriíitcMiáo de aouaa, port) lhe lembrou que a carta || Wnm 
eaereuera de auer aua príaam por boa que fora maíi po* 
lo ver preso & por apaci ficar a índia que por lhe pare*- 
eer resãu prenderSaot 8c pois esiaua solto & obedecido 
por gouernador^ & se queria poer em Ju8ii<pi sobre cuja 
era a gouernàija (} seria da sua parte. G peraisiolbe mft» 
dou 1)3 requerimento em que relalaua todo ho passado^ 
requerèduihe juntamente e5 dom Simão & c5 outros o& 
iiciaes da fortaleza que requeresse a Lopo vaz de sam 
Payo que se posesse coele em justiça , & não querendo 
que lhe desobedecesse, & obedecesse a elp que querÍ4| 
justiça & pacificação da índia. B ooeste requeri mentQ 
fliandou Francisco mendez de vascuncelos que pêra esta 
caso fez seu procurador. R partido Pranoiscu mSdez, 
mandou outro requerimêlo ao gouernador & dÕ Simão 
outro pêra ^ soltasse aqueles fidalgos {[ estauão presos ^ 
& a eles todos cartas de nuiylo esíbrço que perderia a 
vida sobre os soltar, dizendi»ihe o que era feyto & o que 
esperaua de íiizer: & a primeyra coesa que fez quem 
lhas leuaua lhas deu em chegando a Goa , & despois oa 
requerimentos ao secretario que os deu logo ao gouep* 
aador, & então soube ele a soltura de Pêro mazcara* 
obas & como era obedecido por gouernador , &; lha pe« 
sou de ho fiar de ninguém, & vio i\ bo ouuera da ter em 
Goa ou fi Cocbim, & temeose que entrasse de supito eai 
Goa, por^ soube ^ os presos, & os Tanadares, & capi- 
tães doe pasos da ilha, & muytos cidadãos, IbQ tinha 
soritu Q fosse a Goa, por^ todos estauão prestes pêra ha 
ajudar a restituir em sua bonrra. E por isso mandou a 



LlUkO Til. CAPITtrLO XMXVU 91 

SíidSo de melo seu sobriobo Q fosse guardar a barra de 
Goa a velbi5 cem bua galeoia, & com hã bargantim, 
porque por ali Ibe pareceu que entrasse Pêro niazcare* 
Jlbatv^^^ mandou que fosse* preso^ & leuado a Goa : & 
estando hi SicHão de melo aos descameis dias Dagosto, 
chegarão a Goa dous capitães de duas nãos ^ ho ãno 
Mssaido partirão de Portugal , & ioueroarão em Moçan- 
wQ« £ 09 capitães erão António dabreu, de que faiei 
Jio liuro Terceiro, ^ Vieente gil filho de Duarte trisiio 
Atmador de. unos, 8f,, indo eai^^s faj^r «o gourm^dur, ele 
)bes contou bo que passuua aptrele y U Pêro niazcarer 
nbas sobre a goueroancjft) & pêra lhe darem seu parecer 
«e era geuernador por dereitOf Ibeg mostrou as prouitiões 
fNissadiis, & a carta dei rey pêra Afonso mexiti, fi que 
dilua : ^ das outras prouisões se n&o vsasse , & Ibas leip 
liasse çeri^adaS) & deuibes juramento que verdadeirantS** 
le Ibe disesseo» #eus peref eres : & eles lhe jurarão qua 
^ntendiâo, que ele era gouerqador, & os que tinhão be 
eontrairo deseruijtomuyto e| rey. £ despois disto ao« 
iseie dias de Setejnbro^ ebegarft a Goa outros dous ca«r 
pitges da armada que aquele anno partira de Portugal, 
de que foy capitfto níi6r lÚanuei de lacerda, ^ forão seus 
l^apitAes Cristuuào de mfidoi;a capitão Dorgiux, n^ va^ 
gante de Diogo de melo, AteinQs dabreu, Gaspar de 
paiua, fki Baltfcfsar da silun, U Manuel de lacerda, ic A* 
Jeixos dabreu , se perd^erS m ilha de sasa Lourenço por 
i>ult»fi dos sá^os pilotps, & Baítesar d^ situa, U Gaspar 
áe p3Íua, chegjHrào a Goa a^s seis de Setembro: & tamr 
|>e«i <4irao |>r%fgMtadu9 p^Ju goyeriiador, copoo António da- 
breu íl Vi^çenie gii , ^ responderfte C1O9D0 eles, & 4e tu^ 
do mâdi>u fa^r iiQ H^t9$ que (vj por eles assinado, & 
por dom lolto deiga cMnba.4o dp {ouernador, U por Fiã* 
(sisco peM^yf a de berf edu , qiie nas meamas nãos forão 
de Pâ>r(ug^l, bO priMMido da^iayitMnÍA de Cananor, ou? 
Iffa da de CbauJ, nas ^agites de dom Siinao, & de Cria-' 
toufto deipusa» M^ mU9 se ie? aoa dea dias de .Setembro» 



8S 1U HHTOBIA DA INBIJl 

C A P I T V L O XXXVII. 

De como Fero mazcarenhas foy obedecido por gauemeh 

dor , por CrisUmâo de sauia^ > 

l\ este (p5 4eue Crisloulo de soosa nonas niiiyl0 
eerlas que Raix i^imão cafiilâo mór da armada doe Ru* 
mes era «orto, & (} morrera em hua batalha, {) ca mea^ 
mos Rumea ouuerâ hQs c5 os euiroa aobre desauen^ 
<|ue recreceo antre elea, & que era Canta gente morta ^ 
& a armada ficara (So daneíicada {| se tornara pêra çuez^ 
& que ja aquele anno nem tão asinha podiSo passar aa 
índia. E após estas nouas chegou Francisco roendes-d# 
vaseScelos que mostrou a ChristouSo de sousa per autoa 
pubricos como dÕ Simão tinha obedecido por gouerna« 
dor a Pêro mazcarenhas por lhe parecer que assi cum* 
pria a sua leaidade & á menagem que tinha dada de 
não obedecer se não a el Rey., ou a seu certo recado 
que linha que era Pêro mazcarenhas de cnja parte & 
de dÕ Simão lhe deu os req um mentos que lhe leuauat 
& assi os que fizerão ao gouernador pêra () se posessta 
em justiça, & o que ele fizera aos que lhos ieuarão: & 
assi lhe mostrou per papeis todo bo mais que tinha fey* 
lo, & como determinaua de ir cercar Oananor, reque* 
rendolhe por derradeyro como seu procurador que lhe o* 
bedecesse como lhe tinha obedecido com todos os capi- 
tães & fidalgos da índia quando se abrira a sua subces* 
sam. Ouuido tudo isto & visto por Christouão de sousa^ 
vio que era necessário entender em cousas de tanta im* 
portancia. E! juntos a conselho^ ho feytor ta alcayde mór 
& os outros ofiiciaes da fortaleza: & assi os fidalgos qu# 
inuernauão coele que era a mór parte dos que andauâo 
na índia propôs lhe a prisam Deytor da silueira&doa 
outros fidalgos, & ho escândalo que isso fizera, em tã* 
to que da hi tomou dd Simão eausa pêra soltar Pêro 
mazcarenhas & ho obedecer por gouernador , & lhes 



LIVEO VII. CAPlTVLO XXXVII* 8S 

mandou ler os requerioiêlos que tlanles disso, & des- 
•pois forão feylos ao gouernador, & o que the fasião Pe« 
ro mazcarenbas & dom Situão. E ouuido tudo por eles 
ficarão muyto escandalizados da prisam dos fidalgos , & 
do gouernador mostrar que por força queria ter a gouer- 
fiança, assi em palauras como em obras, peio que de ce* 
mfl acordo rej}reráo todos a CbristouSo de sousa que 
pois Pêro mazcarenbas era solto & obedecido por gouer^ 
fiador j & Lopo vaz de sam Favo nã queria poerse em 
justiça , j} pêra pacificação da Índia deuia dobedecer a 
Fero mazcarenbas , com declaração que em todo ho 16* 
po (} Lopo vaz se quisesse poer em justiça coele que se 
pusesse. E isto se deuia de fazer logo ates que Lopo vaz 
aquerisse méres forças das qiie tinha, & se posesse em 
querer determinar aquele caso por armas como se aíBr* 
oiaua. E por esta rezão & outras muytas que se derão, 
& mais porí) a índia nã se podia pacificar doutra ma* 
neyra, pareceo bS a Christouão de sousa obedecer a Fe- 
ro mazcarenbas cÕ a. declaração que digo, & com deter* 
noinaçâo de fazer todas as võtades que podesse a Lopo 
Taz de sam payo, como despois pareceo quando esteua 
com Fero mazcarenbas a juizo, como direi a diante, no 
que se vio (\ sómSte por pacificação da índia, & por ser- 
uir nisso a Deos nosso senhor & a el rey , fez esta obe- 
diência a Fero mazcarenbas, & nã por outro nbn inte- 
resse nem proueito que pretendesse. E acordado per to- 
dos que Fero mazcarenbas se obedecesse por gouerna-^ 
dor, & obedecido por esse cô autos pubrícos que disse 
forão feytos, & assinados por todos, mâdarão logo hu re- 
querimêto ao gouernador que soltasse os fidalgos que es* 
tauã presos, & se posesse em justiça com Fero mazca^ 
renhas* E Cristouão de sousa lhe screueo bQa carta, em 
que lhe daua as rezões porque obedecera a Fero mazca-^ 
renhas, & a declaração com que se fizera, do J\ bo go^ 
uernador não foy contente , nem quis responder ao re- 
queriínSto que lhe foy dado, antes ajQtou bila armada; 
de que fez ca|ritã mór a António da silueira de roeneses 

LIVRO VII. M 



to »A HISTORIA DA ÍNDIA 

seu genrro, & lhe mandou que fosse coela a Chaul, flt 
requeresse a Cristouão de sousa que Ibe eutregasse a af^ 
anada que lá eslaua^ & que entregasse a captlania da 
fortaleza, a Francisco pereyra de berredo, por quanto 
seu (empo era acabado, & ele vinha prouido dela por el 
rey. £ chegado António da silueira a Chaul, Cristouáe 
de sousa não cõsenlio que se desembarcasse, porque sa** 
bia que ho gouernador não quissera re8|)onder ao ses 
requerimento , & viose coeie nu mar , estando cada hl 
em seu bargantim: & ouuindoCristouâo de sousa ho re- 
cado do gouernador, respondeo que nhQa cousa daque- 
las auia de fazer, porque tinha mandado em conlrairo 
de Pêro mazcarenbas seu gouernador : sobre ho que An- 
tónio da silueira lhe fez muytos requerimentos. £ asai 
Francisco pereyra sobre lhe entregar a capitania da for* 
taleza , protestando por seus ordenados , proes , & per- 
calços , & disso tomarão ambos estromenios» 

C A P I T V L O XXXVIII. 

De como dam Garcia Anrriqutzfez pazes c6 el tey df 

Tidore. 

jTlLtras fica dito come per António de brito ^ fora capi« 
tã da fortaleza de Maluco leuar dela mu^ia gSte, & ou** 
trás muitas cousas necessárias pêra defensão da forla^ 
leza, de que auia grande necessidade, mandara dom 
Gareía ai>rriquea a Martira correa 2) lhas fosse buscar á 
ilha de Banda, a quaesquer nauios de Portugueses que 
bi osteuessè. £Mariim correa chegou aBâda quasi per* 
dido, cora bú brauo temporal 4 lhe deu, & valeolhe An^- 
tonio de brito que ainda ali estaua* £ logo despois de 
ele chegar , chegou de JMalaca em hD nauio hú fidalgo 
chamado Manuel falcão, ^ Pêro mazcarenbas mandaua 
por capitão mór, de certos jungos de mercadores^ em 
que ya híi Fernão baldaja por scriuâo da fpyloria de Ma'* 
íuco com fazenda parelu, que logo ftlartim correa reco- 



LIVRO VII» €Ai»lTVLO XXXIX. BI 

Iheo DO teu nauío. E por ele saber da genle da terra y 
que viram passar duas velas da feição das naoa Porlu* 
guesas por ãire aquelas iihas, pareceolhe que aerião naoa 
de CaatelhanoS) ^por não aentir lugar pêra onde naquele 
tempo fossS nãos Portuguesas, & receando l\ se fossd 
Castelhanos iriâo pêra Maluco, & poerião em perigo a 
nossa fortalesa, por a pouca gente que lá íicaua, & me- 
noa mujiiçÕea cò que se defendesse, requereo a Antó- 
nio de brito, & a Manuel falcão que fossem socorrer a 
fortaleza de Maluco por^ n& se perdesse: & António 
de brito nSo quis ir , & Manuel falcão si , & leuando a 
mais genle que pode partira ele & Marlim correa pêra 
Maluco, & forão surgir na ilfaa de Ternate, & desem^ 
barcados se forão pêra a fortaleza, onde acharão que 
dom Garcia andaua è concerto de paxes com el rey de 
Tidore. Do que Gacbil daroes não era contente, porque 
afora ver que perdia muyta parte do mando que tinha 
auendo pazes, & que os Portugueses não teriSo dele 
tanta necessidade como tinhão, receauase que com a 
paz, el rey de Tidore ho mandasse matar com pecjonba^ 
pelo mal qae lhe tinha feyto na guerra. E com quãto 
^ dõ Garcia isto sabia, fez toda via a paz com ei rey de 
Tidore, com condição, que dentro em seis meses ter'* 
nasse el rey a artelharia que fora tomada na fusta {} dia-* 
se, & todos os scrauos dos Portugueses que andauão 
fugidos è auas terras , & assi ho mais que ae achasse 
qu0 Uies ibra tomado.. 

C A P I T V L O XXXIX. 

De como dó Garcia anrriquez tomou a quebrar a paZé 

Mj eyta esta paz, sabendo ed rey de Tidore qufl desc5« 
tente Cachil daroes estaua dela, polo contentar lhe man* 
dou dizer que casaria com ele hOa filha se quisesse , & 
isto fazia porque como cabia que iioba muyto credito 
com os Portugueses, receou que por amor dele. quebras^ 

M 2 



%t BA HISTORIA BA ÍNDIA 

fiem a paz^ do que ele receberia muyla perda, & por 
1880 queria ler seguro Cacbil daroes com amizade & pa- 
Fenlesco. E sabeodo dom Garcia bo.que el rey deTido- 
re cometia a Cacbil daroes, & que ele folgaua de bo a- 
cettar, trabalhou muylo polo estoruar, porque via cla- 
ramente que desta lianqa dei rey de Tidore coro Cacbil 
daroes, auia de resultar fazerSihe algua Ireição, & que 
com a paz se auia el rey de Tidore de querer vingar 
dos Portuguezes , do mal que lhe fizerão na guerra , & 
vendo que náo podia estornar bo casamêlo , determinou 
de bo estornar com quebrar a paz, & pêra que mostras- 
se ter rezão de a quebrar, mandou logo pedir a artelba« 
ria a el rey de Tidore, posto § nao era comprido bo pra- 
zo em que lha auia dentregar, & quando lhe foy este re* 
cado, estaua ele muyto doente, & com tudo respondeo 
como bomS que queria amizade , que não podia logo 
mandar a artelharia, por ter dada algua a eí rey de Ba* 
cbSo, & a outros reys 4 bo ajudarão , que como a ajun* 
tasse a mandaria , & os scrauos mâdaria logo pedindo a 
dom Garcia que lhe mâdasse algfi medico pêra bo.cu* 
rar^ & ele mandou bu. boticairo, que lhe deu pe<^onba 
oom que bo matou 6 poucos dias. Ê sabendo dom Gar- 
cia que era morto, determinou de tomar a cidade, em 
quanto os moradores dela estauão tristes pola morte dei 
rey, & descuydados da guerra. E tendo sua gente prés» 
tes pêra isso, mandou hQ recado diante ao regedor do 
reyno que lhe mãdasse logo a artelharia se não que auia 
a paz por quebrada : & por ainda a este tempo bo corpo 
dei rey esteuesse por enterrar^ respondeo que como (os* 
se enterrado logo daria a artelharia & ho mais. Dom 
Garcia que não queria outra cousa mandou embarcar 
sua gente, & embarcada tornou a mandar pedir a arte- 
lharia, & se lha nSodessem logo que auia a paz por* que- 
brada. E Fernão baldaya que leuou este recado, não 
quis sair em terra & mandou ho do mar: & sendolhe 
cespondído polo regedor & mandarins que tanto quea- 
eabassem bd conselho em que estauão pêra fazerem rey^ 



UVRO Vir* CAPITVLO XU 9S 

logo aatbfariáo a dom Garcia. Ao que FernSo baldaya 
B&> respondeo : mas eom bu pregão lhe notificou ^ dom 
Garcia aula a paz por quebrada^ & lhe pregoaua a guer- 
ra. £ coifito feylo se tornou a dom Garcia que ya por 
eaminbo, & Stenianhaã chegou ao porto da cidade de 
Tidore cujos moradores assi pola tristeza da morte dei 
tej como polo descuydo que ibe causou a confiança que 
tinhão na paz estauão de todo desapercebidos pêra se 
defenderem , & por isso como sintirão que os Portugue- 
ses desembarcauão fugirão da cidade , em que entrados 
os Portugueses não acharão Q fazer saluo poerlhe ho fo* 
go com que queimarão a mayor parte dela & tomarão 
sete peças darteibaria. £ destruída a cidade, tornarão- 
se á fortaleza : & deste fey to- ficarão os Portugueses em 
nuyto descrédito com toda a gente daquelas partes & 
os tinhão por tredores , & que não goardauão sua fé , & 
assi no reyno de Bacbão comoem outros, a que dantes 
yfio, lhes foy defeso que não fossem lá mais,. & não forão. 

CAPITVLO XL. 

De como dom lorge de meneses indo pêra a ilha de Ter- 
natefoy ter á$ ilhas dosPaptuis onde inuemou. 

Uom lorge de meneses ^ ya por capitão da fortaleza 
de Maluco partio como disse pêra Malaca com regime'^ 
to de Pêro mazcarenbas que fosse pela via de Borneo 
pêra se acabar de saber a^le caminho por Õde se escu- 
saua a detença que se fazia eni Banda esperando por 
monção. £ porque não pude saber o que aconteceo a dÒ 
lorge nesta viagem , não direy mais se não que foy ter 
atraues das ilhas do Morro setenta legoas da nossa for- 
taleza : & chegando ali hii dia sobre a tarde foy deman* 
dar a terra , & sendo muyto perlo dela mandou sondar 

eera surgir afastado da terra segundo bo costume dos 
ortugueses , mas como derrador daquelas ilh«is não se 
Hoha fundo se não lendo as nãos as proas em terra. Dom 



\ 



tf4 9A HlSTOAÍá HA INOIA 

loTge que isto não sabia, nem cooliecia a terra : nSo ou-* 
90U de surgir & afaslouse pêra ho mar. JB^ vendo os da 
terra que ae afaslaua, meterâose algOs ê duas almadiaa 
fc forâose pêra as nãos , porS não sabendo se erão de 
Portugueses se de Castelhanos» não ousará de chegar a 
elas , & falarãlhe hu pouoo de lonje , & por das nãos os 
chamarS & acenarem cÔ panos, chegou bOa almadia a 
bordo dSa das nãos, de {) pergíitarão á gente dela pola 
nossa fortaleza & poios Portugueses 9 de Q lhes nã sou-* 
berão dar nhua noua : & por nisto anoitecer se afastará 
os da almadia das nãos, & se forão leaando três beira^ 
mes vermelhos que lhes os Portugueses dera. E idas as 
almadias , despois l\ foy bS noj^te acalmou bo vento , & 
dõ lorge ficou s3 remédio, por^ como não podia surgic 
por não auer fundo, nè se podia chegar a terra por lhe 
faltar ho vento, escorreo por antre aquelas ilhas cò as 
agoajSs ^ ali correm fortemente, & indo assi foy cair 
no golfão que se faz antre estas ilhas & ho estreito de 
Magalhães , onde lhe sobreueo hu brauo temporal , com 
^ a sua nao, & outra dp sua cSserua forao a Deos mi* 
sericordia ale as ilhas que chamão dos Papuas, donde 
or amor dos ponentes que ventauao não pode tornar a 
alqco se não no Mayo seguinte, de mil & quinhentos 
& vinte sete: cõ os leuates, & ãdou por aquelas ilhas 
seis meses cõ asaz de fadiga , & adoeceolhe & roorreo- 
Ihe algua gente. 

C A P I T O L O XLI. 

Da segunda armada que fio Etnperador mandou ás ilhas 

de McUuco. 

lyi o liuro Sexto 6ca dito, como hiia das nãos da arma* 
da de Fernal de magalhaSs cÕ que ya descobrir Maluco 
tornou a Seuilha com Crauo, & sua tornada & a mostra 
do Crauo ^ leuou, deu causa ao Emperador Carlos, má* 
dar outra aroiada doutras cioco nãos ^ fosse a Maluco 



^ 



LIVKOr Vin CAIPITVLO JILI. 96 

a fazer fortaleza na ilha deTidore^ pola amizade que os 
Castelhanos acharX ê ei rèy deisa ilha, & desla armada 
foi por capitão mor hfl frey Garcia de loaeis frade du- 
toa daa ordês da catialdriá de Castela , & desta armada 
BÓmSte a capitaina passou a Maluco com outro nauio 
mais pequeno, porem sem ho capitão mór, de que não 
soube ho t^ fez. E desta naò que digo era capitão bum 
fidalgo Biscainho , qUe auia nome JMarti inheguez de 
Carquicios, que era justiça mor da armada, & chegado 
a hila ilha soube como os Portugueses tinbáo fortaleza) 
& armada na ilha de Ternate, & por isso recolheo a 
gente do nauio na nao, & ho queimou, & ticou com tre-» 
zStos humês todos escolhidos, com que seguio sua viajfi, 
& foj ter a traues das ilhas do Morro, no mesmo insta* 
te que dÕ lorge ali foy ter, & ouue vista dos nauios em 
Q ya, & por lhe auer medo que conheceo serem dos Por* 
lugueses se escòdeo, & foise ilieter no golfão <} chamão 
de Camafo, cuja terra era dei rey de Tidore, & por oS 
moradores conhecerem Q erão Castelhanos, polo que sa* 
biâo da amizade que ei rey tinha coeles os receberão 
muyto bem. E us Castelhanos sabendo a guerra que os 
Portugueses tinhão feyto a el Rey de Tidore, promete- 
rSolbe de os vingar deles cora lhes tomar a fortaleza & 
matarênos a todos & comerênos assados, & outros muy* 
tos feros com que os da terra eslaufto muy salisfeytos, 
& dauãlhes tudo sem dinheiro, & assombrauão coeste 
fauor os moradores doutros lugares dei Rey de Ternat^ 
oossoa ami^oa. 



M nk HISTORIA DA INIXA 

C A P I T V L O XLII. 

De como chegou hua nao de Castelhanos ás ilhas de 

Maluco. 

xjl noua deates dous nauios <le dom Tor^e de meneeeg 
9 forão vislos antre aquelas ilhas do Morro foy ter á ilha 
de Temale , donde se deu a dom Garcia anrriquez sem 
declaração se erão os nauios de Portugueses ou de Cas* 
telhanos. E como isto 6caua duuidoso togo dom Garcia 
determinou de saber a verdade porque receaua serem 
Castelhanos, & mandouho saber per Martim correa que 
foy em hQa cura cura com hfl soo Português chamado 
Diogo da guerra por saber bem a ling^oa da terra, & a 
outra gente forão Mandarins. E nesta cora cora foy ter 
aCamafo a hum lugar dei rey de Temale, onde foy cer« 
iiíicado ser a nao de Castelhanos, & de quão fauorecf- 
dos 08 vassalos dei rey de Tidore estauão roeles, & que 
tinhão grande armada ^ & conselharãlbe t{ não fosse lá 
porque Martim correa ho quisera fazer. E vendo que bo 
aconselhauão bem tornouse pêra a fortaleza com aquela 
noua : que sabida per dom Garcia mandou com conse* 
lho hQa armada a esperar esta nao quando fosse de Ca« 
mafo pêra Tidore que assi cuydarão que fosse : & a ca* 
pitania moor desta armada deu a Manuel falcão, & fo« 
câo nela setenta Portugueses em dous nauios , & Cachíl 
daroes leuauã doze carascoras. E chegando Manuel faU 
cão ao meyo do caminho mãdou polo ouuidor da forta- 
leza hQa carta que leuaua de dom Garcia pêra Martim 
inheguez que lhe ele foy dar em saindo do golfam de 
Camafo : & isto pêra ter achaque de ver a nao como ya 
apercebida, & ho numero dos Castelhanos. O que tudo 
ho ouuidor vio muyto bem, & Q a nao ya miiyto bem 
artilhada & c5 muytas armas, & os Castelhanos serião 
trezentos. E Martim inheguez lhe deu azo pêra que ho 
visse muyto bem & ho dissesse a dom Garcia, que ele 



LlVnO ! vir. CA^PITVLO XLft. 97 

mbia béitt quão pouco poder trnha assi de géDte como 
dottiras cousas que tudo lhe disserSo os da terra : & poc 
isso estaua muyto sobre os Portugueses & ifão os tinha 
em conta, mas nem por isso deixou de responder á car*? 
ta de dom Garcia cô muytos offereciroentos & cortesia. 
E despedido hoouuidor coesta carta seguio sua viagem 
pêra Tidore, onde chegado & metida a nao dentro no 
arrecife, mandou fazer na entrada dele dous baluartes 
de pedra ensosa (} artilhou muyto b6 com algda arteUia- 
ria da nao: & estes -goardauSo a Strada do porto, & a 
nao estaua defronte cÕ a artelharia Q lhe ficou, Q pare*» 
cia hOa fortaleza. E ho ouuidor de dõ Garcia despois ^ 
^e despedio deMartim hinheguez tornouse alManuel fal* 
cão Q sabSdo ho modo de {{ a nao estaua ouue por escu« 
sado cometeia !do \Ho singelo, & tornouse pêra a forta^ 
leza & deu cota a dõ Garcia do l\ achou. E Martim hi- 
nheguez de8|X)is ^ se fortaleceo como digo , mãdou di* 
zer a dÕ Garcia por hfl homS desses principais ^ yão 
coele, Q ele era ali vindo por mSdado do Cmperador seu 
senhor cujas a!)las ilhas erão, assi por estarê na sua de* 
marcaçSo, como por Fernão de magalhães seu vassala 
lhas descobrir polo ^ tinha tomado |)os8e delas, & mais 
as tinha per hfia senteça !) ouuera contra el Rey de Por<- 
tugal : & por estas causas todas despois de estas ilhas 
serê descobertas, ficarão ali trita de seus vassalos f\ fo-^ 
rão na sua armada cÕ feytoria em fi ficara muyta fazen- 
da , & bS xl. peças dartelharia , & ^ não acbaua nhQa 
cousa destas, & ^ os da terra lhe diziâo Q os Portugue* 
ses tomarão tudo & matarão os Castelhanos {) ficarão na 
feytnria, & mais os achauão cÕ fortaleza feyta nas ter-> 
ras do Emperador sem sua licfiça ^ folgaria de saber a 
rezão í\ os Portugueses teuerão pêra fazerS estas cou- 
sas : por^ de tudo auia de tirar estorroStos pêra se Qi<» 
xar ao Emperador. E chegado este messageiro a dòGar*» 
cia lhe disse tudo isto: ao {} ele respondeo, !\ aquelas 
ilhas & outras muytas não erâo nê forâo nãca do Empe- 
rador, nè lhe podião caber ê sua àewsLf ca^Oy porQ n& 

LIVRO VII. N 



99 BA JbItTORKA BA I149U 

m auia & Q a ouuesse, ele sabia certo nã ih# eabérft ne^ 
U, & £[ se ouuera sêlfiça cdlra el rey seu seAor a veria^ 
por os Q a derao serem seus vassalos : & Q tambfi os juyT 
xes Portugueses a derâo por el Rey seu senhor ^ pelo (| 
não era aquela a rezâo por õde as ilhas de Maluco erâo 
suaa^ nS menos por as ntãdar descobrir por Fernão de 
Biagalhâes Q as não descobrio de oouo ^ por auer aiaif 
de dez annos ^ as descobrira António dabreu por má* 
dado Dafonso dalbuquerQ gouernador Q na^le tSpo era 
das índias por el Rej de Portugal : do Q ho mesmo Fer* 
não de magalhães fora testemunha , & têdo certeza õde 
a^las ilhas jaíiSo , por fazer trei^fio a el Rey de Portu* 
gal 6zera crer ao Emperador serg de seu descobrimêto ^ 
éi fizera q as ya descobrir indo por outro caminho & na* 
negação^ onde ouuera ho fiai ^ merecia por ser tredoro 
a seu senhor natural ^ era el Rey de Portugal & não ha 
Emperador: & ^ do iSpo ^ António dabreu descobrira 
estas ilha»! logo algus reys delas ficarão amigos dei Rey 
de Portugal y & fovâo cõteles de os Portugueses Iralarft 
em suas terras , & dali por diâte sSpre lá tratarão , & 
por rogo dei rey de Teroata ho passado mãdara el Rey 
de Portugal fazer na^la ilha bila fortaleza. E indo a fa- 
zer António de brito achara certos Castelhanos na ilha 
deTidore, ^ por nã terè lieêija dei Rey de Portugal pe^ 
ia andarê por suas terras os mandara ao gouernador da» 
índias pêra saber a rezão por^ o faziSbS , assi Q aQla» 
ilhas erão por dereyto dei Rey de jportugal , por cujp 
mãdado ele estaua por capitão na^ja íorlaleaa ^ defSde* 
fia ate a morte a quS lha quisesse tornar^ & defõder a 
qualquer gente do mundo que não andassem por a(}las 
>lbas sem licença dei Rey de Portugal^ & que assi faria 
aos Castelhanos pois ãdauão sem ela , pelo q lhe reque**^ 
ria da sua parte, & da do Emperador ^ logo se foase pe^ 
ra a fortaleza, & não querêdo estar de mistura com os 
Portugueses lhes daria bfl lugar a[)arlado em c) eateues* 
sem á sua vontade : & mais lhe requeria ^ não compras^ 
se nhu crauo ^ ho não podia fazer por ser todo pêra ci 



LIVVO VII. CAVITVLO XLITI. 98 

Rey de Portugnl , & iião querêdo por sua vdlade facer 
JiQa causa d6 outra^ ele proteataua de lho fazer por íar- 
^ aem por iaao eneorrer fi Ahfta peoa pof« ho fazia por 
seruír a el Rey de Portugal seu senhon E ooesta repos- 
ta se foy o tnessageiro, & porê Marti faihbeguez não se 
<|uis ir pêra a fortaleea, & mSdou requerer a 4ò Garcia 
^ ho deixasse estar Òde estaua, & sobristo ouue muytoe 
recados de parte sem tofnarft nhua cottcrasam , & cada 
àO tirou seus estormGtoa do Q requeria* 

C A P I T V L O XLIU. 

IXi quiô acontéceo a dom Oaróa nntriauez c6 os {Jastê^ 

lhanos , ^ do mais ^ suceaeo. 

V endo dom Garcia que Martitn binhegun nft se que^ 
ria tirar de Tidore & fazia aleuantar bo pre^ do crauo 
dando por ele quatro tanto do {) estaua assentado na 
feytoria , determinou de Ibo fazer por força , & isto c5 
«onsetho de Manuel falcSo feytor & outras pessoas prin- 
cipais, & que ele em pessoa fosse a este feyto. E isto 
-assentado, partiô hQa noyte leuâdo ate cè Portugueses, 
'& muytos dos da terra embarcados em corascoras & ou- 
tros nauios, & pêra baterem a nao & os baluartes leuott 
(res camelos, htl em hQ batel com b&a manta & os dous 
em hfia fusta & hfl calaluz, & nestes nSo ya outra gente 
de peleja se não os capitftes, bombardeiros & remeirost 
& a fusta {} ya diante em chegado defrõte dQ dos ba*- 
kiartes que a sintirSo os Castelhanos cÕ quanto fazia es- 
curo, tiraranlhe tantas bftbardadas que lhe matarão hfl 
remeiro, & quebrarão a cana do leme, quebrado hua 
mAo ao que ya a ele. E ho capitSo da fusta sem mais 
esperar por dom Garcia começou logo desbombardear 
ho baluarte, & por os tiros serS muyto ameude arreba- 
tou bo camelo , pelo {) se retirou pêra onde estauSo a 
ftista & ho calaluz ; & ddm Garcia mâdou logro por ou- 
tro camelo á fortaleza que yeo antes Q amanhecesse & 

N 2 



1^0 DA MI8TOSIA DA INmA ' 

Aiy^ asscsíado oâ fusta , & manbaã clara mSddú dÒ Gaí« 
cia dar baleria aos Castelhanos com ho batel , fusta & 
ealaluz : & eles 4 virão como se a cousa ordenaua cc^ 
meção de desparar soa artelharia dos baluartes & dã 
•nao, & era lata qve os pelouros ^ tirauão pareci2o que 
0uíáo dcntulhar ho mar: & receando os <\ yâo no balel^ 
fusta ^ & calahiz Q os fizessem S pedaijos , não ousarão 
ide chegar mojrto & poserãse tão Idge ^ quãdo os seua 
pelouros desparauão yão dar no mar & de chapeletaft 
chegauã jQto da nao Q aida não cbegauão a ela: & os 
Castelhanos como ^ zombauão deles lhes dauão muytas 
apupadas. E dom Garcia tambS nã ousaua de chegar 
eom as^ corascoraa por serê muylo fracas que erão cosi- 
das cõ cordas & qualquer tiro as faria em pedaços. £ 
neste joguete Q mais ho parecia^ peleja esteuerâo ate 
ho meyo dia Q sobreueo a viração. E vendo dom Garcia 
que não fazia nada, afastouse com toda sua aromda : & 
também porque lhe ialtaua a poluora^ & auia de man»- 
dar por ela á fortaleza , & em quanto mãdou ficou eni 
hQa enseada : & estando ali sayo Martim correa, ho fey^ 
tor & outros ate quinze em terra. E es.lando oulhãdo 
hú lugar de mouros !\ eslaua em hQ alto pêra ho irem 
quejmaf ^ algus Castelhanos que estauão no lugar & CB 
6int4rã, forâo muyto secretamente por antre ho mato^ 
& começarão de lhes tirar cS espingardas & bestas , & 
hQ quadrelo deu a. Martim correa abaixo de hQa orelha 
4, deu coeie no chão quasi morto. E por este desastre, 
& também por dom Garcia ver que não podia fazer nhfi 
dano aos Castelhanos , nã quis ali estar mais & tornou- 
se pêra a fortaleza com sua armada, do que os Caste- 
lhanos ficara muyto soberbos credo que os Portugueses 
fugião com medo , & assi^ ho dizião aos da terra , porem 
a nao ficou- tão aberta do muyto jugar da arlelbaría, & 
por ter a quilha no chão , & por ser velha abrio de todo 
& 8e echeo dagoa & perdeose sem mais aproueitar pêra 
nada: do que os Castelhanos ficarão muyto tristes, & 
Bã fizerão mais nhQ reboliço de guerra ^ & deixarâse es- 



LNnio vif %: CáPi VtuOt XUBt. U>í 

tar como homêa que descansauão 9 & clÕ Garcia fez bo 
mesmo: & porque ^era cifegitcra a: nfU)ul(Sd>pera Malaca 
em i| auião de partir pêra lá aigús jQgos, determinou de 
«uer algft crauo pêra él Rej, porque eate^ erar ha ptd- 
ueito que preilendia daqueia fort/ileza^ & ainda ate en- 
tão não linha auido nbú com (} forrasse parle do muyto 
^asto que fazia na^là fortaleaa. E a causa deí nSo se pó- 
^er auer nhu crauo pêra el Rey era aerfi os. Popt4>gu6r 
ises Ião cobiçosos <) bo atrauessauâo todo 9. dando por eie 
ÍK> dobro que se daoa.na feyloria, &;fa2çndo mpytos 
mimos aos negros que lho veodião , pelo q bo não que- 
•rião leuar á feyloria^ & ho mesmo feytor & esçriuães bo 
comprauão antes pêra si que pêra el Rey , & por isso 
não podia auer nhfl. £ sabõdo dÕ Garcia isto» mãdoH 
^ue toda pessoa do crauo ^ teuesse desse a decima paf* 
«te a el Rey pelo preço d[a feytoria, & quando, bo não 
jq^iisesse dar por sua vontade lho tomassem por força, & 
aasi bo mandou apregoar^ com o ^ todos receberão, muy* 
to pesar & poserãse em ho não consentir ^ & chamarão 
•em sua ajuda Cachii.daroes & assi m-uytos Mandarir» 
£ vSdo dÕ Garcia este aluoroço ^ & acbãdose só & sem 
«poder pedir socorro ao gouernador , & receando que se 
.apertasse muyto^ {| lhe fugissem os Portugueses, & íi«- 
.cando só lhe tomasse os mouros aa fortaleza deizou sua 
.deter minaçâ & êtêdeo ê fazer sua fazSda como 09 outros 
£izião , & no laaeyro segu!te mãdou ê h& j&go i) par tio 
pêra Malaca Marti correa & Manuel lobo cd cartas ao 
capitão de Malaca em ^ lhe pedia socorro de gente de 
.^ linha muyta necessidade por amor dos Castelhanos ^ 
licau$o em Tidore & em Geiiolc 



lOt nk HliTOElA Uk IMBIA 

C A P I T V L O XLIIIÍ. 

De c&mo António de miranda daznusdo prometeo a Pêro 

maxcarenhas de lhe obedecer. 

Jjinlrado ho verfio, p?irtio8e António de mirAdn dazeue- 
do câpilão m6r do mar da índia de Cochíni meado Se* 
46bro cÔ toda a armada pêra Goa, & por ele escrenee 
Afonso mexia vedor da fazenda ao gouernador o {| pas» 
sara aí|le inuerao com os requerimentos de Pêro mazca* 
renhas, a que deuia de mandar pêra Portugal por ser 
na Índia muyto perjudicial ao seraiço de Deos & de( 
Rey, bSo sabendo ainda ^ era solto. Partido Antónia 
de miranda fojf ter a Cananor pêra ver se tinha dõ Si* 
inão necessidade desfia cousa , & estando no mar lhe 
mâdou Pêro mazcarenhas hõ requerimento por dom Si* 
toAo em que lhe requeria, {| pois dom Sim^o & Christo* 
ufio de Sousa com a mayor parte dos fidalgos da Índia 
& gente darmas que andaua nela vendo como Lofio vat 
de sam Payo não se ^ria poer coele em justiça pêra se 
saber cuja era a gouernãça & a queria ter por força ho 
tinbâo obedecido por gouernador. E ele com tudo que* 
ria justiça por pacificnçSo da índia, lhe requeria da par« 
te dei Rey que tambê bo obedecesse porque vendoseLo^ 
po vaz sem armada consentiria que se julgasse por de- 
reyto a qual deles pertencia a gouernS<ja, protestado de 
nâo querendo satisfazer a seu requerimento correr em 
pena de lhe pagar seus ordenados proes & percalços que 
auia dâuer como gouernndor & mais a í\ parecesse bem 
a el Rey. B visto este requerimento per António de mi- 
randa, vendo f\ Pêro mazcarenhas estaua obedecido por 
gouernador, & que de ele & Lopo vaz serS ambos go- 
uernadores se auia de seguir muyto deseruiço de Deos 
& dei Rey, respondeo que ele não podia obedecer por 
gouernador a Pêro mazcarenhas ate nã saber do gouer- 
nador que não se queria poer em justiça : & quando ho 



Liyito yii. qAMmiO .yuíiiu lOf 

goubesse que enlâo lhe desobedeceria ; o que nflo salis- 
fazendo a Pêro loazcarenhaa, lhe ini^ndou requerer Q do 
que dizia lhe desse bú assinado. O nue ele fez poias 
causas ^ digo ^ [Màreceodolbe qu^ aquele lera ho nielbolr 
talho que podia dar, & deu bo assinado que eu vi ^ & 
dizia. 

a Digo eu António de mirada dazeuedo capiíSo móf 
do mar da índia polo mu;^to poderoso Rey de Portugal 
nosso senhor Q me obrigo ao senhor Pêro mazcarenbas , 
de fazer com ho senhor Lopo vaz de sam Payo Q ora he 
gouernador da Índia , que se ponha coele em dereylo: 
^ tambS pretSde ser gouernador dela sobre qual delea 
ho será. h não querendo ele poerse neste juyzo, por es^ 
te dou minha fé, preito & menagS ao dito senhor Pêro 
mazcarenbas de me ir parele & lhe obedecer como a ver«» 
Madeiro gouernador; fay to per mim & assinado aos de^ 
aasete de Setembro de mil & quinhentos & vinte sele. 

Dado este assinado partiose António de roiranda pe* 
Ta Goa Õde logo ho gouernadoí soube como bo dera , & 
estranhoulbo muj asperamente , affiimandolhe ^ se nâo 
auia de poer em justiça sobre a mercê ^ lhe el Rey fi« 
aera^ que bS ae poderia ir pêra Pêro mazcarenbas^ por^ 
oulrê acharia Q fosse capitSu mór do mar. E ele se á\s* 
eulpou, dizendo Q njlo dera bo assinado com tenção de 
bo comprir se nâo por se espedir de Pêro mazcarenhaa 
que conhecera que estaua tão danado ^ receou de fazer 
eoele algCk desmâcbo. £ ho geuernader íoj acõselhado Q 
tirasse a capitania mór 4o mar a António de miranda 
pelo ^ fizera, mas ele nfto quis por{| mio fizesse mais ai* 
iioro<;o na gente, & por ver se podia fazer as cousas por 
bi, & mandou logo António de mirada a Cbaul (donde 
ainda António da silueira não era vindo) pêra que se 
entregasse da armada i) lá estaua, Sl fizesse entregar a 
capitania da fortaleza a Francisco pereyra de berredo. 



104 Dà ftiètORiA Da* tnoía * 

C A P í T V L O XLV. 

f)o que António de miranda ^ Chríêtouão de sousajizerâo. 

Jji chegando aa barra de Chaul achou António da siU 
toeira Q se partira |)era Goa^ & disselhe que esperasse 
ate ver se Chri^touâo de sou^a queria satisfazer ao re« 
cado do gouernador^ & mandoulhe díter como estaua 
ali ^ com|>ria rouyto ao seruiço dei Rey vprSse ambos ^ 
a que ele respSdeo que se era pêra \h^ entregar a arma- 
da & a capitania da fortaleza que ja dissera que ho não 
auía de fa^ef por ter mandado emcontrairo de Pêro maz«< 
caronhas seu gouer^nador , & mâdoulbe requerer oom 00 
eflSciaes da fortaleza & cõ os fidalgos tS[ inuernauão co&i 
le , que visse a força ^ Lopo vaz de sam Payo & Afon<« 
80 mexia fazião a Pêro mazcarenhas em lhe tomarem a 
goqernança, não querSdo ele se não o i| fosse dereyto: 
& pois estaua em sua mão fazer determinar este caso 
por justi(;a, que fizesse cÒ Lopo vaz que ho quisesse. B 
fazendo sobristo grandes protestaçSes contra António da 
miranda : que despois de responder a estes requerímen*»^ 
tos se vío cÕChristouSo de sousana fortaleza, onde con^ 
cerlarão ambos ho modo que se teria pêra ^ Lopo vai 
de sam Payo se posesse em justii^a com Pêro mazcare* 
nhãs pêra pacificação da índia, & Q us juyzes i\ deter^ 
minassS este caso fossS no mais de sete, s. António de 
miranda, d5 loão deça, Francisco pereyra de berredo, 
Baltesar da silua, Gaspar de paiua capitães de duaq nãos 
da carrega, frey loão daluim da'ordS>de sam Francisco 
que era leygo se chamara loâo iope« daluim , frey Luys 
da vitoria da ordem de sam domingos, & Christouão de 
sousa quis i\ fossem estes juyzes, posto i\ sabia !\ tirado 
os dous frades os outros tinha assinado^ Lopo vaz era 
gouernador verdadeyro , mas por^ ele nã teuesse !) di* 
zer os cÕsStio & por isso nâ quis ele ser hu dos juyzes, 
nem quis que ho fosse nhil fidalgo seu parente nem ho- 



LIVRO Vlí. CAPITVLO XLV. lOft 

Biem dej| se preramísse ser daopeniâo de Pêro mazca- 
renhas que pois António de miranda foy nomeado por 
juyz bem ho poderá ele ser roas não quis por esta cau- 
sa, & porque não era seu fím se não apacifioar a índia, 
& que não se determinasse esta deferen<;a por armas ^ 
porque nisto cria l\ seruia Deos & el Rey que era o que 
lhe lembraua, & não outra cousa, E sendo nomeados es- 
tes jujzes antrele & António de miranda com juramen* 
lo de terem nisso segredo ate ho temfx) de se declara* 
rS, por{| nem Pêro mazcarenhas, nS Lopo vaz ho «ou* 
bessem, ao outro dia se ajuntarão na igreja com ho fey- 
tor & alcayde mór da fortaleza, & outros oíBciaes, & ii- 
daJgos, & pessoas principais que inuernauão nela, rela- 
tado ambos as cousas passadas, & dizendo quão neces- 
sário era pêra pacificação da índia que ho gouernador 
se posesse em justiça cÕ Pêro mazcarenhas Unhão am- 
bos cõcertado hQa pauta Q lhes mostrauão pêra dizer ca* 
da hQ se se acrecStaria mais âela ou diminuiria , & os 
capi tolos dela forão estes. 

« Que António de mirada daria hd assinado a Chris* 
touão de sousa tal como o t\ dera a Pêro mazcarenhas. 

« B outro em que se obrigasse a leualo a Goa, & se« 
guramente podesse falar ao gouernador sem perjuyzo de 
sua fazenda, parentes amigos & criados, pêra lhe re^- 
rer o t\ lhe parecesse seruiço dei Rey, sem interuirfi ou- 
tras f alauras fora da matéria , assi de sua parte como 
da do gouernador* 

« E í) chegado á barra de Goa deixaria a armada de 
fora & ficaria nela António da silueira em arrefens en- 
tregue a ho fidalgo sem sospeita naquele negocio, com 
lhe -ele tomar a menagem , que sendo caso ^ ho gouer* 
nador prendesse a Christouão de sousa , qtie aquele fi- 
dalgo se fosse pêra Pêro mazcarenhas cÕ a armada & ho 
obedecesse por gouernador. 

« E (} Christouão de sousa daria a António de mirada 
hfl estormSto assinado por ele & poios otficiaes da for- 
taleza & fidalgos 4 inuernauão^ nela em ^ prometessem 

LIVBO Yii. o 



lOa DA HISTORIA DA ÍNDIA 

de llie obedecer com ioda a armada ^ eslaua em GhanI 
ate chegarõ a Goa & ae comprir ho atras capitulado: & 
iembS prometerião oo ealormèlo, que não querendo Pe-> 
ro mazcarenhas o que fosfie seruiço de Deoa & dei Key 
Q ae fossem pêra bo gouernador , & que se nâo falasse 
mais em Pêro mazcarenhas ser gouernador: & ho mes* 
mo prometeria ho alcayde mór ^ ficasse por capitão na 
fortaleza de Chaul ^ a entregaria ao gouernador & n&o 
a Fero mazcarenhas. 

E Q quãdo ho gouernador & Fero mazcarenhas sa 
posessem em justiça sobre a gouernãça antes de os ju^** 
aes da causa pronQciarê cousa aigúa prometeriâo cõ ju« 
ramento q aQle ^ ficasse por gouernador nào êiSderia 
na pessoa, n6 na fazSda do oulro, n3 nas de seus cria^ 
dos 9 parStes & amigos, nê desfaria o ^ o outro teuessa 
feyto, & a qualquer deles q nisto nâo quisesse consentir 
que lhe desobedecessem. 

« E que os juizes que ouuessem de julgar aquela de« 
ferença, seriâo pessoas sem sospeita, que eles ambos 
Cristouâo de sousa j & António de miranda, dedarariâo 
quâdo fosse tempo. 

« E ^ lato {| ambos de dous chegassem a Goa serião 
soltos , Ej^tor da silueira, do lorge de crasto, dõ Anto» 
nio da silueira, & quaesquer outros que esíeuessera pre* 
SOS por aquele caso de Fero mazcarenhas, que tãbem 
prometeria de goandar bo que ali determinauã, & que 
esta deferença se determinaria em Cochim , Õde se a«> 
junlarião, Lopo vaz. de sã Fayo, & Fero mazcarenhas 
& em partindo Lopo vaz de Goa desistiria logo da go* 
ueroança , & iria como pessoa priuada, em poder Di>(o- 
i>io de miranda, >& eai Cananor se lhe êlregaria Fero 
mazcarenhas pelo mesmo modo, & querendoo ele leuar 
è seu poder, se «ntregar(a Lopo v^z, a CrístouSo de 
sousa , ou a dom Simão de meneses, pêra que ho leuas^ 
sem no nauio em q fossenu E que alõ do seguro que 
António de miranda auia dauer a Cristouã de sousa, lhe 
Aueria outro do capitão de Goa, & dos oíficiaeis da cs^ 



LI¥RO VIU CAP1TVLO XLTI. 107 

#arà da eidiíde, com juramento Q faríáo, que bSo goar« 
dando ho gouern<tdor ho aeguro que lhe desse, lhe deso* 
bedeceriSo , & obedeceríâo a Pêro mazoarenbas. n 

E despoia de lida etla paala , ^ todos a ouuirão , 
disse Cristouâo de sousa a causa porque se fazia, reque-* 
rêdolbes a todoa cÕ ho oaptlâ mor do mar, que lha aju* 
daasem a poer em efeyto , & que asai ho prometesse to* 
doa por juramento, ho que eies fiaerfio, lendo muyto em 
mercê a Crtstouão*ée sousa, & a António de miranda 
fazerSna. E de tudo foy feyto hft auto por Gaspar afonso 
iabaliào pubrico d<i fortaleza, que foy asínado por todos, 
aos quatro Doutubro de mil & quinhentos & viote sete* 

* « 

C A P I T V L O XLVL 

De como ho gouemador^ ^ Pêro de faria ^ ^ outros ju^ 
raráo de comprir b pauta qu€^fizerão Cristouâo de sou* 
sa , ^ António de mérundom 



F, 



eyta esta pauta foy leuada a António da siloeira^ 
por António de miranda, pêra que consenliase nela, & 
ele consentio muyto contra sua vontade , & por não po« 
dvr maia fazer, & estranhando muyto a Anionio de mi* 
tanda fatela. E feytos dela doos teriados, hu pêra Cris* 
Couío deaousa, outro pêra Anionio de miranda, que sa 
partio «o mesmo dia, & ao outro Cristouâo de sousa ^ 
íleisando entregue a fortaleza a Aloaro piírto alcaide 
»ór dela , & despois de chegarS todos jâtos á barra do 
Goa, António de miranda se foy ao gouernador, & pe* 
ranle ho licenciado loáo do soiro oouidor gerai da Índia, 
& ho secretario, lhe mostrou a pauta que (izera coai 
CrislouSo de sousa, dizendo que a fizera por euitar os 
grandes roalea que vira que estauHo ordenados, porOris^ 
toufto de sousa, & por os Ijstaufl coele que mny estreí* 
tamente lhe requererão f\ consentisse nela : & |)or issa 
consentira muyto conira sua vôtade, porque bem sabia 
que ele era verdadeyro gooeraador , & pêra ho aer tra^ 

o a 



108 I>A HISTORIA DA ÍNDIA 

balhara ^ os juyzes fossem sem sospeila & no mais de 
sete pêra terem menos que apurar. Do que bo gouer- 
nador ouue muyto grSde menencoria , & porque ho fey- 
to não se podia desfazer , nã lhe disse mais se não que 
ele mesmo tinha a culpa do que ele fizera , pois se fiara 
mais dele despois de dar ho assinado Q dera a Pêro maz* 
carenhas , & que fizera mal de fazer aQla pauta, porque 
se fora por escusar males que.enlâo estauão mais arma* 
dos que nOca. E querendose António de mirada discul- 
par j disse ho gouernador que não erão necessárias dis* 
culpas pois fizera sua vontade, mas que cresse ^ os juy* 
zes não auiâo de ser mais de sete auendose de poer em 
justiça, & ele lhe disse que não serião, & disso lhe da* 
ria hii assinado se ho quisesse. E tendo ele jurado com 
Ghristouão de sousa de terem em segredo os juyzes que 
ojuuessem de julgar aquela deferença ate ho tempo em 
4 se ouuessem de declarar por comprazer ao gouernador 
lhos descobrio, & forão os que disse. E contente ho go- 
uernador deles, lhe pedio hQ assinado que não fossem 
putros^ nem fossem mais : & ele lho deu , & ho ouuidor 
geral , & ho secretario assinarão como testemunhas. E 
ficando a pauta ao gouernador vio a coeies & com Pere 
de faria, que lhe conselharão que consentisse nela, 
por^ não ho fazendo se ieuâtarião todos contrele, & pri* 
meyro a mandaria mostrar aos oQiciaes da camará da 
cidade, & contentandolhes consentiria nela com condi- 
do () fosse como gouernador ale Cananor, & que a honr- 
jraDafonso mexia fosse goardada & não consentirião que 
ficando Pêro mazcarenhas por gouernador ho tirasse de 
nhum dos officios que linha, por qualquer maneyra que 
fosse ^ & ho entregaria seguro ao gouernador que fosse 
do reyno. E contente Cbrislouão de sousa disto , man^ 
dou ho gouernador soltar os presos , & deu ho seguro a 
Ghristouão de sousa pêra ir a Goa , & ele não quis ir 
por lhe escreuerem que não fosse, porque ho gouerna- 
dor tinha determinado de ho prender com António d« 
miranda ^ & por isso se determinou que se 



LITRO *VII. CAFITVLO XLVI. 10» 

nima na agoada de Goa ^ & leuanlando ho sacerdote a 
hóstia 9 jurassem nela Anlonio de oiiranda & Cbrislouão 
de sousa perante dom loao deça & Anlonio rico secre- 
tario da índia Q ho gouernador iria como gouernador 
ateCauanor: &.^ verdadej^ramenle segCtdo suas cõcien- 
cias escoJberião pêra juyzes daquela deferêça aqueles 
liomSs que lhes parecesse Q melhor & cõ mais conciêcia 
determinassem a^la causa sem descobrirem per si nem 
por outrem os que tinhão escolhidos. E lambem jurariâo 
o que tocaua ao vedor da fazenda, £ leuados estes ca** 
pi tolos por dom loão deça & por António de miranda a 
Cbristouâo de sousa , ele lhes disse que se acrecenta^s*- 
sem na pauta: porem que por quanto ho galeão sam di^ 
ais em que ho gouernador andaua, era a mayor força 
^ue andaua na índia 9 por andar marauilhosamente arli* 
ihado, & nele somente, podia pelejar com toda a outra 
larmada da índia auia de jurar que como chegasse a Ga^ 
nanor se passaria como preso á galé em que andaua An- 
tónio de miranda. £ sendo ho gouernador disto contenr- 
te, aos vinte Doutubro foy dita h&a missa na agoada de 
Goa na terra firme : & sendo presentes GhristouSo de 
^Bousa, António de miranda , dom loão deça & outros 
muytos fidalgos em.ho sacerdote leuan^tando a hóstia dis^ 
ae António rico qae hi estaua aos circunstantes se jura- 
rão por aquele verdadeyro Deos em ^ firmemête crião 
como fieis Christâoa de comprir & goardar o que foy as^ 
sentado na pauta de Cbaul : & que ho gouernador fossa 
em posse da gouernâça & com toda sua borra ate Cana* 
Aor, & que goardassem em tudo o que cumprisse á bonr- 
Ta do vedor da fazenda, & não consentissem que ficado 
Fero mazearenbas por gouernador lhe tirasse nhu dos 
effidos ^e teuesse se não que ho deixasse estar ate ir 
gouernador dePortugai, & dizendo eada hH em alta voa 
que si, disse a Cbristouâo de sousa & a António de mi- 
randa se jurauão na mesma hóstia que bem & verda- 
deyramenle escolhessem pêra juyzes daquela deferen<;;a 
aqueles que segundo seu parecer melhor & com maia 



1 10 mi mrroRf A da f nois 

êãà conciScia a determinassem , & que nem por 6Í fiém 
por outrê auiâo de descobrir qu6 erâo ate dXo ser iem^ 
po de se declararem, & eles disseráo que si. £ destes 
juramStos fez fao secretario bQ auto Q todos assinarão t 
& logo ao outro dia vinte hfl Doutubro, no mosteiro da 
«am Frâcisco de Goa estando hi Pêro de faria capitão 
dela & officiaes da camará , & quâtos fidalgos auia nela 
& ho vigairo geral com toda a clerriia, tendo frey Gon^ 
«calo guardião do mosteiro ho sanctissimo sacramento nag 
mãos estado ho gouernador em giolhos , disse em voz ^ 
(udos bo ouuissem. Bem sabeis os (\ aqui est^iis confto 
por vos & por outros muytos que estão ausentes nft hQA 
vez mas três fuy jurado por gouernador da índia por as 
prouisôes dei Rey meu senhor ^ disso teniio, & por es^» 
se fuy obedecido, pelo qual me nQca quis pioer em fus^ 
tiça sobre a gouernança com.Pero mazcarenhas, nè a« 
gora me posera se nã vira claramète quãlo Deos & el 
l^ey serão deseruidos, & por isso mais por força que por 
vontade 9 & como quem mais não pode m(3 ponho ^nl 
4ereylo, & juro naquela hóstia consagrada tie assi h^ 
fazer, & chegando a Cananor desistir do mando de ^o* 
uernador, & não do dereyto que tenho na posse da go^ 
uernant^a, que deste não ey de disistir antes protesto úm 
me ajudar dele em todo ho tempo que me for necessa^ 
fio, & assi jurou de se Stregar como preso na galé Dan^ 
toflio de míranda, & de comprir os maia ca pi tolos da 
pauta que eie íizera com Christouão de sousa em Cbaul 
4sum condição que fosse goardada inteiramente a honrra 
do vedor da fazenda como eetaua assentado: & fao mes* 
mo juramento fizerão Pêro de. farta, loão do soiro, os o& 
iiciaes da camará, & todos os mais ^ ho auiã de fazer ^ 
-& ainda ho não tinhão feyto: & de tudo ho secretario 
iez hum auto que todos assinarão. 



LIYftO nu CAWmLO XliVÍU XII 

« i 

CAPITVLO XLVII. 

De como Pêra mazcarenhas ^ Lopm vaz de sápuyo de-* 
sisiirão em Cananor do mando de gmmmadar.es* 

XJLcaba isto Q todos ouuerSo por muyto grande cousa 
por quSo difficullosa lhes parecia poerse ho gouernador 
çm justiça^ pajrtiose ele pêra Ganaoor bu dia despois de 
partidos António dazeuedo & Gbrislouâo dé socisa. E 
foy esta partida lao presles Q os do bãdo de Pêro niaz« 
carenbas se espantarão rouyto, porque cuydauio que bo 
gouernador bo não seria mais que ate Canànor, & que 
ele astfi bo cria por ter tantos cdtra si. E cbegftdo todos 
a Caaaoor aos sejs de Nouembro forftsç logo á fprtalesa 
Cbri&touão de sousa & António dazeuedo y & naoslrarâq 
a pauta aPero.inazcarenbas pêra a jurar de que ele foy 
contente, dizendo que tudo côsentiria por paciticação 
da índia: mas que estaua inuyto. descontente do que 
vira em bua carta que ho gouernador mandaua ao vedor 
iia fazenda , que ele ouoera por sua diligencia , & nela 
Doipeaua os juyzes que tinb^o tecolhidos pêra determi-f 
narem aquela.deferen^a, & que ali vira claramente quão 
soa{>eito lhe era frey loào.dalutni pola muyta coníiança 
^ Lopo vaz mostraua ter que auia de julgar por ele pa- 
las rezões que daua peta isso. E oiostraodo a carta vi-^ 
^ão António de mirunda & Gbrislouâo .de sousa que en 
assi , & por isso Ibea requereo que tilassem frey IoSq 
daluà & metessõ outros: & Pêro maicaranhas quisera 
que ChristuuSo de sousa fofa b& deles, dizendo que bo 
podia ser puis bo era Antónia de mira»da, & ele não 
quis por saber Q Lopo vaz bo tiaha por soapeiio, & em 
lugar de. frey loão daluim «>etejr|io eim^o pêra serem juy«T 
ees, que fvràu Lopo UazeJtiedo, António de brito que for 
ra cspitãb d^ Maluco,!^ uno Vaz àe eastelo branco capi« 
lào^ fQyii^F do nauio do UAtode^.ÇDÍaia, Tristão de esi^ 
Baatiào piiui; .vii^airo gesf 1 4aiiMba* Do.% AAtonio de 



lis DA HI8T0RU DA INDlA 

luiranda (oj con(6te com quanto líoha dado seu assina* 
do ao gouernador que os juyses não auião de ser outros 
se nSo os sele que lhe dissera em Goa , & estes que fo* 
rJío acrecStados fícarão assi nomeados antrele & Ghris- 
touâo de Sousa coiq juramento de não se descobrirem a 
ninguém, nem António de miranda ho disse aLopo vaz* 
Isto assentado, ao outro dia se ajutarâo na igreja da for- 
taleza Pêro mazcarenhas, dom Simão de roeneses, iio 
feytor & alcayde roór cõ os mais officiaes da forlaleza , 
António de mirada, Christouão de sousa com outros 
niuylos fidalgos , & perante todos & do secretario -des- 
pois de ouuida missa, tendo Bastião diaz vigairo da for* 
taleza nas mãos ho sanctissimo sacramento , jurou Pêro 
mazoarenhas por ele de cõprir em tudo o Q estaua na 
pauta que disse, dechrando que quãdo disistissp de ser 
gouernador, & se entregasse como pessoa priuada,.di« 
sistiria somente do mãdo de gouernador, & não do de* 
reito que tinha na gouernança, dizendo que não insisti- 
ra tanto em o ser, se não por crer que era sua, & 1) 
era contente que ficando Lopo vaz por gouernador , ho 
mãdasse preso pêra Portugal: & acabando ele de jurar, 
jurou dom Simão, & de8|X)is os officiaeis, fidalgos, & 
pessoas principaeis, & todos assinarão em hú auto que 
ho secretario fez disso, & tâbè ho assinou ho gouerna* 
dor* E despois disto a requerimento de Pêro mazcare* 
nhãs fez ho mesmo secretario btl auto, em que se decla- 
rou que os juizes que auião de julgar aquela contenda, 
não auião de julgar mais se nã quem era bem (| gouer- 
nasse pêra pacificação da índia, porque cuja era a go* 
uernança por dereito, e) rey ou seus desêbargadores ho 
auião de determinar. Feytas todas estas cousas, embar* 
couse Pêro mazcarenbas no galeão de Cristouão de sou- 
sa, como estaua assenfado na pauta, & por() ali se mu- 
dou António de miranda da ga\é em i\ andaua ao galeão 
sam Dinis, & Lopo vaz de sã payo lhe auia de ser en- 
tregue pêra ho ieuar a Cochim, ficou no mesmo galeão^ 
do que se Pêro mazcarenhas queijicou a Cristouão de aou^ 



Livmo vif . CA wTviô xhni. 1 1 1 

, & a António de miranda^ diz6do que Lopo ?az não 
compria ho capitolo da pauta, no modo que auia de ser 
entregue, & disistír de gouernador, pois ya no galeão 
sam Dinis, que era a roayor força da índia, & podia 
nele pelejar com toda a armada, & mais leuaua bandei- 
ra na gauea, () aquilo não era desistir de ser gouerna- 
dor, se não seio como dantes, requerendo í\ fosse, como 
estaua assen(ado, ho que Lopo vaz não quis fazer. Ho 
^ne vendo os fidalgos, se posserão moyto contra isso, 
dizendo que se quebraua a pauta, & ho juramento que 
Lopo vaz fizera , & vgdo Crístouão de sousa como isto 
era azo pêra se estrouar ho hS questaua começado, fez 
c6 Pêro mazcarenbas & com os outros, () deixassem ir 
Lopo vaz como queria & ho consentirão, & embarcado 
Pêro mazcarenhas desparou hâ tiro grosso , & a este si- 
nal dous bomês !\ estauão nas gaueas dos galeSes, sam 
Dinis, -& sam Rafael, tirarão as bandeiras que ambos 
tinha como cápitainas, pêra que sentSdesse qoe^ro am- 
bos estauão os gouerriadores , & que ho tirar das ban^ 
deiras, era sinal que disistiâo do mãdo da gouernança, 
& ficauão como pessoas priuadas, de que «e auia de fa- 
zer justiça, & eles ambos em se tirado as hand-eiras^ 
protestarão que mão disistiâo mais que do mãdo da go- 
uernàça, ate se julgar qual auia de gouernar, & da poft- 
se que tínhão não disislião. E fejto isto António de mi- 
randa entregou Pêro mazcarenhas a Cristouão de sousa, 
pêra ho leuar ate Cochim , & lá lho entregar, & ele se 
entregou de Lopo vaz de sam payo, & se partira todos 
pêra Cochi. E quando foy esta perfia de LofK) vaz não 
querer sair de sam Dinis , mandoii dizer a Pêro mazca- 
renhas que por se escusarem aquHes debat<>s, & outros 
muytos que sabia Q auiSo de recrecer, l\ lhe requeria da 
parte dei rey , que pois sem eles ambos se podia è Co- 
chim dar a sentSça sobre aquela demanda , que ficas- 
sem na costa com a armada repartida por ambos, goar- 
dando que não leuassem os mouros pimenta, & que os 
juizes siàmSie fossem a 0)cfaim , & despoia de dada a 

LIVRO vil. p 



114 9A HMnOKtA DA iNWA 

tenlftça como lèes parecesse lho mandarião díaer^ fc Pe* 
ro mazcareobas não ^uis. 

C A P I T V L O XLVIIL 

JDa desauença que euue ákre Lopo vaz de sâ payo ^ Pt* 

ro mazcarenhas^ 

Jji partidos como digo pêra Oochi, chegarão lá. a quin*> 
ae de Dezembro» & surlos foy. Antofi^io de miranda mo»*» 
trar ao vedor da fazenda , a pàuia, que fiaera com Cri»» 
iouão de flousa ^ pêra que a jurasse como todos fiterio y 
ho q ele não quis fazer ^ dizendo a António de miranda 
4 como fazião lai paula sem sua autoridade , que era » 
segunda pessoa da índia despois do gouernador, sem cu* 
jo consentimento não se podia fazer nada que tocaae» 
á gojuiern&ça, estranhSdoo muyto, & dizendo que eles 
dtrião conta a el rey de cousa tão mal ieyta como aque** 
la fora 9 & nâo querendo de todo em todo ho vedor da 
/azenda jurar a pauta, Pêro mazcarenhas & todos oe fi* 
dalgos de sua parte ^ requererão a Cristouão de sousa^ 
& a António de miranda^ ^ poisJ^fonso mexia não que» 
via jurar a pauta^ como Pêro mazcarenhas, & Lopo vaz, 
com todos os fidalgos da índia tizerão, no que se mos* 
iraua claramête ser muyto sospeito^ que aquela defereor 
ç» não se determinasse em Cocbim , se nao fi Coulão^ 
que era dali hfi dia de viagem* E conhecendo Cristouâa 
de sousa que Lopo vaz nâo auia dis cõseatir nisso , por 
ter sabido que toda a esperança de ser gouernador ti» 
nfaa em Afonso mexia poios cargos que tinini, & como 
de todo em todo eslaua posto em lhe fazer a vdiade^ 
ainda que fosse sem rezão , por nã dar causa a se aque» 
le tiet;ocio deierminar por armas , fez eom Pêro mazoa«> 
renhBs, & eom os de »ua v;dia, que poslo que Afonso 
mexia não quisesse jurar a pauta f. que cõseniissem que 
aquela deferença so determinasse em GochÍ4M : & con* 
sefilimlo nisso, forfto a terra António de miranda, (fc 



x^iTRO Til. «ijrriHrLo xitViii. 116 

CristouXé' d^ 0ou8af & «eteraMe em santo Abtooio pe«> 
ra noifiearem os jutae^ que julgassem aquela defereuiça, 
& querendo CrisUntio de sousa , que se nao nomeasse 

£ir juis frey toio daluim , & S seu lugar se metessem ^ 
opo dazeuedo ^ fora «aquele anuo de Portugal , Antot- 
nio de brito que fora capiláo de Maluco^ Nuoo vaz de 
cas4elo braiiGo, que fora capitã do oauio do trato de qo-^ 
faJâi Tristão de gi, bastião pires vigairo gerai da Ia«- 
dia: eomo ele & Aotoeio de mirafida assentarão cÕ Pe* 
ro Qiasearenhas em Cauauor, AotoDÍo de mirada pete 
eerito que tíoba dado a Lopo vaz de sam pajo, que os 
jUJaes oÍM fossem mais de sete^ nem se mudassem os que 
•stajii nomeados^ não queria coaseatír nos que se acre- 
eentauão, nS em se tirar frt^ loâo daluim, nem ho quis 
fazer s6 dar ctinta disso a Lopo vêSL^ Q quãdo ho soube^ 
oui«e disso m4jy to grade meneaeoria , porque tinha por 
muyto sospeilos os juizes que se acreoentauão, & náe 
quis consentir nisso ^ dizendo que não auia mais de so* 
^er do que sofrera, & que bè escusado fora a António 
ée miranda enganalu;, & traaelo ali de Goa, & que ele 
tinha a culpa daquilo & não outrem , em tecer a meada 
que tinha tecida, porem que lhe não daua nada, por^ 
a ele, & aos outros todos espetaria em hil pao, & que 
ae fosse logo pareles, & que os ajudasse a engaoalo^ 
roas que se nã quisessem c5prir ho que estaua assentar 
do , nâ cdseotia em nhOs juizes , i)S se queria poer em 
éereito, & que pelejaria cõ todos com sam Dinis somenr 
te, & a vStura diria' quS era goueraador, & que ele ser 
r{a obrigado a dar cèta de todo pois fora a causa : & Anr 
tonio de miranda lhe respondeo que não enganaua nh 
guê, antes &zia o que deuia, & no que 6zera naqnele 
edso tinha feytò muyto seruiço a Deos & a el rey , m 
qufi se queixaria d<'is injurias que lhe dissera , & outras 
muytas palauras descandalo se passarão antreles, qnè 
não se ounirão por amor do grande arroido que faziãf 
os ^ se metera no meyo: & António de tmiranda se foy 
4o galeão muyto agastado, pêra ho eq^ qee estaua PeM 

p 2 



J16 BA HISTORIA BA fNDIA 

mazcarenhas , que sabendo bo que passaoa, lhe reque^ 
reo por virtude da pauta, Q pois Lopo vaz de aã payo nft 
cõsentia nos juizes, que ele & Cristouâo de sousa nó* 
lueauâo, & ele era deles contente, que conoprisse a paur 
ta que dizia, ^ em tal caso hp ouuesse por gouernado? 
sem mais contradição, & lhe requereo que por esse he 
obedecesse, & ho mesmo requerimento Ibe fízerâo quã« 
tos fidalgos estaua coele, & por virtude da pauta : & por 
estar escãdaiizado das palauras que lhe dissera Lopo vaz, 
cõsentio no ^ Pêro mazcarenhas & outros Ibe requeriâo^ 
tomando testemunhas que bo fazia por^ Lopo vaz não 
queria cõprir a pauta, & fazendo sobrisso grandes pro- 
testações, tomou logo os nauios que pode & os entregou 
a Pêro mazcarenhas y & forão estes a galé bastarda em 
que estaua por capiJtã Eyior da silueira , bo nauio de 
Nuno vaz de castelo branco, duas carauelas, de queeiâe 
eapitSes Vicente pegado, & loão de sá, hú galeão de 
que era capitão Simão de melo^ que naquele lempo nX 
estaua nele, & assi biki galeoia^ & aigús bargantis, & 
posto que Aatonio de miranda tomasse estes nautos a 
Lopo vaz fiearâ sam Dinis , & sam Luys , & ho çamo» 
rim, de ^ evão capitães Martim afonso de melo jusarte, 
6l dom loíio déça, & as galés de Ruy pereira^ & Dan- 
lonio da silueira de meneses, & a carauela de Fernão 
de moraeia, afora muyta fustalba !| estaua no porto de 
Cochim, & por issoho poder de Lopo vaz era dauãtagft 
do de Pêro mazcarenhas, & assi os de hH bãdo como do 
outro fazião prestes suas armaa, & arteiharia, espera- 
do por bata4ba, pula períia ^ tinha Lopo vaz em não cflt- 
sentir nos juizes q^ue Cristouâo de sousa & António de 
mirada^ noraeauão,. & algQs dos de Pêro mazcarenhas, 
dessa gente baixa, bradauâo por guerra^ dizendo ]) P^ 
TO mazcarenhas não deuia de sofrer tatás soberbas, quã- 
las^lhe Lopo vaz fazia, & ^ entào tinha tSpo de se v4»« 
gar de quàtas injurias tinha recebido. E era pêra auer 
meda, de como a cousa estaua aparelhada pêra se per^ 
der a índia , por^ segundo ho poder dâbos os bãdos ea- 



Llf RO Vir. €APtTVtO XLVIlI. 1 1 í 

taoá igea) estaoa eerlo se dessem batalha ^ nãt) se apar* 
tai^m sem bO ficar vècedor, & este auia de ficar de ma- 
neyra, que facilmente ho desbarataria el rey de Calicut, 
^ pêra este fira tinha prestes grande armada, pêra dar 
sobre os nossos Q escapassem da batalha, & lodos os ou- 
tros reys & senhores estauão dateuanto, pêra a este tã** 
po darê nas nossas fortalezas & as tomarS , & desta vez 
tinhão por certo ficar a índia liure dos nossos , & assi 
ouuera de ser: fior^ nfi Pêro mazcarenhàs se queria de- 
€er do acrecSlamento dos juizes, nê Lopo vaz de não 
«erem tãtos, & três dias durou esta porfia, em Q ouue 
muytos requerimentos de hú ao outro, & muytas protes- 
tações de nhu deles ter culpa do mal Q se seguisse da 
batalha que se aparei haua, no Q António de miranda se 
achaua muyto culpado por descobrir a Lopo vaz os jui- 
zes ^ tinha concertado com Cristouâo de sousa ^ julgas- 
se a^la contenda, & polo assinado ^ lhe dera de nâo se- 
lem mais, que se estas duas cousas nSo forSo, Lopo vaz 
consentira nos onze juizes , & porQ ele consentisse ne^ 
]es, se afirmou que lhe prometeo de votar por ele, & 
por isto cooseotio Lopo vaz que fossS aqueles onze jui>- 
•Kes, & por lhe Afôso mexia aconselhar que consentisse 
neles, & despois descolhidos lhe posesse sospeic^ões, Sc 
ho mesmo lhe côselhou he ouuidor geral, & tãbè dõ Vas*- 
co déça seu procurador lhe mostrou a pauta ^ tinha as^ 
alnada , & ho juramento ^ tinha feyto de a c5prir , pelo 
^ nâo podia fazer outra cousa se não cfisentir ]) se nò- 
ineassS os juizes , & por todas eslas causas ho cõsentio, 
& mfidãdo chamar António de mirada lho disse, & pe^ 
dindolhe perda das palauras j) lhe dissera reconciliou 
eoele, E depois de Lopo vaz consentir, requereo Pêro 
mazcarenhàs que bo tirasse de sam Dinis, por quãto es^ 
taua nele muyto poderoso r & António de mirada ho pos 
jia nao sam Roque ^ tinha pouca gente, & entregouo a 
António da silueira de uieneses seu genrro, & Pêro 
mazcarenhàs foy posto na nao Froideluraar, & entregue 
a Diogo da silueira ^ & auibos juroirâo d»o»eDiregar 



i 



quSdo IhM pedissecii. E com isio ívcaraM «e^ôros de 0» 
bedecer á seatS^^a que se desse contra cada bu delei» 

C A P I T V L O XLIX. 

Comoforâo acrecíladú9 num dou$ juizes por parte 4e i^ 
po vaz de sam payo , ^ <Í0 faiais que pasmu. 

XJLssentado isto, logo ao dia seguiole qu^ fora desaoor 
ue de Dezèbro, se forS a terra Crísioqâ de sousa^ Anr 
tonio de onrâda, lio ouuidor gerai, & ho sf^çreiiiiro , an 
jnosteiro de santo António, onde s^ ajútará os mais dM 
capitães & fidalgos que estauàg çm Cocbiai, & perante 
eles nouieprflo António de mirando, & Cristoull de sour 
aa, as pessoas que auiã de ser juizes siuidros, da deíe^ 
rença que auia antre Pêro ro^^carenhas, & Lopo vaz de 
aain pajd, & por ficarê nomeados os nSo torno a nomear, 
íif declarados fostes juiaes , foi dita bâa missa que ludcf 
ouuirâo: & no santíssimo sajcramento ii>es deu Jio secrer 
tario juramento, ^ bem & verdadeiram9(e julgassem ae 
pertficia a gouernftça a Pêro maacarenbas «e a Lopo vaf 
de sam payo, & eles bo jurarão, & bo secretario fez ho 
mesmo juramento, de goardar bo assinado que cada bft 
lhe daria de seu parecer, & he não mostraria nS daria • 
ninguS, se nã a el rey se lhos pedisse, & de tudo fe« 
bu auto ^ todos assinarão, E feyto este juramCto^ Anr 
tonio de mirlda tomou Cristouáo de sousa a parte, k 
disselhe ^ pêra í| Lopo vaz de sam payo n& teuease que 
dizer , quando se a senteaça desse contrele, que deuiáto 
dacrecenlar ainda por juizes, a frey lofi daluím, & a 
Brás da silua da^euedo, & logo pola primeira, Crisiouáe 
de sousa nâe queria, port) sabia certo que aquelce doua 
erão muyto suspeitos a Pêro maacarenbas, & receaua 
.<|ue julgassem contrele, & não querendo ele câsentír, 
Ibe disse António de miranda j| consentisse, & nã se 
receasse díi^les juizes, porJj eie auia de votar por Pêro 
mnaeiíreiíbas ^ & tàbê dõ ioâo dçça por^ aabiã muy te 



LUfWÊr riu CAMTTIit)* %UX. 1 1 1 

mtfto qoa a justiça era sua, & nã fazia a^la^cirlmooia 
de juizes, por maia ^ pêra a|)acificar Lopo va^, & por{) 
Ibe não parecesse 4 Uie lomauâo a goueroanqa, & a da* 
uâo a Pêro majSGarenhafi : & eslãdo nisto acodio dom 
loão dé<;a, & disse ho mesmo (} dizia António de mirft* 
da ^ & Crislouãa de sousa consentio nisso, sem dar con^ 
ta a Pêro mazcareohas , nem a nhii de seus parentes & 
amigos , porQ tbe pareceo Q por mais saiuas que lhes fi<» 
aesse nâ auiao de consentir naqueles dous juizes, por^ 
os tiahão por muylo sospeitos, & f>or essa rezâo fora tH 
nido £rey loâo daluim a requerimêto de Pêro mazcarc'^ 
nhãs , & tãbem pori[ ele queria que aquela cousa se a* 
cabasse em paz , & nâo por guerra como se comecjaua 
de faser que este era ho seu Hm , & posto que entSdeo 
que ya contra seu juramento descolher juizes sem sos* 
peita, consentio nestes dous por euitar a guerra Q teua 
pêra si que aueria se ho nft consentisse , por^ cometec 
António de miranda aquilo não era sem vontade de Lo* 
po vaz , 4 estaua claro trabalhar pola fazer, & por cima 
de tudo isto Cristoufio de sousa estaua só & nâo tinha 
qu6 ko ajudasse y por^ como ele visse as nouidades qu« 
de cada vez sobreuinbfio, conbeceo Q ainda a co^sa auia 
de vir a estado {) se se não fizesse a líõlade a Lopo vaz 
fc a Afonso mexia auiã de quebrar, & como tinha as^fi* 
tado de lha fazer em tudo por^ não ouuesse guerra, não 
quis que ficasse coele nhii fidalgo seu parente nem amí» 
go, B& pessoa da valia de Pêro mazcarenbas, porque a* 
eontecendo be Q; lhe paraeia, não contrariassem sua de*- 
iermina<;ão & fizessem reuolla : & consentido ele nestes- 
dous juizes , foilbes dado ho mesmo jurismèto % aos ou-» 
troSy & assi ficara treze» &. logo eles disserâo a esses fi* 
dalgos & capitães que estaulo prestes ^ mãdassS cha* 
mar bo vedor da fazenda, por<} sS ele fazer certos jura* 
mentos nào auiã de dar sentença naq.uele coso Q lhes 
era cometido, & vindo bo vedor da fazenda,. a requeri* 
mento daqueles fidalgos & capitães, António de miran^ 
da 8 Dome dos ouUos juizes , Uie le^reo da parte dei 



no DA HISTÓRIA BA INNÁ 

Rey de Portugal que jurasse de entregar a fortaleza 4e 
Cochim a Lopo vaz de sam payo, ou a Pêro mazcare^ 
nhãs 9 a qual julgassem por gouernador, & isto sem ma- 
nha n8 cautela , & ele ho jurou com condição (| assi 00 
juizes, como todos os capitães & fidalgos que ali esta** 
uão, & na frota jurassem solenemente Q tomauáo sobre- 
di a ele, & a Aires da cunha capitão de Coulão, Pêro 
vaz trauaços, Diogo chainho, & os moradores de Co« 
chim, & oíiciaeis dá camará, que não recebessem nhã, 
dano nem oífença , assi em suas pessoas , como fazSdasy 
& lhe (izessê dar embarcação, assi pêra Portuf^al ,> como 
pêra outros lugares, & a ele lhe não fosse negada, posx 
to () se despois alegasse que era seruiço dei rey 2) ele fi- 
casse na índia, & í\ Pêro mazcarenhas se obríiçasse por 
hCl assinado seu a cÕprir tudo isto cÕ juram@to, & assi 
Iby feyto: & ho secretario fez disso hâ auto l\ todos as- 
sinara, &^ despois disto querendo os juizes entender em 
seu oflicio , disserão a CristouSo de sousa l\ se fosse , & 
ele polo que tinha assentado cõ António de miranda & 
jj esteuesse ao despacho da{)la deferença, nã se quis 
sair, & vendo que António de mirada era hQ dcis que 
int^istia (| se saísse, ouue coele sobrísso palauras, & assi 
c<>m os outros , & foy a cousa de maneyra, que acodi- 
rSo 08 juizes de Cochim por mãdadoOafonso mexia, pê- 
ra deitarem fora a Cristouã de sousa, que já se saía 
quando eles chegarão, vendo que sua estada nã apro-» 
ueitaua ali, & então conheceo quã mal íízera & não fa- 
zer huxapilolo na pauta , jurado, & assinado, por An- 
tónio de miranda, que ele esteuesse ao despacho daque- 
la deferença , porque assi não lhe fora defeso que não 
esteuesse, & então vio tambS ho grande erro (} fizera ^ 
cm deixar acrecStar os dons derradeiros juizes, porque 
polo rigor que vsarão coele, lhe pareceo que auiãdedara 
sentença cõtra Pêro mazcarenhas, & em entrando onde 
ele estaua, disse de muyto agastado, sus alforges & par- 
tamos !\ tudo he por demais, & calouse que nã quis mais 
dizer, por amor do juramento ^ tinha , & isto tudo sa 
fez ate véspera. 



UVKO VII. CAPirvi-o I« 321 

CAPITVLO L. 

Das rezôes ^ ho vedor da f azeda ^ outros offrecerâ aos jui- 
zes pêra q Pêro mazcarenhas não fosse gouemador. 

JL/espaís de Chrisiouâo cie sousa ser ido í\ os jiiyzes ii- 
-carâo recolhidos com ho secretario que ali fíaou , que a- 
tiia de ser ho escriuão daquele processo, dom Vasco de- 
«ça procurador de Lopo vaz de sam Payo, & Simão caej- 
xo procurador de Pêro mazcarenhas, mostrarão aos juy- 
268 as procurações que tinhão dábos: & lhes derão io- 
dos os papeis de que âbos se esperauão dajudar & coe- 
les JiQas largas rezões per escripto sobre a justiça que 
tinhâo, & apus íslo lhes foy dado hCI requerimSto dos of- 
ficiaes da camará de Cochim em nome de toda a cida<* 
de, em q lhe requerião da parte de Deos & dei rey que 
por nhu modo lhe na julgassem a gouernãça a Pêro maz- 
carenhas, porque se lha dessem auiâo de despouoar a 
cidade, & irse pcra os mouros, por não se atreuerem a 
saluar cõ os Chrislãos ficando ele por gouernador que 
«ra seu imigo capital, alegado as rezÕes !\ auia pêra is* 
so: pelo qual não se fiarião de nhu juramento que fizes- 
se. E visto este requerimento pelos juizes lhes forSo da» 
das huas rezões do vedor da fazenda que dizião. 

€t Senhores se vossas mercês <)uiserê verdadeiramen- 
te espicular a justiça <)ue ho senhor gouernador Lopo 
vaz de sam payo tem pêra lhe ficar a gouernança, a- 
charâo que lhe sobeja , & da mesma maneyra hão dou-- 
]har a que Pêro mazcarenhas pôde ter pêra ser gouerna- 
dor, achara que he nhCla por muytas reaões, de que a* 
qAíi darei alguas. 

19 A pricipal he ser ele muito odioso aos moradores 
desta cidade, pela injuria que diz que recebeo deles q na- 
do desembarcou contra meus re^jrimentos , pelo {) está 
claro que seria muyto grade deseruiço de deos & dei 
rey , ficar ele na índia como pessoa particular ^ quanto 
UVRO VII. a 



122 DA HISTORIA DA INDlA 

luaís cd mSdo^ & a fora ser muylo odioso por esta caii* 
sa que tS de vingança, ho he tãbem por deseruir a el 
rey cõ ho mando que lhe dá, como vereis nessa ínqui- 
riçáo que se tirou aqu» contrele a requerimento do fej« 
tor de Malaca , em que se achou que fez muy graues 
erros, assi nas cousas da justiça, como nas da fazenda^ 
& tambS offreço os autos que mandou fazer contra os of- 
iiciaeis da camará desta cidade, contra quem ha de pro^ 
ceder despois que fur gouernador, E Lopo vaz de sam 
jHiyo os que linha presos em Goa (& não fi ferros como 
lhe mereciilo) soltou os leuemSte, por lhe dizerem ^ era 
assesego da índia , & pola ver pacífica se pus em ven- 
tura de perder ho que tinha certo, digouos que tem 
bem seruido ei rey nosso senhor na justiça, & na fazen- 
da olbay ho que fazeis. 

n Tem tãbem Pêro mazcarenhas determinado como 
ibr gouernador de tirar António de miranda de capitão 
inór do mar, & a mim da capitania deCochim : cumu se 
proua por essa caria assinada por ele. 

9 Também ha outra rezão rauy eu i dente pêra nSó 
•er gouernador Pêro mazcarenhas, porque polo ser co» 
meteo mui graues crimes perdoado cõlra forma das or^ 
denações dei Rey nosso senhor a algQs que Unhão mor* 
tas alguas pessoas & os recolheo a Cananor & deles traz 
cdsigo hu Lucas leytão que matou aqui três homês, & 
por seu mâdado está em posse de hil nauio. Pêro lana- 
res 1} matou sua sogra sobre dous seguros de dom Anr* 
rique & ha bombardeiro Q matou hft home, & os ^ es^ 
pancarão & ferirão em Cananor ho tabaliSo que lhe ie* 
uou ho requerimento dos officiaes da camará desta ci* 
dade. E por ser guuernador prometeo a muytos ^ ti* 
Dbão roubado & tomado muyto dinheiro a el Rey nosso 
senhor de lho quitar, nssi como foy a ChristouSo de sou- 
sa que tfi tomados a sua alteza perto de qutze mil cru« 
sados, deles do tempo do doutor Pêro nunez & deles do 
meu , & por saber que ho queria constranger a pagar 
este dinheiro se contrariou logo daa cartas em que ti^ 



hJTBLO vn* CÀVtrvto h. its 

nha obedecido por gouernador a Lopo fas de sam Payo 
& ibe desobedeceo por nã pagar este dinheiro, coroo nSo 
pagará aendo Pêro maecarenbaa gcuernador. & Lançai* 
rute de seixas da feyloria J\ teue em Pegú deue muyto 
dmbeíro a sua alteza & ibo nã quer pagar por ser secre-r 
(ario de Pêro mazcarenhas, nem menos pagará ho fre^ 
te do nauio que leuou a Malaca carregado de sua faz&* 
da & deixou a dei Rey i & Francisco mendez de vas^ 
conoelos Q deixou por capitfio em Gananor tomou hO na«« 
uio de mercadores nossos amigos que ya carregado d^ 
muvta fazenda & dinheiro , & tudo t6 sonegado segiido 
ienno polo liuro & assSto do escriuSo do mesmo nauio, 
& Manuel da gama que eu tenho preso por dous mil 
cruzados que deue a el Rey , que me começaua de pa- 
gar deixou de bo fazer, dizendo que coroo Pêro mazca^ 
renbas gouernasse que tudo se bS faria. Pois quê toma 
tais prlcipíos de gouernar a justii^, & daproueitar lam- 
bem a fazenda de sua alteza antes de ser gouernador, 
que fará despois <) ho forf Pelo que está notório ser cou«* 
sa muy perjudicial selo, & julgado vossas mercês que ba 
seja, eu lhes encampo a fazenda dei Rey nosso senhor 
qtie eu tenho nela lambem seruido, que recebeo past 
[^ sante de trezentos mil cruzados de prooeito como darey 

por conta , & concertadas suas fortalezas & pagos maia 
de duzentos mil cruzados de soldo sem Ibe boMr nos co- 
fres das nãos da carga como algús fazem. E porque nSL 
se pode fiizer táto seruiço sem se tomar conta aos 1\ rou^ 
bio soa íazenda & sem poer verbas a outros Q bo deser-r 
oS per outros modos (que he dobrado seruii^) desejãa 
os culpados nestes erros como leais vassalos que me va 
da índia & buscarão pêra isso este caminho de fazer go^ 
tiernador a Pêro roazcarenhas : ({ se bo senhores julgar* 
des por esse vos eneampo a fazfida de sua alteza, & pro* 
testo que seja aatisfeyto pelas vossas, & quâdo nfio per. 
vossas ppssoas, & protesto por m^ue ordenados, & po* 
Ias perdas que receber, poslo que me não lembra se nã4> 
el Rey nosso senhor, porque a ele se faz a guerra* «r 

a 2 



IS4 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

Coestas rezÕes estauão outras de Pêro de faria ca- 
piiito de Goa fQdadas sobre a mesma maíeria, & assi bft 
requerimento do licenciado loâo de soiro ouuidor geral 
da Índia, em ^ requeria o que por estas rezões vay re- 
latado. E Ioda a noyte óo dia em que os jujizes começa- 
rão deslar em despacho quãlos moradores auia em Co- 
chim andarão descalço» em procissam cõ suaa molheres 
& filhos, pedindo a nosso senhor que spiritasse nos juy* 
zes que não julgassem a gouernançaa Peromazcarenhas 
polo medo Q nuiá de se vingar deles & cõ grandes brados 
pediâo misericórdia: o que foy muyto piedosa cousa de 
ver^ » 

CAPITVLO U- 



como foy dada a stniença ^ Lopo voz de sam Payo 

gouernasse a Indui^ 

Jji visto pelos juyzes tudo o que se alegaua por ambas 
as parles , fez cada fafl hQ escripto de seu parecer que 
assinou & bo deu ao secretario que os leo peranteies,^ 
& despois de se achar que Lopo vaz de sam Payo tinha 
mais votos , & que a ele perteneia a gouernancja julga* 
râo que fusse gouernador, & bo secretario escreueo a sê^ 
tença que dizia. 

« Vistos por os juyzes est^a autes, & o que por elea 
se mostra , & vistos nossos assinados em !\ eada bil de* 
elarou sua tenção: julgamos por nossa difinitiua senten- 
ça que Lopo vaz de sam P«'(yo goueroe ^ & seja gouer*' 
nador nestas partes da Índia, & Pêro mazcarenhas se 
va em hora pêra ho reyno de Portugal , & lhe será dada- 
embarcação segíido a qualidade de sua pessoa: & quan* 
to aos ordenados dos sobreditos fi^ pêra el Rey nosso 
senhor ho julgar como lhe bem parecer ^ & asst todo bo- 
rnais que cada hu deles quiser requerer no reyno. » 

E assinada pelos juyzes , logo no mesmo dia l\ fo- 
rão vinte hQ de Dezembro ao sol posto António de mi- 
randa^ Dom loâo deça, Uras da silua diazeuedo, &Trí8' 



LIVRO VII. CAPITVLO tnr. ISft 

tâo de gá 86 forâo em hO bargaDiim á nao'%m qoe eò^ 
taua Pêro mazcarenhas : & dos de sua valia fora inuy^ 
tos a[)08 eles cuydaodo que a senlença se dera por ele^ 
£ entrados deniro ho secretario lha pubricou perante 
todos: & ete a ouuio com rosto muy seguro, mostrando 
grande coração, o que seus amigos não fizerâo ^ <) todos 
licarâo mu^to tristes. E ele licou na^la nao ate lhe ser 
dada embarca<;ão. E os juyzes íbrSo pubricar a senten- 
ça a Lopo vaz de aam payoy ^ a recebeo com muyt^ 
prazer ) & deu muy tos agardecrmentos aos juyzes: & 
pedio muyto perdão a António de miranda do !} passa- 
ra coele. E com quanto a sentença foy dada por Lopo 
vaz, des|x>is se deu em Portugal cSlreie: & Q pagasse 
a Pêro mazcarenhas ho ordeoadu ^ leuara de gouerna-* 
dor cõ todos os proes & percalços. £ por ser quasi noi- 
te nSo se foy ho gouernador a (erra & fícou no mar : õ- 
de & na terra ouue muytas folias & prazeres & grade 
Étrõdo darlefheria !} desparaua : o Q daua grade tormã*- 
to aos da outra parte: por^ lhes parecia ^ se fícassS na 
índia 4 o gouernador lhes auia de fazer mal. E [K)rque 
a ele lhe paraceo ^ terião esta aospeita os quis seg^irar, 
& ao outro dia antes que desembarcasse correo tcida a 
frota em b& eatur, & a todos em geral fez esta fala. 
Pois nosso senhor Deos foy seruido de me restituyr na 
gouernança da Índia, peçouos senhores- que todos vos a- 
legreis comigo , fc creai» que iieando eu por goirerna* 
dor , vos úea a todos bQ amigo pêra vos fauorecer na 
índia, & com el Key meu senhor representandolhe vo&- 
aos serui<^s & pedirlhe que vos faça mercê: porque vos 
dou minha fé que vos tenho em mu^to boa cÔta aos 
que foste» da parte de Pêro mazcarenhas em prosseguir* 
des cd tanto esíbrçe o que vos parecia que era rezáo, por*» 
^ ho mesmo tVzereis por mim se ferei» da minha parte , 
& por isso vos nSo ey de ter má vontade, & vos prome- 
to que me nâo lembre mais ho passado : & vos pe^o l\ 
façais outro tftto, & ^ sejamos muyto amits^os, & sirua^ 
jnos todos eí rey muy tt> bem , & vamo» descansar ^ he 



(empo* O que lhe todos teuerio inuylo em nerce & fot 
rjtee coele pêra (erra ^ õde foy recebido eun» sol^oe pro* 
citsatn, & debaixo de hu palio foy leuado a See, & de9^ 
pois douuir missa á fortalesa em ^ auia de pousar, & 
ali tornou a fazer muytos ofireoimenios aos fidalgos que 
lhe forflo coDlraíros com que se segurarão pêra ficar na 
lodia. 

C A P I T O L O LII, 

Do que ho gcuernadar fe» despeis de ser restituído em 

stia posse» 

Re.ti.,.ido Lop. «, d. «™ P.,0 .. ..«TO,,., ,.í: 
sera logo aperceberão pêra ir buscar os rumes, ^ bem 
sabia ho seu desbarato & a morte de calei mão raix & 
foylhe conselhado que nSo fosse porque por nhQ modo 
lhe coQuioha ir fora da índia, assi porque os da valia de 
Pêro maxcareahas nSo estauão de todo assessegados, & 
ficando ele na índia despois da partida do gouernador 
auer ia outra reuoita como dfltes , porque nhfl auia de 
querer ir ao estreite: & tarobè el rey de Caiicut tinha 
feyta grande armada , & vendo ho gouernador fora da 
índia faria nela muyto dfino, & abastaua 2} ho oapitio 
mór do mar fosse ao estreito ás presas & lá saberia a 
certeza do {} era feyto dos rumes, & náo vindo gouer-^ 
nador no anno seguinte então os iria ho gouernador bufrt 
car lâhê apercebido que podesse pelejar coeies. E isto 
determinado, despachou ho gooernador ho capitão mór 
do mar cd bua armada de noue velas. s. seys galeSea 
de que a fora ele que ya em sam Dinis forão por capi^ 
tSes Fernilo rodriguez barba de s3 Rsfael, António da 
silua dos Reys magos, Ruy vaz pereyra de sã Lujrs, 
Anrrique de macedo do çamorim grade, &Lopode mes- 
quita do pe^no, & FrScisoo de vascõcelos de bila galeo* 
ta ^ '& Ruy pereyra de hOa galé bastarda, & bua e^leo» 
ta & cico bargãtis : & coesta frota em Í\ irião mil bo^ 
mSs se partio em laneiro, & xii. dias. despois de sua 



UVSO Vfl« CKVtTVlÁ) UII. 127 

Mtrtida nãdoa o gouernador a Simão de melo sea ao- 
Hbrioho a faaer presaB ás ilbaa de Alaldiua , & leuou b& 
•nauio de gauea & h&a carauela. £ neste tempo forao 
-acabadas de carregar aa quatro naoa que aaiâo dir pêra 
l^ortugal & se partirão , & foy eoa faQa delas Pêro niaa*- 
iUireDbaa êlregue preso a António* de brito , & por amor 
dele se forão rouytos fidalgos pêra Portugal & assi ou*^ 
Iras pessoas* £ primeyro que esta frota partisse màdou 
ele citar ho guuernador perSte el rey ou perante os de^ 
aembargadores da sua relação pola gouernâça da Índia , 
& por bo cidel & crime que bobre a^le caso esperaua 
dalcançar contrele : & mais Ibe escreueu como os Caste- 
jbaoos tícauào em Maluco oa ilba de Tidore como disse 
atras pêra que socorresse a dom lorge de meneses (\um 
lá estaua |K)r capitão. £ partida esta Trota cbegou aPor*- 
tugal a saluamento : & Fero maacarenbas foy bem rece^ 
bido dei rey : que nfio ouue por seu seruiço o que ibe 
fora feyto* £ despois de ÍA>po vaz de sam Payo ser em 
Portugal ouue sentença contrele que Ibe pagasse todo ba 
ordenado que ouuera dauer com a gouernança. 

C A P I T V L O LIII. 

De como dom Garcia anrriquez entregou a fortaleza ãe 

Maluco a dom lorge de meneye$. 

JL/om lorge de meneses Q inuernou nas ilhaa dos Pa^ 
puas como disse atras despois que tentarão os leuantea 

Krtiose pêra Maluco & cbegou á ilha de Ternaie em 
ayo de mil & quinbêtos & vinte sete, onde soube em 
cbegando a guerra () os Portugueses tinbão com os Cas* 
telbaoos, Tidores & Geilolos: do que lhe pesou f)or a 
pouca gSte Q leuaua & essa quasí toda doente que a ou*» 
ira Ibe morreo Das ilbas onde inuernou. £ tendo ja esta 
eerteta despois de ebegado^ deixando os dous nauios a 
recado se foy nos bateysaa fortaleza, donde sabendo dom 
Garcia sua ida bo sayo a receber muyto ledo^ porque se 



128 BA HISTORIA SA^ llfDIA 

poderia tirar da grande obrigação eis que eataua com a 
guerra por amor do pouco apercebi mes lo que tinha par 
reU^ & logo lhe entregou a fortaleza ^ssi .como lha An- 
tónio de brito entregara, que foy da maneyra que di»- 
«e no liuro sexto. E dom lorg e lhe deu disso hQ conhe^ 
cimento feylo per hQ tabalião pubrico: & logo {| dd lor* 
ge chegou Martim hinhegues o capitão dos Castelhanos 
que eslaua em Tidore bo mandou visitar dandolhe a 
boa hora de sua vinda, & oflTrecendolhe paz & amizade : 
jcÕ queUiime da dÕ Garcia que nunca a quisera coete, 
antes lhe;metera a sua nao no fundo, & lhe matara hft 
4]omiS & ferira três : o l\ dom lorge lhe agardeceo oflfre- 
cSdoselhe lambem por amigo, & disculpando dom Gar-* 
cia que ho quisera ser seu , mas que ele fora o que nâo 
quisera nem irse pareie como lhe mandara pedir, & qui- 
sera antes estar antre os mouros seus immigos, pedin« 
dolhe que pois queria sua amizade ^ ho mostrasse ê se 
ir pêra a fortaleza, onde lhe daria apousenlamento de 
que fosse contente. E por Marlím hínheguez nâo res- 
ponder a isto lhe mandou dom lorge hQ requerimêto 
aos quatro dias de lunho em l\ lhe requeria cõ bo ai- 
cayde mór da fortaleza, feyior & outros officiaes que se 
fosse logo daquela terra & de todas as ilhas de Maluco, 
& não comprasse nhCI crauo. E ho mesmo requerimento 
lhe fez MarUm hinheguez : Sc despois de muytos reque- 
rimentos de parte a parte (izerão tregoas, ale verem re- 
cado da lodia ou Despanha do que mandaua ho gouer- 
nador ^ fizesse dÕ lorge. E como as tregoas forâo a8sen^ 
tadas ouue muyta amizade, prestãça & conuersação an«- 
tre os Portugueses. & Castelhanos, & dauãse dadiuas 
hfis aos outros principalmSteos capitães. E sempre JVIar*- 
tim hinheguez se fora pêra a nossa fortaleza se ho nSê 
estoruarão el rey de Geilolo & Cachil daroes: el rey d« 
Geilolo porque osTidores teuessfi necessidade desua.a«- 
juda , & Cachil daroes porque os Portugueses a teuesr 
sem da sua. 






VII. 0APITVX.0 UIII. 129 

C A P I T V L O LIIII. 

Do que dâ lorge quisera fazer acerca do cravo 4" não pode. 

X^espois dÍ8to tirou dom lorge a akaydaria mór da for« 
laleza a Manaei falcão que a linha por lho mandar assi 
Pêro mazcarenhas, porQ lhe leuara dous homiziados da 
Malaca. .E tirada esta alcaydaria deu a a bfl Sim^ de 
vera , & porque Manuel falcão não se escandalizasse de 
lhe tirar a alcaydaria , & ele & outros nSo cuydassem ^ 
ho fazia sem causa mostroulhe ho mandado de Peromaz^ 
carenhas. E com tudo Manuel falcSo nSo se ouue por 
salisfeyto & ficou imigo de dõ lorge posto que ho dissi- 
mdaua. TambB dom lorge quis vsar de hfl regimSto qua 
Afonso mexia vedor da fazSda da índia mãdara a ma* 
luco, em que mandaua que ho feytor de Maluco com* 
prasse quanto crauo ouuesse nas ilhas , & carregasse ho 
mais !| podesse pêra el Rey & ho mãdasse á índia, & o 
que solfejasse ho vendesse aos moradores da fortaleza 
cõ ganhar ho mais que podesse, & da^Ie dinheiro se pa- 
gasse ho ordenado do capitão & dos outros officiaes, & 
se pagasse ho soldo & inantimento da gente darmas pê- 
ra el Rey poder sofrer os grandes gastos daquela forta- 
leza : & cõ tudo que se tomasse ho crauo sem escânda- 
lo dos mouros & Portugueses ^ estauão na terra. E dom 
lorge mandou apregoar este regimento, & que se goar- 
dasse. E vedo os Portugueses quanto proueito lbes.ii«* 
rauão , & que desta maneyra poderia el Rey saber ho " 
muyto Q ganhaua 3 auer ho crauo á sua mão & ho muy- 
to que perdia em ho não auer, & que nunca ho mais ar 
largaria , no que ficauão perdidos, porc) nã ficauão maÍ3 
{| c5 ho soldo & mãtimento que nunca lhes pagauSo: de- 
terminarão de não consentir que aquilo fosse auante,.& 
confederarãse com Cachil daroes que ho estornasse. £ 
ele {} muyto folgaua de os Portugueses sempre terem 
necessidade de sua ajuda assi ho fez , dizSdo que pois 

LIVRO VIU R 



IS* - HA HwnoKiA BA índia 

os mouros não podião vender seu crauo a quS quises* 
sem 9 que asai não vêderião seus mâlimentos na foria* 
leza, & mandou () os não vendessem dali por diante: & 
começou ho escândalo d>e crecer cm tanta maneyra qu« 
a dd lorge lhe foy necessário dissimular, porque ho na 
pode defender. E assi perdeo el rej tamanho proiieito 
como este fora de sua faz£da , & que foy a causa de fa-^ 
ser ali aquela fortaleaa, & que sem ter ho crauo lhe não 
seruia de mais que de gastar dinheiro debalde, & com- 
prar ho crauo ho três dobro mais caro do que ho oora« 
praua na índia antes -que a fizesse, porque os mercado* 
ses lho leuauão a Malaca ou á índia, sem mandar por 
•le a Maluco cõ tamanho gasto como fazia a fortaleza 
qu<e lá eBlaoa, & as armadas que yâo por ele, em que a 
fora ho dinheiro que se gaslaua se auenturauão Portu- 
gueses l[ cada dia se perdiao no mar^ & morriâo na terra« 

C A P I T V L O LV. 

Xfo qnt passou dom lerge de meneses có dô Garcia anr^ 
riquez mbré mandar a Malaca pela via de JBomeo, » 

vjfuando d5 lorge partio de Malaca pêra Maluco, miUi 
douJhe Pêro mazearenhas que lhe mãdasse recado peJa 
via de Borneo como achara Maluco Jc como ficaua, & () 
requeresse a dom Garcia ^ fosse por este caminho de 
Sòrneo, porQ eoino^ era moyto mais breue ^ ho de Bani- 
da, & podia a fortaleza ser por ali socorrida em meno» 
tempo qiie pela via de Banda, desejaua Pêro mazcare- 
nbas q^ie fosse bem sabido dos Portugueses pêra \ na* 
negassem por ali ^ assi pêra serõ- conhecidos dos r«ys & 
senhores daquelas ilhas, & tratarem coekes por ter en« 
formação que auia nelas oaro , como por os CaatelJianos 
Aizerfi por ali seu> caminho , & os podifto hi esperar íL 
lhes tolherifto que ftòo fossem a Maluco : & também por 
se eiiitarê brigas que sempre reoreciâo antre es capi* 
tâetii que inuernaM&o em BSda.Este regimealo mostrou 



i^íTÊDO vn. cjivmub lv. 131 

dom lorgtt a ò3 Garcia , & requereolhe da parte de Pê- 
ro masearenbas , l\ se partisse pêra iMabca do nauio 8 
que ele doa» lerge fora, & que foaae pola via de Bomeo. 
E coeste requerimento ficou dom Garcia muyto saltea- 
do j porque recebia çrSde perda nio indo por Banda , 
ondeeperaaa dir ter bO jugo qve ho anno parâado mâda- 
ra a Malaca carregado de cravo seu & de partes, & a- 
oia 4e tornar a BSda eom roupa pêra bo leuar carrega^ 
do de noz & maça , & dizendo a dom lorge que ele lhe 
responderia, ouue conselbo c5 aifffls seus amigos que 
erão aqueles que tinbâo mandado bo crauo com ho seu^ 
& esperauão de fazerS suas faz&das em Banda como ele 
eaperaua de fazer a s«a , & por isso Ibe cÔselharSo que 
per nbft modo deixasse dir por Banda. B acordarão to* 
dos o j| dissesse a dd lorge pêra não ir por Borneo : fo 
isto acordado , respõdeo dd Garcia ao requerimento de 
dS lorge. Que eie fera de mnyto boa vontade pola via 
de Borneo por seruir ei Rey, mas que sabia ^ não auia 
de poder ir, porque cometera por hi bo caminho em 
tem^po Diantonio de brito^ leuando muyto bôs pilotos: 8b 
despois de andar perdido por aquelas ilhas i^ muyto gra- 
de trabalho arribara a Maluco : & anendo dõ lorge a dO 
Garcia por escusado de ir, delerminaua de mfldarou-* 
trS por aquele caminho: ec| visto por dom Garcia, & 
que se fosse outrem ficaua ele em muyta culpa por não 
ir, determinou destorunr a ida, fc disse a àò lorge que 
lhe parecia muyto escusado mandar aljle nauio, porque 
a fora descobrir a^ia nauegação pela via de Borneo , a 
principal causa de ho mãdar era mãdar pedir*socorro ^ 
ele ja linha mãdado pedir por Manuel lobo: &, quando 
aquele nauio chegasse a Malaca ja lá auia de ser sabi^* 
do ho seo recado, & quando vissem que sobre Ião aper^ 
lado da guerra dos Castelhanos eomo ele mandava dizer 
!\ estaua, & tão necrasitado de geníe & muni<^s pêra 
a guerra, & que sobrtsso ya an^uele nauio pareceria () 
ho pritneyro recado fera zombarta , & que não auia ne- 
cessidade de gente nS de muoÍ4{5es', porque se a ouuera 

R 2 



133 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

não 8é poderá mandar aquele nauio : & a fora isaò os ^ 
fossem nele auião de dizer como a nao dos Castelhanos 
se fora ao fundo , & que os Gaslelbanos erSo menos , & 
as iregoas que linhâo assenladas , o que tudo seria cau« 
sa de ibe jiSo mâdarS ho socorro que esperaua , ou se 
ibo mandassem não seria tão bõ como fora na indo ho 
nauio y pelo que ho não deuia de mandar , mas deixalo 
estar & mandar concertar outro que estaua varado , & 
despois de aparelhado lho desse ^ porque ele iria nele 
esperar os Castelhanos ao caminho ,& impidirlhes que 
não mandassem pedir socorro á noua espaoba como se 
dizia que querião mãdar pedir : & por fazer seruiço a el 
Rej queria leuar cem babares de crauo que tinha d% 
partes , & os venderia ao feytor pêra el Rey. E porque 
logo do lorge não quis conceder isto, lhe fez bum re- 
querimento em que &2Ía grades protestai^oes que sobre- 
uiudo algua perda a el Rey por eie d& lurge não querer 
iazer o que ibe requeria carregasse tudo sobrele. £ es* 
te requerimento foy pubricado a dom lorge aos quinze 
dias de lunho, que parecendolbe boas as rezões de dom 
Garcia , respõdeo que queria fazer o Q Ibe requeira : & 
porem J} se disso a fortaleza , ou os Portugueses rece* 
bessem algu dãoo ou perda que carregasse sobrele dom 
Garcia y & assi cessou de mandar ho nauio. £ poi S d5 
Garcia ficou mnjrlo desconlète de dõ lorge por assi a- 
pertar coele q fosse peta via de Borneo , & arrepedeoee 
de Hie dar cem bares de crauo de Q lhe tinha dada pa- 
laura de llios mâdar dar 8 Malaca: & a causa foy que 
pedindolhos d5 lorge emprestados respondeo ele que a* 
ueria seu conselho* £ dando cota disso a seus amigos Q 
esperauão de se ir coele , conseiharanlhe Q. lhe desse de 
graça os cS^ babares de crauo , & que não quisesse dele 
outra paga se não hum^ nauio em q.ue se fosse, & licen- 
ça pêra se irS coele ate vinte homês de sua obrigação* 
£ dõ Garcia ho fez assi fazendo bua doação a dom lor* 
ge dos cS bares de crauo , & bilÉa procuração pêra os 
mandar arrecadar em Malaca , & dom lorge lhe prome* 



LIVRO VII. CAPITVLO LVT. 13S 

teo bo naoio & roais a licença pêra osboroSe , & quãdo 
dd Garcia vio que apertara tâto coele ^ fosse pela via de 
Boroeo, sentiobe talo ^ desconíiou de dom lorge comprir 
ho que lhe prometera, & começou de ter má soapeila dele. 

CAPITVLO LVL 

De como dom lorge de meneses mâdou recado ao capite 

de Malaca pola via de Bomeo. 

JL osto que dõ lorge por amor do reJJrímento dedo Gar- 
cia , desistio de mãdar ho nauio que disse, tinha lã as- 
sentado de mandar a Malaca pela via de Borneo p&ra 
se saber bê aquela nauegaçâo , que determinou de mã- 
dar bua coracora, por ser nauio de que auia na terra 
grande abastãça, & não auia de fazer mingoa na forta* 
)eza. E por!} a viajS Ibe importaua muyto, não a contiou 
douirè se não du Vasco lourenço, <) afora ser muyto es- 
forçado & sesudo era seu tio, peio que tinha nele muy- 
ta confiança : & deulbe pêra sua cõpanhia hu Diogo cão, 
& outro chamado Gõçalo veloso, & outros dous & por 
piloto bQ Castelhano, & hu Malayo que forão coele de 
Malaca^ & Unhão alga conhecimento daquele caminho* 
£ pedido a Cachil daroes a melhor coracora das que ti- 
nha os mâ^ou nela, & deu a Vasco leurenço cartas pê- 
ra bo capitã de Malaca, screuendolhe a guerra em que 
ficaua & a necessidade i| tinha , pedindolhe muyto !) ho 
socorresse, & que lhe mandasse b& mace d^e cartas ao 
gouernador da Índia, & lãbê lhe deu roupa & outras pe^ 
ças boas pêra dar a el rey de Borneo, & assi outros 
reys , & dÕ Garcia, & Cachil daroes tambS derão secre- 
lamSte cartas a Diogo cão, <) screuiâo ao gouernador da 
índia contra dom lorge, & ele as tomou por dõ lorge 
bo mãdar contra sua vontade, & mandaua tãbS dõ Gar- 
cia bQa renuneiação da doação, & procuração, que ti- 
aba dadas & dõ lorge dos cê bares de crauo, l\ dõ Jor- 
ge mãdaua arrecadar em Malaca por Vasco lourenço : 



que partido deTernate foj twgir na cidade deBorneo, 
leuido DO caminho niQyto tralniUiD ^ & U achou hu c»* 
oaleíro chamado Afonso pires que ya pna Malaco por 
capiiáo dum jongo ^ a Q den eenta de como ficaua dom 
lorge, & este Afonso pirez era moyto conhecido dei rey 
de Borneo , & por isso foy com Vasco loarenço quando 
lhe foy falar que lhe deu bo recado de dom íorge , co- 
mo mádaua por aquele caminho a Malaca, pêra a aroi^ 
zade 2} tinha coele fosse em crecimento, & os Portu- 
gueses conuersassero , & teuessê (rato em sua terra, & 
coes(e recado lhe deu de presente h& pano darroar de- 
ras muyto rico, em que eslaua afigurado ho casamento 
dei rey Dingraterra cd a tia do Elmperarlor, & el rey ti* 
rado pelo natural cÕ suas vestiduras reays. E quando el 
rey de Borneo vio aquelas figuras , preguntou que que- 
rião dizer, & Vasco Jourenc^ lho disse. E sabSdo el rey 
que aquele que tinha a coroa era rey coroado, sospeitou 
que os Portugueses com engano lhe querião meter ar- 
queie pano em casa , pêra ^ de noyte por feytiçaria a- 
quela figura de rey se tornasse homS , & assi as outras 
figuras ^ estauSo coele, & ho auia com ajuda deles de 
matar ou [>render & tomarlhe ho reyno, pelo qee ficou 
muy tornado, & disse a Vasco lourSço que lhe tirasse 
logo ho pano de diante, que não queria que em seu rey^ 
no ouuesse outro rey se nao ele, & que se fosse logo 
com os outros Portugueses se não que os castigaria co- 
mo a homSs 2) lhe querião fazer treiçi. E ele & os ou- 
tros se viráo em perigo, se nâo fora por Afonso pirez & 
algQs mouros mercadores que os disculparâo dizendo A 
verdade a el rey & ho abrandxirão muyto da fúria que 
tinha, & porem não quis ho pano nem que ficasse na 
terra. E detSdose aqui Vasco louren«^, determinou A- 
fonso pirez de não ir a Maluco & tornarse a Malaca , 
ou por se deter aqui mais tempo do que ouuera de ser, 
ou por amor da guerra Q auia em Maluco com que não 
podia fazer fozCda , & sabendo Vasco lourSço como se 
tornaua foyse coele por ir em melhor embarca^ que na 



LÍV«> VII. CAPITTLO LTfl. IS» 

€Óracora Q dali se tornou pêra Maluco fide chegou cd 
nuyto perigo, & ho capitão cotou a dõ Jorge o que pat-* 

C A P I T V L O LVII. 

De como dô lorge de rneneses mandou prfder dó Garcia 

anrriquez. 

xN o tempo que esta cora cora chegou cemeçaua el rey 
de Geiloio de fazer guerra a dõ lorge porque não eira* 
ua nas tregoas dantre ei rey de Tidore, & fazia aiguaa 
corridas por mar a Ternate , & Cachil daroes as fazia 
també a Geiloio , & faziâse aigu dSno de parte a parte» 
E estado assi a cousa, faleceo Marti hinbeguez capitão 
dos Castelhanos, & eles fizerão outro (^ se chamaua Fer* 
não dela torre. E sabido por dd lorge mandou ho visi« 
tar^ & pregiitarlhe se queria goardar as tregoas que es^ 
tauão assentadas antrele & Martim hinheguez : & Fer<^ 
não dela torre não quis , & tornouse a guerra a reno* 
uar. E porque Fernão dela torre nâo tinha nfa&a vela de 
remo se não as da terra mádou fazer hua galeota pêra 
que pelejasse nela cõ os Portugueses: & como dÕ lorge 
ho soube mandou fazer outra com muy ta pressa , pêra o 
que mandou apenar quantos carpinteires & calafates a«* 
uia na terra, posto que andassem fi outras obras: pêra 
o que mandou tomar muytos que fazião hii jflgo de dom 
Garcia, porque importaua muyto acabarse a galeota ce- 
do, por ele não ter outro nauio de remo em que pele* 
jasse com a galeota A fazião os Castelhanos. £ vendo 
bik clérigo chamado l^ernâo vaz tomar os carpinteiros 
que trabalhauio no jungo, assi por ter parle nele como 
por ser amigo de dd Garcia se ifoy logo a sua casa , di- 
ftêdo q«e pesar de tal como lhe auia dom lorge de tirar 
os officiaeis da sua obra , & que ho náe fazia se não po* 
lo não ter em cottla , & coisto outras palauras de padre 
0iais cauaieiro , Q religioso, cd Q ho prouocou a ter me* 
Bencoria de lhe dom lorge tMuac os carpiateiros , seas 



I3C OA JflSTORIA BA ÍNDIA 

lhe lembrar ^ era pêra seruiqo dei rey , & còesla fúria 
se foy á ribeira, onde dom lorge aodaua fazendo traba-« 
Ihar na galeola, & se lhe queixou do l\ tinha feyto, & 
dõ lorge respondeo Q não se podia fazer menos , por cÕ« 
prir atsi a seruiço dei rey. E por dõ Garcia insistir que 
lhos nSo ouuera de tomar, & dõ lorge querer soster ^ 
fizera b3, vierSo a taeis palauras, que dÕ lor^e chamou 
sandeu a dõ Garcia, & ^ ho castigaria muy bem, & dô 
Garcia Lhe disse que disistisse da capitania, & Q lhe fa* 
ria conhecer ^ era melhor fidalgo .& caualeiro que ele, 
Sc nisto apunhou da espada, & passarão outras palauras 
mais feas, & acodindo gente de hQa parte & doutra, se 
foy dõ Garcia pêra sua pousada acõpanhado desses H 
erão de sua valia, que lhe louuauão muyto ho/^ disser^ 
a dom lorge , & os (} ficarão cõ dom lorge, lhe disserãp 
Q não deuia de passar por tamanha desobediência 9 & ^ 
deuia Jogo de prSder dõ Garcia, & ho que roais atiija* 
ua isto era Manuel falcã, por ^rer grande mal a ambos, 
& desejar de os ver em discórdia: & agarrochado dõ 
lorge destes conselhos, mãdou a Thomas nunez dafon? 
seca seu ouuidor , que fosse tomar a menajõ a dõ Gar? 
cia & ho trouuesse preso a fortaleza , ao {| os que esta? 
uão coele que erão muytos acodirão, dizêdo a dom Gar? 
cia Q não era bê deixarse prender, & que eles ho aju? 
darião, & dõ Garcia não quis dar a menajem ao ouui* 
dor , & disselhe que nã tinha alçada sobrele nè el rey 
lha daua, que tirasse deuassa dele, & a mãdasse ao gor 
uernador da índia: & sabendo isto dom lorge, mandou 
repicar ho sino da fortaleza , a que se jQtou a gente, & 
dõ lorge lhe disse como dõ Garcia lhe desobedecia , pe- 
lo Q deterrainaua de ho prender, & todos disserão que 
fizesse ho que lhe bê pare4:esse, & que eles ho ajudarião 
como a capitã dei rey de Portugal : & logo dÕ lorge 
mandou a Simão de vera alcaide mór, que cõ hfi scri- 
uão da feytoria fosse tomar a menajem a dõ Garcia da 
sua parte , que se fosse pêra a fortaleza preso & dises- 
se aos Q estauão com dõ Garcia que se fossem parele 



Liwi© mi. cÃ^rrvLt tmx. is 7 

ates (} fosse lá, & quando chegou a sua casa, achou que 
«e ajQtauão nujytos coele, -hus |X)r terem seu crauo fey- 
to & se j}rerem ir coele, outros por^ também se queríão 
ir, por amor da guerra ^ «staua trauada de que se ea- 
jfadauâ, & quãdo estes ouuirão ho que lhes dom lorge 
mandaua dizer de sua ida lá, disserSo que fosse embo* 
ra, Q eles ho iria receber ao caminho cõ lançadas, & es* 
te atreuimSto tinha por saberS que passarfi «em castigo 
aqueles que fauorecerS & ajudara An^tonío de brito fião 
sendo eapitão, contra dõ Garcia que ho-era, & dõ Gár- 
eia respondeo ao alcaide mór ho que respondera dantes 
ao ouuidor, ho que os de sua valia lhe louuarSo muylo, 
& era ho aluoroço muyto grande neles, o {} sabido por 
dom lorge mandou apolar aigflas peças dartelharia nas 
casas de dom Garcia pêra as derribar, mas primeyre 
tprfiou a maiKlar Já ho alcayde mór com ho inesmo re- 
cado que dantes , &, coeJe hQ Tristão vieira : a ^ rogòii 
por ser amigo de dom Garcia que lhe conselhasse que 
se fosse pêra a fortaleza. E ele ho fez assi, pregQtando- 
Ifae primeyro se determina-ua de se defender de dÕ lor- 
ge« Ao que dam Garcia respondeo, que como se auia de 
defender sendo ele <:apitão dei Rey de Portugal : & en* 
tão lhe disserão Tristão vieira & ho alcayde mór, que 
pois assi era Q lhe pediâo que fizesse o que dõ lorge 
mandaua : o que os !\ ali estauâo lhe conlrariaríto, & ele 
disse Q não era tempo, porque se ho fizesse daria causa 
a auer muytos mortos & feridos, pek> que os Castelha- 
nos ficarião senhores da terra. £ dizSdo isto foyse só á 
fortaleza pêra ver se podia apacificar dom lorge, a (| 
disse. £x aie aqui que me quereis, ^ me quereis: & ele 
lhe pedio a menagem que dom Garcia lhe deu despoie 
de muytos debates por!| lha nã queria dar. E tomada pe- 
lo ouuidor & feyto disso hú auto, ho mandou pêra hòas 
casas em ^ António de brito pousara, & mâdou logo ti- 
rar deuassa dele* 



LIVRO vir. 8 



138 BA UI0TORIA DA INMA 

C A P I T V L O LVIII. 

