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Full text of "Historia do nascimento, vida e martyrio de Beato Joâo de Britto: da ..."

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c/n ^iemonf^ 
Aleixo Se ^aeirt^ <^^í6eiro ( 
de Sotomq^or d^^lmeida 

Coiíiit ofSa/iia ÔuiaUct 
oftÂe Oa^ofi^oS 






. V 



7' ;^^ 



#^ 



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V 



HISTORIA 

DO 

NASCIMENTO, VIDA E M ARTYRIO 

DO 

BEATO JOiO DE BBITTO. 






'^Hf; 



^^nB ^o Al> 1 > E B n f T T o L^ 




f m tt^ij^ dé' . í Lm/fí^ t/i\ ^ahimrj ríí^Y ^//yi í7' r v ^/t^m JiBf t/tf/c (h ^ 1/'/ 



HISTORIA 

BO 

HASOIM£NTO, TZDA B MABTTRIO 

DO 

tEATO MO DE MITTII 

DA COMPANHIA DE JESUS, 

MARTYR DA ÁSIA, 



PROTOBfARTTR DA MISSÃO DO ICADUBÉ. 

COMPOSTA POE SEU IfiMÃO 

FERNANDO PEREIRA DE RRITTO. 



SEGUNDA EDIÇÃO COM CM IMPORTANTE ADDICIONAMENTO. 




lilSBOA : 

TTPOGRAPHIA DE A. 8. MONTEIRO, 

Travessa de S. Nicolau «.^ íi^ 
18S2. 



VI 

to no mundo, sem que o sangue possa exceptuar 
contra a verdade da narrativa, que se abona com o 
testemunho irrefragavel de quantos o conheceram, 
e trataram em Poitugal e na índia. 

Saiu das mãos de seu auctor ha vinte annos. 
Mas não sei que nuvem lhe eclipsou a luz, a que o 
pertendia dar, para o esclarecer, reinando o sere* 
nissimo D. Pedro U de gloriosa memoria nosso se- 
nhor, e digníssimo pae deV. M. Qual fosse o mys- 
terio d'este eclipse, sçbe-oDeus; porém, se os eclip- 
ses annunciam futuros, eseeu posso conjecturar so- 
bre o mesmo eclipse, presumo (lançando tudo â me-« 
ihor parte, sem me metter a calcular sobre pontos 
de inveja inimiga d^ luz) que foi, para que V. M. 
com a vida escrita doV. P. João de Britto reduzis- 
se a eíFeito os designios de Suas Majestades, que Deus 
tem na gloria. 

Foi o caso: desejava intensamente o sereníssi- 
mo rei e rainha, pães de V. M. , que o Y. P. João 
de Britto fosse em sua vida mestre do seu principe 
herdeiro, que então era V. M. : consta de duas car- 
tas do geral da Companhia, que no tim do livro vão 
appensas, nas quaes responde aos padres Sebastião 
de Magalhães, e Leopoldo Fués, confessores dos di- 
tos senhores reis, que em nome de seus amos pro- 
curavam que voltasse da índia o V.. P. Joãp de Brit- 
to, e que ficasse em Portugal a iituío de se occupar 
na real educação de Y. M. 4 coiMiuzindo muito para 
este altissimo emp>ego ter-se criado no f»aço desde 
menino, onde começou pelo exercício de pagem da 
campainha do serenissimo rei D. João lY xno^so fe- 
liz e acclamado restaurador. Entendia (e com razão) 
o prudentissimo rei, que só j>odia criar priocipes, 
quem da sciencia especulativa e pratica que apre«- 



vil 

deu í\B escolúi do peço, saberia tirar os documentos, 
que «e deviam infundir e applicar pelo magistério. 
Mas a Providencia divina dispoz as cousas de 
sorte, que oV. P. Jo5o deBritto fosse primeiro to- 
mar a laorea do martyrio, e graduar-se na univer- 
sidade do ceu, para de lá vir no tresYado de suas 
acções, ou tia imagem da sua vida escrita o mais 
proporcionado mestre de um princípe. Quando V. 
M, o era, rifio logrou o V. P. JoSo dè Britto ai ven- 
tura de ter Ifto grande ouvinte, ou porque V. M. 
jâ nos primeiros annos era varão consummado, ou 
porque o mestre destinado tinha ainda muito que 
aprender no ceti, pftra ser cabal mestre de um sere- 
níssimo príncipe do Brasíf. 

£ porque lá sebe agora mais do que sabia cà 
no mando, concorrendo n'este tempo as pla«isiveis 
circumstancias, em que temos novo príncipe e ruívõs 
infantes; vem n^esta sua eistampa â presença de V. 
M. , requerendo no indisputável magistério, queper- 
tende, o cumprimento da primeira vontade do sero- 
níssioK) rei D. Pedro (ode crer é que seria também 
a^ iiHima, por isso inalterável) o qual lá no ceu terá 
nniíto especial gloria dequeseiss mui presedos netos 
se matriculem na escota do celestiar Mestre deprin^ 
cipes o V. P. Jo&o de Britto. 

O que supposto, senhor, na escritura doesta his- 
toria tèem os serenissimos príncipe e infantes arte, 
epostilla para aprenderem em primeiro logar o amor, 
e temor de Deus, que se deiía ler e ver, como em 
regras, e documeotof, uas acfêes e nos exemplos, 
de que está composta. Do anaor que o Mestre tinha 
aos próximos aprenderão o amor aos vassalos, sem 
08 quaes favorecidos e amados nSo pode haver prin- 
cípe ditoso^ ebem afortunado. A' vista do zelo, com 



viu 

que conquistava para o reino do ceu as nações mais 
remotas, conceberão na idéa novas conquistas, afim 
de ganharem para Deus novas almas, e para a mo- 
narchia de Portugal novos dominios. Aqui verão 
aquelle grande espirito despresador egualmente de 
trabalhos, que de regalos, próprio de ânimos herói* 
cos e reaes. Finalmente aqui verão praticadas todas 
as virtudes que são a mais soberana regalia de reis 
e de príncipes; pois só o servir a Deus generosa- 
mente é o verdadeiro reinar, e a verdadeira conser- 
vação das coroas e dos impérios. 

Em confiança de quanto fica dito e dediízido, 
espero se digne V. M. , de que o seu augusto palá- 
cio seja verdadeiramente aula de disciplina christã, 
aprendendo-se n^ella as licções que ao príncipe emais 
senhores nossos dará oV. P. Mestre João de Britto 
a todo o tempo e a toda a hora, que quizerem ver, 
e ponderar o texto da sua vida rubricado com o san- 
gue do seu martyrio. 

Com este beneplácito de V. M. me seguro na 
certesa de que não haverá quem não queira ver com 
bons olhos um livro, que souber é do real agrado; 
pois a inclinação do príncipe é poderoso e doceat- 
tractivo de que todos se deixam levar. 

D. Fernando de Ia Cueva e Mendoça. 




Ix 



o AllCXOH AO liEITOR. 




ijBiToa amigo, a vida admirável do V. P. 
JoUo de Britto da Companhia de Jesu, 
admirável no ardentíssimo zelo da salva- 
ção das almas, admirável no aíFectuosis- 
simo enpenho com que se occupava n^esta empre- 
za, admirável nas singulares circumstancias do seu 
martyrio, é a que escreveu a minha penna, e a que 
otferece a teus olhos a minha confiança fundada na 
tua benignidade. Se leres com paciência, e com at-^ 
tenção o que escrevo, verás sobresair nas sombras 
doesta historia os resplendores de uma illustre vida. 
Os que publicam seus escritos, temem ordinariamen- 
te ou a censura dos críticos, ou a enveja dos emu- 
los. Não temo a primeira, porque eu mesmo sou o 
que a censuro; e quem n'isto concordar comigo não 
me offende, faz-me graça em se accoramodar ao 
meu juiso. Não temo a segunda, porque tirando a 
enveja só ao que é bom, e que quanto mais enve- 
jado se acredita de melhor, confessando eu, como 
ingenuamente confesso, iftenuidade do meu talento, 
e do meu estylo, nMsso mesmo quebro as lanças, 
que] me podia tirar a emulação. Estando pois n^esta 
conformidade seguro por ambos os lados, sem razão 
obrara, se ainda assim temera sair à luz com esta 
obra, que na confissão de seu auctor se exime da 
censura alheia ; e prouvera a Deus se não pudera 

B 



eximir da enveja, com que ficaria bem qualifícada. 
Mas nem todos têem a dita de que este vicio, quan- 
do se ihe5 pppoe, es oxatte e caoonise. 

O estylo nSo é muito usado ; mas jâ se pôde 
chamar velho, depois que D. Francisco de Quevedo 
compoz por este methodo as vidas de S. Paulo, ede 
Marco Bruto. £ quando os exemplares de tão dis- 
creto auctor correm com universal applauso, as suas 
imitações podem apparecer sem receio no tocante â 
matéria, pois é santa ; e no tocante á forma, pois 
está approvada. 

Se o ser eu irmão do sujeito que descravo e 
louvo, pode occftsionar diminuições no oreditonda ver- 
dade que publico, seguro-te (para que não duvides) 
que primeiro fiz officio de fiscal, que de cbronista ; 
sendo assim preciso, para i Iludir a vebemencia da 
presumpção, de que b^ testemunho de tim irmão 
por outro irmão se não hermanasse o dito com a 
realidade. Ora ponhamo-^nos na razão^ e venhamos 
a partido. Não duvides sobre a verdade d« faistoriã, 
e faze o conceito que quizères da incapacidade do 
historiador. 




XI 



E DECLARAÇÃO DO AUCTOR, 




^ NOENVAAIfiMllE COofesSO, Ú COIIIO CatholicO 

romano pfotesta, que, q^iancb chamo 
Martyf ao V, P. João de Britto, e quan- 
do 11^'estii historia refiro algumas acções 
cofiDnome de milagres, ottjpropheciaa, fallé precisa- 
Báeirte na sentido, que sé coíiipadeoe com «( decre- 
tos do Santíssimo Padre Urbano VHi sem iMnaRttir 
a minímá côntrarkdade aos seus preceitos acerca da 
impressão dos livros que tratam de pessoa», que ain- 
da- não estão camniaadi», nem beatificadas. Gonfeá- 
so que á Sé Apostólica* privativamente compete qua- 
lificar a. vei^dadeira aabtidade e martyrio: e doesta 
confissão entenderá com legitima infereneia, <piem 
me ler, que. aa minhas proposições vão lançadas, co- 
ma' proposições de fé humana, em si fisllivel, e su- 
jeitas em- tudo à deterniinação da Santflíí' M adfe 
Igreja. 



XII 



PREFACIO 

DA SEGUNDA EDIÇÃO. 




o B. João de Brítto Apostolo insigne, va- 
loroso Campeão, e Martyr da fó, oíTerece 
a missão do Madure um espectáculo di- 
gno de Deus, digno da cubica dos anjos, 
da imitação dos varões apostólicos, e de universaes 
encómios. Com estas memoráveis palavras oP. João 
Baptista Maldonado, a quem o desejo defeitorisar 
entre gentios a vinha do Senhor, levara também 6s 
partes do Oriente, encetou o erudito opúsculo que em 
1697 saiu á luz em Antuérpia com o titulo de II- 
lustre Certame do R. P. João de Britto. Mas quanto 
sobrelevem, e sejam de mais quilrtes as razões que 
temos para usar doestas mesmas palavras no tempo 
agora presente, será mvi fácil de conhecer se se con- 
siderar, que aquelle atilado auctor, um dos primei- 
ros que com a penna cumulou de tantos elogios as 
admirandas proesas e virtudes do Protomartyr do Ma- 
dure, quanto ao parecer de todos jâ em vida dignis- 
simo d^elles era, escreveu a sua obra em Macau no 
mez de janeiro de 169S, apenas dois annos depois 
que o B. João de Britto fora laureado de glorioso 
sangue em testemunho da nossa santa fé, e nós es- 
crevemos depois de solemnemente proclamada do alto 



xin 

do Vaticano a santidade de suas virtudes e martyrio. 

Não eram passados muitos dias depois da publi- 
cação do oráculo Ponlíficio, quando já pela sua lei- 
tura, já pela de não poucos escriptos de auctores quasi 
todos contemporâneos do Bemaventurado Padre, re- 
cebemos sobejas noticias de sua vida, trabalhos e san- 
ta morte. Deslumbrados de tanta virtude e tão abo* 
nados testemunhos, não pudemos abrigar o nosso co- 
ração de um sentimento de admiração acompanhado 
de grande desejo de avivar entre conterrâneos a me- 
moria de tão preclaro filho doesta terra, que estava 
a ponto de ser alevantado por Santo e Martyr da 
christandade. Assim deliberados a não íntervallar a 
este religioso empenho, desde logo nos abalançámos 
a lançar mão doesta briosa empresa. £ para cabal- 
mente nos desempenharmos d'el]a, procurámos inves- 
tigar quanto corria impresso sobre o Bemaventurado 
Martyr João de Britto. Entre as primeiras obras 
doeste género que nos vieram á mão^ foi á principal 
a interessante historia da sua vida e martyrío escrip- 
ta em elegante estylo por seu próprio irmão Fernan- 
do Pereira de Britto, sobre os documentos que para 
esse fim lhe tinham dado os padres da Companhia, 
por este fidalgo levar em gosto ser o escriptor da vi- 
da de seu mui Santo Irmão, segundo refere o P. 
Franco, de que faremos honrosa menção. Ficou po- 
rém inédito alguns annos este importante trabalho, 
até que em 1722 D. Fernando de la Gueva eMen- 
doça sobrinho do auctor, o deu á luz com dois ap- 
pendices, e dedicou á majestade d^el-rei D. João V, 
que havia com grande instancia sojiicitado da Santa 
Sé a beatificação do Venerável Martyr que do serviço 
do paço se passara ao do redil de Gbristo. 

Cresceu todavia em nós essa vontade, quando 



XIV 

soubemoa que aqibella hústoria eva rapissime^ pois já 
não era focil éncootralHa nem stqmt em. Goimbra 
onde havia sido impressa , no reat cotlegic^ dais artes. 
NãQ desapproveitando tfabalbo alheio, resolvemos en-^ 
tão retmípriíniil^a eotrançândo ii'ella uma Memoria 
com maittts noticias interessantes, que fômo» reêo* 
Ihendo de algumas obraB deauctores na maior parte 
contempoFaneoa da B. João de firiito, que à comper 
tencia o exalçaram em seúsescrtptos, e dos proces-^ 
SOS para a sua beatificaçãa, as quaes< tivemos qtienão 
só senam cousa agradável, e não. desdiriam com o 
nosso intento, mas^^ o que é mais qae tudo, seriam 
muito conducentes para melhor e mais diuturnamen* 
te se conservar a memof ia dos gloriosos exemplos da 
santidade de um dos maiores Santo» modernos de 
Portugal, e da6 circumístancias que precederam e 
acompanhavam a mesma^ beatificação. Èpara nãt^ se- 
gundar as mesma» cousasy e tófnar tediosa esta his- 
toria, enfeixámos na dita. Memoria somente* aquellas 
noticias, quo ou.recovdavam ou illnstravam um euou- 
tro fecto e eiròumstancia em que eifa carecente o tra- 
balho ée Fernando Pereira de Buitto, sem embargo 
de termos jâ publicado alguma cousa a es<ie respeito 
em Ml' jDmal religioso^ d-^esta capitial [*), 

Mas parecendoHnos este commetttmento supe- 
rior a nossos cahedaes, dirigimo^^nos respeitosamente 
a algun» nobf es eavalheifos papentes, ou representan- 
tes e herdeiros da iDustre família que com tãnia hon-^ 
ra e gtoría* sua> deu úm- Apoistolo ao Malabar, um 
Heroe, um Martyp, e um Santo a Poi^tugal e á 
Igrejd, e likes pedimos a sua valiosa coopcvação. E 



(*) Jornal da Sociedade Catholkd — Serie IH, vol.I, 
«•<> »^e 54. 



XV 

ndo (bí esta a onica ra^o qne a i^o nos áemoYeu, 
seaâo também a de fazer bona ofiicios de eortesanta 
e melindre a (|uem tão de perto tocava a pessoa e« 
obra de que trataremos. Porém saicHnos o consellio 
errado ! Os nossos disveloQ e empenho, dieen»l-o eom 
repugnância e magoa nossa, nSo tiveram boa corres-- 
pendência, nem favoravet acolhimento ; e as diligen- 
cias que amigos nossos empregaram para o mesmo 
(im, nfio reportaram melhor soocesso, apesar de re^ 
levarem muito para o interesse e louvor domestico. 
Queixa é antiga da nação portuguesa ser tfio descui- 
dada de si na diligencia deencommendar as suas cou- 
sas á custodia das lettras conservadoras de todas as 
obras, qu9o pronpta e diligente em feitos, que mais 
se presa de fazer que dizer, como escrevia o grando 
Tito Lívio portoguez João de Barros na dedicatória 
da sua Ásia portugueza a el-rei D. João doesto no- 
me o terceiro de Portugal. 

Todavia em muitos d^esses homens que espiri- 
tes nobres encaram com desdém, e n^^esse clero que 
espirites fortes apodam de ignorante, affsrrado á se- 
Cttlaridade do nosso tempo, participante dos desvarios 
da ruindade da geração que- vae passando, € pouco 
sollicito dos gravíssimos deveres da sua divina mis-* 
são, achámos tal apoio, que niinca a fortuna surriu 
tao benigna a projectos nossos, tão bom succedímen^ 
to 6 tão de sobra, quanto não foi possível enconfrar 
n'aqueUes, que por irmandade ée sangue a todos os 
oulíos deviam com grande di^ancia avantajar-se. 

Cumpre-nos porém fazer aqui nma honrosa ex- 
cepção, e é á de uma piedosa matrona d^'esta cida^ 
de, sexta sobrinha do Beato João de Britto («), a 

(♦) D. Isabel Barruucho Vidal de Aievedo. 



XVI 

qual se a mingua de cabedal lhe nao impedira, que 
podessemos medir a sua cooperação pela muita e mui- 
to boa vontade de nos coadjuvar, não nos teria dei- 
xado andar batendo á porta d^estranhos, ainda que 
conterrâneos, para que amparassem uma obra fami- 
liar 6 caseira, posto que nacional. 

£' a esta religiosissima Senhora que devemos 
a primeira effigie que vimos do B. João de Britto, 
a qual ella tinha soffregamente a bom recado como 
tradição de familia, e era talvez uma das poucas que 
em solar portuguez se conservava ainda agora com 
santa memoria e acatamento. Foi sobre esta effigie 
que fizemos gravar a que acompanha esta obra, de 
cujo ornamento carecia a primeira edição, alterando 
porém alguns accessorios pouco correctos, e fazendo- 
Ihe addicionar o anjo e a gloria que xx^eWà se vêem 
representados. Na capella do antigo collegio dos no- 
bres doesta cidade, onde o B. João de Britto fez o 
seu noviciado, sabemos que havia um grande retá- 
bulo com a sua effigie ao natural em troje de saniás, 
com um lettreiro, em que se lia o seu nome, o dia 
do seu martyrio, e como vivera n^aquella casa. Esta 
effigie era reputada como verdadeiro retrato, porém 
não a pudemos confrontar com a nossa, ignorando 
se foi presa do fatal incêndio que em 1844 devorou 
aquelle edificio, ou qual é hoje o seu paradouro, no 
caso deter escapado das chammas que desbarataram 
muita preciosidade alli amontoada. O certo é que esta 
effigie foi gravada logo depois do seu martyrio, e 
corria em Portugal sob as vistas dos mesmos padres 
da Companhia que o haviam conhecido ; além de que 
a cotejámos com outras duas diversas, publicadas pelo 
mesmo tempo, com a qual perfeitamente se assime- 
Iha, sendo porém a de que nos servimos a de melhor 
desempenho artistico. 



XYIl 

Álénfi da referida estampa juntámos também « 
carta topographica da missão do Madure^ que fizemos 
copiar da que precede a obra do P. Maldonado de 
que acima fizemos menção emendando-a dos erros 
que a desfeiavam. 

No corpo da vida do Bemaventurado JoSo de 
Brítto omíttimos as reflexões moraes e políticas com 
que o seu auclor Fernando Pereira de Britto em 
numero de oitenta e uma a enriqueceu. As razões que 
a isso nos induziram foram primeiramente, que não fa^ 
zendo ellas parte da historia, mas sendo meras con* 
siderações sobre o seu texto, em nada aproveitavam 
â fidelidade histórica, e entravavam e tornavam me- 
nos deleitosa a sua leitura ; e em segundo logar a 
economia não só de tempo senão também de cabedal. 
£ não foi pouca a nossa admiração quando, depois 
de assentado e posto por obra este conselho, na vida 
do mesmo Beato descripta pelo P. António F*ranco 
nai Imagem da Virtude^ de que entrançámos alguns 
trechos na nossa Memoria, deparámos com o seguinte: 
« Não se contentou elle (Fernando Pereira de 
(( Britto) com a simples narração das acções virtuo- 
c( sas, mas sobre ellas tecia seus discursos politioos, 
a que faziam algum tanto menos fluida e aprasivel a 
u lição : por esta, ou por qualquer outra causa se não 
« imprimio aquella obra. » 

A obfa do P. Franco foi impressa em 1717, 
e a historia da vida do B. João de Britto composta 
por seu irmão, saiu á luz em 1722; e esta é a ra- 
zão porque oP. Franco aflirma que esta se não im- 
primira. 

Os dois appendices da primeira edição constam, 
o primeiro de um compendio da vida do B.João de 
Britto apresentado em Roma á Congregação dos Ri- 



lòs no- anno I7I4, em ordem á intreducçao da causa 
(la sua canoHiisação, o segundo de algumas cartas do 
hifeslno Beato. Um e oUtro vão por $ua: wáem^ ri'es- 
ta segunda edição, assim como uma eoHécção de 
poesias latinas, que muito se resen^iem- do mau gosto 
daf época, compostas' por diffetienles poetaá da Com- 
panhia ew lotivbT' do glorioso Môrlyr, aíiJ-quaes rm 
primeira ediçSo^^ precedem toda a obra, e n*èsfa col^ 
lOòsámoy no fim- dt)S dois appertdicés^ citadõsí. 

A ést» liOsstí' pi»éfff^o' s^gue a biographía de 
Ftí^hando Pérfeira dèBi^íttò,' cottío tíol-a deiítoti es- 
críptao ab!r aíde Ditígo BarÍJoéci Maéhado na suà Bi- 
bliòthèca Lu sitatla: 

Emtòd esta ofera acharão os leitores alguns 
nòmes' proprioâ e dè terias escriptos em differenles 
partes de divfeíso mòdò. E* isto devido â variedade 
coní qiieos achânios exarádcis = n'(rs diversos auctores 
ique citamos, sendo a verdadeira calisa a diversa pro- 
nuncia com que òs naturátís da índia os pronunciam, 
ou a alterarão que esseS nOtiies teèm sóffridò com o 
correr dos tempos'. 

Após está narração fidelissima das causas im- 
pulsivas e do andamento d'esfe nosso cómmettiniehto, 
parece-nos será razão fazer uma breve consideração 
milito digna d'este togar, para a qual nos si^rviremos 
das palavras do P, Franco na sua introducção á 
Imagem da Virtude^ que vem para aqui muito a pro- 
pósito. 

M Um dós' tempos mais bem gastados é aquelle 
«que se occupa em escrever as vidas dos homens 
«santos, e conservar os exemplos d'aquelles heroes, 
«que assim como na vida inspiravam virtude, assim 
«depois da morte essa mesma estão inculcando nos 
« santos exemplos que nos deixaram. A nós pertence 



XIX 

« tel'OS presentes para comelles nos ajustarmos, pro< 
« curando que nossas obras sejam como as suas. São 
(( as vidas eseriptes ui^as coroo estatuas. 4o$ -homens 
« que representam : e tèem sem duvida muito mais 
«energia para persuadir, do que achava Scipião te- 
« rem as estatuas dos seus romanos, a cuja vista elle 
« confessava conceber novos alentos, e espíritos ca- 
c< pazes de se medir com todas as cousas grandes. Nas 
u vidas dos homens santos a^ren^em «s que seguem 
«símiihaiite io^tituto o. modo q^e elles tíverana em o 
«exercitar, o cuidédo € vigilância com que se hou* 
dVfimtn para chegar aos ápices da pe^feiçào evange- 
«liça, a quç 8*ibiifam» ih earacteres .que têem dian- 
te te dos fíiiioss \hm ^tSo mu^laipiente rtepetindo a 
« io$crip^o que, os ath^nienses ,tÍD,han) .nos pés das 
« estatuiis doa cspiis anlapaasadoa : sereis, àim a il=ts- 
c^ empolou. i^mo.Qstes, aeS^rd^s^ cpmo osítes. » . 

; Fii\alii9^t0, o:de^t)o e^»iBAra qiue pozenios 
pairft q^ia^a /i^a saí^^af^^rpda /q nítida, eaperamps 
qu6 abonarBo a ni^saa vontade 9 aniffio de níK)do, ^ue 
temas por d«sii6cassarias palavras .para ]H)s acreditar- 
mos. .corn nossos flssigaant^a e leiitores, os q^aes por 
certo nSO{deÍKarão d$ coofei^^ar, q.a^ fizemos um i^c^r- 
vfço ceiía VISOS de iotaresse, que rn^l se pode casar 
com. k ^barateaa da sm emâsião. 

Lisboa^ setembro d& ÍS(i% ' 

OS EDITORKS. 



XX 



BIOQBAJFHIA »« AVCTOB. 




ERNANDO Pereira deBritto, fidalgo da casa 
real, alcaide mór 4'Alter do Chão, ecom- 
mendador de S. Maria de Monforte em 
a ordem deChristo, nasceu em Villa Vi- 
çosa em o anno de 1640, onde teve por pae a Sal- 
vador deBritto Pereira, alcaide mór de Ourem, ede 
Alter do Chão, commendador deCastel|âos ede Mon- 
forte, vedor da serenissima casa de Bragança, e D. 
Brites Pereira, filha de Fernão Tavares Falcão, ô de 
D. Maria da Fonseca. Cultivou com génio, e com- 
prehendeu com vivesa as artes a que se applicou^ 
saindo muito versado na historia sagrada e profana, 
e em todo o género d^erudição oratória e poética, 
como tambetn nas máximas da ethica e da politica. 
Foi casado com D. Maria de Britto, filha de João 
de Pinho, e Paschoa de Figueiredo, de quem teve 
três filhos e duas filhas. Escreveu em o anno de 1702, 
e illustrou com oitenta e uma reflexões moraes e po- 
liticas a vida de seu Venerável Irmão, a qual publi- 
cou D. Fernando de la Cueva e Mendoça, fidalgo 
da casa real, e commendador de S.Maria do Pinheiro 
Grande, sobrinho do auctor, e saiu com o titulo se- 
guinte : — Historia do nascimento, vida e martyrio, 
etc. D^elle faz menção António Carvalho da Costa 
Corogr. Portug. t. 2. p. 820. 

Da Bibl. Lusit. t. 2. p. 49. 



XXI 



índice. 



PAO. 

Dedicatória da primeira edição* • v 

O aiictor ao leitor •••... ix 

Protesto e declaração do aactor. .•••.• xi 

Prefação da segunda edição xii 

£iographia do auctor xx 

PRIMEIRA PARTE. 

Mm que se coniêem as acções do V. P. João de JBrtUo^ 
desde o seu nateimenio até á sua partida para a índia j 
e checada a Goa, ^ 

Capitulo I. — Nasce ao mundo o V* P« João de 

Britto. 1 

Capitulo II.*— i Da sua educação nos ^nnos da pue- 
rícia * . % 

Capitulo III. — Adoece gravemeiite, e recupera a saú- 
de por intercessão de S. Francisco Xs^ vier. • 4 

Capitulo IV. — Em desempenho da saúde recebida 

.veste o habito , da Companhia de Jesus. • • â 

Capitulo V. — Pertende ser admittido na sagrada 

religião da Co^npanhia de Jesus 8 

Capitulo VI. — Despede-se de sua mãe, e entra no 

noviciado da Companhia 11 

Capitulo VII. — Da resolução, fervor, e aproveita- 
mento espiritual, com que passou os dois annos 
de noviciado. 16 

Capitulo VIII. — Feita a profissão, parte de Lisboa 

para Évora a dar principio aos estudos. . • 17 

Capitulo IK. — E' mudado de Évora para Coimbra, 
e n^aqucUe collegio com toda a efficacia perten- 
de a missão da índia. IB 

Capitulo X. — G^nsegue o despacho da sua petição 
sendo mestre de grammatíca no collegio de S. 



Wll 

PAG. 

Antão na cidade de Lisboa^ escolhe a missão de 
Madurei, e resiste fortemente aos impedimentos 
que sua mae lhe opp^é, :ío 

Capitulo XI Vale-^ sua mSe <}o Núncio Ai)osto- 

lico, e applica mais outro meio* para impedir a 
viagem do V. P. João de Britto 24 

Capitulo XII. — Embarca-se para a índia, chega a 

Goa, expede-se para a sua missão. .... 28 
SEGUNDA PARTE. 

Em çuc se contêem as acções que o r, P, João de Britto 
obrou na Tndia até ser mandado a Portugal eleito pro- 
curador da sua provinda do Malabar, 

Capitulo I. — Parte de Goa para as terras do Mala- 
bar, e descreve-se a sua jornada. . . . * . 30 

Capitulo II. -—Adoece ná jornada, e, recuperada a 
saúde, continua o caminho até chegar á residên- 
cia de Coley, onde fica por algum tempo. . . 34 

Capitulo III. — Trata-se dos principios, progressos, e 

mais cousas pertencentes á missão de Madurei. 36 

Capitulo IV. — ^Dè como os padres da Companhia 
de Jesus seguiram o exemplo do P. Roberto No- 
bili, e o modo que observam na conversão d'a- 
quella gentilidade. •. ; . 40 

Capitulo V. — Das residências que tem a missão de 

Madurei. ... .^ ........ 42 

Capitulo VI. -—De algtimas cousas notáveis, que sue- 

' cederam tia residência de Coley depois qUe ,n'el- 

la entrou o V. P. João de Britto. . . . . 4f> 

Capitulo VII. — Referem-«e quAtro maravilhas que 
succederam tia sobredita residência, quando a go- 
vernava o Vr P. João de Britto. . . . . 48 

Capitulo VlII. — Refere-se um caso, em qiie o V. 
Padre, e seus companheiros experimentaram os 
prodígios da Divina Providencia em seu favor. í>i 

Capitulo IX. —^Reedifica a Igreja, passa aos reinos 
de Ginja e de Tanjaor, visitando aquellas chris- 
tandadés, e finalmente assiste á preciosa morte 
de um insigne cathechista. . . . . . • -^^ 

Crpitulo X. — Pàrté para Manarcoilo, e d'ahi para 
Carabantu, onde convida á disputa da lei de 
Deus os sacerdotes do» Ídolos. .^ . . • • • ^^^^ 

Capitulo XI.— -Pôr causa da perseguição d%íl-rei de 



XXlll 
PAG. 

Tanjaor se pa^a ao reino de Ginja, c no cami- 
nho lhe succedem dois casoa prodigiosos. . . 63 

Capitulo XII. — De Xirimcaranibur parte a visitar 
algumas residências, e caindo enfermo por causa 
d^uma dôr de olhos, é curado milagrosamente 
por S. Francisco Xavier.. ,,,.... 67 

Capitulo XIII. — Chega i residência de Cuttur, e 
visita os seus christaos, aos quaes achou maif alr 
liviadQS com a fnorte do bracmene Alinaexi. • 70 

CapltulQ XIV. -^ Farte a visitar, a christandade du 
Xolomandalâo ^ referem-se alguns prodigios, que 
u^aquelle tempo succedçram.. 72 

Capitulo XV. — E' mandado por seu superior ás cos- 
tas da Pescaria, e de .^ravancor. • • • • 7f 

Capitulo XVI. ^—Embarca -se com seus companheiras 
para os reinos dç Ginja e Tanjaor. Keferem-se 
alguns, casos, que sqccederam. depois da sua che- 
gada aos ditos reinos. « 70 

Capitulo XVII. — Disputa com os lettrados gentios, 

e convçnce-os ,. 82 

Capitulo XVIII. —-Refere-se a perseguição, que se 

levantou contra os christaos no reino de Gii^a. 86 

Capitulo XIX.— tN.So valendo para se venc^ esta 
perseguição uma carta do príncipe Orear, final- 
mente se acabou com a infame, morte de quem a 
fomentava. >...«•..•.•. 89 

Capitulo XX. — Part^ para as terras do norte: oon- 
tam-se qs trabalhos, que padeceu no caminho, e 
como se desfez a traição que cotntra elle arma- 
rauí os inimigos da loi de Deua* /. . . t . 9S 

Capitulo XXI. -- Entra no reino de Qolocondá : volr 
ta para o sul aps reinos de Giuja,.e de Tanjaor. 
Dá-se notícia de um famoso milagre obrado ptfr 
intervenção de S. Francisco Xavier. • . . 98 

Capitula XXII. -^111 ode -se o. decreto de um gover- " 
iiador,. que mandava cortar a cabeça ao V. P* 
João de Britto, e passa de Tanjaor ao reino de 
Ginja; rçferemTse alguns maravilhosos caebs, que 
alli succederam. . . .. « ; . • . . . ICfl 

Copitulo XXIII. -r Dá-se notipia <ia- singular cons- 
tância, com -que um christaa padeceu gvaves af- 
frontas, e trabalhos pela lei de Deus 106 



XXIV 

PAO< 

Capitulo XXIV. — E' preso o V. Padre no reino de 
Madareiy e livrado do perigo da morte que o 

ameaçava 109 

Capitalo XXV. — Levanta-se uma grande persegui- 
ção .contra os christaos no reino deTanjaor. As- 
siste o V, Padre com notável caridade aos affli* 

gidos. 112 

Capitulo XXVI. — Entra o V. P. João de Britto 
no reino do Mara vá : encontra-se com õ general 
do exercito, que o prendeu. . . • . • .118 
Capitulo XX VII. — Dá-se noticia da prisSo do V, 
P. João de Britto, e da constância com que elle 
e os seus cathechistas soífreram os tormentos \ e 
de como finalmente é pronunciado á morte. • 121 
Capitulo XXVIII. — Suspende-se a execução da sen- 
tença : é levado á corte : tem audiência do rei, 
o qual revogando o decreto, o manda soltar e 

aos cathechistas • • . 12& 

Capitulo XXIX. — Notam-se algumas cousa» dignas 

de reparo que succederam no tempo da prisão. 12*9 
•Capitulo XXX . — Deixa o reino do M arava chamado 
pela obediência : chega á provincia do Malabar : 
é mandado aRoma^ e finalmente embarca-se pa^ 
ra Portugal. . .••.«•.•;. t2i2 
TERCEIRA PARTE. 
Em que te contêem as acçõet qtie o V. P. João de JBriiio 
obrou depois que chegou a Portugal^ e depois que de 
Portugal se embarcou segunda vez para a Itidia^ aU 
consum'mar a vida com o glorioso martyrio. 
Capitulo I. -— Chega a Lisboa, oifde 4 recebido por 
el-rei cora sutnmo agrado : parte para os coUegios 
da Companhia a convidar operários para a sua 

missão. . . . « ; 134 

Capitulou. — Impedida a jornada a Roma parte de 
Lisboa para Évora, e d^ahi para Portalegre a 
visitar D. João Mascarenhas bispo d^aquella ci- 
dade, e a sua mãe. • • 13ft 

Capitulo III. •» Refere-se o que lhe succedeu nu jor- 
nada de Évora a Portalegre 140 

Capitulo IV. — Volta a Lisboa : trata dos negócios 
da missão: faz-lhe S. M. fortes instancias para 
que fique de assento na sua corte 144 



PAtt. 

CSipitulo V. — E' c!iaina<ío a Ro^bk J^eíb féii géVal, 
opp6é-^ èl-Vei á jothA'<fa, otfeVfeèe-lhe Her feéslrè 
do Tf)Hhcfipe e infantè'8 : bpâcá ô V. ÍWré \odift 
ò8 stteiòs pata se ésct)6àr Q^e^ta bon'rá. . . '. 148 

Capitulo VI. — Alcança finalmente licença deS. M. 
pà^á %fe erhbâTCar para à Tndia : dcspede-se Áòi 
parentéá é Úoh ámSgos. . : « , . . . . 1 62 

Capitulo VII. — Vencfe a maior dtfã^éúídàde òúe ie 
Hié ftltnbti, phím sé nSo eibbãrck4>, ê tiítiniàiben- 
tè tiá & Vélá na nau aln^irahW 155 

Capituto Vlll. — Dá-se brèvè noticia ia ijiiâ have- 

gação. .'•.'. . . '. . *, . . . . . lèo 

Capitulo IX. — Parte deGoapatÀ tiM^Vabàr, ócoàí- 
tituido visitador da missão entfá lib reino ãomá- 
ravá : é chamado f>elb principe Tariád^ven rl^- • 
ftoitttò a Bé <^ni^brté^ á nosda sátita fê. . . . 161 

C&pitulo X.—- Falia com o principe TarittdeVéh : ^sie 
se prepara para o baptiáiuo) e por esta catisa se 
• levanta uma perseguição contra d V. Padre. .165 

CapSttslo XI. — E' preSò b V. P. Jo3o de Britto ; 
dá-se noticia do que succedeu ktê ket íevàdò fi 
Oórte dõ íj^ráhno Raúganadadeven. . . . .160 

Capitulo XII ; — Refere-se o que Ibe Buccedéu na còrle 

com TirtíVrehjfadevén. . . . . . . . ^. ÍT3 

Capitulo XIH. — Oppdem-se os mihistròí' i vontade 
dcí {h^rièiipé RauganàdadeveD, aue queria fallar 
com o V, Padre : procura itiatai-b com feitiços : 
refere-se o que mais éuccedeu ài^ sér leVádo á' 
presença do tyranno 176 

Capltltlô XIV.— . Appai-ece ó V. P. íía ç^éáeé^k' do 
tyranno^ : é ouvido é sentenceàdÒ á riiortè : dif- 
ftrèHtó a execução ^ e finálnieiífó' li ]íèm'è^tèi(Jo à* 
Vrgtíf^ piá qué alli éfiéòdte a iètóébçá tJren- 
jadévéA' irmão dô tjrrannd. ; . v ^ . ,. 1^1 

Capiriiílo XV. —'Parte para Crgur : é' ipreáent^do' a 
UrenjádeVtiri, èfiúalmetlté por seú áiándadó' Qie 
Cfêo a líioi^te em ódio áií rèligiSor éhridtã. . . I8ti 

Capitwlò XVI.' .:— áelâçãó dèjalgtíiliâs ôírCumsíancif § 
subsequentes aò ^oríoso máity tib^ e concliisão 

d'*tá hmm^ ., ih 

COMÍENHIO 
Jbo imémmto, vidâ^ e ma^^^ Â' P^eAéravèl Éervo de 

D 



XXYt 

Dtui João de Briiio, Saeêrdoie prafe$io da Companhim 
d€ JeitUf morto em ódio da fé pelo regulo do Maravá» 
Impreuo em Roma no anno de 1714, eapreieniado na 
sagrada congregaf;5o dot Ritos por João Baptista Gal-^ 
ler aio. 
Advertência ao leitor cm que se declaram as raiõet 

de aqui se accrescentar este compendio. . • lOT 

Uma breve prefacçSo. . • . . . . ita 

Come^ o compendio. — Do seu nascimento, entrada 
na Companhia^ estudo» em Portugal e em Goa, 
navegação para a índia, e emprego na missão, lOt 
Da virtude da fe, • • ......... 20O 

Da virtude dá esperança .201 

Da virtude da caridade . . . t« 

Da prudência, justiça, e fortaleza . 902 

Da temperança, e maia virtudes que a ella se subal- 
ternam «... 201 

Das causas do seu martyrio. » . ...... 20^ 

Da prisão do V. Padre n 

Disposição do Servo de Deus para a morte, e seu 

glorioso martyrio 20T 

Qualificação de que foi verdadeiro martírio a sua 

morte. 20S 

Do corpo do V. Martyr depois de morto. . . .200 

Dos milagres que obrou em vida » 

Continua a mesma matéria dos milagres em vida. . 210 

Do milagroso espirito de propbecia 211 

Dos milagre9 depois da morte. . . . . . . . 2lJr 

Em que se conclue este compendio. • . . . , 2Í4 
Caus^ impulsiva para a canonisaçao na seguinte carta 

do serenissimò rei de Portugal D. JoãoV. . .216 
Outra causa impulsiva na seguinte carta da sere- 
níssima rainha de Portugal D. Maria Ânna. • 2Í^ 
Verdadeiras imagens do V. P. João de Britto. . 21 T 
Primeira carta do P. Tbyrso Gonzales geral da Com« 
panbia de Jesus para o P. Sebastião de Maga- 
lhães confessor de S. M* , em que declara. as ra- 
l5es que havia para não vir da índia para Por- 
tugal o V. P. João de Britto. 21ft 

Segunda carta do mesmo P. geral da Companhia para 
o P. Leopoldo Fu^ confessor da serenissima rai- 
nha de Portuga], o qual Ibe escreveu, como er» 



xrtn 

-ycoitade da dita sereAissima senhora que vieMc 
da Índia o V. P. João de Britto, para ler mes- 
tre de suas altezas. . . . >!• 

vertas do V. P« João de Britto escritas de Lisboa a 
seu irmão que assistia em Monforte, FernSo Pe- 
reira de Britto, em que se conhece bem que em 
todas as occasioes se achava iio dito V. Padre 
amor de Deus, despresos da vida, cuidados da 
morte, despegos do mundo, c apostados desejos 
de dar a vida pela fé ^^* 

Cartas do V. P. João de Britto escritas na índia ao 
padre João da Costa da Companhia de Jesus, 
missionário da missão do Malabar 22ft 

Carta do V. P. João de Britto para o P. Manuel Ro- 
drigues provincial da Província do Malabar, feita 
no cárcere aos 30 de julho de 1686, quando foi 
preso a primeira vez 2211 

Carta do V. P. João de Britto para o P. Luiz Pe- 
reira da Companhia de Jesus 22t 

Carta escrita nas vésperas da sua morte ao padre 

Francisco Laynes superior da missão. • . .229 
EPIGRAMMAS LA.UDATORIOS, 

M iriumphae% elogios^ com que algum filhoã da Companhia 
de Jetut celebraram as viriudeij a vtJa, e a morie de 
seu felicíssimo irmão o V. P. João de Britto, . 231 
MEMORIA 

Para servir de itlusirrçao á hisitoria da trnia, martyrio e 
eausa de Beatificação do Beato João de Britto. Pelo 
editor da segunda edição. 

Parte I. — Introducção 26T 

Parte II. — Dos Auctores que escreveram sobre oB. 

João de Britto 270 

Parte III. — Extractos importantes daS obras de al- 
guns auctores sobre o B. João deBrítto. — Car- 
ta do P. Francisco Laynez da Companhia de Je- 
sus, Superior da missão do Madure aos Padres 
da sua Companhia que trabalham na mesma mis- 
são sobre a morte do V. P. João de Britto. . 27$ 

Do illustre certame doR. P. João de Britto, peloP. 
João Baptista Maldonado. — Parte para a índia 
apesar de muitas contradicçdes 288 - 

Patrocinio de S. Francisco Xavier. . . . . . 289 



PAG. 

Prepara-se parí^ a^ mípsãp. •. • ^^^ 

O que é a mjssàq.do K^duré. . . . . . . .291 

Checa ao collegio de Ambalagkta. 292 

Do collegio 4e Aq[i|ba)^g^!;a.p^rtQ. para^S^tiama^g^le^f . 2ft^ 
Prepara-se par.a/os ir^i^isterios, dçi ini^sao^ . . .296 

Trata-se dos ríto^ indianos. .. -. 296 

Das seitas religiosas da índia ., . 297 

Sua checada a Lislíoâ. .,298 

Benevolência do r.ei para coin o P, Jq^o. de Britto, 299 
Ojwerva o mesmo teor de vida que. cost,upiava iíív» 
sua missão. . . . . . . . . . . • n 

Liberalidade d^el-rei a favor da missão madureu&e* 300 
Sobre as varias indagações fçitas ao V. Padre. Da, 

pesca das pérolas. » 

Da busca, dos diamantes. . .301 

Da infame seita dos parias «i^^^ 

Prpva-se comum exemplo em quanto desprego elv^r 

ror é tida esta seita. . . . s 3p3. 

Sãp recolhidas as relíquias do P. tI[ç4o de ^ritto, e 

guardada^ em.I^ondichery . . >». 

Caracter do P. João, de BrittQ . 304 

Da imagem da virtude pelo P. António Franco, des- 

^e^p^g. 756 a 8,47. . . .. ...... 39i6 

Do Annus Gloriosu9.,Societ^tis. Je^us^ in,,l4i^j,t^ni^i 

pelo P. António Franco^, de pag. 5^^, a 57. . .3.11 
Da vida do V. Servo de pçus jfoao de Britto, im- 
pressa em, Roma em, 1738. . ... -. • • 3J2 

Da bibliotheca lusitana doa))b^.dç Diogo^ i^a^biQsa Ma^ 

chado, tomo II, pag. 613. . . . . . . . 3^4 

Da hjistoria genealógica da casa real, porD. Aiijtonio, 

Caetano de S^o.ui^a. ... ... ... . • 3^7. 

Da historia da Companhia de Jesus, por Qretine^M,, 

joljr. . . «. 

Parte ly. — Dos, processos . para a,causa da, Beatifi- 
cação do B. João d^ Britto e jBi^a conf4wsao. .319 
Decreto de Beatific^çfÍQ ou declaração do m^rtyrio do 
V . Servo de Dqus Joãp de EriUo, sacerdpfe pro- 
fesso da Conipanj^ia de J^i^^ • . •• •. • ^^' 
Decreto J^eU^porçnse — ^.tíe béatiáeação ,e cimonisa? 
^ção dp. V. Servo de Deus ,Joãô de Br.itto, sac^í^T 
dote professo da Conj^fmhia. de Jesua, sobre a du- 
vida te vista a approvaçaó , dp marty rio, e dos,. 



XXIX 

PAO. 

milagres doeste Venerável, se possa com segu- 
rança proceder á sua beatificação solemne. . . 3Í3 
Farte V. — Noticias sobre a missão do Madure des- 
de a extincçSo dos jesuitas, e considerações ge- 
raes sobre as missões povtuguezas. • . . .336 
Parte VI. — Cartas impulsivas para acanonisação do 

B. João de Britto 348 

Carta do cardeal D. Nuno da Cunha » 

Carta do arcebispo de Braga primaz das Hespanbas. 349 

Carta do arcebispo d^Evora 35 1 

Carta do arcebispo de Cranganor. 362 

Carta do bispo de Leiria 364 

Carta do bispo de Meliapor 366 

Carta do Cabido de Lisboa sede vacante. • . . 366 

Carta da Universidade d^Evora 367 

Parte Vllí — Conclusão. , 360 



:^>;4^4:•£c*o*:•^'C.^*r.*4^4^* : í\*:*; 



i\m 



nm, 






DESD£ O SEU NABCIMBNTO ATÉ Á SUA PAR- 
TIDA PARA AINBIA, ECHBGAJ>A A GOA. 



i <^> i " 



mSCB AO mW^ o V. P. lOJLO DB BIIIITTO. 



O primeko dia deMiarço de mil seis cen- 
tos quarenta e sete, na cidade de Lis* 
boa, nasceu o V. P. João de Brítto, da 
Companhia de Jesiis. Teve por pães a 
Salvador de Britto Pereira, fidalgo da casa de Sua 
Alagestade, o q^al na feliz acclamaçik) do sr. rei D. 
João IV s^ achava seu trinchante, e a D. Brites Pe- 
reira. Âffirmou semjHre sua mSe, que o nascimento 
doeste filho fôra prodigioso ; porque, chegancb-se o 

1 




— â- 

jteilhpo de entrar n^aquelle perigosissima batalha A0» 
mulheres, apenas sentiu os primeiros abalos da na- 
tureza, quando viu nascido um filho ; sendo a bre- 
vidade tantt, e a mçlestigi ^<(^.poQCdí^ >^tse quando 
esperava a»; primeiras dores, se viu livre das ulti- 
mas moléstias ; e quando chegou aquella operaria, 
que introduziu a arte com a modéstia para acodir 
aos perigos d^ tio apertados hora, já bcÊou que ti- 
nha nascido o menino : e se então pareceu nasci- 
meptp prodigioso da imtiif ezn, deppús o vereoios {pr- 
tò milagroso da graça. 

A poucos dias de nascido pareceu que não che- 
garia oom vida ao oitavo, em que havia 4e ser ba^ 
ptisado; Movidos doeste receio mandaram seus pães, 
que logo o baptisassem em casa, e com toda a bre- 
vidade se executou esta determinação, e logo cobrou 
a criança outro alento. No dia, que estava determi- 
nado para o baptismo solemne, foi levado â igreja 
parocbial, que era a de Santo André, para que ao 
«sacramento do baptiMi^ que tinha recebido em ca- 
sa, não faltasse a ceremonia da imposição dos sa- 
grados óleos. 

•Baptisado assim íci plrincipiaiido a vida ila nu- 
trição da ama, e antes de fazer dois annos, foi ser- 
vido o sr. rei D. João IV nomear a seu pae Salva- 
dor de Britto Pereira por governador do Rio de Ja- 
neiro, o qual dispondo por serviço de seu rei sua 
viagem, e partindo-se para o governo, ficou este seu 
jBlho, não tendo dois annos ainda perfeitos, crean- 
do-se entre os peitos da ama e as lagrimas da mãe. 
Passados dois annos, morreu o pae no governo : che- 
gou a nova a sua casa, e como o V. Padre João de 
firkto era o ultimo de três, com que sua mSe se 
jchava, foi este sempre o seu Benjamin, 



^3^ 



C4lPIVU14€| II. 



BA SOA ^EDUCAÇÃO N06 ANHO» DA PVBAICIA. 




ASSADOS aqueUes annos» em que a natureza 
nâo concede aos homens, nem juizo, nem 
discurso^ e chegados os de poder come- 
çar a aprender a doutrina chrísta, e as 
mais, que os pães s3o obrigados a ensitiar, ou man- 
dar ensinar a seus filhos, sua mãe D. Brittes Perei- 
ra, pélas «Ifas insignes virtudes digna ní»»e de tal fi- 
lho, o mandou ensinar 'com os mai» irm3?os comíc- 
io de cátholica insigne, é com cuidado de matrona 
grande. Cmitínuava em aprender o- que fse costuma 
ensinar n^aquella primeira idade, com tanta docili- 
dade de engenho, que nas aeçSes ti5o havia ^e que 
o reprehender, e no estudo havia muita pouco de 
que o castigar. Era ja n^esta tenra idade tio despe- 
gado das vaidades^ e gostos do mundo, que sendo 
moço fidalgo com seus irmãos, e sendo aqudle logar, 
ò que occopam no paço os filhos dos mais illustres 
fidalgos, e o mais gostoso divertimento para os mo- 
ços, com tão ponca anciã solicitava esta assistência, 
como se ella não fora o mais qualificado timbre da 
fidalguia, e o mais gostoso passatempo da mocida* 
de : ia ao paço quando sua mãe dispunha que fos- 
se, e não procurava ir quando ou o não chamavam, 
ou sua mãe o não mandava. 



— 4- 




CAlPlVUIiO III. 



ADOBGB aAAVBHEim, E REGUP|imA A SAIIBE POR 
INTERCESSÃO DE S. FRANOSCO XAVIER. 



WTINUAVA ja OS estudos^ eamda sua mãe 
não cuidava no estado, que lhe havia de 
dar, sem embargo d^ue sempre deter- 
minou dedkal-o' a Beus wi alguma re^ 
lígiio; mas é ceito, que nuniea f(M;mou conceito de 
o fazer {mdre.di^Goi^paohia^. pesque era d^uma con- 
textura t^o dfibil^ qiae lha parecia b9o poderia natu- 
ralmente com o trs^ho. doesta religião sagrada. 
Teocb oi|2e wmíça iJb i4adt3 luifêrmou fi^ravissima- 
meate. Em um dps mais, apitados accidentes da en- 
Sermidade^ qpe npsseus mortaea symptomas indicava 
BAuito pouca d^ratípo da xida, invocou a S. Francis* 
CO Xavi^9 pedindo com viva fé lhe alcançasse de 
Dfeus saude. Instou n^esta petição, que todos os dias 
rçpetin : e v^do sua mSe t3o fervorosas deprecações 
ajuntou a estas também as sjuas^ e de mais promet-^ 
teu aoSf^i^lto Xavier, que se lhe alcançasse saude pa- 
ra o filho, o havia de trazer um wuo no habito de 
S, %wcío. 




— *— 



CAPIVCMI MW. 



fiM DESB!MfP£!fHO DA SACDE RECBBipA VB^TTE O 
HABITO DA GOHt»ANHIA DE JBSUS. 

STA dofinça coBvaleculO), 6 recoQhecQo-r 
do, que $aír d^elU coBi vida fâra ia»H) 
lagrosa p^oteeçSa de S, Fra»ci«oo X«^ 
vier, quaoda saiu fora de caisa; foi ja: no* 
habito de S. Igoacia. Q mesmo foi ver-aa vestido 
coBi a roupeta, que descobrkem-«e u^eUe uns ard^u- 
tissiiQOS desejos de professar aregra, e sc^ir.a vídi^ 
dos que a traziam. Passou o aaso proiaettifia n^eote' 
trajo çom incrível conteBtameBto, com taota inodea*^ 
tia, e compp&tora, que quem õ viine» ^ o poadéras^ 
se, podia cuidar que no faid>ito» ^ue vistíjRi, rouba- 
ra juntamente a S. Iguaoia a regra» §ue deiwca ; « 
poderá ser,, que consídeiiaBdo alie usaste piedosa hhjh 
bo, se re$olvesse a fazer uma re^tÂtuiçSo» «orna kik 
Zacheu, restituindo qioatra por unv promeA^ndo o(^ 
ferecer a S. Ignaeio quatro votos jkht um veatidoí^ 
pois era justo, que quem no habito tomou ^s acci-' 
dentes, em quatro actos de^ outroa tantos votos, sole^ 
mnes tomaâSfS tambc^m a substancia da religião ja-^ 
suitiea. 

Succedeu^ que no aaiBO^ em que o aosao mi»!* 
nine faiia figura de |Kadre da Goi^panhia« send^ m^ 
ço fidalgo (como ja dissftnio^ bouiie ujbi dia, emqua 
lhe foi. forçoso ba^f. dws fepuesi^utacdes» >umá am 



~6 — 

qufe significava que era da Companhia de Jesus, ou- 
tra, em qua mostrava, que era da companhia do 
mundo. Louvável eran^aquelle tempo o catholicouso 
dos serenissimos reis de' Portugal irem â casa pro- 
fessa de São Roque, no ultimo dia das quarenta ho- 
ras á tarde assistir á procissão depois de encerrado 
o Senhor, que aquelles três dias costuma estar ex-^ 
posto. N^esta funcçâo vão as pessoas reaes acompa- 
nhadas de toda a nobreza da corte, e dos contínuos 
da sua casa. Esta procissão faz a communidade dos 
pádreâda Companhia, em que assistem afé 09 novi- 
ços : como o nosâo prodigioso menino o era já inte- 
riormente nos desejos, e o parecia exteriormente no 
habito, quiz n'aquella procissão entrar na companhia 
dos padres, em quanto se não podia metter na sua 
religião ; mas n'este designio o poderia impedir a as- 
sisteneia, que devia fazer na mesma tarde ás mages- 
tades no logar, que lhe tocava. Porém aqui mostrou, 
que jsí n^aquella idade sabia assistir a míiitos officios, 
e cumprir com muitas obrigações. Entraram pela 
igreja de São Roque as pessoas reaes, que eram el~ 
rei Dom Affònso o VI com seu irmão o infante Dom 
Pedro, agora nosso rei, e senhor. Iam no seu logar 
o nosso apostolinho em corpo, que com capa não po- 
dem assistir a seus amos os moços fidalgos ; e does- 
ta sorte esteve no seu logar, reparando todos como unia 
bem as galantarias de palaciano com as apparencias 
de religioso. Dispoz-se logo a procissão, e foi d^allí 
fazer segundo papel na communidade dos religio- 
sos ; para o que chegou á sacristia, tomou a capa 
nós hombros, e uma vella na mão, e mettendo-se 
entre os noviços, foi com beneplácito dos padres to- 
dos na procissão^, fazendo tão própria a sua figura, 
que parecia era aquellá representação um modelo, 



de.que depois havia de ser. Ácabou-se a funcflo, 
poz de parte a capa^ e tornou á primeira assistência. 
N^estas mysteriosas representações, nem o profano 
perverteu o religioso, nem a politica encontrou a 
modéstia. 




-« 




CAJPilVIJIi^ W* 



PBRTBNDB SER ADMITUDO MA SAGRADA RELIGIÃO 
DA COMPANHIA DE JESUS. 



ACABADO O anno da promessa, despiu a rou- 
peta^ e como até então tinha ardentissi- 
mos desejos da ordem, depois os acom- 
panharam as saudades do habito ; para o 
conseguir, começou a rogar ao padre provincial da 
Companhia o acceitasse: eram com tanta submissão 
e com tanta instancia as petições, que parece funda- 
va só na humildade a sua razão, e na instancia a 
sua justiça. Condescendeu o padre provincial coni a 
rogativa do novo candidato, e despachou-lhe a peti- 
ção. Satisfeitos estes desejos, deu conta a sua mãe, 
e lhe pediu licença para os pôr em execução, pois, 
se até ali tinham sido fogo que não luzia, já eram 
incêndio que abrazava : e não podendo deter os im- 
pulsos da vocação, lhe disse assim : 

Minha mãe, e minha senhora, até agora fui de- 
vedor a y. m. da santa creação que me deu, agora 
lhe sou mais devedor pela occasião^ em q\\e me mette. 
Eu jazia enfermo sem esperança de vida, roguei a 
S. Francisco Xavier que me alcançasse saúde, e não 
passaram d^aqui os effeitos da minha afflicção : vossa 
mercê emendou^esta rogativa accrescentando a pie- 
dosa promessa de me trazer um anno no habito de 
Santo Ignacio : assim se fez, e foi Deus tão miseri- 



— d — 

cordk)60y qoe pela intercessão do seo Smito me deu 
a saúde desejada. Vesti o santo habito, e logo me 
senti aíFeiçoado a merecel-o ; busquei a satisfaçfio aos 
ineus desejos procurando ser acceito na sagrada re- 
ligião da Companhia de Jesus: fuiouYido^ e sai des- 
pachado. Os auxílios doesta vocação bem conheço que 
tiveram o seu quasi principio na vestidura do ha-- 
bito, e doesta foi causa a prmnessa, que vossa mer- 
cê fez na minha doença. Com que d«vo a vossa mer- 
cê não só a vida natural, mas a disposição para mais 
outra vida : no gosto de me ter nascido devo a cria- 
ção para á vida da natureza, nà pena de me ver 
enfermo devo a intervenção para a vida da graça : 
agora quero, ({Ue vossa mercê me seja a acredora dd 
outra maior divida^ pela qual me acho empenhado, 
e é o seu beneplácito para o ultimo conpiemeiito de 
todas estas disposições. Eu estou acceito na religião 
da Companhia, e tenho para mim, que S. Francisco 
Xavier me chama : bem sabe vossa mercê que eu o 
invoquei, e que elle me acodíu ^ agora, que elle me 
chama, é justo, que eu lhe obedeça : em me ouvir 
o Santo consistiu a minha vida temporal^ em cor- 
responder agora, poderá ser que se funde a minha 
vida eterna. Isto não é pdr em questão a acCeitação 
do auxilio, é querer que tenha vossa mercê também 
parte n^elld, e pedir, que, para eu merecer mais 
n'este sacrifício, me mande que o faça, a fim de 
ajuntar á circumstancia da victima o merecimento 
da obediência. Não me empenho mais em requerer 
o que sei que vossa mercê me não ha de negar. 

Feita esta proposta, respondeu a mãe com no- 
tável contentamento : Que bem conhecia ser aquella 
vocação por agencia superior do S. Xavier ; que a 
estimava, como favor do Ceu, e que internamente 

2 



se alegrava: por ter um ffliio, qm oom. tafiita resolu- 
ção se âara a Deus ; que ell» o dava de muito boa. 
vMttade; liiM que só reparava na frícompatiMKdade 
(la sua cMfphnção com o traí^ifeo d^aqueHe mstítnto; 
({fle niscessitova áè outro saude mais robusta, que o 
sua. Qesfwodeu o filha com ultima resolução: Beu» 
ebama^me) eu-queno^Ihe aoodír, e por sua- òonto cor- 
re dar^Bie ((M^ços. aeGommodaddd' pora^me oceupar nos 
exeroíaios^ o empregos do novo ekodó a que me con- 
vida* • ■>■'.-■: 






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uiru>é.| ^ s^icfl^da a resfosto da mSe^ 
como e mm> p^teúdente aítfk «ão tw 
nha bastaate AÍadef)ata entrar no Cam*- 
. ponUa, ía contínmndo os neits estudo0« 
e seguraado a sua pert^B^Bo^ Paflsou o tenipo, que 
Ilie iaUavai «com pòucafi^ disposições, e nieim faus- 
to6>, tratou de ir tomar o hAbito, e dar cumprimen- 
to aop seus saatesdescfos oo dia de Expebtasao da Vir- 
gem Seabera uossai o deíipedindo-ise da mBe Ifae 
disse : '• 

Miaha mae» e «Umba eenhera» i chagado 
tempo de «u deixar a vbs0a , mercê por buscar a 
CbristOy pois Cfariato me amou tanto, ({ue deixou 
seu Bae por uae buscar awimi pbrase (seguildo m* 
vi a meu m^atre^ cbmque o evangelista S. J^o con- 
ta que Chiaste affirtno« deixaina ò Pae para Jbuscar 
o minda Vossa mevcé creou-*me para Deus, e Deus 
remin-mn para si. Por nie arriscar este fim^ é ne- 
cessario^ que vossa tíierdè ,mè riSo retarde, jà (jue 
para o meftmõ fim me pnoduxíu, e areou. Deus deu- 
me uma doença mortal^ e por meio d^ella uma ins- 
piração ; porque nas a|Mrtada$ afflicQSes da doença 
me moveu a que diamisse por S. Fraooisco Xavier ; 
e comp eu invdqufei a Ss EtmmoX^m logo o 



— 12 — 

inesoio Senhor me chamoU) pois iio ponto, em que 
me vi com a a saúde, que o Santo me alcançou, co^ 
meèei a sentir fortissimos impulsos de buscar a re- 
gra de S. Ignacio : e agora, que é tempo de acco- 
dir á vocação, me resolvo ao nio perder, e a cami- 
nhar para onde me levam os meus incendidos dese^ 
jos. Esta resoluçSo é independente de toda a obe- 
diência humana ; porque só dar attenção ás inspira- 
ções, e aproveitar dos auxilies, é a primeira obriga- 
ção de quem se deseja salvar. Gonsole-se vossa mer- 
cê muito, porque sendo necessário largar tudo do sé- 
culo para buscar a Deus, eu ainda quando ovou bus- 
car, levo muito do mundo, mas não levo o que là 
me pôde tentar, senSo o que me pôde. servir: levo 
o conhecimento, levo o desengano, e levo o despre- 
so. Conheci o que o mundo dava, quando experi- 
mentei, que no rigor da enfermidade mortal só ine 
«Icánçou saúde a intercessão milagrosa de S. Fran- 
cisco Xavier ; desenganei-me do que o mundo era, 
quando no seu conhecimento vi o pouco, que podia ; 
desenganado com esta luz intellectual, concebi tal 
despre.o do mesmo mundo, que espero na divina 
misericórdia perseverar no aborrecimento do que 
por todos 05 títulos é cousa tão despresivel. Falta- 
me a santa, e maternal benção de vossa inercé, que 
entendo me ^o ha de negar. Se alguma pena levo, 
é precisamente considerar a com que vossa mercê 
fica vendo-me apartado da sua companhia. M^ I>eus, 
cujo império me obriga, lhe dará tão fervorosos au- 
xílios da SUB graça, que na assistência dos seus la- 
vores, não ache menos a minha. 

Ditas estas razOies, e tomada com profunda hur 
mildade, c veneração a benção a sua mãe, despedin- 
do-se cojm umai s^nta inteireza de todas as pessoas 



— i8 — 

de casa, se partiu em companhia de seus dois irmãos 
Clirísto^ao de Britto Pereira, e FeraSo Pereira de 
Britto para a casa do noviciado de Lisboa chamada 
coramunimente a Cotovia ; e alli com as costumadas 
ceremontas despedindo^e dos irmãos, entrou para 
equella dausura, e recdbímento de espirites aiage- 
lieos, onde não ha mais exercícios, qne os espi- 
rítuaes, nem mais cuidados, que os da contem- 
plaçâOy nem mais desejos, que os de servir a Deus; 
para BqueMa escola da perfc»ção, onde o exame é o 
da consciência, onde a ltc(ão é a espiritual, onde a 
oração é a mental, onde os argumentos são os coi- 
loqutos, onde a regra é a de Santo Ignacio, que se 
professa n*aquelle seminário de virtudes. Não se po- 
de dizer mais. Aqui é o deserto para onde Deus 
guiou esta tão querida alma sua, (tòra ali lhe fallar 
ao coração (Ducam eam tn solituiinem^ et ibi loquar 
úd cor ejus)^ e lhe dizer por meio de sobrenatu- 
raes .influencias o fím para que a chamava, e o que 
d'ella queria. Alli lhe mostraria as misérias de 
que a tinha tirado, e a coroa para que a tinha es- 
colhido. Alli sentiria novas rnspirações, novas voca- 
çdes, e novo» auxilies. Alli começariam novos deM« 
jos, e novas promessas, novos reconhecimentos, è 
liovos votos, novos sentimentos, e novos sacrificios. 
Alli se veriam a$ inspirações bem satisfeitas, as vo* 
cações bem ouvidas, e os auxilies bem logrados. Alli 
finalmente diria a Deus : infinitas graças vos dou, 
Senhor, por este tão desejado bem que me concedes- 
tes. Já vejo logradas as esperanças, que tanto me 
affligiam, em quanto se dilatavam, e sua visados os 
incêndios, que tanto me abrasavam em quanto não 
respirava com a branda, e fresca viração do Ceu« 
que corre por estes claustros. Que terrivel considera- 



^««•i para C aíT '* «^«««/«^ * J"^ ^« ^^ 
'« OMtt «,»;I r ^'" «om mais «« .® **'" Já ctei 
^^^aç^T lfS™^«'' « Pat o t*'^' P»« C 



— »5 — 




ejLPi«iJiiO vir* 



1>A VkBS&LVÇiX), PBAlFOil, B APAoVCYrAMISlfTO B9PI- 

«iTUAt, COM Qire PASSOU os dois annòs ^ 

• • • ' « ' ' . • • ■ í 

jjEixADO A^sím' comi e9t» ^íoltiçHo' o ihuD- 
ido, eabrâçMÍa amai cotn este feWor a 
religião^ àea principio taos dois aniitr^ 
da soa proTa^^o, lío» qiiafes' foi d© tatifd 
agrado, e admiração oos siíperfòrèá, e ao^ conhévi-' 
çofl, qaeaqoeliBS, considerada- aí dteérfaaèiS, e exac- 
çãov com (\m os imitavaí, p^insèfâm seus símitlAn'^ 
tes ; eBte$^ observada a bmnitdade; e venéraçKo, com' 
que os servia, pareciam seus superiores. O prfníièirò 
dia, em que vestra a nHipetó' de Santo Ignaetó/ foi- 
O' de NataL N^ste diassriu' ó Verbo DiVino ao man- 
do com o bftbíto da iia(ilii^2a kiinrana^ que Testiti 
na Encarnaç&o : níeste dia safu o nos^o noviço com 
O habito que fiai suai res(>hiç§^ havia procurado/' No 
Verbo Divino o mesmo foi vestir-se der nosiar ' M^' 
manidade, que deixar a Daus (com interpretação 
hyperbolica) para servir os homens: Eocivi a patre, 
et veni in mundum, Joan. 16, 28. N'este noviço o 
mesmo foi vestir o hábito da s^a devoção, que dei- 
xar os homens por servir a Deus. 

Na casa do noviciado se usa fabricar todos os 
nnnos um devotissimo presépio, no qual ao Menino 
Deus nascido fazem vários colloquios os noviços : c 



— 16 — 

Bio 8Ó D -estes colloquioB mostra cada qual o qúe 
deseja, e o que ama^mas passa a devoçdo a escrever 
cartas ao Menino Jesus. Âlli envolta a pia affeiçdo, 
e o juíso, competindo o discurso, e o devoto, mu- 
tuamente se ajudam; porque o juiso apura os dis- 
cursos, e a devoção requinta os affectos. Em cada 
periodo se encerram mil ternuras, que edificam, enr 
cada sentença se constroem mil discrições, que en- 
levam. Observou o nosso noviço este estylo, e escre- 
veu também com os outros a sua carta ao Menino 
Jesus, e nas ultimas palavras do sobscripto poz esta 
clausula : Porte a missão do Japão. 

F(H mestre do nosso noviço o muito refigiosò 
padre Francisco Vitus, o qual confessava titgenua- 
mente, que a vida e acções doeste menino o edificar 
vam e confundiam ; pois via cheia de eans no (proce- 
dimento, a quem mai tinha saidoda puericia: n^el- 
le observava vinculado o principio com o fim, os ru^ 
dimentos do espirito com os augmentosL 4^ perfei- 
ção ; na realidade podia ser mestre, quando fazia papefc 
de discipulo: porque o mesmo era n*eUe aprender 
as regras, e documentos doesta arte espiritual, que 
ç^nsinal-os logo aos outros por obk'a, e por exemplo. 
D^aqui nascia no padre mestre dos. noviços o partir 
cular affecto, com que o amava, e a justa razão com^ 
que o preferia. 




— «— 



C j^IffFiil» arpf. 



KBUA A P|lâGl$«J«, MR7JE OE Ifl^^OA ^A^ «VQRA 
A 4>m mm^V> A9^ ESECPOS. 



ola notável edificação de todos os superio- 
i-ag, « q^panbefucpâ, acabados os dois 
â«p(H) d^ j^iiic^ldo, fez a âua frofisaão, 
^^^^^ e jcom po^a '4U«ç3o em Lisboa foi mu- 
dado paca fivora, para ahí estudar um anno huma- 
nidades, o nn^to philosçfhi^. Com tão excessivo 
disvalo se appUca.^^ oxifi lixrps, que adoeceu por ca\i- 
sa do .estudo : cqnjKalescido tornçiu .9Q3 exercieios de 
estuiajxto ; e, ou p<N:que fosse xontxa as disposições 
do aeu teiftp^najnento .o clima da tqrra ou porque 
^ muita coríoaidai)ey e (ippIícacSo às letras tornasse 
a ser demeiskdOf ^pf^iimou de novo tSo gravemente, 
^e camiohava f 9ra tthysico I(incando já sangue pe- 
la booca. 





18. 




CAPITVKiO IX. 



É MUDADO DE ÉVORA PARA COIMBRA, E N^AQUELLB 

COLLEGIO COM TODA A EFFIGAGIA' PERTENDfi 

A MISSÃO DA ÍNDIA. 



ENDO OS prelados, que a vida doeste reli- 
gioso perigava na assistência d'aquelle cli- 
ma, o mudaram para Coimbra, onde es- 
tudou artes. N'este tempo era todo o seu 
estudo interior buscar meios de conseguir licença 
para passar a uma das missões da Ásia. E' praxe 
da sagrada religião da Companhia não obrigar [a 
sugeito algum âs missões da índia, senão dar licen- 
ça para irem os que não somente dizem que dese- 
jam ir, senão também com repetidos instancias pe- 
dem encarecidamente que os mandem : e não só 
basta apertar instando, mas é necessário dar clarís- 
simas mostras, de que as petições são nascidas de 
verdadeira vocação. Os argumentos, esignaes da vo- 
cação do V. Padre João de Britto eram tão eviden- 
tes, e conhecidos, que fiado no que via praticar 
com outros sugeitos apostados a servir a Deus nas 
missões orientaes, se podia prometter seguramente o 
despacho da sua petição. Porém temendo com gran- 
de fundamento, que sua mãe podia instar com ro- 
gativas muito forçosas ao Prelado para que lhe não 
desse licença, e que estas poderiam conseguir algum 
efifeito contra a sua tão resoluta determinação, es- 



— 19 — 

creveu ao P. geral da Companhia pedtndo-lhe com 
grandes veras o nomeasse missionário para a India^ 
e que de tal sorte commettesse ao P. provincial, a 
communicaçao d'esta graça, que lhe prohibísse re- 
ceber qualquer recurso, que por alguma via se in- 
terpozesse^ para que elle supplicante nSo fosse. 




-»iO — 



tA9i9Wm» %é 




CONSEGUE O DESPACHO DA SUA PETIÇlO SENDO MES- 
TRE DE GRAMMATICA NO COLLEGIO DE 8. ANTÃO 
DA CIDADE DE LISBOA; ESCOLHE A MISSÃO DE 
MADUREI^ E RESISTE FORTEMENTE AOS IMPEDI- 
MENTOS^ QUF SUA MÃE LHE OPPÕEM. 



ACABOU OS quatro annos de philosophia em 
Coimbra com particular applauso, e sin- 
gular nome entre os philosophos da Com- 
panhia. D'alli o mandaram os prelados a 
ler uma cadeira de gfámfíiííticâ no collegio de S. An- 
tão em Lisboa. Estando oecupádo n^esta leitura che- 
gou de Roma a licehçB áb Gorai remettida ao pro- 
vincial, que então érá o P. Manuel Monteiro, com 
ordem, que em plena communidade chamasse o V. 
P. João de Britto, e lhe dissesse que o P. Geral lhe 
concedia a licença, que havia pedido para passar â 
índia como operário de uma das missões orientaes. 
Ouviu o V. P. João de Britto ler esta ordem, e te- 
ve tal contentamento, que não sei qual seria maior, 
se a anciã com que esperava tão boa nova, se o gos- 
to com que viu satisfeito o seu desejo. 

Bestava jà dispor-se para a viagem, e escolher 
missão. Achava-se n'este tempo em Lisboa por pro- 
curador geral de Madurei o Padre Balthasar da Cos- 
ta, que viera tratar negócios da mesma missão, e 
buscar sugeitos para ella, com os quaes havia de 



— «t — 

-partir B» proxioia fnon^ão.para » índia. Houie o 
Y. P. João cleBrfttto de escolher missão» e como ti- 
iihtt ouvido ao dito P. proe^urador^ que a de Madu- 
rei era a em que mais setralMilhava^ eem que mait 
Amcto se colhia, ekgeu esta para n^ella merecer por 
fructo de seus trabalhos e suores a palma, e coràa 
•da rasartyrto. TeVe sua mae d^isto notícia, e accom- 
iilodaiidOHi0 mal com a ausência de um. filho» que 
era toda asuaconsofaiç^o,. e todo o seu alli vkxi recor* 
leu a queinar-^se ao Padre proviaeial, d^ que sem 
Ib^oiazer saber mandaase s^u filho para onda o. não 
haWa tornar a ver mais. Respondeu o P. provincial: 
iquâ d}e nSa mandata para a índia ao Y. P. JoSo 
de BrittOf titoi eoBoovrera para isso, mais que com 
puUícar a licenen do Padre Geral na forma, que o 
iaesmo lhe mandava: e se n^aquelles termos nSo ba.via 
-)A recursK) para que o Y. P. Joào de. Brkq deixas- 
se de ir^ isso £pra effeito da diligencia do dito Y. 
Padre, o qual . com tanto empenho trabalhara na 4i~ 
Hgéncía, e pertonção de ir para as missões, que k- 
citou as portas a todo o recurso ; f que se ahi boa* 
ycitia culpa, er£^$ómente eulps^o iP zelo do^peib^deo- 
.tê, pote .soubera dispor de tal, sorte as execuções da 
sua tão louvável determinação, que nos termos, em 
que estava o negocio, já não tinha remédio. 

Goteo o amor maternal nao deixava conhecer 
os motivos^ eos finsd^aquolla ida, sem, ex^bargo does- 
to d^nengan^ ^pAi aipda instar com diligencia, para 
•ver ae podia «OAseguíj: que aãp Cosse,. revog^nido-se 
o ^ue eatava easeatodo. £ parecendo-lbe que basta- 
rjam os seus iH)g^ para o dissuadir, i nvol vendo san- 
tiâiMtos epmi^zõas e argumentos com queixas, pe< 
4tf^ aor fiJJia a quisesse o^uvir^ )he disse: 

Fiibo^ bu»QastQs a fh^s w ^UgiSe, e eu iive 



tanto gosto de que vós o fizésseis, que a pena de fi- 
car sem a vossa presença me suavisava a conside- 
ração da companhia, que procurastes. Agora vejo 
que subiu tonto de ponto o vosso fervor, que (a 
querer conformar-me com esta extraordinária reso- 
lução, que tomaes, confesso que não sei accommo- 
dar-me, nem posso vencer-me : eu bem conheço que 
a empreza é a mais heróica, que se acha nos actos 
da virtude ; mas nem este conhecimento me per- 
suade a que consinta. Peço-vos, que me não dei- 
xeis em uma saudade, que me ha de custar a vi- 
da ; se o fim da vossa resolução é sacrificar a 
Deus a vida pelo próximo, adverti que a vida de 
vossa mãe ha de ser o primeiro sacrtficio, de que 
vós sereis ministro, quebrando com presumpções de 
cruel os foros da piedade, que manda ter mais rt- 
tenção a uma mãe, que s6 assistida dos filhos pode- 
rá supportar as pensões do seu estado vidual. Nem 
só os que perdem a pátria, ganham o Geu ; nem 
só se salvam os mártyres com victimas, também 
se salvam os confessores com lagrimas ; se as que 
me tem custado a consideração de que me dei- 
xaes, valerem tanto, que por dias me não deixeis, 
perderão a sua amargura, e se converterão em do- 
ces. 

Com as muitas, que n'este passo corriam, pa- 
raram as palavras, as qiiaes fizeram tão pouco abai- 
lo no peito do filho, que não só mostrou o não po- 
diam mover nem divertir estas diligencias, mas an- 
tes á vista d'ellas se confirmou mais nos seus propó- 
sitos. E para o persuadir, fez que não attendia ás 
sobreditas razões, e como se as não tivera ouvido 
disse : que elle ia para onde Deus o chamava, e que 
sabia era obrigado desattender aos homens por obe- 



— 23 — 

decer a Deus. Sem outra satisfação aos terníssimos 
rogos da mãCi foi tratando de se dispor para a viagem ; 
e a principal disposição foi o tomar todas as ordens, 
e dizer missa. Mas sem embaixo de que esta dili- 
gencia podia ser total desengano á pertenção de sua 
mae, ainda assim recorreu a um meio, que lhe pa- 
receu efficaz para o seu fim. 




— «* 




CAVC«iri4l XI. 



VALB-SE SUA MAE DO NUJfdO àBOeTQlUíiOf M A^HãQh 

MAIS OUTRO MEIO PARA IMPEDIR A VIAGEM 

DO V. P. JOÃO DE BRITTO. 



'este tempo assistia na corte o núncio 
apostólico Francisco Ravissa. Mandou- 
lhe a triste mãe representar a desconso- 
lação em que ficava na ausência d^aquel- 
le filho : e que lhe rogava ordenasse ao Padre pro- 
vincial o não deixasse ir para a índia. Pediu-se is- 
to com tanto empenho ao núncio, que se deliberou 
a escrever ao P. provincial interpondo sua auctori- 
dade^ para que revogasse a licença, que tinha con- 
cedido ao novo missionário : porque lhe constava quan- 
to sua mãe sentia mandarem-lhe este filho para* on- 
de era certo o não havia de tornar a ver. Deu-se a 
carta ao P. provincial, o qual vendo-se obrigado de 
lhe pedir, quem Ih^o podia mandar, e vendo também 
que não era fácil satisfazer com resposta que agra- 
dasse, mostrou a carta do núncio ao V. P. João 
de Britto, e disse-lhe : Que elle se via perplexo so- 
bre o que havia de dizer a quem era seu prelado. 
E que, ainda que expressamente não mandava fizes- 
se aquillo, que lhe insinuava, com estes termos lhe 
parecia que mais o obrigava. Bespondeu-Ihe o V. 
P. que se não affligisse; porque elle tomava por 
sua conta livrar a sua paternidade d'aquella perple- 



— ait — 

itiáede, e à-aqmlle cuMado, eqoe para iésú %e»ig^ 
geria o levasse oomsigo á presença do núncio, o qual 
oufindo-o cessaria n^elle o empenho de conseguir, 
e em sua paternidade a dificuldade de responder. 
Veio n^este concerto, e foram ambos buscar o nún- 
cio, a quem disse o provincial : Senhor, vossa illustris- 
sima me escreveu não mandasse o P. JoSo de Britto 
para a índia; eu não o mando: da-Ihe licença onos- 
ío P. Geral; porque elle lh'a pedio para ir. Aqui o- 
trago por testemunha d'esta verdade, e dirá por si, 
e por mim: ouça-o vossa iUustrissima, que a sua re- 
solução é a minha resposta. Ouviu o núncio, e dis- 
se o V. P. João de Britto: 

Se a vossa illustrissima lhe disseram, cfue os 
meus prelados me mandavam para a índia, foi esta 
informação menos verdadeira : elles não me mandam, 
que eu vá, dão-me licença para ir ; quem me cha- 
ma de Portugal para a índia, é quem me chamou do 
mundo para a religião. A primeira vocação foi domai 
para o bem, a segunda é do bèm para o melhor. 
A viagem para a índia pôde ser para mim jornada 
para o Ceu : se perder esta, posso iião achar outra 
monção, a qual, como se encaminhe para o Ceii, 
não se ha de perder por nenhum motivo. Eu não 
só hei de dar conta a Deus dos males, que fizer, se- 
não também dos auxilios, de que me não aprovei- 
tar. Conheço, que Deus me chama, e não acodir 
com presteza a tantos reclamos, que me fem dado 
por sua misericórdia, será provocar temerariamenfte 
a sua justiça. O primeiro motivo, que me leva, é 
baptisar almas, para que se salvem. Se vossa illustris- 
sima me mandar que eu não vá, considere bem o 
que carrega sobre a sua consciência ; e eu fio, que 
se vossa illustrissima o ponderar, não só me não ha 

4 



— io- 
de dizer que deixe de ir, mas me ha de obrigar a 
que vá. Os preceitos injustos facilmente os revoga, 
quem os considera. Supponho que vossa illustrissima 
por fazer obséquios de súbdito para com outrem^ 
fez ostentações de prelado para comigo: mas tam- 
bém creio que esta razão de estado foi mais filha 
da sua benevolência, e da sua politica, que da sua 
justiça, e da sua obrigação. Em íim^ Senhor, eu te- 
^ho posto os pés no caminho, por onde Deus me 
guia com resolução de conseguir o fim, para que 
Deus me chama: vossa illustrissima, se m'o quizer 
estorvar, ha se de arrepender, e eu, em quanto ti- 
ver vida, não hei de desistir. 

Ouviu o núncio estas razões, e, edificado de 
quem as dava, respondeu ao P. provincial, e ao V. 
P. João de Britto : Que elle fizera aquella carta obri- 
gado dos rogos de uma pessoa de singular respeito, 
que lh'o pedira ; que pois conhecia a vocação, que o 
levava, não só o não havia de estorvar, mas que se 
edificava muito de rosolução tão heróica, etão chris- 
tã, tão zelosa do serviço, e honra de Deus ; que lhe 
pedia não entendesse d*elle queria embargar acção 
tão louvável : que fosse com Deus para a sua mis- 
são, e que o encommendasse ao mesmo Senhor. 

Sairam ambos da presença do núncio, um sa- 
tisfeito de se achar livre da perplexidade, em que 
estava, e outro mais que satisfeito de ter vencido o 
ultimo embaraço, que se oppunha ã navegação. Ain- 
da se não dava por desenganada a mãe do V. P. 
João de Britto sem embargo de lhe constar da dili- 
gencia, com que elle tratava de vencer todos os obs- 
táculos, que se lhe offereciam, e da facilidade, com 
que os vencia; mas levada de impulsos próprios 
da natureza, se resolveu a procurar um meio, de 



— 27 — 

quem mais affectuosa, que acertadamente discorre. 
Buscou pessoalmente ejn S. Roque ao P. provincial, 
e lhe oífereceu uma grande esmola para aquella ca- 
sa, se lhe deixasse ficar seu filho em Portugal. Tan- 
to aconselha nas mulheres o apetite, e a tanto obrí«- 
ga nas mães o amor! Teve o provincial esta offerta 
por affronta, e aqueite intento por excesso, e nSo 
admittindo nem a pratica, nem a oQerta, com ra- 
zões muito decorosas, e muito prudentes respondeu : 
Que jâ tinha dito muitas vezes não cabia na alçada 
de seu pçder mandar, que o Y. Padre João de Brit- 
to não fosse para a índia; que se estivera na sua 
mão, e fora licito o fazel-o, não havia de ser accei- 
tando a tal peita, ainda que disfarçada com cores 
de esmola. Foi este o ultimo desengano à pertenç&o 
da mãe. Era isto nos dias próximos à partida das 
náos, e n'estes três dias frequentava o V. P. João 
de Britto as visitas a sua mãe com tanta inteireza « 
como se andara nas vésperas de fazer uma ausência 
para toda a vida. 




— 2« 




CAPivriíO xii« 



EMBARCA^SB PARA A ÍNDIA, CHEGA A GOA, EXPEDE* 
SB PARA A SUA MISSÃO. 



ENDO chegado o dia da vespora da Encar* 
nação destinado para a partida das náos^ 
n^esse mesmo dia foi o novo missioná- 
rio a casa de sua mâe, e sem dizer que 
aquella era a ultima vez, que se avistavam, foi- 
se embarcar no dia seguinte, que foi o em que se 
contavam vinte e cinco de março do anno de mil 
e seis centos setenta e três, e da náo escreveu uma 
breve carta, em que se despedia. Mandada a carta, 
deram as náos â vela, e partiu de Lisboa para a ín- 
dia. Na viagem teve uma perigosíssima doença, de 
que livrou com felicissimo successo, assistindo-Ihe 
sempre á cabeceira Dom Rodrigo da Costa, que nV 
quella monção ia por capitão mór das nãos. Chegou 
â índia, e desembarcando em Goa tratou das dispo- 
sições necessárias para o fim, que o havia levado. 