De coma dom lorge soUou dom Garcia ^ tomarão a 

ser amigos* 

X anto que dom Garcia foy preso , como Gacbil daroe» 
era grade aeo amigo, trabalhou muj^lo com dom lorge 
^ ho soltasse daodolbe pêra isso mujtas rezÕes, mas 
dom lorge. DuRca quis, diseendo que bo auia de ler pre« 
•o, & que assí ho auia de roãdar ao gotternador da In-* 
dia pelo que Cachil daroes ficou muy desgo8tx)8o de dom 
lorge , & se lhe acreeenlou ho odio que lhe começaua 
de ler polo não ter tanlo de soa mSo como euydaua que 
lio leuesse. E lambem Bal lesar rodríguez feytor & ou- 
tros bomSs borrados irabalbauão com dom lorge Q sol^ 
lasse dom Garcia, & que se lembrasse que era hu b& 
fidalgo, & ^ fora capilâo daquela forlal<*za, & ho rece* 
bera c5 muy ta festa & prazer , & lhe fizera muylos of- 
freoimeutos: mas lodauia dom lorge bo n&o quis soltar^ 
dizendo que cie escreueria a el Rey porque botinha pre*» 
s^ E eom toda esla briga mandou neste tempo Cachil 
datoes com algQe Portugueses correr per mar a Geilolo, 
& queimarão híl lugar & sem receberê dano se tomarão 
}iera Ternate: & auSdo dezoylo dias que dom Garcia 
estaua preso, & sabendo que dÕ lorge bo não queria 
soltar, & dizia que bo auia de mandar preso <io gouer- 
Aador agastouse muy to ^ & teue eouselbo cem os. de sua 
Talia sobre o ^ Aiiia: & eles Ibe coaselbarão que deuia 
4e requerer a dom lorge i) bo soltasse que ja> deuia des- 
lar salisfeylo dalgila paixão que dele teuera , & quanda 
bo não quisesse soltar lhe mandasse dizer que ho pren» 
desse e» ferros , porque ou auia de ser bem preso ovt 
bem solto : & se lio nâo quisesse prender em ferros que 
auia a menagem por aleuantada, & se auia dir pêra sua 
casa & fazer o que lhe bS viesse. E dom lorge por ho 
seu caso não ser pêra ho prender em ferros não 1») auia 



LIVRO VIU CAPITtLD LTttl. 139 

éa prender ^ & por se nJk> soiíâr per êi sèlti êUft Iroeh^ 
ko «Mii» de BoUar: porem liooDleoeo douirà tú^néyxA^ 
pori) buUMido do lorge bo recado de dolii Garcia que Ibe 
Iduoi» bo altkayde mór, lhe ttaiidòa di^er polo feytor qu^ 
bo ni aula de soltar^ & que lhe pedia que quisesM âti«* 
ies aslar èobre eea menagem què em ferros. E nSo que^ 
reodo dd Garcia^ aconselfaarAo ft dom lorge que pois hè^ 
ai qaeria que ho prfidesse em fefrM, & ele se foy ás câ-< 
mê oiide éS Garcia estaua ^ & dahi ho léuou aa rorlale^ 
aa & ooán hfit grilhAes ho mandou meter na torre da itoe-^ 
oagft ondeateue oytò dia». O que Yéndo os de suâ vatítf 
que serião de cofSta ale eincoStH homSs , déle^lBirlàl^8e 
de ho tirar da fortaleza, dando disso conta a Cachil da- 
roes pêra que os fauofe^esSe 6oáio faUorécia : mas eles 
nâo poderão por na fortaleza auer grande goarda & vi- 
gia de noyte k de ditti E v6d^ que nflo podiSo faeer é 
\ desejauão , determinarão dê se ir pêra hu lugar forte 
donde mandassem requerer a dom lorge que soltasse 
dum Garcia, & qitando n^o quisesse Q se fiíssetn perA 
oe Castelhaoce, & que ês protvocánSo a faaerem guefM 
a dom lorgé) dl^Sdolhes quSò pòUcó poder tiffba pefá ser 
defender, fie prtmeyro Q ho posessem por obra uearâe^ 
de manbá , descobrido ho a FernSo baldava escriuSo dá 
fey teria y porqtte como era amigo de ddfòrge Uió dlriM 
logo t Sc dom Iiírge por se eles nSo irem pel^ os Cást^^ 
lhanos soltaria dd Garcia. E is(o foy discuberto a Fer'« 
Bfio baidaya por hH Castelhano desta liga () auiá nomd 
Frãciseo dío soo to que era seu amigo, fie porque Sabiá ê 
bo' era de dom lorge lhe deseobtia aquele iiégotfro. B 
sabido isto pot dom lorge ouisera logo prSder òs prin^òf* 
paia daquela conjUra^^Ao, L assí hO' dtssê á FehiSo htíU 
daya & a SimSo de vera alcayde mér ^ a que pesou dí^ 
M por serrem seus ainigos & «aturaifi^ do porto dôde eléè 
erfto & por isso disserto a dom lorge que lhe aula dd 
ser muyto trabalhoso goardar tairtos homSs qualfo otf 
cinco mesea {| aula dtfli a«i nQK>uç4ê de Matará , ft qtfé 
temia que lhe fiigisisem ^ & ^u^ éates auiãe de eêltáft éé 

8 2 



>40 OA HISTORIA l>Èí INOIA 

Garcia despois que esteuesfiein preaos, & soiCos pode» 
rião fazer b{k mao recado : que lio melhor aeria aoltat 
dõ Garcia & tirafse de perigos, & maia não seado a cau^. 
sa de sua prisam iSo obrigaíopia: &. sebristoibe derâo 
ou Iras mu^iaa rezôes pêra ho soltar que a á& loige pa^ 
tecerão bero« E cõ outros pareceres eomo estes , mao- 
dou soltar dom Garcia coro eondiíjâa que não fosse cõ« 
trele &. ho ajudasse c&tM osCasielba-nos & que ele rom- 
peria a deuassa que tinha tirada dele: & tudo isto lho 
prometeo dom Garcia, & lhe deu sua fé de ho fazer as-^ 
si, & despois forâo grades amigos & se conuersauâo col- 
ido que nQca ouuera antreles obfia discordía«^ 

C A P I T V L O LIX. 

JPs j0omo os da parle de dô Garcia trabaikauão por auer- 

imizade antrele ^ d6 lorge. 

X^esta amieade & con«iersa<jâo de dÕ lorge & d6 Gar^ 
eia pesaua muylo aos de sua valia , porque como erXa 
os mais que estauão na fortaleza & oa mais luzidos de-» 
la, & vi&o a- grande necessidade que dd lopge tinha de 
gente por- amor da guerra temiãse de dom lorge não 
querer § se fossem, & dauão por muyto certo dom Gar-» 
cia não lhos pedir se continuasse coeie a amizade ^ co-* 
xoeçauão ,, que bê vião que não era reaão que dom Gar- 
cia os pedisse em tal tenopo, mas bo desejo de ird lograi 
a fazenda que tinhâo, & ho i&teresse do que ganhauão 
em se ir não lhes deixaua vsar do que enlSdiAo. E co^ 
mo viâo que pêra se irem n&o auia melhop remédio que 
discórdia anlre dom lorge & dom Garcia tfabalhauào 
c}nãto podião pola senoear^ & dizião aos amigos de dft 
lorge que não se deuia de fiar tanto de dÕ Garcia que 
não. era tamanho seu amigo como lhe daua a entender , 
& tudo erão dissimuJaqões ate auer licença pêra leuav 
os que queria , & quâdo lha não- dedse que os auia de 
leuar por for^ , & a do»' Garcia dízião lyie viase bem 



1AVBO VrU CAFITT&O LIS. 141 

éoiiio 90 con6aiia em dom lorge que nào era seu amíge 
como* mostraua, n& aitia de comfrir coele de tbe dar ho 
tiauio pêra áe ^ir, oem^a.Ucença jierar es boinfip como Ibe 
f>rometeray & que se auía descuaar cÒa guerra que li- 
nhar pDrem Q a verdade era pêra- «e vingar deiefi por^ 
ibrAo da aua parte j por iaao que tomatge coele conoru^ 
aam miqueie negecie, & oâo esperasse pola partida quaik» 
do nio teeesse tempo pêra faser- nada : & tantas vezes 
disserão isto a dõ Garcia qoe -qeasi he creo^ & por isse 
estando hfi dia com dÕ lotge á porta da fortaleaa tlie pe^ 
•dio que lhe acabasse de dar^be oaiiio que lhe promete* 
jra pêra se ir , & liceâçar pêra os. qtie forão em ajuda de 
sua soltura: ax> que á& lorge respondeo que ainda era 
Kuyto cedo pêra falar vaíjie negocio , que quando fosse 
tempo ele seria seruido como mfldasse. Do ^ dom Gar^ 
cia foy cõtente, & falou em outra eousa^ do 4 <>* ^l® ^^^ 
•valia íicairâo mu; desconientes^ porque lhes pareceo que 
dom lorge dizia aquilo por iSporizar^ & assi ho* disserãe 
a dom Gareia, & que nào se mostrasse Ião fi^oxo oaque^ 
le caso, nem quisesse estar aa dispesiçãe de dom lorge, 
jiem se lhe acanhasse come mostrara quando lhe iaiara, 
<Q se quisesse andar aeempanhado que eles ho acompa-^ 
i>hariâo : porque veado ho dom lorge andar acompanha^' 
do ho temeria & faria quanto quisesse» O que a dom 
Garcia pareceo bem , & dali por diãte aadoo' aeompa^ 
nhado & lodos cõ suas espadas: & como dô lorge era 
seu amigo nào alfitaaa naquilo, nfi. em^ mujtas sobran^ 
carias que lhe fiísião os de dem Garcia , a i| aquilo pa«> 
ffeceo muyto mal^ & pareeiaJhee que dom lorge dissimu^ 
kua^ pêra quando Ibsse ao lem^io da partida os não deí<* 
3íar ir & vii^arise deles despoie de ido dom Garcia, & 
foT isso assenlarãe de os não deixarem estar em paz, & 
semearem aotreles lai discórdia que nunea esteuessS 
bem 4 porque doutra maneyra nfto se poderiflo ir da^la 
terjra, & dizião a dom lorge que dom Gareia daua muy- 
fos auisos aoa Castelhauue- & aos mouros . de. quàlo se or- 
denaua nàforlaleaa eontielus^ & irabalhaua quanto po» 



142 IBIA HirrOBfA 9A IKDIll 

dia 9 porque os de Ternate lhe tetieMem odfo ^ & Um fi«- 
zestS guerra: & pêra oa prouccar a»Í6sa ihea mandaam 
deitar peçonha nos poços de que i>ibião^ & mSdaua óm 
fioyie aos de sua valia que lhes enlrasaem oaa casas & 
Ihea dorniissem com aa caolberes & eoni as filhas, & co» 
mo sabião a lingoa da terra diziâlhe por ela que dom 
iorge Jho inandaua fazer« E porque isto assi passaua^ 
& os da dom Garcia, ho faziâo, vianse os oiouroa tão 
perseguidos que inuytos se yâo da cidade a morar a ou«> 
<ra parte: & diziâo mais a dom Iorge que nhOa coaaa 
dÕ Garcia desejaua taato como malalo , & destruyto 
quando ho não podesse matar: & pêra mais auerigoa«- 
rem suas m^tiras & falsos testemunhos ^ & meterem o«- 
dio antre oa da terra & dom Iorge, & ho bomiziarS cooi 
eil rey de fiachao grande amigo dos Portugueses que 
ASle tempo eslaua em. Ternate com obra de duzentos 
itomês saltarão hQa noy te no seu arrayal hQ Tristão viei- 
ra, Afonso gêtil^ Luys diaz^ & outros da parte de dom 
Garcia & matarão quatro ou cico Bacbões & ferirão 
muytos , porque como estauão em terra d«'unigos não s# 
temião de nada, & os Portugoeaes fízerão a seu saluo o 
que querião & feyto recolheranse. E ao outro dia indo 
el rey de Bachao fazer queixume daquilo a dom lorge^ 
Tristão vieira & os outros l\ ho (izeráo ho estaoão eBpe«> 
rado sobre acordo r & sabendo- dele ao íf ya disserãlhe 
que não fosse porque dom iorge iho mandara fazer, por 
isso Q não tinha remédio pêra se Ibe faser justiça. B 
pêra 4 ^1 ^^y cresse que era assi-, disserãlbe que a eau«* 
aa porque dom Iorge lhe mandara fozer aquela offeosa 
(bra por vingança doa Portugoeses que matarão em sua 
terra a dom Tristão seu irmão quando lá fora, & doa 
juQgos & craua que Lhe tomara como atras 6ca díto^. E 
el rey o cteo, & daK pbr diante não quis ir á fortaleza, 
& eateue pêra se leuantar & faaer leuãtar a terra ; mas 
quis Deos que fioy dS lojge sabedor disso & da cansa 
porque ho queria faser, & de«i4be muytas^ dtseulpas, & 
maadoa tirar, deuasaa aobrâao* «a <|ae se acbariíe' out 



pados Triflrtáo vieira & m outroa que bò fizerSo, qua 
senda anisadas fagírSo pêra bo oiale onde os não poda* 
râo tomar, pelo que dõ lorge aa nSò castigou & deu cont 
la do que pasaaoa a el rey de BaofaSo pele Q perdeo a 
sospeita que tioba de dom lorge* & tornou a sua amU 
zade como dantes. 

C A P 1 T V L O LX. 

De como dô GatrciB prêndeo dom lorge em ftrrM ^ ^ ^ 

caum porque. 

v/a ou troa da parte de dd Garcia come rírfto que ele 
achata culpados Tristão vieiía, Afonso gêtil & Loys 
diaz , pêra indinaresn dos lorge oontr a doa Garcia & 
aoa discórdia auer eifeybo: disaerãlbe que beaa via.bo 
perigo em que aqueles bonafia bo quiserSo poer , & que 
bSo bo fiaevfto se nie por mandado de dom Garcia : & 
pêra ver se era assi Q visse quão pouco caso dom Gar-» 
cia fizera disso sendo tamanho sea amigo, & que ele os 
fizera fugir & os fauofecia». E pareeenda a dom lorge (| 
aquilo aet ia assi , peta escusar paíitôes & desgostos , & 
tambesi por ser perttr do tempo da partida de dom Gar^ 
eia que era em Nouembto^ determinou de bo mandar 
pêra Taligame donde auia de partir , & que hi^ estaria 
ate que partisse , do 4- deu conta a Bahf^sar rodrtgoea 
feytor ^ & ao alcayde mór SimSo de vera & a Fernflo 
baidaya ^ tinha por amigos y que por bo serem mais de 
é& Gkacoia, ea por lhes pareeer assi' tirario dom lorge 
daquele propoeiks dizendo que seria dair caeaa a outras- 
Imiaades & odies, pelo que dõ lorge se mudeu úbI^ de* 
termina^Sow E veado seus leaigos 4. nbfila cousa daque* 
las be aluoroi^ua nem mouia peta quebrar oè dA Garcia^ 
eemeçarão de deitar fama que dÕ lorge mandaua nsaHir 
dò Garcia : &. mgindose itte assi, bfl aegro í\ne se cha^ 
»aua Miguel' nunez que dõ* lorge teoara da Índia, 8ã 
em ^ eoDÍNMia por ser bomem esforçado desoobrio em 



144 HÁ mSTòMk BA linffA 

fnuylo «egredc so feylor que dom lorge lhe tfnha niaft-* 
dado que malMse a dom Garcia, &* por lhe parecer que 
não era bem que bo fiaesse, «ae queria lançar c5 oa Caa* 
ielhanos. B parecendo islo bua couaa muj graue ao fey- 
lor quimera que Miguel nuoez ho dissera a dõ Garcia^ 
tnaa ele não quis dizSdo i\ auia medo de dom lorge : Sc 
|K>rem que JÕ Garcia podia estar seguro que eie ho não 
•matasse, mas que doutrem ho não seguraua : & ho fej- 
tor fez com Miguel nunez Q não se fosse pêra os Cas« 
leihanos nS pêra outra parte, & que dom Garcia ho le- 
uaria pêra a índia , & assí (içou. E cuydando ho feylor 
bem naquele negocio não lhe daua inuyto credito, asai 
par lhe parecer que dõ lorge não .cdmeieria hQa cousa 
tão fea, .como por saber os mexericos .& emboriihadaa 
^ue auia naquela terra antre os capitães, & por outra 
parte parecialhe que podia ser verdade, porque nos ho- 
mSs tudo ha , & que se matassem dom Garcia que ele 
leria que dar conta a Deos pois bo não auisara, & por 
este respeilo determinou de Jhe descobrir o que lhe IVli* 
guel nunez dissera, tomandolhe primeyro juramê.lo de 
não som&te dizer em nhO tempo ^ ^le lho dissera , mas 
nem dar disiso oõta a pessoa aígua & ho ter em muyte 
segredo. Ouuido isto por dom Garcia, assentou que era 
verdade, & que dÔ lorge o queria mandar matar: & des« 
pois de agardecer muyto ao feytor tão bõ auiso^ disçe^ 
lhe que não podia deixar de dar conta daquele .caso a 
algOs seus amigos, pêra que teuessem cuydado de ho 
goardar, porem que lho diria com juramêto: o que pa- 
receo bem ao feytor, & pediolbe muyto que lhe não lem* 
brasse aquilo roais , nem teuesse nhu escândalo de dpm 
lorge, que bem «poderia ser que estaria mujto innoeen* 
te , mas dom Garcia não ho fez assi , & logo deu conta 
disso a Manuel falcão, Manuel boldho, Diogo da rocha, 
Francisco pirez, & a outros (\ tinha por amigos & em 
que coníiaua, que lhe conselharão que matasse logo a 
dom lorge. E oflferecerãse pêra ho fazerem Manuel bo« 
lelho & Franciaco pirez. £ Manuel falcão não foy deste 



pTítecer^ dizendo qtie era forte cousa malar- bum capi- 
tão de hua forlaleza, que melhor aeria prêdelo & tirar 
deuassa de suaa culpas, porque alem das que tinha lhe 
poeriSo tantas que nunca se desembarai^asse delas, & 
mais sendo eles testemunhas, & com a deuassa ho mã* 
dasse dom Garcia preso aa índia, Sc que ficasse por ca« 
pitão daquela fortaleza, como ho ele era dantes. O qual 
conselho pareceo bem a dÕ Garcia , somente tornar ele 
a ser capitão, porque sabia quão trabalhosa & perigosa 
cousa era selo daqueia fortaleza , em que assentou con* 
sigo de deixar por capitão a Manuel falcão, & isto não 
Q ibo dissesse ate auer eSeito. E assentado nis^o disse 
ho dom Garcia a el rey de Bachão & a Cacbil daroes, 
pedindolhes que ho faViorecessem. E eJes lho prometerão 
& mujto alegres por auer tamanha discórdia antre ca 
Portugueses, porque por derradeyro erão seus immi^^^ 
& não lhes mostrauão amizade se não e5 necessidade , 
o que eles sempre desejatião que teuessem deles. E nes- 
te tempo mandou dom lorge a Cachii daroes que fosse 
darmada aa ilha de Maquiem , com quem forão mnytos 
dos que erão da parte de dom lorge: & dom Garcia fez 
que ticassem os da sua pêra fazer o que determinaua* 
£ vendo que era tempo ho pos em obra, & logo Fran« 
cisco.de crasto grande amigo de dom Garcia conuidou 
Simão de vera alcayde mór & outros pêra lhes dar hil 
banquete no Toloco hum lugar hDa legoa da fortaleza , 
porque se temia donri Garcia que estando estes na for-> 
taleza não lhe deixariâo prender dõ lorge sem baralha. 
E aceitado ho banquete pelo alcajde mór & pelos ou- 
tros que auião de ir coele, ao outro dia que era domin- 
go leuou os Francisco ^e crasto ao lugar onde.auia de 
ser: & como dom Garcia soube que dom hrge acabara 
de jantar, mandou a Manuel falcão, & a Diogo da ro- 
cha, une se fussem parele & fizessem que jugasse coe- 
les as tauolas, porque ocupado no jogo não entendesse 
o que lhe querião fazer. E assentados a jugar forãse lo-^ 
go aa fortaleza Manuel botelho, Tristão vieyra & Afon^ 

LIVRO VII. T 



146 4U BWnaiA BA INOIA 

80 gentil que ja erão perdoados do que ãzerfto a el rey 
de Bachão, & aasi bum Francisco pirez, loâo de figuei- 
redo, Ândres de palácios, Frâcisco do aouio, & outroa 
todos da quadrilha de dooi Garcia : & esiea yâo ja re^ 
partidos hQs pêra fecharem as portas da fortaleza & as 

f;oardareni, & outros pêra leuarem alg&s criados de dom 
orge a folgar fora da fortaleza, & os que náò pudessem 
leuar fora, que com cada hum se posassem três dos ooiH 
jurados pêra os lerem & tolherem que não acodissem a 
dom lorge : & após esles fuy do Garcia , seria ás duas 
horas despois de meo dia: & coroo não se temi&o de im- 
migos & era de dia nâo estaua ali ho porteiro , pelo ^ 
os ^ tinháo cargo de fecharem a porta tanto que dom 
Garcia sobio pêra a torre da menagem onde dom lorge 
estaua, tomarão as chaues da porta da fortaleza que es* 
tauão bi dependuradas & a fecharão & &ràose após dom 
Garcia , que despois de recebido de dd lorge se asseu^ 
lou , & vSdo como dom lorge estaua com ho sentido no 
jogo que jugaua se abraijou coele, dizendo» Estay pr«« 
80 : & logo JJUanuel falcão & outros três ou quatro ho o- 
judarâo^ ÍH, os outros se UarSo com dous criados de dom 
Jorge que néia estauão eoele mais, & teuerâiuis & tapa* 
xãlhe as bocais que não bradassem. £ dom lorge que vi^ 
a cousa como ya, comeijou de bradar. Trei^So, trei^ 
fâo : & nisto bã seu pajé teue acordo de ir repicar ho 
sino da vigia« JDom Garcia & os outros que se abraqa* 
rão com dom lorge, teuerão coele muyto trabalho em 
ho derribarem pêra lhe lançarem ferros: por^ como el^ 
de seu naturai .era muy to formoso & esforçado , & a me* 
neneoria de se ver assi tratar lhe acrecentaua ag forças 
& esforço, brace^iua & perneaua & mordia tão fortemè* 
te que quasi ho uão podião ter* £ se ele esteuera solto 
& cem armas, vvhQ daqueles ousara de ho esperar: Sç 
ele bradaua , diaendo. Tredores mataime, & naa me ía-» 
jurieis. £ com tudo como erão muytos derão foele m 
chão & deitarãibe hiia adoba de quatro elos q»e dom 
Garcia pêra isso mandara leuar seeretameiíte f & consta 



LIVIU) Vil. tÁWrttJÒ IAT. 147 

«stené dS Garcia preso quando d5 lorf^ bo prendèo. £ 
deitada a adoba apanharfino em corpo ft em alm^ 8c de-* 
rfto coele em hii sotáo da fortaleta debaixo do cbâo, 6de 
ainda ho prfiderâo a hilaa oaraaraa de bombardas. 

C A P I T O L O LXI. 

Do que pMSou dô Garcia despois de ter preso dom lorge. 

Jjalteaar rodríguez raposo feytor & oulros Portugueses 
que pousauâo fora da fortaleza, onuindo repicar ho sino 
como ho tinhão por cousa noua por ser atais horas aco- 
dirão iodes com suas armaa, & quando acharão as por- 
tas fechadas cuydando Q era ireiçSo, hus brada uão por 
escadas pêra sobirem ao muro, ootroa diziâo que que- 
brassem as portas? & era' a reuolta & arroido tamanho 
que a gente da terra saya a ver o que era. E desrpois 
que dom Oareia sayo do sotSo em que deixou dom lor^ 
ge, & ouuio repicar bo sino, & ho arroido que fáziâo os 
que estaoSo de fora, acodio ao muro a lhes falar pêra os 
assessegar, & disseihes. Senhores não vos aluoraceis & 
assessegay i\ a fortaleza be dei Rey dõ loão de Portu-» 
gal nosso senhor & por sua está & estará, que todos so* 
mos seus vassalos , &c desejamos seu serviço : & porque 
ho eu muyto desejo, & ho bem & repouso de todos, flz 
o que vos agora direy. Bem sabeis como eu era capitSo 
desta fortaleza, & a entreguey a dom lorge <]e meneseé 
por virtude de hua prouisam do gooernador da índia pê- 
ra que lha entregasse, o que eu nSo podia fazer por domf 
lorge mandar enforcar hu homem Português nas flhas 
dos Papuas , pêra o qne vAo tinha alçada nem podef 
pois ainda nte era capitAo, por nSo ser entregue da ca- 
pitania, pelo Q era obrigado á justiçai, & ate nSo ee It^ 
urar não podia ter cargo de capitania nS doulfa cousa; 
& se ho eu soubera nSo lhe Ctregara a desrta fortaleza & 
ho mandara preso á índia, f!, nâo abastou e«te crime 
que linha pomelido sedo p€S9oa priuada, se nfio despois 

T 2 



148 -BA HI0TOftIA DA ÍNDIA 

Q íoj eapítSo' V60U sempre de liraDia»^ & 16 deatrayda 
esta lerra, & andaua pêra me matar : & sabendo eu suas 
culpas pelo quedeuo ao seruiqo de Deos & delRey nos*- 
so senhor bo prendi pêra ho mãdar. á índia cofõ a de«; 
uassa de suas culpas : & não dei cota disto a todos 8 
geral por^ nãg toruasse tamanho seruiço dei Rey , & a- 
gora que be fejto volo digo* £ peço senhores wujto por 
inerce Q mo ajuders a ioster, auenUo por b8 o que te« 
nho fe^^tOy & ajudandome a goardar esta fortaleza de ^ 
me ey por ealiegue pêra dar conta dela a el Key nosso 
senhor ou ao seu gouernador da índia. E nisto chegou 
ho fey lor Baltesar rodriguez Q ya muyio agastado por 
lhe parecer que fora causa da^la reuolla , pelo {| desco- 
brira a dõ Garcia, & eatáo vio quão mao conselho teue- 
ra em lho dizer, & achauasse muyio culpado: & quâdo 
yio dom Garcia n& quis esperar Q acabasse de falar, & 
queixandoselhe do ^ tinha feylo a dõ lorge, dÍ2Íalhe ^ 
outros meos mais- honestos poderá ter a^le negocio que 
bo de Q vsara , de que lhe auia de ser tomada muy es- 
treita cota. E. dissimulando cÕ o que Baltesar rodriguea 
^izia por se não poer coele em disputa y pediolhe por 
mercê <} se fosse |)era sua casa & oulhasse pok) seruiço 
dei Rey como oulhaua a quê ele daria conta dupor^prS- 
dera dõ iorge, pelo que esperaua mercê & honrra. E 
vendo Baltesar rodriguez Q naquilo nâ auia remédio ca- 
louse : & 08 outros responderão a dom Garcia Q se fize- 
ra bê ou mal ^ ele daria conta disso & forãse, & tambê 
iSaitesar rodriguez. E em quãto dom Garcia & os outros 
andauão nisto ficou a torre da menagem só, & sintindo 
bo hu criado de dom lorge chamado Aluaro do cais !\ 
estaua doente , & assi o que era fey to a dõ lorge como 
bomê esforçado leuantouse, & metêdose na torre da me- 
nagem fechou as portas de dentro, & posto a hQa jane* 
lii começou de dizer a grSdes brados. Esta fortaleza he 
dei iley nosso senhor , & dõ lorge de roeneses ho capi- 
tão dela em !\ pes a dom Garcia anrriquez. ao Q logo a- 
codio dom Garcia, & os Q estauão coele & por escadas 



UVRO VII. OAPITVLO Utl. 149 

sobirâ ás janelas da torre & enlrando d6(ro (ornarão AU 
uaro do cais com Q derSodua janela abaixo bê espanca- 
do & arrepelado 9 & a oulro que quisera repicar ho sino 
foeráo saltar dó muro abaixo. E ainda isto não era qua- 
si fe^to quando chegou Simão de vera alcayde mór, & 
08 outros amigos de dom Jorge que forão ao banquete, 
& sabendo {[ estaua preso determinarão de ho soltar & 
todos juntos se forào á porta da fortaleza pêra a que- 
brar: & outros da parte de dom Garcia acodirflo pêra 
lho defender, & loão eacriuão patrão da ribeira, &Tbo- 
me fernàdez piloto subirão ao muro polas lanqas, & as- 
ai outros algus , & disserão a dom Garcia que acodisso 
ao ({ queria fazer Simão de vera & os outros , & come- 
çouse bQa grade reuolta porque acodio el rey de Baohãe 
com muyta gente: & posto que mostraua que era pêra 
apaciíicar, a verdade era pêra fauorecer dõ Garcia, que 
com hfla lác^a nas mãos , & bfia adarga no braijo re^reo 
a Simão de vera & aos que estauâo coele que se fos- 
sem , por!) aquele feyto não se auia de liurar por força 
darmas como eles querião, pois todos erão híts & vas- 
saloe dei Rey de Portugal , cujo seru4^ não era auen^ 
turarêse tanios homSs por bQ só, & que sem tanto dS^ 
no como eles querião fazer se apacificaria aquilo. E tam- 
b& outros que estauão de fura que não erão por dom lor- 
^e nfi por dÔ Garcia ajudarão a pacificar de 'modo que 
iimão de vera & os que estauão coele se forão pêra suas 
casas & dom Garcia ficou por capitãa da forlaleza ^ & 
assi esteu« bus dias. 



IftO xu nvrosrA lu inixa' 

• C A P I T V L O LXIL 

Do ^Jizerâo o$ amigos de dÓ lorge dapois desuaprisam^ 

JL/eata prisani de d5 lorge correo logo a Doaa pola ter* 
ra, de que a gente se espantou muyto. E sabida porCa* 
chii daroea em Maquifi, esses amigos de dom lorge (} 
estauão coele bo fiserão logo partir pêra Ternate pêra 
ho socorrerS & ajudarem« E chegados a Ternate Caobil 
daroes foy logo ver dom Garcia, de que estana muyto 
cdtBle por prender dõ lorge a quê tinha ódio & deseja-^ 
ua de ho ver fora de capitão. E SimSo de vera tâ(o que 
esta armada chegou , ajuntou logo os amigos de dò loT^ 
ge que ySo nela, & erâo por todos corenta homSs, & d* 
aerão todos cabeça de Simão de vera , a que derão sua 
fé de faserem todo ho possiuel por soltarem dom loree, 
& quando não podessem irse pêra os Castelhanos: & fa* 
ttoreciaos híi irmão dei rey ^ a«iia nome Cachif viaoo 
grande amigo de dõ lorge & immigo de Cachil daroea 
por entender suas tiranias. E praticando sobre o que a* 
uiao de fazer, determinarão de impedir hõa deuassa ^ 
dom Garcia mandaua tirar de dd lorge: porque a fora 
lhe assacarem grades males tirauão por testemunhas 
seus Tmigos, & 1} forâo em sua prisam. E Simão de ve-» 
ra fez sobrísso htl requerimento a dom Garcia , protes- 
tando não ser valiosa tal deuassa: porém dom Garcia 
não deixou de a tirar. E porque Simão de vera insistia 
que não se tirasse, aluoraçarãose os da parte de dom 
Garcia pêra ho matar, & assi ho dizião pubricamente' 
& andauão em magotes armados darmas defensiuas & 
offSsiuas, & como erão muylo mais que os de dom lor- 
ge & tinhâo por sua parte el rey de Bachão & Cachil 
daroes ãdauâo afouto como senhores do campo. O Q ven- 
do Simão de vera & seus companheiros não se teuerão 
por seguros em Ternate, & disserão a Cachil viaco que 
se querião ir pêra a terra alia onde estarião seguros, & 



LIVRO VII« pAFITVLO LXH. 151 

dali requereriSo sua justiça, & quàdo lha nSo quisessem 
fazer se irião pêra os Casíeibanos : o que pareceo bem 
a Cacbil viaoo, & foyse coeles pêra os fazer apousentar, 
porque se teaieo que ho gouernaclor daquela terra os 
nlU> quisesse receber, & partirão bua noyle secretaroeo<> 
te» E chegados a terra alta náo os quisera ho gooerna* 
dor receber por uSo ieuarfi licêça de Cacbil durões: & 
Cacbil viaco lhe diísse , ^ oode ele estaua nã era neces- 
sária licSça de Cacbil darpes, 1) sintio muyto agasalhara 
Cacbil viaco & os Portugueses sê sua licftça, & a dd 
Garcia tambeiu lhe pesou uiuyto de se ir6 pêra lá, por^ 
logo lhe começarão de fazer seus requerimentos , & assi 
fizerSo bQ a Fero botelbo capitSo do nauio em (| fora 
dom lorge de Malaca pêra Alaluco, em que lhe bimSo 
de vera requeria que se ajuntasse coele pêra soltarem 
ao seu capitão que estaua preso : ao que Pêro botelbo 
res|M)ndeo Q oâo conhecia outro capitão se n£o d^m Gar* 
cia, & que lhe não tornassem mais com tais requeri* 
mentos porque era tempo perdido, que ele náo conhecia 
por capitão a dõ lorge. É vendo Simão de vera quão 
pouco lhe aproueitauáo seus requerimentos, assentou 
Com os outros que chamassem em sua ajuda el rey de 
Tidore & Fernão dela torre, & 1) se fossem parelesquasK 
do não acabassem com dom Garcia ^ soltasse dom loi^ 
ge, & mandarfllhes dizer tudo o ^ passaua acerca da 
prisam de dÕ lorge, pedindolhes que os ajudassem & 
em parassem como pessoas virtuosas & fioderosas (\ erAo, 
^ que mandassem requerer a dom Garcia que soltasse 
dom lorge, &^ quâdo aãe quisesse Q eatãç se irião pa* 
reles, pori) por aba modo auiáo de tiear com dom Gar* 
cia nem com outro capitão. £ el rej de Tidore k Ferr 
não dela torre posto 4 tinbão guerra com os Portugue* 
ses vendo que aqueles não tinbão culpa, & que erão de- 
semparados, determinarão de os fauorecer & ajudar, & 
assi lho mandarão dizer, & logo fizerão bQ requerimen- 
to a dõ Garcia que soltasse dom lorge protestado que 
carcegassem sobrele todas as perdas & danos que daque- 



]5Í BA tftSTORfA^DÀ índia' 

Ia prisam recreeeesS, asai a el Rey de Portugal eomo à 
quaesquer outras pessoas. E quando do Garcia vio a{}le 
requerimenlo ficou tnuyto embaraçado, porque vio que 
se dÕ lorge íeuesse de sua paKe et rey de Tidore & os 
Castelhanos que lhe daria trabalho, & que lhe fariâo 
guerra & receou muyto aquela carga. E com tudo res- 
pondeo ao requeri meoto, dando as melhores rezAes !{ po- 
de por onde prendeo dom lorge : & despois disto rogou 
a Cachil daroes ({ fosso a terra alta, & com algQa dissi- 
mulação soubesse de Simão de vera & dos que estauâo 
eode se determinauSo de se ír6 pêra os Castelhanos por- 
que isto receaua muyto, & os segurasse quSto podesse. 
O que Cachil daroes fez logo, & chegado a eles disse-^ 
lhes que nâo sabia por(| se forSo da fortaleza, porque 
doin Garcia não lhes tiraua officios , ííè ordenados , nem 
soldos: antes desejaua de lhos dar dobrados, & lhe pesa- 
ua muyto de se irê. Ao que Simão de vera respondeo 
que nflo querião nada de dÕ Garcia sem soltar dom lor- 
ge: &c que soubesse certo ^ se auíão dir pêra os Caste- 
lhanos, & ele daria conta dos males que sucedessem. E 
estando nestas praticas chegou hua armada dos Caste« 
Hianos que mandaua Fernão dela torre S fauor de Simão 
de vera, & dos outros: que por Cachil daroes ali estar 
fizerão que ya pêra os leuar & fizerão mostra de se que- 
rerem embarcar. E quãdo ele vio tanta conrrusam , pe- 
dio a Simão de vera que não fizesse fiada de si ate não 
ir falar com dom Garcia, de i\ sabia certo ^ auia de sol- 
tar dõ lorge antes de se partir pêra Malaca, & {} ele lho 
faria fazer logo! & Simão de vera disse (\ por amor de- 
le esperaria, porem que se dom Garcia nào soliaua dom 
lorge que logo se auia dir. 



LIVRO VII. CA1PITVL0 LXIII. Iô3' 

C A P I T V L O LXIIL 

De como dó Garcia soltou dó lorge de meneses, 

Cabendo dom Garcia per Cachil daroes a delermina- 
ção de Simão de vera & de seus companheiros (emeo 
muito sua ida pêra os Castelhanos, porQ lhe auiílo logo 
de fazer guerra eles & el rey de Tidore , & el rey de 
Geilolo. E estando a fortaleza de guerra não se podia 
partir como queria, & deixaia a Manuel falcão, [X)rQ su- 
cedendo algu desastre seHa sua a culpa, & por isso se 
mudou do propósito que tinha de leuar dÕ lorge preso & 
deixar por capitão a Manuel falcão, & quis antes soltar 
dÕ lorge & tornarlhe sua capitania, & assi ho mandou 
dizer a Simão de vera por Cachil daroes , & Q se fosse 
]ogo pêra a fortaleza com os outros. E ele não quis, di- 
zendo que não se auiá dir se nSo despois de dõ lorge 
solto. E dali por diante se enlendeo em ho cõcertarft 
com dõ Garcia no {} se passarão algQs dias : & por der- 
radeiro se assentou que dÕ Garcia soltasse dÕ lorge Sc 
lhe deixasse sua capitania, & l\ dom lorge lhe auia de 
dar ho nauio de Pêro botelho pêra sua embarcação, & 
auia de deixar ir Pêro botelho com quantos estauão no 
nauio, & auia de dar licSça pêra se irS com dõ Garcia 
todos os í\ erão da sua parte sem lhes embargar suas fa- 
zendas nS fazer nhfl impidimSlo pêra !\ não se fossem^ 
& assi se auião de romper todos os requerimentos <} erão 
feytos de parte a parte &, deuassas Q erã tiradas, & Q 
isto auião de jurar dõ lorge & dõ Garcia em solene ju* 
ranVento. E despois de dõ Garcia ido peraTaiãgame cá 
todos os !\ auião dir coele, viria Simão de vera & os ou- 
tros & sdtarião dõ lorge : & assi foy feyto, & dom Gar- 
cia mandou diante seu fato, & dos que yão coele, :& pri* 
meyro que se partisse da.fortaleza mSdou Soraparia ar- 
telharia da fortaleza porS lhe nã tirassS coela: fip ele i4o 
ètrarão Simão de vera* & seus coropanheíroa & soilo/ãa 

LIVRO VIU u 



dõ lorje com muyto prazer, mas do lorge que bo nSo 
tinha anles eslaua muylo seolido de dÕ Garcia pela of- 
fensa que lhe fízera, mandou logo ao ouuidor que fizes- 
se aulofi de ludo o que fhe doro Garcia fizera & assi ti- 
rou eslormSlos de como no tempo que esteuera preso 9e 
apoderarão os Caslelhaúos da ilha de Maquiem por aâo 
auer quem lha defendesse , no que el Rey de Portugal 
recebera mujla perda por auer nela muyto crauo, & 
mandou logo fazer hQ requerimento a Peru bolelho que 
se fosse pêra a fortaleza por^ tinba muyla necessidade 
do seu Diauio por amor da gtkerra dosCaslelhanos, & ao» 
brislo toroou a auer outra reqotta ^ue dom Garcia dizia 
que dd lorge Ibe tinha dado' aquele oauio pêra sua em* 
harcaçao : & ouue muytos reqMerimStos de parte a par- 
te , & por fim de tudo se fuy do Garcia no nauio & Pe- 
PO bvtelho coele contra vontade de dom lorge, qtte;mâ- 
dou fazer auto de sua desobediência auendo bo por ale* 
uâtado, & isst quãtos yao com dom Garcia, & tirou es- 
toroientos de como lht*s dera a licença por força , & a 
necesipidade em que ficaua de gente : & coestes síuísob- 
& es-ioru) entoa, & com eartas ))era bo capilâu de IVIaJa'^ 
oa, mandou iogo a .hQ Vicente dafonseca que partio pe^ 
i^ IVlalaoa apoa dd Garcia, & ass^i mandaua lambfi pe* 
diff socorro de geate» 

C A P I T V JL O XXIIIK 

Í)e c^mo çns nmuros de Lôgú nruUarâo Muares dê brito. ^ 

jlN este ano de mil & cccecxxvii. estaado lofge cabral 
por ca[>i(âo de Malaca , malarât os mouros da cidade da 
L3gú certos; poríUígueses aem nhSa cai^a , Sc lorge ca« 
brai jdaatkdoo iá-a vingar estas mortes a bft Akiaro d^ 
brito. oapiAau 'de hGUt galé em que leuaria setenta Portu^ 
gúéséa qUe iodos coele! (orão tniacto^ pelos mouros de L5- 
gúj&L lomaiâo a gale. £ aufid^ quicrze dias que a Boua 



LlVnO vil, CATITTLO LXV. 1 66 

deste dano era em MaIbca chegou hi de Banâa Mariim 
cotrea , a q\ie lor^e cabrai por bò ter por bÒ caualeyro 
deu a capitania mór de hfia armada que mSdou a Lõgú 
a vingar aquelas oflTensaSy & por não sabqr parlicular- 
mfite como Marltm correa as vingou digo em soma que 
queymou Longú matando primeyro muytos mouros, & 
tornado a tomar a gale que tomarão a Aluaro cie brito 
se tornou a Malaca, & por ele soube lorge cabral como 
a sua partida de Maluco ainda lá não era dom lorge de 
meneses, & a necessidade grandíssima de gente & de 
mantimentos em que fícaua dÕ Garcia ârriquez por amor 
da guerra t\ tinha cò os mouros & cÕ os Castelhanos l[ 
ficauSo em Tidore. O que sabido por lorge cabral fez 
logo prestes ho socorro cò que partio na Strada do la^ 
neyro seguTte bQ fidalgo chamado Gõçalo goroez dazeue^ 
do () foy por capitão mór de bda armada de dous nauios 
de gauea, & há bargStí, & hõ jQgo em (\ forão cê Por- 
tugueses & muytas munições , & dous mil cruzados de 
roupa. 

C A P I T V L O LXV, 

Do qfez Lopo vaz de sam Papo despois que foy julgado 

por ffouemador. 

J~lo gouernàdor Lopo vaz de samPayo que ficou fiCo- 
chi despois de partidas as nãos da carregfa para Portu^ 
gal, despachou dom loão deça que fosse tomar posse dà 
sua capitania da fortaleza de Cananor, & porque tinha 
por certeza que auia muytos paraós de Malabares de 
Calicut por toda aquela costa ÍJ fazião muytò mal aos a|- 
migos dos Portugueses, rogou a dom loão deça que a*r 
qucle pedaço de verão ÍJ auia atè ho inuernò goardassfe 
aquela costa com bua armada que lhe daria: do que ele 
foy contente por seruir el Rey, & ho governador Ihfe 
deu hQa galé em que andasse & dezaseys catures & hai^ 
gantis que ho acompanhassem, a cujos capitães não soií- 
be os nomes. E partido dom Iodo deça a goardar a eoi^ 

u 2 



166 1>A HISTORIA DA ÍNDIA- 

(a do Malabar 9 enleodeo ho gouernador em mandar fa- 
zer a fortaleza a çunda Q sabia (} não era feytapor Fran- 
cisco de sá nuo poder mais: & por esta fortaleza impor- 
tar rouyto ao serui<;o dei Rey de Portugal, porque de- 
fenderia aos Castelhanos que não fossem lá se quises- 
sem ir buscar pimenta desejaua ele de se fazer, & pêra 
isso escoiheo a Marlim Afonso de melo jusarle que era 
seu parente & bo conhecia por esforijado: & quãdo o 
cometeo coeste cargo ele ho nS quis aceitar, dizendo 
que Francisco de sá aueria por injuria querer outrem 
fazer o que ele não fizera, & por isso não auia daceitar 
tal cargo. £ bo gouernador lhe disse que as cousas do 
seruiçp dei Rey, nã auia ninguém dauer por injuria fa- 
zelas outrem se ele as não pode fazer, & () el Key não 
era obrigado a goardar essas preheminencias a ninguém, 
se não seruirse de quem fosse sua vontade pois todos 
erão seus vassalos, &. que ja se seruira de Francisco de 
gá & então se serueria dele. E com tudo Martim afon- 
so não quis aceitar aquela capitânia, n6 a aceitara se 
ho gouernador lhe não fizera sobrisso grandes requeri- 
mentos , & ainda então a aceitou com dizer que faria o 
,que Ibe Francisco de sá mandasse se ho achasse em Ma- 
laca. Aceitada esta ida por Martim afonso, por ho go- 
uernador & ele se temerem que sabendo a gente onde 
ya não auia de querer ir pelo Q la acontecera a Frãcis- 
CO de sá, deitarão fama que JVlartim afonso auia dir fa- 
zer presas aa costa de Tanaqarim , & de caminho auia 
dinuernar em Paleacate, pelo que se ajuntarão quatro- 
-cenlos homSs que ho gouernador queria mãdar nesta ar- 
mada que foy de noue velas grossas & de remo, de cu- 
jos capitães não soube os nomes salua de três , de Tho- 
roe pirez capitão do nauio em que ya Martim afonso, 
.de Duarte mendez de Vasconcelos capitão de hQa galeo- 
ta, deloão coeUio capitão dQ bargantim, & ho gouerna- 
dor mandou a Martim afonso que fosse |:x)r Ceilão & so- 
corresse a el rey a quem fazia guerra Patimarcar capi- 
tão mór dOa armada dei rey de Calicul: & Martim a- 



LIVRO Vil, CAPITVLO LXVI. 157 

foDSo ho fez assi. £ chegado a GeilSo nSo achou Pale- 
inarcar, que sabSdo que ele ya lhe ouue lainanbo me- 
do que fugio, & ficado èl rey de Ceilão liure desta guer- 
ra , foyse Marti afoMO a Calecare híi grande lugar na 
costa cujo senhor tinha a pescaria do aljôfar como con- 
tey atras, & porque se temia dos mouros de Calicut fez 
paz com Martim afonso com condição que pagasse ho 
tributo que seu antecessor pagaua, & que ho gouerna- 
dor da índia lhe mandaáse dar goarda quando fosse a 
pescaria, & daqui se foy a Paleacateondeauiadinuernar. 

CAPITVLO LXVI. 

De como dam loâo deça desbaratou ^ prendeo China' 

culiále. 

» 

JL/om loão deça capitão de Cananor que andaua goar- 
dado a costa com a armada que disse, andou por ela to- 
do aquele pedaço de verão, em que fez muyto dano aos 
mouros de Calicut que yão pêra Cambaya com pimen- 
ta, & em diuersos dias tomou corenla & oyto velas an- 
tre zambucos & paraós & os mais deles pelejando em 
que matou muytos mouros: & não contSle coeste dano 
que lhes fazia sayo hu dia em Mangalor onde sabia Q 
eslauão certos paraós de Calicut que lhe fugirão & quei- 
mou ho lugar : & porque ho nã pude saber particular- 
mente ho digo assi ensoma, & também hua batalha que 
ouue no cabo do verão comChinacutiale hu valete mou- 
ro & muy sabedor da guerra que era capitão mór de 
sessSla paraós dei rey de Calicut, & cuydando de tomar 
dom loão sayo a pelejar coele, & com quanto leuaua ta- 
manha armada & gente muy grossa a respeito dos Por- 
tugueses foy desbaratado & morta & ferida muyta de 
sua gente , & ele foy ferido de duas cutiladas pelo ros- 
to, & de duas espingardadas per biia perna , & assi se 
deitou ao mar cuydando descapar por ho seu paraó ser 
entrado pelos Portugueses) & assi foy tomado. £ auida 



168 BA HfSTOBIA DA INOIA 

esta vitoria qoe foj rouyto grade por ser ja bo cabo do 
Terão se recoíheo dom loão a Gananor, & mandou paro- 
le da armada pêra Gocbim , & ho gouernador lhe fez 
mercê de Chínacutiale que eu vi em seu poder, & por 
quem ouue grande resgate. 

C A P I T V L O LXVII. 

De como Pêro de faria par tio pêra Malaca ^ ^ Simão 

de sousa galuão pêra Maluco. 

Xlistando ainda ho gouernador em Cochim por lhe pa- 
recer assi seruiço dei Rey rogou a Pêro de faria que fos- 
se seruir a capitania de Malaca pois era sua : do que 
se ele quisera escusar por Malaca ser muylo doStia, & 
assi ho disse ao gouernador, dizSdo que antes queria íi- 
oar em Goa pois também era sua, que era muyto sadia, 
& por derradeyro cõsentio em ir a Malaca por compra<- 
2er ao gouernador que desejaua de tirar de lá lorge cai- 
brai l\ eslaua da mão de Pêro mazcarenhas. E querSdo 
lambem ho gouernador prouer a capitania de Maluco & 
tirala a dõ lorge de meneses deuha a hu fidalgo chama- 
do Simão de sousa galuão de f\ faley atras , & isto por 
ser pessoa de grade confiança & em que tinha fi)uytô 
credito, & a capitania mór do mar & alcay daria mór da 
fortaleza deu a outro fidalgo chamado dom António dè 
craslo, & a feytoria a outro fidalgo chamado António 
caldeira, & a capitania de bQa galé em {| Simão de sou* 
sa auia dir a lorge dabreu que fora ao preste c5 d5 Ro- 
drigo de lima, & deulhe setenta homSs, & em Malaca 
lhe auia Pêro de faria de dar trinta pêra fazerem cento, 
& des|X)is partirão ele & Pêro de faria pêra Malaca enfl 
Abril de mil & quinhentos & vintoyto, & primeyro se 
partio bo gouernador pêra Goa Õde auia dinuernar, & 
da hi mãdou por capitão da fortaleza Dormuz hu fidalgo 
chamado Cbristouão de mendo<;a que a tinha por el Rey 
dom loâo de Portugal, & mandou coele Raix xarafo que 



LIVRO YII. CAPITVLO hXVlIU 1*69 

era líure por seotêqa do licenceado loão de soiro ouui* 
dor geral ^ & que fosse seruir bo seu goaziUdo Dormuz. 
E chegado Cristouào de Diendoça a Ormuz foy entre- 
gue da capitania por Diogo de luelo que era capitão* 

CAPITVLO LXVIII. 

Das presas que António de miranda capitão tnór do mar 
fez no estreito j ^ do mais que sucedeo. 

Jl artido de Goa António de miranda dazeuedo capitSo 
mór do mar seguio sua rota pêra ho cabo deGoardàfum 
Õde chegou despois de passada hua grande tormenta, & 
ali repartio sua armada em três escoadrões apartados btta 
dos outros, porQ as nãos dos mouros que passassem não 
lhe podessem escapar, & andando esperandoas apartou>- 
se Anrrique de macedo com têpo da conserua Dantonio 
de miraordà: & andando apartado alamar, bii dia pola 
manhaã topou com h& galeão grande de rumes feyto co>* 
mo os nossos, & como os rumes erão rouytos &yàobeD» 
apercebidos de guerra sayrào ao encontro dos Portugue-^ 
ses tirandoliie muytas bom b€ifdadas,& aperceberão muy- 
tos armados de sayas de malbá & corceletes, & era fer- 
mosa gente & muyta. E co tudo Anrrique de macedo 
08 ndo duuidou & abairroou coeies, & começarão hÚB 
te culros de pelejar brauamète sobre entrarB hús os ou-- 
tros , & sendo ho v6to calma que ftcou de lufadas arre* 
Inessarão os inimigos hfia lá^ de fogo ao galeão Portu*^ 
guês, & pegoulhe no artiinão que ardeo donde .com hika 
lufada de \Clo se aacodio, & lornou a cair no dos Imi- 
gos ainda acesa & pegoulhe bo fogo, & por amor do fo^ 
go que se pegou nos galeões cessou a peleja , & acodi- 
fão hQs & outros ao apagar, & os Portugueses cortarfto 
logo a abairroa: & desapegados dos Imigos apagarão ho 
fogo & liuraranse dele, o que os inimigos não poderão 
fazer ao seu & ardeo todo com muytos deles, & algus 
poucos se lâqarão ao mar q^ue íbrão mortos & catiuos c& 



ICO 0A HISTOflIA 30A ÍNDIA 

ajuda doutros Portug^ueses de dous galeões da frola ^ 
ah forflo ter. E por ser acabada a mouçSo das presas 
forãse lodos estes (res capitães aCaxê hda vila de mou- 
ros na costa Darabia , Õde per mSdado Danlonío de mi- 
rada se auiSo dajQlar despois de fejtas as presas, & hi 
ho acharão c5 vite velas de mouros que tomarão ele & 
os outros , & erSo oyto nãos grossas & doze terrádas, & 
marruazes () sam mais pequenos que nãos : & por ele 
ser certificado que ainda auião de passar certas nãos de 
mouros pêra ho estreito tornouse a esperalas deixando 
em Caxem Ruy pereyra que era quadrilheiro mor pêra 
vender parte da fazêda que se tomnra aos mouros, & 
porem as nãos não passarão & vendo Q nãopassauSofoy- 
se a Adem que estaua de paz cõ Portugal , onde achou 
Ruy pereyra ^ tinha recado dos regedores da cidade 
que el rey não estaua nela , & (} os rumes (ízerão hi ai- 
gQ dano. C despois da morte de colei mão raix se forão 
a Camarão esses que escaparão. E sobresta noua leue 
António de mirada conselho se iria a Camarão pelejar' 
com os rumes: & foy acordado que não por^ era passa* 
da a mouf^ão, mas que mãdasse lá hQ calur a saber no- 
nas deles {) por ser pequeno poderia passar, & foy nele 
ho piloto mór, & por lhe ho vSto ser contrairo não pode 
surdir auante & tornouse, & no caminho tomou dous 
marruazes, & dos mouros soube que es rumes que esta-* 
uâo em Camapão serião três mil & quinhStos homSs. B 
esta noua deu a António de miranda: que Dad6 se foy 
a Zeila pêra dar nela, & achouha despejada & queimou 
ha,,&:di4:i^e foy a Mazcate: & deixando hi a frota, & 
pôr capi^Q ibór dela António da situa foy inuernar a 
Ormuz. 



LlVJtO VU* CAPITVLO hXÍX. 161 

CAPITVLO LXIX. 

« 

De como farão aUitios de mouros Diogo de mezquita ^ 

outros^ 

Xnuernando Anlonio de miranda dazeuedo em Ormus 
vêdeose a fazSda das nao8 que tomou cm que se fizerâo 
sessenta mil cruzados: & a Vinte dons Dagosto se par* 
tio pêra a ponta de Diu onde atiia de fazer outras pre- 
sas. £ chegado la achou ainda ho mar ISo grosso qua 
fao comia, & por isto arribou a Chaul fazendo sinal aa 
frota que arribasse, & todos arribarSo saluo António da 
sílua & A firriQ.de macedo que poderão sofrer ho pairo: 
& arribiiiido António de miranda sobreueolhe bfl tempo- 
ral de vento por dauante com que Lopo de mezq-uí ta ca- 
pitão do çamorim peQ4io arribou pêra Diu« E andando 
ainda os mares feytos desta toruoada topouse com bUa 
nao de mouros de Diu que serião duz&tos , todos bem 
armados, & os Portugueses serião ate trinta, & arriba- 
rão sobre a fiao com quanto fao tempo era forte & ho 
mar andaua grosso , & abahroarãna , & em a ferrado sal- 
tou Lopo de mezquita nela com boa parle dos seua Sc 
começarão de pelejar c3 os immigos com muyto -esfor- 
ço, & neste conflito desfaziãse a oao & ho galeão polaa 
grandes pancadas () se dauão com a grandíssima maru- 
lhada que fazia & ambos estauão abertos & fazião muy- 
ta agoa, & ouuerãse de perder se não quebrara a abalr- 
roa, & cada ht) foy pêra seu oabo -ficando Lopo de mee- 
quira com 08 que digo na nao: & não podendo os do . 
galeão tornar a tomar a nao com a forlidão do tSpo ar- 
ribarão por esse mar por se não perderem. E Lopo de 
mezquita & os outros que ficauão na nao vendo que sua 
saluação despois de nosso senhor era ho bÔ pelejar, pe- 
lejarão tão esforçadamente que matarão a major parte 
dos mouros, & os outros se derão de muyto feridos, & 
postos em recado acodirão os Portugueses á nao que se ; 

LIVRO VII. X ! 



162 OA HISTORIA DA INBIA 

ya ao fQdo com a muyta agoa que fazia: o que vSdo 
X^opo de mezquila apanhou todo ho dinheiro que achou 
jiela, & mandou a Diogo de mezquita seu irmão que se 
inelesse no batel , & assi dezaseys outros , porque n£o 
podendo a nao escapar ae saluasse com ho dinheiro, & 
porem não deixou de trabalhar por esgotar a nao. E ven- 
do os que eslauão no batel com Diogo de mesquita que 
não se podia vencer a agoa ^ a nao fazia , neai com as 
bombas, nem com baldes, desesperarão de se poder sal- 
uar , & porque se os que estauão nela se quisessem a- 
colher ao batel se alagaria por ser pequeno, acolherâse 
antes que isto acontecesse sê Diogo de mezquita lhes 
fK>der resistir antes ho leuarâo por força. C indo cami- 
nho de Chaul toparão com a armada de Diu & forão ca* 
tiuos, & leuados a Diu : donde os leuarâo a el rey de 
Cãbaya !\ folgou muyto coeles por os ter por muyto es* 
forçados & sabedores na guerra, principalmente a Dio- 
go de mezquita^ a que comeleo que se tornasse mouro^ 
oATrecendolbe por isso grades honrras & mercês : 8& nâo 
-qucrèdo ser mouro ho atentou cõ grades lormentos ate 
lio meter na boca de húa bombarda ceuada pêra despa- 
rarem coele. £ ete como fiel Chrislão & verdadèyro a* 
migo àe nosso senhor, sofreo tudo com costancia gran* 
<iis8ima, dizendo sempre Q lhe fizessem quanto quises- 
sem , que não auia de deixar a ley de Deos verdadeyra 
pola seyla de Mafamede que era mentira. E vendo oa 
-outros catiuos seu esforço também nâo quiserão ser mou- 
ros. E el rey deCambaya esi^antado da costãcta de Dio- 
go de mizquila ho mâdou prSder, & a ele & aos outros 
mãdou dar cruel catiueiro, E Lopo de mezquita i\ ficou 
na nao, pos tanta diligencia com ajuda de i>osso senhor 
que vepceo a agoa, & escapado a nao foy ter a Chaui 
^de achou António de miranda, & do dinheiro que se 
fe2 da fazenda desta nao forão pagas as parte» que se 
deutão aos da armada , & os sessenta mil cruzados fica« 
rão forros pêra el Rey. 



/ 



LITUO Tlf. CÁMTVLO LXX, 161 

C A P I T V L O LXX. 

De como Haiixá capitão da armada de Diu pelejou c6 
Antrifiue de macedo^ ^ de comofoy morto Antónia 
da '^ 



xjLnrriqoe de macedo que fii^ou á p8(a de Diu passada 
a tormenta com j) os outros arribarão acalmou bo ven- 
to: & estando em catmaria derJío coele as fustas de Dia 
que erão trinta & três, & Sdaua por seu capitão mór hfl: 
valente mouro chamado Haiixá, que vSdo ho galeão da- 
quela maneyra cercou ho em redondo , & mãdoulfae dar 
bateria, & os Portugueses começarão também de jugar 
eoro sua artelharia , & começouse hfl brauo jogo prlci*^ 
palmente da parte dos mouros que tirauão todos ao lume 
dagoa por as fustas serem rasteiras , 86 fizerãlhes tantos 
rombos que não aproueitauão bombas n8 baldes pêra ve- 
dar a multidão dagoa Q entraua, & foy necessário atu- 
pirfise os buracos cÒ colchões & colchas , & andauão od 
nossos tão cansados que quasi não auía quem podesse 
trabalhar, & se os nosso senhor não socorrera não po(]e«> 
TÍk> escapar, porque ainda que neste tempo sobreueor 
vento ho galeão não podia b8 nauegar por ter quebrados- 
os mastos & as vergas espedaçadas, & as velas rntas. E 
nisto chegou António da siiua capitão do galeão reya 
magos () vinha ao tS do estrSdo das bõbardadas, & che« 
gando a tiro de berço do «çamorim mandou dar fogo « 
sua artelheria , & mais auante começarão as trombetas 
de tanger, dizendo. Alegraíuos, alegraíuos que aquf 
sam os três reys magos. E ouuindo òs mouros as tr&be-» 
tas , cuydarão () era o capitão mór ^ safoião {| chegara 
k ponta de Diu , mas não que se fora, & cuydando que 
▼inha com toda sua armada , fugirão todos com medo & 
deixarão Haiixá só, que também fugío por derradeiro. 
E sospeitando António da silua a causa da fugida dos 
immigos, seguios ás boro bardadas, & Haiixá lhe teue 

X 2 



164 m HISTORIA DA ÍNDIA 

hQ pouco ho rosto também ás bombardadas, & nisto deu 
nele hQ pelouro de bombarda perdido & maloubo, cd 
que o8 seus ficarSo tão desacoroçoados Q nã quíserâo 
mais seguir os Imigos , & tornarãse pêra onde 6caiia 
Anrrique de roacedo: & Halixá vendo os assi tornar 
Guydou que era maniia pêra ho colherê, & por isso não 
quis ir após eles, mas foyse fugindo, que se os seguira, 
nem eles nem os do çamorim escaparão. £ chegados a 
AnrriQ de macedo forâse todos a Chaul,. & dahi pêra 
Goa com ho capitão mór que chegou la na fim de Sele- 
bxo,. & deu coola da passado ao gouernador^ 

C A P I T V L O LXXL 

Dt como Chriêiouão de mêdoça capitão Dormuz mâdou 
por terra António tenreyro a Portugal c6 recado a d 
Rey. 

JL Teste (empa desejado ChrislouSo de mendoça eapitao- 
Dormuz de mSdar a el Rcy de Portugal certeza de co* 
mo os rumes não passaufio aa índia ^ & auisos de muy*' 
ias cousas que comprião a seu serui^o , asai em Ormue 
con»o na índia escolheo- pêra leuar por terra este reca^ 
ào a hu Aníonio tenrrejTo natural de Coimbra Q eslaua 
em. Ormuz, & fora com Baltesar pessoa ao Xeque is* 
mael ,. donde indo caminho de lerusaiem Cby preso poo 
turcos cuydando qAie fosse espia. E leuado ao Cayro foy 
soko, & querendose dali tornar a Portugal se foy a Chi- 
pre, donde por hú acontecimento mudou seu caminha 
& iornouse aa Indin , & de Chipre atrauessou ho d^^sor- 
1o & foy ter a Baçora & dahi a Ormuz : & por(|. tinha 
ejKperiencia deste caminho, & sabia^ a Hngoa Persiana, 
& por ser homem desprito & esforçado ho escolheo pêra 
fazer este caminho, & mais por n&o achar outrem, por- 
que por ho perigo do caminho ho receauAo todos, & di»- 
zendolhe ChristouSo de roendoça quanto esta ida impor^- 
taua ao seri^so dei Rey de Portugal. Ele polo seruix a 



Vllr CAFITVLO LX«. >6a 

aceitou debóa vòtade, & dádolbe ChrisloúSo deiuêiio- 
ça muyto pouc» ajuda pêra aua; despesa, & aigQas car^ 
taa de credito pêra onde \k» foasein neceasairias ue par- 
iio Dormuz pêra a cidade de Baçora a vinte de SeleiU'* 
bro do aoDo de mU & qi>ÍBhêlos & vintoyto , & foy por 
mai: ate esta cklade, q4ie he em Arábia no eabo do siúo 
pefsico tríiita &. tanta» legeas pelo rio eoirates acima, 
& po8 neste caminho, corenta dias pof os vSlos ^ achoQ 
contvairos : & nesta cidade se deteue vinte dias em so 
despachar porque a cafiJa que ya pêra Damasco onde 
ete esperaua dir era partida, & ho Xeque dacidade não 
lhe queria dar guia pêra atrauessar ho deserto que ya 
de Ba<;orá ate Alepo, dizendo que não acbaua quem se 
arriscasse a tamanha perigo como era irê duas pessoas 
no mais j porQ as alimárias os comeriâo : & mais que 
Bunca euue pessoa ^ passasse ho deserto sem ir em ca* 
fila y & parecia que ho Xeque de ho dar por morto se 
fosse no mais que com a guia , auia dó dele & não lhe 
queria dar auiamfito pêra se ir^ £ com tudo nunca Ao* 
tonio tenrreyro desistio^ de ir. E vendo ho Xeque sua 
perfia^ muyto espfltado de seu esfor^^^ & louuandoiho 
muyto : lhe deu h& piloto 4 ho guiasse , porque naque* 
le caminho regSse poios veutos como no mar por nfio a« 
uer bi estradas nê pouoados saiuo dous castelos dalar;- 
«es; E António tenrreyro & b^ pílpto se partirão ua eiv> 
trada de Nouembro ás duaa boraii djes|)ois de mea noy« 
te» porque não fossem vistos^ & ya.cada hú em seu dor* 
medario que andão de viuie ci«uo legoas ate t^riuta a»- 
Ire dia & noy te, & n2o comfi mais de h&a quarta de fa* 
rmba b&a v«z no dia & bebd de quinze em quinze dias^ 
& nestea k^uauão seu mãtimeto de lamacasy biscouto, 
farinhas^ manteiga. Vaca cozida & agua. £ partidos de 
Bafora ti«arSo por seu camiuho a dia^e por aq^uele es<* 
pantoso deserto por õde ná auiào mais ^ alittiarias bra«> 
uas. s» vsso», tigr<^, lides & kibos: & aiasiaiiâse quãto 
podião donde podia auer alarui^s (<{). andào p^r aíjle de* 
serVo em a4uai^es) porqiie os náo toubassepi q sam graor 



16S BA fftnomiA DA inuta 

des ladrSea, 8c assi caminharâa viMè dous dias sem hqih 
ea receberA afronta dai|laa alimárias aalao doag veze» 
que 08 quiaerão cometer doua liõe» a que eseaparSo po-* 
k> g^raade andar doa dormedarioa: & outra vez de ma-^ 
drugada correndo a rédea soKa. B tão amedrontadoa fo^ 
rSo oa dormedarios que eorreráo duaa legoas , & deata 
corrida ae eatrepou ho dormedario Danionio tenrreyro 
em bQa mâo , & ficou tão manco 2|^ Ihea foy forçado do-» 
terSie aeys diaa, no que pasaarSa muyto grande traba-# 
lho, & tambt em não acharem em todo este tempo a-' 
goa maia l\ qoatro ott cinco vezea em que padecerão 
grade sede, & ainda eala ^ achaoâo era amargos. E tor-^ 
nando ao caminho despois do dormedario ser são, no 
cabo destes vinte dous dias chegarão a hfla pequena vi-^ 
la casteiada^Ss cercada de muro de taipas grossas pouoa* 
da dalarues mouros, por nacer air h&a grande fonte quo 
lhe regaua suas sementeiras , & auia palmeyras de ta^^ 
maras^ & aqui se meteo António tenrreyro em bfia ca* 
ília que estaua de caminho pêra a cidade Dalepo no ca-^ 
bo deste deserto: & ho seu piloto se tornou pera^Baço^^ 
ra : & neste mesmo dia foy dormir a cáfila a outra for«* 
ialeza, & dali a corenta legoas sairão do deserto & .en« 
Irarão na comarca da cidade Dalepo cerôada de muro te 
pouoada de mouros do senhorio do turco, & aqui se ti* 
rou António têrreyro da cáfila ^ auia de passar ate ii 
cidade de Damasco: & tirado se fey a casa du Venezia-* 
no mercador de muyto grosso 8& rico trato que ali fazid 
aua abi tacão ^ & em que a geníte da terra tinha grande 
credito^ & ohameuasse Mrcer andre, a quê leuaua car*^ 
tas de Christooão de mSdoça pêra lhe dar auiamentò 
pêra aeu caminho &- não ho achou que era em Costãtí'^ 
nopia a ct|amado do- turco, & por ser inuerno & auer 
muyto* grandes neuea qae ninguém eaminbaua esperou 
aqui A ntofiio tenrreyrcf cincoehta dias & no cabo se me** 
íéo em hOa ca^la que ya pêra a cidade de Tripoli de 
soria tudo senhorio do Tál-co, & daqui se embarcou & 
foy ler aa ilha de Chipre , & deapois de passar assaz éé 



LIVMk mu CAPITYLO hXXlU 167 

irabalho em muyto grandes tonnenUs em que se vio, 
(oj ter a Itatia, dSde tonou seu caminho por terra pêra 
Portugal õde chegou a aaluaroenlo, & deu a el Rey as 
cartas Q leuaua , & foy muy graode espftto sua ida por 
ser ho primeyro Português que fez aquele caminho por 
terra ^ & ho primeyro homem que bo fez só oõ b& pilo- 
to^ & que mostrou a el Rey que por berra lhe podia ir 
recado da índia ê Iree jneses ou menoa, porque oâo gas- 
tou eie mais no tBpo em que caminhou, bem que fez 
Diais detença poios impedimentos que lhe socederão» 

C A P I T V L O LXXII. 

Do que piusou Oonçalo gomez daxeuedo com dom Gor- 
da anrriqz na tlha de Báda^ 

;XjLtras fica dito gook) kwrge eabral mãdou socorrer Ma- 
luco por GÕçalo gomez daseuedo i\ partio de Malaca na 
entrada de* laneyro «lo an&o de mi) & quinhentos & vin- 
•toylo, & chegou a Banda onde achou d6 Garcia aorrt- 
qoez ^ auia poucoque chegara de Maluco, & tiaba fey- 
la Jiija tranqueyra onde pousaua^ &Goa9alo gomez tam^ 
1j6 mandou fazer outra, & nisto chegou Vicente dafon*- 
seca com as cartas de dom lorge de meiieses & lautos 
^ue mandara fazer de dõ Garcia , & ootttou a Gonqalo 
gomez tudo o que dom Garcia fizera a dom lorge , re- 
queremlolhe secretatndte que ho prendesse & a quantos 
yão code & que lhe tomawe ho nouio, & quanto aa 
prisam de dom Garcia '& dos outros respondeo Oõçato 
g;omez que ho não podia faízer, mas (} Ibe tomaria bo na- 
uio .quando fosse tempo. •£ vendo Vicente dafonseca is- 
to quistra mâdar a Malaca as cartas fc papeis que leua- 
ua de dom lorge p^r algfts Portugueses que auiãodir pê- 
ra laa , & como sabiio* Q era contra dom Garcia , que 
tambS auia dir dÍo ouue ninguém q ue os quisesse ieii ar, 
pelo que os não midou & tornou a dO lorge como direy 
a diante* B.vendo^idoai Garcia ViceiUe dafonseca, que 



168 9A HIBrORIA DA 1NWA 

sabia {| era grande aeruldor & amigo de dom forge lògò 
•ospeitou a que auia de «er aua vinda, & por isao ae eo- 
fneçou de recear que Gonçalo gomez ho prendesse , íc 
tnais porque tanto que Vicente dafonseca chegou, Ma« 
nuel falcão que pousaua cóm dom Garcia tendo a mes-* 
«na 808peíta<ie Vicente da-fonseca que ele linha, se pas* 
sou logo pêra .a tranqueira de Gonçalo gomez, pareçS- 
<lolhe que fazia a vontade a dom lorge, porque espera- 
ua de tornar pêra Maluco <x)m Gonçalo gomez a (} con- 
tou -o que dom Garcia fizera a dd lorge, conselhandolhe 
que bo prendesse por isso, & que lhe tomasse ho nauio 
em Q ya, & Gonçalo gomez dissimulauá, & Manuel fal* 
cSo começou de deitar fama que Gonçalo gomez auia 
de prender ilÕ Garcia pelo que fizera a dom Jorge , & 
algus seus amigos o começarão dauisar disso, & (\ lhe 
auia de tomar ho nauio em que ya por isso que posease 
cobro nele : o que não quis fa^oer porque ihe parecia ím- 
{)08siuel tomarêlho por Jeuar crauo pêra el Rey fjc da 
j>rÍ8am nã se temia porque sabia a verdade por espias 
que trazia cõ Gonçalo gomez, que linha assentado con^ 
sigo de lhe tomar ho nauio quAdo se ouuesse de partir 
& não ho disse a ninguém ppr não ser de^uberto: & 
quãdo SC ouue de partir pcra Maluco se foy pôr terra 
«spedir de dom Garcia que sayo coele ate a praya Õde 
se embarcou nos bateis , & alargado de terra se foy de- 
rey to ao nauio em que dom Garcia ya ^ auia nome caya* 
do, & entfto ho deu dom Garcia por tomado & creo o ^ 
lhe iinhão dito. E entrado GÕçalo gomez no nauio to- 
mou ho pêra leuar a Maluco, & sabendo que dõ Garcia 
tinha as velas na trãqueira mãdoulhas pedir, desculpã- 
jdose de tomar ho nauio, porque ho fazia a requeriraen- 
io de dÔ lorge de meneses capitão de Maluco de cuja 
jurdição era aquela terra, & por dõ Garcia as nã querer 
4lar lhe tomou bo seu junge em que leuaua mais de qua- 
torze mil cruzados, pelo que dÕ Garcia mandou logo as 
veias & hjl recado a Gonçalo gomez per Manuel lobo, 
estranhandolbe o Q lhe fazia. St por ele mandou hSia car- 



LIWO iril^ CAPITITLO tXíStf. . 1^9 

ta de crenqa ao mestre & condestabre do nauio, & a ou« 
tros em que coníiaua que fizessem o que lhe Manuel lo- 
bo dissesse, que foy que quando se partissem fizessem 
ée afodò què dessem avela derradeyrp de todps pêra 
ficarem na traseira , & ainda entSo ãzessem qu,^ se. em- 
baraçauâo, porque entre tanto iria dõ Garcia com gen- 
te & tomaria fao nauio , porque Gonçalo gomez por ibe 
bo vSto ventar a popa nâo lhe auia de poder acodir*^ & 
assi ho tomaria. E eles disserâoque ho fariSo: & ida 
Manuel lobo deu Gonçab gomez a capitania do nauio a 
Ruy fígueira capitão doutro nauio, cuja capitania deii 
a Manuel falcSo. Isto feyto foise ao seu nauio & fezse 
á vela, & 08 outros capiíSes coele saluo Ruy figueira, 
cujo mestre por comprir o Q prometera a dom Garcia 
fez. que se embaraçaua ao dar da vela, pelo c) todos os 
outros ja nauegauão quãdo ele deu á sua, & ainda fez 
tomar ho nauio por dauante , que era ho sinal a que dd 
Garcia auia dacodir, que acodio logo em paraós cõ muy* 
ta gente, E Ruy figueira que entêdeo a ruindade ca* 
peou a Gonçalo gomez que eslaua vendo ho embaraço 
do nauio i & vendo Gonçalo gomez 9 gente que ya do 
terra pêra ho nauio & ho capear de Ruy figueira, en« 
tendeo logo o que era, & mandou tirar ás bombardâda« 
a dom Garcia, o. que fez também Manuel falcão : &\co« 
mo Manuel lobo ya na diãteira matoulhe h8a bombarr 
dada dous remeiros , & a ele quebroulhe hiia perna ; .0 
que. vendo dõ Garcia desesperou dauer o nauio &{tor« 
nouse, &.Ruy figueira seguio sua via a (Xms ,Gonça)oi g(H 
n^z que partio na fim DabriJ. , . .. ? 1 



't 






UVRO VII. 



170 DJL HliTOftIA DÁ IKmA 

C A P I T V L o LXXIII. 



y 



De como Aharo de saya vedra tomou húa gákotm cm 
Portugueses ^ catíuou muytos dos que yáo nelom 

Jjim quanto isto passaua eataua dom lorge em grSde 
aperto, porque sabendo Fernão de la lorre & oa reja de 
Tidore & de Geiloio quSo escorcbado dom Garcia ho 
áeixara asei de gSte como de munições de guerra , de» 
terminarão de Iba fazer maia apertada qoe dantes, prin- 
cipalmfite el rey de GeiJolo que trabalhaua quanto podia 
por ganhar todo bo Morro , que deaejaua muyta de aer 
aenbor dele, & por lhe oa Castelbaooa prometerem de 
lho fazerem aqer foy ele da soa parte & os ajudaua : & 
como trazia ali sempre grossa armada pêra esta conquis^ 
tá tolhia leuarêse mantimentos a Ternate , tomado oi 
nauios que oa leuauâo, o que era causa de auer grâdé 
fome na fortafeza. E estando a cousa neste estado, che-^ 

Sou a Ti<k>re hft nauio de Castelhanos, & por capitSo 
fi Aluaro de saja redra que partira da noua espanhá 
por mandado do gooernador dela por capi(áo mór de trei 
nauios S socorro dos Castelhanos que estauão em Tido* 
re & deus desaparecerão bo caminho, que segundo se 
despoís soube se perderão: & Aluaro de saya vedra nãd 
pos mais na viagem de três meses por amor das grades 
corrfites que ho mar faz da noua espanha pêra ae ilhaa 
de Maluco , & poios vStos que sam sempre a popa. B 
estes nauios mandou ho gouernador da noua espanha por 
grandes conjeituras que auia que dali se podia nauegar 
pêra as ilhas de Maluco. E quando os Castelhanos virão 
Aluaro de saya vedra , & souberão donde ya , & a bre- 
ue viagem que fizera ficarão rauyto ledos & esforçados 
contra os Portugueses, esperado que da noua espanha 
lhe iria sempre socorro, a que os Portugueses nã po- 
dessem resistir & lhes tomarião a fortaleza , & os mou- 
ros seus amigos também tinhão grande contStamento 



LIVRO Til. cAPrrvLO Lxxiir. 171 

coesta noaa: & determinarão logo el rey de Tidore & 
el rey de Geilolo de ir6 tomar a ilha de Moutel cujos 
Sangajea erão da obediScia dei rey de Ternate, & muy- 
to amigos dos Portugueses* B sabendo os Sangajes este 
apercebimSto ho mandarão logo dizer aCachii daroes & 
a dom lorge pedindo a ambos que os socorressem : & 
Gachil daroes apercebeo sua armada em Q se embarcou : 
& dom lorge mandou Fernão baldaya na galeota noua (( 
fizera , & deulhe trinta & tãtos Portugueses que fossem 
Coele, & mandoalbe que andasse da ilha de Moutel pê- 
ra a de MaquíS, & que âsesse a mais crua guerra que 
podesse aos immigos. E sabendo Fernão dela torre este 
socorro que ya aos Sangajes de Moutel, mâdou logo Al* 
uaro de saya ?edra por capitão doutra galeola que fixe* 
ra noua , & deuibe corSta Castelhanos. E partido pêra 
Moutel topouse cõ Fernão baldaya a quatro de Mayo* 
E como erão ambos vaiStes caualeyros em se vedo fize- 
rão remar btt cÔtra o outro desparãdo essa artelharia ^ 
leúauã & desaparelhando as galeotas com as bõbardadas 
se aferrarão 9 & pelejarão bH bõ pedaço mui brauamõto 
sem se poderS entrar: & neste tSpò foy morto Fernão 
baldaya c5 outros oyto. E como os Portugueses ficarão 
sem capitão, & por estarê muytos feridos não se pode- 
rão inais defender coroho esfor^ primeyro, pelo ^ os 
Castelhanos os entrarão & os fizerão rSder, & os.catiua* 
rão, & lhes tomarão a galeota, morrfido porS cinco dô* 
fes & feridos os mais. U tomada a galeota, Aluaro de 
saya vedra a leaou a Fernã dela torre ^ estaua na ci- 
dade de Tidore , 8c entrou c5 grade festa , Sc foy recer 
bido cft outra mayor & os Castelhanos & mouros ficarão 
tão soberbos eoesta vitoria 2} se derão por senhores da 
fortaleza , flde foy grade tristeza pola tomada da galeo- 
ta & catiueíro dos Portugueses, porí} não ficauão nela 
mais decincoêta & Cacbil daroes não quis mais andar 
en^ Moutel aufidos^ por muyto injuriado de ácõtecer a|}le 
desastre aos Portugueses* andando ele em sua cdpanhia': 
tf» deiíãdasua armada S/Moulel t(M'npU8e pêra If ernateu 

Y 2 



17S ' Sà' SBBTOftlA DA IMDIA ' 

C À P I T V L o LXXIIII. 
como OóçaJo gamex dazeuedo chegou a ilha de Tematêé 



E' 
estando^ dõ lorge muylo agastado pola tomada àe^ 

ta gaieota, & p>r Ibe nâo ficare mat» de cincoenla Por^ 
tugueses pêra defeader a forialeaa^ & por não ter oiâti* 
mentos chegou Vicête dafonseca a oyto de Majo^Sc 
deuliie noua do grande socorro Q trazia Gõçalo gomes {| 
não tardaria. E cÒ fao prazer desta noua náo sintio dõ 
iorge náo querer ninguê leuar a Malaca os papeis í) Vi- 
cote dafonseca leuaua, & logo se espalhou a noua do so- 
corro Q vinha aos Portugueses. E oa Castelhanos cuy* 
dado <) sSpre auiâo de vêcer fizerão prestes Aluaro de 
aaya vedra pêra ir esperar GÕ^Io gomez ao caminho âç 
toroalo com quantos yâo coele^ & leuou duas galeotas ât 
ku bargantim, & a armada dei rey de Tidove. £ ele par- 
tido chegou Gõçalo gomez á ilha de tíacbão^ õde se via 
cõ el rey & soube dele ho estado em Q eutaua a forlale- 
za , & deixou coele Manuel ialcSo ^ por^ como sabia a 
imizade ^ auia atrele & dõ lorga quãdo ae partira de 
Ternate nã ho quíb lá leuar ate aft saber xsomo .d& lorr 
ge estaua coele k soldalos se fosse necessário. E parti» 
do dali seguio sua rota pêra Ternate cÕ Ioda sua arma» 
da, & topou no caminha a dos Caatelbanos de ^ aufide 
irista mãdou embanderrar a sua em sinal dalegria por(| 
•nfl cuydassem !^ oa temião: porem Akiaro de aaya ve- 
dra não ousou de cometer GrSçalo gomez Q passou por 
ele mudando tanger suas trõbetas como ^ os saluana, & 
dali foy «urgir no porte de Talaogame, & dabi á forta^ 
kza onde foy recebido cõ muyla festa : & dõ iorge lhe 
entregou logo a alcaydaria mór da fortaleza, & a capí^ 
tania mór db mar por bua prouisam (| leuaua ào gones* 
nador da índia. E sabSdo Gõçalo gomez ho dano ^ dõ 
Iorge tinha recebido da guerra , conselht ulhe ^ traba^ 
ihasae por fazer paz cõ Fernão dela torce : &' dè lorge 



lhe disse ^ a oâ auia de fazer se nâ cÕ sua hÕrra , & 
ainda por^ Ibe a ele parecia b3 fazela ^ &e fora por ele 
Dão a ouuera de cometer. £ auido seguro pêra mãdar 
hti Aiessageiro a Fernão de la torre ihe mandou dizer por 
iorge go térrea hu caualeiro^ Q ele sempre desejara de 
ter paz cÕ os castelbauos, assi por serê christãos, como 
por vassalos do Sperador ^ estaua tão liado cÕ el rey de 
Portugal por parèteseo & amizade : & Q se ateli não fa- 
kira na paz fora por^ não cuydasse Q ho fazia por ne- 
cessidade mas agora Q «abia Q não era por isso pois lhe 
era vido tamanho socorro como era notório, lhe pedia ^ 
fizesfi paz, & não fosse causa dauer guerra anlre Chri^ 
êtãos:.£ deu a Iorge goterrez esles apontaoiêlos com que 
auia de fazer a paz. 

u Que d& Iorge era cõlSte de fazer paz coele & cò 
08 reys deTidore & de Geilolo por amor dele : & lhe da* 
ria Paulo hii caaielhano ^ fora caiiuo do tempo de dõ 
Garcia: & Q Fernão dela torre Ibe auia de dar todos oa 
portugueses {| forão catiuos na galeota & lhe auia de lor-* 
Bar ametade da ilha de Maquifi H^ tinhao tomada & era 
da obediência dei rey de Ternate: & ihe auia de jurar 
^ não auia dajudar os rejs de Tidore & de Geilolo ^ se 
quisessem guerra coele. E i) 00 portugueses & casteiha'- 
nos {| se paasassC dOa parte pêra a outra não sendo por 
casos crimes^ ^« os dessem a seus caf itães, & assi os es- 
erauos ^qaie Aigisaem t & que Cacbil daroes & el rey de 
Bachâo não fariáo maia guerra aos reys de Tidore & de 
Geilolo: & quando Fernão de la lerre não quisesse a 
paz eoestaa cõdições que lhe fizesse sobrisso hfl reque^ 
rimenio cÕ protestac^ão ^ ele fosse obrigado a todas as 
perdas & danos Q recrecessem dai-la gueira, assi a el Rey 
de Portugal como ao £mperador. Lei»ado este recado de 
éÒ Iorge & apõtamCtos daa pazes a Fernão de la torre 
em todíos cõeedeo ae não na restiluiçã dametade da ilha 
de Ma^ui& dizèdo Qi era do Emperador. £ respÕdSdo ao 
requerimêto ^ lhe fez Iorge goterrez; fioou a guerra ca-^ 
mo daotea. . 



174 HA HISTORIA Oá. ÍNDIA 

C A P I T V L 'O LXXV. 



« * 



De €omo dom Icrge de meneia àr Fernão de la torre 
mandarão pedir socorro kú á ttuíia ^ outro á noua 
espanha. 

eodo dfl lorge ^ Fernio de la torra n2o quBría a pax 
c5 a« cÕdições \ ele apSlaua nSo a quis : posto (} foy c5* 
(ra ho parecer de GSçalo gomex & doutros Q forSo coe* 
le, Q dizião que deuía daceilar a paz sS se .dar .ameta* 
de da ilha de Maquift, -mas dom lorge não quis porQ lhe 
parecia aquilo cou^rdia : & v&do ^ nSo fazia a paz^ & 
que a guerra auia dir em erecimSto; & enteadédo em 
Gõçalo gomez ^uao pouco ho auia dajudar a ela quis mã- 
dar pedir socorro a Malaca & á índia assi de gente co« 
mo de fazenda pêra a feyloria Q ja nã auia nhfla por.se 
gastar toda como chegou , & mais pêra mâdar por Si* 
mão de vera que queria mandar em hít nauio os autos 
& eslormõtos ^ tirara de dÕ Garcia pêra ho fazer pren* 
der antes ^ se fosse pêra Portugal , & determinou que 
fosse no nauio cayado ^ éstaua carregado de crauo. E 
dadas as cartas em <} escreuia ao capitão de Malaca & 
ao gouernador da índia quanto acontecera despçis de 
ser capitão da fortaleza, partiose Simão de vera no nar 
uio que digo. E chegado á ilha de Mindanaoipy morto 
com quantos leuaua poios da terra.que lhe tomarão ho 
nauioy ou se perdeo por^ nOca mais pareceo, & assi não 
ouue efieyto o ^ dd> lorge queria. E sahSdo .Fernão de 
la torre como dõ lorge mahd^ra Simão de vera a pedir 
\socorro a Malaca &.á índia sobre lho Gòçalo gomez Je- 
uar tão bÕ oreo q queria destruir de todo os Ca^telha?- 
nos, &• pêra tãbõ ter gSte com 2} se de/endesse^ acordou 
«cõ conselho de mãdar pedir socorro aa noua espanha, e^ 
creuendo ao gouernador dela o ^ passaua , & t\ alem da 
gSte dar mas lhe mãdasse^officiaes pêra ffizer hQa foctu- 
leza de ^ tinha necessidade grãdissima por jnãoter eoi 



-.••»«r 



LITBO nu CA PITTtO LXXV. 175 

^ se recolhesse. E coesle recado nadou Aluaro de saya 
fedrâ no nauio em (| fora, & pêra credito da tomada da 
galeota dos Portugueses leuou alg&s dos ^ forSo oeia ca* 
tiuos & forSo Fernão romeiro patrXo da ribeira, lacome 
ribeiro comitre, & h& escríufio pubrico dlt fortaleza: & 
assi outros Jous Portugueses Q se passarão pêra os Cas* 
telbauos, & pedílrão Q os mandasse cÕ Aluaro de saya 
tedra , hQ auia nome Simão de brito patalim , & outro 
Bernaldim cordeiro* E partido Aluaro de saya vedra a 
qualorze de lunho pêra a noua espanha, estando surto 
no porto de hQa ilha Q se chama Hamey c6to & selen-^ 
ta iegoas de Tidore, determinou Simã de brito cÕ Fer* 
não romeiro de queimarem ho nauio , por{) Aluaro de 
saya Vedra não fosse pedir ho socorro , & não achando 
fnaneyra pêra isso furtarão ho batel & aualro escrauos 
A ho remassem , & tornarãse todos pêra Ternate , & cõ 
rartarS este batel pdserão Aluaro de saya vedra em con^ 
di^ão úe não ir por diãte pornã' ter batel com Q se ser- 
wsse : & todauia foy , mas achou logo ho vento por da- 
naste, & por tãtos dias que lhe pareceu ^ era ali geral 
h por isso se tomou pêra Tidore onde foy ter em No* 
uembro* E Simão de brito & os outros Portugueses ^ 
fugirão no batel forão dilha em llhá sofrendo muyto má 
vida de fome & de trabalho ate que forão ter antre hQas 
iilias onde se deixarão ficar três de cansados fc os tree 
seguirão auante ate a ilha de Garmelim do senhorio dei 
rey de Tidore , onde sendo conhecidos por Portugueses 
forão presos por amor da guerra que sabião que el rey 
linha coeles a qu6 logo forão mandados : tu conhecSde 
os Fernão dela torre Q yão com' Aluaro de saya vedrá 
tene deles má sospeita ^ pelo Q oe mãdou neter a tor* 
mSto èu confessarão a verdade. È por esta tretçã madoo 
Fernão dela torre degolar Simão de brito & enforcar 
Fernão romeiro Ic ho outro ficou eátiuo.-Edespois dts^ 
to se tornou a falar na paz, mas não se tomou nbfla 
concrusaai por Fernão dela torce não querer alargar a 
metade da ílha^ de Maquiem : do ^ dom lorge andaua 



176 DÁ HfSTOHIA DA mDIA 

Hiuylo agastado, & mais por^ quisera ir destruir a ch- 
dade de Tidore, & Gõçalo gomez nunca ho quis ajudar 
nem quis mandar os Portugueses que forSo coele^ & dK 
sia {) não fora a Maluco se não pêra fazer crauo , pelo 
Q (odos lhe querião b6 & nSo faziSo caso de úò lorge se 
não dele, nê dõ lorge n£o ousaua de mandar os Q forte 
coele de modo qiie ficaua súbdito de Gonçalo gomez com 
quem não ousaua de bolir por não amotinar a gfile & 
Irabalhaua fiola leuar por bem. E Gonçalo gomez cÕ ver- 
gonha foy sobre a ilha de MaquiS pêra tomar os lugares 
^ forão dei rej de Ternate, & foy coele Cacbil daroes 
mas cnfadouse logo & tornouse sem fazer nada, nS quis 
mais sair de Ternate se não quando se foy, & por não 
ter rezão de ir darmada alargou a alcaydnria mór & a 
capitania mór a dom lorge & todo seu feyto era fazw 
crauo; & dom lorge deu estes ofiicios a Lionel de lima 
que cuydou que ho fizesse melÍK)r !\ Gonçalo gom^z , & 
mandoulhe pagar date mão hQ anno dordenado, mas ele 
ho fez tão mal, Sc valedhe a dõ lorge que os Caslelhanos 
CÕ medo da gente que sabiSo que estaua na fortaleza fa« 
zião a guerra mais branda, & tinbãomuytas vezes tre goas; 

CA P I T V L O LXXVI. ! 

m 

De como Marltní afonso de melo jtisarte se perdeo na 

cosia de Bengala. 

'Xcuernando Martim afonso de melo jusarle em Palea* 
cate rompeose na índia ho segredo de sua ida a çundal^ 
& algus amigos dos (| leuaua na armada lhes escreuerão 
•verdade donde auião dir: Sc estes derâo a noua a outros^ 
de modo que foy sabido pelos da armada do %)ue se rouyr 
tos escãdatizarão poios enganarem , & bus fugirão pot 
não irem a çunda, & outros se conjurarão pêra queimar 
rem os nauios da frota tão danados estauão, & hua.noyv 
te lhes poserão ho fogo, & se nã fora acodiribe Mart! «^ 
íoQso muy asinha & apagar ho fogo cÕ muyta diligencM 



LTVIO Til. CAPITVLô LXXVt. 177 

éles forSo queimados, & por mais deuassas que tirou pe« 
ra saber quem ho fizera nunca ho pode saber, mas sou-- 
be de muytos que estauão pêra fugir por n<^o irê coele 
& estes mandou prender, & aos que erao fugidos tomou 
as fazendas. C passado bo inuerno com notuyto trabalho 
destas amotinações partiose, & porque soube que antre 
Bõgala & Pegu andauão certas fustas de rumes fazendo 
presas, surgio em bua ilha- chamada Ncgamele defronte 
da cidade Darracão a esperar as fustas i\ auião ali dir 
ter: & estando surto sobreueolhe tamanho temporal de 
veto que não podendo bo nauio sofrer a amarra seleuott 
& arribou, & os outros capitães também arribarão, & 
flão podendo ler coele se apartarão de sua conserua, & 
despois de cessar a tormenta se achou só, & determi* 
nou de tornar á ilha donde se aleuantara pêra ver se a* 
4)haua hi os outros capitães : & nauegãdo per antre hOas 
ilhas deu ho nauio em hQ baixo onde ficou, & porque a 
gente não pelejasse sobre tomar a barquinha do nauio 
pêra se saluarS hQs & outros não, mandou a hu fidalgo 
chamado André de sousa que se metesse nela, & não 
consentisse que ningu^^m entrasse dentro, & pêra se sal-* 
uar a gente toda mandou muyio depressa fazer jangadas 
«dalgds paos das obras mortas do nauio & darcas , esfor- 
çando a gente que «todos se «aluarião. E estando nesta 
•ocupação seria a mea noyie quando ho nauio adernou , 
.& tÕbouse todo pêra hQa parte, que lhe não ficauão de&^ 
cubertos mais queos «castelos. E como isto foy supito & 
de noyte ouuerãse de perder quantos estauão dentro 
' mas acolherâse aos castelos & ali ficarão, & as janga- 
das que eslaufto começadas se perderão, & eles ficarão 
molhados & quasi despidos pêra se deitarem ao mar cuy* 
' âãdo que não tinbão outra saluação: o c| vedo Martim 
afonso os deieue & chamado André dje sousa que che- 
gasse á popa do nauio se roeteo na barquinha leuando 
diante a Tbome pirez que era ho senhorio dele , & des- 
. pois se meterão outros que Alartim af5so chamou por 
seuA nomes, & não ficarão mais que seys Portugueses & 

LIVRO VII» z 



178 Dá historia BA ÍNDIA 

08 egcrauos , que pediSo chorando que os lomasseni ^ 8c 
era piedade ouuilos : mas por ser de noyte & Mariim a- 
fonso temer que se ço^obrasse a barquinha com ho peso 
da gente não os quis tomar ^ promelendolbes com jura- 
mento de tornar por eles tanlo que posesse os outros 
em terra , que por nSo caberem & temer que çoçobras- 
sem os não tomaua, & eles disserão que assi ho espera- 
uão nele. E Martim afonso, se foy caminho da terra 
que seria donde eslaua bo nauio como de Lisboa a Al* 
mada, onde chegou sendo ainda de nojte, & bo rolo do 
inar era tamanho & tão bruuo que fazia muy grande es* 
carceo, & por isso não ousou Martim afonso de se che- 
gar a terra, & mandou fora dous marinheiros pêra ve- 
rem se era praya ou penedia, & estes não tornarão mais, 
& parecõdo a Martim afonso ^ se afogariâo não quis 
que saysãe mais ninguém, 8c tornou ao nauio pelos Pois 
tugueses que lá ficauão por ver que caberião na barqui- 
nha, & não quis tomar nbS escrauo porque não çoc^o- 
brasse. E tomados os Portugueses tornouse a terra onde 
deitara os marinheiros, & não os achando nem sinal de- 
les teueos por perdidos. E com quanto este desastre era 
tamanho, & estauão em muyto grande perigo assi no 
mar como na terra ^ não sabiâo, naò faleceo a Mariim 
afonso esforço : & mostrando grande coração lhes disse. 
£m tamanha desauentura como he perder a faaenda, & 
a vida 6car em tamanho risco como parece que está a 
nossa a principal cousa. que nos ha de consolar, ha de 
ser termos por certo Q ho merecemos por nossos pecca- 
dos , porque rouyto menos se sento ho mal que vem a 
homem por sua culpa que aquele ^ padece sem ela, & 
que este que nos sobreueo não he tanto como merece- 
mos a nosso senhor : que como pay piadoso vsando de 
Buíi misericórdia inliniia nos deu este leue castigo, por- 
que se ho dera conforme a nossas culpas oade se perdeo 
ho nauio acabarão nossas vidas, & por nao perdermos as 
almas que lhe tanto custarão deuemos de crer que aos 
deixou coelas , & mais que assi como nos harou de ia- 



LIVRO Vir. CAPITVLO LXXTÍf. Í79' 

nlanbo perigo nos ba dacabar de liurar de iodo ate ooS' 
poer em aaiuo, por isso meus companheiros vos peço 
■Quyio que creais isto como ho eu creo, & que espereis 
em D0880 senbor como eu espero que nos ha de leuar a 
saluamento , & que esta esperança vos esforce pêra não 
sintirdes trabalho, fome, sede & outras fadigas que a- 
uemos de passar ale termos remédio com que tornemos' 
aa índia, & que vamos agora ao longo da costa pêra 
ver se achamos os nossos nauios on algus deies em que 
nos embarquemos^ & quando não iremos ate Arracão, 
oujo senbor he amigo dos Portugueses & dali nos iremos 
aa índia. O que pareceo bem a todos, & se mostrarão 
muy to esforçados pêra ho seguirem. 

C A P I T O L O LXXVII. 

Do$ grandes perigos ip trabalhos que passarão Marfim 
Afonso ^ os outros ate chegarem a Arrojc&o. 

XIj sem leuarem nhHa cousa que comer mais que hum 
pouco de bizcoito, & sem agoa nauegarao dous dias ao 
logo de terra sem comer nbua cousa , porque por amor 
da agoa que não tinhão nâio ousauão de prouar ho bíz* 
coito, nem ousaua Martim afonso de mandar a terra 
buscar agoa porque n^o via sinal de a auer nem ya na 
companhia quem soubesse a terra pêra a buscar, & mais 
não vião nhua poúoação. E indo assi nesta afronta ta-' 
manha virão hua aidea , com que todos forão muy to le^ 
dos parecendolheg q«e ati terião remédio dngoa, & Mar« 
ttm afonso mãdoo deitar em terra hum fidalgo- ehamader 
Francisco dacunha que agora mora no Algarue , & a 
\mm Fialho dalcunha ^ pêra que soubessem dos morado-» 
res daqaela aldeã se lhe dariao agoa , & quão longe es^ 
taua do mar. E como Francisco da cunha & ho fialho 
chegarão aa aldeã ajuntarãse bem corenta bomSs & to^ 
majido 06 antre si os leuarSo por força noais pêra Jio aer^ 
tòo &.oa prendeião, & os que ficauão na barquinha bens 

z 2 



180 PA HISTORIA DA ÍNDIA 

08 virSo leuar mas dSo conhecerão como os leuauSo, & 
ouyJarão que lhes yão moslrar algQa agoa. £ estando 
esperando por eles sobreueo hfl venlo por dauante com 
que ho mar se começou dencarapelar; & receando os 
Portugueses algOa tormõla, & também enfadados da má 
vida tomarão dali achaque pêra dizerem aMarlim afon* 
80 que desembarcassem ali^ o que lhe não pareceo bem 
ao menos ale não tornarem Francisco da cunlia & ho 
Fialho ) nem lhe parecia bem desembarcarem, porque 
como os da terra os vissem desarmados lerião coração 
pêra os matarem por amor de os roubarem , & que fa- 
fião isto sem receo, porque como não nauegauão não li* 
nhão que perder, & que auendo de desembarcar melhor 
seria em Arracão como tinha dito, porque ho senhor de- 
la como nauegaua & tinha que perder não lhes auia de 
fazer nhii mnl com temor das nossas armadas, & por is- 
to seria melhor irS lá. E Marli m afonso não dizia isto 
se não pêra ver se topaua algus dos seus nauios que tão 
inal lhe parecia desembarcar em hum cabo como no ou- 
%ro. Mas como isto não parecia assi a todos, disserão 
muylos que deuião de desembarcar ali porque não (e- 
tiauão mantimSlos, & auia dous dias que não comião, 
& yão sessenta & quatro pessoas cõ que a barquinha ya 
metida no fundo, & que se alagaria com qualquer ma- 
rulho, por isso que ho mais seguro era desembarcar ali. 
£ nisto apertarão tanto que Martim afonso disse que 
desembarcassem, & porem que ho fazia muyto contra 
sua vontade^ & que não era capitão, nem era nada, que 
se ho fora não desembarcara, & que não podia ser que 
de cinco nauios q^ue se dele apartarão não achassem al- 
gum em qae se saluassem por escusarem destar á eop* 
iesia dos mouros, & que entre tãto bem se poderião sos* 
ter na barquinha, & quando a tormenta fosse tamanha 
então desembarcarião. £ ouufndo isto André de sonsa ^ 
Gonçalo vaz de meio, Nuno fernãdez freyre & outros 
dous todos grandes amigos de Martim afonso disserão , 
que ele era seu capitão & ho auia de ser, & que se po* 



LIVRO VII. CAPITYLO LXXVII. 181 

êesBe aquilo em conselho, & saberião se era pêra fazer 
ou não. E posto fezse o que Marlim afonso dizia: & 
passando grande espaço que Francisco da cunha & ho 
Dalbo não tornauâo disse que ali verião todos que gen« 
te era aquela, & quão bom seria desembarcarem. E 
sem roais esperar se parlio, porque como não tinha ar- 
mas não ousou de sair a saber o que lhes acontecera, 
& estes fugirão despois & forâsé aa índia. E indo Mar- 
fim afonso ao longo de terra com ho mar bonança virão 
hum ribeiro que se metia no mar, com que derão muy- 
tas graças a nosso senhor , & por Q ali não parecia po- 
uoação segurouse Martim afonso & mandou a Diogo pi^ 
rez deça, & Nuno fernandez freyre, & a outros dous que 
fossem encher dagoa bCla jarra martabana que leuaria 
dous almudes. E estado tomando agoa acertarão doua 
homens da terra de chegar ao ribeiro com hQa panela 
darroz cozido que ainda leuauão quente, & Nuno fer- 
nandez lho comprou & leuou a com a agoa a Marlim a- 
fonso : & querendo ele partir ho arroz por todos lhe pe- 
dirão que ho comesse soo, porque pêra todos não era na* 
da & pêra ete soo seria algQa cousa , & não quis se não 
partilo & a cada hum coube hum bocado. E porque na 
agoa era necessária grande prouisam se fartarão ali de- 
la , & leuarão a jarra chea, & por lhes durar molhaua 
Martim afonso a ponta dum lenço nagoa & dauao a chu- 
par a cada pessoa certas vezea no dia , & bo outro tem* 
po tinhâo na boca hum pelouro despingarda pêra não a- 
uerem sede » & comião algds bocados de bizcoito pêra 
ae sosterem. E coesia adieta tão trabalhosa nauegarSo 
cinco dias sostendo os nosso senhor milagrosamente, & 
no cabo deles chegarão aa barra Darracão* 



IBi 1>A HISTORIA BA IlfDfÁ 

C A P I T O L O LXXVIII. 

De como Martim afonso foy leuado com os outros per 
kãs pescadores aa cidade de çuquiriá. 



E 



como a Marti iD afonto lhe pesasse mu; to deseStre* 
gar aos mouros, porque sabia quão desleais & falsos 
sam , Irabalbaua por buscar todos os modos que podia 
pêra não se enlregar* E porque sentia nos mais dos Por- 
tugueses enfadamSlo de tanta má vida nS ousou de lhe 
dizer o {} temia dos mouros porI| nSo cuydassem Q ele 
não queria desembarcar se não trazelos na barquinha^ 
& J\ desesperados fizessem algum desatino, & por issa 
dissimulou coeles, dízendolhes que antes que se fosseoi' 
pêra Ar ração fossem ver a híis ilheos que ali estauão 
perto se por ventura estarifto hi algOs dos seus nauiosy 
& quãdo não algii fato se fossem perdidos, que ho mar 
ali lançasse, & despois se iriâo pêra Arracão« E con- 
sentindo que fossem mandou remar pêra lá, & começa- 
do datrauessar acalmou ho vento & ho mar ficou caua-t 
do, & era tão vanzeiro que metia a barquinha no fundo 
com a agoa que lhe entraua que vazauão com hum ca-* 
pacete & com hQa bacinica que leuauão, & aqui se vi-» 
rão de todo perdidos pelo que chamarão niuyto deuota^ 
mete por sam Lourenço a quem prometerão suas esmo« 
las, & nosso senhor por rogos do bem auSturado mártir 
os liurou deste perigo, a cuja honrra despois mandou 
IMartím afonso fazer hQa irmida era bua sua quinta no 
t^rmo Dobidos: & líures do mar chegarão ao ilheo, em 
cuja praya logo. em desembarcado acharão dous sacos da 
bizcoilo todo molhado & hQa arca de pao, & dentro ai* 
gQs guingÕes de que despois fizerão arrombadas á bar* 
quinha. E nisto conhecerão que algum nauio dos que 
buscauão era perdido , & virão que ho ilheo era quasi 
tudo praya pequeno & redondo & no meyo dele debai- 
xo de hiias aruores altas estaua hum charco dagoa na- 



LIVRO Vil. CAPITVLO LXXYIII. 183 

diael em Q andauão peixes, mas a.agoa cheirana mal & 
amargaua, & por ali auia hQas faueiras como as nossas 
com fauas^ húas verdes & outras secas. Os Portugueses 
em as vendo arremessarãse a elas com a fome que le- 
uauão comendo muy tas : & parece que por terem esta 
propriedade os roais dos que as comiâo começarão logo 
darreuessar, & sair tudo juntamente como so comerão 
algQa peçonha & cayão no chão muyto fracos & desa* 
cordados, pelo que os outros cessarão de as comer, Sc 
Martim afonso acodio muy triste cuydando que aquilo 
fosse peçonha & fez agasalhar os doentes ainda 1} não 
auia outras camas se não a área , & assi andou ate que 
anoyteceo, & quis lhe nosso senhor bem que fazia líiar 
pêra os alomear. E andado passeando Nuno fernandez 
freyre & Frãcísco mendez ao longo do mar por não po- 
derem dormir com ho cuydado do perigo em que se vião 
virão sair dagoa hiia tartaruga, & indo após ela ate on- 
de tinha perto de duzentos ouos tomarãna coeles & I&- 
uarãna a Marlim afonso que a mandou logo fazer em pe- 
daços pêra comerem & fizerão muytos por ser mayor que 
hua grande rodela, & as gemas dos ouos deitou em bQa 
bacinica & coalhados ao fogo os deu ()or sua mão aos 
doentes com que os esft>rçou , & assi comerão todos da 
tartaruga assada & do bizcotlo & almeirões cozidos Q 
auia ali muytos & coziãnos em agoa em hum capacete 
que ainda que era ferrugSto & os almeirões sabiâo a 
ferrugem sabião b6 com a fome. E ao outro dia tomarão 
outra tartaruga a que acharão mais de duzentos ouos , 
'& coeste refresco sararão os doentes. & esforçarão os sãoe 
algum tanto em três d^as que ali esleuerão. E vendo 
Martim afonso a gente contftle , rogoulbes que não fos- 
sem a Arracão, porque tinha grande duuida no senhor 
daquela cidade |K)r royndudes que sabia que fizera a Por- 
tugueses que ali forão mais prósperos do ^ eles ySo, mas 
que fossem a Chetigão outra cidade dei rey de Bengala 
que btl Português dos da companhia que ja fora nela lhe 
dizia 4 era petto, fc que ali oa agasalharião bem por a* 



184 DA HISTORIA DA INDlÁ 

mor que nauegauão, & íinbão necessidade da amizade 
dos Portugueses, & todos disserSo Q fossem. E atraues** 
sando a costa, chegarão a hua praj^a Õde virão muytos 
palmitos, & vendo Martim afonso a terra despouoada 
desembarcou ali com todos , & mandou tirar a barqui* 
nha em terra, & com pedaços das tartarugas {| ainda le- 
uaua & algQs ouos, & cõ ho bizcoito ajutarão os palmi- 
tos & refrescarão, & com boa agoa que acharão deixara* 
se estar três dias , & de noyte dormia dous marinheiros 
na barquinha, & de quando em quãdoseleuanlauaMar- 
iim afonso & a vigiaua: & isto fez porque algQs Portu- 
gueses lha não podessem furtar como determinarão pêra 
fugirem nela & deixarS os outros. E na derradeyra noy*- 
íe indo a Marli aCònso visitar achou duas almadias pe* 
gadas cõ terra , & cuydando que a querião tomar bra* 
dou aos Portugueses ^ acodissem. E sentindo hiis pes- 
cadores da terra que estauão nas almadias ^ acodião, a*- 
fastarãse de terra & falarão , & Marlim afonso lhes mã« 
dou preguntar por hQ Português quejaesteuera em Ben- 
gala & sabia a lingoa quanto era dali a Chetígão, & di- 
-zêdo que perlo concertou coeles que os ieuassem Já por 
dez pardaos que Jhes derão, & os pescadores mentião, 
& a cidade que dizião não era Chetigão se não outra 
chamada Cuqueriá de l\ era senhor hã mãcebo mouro 
chamado Codauaz & por dinidade cão, & ficaua ho no- 
me todo Godauazcão, & era vassalo dei rey de Bengala. 
E tomado os pescadores a barquinha de toa tirarão a 
força de remo quanto mais poderão & em amanhecen- 
do aebouse Martím afonso dentro em hil rio, Q ho Por- 
tuguês q.ue esteuera em Bengala disse que não era a* 
quele ho rio de Chetigão, porem que bem podião sair 
por ali ao mar, porque sabia que aquele rio cercaua a- 
quela terra como ilha, & forão por aquele rio ate que 
anoyteceo: & «isto saltarão os pescadores supitamente 
em terra, dizSdo que yão leuar recado ao lascar de Che* 
tigão como estauã ali: & dizSdolhe ho Português que 
porque mStiáo se aquele não era ho rio ^e Chetigão , 



LITRO !TfK tlA^P^TVIX^ LXVtlT. I8t 

diisefSo 4 8Í era, & forise. E Marttm afosso dUse que 
e^erassem ate veretti (|iv6 recado leiiauXb os |>e8cãdo- 
res, mas eles não lornarfto marâ,' porem forfto dizer a 
CodauazcSo que estauSo ali lãioa Portugueses Q anda* 
uão perdidos^ & ^ nã ieuauão armas. E ele folgou rouy- 
to cÔ a{|la8 nouas porque os tinha por valentes homfta 
& sabedores na guerra, & folgou coeles pêra bo ajuda* 
reni em hOa que tinha com hH seú vezinho, porque es-* 
peraua de ho vgcer cd sua ajuda , & porque era nòyte 
nao quis que desembarcassem , & mâdoulhes dizer per 
hO homem que sabia a lingoa Portuguesa que nXo se a« 
gastassem porque ele era grade amigo dei Rej de Por- 
tugal , & assi lho disse bo homem em voz alta sem ho 
verê flor amor do grande escuro que fazia. E ouuindo 
Afartím afonso estas paiauras em Português & em lugar 
onde tSo pouco espierauâo ouuir falar sua lingoa nem 
paiauras tão fauoraueis a eles íi<iarão muyto consolados ^ 
& esperarão bõ remédio pêra a 8alua<;ão das vidas , pelo 
que derão muytos louuores a nosso senhor» 

C A P I T V L O LXXIX. 

D^ como MarÚ afonso ^ os outros ficarão é poder de 

CodaiÂOzcão. ' 

C' . . 
odauazcão que estaua rou^o aIuora<;ado pêra auer 
os Portugueses, leuantouse como foj manhaã & cauaU 
gou acompanhado de rouyta gente de guerra que tinha 
junta, & Ido coeie todos a pé se foy á ribeira leuando 
diante, seus ínstormClos de guerra que yão tocando por 
festa, mas aos Portugueses não lhes pareoeo assi: & 
quando virão tanta gSte daquela maoeyra coydarâo qué 
os yão pré>inder, & disser âo que não erá siso esperar mais^ 
que se fossem, porque ho recado que Iheá derão de noy«- 
•te da parte do goazil foy pêra os deterem que não fugi8«- 
sem , & a Martim afonso lhe pareceo bem & foyse pelo 
rio abaixo pêra ir sair ao mar : a gSle de Godauazcão 

LIVRO VII. AA 



18C nâ HMTOftlA DA fNMA 

quSdo ot virio fugir lancearão a pos elea ao longo da ri6 
apelidando a terra, & Uradolhea miiy tas frechadas & pe* 
dradas, & da ouira baadar d^-rio acodi&o teabaibadorea^ 
& suas molfaerea & filhos: )& todos eÒ lamafiha fúria quo 
parecia qua os querião meler no fQdo^ & valeolbea que 
indo assi deu a barca em seco , o que vendo Marlioi a^ 
fonso ieuaotou h(í lenço em sinal de paz porque oe não 
ma lassem & bradou á geot^ que esleuesse queda : & eia 
bo fez assi, & pQrque a bf^rca estaua hd pouco afastada 
fby necessário desembarcar Marli afooso & os outros m 
nado: &eie foj bgo falar aCodauazeao que quando bo 
vio lhe fezmuylo gasalbado, & disselhe que não se a- 
gástasae polo desastre que Ibe acontecera, & que fizes^ 
se cota que estaua em Portugal , por^ ele & os outros 
Portugueses assi auiao de ser tratados como lá ^ & que 
ele os deijcaria ir pêra a índia dentro na moução^ oú os 
mandaria quando náo teuesse embarcação por isso que 
descalçasse : o que lha Martim afonso agardeceo muy- 
to, & ele ho mandou aponsentar com todos os outros em 
hâas grandes casas, & lhes mddou dar todo bo necessa^ 
rio, & panos pêra vestidos dalg&s que disso linhão ne* 
cessidade. E k>go ao outro dia chegarão aa barra desta 
cidade Duaite wçndez de vasseõcelcd capilSo do btia g^ 
leota & loâ coelho capitão dk barganti ambos da con- 
serua de Alarlim Afonso ^ andauão em sua busca, & 
ca barra souberfio dos wesoioa pescadores ^ ali leuarSo 
€S Portuguetes como lestauSo na cidade» E os capitães 
mâdarão dizer a Martim afdso como eslauâo ali, q de- 
terminasse o ^ qiMsrra: & ele pbdio licS^a aCodauatcâo 
pêra se if iêbrandolhe o que lhe tinba prometido. £ ete 
ibe disse § era irerdade, mas ^ não Ibe podia logo dar 
jicdça, & eètoulbe & causa porQ, j) era a guerra ^ linba, 
i| eaperatia dacaber co sua ajuda dSIro na mouçSe, & 
ení£o khe daria licença, & Q m&dasse dizer aos capitães 
<fue estauSo na barra ^ ho* esperassem ^ & enire tanto 
lhes dariSo os mantiniêtos de ^ leuessem necessidad», 
Sl Martim afonso bo íe^ m%u 



LlVUÔVlKCAMTVXOrUCXX. 187 

C A P I TV L O LXXX. 

De como Martim itfonso foy liure do catiuciro em qiu 

estatuí» 

Hd como CodauâzcSo tiniiâi sua gente preetes pêra ir 
sobre seu fmigo, parlio^e logo íbu2cIo Marti afori^o e&« 
^^S*^) 4 ya a caualo & os outros Portugueses a pé, & io« 
dosíleuaoSo arm^as {| lhes Cod^ua^cflo dera, & forão c3 
muyto trabalho por ho caminho ser moyto roym & fra* 
goso. E a gente de Coda^azcão se espantaua de como 
lio podiSo aturar n^o sendo costumados a andar por a-* 
quela terra, & tinbâo os pêra moyto, & assi forão por 
Mas jornadas ate checarem aa cidade do immigo deCo^ 
dauazcão que tinha deitado fama que leuaua cem Por* 
tugueses com espingardas: a fora bo grande poder de 
gente da terra, & assi. alifaoteis», pelo que seu immigo 
não ousou de ho esperar & fugio deixando- a cidade des* 
}>ejada, & por isso a tomou Codauaício sem nhfla tesi9* 
tecia : & dali foy segufdo seu imigo ate ho deitar (ora 
da terra que nfloa ousou de lhe dar batalha com medo 
dos Portugueses que d^^g^nte da terra não fazia conta 
atnda que fora mais da q«e era : assi que ho medo doa 
Portugueses fpz fugir bo immigo de GodauaicSo que íi« 
cando senhor de lodo a terra de aeu imfnígo se tornou 
pêra a cidade de Soré ondestaua sua roãy & doua seua 
irmãos , & ho galardão qUe deu a Martim afonso & aos 
outros pola ajuda que lhe derão, foy negarUes a licen* 
ca que íhès tinha cSc^^ida & pe d i ri hes resgate polof 
ff^ixnr ir^ o que- lhes não derSò polo não terS. E quãdo 
MaMini afonso vio a pouca verdade de Codauaacão, de- 
terminou de fugir dando par(e disso a algtls dos ^ esta* 
não coele. E cdcert^do com os capitães que eslauão na 
barra ) que. pêra bu' dia certo Ibe mandassem as alma^ 
dias pos em obra sua fugida hfia noyte despois qi>e sin-r 
tM que os da cidade erSo r^olbidõs, & isandou diante 

ÁA 2 



168 JK4 HISTORIA DA INMA 

08 mais dos que estauâo coele com quem foy hQ porta- 

guês ^ cõ bâ Manuel de cacereslepaúa os recados de 
larti afôso aos capilães & sabia a lerra & Õdestauâo as 
almadias l( era dali a quaUo leg;oas: & partidos estcfis 
foise Marli m afonso após eles, indo coele Manuel de ca- 
ceres : & íslo seria as onze boras da noite : & coma bo 
caminho era muyto roym & cdprido^ começarão de can- 
sar & aigús ficará & estes querSdo despois ir a pos.os 
outros não sabSdo a terra se perderão : & vCdof e perdi- 
dos tomarft por remédio tornarSse á cidade , 6de chegat 
rao antes damanbecer, & deitarSse em suas camas a 
dormir, & antrestes foy Diogo pirez de^. Martilo aíon^ 
so & os outros seguiráo audnte, & com ho roim camir 
nbo & cõ irem de vagar, & partirem tarde da cidade a* 
manheceòUies antes Q chegassem aas almadias , & pet 
nã serS descubertos embrenba;rãse. .£ tanto Q amanhe* 
ceo- soube logoCodauazcIo ^Martim afonso & os outros 
Portugueses erâo fugidos, 4o .que Ibe pwou muyto ^ & 
mãdou chamar Diogo pires deça & os que eslauÂo coe- 
le , & pregunloulbes que como fugira Martim afonso & 
08 outros & eles ficarfto, disse que nSo sabia }x)rque 
Marlim afonso lhe não dera conta.de nada, & c| acorda*» 
do de noyte ho achara uienos^ aoa outros. Codauazcão 
bo creo, & mãdou logo hu capitão cõ quatro cèios bor 
mSs darmas õbusca de Martim. afonso & dos outros &^ 
trabalhasse muyto poios achar: & ele os acbou , & 6 a 
gSte os vSdo comerão darremessar sobreles pedradas, & 
frechadas. sem conto: fc os Portugueses se quiserão der 
fender, & Martim afonso nSo «juis^ «tizõdo ^ não era 18*» 
po , por^ se bo fora ele cemô^ra primeyro, & ^ quanto 
se mais defendessem tãto nuais. alttora^ariãa a terra, & 
se ajuntaria mais gente & os matariãa mais asinha, fc 
por isso era melhor eiilregarSse. sem escãdalo. £ brada- 
do aa gole % não tirasse foysè pareja y & dksse ao capi* 
tão ^ os Portugueses erêo tão obedÍ€;i>tei| a quem tii^ão 
por capitão Q fazião quãto lhes mandaua, & por^ ele mSr 
dará a^les ^ ali vinhão ^ fugííssem que por isso fugitão: 



LIVBO Vil. CAPITVLO LfXX. 189 

& 86 86 auia de dar algika pena por aQIa culpa que fos: 
86 a ele somente porQ ele a tinha. Ho capitão lhe disse 
Q não era culpado è fugir, & ^ pesara disso a Codauaz- 
câo, por{| folgaua coele & oõ o» outros Porlugueses, ) 
se fosso pêra a cidade & Q ihe faria mercê, & assi fora. 
£ primeiro Q dali abalasse hQs Bramenes dos gêlios pe*- 
dirã ao capitão Q lhes mandasse dar bu daQles Portu- 
gueses pêra sacriiicarê aos seus pagodes a qu6 rogarão 
^ lhe deparasse a^les portugueses, & pois lhos deparará 
Q lhes desse bu pêra lhes fazerfi festa : & ele lhes deu á 
ha Gõçalo va^ de melo, a que queria mal por^ quando 
forSo aa guerra lhe chamara cão perro, & ele não se vin- 
gou cÕ medo, & vingouse ali porque vio a sua. E ali foy 
logo degolado, sem Marlim afonso n6 nbíi dos outros 
ousarê de falar por não poderõ mais. E leuado Marli a* 
foBso a Codauazpão, ele se lhe queixou por{| lhe fugia 
dSdolhe. tft boa vida, & tornouho a sua graça como dan^ 
tes , & fàzialbe mercê & hõrra & poro não bo quis dei- 
xar ir Dê a nh& dos outros, pelo ^ Martim afonso escre- 
ueo tudo o que passaua aos capitães que ho estauão es^ 
perando na barra, escreuendolhes que se fossem, & es- 
cjreueo bua carta pêra ho gouernador em que lhe daua 
relação de sua desauSlura, pedindolbe que bo mandasse 
resgatar, & os capitães se partirão & derão esta carta a 
JLopo vas de sam Payo Q ainda gouernaua a índia , ^ 
rogou a fafl mouro Dormuz chamado Cojeçabadím que ya 
a Bengala , que resgatasse Martim afonso , & os q^a 
achasse viuos , & ele os resgatou por três mii cruzados 
que deu a Codauazcão, & os mandou á Índia em bua 
A»ta sua gouernando Nuno da cunha^ logo tto priueyro 
anoo de sua gouernança. 



V 



190 BA HfSTllAIA BA INMA 

C A P I T V L O LXXXI. 

De como Simão de s&usa gáluÃo com tormenta foy Ur a 

Dcu^hem. 

Jl articlos Pêro de faria & Si mio de sousa de Cocbim 
pêra Malaca como SlrarSo no golfáo da ilha de Ceilão 
pêra a de <;aiTiatra) por ser sempre perigoso ainda que 
seja na monção & porque a gale era rasteira mSdou Si- 
inSo de sousa abater quanta artislharia leuaua assi gros* 
sa como miúda : & quasi no cabo do golfão lhe sobreueo 
hua braua tormenta com que se apártarSo, & Pêro dd 
faria foy ter a Malaca dde foy entregue da capitania da 
fortaleza por lorge cabra! que a seruia, .& Simão dê sou- 
sa com bo mesmo temporal foy ter á ilha de çamatra á 
barra de Dachem quasi perdido, & cd a artelharia toda 
abatida & a gente enjoada & cansada. E sabendo elé 
poios da terra õdestaua , quiserase logo ir se ho deixará 
ho têpo por saber camanho !migo dos Portugueses era el 
rey DachS , mas ho têpo não lhe daua lugar. El rey sa« 
bSdo da gale {} estaua na barra mãdou pregdtar f\ gen^ 
te era & pêra ôde ya , & sabendo (} erãb Portugueses (} 
yíio pêra Malaca, determinou de os tomar, & pêra sa- 
ber quantos erão, & como yão apercebidos mãdou-visi- 
tíir Simão de sousa cõ moyto refresco, dizSdo ÍJ Arigáua 
muyto de ir ali ter pêra fazer amizade c8. os Portugue- 
ses cd qu6 a desejaua de ter auia dias^ rogãdolhe (} en* 
trasse pêra dètro Q lá estaria mais seguro & seria me^ 
Uior protiido, & -t^ quisesse-^ ho mãdaria febdcar per al«* 
guas tacharas. O ^ Simão de sousa lhe ngârdeceo^, di^S» 
do ^ não ya pêra dentro por se deter menos, por^ na 
hora ^ ho tempo desse lugar se auia de partir. E recea- 
do el rey ^ ho fizesse assi , mãdou fazer aquela noyte 
prestes mil homes darmas I) se embarcarão em vin(e lã- 
charas pêra irS tomar Simão de sousa !} polo seu Q lhe 
leuou o refresco soube a gSle ^ tinha, & ^ não leuaua 



LIVSO VII. <IAPCT¥1iO LXXXI. 191 

Milharia pêra ie defender : & como foy manlfòã os des* 

gedio) mãdftdo ao capilSo delas ^ por força lhe ieuasse 
imão' de sousa quâdo não quisesse por sua vÕtade , & 
por dissíinular mâdouibe diãte hH recado eoi hum cala* 
luz : que pois ali estaua que eolrasse pêra dentro porque 
lá estaria mais seguro, & que mandaua algOas lancharas 

{>era que bo rebocassem. E este recado lhe deu do ca* 
aluz hfi mouro que não quis entrar na galé. £ dando- 
lhe Simão de sousa a reposta yãose as lancharas che- 
gando: & quando Simão de sousa vtoamuytagenteque 
ya nelas conheceo ho engano^ & disse ao mouro que lhes 
dissesse Q se fossem que lhes não queria dar trabalho, 
& ele não se queria ir, pelo que Simão de sousa pedio 
suas armas, & os outros lambem se armarão: & bQ fi- 
dalgo (} se cbamaua Manuel de sousa pos bo fogo a b& 
falcão & tirou ao calaluz pêra que se fosse. Ho capitão 
das lancharas vendo que era descuberta sua treição mã- 
dou que aferrassem a galé: & tangSdo es fl)ouros seus 
inslormStos de guerra, & dando grandes gritas remete- 
rão á galé tirandolhe muylas bombardadas & espingar- 
dadas de que ferirão algOs Portugueses, & doas ou três 
lancharas aferrarão a galé por popa, & saltarão muytoa 
mouros dentro sem lhe os Portugueses poderB defender r 
& a peleja se começou muyto braua, que com quante 
es Portugeeses erão poucos, & os mouros muylos pele- 
jara tam esforçadamête que matarão & ferirão muytos 
dos que entrarão & os outros fizerão tornar a suas lan- 
charas, pelo que os das outras não ousarão mais dStrart 
& porem combatião os Portugueses brauissimamente 
com espingardadas, frechadas, zagucbadas & pedradas r 
& com tudo fazião mortal dano porque como as lancha- 
ras erão alterosas & a gale rasteira ficauão muyto senho» 
res dos Pc;rlugueaes & tratauão es muy mal, poro não^ 
ianie que não recebessem dobrado mal , mas como erão 
as noue partes mais que os Portugueses não se lhes en*" 
acergaua tanto como neles ^ erito poucos. E desta ma- 
neyra diiro« a peleja ate as dea horas , em <|ue Simãe 



19t 0A uiaroftrA da índia 

de sousa & os outros se defanderSo com esforço (So to- 
bre natural j} auendo os mouros por impossíuel veocerS- 
noa & espantados de tal valentia domes , & dos muytos 
(| da sua parle erâo mortos & feridos se retirarão fican- 
do corenla Portugueses mortos & feridos , & toraaráse 
pêra a cidade. 

C A P I T V L O LXXXir. 



De como Simão de soum galuâojby morto na barra de 

Dachem 06 quãios yão coeU. 

l^abSdo el rey como a sua geote nSo leuaua a gale, 
ouue disso muyto grade nienencoria, & màdou logo ir 
diante de si os capitães & pregunfoulhes como não le* 
uauSo a gale, & eles lho contarão fazendolhe grande es* 
pSto da valentia dos Portugueses: do !\ el rey se agas** 
tou muyto mais do .2} estaua, & cauaigâdo em bii alifan* 
te mandou chamar bo seu capitSo geral com a gSte de 
guerra que (inba a cargo, & mandoulhes que lhe fossem 
por a gale de SimSo de sousa, jurãdolbes por Mafame- 
de que os que tornassem sem ela {) os auia de mandar 
matar com a mão daquele alífante , & logo os mandou 
embarcar em cincoenta lancharas, o que fizerão com bS 
má vdtade por auerS grSdc medo aos Portugueses pola 
valSlia 1\ neles virSo na peleja pnssada. Ho capitlo roór 
dos mouros despois 2| chegou á gale fez j| nS ya pêra pe* 
lejar, & leuãlãdo hda bãdeira de paz disse Q queria fa- 
lar a Simã de sousa Q chegou a bordo a saber o Q qoe* 
ria. K ele lhe disse da parte dei rey Q estaua muyto a- 
gastado, pori| sendo tamanho amigo dos Portuafueses & 
desejado de lhe fazer hõrra & gasalhado recebera de seus 
x^assalos tamanha oífôsa como lhes fora feyta , & í\ logo 
mãdara prSder lodos a^les 2| lha fizerâo, & pêra ver bo 
castigo i\ lhes daua , lhe rogaua muyto (| entrasse pêra 
dêtro, & {} 6caria louuado. O ^ouuido poios ^ estauão 
cõ Sinião de sousa, muytos começarão de dizer Q se ê* 



LIVRO VII. dAPITVLO LXXSriI. WS- 

(regassem porQ ja nfio podiâo pelejar: o () ouuindo Si* 
nâo de acusa ouue medo que se acnotioasse a genle, & 
por isso lhes quis folar, & disse ao capitão dos mouros 
Q aueria conselho com sua getile , & se eles quisessem 
k pêra dSlro. E como ho capUâo receaua muyto a pele- 
ja com os Portugueses foj contente de SiinSo de sousa 
auer ho conselho que dizia pêra ver se podia escusar a 
peleja & afastouse. E Simão de sousa pregutou á g6te- 
da galé que dizia, & muytoa lhe dísserão que farta bem 
de fazer o c]ue ei rey deDachS queria pois por força fao 
auião de fazer por não ser6 poderosos pêra se defSder 
posto Q todos os l| ali chegarão forão viuos & sãos quan- 
to mais sendo a mayor parte mortos & feridos : &; pode- 
ria ser que v6do el rey i\ se punhão em seu poder 4 '^^^ 
goardaria sua pataura & faria o que dizia, & Q -se tira« 
ria dalgQ mao pensaroSto se ho tinha, o ^ mais asinha 
poeria em obra vSdo í\ não se íiaua dele. Ao que Simão* 
de Sousa respõdeo, f\ claro estaua Q quS era tãô mortal 
Imigo dos Portugueses como el rey Dachê que se os a-^ 
colhesse (} os auia de matar de mny cruas mortes: & 
pois auião de morrer sem as vingar, Q melhor morrerião 
vingado as, & farião o ^ deuiã a Christãos & a caua-* 
leyros, & entre tãto {| fazião o i) deuião lhes daria nos- 
so senhor maneyra pêra se saluarS : & quando não po^ 
dessem saluar as vidas l\ lhes saluaria as almas por sua 
misericórdia pois morrião por seu seruiço. E animados 
todos coestas paiauras, disserão^ fizesse o () lhe bem 
parecesse , & Q eles ho seguerião : o (} lhes agardeceo* 
muyto, & disse ao capitão dos mouros que não auia áè^ 
trar pêra- dStro (| se podia ir ^hóra : & ele por estar a«» 
noeaçado dei rey nã ou$ou de se ir , & mãdou aos seua 
Q cometessem a galé & trabalhassem muyto pori| tomns-* 
sg os Portugueses viuos, ^ assi lho eneomSdara el rey, 
& ^ lhes iSbrasse como os ameaçara se fosse sem a ga-« 
le , por isso ^ fizessem por salu»r as vidajs. Os mouros 
remeterão á gale c8 tamanhos alaridos () eles somSte a-^^ 
bastarão pêra desatinar os Portugueses, quanto mais tft*^ 

LIVRO VII* BB 



194 1>A HISTORIA DA IHIMA 

tM nuuSs de frechas Q tolhíão a claridade do «oi: tSta 
floma despigardadas Q escureciSo ho ár^ pedradas, za* 
gdcbadasy azagayadas & oulros arremessos tãp espesos 
(| pareciSo bua grossa chuua. £ aesla reuoUa se chega-^ 
rã talo cerlas lacharas á gale A saltarão algfis mouros 
dfilro , {| logo forão somidos pelos Portugueses Q cada 
bu pelejaua por vinte, & não descansauão momSto & íi- 
aerão afastar as lancbaras dos mouros, que como erão 
muytos se fibaraçauão bus com os outros porque todos 
querião ser os dianteiros que pelejassem, & cõ a fadiga 
Q nisto tinhâo podião os Portugueses aproueitarso deles, 
assi cõ os tiros miúdos como cÕ as espingardas & outrae 
armas ofieosiuas com que derribauSo bOs sem pernas, 
outros partidos em pedai^os. B era cousa espãtosa de 
Yer como os Portugueses se podião defender de tanta 
multidão de mouros, quanto mais oEDBdelos com tama* 
nha destruirão. £ porem eles não estauão sem ela que * 
erSo algQs mortos & os oulros quasi todos feridos, & os 
mouros ^ bo não sabião mas cujdãdo Q estauão em to- 
das suas forças por passar de Ires boras que duraua a pe- 
leja I & 4 nem somSte os poderão nuca abalroar , como- 
^arão de se alargar da peleja ainda que os capitães Ibes 
kmbrauão bo ameaço Q Ibes el rey fizera, pelo que Ihea 
não daua espantados de lã braua defensão domSs. £ vfr- 
do bft mouro ^ andaua na galé de por força, como os 
mouros se afastauã lãçouse a nado por ninguè atfttar ne* 
)e, & íoj dizer aos mouros que nã se íbssem, porí^ os 
portugueses erão mortos os mais deles, & os outros tão 
feridos & cansados ^ nã fie podião defender, & se os eo* 
batesse mais bQ pouco ^ Ibes tomaria a galé, & bo ca^ 
pitão mãdou este mouro a el rey pêra que Ibe disesse a^ 
quilo, & assi os feridos ^ tinha, pêra (| lhe mãdasse g&^ 
(e de refresco, &• munições ^ logo mandou. E chegada 
esta gSte tornara os mouros a cometer a galé ^ entra* 
rã muytos, por ja os Portugueses que auia viuos lhes 
jiã poderem resistir : porí) nã pelejauão mats ^ Simão 
de sottsa, Manuel de sousa, dõ António de crasto, An- 



LHTRO TTI. CAPITULO hXTXU» 196 

loniò caldeira^ lorge dabreu, & outros três ou quatro: 
& cô quanto faziSo façanhas , os mouros os fizeráo reti- 
rar ate ho pé do maato ^ & pregarão duas frechas a d6 
Anloaiode craato na aate dãa choça com que pelejaua, 
& ficaráolhe as mfios pregadas, & aasi pelejou ainda hd 
pouco, & foyselhe tSto sangue das muytas feridas que 
Unha que cayo morto, & Simão de sousa, & Manue} de 
aousa com os outros fizerSo ali cousas tSo milagrosas que 
nio se pod6 contar, & b6 vingarão suaa mortes assi os 
que ali morrerão, como os Q despoís acabarão suas vidas 
ê poder dos mouros. B na fúria desta. peleja deu h& za- 
euncho darremeso a Simão de sousa sobre ho coração , 
ac com a força que leuaua lhe rôpeo as coiraças & ho co- 
raçS & caio morto, & os que ficarão viuos que seria vin- 
te cinco, em que entrauão António caldeira, .& lorge 
dabreu, se entregarão, prometendolhes os mouros as vi* 
das, & eles se derão por nã terem forças nem fôlego pê- 
ra se defenderem , & com este Simão de sousa acaba- 
rão de morrer quatro filhos de Duarte galuão. s. lorge 
^alaão, Manuel galuão, & Ruy galuã que todos falece- 
rão nestas partes seruindo os R^ys de Portugal como 
eeu pay & ante passados seruirão. Tomada a galé pelos 
mouros não ^rião goardar ho seguro () derão aos Por* 
tugueses , & queríinos matar se os capitães não acodi- 
rão que lhos tolherão: & eles vfido que nã podião vio- 
garse deles dos muytos parentes & amigos Q lhes mata- 
rão , vingarãse ean Simão de sousa ^ fey to em pedaços 
ho deitarão ao mar. Tomada assi a galé foy leuada a el 
rey com os Portugueses que escaparão viuos, a ijel rey 
fez muyto gasalhado por dissimular sua maldade , & fez 
Q lhe pesaua muyto da morte de Simão de sousa & dos 
outros ^ ele mãdaua chamar pêra lhes fazer gasalhado 
& hõrra como desejaua de fa^er a todos os Portugueses 
de que era grande amigo : & como eles fossem sãos Q 
escdhessem antre si algQ que fosse dizer da sua parte ao 
capitão de Malaca , <} mãdasse por eles , & pola galé &; 
artelharia, & polo mais que lá leuesse que fora dos Pot- 

BB 2 



196 DA HISTORIA DA INOFA * 

lugueses, porque tudo*daria de boa vontade. £ isto 
2ia com tenção que ho capitão de Alalaca mandasse al- 
gu nauio, & Q ho tomaria com a gente que fosse oelet 
& pêra mais enganar os Portugueses mandoulhes dar 
muyto boas pousadas & curatos cõ grade diligencia , & 
darlhe todo ho necessário tão largamSte como se este* 
^uerão antre Gbrislâos. 

C A P I T V L O LXXXIIL 

Dt como d6 Garcia anrriqz chegou a Malaca. 

JL/om Garcia anrriquez () ficou na ilha de Banda áenh 
pois que foy tempo partiose pêra Malaca , & no cami- 
nho. tomou bu jugo de mouros laos. E auido seguro de 
Fero de faria que ho oão prendesse nê a nhQ dos Q fo- 
rão na prisam de dom lurge, se foy a Malaca , onde lhe 
j^ero de faria mandou embargar toda sua fazenda , dizè* 
do ^ lhe não dera seguro mais Q pêra ho nã pr&der. E 
despois estando em Malaca hCIs embaixadores dei rey de 
Panaruca, que he na ilha da laoa que yão assStar pas 
& amizade c5 Pêro de faria , se leuSlou bu arroido an^ 
tre os criados destes fibaixadores & os Malayos, que foy 
causa de se desembargar a fazêda de dõ Garcia , & foy 
desta manevra. Pousauã estes embaixadores S bua cer- 
ca de taipa junto da pouoaijão dos Qudis, & passando 
hu dia há home da terra per junto desta cerca com hil 
pouco de dinheiro virãiho hils criados do êbaixador: & 
-tomapc^lho por força, ao que aeodirão aigtls da cidade: 
& estando em rezões com os ^ tomarão ho dinheiro Q ho 
tornassS passou bo meirinho da fortaleza , a Q requere- 
rão que ho fizesse tornar, & querêdo ho fazer foy so- 
brisso morto pelos laos. E os da cidade vendo isto se a- 
colherão cõ medo , & começasse hQ rumor que os laos 
de Panaruca & quãtos morauão em Malaca erão feytos 
amoucos, & \yofÍ\ atras disse ^ cousa sam amoucos ho 
não digo: & este rumor chegou á fortaleza, & acodio Io- 



LIVRO VIKCA-PITVLOIAXXniI* 197 

go Pero de faria com gente armada xuycficlo (} era tret- 
^ ^ & quando foy acbou ja dõ Garcia aorri{|z Q cõ aete 
ou oylo Portugueses da sua companhia acodio ao arrol- 
ado cõ suas armas & fez deter os laos que nã passassem 
auante & matou doze deles , pelo que quando chegou 
Pero de faria ouue pouco que fazer em os fazerS reco- 
lher, & tudo se logo apacificou. £ porque dom Garcia 
acodio a tão bõ tempo lhe mâdou Pero de faria desem- 
«bargar sua faz&da dando fiança dOs tantos mil cruzados, 
-pêra se dom lorge de meneses quisesse dele algfla cou- 
.Mà , & assi escapou dom Garcia em Malaca» 

C A P I T V L O LXXXIIIL 

De como el rey de Dachem mandou c6 engano dizer a Pe- 
ro de faria que lhe daria os Portugueses ^ a gaW. 

iJ^ este tempo auia guerra antre el rey de Dacbero , & 
el rey dauru seu vezinho. £ sabendo el rey Dauru a 
•muyta rezão Q os Portugueses tinbão pêra serem fmigoB 
dei rey Dachem, mãdoii pedir ajuda a Pero de faria ca- 
pitão de Malaca, mandâdolhe dizer por seu embaixador 
•como tinha guerra cÕ el rey Dachõ, & ^ confiado na a« 
mizade Q tinha c5 os Portugueses do tempo Q lorge dal- 
boquerQ fora capitão de Malaca lhe mandaua pedir a- 
jttda contra el rey de DacfaS que sabia que era !migo 
•dos Portugueses, & t\ lha auia de dar por mar pêra coe- 
la pelejar a sua armada com a dei rey de Dachem em 
quito eles pelejassem por terra, & () esperaua de se vin- 
gar dele fc vingar aos Portugueses das oflensas (| lhes 
tinha feytas. £ partido este embaixador dei rey Dauru, 
foy logo sabido dei rey de Dachem : do (} ele ficou muy- 
to agastado, porque a fora recear muyto el rey Dauru 
por ser poderoso de gente, & g6te esforçaíla & guerrey- 
•ra, auia grande medo de lhe ho capiláò de Malaca dar 
ajuda, porQ dandolba era sem nhQa redenr^ão destruído: 
•& estaua certo darlha assi por os males ^ os Portugue^ 



198 mà nitn^AiA m rnmA 

•n (iobSo dele recebidos como porque naljla oonpiDçSo 
auia fDuytos Portogueaes fi Malaca , asai oa i) eatauflo 
daxitea , como oa que forSo cft Franciaco de aá a çuda ; 
& 08 Q leuara Pêro de faria da índia, & oa que auia de 
leuar Marli afonae de melp joaarte Q ainda nSo aabia 
que era perdido, porem aoubera doa Porloguesea ^ (i- 
nka caliuoa ^ auia dir a ter a Malaca. E ISdo por cer- 
to darse a ajuda a el rev Daoru , determinou de Ibe.a- 
t ai bar com manha qua lha nSo deaaem : fazendo como 
díaS da necessidade ftrlude, & requerer amizade ao ca- 
pitão de Malaca cfi oATrecimento de dar oa catiuoa & a 
galé, & todo ho mais Q tinha tomado aos Portugueses. 
E porfi não auCturasse nhfl dos seus nesta embaixada , 
& tambS pori) parecesse ao capitão de Malaca j) tinha 
vdlade de cõprir o Q dizia, mandou coela António cal* 
deira, & em sua cõpanfaia outro Portuguea, & primey- 
ro (\ bo mandasse lhe fez muytas mostras damizade a 
fora aa fi tinha feytas a todos em os agasalhar & curarei 
& dísselbe a causa por^ ho mãdaua & não a nhã seu^ 
& Q se o capitão de Malaca quisesse ^ mãdasse logo pe- 
los outros Portugueses, & pola galé & artelharía, asai 
dela como de hQa nao Q se perdera na aua barra , & a 
que tomara na fortaleza de Pacem : & que não queria 
outra couaa se não sua amizade & a dos Portugueses* 
E ao tempo que António caldeira chegou a Malaca ti- 
nha Pêro de faria prometida sua ajuda ao fibaixador dei 
rey Dauru, & quando vio António caldeira & soube ho 
recado <) leuaua ficou muyto ledo parecfidolhe que co- 
braria os Portugueses que estauão catiuoa , & a gale & 
artelharía , & que nisto ganhaua maia {| em dar ajuda a 
el rey Dauru : & não ele sómête estaua ooiato muyto le- 
do mas os maia dos principais da fortaleza , & dõde Pê- 
ro de faria tinha prestes Diogo de macòdo oapitão mór 
do mar de Malaca pêra ir por mar coro outros capitães 
ajudar el rey Dauru começou de ho ter. O () não pare- 
cendo bem a Marti m correa por ser seu amigo & ter 
coele credito lhe disse que visse bem o {| fazia, por(J[ to- 



LIVRO Tilt CâPlTTLO LXXnilI. 19r 

da aj)lâ amizade dd rey Dacbd Ibe parecia fingida , & 
^ não era pêra outro fim se náo pêra aaber àe daua aju- 
da a el cey Dauru , ou se fazia armada prettea pêra ir 
vingar a tomada da gale asai oomo auia pouco 4 ae fi- 
zera em iongú , por^ bem deuia ele de saber que auia 
muyta genle 8 Alaiaca. E a reaào por onde Ibe parecia 
4 ú rey Dacbfi mandaua maia A ntonio caJdeira pêra sa* 
ber aQiaà duas cousas que cd determiiia<;ão de fazer a- 
mizade, ^a coobecer ele por experiência que os mouros 
oão comeliào amizade se nSo quando yíío ^ lhes era 
muyio necessária, & que el rey Dachõ ainda nã se vi- 
ra apressado dos Portugueses pêra cò necessidade dese« 
jar sua amizade , antes ele lhes tinha feytas muytas & 
muy graoes offensas, na morte de lorge de brito, na 
tomada da fortaleza de Pacem, na da galé de Simão de 
Sousa & outras, porQ nunca ouuera castigo: pelo ^ auia 
destar muy to soberbo, & oSo pedir amizade com ofire* 
cer tãtas cousas a qu8 lhe não pedia nhfla» o que lhe fa- 
zia sospeitar o que sospeitaua. E parecfido isto bfi a Pe* 
10 de faria, mandou chamar António caldeira, & lhe rc*» 
sumio perãte Martim correa quanto lhe ele tinha dito, 
rogandolhe muyto que atentasse b6 se se poderia ter a* 
quela sospeita dei rey Dachem. Ao que ele respõdeo 
que não abonado ho muyto, & dado ho por amigo muy 
fiel dos Portugueses , &. acreditando ho tanto que disse 
§ por nbft pre<^o deixaria dè lhe tornar com qualquer 
reposta que lhe dessem pula confiança 1} nele tinha. O 
& visto por Pêro de faria, teue por sem duuida ^ el rey 
Dacbè falatta verdade pois António caldeira fiaua talo 
dele, 4 estado líure se queria tornar lá sem reeeo áe ho 
catiuare : & mais pori) dilatado ele a reposta a el rey 
de Oachê, lhe disse António caldeira ^ se a mais dila- 
tasse & ho aáo quisesse mandar a Dacbfi % ele se iria , 
por4| auia de cAprir u ^ prometera a cl rey de DachS & 
aos Pof tuguesea que ficauão coele de tornar com a re- 
posta. E quldo Pere de fiiria vio sua deterão iaaçSo^ a- 
cabott de todo erer 4. ele tinha por verésK^yro o que el 



20a DA HISTORIA DA ÍNDIA 

rej de DachS lhe mandaua dizer, & despacbouho logo 
escreuendo a el rey de DachC que foignua muylo coro 
8ua amizade^ & ^ a aceitaua em nome dei Rey de Por- 
tiJgal, & dali por diante teria nele hu bÕ amigo, & re- 
ceberia dele fauor & ajuda quando lhe fosse necessário,. 
& que logo mãdaria pelos Portugueses & polo mais Q di- 
zia , & com a confiança que linha de sua amizade, nâo 
queria dar ajuda a el rey Dauru que lha mandaua pedir 
conlrele, & que disso poderia estar seguro, & mandaua. 
hQ Português casado em Malaca que sabia bem a ferra. 
& a lingoa dela que ieuasse António caldeira em hii ba- 
lanço & ho posesse no reyno de Pacem onde estaua el 
cey de Dachem & lho entregasse. E partidos de Malaca 
forão ter a hua ilha , onde faz6do agoada forâo mortos- 
poios moradores dela que erão mouros , pelo que el rey 
de Dachem não ouue reposta. 

C A P I T V L O LXXXV. 

Do ^ passou antre Pêro de faria ^ el rey Dauru , ^ el 

r^y de Dachem^ - 

JL/espedido António caldeira ' pêra DachS, como Pê- 
ro de faria tinha assètado de nã dar ajuda a el rey Dau- 
ru despedio ho seu embaixador respSdendo que não po- 
dia ajudar a el rey Dauru contra el rey- de Dachem por 
amor dauer aqueles Portugueses que tinha catiuos, & 
por cobrar a muyta ar telharia ;| tinha dei Rey de Por* 
tugal que se isso não fora que ho ajudara de-jnuyto boa^ 
v^ade, & ajudaria côlra qualquer outro- rey. E ouuin* 
do ho embaixador esta reposta .tão. fora do que espera-* 
na, & despois de ho deterem tãto tempo como ho dete- 
uerâo ouue ipiuyto grande menencoria posto t\ ho dissi* 
mulou. E sem mais se despedir ^e Pêro de faria se par-^ 
tio hija noyte muyto secretamente ,' do que pesou muy*-^ 
io a Pêro de faria, parecendolhe que ya agrauado, & 
que el sej Daurui ho ficaria del^^t o ^ ^^nãcqaeria 



LITRO Vir. CAWTVLO LXXXV. tOl 

porque eabía que el rey Dauro era leal amigo dos Por* 
iugueaes , & grande fieruidor dei Rey de Portugal , & 
por Í88o deaejaua de ho poupar : & pêra ho temperar de 
seu agrauo, mandou lá a liQ Fernão de morais capitSo 
dQ galeão como que ho mandaua em seu fauor , & od 
grandes disculpas de ibe não dar logo ajuda. E chega* 
do ho embaixador dei rev Dauro a ele antes que Fernão 
de morais lá chegasse, lhe deu a reposta de Pêro de fa* 
ria, de que el rey ficou muyto agastado, & porque se 
temeo que desse ajuda a el rey deDachS, despachou lo* 
go sua armada que tinha prestes que fosse pelejar com 
a dei rey de DachS que estaua no porto de Pacem : & 
indo pêra lá topou no caminho hQ paraó em que ya hii 
Português da({les !\ el rey de DachS tinha catiuos por 
quê ho mesmo rey mandaua dizer a Pêro de faria t\ mS* 
dasse logo poios outros Portugueses , & pola galé & ar* 
telharia: & isto porI| António caldeira tardaua c5 a re* 
posta , & pareciaihe !\ Pêro de faria nã queria sua ami- 
zade, por amor dos danos ^ tinha feytos aos Portugue- 
ses, & {]ria antes a amizade dei rey Dauru & darlhe a* 
juda pêra ho destruirS ambos. E coesla sospeita feruia^ 
& pêra se tirar dela tornou a mandar aquele Português, 
(} topando ho os A urus, como sabião que ho seu rey não 
estaua bfi com os Portugueses tomarão este & mandarã- 
no a el rey Dauru , que sabSdo dele ao que ya não ho 
quis deixar ir, por^ Pêro de faria coeste recado não se 
apressasse a socorrer el rey DachS. E nisto chegou Fer- 
não de morais ao porto dondestaua el rey Dauru: que 
como não era amigo dos Portugueses não <)uts mandar 
recado a Fernão de morais, ales defendeo que ninguém 
fosse ao galeão. E passando quatro dias qtie Fernão de 
morais estaua no porto sem pessoa nhQa da terra ir a 
bordo, determinou com quãio lhe aquilo pareceo mal de 
se auSturar & ir falar a el rey, o que lhe foy contraria^ 
do, dizendo que poderia ser que el rey estaria agraua- 
do de Pêro de faria pola ajuda qne lhe não quis dar , & 
por isso não quereria que os Portugueses fossem a pua 

LIVRO VII. cc 



SOt Há HléTOmiA DA INX>IA 

terra nê eonuersalos^ & que iodo a terra sem eev reea^* 
do laçaria mSo dele , & fao prenderia por isso que não 
fosse. £ coeso Fernão de morais era muylo esforçado k 
aueotureyro n2o quis deixar dir: & cliegado diante dei 
rey ^ foj dele muylo bfi recebido & agasalhado , & mw* 
trou receber bem as disculpas de Pêro de faria, & que 
não lhe pesaua de sua amieade com el rey Dachem por 
amor das causas ^ dizia, anlea folgaua muyto de cobrar 
por aquela via os Portugueses, galé & arlelharia, & que 
nem por isso deixaua de «er seu amigo & ho seria sem<- 
pre. E isto (udo era 6ngido, que como vio Fernão de 
morais logo determinou de ho prdder & lomarlbe ho ga* 
ieáo se a sua armada desbaratasse a dei rey de Dachem, 
& isto por se vihgar da ajuda que lhe Pêro de faria n&^ 
deu. E com tudo quis esperar se vScia a sua armada oa 
não , porque não vencendo queria ficar amigo com os 
Portugueses , por^ ficando mal coeles receaua q se ajili- 
tassem cÕ os Dachõs & ho destruíssem , & deteue Fef«- 
bSo de morais oyto dias dando lhe a entender fi ho ti^ 
nha pêra se fauorecer coele contra seus Imigos, & a ca^ 
bo dos oyto draa lhe foj noua que a sua armada peleja«- 
ra com a dei rey Dachem^ & Q nhQa vencera & se a* 
partarSo sem mais pelejarem & a sua se tornaua , & Í0> 
go deixou ir Fernão de morais & lhe deu bo Portuguea 
que leuaua ho recado dei rey de Dachem, que tinha rev 
teudo ate também ver em ^ parauSo a^les negocies, & 
por não serem a sua vdtade ho soltou , & mâdou dizer a 
Pêro de faria o que ja tinha dito a Feraao de morais que 
t^uãdo chegou ao galeão achou Q ho mestre & a outra 
gête se ^erião ir deaesperados de ele tornar , pareceir- 
dolhe que era oatiuo , & receando que fossem os mou^ 
ros tomar ho galeão. £ vendo el rey Oauru que sua ar- 
mada nâo yencera a dei rey de Dachem não quis pele»- 
)ar coele por terra , nem nreies el rey de Dachem quis 
eoele guerra, parecendolhe que ho auião d ajudar os Por- 
tugueses por não ter afnda repoata de Pêro de foria , & 
]ogo se eofitíertarão ambos & ae fixarão amigoa* £ cooio 



LIVRO \tll. CEAVtrfXàQI tiXXXVU 109 

a anisaáo dei rey rfe Dacheao od Pêra de fiiria era fin-i 
gida por amor da guerra de) rey Dauru eomo ae vio de-» 
h desapreasado, nSo quia maia amizade com Pêro de fa<< 
via nfi dárlbe nada , & pesoulke dos Portugueses q^e U-« 
nhã mandados; o que Pêro de faria não soube {>or4|ua 
por uBL poder não mandou a Dacbem^ & por lhe fMirecer 
que tudo eslaua eerto para de cada vez que lá mandas*^ 
se, & ae oulão. soubera a verdade. & mãdara ià bila ar^ 
mada el rey de Daehem ^^Hapcira-o que liaha prometam 
do ou fora deatruidou 

C A P I T V L O LXXXVI. 



De como Nuno da cunha paríioi pêra a índia por youer^ 

nador dela. 

xN este anne de mil & qnfolM^ntos & vintoyto mandou 
el Rey dom loão de Portugal por gotiertiador da índia 
kft fidalgo chamado Nuno da cunha vedor da sua fazenn 
da^ Q p<^*t amor da grande inuertiada que foj aquele an-« 
AO não pode partir se nSo a dezoyto Dabril^ & leuou 
èua armada de noue nãos grossas & bum galeão^ & hft 
nauio redondo. Das nãos furão capitães a fora ele^ Si-* 
mâo da cunha seu irmão que ya por capitão mór do mar 
4a índia. Pêro vax da ou«»ba tambS seu irmão ![ teua-* 
«a a capitania de Goa, Garcia de sá 2} leuaua a de Ma-« 
}aca 9 dõ Femãdo de lima de Satarem ^ ya por capitã 
mór daa três oaos do trato de Batioalá pêra Ormuz ^ dé 
Frãcisco deqa , Frãcísco de mSdoça , Ic^âo de freytas & 
Antónia de salda ah ai do galeão Bemaldl da silmeira^ 
do naoio afonso vaa azãbujow E oesta amnada fora tree 
mii bomSs darmas ea» que entrauão moytea fidalgoa & 
oriadoa dei Rey a mais luzida gfite que aio a^le iempo 
fora á índia. Partida eêta armada antes de chegar áa 
Ubás daaCanariaa ãtre aa noue iioraa &. as dez do dia se 
foy a nao de loão de freiías ao fudo posQ abrio da popa 
ale apvoa de duas pancadas q^ieHie de«i a a^o dç Si-» 

cc 2 



204 ]>A HIBTORIA PA ÍNDIA 

mão da cunha, & isto por culpa do piloto da nao de loSo 
de frei tas y & em obra de hOá hora se Scheo dagoa que 
não se pode JaD<jar ho batel fora & ho esquife escassa- 
mente, em que se meteo loão de freitas cõ algus, & so- 
bristo & sobre se tomarem arcas & tauoas pêra cada hu 
se saluar ouue muylas cutiladas, de Q muytos morrerão : 
& foy piedosa cousa de ver híi home casado que leuaua 
sua molher & três (ilhas moças , que vendose sem espe- 
rança de saluaçâo se abraçarão todos cinco : & dado gri- 
tos que cliegauão ao ceo se forão cõ a nao ao fundo : o 
Q os das outras nãos entenderão quãdo a virão meter de- 
baixo dagoa que aleli não sabíão nada do que passaua 
por irem bua legoa dela ou pouco menus. E entendendo 
o que era acodirão os capitães em os esquifes com (} sal* 
uarão bem cincoenta pessoas Q andauão pegadas õ ar- 
cas & 8 tauoas, & afogarãse na nao cento & cincoenta, 
& Nuno da CDnba nã castigou ho piloto da nao de loão 
de freitas ^ escapou porque nâ soube a verdade de co- 
mo aquilo fora que lhe foy encuberta. £ prosseguindo 
em sua víagS foy fazer agoada na ilha de Sâtiago , õde 
achou menos ho galeão de Bernaldim da siiueira que 
euydou que achasse ali porque desapareceo logo ao sair 
da barra de Lisboa, & indo por sua rota foy ter ao par- 
cel de çofaja onde deu em seco, & foy morta a genle 
pelos cafres. E fazendo Nuno da cunha agoada na ilha 
de Santiago, & tomados os mantim&tos que lhe leuauão 
duas carauelas que ateli forão coele loraou a sua via- 
gem , & na costa de guiné deiiu>u a nao Dantonio de 
Saldanha por singrar menos que todas as outras & per- 
derem viagem por esperarê por ela: & disselhe pelo seu 
piloto que se ficasse eom a bSção de Deos» porque ben» 
Yia quão tarde era, & que perdião viagens por sua cau- 
sa , & que melhor seria perderse hfia nao que todas : & 
coislo deu 08 traquetes que ieuaua amainados &homes« 
mo fízerão as outras , o que vendo os que yão com An- 
tónio de Saldanha ficarão muyto tristes de se verem fi- 
car , o que eu vi por ir na nao. £ dado ho goueroador 



LIVRO Vtt. CAPITVLO hXTXVU 805 

08 traqaetes com as outras desaparecerão em pouco es- 
paço, & António de saidanha mandou tantas vezes mu^ 
dar a carrega da nao da popa a proa , & assi pelo con- 
trairo que lhe acertou ho cõpasso : & singrou dali por 
diante muyto bS. £ nislo & em vigiar a nao sem dor- 
mir de noyte nè se despir, & em a fazer andar mais do 
que ho piloto & mestre fazião & em a segurar, & em 
ter muyto grade cuydado de curar os doStes foy ião sin>- 
gular capitão que mais não podia ser. E despois da aju- 
da de nosso senhor por sua diligencia foy esta nao aque^ 
le anno á índia segQdo os estoruos que teue pêra não 
ir. E seguindo Nuno da cunha sua rola nã leuàdo ê sua 
conserua mais £[ Pêro vaz da cunha & dõ Fernãdo de 
lima & Afõso vaz !do na volta do cabo de boa Espera- 
da lhe deu hQ temporal de sul q durou húa noyte & hfl 
dia ate véspera, & em acabando forão ter coele Antó- 
nio de Saldanha & dÕ Francisco deça, que auia dias que 
yãa em companhia , & forão recebidos com grande fes- 
ta. E indo assi em conserua lhe deu aos seys dias de Ju- 
lho na paragem do cabo outro temperai de sul que du- 
rou vinte quatro horas, & poderão as nãos sofrer ho pai- 
ro ate ho quarto dalua, em Q ho veto foy em tanto cre- 
cimento Q a Nuno da cunha lhe foy forçado arribar porfi 
era ho mar tão grosso que ho comia, & assi arribarão as 
outras nãos saluo a Dãtonio de saidanha , que como era 
Boua quis nosso senhor Q pode sofrer ho pairo , & isso 
iby tambfr eausa de passar á Índia. E arribando Nuno 
da cunha íby correndo com aquele temporal* ale que a- 
calmou & achouse com Pêro vaz da cunha & com dom 
Fern&do de lima. £ os outros capitães forão por esse mar 
ate que tornarão a fazer viagem. E achãdose Nuno da 
cunha eõ seu irmão. & c#m d& Fernãdo, acordou coeles 
que por quaato era tarde & yão em risco de não passar 
i lodia, ^ pof pouparS caminho fossem por fora da ilha 
de sam Lourenço, & assi ho fizerão : & dõ Francisco de- 
ça fePrãcisco de mendo^ & Afonso vaz que fizerão seu 
caminho por dentro íbr&o ler a Moçãbiq , saluo Afonso 



30« 9^ BISTOBU OA iinai4 

vM <) ae perdeo ai)» iibeM de^ Moçaaibiqve & taltiaoaa 
ioda a geala ^ & éom Franoiaca da^ & Ff aooiaQo d^ 
meadoça acharão em Mo^oibiqae a Síoiio da ouflba ^ 
fc por ser paaaada a i]M>uqSo qSq poderAo pasaar aa li^ 
dia , & inuernarSo hi» E Garcia de sa que anlea do pri» 
nieyro temporal ae apartou da edaeraa, despois de «ft 
yer quaaí perdido cft a aegiaada tormenta aegaío aua ro^ 
ta, & paaaando mujrto (Jabalho de fome fcde aede e€ 
que Ibe morreo muyU genie fibegou aa 4^oata da Indiík 
bfi aabado deaaaele Doulubro eom laata oeceaeidade da<» 
goa que nâo leuaua maia que bQa pipa dela. E deapoia 
dele oylo diaa chegou Aatonio de aaldanba que lambft^ 
pasaou assaz de trabalha oom fome &.8ede, de (| Ibe ar 
doeoeo quasi quaala gSte leuaua & lhe luotrerâo peria 
de aesseota peaaoaa, & Sòy por fora, & por fazer prouK 
aaro na agoa que leuaua pouca, bem bil mea ae nâo dea 
a cada pesaoa mais ^ bQ quartilho dagoa cada dia, & 
por passar aa índia oâo tomou nhQa agoada por ae aão 
deteir: & chegou aBatieala hCl sábado vinte quatro Oou-^ 
iubro, & dali foj ter a Codúm« 



p. 



C A P I T O L O LXXXVIL 
De. como se perdeo a mto de Nuno da eunha. 



assada a tormenta que disse oom que ae aa nãos ca« 
palbarâ, Nuno da cunha ed. pêro vaz da cunha & dota 
Fernãdo de lima seguirão por sua rota, & oom muyta 
roym viagem de ventos cdlrairos & ealmariaa foy ter a» 
ilha de sam Louaèço quasi na fim Deutubro, & surgia 
Qa barra: do rio de Santiago pêra fazer agoada, •& a|i foja 
ter coeje hum Português {) lhe eontou como escapar» 
da nao de Manuel de laeerda que se perdera ali em hft 
bai^co por culpa do aeu piloto, & a gente ae aaluara n» 
terra por aer perto, & Manuel de Jacerda se deteuera» 
HA anuo esperando que foseew aAi ter algQaa naoe qu9 
os. tomaaaem : & ^ i^ueria^doue mesesique-andiira bi hú» 



BAO òyto dias, de dia a terra Sc de ooyle ao mar, & que 
eada noyle Ibe faztfto fog^oa en crut pêra que soubesse 
que estauáo aii Ciiriaiãoa , & bubo» ctegera a terra ^ & 
desfois desaparecera. E esla era a oao Dfltonio de sat^ 
danba^ & não qofts cbegar flosto que «io M fogos ^ por^ 
que sabia que iambS <m ntooros os faaião pêra engâDa^- 
rem os Cbrislãos & os fecerera «begar a terra, &ee per^ 
dereiD em nuylos baixos & restiogas que ba ao tongé 
dela. E disse mais a(|le Português que desaparecida es* 
ta nao ficarão Manuel de laeerda & todos muyto tristes, 
por nfio esperarem tão cedo por outra tiao. E porque a 
terra era muy pobre de mantimentos, & não se podifiõ 
manter: & também por^ ho roais certo caminho dasnaoi 
Portuguesas era pela outra bSda da liba acordarão de se 
passarê lá , Sc feytos em duas qaadrilbas foy cada hfia 
por seu cabo : & ele por estar doente se deixara ali fi« 
ear . & que a gente dà terra ibe fazia rouyto bta com^ 
pannia, & dela soubera como cbegarão aquelas três nãos. 
£ fasendo Nuno da cunha & os outros capitães agoada, 
em bSa terça fe^ra que auia quatro dias que ali estaua, 
estando os bateis dStro no rio, leuantouse hú trauessam 
com que a nao de Nuno da cunha comet^ou de caçar pe>> 
.ra terra, & por estar sobre h5a só ancora lãçarSo outra, 
& despoís outras ate seys que não aura mais & todos oá 
anates delas trincarão , & era por Be roçarem por pene- 
dos que estauão debaixo , & com a grande força que le^ 
uaivão pelo peso das ãcoras trÍBéaaão iogo^ E não auCdo 
BwceraB que teucssem a nao, eaçou tanto pêra terra ^ 
q<ue deu sobre hfta área Õde fez assento & ébrio, en* 
cheose dagoa^ & ho mesmo ouuera dacontecer á nao dé 
dom Fernãdo de Hma se não teuera bA auste de eairò 
f|Ue teue mão, porque -taimbS outros de linho trincarão, 
li oi esquifes qve erão per agea ddíro ao rio nunca po* 
derio asãodir por he v|(o ser trauessam Sc na boca do rio 
fnér hm iate tamanho escareeo -que não poderão sair , 
fiê sairião ate nie açaimar ho vento , & a nao por a res-' 
iinga ses baixa aia fiaoa cuberto dagoa anais qsFe at» a 



tos DA HISTORIA AA IlfDIA 

ponte, & dali pera baixo iudo se ferdeo, & a gente se 
saluou (oda, & Nuno da cunba se passou com parte de- 
la pera a nao de Pêro vaz da cunba, & a outra se apoQ- 
aentou na de dom Fernando, & tirados os mastos & irer* 
gas a esta nao, & queymado quanto patecia sobelagoa, 
Nuno da cunha se partio caminho daJndia a dez deNo^ 
uembro & foy ter antre as ilhas de Zanzibar, & hua noy« 
te entrou em h&a enseada grande que se faz^ía antre a 
ilha de Zanzibar & outra. B quando veo pola roanhaS 
nem os fiíolos poderão entender por onde entrarão, n6 
por õde auião de sair: porque os canais por Ade entra* 
rSo & por õde auião de sair erfto tão estreitos que não 
se enxergauão com ho mar que arrebentaua em froL E 
despois de desesperarem de não poderem dali sair & es* 
tarem em muyio risco de se perder, mãdou Nuno da cu- 
nha a Manuel machado capitão dos seus alabardeiros 
que fosse a terra cora algQs deles a tomar lingoa pera 
saber ondestaua, & ele foy no esquife da nao & quise* 
ra sair em hOa pouoação de í\ logo os negros acodirão 
bem armados de frechas & paos tostados , & pelejando 
coele ho fizerâo recolher por força, ficisobrisso lhe mata- 
rão hQ gormete & ferirão outros homSs : o que sabSdo 
Nuno da cunha, fez conselho sobre o que faria, & seu 
irmão Pêro vaz se conuídou pera ir a terra , Õde foy nó 
batel com certos fidalgos & outros homSs todos armados. 
£ vSdo 08 a gente da terra daquela maneira fugirão & 
despouoarão ho lugar : do i\ Pêro vaz se agastou muyto^ 
& disse a todos que bem vião ho perigo em Q as nãos 
estauão^ & quãta necessidade tinhão de tomar qu8 as 
tirasse dali , & pois os negros não queriâo esperar era 
necessário tomarSnos por manha : & esta seria ficarem 
em terra embranhados aigOs dos nossos, & os outros fi^ 
zessem que se tornauão no batel á nao, porque como 
fosse noyte os negros auião de tornar á pouoação, & os 
Q ficassem embranhados poderião tomar algii que Ihea 
dissesse ondestauão , ou lhes desse maneyra pera se ti- 
rarem dali« E a isto não respondeo ninguê, saluo hil mi^ 



LIVRO Vlf. CAPITVLO LXXXVII. 70^ 

cebo 6dlilgo chamado Diogo de melo 61bo de loSo de roe* 
Ia abade de pobeiro ^ disse eie ficaria eom hil seu irmão 
chamado Trislão de melo, & com hfl seti criado que a- 
uia nome loâo rodriguez.O que lhe Pêro vaz leue muy- 
to em mercê, louuando ho por isso grandt^menle, & pro- 
metendolhe de ho dizer a Nuno da cunha pêra lhe fa- 
2fiv mercê: & Diogo de melo lhe disse que visse como 
fícaua» & Unto que foss^ noyte que acodisse á praya 
diante daquela pouoaçfto ondeslauâo pêra ele ler Ôde se 
aaluasse, que bem sabia que se auia de ver em perigo^ 
porQ não auia de vir de terra sem tomar lingoa: & cois* 
to se foy embranhar com seu irmão & cõ ho outro ^ & 
Fero vaz mandou remar ho batel pêra as nãos. E ven- 
do ho os da terra ir cujdarâo que se tornauão, & por 
isso em anoytecSdo se forão pêra a pouoaçao: & sintin- 
do Diogo de melo que tornauão sayo do mato cõ Tris- 
tão de melo & loâo rodriguez, & apanhou bil mouro Q 
ya só, que vendo os nossos ouue tamanho medo que sa 
calou , porque eles também ho ameaçarão com as espa- 
das nos peitos Q ho matarião se bradasse ou não quises- 
se andar. E coisto derão muy asinha coele na praya on- 
de a borda dagoa acharão Pêro vaz no batel, E vendo 
iodos ho mouro que era hQ velho forão muyto ledos, por- 
que disse a Pêro vaz pelo lingoa despoís que perdeo ho 
medo, que se ho não tomarão ^ nunca as nãos ouuerão 
de sair dali ainda que tomarão outro, porque ele era pi* 
loto daquela costa, & !| as auia de tirar, & ho mesma 
disse a Nuno da cunha despois ^ foy coele que deu a 
Di(»go de melo muytos agardeciméntos pelo que fizera , 
& lhe prometeo que como gouernasse a Índia lhe daria 
a primeyra cousa que vagasse que coubesse nele, por{| 
fizera bu muyto grande seruiço a Deos & a el Rey em 
lhe trazer a(|le piloto: do que os !\ forão cÕPero vaz ou- 
uerão grande enueja, & lhes pesou muyto de não se of- 
ferecerem a embranbarse como se ele oííreceo, E certo 
q despois de nosso senhor ele foy causa de se as nãos 
saluarem em tomar aquele piloto, & ao outro dia ho pi- 

LIVRO VII. BD 



210* ' »Á RístoKíA DA mm A 

loto mouro lírou as nãos daquela emeada por Iitl canal 
tào estreito que todos se espantauao de como podiâo por 
ali sair, & dali forão ter âo porto de Zanzibar, ondeste-^ 
uerão algQs dias refrescando por ser a terra niuyto pêra* 
isso como disse atras. E desesperando Nuno da cunha 
de poder passar á Índia por ser vinda a mouçfio dos le- 
uanles que era contrairá pêra sua nauegaçSo, & lhe era 
forçado inuernar em algft lugar da^la costa, determinou 
de ser em Mombaça por ter muyto bõ rio pêra estarem 
as nãos o que não podia ser em Melinde por ser costa 
braua, & as nãos correrS muyto perigo, & por isso não 
podia bi ter ha inuerno. E assentado nisto, deixou em 
Zanzibar bem duzentos doStes que leuaua por ir mais 
despejado , & por ser a terra muyto sadia & abastada 
pêra eles air ficarem. E pedio a bft fidalgo chamado A-* 
leixo de soosa chichorro f\ ficasse por seu capitão, o que 
€f]e fez de muyto boa võtade por seruir el rey. £ Nuno 
da cunha se pàrlio pêra Melinde, onde foy muyto bê ve^. 
eebido dei rey, & bi achou Diogo botelho pereyra ca*' 
pitão de htia naueta em que fora buscar dõLuis de me^ 
neses se parecia por a^la costa, porque auia sospeita Ç 
não era perdido & estaua ali com a gente da sua Itòo, 
& daqui mandou Nuno da cufiha pedir licença a el rey 
de Mombaça pêra inuernar no seu porto dâdolb^ a re-* 
tão porque não podia ser em Melinde, & fazendolhe 
muytos oflTrecimentos. Mas el rey de Mõbaça parecen-* 
dolbe que aquilo era manha pêra lhe tomarfi a cidade 
Hã a quis dar, pelo que ele determinou de lha tomar & 
ter hi bo iúuerao. 



LIVBO Vn. «APtTVTe LXXSCVIII. S91 

C A P I T V L o LXXXVni. 

É 

De como Nuno da cunha tomou a cidade de Môbaça. 

Jbi dado parte desta determinação a seu irmAo & a dS 
«Fernâdo a que pareceo bem, assentou em conselho qua 
lio deuia de fazer. E feylo alardo da gente que tinha a«> 
chou (lytocentos Portugueses & bem duzétos mouros da 
Jndia nossos amigos que iouernauSo em Meliode que fo- 
xâo coeie , Sc seys centos com que ho ajudou el rey d« 
Melinde: & partio hõ dia atarde com quatro velas: a 
•capitaina, a de dom FernSdo de lima, a de Diogo bo^ 
telho pereyra & a dos mouros. E chegado ao outro dia 
pola manhaã á barra de Mombaça surgio, & surto man- 
dou sondar a barra por Pêro vaz da cunha Q foy no ba* 
tel da nao bem artilhado & ibrSa coele corenta homês 
de que nlgQs erâo fidalgos, s. Anrrique de sousa chi» 
ohorro , Diogo botelho pereyra & outros : & na entrada 
.da barra que era bo mais estreito dela «charão que es*- 
taua Jiu baluarte de pedra, & Q tinha oyto bombardas 
ique os mouros que estauão nele des pararão logo em v&- 
•do ho nosso batel que por ser rasteiro, & passar muyto 
rijo ho não poderão pescar : & passando auãte foy sur- 
gir no lugar onde as nãos auião de surgir que era perto 
'da cidade, & este sinal auia de ter Nuno da cunha pê- 
ra entrar sem Pêro vaz tornar a daribe rf>cado, por<| das 
nãos podião ver onde surgia, pelo que Nuno da cunha 
começando de ventar a viração disfirio as velas leuadas 
as ancoras, & ho mesmo íi>zerão os outros & en trarão po- 
* ra dentro , & tirarãlhe do baluarte mas não lhe fízerâo 
nhõ dano, & Nuno da cunha não mãdou tomar -ho ba- 
luarte por mostrar aos mouros ^ ho não tinha em con- 
ta , & lhe fazer crer ^ lhe não queria fazer guerra k 
consentisse el rey por bem que inuernasse ali, & por is- 
so esperou a^t^ dia ate noyte sem mandar tirar á^ida- 
dp pêra ver se lhe inandaua aigO Teca4o , mae ele esta- 

DD 2 



211 OA HISTORIA 9A I17DIA 

ua bem fora disso, & assi lho aconselhauâo os seus^ & 
diziãlhe ^ quãdo se não pudesse defender que iDelhor 
era deixar a cidade que dariba por sua vontade, & que 
l)i Hie fícaua passado bo inuerno {| os Portugueses se a- 
uiao dir. E coesíe propósito despejarão a cidade da fa* 
2êda & da gente. que não ficou mais ^ a de peleja. E v8- 
do Nuno da cunba que el rey estaua em seu ser & não 
]be mandaua recado desenganouse que queria guerra, 
& pêra saber Õde teria melhor desembarcarão, como foy 
ooyle mandou a Pêro vaz que bo fosse ver. E chegao- 
úo ele diante da cidade {| os mouros bo ffintirão sairão 
muytos á praya & tirauão muytas frechadas cõ frechas 
beruadas q ferirão algus Portugueses, &Pero vaz se tor- 
nou a Nuno da cunha , a que disse que auia hOa praya 
em Q podia bõ desembarcar posto Q auia de sair a gète 
por agoa que daria pola cinta, & dali a duas horas che- 
gou á capilaina hQ mouro xie Melinde que vinba da ci- 
•ãade & disse a Nuno da cunha que se goardasse de de- 
sembarcar na praya que auia de ser cousa perigosa po- 
la delõça que a gente auia de fazer era chegar a terra., 
& que entre tanto a frechariâo os mouros porque assi bo 
tinhâo determinado : por teso 4 deuião de desembarcar 
janto de bOa mezquita Qslaua abaixo da praya em^de- 
-aembarcaria sõ nbií perigo por ser ali alcantilado, &quo 
ele mostraria este lugar. E disse mais que os mouros se- 
rião Ires mil de peleja, & que não linbão mais que bua 
estancia de fora de búa das port-as da cidade com qua* 
tro ou oineo bomburdas de ferrt^, & que bo bombardei- 
ro era bd Português , & £^ auia aatreles aigús espiogar- 
-deiros, & ^ estauão com grande medo 4 "^^ parecia qua 
auiâo logo de fugir. Sabido isto por Nuno da cun-ha, cd- 
certou cô seus capitães de dar ao outro dra na cidade & 
deu a diãteira a Pêro vaz da eunba com seyscêlos Por- 
tugueses &.trezèlos moiíros, & muytos destes Portugue- 
ses era espingardeiros, & era seu capitão hQ lidalgo cha- 
mado. Fernão coutinbo que despois foy por terra da ín- 
dia a Porltigal , & Nuno da cunha com os outros capi- 



LIVRO VIL CAPITVLO ULXUVIIK 2H 

i&es & resto da gSte Ibe auiâo dir na retro goarda. Eao 
outro dia em amaobecõdo desembarcarão na mezquUa 
onde o8 guiou ho mouFO de Melinde, que seria da eida- 
de hu tiro de bésla ou pouco mais , & sem acharem ali 
resistência (porque os mouros os esperauâo na praya) 
seguirão pêra a cidade que era cercada de muro baixo, 
& forao contra a porta onde de fora eslaua a estancia 
que ho mouro dissera^ em que estauâo duas bõbardaa 
xle. ferro que tirarão algus tiros. E vendo ho bombardeia 
ro Q os nossos se chegauâo^ fugio com medo & assí os 
mouros que estaoão na eslãcia se recolherão á cidade. 
£ vedo el rey que contra os Portugueses nã auia defen- 
sa fugio da cidade cõ toda a gente ^ & como a pressa 
foy grande que não podião leuar o que linhão deixarão 
Biuyta parte dele soterrado, & outra leuarão & lhes ficou 
}X)r hi« E ei rey se pos na mesma ilha mea legoa da ci- 
dade cõ seu arrayal bê fortalecido. E não achado Nuno 
da cunha nbua resistência nos mouros, não os quis se* 
guir & mandou roubar a cidade em que ho mais que se 
achou forão mantiroStos, porê algQs acharão dinheiro 
com Q se tornarão dali pêra Portugal no nauio de Dio- 
go botelho. E tomada assi a cidade sfi morrer ninguém 
dOa parte & da outra, fez Nuno da cunha algQs caua- 
leiros, & despois mandou fortalecer algQa parte dela a- 
trauessando as ruas cõ tranqueiras : por^ pêra quão pou- 
cos os nossos erâo ficaua ela mujto grande, & não a po* 
diao defender toda : & temiase Nuno da cunha que os 
mouros lhe corressem por quão perlo estauão. E forta- 
lecida aquela parte da banda do mar com suas estancias 
-& gente que as goardasse, apousentouse nos paços dei 
fey, & dahi a algus dias mandou lomar ho baluarte da 
barra em que ainda estauão mouros , & mandou a isso 
dom Rodrigo de lima irmão de dÕ Fernando de lima , 
que cora os que leuaua tomou ho baluarte matado & ca- 
. tiuando a mór parte dos mouros {| ho goardauão, & to- 
mandolhe sua artelharía, & foy ferido do Rodrigo de híLa 
iirechada & assi algus outros: & ele morreu despois da 



SI4 BA HISTORIA 1>A ÍNDIA 

ferida por ser a frecha heruada. E dali por diante como 
os mouros estaufio tão perto da cidade, & a major paro- 
le dela esleuesse despejada, vinbâo correrlhe de dia & 
de Boyte, & como não achauSo resislScia da parle do 
sertão desauergonhauise tftto que entrauâo dentro, ft 
hSs leuaoão o que lhes ficara escondido, outros chega- 
uão ate as tranqueiras t( os nossos tinlvSofeytasnasruas^ 
& querião passar por elas, & assi ho fízerio se pelos nos- 
sos lhe não fora defendido (} lhes resísíião fortemdte : & 
se os nossos não teuerSo necessidade de pelejar na to- 
mada da cidade aqui teuerSo (anta 2) os mais dos dias 
& das noytes ho faziâo , por^ os mouros erXo tâo sobe- 
jos que coniinuamSte vinhSo, & muytas Teses tomauSo 
os Portugueses comendo & erão feridos niuytos de bua 
parte & doutra. E hQa vez sayo dõ Fernando de lima 
com tamanha pressa que foy sem capacete cd hõ chapeo 
de frisa, & passãdolho com hua frecha ho ferirão na tes*-* 
ta: ao que ele disse muyto alto. Amores de minha mo- 
]her por mostrar que não sentia a ferida, & pelejou lam- 
bem com os (} ho ajudauâo que fez fugir os mouros de 
que ficarão algQs mortos. E sendo os Portugueses tão 
perseguidos coestes continos rebates, afrontauasse Nu- 
no da cunha disso, & tinhao por grande injuria, & por- 
que não sabia quantos os mouros erão & os nossos serfi 
poucos não ousaua de mãdar dar no arrayal pêra os fa- 
zer afastar dali: & desejado de tomar lingoa pêra qiYe 
soubesse o 2) digo, encomendou a Diogo de melo de que 
disse atras que lha tomasse, porque tinha nele confian* 
ça que ho faria, & ele lho prometeo, & forão coele Tris- 
tão de melo & outros dous homês & hQa noyte se dei- 
tarão em cilada perto do arrayal. E estando assi forão 
ter coeles dous mouros de que tomarão hQ, & em no to- 
mando deu tamanhos brados antes que lhe podessè ta- 
par a boca (| foy ouuido no arrayal, õde bo aluoroço f<fy 
muyto grande, & começarão todos de se reboluer pena 
acodir: o que sentindo Diogo de melo q^uisera tomar bo 
mourç ás cofitaFS- & kuaio': mos era tão gordo que nu«- 



LIVRO Til. CAPITVLO LXSXIX. 2t{|' 

oa ele d8 hhií doi outros bo poderão leuantar. E vedo 
ele isto , & que dali á eidade era mea legoa ^ & qiie ho 
uâo auia de poder leuar contra soa vontade por^ oa 
mouros vinhão raatou ho & oorteulire bu braço que le** 
uou pêra testemunho do que fizera^ & perlo da mea ncy-' 
te chegou aa cidade coeie & por Nuno da cunha dormir 
deu bo braço ao seu camareyro, & ao outro dia lhe con<* 
tou o que fizera : & querèdo laa tornar pêra ver se po-^ 
dia tomar língoa não ouue disso necessidade , porque os 
ttooros não tornarão mais , que vendo que os Portugue- 
ses cbegauâo de noyte ao seu arrayal pareceolhes que 
Hies punhSo cilada, & ouuerâo tamanho medo que dali 
por diante não yâo á cidade se náo com muylo tento, & 
Ée dauák) rebates era poucas vezes, de modo que os Por- 
tugueses ficarão liures da afronta em que dStes estauão 
polo b6 esforço de Diogo de mele. E auendo ja dias que 
Nono da cunha ali estaua começarão os nossos dadoe* 
cer & morrer por ser a terra doentia , & em todo bo in- 
uerno que durou ate fim de março morrerão trezentos & 
setenta Portugueses antre os quaes morreo Pêro vaz da 
cunha & outros muytos fidalgos & caualeyros. 

CAPITVLO LXXXIX. 

Do § ho gcuemadór fest este inuerno em Goa , ^ de co* 
mo se perdeo kãa armada no ria de Chatua. 

Xnuernãdo ho gooernador Lopo vaz de saro Payo este 
luerno do ãno de vintoylo na eidade de Goa não quis 
prouer a fortaleza de capitão, Sc ele mesmo ho foy pêra 
tirar algOas tiranias que sabia Q fazião os capitães , assi 
tomo dar sentSças por dinheiro, por^ os juyzes não po« 
dião despachar os feytos se não eoeles, leuar hda tãga 
de todos os eaualos que yão Dormuz: & irião sempre 
bus anos pelos outros passante de dous mil eaualos, de 
tudos os seguros Q dauão ás nãos Dormuz quãdo se tor- 
nauão hH pardae por eada vinte eandis , & auia nao ^ 



2 ia DA HISTORIA DA ÍNDIA 

pagaua cincoSla pardaos, & mais hâa iang-a de cada pes- 
soa, & nã auia anno que nâo foaseni a Goa seasénla ae- 
tSia nãos & leuaua cada hOa muyta gente, E estes iri-» 
butos que os mouros sentiâo muyto roais Q os que pa- 
gauão a el rey na alfandega tirou ho gouernador, de Q 
os mouros folgarão tanto que no anno seguinte forâo a 
Goa muyto mais nãos que atelí & a renda dalfandega 
teue muyto grande crecimento, & assi concertou outras: 
miudezas que erão muy necessárias pêra bõ reginien-to 
da cidade & nobreza dela. E porque auia algQa falta, 
dos mantimentos ^ yáo do Balagate por os Tanadares 
do Hidalcâo os antreterfi, mSdoulhe sobrisso hOa embai- 
xada per Tristão de gá, cõ hO presfite du ames inteiro 
laurado de romano cÕ medalhas & folhajê^ duas maçaa 
de torneo de prata douradas & bua soma de coral gros- 
so, mSdadoíhe oíTrecer sua ajuda se lhe fosse necesaria. 
Do i) o Hidalcã se mostrou muyto cõ(6te, & despachou 
ho com muytos agardecimfitos : & prouísÕes pêra os ta- 
nadares {| deixassem passar pêra Goa quantos mâtimS-> 
tos lhe leuassfi & cortar na terra firme toda a madeira^ 
Q quisesse : cõ o ^ foi a cidade bõ prouida. E por^ não 
saysse de Calicut nS de seu seilorio nhua pimêta, mã- 
dou o gouernador Simão de melo cõ hu galeâ & cinco 
bargãtís a goardar a costa, &eleticou esperando por An* 
tcnio de mirãJa Q chegou na íim de setSbro. E fuylhe 
recado, de dõ loã deça capitão de Caoanor ^ a vinte de 
setèbro se perdera hua armada Q sayra de CochI de tre- 
ze bargãtis & catures & bOa galeota : & cÕ hu supito 
trauessâ dera toda á costa na boca do riu de Chatuá na 
costa de calicut & se espedaçara , & a gõte fora toda 
morta & catiua pelos mouros: pelo ^ ei rey ficara muito 
soberbo & fazia hua grossa armada : cõ cujo íauor oa 
mouros de Cananor andauã muito aluoraçados: por isso 
Q saisse de Goa ho mais cedo ^ podesse. 



LIVRO VTf. CAÍirVtO IMU 217 

C A P I T V L o XC. 

■ • 

Como o youemadar desbaratou Culiak de Tanor. 

r-^abido isto pelo gouernador 8 seis dias se aoaboa de 
fazer prestes: & pariio de gop ko j. -dputubro deixado 
jK)r capttS António de ttiírSda ^ descâçase do trabalho 
^ leuara no estreito. Iforâ coete' estes capitães nos seua 
galeões PernS rodrigoez barba, lopode mezqaita^ Anr^ 
ri{) de macedo, António ^e lemos a {) deu ho galeão Dan* 
tonio da silua : leuou mais S sua conserua ate sele bar- 
I^Stins ^ oáo auia mais & Goa , & ele foy no gfaieáo saiu 
Dinis. E chegado antre rodte Deli achou Simão de me« 
lo seu sobrinho l\ lhe disse Q tinha auiso de dõ loão de-» 
ça capitão de Cananor , {) estaua em Termapatâo hQÀ 
frota deCalicut de exxx. velas. s. sessenta paraós bê ar^ 
roados & artilhados & as outras pagueres & nãos de car- 
ga {) leuauã especiaria a meça: & os paraós yão fi sua 
goarda ate serS fora da costa da índia : de <} çra capitão 
mor Cutiale de Tanór vaiSte caualeyro () tinha por sctÀ 
por chegar entã da casa de Meca. E sabSdo bo gouei> 
nador esta noua disse-^ se fossem laçar ao mar da baya 
de cananor 2) ali 2|ria pelejar: por() dãdolhe nosso senhor 
vitoria como esperaua^ queria Q a vissem os mouros. B 
fezse alamar cõ os galeões : & os bargantios mftdou que 
fossem ao longo da cdsta : & assi foy surgir onde dieo á 
boca da noyte: & logo mâdouSi^ira ho malabar capitão 
dâ catur a saber noua da .armada dos jnouros se ya, ou 
^ fazia pêra a ir buscar se não viesse logo. E ele a a« 
ehou no caminho: porque sabendo Cutiale que Simãe 
.de melo andaua a monte Deli com* tão fHHicas velas, de- 
terminou de ho ir toçoar parecendolhe f\ ho podia fazer 
cõ tamanha armada, & despois de ho tomar esperaua de 
ir cõbater a fortaleza de Cananor: & ooeeta determina* 
ção se fez á veia de madrugada, & passado a vista do 
jgouernador cuydoQ i\ era Simão de fM\a & \)ot isto vi^* 

LIVRO VII. EB 



rou sobrele. E era fermosa cousa de ver Ifila multidão 
de nauios todos cò as telas ínfuoudas & muylo pêra es- 
pSlar a qu6 auia de pelejar coeles, a soma darlelharía 
de Q y&o armados^ a gftíe «em cÕlo de ^ >ae ibrne^idos, 
abastada despingardas^ darcos & frechas, de zagQchos^^ 
despadas & doutras aroias oflfensiuas & defettsiuas : & 
dftdo gritos ^ parecia ^ feodião bo ceo com prazer de 
lhes parecer Q lomaríáe^ oa nossoa^ & coisao tantas diuer<« 
•idades de tágeres Q retenião () quebrauio os ouuidoa 
de. quS os -outtia» E/e( tinlo o goueriiador eomo os vio 
armouse logo Sc fea sÍDal de conselho a ^ forào o» capi^ 
láes & fidalgos & aobarâiio ainda araiSdose , & sem so 
assentar assi em pé como esiaua lhes disse {| determi* 
aaua áe pelejar c& os mouros* LopQ daaeuedo, do Túb* 
tão de noronba & Eytor da silueir» dísserâo lugo 4 P^ 
fecería doudice Qrer pelejar cd armada tào grossa ^ ho 
não deuiáo de cometer^ masQ se a{)túhoassem & íraes» 
ae» fortes pêra ae defenderft dos Itiiigos se os cometes^ 
sS» E coestes se forão a major parte doa do conselho 9 
fc algos 4 foráo bA poucos disíão como a medo 4 seria 
meibor pelejar ^ apiahoarèse^ porQ es mouros nos seus 
RAuios ^ erâo rasteiros os rodeariâo & matarião ás espi* 
gardadas & frechadaB sem Uia eles poderè fa2er nhft ikh 
jex doa galeò<>S) por isso iie meibor seria pelejar eoeles & 
comeleloa logo nos b^iRgãlins, por^ por serS ligeiros po» 
derião êtrar & sair quaado quisessem, & os gakdes iriâo 
i vela em sua cõpanhia pêra seruir^ cõ a artelh«'>ria co« 
mo fi>rta)exa. E deb^afido bi^s & outros sobre faicerS boaa 
suas rezôes, ehegou. Siqrueira^ & como era muyto esfor«« 
çado & sabia bei» a ^iM^rra do mAr por aiuer dias Q a v^ 
aaua, dkse ao gcueraador ^ íazia por^ estaua Ião deiia« 
gar, ^ se os mouras ebegaufto a elea ^ Ibea auiâo d« fa^ 
ser muyto mal esíãdo da^^a matteyra, Q não tinbão ou^ 
tro remédio se não cometeles nos bargaiina somêíe & 
não no meyo em Q auia grada força ae na per qualquer 
dos cabos ^ auião dcatar fracos & aà se auiao de podc^t 
ajudar tão aainba ^ eles oã leuassS nat aido cada bfii seu 



paniD ! êt (| esperaua è nosso Mnhor ^ ot aoia dajudar 
€oiiio fifeera ouíras vezes ^ k ^ eiHri» tãto 2) oometeaaeiti 
aofl bargSlIs os galeões fâriflo seu offioio c6 aarielharia. 
Ao gouernador lhe pareeeo bfi este conselho roas nfl ou- 
sou de ho tomar por tâtos capitSes & fidalgos Ibe seifi 
cõtmiros & ealauasse, & loio de soíre ouuidor geral que 
era do parecer do gooernador, & porí) ho via calar iiA 
ousaif a de faiar ^ poslhe rijo htl pé sobre ho seu outbido 
parele como l| lhe conselhaoa ^ tomasse ho parecer de 
Siqueira, fi ele parece ^ inspirado de nosso senhor pe- 
ta auer a vitoria (| ouue, disse SAuyto ledo & esforçado. 
Ora sus que ey de [letejar , A eles com ho notne de le- 
su : quS quiser acompanhar bo seu gouernador & a ban- 
deira reei de sua Aitesa sigame. B coisio tosnou lUta es* 
pigarda ás costas & saltou em hQa fusta de que era ca- 
pitão loSne ho tafui, & nS ho seguirão outros iidaigcB 
se nSo os que jSo no seu galeão , que forSo estes , Buy 
díae pereyra , dom Sancho Manuel , loSo rodriguez pe« 
Teyra ho pássaro, dA Francisco de oraste, loSo pereyra, 
Brás da silua da2euedo, Garcia de melo, Duarte coelho, 
l<*eroão da siiua, Nuno pereyra, Lienel de soosa, An- 
dré casco, Manuel de brito cabral, Francisco de barros 
de paiua. Porque os mais dos que forSo de voto que não 
se pelejasse se deixarão ficar, & não com medo mas com 
pesiir da bonrra ^ o gouernador ali poderia ganhar , que 
ainda nSo podião apagar bo ódio que lhe tinhão por par- 
te de Pêro mazcarennas. Embarcado ele , achouse com 
trese ou quatorze bergantins & catures que também a- 
codirão algOs de Oananor, de í\ forão capitães Francís- 
co mfidez de Braga, Marttm da situa & lorge vaz, & de 
•todos fez deus escoadrões*: & ho dtãleiro deu a Simão de 
• melo com quC foy Lopo de mezquitaeiD bd l>arganlim, 
& ho outro lhe ficou , & foy hii dos capitães Ferolb rè- 
driguez barba. Isto ordenado remeterão aos Imigos l\ es« 
tauão a tiro de berço bradado porSãtiago, & dão por hQ 
cabo tirando muytas bombardadas & espingardadas cÔ 
que os romperão deixando arrobados algiis paraós sem 

BB 2 



220 OA HfStOEIA DA INOfA 

receberS' deles dano, & ho mesmo foy doutra rez que os 
tornarão a rorofier: & desta vez sete bargantiAs nossos 
.aferracio.sete paraóa dos IíbidÍ(^os^ de que dos prioiey- 
ros três que abalroarão efâo capiiães SiQira, Frâcísco 
mãdes de Brat^a, Martíin da silua de-Cananor» E em a- 
: ferrando lhes lançarão dentro inuylas panelas de poluo- 
ra com que os queymarào & aos mais dos que y&o ne- 
les : & ho goueroador com os outros lambe pelejarão tã^ 
ésforçadameiile que poserão os inimigos em tal aperto 
•c^e se desbaratarão' em menos de duas horas Q durou a 
lorf^a da pefeja, & fugitão a remo hQs pêra Cananor, ou- 
tros por esse mar que andaua bem cuberto deles que se 
iançauã a ele por escapar dos nossos, Q matarão muy- 
tos & outros catiuarão» £ durou isto ate ho meyo dia 
que começou a viração de (} os Iraigos se ajudarão & de- 
^•fdo á vela pêra fugirS atodo tira: o ^ vfido ÍM> gouerna- 
dor Qs não quis mais seguir por os seus esiarè muy can- 
•sftdos & rècelbeo 09 paraós ^ estauã rSdidos^ foràojuxv. 
eõ os meiidds no f&do em ^ forâo tomadas quasi cincoS- 
ta peças darlelbaria 9 & fora mortos & catiuos bê dons 
mil mouros 9 sem dos nossos nã morrer nhft o ij foy mi- 
lagre por quã poucos erã & os ímigos tantos decujo san- 
gue o mar em ^ foy a batalha se tornou de cor de san- 
gue () foy a vista de C('^naHor : & por isso os mouros de- 
le a virão muy bem ^ todos esleuerâo na praya cuydã- 
do Q os nossos auiã de ser tomados & (rcarâo muy to tri- 
stes quando vvrão ho cõlrairo« & 5zerão grandes pratos, 
porQ muy tos dos mortos erão naturais de Gananor. E 
receâtlo eí rey de Calkul f\ por amor d^sla vitoria Ihea- 
'tregasse ho goueniador a ierra porCrãganor mandou la» 
ho principe com muy ta gê(e :& sabido isto ê Cpchim 
mandou ho védoc da fazenda bua armada ao passo de- 
Cranga nor» 



UVRO VU. CAPITVLO XCI. 22} 

CAPITVLO XCI. 

De como ho goueniador correo a cosia de Calicul ^ des- 

íruyo a vila de Porquá. 

xjLuida esla tamanha vitoria ho gouernador se tornou 
aos galeões & achou do Tristão de noronba, Lopo da- 
zeuedo & Blylor da silueira: que despois do gouernador 
partido pêra dar a batalha se correrão de bo não ajudar 
& yão pêra isso em híi batel, noas chegarão a tempo ^ 
tudo era acabado: & ele & os outros que contrariarão 
ao gouernador {| não pelejasse ficarão muyto corridos: 
& muyto mais de ho não acompanharem na peleja & (í-> 
careni nos galeõeSé E parecendo a algQs que o gouerna- 
dor ho escreueria a el rey fízerão ea|>ituÍos dele por se 
vingar que prouarão por seus parSles & 09 mandarão a 
el Rey no anno seguinte: mas ho gouernador Q não ti- 
nha tal pensamêlo posto ^ ho nã acõpanharã na batalha, 
lhes fez tàta hÕrra & gasalhado como se a eles vêcerão. 
.E porQ poderia ser i} a armada dos mouros se tornariAr 
a reformar nã quis ho gouernador desêbaroar õ Gananer 
.& dous dias esteue esperado no mar» E vfido Q nã tor* 
nauã pareçêdolhe ^ auiã deslar metidos por esses rios, 
partio a buscalos cd conselho dos capitães & fidalgos, & 
.mãdou diàle a Simão de melo por capitão mór dos bar- 
.gãtls, & ele ya ao mar c5 os galeões. £ indo assi êirou 
Simão de melo cõ noue bargantia, Ôde soube que esta* 
não varado» doze- paraós & queimou es cõ parte do lugar 
.sem em seus moradores auer resisiencia, porque fugirão 
como virão os nossos, Q despois de queimados es paraós 
cortarão quantaa palmeiras auia aè derredor do lugar 
que era a mayor destruição que se lhes podia fazer: & 
despois disto sayo em Ghatuá^õde queimou deaasete p»- 
raós, & ho lugar com morte de muytos dos seus roora'- 
dores em vingãça dos nossos que ali forão mortos quãdo 
ae a frota perdeo. E asst sayo em ouin>» lugares que to> 



SSS 0A HTSTOWA DA IKIITA 

do8 forSo destruídos estando ho gouerimdor no mar a 
vista de tudo, 9c assi foj ate Cranganor onde achou a 
nossa armada que hi estaua como disse. E sendo certo 
que bo príncipe deCalicut n8o estaua ali se nft pêra de- 
fensam leuouha em sua oompanhta , porque leuaua de- 
terminado de ir dar em Porquá pera destruir ho Arei 
pola ímízade que tomara com os Portugueses por amor 
dei rej de Caiieut. Este nome Darei he titulo de senho- 
rio, & assí era bo Arei senhor da()l6 lugar, Sc grande 
cossairo de toda roupa pera o (\ trasia muytos catures 
b6 artilhados, & coisto tinha aquirido grade tesouro, 4c 
tinha muyta artelharia & b6 quinhão de g6te de peíejfi. 
£ por{| bo gouernador isto sabia determinou de o de^ 
truir & dar ho lugar a saco pera Q os Portugueses enrrf- 
^cessem, & isto disse secretamente a aigdscapttfiesporQ 
•e não rompesse & desse supitamente no lugar. E par- 
tido de Cranganor tarde , fez que ya pera Cochim , 8c 
em anoy tecendo fez volta sobre Porquá onde surgio em 
amanhecfido, & em surgindo saltou em terra eò sua g6- 
te, a que fez saber que lhe daua ho lugar a escala fran- 
ca, com j) todos 6carão tSo ledos que posto (| a sua 8- 
trada era muyto perigosa por ser por esteiros de maré, 
& por muyta vasa que chegaua ao gtolho, passarão to- 
do prestesmente leuando Simão de melo a dianteira, 
.inas não acharão com quem pelejar por ho Arei ser fom 
com sua gente de peleja. E os moradores que erão fra* 
cos & sem armas em vSdo os nossos fugirão & deixarã- 
Ihe ho lagar, em que ele entrando se forão dereyfos aos 
paços do Arei & meterãnos a saco, & tomouse muy gros- 
so dinheiro, porque eu vi hâ caldeirão de cobre que te- 
uaria faB cântaro dagoa c{ tomou Francisco mfidex <¥& 
Braga cheo de pardaos douro, & outros tomarão dez mil, 
«)yto mil , cinco mil, .& ho geral de c6to & duzStos pem 
cima & erão mil homSs. E a fera ho dinheiro amoedado 
douro «c tomou outro muyto de prata & peças rioas de 
pedraria, & muytos panos rícos da Pérsia, Choraman- 
del k das iliiasda Ala(d4ua , & camarabãdos da Pérsia: 



LITS» WtU eiPlTVLO XCH. 323 

& forSo tomadas sua molfaer da Arei & irQa sua irmaâ, 
que nâo poderão fugir , fermosamêle arrayadas douro ^ 
atjofar & pedraria , assi nas orelhas como no pescoço ^ 
mãos » braços & pernas & tudo Ibes foy tomado & elas 
ficara caliuas. E roubado ho lugar foy destrui do com seu 
Mtio em redondo a fo|;o & a ferro i| nâo escapou nhOa 
cottsa^ & forão tomadas oy tenta peças darteiharía de fer« 
ro & de metal & oylo paraós & dous catures. E coesla 
vitoria se foy bo gouernador a Cochim : & ho Arei ficou 
tão quebrado desta destruição que nunca mais ousou cJe 
ser cdtra os nossos, & daqui naceo fas&er despois paz c5 
Muno da cunha, & não ousou de a fazer com ho gouer-* 
nador por saber que aquele anno se esperaua na Índia 
que fosse outro de Portugal, & auia medo que desfizes* 
se o que esteuesse assentado, & resgatou sua molher &• 
irmàa |X>r muyto dinheiro» 

C A P I T V L O XCII, 

De como soube ho gouernador que as fustas de Diu cor- 

rião a Chaul: ^* do qfez* 

Jtlislãdo bo gouernador em Cochi chegou Garcia de saa, 
fc dbspois António de saldanba, que como disse se a-r 
partarã de Nuno da cunha com a tormenta que Ibes deu: 
fc contarão ao gouernador o que passarão na viagem. E 
António de saldanba lhe disse ^ segundo ho tempo que 
auia i) se apartara de Nuno da cunha, 1} peis não era 
na índia Q nâo passaria aquele ãno, & assi pareceo a lo* 
dos* E assêtado Q não passaria a2|le anno, tornou bo go» 
nernadcr a fazer guerra aCalicut, pêra o ^ se foy aÒa- 
vanor cõ toda a armada, & surgido ao mar mSdou a Si* 
nuão de melo 4| fosse queimar %uatorse paraés de Cali^* 
cot ^ estauão no lugar de Marauia ao pé do mote Deli : 
fc Simão de melo foy lá cÕ cinco bargãila em {) leuou 
sessSta boaiCs & pelejou cd os mourus que eráo trt?2en- 
tos , & despois de pelejarem iiA peda^ us desbaratou & 



234 BA HISTORIA DA ífTOfíA 

06 fez fugir & queimou os paraoe. E feyto isto toi^noa- 
86 Simão de melo a Gananor & desembarcou cÕ ho go- 
vernador, que determinado de mandar António de mi« 
randa á cosia do Malabar, deu a capitania de Goa a M 
loSo de<;a capitão de Cananor : & a de Gananor a Si- 
nSo de melo, a que deixou noae bnrgantins darmada 
ate a vinda de António de miranda, Q despachou des« 
pois de ckegfar a Goa pêra onde se.paflio de Cananor: 
& despois dele partido paríiose dom loSo deça pêra Goa, 
& em chegando se partio António de mirada pêra a co»- 
ta do Malabar com hQa armada de duzStos homSs. E es- 
tando ho gouernador em Gt)a lhe foy dado hfi recado 
muyto apressado de Francisco pereyra de berredo capi« 
tão de Chaul em que lhe dizia* {} as fustas de Diu que 
erão cincoenta & tantas chegauSo á boca da barra de 
Chaul & lhe corrião cada dia, {} 8e tem^a segQdo tra- 
zião muyta gente que entrassem no rio & tomassem a 
fortaleza que tinha pouca gente: 'p4>r isso que socorres- 
se logo se não que lha õcaropaua. Pelo que ho gouer- 
nador assentou de ir a Chaul como (razia determinado 
de ir por outro recado como aquele que lhe Frãcisco 
pereyra mãdara a Cananor. E partiose de Goa a cinco 
de laneyro de mil & quinhStos & *vinte noue bem con* 
tta vontade Dantonio de saldanha & de Garcia de sá 
que forão coele , que c5 outros muytos fidalgos lhe con« 
trariarâo sua ida, dizfido que a pessoa do gouernador dá 
índia não auiade ir a cousa tão f)ouca a seu respeito 
como as fustas de Diu , que abastaria mandar hQ fidal- 
go. E ho gouernador* que sabia que era hHa armada 
muyto poderosa , & que se a desbaratasse faria grande 
seruii^o a el Rey seu senhor não quis se não ir & leuou 
hiia armada de cincoenta & duas velas, galeões, g^lés, 
galeotas, bargantins & catures, & nela dous mil homens 
Portugueses & dos da terra. E chegando a Chaul achou 
que as. fustas fugirão com medo de sua ida, do que os 
que Iba contrariarão zombarão muyto & diziâlhe que as 
fosse . buscar f, & logo o. gouernador despedio ha capitão 



~\ 



LIVRO vn. cAFirvLO xciii. 225 

dfl c^tor ^ lhas fosse bnsoar ate certas legoas pola cos* 
ta: & ele as achou no rip de Máiin, & vío que erão ses- 
senta & três cheas de gStç &.muy bS armadas dartelha- 
ria, & que andaua por capitão inór delas bQ valfite mou- 
ro chamado Halixa , & assi ho disse ao gouernador que 
achou na barra de Chaul. E sabendo ele esta noua en-i 
trou no rio & foy desembarcar na . fortaleza , & despois 
de desembarcado chegarão no mesmo dia á barra treze 
fustas de Haiixa que eie mandaua a saber nouàs do quQ 
ho gouernadcr déterminaua, &deulhe por sinal {| se lhe 
saíssem de Chaul !) era sinal que ho gouernador ya pe-* 
]ejar coele Sc se não não. B os mouros chegarão á boca 
da barra posto que os nossos galeões eslauão bi surtoSi 
& não lhes ouuerão medo porque ventaua a viração que 
era contraíra pêra saírem de dentro, & começarão des«- 
bombardear : o que sabido pelo gouernador. mãdou logo 
a Eytor da silueira que lhe saísse cÕ doze bargantis !\ 
foy a renftos ate a boca da barra cõ a decente da maré 
mas não pode sair por amor da montante que começa* 
ua. E com tudo os mouros fugirão & fora dar esta noua a 
Halixa. 

C A P I T V L O XCIII. 

De como ho gouernador disse aos capitães da armada que. 
queria ir tomar Diu ^ de como foy contrariado. 



s 



abSdo ho gouernador Ôde as fustas estauão, & {) nã 
corrião a Chaul como dantes determinou de as ir buscar 
pêra pelejar coelas : & prímeyro ^ partisse descobrio aos 
capitães & fidalgos hfla cousa Q ja de Goa trazia na v5* 
tade, E jQtos todos em conselho lhes disse. Bê sabeis se* 
Aores ^ Diu he a mais forte cousa de toda a costa de 
Cambaya , & chaue de toda a índia por^ dali a pode el 
rey de Cambaya conquistar, & ali he a certa cdheita 
dos rumes se vier6 á índia : & por isto a fora ser tão 
mao vezinho como he pola guerra Q nosfazimf)orlamuí'*' 
to ao seruiço dei Rey meu senhor toníarse ^ o (}• agora. 

LIVRO VII. FF 



SS6 0A HI8TOSIA DA IlfMA 

prasAdo a notso senhor se podara fazer cò moyto pouco 
perigo de seus vassalos & muy pouoo gasto de sua fasfr» 
da, porque eu sey certo ^ a principal genle de Diu an- 
da nestas fustas , & a major par(e de sua arlelbana , h 
^ MelíQ toefto <} agora he capitão he ainda noao oaguer^ 
ra & sabe pouco dela {| sam cousas euidStes pêra se po« 
der tomar facilmfite : & esta foy a causa pricipal de mi^» 
nha vinda & nâ buscar as fustas 5 |>era isso abastara bi 
capitão. E porJ| eu sey certo J) Õiu esta desta maney-» 
ra , & sey Q cô ajuda de nosso seAor bo poderemos to^ 
mar , me parece Q deuemos de deixar as fustas & en« 
golfarmonos no mar, como que imos a Ormuz, & engole 
fados fazer volta sobre Diu onde vêdonos de supito bSo 
de cuydar que deixamos sua armada desbaratada de que 
bio dauer tamanho medo Q ou se nos hão de dar ou uão 
hão de poder resistir pêra os tomarmos : & islo me cre« 
de como a homem que de idade de dezaseys a anos anp* 
dey sempre na guerra ategora« E pregutado a António 
de Saldanha & a Garcia de sá que lhes parecia, diaserSo 
que lhes nSo parecia bem ir primeyro a Diu que peie^ 
jar com as fustas, porque segundo a genle delas andaua 
soberba vSdo que oie se partia de Chaui & as niio ya bus* 
car creriâo ^ lhes fugia & leriãoatreuiroêtode iraChaul 
& deslruir a cidade & a fortaleza : & quanto a ir a Diu 
também lhes fiarecia mal porque nào crião que estaua 
despejado nê se deuia de crer se se nâo visse peb olho^ 
porque como auiSo os mouros de sertãodesouidadosqua 
estando ele (So perto auiSo de ter Diu desapercebido pen 
ra se defender importa ndolbe tiito: & aparecendo ele 
no seu porto & nâo ho tomando seria híia grande des« 
honrra : por isso nfto era bè que fosse, nem menos és fus-* 
tas porque era muyto pequena empresa pêra bo gouer^ 
nador da índia. E c& ho parecer destes dous ae forâo os 
mais dos que ali estauão, somente Eyior da silaeira foy 
do parecer do gouernadòr, assi em ir a Diu como em ir 
pelejar cÕ as fustas , & por ser h6 só não aproueitou ^ 
mas ho gouernadòr disse que ainda que parecesse mal a 



LlVaO TU* CAPlTru> Xdlll. 8S7 

4cMfe8, que aiiia dir^ajar o& as faiiaB, flcquefosaBcoe** 
le qlift quiaesse. fi k>go se partia oaoi toda a armada^ 
& deu a eapitania oiór doa aaidoa da reiao a Eytor da 
ailoeira pêra qae foste ao longo da eosta, & ele com cm 
nauíot grossos ya hom pou^o amarado pêra qoe as fua* 
tas ibe nfto escapassem. E quádo bo gooeraador parlio 
apareceo no ceo bO siaal branco (ey lo coaio barra Sc » 
trauessaua de noroeste a sueste & linha hfla ponta so** 
bne DíQ 9 de ^ despois se soube qae os mouros tomarSo 
naylo mao pronosiico, & esle sinal durou ate ho dia & 
hora em q as fustas forâo desbaratadas. 

C A P I T V L O XCII». 

De como ho gouemaéhr pelejou com u armada de Diu 

^ ade9baruUm. 

Xli indo bo governador nesta ordem dia dfitrudo atar» 
de aparecera ao longo de terra bOas treze ftistas que 
ySo pêra Cbaui , & em auendo vista da nossa armada 
voilarSo fugindo : bo gouernador como vio estas cuydoa 
l\ vinha toda a armada: meteose logo em hd barganlim 
eÕ determinação de pelejar coela. E vendo que não erão 
«lais foyse ao barganlim Deltor da silueira , & disselha 
que ao outro dia prazendo a nosso senhor eaperaua que 
jpelejaesem com as fustas , & deuihe ho regimento do 
que aaia de fazer : porque ele auia destar nos galeões 
faiiorecêdo a batalha : & pêra mais animar os capitães 
na peleja n>ftdon apregoar por toda a frota ^ que daria 
c8 cruzados ao capitáo q primeyro aierraase fusta* £ 
aabido pela frota qae auiXo de pelejar confessarãae to^ 
dos aquela noyte: & ao outro dia q era <|uarta feyra de 
eioca seys de Peuereyro em rSpendo a alua chegarão a 
Bombaim dde as fustas estauSo pegadas cõ hOa ponta ^ 
fc erSo per todas sessenta & quatro. Eytor da silueira 
como foy lho dia claro que as vio correo lodce os bargan- 
t!a & cataees de soa capitania & nUkloo a todos os car 

FF 2 



S28 ' BA HISTORIA lU tNDM * 

pilães que nSó tirassS obit tiro aes Imigos senSo des* 
pois de desesperarem de os aferrar- que assi ho tkiba 
mandado ho gouernador , porque wAo fugissem com me^ 
do da nossa artelbaria. £ receando Evlor da silueira ^ 
os mouros se se vissem em apertada sè acolhessem á hu 
rio que lhes íicaua da bãda do oorle , niãdou a bus oyio 
capilães de hargantíns que em ele rompêdo com os mou* 
ros tomassem a boca do rio & lha defendessem , & aba* 
lou pêra os mouros com os outros cujos capitão erao á 
fora ele, Diogo coelho, Gaspar paez, Francisco aluares, 
loão rodriguez ho chatim, Pedraluarez de mezquila, 
António correa de Goa, Lourêço bolelho, Ghristouâo 
Lourenço carracão, bo calafate de Gbaul, Diogo cores- 
mas maiu, Pêro barriga, António colaço, Ghristouâo 
correa, lorge diaz, & Antonjoferoandez : com qu6 ySo 
estes 6dalgos , Ghristouâo de melo & Diogo de sã Payo 
sobrinhos do gouernador, dõ Frãcisco de crasto, loão 
perejrá, Manuel rodriguez c^uiinbo, André casco, Frã- 
cisco de barros de payua, Luys Coutinho, Duarte coe* 
lho, loão de melo, Garcia de melo, António barbudo, 
loão da silueira, Manuel docarualhal, Nuno pereyra, 
Lãçarote dnlpõeni & outros a que nâo soube os nomes. 
Halixa estaua coro suas sessenta & qbalro fustas feytas 
è três batalhas & ele na da retrogoarda: & como vío que 
os nossos ababuão deu sinal abs. seius que tirassem coro 
a artelbaria , & começou de tirar tãtos pelouros que era 
cousa despanto, & tudo foy cuberto de fua>o, & por mais 
bastos que os pelouros eriui os nossos tirauáo auante 
quanto podião sem nbà tirar. O que^ visto por Haliza^ 
& H chegauâo a aferrar nâo ousou dagoardar mais com 
medo & fezse á vela pêra dobrar a põia que digo & a* 
eolberse pelo rio acima, & por ho venío ser escasso pê- 
ra isso mandou meter os remos. de Q tão pouco se pode 
ajudar por ser contra agoa, § vazaua a maré, & por iá- 
6o se mudou a outra fusta peQna & deixou a sua Q era 
grade, o que foy causa descapar da peleja que a este 
tempo se começaua datear brauamente , porque o& nos- 



LIVRO VII. CAPITVLO XCIIII. 22$ 

fi08 chegarão aos iromigos, & ho primeyro bargántiio ^ 
aferrou cÕ hQa das fustas Q era como bQa boa |;aleola 
Soy ho Dantonio fernfldez em i) yão os fidalgos <} disse ^ 
& com a grande pancada Q ho bargantim deu em afer- 
rando tornou a desaferrar & afastouse hQ pouco ficando 
dentro na fusta Francisco de barros de payua ^ foj ho 
primeyro que saltou neia & ficou na postiça onde ho es* 
jpaço que ho bargantim esteue sem tornar a abalrroar 
correo muyto grande perigo & sofreo trabalho ímmenso 
em se defender dos imigos que trabalhauãoquãtopodiãò 
pof lhe tirar a vida. E tornando ho bargantim a aferrar 
foy socorrido dos outros a 2) os mouros defendião que 
não ètrassem na fusta. £ estado nesta perfia cayo da 
gauia da fusta hua panela de poluora que quebrou na 
mesma fusta do mas to pêra a popa , & tomando fogo a 
poluora que ali estaua arrebentou com hu medonho es- 
touro , & toda a cuberta daquela parle lançou ao mar 
com quantos estauão neta y & Francisco de barros que 
hi estaua cayo no bargantim ferido em hum hombro di& 
zagunoho, & forflo feridos loão pereyra de bda frechada 
Bo rosto, & dom Francisco de crasto na cabeça com hua 
pedra, & conu) a fusta arrebentou ficou rSdida , & en- 
tre tanto chegou Eylor da silueira com os outros capi- 
tães y & aferrado os !migos apertarãnos tã rijo que fize- 
râo saltar muytos ao oiar & outros matarão, & os des- 
baratarão de maneyra que todos fugirão & os Por^ugue* 
ses os seguirá & por se não poderem acolher ao rio que 
cuydauãoy forâo tomadas coreia & seys fustas com toda 
sua artelharia & queimadas três de Q não escapou nin- 
guém que todos fofão morto» nelas & no mar : sem dos 
Portugueses morrer nhfl , somente forão algfts feridos , 
& das onze fustas que escaparão reeolheo Halixa sete 
g5 a sua & fugio pêra bd lugar grande chamado Taná 
donde se foy a Baçaim, & as quatro fugirão p^lo rio de 
Nagotane onde forão tomadas pelos gentios de Chaul, 
& assi não escaparão mais que as sete ^ leuou Halixa. 
£ desbaratados os mouros, reoolbeose ho gouernador cd 



tS* lU HflTOUA BA TNDIA 

M numioÊ grossos aa enseada de Bombaim no próprio 
dia j no qaal fc na noyte segulte os dos nauios de remo 
que pelejarSo cõ os mouros os acabarão de matar na a- 
goa* E isto fejto ajuntou Eytor da siiueira soa armada^ 
& as fustas que toraoit aos fmtgos & foyse pêra bo go* 
uemador que ho recebeo cS moyto prazer^ & iaa armon 
eaualeiros a mujtos fidalgos & a outros que bo quiserSo 
eer por se acbarC em bCi feyto tio hOrrado como aquele 
foy, & de que os mouros iicarSo muy debelitados: por^ 
toda sua esperança eslaua na<j[U armada. B juntos todoa 
os nossos , tornou ho gouemador a piopoer em oõseibo 
sua ida a Dia^ dando por rezSo muy principal ho desba- 
rato das fustas com ^ Dio ficaua desbaratado & ae tei- 
maria facilmente ou se daria ^ mas nSo lhe aproueiton 
por(} António de Saldanha & Garcia de sa lhe lorão muy 
cdtraíros, & por sua causa outros muy tos como da pri* 
meyra. E foo a cousa a tâto (| lhe désae Garcia de sa 
que aXo roubasse a honrra a N«no da cunha que el rey 
não maodaua aa índia a outra cousa se não a tomar 
Diu : por isso ^ lho deixasse, «e não S pedia dele bO es- 
(onnêto, & ho mesmo dizia António de saldanba. E por 
ho gouernador não ter da sua parte mais que Eytor da 
siiueira, & andar muy acanhado c5 a vinda de Nuno da 
cunha ^ quasi ninguém bo queria ver, não ousou dir cõ- 
tra os requerimêtos que lhe fa^ião. E segundo se dcspois 
aoube^foy cousa muy errada não ir a Diu porQ se Ibe en- 
tregara se la fora & não custara tãto como ^pois cusv 
tou assi de aangue como de dinheiro , & pêra sua d«s- 
culpa com el rey pedio bo gouernador ao secretario hii 
estormento de certidão do que proposera naquele con- 
selho & no outro ates de pelejar com as fustas , pêra ^ 
el rey soubesse q«e ee não deixara de tomar Diu por sua 
culpou E este estormCto foy tirado de hQ auto que ho se- 
cretario fez dambos os conselhos que foy assinado pelos 
que forão neles. 



LIYAO VIU CAP1T¥U> XG¥. S3 1 

C A P I T V L O XCY. 

De eomo ho gouemador quUeru ir $obr€ a cid^ de Ta* 

ná^ ^ a CQiu9a porque nâofoy^ 

V eodo ho gouernador Q não podia ir a Diu , determí* 
BOtt de dar em Taoá bfla cidade da mourot qualro le^^ 
goas por dentro do rio de IMiaim, cidade grande & ríca^ 
& em ^ ae fas muyta roupa de Cambaya, & era senhor 
dela bQ Xeque : & porQ ho goutjrnadur aabia que esiaua 
rioa a queria tomar pêra a dar a aaco aos soldados ^ le^ 
uaasem de comer pêra ho inuerno ; & pêra 1| ho fizesse 
tributário a el rey de Portugal. C proposto isto em con^ 
selbo , & acordado que bo tisesse embarcouse na fusia* 
Iba & nos baleia dos galeões com toda a gente da arma** 
da , & António de saldanba fo^ õ bOa galé muyto con*» 
tra võtade do gouernador & de todus, porque ya em ris^ 
00 de ficar em seco : & aquele dia á tarde que foy bo 
primeyro de Março entrou pelo rio de ASaim com deter^ 
minaçâo de chegar a Taná em amanhecido porque to* 
masse os immigos mais desapercebidos. £ indo todos a 
remo com a maré que enchia ja perto da cidade , soube 
ho coniilre da gaiéDantonio de saldanba tSo mal atinar 
bo canal do rio que se meteo por hfi esteiro, em que fi- 
cou em seco qoãdo vasou a maré que foy quasi em ama<^ 
nbecendo , & assi ficou toda a armada em seco , & foy 
cousa espitosa quando foy manhaã clara ver como fica^ 
rào os bargantios & catares , porque bils ficauSo com os 
esporões fincados no ehSo & as popas pêra cima, outros 
com os esporões pêra cima & as popas pêra baixo , que 
parecia que os esteueráo ordenando daquela maneyra : 
do que ho gouernador ficou bem agastado porque nSo 
auia outro remédio se uSo esperar pola maré : & os ca- 
pi tiles asu como bo nauio de cada bum pedia nadar, as** 
9i tiraua^ pêra a cidade por mais mandados que bo go- 
ueraador Jasia que bo nã fixessem , & deixauãno só , & 



232 BA HISTORIA DA fNOlA 

ate António de Saldanha deixou a sua galé em seco & 
foyse em hOa fusta, & a gale ficou ê risco de nSo poder 
sair , porque as agoas yão quebrando como que as ma- 
res da noyte sam mores que as do dia , & por isso ficou 
a gale S muyto pouca agoa, & não podia nadar, nè po- 
derá sair sem ajuda : & esta deu ho gouernador que por 
se não perder nã se quis dali ir ate a nSo tirar, & ele 
por sua pessoa se meteo na vasa ate a cinta & ajudaua 
a tirar pelos cabos & aportar ancoras porJ| os fidalgos 
que yão coele tirassem tãbem , o 1} eles fizerão & forão 
Christouão de melo , Diogo de sam Payo, dom Francis- 
co de ^rasto , Frãcisco de barros de payua , loão perey- 
rs, Manuel rodriguez contenho, Ândre casco, Luys Cou- 
tinho , Duarte coelho , loâo de melo , Garcia de melo , 
Idão da silueira , Manuel do carualhal, António barbu- 
do, & Lançarote dalpõem. E ajudarão também Louren- 
ip botelho com a gSle da sua fusta & ho colaqo coro a 
do seu catur: & leuando todos tanta fadiga & trabalho 
que lhe saya ho sangue das mãos de puxarS poios caboa 
tirarão a gale pêra ho alto das oyto horas daraanhaãate 
a hOa despois de meyo dia, sem nhQ dos outros capi- 
tães querer ajudar se não tirar pêra a cidade posto que 
vião ho trabalho em ^ ho gouernador fícaua. E vendo ele 
tão pouca obediScia aos seus mandados não quis dar em 
Taná porque receou ^ tão pouco lhe obedecessem lá & 
que recrecesse disso algu desastre, & tornouse pêra a 
frota que deixaua no mar. £ vendo os que estauão diã- 
te da cidade partir a bandeira forão a pos ela : & ho go- 
uernador não quis castigar tamanho desacatamSto co- 
mo aquele foy por os culpados serem muytos mas re- 
prendeos brãdamenle: & perdeose h& bÕ saco naquela 
cidade porque estaua muy rica. E por ser ja perto do 
inuerno & ho gouernador auer dinuernar em Goa, & 
não ter mais j| fazer na(|la costa que não fizesse hu ca- 
pitão mòr & deixou hQa armada de vinte bargantins & 
duas galeotas com trezentos homSs a Eytor da silueira 
pêra que fizesse a guerra na^Ia costa ate ho cabo do 



LIVRO Vil, CÁPJTVLO XCVI. «31' 

Terão em que se recolheria a Ghaul^ & ele partiose pê- 
ra Goa onde chegou em Março. 

€ A P I T V L o XCVI. 

Do que fez António de miranda na costa do Malabar 
côtra os mouros de Calicut cô ajuda de Chrisiouâo de 
melo. 

v^egado bo gouernador a Goa despois do desbarato 
das fustas mâdou a Ormuz três galeões carregados de 
mercadoria dei rey, cuja capitania mór deu a dom Fer-> 
liando deça seu .cunhado, & forão seus capitães Antó- 
nio de lemos & Lopo <ie mezquíta , & mandoulhe que 
da voUa fosse fazer presas á ponta de Diu, & despachou 
pêra Rlalaca a Garcia de sá qoe tinha a capitania , & 
encomSdoulhe muyto ho resgate de Martim afonso de 
melo jusarte que estaua catiuo em ^Bõgala, & mandou 
ao Malabar Christouâo de melo seu sobrinho em hfla ga- 
le & seys bargâtins de baixo de sua bandeira pêra que 
se ajuntasse com António de miranda & lhe obedecesse^ 
E chegado laa foy coele ao rio de Chalé õde sabia que 
estaua hQa grande nao dei rey de Calicut carregada de 
pimgla pêra Meca & doze paraós pêra irem em sua com- 
panhia em que aueria ojk> centos mouros frecheiros & 
espingardeiros a fora outros despadas & laças ^ erão 
rouytos, & António de miranda entrou no rio com os 
bargãtis & catures leuâdo os a fio por ambas as partes 
do rio que lhe não fizesse nojo a artelharia dos mouros^ 
que tinbSo os paraós diante da nao na metade do rio en-* 
cadeados de quatro em quatro com bombardas nas proas 
& per ambos ^s bordos. E por mais bombardadas !\ ti- 
rarão , os Portugueses remado a todo tira , & desparan- 
do sua artelharia lhe chegarão , & aferrando cõ os qua- 
tro diSteiros pelejarão tão rijo c5 os mouros que estauão 
neles Q os fizerão fugir saltado hQs ao mar & outros re- 
colhendose pêra os paraós traseiros que logo forão cer- 

Livao VIK GO 



834 BA MiSTOEU DA ÍNDIA 

oados do9 Portugueses , & pêra se despacharS mais asi- 
nha lhe lançarão dêtro panelas de poluora com que os 
queimarão^ & coisso se deitarão todos os mouros ao mar, 
& deles forâo mortos i>agoa outros fugirão pêra terra a 
Dado cõ (amanho medo que nem na pouoação se atreue- 
rão a saluarse, & os Portugueses a Rimarão & destrui* 
rflo tudo ao derredor. E destruída a terra tornouse An- 
tónio de miranda sem perder nhQ dos seus de ^ forão fe- 
ridos algiis, & leuou consigo a nao carregada como es* 
taua Sc ojrlo paraós § os quatro forão queimados, Sc ma* 
douha coeles a Cochim onde ho vedor da fazenda man^ 
dou fazer deles bargãtins , & a pimenta foy descarrega- 
da na feytoria. Despois disto and&do António de miran- 
da & Cbristouão de melo a monte fermoso h& da bãda 
do sul & outro da do norte, teueChristouão de melo vis- 
ta da armada deCalicut hu dia a tarde, & sabendo que 
era de cincoeata paraós ajuDtouse com António de mi-* 
Vanda (que ainda não sabia parte dela) & diaiselho, & 
por ser tarde não pelejarão coela aquele dia & deixara* 
RO pêra ho outro dia. E cõeerlado da maneyra i\ auiade 
ser, em amanhecendo foy seChrístouâode melo em bus- 
ea dos immigos iiulo abolinãdo ao longo de terra com ho 
lerrenho, & António de miranda se empegou. E ido £ts- 
si ouue Ghrislouão de melo vista dos imigoa que tam- 
bém ho buscaoão, & sendo perto deles tiroulhe algas ti- 
vos, & como ^ auia medo díeies poios ver muytos virou- 
lhe a popa com os oulros & fezse na volta do marJ E em 
os mouros vendo que fugia forão após ele obra de trin- 
ta paraós que ho seguirão ate auer vista Dantonio de 
miranda, que indo de auiso do ^ auia de fazer em ven- 
do Cbristouão de meio fez volta , & passando a sota ve- 
to dele meteose por âtre os imigos, que vSdose assi co- 
meter de sobre salto amainarão pêra fugir a remos por- 
que não podíão pola bulína. E nesta detença oyto dos 
nossos bargantins aferrarão oyto paraós, & começarão 
de pelejar : & querêdo os outros fugir sayolbes ao en- 
contro ChrislouSo de melo, & seys dos seus bargantins 



LIVRO VII. CAPITVLO XCVII. 236 

nbaIrroarSo cÕ outros seys paraós , & os dezaseys I| fica- 
rão por aferrar fugirão ate se ajuntar t^om ho seu capi- 
tão mor seguindo os António de onranda ás bon>barda« 
das & espingardadas: & nisto esteuerâo hd pouco coe- 
les, {| posto que os quiserão aferrar eles se goardarSo 
bem disso: tanto que apertando os nossos pêra ho fazet 
lhes fugirão ao longo de terra metendose por rios & es- 
teiros cõ muyta gente ferida & algos paraos arromba^ 
dos, & António de míranda & Chrislouão de melo oa 
não quiserão seguir, & forâo ajudar os seus t\ ficarão b^ 
ferrados com os fmigos que ja os tinhão desbaratados, 
& os matarão todos, sem ficar nhQ, & os quatorze paraoa 
lhes ficarão em poder que António de miranda mandou 
a Cananor pêra os fazerS bargantis: & correrão a costa 
despois, & deixado a limpa meado Abril se recolheo 
Cbristouão de melo pêra Goa & António de miranda pe-» 
xa Gocbim por amor do inuerno. 

CAPITVLO XCVIÍ. 

Da guerra que Eytor da silueira fez em Cambaya. 

jO içando Eytor da silueira por capitão moor na costa 
de Cambaya, determinou de tomar h3a fortaleza duas 
legoas do mar pelo rio de Nagotane, em que soube que 
estaua h& eapitão dei rey de Gambaya com seys centos 
de caualo & dous mil de pé : & deixou dir porque obra 
de bCia legoa da fortaleza era bo rio tão baixo que não 
podião nadar os catores, & queimou sey^pouoaçSesgran^ 
des de lauradores que estauão quasi na entrada do rio 
de hiia parte & doutra , & fez espantosa destruição : 6 
que sabSdo bo capitão da fortaleza foy ho buscar conv 
sua gSte pêra pelejar coele , & topouho na derradeira 
pouoaçSo que andaua destruindo. E sabendo Eytor da 
silueira quão groesa gSte trazia n&o quje pelejar coel« 
no capo por ter tão pouca gSte como erã trez&tos 1h>« 
mõsy parque muyto ya de pelejar coeies no cflpo a pele^^ 

OG 2 



SS6 DA HISTOUIA DA INDrA 

jar na fortaleza onde delerminaua dir pelejar 9 que 00 
campo auião destar espalhados & tirar aos nossos como 
a barreira, &c na fortaleza não auião de pelejar mais que 
aqueles ^ coubessem no muro, & no primeyro Ímpeto Q 
era ho mais forte ficauão com os nossos quasi tantos por 
tãtos y & por isso não quis Ey tor da silueira pelejar , & 
assi ho disse aos seus que fez recolher aos bargãtis fi- 
cando ele na traseira, porque os mouros Q chegauão ja 
sobrele assoberbauãno muyto dando grandes apupadas , 
& chamando nomes aos nossos & os de caualo remeiião 
escaramuçâdo : & Kjtor da silueira lhes fez rosto com 
a gente que estaua por embarcar (irado muytas espin- 
gardadaSy & hu dos nossos que tinha hQa laça com bQa 
rodela se afastou do corpo dos outros , & hã dos de ca- 
ualo que ho vio só remeteo a ele pêra ho ferir a mão ten- 
te com ha zaguncho, & ho soldado ho esperou^ & em 
querSdo chegar a ele f\ al<^aua ho braço pêra ho ferir me- 
teolhe a lanqa polo sobaco do braço & deu coele no chão 
ferido mortalmente, & ainda não foy no chão quâdo lhe 
ho soldado tomou ho zaguncho , & caualgãdo no caualo^ 
leuou outro mouro dêcontro que ya pêra ho ferir, & pas- 
sou ho poios peitos posto Q ho laudel era forrado de ma- 
Uia: ao que os nossos derão grade grita & desfecharão 
hua grade çurriada despi ngardadas, & coislo se teuerâo 
08 mouros &. se retirarão. £ ha soldado tomando ho ea- 
ualo do segudo mouro pela rédea se foy cõ muyto asses- 
sego pêra Eytor da silueira pedindolbe que ho fizesse 
caualeyro quando fosse tempo, & ele ho fez. E não po« 
nho ho nome deste soldado por não ser conhecido: porS 
ganhou ali esta honrra, & Ejtor da silueira lha fez dali 
por diante, & assi ho gouernador ^ lhe chamaua ho seu 
caualeyro, & na igreja estaua juto coele, & eu ho vi 
muj^tas vezes. E embarcado Eytor da silueira foys&ao 
leigo da costa caminho de Baçaim dali a clco legoas : mea 
legoa por hu rio acima, mandando diante saber sua dis- 
posição per hu Christouão correa capitão dQ bargãíim: 
& este lhe disse que quasi pegado cõ ho lugar estaua 



LITRO VII. CAMTVLO XCVII. 437 

htla IrSquèira de madeira de duag faces entalhada que 
tinha ires baluartes do mesmo com sessenta peidas dar- 
teiharia grossa, & eslaua em sua goarda & do lugar Ha- 
lixá (^ fora capilâo das fustas) cô três mil homSs de pé 
& quinhStos de caualo acubertados. E com quanto isto 
88 soube era ho desejo dos nossos tamanho de pelejar cõ 
06 mouros , que em quanto Ejtor da silueira fazia eõse- 
Iho como auiâ de cometer ho lugar bradauâo todos que 
acabassem. E assêtado por todos que se cometesse , & 
repõtãdo a maré entrarão pelo rio acima cõ grades ale- 
grias : & ao outro dia ás noue horas chegarão defronte 
da tranqueira que estaua na borda do rio que não auia 
outro desembarcadolro se não nas bocaa das bõbardias ^ 
logo despararão nos nossos, que sendo (ão pouco» era 
cousa medonha velos antre tãtos pelouros como vinhão 
da tranqueira ^ pêra cada hú dos nossos auia muytos Q 
os matassem, mas nosso senhor os goardou que todos es- 
caparão & tomarão terra , & os primeyros forão duzen- 
tos piães Canarins que yão cõ Malu mocadão dos remei- 
ros Q Eytor da silueira deitou diante pêra quebrar neles 
a primeyra ^urriada da tranqueira, & tambS estes forão 
saluos. E desembarcado Eytor da silueira , remeteo á 
tranqueira que muytos dos nossos tinhão aferrada, & 
pelejauão muyto valètemente com os immigosquesede- 
fendião muy bem, & dauão {} fazer aos nossos por serem 
muytos : & se os nossos não teuerãa tãtas espingardas 
?irãse 6 assaz de trabalho, porque as frechadas dos im- 
migos não tinhão conto, nem os arremessos & pedradas 
que lançauão , & laçadas que dauão a mão tente , mas 
as espingardadas dos nossos podião mais & derribarão 
tantos que fizerâo caminho pêra 6trar sem lhe os mou- 
ros poderem resistir, posto que trabalharão nisso quan- 
to poderão. E v6do que os nossos os entrauão fugirão, 
& eles os seguirão ate ho lugar onde se meterão lodos : 
& aqui iizerão os immigos rosto aos nossos defendendo* 
•e. È isto porque sabãdo Halixá (| Eytor da silueira ya 
sobre a tranqueira, receado que a entrasse deixou nela 



238 0A HT0TOKfA DA ÍNDIA 

a gente <) lhe pareceo que abastaria pêra a defender & 
com a outra de pé & de caualo se pos em Cilada cam 
têção de dar nos nossos despois de andarem no lugar, 
& Gom 08 immigos lerê esta certeza íizerâo rosto aos 
nossos & se defendido. E estando nisto sayo Haiixá da 
cilada coro os de caualo diante & os de pé detrás, o que 
siniido Ey(or da sílueira recolbeo os nossos & sayose ao 
campo, & feytos em hQa pinha esperou os immigos que 
ho forâo cometer cuydando í| lhe fugia. E chegado os 
dianteiros ^ erão os de caualo, desfechao os nossos as 
espingardas tirando em roda viua por!| os mouros os nào 
entrassem & derribarão muytos deles, & os caualos c5 
medo do eslrÕdo das espingardadas oomeção de fugir , 
& metSse por anlre os de pé derribando os com os pei-* 
tos, & trilhando os com os pes os desbaratarão & tizerâo 
fugir & coeles Halíxa: & os nossos por estarem muy 
cansados os não seguirão^ & íbrâo roubar ho lugar a que 
derâo fogo despois de roubado & ardeo a parte daquele 
dia & quasi todo ho seguinte sem ficar cousa Q não fos* 
se queimada, & cortadas as hortas & palmares derredor^ 
K foy cousa espãlosa a destruição que foy feyta por tão 
pouca gente. E isto acabado í\ foy bQa cousa muy gran* 
de sayose Eytor da silueira pêra ho mar com sua arma* 
da carregada de muy(a fazSda, artelbaria & catiuos que 
se (ornarão em Baçaim, & com três taforeas carregadas 
de madeira, & foyse por essa costa a destruir muytas 
pouoações : do que a gete fugia cõ medo , & os nossos 
queimauão os lugares & destruyão (udo. E era ho medo 
lamanho nos da terra Q a seys legoas por dentro do ser- 
tão nao ousaua ninguém de parecer. E coes te medo ma n* 
dou ho Xeque da vila deTaná pedir paz a Eytor da sil- 
ueira com lhe oflrecer que pagaria cadãno quatro mrl 
pardaos de páreas, & da^le deti logo dous mil & por não 
poder pagar os outros dous mil deu arrefens. E de tudo 
isto foy feyto hQ contrato assinado por ambos, & por sei 
DO cabo do verão se foy Eytor da silueira a ChaoL onde 
auia dinuernar, & dabi mãdou aa taforeas da madeira ao 
gouernador. 



LIVRO yil« CAPITVLO XOYIII. t39 

C A P I T V L O XCVIII. 