A primeira disposição foi concluir o tempo, 
que lhe faltava de theologia. Em quanto assistiu no 
collegio de Goa com esta precisa occupação, observou 
aquella vida, trato, e modo de viver, que depois 
havia de guardar, quando missionário, que era dor- 
mir sem cama, não comer carne, nem peixe, mas 
somente legumes, bervas, frutas, arroz, e leite; mas 
qualquer doestas cousas com grande moderação, e 



— 29 — 

pai^ékfiODia. Alétn d^isto vivia nas mais virtudes tti^ 
exemplar, que o podia ser a todos para a imitação. 
Nas penitencias, e mortificações era tão rigoroso 
comsígo, como se contra ò seu espirito não tivera 
maior inimigo, que a si mesmo : e assim parece que 
era ; porque o mundo jà ficava vencido no despreso, 
com gtfe o deixava : ao demónio esperava pela mi- 
sericórdia divina vencer na conversão das almas ; e 
só centra ú mesmo empenhava todas as forças da 
mortificação, e todos os fervores do espirito, pára 
que doesta sorte ficassem destruídos os três inimigos 
da alma, mundo, diabo e carne. 

No mez de abril do anno de mil e seis cen- 
tos e setenta e quatro, tratou de se expedir para a 
missão de Madurey ; mas vendo, e observando os 
prelados os dotes, e talentos, com que Deus o en- 
riquecera (porque sem embargo de lhe faltarem os 
annos ordinários no curso datheologia, em tão pou- 
co tempo o viram confirmado theologo) lhe pediram, 
que ficasse em Goa, e lhe ofTereceram uma cadeira 
de artes, para logo a ler. Escusou-se o V. P. di- 
zendo que não fora i índia para ler cadeiras de 
philosophia, senão para estudar meios proporciona- 
dos, e convenientes para converter gentios. 








^^«•íTt/io ,. 



'^«'•« DB GOA p^« . , 



— 31 — 

Mr> era da provincía do Malai>ar : mas como b ar- 
ãentisstmo zelo de padecer era n^elle acção do seu 
desejo, querendo imitar o grande apostolo do oriente 
S. Francisco Xavier, se partiu a pé para passar 
aquellas celebres serras do Malabar, em cujo cami- 
nho começou a experimentar tão excessivas nftoles- 
ttaSy que só a ardente caridade, com que as baseou, 
lhe podia dar a conformidade, oom que as soífreu. 
Era seu companheiro ou seu conductor o P. André 
Freire superior da missão. 

Na primeira jornada, que fizeram os dois com « 
panheiros antes de entrar nas serras, como era ne- 
cessário tomar guias para as passar (que sem ellas 
se não pôde por alli fazer caminho por causa dos 
muitos ladrões), esperaram junto de certo rio, d^on- * 
de se não poderam recolher tão depressa a casa de 
um homem grave d^alli pouco distante, que escapas- 
sem â grande carregação de agua, que sobreveio, da 
qual ficaram tão molhados, que estando já dentro 
na casa, a que se retiraram, lhes parecia estarem 
ainda mettidos no rio, que tinham deixado. Ven- 
do-os alli os gentios serranos em trajes tão diffe- 
rentes^ dos que usavam os homens brancos na ín- 
dia, foi necessário gastar grande parte da noute em 
darem razão de si, e satisfazerem ã curiosidade de 
multiplicadas perguntas. Foi Deus servido, que acha- 
ram bracmenes d^aquellas terras, aos quaes fallou 
nas suas linguas Tamui, eBádagã o P. André Frei- 
re^ de que resultou terem os dois padres melhor a- 
gasalbado, do que cuidavam ; mas não passou todo 
este de ficarem a um canto da casa sem céa, e sem 
fogo para se enxugarem, estando bem molhados, e 
tei^o por cama a dura terra. 

No dia seguinte mudaram de logar para um 



—82 — 

mato^ onde tiveram melhor conuBodo |)odená<Hie 
reparar do frio» que por meio dos vestidos moJhadoa 
mais seosiv^lmente os penetrava. B nfio foi pequeno 
allivio verem-se jà livres das nimias perguntas dos 
Malabares^ que com sua impertbente ciirio8Íik4e 
tudo inquirem, e tudo querem saber : ^achaqoe muito 
commom em toda a gente d^aqueltasi terras, a qtiid' 
não se contenta até n9o saber de um foraateifo 4^00'- 
de vem, para onde vae, que negocio traz, e ooni 
quem, se tem ainda pae, ^e mSe, se é casado, quan- 
tos filhos tem, e outras similhantes a estas. Dois 
bracmenes, que tomaram por guias, dispozeram por 
seu interesse a jornada de sorte, que partindo ao 
sal posto caminhassem toda a noute. Iam guiando 
tão apressadamente, que mal os podia seguir qpueM« 
sobre ser de poucas forças, tinha .pouco exercício de 
fazer caminho tão largo a pé, como o Y. P. lofio 
de Brítto, que brevemente conheceu era a jornada 
muito além da sua possibilidade. Mas tirando forças 
da fraqueza do corpo por beneficio dos alentos do 
espirito, proseguia alegre o caminho, como se fora 
n'elle muito exercitado. Antes de entrar no mais os** 
pesso do mato, e no mais interior da serra, lhe 
concederam os condoctores algum breve descanço ; 
mas logo proseguiram na maior serraç&o do noote 
por passos infestados de muiJ;os ursos, tigres, e ele- 
phantes com preciso receio de encontrar com algumas 
doestas feras: porém foi Deus servido,. que nfio vis- 
sem mais que um elephante, o qual, posto que seaii* 
«inhasse á estrada, que seguiam, não os aocommet- 
teu ; e assim, ainda que com temor do perigo por 
caasá das feras, e com o trabalho de t9o largo, e 
áspero caminho, acabaram de vencer o d'aqueHas 
serras, andando n^esta noite, e parte do outro dia 



— 33- 

ente I6|^a8. Tto larga, e trabalhosa jornada em tfk> 
breve tempo poderá cangar não só as forças mui ro- 
bustas, mas ainda as que tivessem exercício de si- 
mílhantes viagçis» Umat e, outra cousa faltava ao 
V. P. João de Britto ; porque o corpo era muito 
débil sem costume de andar a pé com tanta conti- 
m^o; jBi^in ^bai^o de terem já pas^do as em- 
pplsi3 40S pés a cbm^as vivaa^ faltava ain^ mais de 
meio caminho por vencer para chegar és teoras do 
Satiamagaiam, onde começa esta christandade pela* 
parte do poente. Gomtndo^ animadas as fraqueias 
.4a cQjTfH) pebs valeqtias do «iisfpirito, pro^^uiram até 
J^bfig^r ^ fim logHr, no qfial. acbarapí já christios, 
CHJa viiiU çaugou toi)ta coi^solaç|to ao Y. Padre Joio 
.4<^.9rítjto^ qf^ o fazia jBsq^qçíçr de tO|da a moléstia, 
que.ftté a|jj;j^ayia pdígçi^^, . 




— 34 — 



€APIVIJK« II< 




AhOtCE NAJOHNADA, E, RECUPERADA A SAUBÍe/ C^- 
TINUA O CAMIJVHO ATÉ CHEGAR A RESIDÊNCIA DK 
COLEY, ONDE FICA POR ALGUM TEMPO. 



iNtiA sido táo ífrueí o trabalho, que defe- 
tro de poucos dias lhe • sobreveib uma 
tòo grave enfermidade, que o pozáá por- 
tas da morte, de que Deus foi servido 
livral-o, dando-lhe saúde sufiiciente para dentro de 
um mez continuar a sua jornada até o reino de 
Ginja. 

Partidos de Satiamagalam, por acharem impe- 
dimento no caminho ordinário, foram obrigados ã fa- 
zel-o por outras serras, que alli ha, nada inferiores 
âs que tinham passado, entre as quaes era uma tal, 
que, ainda subindo por eHa a pé, é necessário em 
partes ir valendo também das mãos, e pegar de al- 
guns arbustos, para a poder vencer, por ser muito 
íngreme. Na passagem doestas serras gastaram dois 
dias, e no ultimo lhe anouteceu no meio de um val- 
le bem estendido com tão grande escuro, que lhe 
foi preciso passar n'elle a noute expostos aos tigres, 
que são por alli muitos, e para se livrarem da sua 
fereza faziam alguns christãos, que os accompanha- 
vam, sentinella por seus turnos. Com esta diligencia, 
t com fogo, que accenderam, se livraram dos tigres, 
que andaram por bem perto do logar, em que pas- 



~3ií — 

saram a noute. D^alli proseguindo o 96|] caminha, 
se encontraram em Comur com o P. António Ri- 
beiro, e em Darmaburi com o P. Joseph Mocharel- 
le^ ambos missionários de. Maf mr^ os quaes com ex- 
cessivo contentamento, e notável caridade os obriga- 
ram a descançar alli alguns dias ; e partindo depois 
d^elles chegaram á resideBoia de Goley em trinta de 
jalho, véspera do grande Patriarcba Santo Ignacio, 
pae de tão insignes missionários» ao qual a gentilida- 
de da Ásia deve as primeiras instrucçòes, e institu- 
tos para os meios da sua conversão. N^esta residên- 
cia com santa consolação, assim dos nossos dois pa- 
dres, como de todos os christSos, celebraram a festa 
do Santo Fundador da Companhia de Jesus. N^esta 
residência de Coley ficou o V. P. João de Briito jáf 
como soa, e foi a primeira que teve na missão da 
Madurei. Aqui se viu mettido de. posse da proprie- 
dade, que tanto pertendeu, e do morgado, porque 
tanto se empenhou. Aqui começou a cavar na vinha, 
e a lavrar na serra da sua tio des^^ada, tão solici- 
tada, e fôo apetecida missão de Madura, 




— 36 — 




CAPIVtTliÓ Hf « 



TKATA-SE D0S>RINCI^I(M9^ FROGÀESSOS, B MAfS 
COill^AS f^fiRYBNOENTÉlS Á MISSlO VB 



ois O home d^e&ta missão, a áaa fama» è 
o que d'eiUá Èe dizra, dea causa a levais 
tantas l^ôas fórb da pátria ao V: P. 
João de firitto^ com -fervoroso desejo de 
letar pára o céu as tílinâs doesta parte da terra» é 
raz9o qqe saibamos ds princípios d^elia, òs progteâ- 
sos; os usos, e o mais qu6 Ibe pertence/ ^ 

E^ Madurei a principal cidade; em que assiste 
o Naíquè rei d^aqiielfé reino, que é uma grande 
parte do vastíssimo império da Narsínga. Doesta cí- 
dade, corte, e cabeça do reino do mesmo nome, to- 
mou o seu a missão de Madurei, a qual é a mais 
gloriosa, que hoje tem todo o oriente. Â esta cida- 
de, como a tão famosa, e celebre, concorriam a 
contratar, e a commercíar os portuguezes, e mais 
cbristdos, que viviam na costa da Pescaria, Ceilão, 
Jafanapatão, Nagapatão, e outras praças do dominio 
de Portugal. E como era grande o numero dos que 
acodiam áquella cdrte por razão do contrato, funda- 
ram n^ella uma famosa igreja com a invocação de 
Nossa Senhora, para [alti ouvirem missa, e se lhes 
administrarem os sacramentos. Fazia officio de paro- 
cho um padre da Companhia de Jesus ; e como .era 



einuiu^te 4Ui U^gua iamul, que é a uoiveraal ^ue 
n'*aqAielies reíao» se falia, todos os fuidres da Compa- 
nh^a^ qye haviam de cultivar as cbrtstaodades da Pes- 
caria, e TriavaDcor, iam para aquelja corte o^irender 
a iiogua com o dito padre. Pelos aotios (mil e seiè 
centos e um, pouco mais ou menos, chegou allj 
çom o mesmo intento o P, Boberto Nobili de sanr 
ta niemoria» de sangue iliustríssiaio da familia df 
Papa Marcello segundo, e i^obrinho do emioentissír 
mo Cardeal Roberto Betlacmino, mas mais illustre. 
por sua insigne virtude, e. singular sabedoria. 
. Apremlen o dito P. Nd)Ui a. língua com par- 
^çfúat cuidado, e tratou de se empregar com arden^ 
t^ zelo na conversão d^aquella gentilidade. ÂUi lhe 
piost^ou a experiência, que o principal impedimen- 
|x>, que obstava â conversão ,do gentilísmo d^aquelle 
dilat^dissimo império de Narsinga, era o baixíssimo 
concerto, que os naturaes faziam, e fazem dos euro- 
peo$, que 1& conhecem, a que chamam . Pranguis, 
nome tãA vil, e indigno entre elles^ que o não tem 
fí nossa liugua mais infame, nem ainda tanto. £ a 
.razão doestes gentios para terem em má conta aos 
europeos, é porque vêm que admittem em suas ca- 
^t e trato familiar a certos naturaes da índia cha- 
mados Pari&s, ouNiger, os quaes entre aquellas gen- 
tes são tão vis e infames, que nenhum género de 
commíunicaçâo teem com elles ; de sorte que os não 
consentem morar nas suas povoações, nem entrar 
em suas casas, nem se servem d^elles para ministe- 
lio algum, por. mais vil e abatido que seja ; se as 
r povoações são de bracmenes, nem pelas suas ruas 
lhes permittem passar. Veodo pois os gentios .que 
os europeos não só se servem dos Pariás, mas que 
,t8(mbeirp osadinitiem a seu trato, e á sua mesa, jul- 



— 38-= 

gam que uns, e outros todos s3o (k mesma relê; e 
que. lhes nfto fazem aggravò em os medirem pela 
mesma razoara. Gòtiíirmam-se n'efita sua opinifto, 
porque tém que os europeos comem carne de Veie- 
ca, bebem vinho de palmeira, e outros simiHiatttès, 
como fazem os Pariás. B^aquí cobraram uma iSo 
entranhayel aversSo aos que communicam com os 
Pariás, que costumam dizer: £' menor mal mor- 
rer, e ir ao inferno, do que ser discipulo de um 
prangui ; no que mostram o errado conceito, qoe fa- 
zem do inferno, e a aversão que teem aos europeos. 
Conhecendo pois tudo isto o P. Roberto Nobi- 
li, e que os gentios d^aquelle império estimayam 
aos bracmenes pela casta mais nobre, e pelos ho- 
mens mais letrados, que ha, nem pode haver no 
mundo, e que só elles podem ensinar a lei, e o 
caminho do ceu, e da salvação, se resolveu, omnt- 
bus omniafactm com intento de os lucrar para Chris- 
to, como outro S. Paulo, a seguir, em tudo o que, 
não era peccado, os ritos políticos d^aquellas terras. 
E como a juizo de Santo Ambrósio, primus discefidi 
ardor nobilitas est magislrif apartando-se da compa^ 
nhia do padre que assistia em Madurei, e era tido e 
havido por Prangui, se vestiu no traje de bracme- 
ne saniás (é o mesmo que religioso letrado) negan- 
do ser prangui ; e affirmando ser saniás romano, 
seguia em tudo o trato politico do estado dos sa- 
niazes, servia*se com bracmenes vestia-se de uns 
pannos de algodão tintos em almagre, e comia so- 
mente um pouco de arroz, alguns legumes, e algu- 
mas hervas: trazia comsigo todas as suas alfaias, que 
vinham a ser uma pelle de tigre, a qual de dia Ibe 
servia de assento, e de noute de cama lançada sobre 
a dura terra ; porque este é o trato, e o traje dos 



^39^ 

penitentes, e religiosos d'aqu6lles reinos^ Com este 
rigor de vida, a que por amor de Deus, e da salva- 
ção das almas se condemnou o P. Roberto Nobílit 
começaram os ^gentios a yel^o com outros olhos ; e 
como nSo estranhavam o traje, que era dos seus sa- 
niazes, nem a língua, porque a fallava com grande 
propriedade e eloquência, ouviram-no com atteiiç9o» 
e foi Deos servido que muitos bracmenes, e outros 
de diversas castas também nobres, conhecendo a fal- 
sidade de seus ídolos, e a verdade da nossa fé, a 
abraçaram eom grande resolução. Este foi o princi- 
pio da miss&o de Madurei. 




Mir 



«M l .^ l8^ff f ffl«1j ^ ^ ^^ 




€APIVlJIi« IV. 



DB COMO OS FADUES DA COMPANlfU 1>E IBgCS SE- 
GUIRAM O BXBMn.0 BO P. EOBBRTO WMnULI, E O 
MODO QUE OBSBRTAIU If A GOI^BRSitO D*A0€BIX4 
GENTILIDADE. 



OMo a experiência ensinou que o estyío^ 
que seguira o P. Roberto Nobili, era o 
mais conveniente, e efficaz para insistir 
na conversão da gentilidade de Madurei, 
resolveram-se muitos dos padres da Companhia de 
Jesus da provincia do Malabar a seguir o mesmo es- 
tylo, e assim, depois de aprenderem com toda a di- 
ligencia a lingua, entraram n^aquelle reino com es- 
te disfarce, obrigando-se aos rigores, que elle pede : 
e os effeitos teem mostrado que foi resolução do Ceu ; 
porque não só pregam estes missionários no reino 
de Madurei, mas lambem no de Tanjaor, no de 
Ginja, e no de Velur : e são já os convertido â nos- 
sa fé muitos mais de cem mil. 

O modo, que os padres observam na conversão 
doesta gentilidade, é o seguinte. Tem cada um dos 
padres missionários quatro, ou cinco catechistas, os 
quaes escolhem entre oschristãosnaturaesd^aquellas 
terras, e são d^aquelles, que os gentios tinham por mais 
letrados antes de se converterem. A estes doutrina, e 
ensina o padre com particular cuidado os mysterios 
de nossa santa fé, e depois de instruidos, vão pelas 



-4i~ 

«MS aUtèas dÍ£€r o catecbismo aos que o qnefwi 

ouvir : e os padres o dizem nos logares, onde estão 
ou por onde passam. Estes mesmos catechistas, alem 
de ensinarem^ a doutrina, teem frequentemente gran- 
des disputas com os mestres das seitas ; e como sa* 
bem os principios falsos em que elles se fundam, 
ordinariamente os confundem com grande gloria da 
ÍL e lei dp verdadeiro Deus. Tombem na hora da 
morte dão o baptismo a muitos adultos, e meninos, 
a que os padres por razão da distancia, e falta de 
noticia não podem acodir. Assistem aos moribundos, 
e os ajudam n'aquella hora a fazer o qu^ devem : 
dão sepultura aos mottos, e to.do;s os dias á noute 
ajuntam os cbristãos da terra, e com elles resam as 
ladainhas de Nossa Senhora, e fazem exame de con- 
sciência. 

Depois que o catechista tem dito a doutrina 
christã, e achçi que os que a teem ouvido» estão suf- 
ftcientemente instruidos faz aviso ao padre, para que os 
venb^ baptisar. Com este modo mostra a experiência 
a evidente utilidade, que se segue ; porque um anno 
por outro recebem o santo baptismo cinco mil almas. 
Não deixam com tudo assim os padres, con^o os 
catechistas de padecer gravissimas perseguições dos 
gentios, as quaes também se estendem aos cbristãos 
TH>vamente baptisados; o que elles sofirepi com tan- 
ta , constância, e valor, que parece aquella igreja um 
retrato da primitiva : e fora necessário para í^s re- 
ferir fazer um grande tratado. São também muitos, 
e mui. milagrosos os favores, com que Deus vae re- 
gando estas novas plantas da sua fé. 



— 42 — 




CAPivriiO V* 



BAS KISSIDENCIAS, QUB tElrf A BIISSÃO DB MADVRVÍ. 



^TÉ agora dissemos da missão emcommum; 
agora (aliaremos d'ella. em particular, re- 
ferindo o numero dâs suas residências. 
Nove residências ha hoje n'esta missSo, 
isto é no anno de mil eseis centos e noventa e se- 
te, e só nove padres, que as cultivam, das quaes a 
que está mais para o norte é a de Agarão : esta tem 
christãos no reino de Golocandá, no de Vessur, e 
no de Ginja, e de norte a sul tem quarenta léguas, 
que tantas sao da celebre cidade de CanjaburSo até 
o rio de Velatro: e de leste a oeste mais de vinte e 
duas, que mais se contam da cidade de XemgamSo 
ás praias do mar do nascente. 

A segunda residência, que se segue á deAga- 
rão para o sul, é a de Callur, que começa no rio Ve- 
latro no reino de Ginja até o celebre rio Collarâo, 
que divide d'este o reino de Tanjaor, e n'este se es- 
tende até os seus últimos limites no cabo de Guilt- 
marú : tem de norte a sul mais de quarenta léguas, 
e de leste a oeste mais de dereseis. Sendo tSo dila- 
tada, não tem logar algum seguro, onde sem assal- 
tos dos gentios possa assistir o padre, que a cultt^ 
va, dois meies ; e lhe é necessário andar continua- 
mente em uma roda viva. 



GOA 



MAPPA DA^MISSAO DO MADURE. 
Âniyrym «^ fwtttdtu e^m a tê^a o 
O logar do mariyrio d^MJomi de^BriUò 
tem. o nynal « 




— 43 — 

A terceira residência é a de Nandavanapaly ; 
esta terá de norte a sul quasi vinte léguas, e de nas- 
cente a poente quatro. A ella está sujeita parte do 
numero da christandade do reino de Tanjaor, e Xo* 
lamandplâOy que é grande parte do reino doMaravá. 

A quarta residência é a de Golupaty janta com 
a de Tricbírapily : fazem ambas uma residência por 
as cultivar um só padre ; ha passante de vinte « 
cinco léguas de districto, em uma e outra. 

A quinta residência é a de Mulipaty, a qual es^ 
tá annexa à de Madurey, e terras do sul. De norte 
a sul tem n^esta forma perto de cincoenta léguas, • 
outras tantas de leste a oeste. 

A sexta residência é a de Varagapaty, a qual 
do nascente ao poente tem mais de desoito léguas, 
e de norte a sul pouco mais de cinco : e sendo das 
residências de menos districto, tem sem comparação 
maior numero de christãos. 

A sétima residência é a de Anacareypaliao, a 
qual tem de norte a sul vinte e quatro léguas de dis- 
tricto, e de nascente a poente quasi o mesmo, « 
grande numero de christãos. 

A oitava residência é a de Ellamangaldo ; does- 
ta residência, o da de Ganacavarey consta a provín- 
cia de Satiamangalão, e terá a residência de Ella- 
mangalâo trinta léguas de districto, quinze de nor- 
te a sul, e quinze de nascente a poente. 

A nona residência é a de Ganacavarey, a qual 
tem a mesma dimensão, que tem a de Ellamanga- 
lâo acima referida. 

Além das sobreditas residências, ha n^esta mis- 
são a residência de Goley a mais moderna de todas : 
porém está tão estendida, que não só tem christan- 
dade no reino de Ginja, mas também no de Velur. 



— 44-- 

E por edta causa foi necessário dividil-^ ém duas, 
ficando um missiotorio com ametade para o norte, e 
outro com ametade para o sul : é como grande parte 
da christaudade do reino deTan|aor, que pôr este ru- 
mo se avisinhava mais á residência de Goley^ qae á 
residência de NandavarnSo, cujo padre milionário tem 
por Sua conta os cbristãos d'aquelle reino, difficul- 
tòsamehte podia ser cultivada pelo dito padre, ficou a 
tal christandade aggregada â residência de Gotey, 
de que eia missionário o V. P. Jo5o de Britto. 




— 4« — 



gmmmm: 
Ififfmmlii 



immmí^ 



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CAPITUIiO VI» 




BE AUUMAS COUSAS NOTAV£IS» QUE SUCC£D£EAH . 

NA RBSlDENaA DG GOLEY DEPOIS QNE N^ELLA 

ENTROU O V. PADRE JOÃO DE pRlTTO. . 



NTRE muitos j)rodígios9 que succederam 
na residência de Coley depois que n^el- 
la entrou o V. P. João de Britto, é es* 
te uDi. Tinha oV. P, dado acertochris* 
tào um oliio devibora, dos que vem da ilha de Mal- 
ta, com os quaes por intercessão do grande aposto- 
lo das gentes S. Paulo, costuma Nosso Senhor li- 
vrar a muitos, não só do veneno das viboras, mas 
também das mordeduras dos mais venenosos animaes. 
Mandou-o o chrístâo engastar em um anel ; e contou 
a seu tio que era gentio, o que o V. P. lhe tinha 
dito da sua virtude, e efficacia; mas elle zombando 
d'isso mostrou não fazer caso algum do que se lhe 
affirmava : com tudo levado da sua curiosidade que- 
rendo dar a entender, que se enganava, no que tan- 
to encarecia, mandou bater o mato, d^onde saiu 
logo uma monstruosa cobra ; mostrou-lhe a mão, que 
não tinha o anel, em que estava o olho da vibora, 
e escondeu a outra, em que o trazia : mas vendo que 
a cobra vinha para o morder, lhe poz diante o anel, 
com cuja vista caiu logo alli a cobra morta, sendo 
d'este maravilhoso caso mais de noventa a,s teste- 
munhas, assim christãos, como gentios. Mas foi tão 



— 46 — 

grande a cegueira dos incrédulos, que nem com si^ 
milhante milagre abriram os olhos. 

Como ao Y. P. João de Britto tocava cultivar 
a maior parte da christandade do reino de Tanjaor, 
foi necessário fazer uma casa, e igreja na povoação 
além do rio Gollarão chamada Tantuancheri, onde 
a seus tempos commodamente acodiam aquelles po- 
bres christãos. Para esta obra conduziu muito o par- 
ticular favor de dois príncipes gentios, que não só 
lhe deram licença para n'esta sua terra fazer a igre- 
ja, mas também lhe deram cartazes firmados, para 
que em todas as mais do seu dominio deixassem as- 
sistir o dito V. Padre, e lhe consentissem pregar a lei 
de Deus sem impedimento, nem contradicção alguma. 
Pareceu justo ao V. P. João de Britto visitar pes- 
soalmente os dois principes, que eram irmãos, o 
que até alli não tinha feito, senão por terceiras pes- 
soas: e resolvendo-se a fazel-o, foi acompanhado de 
dois bracmenes christãos, que valem n^aquellas ter- 
ias muito para auctoridade da nossa santa fé ; porque 
entre estas gentes e n^estas terras são tidos os bracme- 
nes por uns deuses. Na visita lhe fizeram os principes 
notáveis honras, promettendo todo o favor para quanto 
intentasse fazer nas suas terras em ordem aos em- 
pregos de missionário, e para o que mais quizesse 
encommendando-se com particular benevolência na 
sua benção e orações. 

No tempo, que o V. Padre foi visitar os princi- 
pes, lhe era necessário estar retirado de Goley por 
causa das guerras do Sabagí, e foi aquella uma das 
occasiões, em que experimentou, como lhe era de 
grande utilidade a casa, que tinha feito em Tantuan- 
cheri, onde em paz pôde acodir aos christãos de 
Nolamandalão no reino de Tanjaor ; se bem não 



— 4T — 

podia acodir sem muito trabalho aos pariás, por 
lhe ser preciso il-os ver de noite em raião de serem 
gente de inferior condição, e estarem n'aquelle logar 
muito visinhos ás povoações dos bracmenes, onde não 
podem sem muita nota apparecer de dia. 

Com as alterações da guerra, que n^este tem- 
po iazia o tyranno Sabagi n^aquellas terras, foram no- 
táveis as perturbações, que padeceram as residências 
do reino de Ginja ; por cuja causa era no V. P. 
João de Britto excessivo o trabalho de acodir áquel- 
les chrislãosy aos quaes, por despejarem com os pai* 
canos as suas terras, lhe ficava difficultosissinu) vi- 
rem aos postos, aonde os costumava levar a sua de- 
voção, para receberem do seu padre a doutrina, e 
os sacramentos; mas vencendo muitas difficuldades^ 
vinham como podiam, e não só os çnsmava, mas 
os consolava em tão grande afflicção. Por não poder 
produzir a doutrina tão copiosamente pelas incle- 
menciaè da guerra, foram n^aquelle anno os baptisados 
da dita residência só tresentos e noventa, e o» ca- 
techísados duzentos. 





-^*Ô — 



€AFI*lJiiO Til. 



KEFEREM-SE QUATRO MARAVILHAS, QOE SVGC;Ef>EflÀltf 
WA SOBREDITA RESIDÊNCIA, QUA^ÍDO A GOVERNA- 
VA O V. P. JOÃO DE ERITTO. 



O tempo, em qae assistiu, e cuHrvéu 
aguella residência de Çoley, succeéeram 
n'elh notáveis maravilhas áfavot da ver- 
dade de nossa santa fé. A primeira sug- 
cedeu lem Tinepiambíao, onde um moço dé iddde 
de deseseis annos ouvia contra vontade de todos os 
parentes alei de Deus; eoV. P.Joao de Britto, pdr 
ver sua muita fé, Hie deu o santo baptismo depois de 
elle ter ouvido seis mezes o catechismò ; já baptisado 
mostrou grandissima fé nas perseguições, que lhe fize- 
ram pae, e mãe, e mais parentes gentios, as quaes 
venceu com grande constância. Adoeceu pois este 
moço gravissimamente, dizendo uns que a doença 
era peçonha, outros que era lepra ; e os médicos pa- 
ra o curarem, pediam grande quantidade de dinhei- 
ro : mas os parentes gentios (como costumam) di- 
ziam ser a doença castigo dos seus deuses pelos ha- 
ver deixado, ese fazer christão, eque só arrenegado, 
e tornando-os a adorar o curariam, e nôo de outra ma- 
neira. Vendo isto o bom christão, se encommendou 
muito de coraçSo a Nosso Senhor, e fez um voto a 
S. Francisco Xavier, para que lhe desse saúde. Dei- 
tou-se á noute tào enfermo, que todos o tinham por 



— 49—^ 

ificoravei, e levantou-^se pela manhã tSo Ao^ e va- 
lente, que nem signal de doença lhe ficou. Veio logo 
á igreja, que distava « oito legoas da sua povoação ; 
e com muita devoçSo se confessou .e commungou, 
cumprindo a seu voto, que era de meio tostão para 
cera. Este caso confessavam succeder os mesmos gen- 
tios, e o contava, e affirmava sua própria mãe, a 
qual» ainda que gentia, ficou admirada, e d^alli co- 
meçou a dispor-se para ser christã. 

 segunda maravilha foi a que succedeu em 
Marayãp, onde um christão disse a um parente seu 
gentio, que estava enfermo, tratasse de ouvir a lei 
do verdadeiro Deus ; porque só n^elia bavja salvação. 
Assentiu a isto o enfermo, o qual depois de ouvir 
alguns dias o catechismo, e bem instruído nas cou- 
sas da fé, com muita devoção, e lagrimas recebeu 
o santo baptismo, e dentro em breve espaço espirou. 
Entre outros, que n^aquella occasião alli assistiram, 
ioi um seu parente gentio da infome seita do Lori- 
gão, e sacerdote dos idolos, o qual em. espirando o 
novo baptisado começou a gritar com grande admi- 
ração, dizendo : não vedes a alma do novo christão, 
que vae com extraordinária pompa, e magestade em 
um carro triumphante, cercado de admirável luz, pa- 
ra o ceu? Os christãos, que alli assistiam, ainda 
que ctfm os' olhos corporaes não perceberam aquella. 
visão, deram muitas graças a Deus Nosso Senhor pe- 
lo successo ; e os gentios, vendo que o seu sacerdo- 
te não mentia, deixaram com a luz da divina graça, 
com que Nosso Senhor lhes illustrou os intendimen- 
tos, e affeiçoou as vontades, as trevas. da gentilida- 
de, e se converteram mais de trinta á nossa santa 
fé ; e muitos depois d^isto á vista doesta luz abriram 
05 olhos, e se fizeram christãos, ficando ainda sepul- 

7 



t(fdò em seus erros aquèliç cego sítcerdote, que nte 
quiz âbrtr os olhos da alma, para se converter a 
Deus. 

A terceira maravitfaa foi ^ que «uccedeu em 
Mattir, onde estava uma bracmena gentia irmã dos 
bracmènes christSos, a qual fN>r se ver perseguida, 
Mavía muitos annos, do diabo, quecruelmente a mo- 
lestava, ouvindo dizer as muitas maravilhas, iqiie 
Nosso Senhor obrava por meio de seus pregadores, 
mandou pedir ao V. P. JoSo de Britto cinza benta, 
para eom eilá se Armar contra odemoiíio: mandoti- 
lh*a"o V. Padre com este recado: que advertíase 
que para Noíiso Senhor a fovprecer, era necessário 
deixar' o Culto áò» idoios^ e adorar semente ò verr 
dadeiro Deus do ceu e da terra; com esta condição 
poi a bracifiena perseguida do infernal inimigo {i 
cinza na cabeça, e fogo se viu livre dos tormentos 
que o demónio lhe dava. 

A quarta mairaviHia foi ^ que succedeu , em 
Tutturancheri, e em Catagucipattre, onde as searas 
por causa da lagafrta^ que lhes deu, se viram qua^i 
perdidas. Vieram oa gentios pedir ao V. Padre re*- . 
médio para tanto damno : deu-Ihes agua benta p«ra 
que em nome de Deus omnipotente à lançassem cojm 
fé nas searas : succedeu o^ remédio ; porque a lagar- 
ta morrefU logo toda^ e aa searas fructi6caram cor 
piosamente, como viu o mesmo V. Padre ; e acre- 
ditou mm a verdade d^esrte prodigio o padecerem 
as searas vísinba^^ que nSo participaram da agua 
benta, lastimosa esterilidade ^ por causa . d^aquella 
praga. 

Com estas, e outra« maravilhas acredita Deus 
A^aquella missSo a verdade de sua fé, o infinito do 
sua <imnipotehcia, e o zelo dos seus missionários, 




— 81 



€APIVVIiO VIII« 

R^F£fiE'SE IJJI|[ CASO, BM QUE O V. PADRE, E SEUS 
. COMPANHEIROS EXPERIMENTARAM OS PRODIGIOSA 
> DA DIVINA PROVIDENCIA EM SEU FAVÒr. 

^NTHÍs estes prodígios pareee que foi ma^ 
ntvilfaa maior livrar Deus nosso Senh<M: 
o V.. Padre João cfóBritto, eaiguos coiiir 
penfaéiros que cota ellè se achavam de 
um extraordinário dilavio^ que sobreveio iqueUas 
terras em dezembio de seiscentos setenta esete : foi 
o caso. 

Assistia o V. P. Jofto de Britto com dezesete 
companheiros chrtstãos na casa, e igreja, que havíja 
feito em Tantuancfaeri, janto ao rioGoliarão, de cur 
jo logar lhe haviam affirmado os iaturaes d'aquçlla. 
povoação, que nunca alli havia chegado o rio, por mais 
extraordinária qud fosse a sua enchente: e as$im o 
affirmava também a eminência do logar, em que es-i 
tava a igirep, e casa, que o V. P« João de Britto 
havia edificado; e isto fev entender ao V. Padro. 
(pois alir lhe era necessário assistir,) que ficava se- 
guro de que a enchente do rio o podesse lançar fo- 
ra do posto. Estando porém recolhido em uma nour 
te com os seus christãos, ouviram que na povoação 
se davam grandes vozes, e suspeitando o que seriai 
se levantaram todos a fempo, que a i^ua • já entra- 
va pelos caiios que se tinham feito, para que a que 
chovia no pateo da casa, e na igreja^ fosse para ío- 



— sa- 
ra. Víram-se os pobres christãos excessivamente af- 
flictos^ e perturbados na maior serraçSo da noute, 
cercados de um mar de agua, sem luz, sem tino esem 
conhecimento algum doeífeito, que se poderia seguir 
a tão grande perigo, que é nos trabalhos a maior 
afflicçHo. Entre os evidentes riscos de tão impensada 
perturbação, o V. P. João de Britto, ou porque fos- 
se dotado de um v^Ior tão grande como a sua vir* 
tude, ou porque esta lhe desse n^aquella occasião 
novo valor, nunca perdeu o animo ; antes com todo o 
que se podia esperar do mais alentado accordo, os 
consolava, e confortava : e mandando tapar os canos, 
por onde a agua entrava no pateo, se foi com os 
christãos para a igreja encommendar a Deus o ne- 
gocio : e ainda que lhe occorreu passarem todos pa- 
ra um arvoredo, que ficava visinho menos de um 
tiro de pedra em logar mais alto, não se resolveu a 
isso, assim por não ter certeza do que as aguas ti- 
nham crescido, como por estar aquelle logar cheio 
de cobras peçonhentas, de cujo veneno não pode- 
riam escapar nas trevas da noute, quando livrassem 
com vida d'aquelie diluvio. 

Foram crescendo as aguas tanto, que chega- 
ram ao mais alto das paredes da cerca ; e sendo to- 
das de terra, como as mais da casa e igreja, ao 
amanhecer começaram a cair por aquella parte, que 
ficava defronte da igreja, e foi particular mercê de 
Deus ser já de dia. Entrou a agua com tanto Ím- 
peto, que o V. Padre, e os mais se acharam com 
ella pelos peitos. N^este aperto só restava por ul- 
timo remédio passar para o arvoredo : assim o fez 
o V. Padre, e os outros christãos, dando«lhes já a 
agua pelo pescoço, e isto passando, e pisando mui- 
to$> e agudos espinhos, que atravessavam os pés ; 



— 53^ 

valendo-se Doeste extraordinário conflicto das ruioas 
de uma casa, que antigamente alli se tinbo fabri-^ 
cado em cima de duas murajhas de terra, que jit 
estavam cercadas de agua, se salvaram. Depois que 
o V. Padre com os mais (por todos eram deioito 
pessoas) molhados, e tremendo com frio se viram no 
dito posto de algup modo seguroa, trataram de re- 
colher um pouco de arroz, que tinham em casa, pa^ 
ra nio perecerem alli todos á fome : porém cresce- 
ram tanto as aguas, que já senão podia ir pelo ca- 
minho, por onde tinham vindo, nem por outra par- 
te, senão a nado : e assim foi um christão, que so 
aventurou, pelo meio da corrente, e nadando trou- 
xe soccorro para todos, quede outra sorte perece* 
riam. 

Estando pois alli todos, e oV. P.loSó deBrit- 
to com oito, ou nove pessoas em cima de uma ban- 
ca, em que ao comprido n\al se podia deitar uma 
pessoa, se viram em outro grande perigo, e não de- 
via ser pequQDO o que á vista dVste parecia grande. 
Este foi não só o das cobras peçonhentas do. arvo- 
redo, que os podiam morder, mas outro ainda maior ; 
porque as cobras de grandeza disforme, fugindo tam- 
bém da inundação das aguas, vinham pára se livra- 
rem d'eUa buscar o mesmo logar, em que estava o 
V. Padre com os mais, o que a todos ameaçava 
evidente risco da vida, do qual se livraram, valeh- 
do-se em primeiro logar da milagrosa terra, e olhos 
das. víboras de S. Paulo, e depois da diligencia, com 
que postos em vela de dia e de noute, tratavam de 
as matar dentro na agua desvíando-as, quando que- 
riam subir a parede, em que estavam, e assim foi 
Deus servido que nenhum fosse mordido d^ellas. 

Começando a enchente n^ sexta feira dezeset« 



— S4 — 

de dezembro de noute, ao sabbado deu iàdicio^ de 
ir vasando. A^ vista de t9o alegre signal já o peri- 
go parecia menos feio, e jà podiam esperar melhor 
successo ; o assim se consolaram todos esperando cada 
qual yer-se livre ao menos de perigo moralmente cer- 
to, qoando se não vissem livres de aíSicção tão terrí- 
vel. Mas durou tão pouco o gosto, ou «llivio doesta 
esperança, que no domingo se viram crescer as aguas 
maif, do que até o sabbado faaviam subido : então 
se deram totalmente por perdidos, se Deos mila^ 
grosamente não dispozesse algum meio, por onde 
líviussem. Mas foi este Senhor servido, que pai^ssé 
a agua, faltando somente para os submergir cres- 
cer mais um palmo sobre a altura a que havia che- 
gado ; e quando n^estes termos lhes fosse possível 
subir aos ramos das arvores, lá tinham certa a mor- 
te nas mordeduras de itínumeraveis bichos peçonhen- 
tos,^que acoçados da inundação, por salvarem as vidas, 
occupavamas mesmas arvores. Em tão perigoso e hor- 
rendo conflicto estavam alguns attonitos, consideran- 
do na falta da terra a sua morte, e na sobrada agua 
a sua sepultura : mas como importa pouco faltar a 
terra, a quem não falta o ceu, com a suspensão da 
chuva, e diminuição das aguas, foram experimen- 
tando menos perigo n^aquelle diluvio ; no meio do 
qual ^houve alguns, que tendo melhor eleição só se 
dispunham para bem morrer com os actos de con- 
trição, que faziam. A todos em tão grande aperto 
animava e consolava o V. P. João de Britto com 
o costumado valor, com que despresava os maiores 
perigos, e com a santa conformidade com que tole- 
rava os maiores trabalhos, pedindo a todos se con- 
formassem com a vontade de Deus, a quem tanto 
deviam. Foi este Senhor servido por sua infinita mi- 



— {»5 — 



s«ricorâiaj que ao terceiro dia diminuissem ás aguas 
de maneira, que poderam sair de t3o grande infor- 
túnio, dando todos muitas graças a Deus por os ter 
livrado da morte, que parecia inevitável. 




—u — 



iM:^!f-m-.^Ámxmi:^:*'M-i^.*m-m^ 




CAPITVIiO IX. 



BEEDIFICA A IGREJA^ PASSA AOS BEINOS DE GINJA E 
DE TANJAOR, VISITANDO AQUELLAS CHRISTANOA- 
DÉSy E FINALMENTE ASSISTE Á PRECIOSA MORTE 
DE UM INSIGNE CATHECHISTA. 



OMO O V. P. João de Britto ficou sem 
casa, por haver caido não só a sua, mas 
também em grande parte as da povoa- 
çSo, que era toda de gentios, foi-lbe 
preciso ficar n'aquelle ]ogar húmido, e cheio de lo^ 
do, onde fez uma choupana, ou ramada ; e n^este tSo 
desabrido, e tão desaccommodado sitio, accompanbado 
dos seus poucos christâos, entre o frio, que causava 
o tempo^ entre a pobresa que occasionava o desem- 
paro, e entre o descommodo, que dava de si o Io- 
gar, e a presente occasiâo, passou a festa do Natal, 
sendo todas estas mysteriosas círcumstancias prodi- 
giosos pintores, que áquelles christãos retrataram o 
desamparo, a pobreza, e o frio, que padecera o me- 
nino Deus nascido na lapinha de Bethiem ; e foi tão 
misericordiosa a providencia divina, que, sendo o V. 
Padre de tão poucas forças, saiu doeste perigo, e 
doeste trabalho com a mesma saúde, conservando-lh'a 
Deus Nosso Senhor quasi milagrosamente. Estando 
porém na sua pobre choupana tão exposto ás in- 
jurias do tempo, que o perseguiam, e ès misérias 



— S7 — 

da f6loxfi!t9íj que o apertava», M?e carta àoê deb 
príncipes, que elle visitou (como acima viiiios), ot 
<fmes com a niesnaa corteiafaía, com que átè «Mi ae 
Ibe faavuim mostrado benévolos^ Ibe oflèreeiaim anãs 
próprias casas^ se ae dignasse de ir morar n^eHaa» e 
que, . quasdo se resolvesse a ficar n^aqaeUe posto, 
Uie maudariam ftaer nova habitação. Com este ofie- 
peoimento tio filho de nobres ânimos, teve o V. Pa-^ 
dve noto motivo de dar graças aDeus^ que permeio 
doestes principea gentios o favorecia ; e assim se re* 
solveu a fazer nova casa, e i^]a no mesmo logar 
em^ qve tinha escapado com vida : e posto qué teve. 
Hittitascontradicçdes, todas se venceram com o favor 
dm mesmos príncipes, e muito mais pelo favor de 
Deus, por conta de quem corriam os progressos de 
uma vida, que eite guardava, para com ella dar tan- 
tas acclanacSeSy e tanta gloria á suo igreja.^ 

Reedificou pois a sua igreja de Tantuancheri, 
e reedifioada, lhe (bi preciso passar ao reino de Gin- 
ja^ paraacodir á^s cbristandades da residência de 
Gaitur, qfue allí tinha á sua conta. E sem embai^go 
de liie 5cr necessário todo o tempo, para baptisar os 
catecumenos, confessar, e commungar os christdos, 
cmsòlar, e ajudar os moribundos, responder, e sa< 
tisfa^er 6s disputas dos gentios, andando sempre em 
uma continua fadiga, edificou na dita residência uma 
igreja e casa ; na qual, no anno de mil e seiscen- 
tos setetita e oito celebrou a festa daPaschoa, eom 
grande ornato, e maior concurso dechristãos. Assis- 
tindo, ou, para melhor dizer, andando n^esta residên- 
cia desde o principio do anno de mil seiscentos e 
setenta e oito, até á Paschoa da Ressurreição do 
mesmo anno, passou á provincia de Patidanallor no 
reino de Tanjaor, e buscando logo a sua igreja de 

8 



— 58-- 

Tantuancheri, tratou de baptisar os catecumenos» 
que havia pelas terras circumvísinhas, e confessar 
e administrar a sagrada Eucharistia aos christãos que 
concorriam â dita igreja, Satisfeita esta obrigação, 
se partiu para a província deCombuconão para aco- 
dir aos enfermos e moribundos, que n^aquelle anno 
foram alli muitos, pela grande falta que houve de 
ehuvas. E recolhendo-se outra vez para Tantuanche- 
ri, lhe chegaram novas, que um velho catechista cha- 
mado Navamarti estava muito mal ; e sem embargo 
de se achar n^aquella occasião com uma chaga em 
um pé, que lhe impedia o andar, não só se poz lo* 
go a caminho (sendo de noute), mas andou na mes- 
ma noute, e três horas do dia seguinte a jornada 
commum de dois dias. 

Chegou a Gabalacuri, onde estava o catechista 
enfermo, ao qual confessou, é deu a santa uncção. 
Recebidos os sacramentos, cheio de anãos, e traba- 
lhos padecidos pelo amor de Deus, e do santo Evan- 
gelho, espirou nas mãos do V. P. João de Britto, 
pagando Deus Nosso Senhor as virtudes da vida com 
a felicidade da morte. Foi tão grande o sentimento 
dos christãos na morte d'aquelle bom pae, que cho- 
rando a sua perda se lastimavam considerando-se 
orphãos, e se lamentavam por se verem sem tal ca- 
techista, e também porque ò servo de Deus sem 
perdoar a trabalho algum acodia -aos christãos de 
dia e de noute, por sol^ por chuva, e por tempes- 
tades, com tal alegria e diligencia, que a todos cau- 
sava admiração. Era tão obediente aos padres, que, 
sem nunca interpor escusa, fazia logo o que lhe 
mandavam ; frequentava com notável devoção os sa- 
cramentos : tinha dom ' de lagrimas, porque ouvin- 
do, ou lendo algum milagre, jà se banhava n^ellas : 



69 



tinha particular compaixão dos pobres, aosquaes «o- 
licitava o remédio nas sua$ necessidades, acodindo^ 
lhes com quanto tinha. 





60 



CAPITVIíO X. 



PARTE PARA MANARGOILO, £ d'aHI PARA GARABAN- 
TÚ, ONDE CONVIDA Á DISPUTA DA LEI PE DEUS 
OS SACERDOTES DOS IDOSOS. 



AZBNDO alli O V. P. João de Britto as 
exéquias âquelle bom servo de Deus, e 
do próximo, passou para o sul á pro- 
yincia de Manarcoilo, onde administrou 
os sacramentos aos christãos que alli havia, os quaes 
cobraram com a vista do V. Padre nas suas ter- 
ras novo alento : porque havia doze annos» que o 
não tinham visto, tanto havia que o P. André Frei- 
re se fdra para a dita provincia de Manarcoilo, e 
depois nem houve padre (|ue lá fosse, nem occasiâo 
para lâ ir. Tendo alli assistido os dias que foram ne- 
cessários para acodir aos christãos, partiu para Cara- 
bantú. No anno antecedente tinha havido n^esta terra 
grandissima perseguição contra a lei de Ghristo, e 
n^ella fraquearam na fé alguns catecumenos: outros 
porém firmes e constantes padeceram muito por el- 
ia. Por esta causa julgaram que o V. P. João de 
Britto não fosse a Garabantú; mas sem embargo 
doeste parecer, seguiu o V. Padre a sua resolução, 
e mostrou a experiência que andou acertado. £' es- 
ta provincia a ultima do reino de Tanjaor, e con- 
fina com o Maravá ; é muito pobre, por não serem 
férteis as terras, como são as mais do dito reino, 



— 61 — 

e toinbem pelas íq justiças dos que as frazem arran- 
dadas. A maior parte dos moradores habitam em 
choupaaas bem limitadas ; e com este ser o estada 
da provincia, s3o os gentios, que a habitam, os mais 
soberbos homens que o V. P. João de Britto en- 
controu, e conversou n^aquellas terras, inimigos ca- 
pitães da lei de Deus, perseguidores e injoríadore» 
dos que a seguem. Ainda que muitos d^elles foram 
ver o V. Padre, mais por curiosidade, porque nun- 
ca tinham visto sacerdote europeu, que por desejo 
da sua salvag^o, os sacerdotes dos ídolos, que foram 
a causa da perseguição, não o quizeram ir ver ; e 
como o y. Padre desejava muito fatiar com elles, 
por lhes mostrar a sua cegueira â iuz da Evangelho, 
e com esta a pouca razãO; que tinham para o negar 
6 persi^uir, lhes mandou dizer pelos gentios, que o 
foram visitar, que estando bem longe d'aquella pro^ 
vincia soubera como elles perseguiam a seus discí- 
pulos, e ainda insistiam na mesma demanda : que 
elle era a causa de terem os novos christãos deixado o 
culto dos ídolos, e de adorarem ao verdadeiro Deus 
Omnipotente : que, se isto era culpa, como julga- 
vam, toda estava sobre elle, e que para dar razão 
do que ensinava, fora às suas terras ; que estimaria 
muito disputar com elles, emostrar-lhes como o que 
ensinava era verdade, virtude, e caminho do ceu ; 
e que depois de provada esta conclusão, era obriga- 
do todo o homem a seguil-a. 

A esta proposta, que por muitas vezes, e por va- 
rias pessoas lhes mandou fazer o Y . P. João de Britto, 
responderam : que não haviam de fallar, nem disputar 
com elle: porque matava os meninos, e depois de lhes 
queimar os corpos, punha cinza na testa aos que 
fallavam com elle ; e que em lh'a pondo, todos fica- 



— 02 — 

vam eufeitiçados, e que nâo tendo que lhe respon- 
der, seguiam a sua doutrina: que, se fossem fallar 
com elle, e disputar sobre a sua seita, lhes havia de 
succeder o mesmo : que fazendo*se christSos, toda a 
provincia se havia de converter, e convertida havia 
de vir peste, que mataria a todos. Muitos dias se 
gastaram n^estes recados, que houve de parte a par- 
ta, e nos taes dias acodia o V. Padre com os sacra- 
mentos aos christãos, que alti havia ; e apesar do 
inferno disse o catechismo a vinte e quatro pessoas, 
das quaes baptisou doze, que mostraram grandíssima 
fé ; e deixando doze para as provar n'ella, o anno 
seguinte acodiu a baptisal-as. Gonckido tudo o que 
tinha para fazer em Garanbantú, e visitados òs chris- 
tãos, que havia nas terras circumvisinhas, passou pa- 
rar Xirrucarambur, onde se podem estes cultivar com 
mais alguma quietação e socego. 




— 63 




CAPIVVIiO XI. 



POR CAUSA PA PERSEGUIÇÃO PEL-REl DE TANJAOR 
SE PASSA AO REINO DE GINJA, E NO CAINHO LHE 
SUCGEDEM DOIS CASOS PRODIGIOSOS. 



5TAND0 n'esta cultura assaz occupado, lhe 
chegaram noticias, que por ordem abei- 
rei o buscavam, e aos bracmenes chris* 
tâos em Tantuancheri, para os prende- 
rem ; e que uma esquadra de soldados, que a isso 
tinha saldo, tirara o que havia n^aquella casinha 
do V. Padre ; e como não era o que o desejavam, o 
entregaram ao guarda da povoaçSlo, para que a todo 
o tempo desse conta do deposito. Havida esta noti- 
cia, tratou o V. Padre por parecer dos christãos 
mais antigos, e experimentados de se passar do rei- 
no de Tanjaor para o de Ginja; e, como não podia 
ser por terra, o fez com bem grande moléstia por 
mar, embarcando-se pela meia noite em habito mu- 
dado ; porque no de que usava n'aquellas terras n5o 
podia ser. Esteve dois mezes no reino de Ginja, no 
fim dos quaes teve certeza, que sem perigo podia 
tornar para o de Tanjaor ; porque el-rei estava oc- 
cupado com os negócios da guerra, e não se havia 
de divertir com os da religião. 

Logo que o V. P. João de Britto passou ná 
derrota d^aquelle reino o rio CoUarão, começou o 
inverno com tão extraordinário rigor de vento, e 



clfava, ^&e parecia se acabava o mundo. Depois díef 
ter já passado três rios a nado, lhe anouteceu etn 
um matto, onde por nSo acabar com rigor do frio, 
e da chuTa, que )era grandissima, Itie deparou Nosso 
Senhor nma choupana, em que esteve com um chris- 
tão, que o acompanhava : e o que mais afflígia ao 
y. Padne, era ver o seu éompaahdro em jejum áe- 
poís de tão comprida, e tão molesta viagem, sem 
lhe poder matar a fome, nem remediar ofrio^ oqqal 
por ter os pannos todos molhados, era mais que gran- 
de. Quando o sentimento do V. Padre era maior, foi 
maior o remédio, com que Noâso Senhor lhe aco- 
dio ; por<)ue junto ò meia noute chegaram dois, que 
pareciam homens gentios, e lhe trouxeram fogo e 
lenba para se enxugarem. Também trouxeram para 
o cbristâo, que estava com o V. Padre, muito bem 
de comer, € para elle um tarro de leite. ET de ad- 
vertir, que o que podia tomar da mão de outrem n V 
qnellas terras para haver de comer era somente leite. 
O V. Padre, eo christâo deram ihuitas graças a Deus 
por ãquelle tão extraordinário, e inesperado benefi-^ 
cio. Aos portadores do presente deu os agradecimen- 
tos, e uma boa contrapeçonha, que trazia comsigo. 
No dia seguinte se partiram o V. Padre, e o 
chrístão d^aquella choupana ; e começando a cami- 
nhar, começou juntamente a chover ; assim os acom- 
panhou a dl uva até ás quatro horas da tarde^ èm 
que chegaram á ribeira chamada Manjavícal. Ten- 
tando a passagem, acharam se lião podia vad^r, 
nem ainda passar a nado, por se não poder vencer 
a corrente. Encontraram n^aquelies mattòs a uns 
moços guardando gado, aos quaes pediram com ins- 
tancia, Ibes dessem alguma gamela grande, para n^el- 
la metterem os livros do V. Padre, c os seus pobres 



— 65 — 

pannos, e pegados n'ella piodârem paissar a ribeira. 
Ma5| aíodaque por este beDeficio lhes promettia boa 
paga, tão se resolveram a fioer o que lhes pedia; porque 
a sua povoação estava muito longe e nãé havia tempo 
para elles irem e tornarem, por ser muito grande a chu- 
va. Pergutitou-lhes o V. Padre, se indo Ift acharia logar 
para aquella noute passar. Â isto lhe responderam, que 
nao; porque também elles estavam desapercebidos, 
e vivendo em choupanas. Com este desengano de 
achar abrigo, em que passasse a noute, e sem espe* 
ranças de poder passar â outra banda, se sentou de- 
baixo de um espinheiro, e começou a resar o oificio 
divino, exposto já a passar alli a noute, na qual a 
chuva, o frio, e a fome (pois todo aquelle dia havia 
caminhado em jejum) lhe davam o trato, que qual- 
quer daô três cousas costuma dar. Estando oV. Pa- 
dre n^este tempo, n^^este estado, e n^estes termos, viu 
que da banda d'além do rio veiu cwrendo com mui- 
ta pressa um mancebo, e gritando perguntava, aon- 
de estava alli o penitente, que queria passar a ribei- 
ra, enão achava quem o passasse. Levantou-se, dan- 
do graças a Deus, e disse-Ihe que elle era. Com esta 
resposta passou logo o mancebo a ribeira a nado para 
onde estava o V. P. João de Britto, e fazendo-lhe a 
cortezia que n^aquellas terras se costuma fazer aos 
religiosos, e penitentes, passou primeiro da outra ban- 
da o breviário, e alguns livros com os pannos do V. 
Padre : depois tornando, e dizendo-lhe, que não te- 
messe, lhe pegou de um braço, e o passou da outra 
parte da ribeira : o mesmo fez ao christão, que o 
acompanhava, o qual depois de passada a ribeira, 
querendo gratificar ao seu bemfeitor a mercê que 
lhe havia feito, achou que tinha desapparecido ; 
d'aqui ficou intendendo que a Deus unicamente se 

9 



-^66 — 

devia o agradecimento pela graça de o livrar da af- 
flicçSo, e perigo em que se achava. Chegando a uma 
povoaç5o dechristâos que estava perto d^alli, lhes con- 
tou o benefício que Deus lhe tinha feito, para que 
lhe dessem as devidas graças. 




— 67 — 




CAPIVIJIiO XII. 



DE XiaiMGABAMBUH PARTE A VISITAR ALGUMAS RE- 
SIDÊNCIAS, E CAINDO ENFERMO POR CAUSA D^UMA 
DÔft DE OLHOS, £ CURADO JII1LA6R0SAMENTE POR 
S. FRANCISCO XAVIER. 



O outro dia com a agua pelos peitos che- 
gou á sua igreja de Xirimcarambur, aon- 
de mandou chamar os christãos, que em 
grande numero acodem sempre âquelle 
posto para receber o santíssimo Sacramento, e cele- 
brar as festas. Celebrada a do santo natal, e assis- 
tindo alli até o fim do anno de seiscentos setenta e 
nove, em que baptisou novecentas pessoas, no prin- 
cipio do anuo de seiscentos e oitenta, feitas as pazes 
entre o regulo Orear, e o Sabagí, teve logar de vol- 
tar para a sua igreja de Guttur, ainda que com bem 
desvello e gasto no resgate do ornamento da igreja de 
Tantuancheri, que no anno antecedente haviam to- 
mado os que tinham ido para o prender, como atraz 
fica referido. Celebrada alli a festa da paschoa, ha- 
vendo gastado toda a quaresma cm correr o reino 
de Ginja visitando e sacramentando as christandades 
das provincias de Vangamapattey, Tarinadi, Vitava- 
Ião, Utraxilaborâo e as mais d^aquelie reino, voltou 
outra vez para o reino de Tanjaor a visitar a chris- 
tandade de Xolamandalâo, e dar o santo baptismo 
aos catecumenos que, jà bem provados na fé, o pe- 
diam com instancia, Pepois de satisfazerem a seus de- 



— 68 — 

íiejos com grande consolação e edificação do mesmo 
V. Padre, passou á província de Manarcoil, aonde 
por falta de logar e commodo para baptisar e admi- 
nistrar os mais sacramentos aos das castas baixas, 
esteve mais de quinze dias em um matto mui es- 
pesso sem casa nem abrigo, e porque fora o anno 
muito falto . dechuvas, nem agua para beber se acha- 
va, e a que se tirava de um charco esa metade lodo. 
Para ser aquelle sitio por todas as círcumstancias tra- 
balhoso, tão faltavam alli tigres e ladrões; mas o Se- 
nhor, que é em tudo poderoso, livrou o V. Padre 
da insolência dos ladrões, e da crueldade dos tigres. 
G)nfessadas algumas duas mil pessoas, e baptisadas 
até cento e cincoenta, passou (ainda que com con- 
tradição dos catholicos) á província de Cararambattu 
a visitar os novos christSos que n'ella viviam : sacrs^- 
mentou-os, e dispiri;ou com os gentios de dia, < que 
(como dissemos) são os maiores inimigos, que toem 
os missionários n^aquelle reino. Convertidos nove 
d'elles de muito boas famílias, aos quaes mui bem 
catechisados deu o santo baptismo, e dita missa dia 
do grande patriarcha saoto Ignacio, fazendo uma pra- 
tica aos christâos, que c<mx muitas lagrimas chora- 
ram a partida, do seu V. Padre, finalmente se des- 
pediu d^elles, e passando muitos rios a nado, che- 
gou á província de Tirucaraur, onde por razão do 
excessivo trabalho não podendo já a natureza resistir 
tão extremadamente á guerrq, que em continuo de- 
sassocego lhe fazia o espirito doV. P. João deBrit- 
to, rendida naturalmente a tão insupportavel peso, caiu 
con? febre, e apostema em um pé , de que este- 
ve perigosíssimo; e de tudo foi Deus servido que 
livrasse. A esta doença se ajuntou no mesmo tempo 
uma grande dôr de olhos, da qual resulton crescer 



— 69 — 

no direito tanta carne esponjosa, que todos o julga- 
vam por perdido. No decurso de dezoito dias es- 
teve sem poder socegar ; porque não só o achaque 
nâo obedecia a mesinha alguma, mas com as que lhe 
applicavam se augmentava mais a d^r e a enfermi- 
dade. Recorria o V. Padre ao seu santo Xavier, c 
no maior aperto lhe fez um voto de perseverar na 
missão até â morte : no ponto em que acabou do o 
fazer, parou a dor, a qual quando o fez, foi mais 
intensa que nunca, e se viu são da doença em bre- 
ves dias. 




^70 — 




CAPIVVIiO XIII. 



CHEGA A RESIDÊNCIA DE CUTTUR, E VISITA OS SEUS 
CHRISTÃOS, AOS QUAES ACHOU MAIS ALLIVIADOS 
COM A MORTE DO BRACMENE ALINAEXl. 



Á de todo livre da enfermidade voltou nos 
últimos de novembro para correr st chris- 
tandade do norte na residência de Gin- 
ja, e para celebrar a festa do santo na- 
tal em Cuttur, onde achou por novas ser morto o 
bracmene Alinaexi, cabeça, equasi senhor d^aquella 
povoação, em qne os catholicos passavam de quatro- 
centos ; o qual, por ser inimigo capital da lei de 
Deus, intentou com falsos testemunhos, de que ac- 
cusou muitas vezes os christãos perante os gentios 
senhores d'aquellas terras, emattos, queimar a igre- 
ja, que alli tinham, para que não houvesse n^ellas 
christãos. Mas Deus Nosso Senhor castigou sua so- 
berba, eodio; porque um dia á tarde chamando 
aos christãos lhes disse, que elle queria no outro dia 
fazer uma comedia aos seus deuzes, e qne elles, além 
de fazerem os gastos, haviam de assistir. Resistiram 
estes, dizendo, que não haviam de .contribuir para tal 
acto, nem assistir a elle. Com isto se irou o brac- 
mene gravemente, e começando a blasphemar da lei 
de Deus disse, que no outro dia mostraria seu po- 
der em executar seus intentos. Mas Deus Nosso Se- 
nhor, o qual posto que promette perdão ao pecca- 



— 71 — 

dor^ não lhe promette o dia de ámaDhã, n^aquella 
mesma noute o matou subitamente com admiração 
de todos, ainda dos gentios mais obstinados, e com 
não pequena consolação dos cbristãos, que conhece- 
ram ser castigo de Deus, o qual por este meio os 
livrara da ira de tão cruel inimigo. 

Alem doesta maravilha obrou Deus Nosso Se- 
nhor muitas outras ; porque alguns, que vieram ou- 
vir o catechismo para se verem livres das vexações 
de satanás, se acharam com muita paz na alma, e 
com muito boa saúde, e disposição no corpo. O nu- 
mero dos baptísados chegou aquelle anno a setecen- 
tos. No principio do anno de seiscentos oitenta e um 
se achava o V. P. João de Britto no reino de Gin- 
ja, onde gastou a quaresma^ e celebrou a festa da 
paschoa, sendo grandes os concursos, nos quaes passa- 
ram de quatro mil os que receberam a sagrada com- 
munhão, e de trezentos os que se baptísaram. 




— 72 — 




CAFIVVliO XIV. 



PARTE A VÍ^ITAR A COillStANf^ADE DE XOLAMAN- 
DALAO ; RBFimEM-SE ALGtJNS FROOIGtOS, QUE nV- 
QUBLLE rBHPO SUGCEDCRAM. 



Eii^A a festa da paschoa com a solemnída^ 
de possiyel apesar dos gentios, no tempo 
era quehaTÍa de passar aoreinodeTon- 
jaor a Ttsitar aqueHa christandade tSo 
desamparada^ o mandou a obediência a S. Thomé, 
d'onde voltou no principio de junho, e foi logo para 
Xolamandaldo reino de Tanjaor, onde os inimigos 
da fé não deixaram de o perseguir; e como alli 
não tinha casa, nem igreja commoda para acodirem 
os christãos de todas as castas, mettido pelos mattos, 
pelas brenhas, e pelas casas dos mesmos christãos, 
foi acodindo a todos do modo, que pôde. M.as como 
não podia fazer tudo o que era necessário para a 
cultura d^aquella christandade, o maior trabalho que 
tinha, era ver os muitos, que por falta de quem lhes 
acodísse, acabavam a vida sem o subsidio necessário 
dos santos sacramentos n^aquella hora ; porque ten- 
do a sua residência districto tão grande, quando 
acodia a uma parte, ficava totalmente desamparada 
a outra : e quando de tão grande distancia o vinham 



cfanquar |^a s^erâtnentar algoin efiGermo^ ao tem- 
po que lá chegava, o achava morto, ou livre do pe^ 
rígo ; e como a este t9o grande, em que estavam 
as almas, não acudiam missionários, com fundamen- 
to temia, e com ardentíssima caridade chorava pdr- 
se çsta christandade no risco de acabar. N^aqud- 
le anno o livrou Deus Nosso Senhor de grandes pe-^ 
r^06, e castigou evidentemente os que o procuravam 
i^aatar e maltratar, em odia da lei de Ghristo. 

Depois de estar quinze dias nos mattos de Ti- 
ruvadanturrei, se partiu d^aili mn domingo à tarde 
para Caranbantú, quando na mesma noute os ladrões, 
cuidando que estava ainda nos mattos, com mão ar- 
mada por ordem do guarda mór da provincia, o fo« 
sam buscar para o matarem, e roubarem, como ei- 
ífi» disseram. Porém Deus, sem cuja vontade nada 
se move, o livrou de ser victima do ódio doeste» 
malfeitores, cujos designios se viram de todo frustra- 
dos. Ficou também desvanecida a sua cobiça, fat- 
tando-lhes a matéria^ que imaginavam achar. 

No principio de novembro houve por espaço 
de trez dias um yentò tão forte, e vehemente, acom- 
panhado de chuva tão grossa, e porfiada, que se não 
lembravam os homens de maior idade haverem vis- 
to outra similhante: e ainda que todas as terras 
experimentaram suas ruinas, o reino de Tanjaor, 
e suas provincias em Xolamandalão as experimen- 
taram Com maior excesso. Só na provincia de Tiru* 
^arur, que é bem pequena, passaram os que mor- 
reram por causa da tempestade, e inundação, de dez 
mil, não sendo algum d'eiles chrístão, sendo que 
n^ellft havia muitos, que professavam a lei de Deus. 

Na provincia de Pandanallúr, onde foi m^nor 
9( pçrda, foi grande o castigo, que Deus deu ao bra- 

10 



— 76 — 

«ommutilúo. Mas JDeua, que os ornou de tio exem^ 
piam; virtudes, lhes deu forças para tio exfa*aordÍM-^ 
rk) trabalho. 




— 75 — 

tAfttigo tiiereoida ás suas culpas ; porque além de %% 
Uie queimaria casa com tudo. quanto n'e]la. tinbá^ 
pouco tempo depois de mandar queimar a do V. 
Padre, não podendo soíFrer as vexações, que os mi- 
nistros reaes lhe faziam por muito dinheiro, qua 
devia, tomou peçonha, e morreu, para os missio- 
nários poderem viver livres de tão grande adversá- 
rio. 

£m janeiro de mil e seiscentos oitenta e dois 
se achava na sua residência de Cuttur no reino de 
Ginja, que chorava com irremediáveis lagrimas a 
crueldade, com que o governava, ou tyramnizava o 
inbumano Sabagi ; e assistindo n^elle até abril, ce- 
lebrou com grandíssimo concurso doschristãos todos 
os officios divinos da semana santa: houve logar, 
e occasiâo para o fazer com splemn idade ; porque 
teve a dita de se acharem então com elle dois pa- 
dres n^aquella igreja, osquaes eram o P. Domingos 
de Almeida, que passou para reitor do collegio de 
S. Thomé, e o P. Jozé da Silva, o qual por cau- 
sa das guerras que bavia na sua residência, se ti- 
nha retirado para aquella de Cuttur. Como para a 
maior parte dos christãos eram cousa nova as cere- 
roonias sagradas d^aquelles santos dias, assistiram a 
ellas com notável fé, devoção, e admiração. E por 
terem concorrido á festa da paschoa mais de cinco 
mil almas, não disseram missa na igreja, mas em 
um espaçoso campo, para todos terem logar de a 
ouvir. Os padres Domingos de Almeida, e Joié 
da Silva, ainda que iam muito achacados, além de 
celebrarem todos os ofBcios da semana santa, assisi- 
tiram de dia, e de noute com tanta continuação no 
confessionário, que quasi todos os christãos^ que vie- 
ram á festa, se confessaram^ e receberam a sagradsi 



— 78-- 

napça tinha visto, aoudé também passaram com f5{- 
]e a maior parte dos padres, que alli se occupavam 
na cultura da christandade, aos quaes ficou o.V. 
P. João dcBritto muito agradecido pela grande ca~ 
rídade, e benevolência, com que o tratavam, e de 
todos se apartou edificadissimo, por ver entre as 
mais" virtudes (que todas n'elles resplendeciam) o 
apostólico zek),e apostada resoIuçSo, com queincan- 
çavelmente trabalhavam na vinha do Senhor; e, ain- 
da que a caridade, e exemplo dos padres lhe per- 
suadiam mais larga detença, a obrigação que o le- 
vava, o fêz cortar pelo desejo de tão bons irmãos, 
e pelo seu; e assim passou á costa dé Travancoí*^ 
õncte ach<yu no collegie do Topo o padfe provincial 
Gaspar Affonsò, que o recebeu cem extraordinária 
benevolência; e o tratou com notável caridade; (Cem- 
mouicou-lhe o V. P. João de Britlo os negócios; 
que lhe havia mandado tratar com eHe o P. Anclrê 
Freire; e tomada a benção, se partiò outra vez pa- 
ra a hiissão, indo não menos agradecido, ^ cdificft-^ 
do do cffritativo trato, zelo, c mais virtudes dos pa- 
dres de Travancor, que dos da Pescaria, os quaés 
em tudo lhe parecerão verdadeiros irmãos, e imita- 
dores de São Francisco Xavier, apostolo d^aqiiellar 
Gbristanddde. 




79 



CAPIVVJLO X.VI* 



EMBABGA-SE COM SEUS GOAIPANBEIRíM PAHA OS Jlfil- 
NOS DE GINJA, S TANJAOR. RBF8RBAI-SB ALGUNS 
CASOS, QUE SUCGBDBRAM DBPOIS DA SUA CHEGADA 
AOS DITOS REINOS. 



ACABADOS eiti Tarucuriín os negócios^ qtu» 
alli tinha da sua missão, se enbarcou 
para dia com os padres Jeronymo Tel- 
les, e Luiz de Mello sujeitos de grande 
virtude e singular ingenho, que entre os demais só 
eiles SC resolveram a se sacriíicar aos trabalhos de 
missão tâo grande, como á experiência mostra aos 
poucos que se resolvem aos emprehenden^ Chegaram 
ao reino de Ginja depois de trinta e cinco dias àé 
viagem, na qual arribaram três vezes, e estiveram 
perdidos duas ; a primeira, por se abrir a embarca-- 
çào em uma tempestade que tiveram ; a s^egunda por 
que os largaram os mouros marinheiros em um bas- 
tei roto sem velas nem remos ; ma» de tudo foi Deus 
servido livral-os por sua infinita misericórdia, einef- 
favel providencia. ; 

No reino de Ginja aonde chegou a desembar- 
car com os padres Jeronymo Telles e Lríz de Mello 
no fira de setembro, esteve com elies alé os dezoito 
de dezembro com grandíssima consolaçfio,. por ver 
sen grande fervor, assim no estudo da liugua tamul: 
como DO zelo' de converter almas. Aos dezoito de de-r 



— 80 — 

zén^o 86 parliu para o reino de Taojaor a visitar 
as christandades das províncias de Pandanallúr^ Ra- 
rajapattú, Tiracaúr, Manarcoil e Yedaraniando no 
cabo da Canbameira ; e se lhe acabou o anno, em 
que baptisou oitocentos e doze; e seriam muitos 
mais se n^esse anno nâo foram tantas as digressões 
e tilo gastékra C6ra da missão perto de seis taetes. 

M^acfuella residência obrou Deus, entre oulra» 
mottas maravilhas^ a de livrar alguns endemoninlia- 
dos, aos quaes o diabo além de cruelmente lhes ty- 
rannisar as almas pela idolatria, lhes atormentava o» 
corpos ; mas ouvindo com fé o catechismo, se livra- 
ram d-uma e outra tjrannia. Obrou mais o mesmos 
Senhor outra maravilha, e foi que, com dizerem al- 
guns alguns christSos devotos o catecbismo sobre o» 
eáfen^pslançando-lbes agua benta, cobraram saúde. 

Havia muitos annos que o .V. Padre pelo in- 
comparável zelo da honra de Deus e ardentíssimo^ 
deseja da salvação das almas, tinha tomada a peitos- 
nSo morarem christàos cm uma povoação chamada 
Pòmpettí pelo impedimento que d'alli se seguia «ò 
eonversSo. No anno de seiscentos oitenta e um fez 
n^este particular maiores excessos: e Deus mostrou 
aos cbistSos que confirmava o conselho do V. Pa- 
dre, eque nâo só era necessário ouvil^o, mas obser- 
vai o e obedecei-^; porque succedeo que pegando- 
sd desastrosamente o fogo em casa de um christdo^ 
foi queimando as mais dos outros ; e como eram de 
palha, em breve tempo as consumiu com tuda o que 
tinham dentro. O que causou maior admiração foi 
fU estando doas casas de gentios entre as dos 
diristèqSf.e semb de palha como as mais, o fogo as 
âailo9 mtdBvOi e foi pegando nas dos chriétâos qoe 
•^ui»ni adiante. Sabendo o V. P. Jo9o de BriMo 



-^«1 _ 

/doeste ftiiceesso osm&ndou chamar e lhes disse: i(tie 
a luz de tSo grande e prodigioso incêndio bastava 
para que com ella vissem, que n&o agradava a Deus 
viverem em tal terra ; cjiie advertissem que áquelles 
que não abrissem os olhos esperava mui rigoroso 

. castigo ; porque um raio do ceu lhes havia de cair 
«m -casa. o an«o seguinte. Advertidos e commovidos 
de tão efficaz advertência^ se resolveram a deixar 
aquella aldéa indo-se para outra ; e no mesmo mez 
do anno seguinte que foi de seiscentos oitenta e dois 
caiu o raio prophetisado sobre a casa de um christão, 

.que era o que tinha habitado mais tempo n^aquella 

.povoação ; mas como já estava em outra, não expe- 
rimentou 9 castigo^ mas conheceu com os mais que 
se allí estivera o e:q>erimeatara ; e que asadverten- 
cias do V. Padre eram inspirações, e os seus amea- 

f ço^ sa »eiicaB|inhaYam a bem das suas almas, e aos 

Jivrar das castigos do ceu. • 




11 




— 82 — 



ÍTAPITUIiO XVIt. 

tUSPUTA COM os TETTRADOS GENTIOS, Í2 CONVENCE-OS. 



► cHANDõ-SE no princípio do anno de Hets- 
centos oitenta c três nas ultimas terras, 
que para o sul confinam com as do Mo- 
rava na provi hcia do Cabo, o vieram de- 
mandar dois gentios, dós que entre elles téem o no- 
me de leltrados ; e a soberba, com (Jue disputarairi, 
mostrava, que ri^elles era maior o desejo de impu- 
gnar a verdade, que de a conbecer. Ha entre todo 
este gentilismo um celebre erro, d que cbamam es- 
criptura da cabeça, e vem a ser affirmarem, que o 
seu deus Bruma escteverã iia cabeça dos homens 
tudo quanto imaginam^ dizem, e obram ; e que es- 
ta esciiptura é causa antecedente, e tâo efficaz de 
todas as acções humanas, que nem o mesmo Brumas 
nem os mais trezentos e trinta mil milhões de deu- 
ses (tantas sHo as divindades que elles reconhecem) 
as podem impedir. A'cerca d'este celebre erro dis- 
seram estes letlrados que queriam disputar com oV. 
P. Joào de Britto. Acceitou o desafio, e, proposta a 
questão por elles, lhes perguntou que fundamento 
tinham para admittirem a tal escriptura, Responde- 
ram, que o fundamento era dizerem-no todos os 
seus lettrados, c ser entre elles primeiro principio, 
que nem se nega, nem Ise duvida. Perguntou-Ihes 
mais, se o seu deus podia dizer cousa falsa. Respon- 



— 83 — 

deram que nâa. Argumentoulbcs cntâiO i\'eúà fós-* 
ma: «nire vós ba duas seitas, que sao entre si con- 
tradictortaSy e oppostas; uma é de Vísiiú,. cujos se^ 
eianos dizem que só eiie é deus, e não Xivem ; ou- 
tra é de Xtvem, e os que a seguem affimam que 
só elIe é deus, e não Visnú: agora assim: Bruma, 
como vós coDcedeis, não pode dizer cousa falsa : logo 
nào pode escrever nas cabeças d estes sectários, que 
Visnú. era, e não era deus, e que Xivem era, o 
íi^o era deus; porque dizer, que a. mesma. pessoa é, 
c nào è.deuft, é (alidade manifesta. D^ondesêse- 
gAje, que .0 que dk^em os da seita . de .Yisdú, que 
só elle é deus, e oão Xivem, e o que afimóaniros 
da seita de Xivçm, que só elle é deus, e não Vis^ 
nú, é eíFeito da vontade livre, e nào da escriptura 
da cabeça, que attribuis ao vo so Bruma de ínfalli- 
i:el verdade, como fingis ; e o mesmo se segue das 
mais acções. 

Nào contente com a infalUvel, evidente, e for- 
çosa consequência doeste argumento, que é certo 
nào tem solução alguma, recorreu ainda a outro de 
não menor efficacia, e foi este : de duas preposições 
cuntradictorias, sendo uma verdadeira, a outra ne- 
cessariamente ha de ser falsa. Vós dizeis, que ha 
escrip^ra da cabeça, eu nego que ha escriptura da 
cabeça : eís-aqui as duas contradictorias, das quaes 
uma é verdadeira, e outra necessariamente falsa : 
agora, ou haveis de dizer que o nego, porque que- 
ro, ou porque Bruma assim m'o escreveu na cabe- 
ça ; se dizeis, que o nego, porque quero, infiro as- 
sim : logo bem digo eu, que não ha escriptura da 
cabeça,. que seja causa necessária de tudo o que os 
homens dizem, e obram, mas que as taes acções são 
eíFeitos da vontade livre : se dizeis que nego, por- 



— 8*- — 

que Brunia assim m'o escreveu na cabeça, não po- 
dendo este nunea mentir, co^e vós dizeis, segiae-se 
que é verdadeira a minha proporção, cdnv6m> a sa^ 
ber, nSo ha escríptura da cabeça: logo éhkà a suai 
contradictoría affirmativa, ha escriptara & ciibeça. 
Convencidos tão evidentemente os gentios, e* 
n&õ tendo, que responder a estes argumentos eal^o^ 
latoríos, obstinados no seu peceado trataram de en- 
cobrir a sna manifesta ignorância com inj»riatem 
de palavra o V. Padre, e o tratarem tão n(ml, que, 
se n^aqoeHo occasièo nio deu a vida pela fé, -nSo 
foi â falta de niartyries, mas porque a divina provi- 
dencia lhe guardava a gloria do ultimo (mra toÂitra 
oocasiâo* . i '. -t i .j 




— as^- 




CAPlTEJbO X^Villt 



CONfRA 0§ €fiBB9TÍ4^ NO Mm^ PS 0IIVM. 



^^ pro^kicia .^.{l^bo potiiH. p^ra. «.de 
MaoarciQil^ e A'tíii paro a àfi Gonbuoo-. 
ndo^ gastiindo m jornada fttínioe 4i99,; 
em t|iie admioiatrou a muitoa i»s M^ra-> 
meiUo^, acodindo aoa woribundDS, e bapUsando o^ 
qp» ac^ott bem ínstriiidos p^los catecliistad, qUe ii- 
nJia posto n'a({iiellas pr^ivkieias. Passou depoia. ao> 
reino da Giaja, e em CdUuc esteva até cdehfar a 
festa da paschoa com bem grande sofarasalio» »or 
ter 9pti<;ias certas, que o. governador doPaKBo ira- 
quella.^olemipidiíde t^at^va de o preodisr* Âffirmotí 
isto ao dito V. Padre o escrivão da eaaa da poKo* 
ra^ christKo de grfmde fé^ o qjoal por etla com to^ 
dos seus parentes, ti nbtt padiecido rautto; .e pouco 
tempo ante^ aquelle me^mo got^rnador hs^vki mau-: 
da^o lançar um pregão^ uo qual dizia: <(ud aquelle^; 
e todos os mais chrisldos^; pelo s^rem, eram in&H^ 
i9e§, econaoa taes Ib^ ordenava d^ii^sset^ doimoi^iiir 
de^ro dias povoações, on^ até eatão moravaAi, 4í* 
fqssero babit^r com os infomeã pariás por s^rem o', 
mes^o com ellos: qno oó^hum gontio todisis^, ne«i^ 
ainda as a^as ro^pa^* porque b^^va ti^cal-as pum 
ficar infamo. Esta dí&pnta, a.quaié maior n^estáfe^-» 
terras^ qop a de seraQoi^tiidp^ co^forcado^ e esq^ar- 



-86 — 

lejado. soíTreram com grande paciência, cconibrmi- 
dade com a vontade de Deus: e indo pedir conse- 
lho ao seu V. Padre sobre o que haviam de obrar 
na matéria, ellelhes disse com S.Paulo: que devía- 
mos caminhar para o ceu, sive per infamiam^ sive 
per bonamfamam: eque a elles dizia Christo: bea- 
ti erilis, cum sepèirãverint vos". que tratassem do 
deixar aquella fortaleza, e fossem para oiitra terra, 
onde nSo experimentassem tanto rigor. 

Âquelles christãos parece que escolheram esta 
segunda parte do' problema; porque ouvindo com 
grande consoiaçèk) o conselho do V. P. JoSio do 
Brilto, se foram resolutos a deixar a fortaleza, e os 
officíos, que n^dk tinham. Mas até a lesta resoíu- 
ç9o obstara o governador, aquém nSo faltaria o cas- 
tigo do ceu, como nio faltou a urti cepitàò, que (úí 
a causa, de toda a perseguição, o qual em breves 
dias se mirrou, e acabou miseravelmente a vida pa- 
ra penar eternamente oo inferido. 

• Por estarem tão alteradas as cousas do réitio' 
de Ginja» tratou de passar ao reino de Tanjaor; on- 
de é maior a christandade, e nSo era menor o de- 
sasiocego. Estando jà para se pôr a caminho, ihe 
chegaram novas, que as cousas da christandade es- ' 
tavam por entfio mais perturbadas li^aquelle reino, 
que no de Ginja ; porque o governador das proVin- 
cias do leste, onde o V» Padre tinha feito uma er-' 
mida haveria cinco annos, tinha jurado passaraos 
fios da e^da todos oscbrislãos, induzido a isto pe- 
lo gaarda-mór d^aqueHas provincias, inimigo dapítal 
da lei de Deus, chamado Ramanaique, homem des- 
humano e lacinoroso, e como tal por razSo de seu 
ofScio mais temido, e respeitado d^aquelles povos 
que o mesmo rei, ao qual 'por morar em Trangam- 



— a7 — 

bar dentro da fortalezo dos Dinamarquezes, d-rei 
não pôde prender, nem castigar suas insolências, e 
por isso se fazia cada vez mais soberbo, e cruel. 

Indo pois este tyrànno visitar aquelle gover* 
nador, lhe pediu encarecidamente, que queimasse a 
ermida, que oY. Padre tinha feito em Xirrucaram* 
búr, e que depois de tomar aos christdos tudo o 
que tivessem, com titulo colorado de alguma culpa 
imposta, os desterrasse das suas provincias^ e lhes 
queimasse as povoações ; porque eram tão insolentes, 
que venderam um boi vivo aos pranguis da f.rta- 
tftleza de Trangambar, para o comerem. Esta culpiit 
bastava n^estes reinos para maiores, e mais infames 
Castigos. Além d^isto lhes disse outras muitas mentiras, 
e aíFrontas da lei de Deus, e seus pregadores. Não é* 
crível, nem se pôde explicar a ira, que contra os 
christãos mostrou o governador, depois que ou- 
viu aquella pratica, affirmando que logo havia de 
mandar queimar todas as povoações dos christãos, e. 
passal-os todos a Go de cutello ; porém o mesmo 
governador, e seus parentes temendo os Dinamar- 
quezes, o persuadiram que por então não convinha 
executar aquelle castigo, mas que seria melhor 
dissimular, até se offerecer mais conveniente occa^ 
sião. 

Alguns soldados christãos, assim do governa- 
dor, como do guarda mór, ouvindo esta pratica, na 
mesma noute fizeram aviso aos catholicos, para que 
estivessem acautelados; osquaes, feita sua consulta, 
se determinaram a buscar o governador, que entãc 
estava alii perto, e persuadir-lhe fizesse provar os 
crimes, que o guarda*m*ór dissera contra elles. O 
governador, sem lhes descobrir o que tinha no pei- 
to, os recebeu com signaes de benevolência, encom- 



— »8 — 

ffl^fiídariâo^Uies qtie iWiUivas^em bem as terras, pa- 
ra que cí-rei n5o tivesse perda : e sem failar no 
caso os desf^diu com fingida aífabttidade. 




—19» — 




CAPIVUIiO XIX« 



Mo VAUmDO- PAEA SB VENCEB ESTA railSE^€IÇlo 
UVA GARTA DO PRÍNCIPE OREAff, FINALMENTE 9ff 
ACABOU COM A INFAME MORTE DE QUEM A FfM 
BIENTAVA. 