Do que passou dô lorge de meneses c6 Fernão de la torre* 

j\,ttM fica dito quSo pouca ajuda deu Gdt^alo gomea 
daseuedo a doni lorge de meneses oÔ a gente Q leuou 
de Malaca ^ & como nS queria mais que estar na forta- 
leza fazêdo sua fazenda : porejo bfl só bem lhe fez que 
Cou) sua estada eofreaua os castelhanos & os mouros pê- 
ra que não fizessem a guerra tão apertada como dates , 
& tinha muytas vezes tregoas & yâo folgar hQs cÕ o» 
outros sem terem necessidade de pedirõ seguro se não 
quando cbegauão ou leuantauão hila bandeira branca , 
ao que parecia que aueria pazântreles. E com tudo nun- 
ca a ouue, n3 Fernão de ia torre quis dar a dõ lorge os 
Portugueses que tinha catiuos por mais vezes que lhos 
pedio do que dom lorge estaua muylo agastado. E cor- 
rêdo assi ho tempo hQa noyte quasi no fim do quarto da 
prima forSo ter na fortaleza deus caslelhanoã, que to- 
mados pelas vigias forão leuados a dom lorge ^ os man-^ 
dou prender cuydando que yão pêra dano da forlaieza 
por não pedirem seguro, neip leuarem recado do seu ca- 
pitão. E sabendo Fernão de la torre a prisam destes Cas- 
telhanos com seguro de àÕ lorge lhe mãdou hQ embaixa- 
dor que foy com tamanho aparato como que fora de htl 
grande príncipe ^ porque alè de leuar muyto ricos vesti- 
dos, lenaua diãte trombetas, & frautas & deus reyg dar* 
mas : & ya acompanhado de gente muy luzida. E a cõ^ 
crusam de sua embaixada foy espfitarse Fernão de la 
torre muyto de dom* lorge prender os dous Castelha- 
nos, sendo tão costumado antreles, & os Portugueses irS 
folgar hQs com os outros , pedindolhe ^ lhos desse : & 
dom iorge disse ^ ele responderia , & mandou apousen- 
tar ho embaixador que deteue algfls dias, & neles lhe 
fez muyta hArra comendo ás vezes ambos, & oulras lhe 
mandaua de comer a sua pousada. £ hQ dia eslãdo ho 



240 SA HISTORIA DA IN DIA 

embaixador no cabo do comer lhe mandou dom lorge 
como por zõbaria bu pastel «em queySo bQ cSo & hu ga- 
to pequenos viuos com h(l recado, que pois aqueles dous 
que erão tão cõtrairos de sua natureza, & estauáo lâo 
pacíficos, que porque ho não eslauão assi os Castelha- 
nos cÕ 08 Portugueses , pois que auia tanta rezão pêra 
isso , assi por serem todos Christãos & espanhoes, como 
lambem por serem vassalos de dous principes tão liados 
per parentesco & amizade. E visto pelo embaixador bo. 
recado & ho presente, mãdou preguntar a domiorgeper 
qual daquelas alimárias entendia os castelhanos. £ ele 
respondeo ^ polo gato, por ho terem ate então muylo 
arranhado, & ele auia de ser ho cão que os auia dapa- 
nhar dum bocado, & Q dissesse a Fernão dela torre que 
lhe pedia nuijto ^ lhe desse os Portugueses que lhe la 
tinha , se não ^ lhe não auia de dar os castelhanos, que 
pêra isso os iomara. E isto respondeo ao embaixador 
por derradeyro quando se tornou : porem Fernão dela 
torre não quis dar os portugueses. E daqui a dias a qua- 
tro de Dczêbro chegou a Ternate hum fidalgo chamado 
dom lorge de crasto em hum jungo de que ya por capi- 
tão & de caminho foy porBorneo, leuando em sua con-. 
serua hum lorge de brito por capitão de hfia fusta que 
se perdeo de sua companhia & tornouse pêra Banda, & 
dõ lorge leuou muyta roupa fieraa feytoria & muni<;de8 
pêra a fortaleza que então era tudo mujto necessário. 
E com a vinda de dom lorge de crasto se fauoreceodom 
lorge algQa cousa, & mandou ho darraada ao morro, on- 
de chegado pelejou com a armada dos imroigos&oadesn 
baratou & se tornou a Teroate : & sendo ja em laneyro 
de mil & quinhentos & vinte noue, Gonçalo gomez da« 
zeuedo começou de querer entender em sua partida pê- 
ra Malaca : o ^ vendo dom lorge de meneses , lhe reQ- 
reo muyto estreitamSte que ho não fizesse, & assi ho 
requereo a Lionel de lima, a quem tinha dada a alcay* 
daria mór da fortaleza, & capitania mor do mar, poen- 
doihe diante a necessidade que linha deles por amor da 



IIVRO VII. CàPrtVhOXOTX. ^4t 

guerra que lhe faziSo ôs mouros & os Castelbânoè , & 
em quanto apreto ficaria por Ibe leuarem a gente. E' com: 
tudo nunca quiserão se nSo irse, prometendolhe de lhe 
nSo leuar a gente, que dom lorge deteue com muytos 
rogos & dadiuas de sua fazenda, & proroetendolhes que 
no anno seguinte lhes ajudaria a fazer crauo. E coisto 
que íhes prometeo íicarâo : & pola ida de Lionel de li- 
ma deu 08 seus officios a hfi Gomez aires criado do mes^ 
tre de Santiago , & mandou na conserua de Gõçalo go^ 
mez dazeuedo a dom lorge de crasto que fosse pedir so- 
corro a quaisquer capitães ou mercadores que achasse 
em Banda , assi de gente como de mercadorias pêra a 
feytoria. E parlio Gonçalo gomez & os outros a dez dias 
de Fenereyro , & Gonçalo gomez foj por Backão pêra 
tomar hi Manuel falcão que deixou em Bacfaão ale sa** 
ber se dom lorge queria que ele fosse pêra a fortaleza 9 
o que ele não quis consentir por estar mal coele, como 
ja disse. 

C A P I T V L O XCIX. 



E 



De como Garcia de sá se partio pêra Malaciu 



Jintrado bo mes de laneyro deste anno de mil & qui*^ 
nhentos & vinte noue que era a moução pêra ir de Ma- 
laca pêra a índia , partiose lorge cabral que fora capi- 
tão da fortaleza de Malaca, & dom Garcia anrriquez ca- 
da hu em seu jungo, & assi outros fidalgos que laa es- 
tauão & chegarão aa barra de Cochim , & com quanto 
yão com determinação de passarem a Goa não ousou lor- 
ge cabral por ser ja na fim de Março & ventarem os no- 
roestes que correm ao longo da costa & Lhe erão por da- 
uante, & por isso se acolheo lorge cabral a Cochim. E 
dom Garcia não quis acolherse coele, & disse que auia 
de passar a Goa em que pes ao vento & ao mar : & po- 
lo vBQto ser por dauanie, & bo jungo em que ele ya ser 
mao de bolina & ir muyto carregado ^ chegou a Bateca- 
lá com muytp grande trabalho. & perfia: & estado hi vio 

LIVRO VII. HH 



S4S 9A HWTOUbk JU INMA 

qtie lio tempo aiiia de ser de cada Tez mait forte por eer 
■leedo Abril que entraua ho inuerno, & por itao ouiie 
por seu acordo que era aielhor loroaree a Codiiai : co- 
no tornou, & com grade lormenLa chegou aa sua barra 
oode durando a lorfueaia surgia 9 porque por ho juDgo 
ser graode & ir muylo carregado aio pode eolrar iio rie 
de Cocbim. £ deijtaiido do» Garcia ho jungo surto m^^ 
bre hua ancora foyse a terra , & despois de ido creceo 
bo ▼esto taoto que durou ires dias & Ires noyíes & aa«* 
daua ho mar táo gresao que ho juago se íoy au fundo c5 
a Biuyta a^a que lhe entrou denlro, em que se perde- 
rão cíneoenta mil cruzados que tanto valia a carrega 4 
Unba : & doA Garcia não ficou cÕ mais que com ho ves« 
tido com que íóy a terra, & despois bo prendeo Nuno 
dn cunha pelo qtie ãzera em Maluco & ho mâduu preso 
a Portugal 00 anno seguinte. E despois de passada esta 
tormenta, Garcia de saa que estaua então em Co6bí se 
parlio pêra Malaca, & ya em hua nao, & leuaua et» sua 
companhia hum jungo que oomprara pêra leuar sua fa- 
zenda: & ho jungo se perdeo ao sair da barra. E che- 
gado Garcia de saa a Malaca^ lhe entregou Pêro de fa- 
ria a capitania da fortaleza, & ficou em Malaca ate ho 
Setembro seguinte que se partio peca a In.die oode che- 
gou em Nouembro. 

CAPITOLO C. 

De eoma d rey Dachem tommè fH)r enfmw hH galtSa o 

Mantícl pu€he€o. 

£il rey de Dachem po4o8 recados que tínha mamlado a 
Pêro de faria que maadasse pola igató como atras fica di« 
to esteue esperando q.ue fossem por ela» £ quando vio 

2ue não yáo , nem Pêro de f<if ia Ibe mamlaua reposta 
cou espan4ado, fc4k4rerBi.inou.de saber porque lhe não 
mãdaua recado: & mandando pregujilar a causa disso 
ao Bedara de Malaca 4 ^^^ eome Sanaya de raja o5 



Livno tn. cAPTTvxo c. S4S 

qntm tínlíB grande nmhtíéeí^ & lhe peilaua groMEiíiDen* 
te por ih6 dar auiso do (\\jm s^ibia Q os Porlogneses de« 
terminauão & quantos erão, porque todo seu pensamcn^ 
to era diininuilos tanto com ardij8.& manhas que podas- 
se tomar a fortaleza sem perigo. E como pêra isto tinh» 
este trato* eom Sanaja, foy por ele auísado de como Pe*- 
ro de faria recebera bem a embaixada qae lhe leuars 
António caldeira, & como ho mandara ctmi reposta: fc 
por amor da saa amizade que tinha por muyto certa n&o 
dera socorro a el rey Daupu^ & que se Garcia de saa nãd 
entrara na capitania naquele tempo, que sempre Pêro 
de faria mandara pola galé. E el rey deDachem que is-» 
to soube, determinou logo.de cometer paz a Garcia cte 
sá pêra ver se lhe podia acolher algfis Portugueses pêra 
os m^tar, & mandoulbe hum embaixador, que au^dose» 
guro de Garcia de sá entrou em Malaca, & primeyro 
que desse a embaixada correo toda a cidade sobre huoi 
alifante leuando nas mãos hum bacfo douvo em que ya 
hfta carta dei rey de Daefaem pêra Garcia de ea & ro^ 
deado de muyta gente úé pé', leuaua bum homem dian^ 
te taégvndo em bQa batia , &; de quando em quSdo dh» 
?ia em )vqz alta como fwegâo tfU0 e( te^áe Dachem qoe« 
ria £raer nnÀtt^ cckú é fej de Portugal: & isto £ez 
por ser assi ho costume daquelas partes* E corrida a ci^ 
úade deu a embai!iad^a a Garcia de sa, cuja concrusani 
foy desculparae d» que ftira feyto a SímSo de sousa gal* 
ufio^ & como estaua prestes pêra dar a galé, arteiharía 
&* Portugueses , sobi'^ que '«3dara trea a Malaca per 
duaa retea pedir aa^eaprtilo^qae mandasse por todo biiiR 
homem bonrraiki^ peva assentar coele amizade , porque 
deslB)a«a que os Portiigaesea teuessem trato em sua ter« 
rB\, & que tioii«a virarreposla: pedindo a Garcia de saa 
<)ue .Use '^sèsae responder com fazer o que pedia« E 
pareieendo Garcia de saa que era aquilo terdaée , fei 
Kiuyta Mrra aer efaibaizador, & despedioho logc mandan* 
<}o eòdOiiOQtrD com reposta como el rey <(iierfa, qu« fea 
gnoide raaeiíi mento aa embaixador Porlugives, & po9 

HU 2 



244 .OA HISTORIA DA ÍNDIA 

lhe fazer honrra que antreles he rnuyto grS.de lhe deu 
duas manilhas douro pêra que trouuesse no bra^o derey- 
to como caualeyro, & aos que ySo coele deu a cada hum 
sua. E partido ho embaixador pêra Malaca foy morto 
com quantos yão coele aa barra de Dachem por man* 
dado dei rey , & isto tão secreUmente que ho não sou- 
berão mais que aqueles que ho íizerão, & por isso ho 
Dão soube Garcia de saa, «mas soube a honrra que lhe 
el rey de Dachem fez pelo que não teue nenhOa sospei-» 
ta daquela maldade, mas vendo que ho embaixador não 
tornaua cuidou que se perdera no mar. E sabendo isto 
el rey por Sanaya de rdja , tornou a mandar outro em<* 
baixador a Garcia de saa, espantandose muyto como não 
mâdaua confirmar a paz como lhe mandara dizer , ^ a 
nandasse logo confirmar per algum homem honrrada. R 
cuidando Garcia de sá que era assi, sem ho praticar em 
conselho esoolbeo pêra' mandar a Dachem hQ Manuel pa* 
checo ^ sabia bem a lingoaMalaya, & porque se ganhai 
na muyto na mercadoria q se lá leuaj»se deulhe hCí ^a-^ 
leão nouo carregado dela & a mais sua, & a outra doy-t 
tenla Portugues.es. que.auiSQ dirioom, Manual paçjhecoj 
que por a ida ser de proi^eito outierao liceiiça pêra irem^ 
com grade aderemja. E disto deu logo Sanaya auisó a*ei 
rey de Dachem conselhãdolhe.que tonmsse aquele ga* 
leão f affirmando que se ho tonwMia que ele. Uie tomaria 
logo a fortaleza de Malaci^,.. porque a genie que ya nò 
galeão era a principal da fortaleza.^ & a Q ficaua era 
doente & pobre. E tendo eJ rey» este recado, quando Ma? 
Duel pacheco chegou á barra de: DachiS de terminando él 
rey de ho tomar mandou mu;tas lanchaila^.darinada pet 
ra isso, que andando ho galeão. balrraueateando de fora 
da barra sayrão pouca» & poucaa, & quando os PorXu* 
gueses virão tanta gente como traziâo as ianchasaa, dis* 
serão a Manuel Pacheco que Lhe parecia equiló>treição^ 
que seria bÕ armarèse pêra se defenderam : doi qua>a0 
ele agastou muyto dizendo que è el rey não auia irei* 
ção que não fizessem atuoroijo. £ como ja esteoesaem 



LIVRO VII. OAPITVLO Cl. 2éft 

iDúytáB lancharas ao derrador do galeão , ^Ira por ele 
lifla frecha que sayo danire os mouros, ao j| Manuel pa« 
checo pedio muyto apressado hQa saya de malha , & em 
a metèdo pela cabeça veni outra frecha & atrauessalhe 
ho! pescoço, & após isto êirão os mouros ho galeão por 
Iodas as partes dando grades gritas, & sem se os Portu- 
gueses poderem armar nem defender forão tomados ás 
mãos sem escapar nbu, & leuados a el rey os mãdou ma* 
iar com os outros ^ tinha da galé de Simão de sousa,& 
ficoulhe ho galeão que era nouo & muyto bem artilhado, 
& coesta artelharia 6cou muyto mais abastado, dela do 
que estaua a fortaleza de Malaca : cÕtra quem mandou 
logo húa armada, mandando dizer a Garcia de sá que 
lhe agardecia muyto hò galeão que lhe não falecia mais 
que hQ bargâtim , que lhe rogaua que lho mandasse se- 
não que ele ho tomaria cedo. £ el rey ficou Ião soberbo 
que não tinha em cont£( os Portugueses , & determinou 
de lhes tomar a fortaleza de Malaca. 

. C A P I T V L o CL 

JDc' comofoy discuberla a treiçâo de Sanaya de raja , ^ 

foy morto por mo. 



D. 



^espoia da tomada deste galeão mãdou Sanaya de ra- 
ja dizer a el rey de Dach6 que pois ho tomara que ele 
compriria com lhe dar a fortaleza pêra que dali por dian- 
te buscaua têpo. £ quasi i) ho ouuera de fazer se ho nos- 
so senhor não descolorira, & assi foy que andando muy- 
tos. mouros Dachem darmada ao longo da costa de Ma- 
laca , ajuntarãse com algiis dela onde chamão ho tãque 
deJ rey & hi fizerão bíi bãquete em que os Dãchl^s des- 
pois de bêbados cotarão aos Malayos como por instru- 
ção de Sanaya el rey de Dachem tomara ho galeão , & 
como mandara matar ho embaixador de Garcia de sa 
pêra mais dissimulação, & como tinha ordenado de to- 
mar a fortaleza em hiii tal dia que Garcia de sa esteues* 



146 9A BuronuL ha hcha 

•e na igreja com toda a gente qoe auia da tirar dentro 
com hum camelo qoe estaua ceuado defronte aa porta 
da fortaleza , & matar a mais da gente que etteuesse 
dentro tomar a fortaleça cÒ gente que auia de ter pêra 
isso : do 4 logo Garcia de sa foy auisado por algtls doa 
Malayos qoe erSo seus amigos : & ouue logo conselho 
sobre matar Sanaya, & qae fosse com ho menos aluofo^ 
ço que podesse ser. E estando neste consdho ebegoa 
Sanaya ^ era fora com ootro mouro seu enteado que a« 
uia nome Tuam mafamede, & Garcia de sá bo mandoo 
chamar : & ele foy logo lá bC descuydado do pêra (} hò 
chamaoâo que. nâo cuydaua que se sabia, & ya coela 
Tuã mafamede^ a que Garcia de sá disse <) queria preiH 
der Sanaya por treiçSo que fazia : o 1) Si^naya n2o en^ 
tendeu por não entSder a lingoa Portuguesa. A que 
Tuam respondeo, que se Sanaya fizera treii^So que. a pa^ 
gasse. E logo Sanaya foy preso, & atadas as mãos-atras 
foy deitado do terrado da torre ^ era de cinca sobradoe, 
& assi foy morto. E Tuam mafamede que assi ho vio 
matar ficou fora de si com medo , Sc Garcia de sá lhe 
disse que não ouuesse medo , porque Sanaya pagara ho 
iQal que fizefa : & a ele Q era leal farta sempve muy ta 
honrra & mercê, & mandou bo leuai* pêra sua casa muy- 
to acompanhado: & assi liurou nosso senhor a fortaleza 
o8 a morte de Sanaya de raja que hz mttyto grande es* 
panto nos Malayos , & fez iSbrar a morte de Tuft tirnn* 
teraja em tempo Dafonso dalbuquerque, & dízlSo que 
os Portugueses sabião muy to qoe nao ae Ihw escondia 
nada. E el rey de Dachem ficou muyto triste pota morte 
de Sanaya, porque perdeo nele grande perda ^ & a mo** 
Iber de Sanaya fugio logo , & foyse ce^a. Tufl nia(a«no^ 
de pêra el rey Dugentana^ h& rey comnrcfto do Maiacat 



«• >••• • «.# 



C A P I T V L O CII. 

Htc como Ntmo da .cunha chegou a Ormuz ^ ^ de como 

fmf preíQ Rais jwrafo. 

limkvnido Nuno da cunha em Mombaça forSo ter coe- 

h» AD cabo do inuefno Simão da cuuba, dom Francisco 

ãeq%^ & FraBcíneu de mèdoi^ que inuefnarão em Mor 

çanibi(| oode ibe niorreiio qnairocêloa horoês, & assi bo 

diaserau a Nuno da cunba^ &.a perdição Dafoaso vaz a- 

aambujo , & de Beraaldiro da silueira : do qjie ele ficou 

nuyío triíile & receou que também Garcia de aá & An^ 

tooio de Saldanha fossem perdidos, & porque era no ca«- 

bo do verSo da Índia , & a nauegaçSo pêra laa auia de 

aer muy perigosa por amor das uaos que erão grandes ^ 

acordou cõ aqueiee capitftes que pêra seguraiK^a delas 

fi)aae ter ho inuerno da Índia a Ormuz. E estado pêra 

partir foy bi ter em hfi nauio hft Bastião ferreyra ctda» 

dáo de Goa que por mandado do gouernador foy buscar 

Nuno da cunha a Adoçambique cuydádo que inuernaua 

lá & nâo bo adiando foy a Meliade , & porque auia de 

ir inuernar aa índia eacreueo Nuno da cunha por ele ao 

gouernador como tomara Mombaça , & a causa porque 

ya a Ormuz , pedindoibe muyto que teuesse a armada 

da índia concertada [lorque auia de ter necessidade de<- 

)a em chegando. E partido Bastião ferreyra , partiose 

ele pêra Ormuz ^ & es4ando na agoada de teiue foy ter 

eoele dom Feraàdo deça cft os oulroe dous capitães de 

eua cõserua que ySo da índia como disae atras , & dahi 

se foy a Alazcale Õde deixou es doentes da armada que 

enio muy tos, & as oaos de díl Frãctseo deça & de Fran^ 

etsco de meodoça, & por capitão a dom Fernâdo de li«- 

ma 9 & foyse na aua nao a Ormuz indo coele Simàu da 

cunha & doai Fernando deça cam seus capitães , &. el 

f ey lhe fez grande recebím^oCo : & com sua chegada fi- 

«i;u Aaix macafo muy assooabtado jque caaiigasse auaa* 



248 'r}A HISTORIA DA INmA 

tiranias, porque como vinha nouamente auia medo de 
entender nele. E auSdo poucos dias que ho gouernador 
estaua em Ormuz, chegou de Portugal Manuel de roa- 
cedo por capitão de hfi galeão com prouisam dei Rejr 
de Porlugal pêra prfider Raix xarafo por muytas culpas 
que tinha dele, & que lhe fosse entregue, & no mesmo 
galeão ho ieuasse preso a Portugal. E el Rey deu este 
cargo a Manuel de macedo por confiar dele Q ho faria 
melhor que outrem' & não se peruertéria c8 peitas. E 
chegando ele á agoada dé Teiue que he sessenta legoas 
Dormuz soube como Nuno da cunha estaua em Ormuz: 
& porque se receou que se soubesse ao que ya lhe tira- 
ria a honrra quesperaua de ganhar em prender Raix xa- 
rafo (por ser cousa muy desejada) quis ficobrir sua ida 
a Ormuz, & foyse ê hQa terrada c5 algfis de que se con- 
fiou mandando ao ^ deixou no galeão por capitão que 
dali a tantos dias fosse ter a Ormuz que era ho tempo 
que lhe pareceo que teria feyfo seu negocio. E chegado 
a Ormuz na terrada que era hfl dia pola manhaâ desem- 
barcou muyfo secretamête & foyse a casa de Raix xara- 
fo que pousaua nos paços dei rey , roãdando primeyro a 
hfi criado seu que como ho visse falar com Raix xarafo 
lhe Ieuasse hila carta a Nuno da cunha em !\ dizia !\ lhe 
requeria da parte dei Rey de Portugal que tanto que 
aquela visse mandasse gente a casa de Raix xarafo por- 
que cÕpria muyto a seu seruiço. E chegado a casa de 
Raix xarafo foy dele muyto bem recebido porque ho co» 
nhecia & tinha coele amizade de quãdo ho leuara da In* 
dia pêra Ormuz despois de se liurar das culpas que lhe 
punhão como disse atras. E ho homem que tinha a car« 
ta pêra Nuno da cunha como os vio faiar foylha leuar. B 
lendo Nuno da cunha a carta chegou Simão da cunha 
muyto depressa & disseihe que fazia, que Manuel de 
macedo tinha preso Raix xarafo: 8& assi era que ja ano- 
lia andaua pola cidade. E ficando Nuno da cunha muy^ 
to salteado coesta noua mandou logo a Simão da cunha 
*^ue fosse prSderRaix xarafo^ & ele foycon^xOHiytage» 



LIVRO VJI. CàTirVísO .CIT. 248^ 

le: & cheirando Ia achou que ja Maouel de jmacedo ii« 
pha preso Raix xarafo, & Simão da cunha lho tomou & 
lhe mandou logo escreuer sua fazenda , & ho leuou coi> 
sigo a casa de Nuno da cunha sem na cidade auer por 
kso nbil aluoroço cÕ quanto Xarafo tinha nela muyto 
pod^r & muyta valia, & era muyto aparentado, & isto 
por -medo dos nossos. E Nuno da cunha 6cou tão agas- 
tado de Manuel de macedo prSder Raix xarafo sem Ihç 
dar conia disso, que bo mandou prender com quanto lhe 
ele mostrou a prouisam que trazia dei Rey pêra ho prS« 
der: & lambem ho porque Nuno da cunha fpz isto foy 
por abrandar el rey Dormuz {) mostrou sentir muyto a 
priaam de Raix xarafo por ser ê sua casa, & dauasse 
por muyto injuriado disso. E despois da prisâ de Raix 
xarafo eoi Agosto, ordenado Nuno da cunha sua parti- 
da pêra a índia veyo noua certa a el rey Dormuz que 
Raix bardadim gouernador de BaharS por el rey Dorr 
inuz se lhe rebelara & lhe não i]ria pagar corenta mil 
xaratins que lhe pagaua de rSda, & isto por amor da pri- 
fã de Raix xarafo de {) era cunhado dizSdo 2) el rey ho 
fizera prender pois cõsentira Q fosse em sua casa, pelo 
^ lhe auia de fazer todo ho mal Q pudesse. O Q sabido 
por el rey deu cola a Nuno da cunha, dizSdo () pois ele 
era vassalo dei Rey de Portugal & lhe paçaua páreas ^ 
ele como seu gouernador lhe auia de restituir Baharena 
& tornar a sua obediência a Raix Bardadim, & mais 
pois a prisam de Xarafo fora causa de seu aleuantamen- 
to, & se isto não fazia que nâo podia deixar de descon* 
tar nas páreas dei Rey de Portugfal a^les corenia mil 
xarafíns ^ lhe rSdia BaharS: a Q Nuno da cunha respo-* 
deo {) não tinha naquilo rezão, porque se X^rafi) for^ 
preso, fora por suas culpas & el Rey de Portugal ho po- 
dia castigar como seu superior, & por isso não era a? 
quilo escusa pêra não pagar as páreas. E daqui prati- 
carão lanto sobresta cousa i\ Nuno da cunha fez cÕ ei 
rey í\ pagasse mais de páreas a el Rey de Portugal os 
icorenta mil xarafins ^ lhe rCdia Babarem & que lho so- 

LIVBO VII. II 



ISO nà «imftii 0A mik 

meteria a 6aa obediência. E isto pos Nono da ennbá enii 
cAsetho coro os capicáes & fidalgos de sua amada: & 
aigQs disserSo ^ ele ya dirigido de Portugal pêra tomar 
Diu : & Diu importaua mais tomarse que se aerecSta* 
reio mais corSta mil xarafins ás páreas Dormuz, porqne 
auia de rSder mais , & auia de ser mais Mnra dei Key 
de Portugal tomarse , & que se agt>ra fosse sobrele o5 
ào destroço que Lopo raa de sam Payo tinha feyto nas 
fustas , & com ir de nouo de Portugal ^ fao tomaria , & 
mdo sobre Bahatem ou mabdâdo iá () auia dauer rouyta 
detença por ser fora de monção, & perderia tempo de 
éhegar aa índia tSo eedo como era necessário pêra ir 
Èohte Diu , por isso que deixasse BabarC. E outros dis^ 
serSo que não porque bõ se podia sugigar Babarem ft 
tomarse Diu , & coestes foy Nuno da cunha. E isto se 
Assentou , & 4 fosse Simão da cbnba a Babarem : a qne 
Nuno da ennha deu por regimento Q por quanto em fo* 
ra da mouçâo, & os ventos lhe auião de ser por dana»* 
te q aodasse ás voltas ate trinta dias & quando neslé 
tempo fao não podesse aferrar que se tornasse. E coest« 
regimento se partio Simão da cunha na entrada de-Se« 
tembro, & ele foy em bã naoio redondo du lorge gomes 
mercador da ladia Português, que eu conheci, fc forão 
por seus capitães dom Francieco deça no nauio em ^ 
Manuel de macedo fera de Portugal, que não chegou a 
Babarem |>or ser roim de vela, & Manuel dalfouquerque 
em outro, & dom Pernãdo deça no seu galeão, & Alei« 
xo de sousa em outro, & Lofio de mesquita nn çamo* 
fim peqoeno, & Tristão dataide em híja fusta, & a gen« 
te j| ya nestes nâuios forák) treeentos dos nossos todos Ih 
dalgos & eauaieyros criados dei Rey, gête Ioda limpa âi 
bem armada de coiraças de seda, & armas t^rancas. Efa«> 
zendo sua viagê acharão os v6to8contrairos& teuerãoas'* 
sa2 de trabalho, & andando assi déulhes nosso senhor bfl 
vento que os pos em BaharS, saluo a dom Franeiscodeça 
^oe (icoii atras & Aleixo de sonsa que no caminho toiiion 
ttlgOas terradas de mouros, & despots foy ter aBahareitt 
estando os outros surtos. 



u^movUé €àwwfíJ$ cm. Ml 

* 

C A P I T V L o CIIJ. 

Do § mmnU€€9 a Simão da cwnkoi em Bãharem ^é" ^ 

coma ftierrM ^ outroê mtJhfim. 

l^begAdok SiinSo d& cunha «o porto deBAbarem acboit 
bi Belchior de aoitsa èauares capitSo mór do mar Dfkc^ 
0IUZ com obra de aeya bargaaila & caiurcs t|i ealaoa 
geardando ho porto, junto da qual eaiaua biia boa foiH 
tateza c9 eobeloa & torrea cercada de muro & caua orw 
da Raix Bardadim eaiaua com atiaa moiheres , (ílhoa & 
mujla gente daimria. E veado ete surta a nosaa ÍVo(a^ 
& parecendoibe ao Q ja^ pos hOa bandeira branca aruo» 
4*ada na forlaleia; & víata por Simão da cunha mãdoti 
a terra saber o que q/uería por fa& lingoa: por quS^Raiic 
bardadim Uie mandou dizer que eie nio se leulLtara se 
iiSa por amor da priaam da Raix xarafb seu cunhado: 
& peia os nossos ioteruinbâo nisaa que eki nS queria 
ooeies nada por ser WAiyto grade seruidor dei Rey de 
Portugal, & pois ele queria aquela fortaleza fba queria 
dar em paz , & se iria cõ auaa molheree, filhes , gentta 
& quan-to estaua nela, & coeata eondtqflo lha daria. Oo^ 
uído isto por Siaiâo da cunha ^ quisera aceitar a (brfa^ 
leza com a^ia coodiçSo, mas foy c5trariado dos capítffes 
& fidalgos, djzeodoUie i\ com medo a tomaua d»{)la ma«- 
nejrra , & ^ não era bS que a{|te mouro ficasse sfi casti* 
go polo i| fizera, & quãdo a ouuesse de tomar sem pe^ 
kja fosse c5 ibes ficar a faafida : & que Raix bardadins 
ee fosse com suas molberes, filhos & gente, porque sem 
fazenda ficaria bê castigado. & aâo daria mais loruaçâe 
Aã desassego. a el rey Dormuz. R com quanio isto pa«- 
feceo muylo mal a Simão da cunha por parecer assi a 
•todos ho ouue por bê, mas muyto contra sua vontade, 
& iaso respondeo a Raix bardadim : que como homS es- 
forçado náo replicou mais se não mandou amora r ao 
-asiico dttaa haãdeiBaa., liiia brAsa outra verm^Uia eomo 

11 2 



158 DA HISTORIA DA INDTA 

quS dizia aos nossos^ vissem se queriãp paz ou guerra* 
O Q vendo os capitães disserão a Sirnâo dá cunha i| qui- 
sesse guerra, &'por isso ele mandou desembarcar a gen- 
te, & algua arlelhariá {} leuaua pêra bater a forialeza* 
£ feylas/ suas estãcias, & ordenados seus capitães & 

Í rente ^ aula deslar nelas, começouse de dar bateria á 
òrtaleza, & em começando mandou Raix bardadim ti- 
rar a bandeira branca & ticou a vermelha cumo quem 
fiâo estimaua a guerra dos nossos: & bem parecia ^ era 
assi, por(| como os nossos íazift algu buraco no muro cd 
a artetharia logo era tapado & táo depressa !\ quasi ([ 
liâo se enxergaua, do Q Simão da cunha andaua niuyto 
«gastado vendo ^ não fazia nada , principalmêle por^ 
lhe faleceo a poluora tambê apercebido ya dela: & en* 
ião vio ele canianho erro fizera em não tomar a fortale- 
za ^ lhe dauão em paz. E como não tinha outro renfte- 
dio de poluora se não mâdar por ela a Ormuz , mandou 
logo lá hum bargãtim Q foy S poucos dias , por bo ven- 
to ser a popa , roas á tornada foy ho vagar muyto. B 
vendo os mouros a dilação que auia na bateria da forta- 
leza zombauãd dos nossos de cima do muro como era 
Aoyte, & dizialhe i) pois os nã quiserão deixar ir ^ ali 
«uiâo todos de ficar. K parece ^ adiuinhauão ou fizerâo 
por onde fosse assi segundo se presumio q deitarão pe- 
^nha nas agoas de que os nossos auião de beber, ou 
|K>r elas serS peçonhentas naquele tSpo , & nele mesmo 
ser a terra muyto doentia, & os nossos eslarê despostos 
f>era doenças com ho muyto grande trabalho Q tinhão 
começarão dadoecer & tanto que não sè podião leuán*^ 
tar. E Raix bardadi mandou dizer a Simão da cunha ^ 
fx>la amizade ^ tinha cõ os nossos lhe aconselhaua ^ se 
fosse, |)orque se ali esleuesse mais lhe au4a dadoecer a 
gente de maneyra que quand<» se quisesse it não auia 
de poder r & os nossos zombauâo daquilo & dizião a Si* 
pão da cunha ^ lio mouro dizia aquilo com medo, & por 
isso Simão da cunha nãt> lomoa seu couselb^ qiie iora 
muy bÕ, por^ despois nã^ sucedera a desauStura 4 



€édeor*& foy a doê^a dot noesos em ísnto créciroenH) 
que quando a poluora chegou Donnuz esiauão quasi lo»* 
ãus doêiea & aigâs aioríos^, & fÈorl^- ele ¥Ía têmsi iKloecer 
a gente mudou as estSoiat pêra perto do mar, por^ ho 
-teuease níais a» mão 8e ie. visse apertado doa mouros que 
ibssein sobrele^ o que temia muy to que fosse se Raix 
-bardadini sottbeSBe como línba a gente: o (} efe sabia 
luujr bè |H>laejiperiSoia {{• tirlba da terra, mas como nfio 
queria se não auiisade cõ os nossos porque se fizesse aW 
gít:dâno sabia que Raix aarafo bo auia de pagar nunea 
quis bolir consigo neái sair aos nossos, que se sairá c5 
pouco trabalbo us matara a todos. E despois de Simão 
«da. cunha reoolbtff. os seus pêra mais perto do mar, fea 
hQa estâcia em que os ^aos lodos » & tornou outra vea a 
bater a fortaleza dle que derribou hâ laço do muro por 
cisâar abalado daniesf U. quisera por 'ali entrar a for tale-* 
"Sa se teiiera quem.ho acompanhara, mas não achou sàoa 
4Bais de. trinta & cinco ihomês, & todos os outros tâo 
4loentes & fracos que nfto se^podiâo bulir: & de muyto 
agastado Ipuantuu as mãos ao ceo, dizêdo. Senhor quã 
.pouco ie custara -daresme cem liomSs 8â«>s,. Que cõ lã-- 
'to8.se alire«era a enlear .a. fortaleza se. os teu era :& ven- 
do que os não linha 4eixou de ho iaZer com muy to gran- 
de magoa assi por iiise como por ver quão bem acerlaua 
em tomar a fortaleza que lhe dauâo em paz, & quã mal 
aconselhado .fora ém a nàú- tomar & em se não ir quan* 
do tinha têpo. E ilea que ho nao teuesse de todo deter- 
minou de fazer embarcar a artelhar ia & os doentes poiQ 
os saluasse , o que ítz cõ iu^menso trabalho assi seu so- 
mo dos trinta & cimo qu^ estauào sãos , que saindolhe 
muyto sangue das mãos embarcarão a artelharia, & des- 
.pois os doentias coro (} ja não podião de casados & por 
isso lhes atauão cordas nos pée & os leuau& a rasto ate 
ho mar. E fey hQa muy piedosa cousa de ver esta em- 
barcac^ão, assi do mau traio que se dauaaoa doentes por 
se mais nâu jHider fazer, soeío dos gimidos & grifos que 
dauâo & Sftiigõas que diaiào* £. neste trabalbo ajudou 



454 lu KumEiii jn. wmtk:' 

mujío bê aos nosao» hum mouro Dormuz <) fo^eom Sè^ 
mâo da cunha que era Xeqjae da ilha DãgSo & ja em 
hOa letrada cem corSU moaros taiabS Darmue-ooia (| 
fez muyia ajuda aoa nosroa asa» no oerco paasaéO' coma 
oesta embarcação. E eaibaicadoa iodoa oe dofilea fe ar- 
telharia, se* embarcou Simão da ouph» iporlo de paiião^ 
& de l|ai0aDka desaiieiilura a que ete quisera aiaibar 
era tomar a ^rtaieaa se ho deixarfto, do que ele trnha 
tnayor magoa, & cçela disse ao mestre do seu nauio e«i 
se embarcando. Mesire quando ouuerdes de fazer aJgtua 
cousa de vossa bonrra não tomeis ho conselho de nii^guS 
se não bo «^sso* El cdsto fez dar ás veias & se partio & 
assi os ouuos nauiea: & logo nos prim^ros tres^dias <!e 
sua nattega<^ começarão de morrer muytos doe deein- 
tes Q leuaua {) lhe renouauão de cada ves mais sua (ri»- 
iesa de que ele adoeceo, & tão auorreòído j» da^vída 
& de tudo l\ se meteo na pamara do oauío seso querer 
ver niagoem ti/^ falar^ te dÀdosmuyto^ grande ajs&eost- 
piros durou nouo dias despeiS' !)> a^èceo Ic ôiorreo de 
tristeza , & no seit líaoio morrerAo bd setervtd doentes a 
fora os dos outros 'na4wo#r>&'6eoii''ho naaio tã<e' desens!- 
parado de quS ho mareasse* que s^ ouaera de perder se 
lhe nosso aenhor não socorrera com ir ter coele Fernaii» 
daluarez ^arnache em hUn, ierr^a què com sua rSte ho 
ajudou a louar aOrmupz^ õd«- Simão da òunba j) ya moi»> 
'to nele foy- enterrado , & assi Francisco gomez fi4ho do 
bispo do FQchal , He todos os oauios da armada cbegatS 
muy destroçados, bOs diante outros despois: & os maia 
dos (\ forão a BabarS morrerão que muy poucos escapa- 
rão & t«to foy o^ ganhou de. ir tá: & maia coeeía ida 
nib po<fce Nuno da cunh» partir pêra a Ind^ia em Agos- 
to pêra choe^ar em Setembro Sp fazer prestes a armada 
pêra ir a Diu aqu<')e anno Ic não foy, B vedo -Nuno da 
cunha como nã tinha mais que fazer em Ormuz , deter- 
mitfoo de se partir pêra a f adia, & atrecaídou as páreas 
dei rey DoiHnuz, fe soNòa Manuel de macedo & pos em 
«aeu poder a Raix xarafo porque ho aui^ de lesiaf pesa 



LIVSO VIU CAPIVTIJO Gini. fe6t 

Portugal fvor 'mandado dei Rey. £ têdo todo pwstes , 
parlíose oaminho d» Índia , <& iforâa toele dÔ Fernfido 
de lima, dom Francisco deqa, FrScisco dê mendoiça^ 
Blacinei de B»aoedo & outro todoè oapiiãeft de aaofi) & 
lorge gomeE m» seu naiMo*. 

C A P i T V L O CIIII. 

Di eoim 1u) ^cM/tnwixfr se parth dê Goa pêra Cocfd. 

T' 
endb tio gouernaidor Lopo va?. de aani Payo ho inuer* 

no 6 Goa, chegou >kt Ikistiâo ferreyra na entrada dele 
ef)m eartas de Nuno da cunha , qne tomara aos mourofc 
Mombaça ôde (eoera ko inn^rno , & iicaua em Melinde 
dõde aura dir a Orma^ pêra no verão seguinte pasaar á 
I-iidia, pedindelbe (r^tte lhe 4eueMe a armada prestes por^ 
que auitt de ter neceasidade deia ft cJiegido , & por ea^ 
ta noua mandou ho gouernador hfta sotfine procisâam ^ 
em que com todos foy dar gra^ae a noaso aenhor por a 
noua da armada de Ptirtugai , (} oa mouros queriSo adi** 
dinfaar que não auía de vir, & andauâo por isso rouyio 
ledos dizSdo & ja não avia Portugal. E dadaâ graças ao 
eterno Deoa, M gouernador ae pos com moyta dilig^cfa 
a mandar coneertar a armada , & a fazer de nono algue 
nauios a fura muytoa que mandara fazer em diuersoft 
tenifK)!* a. b^jb galeões & a taforea de Gocbim que era 
«lao de q«ínhSlos t<ineÍ9, beys ga(éa reaia,eincogaleotas, 
quatro ^araaelaa, & cintoenta bargantins, & muytesou** 
trus q Hftaiidou fâí^zer de paraÓs Malabares^ de que no 
(empo 1| gi^uernou a indifa se achou per certeza que se 
(omarto a Iinj^ bâ cento i& cincoenta com fustas & 
iDUtroe na aios, & toAos bO artíthadoB & de boa ar (ei bai- 
lia t & des4ea foriio teuadoa muyioa pêra diuersas partes- 
tio sentori^ que elfiey de Portugal tem na Índias & ou«- 
IfOli se gapstarâo de ^bos : & com tudoiioouia mais gros«- 
tsa & niHfcor armada que tinha iih6 príncipe €hfii$tão de 
céto Sl itmla Ik ueys velas, 0« i|uatorxe galeões ^ aeya- 



S5fl lu - fíísromk DA : índia 

galéa reM9y oyto galeotns, seys carauela8^.&.c8(ò & duas 
fustas & barganiins. E a^si como aèrecètou a armada, 
^sai tambS teue cuidado de repaírar as fortalezas da ter- 
ra do necessário: na Dormuz mandou fazer hâ baluarte 
defronte da porta , & mandou acabar b8s cobelos ^ es-i 
tauâo come<2ados, & enmadeirar os terrados da fortaleza, 
& argamassar ho muro^ & concertar a igreja l\ estaua 
dãneíicada, & na de Cbaul mSdou leuâlar mais hQ so- 
brado na torre da menagS , & acabar ho cobelo do ai- 
cayde mór, &, fazer hú cais de pedra, & duas casas pe^ 
ra almazSa dartelharia .& de mãlim^tos. Na cidade de 
Goa hu pedaço de chapa no muro da^ banda do mar Sq 
hQ cobelo^ & acabar a sé ^ es(aua começada & telhar 
de nouo ho mosteiro de sam FrScisco. Na fortaleza dq 
jQananòr mandou fazer húa caua ao derredor do arrabal- 
de pêra 2} 6casse dSlro ho poço dagoa, {| estaua fora da 
fortaleza ^ era parela muy grade perjuy7.o por nS ter a«r 
goa: Sl na mesma, caua híi baluarte ^ varejasse, ho mar. 
dQa bâda & da outra cÕ a artelharia & mâdou refazer 
fao muro da cerca da fortaleza Q estaua desfeyto em 
muylas partes & derribar o í) cercaua a torre da mena^v 
gS por ser fraco & fazelo mais forte, & fazer hOa casa 
pêra feytoria, & hOa sala do apousentiimSto do capitão. 
Em Cochim mãdou fazer. a parede grande Q vay da for** 
taleza ao logo da praya ate o caluele, & acabar todos 
os cobelos Q estaua da bSda do mar : & assi outras obras 
miúdas de {| a fortaleza tinha necessidade. E a fora tur 
do isto mãdou pagar trezêtos mil cruzados de soldo , ^ 
foy cousa em !\ fez grande seruiço a et Rey seu senhor* 
£ assi como foy esforçado na guerra 9 foy cSstâle na 
justiça !\ sempre folgou muy to de fazer, posto Q algííf 
<]UÍ8erâ dizer ho cõtrairo por ódio 2) lhe tinhão:.porê ele 
castigou sempre os crimes asperamête como se víq no 
mulato i\ foy enforcado em Goa por tirar de noyte em 
Cochi CÕ hQa espingarda a FrScisco pereyra pestana ^ 
•& os oyto aleuâtados da cõpanhia dos ^ se aleuâtaraQ 
põ hQa fiista & çõ hum barganlim, ^ ^^ pessoa foy prjSr 



LIVRO VII. CAPITVLO CIIII. 267 

der h&a noyte a terra firme , & eu bo vi parlir Q estaua 
em Goa a esse ISpo. Foy sSpre mujlo deuolo & teme* 
roso de nosso senhor, & tSo casto (} nOca lhe sentirão 
molher em c]uSto andou na índia: & foy fora de vaida- 
des nS presunções', & cÕ todos era companheiro assi na 
paz como na guerra , & pêra todos muyto bS ensinado. 
Foy bomS grande de corpo, mSbrudo & bS apessoado & 
de rosto alegre. B no cabo deste inuerno que teue ê 
Goa, em dia de sam Bertolameu de madrugada surgio 
na sua barra a armada !\ aquele anno foy de Portugal de 
quatro nãos em {} ya por capHão mór Diogo da silueira 
& por seus capilSes Ruy gomez da grã , Ruy mendez 
de mesquita, & Anrri^ moniz que morreo no mar, pay 
Daires moniz &Dan(onio moniz ^ forâo coele meninos: 
& esta armada leuou tão boa viagS que quãdo chegou 
a Goa yâo os homSs dela ^ erão quinbStos tão sãos & 
tao gordos 2) parecia {| auia qulze dias fi partirão de Lis- 
boa, & nQca despois eu vi outros tais. E detendose Dio- 
go da silueira poucos dias em Goa, se partio pêra Co* 
chi : & despois dele o gouernador a fazerse prestes pêra 
a partida de Portugal , pêra ode esperaua de parlir po- 
la vida de Nuno da cunha, como direy a diante. 



F I N I S. 



LIVRO VII. KK 



< 



TAVOADA 

DO SEPTIMO LIVRO. 

v^APiTOLO I. De eamofoy aberta a terceyra $oces$am 
em que hia Lopo Vaz de sam Payo. Pag. I 

Cap. II. De como Lopo vaz de são Payo desbaratou hãa 
armada de mouros de Calicui no rio de Bacanor. 9 

Gap. III. De como Francisco de sá separttopera iraçúda^ §* 
de como dom lorge de menesesfoy por capitão de Maluco. 7 

Gap. iiii. De como Lopo vaz de sam payo cÓcertouRaix 
xarqfo c6 Diogo de melo capitã dormuz. 8 

Ca p. V. De como Eytor da silueira do porto de Maçua man- 
dou chamar dom Rodrigo de lima^ ^ sefoy a Ormuz. 16 

Gap. VI. De como tem^dose Meliq saca capitão de Diu 
dei rey de Cãbaya determinou de dar fortaleza aos Por* 
tugueses. 1 S 

Cap. VII. Do conselho ^ Hagamahmut deu a Méliq so* 
bre despejar Diu : ér como lho tomou. 1 5 

Gap. VIII. De como Èytor da silueira se tornou a CSmutj 
^ do mais ^ fez Lopo vaz de sá Payo. 17 

Gap. IX. De como ho Tanadar de uabul pedio paz a 
Lopo vaz de sam Payo* 20 

Gap. X. Do ^ acõleceo a jír^onio galuão capitão de húa 
das nãos da carga ate chegar á índia. ibicf» 

Gap. XI. De como él rey de Portuaal mandou que Lopo 
vaz de sam Payo fosse gouernaaor. 25 

Gap. XII. De como Lopo vaz de sam poyofoy declarado 
por gouemador. 28 

Cap. XIII. De como HagamahmvJt se leuaníou com Diu^ 
^ ho deu a el rey de Cambaya. 3 1 

Gap. xiiii. Do grade aluoroço ^ auia na géte da índia ^ 
dizêdo 6 Lopo vaz nâ era gouemador. 32 

Gap. XV. De como Christouâo de sousa capitão de Chaul de- 
terminou ^ Lopo vaz de sam payo não era gouernador. 3 6 

Gap. XVI. Dojuramentoqho gouemador fez em Cochim. 37 

KK 2 



260 TAVOADA. 

Cap. XVII. De como $e assentou que ho gouemador não 
fosse a Camarão. 39 

CÂp. XVIII. De comofoy morto Gaspar machado^ ^ ou- 
tros Portugueses. 40 

Gap. XIX. Úe como Pêro mascarenhas soube que era 
gouemador da índia, ^ do que fez. 41 

Gap. XX. Em q se escreue ho sitio ^ a fortaleza da ilha 
de Bmtão. . 43 

Gap. XXI. De como Pêro mazcarenhas foy sobre a ilha 
de Bintâ. 45 

Gap. XXII. De como foy desbaratada a armada que el 
rey de Pão mandaua em socorro dei Rey de Bintão. 46 

Gap. XXI II. De como Fernão serrão pelejou com Laque- 
ximena. 48 

Gap. XXI III. De como Pêro mazcarenhas tomou a cidade 
de Bintão. bO 

Gap. XXV. Do §fez Pêro mazcarenhas despois de toma- 
da a cidade. 52 

Gap. xxvf. De como Francisco de sáfoy a pxnda , ^ 
do que lhe aconieceo. 54 

Gap. xxvfi. De como Pêro mazcarenhas chegou a Cochim^ 
^ querêdo desembarcar lhe resistia ho vedor da fazen- 
da. 56 

Gap. xxviii. De como não podendo Pêro mazcarenhas 
desembarcar em Cananor se partia pêra Goa. tiO 

Gap. XXIX. De como ho gouemador soube o que Afonso 
mexia fez a Pêro mazcarenhas. 62 

Çap. XXX. De coma ho gouemador mandou q fosse preso 
Pêro mazcarenhas. 63 

Gap. XXXI.. De como Pêro mazcarenhas foy preso em 
ferros. 67 

Gap. XXXII. Da causa § Eytor da silueira , ^ Diogo da 
sUueira , teuerão pêra serem côtra ho gouemador. 7 2 

Gap. XXXIII. Do requerimento que os ojiciaes da cama- 
rá de Goafizerão ao gouemador. 76 

Gap. XXX 11 II. De como ho gouemador prendeo Eytor da 
silueira ^ os outros fidalgos de sua valia. 79 



TA VOADA* 261 

Cap. XXXV. De como Pêro mazcarenhas foy obedecida 
por gouernador por dom Simão de meneses. 83 

Cap. xxxvi. Dos requerimentos que fez Pêro mazcare^ 
nhãs a Lopo vaz de som Payo. tí<> 

Cap. xxxvii. De como Pêro mazcarenhas foy obedecido 
por gouernador^ por Cristouão de sousa. 68 

Cap. xxxviii. De como dom Garcia Anrriquezfez pa- 
zes cô el rey de Tidore. i)0 

Cap. xxxix. De como dô Garcia anrriquez tomou a que- 
brar a paz. 91 

Cap. xl. De como dom lorge de meneses indo pêra a ilha de 
Temaiefoy ter ás ilhas dos Pàpuas onde inuemou. 93 

Cap. xli. Da segunda armada que ho Emperador man- 
dou ás ilhas de Maluco. 94 

Cap. xlii. De como chegou húa nao de Castelhanos ás 
ilhas de Maluco. 9t> 

Cap. xliii* Do que aconteceo a dom Garcia anrriquez 
c6 os Ccistelhanos^ ^ do mats § sucedeo. 99 

Cap. xliiii. De como António de miranda dazeuedo pro- 
meteo a Pêro mazcarenhas de lhe obedecer. io2 

Cap. xlv. Do que António de miranda ^ Christouâo de 
sousa Jizerão. 1 o4 

Cap. xlvi. De como ko gouernador^ ^ Pêro de faria ^ 
i§r outros jurarão de comprir a pauta que Jizerão Cris- 

- touão de sousa j ^ António de miranda. io7 

Cap. xlvii. De como Pêro mazcarenhas ^ Lopo vaz de 
sã payo desistirão em Cananor do mando de gouerna- 
dores. Ill 

Cap. XLviii. Da desauença que ouue ótre Lopo vaz de 
sã payo ^ Pêro mazcarenhas. 114 

Cap. xlix. Como forão acrecéíados mais dous juizes por 
parte de Lopo vaz de sampayo^ ^domais que passou. 1 1 8 

Cap. l. Das rezôes q ho vedor dafazida ^ outros offre- 
cera aos juizes pêra ^ Pêro mazcarenhas não fosse go- 
uernador. 121 

Cap. li. De como foy dada a sentença ^ Lopo vaz de 
sani Payo gouemassé a índia. ' 1 24 



96t TATOABA« 

Cap. Lif. Do tftt€ ho gouernadar fe» degpóis de ser re$tí^ 

tuido em sua posse. 1 26 

Cap. liiu De como dom Garcia anrriqtuz entregou a 

fortaleza de Maluco a dom lorge de meneses. 127 

Cap. Liiii. Do que dó lorge quisera fazer acerca do cra^ 

uo ^* nâo pode. 129 

Cap. lv. Do que passou dom lorge de menesescôdó Garcia 

anrriquez sobre mandar a Malaca pela tna deBomeo. 130 
Cap. lyi. De como dom lorge de m^neses mâdou reca^ 

do ao capitã de Malaca poía via de Borneo. 1 33 

Cap. lviu De como dÓ lorge de meneses mandou prfder 

dó Garcia anrriquez. 135 

Cap. LVfif. De como dom lorge soltou dom Garcia ^ 

tornarão a ser amigos. 138 

Gap. líx. De como os da parte de dÓ Garcia trabcdhauão 

por auer imizade antrele ^ dó lorge. 140 

Gap. lx. De como dó Garcia prendeô dom lorge emfer^ 

ros^ ^ a causa porque. 143 

Gap. Lxr. Do que passou dó Garcia despois de ter preso 

dom lorge. 147 

Gap. LXir. Do qjizerão os amigos de dÓ lorge despois de 

Èuaprisam. 150 

Gap. Lxiii. De como dó Garcia soltou dó lorge demeno^ 

ses. 153 

Cap. lxitii. De como os moums de Lôgú matarão Jlua^ 

ro de brito ^ tomarão húa ga\€. 1 54 

Gap. lxv. Do ^ fez Lopo vaz de sam Payo despois que 

foy julgado por gouernador. 155 

Gap. lxti. De como dom loão deça desbaratou ^ pren* 

deo Chinacutinle. 157 

Gap. lxvii. De como Pêro de faria partio pêra Malaca^ 

i§r Simão de sousa galtUio pêra Maluco. 1 58/ 

CaP. LxviiK Das presas que António de miranda capitão' 

mór do mar fez no estreito^ ^ do mais que sucedeo. 159 
Gap. lxix. De como forão catiuos de mouros Diogo de 

mezquita éf outrús. 161 

Gap. lxx. De como Halixd capitão da armada de Diu 



TATOADA* t63 

pelejou c6 Jtnrriqut de macedoy ^ de eomofoy tnor* 
to António da siltui. J63 

Cap. lxxi. De como Christouóo de médoça cavitáo Dor- 
muz mãdou por terra António tenreyro a Portugal c6 
recado a el Key. 1 64 

Cap. Lxxii* Do que panou Gonçalo gomez dazeuedo com 
dom Garcia anrriqz na ilha de Báda. 167 

Cap. Lxxin.De comoAluaro de saya vedra tomou húa gaito-- 
ta aos Portugueses ^ catiuou muytos dos que yâonela. 170 

Cap. ljlxiiii. De como GÔçalo gomez dazeuedo chegou a 
ilha de TemaU. 172 

Cap« lxxv. De como dam lorge de meneses ^ Fernão 
de la torre mandarão pedir socorro ká á índia ^ ou- 
iro á nona espanha. \ 74 

Cap. lxxvi. De como Martim afonso de melo jusarte 
se perdeo na costa de Bengala. 17a 

Cap. Lxxvii. Dos grandes perigos ^ trabalhos quepassarãa 
Marfim Afonso ^ os outros ate chegarem a Atracão. 179 

Cap. Lxxviii. De como Martim afonso fog leuado comos 
outros per kús pescadores aa cidade de çuquiriá. 182 

Cap. Lxxix. De como Marti afonso ^ os outros ficarão 
€ poder de Codauazcão. 185 

Cap. i^xx. De como Martim afonsofoy liure do cati- 
ueiro em que estaua. 1 87 

Cap. lxxxi. De como Simão de sousa galuão com ior^ 
menta foy ter a Dachem. 1 90 

Cap. lxxxi I. De como Simão de sousa galuão foy morto 
na barra de Dachem c6 guãtos yão coete. 192 

Cap. lxxxiii. De como dô òarcia anrriqz chegou a Ma- 
laca. 196 

Cap. Lxxxiiii. De como el rey de Dachem mandou cã 
engano dizer a Pêro de faria que lhe daria' oe Portu- 
gueses ^ a gaU. 197 

Cap. lxxxv. Do ^passou antre Fero de faria ^ el rey 
Dauru , ^ el rey de Dachem. 200 

Cap. lxxxvi. De como Nuno da cunha partia pêra a ín- 
dia por gouemador dela. 203 



SR4 TA VOA DA « 

Cap. lxxxvii. De como se perdeo a nao de Nuno da cu- 

nha. 206 

Cap. lxxxviii. De como Nuno da cunha tomou a cidade 

de Môbaça. 211 

Cap. lxxxix. Do q hogouérnadorfezesteinuernoem Goa^ 

^ de corhp se perdeo hâa armada no rio de Chatua. 2 1 ô 
Cap. xc. C^mo o gouemador desharaUm Culiale de Ta- 

nor. / 217 

Cap. xci. De como ho gouernador correo a costa de Ca- 

licul 4r destruyo a vila de Porquá. 221 

Cap. xcii. De como soube ho gouernador que as fustas 

de Diu corrido a Chaul: ^ ao qfez. 223 

Cap. xciii. De como ho gouemador disse aos capitães da 

armada que queria ir tomar Diu ^ de comofoy con- 

trariado. 226 

Cap. xciiii. De como ho gouemador pelejou com a ar* 

mada de Diu ^ a desbaratou. 227 

Cap. xcv. De como ho gouemador quisera ir sobre a ct- 

* dade de Taná^ ^ a causa porque nãofoy. 231 

Cap. xcvi. Do que fez António de miranda na costa do 

Malabar côtra os mouros de Calicut c6 ajuda de Chris- 

touâo de melo. 233 

Cap. xcvii. Da guerra que Eytor da silueirafez em Cam'- 

baya. 235 

Cap. xGVffi. Do que petssou dâ lorge de meneses c6 Fer* 

não de la torre. 239 

Cap. xcix. Decomo Garda de sá se partio pêra Malaca. 241 
Cap. c. De como el rey Dachem tomou por engano hú 

galeão a Manuel pacheco. 242 

Cap. Cl. De comofoy discuberta a ireiçâo de Sanaya de 

raja ^ ^ foy morto por isso. 245 

Cap. cii. De como Nuno da cunha chegou a Ormuz ^ ^ 

de comofoy preso Raix xarafo. 24ÍJ 

Cap. chi. Do § aconteceo a Simão da cunha em Baha* 

rem^ ^ de como morreo ^ outros muytos. 251 

Cap. ciiii. De como ho gouernador se partio de Goa pê- 
ra Cocht 2ô5 



HO OCTAVO LIVRO 

D A 

HISTORIA DO DESCOBRIMENTO 

CONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS PORTVGVESES. 

Feyto por Fernão Lopez de Castanheda y que Deos tem» ^ 

Impresso em Coimbra. 
Cbm Real Priuilegio. M. D. LXL 



• *•■ 



HISTORIA 

DO 

DESCOBRIMENTO 

CONQ VISTA DA ÍNDIA 

PELOS 

PORTVGVESES 

POR 

FERNiO LOPEZ DE CASTANHEDA. 

NOVA KDIÇXO. 



LIVRO VIII. 



LISBOA. M.DCCC.XXXin. 
Na ttpooraphia rollandiana.. 

POR ORDEM SUPERIOR, 



PROLOGO 

NO OCTAVO LIVRO DA HISTORIA 

do descobrimento & conquista da índia petos Portu* 
gueses. Dirigido ao muyto alto & muylo poderoso 
Rey dõ Sebastião nosso senhor deste nome o primey- 
ro. Rey de Portugal, & dos Aigarues, Daquem, & 
Dal6 mar, em Africa, senhor de Guiné, da cõquis* 
ta, nauegaçâo, & comercio de Etyopia, Arábia^ 
Pérsia, & da índia» 

Pelos jilhos de Fernão Lopez de Castanheda. 

.xVinda que nam fora manifesto mu}^to alto & muy pcK 
deroso senhor, o animo cõ que V. A. & seus antepas- 
sados todos, receberão as semelhantes oflTertas de obras 
prouey tosas á Republica, & que ensinauâo por exem- 
plos a bem obrar na paz & na guerra, bastaua pêra nós 
oflTereceremos esta a V. A. a vontade com que el Rey 
dom loão lio terceyro vosso auó (que está em gloria) 
aceitou o Primeyro liuro desta historia & quanta mercê 
por isto fez a Fernão Lopez de Castanheda nosso pay 
(Q Deos tS. ) Por^ alem de V. A. ter as mesmas obri- 
gações pêra a fauorecer que ele tinha , que erâo ser de 
excellentes feytos de Portugueses, & animarem com elas 
a seus descendentes pêra as y mi tarem, & terem por fá- 
cil poer as fazendas & vidas por acrecentan^ento de nos- 
sa sancta fee, & seruiço de seu Rey (como estes seus 
antepass^os fizerão) parecia bastâte causa peraV. A. 
fauoreceí^^^este Liuro, ser parte daquele Primeyro (por 
continuação da historia) q a el Rey vosso auó pareceo 
bem. Principalmente que trabalhou nela tanto nosso 
pay, & fez tantas diligScias por escreuer a verdade ^^ 
que com o fim da historia se lhe acabou a vida, que ti^- 



nha may trabalbada de muyUa indíspMJçSes causadas 
de cõtino cuydado, & de continuas vigílias, & leytura 
de muytos papeis ^ da índia trouxera. Polas quaes re- 
zoes, em seu nome pedimos a V. A. queira tomar sob 
seu amparo este Liuro Octauo, (& com este o Nono & 
Decimo seguintes, que muy cedo se imprimirão) pêra 
que responda o fruyto ao muyto trabalho que ho Aulor 
nele teue , & alcance ho fim que prelendeo. 



^: 



• •» 



€CCCCCi>EXDCCCCCC^ 

HO LIVRO OYTAVO 

D A 

HISTORU DO DESCOBRIMENTO 

» 
E 

€ONQVISTA DA ÍNDIA 

PELOS PORTVGVESES, 

Por mandado dei R^y dom loSo de gloriosa memoria 
desle nome o III. Em que se cStem o^ osPorlugue* 
ses fizerSo na índia, & em outras partes do orifite ^ 
gouernandoa Nuno da cunha. 

Feyto per Fernão hpez de Castanheda^ 

€ A P I T V L O I. 

De como Nuno da cunha chegou d índia , «^ foy ^ntre* 

gue da gouemança^ 

JL^artido Nuno da cunha Dormuz. E seguindo por sua 
viagem, foy surgir na barra de Goa a vinte quatro Dou* 
tubro. E no n>esmo dia a tarde desembarcou , esperan- 
do o no cais os vereadores da cidade, & capitão, &ou- 
uidor dda com muytos fidalgos, & gSte outra. E mos- 
trada sua prouisam de gouernador, & jurando de goar* 
dar os priuilegios da cidade: forSo abertas as portas, 
que estauão cerradas em quanto durou esta cerimonia. 
£ metido debaixo dfl paieo, entrou na cidade: onde es- 
taua a clerizia com hfia solene procissam de Cruzes le- 
uantadas^ foy leuado á Sé da cidade a fazer oração, & 
da fai pêra sua casa. E como tinha determinado de aíjle 
anno não ir a Diu, cometeo a Eytor da silueira que 

LIVRO VIII. A 



ft . BA HISTORIA BA INBIA 

fosse com a armada da índia esperar SimSo da cunha á 
bosta de Cambaya : pêra hi Ihentregar a armada quan*- 
do tornasse de Babarem , pêra fazer guerra a Cãbaya. 
Que ainda ^ diz no cabo doliuroseptimó^ ({Simão da cu- 
nha tornou de Bailarem anlee de Nuno da cunha partir 
Dormuz ; não foy assi , ^ iby erro ás^ impressa vi» £ por 
Eytor da silueira auer por afronta de leuar a^la armada 
pêra outrem , escusouse disso : pelo que ho gouernador 
pedio. a seu cunhada Antónia da silueira de aienjeses 
que a leuasse. E estando pêra partir, chegou recado 
do desbarato de SimSo da cuniia^ & da sua morte. E 
porque António da silueira estaua pêra leuar esta arma- 
da, deu lhe bo gouernador a capitania mór dela, pêra 
que fizesse a Cambaya a guerra Q lhe ouuera de fazer 
Simão da cunha , & deulhe nouecentos Portugueses, de 
que os quatrocêtos erão espingardeiros: que forâo em- 
barcados em cincoenta & três velas de remo, galés, ga- 
leotas & barganiiofi* £ partido António da silueira, deu 
o gouernador a capitania mór doutra armada que auia 
de mãdar ao estreito a Eytor da silueira de quatro ga- 
leões,, duas carauelas & quatro bargalins. Dos galeões 
a fora ele, forâo capitães Aliartim de erasto, António 
de lemos & Fernão vodxiguez barba : das carauelas Frâ- 
çisco de Vasconcelos ^ & loanemendez de macedo. Dtm 
bargãtiine António bi^lelho,, Francisco de freytas, & ou- 
l-ros dooa,^ & deulhe por regimSto ^ partisse em laneis 
Fo. E diei^xâdo por capitão de Goa a dom Fernando de 
lima, se partio pera.Cochitn>. Ede caminho. deixou dom 
loâo dèça na capitania, de Caaanor que era sua. E fea 
ea>pitâo mór da costa* do IVlaíabar a Diogo da silueira 
seu cunhado da primeyra molher, & detilhe hua armada 
de duas. galeotas,.de que forâo capitães Manuel de vas- 
eõceios, & Nuno fernande? freyre^ & a carauela de 
Francisco- da cuniia ,. & seya barganlins , & foy capitão 
d& loãp da^ siJueirar seui irmfto de Diogo da siJueira , & 
deiflcouliie nesta armada duzentos Portugiueses. E che- 
gado a Coohimi, foy recebido com a mesma solBoidade 



i/rvso vin. CA^Firyto di. t 

3) em âoQ-: & ali acabou de ser eatregoe dn ;gotter«- 

nanoa. 

C A P I T V L O 11. 

J>e Mmo foráo presos Lopo vaz de sam Payo ^ ho Ip- 

oenceado loâoide soyr^ 

J.Íintregtie ho gouernador da gouernan^ , mandou prê* 
ièer a Lopo vaz de sam Payo, & escreti«rlhe quanta far 
«zenda lhe foy achada, dizendo () assi bo mandaua el Rejr 
<ie Portugal , por amor de hfis capilulos ^ derão dele 
•eeae fmigos. E por eeles capítulos se processou despoíf 
-em Portugal contra I.opo vaz de satn Payo : & se deu 
«eu tença cdtreie, que perdesse ho manti mento -Q ouuera 
«eruíndo de gouernador. B por esta causa ae deu a aenr 
teça cõtrele , & nã por Ibe darê a gouernS^ os juyaeg 
^ julgarfio por ele na índia, como disse no iiuro septi*- 
mo {| foi. por erro. E sabida a prisam ^de Lopo vaz , to- 
dos os ^ erão amigos do serui<^ de Deos & dei Rey, foi- 
•fão muyto espantados: por ser notório com quanta dili- 
-gencia, verdade & limpeza Lopo vaz de sam Payo seg- 
uira ho cargo da gouernança da índia , assi na guerra*, 
-como na paz, & l\ tinha feyta a. melhor & mayor armar 
da do {| nuca gouernador fíz)era ateli. E todos os dalo- 
dva ho dizião assi pubricamète, o que eu ouui a muy- 
tos, brasfemando de quam mao* galardão Ibe dauão da 
seus muytos & grandes seruiços» E assi dizião {| ho go- 
uernador estaua muyto indinado cõtra Lopo vaz de sam 
Payo, & lhe queria mal por lhe Garcia de saa. & Anto- 
iiio de Saldanha fazerS crer, que Lope.vaz lhe qu-isera 
roubar sua honrra em querer tomar Diti, o l\ 6zera sem 
duuida se lho eles não estornarão, & assi por outros me- 
xericos doutras pessoas í\ nuca falece. E de ho gouee- 
nador não estar bS cõ I^opo vaz, se pareceo no excedelr 
ho modo {} teue em Jhe mandar (omar sua fazSda tão 
meudamfite, que lhe mSdou Lopo vaz dizer ^ xiâ se A- 
.gastaua do 4 lhe fozia, ;por<} esperaua em .nosso Senhor 

A 2 



4 DA HISTOaiA HA INOrA 

que outro ho auia de vingar : o () se se comprío bê. B 
lo§[0 j) Lopo vaz foy preso ^ mandou dizer ho gouernaf* 
dor ao licenciado luâo de soiro, ouuidor geral da Índia, 
que entregasse a vara a ha Pêro barreio , & se fizesse 
preste» pêra Portugal. E vSdo loão de soiro esle recado 
do gouernador, eomo era prudete, pareceolhe Q nâoera 
sem mistério, & ^ não faria boa fazêda em ficar naliH 
dia cõtra votada do gouernador. £ sem mais 2[rer saber 
se el Key ho mâdaua tr ou na , respondeo ao gouerna- 
dor: ^. lhe beyjaua as mãos por tamanha mercê, Q ele 
era ja vel'ho & cansado, & nào linha na Índia outro pre* 
mio de seus trabalhos , se não pobreza & mny tos des- 
gostos, pelo que Denhua cousa deseja mais j) irse pe^ 
ra sua moiher, & seus filhos. JMas por{[ ele desse boa 
eÕla de si a el Rey de qu6 tinha a^la vara, que lhe 
desse hfia certidão de como lha lomaua» CÕ cuja repos- 
ta ficou ho gouernador atulhado , ^ desejaua de màdar 
loão de soiro pêra Portugal, & l\ não fosse seu ouuidor : 
porque lhe não tinha boa võtade , por ser certo Q ele 
fora ho primeyro que em particular, & em pubrico coi>- 
selhara cõ muyta instancia a Lopo vaz de sam Payo des- 
pois do desbarato das fustas de Diu, Q ho fosse tomar, 
& assi por outros mexericos, de Q sempre os gouern»- 
dores quando nouamente chegão á Índia ouuê que far- 
te , ppincipalmSte de pessoas Q 16 nela mãdo. Assi ^ 
vedo ho gouernador ^ por ali não podia leuar loâo de 
soiro, mãdouíhe lomar pesidScia sem ho el Rey màdar 
ir pêra Portugal , nS auer por acabado ho t&po de sua 
ouuidoPía. E talo J\ a residêcsia foy pregoada, como loft 
de soiro lincha muytos imigos, assi dos fidalgos da ín- 
dia, por ser grade amigo de Lopo vaz, cujos imigos 
erão, como dos outros por fazer deles justiça que todos 
aiUOrrecS, todos teuerào ^ dizer cõlrele. E mais purQ 
ho eoqueredoF & escriuão da residêcia erão seus imigos, 
& assi ho íopâo tãbS muyta» testemunhas, que cõ medo 
1} ele fizesse justiça deles , se lançarão cÕ os mouros. E 
eõ seguro do gouernador se (ornarão pêra os Christàos. 



LlVftO Vril. CAPITVLO IK À 

£ cô 08 ditos destas & outras taes testemunhas ^ foy 
loão de soiro preso, & mandado a Portugal. £ partido, 
como seus Imigos desejauâo de bo destruir , oá cõten- 
tes cõ as testemunhas da residécia ajudarãse de hú Pê- 
ro daguiar, ^ seruindo loão de soiro douuidor geral ser- 
uia de seu escriuão, Q depois de sua partida íoy preso 
por falsario, a Q aigús Imigos de loSo de soiro comete- 
rão {} testemunhasse còtrele, & l| ii>e aueriáo perdão do 
gouernador do crime, porque estaua preso. £ prome- 
tendo que si , ouueràlhe ho perdão^ que dizia « Eu Mu- 
no da cunha vedor da fazenda dei Key nosso senhor, & 
gouernador da Jndia, &c. Certifico, ^ sendo preso Pê- 
ro daguiar por falsario, ihe perdoey suas culpas, cõ tal 
cõdiijào ^ confessasse tudo o que sabia do licSciado loão 
de soiro, i) foy ouuidor geral nestas partes da Índia. £ 
isto por parecer Q cõpria assi a seruiqo dei Rey nosso 
senhor. £ assi pareceo ao gouernador , & nã eõ outra 
má t&<ião. £ coeste perda , disse esie Pêro daguiar mil 
testemunhos íalsos- cõlra loão de soiro, segQdo.se des» 
pois soube |K>r inquirições mui autSticas que sobrisso se 
tirarão, que eu vi : & mais Pêro daguiar como foy solu- 
to fugio pêra os mouros , & antreles morreu , & se me 
não engano mouro. Fínalméte ^ por mais maldades ^ 
68 Imigos de loão de soiro fulminarão cõtrele ate ho fa- 
serõ condenar , sabida despois a verdade , foy restitui* 
do em sua honrpa., & em graça dei Rey, & em seu ser- 
uiço , & nele morreo. £ Lopo vaz de sara Payo , & ele, 
como digo fora- mãdados presos pêra Portugal oa arma- 
da ^ ho gouernador mãdoo-a^lle anno, de ^ foy capitão 
mór Lopo dalmeida de Santarê, filho 4 foy de dÕ Diogo 
dalmeida prior do Crato, que chegou a Portugal a sair 
«amfito cõ rica earrega» 



< 'DÁ BIBTMtrA DA IffmA 

C A P I T V L O III. 

Do que dó lorge de crcMoftz na ilha dcBâda. 

j[]N D líuro septimo fica dito como dò lorge de crasto, 
por mandado de dom lorge de meneses capitão da for- 
taleza de Maluco, foy a Banda a buscar socorro. Eche» 
çado, achou hi lorge de brito capitão da fusta Q se per- 
dera de sua conserua quádo hia pêra Maluco, & nâo 
-podendo eeguir sua rola arribou a Banda , pêra {| vinda 
a mouijâo de Mayo se fosse a Maluco. E assi acbou d6 
lorge dous jugos de Malaca , de que erão senhores ht 
Lopaluarez, & hQ Bastião vieyra mercadores ricos, al| 
dÕ lorge contou a necessidade de gête, & de dinheiro 
em que ficaua a fortaleza de Maluco, requerSdolhes da 
parte dei Rey j que emprestassem dinheiro pêra se re- 
«medear, & alargassem corSta Portugueses (} leuauão 
em sua cÕpanhia pêra a defender. O () eles não quise- 
râo fazer, do que dô lorge fez autos que mandou ao ca- 
pitão de Malaca pêra os castigar. E esperando ele por 
mouc^o pêra tornar a Maluco , forão ter ás outras dua« 
ilhas de Banda certos mouros vassaJos dei rey de Tido- 
re por seu mandado aleuantar a terra ofitraos Portugiie. 
ees , & pêra os fauorecerê hião coeles algQs Casteíba- 
iios: (| aluoroçarão a gSte, dizendo mil males dos Por- 
tugueses, & muytos bgs dos caslelhanos, & i\ auiâo ce- 
do de senhorear toda a(}la terra. Epor mais que do lor- 
ge trabalhou por atalhar a isto, & por tomar estes mou- 
ros & castelhanos nunca pode. E vinda a mou<^o de 
Mayo, partiose pêra Maluco, & chegou á fortaleza cõ 
no mais ^ vinte cinco Portugueses que Mão na fusta 
com lorge de brito, & sem nenhúa fazenda pêra a fey- 
toria, do !\ dÕ lorge de meneses ficou niuyto agastado 
por não ter com {} p^gar á gente seu mantimêto, í\ mor- 
rião com fome. E a gSte da terra ^ ho sabia, se espan- 
taua muyto de como os Portugueses podião sofrer tama- 



LLVftO VU£. CAPITVM) lUU t 

nhos trabalhos como erão os da guorra & os da fome^ 
& da grade cooslãcia Q tinhão em seruir a seu Rey ^ 
& CUIDO nâ se hião & deixauâo a forlaleaia |X)Í8 erâo lá 
mal fiagos^ assi do soldo como do manlimêto» E assi 
erâo espâiados do pouco cuydado que os gouernadores 
da Índia tinhâo dos Portugueses Q eslauão na^la forla* 
)eza. E quando Cacbil daroes soube ^ não auja nenhúa 
fazQda com Q se pagasse o que se deuía aos Porlugue* 
ses, dizia Q n fiodia ser se nâo ^ não auia na Jndia 
nenbiis Portugueses , nS gouemador pois náo niàdaua 
cÕ que se pagasse a gSle que eaiaua oaQla fortaleza. £ 
vedo ele a desordè que auia antre os Portugueses , & 
quão pouco obedecião os que se achauâo em Banda aos 
mádados do capitão de Maluco, cuja sabiâo Q era a jur- 
di^jâo de Banda ^ teue bo em niuy pouca conla^ & assi 
aos Portugueses: & dizia que galinhas brancas antr^ 
pretas parecião mujto mal. E outras cousas 9 em que 
mostraua criar algua malícia cõtreles y como despois se 
affirmou. 

C A P I T V L O IIII. 

De como doín Jorge de meneies foy sobre a cidade dê 

Tidore.. 

±\ este tempo se acabarão hfias tregoas que auia antre 
dom Jorge , & Fernão de la torre , & assi antre os reys 
que seguiào estes dous capiUíes. £ acabadas as. tregoas^ 
nâ quis Fernão dela torre assentar outras por conselho 
dei: rey de TkJore , & db gouernador de leilolo , que úr 
nha. tudo preates pêra renouar a guerra com que espe* 
raua de se fazer de todo senhor do Morro , que he a 
melhor cousa daquelas partes , & por isso fazia eata 
guerra. £ mãdou logo lá sua armada, pêra que tomas** 
ae os lugares que lá tinha el vey de Ternate : &. el rej 
de Tidore mandou outra. £ aimla queCaohil daroes tir 
nba hè preuidos os lugares dei rey de Ternate, mandou 
tambè aua armada, em q^ &»rfto algus Portugueses. £ 



8 DA HISTORIA DA INDTA 

andâodo lá, encontrouse Cachil rade gouernador deTí^ 
dore, capitão de hfla grosaa araiada com seys corasco- 
ras da armada deTernate. Cdespois de os lernates pe- 
lejarem muy esforçadamenle, forflo desbaratados porCa* 
chil rade: que matou & ferio muy tos deles, & mais 
prendeo hil mouro principal de Ternate capitão de hfta 
cora cora, que tomou com quantos hião nela, que mã* 
dou despois matar muy cruamente. E âcando os Terna» 
tes , & os Portugueses que os ajudauão assi desbarata* 
dos , acoiherãse a terra : & mandarão recado por mar a 
dõ forge de seu desbarato. E que os imigos estauão 
muito poderosos, porque a fora estar lá a principal gen- 
te de Tídore, andauão coela corSta Castelhanos, ^ a 
fauorecia muy to, & se nã fosse hQ grosso socorro , (| 
seriâo cedo senhores do JMorro. O que sabido por dom 
lorge , ficou muyto Jedo, porque vio que tinha muy to 
bd tempo pêra destruyr el rey de Tidore, & desbaratar 
Fernão dela torre, (| não teria consigo mais que ate co- 
renta Castelhanos , & el rey de Tidore muy pouca gen- 
te, & essa não bem vsada na guerra, pelo que deter- 
minou de ir a Tidore. E calando isto consigo, disse a 
Cacbil daroes que era necessário destruyrê aquelas ar- 
madas de seus iniigos que andauão no Morro, & ajflta- 
rem todo seu poder , & ho de seus amigos. O que pa- 
recendo bem a Cachil daroes , mandou logo recado aos 
Sangajes & capitães da ilha de Teriíate, & a el rey de 
Bachâo , que acodissem com sua gente : o que logo fi- 
zerão, porque tinhão pouco que fazer era a ajuntar. E 
chegados a Ternate, sem dom lorge dizer nada do que 
determinaria, mandou armar os Portugueses, que erão 
cento & vinte todos escolhidos. E leuando suas trombe- 
tas & alabales , deu mostra a el rey de Bachão , & a 
Cachil daroes , & aos outros, que folgarão muyto de os 
ver. E eles tambS derão mostra da sua gente a dom 
lorge, que por não saber certo quanta era ho não digo, 
mas era muy ta & bera armada. E logo ali se apartou 
dom lorge cõ ho alçayde mór , & com ho fey tor , & ouf 



LfVRO VIII. CAPITVLO IIII. 9 

tro8 Portugueses principais, & com el rey de Bachão, 
& Cachil daroes , & disselhes. Que bem sabião que a 
guerra que (inhâo auia tãto (empo, & de () recebiâo 
lanías opressões, toda nacia da cidade, & ilha de Ti- 
dore. Cujo rey a fora ter grande poder de gente de seu 
reyno tinha ho fauor & ajuda dos Castelhanos que se ti* 
nhâo fortalecidos em sua terra com fortaleza prouida de 
muyta & boa artelharia, com que iicaua ainda mais po- 
deroso. Eque ele nunca vira ho tempo tão desposto |je- 
ra ho destruyr como aquele, por a sua principal gente 
da guerra ser fora^ & assi a mayor parte dos Castelha- 
nos, pelo que não auia quS defendesse a terra, que 
destruída ticarião em paz, & não aueria quem lhe fízes- 
6e mais guerra: porque el rey de Geilolo não a podia 
fazer sem ajuda dei rey de Tidore , & dos castelhanos. 
Ouuido isto poios circunstantes, ho prímeyro que deu 
iieu voto foy el rey de Bachão, por ser ho principal. E 
disse, que lhe parecia muyto bem irem sobre Tidore, 
& destruyla, & ho mesmo disse Cachil daroes, & os 
Sangajes & capitães J) hi estauão. Mas os Portugueses, 
que como tinhão fazenda que lograr, não quererião ar- 
riscar as vidas em pelejas, forão os mais contra estes 
pareceres, dizendo: i\ ainda que parecesse que em Ti- 
dore auia pouca gente, ^ não auia de ser tão pouca, 
que com a artelharia que tinha não defendesse ho prí- 
meyro combate dos Portugueses, que não erão tantos, 
nem leuauâo tanta gente, que do prímeyro lanço leuas- 
sem nas mãos híja cidade tão forte como era Tidore, 
nem menos a fortaleza dos Castelhanos que estauã den- 
tro. E que ficando a combates, aueriSo tempo pêra a 
gente que andaua darmada no Morro, & a de Geilolo 
lhe ir socorrer: & ajuntandose toda, os poderião desba- 
ratar, ou sabendo como a fortaleza de Ternate íícaua 
soo a iriâo tomar, & vsarião do seu ardil: por isso lhes 
parecia que não deuia de ir a Tidore. O que ouuido por 
dom lorge, ficou tão agastado de os Portugueses serem 
de voto que não fossem a Tidore , dizendo os mouros 

LIVRO yiii. B 



10 DA HÍSTORIA DA INDfA 

quo 8Í : que 0e leuantou , dizendo que não auia de per- 
der a nierce que lhe nosso Senhor fazia, em lhe dar vi- 
toria de seus imaiigos com iâo |k>uco trabalho &perigOy 
como sabia que auiâo de ter. b^logo entregou a fortale- 
za a Gomez aires alcaj^de mór, com que deixou algíis 
Portugueses fora dos cento & vinte que disse. E pedio 
a el rey de Bacbão & a Cachil daroes, que logo sem- 
barcassem com sua gente, que ele as^i ho auia de ía^ 
zer : & auiâo de partir aquela noyte antes que se rom- 
pesse ode hiao , porque queria tomar os immigos de sa- 
pito. O que lhes pareceo muy bem , & logo se embar- 
carão, & assi dõ Jorge: com que os Porlugueses hião 
de muyto má vdtade, o que ele entendia mas dissimu- 
laua. £ embarcouse em hu batel grande bem artilhado^ 
& com lorge deCrasto em hft parao malabar. E os Por* 
tugueses í\ nào couberao coeles, se embarcarão cõelrej 
de Bachào , & com Cachil daroes , & partiose véspera 
de sam Simão & judas passado bQ pedalo da noyle. E 
ao outro dia, que era dia destes dous Apóstolos, em 
amanhecendo chegou ao porto de Tidore : que he hQa 
cidade grande hft pouco afastada do mar, cercada de 
bua tranqueira de duas faces em lugar de muro. 

C A P I T V L O V^ 

De como dom lorge de meneses tomou a cidade de Tidore. 

v^hegado dom lorge ao porto de Tidore , assentou lo- 
go coesses capitães & pessoas princi|>aes de dar na ci- 
dade. E que entretanto que fosse parela , ficasse dom 
lorge de crasto no paráo em que bia : & com ho came- 
lo que leaaua, & com ho oulro q hia no seu batel des- 
se bateria a htl Ixiluarle que ali estaua , & deixou coele 
q^uimLe Portugueses, & algus mouros deTernale. E ele 
eom a outra gente desembarcasse & fosse dar na cida- 
de, que era dali a híi pedaijo. E por^ auiáo dir por an- 
tre aruoredo , acordouse que fosse diante descobrindo a 



•^wr 



LIVRO VflI. CAPITVLO V. 11 

terra bfl Vasco LoureiK^o, muyto falenle caualeyro, 
com que iríão doze Portugueses: & logo i sua vista bit 
Dinis botelho cÕ outros tantos. B desembarcado do Ior« 
ge com toda a gente leuando esta ordê , abalou pêra a 
cidade, onde assi nos mouros como nos castelhanos auia 
grande sobre salto, & muyto grSde medo: porque Ca* 
chil rade ho gouernador de Tidore , que era muyto es- 
forçado, & sabido na guerra não estaua na cidade, que 
andaua no JMorro com a principal gSte dela, & el rey 
era ainda moço que não sabia pelejar. E Fernão deia 
torre ho capitão mór dos castelhanos tambS estaua de- 
satinado, porque alem de saber pouco da guerra, & 
nSo^se ver nunca em outra tal como aquela, achaua- 
se com no mais de corSta & dous castelhanos , que os 
outros erão todos fora. E ele não se entendia com os 
mouros, nS eles coele: pelo que auia em todos muyto 
grande espanto. E com tudo Fernão dela torre mandou 
assestar algfls berços sobre ho muro, principalmente da* 
quela parte dõde hia dom lorge, & mandou tirar coe- 
)es , & tirauão muyto amiúde. E chegSdose os Portu- 
gueses mais, começarão os castelhanos de mesturar es- 
pingardadas, & com hila passarão a rodela a hQ Portu- 
guês, & ho ferirão na mão esquerda. E como eles hião 
todos, ou os mais de má vontade a esta guerra, abas- 
tou esta ferida pêra os espantar, & impedir que não pas- 
sassem auante, & deteuerãse. O que ouuera de ser 
causa de morrerS muytos se lhes nosso Senhor não aco- 
dira, porque cumo estauão juntos, poderãlhe as espin- 
gardadas dos Imigos fazer muyto dano. Mas nisto che- 
gou dom lorge & começou de bradar, que se chegas- 
sem ao muro, & eles não derão por isso, & deixarãse 
estar quedos. E como ele era muyto esforçado, passou 
a diante com hua espada dambas as mãos, dizendo. 
Que pois não querião pelejar, que ele queria ser ho pri- 
meyro que recebesse a morte, antes que padecer tama- 
nha vergonha. E dizendo isto, & chamado por Santia- 
go, remeteo^ a bQ portal que estaua na tranqueyra por 

B 2 



12 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

onde os de dentro se seruíâo. £ em abalando que hía 
perlo da trãqueyra hfi Castelhano chamado Pêro de ra- 
mos, que eslaua em cima com Fernão dela torre, & c3 
outros: lhe disse. Senhor dom lorge, agora veremos. 
£ dizendo isto, desfechou híia espingarda nele. £ quis 
Deos que lhe deu na espada^ & rcsualando dahi ho pe- 
louro, lhe deu na cabeia: & por ter capacete, & ho 
pelouro ir fraco lhe não íez nada. Elogo dom lorge çar- 
rou com a tranqueyra , & por ser aleijado do braço de- 
reylo não se pode guindar acima, o que prouou de fa* 
zer por ser muylo ligeiro. £ em ele chegando ao muro, 
chegarão Vasco Lourenço, Dinis bolelho, Vicente da- 
fonseca, Francisco pirez, & «julros que abalarão coele* 
£ neste tempo os Castelhanos nà faziào se nào lírar, 
hCLs com espingardas oulros com bestas & outros com 
pedras & lanças. PorS os Portugueses nào dando por is- 
so , esforçados por dom lorge se chegarão sem medo á 
tranqueyra, & mais vedo dom lorge em ciuja, porque 
como Vasco Lourenço» Vicente dafonseca , & os oulros 
forSo coele, ele os ajudou a sobir, & assi eles (ambem 
ajudarão à ele, dandolhe decima as mãos. E em quan- 
to se isto fazia era a peleja muy braua, porque vendo 
os Castelhanos que os entrauão, irabalhauào quanto po- 
diâo por não perder a tranqueyra, & os Tidores lhes 
ajudauão muy bem , de que foráo morlos bem cincoen- 
ta: ^ como os Portugueses & os mouros que os ajuda- 
uão erão muy tos, enlrariío a tranqueyra. E entrada, 
jião poderão os Castelhanos, nem os mouros resistir aos 
portugueses, & os Tidores se recolherão pêra a cidade, 
& Fernão dela torre com os Castelhanos pêra a sua {c)r- 
taleza, leuãdo os mais feridos, & ficando dóus mortos 
& quatro presos. Edom lorge foy com sua gSle seguin- 
do os Tidores, ferindo & matando muytos, ate os dei^ 
tar da cidade , & de volía coeles se foy ho seu rey. 



LlVaO VIII. CAPITVLO VI. IS 

C A P I T V L O VI. 

Do concerto que Jizerâo dom lorge de meneses , ^ Fer^- 

não dela torre. 

A. uida por do lorge esta tão ilustre vitoria com só- 
iDenle lhe ferirem Ires Portugueses» mandou recado a 
dom lorge de Oasto, que se fosse logo á cidade cõ os 
Porlu^uenes (j ficarão coele. E ele chegado, foy a cida- 
de tàaqueada & despois queymada, no que se gastaria 
ate véspera, porí} como as casas erão de madeyra ardeo 
n)uy asinha, il denpois disto assentou dom lorge de com- 
bater a torre dos Castelhanos, a que chamauão fortale- 
za, que como disse era cercada de caua. £ primeiro 
que bo fizesse, escreueo hiía carta a Fernão dela torre : 
em que dizia, que lhe pedia muyto, & requeria da par- 
te do Euiperadur, que se entregasse: & que não fosse 
causa de mais mortes dos Cliristâos, porque bem via ho 
estado em que estaua, & quam pouco remédio tinha 
pêra se defender. & ^ se se quisesse entregar a ele, & 
aos que estauão coele seguraua as vidas, & as fazen- 
das. E esta caria lhe màdou por htí seu escrauo que 
forrou pêra isso: & da torre sajo ho alcajde mór ^ se 
chamaua monte major a tomar esta carta. E lida por 
Fernão dela torre, mandou dizer a dom lorge pelo mes- 
mo Monte mayor, que não se auia dentregar por mais 
seguros que lhe desse: mas que lhe daria a galeota que 
fora tomada a Fernão Balda)^a com toda sua artelharia^ 
& a ilha de Maquiem , & que não ajudaria mais cõtra 
os Portugueses a el rey de Tidore , nem a el rej de 
Geilolo, nè lhes faria guerra. E que ficando em paz, 
& amizade, ele dom lorge se tornasse pêra Ternate. 
Ao que dom Jorge respõdeo, que não fora sua ida por 
tão pouca cousa: & pois assi queria, que sua fosse a 
culpa do dano que recebesse. E partido mote mayor 
coesta reposta ,. abalou do lorge após ele com sua geo** 



14 DA MT8n>RU DA INDÍA 

te , toda fey ta em dous fios como procissam , porque a 
artelharia da torre dos castelos a não podesse pescar. E 
diante biSo algDas peças dartelbaria emcarretadas, que 
forâo tomadas em hQ baluarte, & assi escadas & muy- 
tas panelas de poluora, E v6do Fernão dela torre este 
aparato, & a muyta gente que dom lorge leuaua, de- 
terminoa de se entregar. E auido seguro de dom lorge 
pêra lhe ir falar, sayo da torre com a melhor gente que 
tinha. E afastado bCl pouco dela , & dd lorge da sua , 
ae falarão : & assentarão que Fernão dela torre desse a 
dom lorge a galeota , que fora tomada a Fernão Bal- 
daya, com toda a artelharia, & os catiuos. E que logo 
ao outro dia Fernão dela torre se fosse pêra a cidade de 
Camafo com os Castelhanos que ho quisessem seguir, 
& ali estaria sem fazer guerra aos Portugueses, nfi a 
el rey de Ternate, nS a el rey de Bachão, nem a ne* 
nhiis amigos dos Portugueses. Nem fariâo crauo, nem 
iríão a nenhiia das ilhas em que o auia : & () tornarião 
a ilha de Maquie a el rey de Ternate. E contra ele, 
nem contra el rey de Bachão ajudarião el rey. de Tido- 
re, nem el rey de Geilolo : & pêra sua embarcação dom 
lorge lhes daria ho bargantim que fora dei rey de Gei- 
lolo, & mais três corascoras pêra ho acompanharem ate 
Camafo : & que dom lorge lhes não faria mais guerra , 
nem a el rey de Tidore, nem a el rey de Geilolo. E is- 
to se goardaria ate el Rey de Portugal, & ho Empera* 
dor mandarS ho contrayro. E de(x>is de ambos de dous 
darem conta disto a sua gente, do que todos forão con^ 
tStes: fizerão ambos por escrito hQa capitulação desta 
paz, que jurarão de comprír, & goardar , & a assinarão 
c5 algClas pessoas principais. 



LIVRO VIII. CAPITVU) Vil. 16 

C A P I T V L O vil. 

Do que fez dom lorge de meneses despoU deste concerto^ 

JO ey to esle concerto , logo desoylo ^ ou dezanoue Cas- 
telhanos disserâo que queriâo tícar coiu doui Jorge. £ 
Fernão dela torre lhos entregou , & cõ os outros Q se- 
riào vinte, se tornou a sua torre a fazer prestes f>era 
sua partida, ^ foy ao outro dia, leuando toda sua i'az&- 
da, & a do Êtnperador, & do Jorge màdou coele três 
corascoras da armada de Cacbil daroes. £ indo seu ca- 
minho pêra Caiuafo, Q he no IMorro, toparão quatro co- 
rubcoras, em Q bia ho gouernador de Geilolo: & quado 
vio o tiargâti, cuidou ^ era de Portugueses, e por isso 
nâ ousou de os cometer: & dissimulado, passou auante 
sem mais querer saber quem bia ali. E chegado a Gei- 
lolo, soube o que dom Jorge de meneses fizera em Ti- 
dore, & que no bargantim que topara hia Fernão dela 
torre com os castelhanos, & as corascoras erão de Ter» 
nates , que lhe dauào goarda. £ auendo ho gouernador 
aquilo por injuria, armou logo dez corascoras , & foyse 
nelas, pêra por Jbr^a tomar os castelhanos aosTeroates^ 
& os leuar a Geiloio, onde lhe parecia Q estariào me- 
lhor que em Camafo: & partido, nunca os pode achar, 
& tornouse. E chegado Fernão dela torre a Camafo, 
torna rase pêra Tidore os Terna tes Q forão coele. E ai<- 
gús castelhanos Q estauAò em Geilolo, como souberão (| 
estaua em Camalb, lhe escreueráo que fosse pêra Gei- 
lolo, porque lá estaria melhor, por ser Camafo dei rey 
de Tidore, que era ja amigo dos Portugueses. £ tanto 
íizerào coele , que depois se foy pêra Geilolo , & que- 
brou o que tinha prometido, & jurado. £ dom iorge de 
nieneses, que ikou em Tidore , despoia de partido Fer- 
não dela torre, assentou paz com el rey deTidoré, com 
€Õdi<{áo que auia de pagar certos babares de crauo ca- 
dàno de páreas a el Rey de Portugal , & ^ auião destar 



- I 



16 DA HISTORfA BA INDÍA 

certos Portagueses em Tidore, pêra lhe ensinarem os 
nossos costumes, & não auia roais dajudar os Castelha* 
nos contrele 9 nem aos mouros. E estando aqui dom lor- 
^« , apareceo ao mar hn jungo de B3da , & Damboino, 
em que vinhão cento & cincoSta mouros, que ho leua- 
uão carregado de roupas, & de mantimentos pêra da- 
Tem por crauo em Tidore, cuydando que estaua em sua 
prosperidade. E sabendo dom lorge donde era, mandou 
a dom lorge de Crasto que ho fosse tomar, & ele foy 
em bua galeota. E sabendo os mouros a destruy<;âo de 
Tidore , & a ida dos castelhanos , não ousarão de pele- 
jar, & entregarâse a dom lorge de Crasto, que os le- 
uou no jungo á cidade. Edoro lorge de meneses Ihefez 
mercê do jugo, em nome dei Rey de Portugal, assi 
porque ho tomara , como porque auia de ficar em Tido- 
re, pêra arrecadar ho crauo que el rey auia de dar. E 
-deixando coele cor^ta Portugueses, &Cachil daroescom 
-sua armada, se partio pêra Ternate , leuando duas ga- 
Jeotas dos Castelhanos , & algUa artelharia , & assi a 
-galeota que elles tomarão a Fernão Baldaya com sua ar- 
teiharia, & muyta poluora, & muytas munições, & ho 
maçame, & aticoras que forão da nao de frey Garcia 
de loais. E bem vingado dos danos que recebera dos 
castelhanos, & comprido o que dissera, que auia de 
<ser ho cão que os auia dapanhar dii bocado, chagou a 
Ternate, onde foy recebido com grande festa. E ficou 
/em muyto credito com a gente da terra, & dali a algus 
dias chegou dom lorge de Crasto de Tidore, onde dei- 
xou tudo acabado. E noianeyro seguinte se partio ppra 
Bãda cÕ determinação de se tornar á índia, como tor- 
nou , & leuou algíis Castelhanos per mãdado de do lor- 
ge de meneses ij sabSdo como Fernão dela torre se foy 
de Camafo pêra Geilolo cõtra a capitulação que tinhão 
feita, lho mandou estranhar. E Fernão dela torre deu 
por desculpa, que ho fizera por força: & porem que no 
mais goardaria a capitulação, & assi ho fez. 



LIVKO VIII. CAPITVLO VIU. 17 

C A P I T V L O VIII. 

Dt como António da silueyra de meneses destruyo çur* 

rate ^ ReyneL 

Jl artido António da silueíra c8 sua armada, foy ter a 
Chaul, donde se parlio p^era a costa de Camhaya, ^ he 
da banda do sul, onde auia de fazer a guerra. Ecome- 
<^u logo em bíl lugar chamado Reynel, ho principal da- 
.quela banda: que está quatro legoas do már, por hD pe« 
queno rio acima, que vay em voltas per h& campo as- 
sentado na borda do rio. He abastado de trigo , & dar- 
roz, que se coíbe naquele campo, em í\ ha muyta ca- 
^a daitenaria. Ho lugar he grande, & raso, & bê ar- 
Tuado : tem boas casas de pedra & cal, de muylos so- 
4)rado8, & muyto polidas. Seus moradores sam todos 
mouros Neiteás, & os melhores cauaieyros deCambaya. 
.£ daqui hia a principal gente pêra as fustas de Diu, & 
assi pêra os exércitos dei rey de Camhaya , que tinha 
por fronteyro ho capitão deste lugar contra Nizároaluco, 
& estaua hi outro. E chegando António da silueira á 
foz deste rio de Reynel, quãdo a vio tão estreyta, nâo 
quis entrar sem sondar primeyro ho rio per si mesmo: 
& achou que ficaua seco dele muyta |>arte com baixa 
mar, pelo que não podião entrar os nauios grandes que 
deixou de fora com gente que os guardasse , & por ca- 
pitão mór Manuel de Vasconcelos: & nos catures, em 
que leuaua sete centos soldados, entrou pelo rio acima. 
E de caminho quisera dar em outro lugar, grade &. no- 
bre, chamado çurrate, que estaua pelo mesmo rio híia 
legoa antes de Reynel, & achouho despejado. Edesem* 
harcando com sua gente, em hu dia & hua noyte ho 
queymou todo, que nenhQa casa ficou em pê: & as or- 
tas & palmares darredor forão todas cortadas & destruí- 
das, & queymadas muitas cotias carregadas de manti- 
mStos, que estauâo pêra ir a Diu. Feyta esta deslruy- 

LIVRO VIII. c 



18 OA HISTORIA DA IlfDIA 

çâo, partiose Aotonio da silueira pêra Reynel, que pa- 
recia da outra banda do rio , que por /azer grandes vol- 
ias esÍHua hQa legoa de çurrate ; de cuja destruição 
sendo seus moradores certificados , se fortificarão com 
hua (ranqueyra á borda dagoa em que assestarão muy ta 
& bua arielharia que tinháo, a mais deila de metal, fi 
Bds bocas das ruas fiserâo outras, em Q também atsen- 
larâo artelbaria : & quatrocentos de caualo , se sayrSo 
ao campo a esperar António da silueira. £ muy los de»- 
les eráu acubertados , & todos armados de laudeis j d&- 
lea enlaminados de laminas de ferro, & outros forrados 
de malha pelos peytos, & mangas, & terçados nas cin- 
tas , & nas mãos dous & três zaguncbos , & nos arções 
seus arcos & coldres de frechas , que bé parecia gète 
de feyto. E assi esperarão os Portugueses, que biáo 
pelo rio acima tangSdo suas trombetas, & dando gran» 
des gritas , porque os inimigos soubessem que os náo 
teroião. E eles em se os nossos descobrindo, que a ar- 
telbaria podia jugar descarregâo hua grande çurriada 
de bombardadas, que parecia bila toruoada muy espan- 
tosa. E continuando, parecia que tirauão em roda viua 
tantos & tão bastos erão os pelouros. E foy milagre de 
nosso Senhor por sua bÕdade , que nenhu náo acertou 
em homS, & todos bião por alto. E sendo bQ tiro de 
besta abaixo do lugar , defrõte dõde estauã os de caiiar 
k) desembarcou Anlonio da silueira cÕ toda a gõte, por 
não descMiibarcar nas boeas das bõbardas da trà^yra & 
pêra dali ir dereyto ao lugar. £ por^ creo Q os de ca- 
iialo ho cometeriao, ordenou sua gente, & deu a diá* 
teyra a Manuel de sousa, cõ que hiâo os mais dos es- 
píngardeyros, Q em desembarcado fizerâo rosto aos de 
eaualo, des|>arando suas espingardas, de ^ eles parece 
Q ouiierão medo, & recoítierâse ao lugar sem peleja, 
por^ lá e8f)erauão de se defender com a artelbaria {| ti- 
nhào nas bocas das ruas. E assi bo fizerão, j| em os 
Portugueses aparecendo começarão de tirar coela : mas 
nê por isso eles deixarão de chegar , saltando d& cabo 



LIVRO Vni. CAPITVLO VIII. 19 

pefa bo oúlrO) & abaixãdose l\ lhe não acerlagsem os 
pelouros^ como não acertarão. E chegando ás Iranquey. 
ras, acharão grande resístScia nos mouros, Q erão iDuy-* 
4.08 & esforc^ados, & pelejarão hú peda<jo ale S os eor 
irarão pela rua principal, & forão os prioieyros loão ju- 
sarte tição Dázinbaga, Ruy boto de lima, dõ Diogo vi« 
lançuela, Grcnijalo vas Coutinho, Frâcisco da silua, Bal* 
4esar lobo de sousa , & outros fidalgos ate dez : & estes 
mostrarão aqui bfi sua valètia, |)or na^la rua estar ho 
«ayor peso da gente. E assi como se estes desbarata* 
Ho , logo a gente das oatras se desbaratou , & fugirão 
todos, ficando corfita mortos, & dos Portugueses tres^ 
& algfls feridos. António da silueyra os não quis seguir^ 
& pofido goarda da bãda do sertão, mãdou saquear ho 
lugar , em Q as mais das casas erão lauradas de mace* 
naria, & douradas, & cateles dourados & laurados de 
pedraria baixa, Íl outras alfayas tão polidas & ricas: 
que ate muytos falcões que se acharão em alcandaras 
tinhâo os caparões dourados. Ebê parecião de gente ri- 
ca, ^ assi o era a i} ali moraua , por ser dos principaes 
lugares de ^ tralauâo pêra a China. Eassi acharão mtjy«- 
ta mercadoria, de que auía casas cbeas: principalmen- 
te de cobre, & de marfim , & de porcelanas, & doutras 
cousas de muita valia, de que os nossos carregarão os ca* 
tures ho mais {) poderão : porfi carregauão pouco por a* 
mor do peso da g6te que auia dir neles, que se forão 
Jiauios grades , quantos ali hião ficarão ricos pêra sem* 
pre , porque não tinha cÕto a riqueza que ali auia de 
iDuytas cousas () não digo. E temendo António da sil» 
ueira {) lhe carregassem os catut^es, Q não podessem 
nadar, mãdou poer fogo ao lugar, & esperou a noyte 
seguinte, Q ardeo todo sem ficar cousa que se podesse 
enxergar. £ forão queymadas vinte nãos, & muytas co«> 
tias todas carregadas de mercadoria, & de madeyra, & 
a terra ao derredor foy toda destruída como em çurra* 
le. E deixando tudo destruido a fogo , & a ferro , em* 
barcouse : mandando primeyro deitar na mayor altura 

c 2 






tD DA HISTORIA BA INIMA 

du rio a artelharia que oao pode leuar, () foy mojfa, 
b«.'rços & falcões , & lodos de luelaL £ chegado á t>ar- 
ra, achou ^ lomarãu os j| fícauão na aroiada seys cotias 
que hiáo pêra Diu carregadas de màlioiêtos^ & quej« 
roaráo outras rouylas carregadas de madeyra, Q em Dia 
fizeráo grande luingoa, |K>la necessidade ^ linha de lu« 
do. £ as nouas dd desIruyçSo destes dous lugares 6se« 
rSo grade espanto^ assi lá como em toda Caiubaya, por* 
que por estarem tâo longe do mar, & os caualeyrus de 
Keynel terem tanta fama, se e8|)eraua que nuca 08 nos* 
SOS lá fossem. £ a genle da lerra andaua Ioda pasma* 
da, por(| víáo que se nâo podiào segurar se nào bfi me* 
lidos nu sertão. £ deixando António da silueira muyto 
grade terror nesta comarca , por começar de se chegar 
ho inuerno se partio pêra Chaul. 

C A P I T V L O IX. 

De como Anionio da silueira destruyo Damão , ^ ^o-* 
ctVn , ^ outros muyios lugares de Cábaya. 

Xlà indo sempre ao logo da costa peta a destruir , foy 
ter a Damão hii lugar muy grade na põla da enseada 
da banda do sul cõ hua fortaleza de muro de largura 
doyto pês quadrada, & em cada quadra híi cobelo, & a 
porta chapada de metal , cm que el rey de Càbaya ti* 
nha gête de guarni<;3o, que sabendo a destrui<^ão Q os 
Portugueses fiaerâo em çurrate & Keynel, & como tor- 
nauâo não ousarão desperar, & fugirão. £ os do lugar 
lhes teuerão companhia, tirando primejrro suasfazêdas: 
& por isso os nossos nâo acharão aqui com qufi pelejar, 
& queimarão, & destruirão tudo na terra, & no mar 
muitas nãos, & cotias carregadas de mantimentos, & 
mercadorias. £ indo daqui pelo rio acima, queymarâo 
muytas aldeãs: em que acharão hua nao grande J\ se 
fazia pêra Meca , ^ tamhê foy queymada , & forão ca- 
tiuas muytas almas. £ tamanho era o medo na gSte^ 



LIVRO VIII. CAPITVLO IX, ti 

principalro6te na mezquinha, i\ desemparauão 08 luga- 
res em Q morauão, posto que fossem lÔge do mar, & 
tiiàse pêra mais longe. Destruída esta comarca de Da* 
mâo, partiose António da silueira pêra Agacim , outro 
lugar grande, por hú pequeno rio acima na volia que a 
costa faz pêra Chaui , em ^ auia cinco mii & quatrocS* 
tos homês de peleja: os cinco mil de pé, & os quatro* 
cêtos de cauato, gfite esfori^ada, & (} esperaua de se 
defender. E por isso António da silueira determinou de 
08 cometer, pêra o j| desembarcou na costa hu quarto 
de legoa do lugar, por hu rio ser pequeno & baixo: & 
mandou diante iManuel de sousa cõ cèto & cinccSta ea* 

Eingardeyros , acõpanhado de muitos fidalgos, & ele 
ia nas costas. £ chegado perlo do lugar, acharão os 
de caualo no capo , & os de pé no lugar. £ os de caua* 
lo posto que viào chegar os Portugueses não os sairão a 
receber, & deixarSse estar apinhoados. O ^ vendo Ma- 
nuel de sousa, deu Santiago neles, & então começarão 
de bolir, remetêdo aos Portugueses : 1} os tratauão mu;* 
lo mal cõ as espingardas, com que derribarão treze: de 
Q eles ouuerão tamanho medo, que a cabo de pouco que 
pelejauão fugirão, deixando cinco Portugueses mortos* 
Os de pé tanto Q os virão fugir fizerflo o mesmo , sem 
receberS tãto mal como receberão se ho lugar não ieue- 
ra naQla parte mais Q bua só Strada muyto estreita, pe- 
lo j) os Portugueses se deteuerão em entrar: & por isso 
Dão poderão alcâçar dos imfgos mais que ate duzStasal* 
mas, que matarão & catiuarão. £ ho lugar foy todo 
destruido a fogo & a ferro , assi casas como aruores , & 
cotias, !) auia mujtas carregadas de mantimCios, & 
madeyra , i\ se leua darias partes pêra outras de Cam* 
baya , & pêra ho estrey to. £ estando António da siluei* 
ra pêra se embarcar, três Portugueses que ficarão em 
terra desmâdados, furão cometidos de certos mouros de 
caualo, Q os poserão em tanto af)erto {) os fizerão apar- 
tar, & douB fugirão por acerto pêra ondestaua António 
da silueira ^ a ^ ele acodio , & os recolbeo. £ ho uutroy 



CS IML HISTORIA DA ÍIOnA 

(| fle chamaQa Pedraluarez do geiio , ioiBOO mais d 
uiado seguindoo Iret oioaros de caualo. E vendo ele j| 
não podia escapar ▼irou a eles , & derribou hQ morto (( 
¥Íolia diante: o j| vendo oa outros fugirão^ & ficando 
liore, ae foy embarcar em paz. E dali se foj António 
da silueira a h&a ilha chamada Bombaim pegada e5 a 
costa, pêra dali arrecadar as páreas deTaná, Bandorá, 
& Caranjá , que Ejtor da silueira íixera tributários , co» 
mo disse no liuro sexto : Q eles logo pagara cd medo de 
serê destruidos como os outros , em 2[ se fez a espátosa 
destrui<^ ^ disse , não somente neles , mas em muytaa 
aldeãs ^ ha por a^la costa, Q he muy pouoada. E nes^ 
ta guerra queymarSo os nossos trezStas velas anlre nãos 
grossas , zambucos , & cotias carregadas de fazSda , da 
madeyra & de mantimStos. Em que fizerâo mujtogran* 
de perda, assi a Cambaya como ao estreito, & forSo 
caltuas mujrtas almas , de que a el Rey de Portugal vie^ 
tio cftto & cincoSta, b5s pêra remejros. E esta foj a 
mais áspera guerra j} ateli foy feyta a Cambaya , & de 
4 recebeo mais perda , & os nossos receberão mais pro* 
ueito: porque todos os da^la armada forâo ricos, & el 
rey de. Câbaya a s^ntio muyto. E nesta ilha ficou An« 
tonio da silueira algils dias pêra arrecadar as páreas ca» 
mo disse« 

CAPITVLO X. 

De como ho capitão de Reynel desbaraUm a Frãcisco pe* 
reyra de berredo , capUâo da fortaleza de ChauL 

JD azendo António da silueira esta guerra na^la costa, 
-a fazia el rey de Cambaya a Niaamaiueo se&or de Cbaul 
vassalo dei Key de Portugal. E isto por seus capitães, 
a lhe tomarão & {Jymarã muytos lugares de seu seflorio 
& ele andaua fugindo dQ cabo pêra ho outro, & por is« 
so os imigos se espalhara por sua terra* E hu destes ca« 
pilães, Q era ho de Reynel sabêdo a destruição ^ os 
nossos fizerão em Reynel , por vingãça determinou da 



LITRO rni. CáWTVLO X. 2S 

queymar Cbaul dos mouros , pafeoeodolbe que por se^ 
rein amigos dos Portugueses se vingaua, & partio pêra 
lá 06 cinco mii de eauato, 8c dose mil de pé. £ mandou 
diauie algUs Q fossem ver a dispoei^ào da terra , & es- 
tes chegarão júto do lugar. Onde togo Iby grande aluo- 
roço, & derfto recado na fortaleça ^ lhe acodisfié. £ »- 
cerlouse ^ estaua hi Fernão de moraes, que hia em fafl 
Galeão pêra Ormuz, & acodio logo c6 sua geie, & assi 
algils da fortaleza. £ acharão ja os imigos anlre as or- 
las de Ghaul , & pelejara coelea , & os fizerão fugir , ti«- 
cãdo mortos ires de caualo. £ ficado bo lugar seguro 
por a^la vez , se tornou Fernão de inonies pêra a nossa 
pouoaçãor £ao outro dia forão esses principaes deChaul 
dos mouros requerer a Frãcisco pereyra de berredo c»- 
pitão da nossa fortaleza , Q íosse buscar os Imigos Q e»- 
tauão perto , & os lançasse de todo fora da terra , porQ 
lhes ná queimassem o lugar: & (| era obrigado a àefeoh 
deios pois Nisamaluco era tributário a el Re; de Poi^ 
tugal. O que os ^ estauão com Frãcisco pereyra, lhe cò^ 
selbarâo Q fizesse. £ele ho fez, & sahio da fortaleza c& 
cincoenta de eauaio, & cento & cincoêta espingardeiros 
de pé : & fby em busca dos Imigos ate chegar a bH pas^- 
BO mea legoa alem de Chaui , ^ se chama Argao: que 
be tão forte ^ cincoenta homSs bo pode defender a todo 
miido. £ chegando ali não parecião ainda os mouros ^ 
pelo Q teue que erão fugidos de todo, & se quisera tor*^ 
nar pêra a fortaleza. £ assi lhe disserâo algas Q ho fi» 
zesse, por^ ele não era obrigado a ir buscar os imigoa 
tào iõge da fortaleza : & pêra defender Ghaul abastaua 
acodirlhe se os Imigos tornaseem , & quanto mais perto 
pelejas&e da fortaleza , tanto mais pelejaria a seu saluo. 
Outros disserâo, que deuia de passar auãte & ir buscar 
os imigos, & pelejar coeles r porQ se tornasse sem ho 
fazer, Q pareeeria fraqueza, & (} ficaria em descrédito 
com a gfiie da terra. £ tâto bo apressarão estes ^ ho fi- 
lerào passar auãte a outro passo, dõde mãdou quatro 
de caualu a descobrir a terra. £ esles lhe mandarão dy- 



24 BA HISTORIA BA IlfBIA 

zer 1) nio parecião os lanigos, {| fosse auâte, & n2o 
perdesse a^la hoorra , ^ lhe queriSo roubar os que lhe 
eonselhauão que não fesse , & coisto foy. E saiodo a hS 
campo acharão os imigos , Q estauâo no cabo dele dei- 
tados ao pé de hua serra : j} logo ge leuaotarão em os 
nossos parecfido. E quando Francisco pereyra vio tio 
grossa genle, achouse embaraçado: & mais por^ os I- 
migos de caualo pegario logo cõ os nossos de caualo j} 
hiSo diãte. E por os mouros serS tao grossa gente, os 
n2o poderSo sofrer, & recolbiãse quãto mais podião muy- 
to apressados dos f migos , que os apertauâo rijo: & por 
isso Frãcísco pereyra se quisera recolher com os de pé 
ao passo donde partira , & fazerse ali forte. Mas nâo 
pode , por^ vSdo os de pé a pressa com ^ se os Portu- 
gueses de caualo recolhiâo, & a grossa gCte dos imtgos 
i| vinha sobreles , é estado cisados do caminho , por a 
calma ser muyto gride : cometerão de desmayar, & de- 
aordenarse. E em vez de se fazerem em corpo , & tira- 
r6 aos imigos cõ as espingardas , espalhise & começâo 
de fugir polas serras fora do caminho. O que v6do os 
imigos 9 começao de dar grides gritas: & apertarão tão 
rijo coeles, ^ os desbaratarão a todos & fizerão fugir, 
assi os de caualo , como os de pé por essas serras por 
fora da estrada , com ho que receberão mais dano: Q se 
forão por ela como Francisco pereyra , & algus outros 
que teuerão coele em chegando ao primeyro passo seli- 
zerão fortes, & resistirão aos imigos cd as espingardas, 
mas não ouue esse acordo. E assi forão os Portugueses 
fugindo ate a fortaleza, indo os mouros em seu alcãço, 
í\ matarão deles oytenta de pé, & ferirão muytos, & quey- 
marão Ghaul dos mouros, de í\ matarão rouylos. E che- 
garão tão perto da nossa fortaleza , que lhe queymarão 
ho arrabalde se não fora a artelharta que começou deti« 
rar. E cÕ tudo cercarão a fortaleza , o que Frãcísco pe- 
reyra escreueo logo a António da silueira, & j} ho fosse 
socorrer. O (| ele fez como vio a carta , & checou no 
mesmo dia ^ partio , por. não ser Cbaul mais de. cinoo 



LIVRO Viri. CAPIJ^LO XI^ 26 

]f>goas de Bombaim. E chegando a Chaul, achou a ter- 
ra (oda cuberla de mouros, que cõ sua vinda se forão: 
& receando que tornassem , deixouse ficar em Ghaul. 

C A P I T V L O XI. 

De como ho gouemador prendep Francisco pereyra de 

berredo. 

JL artidas as nãos da carga pêra Portugal , de ^ foy por 
capitão mor d5 Lopo dalmt^ida, despachou ho gouerna- 
dor pêra IMalaca a António da silua de meneses capitão 
da nao do trato da índia pêra Malaca. E assi pêra Ma- 
luco hii fídalgo chamado Gõçalo pereyra, {} tinha por el 
Rey de Portugal a capitania da fortaleza da ilha de Ter- 
Date, & coele outro fidalgo seu cunhado que auia nome 
Hanibal cernige {) hia na sua subcessam. E por capitão 
tnór do mar de Maluco hii Brás pereyra sobrinho de 
Gonçalo pereyra. E ho gouernador deu a feytoria da 
fortaleza a hii Luys dandrade: & estes todos partirão 
de Cochim em Abril pêra Malaca, indo em sua eõserua 
António da silueira, & hu Lionel de lima em hOa ga- 
leota que hia tãbê pêra Maluco. E despachados estes, 
partiose ho gouernador pêra Goa a seys de Feuereyro, 
& SBaticalá lhe foy dada hQa carta Dantonio da siluei- 
ra: em l\ Ihescreuia ho desastre que acontecera a Fran-» 
cisco pereyra , & coiyk> (ícaua em Chaul. E ho gouer- 
nador quisera logo ir a Chaul , & não foy por adoecer 
em Goa, & por isso escreueo a António da silueira, que 
tirasse a capitania a Frãcisco pereyra de berredo, & a 
seruisse, & lho mandasse preso a Goa, & ^ tirasse a 
inquirição sobre a desordS 4o Argao^ & assi ho fez An- 
tónio da silueira, & ficou por capitão de Chaul, & in- 
uernarã coele seys cêtos & cincoenta soldados, a 2} deu 
sempre de comer á sua custa, em Q gastou tâto. E fi« 
cou tão indiuidado, que de pão cozido ficou deuendo 
ires mil pardaos a Ana fernandez, moUier.do bacharel 

LIVRO VIII. B 



26 DA HlflTOIIIA DA INDfA 

FeraSo LourSço, a quê ho ouui. h^ coesla geote segu^ 
rou a fortaleza de ser cercada de Djuuros. 

C A P I T V L O XIL 

De como Diogo da silueira queymou Calicut , ^ foy «o- 
bre ho bigar de Mangakrj ^ ho dcstruyo de iam. 