BNDO isto es cbristaoSy para qm nlo viès*> 
se B)g%im mal aos soldados^ que Ibes ti- 
nham feito aviso^ callando prudenfemen-' 
te oqoe intentavam fazer, deram de tu- 
do conta ao V. P. JoSo de Britto, e lhe rogaram^ 
mandasse yisitar o príncipe Orear, e lhe pedisse 
âma carta de favor para aqaelle governador ; por^-' 
que sabendo que um (U^incipe Uío respeitado, e po- 
deroso não só tinha nas saas terras aquelles chris^ 
tios^ mas ainda os favorecia, hlo executaria n^elles 
os castigos, que o tyranno Ramanaiqoe lhe persoa^ 
dia, e aconselhava. Respondeu o Y. Padre, que 
aquella carta poderia ser causa de maior ruina ; 
porque, se o governador respondesse ao príncipe 
Orear, que os chrístaos vendiam bois aos pranguís 
para os matarem, o tal príncipe lhes havia de cok^ar 
grandíssimo ódio, e fazer-lhe gravíssimo damno ; por^ 
que esta culpa nSo tinha perdSo n^aquellas terras^ 
nas quaes rHo se averigua, se o que se diz é verdá^ 
dé ou não ; mas basta dizer-sei, para se^ proceder a 
' castigo. Não foram bastantes estas i^9es, para qfue 
aos cbrisHíoís brameties, e xustfes parecesse melhor 

12 



— M — 

fiBo pedirem a carta de favor pelos inconvenieiiiélii 
que o V. Padre apontava, do que pedil-a pelas ra- 
zões^ que elles tinham proposto, affirmando todos^ 
08 que a pediam, que este era o único meio, para 
íiSo perecer aquella chrístandade. E por lhe pare- 
cer ao y. Padre que se julgaria por temeridade eni 
negocio de tanto peso antepor o seu juiso ao juiao 
de todos os naturaes, mandou pedir a carta ao prin* 
cipe, que logo a deu. 

Deu o principe Orear a carta de favor, e dí^ 
zia elle : eu, bom senhor, que goso grandes fortunai^ 
e que sou companheiro da infantaria, vos tenho a 
vós o Ponnaroaratâo na minha lembranfia. Vós sa- 
beis muito bem que tenho nas minhas terras, e tra- 
to com muita honra ao religioso do Senhor de tudo, 
e pelo venerar lhe fiz n'ellas uma casa, em que mo* 
ra, e ensina aos seus discipulos. Eu sei que o dito 
religioso tem também casa, e muitos discipulos nas 
terras de vosso governo; e assim vos ordene, que 
trateis as suas cousas com tão grande benevolência^ 
que me dé eu por bem servido. 

Levou esta carta um soldado chrjstâo^ e sem 
descobrir que o era, a deu ao governador, que esta- 
va em audiência, e logo lhe respondeu o seguinte^ 

Eu escravo de vossa alteza olhando para seus 
reaes pés lançado por terra o adoro. Recebi, como 
excellenle dom, a real carta de vossa alteza ; e hu* 
mildemente digo^ que vossa alteza por não ter ver-^ 
dadeira noticia dòs procedimentos, dós que seguem 
Vt seita dó Senhor de tudo, os favorece. Elles são 
tM baixos, e insolentes, que sem terem respeito ás 
leis, nem olharem para o que é peccado, njSio só 
ve&dem os seus bois vivos aos pranguís, mas com- 
pfam o» alheios para lh'os jrem vender aTramgam- 



— 9t — 

bar, t a Négapatfio, m quaes pranguis, como.ge&U 
yilíssíma, baixíssima, infame, e barbara, sem temor 
de Deus, nem dos homens faz logo cair os ditos bois 
(esta palavra matar 6ot> nenhum gentio a ha de di- 
zer em publico) e os cortam, e comem. A grande 
malicia dVste horrendo sacrilégio é bem manifes- 
ta a vossa alteza, que tudo conhece: o crime eaUí 
provado por meu senhor Bagupandidem^ que foz es^ 
pias para se certificar d*esta verdade, e tem orde- 
nado, que de uma vez conclua com esta gente: • 
vossa alteza, como tão amante da virtude, e zeloso 
da justiça, -s^a servido de me nfio impedir ; porqu« 
de outra maneira serão sem numero os bois, e vac- 
cas, que cairão, caindo sobre nós o peso de tão exe- 
cranda maldade, pela não impedir com o castigo 
merecido. £, para eu executar em tão malvada gen- 
te o que meu senhor me tem ordenado, fico espe- 
rando licença de vossa alteza. 

Não contente aquelle malévolo governador com 
tão infame, e falsa resposta, para fazer o Y. Padre, 
e os chrístãos mais odiados com o povo, antes de a 
mandar ao priocípe Orear, a fez ler em publico ; o 
depois, para que todos tivessem occasião de a ver, 
a entregou aberta ao soldado ; mas, como era chris- 
tão, a trouxe ao V. P. João de Britto, o qual pela 
experiência, que tinha d^aquellas terras, a deixou 
ficar em seu poder ; porque se fosse à mão do prín- 
cipe, além de outros males, que podia causar aos 
christãos, eaoV. Padre, havia o dito príncipe man- 
«dal-a ler em publico, como é costume bárbaro d'a- 
quelles reinos ; o que sem duvida resultaria em gran- 
de afFronta da lei de Deus, por cujo credito orde-* 
DOU aos christãos rogassem de continuo a Nosso Se- 
nhor fosse servido acudir, para que. a itnentira não 



— 9a— 

tríumphassç da verdade; o qual Senhor parece $& 
serviu de ouvir as deprecaçoes de corações tào afflictos ; 
porque dentro em dois mezes foi deposto aquelle go^ 
vernador com grandissima infâmia, por se lhe pro- 
var^ que tinha sido ladrão da fazenda real, e quiz 
Deus que a sua infâmia fosse ainda maior ; porque 
em um extraordinário concurso, que houve aos víiw 
te e quatro de julho por causa do eclipse do solt 
em que qúasi todos os gentios se foram lava^* ao naar 
lá no fim do reino, onde está um pagode^ que dizem* 
ser o primeiro, que houve em todo aquelle imperíp, 
se espalhou fama constante, que el-rei tinha man- 
dado cortar os pés, e as mãos aquelle governador, 
por ter sido ladrão ; e, ainda que pelo discurso do 
tempo se achou ser falsa esta nova, e levantada pe- 
lo ódio de seus inimigos, foi verdadeira a aífronta,, 
que d^élla se seguiu em tão innumeravel conciirs<m 




— 93 — 



CAPITIJI^O XX. 



PARTB PARA AS TERRAS DO NORTE : COIfTAM-SE O» 
TRABALHOS, Qt^ PADBGRU NO GABIUIHO, E COMO 
SE DESFEZ A TRAIÇlO QUE CONTRA BLLE ARVA- 
lUM OS imiUIGOS DA LEI DE DEUS. 




UL6AND0 que não era em abril oecasáe^ 
de passar ao reino de Tanjaor a resf>ei^ 
to d'aquelle inimigo, que então estafa 
ainda tío governo, è na considei^çãe de 
que a privança, que tinha com el-rei, e òom m 
grandes, lhe promettia n^elle perpetua segurança, m 
partiu para o norte a yisitar as cfaristandades diè 
províncias de Vetavanío, Tirunamaley, Xetagama, e 
passar ao reino de Golocondá, d^onde lhe chegaram 
noticias, que havia grandes esperanças de cohver^04 
Despediu-se em Gornapatu disi P. Jeronymo Tdlea^ 
e, depois de andar trez dias de caminho, chegou a 
uma povoaçSo chamada Tánrey, que está entre Ve* 
tafanão, e Tirunamaley, e alli esteve morador per^ 
to de um mez d'entro em um matto, servindo-^lM 
de casa dois grandes penedos, de tecto uma arvbreí 
que junto d^elles estava, e de igreja uma ramada^ 
que fez para ditier misia. Incrivel é o que n^quei^ 
IjdS maitos padeceu com os chrtdt%otS, ^^t alli o«doni^ 



— 94 — 

Cubavam, assistindo em lagares ínféstadissinoos d% 
tigres, cobros, e (utros muitos bichos peçonhentos; 
porque, além de serem n^aquelle tempo as calmasi 
do clima muito rigorosas, e o calor do matto, edas 
penhas, em que rebatia o sol, excessivo, a falta do 
necessário para a vida humana era muito grande, e 
não menos a falta do somno ; porque lhe era forçoso 
passar as noites em uma continua vela baptisandoos 
catecumenos, instruindo e confessando os christãos, 
dizendo*lhes missa tSo de madrugada, que ao nascer 
da aurora ](k todos iam caminhando para as suas 
aidéas. De dia escassamente tinha tempo para rezar 
o officio divino, sendo-lhe todo pouco para assistir 
àç continuas disputas dos gentios, armando-se de 
uma muito particular paciência para soíFrer as insup- 
portáveis, e descortezes injurias, que lhe faziam, e 
pára responder aos despropozitos, que Uíe pergunta- 
vam. 

NSo bastou todo este disvelo, e cautela, para 
que o demoiiio não o perseguisse por via dos seus 
infernaes ministros. Em uma sexta feira, seis dias 
depois de sua assistência n'aquelle posto, bem de 
madrugada, tendo*se já partido os christãos para as 
suas aidéas, a um, que ficou mais afastado, investi- 
jam dois soldados da infame seita doLorigão, e lhe 
perguntaram peloV. P. JòãodeBritto; porque iam 
resolutos a d matar, e acabar por uma vez o que 
por tantas tinham intentado. Â causa, que os movia 
a esta determinação, era o considerarem que o V. 
Padre era tão soberbo, e atrevido, que, tendo-lhè 
prohibido os magistrados, e republica iráquellas ter- 
ras, e ensinar n^ellás doutrina tão nova, e tão con- 
traria aos costumes dos náturaès d^ellas, sem respei- 
to algum ao que Ibe tinham ordenado, tornava alli 



— 9B — 

a ensinar a todos a sua doutrina. Quando oft solda-^ 
dos faziam mais violepcia ao pobre christSo, oguar<^ 
da d'aqaelia aldèa, que tem obrigação de vigiar de 
ooite, e dar fé dós que entram» e saem» conhecendo 
que o christão era seu parente, disse aos soldados, 
que o deixassem ir ; porque hão sabia nada do que, 
Ifae perguntavam» e que tinha vindo a vi8Íta1**o, q 
por fug;ir ao rigor da calnia se partira de madru- 
gada. 

Ouvindo isto os soldados o deixaram, e elle veio 
dar conta aó Y. Padre do que passava, e^que os sol- 
dados distavam d^aquelle posto um tiro de pedra. Ou- 
vindo isto o y. Padre, tratou logo de recolher o or- 
Bamento da missa entre aquelles penedos, e com al- 
guns cbristaos, que o acompanhavam, se puzeram 
em oração persuadidos a que Deos Nosso Senhor 
lhes queria dar occasíão de morrerem por seu amor 
no mesmo dia de sexta feira, em que elle morreu 
para lhes dar ávida: e os cbri§tãos, que alli estavam, 
diziam uns aos outros: se fosse tanta ventura a nosr 
sa, ^ue morrêssemos por aquelle Senhor, que foi ser- 
vido dar a vida por nós ! e se fosse tanta a nos- 
sa dita, que Deus nos fizesse mercê de sermos ho- 
je asprimiciâs dosmartyres doesta cbristandadel Is- 
to proferiam os companheiros do Y. Padre que eram 
oito; e, se isto diziam os discípulos, pòndere-se bem 
o que confessaria o mestre. Mas como os soldados 
jião puderam descobrir o logar, onde o V. Padre, 
e seus companheiros estavam, tanto que amanheceu 
se ausentaram. 

Ainda que por então se frustraram os diaboU- 
cos intentos dos gentios, e a execução dos arden<« 
tissimos desejos dos chríslãos, não desistiu o demo-^ 
nio de os perseguir com maior força n'aquelle mes- 



— 96 — 

mò posto ; porque como o- reg^ilo XiUanayque hm 
por parte del-rei de Mayssur hostilidades no reino 
de Ginja, eram muitos os homicidios, e latrocínios, 
qíie se experimentaram nas provjncias deVeterân&o, 
e^ Tironamaley, em que o V. Padre estava ; e como 
tado andata perturbado, cada um fazia o qae que- 
ria, e ninguém se da?a por seguro. Chegou a tanto 
a exorbitância d^aquelie tempo, que. um soldado ra-- 
zo matou a sangue frio um filho único do mesmo 
governador da provincia de YentahâvSio, para lhe 
roubar as jóias, que trazia : feito o homicídio, o fur- 
to, na mesma hora se foi outra ?ez para o castello, 
oMÍe assistia o governador, o qual, achando o filho 
menos, o fez buséar, e foi achado feito em postaa 
mettido em uma gruta ; e sabgndo que o dito s^ida-» 
do o Unha acompanhado aqueila tarde, o prendeu^ 
e por se lhe achar ainda sangue na espada, o man-^ 
dou logo espetar. 

Não se passaram muitos dias depois doesta alei- 
voaia, quando junto ao matto, onde estava o V. P 
lofto de Britto, roubaram a. um mercador ao meio 
dia setenta moedas de ouro. Indo-se o roubado quei- 
xar ao governador da provincia, que tem obrigação 
de pagar os furtos, alguns dos seus ministros, que 
são inimigos da lei de Deus, lhe aconselharam que 
ímpiízesse o fiirto ao V. P. João de Britto, dizen- 
fe qae os christãos, que de todas as partes acediam 
90 buscar, fizeram por seu mandado o latrocinio, a 
eommetteram p crime : que com esta capa o pren- 
desse, e affrontasse muito a seu beilo prazer; eque^ 
se o largasse com vida, lhe pedia ordenar não tor- 
nasée iquellas terras a ensinar tal doutrina. Coma 
e:.gaveraador era também grande inimigo assim dos 
christãos, como do V. Padre, foi para elle um sin- 



— 8P7 — 

guiar accordo aquelle alvitre, e mandou logo preu- 
áel-o por gente de pê, edecaTalIo; mas descobrin- 
do-se por outra via os ladrOes, suspendeurse^ com p 
conhecimento manifesto dos cúmplices a maleyok 
intençSo contra o innocente, 




IS 



— 98 — 



^éá: 




CAPITIJIiO XXI* 



BJÇTflA NO REINO DE GOLOCONDA : VOLTA PARA O SUL 
AOS REINOS DE GINJA, E DE TANJAOR. DÁ-SE NO- 
TICIA DE UM FAMOSO MILAGRE OBRADO POR IN- 
TERVENÇÃO DE S. FRANCISCO XAVIER. 



I^EiXÃDo O reino de tiinja, passou âo gran- 
de reino de Golocondâ ; e chegando a 
Utararanalur, cidade muito populosa, e 
_ de grande contrato, onde n'aquelle tem- 
po se abria odo ceu, achou que alli s5 tinham mui- 
tos resolvido a deixar a adoração dos seus falsos 
deozes. Dia do Espirito Santo baplisou cento c oiten- 
ta, que achou beni catechizados, c ensinou o cate- 
chismo a outros muitos : mas, como não podia allí 
fazer detença; deixando n^aquellas partes dois cate- 
(histas, se partiu outra vez para o sul; e atravessan- 
do pelo reino dcVélúr passou para ode Ginja, on- 
de se deteve somente quinze dias para baptisar os 
catecumenos, e administrar os mais sacramentos aos 
(hristâos; elogo se foi para ode Tanjaor, apressan- 
\]o-lhí a jornada as enchentes, e innundaçôes dos 
rios, que jâ começavam. 

Visitada a chrístandade, que ha nas provincias 
u'aquelle reino, chegou a uma povoação chamada 
Xatípari, onde em casa de certo christão fez uma 
pequena ermida, cachou ler nosso Senhor alli bem 
perto obrado uma grande maravilha por intercessão 



— go- 
do apostolo do oriente. Foi esta, (Jue em maio, an- 
dando três moços apascentando gado, para se áni- 
pararem de um grande chuveiro, se recolheram de- 
baixo de uma copada arvore, a qual ainda que os 
defendia da chuva, não os defendeu do golpe da 
um raio, que caindo os matou. Buscando depois os 
pais aos filhos, os acharam todos três mortos ao pó 
d'aquella arvore: e como dois d'ellcs eram gentios 
da infame seita do LingSlo, cujo idolo traziam ao 
pescoço, os parentes os enterraram conforme as ce- 
remonias de sua seita. Ao autro, que era christSio, 
a quem o V. Padre havia baptisado no anno an- 
tecedente, levaram para casa os pais, que tam- 
bém da mão do mesmo V. Padre haviam recebido 
o baptismo, para o enterrarem conforme o rito da 
Santa Madre Igreja. Depois de composto o menino 
que era de idade de treze annos, estando já para o 
levarem â sepultura, a mãe cheia de dor, e senti- 
mento, enão menos de fé, e devoção, fez esta amo- 
rosa queixa ao Santo Xavier ; glorioso Santo, eu ou- 
vi ha poucos dias a lei santa de No^so Senhor, e 
me converti, e recebi o baptismo, tendo firme con- 
Gança, que o mesmo Senhor por vossa intercessão 
havia de defender, c favorecer todas as minhas cou- 
sas, e assim o tenho manifestado a todos os meus 
parentes gentios, os quaes agora me lançam em ros- 
to a morte tão desastrada de meu filho, que tem o 
vosso nome; e para que conheçam todos, que com 
o nome logra também vossa protecção, e que não 
são confundidos os que esperam na divina miseri- 
córdia, para gloria do mesmo Senhor vos peço, que 
alcanceis vida a este meu filho. Caso estupendo ! 
Acabada a oração da mãe, se levantou o filho vivo, 
e sem lezão alguma ; e os pais o trouxeram à igreja 



com uma offisrta ao Santo, ficando muito confiroia- 
dos na fé. 

Vizitaijlas as christandades das províncias do 
Manarcoil, e do Cabo da Calhameira, chegou na an^ 
tcTespera de S. Lourenço 6 sua cazinba deXírucar* 
ambur, aonde acedia a maior parte da cbri^ndade 
do reino de Tanja(^. 




— 101-^ 



CAPIVlJIiO ILUlt^ 



1LLUDB-$B O DECBETO DB CM GOVERNADOS, QW 
HANDAVA CORTAR A CABEÇA AO V. 1^. JOlo M 
BRITTO, E PASSA DR TA^JhAOR AO REINO DB GIN- 
JA ; RBF£REAf*SB ALGUNS: MARAVILHOSOS CAZO», 
OUE Ahtl SUCCEDERAM. 



Kos oito dias de setembro passou ordem o 
novo governador d^aquellas provinciM, 
que succedeu ao que escreveu contra o 
y. P. JoSo de Britto» é seus christaoi 
ao priocipe Orear (como fica dito), para que o pren- 
dessem, e confiscassem quanto tinha. Mas n^o suc- 
cedeu a execução n^aquella noite ; porque alguns 
christlk)s depois de largas disputas disseram resolu- 
tamente ao governador, que, se prendia ao V. Pa* 
drê, haviam de despovoar a terra; e, como jÀ eram 
muitoSi temeu a grande perda, que d^alli se lhe po- 
dia seguir nos direitos da coroa, que trazia arrenda- 
dos : e assim ^ssou segunda ordem, que o não 
prendessem. Porém lâ pela meia noite, instigado 
por alguns inimigos do V. Padre, e dos christaos, 
despachou um capitão de c^vallos com gente de pé, 
para que cortassem a cabeça ao V. Padre, sem sa 
iáber de que mão lhe vinha o golpe, e que lha le- 




— lou- 
vassem, porque, como nào se atrevia afallar-lhe, de- 
sejava velo, mas não ouvil-o. 

Posto a cavallo o capitão marchou com os seus 
soldados ; e indo já bem perlo do logar onde esta- 
va o V. Padre, de repente veio uma porfiada chuva 
com trovões, e relâmpagos tão medonhos, que pare- 
cia se acabava o muudo; com o que perderam o 
tino, e desistiram por então daempreza. Mas, como 
o governador não distasse do posto, em que estava 
o V. Padre, mais que meia legoa, e os soldados da 
sua guarda fossem quasi todos christãos, de madruga- 
da lhe vieram dar conta de tudo o que passava. 
Ouvindo o V. Padre o que lhe foram noticiar, jul- 
gando, conforme as presentes circumstancias, que se- 
ria menoscabo da lei de Deus ausentar-se n*aquella 
occasião, e sendo do mesmo parecer os christSos, 
que com elle assistiam, se deixaram ficar no mes- 
mo ôitio: mas não tardou Deus Nosso Senhor com 
o remédio, fazendo que o governador desistisse de 
seus damnados intentos. 

O V. Padre d'ahi a poucos dias, passando se^ 
te rios a nado pegado em alguns pâos, foi acodir ás 
ehristandades, que tinha á sua conta no reino de 
Ginjf, onde consolando-se' em o Senhor com o P. 
Jeronymo Telles, que alli o veio visitar, esteve desde 
os últimos de setembro até os quatorze de dezem- 
bro, lio qual tempo tornou a passar para Tanjaor a 
celebrar a festa do natal, o que fez padecendo tra- 
balhos inexplicáveis, mas com grafide consolação, 
por ver os muitos, que se convertiam, e baptisavam, 
nfio sendo pequena a devoção dos christãos, que em 
grande numero acodiam a frequentar os santos sa- 
cramentos da confissão, e sagrada communhão ; t 
éesde véspera de S. Tbomé até dia do santo nome 



— 103 — 

de Jesus passaram de mil e oito centos os que se con^ 
Cessaram, e commungaram da mSo do V. P. JoSo 
de Brítto. Os que baptisou no discurso d'aquelle an- 
no, foram mil e três» 

Em quanto alli esteve sucçedeu» que uma bra-* 
cmena gentia muito nobre, e rica, a qual havia mais 
de vinte annos padecia tal vexação dos demónios» 
que a punham em tão miserável estado, quepormuí^ 
tos dias não a deixavam comer, nem beber, mui- 
tas vezes quasi a aflfogavam, e outras lhe faziam an- 
dar a cabeça & roda com tanta vehemencia, que 
sete, ou oito pessoas não bastavcm para lhe terem 
mão, outras vezes a lançavam no matto, e a aper- 
tavam alli de maneira, que era difficultosissímo ti- 
ral-a do logar, cm que os demónios a punham. Ou« 
vindo esta atormentada mulher contar as maravilhas, 
que Deus obrava, e as mercês, que fazia aos que 
seguiam a sua santalei, veio â igreja do V. Padre, e 
ouviu o catechismo por espaço de dez mezes, depois 
dos quaes, já bem provada na fé, da mão do mesmo 
y. Padre recebeu o santo baptismo, e íicou livre das 
vexações dos demónios, mas não das dos parentes, 
que, por verem se fizera christã, a injuriavam, e 
maltratavam; porém ella por beneficio da divina bon- 
dade sofFria tudo com paciência, e constância notá- 
vel, vivendo com grande confiança, indo muitas ve- 
zes á igreja, e frequentando com devoção os sacra- 
mentos. 

Mais de vinte pessoas no discurso d^aquellean- 
no foram alli, onde assistia o V. Padre, molestadas 
do demónio ; uns tysicos confirmados por causa de 
feitiços, outros cpxos, e aleijados de tal maneira, que 
nfio podiam pór os pés no chão, aos quaes levaram 
os parentes em andores, e todos, tanto que ouviram 



— 104 — 

com fo o citechUmo, cobraram perfeita sailde ; eí 
recebendo ó aanto baptismo, se foram para as suas 
terras cheios de alegria e deToçio, e muitos deíxa<« 
ram alli os andores em testemunho da mereé^ que 
Deus lhes fiíerã. 




— 107 — 

lUGcedido, entrou no cárcere, e posta de joelhos a 
seus pés chorando muitas lagrimas lhe disse : meu 
irmão, êu lhe invejo a sorte, que teve em padecer 
por tão bom Deus: rogorlhe, que, quando se vir 
diante de sua divina magestade, lhe peça seja servi- 
do de me dar similhante ventura, e meio para re- 
ceber o santo baptismo. Admirados os guardas does- 
ta constância, se resolveu um d'eiles com a sua fa- 
milia a seguir a lei de Christo. 

O segundo caso foi, que aquelle bom chris- 
tão, deixando fiador no cárcere, se foi na mesma 
noute despedir da mãe, da mulher, e mais parentes, 
todos os quaes no anno antecedente tinha baptisado 
com outros muitos o V. P. João de Britto, e lhes 
fallou doesta maneira : amanhã, Deus querendo, vou 
padecer pela lei de Ghristo : não posso explicar o 
gosto e alegria, com que recebo esta mercê do ceu. 
Três cousas vos peço n'esta ultima despedida: a pri- 
meira, que rogueis muito a Deus me dè perseveran- 
ça final : a segunda, que não tenhais por infâmia 
esta minha morte, senão pela maior honra, que 
Deus costuma fazer aos seus escolhidos, de que eu 
não sou digno : a terceira, que não vos movam, nem 
a perda da honra, nem da fazenda, nem da mesma 
vida, a deixar a lei de Deus. Responderam a mãe, 
e mulher, e mais parentes, que estimavam muito a 
sua resolução, e que com a graça divina estavam 
com firme propósito de deixar antes a vida, que a 
fé, e que pela perseverança da sua ficavam rogando 
a Deus. 

Consolados assim reciprocamente aquelles chris- 
tãos, se foi Gaudioso para o cárcere, onde, posto 
que lhe não pôdeacodir oV. P.João de Britto (por 
quanto então se achava no sul, d^alli distante mais da 



— 108 — 

nofenta legoas, e preso pelo Chanaás com grande aper- 
to), os christSos e catechistas d'aquelle reino sabea« 
do que a prisão, e condemnação de Gaudioso n&o 
fora feita por ordem do rei, senão pelo ódio de se«s 
parentes, trouxet^am ordem do governador, e gene- 
ral, para que Gaudioso (bsse posto em sua liberdade, 
e restituido aos christaos tudo o que lhes tinham con^ 
fiscado. 




109 — 




€APITlJIàO 1LXIV« 



i PKBSO O V. PA1>RE NO fiVl])^ DE MADUaST, B Ur 
YflADO DO PERIGO D\ MORTE, QUB O AMSJkÇAYA. 



^o tempo que »to se passava m reino de 
Tanjaor, esteve preso co«'extraordinacit 
aperta iá nas terras do sd, &o reino 'àt 
Madurey, o V. P. João de Britto. Entrof 
elle de novo cm uma província, aonde ainda não tí« 
nbam ido missionários; e por não ter casa, nem 
igreja em que se podasse accommodar, esteve alguns 
dias em uma lameda de pakneiras, pregando a fé 
de Jesu Chrísto á grande multidão de gente^ qae 
de todo aquelle contorno concorria a ouvir a no^ 
va doutrina, a qual ouvida e acceita, se reduaia^ 
conhecendo seus erros, a abraçar a verdade. Nfto 
pôde o diabo soíFrer, que tantas almas, fugiucb 
das redes, em que até allí as trazia o seu iaferDtl 
engano, se fossem metter na de S. Pedro, que com 
tanta felicidade havia ãlii estendido o V. Padie 
João de. Britto ; e por isso uma jioute, em que o 
mesmo V. Padre estava para baptisar duzentos ca- 
tecumenos, se amotinaram oâ gentios d^aquelk po- 
voação, e juntando muita gente de amas, o fo- 
ram prenda. Tendo porém elle m)ticia de que o 



buscavam, se adiantou a perguntar-Ihes quem procu- 
ravam. N^este tempo tiveram logar os catecumenos 
para se retirarem, e assim prenderam somente oY. 
I^adre, e os catechistas, que o acompanhavam, vin- 
gando n^elles o ódio, que tinham a todos. Foram, 
cruelmente açoutados, e lhes roubaram tudo o qu& 
tinham : e, ainda que por muitas vezes vieram para 
lhes cortar as cabeças, que o V. Padre, e os cate- 
chistas ofFereciam com uma acceitaçãò tão santa, é 
com uma constância tão valorosa, que o pasmo dos 
gentios não sabia determinar se era maior para a 
sua admiração o valor, com que aceitavam a morte, 
se a constância, com que offereciam a vida, não exe- 
cutaram o seu ódio n^estas victimas jâ consagradas 
ao martyrio: porque lhes faltava a auctoridade pu- 
blica para o fazer, porquanto a prisão não fora feita 
por ordem do Nayque, nem ainda dos governado- 
res, mas só por fúria das castas, que tinham por 
grande affronta o conyerterem-se â lei de Deus os 
seus parentes : e assim depois de algum tempo sol- 
taram o V. Padre eos catechistas. Sabendo elle, de- 
pois de solto, o que tinha passado Gaudiozo em Tan* 
jaor, e o que no mesmo reino haviam passado os 
mais christãos, atravessando todas aquellas terras, 
se foi ao reino de Tanjaor, e a casa de Gaudiozo, 
mandando dizer aos que foram causa d^aquella per- 
seguição, que se tinham alguma duvida contra a lei 
de Deus, não era justo averiguarem-n^a com aquelle 
christão, o qual não era lettrado na lei, que profes* 
sava : que elle alli«estava, e como mestre da mesma 
lei satisfaria com a razão a todas as duvidas, que 
lhe offerecessem : e não lhes quadrando o verem-se 
convencidos, não lhes seria difficultoso o tirar-lhe a 
vida, pois seíametter nas suas mãos. Não quizeram 



,-111- 

os gentios acceitar a disputa^ mas choravam deixarem 
muitos a gentilidade, e recorreram ao V. Padre pa- 
ra que ' lhes dissesse o catechismo, e os admittísl^ 
pelo meio do santo baptismo ao grémio da igreja. 




112 — 




CAPITIJIiO XXV. 



LEVANTA-SE UMA GRANDE PERSEGUIÇÃO CONTRA OS 
CHRISTÃOS NO REINO DE TANJAOR. ASSISTE O V. 
PADRE COM NOTÁVEL CARIDADE AOS AFFLIGIBOS. 



Ão podendo o diabo soíTrer, que osouvin- 
tes da doutrina do V. P. João de Brit- 
to nao só se convertessem á fé, mas tam- 
bém dessem tão evidentes signaes da sur 
firme conversão, que lançando os ídolos, que traziam 
no pescoço, aos pés do V. Padre, alli os pisavam, 
e desfaziam deitando outros no rio, e outros' no fo- 
go; e tolerando mal esta injuria, levantou a mais 
horrenda perseguição, que nunca experimentaram 
os christãos n^aquelle miser/ivel reino. Promulgou-se 
uma ordem do primeiro ministro, que fossem presos 
todos, e levados â cidade de Combuconão, aonde el- 
le assistia; e para este eíFeito mandou o dito minis- 
tro justiça e soldados por todo o reino. Começaram 
as prisões dia de reis lá nas provincias do norte, 
achando-se o V. P.. João de Britto nesse tempo nas 
provincias do sul, aonde lhe chegou esta noticia 
aos nove de janeiro. Poz-se logo a caminho para 
Combuconão ; mas os christãos, que tinham até alli 
escapado de serem presos, indo ao seu encontro an- 



— 113 — 

ies 'de entrar na cidade, lhe persuadiram com razoes 
efficazeSy que ^passaSàe a todo o risco o rio Collarão, 
ò quál ditide d reínd de Ginja do de Tanjaor, e 
que de 1& assiâtissè cónii còtiselho, e direcção a ne- 
gocio tao importante ; porque elle preso só segurava 
ò seu merecimento, e punha em risco toda a chris- 
tandade, que d'ahi podia soccorrer, e dirigir : que 
se do rebanho levasse o lobo uma, ou duas ovelhas, 
podiam esperar as outras^ que o pastor as pozesse 
em logar seguro ; mas se ò lobo comesse o pastor, 
pereceriam as roais ovelhas sem remédio, e sem es- 
perança d'elleí. 

Movido o V. Padre da íastmia, corai que se 
lhe propunha este remédio, e da razSío, com que se 
justificava este partido, se oflfereceu a seguir o que 
09 a(Qiotos chnstâos lhe pediam ; e as^im posto' por 
dies sobre um feixe de lenha^ foi passando além do 
rio, que entSo ia bem caudaloso. D^aquelle posto foi 
tratando.de ver se podia acodir á christandade, e re- 
mediar a perseguição, que de cada vez crescia mais. 
Jà todos os cárceres doreíno se achavam cheios dos 
inôbcentesèhriSíãoã, laquem davam cruel issinios tor- 
mentos, jterá que deixassem a fé, depois dfe lhes te- 
rem confiscado todos os bens. Tratou o V. Padre 
de ver se podia visitar o rei, e dèclarar-lhe a ver- 
dade: mas todas as portas achou fechadas; até que, 
depois de extraordinárias fadigas, os chrístàos da 
corte, onde se não tinha ainda feito execução algu- 
ma contra elles, se resolveram, feitos em um corpo^ 
a pedir ao general do exercito, mouro de nação, e 
profissão, que foliasse petos christâos ao rei, áizen- 
do-lhe, que estes não queriam senão que o rei os 
ouviâBe, e que, te os achasse culpados^ lhes cortasse 

as cabeças; e que, se os achasse ínriocehtes, 

15 



— 114 — 

refreasse a violência dos seus ministros. Reâportdeu 
o mouro general^ que elle não podia fazer rosto tt 
todos os bracmeoeSy pois todos estavam c^yotra a lei 
de ÍDeus, e seus sequazes ; mas que com tudo' isso, 
achando occasião, não deixaria de dizer ao rei, que 
os ouvisse, seelie lhe perguntasse o que lhe parecia 
n^aquella matéria. 

Sabendo d'isto um gentio muito poderoso, cha- 
mado Kamanaiquen, o qual tinha sido auctor de tP<- 
da esta tragedia, mandou visitar o mouro^ e pedir^ 
lhe não favorecesse o partido dos christãos; pocque 
estes tanto affrontavam a lei de Mafamede; o&mo a. 
dos gentios, e que de uns, e outros eram capitães 
inimigos : que deixasse acabar por un^a vez. eooi 
o nome de Christo «'aquelle reino; porque se por 
então lhe não punham remédio, dentro em pou- 
cos annos o veriam todo perdido, o acabado, sem 
haver um só homem, que venerasse aos seus deu- 
ses : e que depois d'isso iriam os europeos, e to- 
mariam o reino; porque este era o meio, com qua 
5e tinham introduzido em todo o oriente, £ para lhe 
fazer mais agradáveis, e efficazes as razàes, que da- 
va, lhe mandou um grandioso presente, e um cava- 
lo ginete com Uodos os adereços de prata. Ouvida 
esta embaixada, e despedidos os mensageiros delia, 
licou o mouro com muito m& vontade cootra os chris- 
tâos. 

Levaram os christãos estas novas ao V. Padre^ 
a quem todos os dias mandavam dois, e três reca- 
dos por próprios: postas as cousas n^estes apertos, 
os christãos da corte, dos quaes muitos serviam de 
levar os provimentos para a cavaliaria, e para os ele-« 
phantes do rei, tomaram a resolução de se retirar, e 
deixar seni provimento os elephantes e cavallos. Fi- 



— fí5— 

lenm isto por conselho de outro mouro principal, 
que lhes disse, que só por aquelle meio podiam ser 
ouvidos. Chegiiâas ao rei as notícias da que passava, 
e que a eavaUaria *e os etephantes pereciam, mandou 
logo, conhecer da causa! làn^este tempo estava pas- 
sado decreto, que nenhum chrístiSlo ficasse no reino, 
nem se pregasse mais n^eile a lei de €hri$to. Como 
a rei, e os ministros conheceram, que a falta, que^ 
fazia a retirada .do& chHstaes aos provimentos da* 
cavaiiaria edoSv elepbantes, nascia de o rei os nSo 
qiMÓrer ou^ir, eádmittir-^ibeeastiazdes da sua justiça, 
cfamocu ò primeiro ministro do rei os christãop mais 
principaés,. e: lhes deu vista das culpas, que Rama- 
naiqueui e:os^seus sequazes lhes tinham imposto, as* 
quaes sé. reduziam a quatro. A primeira era, que 
ofriC^istãos nem adoravam os seus deuses, nem' 
reveréooíavara os seus templos : a segunda, que nSo 
baviftj ehirei eUes cousa prtícular, mas que até as • 
maihfires eram cõmmuns : a terceira, que as virgens 
havjadi de ser .desfloradas Aijites de se receberem : u' 
quarta^ que o timiu*e da lei dos ohrístãos era bebe-- 
reov.todBs por om mesmo ip^caro de barro o leite, 
e> que bebiam cvopindo. primeiro n'dle, dizendo aos 
chvistSosv >qae se-pozessem contra o seu rei por par* 
te dos europeos. A isto resfioAderam : era muito 
verdade queelles não adoraram noais que » Deus 
verdadeiro, 'creador do ceu, e da terra, e que Mo 
haviam' de adonir . outro : que também era certo, 
que neinadoFavam o» seus deuses, nem reverencia- 
vam os ^us» templos : que as mais eulpas que se 
IhesipipQnhip), eram falsissima^ todas, eque, se pro- 
vassem ser- alguma d^etlas verd^ira, eiles dwam 
mil cabeças ao talbo^ e .todos .os seiB bens confisca- 



— lie-- 

dos» e mil patacas para orei: d^isto passaram obri*-^ 
gação, e deram fmqc^^ 

Depois de quinze dias de deteaga, escrisvéú o 
rqí ao governador de Gombòconão, que tinha feifo 
as execuções dos christaos, elhe remetteu oassigna*^' 
do, que estes passaram em Tanjaor, e^oit mesmos, 
que o subscreveram. Nào se pôde crer o àentimeitta: 
que recebeu aquelle bracmene, e os mais miaístros, 
vendo que gente tão pouca em numero, como qs chrb- 
tàos> perteodia estorvar se^us intentos ;. e assiih mui- 
tos d^elles votaram, que fossem arrastados, pela cidar: 
de â cauda de um jumento, e mortos aíTroptosMuen* 
te: que depois poderiam com algumi crime imposto 
descjjlpar diante do rei este castigo. Borém o bracr- 
mene presidente lançou nomeio, do consistório, a car- 
ta d^ rei, dizendo: que se. alguém se atrevia apro- 
var qualquer dos crimes, que n'ella se coalinbam^ 
iiHo tó áquelles, mas aos naais christâos. mataria logo : e 
que^ se não se atreviam a provalrOÃ, elfeaio podiaman^ 
dar mais que o rei, o q^ual só provados os delicioft, 
manddva proceder a castigo. Como se nào podwEua; 
provar os crimes, deu o Juiz por innocentes os chris- 
tâos, ordenando pôr sentença pablica, que podessem 
viver na sua lei, como até alli tioham vivido;! com 
que ficou revogado. o decreto. passado. 

Todo estesuccesso tfio outro dó. que>se espe- 
rava, e do que 'se temia„ alBrroa o R Luiz de.Melt 
lo na sua annua, emque refere os snccessos do.aor 
no de mil. seiscentos e oiteata e cinco, se devera, 
abaixo de Deus, ao zelo, ao cuidado, ao trabalho, 
e á direcção do. Y. P. Jo5o de Britto, que »'aqiid- 
le tempo era superior da missão. E diz o mesr 
mo P. Luiz dé Mello que, quando julgavam todos, 
que com aquella perseguição acabaria a fé, não 



--U7 — 

só' no reino de Tanjaor, mas tombem nos drcM^ 

visínbos, foi Deus Nosso Senhor servido, que a dita 
perseguição se convertesse em credito da sua san- 
tó lei. 



h ^. •• 




. •:) 






— 118 — 




CAPIVUliO XXVI. 



SNTRA O V. P. JOiO DE BBITTO NO REINO DO MARA* 
VÁ: BNGONTRA-SE COM O GENERAL DO EXERCITO» 
QUE O PRENDEU. 



V. P. João de Britto dando por bem^ 
empregados os trabalhos, e fadigas, que 
teve n'esta occasião, deixando assim com* 
postas as cousas do reino de Tanjaor, se 
passou ao reino de Biorravá, onde havia desoito an- 
nos nSo ia missionário algum, por se temer grande 
perturbação n^aquella chrístandade, em respeito da 
perseguição, que o rei antecessor ao que então rei- 
nava havia feito no anno de seiscentos sessenta e 
nove, segundo referem as annuas d'aquelle tempo. 

Gomo a entrada, que o V. Padre intentava fa- 
zer no reino do Maravã, era empreza tão árdua, 
para a eleição do meio mais conveniente a conseguir 
este fim, consultou um missionário muito antigo, para 
que n^esta matéria o aconselhasse, como mais prati- 
co. Pareceu ao consultado impossivel de conseguir 
o intento, e disse ao V. Padre : que se não cançasse 
na empreza do que lhe não era possivel conseguir, 
e para isto dava muitas razões, que provavam o seu 
conselho. Mas como o V. Padre nas suas resoluções 
seguia emprezas, que transcendiam a esphera ordiná- 
ria dos outros homens, vendo que lhe não apontava 
08 meios, que procurava saber, mas que lhe queria 



— 4*9 — 

aconselhar deisistiáse do que ioteotava^ disse ao Pa-' 
dre: que elle onão oonsultava/se havia, ou nSpha-* 
via de entrar no reino do Maravá ; porque é resd^ 
luQdOy com què estava , \hé não dava jâ logâr para" 
pedir conselho n'esta parte ; mas que somente pedia' 
a sua rev^encía lhe apontasse* os meios mais con^^ 
venientes, que se lhe offerecessem, para conseguir 
a dita entrada : que, supposto sua reverencia lhe 
não mostrava os meios, que pedia, eUè se resolvia 
a ir sem embargo de não achar em sua reverencia 
a noticia,' qjie. procurava, fiado ém que Ihé inspira-, 
ria os meios, quem lhe dava os'auxilios. ' . 

Resoluto assim o V. Padre ioíi^ de Brítto, 
inspirado e ajudado com {Articulares auxílios daDí-- 
vina Providencia, entrou aos cinco de maio de níif 
e seiscentos e oitenta è seis no reino do Maravâ côln^ 
tão feliz successo, que baptisou até os deaesotís àé? 
julho mais de dois mil e setenta, e confessou tòdôs 
os christãos 4'aquelle reino assistindo de dia e de^ 
noute, ou a confessar ou a* báptisar, com tão j^ande - 
trabalho, que os mesmos gentios se admiravam ; e oi 
christãos, que havia dezoito annos estavam esperando 
por quem lhes repartisse o pão da doutrina e dos sacra- 
mentos, ficaram muiito contentes e consolados em seu 
espirito, e com grande allivio de suas consciências. Aos 
dezesetede julho determinou de ir para as provincias 
do norte, aonde mandou quatro catechistas, que ti- 
nham instruido grande numero, de gente. No cami- 
nho, quando ia passando para uma terra grande cha- 
mada Mangalão, se encontrou com o governador do 
exercito do Maravá, que com mil soldados ia con- 
duzindo a maior parte da gente da cidade e do paço, 
osquaes iam fazer certo juramento a um pagode dis- 
tante d'alli oito léguas, para por elle se averiguar, 



--12K) — 

c|iiein. úiAá roubado ao rei um colíar de formosissí- 
UM pérolas, /e uma jóia dè grandíssimo valor. NSto 
qiHir4> faltar aqui ft curiesidade/do leitor: por issa 
•nrfiarírei o ificdo d'aq«elle super^cioso foramento^ 
qu^-.à o: seguinte. Na. terçja feira ao meio dia pcfem 
emeíma. do altar uma terrra de ferro ábrásoídoy o 
qmalvSo lambendo oa sacerdotes do pagade, cada um 
em n^ine d^ama das pessoas, que hão^e fazer ojii- 
rimentov enSó dura este acto mais que arte uma hora'; 
e: se algum dos sacerdotes queimou a língua, aqueHe 
por eujà tetíção lambeu o ferro', íi^a çutpiido ; e se 
a n%o queimou, é julgado por ionocei)te> Depois de 
Içmb^rem o EerrOi abrasado^. os. feebam' em uma casa 
dior mesmo i pagode atõ fe tires da tarde, e então o9 
yfo.yet' três gr8mde&.mintrtro& e raspam^lhe muitb 
bím a lingua com uma fdha de palmeira: se dizem 
qill9 9fto estti queimada,' fica tido por iunocente o 
sujeito, em €ti}0 nome se lambéii o ferro ; e se affir- 
m4m, que sé queimou^ ódio por culpado. Ensaquei- 
la occaaido entre mais- de mil pessoas qjue eram, sé^ 
duas saíram criminosas. 




— 121 



■":*v*:*>'disc*:*:*F^ 




CAPITVJLO ILXTII. 



DÀ-SB NOTICIA BA PIUSÂD DO V, P. JOÃO DB BRITTOi 
B DA GONSTAJIICIA^ €0H QUB BI4JB, B OS SEUS GA- 
TECmSTAd SOFFftBRAlI OS TOHMBlfTpS ; B DB cÒr 
MO FUNAUMBNTB É PROl^UNCUDO A^ MORTB. 



general^ qaô conduzia toda esta gente» 
sabendo que passava o V . Padre coni 
mais cinco catechistiis, o mandou pren- 
der ; e trazidos todos ft sua presença, lhes 
tomou tudo quanto tinham, e os mandou açoutar 
crueliàbimamentiQ com os loros dos cavallos, que- 
reodó persuadjI-HOS a que invocassem o nome do ce- 
lebro idolô. Xivem, di2endo-lhes, que dissessem, Xt- 
vi Xivá. E coflofo nem o V. Padre, nem os chris- 
tdos quizessem pronunciar o tal nome, tendo os 
gentios porfiado n'esta demanda até alta noite, o 
carregaram de grilhões, e o amarraram a um cepo, 
no meio da praça, e no mesmo cepo lançaram os 
cineo christãos, e lhes poEeram uma companhia de 
guarda. Toda aqueila noute estiveram em vela os sol- 
dados de Ghristo, fazendo sentinella ao ceu. Pela ma- 
nhã veio toda a gente da villa, e a mais que se con- 
duzia para o juramento, a ver aquelle expectaculo. 
Não é fácil de crer, nem será fácil de explicar a$ 
iojurias, as aíFrontas, as Ijrannias, e as molestiasf, 
que alli padeceram assim o V. Padre, como os ca- 
tecbistas; porque uns lhes davam bofetadas, outros 

16 



— 122 — 

lhes cuspiam, outros ihes davam com páos, e todos os 
escarneciam, e zombavam d'elies. 

Assim estiveram até o meio dia u^aquelle logar, 
onde a quentura do sol os abrazava, e o tumulto da 
gente osafDígia. Depois do meio dia lhes deram Jra- 
tos de agua» osquaes se executam doesta sorte. Amar- 
ram ao padecente uma das mãos atraz com dura cor- 
da, e deitam-no em uma grande lagoa de agoa, on- 
de se lhe põem um homem em cima, e depois o ti- 
ram & praia, para que diga o que querem, que con- 
fesse. Tanto que deram estes tratos ao V. Padre, e 
a seus companheiros, foram marchando com elles 
para ume fortalesa, chamada Calicoil, que distava 
d^alli três iegoas. No caminho usaram os gentios de 
grande crueldade com os nossos prezos, mas de muito 
maior usaram depois de chegar â fortaleza ; porque 
um dos catechistas, homem já muito velho, por ser 
creado no paço, e muito conhecido do general, foi - 
o maior objecto do seu ódio ; e assim depois de o 
mandar alli açoutar por mais de meia hora pela mão 
de muitos, e cruéis soldados, o mandou arrastar dú 
por um monte abaixo todo cheio de espinhos, e gran- 
des pedras, ei^he mandou arrancar todos os cabellos 
da barba, um por um. Julgando todos que o valoro- 
so soldado de Ghrísto estava morto, o mandaram 
queimar em duas, ou três partes com um tição de 
fogo, o que elle por então não sentiu ; c ao V. Pa* 
dre o mandaram carregar de ferros nos pés : entre 
estes metteram uma estaca, e junto d'ella puzeram 
outra mais atraz, em que lhe prenderam as mãos 
pela parte das costas, ficando com esta invenção o 
corpo feito em um arco. Porém querendo os gentios 
segurar oV. Padre, e os catechistas, o tiraram d^a- 
quella machina, e carregados de ferros metteram a 



— 128 — 

todos sóis em uma pequena casa, Ba.quel não cabiam 
bem três fX)ssoas: olli estiveram toda a noute; ejá 
se contavam duas, e doisdías, em que nSo tinham 
comido cousa a%uma. D^aqUelle cárcere os mandaram 
para outro, ainda que mais largo, muito mais hor- 
rendo por sua escaridão, e mau cheiro. N^elle esti- 
veram doze dias com tal apeirto, que só o poderia 
explicar quem o experimentou, e com tanta molea- 
tia, que só a saberia comprebender quem a soffreu. 
Depois^de passarem três dias inteiros sem comer, Ibes 
davam de vinte em vinte e quatro hoi^as um pouco 
de arroz cozido em agua. 

Passados doze dias, fliandou o general ordem 
ao governador da fortales^, que lhe remettcsse . os 
presEOS. Este satisfazendq nio só & ordem,* mas ao 
gosto* do general os remeUéd a tão bom recado^ 
que os mandou amarrados com éordés; pelos pulsos 
dos braços, ecom grande guarda de soldadoa« Assim 
caminhavam até o logar, onde estava o gei^ral com 
o. seu exercito, e mais ministros, aendo o caminho 
de cíoco legoaS) muílo áspero, por ser de mattos e 
grandes penedias, no maior calor da cani^ula. Che- 
gados finalmente áqueile logar, solevantou n'elleum 
tribuifal de grande numero de ministros : o princir^ 
pai d^etles perguntou ao V. Padre, e aos catechistas 
um por um, se estavam resolutos a dizer, Xioá Xi^ 
vá:e como todos respondessem que não, lhe» deram 
muitas bofetadas; e dando a primeira ao V. P. JoSo 
de Britto, (Mereceu elle a outra face para lhe darem 
a segunda; o que vendo um gentio do consistório 
disse : o primeiro^ que ensinou a lei, que este segue, 
dèu por preceito o que elle agora obrou, Logo lhe 
intimaram a sentença do rei, que dizia assim: por 
este Gru^ ou mestre da lei do Senhor de tudo, vir 



— 184— 

ensíMF uma nova seita a estes reinos em todo ooo-^ 
traria -ás nossas, é por não querer pronunciar o no^ 
me do grande deosXivein, nem oídenar a seus dis- 
cípulos, que o pronunciem, lhe serfeio cortados os 
pés, e as mSos^ e será espetado : e o mesmo castigo 
se dará. aos feus maiores catechistas; e aos três mais 
pequenos cortarSo um pé, uma mio, os narites, a 
lingua, as orelhas, e os largarão com tida. 

Depois que lhes deram esta sentença, açouta^ 
ram cruelissimamente assim ao V. Padre, como aos 
catecbístas grandes, e lhes deram tratos em cima de 
uma penha de pedra pomes, onde os poteram esten- 
didos só com um pequeno panno atado pelp cintu- 
ra, e deitando-os ora de bruços, ora de costas, 
pondo-lhes em cima sete ou oito pessoas, lhes faiíam 
entrar pelo corpo os bicos das pedras, m<riestando<-os 
mais, que as agudas pedras, o grande calor do wl, 
que n^elias reverberava. Depois d^isto veiu o carpina 
teiro com um espeto, e enxó para cortar os pés, e 
as mãos ao Y. Padre e aos catechistas, o que então 
se não executou, por eiiegar uma carta do rei ao 
general, em que lhe dizia, que seu cunhado estava 
resoluto a se rebellar contra elle, e chamava em sua 
ajuda ao rei de Tanjaor : pelo que deixasse toda a 
execução, e occupaçfto, que tivesse para outro tem- 
po, e marcfaando logo com toda a gente de guerra, 
com que se achasse, se fosse ver com elle. Torna- 
ram então a carregar o V. Padre e os catechistas 
de ferros, e os metteram em um terrivd cárcere 
com extraordinárias cautelas e guardas, onde estive» 
ram dezoito dias, no fim dos qnaes veiu um escri- 
vão intimar ao V. Padre a sentença, que contra elle 
pronunciara o rei por informação pessoal, que lhe 
deu do caso o mesmo general, que o havia mandado* 



_125_ 

prender e açoutar. A sentença era : que^ o V»; í. 
João deBritto fosse morto e espetado, depois de lhe 
cortarem os pés, e as mãos. Ouviu elle a sentença 
e perguntou, se iògo olli a haviam dé executar, ou 
se havia de ser em outro logar : respondeu-lhe o es- 
crivão : que, como viesse segunda ordem do rei, en- 
tão se saberia. 

Deu ò V. Padre graças a Deus pelo beneficio; 
ordenando aos christãos que também as dessem, e 
todos rezaram em acção de agradecimento um roza- 
rio a Nossa Senhora, para que lhe alcançasse de seu 
filho graça final. 




— 126 — 



€APIVIJ1iO XXTIII« 



SUJFEXDfi-SE A EXBGUÇÀO DA SENTENÇA ; É LEVADO 
A CORTE : TEM AUDIÊNCIA DO REI, O QUAL REVO- 
GANDO O DECRETO, O MANDA SOLTAR E AOS CA- 
TECBISTAS. 



ASSADOS quatro dias^ cbegou ordem d'el- 
rei para que oV. Padre e os catecbístas 
fossem levados á corte, que distava d^alli 
trinta léguas. Lançaram-nos então em 
algemas de dois em dois ; e conduzidos de bom nu- 
mero de soldados os mandaram para a corte, aonde 
chegaram depois de cinco drás de jornada com os 
pés vertendo sangue, etào chagados, que até a mui- 
tos dos gentios causavam compaixão. Alli lhes deram 
por cárcere a estrebaria dos cavallos, para accumu- 
larem aos mais despresos esta aíFronta. Em tal pri- 
são esteve o V. Padre João de Britto mais de um 
mez, lançado em grilhões de extraordinária grande- 
za. Foram muitos dos maiores letrados dos gentios 
a disputar com elle, e todos pela graça de Deus saí- 
ram <íonvencidos e tão admirados, que foram dizer 
ao rei: que o V. Padre ensinava uma doutrina mui- 
to rara ; e ainda que era contraria á sua, a provava 
com taes razões e comparações, que ninguém lhe po- 
dia resistir. Outros diziam : que era ignorántissim^^ 
e que só o ódio, que tinha aos seus deuses, lhe fa- 




— 127 — 

m dar algumas razões falsas na realidade» e verda> 
deiras na apparencia. 

Movido com aquellas noticias o rei, mandou 
tentar ao V. Padre por muitos ministros, e por seu 
mesmo filho mais velho, para que inTOcasse o nome 
de Xivem, ou ao menos mandasse aos christãos, que 
o invocassem; -porque tinha por grande menoscabo 
de sua pessoa o perder-se-Hie em publico o respeito. 
Porém certificado já cora largas experiências, que o 
V. Padre hsio havia de invocar o seu idolo, se resol- 
veu áchamal-o. Vindo o V. Padre &sua presença, o 
rei sem lhe faltar em Xivem, tèvé com elle uma lar- 
ga prática, e lhe perguntou pela doutrina, que ensi« 
uava: respondeu-lhe que. a doutrina, e o caminho que 
ensinava era a da salvação: e assim lhe foi expliêan* 
do um por um os preceitos do Decálogo. Ouviu o 
rei com grande at tenção, e perguntou todas as du* 
vidas que lhe occorreram, a que o V. Padre satis- 
fez com tão cabaes respostas, que o rei diante de tã^ 
da a sua còrtc disse : verdadeiramente que não ha» 
nem pode haver lei mais santa, do que esta ; por- 
que manda fazer tudo o que é virtude» e fugir de 
tudo o que é peccado : e disse voltaoâo*8e para o 
V. Padre, qne se não esquecesse de lei tão santa, 
nem do Deus, que adorava : e que elle não queria se 
executasse a sentença, que havia assígnado contra 
elle, e contra os seus catechistas. Â isto disse aquel- 
le general, que o havia preso : porque não invocaes 
a Xivem? Respondeu, que só quem adorava a Xi- 
vem o invocava : que elle só adorava ao Deys ver-* 
dadeiro, creador do ceu, e da terra, e por isso só* 
mente a este Senhor havia de invocar. Ouvida esta 
resposta pelo rei, disse : eu não vx)s pergunto por 
isso, nem vos ordeno tal cousa; mas só vos man- 



— Iâ8 — 

dei chamar para saber da doutriaa^ quQ eiisínaís : 
ainda vinde cà amanha, e faliaretnos mais devagar 
n^esta matéria. 

No autra dia^ aioda que.âoltaram os catechís- 
tas» não quizeram s(Jtar q Y. Piidre^ por lhe não 
d^ikrem entrada no paço, para segunda vez Xállar ao 
rei ; e diziam que era necessário não tornasse a (al- 
iar com^elle; por<}ue assim como da primeira vez o 
enfeitiçara para lhe perdoar, e aos seus catecbistas, 
depois' do. t^ 6rmado contra elles duas vezes sentença 
. d^ morte, assim também o enfeitiçaria para o fazer 
da sua religião : e por esta causa ainda depois d^is- 
to o tiveram quinze dias prezo na estrebaria do;» 
cavallos, w> fim dos quaes por cair um dia solem- 
ne, em que o rei costuma^va dar perdão a todos, à 
véspera do dito dia os nvinistros juntos dando o re- 
cado da parte do rei o foram soltar : e com a liber- 
dade, que Uie deram, acabou a tempestade, e se 
suspendeu o-martyrio do V. P. João de Britto, e 
dos seus catechistas, não faltando elles ao puartyrio, 
mas faltai^ q martyrio a elles. 




— 129 




CAPIVVLO XXIX. 



NÒTÀ»Í-SÉ ALGCMAS COlíSAS DIOJVAS DE REPARO, 
QXJE SUCCBDERAM NO TEMPO DA <>RÍSAO. 



KliVRE assim o V. Padre, e os seus cale- 
chistas, tratou logo de fazer todas as dí- 
ligenciíís por fallar ao rei segunda vez, 
para ver se podia reduzil-ò a que de to- 
do conhecesse a vei*dade da nossa fè, e os erros da 
sua gentilidade, e conhecidas bem uma, e outra cou^ 
sa, se resolvesse a largar a idolatria, e adorar o ver- 
dadeiro Deus, fazendo-se christâo; ou ao menos pa- 
ra ver, se podia alcançar ampla' licença, coni a qual 
podesse livremente pregar no seu reino, sem que 
ínínístro algum lh'o podesse inlpedir. Mas como os 
seus vassallõs receavam isto mesmo, que o V. Pa- 
dre ihtentava, empregaram todaà as forças da sua 
industria cm lhe impedir esta entrada: e quantas 
mais eram as suas diligencias para a conseguir, tan- 
tas mais eram as industrias dos vassallos para a es- 
torvar. Mas, sem embargo de todas as cautelas, já 
tinha disposto fallar ao rei, e também comprado o 
consehtimentp d^aq^uelles, em cuja mão estava o ad- 
nííttJrem-iio ô real audiência, quando recebeu aviso 
do seu provincial, para qtíe fosse logo ver-se com 
élle,' porque tinha certos negócios de importância, 
que Ifie commiinicar. Como o V. P. João de Britto 
observava tanto á risca a virtude da obediência, foi- 

17 



— 130 — 

lhe preciso deixar para outra occasiào esta diltgen- 
jcia, e ir com toda a brevidade a buscar o seu pre- 
lado. Mas nós não havemos de deixar para outra oc- 
casiâo o contar alguns prodígios, que Deus obrou, 
quando o prenderam. 

Entre outros foram três os que com mais ad- 
miração se observaram. Foi o primeiro prodigio, 
que indo o V. Padre lançado em algemas com tan- 
tas affrontas, ealgazâres dos gentios, vendo, e repa^ 
rando todos a boa cara com que ouvia, e soíTria 
tudo entre tantos executores d^aquellas tyrauDias, 
vieram muitos (até dos b^acmenes) dizendo, que se 
queriam converter ; porque lei, que ensinava a Baf- 
frer tantas aíTrontas Qoqfi bom animo, e fazer mais 
caso d'ellds, do que q mundo faz, das honras, não 
podia deixar de ser verdadeira. 

Foi o segundo prodígio: que dós tormentos fi- 
caram oV. Padre, e os seus catechistas tão feridos^ 
que julgavam todos era moralmente impossível pode- 
rem viver: e tendo este conceito tão evidentes e 
forçosos fundamentos, foi Deus servido, que sarassem 
em breves dias sem mais subsidio, que o das míse* 
rias, que passavam ; sem mais cura, que a das pri- 
sões, que sofíriam, acQumuIando-se ás cruéis ras-. 
gaduras dos açoutes, que nos corpos eram pereunes 
fontes, as tyrannas feridas dos pés, que pelos cami- 
nhos ásperos eram correntes rios ; sendo allivio d^e^s- 
te cruel caminho os rigores de uma prisão sobre 
fnui affrontosa mui áspera ; servindo de refrigério a 
tanta crueldade a necessidade continua de tudo o que 
podia ser sustento è^ vicja, e refrigerip â.pena« 

Foi o terceiro prodígio, que nos tratos , o& 
quaes, como alraz dissemos, deram sobre as pedra» 
ao V. Padre, e aos companheiros, a um d'elle§ que- 



— 131 — 

braram um dos dhos. Âcodíu o V. Padre a godsò- 
lal-o, dizeDdo-lhc se não affligisse, e repetindo-lhe 
a sentença de Christo, que melhor era entrar no 
ceu com um s6 ol&o, que no inferno com dois : e 
fazendo logo o signal da cruz sobre elle, foi Nosso Se- 
nhor seryido restítuil-o são com extraordinária ad- 
nlíração dos idolatras : e o bom cbrístdo dhia eom 
sentimento igiíal á l^oa fé» que merecín muito pou- 
co a Deus ; pots tefido nmitos a dito de dar a vida 
peta fé, elle a não tivera de dar ao menos um dos 
olhos da cara. É certo que a fé doeste ehristão lhe 
fez não sentir, nem reparar em perder um dos olhos. 
Mh9 a providencio, e misericórdia de Deus fez, fúfi 
niilé^ròsamerite alcançasse saúde pelos merecimen- 
tos d'aqiielles actos, com que firmemente cria, epor 
Cooperação do <;ontacto do V. P. loSo de Britta. 




TERGEIIA PABTE. 

£M QÚR S£ CONTEEMC AS ACÇÕCS fiUS O 



OBROU DEPOIS OUE CHEGOU A PORTyGAIi, E 
DEPOIS aUE DE PORTUGAL SE EMBARCOU 
SEGUNDA VEZ PÁÍÍA AINDtA, ATÉ CONSUM- 
KAR A VIDA COM O GLORIOSO MARTYRIOi 



CAVlVtJIiO I. 



ÇttEGii A LISBOA, OJVIIE £ REGE^HOO POR £t-REI COM 
£fUAIMO AGRAI^O : PARTE PARA OS COIXEIGIQS DA 
CO]|IPANmA A GOXfViDAR, OPERÁRIOS PARA A SUA 
MISSÃO. 

,M oito de setembro de mil seiscentos oi- 
tenta e oito aportou na corte de Lisboa 
o V. P. Joaò de Britto: saltou em ter- 
ra, tomou a bençSo ao seu prelado, deu- 
Ihe conta do negocio a que o mandava a obediência, e 
foi ao paço beijar a mão a el-rei, que o recebeu com 
uma tal demonstração de gosto, como se em conhe- 
cimento sobrenatural estivera vendo o que até alli 




— 135 — 

lia via padecido e olnrado^ e o que d'aUi «mdtaBteli- 
oha para obrar e padecer. E como a condusSo dos' 
negocioSy que da sua missão o traziam a PortagalV 
dependia em tudo da protecção de su^ magefttade/ 
coa»Dunicou-ihe todos os .desígnio» d^aquella íoma^ 
da, pedindo-lhe para os conseguir a sua real pro- 
tecção. 

Ouviu Sua Magestade o requeriírlento e reser- 
vando para seu tempo o deferir-lhe, tratou o V. Pa- 
dre . logo. de n^o perder hora tia applicaçSo dos ne^ 
gocios a que vinha. E como lhe pareceu, que pro^ 
curar sujeitos para na monçSo de março seguinler 
eaviãr para a missão, devia ser o que primeiro eo^' 
oieçassó a obrar, tratou de se p6r a caminho para 
os collegioa de Santarém^ Coimbra, Porto e Braga, 
a intimar àquelles religiosos todos a falta de sujeitos, 
que havia na sua miss&o em ordem á cultura de tSo 
grande seara ; para que a(fervorandO-os còín o exem- 
(do» e com as razões, colhesse este primeiro* Iructo. 
Poz^se a caminho, e foi de Lisboa a Santaretn, em 
cujo. coliagio esteve os dias, que lhe foram necessá- 
rios.; eco5tÍQtiando a sua derrota, partiu para €dim*- 
bra. Assistia n'este tem;)o sua mfienacid«de dej\>r^ 
talegre, vinte e seis legoas distante de^ LiãiKM ; e 
havendo quatorze annos, que se tinha apartado d'e!* 
la., não bastou tSo dilatada ausenbla, para que che- 
gando a Portugal não tratasse de mostrar, <}ue para 
ello estavam em primeiro logar as obrigações do offiéíò, 
que as leis do sangue ; porque chegando4be aLiàfboá! 
carbi: de sua mãe, em que significava o^otto'^e5^ceí^^' 
mo^ quiK tínba da sua boa vinda, e o^^atiijfssiraò/ 
que.teri^ da sua vista, e já qu6 elltt fiãò podia-Brftè-'^ 
cipaif-se. porque os seus anftòs ífee híío44vam tegar a 
faaer jornada, lhe pedia enóifr^cid¥mèri{é quiiesse^T^ 



— 138 — 

ailiviar-lhe. uma saudade tão longa. Respondeu ã 
carta com a reverente modéstia, que lhe dictava a 
sua virtude, e oseujuiso» coacluiudo que ellepassa-^ 
ya a Coimbra a tratar do negocio, que o trazia a 
Portugal, e que ua volta iria tomar-^lbe a benção. 

Fartindo, como dizíamos, de Liaboa para Santa- 
rém e de Santarém para Coimbra, indo chegando à villt 
da Golegã, Ibe disse um padre de auctoridade, o qual 
n^aquc^Ia jornada ia por seu companheiro, que d^alH 
meia legoa^ onde chamam o Pinheiro Grande, vivia 
sua irmã D. Luiza Maria de Brítto (o que elle sa^ 
bia muito bem), que a fosse ver de caminho ; pois 
nãjo perdia por isso nem jornada, nem- negocio. Res-^ 
pondeu, que elle não vinha a Portugal averparentes» 
senão a servir sua religião: que na volta faria aquella 
diligencia. Julgando o padre companheiro, que esta 
resolifção parecia excesso, como eca^itdigiosD de au- 
ctoridade teve-a para Ibe ^er, que tal determina- 
ção lhe não parecia bem,- nem lh'a approvava : que suá 
reyerenqia fosse ver sua irniãa ; e que, se assim o 
não fazia, elle se eximia de seu companheiro , e fi- 
caria sempre seu queixoso. Convencido, e obrigado 
com estas razões, fez aquella breve digressão de meia 
légua, e foi ver sua irmãa ; c assistindo com ella 
tempo muito breve, partiu logo para Coimbra. 

Partiu do Pinheiro para Coimbra, ed'ahipas^ 
sou aos collegios do.Por(o, e Braga, nos quaes foi 
recebido com os applausos, que merecia. Fez as suas 
propostas, relatou os seus trabalhos, insinuou os seod 
intentos, persuadiu os seus designios, moveu a mui- 
tof, e admirou a todos. £ como entre estes coUegies 
o de Coimbra jé o de mais sujeitos, e onde podia co- 
lher melhor fructo, dispoz de tal sorte a sua pro- 
posta, que achando-se abi pela festa do natal, e na 



— 137 — 

fia presença do menino Deus nascido no preseptp, 
ptopoz como ia buscar n^aquelle collegio sujeitos 
que o acompanhassem para a índia, imitando o exem- 
plar de Jesu Ghristo, missionário vindo do ceu & 
terra por mandado de seu Eterno Pae. 

No tempo em que assistiu n^estes collegios, teve 
sua mãe aviso, que elle a não poderia ir ver a Porta- 
legre, senão d'»lli a alguns mezes : com esta notícia 
se resolveu a ir ao Pinheiro, dezeseis léguas d^aquella 
cidade, a casa de sua (ilha, afim de que, passando o 
JSIho de Coimbra para Lisboa, lhe mandasse dizer 
que alli estava e a viesse ver; pois para chegar âquel- 
Ia quinta não torcia mais, que meia legua. Assim 
succedeu, porque partindo de Coimbra, e sabendo 
como siia mãe o estava esperando n^aquelle sitio, lhe 
foi tomar a benção, e gastando alli alguns dias, pas- 
sou a Lisboa, onde começou a Uatap das cousas para 
que fòra enviado a Portugal. 




18 



— 138 — 




OAPIVVLO If* 



iMPBfilDA AJORKADÀ AROMA PARTE DE LISBOA PA- 
RA ÉVORA, E d'AHI PARA PORTALEGRE A VISITAU 
O. JOÃO SfASGARANHAS BISPO B^AQUELLA CIDADV, 



^uÉÀ ãa9 primeiras obfigá^Ses dos pi*ocur£r- 
dores geraes, que vem da índia, é passarem 
ia Roma, para dar conta ao seu geral do es- 
tado deis missões, dos negócios a que T«m 
assistir, dos requerimentos, que lhes é necessário ístiet^ 
e de tudo o mais, a que o seu prelado os manda. Esta 
jornada a Roma dispunha o V. Padre, quando soube, 
que o pontifice Innocencia XI havia mandado, que 
todo o missionário, que em Roma se achasse^ fizesse 
juramento de sujeição^ e obediência á junta de Pro- 
paganda Fide, cujo juramento nos missionários Por- 
tuguezes era em^erjúiso do direito da coroa de Por- 
tugal. Com este obstiaciilp se. resolveu a escrever ao 
seu geral, dando-Ihe conta de tudo o que tocava 
ftquella matéria, para que suppostas as controvérsias 
presentes, resolvesse sua paternidade, se havia ou 
não havia de ir a Roma. 

Expedido para Roma este aviso, passou o V. 
P. João de Britto ao collegio de Évora, e fazendo a 
dilação, que pedia o negocio, que ahi o levava, pas- 
sou a Portalegre para visitar o bispo D. João de 



— ia9 — 

Mdscaranhas, pe§s(m em quem coihpetiúm com íb> 
determinada vantagem oexcellente das virtudes com 
o illustre do sangue. Avistaram-se com excessivas 
demonstrações de gosto: contetidéran» as cortezanias 
com notáveis apertos. Prostrou -se o V. Padre para 
tomar a benção ao bispo : cbegou este a lançar-se 
por terra, (qi^rendo airtes receber a bengão, do que 
dal-a) para tomar a beriç5o;a0V. Padre. NoV. Pa- 
dre instava a obrigação e a modéstia, e no bispo 
porfiava a benevolência, e a veneração ; um instava, 
outro não cediíi : o V, Padre fez o que devia, e nSo 
pdde fazer maia : o bispo faz mais do que devera, mas 
n9ò eslava iia stia «rbanídade fazar menos. Fez cada 
quâl: o que querijã^ s^m líenkum conseguir o que in^ 
tentava ; porque ambo^ mutuamente beijaram as mãos, 
e apostadamente negarani as beriçãei»; . 

GoRcItíidos este» primeiros, e ^ãô cortesãos aga-^ 
saibos, começaram a satidar-se ; e passadas uma ou 
duas horas de conversação, saiu o V. Padre a ver 
sua mãe para lhe tomar a benção e com piouba di-^ 
lação se foi ao collegio d'a<|uella cidade. 




440 — 



.çê>,*Mí*v,<^'- 




CAPITULO III. 



REFERE-SE O QCE LHE SUCCEDEU NA JOUNADA DE 
ÉVORA A PORTAtEtíRE. 



A passagem de Évora para Portalegre, foi o 
y. P. João de BríUo a uma vílla, qae 
se chama Monforte, onde >ivia seu ir- 
mão Fernão Pereira de Britto, e feita 
breve saudação, tratou de seguir a sua j<N*nada, que 
n^aquelle dia tinha jâ sido de quatro léguas, para ir 
dormir a Portalegre, que d'ista dalli outras quatro, 
e com eíFeito se pôz a caminho : mas ao sair do 
logar principiou tal tormenta de vento, e agua, 
que ainda a quem fosse atraz de um grande ne- 
gocio suspenderia a jornada, e com maior razão achan- 
do-se em povoado, e onde vivia seu irmão a quem 
não tinha visto havia quatorze annos : mas como el- 
le estava costumado a desprezar maiores tormentas 
dos elementos, e maiores tempestades dos homens, 
nada lhe fazia obstáculo a prpseguir, nem o obri- 
gava a voltar; antes contra os rogos, que se lhe 
faziam, para que suspendesse por aquelle dia a 
jornada, com apostada resolução persistia no in- 
tento, e desaltendia (xs persuasões. Ia por seu com- 
panheiro um rehgioso de grande auctoridade, e 
prendas, cancellario da universidade de Évora. Ven- 
do este, que p V. P. João de Britto se resolvia 
t caminhar semattender, nem deferir ao que se Iht 



_141 — 

dma, e rogava, voltou para élte eom ifmá MD^^yai' 
galantaria, e lhe disse : Padre Joio de Brittô, s^ 
vossa reverencia qoer hoje com a terribilídade does- 
te dia ir dormir aPorlal^e, parece-me muito bem: 
vá com Deus, que eu determino dormir esta noattt 
em um logar, que chamam Monforte, em casa àe 
um amigo, que abi tenho, que s^chama Femôo Pe-^' 
retra de Britto ; pela manhã, se fizer bom tempo 
partirei para Portalegre em seguimento de vossa 
reverencia, e là nos veremos. 

Pareceu ao Y. P. João de Britto, que devia 
accommodar-se com a persuaçSo do padre compa<^ 
nheíro» e desistindo do caminho voltou paraMonfor* 
te ficando a jornada para o dia seguinte. Nas horas 
que n^aquelle logar se deteve, succedeu um caso qad 
parece admirável. Ha alli um convento de religiosas 
de S. Francisco: n^este estava por educanda uma 
sobrinha do V. P. João de Britto, filha de seu ir^ 
mão Fernão Pereira de Britto. Pediu-lhe o tal ir=- 
mão, que, já que alli se achava, lhe quízesse ir lan-^ 
çar a benção. Becusava o V. Padre esta diligencia 
com fundamento de não ir a convento de freiras^ 
ibi finalmente, e como jà era patente a todos! a sua 
vida, o veneravam as religiosas coro especial deseje 
de o verem, e cotn maior que todas uma religiosa 
de maior supposição, chamada Maria dos Seraphinsi 
Havia esta recommendado muitas vezes ào irmão do 
V. P. João de Britto que, indo ellc áquella villa Ibe 
pedisse muito, fosse ao seu convento, onde queriam 
todas as religiosas ter o gosto de o ver, e a conso* 
lação de lhe tomar a bençã^. Chegando o V. Padre 
á grade da igreja, onde concorreram logo todas as 
religiosas, como o irmão do V. Padre não visise alli 
a madre Maria dos Seraphins, maudoura logoic^a*^ 



— 142 — 

mar : vpUcm com a resposta <)uem levou^ ' o reca-^ 
dp, dizendo que jà vinha. Como o V, Padre nlo qiie^ 
riu fazer tiiuíta dilaçaio, sem eml>arg<> de seu írmâ^ 
the f^ir so rEío fosse sem fallar âquella reíligiosat 
que desejava summamente veNo, imteiitou apartar-Se 
sem esperar, qae eiia cbegasse ; mas conseguiodo o» 
rogos do irmão, qu^ fizesse mais uma dílajç^ breye^ 
to terceiro roeado chegou a religiosa eom grande 
tiicia do não ser a primeira, que alli se achasse, e 
muito «mais de ser necessário mandarem-na chamar 
tasias vezes para vir, aoDde tanto desejava. Chegou 
ft presença do V. P. João de Brttto, e pediodo-Ibe 
com muita cortezania e discrição a benção eom a 
perdão da cu1p&, que conhecia haver eommetitdo tm 
ser a ultima que alli chegasse, as primeiras pala** 
fras, que o V. Padre lhe disse, foram estas : madre^ 
a verdadeira tença é sahar, etudo ornais doesta vi- 
da é nada : tratar da salvação, què as tenças eá fi- 
cam. £ mettendo outra pratica com pouca mats di^ 
Ifção se despediu das religiosas. Passados poiícos dias 
feUafido estft religiosa com o irmão do V. P. João 
deBrifto, lhe pei^untou se porventura advertira nas 
cimeiras palavras, q«e o V. Padre lhe dissera tan- 
to que chego» k sua presencia ? £ respofidendo, qae 
não estava advertido, replicou a mesma: kmbradoi 
aatai^á vossa mercê que jiara eu vir ver o V. Padre 
foi neoeseario que mandasse dois, on três recados, 
acndo que eu era a que miais desejava vél-o, e a que 
mais trazia no cuidado ser a primeira que lhe fad- 
kase. Pois foi o caso, que sendonne muito nece»- 
ri6 Aiostrav cévto pa(>el ,de um retro de ttig/k, que 
et me |l»aga o^esta rilla, o andava buscando no meu 
escriplorio entre outros papeis : e quando me derafm 
^ primeira recaéd, respondi que jÀ ia, e fiz mais 



— 143 — 

talguma diligencia pelo achar; e seo(|o j& em mim 
grande a anciã por ver que me detinha, fui reco- 
lhendo os papeis, que tinha fora das gavetas, para 
deixar a diligencia e ir buscar oV. P. João deBrit-- 
to : chegou segundo recado respondi ; que eu ia ; e 
deixando os papeis no estado em que estavam, even* 
do que nSo achava o que me era necessário, disse 
comigo muito afflicta : bem fico eu agora, se perco 
a minha tença: e vindo jft para onde me chamavam 
acfiei no caminho terceiro recado do qual bveí a 
resposta ; e chegando á presença do V. P. Joio de 
Britto, me disse : madre, a verdadeira tença é sal- 
var, e tudo o mais d'esta vida é nada ; tratar da 
salvação, que as tenças câ ficam. Lembrou-se entíto 
t>; irmão do V. Padre d^algumas d^aquèllàs palavras, 
e tendo reconhecido a verdade da- religiosa, ponde- 
rando as circumstaneias antecedentes a este dko, fez 
um conceito que até agora viveu por decreto dareo- 
'de^ia nas prisofes do segredo, e que agora vivirá polr 
éredito da virtude na verdade doesta historia; 



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— U4 — 




CAPIVVIiO IV. 



^OJLTA A LISBOA : TRATA BOS NEGOCIOI» DA HISSiO : 
. pAZ^LHJB SUA MAGESTÃDB FORTES INSTANCIAS PA- 
. ; RA OUB PIQUE DE ASSENTO NA SUA CORTE. 



ASTANDO em Portalegre alguns dias , pas- 
sou & corte para tratar dos negócios da 
missão. O primeiro foi pedir a sua ma^- 

gestade renda para os catechislas, ao 

jifue d-rpi deferiu não só com larga mHo, mas com 
brevidade. Não sei qual é mais para louvar nos prin- 
cipes, se a grandeza, com que <íespacham, se o bre- 
ve espaço, em que concederh a graça : o certo é, 
que rara vez se acha príncipe, que não pensione a 
grandexa da mercê com o encargo da dilação. Per- 
doe-me o leitor doesta digressão breve, por não ser 
das que me concede o estylo doesta historia. Assim 
no modo com que o V. Padre se havia n^esta sua 
perteoçfio, como em todas as mais acçdes, foi sua 
magestade fazendo um tão siugular conceito do V. 
P. João de Brítto, que se resolveu (segundo o que 
depois se viu) a fa^er com elle, que ficasse na cor- 
te. Começou-lhe a significar o seu desejo, e que es- 
te nascia domuilò, que lhe era conveniente tel-o no 
seu lado. Desattendendo estas primeiras raz0es o V. 



— 145 — 

P/ João dé Britto, tratando só de altoodér â con- 
clusão dos negócios^ a que viera a Portugal: e como 
lhe era preciso commanical^s todos a sua majesta- 
de^ foí-lhe forçoso fazer no paço aquella assistência* 
que requer a pertenção de muitos negócios. N^estas 
assistências se confirmava mais na estimação d^el- 
rei, que sabia pezar bem o valor d^aquelle talento, 
e crescia n^elle o desejo de o adquirir. Cada qual 
dos mais illustres cavalheiros da corte estimavam 
tanto, a sua amisade, que continuamente lhe assis- 
tiam ou todos, ou cada um, E como experimenta- 
vam n'elle uma verdade sem affectação, uma lhaneza 
sem ceremonia, uma benevolência sem lisonja, uma 
virtude sem sobrescrito, e um talento sem presump- 
çSo, desejava cada qual ser o seu maior amigo, e 
julgava, . que ficar o V. Padre em Portugal era o 
mais acertado accordo, e seria a mais bem acoeita 
resolução, de quem lhe podia mandar, que não tor- 
nasse á índia» 

Declarou*se sua majestade com o V. Padre, e 
disse-lhe tinha gosto de que ficasse em Portugal, 
e que esta resolução nascia de que lhe era necessá- 
ria a sua assistência. Com todo o decoro e modés- 
tia recusou tao singular mercê, que lhe propunha o 
real aíTecto de um príncipe tão soberano, pedindo- 
Ihe com toda a submissão e respeito lhe não qui- 
xesse estorvar a volta para a sua missão ; porque todo 
pseudesejo era acabar n'ella a vida, ou consumindo^ 
com. trabalhos pelo amor de Deus, ou entr^ando^a 
nas mãos domartyrio pela féi Que.eUe conhecia 'de 
si não tinha mais préstimo, que para missiomuria: 
que.odeiíLasse sua majestade continuar com/ a vidh, 
•para que Deus o havia chamado. Com estas e ou- 
tras reverentes deprecaçSes. tratavf^ de ndo fí^r^em 

19 



— 146 — 

FortQgal. Nfto queria sua majestade admtttiKo a rá- 
zdo alguma, que defendesse a sua escusa. Com tuda 
nlo deixava o V. Padre de persistir no seu propó- 
sito, aem faltar ao decoro na continuada resistência. 
Aqui recorreu sua majestade ás delicadezas do seu 
juizOy para convencer ao V» P. JoSo de Britto com 
a força de um argumento, querendo provar^ que ain- 
da para a cultura da missão era mais útil a sua as- 
sistência na corte, do que em Madurei, e argiunen^ 
lava assim : pergunta, padre, quem trabalhará mais 
na cultura d'uma vinha, um operário, ou muitos 
operários? Isto não é matéria de questio: indo vós 
para Madurei, tem a missão um operário, ficando 
vós em Portugal, mandarei todos os annos muitos, 
porque para isso tem o vosso zelo, a vossa agencia, 
a vossa auctoridade, e o meu favor, o que tudo cessa 
não estando vós na corte para solticitar estas dispo^ 
sições: bem tem mostrado a experiência a verdade 
doesta proposição. Pois, se de ficardes em Lisboa, re^- 
suHará á missão ter muitos operários para a sua cul- 
tora, o que não terá senão ficardes, e se é maior a 
clultura de muitos operários, que de um só, colhe-se 
por legitima conclusão, que á mesma missão convém 
mais ficar o Padre João de Britto em Portugal que 
voltar para Madurei. 

Ouvido pelo V. P. João de Britto este argu- 
mefntOi respondeu : que elle não tirava nem evitava 
08 meios, para que houvesse muitos missionários» 
antes para persuadir a todos que o fossem, viera a 
.Portugal, e determinava tornar á missão para mover 
a mis com os^ rogos, a outros com o exemplo : que 
fiava do catbolico ceio de sua majestade; havia 
de obrar na sua ausência a favor da missão com o 
mesmo empenho, com" que o faria na soa presen^; 



flftalmente^ que movido do que com toda ;i humilda- 
de tinha replicado, lhe havia de dar a seu tempo li-^ 
cença para voltar. Não quiz nunca sua majestade 
largar palavra, que construida peto desejo do V. P. 
João de Britto, se podesse chamar licença, antes 
constantemente dizia, que o não havia deixar ir. 




^ÍSO — 

animo d'el-rei ; é tratando de consultar esta matéria 
com quem era obrigado a dizer-lhe, se encarregava 
ou não a sua consciência eiíi obrigar aoY. P. João 
de Britto a ficar em Portugal, disse ao seu confes- 
sor ó P. Manuel Fernandes, da companhia, qiie com 
toda a éttençlío, que pediu a gravidade da matéria^ 
consultasse este ponto, e o communicasse com o P. 
Sebastião de Magalhães também da mesma compa- 
nhia» e Ihè dissessem ambo^ se sem oíTensa de Deu» 
podia obrigar aoV. Padre, que senão fosse de Por- 
tugal, áupposto achar-se no dito V. Padre singular 
préstimo para occupações mui relevantes. 

Becommendada por sua majestade esta diligen-' 
cia ao seu cohféssof, iam-se prèparqndo as naus pa- 
ra a commum viagem de todos osannoS, e oV. P. 
João de Britto ia trabalhando com toda a diligencia 
para baver de ir. Era tão apostada a sua resolução, 
que muitas vezes disse (e muitas pessoas podem tes- 
temunhar esta verdade): que se sua majestade se 
determinasse a lhe não dar licença, e o obrigasse a 
ficar em Portugal, se havia de fingir louco, e havia 
de andar tirando pedradas dos rapazes, para que fa- 
zendo-se conceito que elle endoudecera, o deixassem, 
e elle buscasse via para voltar, á índia. Tal era a 
força da vocação, e tal a efiicacia do auxilio ! Bem 
sabia Deus a quem dava as suas inspirações, e bem 
sabia S. Francisco Xavier a quem tinha reconimen- 
dado a sua imitação. Gomo o V. P. João de Britto 
não tivesse ainda licença, que por todas as vias pro- 
curava, 6 fazia conta de ir por qualquer via que fos- 
se, ver que se chegava o tempo da viagem, o ale- 
grava; conhecer que lhe faltava licença, o affligia. 
Intendeu que a rainha era prticularmente empe- 
nhada, <que elle não fosse ; e presumindo que esta 



— 181 — 

força só bastaria para el-rei lhe Dão dar a facul- 
dade que procurava, buscou ao P. Leopoldo Fués, 
confessor da rainha, e pediu-Ihe com summa instan- 
cia, e com extraordinárias acções dé humildade, fizes- 
se intender d rainha, que estorvar a sua ida para 
a índia, era encargo da consciência de sua majesta- 
de. Fez o Padre confessor esta diligencia com toda 
â que esteve na sua mão ; e foi para o siiccesso tão 
bem afortunado, que muitas pessoas de religião, eau- 
ctoridade ou zelosas do bem das almas d^aquelles 
gentios, ou compadecidas das anciãs, e deprecações 
do V. Padre, como piamente se pôde crer, o ajuda- 
ram Doesta empresa com tanta industria e eílicacia, 
que persuadiram á rainha, que seria contra o serviço 
de Deus reter oV; Padre em Portugal. Gomo a rai- 
nha era tSo timorata, sem embargo de que desejava 
summamente ficasse o V. Padre, cedeu do seu em- 
penho, e ajudou o requerimento por se persuadir 
que assim o devia fazer em ordem a maior agrado, 
o servido de Deus. 

Foi esta ultima diligencia tão poderçsa, que, 
sé não foi a causa total de conseguir a lioeoça que 
procurava, foi a mais principal. 



— 182 — 




CAPITVIíO Tl4 



ALCA1<IÇA FINALMENTE LICENÇA DE SUA MAJEST A 0B 
PABA SE EMBARCAR PARA A ÍNDIA : DESPEDB-SB 
DOS PARENTES, E DOS AMIGOS. 