ÃJíogo da silueira 9 Q ho gouernador deixou por capa» 
iáo inór na costa do Malabar : foy (lor seu oiàdado ao 
porto de Calicut pêra acabar as paxes í| el rt-^ de iSs^ 
íicut começara de fazer cõLopo vaz de sam Fayol E el 
rey náo q.uÍ8 por hfia liga Q Cioba feita cõ o ( batioi de 
Mangalor, coino direy a diante. O <} vedo i>iogo da 
silueira , por se vingar mãdou poer fogo ao laço da ci*> 
dade Q eslaua ao l^o do mar ^ o ^ aigús Porlugjueset 
fizeráo cõ panelas de poluora. A ^ os da terra logo aco^ 
diráo, mas toiherãlho do mar cõ a artelbaria: & cõ lu* 
do não arderão mais de duzfitas casas, por nao auer v&» 
to: 9 se ho ouuera^ ioda a cidade fora queimada. B 
Yêdo Diogo da silueira 2) não auia ali mais ij fazer, foy* 
se pola costa queimando muytos lugares, & cortado os 
palmares, & outros aruoredo»^de q a gente se maniê, íl 
be a mayor guerra {} se Ibe pode fazer. £ sabêdo quan«* 
to importau» ao seruiço dei Rey de Portugal ,'{| a es^ 
peciaria não fijsse leuada a JVJeca: irabalhaua cõ grande 
diligScia en> guardar os rios daj)ia cosia iirincipalmète 
ho de Cbaie, em* Q sabia f\ estauão carregando algib 
galeões de rumes despeciaria & droga pêra ho eslreylo^ 
li assi n)iiyto8 zàbucos & paráos grades. E |Kjr^ nào po^ 
dessem sair, logo d^ibi a poucos dias § foy na costa mS* 
dou a- Nuno iiernâdez freyre ^ fosse surgir na boca do 
rio de €hale cõ a sua gaJeota, & cõ bu bargantim, J[ 
tsuauâo ambos sessenta homSs, & ^ goardas^e Q nào 
saísse neniiúa das velas Q estauão dStro. E pêra estarê 
todos de melhor võlade, os manleue quatro meses ásua 
custa , tendo conlinuamête tanta abastâça de mantimi^ 



LIVRO VflI. CAPITVLO Xlí. 87 

ioê l\ mandaua buscar a Cananor (} nuca ihe fallauâo. E 
ele cõ a outra armada vigíaua os outros rios de tnaney^ 
ra l\ nuca pode sair nenhâa nao, & passouse a Monção: 

f)elo í| os mouros, & rumes descarregarão as nãos &ga- 
edes & os vararão: & não quiserão cõprar tanta pim^ 
ta como lhes vSdiSo os gStios, & eles por isso a forâo 
vSder na nossa feytoria de Cochim , & por esla causa 
foy muyta a^le anno. E sabendo Diogo da silueira J\ os 
monros não podião aijie anno ir ao estreylo, determinou 
de ir sobt^JMangalor como lhe ho gouernador escreuera 
de Goa ^ fosse: & pêra isso lhe mandou mais bargãtins 
& gSte. E praticado Diogo da silueira este feyto cÕdom 
loão déça capitão de Cananor, por ser bS esperemètado 
na guerra assentarão l\ deuia. dir. £ partiose logo , le- 
vado hGa armada de duas galeotas , hila carauela & tre^ 
ze Bargãtins, cujos capitães forSo Nuno fernâdez frey- 
Te, Manuel de vascõcelos , Francisco da cunha, loSo 
da silueira, António desousa, Gomez de souto mayor, 
Nicuiao jusarte, Aires cabral, Lourenço botelho, Afon* 
«o ahiarez, o calafate de Goa, loão penaluo, António 
fernandez, Frãcisco de sequeira malabares, Diogo co- 
Tesma & António mêdez de vascÕcelos feitor da armada. 
E coesta armada foy ter sobre a barra de Mangaior, ^ 
be hii lugar grande do reyno de Narsinga metido obra 
de meya legoa por hfi rio. E sobrele juto cõ ho lugar 
estaua feita hiia casa forte de pedra, & cal como forta- 
leza cóm seus bailéus ao derredor, de que se podia de- 
fender, & tinha muyta artelharia assestada da banda do 
rio pêra Õde tinha hõa seruêlia & outra pêra o lugar. E 
hij pouco abaixo desta fortaleza da banda da terra esta- 
ua fafla tranqueyra de duas faces entulhada de terra, 
em t\ estaua hfla estãcia dartelharia. Eesle lugar linha 
arrendado a el rey de Narsinga hfl grade mercador gê- 
iio, a ^ ria sua lingoa chamâo Cbatim : & por seu grã* 
de trato & riqueza se cbamaua ho Chatí de Mangaloi". 
£ assi era ele ho mais rico Chatim de toda a^la costa 
de Goa ate ho cabo de Comorim , & que tinha mayor 

D 2 



28 Í>A HISTORIA DA ÍNDIA 

Iralo: & por ser amigo dos nossos podiâo suas nãos na* 
uegar seguras. E vendo el rey de Caiicul que não po- 
dia carregar 3 seus portos pêra o estreito, fez amizade 
coeste Chatim , & màdaua ali sua especiaria , & hi a 
carregauao os mouros de Meca cÕ dissimulada q carre* 
gauão no porto de nosso amigo: & pagauão a elrey de 
Calicut os mesmos dereytos ^ ihe soyâo de pagar no 
porto de Calicut, & por Uso cÕtentaua bo Chatim. E 
hia este trato em tâto crecimento, ^ assi era Mangalor 
l^scala de Meca , como Cochim de Portugal , pelo ^ era 
muy perjudiciaU E por industria dei rey de Calicut, se 
fortaleceo ho Chatim da maneyra ^ digo, & lhe man* 
dou a arlelbaria, & á sua cusla tinha ali gete de goar- 
niçâo pêra defensam do lugar , & da fortaleza : & isto 
esteue encuberto algús annos ate £| foy sabido pelo go- 
uernador , q por essa cauisa ho mandou destruir. E cbe* 
gado Diogo da silueira á barra de Mangalor, mâdou to- 
mar lingoa , de Q soube ^ ho Chatim fora auisado de 
sua ida per mouros de Cananor, & q esperaua por ele 
CO determinac^ão de se defSder, pêra o ^ tinha muyta 
gSte de peleja, & assi soube ho sitio do lugar. £ cõ 
quanlo vio ^ era muy to forte, & a gSte muyta em de« 
Diasia pêra a sua, ^ nâo erao mais de quatrocetos Por- 
tugueses, determinou de dar nele. E dando cota aos 
outros capitães de sua determinação, ^ forâo coela con- 
formes i assentou coeles de dar no lugar ao outro dia, 
£ por!) 08 paráos de Calicut cursauâo ali muyto, ^ fí- 
carião na boca do rio a carauela & as duas galeutas pê- 
ra lhes defenderS a Strada se viessem, & cõ os bargâ- 
lins enlrarião. E por se liurar do nojo ^ a artelharia 
lhe podia fazer, desembarcaria hú pedaço abaixo do lu- 
gar cõ duz3tos & corSta Portugueses, de c| os cento & 
vinte seriâo espingardei ros , & os outros ^ erâo comi- 
três, bombardeiros, & gSte do mar iriilo nos barganlins 
pêra esbõbardear a fortaleza : por^ cuydâdo os imigos q 
os comelião polo rio nSo acodissê tâtos a defenderlbe a 
entrada da terra. E destes iria por capitão h(l Francis- 



LIVAO VIII. CilPftTVtiO XII. 29 

€0 dajora , porf) os capílaea auiâo dir cõ Dirogo da sil- 
ueira. E ii^to assentado, confesaarãse todos a^la noyle^ 
& encoiD&darâse a nosso Senhor , porQ o feylo. era perb 
goso. E ao. outro dia ^ forào viie sete de JVlar ço , de 
mil & quinhêlos & irinU , em começando *a maré aba* 
larâo pelo rio acima, & Diogo da silueira desembarcou 
ondestaua assentado. E seguindo pêra bo iugar , perto 
dele acharão obra de dous mil dos imigos, que os espe» 
rauâo em bu palmar. -£ em vendo os nossos derâo húa 
grade grila, desparâdo muytas frechadas & aigQas es* 
pingardadas. loâo da ailoeira que leuaua a dianteira cÕ 
os espingardeyros , mãdou desfechar neles : & apertará* 
nos tão rijo 9 derribado algiis mortos , ^ os fizerâo reco^ 
Iher ao. lugar. E eles recolhidos, quisera hQ seu bom- 
bardeiro dar fogo a artelipria da tranqueira : & quis Deos 
^ hfl dos nossos lhe acertou cÕ h&a espingardada & o 
matou, & os nossos chegarão tain asinha a tráqueira 
que a firtelharia não .pode tirar, & em chegado entra* 
râo logo a. tranqueira, que os imigos não ousarão de re* 
sistir, & deles se acolherão á fortaleza, & outros ao lu- 
gar. £ loão da sjlueira com ate sessenta dos nossos, to^ 
mou ao .lõgo dp rio pêra a fortaleza: & no caminho 9r 
chou hila mezquita Õdestauâo recolhidos muytos Imigos, 
Q se defSderão cÕ muyto esforço. E logo no começo foy 
a peleja muylo a&pera^ & muytos dos nossos furão feri* 
dos , por^ como a porta da mezquita era estreita , & 
eles querião entrar todos juntos descobriãse & feriãnos. 
E estando neste cõflito, bíl fidalgo chamado Francisco 
de sousa remeteo só á porta da mezquita, & leuou hu 
mouro nos braços, & matoubo ás punhaladas. E coisto 
os Q defendião a porta se retirarão bil pouco pêra dStro, 
q algus dos nossos teuerão lugar dentrar , & como hfls 
eiitrarão, entrarão todos. £ a causa dêtrarS despois de 
nosso Senhor , foy Frãcisco de sousa , ^ doutra manei- 
ra a Strada da mezquita ouuera de cuslar muyto. E en- 
trados os nossos 9 todos os Imigos forão mortos,.^ ne* 
nha escapou : & entretanto os Q ficauão cô Diogo da 



30 BA HISTORIA tIA ÍNDIA 

silueira enxorarâo ho lugar de todo , l\ nSo ficou nele 
ningufi. E todos cò grande ímpeto, reroelS a oõbater a 
fortaleza: em.^ logo acharão grSde resislficia , porque 
os iraigos estauão muytos sobre os bailéus, de ^ arre- 
iDessauSo panelas de poiuora , & tírauao niuytas pedra* 
das , & algíias espingardadas , cÕ que ferirão aigfts dod 
DO8808 (| chegarão desmãdados. Mas estes não durarão 
muyto, porQ a nossa espingardaria lhes oome^u de ti- 
rar, & matado algus fez recolher os outros: & não ou« 
sarão de tornar ali mais por amor das espingardadas (| 
lhes tiraufto em aparecSdo. C vSdose os nossos desa* 
pressados de cima, buscarão maneyra pêra entrar a for- 
taleza : & loâo fie Sousa lobo , & Diegaluares teiez , S& 
Francisco de l)arros de payua, acertarão dacbar h(I bef'* 
ço de ferro, Q tomando todos t^ôs fizerão dele vay St 
vê, com ^ arrobarão hfl postig'ò da fortaleza por ondid 
entrarão co outros a pesar dos mouros, (} lho defende-^ 
râo pouca cousa, por^ os entrauâo ja por cima das pa^ 
redes. B era a reuolta antreles muylo grande por fugi« 
r6, pòrQ como forão êtrados não ousarão desperar mais^ 
& fugirão pela porta do rio, a {| se dançarão pêra se a^ 
colherS da outra bãda, como acolherão muylos. E algQs 
fora mortos, assi ao fugir pelos nossos, í\ ãdauã na for- 
taleza , como no rio pelos (} estauã nos bargãtis , l\ já 
erã chegados. E ãtrestes foy moflo o Chat! de hila es- 
pigardada, & dos nossos Deos síeja lounado não morreo 
nhil, sendo este hxí feito muyto perigoso, & em que os 
fmigos pelejarão animosamente^ Despejada a fortaleza, 
por^ os !migos não tornassS em quanto se roubasse, & 
os tomasse desapercebidos, mandou Diogo da silueira 
goardar as portas a seu hirmão loão da silueira, & a 
raanuel de vascõeelos: & deu ho cargo de fazeré em- 
barcar a artelharia dos imigos a loão de sousa lobo, 
Diegaluarez, Martim vaz pacheco, & a Francisco de 
barros de payua : Q a íizèfão embarcar, & forão sesfén- 
la bõbardas , de que muytas erão gfossas , & (res quar* 
taos. E entretanto f^y a fortaleza Mubada , em )| se a^ 



LIVRC Vllh QAPITVIiO }íill. 81 

ehott uiuj^la soma de cobre, de corai & jjajsoug^ue, & 
muytas graãs, & veludos j fa* outras lutiyias mercadorias 
muy ricas de Meca: &;,niuyia [M4w>ra, .&.aiaalii)3ilu>s 
sem colo. E dislo foy a iiiayar parle quib^iinada , porQ 
ifSdo Diogo da siluetra £[ a geie se desinaodaua em tax^ 
regar mttjto os bargaolios, despoitt dembarcada a jir« 
telharia maodQU dar íògo á iorlaleza » ^ fuy toda que]«- 
mada se nâo as paredes da baoda do rio por serê muy to 
feries 9 & os nossos as derribarão á mão ate os aliceçeai 
£ assi fby queimado lodo ho lugar & Ire^e nãos -^ bi 
eslauào varadas, & queimadas^ & cortadas as l^rtasi 
de mameyra {| parecia ^ ouoca ali ouuera poupac^âo, £ 
foy este hQ muy aotauei feyto por ser€ es nossos tà9 
potfCo9y & de {| el rey de Portugal foy itiuyto.seruido^ 
assi por se lhe tolher Q oâ se leuasse mais daii pimenta 
a AAeca, como por ser a^ie lugar muyio furte & sober* 
bO) Q se nào falaua em outra cousa. E ali linha el rey 
de Calicui sua esperáça^ & os seus muy grande esfoi:«> 
^ & colheita ; & por sua de^truit^ào licarao todos muy 
Qbradjpsy & a terra 6c<mi ioda assombrada de medu dos 

G A P I T V L o XJII. 

Do que aeonieceo a Diogo da silueiru com Patemarcar 

capitão da armada de CalicuL 

JL/esíraido ho lugar, por^ era cabo do verão, & Dio^ 
go da silueira nà auia de fazer mais i\ correr a costa , 
em ^ Dào ae esperaua cousa perigosa, pelo i} nâo linlia 
necessidade de latas velas, mandou pêra Goa noue, & 
cô as outras ^ erào sete se foy aCananor. E no me«u)0 
dia ^ chegou passou a vista Patimarcar cafiiiáo de hfla 
armada de Calicut de sessenta paráos, í^ bia por arros 
â IMangalor, nâo sabSdo ^ era destruído. E auendo os 
1K8S08 vista dele, determinou Diogo da silueira dir pe-^ 
lejar ooele, posto ^ tinha tão pequena frola: & esta 
auKla carregada da preaa de Maogalor , & aayo cõ hiia 



38 DA HISTôArA DA ÍNDIA 

galeota em ^ aodaua , & cõ cinco foargSlins por 8e ho 
ouiro eslar descarregado, & três ou quatro catures de 
Cananor. E mandou a todos -^-afferrassem cÔ os mou* 
ros , por^ trazião arlelharia , & se andassem ás bombar* 
dadás j} os meteriâo no fundo. B indo coesla determi- 
nação achou ho veto trauessam & ficauSolhe os !migo« 
de bairra v6to, pelo Q os não pode afferrar, sómSte ha 
dos catures por ser ligeiro passou auftte a remo. E quS* 
do, os Imigos ho virão só o quisera abairroar. £ S que* 
r^do voltar pêra fugir, os (} hião nele se cÕcertarfto tâô 
mal (} çoçobrou , & afogarãose sete dos nossos () hiâo 
dentro. Ao ^ os mouros deráo bua grande grita, & co- 
meçarão de desparar muytas bombardadas, & de hiia 
quebrarão híi braço a luâo da silueira, que andaua dian* 
ie no seu bargantim. E vendo Diogo da silueira que 
por cauâa do vento não podia afierrar os fmigos, & que 
ás bombardadas lhe tinhâo muyta auantagS por serfl 
muytos, & tra^erS os nauios desempacbados : não quis 
perder tempo, nem gSte, porque vio que era por dd 
mais andar ali cõ tão poucos nauios & tão carregados* 
E tornouse a Cananor, & Pateniarcar foy sua guia, ft 
quando achou Mangalor destruído carregou em outra 
parte. E tornado Diogo da silueira a Cananor muyto 
sentido pelo que lhe acontecera, mftdou descarregar os 
bargantins, & a galeota. E cifados, & enscuados pêra 
que ficassem mais ligeiros , leuando algfls catures de 
Cananor: que por todos erão onze veias, foyse a mote 
Deli a esperar Patemarcar pêra pelejar coele, & tornS-^ 
do ho foy togo cometer. E como ele então vinha carre* 
gado, & sentio a determinação dos nossos, pois ho hião 
ali esperar. E cõ ho espãlo ^ trazia do {} achara feyto 
em Mâgalor , não quis tomarse coeles , & trabalhou por 
se acolher cõ ho vento que lhe fazia pêra isso. E os 
nossos os seguirão cÕ grandes apuparias, & meterão no 
fundo seys paraos cõ a 'artelbaria , & os outros fugirãa 
& se fora a Calicut : cujo rey ficou muyto triste peJa 
destruição de JVIangaior. E vêdose desesperado de* te» 



LIVRO VIII« GÂPITVLO XllU. ^S 

outra colheita como a^lla , quisera despois fazer paz cd 
ho goueroador, !( não quis por conhecer quã mentiroso 
era , & quã incõstanle. E Diogo <Ia «ilueira despois ^ 
Ifae fugio Patemarcar, andou pela costa ale quasi a fim 
Dabril sem mais achar cõ quem pelejasse: & por entrar 
bo inuerno se foy a €!ochim, onde inuernou. 

C A P I T V L O XIIII. 

De como Eytor da sibieira foy par capitão már òo caba 
de Goardajum , ^ das presas que fez. 

^/V-tras fica dito como Eytor da siiueíra partío de CSoa 
ft vinte hd de laneiro, do anno de trinta pêra ho cabo 
de Goardaffl cd a armada Q disse , em Q forão seys c8- 
tos Portugueses. E chegado á paragem onde auia des- 
perar as nãos , repartio os nauios atrauessando ho mais 
que podião alcançar, porí) não podessem passar nenhQas 
nãos sem ser& vistas. E andando as esperando , foj ter 
coele faHa nao muito grade de mouros malabares , c6 
quem pelejou. Eetes se defenderão muyto bè por faub& 
pedaço, & despois forâo entrados &. mortos todos, se 
não hus poucos de í) Eytor da silueira soube {) a^la nao 
era doChatim deMangalor, & hia carregada de pirnStà 
& droga. E foy muyto grande dita tcroarse esta nao, 
{)or{{ cõ a goarda t\ Diogo da silueira fez na cosia do 
Malabar não hia a Meca outra pimenta se não aquela^ 
& assi não foy lá aquele anno nenhua. Tomada esta nao 
que foy muyto rica, topou Martim de castro outra ^ 
hia de Diu carregada de roupa de Cambaya , & hiãd 
nella bem duzentos homSs de peleja, em {| entrauãò 
muitos Turcos :.& os nossos serÚo ate corenta;, E pele*» 
jarão coeles hu bõ espaço primeiro Q os aferrassem at0 
(} os abalrroarão: & em afierrâdo, IMartim de crasto que 
^ra muy arriscado caualeyro, foy o primeyro que saltou 
dentro, & coele aigús dos seus: cÕ quanto as pedradab 
& frechadas \ os Imigos tirauâo er&o sem conto.. E.des^ 

LIVRO VIII. E 



$4ê " DA HIlSTORtÁ SA ÍNDIA 

pois de seré dSlro, foy a peleja muyto mais rija que d&* 
les, porQ os mouros erâo horaSts de feyto, & pelejauâ 
com rauyto esforço : & defeadSdose morrerá quasi to* 
dos, deixando muyto ferido aMarlim de crasto, & dea 
ou doze dos nossos , \ todos jQtos sosteueráo ho mayor 
impelo da peleja. E tomada a nao , acbouse q hia rica 
arrezoadamente. E a fora estas duas nãos se tomarão 
algilas outras pelos outros capitães, mas sem peleja: & 
estas duas forão as de mór preço. Édos catiuos \ forâo 
tdma(k>6 soube eytor da silueira, que a mayor parie dae 
nãos de Diu & do reyoo de Cambaya erfto passadas : por^ 
como esperauão Q bo gouernador fosse a^lie ano a Diu 
partirão cedo polas não tomarê. £ sabido isdo por Eitor 
da siiueira, vSdo \ era iêpo perdido andar ali mais, par^ 
tiose pêra ho lu^ar de Mete : õde tinha mâdado aos ou^ 
(ros capitães \ se ajQtassem no fim das presas ^ & his^ 
lyiitarão todos. 

* 

C A P I T V L o XV. 

IXe como os Rumes kuantarâe ho cerco a Adem oont 

mida da tmssa arm,ada^ 

jyXorto fao capitão mór do Turco ([ matou Soiermâa 
raez, como disse no liuro sexto. Mustafa, & Gojeçofar 
seu iesoureyro , nâo ousando de tornar a Ludá , nd a 
çuez, pola Ireição que fiaserão ao Turco ^ determinarão 
de tomar AdS & íazerseMustafa senhor dela pêra fazer 
hi seu assento. E ajútãdò dez nauios de remo , aotre 
grades & pequenos éa armada \ leuaua Soleituão raez, 
& corAta zâbucos : & Geluaa foy sobre Adfi , onde cha^ 
^u de supito com seys cfttos Rumes, & muyta outra 
'i;6te da terra, \ ppr ganhar soldo ho ajudaua* £ cercou 
Adê^ pop mar, & da banda da (erra mandou fazer bua 
estãoia, em que forão assestados quatro Basiliscos, com 
'4 lhe derribarão todo o muro da^lla parte por muytas v^ 
«es ; & os mjouroi lio tornarão a refazer. £ erão tão eá- 



LIVRO viir. ciiprrvLo xvi. M 

feridos, & defendiãse lambe, ^ nuca MuBlafa os po-- 
de tomap em cinco meses j) durou ho cerco : em que 
lhe morreo muyta gêíe ^ssa |)obre , de fome, & de se-^ 
de. E sabendo Muslafa como a nossa armada andaua 
Bo estreito ouue medo il\ íbsse a Adè como cuslumauâo,! 
& () ho tomasse segfido a sua gftle estaua desmaiada 
do trabalho da guerra. E por ísaa leuâtou bo cerca, Sc 
ae íoy pêra Gamarão Sc Adem ficou liure« 

C A P I T V L O XVL 

De eovno Eytor da 9ilueira fez que el Rey Dadem sefir 
zesee tributaria dei Rey de Portugal. 



s 



enda junta toda. a nossa armada em Mete, mandou 
Eytor da sila4>íra as nãos & zflbucoa das presas a Maz^ 
cate pêra se vèderi. E ele partiose pêra Ad6, pcrQ le* 
uaua por regimAto do gouernador, que acabado as pre** 
aaa desse hfia vista a Adem» E acbãdo no porto quaes»* 
quer nauios de muylo preqo os tomasse, & doutra mai» 
neyra não curasse deles. E mandasse recado a el Rey^ 
A por amor dele ho fazia : & se quisesse ser vassalo dei 
Rey de Portugal, & pagarlhe alguas páreas () ho ajuda-» 
ria era quito podesse : & por a guerra i\ sabiá l\ tinha 
cora os rumes mandaua aljfia armada em sua ajuda. B 
chegado Eytor da silueyra ao porto Dadê, ^ foy aos 
quatro Dabríl, despois de surto, foy logo visitado pot 
dous mouros principais, da parte dei rey cÕ muyto re* 
fresco, de vacas, galinhas & carneiros, & cÕ palauras 
de muyta amizade: & isto c5 medo da nossa armada. 
Por^ segiido ele sabia que os nossos erâo de ccncrusam, 
& tinha a sua gente trabalhada da guerra dos rumes, 
deuse por tomado, & porisso dissimulou com estas mo»» 
trás damizade. £ na enuolta delas mâdou perguntar a 
Eytor da silueira a determinação de sua vinda. £ ele 
lhe respondeo pola instrução- do gouernador : & pos de 
ena easa que: achado neuaa em qacotora que os ronies 

E 2 



36 DA HISTORIA DA ÍNDIA ' 

erão idos & nSo linha neceâsidade dajuda , espalhara á 
armada âa presas. E coisto lhe comeieo a vassaiagS Ss 
paga das páreas, oflTrecêdolhe sua ajuda cõíra os rumesj 
se lornassem , & niandoulbe aigúa cousa com qae lhe 
pareceo que folgasse, pêra o prouocar a fazer seu re- 
querimenlo* Â que el rey respondeo, que cujdaua que 
bo gouernador lhe agardecese soster ele a guerra contra 
os rumes, gente maluada, & tamanha imiga dos nos« 
SOS : ^ todo seu desejo era entrar em Adê pêra passar 
á índia : & porisso folgasse com sua amizade sem mais 
páreas nS cousa aigua. E entendendo Eytor da silueyra 
^ el rej se escusaua , mâdoulhe dizer que ho milhor h^ 
gar em ^ os o gouernador podia acolher era Adè, por^ 
os teria ali mays certos : & se ate li não erão desbara^ 
lados, fora por andarê sempre por lugares eslreytos & 
não sabidos , por isso visse o ^ lhe cõpria. E passados 
sobristo roais outros recados vio el rey <} lhe cõpria fa» 
zerlhe a võtade & fezse vassalo dei rey de Portugal ^ 
com lhe pagar de páreas cadãno dali por diante dez mil 
xerafins da valia Dormuz: & disto se fez hQ contrato, 
cõ condição c| o gouernador ho ajudasse contra seusimi- 
gos , & as nãos Dadê poclessem nauegar seguras pêra 
onde quisessem, tirado IVIeca« E este cõtrato foy assi- 
nado por el rey & por Eytor da silueira. E el rey deu 
logo a Eytor da silueira mil & quinhêtos xerafins mor« 
tos, de ^ mãdaria fazer em Ormuz bQa coroa pêra el 
rey de Portugal, que lhe leuariâ da sua parte em sinal 
de vassalagS. E detendose aqui Eytor da silueira a fa- 
zer este contrato lhe escreueo el rey de Xael ^ queria 
ser vassalo dei rey de Portugal , & entregarlhe a arte* 
Iharia que tinha em Xael & emDofar, pedindolhe muy- 
to que fosse por bi pêra se fazer disso assento. E eytor 
da silueira respondeo que aceitaua sua vassalagS, porS 
que não podia ir lá por lhe bo tSpo não dar lugar, que 
mandaria lá hii home de confiança com quê assentase o 
Q dizia. E quereiídose Eytor da siiueira partir deixou 
em AdS a requerimento díel rey h& bargantim com ínn* 



Lfvao viir. CÀPiTvLo xvu it 

ta Portugueses, & por capilâo hu Aulonio botelho cria- 
do dei rey de Portugal, de Q cótiaúa ; & deuihe por re- 
gimS(o ^ passado ho inuerno se fosse à índia: & de ca* 
minho passase por Xael, & visitasse ehrey dasúa par- 
te, & lhe dissesse que coele podia assentar o c} lhe esh 
oi^euera a Adê, pêra o ^ lhe deu iQstruçã. E feyto isto 
66 fiartio pêra Ormuz , & passando por Mazcate achou 
^Sdidas as presas, de Q vietã a el rey pagas as partes 
trinta & dous mil pardaos« E hi soube queFr&cisco de 
freyta» capitão de hQ bargantim que deixara em Mete 
CÕ hQa nao de presia pêra a ieuar a Mazcate^ des))oys 
de ele ser partido, chegou híla fusta de' rumes, queerâ 
trinta, & dez Arábios todos espingardeyros : & quando 
Francisco de freytas a vio, cuy dando i| fosse algil bar-» 
gantim nosso sayo a ela, & conhecêdoa aferrouha, pos- 
to ^ nâ tinha mays de dez Portugueses: & aferrados 
pelejarão por tâto espaço isem se poderS vencer, que de 
cansados lhes foy necessário descan^r pêra tomarè fcH 
}ego: & tornado a pelejar quis nosso senhor ^ posto que 
os nossos erão tam poucos, que pelejarão tam esforça* 
daroente ^ os rumes & Arábios fora todos mortos; sai^ 
uo hú arrenegado Português, que andaua coeles, Q sal- 
tando nagoa bradou j] era Christâo, & isto lhe valeor 
& este se chamaua António bocarro, & estando cõ seu 
pay em Ormuz que era alcayde mor, de sua própria ma« 
licia sem auer outra causa, fugio pêra a terra firme, & 
se fuy tomar mouro: poio Q os mouros ho não teuerâ 
em conta , & ho desprezauâo. E TÍose despoys em tãta 
necessidade de pobreza, que lhe foy, necessário fazerse 
alfayate, & cõ isso ganhaua de comer, ate ^ se ajun^ 
tou cÒ os rumes : que na peleja ajudou muy bS cõ hiia 
espingarda, porj) despoys de tomado dissera algfls que 
ho virão tirar. £ nesta peleja morrerão dous Portugue*^ 
ses, & os outros forão feridos. E de Mascate se foy Ey-^ 
tor da sylueira inuernaraOrmus: dõde na fim de Agos- 
to se pariio pêra a ponta de Oiu, & sem fazer nada es« 
teoe hi todo Setembro, & despoya se foy pêra Goa eoi 
Outubro. 



38 JU HI8TMUA SWI INDU 

C A P I T V L O XVII. 



F 



De como Chmçaio Pertyra, cbegcu a Mahea. 



artídos Gonçalo pereyra, & António da ailita de Co» 
cbinti^ seguirão aua rota pêra Malaca^ fc oom tftpo apar* 
toiíae AntoDÍo da ailua deGrÕçalo peretra^ que cemLio^ 
Bel de lima foy em conserua ate as ilhas ^ chamâo de 
Nicobar , & Lioael de lima ^ hia di&te como a aua ga» 
leota era pequena 9 podeas dobrar ^ poeto que achou he 
vento poitteyro: o que GonçaJo peoeyra não pode faier 
por ser ha seu galeão grande: )k)Ío Q lhe íoj^ Corçade 
surgiir na primeira ilha que era despotioada , & awgre 
hu pedaço afastado de terra. E por ho tSpe ser roím 
pêra sua viagS se deteue ali aJgfis dias , em Q poc ret 
cear que lhe faltassem os maatimêtos começou dapertar 
a regra: do ^ se a gente começou* dagasUir, & descoii» 
fiados algils de se poderS ir dali tfio cedo, concertarão 
muyto secretamSte que se fossem no. paraó do galeão à 
costa de Pegu que era dali perto , onde fariSo em pre^ 
sas mays proueyto do que faziao auetiturados amorrerS 
de fome & de sede y & (}. tinha bõ aparelho pêra furtar 
ho paraó 9 por neste tempo se fazer coele ajgfoada , & 
por isso trazia h0, par de berços & pelouros. E têdo ist 
to assentado, negocearão estes como fossem. &zer agoa* 
da: pêra o í\ leuarã suas armas, & estando ho piloto em 
terra enchendo as pipas cõ algCIs marinheiros os conju* 
rados se forão cõ ho paraó : & não ho achando ho piloto 
logo sospeitou o que era: & ãcando' muyto triale porho 
galeão estar dali b5 pedaço & não ter em () fosse por 
ser a ilha despouoada. & muyto trt94.e se foy com os ou* 
tros por ella a diante pedindo misericórdia a nosso se^ 
nhor , que auendoa delles lhes aparou hQa almadia, que 
parece que ali foy ter à costa, cõ que elles ficara muy^ 
to ledos, ainda () era tão pequena^que não cabia nella 
mais q. hà homfi. porá ir ao. galeiU).^ &. este acordarão i) 



Lrvfto vin^ 0APirvx.e xvu. B9 

fosse ho pilolo, assi por ser lá muyto necessário, como 
por lhes prometer de acrecõtar á almadia com algOas 
tauoas & madar por eles : & metendose so na almadia 
foy remando vò hu pao, & assi chegoiA ao galefio: '& 
dito a Gonçalo pereyra ceao^ivo paraó era furtado, fez 
logo acrecentar a almadia, & mandou poios marinhei- 
tos Q fícaufio em terra. £indo perto da ilha deulheil por 
eima dela h&a toruoada que ouuera 4e ^oçobrs»* a aimaf 
4ÍKa^ & mais esgarroa coela por esse mar & pecdenisei 
ee ihe nosso oenhor não «acodira , f)ue passada a ioruoa* 
da bo pibto ^ iinfaa olho na almadia a vio ir esgartadá 
o q«i6 sabido por Gonçalo pereyra porque ficaua perdido 
•em ela mandou cõ grande pressa leuar ancora , &. dar 
á vela & forâo sebre a almadia Ç l;oaiarâo : & cobrado* 
CS mariíiheyros Q fiearSo nà ilba^ alargou bo veto algOa 
á^ousa, com que acordarão úe prosseguir sna viagê, ain» 
Q fosse cd trabalho, por^ menos o sintirião que morrera 
ali à fome: & por esta causa se partirão, & se fora da 
|)ba ê ilha, surgindo muy tas vezes, por ho voto ser 
contrayro. £ qaaai ^ náo se naatinbão se nflo cO bo 
peixe qae pescauâo. E parece Q onfadadp bo piloto Sn 
algfis bomefis darmas, .& marinheiros.. desta màvida, 
deiermiDaráo de se tornar a Bengala, matando primey* 
ro a Gjkjalo [wreyra pêra bo fioderfi miJhor fater, & ^ 
em Bengala se £ftri2 ríeos de presas» £ cõcertandose e»^ 
ta ooi^uraçi^ foy descuberta a Gonçalo pereyra r què 
prfideo logo bo piloto , &. todee oe outros odjurados. fi 
ebefpade aiMIalaca^ foy Urad* devassa sobre aquela coti^ 
)or*çio, em ^ não se aclioa líiaisprotta contra os cõjU'<^ 
rados, que p«ra serem açoutados com baraço & pregão 
& degradados.. £ porl| Gonçaio pereyra leuaua por re« 
gimSto 4o gouefdador que ibsse de Malaca pêra Malu- 
co pela via de Bof mo , deleues» en Malaca ate quasi 
a fim DagostOé 



40 OA BI8T0BIA SA ÍNDIA 

C A P I T V L O XVIII. 

Dt como morreo el rey de Ternate ^ ^ s€ tnatou CachU 

vayaco. ^ 

jCjLlras ftca dila como Fernão dela torre despois de ido 
pêra Caaiafo, onde auia destar pola capiíulaçam dai 
pazes (fu€^ fez coro dÕ lorg^e de menesea, se íby pêra 
GeiJolo ?por ibo requererê o« castelhanos que hi estauãé 
£ depois de lá estar tornou ho gouernador de Geiiolo a 
lazer (guerra a el rey de Ternate : polo {| foy necessário 
fazerliia tábS dom lorge , mas n6 bus nè outros a /asite 
Iam apertada como dates. Ecomeçãdose assi esta guer^ 
ra, fateceo eJ rey de Ternate: & sospeitouse muyto ^ 
foy de peçonha ^ & ^ lha mandara diar Gachil daroes ^ 
por saber que eirey lhe Qria mal por elle.ser causa dé 
aer metido naquela fortaleza, & auer tanto tèpo Q ali 
estaua coroo preso. £ assi tãbè por aroor das tiranias. Q 
fazia em sua gouernançay com ^> tinha posto ho reyno 
em grande opressam^ PorS a vei-dade da morte dei rey 
não se soube: & foy rouyio sinlida^iassi dos.purtuguer 
ses como dos mouros por lhe todos. quererS bem por sua 
boa condição* E por sua m<u*te fojr leuantado por rey 
outro seu irmão mais rooçoc) auia. nome Gachil ayalo» 
£ v&do a raynha sua mây qu« lhe não íioaua.outro^ tef 
mendo 2) lhe morresse este, pedio muito á dÕ lorge. que 
lho desse pêra estar na cidade^ &.fealbe.sobriseo mxxj* 
tos requerimefiU>6. M as. dom. lorire* nunca, quis, temeo^ 
do c| lhe fizessem Ireiçâo se ei rey esfeuesse ibra de seu 
poder« B assi lho cõselhaua Cachil danoea por amor d<i 
que ganhaua -em el tey estar. na fortaleza, 2) tinha au-^ 
sotutamente todo o^maiido doireviM, & estado íbranão 
auia de ser assi por lhe a raynha '^rer grado mal. Epor^ 
ela sabia Q por ele poderia seu íilfao sair fora da fortale*» 
za, dissimulaua ho mal ^ lhe queria, & trabalhaua muy* 
to por lhe fazer a vontade. Em tanto que teuè coele 



•4 



LIVRO VIII. CAPITVLO XVIII. 41 

ajuntamento , sendo sua madrasta & com tudo nunca 
pode alcançar o f\ desejaua, por Cachil daroes estoruar 
quan(o podia que não tirassem el Rey da fortaleza: pe* 
lo mando que perdia: tirãdose que receaua tanto do 
perder, que tinha mortal ódio a toda pessoa que sospei* 
taua que podia ser causa de lho tirar6. Pelo que queria 
grande mal a Cachil vayaco que a trás nomeey , por^ 
dõ lorge era grande seu amigo, & ho fauorecia muyto: 
o ^ temia ser causa de ho fazer gouernador, & tirar a 
ele daquele cargo: porQ sempre entSdeo em dò lofge 
despoys que forâo as deferenças l\ teue com dõ Garcia 
anriquez i\ não era seu amigo: & <)ue a comunicarão 
que tinha coele era mays por necessidade ^ por vonta^ 
de. E por isto que digo se temia de Cachil vayaco , & 
encubertamSte bo tinha por imigo : & Cachil vayaco a 
ele da mesma maneira por amor das suas tiranias. E vi*- 
liSdo desta maneyra acertouse I) hua armada dei rey de 
G^ilolo foy dar vista á fortaleza : & dõ lorge mandou 
contrela a Cachilvaiaco com algQs Portugueses : & ela 
ae embarcou em hiia coracora em Q Cachil daroes cos* 
(umaua dandar, do que ele não soube nada. E cachiU 
vaiaco depois de fazer recolher os geilolos & lhes tomar 
hua coracora, tornouse coela muyto ledo pêra a fortale* 
za : o que tambS dom lorge festejou por ser seu amigo, 
do (\ Cachil daroes ouue grade enueja. E onue tamanha 
menencoria de cachil vaiaco ir na sua coracora quedes- 
cobrio ho ódio c) lhe tinha & dali por diante lhe daua 
todos os desgostos que podia, & ho auexaua em tudo: 
& trataua de lhe dar peçonha. E tão apertado se vioCa* 
chil vaiaco dele, que desesperado de saluar sua vida 
antre os mouros se acolheo á fortaleza , contado a dom 
lorge a causa por!) ho fazia« EsabSdo Cachil daroes co^ 
mo estoua na fortaleza ficou muy agastado por lhe pa« 
recer ^ tomaua por valédor a dÒ lorge. E isto inflamou 
ainda mais a Cachil daroes cÕtrele, & determinado de 
bo auer pedio ho a dom lorge por sua pessoa : dizendo^ 
que aquele homS tinha offendido muy grauemente a el 

LIVRO VIII. F 



42 PA HISTORIA DA INBIA 

Kej de Ternale^ & ho linha iiiujto deseruido. E pêra 

Sroueito do reyno era necessário ser castigado, pelo^ 
10 deuia de dar: por!} el Rey de Portugal nâo auia da- 
uer por seu seruiço emparar eie, nem fauurecer os que 
deseruiSu a el Rey de Ternale , antes folgaria de lhos 
ajudar a caí^tigar, O que ouuido por do lorge, cotuo era 
amigo de Cachil vayaco, & desejaua de ho saluar, pos 
em conselho se ho entregaria a Cachil daroes. £ quan- 
do ele vio que d& lorge punha aquilo em cõselbo, te-» 
meose que ho acon«elTiassem ^ que bo entregasse. £ 
porque sabia certo^ que se Cachil daroes bo acolhesse Q 
bo auia de matar, & que ho nam pedia a outro iim: 
quis antes matarse que morrer por seu mandado. E su-^ 
pitamente se deitou da torre abaixo, & logo morreo. E 
com sua morte se desfez ho conselho^ &c Cachil daroes 
ficou vingado, & dô lorge muyto triste por lhe não po- 
der valer. £ ficou muyto mais descontente de Cachil 
daroes do que era, & Cachil daroes muyto mais dele, 

E)f Qrer emparar seu imigo, & lho nam dar logo com^ 
o pedio sem auer conselho sobrisso. Eassi se foy maÍ0 
acrecentando bo ódio que se tinhâo híi ao outro.^ 

C A P I T V L O XIX. 

JDa ijyuria que foy feyta a Cachil vaydua.. E do mm» 

que tucedea. 

J^este edio que Cachil daroes tinha a dõ lorge, lhe 
naceo t^r outro a todos os Portugueses , & desejar de 
M deitar da terra, & auorreciãolbe tanto, que os mou-' 
ree bo entendiiu). E a fora qoererem mal aos Portugue^ 
SM de seu natural , quetiSolho também por saberem 1} 
lho queria Cachil daroes. E no ^ podiâo lhe fasião ma), 
mas tslo muy di«simuladamêt«, por^ náoviãoasua: 
fc auiSo grande medo a dô lorge, por{| ho conhecião por 
cauaieyro. E por se vrngarem dele lhe matarão bfia jkmt- 
íca da Chiiia, que ele estimaua muyto. £ posto que íoj 



LrVRO VIIf« CAPITTLO XtX. 43 

feyto secretamente, dÕ lorge fez sobrisso (anta diligeo^ 
cia, (\ne achou culpado na morle da porcaaCachii vaj-^ 
dua tio dei rey , & caciz mór que antreies he como an« 
tre noa ho Papa 2 & nem por ser de tSo alto estado & 
dignidade, dÕ lorge deixou de ho mãdar prender na for- 
taleza. Do I| se recreceo grade aluoro<^ na cidade^ & 
se nâo fora ho medo que tinhâo a dd lorge leuSiarãse* 
E logo cachil daroes se foy oõ os principaes da cidade 
á porta da fortaleza Sdestaua dõ lorge, & pedíolhe oS 
todos eles, (\ mandasse logo soltar Cachil vaydua: es* 
Iranhãdolbe pr&der htla pessoa de tal qualidade por tão 
baixa cousa como hQa porca. E dÕ lorge não curande 
de muytas palauras disse, que ho não auia de st^Uar^ 
ee nSo pagSdolhe a sua porca anoueada. E Cachil da«- 
roes, que conhecia dõ lorge por determinado, Aao cus- 
tou de mais pratica, & foy cõ os outros pêra mandar 
penhores que se poses8f»m em caução ate a porca ser 
aualiada. E quando tornou ja não achou dÕ lorge que 
andaua na ribeira , onde lhe foy falar Cachil daroes. £ 
ÚÒ lorge foy cÕtSte de dar Cachil vaydua sobre os pe* 
nhores, & mandou a hfj Pêro femã<ies que os tomasse 
& ho fosse soltar, & ele ho fez assi. £ como bomê de 
pouco saber cuydando que fazia graça , lhe vntou a bo-» 
ca & ho rosto com hua posta de toucinho: que foy a 
mayor injuria & oflensa que se podia fazer a hQ mouro^ 
por lhe ser iSo defeso em seu alcorão comerem porco, 
quSto mais a Cachil vaidua de tal qualidade & di^nida*- 
de anire os mouros. Eassi senfio ele tanto aíjla iniuria, 
que lhe saltarão as lagrimas fora dos olhos. E corrend»- 
Ihe polo rosto, que ainda leuaua vntado do toucinho;, 
se foy pêra Cachil daroes^ que cÕ muytos mandarins 
ho esperaua á porta da fortaleza , a quem contou sua 
injuria : cô que todos chorarão assi da magoa dele co* 
mo por não se poderS vingar. E cuydando que aquib 
fora feyto por mandado de dom lorge, se inclinarão ain* 
da muyto mais, porem cahirãose. E algfls Portugueses 
que ali estaulo , em vez de 00 i^onsolarS riaose muyto , 

F 2 



44 I>A HISTORIA DA ÍNDIA 

louuando a graça de Pêro fernandez. E Cacbil vaidua 
de se auer por mujto injuriado , não quis mais morar 
em Ternate , & foyse por aquelas ilhas : nolifícando aos 
mouros a grandíssima injuria que lhe fora feyta, do Q 
Alafamede eslaua muy offendido, pediridolhe da sua par- 
le que a vingassem. Pêra o que lodos se começarão da* 
perceber, & depois ho fizerâo: & Cachii vaidua se re* 
colheo na ilha de Bachão, & não tornou a Ternate se 
hão no tempo Dantonio galuâo como direy a diante. E 
se a do lorge lhe pesou quando soube a offensa que fora 
fejta a Cachii vaidua, ou o Q fez nisso não ho pude sa- 
ber: porS Cachii daroes não fez nada, & esteue como 
eslaua sem bolir consigo, se não que dali a algus dias 
mâdou que nam leuassem os mouros a vèder nenhils 
mantirnSlos â cidade. £ isto por lhos os Portugueses 
tomarem por força sem lhos quererS pagar, porq náo ti- 
nbão com que , que não auia dinheiro na fortaleza cÕ 
que lhe pagassem soldo nem mantimento^ do que dÕ 
lorge andaua muito agastado, & não podia dar remédio 
aos muylos queixumes ^ lhe os mouros faziáo dos Por- 
tugueses que lhes lomauão ho seu. A quem se reprêdia 
disso, res|)odiâo que lhes desse de comer, & que ho 
fiâo tomarião aos mouros: Q vendo ho pouco remédio de 
seus agrauos que achauão em dom lorge se queixauão 
a Cachii daroes, que por euitar brigas lhes mandou 4 
Dão vendesse nenhQs mantimõtos , n6 os leuessem em 
casa por lhos os Portugueses não tomarem. Cõ que eles 
ficarão em estrema necessidade , & se viâo cercados da 
morie: a que dõ lorge querendo acodir, mandou Go- 
mez aires alcaide môr da fortaleza cÕ algus Portugue- 
ses, que fosse pola ilha buscar mantimentos. E algiis 
destes que bião diante , chegarão a htt lugar chamado 
Tabona, & como bomês mortos, de fome, & lambem 
soberbos: pc^recendolhes que erào senhores da terra, se 
meterão logo polas casas, tomando por força os manti- 
mêtos !\ achauão: Do que escandalizados os moradores, 
começarão de lhes resistir com suas armas* E como erão 



LfIVRO VIII.- CAPITVLO XX. >tó 

muylos ^ & 08 Portugueses poucos tralauãnos mal , & 
Jiislo chegou Gomez aires cõ os que fícauâo coele, que 
erào poucos mais Q os !| andauão no lugar. E cuydando 
jbo regedor dele que hiâo em socorro dos com que os 
mouros pelejauâo, acodio lambem pêra lhes socorrer: 
& tomando os Portugueses anlre si, deràihes mu}'ia8 

{)aocada8 & fendas , & a algíis lomarào as armas que 
euauâo 9 & assí os fizerâo tornar pêra a fortaleza. 

CAPITVLO XX. 

De como ho gouemador de Tabona foy deitado aos cáesj 

^* Cachil daroes Joy degolado. 

V endo dõ lorge os Portugueses tão mal tratados, fi« 
cou muylo indinado contra os mouros de Tabona. E 
mandou a Gomez aires , que fosse logo contar aquilo a 
Cachil daroes 9 & Q lhe dissesse da sua parte que man- 
dasse ir á fortaleza o regedor de Tabona, & os princi- 
pães que bo ajudarão a fazer tamanha oSensa aos Por- 
.tugueses: porque doutra maneyra não ho teria por ami- 
go dei Rey de Portugal , nS ho seria seu. £ como dd 
lorge tinha el rey na fortaleza, fez logo Cachil daroes 
o Q lhe mãdou dizer : & forão com bo regedor de Ta- 
Jbona dous faomSs principaes do lugar, a que dom lorge 
mandou cortar as mãos , & cortadas os mandou leuar a 
Tabona pêra darem nouas aos outros, & ao regedor mâ« 
dou ho deitar com as mãos atadaa a dous cães grandes 
que tinha de filhar. E isto era »a praya , Q estaua cu- 
berta de gente, que sahia a ver Ião noua & crua justi- 
ça. E foy cousa piadosa de ver como os cães remeterão 
ao regedor , & começarão de Ihesfarrapar a carne , mor- 
dendo ho muy cruelmente, & dos gritos que ele daua 
cõ a dor das dentadas. £ nisto deu consigo no mar, pa- 
jecendolhe que ali se saluaria : & metendose ho mais 
que podia, os cães ho seguirão dandarem encarniçados. 
£ vèdoae ele em tamanho perigo, andando ja a nado 



4í6 I>A HISTORIA DA INDfA 

com oê pé8 qu6 cõ as mãos nSo podia, fes vdla aoscSeii 
que ho seguiâo & comeijou cõ muyto esforço & acordo 
de ae defender cÕ oa dètes : do que todos (içarão muy 
espantados, porque se os cães hu mordiâo ele tambeia 
a eles. E andando muyto ferido , afierrou bu dos eáes 
por hQa orelha , & aSerrado se meteo coeie debaixo da^ 
goa, onde foy afogado* G assi acabou 6ua vida deixado 
muyto grande espanto de seu esforço em quantos fao vi« 
râo, & tamanha fama antre os mouros, que ainda ago- 
ra falâo nele ^ & nâo ouue ali qu6 não chorasse cÕ pie- 
dade do verem morrer tào cruel morte a hu homS tão 
esforçado, que posto que tinha culpa, fora pêra lha per- 
doar auõdo respeito á causa dela , & mais despciis que 
mostrou seu esforço. Epola p#»rda deste homem ficaram 
os mouros muyto magoados, principalmente Cachil da^ 
roes, que dali por diàte teue mortal odío a dA lorge^ 
ic aos Portugueses : & desejaua de os matar a todos y 
ou deitalos fora da terra, & praticou isto com os docon» 
selho dei rey de Ternate. E a principal causa pêra que 
o queria fazer era pêra ser rey, & dahi a algils dias foy 
dito a dom lorge, que ele tinha assentada paz cfi Ca- 
chil catabruno gouernador de Geiiolo , & tiobâo ambos 
concertado de matarem os Portugueses & os Castelha- 
nos, & tomarlhes quanto tinhfto , & depois matarem oS 
reys , que eram ainda moços , & fazerSse reys , & iia- 
rSse por casamSto. £ Cachil daroes auia primeyro dè 
matar os Portugueses, & despois Cachil catabruno os 
Castelhanos, E culpauão também nesta treyçSo ho ca- 
marão, que era ho almirante do mar, 8t ho Boyo ^ era 
justiça mór do reyno- Sabido isto por dom lorge, por- 
que ho caso era de tanto peso não quis fazer nada nele, 
ate nâo ter a mayor certeza que pode. E despois que 
a teue, mandou hu dia chamar a Cachil daroes, & hò 
Boyo, & ho camarão: & apartando os, lhes fez pregQ- 
tas do que lhe era dito: & eles ho confessarão com te- 
mor que os nam metessem a tormento. E por Cachil 
daroes ser ho principívl da trey^jão, íby preso ua fortale* 



LlVaO VIU. CAPITVLO XXU 47 

sa : 8obre o (} foy grande aJuoroço nos mâdarins, & mais 
quando souberão a causa de sua prisai». E dom lorge 
teue logo conselho ctim ho fej^tor, & alcayde mór, & 
outros oíficiaes, & pessoas priu.cipaes da forlaiesa sobre 
o que faria de Cachil darot^s. É foy acQrdado Q fosse 
degolado pubricamenie, porque estando preso podcrse- 
iiia leuàlar a terra' cõtra a fortaleza com esperan<^a d^ 
lio liurarem ; &flabêd(> que erií morto assessegariâo pois 
Jio não podiâo cobrar^ £ isto assentado ^ foy Cacbil da- 
foes degolado da. maneyra que em Portugal sam degor 
Jados os grandes senhores: o que pos grande espanlo 
nos mouros, especialmente nos mandarins^ que naquela 
terra não morrem por justiça: & quando cometem cri^ 
me per (| mereção morte degradânos, £ vendo eles ma» 
tar assi a Cachil daroes y não se ouuerâo por seguros , 
& diziâo Q fora morto sem. causa somente por mexeri* 
cos: & temendo esses princifiaes que lhes fizessem outro 
tanto^ determinarão de se ir da cidade morar a outra par- 
te, por não estarem na conuersa<;ão dos Portugueses, Sç^ 
cõselharão á raynha Q fizesse ho mesmo. £ assi ho kz^ 
& foyse coeles a hú lugar forte chamado Turutó: porem 
a gente comufl não bolio consigo, & deixouse estar. £ a 
raynha despois ^ foy em Turutó, mandou pedir a dom 
Jorge, que lhe desse el rey seu filho pori} não morresse. 
£ elle nunca quis, pelo Q a raynha mandou, {| nào le^ 
uassem a vender mâti mentos á cidade : & assi durou es<- 
te aluoro^ ate que Gon^lo pereyra chegou a Ternate» 

C A P I T V L O XXI. 

De conto Gonçalo pereyra chegou d ilha de Temate. 

yXoDçalo pereyra que fieoo em Malaca , esteue hi ate 
vinte Dagosto i) se partio pêra Maluco eom Lionel de 
lima , & foy de Malaca ate ho estreito de Cincapura ao 
Jongo da Msta, & dali fez sen caminho pêra a ilha de 
Borsfeo, que assi ho ieumoa por regimeato de JNuno de 



48 DA HISTORIA DA INDÍA 

cunha pêra tomar hi caixas, que aam hA género demoe* 
da que serue em Maluco , & asai algQa mercadoria ne« 
cessaria pêra lá. £ fazendo seu caminho por ãtre muy* 
tas ilhas por Òde ele he, foy ter á ilha de Borneo Q he 
iiíía ilha, de ^ os Portugueses a este tempo tinhão cies-* 
cubert as 'oy tenta legoas. He terra muy to abastada de 
carnes, arroz, & doutros muytos & diuersos mantim6<* 
tos: & assi de cousas ricas, & de muyto preço, como 
a cânfora que nace por toda esta ilha em aruores, assí 
como nace a rezina nestas partes. E esta daqui he a 
própria cânfora, & que vai na índia a peso douro: por* 
que a oulra da Pérsia he contrafeyta. Ha também día^ 
mães que nacem nas prayas do mar, junto da cidade 
de Tanjapura , que sam muyto mais finos ^ os da In* 
dia , & sam de mayor valia. Nesta costa que he descu- 
berta ha cinco grandes pouoaçfies, todas portos de mar* 
8. Moduro, Cerauá , Laue, Tanjapura, & Borneo: de 
que a ilha toma bo nome. Cidade grade, cercada de 
muro de ladrilho de nobres edifícios & a principal de to- 
das , & em ^ os reys da^la ilha residem , & tS ali muy 
sumptuosos paços. Destes portos, os principaes sam La- 
ue, & Tanjapura , & onde se faz mayor carregação: & 
em todos morflo muytos & muy ricos mercadores que 
tratão na China, na Laquea, em Sião, Malaca, cama* 
tra, & è outras ilhas derredor, a que leuSo cânfora, 
diamâes, aguila, & mantimentos, em que entra hii vi- 
nho ^ chamão tampoi , ho melhor que ha antre os vi* 
nhos contrafeytos , & em retorno leuão roupa de cam^ 
baya de toda sorte, cobre, azougue, vermelhão, & ca« 
cho & pucho. Os moradores desta ilha sam mouros : ge- 
ralmSte sam baços , & bem despostos , tratãse bem , & 
vestõse ao vso malayo, & falão a lingoa malaya. Ho 
rey desta ilha he mouro, & muyto rico & poderoso de 
gSle, & seruese com grande esUdo: tem hfl regedor 
que pola mayor parte gouerna ho reyno , a que cha* 
mão em sua iingoa xabanHar. Chegado Gonçalo pereyra 
ao porto desta cidade, mandou hii presente a el rey per 



HVRO VIII. CAPlTVLO XXI. 49 

LuÍ8 dandrade^ & ao xabandar outro: & mandou dizer 
a el rey , que el rey de Portugal , & ho seu gouernador 
da Indiá ho mSdauSo ali pêra ho seruir no que mandas* 
se, porque desejauão muyto sua amizade: & ({seus vas- 
salos fossem tratar a Malaca como hião dantes , onde 
serião bem tratados, & tãbem os Portugueses fossem a 
seus portos & teufssem neles trato. E dado per Luis 
daodrade este recado a el rey , & ao xabandar com os 
presentes, com -<) mostrarão folgarem muyf o, responde^ 
rão. Que recebião grande contentamento em el rey de 
Portugal & seu gouernador quererem sua amizade, ^ 
go^rdariSo coeles muy inteiramête, & erão muyto con« 
tentes de fazerem o que lhes pediâo. £ que se atirão 
por ditosos de GÔçalo pereyra ir ao seu porto, & de ho 
terem por vezinho em IMaluco, onde se prestarião coele. 
£ mandou el rey ao xabandar , que aquele dia agasa* 
Ihase em sua casa a Luis dandrade : & assi ho fez , fa- 
zendolhe grande festa. E ao outro dia ho despachou el 
rey, & mandou coele dous mandarís a visitar Gõçalo pe- 
reyra, & mãdoulhe hu presente. E em vinte dias que 
ali esteue, lhe leuarSo a vSder todos os mantimentos & 
cousas de que tinha necessidade. E ficando em grade 
amizade com el rey, se partio pêra Ternate: & leuan« 
do muyto boa viagem, foy surgir no seu porto a hfi sá- 
bado na entrada Doutubro, do anno de mil & quinhêtos 
& trinta & híi. E logo algOs se forão á fortaleza, de 
quem dÔ forge soube como Gonçalo pereyra hia prouido 
da capitania por el rey, & como hia coele Lionel de li- 
ma que era seu imigo. E teue pêra si , que por essa 
causa ho auia de mexericar com ho gouernador da ín- 
dia: & sospeitou {} auia de ser preso. E ao domingo 
quando sayo a receber Oon(;alo pereyra mãdou leuar a 
hQ seu criado hHs grittiÔes debaixo da capa. E depois 
de recebido Gonçalo pereyra cô grade festa, que desem- 
barcou ao domingo pola manhaS. Chegados á porta da 
fortaleza, mostrando Gonçalo pereyra a prouisam que 
leuaua da capitania , lha entregou âom lorge , dandolhe 

LIVRO VIU. o 



ÕO VA HISTORIA DA ÍNDIA 

as chaues da fortaleza , & asai lhe entregou el rey Ca- 
chii (layalo. EdespoU tomando os grilhões ^ ho seu cria- 
do leuaua, disse a Gon<jalo pereyra: que se tinha ne- 
cessidade deleis pêra lhos deitar, que ali estauào, & ele 
muyío obediente pêra os receber. Besta justifíca<^o fez 
dom lorge pola sos|)eita que disse que tinha de ser pre- 
so. E Gonçalo pereyra lhe disse , que náo hia pêra ho 
prender nem anojar, se nam pêra ho seruir no que po« 
desse, cõprindo cÕ a obrigação de seu carrego. Ê cois- 
to entraram na fortaleza, onde dõ lorge ho banqueteou 
aquele dia, & ho enformou da terra: & deixando ho nela, 
se foy á noyte pêra a sua pousada, que era fura da for- 
taleza. 

C A P I T V L O XXII. 

De como Gonçalo pereyra prometeo à raynJia de Terna^ 

te de lhe entregar seu Jilho. 

Cabendo a raynha & os mandarins Q estauâo coela, que 
Gõçalo pereyra estaua de posse da capitania, & quedon^ 
lorge nam era capitão, determinarão de se queixar dele 
dos rauytos grades agrauos q lhes tinha feytog, assi na 
prisam de Cachil vaiUua, como na morte do regedor de 
Tabona , & de Cachil daroes : & sobre tudo de lhe não 
querer dar ho seu filho & terlho preso, morrêdolhe ja ou- 
tro na prisam. Eauida licença de Gonçalo pereyra, man-» 
darão hQ principal Mãdarim a este negocio, que sabia a 
lingoa Portuguesa, & homem muy prudente, & discre- 
to: que despois de ser bem recebido de Gonçalo perey- 
ra lhe disse. A pouca experiecia de nossa lealdade , & 
a má fama que os mouros tê de desleais aos Cliristãos^ 
& ho muyto credito que os Portugueses tem de justiço- 
sos, te fará crer que a ida da raynha & dos mandarins, 
& deixarem sua cidade : não foy |K)r culpa de dom lor^ 
ge de meneses. £ que fazSdoilve ele muyto boas obras, 
fauorecSdo suas pessoas, & emparãdo sua terra, eles 
oomo imigos dosChnstâos por lhes fazerem mal, &<lhes 



LIVRO VIU. CAPITVLO XXII. 61 

tirarem os iBanlimeníos , deixarão suas antigas mora* 
das, & forão tomar outras nonas. E porê, não sam os 
JDouros tão desleais como os Christãos os fazem princi- 
palmente os destas ilhas de Maluco que se prezão de fi* 
dalgos, & de caualeiros. ,Poy8 quero se preza destas duas 
couí^as, tambS se prezará de lealdade, sem que a fídat**' 
guia & caualarta não |xxlem ser. Ese nossa lealdade ha 
verdadeyra ou nâo, digam no os moradores datibadeTi* 
dore, que vindo os castelhanos a sua terra sem os co- 
nhecerem os agasalharão, fauorecerâo, & empararão ha 
tantos annos: &podendoos matar & tomarlhes lanfa fa- 
zenda como tem , sem terem quem lhes disso tomasse 
conta, nunca neles entrou tamanha baixeza, & sempre 
os tratarão como a seus naturaes: E se osTidores fize- 
râk> isto aoe Ca6t«»lhanos que não conhecião, porque ho 
Jião farião os Ternates aos Portugueses, de que tinhão 
tanto conhecimento por fama, & por experiência: & a 
quem por estas duas cousas que el Rey Boleyfe tinha 
de suas virtudes oflreceo fortaleza em sua terra , eõ de- 
sejo de sua amizade, & sem a isso ho obrigar outro in* 
teresse. Mas temo de passar a diante que a grauidado 
do caso me faz couardo pêra ho contar: & com tudoes* 
forçome c5.a confiançi de tua bondade, que nos dizS 
que he tanta, que de ti mesmo farás justiça. Não foj 
a ida da Raynba nem dos mandarins por sua culpa, nem 
deixarão suas caaas por maldades que fizessem : mas fo- 
rão tantas as ^uexaqões, opressoSs & n>a]es que rerebe»> 
rão dos Portugueses que de os não poderem sofrer se 
desterrarão de sua natureza, & forão buscar oouos as* 
sentos* Certo que outra pessoa a que estes males que 
dig^. não doerão tanto os ouuera de contar: Sc não eu , 
que somente em cuydar neles sinlo partir meu coração 
em mil partes, coni dor & magoa de tamanha desauen- 
tnra como foy a nossa, quanto mays tendo padecido tã« 
ta parte deles. E pf)ys aquilo a que me a ty mandarão 
não se pode fazer sem os contar diJoe hey. Ho primeyro 
agrauQ Q os deaauenturados moradores desta terra cece» 

o 2 



62 DA HISTORIA ]>A ÍNDIA 

berao, foj de Anlonio de briío, que ihes prendeo seu 
Rey , & de liure Ihu fez caliuo. E dom Garcia ho con*- 
tinuou ^ nunca iho quis soltar, nem menos dom lorge, 
ate que morreo. E nam abastou morrer a^Ue mas logo 
meteo em seu lugar o que lhe sucedeo , & este foy ho 
galardão que ouuemos de consentir que os Portugueses 
lizessem fortaleza em nossa terra, & cuydando Q metia* 
mos amigos com nosco, nos achamos com imigos, por- 
que sempre nos assi tratarão. E despoys ^ os agasalha- 
inos qual de nos pode saluar o que tinlia pêra comer, 
que tudo nos tomauâ? Qual de nos pode goardar suas 
molheres & filhas que as não forçassem ? Qual de nos 
pode viuer quieto, que eles nos desenquietauâo ? E tu> 
do isto sofrêramos , mas dÕ lorge não quis , que ele nos 
auexou & perseguio , de maneyra que ho não podemos 
sofrer. Ele nos prendeo Cachil vaidua nosso caciz mór, 
que não podia ser pêra nos mayor injuria , nem parele 
mayor oífensa que vntaremlhe a boca com porco , cuja 
carne he tão abominauel em nossa ley. IMandou deytar 
aos ca6s hum homem de tanto preço como era ho rege- 
dor de Tabona. Mandou degolar Cachil daroes gouerna* 
dor deste reyno, & a principal pessoa dele. E temêde 
a raynha, & os Mandarins ^ que tambê os mandasse 
Hiatar se forão da terra. E ela , & eles se mandão a- 
queixar de dõ lorge por eslas cousas ^ fez, & te pede 
que lhe faças justiça dele tão inteiramente como eles 
esperão : & que lhe des seu rey , pêra ^ os gouerne , 
empare & fauoreça, & [^era Q case & aja filhos que lhe 
Bucedão. E a raynha te pede especialmente,^ ajas pie- 
dade de sua viuuidade, & desemparo: & que te iSbre 
que não tS outro filho pêra sua consolação se não este, 
^ lho deixes lograr algiis dias antes de sua morte. E 
que fazendo isto farás o- que deues , & como se espera 
da bÕdade Portuguesa r & ela , & todos os do reyno se- 
lâo obrigados pêra sempre íazerS o que lhe mandares. 
Ouuida esta fala por Gõçalo pereyra disse ao embaixa- 
dor ,. que ele responderia.. £ mandoa ho agasalhar , & 



LIVRO VIU. CAPITVLO ZXII. 59 

dar todo ho necessário á custa dei Key. E fazendo cõ- 
selho 9 propôs nele o J| lhe a raynba & Mandarins inan<- 
dauão dizer acerca de lhes soiíar seu rey: em (} hus 
disserão, ^' não era bS que se soltasse. Por(). se a ray- 
nha & 08 Mãdarins não se tinhão leuSlado poios escã- 
dalos & agrauos que diziâo ter recebidos^ fora por amor 
do seu rey que estaua na fortaleza. £ segQdo se mos- 
trauâo' agrauados, como ho teuessem por se vingarè dos 
agrauos passados , & por não receberS outros , se leuâr 
tariâo. Outros disserão , ^ antes pêra os desagrauar & 
apazigoar, se deuia de soltar el rey : por^ seGõçalo pe- 
reyra cõiinuasse cõ a prisam dei rey cuydariâo Q todoí^ 
os capitães lhes auião de ter presos os seus reys , & ob 
auiâo sempre dagrauar. E como desesperados trabalha- 
rjão por deitar os Portugueses fora da terra, Q erãomuy 
poucos pêra resistirê ao poder dos mouros , se tizessem 
todos corpo: o ]| estaua certo fazerS, por!| hOs auião 
dajudar os outros. E v6do ]| Gõçalo pereyra lhes soltaua* 
seu rey , & fazia o Q seus antecessores dSo tizerão , lhe 
tomaria amor, & crerião Q tamb& auia capitães ^ lhes 
fizessem bê : & tornarião a amizade cõ os Portugueses, 
& ficaria a terra assentada. E deste parecer foy Gõçalo 
pereyra , & este se goardou. E porS assentouse , ^ an^* 
tes que el rey fosse solto se acabasse a fortaleza , pêra 
jnayor segurâça dos Portugueses , & dos mouros esta^ 
rem em paz« E ^ entretanto fingisse Gonçalo pereyra Q 
andaua muyto ocupado no despacho dos nauios Q auião 
dir pêra a Índia, & () despois de sua partida lhes daria 
el rey : por^ ate então se poderia çarrar de todo o muro 
da fortaleza , & acabar hfl baluarte , ou faleceria muy 
pouco , & q então não faltaria algfla escusa. £ isto as- 
sentado, respõdeo Gõçalo pereyra ao embaixador da ray- 
nha : ^ era contdte de lhe dar el rey seu filho , & ser- 
uila6 tudo, porq assi lho mãdaua el Rey de Portugal, 
& ho seu g4)uernador« E !\ lhe pedia muito Q logo se 
fosse pêra a cidade de Tèrnate , & assi os mãdarins 4 
estaufto coela , pêra assemarG a terra : & Q teuessem 



/• • 



64 DA HISTORIA DA INDfA 

«oiiaade c8 os Portugueses como dates, porQ iodos erlo 
seus seruidores, E tornado bo embaixador coesta repoa* 
ía, ainda a raynha repricou que lhe dessem primeyro 
seu fíiho, & Stop se iria pêra a cidade : & sobristo ouue 
muytos recados de parle a parle. Eassentouse por det- 
radeyrO) {| el Rey fosse entregue despois da partida dos 
oauios: & que Gonçalo pereyra jurasse solenemente de 
ho fazer assi. £ de ho jurou em híia Cruz ^ bo vigayro 
da fortaleza tinha nas mãos, vestido em bua sobrepeliz: 
& ele em giolhus cd as mãos sobre a Cruz em quanto 
disse as palauras do juramento^ estado presentes os 
principaes iVlâdarins de Ternate, & os officiaes da for- 
taleza. 

C A P I T Y L O XXIII. 

Do que Gonçalo pereyra fez despois de chegar a Ternate. 

.1? eylo este juramfilo, fizerSo os mouros grande festa 
com a esperança da liberdade do seu rey. E.a raynha 
cõ os Mandarins, se foy logo pêra Ternate. E Gonçalo 
pereyra a mandou visitar por Luys dandrade, mandS- 
dolhe hii bÕ presente , & assi a algiis. dos Mâdarins que 
sabia que erào seus priuados. Eassi os mâdou aos San- 
gajes & gouernadores da terra, noteficandolhe ho cõce^ 
to que tinha feyto com a raynha, & como estaua em 
Ternate, pedtndolhe i) bo viessem ver porque folgaria 
muyto de os conhecer & seruir. E eles bo fízerâo assi, 
saluo Gachil butiiar sangaje da cidade de Maquiem por 
estar agrauado das páreas do crauo que lhe dom lorge 
mandara que pagasse a el Rey de Portugal : que ele di- 
2ia ^ não podia pagar, por Ibe nâo ficar {) comer. E 
por nào fazer aluoroço , dissimulou Gõçalo pereyra co^ 
le: & aos que furSo á furlaleza fez muyta honrra, mer- 
cês, & gasalhado. E pêra mais cõtentar a todos, vestio 
el rey á Portuguesa de veludo de cores: & ordenou cer- 
tos Portugueses pêra sua goarda , & que ho leuassem a 
desenfadar , & íbigax pola cidade^ De maneyra (} pare- 



LIVRO Vltl. CAPíTVLO XX|II. 56 

cia a todos ![ el rey eslaua em sua liberdade : do que a 
raynha & todos andauào muytp contentes, & tinhâo^ 
BQuyta confíança ^ GÕ^^alo per^eyra cumpriria o que ti* 
nba jurado ) & uiostrauãlhe eintudo grande amizade. & 
pêra a el6 arrematar mais & segurar , fee hú gouerna«^ 
dor do rey nó com apraEimSío dos Alàdarius & da rayn 
nba , pêra que ho teuesse de sua mão , & o ajudasse ^ & 
fauorecesse como Cachil daroes fizera a Antofuo de bri^ 
to. £ este foy híí màdarim da gerai^âo dos reys de Ter-» 
nate, {) auia nome Cacbilaío: de q todos os Português 
ses tinhâo rouyto conbecimêto. Tàbê neste têpo Fernão 
deia torre capitão mor dos castelhanos, mãdou visitar 
Gõçalo pereyra, & ratificar aç pazes que tinha feytas 
com dõ lorge de meneses , & fez paz cõ el rey de Gei-* 
lolo. E por se lhe el rey deTidore mâdar queixar, que 
não podia pagar as páreas do crauo que lhe posera dom 
lorge de meneses , porque se as pagasse lhe oâo ticaua 
nada, pareceo bê a Gonçalo pereyra de lhas leuâtar até 
auer recado do gouernador da Índia, a quem escreue- 
ria sobrisso. Do que el rey foy muylo contente, & fi- 
cou grande seu amigo. E tendo Gonijalo pereyra assen- 
tada a terra em tanta paz, & assessego, & vendo que 
não auia cousa que estoruasse ho seruiço dei Rey seu 
senhor, que ele posposta toda cobiça, desejaua de fa- 
zer muy inteyramente: começou de se poer em ordem 
pêra ho fazer , & deu búa carta do gouernador Nuno da 
eunba a do lorge de mentes , que lha nào quisera dar 
ate não assentar a terra* Em que ho gooemador dizia a 
dom lorge , que ele era enformado que a principal cau* 
sa doa desconcertos que ouuera antre os capitães que 
estauão naquela fortaleza, & os que hiâo de nouo pêra 
estarem nela, fora quererêse ir cõ os capitães que se 
hiSo, 08 Portugueses que la estauão, por terem feyto 
seu crauo. £ algíis que hiâo com ho capitão nouo se 
podião empregar suas fazendas faziâoho mesmo. Esein 
íhes lembrar a obrigação que tinhSo do seruiço de Deos 
& dei Rey se hiâo, deixando de guerra ho capitão que 



5S DA HtSTORtA DA ÍNDIA 

ficaua, Sc sem gSte. E pêra euitar isto lhe inandaua , 
que quando se fosse da forialeza não leuasse mais que 
ate seys homSs sem licença de Gonçalo pereyra, & por 
cada ha que leuasse de mais sem ela pagaria mil par- 
daos. £ a fora esta carta , lhe mostrou Gonçalo pereyra 
hií aluará do mesmo gouernador, em que lhe mãdaua o 
que Ihescreuia na carta: & assi outro, em que manda- 
ua a Gonçalo pereyra , que tomasse a menagem a dom 
lorge ate se ir apresentar diante dele na índia, & ti^ 
rasse deuassa dele de todo ho tempo que fora .capitão 
daquela fortaleza. E Gonçalo pereyra lha tomou peran- 
te ho alcayde mór & feytor, & perante bQ escriuSo, 
que fez de tudo ha auto. E Gõçalo pereyra pedio muy« 
to perdão a dõ lorge do que fazia, dizendo que não fKH 
dia ai fazer, por lho mandar assi ho gouernador da ín- 
dia: & porem que lhe prometia de ho despachar muyto 
b6, goardando em tudo sua honrra. E que alem dos 
homSs que lhe ho gouernador daua , lhe daria vinte ho- 
túès que fossem coele: & daria licença a dom Vicente 
de meneses seu jrmao peja ir em sua c5panhia , & assi 
lhe daria hfl jungo que fazia pêra sua embarcação. £ 
dom lorge lho teue em mercê , & lhe disse que ho não 
culpaua em fa^cer o que lhe mandaua ho gouernador, 
nem deixaria por isso de ser seu amigo, &serutdor & 
^ coníiaua muyto nele , que faria o f\ dizia. E pediolhe 
^ fosse escriuão de sua deuassa Grauiel da costa, -que 
ali fora feitor : & ele lho prometeo. E dom lorge se foy 
pêra sua pousada preso sobre sua menagem sem nenhll 
escândalo de Gõçalo perejra: & assi ho dizia a seus a- 
migos , que ho forão logo visitar. E gonçalo pereira ^O' 
^eçou logo de tirar d^uassa dele. 



LIVRO VIII* CAPITVLO XXniI. Ô7 

C A P I T V L O XXIIII. 

De como Gonçalo pereyra quis fazer crauo pêra el Rey 

de Portugal. 

Vyoro esta prisam de dom lorge de meneses, & por ser 
fejta com tanto ass^ssego, ficarão os Portugueses muy 
toruados, principalmente os que forão oíSciaes na forta- 
leza: & temerão muyto aGõçalo pereira, vendo cõ quã- 
ta prudência fazia suas cousas. E logo virão em si o Q 
receauão , t\ Gonçalo pereira mandou recencear a cota 
ao feytor, &c almoxarife, & outros officiaes passados pe- 
lo feytor Luys dandrade. £ isto porque os mandaua íi- 
ear na fortaleza por ter falia de gente. E não se achou 
a estes lienhOa cousa da fazenda de! Rey em receita, 
& tudo era despesa : pelo que tendo eles roubado el 
Rey, & deuendolhe quanto tínhão, achouse que el Rey 
lhes deuia. Tão desordenado andaua tudo naquela for- 
taleza, & tão pouco se olhaua pola fazenda dei Rey, 
nem auia a quem lembrasse os gastos que fazia naque- 
la fortaleza, pêra lhe pouparem pareles sua fazenda, se 
Dão quem mais podia apanhar mais leuaua. E desenga- 
Bados estes, que não auiâo aquele anno de ir pêra a 
índia : determinou Gonçalo pereyra de fazer crauo pe^ 
ra el Rey, & mandou apregoar bu regimSto que leuaua 
do gouernador Nuno da cunha, que era bo mesmo que 
fizera Afonso mexia: & polo auer por bom, mandaua 
que se goardasse. E Gonçalo pereyra ho mandou apre- 
goar com grande solenidade: & a sustancia dele era, 
que se comprasse pêra el Rey quanto crauo ouuesse na- 
quelas ilhas pelo preço que estaua assentado na feytoria, 
& se metesse nela, & que nenhua pessoa de qualquer 
qualidade ^ fosse ho podesse comprar. Eeste crauo que 
se comprasse pêra el Rey ho compraria ho feytor Luis 
dâdrade, ou quem ele ordenasse, com conselho & pare- 
cer de Gonçalo pereyra: & cõprado se carregasse ho 

L1VB0 VIII. H 



58 DA HISTORIA DA INDlA 

mais que ser podesse , assi pêra se ieuar á índia como 
a Malaca, & o que sobejasse se desse ao capitão, fey- 
tor , & oíficiaes da fortaleza , & a gfite darmas sobre 
seus ordenados , & soldos , por tal preço qae el Rey po- 
desse ganhar , pêra poder cõ ho ganho soster ho gasto 
que fazia naquela fortaleza. Eauendo hi tanto crauoque 
sobejasse de tudo ktO| se vendesse aos mercadores com 
bo mesmo ganho. £ porem que tudo isto se fizesse com 
resgoardo de não auer escândalo na terra. Apregoado 
este regimento, ficarão os mouros rouj descontentes por 
ihes tirarem de venderem ho crauo por mais do preço 
^ue estaua assentado na feytoria, porque ho vendiâo 
por mais. E os Portugueses também teuerão muytode»* 
eontentamenlo, porque perdiâo muyto em não comprar 
yfi bo crauo aos mouros : & com tudo consolarãse , pare» 
cendolhes ^ aquilo não ouuesse efleito: porque assi se 
apregoaua na chegada de cada capitão, mas não se fap 
sia nada polas emburulhadas que recrecião ao partir , 
antro o que ficaua & o que se partia. O que eles espe- 
rauão que seria assi antre aqueles dous , & por mais 
conformes {} elles esleueasem , que eles os reboluerião 
com seus mexericos de que erão muylo bds officiaes : & 
por isto se desagaslarâo logo, & nâo deixarão de fazer 
crauo ho mays encuber lamente Q podião. Mas tambfi 
Gonçalo pereyra atalhou a isto, com mãdar apregoar 
sob certa pena que toda pessoa que teuesse dachem em 
sua casa, que assi chama ao peso cÕ que pesam bo cra- 
uo, ho leuasse ao fey tor Luys dandrade pêra ho que- 
brar & queimar, por^ dali a diante não auia dauermais 
Q dous pesos , ãbos de bQa marca , hd na feitoria , & 
outro ê casa da raynha, pêra que todos os que vendea- 
sem crauo bo fossem lá pesar, pêra se saber qoanto cra- 
uo vinha á feytoria, & quãto rendia: & que ho feitor 
auia dir buscar as casas, & se achasse algfi Dachem , 
quem quer que ho teuesse auia de pagar a pena. E es- 
te pregão se comprio muy inteyramente , & lodos os 
dacbfis forão leuados a Luis daadrade que os quetmoo 



LlVeO VIII. CAPITTLO SXIHI. 69 

& quebrou : & mandou fazer dous nouos, hu pêra a fey« 
toria, & oulro pêra a raynba. E pori) os Portugueses ti» 
nhâo comprado muy to crauo , pelo que ja ai)le anno se 
podia auer pouco pêra el Rey , mandou a todos os que 
ho tíohão que vfidessem ho terço dele a el Rey pelo pre« 
ço da feytoria , o que eles (izerâo muy to cÕtra sua voa-» 
Aade. EsabSdo fi se estaua carregando hfl jungo dumer-r 
cador chamado Nacoda catimo pêra ho leuar á ilha da 
laoa carregado de crauo, mandou bo tomar pêra el Rey^ 
por ser despots do pregão da defesa do crauo , & pagar 
10 polo preço da feitoria : & acharão ]| tinha setenta & 
tantos bares de crauo. E nesta carregação tinha parle 
a raynha de Ternate, & algiis Sangajes que se calarão, 
por{) Gonçalo pereyra não soubesse (} eles quebrauão he 
regimento dei Rey de Portugal , & tâbem porQ ho era» 
no era tanto J\ os mouros rogauão coele. Neste tSpo foy 
Gõçalo pereyra anisado, 2) na ilha de Maquiem estauão 
▼arados aeys jnngoe de mouros pêra íâzerê crauo, & nâ 
ilha de Bachão cinco sobre ancora pêra o mesmo, que 
erão da laoa, Bãda, & Amboino. E dando conta distp 
a Brás pereyra capitão mór do mar, mãdoulhe ^ os fos« 
ee deitar fora, porque não carregassem* E bras pereyra 
não quis ir , dizendo que não hia a Maluco se não pêra 
£izer proueito : & não auia dandar darmada corrSdo as 
ilhas y gastando o () tinha: que se a ida fora proueitosa 
^ logo a fizera* E por mais requerimentos que Ibe G&- 
calo pereyra fes pêra ir , niica quis ate lhe dizer í) lhe 
aiargaua a capitania mór do mar, & Q se iria pêra a I»- 
dia na moução seguinte pois ho apertaua tanto. E per 
^iolhe logo licença pêra se ir, dizendo 2) se lha não des- 
se {) a tomaria. E Gonçalo pereyra dissimulou coele ^ 
porque não abrisse caminho a outros : que vendo () a{)]e 
^ era seu parSte ho deitaua em tal tempo, que farião 
eles 2) não lhe erão nada: fc disselhe que não se fosse ^ 
4 não ho queria mandar pois não era sua vdtade de ir« 
E cõ tudo Bras pereyra ficou muyto escandalizado , & 
quasi seu Imigo. EÇrdçajo pereyra não ho pode castigar 

H 2 



60 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

por nSo se amotinar, & amotinar outros que lhe fariãò 
grande ming^oa , pola grade necessidade que tinha de 
gête. E porque Brás pereyra isto sabia fazia aqueles 
feros. E vendo Gonçalo pereyra que eie não queria ir, 
cometeo a ida a Lionel de lima, que com quanto era 
capitão dei Rey, & aquela ida era muyto de seu serui- 
ço, a não quis aceitar , nS aceitou ate que lhe Gonçalo 
pereyra prometeo a capitania do primeyro nauio ou jun- 
ge , que mandasse á índia cd crauo , em que podesse 
leuar o que teuesse , & lhe pagaria ho ordenado da ga«- 
leota. E por derradeyro quando foy não achou nenhíl 
}ugo , porque foy tãto ho vagar que primeyro os toma- 
tes mãdarâo auiso aos capitães dos jungos , & eles S9 
•ibrSo com medo de lhos meterem no fundo. 

c A p I T V L O xxy. 

Da desauença que ouue antre dom lor^e de meneses ^ 

Gonçalo pereyra./ 

'V^omo quer que ho diabo trabalha sempre por toruar 
ho seruiço de Deos: & onde vé mayor feruor, hi põe 
inayores forças pêra ho impedir. Assi fez aqui, que não 
trazendo Gõçalo pereyra ho pensamento, se não com^ 
seruiria nosso Senhor & a el Rey : & a maneyra ^ teria 
pêra ter a^la terra em paz em quanto jnela eateuesse , 
& fizesse ter aos homês boa ordem em sua vida, pêra 
que ficasse exemplo a seus sucessores: ouue Portugue*- 
Bes tão pouco Chrislãos , & tão bestíaes , que por ele 
fazer isto lhe tinha mortal odio^ & assi a Luis dandra- 
de. PorQ por ter ho mesmo desejo , que ele tinha de 
seruir elRey ho ajudaua quanto podia por sua parte, & 
tomauão estes imigos por causa de suas abominaueis võ» 
tades , dizerC que Gõçalo pereyra queria vsar o que ne- 
nhu capitão vsara de goardar tão inteiramête ho regi- 
mente acerca do crauo. E o que os mais atormentaua 
verS a grade amizade que Gõçalo pereyra tinha com os 



LIVRO VIII. CAPITVLO JTXv. "61 

mouros , & quanto trabalhaua pola so&ter c6 boas obra». 
£ Q isto nã era outro fim se nâo por não ter necessida* 
de dos Portugueses , & poder fazer o Q quisesse. E ve- 
xS a grade conformidade ^ auia anlrele & dõ lorge de 
roeneses , {} o que hQ queria , queria ho outro : & ven- 
do ^ indo aquilo assi era em seu^erjuyzo, começarão 
de vsar de suas diabólicas manhas , & ordir ódio & imt>^ 
zade anlreGÕfjaio pereyra & os mouros, & antreie & dê 
lorge, dizêdo aos mouros ^ Gõçalo pereyra os queria 
ter sugeitos, & ^ não vSdessem ho crauo, não mandan^ 
do el Rey de Portugal tal cousa, nè menos ho gouerna*' 
dor da Índia: & ele por se mostrar bõ seruidor Qria fa^ 
zev mais do ^ lhe mãdauão : que não sabia como a ray- 
nha & 08 mãdaris cõsentião aquilo. E a Gõçalo pereyra 
hião dizer ^ dõ lorge dizia á janela de sua pousada ao6 
Q passauão poia rua , que ele Gõçalo pereyra auia de 
prSder a raynha , & algils seus priuados. E isto dizia 
por se a raypba ir da cidade , & fazer aleuãtar os mãti- 
mStos : & !| se lhe não quisera muy to grade mal & de- 
sejara muyto de ho danar que ho não dissera , mas Q 
lho queria & desejaua de ho ver em necessidade : por^ 
assi tãbS dizia, Q quãdo se partisse () auia de leuar da 
fortaleza quanta gSte podesse, pori^ nâo teuesse cõ que 
a defêder aos mouros. E Q em Banda auia de tomar ho 
nauio a Hanibal cernije, porQ era seu cunhado, & mã*- 
dar pedir seguro ao gouernador antes de chegar á In- 
•dia: & quãdo lho não desse ^ se auia daleuãtar, & se- 
«gtldo dõ lorge era determinado ^ ho faria assi, por isso 
\ ho deuia de prêder em ferros. E a dõ lorge de men<> 
ses diziãlhe i) não se fiasse da amizade que lhe mostra- 
na Gonçalo pereyra , porque na deuassa não lhe goar^ 
daua nenhila, antes se moslraua seu immigo mortal, 
porque prouocaua as testemunhas a que dissessem mal 
dele. E quãdo ho não quertão dizer, que dizia ^ nãò 
sabia , pori) aqueles vilãos dauão sua alma ao diabo por 
amor de dõ lorge, & sobrisso lhe dizia outras pajauras 
injuriosas , & faaia escreuer o que dizião ao contrayro. 



6S 9A HirroltIA DA IUDIA 

E dísiXOf que por aer parenle de dom Garcia anrríqoer 
ihe queria tamanho mal : que ho auia de desíruir , pois 
lhe nSo podia tirar cÕ fada espingarda. E po8lo que pola 
primeyra Gonçalo pereyra, & dd lorge não cresse isto, 
tantas vezes lho disserâo ^ & tantos modos buscarão es- 
tes mexeriqueiros pêra iho meterd na cabeça, & mais 
ho diabo que os ajudaua que bo crerSo : & começaiâo de 
criar ódio bd ao outro, & como ele foj crecendo assi^ 
não se fiaua hfi do outro, fi veo a desconfiança a erecer 
tanto, principalmetite em dÕ lorge: que mandou pedir 
á Gonçalo pereyra q«ie Ifae desse hfia certidão de como 
Jhe entregara a^la fortaleza de paz eÒ latas peças dan» 
telharia com as ^ tomara aos castelhanos, & assi seyn 
&auios & outras cousas , porque lhe ^ra necessária pêra 
el rey saber ho seruiço 2) lhe tinha feyto. Ao que Goi^ 
^lo pereyra respondeo, 2) nSo lhe auía de dar tal certi- 
dão , porque a terra não estaua de paz c5 a fortaleza 
quando lha entregou, antes muy abalada pola morte da 
Cachil daroes, & do regedor de Tabona, & da injuria 
4 fora feyta a Cachil vaidua, & a raynha fugida deTeiv 
nate, & os seus mandarins, & ho Sangaje Cachil huwar 
rebelado por amor das páreas que lhe posera , & el rey 
úe Tidore queixoso por lhe íazer outro tftto. E por de 
todo em todo Gõçalo pereyra nSo querer dar esta certi»- 
dão , tirou dÕ lorge hll estormSto dele : pelo J\ de cada 
vez crecia mais ho ódio antreles. G sobristo fugirão da 
fortaleza seys Portugueses, de que hii era piloto: dea- 
tes seys se forão dous pêra os castelhanos^ & os quatro 
caminho de Bâda em hfi paráo da terra, E tãto {} estes 
honiês desaparecerão, foy dito a Gonçalo pereyra, ^ 
dom lorge & seu jrmão dõ Vicente os mandarão dianr 
te: & assi auia de mandar os mais que podesse. O que 
sabido por Gonçalo pereyra, condenou estes fugidos em 
perdi mento das fazSdas pêra el rey Q logo forão vêdidas 
em leyiâo, & ho dinheiro entregue na feitoria. E de 
dous destes Q logo forão tomados em bua ilha se souba 
era juyzo Q era verdade que ae hião por mãdado de dff 



LIVRO VIU. CAPITTLO ZZV. €8 

lorge, & de seu jrmão dom Vicèle, & lhes derio vinte 
mil caixas pêra o caminho, & sete patoias, & lanças , 
espingardas , & outras armas : & Ibes disserão qne cedo 
iria outra barcada após eles. Ecom ho testemanho des» 
tes homâi ) acabou Gonçalo pereyra de dar credito ao 
que lhe diziâo de dom lorge : & prSdeo logo dom V i* 
cente sobre sua menagõ , & dous criados de dõ lorge 
em ferros por amor dos díous bomês dos quatro Q fugi- 
rão. No {} dõ lorge não teue paciência, & soltou muy-» 
tas palauras cõtra Gonçalo pereyra , a que logo foy dis« 
cuberto : que ho jugo que dÕ lorge tinha começado pe* 
ra si , se fazia cõ a pregadura , breu & estopa dei Rey 
de Portugal , & á sua custa pagaua tambê os officiaes. 
£ pêra mayor certeza disto, que fossem a casa Dafonso 
pirea bfl amigo de dom lorge , & hi acharião muylo fer«» 
n>, & outras cousas que dõ lorge de meneses tomara 
dos almazens, quando soube õ Gonçalo pereyra vinha á 
vela pêra tomar ho porto de Taligame. £ logo Gõcalo 
pereyra foy buscar a casa Dafonso pirez, em que acnou 
quioze quiiitaes de ferro que tomou pêra el Rey , por 
lhe Afonso pirez dizer que dom lorge os mandara ali 
meter : & assi tomou ho jugo pêra el Rey. £ receando 
Q dom lorge se leuantasse, tirou hii capitão doutro jun- 
ge que hi tinha dõ lorge , Q chegara 4 era seu , & deu 
a capitania a Lionel de lima imigo de dom lorge. E is- 
to porque ho jungo auia de tornar pêra a índia , & Gò- 
calo pereyra lhe tinha prometida a capitania doprimey^r 
ro nauio § fosse pêra a Jndia. E sobristo tirou dõ lorge 
muytos estormentos de Gõçalo pereyra, & ele deuassou 
de dom lorge sobre a morte deCachii daroes, & do re- 

Sedor deTabona, & da injuria ^ íby feyta a Cachil vai* 
ua, & sobre mandar enforcar hu Português nas ilhas 
dos papuas, & assi sobre outras culpas ^ lhe punhíio. £ 
por derradeiro quâdo foy tCpo de partir , que foy em 
Feuereyro de mil & quinhentos & trinta & dous, ho en- 
tregou preso em ferros a Lionel de lima seu Imigo. £ 
não lhe valeo requerer a Gonçalo pei eyra , que lho não 



64 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

entregasse por ser seu imigo, que ho desse a Hanibal 
cernije que hia lambem pêra Banda. E por{| Gonçalo 
pereyra receaua que dom lorge tomasse em Banda ona** 
uio a Hanibal cernije como dizião, não quis dar licença 
a nenhii seu amigo pêra ir naquela armada, n6 a seu jr- 
mão dõ Vicente. E deu a Lionel de lima as deuassas 
que lirara de dom lorge, &escreueo hCla carta muy lar* 
ga ao gouernadorNuno da cunha, acerca das cousas de 
dom lorge , dizendo que perguntasse por elas a Lionel 
de lima, & ao vigai ro que fora da fortaleza & ao meiri- 
nho. E assi Ihescreuia também como (icaua a fortaleza^ 
& quão trabalhosa era por amor das desordSs dos Portu* 
gueses, & assi outras cousas necessárias. E mandou 
pêra el Rey cincofita bares de crauo, que foj ho pri« 
meyro capitão Q ho mandou. E na conserua de Lionel 
de lima hia Hanibal cernije ate Banda, pêra trazer dabi 
fazenda pêra a feytoria. E a raynha de Ternate escre^ 
ueo tambê a el Rey de Portugal , & ao gouernador da 
In^ia , fazendolhe queixume de dom lorge , & mandou 
cõ as cartas ate a índia dous criados seus , a que enco* 
mSdou muyto que vissem bS que poder tinha eIRey de 
Portugal na índia. E leuado dõ lorge tãto a recado co- 
roo digo, foy ter á índia, donde ho gouernador homan* 
dou preso pêra Portugal, porQ por ser da qualidade que 
era não quis julgar as culpas que lhe punhào, & assiJio 
escreueo á raynha de Ternate. Cujos criados quãdo vi- 
rão mandar dõ lorge pêra Portugal, & l\ não fazião dele 
juátiça na índia dizião, Q antre os Portugueses não auia 
justiça pois alargauão tanto ho castigo das culpas : que 
pêra b8 se auião de castigar Õde se cometião, & que 
dali por diante não esperariâo j) lhes fizessem justiça. 



Livao VIII. CAVITVI.0 XXTII. C5 

CAPITVLO XXVI. 

De como se perderão no mar dom Fernando de lima de 

Sanctarem ^ Lopo dazeuedo» 

i^ este inuerno que ho goueroador Nuno da cunha le-. 
ue em Goa , não quis prouer a capitania da fortaleza 
que estaua vaga, & ele seruio de capitão por poupar o 
ordenado a el Rey, & deu a ouuidoria geral da índia ao. 
licenciado Lopo fernandez de Castanheda Rieu pay ouui-< 
dor de Goa, & por sua industria crecerSo as rendas de 
Goa vinte mil pardaos. E no cabo deste inuerno chegou 
a Goa António botelhp capitSo do barganlim que ficou 
em Adem cÕ cartas damízade dei rey DadS pêra ho go^ 
uernador, em Q Ihescreuia como Mus tafa & Co}eçofar 
despois de leuSladoe de sobre Adem se partirão com 
vinte seys velas pêra a índia. Edespois deste na Strada 
Doutubro, chegou Eytor da silueira com sua armada, 
& deu conta ao gouernador do que fizera em Adem. E 
lhe contou como dÕ Fernando de lima, nem Lopo daze- 
uedo não forão a Ormuz , nem sabião nouas deles , pelo 
que se cria serem perdidos : & assi foy que nunca mais 
parecerão^ 

CAPITVLO XXVII. 

De diuerMB armadas que partirão pêra a índia. 

JAI este aiíno partirão de Portugal cinco nãos pêra a In-» 
dia sem capitão mór, de l\ forão capitães Manuel de bri« 
to, Fernão camelo, Frãcisco de sousa tauares, () faia 
por capitão de Cananor, Pêro lopez de sam Payo pêra 
capitão de Goa, & Luis aluarez de payua. Edespois da 
partida destas nãos, partio pêra a ilha de sam Louren* 
ço Duarte dafooseca por capitão mór de seu jrmãoDio<* 
go dafonseca a buscar a gête da nao do Manuel de la* 

LIVAO VIII. 1 



§e 9A HISIDBKA Hil IHIUA 

cerda ^ & ambos ae perderão. £ oa capitiéa daa cinco 
naoa da carrega leoarão muylo roim fiagC, & os trea 
prímeyros chegarão a Goa no mea Douiubro em diuer- 
aot dias. E despoia diaao ae parlio bo gonemador pêra 
Cocbím, & sendo lá cbegou em Nonêbro a oao de Fero 
lopez de sam Payo ^ a qoe morrerão na viagè duzentos 
Porlagoeses a fora escrauos , & os mais morrerão dou* 
dos» E mílagrosamenle chegou defronte deCananor por 
não aoer quS mareasse as velas, & auja dias qse as nao 
guiodauão, nem amaynauão, & acodiolhe Diogo da sii^ 
neira que andaua na costa , & a leuou á loa a Cananor. 
£ chegado bo gouernadvr a Cocbim , despachou pêra 
Portugal as nãos : & primejro que partissem , mandou 
Nícuiao jusarte em hii nauio cem nooas ael Rej do que 
passaua na Índia. £ deixado em Cocbim António de Sal- 
danha pêra leuar a armada que hi estaua se tornou a 
Goa. 

C A P I T V L O XXVIIL 

De como /oy morto Hagamahumud por dÔ Manuel teh 

de nuiiescs. 

V^onso quer que ho gouernador determinasse de ir e»* 
te anno sobre Diu , vsou de bú ardil a fim de coele al- 
cançar fortaleza em Diu , sem morte de gente. E foj 
mãdar a Diu primeiro que ele fosse Coje percoli bu mou« 
ro Persiano ) em que linha grande confiança por ser b5 
homem, & auer muitos aonos que era morador em Goa. 
E este mouro auia destar em Diu , pêra Q quando bo 
gouernador fosse cd sua armada, conselbasse a Meliqoe 
tocS capitão de Diu, 4} desse fortaleza ao gouernador, 
por^ lhe náo tomasse a cidade, fazendolhe bo poder que 
bo gouernador leuaua mujto majpor do que era. E que 
a^le conselho lhe daua como amigo, & quâdo Meliqua 
ho nao tomasse, que visse bem o que determinaua , S^ 
se saÍBse da cidade pêra )bo dizer. E cõ lhe (axer grâ«* 
de8 mercês, se par tio Coje percolim como mereadw, § 



LIVB0 Vlfl. CAFITTM XXTIfl, 61 

hia Dormnz com niercadoria. E deepois da partida de»* 
te mouro ^ começou de se ajuiar em Goa a armada que 
ho gouernador auia de leuar : & por serê os nauios rouy^ 
los, & não caberem no rio de Goa , aasi como cbegauão 
assi se parliâo pêra Cbaul , donde auiâo de partir todos 
jQlos pêra Diu. E despois de serfi partidos, partiose bo 
gouernador com a armada 2) tinha em Goa pêra Cfaaul 
em dia dos Reys , do anno de mil & quinhentos & lrín<» 
(a & hfl. E chegando a Cbaul pêra saber o que bia na 
costa de Cambaya , mãdou ha descobrir per dom JMa* 
Ottel de meneses tdo, Luis falcão & outro fidalgo, j) me 
não lembra seu nome , que forão em três catures arma* 
dos. E chegando todos três juntos perlo da ilha das Ya« 
cas, toparão de supilo cÕ Hagámabumud , aquele mou*» 
ro de que conley no iiuro quinto, que tanta guerra fea 
aos Portugu^es: que andaua por capitão de vinte fu8« 
tas em goarda daquela costa , em que trazia muyta & 
oiuyCo boa gente de guerra. Eauendo ele vista dos três 
catures, & conhecendo que erão de Portugueses, foy 
eonlreles com sua armada. DdlManuel & os outros dous 
capitães, que virão búa armada tamanha, parecfidolhe 
que seria mais doudice que valStía pelejar coela, come* 
çarãse de recolher seus passos contados, porq ue não cuy* 
dassem os mouros que fugia, que c5 tudo não deixarão 
de os seguir, apertando ho remo quanto podião, prin« 
cipalmente Hagámabumud , cuja fusta era mais remey* 
ra que todas ^ & assi ieuaua a dianteyra a t^^das : & hia 
alcançado ho catur do a que não soube bo nome, por ser 
zorr<»yro, & não se remar tambS como os de dom Ma«» 
nuel , & de Luis falcão , & quasi que ho hia abairroan* 
do. O que vddo do Manuel , posto que ho perigo de ho 
socorrer era muyto grade não deixou de ho faser. E fa* 
zendo volta atras a boga arrancada, remeteo á fusta de 
Hagamahuraud, & em chegado bordo cÕ bordo, ({ os 
Poriufrueses quiserão saltar dentro na fusia , quis nosso 
Senhor |)oer tamanho medo nos mouros f\ vinhão nela, 2) 
se acolherão todos ao outro bordo. E em se recolhendo 

I 2 



68 ]>A HISTORIA BA ÍNDIA 

& a fusta çoçobrãdo, tudo foy bQ : que nâo teuerSo os 
Portugueses tempo pêra saltar dentro. E o que ouuerão 
de fazer na fusta fizeráo fora , que foy matarem nagoa 
os mais dos mouros , & atreles foy Hagamahumud. E 
por^ a mayor parte de sua armada se vinha chegado, 
cõtentouse dom Manuel com saluar ho catur. £ man- 
dando cessar da morte dos mouros , fezlhe dar hd cabo 
pêra bo ajudar a surdir, & foy se coele & com Luis fal* 
cão pêra Chaul, Õde se soube logo a morte de Hagama* 
humud. Do que ho gouernador foy muyto ledo, & deu 
por isso muytos agardecimStos a dom Manuel: & não 
tão somente por a vaiStia que fez em se auenturar com 
tamanho perigo a saluar ho catur &salualo, mas em ser 
causa da morte de Hagamahumud , bo mais valente & 
esforçado capitão que tiiiha el rey de Cambaya, & que 
mais ardijs de guerra sabia : & Q ho gouernador temia 
tanto, que não receaua de ter oulro estoruo pêra não 
tomar Diu » se não este mouro y que sabia Q auia destar 
dStro , & que Melique tocão se regia por ele era tudo; 
£ quando soube {} era morto, deu ho feito de Diu por 
acabado como ele desejaua, & assi ho derão os capitães 
& fidalgos da armada, dizendo: que nenhtla cousa po- 
derá suceder tão importante pêra se tomar Diu como a 
morte de Hagamahumud. £ assi fora se ho gouernador 
não se deteucra tanto como se deteue emCbaul Q forão 
dez dias mais do necessário, & despois na ilha do be- 
tcle. £ nesta detSça veyo a Diu ho socorro que direy 
a diante : & fora os mouros ^ estauão nele auisados pe- 
los de Chaul de tudo o (| o gouernador determinaua, & 
do poder c^ teuaua. £ òs mesmos mouros se espantauão 
de indo bo gouernador a hfta empresa tamanha fazer 
tanta detença: & também se espan-tauão muyto, que 
sendo são, quãdo caualgaua hia encostado a hu moço 
desporas. E zombando daquilo dizião , que não era a- 
quele ho homem que auia de tomar Dia. 



LITAO VIII. CAPITVLO XXtX. €9 

CAPITVLO XXIX. 

De como ho gouemador Nuno da cunha pariio de Chatd 

pêra a cidade de Diu. 

j^cabadas estas detenças, partiose ho goueraador com 
a mais poderosa armada do que ate aquele tempo se a- 
juntara na índia , que era de quatorze galeões todos 
grandes , fortes & bem artilhados , & seys nãos Portu^ 
guesas, & dezasete galés & galeotas, & hâa galeaça, 
& duas carauelas, & céto & doze fustas, bargâlins, ca- 
tares , jflgos : & outros nauíos de diuersas feyc^ões, que 
com os de guerra fazião perto de trezentas velas* E nos 
de guerra hiSo quatro ceotas peças dartelbaria grossa , 
liasiliscos , espalha fatos , camelos j esperas , Kões , sep- 
pes , saluagCs , a fora a miúda , que era grande soma. 
A gSte que hia nesta armada erSo (res mil Portugue- 
ses^ & três mil Malabares, & dous mil Canarins fre- 
cheiros, & esptngardeyros. Os principais capitães forâfo 
Ejtor da silueira, Diogo da srlueira, António da sil* 
ueira de meneses, António de saldanha, Manuel de 
brito , Ruy goroez da graã, Marti afonso de melo jusar- 
te, Marti de crasto, Ruy ?az pereyra, Vasco da cu« 
nha, Francisco da cunha, Manuel de seusa, António 
de lemos, Fernão rodriguez barba, Anrrií| de macedo, 
L.opo de roezquita , Fernão de morais , dom Fernando 
deça, Frãcisco de vascõcelos, Manuel de Vasconcelos, 
Ambrósio do rego, Nuno barreto, Gonçalo gomez da- 
zeuedo, Francisco de saa, Fernão de lima , loão da sil- 
veira, Anrrique de sousa, Manuel daibuquerquè, Tris- 
tão dalaide, Luis falcão, António de saa, lurdão de 
freytas, Tristão gomez da graà, Nuno fernãdez freire, 
loam mêdez de macedo, Diogo botelho pereyra. E pê- 
ra que a frota fesse em boa ordem & geardada, fez três 
capitanias cada hua de vinte bargâtins&catures : &fez 
delas capitães a Masuel dalbut^rque , Tristão dataide , 



7t !>▲ HMVOIU JMk mmM 

Sc Layf falcão. £ diàte da armada obra de bfia legoa 
auía de ir Aotoaio correa de Goa^ descobrindo ho mar 
com certos catures. E iodo nesta ordem bê de vagar, 
foy ler a Damão, donde auía dalrauessar a enseada pê- 
ra Diu: & por() detpuis Báo podia tomar outro porto, 
tomou bo deste iugar, que com bo medo da nossa ar* 
mada estaua despouoado , & assí a furtaiesa Q era forte 
CÒ suas portas forradas de melai. E aqui foy dita bua 
missa cd grande solenidade , em bua tenda Q se armov 
pêra isso, & pregou frej António padrão coonissairo ns 
índia do menislro da ordfi da obseruancia de sam Pran* 
cisco« E encomendou muy to da parte de nosso Senhor , 
^ pelejassem todos eõ muyto esforço pêra tomarem Diu, 
onde posso Senhor era muylo oflendido c5 as abomina^ 
ções da falsa seyta de Mafamede, & géralmSte assolueo 
lodos de seus pecados* E dita a missa, mandou ho go<- 
nernador dar bii pregão Real, ^ dizia. Ouui, onoi, ouui 
ho mâdado do muyto alto, & muito fioderoso Principe 
el Rey dõ loão de Portugal nosso senhor, que por ga* 
lardoar bo esforço Sc valentia dos ^ se atreuerero a so* 
bir primeyro dos muros de Diu, & leuanlarS neles esta 
bandeyra por sua Alteza^ em seu nome lhe hz o senhor 
gouernador mercê ao primeyro de quinhentos cruzados, 
& ao segundo de qualrocStos , & ao tereeyro de trezení* 
tos. E dçspoís disto, porque bo gouernador sabia por 
António correa que oyto leerons de Dia estaua bfia pe^ 
quena ilha quasi pegada com a terra firme, onde por 
ser muylo forte el rey de Camhaya mãdaua fazer hila 
fortaleza, pêra o que tinha hi bu capitão turco cÕ dous 
mil homSs de peleja Guzarates , & Abexins, & algfis 
Turcos: & mil de trabalho que trabalhauão na fortale* 
za. de que estaua feyta algila parte dos muros, & dos 
cobelos, mas pouca cousa. Teue conselho com os capi- 
tães principais da armada, se daria nesta ilha primeyro 
^ eiu Diu. E moueo a poer isto em conselho, saber que 
a voz de lodos era que se desse primeyro naquela ilha 
Q em. Diu : [josto l| wa determinação era de não se en^ 



LlVtO VIU* CAPfTVLO XXX. 71 

tremeter em fienbú feylo ale nào tonar DiUé E aáal ho 
disse no eõseiho, em que ouue diuersoa f>areceres : por^ 
hikn diziào que era bd cometer primeyro a ilha {} decn 
sem em Diu ^ por<} se pasaaasem sem a tomar , como 00 
imnirca erfio mais de mostras ^ de obras 9 tomariào ta-* 
manha soberba cuidado Q era de medo, que aquilo abas^ 
taria pêra Ibes dar esfon^o com que se defeAdessem. £ 
por isso era necessário nâo passar sem tomar a ilba ^ 
porqoe isso seria causa de os mouros desconfiard de se 
defenderem. Outros dizião que nâo era bê cometerse ai 
ilha, por^ como ela era mujto forte por ser a mayt>r 
parte cercada de rochedo , & menos gente da () eataua 
Bela a poderia defender. Podia ser Q acontecesse alg& 
perigo no cometimento, & qualquer Q fosse daria muj-« 
(a quebra a tamanha armada como aQla era & tdo pode« 
rosa. E os nossoa vendo (} tâo pouca cousa como a ilha 

Ía seu respeyto) lhes daua que fazer, esperado queeuEi 
)iu por sua grandeza, & fortaleza achassS mais resis- 
tência perderiào ho esforço l| leuaufio pêra o tonuir. & 
os mouros pelo cÕtrajro: o Q se deuia muyto de recear, 
& por isso náo se deuia de cometer a ilba. £ eomo do 
outro |iarecer eráo mais Q deste , assenlouse ^ se to^ 
masse a ilha primeiro qoe Diu, & assi ho assinarão to-" 
dos em bu auto que foy feyto pelo secretario Simão fer- 
re vra« 

C A P I T V L O XXX. 

JDe como ho geuemador pàUjou na ilha do betelecom ho 
captíQo dd rey de Cambaya , ^ lha tomou. 

JLjLssentado ^ a itba do betele se deuia de tomar , par- 
tiose ho goueraador, leuandoa ordft que trouuera atelk 
£ atrauessando ho golfão da enseada, chegou bfla ma-^ 
nbaâ a esta ilha, que se cbamaua então do betele, & 
agora se chama dos morto», que eomo disse está o}to 
legoas de Diu , quasi pegada «õ a tetra lirroe lerá hfla^ 
legoa de roda pouco maia ou i»enos : da banda da norte- 



72 OA BfSTOBIA DA ÍNDIA 

tô hú canal dallura de ires braças, & da bSda do sul 
bus ilheos com Q fíca estreita a passagem pêra a terra 
firme. Oa de leste 13 bo rio Q a aparta da terra firme, 
da doeste bo mar. E de todas be cercada de alto rocbe? 
do, & fica muyio alta sobre bo mar. Êpera ser bda da^ 
mais fortes cousas do mundo , não lhe faltaua mais qua 
ser. cercada de muro, que Ibe el rey mandaua fazer, 
pêra fazer outro Diu, receando Q lha tomassem:. ppr<; 
que de nenbQa parte se podia lambe fazer guerraaDiíi 
como dali, do que os goueroadores tinhâo pouco cuydar 
do. A esta ilha chegou bo gouernador b& dia pola.ma-i 
nhá$: & v6do os mouros tamanha armada , temerãfie.(| 
08 tomassem. E querendo fazer concerto coro bo gouern 
nador, auido seguro dele, foylhe falar bo capitão da i^ 
Iba : & pediolbe i\ os deixasse ir com suas molberes , fi- 
lhos & fazêdas, & que lhe deixaria a ilha. £ bo gouer<< 
nador não quis , se não ^ ele sómSte se fosse com suasí 
molheres, filhos & fazêda; & que os outros se lhe auião 
dStregar, & bo capílâo não quis. E isto ^ ho gouerna-f 
dor fez, foy contra ho parecer de todos. E aquele dia 
assentou ho gouernador, Q ao outro dia desse na ilha 
manhaã ciara: & a primeyra entrada fosse Dei tor da 
silueira, que cometeria da banda do ponente onde ea- 
taua a porta da fortaleza, & da banda do leuante Diogo 
da silueira, & da do sul Martim Afonso de melo jusar- 
te , & Francisco de saa , & os outros capitães irião re- 
partidos coeles. Isto assentado, foy IVIarlim afonso de 
melo JMsarte em anoytecêdo por mãdado do gouernador 
ver ho desembarcadoyro da ilha. E achando que era bõ, 
tornou cõ recado ao gouernador, & despois ao seu na- 
uio. E confessouse, & encomSdouse a nosso Senhor, co«- 
010 fazião todos os da armada. Os mouros como estauão 
determinados de /norrerê antes que se entregarem , fí- 
zerão setecentos deles os cercilhos como clérigos, 2} assi 
bo custumauão quãdo determinão de morrer: & estes sa 
chamão bolucbes, gente de feyto. E boseu capitão quey*^ 
mou suas molheres, filbos & fazenda: & assi bo fizerão 



LIVRO VIU. CAPITVI.O XXX. 73 

todos OS. casados , por não terem embarcado pêra pas- 
sarS a terra íirnie , & a gSte pobre passou a nado. E ho 
tesoureyro dei rey de cambaya, se passou em hfla pe- 
quena jangada de madeyra com ho dinheiro que tinha. 
Assi que nSo ficou na ilha mais que a gente de peleja • 
que acabando de queymar as moíheres , &, os filhos , <} 
foy três ou quatro horas ante manhaã, derão fogo a essa 
arlelharia Q tinhão por mandado do capitão, & coela, 
& com espingardas começarão de tirar a aigus nauiod 
nossos que estauão a sombra da ilha , & tão perto que 
ouuião os nossos aos mouros chamarlhes perros , & que 
ali auião de morrer. E os nossos lhe começarão tambS 
de tirar,. & era ho luar tão claro que os enxergauao 
muyto b6, & começouse hfi áspero jogo de bombarda- 
das, & espingardadas de hQa parte & doutra. £ vSdo 
ho gouernador que se gastaua naquilo a poluora dos nos- 
sos debalde, não quis estar polo que se determinara no 
conselho de dar na ilha manhaã clara , & mãdou dar lo- 
go , que foy muyto ante manhaã , pêra o. que mandou 
fazer sinal cõ as trõbetas & charamelas : o que foy gran- 
de erro , pelo ^ se disso seguio. Ouuido este sinal pela 
armada, embarcarãse logo todos com grande pressa hua 
quinta feyra a dous dias deFeuereyro, dia da purifica- 
ção de nossa Senhora. E cometerão cõ seus capitães á 
ilha pelas partes que lhes forão assinadas, não cessando 
os mouros de desparar sua artelharia & espingardaria, 
mas não fazião nojo coela. Eytor da silueira por ter a 
primeira entrada, foy o que cometeo primeyro a porta 
da fortaleza, Q os mouros (inhâo entulhada de pedra & 
terra. O !| os nossos não entenderão cÕ ho açodamSto ^ 
tinhão de a quebrar , & tambê não o Sxergarão cõ a 
sombra do muro, & trabalhauâo pela derribar cõ hil vay 
& vê. E tãto ãdarão neste trabalho ^ amanheceo, &6tão 
enxergarão como a porta estaua , & disserãno a Eytor 
da silueira que estaua ao pé da escada , í\ ficou muy a- 
gastado por lhe terS feridos algfls despingarrladas, &ter 
necessidade descada pêra sobir ao muro, & mãdou logo 

LIVRO viir. K 



74 DA HISTOaiA pA INDrA 

por ela. E entretanto íicou ás eiipingardadascomosmoti^ 
rosy ^ nâo reeebião tAto nojo por estarem cubertos c5 
ho muro, como faziâo aos nossos que estauâo descuber*- 
tos. E nisto derâo hQa espingardada aEytor da silueira 
na cosa da perna dereyla que lha vazou, passandollie 
as escarcelas : & achouse logo tão mal ^ bo leuarào ao 
batel. E chegando a escada, sobio a sua gente ao mu- 
ro: & ho cõtrameslre do seu gaieâo , a Q nào soube ho 
nome , nâo podendo sobir pela escada por a genie ser 
niuyta , sobio pola taça ^ leuaua ate que lacou a mào 
ezquerda ao muro, & se pegou. E arrancando cõ a di« 
reyta a espada, deu bua estocada a bú mouro Q ho der* 
ribou : & os outros nâo ousarão de chegar a ele polaa 
espingardadas t\ os nossos tírauào muy bastas. E neste 
tSpo começarão os mouros de despejar daqle lugar, por- 
que ouuiáo grande grita, & reuolia na iiha: & íoy ^ 
nesta delen<^a ^ os Deitor da silueira tízerà em sobir^ 
eometeo Diogo da silueira peia parte que lhe foy as8Í« 
nada: & foy ho primeiro capitão i) subio, & subirão 
coeie deZ liomSs do gaieâo, S que hia Marlim de eras- 
to capitão dele, Fernão de crasto, Gil de craslo, Luys 
Coutinho, Francisco de souda^ Payo rodrigues daraujo, 
António de sá, Lionel de sousa , loáa aiuarez dazeue^ 
do: & Anrrique de sousa ho galego. E a pos estes so» 
birâo logo Diogo de melo , Fernão de lima , Liunel de 
lima, lorge de lima, dom Vasco de lima, Vasco pirez 
de sãopayo, dom Adanuei de meneses, dom Francisco 
de crasto, & outros a qlie na soube ho nome, {) erã 
dez : & acharão Diogo da silueyra cõ os outros i\ os ti- 
nhào os mouros em grande aperto por serS roij}tos, & 
eles poucos. E se estes n«^o sobreuieram firase em grã* 
de fadiga: & cÕ sua vinda & de IMartim afonso de me- 
lo: que chegou c5 sua gSte os iizeráo afastar: & carre- 
gando sobre eles os leuarào ate jâto de hu cobelo, onde 
se apinboarão bem qtiatro cenios , & aly fizerão rosto 
aos ik)Ssos, pelejando brauamSte cÔ espingardadas &(re-' 
ebadas: & algils que eslauão no Cobelo os ajudauatn de 



LIVRO Vííl. CAPITVLO XXX. 75 

cima c6 pedras & cantos I) deytauâo aos nossos. E acer- 
tou híí canto na cabeça a Diogo da silueyra , (] foy ho 
primeiro ^ chegou a elles <} ho derribou: & assi forão 
derribados outros que quiserão chegar coele. Por6 Dia* 
go da silueira & eles se aleuantarão., & era a peleja ta* 
roanha !\ era espâto. E cõ quanto a este tempo se ti- 
nhão ajuntados muytos dos outros capitaSs cÕ Diogo da 
silueyra , não podiSo entrar os mouros , tambS se defen- 
dião : principalmSte despois ^ foy ter coeles ho seu ca- 
pitsío cõ outros três mouros de caualo. E decSdose se 
ajuntou coeltes esforçãdoos c5 grandes alaridos. E tam- 
bém da nossa parte se ajuntarão todos os capitães 2| 
eram ja entrados cÕ sua gSte , & de cada vez a peleja 
era mais áspera. E estado em peso remèleo lorge de li- 
ma ao capitão dos mouros & ferioho de maneyra ^ ho 
matou : & cõ sua morte enfraquecerão os mouros , de 
que muytos erão mortos : & se forão recolhendo pêra 
hiia mezquita, onde se meterão muytos, & outros (\ não 
poderão por os nossos os apertarê, fugiram cÕtra as bar- 
rocas da banda do mar, & parle dos nossos ficarão cõ 
Diogo da silueyra pelejando *cõ os que se acolherão à 
mezquita, parle forão seguindo os () fugião caminho das 
barrocas, por onde se lançauam abayxo: & muytos des- 
tes forão mortos. E matado h(l Português hQ mouro, ou- 
tro mouro que hia em sua companhia, vendo que nã po- 
dia escapar, virou ao Português pêra ho ferir, & ele 
lhe deu cõ a lança poios peytos & ho passou da outra 
parte , & ho mouro se deixou correr pola lança assi a- 
trauessado, ate se ajuntar cõ ho Português &deulheh(ia 
cutilada cÕ hQ terçado que lhe cortou hfla coxa cercea, 
& cairão ambos cadahO pêra seu cabo. (^ deste esforço, 
& força auia muitos antre os mouros, de l\ quãtos se a- 
colherão á mezquita forão mortos. E acabado de os ma- 
lar chegou ho gouernador, & achou os nossos á caçacõ 
os mouros que fugião pêra as barrocas, por onde se dey- 
lauSo a correr: & muitos cayão com pressa, & faziãose 
6 pedaços por aQles penedos , & os outros lançauSo«e 

K 2 



76 BA HISTORIA BA ÍNDIA 

delles ao niár ^ delles se metiSo debaixo de lapas. E os 
nossos ^ acudião todos a esta parle por ser a peleja a- 
cabada estauão em atalaya : & em se os do mar ou os 
das lapas descobrindo, lirauâolhe cõ as espingardas, & 
assi matauão muyloç. E porque se perdido ntuytos tiros, 
mandou ho gouernadur ^ nSo tirassem mais, & foy cor- 
rer a ilha, onde não achou nenhíí mouro, Q quasi todos 
forão mortos & calinos. Eporisso chamarão dali pordiS- 
te a esta ilha a dos morlos. E dos nossos morrerão dÕ 
Francisco dabrãnches, loão aluarez dazeuedo, & outros 
fidalgos & homSs conhecidos, Q erão por todos dezasete. 
E forão feridos cento & vinte , de que despoys morre- 
rão alg&s. E posto que a vitoria foy grande cuslou muy- 
to caro, & deu mays perda que prouej^lo, porque não 
auia nhQa necessidade de matar então aquelles mouros, 
& muyto grande de poupar os nossos pêra tamaaho fei* 
to como ho de Diu. 

C A P I T V L O XXXI. 

De como ho gouernador chegou a Diu^ ^ cofno soube 
que Rumecáo esíaua dentro^ com rumes ^ ar telharia. 

iVXortos & catiuos todos os mouros que auia na ilha & 
destruida & queymada a fortaleza que se começaua, & 
recolhida sua arlelbaria, recolheo se ho gouernador á 
frota com todos os nossos, em que se logo começou den- 
xergar algo desmayo pelo dano que receberão na des* 
truyqão da jlha : assi dos mortos que eram pessoas prin- 
cipaes, como dos feridos, de que muytos ho eram, & 
auiam de fazer grade mingoa no fejto de Diu , assi co- 
mo Eytor da silueyra que de cada vez se acbaua peor : 
& era hQ dos esforçados capitães da armada & de bÕ 
conselho, & ele foy hum dos que ho deu que não se to- 
masse a jlha antes de Diu. E recolhido ho gouernador 
deyxouse ali estar oyto dias esperando polo judeu , ou 
polo mouro que tinha em Diu por espias, que leuassem 



LIVRO VIIK CAPITVLO XXXI. 77 

auiso de como estaua, o que nâo pode ser, por^ seys 
dias antes que chegasse á ilha dos mortos, polas de(en- 
i^as que fez, chegou S/lustafa, Q depoys se chamou Ru* 
mtcao, que inuernando no estreito (couio disse atras) 
se partio pêra a índia com determinação de jr morar a 
Cambaya, & viuer cõ elrey que se seruiria dele polas 
guerras i) tinha. £ roeste fundamento se foy diante Co- 
je çofar com ho dinheiro Q tinha do Turco , Q erào tre- 
zentos mil cruzados: & foy desembarcar a Diu. £ des* 
poys chegou Rumecão em hd galeão , & com a outra 
frota em que leuaua suas molheres, & seyscentos ru- 
mes , & três basaliscos de metal , cada hú de trinta & 
dous palmos, que erâo a)uy formosas peças: & assi ou- 
tras miúdas, & mil & trezSlos Arábios. £ cõ toda esta 
gente foy ter a Diu, onde foy muy b6 recebido de Me- 
lique tocSo, que estaua muy to medroso da grande ar- 
mada que sabia que ho gouernador leuaua. £ polo que 
ho judeu» & ho mouro lhe tinham dito estaua determi- 
nado de dar fortaleza ao gouernador. £ Rumecão Q ho 
entendeo ho prouocou a Q ho não lizesse, poSdolhe dian- 
te quam forte estaua Diu , assi de gente ( porque auia 
nele treze mil homSs de peleja) como dartelharia: pori} 
08 baluartes , assi da fortaleza como da vila dos Rumes 
estauão muy bem bastecidos dela. £ a cadea que atra- 
nessaua ho porto que fazia muy grande impedimêto na 
entrada & dentro dela setSta & três fustas, queerahúa 
grossa armada : & estaua tam forte que podia pelejar 
com todo ho mCLdo & defenderse : quanto mais dos Por- 
tugueses que não auião de ser tantos : pelo que lhe se» 
ria cousa vergonhosa & de grade vitupério & desonrra, 
fazer nenhu partido com ho gouernador quàto mays.dar- 
Ihe fortaleza , que pois lhe parecia que os nossos leua- 
uSo tamanho poder ^ despejasse a cidade da fazenda & 
da gente Q não era pêra pelejar , & ficasse a de peleja 
& a defendesse coela. £ se os Portugueses podessem 
mais & 08 entrassem, Q estariào despejados pêra se sal- 
var. £ se 06 não entrassem que tornarião a recolher o 



73 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

t\ teuessetn fora, & íicarião descansados. Eisto pareceo 
bS a Melique locâo , & assi se fez. E mais mandou que 
sopena de morte não se saísse nenhu dos mercadores 
estrãgeyros que neia eslauão, por^ estes pelo (\ lhe com* 
pria ajudariâo a defender a cidade, & mais não daríão 
nenhii auiso ao gouerAador do que determinauâo de fa« 
2er. E por islo nem ho judeu nem ho mouro nâo pode* 
ram sayr da cidade & dar auiso ao gouernador, que se 
andara mais de pressa & chegara antes deRumecâo, ú^ 
zera muyto seruiço a Deos & a el Rey, & ganhara 
grande honra em se lhes dar fortaleza em Diu, que era 
a mais forte cousa que auia na índia, & de que mou* 
ros & Rumes faziâo todo seu fundamento, pêra dali dei-^ 
larem os nossos fora dela. E vendo ho gouernador ^ lhe 
tardaua ho recado 2| esperaua não quis mais esperar, & 
parliose pêra Diu, onde chegou hu domingo á tarde 
onze de Feuereiro, & surgio ao mar quasi hOa iegoa 
da cidade: sabendo já a vinda de Rumecclo por lingoa 
^ tomou António correa. E certo que fez espanto na ci- 
dade húa armada tamanha & tam poderosa como a nos^ 
sâ pcirecia. E se Rumecão não esteuera dentro, Meli- 
que rogara com fortaleza «lo gouernador , & Q ho não 
destruísse. E ainda Rumecâo teue que fazer em lho es-' 
toruar: ate dizerlhe (\ se saisse da cidade, & que ele a 
defenderia cõ a gente que trouuera , & co os merca- 
dores. E ele tinha mandado minar todas ns ruas da cí^ 
dade, & encher as minas de poluora pêra lhes dar fogo^ 
se os nossos entrassem. E mandoulhes tirar cÕ os seus 
tiros , principalmente á capitaina , i\ ate noite não (íze- 
râo outra cousa. E caíra três pelouros tS perto dela !\ o 
gouerna4or mandou alargar as amarras pêra íicar mais 
lõ^e que lhe não íizesem os pelouros nojo. E nííca quis 
mandar tirar á cidade , esperando ainda por recado das 
suas espias , pêra determinar o que auia de fazer. 