O tempo em que andava nVstas diligen^ 
cias, teve avisado seu geral, qOe não era 
necessário ir a Roma. Quasi se chegava 
o tempo da desejada partida, e só res- 
tava a expressa licença de sua majestade. Já então 
nfio fallava n'esta matéria, como em duvida, senio 
como em certeza : e dizia a el-rei, que suppunha a 
licença por infallivel ; porque sua majestade lhe não 
havia de negar o que não podia deixar de lhe con- 
ceder: que sobre aquellu matéria havia representado 
.tudo o que concluia a sua pertenção: qué só restar 
va a expressa licença, que imaginava concedida. Já 
a sua majestade não impedia a concessão da licença 
mais que o saber a resolução da proposta, que havia 
feito ao seu confessor o Padre Manuel Fernandes, o 
qual em conclusão lhe disse: que sua majestade 
não obraria justissimamente, se impedisse tornar o 
Y. P. João de Britto para a índia; e que do mes- 
mo parecer fòra o P. Sebastião de Magalhães. O 
grande zelo de Sua Majestade nos particulares da re- 
ligião catholica fez que esta resposta franqueasse a 
licença, que o V. Padre desejava, para fazer aquella 
tão querida, tão apetecida, e tSo procurada jornada, 



— 1S3 — 

di^iigid^ a conítihuar iia cultora da seara onde o ha* 
viam maltratado tantas pedras, onde o haviam mar^ 
(yrisado tantos espinhos, oiKie o haviam deseonsola-» 
do tantas sequidôes. Aqui consegui» o V. Padre e 
{Mrimeiro. vencimento para a sua conquista: aqui 59 
considerou oom a primeira disposição j^ra tio pro^ 
digio»as emprezas que proseg^io^ e para t$o. glerio^ 
SOS triíimphos que alcançou. 

Havia já fínalisado todos os seus n^ocios, .^ 
tinha-os ooncluido com tanta felicidade, que só lho 
faltava a fortuna de se ver segunda vez na sua mis-* 
são. Np discurso do tempo que esteve em Portugal» 
foi duas vezes a Portalegre/ sendo igual motivo d'ea^ 
til jornada v^ suamlie^ que alli vivia, e vèr obi^ 
d^aquella cidade, D. João Mascaranhes, de quem j4i 
faHâmos, eooi quem tinha intima amtsade, e com-* 
municava os seus ikiaiores negócios. Â ultima vei& 
que se apartou da mãe, ainda que não foi com to- 
tal desengano de que se despedia, foi com claras mos- 
tras de que se apartava para sempre ; e a seu irmão, 
e mais amigos de quem claramente se dava pordes* 
pedido, dizia com uma notável inteireza, adeus até 
ao dia de juizo ; e sendo entre todos um dos seus 
maiores aífeiçoados o bispo de Portalegre, D. João 
Mascaranhas, succedeu que desejandg este ir de Por- 
talegre a Lisboa dar^Ihe os últimos abraços, e obs- 
tando razões muito forçosas, que precisamente Ih^o 
impediam, partiu o caminho, e..foi âvilla dePunhe- 
te, que esto situada entre o rio Tejo, e o rio Zêzere, 
n^aquella parte onde este entrando no Tejo faz um 
angulo agudo, a qual villa dista de Lisboa dezenove 
legoas. Tinham ajustado o bispo e o V. P. João de 
Britto, que, repartindo o caminho entre ambos, se 
ajuntassem no sobredito logar, para alli se apartarem 

20 



mutuamente com as ultimas despedidas. Saiudo íè 
Lisboa o V. Padre, abalou de Portalegre o bispo, 
e chegaram ambos a Punhete na mesma hora; o 
que parece nSo carece de mysterio : fique este ái 
consideração do leitor. Ao segundo dia depois de 
terem chegado, se deram reciprocamente os derra- 
deiros abraços, e n'elles derramou tantas lagrimas 
o bispo, evidente argumento da sua saudade, o ma* 
nifesta demonstração do seu amor, que querendo 
sair com o V. Padre até a margem do Zeiere, em 
que se embarcou, lhe disseram os que alli assistiam : 
que nâo convinha á decência de um prelado verem- 
no chorar em publico, e com excesso. O V. P. 
Jo8o deBritto, parecendo que fazia gala da sua ín* 
leireza, dizia ao bispo : que as lagrimas eram tSo 
escusadas na presente occasíão, como impróprias na 
sua pessoa : e dizendo estas palavras, se ausentou. 





— iU — 
CAPITIJJLO Tll. 



VENCE A MAIOR DIFFIGULDADE, QUE SE LHE ABMOV, 
PARA SE NÃO EMBARGAR, E ULTIMAMENTE DÁ Á 
VELA NA NAU ALMIBANT]^. 

EiTAS assim as despedidas dos amigos to^ 
dos, que eram muitos, e preparadas as 
naus, só restava chegar o dia destinado 
para se embarcar com seus companhei- 
ros. Tinham-se feito prestes duas naus, e na capi- 
tania se embarcou a maior parte dos padres, qu^ 
iam n^aquella monção : o V. P. João de Britto ia 
na almiranta com dois companheiros. Ghegou-se o 
dia, em que as naus haviam de botar para fora, e 
estavam jà a bordo os companheiros ; mas o Y^ Pa* 
dre, como havia de ser o ultimo, no mesmo dia, 
ao tirar peça de leva, saiu do collegio de Santo An- 
tfio, e indo embarcar-se^ passou por cdrte real, e 
subiu a dar um abraço aomarquez deMariafva Dom 
Pedro Luiz de Menezes, seu particular amigo. Feita 
esta demonstração de benevolência, querendo voltar 
a embarcar-se, lhe disse o marquez o não fizesse 
sem ir beijar a mão a el-rei : respondeu-lhe, que 
essa diligencia estava feita no dia de antes, e já 
não tinha mais tempo, que para se ir embarcar com 
seu companheiro, pois elles eram os últimos. Re- 
jplicou o marquez dizendo : que as naus não trinca- 
vam amarra n^aquelle dia, que seguramente podia 
deter-se sem perigo algum, e que fosse beijar a mão 



— 186 — 

a *3^I-rei, o qual teria sumaio gosto de o ier maÍB 
comsigo um par de horas ; pois ficava com summa 
pena de perder a sua assistência para toda a vida : 
e mandado recado que alli estava o Y. P. João de 
Britto, el-rei ordenou, que lhe fosse fallar. Inten- 
dendo que não perdia tempo, por condescender com 
o empenho de um amigo tSo grande, e satisfazer ao 
gosto de um rei tao benévolo, entrou á presença de 
sua majestade, com quem estava também a rainha 
para o mesmo fim de fallar ao V. Padre; e ambos 
o receberam entre as demonstrações de gosto, com 
qUjB sempre o admittiam, e en^re os assaltos do pe- 
sar, que lhes causava a sua ida. Mas como o V. Pa- 
dre estava com cuidado, se perderia viagem n^aquel- 
la dilação, que fazia, ouvindo tirar uma peça lançou- 
se a beijar a mão a el-rjsi, e rainha dizendo : que 
as naus deviam jà, de ijr â veja, que elle se partia 
a embarcar. Respondeu*lhe el-rei : que. senão so« 
bresaltasse, pois n'aquelle ^^a já nap podia ser que 
as naus saissempara fora; e que por esta causa lhe 
sobejava tempo para se embarcar. A obrigação de. 
d^ir credito ao que el-rei lhe affirmaya, o fazia aSo 
instar, e confiado, em que as nçius não sairiam n.^a- 
quelie difi, se dei^^ou continuar com a pratica* 

Iam as naus j6 quasi uma legoa rio abaixx), 
quando copieçou a soprar favorável o vento : apro-. 
veitaram-se da occasião os navegantes, e larganda 
mais panno trataram de se pòr fora. da barra. No 
tempo, em que o V. Padre se detinha com el-rei, 
estava seu con^panheiro em uma sala, observando o 
movimento das naus ; e vendq Qu^ ,4U9$i as perdia 
de vista, se. r;6solveu a, entrar, onde el-rei estava, e 
dizer: Padr^, as nau^ vão saindo a barra, e nós fir 
c/imos em terra. 



— 187 — 

Nfto é possível explicar o susto, que concebeu' 
na repentina noticia, de que as naus navega Tam cmvi 
vento feito, quasi ba-rra fora : e sem mais outra ac* 
ç&o, que á de partir com extraordinária pressa a 
buscar unia fragata, que o conduzisse â náu, saiu 
da presença del-rei, e achando o marcjiiiez de Ma- 
rialva, que !be bavia dito, quando entrava a faliar 
a el-^rei, que éUe Ibe mandava ter prestes falúapara' 
o conduzir á naa, lhe perguutou com anciã inexpit- 
cavei, hnáe estava á embarcação, ao que respondeu' 
o marquez : que elle havia mandado fazer Ioda a 
diKgencia possível peia falua, e que até alli se nfio; 
havia achado, por terem ido todas abordo das naus; 
mas que ainda esperava por um criado, que tinha 
ido fazer a ultima diligencia, e que poderia ser á 
descobrisse. N^este mesmo ponto chegou d ciriado^ 
e disse : que â hoavista tinha fragata, mas que um* 
dos fragateiros estava tão fora de si por causa do 
vinho, que lhe parecia impossível poder remar. Ou- 
vido este recado, partiu o V. P. João de Bntto a' 
buscar a fragata, indo-o acompanhando o me^mo 
criado, que se chamava António Martins, o qual* 
diz, e aíBrma com admiração notável, que quando 
caminhavam n'esta demanda, não sabia se iam pe- 
la terra, so pelo ar; que tal era. a pressa, ou natu* 
ra), ou sobrenatural, com que o Y. Padre buscava 
remédio â sua pena. £hegados assim 6 fragata, suc- 
ccdeu, que embarcado já o V. Padre, o fragateiro 
qu€ dissemos estava tomado de vinho, caíii no mar: 
testifica António Martins que o V. Padre estendera 
o braço, e pegando do homem, como quem pegava 
em um pequeno vulto, e de muito pouco peso, «m^ 
ura fechar, e abrir de olhos o tirara do mar, e ò 
mettera na fragata. Etabarcado^ assim bom seu com 



— 1B8 — 

panheiro, mandando remar com toda a pressa para 
bordo da almiranta^ começou a fazer novos votos a 
S. Francisco Xavier, para que o fizesse alcançar a 
nau, o que jâ lhe parecia moralmente impossível. 
Querem muitos que o particular affecto de sua ma- 
jestade fabricasse este estratagema, para que n5o po- 
dendo o V. Padre alcançar as naus, ficasse em Por- 
tugal;. Eesta presumpção tem muitas circumstancias, 
que a apadrinham, e muitas razões, que a encon- 
tram : mas a razão manda, e obriga que se nSoave- 
rigue a verdade doeste ponto ; porque os discursos 
particulares não teem licença para examinar os se- 
gredos dos príncipes. 

Navegava o V. P. João de Britto na derrot» 
da sua nau em um mar de cuidados, quando o mar- 
quez de Alegrete, Manuel Telles da Silva, que era 
vedor da fazenda, vindo de despedir as naus, reparou 
em que aqueila fragata remava com desusada pressa, 
e entendendo que alli ia alguma pessoa para se em- 
barcar, dando juntamente vista de uma Wca do al- 
to, que vinha rio acima, lhe mandou capear, a quat 
barca arribando sobre a falua do marqucz, para ver 
o que se lhe ordenava, mandou o marquez fosse logo 
demandar a fragata, e que indo n^ella alguma pes- 
soa para as naus a tomasse, e.que velejando tudo o 
que fosse possível, as seguisse até poder abordar com 
alguma, e lançar-lhe dentro a pessoa que fosse na 
fragata. Com esta ordem fazendo-se o arraes na vol- 
ta da fragata, e arribando sobre ella baldeou dentro 
o V. P. João de Britto, e seu companheiro, e force- 
jando tudo o que pôde, seguiu a ordem que o mar- 
quez lhe dera : mas naturalmente fora sem fructo to- 
da eâta diligencia, se o capitão da nau almirante não 
fftra um grande amigo do V. P. João de Britto, por 



— Iô9 — 

cuja intercessio sua majestade lhe deu a dita capi- 
tania. Vendo este que lhe faltava o Y. Padre, foi 
atravessando a nau^ e dando logar a que chegasse, 
intendendo que algum grande negocio o detinha, mas 
que nenhum o obrigaria a ficar. Passada já a torre 
de S. Gião, que é na bocca da barra três legoas de 
Lisboa, deu a nau vista da barca» e fazendo o capi- 
tão conceito que n^ella ia quem esperava, atravessou 
ie todo a nau por dar logar a que a barca podesse 
tomaUa, o que d^alli para baixo seria cousa difficul- 
tosa. Abordou a barca a nau, e saltou n^ella o V. P. 
JoSo de Britto com seu companheiro. Duas cousas 
me não é possível explicar n'esta resolução, o senti* 
mento do Y. P. João de Britto, quando se viu no 
risco de não poder alcançar as naus, e o gosto do 
mesmo V. Pftdre quando viu que as tomou. 




— 160 — 



^'í>T'#>'f' >>Y fr*-# 




CAPITUIiO VIII. 

DÁ-SE BAEYÊ NOTICIA DA SUA HÃYBQAÇÃa. 

ANTQ qufi O V. P. João de Brítto eatcaii 
na qauv todos os que o esperavam o re-r 
ceberain nos braços. Foi tão excessivo o 
gosto de se ver oom liberdade de tornar 
para a missão, que bem o justificava o empenho eom 
que para ella partiu, e depois ha de canonisaroquè 
n^ella obrou. 

Saíram os navios com bom saccesso batra for», 
«.parecendo justo que a viagem servisse deferias aòs 
trabalhos jâ passados, e aos que com tanto desejo ia 
continuar na índia o seu ardente zelo e incompará- 
vel caridade, intendeu tanto o contrario, que come- 
çando a navegar, principiou de novo a merecer. £ 
sendo alli o principal objecto da mesma caridade a 
assistência dos enfermos, com tão excessiva anciã de 
trabalhar se poz a servir de confessor, de medico, e 
de enfermeiro, como se só por sua conta correra* 
. aquelle ministério. Foram 'no discurj^o da viagem 
muitos os doentes ;. e como a todos assistia o Y. Pa- 
dre, a uns com a medicina, a outros com a conso- 
lação, a outros com ossacrameutos, servindo a todos 
sem socego, sem repouso, sem attenção ao risco da 
saúde, e ao perigo da vida, grangeou n^este tão ex- 
traordinário, como fervoroso exercicio uma tão gran- 
de enfermidade, que todos desconfiaram da sua vida. 
Porém foi Deus servido, que escapando (ao parecer 
de muitos milagrosamente) chegasse a Goa, se não 
livre de doença, livre de perigo. 



— 161 




CAPIVIJIiO IIL. 



fARXE DE GOA PÁRA O MALABAR, E CONSTITUÍDO 
VISITADOR DA MISSÃO ENTRA NO REINO DO MARA- 
TÁ : É CHAMADO PELO PRÍNCIPE TARIADEVBN RI- 
SOLUTO A SE CONVERTER A NOSSA SANTA FÍ, 



^PORTADO em Goa mal convalescido o V. 
P. JoSo de Britto, foi logo todo o seu 
cuidado dispor os meios necessários para 
se transportar â missão, emprego de toa- 
dos os seus designios, e balisa de todos os seus de- 
sejos. Não assistindo em Goa mais tempo^ que oqúe 
bastou para a convalescença, se embarcou para o 
Malabar, onde deu conta ao seu provincial do que 
obrara em satisfacção doà negócios a que fora man- 
dado â Europa. Não é necessário dizer a benevolên- 
cia, e o aíFecto, com que o recebeu o padre pro- 
vincial agradecido ao singular complemento, que deu 
a todas as obrigações do seu officio de procurador 
geral. E querendo dar a intender quanto se devia 
estimar um talento tão grande, o nomeou visitador 
da missão. Gomo o V. P. João de Britto não sabia 
mais que obedecer, sem embargo de recusar a sua 
humildade tudo aquillo, que tinba nome de prelaziag 
acceitou o cargo, e tratou logo de satisfazer ft obri- 
gação d^eile partindo-se para a missão, na qual co- 
meçou a visitar as residências. E para encher me* 
Ibor o officio de prelado, pelo qual estava obrigado, 

21 



— Hl — 

soguodo osdiciames da mais bemojusíadá eohseio«h- 
eía, a ir diante de todos com o exemplo, não se 
deixando levar das conveniências, e commodidades, 
que occasionam as prelazias, sem tomar ferias nem 
descanço, sem interromper a pesada tarefa dos tra- 
balhos successivos, que padeceu na visita, como se 
iftR se ensaiará para cousas maiores, e para mafe 
difiicu?tosas emprezas, passou ao reino do Maravá, 
€ih cujos martyríos achava todos os seus regafos, 
em cujos desabrimentos sentia todos os seus aflivíbs, 
e em cujos tormentos esperava todos os seus descan- 
ços. Reinava alli então o principe Raganadadeven, 
que, como regulo, se havia levantado com o reino 
èôntra seu sobrinho o principe Tariadeven, e intru- 
iò o governava, sendo de todos obedecido, tirando 
algumas' terras, em que conservava seu legitimo do- 
mínio o principe Tariadeven. 

Este regulo além de ser cruelissimo tyranno, 
éra um insigne perseguidor dos christàos ; e comiy 
tâl havia seis annos, que linha mandado ao V* Pa- 
dre, que sob pena de morte nào pregasse n'aqtielle» 
reinos a lei evangélica ; mas elle fazendo d^e^tes 
preceitos maior incentivo ao fervoroso zèlo, cexú 
que pregava, despresou tanto os seus ameaços, que 
o tyranno levado do sentimento, com que se via de^ 
sobédecido, e despresados os seus decretos, lhe itian- 
dou dar os tormentos, que vimos no diisrurso d'esta 
historia. Chegado pois o V. Padre ao Maravá, vi- 
sitou ós bosques d'aquelle reino, em que estavam 
as igrejas dós christàos, aonde estes acodiam com a 
nófa presertCÊ» do seu antigo pastor, para assistirão» 
oflftiHVs divino^, e receber ós sacramentoi da cónBs* 
«8^, è Sagrado cômmunhao; vinham tániberíi é'B 
«àteéuíttetiòs para receber bdo santo baptisniò. Nttff 



— Ifl3 — 

MtAVAQi 0i gentios, que se queria» conv^rlsr. p 
^omvir o ci(tt;cfaÍ8iiio. JFoi tip copioso o fructp reco^ 
Ibido Doesta sjua -soar^, .<]He epo quiaze Riciies, qiif 
alii.a^sisiiu» baptisQu passante de oito mil catecume- 
oos, £r.a a fama dos prodigios^ que D^us N<fiso Se- 
nhor obrava com os que se queriam redi^zir á j^ 
fé, e que com cila ouviajn. a pregação, tào coron^w, 
e tâo grande, que adoecendo gravissimamante o priu- 
cipe Tariadeven, de que atraz failámos, e vendo-sn 
era evidente perigo da vida, já de todo desconfiado, 
e desesperado dos remédios humanos, ouvindo os 
milagrosos casos, que Deus obrava por meio do V. 
P. João de Britto com os que de coraçíio buscavam 
o caminho da verdadeira vida, assistindo á pregação 
evangélica com tenção d^ abraçar, e seguir a lei 
verdadeira, mandou dizer ao V. Padre o estado em 
que se achava, e que pedia lhe fosse acodir com a 
instrucçBo da doutrina evangélica, a qual nào que- 
ria somente ouvir, n^s também queria abraçar, se- 
guir, e obedecer; porque só Sado nos poderes de 
Deus, cuja lei elle ensinava, esperava conseguir a 
saúde, que com grande desejo pertendia. Ouvido es- 
te recado pelo V. Padre, mandou um seu catechis- 
ta, que fosse buscar aquelle principe, e o instruísse 
nas cousas da fé. Foi este, e vendo o miserável es- 
tado, em que o principe se achava, lhe disse sobre 
a cabeça um evangelho, olhe resou um credo, a qual 
diligencia feita, immediatamente se achou nHo só 
livre do perigo, em que estava, mas restituído ã 
mais perfeita saúde com admiração geral de todoá. 
compuncção do que recebeu o beneficio, o particular 
consolação de quem applicou os meios para elle. 
Resoluto eflficazmente este principe a se converter á 
nossa santc fó, mandou dizer segunda vez com no- 



— 164 — 

tevei9 instancias ao V. Padre, se quizesse ver cem 
• die para o instruir, e baptisar. Então conhecendo 
o V. Padre ser aquelle o tempo oonveníente de fa- 
zer esta diligencia, sem obstar â sua resolução odi- 
lerem-lhe que o príncipe era um dos mais conheci- 
dos inimigos dos catholicos, e que podia ser fingi- 
mento o que considerava vocação, despresando todos 
ectei avisos, o foi buscar logo. 




— 166 — 




CAPIVVIíO IL. 



FALLA GOH O PRÍNCIPE TARIÂBEVEN : E8TB SB MV- 
PARÂ PARA O BAPTISMO, E POR ESTA CAUSA SELtf- 
VANTA UMA PERSEGUIÇÃO COPfTBA O Y. PADRB. 



HEGOu O V. Padre â presença do prínci- 
pe Taríadeven, que o recebeu, com ex- 
cessivas demonstrações de gosto, de be- 
nevolência, e de agradecimento. Âchou-o 
com tâo maravilhosa disposição para receber o ba- 
ptismo, como logo mostrará osuccesso. Comoaquel- 
las terras eram do governo doeste príncipe, achou- 
se alli o y. Padre com mais desafogo para pre- 
gar, e para baptisar: e assim, celebrada a festa dos 
reis, baptisou logo mais de duzentos catecumenos. 
Quiz o príncipe, que o mettesse logo no numero 
d*estes novos christâos : estava jâ tão provado o seu 
fiel desejo, e elle tão bem instruido, que somen- 
te obstava a receber o santo baptismo ter, conformo 
o uso, e costume d^aquellas terras, cinco mulheres e 
ser-lhe preciso demiltir de si quatro, ficando só com 
uma. Isto lhe propoz o Y. Padre com tanta efficacta, 
e elle o ouviu com tanta resolução de seguir tudo 
o que fosse necessário obrar para professar a lei 
evangélica, que dando palavra de largar, e despedir 
quatro das cinco mulheres, que tinha, e ficar só com 
uma, $e foi para casa, e faltando com todas as <^in- 
CO, lhe disse : que elle estava resoluto a receber o 



bf^lithò, e professar a lei de Ghristo^ porque t^a 
conhecido, que só na dita lei havia salvação : mas 
porque na mesma lei era preceito nào ter algum 
dos que n'ella viviam mais que uma mulher, e elle 
queria satisfazer logo a este mandamento, determi- 
nava que uma só (e esta havia de ser a primeira, 
tom que celebrou matrimonio) ficasse por su^ legí- 
timfk consorte, dimittindo de si as outras. Dito isto» 
eieila a «leiçào, propoz ás quatro repudiadas, que, 
se queriam viver no seu palácio separadas, como se 
fossem suas irm3s, lhes consignava para côngrua sus- 
tentação ametade da sua fazenda. £com eíTeito deu 
i execução o que disse determinava fazer. Dasqua- 
tfo que rejeitou, uma era sobrinha do principe rei- 
nante ; e esta ou por mais altiva mais injuriada, ou 
por mais impaciente mais infurecida, se foi ter com 
o tio, e queixar-se da injuria, que lhe fizera o prin- 
cipio Tariadeven no repudio, que lhe dera, e tam- 
bém ás outras três ; e que nào só se queixava do 
repudio, mas da causa d'elle, que era a razDio ma^ 
Xorçoaa de sentimento nào só para ella, ma^s para 
todos ; porque a causa, que o principe Tariadeven 
tivera para obrar tuo grande temeridade, fora o querer 
teguir, e professar a lei dos christàos, induzido por 
jim leitíceiro, que n^aquelle reino andava reduzindp 
.ios homens com encantos a que seguissem a lei, 
quatelle pregava. A esta queixa se ajuntou a de lo^ 
dós 08 sacerdotes dos idolos juntos com os bracme^* 
áes ; pois va!endo-se do occasííio para se vingarem, 
.levados do ódio, que tinham aoV. P. João de Brife- 
to, ae confederaram todos e persuadir ao rei, que por 
aqueUa causa tirasse a vida ao V. Padre, e exlij»*- 
•giiisse a prégaçSo evangélica nos seus estado^. Epa-- 
jra iDíelfaor representarem a sua maliciosa, e diabo- 



liça queixa^ fizeram seu ántesígnànoaquoUè^ que ihet 
perecea vnois capaz, o qual era uifk de maior aucto- 
rtdade entre os mais, chamado Putpavando. £ste 
tcom appareDeiàs de sentido^ e magoado peio oredí- 
to da soa religião, disse ao rei em nomo dt todos : 
Que por aquelte embusteiro, e perverso» liomem le* 
var atraz de si com a sua prégaç^lo, e com os seus 
encantos quasi todas as pessoas, se achavam os tem* 
pios sem assistência, e os ídolos sem culto, faltan- 
do-se aos concursos, fallando-se ás adorações, faltan- 
do-se âs cercmonias, e faltando-se aos sacriíicios. 
D'on(fe resultava verem-se os templos desamparados, 
os Ídolos offendidos, os sacerdotes queixosos, e todos 
escandalisados. Que se sua alteza nSo mandava pôr 
remédio a tanto damno, todos, os que choravam com 
lagrimas de sangue estes desacatos dos idolos, e ag- 
gravos da religião, estavam resolutos a despejar o 
reino, e ir povoar Os mais remotos desertos, por 
nlio quererem experimenlar o castigo, que estavam 
vendo cair sobre quem consentia, e tolerava uma 
tào execranda maldade, podendo-a evitar. 

O tyranno enfurecido com estas queixas man- 
dou publicar edictos, pelos quaes ordenava quê as 
igrejas dos christSos fossem logo queimadas, e sa- 
queadas as suas casas: e com mais apertadas ordens 
mandou-lhe levassem presooV. P. João de Britto, 
a qual diligencia encommendou a seu primeiro irmão 
Jiruvreiadeven. NSo obrigou tanto ao tyranno a man- 
dar passar tal decreto o zelo, quanto a ambição; 
porque na consideração de que fazendo-se christâo o 
principe Tariadeven legitimo senhor d'aquelle prin- 
cipado, o seguiriam todos os que professassem a lei 
de Chrislo, os quaes eram jà muitos, temeu qu^ 
juntando-se no principe as circumstancias de senhor. 



— 168 — 

de bemquisto, ode christão fosse fácil levantarem*»* 
os cathoHcos com elle, e metterem-n^o na posse do 
seu principiado. ^'Esta razão de estado o fez ouvir 
com attençfio as queixas dos sacerdotes, e deferir- 
lhes com tão prompta resolução^ sendo a primeira e 
principal o ódio da fé. 




— 169 




CAPIVVliO XI. 

i PRESO O V. P. K>ÍO DB BRITTO : DÁ-SB MOTICfA 
DO QCB SUGGEDBU ATÉ SBR LBVADO Á COBTB DO 
TYBANNO RACGANADADEVBN. 

^os oito do mez de janeiro se achava o V. 
P. Joio de Britto nas terras do governa» 
do príncipe Tariadeven, e tendo n*es- 
se dia administrado os sacramentos c 
grande numero de pessoas, mandou a todas, qvo 
se ausentassem depressa, porque uma grande' p«v. 
seguiçSo vinha sobre elles. Apenas se tinham ído^ 
quando vieram avisar ao V. Padre que uma trofMi 
de cavaUos o vinha buscar. Com esta noticia saiu o 
V. Padre a receber os soldados, que o vinham prés* 
der, cotn tSo alegre semblante, como quem alcan*- 
cava o que tanto appetecia. Os cruéis ministros do 
tyrarvno se houveram tSo impiamente com elle, co* 
lAo se vieram somente provar a sua paciência mb 
injurias, que lhe fizeram, e apurar a soa cons- 
tância nos desacatos, com que o injuriaram : com* 
poliam as injurias com os golpes, sendo estes # 
aquellas sem numero, atèque finalínente lhe atara» 
as mãos, depois de o terem mettido mattcis vetaa 
debaiíEo dos pés; e juntamente prenderam com o 
V. Padre um seu catechista, e bracmene chmíadi^ 
leio. 

Marcharam d^alli os soldados com osdois pre^ 
SOS para onde o tyranno estava: foram incriveis w 
tormentos^ que no camioho padeceram estef ínno« 

22 



— 170 — 

éeiilei prisioneiros; porque indo a pé, queríA^m tíl 
inhumanos ministros, que igualassem os passos dot 
CâVallos ; e quando pelo não poderem fazer oppri- 
midos do excesso, e crueldade, com que os aperta- 
vam, caiam em terra, com maior crueldade lhes da- 
vnm muitos golpes, para que se levantassem. 

Nas povoações, por onde passavam, eram exces- 
sivos os escarneos, e os insultos da plebe, porque 
•ram innumeraveis, e exorbitantes. 

^ Antes de chegarem os presos & corte, entraram 
tm uma povoaçio chamada Anumandacurem, da qual 
os conductores não quizeram passar sem. reforçarem 
a guaida, que levavam, por temerem que os chrís- 
Iftos compadecidos de Uko deshumano trato, se^ amo- 
tinassem contra os gentios: por isso em quanto co- 
ineramt e descançaram, ataram os presos a um car- 
ro triumphal, em que costumavam levar os seus fál- 
ica, deuses, o qual estava na estrada publica, lan- 
çaodo-lhes á noute nos pés uns pesadissimos grilhões. 
Na manhã do seguinte dia, chegando ao cabo 
o princrpal ministro d*aquella' conducção novos sol- 
dados, para em maior numero poderem rebater al- 
gDOí motim que houvesse, dispozeram continuar a 
joroada até a corte. £ como o Y. P. João de Brit- 
tQ estava quasi todo uma pura chaga pelos muitos, 
e excessivos golpes, que havia recebido, e novamen- 
te, tinha os pés de sorte, que lhe era impossível dar 
um só passo, pela nova moléstia dos grilhões, que 
llie haviam lançado, o levaram em um eavallo, que 
ao caminho lhe mandou o general do Maravá cha- 
mado China-Paver-Deran, finissimo christão, que 
por se compadecer do lastimoso estado, em que via 
caminhar . o V. Padre, pediu licença ao conductor 
para applicar esteallivio a quem via tão affligido. Me* 



-m- 

tfaorado rresta forma foi andando até Ramanadabu^. 
r&o corte d'aquelte principado, aonde chegaram as-, 
srni o V. Padre, como ó calechista em onxe de ja- 
neiro, tendo soffrido ambos com admirável pacien> 
cia, sobre injuriosos vitupérios, e insuportáveis tor- 
mentos, grandíssimas fomes. E porque o tyránno 
Rauganadadeven nâo estava então na corte, foram 
lançados os dois presos em um escuro cárcere at6 
que elle viesse. 

No tempo, em que Tiruvrenjadeven mandou 
os seus soldados prender o V. P. João de Britto, 
mandou também aviso a CandaramanuSío, que era 
aldea, junto da qual tinha o Y. Padre uma ermida» 
para que a saqueassem, e a queimassem, e prendes- 
sem as pessoas, que n^ella estivessem. Obedecendo 
o governador de Candaramanuão â ordem, que lho 
haviam dado, elle a excedeu, de sorte, que não s6 
roubou quanto estava na ermida^ mas também fez 
o mesmo nas casas de um catechista, e de alguns 
cbristãos, que alli viviam, e depois de as queimar, 
6 arrasar, prendeu o catechista, que se chamava 
Muttú, e a dois meninos, que aprendiam a doutrina, 
um por nome Arularandem, e outro Mariadajen ; e 
açoutando-oscruelissimamente, accumulandoaosaçou* 
tesatrocissi mas injurias, carregados de algemas os le- 
varam á corte, aonde chegaram era doze de janeiro, 
e alli os metteram na mesma prisão, em que esta- 
va seu mestre o V. P. João de Britto, o qual os re- 
cebeu com terníssimas demonstrações de amor, e be- 
nevolência, beijando muitas vezes as cadeas, que 
deshumanamente prendiam os innocentes cordeiros; 
e nâo podendo reprimir as lagrimas, que amorosa- 
mente corriam, mostrava ,bem a magoa de os ver 
tão cruelmente tratados: elles com reciprocas sau- 



— 172 — 

4iȍ9e8 abrajfa^am affectuosapD^ntQ seu bom qaestre;; 
Deram todos graças á diviDa bondade pela particu- 
lar mercê do soífrimeoto, e constância^ que urs, e 
outros estavam vendo , e admirando ; até qiie o tf-- 
ramo voltasse para a cdrte, estiveram todos no mes- 
mo cárcere. 





— i7a- 



Wl^W^-SM .0 QUE LHB SUCC1SDBU NA GOtt» CXMI 
TIRUVRENJABBVfilf. 



H£GOU finalmente & corte tytanDo tr«^ 
;^eiido em sua companhia « san priniQ 
Tiruvrenjadeveo» aquelle a qi^m havia 
encarregado a prisjio do V. P. João de 
BriUO| o qual Tiruvrenjadevea mandou ir perante 
si aos nossos presos, e também a qjue ae apanhou 
no saque, que deram na ermida, cuidando aeharía 
com que satisfazer parte da sua cubi^i: nMra fendo 
que não passava tudo de uma pobresa muito limi* 
tada, e que entre aquellas pobres alfeias ia um çru<* 
cifixof de latSo, que Ibe pareceu podia ser de our», 
para exame da sua duvida o mandou toc^ em uma 
pedra, e visto que não era ouro, incendido em nora 
cólera perguntou ao V. Padre, de quem ^a aquella 
imagem. Esta imagem, disse o V. Padre, é a da 
meu Deus, e meu Senhor. Ouvindo Tiru^renjadeven 
esta resposta começou a blasphemar oontra o crucifit-* 
xo, acompanhando-o todos os circunstantes ; e sacrt* 
legamente enfurecidos, ou cegos, lançaram a íma^ 
gem em terra com irreverência mais <}9e gentilica, 
e com fúria mais que diabólica ; a cuja execranda 
acfião se oppoz a pia, religiosa e i^verepte piedade 
do V. Padre, que se Iç^nçou por t^rra com toda a 
deTO(9o, « ternura para levantar a imif em, b^jan** 



— 474 — 

^•a^ e cfaegai^do-a ao peito com mil amorosos abra^ 
ços. 

Persistia o V. P. João de Brito aWaçando a 
imagem do Chrísto crucificado, a quem podemos 
crer diria interiormente estes, ou outros mais inter-^ 
necidos colloquios : agora conheço, meu Deus, quan- 
to custa, soffrer atyrannia dos homens. Até agora era 
para mim allivio padecer por amor de vós, agora 
sinto o maior tormento vendo-vos padecer por amor 
de mim. Em quanto as injurias diziam o que eu^ 
soo> não podia ter por aggravo as suas acções : em 
quanto as blasphemias dizem o que vós não sois,. 
é justo que as« tenha pelas mais sacrílegas injurias : 
em quanto eu soiFria o mau trato, que me fa- 
ziam, nada soíFria em tolerar o que merecia a mi- 
nha cujpa : em quanto vos vejo soffrer o desaca- 
to, que vos fazem, é necessário todo o soffrimfn- 
to para ver padecer a vossa ihnocencia. Agora, Se- 
nhorvcaínheço que deve ser confusão minha o pou- 
co, que padeço pelo vosso amor. Que muito é, meu 
Deus, que eu me resolva a entregar ávida nasmâos 
dos homens, sevóspermitlís, que os homens tenham 
atrevimento para vos arrojarem a meus pés ? Quem 
vir estes • excessos da vossa paciência, como pôde 
avaliar por fineza dar eu a vida pelo vosso amor ? 
E se até aqui m'a quizestes conservar, seja para que 
m'a tirem vossos inimigos, pois eu sou o que me- 
reço ser- injuriado, e nSo vóf?, meu Deus, digno de 
toda a honra, e louvor. 

NVste tenipo o tyranno lhe arrebatou das mãos 
o Crucifixo, roubando-lhe tão precioso thesooro, e 
perguntou ao V. Padre, se a lei, que ensinava era 
ISo justa, como elle dizia, como dispunha que os 
maridos nlo fisesseni vida com suas mulheres, dei- 



— 17S — 

«fthdo-as viuvas antes de acabarem a vida. Acres-: 
çentou, que era gravíssima injustiça o que havia 
persuadido ao principe Tariadeven, a quem fizera 
repudiar as suas esposas. Feita esta pergunta, e da- 
da esta reprebensfto, se ausentou e mandou, que os 
presos fossem outra vez levados para o cárcere. 




I7« 




CAPIVVIiO ILIII. 



OPPÕEM^-SE OS UINISTROS A VONTADE DO PRUfCIPE 
RAUGANADADEVEN, QUE QUERIA FALLAR COM O V. 
PADRE : PROCURA MATAL-0 COM FEITIÇOS : RBFB- 
RE-SE O QUE MAIS SUCCBDBO ATÉ SER LEVADO k 
JPRBSENÇA DO TTRANNO. 



^M quanto Tiruvranjadeven passava estas 
cousas com o V. Padre, soube o prínci- 
pe Rauganadadeven como o V. Padre, e 
os mais, presos estaviim já no cárcere da 
corte, e intentou mandar ir o Y. Padre à sua pre- 
sença, e fallar com elle. Mas como os sacerdotes, 
que haviam feito queixa aotyranno (o principal d^el- 
les era obracmene Palpa navdo) .de que oV. P. Joiio 
de Britto pervertia com a sua doutrina a adoração 
dos Ídolos, viram que estava preso, acodiram com 
toda a diligencia a accusal-o : e jà então o não fa< 
ziam somente reu do crime de pregar a lei evan- 
gélica, mas de todos os crimes, que verdadeiramen- 
te o são ; e fazendo das suas accusaçdes um cri- 
minal processo, pediam por conclusão d^elle o casti- 
go merecido a tanta culpa. Deferiu o tyranno com 
a promessa da pena merecida por culpas tãa exe- 
crandas : e Dão se contentando os infernaes accusa- 
dores com estas diabólicas diligencias, empenharam 
todas as forças das suas persuasões impugnando acer- ' 
rímamente mandar o príncipe Rauganadadeven ir 



— m — 

perante 8i o V.P. JoSo de Britto, temendo todoe 
que ilido á sua presença, o príncipe os mandaria 
disputar com elle^ de que certamente havia de re* 
gultar ficarem convencidos, o que para homens t&o 
soberbos, e presumidos seria mui vergonhoso vitu^^ 
perio, e não 4hes ficaria confiança para pedirem a 
Rauganadadeven, que tirando- lhe a vida cóncluisse 
Qom a pregação evangélica nos seus estados, nem 
para lhe persuadirem, que o V. Padre não sabia o 
que dizia, e que só por encantos reduzia os que se- 
guiam a sua lei. E assim se dirigia todo o seu de- 
sígnio a persuadir ao príncipe, ' que não convinha 
fallar com oV. Padre, nem ainda vel-o; porque era 
tão insigno (eiticeiro, que com seus encantos atlrahi^ 
a 3Í todos os que com elle fallavam. A isto respon- 
deu o príncipe pondo os olhos em Tariadeven, que 
alli se achava derendendo valorosamente a causa do 
V. Padre: não podem os seus feitiços ter mais ac- 
tividade, que os nossos ; e se não, todos vereis, co- 
mo dentro de três dias á força de feitiços faço com 
que morra, sem que ninguém lhe toque. £ dispon-* 
do tudo o que era necessário para uma diabólica 
feiiicería, a que chamam Patirag&iipugei, a mandou 
p6r por obra. Fizeram -se pela primeira tenção as 
ceremonias necessárias, das quaes a principal era^ 
lançarem no fogo a imagem do Y. Padre, que pa- 
ra isso mandaram formar de barro; e no cabo de 
três dias indo ao cárcere ver se tinha expirado 
o acharam com mais alentos do que tinha antes 
d^aquella infernal diligencia. Principiaram de no- 
vo outra feiticeria, que chamam Satpeccíam, a qual 
dizem tem mais actividade que. todas, fiando Vea* 
tes. aprestos; a satisfacção do seu entranhável odio. 
Ê para ajudarem tão damnado intento; quizeraod 

23 



— 178 — 

ajuntar ás ditas preparaçde^ os eftbítos da fome, que 
para matar são os maia náturàes verdugos. E assim 
ordenaram, qúe nos dias ém que pediam aos deu- 
ses a ftiorte do V. Padre por meio das referidas cé- 
l^moriias, se lhe não desse de comer, antes o tratassem 
ã^all! por diante com a maior crueldade, que fosáe 
possível. Mas Beus é t9o poderoso, qné fazendo-o 
ássirn os guardas, cada vez o valoroso soldado da fê 
estava mais animoso, e mais robusto. Corthecea o 
t^anno Rauganadadeven, que todas as suas maléft^ 
cos artes n&o produziam eflteito algum contra a vida 
dó innocente Padre, e novamente enrurecidò, (ô vér- 
lónhosamehte confuso voltou todos os rafos da saa 
ira contra o príncipe Tariadeven, e mais fidalgos 
ctiristilos que lhe assistiam, mandando a todos, què 
adorassem a um ídolo, que alli estava, com cõm* 
minaçno de logo lhes tirar a vida, se nSo òbedeées* 
sèm. O príncipe resistiu constante a este preceito 
despresando a comminação da pena, e dizei^do qué 
die não adorava mais que ao verdadeiro Deus, dè 
c(uem milagrosamente cobrai a saúde temporal, e 
esperava receber a eterna, e que por segurar esta 
Mo temia perder a vida. Quasi o mesmo respondeu 
um fidalgo chamado Paradeven, ajudando-os muito 
a esta constância de animo és contínuas admoesta- 
35ès,, que do cárcere lhes mandou fazer o V. P. Joio 
le Brittó, incitando-os não só com a lembrança daà 
infinitas obrigações, qúe deviam a Deus, mas repre* 
sentando-lhes o premio do merecimento, e o castigo 
dé culpa. O mesmo fazia a seus queridos discípulos, 
e companheiros, propondò-lhes as excellenéias do mar- 
Qfrio, cujas penalidades suavisava a consideráçlíò dà 
bemaventurança, que com elíé ise ganhava; £ suppondo 
que seriam chamados á presença do lyraiino, os iiHh 



t 



tiiiia iiaqiie baviam de res^i;i4«rt e logo Uie&j^i^siniiiy/i., 
oracO^r p^f^ jedirem 9 jp(eus à virtude da cçnstap- , 
cia; .ed>$ta ^or^e, excitava ,epn. todos .0 desiçjo do. 
martyrio. For^m taó eiBcaz^ n'aqae)les innocent^ 
estaa cxbQrtajcõeSf e. produziram n'elles tal dcscyo 
de darem a vida pela fé» que oaviado di^er qiie o 
príncipe Ibes queria dar liberdade» .choravam çomp. 
de3graça sua esta tenção do tjranno. fste cencei- 
to lhes epsinava a fc^zer a vida, e as acções de s.e,u 
mestre; ^pois com singular reQexSopoqderavan), que 
quandp estava mais opprimido de trabalhos, cntãio 
ojiarp mai3 alegre, e mais satisfeito, padecendp qo- 
cárcere insoíFríveis penalidades, ínsupportaveis fomes». 
e sedes, sem dar a intender, que a sede o affligíd, 
ou que a fome o apertava. Â esta quizeram muitas 
vezes acodir os padres provincial, Joào da Costa, 
Manuel da Rocha com outros mais, interpondo para 
isto um particular desvelo, e outros effeitos de gran- 
de caridade por lhe mandarem alguns mimos, e fa- 
zerem que outras pessoas obrigadas ao V. Padre 
lhe assistissem pessoalmente n^aquella prisão. Mas 
i| tudo obstava a continua vigilância das guardas, 
e o aperto com que se lhes encarregava impedis- 
sem aoV. Padre toda a cummunlcaçâo exterior com 
os christâos. Alguns gentios o visitavam no cár- 
cere por zombar d'elle, e outros por disputar ; estes 
pela divina bondade, porque saíam convencidos, se 
tornavam confusos, e envergonhados, e os primeiros 
mudados da tenção que os havia levado. 

Todas as praticas do V. Padre se encaminha- 
vam a intimar os desejos do martyrío, c os seus eram 
tão ardentes, que além das excessivas anciãs, com 
que os explicava, lhe ouviram em uma occasião es- 
tar dizendo : Senhor, e Redemptor meu, em uma 



— ISO — 

quinta feirei fostes preso por minha caasa, e m uma 
quinta feira fui também preso pela vossa ; concedei- 
Ttie agora, misericordioso Senhor, que assim como vós 
consummastes a minha redempçSo com vossa morte, 
consumme eu também por vosso amor está vida : 
mas porque não mereço a cruz sagrada, em que vós 
por mim morrestes, concedei-me ao menos uma fi- 
gura d^ella, em que eu por vós acabe a vida : seja 
meu corpo cruelmente despedaçado, porque nem se- 
pultura merece: seja alimento de brutos, e bestas 
feras. Isto pedia, isto desejava o insigne martyr de 
Jesu Christo, e isto mesmo Ibe foi concedido^ coma 
logo veremos. 




181 




CAPIWliO XIT. 



AP1>ARBCB O V. PADRE NA PftESENÇA DO TTOAlTIfO t' 
É OUVIDO, E SENTENCIADO A MORTE: DIFFBHB*Sfi 
A execução; e finalmente É REMBTTIDO AtR- 

GUR, PARA QUE AlAA EXECUTE A SE.xTBNÇA VaBN*: 
JADEVEN IIRMÃO DE TYRANNO. 



Favia vinte e tres dias, que o V. Padre 
estava preso, quando o príncipe JSíauga-' 
nâdadeven o mandou chamar a jufeo, É 
aos companheiros ; e temendo faflaf com 
elle, por lhe haverem persuadido que com feitiços' 
attrahia a todos os que o tratavam, mandou a Ti^ 
ruvrenjadeven, que estava presente, lhe perguntasse 
se sabia artifícios com que rebater o golpe dé uma 
bolla de artilheria, ou se podia fazer t*om que cho* 
vesse todas as vezes que fosse necessário. Ao que res- 
pondeu o V. Padre, que detestava similhantes aríes, 
Aili o tiveram em pé com seus companheiros mats^ 
de duas horas, descobertos ao sol, qné era intensis^ 
simo, e ínaturavel, ouvindo repetidas injurias, .escar^ 
neos e vitupérios, que sòfFriam com pacifehcia incrt-^ 
vel, sendo objecto de aiFrótitas, e alvo de ItidTbrios/ 
A este tempo mandou Baúgánádádèvè^, que met^ 
tessem os presos outra vei no cercere, c pòuco dé^ 
pois mandou, que lhe levassem dois d'élleâ Mtfttõ, é 
Arnlanarhden,- em cuja companhia f(>i também eoitt 
permíMò do tyranno o V. Padre 1680 de Brlító, ú" 



qsaf (hes fez n^agoelle pouco espaço de tempo uiua. 
pratica^ animando-os a padecer por Christo ; e con- 
cluia, que esta era a occasíão, que tanto desejava 
para dar constantemçnte a yida por quem Ih^a dera. 
Animados assim estes soldados do Christo, e arma- 
dos da fortaleza, que lhes infundiram as razões de 
seu mestrot foram A presença do tyranno, fazendo 
dos grilbOes, que arrastavam, gala com que saiam. 
Tanto que diegaram i presença da príncipe, foram 
recebidos por elle com mil afFrontas, e immodestiaa. 
Mandou, que lhe dissessem as orações de seu cate- 
chismo ; a que elles responderam com os signnes, que 
deve ter o verdadeiro Deus, e com os dez preceitos 
do decálogo: mas a cada palavra, que os doischriatdos 
diziam, saia o bárbaro em uma blaspheipia. E per* 
gqntando-Ihes se estavam resolutos aconGrmar o que 
diziam^ firmando^o com o sangue das veas, e com a. 
^trega da vida, lhe responderam : que tomaram ter ^ 
mnrtqs vidas, para que daodo^as todas pela fé, con* 
armassem muitas vezes a verdade, <}ue publicamçn^. 
t0 tíobam confessado. Aqui acceso o tyranno com. 
iiova cólera mandou, que. logo os mosqueteassem»; 
ordenando a um soldado insigne na arte de tiri^, 
que executasse este mandado. Logo o soldado dia* 
P9Z com toda a brevidade fazel-^ as^m, e metteado. 
á cara uma. espingarda, que para este effeítp çsco-. 
Ibera por imelhor, succçdeu que, batendo q çfto M> 
fuzil errou fogo, ,8eado a pedri^neira das çscolt^ídi^, 
Mais rainoso p tyranno <om este sMCces^, mandou ; 
levaatar seguada vez o cão á espingiM^dar e que fi-* 
rasse a uma parede ; ado faU^ndo ^ntlio a pedi^^nei* . 
ra confog^ disparou» efez com as bailas umajri^i-^M 
do V^ba, no uniria. Â tudo istpi ^stfivam M^ipov^s 
os vakraips acidados, nostra^odo beqa' m coA^tan- 



— 1«3 — 

tik a sua fortaleza, sendo esta maior credito da ita 
fé; excedendo no yalor a capacidade dos anno^, 
|M»r(fua um ndo passava de vinte e dois» e outro di 
quinze. * 

O V. P. JoUo de Britto aeodiu valorosamaq^ 
te aos seus soldados, ena presença disse aotyratttio: 
se é culpa n'estes meus discípulos seguirem^ e coft*- 
fessarem a lei de Cfaridto, d^essa culpa sou eu a caiH 
sa, porque sou seu mestre ; e sendo eu a origem 
da culpa, pois ensinei a doutrina, de que ella resul- 
ta^ nSo é justo que os innocentes levem o castiga 
do culpado : aqui me tendes, venha sobre mhn ò 
golpe, que estou prompto para o receber. A eslaa 
rasôôs sé seguiu, que assim o tyranno como ol que 
com eHe assistiam, cercaram, como famintos iohoa^. 
o innocente cordeiro, dando-lhe bofetadas, pancadas» 
6 açoutes tâo deshumanamente, que julgafam todos 
08 circumstantes não saia d^aili com vida. Soffirét 
porém tudo com tanta paciência, humitdade4 o a1e«- 
gria, que um gentio disse admirado: todos intentaAi 
impugnar, como falsa^ a lei d'este bomem, mas o 
S0ÍA*iméhto» que elle mostra» prova sem duvida set 
veídadeira. 

. Acabado este mau termo, com qtie os mi^ 
nisttos cruéis trataram o V. Padre, lhe perguntou 
o tyranno pelo livro da lei , que ensmava : ao 
.qlíre Satisfez um soldado trázeodo^lhe o breviário-, qiia? 
no saque da sua igreja lhe haviam tomado; eom^ 
q\]íe o tyranno ficou muito contente, porque o tâi^ 
viam persuadido, que com aquelle livro ittildia níô 
$6' quantos feitiços lhe punham, nfias também qnaéí^ 
quér batl&s da artilharia ; do que reíuftou pi^M«^ 
tár^fhe 6 supersticioso idolatt^a, se poderia 'ufnáballi' 
d« <6|rflfigèrâa éffib^éf a^tíélloli^ M tfH^téspàh^ 



— ISA— 

4mV. Padre; que nabiralmeRtel^in podia. Eparaa 
IjranDO o experimentar, mandou, como por esearneo, 
«lar o breviário a unoa gallinha, ordenando a um 
soldado lhe fizesse tiro. Obedeceu este, e succedeo 
que acertando o tiro, e fazendo a galUnba em pe- 
dales, ficou o i)reviario illeso. Confuso o tyranno, 
maadou que segunda vez atirasse aómente ao bre^ 
viário; e. feito o tiro, ficou eiste escaçamente mov- 
dido da balki. Então o começou o bárbaro, e inso* 
kntd. tyranno a descompor, e arguir de fementido. 
eoniO se eUe tivera proroeitido que o breviário n8o 
teria lesAo, sendo que realmente tinha, dito o con* 
tnirio/ N^«ste caso um fidalgo gentio commovido de 
tant» padecer iujt^o, querendo acodir pela iono* 
ceifeia» . ftatranbou com urbanidade aquelle procedi- 
menta 

AHí liSou o tyranno de nova cavillaçSo, deter^ 
minando. obrar uma cousa, fingindo que obrava ou^ 
tra, e foi qoe mudando de pratica perguntou ao V. 
Fadre, se estava lembrado que havia alguns annos 
)he, havia mandado, quei$ob pena de morte não pré* 
gasse a lei evangélica nas suas terras? £ se o pre* 
ceito lhe fora intimado, como se atrevia a pregar, e 
ensinar publicamente, quebrantando o seu mandado? 
Formando d'aqui bastante culpa para o maior casti-^ 
go, que Ibe arbitrou, ordenando que fosse arcabur 
seado. Para esta execuQuo se dispoz logo na praça 
todo o necessário. Estava o V. Padre junto a um 
mastro prompto a dar a vida com este género de 
morte ; mas o tyranno fez que a execução ficasse 
au^iensa^ 6 que o V. Padre tornasse para o cárcere : 
aem embargo por^m de ser diflterido o procedimen- 
to contra o reu, nem |íor isso se lhe tirou do cora- 
^ o enlombtyel ôdio^ nem da intenção o pro^i- 



Aú âe o mandar matar por qualquer caminho, qué 
lhe fosse mais fácil, sem que isto sé obrasse em pu- 
blico ; por temer jà n^aquelles termos, que o empe- 
ftho do principe Tariaderen não só lhe impediria ti 
execução d^aquella morte, mas que d^ella resultaria 
algum tumulto publico em damno da sua conserva- 
ção. Este obstáculo lhe accendiá mais o fogo da sua 
cólera, da qual vencido mandou que o V. Padre 
fosse levado a Urgur, cidade distante da corte duas 
jornadas, situada nas fraldas do rioPamparrú, e nos 
confins do principado, onde assistia seu irmão, cha- 
mado Urenjadeven, tão lyranno, e tão malévolo ce^ 
mo elle^ com recado que alli lhe remettia aquelle 
preso, e ordenava lhe desse a morte com o tormen- 
to que lhe parecesse. 





CAFITCIi© XV* 



P^RTÉ PARA VKCtVK : É APRESENTADO A CREWADE- 
VEN, E FÍNALMEN*rE POR SEU UfANDADIÔ LHE MO 
A MORTE Rir ODfO DA REtJGiXO CHRIStA. 



FAVEifDO de se partir o V. P. Joâ6 de Brit- 
to dè RamonadebtirHo parai Urgur, des- 
pediu-se dos seus t5o queridos, c esti- 
mados discípulos, e companheiros. Foi es • 
te apartamento para o V. Padre o martyrio mais 
insuportável a que o condemnou a deshumanidadc 
do tyranno. Apesar de todo o sentimento se despe- 
diu : e apesar de toda a repugnância houve final- 
mente de se ir. E' a relação d'esta despedida mais 
para objecto da dor, que para matéria do discurso : 
sinta-se no affecto, o que n3o cabe no conceito. Ul- 
timamente separado com violência dos seus amados 
discípulos, partindo de RamanadaburSo, chegou a 
Urgur a trinta e um de janeiro com tormento tSo 
insuportável, ecom afficçSío tSioincrivel, que se n5o 
acabou a vida no caminho, pode-se crer com fun- 
damento, que o conserval-a foi particular mercê do 
ceu. Eram tão fortes os golpes, com que os al- 
gozes irosos, e assanhados o feriam, que o sangue 
derramado deixava impressos no caminho vestigios 
da sua crueldade. Chegado n^esta forma a Urgur, 
deram os conductores ao tyranno Urenjadeven o 
recado, que lhe levavam, e metteram na prisSo 



— »7 — 

ao V. f. Joâ^ de Britto» AetMva-se Ucienjiiâeveii 
havia muitos annos enfeimo de lepra» equasí enlre-^ 
vado. Quie que o V. Padre fotse á sua presença, e 
tend(M> diante de si, tbe pediu o sarasse da enfer^ 
midade, que padecia se» remédio por dilatados au^ 
nos ; pois ouvira díser que elle obrava similliantes 
prodi^s. Respoodeu o V* Padre, que dJe não da- 
va aaude^ nem tintia poder para obrar o que só com- 
petia ao todo poderoso Deus, Seahor, e creador do 
ceu, e da terra ; .mas, se para lhe agenciar alguai 
remédio bumano ttoha presUmo, com muito boa von- 
tade o facia., lustoa o eiifermo^ ediase-lbe: bem 
conhedd elle ajurisdioçio, e auctoridade, que se Hie 
commettera, e como na sua mão estava tírar^Hie a 
vida, ou dar-ih'a. £m conclusão, se .o sarasse, não 
morreria : de ,maís sairia d^alli com um presente de 
grande jureço. Respondeu o V. Padre, que tudo 
quanto o mjundo .lhe podia offereeer^ estimava em 
nada, e qite a mercê da vida estimava em tão pou* 
co, que toda a sua tengão fora sempre entregada pe- 
la fé na mão dos algcMses; pois havia muito tempo, 
estava esperando, como mercê particular de Deus, 
aquella morte que ihe.davam por castigo, eacceitava 
poríavor. Teve esie tyranno varias disputas com o 
y. Padre sobre a religião, e mandou chamar vorios 
dos seus lettrados para diaputarem com elle ; mas to- 
dos pela bondade de Deus saíram convencidos, pos- 
to que tão obstinados, e pertinazes, que não quizeram 
confe^ar o seu erro, nem deixar a sua idolatria. 

Desenganado o tyranno 'de que por aquelle ca- 
minho não havia de conseguir a saúde que deseja- 
va, pois queria que Deus obrasse n^eile um mila-^ 
gre, sem elle querer :abraçar a fé, na virtude da 
qual a divina omnipotência obra todos os seus pro- 



--188 — 

digios, mandou-o recolher ao cárcere, d^onde escre- 
yen ao Padre Francisco Laynes a carta seguinte. 

Aos vinte e oito de janeiro fui levado a juízo, 
e mandado arcabuzear diante do mesmo RaBgana- 
dadeven. Posto no logar, em que havia de ser ar- 
cabuzeado, e tudo em ordem, temendo o dito Bau^ 
ganadadeven algum motim no povo, apartando-me 
dos meus gloriosos confessores de Ghristo, e remet- 
tendo-me a seu irmão Urenjadeven, no ultimo de 
janeiro fui mandado apparecer na audiência, em que 
houve uma boa disputa : depois tornaram-me a met- 
ter no cárcere, onde 6co esperando a morte por 
meu Deus, e Senhor, que é o que unicamente vim 
buscar duas vezes á índia, á missão e ás terras do 
Maravà. Ainda que é muito o trabalho, é muito 
maior o premio : fico muito contente, e consolado 
in Domino;, pois sendo a culpando que me.accusam 
virtude, o padecer por ella é grande gloria : para 
merecer esta, peço a santa benção de vossa reveren- 
cia, em cujos sacrifícios, etc. Cárcere, três de feve- 
reiro de mil e seis centos noventa e três. 

A quatro do sobredito mez o mandou levar fo- 
ra de Urgur a um logar distante, onde estava um 
outeiro, ou cabeço, que fica eminente ao rio Pam- 
parrú, e foi elegido por altar da sagrada victima. 
Gondemnado pois com ultima sentença a que mor-^^ 
resse ás mãos dos algozes, estes o levavam como. reu 
dos maiores crinses com exorbitantes insultos de to- 
do aquelle povo, com injuriosas murmurações d'a« 
quelle innumeravel concurso, e com sacril^as inju- 
rias de todo aqueiie povo gentio : mas o venturoso 
padecente caminhava tão alegre e satisfeito, como 
quem ia lograr o que lhe havia custado tantos de* 
sejos, e tantos trabalhos^ Tanto que o manso, e hu- 



— i89 — 

miide cordeiro chegou ao logar do sacrificío, todo 
victima do fé, todo holocausto do amor, começou o 
algoz a afiar o cutello com que o hatia de dego- 
lar n'uma pedra, gastando quasi meia hora n^esta 
diligencia ; e no mesmo tempo estava o V. Padre 
recolhido dentro de si com fervorosa oração, e ar- 
dentes jaculatórias, que subiam até o ceu. 

Gastado meia hora n'e8te espiritual exercicio, 
se levantou o V. Padre com semblante tSo alegre, 
<Í«e jiarecia ou espelho, em que a graça reverberava, 
OU' abrasado Etna, em que o fogo do amor de Deus 
ardia. Então com notável resignação, e paciência 
se entregou á vontade dos ministros executores da 
sentença, eda tyrannia, agradecendo-lhes, como pô- 
de, o beneficio que da sua mão esperava. Succedeu, 
que n'este tempo acbando-se no grande ajuntamen- 
to do povo dois novos christãos, cresceu n*elles tan- 
to o zelo, que saindo do concurso correram para os 
algozes protestando a fé catholica, e dizendo, que 
em obsequio d'ella queriam dar ávida, e fazer n^a- 
qoelle sacrifício fiel companhia o seu santo mestre. 
Gomo os algozes não tinham poder para dar satis- 
fecção aos pios, e catholicos desejos doestes dois va- 
lorosos confessores, os mandaram presos para o cár- 
cere, até nova ordem do tyranno: e arremetténdo 
logo ao V. Padre o despojaram das vestiduras, dili- 
gencia que, conforme o uso do paiz, precedo ao cas- 
tigo mandado executar nos que hão de ser punidos ; 
e achando que tinha ao pescoço um relicário, fi- 
zeram conceito que alli trazia alguns encantos, com 
que enfeitiçava os que convertia; porque na sua 
opinião ser convertido era ser enfeitiçado. E olhan-* 
do uns para os outros reciprocamente se advertiram, 
que o não tocassem por não ficarem também attra^ 



— 190 — 

l^údoB do ¥eaeGciOy como os mais: epara o lançar^eni 
fora sem risco de lhe tocarem, vendo que pendia de 
um cordão, Ih^o cortaram com tão cruel golpo de al- 
fange, que entrando pelo lado lhe abriu luna con- 
siderável ferida. 

Tanto que caiu o relicário, cortando o cordão 
de que pendia, chegaram os algozes ao V. Padre, e 
fazendo-o assentar, para que assioi esperasse o ulti- 
mo golpe, lhe ataram as mãos, e juntamente a bar- 
ba ao peito, pois a trazia sempre muito grande, por 
ser isto preciso aos que, como doutores e mestres 
de alguma lei, a pregam, e ensinam n^aquellas- ter- 
ras. Feitas estas fúnebres preparações, levando o aU 
goz do cutello Já referido, descarregou sobre o pes-; 
coco da sagrada victima aquelle golpe tão desejado, 
Úo pleiteado, e com tantos merecimentos conseguido. 

Já S. Francisco Xavier vio desení^peabada a 
sufi protecção. Já o V. P. João de Britto vio cum- 
prido o seu desejo. Já se pâp o despacho, e o como 
pede a tantas petições. Já Qqalmente o grande piis- 
sionaria de Madurei, o incaxiçavel operário da vinha 
do Senhor) o legitimo filho da companhia de Jesus, 
o verdadeiro imitador do apostolo do oriente, deu a 
vida em testemunho da pureza da fé catbolica, e da 
v.erdade da religião christã que professa va,,ej)rj§gava. 




-Í91 




CAPITUIiO XVI. 



RELAÇÃO DB ALGUMAS CIRCUMSTANCIAS SUBSEQUEN- 
TES AO GLORIOSO UABTTRIO, BCONCLUSXo D*£STA 
HISTORIA. 



kBVADA quasí de um golpe a cabeça, pois lhe 
ficou presa somente por uma pequena pelle 
junto â garganta, succedeu que devendo 

cair o corpo para diante, por estar para 

alli inclinado, por lhe darem a ferida n&o pela gar- 
ganta, mas pela outra parte opposta, cabi o corpo para 
traz com os olhos abertos, e postos no cen, e com os 
pés estendidos. Tfio maravilhosa circumstancia cabe 
na admiração, mas não cabe no intendimento : sojeí- 
tè-se este a crer, qxre não ha prodígio ímpossivel 6 
graça, e logo conhecerá que nHo ha milagre impro- 
porcionado á crença. Vendo os algozes que a cabeça 
ainda estava presa pôr uma pelle junto ár garganta, 
Tazendo conceito que o V. Padre a poderia tornar 
a unfr com encantos, Ih^a acabaram de separar, c 
depois lhe cortaram as mSos, e os pés, pondo tudo 
no mesmo logar ao ludibrio, e desacato do povo. 
Aos dois chistSos, que se declararam ao tempo do 
tormento, mandou depois o tyranno cortar os nari- 
zes, e orelhas; eum d'elles lamentava com muitas la- 
grimas a desgraça de lhe nào haverem tirado a vida 
pela verdade evangélica. Os algozes atando à cintura 
do sagrado cadáver a cabeça, mHos, epés, passado de 



— f92 — 

alto abaixo com am espeto de pau, o arvoraram. As- 
sim esteve oito dias, em um dos quaes o pozeram 
em outro espeto mais alto por ordem do tyranno. 
No fimd'este oítavario caiu em terra o santo corpo; 
e ff cabeça rodando pelas asperezas do monte, foi dar 
cemsigo nas correntes do rio, querendo mostrar a 
provideocip, que de tal reliquia só era digno sacrá- 
rio o cristal mais píiro. Ficou alli o precioso cadá- 
ver exposto ao desamparo ; e como aquelle sitio era 
mui habitado de feras, foi d'ellas comido, e despe- 
daçado, poderá ser que em satisfação da rogativa, 
que o V. Padre havia feito a Deus no cárcere. Os 
fragmentos, que restaram, foram achados, e recolhi- 
dos pelo zelo, e industria de dois catechistas, que a 
titulo,, e pretexto de montaria, entraram no logardo 
martyrio para este fim. Acharam pois a cabeça, e 
os ossos, que entregaram ao superior da missão, o 
qual os mandou a Goa, e se conservam n'uma cai- 
xa, que se guarda no cubiculo do padre procurador 
do ^Malabar. 

Na hora em que degollaram o V. P. João de 
Britlo.(era esta a do meio dia), se achava o P. João 
da Costa acima referido, distante seis jornadas de 
Urgur, e adormecido, por ter caminhado o dia, e 
noite antecedente, e parte d'aquelle mesnio semdes- 
cançar, nem fazer intervalo na jornada ; e repousa- 
do assim, lhe appareceu em sonhos o V. P. Jo9o de 
Britto degollado : acordando logo entrou n^esse tem- 
po á presença do padre um seu catechista chamado 
Jorge, ao qual disse o que sonhara ; ^ querendo*»o 
divertir o catechista dizendo que era sonho, de 
que n3o devia fazer caso, d'ahi a três dias veio ter 
com o P. Costa outro catechista chamado Manuel 
em companhia de um d'aquelles bons chrtstaos, que 



— 193 — 

oíTerece&do-se a dar a vida pela fé, lhe mandou o 
tyrapno cartar as orelhas^ e os narites, e lhe tra- 
ziam a nova da gloriosa morte do V. P. JoSo de 
Britto ; e conferindo o P. João da Costa a hera do 
sonho com a hora, em que os mensageiros diziam 
que oY. Padre fora degolado, se achou ser no mes- 
mo ponto em que lhe appareceu. Isto affirma com 
juramento o dito P« João da Costa. 

Na mesma hora^ em que o V. Padre foi para 
o ceu por meio do espontâneo, e glorioso martyrío 
na cidade de Urgur, soltaram em Ramanadaburão, 
corte do tyranoo, que dista de Urgur dois dias e 
meio de jornada, os seus catechístas, e companhei- 
ros, que havia deixado no cárcere; mandando-os 
soltar o tyranno Rauganadadeven, e despedindo-os 
com muita honra. £* successo muito digno de re- 
paro, e reputado por cumprimento da vaticínio^ com 
que o y. Padre prognosticou que n^aquella perse- 
guição só elle havia de perder a vida. Consta este 
presagio pelo prooesso authentico, que por mandado 
do bispo de Meliapór Dom Gaspar Afibnso, se tirou 
da vida, e morte do V. Padre. 

No anno seguinte ao em que foi degolado, suc- 
cedeu, que em uma comarca chamada Fotião, que 
fíca ao poente de Calpalião» adoeceu certo gentio de 
uma ardentíssima e perigosíssima lebre: vendo-se 
desconGado da vida, chamou para o curar um chris- 
tSo por nome Gegani, o qual com ardentíssimo zelo 
de por todo o caminho acodir ás necessidades do 
próximo, aprendeu alguma cousa de medicina, esem 
embargo de que esta não passava de uns confusos 
princípios da tal faculdade, comtudo tinha n'aquellas 
partes nome de medico, e como a tal recorreu a el- 
le o gentio enfermo, commettendo-Ihe a cura da sua 

25 



— 194 — 

doença. Como o christão conhecia no enfermo outra 
doença de mais considerável cuidado» que era a da 
errada lei que seguia, quiz involver nas operações 
para o remédio da febre as disposições para a cura 
da crença ; e introduzindo na pratica evidentes de- 
monstrações da cegueira em que vivia, zelando mais 
os riscos da alma que os perigos do cor^o, lhe pe- 
diu quizesse reconhecer alei de Ghristo, e seguil-a ; 
porque, se recorresse ao verdadeiro Deus, e se ba- 
ptisasse,* n5o só segurava a saúde da alma, que era 
a de que só se havia de fazer caso, mas também se 
dispunha para Deus lhe dar a saúde do corpo, que 
tanto desejava. E dizendo-lhe, para melhor lhe in- 
troduzir esta pratica, muitas excellencias da nossa 
lei, lhe respondeu o gentio: como queria elle per- 
suadir-lhe que a lei dos christãos era boa, se havia 
tão pouco que o príncipe tinha mandado degolar com 
tanta ignominia um mestre da mesma, pela pregar, e 
pela ensinar ? E que não era possível, se esta lei fdra 
boa, que um príncipe tão grande a houvesse de impu- 
gnar tanto, que tirasse a vida ãquelle mestre pela 
querer introduzir. £ que esta era a causa porque a 
não julgava tão boa, como elle Ibe queria persuadir. 
Retorquiu este argumento mais a caridade que a 
philosophia d^aqueile physico, dizendo: que por isso 
mesmo se provava a sua verdade e excellencia ; por- 
que quem a professava a estimava tanto, que dava 
por ella a vida, que era o que mais se presava ; de 
que era bom testemunho o que elle mesmo referia, 
confessando que aquelle mestre dera com tanto gos- 
to a vida pela lei que ensinava. Controverteu-se o 
ponto de parte a parte, dizendo o christão muitos 
louvores da virtude do V. P. João de Britto, e que 
estava na presença de Deus logrando o premio de 



— 198 — 

seu martyrio, e rogando por todos os que se en- 
commendavam ao mesmo Senhor por sua intercessão. 
Combatidos assim estes dois contendedores, e ven- 
do-se o gentio já apertado^ commetteu partido, e foi : 
se o que elle dizia ser verdadeiro Deus, por inten- 
cessSio d'aquelle mestre, a quem se encommendava 
de todo o coração, e de quem elle contava tantas 
excellencias, sendo a maior de todas o dar a vida 
em credito da sua lei, lhe tirasse a febre em que 
se via eslar ardendo dentro em vinte e quatro ho- 
ras, e se visse reduzido a perfeita saúde, promettia 
com todas as veras fazer-se christão, e crer na lei 
evangélica, de cujos documentos tinha já muito lar- 
ga noticia. Acceitouo medico este partido, e confian- 
do muito em Deus, que pelos merecimentos do V. 
P. João de Britto acodiria âquella alma, se foi para 
casa. No dia seguinte A hora aprasada foi ver o seu 
enfermo, e tomando-lhe o pulso achou-o livre da 
febre, e em poucos -dias se viu restituído a saúde 
perfeita, e reconhecendo o prodigio recebeu o santo 
baptismo, em que achou a disposição para a verda- 
deira saúde, e vida espiritual. Este caso conta o P. 
António Dias na sua Annua da missBío do anno de 
mil seis centos e noventa e cinco. 

Este foi o nascimento, esta foi a vida, e esta 
foi a morte do V. P. João de Britto. Os louvores 
d'este empenho da natureza, e doeste desempenho 
da graça, são empreza para talento de outra esphera. 
Dizer o que elle obrou, foi acção de um incendido 
aífecto. Ponderar o que conseguiu, será empreza de 
algum elevado discurso. Foi o V. P. João de Brit- 
to o que eu não sei dizer que foi : só direi que na 
vida demissionário, a que se consagrou, ensinou com 
eloquência de mestre, serviu com zelo de confessor, 
acabou com prerogativas de martyr. 



^^^^^^^^^ 

DO TVASCniBNTO, TIDA E MARTTRIO iK) VBNERATfiL 
SERVO DC DEUS 

JOlO DC RRITTCN 

SACnLBOTSMtOrXSSO BA COKBA»rBXA B£ JS- 
SVSy MOATO BM OBXÕ 3>A 7^ BXX.O aSCV. 



POI IHP&B8Í0 EU ROMA RO ANIVe DB 1714, B AFABBBRTABO MA 
SAGRADA CONGREGAÇÃO OOB RITOS POR JOÃO BAPTISTA 6AI.LR- 
RATO, A FIM DB BB CONSEGUIR DA XBSHA SAGRADA CONGREGA- 
RÃO, QUE F08SB COMMETTIDA A INTRODUCÇÃo DA CAUSA NO SO- 
BREDITO CASO PARABFFBITO DB SB PROCBDRR i SUA CANONISA- 
RÃO. TAB distribuído nÃO TANTO PELO DISClTRfiO, B CONTINUA- 
RÃO DA SUA VIDA, QUABTO PELA eRDBII B SBRIB DASTIRTUDRS 
QBR n'bLLA BXBRCITOU. 



ADTBRTENCU AO LEITOR EK QUE SE DECLARAS AS RAZOES M. 
AQUI SE ACGRESCENTAR ESTE GOIUPENDIO. 



VBM a ser a primeira, porque n^efte se acha 
reeopilada toda a historia, (Joe seu auctbr com- 
poz em estjlo inahs diffuso. Segouda, porque 
aqui se pode ler com mais brevidade, e sem 
_ as interrupções que n'elTa se fazem por causa 
das reflexões moraes, politicas e pauegyricas, dé que vae. 
ornada e revestida. Terceira, porque além de n'elle se 
conterem algumas cousas que o auctor na obra omitèiu por 
falta de noticias, tudo quanto aqui se resume, e quanto se 
accrescenta fica com certeza em maior grau, por se fundar 
no summario authentico, e judicialmente formado» IstQ 
presuppofffo e advertido, segue-se 




— 198 — 



UMA BRSVE raSFAOÇAO. 

Entre os mais argntnentos da santa igreja catholica, 
com que a sua verdade manifestamente se demonstra, o 
principal é o sangue dos martyres constantemente derra- 
mado em todo omundo^ pela serie continuada dos séculos 
que foram correndo desde os seus principies até os tempos 
presentes, conforme o texto de S. João Elpist, l, c. 5, nP 
8. Três 4unt, gui iestimonium dani in terra^ spiriiusy et 
aqua^ et sanguis. 

Sendo pois certisslmo signal da verdade e fé catboli- 
ca, como escreve o doutíssimo Thomaz Bossio, de Signis 
JEccUsia^ iom. 1*^, Signo 27, c. 3, a perpetua successSo 
dos martyres, os quaes voluntariamente se offerecem e 
consagram á morte, náo pelejando com armas, mas pre- 
gando a verdade, importa muito á mesma igreja, que na 
sagrada congregação se proponham frequentemente simi- 
Ihantes testemunhas da fé, pelas quaes se justiíique esta 
successão continuada» 

Entre ellas, se deve çpntar o V* P. João de. Britto, 
da companhia de Jesus, sacerdote professo, que no auno 
de 1693 soffreu constantissimamente a morte por Chri^to 
na índia oriental, condemnado ao supplicio pelo regulo 
do Maravá. 

Para se introduzir na santa congregação dos ritos a 
causa doeste martírio humildemente instamos, concorren- 
do na' causa todos os requisitos que pede Hostiense, e os 
mais escriptores sobre o cap. il .^ de Reliquiis^ et venera- 
tione Sanctorunij como constará do que logo diremos fun- 
dado no depoimento das testemunhas examinadas porau- 
ctoridade publica. 

Por quanto divulgada, não so pelo Malabar, e mais 
províncias orientaes confinantes, mas também por toda a 
Europa a fama de tão celebre martírio, se fizeram logo 
dois processos por auctoridade ordinária. O primeiro em 
Malabar no anno de 1694, por commissao do bispo de 
'Meliapor, no qual foram examinadas quarenta testemu- 
nhas. O segundo em Roma no anno de 1699, em presen- 
ça do juiz delegado pelo eminentíssimo cardeal vigário, 
no qual se examinou uma testemunha, que tinha chegado 
do Malabar. 

Da validade de um e outro proceMO parece não haver 



— 199 — 

duvida \ por quanto n^elles se observaram todas as cousas 
que de direito, estylo e forma da CommissSo se haviam de 
guardar, como se vé do summario dos autos que se exhi- 
biu nas mãos do R. P. doutor promotor; como também 
se pode ver do exame das testemunhas, cuja lista anda no 
principio do summario, n.^ 2, dos ditos das quaes teste- 
munhas se tiraram para esta informação compendiosa as 
provas a respeito da santidade da vida, do martyrio, da 
causa do -martyrio, dos milagres e da fama commum de 
todas estas cousas. 

COMCÇA O COMPSNDXO. 

DO SEU NASCIMENTO, ENTRADA NA COMPANHIA, ESTUDOS 
EM PORTUGAL E EM GOA, NAVEOAçXo PARA A ÍNDIA, E 
EMPREGO NA MISSÂO» 

Nasceu este servo de Deus cm Lisboa metrópole de 
Portugal, tendo por pães a Salvador Pereira de Britto e 
D. Brites Pereira, illustres não menos em sangue, que 
em piedade ; pelos quaes educado em toda a honestidade 
e virtude, passou a puericia entre os moços fidalgos que 
assistiam ao infante D. Pedro nos seus primeiros annos, 
que depois foi rei de Portugal, segundo doeste nome. 

Já n^aquella occupação por causa da sua índole e cos- 
tumes, começou a dar manifestos indicies da futura santi- 
dade e futuro martyrio \ mas principalmente pela paciên- 
cia em tolerar os ludíbrios, com que alguns dos outros au- 
licos o tratavafm, conseguiu o appellido de nartyr, certi- 
íicando-o assim o sereníssimo rei D. Pedro de gloriosa me- 
moria, e também Ruy de Moura Telles de presente arce- 
bispo primaz de Braga, que antigamente fora seu compa- 
nheiro na assistência do paço. 

Mal tinha chegado aos annos da sua adolescência, 
quando logo pediu instantemente ser admittido na Com- 
panhia de Jesus, e o conseguiu. Alli depois de acabados 
os dois annos de noviciado, e gastados alguns annos em es- 
tudos de humanidades, rhetorica e philosophia nas uni- 
versidades de Coimbra e de Évora, d'onde passou a ensi- 
nar os primeiros princípios da lingua latina em Lisboa no 
collegio de S. Antão, se inílammou em desejos da missão 
da índia, que ônalmente conseguiu ^ sem que a isso obs- 
tassem as diligencias de muitos que lh'o impediam. Or- 



— aoo— 

deiiado sacerdote^ logo no anno de 1673, partiu com ou- 
tros missionários para a índia oriental. 

Tanto que chegou a Goa^ onde absolveu o curso de 
theólogia, foi destinado para a missão de Madurei na pro- 
vincia do Malabar. Ahi mudou de vestidos, como costu- 
mam os missionários d^aquella religião, segundo o costume^ 
e forma exterior dos Fandarás, que como mestres sao es- 
timados dos Índios por causa da austeridade com que vi- 
vem. O vestido de que por este respeito usava, ^era uma 
túnica talar de algodão, tinta de côr entre vermelha e 
amarelia, descendo-ihe dos hombros uma tira comprida do 
mesmo panno, e cobrindo*]be outra a cabeça» Na mão tra- 
sia um bordão maior que a marca ordinária, signal, e di- 
visa do magistério* 

No officio e exercício de missionário deu admirável 
demonstração de todas as virtudes, não aó em grau ordi- 
nário, mas em grau heróico e sublime, como depõem a 
testemunha examinada no processo romano. 

21 A VIRTVnS DA VS. 

£ para que principiemos pelas virtudes tbeologaes, 
prova-se a sua excellente fé 1, da grande devoção que te- 
ve aos divinos mysterios, principalmente ao da Trindade 
e ao da Encarnação. Prova-se 2, dos ardentes desejos que 
sempre teve de derramar o sangue por Christo e pela fé 
catholica \ de tal sorte que com grande amargura e dôr 
do seu coração se queixava lhe faltasse a Ventura de con- 
firmar a fé com o próprio sangue, quando a primeira ves 
no anno de 1688, sendo preso e conderanado á morte por 
causa da pregação do £vangdho, foi depois solto e resti- 
tuído á sua liberdade, pondo lhe o regulo prohibiçao, e 
mandando-lhe que d^ahi por diante não pregasse alei chris- 
tã nas terras do Maravá. 

£ sabendo pouco antes do seu martyrio, que o rei 
do Maravá promettera aos sacerdotes dos Ídolos que lhe 
havia de cortar a cabeça, em carta a um seu amigo, ex- 
clamou : prasa a Deus que cumpra o que prometteu ! Se 
assim o fizer, que mais tenho eu que desejar t 

Prova-se 3 a mesma excellente fé em grau horoico, 
e se confirma da generosa confissão que d^ella fez em pre- 
sença do general da milícia do regulo do Maravá, de man- 
dado do qual fora preso pela pregação do £vangelho no 



— 804 — 

a^ittio de I6869 poÍ9 nem com açoutes^ nem com ameaças 
pôde ser indusido a invocar o nome do ídolo Xivá. Da 
meama maneira na ultíma perseguição de 1693, em que 
padeceu martyrio, sendo tentaido pelo irmSo do dito Re- 
gulo a que abjurasse a fe, promettendo-se-lhe algumas al- 
deãs se invocasse o nome do ídolo, ilrmissimamente resis- 
tiu, e detestando tal impiedade protestou que antes esco- 
lhia se lhe cortasse a caJbega, do que fazer a invocação re*- 
querida. 

Prova-se 4 a sua grande fé, do ardente zeld que tinha 
de tlilatar a mesma fé, con^ q qual zelo promoveu a con- 
versão. 4^8 infiéis até á ultima respiração^ e o conseguiu 
felizmente;^ porque algum^a vez em espaço de três mezes 
fez que três mil geatios recebessem a fé christã, fazendo 
d''e;lla piipfissão» Outra ve^s em 15 mezes converteu 15000, 
e no ijuesfiio anno em que padeceu martyrio baptisou 
áOfiO. 

Ji\ VIRTUDE PA ESPERANÇA* 

Glual fosse a sua esperança em Deus, e a esperança 
de alcançar a bemaventurança, e de se unir com o sum- 
mp beni, çopata claramente do continuo, e fervoroso dese- 
jo que tinha de dar o. sangue por Christo, como acima fi- 
ca dito : como também consta da continua pregação do 
Evangelho por muitojs anno^ nas terras dos infiéis com 
evidepte perigo da vida* 

JS este modo de proceder nSp pôde nascer senão da 
gra-nde esperança e confiança de alcançar a bem aventuran- 
ça eterna. Movido da mesma esperança, quando já era con- 
demnado 4 morte, applicou toda a diligencia possível pa- 
ra que se não entregassem ao tyranno as cartas commeh- 
daticias que muitos christaos tinham procurado afim de 
lhe impetrarem a liberdade. Além d^sto prohibiu que os 
portuguezes, e geralmente os europeus de qualquer outra 
Ilação, fizessem, algupia diligencia com o regulo parpi elle 
Síiir ,com vida \ isto afim de que se não demorasse a con- 
i^ecução do premio eterno, desejando.com S. Paiilo desatar- 
se das prisões .corporaes para estar no ceu com Çhisto. 

DA YIET^DE DA CARIDADE. 

Da caridade doeste grande servopara com seal)euse 
Senhor não se pode duvidar. E na verdade elle a teve em 

26 



— 002 — 

grau heróico \ porque se Santo Thomaí Secunda Secund<t, 
g» 124, art, 3, in corpora demonstra, que entre todos os 
actos das virtudes o martyrio é a perfeição da caridade, con- 
forme a sçnten^a de Christo emS. João cap, í6,Maiorem 
liac dilectionem nemo hahet, ut animam $uam ponai quis 
pro amicis sieis, offerecendo o servo de Deus a cabeça ao 
golpe a que foi condemnado em ódio da fé, por querer 
amplificar o reino de Deus nas tetras dos infiéis, segue- 
se que chegou ao perfeitíssimo grau da caridade para 
com Deus. 

Nem foi dissiniilhante a caridade com o pratimo 

3ue continuamente exercitava com todos, ou remiedian- 
o com esmolas a indigência dos pobres, ou curando os 
enfermos com medicamentos, em tal conformidade, que 
commummente era chamado pae dos neophitos, que são os 
christãos bapiisados de novo. N^aquella navegação em que 
a segunda vez foi para a índia, pegando-se na nau* uma 
doença contagiosa, antepondo a saúde dos próximos á sua, 
todo se occupava em servir os enfermos ,* e por estas acções 
de] caridade mereceu ser tido entre os navegantes por ou- 
tro Xavier. 

Mas em nenhuma coUsa se mostrou mais a carida'- 
de para coni os próximos, que no zelo com que o servo de 
Deus se expoz a tantas difficuldadese perigos n'aquella ár- 
dua missão emprehendida pela salvaçSo das altnas, feito 
todo á vontade de todos, afim de lucrar a todos para Cfaris- 
to. Muitas vezes se disciplinava até verter sangue para re- 
duzir a melhor vida os homens perdidos.' £ com a mesma 
industria conseguiu a paz e concórdia de muitos que vi- 
viam entre ódios e inimisades. 



t)A PRUDSNCIA, JUSTZ^A, B F0RTAI.K2A. 

Descendo ás virtudes cardeaes e ás sUas annexas, e 
começando pela prudência, n^élle Reconheceram os supcrio« 
res esta virtude em grau superlativo^ pois nas cousas, e 
negócios de maior consideração sempre o consultavam. Nem 
deu menores indicios da mesma virtude, quando superior 
no governo de toda a missão, no qual se portou com tal 
cÍTCurnspecção e acerto, que satisfez plenamente assim aos 
seus maiores, como aos seus súbditos. £ assim como todos 
ou grandes ou pequenos lhe pediam conselho, assim nSo 



— 2ioa — 

houve alg^m que deixasse de abraçar os que lhe dava por 
menos conformes conai a prudência. 

Do que toca á integridade da justiça, nada faltava 
u^este servo de Deus ^ porque era exactíssimo na observân- 
cia dos mandamentos de Deus e da igreja, na obediência 
aos mandados dos superiores, e na guarda das regras e ins- 
tituto da Companhia, de tal sorte que nao só se achou 
não delinquira em cousa grave, mas se viu que sempre 
fora vigilantíssimo no evitar as culpas veniaes, e as mais 
leves imperfeições, quanto soffre a humana fragilidade. 
£m toda a parte foi religioso exemplar^ e todas as em- 
prezas que tomou por obediência de tal sorte as levou ao 
fim, que entre os missionários d^aquelle tempo, nao houve 
algum a respeito do qual fosse segundo. 