LIVRO VIII. OAPITVLO XXXII. 79 

C A P I T V L O XXXIL 



De como ho gouemador deu bateria a Dm^ ^ do que 

lhe acoHteceo. 

JlLO outro dia em saindo ho sol apareceo muyla gête 
poios muros & baluartes da cidade, vestidos de cabayas 
de graâ que se viàó muylo bê, & logo os baseliscus cios 
rumes comedirão de disparar &l tirauào pelouros de me- 
tal : & de ferro coado de peso d<»y(Sta arralCs , segudo 
se vio por algíis Q cairá em nauios nossos, Q nam tize- 
rão nojo. E vendo ho gouernador isto & que não vinha 
oenh&a das suas espias desesperou de virê, & determi* 
nado de dar bateria á cidade |K>r luar mandou a António 
correa que chegasse até a cadea £[ çarraua ho porto pe<- 
ra descobrir a artelhana ^ auia nos baluartes, & se es«- 
taua algua armada no porto, & António correa foy co8«- 
teàdo a ilha cosido cÕ terra , polo nao pescar a artelha- 
ria, assi dos baluartes da cidade como do da vila dos 
rumes, que chouia sobre eles pelouros, & assi ho ga** 
]eáo dos rumes Q estaua de fora da cadea , & as fustas 
Q estauão de dentro, ho i\ tudo muy bem visio por ele 
s^ tornou ao guuernador Q estaua no galeão sào Dinid 
cÕ Eylor da silueyra, i\ se iinou a{|le dia da espingar- 
dada t) lhe derào na ilha dos mortos. E sua morle fez 
grande espanto na gente comú por ele ser dos princi^ 
pães capitaSs da armada & bem quisto, & sabt*ndo ho 
gfueraador por António correa como a cidade estaua 
forte p<>la banda do mar, mãdoulhe que fosse saber sua 
df^sposii^^o da banda da terra, & sabida lhe- tornou a di- 
7er que da^la parle não tinha artelharia & que estaua 
irara por!) a mayor fortaleza ^ tinha era híia caua bai- 
Jta () logo se piidia atupir, & {) do desembarcadouro à 
cidade seria perto de hàa legoa , & (j| daquela parte lhe 
parecia (j[ aueria pouco em a t(»mar , o que não podia 
ser |)or bo gouernador nâ hir aparelhado pêra dar bate* 



80 SA HISTORIA DA ÍNDIA 

ria por terra. E então vío ho erro t[ fizera 3 se deter tâ- 
to no caminho, & em fazer tamanho gasto como fez em 
fazer a^la armada pêra ir a Diu sem saber muito bem 
sua disposição, & que gente lhe era necessária pêra ho 
tomar. E neste dia senão fez roais , & ao outro pola 
nienhaã se ajuntarão no seu galeão os capitaSs da arma- 
da aque disse ho auiso que esperaua da cidade , & a 
fortaleza que tinha da bãda do mar & da terra, propon» 
do per qual seria melhor daremlhe bateria, & foy deter- 
minado que posto que a bateria não se podia dar benat 
por mâr por amor do arfar dos nauios , 4 P^í^ ^'^ esta- 
•uâo que se desse do roàr, por!^ da terra uão podia sêr, 
por a distancia que auia do desembarcadoico á cidade 
ser grade pêra se leuar a artelharia por terra» E poslo 
Q se podéra leuar não auia tanta gente que podesse Rr 
car na frota pêra pelejar co a armada dos imigos se lh<^ 
saise , & podesse jr á bateria pêra goardar a artelharia 
com {| se desse: & os imigos erã tanta gente que se 
podião repartir pêra pelejar no mar & defender a terra, 
& por isso era ho mais seguro dar a bateria por már, .& 
trabalhar por Qbrar a cadea Q çarraua ho porto, & en- 
trar dentro & tomar a armada dos mouros ou ganhar ho 
baluarte do már ou ho da barra : porque cõ qual^r des- 
tas cousas se abalarião os mouros pêra darem fortaleza* 
E logo ali se assentou que dom Vasco de lima, lorge 
de lima, & Tristão homS cada hum em seu batel de 
mantas que leuaua cada hum seu tiro chamado liâo sur- 
giscm da lagea pêra dentro: & dessem bateria ao ba- 
luarte do mar. E que os ajudassem lurdão de freytas 
hum fidalgo da ilha da madeyra, & António de sá (Xe 
Santarém , capitães de duas albetoças que leuaua cada 
hua hu espalhafato: & ao baluarte de Diogo lopez ba- 
teria Manuel dalbuquerque com a. sua galeaça que tira- 
ua ha baselísco por proa , & auiâno dajudar quatro ca- 
pitães de quatro galeotas, que tirauâo quatro tiros gros- 
sos. E os capitães forão Nuno fernandez freire, Fernão 
de lima, Manuel de Vasconcelos, & Vasco da cunha: 



LIV&O TUI. CAPITVLO XX^II. 81 

fao baluarte da terra auia de bater Francisco de sâ ca- 
filão da galé bastarda com hum baselisco que tiraua 
ferro coado de peso do setenta arraleSs: &auiâonodacõ^ 
panhar quatro galés que tirauão tiros grossos: & Anto^ 
nio da silueyra com ho resto das galés: & fustaiba do 
quo era capitão niór, auia de estar de sobre salente pê- 
ra acodír se fosse necessário, & entrar por qualquer por- 
tal que os da bateria fizessem no baluarte do mar. E n 
outra armada doe galeoSs & nauios grossos auia destac 
afastado obra de bua legoa de terra, [lorque lhe não che- 
gasse a artelharia dos mouros. Isto assentado forão de- 
semmasteados os nauios da bateria, & fortalecidos de 
fortes & largas arrobadas: & aquela tarde os começarão 
de rebocar algds catures com quem andauão ho gouer- 
nador & António de saldanha: & nisto forão as bobar- 
dadas da cidade tantas, principalmente dos baluartes 
que auião de ser batidos, que os que rebocauão Fran*- 
cisco de sa ho deyxarão longe donde auia destar, po- 
rem IManuel dalbuqueirque foy leuado ao posto donde 
auia de bater. E por Francisco de sá ficar longe donde 
auia destar não se deu ao outro dia a bateria como es- 
taua assentado, mas ouue hum brauo jogo de bombar- 
dadas dâbas as partes. E na madrugada seguinte quis 
bo gouernador mandar rebocar Francisco de sa, & deu- 
se nisso tam má ordem : & assi por a corrente dagoa 
ser muy tesa, que amaoheceo primeiro que hoposessem 
no posto, então forão as bombardadas tam bastas que 
os mouros tirauão que não as podendo os capitães dos 
catures sofrer deyxarão Francisco de sá mea leg^oa don- 
de auia destar , que foy grande desmancho : & ho go- 
uernador dagasludo de ver quanto esloruo auia pêra Frâ- 
cisco de sá chegar onde avia destar, mandou que toda- 
via se desse bateria , que se começou ás noue horas do 
dia , & foy cousa espantosa as bombardadas que despa- 
rauã dhiia parte & doutra, & a grossa fumaça que se 
leuantaua dambas as partes que escurecia ho ceo & a 
terra. E em a bateria começado ex que abalSo qb tref 

LIVRO VIII. L 



•S HA HISTORIA DA INBIA 

bateis de manias atoados a três catures, de qae érie 
capitães, Gonçalo vaz Coutinho fidalgo, Frãcisco de bar* 
ros & outro. £ parecia cousa desçam io ver ires batejs 
que parecião ires cascas de nozes , irem cometer Ires 
baluartes que estauâo das mais medonhas cousas do mun* 
do, com os muytos pelouros que deytauáo, com que pa«> 
recia que ardiâo em fogo : & assi ibes tirauâo as fustas 
que estauâo de dentro da cadea, & outras dantre boba» 
luarte da terra & a vila dos Rumes. £ a dozentos |)afr» 
SOS do baluarte do màr como os pelouros chouião mata*» 
rão dez remeiros iio catur de Gonçalo vaz Coutinho, qaé 
rebocaua ho batel de dom Vasco de lima : & ho arrum* 
barão de modo que não pode passar auante : & al^rgao» 
do ho cabo com que leuaua atoado ho batel ho deyxou« 
Mas logo acodio outro catur que ho rebocou: & vendo 
lorge de lima como Gonçalo vaz alargara ho batel a dd 
Vasco, temeose Q Fernão de barros lhe alargasse ho 
seu , pelo Q lhe bradou que ho não fizesse se não ^ o 
meteria no fundo. £ como ele era esforçado não bo fea 
por mais ^ as bombardadas forão, cõ que lhe matarão 
deus Portugueses & sete remeiros: & foy ho poer a 
quarenta passos do baluarte, !\ deste espaço se auia de 
dar a bateria. £ ainda ali não alargou o cabo ate lhe 
lorge de lima não bradar duas vezes que ho alargasse: 
& neste espaço forão postos os outros bateis: & ficou ho 
de dom Vasco da banda do mesmo baluarte. £ ho de 
Tristão home da vila dos Rumes: & ho de lorge de li- 
ma no meo. £ todos três começara de ho bater coni seus 
tiros que deytauâo pelouro de ferro de peso de quaren- 
ta arralSs : & tendoho aberio lorge de lima com três ti- 
ros que lhe tirou, arrebentou a bombarda no repairo ao 
derradeyro, & não pode mays tirar, que se isso não 
fora ele & os outros fizerâo portal por onde se poderá 
entrar. £ com tudo lorge de lima ho mandaua cõcer- 
tar : pêra ver se poderia fazer obra : & nisto lhe derão 
três tiros ao lume dagoa com que lhe arrombarão ho ba- 
tel , & lhe matarão cinco Portugueses : & |)era não se 



LIVKO VIII. CAPITVLO XXXII. .83 

alagar mandou lançar bo tiro a hiia bftda. E neste ins- 
tale estando dom Vasco em pê no seu balei lhe leuou 
hum pelouro dos imigos a cabeça com parte dos hõbros, 
respondêdo ele ao seu condestabre (que lhe dizia que se 
abaixasse) que nâo auia medo a pelouros. E assi como 
aconteceo a estes bateis assi aconteceo aos outros na- 
uios da bateria que lhes não valerfio arrombadas nem 
• fortaleza jiera resistirem às brauas çurríadas de pelouros 
-que lhes dauão os imigos em roda viua: & a todos ar- 
-rÕbarão, & meterão muytos dentro, com que lhes ma- 
tarão assaz de gente, principalmente a Manuel dalbu- 
querque que estaua mais perto do baluarte que tinha a 
cargo. Eos mouros também receberão algum dano, por- 
que polas ameas dhum pano do muro entrou bii pelouro 
nosso que acertou de dar em hum cayxão de poluoraque 
ettaua junto de hum tiro : & acendeose bo fogo na pol- 
uora. Equeymou muytos dos imigos, & eu vi ho fumo: 
& aesi outros tiros perdidos lhes fizerão também muyto 
dano & muyto mais lho ouuerâ de fazer se os nossos ti- 
ros grossos não arrebentarão todos sem ficar nenhum. E 
dissese que por lhe deitarem carrega dobrada da Q le- 
-uauâo: & Q ho mãdou assi ho gouernador, por lhe pa^ 
recer que farião mayor passada , & por isso se esquen- 
tarão muyto roays do que se esquStárão cÕ a carrega 
própria. E arrebentarão sem lhes valer a muyta diligen- 
cia que os nossos poserão em os resfriar com vinagre. 
E estando assi a cousa que passaria de dez oras, que 
tãto durou a bateria sem os tiros arrebentarem , soube 
ho gouernador como os tiros erâo arrebentados, & que 
não fazião nada , & por isso mandou afastar esses na- 
uios pequenos: & os grandes por ho não poderem fazex 
logo, ficarão ate a tarde. 



I. S 



84 ]>A HISTORIA DA INBIA 

C A P I T V L O XXXIIL 

De como ho gouemador se partio do porto de Diu. 

Jljí em se os nauios afastando derão os mouros grandes 
gritas , assi de prazer , como por fazerem escárnio dos 
Portugueses , & mostraranse muytos poios muros & ba- 
luartes, disparando sua espingarderia : & nisto & em ti- 
ldar a artelharia despenderão ate a tarde , que se os na- 
liios grossos acabarão dafastar. Ho gouernador dagasta- 
do & descontSte não se quis tornar ao seu galeão , & 
foíse á taforea de António saldanba» & bi teue conselbo 
se daria outra bateria, & foylhe cõselhado que não, por- 
que ainda que não teuera arrebatados os tiros grossos 
como os tinba não podia fazer nojo á cidade, pola muy- 
ta & muy grossa artelharia que tinba , cÕ que lhe faria 
de cada vez mays dano. E ^ a cidade tam forte como 
aquela estaua não se podia dar bateria por már pêra lhe 
fazerem dano, se não por terra detrás de mantas &re- 
pairos. E que se deuia de tornar, & deixar aquele feito 
pêra outro tempo em que se podesse milbor fazer. £ es- 
tado nisto supitamSte despararâo as fustas dos immigos 
a sua artelharia , & assi os baluartes & muros , & isto 
por festejarem ho prazer que tinhâo da vitoria. £ ou- 
uindo 08 Portugueses aquele supito, cuy darão que as 
fustas sahião a pelejar coeles. E como os nauios da ba- 
teria estauão desaparelhados, & eles assombrados da re- 
sistência passada , aluoroçarãose muyto com medo : & 
foy muyto grande- rebate por toda a nossa armada. £ 
se as fustas sayrâo os nauios desaparelhados correrão 
risco de serem tomados, mas não sayrâo porque não li- 
nha os imigos essa ousadia: & cuydauão que ti n hão fei- 
to assaz em se defender: & assi foy, pprque se os nos- 
sos tiros não arrebentarão tam asinha eles fízerâo portal 
por onde os Portugueses entrarão: ou quebrarão a ca- 
dea, & aferrarão cõ as fustas: & com qualquer destas 



LIVRO VIII. CAPITVLO XXXIIII. 85 

a cidade se tomara. £ porque o6 nauios da baleria es- 
tauâo desaparelhados, & era necessário aparelharense 
foy forçado ao gouernador dçlerse ali a ses la feyra se- 
guinle, & sábado 9 & domingo: & seguda feyra se par- 
tio pêra a ilha dos mórlos. Eos mouros Q ho virão ir fi- 
carão liures do grande medo que linhâo de os entra- 
rem : & Mustafa muyto soberbo por fazer que não se 
desse Diu ao gouernador. £ assi ho fez cerlo a ei Rey 
de Cambaya , pêra quem se logo foy , a que contou ho 
que passaua, & lhe fez seruiço da arteiharia que trou- 
uera. E por tudo isto lhe fez el rey grandes honrras & 
mercês, assi de renda como de nome de cão, que an- 
treies he muylo estimado. £dali adiãle se chamou Ru* 
mecão: & era dos mays bonrrados capitães dei Rey de 
Cambaya, & mais seu priuado, & de que ele fazia 
mayor conta, do £[ Melique toca ficou muylo magoado: 
& secretamente imigo de rumecâo» & receoso que ei 
rey lhe desse a capitania de Diu. 

CAPITVLO XXXIIII. 

Do que ho gouernador fez despoys de se yr de Diu- 

x^hegado ho gouernador á ilha dos mortos, teue ali cÕ- 
selho com todos os capitães & fidalgos da armada , que 
por quanto os mouros de Diu auião de ficar muyto so- 
berbos por bo gouernador os não poder tomar , ia auião 
de cuydar que não podia nada , era necessário pêra ^ 
de todo não perdesse bo credito ficar na costa de Cam- 
baya hfta grossa armada que destruísse os mays dos lu- 
gares que podesse , principalmente Baçaim em que el 
Rey de Cambaya começaua de fazer outro Diu. £ co- 
meçasse na cidade de Goga que he dentro na enseada 
dezasele legoas da ilha dos mortos : & coisto se restau- 
raria em parte ho reués que os Portugueses receberão 
em Diu. É assentado de se fazer assi, conuiduuse An- 
tónio de Saldanha pêra ficar por capitão mor desta ar^ 



\ 



86 DA mSTORIA DA ÍNDIA 

mada : & bo gouernador lho concedeo por ser pessoa de 
merecimento, & por ler feyto muyto seroiço na Índia a 
el rey de Portugal: & deulhe a galé bastarda em que 
ficasse & oyto galés outras com quarenta fustas : &bar- 
gantins em que ficarão passante de mil Portugueses to- 
dos gente escolhida , & com a outra armada se foy ho 
gouernador a Chaul, cuja capitania por estar vaga deu 
a Diogo da silueyra seu cunhado. £ de Chaul se foy bo 
gouernador a Goa, dõde mandou ao estreylo a dom An- 
tónio da silueyra por capitão mór de hQa armada & deu- 
lhe a galeaça em que foy : & os outros capitães a fora 
ele forãoMartim de crasto, lorge de lima, Anrrique de 
macedo, António de lemes ,^Ioão rodriguez paez, todos 
em galeões. E deulhe por regimento que fosse ver Adem 
a saber dei rey se tinha necessidade de sua ajuda: &ten- 
doa lha desse. E arrecadasse as páreas que deuia. Ebo 
gouernador ficou em Goa onde auia de ter hoinuerno. E 
porque pola ida de Afonso mexia, que se fora pêra PoN 
tugal aquele anno ele ficaua por vedor da fazenda até el 
Rey prouer, ho que lhe era pejo por a grande ocupação 
que tinha na gouernãça da índia. Por se descarregar dos 
negócios da fazenda fez ouuidor dos feytos dela ao licen- 
ciado Lopo fernandez de Castanheda que atelí seruira 
douuidor geral da índia na vagante do licenciado João do 
soyro: & auiao de ser dali por diante ho doutor Anfonie 
de macedo, que vinha prouido por el Rey deste officio. 

C A P I T V L O XXXV. 

De como António de Saldanha destruyo a cidade de Go- 
ga^^do mays que fez na costa de Cambaya. 

xxntonio de saldanha que ficaua na costa deCambaya 
com a armada que disse, partido ho gouernador pêra 
Chaul , partiose pêra a cidade de Gt)ga l\ he na ensea- 
da como disse, situada na boca de hum steyro rasa sem 
nenhfla fortaleza, pouoado de mouros mercadores^ ^ou- 



LIVAO VIII. GAPITVLO XXXV. 87 

«indo como a nossa armada bia dt^spejarão bo mays que 
poderão. £ neste tempo acertou deslar ali bua armada 
de Malabares deCalicul de vinte cinco paraos carrega-» 
dos de pimenta que leuauâo a vender. IC estes sabendo 
a vinda de António de saldanba, & nSo lendo outro re* 
médio vararão os paraos polo esteyro acima obra de biía 
lagoa da cidade : se poserâo em renque julos hiis dos 
outros, com seus tiros darlelharia nas proas: & os le- 
mes atrauessados nelas pêra mays fortaleza : & a gente 
detrás com mostra de se defender , posto^ algua se foy 
pêra á cidade a ajudar algQs mouros que nela íicarào 
porque os mays erão acolhidos com medo dos Portugue- 
ses que chegarão á cidade^bum dia pola menbaâ, &Jo* 
go desembarcarão: & diante de todos Fernão rodriguez 
barba, que ieuaua a primeyra entrada. £ por derradey<* 
ro António de Saldanha. £como a gente que esíaua na 
cidade era pouca defendeose pouco, Q logo. fugirão ficaa<* 
do alg&s mortos assi guzarates como malabares : & en« 
Irada a cidade foy saqueada. £ porque António de saN 
danha sabia que a armada dos malabares estaua peio es- 
teiro acima, determinou de a hir destruyr. E partio pê- 
ra lá despoys de comer , & foy por terra fey tos ires es- 
Goadroês de sua gête. A capitania do dianteyro que se- 
ria de dozentos bomês deu a Fernão rodriguez barba. £ 
a do segundo ^ seria de trezentos deu a Francisco de 
Vasconcelos. E ho terceyro deyxou pêra si que seria de 
quinhentos homSs. £ indo nesta ordem chegou a húa 
grade varzia , [)or onde na borda do esteyro estaua va- 
rada a armada dos malabares, que como os Portugueses 
forão deles a tiro de bombarda, lhes começarão de tirar 
com a artelharia que jugaua muyto a miude: mas nem 
por isso deyxarão eles de passar auàte. E rompendo por 
antre aquela multidão de pelouros inuestirão cõ os pa- 
raos, & 08 mouros como virão a cõcrusão, & que os 
Portugueses queriâo pelejar coeles sem nenhfl medo, 
ouueràolbu tamanho que fugirão: & deyxarão os paraos^ 
sem morrer nenhum Português, que acabando os jmmir^ 



88 SÁ HISTOBU DA ÍNDIA 

go8 de fogtr coroe^rão logo dapanhar essa pimi^nla que 
eles tinhão. E (emendo Anlonio de Saldanha Q se carre- 
gassem muyto: & que tornassem os imigos sobreles & 
nâo se podessem defender como muylas vezes se faz^' 
mandou dar fogo aos paraos. E arderão iodos com quan- 
ta pimenta tinhão, do que os soldados ficarão muito ma-i 
goados, porque perderão ati muyto: & ficarão assaz de 
desconíêtes de António de saldanha, que despoys que 
os paraos arderão se tornou a cidade, onde mandou quey-i 
mar cinco nãos que eslauão varadas, & sem a sua geni* 
te fazer ali nenbQa presa se tornou a embarcar. E dali 
se passou á outra banda da enseada, & entrou em çur- 
rate & Reynel que achou despejados. E hi tomou oyto 
paraos Mitiabares que achou varados. E feyto isto se 
partio peraChaul sem querer hir dar em Baçaim , ci*roo 
íbe ho gouernador mandara , & a causa foy |K)rque ho 
escorreo de noyte, & por não tornar a fras, & mays 
porque soube que estaua muyto forte. E ehegfando a 
Chaul deyxou quasi toda a armada a Diogo da silueyra, 
que assi ho mandara ho gouernador , pêra fazer guerra 
á costa de Cambaya , & tolher que não fossS dela man* 
timenlos a Diu nem madeyra, porque desta maneyra 
lhe daria tanta guerra que com aperto se desse. Edey* 
xando a armada em Chaul se foy na galé bastarda a Goa, 
& deu conta ao gouernador do que fizera. 

C A P I T V L O XXXVI. 

De como Jorge de lima socedeo na capiiania a dom JÍn^ 

tonto da silueyra, 

jLfoxn António da silueyra que foy ao cabo de goarda- 
fum por capitão mór da armada chegado á parajem em. 
que aula desperar as nãos de presa , repartio sua arma- 
da no modo que auia destar: & andarão assi ate quasi 
a fim Dabril sem passarem nenhilas nãos de presa, &• 
por se chegar ho inuerno parliose pêra Adem. £ no .ca* 



LivmaviiL ciFfTVLo otxrvn. 69 

ninho soube que el rey se leuantara con(ra os Portu- 
gueses y & malara quantos la deyxarii Eytor da silvey^ 
ra 9 & outros que despoys forâo coiii mercadorias , em 
que tomou bem oytfita mil pardaos. E affirmouse () a 
causa desta treji^àu dei Rey Dadem foy cobiça de hila 
nao carregada de pimenla que hus Portugueses lá leua* 
rào que eie mandou tomar , & despoys tomou fao maye 
que digo, & com tudo dÕ António chegou a Adê. G 
chegando fugirÂo do porto certas nãos que hi eslauâo , 
& a ele (iraràolbe ás bombardadas: & vendo dom Antó- 
nio que não podia fazer nada por quam pequena arma^- 
da leuaua , partiuse pêra Ormuz onde auia de inuernar 
& hl faieceo: & por seu falecimento foy emiegido por 
capiuo mór:daqueJa armada, lorge de lima. E ele deu 
a capi(ania do seu nauio a dom li>áo lobo, & em Agos- 
to se partio lorge deJima pêra a índia. E no caminho 
tomou deus nauios de mouros : & no dinbeyro que se 
fez na carrega q leuauâo vierSo a el Rey cincoenta mil 
pardaos pagas as partes» 

C A P I T V L O XXXVII. 

De como Gonçalo pereyra fez amizade com el Rey de 

Tiaore. 

Jr artido dom lorge de meneses de Temate , enlendeo 
Gonçalo pereyra eiíí acabar a fortaleza que ainda e&ta-* 
ua da maneyra {| António de brito a deyxara : que ne- 
nhu destes capitães se lêbrou de acabar a^ la "obra. E 
comoGõçalo pereyra pêra isso tinha necessidade de ma- 
deyra, & outras cousas que auia na ilha deTidore mâ- 
dou pedir tudo ao rey dela por ser amigo dosPorlugue* 
ses, & mandou a isso Luys dandrade, por quem lhe 
mAdou hum presente de sedas, & outras cousas de pre- 
ço. E Luys dandrade hia com nome dembaixador, & 
assi leuaua ho aparato, com que desembarcou em Ti- 
dore. £ sabendo el Rey quem ele era : & os carregos 

LIVHO VIII* M 



90 BA HISTOmiA 30A ÍNDIA 

que linha lhe mandou fazer soISne recebimento: & ot 
8eu8 principaeis mandarins com muyia gente bo forâo 
esperar ao mar : & em desembarcando bo tomarfto antre 
si, & bo leuarão aos paços dei Rey per debayxo de hOa 
ramada de ramos verdes l\ duraua do mar ate os paços : 
& bo chão cuberto de flores : & eruas cbeyrosas , & en^ 
trados nos paços acharão ei Rey è hua varanda térrea 
aparamentada de finos panos deras, de figuras, & de 
verdura: que lhe derão os Castelhanos. £ el rey seria 
de xvij. annos, & era aluo & gSlil bomfi: estaua vesti- 
do muy ricamSte, & tinha grade magestade & estado, 
estaua acopanhado de seus jrmâos , & de muylos mau* 
darins. £ como se criara cõ os Castelhanos sabia bem 
a sua língoa: & Bizcainha, & Portuguesa: & prezaua- 
se muy to de as falar, £ quâdo Luys dãdrade chegoa 
diante dele fezihe muyta bonrra: & faloulbe Português. 
£ LfUys dandrade lhe apresentou ho presente que lhe 
leuaua com que mostrou, que folgaua muyto, princí* 
palmente com hiia espingarda: & despoys lhe pregun* 
tou miudamente por ei Rey de Portugal : & polo £mpe- 
rador, & por suas cortes^ & desjx)ys polo gouernador 
da índia. £ por Gonçalo pereyra , a que respondeo que 
madeyra: & quanto lhe fosse necessário de sua terra tu« 
do lhe daria, & lho mandaria: & assi ho fez. £ ficando 
tnuyto amigo de Gonçalo pereyra , a que também man*- 
dou hum. presente, tornouse Luys dandrade |>era Ter- 
nate. £ no caminho se ouuera de perder com bua tor- 
uoada que lhe deu : & despoys disto por Cacbil humar 
Sangaje da cidade de Maquiem estar leuantado por amor 
das páreas que lhe posera dom lorge, & não querer dar 
obediência a Gonçalo pereyra mandou controle Vicente 
dafonseca com hfta armada, &Cachilato com outra, ho 
que sabido per Gachtl humar fugio pêra el Rey de Gey- 
lolo^ & foy lhe tomada sua terra* £ despoys por rogo dei 
Rey deGeylolo: & de Fernão dela torre lhe restituyo Gon» 
çab pereyra seu estado, do que el Rey de Geylolo&Fer« 
nâo dela torre ficarão seus amigos, & se visitarão dali por 
diante por seus mesejeyros. 



tivfto VIII* cArrrvLo xxnviii. 91 

O A P I T V L O XXXVHÍ. 

■ 

De como a Raynha de TemaU deurminou de mat/at 

Gonçalo pereyra. 

IS este tempo execulaua Gonçalo pereyra a preniatíca 
do crauo quanto podia, apertando muito que ae goar« 
daaae do que ca Portugueaea aodauáo muy escandaliza*» 
«loa poio muy to que nisso perdiSot Scdizifto antre ai qua 
•e deuiâo de jr pêra os mouros ou pêra os Castelhanos^ 
& deyxar sòs Gon<;alo pereyra: &Luys dandrade, pêra 
irer se defendiâo a fortaleza. Eoa que isto sintião mays, 
& dauão causa a se os outros aluorofjarem erão ho vi« 
^airo da fortaleza que auia nome Fernão lopez : & Afon^ 
ao pirez , Vicente dafonseca , Baltesar veloso : & Ma- 
fiuel pinto, que como sabíflo a lingoa da terra, & ti* 
nhão amizade com a Raynha & com muy tos mouros que 
também recebião perda nesta prematica do crauo, pro* 
tiocauamnos a parecerlhes mal: & a escandalizarense de 
Gonçalo pereyra , a que determinarão de tirar a capita*» 
Yiia & fazerem outro capHSa que lhes alargasse ho cra*^ 
lio, & cometerão pêra issoBms pereyra que sabiSo que 
estaua mal com Gonçalo pereyra : & por bo não querer 
aceytar assentarão de fazerem capitão Vicente dafonse^ 
ca, que naquele tempo injuriou de palaura ao sobreròl- 
da da fortaleza por dizer da parte deGÒ<;alo pereyra aoa 
que eslauão em sua casa que fossem vigiar a fortaleza 
{K)rque não querião jr á vigia. E reprendendo Gon<jalo 
pereyra disto a Vicente dafonseca, ele se agastou tan-^ 
to qae lhe disse algfias descortesias. E coÀo Gon<,-alo 
pereyrar desejaua de ho castigar por saber que era tra- 
vesso: &reuoltoso prendeo ho na fortaleza em ferros cd 
aquele achaque: ho ^ sabido poios outros c^jurados pe- 
dirão logo a Gõçalo pereyra Com grande instancia que 
ho soltasse & ele não qtiis , dizendo Q ho auia de ter 
preso pêra na moui^o ho mandar a india com outroe 

M 3 



01 DA HI8T0BIA BA ÍNDIA 

reuoltosos ^ auia na fortaleza: do que eles ficarSo niiiy- 
to cortados por ]hes parecei que entráuão naquele con- 
to: & não quiserão mays falaribe na soltura de Vicente 
dafonseca; & determinarão de ho matar antes da mon- 
ção & antes que Hanibai cernige seu cunhado cheg:as8e 
de banda. E trabalharão de aquerir de sua parte a Ray- 
nha, &Cachtlato: & os mays dos mandarins, & tantas 
cousas & males lhes disserâo de Gonçalo pereira : & que 
Dão auia de dar el rey. E tanto lhe meterão em cabeça 
que não desejaua se não destruilos, & que assi ho auia 
de fazer se lhe não atalhassem com a morte, que eles 
ho crerão: & menos abastara pêra ho crerem por serem 
desconfiados*: & imigos dos christâos. E a fora este ódio 
natural teuerão outro a Gonçalo pereira polo que dele 
ouuirão. £ pêra saberem se era assi como eles dÍ2Íâo 
mandoulhe a Raynha pedir seu filho muy apertadamen* 
te, dizendo que lhe lembrasse quantos dias auia que 
)be juraua de lho dar & que ho nam côpria, que se es» 
pantaua muyto de não comprir bo que jurara em sua 
ley. E como ele desejaua dacabar hum baluarte da for- 
taleza em que andaua com grade pressa , & a entrega 
dei Rey ho auia destoruar : & também não ho querer 
entregar até a fortaleza não ser de todo çarrada , por- 
que os da terra ho ajudassejn.como ajudauão, resp&deo 
á Raynha que ele desejaua tanto de a seruir: & fazer- 
Ihe a vontade que sem juramento lhe entregara seu filho 
quanto mays jurandolho. Epol a. ocupação em que anda- 
ua de qu« nâo se queria estoruar não compria coela, 
pedindolhe muyto que lhe desse licença pêra iaso: & 
que ho ajudasse com mays gente peta acabar asinha 
a^la obra: porque quanto mays asinha acabasse^ tãto 
mays asinha li>e daria seu filho & faria todo bo mays 
que lhe mandasse fK>rque pêra isso desejaua de ter des- 
canso. Porem a Raynha nao foy contente daquela res- 
posta: porque Ibe {)areceo escusa pêra lhe não dar s^^u 
filho: & teue por verdade, bo que lhe os Portugueses 
diziao de Gonçato pereyra, pelo que determinou de ho 



LIVRO VIII. CAPITVLO XXXIX. 93 

inàtar & tomar a fortaleza , & despois matar lodos òé 
Portugueses. E o que lhe deu atreuimêto pêra isto foy 
conhecer ho ódio que os principaeis&mays antigos Por* 
tugueses tinhão ao capitão , & que foigariâo de bo ver 
iDorto : & por essa causa linha pêra fazer aquilo ho me« 
Ihor tempo que podia ser. £ .mays por el Rey eslar na 
fortaleza: &coele seus hirmâos, & algiis tilbos dosniati- 
darins: & hia ho gouernador visitalo rouytas vezes. E 
quasi Q nuca de lá sayâo mandarins mancebos que hiâo 
folgar coele, a quem poios lerem muyto em costume 
não buscauão se leuauâo armas , pelo que as podiâo le^ 
uar secretas : & quando não leuarlbashiâo os que leua- 
uâo de comer a el Rey , nas canas em que leuauâo ho 
vinho: &a agoa. Enislo se acabou de deleiminar, coro 
conselho dos seus mandarins com que ho logo praiicou. 

CAPITVLO XXXIX. 

De como foy morto Gonçalo pereira. E o& mouros que 

ho matarão. 

JLsto determinado a raynha por dissrmular com Gonçalo 
pereira se mostrou muyto satisfeita com a sua reposta, 
& mandoulha muyto agardecer. E pêra mais dissimula* 
çào niàdoulhe niuyta gSte que ho ajudasse a fítzer a for- 
taleza, porque quanto acabasse mais cedo mais asinha 
lhe daria seu filho: do qu^^íõçalo pereyra ficou muyio 
ledo, & andaua muy conlUKe, fazendo continuamente 
Irabalhar na fortaleza. E neste tempo Cachii Calabrura 
gouernador de Geylolo, que era metido na treyção que 
a Raynha de Ternate auia de fazer a Gonçalo pereira, 
vendo que lardaua de se executar, receouse queserom* 
pesse, & que Gonçalo pereira lhe ficasse por imigo. E 
determinando de lho descobrir, temia tamhS que ho 
náo Si)ubesse ainda: & descobrindose !\ Gõçalo pereira 
bo soubera por ele õ a Raynha & os de seu eõselho fi- 
caria seus imigos. E pêra não perder ni^ío nada quis 



94 DA BfSTOKfA DA ÍNDIA 

apalpar o que Guik^Io pereira sabia daquela treiçXo. 
Mandando a hum Mandarioi em (| oootiaua muyto que 
liie fiisse dizer em aegredo come de si mesmo , que o^ 
Ihasse cotno estaua, porque os Mandarins de Ternate 
fcziáo majrtoe conselhos y & segundo ihe parecia erã cd- 
ira sua vida, & contra aquela fortaleza. E isto pêra 
que assi como GoQ<jaio pereira tomasse aquilo^ assi sa«> 
beria se lhe descobriria a ireyçâo, ou se calaria. GGon* 
caio pereyra como estaua muyto crente na amizade da 
Kaynha & dos do seu conselho , & pouco acautelado da 
maldade dos Portugueses seus imigos : pareceothequan« 
do lho ho Mãdarini disse o que theCachil catabrO man« 
dou que lhe dissesse, que era mexirico, & que proce« 
dia denueja de os Ternates ho ajudarem também a fa* 
zer a fortaleza. Respondeoihe que ja era velho, & nSo 
tinha necessidade de conselho. Ho Mandarim quando 
vio quão descuydado Gonqalo pereyra estaua da Ireyção, 
temeose que ho descobrisse aos Ternates , que ho ma« 
tariao por isso , & acolheose pêra Geilolo , onde contou 
a Caohil catabrum o que achara, do que ele ficou asse- 
segado da suspeita que tinha. E a fora este auiso em 
que Goncjalo pereira não atentou, disseranihe algús Por- 
tugueses que os mouros que ajudauâo na fortaleza an« 
dauão mays ledos que dantes, & que dauâo muy tos sal- 
tos, & faziào geitos como faziâo quando andauSo na 
guerra, £ que os tomauão polas mãos, & pegauão ne- 
les dizendo carachel mandi^ue em sua lingoa quer di« 
zer homS valente & esforçam!: & que lhe parecia aqui* 
lo sinal de terem ordenada algQa treiqSo. Enem por is- 
to atentou Gonçalo pereira. E sendo ja chegado ho dia 
em que os mouros tinhíio entre si determinado de ho 
matar, que foy aos dez & sete de Mayo, véspera de 
Penlhicoste, ordenarão como auia de ser. E deitando 
sortes sobre quem seria o que matasse Gonçalo pereira, 
cahio a sorte sobre hum primo de Cachil daroes, que a- 
uia nome Cachil cabalou ainda mancebo, & sobre ou^ 
tros dez da sua idade que ho auiâo dajudar. Epera que 



LIVRO VIII. CAPITVLO XJLXlX. 95 

oa Portuguedes nSo sospei lassem dele nada, auiSo de jr 
oom Gacbilato que era feitura de Gonçalo pereira : & 
l}ue lhe hia falar a qualquer hora, por ler coele estreita 
amizade. E [)08erSo logo aquele dia pola menhaã muyta 

fen(e em Ires ciladas, hfia aol derredor da pouoaçâo dos 
Wlugueses em matos Iam cerrados que a cercão , que 
nunca ali ninguS vay , & porisso níio podião ser vistos. 
£ a segunda estaua por essas casas da cidade, & a ter^ 
ceira na mizquila, que estaua pegada com a fortaleza, 
E o8 mouros desta em vendo hfl certo sinal que fize»« 
sem na fortaleza os que matassem Gonçalo pereira auião 
de sayr , & entrar nela pela bâda do mar , por onde bo 
muro ainda estaua baixo: & auião de repicar ho sino da 
vigia pêra que acodissem os Portugueses que esteues- 
sem fora: & em sayndo auião de sayr os mouros das 
duas ciladas a darlhes nas costas, & malaios a todos. E 
este dia andarão os mouros tatfr~co|i tentes pelo que es- 
perauão de fazer, que vindo ho meyo dia em que hião 
eomer & tomar folga, dizião a Gonçalo pereira que fos- 
se comer & repousar, & que eles trabalbariâo ate noi(e. 
E assi lhe disserão algas Portugueses que lhe parcci3o 
muyto mal aqueles offrecimentos dos mouros, mas nem 
aquilo ho pode espertar. E mandou aos mouros t\ fos- 
sem comer & repousar ale as Ires horas que passaua a 
calma, fe enl^ tornaríão como costumauão. E idos ele 
se recolbeo na fortaleza com os Portugueses Q comião 
eoele , & despois de comerem se forão refiousar a suas 
pousadas, que estauâo fora da fortaleza. E ho capitão 
Gonçalo pereira ficou com seus criados, & algtls outros 
que pousauão dentro, & cada hum se recolbeo á sua 
eamara a dormir. E sabendo Cacbilalo isto foise á for- 
taleza com Cachil cabalou , & os outros deputados , pe* 
ra matarem Gonçalo pereira , & batendo á porta da for- 
taleza que e6t<7ua fechada, como estaua sempre a al)las 
horas, abrio ho porteiro conhecendo ser Cachilato , que 
por jr outras muytas vezes a este tempo falar a Gonçalo 
pereira , ho deixocr entrar : & ate ho page que lhe leua- 



96 BA HISTORIA BA ÍNDIA ' 

ua a espada , sem buscar se leuaua armas , nem a ne- 
iihll dos outros, taro em coslume os tinha. E Cachilata 
hia tani seguro, que nem mudou cor, nem fez nenhu 
geito, em que se enlendese ao !\ hia. E sobindo atehQ 
derradeiro sobrado da torre da menajem , onde pousaua 
el rey & seus hirmâos, achou Vicente dafonseca, qu9 
como disse auia dias que estaua preso, & anda.ua coia 
bfis grilhões: & porque Cachilato, & Cachil cabalou e* 
ráo seus amigos, & sabia a lingoa, assentaraiise sobr^ 
bii catle a faiar coele, dando a entender que esperauâQ 
por Goncjalo pereira pêra ihe falarem» E se ele então 
sajra sem duuida que a fortaleza fora tomada, & forâo 
mór(o2i todos os Portugueses^ Mas nosso senhor os quis 
guardar, pêra em aquelas partes se conuerterem talas 
almas á sua saneia (é^ como se d^^spois conuerterâo. Eí 
nesta conjunção hia pêra a cidade bu Portu2:ues chaman- 
do Manuel aluarez dalcunha ho saboeiro. E passando 
por jfito da mizqnita, vio a gente darmas que hi esta* 
ua: & como lhe pareceo cousa noua , fez volta. pêra a 
fortaleza. E receando os mouros () fossem desoubertos 
por ele sairão algús ao malar, & mataráno, & audàdp 
coele éa cutiladas vioos bQa escraua branca de Gonçalo 
pereira, que acertou de chegar a hfla janela da camará 
em que ele dormia a sesta, í\ eslaua daquela banda: & 
começou de bradar dizSdo ^ matauâo os mouros hii Por- 
tuguês. Ao t\ Gonçalo pereira acordou , & acodio \oso á 
janela bradado ^ acodissem ao Português, & tomado 
bua «idarga, & a espada abrio a porta da camará pêra 
sair fora, & vio estar á porta Cachilato & Cachil caba- 
lou, Sl os outros cÕ seus crises arrancados pêra ho feri- 
rem. E na casa mais afastados el rey: & seus birmâos 
4amb3 cõ armas , & logo arrancou da espada, & se pos 
á porta a defenderlhe a entrada muy esforça dam3l e , f| 
bo nào podiâo entrar: & mays nâo tendo cõ que ho pi- 
car de longe como ele fazia. E desfKijs cõtaua el Rey 
^ VicSte dafonseca que hi estaua aliçaua muyloos mou- 
ros que matassem Gonçalo pereira , & que nâo se cba- 



LIVRO VIII. CAMTVLO XXXIX. 97 

nasiétn hotnSs se sendo tantos não matassem hum s6^ 
& os mouros vendo que ho não podião entrar pola por* 
ta j entrarão hOs por cima do repartimento da camars 
que era baixo: & outros quehrauão ho repartimento 4{| 
era de canas coro barro por cima. E como erão tantos 
& Gonçalo pereira só não pode acodir a tantos lugares, 
íoy entrado & ferido na mão da espada, & de duas mor- 
taes feridas nos peytos com que cahio. E nisto a sua 
escrauH não fazia se não bradar : & a estes brados & á 
reuoita que os mouros fazião acodirão os criados de GÕ- 
i^alo pereira com suas armas , & hO deles que auia no- 
me Dinis daraujo que hia diSte deu com hiia chuça a 
Cachil cabalou que achou primeyro & passou ho dà ou- 
tra banda, & assi ferido ho ferio a ele, de manejra que 
cairão ambos mortos á porta da camará, & logo Bastião 
fernandez: & outros criados deGonçalo pereira que vi- 
nhâo a pos Dinis daraujo se meterão com os mouros as 
cutiladas: & isto tudo foy tão hreuemente feito que os 
mouros não teuerão tempo de fazerem ho sinal que auião 
de fazer aos da mezquita: pelo que eles não sairão, que 
foy causa dos mais qu« estauão na fortaleza serem mor- 
tos, & a reuoita era muy g:rande dStro, porque osmou-, 
ròs se defendião como homSs desesperados, & posto que 
nã tinhão se não crises dauão que fazer aos Portugue- 
ses. E então acodio Vicente dafonseca a hua janela que 
cahia pêra fora da forlaleza^acennndo com a mão, & bra- 
dando treição, & repicarão ho sino da vigia, a que lo- 
go acodio Luys dandrade que pousaua fora da fortaleza 
& coele forão dez homSs , todos com as armas que po- 
derão tomar, & batendo à porta da fortaleza, que ain- 
da estaua fechada lha foy abrir hfi leronimo Fernandez 
criado de Gonçalo pereira. E chegfarlo Luys dandrade 
onde era a peleja vio Cachilato cA hua espada nua na 
mão, assentado no catle com Vicente dafonseca, & os 
Portugueses pelejando com os mouros: a que Luys dan- 
drade remeteo com os que hião coele , & como eles vi- 
rão tantos sobre si desesperados de se poder6 defender 

LIVRO VIII. N 



98 0A HISTOBrIA DA ÍNDIA * 

liQs derio consigo polas janelas fora que cayãè sobre h# 
pátio da íbrlaleza, & fugirSo polo muro que ealauainuy^i- 
to baixo da banda do tnâr. Outroe {} nSo poderfto maia 
acolberãse á camará onde el rey já eslaua com seus jr- 
mâos 9 a Q logo se acolheo era os Portugueses começan* 
do dacodir, porque não cuydassem 1} sabia parte daque«> 
Ia treição. £ os que digo ^ entrarão na camará em que 
el rey eslaua fecharão a porta sobre si , que logo Luys 
dâdrade ^brou, Sc matou bo primeiro mouro que lhe sa^ 
bio ao encontro» E c5 ajuda de Gomes ayres, & outros 
muytos Q já erão chegados entrou coro os mouros & ca 
acabou de matar , salúo a el rey & três jrmSos seus , & 
Gachilalo pêra saber por eles como fora amortedeGon^ 
^lo pereyra , & os ter por arrefeSs , que por amor de* 
les não fizessem os mouros guerra á fortaleza : de que 
logo tomou as chaues Sl se onue por apossado dela, -por 
)be dizerem que quando Gonçalo pereira espirou pre«- 
f untou por ele: & disse 4 ^^ dissessem j| olhasse por 
ai^ttela fortaleza. 

C A P I T V L O XL- 

De como Ficente dafomeca foy Ituantado por capitão da 

fortaUza de Ternate. 

Segura a fortaleza dos mouros, Q andauão no derradei^ 
10) sobrada da torre da menajd, deceo Luys dandrade 
abaixo per& acodír á pouoa4;ao dos Portuguesea, a que 
oa mouros das ciladas punhão bo fogo, vendo que não 
poderão tom«r a fortaleza. Eno primeiro sobrado da tor- 
re achou Brás pereira, que hia acodir acima muyto de 
pressa, cuydftdo que hia a tempo. E luys dandrade Ibe 
diese que fossem: acodir abaixo, que tudo encima fica- 
na seguro. R Brás pereira respondeo ^ fosse ele , por^ 
que queria ficar na fortaleza como capitão que era. & 
Juuys dandrade lâçou mão dele^ dizSdo que esteuease 
preso. Mas logo se concertara que se louuassem & a 



LIVRO Vni. CAPtTVLO XL. 99 

iqual deles julgfiissem a capilanta , que a esse íicassè, & 
ilecerâto iogo abaixo. E como ja oe portugueses estauão 
á porta d» forlateaa , mandoa Luys dandrade acodir á 
pouuação, onde os mouros linhâo feita inuyta perda. 
Porem fbrSo todos deitados fora petos Portugueses, 8i 
algus íicaráo mortos. £ dei lados os mouros fora vígiat^i 
fansê toda a noite. E como Fernão lopez ho vigairo da 
fortaleza, & AfÕso pirez, Baltesar veloso, & Manuel 
|>into, & outros Imigos de Gõçalo pereira & de Lnyt 
•dandrade, & amigos de Vicente daionseca soubessem 
que ao outro dia se auia de determinar a deferSça qtim 
auia anire Brás pereira & Luys dãdrade qual seria ca» 
fMtáo: determinarão esles que nenbfl deles ho fosse, se 
nflo Vicente dafonseca, como tinhâo ordenado auia dias^ 
porque a estoutros dous queriSo lhe grade mal a hum 
por ser parente de Gonçalo pereira, a que ainda finbi 
mortal ódio pelos ter<^)8 do crauo que tomou pêra el Rey^ 
& polo regimento que mandaua goardar, &ao outro por 
ser seu amigo & quebrar os achens, & por se doer moy«> 
to do seruiço dei Rey. Etinbão por certo que qualquet 
deles auia de leuar ho estilo de Gonçalo pereira. Emais 
auiSo de tirar deuassa de sua morte , o que lhes seria 
muyto perjudicial por eles darem motiuo aos mourot 
pêra ho matarem. & principalmente VicSte dafonseca., 
de que el rey Cachil dayalo dezia , que se ele não fora 
que atiçaua os mouros i\ matassem Gonçalo pereira, que 
nunca ho matarão. E por isto , & porfi sabrâo Q auifio 
de ter Vicente Dafonseca de sua roâo, & não os outros^ 
ffiào qoerião que nenhll deles fosse capitAo se nflo ele. 
£ toda a noite negociarS como ho fosse, principalmSte 
ho vigairo Fernã lopez , que por sacerdote & religioso 
ho podia fazer mais sem vergonha. Porque como era pa« 
dre spiritual de todos , cuydauflo que o !\ ele dizia era 
verdade & àquilo se deuia fazer. Elogo ao outro dia, j} 
forão dezoito deMayo, dia do Spirito sancto, de M-D. xxxj. 
se ajtitarâo todos i porta da fortaleza da bida de forat 
& Brás pereira capitão mór do mAr, & Luys dfldrade 

N 2 



100 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

feytor & alcaide mor, estando prese&tea Ayres bolelbo 
&Grauiel da costa escriuSes da feiloria, derâo as carias 
de seus oíBcíos a Pêro de moura ouuidor da fortaleza, 
pêra ^ determinasse com os que ali estaufl de qual de- 
les era a capitania. £ despois de debatido por ambos, 
acordouse ^ eles jurassem solenemente de cada hú de- 
les estar polo que se achasse por direyto & por regimfi- 
to dei Rey de Portugal , & o que ticasse sem a capita- 
nia obedecesse ao outro, tam integramente como se fo- 
ra prouido por el Rey , ou pulo seu gouernador da liir 
dia. £e8te juramêto lhes foy dado sobre hua pedra dará 
á -porta da igreja polo vigairo do que Còy feito htl auto 
por Ayres botelho escriuão da feitoria, que per ser a^ 
migo de Vicente dafonseca, & saber a ma<;ada que os 
de sua parte tixihã feyta, pêra que teuesse credito, ar 
crecentou mais nas palauras do juramento que escreueo^ 
que cadahii deles obedeceria por capitão a outra qvalQr 
pessoa que ibsse eolegida por capitão: o que Brás pe^ 
reira assinou sem ho lér. Mas Luys dandrade nâo quis 
assinar sem ho lér primeiro* £ quando vio o que Ayres 
botellio.acrecentou não- quis assinar, porque cõ ninguS 
linha duuida, senão com Brás pereira : &com os outros 
claro estaua que a nioguè pertencia a capitania senão a 
ele ^ era alcaide mor da fortaleza. B pedindo a pena 
escreueo por sua mão, que nSo consintia em ser outro 
Benhíí elegido por capitão, senão ele ou Brás pereira 
que contendia coele: & isto assifiou* Feyto este auto 
meleose ho ouuidor na fortaleza com os outros todos, & 
fechando as portas sobre si, pêra lá determinarem se era 
a capitania de Luys dãdrade, ou de Brás pereira Q ficar 
rã de fora. C metidos dentro começa ho vigairo dSbu^ 
rulhar tudo, dizendo a todos !} vissem bem o que fa- 
zião, & não dessem suas vozes a Luys dandrade pêra 
ser capitão, porque era de condição muyí^o forte, &imi- 
go dos homSs, & que nâo queria ho proueito de ninguS 
se não ho seu, E (} Vicête dafonseea era muito bõ ho- 
me, & amigo de todos, & ^ todos ho eoaheciâo de mui- 



LIVRO VIII. CAPlTVf.0 XL. 101 

'to tempo: & que lhes deixaria fazer seu próueito & os 
teria em paz. Ê fez de maneira que aueadose de votaf 
ou por Luys dandrade, ou Braa pereira, melerão em 
lugar de Brás pereira Vicente dàfonseca. Ehíis votarão 
por ele, & outros por Lujs dandrade: sem aproueilar 
ao ouuidor dizer que não auia aquilo de ser as8Í feito. 
£ vendo ho vigairo ^ por Vicente dafunseca nào vuia- 
uâo se não os de sua parcialidade, temeose que acaban- 
do todos de votar Luys dandrade teuesse mays vot^s ^ 
Vicente dafonseca,' não quis esperar ate bo cabo: & 
coesses ^ tinha, abrirão a porta da fortaleza cõ grande 
arro^^do de trõbetas: & de vozes com que diziào viua 
?iya ho capitão Vicente dafonseca: & os que ainda não 
tiohao votado , sairão devolta coetes, dando também as 
mesmas vozes, sem aproueytar ao ouuidor dizer ^ aqui- 
Jo não valia nada : & iio mesmo dizia a Luys dandrade, 
& brada ua que Ibe não roubassem sua ju8ti(;a: E que 
não podião enleger por capitão se não a ele que era al- 
caide mór, & el Rey Ibe daua a capitania per morte do 
capitão, em quàto não prouesse doutro. £ sabendo isto 
Gonçalo pereyra ibe entregara a fortaleza quando mor- 
rera: & que ele logo não consentia ^ enlegessem por 
capitão se não a ele ou a Brás pereira, & auia por ne- 
nbua a eleicjào Q era feita, pedindo ao ouuidor ^ de tu- 
do lhe desse hum estormenlo pêra ho gouernador da Ili- 
dia, requerendolhe que prendesse Vicente dafonseca i| 
não podia ser capitão porque matara Gonçalo pereyra: 
mas tudo isto não aproueytaua, porque Vicente dafon- 
seca tinha latos por si {} ho ouuidor não se atreuia coe^ 
le. E assi ficou Luys dandrade sem remédio, & Brás 
pereyra tàbem que de ver tão mal encaminhado ho fey- 
to de Luys dandrade nào falaua no seu. E Vicente da- 
fonseca se foy a comer leuando condigo quasi ^da a 
gente a ij deu de comer, & ainda quSdo jantauâo, des- 
poys de bem quentes do vinho muytos derão seus votos 
a Vicête dafonseca pêra ser capitão. £ com tudo ainda 
Luys dandrade tinha quasi tantos votos eomo ele. £ a- 



lOS BA BTTSTORIA ML IMffA 

cabando ele de comer {ledio aLuys dandrade aa chaiíea 
da fortaleza pêra íicar de iodo capitão, & não Ihaa Qrenh 
do dar n6 obedecelo por ça|>itâo^ mãdou Vicente dafon- 
aeca ao ouuidor (| lhe tomaase aa cbauea , & ele respon» 
deo que ho não auia de faier por^ Lujs dandrade era 
capitão por dereyto^ & ele bo amoalraria por regimento 
delUey^ re^rendo que lhe deaae bum estormento do ([ 
dizia pêra ^ el Rey de Portugal soubesse que náo tinha 
culpa Qo que aly patsaua^ & que não podia fazer inays 
do que fazia. E Vicente dafonseca fazendo ^ não aten* 
taua no que bo ouuidor dizia, mãdou a Grauiei da co»- 
la que tomasse as chaues a Luys dandrade, ^ tão pou^- 
CO ho quis fazer, Bem menos bulião consigo nhQ da par- 
cialidade de Vicente dafonseca , porque, rnuytos se co- 
meçauão darrepender do que tinhão feyto. O 2| enleiíu 
dendo Fernão lopez ho vigairo, porj} não se trast4>rnas^ 
ae ho que tinha feyto^ remeteoa tomar aschaues a Luys 
dâdrade. E logo acodirão ao ajudar Ayres botelbo escri^ 
•uã da feyloria & hu Pêro lorge» & por força Ibe («^mi^ 
rão as chaues bradando ele, que lhe roubauão sua justi» 
4^ , mas como ela ali não era se não de quê mais podia 
ficou sem ela, |K>r2) podia pouco, que ate ho ouuidor nl 
ousaua de boltr consigo cõ medo de ho matarem Ião da* 
nados via andar os da liga de Vicente dafonseca : ^ co** 
BIO desejaua a morte de GÕqab pereira : & a precurou , 
j& foy causa dela nQca fez sobrela nhQa diligencia. E 
dissimulou coela como bomS i} folgaua. B b6 pareceo 
aer assi, por^ tendo preso Cachilato que fora ho prin* 
cipal menistro da^la morte, ho 1\ ele vio por seus olhos, 
nunca lhe deu nbil castigo: nS pêra mostrar que !}ria 
castigar tão brauo crime como at\\e bo quis meter a tor^ 
mSto pêra lhe fuier cdfessar como aquela morte fora 
ordenada. 



LITRO Vlir. CJtFlTVLD ICLI. 103 

C A P I T V L O XLI. 

Do §fez Vkêu dafmseca despoge de ser capitão. 

J^abido pola Rajnba Q sua treyção nfio ouuera efejto, 
ainda ^ lhe disso pesou iBujto, cõsolouse sabêdo ^ WU 
c£le dafonseca ficaua fx>r capilio , por^ este lhe daria 
logo el Rey eeu íilho^ como Jhe tinha prometido Afonso 
pires. £ peni estar niaso roays segura mâdou logoreca-* 
do ás ilhas de Moutel & Maqui6, \ lhe predessC os Por<* 
tugueses ^ lá esteuessem. E quando chegou seu recado 
se sabia ja a aK>rte de Gonijalo pereyra : pelo ^ os inou* 
ros se ieuantarão oontra os Portugueses ^ iá andauâo fa^ 
28do crano , & roatarfto logo Pêro fernftdeas , aquele Q 
Tntou cÕ toucinho ho rosto a Cacbil vaidua, & outros 
algas : & despoys de chegar ho recado da Raynha não 
Diatarflo roays, & prenderão os outros, & presos lhos 
leoarão : & despoya de os ler , mandou dizer faâ deles a 
VícSte dafonseca que folgaua muyto de ele ser capitfi 
da^Ia fortaleza , por saber ^ era seu amigo & dos mou- 
ros, & ela & eles ho conhecerfi de muyto tempo: que- 
lhe Ifibrasse o Q lhe Afonso pirez prometera fi seu no- 
me, que se ele fosse capitão (} logo lhe entregaria el 
Rey seu iilho: pedindolhe muyto que poys ho era ^ lho 
entregasse: &que ele lhe seria por isso em muita ubri- 
gaçSo & lhe faria todas as amizades Q podesse. Vicêie 
dafSseca se cõselhou cÕ Afõso pirez sobre ho que res^ 
ponderia a este recado : & como ele perdera setSta ba- 
res de crauo ^ lhe arderão , & mais hfi dos Portugueses- 
Q estauão em poder da Raynha era seu filho, cõselhou- 
Ihe j) respondesse á raynha que lhe desse ela primeyro 
os Portugueses que lá linha, & que pagasse aos outros 
a perda 4 receberão dos mourea quando foy a morte de 
Gonçalo pereyra, & ^ ele lhe daria el Rey. E como a 
Raynha tinha por muyto certo darlhe^^VicSte dafonseca 
seu filho tanto que fosse eapitfio j & aa^ta reposta ho a- 



104 BA HISTORIA DA ffNJMA 

chasse (áo dcsuiado disso^ pareceolhe {) se queria escu* 
sar de lho não dar« Epera o mouer a ^ lho desse soltou 
a Francisco pírez íilho de Afonso pirez, & mandoulhe (| 
se fosse pêra a fortaleza^ & rogouihe l\ disesse a Vicêle 
dafonsecci, que doutra maneyra esperaua ela l\ eleconi'- 
prjsse sua palaura. £ l\ mais conla fizera de eua amiza- 
de do q acbauà que diuera de fazer, & l\ roais cõiiara 
nele do í| ele coníiaua dela: por^ ainda que lhe dera seu 
filho sem abua condiga, que eia fizera despoys quaoio 
ele mandara, & que bem ho sabia ele^: por isso ^ erâo 
escusadas cõdi^Ses pêra lhe dar seu filho, quSlo mais 
Q ainda {| lho dera liuremente, lá lhe ficauão em arre-^ 
fôs ires birmãos seus , & Cachilato guuernador do Rey-* 
no, & pessoa muy principal nele, que valiào mays que 
quanlas perdas os Portugueses podiâo ter recebido: & 
porem ([ lhe parecia ^ todo o que dizia era por escusar 
de lhe dar seu filho, que se lho na quisesse dar., que 
nSo lhe mandasse mays nhíi recado. E porque sabia que 
el Rey de Bachâo esiaua na fortaleza mandoulhe pedir 
^ rogass^a Vicète dafõseca que lhe desse seu filho. E 
eslé rey de Bacbáo como era muyto leal amiij^o dei Rey 
de Portugal , na ora que soube a morte de Gonçalo pe- 
reyra, acodío cÕ sua gente á fortaleza pêra valer aos 
Portugueses se teuessem disso necessidade, que fica- 
rão muyto ledos coeie. E VicSte dafonseca por mays 
azedume que bo recado da Raynha trazia no cabo não 
lhe quis mandar seu filho, f)or^ não falaua em cõprir as 
cddiçÕes com que lho ele queria dar, nê lhe quis man- 
dar recado, porQ a Raynha dizia ^ lho não mandasse 
sem seu filho. E vendo a raynha ^ lho não mandaua, 
por fazer mal a Vicente daf(»nseca & aos Portugueses 
foyse da cidade cõ os Mandaris: & mandou i) não se 
vendessem nhQs mâtimentos: & mandouse queyxar de 
VicSle dafonseca a el rey de Tidore seu sobrinho, de 
lhe não querer dar seu filho coroo lhe tinha prometido, 
& como sabia ^ lho prometera Gonçalo pereyra: rogan- 
dolhe que lhe empecesse em tudo ho i) podesse. E nisto 



LiTmovin. CATmisO xli. ^ 106 

chegou aTernate bo nauío ê que foraBanibal «erDÍje a 
Banda: & hia por capitão dele hii DídIs de payua, por 
Hanibal cernije não querer tornar a Maluco & se yr pe- 
fa Malaca. G como Vicfite dafòseca estaua necessitado 
de gfite, munições de guerra, & de manlimêtos, de* 
terminou de mãdar logo este nauio pda via de Borneo 
A pedir ao capitão de Malaca estas cousas & deu a ca« 

Í^ilania dele a hH Manuel das naues criado dei rey dft 
oão de Portugai por ler bii aluara seu pêra lhe darê a 
capitania de hfl nauio: &despoj8 de lha ter dada a deu 
a Brás pereyra que lha pedio por ser capitão mór domar, 
& tambê lha urou , & a deu a Luys dãdrade, ^ agastan- 
do da sem justiça () lhe fora feyta se /iria jr pêra a ín- 
dia, & por. isso pedio a^la yda, & VicSte da fonseca 
lha deu cd cÕsetho de seus amigos, por recearêque taiH 
to l\ os outros nauius 2} esperauão de Banda chegassem^ 
aueria amotinação na gele & fariSo capítAo Luys dan* 
dradf* , segíkdo tinhão entendido, E partido Luys daa* 
drade hia tam triste pelo {} lhe fez Vicente dafonseca, 
^ htl dia esteue pêra se deytar no mar se bo não teue« 
rão, & desfioys bo ouuerão de matar è hQa ilba, & tam* 
t6 em Borneo sobre buas deferençaa ^ teue c5 a gSte 
do nauio, & dali foy ter a Malaca, & deu cota aOar^ 
cia de sa do !) era feyto: pelo^ ele não quis mandar 
socorro a Vicgte dafonseca Q ociue por tredoro. E dali 
ae foy Luys dandrade á Ifidia , & -contou a Nuno da 
cunha a morte de Gõçalo pereyra, & bo i) lb<» fizera Vi- 
cSte dafonseca , aqueixãdose dele , mas não se fez so- 
brisso nada , nfi Vicente dafonseca foy castigado^ 



UTRO vin. 



lOC Há HfiTOMA JOA inmà 

C A P I T V L O XLIL 

• De como Vidte da forneça solum el rey de Temate^ 

K^om a yda da raynha da cidade , & não ae veoderS 
M maotiinSloa, ficarão os Portugueses ê graode ueces^ 
aidade, do Q Vicête daíSseca lieou inuyio agastado te 
•em esperança de remédio^ por(| algft qu^e eap^^raua^ 
era em hft juogo ^ aabta ^ auia tle vir de Banda cdrou* 
pa & mantimetoa, em que vinha por capitão tiu Fràcis*' 
CO de sá: que sabendo como Gõçalo pereyra era morto 
& da maneira ^ Ibra, pareceolhe que Vicente dafooseca 
eataua leuantaclo^ &não quis jr á ibrtaleza temendo que 
Une tomasse ho jugo & quanto leuaua, & por isso se íoj 
a Tidore peca vfider a fasêda ^ leuana, & fazer seu 
emprego. £ surto no porto de Tidore^ el Rey por rogo 
da Rayoba deTernate ho prSdeo, & aquãtos Portugue-» 
808 yão coeie, & lhe toonou- quailti faaend» leuaua: & 
mandado desenxaroear ho jQgo ho mâdou meter no fun- 
do, & isto cõ fudamôlo ^ poc esta ppesa, & poios Por- 
tugueses ^ a Rayaha dre Teroate tiaha^ llie daria Vic6* 
te dafionaeca el Rey aeu fiibo, & assi lho mandou diaei 
a raynha. K paiecCdolhe a ele ^ aquilo era fero , fea« 
Bke outro mayor & mandou logo perante ho n^essageiro 
prender el rey de Teraate & metek). A hii sotao, & asat 
seusjnttãoa^ fc prendao em ferros es filltes fke Mand»* 
fine <| estauào cóclea & as molheres Q ho seruiao , di- 
zendoíbe que diasesfie a Raynha que ae eJ cey de Tido* 
re lhe não mandasse logo ho jugo, que seu filho & os 
outros ho pagaria. E ho jungo não foy resliluydo, nao 
soube porque causa: & a-Raynba mãdou pedir a ei Rey 
de Geylolo, íj não desse mantimentos a Vicente dafon- 
seca ate lhe não dar seu filho poys lho (inha prometido, 
& que trabalhasse pok) cõcertar coele, que ela faria o ^ 
Jhe bem |>()recesse, porque não queria guerra com os 
Portugueses , se não auer seu filho & casalo pêra ter 



Lnuo vin. OAVftvu) xlii. 107 

ketétffo^ c que nSo podia ser estando preto. E estan- 
do eete einbayxador da Rajrnha em Ge3riolo , chegou 
Brás pereyra em hAa galeota^ J) apertado Vicête dafon* 
aeca da necessidade doa mflttmfitos midaua por ele po- 
dir a el Rej ^ '^^^ midaese vêder ofirecfidoihe por isso 
amizade & ajuda cõtra seus iminígos, Sc escreuia a Fe&> 
aâo deJa torre a necessidade A que estaua: pedíndoiha 
•polo amor de Deos <| bo ajudasse cA el Rey , pêra que 
»e mandasse vender os mantimentos. E oauidas por el 
rey abas as embayxadas c5 conselho de Cacbii calabra«- 
no, & de Fernão deia Corre & doutros Castelhanos, re^ 
pondeo á Raynha q faria cõ Vicfite dafonseca Q lhe des- 
se seu filho ^ cÔ tanto 2) iizesse ho Q lhe fiedia, & man- 
dou mantimenfosa Víc6te dafonseca, &pedindoibe muy* 
to <f desse el Rey de Ternate a sua máy , & que ela se 
obricraua a pagarlhe todas as perdas 1) os Portugueses 
receberSo quando matarão Gonçale pereyra, & lhe da- 
Tia os Portugueses que tinha caftnos te ho jungo ^ es* 
taua em Tidore, d<a^ el Rey deGeylolo í8l Fernão dela 
torre ficau^ por fiadores , & querendo fazer aquilo po>r 
amor deles, lhe seriSo sempre esfi grande obrigai^. B 
iristo por Vicfite dafonseca a necessidade grandissima ^ 
tinha de mantimentos, & que os não podia auer foj c5» 
tente com conselho dos Portugneses de fazer o que lhe 
el Rey de Geylolo & Fernão dela torre rogaiião, cd tan^» 
(o <{ lhe auifto de dar arrefSs ate a Raynha cãprir hoque 
dizia , & assi lho mãdou dizer per Brás pereyra , que 
fcy em hila Galeota Q el rey de Gey loto lhe mandou car« 
regar de mantimentos, & lhe deu fi arrefiBs quatro Man* 
darins dos principais de Ternate, 1\ lhe a Raynha man^ 
dou pêra isso, & assi lhe mandou muytos barcos carre^ 
gados de mantimentos. £ el Rey^ de Tidore como isto 
soube soltou logo Francisco de sá & os outros pêra os 
mfldar , Sc eles não esperarão por isso & fugirão , & et 
rey lhes mandou bo seu faio. E despoys disto se aju»» 
lario na vila de Limatao fiide a raynha estaua, Fernão 
dela ton*e, & bo goucrnador de Geylolo t & bi foy ler 

o 2 



108 '• • m HIBfOUA BA . INDU * 

•coeles Ticente dafonseea , leu&do el rey Cachii .átífõXo\ 
^ entregou a sua mfty despoís de jurarê que cempriríá 
e Q estaua assentado. £ logo os Portugueses forão. ea« 
tregues a Vicente dafonseca^ & polas perda» recebidaa 
•ficarfto os arrefôs que disse ate serem pagas. Eassi fojr 
aoitO' el rey de Ternate cò- grade festa, ficSdo muylo 
«migo de VicSie dafonseca, & dos outros Portuguesesi, 
a ^ pagarão logo a» perdas Q receberão quâdo ma(arSo 
Gonçalo pereyra. E desta maneyra ticou Vicente dafuni- 
aeca em paz cÕ os roouf os, & a terra ficou outra vez as^ 
sètada como a tinha Gonçalo pereyra». 

C A P I T V L O XLHL 

De como ho gouemador começou a fortaleza de Chalé,. 

V endo ho gouemador Q nSo poderá tomar Diu, deterá 
minou de emendar este auesso cõ fazer hiia furialt- za S 
Chalé duas legoas deCalicut, ^ t9(iia rio tào alcâtilado^ 
eomo disse no liuro Sexto, (} podiào entrar nele carauef 
las & galés , & auêdo ali fortaleza podia inuernar a nos^ 
sa armada, & andar pola costa ale IMayo: & sairia lo* 
go na enirada de Selfibro, no Q se daria muyto estorno 
ás nãos dos mouros yrem cõ pimêla a IMeca, & nã se 
ordenaria eousa algfia contra os Portuguesea Q se logo 
não soubesse em CbaJe, & ceesta fortaleza ficauâo os 
mouros de Calicut muylo enfreados, & não podiSo na^ 
uegar como dantes. £ vendo ho gouernadòc quãto isto 
iinportaua ao* serniço dei rey seu senhor , negoceou em 
todo aquele inuerno que leue em Goa , que se ouuesse 
cõsentiiiiêío dei Rey de Chalé pêra se fazer esta forta* 
leza , & por^ d^.todo não se pode acabar este negocio, 
eomo foy na enirada do. ?«rão que ho tempo deu jazigo, 
despedio Manuel de sousa com bQa armada peva a costa 
do Malabar , ca bua iiislruçâo do Q auia de fazc^r no ne- 
gocio da. fortaleza , & {)• comprasse ho chão a dinht*yro, 
i|uàdo não pudesse ser doutra maneyra. Evgdose eíecd 



Linto viir. CAPiTVLO xtiii. -lõô 

9el réy deGhaie, promeleòihe ipil párdaus douro porcon^ 
•eniir i| se fiaesse a fertaiezsf ê sua terra , & mais {| bo 
gouernador ho faoorecería cooira «1 rey de Calicul' se 
}he quisesse faxer guerra» £ ei rey aee^íou os mil par- 
daos^ dizendo que os tomaua pêra pagar os pahiiaFes 1[ 
estauâo no lugar em j} se auia de íazer a fortaleza. O ^ 
logo Manuel de sousa escreueo ao gouernador, que se 
fez prestes pêra partir, & andando nisso chegarão a 
<}r.oa duas nãos de Portugal^ ciijos capitftes eràohúMá- 
Duel de brito , & hu IManuel botélbo , (} hiào dirigidos 

Eira yrS á China: & estes disserào que partira tàbê ho 
outurPero vaz corregedor da corte por capitão' de buA 
nao (| ieuaua ho officio de vedor da fazêda dtí Índia, pe«- 
r6 ele não passou & tornou a Portugal. E >&do'b<; go*- 
uernador ^.nâo yão ways nãos, nào quis ^ fosse a^lasá 
China ^ & mandou as carregadas pêra pòrtugal , & per- 
derãose no caminho. E prestes- bo gouernador de 'sua 
partida, partiose pêra Chalé leuàdo consigo parte da ap- 
mada de remo, fuisaaCochim^ a dar auianiento ás naus 
^ auião de partir perá Portugal : & da volta l\ tornou se 
ajQtou cÕ Manuel de sousa S ianeiro de M. I>. & xxxij. 
£ viose CÕ el rey de Chalé , a qu6 deu òs Hiii pardaoã 
por cdsentif Q se ãaesse a fortaleza como estaua cõòèr- 
tado. E furão kigo cortadas hfias mil palmeiras () ocu- 
pauào.bo cliSo onde a fertaleaa auia de ser edificada : & 
feylas alguas estàcias dartelharia <} defendesse os Por- 
tuguesas se el rey de Caliout viesse c& sua gele (por se 
} presumir q^acodiria} ferSu- abertos* os aiicesses da forta- 
eza CÕ grande festa de todos & tãger das trdbètas & 
charamelas, & desparar de Ioda a artelbarià. E abertos 
os aiicesses ha geuernador assentou a primeira pedra 
vesúdo nii fieiute de velud<>& muito louçào. & António 
de Saldanha a segQdai & dabi piT diàte os outros fidal- 
gas í|. erào muitos repartidas por quartos que todos tra* 
balhaiiA com a outra gente como quaes quer polà' anima- 
ram ao trabalho^ & erâo sempre os primeiros (\ traba- 
Ihauào. E eirey deCbate ajudaua tab^ cÔ aua genie# Ê 



tio fl^ mtÊWomk Bâ ffiMâ 

ho goiíeniAídor maadou primeírânète fasBr 8 redddo m 
miifo9 dã fortaleza era ^ se poa tanta dilsgècia 4 em Kvj. 
4íaa fiirâo em altura 4 ^^ aaaStoa a primeira andayna 
ilartelharía noa baluartes. B cft quâio foy fama ^ el rej 
de Calicut aula de yr eatoruar esta obra aftca ouaoii. 

C A P I T V L O XUIIÍ. 

■ 

De oame ho eepitSo mâr Diogo 4a tihuyra dettruyo ké 

iugar de Tmuu 

^abftdo ho XeQ de Tana (que Eytor da silueyra fiaera 
tributário a el rey de Portuf^al ) que ho gouernador nãa 
poderá toiaar Diu & <| Melí^ toeã fazia forte Ba<^im, 
dSo quíi pagar as páreas a Diogo da silueyra quitdolhas 
jnãdou pedir ; & cd quàto despois disso Ko mSdnu nitiea- 
4^r i| Ibe faria guerra, toda via não quis, parecSdolhe 
4 tinha cosias no sooorro l\ lhe podia yr de Baçaim da 
muyla gSle Q hi tinha MeliQ toeáo. E; tendo Diogo da 
ailueyra regimSto do gouernador (| na entrada do verão 
fosse fazer guerra a Câbaya, quis logo começar STana^ 
pêra õde partio no começo Doutubro de trinta & bil c6 
hQa armada de nauios de remo, em que leuaua trezen* 
tos bomês de peleja, os mays deles espinsfardeyros, & 
ficou por capitão da fortaleza o sen alcaide mór. B dt 
caminho fez muyto grande desiruyçSo pola costa, qtiey* 
«lãdo lugares , catiuãdo & matando gente , & cortando 
palmares & ortas. B chegado a barra de Tanii, mandou 
sondar ho rio & espiala, & soube t\ estaua muyto forte 
por ter diãte bâa tranqueyra entulhada & bS artilhada 
& ter muyto mao desèbaffcadoyro , por ser ho rio baixo 
& durar a maré poiico , & aiitáo de jr hQ pedaço poia 
vasa priífteyro ^ desembarcassS , & cd tudo isto deter«> 
minou de desembarcar, te aasi ho assStou c5 seus capi* 
tâes (} ho mesmo esforço ^ eie tinha, tinbSo pêra come^ 
ter 06 mouros {| cometerá ao outro dia cA a maré de po« 
la Oi^iibaâ, indo soa catures peca ^ pod^^sS melhor mh 



uvmo wii* CAPiTTLO xuniu lil 

dar. O Xeque que sentio (} biâ, os foy esperar na trã- 
queira cõ Ioda sua gSte de peleja j {[ eráo quatro mil 
de pé, em que auia muylos frecheiros, &quinbSto8de 
GBiiak>: & como os Portugueses forào a tiro de berço dá 
tranqueira começou de jugar a sua artelharia, lançado 
grade soma de pelouros, & os Portugueses passauão por 
aotreles muy sem medo, &querêdo nosso sellor que liies 
Bfto empecessem chegará ate onde os calures não pode- 
rão passar, & ali saltarão na vasa, por onde forâo cA 
uuy to |)erigo & trabalho a/errar cõ a trâqueira & acba^ 
râo algfia defensa nos imigos, de Q os traseyros sem Te-« 
té por^ , começarão de se retirar pêra a cidade , & tãa 
rijo como que fossem os nofisos a pos eles, & sentindo 
isto os diàteyros ^ pelejauãó cõ muyto esforço, cuyda"* 
rão c} era aquilo algõa cilada Q os Portugueses deytárfto, 
& ^ os tomauâo no meo, de ^ ouuerão tamanbo medo, 
d se poserâo em desbarato & fugirão por mays Q Ibebo 
XeQ bradaua que bo não fizessem. E afroxada a defen^ 
ta da traoqueyra, sobiráo logo os Portugueses poias lã-^ 
%àty outros por Õde podião, &dào a pos os imigos ^ nê 
Da cidade se alreuer&o a saluar , & fugirão ficado muy- 
ioa mortos & calinos ^ & dos nossos não morreo nhfl : & 
despejado ho lugav fuy roubado fc Qymado. E dado Dio- 
f o da silueyra muy^taa graças á nosso sAor pola mercê ^ 
Hie fizera tornouse a embaccar , & embarcado acabou a 
agoa de vazar & os catuies- ficara e» seco, o ^ deu as- 
saz de fadiga, porque a gSte da cidade que eslaua re- 
colhida by perto forâo sobreles, sabSdo coaio estau&o & 
leiíarào algia ber^s c& Q Ibea ticaoSo & cÕ muytas fre^ 
ciladas : & nesle trabalho esieuerio ate 4 tornou a ma^ 
ré, & sem receberè nbíi dano,, anle» os imigos muito 
da nossa artelharia , se Uaào poio rie abeiao aie ^ sair- 
lãot ae mar. 



tât t>A HIflTOfttA DA CNMA 

C A P I T V L O XLV* 



De como o capUâo mór Diogo da silueyra dest$tafo 

ladt Bondava. 

J^aquí partío Diogo da «ilueyra pêra outra vila tnaii 
auãte cliaiBada Bandora, que soube -^ Meii^Tocá sfior 
dela linha muyto fortalecida gÕ hua traii{|yra da Bãda 
do rio 9 & outra (J nacta de bOa põta da^Ia & se eaten* 
dia pêra o «ertão, ambas de duas faces, & entulbadaS| 
& assentada nelas muita artelharía, & auia cinco milho* 
in6s de pè, de J} muitos erã Rumes & oyto oStos deca^» 
uaio. B.estaua este lugar metido, por hQ rio acima. E 
chegado Diogo da silueyra á barra pos em pratica aseua 
capitães & aos prlncipaes da frota se daria naquele 'lu* 
gar, dizendoliie sua fortaleza & a gente que tinhai & 
todos acordarão que se cometesse, porQ quasi tão forte 
estaua Taná & ajudaraos nosso senhor, & assi auerta 
por seu serui(jo de o fazer entã. Ecoisto entrarão todos 
polo rio dentro bSa 4iienhaã, & sabendo os mouros co- 
mo entrauão quiserão Iho^effMider cÔ a arteJbaria, que 
de hiia das tranqueiras varejaua bem pelo rio abayxo, 
& erão os pelouros tão bastos, que fizerão fazer tanta 
detença aos nossos que quando chegarão perto do lugar 
era noy te , & por isso não quis Diogo da silueira 1\ de- 
sembarcasse, & chegouse da banda dalém do rio pêra 
passar ali a noy4e, que toda se gastou em bombardadas 
^ se tirarão hi&s aos outros a montão sem se fazer ne- 
nh& nojo: & como foy menhaã os mouros acodirã logo 
á praya a esperar os Por-tug ueses como ^ auiâo por inju- 
ria esperalos detrás. das tra^iqueiras. Diogo da sílueyra 
porque a gente não auia de poder desembarcar se nam 
nos catures & bateis mandouha passar a eles, & parlem 
pêra terra a boga arrãcada passandolhes por cima muy- 
tos pelouros dos imigos: & quando abordarão com terra 
acharâna cuberta de mouros ^ & diante os Rumes por 



LwiBLO vnr. cAPrrvLô xlv. 113 

najs eaforçados , de Q os mais erSo espfíngardekos , Q 
defi^pararão hOa grade tjurriada despi ngardadas, & os 
nossos a eles, & ê quãto ela desparoQ saltarão algflsna- 
goa, & assi Diogo da silueyra cÕ a foandeyra, pelejando 
todos CÕ muyto esforço, por{{ os itnigos apertauão quã- 
to podião por lhes estoruar !\ não tomassem terra , bo ^ 
nâ poderão fazer, principalmente os Rumes Q mais tra- 
balharão nisso, ale perderS muitos as vidas ho {[ vedo 
os outros se retirarão, cõ l\ osGuzarates Q tinhão neles 
seu esfi>rço ouuerão tamanho medo () se desbaratarão & 
fugirão, hiis ao lÕgo das tranijyras , outros poias portas 
delas caminho do lugar, & sem se deter nele se acolhe- 
ra: & os nosi^os os fura matado ate despejarS o lugar: 
& durou a peleja hõa grade ora, 6 Q muytos dos imigos 
forão caliuos, mortos, & feridos , & dos nossos feridos 
aigâs. E sacado ho lugar foy todo queymado & destrni- 
do á vista dos mouros que estauão recolhidos by perto : 
& parecia () nosso sefior lhes punha medo dos nossos Q 
não ousauão de os cometer vgdose vencidos en tão pouco 
tSpo. Epor 08 nossos estarS muyto casados & fracos nã 
quis Diogo da silueyra mandar Sbarcar a artelbaría Q 
estaua nas tranqueyras , & cÕtStouse cõ destruyr ho lu- 
gar , j| foy assaz de perda perá os mouros |K)r ser de 
grande trato: & dali se foy pola costa de Cambaya |>or 
Òde âdou toda a parte Q ficaua do verão cÕ sua armada 
repartida S esquoadrões de três & quatro velas , oõ ^ 
lhe não escapou nh& dos nauios !{ hiâ de hias lugares da 
costa pêra outros cÕ suas mercaderias, de ^ tomou muy- 
tos , & outros !}ymou & meteo no fúdo. R tamanha era 
a destruyção ^ fazia í\ não ousauã nenhus de sayr dos 
portos, o !\ foy causa deste anno auer muyta quebra na 
rSda dalfàdega de Diu db {} rSdia os outros annos, & 
ouue muyto grade falta de mantimStos, & de todas as 
cousas (| hião da outra costa da Sseada. E não sòmSte 
fez Diogo da silueíra esta destruição no mar, mas tam- 
b6 na terra, em íj queymou muytns pouoações, & na- 
uios ^ estauão varados, ê^ caliuou obra de quatro mil 

LIVRO VIII. p 



114 PA HiaTOAIA DA fNDIA | 

aimas & lomou muyta mercadoria, maatiinètoil , & 
áejra. E de tudo isto ouue el Rey de Portugal aua par- 
te , por(| Diogo da silueyra foy fao primeyro (| cÕ apra^ 
zimSto dos soldados í\ ieuaua, tirou o custume ^ aiiim 
dates Q el rey nã ouuesse parle nas presas ^ se fasião 
eõ os nauios de remo , & eiilã as ouue , em Ç sua fasfi* 
da recebeo muy to proueyto » porj| do dinbeyro Q Ibm 
coube á sua parle pagou quasi todo ho soldo Q ae deuia 
aos seus soldados & dos caliuos {[ tomou se esquipou a 
mayor parle dos oauioB de remo da armada dalndía, & 
ouue muyta roupa pêra ho trato de Chaul pêra çofala , 
& muyta madeyra, & mantiroeDlos. £ quasi na fim <k> 
verão se tornou a Chaul onde auia de ter ho inuerno, 
ficado os mouros tâo daneficados, Q muy to mays hosen* 
tirS do que poderão sentir darse fortaleza em Diu : &de 
Chaul mãdou Diogo da silueyra ao goueraador Q fasia a 
£>rtaleaa em Chalé cêto & vinte caiiuos pêra trabalharem 
irela» 

C A P I T V L O XLVL 

De <mn9 se kuantau Damião bernaidez ^ do ^fez» 



Q 



uando ho gouernador tornou de Diu pêra Goa , deu 
per intercessa de Simão ferreira seu secretario, licSça a 
bumChalim Português que auia nome Damião bernaldee 
pêra yr tratar a Bengala em hum seu nauio. E indo d« 
TÍag^ tomou na costa deBaleacate muylasChãpanaa de 
mouros & de gentios amigos dei Rey do loão dePortu* 
gal^ que nauegauáo com seu seguro, & matando coro 
muyta crueza quantos hião nelas as roubou, & feyta 
muyto mal por esta costa ^ & deyxãdo a gente muy e»* 
eandaliaada,. se foy á de Bengala. £ estando na ilha 
de Negamale foy ter coele hiia galeola de Rumes , em 
qtie yriãabem quarenta homens de peleja , de que pe- 
lejando coeles matou dezoyto & catiuou vinte dons , & 
raays tomou a galeota, em que achou muyta riqueza* 
B nela & em outra que despoys tomou, fez bem feylos 



LIVRO Vlir. GAPlTfLO XLVI. 116 

vinte mil cruzados qoe goardou fiera ai , sem dar parte 
aos soldados que lhos ajudarfio atoroar: &agaleotacoHi 
aua arlelharia deyxou pêra dar ao gouernador, & bo a- 
paaigoar se leuesse dele menencoria por se assi aleuan- 
tar. E parece que bem ho adiuinhaua , porque estande 
xlespoys em Bfifala na barra do rio de Cbeligáo onde 
estaofto dezasete oauíos de Portugueses , foy dada bfla 
carta dó gouernador da índia ao Goazil da cidade de 
Cbetigão, & a Cojeçabadim (bo Mouro em que faley 
no liuroSeptinM) em (| Ibes rogaua muyto que prendes- 
sem Damião bernaldea & quantos hySo coele, & quSde 
ho nJlo podessem fazer, os matassem , & lhes queymas^ 
eem ho nauio com a fazenda, poroue andauâo aleuanta*^ 
^os & tinbão feycos grandes males, c5 que el rey de 
Portugal era moy deseruido, & que sobristo gastassem 
ate três mii pardaos () se obrigaua a pagarlhes. E esta 
carta escreaeo bo gouernador, porque soube os roubos 
que Damião bernaldez fizera na costa de Baleacate , fc 
esta carta mostrarão bo Goazil &Co)e çabadim , a bum 
Nuno fernandez freyre: & a Nuno lobo criado do gouer* 
nador : & sabendo deles que ho sinal da carta era seu , 
disserfio Ibes que polo seruirem queriSo prender Damião 
bernaldez pois ali estaua , & eles lhes disserão que be 
não fizesse porque sabíão que Damião bernaldez se que* 
ria yr apresentar ao gouernador, & por sinal lhes tinha 
emprestada a galeota que tomara aos Rumes pêra com 
outros se yrS em siia conaeraa pêra a índia , & não lha 
quisera vender comprandolha eles, & escusara se disso, 
c9 dizer 1} a goardana pêra amansar coela o gouernador^ 
& Q se não determinara de se lhe yr apresfitar t\ lhes 
vSdera a galeota, por isso 1} bo não prfidesse, & mays 
por não aner morte dos Cristãos <) não se escusaua se o 
quisesse prSder : & disto (| disserão derão eada bQ sen 
assinado ao Goazil & a Coje çabadi , 1\ Ibes pedirão pe* 
ra sua disculpa cÔ o gouernador , de não lazerS seu ro*. 
go, & disto não soube Damião bernaldez tiada. E esta-* 
do ali na barra deChetigão ya de noite a terra & furta* 

p 2 



lis DA HISTORIA DA ÍNDIA 

ua muyta gSle & mataua os homês , & prSdia os oiòçmi 
debaixo de cuberla» E hu dia andando na ribeyra hu 
juouro honrrado que era capitão da cidade , que ua lin* 
goa da terra se chama Gormale, saltou Damião bernal* 
dez em terra supitamente & preudeo ho, & auia tan 
pouca gente na ribeyra que bo pode prender a seu sal*- 
uo 9 & deu coele no nauio deyxando feridos os que ihe 
^uiseráo acodir. E logo como isto se soube na cidade 
iorSo presos . dezaseys Portugueses que eslauão nela & 
tomarâlhes suas fazendas , & assi derâo rebate em húa 
ieyra que se fazia dahy a duas legoas pêra prenderem 
outros que ia andauào: & estes sintindo ho que lhes 
querião fazer fugirão pêra ho mar & saluaranse nos na* 
uios. Os mouros porque Gormala era pessoa muy prin* 
cipal desejauâo de ho cobrar , & por isso mádarào dizer 
a Damião bernaldez que Ibo desse & que lhe dariào os 
Portugueses: & ele não quis polo grande resgate que 
esperaua por ele. £ os mouros leuarâ entáu os Portu* 
gueses á praya^ de ^Damiá berohldes estaua tão perto 
^. os podia ver & ouuir & despindo os nuus começarft 
de os açoutar muy cruelroête, pêra ^. auSdoDanuâ berr- 
naldez piedade deles desse Gormale. JMas ele era tS 
cruel & amigo do dinheiro^Q esperaua por Gormale, que 
Dunca o quis dar. O que vendo os mouros tornarão a 
recolher os Portugueses., 



N 



GAPITVLO XLVIL 

Do mays quefezDmmiâo Bemaldezi Eeomo morreo. 

\ estps tempo estauâo na* galeota que Damião beraal* 
dez tomara aos- Rume», Nuno fernandez freyre (que a- 
gora mora em Lisboa) Diogo de camÕes: & outros Pob- 
tugoeses a que Damião bernaldez emprestara a galeota 
pêra se yrê caminho da índia com suas fazendas em-sua 
conserua. E vendo Nuno fernãdez as cousas que fazia 
bernaldez taalo cÕbra ho seruiço de Deos & dei 



LIVRO VIU. CAFIT7U>' XCrif . # ^^T 

rej^ & niaispor se yr gastando a moiiçáò &' seven pBPf 
tidos 08 mais dos nauios dos portugueses que ali esta^ 
uào, pareceolhe Q Damião. hernaides não. queria tornar 
á índia , & por isso determinou de se yr com a galeota 
sem sua licenc^, se acfaasse quem ho ajudasse: perahó 
que falou logo com ho piloto de Damião beroaldez qu« 
estaua na galeota & com ho mestre & com outros quf 
couuerteo a yrense, por não encorrerem na pena em que 
Damião bernaldes tinha encorrido por ser leuantado. E 
concertado isto na noyte seguinte três ou quatro oras 
ante menbaã que a maré começaua de det^er, cortou a 
amarra da ancora de- montante ^ & começou de mandar 
leuar a outra da jusante bo mays quietamente que po* 
derft, & como coroe<;ou de se leuar assi a galeota come-» 
çou de yr poio rio abaixo, ho que sintindo algfts de Da^ 
jniâo bernaldes que estauáo hy perto em hú seu bargã* 
tim começarão de bradar que se ya a galeota. Nunofer* 
nandez & ho piloto fizerào ^ caçaua , & ^ entào o sin* 
tifto j & fazSdo ^ se apareihauào , acabarão de leuar a 
ancora , & íuràose , indo M uno £^rnádez ao leme : & 
polo escuro § fazia deu algilas vezes 3 seco, & cõ tudo 
quis nosso se&or Q cfi aquela vazàte chegarão a barra , 
& daby tomarão seu caminho pêra Ceylào dõde se auião 
de jr a índia. E em amanhecendo soube Damião ber- 
sal dez j) a galeota era partida, & determinado de jr a 
pos ela pêra enforcar quàtos hião nela soltou Gormale a 
troco dos Portugueses, ja !^ não tinha tem[)o pêra auer 
por ele ho resgate i} esperaUa. £ indo caminho da bar* 
ra deu ho nauio tamanha picada em seco {) lhe saltou 
ho leme fora por nâo ter leua & perdeose, & vedo ^ náo 
podia nauegar sem leme mudouse ao bargàtiiu & bolou 
a pos a galeota, que lhe leuaua tanta auaiagem Q. nuca 
a pode alcã<jar, & Nuno fertiàdez cõcertuu secretamête 
f 5 bo piloto ^, não louiassen> ho porto de Colubo ê Cey-^ 
Ião ondestaua a nossa feyioria^ por{) poderia chegar en^ 
Ire tãto Damião bernaldez, & dizer ao feylor <) lhes le* 
uauà furtada a^la galeota & re^rer Q os prendesse ^ & 



llt Há HimnnA da, indm 

OB SlmnH^ift) & por ifso lirarSo pêra ho cabo deComorl 
guiando ho piloto toda hila noyte pêra ho mar por oâo 
yrê ter a Coiflbo : do qoe a gfite ae agaatoa muy to qu2^ 
do no dia aegtiUe oâo virão terra : & ho piloto dissímiH 
lou dãdose a oulpa de gouernar mal. E dobrado ho cabo 
de ComorI , acharão hu catur de Portugueses a cujo ca* 

Eitâo rogou Nuno fernãdez que lhe poiesse em terra doui 
omSs que erâo da cdpanbia de Damião bernaldez que 
quJserão yr coele coessa condição, & maia por lhes pro*- 
neter de lhes auer perdão do Gouernador , & dpulhe 
9Ínte pardaos pêra gastarem entre tanto. E daly se foy 
a Ck)chl & depois aCbale onde ainda estaua o Gouerna- 
dor, a que deu conta do qne fizera a Damião bernuldea 
& lhe entregou a galeota : & o Oouernador lhe agrade^ 
ceo muyto aquele seruiço que 6zera a eirey de Portu-* 
gal. B Damião bernaldec que ya a pos a galeota, ehe* 
gou á enseada de Bilgão onde achou Diogo de camSes 
que Nuno fernãdez by deixara^ & quiserao enforcar por* 
que lhe a)udara a leuar a galeota^ 8& deixou de ho fazer 
por rogo de Nuno lobo & doutros que yflo coele no bar^ 
gantim : & temendo que ho achasse algils capitães Por* 
tugueses & ho prendessfi sabfido como andaua, deixou o 
bargãtim a Nuno lobo l\ ho leuasse ao gouernador &ele 
desembarcou 6 Negapatão pêra se jr a BiRnetrsr & auer 
dahí perdão. E estando em Negnpatão faz6do se prestes 
para ho caminho, soubeo hH Mignel ferreyra {) estaua 
em Baleale por capitão, a (} ho gouernador Nuno da 
45unha escreueo sobre Damião bernaldez ho Q tinha es« 
crito a Goje qabadi & ao Goazil de Chetigão, & foy ho 
pr6der« E carregado de ferro ho mãdou a Gomes de 
souto mayor capitão da pescaria do Aljôfar, q ho man- 
dou a Coulão, donde foy leuado a Goa, & estado hy 
preso no troco & sentSciado em dez anos de des^redo 
pêra a ilha de sctã Helena faleceo, auSdo primeiro o 
gouernador oito mil cruzados que tinha escondidos. 



Livmo mr. cAPrmLo ^ltiii. , 119 

C A P I T V L O XLVIII. 

De como Jlntonio de Saldanha fúy pwr eaptíâo mór aú 

cabo de Gúaraajúm. 

JlXo gouernador Q fazia a fortaleza de Chalé cÕ ajuda 
dos fidalgos Q ho ajudauão, & assi doutra gente Portu** 
guesa {} estaua coele ^ lhe deu cabo em tão breue tem- 
po Q a gele da terra ficou esp&iada : & muyto maia ei 
rey de Calicut, ^ nftca ê todo este tempo ousou de mã- 
dar gSte a defender a^la obra , posto Q deitou fama \ 
ho auia da fazer. £ muylo sentia o atreuimCto do go- 
ueraador <) assi lhe fazia hfla fortaleza nas soas barbas^ 
h ho muito (} perdia nisso de seu credito. Ea fortaleza 
aeabada ficou em hâ capo raso dõde descobria ho mar 
& mruyto perto, era quadrada & è cada quadra tinha hCL 
baluarte muito forte, & os panos dos muros Q cornãode 
baluarte a baluarte erio de ciocoenta pês de largura, & 
da faáda de détro ao Idgo do n^iiro estauflo as casas dos 
•fficsaeis da fortaleza & as dos frontey ros, & no meo cs^ 
taaia a torre da meadjem, tambS muyto forte & toda hè 
artilhada. A capitania desta fortaleza deu ho gouerna* 
dor a Diogo pereyra por ser seu priuado posto que era 
muito velttt), & lha pedião outros homSs de roays serui-* 
ço, & Q erã mais pêra a defêder do Q ele erar & dey- 
xando qq mar por capitão mor a ht fidalgo chamado Ma« 
Quel de sousa natural Deuora com h4a armada de tre- 
zêtes honiSs ^e partio pêra goa , onde aebou af)ercel)3* 
dose António de saldanba pêra yr ao cabo de Goarda^^ 
íum, ao que ho mandaua por capitfto mór de hQa arma* 
da, de que forão capitãea a fora ele i^ ya no galeSosâm 
Iflateos, Vasco pirez de saro payo em Lambia morim, 
dam Fernàdo deça na galeaça , Amónio de lemos nos 
Reys magos , Diogo boteiho pereira em hft galefio, que 
iby feyto em Chaul., & em duas galeotas dS Pedro de 
meneaea & Alanuel-áe tascCcelos, ^ leiíaaa debaixo de 



ItO DA HISTORIA BA ÍNDIA 

8ua capitania certos bargãlína. E coesta armada partio 
António de saldanha na êtrada de. Peuereyro de mil & 
quinhêtos, & trinta dous, & no caminho lhe deu hfla 
grande tormenta cõ {| Diogo botelho esteue <\\xíís\ perdi- 
do , & milagrosamSte o saluou nosso sfior & arribou a 
Chaul : & nSo pode yr cõ António de saldanba. 

G A P I T V L O XLIX. 

De como Rayx cde quisera matar elRey Dormuz seu 

frmâo. 



Q 



uasi a pos A-ntonio de sa{danha partio António da 
silueyra de meneses pêra Ormuz por màdado do gouer* 
nador pêra jr seruir a capitania da fortaleza Dormuz, ^ 
vagara por morte de 'Crístouâp de mêdoça , & seruia de 
capitão Belchior de sousa tauares que dantes era capi- 
tão mor do már. E foy cõ António da siliieyraLuys fal- 
cão «eu sobrinho, pêra ser goarda mor dei Rey Dormuz*. 
E chegado lá António da silueyra, & êtregue da capi^ 
tania da fortaleza, el rey Dormuz se lhe queisou de nu 
seu jrmão homS de dezoyto anjios, que ho queria matar 
por fauor & induzimento de sua mây , Q por Ibe Qrer 
mayor bem {{ a ele^ ^ria {| fosse rey antes 2) ele, & que 
hQa noyte fora achado debayxo do seu catele cÕ hOa a-« 
daga , & por isso ho mãdara pnSder : & por ser ho caso 
de tâta importficia & não auer dissensões no Reyno, não 
quisera fazer justiça dele como lhe merecia, pedindolhe 
q ho mandasse á índia, por^ sabia certo Q não fazia a- 
quilo se não por induzim6to de sua mãy , ho ^ António 
da silueyra fez por pacificar a cidade, em !\ começaua 
dauer bandos por a(}la causa. R no mesmo nauio em ^ 
António da silueyra foy , mandou ho jrmâo dei rey que 
se chamauaRayx ale com toda sua casa, escreuendo ao 
gouernador a rezão porque ho mâdaua. E ho gonerna-^ 
dor ,bo recebeo muyto bS , & lhe tiomou sua fé segado 
siiia ley, de nã se tornar a Ormuz sem sua licença, por-> 



LIVRO VIII. CAPITVLO t. I$j[ 

•^ue 86 soubesse 2} fazia^ ou queria fazer ho contraíro 
que bo mandaria pêra Porlugal. JS ele .propaeleo de bo 
fazer, .& ho comprio. 

CAPITVLO L. 

De como Manuel de vetsconcelos ^ outros tomarão a nao 

çafeturca. 

\^'hegado António de Saldanha ao cabo de Goardafum, 
sem lhe acontecer cousa que seja de contar, vendo que 
não fazia ali nenhâas presas, m»ndou Manuel de Vas- 
cdcelos que fosse com os bargãtins ao porlo de Xael^ 
pêra ver se achaua hi aigQas naos^ -que por ser tarde 
aueriã dinuernar. £ mandou estas velas porque .por se- 
rem de remo não serião sintidas , & auião de hir mais 
asinha que os galeões, & por isso ficeu coeles a trás pe* 
ra jr de vagar. E chegando Manuel de Vasconcelos de 
supilo, achou hi hõa nao deCambaya chamada çafetur- 
cá, que seria de oytocentas toneladas, & por sua gran- 
deza, ^ era a mayor de quantas andauã naquela carrei- 
ra era n^uyto nomeada. E ho capitão esl-aua cõ deter- 
minação de Tnuernar em Xael, & na sayda do inuerno 
antes ^ fosse verão de todo jrse a Diu , & auSturarse 
antes ao perigo do már, ^ ao de ser tomado dos Portu- 
gueses. E a mesma conta fazião outros muytos mouros : 
& por isso os Portugueses não achauão presas auia deus 
annos. E vSdo os mouros desta nao descobrir a nossa 
armada, foy ho seu medo tamanho que não ousarão desr 
perar, & fugirão pêra terra, leuâdo todo ho dinheiro 
que tinhão, & algflas cousas leues, &. íicoulhes a car- 
rega 'grossa. E por sua fugtda não teuerão os Portugue- 
ses quem lhes resistisse tomala« E Manuel de vascõcelos 
nieteo nela hii quadrilheiro & hQ feytor pêra {) se entre- 
gassem da fazenda I) tinha & ele cõ os bargantins se 
pos em goarda dela, ate chegar António de saidanha, J\ 
chegou, dahi a dous dias# £ vendo ele quo no porto não 

LIVRO VIII. a 



ISS 0A HliTOUA 9á nf0IA 

Buia mais dem^ & Q se chegaua ho iouerno p«rlme pe» 
ra inazcate , onde determinaua dinuernar » & hi foy vfi- 
dída a fazSda da nao & o casco. £ passado o ÍDoerno 
parliose c5 a armada pêra a ponla de Diu, & mãdou 
Manuel de vascõcelos ao lõgo da costa cÕ algCls bargã- 
tis, & tomou outra nao de mouros de diu, ^ bia de Me- 
ca muytQ rica j <} despors kiy vSdida 8 Chaui cò toda 
sua carrega. El no dinheiro que se £ez nela & na çafe* 
lurca se mõlarâo perto de dozStos mil paidaos. E assi 
deu Manuel de Vasconcelos caça a hii gaieft de Calicut, 
que por Uie fugir ínúa da ponta pêra se meter em Dia 
deu em hua lagea & perdeose, & afogaranse os oaaisdos^ 
mouros. E S quasi dous meses ^ António de saldanba. 
aqui andou nâ fez raai» presas: & partiose pêra Goa on»- 
de entregou bo dinheiro que leuaua.. 

G A P I T V L O LL 

JDe coma ha gcuernador dettrminou de tomar afortalesa. 

de Baçojfm. 

JAI este arnna de mil & quinhentos & trinta & dous foj 
a armada \ bia de Portugal pêra a índia repartida è 
duae capitania» mores , hOa leuou dõ Esteuão da gama^ 
íilbo de d5 Vasco da gama cõde da Vidigueira & almi^^ 
rante do mar indico, que bia prouido da capitania de 
Malaca na vagante de Garcia, de sá^ & bia debaixo de 
sua capitania Vicente gil armador^ cuja era a nao em 
^ hiaw A outra leuaua dom Paulo da gama, birmão de 
dom Esteuão, prouido tambS da capitania de Malaca na 
sua vagSte. E debaixo de sua bandeyra hia hft António 
earualbo. E destes capitftes dÕ Esteuão inuernou em 
Moçãbique , & os outros cõ mu jto grade trabalho pas* 
sarão á índia Õde chegarão a^ie anno S diuersos t^pos 
cd mujlos doètes. £ nesta armada foy bu Bispo chama* 
do dõ Fernando que fora frade de s^im Francisco, pêra 
reformar na índia ho estado edesíastioo, & dar ordès & 



LIVRO ¥111. CAWnWíéO Lff. ISS 

«csriMMff : Ic eu bo outti pregar ê Goa louylo bê^ donds 
ho gouernadar deapaciíoii^ Anlociío de saJdaoha por ca*- 
{silão már das nãos da carga , que forfio três & hfi jun*- 
go H partirão na fim de dezembro do mesmo aono. B 
4ambS estando bo gouernador em Diu soube de certa 
certeza Q Melique toeâo tioha feita em Baçaim hua for* 
laleza muTto forte & que ae criaua ali outro Diu ^ & 4 
iMperaua oe trazer ali as fustas de Diu pêra que tolhes- 
sem aos nossos que não passassem a diante. Ecomo ho 
gouernador se temesse de yrê rumes á índia porque se 
fossem tomauão aquela fortaleza aehandoa em terra tS 
fértil coroo aquela be, & situada ao longo de hfl tam bS 
fio como ho de Baçaim : pelo que a índia ficaua em 
muyto grande perigo se os teuesse tão vezinhos, & por 
isso determinou de jr sobreia & destruyla, & sem dar 
conta a ninçuem se começou de aperceber pêra hirqua^ 
si no cabo do verão , em que Diogo da sihieyra auia de 
ler feyto muyta guerra a Cambaya. 

C A P I T V L O LIL 

JDe como Diogo da sãutyra tomou as cidades de Patane^ 

Patê ^ Mangalor^ 

JL/iogo da silueira que inuernaua em Chauri pelo regi** 
mento que tinha de fazer guerra a Cambaya partiose 
pêra lá com sua armada logo na entrada do verão , & 
foy correndo a costa ate Diu , fazSdo os catares muytos 
saltos por toda a costa , era que fizerâo muyto grande 
dano, & coisso estaua a gente tão espantada que não 
se atreuia a saluarse menos de seys legoas peb sertão 
onde se acolhia, & pola ourela do mar não auia nin** 
guem , & nenbus nauios ousauão de yr a Diu , nB as 
fustas ousauão de sayr , com quanto Diog^o da silueyra 
andou a vista de Diu algfis dias» E vendo lele que não 
fazia ali nada passou auãte caminho de hâa cidede cha«- 
mada Pataiie doze legoas de Diu na mesuia costa de 

a 2 



1S4 "^ DA HISTORIA BA ÍNDIA ' 

Cambaya, situada á borda de hft arrecife cercada de 
muro , & na praya bA baluarte que varejaua ho desem* 
barcadoiro , & diante dele hfla forte tranqueira bê ar- 
tilhada que goardaua maytas nãos que dentro dela es- 
tauão varadas, por ser cidade de grande trato, & po* 
uoada de muytos mouros mercadores. £ a fora isso ti- 
nha ei Rey de Gãbaya ali gente de goarnição, de que 
muytos erão Rumes dos i} Rumecão leuara a Diu, & 
com a gente da cidade seriam bem três mil homeês de 
peleja: ho que tudo soube Diogo da silueira por ho ca- 
pitão de hum Calur, por quS mandou espiar esta cida- 
de: que também lhe disse ^ a sua desembarcada não 
podia ser se não diante da tranqueira. £ cd tudo ele 
assentou cÕ os outros capitães Q dessem na cidade & a 
tomassem cÕ ajuda de nosso senhor , em i} esperaua ^ 
os ajudaria. £ cõ esta determinação partirão pareJa da 
pata de Diu , estando a gête Q estaua nela bê descui^^ 
dada de tal ida, assi. por a cidade estar muyto afastada 
das nossas fortalezas como por até aquele tempo nhiia 
armada nossa chegar àquela costa. £ quãdo ho capitão 
de Patane vio a nossa frota ficou muito salteado, por^ 
sabia* ho grade dano 4 tinha feyto na outra costa de 
Cambaya, & mais i} pêra passar ali auia de ser visto 
das fustas de Diu , que lhe auião de contrariar a passa- 
gem, & por isso ho salteou muito vela no seu porío: & 
BiSdou logo muyfca parte de sua gête acodir á trâquey- 
ra pêra defêder a deserabarcaçS dos Portugueses ^ des- 
poys de serê assoitos por hii clérigo Q lhes fez a confis- 
são geral rendarão pêra terra em seus bargantins & ca* 
tures & sem temor dos muytos & muy grossos pelouros 
^ desparauão da tranqueyra & do baluarte rêperão por 
eles ate pojar em terra cadaha por onde podia , & assi 
desêbarcou Diogo dasilueyra cõ a bandeyra real, & nisto 
Bão auia ordê nê esperar por capitães , se não quê pri- 
meyro podia (por^ na índia este he ho próprio cometer 
dos nossos) Sc pêra quam perigosos os lugares são pare- 
ce 4 he ássi melhor qae doutra maneyra , porque quê 



LnrftO • Vill. ^CAPITV1X) 'lAI. -125 

desembarca nas boeas das boi^barddB sem tér »bj!l em*- 
paro se não ho de nosso silor (| he ho ▼erdadeyw parece 
^ se não desembarcasse coesta presleaa , & esperasseBi 
eôcerto Q os mataria a artelharia a todo». Assi^ desem- 
barcados os nossos como digo, remetS a tranqueyra ca- 
da hfi por seu cabo & aferrarão coela goardãdo os nosso 
sflor da artelharia que lhe não (itesse nojo, & vSdose os 
imigos assi cometer depojs de se defenderS hum pouco, 
«em que morrerão alg1Í8da8> nossas espingardadas alar- 
garão a tranqueyra , recolhêdose pêra a cidade , de ^ 
lo capitão acodio cõ gSte de refresco, & mandado abrir 
a porta pêra sayr chegarão a ele os seus i\ fugião da 
tranqueyra, ^ vinhão com grade pressa poios yrS os 
nossos ferindo nas costas» £ quando acharão ho seu ca^ 
pitão esforçarão & voltarão aos nossos esfor<^ndoos ele ^ 
pelejou como muyto valente caualeyro, ho que foy cau- 
sa de o matarem cõ outros algus dos seus em hii pedaije 
fl aqui pelejarão muy bê , & estes que morrerá forão 
Rumes. Evendose os imigos sem capitão desacoroi;oarã 
de maneyira ^ fugirão, & os nossos entrarão na cidade 
a pos eles ferindo & matado, & fizerão maiãça espanto^ 
sa assi nes soldados coroo em outra gente l\ não era de 
peleja de que catiuarão muyta. E Diogo da siiueira não 
consintia que os seus saíssem fora da cidade a^ pos os 
imigos , por^ estauão cansados. £ despois que os lança* 
rão todos fora repartio os nossos em quadrilhas , & mS- 
dou saquear a cidade & leuar todo ho despojo que foy 
muyto á praya pêra se repartir despois, & acharão man- 
timStos sem cÕto, de Q a frota ficou b& bnsteeida. B 
sacada a cidade foy queimada oõ muylos mouros Q es» 
tauão escõdidos nas casas, que cõ os ^ morrerão na ba- 
talha foy htia boa soma» Edos nossos quis nosso senhor 
que não morreo nenhu. E assi fovão queimadas quorSta 
nãos & zãbucos Q estauã varados , & b& galeão Q che^ 
gara de çuez auia dias carregado de rumes. £ feyta es- 
ta destruyção & recolhida a artelharia dos imigos á nos-^ 
sa frota, embarcouse Diogo da siiueira cõ toda sua gea- 



te^ Q iaU ficou rica, & tornâdose soube da%Ai MMifdf 
que tomou em hils xâbucoa, que auSle de Patase pêra 
£0 norte ealaua na neaoia eoata outra cidade cbamads 
Pale muyto jnaya forte que Patane^ eò inuytaa ealaii^ 
cias darlelharia pelos muros da banda do mar , & oooi 
foaró eiíea lhe batia bo mar do muro , & estaua dfitm 
mu; ta gele de peleja todos Guzarales: & parLiase Jogis 
pêra li €Ò determiaaçio de a tenar^ & ás ooee horas 
do dÍA pouco mays ou menos chegou diãte da cidade cj( 
• víraçio^ eujas esticias os imigos tinhào rauylo emhdt- 
deiradas. E ehegãdo os nossos a tiro de bõbarda da cif- 
dede despararáo sua artelharia respõdSdo a dos imigos, 
que nâo ousaufto de aayr da cidade , & assi desembar«- 
'CarSo sem receberS nenbQ dano, & remetSdo ás portas 
da cidade as arrobarão, o j} vendo fao capilão dos imí^ 
gos Ibe acodio logo com muyla gente : & defendeoas €$ 
tanto esforqo {} nunca as desemparou, ate perder sobrisr 
SO a vida, & bssí cftto Q estanio coele na dianleyra, dt 
Q os mays morrerão despingardadas , & dos nossos quis 
nosso senhor ^ nenbã : & eft a morte do capitão & des^ 
tes se retirarão os outros a trás, & ficou lugar aosPor«> 
tugateses pêra iQ entrassS na cidade em que se os imi« 
gos defenderão muy to bem em aigflas ruas , & por isso 
forâo muytos deles mortos, & por derradeiro fugirão & 
deyxarâo a cidade que despoys de ser queymada, &defr 
truyda como a dePatane, par tio logo Diogo da silueíra 
para oulra qu€>siaua mais auâle quarenta legoasdeDiu^ 
chamada Mágalor, situada na boca de hum rjo 6 costa 
braua & tinha ha bd arrecife^ cidade principal dai-la 
cosia toda rasa, & sfi nenhfia fortaleza pouoada de mout 
ros mercadores ^ {| sabfido a destruição de Patê & Pata^ 
ne ainda questauão tflo fortes , nSo se alreuerão a de-^ 
fenderse posto ^ tinbão muyta gente de peleja, quecha<» 
marâo pêra os defender despoys que souberâo l\ os Por<> 
tugueses andau&o por aquela costa, & despejarão a ci- 
dade & se forâo , & por isso os nossos ná teuerão mays 
Q fazer que queymala cÕ muytas nãos que estauSo vá» 



Lwmoi vm. câFiTTt.0 luin 1S7 

mdas* E dcapcys de queym^Ktas estas: cidades em que 
Diogo da silueyra foy em pessoa , queymarão oe seus 
capitães muitas pouoaçdes sem ele sayr em terra^ & &- 
«erão tamanha destruição que se despouoou toda a cos^^ 
4a & não ousaua nenhua gente de ehegar ao aiar eô me«- 
úo àe não catiuarS mays, que focão muytoe: & tomada 
mujta arteJbaria pêra el Rey , & muyta fazenda a fora 
a tias partes Q todos foii muyto rieos, & quey marte 
muyta ri^za por não terõ nauios em Q a carregar» £ 
JMeiique capitão de Diu não podia acodir por a ocupai 
^ão ^ tinha em fazer Baqaim , & punha ali tâta força 
por lhe parecer que coela defenderia Diu , nem mencs 
acodia el Rey de Cãbaya por muyta guerra i} lhe fazião 
eeos imiffos pelo sertão ( como dírey a diâte. ) E não su- 
chando Diogo da silueyra que» lhe resistisse continuai- 
na a guerra tornando outra vez a ponta die Diu a espc*- 
sar as nãos que fossem de Gambaja pêra Meca , que 
com seu medo nã ousou nhQa de sayr aquele anno , no 
^ el rey de Cambaya recebeo muyta perda fi suas alian^ 
degas. 

C A P I T V L O LIIL 

De como Jfodncâ fez wm com ho gauernnãar , ^ lhe 
deu ast ktnadãrias de Sahete pêra el Rey de PorHtgaL 

jl\ oTevceyro & Quarto Liuro se fez m^ção de faâmoif* 
90 chamado çufelarim escrauo fc capitão do Hídakfto a 
que Afonso dalbuquei^ torooa a ilha fe cidade de Goa ^. 
a que ho mecmoHidalcão por fazer honrra llie eoncedeo 
que se podesse rkamat Cão, & isto por ser este nome 
antreles de muyla honrra, & se chamou A(jadaeâo, que 
despoys por ser bÕ caualeyro & de muyto seruiço o ça- 
bayo & seu filho Hidalcão que lhe suscedeo no senhorio 
o lizerâo dos principaeis de seus capitães, & lhe derão 
terras na comarca de Salsete, & anlrelas foy Pondá & 
Biigâo que he ao pè da serra do Gate que ele despoys 
fez hOa cidade muyto forte cercada de muros, cobelos, 



It8 DA HTSTOafA JDA IimiA 

& 4:aua , ao modo das nóaaas , & deuse tam ^boa maaha 
^ tinha maya de quarenta contos de rêda, & muita gen» 
te de peleja assi de caualo coroo de pé & alyfantes ^ & 
despoys doHidalcâo era a segQda pessoa em seu sen ho^ 
rio assi de terras , gente , & renda , & cõ tudo era es*- 
crauo .do Hidalcâo, & cada vez (} ihe viesse á vontade 
despoelo de seu estado o podia fazer, & por isso andaua 
ele sempre receoso de isto aer assi, & nesle tempo veo 
a saber que boHidaicâo ho queria fazer, porque homjit- 
<lou chamar, !\ era a mayor certeza de ser assi, porQ 
estes senhores de marauilba mandão chamar estes capi- 
tães se .não pêra lhes tirar as terras que lê & nmtarS* 
noa. >£ como Açadacão lenesse esta sospeyta ou certe^* 
za quis se logo faunreeer com fazer amizade cò ho f^o* 
ueroador ^ estaua em Goa a (| secretamCte mandou so^ 
brisso seu embayxador , & 1} lhe daria por isso pêra ei 
rey de Portugal as terras de Salsete & Pondá ^ lêdião 
bS cinquoêta mil pardaos douro : & por3 Q ho gouerna» 
dor auía de mandar recolher estas rSdas dissimulada- 
mfile pori} o Hidalcão o não soubesse, o que o gouer* 
nador lhe agardeceo muy to , & em nome de] Rey de 
Portugal lhe confirmou amizade, & prometeo de o aju- 
dar contra, o Hidalcão, & fez logo Tanadar mór a hft 
Gristouão de figueiredo casado em Goa & grande seu 
priuado, que mandou á terra firme cft outros Tanada» 
res pequenos & lescríuXes & algfia i^fite , & ele se apo- 
sentou è bu pagode de freyras , & dali arrecadaua at 
rendas ^ & Aijadacão teue maneyea como se escusou do 
yr por aQla vez a chamado do Hidalcão, j} tãb8 não inç- 
ais lio è ele por amor de grandes negócios Q lhe sobret 
aiierâo. 