A fortaleza heróica n^este servo de Deus mostrou bem 
a intrépida paciência nós trabalhos, e frequentes persegui- 
ções toleradas pela gloria de Deus e salvação das almas, 
animando-se a soffrer tudo quanto respeitava á maior hon- 
ra de seu Deus e Senhor. Encarcerado duas vezes e vexa- 
do com muitas injurias, açoutes e feridas, nunca deu o 
minimo signal de impaciência. Além d^isso foi admirável 
a constância que mostrou, quando nem com ameaças, nem 
com prémios pôde ser induzido a invocar por seu nome um 
ídolo tido em grande veneração entre aquella gentilidade. 
E finalmente da morte que generosamente padeceu por 
amor de Christo, se collige qual, e em que grau fosse a 
fortaleza do servo de Deus* 

DA TEMFEUAJiÇA, E MAIS VIRTUDES AVE A XI.I.A 
SB SUBALTBBNAM. 

Gtuanto á temperança e mais virtudes que a ella se 
subalternam, consta de muitas experiências, que teve exer- 
cício d^ellas em grau sublime ; porque n^elle resplendeceu 
a abstinência insigne na comida e bebida. Em todo o tem- 
po que exercitou as funcçoes de missionário, sem excep- 
tuar o que gastou na Europa vinjlo da índia, e o que gas- 
tou na volta para a sua missão, se absteve até á morte de 
carnes, de ovos, de peixe, e de vinho, contentando-se com 
legumes, hervas e frutas ^ e doestas costumava eleger as mais 
insípidas, e também as mais amargosas. 

A sua penitencia na austeridade da vida a todos cau- 
sou admiração ^ porque o somno era brevíssimo, e sempre na 



— 264 — 

terra tiua sobre uma pèllfe de cervo, òu dt* tigre: conti- 
nuamente trasia cilicio, e freqUéntiàsimamente se castiga- 
va com discipliiias de sàtigue. Gastava a maior jiarte da 
noute em oração e colite níplação das cousas divirtas. Sem- 
pre andava com os pes deséalços nas peregrinações que fa- 
zia pela província do Malabat, ouvindo as confissões dos 
neophvtos, catechisando e baptisando os catecumenos. 

Todos os que o cotíversavaiii viam no servo de Deus 
suihma continência, modéstia e pudicícia, em tal forma qute 
nunca nas suas palavras e obras Se.notòu alguma couâk con- 
tra estás virtudes, como depÕetti as testemunhas. 

Na humildade finalnxente, que é o fundamento de to- 
das as virtudes, deu insignes e admiráveis exemplos : por- 
que primeiramente rejeitou o arcebispado deGoa, que pa- 
ra elle destinava el-rei de Portugal. E até as dignidades 
da sua religião nSo aceitava, senSo constrangido por obe- 
diência. 

Q/uando veíu da índia mandado a Roma, para soli- 
citar os negócios da missão, detendo-se por algtim tempo 
em Lisboa, e dispondo-se para a volta do Malabar, não 
foi possível, que vencido de razões ou movido de rogos accéi- 
tasse o cargo honorifico de mestre e director do príncipe 
de Portugal, que hoje é o sereníssimo .rei D* João V, teti- 
do-o destinado para este emprego D, Pedro 11, seu pae, 
antepondo as choupanas dos seus novos christSos á honra 
e magestade do paço. 

Chegado ao Malabar, e sabendo mais que por huma- 
nas conjecturas a morte que o esperava em ódio da santa 
fé, pediu a Deus, que se assim succedesse, de nenhum mo- 
do consentisse que as relíquias do sen corpo tivessem al- 
guma veneração, antes fossem comidas pelas feras, como 
partes e iàiembros de um grande peccador. Da mesma hu- 
mildade nascia o despreso de si mesmo, e pelo contrario 
a grande estimação dos outros, cujos talentos engrandecia 
deprimindo sempre os seiís. 

Dos sobreditos actos de virtude que até aqui declará- 
mos e reconhecemos no servo de Deus, além de muitas tes- 
temunhas de ouvida e fama publica, temos dezesete de vis- 
ta e de sciencia immediata, como se vô no summarío. 

Pelo que não é admiração, se por tantas experiên- 
cias e provas de santidade que resplendeciam no V. P. 
João de Britto, tanto entre os christáos, quanto entre os 
gentios d'aquella missão de Madurei, e reinos cotífinan- 



— 2ÔS — 

tM, tó§9é loltYAdo e tido em col»ta:d« Stnto quandi^vifU, 
cottto depi3í0m'»B testemttuiiBS . 

DA» OAOBAS BO SKtf SIAfiTIflIfÔi 

Disposto com o presidido de tâo siftgulares TÍrtudeSi m 
prepareiva o servo de 'Deus para a palma domartyrieqii* 
a mesmo Deifs )be destinava pof mão <doè infiéis. Pohjoe 
08 braoibeties e secei-doteii dos idotos^ levavidornisito a mal 
ver tabtos gentios cokivertidos á fé caCbottca^ ^e qoe a yc' 
neração dos idotoe cada d^a se diminu^isse, q««i]taram-'Se 
ao regulo do MaraVá^ e accvisaraYn ao V. Padre de qtie 
pregava a lei "de Chrísto, se«ído cansa de que ò» naturaes 
desamparassem os ritos |>atrio8) que os templos carecessem 
dos devotoS) qne d^antes os rreq\ietitavain, e que os K^dos 
fossem injuriados. AjuAtavam-se « isto ameaças de viii«- 
ganças e castigos que esta vate para vir do ceii» nSo 96* 
mente sobre os desertores da suareligilo^ maflt também «o- 
bre o mesmo regulo que concedia impunidade alSogran^ 
des delictos. 

Accrescetitou<-Be a sentida qttel^ade oma fioliti^ba do 
mesmo regulo com fundamento >de que um "fidalgo dot 
principacs do rerno, selido catecumetio, e p^itido eo V. 
Padre que lhe administrasse o btfptismf€>, do qual fei^xdtti- 
do em razão da poligamia, ou deeétareasadocom moitas 
mulheres, elle impaciente da repirisa repodioo logo quatro 
mulheres illegitimas, das quae» era uma ^ dita sobfftfint 
do príncipe^ o qnal enfurecendo-se^com estas queixasmati-^ 
dou que o servo de Deus fosse proso, qcyeascssasdo^cíhris* 
tSos fossem saqueadas^ que fossem quehnadas es igrejas, *« 
que cada um dos fieis fosse mcrltado com pena peou niaria, 
que a nns fossem cortadas as orelhas, a outros os narizes, 
outros fossem açoutados, outros mttrcados na testa com fer^ 
ro, stgnal ^eom qoe n^aquellas terras se representava o cul- 
to e veneração ^do-4dolo. 

DA PRrsJto no V. I^ADKS. 

Mandados pois á decretada execução os of&ciaes da 
justiça, foi preso no mesmo dia que antes titíha vatieiwa- 
do, estando no logar ou povoação de Muni, depois qne^pe- 
la manha celebrou a missa, e n^ella administrou o sacra-* 
mento da Eucharistia aos que primeiro confessara. Preso 



^206 — 

aqui çoni cadéas e- algemas, foi cooduaido por espaço de 
tires horas a outra povoação chamada Anumandacurena > 
onde amarrado a um carro tríumphal do ídolo ficou ex- 
posto ao ludibrio do vulgo, até o sol posto. 

De noute foi mettido em grilhões e guardado pelos 
soldados. J^epois d^isto foi levado em três dias de cami- 
nho .á corte do regulo do Mara vá, não tendo para se sus- 
tentar mais que um pouco de leite, e alguns âgos que o 
seu catecbista alcançou por esmola de alguns christãos. 

Tanto que .chegou ao paço e á presença do tjranno 
seiKJLo perguntado ;ácerca da fé e doutrina que ensinava, 
d«çlarau4be o symbolo e decálogo, isto é, o Credo e os 
Mandamentos da Lei de Deus. Mas em logar de lhe da- 
rem audiência, os aulicos o exsiliabam e enchiam de af- 
frontas. Logo foi tentado com terrores, ameaças, e prémios 
para que invocasse o nome de um idolo, sacrilégio e su- 
perstição que elle não quiz admittir, admirando os mes- 
mos bárbaros a grande alegria do rosto e a constaacia in- 
flexível do animo. 

E conhecendo por isso o tyrannò que trabalhava de- 
balde com o servo de Deus na pertenção de o apartar da 
fé catholica, mandou-lhe pendurar ao pescoço o seu bre- 
viário, por meio do qual, segundo falsamente cuidava, en- 
cantava e enfeitiçava aos naturaes do seu estado, moven- 
áo-o$ e inclinando-os á fé de Christo, e que os soldados ti- 
rassem a este alvo, apontando e descarregando n^elle as 
armas de fogo. £ promptos já os arcabuzeiros para darem 
a carga, o regulo temendo a. sublevação do povo, se o ser- 
vo de Deus fosse noorto na corte, manda quesobreestejam 
ua execução, ungindo que mudava em desterro a pena da 
morte, e mandou que o levassem a seu irmão chamado 
Urenjadeven, que estava em Urgur, escrevendo-lhe secre- 
tamente que logo lhe cortasse a cabeça. 

Chegando o servo de Deus a Urgur depois de dous 
dias de caminho, foi apresentado ao regulo, e pergun- 
tado segunda vez acerca da doutrina e lei que ensinava. 
Depois de um largo exame em que intrepidamente con- 
fessou a fé christã, e defendeu a sua verdade, foi manda- 
do de novo invocar o nome do ídolo d^aquelles gentios, 
promettendo-lhe de o investir no feudo de algumas aldèas, 
se fizesse a vontade do regulo. Mas detestando varonil- 
mente este partido, foi condemuado á morte. 



— âOT — 

1>UP08TÇXO DO SSRVO BS DEUS PARA A MORTt, B f 1CV 
GLORIOSO MARTYRIO. 

Lievado d'alU ao cárcere tratou de se preparai para 
a morte com orações, e outros pios exercícios. Ápplicava:- 
se ã ler as vidas e acçôes dos Santos Martyres, que se re- 
ferem nas licçoes do breviário, com cujos exemplos se con- 
firmava, e juntamente aos seus catechistas, que com elle 
estavam presos, para a tolerância de similhatites tormen- 
tos. Dia. e noite passava em oração, e todos os dias com 
os mesmos catecbístas resava as ladainhas de Nossa Se- 
nhora, e dos Santos, implorando auxilio de Deus *parà 
perseverar na fé até á morte. 

Também com cartas de seu próprio punho rogava aos 
mais padres missionários e christaos, que, publicado je- 
jum de três dias, resando juntamente o roSario^ encom- 
niendassem a Deus a elle, e aos seus, a fím de lhes consegui- 
rem perseverança e firmesa na fé até o ultimo instante da 
vida: requerendo também que nem os portuguezes, nem al- 
gum dos europeus intercedesse com o regulo do Maravá, 
para que o livrasse da morte. 

Feitos os exercícios mencionados, no cabo de três dias 
o tiraram do cárcere ^ e sendo levado ao logar do suppH^ 
cio junto do rioPamparró, ia tão alegre e contente dean^ 
te de todos, levando o seu breviário pendurado ao pesco- 
ço por ordem do tyranno, que os mesmos gentios pasma- 
dos perguntavam, se caminhava com tanta pressa, e con* 
tentamento para alguma festa ou banquete. 

Posto finalmente n'aquelle campo destinado paratao 
barbara e deshumana carnificina, cercado dô innumera- 
vel multidão de gente, que concorrera para ver aqttelle 
expectaéulo, pediu, e conseguiu por merca algum espaço 
de tempo, para se pôr todo nas mãos de Deus, que n*a- 
quella ultima hora desejava ter favorável e propido. 

Em quanto junto do madeiro, ou p^te, cm que seu 
corpo fravia de ser pregado, se offerece victima aDeus, da 
outra parte lhe offerece o algoz aos olhos o cutello, com 
que n^aquelle reino se costumam sacrificar as^victimas aòs 
idolbs; pôe-se a aguçal-o na pedra, para experimentar 
se o servo de Deus atemorisado com o que via mudava d^ 
parecer, e de fe. 

Porém não s6 nao deu o min Imo sigriál de incons- 
tância, mas muito alegre, e levantados os olhos ao ceo 



— 208^ 

gaitou em oração aquella xn^ia hora que lhe restava de 
Tida \ a qual acabada, offiereceu o pescoço ao algoz 'para 
que lhe cortasse a cabeça : este descarregando o golpe com 
toda a força, nem assiiu apode levar*, mas pegando-Uie da 
barba o degoUau pela parte da garganta, e caiu de costas 
o santo corpo do inviclissimo Martyr dç Christo. Sendo- 
Ihe logo cortados os pés e as mãos, foi pregado o corpo 
n^aqoelle pdste^ juntjo do qual padeceu a morte, pregan- 
.do-lhe também alli a cabeça, para que .assim servisse de 
esipectaçulo a todos. 

D'e8te, modo com glorioso género de morte acabou a 
preseate vida em ódio da fé o V« P. Jeão de Britto aos 4 
de fevereiro de 1693, dia que n^aquelle apno. foi o de 
Cioia, oo^M^iodo n^este tempo 45 aniios de edade, 30 de 
zcdigiâo, e ^0 dé missionário, como consta do Manilogio 
dá Coi^apanhia* 

flUVAXtfXCAçXO SE «VV FOI VBABÃBEARO MARTYRIO A 
SUA ACORT&. 

Pela serie de tantos actos heróicos acima ieferidoS| 
assim antecedentes, como concomitantes o glorioso marty- 
lio comprovado com as deposições dequaú vinte testemu- 
nhas de vista,, consta con» jqua;ata fortaleza e constância 
acceitou a morte por Christo; e copseguintemente de ne- 
nhum modo se pode duvidar do verdadeiro martyrio, pelo 
que toca ao suj^eito, que o padeceu ; por quanto além das 
razões e argumentos da dita 'Constância e fortalesa já de- 
cla:rado« acima, especialmente o depõem quasi todas as 
testem u nhãs examioadas^obre o oitavo artigo, como se vê 
no swnniario» 

Pelo qa« toca ao mesmo martyrio considerado da par- 
te do t^ranoo, é evideate que não teve outra causa mais, 
Gue a pregação da lei de Christo, a conversão dos gentios 
i noç&a santa religiã,o, o despreso dos ídolos; e por todos 
estes .respeitos foireai ódio da fé. Assim o qualifica a uni- 
versal opinião, e.fama sem.contradicçSo alguma entre to- 
dos os habitadoreff^d^aquelle reino, pelos quaes sempre foi 
tido por verdadeiro martyr, e de presente se conserva na 
mesma ri^putaçâo. £sta fama ae originou de testemunhas 
oculares, e dos mesmos idolatras, que se acharam presen- 
tes a todos 05 aotos do martjrio. 



— 209 — 

DO CORPO DO V. MA.RTYR DEPOIS DK MORTO. 

Depois da morte do Servo de Deus esteve o seu corpo 
{lendente d^aquelle pdste, em que foi levantado, por es- 
pado de 8 dia9, nos quaes choveu continuamente, e des- 
pregado por força das aguas caiu em terra, e foi comido 
pelas bestas feras muito a propósito do desejo, com que 
antes do martírio pedia ao Senhor, que seu corpo fosse 
devorado pelas feras. Ficaram álli os ossos e a cabeça que 
alguns christâos, não sem perigo da vida, recolheram e os 
levaram ao superior da missão, para que as reliquias de 
tão grande martyr naopereces&em, epara que a seu tempo 
tenha a fortuna de lograr o culto, que esperamos lhe con- 
<:ederá a Sé apostólica : e por esse fim se conservam hoje 
no collegío de Goa recolhidas e fechadas em um cofre. 

DOS MILAGRES aUB OBROU SM VIDA» 

Em quanto não succede a publica veneração e culto, 
que desejamos, não deixa Deus de confirmar a santidade 
de seu Servo na rida, e a gloria de tal martyrio depois da 
morte com extraordinários signaes do ceu, e com estu- 
pendos milagres, dosquacs referiremos aqui alguns come- 
çando pelos que obrou em vida. 

Sendo preso o V. Padre na perseguição de 1686 epor 
muitos modos vexado, com elle estava no cárcere omca- 
techista chamado Xilvé-Hayguen, ao qual ferindo cruel- 
mente o guarda com golpes de azorrague, de tal sorte lhe 
oíTcndeu um dos olhos (era este o direito), que o arrancou 
de seu logar, e pegando d^elle o catechista entre gemidos 
e dores o apresentou aoV. Padre em forma de quem pe- 
dia remédio. Então o Servo de Deus mettendo-o no seu 
logar o benzeu, implorando auxilio divino, e o enfermo 
logo ficon são, e com a vista restituída, como esse mesmo 
cátecblsta o attestou de facto próprio com outras teste- 
munhas de vista, e presentes. E quando o V. Padre re- 
feriu este prodígio ao padre João da Costa da Companhia, 
por evitar o louvor, que se lhe podia seguir, o attribuia 
a Santa Luzia. 

Visitando asaldéas dos seus novos christâos, para lhes 

V administrar os sacramentos, chegou em tempo de chuva 

e pela noute á margem de um rio, chamado Collarão, que 

engrossado das muitas aguas saía da madre^ e começava 

27 



— 210 — 

a tresbordar pelos campos adjacentes. N^este perigo^ e 
desamparo nao havia quem por pre^ algum seofferecesse 
a pôr da outra parte ò Servo de Deos. N^este tempo, da 
•parte d^além se ouviu uma vos de quem clamando per- 
guntava, se queria passar. Chamado pelo V. Padre quem 
quer que fo6se o auctor d^aquella voz, logo se veiu a nado 
para elle um mancebo, e melhor do que o dissera, o pas- 
sou á outra banda cprtando com muita facilidade a cor- 
Tefite, e da. mesma sorte aoB da sua comitiva. 

Alli, em quanto o V. Padre lhe preparava alguma 
remuneração de tão grande serviço, aquelle conductor des- 
appareceu, sem ser ^isto como e para onde ^ e buscado com 
diligeDcia por ^le e por seus companheiros, nio se achou, 
ainda que no logar visinho o procuraram, e perguntaram 
por ..elle. D^onde todos creram, e se persuadiram que o 
ceu acudira com tâo especial favor a seu Servo por minis- 
tério de algjim anjo, principalmente sendo a noute muito 
escura, e o rio muito largo, sem que da parte ulterior se 
podesse discernir os que chegavam da parCe d'áquem. 

CCWTIVVA ▲ MESHA. MA.TBRIA. BQS jULACaBS EU VIBA. 

O pcincipe Tariadeveu, de quem acima falíamos, le^ 
gitimo successor do reino do Maravá, cuja conversão á fé 
Ê)i a próxima occasiâo do martyrio da V. Padre, padecia 
uma enfermidade mortal, -e a juiso de todos incurav^. 
£4Ste priucipe tendo ouvido muitas vezes a prodigiosa vir- 
tude do catechismo christão, pediu ao V. Padre Britto o 
quisesse ler deante d^elle. Acabando de o ler, foi tal o 
effeilo das palavras do V. Padre, com que pronunciava as 
do catechismo, que o príncipe logo recuperou a saúde, re- 
conhecendo a especial mercê que Deus lhe fizera por coo- 
peração de. seu Servo. 

£ doeste mUagre resultou que o príncipe pediu o 
baptismo, para o qual se dispoz repudiando algumas das 
muitas muÚieres que tinha ^ e dVqui nasceu, que o regulo 
indignado á vista das queixas que lhe fizera aua sobrinha, 
uma das mulheres, ou, por melhor dizer, das concubinas 
do príncipe, mandou matar o V. P. Britto. Tanta era 
nMle a anciã do martírio, que fazia milagres, para com 
effeito o padecer ! 

. Não foi menor a effícacía da virtude, com que mila- 
grosamente triumphou de todas as artes magicas, quando 



— 211 — 

por ordem do tyranno sé appUcaram os mait insignes fei-^ 
ticeirofi da sua cdrte a preparar um veneficio tâo eficaz e 
activo, que constava por experiência nS^o haver quem dMtd 
escapasse cpm vida. Era celebre n^aquelle re-ino esta con- 
feição diabólica^ composta de vários ingredieates>^ e se 
chamava patiragolipugei^ 

Depois de gastados três dias n^este preparativo da 
morte, os necroman ticos desenganaram ao tyranno, dizen- 
do-lhe entendiam estava mal lograda a sua diligencia'^ 
porque o Padre tinha maiores forças qne toda a potencia 
dos seus deuses. Por três veies se tinha repetido este ar-» 
te ócio, e sempre sem successo. 

Finalmente vendo ó» mestres doesta ^rte que se per- 
dia o sen credito e opinião, tornaram a tentar fortuna, 
pedindo licença ao tyranno, para' oifereoerem uns execrá- 
veis sacrifícios de tão forte e vehemente operação, que em 
cinco dias se havia de seguir infallivelmente a morte do 
V. Padre. Obtiveram a licença, fizeram os sacrificios', mas 
não se verificou a promessa ^ porque a vida do V. Padre 
se confirmava mais entre os meios da sua destruição. A^ 
vista de tal prodigio podemos dizer de novo, que, como o 
V. Padre aspirava a dar a vida pela fé não de qualquer 
sorte, mas comefiusão de sangue, nSo contente com a mor- 
te que lhe deixasse o sangue nas veias, venceu milagrosa- 
mente tantos vcneficios, para que finalmente o derramasse 
em circumstancias, quê a morte nao parecesse natural, co- 
mo ÇMertendia a malícia de seus inimigos, mas fosse publi- 
ca e notoriamente violenta, testemunhando seu mesmo 
sangue que padecera glorioso mar ty rio. 

BO MIXAOBOSO BSPiaiTO DE PROPHECIA. 

Também alguns prognósticos de cousas futuras, e ve- 
rificadas com o successo provam qne o Servo de Deus fora 
illustmdo eom espirito de prophecia. Estando esposada a 
prineesa de Portugal P. Isabel Mar ia Josepha filha única, 
que do^ primeiro matrimonio com a rainha D. Maria Fran- 
cisca Isabel deSaboya teve el-reiD. PedroII, com o prín- 
cipe filho do duque de Saboya legitimo herdeiro -dos seus 
estados, antes que se celebrasse o matrimonio, propfaetisou 
na índia, quando lá ouviu esta noticia, que nao havia de 
ter eâeito^ e assim se cumpriu, mudando o saboyano de 
resolução^ e voltando sem elie uma armada em que a me- 



llior uobresa de Portugal o fóra buscan E o padre Joâk» 
da Costa da Companhia, qae no processo feito em Roma 
depõem que ouvira esta prophecia ao V. Padre na índia, 
accrescenta, que chegando a noticia da morte da sobredita 
princesa, eíle a escrevera ao mesma. V. Padre, o qual lhe 
respondeu : lenibre>se vossa reverencia do que eu algum 
dia lhe disse n^esta matéria* 

Depois de celebrar missa, allumiado n*ella por Deus, 
que lhe manifestou a ultima perseguição^ em que mor- 
reu, logo avisou aos christSos, que a perseguição se arma- 
ria contra todos, e que tratassem de evitar os effeitos da 
ira do tyranno. Além dMsto sendo presos com elle muitos 
christâos ecatechistus, que foram judicialmente examina- 
dos acerca da religião christã, disse, que todos haviam de 
ficar livres, eque sò elle havia de ser condem nado á morte, 
como com efieito succedeu. 

SOS EILAOSES J>£POIS.X)A MORTB. 

Se estas cousas aconteceram na sua vida, depois da 
sua morte continuou Deus em dar manifestos signaes da 
gloria que possuia no ceu. Em prova do que por três dias 
e três noutes foram vistas pelos infiéis luminárias suspen- 
sas no ar sobre o corpo do Santo Martyr pendente no pa- 
tíbulo. 

Um dos. novos chrlstaos estando cego, com applicar 
agua aos olhos, cm que foi misturada aterra em que cairá 
o sangue do V. Martyr, logo recuperou a vista. 

Por virtude da mesma agua medicada com a dita 
terra ensanguentada, e bebida por uma mulher posta em 
perigo de morte pela difficuldade do parto, porque nao 
podia expellir o feto, logo pario uma creança morta, e a 
mãe ficou viva e saa. 

Na mesma hora em que o mart^rrisaram, appareoeu 
com a cabeça nas mãos ao padre João da Costa da Com- 
panhia de Jesus na aldêa deTalleis, que distava do logar 
do martyrio por espaço de quarenta léguas, como o mesmo 
padre depõem de facto próprio no summario romano. 

Na costa da Pescaria pegou o fogo na casa de um 
habitador d^aqueile logar chamado Taléc, e já bem so- 
prado e accendido pelo vento se ateava nas casas dos vi- 
sinhoa, que eram cobertas de folhas seccas de palma, ^ 
ameaçava um fatal incêndio cm toda aquella aldêa, quando 



— 213 — 

o padfe JoSo da Costa « de quem pouco acima fallároosy 
invocou de Deus auxilio por intercessão dò V. Martyr, e 
o fogo de repente se voltou para a outra parte, onde não 
estavam casas, e começou a cair uma chuva copiosa, sendo 
que o ceu d^antes estava sereno, e sem mostras de agua, 
ficando com isto as roais habitações iilesas ; o que se nSo 
podia attribuir senão ao patrocínio do Servo de Deus. 

Certa donzella da cidade de Cotata chamada Isabel, 
que estava doente de uns tumores malignos, mettendo-se 
na agua benta que bebeu, uma parte do lenho em que foi 
pregado o corpo do santo martjr, recuperou a sua antiga 
saúde, e os tumores se seccaram, e abateram. 

De similhante doença estava deplorado e próximo á 
morte um menimo por nome Mariadagen na cidade de 
Vaipura da mesma costa da Pesoaria, e ficou tão desformo 
por causa dos tumores, que já não tinha figura de corpo 
humano. N^estes apertos os pães destituidos de humano 
auxilio recorreram á intercessão da Virgem Maria, e jun- 
tamente aos favores doY. Martyr, de quem fora catechista 
o pae do menino, resando a este intento as ladainhas. 

£ntâo o doente, que havia dias tinha perdido a falia, 
chamando o pae com rosto alegre e risonho^ lhe contou 
como a Santíssima Virgem acompanhada de muitos anjos, 
e juntamente do V. P. João de Britto, que trazia á mão 
direita, lhe apparecera, e lhe alcançara de Deus saúde. 
< Depois dMsto em tempo de meia hora desappareceu todo 
o tumor, e correndo um liquor aqueo, ficou o ineníno to- 
talmente livre. 

Um gentio que padecia febre continua, ouvindo mui- 
tos louvores da nossa santa fé a um medico ohristão, a 
impugnava como falsa, s6 porque tinha ouvido que o re- 
gulo do Maravá a prohibira, e porque o mesmo rei tinha 
mandado degolar o Santo Padre que a ensinava. Comtudo 
pacteou com o medico, eprometteu que seria cbrlstao, se 
por auxilio e favor do V. P. João de Britto, que o me- 
dico asseverava ser mart^rr por defensor da lei verdadeira, 
em tempo de 24 horas convalecesse d^aquella febre tão 
continuada. O successo encheu e purificou a condição, 
acha ndo-se. o doente são no tempo aprazado ; e satisfazendo 
á promessa se fez christão. 

O testemunho de maior estimação é o que sae da 
bocca dos inimigos ; e que estes o dessem irrefragavel acer- 
ca dos milagres doV.P. João de Britto, vè-se clar^niente 



— 214 — 

do succesao seguinte. Recolheram os infiéis os vestidos e o 
bordão do Santo Martyr -^ e querendo os christaos res^pa- 
tal«os a todo o preço, não foi possível acabarem com o» 
gentios que lhos vendessem, dando estes por razão que lhe» 
serviam de armas contra os demónios que os infestavam ; 
pois avista doestas sagradas relíquias desappareciam. D^on- 
de ae collige que, se com os outros prodígios já referidoff 
vencia milagrosamente a natureza, com os efieitos doesta» 
sagradas relíquias vence o mesmo inferno. 

SM dUS SE CONCLVB ESTE COHPEITDIO. 

De quanto fica deduzido na sobredita informação, as- 
sim das virtudes como do martyrio, eda causa do mesmo 
martyrio, e dos prodígios sobrehaturaes que se comprovam 
e justificam com quarenta e uma testemunhas examinadas 
por auctoridade. do Ordinário, das quaes muitas são de* 
vista, pois foram ou companheiros do Santo Martyr no cár- 
cere, ond« também estiveram presos, ou seus eateohista«, 
ou alguns outros cfaristãõs que dos logares circumvisinhos 
concorreram para assistirem á morte do pae universal d'a- 
qvuálsL christandade : 

De quanto fieá deduzido (torno a dizer) parece está 
plenariamente provada a publica fama e a verdade do mar- 
tírio doeste Servo de.Deus, como também a faii»a dá sua 
santidade edos milagres que obrou, sendo este o primeiro 
requisito para se introduzirem similhantes causas na sa-^ 
grada Congregação dos Ritos ^ a qual fama econnnum opi-' 
nião certamente persevera áié ò presente diá, e consta do' 
Manilogio da Companhia de Jesns, qne se costuma ler 
todos os annos em toda a religião, no qual Manilogio aos 
4 de fevereiro se expõe o martírio do V, P. João de 
Britto. 

£ sé eònfòrme oest^rlo da Cúria, além das cansas mo- 
tivas para a canonisação que consistem na santidade, mi~ 
lagr^s e martyrios justificados, são necessárias as impul- 
sivas què consistem nas supplicas e instancias dos priíioi- 
pea, o^ittindo aqui por brevidade as cartas qne sobre esta 
matéria escreveram aê. Santidade o èminentissimo Nuno 
Cardeal da Cunha, os illustrissimos arcebispo primaz Ruy 
de Monra Telles, af^biepo de Évora D. Simão daGama, 
arcebispo de Craiiganor D. JoSo Ribeiro, bispo de Leiria 
D. Álvaro de Abranches, bispo de Meliapór D. Francisco 



— 215 — 

Laynea e cabido da Sé de Lisboa oriental, fareihos sd men- 
^•ão das duas que escreveram os sereoiseimos rei e rainha 
de Portugal» 

CAVSA IMPULSIVA PARA A CANONISA^Io NA 8BGCIKTB 
CARTA DO SERZNISSIBI O RKI^X PORTUGAL D. JOXo V. 

Muito santo em Christo Padre, o muito bemaventu- 
rado Senhor, o vosso devoto e obediente filho D.João por 
graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves, d^áquem 
« d^álem mar em Africa, senhor de Guiné e da conquista, 
navegação, commercio de Ethiopia, Arábia, Pérsia e da 
índia, etc. com toda humildade envia beijar seus santos pés* 

Muito santo em Christo Padre, e muito bemaventu- 
rado Senhor, o^ V« P, João de Britto, que do serviço do 
paço onde se criou com o foro de moço fidalgo passou k 
ser religioso da Companhia de Jesus,, onde sempre com 
exemplar vida satisfez a obrigação de filho dos illustres 
pães que teve no século, e d^aquelle grande pae S. Igna- 
cio que buscou na religião, depois de o haver levado seu 
fervoroso espirito ás mais trabalhosas missões do Oriente 
"CniMadurey, onde com incançaveis fadigas e copiosos suo- 
res fertilisou aquellas terras cbaias de espinhos da infideli- 
dade, deixando n^ellas muitas e tenras plantas do paraíso 
regadas com a agua do sagrado baptismo, desde aquella 
dilatada distancia o trouxe o seu mesmo espirito a este 
reino a procurar o augmouto d^aquellas missões*^ e ttêth- 
tuindo-se a ellas, começou a ser tão copioso o frueto dbs 
suas conversões, e a conheeer-se tão activg o fogo do abra- 
sado «spirito do amor de Deus e do próximo, que_ obvando 
Deus pela sua mão as maravilhosas obras da sua otnnipo- 
tencia, premiou os seus graves trabalhos com a corda do 
cruel martyrio que gloriosamente padeceu no Malabar, o 
qual haverá. dez annos veiu justificado do Oriente nas di-^ 
ligencias que já se remetteram a essa Cúria. 

£ porque nãos^ será de muita gloria para Deus Nosso 
Senhor, de grande esplendor para este reino, e de effica< 
exemplo para a sua religião, mas também de grande gostd 
e consolação para mim servir-se V. Santidade de declarar 
por um dos bem aventurados a este grande Servo de DéUs,^ 
que desde o caminho do paço chegou pelo caminho da re- 
ligião a ser um dos soldados escolhidos por Deus para o 
exercito dos seus martyres : 



— 216^ 

Peço humilde e instantemente a V. Santidade queira 
com a sua paternal benignidade mandar ver com a maior 
brevidade estas diligencias. E por continuar a bòa fama 
das virtudes do dito V. João de Britto, e ser constante 
opinião de que padeceu glorioso martyrio, tive por conve- 
niente renovar asupplica que el-rei meu senhor epae ha- 
via feito aV. Santidade sobre este particular. Muito san- 
to em Christo Padre, e muito bemaveuturado Senhor, Deus 
N. S. por largos, tempos conserve a pessoa de V. Santidade 
em seu santo serviço. Escrita em Lisboa a 4 de janeiro 
de 1714. 

Muito obediente filho de V. Santidade 

EL-REI. 

OUTRA CAVBA IMPUISIVA IfA SKGUIKTB CARTA DA SERE- 
NÍSSIMA RAINHA DE FORTUGAI. D. MARIA ANNA. 

Muito santo em Christo Padre, e muito bcmavcnta- 
rada Senhor, a vossa devota e obediente filha D. Maria 
Anna por graça de Deus rainha de Portugal e dos Algar- 
veSy d^áquem e d^álem mar em Africa, senhora de Gui-> 
xré e da conquista, navegação, commercio de Ethiopia, 
Arábia, Pérsia, e da índia, ele. , com toda humildade 
envia beijar seus santos pés. Muito santo em Christo Pa- 
dre, e muito bemaveuturado Senhor, oV.P. Joáode Brit- 
to da Companhia de Jesus, varão iilustre pelo seu nasci-- 
mento, e muito mais pelas suas obras e virtudes, missio- 
nário que foi emMadurey, onde a Providencia divina lhe 
tinha destinado o premio por seus incançaveis trabalhos 
no glorioso martírio que padeceu para confirmação da fé, 
e que veiu justiflcado a V. Santidade do Oriente, como 
também os prodígios que a divina Providencia obrou por 
mão doeste seu Servo; e porque ainda continua a boa fa-* 
ma das suas virtudes e a constante opinião de que pade- 
ceu glorioso martírio : 

Peço encarecidamente a V. Santidade queira com a 
sua paternal bcnigntdade mandal-o declarar com toda a 
brevidade, para que desde o oriente até o occaso se veja 
exaltado o poder de Deus com gloria de Portugal e de toda 
a christandade, renovando agora a mesma supplica que a 
rainha minha predecessora já fez aV. Santidade sobre este 
particular, por desejar ver no meu tempo sobre os altar ei 
um varão táío venerável, como foi o dito Padre. Muito 



— 217 — 

s&nto em Christo Padre, e muito bemaventorado Senhor, 
Deus Nosso Senhor por largos tempos conserve a pessoa 
de V. Santidade em sen santo serviço. Escrita em Lisboa, 
em 3 de janeiro de 17I.4, 

Muito obediente filha de V. Santidade 

A RÂlNHAé 



VERDADEIRAS IMAGENS 

DO V. PADRE 

jralO DE B]tITTO# 

Proponho te, 6 benévolo leitor, por sobrescrito das 
cartas do V, P. João de £ritto o titulo de verdadeiras 
imagens ;; porque nas cartas que cada um escreve treslada 
ao papel as tintas do seu animo e as cores do seu espirito* 
Vêníos os caracteres da carta com os olhos do corpo, e no. 
mesmo tempo vemos com os olhos do intendimento nas 
regras da mesma carta delineado o espirito de seu auctor. 
Se isto bem se considerasse, quantos aparariam melhor as 
suas pennas, e nao deixariam abomináveis retratos de si 
mesmos, tão negros como a tinta com que escrevem as suas 
cartas, ou por melhor dizer, oslibelíos infamatorios do seu 
crédito e opinião. 

N^^estas imagens que te proponho feitas á penna, ve^ 
rás era primeiro logar duas debuxadas ekn Eoma pelo R. 
P. Thyrso Gonzales preposito geral da sagrada Companhia 
de Jesus, nas quaes respondendo ás cartas que demandado 
de suas majestades lhe escreveram seus confessores os pa- 
dres Sebastião de Magalhães, e Leopoldo Fues, pinta com, 
vivas cores o conceito que tinha das virtudes e talento do 
V. P. João de Britto. Em qualquer destas duas. imagens 
verás representado ao pae e juntamente ao íilho^ ao pae 
como auctor da carta, ao filho como objecto da escri- 
tura. ' 

Em segundo logar verás tantas ima^nsdoV. Padre, 
quantas-cartas leres feitas pela sua penna ou a Fernão Pe- 

. 28 



— 218 — 

xeirá doBritio seu irmão no sangue, ou a alguns padres 
da Companhia seus irmãos no espirito. 

Abre bem os olhos para leres estas cartas ^ e peço-te 
que lhes respondas com o bom estalo da tua vida. 

Primeira curta do P. Thyno Gonzoles geral da Compa* 
nhia de Jesus para o P, Sebastião dt Magalhães con" 
fessor de sua majestade^ em que declara as razões que 
havia para não vir da índia para Portugal o F". JP. 
João de Britto. 

Recebi n^esta posta uma carta de V. R. escf ita em 
5 de junho próximo passado, na qual me dá noticia da 
grande propensão que sua majestade que Deus guarde, mos- 
tra a que o P. João de Britto torne a repetir a navegação 
da índia pai% Portugal. Creio terá V. R. intendido quão 
prompto estou e estarei para executar, assim n^isto como 
em tudo o mais que se offereçer, quanto fôr do agrado e 
serviço de sua majestade^ mas já qne V. R. me adverte, 
que a singular piedade e recta intenção de sua majestade 
só pertende deixar na escolha doP. Britto ou ficar na Jn^ 
dia, ou voltar para esse reino, conforme elle julgar que 
será maior serviço de Deus, intendo me não estranhará 
sua majestade significar eu a V. R. o que julgo n^estama- 
* teria; e 4 qne a vinda do P. Britto para Portugal será 
sem duvida contra o maior serviço de Deus, considerados 
os grandes talentos de missionário que a divina bondade 
communicou ao dito Padre, dando-lhe zelo apostólico para 
dilatar nossa santa fé, e particular graça para a pregar e 
attrahir a ella com seu bom modo e grande pericia da 
língua do Malabar grande numero de gentios, e outras mui- 
tas prendas próprias de um homem escolhido de Deus para 
o serviço na empresa das almas; nao dos christãos em Eu- 
ropa, mas dos gentios na índia, onde os sobreditos talentos 
renderam cento por um, como já mostra a experiência do 
copioso fructo que o P, Britto colheu da sua pregação no 
Malabar \ e em Portugal não fructificaram um por cento. 
O mesmo julgo pondo os olhos no maior bem da missão 
do Malabar, a qual tendo a sua majestade por seu singu- 
lar protector, não perderá cousa alguma em Portugal com 
a ausência do P. Britto, e na índia ganhará muito com 
a sua presença, valendo-se dos seus talentos, zelo e expe- 
riência da missão^ e pericia da lingua malabar \ e tendo 



— 219 — 

liMIe um vivo exemplar de missionar ioi aix>stoIico8 doMa*- 
labar, a cuja vista e dos signaes que no corpo lhe deixaram os 
luartyrios que padeceu pela fé e amor de Jesus Christo, con- 
ceberão grande fervor os missionários, e trabalharão com 
maior zelo e desvelo no bem espiritual d^aquella missão, a 
qual se deve antepor a qualquer emolumento temporal, 
que o P. Britto lhe poderia grangear com sua assistência 
em Lisboa. Pelo contrario, que desanimados ficarão os 
mesmos missionários, e que frios *nos seus bons propósitos 
todos aquelles religiosos daCompranhia que pertendem pas- 
sar da Europa ás missões do Malabar, se virem deixar a 
empresa das almas a quem devia ser n^ella sua guia c ca- 
pitão 1 Para uns e outros será este exemplo de grande es- 
cândalo, e para o P. Britto matéria de nSo pouco discre- 
dito ; porque o poderão tachar de inconstante, por voltar 
tão prestes para o reino, d^onde partiu em março próxi- 
mo passado,' e de menos zeloso no serviço de Deus, por 
trocar os trabalhos da miss3o pelo descanço de Portugal. 
Com que poderá facilmente perder em breve tempo a gran- 
de opinião de santidade que grangeou em tantos annos á 
custa de muitos trabalhos no Malabar, nSo costumando 
Deus concorrer com suas particulares graças e singulares 
dons com quem deixa a empresa das almas a que o cha- 
mou. Isto é ó que diante de Deus intendo n*este particu- 
lar, remettendo-me sempre e em tudo ao rectíssimo pa- 
recer de sua majestade, em cuja consciência desencarrego 
a minha. E porque se nao offerece outra cousa, acabo re- 
eonaniendaudo-me nos santos sacrifícios oorações d6 V. R. 
etc. Roma, 22 de julho de 1690. 

Servo em Christo 
Thyrso Gonzales. 

Segunda carta do mesmo P. geral da Companhia para o 
P, Leopotdo Fúés confessor da serehisiima rainha de 
Poriugaly o qual lhe escreveu^ cornou era vontade da dita 
serenissima senhora que viesse da índia o V^ P. Joào d€ 

Britto j para ser mestre de suas altezas» 

t 

As grandes obrigações em que nos tem posto a sere- 
níssima rainha de Portugal, e a singular benevolência com 
que favorece e patrocina esta nossa mínima Companhia, 
justissimamente pedem de >n6s, como devido tributo, não 
i6 o agradecimento, mas também um animo promptissime 



— 220 — 

para obedecer ao miaimo aceno e signiâcaçao da. vontade 
de sua real inajjefttade. 

Por esta causa quisera eu com o exercício da niinl^a 
obediência satisfazer ao grande desejo que tem a serenís- 
sima rainha de que o P. João de Britto deixe a missão 
do Malabar, e venha para Portugal, movido das particu- 
lares razões que V, R, de mandado da dita sereníssima 
senhora me representou. Porém, considerado bem este ne- 
gocio deante de Deus, julgo (e isto mesmo escrevi já ao 
P. Sebastião de Magalhães significasse ao sereníssimo. rei 
de Portugal) que cederá em maior gloria de Deus, salva- 
ção das almas, accrescentamento da província do Malabar,, 
e maior honra do mesmo P. João de Britto, se não diver- 
tirmos a tão grande missionário da empresa, para a qual 
o Espirito Santo o segregou, como a outro apostolo das 
gentes da corte de Lisboa, e o levou de Portugal pfira o 
Malabar^ E como a sereníssima rainha com todo seu co- 
ração e affectos promova o serviço de Deus, a conversão 
das almas e os progressos da missão do Malabar, tenho 
certa confiança de que ha de levar a bem persevere o P. 
Britto fidelíssimo ministro e operário do Senhor em culti- 
var a vinha que o mesmo Senhor lhe encomç^endou . V, 
R. em meu nome lançado aos reaes pés da sereníssima 
rainha de Portugal, lhe renda immortaes graças pelas ín- 
numeraveis mercês que temos recebido de sua liberal mão, 
e pelo muito credito que logra a Companhia 4 sombra de 
seu poderoso patrocínio. Nos santos sacríficlos de V. R.. 
muito me recommendo. Roma 30 de setembro de 1692. 

Servo em Ghristo 
JT^yrto Gon%ale$. 

Cartai do F. P* João de Britto escritas de Lisboa a seu 
• irmão que assidia em Monforte ^ Fernão Pereira de 
. Sritto^ em que se conhece bem que em todas as çccqsiôes 
se achava no dito F» Padre amor de Deusy despresos 
da vida^ cuidados da morte^ despegos do mundoj e apos- 
tados desejos de dar a vida pela fé, 

I. São tão grandes as occupaçôes em que me acho, 
e o tropel de negócios e visitas que me levam o tempo, 
que s6 furtanjdo este a outras obrigações posso satisfazer 
a esta. Estimo vossa saúde e peço a Deus a empregueis 
sempre em o amar, que é 96 o com que vos haveis de achar 



á hora da morte, epor toda a eteruidadq. A vosso lervíço 
fica a com qqe Nosso Senhor me favorece^ Chegou o pa- 
pel; queira Deus que oikça cubem nos seus divinos oUios; 
porque b6 acouta que teuho para lhe dar é a que meatoiv 
menta* Deus vos guarde, etc. 

V. ifmSo e tervo humilde > 
Joua, 

II. Meu irmão e meu senhor, recebi aos 26 a vossa 
carta dos 21 de maio. O quanto a estimei vds o sabeis, 
pois sabeis o quanto sempre vos amei. €tueira N. bom 
Deus e Senhor por ^ua misericórdia que por toda a eter- 
nidade nos amemos \ que tudo o que encontra isto, é en- 
gano e loucura, se não fôr falta de fé. 

A minha ida para Roma está ainda dependente da 
vontade de sua majestade que Deus guarde. Deus Nosso 
Senhor por sua misericórdia disponha as cousas de ipaneira, 
que succeda tudo para maior gloria sua eaugmenio de seu 
santo serviço, que é s6 o que devemos procurar. 

As inquirições de Pedro Gonçalves tire-as quem vás 
ordenardes, e basta dizer no principio : A petição do P. 
João de Britto da Companhia de Jesus, pxocurador geral 
da província do Malabar, eu Fulano tiro estas inquiri- 
ções, etc. Também vos peço que quando me fizerdes merco 
escrever-me, me não ponhais no sobrescrito mais que. ao 
P. João de Biçítto da Companhia de Jesus, meu irmão, 
e nada mais; porque eu não sou muito reverendo, oem 
penhor, porque sou vosso irmão mais moço, e como tal, e 
como religioso sou vosso servo ; e se vos chamo por vJs 
n^csta supposição, é por não altera? n^estas ciroumstancias 
o modo porque sempre vos tratei, podendo vòs imaginar 
uo que era obrigação minha, oflÉsnsa no que vos quero. £ 
o ser procurador geral ésó para os papeis que o requerem 
ex-officio, e não para os sobrescritos que s6 denotam fan- 
tástica. E fique isto dito por uma vez que é já muito tar- 
de, mas mais vai tarde que nunca. Mandae-me muito em 
que vos sirva, que encomniendarvos a Deus é obrigação 
a que Satisfaço ; assim me queira Deus ouvir. £lle vos 
guarde, como desejo, ete. 

V. irmão e servo, humilde 
Jbâo. 

III. Meu irmão e meu senhor^ recebi as vossas no- 



— 2â2 — 

vas oom aquetle gosfo que yós podeis considerar do muito 
que vos amo. Morreu de irm accidente^ mas bem appare- 
Ihado o P. Francisco de Almeida, c eu perdi ura gran- 
díssimo amigo : seja Deus hemdito que tudo acaba em a 
morte ; por isso eu me vou para a índia com tanto gosto, 
e miandei fazer as ultimas instancias, ou pedi que se fizes- 
sem pela rainlia nossa senhora *, e diz sua majestade que 
me dá licença, mas que d'aqui adoisannos me ha deman- 
dar chamar ^ mas espero em Deus que se esqueea. En- 
commendai-me multo a Deus: aos sobrinhos amrnhaben- 
^Oy etc. 

• V. irmSo e serva 
João, 

IV. Meu ii-mao e meu senhor, hoje 18 de março 
recebi a vossa com a inclusa do provedor que logo darei ; 
porque para vos servir no pouco que presto, não faltarei 
nunca: ainda que o tropel deoccupacoes me tire o tempo, 
não me pode tirar nem a obrigação, nem a vontade que 
tenho de vos servir. 

• Todos osTossos discursos venero, como vossos, nem ôs 
podia venerar mais. Por tudo o que me mandaes vos bei- 
jo as mãos, mas a mim me não e necessário nada, que a 
sel*o, sò de vós me havia de valer. O meu amor para com 
vosco não o posso manifest-ar, como v<5s o sabeis conhecer. 
Nem vos amo agora menos; nem nunca vos amei mais ; 
porque sempre vos quiv tanto, que me parece senão podia 
augmentar mais o meu amor. £u vou tão contente como 
vim pesaroso. Cuidar que alguém me desviou cuido que 
é engano^ porque eu nunca havia de íicar\ porque sò no 
ceu quero estar na pátria, e por isso s6 lá me não quero 
apartar de vòs, a quem e a toda a vossa fámilia encom- 
mendarei muito a Deus-. Aos sobrinhos a minha benção : 
a todos soocorra Deus de maneira que todos nos salvemos. 
Adeus', meu irmão muito do meu coração, adeus,' etc. 

V. irmão, servo e amigo 
João. 

Eslas quatro cartas foram escritas depois que da ín- 
dia veíu a Portugal por procurador geral da sua missão :; 
c as ultimas duas foram estando já de partida, e a ultima 
serviu de despedida. Logo que chegou a Goa, na primeira 
monçfto escreveu ao irmão a carta seguinte. 



— 223 — 

V. Meu irmaoe 'meu senhor, nem toda a* distaneta 
^ue ba entre Portugal e a índia, e bastante para me eau- 
«ar o menor esquecimento do muito que vqs devo. Che- 
guei em quasl sete mezes de viagem aos 3 de novembro, 
tendo partido aos 8 de abril, dia em que suas majestades 
e ^altezas me fieeram as maiores honras do mundo, de que 
sempre viverei lembrado e agradecido ; e a de maior e 
mais estima foi o darem «me licença para voltar para a mi-* 
nha missão,, onde com a graça divina faço conta de mor- 
rer. Na viagem estive mal, mas escapei pela misericórdia 
de Nosso Senhor. Morreram^me dois padres muito bons- 
sujeitos e muito virtuosos, que eram o P. Manuel de Fa- 
ria e o irmão Manuel de Figaeiredo. Da gente da qau, 
morreram perto de quarenta, e todo o peso me caiu áê 
costas, porque era o único sacerdote que vinha na'iiau; 
porque um frade dominico, que também ocra, nem dieia 
missa, nem coniessava, nem se levantava da cama por seus 
achaques, e dois elerigos* estavam suspensos das ordens; 
£fipero que Deus Nosso Senhor me ha de perdoar alguns 
castigos dos muitos que mereço por meus péccados, pelo 
que padeci n^aquella nau* Âs doenças, os fedores, as fo- 
mes, as sedes, os frios,; as calmas, as borrascas, os ventos' 
contrários, o desasooego contínuo, e em fira tudo, .davam 
bastante matéria ao soífrimento. 

Achei morto a D. Rodrigo da Costa, e no governo 
a D. Miguel de Almeida que me faz muita merca. Das 
novas que por cá ha, vos mando esse resumo. O P. Agos- 
tinho Louzado vos entregará uma grande relíquia do Santo 
Xavier, que é um barrete posto e tocado no seu santo cor? 
po pela minha mao; porque se abriu osepnlchro do Santo 
para certa diligencia, assistindo o P. provincial, oP, 
preposito, o ir^não sacristão e eu. Peço-vos que o- tenhaes* 
no oratório de nossa mSfe esenhora, em quanto eHa viver. 
que queira Deus seja por muitos annos, e que depois va 
lograr de Deus por toda a eternidade, que é só o- que de* 
vemos desejar, eoque eu procuro, confiado em sua divina 
misericórdia ^ e por isso não faço conta de tornar a Por- 
tugal - mas na primeira embarcação me parto, Deus que- 
rendo, para a minha missão. 

• N^esse resumo vereis as mais novas do estado da In-' 
dia. Mandae-mas muito mendas vossas, e ide accommo- 
dando esses meninos, já que Deus vol*os deu, que o que 
os pães fazem em vida e mais conveniente .■ A todos a- 



-^224 — 

minha benção. Deita vos guarde como desejo, etc« Gk>a26 
de janeiro de 1691» . 

y. irmão, humilde servo e amigo 

VI. Meu irmão e meu senhor, depois que vos es- 
crevi oanno passado no fim de janeiro, logo nos primeiros 
de fevereiro me embarquei para a minha província, e de- 
pois de quatro mezes chegaei á minha missão : depois de 
a visitar toda por ordem dos superiores me vim para esta 
residência doMaravá, onde ha cinco annos fuipteso. Ke-* 
ceberam-me os christâos com grande gosto, e eu com não 
pequena consolação espiritual me acho outra vez entre eiles. 
A conversão é grande, e o fervor nos neoph^ tos também. A 
segurança nãò é muita; mas o cuso passado faz mais cor- 
tantes os christios e amedronta os gentios ,* porque o ge- 
neral que me prendeu, e seus irmãos cora toda a paren- 
tella foram presos por traidores e mortos dentro no mesmo 
anno com o mesmo género de mòVte a que me sentencea- 
ram. ]£, o rei do modo que me tratou a mim, o tratou 
Deus a elle ^ porque ao principio foi despojado do reino, 
e depois com ajuda do rei visinho o tornou a restaurar^ 
porém perdeu quasi ametade das terras :, e assim attribuetn 
isto gentios e christâos a castigo da perseguição passada ^ 
e muitos mil, abrindo bem os olhos da cossideração, se 
teem convertido, e entre elles alguns parentes e amigos do 
rei. Porém os inimigos de Deus não deixam de perseguir, 
ainda que o rei e o primeiro ministro não dão ouvidos ás 
queixas que lhes fazem, nem aos meios que lhes ofTerecem 
para nos acabar. Só o rei disse, se achasse que pregava a 
fé nas suas terras, me cortaria a cabeça. £u trato agora 
de buscar meio para ter audiência e saber em que lei vivo. 
Deus Nosso Senhor, cuja é a causa me encaminhe, para 
qbe acerte no que obrar, e que seja tudo conforme a sua 
santa vontade ;; e do que succeder vos avisarei para o an- 
no, se então fòr vivo. Já ha muitos dias que poderam ter 
chiado as naus doesse reino \ mas eu não poderei ter as 
novas senão d^aqui a mliitos meses. Vivo muito contente 
n^este desterro com poucas saudades da pátria, porque as 
tenho do ceu, e sd lá saberemos distinguir e conhecer que 
cousa é bem e mal. Se fatiardes com o bispo meu senhor, 
elle vos communicará alguma cousa das muitas qoe cá es- 
creveram contra mim ,* mas por tudo dou muitas graças a 



nosso bom Deus e Senl^or^ e espero so nVUe o perdão das 
minhas culpas e o bom fim da minha vida, que, natural- 
mente fallando, não poderá tardar muito \ porque o peso 
dos desgostos com o contrapeso dos trabalhos não promet- 
tem larga vida ; mas o que importa é que seja boa. Em 
quanto Deus m^a conservar farei d^ella estimação,, por vos 
poder, servir e obedecer. Deus vos guarde, como desejo, e 
encommendai»me ao mesmo Senhor, ' etc. Missão de se- 
tembro 22 de 1692. 

V. irmão, servo e amigo 

João» 

Cartai do V, P. Jl^uo de liritlo eteriiat na índia ao pa- 
dre João da Coiia da Companhia de Jesus^ miuionario 
da missão do Malabar, 

I. Escrita em maio de 1691. — Domingo em que 
se coutarão 27 de maio, faço conta- de partir para o Ma- 
ra vá, e não é mau dia, porque é de S. João Martjr, que 
espero me encaminhe \ e V. R. encommende este negocio 
muito a Deus, para que seja de maior gloria sua, etc. , e 
bem da alma, etc. 

ir. Em 20 de junho do mesmo anno. — Já de Ve- 
rugapati faço esta aV.R.elhe dou conta de minha vinda. 
Estive aqui lô dias : confessei a quasi 1000, e baptisei a 
400, e deixei as cousas dispostas para uma grande con- 
versão ^ e também para alguma empreza grande, etc. 

III. Em 28 d^ março de 1 692. — Novas d*estas ter- 
ras são ficar ainda em guerra oMayaquen com oMaravá; 
è eu por esta causa peregrino ha três roezes : agora trato 
de fazer um marãosinho nas terras que o Maravá largou 
ao Ecogi quando lhe foi acudir: queira Deus que succeda, 
porque então poderei acudir melhor áquella christandade. 
A segunda dominga da quaresma fui buscado para ser pre- 
so indo acudir a um moribundo ; mas meia hora que ma- 
druguei me livrou : depois prenderam a um christao bap- 
tisado de poucos dias, e lhe tem dado muita pancada, e 
posto ás portas da morte, para que arrenegue^ mas elle 
está constantíssimo \ porém como esta perseguição não é 
do rei, senão de um seu regedor, não é tanto para temer, 
e eu trato de lhe acudir por todas as vias, ete. 

29 



— 2â&— 

lY. Em 1 1 de abril do mesmo ao no. — Eu seffif»ri) 
disse a Y. R. que não havia tornar a Portugal. £u quero 
mais o ceu qae a terra, emais os mattos deMadurey qu^ 
o paço de Portugal, ete. 

Y. Em 1 1 de juIIh) do sobredito anuo. *-- Perdoe-me 
que nâo posso ser largo, que fico estasado com o muito 
trabalho, que só nVstes 30 dias tenho baptisado a mais 
de 1200^ e confessado a mais de 2000, eos sustos sâohor* 
rendos, e eu ando sem casa nem choupana, mettido pelos 
mattos, para acudir aos christSos ; e ainda assim fui bus- 
cado dia de S. João para me prenderem ^ mas contentou- 
se o Senhor com me desterrar das suas terras, e assim m« 
vim para as do Mara vé, onde fico poí razão da guerra en- 
tre este e o Mayaquen de Madure^y, ètc. 

YI. Em 22 do mesmo julho de dito amio. — ^ Diíem 
agora que o Maravá tem dito que espera prender-me e 
^corfar^me a cabeça, e assim pdr termo ápr^gaçSo doevaa* 
geVho nas suas terras : se assim o ^^r, para que é fallar f 
Iremos mais cedo para o ceu, e como esta nova esteja j4 
muito espalhada, julgo não ser gloria de Deus -a deixar 
agora estas terras : eu não confio em mim nada, que sou 
nm grandissimo peccador, mas confio só em Deus, que em 
similhantes occasiÔes dá siraplíciter posse, e nas orações e 
^santos sacrificios de Y. R. que podem alcançar muito de 
Deus, e assim com especialidade os peço agora. No entre- 
tanto vae continuando a conversão^ os baptismos, e a fre« 
quencia dos sacramentos em maior numero, e de diversas 
partes pedem de novo eatechistas. £ quanto melhor éisto, 
que todas as grandesas de Europa f etc. 

SHima torta esmia do cárcere em 3 de fevereiro efe 1&93, 
vetpera do s£u glorioso motriyrio* 

Sei muito bem o muito que devo a Y. H. Deus Ib^o 
pagará. Manuel terá informado a Y. R. de toda a minha 
prisão e suGcessos dMla. Fui remettido a Urgur ultima- 
mente para ser degolado : padeci muito no caminho, che- 
gttei e fbi lerado a juiso : confessei a fé de Deus.com lar^ 
go' exame: tornaram-me ametter no cárcere, em que fico 
esfperando ^ bom dia, para o que peço instantemente a 
santa benção do reverendo padre Provincial, de Y. R. e 



des mais padi^, c<eus cantos sacri&cios. Fi^i muito ^eâ-^ 
solado in doialno^ e com boa s^ude. Os soldados seiupr^ 
BM assistem, por isso ii ao sou mais largo. Adeus meu boiu 
amigo* Fevereiro 3 de 1603. Sirva: esta para todos osRe^ 
verendos Padres. Este anno baptisei quatro mil, etc. 
Humilde servo e amigo cm Christo 

João. 

Ccttim do ' Vé P. João de Britio para o P. Manuel Ibo^ 
dt^igués Provincial da Província do Malabar ^ feita no 
cafcere aos 30 de julho de 168o, quando foi preso^ a pri- 
meira vez» 

Dia de Santo Aleixo, vindo da viagem, me prendeu 
o Padraríe (id est, o principal do governo, que nos dize- 
mos privado^ eem latim Secundm a Rege) doMaravá Cu» 
márá Pill is, assim se chama. Tomou-nos tudo : queria que 
disséssemos Xiváy Xivã (é o nome de om dos principaes 
Ídolos que os gentios por alli adoram), que nos largaria 
daudo-nos tudo; que nos faria honra e daria licença para 
pr^ar a lei de Deus, e me daria uma aldèa (é o mesmo 
que herdade) e um cavallo. Respondi e seis christaos que 
for«m pregos eomigo, que não havíamos de dizer tal nome. 
£Ui íVii esbofeteado e lançado em dois grilhoesj e amarrado 
ao oepo das parreiras na rua aquella noite, e o dia se-, 
g4iinte até as duas horas da tarde. Os christâos, especial- 
iB«nte Xelv<en eatecfarrsta, e Xorâ Gildean foram espanca- 
dos tâo cruelmente que lhes arrancaram a p^le das costas 
e dos peitos, e foram lançados todos no cepo comigo. 

Ao outro dia lhes deram tratos de agua, e muitas fe- 
ridas. Retrocedeu alli um Cuh (é homem de carreto que 
levava algumas vitualhas doY. Padre) e era um dos seis» 
c logo lhe fizeram honra, e o mandaram -^ e nos fomos le^ 
vados era companhia de Padrane e seu exercito a Calin 
Coil (e nome de uma fortaleza) com notável crueldade. 
Alli deram cruéis tormentos a Xurapen que se tem havi- 
do como glorioso ràartyr. N6s fomos condemuados a ser.-, 
mos atenasados : veiu ibgo, tenazes, e os mais apparelhos:^ 
mas nâo chegou a execução, porque a noite acabou o dia.. 
£u fui lançado em dois grilhões e os outros cm um, efo-. 
mos mettidos em um rigoroso cárcere, onde estivemos até 
2Q doeste, e fomos trazidos e amarrados com cordas a este 
Paghney, aonde chegámos mortos de fome e sede, e abra- 



— 228 — 

tado& do caminho \ c em cbegando nos intimaram sentença 
de morte, senão disséssemos Xtt;á, Xivá: eeomo dissésse- 
mos qne nao havíamos de dizer tal nome, levámos muitos 
couces, bofetadas, açoutes e tratos, e fomos lançados em 
grilhões, e o Padrane se partia a confirmar a sentença 
com o -Mara vá, ecada hora esperamos pela resposta; e es- 
tamos muito contentes e conformes com a divina vontade, 
que nos faz tanta mercê como é dar a vida por sua santa 
lei. V. R. me lance a sua benção epeça aos padres todos 
me encommendem moito a Deus, para que me dê a ulti- 
ma graça, que eu me lembrarei de todos noceu. Julho 30 
de 1686. 

Filho em Christo de V. R. 
João 
Condemnado á morte por Christo. 

Carta do V. P. João de Briito para o P, Luiz Pereira 

da Companhia de Jesus. 

Âo primor de V. R. devo muito, pois se antecipou 
a me fazer mercê de novas suas, ainda antes de ter noti- 
cia da minha chegada á índia. O quanto estimo esta lem- 
brança, como V. R. o sabe, escuso de gastar tempo e pa- 
lavras em lh*o manifestar. O passar V, R, em Portalegre 
com saúde, ainda que com trabalho, é nova para mim de 
muito gosto, como o sao também todas as que V. R. me 
dá do bispo meu senhor. Não ir elle para £vora, nem 
para Braga foi a perda das ovelhas e não do pastor. Sc 
o promoveram para a Guarda, supponho que V. R, onSo 
largaria; que elle bem conheço nao ha de largar a V.R. 
£u se nao estivera em Madurcy, nenhuma outra occupa- 
çao fizera com gosto, senão acompanhar este prelado todos 
os dias da minha vida, e s6 para este fim a desejara lar- 
ga. E se V. R. o nao acompanha, venha para cá, para 
me acompanhar, ou para ser acompanhado de mim ; pois 
n*esta vida nao ha mais que desejar; porque eu nao con- 
sidero que se faça maior serviço de Deus em alguma outra 
parte, nem que se padeça mais por seu divino amor. A» 
novas que V. R. me dá de sua madrinha e minha mãe e 
senhora, estimo eu muito, assim por V.R. m^as dar, como 
por serom boas. Escusa-se V. R. de me dar novas; porque 
se achava com dois sermões em Punhete. Se esta escusa 
vai, escuso estou eu ; porque me acho obrigado a pregar 



— 229 — 

quasi todos os dias e as mais das noites ^ mas ooni' tudo 
farto o tempo aos negócios, 96 para me recrear um poaco 
escrevendo a um amigo. 

SeV. R. deseja novas minhas, saiba que fico na mi«- 
nha missão e de saúde, equc tenho já baptisado a muitos 
mil, depois que me apartei de V. R., e sò se pode deixM 
a companhia do bispo meu senhor por esta causa. Tenho 
no meu Marraven aberta grande porta á conversão : mas 
são muitos os adversários: Deus Nosso Senhor seja servido 
ou de os alumiar, ou de os confundir, para se poder co- 
lher um grande fructo que já se vai sazoaiido. Q-uandoesta 
chegar ás mãos de V. R. espero em Deus de ter baptisudo 
alli mais de seis mil. Veja que bem empregado lempo, e 
como fazem mais fructo as verdades da fé puramente pre- 
gadas que 08 conceitos delicados e as palavras polidas. £ 
assim torno a concluir, que venha para cá, e verá como 
não ha cousa similhaote n^este mundo para quem trata 
de se salvar, e de contentar a Deus. Isto está muito falto 
de obreiros ; porque n^estes annos próximos morreram mui- 
tos mais á força dos trabalhos, que á violência dos annos. 
£ não vindo V. R. não se escuf>e de me dar as novas nem 
com os amigos, nem com os sermões^ masmande-me tudo 
muito por extenso, e,enconimende-me muito a Deus que 
lh'o mereço, e faço o mesmo. V. R, me ordene muito em 
que lhe obedeça ; e se este anno apparecer lá procurador 
da província do Malabar, V. R. o favoreça em tudo o que 
puder. £ se fdr o padre seu condiscípulo João da Costa, 
saiba que não tenho maior amigo na índia : a esta medi- 
da e contemplação lhe deve assistir. Peço a benção e san- 
tos sacrificios de V. R. etc. Missão de Madurey na índia 
oriental, 23 de maio de iflO;?, 

Humilde servo e muito amigo 

João de Sritio. 

Carta etcrita nat vésperas da sua morte ao padre Prarí" 
cisco Laynes superior da missão» 

Meu P. superior e todos meus companheiros, Pax 
Christi, O que succedeu desde a minha prisão até á par- 
tida do catechista Canaien, elle o terá relatado a V. R. 
Chamado ao tribunal aos 28 de janeiro ouvi a sentença 
da minha morte em que me mandavam arcabuzear: fui 
levado áquelle logar, onde devia ser o alvo v dos tiros, • 



— 23(i — 

pre{(arjido9 todos pára dar«m a carga, telncndo o regulo 
alguma raiilevai[^ e motim do pcwo, ni& apartou de meus^ 
companheiros, eme enviou a seu irmão Urenjadeten, para 
que logo nke degolasse. Clíegoei ao seu palácio no ultimo 
ée' jaweiro não sem grande moléstia, e fui levado ao tri* 
bmia). Agora espero padecer a morte por meu Deus emeu 
Senhor binfcada duas vezes na India^ na missão, e no M a* 
ravá : na verdade com grande trabalho, mas com pnetnia 
incomparável. A culpa de que mé aocusam vem a ser, 
que i»isiuo alei de-Deufr Nosso Senhor, eque de nenhuma 
maneira hSô de ser adorados os Ídolos. Quando a culpa e 
virtude, o padecer é gloria. Sempre tenho os soldados á 
vista, e )por isso deixo de escrever muitas cousas; Adónis, 
meus liadvea. Peço as santas bênçãos e sacrifícios de vossas 
révereticias. Do carecia deUrgur, 3 de fevereiro de 16^3. 

De VV. RR. 
Indigno servo em Christo 
Jaãú de Briito, 



E TRIUUIPHAES ELOGIOS, COM QUE ALGCPCS Fp.1108 DA COMPA- 
NHIA DE JESUS CELEBRABAM AS VIRTUDES, ÁVIDA, E A MOR- 
TE DE SEU FEI^ICJSSIMa IfiMÃ.0 O 



V# P# 3aAO HE BKITTO# 



LAUftEATO GHRISTl MlLlTf 

Malabarie€c Misitonis /Meâignano^ 
Pro Catholtca Fide montem sèrenuè oppetenti 

SMNICIVM. 

Io triuiitpli« ! 

Ferax palmaruRi Indiar 

NobUe» identidem palma» germinat, 

Triumphatorea JESU Milites 

Terrarnm doiniiM»» e^eb-it ad Cfskkès 

Io triumpbe ! 

Laureatam Ignatii Militiam, 

Victricem «on semol 

Ab Aurorse populis, 

Quibus apud ipsa 8olÍ9 iitcu«abula caligantibus 

Evangelicam lucein advexit^ 

SodNítatem J£SU 

Spoliis Orientis jam pridem onustaiift 

Glorioso suorum occasu, 



— 232 — 

Recentibus palmis muUo rigatis sanguin^ 

Denuo cumulat Joannes. 

Io triumphc ! 

Plaudite Martyrum turmae \ 

Ereptum aliquando martyriò' Joannem^ 

Vestris debitum caetibus, restítuit 

Malabar ica tyrannis* 

Aninue individuas bolocaustum 

Ut Deo saepius immolaret 

Joannes, 

Mori non semel voluít, sed per intervalla ^ 

Factus Ínterim per carnis macerationein 

. . Durus sui tortor, etcarnifex. 

Gtoi visus est inter Bracbmeaes 

Homo ille missus a Deo, 

Cui nomen erat Joannes, 

Dum geotibus praedicaret Baptismum Poenitentiaey 

A Deo 

Iterum missus ín Lusitaníam 

Non ad Baptismum verbo, 

' £xemplò bortabatur ad Pãenítéatiain.^ 

Nimirum venit Joannes 

Novus Baptista nôii manducan^, neque bibens ^ 

Vinum, et siceram non bibit, 

Divino sem per ebrius zelo 

Redeundi ad pristinos missionis suse mores, et rígore». 

Cum basilicè obsonabat, 

Parabílem illi meiísam dabant herbae, et legumina. 

Humi cubans somnum carpebat 

Cfielo gratissimus Jacob 

Asfiuetus in Malabarica solitudine 

Terra uti pro lecto, 

Pelle pro culcitm, 

Pio stragiiUs^ et siodone levidensa, 

Coelo pro conopeo. 

Subjectâ jam tunc scalâ, cum Angelis ascenderei 

Ad Superoa, 

Nisi expugnari a se maliet per strictos ense». 

Discile bine, illuatres Ephébi, 

Non usque adeo hórridos esse poenitentioe sentes, 

Gtuo9 impensè adeo adaraavit Joannes, 

Vestrum ad instar aliquando etiam educatus in rosa : 

Sed, 



— 233 — 

Quibus absjmtbium edulcat coeleetis amor, 

Deo dulcein elaborante saporem, 

Pcenitentiae abs>ynthio delectantur pro ambeoiia. 

Ita BaptisUe illi Joannes non absimilis 

Cansam niortis invenit oon multum absimileni, 

, Dum^R^i . 

Post baptisoiatis lavacrum 

Identidem inclamat : 

Non licet tibi, etc. 

Truncato capite cecidit 

LasciTse foeminae, et Cupidinis victima ? 

Fuerat qai quondam Joannes io vinoulis, 

GLuia eos illuminârat, 

Q.UÍ in tenebris, et in umbra moriis sedebant, 

Deçoilatus nuQc, inttjgaDte Venere, 

Sangiiínem misit extra carcerem ; 

Magnan videlicet Joannis animam 

Capere non poterant careeris angustia? , 

Cui 

Vel etiam tota, quanta est Lajsitania, 

Angusta.fuit. 

Io triumphe ! . ^ . 

Applaude tibi, o Malabarica Província :, 

Joanni tuo in vincglis 

Funes ceciderunt in 'praeclaris, 

Cum fune tractus 

Ad triumphalem inanium deorum rhedam. 

Ifnmobilis per^lit 

Volubili rotae innexus< 

Plaudite Colites 

Laureato Cbristi Martyri : 

Vel profanos Deorum currus 

Sacravit Fidei triumpho 

Joannis spiritus, qui erat in rotis. 

Tantae praelusit victorice 

Ipse sacrorum Cínerum dies, 

Q.UOS Ecclesia sibi comparat ex palmarum favillis. 

Idem divini amoris Vesuvius, 

Gtui in verticem Martjris, dum viveret, 

Juges eructabat cineres, 

Victrices morientis palmas 

Redegit in favillas: 

' Idem denique dies 

30 



Joairni fait vitae exordícríiv, 
A- qtio • 

Gtiii jugitey obsonâbât fíiinenT ' 

Loíígoj et ^rèims^ jejUrrib, 

Q/uid ndirfum, 

Si, facto âuadrageshlialfe j«j^àM compendio, 

Ipso» eitte4»tíln die 

Joanni illâx^âri^ fi^un<i? Pascbae ? 

Quod- {>ft>priò sã^gàifh^' d^íeavít 

Itinocens ágtítrs^ 

Vfllata/, et vetfefettattf Ghrtàtí vMiftia. 

Ecquid Ittípat^í j gém Makfearica, 

(^uòd« ^p«r eriectàs in stíUim^ eadaVerift etit\"ÍHS 

Appàmet^i* dl»pei't$ltt' KAgrtft»j 

l^iiquain ig^st? 

Jmmdx^e P&^háfSê-y ad Ctãbsqiíe t?utíl €hristo 

B^knte' J^anni^, 

Reliquámerat, 

Ut> Bpiritâs SiaiKStâs •àémettác^M. 

Ad vivificandas eaéáilirilafi^ A^stoU relíquias : 

Vivere adhue hoé'8pirittt Joannem 

Neu (íáMtés, 

QluÍ tíánúiá^ità tól^iiÊns 

Ex stipit^, ttala-fi e s^ggeáttl, péAdens 

Facundo silentâo geirteá ti<a'Mtf ad Fidem . 

Ftenè 

Feracior nunquam fúift Maiíabaricá Christi seges, 

ôuam ex quo itrigata est Joã^wis sanguine, 

Gtui AbelÍB eemulas 

DefcuíictQS adhuc loqftlS^ni^y 

Et 

Fidftrà proedicat. 

InifmtlLm> a^b Ulysèo soo faemidiam 

Naclti vidfetuí^ urbs Ul^ssea ; 

Vel Atitonios pttflt 
FbM nvértein iion ellbgi^ ^ 
Vet ^oannes proeíèttt^ 
¥úsl <»bitttm vocrfès* 
Etiani, ciítíí;, avuliso ab hmrteríscapite, 
IjiiiTgtia sllet'. ' 
Impada cotto securi, 
Ferali icta a tèrgò petitiis, 



Ç^i \d eUw i^ter 4cj»r)i9]^ laorAis a^gQAeA 

Torram Don iaQjfHMrdÍ.t, 

Miraadupi Cp^lo «j^c^ftoddiD 

Ut liberin» vidoM aqJí iiceret, 

Sumaium Codi yertíqeiB pkscetbdieKk^ in l»er*dic, 

Guin Joamie^ «iqeiíibiiíil : 

, . Nisi ipaiia, 

Qiuòd in «9bQBÍ4i^ ipl djiçim «Kfuavit, 

YefitMf iw OrieuU poot«fl«eret 

|n Joaimift €)QQ4LS9^» 

Io triomphe t 
Parce jai», o jmsiisaínisíy 

Ademptum tibí x^n soarei Joanoem. 

Chariwímum Aibi q^p^t ijbe?u« rapuÂt índia, 

Ut.geaQittU «oronapfnt, 

Vicino e liitomi afi .«ic jw^giM^ti gQmmií marí 

. Novas, quia jpubray, 

MargariíUks e3i|^a]EÍ.| )Jo|ii)Oe$ ad «toronam, 

DuiBL aQÍ«»as •e4pi«QaA«if ^ 

Qua» f«o gai^«>Í8 ÍQ9(et.eret m)QÍt> PiseatúHs. 

FelipL rmcMaloffi 

Gtfui {ftdos rfipetens avidu» qA«reitdi 

£oiva9 aoHMraw margavitas, 

Inventa unâ maFtyni pretiosâ, 

Animte magnse prodi^s 

Non sua tanljàro, 9«d ek ae ipeujn vendidit, 

£t €om{»araVit illam 

Sui sanguiiiia prélio. 

Io triunaphe l 

Plaudite LusitaDÍ Fpoffipes, 

Q»ui yestiTO sangttin^ 

Vcctigalem feciMía Asiam Lusitano nomiiii : 

V^ster eiiaai âapgujs Jóannfis est, 

Q,uí stipiendíafios Cc^lo A»Me Pvinicipes 

. Suo sqrípnt sanguiae : 

Si Briitos, et A4buqu<ereio8 piares daret Lusitânia, 

Iiidicis aniimarufloi opibus ditesceret 

Coelcst^ Regis thesaanis, 



— 236 — 

I/(i»ítanum Âssertorem índia non. siiàp^iraret. 

Plaudite iterum, Próceres, plaudite, Âiulici. 

£t in Joanue discite 

Fugacem Regum gratiam fugienda interdum tencri ; 

Nunquam Joannes Regi verè suo charior, 

Ctttàm, cum ad Indos fugit 

' Nimiam cbarus : 

Pupiila octiU fuit, cúm ab ocíilis díspar uit. 

Jam tunc prsèltidebat martyrio, 

Qiui Coelo litábai Regum favores, 

âfuibus Au liei vivont. 

Superisjaih vélificabatur, • 

Gtui contra fáventes Aulas Favonios 

Ferentes tantiim ín Orientem sequebatur vét>to&, 

Regia nequicquam retardante rémora. 

Tta soli tyranno 

Amputandam ccrvicem Joannes iuflectunt. 

Nec mirum •, 

Arundo Joannes non est vento agitata : 

Justi, ao tenaeis propositi viri 

C(damnae simillima constantia est : 

Frangitur, non flectitur. 

Gtuibusdam fortasse Joanne» 

Tunc primúm visus est capite minui, 

Cum a pátria, ab Aula, a propinquis 

Iterum êxul videbatnr remeare ad Indos. 

Sed profa cascas mortaiium mentes ! 

Cui pátria exilium erat, 

Necesse ftiit 

Maxiraam pati capitis minutionem \ 

Ut, vel etiam post obitum, 

Rediret in pátrias. 

Io triumphe ! 

Triumpba gáudio, Ulyssipo 

Lusitanorum Regum Metropolis, 

Gtuae concivem babes late regnantem in Ccelis : 

Desine jam tamerc, 

GLuòd multiplici colle in Coelum assurgis ^ 

Indc citra tumorem superbire tibí fas est, 

Qtuòd, adscripto inter Indigetes alumno tuo Joannc, 

Digito jam Ccelum tangis. 

Tantum gloriae auctarium Joanni debe», 

Et verè Baptístse, 



— 237 — 

6Uii, ut primam lucem vidit, 

Vitam illico auspicatus a Baptismo flumitiis, 

Vitae periodum clausit Baptismo sanguinis. 

Usque adeo 

Noii sola Judffiffi montana Baptistas procreant l 

Suos etiam Baptistas parit 

Lusitanorum Regum Cúria, 

6tui in ipsis Aulae condavibus 

Sibi sedifícant solitudines. 

In eo tameQ 

Palcestino Uiyssiponensis Baptista dissimilis, 

Qluòd Palsstlnus 

Ntillam quidem signum íecit Joannes \ 

Ulyssiponensis non ita^ 

Virtutes idcntidem operautur in eo. 

Gtuòd si testes desideras, 

Oculátos dabimus. 

Dextrum oculum Martyris discípulo 

Nodosae chordae ictu excalpsit tortor ^ 

In ictu oculi 

Solo Crucis signo 

Suo refixit loco pupillam. 

Stupes ad medicas Joannis manus f 

Mirari desine ^ 

Etenim Manus Domini erat cum illo, 

Oculis caligabat alius ipso palpans in meridie, 

Decidente in terram Martyris sanguine, 

Fecit lutum, et linivit óculos; 

Nec tantiim vidit, sed acutè vidit 

Tanto collyrio : 

Ita, quos bene auri tos expertus fuerat 

Ad suscipiendara Fidem, 

Oculis carere non passus est Joannes :; 

Nec cjEcutire aropliiis permisit, 

Gluos mirabili metamorphosi 

Ex gentilium Talpis Lynces fecerat 

In Fide suopte ingenio obscura. 

Festivum illud, 

Gtuòd cruciari prsegnantes non patitur 

Imploratus Joannes. 

Dolorum helluo omnes sibi cruciatus tantíim vellet ; 

Torqueri ncmineni vellet, prseter Joannem. 

Gtuos febris urit, 



— ã0« — 

Tactis Jioannis r^li^iiÂi^y iicUiiquit ardor. 

VeAtu.tQ |iori0 fl^nte» e3(i)otU 9U«t, 
Invpc^to ^oanne, 

Orlo ropeatè t^flniie, 

Soliiloqi»« in pluvias Ccelo, 

Sudo fdícK^ují) ac ser^oo, 

Refri^dt incendium : 

iNi Vides tvimíiruiii JpaMfinis mones, et nomett 

Non 9o1q« Yeneris igne» vincunt v 

Vereliir ^tiamv/^t feyevelur Vukanuft. 

Iq triuwphe ! 

Ajccipite RegMm d^cisc, 

.Petrua, €t ElisabiiBtfaa, 

Par t se feliciter viptori«e spolia, 

QUíaç 

In antiqua s^rvitutifi vectigai 

Âb IMifL 

Suis KemittU Regibus Joaiiftes. 

Tngratee Petr^ i)Qn eruati duloes illiuft exuvisc, 

I)um bta, D^^aque nnebat, 

In d^licii» habilita 

£t quidiii 

GratuiQ) aíC «i^ye Elisabeth^ sit, 

Q.uod a Joaaoe eat ? . 

Habctis híc, Reges Sereniaeimi» (alcatam sccuriín, 

QfUam 9ua tinxit, ac saoravit jugulo 

LiUatus puritatis selalor* 

Habetis et felix ligouiA^ 

In quo mea^bratim disoerptua 

^oanneç pependit, 

Hoc illi fuit LigauiA jCrucb^ 

£^uis de g^uu dou ador«t ? 

Deus ItnmQrtalís, qu# donaria ! 

Hanc plane scourioi sibi Chry90»tomus aiobirot 

Pr o eprona* 

HOG Q^ IfiglU) 

jVIaluHi bibi vellct Petri navis, 
Ut iiílcr debacclKUiU^s ia Ecclesiam procella» 



— 3S9 — 

l>urare po^SGt intíolUmia. 

Q.IJÍ, quo (lie Cdlktm aècenderat, 

Captivaífli' âki^it èorptírftatem, 

Nactus Oiristíttttéfe geiiti libertatera, 

In lerris modo 

Trluttiphuin actnriis in Rbifttttrttttt^ Capit^rthtm 

Fasces jam praimittit, et secura V ' ' 

Quòd si per Capitolinos gradus 

Truncatis pedibus, 

Titubante gressu claudicare videbitur Joannes, 

l*er singulos itera gtáêi» s»i i^e^ordabitur triuinphi. 

Casum illi ne timeas, fallente vestígio : 

EA, ¥ero ispeeiosi Evai^eliaentium pedes 

Nec íallere possunt, nec fafli. 

Ut ut ampu tatás Martjris manus videas, 

OonvlíirrtiTrt acdpwte a tanto Ducfe' fte de^ètW ; 

Gpatofíattti pòpuio 

■^què rorant sanguine, ac muneribus depluunt 

Manitè iHae. . 

O verè tornatas ferro Joannis nianus, 

Inéidí ^íleiías iiyatiilrtítfe, 

Proh qttSile coittfa Vénferfíí GÒritfeígíá 'áiA^letifWi í 

Héc Aulièf, ' * 

ífúc E/Usffaiiorum PtihtífpttniBpHdbí' ' 

Obviis ulhís òectirtite aí Jòííitriis rtílki^íías \ 

líTírè et patiills autifbns atrefpí^êe:^ 

• Qlmdqtnd'eniitt a ^oaitrie eljty 

Vox cfst. 

AVetis sfcrrc', 

Gtúid ad aureth instillet aeè^risillu 

Rfecetif 1 frianatos crifof è ? 

Faxit Deire-, 

Ne item Jt)ánnes clamei ftí dèSertól 

Ecoe (inquit) eçce, 

Qltii nfoHibrrs Vesti untur, iu domibtisRegiittl srtnf •, 

' Côtíi noh sit itiollís . . 

È tetfis ad astt-aVfa. 

Abite delicatuli, 

Procul hino Veneris nepotuli : 

A diebus Joannis 



_240 — 

Regn»m Ccelorum vim patitur, et \ioUntI rapiunt illud. 

Dictum bellè : 

Plaudíte Super i : 

Io triumphe ! 

P. Josephus deMurcia Societ. Jesu, oliniinCollegio 
D. Antonij Ulyssipouensis Primarias Rhetoricae Magit- 
ter^ nunc in Con ím br ioensiCollegioSacraeTbeologiae Pro- 
fessor Primarius. 



FELIGISSIMUS 
P. jrOAlVIfrES Bfi BBITTO 

Oc€Ídiiur securiy qua m idolorum sacvu viciimoí 
mactabaniur, 

EPIG. 

Cum devoU polo jam jam foret hóstia Bríttus, 

Tortorique libens colla aecanda daret ; 

Nec feruft armatur gladio, nec acinace tortor \ 

Surgit in immeritum sseva machaera caput. 

Ante ministerium non huic, nisi turpe; rubebat 

Scilicet infami tincta cruore prius. 

Turpíbus bac sacris opcrarier ante Sacerdos : 

Hac solitus vanos demeruisse Deos. 

Cum tamen innocuo modo sanguine tincta rubescat. 

Et cadat hiec vero victiaia caesa Deo \ 

Non Erebo tam grata fuit, quàm grata securis 

Facta sit, et supero nunc pretiosa polo. 

Nobilis infamem cruor expiat : una negatas 

Hsec bene compensai victima sola Deo« 

P. Emmanuel Vieira Societ. Jesu, olim ínEborensi 
Academia Primarius Rhetoricae Magister, nunc in CoUegio 
D. Antonij Ulyssiponensis Primarius Sacr» Theologi» 
Professor. 



£i t4 ptónu» iit/actem, et a~ mento religaiui fune^ ui çol- 
lum kiui iiberiuM paiertt^ refi^ iamen^ apei^tU oiuHi, 
•xiineiuM cadit* 



Dum manus in collum distringeret ímpia ferrun, 

A mento Brittus íun^ ligatus erat,^. - 
Càm tamen abscissum caput est, cadit hóstia retro, 

Sed non extrema lumina morte cadunt. 
Scilicet invitus terram aspioit*, illa, Parenti 

Ut quondam, nato sórdida visa íuit. 
Hinc est, cur, Britto ohm primiim est íacta potestat, 

liUtniiía ad Empyrei tollit aperta plagas . 
Mortuos ^d Superos oculis contendit apertis : 

Neiqipe novum vitée mora fuit ista geno». / 
EjtuJem AuctorU. 



VENERABILIS 
P. JOAMlf ES ll£ BRIVVO 

Mi vUâj ei morie Divo Joanni Bapii%t(e perq%tam timílU, 



Sancta Falsestiaum jactas quse terra Joannem, 

Crederis et. tanto sola beata viro, 
^alleris \ haud hcec est tua gloria sola *, Joannem 

índia jam tandem jaotat baberesuum. .. 
Sidere (si fas est mibi dícere) prorsus eodem 

Et nasci, et Ccelo visus uterque mori. 
Verba, vise, lectus, potus, cibus, ardor, utijquf 

Mens eadem, atque idefn finis utrique fuít, , ^ 
Non licetj unus ait^ Licethaud, beneconsonat alter : 

Hsec-fuit ambobusvox pia causa necis. 
Si voeis, vitae, et mor tis tenor extitit idem, 

Aut unnm, aut similes quis neget esse duos? 

P. Mathias Corrêa Societ. Jesu, olira in Conimbri- 

31 



een»i Sacrarura Litterarum Interpres. 



. NpVQ TESTAMJE5ÍTI NOVl MPSTif!, 

COtKNDO ÁimODXm 

Nuperiifr odmtn 'Fidei^ et«i crudéiitet, f«Kt{ter oocím, 
In anwrit signumj cRveque perenniut monumenlum* 



Aut parvo, aut nuUo inter se discrimine dístant 

Et novus hic Martyr, Martyr et ille vetus. 
StÍEt)e satus diçirâ Baptista: a ^ang^tlie x^ro 

Joannes : titulis aptus uterque suis. 
liloribus assimlLes^ .^irailes quoqge nomíne : vi^ie . 

Múnus utriqiie, et idem funus utrique fuit. 
Ille caput, caput hic diro sub vulnere ponit : 

Ille cruentatas cernit, et iste genas. 
M issus ab aethereo tractu, velut Angelus, Jlle : 

'Missus ad ignotas Angelu^ iste plaga^. 
Ille lucerna ardens: lucens hic; lúmen ubique 

ille quidein : bíc cjarus sol Oríentis erat. 
Ergo quid? Exclamet felix, et laetus utqrque: , 

Sors aliis in^par nos sinit esse pares, 

I^. Pètrqs Rangiel Tlieologus Societ. «feaM, olím in 
Ulv^nj^nemi Coflqgip Piumarius Rhetoricae Magister. 






Ctui fuerat quondam médio, satãs urbis Ul^ssis, 
Pro Christo Eois oppetit ipse plagis. 

Accipite : hunc reddit Martyr ab ore soouin : 
Q^ui b9i|e,^e moriti^F, qui sic bene sufeitur,^ iiHluit, 
Nec melius nasci, nec potuisse mori. 

Ejutdem Attcioris, 



VENERABILIS 

Àpud Mék^féÊrêá f¥ú Pitíè oècilM Dtéo Jhúnnè Sapiúim 
• » . ■ -«tf». 

Ab6oM0'fáííld«ni Vèftiçey ttiot^fb ^ef^rt?! 
Ille p(f^fei^cé«idil! data vietíma v tUò^ii^ 

6tuò(i bèti<e dmnsârit ^rfitfa^ jtrrtt tofK 
Vox é^deuâi' eV Brltlo gemino caput abscidit ictu. 

Martyr uterque fuit: cHmen utrique pudor. 
Ergo, chm similes tituloque, et morte fuissent, • 

lUorum quisnam funere maior erit ? 
Ni fallor, maior cecidit modo funere Brittus, 

Vulnere cui gemino mors tulit atra caput. 
SciJicet haud uno potuit prosternere \ tantum 

Mors gemino stravit vulnere iníqua virun. 



— 244-^ 

Stravit, at obieQro dedactum cárcere: parv« 
Nec poterat claudi tanta ruína loco. 

Maior Baptista nullus^ qui surgeret : illo 
Gtui caderet maior funere, Brittus erat.' 

V* Xayerius de Lima Tbeologu% Societ. Jauí^ iii^per ^ 
iu Ul^ssiponensi, et Eborensi Academia Primarius Rh«- 
toric» Magister. 



ABSGISSO Y£N£R\B1L1S P. CAPITE, 

IQNB^A EXINDK FLAMMA EBULLIRB VUA BBT. 

AD ILLUD : 

Erai lucerna ardens, et lucent» 

£PIO. 

ímpia cúm ferri Joannes vulnera scntit,, 

ígnea ab inflicto \u1nere ílamma micat. 
An, quia supremum quò mens petat árdua Ccslum, 

Fax veluti, Brittum lúcida flamma prieitf 
An, quia divinas, quas claudit pectore, flammas 

£vibrat ad ferri vulnera sacra silex f 
Crediderim silicem \ silicis nam Brittus ad instar 

£xpromit, ferro percutiento, facem. 
.Sed, quia plus solito scintillat funere Brittus, 

Clarior et ílammas, morte premente, jacit, 
Ardentem Fidei se nunc probat ille lucernam : 

Clarior instanti morte lucerna micat» • 

Kjuidem Auetorit»^ 



—248 — 

VENI»AfitLlS ' 

P. JOANNES ]»li BRITVQ 

y^rsá |n. C»/uiit./«ete, aperiisqtu çculiê pro fíth.çct^êktái. 

KPIG. 

Dum cadit infami Brittus pia victima cultro, 

Tingit et armatas c^esa cruore manus^ 
Non óculos claudit mors ímpia : lumjna Britiut 

. ToUit, et Erapyreas siibpicit ille domot. • 
Suspicit, ut Ccelam plácida sic fronte serenet \ 

Snspicit, ut placet victima caesa DeoA^ 
Vel se Loyol^e natum probet ille Parentis \ . 
Prse supero visa e&t sórdida terra polo., 
âuiesivit Coelo lucem vel mortuiUv^nà . . ^ 

, XJt símiles Britto vitaque, morsque forent. 
Lumina qui Britti rapuit, dum vixit, Olympus, 
£xtincti pariter lumina morte rapit. 

Ejutdem uiuciorii. 



AD EUNDEM EVENTUM 



Occidit f an fato Brittus Jacet usque auperstet, 

Brittus sacrilegse victima sacra manús ? 
Vivit, et^vultu nondum sua forma recessit: 

Hasc frofis, bsc fácies, hie deoor oris erat. 
Ill Calum attoilit duo lumina, et áurea fulgeé 

Lux oculis : Csli sidera bina putet. 
Res nova ! Quae reliquis aufert ímproba luoem, - 

Britti oculis tantum Bon fuit ausa scelus. 
Neteijiis interitús, noctis quoque nescius nmbras 

Dissipai ^ et noctem lumina clara fugant» 
Ergovidena,- vi v usque simuVstat funere: Britta 

Vita igitur, noa mors, dicier kta pplest. 
Ejutdkm Au^twrh, 



— 2*8 — 

oppeiiit. 



Félix aHè^kldfáiâ r félida fàCãr! trlaMjibb 

Câttíi<»f ií^yôlitô^ B^itttis aa astrà siíbilf . 
Palmai l4ik drreréá, cineres tiM faiteíre palhias, 

Bf^té^ gtíhittt: cl^Tá haècgteriaritiarlíírfl* 
Vive iglft^; l^lfáhi eini^ hít anndtítiátVáflfeit 

Nutiffaqfm rdiquB ràtirtfo acerba s^ásj^. 
Unicus «gWgiâ dicêriá sotté ^ tfidriípW 

Ciim <*iHis kl palttifeé fbfteíé rut'stA eat; ^ " 



VENÉRABILIS 

Charitatit ar dor e íqíus igneus. 

Jguis emt V petâit âàgraxite» BriitiuioyiMy 

iSMebôff^ubriisidioi espii^at; igiiw>ér«bs 
Ignis ^«1 '^1 MOCuiH' extifisuf no<> úildd oaionén^ 

Bis litet QceanúKrfiud€n<et':^ ígii<is erati 
Ignir era(! v itotilasqde sacro dedit oms ^Viii»»!^ 

JtiMisoreitt tdntdt M minis ^ igtiis eraXf.» 
Igni» éoA ^> OtfanwàmquQ animas itt paiba W MtM^n* 

Fngixrk pedtonboa dispalitt v ignis' evâlP. 
Igntt! eáàt ; âammis ' scékffata' idola Deontibv 

Te9*plaqlJK soppdsítis diroit^ igAll e»át; 
IgniéteiM^ gettitiBsqu^ accendit lumine : cstco 



-^«47 — 

Restitui t lucem ímtíjtaft^ ignis erat« 

Ignis erat \ sursum occisus aua luinina vertit, 

Cluò^ji^eiUk «d &l|>ejrg9 tei^der«^ v %i%Í8 eut. 

^igrtiserat; tutnam èifaisit de vulnere flammam^ 

Nocte vel obscura claruit ^ ignis erat. 

Igoi^ «r»t ^ ^tandem >potitu9 #aoer ' igiiit «^ a ras 

lo Cinere extinctus desiit \ ignis erat. 

EJusdem Auetorú. 



VENEttABlLI 

Jfa/aAarc«ifi JProi^mAr^j^rt ^runcafum /k)s< eapui Coílúm 
reelâ arreciú oculis coniuenii. 

BPIG. 

Martyrium SoljriQris primas qui pertulit, ipsam 

Ante necem Cedo lumina fixa habuit. 
Prinpig^ apud Maravos pro KelligioDe per^ptus 

Post mortem Coelo lumina fixa tenet. 
<]tuod Stephanus vivens, quodstans, et rectus agebat| 

Letfaali id «tratus vulnere JBrittus agit« *^ 
Nil miruKQ) spectent viventis lumina Cselom : 

Mortua quòd speoteat lumina, prodigium est. 
Tempore sit Stephanus, sitBrittus acumine primua ; 
' Ble tulft pnn>as tompovcc at Ht#f opere, 

P» PetnM de Almeida Tkeolo^qi Scci^. Jésfi, nuper 
in CfMifnbrioenú Colle|^oPr}mariu§ Ahetorícte-Magister. 



VENERABiU 

r* soASnn be brivto 

,. Una cuni t^iiquiaria ikêca ab$cmduniur Urga, 

> EPI6. 

Dum fera barbáries Joanni extrema miaatur, 

AppareDt médio lípsana sacra sina. 
Atqoe, ea dum filo pendentia scindit, eodem, 

Q.UO filum' rumpit vulnere, corda patent. 
Scilicet boc Superi cúm sedem in corde locassent, 

Eelliguiis fuerit tbeca nec apta ma^s, 
Extrahere haud aliter cordi intima lipsaha possent 

Carnifices, quàm si corda reclusa forent. 
Ejuidem Aueiork. 



VENERABILIS 

9. JOAKKllS BE BBIVVO 

Jam olim Aulids ab Ephebia Mariyr vulgo indigiialut. 

XPIO* 

€tui modo martyrium sobiit, eiim degeret Aula, 
Martyr ab aequsevis dtcier est solitus. 

ZMe igitiiT^ nunquid bis Martyr bàbendus, an tltra. 
Et plusquam Martyr Brittus habendus erit? 
Ejutdem Auciorit. 



— 249 — 
VENERABILIS 

P. JOAM MES BE BBITTO 

Capite f manibu$y ei pédibus pro vera Fide iruneatur. 

EPIO. 

ínclita Joannes Fidei argumenta datorus 

Dat capat, inde inanus addit, et inde pedes. 
Dita eadit etise «aput, té^ris petit astifa relictís : 

Celsior, abscisso vértice, Brittas abit. 
Fortids ille manu pugnat defeetus utrâque : 

Martyrii palmam dextera secta tenet. 
Nec pedibus truncans Patrem manus impia ftfctt, 

• T^ir^ii^ ut Empyrei adrrlpuiéBet ítát. 
Non satis ore pntans Fidei argomenta fateri, 

Pro linguiis artus maluit esse sues. 
QrUie docQit ViVehs dietís, ea morte probavit : 

Fecere integram membra resecta Fidem. 

P. Gregorius Barreto Societ. Jesu, in Eborensi Aca- 
demia Príiparius Ehetoricje Magíster. 



32 



T#P# JOAMMIíS DCIBRITTO 

SOCIETATIS JESU SANGUINE IRRIGATAM 
ERIGIT 

P. LUDOVICUS P£R£IRA 

EJUSDEM SOCIETATIS, 

ST m rOXiIA SXPI.ICAT, 

' i ' 

CIVIBUS MARTTBIS 8AKQUIMXM , VICTORIS TRlVMPfiíOi , 
JOAUNIS VITAM, AMICI VIDEM^ FRATRIS AMORRM CIR- 
CVMSCRIBIT. 



PALMiE RADIX. 



Tibi assurgit Palma, ô Joannes, 

Cujufl vitam 

Tot terris sparsam, 

Q^uippe quse magnitudinem suam 

Simplici loco continere non poterat. 

Unam coUigimus in Palmam. 

Triumphat calamus, 

Cum Palmse libro vincentis facta 

Inscribit. 
Ipta triumphant Epigrammata, 



— 251 — 

Càm Palrnse tuas Foliis 

Fiunt acumina. 

Nbn aUudis a carmine ; 

Vita enim tua oratione liga ta 

In carmen evasít : 

Et, quia sal terrs factus es, 

Tanto ex sale, nòn sine nominis gratia, 

Gratissimam factus es Epigramina, 

â'ttod Joannis você clamantis, an canentis 

Apud omnium aures bene audivit. 

Te igitur nostro depictum carmine 

Adspicias 

Ex papyro candidum, 

£x sanguine rubicundom. 

Hsc vera illius imago est, 

Cijjus statura assímilata est palmae, 

Cujas comâe, 

Velut elatffi palmarum. 

Imaginis brevissímae sunt lineae : 

Ideo te decent, quia rectas. 

Si placeam, tibi gratulor;^ 

Cum enim amicorum omnia sint communia, 

Ex tuo veniunt, quse mea sunt. 

Si tamen displiceam legentibus, 

Tibi tone maxime placiturum spero, 

6tuòd tibi geminem palmas, 

Dum meo Btylo férreo 

Novum subis martyrium. 

FOLIA 

V. P. JOAK M ES BB BBITTO 

I. Joannis uomen tulit inter nomina palmam : 
Et decus, et palmam nominc Brittus babel. 

Socictatis Jesu» 

11. Q.uem Foliis scriptum prsestat tibi Palma legendam, 
Huno Sociuni Chrísto vi laque, morsque dedit. 



— 262 — 

Genie LtsàéanMi* 

in. Lysia virtutís tmiet inounabula. Nasci 
Noa potttit Bidttua nobiliore loco. 

Pairia Viysnponmm* 

lY . Pátria Ulyssipo ; Sonotorum pairia Ccelum e«t : 
Urbs Gcelmn, ut sancU pátria facta viri. 

Natcitur ex Salvatore dâ Briiio Pereira^ et Homtfta B^a^ 
tru» Pereira, 

V. Salvatoi Britto Pater est, Maten|ue Beatrix : 

Gratia . Joanne^ : gloria j are venit. 

.» 

Juxta urUi CaUeUum. 

VI. CasteUo adnatu3» natuaque in praelia Brittus. 

Máxima Caatellq clebita turris erat. 

Jn paroecfa i>« Ândrec^. 

YII. Na9eittti An<lr^» piscoso íq Ultore Brittus : 
loferet inde Petri retia plena rMl* 

Mfntfi m9rtí9» 

VIII. Mense oritur Martis bene natus adarma: 

Bella geret V^eri, )}ella cruenta De». 

Quando $ol erat ú» pitcilbuê, 

IX. Q.UOS Cslo videt exoriens, piscabitur uiidi« 

Emoriens pisoes sanguinis ille sul. 

Vix naius bfiptismum reeipii, 

X. lUe simul naturs ortusque, Deoque renatus: 

Est ubi Joannes, gratia abesse nequit. 



— 203 — 

Po$i bapUgmum óptima f^uiiur valetudine, 

XI. Baptismi fonte immersus bibit ore salatem \ 

Cetta salus Britto, naufraga vi ta fuiti. ' - 

Prima infaniia iiberatur a morte S, Ptáncitci Xaverii 
beneficio, 

XII. Xaverius Britto incolamem dat munere vitam; 

âiue vi ta est Britto, Xavier^ ipBi^ toa ett. 

In ioeulo induU Xàverii vestem. 

XIII. Membris Xaverii vestes, ori induit ora, 

Et mores animo : Xavier alter erát. 

A puenitía: moribut tabkorrei. 

XIV. Dum. paer, a pueFO pueri Jooalaria misit ; 

Laus pueri vita est, quae probat esse senem. 

Mducaéur in aula, 

XY. Aulam babuit : Rex Bvitius erat ^ fuif in Cruee 

sceptram, 
In Ccelo regnum, purpura martyrío. 

Ab AulÍ£Ís Ephebisj non sine risti, Marlyr appellatur. 

XVI. Félix augurium Britto de Martyre risus; 
Martyrii tísubi, et gaudia Britlos habet. 

Dai nomen Sacietati Jciu» 

XVII. Obsequio certat, oomitem «e jungit lesu, 

Ut Christum extremas ducat ad usqueplagas. 

In noviiiatu Sancii$%im<z Dei Genitrici charisúmus. 

XVIIL Christum oeulis, fac|e Christutn, Christum 

ore ferebat. 
Hanc Maria in Britto Nati aroat effigiem. 



— 264 — 

JBtthUmico P^ero choitam sanguine tuo scribit, qua peiit 
mariyrium. 

XIX. Scripta legitBritti pia vota insanguíneChrís^ 

tus: 
Votis subscribit saoguine martyrii. 

Abtoluto novitiaiu^ emiitit retigionu vota^ 

XX. Hea novitas I Gtuíd vota t Fuit vota ante Pro- 

fessas ; 
Virtutem (et nondum vota) professus erat. 

Mborm-primum^ deinde ConinibrkcB dat operam liHeris, 

XXI. Utraque complexa est felix Academia Brittum : 

Ut caperet tantam, non satk una, virum. 

Vlympone grammaiieam docei» 

XXII. Barbara jam monitis castigat crimina línguae, 

6tui tua damnabit crimina, Barbáries. 

Nuntius Jpottolicut obstai V* Patri% IndkcR profecUonu 
sed frustra. 

XXIII. Maior Legati est monitis \ nam Brittus ad 

Indos. 
Christi Pontificis Nuntius ire parati 

Matri acerbissime laerymanUvaledicit. 

XXIV. Ista mihi (memorat) Genitrix, placetunda: 

valeto ; 
Quae cadit exoculis, merapitunda, tuis. 

Patriam deserit. 

XXV. Dicturus populis olim eventura reccssit 

Ex pátria \ in pátria nemo Proplieta sua est. 



— 255 — 

Indiam peiit, 

XXVI. Aureus itigenio, vitá aureus, aureut ortu, 

índia, thesauris debitus ille tuis. 

Dum navigaij in cfinUtiana: religionit offkio nautas 
con ei* 

XXVII . iSstua, atque undas vitiorum a nave repellit: 

6tua veíiituT Brittos, fit ratis illa Petri. 

Fidem doeu» 

XXVIII. Post audita Fides, poat vocem audita se- 

quuntur : 
Joannis loquitur vox, sequitarqueFides. 

Crentile» Baptizai, 

XXIX. Fontem ubi sitspirat populus, se format in 

ignem 
Brittus, et boc miras igne ministrat 

aquas. 
PoenitentuE tacramenium ministrai* 

XXX. Dat veniam culpis^ mensuram nominisimplet: 

Nominis boc tanti gratia munas habet. 

Fino abstinei» 

XXXI. Non vlnum sitit, in Britto sitis altera vivit 

Ad vitam vivee subsilientis aquse. 

Perpetua illi ett ahttineniia a earnibus. 

XXXII. Quae gerit ossa caro, virtuti spicula íigit : 

Adstomacbum Britti noníacit istecibus. 

Lacte nutritur* 

XXXIII. Sunt pueri mores, puerique alimenta Joan- 

ni: 
O mibi vir quantus, quem video puerum! 



— 266 — 

Leonit pelU pro culcitra ulitur, 

XXXiy. Ut lep pelle jacet, sic Brittus pell^ leonis : 
. Sileo, cumdormit, quftlis eratvigilans! 

Breviisimum capa somntim, 

XXXV. Gtui dormit longum, ut jaceat cubat ille : 

Jjoannes, 
Ul surgat, dormit : somnus hic ergo 

brevis. 

Gtierem in fronte gerit, 

%yiX.VÍ. Impreísus signat frontem cinis illius : ergo, 
GL>ui cineris caputest, in capite ígDÍs erat. 

Paupertatis amantisdmus divUias ódio kabet. 

. XXXVII. Displicet argenti Britto grave pon4«is, et 

auri : 
Pauperamat cursutendere inastralevi. 

jéssiduit flagçllationibus se, castigai, 

XXXVIII. Sanguinolenta ferit Brittum sua. dextra 

âagello : 
Ad inetam properat : verbere se sti- 

niulat. 
Nudis incedit pcdibus. 

XXXIX. Ahitis ut surgat, pedibus mundf òmnia 
- ' ' calcat; 

Inde gerit nudos omnibus ille pedes. 

Qraiionis eoniemplatione in Deum efferiw*. 

Xli. ^nté toiat, Scrperúmque domos petit arduus 

alis : 
Dimidiam terne eéf,dimidiunique polo. 



— 867 — 

F^etUt geniUiutn induitf ui ipiOi ChrUio luereiur» 

XLI. Indus barbitio, veste Indus decipt Indps : 

Vera, ubí (res mira est !} decipt, ipsedocet. 

JDi^utat cum idolorum sacerdoiibus eosque calculaioriU 
argumentis convincit, 

XLII. Dogmata falsa videt, logicusque io Getare 

vincit : 
Romane ad fidei prselia Ccesar erat. 

Cum tusiinetfifiemy ilHus barba avelliiur» 

XLIII. Barba fidem dedit una pilo castreia : Britti 
Maiorem firmat barba revúlsa fídem. 

In vincula conjicUw* 

XLIV. Vincla ligant alios : tenuit sua vinda solu- 

tus 
Joannes. Nodum solvite : sponte tufít. 

Ferberibus excipitur in oãiumfidci. 

XLV, Fulsant ipsa fidetn , " Brittum quse verbera 

pulsas t : 
Sed inagetuncsonuit, cummagisictaifidet. 

Catechisice erutum oculum resiituH. 

X LVI , Lumine privatus Brittanum accedit ad ignem^ 
Et, qiiod perdiderat lúmen, ah igne çapit. 

Ângelo $uo Deui mandavit de Sritto^ ut trans 
ffuvium sisieret. 

XLVIT. Pondus habet maiiis,. çum.se tran» stagnâ 

ferenti 
Ccelicolee Britti sarcina facta levít. 



33 



— 258 — 

A Deo dê victu provideiur» 

XLVIII. EsUrit : ipse famôm dapibus Deus explet : 

habebant 
Brittum solandi Nu mina sacra faroem. 

Ab índia in LusitaniammittHur, 

XLÍX. Cur patriam Brittus repetit modo f rursusut 

illam 
Deserat, atque ferat bina trophoea Deo. 

PairisQ appuUui matrem invisere diHulii. 

li. Q*U(fe mora? Britte, siuus tuta ostia qusere pa- 

rentis. 
Matris (ait) timeo naufragium lacrymis. 

Sereninimo Regi Petro appvime charut. 

LI. Tantus amor Britti Petro estf quonumine ? re- 
gi* 
Integrum erat regnum^ dimidíumque Petri. 

Epiicopaiutn deireciat, 

I«II. Carpit iter toties Brittus, Baculumque recu- 
sa tr 
Est gravis hic Baculus ^ pondere tardat iter. 

Concionatur in Sede Olyuiponemi» 

LIII, Clamor Baptisse, vox Pauli, verbaque Cfaristi 
In templo resonant: om n ia Brittus agit. 

Renuii etie principum magitier. 



LIV. Exemplo prcecepta tuis dedit, aula, magistris^ 
Et, càm Proeceptor noluit esse^ fuit. 



ièkíHntâmo D. Jbanni -Maiearenhat Púrialegrerui Epi§- ' 
copo strictissimo amoí'i$ vineuio conjunciissimm, 

.' i»V. .Q^uàm símiles animis^ amor hic dat utrunque 

Joanuem ! 
Poenitet : haod símiles : unus uterque fuit. 

Roman fntíUtaiur^ sed ab itineie prohibeiur, 

IjVI. Romam mente subít, non táDgit oorporà Ro- 

raam : 
Est totó Britto máxima Roma minor. 

Defalsis criminibui acecusatur, 

Ij/Vil Multam criminibus debes sine crimine Brit- 

tus; 
Nam de te verameriínina falsa probant. 
* 
Serenúiimus Mex Pttru» dat Ven. P. Joanm dê Britio 
' annuum censum pro nitsitonti expensis. 

LVIII. Dat Cansar Superis censum: miracula! cen- 
sum ' 
Per Brittum licuit Caesaris esse Dei. 
Ad indu^m expediiêonem mitiU» setibk. 

lilX. Mliitiiè scribis sócios : stipendia bellí, 

Britte, habet haec miles, quòd tuus essa 

potest. 
In Indiam reveriitur, 

'liX. Indos quid repetit? pretium tibi, Lysia, non 
'•••■' • ' est, 

Unum quo redimas Brittum Orientis opes. 

Chariiaie incentus nautisfebri laboranlibu» succitrrit, 

LXI. Morbò nauta fébrit, Joànnesfebrítamore: 
Hac febris ília fuit frigida facta febri. 



— a»— 

I^' IndwmingreêêuteU, malabãriíM mktiomt rttmniiatmr 
Superior:, ei Fúitaior, 

IiXII. Maghtts qui parvas, niiaimus qui maximui 

unquam est? 
Maior ubi factus (oredite) Brittut hic ott . 

jimwwi^Um piiMíior fluinina miraU 

I9XIII. Ba|»tismi pié^éB p^tift ad vivaria rivia^ 
Vivit et agoatis piseis, ut exit, aquis. 

Oculorum dolore levatur a divo Xaverio, 

LXIV. Xavier ecoe oculis Britto dolet ipse dol«nti : 
€tuaUs Ikmor ftierat^ queis dolor aàui erat \ 

lÀbiãuiúio» howineã afeei a venere. 

LXV. MutanUr Britfi império Veftus,- atqua C^ 

Vpido: 
^ , ^ cnas. 

Hyemali iempore òti qttotidie te in frigida tiagna mitiiU* 

LXVI. Oae iitis hiee Biritti f que baloèa f víscera 

febri 
Torret amor: gélidas intrat adlisftwtaqaai. 

Ab eihnici» creditur venefieut, 

LXVII. Humanam in facien vultus dedit ir» fera- 

rum. 
Inqne Deos hominestecce veneflcíum. 

M vocem Joanni» regulut in s« rever muí Pidem 
atnpUetiiur. 

IjXVIII. Regulas, àn aerpensolamaiiftisvoce Joàtmii 
Cantata» ccêpit R^gului esse suí. 



— aei — 

Moriem tuam pramidétj' ét pradicH. 

liXIX. £t videi, et montem viitetcâait oro fiiturafti. 
Mort óculos semper, mort erat ante suot. 

A barbarii capitur, 

LXX. Barbara vinda subit : magnum gent barbara 

BriUniB 
Si caperety Brittum vincala non caperent. 

RoUs ctirrus iriumphalis id<4otum Joanne$ alligaiar, 

LXXL Victor io! vinctus vincit divúm ille trium* 

pboa. 
Miraris f Currás non tinit ire rotam. 

Carceri includitur, 

LXX II. Intra t Joannes tenebrosi earceris ombrai, 
Carteiit ut nodi lux fiirat alma diem. 

Msrii daiBHoiur* 

LXXIII. ímpia Joanneto sententia dettinatar» : 

Morte tenet Brittum, quae tenet ara deot. 

Iptím ooUo appendiitur bremarium, «I ad hune uíopum 
mUite$ €j:plodani sclopeio$, 

LXXIV. Expectant Britius, simul et Sacra Pagina 

vulnus: 
• Vulnera tunt Britti vulnera Evangelíi. 

Oeeidiiur dU einerum» 

LXXV. Ignia erat : vitie in cineres Jacit ille íavil- 

lam. 
. .QttiidfBrittioMtinefcínoncaretiguecinis. 



— ««2 — 

• In yetma fieasui. 

I#KXVI. Q^ttid peragit flexo morituriis poplké? ado^ 
. . • rat: 

Hac Coeli Brittus Numina morte videt» 

luxta erecium nialum» 

I^XXVII. HIc malus meta est vitae cursàsque bra- 

viuin ; 
Brittí conveniunt alta trophsea neci . 

Adfluminis ripam* 

LrXXVIII, Heu periit Brittas lacry mantém ad flii- 

minis undam : 
Hoclacrymis aptum funerc flumcn erat. 

Jugulaius. 

IiXXIX. Joanaea periit: capai a cervice revulsnm 

est. 
Britti morte £apai Chistladúm cecidit. 

Ctãiroy qua tomies maciabanúir» ' . 

LXXX. Sola reuni, sontcsqae feri t vis férrea : Britti 
Férrea vis mérabis, aureu» ictus erat* . 

Cum tol a tneridie vergebat in occa$um, 

, • . . . .: * 

LXXXI. Occasum sol, et Brittus petiere : faten- 

dum est 
Cum Britto a terris tunc abiisse diem. 

Iclus a tergo est. 

I4XXXII. Erabujt mors : a tergo insidiosa petivit : 
Ante oealos Biritti non foret ausa sce- 

lus. 



— 263 — 

JUXXXIII* £st post terga solam, datiese inlinnina 

Ccclum : 
A terra boc casu tendit ad usque polum* 

Cadit apertu oculU> 

XiXXXIV. Post fatum mercês ocalorum Visio tota 

est : 
Britte, óculos aperis : euge beat« ! vid«s. 

Mortuo uhêcinduntur manut, 

LXXXV. Utraque scissa manus : nianibus totoorb« 

ferendus^ 
Orbis et accípient oscula digna manus. 

Abscinduntur pedes, 

IaXXXVI. Vita pedes dedit ad cursuut ^ sed mors 

dedit alas. 
In Ccelum volat bic : exuit ergo pedes. 

jâbtcisias manus^ pedesque inter se junguni, 

LXXXVII. Inserts manibus plantae vestigia veri 
Ista notant : habet bos utraque palma 

pedes. 
Viia.defvnctus maio superimponUur, 
LXXXVIII, Est raalo impositum Britti post fata 

cadáver : 
Non cecidit Brittus funere, sed subiit. 

Supra illiui corpus nocte apparent geminai faces. 

LXXXIX. Britie, cadis, surguntque tibi duo lumi- 
. . na: solis 

Occidui ad tumulum sidera clara mi- 

cant. 



— 26» — 

Corpus a maio in iêvram deftétum aferitcUiforaiur» 

XC. Membra latent vivo bene condita iliausoleo : 
Vivum post mortem viva sepulchra decezit. 

P. Joanni da Coiia societatit Jesu misnonit iocio ei ft6í 
amicisnmo in somtitt apparei eâdem quâ occisui esi^ 
hora* 
XCI. EtCdsta, et^ Biittus, somno iUe, híe morte 

jacentes 
fie spectant. Nunquam domitaroicitia. 

ChrUtiani cum Ven, P. Britto in vincula conjecii^ quodie 
occidiiur^ a cárcere mittuniur, 

XCII. Proh mortis pretium ! Vlnctos a morte re- 

demit. 
Morte Rodemptoris Brittiis imago fuif . 

ipstus mortem magna gentium converno $ubteguHur» 

XCIII. Triticum ubi moritur, sulcis seges ampla 

resurgit. 
Britti morte Deo provenit ampla seges. 

In V, Britti obteguium malabaricit puerii Joannii 
nomen imponi Molet, 

XCIV. Joannis nomen puerorum in nomine vivit. 
Nomen , quod pueris crescere possit, habet . 

Illiui tanguii caxi oculis applicatury visuiqtie retiituitur. 

XCV. Accipiunt cseci de sanguine lumina lucem. 
lUustri BrittuB sanguine elarus erat. 

JPrceçnans foemina Vcn, P. Sanguinem pulvere inunix- 
ium bibitj et a partúi pericnlo liberatur. 

XCVI. Brittus ubi auxilium est prsegnanii, qu« 

sibi mortem 
Concepit, vitam foemina lieta parit. 



— M* — 

Oppidum flagrai incendia : t/déoltti^Brtl^ut preeet exaudU^ 
fltítnm^mijpÂe €itíirk^U: 

XCVII. Tecla ardent, Biítti -aváet amor restinguere 
*■■''' laminas. 

Tgiiis inalori Y$tt(i9«b'igne minor. 

Ugni partícula^ quo iratnjíaum est Fén. P, corput^ ad- 
moveinr fosminoi agròiantij ipmm^tít liberai afebri, 

XCVIII. Mflra cano : accendunt igneni data ligna ; 

sed ignift 
Febris , ubi Brittus dat sua ligna, 

perLt. 

Pf^eetÈ exaudii Briitui^ ubi emiiiilur voium de alendit 
pauperibns» 

XCIX. Pro miseris voveas siprandia, vota rependit: 
'Q.ttm data âuntBritto, vettdita, h»n data 

•mit. 

Z}e marlyrii mui palma soci^atis fiUhi ànoquHur, 

C. Jesuadãs dlcain propriori nomiúe IVátrés, 
Qlxxoò consanguineçs ]:nartyriúm dedoHt. ' 

PALM^ VERTEX. 

A te principiam, tibi dedinit. 

Injussus scripsi, 

' â^uisqui» enim amat, sine império laudart. 

Si scribentis affectir^penMBSy 

Calami \itia non culpabis; 

Licet nostri ingenii culpa 

Virtutes tuas 

Deterere potiua videamur, 

Q/uam efferre. 

Tua Coelum vértice Palma attigít. 

Non plus ultra ! 

Altíssima Fidei Herculi 

Debita erat columna. 

S4 



—2m— 

UW Palmse 
Cresoendi locus pr^ecluditur, 
Ad hospitalis umbrse officium 
Ramos extendit. 
Ume Pyris nostris Palmoí tuae adnatú 
Nimic^m quaotum placet uiubra ! 
Umbra est \ 
' Sed) si umbrâ protegi»,, 
' Tuus.looem jactabit 
Ludovicus. 



SUPRA VENERABILIS 
P. JOAUIVIS DK BRIVTO 

^ Çorptu tplendidissima lumina nociu apparueruni* 

Extinctus lucet ? Miracula ! Lumina, et umbra 

Britti junguntur funere f Prodigium ! 
Hic necis exuvise, híc vitae signacula ? Mirum eat i 

JELic terra, hic Coelí sidera ? Proh Superi ! 
Occasusque, ortusque simul sunt sole f GLuid boc «ti f 

ÍNox obscura t dies Incida f Rara fides ! 
Mors vitâ pugnat^ lux umbrâ, occasus et ortu, 

Pugnat nocte dies, terraque sideribus. 
Naturie haec Brittus vincít contraria. Pugnent \ 

Si noD pugtiarent, vinceretille minus.^ 

Idem P. Ludovicus Pereira Societ. JESU,volim ia 
Eborensí Academia IM^toricae Magister, nuoc vero ia 
•Adem Academia Moral is Theologise Professor. 



HEMOBIA 



PAHA SBRYIR DE ILLUSTHAÇÂO Á HISTORIA DA VIDA, 
HARTYHIO £ CAUSA Dl^ BEATIFICAÇÃO DO 

BEATO JOiiO IIC: BRITTO* 

PXI^O EDITOR DA SEGUNDA BBiÇAo. 



PAUTE I, 



INTRODUCÇÃO. 



Diffícilmente por mais qae lancemos um olhar sau- 
doso para aquellas idades ridéntissimas e de fé, em que 
cerrados esquadrões de homens abalisados em credito de 
saber, de religião e santidade, largavani todos os annos da» 
invejadas inargens doeste empório de todas as nações para 
lá se irem atravessar mares procellosos, trafegar serras e 
montes bravios, e transfundir em sertões longínquos entre 
povos bárbaros e desconversáveis a doutrina deJesu Chris- 
to, e banharem de mais radioso luzeiro as regiões dãAfri* 
ca, da Ásia e da America, rasgando os pés pelas urzes de 
brenhas intratáveis e de campos sáfaros e estéreis, des- 
baratando a saúde e arriscando a vida, difficillimamente 



— 268 — 

disiamos cucontrareinos com um. varão que meneado pela 
dextra do poder divino, operasse maiores prodígios depois 
do grande Xavier, e nos deixasse mais abonados testemu- 
nhos de suas heróicas virtudes, como o.B. João de Britto. 
Em prova doeste discurso faz o que na presente historia 
fica relatado, e o mais que iremos desenterrando das se- 
pulturas do esquecimento, e que por nos cair aqui a pro- 
pósito enfeixaremos n'este nosso appendice, para desseden- 
tar com a sua lição aquelles, que desejam conhex^er todas 
^s obras maravilhosas e de soberano espirito doeste Bem- 
SLVenturado Martjr portuguez, que foram célebres na me- 
moria de nossos avós,, e o serão ainda muito mais na uoa- 
Ka, senão deixarmos resvalar estaoccasião em que a Igreja 
o alevanta por Santo, para de presente lhe promovermos 
o culto devido, o exaltarmos e nol-o afeiçoarmos para o 
futuro como novo protector nacional abonador de virtudes e 
de prósperos fados para este reino hoje tão baldio para a 
moralidade e a ventura. Este successo e estas considera- 
ções temos para nós, que devem sem duvida encher de 
uma certa ufania e complacência não só os representantes 
da família dos Brittos, de que nasceu ummartyr, que em 
breve veneraremos sobre os altares, mas também os Lis- 
bonenses, e especialmente os naturaes e moradores da fre- 
guesia de S. André, e em fim todos os portuguezes, que 
presara as glorias que a religião e santidade de nossos maio- 
res nos grangearam c sellaram com as suas virtudes em 
grau heróico, e o laurel do martyrio. O nome doeste va- 
rão insigne queahi vem agora augmentar ocathologo dos 
Santos portuguezes, ha largos annos cerrado nao por falta 
de Martyres e Confessores, mas de outras condições que se 
requerem para levar ao cabo a sua beatificação, recorda- 
dos esses ditosos tempos, cm que com as armas conquistá- 
xovs muitos G riquíssimos domínios á mãe pátria, e com 
o zelo. allu miámos com a luz da verdadeira fé, e sujeitá- 
mos muitos milheiros de almas ao jugo suavíssimo de 
Christo, ede sua sagrada Igreja, dilatando e robustecendo 
por meio da religião o respeito e veneração pelo nome 
portuguez nas mais remotas regiões da terra. Gtuc um dos 
maÍ5 esclarecidos testemunhos com que Deus costuma ga- 
lardoar a fé viva das nações, são o engrandecimento e as 
prosperidades terrenas, assim como quando deslembradas 
da virtude dão abertura á torrente das paixões, as desa- 
briga da sua soiribra e pujança com que se lhes acanham 



— 269 — 

c abatem os esforços, seu império a lanço e lanço se des- 
morona, e se desaba, e seus pomposos titctlos de gloria se 
deslustram para nunca jamais juvesnescer e florir. Recor- 
da-nos em&m uma associação de homens qne com a pala- 
vra, com os escriptos, com a santidade da vida, com os 
trabalhos do apostolado, e com o desbarate do seu sangue 
e da sua vida, concorreram immensamente para a dilata- 
ção do dominio portuguez, e para alevantar, conservar o 
eteruisar os padrões das nossas maiores façanhas, embora 
a philosopbia para chegar desassombrada a seus tenebrosos 
fins, empregasse meios sobre que os prejuisos de uns e a» 
ideas de outros aconselham ainda a lançar o mais denso 
veu. 

Ninguém ainda que pouco versado nas nossas histórias, 
e que não esteja dominado de parcialidade, deixará hoje 
de confessar, que uma das principaes causas próximas da 
decadência de Portugal na Africa, Ásia e Amcric^a, e da 
nossa influencia entre os povos limitrophes das nossas pos- 
sessões ii'essas parles do globo, e da perda das nossas mis- 
sões, por cjjo meio essa influencia se conservava', erobus- 
tecia, com grandes vantagens nossas, sem nos fazermos car- 
go da que ha pouco apontámos, foi a destruição da Com- 
panhia, e ultimamente a de toda? as ordens regulares. 

Lembraremos por todos um único argumento. Procla- 
mada no Oriente a extincção d^aquetla corporação, e re- 
colhidos os seus cartórios pela auctoridade publica para 
d'alli se extrahirem as grandes provas dos crimes e estra- 
gos que lhes imputavam, e com as quaes o marquez de 
Pombal esperava denunciar ao mundo a verdade do que 
lia via feito espalhar, e a justiça do seu próprio procedi- 
mento, tudo quanto nMles se encontrou foi em abono dos 
padres, comais solemne testemunho do muito que as mis- 
sões orientaes lhes deviam. Desorte que o prelado que en- 
tão governava a metrópole das índias, para ver se podia 
riscar de todo da lembrança dos homens os serviços por 
ella prestados ao estado e á Igreja, mandou reduzir a cin- 
zas todos esses cartórios preciosíssimos para a historia. Dei- 
xamos aos nossos leitores decidir qual foi maior n^aquelle 
prelado, o fanatismo, ou a adulação ao omnipotente mi- 
nistro d*el-rei D. José. 

Mas por quanto nao é nosso intento tecer aqui a his- 
toria das nossas missões, e muito menos da corporação a 
que pertenceu o B. João de Britto, pondo de parte todas 



— 270 — 

cstaa coQ^iderayqçs quç i;i40 vem rigorosamente pa^a Q nos- 
so ^»umpto, nos passaremos para já ao objecto principal 
doesta nossa fnpmoria. 



PARTE 11. 



Dot Auciores que escreveram sobre o B, João de Britio, 

Pesde que deliberámos reimprimir a historia da vida 
cIq B« João de Britto escripta por seu irmão, assentámos 
íogç ew çolligir todas as noticias e memorias, que podes- 
sem seirvir çu para a illustrar, ou para a supprir n^aquellas 
partes ein que seu auctor não fora completo, ou por falta 
de noticia^, o\\ por não achar algumas matérias bem ave- 
riguadas, rematando este nosso trabalho com os decretos 
relativos 4 conclusão da causa de sua beatificação. E não 
foi debalde que trabalhámos, pois vimos coroadas a^ nos- 
sas fadig^j^ com ornais feliz successo, Q.uasi que não houve 
auctpv contemporâneo de nomeada, ou que alcançasse de 
pertp a época do B. João de Britto, que não consagrasse 
emauaa opras algumas paginas em seu louvor. Dando uma 
relação e alguns extractos doestas obras, seguiremos quanto 
posaa ^Qr a ordem, chronologica. 

Ai primeira peça importante (não fallando nas cartas 
anuuí^es (Jas missões do Oriente), e acarta que o P. Fran- 
cisco Layne? superior da missão do Madure escreveu sete 
diaa depois do martjrio do B. João de Britto aos padres 
da $ua Companhia, que trabalhavam na mesma missão, a 
quaj saiu impressa em Paris no anno de 1717 na 2.^ par- 
te das cartas edificantes. Como estacaria vai toda ipseri- 
da ii^este appendice, j ulgamos desnecessário faaer sobre ella 
algum commentarip. 

Seguiu-se-lhe logo em 1695 um folheto eseripto pelo 
P. Manuel de Coimbra, da Compai^hia, com o seguinte 
título — Breve relatam do illusire md^tyrio do V. jP, João 
de Britto Beligioto Professo da Sagrada Companhia de 
JefUSy residente na missam d/i Madure^ reino dó Maravã^ 
o qual padeceo em 4 de fevereiro de 1693, impressa em 



— 271 — 

Lisboa em 1695, Consta esta obra de poucas paginai, niâf 
estSo ellas tao repassadas de uncçSo, e esGri|Mas etti tXò 
bello cstylo, (jue ainda quenao fossem importantes sopeia 
narragão dascircumstancias qae precederam e acompanha- 
ram o roartyrio* do nosso Bemaventurado conterrâneo, por 
este predicado se tornaria sobejamente recommendavel. 
Não contendo porém esta relação cousa que possa iliustrar 
oa completar a nossa historia, não a reproduzimos aqui por 
brevidade. 

Dois annos depois saiu á luz em Antuérpia a seguin^ 
te obra — I Ilustre Ceriamen R. P. Joannit de Britto e 
Societaie Jeiu luiitani in odium fidei a Regulo Maravã 
irucidaii guaria diefebruarii 1683 Auetore R. P.Joanne 
Saptitta Maldonado Soe, Jetu Antuérpia anno 169T. A' 
vida do B. João de Britto, as suas virtudes,' os seus 
trabalhos apostólicos, o seu martyrio e milagres, os cof* 
tumes do Malabar, a historia da missão do MadurI, uma 
das mais preciosas do padroado portuguez na índia, tudo 
alli se acha nao diremos relatado, mas pintado tao ao vi* 
vo, e com tao vivas cores, c tanta copia de elegância, quo 
bastaria s6 esta obrita, a qual consta de 64 paginas e^n 
oitavo pequeno, para recommendar á posteridade o nomo 
do seu auctor, que a poucas laudas de leitura manifesta* 
mente se vê que devia ser grande litterato, e mestre em 
latinidade. 

Segundo o auctor confessa, foram-lhe guia tiVste sea 
importante opúsculo as cartas annuaes da missão do Ma* 
labac escriptas ao P. geral dos jesuítas pelo P. And r^ Frei* 
re, jesuita, que depois de ter cultivado por mais de 30 
annos aquella espinbosissima vinha, foi nomeado arcebispo 
de Angamale ou Cranganor, e pelo P. Francisco LajneB, 
também jesuita e superior da missão, e depois bispo d« 
Meliapor, o qual investigou escrupulosamente as fadigai 
apostólicas e o martyrio do nosso Beato, além do P. Je« 
ronymo Telles companheiro doS.Martyr na sua primeira 
viagem k índia e na missão, e do P. José de Miranda 
testemunha ocular do apostolado do B. João, os quaes as^ 
sistiram ao mestno auctor quando o escreveu. DVsta obra 
daremos u^este appendice importantes e copiosos extractos, 
que não serão sem preço para a historia, deixando de in* 
ser ir outros não menos curiosos por nSô fazermos leítara 
de cousas meudas. 

Segue-se a Imagem da Viriudt em o novittWo dm 



— 272 — 

ÇompQnhia d€ Jesui na Corie de Lisboa pelo P. António 
Framío da mesma Companhia, impressa em Coimbra em 
1717. Consta esta obra da vida de todos os homens illua- 
tres da Companhia que fizeram o seu noviciado em Lis- 
boa, sendo uma doestas a 4o B. João de firitto desde pa- 
gina 705 a 847, cap. XV a X^XII, da qual daremos al- 
guns trechos em que se relatam casos dignos de ficarem em 
lembrança, e bem merecedores de uma grande luz. Çste 
mesmo padre publicou em Vienna d' Áustria no anno de 
1720 outra obra com o titulo y^nnus Glorioius Soe, Jcsu 
tn Ijusitania^ onde em o dia 4 de fevereiro, de pagina 55 
4 59, refere em succinto a vida e martyrio do B. João de 
Britto com algumas circumstancias interessantes, queomit- 
tira n^ Imagem da Firtwle, com que enriqueceremos tam- 
bém este nosso trabalho. Segundo confessa oauctor napre- 
facçao, tinha elle de principio escripto ^m linguagem esta 
sua obra, que dejy^is traduziu e |Hrb1içou em latim com 
poucas alterações, porconsdho de alguns seus correligiosos 
q.d)& acharam que seria mais proveitoso, e de maior glo- 
ria para a província jesuítica de Portugal, publical-a na 
língua latina. O original portuguez doesta obra existe na 
torre d9 Tombo pela lettra do mesmo auctor, onde o exa- 
minámos. 

Em 1758 publlcou-se em Roma, sem nome deauctor^ 
o seguinte opúsculo que também consultámos, e do 4^ual 
|iSo podemos deixar de dar alguns extractos — Fita dei 
V. Servo di Dio F, Giovanui di Britto dtUa Compagnia 
de tíctH tèceiio doi harbari dei Malabar inodio delia fede» 
Segundo diz o auctor, escreveu elle sobre as noticias au« 
(henticas esolemnemente juradas tanto das cartas annuaes 
da m^issao do Madure desde 1671 ate 1694, como dos pro- 
cessos feitos por auctoridade apostólica e ordinária em Goa, 
Cochim, Meliapor, Cranganor e Roma* Também Diogo 
Barbosa Macbadp na sua Bibliotheca Lusitana tomo 2.^ 
pag. 613, e o noRso distlncto historiador D. António Cae- 
tano de Sousa, na Historia genealógica da Casa^Heal a pag- 
ÍM8 do tom. 12 part. 2.^, escreveram sobre o ]B. Jpao de 
Britto os artigos que nossos leitores verão na III parte 
doesta memoria, aos quaes juntaremos o que a< respeito do 
mesmo Beato escreveu Cretineau Jol^r na sua bistorja da 
Companhia publicada em França ha poucos aonos. 



— 275 — 
PARTE III. 



KXTB ACTOS IMP0BTANTB3 n.JLS OBIIAt 0« ALGUNf AQCTO- 
BES 80BRB O B. lOZo X>S BBITTO. 



Caria do P, Franéiteo' Layne% da Companhia diB Je$u$^ 
Si^erior da missão do Madure ao» Padrtã da$ua Com- 
panhia que trabalham na mesma mtisuo »obre a mwts 

. do r. P. João de BtUto. 



Meus Reverqndos Padres. P. C. 

Não sei se devemos affligir-nos pela morte do nosso 
caro Companheiro, o Pi João de Britto, e chorar a perda 
que esta Christandade sofifreu de um pastor cheio de zelo,, 
edeum missionário incançavel*^ ou se devemos antes rego- 
sijar-nos com as vantagens que esta nascente Igreja colherá 
da morte de um generoso confessor de Jesu Christo, que deu 
aoceu. Porquanto se é verdade, segundo diz um dos santos 
Padres, que o sangue dos martyres é semente fecunda de 
nqvos Christãos, não teremos por ventura razão para espe- 
rar, que esta Christandade fructificará centuplicadamente/ 
e se estenderá por todos os vastos paizes do Oriente ? 

Permitti-me pois, meus reverendos Padres, que vos 
convide a dar comigo graças a Deus por ter concedido 
martyres a esta Igreja, e ter feito a um de nossos irmãos 
a graça de derramar o s^u sangue por Jesu Christo. Este 
favor deve para nós ser muito mais precioso do que os maio- 
res successos do mundo. Glue felicidade seria a nossa, se 
tamhem fossemos destinados a egual morte. Façamos por 
não nos tornarmos indignos doeste favor com as nossas in- 
âdelidades. Renovemos o nosso zelo, trabalhemos mais do 
que nunca com maior coragem e fervor pela salvação does- 
tes infiéis resgatados com o sangue do Salvador*, e olhemos 
o martyrio do nosso Bemaventurado Companheiro, como 
un^a viva exhortação que Deus nos faz a fim de que nos 
preparemos, e estejamos promptos para receber talvez a 
mesma mercê. 

Bem sabeis que haverá seis annos, Bauganadadeven 

38 



— 2li — 

príncipe do MaravA, depois de ter feito soffrer cnieia iòt* 
mentos ao P. João de Britto, lhe prohibiu sob pena de 
morte de permanecer e pregar o Evangelho nos seus es- 
tados, chegando aameaçal-o que o faria esquartejar senSo 
obedecesse ás suas ordens. O Servo de Deus que então era 
superior da missão, para nao irritar aqucUe principe gén*' 
tio, retirou-se logo do Maravá, com intenção porém de 
voltar pouco depois ^ porque não sabia resolver-se a des- 
amparar de todo uma numerosa Christandade, que havia 
estabelecido com tantos desvelos, e incríveis fadigas ; e lon- 
ge de temer os ameaços que se lhe faziam, tinha por a 
maior felicidade que lhe podia caber a honra de morrer 
em defesa da fé. Mas Deus contentou-se então com a sua 
boa vontade. E como estivesse para entrar de novo no Ma- 
ravá, os nossos superiores enviaram o á Europa como pro- 
curador geral d'esta província. Obedeceu elle, e chegou a 
Lisboa nos fins do auno de 1687. 

El-rei de Portugal, que o conhecia, e com quem ti- 
vera elle a honra de ser educado, manifestou grande ju- 
bilo pelo seu regresso, equiz que ficasse na corte comikn- 
portantes cargos. Porém o Santo homem, que nada mais 
anhelava do que a conversão dos infiéis, desculpou-se ener- 
gicamente. « Vossa majestade, disse elle ao rei respeitosa- 
*< mente, tem nos seus estados grande numero de pessoas 
M idóneas para os cargos com que me quer honrar: poréoi 
M a missão do Madure tem poucos operários : e ainda quan- 
Mdo muitos houvera para cultivarem este vasto campo, eu 
H tenho sobre elles a vantagem de saber a língua do pais, 
wde conhecer os costumes doestes povos, e de estar costu- 
M mado ao seu modo de viver, que é muito esLtraordina^ 
M rio. » 

• O P. Britto tendo de tal arte evitado o perigo em 
que esteve de ficar na corte de Portugal, e posto fim aos 
negócios que lhe haviam sido commettidos, não pensou a 
mais do que a partir de Lisboa e voltar á índia. Logo que 
chegou a Gôa, tratou de se recolher a esta missão de que 
tinha sido feito visitador. Como ardia em zelo pela casa 
de Deus, não tomou tempo para se descançar das fadigas 
de tão longa viagem, crefazer-se de uma perigosa doença 
que tivera a bordo das naus. Todo o seu cuidado foi des- 
empenhar-se dos deveres do novo cargo que se lhe confiara. 
Começou pela visita de todas as casas que temos em Ma- 
dure. Dopois restituiu-se aosMaravás seus caros filhos em 



— 27S — 

Jeui Chritto, qut fatiam todas as sua» delicias. Pelos mai- 
tos doeste pais ha como sabeis muitas Igre|aa dispersa». 
Percorre.u-as todas comum áelo incançav^t e grandes der- 
commodidadea. Os sacerdotes dos gentios soltaram-se conr 
tra elie^ e a sua raiva ioi t$o longe, que estava cada dia 
exposto a perder ávida, e n$u podia demora r-se dolsdia« 
seguidos no mesmo logar seni correr grandes riscos. Mas 
Deus antmava-o n^estes perigou e fadigas com as grande» 
bençâos, que se dignava de denramar sobre os seus traba- 
lhos apostólicos. 

No espaço de quinze mezes que esteve no Mara vá de- 
pois de regressar da Europa até á sua morte, teve a con> 
solação debaptisar oito mil catechúmcnos, e converter um 
dos principaes senhores dopais. E^ este oprincipe Teria- 
deven, a quem pertenceria o principado do Maravá, de 
que seus maiores foram despojados pela família de Rau- 
ganadadeven ora reinante. Como o nascimento e méritos 
de Teriadeven lhe graugeavam a estima e affeiçao de to- 
dos os da sua nação, a sua conversão produziu grande ar- 
ruido e foi causa da morte do P. Britto. Estava elle eti* 
fernatO de uma doença que os médicos do paiz julgavam 
mortal. Reduzido aos últimos extremos e sem esperança 
deallivio, determinou im piorar o auxilio do Deus dos chris- 
fSos. Para esse fim mandou multas vezes rogar ao P. Britto 
que o fosse ver, ou que ao menos lhe mandasse um cate- 
ebista, para lhe ensinar a doutrina do Evangelho cm cuja 
virtude, dizia elle, tinha posto toda a sua confiança. Nau 
se demorou oPadro a conceder-lhe o que pedia: mandou-o 
visitar por um catechista, que recitou sobre elle o santo 
Evangelho, e logo ficou perfeitamente sarado. 

Tão evidente milagre ugmentou o desejo que Teria- 
disven tinha, havia muito, de ver o pregoeiro de uma lei 
tio santa e prodigiosa, e não tardou em ter essa satisfac- 
9ao. Por quanto não duvidando já ò Padre da sinceridado 
das intenções doeste príncipe, contra o qual estivera de 
sobre aviso até então, dirigiu-se ás terras do seu governo, 
e como esse logar ainda não era suspeito aos sacerdotes dos 
Ídolos, demorou-se alli para celebrar a festa dos Reis Ma- 
gos. Pa»sou-se esta solemnidade com extraordinária devo- 
çSo dos christãos, e tão grande succes^o, que o P. Britto 
baptisou nVsse dia pela sua própria mão duzentos cate- 
ehumenos. As palavras vivas e animadas do Servo de Deus « 
o seu zeloy a alegria que so descobria nos novos ehristaos, 



— 276 — 

«majestade dás ceremonias da Igreja^e sobre tado agrâça 
de Jesa Cbristo, que quiz servir-se d We favaravei ensejo 
-para aconversâodeTeriadev^n, peatstraram tSo vivamente 
oooraçSo dVsie príncipe, que pediu logo o baptimio. m V^ 
«nao sabeis ainda, lhe disse o Padre, qual^ a puresa dé 
«< vida que cumpre guardar na profissSo do ohrístiâni«itM>. 
tt Eu me tornaria culpado perante Deus, se vos concedesse 
*i a graça do baptismo antes de vos instruir e dispte para 
^(receber este sacramento r» 

D^aqui passou a explicar-lhe o que o Evangelho prev- 
•cseve áceròa do matrimonio. Era este ponto o mais ne- 
^^ssario, porque Tetiadevea tinha então citioo molheres, 
•e um grande numero de concubinai. 

O discurso do missionário bem longe de deseoroçcMir 
'O novo catechumeno, tornou-o mais animoso e mostrou o ^ 
-seu fervor e empenho em receber o baptismo, m Este obs- 
tí taculo, disse elle ao Padre, será desde já removido, e 
•«tereis motivo para vos dar por satisfeito de mim- tu No 
•mesmo instante volta ao seu palácio, chama ásua presen- 
ça todas as suas mulheres, e depoi» de lhes íallar da ciira 
milagrosa que recebera do verdadeiro Deus, por virtude 
do «anta Evangelho, dedara-lfaes que está resolvido a em^- 
pregar o Testo da vida no serviço de tSo poderoso e fSh 
bem Seabcv : que como este Sefibor prohibia ter mais' de 
uma mulher, queria obedecer-lfae, e não ter para o futuro 
•maia que uma única. Epara consolar aquellas a quem te- 
«uunciava, aecrescentou que cuidaria nMlas, que nada Ibes 
.faltaria, e que as consideraria sempre como suas -proprim 
(irmaas. 

Uma íaila tKo inesperada latt^^ou aqnellaa mulheree 
em terrível consternação : a mais joven foi a que mais se 
abalou« A principio nao poupou a vogos nem a lagrimas 
pára ganhar seu marido, e lèe faiser mudar de reMuçSi»: 
mas vendo que eram baldados todos osseusesforços, trans* 
poztGdos os limites, e resolveu vingar-^e no P. Britto a 
nos christaos da injustiça que se persuadiu que se lhe fti- 
'Zia. Como era sobrinha de Rauganadadeven, príncipe so- 
berano do Maraváf de que já fallei, foi-se queixar a eUe 
da leviandade de seu esposo. Chorou, gemeu, representou 
' o 'triste estado a que ficava redusida, e implorou a auetó»-, 
rídade e justiça de seu tio. Respondeu-lhe este, que «a 
resoluto de Teriadevcn procedia de se ter abandonado a 
mercA do magico mais abominável que* havia no Oriente ; 



— izrr — 

^tfeeste homem tiirba cmfeitiçado léu marido, que ò tinha 
persoadido a* repodial>a vergonhosamente ea todas b» oh- 
tvas mulheres, á excepção de mna tó. Mas para oonsegutr 
melhor os seus intentos fallou de ama maneira mais enér- 
gica aos sacerdotes dos idosos, que havia muito tempo pro- 
curavam occasiSo favorável para romperem oontra os mi- 
nistros do Evangelho* 

Havia entre dies um brahmçne chamado Pompav»- 
nan famoso por suas imposturas, eodio irreconciliável ads 
nrissionarios, e sobre tudo aoP. Britto. Este malvado ar- 
rebatado de prazer por encontrar tao bello ensejo 'de te 
vingar de quem destruia a honra dos seus ídolos, Ui« tf- 
raTa' os seus discípulos, e por isso o rediixia eom. toda a 
^sua famiiia á extrema pobreza, jantou os outros brafam»- 
nes, e consultou com elles oe meios de perder o San to Mi»- 
-«ionario^ e arruinar a tua «ova Igreja* Foram 4odos de 
parecer que deviam ir juntas fallar ao prinoipe. O hraèh 
menc Pompavanan se poz á testa d^elies, e tomou a paUr 
vra. Começou por se queixar que já se nSo respeitavam 
os deuses; que muitos idolos tinham sido derribados, e a 
-maior parte dosi templos abandonados; que já se nSo gb- 
lebravam sacrifícios nem festas, e que todo o povo s^oia 
■a infame seita dos europeus ; que não .podendo por mais 
tempo soffrer os desacatos que se faziam aos seus deuses^ 
ve retirariam todos para os reinos visinhos, não querendo 
eer espectadores da vingança que os mesmos deuses irn^ 
<tados estacam .para tomar dos seus desertores, ed^a;quettBi 
<que devendo punir tão enormes crimes os toleravam com 
tanto escândalo. 

Não fora preciso tanto para animar Rituganadadeven, 
•que já estava preoccupado contra o P» Britto,' e fdta na» 
vãmente instado pelos queixumes e lagrimas de sua sobvi» 
nha, eqne por outro lado, como parecia, nao tinha razões 
para amar o prineipe Teriadeven. Ordenou logo o saque 
de todas as casas doschristaos dos seus estados, equeaqw^ 
les que perseverassem firmes na sua crença pagassem umm 
grande multa, e sobre tudo que se lhe» queimassem Iodas 
as Igrejas. Esta ordem rigovosa cumpriu-se tanto árÍ8C% 
que muitíssimas famílias christâs <Êcaram de todo arr«í» 
nadas, porque antes quiseram perder todos os seus htíntf 
do que renegar a«fé. Omodo porém como se procede» con- 
tra o P. Britto foi ainda mais violento. O t^ranno qme o 
considerava como auctor de todas estas tuppostas dsfordens, 



— 278 — 

Biaudou expressamente qúe fosse preso e coiiduxido á to* 
presença. Este b&rbaro por meio do rigor com que o har 
tia de tratar, pretendia atemorisar os cbristaos^ e faser 
que mudassem de resolução. 

N^esse dia em que se contavam oito de janeiro d'e^ 
te anno de 1693, o Santo Missionário tinha administrado 
os sacramentos a grande numero de fieis :; e ou elle sii»^ 
peitasse, ou por alguma via, que não sabemos, tivesse cer- 
tesa do que se tramava eontra a sua pessoa, aconselhou 
muitas vezes aos christâos reunidos, que se retirassem para 
•vitar a sanguinolenta persegtiiçâo de que estavam amea- 
çados. 

Algumas horas depois foram -lhe dizer que um tropel 
de soldados marchava para o prender^ e logo^ com rost» 
prasenteiro, e sem fazer mostra de sobresalto, saio-lhe» ao 
encontro. Porém estes Ímpios apenas o divisaram, arre^ 
metteram a ellè, ecom tal fúria o empuxaram, que desa- 
piedadamente o derribaram em terra. Não foi melhor o 
trato que deram a um brahméne christao chamado JoSo, 
que o acompanhava-; ataram rijamente estes dois confesso- 
res de Jesu Ghristo, a quem abalavam mais as blasphe* 
mias qoe ouviam pronunciar contra Deus, do que o que 
lhes faziam soffrer. Dois jovens christâos que tinham se^ 
guido o P. Britto, dos quaes o mais velho ainda nao con- 
tava quatorze annos de edade, longe de se espantarem com 
as crueldades que exerciam contra elles, e os opprobri<» 
com que os opprimiam, cobraram tal animo, e fortaleta 
na sua fé, que correram com fervor incrível a abraçar o 
Santo homem, apesar de algemado, enão oquizeram dei- 
xar. Os soldados vendo que os ameaços e golpes não bas- 
tavam para os affastar, amarraram também estas duas in» 
nocentes victimas, e assim as juntaram a seu pai e pastor. 

N^este estado conduziram a todos quatro •, mas o P. 
Britto que era de uma compleição delicada, e cujas forças 
estavam cxhaustas pelos longos e penosos trabalhos, epeia 
vida penitente que havia mais de vinte ânuos fazia no Ma- 
dure, sentiu-se extremamente abatido. Toda a sua cora- 
gem não o pôde suster senão por pouco tempo, de sorte 
que se viu tão cançado e quebrantado, que caía quasi -a 
^da passo. Os guardas querendo apressa r-se, batiam n^el- 
le e o obrigavam alevantar-se e andar ainda que lhe viam 
©s pés ensanguentados, e horrivelmente indiados. 

N^este estado pouco diffetente do em que estava o seu 



— 279 — 

«livino Mcâtre quando caminhava para o calvário, cb«ga- 
raro a uma grande povoação chamada Ânournandancourj, 
onde os con&siores de Jesu Christo receheram novas af- 
frontas. Por quanto para satisfazerem ao povo que de toda 
a parte acodia em tropel para ver tao insólito espectáculo, 
os poseram em um carro bem alto, no qual os brahmenes 
costumam levar pelas mas como em triumpbo os seus ide- 
los, e alli os deixaram dia e meio expostos ao escarneo 
publico. Muito soSreram n^este logar, já pela fome, já 
pela sede, já pelo peso dos grandes grilhões com que os 
carregaram. Satisfeita assim a curiosidade e o furor doeste 
povo, fizeram-os continuar o seu caminho para Ramana- 
dabouram corte do príncipe doMaravá. Antes de alli che- 
gar encontraram -se com outro confessor de Jesu Christo. 
Era este o catechbta Moutapen, que havia sido preso em 
Candaramanicom, aonde o P. Britto o tinha mandado 
para tomar conta de uma Igreja que alli tinha fundado. 
Os soldados depois de o prenderem queimaram a Igreja, 
arrasaram as casas dos christãos, segundo as ordens que 
tinham recebido, e levaram este catechista, bem atado, á 
cidade deKamanadabouram. Este encontro causou grande 
jubilo a todos estes servos de Deus, e o P. Britto colheif 
€!Bta occasiao para os animar a perseverarem fervorosamente 
na confissão da fé de Jesu Christo. Ranganadadeven que 
estava algumas léguas distante da sua capital, quando es- 
tes gloriosos confessores alli chegaram, ordenou que fossem 
mettidos no cárcere, e guardados avista até á sua chegada; 
No entretanto o príncipe Teriadeven, esse zeloso catechu*'^ 
meno que era a causa innocente de toda a perseguição, 
compareceu na corte para supplicar graça da vida para 
aquelleaquem elle se julgava devedor da do corpo ealma^ 
Sabida a crueldade com que tinha sido tratado o Servo de 
Deus em toda a jornada, pediu aos guardas que dessem* 
melhor tratamento a um prisioneiro que elle respeitava. 
Houve logo alguma consideração pela recommendação d'e9« 
te principe ^ e o P. Britto depois d^isso nao foi tratado 
com o mesmo rigor, mas não deixou de soffrer muito, o 
passar alguns dias sem tomar outro alimento afora um: 
pouco de leite, que se lhe dava uma vez por dia. 

Durante este tempo, os sacerdotes dos Ídolos fizeram^ 
novos esforços para obrigar o principe do Mara vá a áán^ 
a morte aos confessores de Jesu Christo. Apresentaram-se 
era grande numero no palácio, vomitando Uasphemiatf 



— 280 — 

e«eeraveÍ8 OQiiUa a Religião ChrUU, eaccusando o Padre 
de muitos crimes enormes. Pediram aotyranno com gran- 
de instaiicia que o mandasse enforcar na praça publica ^ 
para que ninguém mais ousasse seguir a lei que elle ensi- 
nava. O generoso Teriadeven que estava junto do^princi-, 
pe do Maravá, quando lhe apresentaram esta suppUca in- 
justa, irritou-se vivamente contra os sacerdotes dos ídolos 
que pediam o seu cumprimento. Depois dirigi ndo-se a Bau- 
ganadadeven, supplicou^o .que mandasse vir ásua prescn-* 
ça os brahmenes mais hábeis para os fazer disputar com o 
novo doutor da lei do verdadeiro Deus, accrescentando, que 
este seria um meio seguro e fácil para se descobrir a verdade* 

O príncipe agastou>se com a Uberdade deTeriadevciii 
e eheio de cólera o reprehendeu porque sustentava o par- 
tido infame do doutor de uma lei estrangeira, intimando- 
lhe que adorasse logo alli alguns Ídolos que estavam na, 
sala. tf Nâo permitta Deqs, replicou o generoso catechu?. 
«iOíienQ) que eu commetta similbante impiedade^ ainda 
«não ha muito tempo que livrei diurna doença mortal por 
«•virtude do santo Evangelho : como ousarei renuncial-o 
a para adorar os Ídolos, e perder ao mesmo tempo a vida 
<tda alma e do corpo ? n 

Eâtas palavras fizeram subir de ponto o furor do ty* 
ranno, mas razões doestado nSo lhe deixaram julgar coa«- 
veaiente manifestal-o. Dirigiu-se a um joven cavallciro a 
quem amava, chamado Pouvaroudeven, e lhe ordenou o 
mesmo. Porém este que pouco antes por meio do baptismo 
liirrara também de um grave incommodo quesoffrera nove 
annos, hesitou primeiro \ mas o receio de desagradar ao 
rei que era furiosamefite irritado, o levou a obedecer-lhe 
cegamente. Apenas porém offereceu o seu sacriúciò, seu- 
tiu-fte atacado de novo da sua antiga enfermidade, mas 
eom tanta violência que em breve se viu reduzido aos ex-» 
tremos. Tio prompta e tão terrível castigo, o fez tornar 
em ú V recorreu a Deus que tão cobardemente abandona- 
ia* Pediu que lhe trouxessem um Cruciâ&o, lançou*«e-lhek 
aos, pés, pediu humildemente perdão do crime que com-, 
Ijttãttera, e sopplicou ao Sen^r, que tivesse piedade fia 
sua alma» e compaixão do seu corpo. Logo que acabou esta 
oraçilo viu que fora exaudído : o seu mal cessou novamen- 
le, «não duvidou que aquelle Senhor que com tanta boa- 
má» lhe concedia a saúde do corpo^ lha perdoaria miseri- 
•ordiosamei^te a «ia culpa. 



— 281 — 

Em quanio Ponvnroudeveii sacrificava aos Ídolos, o 
prineipe do Maravá dirigiu-se segunda vez a Teriadeven, 
e lhe ordenou com ameaças que seguisse o exemplo d*a- 
quelle jsenhor ^ mas Teriadeven lhe respondeu generosa- 
mente, que antes queria morrer, quecommetler tao gran- 
de impiedade^ e para tirar ao tyranno toda a esperança 
de o reduzir, estendeu-se sobre a virtude do santo Evan- 
gelho, e os louvores da religião christã. O príncipe irado . 
por uma resposta tao firme, interrompeu-o, e lhe disse com 
um ar de zombaria : «pois bem, tu vaes ver qual é o po- 
««der do Deus que adoras, e a virtude da lei que oteuin- 
ufame doutor te ensinou. Pretendo que dentro em três 
u dias morra esse perverso so pela força dos nossos deuses, 
i<sem que alguém lhe toque. >» 

Ditas estas palavras, ordenou que em honra dos pa- 
godes SC fizesse o sacrifício chamsiáo Patiragalipouci^ que é 
mna espécie de sortilégio a que estes infiéis attribuem tao 
grande virtude, que asseguram nao se lhe poder resistir, 
e que e forçoso absolutamente que pereça aquelle contra 
quem se faz. D^aqui procede que algumas vezes o chamam 
ta.mbem Santoitroverangaramy isto e, destruição total do 
inim,igo. Este principe idolatra empregou três dias intei- 
ros nVstes exercícios diabólicos, fazendo muitos sacrifícios 
para conseguir o seu intento. Alguns gentios que estavam 
presentes, e que algumas vezes tinham ouvido as exhorta- 
ções do confessor de Jesu Christo, debalde lhe representa- 
ram que todos os seus esforços seriam inúteis, porque to- 
dos os malefícios níio teriam virtude alguma contra um 
homem que zombava dos seus deuses. Estes discursos irri- 
taram furiosamente o principe, e como o primeiro sorti- 
légio não teveeífeito, julgou que alguma circumstancia te- 
ria faltado, e assim começou de novo três veies o mesmo 
sacrifício sem successo. 

Alguns dos principacs ministros dos falsos deuses que- 
rendo livral-o do embaraço, e da extrema confusão em que 
estava, lhe pediram licença para fazerem outro género de 
sacrifício, contra o qual, segundo elles, nao havia recurso. 
Este sortilégio é o Salpechiam^ o qual tem, dizem elles, 
uma virtude tão iiifallivel, que não ha poder divino ou 
humano, que a possa illudir. Assim asseguraram que .o 
pr^egoeiro de Christo morreria infallivelmente ao quinto 
dia. Seguranças tao positivas calmaram um pouco Uauga- 
nadadeven da desesperação em que estava de se ver con- 

36 



— 28â — 

fundido, t a todos os seus deuses por um s<5 homem, que 
tinha cm ferros, e a quem despresava. 

Mas foi uma nova confusão para elle, e para o» sa- 
cerdotes dos Ídolos, quando passados os cinco dias do Sal'- 
pcchiamy viram que o Santo homem, que infallivelment.é 
devia ser destruído, nem um unieo dos seus cabéllos tinh^ 
perdido. 

Os brahmenes disseram ao tyranno, que este doutor 
da nova lei, era um dos maiores magos que havia no mun- 
do, èque resistira á virtude de todos os seus sacrifícios s6 
piela força dos seus encantos. Rauganadadeven cedeu facil- 
mente a esta impressão^ mandou vir á sua presença o P. 
Britto, è perguntou-lhe, mostrando-lhe o seu breviário, 
que lhe tinham tirado quando o prenderam, se era d*a- 
quelle livro que elle tirava a virtude que tornara até en- 
tão inefficazes todos os seus encantos. E respondendo-lhe 
o Santo homem que nao se podia duvidar d'isso : «pois 
«bem, lhe disse o tyranno, quero ver se este livro te ha 
ítde tornar também impenetrável aos nossos mosquetes. >» 
Aò mesmo tempo ordenou que lhe pozessem ao pescoço o 
breviário, e que o fizessem passar pelas armas. Já os sol- 
dados estavam prestes a darem as suas descargas, quando 
Teriadeven com uma coragem heróica clamou publicamente 
contra uma ordem tao tyrannica, e lançando-se entre os 
soldados, protestou que também elle queria morrer, se ti- 
ravam ávida ao seu querido mestre. Rauganadadeven que 
percebeu alguma com moção entre as tropas, teve medo de 
alguma revolta, porque não duvidava que Teriadeven ti- 
nha ainda muitos sequazes que não permittiriam que este 
príncipe fosse abertamente insultado. Estas considerações 
comprimiram o arrebatamento de Rauganadadeven, que 
até fez mostras de revogar a ordem dada, e ordenou que 
o Servo de Jesu Christo fosse de novo mettido nocarcere. 
Todavia n'esse mesmo dia pronunciou contra elle a 
sentença de morte ^ eafim de que se executasse sem obstá- 
culo, mandou partir secretamente o Padre com boa guar- 
da é com ordem de o levarem a Ouriardeven seu irmão, 
cabeça de uma povoação situada a dois dias de distancia 
da corte' para lhe ser dada a morte sem dilação. Quando 
participaram esta sentença ao Servo de Deus, o jubilo de 
íse ver tão perto do que desejava tão ardentemente, foi uin 
pouco moderado pela pena que teve de deixar os seus ca- 
ros filhos em Jesu Christo, que com elle se achavam na 



— 88S — 

pritSo. FoMbe tSo sensivel e»ta. separação, que nSo pâd« 
eonter as lagrimas ao despedir-se d^elles. Abraçou terna- 
mente a todos quatro um apds outro, e animou á constân- 
cia a cada um em particular com razoes enérgicas e pró- 
prias das circumstancias em que se achavam, segundo a 
capacidade de suas intelligencía». Depois dirígindo-se a 
todos em commum lhes fez um discurso commovente epa- 
thetico para os exbortar a permanecerem inabaláveis na 
confissão da fé, e. darem generosamente a sua vida pelo 
verdadeiro Deus, de quem a tinham recebido. Os gentios 
que estavam presentes en ter neccram-se tanto com esta vista, 
que choraram, e ficaram assombrados da ternura que a 
Servo de Deus. mostrava pelos seus discipulos no momcntu 
em que estava próximo á morte. Naoera menos o espanto 
que íbes causava a santa resolu^^ao dos outros quatro con- 
fessores, dje Jesu Cbri&to, que mostraram grande impaciên- 
cia por derramarem o seu sangue por amor do seu Salva^ 
dor. Assim saiu da prisão de Kamanadabouram, acompa- 
nhado dos votos de seus discípulos que pediam com instan- 
cia para o seguir e morrer com elle. 

Partiu sobre a noute com os guardas que lhe foram 
destinados^ mas sendo o seu abatimento maior ainda que 
na jornada antecente, chegou aologar doseumartj^rio de- 
pois de soffrer incrivcis trabalhos. Não se sabe se foi o re- 
ceio de o verem morrer antes dosuppliclo, que fez com que 
ao principio o pozessem acavallo: mas bem depressa Ih^o 
tiraram. Caminhava descalço, e as frequentes quedas lhe 
feriram de tal modo as pernas, que tinha extremamente 
inchadas, que pelo sangue se lhe podia seguir o rasto. To- 
davia esforçava-se por andar, até que as guardas vendo 
que elle já não podia sustcr-se, se poseram a arrastal-o 
desapiedadamente ao longo do caminho, 

. Além doestas fadigas horríveis, e doeste tratamento 
cheio de crueldade, não lhe deram durante a jornada, que 
foi de três dias, outro alimento senão uma pequena me- 
dida de leite \ de sorte qiie os mesmos gentios se admira- 
vam que tivesse podido resistir até ao iim, e os Christão!» 
o attribuiram a singular favor de Deus. 

Foi n'este lastimável estado, que este homem verda- 
deiramente apostólico chegou em 51 de janeiro aOrejour, 
Onde devia completar-se o seu mar ty rio. E' Orejour uma 
grande villa situada nas margens do rio Pambarou nos 
confins do principado de Maravá, e do reino de Tanjor. 



— 284 — 

Jjogo que Ouriardcven irmSo do cruel Rauganadadeveii, 
e ainda mais iiihuniano que elle, soube da chegada do 
"Servo de Deus, ordenou que o levassem á sua presença. 
Este bárbaro, de principio lhe deu favorável gasalhado. 
Estava elle havia alguns annos cego, e paralytico dos pé» 
€ mãos, e como tinha muitas vezes ouvido fallar das ma- 
ravilhas que Deus obrava pelo santo Evangelho, concebeu 
esperança de que o doutor da nova lei, tendo poder, nao 
'lhe recusaria uma graça que muitos outros tinham recebi- 
do. Por isso depois de lhe ter mostrado, muita benignidade 
-na primeira audiência, era que não se fallou senão de re- 
ligião, aooutro^dia lhe enviou todas as suas mulheres, 
que se prostraram aospes do confessor de Jesu Chr isto para 
lhe supplicar qucdésse saúde a seu marido. Masdespedin- 
do-as o P. Brilto sem lhes prometter cousa alguma, Ou- 
riardcven mandou-o chamar em particular para o empe- 
nhar a todo o preço a fazer este milagre em seu favor. 
Prometteu-lhe logo que se lhe concedesse o que pedia, nSò 
somente o tiraria do cárcere, e livraria da morte, mas Ihx; 
faria ricas dadivas, u Não são estas as promessas, lhe res> 
iipondeu o fervoroso Missionário, que poderiam obrigar- 
ei me a restituir-vos a saúde, Se isso estivera em meu po- 
«tder', nem imagineis que possa o medo da morte obrígar- 
ume ã tal. S($Deus, cujo poder é infinito, p6de coaceder- 
** vos essa graça» >» 

O bárbaro offendido com esta resposta, mandou logo 
que reconduzissem o prisioneixo ao seu cárcere, eque logo 
se aprestassem os instrumentos para osupplicio. Porém a 
execução differiu-se três dias, durante osquaes lhe minis- 
traram muito menos alimento do que era costume^ de 
sorte que se nao lhe abreviassem a morte com o ferro, te- 
ria certamente perecido de mingua e miséria. A três de 
fevereiro, que foi a véspera do seu martyrio, teve meio 
de me enviar uma carta dirigida a todos os padres d'esta 
missão, a qual guardo como preciosa reliquia. Na falta de 
pcnna c tinta serviu-se para escrever de uma palha e um 
pouco de carvão desfeito em agua. Eis aqui os próprios 
termos doesta carta. (E' a que vem a pagina 229). 

Era com estes sentimentos, c com esta grande cora- 
gem, que o homem de Deus esperava o momento do seu 
martírio. O tyranuo que linha recebido ordem expressa 
para logo o fazer morrer, vendo que nada podia obter para 
a sua cura, cnlregou-o a cinco algozes para o fazerem pe- 



— 285 — 

daços, eexpôr á vista do povo d<ipois de morto. A um tiro 
de mosquete distante do povoado tinham levantado nma 
grande cáfaca, ou espécie de poste muito alto no meio de 
um vasto descampado, que devia servir de theatro a este 
sanguinoso espectáculo. A quatro de fevereiro pelo meio 
dia, conduziram alli o Servo de Deus para consummar o 
seu sacrificio lia presença de grande multidão de povo que^ 
tinha acodido de toda a parte, logo que se espalhou no 
paiz a noticia da sua condemnaçao. Chegado ao logar do 
supplicio, pediu aos algozes que lhe concedessem um mo- 
mento para se recolher, o que lhe foi concedido. 'E logo 

-ajoelhando na prestiiça de todo este povo numeroso, virado 
•para o poste, a que o seu corpo separado da sua cabeça 
«devia ser pendurado, pareceu entrar cm profunda contera- 

. plaçao. E^ fácil de julgar quaes seriam então os sentimen- 
tos d'oste Santo religioso em tal occasiao, persuadido quo 
a poucos momentos iria gosar da gloria dos Santos, ejun- 

•tar-SQ para sempre ao seu Deus. Enterneceram-se tanto os 
gentios da terna devoção que parecia pintada em seu ro*- 
-to, que não poderam conter as lagrimas. Muitos d^elles 
<ihegaram a oondemnar altamente a crueldade usada com 
'este Santo homem. 

Depois de quasi um quarto de hora de oraçSo, levan< 
tou-se com o rosto tao risonho, que bem mostrava a sere- 
nidade e paz da sua alma \ e aprox.imando-se aos algozes 
•que se tinham nm pouco afastado, ábraçou-os 'todos de joe- 
lhos com tanto affecto e alegria, que os encheu de admi- 
ração. Depois levantando-se ; *< agora podeis, méusirraSos, 
lhes disse, podeis fazer de mim o que vos aprouver»» ac- 
crescerttando algumas palavras cheias de doçura e carida- 
de que ainda se nao poderam colher. Arremeçaram-se logo 
a elle os algozes, meio enebriados, e lhe rasgaram os ves- 
tidos, para pouparem o trabalho e tempo de lh'os despi- 
rem. Mas descobrindo o relicário que costumava trazer ao 
pescoço, fizeram pe atraz cheios de espanto, e dizendo uns 
para os outros que n*aquélla caixa pftr òerto sécóntínbain 
os encantos com que enfeitiçava os homens da sua nação 
que seguiam a sua doutrina, equebem sedfeviiim guardar 
(lelhc locarem para naoâcrera também seduzidos como os 
outros- Coiti este ridículo pensamento, umd'elles tomando 
o seu sabre para cortar o cordão que segurava o relicarro, 
fez ao Padre um profundo golpe, de que correu copfdso 
sangue. O fervoroso Missionário offerecou-o a Deus como 



— 286 — 

prifiiicias do sacrifício que estava para concluir. Emfini 
«»tes bárbaros persuadidos que os mágicos encantos dos 
christSos eram assas poderosos para resistirem aos golpes 
de seus montantes, fizeram vir um grande machado de que 
se scryiam cm seus pagodes para degolarem as victimas 
que immolavam aos ídolos. Depois d^ isto, lhe ataram uma 
corda á barba, e lh'a enlaçaram ao redor do corpo para 
fazer, pender a cabeça sobre o peito quando lhe descarre- 
gassem o golpe. 

O homem de Deus poz-se logo de joelhos diante do» 
algozes, e alevantando os olhos cas mãos para o ceu espe- 
rou n^esta postura a coroa domartyrio, quanda dois chris- 
tãos do Maravá, não podendo já conter o ardor que lhes 
abrazava os corações, romperam a multidão, e se foram 
deitar aos pes do Santo confessor, protestando quererem 
morrer coni o seu querido pastor, pois queelle se expunha 
com tanto zelo a morrer por elles; que a falta, se a havia 
da sua parte, era comçium aelles, eque por isso era just«> 
serem participantes com elle da pena. A coragem d'este» 
dois christâos causou estranho assombro a todo aquelle aj un- 
.tamento,e irritou os algozes. Mas nao se atrevendo adar- 
Ihes a morte sem ordem, apartaram-os d^alli, e depois de 
09 porem a bom recado, tornaram ao P.Britto, elhe cor- 
taram a cabeça. O seu corpo que naturalmente devia cair 
para diante, por estar inclinado para esse lado antes de 
receber o golpe, caiu todavia para o lado opposto com a 
cabeça que ainda tinha os olhos abertos e postos no ceu. 
Os algozes apressaram-se em Ih^a separar do tronco, com 
medo, diziam elles, de que por seus encantos achasse meio 
de a tornar a juntar. Cortaram-lhe depois pés e mãos, e 
ataram o corpo e a cabeça ao poste que alli estava levan- 
: tado, afim de ficar exposto á vista, e aos insultos dos ca- 
minhantes. Depois d Vst a execução os verdugos conduziram 
á presença do tyranno os dois christâos que tinham ido 
offerecer-se ao martyrio. Este bárbaro fez4hcs cortar os 
narizes eas orelhas, e os despediu ignominiosamente. Um 
d^elks chorando amargamente não ter tido a felicidade de 
dar ávida por Jesu Christo, tornou aologar dosupplicio, 
onde á sua vontade considerou as santas reliqulas \ e de- 
spois de ter recolhido devotamente os pés eas mãos que es- 
tavam dispersos pelo chão, oscollocou junto ao poste onde 
estavam a cabeça e o corpo, demorando-se alli algiim tem- 
po em oração antes de se retirar. 