LIVRO Tiif. OAPiwxo uni. IS* 

CA PI T V L o LIIIL 

* » 

Das dtferenças jf ouue <mtre Vicente dfrfomtca ^ Bros 

pereyra^ 

Jr icâdo Vic6te dafonseca por <;apiíSo da fortaleza de 
Ternate (como a Iras be dito) determinou de mandar hd 
jungo a Malaca 9 cuja capitania deu a Afonso pirez que 
fora hum dos í\ o fieerâo capitSo, & sabeado Brás pe« 
reyra que este jungo auia de yr pêra Malaca^ pedio a 
VicSle dafooseca a capitania dele, & por^ lha não quis 
dar vierâo a tanta desau^a , que Brás pereyra fez hfll 
requerimento ao feytor & otficiaeis da fortaleza & a ou-* 
tros criados dei Rey que prendessem VicSte dafonseca^ 
4 cometera trey<;ão em dar ajuda & fauor aos mouros 
pêra matarS Gonçalo pereyra, & que tinha aquela for-* 
ialeza por força, & dali por diante náo falou mays a Vi- 
«6te dafonseca , & andaua armado cõ outros muytos (| 
erâo de sua valia, & estes amotinauâo outros & tinbâo 
.Vicète dafonseca entfto pouca conta, que dizião pubri» 
camente {| ele ajudara a matar Gõçalo pereyra, & man- 
dara matar outros Portugueses despoys. que fora capi« 
lAo. E por ^le atalhar a outras mayores cousas () daque- 
Jas podiâo soceder prendeo Francisco de sá , Cosmo 
moniz, & outros culpados nesta defamação, 2| com a 
prisão destes creceo muyto mays: & foy posto per ve* 
ses fogo a hu bargãtim poios amigos destes, porque aos- 
peytauão que presos os queria mandar nele á índia , & 
dali por diãte miindou Vicente dafonseca vigiar a ribey- 
ra por homês armados. E ainda despoys disto creceo 
mays a desauença & ódio antrele & Brás pereira , sobre 
hO berço Q mandou tomar da Galeota em i| estaua Brás 
pereyra, pêra hQ bargantim que queria mandar a Mala? 
ca em companhia do jungo ^ disse, & assi sobre certos 
homSs que mandou leuar da galeota pêra a fortaleza ^ 
por lhe dizere que queria fugir pêra BSda , & sobre bft 

LIVRO VIII. R 



que Brás pereyra loiheo ao Ouuidor quQ ho nâo leuas- 
se, sobre ho quedlssd palauraa muj^to defamatorías con- 
tra Vicèle dafonseca , pelo que ele indinado disso ibe 
mâdou tomar hó edqmfé & tis escrauos da galèola q(i'e 
erão em terra, & defendeo com grandes penas que nhua 
pessoa lhe keuasse mãltmenlos. E vendose Brás pereyrfi 
aèsi atalhado 9 foy a sua meneocoria (amatiba ^ parecia 
doudo,. & cõ grádisaimos brados disia aos § estauSo em 
feerra, ^ Vicente dafonseca nãoeja eapitâo, antes era 
trédor a el Rey de Portugal por matar a Gonc^aki perey^- 
va seu capitão, & tinha ai|ia fortaleza pêra a vender 
aos mouros , & por essa causa lhe não obedecia , & re- 
queria a todos 4 nio Uie obedecessem : & acabando de 
dieer isto^ mandou tirar três tiros á forlalesa* Vicête 
dafonseca Q estaua na ramada se reeolheo logo, & 
mandaua tirar a artelharia pêra meter a galeota no fil^ 
do se não fora peio alcaide mór Q lhe pedio ^ o deixas^ 
se primeyro fiJar c& Brás pereyra do que foy contente^ 
& despoys do alcaide mór falar eoele, &. acabar j} obe» 
decoria a VkSte dafiSseca & jria a terra & os faria ami«- 
f(OB foi peor, por!|. em Brás pereyra chegado a terra ^ 
Vicêledafonseca muyto ledo com lhe parecer i\ ya pêra 
ser seu ainigo, como lhe o alcaixle mòr tinha dito, ítíy^ 
86. á praya pêra o receber, & ele lhe disse muyto braue 
^ se fosse dali porj} o não ^ia. ver nem falar coele ; Su 
Vicente dafonseca Uie respondeo ^ nlo Ibe ametinasse 
a gSte & ^ visse quão mm> exõpro daua aos mouros & 
a todos 9 com aquêlaa desobediências ^ & Brás pereyra 
tornou a dizer as mesmras palauras ^dantes, & reque*- 
reo a quãtos bi esfeauão Q prSdessem Vicõte dafonseca 
pola morte de G&çalo pereyra: & YicSte dafonseca 1^ 
prendessem a* ete porque lhe desobedecia, & foy sóbria» 
to moyto (grande ãltioro^ nos Portugueses , ^ aigiis di*- 
«ião Q VicAte dafonseca ikão era capitão,. & os mays di*- 
aião que era, & ^ Brás pereyra merecia preso por ser 
causa daQllas reuoltas : & chegou a cousa a (anto, ^ ho 
alcaide mór & feytor sS apartara c& (odá « gente , ^ 



UVR9 Vlfl. CáínTTLO 1«V. 131 

Iket pregiintarão se tinhSo Vicente dafonnea por seu 
icapitio, & por os mais dizerem (} si^ o ouuerã por ca- 
piíáo^ & Brás pereyra íaj preso, & assi esteue^na ibr- 
iaiesa sen mais VioSte dafikeca ^rer ser seu amig^ pos- 
to que lhe foj cometido. E DÍk> se auèdo por seguro de- 
le nê doutros de sua valia ^ os entregou presos a Balte- 
sar veioso capilflo do Bargantim 4 mandou em oompi^ 
«hia do jungo que hia pêra Malaca dahi os ieuassê á ii»- 
<lia , & partirão na entrada de Março do anno de mil Sc 
quinhentos & trinta & dous, & coydando Vicente dft- 
fonseca que por mSdar Brás |)ere^a & os outros ficaua 
-seguro na capitania o íicou menos, por^ algds desses 
mais hJirrados que iicarAo coele parecendolhes l\ mere- 
ciSo melhor a capitania í\ ele , come<^râo de praticar ê 
fao prenderê, & preso ho mandarft pêra a índia, ho ^ 
Uie foy logo discuberto : & pêra os amansar & tirar da^ 
^le pensamento gastaua coeles muy largamente, & lhes 
/Oeyxaua fazer crauo, & lhe fazia quXtas boas obras po^ 
^a cõ que algik tXto os amâson, & porB ele nAo se con*- 
£aua de ningufi, & trazia sempre hOa saya de malha se^ 
«reta, & sua espada, flc andaua tSo acautelado i\ «yoâdd 
4he falaua alguê estaua sempre cft os olhos nele flt a mãe 
sia espada , nS tomaua nbfia cousa a pessoa t( nfto fosse 
Sua se nlo com a mSo esquerda & a dereyta na espada^ 
•& Tiuia com muyto grande fadiga, tt muytas vezes se 
«partana s6 a chorar dagastado de ler tomado a^le oa- 
trego. 

C A P I T V L O LV, 

■ • « 

Do § PaUforágue ^ Trauanceh determinarão tontra ti 

rejf Caekil Dayalo^ 

V endo os monros as grades dissensAes & desordSs (| 
auia anire os Portugueses : & <} s§ nhfl temor de casti^ 
go nfi Terepnha do mundo matauSo capitães, & fazia 
outros cAttaoregimêto de seu rey, fc quil mal compríio 
os mâdados de bOs & dos outros, & (| sempre ficauio li* 

a 2 



Íl32 DA BfSTDKIA lU IKDIA 

;ure8 de pena ^ determinarão de fazer bo iDestno contra 
teu rey Cachil dayalo , & os (} derão principio a e»ta 
maldade & Ireyção forào bft Pateçarangue !\ Vicente da<- 
fonseca fizera gouernador do reyno pêra bo ler de sua 
mao, & outro ^^auia nome Trauâcelo ambos velhos dis- 
cretos & prudentes, & de muyta autoridade cd os man^ 
darins & gele popular pelo ^ tinbão credito pêra fazerê 
quãto quisessem. £ a causa de Pateçarâgue fazer esta 
trei^o^ foy medo de^be el rey tirar a gouernãça dorey- 
BO, porQ por ser ja didade pêra isso \t\sl entCder nela 
pêra saber como seus vassalos erão gouernados , !^ auia 
wuytos annos ^ os gouernauão gouernadores ^ faziâo 
mais o 4 os capitães Qriâo l\ o que deuiâo: & por(} go- 
/uern&do el Rey Pateçarangue nSo era necessário Q go- 
iiernasse & perdia sua valia determinou ele de priuar el 
xey de reyno, & fazer rey a bCl seu jrmâo bastardo oba^ 
jnaado Tafoarija , & era tam moço ^ não era pêra gouer^ 
jaar , cÒ fuodamftto Q gouernaria ele ao menos ate Ta- 
barija ser didade, & de tudo isto deu coata a Vicente 
ilafõseca, cerlificãdolbe Q se Cachil dayalo nã fosse de»- 
jiosto de rey , Q bo auia desiomar a nào fazer seu pn>- 
lUeytu eomo faria não sendo ele rey, nem ficaria tâoaii» 
#ulu(o capitão como forSo os passados, pelo i} deuia de 
consentir em< Cacbil dayalo ser desposto de rey y no % 
Vicente dafkinseca consentio por não pefder bo ^ espek 
xaua de ganhar, em quâtò esteuesse na capitania. £ Ift- 
do Pateçarangue este consentimento pêra sua treyçara 
começou logo de *a poer em obra, tomãdu por cõpanbey* 
ro a Trauancelo , & como não podiam fazer nada , sê 
te fidalgos terfi ódio a et rey , prouocauãonos a Hio tei€ 
por quantas maneiras podia prrncipalmStefazêdolbes crer 
^ lhes ãdaua cõ as molheres : & diziam i} era mal incli^ 
nado: & de forte cõdição^ & assi Ifae punham outras 
muitae tachas cõ que o fazia inábil pêra ser rey, &dés* 
poys QPateçarâgue &Trauattcelo virfio ^ os fidalgos ti- 
nbão ódio a el rey, começarão de lhes persuadir Q o 
desposessem de Rey, & fizesse rey a seu jrmâo Taba- 



LIVB0 VIII. CÂPITV&D Wr. 138 

^ija. Neste têpo auia na fortaleza grade falia de mâlir 
Biêtos ^ & muytos Portugueses mandauã seus escrauos ^ 
CS fossem furtar aos mouros, & assi os caba<;os ^ tinbâo 
fias pafmeyras cÕ o vinho Q saya deles, & como os mou- 
ros queria mal aos Portugueses & ás suas cousas, dei- 
lauão peçonha nos cabaços cõ Q matauâo os Q- lhes yão 
beber bo vinho, & lambo ás cutiladas quãdo os achauão 
•de bÕ lãço^ & como èrâo mortos Iam encubertamente 
Dâo se sabia mais de suas mortes Q acbar&nos menos. 
£ não podCdo YicSte dafõseca determinar no ^ seria 
feito deles disseo a Pateçaranguc, rogandolhe !\ lho sou- 
besse, & ele por meter coele em ódio a el rey , cõtou^ 
lhe a maneyra da morte dos Portugueses & dos escrauos 
atribuindo a culpa disso a el rey , afirmando Q se fazia 
:por seu mandado, do i} se Vicête dafonseca escandali- 
zou muyto, & mandouse Qyxar a el rey pelo mesmo Pa^ 
teçarangue , cò o i) se el rey espantou muyto , por quS 
«inocête sabia i) estaua daquela culpa, & se nâ se teme- 
ra de o Vicète dafonseca tornar a prSder foraselhe dis- 
*culpar por sua pessoa, mas este temor lhe fez l| não foi»- 
jSe , & mãdouse diseuípar por Paleçarãgue cuidado Q lhe 
era leal , & como ho ele não era no cabo da disculpa l| 
«deu a VicSte dafõseca lhe disse <) sS duuida cresse ^ tu^ 
tdo aquilo erão palauras. K crendo VicSle dafonseea i} 
;era verdade determinou de prõder el rey & t^lo preso 
-como dates, & que Pateçarangue gouernaria ho reyno, 
porC el rey era tam recatado Q nunca mais foy á forta- 
leza, ou parece ^ foy anisado desta determinação & a»- 
faslauase ho mays i) |)odia da eonuersação dos Portugue- 
ses, nã por mal Q lhes quisesse, mas por recear de os 
escãdatizar , & fazialhes quanto bê podia ^ & era tã obe- 
diSte a Vicète dafonseca & desejaua talo deslar bê coe^ 
le, Q não queria valer a nhti Português Q se a ele aco- 
lhesse por algO dilito, & togo lho mandaua, & cõ tudo 
nã lhe valia ^ de cada vez lhe linha mayor ódio & de- 
sejaua mais de o prêder, & quãdo vio ^ ho não podia 
iazer determinou de o mandar matar : & tudo isto por 



13t 0à HfrronA di tmnk 

induzimeiíto de Paleçarangue (} linha o messio desejo, 
& Iam danados andauâo (| bo aáo podiào encobrir^ & 
foy discuberto a ei rey () como era de grande ooraçâo 
dissimulaua cÒ Pate^jarangue , & não ho quis castigar 
jTor não dar causa a Vicfiie dafonseca rõper coele guer^ 
ra, Q b6 sabia l\ auia de ^rer acudir piT ele. E andan- 
do assi encuberios torão quatro escrauoa de Portugu^ 
ses ao mato, & não tornado mais oiãdou VicSte daíbu^ 
eeca dizer a Pateçarangue ( despoys de ihe mandar pre^ 
gQtar por eies) {} ei rey os deuia de ter se os nà luanda- 
ra malar, ho ^ ^1 r^y soube do l\ fícou tâo triste &aga8«- 
lado, que se passou logo pêra hum lugar chamado Tur 
ruló mea legoa de Ternate, & leuou pêra lá sua mãy 
& 08 do seu conselho, mandando dizer a Vicente dafon- 
seca que se ya, pêra ver se se podia liurar da culpa 
3ue não linha, & que de lá faria ho que lhe mandasse, 
o que VicSte dafonseca fícou muy escandalizado, 8t 
creo que se queria leoãlar cAtra a fortaleza ^ & por isso 
trabalhaua quãto (lodía polo mandar matar, & mandaoa 
fazer aos mouros quãtos males podia. E vendo el rey 
ssto, ouue conselho com os seus sobre se mudar pêra 
nays longe, & assentarão de fazer outra cidade onde se 
chama a terra alia hua legoa daly, que com quanto lha 
auia de ser trabalho, as^i em dt^yxar seu assento, come 
em fazer noua pouoaçãu, a tudo se offreciã por seCirarB 
de mexericos , desgostos , & brigas que disso podiam re^ 
erecer. E auido este conselho el rey & a raynha se fí>- 
rão a Tidore & derão disio cdta a ei tej que era jrmãe 
da raynha , & tio dei rey , a que pareceo bem a mudar- 
ia pêra a terra alta pelas rezões que. lhe derão pêra is* 
so, & coeste parecer midou el rey Dayalo edeficar eu* 
tra cidade na terra alta. 



hh¥U0 ritl. CAPirvi^O JkWt. Id^ 



» f » 



C A P I T V L o LVL 

Oe como el rey Cachil Dayalo se passou pêra a terra 

alicu 

X ateçaraogue como queria mal a el rey & desejaua \ 
Vicenie dafonseca esteuesse firme em lho querer, como 
:vio o (} se ordenaua dis^eiho iogo, atribuindo aquela mu<- 
dao<;a dei rey a quererse fortalecer pêra seleuantar coa.*- 
tra a forlales&a, & fazeribe guerra , bo Q Vicente dafon» 
seca creo, aasy polo ódio que tinha a Eirey, como pola 
mudSça que Ibe via fazer tam de supito , & mays por- 
que neate tempo tendo já el rey onde se agaasalbasse na 
terra alta ae mudou pêra lá cõ toda sua familia , saluo a 
Raynba sua mãy que iicou pêra fazer yr Pateçarangu# 
& os de sua familia, que em nbiia maneyra se ^riào yr 
de Ternate polo ódio ^ tinbão a el rey , & estauam de» 
terminados de lhe desobedecer , por lhes Vicente dafoBr 
seca ter prometido de os ajudar a defender, & por isso 
não se queriio yr. E quanto el rey mays via que Pale^ 
^arâgue insistia em nSo yr pêra a terra alta, tanto mays 
insistia ^ fosse, |)orque reeeaua muyto que não queria 
ficar è Ternate em tal tempo se nâo pêra o deseruir, & 
que o fazia cd ousadia Q ibe daua Vicfiie dafonseca , & 
eom ter isto por certo , ibe mandou dizer ^ pêra bCL tal 
dia se fosse pêra a terra alta cõ todos os de sua valia,, 
^pena de ois castigar como a reueis , & desobediStes a 
seu rey : £ não satisfszido Pate^arâgue a este mandado 
a3 nbft dos outros determinou el Rey de proceder cfi* 
trete : pêra o que se foy a Ternate , Õde acbou Pateija^ 
rangue posto em armas cÕ todos 00 seus pêra se de/iB^ 
der, & tinha cdsigo quarenta Portugueses espingardey* 
ffps Q lhe dera Vicftle dafonseca pêra o ajudarS contra el 
rey , & estes estattfto na dianteyra. £ como os el Rey 
vio , disse ^ bSo queria coeles guerra , roas que se e»* 
panlana, & estaua junyto esoandaliaado , \ sendo ele 



ISS DA BISTOHfA DA IN0IA 

vasallo dei Rey de Portugal j nào lhe Qrer VicSle dafoii«» 
seca, que era capitSo da sua rurlaleza>) deixar castigar 
Paleçarangue seu vassailo ^ ho oflTendia graueiuête, an* 
tes lhe daua fauor , & ajuda cÕlrele , sendo obrigada 
poys era capitão dei Rey de Portugal a lho ajudar a cas- 
tigar quàdo ele só nã pudesse : & rogou muyto aos Por- 
tugueses ^ assi fao dissessem a VicSte dafonseca, & ^ 
ele era vassailo dei Rey de Portugal , & por esse se ti- 
Dha , nS deyxaua de o ser pota mudàça {| fazia de Ter- 
Date pêra a terra alta , ^ se a fizera , fora por escusar 
payxdes , & desgostos {| se começauSo antre os Portu* 
gueses & os Mouros , & da terra alta , mandaria mayg 
mantimentos á fortaleza do í\ yâo dates, ^ não cuydas- 
86 Vicète dafonseca ^ se mudaua pêra outro fim , &as« 
si se veria a diante, pedindolhe por derradeyro ^ fi3 
quisesse fauorecer cõtrele Pateçarangue n6 os outros (| 
lhe erão desobediêles, & (} esperaua |K)r sua reposta pê- 
ra saber o () auia de fazer , & coisto se foy. E ele ydo 
recolberâse os Portugueses, & défão a Vicente dafon* 
seca ho seu recado, 4 ^^^ ouuio com grade menScoria 
porQ ho 'não matarão, & assi ho disse, affirmando c5 
juramento Q ho auia de destruir, & soltando côtrele muy 
feas palauras , 6 (| mostraua claramSte ho grade ódio \ 
lhe tinha, do ^ el rey foy auisado : & na vendo sua re- 
posta , determinou cõ os de seu cõselho de proceder 
eontra Pateçarangue , a ^ mandou primeiro rogar l\ se 
fosse parele , & não querido , mandoulhe fazer guerra 
por seus capitães 1} cada dia lhe fazião muitas corridas, 
& lhe dauâo rebates por már & por terra , assi de dia 
como de noyle^ ê 2) Vicente dafonseca ho raandaua sem- 
pre ajudar poios Portugueses , & assi se ya ateado a 
guerra de pouco em pouco : ho que vSdo el rey a quis 
mays apertar, & foy sobre Pateçaràgue por már, &Ca« 
cbil bualaua gouernador de Toloco por terra cõ a mays 
gSle q pode. E VicSte dafonseca acodio lo(ro por terra, 
& mãdou por már sessenta Portugueses espingardeyros 
em hii batel, & em hu paraó artilhados, & na pelejara; 



LUTEO ^niC CAIPITVLO XVI. 137 

|X)rQ v6do «1 rey os Portugueses Q yão diSte , nã quis 
pelejar coelea & retirouse , «& eles o aperUirâo tãto cõ a 
artelharia& espingardaria, {| lhe foy necessário fugir. 
E outra vez tornou el rey 8 hií calaluz cÕ álgfis mãda- 
rins pêra falar a VicSte dafonseca & lhe rogar i} teues* 
«S paz, & ele lhe nã quis falar, antes mãdou a certos 
Poctugueses Q lhe saíssem, & por ele^não Qrer pelejar, 
& se yr , fora a pos ele ate o ensacara na praya da ter- 
jra alta õde se saluou, leuãdo quatro nqandarins feridos, 
& foylhe tomado o calaluz. E despois disto foy Vioête 
dafõseca darmada á terra alta, 6de chegou de supItoSte 
manhaã , & tomou a el rey toda a armada Q tinha asai 
-no már como na terra, & se tornou pêra a fortaleza c5 
-grade cdtõtamSto de Pateçarãgue, & dos outros imigos 
'dei rey, ij vSdo-como^he Vicente dafonseca fazia guer- 
ra da^la maneyra^ ainda jj o nã merecia , era tã amigo 
dos Portugueses, & desejaua tSto sua amizade polacria* 
f^o i\ teuera coeles , que nQca quis guerra , nê defen* 
-derse pola não fazer, i\ se quisera queyxarse aos outros 
Reys segudo estauão mal cõ os Portugueses, b6 ajQtara 
gente com Q fizera guerra , mas nã quis polo amor J| 
-lhes tinha, & desejo de siia cÕtiersação: & ates quis 
auêturarse a perder ho Reyno , como perdeo , Q fazer 
guerra aos Portugueses, tSdo que era muyto mor perda 
i)ã lhe goardar lealdade c) perder o Reyno , & pêra ver 
i9e cõ se yr dele podería ijhrar a fúria i\ VicSte dafon- 
seca tinha cõtrele, se foy pêra Tidore cõ toda sua ca«» 
lUi , & cõ sua roãy , cõ determinação de -estar lá ate J| 
el rey fizesse cõ VicSte dáfofiseca que fosse seu ami^o^ 
^ assi lho disse , & ele lhe disse {} acabaria isso cÕ Vi^ 
cente. dafonseca por amor da amizade 5 tinhSo amboa^ 
& que tambê ho ajudarião el rey de Bachâo & el rey 
de'Geylolo, & Fernã dela torre, a (| escreueria que ho 
^zessem, & assi ficou el rey Dayaloem Tidore, cuy* 
dado que ali se remediaria* « 



LIVRO TUI. 



I 



13S PA HItTOfttA OA .IlfOrA 



C A P I T V L a LVIL 



De como Vicenie dqfonsece tomou a cidade dt Tidare^ 

V icenle dafonseca ^ dS sabia nada da yda dei rey 
Daj^alo, ajCUou hila grade armada de mouros & de Por- 
tugueses eÕ determinação de o destruyr , pêra o que se 
Soy á terra aJta Q achou deapouoada, do Q se muyto e»- 
pantou^ &Guydou Q ei rey se meteria pelo sertã da jiba 
pêra se fazer forle. £ queymado este lugar , foy sobre 
as cidades de Maiayo & de ToloGo^ {| tâbS forâo despe- 
jadas , por ei rey ter niãdado aos moradores Q nã pele>- 
jassem cõ os Portugueses , & estas tâbem forão quey- 
madas» E sabfido Vicente dafonseca Q el Rey DayaJo se 
fora pêra Tidore, folgou muyto , pêra ter achai^ de Ibe 
tirar o rey no, porQ não podia estar sem Rey, & as6i 
lho conselharão Pateçarangue & os de sua valia, & Q fí^ 
zesse hu jrmâo bastardo dei rey Dayalo^ chamado Car 
chil Tabarija moço de quatorze ate quinze annos , da 
própria ydade pêra eles niandarfi a terra A sua võtade, 
& pêra Vicente dafonseca ho fazer melhor, fez gouer- 
nador do reyno Pateçarangue. £ leuãtado Tabarija por 
rey, foy Vicente dafonseca coele em bua grade armada 
por esses lugares da fralda do már, a que mandaua dí- 
£er que ele desposera de rey de Ternate a Caehil daya^ 
lo, & o deitara do reyno c5 sua mêij Sc outros , por se^ 
tS culpados na morte do capitão Gonçalo pereyra & se 
^ferfr leuatar cõtra a £L>rtaÍeza , & fizera rey a Caehil 
tabarija,. 4 t^'^nibft^ era filho dei rey Boleife , eujo e rey<r 
ix> eva por dereyto , pois Dayalo ho perdera : ^ rogaua^ 
ittuyto a todos ^ obedecessem por Rey a Tabarija, por^ 
nlo querendo lhes aeuia de lazer giierra« £ vendo os 
•mouros c^ue el rey DayaJo se fora, oõ seeeo da guerra, 
obedecerfk) todos a Tabarija,^ somfite o regedor de To^ 
loco ^ queria mal a Pateçarangue ,. cõ quanto era sen 
par&te, & desejaua de o matar por a Ireyçâo que fizera 



LIV80 TUI. Ck¥tTVU> LTir. 139 

é èl rejDáyBlo, & por \uâo o mandou prfider Vicente 
-dafonseca^ & esleue preao até ^ niorreo. E como Pa« 
t^çarangue aabia ^ el rey Daja^o estaua d Tidore , re«- 
ceauase ^ dali cobrasse sen reyno : & pêra mayor sua 
«egurança, fez c5 Vicète dafõseca l[ fosse c5 grande 
armada sobre Ttdore ^ & fizesse oS el rey ^ lhe mâdas* 
ee entregar todo ho tesouro () Dayalo lenara , gõ todo a 
maia quãdo se fora de Terilate^ ae nS que o destruísse, 
êc ficando Dayalo sem tesouro nS teria poder pêra m 
restaurar no reyno, E coroo Vic6te dafonseca cria muy« 
to em Pateçarangue tomou seu conselho. E chegado a 
Tidore bfia manhaã c6 grade armada, mãdou dizer a el 
rey as rezões porQ despodera de rey a Cachil dayalo & 
fizera rey a Tabarija , a quS pertencia todo fao tesouro 
douro, prata, & armas defensiuas, & offensiuas, &e8^ 
crauiis que Dayalo & sua mSy leuarâo de Ternate , qae 
Uie rogaua <]ue lhe mandasse logo dar tudo se Qria ter 
paz eoele , se nã j} lhe faria guerra : & tâbem lhe auia 
«êtregar Dayalo & sua mfly , oú os laçasse de sua iet* 
va , porQ qufi ttnha amizade cft os Portugueses nã auia 
daoolher hCt tamanho seu imigò como Dayalo. El rey úm 
Tidore como era mn^jo, espanl(»us8 dCi recado tã aspe* 
ro, & respddeo a VicSlcê dafonseca que fafia tudo o 4 
fi)88e rezfto, que lhe pedia ^ desembarcasse pêra falará 
sobre aquele negocio & se fazer o Q fosse seruiço dei 
Rey de Portugal : & por cOselho de Pateçarangue nM 
quis Vicfite dafonseca verse cO el rey, & repricou {} ti4. 
lesse logo o {) lhe pedia se queria ter paz coele : & vfi'^ 
dose el rey tã apertado, disse Q aueria cdseiho cd os 
seus, & despoys yria falar a Vicente dafonseca pois ele 
Aà t\vÍB, desembarcar : & Vic6(e dafonseca nfi respddeoi 
porque vio í\ el rey não fazia o que lhe pedia. E «uy^- 
dando el rey t\ consentia em ^ ouuesse cõselbo eniroa 
liele, mas Vicéle dafonseca tomou outro, i) lhe deu Ps* 
teçarãgue , que foy dár tíB cidade pois el Rey nã sati»» 
fazia a seu requerimento , & cc»m lhe fazer guerra o fa^ 
ria j & asai bo fez ^ desembarcado sopitamente cÕ sua 

8 2 



*S4X) DA HISTORIA DA INDfA ' 

gente ármâda, & entra pola cidade ferindo '&inatSdo 
aeus moradores , Q confiados na paz & amizade que ti«- 
nhão cõ os Portugueses estauSo bem descuydados de tal 
eousa, & sabendo ho el Rej, fugio logo com a sua mãy^ 
& Cachil dayalo cõ a sua pêra hua serra i\ estaua sobre 
a- cidade, pcra onde tãbem fugirão os mais dos mora^ 
doreS) posto Q. algus quisetão resistir por defenderfi suae 
molberes & fíUios , & estes forSo mortos quasi todos i & 
não tendo os Portugueses com quê pelejar, roubarão Sb 
qucymarão a cidade. £ ávida esta. tamanha vitoria^ em 
.q Vicente dafon^eca cõ os Portugueses perderão maie 
de credito 9 do que ganharão de honrra, se tornou pêra 
Ternate sem aicâçar nada do que ya buscar, se não 
guerra cÕ- Tidore sem nbua causa , de Ç noeso sfior lhe 
deu logo algu castigo: E tornado á fortaleza, vSdo ore^ 
gedor de Toloco (Q disse ^ foy preso) ^ Cachil dayalo 
nã pod4a. cobrar o reyno, por nã auer rey dai^Ja gera^ 
ção, determinou de malar el reyTabarija, & dous seus 
jrmãos, que VicSte dafonseea tinha na fortaleza pêra 
sua segurãça , ho <). cuidou de fazer por estar eoeles no 
dérradeyro. sobcado da torre da menagem , ainda qiie 
preso com hCLa adoba, & pêra cõprip sua determinação', 
ouue hfi cutelo (} trazia escondido, & logo t\ VieSte da- 
íõseca chegou de Tidore , estado hd dia á porta da fon- 
taleza ho regedor ^ estaua só cÕ el rey & seus jrmâos^ 
& outro» algils no dérradeyro sobrado da torre da me- 
nagem, remeteo ar el rey pêra ho malar, í\ quis Deoe ^ 
lhe escapou & fugio cõ os outros pêra duas camarás a 4 
fecharão as portas de dStro, & outro» fugirão pola escar 
da abaixo bradado ^ lhes acodissem, & ele nã pode al^ 
eançar nhfl por amor da adoba que ho loruaua , mas ai^ 
cangou hii filho de Vicente dafonseea^ mo^o de sete Snos 
& degoiouo, vendo l\ não^se podia vingar de qufi quir> 
eera^ B feyto isto, porí^ sentio ^:aoodio gente, posse 
sobre a porta da escada^ tirando cõ pedras •& páos &al>- 
gilas espingardas , cõ ^< defòndia muy brauamSte que a 
f;&te não sobisse: a cima , & cõ= tudo ,, M^caualeico 



N :•: 



inádo lorge golerez passou a diaote bem cuberto ctehila 
vodela Q lhe o mouro ^brou sobre a eábeqa cõ- hua eât 
|»tngarda <} lhe arremessou , & o ferio & atordoou algCl 
taaloy porè ele era tâ esforçada que a^ssi se chegou a0 
mouro, & lhe deu bfla eslocada- pela barriga Q o passou 
da oulra parle, & ele ^. não era de menos esforço (| lorr 
ge goterez^, nfi por isso perdeo o lugar & Q estaua em 
4)uâlo teue oõ ^ se defender, & despois de lhe falecer, 
garrou cõ lorge gotere2 & ferio o cÕ o cutelo por debai- 
xo da barba , & ele o leuou nos braços , & fora ambos 
pola escada a bayxo, & chegado ao sobrado lorge gole* 
rez se desemborilhou dele, & deu Jhe hfla cutilada na 
cabeça com que quebrou a espada, & VicSle dafonseca 
Jk outros ho acabaram de matav. 

CAPÍTVI.0 LVIII. 

JDe como el rty Cachil dayalo per^guidò de Vicente da^ 

fonseca se foy morar a Geylolo^. 

'VXrâde espSto foy por todas aquelas jlhas quSdb se sou*. 
te^Vicete dafõsejfia desposera de rey deTernate aCa-^ 
jshii q. era legitimo, & tã ameigo dos Portugueses & cria- 
-lo atreles, & ho perseguira tãto até o fazer fugir do 
íeyno, & farcr rey a Cachil Tabar>ja lã mo<;o fc bastara 
^o, & a qu6 nSo pertScia o leyno por nhfta via, & ti- 
«hfi todos disto grfide escãdalo: & muitos Sangages & 
•gouernadore» dos- lugares do reyno deTernate, não que^ 
líiâo obedecer a el rey Tabarijfa , & ehamãuâlhe rey d« 
'Vicête dafonseaa & de Pate^rague ,- pelo q Vicête da- 
i£58eca fez a mayor araiad» Q; pode & mãdou nela por 
capitã mórPatei^arãgae pêra fazer a estes q digo q obe* 
decessS a TabariJA ^ obedeeerft vôdo se apressados da 
guerra ,. posto ^ el rey Gachil dayalo lhes socorreo cô 
^Igua armada maa- n& aprooeytou , fe assi tãbê fez por 
força q obedecesse a eJ. rey Tabapga hú mouro chama- 
do Ouro baeh^ia tesbureird dei rey Cachil dayalo pessoa 



I4ft HA BrSTDHIA DTA fNOIA 

mui nofáuel no reyno, ^ obedecSda a el rey Tabafíjai 
lhe entregou iodo o tesouro Q tinha dei reyCacbildaya« 
Io, o 4 foy eausa dalgiU Sâgagea & afiores (| ainda ea»- 
Cauã por dar obediAcia a el rey Tabartja lha dessA. £S 
vSdo el Rf^y deTfdore como as cousas dei rey Tabarija 
erft de cada vez mais prosperas, & el rey Cachii dayato 
ya 6 mais perdição, & ele nã lhe podia valer pi»r estar 
muy {|brado das guerras passadas, fes paz cô Vicêie da<- 
jfòseca cft receo 4 ^ destruiasé fie Vicête dafôseca a fez 
por assStar a terra: vendo el rey feita esta paz nã se 
atreueo a viuer 8 Tidore por amor dos Portugueses (| 
iabia () auiSo lá dir ^ dos quaes se nío ííaua, & por isso 
determinou de morar em Geyiulo^ & foy lá primeyro^ 

{)era pedir licença a el rey (] lha deu de boa v5tade^ & 
he prometeo de lhe dar algQs lugares, de cujas rBdaa 
se mâteuesse, & mais ^ ele & Fernão de la torre roS- 
dariS rogar a Vicête dafonseca {^ o ajudasse cÔ algQa 
cousa, poys o deytara de ée^ Reyno^ & assi ha iizerãò^ 
mas ele não quis, antes com PatP<}arftgue mandou co» 
meter a el Rey de Tidore i\ lhe vendesse el rey Cachii 
dnyaio & lho entregasse, por^ ilílo se passasse perâ 6ey- 
lolo, temêdo {| de lá lhe lizesse guerra, bo í\ el rey nSo 
quis fazer. E vendo Vicente dafõs^ca I| nSo (|ria , fez (| 
lhe desse a mãy dei rey Tabarija , {| andaua em côpa^ 
nhia da molher dei rey Cachii dáyalo, cò quê Pateçarã^ 
gue desejaua de casar pêra ser mays hftrrado, & assi o 
fez, depoys il foy entregue a Vicente dafonseca, ai) nSo 
abastando as perseguições que linha feytas ael Rey Ca** 
chil dayalo, tratou secretainête cÕ a raynba sua molher 
() lhe fugisse pêra Ternate, & que a casaria cõ el rey 
Tabarija & seria raynha ^ o l\ nuncn auia de ser sendo 
molher de Dayalo , porQ nflca auia de ser rey : & affir'- 
niouse j) neste concerto cdsentio el rey de Tidore, cuja 
jrmaâ era a raynha, te isto por peita, & por desespe*- 
rar dei rey Dayalo cobrar roais o reyno. E despoys dele 
íornar de Geylolo, hOa noyte o embebedou «Raynha è 
h&a cea j| Lhe deu : & estando ele bem entregue no so*^ 



LivKO Ttifa. cAPirriO' urm. 14S 

DO, »e foy ela Becreiamfite com atgilas das suas mSce- 
bas, leuãdolhe & mayor parle do tesouro Q tinha. Eche- 
gaodo a Térnate, a casou VicSte dafonseca cõ el Rey 
Tabarija , o ^ sabido por el réyCacbil dnyaió ho seotío 
mais 4 perder o reypo, por lhe ^rer muyio grade bem, 
& ser ela refrigério de seus trabalhos, & Lãbem siotio 
Jauarthe o tesoukro^ porí} fícau» de todo sem ter com Q 
sosteuesse aqueles que ho acâpaohauSo : & como er» 
magnânimo dSo desmaTou c& todos esles infortúnios nC 
SB mudoti da determinarão de jr morar a Geylolo, £ 
porQ sua m&y auia de tícar em Tidore, deyxou coela 
aqlea que o acdpaabaujío, Scomfidadoliios rouyio, & pe- 
dindolbe a eles.mujto perdão de os nS leuar cõsigo, & 
de Ibes nâ poder íkzer.. mercê, fazSdo ele & eles grSd* 
prato AO despedir,. se partio pêra fíeyloto sò, & lã po- 
bre, ^ Bâk) tinha mitys do q^e lhe el rey de Geylolo da- 
ua, dde esleue atá-í) tornou outro lèpo, como direj a 
di&le. £ partido el Rey'Dayalo pêra Ge;lolo, el rey d« 
Tidore pedio ajuda a Vic£te dafonaeca, & a e] reyTa- 
biirija, pêra eoln'ar algQs lugares de seu senhorio Q lhe 
estauSo reueladoB, & cÒ sua ajuda os tornou a cobrar; 
em ^ bú Jorge goterresc , & hQ SímSo val&le pelejarão 
muy esfor^adanfile. £ despoís disto, moueo et rey de 
Gevioto ffuerra a VtcSte dafõseca por certos lugares de 
linba tomados i & oÍo lhos lornaua 
le lhos tornar, & asai esteuerfto nlé 
ristâo datayde ^ foy por Cfipitão da 
10 a diaote direy. 



i 



chia dagoft do esteyro Q disse, de fiftodo ^ nS im podia 
£tr«r se oâo pdo cabo dn irao^yra ^ <| os aiouros fiserá, 
porQ se âlgda ora os oossos os quisessS cooieler, nft po- 
deria tãto Sdnr a pé pêra cjiegarfi ao cabo da traoQyra, 
& se chegasfiè , chegarião Iam cansados que Aáo pode- 
riâo pelejar , & coesla forlaleea & cd MeiiquQ ter deza- 
aele mú hoinSs de peleja assi de pé como de oaualo, & 
todos escolhidos, lhe parecia que «staua seguro da ser 
tomado* 

C A P í T V L O LX. 

» 

Como Jiíãique quiaera deter cê enjfono ko GSoucmackr if 

não cam€l£$$e a farlaUzeu 



V^hegadi 



io bo gouernador á barra de Baçaim entrou deo- 
tro no rio pêra surgir com sua armada, i\ sabendo Me^ 
Ai que Mmaolia era temeu de ser tomado , & pêra au«c 
Sftays geate & se fortaieoer mais, mâdou logo dizer ao 
{^otterAador por hum mercador Dormuz^ hi tidba bihi 
Aao, ^. b& sabia tomo seu paj, & ele forão sempre gra»- 
4les seruidores dei Re; de Porlugal : & a amizade que 
teuerS cô es seus gower»adores da lodia, & nSea lhe 
quisera fazer guerra, sobre Q el rey de Cãbaya es vexa- 
va & tratara mal., & por isio assi sec ele ^ria goardar 
iioele o que até ali goardara com outros gouernadores , 
& ter coele paz & amisadc eomo teuera cd os outros se 
ele disso fosse conteate, & se posasse uo Q fosse razJL 
Ho gouernador desporys de ouuir este re<^ado, pregilioa 
ao mouro (xila faftaleâta ^ & «e estaua ta forte como ef a 
a fama, èt ho mouro lhe prometeo de lhe dizer a vei^ 
dade, pedindolhe '() lho nâ mfidasse queymar h&a náo^ 
hl tinha , & tnays pois era vassallo dei Rej de Portu«- 
^al : ho ^ ogoueroador lhe prometeo, & ele lhe contou 
&r^a'rogte a gente qu« MeltQ. tinha & ho assento da for- 
taleza, & quam' foitulecida estaua. £ ho Gotternador 
■que com tudo tinha determinado de dâr nela, não ihc 
4eu nada do que ouuio ao mouro ^ & sespendeo taMelí^ 



LivROi 1 VIU. xjÀauBntiO ' nx. 147 

<|«ei qpUe fiM Saber <|ire enu verdajde tikdò qiiã(o ifieiifaa« 
Mua Aízsff ^ €rQ cont&ie. détfaeec ceeie pa£ & o ter por 
aifttgo^ & que lhe mandasBe-arrefens^ &; qsoe despoí» d^ 
es ter mandacia la cõ quem naaentasse a paz & a amn 
aade^ E comoMelique nâo tínba teii<;âo de fazer a paz^ 
iiSi» qaia ipandar resposta aQle dia, & ao cairo mãdoa 
tces Mouroa iioorradM*x)«ie. ho oterçadorDormuz oonho^ 
ei^ y. qtns bo gauernader mandoiu a^pasailhar em hfia ga-» 
IfeoLa ^ de que era capitão loãò de payua feytor da ar-* 
mada : & piâdou aMartim afiMso c^e melo qae fosse as*- 
seotar paz comMeinq^ie : & seria; com oosdiçâo que lha 
abrgasae aquela fortaleza* E safaSdo Meivque ^omo ya 
Martim *afoii80 , .sayo boa reeeber btl pe^a<jo fora da 
fuictalt£Ba : & alk assentados «a herua sobre búa alcatifa 
praticarão napaz , & Melique n9o<^a dar a foKaIeza, 
& .pc»r Martim afonso aprefíar mtvytio coele^^a jdesse^ 
Ibe disse Al dique fi lhe rogana fisr sua fidalguia qwetbe 
dissesse, se eáe fora Mdíq.ue se a dera, & Martim afon-^ 
so reBpftdeo. que se, soubera ho' poder que ya CDutrele^ 
como sabia, que a entregara por^escapar: & cc>in tud» 
]Meli{) poia tençSo que tinba insistia miiyti> em não àãp 
a fortaleza^ E por derradeyro, n^ays pêra detòr picouGl» 
que pêra querer conerusam^, disse que. dirribaria a fcuv 
taleza , com condigam que lhe pagasse ho gouernadoR 
os gastos que 6zera , & que auia de leuar a «rtettiaria y 
madeyra , & pedra , & era refazimento dos gastos Ih^ 
auia de dar ciacoentacaiialos dos q^tefeoaua, &coest<» 
reposta se Cmuou Martim afonso, & deua ao Gooeriia^' 
dor, que maadou logo os arreffis, &«ha4nou a cfiseiha 
na sua galé onde propôs aosicapitSes 6daUt>s, &'pes«« 
soas principaeis da armada, a reposta de Melií)^ & co- 
mo muitos sabiam bo assflto da fortaleza pelo mouro fe 
ho modo de (\ estaua fortalecida , & tenoíessè a peleja y 
Qo lhes parecesse melhor auer a fortaleza séiAi ela l\ coe** 
Ia, em () muitos corriA risco* de morr^rS, & a ludia {i«^ 
c»ir desfalecida de gCte, de ^ ao presSte auia necessida*' 
de grádisstma^ ioiâo de parecer Q se.edcedessç jiMeliÇ 

T 2 



1*6 -lU HICTOIIEA lU.fffDU'! 

O que pedia j dando as mesmas rezões Q digo^ &) por^ 
não 8ô fizesse Baçai oatro Diu. E Diogo da. silueyra) & 
Manuel datbaquer^foráoiniiy desuiados deste parecer *, 
<!izêdo quea^ia armada qae fao gouerfiador irazia^ Ih 
nha miiyto custado a el íiey. , & o que se poderia dai* 
por 86 derribar a fortaleza seria outro tanto ^ o que era 
grande vergonha & parecia ffaq4jeza) que era muyto dé 
notar pois se cometia por (aata & tam boa gente & tain** 
bõ armada como ali estaua ^ & por nã ficar 6 custume 
aos mouros c^como íjuísessem ajuntar quaeis quer quatro 
pedras pêra lhas vendetS: iambê como Meii^ ^ria vSder 
aquelas 9 & mays leualas^ que o não deuião de fazer: 
& seMelique nã quisesse dar a íbrlaieea li^iremente qu^ 
pelejassem 9 & que esperauâo em nosso silor Q os auia 
de ajudar por mays fortes que os imigos estiuessem , & 
deste parecer £>râo outros ', & bo gouernador por derra- 
deyro>^ & por serem mays vozes se assentou que fosse 
assi y & bo gouernador be Hiandou dizer a Melique por 
be' mouro Doimuz, & por .ele respondeo que ao outro 
dia ma«ularia a resposta: & vendo os soldados esta dila- 
ção sem saber&a causa j & porque sabião o que Mar(im> 
ifonao passara cõ Melique sobre o que o gouernador te- 
v^ra conselho, & lhe respõdera, assentarão^ poys ho* 
gouernador não dera logo em terra que não Q^ria íazer 
nadat & se (ornaua^ & leuãlouse sobrislo grande mur-' 
muraqão por toda a ífrota, & o secretario Simão ferreyra* 
bo disse ao gouernador, 4 vendo ho vir de fora cõ rosto 
descontête Ide- pregulou que ya lá, & de que vinha des- 
cõteate,.ele lhe respõdeo ^ por dizerS todos (\ se lorna* 
uão pêra Gk)a sem fazerS nada , & entSdeiido ho gouep* 
Dador, q?ue poys ete soltaua aquilo (| auia grade muroml* 
ração na armada, & vendo tambS 4 Melique não mao- 
daija reposta, tornoa a chamar a conselho & determinou 
de dar em terra ao outro dia ^ era dia de são Sebastião^ 
& que de Ioda a gente se fizesse Ires escoadrÕes, no- 
prifaeiro q seria de seis cSlOs Portugueses^ &quinhSt08 
Ganaris^ yrião Diogo da silueyra, Martim a&mso de me- 



LlVftOVIIl. CÀPlTVLO LXt. 14> 

lo juftarte, & Manuel dalbuquer^. No segfldo que séria 
doutros talos yriâo dom Fernando deça, Vasco pirez de 
Bio payo, dom Paulo da gama, António de lemos, Anrri^ 
de macedo, António cardoso, & os ouiros capitães dos 
galeões. No terceyro que seria de oylo cStos, yria o 
gouernador cÒ a bádejra real acÕpaobada dos outros ca- 
pitães, & nesta ordem desembarcarião todos de madru- 
gada & cometerião ho cabo da tranqueyra , cujo cami- 
nho ho mouro Dormuz lhes insinaria, indo na dlanleyra 
com Diogo da sHueyra , & á boca da noyte a albeloça 
de Pêro de faria com as mays velas que teuessem liros 
grossos , & assi algQs bateis de matas se chegariâo o 
mays que podessem â fortaleza & á tranqueyra, pêra ^ 
ouuindo de madrugada hil tiro de berço Q tiraria o seu ca* 
tur indo pêra terra começassem de bater a fortaleza & Irí- 

queyra» 

C A P I T V L O LXI. 

De como Diogo da silueyra^ Mariim afonso de melo ju-- 
sarie: ^ Manuel dalbuquerque desbaratarão a trâquej/' 
ra dos imigos. 

Xsto assentado tornarSose ca capi files aseug nauios, & 
chegados á tranqueyra & fortaleza os t\ auião de dar a 
bateria êcomSdouse a gSte a nosso sflor , porj) ho feyto 
era muyto perigoso per a fortaleza estar tam forte como 
disse, & em grandes alegrias pori^ soubessem os imigo» 
% os não temião. £ vinda a madrugada Ç o gouernador 
deu o sinal cõ ho berço, coma estaua* assentado, trome- 
çou* a nossa artelharia de despavar & eomo era ainda de 
Boyte & fazia neuoa , & os tiros desparassem quasi a 
Ma foy hfla cousa esp&tosa, & rn^ays per^ a artelharia 
dios imigos começou tambe de jugar cuydãdo Q os Por- 
tugueses desembarcauão diante da íbrtaleza. Ú desen)* 
harcados eles & postos na ordfi em § auião de yr , co* 
meçarão de caminhar ao longo da tranqueyra jiera ho 
Gabe'U«la, porque querèdo Diogo da silueyra entrar pela 



eaua aia» qtifa quâdo achou, a altura <|U6 linba: & poit 
iwèo paasou auãle por bOL campo raso onde a nusaa g)9iih 
to nâ tiohâo outro emparo se não o de nosso sftor {| o« 
goardaase das noujtaa bÕbardadas^ lhes os imigos tira** 
uani & espiogardadas em roda viua, & oauytas bõbaa 
de fogo^ & tudo tã basto Q era milagre euÂdente esea- 
pare de tantos tiros y & nosso sftor seja louuado em nhtii 
acertarão y pelo ^ despoys muyios dos Canaris que yãa 
eò os nossos se tornarão cristãos , dizendo que o nossa 
Deos era melhor que todoa os. outros deoses Q nos goar^» 
daua dos perigos. E os mesmos mou«os espantados de 
verá ^. os seus tiros nâo em^pecião aos Portugueses, maa*« 
darão dizer a Meii^Ji í^ visse o ^ fazia por£| a artelharia 
nâo fazia mal á^les homds^ & que se chegauâa ao cabo 
da. trãqueyra^ onde se todos ajuntarão,. & seriãto doz0 
mil hoinSs de pé & de caualo , em Q auia muytoa Rn-* 
mes & outra gente branca. E^sabido por Melique a^le 
recado, acodio á tranqueyra deyxãdo encomSdada a for- 
taleza a hil capitão de {} confiaoa, E quando os Portu* 
gueses chegarão ao cabo da trãq4sieyra despoys de tan- 
tos perigos acharão como digo a^le corpo dos imigos^ {| 
era cousa de tiros de fogo que tirauão pêra defender a 
«entrada , mas os Portugueses não duuidando nh&a cou* 
sa remeterão aos imigos na ordem em {) yão, tirado hfi» 
muitas espingardadas, & outros cõ lanijadas* E venda 
os tmigos a ousadia cÕ ^ os comeCião os menos : teiie^ 
râo coração pêra se defender o que âzer2o por hQ quar- 
to dora, pelejando muy esforçadam£te & logo se desbar- 
ratarão, não podêdo sofrer o. Ímpeto dos Portugueses, 
& fugirão deles pêra a pouosiqão, & outros pêra a forta-» 
leza, & assi os seguirSo os nossos, parte deles com Dio-i 
go da silueyra {| seguio os qyâe contra a |K>uoa<;io, Sc 
parte cÕ Marlim afonso, & Manuel dalbuquerque os ^ 
yão pêra a fortaleza: & nisto chegou Melij) ^ & come-i 
<jou de recolher os seus, & assi como os recolhia fazi» 
volta aos que yão coro Diogo da silueyra, mas aprouey-^ 
t^ua Ibe pouco, porque como os Portugueses yâo faiia^> 



LfVRo y»H. «ârtTTii» tau. 191 

ffeciclQS. cotna viloria a cada volta lhe matauãomuyio»: 
•& Msi os leuarâo ate « pouoaçâo ^ onde Melique nâ se 
atreuêdo a saluar , fugjo passaodo hOa poDte que atia^ 
^uessaua ho esleyro Q disse, & recoJhe€>se cõ a gente ao 
pé de bua serra õde se fez forte, & na entrada da traa- 
queyra & no alcâqo dos imigos fora mortos bô quinhêtos 
.faamês , & niuytos deles Rumes , & atreles foy fau Abe- 
21 de cauaio, ^ atreles era tido por esforçado caualeyrc», 
& matou ho loão jusarte tição, & assi foy morto buca- 
'pilão dei rey de Cambaya cÕ dous filhos & hu genrro, 
& não foy a esta bataiba a mays que a ver os Portugue- 
ses, porque nunca os vira peiejar, & tinha deles fama 
que erâo muyto valentes homõs, & este capitão se a- 
cbou armado de hu bõ corsolete : & assi morrerão ou- 
tros muitos capitães & homSs conhecidos, & dos Portu- 
guesas morriâo ate seys , & hii deles era fidalgo , & 
cbamanasse Diogo de melo, & outro Bertoiameu drago, 
& doa outros não soube os nomes. Eesta vitoria se oa>- 
Jie 6 três oras , & foy das prlcipaeis (^ ate aly se ouue 
na índia, por ser hft feyto de muyto grande perigo, & 
^er a peleja cõ a melhor gête da índia , assi de pé coh 
mo de cauaio, & em i) auia moytos Rumes, & a mays 
da outra gente toda brãca, afora terem Jantas mwaições 
À tiros de fogo como disse» 

C A P I T V L O LXII. 

De awio os imigos despejarão a fortaleza de Baçtík 

JL/esbaratadoa os ioiigos & posto fogo á pouoaçam, ti«* 
raram os* Portugueses ^'iminho da fofftalesa , & chf^gan»- 
do á metquita que disse y esperarão polo gouernadoí' ^ 
chegou á trâqueyra quasi em tfido os Portugueses aca^ 
Jbado de desbaratar os imigos, que polo pouco espaço {| 
l^astarão em os desbaratar, não pode chegar mays cedo: 
& foy a pressa tamanha 4 correrão os Portugueses muy* 
to risco de aerè mocloa cd a noasa^ arlelkatia {[ tifauás 



15S DA ffffTOMA »A INOfA 

05 do mar, ^ cuydando ^ nã tomassem a trSqueyra táo 
asinha , dSu faziXo se oão tirar a ela poios ajudar, fe tS 
impresso tinhSo isto na fantezia, que os vião ãdar sobre 
os valos da iranqueyra , & cuydauto Q erSo os jmigos , 

6 1} os Portugueses erão todos mortos, se nflo quãdo vi- 
rão luzir os capacetes, então deixarão de tirar. E che- 
gando ho gouernadof á mezquita deu «luytos louuores 
a nosso senhor por a^la vitoria , & fez muyta honrra & 
gasalhado a Diogo da silueyra & aos outros capitães lo« 
uãdo seu esfor<^) & valentia, & disselhes Qesperaua em 
-nosso sefior dalmocjar ali &cear dentro na fortaleza, por^ 
o mais era feyto: & pêra 2|brar as portas da fortaleza 
mandou logo á frota -por algfls tiros grossos, l\ )X)r der- 
radeyro aprouue a nosso senhor ^ não forão necessários, 
& acabousc lio feyto sem perigo, por^ indo poios tiros, 
mandou ho gouernador ao secretario {} fosse espiar a por- 
ta da fortaleza pêra ver se lhe poderião tirar c5 as b3- 
-bardas por{| mãdara , & mandou yr coele sete ou oyto 
homês, & como os outros o virão abalar, f |K)r ser prí*- 
uado do gouernador) leuãtarãose bem quinhétos & forão 
a [x>8 ele. E vendo os mouros ^ estauão na fortaleza a- 
X{ueie .corpo de gente emcaraua -nela & a bateria Q lhe 
dauão por mar, & vendo desbaratada a tranqueyra, & 
que Meli^ fora desbaratado, & não se poderá recolher 
á fortaleza , cuydarão que lhe yão tomar a porta pêra 
não poderS sayr em quãto os outros entrauão pelos mu- 
ros, & cd o medo ^ disto côceberão abrirão as portas & 
fugirão pêra ho esteyro c6 determinação de passar da 
outra parte: & os Portugueses Q os virão derão após 
eles, mandando ho secretario dizer o que passaua ao go- 
uernador, que logo seguio pêra o lugar por onde os jmi- 
gos i}rião fugir, & ainda neste alcanço forão deles mor- 
tos perto de cinquoSta Rumes & homSs brancos, & por 
não poderS passar do esteyro se tornarão pêra a fortale- 
za , a cuja porta ho gouernador armou algfls caualeiros, 
& antre eies forão Gil de crasto filho de Diogo borges 
contador de Viseu, Baitesar lobo desousa, Tomé dé 



LIVRO VII!. CÀ?lTVLO I-XII. 16Í 

brilO) Líonel de lima & outros, a fora muytoe {{ fizera 
aa niezquita: & despoys entrou na fortaleza dando muy- 
las graças a nosso sflor pola muyto grande mercê j) lhe 
fizera , & achouse muyta poluora despmgardada & de 
bSbardada & muytos pelouros & outras muylas muni- ' 
çRes , a fora a artelharia que com a que foy tomaiia na 
traoqiteyra forâo quatrocStas peças, & antrelas sete 
grossas arrebatadas, & a terra foy cortada & deslruyda^ 
em táto t\ os Portugueses rogauão hils aos outros ^dey« 
xassem algQas aruores pêra sombra, & a rogo de fafi Gu- 
zarate gentio homfi velho & que tinha presença de bonr* 
rado, mãdou o gouérnador que não cortassem mais ar- 
uoredo. EporQ ele não linha gente pêra soster aQlafor-^ 
taleza contra vdtade dei Rey de Cambaya & pola não 
deyxar aos mouros a mãdou derribar toda ^ assí o ba*. 
luarte, & desfazer a tranqueyra, no ^ se deteue oyto 
dias tendo em terra seu arrayal. E desfeyto tudo isto 
ate os aliceces recolheo se a frota, &dahí mãdou a Dio- 
go da silueyra aoestreylo por capitão mór debita arma- 
da de três galeões de que forão capitães ele, António 
de lemos, António cardoso, & bâa galé real a cujo ca* 
pitão não soube ho nome, & duas galeotas, capitães 
Frãcisco de sousa, & Fernão de crasto, & quinze bar* 

Ífantins & catures: & porQ lhe foy dito l\ a fortaleza de 
>amão estaua despejada, determinou de a mandar der- 
ribar, & deu ho cargo disso a Manuel dalbuquerQ I) fez 
capitão mór de hua armada de três galés de A forão ca- 
pitães ele, dÕ Pedro de meneses, & Manuel de vascon* 
celòs, & doze bargantins & catures, pêra que lhe deu 
trezentos hom&s , & deyxandolhe esta armada se partio 
per» Chaul & dahi pêra Goa õde auia de inuernar, & 
daqui despachou Martim Afonso de melo jnsarte pêra yr 
a BSgala fauorecer Cojeiabadim, aquele mouro Q ho 
resgatou , como disse no Liuro Septimo. E por el rey 
de Bengala ho não querer deyxar tornar pêra sua terra 
escreueo a eirey de Portufral ho agrauo q lhe el rey fa* 
zia pt dindoUie <} ho mandasise tirar dela , & ij auendo 

LIVRO VIU. u 



|94 iU HISTORIA DA ÍNDIA 

de yr «Igu5 a itso fosse Mariim afooso, aqoeni «Bcreileo 
2| Ibe mandasse aquela caria, & que escretiesaç a el Rej 
os seruí<{os ^ Ibe tinha feytos, & ^ lhe pedisse a^la yda 
a Bengala 9 porque ele lamb& pedia a ^l rey Q ho oilt« 
dasse : & Martim afonso bo fez assí 9 £^ el rey Ibe fes 
fuerce da yda, & assi lho escreueo, & escreueo aoGo-» 
uernador que lha desse , &> por isso lha deu , & a lirou 
a Ruy ?az pereira , a quem a tinha dada. £ auenda 
^lartiro albnso dyr, deulbe bo goueraador bo galeão 
sam Rafael em qtie íbsse, d^ que era capitão CriaiouàQ 
de meio, & deulbe cento & eiocoejita Portugueses, & 
partio de Cochim em Abril , leuando em sua consevua 
^um nauio seu , & bua nao de Bastião luys escriuào da 
inatricula de Gocbim , & António gramaxo em bu jun^ 
go seu , & outro nauio , <;om que vio cinco velas* 

CAPITVLO LXHL 

De ç^mo Manuel daUmquér^pu /ay dtírribo^ a fiurtmleaê 

de Damão, 

A. gemte que ficou com Manuel dalbuquerque^ se es»* 
barooM de muyio má vootade por ser entrada dinuetno^ 
& serem os ventos eonlrayros, como por esiarem enfa« 
dados de pelejar , & desejarem de yr descasar a Goa ; 
& Manuel dalbuquerque os confortou & esforçou, & par* 
tiose pêra Damão, que be hum lugar grande, & iem 
hua boa fortaleza, situada na ponta da enseada de Càm 
baya da banda do sul, por btt rio a cima pouoado de Gu- 
zarates gentios, & na fortaleza estaua bu mouro capilâo 
dei rey de Cambaya, cd quatrocentos Abeiins & Fat*^ 
taquls , & os mais deles espingardeyros, & estana a for- 
taleza bem artilhada , & não despejada como íizerit crer 
ao gouernador.. Chegado Manuel Dalbuquerque bua aAr 
temenhaâ á barra de Dama , asai como chegou mandou 
logo a hum fidalgo chamado loâo de mendoc^a que foese 
Sondar bo rio pêra ver se poder iâo entrar nele as galèa 



& ver 8 desposição da fonaleta ^ & ele fcíy êt» bbtíi ea- 
(ur, & tornou cõ recado ainda ante» daMuan^ecer , que 
86 galés podiSo ii$dar no rio,- & segundo as oongé^tu*» 
ras que vira, que lhe parecia que oe íniiges èstftuão to* 
^s recolhidos na fortaleza eaperando por eie. E com 
quanto Manuel dalbuquerque isto soube, &'VÍo que tra^ 
zia pouca gente pêra cometer a fortaleza, era tam ami- 
go de sua honrra que hâUi quis qúe dissesáe alguS que 
poderá tomar a fortaleza se a cometera, & assi ho disse 
a todos os capitSes, & pésso&s priâcipaeis da frota^ pe^ 
dindolhe que a cometessem ^ & que despoys ho tempp 
lhe mostraria ho que podião laaer, & isto porque todos 
erSo dacofdo que pojs a fortaleza estaua fbrte que n 
nSo cometessenk, porque boGouernador os nâo iDandârd 
a tomala , se nSo a derribala, erendo que estaua despe^ 
jada , & pois o nã estaua , nem eles nãò traziio pètre^ 
chos pêra a tomar , que era escusado cometela , & poto 
que Ibes Manuel dalbuquerque pcídio, lhes pareeeo bem 
v«remna^ & passarão tanto anante com tdda a frota,' 
ainda ante menhaS, que se pegarfio eom ho muro dât 
fortaleza, de que as bombardas eboutão: & vendo Ma« 
fiuei dalbuquerque () nft fazta ali msíys que poderem Ihe^ 
matar gente, tornouse a sayr antes que viesse ho dia ,^ 
& que lhe podessem os imigos fazer nojo com a s^tetha-^ 
ria, & atrauessamio pêra Die a esperar algt^as nãos qne^ 
fossem aMma, d^ulbe bum tempo com queesteue qna*^ 
si perdido, & arribou a hfl lugar ohamado Âgacim que^ 
acbon despido, & achou hy rouyta madeira qe^ man-' 
dou leqar a Goa, pêra onde se foyqueymado ho lugar^ 
fc hi achou ho governador , que por nâ ser chegado dÓ; 
EsleuSo da gama ^ tiirtia a eapilania de Malaca na va» 
gftte de Oaròía de fá , despachou pêra lá dò Paulo da' 
gama seu jrmão, i\ entraua na mestna capitania, nasua^ 
vagante, que de Goa se foy a Coehim, & dahi partio^ 
pêra Malaea na 6f0 Dabril de mil & quinhentos & trin«: 
ta & três , & foy por capitão mór dé dons naviios , &» 
duas fustas , & hf coele ho» fidalgo seu tio chaipada 

u 2 



156 fiA HIWOMA DA ÍNDIA 

TristAo datayde, que ya por capitão da (otlãlnht d«Ma« 
luco. E chegi^o dom Paulo a Maiaea foy enlregue da 
capitania por Garcia de sá^ & despoyt despachou Tria-> 
tão datayde Q partio pêra JMaluco em Agosto pêra yr 
por Uorneo , & por nSo poder saber (^ue armada teuou^ 
o nào digo. 

C A P I T V L O LXIIIL 

De como cbegarã(t aa índia cartas armadas de PorlugáL 

JAI este auno de mil & quinlientos & trinta & três, mao- 
dou el Rey dom loão de Portugal sele nãos á Jndia re» 
partidas em duas capitanias , de três foy capiláo mór 
hum fidalgo chamado dom lobão pereyra, que leuaua a 
capitania de Goa , & fora seus capitães hum dom Fran- 
cisco de noronha que se perdeo com tempo, & Louren^ 
de payoa que passou cõ dom loão. Da outra armada foy 
capitão mór outro fidalgo chamado dom Gon<^lo couti^ 
nho prouido também da capitania de Goa na vagante de 
dom lobão pereyra , forâo seus capitães Simão da veiga, 
Diogo brandão do porto, & Nuno luriado de mendoça 
eomêdador da Gardiga,. a que não soube ho q^ie acon- 
teceo na viagem, se não a dom loão pereyra, que sayn- 
do do parcel de ^faJa , & inde por anire hãas jlha« , 
quis esperar as nãos de sua conserua, & preguntando 
ao piloto & ao mestre eomo farião, disserão que amay- 
nassem, & Aotonjo galuão , hfi fidalgo de que fiz men« 
çã no liuro Septimo, que ya na nao por passageyro, & 
sabia bem da nauegação, disse, que Ibe nào parecia 
bom conselho, & que poya não queriâo fazer caminho, 
que deuião de payrar com ho traquete pêra a nao fazer 
cabeça ao már , & não yr dar em terra pêra onde cor* 
rião as agoas , & lambem como estauâo perto do Tro« 
pico, podia sobreuir algQa toruoada que es leuasse maya 
asinha a terra , & parecendo isto bera a todos asst se 
íezy porem oam durou mais que até o quarto da modor* 



/ 



LIVRO TI1Í. CAP1TTLO LXIIII« 167 

rendido, que se dom loão, & Antooio galuSo aco- 
lherão a suas camará» a dormir , & ainda bem o piloto 
& ho mestre não sentirá que dormiáo, derào com as ve« 
las embayxo, porque iomarào ho conselho de António 
galuão de má vontade. E feyta esta boa pilotagê , dáo 
consigo nos camarotes, & deytàose a dormir muy des* 
cansados , & duas oras por passar do quarto dalua , co* 
aieçasse douuir o leme da nao , j) y'a roteado polo chão 
por^ amaynadas as velas leuarã as agoas a nao pêra 
terra como António galuâ dizia, que por yr na camará 
òò leme acordou logo ao arroydo j) ele fazia , & nisto 
deu a nao duas pâcadas tamanhas eõ a quilha \ parecia 
\ se abria , & a elas acordarão os (} jaziào de baixo da 
cuberta, & comei^arâ de gritar cuidando que a nao era 
perdida, & mays porque viáo o mestre & o piloto desa-» 
cordados, que como virão o mao recado que tinháo fey- 
to pasm^ião , & nã sabia mais f) chorar , & era a reuol«- 
ta muito grade na gSte, hâs brada uã ^ matassem o 
mestre & o piloto , pois forão causa de se perder a nao, 
outros arremetião a arcas, & a tauoas & paos, pêra se 
dey tarem ao már, com quanto fazia grande escuro, & 
dom loão queria tomar o batel, &, trazia hiia espada 
pêra ho delender a quem o quisesse tomar. E era o de- 
sacordo tamanho em todos , j| se ouuera a nao de per» 
der se não fora António galuão, que màdou logo dar os 
tranquetes, &'yr marioheyros ao leme, que nã acharão 
por saltar fora quando a nao deu a» pancadas: & Antó- 
nio galuão, ainda que vio tamanho perigo como a^leera, 
disse aos marinheyros & ao piloto & mestre ^ se calasse 
por a gête nã esmorecer: que nosso Senhor lhes daria 
remédio que teuessem nele confiança, & disse a dom 
loão que tirasse a espada que tinha, nem lhe sentissem 
que queria tomar o balei, porque cuydaría a gente que 
era a nao de todo |)erdida^ & remeterião todos ao batel 
pêra o tomarfi & maiarseyão hfls oom os outros, qii# 
dissimulasse & se mostrasse alegre, porque coiaso os a^ 
uia nosso Senhor de aaluar & não eõ desordens, ho que 



IftS Há SUTORIA PA INDIJl 

pareceo bem a dom loão , & assf bo fez , & consolou a 
geúie que estaua despida pem se lançar ao már, & An« 
ionia galuão chegou entfto debajxo da boba , & disse a 
todos que esforçassem que a bcmíba linha pouca agoa^ 
que era sinal que a aao nSo abrira, & mandou logo dar 
a bomba perm que vissem (| era verdade, com o que to«- 
dos esforçarão. E por A ntooio galuão achar com ho pruf* 
mo que eslauão em dez braças, & logo em o^^to, qum 
era sinal que não tornaua a terra, mandou logo alargaf 
falia ancora, & amaynar os tranquetes que linbã dados: 
& isto feyto amanheceo, com que a gète acabou defifor^- 
^ar de todo , & mays porque as outras duas nãos che* 
garSo & lhes falarão, & ali ouaecooseJbo,.queporqQan* 
to não estauSo de Moçambique mays i\ qualorze legoas^ 
& a nao começaua de fazer agoa l\ fossem sem leme, 
]>orQ na detença que fizessem em o fazer se |K}dería a 
nao yr ao fundo , & por ser tam perla poderia a nap yr 
á loa do seu batel & as outras nãos yrião em goarda dei- 
ta, & assi o fizerão & chegarão a Moçambique a salua^ 
mento, onde por não se poder tomar a agoa da nao por 
ser na quilha, acõselhauâo a dom loâo que a descarre* 
gasse nas outras nãos & se fosse nelas, & aquela ficaria 
ali pêra a desfazerem, mas António galuão não foy desr 
te parecer, se nã Q a nso se tirasse a mdte ou ás ma» 
rês & se cÕcertasae ho melhor que podesse ser , & que 
se fosse dom iohão nela á índia: & que ele yrta ceeie 
9c ho ajudaria de dia & de noyte com quãtosleuauaque 
erão muytos. £como dd Iohão tinha bem esprementado 
quam bom conselho era o Oãlonro galuã tomou este : & 
concertada a nao loyse nela á índia, & quãtos yão na 
nao wêdo ^ António gaiuã se Sbarcaua, se Sbapcarã 
lambS, posto Q eslaoã fora dela, & bem se pode crer, 
que despoys de nosso Sftor ele saluou a^la nao duas ve> 
ees. B assi partio dom Bsteuão da gama, que inuernou 
em Moçan^ique, & dom lobão foy ter a Goa, onde int 
u«rnaua o gonenuidor , que por esperar de fazer paz cO 
d rey de Galícut, se partio. log^i- para lá como as nãos 



LIVRO VUf» aiflTVM JUXV. I6t 

àb^gaWto : E chegado a CaJicut com ioda a armada, le« 
Uanlouae lamaobo temporal ^ valo, que não pode ao» 
frer a amarra maia de hu dia & caçaua muylo, peio 
qoe o gouernador arribou a CcM^bi, & hy «e deleue oyr 
lo ou dez dias , em eacreuer pêra Forlugal , & despoyf 
ie lornou a Calioui: Ecome<jàdo dau^er recadoa anlrelo 
&. el rey sobre as paaes, niica em dou«i dias se pode lo* 
mar nelaa nenbtta concrusào y porque cada bum queria 
biia cousa, & nisto sobreueo Iam braua tormenta, que 
todos os nossos se deráo por perdidos, & alargando lam<* 
alauea o vento , que Maiiuet dalbuquerque pode dar o 
traquele da sua galé , acoibeose por se não perder , & 
cuydando bo gouernador que ya desamarrado, & que ea* 
garraua fes sinal á frola que leuasse, &diffirindo bo tra- 
quele .dauanle seguio a pos ele pêra Ibe acodir , & des* 
pois de ver como ya, por o vento Ibe nfio seruir pêra 
tornar a Caiicut, fezae na volta de Goa seguindo bo toi* 
da a frota , & foy aferrar bo seu porto, & por esta cau^- 
sa não ouuerSo efeyto aspaMs com el rey de Caiicut. 

C A P l T V L O LXV. 

Dé cmno Foft» 4a €umha foy eqnar Diu. 

Jtio Goueraador ficou tam magoado de qoam mal Ibe 
•ocedeo a em pressa de Diu , que por muyias boas ven^ 
turas que lhe deapoya soc^deráo na^ podia perder a ma- 
goa que tinha , nem evydaua o mays d]0 It^mpo se nâo 
%ue i^ianeyra leria pêra fa«.er fortaJesa em Diu, & coes- 
te fundamento mandaua fazer laala gueini a Cambaya, 
porque ei Rey enfadado dela lhe desse esla fortaleza , 
porque teuesaem paz. £ pairecendolbe que el rey este* 
neaae ja mais brando pêra isso, lhe mamtou bua embai** 
xada per Tristà degá sqbte que lhe desse fortaleza em 
Diu, & que faaia paz coele, & seria seu amigo, & por 
o mesmo Tristão degá escreueo a algas capitães dei rey, 
& seftbof ea de «na corte ^ua bo fattotecesae». , & aju- 



100 DÁ HISTORIA DA iNDfA 

dasiem pêra aue^ eaia foríaleea, & lhes imindou fyreMtt^ 
tes pêra q4ie o fizessem de meíhor vontade , & nisto se 
trabalhaua. Despoys que el rey ouuio a embaixada, que 
mostrou ouuír de boa vontade, porem nam tinha nenhfla 
pêra dar a fortaleza. E andando assi esíe enibajxador 
coro ei rey , soubeo Melíque tocSo capitão de Diu , (| 
eslaua muyto receoso de lhe el Rey tirar aquele estado 
pêra o dar a Rumecão, &• estando coeste receo, nSo ae 
sabe com que tenção escreueo ao Gouernador que lhe 
mandasse bã fidalgo com que podesse falar miudamente 
cousas que compriS muyto a serui^ dei rey de Portu*- 
gal, & quando o gouernador vio esta carta, sospeytou 
queMelique quereria dar fortaleza, & fazendo logocon* 
selho sobrisso, pareceo a todos ho que o gouernador 808« 
peytaua, ic por isso assentou que se mandasse o fidalgo 
^ Meliq pedia , pêra (| o gouernador escolbeo a Vasco 
da cunha, assi por cavaleiro muito esforçado & sesudo, 
como por antigo na índia, & saber bem os costumes 
dos mouros : & deulhe hQa instrução do que auia de fa^ 
zer com Melíque, que auia de ser, que ele desse aquela 
cidade a el rey de Portugal : & que ho gouernador em 
seu nome lhe fazia por isso doação de juro dametade da 
renda da alfandega dela, & mais ihe faria hSa fortaleza 
em qualquer dos rios deCambaya que ele quisesse, pê- 
ra que esleuesse seguro dei rey deCambaya, contra 
quS ho fauorecería, & ajudaria de cada vez que lhe fòs** 
se necessário, & que trabalhasse ]}OTjr^ cidade &ver^ 
se auia nela algfla entrada por onde se podesse tomar, 
porque não se tomando concrusão com IMelique, yria» 
3obrela outra vez &, a tomaria, & pêra isto mandou que 
fosse coele ho artílheyro mór, que sabia muyto daguer*'* 
ra. Eassí lhe deu mais hum lao Cristão casado em Goa, 
jrmão dum bombardeyro que estaua em Diu no baluar* 
te do már , que se lhe offreceo , pêra falar coeste bom« 
bardeyro seu jrmão, & intentar se se poderia por algfla 
maneira tomar a cidade. E despachado Vasco da cunhar 
de tudo ho que compria a sua viaj^em, partiose em hQa 



MVftO VflI. CAFITVLO LXV« 161 

fusta na entrada Dagosto, & chegando á barra de Diu, 
aruorou hua bandeira branca, ho que sabido por IVleIi-> 
que sospeylando ho que era, peio que tinha escrito ao 
gouernador, mandou hum bomS deconfiãça a saber quem 
vinha na fusta, & Vasco da cunha iho disse, & que tra-< 
xia hua carta do gouernador a Melique tocâo, porS que 
não auia de yr a terra sem lhe mandar por arrefens o 
capitã do baluarte do már que lhe logo mandou, &dey"i 
xando ho Vasco da cunha em poder Dãtonio borges (hum 
fidalgo que ya coeie) se foy desembarcar na cidade , & 
se vio cd Melif| nas suas casas onde falarão de praça 
hum pedai^o, & despoys se recolheo Vasco da cunha a 
bum aposento das mesmas casas onde auia de pousar^ 
& hi foy falar coele Alelique secretamente, que como 
sabia falar bem ho Português, não ouue necessidade de 
iingoa. E despoys de lhe Vasco da cunha dar hua carta 
do gouernador em Persiano, em que lhe escreuia o qua 
queria dele, & ho partido que lhe faria, l\ Melique leo: 
\he disse mais, que mio deuia nada a el rey de Cam-* 
baya pêra por amor dele deyxar de fazer híia cousa d^ 
tanlo seu proueylo como lhe o gouernador cometia : an- 
tes ainda que nao fora de nenhQ interesse a ouuera de 
fazer por se vingar dos danos, & agrauos que Iheel Rey 
de Cambaya tinha feytos, como fora malar lhe seu jr- 
mào mays velho Melique saca, por outra nenhua causa 
se não por lhe tomar sua fazenda, cuidando que fosse 
rico, & tírarlhe a honrra do gouernador nao tomar Diu, 
& dala alVIustafa hum estrãgeyro, que fora sem porque 
tredoro ao Turco seu senhor, & que causas erfio estas 
pêra que. vindo conjunc^ao pêra isso, como agora vinha,| 
vingar se dei rey de Câhaya, & tirarlhe Diu , & dab 
ao goueriíador com partido Iam proueytoso como ihefa-« 
zia, & mais com (içar em sua natureza tam seguro dei 
rey de Cambaya : & Melique lhe respõdeo que lhe pa- 
recia b8 tudo ho que dizia , & com tudo queria cuydav 
nisso, & despoys 11^ responderia: & Vasco da cunha 
lhe disse que cuydasse, & entre tanlo yria dar hita car^- 

LIVRO viir. X 



162 SA HISTORIA I>A INBtA «. 

la do Goueroador a Diogo da silueyrà que chegara en- 
tão á põta de Diu de Masca le onde inuernara, sem fa- 
zer no estreito nhfias presas. E a carta do Gouernador 
pêra Diogo da silueyra dizia , Q na fizesse nbOa guerra 
a Diu, porque trazia hiL embayxador com el rey de 
Cambaya. £ despedido dele Vasco da cunha se tornou 
m Diu , que lhe Meli<}ue locSo mostrou ^ & b8 elle nê o 
artilheiro mór virão entrada pêra se poder cometer se 
não com grande força de gente, pêra se repartirem ter- 
ça & no mar, & hua atupisse a caua & batesse os mu* 
90S, & outra pelejasse com a armada doa mouros que 
estaua no már. Tambõ neste tempo ho lao dè Goa es- 
teue com o bombardeyro seu jrmâo no baluarte do már, 
pêra ho que disse ,. maa nfio ouue maneyra pêra nad&^ 
nem Melique se acabou de determinar, se aceytaua ou 
Bão o que lhe o gouernador cometia: &respõdeo»Vaa- 
eo da cunha ^ na^le vera yria o gouernador darmada 
até Diu, qqe até êíão se determinaria, & lhe daria ar 
uiso de sua deterraioaçâ , & deuihe hila carta de crea- 
ça pêra ho gouernador, & coela se foy Vasco da cunha 
pêra Goa , onde contou ao gouernador ho que fizera^ & 
Diogo da silueira. se foy pêra Chaul. 

e A P I T V L O LXVI. 

Do que fez dom Pauh da qama despoys de ser €apitAh 

de Malaca. 

J-^espoys que dom Paulo da gama foy entregue da ea- 

Êitania de JMaiaca^ determinou de fazer guerra a el rey 
(ugeniana, fiiho do Rey a que Afonso dalbuquerqúe 
tomou Malaca , que despois de perder Bmtâo , fez seu 
assento em hâa cidade,, chamada Vgentana ,. cinGoenta 
legioas de MaJaca por h{l rio acima^ & era muyto pode- 
roso* de gente, assi por már comq por terra: &estedes^ 
poys que foy Rey , assentou pazes com Pêro mazcare* 
nhãs sendo capitão de Malaca,^ porS nunca despoys conir 



Lrr«o VIU. qapítvuo lxvi. l€S 

prio as condições tias pazes. E porque dom Paulo iste 
«abia, determinou de lhe fazer guerra , & yr sobre ele 
& tomarlbe a cidade y & isto eom conselho de todos os 
fidalgos <)tie estauão cÕ ele : & estando quasi prestes a 
armada que dom Paulo auia de ieuar, chegou á jlha das 
Nãos hila armada de vinte sete iScharas bem fornida de 
gente & dartelharia, & era dei Rej Dugentana, & ya 
por seu capitão mór htl valente mouro chamado Tuíio^ 
barcaiar, ^ mãdou dizer a <lõ Paulo^ que el rey Dugen- 
tana seu senhor bomandaua^m socorro «dei rey de Pêra 
seu jfmâo, & lhe mandara que de caminho mandasse 
saber dele se mandana que ho seruisse em alglla cousa 
& que ho fizesse^ ao que dom Paulo respondeo com muy- 
tos agardeciment<>s, dizendo nSo ter necessidade de sua 
ajuda , & o capitão se foy. E examinada bem -esta sua 
vinda, & offrecimentes desnecessários, assentouse que 
aua vinda não fora por outra cousa, se não que sabendo 
el Rey Dugentana a armada que se fazia prestes , pêra 
yrem sobrele, mãdara esta armada cõ a{}la dissimulaçã, 
pêra ^ ficasse nas costas da nossa , <} como auia de 1&» 
uar toda a pricipal gête da fortaleza, & auia de ficar 
pouca pêra defSder poderia os inngos desêbarcar a seu 
saluo, & ao menos queymar a pouoaçã dos Quelins, & 
por isto se assêtar fior todos ser assi , se acordou por 
eles ^ a yda sobre Vgentana era escusada, & que ficas-, 
se pêra outro tempo. E porque dom Paulo segurasse el 
rey DugStana, & lhe fizesse perder algOa sospeyta se a 
teuesse, mandoulhe per êbaixador a Ml Fernã vieyra, 
que confirmasse as pazes que estauão assêtadas: &des*. 
poys que foy em Vgentana d rey ho prendeo & a quan-. 
tos yao coele , & mandou os matar cõ diuersos géneros 
de morins, dizendo que ho fazia, porque sabia que os 
nossos erão seus imigos, & mays por vingar a morte de 
Sanaya que Garcia de sá mãdara matar^ como disse, 
& dali por diante se começou guerra antre os nossos & 
ei rey Dugentana, 2) roandaua suas armadas correra 
Malaca, & pelejauão com a nossa armada, & assi du^- 

X 2 



164 ]>A HISTORIA PA INJDIA 

rou a guerra ate que foy dom Esleuão da gama (como 
direy a diante). E com quanto dom Paulo aào tioba 
mays de duzentos bom6s, era tão esforçado & de tâo b5 
fiaber na guerra, que ordenou sempre tam beio suas 
icousâs, que sempre leuou ho melhor dos imigos: &60^ 
bristo era tam Jiberal , que gaslaua bo seu muy larga*- 
mente, dando muylo grande mesa aos soldados. E du^ 
rando assi isto, por auer quinze anoos ^ eJ rey de Pâo^ 
& el rey de Patane, estauâo de guerra com a forialeaa 
de Malaca, Q era grande deseruiço dei rey de Portugal, 
determinou dom Paulo de fazer pazes coeies , que lez , 
indo por embayxador hum Manuel godinho» que as as*- 
sentou muyto á vontade de dom Paulo , & como com* 
pria a seruíço dei Rey de Portugal, que foy grande pro- 
ueyto de sua fazenda, & da de seus vassallos: E estas 
pazes forSo causa de tornarê a tratar na China, de que 
se despoys descobrirão pelos nossos, mais de ciocoenla 
portos melhores que os de Canlâ, como a diàle direyw 

C A P I T V L O LXVIÍ. 

Da treyçâo que el rey de Bengala ordenou contra Mar- 

úm ci/bníío de melo jusarte. 

dTjLartim afonso de melo jusarte que partio de Gocbíia 
pêra Bengala com cinco velas , foy surgir na barra da 
cidade de Chetigâo , & cõ iicêga do Goazil da cidade 
(que he como gouernador) soyo em ierta oom os Poft. 
lugueses de sua companhia : Sc porque aly se paga na 
alfandega de ires bfum , que he muy grande dereyio, 
receará os Portugueses de o pagar & por isso esconderá 
muy ta da fazenda Q leuauã , sem a ieuarS â alfandega , 
o {) foy peor por^ o Goazil o soube, & deu na casa em 
que estaua, & a tomou por perdida pêra el rey de Ben- 
gala. E neste tempo mandou Martim afonso hum Duar- 
te dazeuedo, que agora mora em Euora, com hiia eo>- 
baixada a el rey de Bengala sobre paz , & amizade com 



LIVRO TIIU QàTfm0' UXVIU 165 

€l Rey de Porlugal, & deyxar yr pêra sua terra a Coje- 
«xabadim , & niaodouthe de presente doas caualos ara^ 
fbios, & bua faca de Caaibaya & algus caixões dagoas 
rosadas, que António de saldaoba tomou na nao çafe^ 
Xurca j & uiuy tas peças de veJudi)s \elulados & densas»- 
€08 , & islo da parle do gouernadar da iodia, & da sua 
muyta fazenda outra & das partes, porque costuroa el 
rey de Bengala de mandar avaliar ho que Ibe dâo ose»- 
trangeyros & pagaribp) & ialo por auer todas as boas 
fieças ^ leuâo, & por isso lod<>8 os lAercadores & outras 
•pessoas esLrangeyras i\ vao a ele^ Ibe faseai muyto gr jl^ 
4es presentes, em que teiin o ganho 0iuyío certo, & 
Aiais forrão os dereilos ^ ounerÀo de pagar , porê ng tó- 
rios Jbe pode mandar presentes, por a cidade doGouro, 
em que reside, estar çS legoas dos portos de mar pelo 
Gàges a cima , & ser a yda lá muy custosa. K despa^ 
chado Duarte daseuedo, partío se pêra bo Gouro, & fo- 
rno coeie bú luto de vilbalobos Destremoz, Nuno fei^ 
Jiandez freire, lurdão de moraeis, Diogo cabaço, Dio 
^o ferras^, Lopo cardoso, & outros que faziâo numero 
de dez. Enauegado |x»lo rio acima, cbegou á cidade do 
Gouro, (cujo sitio & m^breza disse no Liuro Quarto). E 
chegado lá, aébou {| era morto Nançarotexá rey deBen^ 
^ala 9^0 matarão os seus capados , de que ficara hú fi- 
iko que por ser menino gouernaua o reyno bfi seu tio 
jrmâo dei rey, ^ auia nome JMabmudxá» & este mora^ 
Jia nas casas dei rey , ^ erâo do temanbo Deuora, bil 
BUntuoso & nobre ed^cto., taurodas todas as casas de 
Jauores douro, & o ebno & as paredes eubertas dazule- 
jos , & no meo destes paços esta bQ pateo , (| ocupa târ 
to espaço como o resio de Lisboa , a Q enérào por doze 
portas, & todas em voltas, & em cada biia estào quar 
tro porteiros , & no cabo deste patee está bum alpen- 
dere, aque eles cbamao Bailéu, em ^ ei ftey deBenuola 
iuiue os emhíiíxaderes , &.eiitào esta bo pateo theo de 
:gête^armHs. Tè (áihê estes paços muitos jardins & ca- 
sas de prasòr, Q ale die rioo8 eaiu muylo deJeitosos. tíâr 



166 9A fffSTOMA BA rNDIA 

-bendo Duarte dazeuedo, €oino Mahmudxá governatta n 
Teyno ^ deuihe a èbayxada {| ieuaua a el rey , & asâi ho 
presente da parte de Marlim afonso^ &ele lhe disse i\ o 
despacharia, & três dias despois disto matou Mahmudxá 
el rey seu sobrinho, & fezse rey de Bêgala, estado as^ 
•sentado Ires dias & três noytes tia cadeira real, porque 
doutra maneira não podia ser rey. E como ele tinha 
muitos de sua parte pode fazer isto: & ficado por reydé 
Bêgala, tornoulhe a falar Duarte dazeuedo, relatSdolhe 
outra vez sua embayxada, & assi lhe deu o presente 
que Jeuaua a el rey da parte do gouernador. Com que 
«I rey folgou muyto, & prometeolhedeo despachar muy- 
-to cedo : E por nâo yr de cada vez tâta gente ao paço, 
disselhe que nS fosse daly por diSte mais que Nuno fer- 
nSdee freire, ^ sabia a lingoa, & a que conhecia da 
outra vez que esteuera em Bègala, & assi se fez: & 
neste tempo que esperauâo ho despacho, tomarão Nuno 
/ernandez & os outros Portugueses grade cSuersação & 
amizade com hum mouro VaISciano que moraua na cir 
dade que tainha a tomou coeles por serS Espanhoes, & 
folgaua de falar coeles nas cousas Despanha , princípal- 
mête de Valença donde era naturapi, & este era homS 
principal na cidade, & tinha grade credito cõ el rey: 
& a mesma amizade tomarão com hum logue, chamado 
Xei} pír, Q dezia ser de trezStos anos, !) fazia grada 
austinScia âc santa vida se nã fora Mouro, & por isso 
el rey & todos crião muito nele, & lhe fazião esmolas. 
E quando Duarte dazeuedo deu a d rey o presente da 
parte do gouemador, em que (como disse) entranão 
algas caixdes dagoas «rosadas f\ forão tomados na naaça- 
feturca , ^ ainda ieuauão a marca dos mouros de cujos 
-forão, que logo forão conhecidos por hix Rume, cuja 
fora a fusta que tomara Damião bernaldez, que moraua 
no Gouro, & como ele eslaua muyto magoado da fusta 
-i) lhe tomarão., & dos cÔpanbeiros que forão mortos & 
catiuos na peleja, acrecêtouselhe a magoa coro veros 
•caixões que sabia eomo fora tomados : & desejando de 



LlVaO VIII. CAFITTLO UCVtl. 167 

86 vingar, trabalhou por fazer malar Marlim afonso com 
quStos Portugueses estauS em Chetígão , & quãtos es- 
tauâo no Gouro , & pêra fazer com el rey Q o fizesse j 
peytou a hu capado que auia nome Agebabedeia grade 
priuado dei rey ^ a ^ disse que não deuia de consentir 
que os Portugueses fossem a Bengala^ por<| tinha sabi- 
do que eram ladrões , que roubauã os romeyros ^ yão a 
Meca y de cujas forâo as mais das peças j) ihe derão de 
presente 9. ^^ Q J^^ espiar as terras cÕ mostra de trato 
& amizade, & despois as cõquistauâo , como fizerSo em 
muytos lugares da Índia: O que sabendo el Rey de Ga* 
licut j & despois el rey da China , os nâ quiserâo con- 
sentir em suas terras , & oa matarão & tomarão quáto 
leuauSo, pelo que nunca lá mays tornarão 9 & assi de» 
uia ele de fazer , & aueria cem mil cruzados Q leuauão 
de mercadoria. £ como el rey de seu natural era tira- 
no , pareceolhe isto bS , & mãdou logo recado ao Goazii 
de Chetigâo que prêdesseMartim afonso & osPortugue* 
ses Q estauão eoele , & lhe tomasse as fazendas & lhos 
mftdasse : E porque se isto não descobrisse per alguém, 
S& fosse auiso a Chetigâo^ mandou poer goardas assi no 
rio como em terra , Q não deyxassem passar ninguém 
pêra Chetigâo se nâo quem leuasse sua licença , porem 
isto não se pode fazer com tãto segredo , <| bu Gentio 
chamado Darinda ho nâo soubesse, & este ho descobrio 
a Nuno fernãdez ,. por bQ certo preço ^ lhe pedio por 
isso prometendolbe de trabalhar fK)r saber quãto passas- 
se neste negocio.. £ como Nuno fernandez foy sabedor 
desta treyção, escreueo logo a IMarlim afonso, a que 
não pode yr ho recado por amor das goardas que não 
deixarão passar ho portador,. & quando Nuno fernandez 
isto soube, disse ho a Duarte dazeuedo & aos outros, 
que tambfi esperarão que lhes fizesse el rey o mesmo ^ 
noandaua fazer a ASarlim aibnso, & encomedarâose a 
Deos, por{^ nâ Unhão nhft remédio pêra escaparê, & 
Nuno fernãdez ya falar muylas vezes com o logue , & 
dizialbe o que passaua,. & encomendaualbe que Classe a 
el rey por eles. 



lei * TU MBrOaUA DA INBU ' 

C A P I T V L O LXVIII. 

De como Martim of&mso de melo jusarU foy preso em 

Btngala. 

I^heg^ado ho recado dei rey de Bengala ao GoazH de 
Cheligâo, determinou de prender Marfim afonso, ^ an- 
daua coele em re^rimento que tornasse a fazSda Q Ih 
nha tomada ao6 Portugueses: & determinando de ho 
prender , lhe mandou dizer t\ lhe fosse falar , & concer* 
tariâ ambos como lhe auia de tornar a fazenda* E Mar-r 
tim afonso leUou consigo cSlo & cincoenla homSs os 
mais deles com espingardas, & vendo ho GoaziJ quâ bS 
acõpanhado ya, não ousou de cometer o que tinha de* 
terminado, & fingindo grandes ocupaqoes dissimulou 
com Martim afonso, pedindclhe que ficasse pêra ho ou«> 
tro dia, & mais que por lhe fazer grande honrra auia 
dir gõtar coele com todos os Portugueses nrincipaeis^ 
pêra que ele se podesse gabar de tamanha honrra como 
aquela. E Martim afonso como era bom homS, & sem 
nha dobrez, pareceolhe q ho Goazil lhe falaua verdade^ 
& por lhe comprazer por «irnor do requerimento Q (razia 
coele aceitou ho gentar, sem lhe Jêbrar que não conui* 
nha a seu cargo aceytalo, &que lhe poderiito fazer trey* 
çâo, & pois ya, yr apercebido como o^dia dates. Efian- 
dose no Goazil, foy com quarenta homBs sem leuarS to* 
dos mays armas que suas espadas , & outros ficará na 
pousada com hum Francisco pacheco, & loSo jusarte 
tíçâDazinhaga que ya também na armada não quis yr, 
por ter cõcer lado de yr a monte a matar hum porco. B 
Marti afonso foy coesta companhia que digo a casa do 
Goazil que tinha prestes grande baqueie, que foy dado 
era hum pateo de baixo de hum alpendere, & estando 
no meyo do comer, ho Goazil se leuantou supitamenlé 
da mesa, fingindo íj lhe vinha hum accidête ao estama- 
go, & disse a Martim afonso , & a Gonçalo gomez da^ 



LIVRO VIII, CAPITVLO LXVIII« 169 

zeuedo que estauão junto coele, que não se bolissem 
que logo tornaua, & eles muylo inocentes ho crerão, 
& deyxarãse estar , ^ se logo se leuantarão nio fora o 
que foy : & esperando eles polo Goazil , acodfi b3 qua- 
tro mil frecheiros por cima das paredes do pateo, & 
com grandes gritas cometo de desparar suas frechas 
em Martim afonso & nos outros , que conhecerão em- 
tam ho mao recado que tinhão feyío em se liarem dos 
mouros, & não tendo outro remédio, acodírãologoá por- 
ta do paleo pêra 43e sayrem & acharâona fechada, &por 
mais for^ que poserâo nunca poderá leuar as portas fo- 
ra do couce, & entre tanto os mouros não fazião senão 
frechar neles , & forão iogo cubertos de frechas Cristo- 
uão de melo, Gonçalo gomez dazeuedo, António de mez- 
quita, António graroaxo & outros seys que cayrão mor- 
tos, & Martim afonso também ouue sete frechadas mas 
não forão em lugares perigosos , & era grande magoa 
ver a ele, & aos outros que não se podião defender dos 
mouros nem oflendelos, & salcauão dum cabo pêra ho 
outro por se goardarem das frechadas, & arremetião á 
porta perfíando pola leuar fora do couce : & nisto apar 
receo o Goazil sobre a parede , & fazendo estar quedos 
os Mouros , disse a Martim afonso que bê via como es* 
taua, que não quisesse morrer & que se entregasse, 
porque não era pêra mays que pêra os leuarS a el rey 
de Bengala que desejaua de os ver & que lhe daua es- 
paço pêra auer conselho com os seus, com que Martim 
afonso se apartando lhes disse, que nâo se enganassem 
cõ o que lhes dizia ho Goazil , por^ se assi fora ja que 
os Unha em seu poder & estaua seguro de não se -po- 
derS defender antes de lhes mandar fazer mal, lhes ou<* 
uera de cometer ^ se dessS, mas como determinaua da 
08 matar ou prender, nâo fez coeles nhií comprimSto, 
que lhe parecia que nâo se deuião de dar^ porque ca 
outros Portugueses lhes «codiriã & os liurarião, & todos 
forão contra este parecer, dizSdo <} se os mouros esqui- 
Serão matar, Q lhes na cometera o Goazil ^ se dessem,' 
LIVRO VIII. y 



170 9A H18T0aiA DA INDfA 

porj| não lhe inòtaua may» malaios ás frectadai que 
aiaodarlhea cortar as cabeças, & se os prendesse que 
Msaz de roerce Hied fazia , fx^r^ ou por resgate ou poc 
euira maneira teria esperancja de ser8 soltos por isso que 
se dessem 2 & nâo esperassem pov socorro , porque ae 
os outros Portugueses lho ouueráo de dar J4i aií forão: 
& eJes dizia verdade, porQFrácisco pacheco Q ficauaoa 
pousada por mayoral , como ouuio ^ Martim afõso esta« 
na cercado dos mouros , em vez da lhe acodir fugio pe* 
ra os nauios , & assi fízerão os outros, dejfxàdo quanto 
iinhão em terra ^ & tudo lhes tomarão os meuros, & se 
teuerâo acordo também os matarão: & loão jusarte ti^ 
(ambem se saluou milagrosamente, que no monte sou« 
be bo que passaua na cidade. £ vedo Martim afÕso ^ 
es que estauã coeie erão de parecer que se dessem , 
eonsentio nisso muyto contra sua vontade, & entrega* 
vfiose, jurãdolhes o Goasil em hum Moi^fu, que os náo 
prendião se nâo pêra os leuarem a el rey de Bengala 
por^ desejaua de os ver : & como fora presos bo Goazil 
es mandou leuar por terra ao rio Ganges , & por ele ar 
eima ao Gouro. 

G A P I T V L O LXIX. 

Do perigo em que os Portugueses esteuerâde serem marUm 

JJjíú quanto se isto £izia, Nuno fernÂdez frejre, que 
eom Duarte dazeuedk» ^^ & os^ outros Portugueses estaea 
no Gouro, trabalba-ua por saber de Darinda, ho gentio 
que disse, que nonas tinha de Martim* afoneo & dos ou* 
tros, & mâdaua lho preguntar pelo língoa. £ bum dia 
pola menbaã lhe respondeo,. que Martim aibnso & oe 
outros erão presos & que os leuauão ao Gouro, & Mune 
fernandez ho disse iogo a Duarte dazeuedo, & que lhe 
parecia que os auião logo de prender por isso , que de- 
terminassem ho qne seria bem que fizessem , & Duarte 
dazeuedo, & loSo de vilbalobos, Diogo caba^, Dioge 



LIVRO VIU. CAPITVl-0 «JllX. 171 

:ferrâK & ontfos quatro^ forSo de parecer quese^tregaa- 
«em lof O9 & Ntino fernawl^ez, lurdão da morais, & I^o- 
po Cardoso , diaserão que nào aa aiiiâo denlregar, por- 
que poys os auião de matar queriâo primeyro vender 
bem auas vidas. £ estando nesta pratica ex que dá de 
supito sobre as casas huai capitão dei rey de Bengala 
con quaíTooenlos aoldados pêra os prender, & começan- 
do de quererem entrar a casa, eotregarXose logo Duar- 
te daaetiedo & os outros que erfio do sen parecer, icem 
estes sayndo arremeta Nuno fernandez freyre, Lopo 
Cardoso & Inrdfio de moraeis á porta, & defendiãona tam 
-esfor^adamête , que os imigos a n2o podiâo entrar: & 
como daqui recrecese grande ainoroço , acodio ho Las- 
car, que he como bo regedor da justiça etn Portugal: 
& vendo a Nuno f^ernandea com que tinha oonhecimen- 
to disselfae que pêra que era cometerem bo que não a- 
uiSo de poder leuar auãte, que se desse, porque el rey 
os nfto mãdaua prender se nflo por algfia máenformaç&o 
<\ue tinha deles^ que sabida a verdade os soltaria logo^ 
& ajudou o a isso Duarte daxeuedo, & os outros: &veii>- 
do eles que nSo se podiSo defender derãose, &; forfto 
presos com outros de dous em dous a hfia braga ^ & ho 
Lascar lhes mandou escreuer as fazfidas & socrestalas^, 
ic reboluendo hOa arca que não auia mays que escre» 
uer, foy achado no fundo dela hâ Cruciãxo de vuito^ 
que bfl mouro amostrou dizendo que aquele era hoDeos 
dos Cristãos como por escarneo, o que magoou tanto os 
Portugiieses que chorara: &Nuno fernandez lhes disse^ 
que poys aquele Crucifixo se aobara a tal tempo, que o 
deuiâo de tomar por sinal de seu liuramSto que espe- 
rassem em nosso senhor que auiã descapar. E presos as^-. 
si^de dous em dous forão leuados á cadea da cidade era 
que aueria bem quinhetos presos, & logo Agefaabedalá 
disse a el Rey, que pêra que erão presos aqueles la^ 
d? Aes {) os mandasse ntatar, & mandando el rey que os 
matassem quis nosso senhor {} parecesse aquilo mal a 
bum mouro chamado Aifacão que era ayo dos moços & 

T 2 



172 BA HT8TORIA BA INBIA 

dalgos dei rey, & disselhe ^ nã deuia de mandar matar 
a(}les bomCs, por^ estaria antreies algtls mercadores que 
não terião culpa, & Agehabedelá a que pesou muyto 
douuir afjla pajaura, disse que não era bem que se des- 
se a vida a ladrões , & pêra os matarem a todos lhes 
dissessem que os que soubessem tirar com espigarda ^ 
os auiSo de goardar pêra a guerra, & aos que fossem 
mercadores que os auíâo de matar, & todos diriâo que 
sabia tirar com espingardas, & logo este recado foy da- 
do ao Lascar , que logo se foy á cadea , & ho primeyro 
a que preguntou se era Lascar! foy a Nuno fernandez 
.freyre, dtzendolhe a causa porque lho pregQtaua, & pa- 
rece que nosso senhor inspirou nele quesospeytasse ho 
£m pêra que lhe fazião aquela pregunta, disse que era 
mercador, fc que bem ho deuiâo de conhecer por tal, 
pois com aquela erão duas vezes Q ali fora , & ho Las- 
car parecendolhe Q negaua a verdade, por comprazer a 
Agehabedelá que assi lho encomendara, quis fazer me- 
do a Nuno feraaodez pêra dizer que eraLascarim, man* 
douho tirar da cadea & íizerão que lhe querião eortar a 
cabeça poSdolhe hiia espada no pescoço, & dizialhe ho 
Lascar, que se queria viuer i) dissesse a verdade, mas 
nem por isso se disdisse, & ho mesmo aconleceo a lur- 
dã de mordíeis & a Diogo cabaço, & os outro» com me- 
do da morte dizião que erã Lascarins, & que sabiâo 
fundir artelharia, & eomo ho Lascar vio que bils diziâo 
hua cousa & outros outra, não quis fazer nada ate não 
dar couta a el rey, & escreuendo os nomes de Nuno 
fernandez j Diogo cabaço , & Furdâ de moraeis pêra os 
mostrar a el Rey, foy lhe dar rezSo do que passaua, & 
acertou de uão estar coele mais !\ Alfacâ, Q disse a el 
rey despoys de lhe ho Lascar fazer relação do que pas« 
sana , que poys não ganbaua nada em mandar matar a- 
Qles homSs que lhes desse a vida, porque poderia vir 
tempo em que folgasse de os ter viuos : & quando des- 
.poys os quisesse matar que hy os teria, & el rey foy 
cõlente, & assi escaparão os Portugueses, a que Alfa- 



LIVKO VUI. OAPITV&O LWX. 173 

cão mandou dizer bo que disaera a el rey , & poys es- 
caparão daQla ora ^ espérassei!» eni Deód que os salua- 
ria & ^ lhe rogassem por eles & por ele , & ^ soubes- 
.sem que auião de ler uele hum hotn padrinho. £ des- 
poys disto chegou Marlim afooso de melo & os que fo- 
rão presos coele, & foráo melidos em hua cadea que es- 
taua melida dentro nos paços dei Rey que era comoca- 
.dea da corte, & estes andauâo presos cada bum sobre 
sy, & as mãos soltas, & JNuno fernandez & os outros 
a fora estarê presos de dous em dous, andauâcõasmãos 
dereylas presas ao pescoço, & hQs, & outros na tinbfi 
pêra comer cada dia maj^s que bum Pone, que polamoe* 
da Portuguesa sam três reys, que cÕprauSo darroz que 
coziâo em agoa, & isto lhes sostinha a vida pêra não 
morrerS com fome. E com tudo Nuno fernandez & seus 
companheyros passauâo melhor acerca do comer , por- 
que lhes fazião muitas esmolas algús fidalgos que esta* 
uã presos,, & assi bo logue, & bo mouro Valenciano 
que disse, & Âlfacã, & de tudo partiáo com IVlarlim 
afonso & com os outros^ & do mays passauâo todos muy 
trabalhosa, & triste vida, esperando cada dia que os ti- 
rassem a degolar, como faziào a outros muy tos, que 
não auia dia que bo não fizessem. E até as onze horas 
estauâo sempre sem comer, que não podião com os so- 
bre saltos que tinbão até aquelas oras se os roatarião: 
& com bo roi comer & fedor da eadéa, & com não ves- 
tirem quorenla dias camisas adoeciâo deles. Eouue nos- 
so Sflor por seu seruiço, 4 passados estes quarenta dias, 
el rey por conselho de Âlfacâo quis ver o fato que fora 
tomado a Nuno fernandez, & aos outros & mâdoulbes 
dar muytas camisas, ceroulas, & gibões, que estauão 
antrele : &assi mandou dali por diante dar a cada bum 
cada dia bua tanga pêra sua mantença, & coeste fauor 
)hes respousarS os corações, & perderão ho medo que 
dantes tinbão: & assi viuerão até a mouçâo seguinte, 
em Q o gouernador mandou recado a el Rey de Bengala 
sobre resgatar ASarlim afonso (como direy a diante). 



174 •▲ HIMlOHffA DÁ f NmA 

C A P I T V L O LXX. 



De cBmo as Cú$tMano$ que €9tau6o eni GeUoh $e forêo 

peta Tnstâo dáUayde. 



Cw.d, 



lo Tristão datayde n Malaca com dom Paulo da 
gama seu sobrinho , parliose pêra Maluco (|«asi na fim 
Dagoslo, porque auia dyr porBorneo. E porque ná pu- 
de saber certo o ^ lhe acdteceo no caminho , nem Q ar- 
mada leuoU;, o nâo digo, se nSo que chegoo á jltia de 
Teraale em Outobro de mil Sc «{uinhentos, & trinta Sc 
três : & desembarcado foy bem recebido dei rey Taba- 
rija , & de Vicente dafonseca , que folgou muito cd sua 
TÍnda, pelo aperto em que estaua cõ a guerra dosGey- 
lolos , & entregoulhe a fortaleza , mostrandolhe Tristão 
dalayde primeyro as prouis&es que tiuha pêra entrar 
naquela capitania. E como neste anno não era çafra de 
crauo nem ho auia 9 & todos os Portugueses teuessem 
suas fazendas pêra empregarem no anno seicfuinte, pelo 
que desejaufto de íicar na fortaleza, todos se tizerSomuy- 
to amigos de Tristdo datayde pêra os deyxar ficar, Sc 
aigús lhe descobrirão que Vicente dafonseca em ele vin- 
do á vela, apanhara quanto auia na feytoria pêra se pa- 
gar, & a seus amigos, do que lhes era diuido de seus 
ordenados Sc soldos , pelo que Tristão datayde ho man^ 
dou prender , Sc buscarlhe a casa , Sc lhe mandou tomar 
quanta fazenda se achou que leuaua da feytoria: Scmâ- 
dou logo tirar deuassa dele sobre a morte de Gonçalo pe- 
reyra, Sc sobre tomar ho reyno, a et Rey Cachil daya- 
lo, Sc dalo a Cachil tabarija. E sobre outros males que 
tinha feytos. E como quasi nenhus Portugueses se qui-> 
sessem al|le anno yr da fortaleza por amor do crauo que 
não tinha, ninguém acodia por Vicente dafonseca, Sc 
por isso Tristão datayde não teue os trabalhos que te- 
uerão os capitães passados , nem ouue as desordens & 
aluoroçoB que auia dantes : £ passados algds dias , el 



LIVRO VIU. GAPFFVLO I^XX. I7è 

Rey de Tidore & el rey de Bacbâo & outros senhores 
mandarão visitar Tristão datayde, & ele ihes n)andou a 
todos f>re8enie8: & veado que eJ Key deGeyloJo bo nâo 
mandaua visitar, teue por certo que eslaua de guerra ^ 
*& por isso ottue seguro dele pêra mandar Anlonio de 
leiue que mandou eom Pêro de monte mayor , que fora 
por embaixador de Fernão dela torre ao gouernador da 
índia, sobre lhe dar li€en^ pêra se yr â Índia, & da- 
bi embarcada. pêra Portugal, & bo gouernador lha man^ 
daua , & carta pêra Tristão datayde & pêra dum Paulo, 
que de Maluco íl deAdalaca lhe dsssem embarcarão pe* 
ra a índia, && a yda Danlonio deteiue com Pêro de mõ* 
te mayor foy pêra assentar comFernã dela torre, ama* 
neyra de como se aeia de yr de Geyloio pêra a fortale* 
za, porQ por amor da guerra temia que el rey deGey* 
lolo 08 náo deyxasse yr, antes sabddo que se queriáo yr 
os prenderia , & isto receaua também Fernão dela tor«^ 
re , & por isto nã quis qne el rey de Geyiolo bo soubes* 
se , & tâbem pêra se yrem sem sua licença nAo podia 
leuar sua artelharia, nem as Sírmae que tinhâo, de que^ 
a mayor parte tinbao empenhadas a el rey de Geilolo 
por lhes dar qve comessem , & pêra auerem tudo , assS^ 
tou que lhe mandasse Tristão datayde di2er pubrica^* 
mente ^ qee bo Emperador & el rey de Portugal esta- 
uSo concertados na deferen^i que tinhão sobre acõquis* 
ta das jlhas de Maluco ^ & por isso bo Emperador lhe 
mandaua que com todos ws Castelbainos que estauãoooe» 
}e se fossem pêra Portugal pêra debi se yrem a Castela^ 
pelo que el rey d^ Portugal por vogo do Emperador lhes 
m«ndaiia dar embarca^ em que se fossem , & ho go- 
uernador da índia assi lho toandaua dizer , & que esta^ 
na preste» pêra lha dar que se fusse logo ptfra a índia, 
& quando não quisessem yr per suo vontade, que Tris- 
tão datayde lhos mandasse pur força, &que ele se mos*- 
*raria muy to q.oeyKoso a el f ey de Geyloio deste recado, 
dizendo que nà se auia dyr pêra os PorCogueses, & qne 
aniee se deyxaria »ef ter y. Sa q^e ale no defenderia que 



17é . DA HISTORIA DA tNDIA ^ 

ho o3o tomaBsem por fonja , & se ei rey coestes biocog 
lhe não desse JicSça pêra se yr com quanto linha, &lhe 
dissesse que o ajudaria a defender, que então fosse Tris- 
tão datayde com a maior armada que podesse ao porto 
da cidade de Geylolo, & desse a entender que queria 
desembarcar de dia, pêra os Mouros acodirem ali to- 
dos : com cujo medo faria que não desembarcaua , & 
como fosse bS noyte , deyxasse ali algas bateis com ar- 
teiharia & gSte que tirassem, pêra que os mouros cuy- 
dassem que queria desembarcar ante menhaã, & yrse 
ya com bo rosto da armada desembarcar dali mealegoa 
fau lugar que se chama Balobalo , dôde yria por terra a 
Geylolo, onde os mouros lhes sayriã & eles yriâo na 
diâteira, & se lhes Stregaríâ logo, ho que v^do os mou- 
ros auiam de fugir, & eles ficarião na cidade, & pode- 
riâo leuar sua artelharia, & outras armas & ho mais que 
tínhSo, & parecSdo este ardil bem a Tristão datai de m&- 
dou o recado que digo a Fernão dela torre {) mostrado- 
se dele muyto agrauado , ho relatou a ei rey de Geylo* 
lo , dizSdo o ^ disse Q auía de dizer , & el rey & os dó 
seu cõselho lhe respõderão J\ não se agastasse que eles 
ho ajudaria a defender, que mãdasse drzer a Tristão 
datayde que na se auia dyr parele & sabendo ele hoque 
auia de fazer, pedio ajuda a el reyTabarija pêra yr to- 
mai: 08 castelhanos a Geylolo dizSdolhe a causa porque, 
& ho mesmo mandou dizer a el rey dêTidore, & a el 
rey de Bachã, & a muylos Samgages, a que tambfi 
mãdou pedir ajuda, que todos fora em pessoa com a 
mays gente que poderão ajuntar, & de Ternate partio 
Tristão datayde acompanhado destes reys k senhores, 
& CO h£la grade frota & poderosa de gente & fortaleci** 
da dart^lharia chegou ao porto da cidade de Geylolo, 
que pòs nos mouros grande espãto mas os Castelhanos 
lho tirarão, & esforçando os acodirã todos ao porto pêra 
resistirem a Tristão datayde, que deu conta aos reys & 
capitães do ardil que leuaua pêra vencer osimigos, não 
falando nada nos Ciastelhanos, &v8aiido logo dele iazen* 



Limn WH. CAPÍTVLO LM:i. 177 

éò que queria desétmbarcar , & tendose como que ho 
fftzíâ com medo , ésforçarSose os mouros iBuyto , pare- 
cendoihes que era assi , & dando grandes gritas tirauS 
muy tas frechadas , & nisto esteuerâ até a noyíe ^ que 
continuando Tristão dalayde seu ardil deyxando no por- 
to algda gente em baleis se foy ao porto do lugar de 
Baiobalo, & quasi á mea noyte desembarcou nuiyto pa^ 
ciíicamente por nSo ser sentido dos mouros que estauSo 
descuydados , se não quando sentirão que os entrauão , 
& querendo resistir a isso pelejara hum pouco ^ mas fo* 
rã logo desbaratados: & entrado o lugar per Tristão da- 
tayde mandou o queymar , & queyroado abalou pêra a 
cidade deGeylolo, & ei rey Q soube sua yda pelos mou- 
ros que fugirão de Baiobalo, mandou a Cachil Gatabru- 
no, que ho saysse a receber, que sayo com muy ta gen- 
te , & diante Fernão dela torre com os outros Castelha- 
nos, & menhaã clara ofaegariLo a hum escampado onde 
então chegaua Tristão datayde , pêra qu6 ae forão logo 
dando grandes gritas de prazer por se verem em liber- 
dade que ate ly íinhãose por catiuos^ pois não podiãa 
ai fazer se não estar em poder dos mouros. 

C A P I T V L O LXXI. 

ê • 

De como Tristão daiapde quewnou a cidade de Geyloh , 
^ como Cacnil eâtabruno se fez Rey* 

MJe tão supita mudança como esta, não somente ficou: 
Cachil catabru no muyto espantado, mas com tamanho 
medo que logo se recolbeo pêra a cidade , donde nã se 
atreuendo a defender botou leuando el rey & tudo ho 
mais que pode & ho mesmo iizerâo os moradores, & fu- 
girão todos pêra o mato, de modo que quando Tristão 
datayde chegou achou tudo despejado, & despois de ser 
a cidade saqueada disso Q lhe acharão , a mandou Ioda 
queymar saluo a mesquita, por lhe os reys rogarS i\ não 
fosse queimada, mas de noyte, mãdou Tristão dataide 

LIVRO VIII. z 



178 lU QKHtt^RU Hà :t^JMJl 

h alg&s Portugueses que decaem rebates fahoi; ji& fenlé 
dos reys , diuido a enteadec ^ue erâGeyloios » & ^ siesn 
(u leuolta pqsessè secraUD)ête foge á. ine%i|iiila^.&.afisi 
foy tãbê qtiieymada, & asabeu do: arder menliaâ. clara s 
&i eomo não auia mak qwejai&es loA(M>uBeTriiiafadatay<* 
4e coe» os reys pena a. fòrial^a , dejpsâiido no porta do 
GeyloJo Diogo sacdioba eapilfio mór do mar deJMaJuoo, 
fc AaloQio de leyue c5 hâa acmada em que fiearà ses«* 
%eatia Portugueses & ni«ytosTesoaies^ pêra que tolhes«» 
sem aos Geyioios que. oàp tor Sbassecu á cidade nem h^* 
sen pescar, por ho pesoaido ser tyo pcincipudr aBantmie»^ 
W qiue letD. E ele ydo , CapUlcstabruno com acordo 
de todo bo conselho dei ley de Geylolo , comeieo pazes 
a Diogo sardinha, & m Antónia de teyue, que nand»« 
tíky sobrísso recado a TrisUo ikitayde, Sc por seu cço^ 
sentimeato foy CdMsbii catebiunie <)oeles á foptaieaca,; Sa 
assenUMi pasees com TristS 4atayde. £. como auia 4iaa 
^lue ele determioaua de. se fazer sey de Gey k>lo , Sc 'ba 
tinha assi oonoertado qom Caçbil darees, n&o ho^ fez pov 
■âo ver mais. ho tempoi desposta. pêra isso , & vendo ho 
então, deteriaiaon. da. eaecutac- seu desejo: Eq^Ada 
foy de Ternate, deu peçonha determinada a el Rey, 
que morreo dabi a algi^ dias, St pof ele ser moço, nem 
ser casado , nè ter fílbos , se fez rey de Geylolo. E por- 

Sinè^ Is2. isto quaadi^ foy de Ternate , crerilo todos que 
ora aquilo por consenltmento^ de Tf islão datayde, & 
também por ele bo dizer pubricamente, & que dera por 
isso muylo grandes p^tas a Tristão data]^, em que 
entrario hOs. payoSs áonMto & eraua & outras consas* 
Também despoys disto, Tristâa datayde centra vonia^a 
deJ rey de Ternate & de Pale<^rangue , & dos de se» 
eonselíio, leuantou ho degreda* aa camarão , que fora 
criado de Cachil daroes, & que goueraaado ele a reyna 
de Ternate fora ahutrãte do már ^ & dom iorgeho de^i* 
gradou quando. mandou degolar Caebil daroes^polo acbar 
culpado, & pesaua a el Rey Tabarij» & aos de seu^ con- 
selho, deTrislâo datayde leuantar bo degreda ao çamaM 



rao por ele ser mao home, & lenierem ^ lhes fizesse al- 
gfl mal , como íet ^ & Tri^âd cTaial^dè ttemdu logo coele 
grade credito , & ele trabalbaua muylo por lhe fazer a 
vontade , >8& dauatiM lauytoa àrdiè fetB atrecentar afaa 
fazenda, que era ho t^lie el# deiejaua, & pêra a fazer 
melhor & ajuntar muyto crauo, determinou de fazer yr 
de AlafueD qufltoe mercaiioFe6 «staaão toaqttelas jlhâs^ 
«iti Portuguesea como eairânf^eyroB^ a que m&doii aob 
oerta pena per hum Pregâa que mandou daylar que fie* 
ra tal» dia ae emkiaroaaseiíi, bo q«fa faaia ^^raadseapa» 
(o, porqae ate entto nunca te aoònlécer& deytareàn por 
for^a oa Portugueses fora da<}las jlbaa antes ele» fugifto^ 
Sc entflo erft iâo UNma de yr (} Triaíio datàyde (fez «u«* 
barear muytoa por força, À; bo fn^imeyro capilAo que 
partio , foy bum fidafgo chaiHEado lardil die fraytaa, qaé 
primeyro que se ambarcaaaa fez grandes requerimentos 
ii Tristão datayde que Ibe dease carrega dm Orauo pêra 
1k> nauio , porque yk vasio «mv leuar algitay no que el 
f ey <ie Portugal reicebía múyto grande perda^ nrnê Tmi- 
Moiddtayde nSo nnis, ptA^que iha 6taase tòdoiío bra«oi 
•Eentt^gou preso Vioen te d«fonieea :a lúrdã» de freyta^ 
que fao entregasse ao ' gouemador 4}aIndHa tom a deuas*- 
aa; db imM culpas, E taMbei» neste nauio, foy Fwnl 
idda tçrre oom <f^ outros Cast^hanos, .& lunààc^ de ftey*- 
las foy ièr á ladtá ^nde enijpegou Vicenterda^ònaeca. fi 
ed qoãto na deiiassa Q Trisllto dataide tireii se proaa»^ 
mSo claramente auas oulpaa por Òde iiieredaimiy to graia- 
de pena, nunca Ibe foy dada,: bo que deu causai á ae 
íaMreai em Maluco muyto màyoree malea', àssicontr* 
Deos como contra bo praximo, nem onue» cfuam ae tem** 
brasse do seruiço dei rey, ae tifto de eáriiqueeer por 
i^ualqaer maneyra que podesse^ 



Z 2 



180 Dia HIMOKU HA ÍNDIA 

C A P I T V L O LXXIÍ. 

De como ha gouenwdor foy a Diu pêra severcôel ny 

de Cambaya. 

JTjLtras fica dito, como Vasco da cunha foy a Diu por 
mandado do gouecnador a fatar com Melique tocào 00* 
tire lhe dar Diu, de cuja yda el rey de Cábaya ívy aui* 
aado per Ruiqecão, que trazia «uaa eepiae oomMelicjue 

Kr Ibe querer mal , & desejar que el rey de Cambaya 
3 desse a capitania de Diu , & por isso disse a el rey 
§ aquela viata de Vasco da cunha com Melique deuiade 
eer pedirlhe o goueraador fortaleza em Diu, o qwe el rey 
logt) soupeytou, & dali tomou ódio a Melique, & deter* 
minou, de lhe tirar a capitania de Diu, & dala a Rume* 
jcSo^ ho ^ auia dias que desejiaua, crendo que cõ isso 
aeguraua Dfu de lho tomarem oa Portugueses , & Q ele 
&ría vyr muy tos Turcos do eatreyto pêra andarfi aa sua 
armada, & defenderem aos Portugueses que nâo tornas^ 
sem aa naoa de Cambaya quâdo vinhão do eatreyto, ho 
que ele siotia muyto* £ sospey lande el rey que hoGo* 
uemador trazia iralo com Meliquè, pêra lhe dar florta^ 
Jeaa, deapedio Tristão útgéí^ com lhe responder que era 
cÕtente de dar ao gouernador a fortaleza que lhe pedia^ 
que se Ibsse ver coeie em Diu , & isto com tenção de 
ko nã £azer se nSo a fim deatoruar que lhe nâo fizesse 
iko Goueraador guerra aquele verão j & que indo a Diu, 
iio poderia acol£sc & ttatalo,.& mais estoruaria quelMe^ 
lique lhe Dão desse ibrlaieza. £ sabido polo gouernador 
este recado dei rey creo que era assi, porque ainda nae 
conhecia quam malicioso er», & logo se fez prestes pe» 
ra yr a Diu, & dizendo ao que ya, com que toda agen- 
te ficou muy (o alegre» £ pêra esta vista do gouernador 
c5 el rey de Cambaya se fizerão os fidalgos & capitães 
da índia, & outras pessoas bonrradas prestes de muy* 
tas louçainhas , & galantarias de seda & ouro , assi naa 



LIVRO VIII. CAPITTLO L^XII. 181 

àrmatf eomo om vestidos , & lodos gastarão nujto , do 
que se arrependerão assas, vedo de]x>is ^ não ouueefey- 
to esta vista: & daqui ficou despois chamarse na índia 
este anno ho das paruoices, porque virão inu)^tus Q as 
fizerão em gastar tãto dinheyro de balde. E feylos to- 
dos estes gastos , partiose o gouernador pêra Cbaul , & 
dahí pêra fiaçaim õde acbou Diogo da silueyra, & da- 
qui se parlio pêra Diu cÕ h&a poderosa frota doytenta 
velas , em que entrauão oylo galeões , de que a fora a 
capitayna erão capitães, Diogo da silueyra, António 
dô lemos , Manuel de macedo , dom Esteuão da gama, 
António de sá ho rume, Diegaluarez lelez, dom Gas- 
tão Coutinho, & de Galés & Galeotas, Sflanuel dalbu- 
querque , Vasco pirez de são payo , dom Pedro de me^ 
Beses , Manuel de Vasconcelos , Fernão de lima , & ou- 
tros fidalgos, yriào nesta armada deus mil Portugueses, 
a mays luzida gente que nunca se ajuntou na Índia. £ 
ebegado ho gouernador defronte de hum lugar chamado 
Danu, soqbe que ho dia dantes passara elRey deCaro«> 
baya em noue galés pêra Diu , ei logo dali lhe mandou 
dizer p^r Simão ferreyra que onde seria bõ verêse se em 
madrefaba ou no már, & foy coele pêra lingoa loão de 
Sátiago (lingoa do gouernador) que fora mouro & fize- 
rase Cristão. E proseguindo ho Gouernador por sua via^ 
gem foy ler á jlha dos Mortos^ & ali esperou por Simão 
ferreyra, que não tardou muyto que não chegou, & ya 
coele Coje<;ofar, que lhe disse da parte dei rey deCain- 
baya que lhe pedia que fosse a Diu & que se veria, & 
loão de Santiago disse ao gouernador que soubera em 
Diu que el Rey deCambaya queria dar a sua capitania 
a Rumecão, que se lhe ofiVecera de lho defender. Ede»* 
ta jlha doa Mortos se foy ho gouernador a Diu, & da 
barra mandou Simão ferreyra com Coge^far a el rey^ 
pêra que lhe mandasse recado em que lugar da jlhaque^^ 
lia que se vissem , & indo ele coeste recado foyse ho 
gouernador a terra com oa capitães & algús fidalgos, & 
desembarcou onde chamão ho Palmarinho^ & ya ver se 



I8t Dt HirrOftIA DA IKMâ 

poderiíio ali proar aa gaM» , pêra Q quemdo et Rey da 
Càbaya que se visaeiíi ali fazer diegar aa galés, perafi^ 
car aeguro com a sua arielharía se el rey de Cambaya 
quisesse fazer aig^a treyçSo. 

C A P I T V L O LXXIII. 

De como Manud de maeedo u desafiou cô RumeeSoj ^ 

não lhe sayo ao desenfio. 

Jtiistando nisto , veo Symlto ferreyra , & disse ao Gto- 
ueraador que el rey não acabaua dassentar onde se a- 
iiíSo de. ver, & que lhe maadaua pedir que lhe mandas* 
se lá os capitães da galé bastarda & dos galeões, que 
os queria ver pêra lhes fazer honrra. E estando bo go* 
uernador suspenso sobre ho que faria , porque receaua 
que el Rey reteuesse os capitães despoys que os lá te^ 
nesse, disselbe Tristão de gá que ja fora por embayxa- 
dor a el Rey de Cambaya que os mandasse , por{} nSo 
08 mfldando el rey era tam sospeytòso (( cuydaría que 
não se íiaua dele : & como isto cuydasse nSo se auia de 
querer ver cd ele, & por isto os mandou boGouernador 
yr, & el Rey os recebeo com muyta honrra. E saben^ 
do Manuel de maeedo como el rey queria dar a capita^ 
nia de Diu a RumecSo , & tirala a Melique tocSo que 
era muyto seu amigo, estando com el rey lhe disse (deâ^ 
pois de lhe pedir licSça pêra falar hft pouco) (| se esp^ 
taua muyto dfl rey tá sabedor , & caualeiro como ele 
era , querer tirar a capitania de Diu a bum vassalio co- 
mo era Aleli{} tocSo & ^ o tambS tinha seruido, & fliho 
de t3 singular capitSo como íbra Bieliijaz o velho , (| 
tanto seruiço fizera ao reyno de Cãbaya , & tã(o acre- 
cBlara na hõrra dos Guzarates , & a !|ria dar a Rume- 
cSo hfli homS eslrãgeyro, de l\ não tinha outra ezperiei^ 
cia se nã fazer treyçSo ao Turco c5 qu6 viuia , & por 
essa causa fugira de seu seruiço , & se acolhera a GS- 
baya, pelo Q nSo se deuia de fiar dele, se não esperar^ 



LIVRO TflI. CâFiTVU> UXIII. Í8I 

lhe fiteme outra treyçSo^ & se Rumecão ali estaun & 
segasse ho que ele dkia, que ele Jbo faria confeaiar em 
baialiia, que folgaria muylo dauer coele« £ Ruoiecão 
que ali eslaua o ouuio diaer ao liogoa^ & por náo resi* 
pomler oulbou el Rey parele cow bd roaio nenõcorio : 
k «alandoae toda via Rumeeio, dkae Manuel de mace- 
do que entendeo Q era aq^uele^ Q outra vez o ioraaua a 
desafiar pola mesma rezao^ & maye que podia meter 
consigo outro , por^ ele se Kitataria tò ambos. £ veado 
el rejr í) oãa respondia , Ibe disse com yra , J| como náo 
respõdia ao desafio, & Rumecão d^sse q poio aflo terem 
cota, porê que poys asai ^ria, ^ aceytaea o desafio, 
sem meter outrê cõsigo , & assi foj logo deputado bo 
mar pêra ser bo campo do desafio, &que pelejaria cada 
bfi de sua fusta em que estarião sós* Aceytado ho de^- 
safioh, mandou el rey dizer ao Gouernador, que lhe auia 
de faiar de hila geneb ,. no baluarte de Diogo lopez , & 
ele esteuesse no már em hiia galé , do que se o goucr^* 
Bador rio quando bo aoube , & mandouibe dizer Q lhe 
Bâo queria falar da^la maneyra : & sabddo o desafio de 
IManuel de macedo cA Rumecao folgou muyto, & deo* 
lhe licêça pêra ho fazer, & mandouibe esquipar hfl bar^ 
gantim em que se meteo , .& foy surgir jfjto da iagta , 
& por Rumecâo tardar, & ao gouernador ibe parecer que 
nã ousaria de sayr com medo da nossa frota , mandou 
leuar & fezse híí pouco ao mar, & despois disso sayrâo 
do porto da cidade sete ou oyto fustas loldadas íc em^ 
bandejradas, & bila diante da^ outra fcrão demandar bo 
bargantim ondeslaua Manuel de maoedo, & dando to- 
das bua volla ao derredor deiè se reeolfaerão ao potlo 
donde sayrâo, & nSo tornou mais nhtla, que parece que 
não quis eL Rey {^ Rumecâo snysse ao desafio. £ ven^ 
do ho gouernador que tardaua aiuyto,. fez sinal a Mn* 
Buei de macedo eom hum tiro que so recolhesse : & re-* 
colhido deyxouse eelar, fo vfido que o desafio oâo nuia 
efeyto, & que ficaua de guerra c0 Cambaya, mandou 
b&a armada ao ealreyto de tseaGaleotas & treze fustas^ 



184 BA HItTOmiA BA flIDIA 

& por capitão mór Vasco pirez de 8io payo que ya em 
hQa daa galeolas , & naa duas dom Pedro de meaeses ^ 
& dom Manuel de lima , & yriSo na armada trezentos 
hom6s. E de Dia se tornou bo gooemador a Chaul , 
donde despachou pêra ho estreyto a Diogo da silueyra 
por capitSo mór de hua armada de cinco galeões , cujos 
«capitães a fora ele forão, António de sá, dom Gastão 
Coutinho, Diegaluarez telez, & António de lemos, cona 
regimSto que tá se entregasse da armada ^ leuara Vas* 
CO pirez de sSopayo , & ^ na entrada do verSo se lbs« 
se á põta de Diu donde faria guerra a Cãbaya: tfibS 
despachou António da silua de meneses pêra Bfigala a 
resgatar Marti afonso de melo jusarte, & foy por capitã 
mór de noue veias, cÕ l\ parlio deCochi, & despois se 
partio o gouernador pêra Goa onde auia dinuernar: & 
dali despachou a dÕ Esteuão da gama pêra Malaca aser« 
uir a capitania da fortaleza, porfi era sua priraeyro f^ 
de dõ Paulo da gama seu jrmSo , & ele se foy a Gochi 
dõde o acabou de despachar o vedor da fazêda , & par-r 
tiose pêra malaca ê Abril de M; D. xxxiiij. E depoia 
dele, partio o vedor da fazèda pêra Ormuz a visitar a 
fey teria & saber como se gastaua a fazêda dei rey de 
Portugal , & foy ê hQa nao. 

CAPITVLO LXXIIII. 

De como indo dom lorge de crasio sobre d rey de Rey* 

xel , se tomou sem fazer nada. 

i.^ este tempo estaua leuantado cõtra el Rey Dorrauz 
ha seu vassallo {} era rey de hua cidade chamada Rey* 
xel , na costa do estreyto da Pérsia, cfito & setSta ie^ 
goas Dormuz, & este trazia hOa armada de doze fustas 
por a^le estreito, cò Q roubaua as nãos que nauegauã 
por ele, principalmente pêra Ormuz, & por isto ousa^ 
u3o muy poucas de nauegar, no () el rey l)ormuz rece-» 
bia grade perda dos derey tos da alfandega , pelo ^ sa 



LIVRO tiii. cAiPrrvLO Lxxnii. i«6 

aqueyxoo a António da silueyra capitão da ft)rtaleza, dí- 
têdo t\ era necessário destruírse a^la armada, por^ dou- 
tra maneyra não podia pagar as páreas ^ pagaua a el 
rey de Portugal. È sabido isto por António da silueira 
assentou com dÕ lorge de craslo 4 ^^^ capitão ixiór do 
oiár Dormuz que fosse com sua armada aReyxeJ, &re« 
querese a el rey Q se tornasse á obediência dei Rey 
Dormuz , & recolhesse a armada ^ se não i\ seria neces* 
sario acodír a isso pois el Rey Dormuz era vassalio dei 
Rey de Portugal , & coislo se partio dõ lorge indo em 
bua galeota, & leuou dous bargands, de i) erâ capitães 
Ruy gomez casto, & loão ribeyro, & bua fusta, capi- 
tão Nuno vaz, & cinco catures, & nestas velas forão 
duzentos homês. E chegado ao cabo de Vadestâo, c6to 
& sessenta legoas Dormuz,- achou o tempo tã cÕtrayro, 
Q lhe foy forçado surgir em hiia jlha despouoada pegada 
cõ ho mesmo cabo, onde esteue passante de vinte diast 
& plissado este tempo que teue lugar de fazer viagfi^ 
achouse cõ necessidade dagoa & de mãtimStos, & por 
nâ auer na jlha nhOa destas cousas, as foy tomar á ter- 
ra firme, & estado fazSdo agoada hfl terço de mea le- 
goa donde surgio , sayrSo muy tos mouros ^ estauão em 
ciladas, & derão em sua gSte tã supilamente Q não se 
poderão valer que nã fossS tomados pelos mouros oyto 
Portugueses & Irita & cinco escrauos Cristãos, & outros 
tãtos remeyros da capitayna, ^ não leuaua maís^ & sa- 
bido isto por dô lorge Q estaua no már ficou muy agas- 
tado, por^ pola perda dos romeiros ([ Ibe catiuarâ nS 
podia proseguir sua viagS, & poH) não auia ondeosfoa*. 
se tomar , propôs 2 còselho se tornaria a tomalos a Or-n 
muz pois sem eles nã podia fazer cousa <} aproueytasse, 
& auêdo algiis !\ lhe cõselhauã Q tornasse a Ormuz aefli 
passar auãle , disse híL Frãcisco de gouuea Q. pois se a-» 
uia de tornar ^ pêra poder dar nouas em Ormuz do que 
ya em Reyxel, & das fustas lho queria yr saber em fail 
catur, & dom lorge não quis, dizêdo Q se lá fosse ani- 
sar se yão os imigos de sua yda, o 4 ele não i)ria b^jA 

LIVRO VIII. AA 



186 DA HfSTOBU DA ÍNDIA 

iomalos de sapito , & assi se lurnou a Ormus , & quãdo 
António da sílueyra soube Q a fora nH fazer nada lhe 
acõtecera a^le desastre & por sua cuJpa, ficou muyto 
agastado poJa má cota em ^ os Portugueses serião lidos^ 
& polo seruiço dei rey de Portugal Q perecia & delermi* 
nou de tornar a mandar a mesma armada cõ outro ca- 
pitão mór, pêra í\ esçolheo Frãcisco de gouuea, de {[ 
eonbecia esforço & saber pêra acabar aijle feyto, & assi 
Ibo disse 9 pedindolhe muyto que o fizesse verdadeyro, 
& eie lho prometeo. 

C A P I T V L O LXXV. 

Dê conto Francisco de gouuea foy por ccantão mor da 

armada côíra cl rey de jReyxet. 

jLÀ ps^tiose Dormuz com a mesma armada Q leuara d5 
Jorge ) 8t foy na fusta de que era capitã Nuno vaz, & 
sem lhe aeõtecer cousa Q o toruasse de sua viagg foy 
ter ao porto de Reyxel ^ cidade grade cõ húa boa forta» 
leaa na costa Darabía situada S bõ sitio de casas de pe* 
Ara & cal^ & abastada de mâtimSlos, & pouoada de 
mouroiSii Et rey sabSdo ^ a nossa armada estaua no por* 
to^ delefmirH)u de a tomar cÒ quãlos yâo nela, & isto 
por ègAnoy pêra o § mâdi)u dizer aFrlcisco de gouuea 
po? ha nrnnro borrado Q sua vinda fosse boa ^ por^ foi* 
gaua muyto !| os Portugueses fossem a seu porto , pofo 
fltesejo ^ tinha de ter cceles pazes ^ & se as eie quises- 
se aeeylnr, era cfitenie de lhe dar as fustas ^ tinha & 
es eatiuos que tomarão a domiorge, & fazenda dos nos* 
SOS que os seus tiobao tomada, & coeste recado lhe man« 
dkoo bd presente de muyto refresco. E por^ Francisco 
de gotiuea leuaua em regimento Q fisesse paz com ei 
rey dandoihe ele o que lhe prometia , respondeo I) era 
eõtente de fazer coele paz. se fizesse ho que dizia , & 
que ate então lhe não auia de tomar nada. E oouida 
esta reposta por el rey ike cometeo que se vissem ábor* 



LiTtO TIfK Cà^imiO UtZV. 187 

da dagot) Ac em ordenar como aaia de ser esta vista se 
pnsarilo irem dias , porque el rey se arrependia de yr 
falar a Francisco de gouuea ^ porque como determinaua 
de o prender pareceolhe que corria perigo, & quando 
ouuesse algum , Aelhor ca^rki ao beuOoadI , & por is- 
so ho mandou , escusandose a Francisco de gouuea de 
náo yr oomo lhe mâdara dizer. £ paaeadoft estes diab^ 
mandou el rey armar hfta tenda muyto rica na praya 
pegada cÕ ho mar , pêra se ver nela ho seu Goazil q6 
Frãciseo de gouuea, queaa^o em terra cdquárenUiPor* 
tugueses : todoe despingardas , & de <om bâa espada 
dãbas as mãos nua , & deyxou os nauios cò os esporões 
em terra, & a arteiharía ceuada^ porque tinha oospeita 
que lhe auiâo os mouros de ^rer faeer algiia trey^já, & 
assi era , {} el rey tinha posto hõa cilada de trás dum 
oyteiro que estaua ki perto, em ^ entrauâo quatrocêtoa 
de caoaío & grade multidão de gSle de pé, pera^ê hó 
Goazil lan<;Sdo mão de Francisco de gouuea acodissem 
eles sobre os que fossem coele, & os matassfi a todos &» 
Uies tomassem a armada : & pêra isso sayo Gofe frajulá 
(4 assi se cbamaua o Goazil) cò trezétos homSs, &veo4 
do o Prioisco de goouea lhe mSdou dizer ^ pêra ^ em 
tanta g6te poys ya de pas, ^ ele aâo tiahaAaifidequa«« 
rèta homCs () trouuesse ele c8to , & assi o fez o Goazil, 
& mádou apartar os outros : & entrado na têda assBtou** 
se , & disse a Frãcisco de gouuea (J se assfitasse ■& ele 
nto quis pola so^peita i\ tif)ba, & è quAto falou cÕ a 
Goazil sempre passeou od a espada na mâo & por itooo 
Goazil aS ousou de cometer ha que leitaoa d^termina*^ 
do, antes estaua temeroso de ver ho desassego de 
Francisco de gouuea , & cuydaua 4 o auia de ma(ar t 
& ho concerto da paz fby o q^ie el rey mandou dizer a 
Francisco de gouuea ^ que todo foy escrito per dous ee^- 
crioftes, hum Poriiigueí^, & outro mouro, & assinada 
por Francisco de gouuea & polo Goazil -què se tornoa 
pêra a cidade desp^is disto acfaibado, ft disse qtie ao <m^ 
tro ctía se compriria ho concerto. B quamk> el Bey vio 

AA 2 



188 DA H^ISTORIA DA fNDiA 

boGoazil sem Francisco de gouuea, ouue tamanha me« 
nencoria que ho quisera mandar malar^ & não o iez por 
conselho dos seua^ mas tiroulhe ho officio. 

C A P I T V L O LXXVI. 

Do que fez Francisco de gouuea despoys q vio qm el rey 

de Reyxel não queria pass^ 

y endo el rej que não poderá auer Frãcisco de gouuea 
eomo quisera, determinou de se declarar coele por iiui- 
go, & mandou muytos espingardeyros & frecbeyros a 
goardar bus poços em que Frâcisco de gouuea quisera 
fazer agoada , ho que nâo pode por lho os mouros de* 
fenderem. £ como erâo muytos em demasia , & os nos- 
sos poucos, íizerâo nos recolher pêra os nauios com muy«- 
to trabalho , & ajudoulhes muyto a sua artelharia que 
fez algii dano nos imigos de mortos & de feridos, &eje» 
matarão hum marinheyro Português. E como a nossa 
artelharia pode jugar aíastarâose os imigos, & os nossos 
teuerâo lugar de se embarcar, & pola necessidade que 
tinfaão dagoa foy forçado a Fraficisco de gouuea (ante» 
doutra cousa) de a yr tomar a bua jiha chamada Carre- 
ga sete legoas de Keyxet , & indo pêra lá ouue vista 
das fustas de Reyxel, & posto que erâo o dobro da sua 
armada, determinou de pelejar coelas, & a^si ho disse 
aos outros capitães, & arribou logo pêra os imigos, que 
vendo a nossa armada, pareòe que ouuerão tamanho- 
Biedo que arribarão pêra terra, & forãose meter em hii 
rio duas legoas de Reyxel , & duas ficara de fora por 
não poderem^ mays. £ vendo Frâcisco de gouuea que 
se acolhia, por a» akã^ar maia asinha se mudou a htb 
dos eatures & por remar rijo alcâiçou hfla das duas fustas 
que ficarão de ibra , & aferrou logo bua delas , & msto 
lhe matou três bomSs de vinte que andauâo nela todoa 
espiffgardeyros , & os outros se lanhara ao mar que oa 
Portugueses :totiuarão todos & tomarão a fusta, & a ou* 



LIVRO TUI. CAPITVLO LZXVI. 169 

tra varou em terra & saluouse a gente , & a fusta , que 
ficou em poder de Francisco de gouuea aehouse carre* 
gada de crauo , gingibre , & canela , & assi andauãe as 
outras nãos que tomarão que yão Dormuz pêra Báco- 
ra, Tomada esta fusta , & vendo Francisco de gouuea 
que não podia pelejar cõ as outras por estarem metidas 
no rio foyse fazer agoada a Carrega, ondestaua hiia po* 
uoaijão com bua mezquita, & aqui eslauão obra de ses- 
senta mouros da armada dos imigos , que ficauão espe- 
rado em quãlo os outros leuauão a Reyxel as presas que 
fizerão, & estes como virão a nossa armada no porto em 
quanto se fazia agoada acolherãose a hum cabeço ai te 
Õdesleuera hOa fortaleza, determinando de. se defender, 
& mandarão recado aRejxel de como ficauão, & os mo- 
radores do lugar se .acolherão por outra parte a bfias la- 
pas ^ estauão ao longo do mar , de que os Portugueses 
matarão amayor parte» Despoys defeyta agoada &quey- 
mado bo lugar, em que foy queymado bíía mezquita 
que os mouros tinhâo por cousa santa, & a que yao em 
romaria de muytas partes, mandou Francisco de gou- 
uea , dizer aos mouros que estauão no cabeço que os a- 
uia de matar se em três oras não se Ibes fossem entre- 
gar pêra fazer deles bo Q quiaesse, Sc eles o fizerão com 
medo, mandandolhe primeyro as armas, & por eles ou* 
ue despoys Frãcisco de gouuea os Portugueses que ca- 
tiuarão a dÕ lorge de crasto, com condição quesegoar- 
dasse a paz Q assentara com Goje frujala, do J| el Rey 
foy contente, vendo quam pouco ganbaua em ter guer- 
ra com os Portugueses» £ isto feyto, Franoiseo de gou- 
uea foy correndo aquele e&treyto até a jiba de Babarem 
donde escreueo a eí rey de Baçora o que íizera, & man- 
doulbe a especiaria ^ tomara aos mouros, & isto por 
ser amigo dos Portugueses. £ sabendo el rey que aque- 
le estreito estaua seguro, mandou bua nao carregada 
de mantimentos a Francisco de gouuea com muytos a- 
gardecimentos da especiaria que Ibe mandara. £ dey- 
xando Francisco de gouuea seguro este estreyto se foy 



190 PA HliTCmiA DA INOIA 

inuernftr a Ormuz, cujo rey faleeeo »esté (fif>o: 9l Arn^ 
toDio da silueyra & Diogo* da tilueyfa leuaDlarão povray 
hum seu filho dydade doyto annoa, que despois foy waot* 
to com peçonha, que lhe mSdou dar Rayxateque iQ ed-» 
Uua degradado na Iftdiã , & por ser 6eu tio aueedeo jki 
reyno, & foy muylo amigo doa Portogueses, & fes muy*^ 
tos serui^^ a ei Rey de Portugal. 

C A P I T V L O LXXVH. 

Do que fez Anionio dã sUua de Meneses eun Bengala^ 

JL artido António da silua pêra Bengala chegou cd to^ 
da sua armada ao porto de Cbatigão , & porque leuauâ 
por regimento que não fizesse guerra nem paz em fien-» 
gala sem hd parecer deMartim afonso de melo jusarte^ 
ieue maneyra como lhe mandou hQa carta em que lho 
eioreuia o regimento do gouernador, por isso que lhe 
respondesse ho que faria, & auido conselho com os Por-» 
tugueses que todos estauão ja na cadea dei rey assenta^ 
rã que deuia fazer paz , porque por guerra não se po* 
diáo liurar, & só Nuno fernandez freyre foy de pareoetf 
contrayro, dizõdo, que se deuia de fazer guerra a el 
rey de Bengala pêra que soubesse ho que podião os Pom 
tugueses, por(| com quatro nauios Q se possessem nas 
barras de Cbatigão & de Satigão defenderia que Beas 
saysse destes portos nem entrasíe neles nenhum nauio, 
no que el Rey de Bengala receberia perda grandíssima, 
por não ter em seu reyno outros , & aqueles renderem 
tnuyto , & nem por amor da guerra os auia el Rey de 
BengaFa de matar por amor dos Patanes que lhe come-i 
4pauâo de fazer guerra , pêra qne auia de ter deles tie-> 
cessidade. B como Nono fernandez era só deste pare« 
eer, áétéAtou Martim afonso no outro, & assi ho escre-* 
ueo a Aiitonio da bilua, f\ mandou por Sbaikador a el 
rey de Bêgala hfi lorge alcoforado, & a sustancia de 
sua êbaixada foy , \ com quãto o gonernador tinha reza 



LIVBO TUI. C1PI7TLO LSXTIl. 19i 

destar agrauado dele , & de lhe fazer guerra , por lhe 
)M:8der ho capitão ÀPortugueses^ Diãdaaa a sua terra, 
iiã se 2}ria Ifibrar dagrauos, se nfi ser seu amigo, &ser- 
uilo no que podesse , porque asai lho mandaua el Rey 
seu senhor, de cuja parle & da sua lhe rogaua que sol- 
tasse 06 Portugueses , po^rs não tinhão fejto por onde 
merecessem ser presos. £ dada esta embaixada a ei rey 
ouue conselho sobre ho que faria» £ Agehabedelá lhe 
disse j) não fizesse paz com ho gouernador aeiD lhe des» 
se 08 Portugueses por menos de quorenta & cinco mil 
pardaoe , porque dandolhos de graça pareceria que ho 
fazia oÕ medo, & Alfacão lhe disse que lhe compria 
muyto fazer paz com ho gouernador, porque ho seu rey- 
no, era como hum homS Q tiuha deus olhos, & estes 
erã Cbatigão & Satigão» dous portos de mar que lhe ho 
gouernador podia cegar com suas armadas , & por isso 
deuia de fazer paz & darlhe os catiuos sem dinheyro, 
poys forão presos sem rezão , porque leuando por eles 
dinheyro claro estaua que os Portugueses se auião den^ 
tregar em sua fazenda , ou na de seus vasallos. £ com 
quanto isto pareceo bem a el rej & outros forSo dele , 
era tam afeyçoado a Agehabedalá que tomou o seu , ãc 
respondeo a lorge alcoforado que era contente de fazer 
paz com o gouernador, mas que lhe auia de dar quoren* 
ta & oinco mil pardaos por BAartim afonso & poios ou* 
tros , porque os não auia de dar por menos , & despoja 
tornou a dizer que os nã queria resgatar , & isto por 
conselho de Agehabedalá. £ lorge alcoforado se foy 
cuesta reposta dei rey, que drsse a JM ar ti m afonso &aos 
outros, que ficarão m4»jto tristes, parecendoihes que 
poys os el rey não queria resgatar que nunca sayrião 
dali, & fizexão grãik pranto com lorge aicoforade quan- 
do se despedío deles, & ele leoeu esta reposta a Antó- 
nio da silua, ^. indinado cÕtra eirey determinou de se 
vingar em seus vassallos, & hum dia ante menhaã deu 
com sua gente emChatigão & pos lhe ho foço^ com que 
queymou mujta parte dela, & matou & catiuou miiyta 



192 BA HISTORIA DA ÍNDIA 

gente : & dali se (ój a buas jlbas onde morauâo itiuylos 
Bengalas degradados, & destruyolhe as pouoaqSes, & 
matou os mais deles: & feyta muyto grande deslruyção 
se foj pêra a índia, & com menencoria disto mandou 
ei Rey prender os Portugueses de dous em dous, que 
andauam ja soltos, & os que lhe aconselhauam que fi- 
zesse paz com ho gouernador & que lhe desse os catiuos 
sem resgate, lhe disserSo entáo que bem via quanto 
melhor conselho era ho seu que ho de Agehabedalá, & 
poys aquele capitão dos Portugueses sem mandado do 
gouernador lhe Gzera tanto dano , que faria outro que 
K>8se dirigido pêra lho fazer. E el Rey conhecendo a 
verdade mandou cortar a cabeça a Agehabedalá, por- 
que ho não conselhara bem fiandose dele, & não lhe va- 
leo sua priuança, & por nâo parecer que sollaua os Por- 
tugueses com medo os não soltou logo: E dali a algus 
dias por parecer que os soltaua por amizade mandou le- 
uar ante sy a Martim afonso solto, & mostrou lhe hiia 
■carta de marear sobre ^ praticou coele hum pedaço, & 
despoys ho roâdou tornar á cadea , & de dias em dias 
ho mandaua leuar antesy^ buscando sempre cousas pê- 
ra praticar coele : & neate tempo mâdou 4 "^^ tirassS os 
ferros, & aos outros, de que mandou tirar da cadea 
Nuno fernandez freyre por saber tanger viola, & a hum 
loão adão que tangia hds órgãos ^ lhe Martim afonso 
mandara de Ghatigã, & a ha André gonçaluez pêra lhe 
cantar, porque era muyto inclinado a musica, & tinha 
muytos músicos ao seu modo, & hum mestre da musica 
que tinha treze mil pardaos de rSda com aquele of&cio, 
& a este entregou Nuno fernandez, lohão adão, & An- 
dré gonçaluez, & dali por diante teuerão todos melhor 
vida, & fazialhes el rey mercê, & não tinhão outra má 
vida se não estarem ali sem poderem sayr quãdo que- 
rião. 



LIVRO TUI. CAPITVLO LXXVIII. 193 

CAPITVLO LXXVHI. 

De como húa armada dd rey Dugentana foy correr a 
Malaca , ^ de como foy morto dom Paulo da gama 
^ outros. 



D, 



om fisteuão da gama que ya pêra Malaca chegou lá 
em Mayo^ '& iogo lhe dom Paulo seu jrmfto entregou a 
capitania, & ficando ele por capitão, daly a oyto dias 
teue noua ^ue estaua no rio de Muar fa&a armada dei 
Rey Dugentana, & pêra saber a verdade disso & quan- 
tas velas erão , mSdou lá Simão sodré , & Frãeisco de 
barros de payua que leuarâo cinco mafichuas. £ chega- 
dos acharão a armada fora do rio posta ao longo de ter- 
ra , & erão doze calaluzes de laos , de que era capitão 
mór hum mouro chamado Habrabem^ & cinco lancharas 
dei rey DugStana , & todas com muyta gente & arte«^ 
Uiaria, ho ^ Simão sodrè, & Francisco d^ barros pode-> 
rão bem ver por se cbegarê muyto, em tãto queosjmi- 
gos cuydando que querião pelejar se leuarão, & forão 
pareles, & eles como não yão pêra pelejar fizerão volta 
pêra Malaca a dar rezão do que virão , & os mouros os* 
yão seguindo quanto podião, & em anoytecendo lheco«. 
meçarão de tirar com a artelharia. E sendo duas iegoas. 
de Malaca, passadas duas oras da noyte, virão com ho 
luar que fazia muy claro muitas manchuas, & em cada 
hiia dous três Portugueses , & deles souberão que sobre» 
a tarde despoie de sua partida , se vira em Malaca con-* 
traMuar, hiias nuuens delgadas como fumo, & pormuy« 
tos afirmarem que era fumo, & dartelharia, o disseráo* 
a dom Esteuão, & que seria bom mandar socorrer aos' 
Portugueses que laa erão, & assi lho conselhou hii Al- 
uaro botelho bom caualeyro & muyto antigo em Mala- 
ca : & com quanto dd Esteuão não quisera mandar ho 
soccorro disselbe dõ Paulo que o mandasse & <} ele yria,. 
& d3 Esteuão se escusaua dizêdo, Q a armada estau* 

JLIVRO.VIII. BB 



194 BA HISTORIA X>A flVDIA 

aioda varada & qiíe nSo auia em que yr ho socorro: & 
com tudo dom Paulo nft quis se não yr muyto contra 
võlade de dom Esteuão, & embarcouse em hfl paraò de 
carrega de hua nao de Cambaya, & Manuel da gama 
em outro & com cada hum vinte bomSs fidalgos & ca- 
uaieyros : & outros quarenta bornes se enibarcarAo em 
roanchuas tam pequenas que não cabião em cada bila 
mays ^ dous três , & coro tam róis embarcações Iby so- 
correr quem não tinha necessidade de socorro, & che- 
gou a eles ás oras que digo» £ sabendo eles quam mal 
aparelhado vinha dom Paulo pêra pelejar com osimigos, 
por hum nauio dos seus abastar só pêra peJejar coui to* 
da a sua armada foy Simão sodré dÍ2er a dd Paulo Q fK>r 
esta rezão se deoia de tornar, & não pelejar com oe i- 
mígos de cuja armada lhe deu relação , pdo que a dom 
Paulo lhe pareceo bem seu conselho, & fez volta, & os 
imtgos não deyxarão de lhe dar caça quádo virão que 
armada trazião, tirandolhe muitas bombardadas, o que 
os Portugueses não podiào fazer por não terem arlelfai^ 
ria. E vendo eles que os tmigos os aicançauão, &quani 
mal auiados yão pêra pelejar coeles, conseifaarão a dom 
Pauto que ou se passasse a hâa manchua & recolhesse 
as outras & se fosse que o poderia fazer por serem le* 
geyras , ou varasse em terra , porque onde ele ensecas* 
se nã auiâo os nauios dos jmigos de nadar, & deste mo* 
éo se saiu a ri a ate ser socorrido de Malaca. Edom Pau-* 
fa> parecêdolhe isto fraqueza não quis se nl pelejar , Sc 
cA animo muy esforçado virou a abalrroar cô h&a Íaut 
ebara () achou roais perto, & Manuel da gama fez ho 
meamo, & em aferrando forão todos os seus encrauados 
dazao^ayas, freebas^ & páos tostados, & com tudo ele 
entrou na lanchara que aferrou a pos hum seu ayo cha- 
mado lorge fernãdez borges y que foy o primeyro que 
entrou, & com quanto a dom Paulo lhe atreuessuu bia 
azagaya a mão dereyta, ele & lorge fernandez peleja-* 
rão tam vatentemfiíe que logo em entrando leuarào oe 
mouros ate a popa da lanchara, & nisto entrarão Anto^ 



LIVRO TUI. CAPITVLO LXXVITI. 196 

nio pereira que foy alejado do braço dereylo, Vasco da 
cunha, dom Francisco de iima, que forSo feridos nas 
cabeças , & Gonçalo bayflo , & assi outros , & peiejauão 
com grSde braueza porque os jmigos er9o muytos, & 
ouiro tanto faziaManuel da gama com os seps. E tendo 
dom Paulo rendida a lanchara ondeslaua quisera passar 
auante mas não pode , porj) em aferrando a lanchara se 
lançará os seus remeyros ao mar, & fugira & estado as- 
si cõ a lâchara rCdida, acodio outra i) trazia muytomays 
g6te , & entrou de roldão ondestaua dom Paulo & foráo 
tantos os que carregarão sobre ho Bayleu que quebrou 
coelesy & como erão muytos, & os Portugueses estauão 
ja feridos, & doutras lancharas lhe tirauão muytos ar* 
remessos, por mays esforçadamente que pelejarão não 
se poderão defender, & foy morto lorge fernandez bor- 
ges & dom Paulo cayo desmayado do muyto sangue ^ 
se lhe ya das mortaeys feridas que tinha, & Gonçalo 
bayã estando muyto ferido posto no bordo da lanchar* 
foy derribado no mar, & assi cayrfio outros muytos com 
a grande multidão darremessos que os imigos arremes- 
sauão, &achar8ose seys paos tostados jdtos com que ti- 
rauão. E tambè foy desbaratado Manuel da gama, pos* 
to que a{}le dia fez marauilhas cÒ os seus & assi os ou-« 
tros Portugueses , porem aproueytou pouco porque os i- 
niigos por serem em demasia muytos os afogauão&com 
tudo também receberão perda , que morreria bem -quo* 
renta a fora muytos feridos , & por isso ee contentarão^ 
com escaparem, & se forão leuando dom Paulo quasi 
morto na lãcbara sem saber Q o leuauã, nem a lorge» 
fernandea seu ayo, & soubesse Q ainda dom PauJo» 
viuera ate ao outro dia a véspera , & se ele não cayra* 
Bunca ho mal doa Portugueses fpra tanto. E acolhidor 
oe imigos ajunfarãose todos os nossos capitães, &«chan- 
do menos dom Paulo ficarão muyto tristes por ser muy-* 
to amado de todos, por soas muitas virtodf^s, & por ser 
muyto esforçado. É a fora ele acharão que morrera loSo 
Fodiigues de sousa, sobriabo de gareia de sá, lorge fer-^ 

BB 2 



19C DA HISTORIA BA ÍNDIA 

pandez borges, António defarão, Pêro q4jeyniado, Goa« 
çalo bayâo, & dou» bom barde jros ^ & forão feridos Ma- 
nuel da gama^ dõ Francisco de lima, Vasco da cunha, 
António pereyra, Francisco bocarro, Fernão gomez, 
& outros que fazião numero de trinta , & coesta perda 
se tornarão a Malaca, & contarão a domEsteuSo ho que 
Ihea acontecera^ 

C A P I T V L O LXXIX. 

JDe como Francisco de barros de payua foy buscar man-' 
timentos a Patane y ^ do que lhe aconteceo^ 

i^entindo muyto dom Esteu^ão a morte de seu jrmâo, 
determinou de yr sobre el Rey Dogentana & destruylo,. 
por vingan^^a daquela morte , pêra bo que se começou 
daperceber. £ por^ ê Malaca auia grade falta de mãt4« 
mSios, mâdou }K)r eles no lulbo segulte a Pão, cujo rey 
estaua de paz , & foy Simã sodré ê hOa nao de duzen- 
tos toneis , & ao mesmo mâdou Francisco de barros da 
payua a Patane cõ qiie também tinha paz, & estando 
íá foy ter com Simão sodré bíia armada dei rey Dugen^ 
tana de trinía & cinco lancharas y de que ya por capi-^ 
tão mor Tuão mafamede , que fugira de Malaca poia 
morte de Sanaya de raja. E por Tuão mafamede não se 
atreuer a pelejar com Simão sodré foy em busca deFr^m^ 
cisco de barros que sabia que tinha hum nauio peque* 
âo, & não teria r^le mays q^ie ate vinte Portugueses,. 
& nS por isso se deyxou ele de defender dos imigoscom 
muito esforço, Sl eles o cometerão com grandes grita» 
pêra ho aferrarem, mas nunca poderão, por(} os Portu-^ 
gueses os nào deyxivrâa cÕ muytas panelas de poluora# 
cfue lhe arremessauão & cõ muyla soma despingardada^» 
4 lhe tirauão. E despois de lha matarem três bomSs^ & 
ferirS os outros todos , vendo ^ o nã podia aferrar se 
afastara bum pouco, ho que vendo os Portugueses co-- 
mo estauão muylo cansad#s Sc feridos^. ^ ja nào podião; 



LIVRO VIU» CIPITVLO hXXX. 197 

^H>Dsigo, requererão a Francisco de barros- que poys uâo 
podião mais fazer que se acolhessem a terra ^ & saluar 
se yão y & despoys viriíi lempo em que se vingaria , & 
ele nâo quis parecendolhe que era quebra de sua honr* 
ra : dizSdo que melhor era a morte com bonrra , que a 
vida deshonrrada, & mays que temia que vendo os Pa* 
lanes como yão desbaratados que se ieuautassem con<^ 
Ireles & os matassem^ posto que estauão de paz. £ veia- 
do a gente que nã se queria yr, não qniserâo mays es* 
perar y & lan<^rãose ao batel do nauio & forãose a ter* 
ra, somente dous, bum. chamado loão freire, & outro 
Bastião nunez & estes dous persuadirão a Francisco de 
barros que se fosse, & primeyro deylou a mais da ar- 
telharia que pode no mar porque nâo licasse aos imigos, 
& por essa causa pos fogo ao nauio , & á poluora que 
estaua nele, & despoys se foy pêra terra sS ser vislo 
dos imigos , & em terra recolheo os Portugueses & foy 
se pêra a cidade onde foy bem recebido, & hi ficou hum 
anno por aão ter embareação pêra se jr, & despoys 
mandou dom Esleuão por ele. £ sintindo os imigos que 
bo nauio estaua despejado entrarão nele , & apagarão o 
fogo 8& tomarãno meo queymado : & vendo que nâo po-< 
diâo auer ^ gente dele forào se, & Simão sodré que foy 
a Pão fez carregar certos jungos de mantimêtos, & foy 
lie coeles a Malaca*. 

C A P I T V LO LXXX, 

JDe como Diogo da silueyra chegou a ponta de Dm ^ 

. à^ que kijez» 

JL assado ho inuerno {) Diogo da sifoeira teoe em Or«- 
nuz, partiose pêra Alazcate onde tinha os galeões y Sc 
dali na fim Dagosto com tuda a armada pêra a ponta de 
Diu, onde esperou a» nãos que fosbè daeatreito, de que 
fez dar á costa algtkas <| lhe fugirão, &» as nâo pode U>* 
mac. £. vendo que na.í^zia aU narda fd> surgir na barra 



19t lU HlfTORIA DÁ INOIA 

de Diu onde as fustaa se lhe mostrarão , mas nâo ousa» 
rão de pelejar coele : & aquy seube que ainda estaua 
em Diu por capit&o Melique iocSo^ & não deyxára el 
rey de Cábaya Rumeclo como estaiia delermiDado^ por 
naquela conjunção Ibe ser noti6cado que el rey dos Mo* 
gores (hum rey muylo poderoso) lhe fazia guerra pêra 
que el rey de Cambaya tinha necessidade de Rumeeáo. 
£ despoys que Diogo da silueyra isto soube, tomou hâa 
nao de presa que foy ter coele ^ & tomada se fez à ve^ 
Ia , & foyae pêra Goa com recado do gouernador que 
lhe mandou dizer que se fosse. 

C A P I T V L O LXXXI. 

De coma chegou á índia Marfim, afamo de smaa. 

J\ este tempo chegou a armada de Portugal , de que 
foy por capitão mor Marti afonso de sousa, a quê pot 
seus seruii^QS el rey fex mercê da capitania mór do mas 
da índia : & a armada ^ leuou de Portugal foy de cin* 
00 nãos grossas cõ a sua, de {{ fora capitães ele, Diogo 
lopez de sousa, Tristão gomez da graã, Simão guedea 
de sousa, ^ leuaua a capitania de Chaul , Anionio de 
brito 9 que leuaua a de Goch!. E chegado a Goa a sal* 
uamêto , mostrou Mart! afonso sua prouisl ao goueroa** 
dor ^ hi estaua , pelo que o roeteo de posse da capita- 
nia mór do mar, & lhe mandou que se fosse a Câbaya 
pêra tomar a vila de Damão , S& lhe fazer a mays guer- 
ra qoe ppdesse , & que em Cambaya se entregaria da 
armada que trazia Diogo da silueyra. E despachado Mar* 
tim afonso, partiose peraChaul, & forão coele estes ea» 
pttães de galès & Galeolas^ Fernão de sousa de taeora^ 
Manuel de souaa de sepulueda,>Martim correa, dom 
Diogo dalmeyda, lofto de sousa lobo, & Francisco de 
sá, & outros^ &assi kfi loão de sonsa dalcunha Rates 
em hua carauda: & chegado a Chaul achou hy Diogtf 
da silueyva que (be eatregou a armada de Vasco Pire» 



LIVRO VIII* CA7ITVLO X.XXXII. 199 

dic tâo payo ^ f| era de Ires galeotas , & dezaseys fus- 
tas , & assí quatro galedes , & Diogo da eiloeyra seguio 
sua rota pêra Goa pêra «e yr pêra Purtugal.^ 

C A P I T V L O LXXXn. 

De como Marúm ufanso de sousa tfmwu a v^de DaméOí 

Jlintregue Marlim afoDSo de sousa da armada , partio^ 
se pêra a vila de Damão ^ & leuaua triota & cinco ve* 
1m y em que yrião seyscentos soldados , & coesta frota 
chegou a Damão, bum lugar do reyno de Cambaya, si- 
tuado na ponta da sua enseada da banda do sul por hA 
rio acima ode ei rey de Câbaya tinha biia fortaleza for-** 
te & bem artilhada , quadrada , & em cada quadra hil 
baluarte, & tinha bfla sô porta. E sabCdo ho capitão 
dela, que era Turco, a yda de Martim afonso queyrooo 
ho lugar , & deslruyo tudo ao derredor , & recolheo a 
gente na fortaleza , em que tinha quinhentos soldados , 
es mays deles Rezbutos, que sam os gentios que erão 
senhores de Cambaya, antes () a os mouros ganhassem, 
te por serB homfis esfor9ados os tinha ali el rey de Gam« 
baya , os outros erão Turcos , em que entrauão cem es- 
pingardey ros , & estauã todos muito contiados de pode« 
rem defender aquela fortaleza ao goueraador da Índia , 
quãto mays a Martim afonso, que sabiáo Q leuaua pou- 
ca gente. £ parecendo ao capitão ^ ele cometesse a for^ 
talesa pob rio, mãdou fazer ao longo dele algflas estan*^ 
cias dartelharia. Chegado Martim afonso, como digo, 
surgio na costa pêra dali yt ver a dispoi^K^áo da fortale^ 
ia, a que foy em hum catur pequeno quando era baixa 
mar, & fuy neste tempo, porque com a maré crecia a 
a|oa, & ficaria sobre a terra desctiberto áartelharia, & 
CO bayxa már fieaua ho aleanlM alio, &eiicobrileya dos 
tiros, () forSo sem oonto, assi de bõbardas, como des- 
pingardas eiUràdo polo rio, & valeolhe ho ardil que te- 
ue pêra lhe nào empeaerem y & por isso passou auante 



200 DA HisroArik da índia 

da forUleea & a vío muylo bê, &vedo quã perigosa erà 
a filrada por a^la parte por amor da arlelharia^ deter-* 
minou de a cometer por outra se podesae aer : & sabS-^ 
do que polo serlfi polaa costas da fortaleza auia bum ca- 
minho largo & chão, por onde a gente podia yr a pra- 
zer, pareceolhe bem cometer por aly^ & assi o disse aos 
capitães em conselho, & que auia de desembarcar na 
costa braua de frõte da fortaleza ás duas oras despoja 
de raea aoyte , pêra em amanhecendo dar na fortaleza^ 
& assi ho fez , & ao desembarcar teuerâo os Porlugue-. 
ses muylo trabalho , Q desembarcarão tã afastados da 
terra que lhes daua a agoa polo pe6co<^ , porque não 
ousauão de chegar os catures a terra que auiâo meda 
de se eapedaçarem com ho grande escarceo que o mar 
fazia. E em quanto a gente desembarcaua foy Martim 
afonso ver com cinco fídalgos o lugar por onde auiadyr: 
& achando que era assi como lhe tinhSo dito, tornouse 
pêra sua gente que achou desembarcada, & coela feyta 
em hum corpo abalou pêra a fortaleza, & chegou ás cos** 
tas dela em amanhecendo, leuando diante duzentos es«« 
pingardeyros pêra fazerem despejar os mouros que aco- 
dissem daquela parle, como acodirão logo, mas quam 
asinha forão acodir, Iam asinha se tornarão com jnedo 
das espingardadas^ que erã íanlas, que quasi desfazia 
as ameas« E vendo os Portugueses o muro despejada 
poserão as escadas que leuauâo pêra sobyrS, &o pri-* 
meyro ^ pos a sua foy hfl Frãcisco da cunha , & o pri- 
meiro que subio por ela , & a pos ele outros , & por a 
escada ser podre, com a gente ser muyta quebrou, sen« 
ão Francisco da cunha quasi no cabo dela & cayo , le-^ 
liando diante de sy quantos yão de trás dele , & todoa 
ficarão mal tratados das quedas, principalmSte ele que 
cayo de mays alto, & com quebrar esta escada receou 
a geqle de subir polas outras, & não quis ninguS mais 
sobir , dizSdo 4 ^^^^ {)odres , o ^ ouuindo Marli afonso 
mãdou logo trazer háa escada noua Q mãdara fazer de 
duas aalenas da carauela , & era tão larga Q podia yc 



LIVRO VIII. GAPITVLO LXXXII. 201 

por ela cinco bornes em fieira^ & 6 quãto se foy por es- 
ta escada fora algus Portugueses ao derredor da fortale- 
za pêra onde eslaua a porta |X)ia qual virS sayr obra de 
trinta dos ímigos t\ yão fugindo, & esles erão da gente 
bayxa^ em Q o medo era tamanho (} determinarão de fu- 
gir, & estes começarft logo, por os soldados eslarfi em 
cima nos baluartes, & não auer quê os teuesse: &v6do 
os fugir estes Portugueses ^ digo, começarão de bradar 
^ fugião os imigos, & dera logo a pos eles, & outros 
acudirá á porta que estaua aberta & remeterão a ela ri* 
jo que os jmigos a não poderã fechar , porem fízerãose 
em corpo diante dela, & começara a defender a Strada^ 
& na própria conjunção em que aqueles Portugueses re« 
metia á porta da fortaleza, chegou a escada noua que 
digo, & posta ao muro ho primeiro que sobio & chegou 
ao muro, foy Torres hu Italiano comitre da galé de Mar* 
tim afonso , & ho segQdo Diegaluares telez , híi fidalgo 
muy esforçado, & a pos estes outros poucos, & isto & 
ho chegar dos outros Portugueses á porta da fortaleza 
foy todo hum , & vendose os imigos assi cometer , de- 
sesperados de se defenderem, determinarão de fugir, & 
por isso se. decerã os mais ao pateo da fortaleza , & se- 
tenta (parece Q^dos mats bonrrados) se poserSo a ca^ 
4ialo pêra se acolherem iogo, & os outros cometera^ 
porta a pé como que queríão sayr, mas não poderão por 
•estarem nela tantos Portugueses, que estauão atocha^ 
dos sem poderem yr pêra diãte nem pêra trás, & tu 
nbão feyta hiia medonha pinha de fais & despadas nuas^ 
.& espingardas^ & era fatia braua reuolta deles pêra en^ 
trarô & dos imigos pêra sayrè, & tudo era cheo de hrar 
dos & gritos. E três dos imigos como determinados de 
n)orrerê pêra fazerõ lugar aos outros, espetaranse nas 
lanças , & forão correndo, por elas ate chegarem aos ^ 
as íinhão, &ferirâonos muy rijo cÕ os terçados, &muy** 
to mais dano íizerâo se não fora por hâ Aluarò de mey^ 
reles que os acabou de matar çõ hQa espada dâbas as 
mãos, & assi foy morto outro de caualo com bíla espia* 

LIVRO VIII. cc 



SOS ^Á HOnrOAIA -DA ItlDIA 

i^ardada que lambem q«iís ooneter aporta. E tanto qii« 
Alar ti iD afoDso vío que Diegaluares telez ^ & 08 outrotfi 
0obiâo pola escada, acodio a eafein^r oa qu0 «staii&o á 
porta ^ & a força dodlbros 4 pos coot outros deu còelea 
dentro 9 & como agôa que-fctope de f>reea, idá Saotia*- 
go DOS imígos^ & nisto chega Diegaluarez ieiez^ & os 
outn>s que entrarão pelo muro^ & (^ifaêdoJios jio meo^ 
apertaráonos de tal oaodo, qm nenhum escapou viuo^ 
pelejando primeyro cooi muylo esfor^ , porque tendo 
que oão podifto escapar tingar&ose noa Portugueses^ de 
que matarão dez, & ferirão muytoe de niuylas feridas. 
£ roubada a fortaàeza , deleue«e ASarlim afooso tflres 
dias em a derribar & arrasar , què parecia que «â-este- 
uera aiy, Sl daquy foy correndo a cosia ate Diu, & 
ooesia vitoria ibe ouueráo os mouros grande medo , & 
el rey de CâiMtya a sânlio muyto. 

C A P I T V L o LXXXIII. 

De como el Rey dos Mogores aitrou -na Jndmi 

jLjLntes disto entrou na índia hum rey de* hâs peuos h 
que vuigarm8te'cbamãcr Mogoces^ cujo aevhorio icoitfínà 
cò ho do ^060, & dixem que he a terra a -que antiga»- 
mente ebamarfto Farchia , be «eta geala akia & bfi 4v0- 
sombrada de barbas cÕpridas, & traaS as cabeças irnfys^ 
das, & nelas hiis carapuicjõea quasi da maneyra dos do 
cofio , vestem cabayas, & roupões de seda, ou de pano, 
segudo cada hum pode: oe nobres se:8era6.oom'nmy4a 
pdicia de baixelas de prata, &de noyte alomeaose com 
Teias de cera em castiçaeis, & db eaininho lecfto ho Am- 
lo em arcas encoy radas, almofreixes, & maias, of}i»eii- 
tos eõ reposteyros , & alcatifas sobre camelos , & Jeuão 
inuyto boas tendas pêra pousarem no campo. Ho pro^ 
pfio pelejar dos Mogores be a eaualo, os cai>abs sfio co- 
mo quartaos, correm pouco, & andâo «luvto, & pele^ 
jfio coeles aaubertados, suas armas aâo pelotas de seda 



LivBo vNié cAmrut Lncxirr. tos 

M de coyro de quartos ^ que lhe cbegão hum palmo a« 
bayzo do giolho forrados «de laminas, cõ crauaçfto doura* 
da^ nas cabeças celadaa^ & capacetes cÕ grades pena- 
chos dourados. As armas ofi%siuas sio arcos, frechas^ 
terçadoB^ ma^a de ferro, & macbadinhas, & todas es^ 
ias armas leuã pSdúradas nos arç5es das solas, leuão 
tâbê mujta artelbaria encarretada, & cada peça de oò^ 
primeiíto de couado^ as grossas tirão pelouros do tama- 
nho de. faicdes, a miúda como noaes. Cõ esta gente an-« 
da outra niuyta de diuersas nações, assi como Tártaros^ 
Turquimães, Coraçones, &oalros, & todos se chamâo 
jMogores, mas os próprios Mogores são os que digo: cu- 
jo rey era grão senhor de Cerra, & de gente, &seruiase 
com grande estada, & vènuo muyto poucas vezes, & 
quando quer que lhe fale salguem. manda ho chamar, Sc 
€6 senhores de sua corte fázS cada dia d uns vezes a ca- 
lema á casa ou á tenda em que está; be mouro, & assI 
ho são todos seus vassallos , ho mais do tempo lejfla , fc 
reaa^.pelo que os seus ho tem por santo, dizião que 
Aunca lhe sonberão conhecer molher, & assi estranhaua 
muyiio ho pecado -da iú)£uria» Tem grade goarda è sua 
iMssoaassi na paecomo ni^ guerra, Scgoaréâno aos quar« 
tos dous mil de cauato , acada quarto em Q entrSo eenv 
senhores principaeis, & todos come da sua cozinha, quan- 
do cauaiga acompanha ho' gente sem conto, assi de pé 
como de caualo, & vão diante dele porleyros cõ varas 
Kermdhas , te oortros oíBcineia que Tazèm apstrtar ageii« 
te. A causa da vinda deste rey á índia foy segQdo sou- 
be dalgfls Portugueses que esteuerão no seu arrayal, ser 
desbaratado do Xeque jàmael, de que escapou com sete 
mil de caualo, & vendo se desbaraiado, de corride nft 
quis tornar a seu Reyno , sem fazer algíla cousa com 
que emendasse aQla quebra, &determiaãdò de.conquis^ 
tar ho Reyno de Deli comarcão do seu, lhe começou, de 
í>^scr guerra cõ ajuda .ditm jrmftò dei rey de Deli, a qu9 
perleníeia ho reyno de dereyto, & a i| prometeo sé b^e 
oonquistasse, pctfêm não ho fez assi despoys de ocaqu^s»! 

cc 2 



Í0% ! • DA HISTORIA DA «ITOfA ' 

Ude^ & tomouo peraey. Eeste a que pertencia bo'r0}r^ 
DO quando íbIo vio fugio pêra el Key de Cambaya^ á 
pedtrlhe ajuda contra lio rey dosMogores, que por as 
Dobresas de que vaou nesta coDquisla cõ os soldados , 
cobrou tamanha fama , ^ em pouco tempo ajuntou cin* 
coenta mil de cauaio. £coído tambè tinha fama decon* 
quistador, estado no.reyno de Oely^ foy ter cd ele hCl 
sobrinho dei Rey de Mandou y aqueixandoseihe dei rey 
de Gambaja , Q lha matara seu .'tio por treyção , & lhe 
çaliuara sete filhos & lhe tomara ho reyno. Pedindolbe 
que fizese por b6 ou por mal que el rey de Cãbaya sol- 
tasse os filhos, & lhes tornasse o reyno. Sobre o ^ elrey 
dos Mogores mandou hú embaixador a el rey de Cam- 
baya , que por não querer fazer seu rogo onue desafio 
antreles pêra fazerè guerra hil ao outro 9 que logo co- 
meçarão per seus capitães. £ por^ os dei rey de Cara- 
baya leuauão ho pior, determinou ele de jr a ela emi 
pessoa , pêra o {| determinou de fazer paz com ho go- 
uernador Nuno da cunha, por^ lemeo que lhe toipasse 
Diu cõ toda a fralda do mar em quanlo fosse contra et 
rey dos Mogores. £ pêra o contSlar & prouecar qoe fi- 
zese a paz 9 Ibe deu Baçaym ^ sobre o q lhe mandou tík 
embaixador j que se chamaua Coge sacoez^ 

C A P I T V L O LXXXUil. 

JDe como dRty de Cambaya deu Baçaym a elRey dom 

loam de Portugal. 

Jl arlido este embaixador que digo, chegou a Goa, on- 
de deu sua embaitada ao gouernador, cuja còcrusaro 
foy que el rey de Câbaya lhe daua Baçaym com todas 
suas ilhas, & bfla legoa polo sertão, que rendia tudo 
eincoCta mil pardaos douro, & que fizese paz coele. B 
como ho gouernador sabia certo ho fim pêra que el rey 
de Cãbaya queria a paz^ & quSta necessidade tinha de- 
la , dí a quis cõceder , sem el rey de Gambaya a fora a 



LIVRO Vlll/CAtlTVLO LS^klIII. 20o 

Ç daua consinlir que as nãos dos mouros fl hiâo a Diu 
fossem a Bâçaym , & hi jyagariáo pêra el Rey de Por- 
tugal os derejtos que pagauâo em Diu, que serião bS 
oúlros cincoenta mil pardaos dé ouro, & mais que lhe 
auia de dar lodos os Portugueses catiuos que tinha, o 
que el rey de Cambaya concedeo , porque era sua len- 
^o vencer el rey dos IMogores, & despoys os Portugue- 
ses, & tomarlhes a índia. £ outorgado por ele eslecon* 
trato, foyse ho gouernador a Baçaym com hua grade ar- 
mada : & lá se ajiilou coele Alartim afonso de sousa, & 
lhe leuou ho embaixador delrey de Cambaya assinado 
por ele ho contrato que antreles foy feyto. E ho embai- 
xador lhe entregou Bac^aim com suas jlhas, & hiia legoa 
pelo sertão, & entregue mandou o gouernador fazer hua 
casa forte por não poder fazer logo forlaleza, & esta ser« 
ueria de feitoria , & fez feytor a hum Gaspar paez , & 
deyxandolhe algOa gente se. tornou a Goa onde inuer* 
DOU, & primeyro despachou ho embayxador dei rey, cõ 
quem foy loao de Santiago lingoa do gouernador Q fora 
mouro & era Cristão, pêra que trouuesse os catiuos que 
el rey auia de dar, que erâo Diogo de mezquíta, Lopo 
fernandez pinto , & outros. £ el rey porQ lhe pareceo Q 
Sãtiago lhe descobriria muytas cousas do gouernador que 
lhe erfto necessárias que soubesse , cometeo que ficasse 
coele , fazfidolhe mercê de vinte mil pardaos douro & 
de quorenta mil de renda & Q serva seu lingoa , do que 
Santiago foy contente, & descobrio a el rey quanto lhe 
pareceo que sabia do gouernador & dos Portugueses fa- 
zendolhe seu poder muyto pouco, & (} facilmente os 
deytaría fora da Índia, se quisesse, & por isso et rey 
nâo quis mandar os catiuos ao gouernador , nem Iam 
pouco mandar que as nãos que auiflo dír a Diu fossem 
a Baçaim. 



206 IMl historia BA IKDU 

d A P I T V L O LXXXV. 

Dê como indo dom Esteuâo sobre et rey Dugentana lhe 

desbaratou hda Iranqueyra» 

J^espois da morle de dd Paulo íicou el rey Dugentana 
tão soberbo^ que mandou logo suas armadas ao estreito 
de Gincapura pêra que tomassem os jungos que per bi 
fossem a Malaca^ & fizessem aos nossos quanto mal po- 
dessem , & eles ho fazião assi , correndoos por muytaa 
vezes. O que demoueo mais a dom Esieuão pêra a des« 
truy(^ dei rey de Vgenlana, que tinha seu assento em 
hQa grande cidade sele legoas por bum rio a cima, cu« 
jo nome he Vgenlana, & dele se chama assi a cidade: 
& este rio se mete no mar alem do es t rey to de Cinea-» 
pura. E determinado dom Esieuão de destruyr ésterey^ 
ajuntou sua gente ^ fora quatrocStos Portugueses : & 
deyxando a fortaleza entregue ao alcaide mdr , se par-* 
lio pêra Vgen lana em lunbo do anno de mil&quinbeiH 
tos & triola & cinco cõ hQa armada de duas fustas ele 
em biia, Manuel da gama em outra, & sete lancharas, 
de 4 erão capitães, Simão sodré, dom Frãcisco de li* 
ma, António dabreu , dÕ Cristouã da gama, Anrique 
mendez de vasconc^os, Pêro barriga, António grãdio^ 
& bua carauebi redõda^ de Q foy capitão, bii Pernft 
gomez natural Dajcoucfaete, 4 ^^^^ scriuão da feytori« 
de Malaca, & hfia nao capitão bum Diogo botelbo, & 
asâi alg&as niancbuas» & baldes pêra seruiço desta fro« 
ta^ & partido coela checou á foz do rio Dugentana, 
por onde entrou, & despoys de nauegar por ele Ires le« 
goas por ser bayxoi não pode a mo passar mds auaote , 
& por isso a deyxou ali , &; pêra Q goardasse o rio que 
nâo socorresse a armada dei Rey que andaua de fora* 
E prirtido dali , a obra de mea legoa achou bua pouoa- 
çã Q se despouoou com medo dele , que cõ tudo lomarã 
ali lingoa^ por quem soube q^ue dali pêra riba não era o 



7»- 



LIWO TUt. GAFnriJO LXXXV. !207 

rio de nata largura 4>ue «dum Iko de pedra & de mujio 
grande oorrente, & todo cnhetto deepeaso aruoredo que 
encobria ho sol, fc que dali a duas Iqgoas oiâdara el rej 
fazer hfia traníjyray porque oa Portugueses ieuessem 
«seya Q fazer em chegar a Vgeniana, & pêra lhe tolhe- 
Tem dali bo caminho, porque ficaua muyto estreylo. £ 
i»a4>ido isto por dd Efiteuão, mandou Pêro barriga, lor- 
ge daluarSga, & Bernaldira cordeyro em seulK)8 baKíes 
a descobrir ho rio, & saber se era assi ho que ho tingoa 
dizia, & que lhe tornassem cÕ recado por{| ali os espe- 
Taua. £ eles forão & achara a tranQyra feyta ao pé dii 
outeyro Q fazia hu cotouek) no rio, & cÕ a transira fi- 
caua tão estreilo Q não podia passar ninguém (} osími- 
gos !\ nela estau&o os nam matassem ás frechadas , & 
tinhâo cortadas muytas aruores sobre o rio & aladas com 
rota de Bengala , pêra Q se dd EsteuAo passasse as dei* 
xassê cayr & lhe «garrassem bo caminho, ^ não se po- 
tdesse tornar. E ver isio lhes custou muyto perigo de os 
matarS cõ frechadas & visto iornarâo a dÕ Esteuão & 
Jho cÕtarfto, & ^ (segundo seu p\pecer ele não podia 
passar «em desbarratar aj||ia Iratt^ira , •& Q ho faria por 
ier pouca gente. E drto isto per dd Ésieufto aos outros 
capitães & pessoas principais da frota , assentouse por 
-todos Q tomasse a tranqueira, & hu pedaço primeiro 1| 
chegassem a eJa sairia Pêro barriga & António grandio 
com a s«a "gente em terra pêra darC por eb na trãquei- 
ta , & ele com os da arnxiHla daria por mar. E por^ ho 
mato eva muyto basto & dõfisleuio se temeo 2) pola es- 
treiteza do rio 08 imigos se escondessem antre bo aruo- 
redo & lhe frechassem a gente, mãdon fazer baileasnas 
fastas & nas lancharas pêra irè>debaÍ7Co espingardefros, 
fSc' tirara dali se acõteeesse oi} reeeaua. E passados deus 
dias que se nisto d^teue , tornou a sua viagS caminho 
dn tranqueira , & hfi pedaço Ma deseníbarcarSo Pêro 
barriga & António grandio coma gente de suas lâcha- 
ras, que seriáo ate sessenta 4iom6s , ou pouco menos, 
& iinar^o pêra a trãqueira indo a vista da armada, & 



108 DA HI0TORIA DÁ ÍNDIA 

ohegarSo primeiro que o8 do inár. E por Ihea parecer ^ 
geria perigo não cometer ca Imigos ^ oa cometerão aaai 
como hião auiadoa, deafechãdo oa eapingardeiroa ^ hião 
diâte. £ os imigoa ae defenderão bd pouco, maa v^ndo 
chegar a armada pareceolhea Q oa queria tojnar no roeyo^ 
ía sem se deter muylo na defensa fugirão^ ficando mor<* 
tos Ires doa principays, & oa outros se acolhera â forta- 
leza onde el rey esíaua , a quê cCtarã seu desbarato , 
engrandecSdo muyto ho poder de dõ Esteuão & aeu es* 
forço , por encobrirem ho medo (} leuauS : Pelo que da 
Q eslauão com ei rey teuerão tambS aigú de serem desr 
baraUdos, $c risceauã^ a chegada dos nossos. 

C A P I T V L O LXXXVI. 

De como dom Esteuâo chegou á fortaleza dos immigoB^ . 

X^esbaralada a Irãqueira aem oa Portugueses receberS 
nenha dano, como chegou dom EIsteuâo tornarSse aem* 
barcar Pêro barriga & António grandio eom sua gfite^ 
por^ posto que dõ Esteuão quisera que forão sempre por 
terra ale a fortaleza pêra tolher aos Imigos se os ouues- 
se que lhe nao tirassem danlre ho aruoredo, não podião 
por a terra ser apaulada pola mayor parte dâbas as parr 
tes do rio, & ser sapal por onde ae não podia andar: 
& por isso os imigos não podião chegar ás bordas do rio, 
que se isso não fora eles chegarão, & somõte delas à# 
pedradas & frechadas segundo ho rio era estreito &ele9 
muytos poderão defender a passagê a dom Esteuão: & 
tambfi por ho rio fazer muitas voltas & cotouelos lhes 
estoruou lãçarS balsas de fogo pêra queimar a nossa fro^ 
ta, por^ se auiã de deter nestes cotouelos. E posto que 
a terra era assí apaulada onde auia lugar pêra isso aiur 
da ^ estreito desembarcarão António grandio & Pêro 
barriga cÕ sua gente & hião a vista da frota , despois ^ 
partio desta primeira trâqueira caminho da fortaleza: 
onde estaua Laqueximena capitão mór dei rey ^ tieri» 



c&igã bê seys mil hornês o6 mais deks. frecheiros , & 
dos outros algus espigardeiros & em ^ el rey linha todo 
wu esforcjo, & a fora isso estaua inuy to: forte cõ Lua 
tranqueira l\ atrauessaua ho rio^ & era de duas faces 
entulhada de grades madeiros & pedras : & 3 cada ca^ 
bo hQ cobelo do mesmo, & no meio hua porta ^ se fe-» 
chaua é abria pêra sairS suas armadas. E nesta Iràquei* 
ra auia mujta artelharia, 8c dela pêra hua chapa da ter- 
ra de hfta das bâdas do rio se.estSdia hfia fortaleza de 
madeira muito forte em «Q estaua recolhido Laquexime-^^ 
na GÕ sua gSte. E el rey estaua em hCia pouoaçâ dali a 
hGa iegoa, & por ele eslar tao fortalecido lhe pareceoQ 
estaua seguro de ser entrado. Chegado dõEsteuéio a es-* 
ta fortaleza surgio cõ.a Creta detrás du cotouelo que a 
emparaua da fortaleza^ de Q ficou a tiro despingarda, ^ 
era a largura do cotouelo. E Ic^o S chegando Pêro bar-^ 
riga & António grandio Q chegara por terra lhe manda- 
rão dizer !) deuia seguir a vitoria ^ trazia da tranquei* 
ra^ & c5 ho fauor dela desbarataria logo c^imigos* E 
dõ Esteuã não quis por nS jr apercebido pêra isso^ & 
por ser tarde & a gele jr casada de leuar á toa os na- 
uios. E assi ficou ho cõbate pêra outro dia. £ por^ de 
noite 08 Imigos não lançassem fogo de terra na frota, ih* 
carSo António grandio & Pêro barriga cô.sua gSte dú 
parte ondestauão, & da outra desembarcou Anriqucmè-' 
dez de vascõcelos cõ os seus, pêra i\ a frota lhes ficas^ 
se no meyo & hiis & outros a goardassê. E la^ximena 
^ sintio 4 os nossos erâo chegados fortaleceose ainda 
mais do Q estaua, & mandou meter muytos estre'pes dd 
pao ferro muyto grossos por derredor da fortaleza. E es- 
ta noite cõcertou dÕ EsteuSo como se auiâo de cometer 
08 imigos: & foy q dõ ChristouS da gama seu jrmãd 
fosse na carauela de Fernãgomez abalroar a trâqueira^ 
&. jrião coele Simão sodre, Manuel da gama & outros 
ate cinccSta homõs fijla-lgos. E^ a carauela fosae cerpa*» 
da darrõbadas por lííe na fazer nojo a artelharia. Elogo 
ao outro dia lhas fizerão muyto fortes daruores inteiras 

LIVRO VIII. DD 



210 DA «STORU OA' índia ' 

9 cortara pêra issa. Isto feito hfi dia pela naeohaã aba* 
lou a carauela ^ leuaua muy grande peso por amor daa 
arrobadas 9 & por isso nào podia jr se não ás loas^ & 
estas auia dir atar em aruores bH Luys de brag« {| fora 
escriuãu da feitoria , & despois datadas nas aruores se 
auiâo datar por elas os da carauela ao cabrestante, por^ 
nS, auia força de remos ^ a dtese surdir segundo seu 
peso, & a grande corrfiie dagoa: & mais indo a remoa 
não se podia leuar por amor d^ artelharia dos imigos (| 
estaua certo pescar as manchuas-ou balões a ^ fosse a<» 
toada como descobrisse fao cotcfueto (\ ficasse a vista da 
trãqueira. E indo bQa só mancbua atoada desta manei* 
va hia ao Jongo de terra, & despois enipararsebia cd a 
mesma carauela em quanto se aiaase polocabrestáte. £ 
porl| nisto auia de aaer vagar 6cou dõEsteuâocÕ cres- 
to da armada detrás do cotoueio ate a carauela afTerra? 
eò a trãqueira, de Q tanto t( se lhe a carauela descobrio 
eomeçâo de chouer pelouros cft tanta fúria Q parecia ^ 
fundift ho mundo, quanto mais a carauela, a i| as arrÕ*» 
badas aproueitarão muyto peru os que hiã dêtro nâo se» 
f6 todos feitos S pedaços. Porem FernSo gomez foy fe* 
rido dík pelouro em hfl braço ^ de Q despois morreo* B 
da earauela lambS jugauão coessa artelharia ^ ksuauão^ 
It tudo era euberlo de fumo, & como o rio era sõbrío 
por amor da e8|)essura do aruoredo , quasi ^ ficou todo 
escura, & nisto passou Luis de braga muj grade perr* 
go em ;r atoar os cabos âs aruores por onde se auia da* 
lar a caraueb. fi auSdo os negros Q remauão medo das 
bÔbardadas & frechadas (^ tiráuSo da tranj^yra nSo que* 
rião remar , pelo {) conueo a Luys de braga arrSear da 
espada^ & ameaçaíos coeia ^ os mataria se nã remasse, 
fc cd is^lo remara sem eles nê ele serem feridos : o^pa--^ 
receo milagre r & assi fby ate Q anoiteceo Q a carauela 
ftcou a meo tiro de pedra da tran^yra & ali surgio c5 
determinaçS de a^U Bo;ie jr aferrar a trãqseira» 



«^ 



LfVllO VIII« €APITVLO LXXXVfl. 211 

C A P I T V L o LXXXVII. 

( 

Dé como âfi EãUuão de^arntnu el rey Dugeniana. 

^urta a carauela , vio Luis de braga na boca do caDal 
jtito da (rao^yra onde a carauela pDdta chagar hfi jilge 
«lagado Q 00 imigoa ajagarão receando de aer o {| viâo^ 
& ficaua a agoa tS baixa Q nS podia passar húa man'- 
chua por cima do jQgo^ & sabido isto por dõ Christonie 
<leyxouse estar ate ver o () dd EsteuSo determinaua , a 
-qufi logo mandou dizer o ^ passaua , ele lhe mSdou di*^ 
zer (} se tornasse , & assi o fez. E v8do dõ Esteuão \ 
ná podia cdbatér a fortaleza por már determiaon de o 
fazer por terra & nft se yr sem a tomar: & pêra saber 
eua disposição, & onde poderia assentar a artelhariamJU 
dou a Francisco bocarro de Lisboa {) tinha a feytoria de 
Malaca Q se passasse 4a bSda dalém do rio , & viáse a 
diapoai^o da terra dizendolhe pêra 2} ! & foy coele hd 
espTgardeiro, & indo em pés^ & S mãoa por nSo ser vie:. 
to se pôs em cima dfi outeirinho ^ senhòfeaua a fort»:* 
íessa^ fi. vio assentada de maneira ^ estSdo hõ oamel0 
dõde efe estaua c5 hum par de falc^^es, nS pareceria n!^ 
guê na fortaleza {) não fosse pescado , & asai o disse a 
•dõ Estenâo, & í) sd a()la estâcia abastaria pera^fazer 
jd^p^jíkr a fortaleza aos !n)igos. E onuindo Ibo Manual 
^a gama lhe disse , Q não fizesse aquilo tfi chSc, ^ maia 
auia T[ fa2er do que dizid^ & ele disse -^ pois ele ^ o fo* 
Ta ver o dizia {) ainda era muyto menos ^ fepera isse 
íbssem lá éò Esteuão ^ & ele , & veriâo se era assi , & 
eniUo forS todos três & coeles d5 Cri stouflo , A ntonio 
dabren & A nriQ medez , & por o mato ser muyto basto 
os nâo f irão da fortaleza. E i^8do l\ Wdi assi como Frft» 
cisco bocarro dizia , na noyte s^gulte mandou dd^ Eate^ 
^ão fe^er ali hOa estancia c5 bQ camelo, & dotis falcfies^ 
& deu a goarda dela a Anril) mSdez de vascdcelos, cô a 
gente da sua lanchará : & António grãdio eataiia S ou* 

DD 2 



212 DA HISTORIA DA ÍNDIA 

tra da mesma parle em Q eslaua a fortaleza. £ g ame- 
jihecêdo começou jugar a arlelharia Q fatia muyto nojo 
aos imigos, & elee aos nossos nenhQ, posto (\ a sua nu« 
ca deixaua de iirar. E durou este cõbate quasioytodias, 
8 q os nossos matara dos imigos muitos & eles aigjls 
dos nossos, & nisto faltou a poiuora, porque do £sle« 
4ião não determinaua de dar tâíos diascõbaie^ quecny- 
dou Q em hu se acabasse aQle feyto, & lãbê Jfae coine* 
^u dadoecer a gente por a terra ser muyto doentia, & 
por faitarS os mãtimStos, pelo (} dõ Esteuao dagastado 
pos ê cõselho se se tornaria pois não fazia nada & po- 
dia perder muito, & muitos fura de parecer ^ se tornas- 
06 , & Pêro barriga cõ alg&s disse ^ eJe não auia medo 
aos imigos pêra se tornar, mas q auia medo á nossa fro- 
ta 4 tinha pêra andar sete legoas per hú rio muyto es- 
treyto & de grande corrente , i\ seria causa de darem 
h\l9 nauios pelos outros & desbaratarSse per si, que não 
se deuião yr dali sem cometer a fortaleza, & cometen- 
doa |K)deria ser que Deos os ajudaria, & quando não^ 
Bo os imigos os vissem tornar terião reza de dizer, vão- 
se deixalos yr. £ como dÕ Esteuao & todos tinbão a 
Pêro barriga por muyto bõ caualeyro, & que fizera dis- 
so muy boa experiScia em Africa, & ![ sabia bê da guer- 
ra, abalouos muyto esle seu parecer, & ouueráno por 
bd, porè não se determinarão no 1) fariâo & ficou assi, 
& cada bíí se tornou a seu lugar, ^ se fora a jentar Q 
era pela menhaã. O Q parece ^ quis nosso sflor pêra 
anais seu iouuor & gloria : por^ despoys deste conselho, 
chegou à fortaleza Tuâo inafamede capitão mór do már 
dei rey DugStaoa , da costa de Pão onde ãdaua darma- 
da, & el rey o mãdara chamar pêra ajudar cÕ sua gêt^ 
aLaquexímeaa côira os nossos & deixou a frota no már, 
& foyse por terra cõ sua gSte à fortaleza , & chegou o 
dia em q foy esle cõselho , & como ya de refresco quis 
Jogo sayr aos nossos, & deu a^la larde rebate nas es- 
tancias Dâtonio grãdio, & de Pêro barriga cõ bS mil ho- 
mõs, & eles ^ não desejauâo mays ^ pelejar coeles re^ 



hlVBO VIII. CAPiTVLO hXXXVllU 213 

ceberflMiob cd muilo esforço, & pelejara cd grade oosa- 
ú\a. £ tanto () a grita foy ouuida na frota, luâdou dom 
Esleuão 08 mais que pode i| fossem acodir, & a arte- 
Iharia começou logo de jugar, & foy bo arroido lama- 
4ibo Q parecia destruirse o m&do. Ecomo os imigosvis- 
sem quã b6 se os da estaacia defendião, & i| soccorrião 
4)8 da armada, & ouuirSo as bombardadas, cuydarão Q 
^râo tomados no meo, & desmayarSo de modo Q se ou* 
uerão de perder se nao teuerão iâ perto a colheyla, on- 
de se acolherão sem fazer dano aos Portugueses , rece- 
bendo deles muyto, & forâo os mcilSdo alé a forlaieaa. 
£ vfidoLa^ximena quã facilmSteTuâo mafamede, {} ya 
de refresco fora desbaratado & a bateria ^ se daua de 
cõtino á fortaleza , & sobre ludo parecerlhe Q delermi* 
nauSo de a tomar, ouue tamanho medo, & assi os^es- 
tauâo coele, Sc tambê Tua mafamede pelo 2} tinha es<^ 
premõtado, ^ a^la noyte despejarão a fortaleza de todo, 
& se forão caminho da pouoàção em ^ el rey estaua , 
que tãbê despejou a pouoação cõ quantos eslauão nela 
& fugio cõ medo. 

C A P I T V L O LXXXVIII. 

J>o § fez dó EsteuSo despois § desbaratou el Rey Dth 

gentana. 

JLrespejada a fortaleza, quando veo ao quarto dalaa, ^ 
era de rero barriga na ouuido na fortaleza o ^ dates ou* 
uia per bradarS & falarè os imigos i) se vigiauã , & tãr 
ger 08 seus sinos, & cantar galos. Eparecendolhemuy* 
to sossego, sayose fora da estâcia cõ algfts homSs do 
quarto, & cbegouse á fortaleza, & não ouuindo nada 
chegouse tão perto () claramête vio 2) estaua despejada, 
o ^ logo mâdou dizer a dõ Esteuao ^ como amanheeeo 
desembarcou com sua gente, & entrou dentro na forta- 
leza em que não ouue que roubar. Eela desfeyla de to- 
do , & recolhida a arttifaaria ^ bi ficou , foyse cõ toda a 



S14 OA BIftTOfttÁ BA IKBrÁ 

frota pelo tio aeima á pouoaçâo delrej I) também ac&OH 
deapejada^ & qoeyiDouba toda, & muitas Itcharaa ^ 
eatauSo começadas, & tomou outras i\ estauão acaba- 
das , & assi algas calaluzes* Isto feylo seguio pelo rio 
acrma bO hiia lagoa al8 da pouoaçiío pêra ver Q auta no-- 
le : & achou moitas lâcharas & calatuzes {{ esíauâ vara^ 
dos no mato no l{ gastou três dias. E feyto isto se tor^- 
nou, & qufldo se sayo do rio, por^ a corrSle íi2 atrauea^ 
sasse os nauios , hiãose atofido as aruores , pelo modo 
que se aloaua a carauela quãdo foy pêra aferrar atraii^ 
^yra: & saydo fora do rio tornouBe a Malaca õde foy 
recebido cõ muito grSde festa da gSle da terra, por^ 
ouue tamanha vitoria duRey Q estaua tSo poderoso, te 
fazia táto dano a Malaca, & de cada vez lho ouuera de 
fazer mais, & das lancharas, & calaluzes & artelbaria 
que dõ EsteuSo oaue dos imigos fez hua grade armada 
de ^ tinha muita necessidade. 

C A P I T V L O LXXXIX. 

De como Francisco de barros de payua 4* Anri^ mêdez 
de vascôcêlos pelejarão c6 hua armada de laos. 

Vyhegado d& Esteuâo Dtfgetana mSdoa Anri^ mSdes 
de Vasconcelos a Patane asSi pêra trazer Frâcisco de bar* 
ros de payua i} la estaua , como pêra dar ordS que fos- 
se dahi hfi jugo á China quê lá mfidaua a prouar se Cre- 
ria ter tr^to, como teuerão em tSpo passado, &- foy Ân«- 
rifi mSdez em hQ nauio dos nossos : & chegado a Patane 
achou Frâcisoo de barros viuo & os !) ficarão coele ^ &; 
despaohddo o jijgo pêra a China deu ordS como Francis-* 
CO de barros se Sbarcassô era outro da terra ofi os da 
sua còpanhia pêra se tornarS a Malaca. E despachãdose 
Frâcisco de barros teuerão noua de hfta armada dé cos«* 
sayros laos, de ^ era capitSo môr hd mouro lao chama^ 
do Eriacai!, & trazia vinlô quatro calaluzes, dQs Q tâ 
duas ordSs de remos bus dè pãgayo outros de galé, & 



LIVRO ▼III. CAPITVU) I.XXXIZ. 216 

sS tamanhos ^ traz cada bfil cê homSa de peleja ^ & assi 
o traziào ealea, & muyla artelharU, & muitos arleôcios 
de fogo. £ sabSdo Anri^ mfidez & Francisco de barros 
Q esta armada vinha pêra Patane ^ fiaerâose á veta c5 
tra(|le8, & meaenas pêra yrè receber a armada aó mar, 
& em sayndo da enseada aurgio Francisco de barros na 
costa por ler ainda gSte em terra & mais a vela grãde« 
£ Anrique mendez foy na volta do mâr a descobrir os 
Imigos , & descobertos virou pêra onde ficaua FrScisco 
de barros, & surgio por ho vento ser calma, & os Imi-* 
go8 se forâo chegado a remo pêra ele : & seria as trei 
oras despois de meo dia , £riacatl repartío os calaiuzea 
desta maneyra : Mâdou a sete que se fossem cometer 
Francisco de barros , & ele cd os outros a Anri2| mSdez 
& por]) o não pode aferrar á sua vontade, por Ânri{^ 
snendez trazer o seu batel atracado da banda dabaira** 
uento, mãdoulhe cortar ho cabo por h& calaiuz, & os (| 
bo yão fazer como sabiâo Q auiã dacbar contradi<^ aper« 
ceberão se parela, fazjido faQ teito daa suas rodelas po? 
cima do calaluz cõ ^ por mais pedradas Q lhe dera & 
outros arremessos cõ í^ lhe tirarft, n& deysarã dStrar no 
batel, & cortarlbe o cabo & leuarfino. £ ieuado abat*- 
roou Ériacati ho nauio com outros capitães, Sl Anrique 
mSdez acodio logo cÕ os seus, cÔ muylas panelas de pol*^ 
nora & muytas espingardadasr & durou a peleja h& pe* 
(bijo em i) muytos dos imigos íbrâo mortes. E nesta pe-» 
)eja foy Anrique mèdez ferido na barba de h^a frechada 
de zarauatana , & por ser peçonhenta ficou ele desaeor*» 
dado, & os seus ho meferá por morto em bii» camará* 
£ com tudo se deienderâo tambS que nunca os iroigoS' 
08 poderão entrar por aquela parle, antes os fizera aTas* 
lar. £ querSdo outros abalroar por outra, ccmo- j.a fazia 
vento, derão ás veias , & ÍDrãse na volta do már. E não 
os podendo os Imigos seguir, forise lodos a* Frâcisco do 
barros , que pelo Q lhe fieana em terra se deixi»ti estar 
surto, não tendo consigo mays que dezaseys Portugue* 
ws , & por isso 08 imigos hlo aíerrarfto logo , S^ ele s^ 



216 DA HISTOaiA DÁ IirDIA 

defeadeo que ho nlo entrassetn cõ muytos artifícios de 
Cogo que Ihet deitou. E n^ste còbaie lhe matarão trea 
homfia y & Ibe tomarão três paraós de seruiço que tinha 
a bordo, Sc fugirftlhe doze mariuheyros da terra. £ ven^ 
do Erlacatim que achaua mayor defensa do que cuydou, 
JA sobre perfía fez quatro fíeyras dos seus calaluzes, & 
cada hila hia abalroar ho jungo, & pelejaua tanto ate 
que cançaua, & todos ho abalroarão muytas vezes. E 
tambfi se defendeu que nunca fao entrarão, posto qutà 
lhe matarão & ferirão quasi todos, & ele foy ferido em 
bua perna de hua frechada pec^onhSta, & a hil Bastião 
nunez da Vidigueira y4erão quatro bõbardadas em hfla 
rodela ^ tinha embratfada, sem lhe fazer nenhQ mal. E 
durou a peleja ate ais onze horas da noite ^ Q era muy 
clara polo grande iQar {| fazia. £ não ficando viuos nS 
pêra pelejar mays queFrãcisco de barros &Ioã martiaz 
mestre do nauio, & Bastião nunez, aferrou por derra- 
deiro ho jungo Eriacatim , que nflca ate então ho abal- 
roara , & coeie foy outro capitão. Ecomo os nossos não 
erão mais que os Q digo, começarão de subir ao nauio 
ate doze dos Imigos , a que acodirão Francisco de bar« 
ros & os outros dous cÕ muy to esforço , & lançarão so- 
breles tâtas panelas de poloora Q os fizerão saltar aomár 
todos queimados, de que morrerão os mais. E assi hua 
molber & dous filhos de Eriacatim, que trazia cõsigo, ^ 
desesperado denlrar ho jungo se afastou, & não quis 
mais perfiar, & de fora se pos as frechadas & bõbarda* 
das cõ sua armada, de 2} tinha perdida a mayor parte 
da gSte (\ foy morta nos cometimêtos passados, que foy 
muyto grade milagre de nosso senhor, sendo tantos 
quantos erão não entrarS niica ho jugo , ou nã ho queu 
maré, segundo a multidão darteficios que lhe deitarão 
dentro: de que algds derão em hQa jarra de poluora/, 
em j| se acSdeo ho fogo que queimou três Portugueses, 
& hò foy Francisco de barros em. hfla mão , & em huâ 
parte do rosto. E a fora isto forão tantas as bõbardadas 
que lhe derão, que se nosso senhor ho não Jiurata^ a? 



LIVRO VITI, CAPITVLO XC. 217 

basfarSo pera ho meter no fundo, & ho fazerê em pe* 
da<^os, porque ao lume dagoa lhe derSo quatro com que 
ho arrobarão, & acodirão os Portugueses a (aparlhe os 
rõbos, & no masto grãde lhe dera cinco, & no do tra- 
fite três & na camará de popa lhe metera xiv. pelouros. 
Ê estando assi ÂnriQ mfidez ^ ficara desacordado da 
frechada tornou em seu acordo, pregQtando se era Fran« 
eisco de barros tomado: & sabêdo Q ainda se defendia, 
queixouse muito cfi os seus porque ho desempararâo, Sc 
ho nã ajudarão & mandou que ho fossem ajudar, &quâ- 
do forão acharão os Imigos afastados tirâdolhe bombar* 
dadas, & romperão por anlreles tirando com a artelha- 
ria, & metera hum calaluz no fundo, & forãose ajuntar 
com Francisco de barros, ho que vendo Eriacatim se 
foy na volta da terra muyto destroçado, & com grande 
perda. 

C A P I T V L O XC. 

De como Francisco de barros ^ Anrrique mendez de vas^ 

cancelos se tornarão a Malaca. 

X arlidos os imigos, disse Francisco de barros a Anrrií| 
m€dez como ficara , & ^ forçado auia dir a terra pola 
gente ^ lá (tnha, & amarinbarse, por^ sem isso na po« 
deria yr a Malaca, & assi o fez , & Anrique mSdez 
prosseguio pera Malaca, & tornado Francisco de barros 
aPatane & tomado o de Q tinha necessidade & sua gen- 
te, & curados os feridos, partiose pera Malaca, & no 
caminho topou Patibarrá lao capitão mor de hua arma- 
da de cossairos de sessenta, & tantas velas grossas, & 
por yr muyto ao mar lhe escapou , posto que ho segui- 
rão oyto velas, & não ho podendo alcançar ho deyxa- 
rão. Edespois ditsto foy ter coele Anrique mendez, que 
"vinha dePatane onde arribou cõ tempo despois de Fran- 
cisco de barros partido, & assi forão em companhia ate 
que se apartarão com tSpo. E ficando Francisco de bar^ 
ros só, porque leuaua tão pouca gCte como digo, &sa* 

LIVRO VIII. BE 



218 DA HISTORIA DA INOIA 

bia que a^las armadas o auiâo dir esperar ao edtreytô 
de Ciacapura pêra ho tomarem , por^ não tinka outro 
caminho pêra Malaca, foyse a bua jlha que estaua oyto 
legoas da costa , & hi se deyxou estar ate Q lhe pare- 
ceo ^ os imigos serião idos, & ele marcaua ho tempo 
de sua estada poios manlimentos que poderifio ter. JBS 
parecfido a Francisco de barros que era tempo, partiose 
& passou o eslrejto sem achar nbu dos jmigos, & foj 
ter a Malaca onde achou Anrique mêdez que por achar 
os tempos coulrayros gastou tanto tempo que ja os Imi- 
gos erão ydos , que se isso nâo fora , fora grande mila- 
gre escaparlhes* 

C A P I T V L O XCI. 

De como muytos gentios â morauão no Morro se tamor 

ráo Òhristãcs^ 

JL/espoys 4 Tristão datayde capitão da fortaleza de jlf^^ 
]uco ncou de posse dela, entendeo em a restaurar por 
estar muyto daneíicada, & a torre da menagem^ ^ do 
derradeiro sobrado pêra cima era de paredes de canas, 
& mâdou ba fazer de tauoado & rebocar por dStro c5 
cal, &assi mãdott fazer a ygreja de pedra & cai. Ene»- 
te tempo lhe chegou hil messageyro de hfl gentio gouer«- 
nador de bua cidade do Morro chamada Momoya , pop 
qu8 lhe mãdou dizer que se tornaria Cfaristâo se lhe pro- 
metesse de o liurar dois mouros ^ de cada vez ^ hiãoait 
darmada vexauão a ele , & aos outros gentios, tomando** 
Hies o ^ linhão, & tralandoos como catiuos. E ooest« 
messegeyro hia hum Português chamado Goix^aloveloBiQ. 
per cujo cõselho se (}rra este regedor tornar Cbristâo. fi 
folgando Tristão datayde muyto coesia noua , por set 
tamanho serui^ de Deos como era , porj) esta obra tãi^ 
sancta ouiresse effeyto, teue este messegeiro com 4Beu:s 
côpanheyros escõdidos ate ^ se baaíizarao, & vestidos 
muyto bem de trajos Portugueses os despedío cõ reposta 



LIVRO VffI. CAPíTVLO XCI. 21* 

ao regedor, ^ se ele se fizesse Christâo, aIS de o fauo- 
4-ecer, ajudar, & emparar, contra quS qaer que o qui- 
sesse anojar, lhe faria muytas mercês. Pelo que o rege- 
dor sabida esta reposta se foy logo pêra a fortaleza a fa- 
zer Christâo , ôde recebeo agoa de bautismo com grade 
festa & solenidade , & foy lhe posto nome do lobão de 
momoya , & assi forão bautizados todos os de sua casa* 
E quando se foy mandou Tristão dataide coele hum clé- 
rigo chamado oymâo vaz pêra ^ bautizasse aQle pouo^ 
-de Q ho mais se tornou em pouco tempo á santa fé ca- 
tbolica 9 & em tanto crecimento hia esta obra de nosso 
afior, que foy necessário mãdar Tristão datayde outro 
clérigo ^ auia nome Francisco aluarez, pêra ajudar a Si- 
mão vaz, v& tâto fruto íizerão ambos que os mays dos 
pagodes éa^les gentios mudarão em ygrejas , em ^ ce- 
lei^auão ho officio diuino. E vendo Tristão datayde co- 
mo estaChristindade multiplicaua, mandou lá algfls Por- 
tugueses que em hfia trflqueyra que fizerão esCauã era 
goarda & fauor dat^les Christãos, pêra ^ os mouros os 
nSo vexassem. E fazSdose isto no Morro, chegou ae 
porto deTemate h& calalaz em ^ vinhão hfis homSs de 
huas jibas que se <;bamão dos Ceíebes^ onde dizem que 
lia muyto ouro, cera, cascas de tartarugas, & outras 
mercadorias ricas ^ & estes <H)síumauão de yr cada an- 
fK> a Ternate a buscar roupa da índia & outras cousas 
^ leuauSo em retorno de suas mercadorias , & como ti- 
nhão este costume despoys que forão no porto de Ter- 
nate fizerão mostra do qu« leuaiião: em que mostrarão 
algiias manilhas douro , & logo na noyte seguinte salta- 
rão coeles 4certos Portugueses em hum batel , & come- 
terãonos eomo Imigos, ferindo & matando algfls & os 
outros se saluarão no mar deyxãdo hocalaluz que os Por- 
tugueses tomarão, & leuarão aTristâo datayde cÒ lodo 
bo despejo que tinha , que ele tomou , pelo J) pareceo 
que aquilo fora feyto por seu mãdado, de que ei Rey 
Tabaríja & os mouros ficarão muy descõtentes, Scescan^ 
dalizados , mas calarãsè por^ nã podia mays. -^ 

EE 2 



220 DA HI8T0EU PA INOIA 

C A P I T V L O XCII. 

De como Tristão datayde prendeo el rey Tabarija de 
Ternaíe , ^ ma tn&y ^ ^ Fateçaranyuek . 

i]N este l6po foy mexeHcado el Rey Tabarija deTerna- 
te cÕ Tristão datayde que trataua de ho matar & tomar 
lhe a fortaleza, &. ^ enlrauáo nesta consulta sua tuây, 
& seu marido Fatei^arangue regedor do reyno : & Ra- 
gabaho justi<^a mòr. O que sabido por Tristão dalaide 
ho creo por serS mouros. E determinado de os prender 
deu disso couta a algQs Portugueses seus amigos ^ com 
Q assentou q pêra prèder ei rey & os outros sem aluo- 
*roço, tizessem dous dos mesmos Portugueses que pele- 
jaucío, pelo que Tristão dataide os mandana prender, 
& presos, rogariao a el rey que falasse por eles Q os sol- 
tasse, ao que ele jria á fortaleza, &in(lo lá seria preso 
CÕ os outros , que tambê os fariSo la jr com algOa ma- 
nha. Istp assentado logo se pos em obra. E rogado el 
rey por parte dos dous Portugueses presos Q os fizese 
soltar, foyse à fortaleza pêra ho rogar a Tristão datai- 
de, que esperado por isso eslaua na torre da menagem 
com a mayor parte dos Portugueses da fortaleza, a que 
tinha dado cola do caso, & a (^ tinha mandado que tâ- 
to que ele & el rey se assentassem , agasalhassem an- 
tre dous hum mouro dos que entrassem co eIRey em 
que aferrarião como cl rey fosse preso , porque nào fi- 
zessem aluoroço , ou se deytassem da torre abayxo não 
se podendo defender. E estando todos praticando che- 
gou a raynha mãy dei rey, & Pate<;aranguo seu mari- 
do, & Ragabaho ^Tristão datayde tinha mandado cha- 
mar por hum lorge de brito, &.Lionei de Uma fidalgos: 
& eles como inocentes da culpa f) lhe dauão, forâo logo 
a seu chamado. E tendo os Tristão dataide todus jíitos, 
lhes disse, que tinha sabido, que se querião leuantar 
Contra aquela fortaleza, & matar a ele & aos outros Poc^ 



LWBO VIII. CAP1T¥L0 XCIT. 221 

tugttesófl) & pêra lhes dizer islo os mandaifa otiamar pe» 
ta os prender polo caao ser pêra isso, &iiiandalo8 aogo* 
Uernador da índia pêra os casligar como merecessem ^ 
do que eles se mostrarão muylo espantados, como quS 
oão tinbâ cul[>a, iicando mujio seguros, & sem mudan* 
ça de cor, dizendo logo, ^ aquilo erão mexericos de 
pessoas que lhes queriâo mal| que se posessem coeles S 
justiça porque mostrariâo sua jnocècia, & assi tízerao 
muytas exclamatjões, dizendo que os prendião sem cau- 
sa , & lhes roubauão sua justiça : & com tudo Tristão 
datayde os mandou preuder em ferros, & meter em bfls 
sótãos debaixo na torre da menagS, & isto sem nenhQ 
aluoroço, porque os mouros que biâo com el Rey por 
estarem afierrados não bo poderão fazer & pori| o não 
ouuesse na cidade, quando se soubesse a prisam dei rey, 
fez Tristão datayde logo rey por conselho do camarás 
que estaua coele, a bQ moço que auia nomeCachil aey- 
ro, filho bastardo dei Rey Boleyfe & de bQa laca Q ai»- 
da era viua, & ho tinha cõsigo, a cuja casa Lionel de 
lima foy por ele com outros, & sobre o leuarem dey(a«> 
rão a mãy por hiia lanela fora, sobre o Q foy grande ai* 
uoroço na cidade. Ei porque Iggo se rompeo como el rey 
& os outros erão presos, muy tos fugirão da cidade, pria- 
cipalmente os do c^^selbo dei rey, cuydando que tam- 
bém os prêdessem ^ & era pêra auer piedade ho desati* 
no cõ que fugiâo, & como os seguião as molheres, os 
filhos, & os criados chorado, & deixando as casas aber* 
tas, & como a gête baixa os saya auer grilando de me* 
do , & era a reuojta niuy grade. E hil mouro honrrado 
Q auia nome Ouro bachela, de que faley a trás, por ser 
do conselho se quisera yr disculpar a Tristão datayde, 
& foy morto á porta da fortaleza ^ ho i) foy causa de 
ainda os mouros fugirem mais & quasi se despouoar a 
cidade, porem logo se tornou apoucar tornãdost* os mou- 
ros poucos & poucos y por grandes arooestações que lhe 
64 brisso fez ho camarão, dandolhes muyto fircDes segu- 
ros da parto de Tristão datayde, de nào receberem niai 



Sit 'DÁ BUrVOftM BA llfDf A 

noa oorpoè fM nas fazCdas, & por esta macieira forioM* 
sessegadoa lodos o» outros lugares da jlba, cujas pessoas 
prÍQcipaeis forflo á fortaleza por rogo de Tristão datay*- 
de que lhes deu as causas porQ prèdera Tabarija & os 
outros. E o mesmo escreueo aos reys comarcãos, &Sã^ 
gajes porQ honã teuessem por tiraoo&sealuoro^^assem* 
£ ainda i^ lhes pareceo mal o Q tinha fe;to, não lhes 
deu disso ) dizendo Q era bS empregado nos Tcrnates 
todo ho mál que lhes fieessem os Portugueses , poys os 
leuarão a sua terra & Lha entregará, &os ajudarão con- 
treles seus parentes^ & naturaeis: & mandarão dizer a 
Tristão datayde que lhes parecia bS ho que tinha fey^ 
tO| offrecSdolhds sua ajuda se lhe fosse necessária, com 
ho que Tristão datayde ficou cõtSte & descãçado, & le- 
go leuãtou por rey Gachii aeyro, & fez gouernador do 
reyno bo camarão , posto (J era de baixo sangue , Q erâ 
eõlra ho costume da terra: & por se segurar meteo el 
rey na fortaleza donde nunca saya : mas hi era seruido 
& venerado como rey, & ho seruiâ os seus. Nôs officios 
•^ tinha dordenãça^ todos Tristão datayde proueo de no*- 
uo, que cuydando f\ estaua seguro pêra fazer tudo o 
l]ue quisesse, determinou logo dauer pêra sy lodo ho 
crauo {} ouuesse na terra, pelo preqo que estaua assen-*- 
tado na feytoria, Q era aiiiil reaes ho Bahar. E pêra isso 
mandou bo 9amarao pregoar sob granes penas , que ne- 
nha mouro nem gentio vddesse crauo se náo a Tristão 
datayde & aos Portugueses ^ ele ordenasse pêra o c5* 
prarem. E o mesmo mandarão pregoar a seu requeri- 
mento os reys de Tidore & de Geylolo, & ho de Ba- 
chão, que tambS foy requerido pêra isso^ mas nã quis^ 
E pêra se auer todo este crauò , & não escapar nenhu , 
pos Tristão datayde nos lugares em que ho auia criados 
seus , & outros homSs de que ciõfiaua , & estes a fora 
arrecadarS ho crauo, tiranizauão a terra com crueza de- 
masiada, tomando^ a seus donos quãto lhes vinha á von« 
tade, & hê molberes & 6lhas, & seruindose deles em 
4udo como descrauos, sem.Tristãe' datayde querer aeo* 



dir a Unso, & cõoelbandolbe algfts.que ho fizesse por não 
96 leuaDtar a terra, zombaua disso^ £ toda e^ta diligen* 
cia dauer o crauo, era causada ho seu preço aJauan* 
tar de cada ?ez màiBy & chegou a valer boBahar a cin* 
eoenla & a sewenta cruzados , por^ como os Portugue» 
868 tinhâo muita fazSda Q ^bq pregar, & viAo hocanuoho 
Q a terra leuaaa pêra se ieuÂtar , i^rião todo« emprega-* 
b, & todos comprauâo crauo^ & os mouros como se a^ 
uenturauão a grandes penas se Tristão datayde ho sou* 
besse, náo o ijuerião dar menos do preço ^ digo, &ou«- 
tros ho dauão por armas , & pela necessidade \ os Per^ 
tugueses tinhâo não deyxauào de ho comprar» 

C A P I T V L O XCIH. 
lÁe €&mo Tristá dutaide fez guerra u el rey deBebchÍ(K - 

J[N este ISpo fez Tristão datayde guerra a ei rey de Ba* 
chão , por se vingar dele de ihe nã querer deyxar fazer 
crauo em sua terra : & por não yr á fortaleza despois da 
prisão dei rey Tabarija , como Q se Qria leuâtar cdtra 
ela. E como ele sabia bS da guerra , a primeyra cousa 
Q fez , foy mâdar tomar lingoa a Bachão pêra saber ho 
que el rey deierminaua , & a, isto Ibrâo há António pe* 
reyra , lorge goterrez ^ & outro. £ oooio os Bachões nS 
se temião por estarem de paa com os Portugueses, fa* 
cilmente estes capitães tomarão algUs, do Q. se ei rey 
espantou muito, por ser ho mays antigo amigo, & mais 
leal que os capitães de Ternate lenerão sempre naque^ 
la terra , fc cõ mais deiigencia aeodio sempre á fortale*- 
za em suas necessidades : & posto Q Tristão datayde 
soube dos Bachèes que el^ Rey estana muyto assessega- 
do na paz & amizade que tinha ccele, todauia proseguo 
a guerra coatrele^ mandando b{la arinada que lha fizes* 
se a fogo & a sangue. A cujos capitães el rey fez grft- 
des requerimentos da parts dei Rey de Portugal quelha 
não izessem foS» ena amigo dei Rey de Portogal & ti^ 



984 DA HISTORíA DA ÍNDIA 

nh<i paz coele , & nS queria guerra nem fizera por que 
lha fizessem , & cÕ tudo nAo quiserão se nílo fazertha j 
no que não fieerSo mays que perderB aigQa gente que 
Ibe os fiachões matarfto & ferirão^ & sem fazerem mays 
se (ornarfio a Tristão datayde, que tomando aquilo por 
injuria determinou de se vingar, & yr em pessoa, & 
leuar em sua ajuda os reys de Ternate, & de Tfdore, 
& parliose cÕ hua grossa armada, de i\ forão oapitâes a 
fora ele, Diogo sardinha capitã mór do már, Baltesar 
vogado, António pereyra, Francisco pirez, Baitesar ve^ 
loso, Lisuarte caeyro, Fernão anriquez, António de 
teyue, lorge goterrez, & outros, & assi os reys que di* 
go , & seus gouernadores & Sangajes, E chegado á bo- 
ca do rio deBachão, soube {} os mouros ho tinhão atu- 
pido , com ho muito & muy basto aruoredo que tem de 
cada parte que serrarfto, & deytarão nele. E sabendo 
Tristão datayde que não podia yr por terra por ser ala- 

f adiça,. determinou de yr polo rio & desatupilo, & assi 
o fez, leuãdo nos bateis & ehãpanas, molinetes carre- 
teis com que tirauão os troncos grossos do aruoredo, & 
os mays delgados cortauâo cõ machados, o que fazião 
cÕ muytQ grade trabalho. EsabSdo el rey de Bacha co- 
mo Tristão datayde desatupia ho rio & se hia chegado 
á cidade, mãdou gente que per antre o ma(o (irasse 
frechadas, & arremessos aos Portugueses , & os eslor* 
uasse de desatupirem bo rio, ao q Tristão datayde ata- 
Jhou, mâdando Diogo sardinha capitão mór do mar cõ 
outros capiíXes íj fossem ao longo de terra cÕ os espin- 
gardetros & varejassem a gente í\ impedia o desatupir 
do rio, •& assi foy feyto. O que vendo el rey, mandou 
deytar ho rio por outra parte por onde ya antigamente, 
& como tinha muyía gente logo foy feilo, & começan^ 
do a agoa de vingar, ficou a frota de Tristão datayde 
em seco, & sospeytando ele o que podia ser, mandou 
gCle a ver se era assi , & achando i\ sy , derâo nos Q 
trabalhauâo no rio, & fizerãonos fugir, & despois ato- 
pirâo a madre ^linhâo feyta ao rio, & fizerãono tornar 



LIVRO VITI. CAPITVLO XCniI. 2*4 

pm* onde eon^ia. B desesperado el rey de poder escapar 
a Tristão dataide , despejou a eídade & acolheoâe cora 
a gente pob serlâo da jlha , de modo Q quando Tristão 
dataide chegou a eia , nem achou gCle cõ que pelejar , 
nem fazftda t\ roubar, o ^ vendo os Portugueses lhe po- 
serão o fogo, & a ^ymarfio & destruyrão de todo, c5 
grande parte da terra ao derredor , & quebrarão as se- 
pulturas dos reys (| ali estauã sepultados , & leuarâo as 
ossadas , parecendolhes que despoys lhas resgataria ei 
rey: B despois disto, quisera Tristão datayde entrar 
pola jlha & destruyla, mas não pode, por ser terra ala- 
gadiça : & vendo que não podia fazer nada se tornou 
pêra a fortaleza c5 os reys, deyxãdo Diogo sardinha cS 
a mayor parte da armada pêra ^ fizesse guerra guerrea- 
da a el rey de Bachão, & ficou coele Pateçarangue c5 
a armada deTernate. E ydo Tristão datayde el rey co- 
meteo paz a Diogo sardinha & ^ daria duzõtos Bahares 
de crauo, do ^ Tristão dataide foy contente, & despois 
disso mâdou hQ nauio a banda a fazer fazSda, de ^ (oy 
por capitão hu loâo de canha pinta. 

CAPITVLO xcini. 

De como el rey de Cambaya foy buscar d rey das Mo^ 

yores, 

JLIespoys que çoltão badur Rey de Cambaya fez paz 
eõ ho gouernador, determinou de yr pelejar com el rey 
dos Mogores, Q lhe entraua a terra, como disse, & 
frendo partir soube i) se lhe rebelara airaynhadumrey- 
no por hum seu fíiho que era seu vassallo, que determi- 
nando de sugigar eela raynha primeiro que fosse contra 
ei rey dos Mogores , partio logo da cidade do Mandou 
onde estaua & Ipuoq hum exercito em que entrauão 
cento , & eincoenta mil homSs de caualo , em que aue« 
ria trinta mil acobertados & de bõs caualos, & os ou- 
tros erão bõs & máos, & quinhStos mil homês de p^, eni 

LIVRO VIU. FF 



/ 



SSC DA HISTORIA SA IN DIA 

que entrauSo quioze mil estrftgeyros Fartaqvifl'^ Abe« 
xint, & trezStog Rumes, que leuaua Rumecâo^ & oin^ 
coenta Portugueses , quinze Christâos caliuos , que el 
rey soltou pêra ho ajudarem nesla guerra ^ & lhes mau- 
doa dar armas & pagar soldo , & os outros arrenegados^ 
& trinta Franceses que forão ter a Diu na nao Dohri^ 
gas : leuaua mil peças dartelbaria Scarretadas ^ em que 
•ntrauã quatro basaliscos, jrmãos do i!| Nuno da cunba 
asâdou a Portugal, & tudo de metal^ ê carretas de qua- 
tro rodas, &cada carreia era leuada por duzentos boys^ 
es bois das carretas das outras pe<^ erao segudo elas 
demandaua, & muytos bombardeyros & fundidores. C 
pêra esta artetharia hião quinbfttas carretas carregadas 
de poluora & de pelouros: Jeuaua oyto centos Aiifantes 
CÕ castelos de madeyra, & de muytos deles jugauáo 
doos berços , & nos outros hrâo quatro espingardeyros«. 
Fera as despesas deste campo ieuou quinhentos cofres 
grSdes de cobre cbeos de dinneyro douro & de prata, & 
oada hil hia em hfia carreta. A Ibra outro muy lo dinhey-« 
ro que ieuauâo todos os senhores \ hiào com elrey, as^ 
si mouros como gentios, de <| algus tinhâo sete colos 
mil cruzados de renda, & outros quinhStos, quatrocea- 
tos, trezentos, duzentos, & cento, & cada hum leua-* 
ua seu tesouro : & hião neste campo ires mil mercado- 
res , ^ bo mais pobre não decia de vinte mil cruzados y 
& muytos de trezentos, & duzentos mil. Partido el rey, 
seguio seu caminho pêra o rey no deSangà, & fi>y sobre 
a principal cidade dele^ Q se chama Chitor,. \ na lin^ 
goa da terra quer dizer sombreiro do mtido , & assi ho 
he f»Ia, & al8 de ser a mais nobre & rica \ pode ser no 
míído , não lhe falta grandeza & fortaleza : será de três 
lagoas de roda, situada sobre hCla moyto alta serra, cer- 
cada de fortes muros & baluartes da nossa maneira, en» 
\ autâ muy suntuosos edi£otos , asst dos seus pagode» 
eomo dos homSs que tinbâ os mais as paredes iforrada» 
do tauoádo dourado , & as qtie não erão douradas eráo 
branqueadas od hiL betume aluo, & rijo \ parecia vídfo. 



LIVRO VIU. CAFITVLO XCIIII. St7 

Nesta cidade estaua a raynha deste reyno, t^ auia no- 
me Gremêli, moiher viuua & ainda de boa jdade, & 
muyto fermosa, & Ião esforçada Q peiejaua como hom6, 
Sc lioba cOsigo doua mil de caualo & trinta mii de pò« 
Chegado eirey deCãbaya a esta cidade cercou da serra 
quâlo ocupaua dela a cidade, & do pé da serra come- 
4}ou logo de ffiidar fnzer dons mayaeis de pedra & bar- 
ro pêra chegarem acima ao muro da cidade, & cada hft 
por dSlro de largura de cincoêla pés cubertos dé vigas 
muyto jiltas, porQ aa pedras {| oe immigos lançaufio dú 
cima não fizessem nojo aos que andauflo dentro faaêdo 
bus degraos pêra a g8te sobir por ali a cidade, & man* 
dou pregoar que a todo boraS ^ Ibe leuasse hiía pedra 
dos muros da cidade daria bum madrafaxao, que pola 
nossa moeda vai três cruzados , pêra o 4 tiabá diante 
de si cofres cheos deles ^ & coesta diligencia, & cÒ a 

5iue se pos nos mayneis forão acabadas em htt mes & 
eyto sobre cada hiia b& baluarte que ficailão tão perto 
dos muros da cidade que deytauão dStro panelas de poU 
uora, foy a cidade entrada principalmente pula valêlia 
dos Portugueses , que el rey sempre mandaua poer noá 
lugares de mayor perigo, por os ter por mays ouaadoa 
Q nbfls das outras nações^ & assi forão eles os primey*' 
ros que entrarão a cidade. Cujos moradores fizera hfla 
notauel façanha, que foy queymarense todos (em se en-* 
irando a cidade) assi molberes oomo bomSs que não po^ 
derão morrer na batalha , & assi suas fazendas que ti* 
nhão prest<>s pêra isso, &.80iibeae despois ^ forão seten- 
ta mil pessoas & bo fogo durou Ires dias sem se poder 
apagar. £ a raynha fugio logo com setis filbos &■ cont 
hum senhor' sc^ vasralk> que tinha por anúgo. £ tornai 
da a eidade el rey de Carobaya fi«ou t|k) lèab como se 
fora tfenbor do mftdo, fe-dézia que daii por diante nira 
rey da índia auia áe trazer #om br ejro/se não ele, écten 
^^^y^, gratadea mercês* aos <lo úeu oampo d<^rando aii 
rendas aos senhores , & fco soldo aos soldados* 



♦ ♦ 



FF 2 



**• »A HI6TO1RIA. nu mniA 



C A P I T V L O XCV. 

tos mil de caualo, os cincoenta «il. acubertadoT & !í 
tes eràoMogores, os outros de ca-alos Sr/w 
»08, Tarquimâes, Coracones, & Delia & nJ^Vt T 

guncho, & alforge g5 mantunSlo , & a eeniB d^ Ha 
ít? ;«•'«>♦ «« q a«ia dez mil ^spiogírdeL^ ^a«t 

ílíí r**^ '^"í*** ^•"y^* n.oJheres'iojt^r«s Iodas aT 
«ao & com arcos & frechas com «^ue tiriuào, Tleoa^; 
«íl peças dartelharia , & coesle campo se [o\ cam!nhí 
da c.dade de Mandou oode íuydou que acháwe S "ev 

«a hl não a quis combater. E sabendo que estaua sobra 

«er que auia dous meses que andaua por suas íenZ 
.em achar com^ qu6 nelejass2: & el rey íe Gambava^ 

ZoláT:^ r^" ^'"'"«^ quandolhe dera es?e r^ 
cado, & Jogo partio com seu campo cõtraMaadou ft era 
o cami-nho que traziâo seus cíkrajíos. E checara bôí 
sua cidade chamada Docer, asseada em hfi^càno ras^ 
ao longo de hfl rio, acbou nouas q Ik> Mogor estaua d«,S 
sele Jegoas, & que nâo andaua cada dil mais de h SÍ 
fegoa, Jegoa & mea, & os seus corred^rererào vitíe 

Sr«;«? r VJ^^ "^'"^ despedio ha seu «apiíio 
«bamado Coraçàcâo com ires mU de caoalo a sabir se 
era àssi o ^ Hie dwiSo. E sabêdo o jrmâo do Moger sua 
yda deu neie & matouHie quantos J^uau», saiuo quore».» 
ta q ficarão muyio feridos, k ho capitâo foy catiuo. 
Aqui espefou el Rey deCàbaya ho Mogor, assi por de»- 



LlVftO VIIÍ. CAÍlTVLO *CV. SÍÔ 

cansar sua gente j como por auer disposição mutlo boa 
pêra assentar o arrayal, que assentou pegado com o rio 
de hQa parte ^ & da outra cercado de tranqueiras & ca- 
uas cõ muyta artelbaria que íicaua furlissimo , & aqui 
cõtra seu costume, ^ era não se cõselhar nunca cÕ nin* 
guem no que auta de fazer, tomou conselho com Rume« 
cSo ( que era seu condestabre } se daria batalha ao Mo- 
gor, por^ au6turaua nela todo seu estado, o que lhe 
eonselhou {| nAo fizesse, mas Q por outros meyos oafaff- 
tasse de si , porc} dali ao jnuerno aueria hu mes , 8( cõ 
as chuuas & cheas & ríbeyras era im))0S8Íuel o Mogor 
esperar no campo , & se auia dir por força , o que pa« 
receo bê a el rej de Cambaya, mas sayoíbe mal, por* 
que nS choueo goteira dagoa , que foy cÕtra natureza 
do tem])o : o que foy causa de se perder > o Q quiçá nS 
fora se pelejara* E tudo isto parece que foy permissão 
diuina, porQ se ele dali ficara cô a vitoria, todo seu po- 
der ouuera de virar contra os Portugueses , & não ces- 
sar atee que os não desarreygara da índia. E chegado 
fao Mogor a tiro dartelharia do campo áe\ rey de Cam- 
baya , assentou o seu I) tomaua três legoas pêra trás, & 
na frontaria do arrayal estauão deus senhores principais, 
fali se chamaua Indobeque que era Mogor, outro Esta- 
€oHm , Grego de naçã & condestabre , & da« carretas 
em que leuaua a artelbaria cercou o campo, & cada 
quorenta se cerrauâ com b^a cadea de ferro com que 
se fechauão em outra carreta, & deste modo se fecha- 
uBo todas em reda que fícauã eomo fortaleza, & nhfl ho- 
me de canais podia entrar dentro. Tendo ho Mogor as* 
sentado seu arrayal , começou a artelbaria de jugar , St 
como a dei rey era maya fvriosa fusirgaua mays ao lon- 
ge, & fazra maj/or dano, pelo ^ o Mogor se ttrou pêra 
onde lho nft fizesse, & mãdour conuidar el Rey deCam^ 
baya pêra batalha campal, ehamandofhe couardo. E cô 
tudo et rey de Camrbaya pefai determinação que tinha 
não quis pelejar, porque ja começaua dauer medo sem 
yn de que. £ iieete tempo fugirão do eaakpo de Cam^ 



I 



t30 DA HISTORIA I>A ÍNDIA 

baja cinco Portugueses, quatro ChrialSoâ^ & h& arre- 
negado, & forãose pêra ho campo doMogor a quero fo- 
râo leuadoS| & leuantouse a velos da porta de sua tSda^ 
& mostrou que folgaua mujto de os ver, & pregunlou 
a cada hu por seu nome, & o arrenegado que era o lia- 
goa lhos disse , & que ho seu era Hamet , porQ se tor- 
nara mouro, do q se el rey espantou muyto, & estra- 
nhoulhe muyto tornarse mouro« £ sabendo como em 
Ghrislão se chamaua António gonçaluez, mandoulbe Q 
assi se chamasse, & a todos fez mercê de dinheiro, ves« 
tidos, & armas, & lhes prometeo muito grandes mercês 
se quisessS jr coele a suas terras, & encomSdouos ao 
seu cõdestabre por^ era christâo : & agasalhauâose.coni 
a sua gente, & fazialhes roujla hõrra, & estes ouuirâ 
no mesmo campo que ho JMogor era de casta deChrís- 
tâos , & por isso folgaua coeles. £ vedo ele que el rey 
de Cambaya não queria pelejar, começa de lhe tomar 
os mantimentos & nSo lhe deyxaua jr âo cSpo ae nSo os 
^ não podia tomar , & estes erão (ã poucos ^ não erão 
nada pêra a multidão domSs & daliniarias ^ auia nocS-* 
po dei rey de Cãbaya , em que Içgo ouue muyto grade 
fome , & era o trigo & ho arroz tão pouco ^ se vendia 
aos arratens , & valia cada hú seys vinténs, & bu mo« 
lho de feno outro tanto, & começarão de morrer os ca* 
uaios & os homês , Sc em duus me^es ^ assi esleuerão 
ouue algus recontros em ^ sempre os Mogores forâo ven- 
cedores. E por derradeyro mandou el rey de Cãbaya 
hum capitão cõ todos os Abexins a tomar híia grande 
recoúa de mantimentos que lhe trazião, & os Mogores 
a tomarão & matarão os mais dos Abexins, & era ja ta«^ 
nianho ho medo ^ auião aos Mogores no capo de Cam« 
baya ^ do rugido das ar/nas se espantauão. £ vendo is«* 
to el rey de Cambaya, & a muyta gente que lhe mor- 
ria foy ko seu medo tamanho de ser tomado que deler^ 
minou de fugir. £ húa noyte ja no cabo do quarto dn 
modorra se acolheo ho mays secretamente que pode^ 
deyxando recado a Rumefâo que arrebentasse a arte« 



LIVAO TUI. OAPITVLa XOVI. t3t 

Iharia, por(} us Smígo8 não se aproueytassem dela, & 
que com a inays da gfite de caualo que podesse se fos* 
se á cidade de Mandou pêra onde ya , Q esta gituada 
na ponta de hua serra de sete iegoas de roda 8c de niea 
legoa daltura, & fica oomo hfi penhâo: por^ a inayor 
parte he de rocha viua, a cidade será do tamanho de 
Lisboa & sobe a eia per hQas escadas feytas ao pica na 
rocha. Nesta cidade tinha el rey , hãs paços lodos la«> 
nrados douro & dazul^ & as paredes cubertasdazulejos, 
& tem h&a orta do tamanho de Viia noua dandrade, & 
dentro Ires grandes tanques dagoa cõ dous barganils 
cada hu , em Q el rey se desenfadaua com seus priua^ 
dos 9 & no cabo dela hua estrebaria com dez mil caua- 
los 9 cõ suas selas i& freos pêra fazer mercês aos silores 
seus vassallos. £ primeyro () chegassem a estes pa<jos 
auiflo de passar por três fortalezas muyto fertes cÕ seus 
muros & cauas^ & cada hua não tinha mays de duas 
portas f\ goardauâo capitães cõ gente. £ se esta serra 
b8o fora tamanha nunca esta cidade se poderá tomar , 
pori| tinha dentro agoa & mantimSlos pêra quãto du- 
rasse o cerco ^ mas por a grâdeza da serra nâo se podia 
defender. £ cÕ tudí) el rey de Câbaya se acolheo a ela 
cd sete mil de caualo ^ se forflo ajuntado coeie, cõ quã- 
to deixou a estrada 8 sayndo do capo , & se foy por lu- 
gares desuiados por não ser tomado. 

CAPITVLO XCVI. 

i>e conta €l rey dê CXAoga sê acolheo u Dm , ^ ão mãiè^ 

que /est. 

J? ugido ti rey de Gambaya , mandoo Rumecão sobre- 
carregar a artelharta, fit muiia arrebSíou & outra ficou 
por arrebentar cÕ pressa de fugir, por2) a fugida dei rey 
por Biais secreta ^ foy ee soube logo peio IMogor, \ muy- 
to de pressa foy a pos ebs c6 quinhfttoe de caualo, & os 
seus der fie logo ao cájpo dei rey de Càbaya & roubarãono, 



139 BA HISTORIA DA lt4DIA 

& a8 tendas dei rey que erâo de boreado & de veludo 
de deotro & de fora forfto todas espeda^iadas ^ (| ooupa* 
uão hum ressio dStro no arraial em Q caberia dez mil 
homSs de caualo , & foy cousa afi conto ho dinheyro 4 
ae ac