— 287 — 

£is aq^ui, meus reverendos padres, qual foi o glorioso 
Im do nosso caro companheiro o K. P. Jouo de Britto. 
Havia largo tempo que suspirava por este termo, e final- 
mente o conseguiu. Como foi comeguaes desejos que tam- 
bém n<5s deixámos a Europa, e viemos parar á índia, es- 
peramos ter algum dia a mesma dita que coube a este Ser- 
vo de Deus. Aprasa a nosso Senhor Jesu Christo conceder- 
nos esta mercê, e que pela nossa parte lhe não ponhamos 
algum obstáculo. Achristandade do Maravá está reduzida 
á maior consternação pela perda do seu Santo Pastor. Jun- 
tai pois, cu vol-o supplico, ás nossas tatnbem as vossas ro- 
gativas^ para <jue o sangue do seu primeiro martyr lhe 
não seja inútil, e ache por intercessão doeste novo protec- 
tor, outros padres tao poderosos por suas obras e palavras 
como elle, os quaes sustentem, e acabem o que ellc tão 
gloriosamente encetara. 

No momento em que recebi a noticia da prisão do 
nosso glorioso confessor, piiz-me em. caminho para ir ao 
Maravá assistilo, e prestar-lhe todos os bons offícios de 
que sou capaz. Caminhava com extraordinária diligencia, 
e tinha já andado boa parte do caminho, quando me trou- 
xeram noticias certas do seu martírio. Resolvi passar adian- 
te, mas os christãos que me acompanhavam, e os mesmos 
gentios que estavam presentes, me representaram que se 
entrasse no Maravá, exporia esta christandade desolada a 
nova perseguição sem esperança de succcsso. Este receio 
me fez mudar de resolução, eretirei^mc para uma povoa- 
ção próxima, para estar mais prompto a soccorrer os que 
ainda estavam presos, e procurar recolher as relíquias do 
Santo Martj^r,.ou fazel-as enterrar decentemente. 

Se porventura achardes que vos mando menos noticias 
do que desejaríeis saber, estai certos pelo menos, que não 
vos communico cousa alguma que não indagasse primeiro 
de pessoas dignas de fé, que foram testemunhas oculares. 
Se puder ainda descobrir alguma cousa certa, nao deixarei 
de vol-a communicar. No entretanto encommendo-me aos 
vossos santos sacrificios, e sou com respeito 

Meus reverendos padres 

Vosso mui humilde c obediente servo cm J. C. 
Francisco Laynez 
da Companhia de Jesus. 

Da missão do Madure a 10 de fevereiro de 1693. 



288 



BO lELVATRE CEKTAME DO H. P. JoXo DE BRITTO^ PULO 

p. JoXo BAPTISTA Maldonado: 



Varie para a índia apesar de miiifas coniradic^òet. 



§. I. Tt^m por usança os raissionariof da índia, 
poucos dias antes de se partirem, ir ao paço beijar asreaea 
mãos, que eeste um dever por certo de gratidão, reveren- 
cia e fidelidade para com os monarchas portuguezes tâo 
beneméritos da Companhia, e fundadores muniiicentissi- 
mos das missões indianas. Kdepois emodiaaprasadosaem 
os novos missionários da índia do celeberrimo eollegio de 
S. Ântao acompanhados dos religiosos de Lisboa seus ir- 
fpaos de profissão, e em longa e bem ordenada procissão 
{mo conduzidos pelas praças de Lisboa até ás praias do 
■Tejo. Acode a ver este espectáculo crescida multidão de 
gente de todas as condições, divisando-se d'entre os outros 
os missionários da índia pelo Crucifixo que lhes pende do 
pescoço, e é como a divisa d'esta nova niilicia. Alli final- 
mente entre suavissimos affcctos e abundantes lagrimas se 
despedem de seus companheiros, dirigindo-se uns para as 
naus, e outros para casa. Mas o P. João antevendo n^es- 
tesr últimos officios de urbanidade grande moleftía, evi- 
tou-os occultando-se prudentemente. Raiou era fim o de- 
sejado dia da navegação, correndo já em meio o mez de 
oiitubro de I6T3, quando fazendo-se as naus na volta do 
©ccano, saiu scelle do esconderijo onde mansamente se fur- 
tara. Ia de conserva o P. Prospero InforcetUi, vice-procu- 
rador da missão chineza, que levava comsigo para a China 
missionários escolhidos : e assim o porto de Lisboa expedia 
á conversão das índias dois esquadrões de obreiros evan- 
gélicos. Feliz empório d'onde todos os annos saem tantas 
mercadorias evangélicas, que lá \ao enriquecer e alumiar 
o Oriente ! Com prospera navegação eventos de servir en- 
trava jâ o P. João de Britlo na zona tórrida, e se appro- 
ximava k linha equinoxial, que em breve esperava de 
passar. 



— 289 — 



Pálrceinio de 8, Pfandico Xatner. 



§. II. Mas uma atroz ealmaria-illudia toda a espe- 
rança nao permittindo avançar nem retroceder por muitçs 
dias. N^este entanto os redemoinhos submarinos açoutan- 
do continuamente a nau, a faziam resaltar com abalos e 
sacudimentos tão impetuosos^ e arfar com pendores e ba- 
lanços taes, que era grande o trabalho dos mareantes e 
passageiros em meio de tantas incommodidades. Além de 
que o intenso ardor do. sol, e oe maus vapores das aguas 
contaminaram primeiro os comestíveis, e depois os corpos, 
produzindo fastio, e febres mor taes, que levavam logo mui* 
tos ao extremo. Mínistrou-se a extrema uncçao a oite/ita, 
que a cada momento esperavam a morte. Divisava-se em 
todos um aspecto tão triste, que a nau parecia ter-se tor- 
nado um hospital^ ofierecendo ao ardente zelo do P. João 
dè Britto grande matéria para exercer a sua paciência e 
caridade. O contagio crescia tanto,,que perdida toda a es- 
perança de humanos soccorros, s6 restava o recurso ao di- 
vino auxilio. Assim todos unanimemente concordaram em 
tomar por intercessor para com Deus a S. Francisco Xa- 
vier, cuja caridade em perigos taes é mais que notçría, 
começando logo para esse fim uma novena. E foi tal o 
successo, que dentro em poucos dias passaram a linha, e 
recuperaram saúde quasi todos os moribundos, mas com 
tanta rapidez, que os médicos á bocca cheia confessavam, 
que eUe benefício da convalescencia devia unicamente at- 
tribuir-se a prodígio. Com o patrocínio pois do Santo Xa- 
vier velejava a nau prosperamente em demanda do cabo 
dè Boa Esperança* Porém, os ventos ponteiros que com rija 
fuTÍa sopravam na. altura do cabo, deram nova occasião 
ao mesmo patrocínio. Pçr muitos dias parecia insuper?iyel 
este promontório, quando D. Rodrigo da Cunha capitão 
da armada, que tudo obrava por conselho do P. Jpâo, pro- 
clamou que era mister recorrer de novo com uma novei^a 
a S. Francisco Xavier, promettendo 40 cruzados de prata 
ao primeiro piloto que dirigisse a proa para o Oriente. E 
logo obedecendo ao voto os ventos, a nau se fez na volta 
do ponto em que estavam fitos os ânimos de todos, ecom 
prestcsa tal e constância, que em breve tocou a ilha de 

37 



— 290-- 

Madagáscar, e foram feliimente surgir etn Goa no meE de 
•elembro, ondç em devota e concorrida procissão se diri- 
giram todos ao glorioso sepulcbro de S. Francisco Xavier 
para render graças ao Altíssimo. Resplendeceu então com 
estranhas mpstras a piedade do P. João, o qual como ar- 
dia em desejos da missSo, fazia ferventissimos rogos para 
á alcançar. 

Fréipara-te para a mwão» 



§. V.. E nao foi dè balde ^ porque passados cinfco 
meses no estudo da theologia, com permissão de seus su- 
{^eriores se sujeitou logo ao exame, a fim de quanto antea 
sé pdr acaminbo para a missão. Nao foi pouca a admira- 
ção de seus. mestres, ^uaudo se.offereceu a responder a to- 
das às questões da theòlogía universal, que saò ás mais 
dií&ceis. E nSo falhou o exíto do exame. Por quanto a 
'um ingetiho feliz Juntou tão discreta assiduidade no estu- 
do, que compendiosámente aprendeu muito, por se expe- 
dir mais depressa para a conversão dos ethnicos: e os seus 
ifnestres conhecendo a capacidade e o zelo do joven religio- 
so, cortando boa piarte do curso theologico se houveram com 
ellè benignamente. Como estava destinado pafa a missSo 
do Malabar, logo se poz a caminho. £ntre as missões in- 
dianas da Companhia de Jesus, iem a do Malabar a sin- 
gularidade de abranger quasi todas as missoescm què os 
dois apóstolos da índia, o grande S. Thora^, e o feeíu dis- 
cípulo S. Francisco Xavier andaram espalhando a semente 
da fé. Attestam a sua evaneelisaçSb os monumentos de 
santidade, e prodígios que alli deixaram estes dois pfé* 
goeiros do Evangelho, e bem assim as muitas igrejai por 
elles fundadas. Us sócios do Malabar seguem quanto po- 
dem os vestígios apostólicos, continuando a cultura dás an- 
tigas missões, e estendendo-a a novos campos. Eanhelando 
ardentemente o P. João por estas missões, tinha o fito es- 
pecialissimamente na do Madura, por ser muito abrolhada 
da trabalhos, e fecundissima cm frnctòs christSos. 



-%9l~ 

O quÉ é ú mitfSo ào Madure, 



í^. VL EbU. missão to;i)ou o sçu nopie e ofigem dn 
cidade do Madurej, a primeira do reino doeste nome na 
índia* Os seus confins porém não se limitam aosd^aquelle 
reino e cidade, porque se estendem aos reinos de Ginja^^ 
Tanjor, Velur, e Golocondá, aos qaaes pertencem Trichi- 
napali, e o principado do Marava, illustrado com o san- 
gue do P. João de firitto, e outros dominios de menor 
nomeada, comprehendendo, pelo menos, oitenta legqas de 
Ifititude de nascente a occidente, e duzentas de longitude 
de n^rte a sul. Grande exteusão na verdade se se conside- 
rar o pequeno numero de oporwos, e grandíssima se se 
ponderar na descommodidade dos caminhos, nos perigos 
de vida, na mingua de viveres, e nos perpétuos conflictos 
com os etbnicos, e finalmente nos muitos outros traball^ps^ 
ue ha ^ soflrer a cada passo. Deu cometo 4 esta missão o 
\ Robertp jNobili. .•.•••, o qual, considerando pruden» 
temente porque rasão desde o anno de 1540 o próprio S. 
Francisco Xavier, e seus companheiros, apesar de terem 
empregado o maior desvelo, não tinham podido reduzir 4 
fé de Christo um s^ brahmene, conheceu sapientementft 
que tal não ler^ devido tanto a ódio da fé, como da naj^ao, 
pois lhes desajçraflavam alguns costumes dos europeus, por 
cuja aversão fugjam tambçni de lhes seguir a religião. E 
na verdade não se pode explicar quanto aquelles ethnioos 
soberbissimos tèem os europeus em pouca conta, e em exe- 
cração já por muitas ainda que ridículas accusaçoes que 
lhes fazem, já porque matam e comem vaccas, que aquel- 
les povos horrorosamente cegos e delirantes teem em sum- 
ma veneração como a deuses. Assim pois oP. Nobili per- 
cebida toda a difficuldade doesta empresa, á tomou sobre 
seus hombros com aniino sobejo. Investigou cuidadosamente 
todas as historias, os ritos, as leis, a religião, as fabulas e 
iic$ôes d^aquel^t gentilidade. Despiu quanto pôde o homem 
europeu, e tomou o traje e os costumes dos indígenas. 9 
primeiramente imil^ou no exterior os rajás que têem gran« 
de reputação entro os Índios : porém esta industria nada 
aproveitou para a conversão das almas* Imitando depois 
os bral^m^encs seculares, vestiu-sie comoeUes com uma cor- 



t 



da de algodão de tríplice trança^ outiracollo pendente dos 
bombros, signal de bonra : ungiu a teata de sândalo, ou 
madeira cbeirosa , e finalmente deposto todo o género 
de côresy tornou-se em tudo um verdadeiro brahmene. 
D'c»t*arte conciliou a familiaridade e benevolência d'estes 
bomens, porém não alcançou convertel-os. Todavia, como 
cVa de grandes ânimos, sem embargo de soffrer duas re- 
pulsas, nâo |)erdeu as esperanças. Tentou nova metamor- 
phose, e do traje de brabmen^ secular passando-se para o 
de religioso, vettiu-Se de saniás penitente. Ossaniases es- 
t3to em Jevantado grau de reputação entre os hrahmenes : 
como mestres da lei professam uma vida alheia a todo o 
género de riquesas, honras, e prazeres \ contentam-se com 
uma comida diária de arroz, e ninguém lhes falia senSo 
de longe em signal de reverencia. Com este metbodo de 
vida, ganhou finalmente o P. Roberto muitos brahmenes 
para Christo ^ que tanto importa levar por diante com alen- 
tados ânimos aquillo que uma vez se tomou por empresa. 
Mas as piedosas industrias do P. Roberto, como parecia 
terem visos de superstição, encontraram muitas contrarieda- 
des ate em pessoas gravissimas, asquaes porem convenceu 
a sua sabedoria. De tão grande peso era estabelecer a mis- 
são do Madure, de que como teremos de fallar muitas ve- 
zes bastará ter tocado brevemente a sua origem, em quan- 
to seguimos o P. João de Britto, que para alli se encami- 
i^a a grandes passos. Sairá elle de Gòa com oito compa- 
nheiros, e chegara a Tanor, d^onde atravessando os rios 
que retalham campos e bosques, chegou aocollegio de Am- 
balagata no qual ficou esperando as ordens do seu provin- 
cial. 

Chega ao collegio de Amhalagaia» 



$. VII. £sta casa, que justamente se deve chamar 
o seminário dos missionários, está situada a pouca distan- 
cia dos montes, que por se estenderem por dilatado espaço 
cOni seus bastos picos têem a forma e o nome de serra. Estes' 
?iao os celebres montes de Angamale, cujos habitantes, ain- 
da hoje conservam à fé chirista que ha dezeseis séculos re- 
ceberam do apostolo S. Tbomé, o que é um dos maiores 
inánumentos dá Igreja cathoHca. E ainda que depois db 



— 493 — 

«cisma dos gregos, ca iram também elles em alguns erros, 
porquê eram instruídos por bispos arménios sujeitos ao 
patriarcfaa de Alexandria, todavia ainda no meio dos seus 
erros mostravam sempre claros vestígios da religião roma- 
na, conservando a forma do sacrifício debaixo de ambas 
as espécies, a adoração da cruz, ossuffragios pelos defunc- 
tos, o jejum quadragesimal, os venerandos ministérios do 
sacerdócio, e muitos outros signaes da antiga fe. . . . E foi 
tal a dignidade da igreja de Angamale desde o seu prin- 
cipio, já pela memoria do apostolo que a fundou, já pela 
multidão e prestancia dos fieis de que se compunha, que 
os seus prelados eram arcebispos e estendiam a sua juris- 
dicçâo até á China. Como porém importava muito pur- 
gal-a do scisma, D. Aleixo de Menezes, da sagrada or- 
dem de S. Agostinho, metropolita da índia, saiu de Goa 
no século passado para a visitar. E por quanto era dotado 
de muita caridade e saber, congregando alli um concilio, 
discutiu os erros, e reconciliou todo aquelle povo com o 
Summo Pontifíce Romano, entregando o seu futuro gover- 
no aos missionários da Companhia de Jesus dá província 
do Malabar. Foi este o fim da instituição do collegio de 
Ambálagata, onde os sacerdotes da Igreja de Angamale, 
chamados oassanares aprendem a língua syriaca na qual 
celebram os divinos mystetios conforme o antigo rito, esc 
* instruem cuidadosamente nas outras ceremoni as pertencen- 
tes ao seu ministério. E no tocante a este ponto releva no*' 
tar dois singulares exemplos doestes povos. Em quanto ob-' 
«ervam a quaresma nao sdmente se abstém de carne, ovos, 
iacticios, e todo o género de peixe, senSo também do be-' 
thel ou folha decerto arbusto, o que para elles é muito pe- 
noáopor ser á sua comida tão commum na índia e tão usada, 
que équasi ©continuo alimento, tanto para fortalecer o es- 
tômago, como para purificar do mau cheiro o hálito. JNas 
suas maiores festividades representam exactamente os ága- 
pes dos primitivos christãos, porque dispostos em longas 
fileiras esperam á porta do templo a comida do arroz, qué' 
se cose em grandíssimas caldeiras para sete ou oito mil pes- 
soas, cuja distribuição é feita por um cassanar depois de 
Tcsadas subre todos algumas orações. Tomada a' réfeíçSo, 
todos mní to alegres se dirigem ás próprias habitações en- 
tre reciprocas congratulações. 



— 29* 



Do eollegio iU Ambalagata paiU para SáiiamangiMlenn , 



$. VIII. Nem 8(5 a este seminário de Ambalagata 
>ie deve a educação dos sacerdotes, mas ainda a de muito» 
mancebos. Chegando alli o P. João de Britto, foi pelo P* 
Braz de Azevedo provincial do Malabar destinado á mis- 
são de Madure^ e depois de breve descauço, logo se pre- 
parou para a jornada* Vestiu-se de pandar, que entre o» 
Índios, pela austeridade de vida, sao muito estimados, e 
chamados penitentes. Ensinados por larga experiência os 
missionários, tiveram este traje por muito commodo para 
tratar com todas as seitas da Ihdía, e mais ainda que o 
de saniás por professarem estes uma vida separada do tra- 
to commum (l). Assim em quanto alguns para converte- 

(l) E' manifesta aqui a discrepância entre este auctor, 
e u da vida que publicamos : e o P. Franco no extracta 
que abaixo daremos diz^ que o B. João de Britto vestia 
de jogue, que quer dizer gentio que na índia oriental pe- 
regriOfi por penitencia ou motivos religiosos. N^ inteAde- 
mos que o habito de pandar pouca diíTerença faz do dtf 
ianiás, mas que alguma ha no methodo devida de uma e 
oatra classe de brahmenés. Que o B. Britto seguisse mai» 
aos saniases que aos pandares, inclinamo-nos a crel-o, por^ 
que é isto o que diz seu irmão, o qual devia sabeLo com 
certesa, e tel-o ouvido da bocca do seu próprio Bemavotf-» 
turado irmão ^ quando ao P. Maldonado não podemos at- 
tribuir egual certesa, porque segundo elle confessa tudo o 
que escreveu foi por informações aliás respeitáveis, nem 
nos consta que antes d^escrever a sua obra se empregasse 
* nas missões da índia. Alem de que parece-nos provável, 
que a experiência ensinaria aos missionários jesuítas da 
índia 4 seguir simultaneamente os ritos dos brahmenes 
pandares e saniases, e que por isso alguns auctores disse- 
ram que o B. João de Britto trajava e vivia como pan- 
dar, e outras que se conformava com o trajo c uso dos sa-* 
niases, sendo certo que para converter os ethnicos e con- 
servar a fé entre os christaos, um e outro methodo era ef- 
íleàcÍMimo. Bluteau dando no tomo II pag. 180, e 181 do 



— a9s — 

reiíi: os brahmenes, seguindo o exemplo do P. Koberto, 
trajam de saniás, outros pára mais facilmente' tratarem 
com iodqs^ imitam os panda res, e com feliz successo. E 
como na Índia é muito intenso o calor, todo este vestido 
consiste em um ou dois pannos decôr deaçafrâo, que, oa 
ande traçado pela cintura, ou caia dosliombros aodesdenii 
D ao tem forma alguma especial • Os missionários fazem do 
panâo doesta côr uma espécie de habito talar, cobrindo 
a cabeça com uma das pontas. Usam o cabello apanhado 
no alto da cabeça, eum pouco alevantado^ espadbam cin^- 
sa na testa, e pendurada dos hombròs costumam trazer at- 
guma pelle de animal, «obre uqual se recostam quer para 
se assentarem, quer para domúrem. Na mSo levam um 
bordão maior que o ordinário em signal de magistério. 
Andam quasi sempre com os pés descalços, e sò algumas 
vezes para mais gravidade usam de uma espécie de sola 
de madeira parecida com o que em portugucz chamamos 
tamancos. N^esta assentam a planta do pé sem correia ou 
ligadura, es6 segura por um prego de pau, que sobresain- 
do entre o dedo grande e o segundo, não a deixa cair : 
mas quando devem andar faaior caminho, descalçam os 
pés inteíiramente, eservém-se algumas vezes decavallo. Ao 
%*estido corresponde na simplicidade a comida, que é quasi 
toda de arroz, algumas bervas e legumes, e algum leite. 
'i\>da a sorte de animal é de todo banida da mesa e sus- 
tento dos pandares. Este teor de. vida dos missionários 
do Madure concilia para Deus admiravelmente os ânimos 
dos indianos. Nem pode haver cousa mais conforme com a 
imagem dos apóstolos, quanto o traje de pandar ^ mas a 
vida doestes missionários tem ainda mais conformidade com 
<» apóstolos, do que o seu vestido. 

Prepara-se para os minisUriot da musuo. 



$. IX* Chegaram felizmente á residencia^e Coley 

«eu erudito diceionario um interessante artigo «obre os 
trahmenefy nada diz, nem alli nem nas lettras competen- 
tes a respeito das duas classes de braiimenes a que nos re^ 
Sétimos. Noiã do Editor. 



—296 — 

na fronteira do reino de Ginja em véspera de S. Igna- 
cio. . . «Aqui o P.João de Britto tendo já a desejada op- 
portunidade de aprender a língua, e de se instruir me* 
Ihor nos costumes dos povos da índia, applicou-se com to- 
do o esmero ao estudo doestes e d^aquelía. E foi felicisst- 
mo, porque além da língua bagadar cujo uso lhe foi fácil, 
aprendeu perfeitáinenteathamul, que énecessarissinia, de 
modo que lhe era facillimo fallar, ler, e escrever nMta. 
'Nem saiu menos perfeito na noticia dos ritos, que os in- 
dígenas, e especialmente os brahmenes observam muito á 
risca. Esta noticia é tao necessária aos que se dedicam a 
esta missão, que aquelle que a não tiver, cuidando que fará 
«um beneficio aos cbristãos, não fará mais doquecavar-lhes 
a soa ruína. 

Traiase dos ritos indianos. 



§. X, Devem os missiqoarios dVstas regiã»es evitar 
o trato promíscuo com todos, grandes e pequenos, se não 
querem perder de todo oschristãos. Ha pouco correu gran- 
de risco de assim acontecer por causa de um noro missio- 
nários, que levado de zelo indiscreto quiz antes guiar-se 
pelo seu conselho, do que pelo de antiquíssimos inissiona- 
rios. E para dizer de passagem alguma cousa dos ritos in- 
dianos, é de saber que, pela tradição primordial d''estes 
povos, e juiso quasi irrefragavel, três são eutre os índios 
as castas honestas de homens, cada uma das quaes é mais 
nobre que a outra. Na primeira collocam-se a si mesmos 
os brahmenes, como aquelles que se dizem nascidos da ca- 
beça do deus Bruma. Esta opinião afôrmam elles, como 
saída de algum oráculo, não menos ridiculamente do que 
aquelles que dizem fabulosa mente, que Minerva nasceu do 
cérebro de Júpiter. Este delírio porém passou já entre os 
indianos como em axioma de eterna verdade .- de sorte 
que querem ser tidos acima de todos como nobres, liltera- 
tos, e sábios^ etaes são vulgarmente reputados os brahme- 
nes. Por isso elles desdenham todos osoffícios mechanicosy 
e HÓ attendem ao serviço dos pagodes, e dos deuses, e a 
promover as rendas do culto, como acontece especialmente 
.HO Malabar ^ e neutras partes também tratam de negó- 
cios civis, afiectam o regime militar, mas sobre tudo seu 



— 297 — 

mister é apregoar as fabulas da sua lei^ e «nganar admt* 
ravelmente o povo. No segando grau de nobresa estam os 
rajás, oamagnatas, os quaes. porque diiem ter origem dx^ 
faombros de Bruna, teem ama nobtesa algum ,fanto infe- 
rior. A^ terceira pertencem os chustres, isto é, todos q6 
que nascem das canelas epeft de: Bruma. Está classe como 
énumerosissima sabdivide-sc emínnameraveis ordens, to- 
das distinctas umas das ostras por algum grau de hones- 
tidade, posto que todas se reputem graves ehopestas aseit 
modo. r^^esta teem o seu logar òs que exercem a agricul* 
tura, e o comméroio, os tecelões, os militares, os ourives, 
os ferreiros, os carpinteiros, e outros. A oàda um doestes 
graus correspondem privilégios particulares, e na« pode 
algoem sair doe limites do seu grau e coádiçâq, para se 
passar a outra classe. Assim nao pode o ferreiro faaer*se 
ourives, nem o carpinteiro trabalhar ferro ^ cada um deve 
estar contente coni a sorte que tevê quando nasceu. Eesta 
tao immudavel variedade de estados, ainda que a um eu- 
ropeu parece indigna da liberdade humana, todavia entre 
os^ indianos posto que é riddcolo passou já como em natu- 
resa. Doestas três classes, sao excluídos, como uma casta 
d« 'homens infames e a escoria viiissinia da plebe, aquelles 
t|Ue entre os índios por opprobrio sao chamados pariás, c 
fot isso obrigados a viver como leprosos separados da ha- 
bitação Gommum. E é tSo grande ignominia cohabltar, 
comer,' ou tratar familiarmente com elles, que por este 
crime quem o pratica é degradado da dignidade da sua 
casta. Todavia esta gente assim como e muito despresivel 
aos olhos do mundo^ assim e muito apta para o reino de 
Deus, e nuroerosissiraa \ por onde acontece que se conver- 
tem muitos mais da sua casta, do que das outras seitas in- 
dianas. Mas os missionários usam grandes cautelas e mo- 
deração, para nao parecer que com as outras castas hones- 
tas^ querem misturar a abjectíssima dos pariás^ porque 
dWtra sorte cairia todo o edifício da religião christã. 
Tendo por tanto visto o que são as castas de família, re- 
lataremos n^outra parte o que são as seitas religiosas . 



Dai seitas religiosas da índia. 

4. XVIJÍ, Aqui de passagem convém saber, que es 

38 



— 298 — 

brahmenes ministros da religião na índia est£^belecem a 
existência de algum deus supremo com attributos taes, 
que facilmente se conhece terem os Índios recebido ou de 
S. Thomé, ou dos antigos. hebreus noticia do verdadeiro 
Deus. Mas se a tiveram da verdadeira divindade, caíram 
em ficções tâo absurdas, tão torpes e execrandas, que des- 
troem insensatamente aquillo mesmo que estabelecem . Pois 
além de supporem deuses sem fim, apregoam n^elles cri- 
mes taes, que forçoso é chamal-os não deuses mas antes he*^ 
diondissimos monstros de impiedade. Horrororisa-me o ani- 
mo em revolver este charco de immundicies, e por isso 
bastará o que fica dito. Alem do supremo deus que envol- 
vem em um abysmo dVscuridade., imaginam três deuses 
corpóreos, a saber. Bruma, Visnu e Xiven. Ao primeiro 
como progenitor dos outros attribuem a creaçao do mun- 
do, ao segundo a conservação, ao terceiro a destruição. 
Sendo pois estas três divindades em subido grau de vene- 
ração entre os Índios, é para admirar como toda a -sua reli- 
gião se divide primeiramente só em duas seita», isto é, 
na que segue aVisnú, ena outra que pertinaemenleadhere 
a Xiven : uma e outra são entre si contrarias, negando os 
que seguem aVisnii que Xiven é deus, e os que ceguem a 
Xiven que o seja Visnu.. Debaixo dVstas duas seitafi pui- 
lulam outras innumeraveis. Entre estas a seita de Lingan, 
que pertence á dos que adherem a Xiven, mostra horro- 
rosamente a sua impudência a toda a honestidade. 



Sua chegada a Lisboa» 



$. XXX. VI. Logo que desembarcou da nau, dirigiu- 
se aocollegio de Lisboa, aonde assim que afama espalhou 
a noticia da sua chegada, concorreu grande numero de pes- 
soas da primeira nobresa para lhe darem os parabéns da 
sua vinda, depois de tantos perigos de terra emar. Muitas 
foram as perguntas que lhe foram feitas sobre cousas cu-- 
riosas, como costuma acontecer aos que vêem do novo mun- 
do, onde tudo parece peregrino aos europeus. E querendo 
o P. João de Britto satisfazer a todos, mas não podendo 
responder brevemente a tantas perguntas e congratulações 
(pois as perguntas e os parabéns, e o desejo de fallar e sa- 



299 — 



ber cada dia augmentava), apenas houve noticia da carta 
que escrevera do cárcere do Maravá ao P. provincial, in- 
fórmandò-o do seu estado, cresceu prodigiosamente a sua 
reputação, ainda que n'ella se falia mui parcamente áos 
trabalhos que padecia (l). 



Benevolência do rei para com o P. João de líriíto» 



§. XXXVIII. Elsta carta era já conhecida, esem o 
P. João o saber corria pelas mãos de muitos : por onde 
muito subiu em veneração o seu nome, como o de um va- 
rão que generosamente confessara o nome de Chrísto entre 
os tjrannos. Mas logo que foi ao paço, aonde os reaes fa- 
vores o obrigaram a comparecer, apenas se pode dizer com 
que affecto e veneração foi recebido por el-rei e pela rai- 
nha. £ra el-rei muito seu affeiçòado desde a meninice; e 
como contra sua vontade o deixara partir para a índia, 
assim vendo-o regressar o recebeu com os mais abonados 
testemunhos de amor e benevolência. A rainha porém por 
quanto o venerava como martyr, quiz que celebrasse na 
capeila do paço para satisfazer á sua piedade ounndo a sua 
missa, e recebendo de suas mXos a sagrada communhao^ £ 
não concorria pouco b habito de pandar, que vestia segun- 
do a opportunidade para representar de missionário do 
Madure, no que se lhe notava um não sei que de apostó- 
lico. Mas o seu teor de vida sobrelevava muito ao trajo 
de missionário. 



Observa o mesmo ieor de vida que costumava na 
sua missão. 



§. XXXIX. Desde que saiu da missão até ao seu 
regresso, por mar e por terra, usou sempre dos mesmos 
alimentos, contentaiido-se com arroz, lacticiníos, agua, 

(1) Esta é a carta que fica a pag. 227. 

Nota do Editor* 



— 300 — 

hervas, -e legumes. De sorte que, desde que se passou dos 
bosques do Maravá para a xpetropole de Portugal, ueuhuma , 
outra novidade se lhe notou senão o habito, talar, da Com- 
panhia, conservándo-se em tudo o mais um verdadeiro 
missionário do Madure, o que áquelles que pensara justa- 
mente indica grande constância de animo. Sendo convi- 
dado para a mesa do Núncio apostólico, e nao podendo es- 
cusar-se, nem afastar se da abstinência proposta, o sapien- 
tjssimo prelado ordenou, que toda a comida fosse de tal 
maneira feita e adubada, que nâo faltando em nada á di- 
gnidade da sua pessoa, em nada também encontrasse a 
cpstumada abstinência do P. Missionaria (1). 



luiher alidade d^el-rei a favor da missão madurense. 



^. XLI. Depois deter juntado alguns sócios, dèu-se 
o bom proeuradof asollicitar os meios necessários para os 
missionários no tocante aoviattco tanto na viagem, como 
na missão. Mas a piedade d^el-rei D. Pedro II livrou ao 
Padre d.^essá anciedade, pois além das rendas costumadas 
que a antiga munificência dos reis de Portugal consignou 
para os missionários, poz com especial aflecto debai^xo da 
sua especial protecção como sua própria a missão do Ma- 
dure. 



Sobre as varias indagações feitas ao V, Padre. I}a pesca 
das pérolas* 



§. XLII. N'este emtanto a continua conversação 
com os amigos, pedia resposta ás varias perguntas que se 
lhe faziam, ás quaes o Padre João de Britto respondia o 
seguinte. Os habitantes da costa da Pescaria no cabo Co- 

( l) Este Núncio era Mgr. Niccolini Arcebispo de Rbo- 
des, que residiu como tal em Lisboa desde julho de IfifiC 
até setembro de 1690, em que passou oomo Núncio á corte 
de França, e morreu brevemente. 



— 30t^ 

moúuXf ai^uem chamam paravas, exercem e^ia* arte.çsojad 
p];efece];icia a. tQdos os. outros povos da índia. S. Fxanci^p 
Xavier doytrinou^os na noticia de Christo, e com.m«^itos 
prodígios robu»teçeu-os. na fé. For isso esforçai^dorse ba 
pouco um ministro protestante casado em perverter aquel- 
les povos^ pois bem lhe disseram, resusçitae os mortos oo* 
mo o nosso apostolo, e s6 então abandonaremos a fé que. 
elle gravou em nossos corações. Porem sabei, que nem 
aquelie nosso Thauipaturgo, nem os seus vigario!^ que nos 
assistem, trazem comsigo mulher e filhos, como vós que 
vos inculcaes por doutor de uma nova lei. De sorte que 
aquelie ministro, a esta resposta corrido e cheio de pejo, se 
retirou, conhecendo que dos paravas catholicos romanos e 
firmissimos nada havia a esperar. Ora estes ha])itantes 
quando se aprestam p^f^ sl sua. pesca, que é muito peri- 
gosa, purificam primeiro a alma no. sacramento da peni» 
tencia : depois demandando 09 seus barcos, atani.aps p^s . 
iimu pçdra (dp que mal chegam ao fundo do m^r se desprec^ ; 
dem], eá ciatura uma corda com. uipa rede qu^ Ihespen- ^ 
de do ventre. Logo se precipitam ao fundo do mar, ecom 
qpanta prçstesa podçm, lançam na rede asjconçhas que pp-' 
dem eucoutrar. ^ quando se julgam bastante carrfigadoft, 
pux^ma Qorda para indicar a seus companheiros^ ,que os 
devem alar do fundo do mar* Com a, attracção do ca^^ 
e ajudados. da própria natação. surgem do mar, eWolaur 
çam a agua, de que apenas podem. evitar o beBer. alguma 
porção. Porem se topam n^algu ma arraia, oun^outrppei^e. 
devorador, ou os companheiros, como ás vejses acontece^ [ 
occupados em recolher, furtivamente as pérolas, deixam de 
os içar com a devida celeridadp, perdidp está o pobre p^* 
cador. Depois põem ao sol ast:Q^ichas, a cujos raios abrin- 
do-se, appareçe o que n^ellas se qcculta. 



Da bmca dos diamantes. 



§. XLIII. lAdagavam qutro^ oiv^odo como norieiii^, 
de Golocondá se extrahem os diamantç^^ se estão pf^ados, 
aos rochedos ou escondidos nas suas entranhas, e porque mo- 
do emfím os recolhem. A esta pergunta tanto mais de boa- 
mente respondeu, quanto mais utii era para esclarecer a ce- 



— 302 — 

^eira dos homens... E^ de saber poriaiito que os diamantes 
acham-se no seio da terra, por cujo fim paga-se certa quan- 
tia para cavar certa porção de terreno. Feito o preço, 
cada um com o maior cuidado que pode investiga a que 
lhe foi designada. Os que encontram diamantes regosijam- 
se com a sua sorte, porém os que os não acham voltam 
do lea trabalho com as mãos vasias. 



Da. infame seita dos pariás^ 



f. XLIV. Mas diziam outros, que mal se podia per- 
ceber porque os pariás são tão abominados entre os ín- 
dios. Porventura, perguntavam, são elles tão desasisados 
e tSo incapazes de tudo, que nenhum vestígio tenham de 
homem f A isto respondia o Padre, pelo que vos vou di- 
tér vereis como os homens se deixam levar obstinadamente 
ap^s de um phantasmá ainda que ridículo, quando são guia- 
dos pelo costume e não pela razão. Se é mister cultivar 
um campo, eencelleirar uma seara, ainda os mais nobres 
se confundem com esses a quem chamam pariás. Muitas 
vezes para se curarem chamam a médicos pariás, pois ha 
entre elles alguns excellentes n'esta arte. Ha também en- 
tre elles alguns litteratos, e peritos nos mysterios da lín- 
;ua grandonica, que é tida em conta da mais antiga da 
ndia, e de mãe de todos os idiomas d*aquelles povos. Con- 
servam-se desde tempos antiquíssimos os seus dogmas gra- 
vados com ponteiro de ferro em folhas de palmas silves- 
tres. Este costume de escrever está em grande vigor não 
so entre os indianos, senão támbem' entre os peguanos, os 
siamenses, e os cambaianos. Estas folhas passadas por uma 
cordinha as apertam com dois paus, e assim formam seus 
livros: e quando os querem abrir desatam os paus, e ficam 

Ç>r sua ordem patentes as folhas, eem estado de se lerem, 
udo isto sabem os pariás, eem muitas outras cousas mos- 
tram o seu ingenho : porém por um único exemplo, que 
tete muitos outros similhantes, se poderá conhecer em quan- 
ta abominação são tidos estes homens i 



i; 



— 303 — 



Preva-se com um exemplo em quanto detpreto e horror 
é tida esta seita. 



$. XLV. Alguns ÍDÍmigos fraudulentos das nossas 
missões, haviam feito subir repetidas instâncias apresenta 
do rei de Travancor, para que nos expulsasse de todo dos 
seus domínios, e aos rogos juntaram também a promessa 
de dadivas, com que se vencem os cofaçoes ainda os mais 
endurecidos. Parecia /^ue o rei tinha annuido ao seu pe- 
dido, ao menos na apparencia. Mandaram {x>rtaiito com 
pompa os donativos a palácio '^ porém os que os levavam 
«ram da infame seita dos pariás. Assim que entraram no 
primeiro vestíbulo da real habitação, logo se alevantou 
um alarido como se houvera luna iiicursSo de inin;tigos : 
os pariás no palácio, os pariás no palácio, clamam voz em 
grita os dVl-rei. A este clamor, como aumsignal de guer- 
ra, acodem de toda a parte os fâmulos, as sentioellas e 
soldados, e arremettendo a elles eom armas e paus tenta- 
ram lazer d^ elles completa destruição. Porém estes, aban- 
donados os presentes, mais velozes que o vento fugiram. 
Mas nâo foi pouca a indignação do rei contra os que in- 
troduziram no palácio os pariás, resultando d 'aqui que os 
nossos inimigos, perdidos os donativos por causa dos pa- 
riás, só reportaram d^aquella negociação muita in^mia. 



São recolhidas as retiquias do P, João de BritiOy e guarr 
dadas em, Pondichery* 



LXVI. As principaes relíquias do V. Padre foram 
recolhidas como se pôde. Porém o cutello, o bordão, e a 
túnica nem com muito ouro foi possível resgatar dos gen- 
tios, porque diziam, que por meio doestes instrumentos se 
livravam de ser infestados pelos demónios» As principaes 
pois mandou o P. Francisco Laynes selladas com o seu 
sello para Pondichery ao director, eao R. P. GuidonTa- 
chard para que as guardassem, e alli se conservam enter- 
radas na sacristia da Igreja da Companhia. Assistiram a 



— 304 — 

esta condacçâo cinco christáos, três doa quaes eram lun 
cateefaista, e um menino, que tinham estado no cárcere 
presos com o R. Padre, e outro um que esperando morrer 
cora elle, soffreu mais dura pena que a mesma morte, a 
mutilação. 

Caracter do P, João de Britto, 



§. LXVII. Era o P. JoSo de Britto de corpo de- 
iioado e não robusto^ d'e&tatara um pouco baixa, de in- 
'4kAe Dobre, e de rosto um pouco comprido. Tinha o nariz 
^oporcionado, os olhos pequenos, mas vivazes e serenos, 
dbé quaés confio de todo o semblante respirava suavissima 
ãífabilidáde. A âua falia era branda, os cabellos pretos, a 
barba comprida e basta porém já um pouco encanecida. 
O roisto de sua natureea alvo, tinha-se feito um pouco tri^ 
gueiro cotai o ardor do sol. Em pequeno corpo tinha uma 
àlnia grande •, era vivo de ingenho, e maduro de jniso, de 
ihuita reflexão, prompto em pôr por obra qualquer em- 
presa, intrépido em todos os trabalhos, benévolo, liberal, 
«generoso. Se pelos indicios humatios sé pode alguma coosa 
conjecturar do thesouro da divina graça, havia nVHé uma 
caridade insaciável eiiidefessa, á qual estavam subordina- 
das e serviam todas as outras virtudes. Tinha grande sa- 
piência noqué dizia respeito a procurar o ultimo fim, sum- 
ma prudência em applicar os meios convenientes, graiide 
ardor nas obras, efortissima paciência era soffrer ; e sobre 
tudo isto tanta puresa de consciência, que aquelles que o 
tratavam no tribunal da penitencia apenas lhe achavam 
matéria para a absolvição. Tinha sempre a Deus tão pre- 
sente na sua alma, e estimava-o e amava tanto, que por 
sua gloria ardia em Íntimos desejos de dar a vida. 



N, B. N ^68 tes extractos seguimos a numeração dos §$ 
d^onde são extrahidos. 

O Edilor, 



303 — 



t>À IMA6KM DWIRTODE PEIO P. ANTÓNIO PR ANCO, 
PAO>T55 A «4^. 



...»<. O óubiculo cm que morou em Évora no Kt- 
ceàhimetitOy que é o primeiro do sçgundo corredor, e eae 
para opateo como todos os mais, se chama hoje com o 
nome doeste Sasto Martyr: n^elle sepoz lettreiro em qu« 
se dis como alli morou. Ainda quando esta escrevo éviiK> 
o padre que foi alli se^ companheiro n^aquelle cubicida; 
a elle mesmo o ouvi dizer algumas vezes (1). Nfio é raaSo 



(i) Bem dizia o P. Franco, porém elle nSo calculava, 
que este reino havia de soflTrer uma assolação pouco d is- 
similhante das dos alanos, suevos, e mouros. No tocan- 
te ao ponto de que se trata temos as provas na resposta 
que tivemos d^Évora, para onde escrevemos a um res- 
peitável ecciesiastico pedindo que nos dissesse se aind» 
se conservava no coUegio que alli tiveram os jesuítas a 
memoria a que se refere oauetor. For quanto nos diz ellè, 
qiie aquelle collegio tendo sido doado pela extíncçSo da 
Companhia aos religiosos franciscanos da Terceira Or- 
dem da Penitencia, vulgo borras, estes o habitaram até o 
anno de 1834, em que as memorias que ainda alH se con- 
servavam dos jesgitas acabaram pelo roubo epela comple- 
ta devastação. Pelo roubo porque tudo o que alli havia 
desappareceu, até a livraria: pela devastação porque tendo 
sido aquella magnifica casa, obra do sumptuoso cardealin- 
fante D.Henrique quealU creou uma insigne universida- 

. de, destinada para diflerentes repartições publicas, e quar- 
tel de tropa, fizejram^ desapparccer a sua antiga forma ip« 

. terjor, para a acçpmmodar aos novos destinos a que fot 
appUcada. Do nome, ou cubículo que fora do B. João de 
Britto nenhuma noticia existe : apenas em um corredor 
mais alto que se diz fora o noviciado dos jesuítas, ainda ^ 
existe um cubiculo com lettreiro por cima da porta com 
lettras grandes e bem intelligíveís, que diz ter sido aquelle 
o aposento de S. Francisco de Borja, e no lado fronteiro 
uma capellinha em que este Santo se recolhia a fasier 
oração. 

Mas não são su estes os vestígios das vicissitudes mo- 

39 



— 306 — 

que deixemos esquecer estas memorias, .que tanto servem 
para afervorar, e pelas quaes suspiram os vindouros, assim 
como nós agora suspiramos pelas de muitos homens san- 
tos, que por descuido dos antepassados nos faltam. 

Na cidade lhe fez grandes honras oillm.^ sr. 

D» Jòao de Soilksa bispô da m^sma cidade^ e muito partí- 
"Wlár amigo do P. BrittOj por serem as famílias de ám- 
'béS éèfvidoràà da re&Lcasá d^Bra^áit^v Vestiu-s« m>.aqu 
"twjé dé jogue, e fei as mais eeremoniãs diante do bispo 
líá rairánda do còHegio éo Porto, qire èlle viu com grsm^ 
éè^ mostras de pibdade, edifican^o^se e chorando de coii- 
^••èlaçffo dever, qué se sujeitava atai vida e traje por amor 
de Deus, e lhe deu mui boas esmolas para a sua-missão. 
TAltibem em oUtros dias por dar gosto ;ao cabido, aos se* 
liborea da ca mana, c aos desembargadores da relaçãç, que 
Ifibdos .IK^o. mereciam^ fez as mesriías cerenionias diante 
.d^etififl^ qae fizera diante do senhor bispa. - 

.iQtuAndo chegou aocoUegio do Porto, querendo osp?- 

„drès la¥ar4he os pea, o não consentiu \ ma^ n^o^ se ^ôde 

^livrar dje tio ia irmãos coadjutores, que c^m grandes inÍ9- 

.IHncias lhe rogaram lliesdésse a consolação de lavarem u^s 

npéa <juo estiveram aferrolhados em grilhões pela fe : não 

^fôde. resistir, dizendo que havia muitos annos nSo tivera 

slnoilhanté álltvio.. Depois lhe beíjarani os Vincos dos gri- 

ibdeS) .e os signaes das fontes que se lhe fecharam por fis 

níjo poder curar em a prisão. por ter algemadas as. mãos*, 

* è dizia o -Santo Pad^e que depois de fechadas tivera me- 

«e^has qiife sotfréu à muito hobre cidade d^OEvorà, com to- 
^ a'í míâis cidades e terras do rèlnò. Como se n3o fora 
3* Ba'8fa;nte sensível a falta da sua aiitiga tmiversidâde, 
ífiòfetfebre nos fastos das seiencias cdas lettrás, depois de 
jrfi^4 pbr niuitòs anhos esteve privada dos estabelccimeo- 
uH deihstruççaò indispensáveis ii^ulma^éde metropolitana, 
e capital déúhía província abastada. A qliem nao óòrrerao 
ás lágrimas ém baga pélas faces entrando ha Igrfeja. uos 
Cartuxos onde uin commissario do próprio governo cdrtpu 
á canivete (?)Vos famosos quadros (que depois desapparte- 
Jtferàm') da vida deS, Bruno quç ém ficas molduras, 'qVie 
áiiidâi la estão para attestár o vandalismo moderno^ guar- 
neciam toda a igreja? O Editor, 



Ibor Mude, e que elle mesmo pasmava da saúde t forcas 
qúé ífentia nos seus ínaTtyríòsr '' '"' 

. . . i . . N^esta occasiao vinjos os que estávamos nò^ 
sàiyfò collegio d'EvtiT'a aqueíle homem, de queion tias Annulíft 
dá Cfempãilhiafihhambs ouvido ler qua^i tudo o'qU^'fick 
escrito, é com jraiitíé cônsoluçHo abraçáriaos tão satíto 'hos<r 
pede, Sb o ouVinioi prâtieat â communldade lià tóipella áó' 
colWgk)'^ ' c ao^dépoirf ^estir-se n^aqãelles seuS andrajos ao 
iBpdo X^vte andava 'tía súa' missão, e assim vestido appareceu' 
ou ei>trótf'pdá capella dentro, em que assistia a coínrtfíi-' 
nidadè pára- ver tãò santo espectáculo, oqualellfecômâgra-' 
<fo'<íé todos representou corfi as ceremonias que se usam' 
iías'pYDVhicias de que era missiohariol Aqui o ouviríroa' 
conversar muitas vezes, epodia-se eíle ouvir, porque nada' 
tipha ú^ molesto, antes era muifo desenfastiaâo nas suai' 
prátijcaç;^ p trato lucundò e agradável; singulat áffiTabilit* 
tfádé no áeu motjo sem género algutn de soberania affee- 
tá^a*, icpmestejs bgns áccidentes sefafeia a sua vii^tude ajma^ 
d^ gçjrâi mente de todos. 

' ' ^lôròa as duas vezes que esteve n^este coUegio, uma' 
eiú ò CiíbiCufo ■ ão p. reitor que então estava dé vago, a 
outra nó ultitno cubicuío do corredor novo que caé^|rd ira o" 
poente, e agora serve dea^coba ao cubículo do 'P-, provift-' 
ciál./NSo pareçam escusadas estas meudesas aquém asler| 
que sSo grandes despertadores pára a virtudej ou aoá-òtré- 
entram' nos taes cubículos, ou aos qué moram ii*elle8;'è' 
muito mais se os servos de Deus que alli moraram^ cbe-t.* 
gatem ^' ter o culto público da Igreja, que esperaínòs nfto 
faltará ^ este glorioso Martyr*, por quanto poucos ou ne- 
nhuns da Companhia tèem mais abonados juridicamente* 
ós prôcès5t>3 para a çanohisação *, que foi este o maior çtja^'*^ 
penlio de seu grande amigo' o P. João da Costa, quando 
cá veiu da èaa mjssao éfòí a Roma por procurador do Mi^-' 
labar, é com razSo se gjoriava muito de lhe ter feito este* 
serviço. Na mesa s6 comia d*aquellas coòsas quelácomer^ 
ná sua missão, com,o beryas, frutas e lacticinios, guardan-' 
dp em quanto cá andou n'*^sta matéria o mfesmo rigor que 
lá tinha. ' . , ' 

f*\» €taem lendo esta. vida e inortç ào Santo ]pV 
ÍòSq de ÍBf itto, deixará devcnetar n'èstè illustrissinio IVFàT- 
tyr um trápsú^ptod^aquellcs glandes mestres da 'Igreja, 
ós santos Ápostoíos, cujos empregos tSo apostadamente imi- 
tou •, .acpmpanhando esta sua vida apostólica de todas at 



— 308 — 

virtudes com que ella costuma andar acompanhada f â.u« 
i^umildade tão profunda, pois não queria cousa que cedesse 
em honra sua ? . . . • Doesta humildade nasceu também o de- 
sejo que tinha de salvar almas, aquelia santa constaacia 
que teve em fugir das honras para que os sereníssimos reis 
o queriam em Portugal. ... Ao P. João da Costa escre- 
veu das suas missões = «( Eu sempre disse a V. R. , que 
«(uão havia de tornar a Portugal: eu quero mais o ceu, 
«(que a terra, mais os mattos de Madure, que o paço de 
a Portugal. 9» = Das quaes palavra e certeza com que tt 
diz, parece que o Santo Padre tinha noticia superior de 
que não havia de voltar ao reino, ainda que S. M. lhe 
dissera que d''aUi adoisannos o havia demandar chamar; 
e. em efféito ainda no anno de 1692, que foi oautecedents 
ao seu marty rio, lidou a rainha n^este ponto, e sobre elle 
escreveu da sua parte seu confessor o P. Leopoldo Fués ao 
R. P. geral, para que mandasse vir da índia o P. João 
de Britto ^ d^onde se infere que nSo podia elle ter lá o ul- 
timo desengano das vontades reaes, pois a carta do R.P. 
geral para o P. Leopoldo foi dado em Roma aos 30 de 
setembro de 1692, e chegou a Portugal dois meses emeio 
«ntes da morte do Santo Padre. 

Com que palavras se poderá encarecer a grande con- 
fiança, que teve em Deus, não fugindo aos perigos, hias 
mettendo-se u^elles quando era necessário para sua maior 
gloria? (1) 

O P. Jeronymo Telles, de que acima se fez ncicnção, 
missionário também do Madure, e de quem o Santo Mar- 
tyr João de Britto cá em o reino disse escrevendo a um 
seu irmão da nossa Companhia : u O P. Jeronymo Telles 
ué hoje o melhor missionário, que tem a missão, e fas 
««muitos e muito grandes serviços a Deus nosso Senhor, á 
«•Igreja, e á Companhia; V. R. pode dar muitas graça» 
ua Deus deter tal irmão, porque é uni santo :» escreven- 
do a seu irmão em carta aos 4 de agosto de 1684, diz as- 
sim fallando do P. João de Britto: w As novas doesta mis- 
fcsão vão na Ânnua que eu tresladei por m^o pedir o P. 
u João de Britto. insigne missionário, o qual sendo tão il- 
« lustre corre todos estes reinos a pé descalço com tanto 
««desejo de acodir aos christãos, e aos que se convertem, 
«que me parece um verdadeiro retrato do Santo Xavier.» 

(1) Vide a carta a pag. 226. O Edilor. 



— 309 — 

£m outra dada em 3 de janeiro de 1687 quando o 
Santo Padre havia de vir ao reino por procurador, diias-' 
•im escrevendo ao mesmo irmSo : m Já lhe escrevi por via' 
u de Goa, mas porque depois d^isso succedeu a eleição do 
«(procurador geral a Roma, ^ço esta por via de França^ 
«( pois para Goa já nao é tempo, para significar em como 
«ivae o P. João de Britto varão verdadeiramente aposto- 
mUco, e insigne sujeito em toda a matéria, que desde que 
(« veiu comigo doesse reino, esteve sempre n^^esta missão, 
«t que augmentou extraordinariamente a custa de infinitot 
<t trabalhos, e horriveis perseguições, e por ultimo sendo 
M superior d^ella s<5 usou de seus poderes para alliviar aot 
««outros, e mortificar-se mais a si, andando sempre em 
««uma roda viva, e mettendo-se nos maiores perigos para 
«( salvar as almas, e exaltar a fé de Christo, por amor da 
««(jual foi preso muitas vezes, e padeceu infinitos marty» 
«* rios : a este famoso mis^ionario e grande apostolo de nos* 
usos tempos, devo eu, além de infinitas obrigações » in- 
i4 numeráveis favores, um aifecto extraordinário. »« 

O mesmo em outra carta faltando do Santo Martyr, 
e do incançavel zelo, com que trabalhava, diz que o P. 
João de Britto se havia no zelo das almas e trabalhos por 
as salvar tão incançavelmente, que não sabia que S.Fran- 
cisco Xavier se houvesse com mais fervor n^estas matérias. 
Refiro os ditos doeste padre, que como era testemunha, e 
tão abonada dos apostólicos empregos d*este Santo Mar- 
tyr, não tenho para mim que fatiava tanto levado do af* 
fecto que lhe merecia este, quanto pelo que julgava do agi- 
gantado espirito com que indefessamenie procurava a sal- 
vação das almas, á imitação do grande Apostolo do Orien- 
te, de quem foi um dos maiores imitadores que teVe a Com- 
panhia nas apostólicas e gloriosíssimas missões da índia, 
como se deixa bem ver de tudo o que fica referido. GLucm 
tiver noticia dos filhos da nossa Companhia que naslndias 
trabalham incançavelmente na salvação das almas, á imí« 
tacão do S. Apostolo S. Francisco Xavier, e conferir at 
obras e fervores de cada um com as do S. Mart^rr JòSo 
de Britto, porventura que julgue, ou ao menos duvide, se 
as missões da índia depois do S. Xavier tiveram missio* 
nario mais glorioso. 

Nos annos seguintes aos de sua morte veiu a este rei- 
no por procurador do Malabar oP. João da Costa, é trou- 
xe comsigo o cutello ou fouce de roçar matto com que © 



s 



— aio— 

4çgQlaríiW, * «Ju^VP^f ^^^^^ ?*^^5? ^^ houve do ge^Uj^o de 
qi|^m era, ^1*^ sç l>aQ queji^ deiSa?'ér d^ella por teu' ri''i§so. 
rvãó, «ei <jiie a^Pviro ^ itias dèijcóii-se vencer do dinheifo, 
cjite tudo YepQé, com condigSo qué lhe havia de tira;* o 
cabp, .quç'de gqtra §orte "temia algum grande "desastre:^ 
f^t5Ílj3^eAte ^é \eiu no concerto^ ç se recolheu este pfeciofo 
ia$ii^ai»ento. . - . ., - . 

O P«.clrQ Iheinjiudqvi na Indía fíizer de fil£\gr^na 4e 
f^a w^ia, be^ lavrada Bainha em que ometteu \ e^uan- 
[q çbegogi ao reino o fòí offerVcer a el-rei, oqual.coni 
grauAe piedade o beijoAj \ porém nao acceífou a offerla j^ 
qi^endo que melhor ,l5cava na Companhia onde seria mais^ 
i^^l^itãda» e não correria perigo de se p<ei-derj, e sçrviria 
piara afervorar os iníssioní\rips. ' . , . \ ■ » 

JB^Jjaxam tariiihem esta santa relíquia ós senhores da 
cprtp antigos do V. Padre nao sem grande affectb e pie- 
d^Çy lembrando^se que' era ínstruniento do martVrio dé 
um homem a quem havia tão pouco tinham coiiveijsadp. 
Entre ou tro3. senhores o màrquezdé Marialva tomando-o 
n?u9 mãoê, e faaendo-lhe a» merecidas reverencias, diss^ ^ían- 
<« dç algpps religiosos da Companhia : unao sei q^^iem fei 
MJÔaàja, ae o Santo P, João deBritto pelo niartyrip, se eu 
«<pejQ imp/sdir;;»» significandonMsto, queelle fora uru dos 
maii^^O^pejabacÍQS para o Padre nao voltar para' á índia. ^ 
j^sta peça ae guarda na Procuiratura do M^alabár no^çoU 
\^Vf. 4» S. Antão em Liisboa. . . , . . 

íío mesmo mçz (de fevereiro de 1694) dew tal peste 
nà ppvoáção onde o Padre foi preso, que de todos os mo- * 
radore^ um sp ficou com vida, como para testemunha do 
cç^stjgo ç açoute doPeuç? JEstas cous^as escreve nas Anhuas 
áe J^R|? e I6R3 o V. P. Joae Carvalho também ditoso 
ní.ar^wp.na wesma mig^ao. 

- O !pi António Dia» tem ^ssim' em uma Aanua sua 
^9 aíípp.dG X^9Z : f^E' grande a devoção que çs çhnstao* 
««rtÇjení ao V. P. João de Britto, dos quaes a alguns be- 
cf)>ei{^p da terra, do logar ew <J"6 ^^^ morreu, çoncedeii 
«1)^05 âlhoa carecendo d'çUes m Vi i tos an nos. " 

. í . , . A vidfi quç aqui fica escrita se recolheu daqge 
d^^ste Santo Martyr escreveu seu ifmao Fernão Perçira 
deBritto, conforme osdocumentòs que selBetinbam dado 
dft Companhia, por este .ftdalgo levar em gosto ser o cs- 
cripjtor da vida de ^u n^ui Santo Irmão. D'ella,., Qpmq 
dis^e^ recolhi ^eataa noticias, acej-eçcentando o^tra? certa» 



_31i_ 

* Ú'é hoín^hk que as ouvirárti ao mesmo 5a ti to PàtJrej e óo- 
tras qúè n''elle se obsérvaratn q\iat)dò vfeiu 'à 'Pottugífl. 
Tftíhbe^ escreveram s»aa vida em làtím è a iiii{)íimirain 
is liosstts pad'rès IVaiicezes, mas muito <3ittiinutk poi* falta 
de tibticias, 

• NSô apoiítou seu irmão as'cásâs tíiíà^ òn(te ti^stetíi, 
b qtiè lhe í»aò erá difíicirltoso sendò' aitidâ vivasúa ifi^. 
Posto quen'este ponto fiz depois alguttfá diligencia, ttaàa 
pude descobrir, «o que tiVe àlgumâ pená^ porque dheg^an- 
dô, como esperamos, asercanottisàdo, podería servir à no- 
ticia para n'ellas se Ihè levantar Igreja, con^o ào gloííoio 
Santo António. S6 me disse um nosso irmão coadjutor 
mui velho, que elle o conhecera morar com sua mãe na 
Tjua de S. Christovao na freguezia d'este Santo, em as ca- 
sas que depois foram de um Aflbnso de Pina Caldas, let- 
trado n^aquelle tempo mui conhecido em Lisboa (l). 



PELO p. aíítonío i^kaíÍco, líte 1PA«V6'^ A 57-. 



. .V'.'*Sétis páÍÊs se^uiaín a (cortédá real casa 3'è Bra- 
gança :' prociamadó pelos ^pórtugúeiès él-rfei í). João fV 
yassiítrfth paira 'Lisboa absér^'iço dò paço. 

. . .' . Doi^ ânnos depois foi mandado pafà fevora cur- 
Vaí bs estudos. No alto da porta do quarto em que àíli 
morou y logo que constou do seu martyrio-, Tói pòstõ cóhi 
gtande*s ^léttras um léttréíro q'ue YecordaVa tèr alli mç- 
radò. / , - . 

.... Em qtíâritò résidiu/cm íortUgal,'o íaínViíó 'que 



. ,: (]) Sentimos que fossem inúteis algumas in<^a^á^8 
fòitas'para descobrir se ainda existe aca^sa. cí^^a poi»n«te 
auctor, ou quql era « sua localidade. Talvez >^e «So stí^ 
ímpossivel ainda conseguir-se esta descoberta, que recom- 
mendamos aos curiosos doestas noticias. -, ]\-'^ 



— 312 — 

lhe ajudava á missa, qtia era de muita piedade^ e ectstU" 
mava acompanhar o V. Padre nas suas jornadas, o viu 
muitas vezes, quando dizia missa, levantado dochão;<o 
que elle mesmo sendo já velho, e residindo na Batalha em 
a diocese de Leiria, me escreveu por mão de um seu filho 
sacerdote, visto quenao sabia escrever. Também o mesmo 
fâmulo me contou a admirável virtude do V. Pa^rç em 
curar os ènfer|nos. 

• . . . Trouxe comsigo o P. João da Costa o cutello 
com que o V. Padre foi mart^-risado, 6 qual se conserva 
em Lisboa no collegio de S. Antão (i). 



pA VIDA DO V. SERVO DS DEOS JOio DE BR1TT0, Itf- 
PRESSA EM ROMA EM 1738. 



Regressando á Europa como procurador da missão o 
V.,Padfe Jo^o de Britto, el-rei D. Pedro II. que se lem- 
brava dos serviços que elle lhe prestara nos seus primeiros 
annos, e que pelas carias da índia sabia quanto havia 
obrado e padecido pela fé, o recebeu com extremo jubilo 
e aflecto. Eguají gpzalhado teve também da rainha D.Ma- 
jia Francisca Isabel, a qual quíz que celebrasse missa na 
sna presença na capella do paço, e receber de suas mãos a 
•agrada communhSo. ... O rei e os ministros nada lhe 
recusaram do que elle soUicitava, dizendo que era um San- 
to quem Ih^o pedia. . . . 

So escaparam alguns ossos c fragmentos do V. Mar* 
tyr, que foram reculhidos pelos catechistas, que também 
compraram aos gentios a espada com que foi degolado, e 
o bordão de que usava, entregando tudo ao P. Francisco 
Laynes, que fez guardar tudo em uma arca que depois re- 
metteu para Goa, onde se conservava no collegio dos je- 
soitas. A espada guardada em uma bainha de filagrana 
de prata foi enviada a el-rei D. Pedro II, que recebeu 

(I) Vertido do latim em vulgar pelo Editor. 



— 313 — 

tâo preciosa dadiva com lagrimas, renovando ua sua memo- 
ria, que quando o V.l^adre era ainda menino, já lhe cha- 
mavam martyr. E porque vivia ainda sua mãe D. Brites 
Pereira, mandou dar-lhe el<rei parahens pela gloriosa mor- 
te de seu bemaventurado filho, ordenando-lhe que se ves- 
tisse não de lucto, roas de gala, o que a piedosa matrona 
com toda a sua numerosa familia alegremente cumpriram. 

De todas as relações e processos consta que o V. P. 
João de Britto foi santamente heróico, e heroicamente 
santo: que foi alter XaveriuSj ctomnium virttUum gtnere 
contpiettus. 

De muitos milagres que Deus operou por intercessão 
do seu Servo consta, entre outros aocumentos, da carta 
que o bispo de Meliapor D. José Pinheiro dirigiu á San- 
tidade de Clemente XII em data de 13 de janeiro de 
1713, a qual é do teor seguinte ; 
Beatíssimo Padre. 

Na occasião de fazer por mandato da Sagrada Con- 
gregação dos Ritos o pequeno processo tendente a procurar, 
juntar, e remetter á Sagrada Congregação as cartas doV. 
Servo de Deus João de Britto, soube que todas as quartas 
feiras concorre grandissimo numero de neophytos e infiéis 
ao logar do martyrio do V. Servo de Deus,- por causa dos 
singulares beneficios e milagres quasi quotidianos que o Al- 
tissimo se digna de fazer por intercessão do seu V. Servo, 
e que o mesmo regulo movido por tantos milagres, deu 
permissão para a edificação de uma Igreja «o referido lo- 
gar, e ministrou muitos materiaes. Em prova da verdade 
edificou-se no mesmo logar uma Igreja com o titulo e in- 
vocação da Santíssima Virgem, para que, quando aprou- 
ver ao Altíssimo, depois de feita pela santa Sé a declara- 
ção do martyrio do dito Servo de Deus, se possa venerar 
na mesma Igreja (l). , 



(l) Vertida do latim em linguagem, assim como' o foi 
do italiano o extracto que a precede, pelo Editor. 

40 



314 



líA BTBIIOTHECA LUSITANA , DO AUBADE DIOGO BAnBT)SA 
-MACHADO» TOMO II, PAG, Cl 3. 



O V. r, João de Brilto chaiuado no século Joííp 
Heitor de Britto, terceiro e ultimo filho de Salvador do 
Britto Pereira fidalgo da casa d^-rei D. João o IV, e 
sen trinchante ao tempo que subiu ao throno de Portugal, 
e de D. Brites Pereira, nasceu em a cidade de Lisboa no 
priraeiro de março de 1647. No palácio onde tinha o exer- 
cício de moço fidalgo, era tal a modéstia de seu aefnblan- 
te, e.a compostura das suas palavras, que servia de exem- 
plar aos aulicos, e de admiração aos principes. Attrahido 
suaTcmente da vida religiosa como mais conforme ao seu 
espirito, abraçou o instituto de jesuita em o noviciado de 
Lisboa a 1 7 de dezembro de 1 66a quando contava a florente 
edade de quinze annos. 

Estudada a philosophia cm o collegio de Coimbra^ 
dfctou lettras hctmanas em o de Lisboa ^ e corno a sua 
maior inoHnliçao era annunciar o Evangelho nas vastissi- 
Hias regiões do Oriettte, se ejnbarcou com faculdade dos 
superiores a 24 de março de 1673. Chegando a Goa seap- 
plicou ao estudo da theolegia, em que saiu egregiamente 
instruído^ e querendo os prelados que d^ctasse philosophia 
cm Goa, se escusou dizendo que nao viera á índia buscar 
applausos das cadeiras, mas trabalhos das missões. Acom- 
panhado do P. António Freire partiu de Goa para Am- 
balagata nas terras do Malabar \ e depois de tolerar por 
todo o caminho que era summamente fragoso diversas mo- 
déstias, chegou a Madure destinada balisa dos seus apos- 
tólicos desvelos^, A primeira cultura que emprehendeu ibi 
a christandade da residência de Coley, e do reino deTan- 
jor, levantando uma Igreja em Tantuancheri, onde com 
ruina de muitos Ídolos fex adorar o verdadeiro Deus, sof- 
frendo com animo constante a perseguição de algnus ré- 
gulos, e a infidelidade de muitos gentios, que furiosos o 
buscavam para o privarem da vida. Ao tempo que assistia 
em Cutur no reino de Ginja, passou á costa da Pescaria, 
logar que muito venerou por ter sido santificado com a 
presença do Apostolo do Oriente S. Francisco Xavier, d'on- 
do partiu paraTravancor^ e no principio 'do anno de 1683, 



— 31S — 

cslando na província do Cabo que é do Maravá, dibpulou 
com dois lettrados da gentilidade, os quaes vendo-sc ven- 
cidos o trataram com graves ignominias. Invejoso o ini-. 
u^igo commum das multas almas que do seu infernai po- 
der extrahia este insigne ^varao, concitou contra eUe hor- 
riveis perseguições, de que eram ímpios executores os ido- 
latras das províncias de Vetavanao, Tirumnaley, e Xen- 
tçaraa, sendo a mais sensivel a que padeceu no reino do 
Maravá, onde preso cora cinco cateehistas pelas mSos e 
pés com grossos grilhões, passou sem comer ó espaço do 
dois dias, sendo ludibrio de toda a gentilidade que o abor- 
recia coino instrumento da ruina e abatimento dos seus 
Ídolos. Conduzido tia prisão k presença do rei que o tinha 
condemnado á morte, de tál modo se penetrou da vehe- 
mente energia com que o varão apostólico lhe explicou os 
mysterios da nossa fe, que promptamente revogou a sen- 
tença contra eíle fulminada. Chamado pelo provincial do 
Malabar, este lhe significou como era preciso passar a Roma 
para informar ao geral dos progressos da missão de Ma- 
dure. Chegou aLiaboa a 8 de setembro de 1688, onde foi 
recebido pela magestade d'el-rei D. Pedro II, cora distinctas 
significações de agrado, nao somente pela memoria que 
conservava' do tempe em que no paço fora moço fidalgo, 
mas do apostólico zelo conii que tinha promovido a conver- 
são dã gentilidade. Determinou o mesmo ^nonarcha que 
fosse mestre de seus sereníssimos filhos ;; porém agradecendo 
a honríi do ministério anão acceitou, protestando acl-rei 
que o seu magistério estava destinado para aqucllas almas 
que jaziam sepultadas no abysmp da idolatria, sendo esta 
incumbência mais nobre eillustre que todas as dignidades 
do mundo. Desenganado de ir a Boma por motivos polí- 
ticos que lhe impediam a jornada, resolveu partir sem de- 
mora para a índia,, e vencidos fortes obstacnlos armados 
contra esta resolução, se embarcou no anno de 1690, em 
cuja viagem experimentaram os navegantes os effeitos de 
seu compassivo coração, assistindo a uns como confessor, a 
outros como medico e enfermeiro, sem attender ao risco 
da saúde, e ao perigo da vida, que quasi esteve agonisánte 
de uma gravíssima doença causada do continuo trabalho. 
Tanto que chegou a Goa se embarcou para o Malabar, 
dWde se introduziu no reino de Maravá situado entre Ma- 
dure e a Costa da Pescaria, do qual era soberano o regulo 
Uauganadadevcn, que perfidamente usurpara a seu sobri- 



— 316 — 

nho o príncipe Teriadeven. No espaço de quinze me^es foi 
copioso o fructo que o seu ardente zelo comeu, pois entre 
oito mil catechumenos que purificou com as aguas do bap- 
tismo, foi o príncipe Teriadaven, o qual querendo recu- 
Erar a saúde do corpo, conseguiu felizmente a da alma. 
ttimulados os brahmenes doesta conversão, proposeram ao 
regulo do Maravá a fatal guerra que tinha movido contra 
o culto dos deuses, e veneração dos pagodes aquelle prega- 
dor do occidente, pois se lhe não mandava tirar a vida, 
certamente se extinguia alei tão religiosamente observada 
por seus maiores. Condescendeu a estas palavras otyranno 
ordenando que fosse conduzido o V. P, á corte \ e depois 
de estar preso vinte etres dias em que tolerou as maiores 
affrontas, o mandou vir á sua presença, e provada com 
diversos exames a constância da fe que pregava, receando 
algum tumulto o remetteu á cidade de Urgur distante 
duas jornadas da corte* Levado a um outeiro eminente ao 
rio Pamparru, foi despojado dos seus vestidos por cinco 
algozes, que vendo pendente do pescoço um relicário, ima- 
ginaram ser deposito dos feitiços com que encantava aos 
convertidos, por cuja causa receando, se o tocassem, serem 
attrahidos do malefício, um d^elles cortou com a espada 
o cordão de que pendia, recebendo era um lado uma pe- 
netrante ferida de que começou a manar copioso sangue. 
Sem demora arremetteram furiosamente a prender aquella 
innocente víctíma, e atando-lhe as mãos e barba que era 
muito comprida, foi degolado de um golpe, cuja cabeça, 
mãos e pés cortados suspenderam da cintura do cadáver, 
que arvorado em um altíssimo pau, e exposto por oito dias 
á inclemência do tempo, foi comido pelas feras, como ti- 
nha vaticinado. Com este género demartyrio consummou 
a sua apostólica vida o V. P. João de Britto a 4 de fe- 
vereiro de 1693, confirmando Deus com grande numero 
de milagres quanto lhe fora agradável o sacrificio d'este 
seu Servo, cu ja beatificação se espera com devota impaciên- 
cia por estar muito próxima a sua declaração. 

Escreveu com estylo elegante a sua vida seu irmão 
Fernando de Britto Pereira, de quem já fizemos menção 
em seu logar, a qual saiu impressa em Coimbra no real 
collegio das Artes em 1722 folio. 

D'elle se lembram honorificamente oP. Franco Ima- 
gem da Virtude em o noviciado de Lisboa. Liv.^ cap» 15 
até .'$2 c /innus Glotes, S. /. in Luntauia pag. 65 : o 



— 317 — 

P. Manuel Coimbra, Epitome da vida e morte doV. Pa- 
dre : o P. Francisco Laynes superior da missão do Ma- 
dure cm uma larga carta aos padres da Companhia que 
trabalham na dita missão escrita de Madure a 10 de fe- 
vereiro de 1693, onde relata individualmente a»circams- 
tancias do martyrio doeste insigne varão, a qual saiu tra- 
duzida em francez nas Léctlres edifiántet et curieutes eeritet 
de» mistioni étrangeret part. 2. desde pag. 1 até 56. 



DA HISTORIA GBHEALOGICA DA CASA REAL, POR D. AN- 
TÓNIO CAETANO DE SOUSA. 



Salvador de Brltto, que foi governador do Rio de Ja- 
neiro, e casou com D. Brites Pereira, foram pães do V, 
P. João deBritto, que nasceu no anno de 1647, efoibap- 
tisado na freguezia de S. André de Lisboa a 29 de março : 
serviu no paço de moço fidalgo, e se creou com o infante 
D. Pedro, depois rei, a quem foi muito acceito ; e depois 
tomando a roupeta da Companhia passou no anno de 1 672 
á índia, e occupado na missão do Madure, tendo feito 
grandes serviços, foi coroado de martyrio a 4 de fevereiro 
de 169.3, cujo processo está em Roma tão adiantado, qu« 
esperamos de o ver brevemente collocado no altar. (t. 12, 
p. 2.a p. 818). 



DA HISTORIA DA COMPANHIA DE JESUS, POR CRE- 
TINEAU JOLT. 



. • . Este jesuíta era João de Britto, filho de um viça- 
rei do Brasil. Em 1G72 Britto, bem como o P. Roberto, 



_318 — 

arraucou-SG ás lagrimas da sua família, aos rogo* de seu-» 
amigos, e de D. Piedro rfgente de Portugal, e na flor da 
idade se dedicou á missão do Madure onde se vestiu de 
saniás. Tinha grande zelo moderado pela prudência, pos- 
suía as sciencias da índia como as da Europa^ c as:iini 
pôde em alguns annos operar grandes prodígios. Mas não. 
bastando ao seu zelo o Madure, penetrou nos reinos de 
Tanjor e Ginja; abriu aos jesuilas o caminho deMaissur, 
entrou no Malabar c alli pregou a fé baptisando trinta 
mil idolatras. Açoutado por seus, carregado de grilhões 
por outrps, c honrado por muitos, a final depois de ^0 an- 
nos de trabalhos foi mortç pelos brahmenes que o accuba- 
vam de magia. Mas a morte do P. Brilto nrio fez parar 
o impulso dado áqucllas missões, (t. 3. p. 248.) 



— 319 — 



PARTE IV. 



l>OS PROCESSOS PARA A CAUSA ]»A BBAVIFCCAÇÍSo 2M) «. 
JOio DE BRITTO E SUA G0KCI.II.»XO. 



Rcsta-nos finalmente dizer alguma cousa sobre os pro- 
cessos para a causa da beatificação do B. João de .Eritto^ 
e extfahir d^elles algumas noticias importantes. Porém 
sao ellas tantas, que mais seriam obra para crescido volu- 
me, do que para uma breve Memoria. Por tauto ainda 
que o animo se deleita, e apenna corre de vontade, toda- 
via }H'ocuraremos limitar>nos só ás cousas de maioj vulto, 
mormente que nao pouco fica já dito no tocante aos pon- 
tos de que tratam os processos em toda esta historia, ena 
que até aqui bavemos lançado nVsta Memorja um pouco 
mais estendida do que porventura baviamos traçado. 

Gtuatro foram os processos informativos que se fizeram 
para instruir a causa da beatificação do UQfl^o Bemaven^Ur 
rado Marlyr. O primeiro no Malabar em 1694 por com- 
missao do bispo deMeliapor, o segundo em Roma por com- 
missão do cardeal vigário em 1699, outfo em.Cocbiia e 
outro em Goa quasi pelos mesmos annos* Á estes seguiu- 
se o processo para a introducçao da causa, ci^o é um ex- 
tracto o primeiro addiccÍQnamento á historia da vida do 
mesmo Beato que aqui reproduzimos como se continha Ba 
primeira edição. Lamentamos porém, que tendo-se-lhe jun- 
tado as cartas impulsivas escritas a Sua Santidade, por 
el-rei D. João V, e pela rainha D. Maria Anua sua mu- 
lher, nao se lhe juntassem as que foram dirigidas ípelo car- 
deal D. Nuno da Cunha, pelo patriarçha de liisboa, e arce- 
bispos de Braga, Évora, e Crapganor, pelos bispos de Lei- 
ria, e deMeliapor, pelo cabido da Sé de Lisbpa oriental, e 
pela universidade d'Evora, gue foram inseridps niD referido 
processo para a introducçao da causa, menos as duas dM- 
rei D. Pedro II e da rainha D. Maria Francisca Isabel de 
Sabóia, que pelas noticias que.nos foram, mandadas de Ro- 
ma sabemos que nao se acham juntas áquellc processo, 
porque parece se desencaminharam desde o principio. Es- 
peramos comtudo que as outras cartas acima citadas no» 



— 320 — 

hão de ser remetlMas par copia authentíca, e e nossa tea« 
ção publical-as ou em appenso a esta Memoria, se as re^ 
cebermos em tempo, ou separadamente. 

Porem a segunda parte do processo, que o é propria- 
mente da causa doesta beatificação, tivemos a fortuna de 
o encontrar na bibliotheca publica doesta capital, e tem o 
titulo seguinte =: Sacra JRiiuun Omgregatione Enw ac 
Mmõ D» Cardinali S, (^etnentis Ponente, Meliaporen Bea- 
iificalionii uu Declarationu Matiyrii V» Servi JJeiJoan- 
nts de Bnito Sacerdotis Profeisi Socielatit Jesu PosUiò su- 
per dúbio an constei de martyrio et cauta martyrii in catu 
et ad efftcium de quo agitur. Roma MDCCXXX FII Typi$ 
Mev, Cameroí Apostólicas, 

£ porque é muito interessante a sua matéria, seremos 
um pouco mais extensos em dar algumas noticias do que 
nos pareceu mais importante e digno dVste logar. Come- 
çaremos porém pela integra do índice para servir como 
de resenha geral de tudo o que n^elle se contém , e assim 
satisfazermos á curiosidade de quem deseja ter uma idéa 
de processos doesta natureza, e conhecer com quanto rigor, 
maduresa e circunspecção procede a Igreja em matéria tão 
delicada e gravissima. 

índice. 
Informação da vida, santidade, martyrio e milagres,^ 

summario, lettr. A e B. 
N.® 1. Cathalogo das testemunhas, pag. .... 5 
N.^ 2. Do nascimento, pátria e entrada na religião. 6 
N,^ 3. Da passagem á índia e fructo das missões. 8 
N.^ 4. Da heroicidade das virtudes, e fama de san- 
tidade 12 

N.** 5. Da primeira perseguição que soffreu, e do seu 

regresso a Europa 20 

N.^ 6. Da segunda passagem á índia, e das conver- 
sões dos infiéis 31 

N.^ 7. Do martyrio e da causa do martyrio. . • 42 

N.^ 8. Da recuperação das reliquias .79 

N.^ 9. Da fama universal de santidade e do mar- 
tyrio ., 81 

N.^ 10. Dos prodigios ou milagres depois do mar- 
tyrio. 88 

Relatam-se e provam-se vinte e dois milagres opera- 
dos por Deus por intercessão doV. Servo de Deus. 88 
Observações do R. Promotor da Fé, lett. C 



—324^ — 

Resposta ás o}>servaç(1esí do 'R »> ;ProinDtor , * letC • • . D 
1>QS>prelimi liares, t ^^ > i ..... ..; ., • pag. 150 

• " • " PA-RtlZ íl. • • . .: 

Do martyrio material. . . 5* • . 16:2. 

§.1. Resoètem-se as'dòa» prl^neinas extopçde» oon- 

'ira a testemunha oitava. *•• ....•'. » • . Iô2í 
§1. 2i. Résolfvem^se às oatitiB exqep^sodntna <a>mcs- • i 

«mâtestemtlnbat . i .] . •.*.••*.••. . Si * 162 
§» 3* Sotislâs^so «sobjee^eB contra a notut toBtemn*' • 

Ilha. . . v: ,....'... w • *'. i • ». ' "» I6T 
^. 4. Rbspònde-9e ás excepções eontra a decima tes^' 
temuhlia. < . . '. . . .• . . v . . , » lot) 
^. '6. Respondesse ás objecções sobre o numero oqua- 

'iidadé das Dutraís tesleimuni^as. . 17 lè 

Dó martjHo formalfoà causa- do martyrio. . . .176 

ConbidereiçSo.l.^ Do seu regresso voluntário para o 
.l^alarbárv . . , ...*•... . . . 170 

ConsfíderáçSo 3.^ Da > verdadeira causa dò martyrio. 186 
Conskheraçao ft*^ Sobre imo se ter' 'OVAdido* •• . . .19;? 

•■•'-.'.■■. ' ' ■ > PARTE XV.- 'i ..-••<. 

Dos ritos: malabaies. . .'.... ..« . . , . i9G 

vkhKTX V ov- Xvvmtmcm, ' ». 

Sobre- 08 mesmos H tos. ' 

Observações feitas ipelocardeaV^DelianibeHiiii no an- 
ho de TV25i .• .' . . . . . * * • • • 201 

Resposta dada no ánnode.lV'^^ ásobserva^dés docar* 
deal Der Lambertini. .k ' i . ...... . 2Q<i 

Sumnyartoa^éibKNial dõ'an«o de 1726. « . . 4^224. 
Sàiiimario:addiclonat'lettrí ...... .. . . . . E 

Segubdoi «já dissemos , e consta d'este processo, q u atro 
foram os qveisé fiseram para rnstruir a causa do BvJoão 
de Brittoi- mil em Meliapor, no qual deposcram 40 tes-« 
tenívttfihas : -^um em Coehim, em que deposeram 52 feste^ 
munhas : òufcroiei)i Gba^ tem que depoáerám 1 1 testemu* 
nbaa^ todos portugnezc^Sj' c finalinenlie outro ení Roma, nò 
qttalden inipoFfaotes depoiínetitos o P. Jdlt) da* Costa, 
jesuíta po^targn«e, de 4« ahnob, missiona^ríò, e procurddior 
da missSío do Malabar. • 

Passaremos agora a dar alguns extractos d'algtuW dos 
depoimentos «dos referid€>s processos. • 

O citado P. Jòíio da Costa diz que o pai do V, Padre 

41 



João de Britto era natural de Villa Viçosa, esua mâe de 
Portalegre, o que nos pareceu conveniente registar n^es- 
tas memorias, porque na vida do mesmo V. Padre,» escríp- 
ta por seu irmão, nao se declara esta eircumstància^ que 
nSo deixa de ser importante. . • 

A mesma testemunha apresenix^u uma carta què o'V. 
Padre João de Britto lhe escreveu do cárcere no dia an- 
terior ao seu martyrio, a qual depois de reconhecida a sua 
authenticidade, foi inserida no processo a pag. V(6 em latim, 
cujo originai portuguez vem na Imagem da Flriude^ e é' 
a mesma que fica a pag. .226 doesta obra. 

D. Christo^ão de Meik> , cavalleiro da Ordékn :>d& 
Christo, de 43 annos de idade, depoz no processo. de Goa, 
que era tal a aíieiçao que el-rei D. Pedro II epuságrava 
ao V. P. João de Britto, que indo nraa vez a Salvaterra 
onde estava a corte para lhe fallar, el-rei vendo-o de uma 
varanda dopateo onde o esperava, chamou por elle^ eindo 
esperal-o nas escadas, o tomou nos braços elevou para den- 
tro do paço á vista de muita gente. Depoz também que 
indo de Portugal para os estados de Goa Christovâo de 
Britto, sobrinho do V. Padre» já martyrisado, omesmoiei 
D.Pedro II lhe concedeu uma pensão especial, declarando 
na carta de merco que não servisse de exemplo para ©fu- 
turo aquella graça, porque era em attenção ao glorioso 
martj^rio de seu tio ^ e que chegando a Portugal a notkia 
da heróica e santa morte do Servo de DeUs, el-rei oudè- 
nou ao seu confessor que no seu real nome escrevesse a D. 
Brites, mae do V. Padre, partipàndorlh^a, edando^Jjhe os 
parabéns, com recommendaçao de que apesar da Viuva* se 
vestisse de gala, o que cUà cumpriu indo beijar. ámSo de 
sua majestade, que a recebeu com infinitas honras, ioai- 
taudo toda a corte o exemplo do piedoso raonaixcha. 

Nó processo feito em Meliapor depoz também o pro* 
prio soldado quo degolou o V. P. JoSfo de Britto, qoe se 
chamava Terumal da tribu Valeícu, « tinha quando -de-' 
poz 5ô annos. €ontra esta testemunha .porém fez graves 
objecções o Promotor da Fé, fundando-se para isso na qua- 
lidade de gentio e de algoz. Foram porém rebatidai com 
muíitas razoes jurídicas, e anctoridades de auctores gra** 
vissimos, e com idênticos exemplos degèntioti e executo- 
res de sentenças capitães admittidos a depor«m em pro- 
cessos antigos \ e especialmente pela razão de não serem os 
executores de sentenças capitães na índia algotes por offl- 



— 3â3 — 

cio,' mas escolhidos è designados pelos príncipes' entre a 
mílkia parahiefir c«lso»^ sem qne d^abi lhes resulte infamíà 
alguma, como taitibem lia Eoroi^a nenhuma iiiíamiá côn- 
tvabem os -soldados q^ s3ò chamados' a ser executores de 
penas ainda capitães tcrhittít oè seus camaradas. 

' 10 es^o bJS{>o âe'Meliápor, iiiterpellado pela Con- 
grèga^3K>' 6obi;« este ponto, respoiídén a t9 de ídézemhro 
de 1ÍU6 o sègiiitte: KTemmal, gentio, quô degolou o V. 
«»8e^vo déDetJks, nSó pode ser rejeitado eorao infame^ por- 
ei que nbsté pai% llao^há a%òÈeS die ofificio, mas os niesmos 
«csoMi^iáos, nâo Btméo das ti4bus iHajs nobres, segundo o 
«vòoniome^ 45QÍndfstihY;tamente destinados peto regulo para 
««x^^ovesdaft âèeapit))^^.»^-; - . 

' " Ottt»9 gtave o|^K)siçãO' -feita pêlo Promotor da fé foi 
a jdoè Htos - malftbmres, especialmente os dos banhou - diá- 
rios, e do uso da cinza na testa, seguidos pelo P. João de 
Britto: N9o nob demoraremos aqui a descrever eistes ritos, 
nem as quedtoes^ a que elles deram origem. Limitar-nos- 
hemos ftdiaér, que porumtado os missionários conhecendo 
por experfeneia que eram baldados -todos os seus esforços 
pâva' desbravar aqiiélles povos, e attrahil-K»= ao redit dá 
Igvoja, se nâO' seguissem quanto era possivel os costttmes 
<&]pãriz, adoptaram aleuns d^ésses ritos christianisando^os ; 
e peio outro a satíta Se j ulgou quedeviam ser banidos pelos 
missionários e neoj^bytos. As decisões da santa Sé porém 
a reflpeitO'd''esles ritos, foram umas vezes mitigadas, eou* 
tniff am{4 jad^s, enviando' para esse fim duas vezes á índia 
e'á China iim tegadb apostólico, um dos quaes foi o car- 
deal de Tourmm^^ue morreu presoem Macau. 
•' '■■ A esta grave ehjecç&o respohdeu-se cabalmente, pro- 
vaado^è quéo tiqsso Beato niinca fez uso d^essés ritos co- 
mo os 'gentibs, afilas s^ente- dentro dos limites das decla- 
rando» dã santa Sé, èque só onfee annos depois do seu glo- 
rioso martyrio íbram inteiramente prohibidos. ^ 

• Juntáni-se para este fim ao processo os seguintes do- 
cumentos do areebispò de Cranganor e do bispo . de Me- 
liapor. 

u Julgamos que nSo 'poderá deixar de acontecer ocon- 
«(trariose se prohibir aos neophylos o uso quotidiano da 
«( cinza benta, que foi admittido haja mais de 60 annos 
««pelo nosso predecessor D. Estevão de Britto, arcebispo 
»<de Cranganor, c prelado d^aquella christandade, e con- 
" cedido sem fim algum supersticioso, mas em signal de 



4( penitencia «dojuiso iinal, eapccjalmenteuaoeoncetM^udo 
4f i^i^este ufiO; os ethnicos a loenor; «uspaitfs deqok^l* D&M tm 
et, Chalaouffi Bob obosso sigiiaU' c^poUo deqii«.u8aQiQ8ia30 
« de outubro de .1 704. — JD. S^baâtiao Rib^ko, , arcebispo 
f(de Crauganor.-T-Logar do se]kA.»i^ 

u O. uso da cÍD3ai está 4;ão ifvtroçluzídç :iv'^e9t»^ -reinos a 
Mi^mpqre imm^t^çriali^ e os malabares tao afif&rradps estão 
«<»a c&te.postujx^ç^ qi|$^nto,o coBtrarip lhes |>areQ9 ánd^ceti- 
a cia, e. falta de polUiça e civilidade.^ por isso D» Estevão 
4ide Bfit^o, arcebispo dç Craiiganprf por cemoii^ao de 
«(Sua Santidade, ^je^pçis de maduro .tô^amoi. «ooc0deiii'jftos 
ii.neoph)rtos o uso quotidiano d^. cinza, bet^t^, tn^dundo-Uve 
uo tím in signúm posnitentia et m^nioriam unHHírit^lis.JU' 
u diciij etc. .Dado em S« Tboiné debaii^g úq nosso aignal c 
usello aos 4 de agosto. de,1704..-T-Gafitpar AjTonsQy biftpp 
udc Meliap0r..'-T-Logar do seUo. n. 

, £m quajita ás relíquias, do. V. Mártir. çionpta dopro- 
cps^ deMeliapor, a paginais 7 9, pelo depoimento de Pedro 
da. Rodia,: negociante de 73 annçB^Q*^^ ^^l^ me$mo levou 
para Ceilão o pau eni que íbi dependurado o oiulai^er de- 
pois ; do- martyrio, o alfange com que foi d^olado, pwte 
dos ossQS ea ci^beiga do V. Padre : que todos estes pffeeio- 
SOS restos aforam entregues ao P. Francisco Jjaynes, supe^ 
rior da' missão, e depois bispo de MeUapojr,' que. os levou 
para Pondiohery d^onde eis fez conduzir. pa^ra Gqaé Ornes* 
mo consta d^ outras, testemunhas de yi&ta ^ de ouvido^i . 

No processo feil;a em Roma depõe o citado P* JoÃo 
da Costa, que os qIirist$o& alguns, dias deppisido^jnalrtyrio 
do Servo de.Dèus, procuraram s^sreliquiaa, Te.que adianr 
do no rio ,a cabeça e alguns ossos, ppM o restQ havÍÊL sido 
devorado pelas^ feras,, a oçcultas os a^r(^ad^raia^. e levamiD 
para a cidade 4e Manareouií, , dVnde for^m pe^ra, Pondi^ 
chery, depois para S. Tbome de Meliapor;^ . e fin^mj^nte 
cm uma nau mandada pelo viof^rei paf^tGoa-, ond» esta* 
vam em uma caixa, de ijuadejca nas mâoa do.P».propul:ador 
da. Ccimpaubi^. sellfida.com o âello do.P* prpvincial* : 

No processo nao achámos depoimento algum pela qual 
se po^sa dedu^r que a espada CQi^ qiti^.o B« P^iife. João 
de Brijttp. foi. degolado viesse par^ Poctugal oíferecida a 
iA-xcJL D. Pedro lí, como asseveram >os historiadores do 
uof»so Beato acima citados.» Oji\de porem existam hoje «stas 
preciosas relíquias» ignoramol-ocompleUmente, e receamos 
que, ^c escaparam á extincçãu dos jesuítas no tempo do famoso 



— 328 — 

nmr^uez 4e' Pombal, tÂlvc£.«c: pertlQaseIn^depoib^«unl^o 
aadár áo» tempos» r^ ,:}.., -t 

Fap« GQCiipil«mcnto do processo eiiigU»-s0 C|iiè se oolli*' 
gitôem . as eartâs escriptas pelo \\- Padre^. - existoAttes nos 
arohivoft de IWtugal ede Aèná) e na Índia, ;paraèiy}d 
fim.recdbftratn uma precatória oa^isfim r de Cbehi me IVfe- 
lia por, que çumprirdtnr fielmente arxonBnissão^ mai»damip 
seú eatto d« l^fkàn l'fl^, ás tpifiesrée jutitesain nove«B- 
criptas ao geral dos jesuitas^etde 168% ai 1690, quattodí- 
r.|gida» a&^P.iísSistente ;de l^rtogat desde lAtt a 1690, 
d^as citadas p^ld P* Afaldortadi» no aen.Jtò<s(ré Ctfrimh^) 
uma a^hadafXia uinnua JlieiJaÂsirieè, escrfptti'do«are»e:H 
3. de;:feviQreiro>de l^9> ao :P« «^pBriov 4»miflsaO, oQlra 
tãmbemí aobada b4 Car4a Oírculo»' d&'miaBfik> dê.l69â, es* 
cripta» ao Pf Fjsaiieltco JLaynôs, dè^ta&li^ie finalmente oo,-^ 
tra escripta do cárcere aos missionar»» a & dè íbvereivo 
de 1693, junta, aoprooesso pelo Pr Goeta, que adma inseri- 
n^ost Foram deputadoédoistlmologes para as.exáminavem, 
mas nada eticontratam que servisale de fibjecçao á ditusa. 

Resta-nos finalmente dar a certidão do baptkmo qtiíe 
uo proeesso vem: em latim a paginas 231^ e Yortida cm 
linguagem é<(^o:t^r seguinte^ 

uO doutor José Conréa da Silva, proChonotark^ após* 
toliçp^ JQIut>do tribunal dtiLegaeia, omiservador apostolieo 
do real .cõUegi«> de Sántó Antfio da CompanbiMi^ Jeràs, 
e dos reoi^ mosteiros de: £^m, Matto^ e Pbtdialoiiga ida 
congregação deS. Jeronymo, das províncias dae ordens 4m 
Saato iAgosjtinbQ, de S» Domingos^- do Clartauo ds antiga 
lUformA^^da proviooia de. SantA Máfia íd^^^nraltida, e>do 
conirenbo . do Bom Buctome .da. proLvincia . I rtandesa^- 1 ete • 
Fa^'saberi,e atte&toi que. tive em mitiiiaa mãos olvvro dos 
bapUsAíios-da^ igneja paroebkl de Santo Mvdré :dâ Lisboa- 
Orienial^. onde a iolhasiaeía vLeli oaasentb de Joio^ íiifao. 
doa nobres, aefièonts ôalwador* de,Biitto,;de.Di Brite» Pe- 
rmrây.^Me é do teotr seguiblè : :=3 No dia ;29'do'dito mes 
de<xaaKfQ do auno de I447.piii os- santos óleos a Jbãoj filho 
de Salvador deBritto e D. Brites Perora,? padrinho Cbris* 
t^ao de Britto, .e madrinha^ D. linim de Britfo^ ein fé 
doqiie fiz este -assento, «nUo,- dia* ^e mes;: supi^a— Miguel 
Pestana*— ^£ nada mais se continha ino idito assento que 
ilelmente trasladei, e cfficazmente cotejei, ao qual me re- 
porto. Em. fé do que, a instancias doP. procurador do Ja- 
pão, passpias presentes iettras, e attetftaçao na fé de mr* 



— 3*6-^ 

XI has ordens èdepxothonotarlo. Dada eiif Lisboa Oecideti^ 
tal aos 18 dias de novembro sob o meu sígnal esello no 
anno de 173ôr— «^ José Corrêa d» BHva. •*— Ijogar dosello. 5» 
O' bftttemerito F^erendo prior da freguesia de San- 
to. André, .aÃboa no referido Hvro o assento citado, que 
concorda exax:tameBle''éom o. que aoabamo^ de referir, de 
que ãiqui : j un taiDoa : uma oertidão' aothen ttca passada pe)o 
mesmo reverendo prior, porqòe- èe^ntem ^Ig^nyás -Bota» im- 
portantes* A eertidSo é a seguinte* -. 

« u Certifico que > a^folbás ^ do^livro 3/^ -dos as^enios dós 
baptisadòè da igféja sparootòalde-Sánfò André de'iiÍ8boa 
se aeiba.O'do te<»r -seguinte c'^:-^- Aos vinte e «ove do m^ de 
maiço de mil seiscenècvtqnarènta eírete pbz os safftos óleos 
a João,' alba ctfr fialvhdor tieBritto, e de sifaiitttlWer Bri- 
tes Pereira* Padrinhl» Cbristovao -de Brito,' màd<r^nba D. 
Luiza de Britto, ^é < que fis >este assento, dia, mes tit su- 
pra, f-^ Miguel Pestana. — * No alto doeste assento está lan- 
çada esta declararão o -^ Foi martyrisado em 4 de fei^reiro 
de .&93v-^eá mát^gem do mesmo assento se acba escripto : 
^-7£sle éo Padre João de &itto da Oompanbia,' que na 
índia morreu niastyr pela fé no-ánnb de 1680 (l). O prior 
Borges. — Este prior administrou esta- Igreja pelo» antios 
de 174^ e sedVamava Ftaácisco Luia Henriques Borges. 
•^lÒnoqie dêJ^âo no assento está cercado deestrellas de 
1;í»Ia 'preta.' 4-1 Igpe^a' párocbial de Santo André e Santa 
Mavii»ha.db=Iisboa 26 de abril de 1862.; — O prior Ma- 
uAel FraKao«»> ^ » 

f. i :M^este. estado estava a causa da beatificarão do nosso 
BemavehtéradòMartyr, e tãô adiantada se achava ella, 
que.pareoia jitnui próxima ao seu fim ^ quando levantan^- 
do^se repontíhamenie a roais terrível borrasca contra a 
Coitipanfaia n^estie reino, cujos padres ■€â'am os priacipae» 
promotores doesta causa, e seguindo-se-lbe com^ pouco in- 
tervajio as vicissitudes que feriram a mesma ordem em 
liodo o inundo, ficou ella sustada até ao mes de abril do 
aniio de Í861 ein que* foi de novo: proposta na sagrada 
CongrégaS^^ab dos eitos* . 

Sentkpoà pobém, eparoce-nos que o nosso sentimento 
é nao só justo mas próprio do brio de portugueses, senti- 
mos, tornamos 'a djzer, que a continuação da causa de 



(i) £^^ manifesto o erro doesta data, mas nao acbármos 
conveniente corrigil-a para nao alterar o assento. 



— 3â7 — 

heatiíicaçáâ úè ma alho d^osta metrópole naò fosêe^ nSo 
diremos promovida, mas oem sequev a|udadÀ por empenhos 
de seus oonterraiUieos. Todavia a lembrança de que foram por- 
tugueses os primeiros que lhe deram impulso^ cquequán** 
do subiu de novo á. discussão, se- achava ^oo mesmo estado 
em que nos a deixámos, são é de poucie^ lenitivo ataojuft- 
ta queixa. Forain os prelados^, oclero^ e. ou âeis.das no»-: 
sas dioceses de Meliapor, Cochim' e Goa^ foram os pftdres 
da Companhiii das províncias de PoHtigal, Goa e Mala- 
bar os que primeiro a intentaram ', e tudo o que boje eto 
fez foi. baseado sobre as pr^va^ que uo» e outros, mas t«M 
dos portugueses, haviam colLigido cotn graníde ttabalhfiy 
não pouco cabedal, e acrisolado Belo* 

Assim forçoso e confessar, que se aJgutn desar pede* 
porventura caber a Portugal em não ter eonoorrido«m nossos 
dias parA a conclusão da causa de' beatificação de um, Mar-, 
tjr seu filho, toda a gloria do começo « grande adianf»- 
mento daempreza é nossa. IVo entretanto seryindcHnos :ei» 
respeito a Portugal das palavras que da ppovineia: .d& sua. 
ordem dizia o nosso insigne historiadoir. Ef . Luiz deSo«sa> 
na prefacção da sua inimitável vida do grande, aroebispo 
de Braga o V* D* Fr. Bartholomeo dos iMaptyre», cuja 
causai, promove hojie eniRooia nao este reino nUAs aovdem' 
dos pregadores, cumpre confessar que u queixa é antiga dos. 
««filhos doesta terra 9eiaios< pouco cuidadosos em desemter- 
urar^ não s6 em illustrar e levantar com meios e cores es- 
utudadas as maravilhas de valor csantidade que Deus n VI- 
««la nos tem dado.»? Mas sem embargo de tudo isto ascir- 
cumstancias porque este reino tem passado desd^ a segunda 
metade do, ultimo século em que ficou parada a causaNdo 
nosso Beato, algumas das qoaes o S» Padre aponta no 
decreto da approvação do martyrio, que mais abaixo da- 
remos, Síiereeem consideração e desculpa»> £ finalmente em- 
bora as. prevenções ie umà época que já' passou entiegás- 
sem ao esquecimento um' heroe portuguez^ podemotf asse» 
verar^ que os portugoezes de hoje que se )iíanam defilbos^' 
e herdeiros da piedade d-^aquelíes que souberam amar e • 
respeitar em vida este^santp varão, ecom animio nao me- 
nos pio e digno de portuguezes veneraUo e promover 4he o. > 
culto depois da morte, saberão in»ital»06 agoíaque.aIgte}a; 
lhe .decreta as sagradas honras dos altares, e avanta|arrse t 
ainda itquelles que por irmandade de habito^ e {>rofia9ão 
conseguiram o remate e a coroa da causa da sua .beatificar 



— ^8 — 

ç»o mai* a instancias suas do que por diligencia nossa* 
Proposta dénovô, como ha pouco diiglnino.^, cfíta cansa 
íicoa a 16 do Setembro em termos tacs, q^tie 'so faitavu a 
declaração final dp oracuto do Víiticano, ò qual bem de- 
pressa se íe% onyir por todos os recantos da christandade 
por meio de dois decretos pontlficios, cnja pt)bli<(aç{io f(Á 
feita com as sdemnidades ^^ne vam^s referir* 

No dia 29 de setembro de 1851^ a Santidade de Pio 
I-X foi, segiindo o cÀstúme, ao hospício ou c^asapia de S. 
Migiiel^ ondêf foi reopbido pelo seu presidenta o cardeal 
Tostr. Depois de' ouvir missa na. Igreja esplendidanienfe 
armada, subiu ao throno que se lhe havia preparado, c 
alli na presença dos cardcaes Lambru^chíni, prefeito, da 
Cóngregaçâío dos ritos, Antonelli, pro-secretario' áVstado, 
e Tosti, e dos monsenhores Frattini, promotor > dá fé, ~e 
Fatati^ Secretario da díta CongregaçSo dos ritos, do P. 
JoSo^Hoòthaan, preposito geral da c3on^panhia de Jesii«, 
e das outras pessoas que costumam assistir .a taes actos, 
piiMicòu o déCfieto èm que declarou -^ Consttff*^ dé Mar- 
tyrio^' eí' cauta MatiyrH,, inuítis signís à Dèo ilítêshàtis ef 
c^K^ii^nUitis^ <!/ú pf^opterèa procetíi fotsé ad uUericif'<t M. 
nai.oausadá beatiâcaçSo do V. iRervo de Deus Jíoao de 
Britto', da Companhia de Jesus, qué morreii martyr, dafe 
no Malabar. 

O decreto por extenso é o seguinte : 

m-KisiÁPòiL* . '* 

Bteneto Ú9 heaUficaçtiò ow declarando fia mariyHodà K 
Serifo \le Hevs Jouo de Jfíriito^ »acerdole prí^fensa dn 
Cofnpanhia deJcnà. ' 

- S^ndo a Companhia de JesuS' paTticul^àrmcntc^ desf f- 
nada pèl» seu sa<it» fundador a iriíiínnnoiaroEt^àn^lh^f 
om todo O' inundo, faatem^^lguns der Seiía membros oquar- 
to jvoio, pelo qwai -rigorosamente se obri^afri a pré^r aõs 
homenff o FíHiode l>eus, é a dar a própria vida entre os 
infi«<s, a %m de ganhar para Jesn Christo nquelles iii(^ 
lises, é dar á si}a Igreja novos iilhos. Entre estes, depois 
das primícias ám martyres offerecidas alletis pela.m^sma 
CohvpaBhia entre as nações do JapSo, oocnpa um brilhante 
logar o y.: P. JoSo de Britto, que nasceu em' Liffboa de 
uma familía nobre e illustre. Foi elle logo nos primeiros 



— 329 — 

antios dâftiia ádolesceiicia nomeado pagem de D* Pedro lí, 
rei de Portugal; mas a pia edaeaçSo que recébetãy e a in- 
teireza de 9eu8 costumes, o le Varam heiA depressa a teti-^ 
rár-se. dá eòrfe^ e provado já ítt scietícia dos Santos, aos 
quiníe âuíios de idade, abraçou ó instituto da Companhia 
de Jesus. Ainda antes de ordefoádo sacerdote, maS já ian^ 
duro para o Sagrado ministério, ardendo em dcáeios pelas 
missões da índia, fòi destinado para a do Madure, na 
provinda do Malabar, tSo fecunda em trabalhos è pade- 
cimentos, depois de felizmente p^parado com tudo o ne^ 
cesftario para tão santa obra. Alli este operário evangéli- 
co, depois de ter pelo espaço de treze annos convertido 
muitos gentios, e baptisado muitos milhares de infiéis, foi 
preso por ordem do regulo doMaravá, esoflTreu com inan^ 
dita constância o mais duro captiveiro ; e finalmente de- 
pois de soffrer os mais cruéis tratos, foi banido, e por ot^ 
dem de seus superiores regressou á Europa. 

Tendo promovido egregiamente os negócios d^aquelks 
missões, que lhe haviam sido confiados, voltou ao Mala- 
bar, onde se dedicou com maior fervor aos trabalhos apos- 
tólicos ; e depois de alcançar novas e numerosas conversões, 
foi preso e kvado plante o trihunâl do meémo tyranno, 
em cuja presença confessou publicamente a fé de Jetu 
Christo. Incitado com grandes dadivas a invocar ao menos 
o nome do idolo, despresa-as ; ameaçado, nSo se atemori- 
sa ; açoutado, nao se quebranta \ e condemnado á morte 
em ódio da fé, soffre heroicamente o martjrrio a 4 de fe- 
vereiro de 1&93. A fama da santidade dVste esclarecido 
Marty r da f4 espalhou- se logo por toda a índia \ e augmeA- 
tan^o por meio dos prodígios com que Deus a confirmara, 
a ordinário de Meliapor primeiramente, depois o de Co- 
chim, e finalmente o de Goa, instauraram os premesses de 
inquérito, com os quaés ihstruidos os instrumen'éos apostó- 
licos do costume, depois de preenchidas todas aS fotmaii- 
dades que o direito e o estylo demandam em taes casos, 
reuniu-se uma junta preparatória dò^ sagrados ritos éiri^ 
casa do cardeal de 8. Clemente como «elator, no j^rliMhro 
de julho dé t738, para examinar a duvida ::= ^n eoMiet 
de mariyrio^ ei eauia mariyrU in custe, et ad effétium de 
quo agiturfrsiz 

É como na dita junta se suscitou a duvida, Sé o Y. 
João durante as suas missões teria feito uso de alguns dos 
ritos gentios em contravenção das prescripções da Igreja, 

42 



— 330 — 

O Papa Clemente XII, de saudosa memoria, julgou ex- 
pediente que o exame dVsse artigo fosse entregue ao tri- 
bunal supremo da sagrada Inquisição. Tendo porém fal- 
lecido este Pontífice primeiro que se desse a sentença, o 
seu suecessor, de gloriosa memoria, Bento XIV, que quan- 
do era mínorista fôra promotor da fé nos preliminares 
doesta causa, e consultor relator junto da sagrada Inqui- 
sição sobre este obstáculo, tendo avocado a si esta causa,, 
de seu motu próprio, determinou que a Congregação dos 
sagrados ritos se reunisse na sua presença em sessão ordi- 
nária a 22 de abril de 1741 para examinar a duvida r=: 
Jln obstent objecii itítis, quominut procedi postit ad ulie- 
riora in casuj et ad effectum dequo o^thirf = N^esta ses- 
são depois de ouvidas não sdmente as objecções dopromo-, 
for da fé, e os pareceres de cada um dos cardeaes^ mas 
lido e examinado tudo e attentissimamente ponderado, 
tendo constado que aquelles ritos haviam sido usados não 
de -um modo significativo como os geptios, mas que ba-. 
viam sido meramente actos da vida civil communs a to- . 
dos, o Pontífice depois de muitas preces, e da celebração 
do santo sacrifício da missa, a 6 de julho do mesmo anno 
decretou r= « que os ritos objectados pelo promotor da fé^ 
u não obstavam a que na presônte causa se procedesse ad . 
u ulieriora^ isto é, á discussão da duvida do martírio, e 
u causa do martyrio, e maravilhas ou niilagres que se di- 
%i liam feitos por intercessão do Servo de Deus. » = 

Desfeitas estas diffículdades, devia em breve esta du- 
vida ser discutida n'uma junta preparatória, se repenti- 
namente se não tivesse levantado em Portugal uma tem- 
pestade contra aquella província da Companhia de Jesus, 
e não se lhe tivessem seguido com pouco intervallo as vi- 
cissitudes que feriram toda a Companhia. Tendo porém . 
cessado todo o impedimento, juntou-se a Congregação no 
palácio do Vaticano a 8 de abril do anno corrente perante 
os reverendíssimos padres dos sagrados ritos : e finalmente 
a 16 de setembro foi instaurada esta questão em sessão, 
plena celebrada na presença do Santíssimo Padre o Pa][>a 
Pio IX, na qual o reverendíssimo prefeito cardeal Luís 
Lambruschini propoz a causa em logar do reverendíssimo . 
sr. cardeal Della-Ganga Sermattei, relator, e os reveren- 
díssimos srs. cardeaes, e os outros padres deram todos o 
seu voto. 

£ tendo atlentamente ouvido tudo, o Santo Padre di* 



— 331 — 

latou b emittir ú seu juiso,e levantando a sessão com ler- 
iiios cheios de bondade, exhortou a todos especialmente a 
dirigirem ao Altíssimo humildes rogativas sobre este gra- 
víssimo ponto ^ e tendo o mesmo Santo Padre invocado o 
Senhor, n^este dia dedicado ao Príncipe da Milícia Celes- 
te, cuja fortaleza o V« João por mnitbs annos imitara na 
propagação da fé, e confissão do nome de Jesu Christo, 
havendo primeiro celebrado o incruento sacrificio, c im- 
plorado novamente o auxilio do Divino Espirito Santo, 
dirigiu-se ao hospício apostólico innocenciano . na mar- 
gem do Tibre, onde desempenhou as funcçoes de vigilan- 
tíssimo pastor, e convocados á sua presença o reverendís- 
simo sr. cardeal Lambruschini, bispo do Porto de Santa 
Rufina e Centocellas, prefeito da Congregação dos sagra- 
dos ritos, o reverendíssimo padre André Maria Frattiní, 
promotor da santa fé, juntamente comigo secretario abai- 
xo assígnado, pronunciou na presença ae todos canonica- 
mente que == M consta do martyrio, e da causa do marty- 
44 rio do referido V. Servo de Deus João de Britto, que 
uDeus iilustrou e confirmou com muitos prodigiosa e por 
mísso se pode proceder adulteriora^ sem se discutirem ou- 
«< tros milagres além dos já propostos e examinados nasdi- 
M tas congregações, n ziz 

E mandou que se publicasse este decreto, e se lavras- 
se nas actas da Congregação dos sagrados ritos nVste dia 
29 de setembro do anuo 1851. 

L, Cardeal Lambrusehini, bispo do Porto de 
Santa Rufina e Centocellas,- prefeito da Con- 
gregação dos sagrados ritos. 

l^gar 1^ do sello. 

L» G, Fataiiy secretario da sagrada Congregação 
dos ritos. 

Sem se metterem muitos mezes em meio, logo no se- 
guinte mezde fevereiro em a manha do dia 17 o mesmo San- 
to Padre se dirigiu com grande pompa ao oratório da Santís- 
sima Communhão, e de S. Francisco Xavier, chamado 
vulgarmente o Caraviia (l), onde foi recebido pelo P. 



(1) Este oratório tomou o nome àeCaravUa do padre 
jesuíta que o fundou. E^ uma Igreja bastante grande, 
onde de dia e de noite se fazem com muita concorrência 
e devoção differentes exercícios de piedade, como entre 
nós antigamente no dos padres da congregação do orato- 



— 332 — 

Rootban, preposito geral da Companhia de Jesus, e pelo 
Vf SaccketU) director io pratorio. Feita a adoração ao 
augustis^imo ^acramento^ que este anuo ae havia exposto 
.com maior pompa, e maior numero de luzes, o Santo Pa* 
dre acompanhado, da sua corte dirigiu-se pela escada in- 
terior á aula máxima (l) do coUegio romano, edificada 
de novo, onde se havia levantado o sólio pontifício, su- 
bindo ao qual pronunciou .na presença do cardeal Lam- 
l)ruschíni, prefeito da Congregação dos ritos, de Monse* 
nhor Frattini, promotor da fé, e de Monsenhor Gigli, 
sub-secretario da mesma Congregação dos ritos, dois de- 
cretos. Com o primeiro declarou que se podia sem duvida 
proceder á beatificação solemne dpV.P. João deBritto', 
e com o segundo approvou os milagres do V« João Grau* 
de, religioso professo da ordem hospitaleira de S. João 
de Deus, chamado o Peccador. 

Coucluido este sagrado rito com as formalidades do 
estylo, recebeu o Santo Padre benignamente as acções de 
graças do P. preposito geral da Companhia de Jesivi, e 
do P, Deidda, geral, e P. Alfieri, secretario da ordeni de 
S. João de Deus, e dos respectivos postuladores d^estaft 
causas, aos quaes correspondeu com palavras deaoiigratui 
lação, retirando-se depois pela porta principal do referido 
collegio. 

O decreto relativo á beatificação do B.João de Brit-. 
to é como segue. 



rio ao Elspirito Santo, sendo um d^elles o jubileo das 
quarenta e oito hpras entre o donúngo da sexagésima 
c quinquagesima. 

(I) £' o grande salão dos actos do collegio romano, 
que serve também de oratouo das classes inferiores d'a- 
quclle grande e celebre lyceu ou universidade.^ Tendo-se 

ultimamente queimado quando os franceses ajli estiavam 

aquartelados, Ibi ha pouca restaurado. 



— 333 — 



DECRETO MELIAPOKENSE 



De beatificação e canonisagão do V* Servo de t)eu$ João 
.de BrittOy tacerdoie professo da Companhia de Jesu$^ 
sobre a duvida se vista a approvação do martyrio^ e 
dos milagres (Teste Venerável^ se possa çom segurança 
proceder ã sua beatificação solcmne, 

O V. Varao João de Britto, sacçrcbte professp dii 
Companhia de Jesus, que no fim do século decimo seti- 
mo, depois de sofirer as maiores injurias e ludíbrios^ os 
cárceres, os fer;ros, e os mais estranhos tormentos, ^ce- 
Í)eu felizmente uma morte gloriosa no reino do Madure, 
província do Malabar, jpor ordem, do regulo do Maravá^ 
que lhe havia interdicto pregar aps poyos a&aHagSo eter^ 
na, augmentou os tropheos dos marlyrea, que dao honra c 
esplendor á Igreja militante por meio da desejo contioi^ 
de se tornar digno de padecer injurias pelo Nome de Je- 
sus, e da mais rara constância em confessar £^ fe de Chr is- 
to. £ como a verdade infalUvel por &ua boça nos ensina, 
que todo aquelle que confessar perante os homens cíFilhQ 
de Deus conseguirá egual confissão^ pers^ate o Divino Pai, 
isto é, junto de Deus, dos Anjos e dos homens, gosando 
por disposição da Divina Sapiência o justo galardão na 
gloria eterna com Deus e os Anjos^ perante os homens 
consegue a promettida confissão especialmente quando por 
intercessão do V. Varão são reconduzidas ^oredil da San- 
ta Madre Igreja as ovelha» desgarradas, assim como em 
sua vida occupado no sagrado ministério afugentara em 
muitos as trevas do erro, eaa arrebanhara copiosamente. 

Por tanto tendo o Santissimo Padre Pio IX, n^aso 
Senhor, publicado em 20 de setembro do annó passado de 
1851 um decreto solemne pelo qual declarou zi: que cons- 
tava do martyrio, e da causa do martírio do sobredito 
V. Servo de Deus João de Britto, que Deus illustrara e 
confirmara por meio de muitos milagres, e que por con- 
sequência podia proceder-se ulteriormente, sem se discu- 
tirem outros milagres além dos que já tinham sido pro- 
postos e examinados = -, nada mais restava senão interro- 
gar, segundo o costume, os padres da sagrada Congrega- 
<;ão dos ritos sobre se julgavam poder-ge seguramente re- 



— 334 — 

ferir p mesmo Venerável no cathalogo dos Beatos. O que 
tendo tido logar no dia 27 de janeiro dó corrente anno, 
na Congregação geral celebrada no Vaticano na presença 
do mesmo Suromo Pontifice, hoave e assentimento de to- 
dos os que se achavam presentes. 

Todavia o mesmo Santíssimo Padre Pio IX Pontífice 
Máximo, para oue não faltasse o tempo de impetrar as 
luzes do Santo £spiritp com as suas rogativas e dos mes- 
mos padres, segundo a exbortação que benignamente ha- 
via feito, quiz espaçar este negocio, e a declaração do seu 
Joiso supremo. Por tanto n^este dia em que se conta terça 
feira depois do domingo da sexagésima, tendo offerecido 
devotamente a Hóstia do Cordeiro im maculado, dirigiu- 
se á aula máxima do coUegio romano da Companhia de 
Jesus, depois de reiterar férvidas supplicas no contíguo 
oratório da Santíssima Gommunhão geral perante o au- 
gusto Mytterio da nossa fé exposto á publica veneração, 
segundo o louvável costume doestes dias; ealli chamou â 
sna presença o reverendíssimo sr. cardeal Luiz liambrus- 
chJni, bispo do Porto de Santa Rufina e de Centocèllas, 
prefeito da Congregação dos sagrados ritos, o reverendís- 
simo P. André Maria Frattini, promotor da santa fé, c 
a mim abaixo assignado vice-secretario, e diante de lodos 
prenunciou solemnemente == ^Utf $e podia teguramente pro- 
der á healjfieação do sobredito V* Servo de Deus João de 
J9rt<toz=e expedir as lettras apostólicas em forma de bre- 
ve sobre a mesma beatificação, que a seu tempo se devia 
celebrar na basílica do Vaticano. 

£ ordenou que se publicasse este decreto, e se la- 
vrasse nas actas da Congregação dos sagrados ritos a Ift 
de março do anno de 1852.— -X#. Cardeal Ltambruschini^ 
prefeito da Congregação dos sagrados ritos. — Logar ^ 
do sello. — Domingos €HgU^ vice-secretario da Congrega- 
ção dos sagrados ritos. 



— 335 — 
PARTE V. 



NOTICIAS 80BRE A MISSÃO DO M ADVRE DBSDE A SXTINC- 
çXo DOS JESCIITASf E CONSIDERAÇÕES GERAES SOBRE 
AS MISSÕES PORTUGUESAS. 



Antes de concluir esta Memoria, parece-nos que será 
razão fazer uma breve relação do estado em que de pre- 
sente se acha a missão do Madure ensopada com o suor e 
o sangue de tantos varões portuguezes* Esta missão crea- 
da e cultivada pelos jesuítas portuguezes desde o auno de * 
1646, e sujeita á jurisdicção do bispo de Meliapor, havia 
chegado ao maior esplendor quando aconteceu a dissolu- 
ção eextincção da Companhia. Ignoramos quaes foram o» 
primeiros missionários que alli lhes succederam* E^ certo 
por^m que, assim como todas as outras, soííreu grande 
abalo, e a sua falta foi muito sentida. 

No tomo 2.^ ásiS jinedocia$ do Minisitrio do Marquez 
de Pombal impressas es^te anno na eidade do Porto, que 
e uma obra importantissima para a historia ecclesiastica 
e politica do reinado d^el-rei D. José, achamos a pagina 
133 e seguintes algumas noticias muito relevantes sobre 
as missões dos jesuitas no Oriente na época a que nos re- 
ferimos, que não podemos desaproveitar. «Ovice-rei, dift 
(coauctor, (i) Se dirigiu aos superiores das outras ordens 
u religiosas, para arranjar missionários que occupassem o 
«logar dos jesuitas. Elles Ib^os mandaram, mas d^aquellea 
uque melhor podiam dispensar, e sobretudo gente nova, 
ude quem a idade, as luzes, e a experiência convinham 
i< pouco a funcgões tão grandes e penosas. Augmentou-se- 
ulhes consideravelmente a somma até ahi estipulada aos 
u missionários : e embarca pdo elles praticaram durante a 
u viagem algumas scenas que senão assimilhavam aostra- 



(l) Eiste vice-rei era o conde da Ega, que depois de 
ter servido fielmente os desígnios do marquez de Pombal, 
foi chamado em 1764, e encerrado ignominiosamente nas 
prisões de Lisboa, ignorando-se a causa da sua desgraça. 



— 336 — 

«(balhos apostólicos. Entrando n^elles a divisão se separa- 
«t rani ^ mas logo foram obrigados a reunir-se para se apre- 
M sentarem ao arcebispo Serrano Monseigneur de Regi- 
4IÒUS (l). £ste virtuoso prelado bem depressa lhes avaliou 
4< o seu mérito, dizendo-lhes que não tinba difficuldade 
i( era receber os novos missionarios^.que orei lhe mandava 
M em logac dos jesuítas, assim que lhe constasse que eram 
u capazes para exercer asfuncçõesdo seu minbterio ^ mas 
«que se elies não soubessem a lingua do paiz nem hou- 
«vessem estudado iheologia, os nâo podia empregar, ajun- 
utando que se lhe fosse tirada a sua pensão animai com que 
M o vicc-rei o ameaçava, elle tornaria a ir viver de herva» 
" c legumes, como tinha feito no Madure por espaço de 
« 30 annos. Foi assim que escreveu ao vice-rci. Q.ue trium- 
M pbo para a religião, se o ministro tivesse encontrado 
uegual firmesa em todos os bispos ! Seu despotismo des- 
Mtruidor não teria podido vencer um dique tão insupera- 
Mvel. Detidos por este obstáculo os novos missionários, se 
u retiraram a Calecut, e começaram a aprender sl lingua^ 
umas este trabalho lhes pareceu tão árduo, que logo ore- 
i4 jeilaram \ e assim depois de ter gasto as sommas rece- 
ubidas, nada mais fizeram do que voltar aGoa^ onde fo^ 
u ram muito mal recebidos, n 

Por este discurso do auctor das jénedocias parece in- 
férir-se grave injuria ás ordens regulares estabelecidas no 
Orient^ as quaes tinham muitos Ireligiosos de virtude e 
sabM^e prestavam valiosos serviços á Igreja nas muitas e 
importantes mitsde» de que se achavam encarregadas. Sm 
honra da verdade porém cumpre dizer, que alguma rela- 
xação grassava n^aquellas ordens; mas as causas tinham 
sido Tepe€idat veaes apontadas á côrle pelos respectivos 
prelados e pelos bispos sem que esta promovesse a appH- 
caeão dos remédios competentes. Asprrncipaes eram, í.^ 
as isenções dos regulares tão reprovadas por tantos Papas e 
pelo concilio de Trento que os tornavam independentes da 
auctoridade dos bispos; 2.^ omandarem-se geralmente de 
Portugal para o Oriente nos últimos tempos, em logar de re- 
ligiosos revestidos de virtudes apostólicas, osdiscolos como 
em castigo ; d.^ a facilidade com que se admittiam os seus re- 

( l ) Este arcebispo era o da Serra ou Cranganor, o qnaX 
recebia directamente de Goa a sua côngrua. 

OEdihr. 



— a37 — 

cursos á coroa, qUando os prelados diocesanos intentavam 
exercer a sua indisputável inspecção sobre o governo das 
suas religiões^ 4.^ a propriedade que se lhes dera de mui- 
tas missões, para aá administrarem quasi independente- 
mente dos bispos. A existência pois e continuação doestes 
males antes que imputar-se aos regulares, deve attribuir- 
se á incúria dos governos, e menospreso dos verdadeiros 
interesses da religião. * > • 

E para que estas nossas asserções nâo pareçam sus- 
peitas e graciosas, apresentamos aos nossos leitores um tes- 
temunho irrefragavel da auctoridade mais competente n^es- 
ta matéria, omittiudo por brevidade outros que podería- 
mos adduzlr. fizeste o de D. Fr. Manuel de S. Galdino, 
que em i 804 foi transferido da Igreja de 'Macau para a 
còadjutoria e futura successâo. do arcebispo de Goa D. Fr. 
Manuel de.S. Catharina». Este prelado em uma represen- 
tação dirigida ao principe regente D. JoSo em janeiro de 
1805, diz o seguinte. < . . 

u Senhor. Como V. A «houve por bem encarregar-me 
o governo da principal Igreja da Ásia, a quem presente- 
mente está incumbido cuidar de todas ás outras, quenao 
têem bispos, acho ser da' minha obrigado expor a V. A 1 
o estado geral em que se acham, e em particular a de 
Macau, que ainda estou governando, e de quem me per- 
suado ter todo o conhecimento, pedindo a V. A* provi- 
dencias para todas ellas. • 

.((Q;uando os portugueses^ senhor, conquistaram a ín- 
dia, cuidaram, logo. em fazer muitos conventos de religio- 
sos, para que estes fizessem também conquistas para a re- 
ligião ; isto não podia deixar de ser muito útil mesmo 
para o estado, pois só a religião. christã é capaz de fazei: 
dóceis os povos, e sujeital-os de coração- aos seus sobera- 
nos, e assii&i aconteceu com effeito em quanto vieram re- 
ligiosos escolhidos, homens já determinados ao combate 
das paixões ^ porém logo que os provinciaes do reino en- 
traram a não mandar senão aquellès que lá não podiam 
soffrer, ou mandaram umas recrutas de rapazes sem talen- 
tos, sem estudos, e o peior éj sem costumes, e dos que 
ellés não queriam para ficarem nos conventos da Europa, 
depois que vibram para a índia frades, que a virem de- 
veriam vir soldados, as religiões decairam, relaxaram-se, 
e ficaram de bem pouca utilidade. As missões encarrega- 
das a sujeitos tão pouco hábeis desfalleceram, decairam, 

43 



— 338 — 

e á propofçaQ dbcaíu também o amor dos povos ao nome 
christSo, e ao nome povlugue?^ no que o estado tem sof- 
frido umu pevda, qae nâo é fácil de calculi^T. 

M No priaeipio ioi p^ecàâo. encarregar as missões aos 
veligioBos assim pela probidade d^estes^ como porque ode-* 
ro ifiditfM) (ae>o bavia) é pouco apto para grandes coisas^ 
eada relígiãa teve districto assignado de missionar para 
evitar as intrigas, que nasciam da mistura jde religiosos 
de diversos inatilutos nas mesmas tierxas ^ e pelo tempo 
adiante cada religião cbamou seu ao districto, em que 
mais freqaealement« missionava. Os bispos contentes dos 
progressos^ que en^tao faslam^ e temendo entrar em con- 
testações cabrani-se, enão disputaram os títulos, com que 
se ebamavam donos d^aquellas missões, ficou pois sendo 
isto para as religiões uma prefiogativa, e um direito de 
posse, que ti^u procusado. sempre conservar bem contra 
a :Vontade doa i»ltimos bispos que se acbam sem forças de 
combatel-os, porque os bispos sao s<5s, e as religiões em sit- 
mtlhantes artigos íamm causa commum. £ra preciso para 
conservarem*se aresta posse, e prover cada uma o seuçUs* 
tricto terem gente ^ e como de Europa nem mesmo da 
incapaz Ibes violia, entraram a mandar buscal-a a bordo 
das naus do reino, eacçeitarem não siS alguns rapazes que 
vinham servindo nos navios, ipasaté dos soldados daguar- 
ni^o, e. alguns mesmos dqs que .vinham degradados. Não 
obstante a desordem doesta escolha, as religiões não téeih 
a g^ite fiuMi:ieate, e as missões que devem prover, estão 
oom tão pouca e tão má pela maior parte, que não exa- 
gero em diser que estão desertas. 

u.Os provinciaes de. Goa à imitação dos da Europa, 
também não mi^dam para as .missões, especialmente as 
mais distante8,> e em países menos sadios, senão aquelles 
de que qnerem desfazer^se» Timor por exemplo, que é o 
degreda dos degradados de Goa, o veiu a ser também dos 
religiosos de S. Domingos <com a difierença, que estes de* 
gradados vão a missioiíar, e parocbiar. âue parochos, e 
^úe missioBarios 1. O n^rnor mal que lá fazem e negociar. 
Eu sou testemunha de um padre, que no mesmo barco 
em que foi, mandou logo varias com missões de sândalo 
por sua conta. < 

«4 O arcebispo alem de não ter clérigos que bastem a 
proverestas missões, os mesmos que tem, não pode man- 
dal*os por jerem as missões denominadas dos religiosos ^ 



— 339 — 

e âe se attreVease a deftiçnar os sujeitos toa» capases de 
entre estes, c de broprki auctoridade os quisesse eavíair^ 
alem de não ser obedecido, havia logo Teeursos por abuso 
de poder, logo gritavam que eram isentos, 'que lhes que* 
bravam os privilégios, ete. , e estas iseugões e privilégios*, 
que os sumnios Pontifice» lhes não concederam, senão para 
o melhor serviço da Igreja, veiu a ser presentemmite, em 
especial na Ásia, orneio de nao serem asnissSea servidas, 
e de perder-se aquillo mesmo, que <!iistoa tanto a ganhar 
para a Igfeja. 

« £a faço gloria, senhor, de ser religioso, pieso-me 
muito do meu habito^ eda cèrporaç2o a que tenho ahon» 
ra de pertencer^ mas é por isso mesmo que me attrevo* a 
dizer a Y« A. que na Ásia não deve haver religiosos iseur 
tos, ao menos n^estes pontoa, e que para o bom regimen 
doestas Igrejas é preciso que V. A. determine que os^bis^ 
pos mandem para qualquer missão, pertença «quem per^ 
téncer, os individuos que lhes pareçam ou sejam secula- 
res, ou regulares sem que os provinciaes possam oppor-^se^ 
salvo no caso que fosse Immediátamente pnjudwial fio 
governo económico dos òohventos. 

uT3o longe estou eu, senhor, de ser centra as l^%ides^ 
què pé^ ^\ò aiiior de Deus a Vk A* mmde bispos para 
estes bispados extrahidos das mesmas cor jf>oraçoes, queprèr 
somem pertehcer4hes, isto é, de S. Domingos para o.bisr 
pado de Malaca, de 8. Agostinho para e bispado de Me- 
iiapor, e arcebÍB|Mido de Cranganor. Para Coohim, que 
agora não pertence -a corporação partioular, pede vir 
d^onde V* A» quiser, com obrigação porém de que os 
provinciaéi destinem a eada bi^ pelo manos quatro re- 
ligiosos sacerdotes da mesma oorporaçee para acompa»- 
nhál-os, aliás vêem os pobres «ém aeharem ninguém que 
os ajudei A V. A-. nSb Querer mandar bispos, queira ao 
meáos matfdab religiosos hotatens já feitos e eapaaes« £u 
sei que os provincíáes têem -lesâo do não quererem mandar 
doestes, porque lá mesmo sao ntuitouteis^ porém-, senhos, 
ainda que o sacerdote bom é utilissirao em toda a parta, 
e sempre fez falta d^onde se tira, os previneiaes devem 
atténder á inaior nécelsidade da Igreja^ e do estado, « 
mandarem para a índia ao menos homens sérios* • • • > 

M£m uma palavra, senhor, o que éu lembre aV. A. 
c encarecidamente rogo, é que determine que -venham pa- 
dres, e de fnrobidade^ aliás perdem-«e de todo estas miar 
soes, e consecutivamente estas colónias* 



— 340 — 

«tMas em todos os casos é indispensável, e absoluta-* 
mente da ultima necessidade, que V. A. mande dois pa- 
dres, quando nSo possam ser mais, da congregação da 
missão, vulgo Rilhafolles, para cuidarem ao menos de um 
seminário de Goa, porque por experiência se tem conhe- 
cido uma total differença no clero, que foi educado pelos 
da mesma congregação que estiveram em Goa^ eo único 
modo de crear um clero secular respeitável, é pôr no se- 
minário mestres doesta corporação, pois os das outras ain- 
da que sejam muito sábios e virtuosos, como nSò tiveram 
creagao de seminário, não são tão aptos. Eusei que os pa- 
dres hão de desculpar-se muito, e de muitos modos, porem 
queira V. A. attender que elles na Ásia, ainda fazendo 
pouco, são muito mais úteis á religião, e ao estado do que 
na£uropa trabalhando muito, e com muito fructo, cpeço 
•A V. A. pelo amor de Deus, e em nome da Igreja, que 
absolutamente me mande dois, etc. » 

Feita esta observação, continua o citado auctor das 
Anedoctat a pagina 136 em uma nota o seguinte. «Um 
u doestes pequenos príncipes do Malabar instruido das vio- 
idencias que se faziam aos missionários, chamou-os aos 
Mseus estados. «Vinde para minha casa, lhes dizia elle, 
ueu repartirei o arroz comvosco. j? M, doM. de Pomh.n 
E no texto a pagina 140 segue d' este modo. «Chegaram 
«do Maissur n'este tempo três catechistas deputados por 
«sua nação, para supplicar ao vicc-rei, que lhes não ti- 
*«ras8e os seus missionaiios. Esta personagem recebeu-os 
«com altivez, e disse-lhes que mandaria tropa para os 
«prender. N<5snão os tememos, responderam cem firmeza 
«estes fervorosos christãos; n<5» somos livres. Poderão ar- 
« rançar- nos a vida, mas não a nossa fé, nem os nossos 
«padres. Mas quando elles vos faltarem em Portugal e 
u em Goa, onde os ireis buscar ? A França, disseram el- 
44 les, e os outros paizes da Europa noUos darão. — E co*. 
(( mo e com que os sustentareis, replicou o vice-rei ? — 
u Em quanto as nossas terras produzirem arroz e legumes, 
i( temos com que os sustentar. •— Uma pessoa que estava 
«presente começou a desacreditar a doutrina dosjesuitas^ 
«mas os catechistas que estavam perfeitamente instruídos 
«em matéria de religião, porque o deviam estar para 
« refutar as subtilesas dos brahmenes, dlsseram-lhe que 
«estavam promptos a explicar a doutrina de seus padres, 
%. CO que elles lhes tinham ensinado, pedindo que lhes 



— 341 — 

ajuntassem os theologos^ que nSo duvidariam passar pelo 
seu exame: mas não pareceu conveniente fazer-lhes essa 
vontade, e foram despedidos. » 

Weste passo dá o auctor a seguinte nota. u Carvalho 
u mandou traduzir na linguagem do paiz, e espalhar um 
M grande numero delibellos infamatorios para prevenir os 
u Índios contra os jesuitas. M, do M, de Pomb.n 

■ Mas continuemos o fio da historia da missão do Ma- 
dure tanto quanto as poucas noticias especiaes que d^ella 
temos nol-oconsentemj permittindo-nos o entrançar n^este 
contexto algumas outras reflexões sobre a importante ma- 
téria das nossas missões. 

Em 1773 o Papa Clemente XIV estabeleceu que as 
missões dos reinos de Madure, Carnate, Maissur, e da 
costa da Pescaria se entregassem aos religiosos carmelitas 
descalços debaixo da direcção de um vigário apostólico. 
Este plano porém não chegou a ter execução por causa 
das complicações que se suscitaram, sendo uma d^ellas a 
prctenção da França, que aproveitando-se do grande vá- 
cuo que a extincção dos jesuitas deixara nas missões por- 
tuguesas, quiz ampliar a sua preponderância com os des- 
pojos alheios, exigindo que se confiassem aos padres do 
seminário das missões estrangeiras de Paris todas as da 
índia eda China que tinham sido dos jesuitas. Esta pre- 
tenção foi reforçada ' com novas instancias no tempo do 
Papa Pio VI. Mas como feria os direitos da coroa de Por- 
tugal, e das dioceses portuguesas do Oriente, não annuiu 
a S. Sé. Todavia em 1776 foi concedido á França um vi- 
gário apostólico com residência em Pondichery para as 
missões que os missionários francezes da extincta Compa- 
nhia exerciam na costa de Coromandel, ao qual em 1784 
se concedeu um coadjutor, confiando-se a ambos as mis- 
sões do Malabar das provincias de Telegoh , Carnate, 
Maissur e Madure outr^ora pertencentes aos missionários 
portugueses da Companhia. Esta medida encontrando, 
como era natural, a jorisdicção dos bispos de Meliapor e 
Cochim, a que aquellas missões pertenciam^ suscitou gra- 
ves conflictos, que foram desfeitos, pela prudência que dis- 
tingue todos os actos da S. Sé, declarando^se que a com* 
missão dada aos ditos vigário e coadjutor, era puramente 
para auxiliar aquelles bispos onde elles não podiam che- 
gar, e não para lhes subtrahir aminima parte do seu re- 
banho, e coarctar a sua jurisdicção. 



--342 — 

Todavia tornoa-se cada dia mais tSo sehsivel è tna^ 
nifesta a faltà que fizeram od missioíiarios âa. Compaftfaia'^ 
que algiimas das nossas missões, na cadencia de oútrOs', 
ficaram por muito tempo seiòii ministros, pó^to que mui- 
tos dos jesuítas continuaram a servir algumas como prfes*. 
byteros seculares. Uma das que mais seiitiu esta falta foi 
a do Madure, para onde pelos aiino^ de 1783 foram màn^ 
dados alguns barbadintios italianos, a instancias de Portu- 
gal. Ignoramos porém se elles chegaraisi af tòthai' conta doesta 
missão, que também teve missionários carmelitas descalços. 

A causa doesta penúria nao era s<5 devida á falta do* 
jesuitas, mas também a não haver nà índia tííh corpo de 
clero propriamente indigetía, potque, ou por se ter re- 
conhecido por ei^periencia que os Índios não ei*am os maik 
propriois para o apostolado cátholico, òu antes pòr moti^ 
vos dè humana politicai que não vem para aqui indagar^, 
nunca se tinha comi propósito firme assentado ^em formar 
um dèro dos naturaes do paiz. A ^to qúiz acudir opers^^ 
picasissimò tnarquez de l^ohibal nas fàibosas instrucç5es, 
qué alguiis ánnos depois deu ao arcebispo de Goa para at- 
tender seriàihente á formação de uni clérò indiano. Pai-ece 
todavia que, ou por não sé penetrar bem o alcance da men- 
te dó sábio ministro, ou por preconceitos inveterados, ou 
por outras causas que não intendemos agora investigar, 
se liSo obtévè ò desejado effeito. E' certo porém qúe a 
S. Sé nós téàipos successivos, é prihfcipâlment« il*estes *il- 
timos, inctilcando também como uhica e ihdièpensâvel esta 
inesma medida aos seus delegados, nSò tem obtido melho- 
res resultados. 

Dé sorte qúe aggravahdo-se ò mâl cfoili ô correr dos 
tempofs; ou pêlo entibiámentb doantigb fèr^òr, oã pòr as 
vicissitudes politicas que desde ós fins do seôulo passado 
desolárain a Europa, e especialmente Portugal, era já noft 
|)rixlclpios doeste secUlo tão grande e tão geral á earenoia 
ãe missionários nas Missões portuguesas, e tão reconhecida 
a necessidade dòé jéáuitasj qtie os mesmoè bispos pk>rtu* 
guezes os pediram èíticàzmeiitè. T&mos tilna](»tôvâ d^iiito, 
entre bbttas qufe pódefiamos citar, erià D.Fr. Thomàrdè 
Noronha da o^detb de S. Agostinho j biSpo eêeito de Co- 
chiih, que pelos atinos de ISl?, 18, e 19 fez gt^andes ins*- 
tancias com á còrté de Portugal, pára qtíe se permittisíse 
chamar os missionários da Companhia já restabelecida por 
Pio VIL ' 



— 343 — 

«« Em uma caria datada de Goa a âO de novembro de 1 8 1 7 
diz elle o seguÍQte =:: «c Os padres jesuítas foiram, coipo se 
(( sabe^ os fundadores da religião no bispado do Cpchim* 
«.( Na visita que £z dp mesmo bispado, admirei a sabedo- 
a ria e discernimento com que aquelles lamentados padrey 
u estabeleceram as christandades, que ainda depois de.tan- 
u tos annos conservam um resto da antiga bpa ordem ^ 
u-mas um resto que s^ bast^ para choraj a falta 4^cste8 
u homens apostólicos, e suspirar pela sua restituiçSo ás 
M suas antigas missões* 

uCojffk efieito, querer a conservarão da religião na 
««índia sem sacerdotes europeus, é querer um impossivel, 
H ainda digo mais, sem padres jesuitas \ pois é experien- 
«A cia feita, que os outrps o que. inais fizeram foi conser- 
M var ^ quando n^aquelles logares que foram depois entre^ 
a guês aos paicbes da índia, como Cochipn, qs negócios da 
<* religião peioram todos qs dias» E^ absurda a lenibrança 
^ que canarins possam conservar, não digo continuar, e 
««menos adiantar,, os gloriosos trabalhos de homens que se 
««sacrificavam todos ao bem das almas. 

«(Não se poderá conseguir ao menos seis padres je.- 
««suitas, ao menos dois ou treS| algum para o bispado de 
u Coçbim ? £u vi qiie em Madrasta e Pondichery os in- 
«glezes os respeitavam > o cindia toda obedece a esta na* 
««çâo, a qual dá plena Uberdade aos sacerdotes cathoUcos, 
ue sdmente toma particulares precauções com os france* 
a.zes, Emumap^avra, sendo italianos ou.hespanboes nada, 
a ha que temer. • . • . 

««Tratei esle negocio com P exm.^ sr. arcebispo, a 
«« quem agradou, e que por isso, se não se declara, o por 
4c boas e<HPisideraçoes, que não militam no meu caso \ pois 
t( CochUn é um deserto, de ci^oe operários se nao sabe em 
f«Goa^ e por outra parte quem qjier os fins,d.eve querer 
91 também os meios. S. Ex.^ cpm tudo vae d«r agora aU 
««gum pa^so sobre isto para a missão de Balagate. • ^ 

««P. S, Heinie convidar também o. arcebispo eleito 
«cde Cranganor, que;{bi meu discípulo na ordem, e que 
f« muito necessita dos jesuitas n^aquella diooese, de que 
^bem conheço as precisões^." Em outra caéta de 23 de 
noven^beo de 1818> repetia a mesma instancia .pedindo ao 
menos dois padres jesuitas. ««A religião na índia, diz el- 
«« le, necessita hoje mais que nunca dospadres jesuítas per 
M las razoes que exponho na minha carta.» 



— 344 — 

o que este prelado dizia em respeito ao bispado de 
Cochim, era appiicavel a todos os outros do padroado por- 
tuguês, talvez com alguma excepção do de Goa . £ como 
se nSo bastasse o estado em que isto se achava, veiu em 
1834 a illegal e funesta suppressao das ordens regulares 
não 60 no continente, mas o que foi peor ainda no ultra- 
mar. Parece incrivel que um goVerno que se jactava de 
querer restituir á nação o seu antigo esplendor, commet- 
tesse um erro tão grande ! 

Devia pelo menos imitar o exemplo de Hespanfaa que 
conservou alguns regulares para as suas missões, e um se- 
minário em Ocanã para esse fim, o qual vae agora ser 
transferido para Toledo, onde se lhe dará ' muito maior 
eitensão. Devia imitar a França que protegeu o seu se- 
minário das missões estrangeiras em Paris, e outros que 
tão úteis lhe têem sido espiritual e politicamente. 

Imitará agora o nosso governo estes exemplos, ou con- 
tinuará no systema vergonhosíssimo de não attender á 
creação de missionários para as nossas missões, e de não 
permittir que os que de fora se nos vêem oflTerecer, vão 
alli repartir o pão da divina palavra, que debalde os po- 
vos estão pedindo ha largos annos? O homem que não po- 
dendo com as suas. forças sustentar um peso que o faz ver- 
gar e cair, impede que outros lhe dêem a mão para se 
suster, torna-se abjecto e ridículo ! Fechará o nosso go- 
verno os olhos ao espantoso movimento religioso que agita 
as nações tai^to mais poderosamente, quanto mais civili- 
sadas, e outr^ora mais descrentes T De toda' a parte púl- 
lulam missionários, que aos milhares lá se vão para a Ásia e 
Africa annunciar o £vangelho a seus habitadores \ por-> 

?[ue se lhes não dará acoesso ás missões portuguesas, como 
áziamos nos séculos passados com inquestionável utilidade 
da religião e do estado f Franqueam-se os portos a todo o 
género de mercadorias para animar o commercio *, porque 
não se franquearão também ás mercadorias evangélicas, 
de que outr^ora foi um verdadeiro empório esta cosmopo- 
litica cidade, a cujo porto adS centos arribavam todos os 
annos missionários de todas as nações, e d^onde aos centos 
partiam a christiauisar as muis remotas regiões, e os mais 
bárbaros povos ? Se isto se não fizer, virá tempo e|n que 
já não será tempo, e Portugal coberto de ignominia, de- 
balde chamará á memoria com pomposas phrases as suas 
passadas glorias, e os seus titulos c privilégios adquiridos 



— 348 — 

quando aftf era viva, enáo era mesquinba a sua {{olitica. 
Porventura é asna causa tão fraca que tema perdel-a cha- 
mando pregoeiros estranhos, que s^ tenham oíito no bem 
da religião? Isto é inadmissível. Entretanto como a Igreja 
nao concede privilégios addeiiruciionem^ mas ad adifica- 
iioniifny continuando Portugal a reclamar esses privilégios, 
sem curar dos encargos que lhes são inherentes, oSummo 
Pontifice em desempenho dos deveres gravissimos do seu 
sagrado ministério por certo que providenciará ás neces- 
sidades espirituaes dos fieis, coroo ]á fes segundo é notó- 
rio. N^estes termos se Portugal não quer que para a co- 
roa portuguesa seja um titulo vão e ridículo o de Fide* 
lissimo, é imperiosamente necessário acceitar os bons offí- 
cios, ao menos por ora, dos missionários estrangeiros, e 
especialmeàte dos capuchinhos e jesuítas italianos, porque 
aliás os verá seu mau grado estabelecidos ás portas das 
nessas possessões, sem meios legaes e justos para obstar a 
que elles preguem o Evangelho áquelles que debalde nol-o 
-pedem. Falíamos doeste modo vendo as disposições do ac- 
tual governo para as medidas grandiosas e urgentes as quaes 
não devem limitar-se ao temporal, mas também ás cousas 
da religião, com que aquelle tem intima ligação. 

Elstes são boje os sentimentos dos portuguezes sensa- 
tos, que conhecem as verdadeiras necessidades do paiz, e 
da religião de nossos pães. 

Mas voltando á missão do Madure,' coube ella aos je - 
suitas franceses com sujeição ao vigário apostólico dePon- 
dicbery para onde partiram alguns padres cm 1836, sen- 
do superior o P. Bertrand. Assim o Madure depois de 
quasí oitenta annoa tornou a ver os irmãos de seus anti- 
gos pastores, com grande utilidade da religião, e não pou- 
ca consolação dos missionários, que nas diversas igrejas 
da missão ainda encontraram os registros dos antigos pa- 
dres poroccasião da visita que emcadaanno fazia o padre 
provincial. A missão actual do Madure com prebende Tan- 
jor, MoisBur, Trichinapaly, Aour, e o Maravá, regado 
com o sangue do B.João deBritto, ecom o de alguns dos 
novos missionários, que foram victimas do seu zelo á imi- 
tação de seu Santo Correligíoso ePrototypo. Mas infelir^ 
men^ ou por causa dos esforços da propaganda protestan- 
te, que bem poucos prosélitos tem íeito, ou antes dasdis- 
sençôes, edos «loesm comroettidos depois da nova admi- 
nistração estabelecida pela Santa Se desde 1833 nasohris- 

44 



— 346 — 

tandadçs iloOrienfe, poucas conversões toem havitiò n*es*> 
tes últimos tempos, tendo-se feito pouco mais cioquecon* 
servar.a religião onde a tinham plantado. os antigos misr 
sionarios. Isto porém é ainda mais notável na costa de 
Coromandel, onde a conversão dos iniieis foi sempre, ee 
ainda hoje difâeillima, nao por falta de celó nos missio- 
nários, mas de disposições nos habitantes por extremo 
supersticiosos, e aferrados a seus costumes e praticas re- 
ligiosas. 

Aqui cae-nos bem o que o nosso erudito José Accur- 
sio das Neves expendeu nas suas Considerai^ões paliiicca t 
commerciaes êobre os tJetcobrimenios portuguemen na Afric-a 
e na jáíia impressas em Lisboa em 1830. Diz «lle.e se-» 
guinte a pagina 136 : uO christianismo tao superior ao 
«islamismo, cotno a verdade á mentira, éde Icxias ás Te* 
«iligides do mundo a maia capaz de adoçar os eostamès e 
•( civilisar os povos ^ e é com elle que os fraíiceies e inglei- 
yi zes teem emprehendido esta grande obra em Guiné, comp 
M três séculos aatas tiivham tentado ós porto guetes n^:aqóel- 
«< les mesmos paizes, e com roais prov^to no Conga. Mas 
*i o christianismo ataca a polygamia, habito . profundamente 
«arreigado n^aquelles povos, é favorecido pela aniencih 
«ido clima, e o islamismo a consente. Eis aqui o principal 
unaotivo porque o christianismo tantos obstáculos temen^ 
(icontrado nos paizes onde o levaram, e nenhuns o islã* 
u mismo onde os aVabes ò teèm plantado. « ..• 

«Farei uma reflexão que deve reanimar as-nossas' és» 
Mperatiças: nenhiima nação é- tao .bem recebida peWpo* 
M vos d^aquella. costa como a porti^ceza : ainda se nao eoc* 
« tinguiram entre elles os antigos hábitos adquirkios pel|i 
«sua frequente e diuturna coromunicaçâo cora os portu? , 
« guetes, que além d^isto .por aqnellas regiões deixaram 
M muito propagada a sua geração commuiiioando-se com 
«as mulheres do paiz.» 

Eis uma das causas princlpaes porque as dissençoes 
religiosas nas missões do Oriente teem tomado um carjac- 
ter gravíssimo n^estes últimos tempos, e se perpetuarão, 
sabeDens por quanto tempo, se hao se. lhes applioar o re- 
médio conveniente. •■ 

Conforma-se com^ as idéas do anotar citado o nosso 
distincto D. Fr. FraiiGBOo de S. Luiz na sua il/ewoiia 
sobre as viagens dos poriugtàezcs á índia p^r terray e aot 
inierior da Africa^ deufe w principiou do- sétíilo JÍV im- 



— 347-r 

pressa cm 1841 com o índice Chronologico das navegações^ 
viagens e descobrimentos dos porUtguezes, Diz elle a pag. 
267: u Demais, os habitantes d^aquellas vastíssimas re- 
ugiões, sao extremamente supersticiosos, c tenacíssimos 
« de suas praticas religiosas ^ e nos logares aonde o maho- 
u metísmo tem chegado, e se tem misturado com as gros- 
useiras superstições dopaiz, participam os miseráveis ha- 
«( bitantos dos vícios innatos dos seus mestres, e não deixam 
« de mostrar por todos os modos o ódio e a extrema aver- 
i<sao que elles lhes teem inspirado aos europeus. Accresce 
u ainda em geral que os homens selvagens e batbaros de 
Mfjfaasi tòdo^ ospaizev do miundo, Inoatram oonstantemen- 
it te mna rmvehcivel repuignáneia a alterarem o> seu modo 
u de viver,- e a^adoptarem a liossa civilisâ<^o. >» 

Oxalá que ás considerações que despidas de animo 
^einto^o' expendemos respeitosamente n^esta parte da pre- 
sente Memoria, sirvam para abrir os olhos áquelles qtíe, 
esqueoiclos: das giavissimaá obrigações ihherentes aos pri- 
vilégios do antigo padroado português no Oriente, só sa- 
bem clamar pèix> seu exercício, senà tratar dos meios ne- 
cessários pára o' exercer. Q*uem qner os fins deve querer 
os meios ^ e pof tanto qoem quer o padroado deve querer 
mfiss^onarios, a estes não nascem, faxem-se em cstabelecí- 
nfentos pvopríos par^i esse £ra, òu saem de corporações 
€^é teem por instituto as missões, e nenhuma aèhamos 
mais recommendavel como aquella a que pertenceu O B. 
João de Britto, porque assim nol-o estão dizendo a expe- 
riência e a historia imparcial baseada em provas e monu- 
mentos que nao será facil destruir. 



— 348 — 
PARTE VI. 



CARTAS IMPULSIVAS PAAA A CANONISAçIO DO B. 
JOÃO BE BRITTO. 



Por quanto vieram de Roma ás nossas mãos as carta» 
impulsivas que por parte de alguns prelados portugueses, 
do cabido da se de Lisboa, e da universidade d'*£vora fo- 
runi dirigidas á Santidade de Clemente XI sollicitando a. 
canònisação do então V, P. João de Britto, que debalde 
tinbamos procurado em alguns dos nossos cartórios^ des-. 
cnterrando-as do esquecimento em que jaziam, aqui as en- 
tregamos para já fielmente vertidas do latim em lingua- 
gem á custodia das lettras, para que se conserve muito in- 
teira a memoria doeste precioso monumento de historia 
ccclesiastica do reino, e para complemento doeste nosso 
trabalho» e satisfação do que acima haviamos promettido. 
Vao ellas pela mesma ordem com que se acham no pro- 
cesso, em seguida ás d^cl-rei D. João V, e da rainha D. 
Maria Anna sua mulher que já inserimos a paginas 215, 
c 216 doesta obra. 



Carta do cardeal D, Nuno da Otnha, 



Santíssimo Padre — O V. P. João deBritto da Com- 
panhia de Jesus, quando no Malabar em o reino de Ma- . 
ravá foi preso pelo tyranno do mesmo reino porque pre- 
gava a fé catholica, que elle com severissimos decretos 
prohibira que se annunciasse, e porque ensinara a um prín- 
cipe seu parente a observância da castidade conjugal, a q 
purificara com as aguas do baptismo, deu sellado com o 
próprio sangue tão preclaro testemunho da fé, o£ferecendo 
a Deus. seu illustre sangue, e morrendo felizmente em Ur- 
gur degolado^ ecom tanto applauso é universalmente cha- 
mado Marlyr por todos os portuguezcs e índios, já pelo 



— 349 — 

teu imigne niartyrio, já pelas egrégias virtucles que éx«r- 
ceu no paço do sereníssimo rei D. João IV e na 0>iiipa- 
nhia, pois ninguém foi mais humilde do que elle, nin- 
guém trabalhou com mais ardor em ganhar almas para 
Deus, ninguém com maior alegria soffreu os tomieatosy 
os c^probrios, os cárceres e as irrisões : que julguei ter do 
meu dever pedir e supplicar com a maior instancia a V. 
S. , que para ornamento da fe catholica, conselaçáo doa 
neophytos, e maior gloria e honra de Deus se dignasse de 
declarar por Martyr um varão tao benemérito da fé, a 
referil-o nos fastos dos Santos. 

Beijando os pes de V. S. , imploro a sua sagrada hea-- 
ção, e ardentemente rogo ao Altissimo que prospere a V« 
S. por largos annos no governo da sua santa^lereja. Li*- 
boa, 15 de novembro de 1713. De V« S. mui humildei 
devoto e obrigadissimo servo e creatura — - D. Nano car- 
deal da Cunha. 



Carta do arcebispo de Braga primaz da$ Hetpanhat, 



Santíssimo Padre — A sagrada magnificência de V. 
S. , tSo piedosamente se inclina ao mérito da virtude, qua 
attrahe os coraçdes e a veneraçio de todos. E* este o mo- 
tivo porque ouso levar ao conhecimento de V. S. oi prés- 
tantissimos merecimentos do V. Varão João de Britto, e 
os copiosos fructos que elle colheu na dilatação da fé ca- 
tholica. Conheci-o não semente desde a meninice, e direi 
quasi desde o berço, mas assistimos ambos no illustreem» 
prego de moços fidalgos do sereníssimo D. Pedro II de 
Portugal e dos Algárves então príncipe e depois rei, mea 
senhor, no qual ministério vimos manifestamente que o 
dito João era observantissimo dainnocencia cândida, e de 
todo o género de perfeição, o qual teor devida, depois que 
chamado a maiores cousas entrou na Companhia de Jesus, 
e finalmente fes a sua profissão religiosa, nunca mudou, 
mas antes aogmentou como quem era já prestante em san- 
tidade. Ardendo em desejos pelo martyrio, e passando ím 
incultas terras da índia, colheu abundantíssimos fructos 
dos seus trabalhos na conversão das almas arrebanhando 
para o redil da religião cátholíca povos innumeravéis^ e 



^330 — 

depois de) tec alU .padf&c ido pela fé de GUri&tu muitos tra** 
bulhoi^ • Iribukgoes', vegneasando a Portugal eonsumniou 
c^ipsa e.Mmm^&te na propagação das doutrituis cathoU* 
m» todo oiempb d» sua petnianéaeia noreino, exercendo 
çnéUfrfi^iiraiOBte; pot Ioda a parte eporhabiilo^ adóartcaveis 
TÍrtudesy pois 8« diz qué abstendo^e sempre da' earne c 
pisrtitte sè contentava umaamente de liervaae legumes^ de 
^ue scttBíJs iesbemunhaií oculares : porque sendo pelo excel> 
hinfcissiino n>arq(ieK' dé Mariáva que tinha assistência no 
paço 'convidados: ambos a jantar em quinta feira saiita, 
sentámo-nos todos j untos á mesa , onde aqiielfe Varão entre 
a* muitisfioias iguarias lautamente aprestadas, sdmente 
tômott umas hervinhas, e alguma feucta. Era tão austera 
a» filia vista^' que aos cançados membro» cbcva repouso no 
duro ahwDf e oritva iòontinuamente; Poi* todos estes predi- 
eadsstf er& tilo amado de todoa^ e tão desejado, que a ma* 
gestade do sereníssimo D» Pedro II o convidoa cora repe- 
tidas instancias a ficar em Lisboa, o que elle varonilmente 
engeitoú, porque só aspirava a merecer a palma do mar- 
tyrio. Por isso voltando aoMalaber, opprimido.de traba- 
lhos e soffre rido o rigor dos tempos e das estações, n^aquel- 
la vastíssima provincia converteu infinitas almas para 
Christo e entre estas um príncipe, e foi finalmente dego- 
lado ^eVafó catholica, e pela castidade, offerecendo' a Deus 
«oifi aii§d(^side graças oâacrificío d^^vida. £ra seu com pa- 
iikmuO'Qlí' Joíú>:dis Cosita da .mfi6matComp«jdiia,'aq<]al 
estando^ aiisçvteido l€>g«ir do martymo^ .Viu emíisonhos «um 
QfiaJabar qMe lhe»'Jev4i{Va/a.cUbeça do Bemavent arado Mac**^ 
tys^ a qual visão :confeBÍ«údo. depois de acordado, chegou 
lo^ii^ o ddtd maUbar. em, busca do Pi João da Cotta, c 
afsfcaodxHO lhe > apresentou a «abeça da mesmo Mártir. E^te 
admitaArel atoâtec^mènto nos referiu fielmente, : como jul- 
gttBaí>s, o nlesoQíoP. João da Costa, Pòr tudo isto, B. P. ^ 
por certo que vemos e cremos pianleiite, queDeiEs portão» 
dirás virtudes depois de conceder a palma do martyria ao> 
Vi Jidao de Britio^. o cordairia com o premio da bemaven- 
turaiMga»; e portanto reverentemente prosteado: aos sagra- 
<joft'péfi<de V. ,S. , è beiíando-lhosj sem .hesita;^ ouso sup^ 
plicar;^ qtie se* digne conceder a tão aasigualado Varão as 
honriaa dos Beatos, para. que entre os homens, seja celebra- 
do icom a gloria qóe lUc e devida aquelle mesmo, que não 
dtiwidàjttos estar gosaiidò« do grande bem da visão beati- 
fica. Kr rogarei ao Altíssimo eternamente pela prospcri- 



— 351 — 

dade e bemaveniurançâ eterna d)oSântÍ8»fine^Fi8tof;te{Vi-^ 
garío jcIo seu Unigénito Filho sobre aterra, paÉ'aaugiiife^B4 
ta e feliz estabilidade da sua Igreja* Braga- ads séte-iliil 
do mez de dezembro do anno do Seniior de 1713-^ De ¥* 
S., beijando-lhe revereiítemente ósseas sagrados pés^ mui 
humilde íilho D. Rodrigo de Moura Telles arcebispo de 
Braga primaz das Hespanhas. 



Carta do arcebispo íVKx)orn, 



Sautissimo e Beatíssimo Padre. ««^ Sâo pASsadoà^al^n* 
annos desde que o Y^,P« João de Britto portoguez tiaiin> 
rai de Lisboa ,.€ sacerdote professo da Companhia d^ le« 
sos^ foi morto «cm :odio da fé em Urgar no reihoi éc» 
Mara vá*, e ainda- vive entre os portugueses e os- tédios 
tão fresca memoria da santidade do V. Padre,, (foé 
não ha ninguém- qúe « nao chame Martyr e Santa. ^mi< 
cordam-se da.innocencia de .stia vida dos pefos dosercnisH 
simo reiD* J(»LoIV, onde pela siiã singular pacíenoku érji 
já chamado Matijr &cada passo pelos pageaa. daoâirtol 
ftecordam-se do zelo pelas almas em que elle ardia^ iqvui 
o levon nSo s6 a abandonar os cari jUios mater itos.a ft^paJ 
triã para abraçar o instituto da Companhia, mas (am^btfttt 
a dâzer adeus á Europa para se passar ao Malabar ,l eitfUS 
ado>çap oom a suanâdade d&pregaçao; evangélica, eiCQnttT* 
ter á verdadeira fe os endurecidos cora<^es d?aqífielles. p«*4 
vos. Andam na bi»cca de todos os trabalhos «que padeceu^ 
os cárceres, e os grilhões qire^so^i^ea,. eos 'mDtvUmbntó^do 
vivtude que deixou.. Lpu'vam todos a sáâ ábstinendia j dicy 
carne e peixe, a «assiduidade na. oração, a daridade'iiiiido«i 
fessa para com o prociiimo,e muito mais a^sua-conslaiioíst 
na fé, com a qual se ofiereeea a Deus em puro^holooanstot,* 
quando condemnado .á morte pelo; regalo do Mârà^rpoir» 
apregoar o Evangelho, deu a alma ao OeBdor> a 4 dtí í^ 
vereiro do anno de 1693. Todo isto leva-»©» a pir([)clâiáiat# 
a V. P. João deBritto comfo Maítyr-^ poi*ém liSo foàtmf 
conferit-lhe esta gloria, se ix% suas voses nSo A^rem- scíguM 
dá» do ofacuio de V. S. , declarando^-o Martyr, ^^u%í#l*a* 
Igreja Metropolitana d-^Évora suppiieaa V, S* ^i^iie'fei^ 
pêra annuirá facilmente a seu« pios \'<oto», <evn q-uant&^e^ 



— 382 — 

, intlMitéliiciilft desejo e rogo para V. S. do divino Pae ce- 
leste mui larga e diuturna prosperidade no governo da 
Igreja de Deus, beijando humildemente os pâ de V* S. 
Dada em Lisboa a 28 de novembro de 1713. De Y. S. 
mui humilde servo — Simão, arcebispo d^Evora. 



Caria do arcebúpo de Cranganor. 



Beatíssimo Padre — £^ costume, Santíssimo Padre, 
que 06 membros da Igreja militante sobre aterra, promo- 
.vam eíficaxmente as honras d^aquelles que a Igreja trium- 
phante recebe nos seus tabernáculos. Porquanto assim co- 
mo Deus é admirável nos seus Santos, assim por meio d^el- 
let a Igreja terrestre recebe esplendor e honra, especial- 
mente quando laureada com as coroas dos Martyres tira 
dot mesmos inimigos da fé, senão veneração, pelo menos 
admiraçSo* Por tanto sendo celebre n^estas partes da ín- 
dia oriental o nome do V. P. João deBritto, da Compa- 
akia de Jesus, e o martyrio que elle soffreu não ba mui- 
Um aonoB nas terras do r^ulo do Maravá por confessar a 
té eathoKca ; e sendo eonstante e erescendo todos os dia» 
tanto entre os neophytos, coroo entre os portuguezes a fa> 
isa de Mias virtudes, e dos milagres com que Deus nosso 
Senhor se digna de confirmar os merecimentos doeste seu 
Servo, prostrado ao» pes de V. S. ofiereço humildemente 
08 votos de toda esta nova christande, para que s«ja de- 
clarado o seu martyrio. Já que, nãoé duvidosa a fam» de- 
rivada de testemunhas ainda viventes, de que o dito Ser- 
vo de Deus João de Britto porque promulgou o Evangelho 
no rein0 do Maravá, e arrancou ao culto dos ídolos mui- 
tos infiéis que regenerou com o baptismo, excitou contra 
si o ódio dos brahmenes e do regulo, e depois de roettido 
em grilhdes depois de varias questões, ludíbrios e tormen- 
tos lhe foi decepada a cabeça, os pes e mãos. Q>ue alem 
d^itlo, pouco antes da sentença de morte, foi tentado duas 
v«W6 a adorar os ídolos, o que recusando constantissima- 
menle com grande firmesa de animo, se oflPereceu alegre- 
mente á morte perseverando na confissão da fé até ao ul- 
timo respiro. A santidade da vida augmenta n^este Servo 
de Deus a gloria do martyrio, pois sendo muitos annos 



— 383 — 

missionário no Malabar, deu os mais adihiraVeis testému* 
lihos de todas as virtudes. Por quanto respléndécía n'el1è 
um selo verdadeiramente apostólico de procurar a salva- 
ção das almas ^ uma fortaleza inveneiveí coní " a qual sòf* 
freu muitas vezes perigos de vida pela propagação da fé ; 
lima austeridade admirável tanto na abstinência em a co- 
mida, como em penitenciar o seu corpo : uma humildade 
eximia em engeitar as honras que lhe foram oflFerecidas 
no paço pelo sereníssimo rei de JPortugal, para abraçar a 
cruz de Christo nas missões dos bárbaros \ finalmente uni . 
perleitissimo amor dô Dtus 'com o qual ):oB8ummott cons- 
tántemeáte o martyrio pela verdadeira' religião. Bastaria 
certamente, &• P«^ a fama doestas virtudes tanto entre os 
giBuf ios j como entre os <:hi*istãos doestas regiões, ' pàrá qiie 
V. S. julgasse que podia fazer introduzir a causa do seu 
martyrio para o fim de ser' solemnemente declarado. A 
isto porém àccresce o pToderoso incitamento da fama de 
muitos milagres com que Deus se dignou de manifestar a 
gloria do seu Servo entre os neophy tos doestas terras. Por- 
que é fama que muitos achando-se privados da vista dos 
olhos, conseguiram por sua interceesao a faculdade de véi* 
perfeitamente ^ que dutros «stando eín artigo de morte re- 
cuperarani a saúde ; que algumas mulheres foram arreba- 
tadas das fauces da morte em que estavam pela difâcul- 
dade de seus partos:; eque alguns outros foram confirma- 
dos na verdade do mesmo martyrio com a appariçao visi- 
vel do y. Martyr. Os mesmos gentios dão abonado teste- 
munho do seu triumpho confessando, quê em três noites 
viram luzrà ardentes brilhar sobre o seu corpo pendente 
do patíbulo. For isso todos os christãós doeste arcebispado 
do Cranganor, aos quaes indignamente presido,, instam 
justamente perante V. S^ pela declaração de tão illíistre 
martyrio, afiní de que a nossa religião alcance por inter- 
f^sao de tão grande !Afartyr maior conversão de infiéis. 
"E* isto na verdade o que todos nés desçamos obter de V. 
S. para maior gloria de Deus, para proinover valorosa- 
mente a conversão dos pagãos, 'para confusão dos herejes 
que habitam estas terras, e pára sublime lustre do nome 
portuguez, debaixo do qual o soldado de Christo João dé 
Britto pelejou denodadamente pela verdadeira fé a.té á 
morte. Espero pois que estes rogos apoiados em uma causa 
pia e justa, não serão frustrados perante V. S. , a quem 
ardentemente peço a benção apostólica, no emtanto que 

4S 



»upplico ao Altissiifio que conserve dlatnrnamenté V. S. 
suo e salvo ásua Igrqja. Chalacuri 12 de janeiro de 1712. 
De V. S. indigno servo esupplicante — João Ribeiro, ar- 
cebispo de Cranganof • 



Cãrío dó bitpo de Lteiria. 



Beaitittimo Padre -^ O V. P. João de Britto Saa-r- 
«bte ésL Coinpaokia de Jesin^ portugnés natural de liis* 
boa, alevantou no Malabar tao insigne tropheo sobre a 
gentilidade, quando senlenoeado á norte em ódio da fé 
^ne pregava áqueUes povos bárbaros, morreu eomovictim a 
agradável a Deus, que nio é possivel rÍ8Car'«e a sua me** 
mor ia cem o correr dos tempos. Vive ainda inteira a ík-* 
ma do seu martyrío em Portugal e na índia* 

Louvam ainda boje os cbristSos, e ainda mesmo os 
gentios a humildade, paciência e caridade, o 2aelo peias 
almas, e todas as outras virtudes que ornavam o V. Pa- 
dre. Louvam a soa íbrtaleia e constância com que espa^ 
Ibon livremente a fé, apesar dais severíssimas leis do reino 
promulgadas contra os pregoeiros evangélicos. LoBvam 
finalmente a força de animo com que elle pródigo do seu 
sangue e vida, com rosto sereno e repassado de alegria, 
se encaminhou para o logar do sapplicio, e alli sem he- 
sitação ofiêreceu a cabe;^, decepada a qual no dia 4 de 
fevereiro de 1693 voou para as mansões celestíaes. Tudo 
isto louvam, e proclamam Martjfr ao V. Padre por toda 
a parte. Como porém tílo pode elle ser decorado doesta 



honra, sem que assim seja aefinido por V. S. , roga e ins- 
tantemente suppUea a V. S. esta Igreja de Leiria, que 
se digne de declarar Martjr este VarSo tSo benemérito 



da religião oatholica, o qual gerou para ella tantos iilhòs, 
que ao de muitos mil sobe o seu numero. Deus nosso 
Senhor conserve são e 4ialvo a V. S. por muitos e dilatar- 
des annos. Leiria 23 de dezembro de 1713. De V. S. , 
beijando seus sagrados pés, mui humilde e obsequiosíssi- 
mo servo — D. Álvaro, bispo de Leiria. 



— 35S— . 

Caria do bispo de Mdiapor, 



Santíssimo Padte — r Prostrado humildemente aos pé» 
de V. S. , seja-me licito expor, que a Igreja militante 
nas Ijidias orientaes se acha em tal estado, que para a sua 
conservação no meio das perseguições, que contra a nossa 
santa religião levanta todos os dias a cegueira dos idola- 
tras, carece immensamente do patrocínio da Igreja trium- 
phante, eerii particular d^aquelles que foram sobre ater- 
ra seus mestres da ^erdadeiíra fé. N'eata minha diocese 
de Meliapor. em qúe se contém o reino do Malabar, é 
perenne ^ fama das virtudes do V, João de Britto dá 
Com{)ánhia' de Jesus, de que eú próprio posso ser teste- 
munha, por téir siido seu companheiro nasí ralss5es do Ma- 
labar, c a quem toda esta chrhtandade commettida aos 
meus cuidados por dispensáçSo ápostoHca, recohhece co^ 
mo glorioso Martyr de Christo. í^r quanto depois de pre- 
gar o Evangelho de Christb n*este reino, depois de im- 
mensas fa^digas em petcorreif as tetras dos neophytos, de- 
pois de converter á confissão da hossa tfeligião muitos "mi- 
lhares de pagãos, concitou de maneira tàl contra sicodío 
dos WahmeneSt.por vetem d^er tos os pàgodeis dos ídolos, 
que lançado pm 'grilhões ha quasi vinte annos, foi por sen- 
'tença do príncipe do Maràvá decapitado em ódio da íê. 
Ninguém, B. F. , entre estes neophj^tos dúvida da causa 
do seu martyrio, a ponto que logo depois da sua morte 
todos, e por toda a parte o apregoaram como Martyr. Além 
d^isto para que as relíquias doeste valorosíssimo Soldado 
de Christo não caíssem nas mãos dos pagãos, alguns chris- 
tãos com perigo de vida ousaram tiral-as de noite do pa- 
tíbulo, e trazer-m^as como precioso deposito que devia ser 
conservado pára o futuro, até que a Satita Sé lhes eonce- 
desse veneração e culto. Poderia eu, S. P;, en<iher multas 
paginas com a narração, das acções cheins dó 'ftàntidade e 
virtude que elle obrou em vida, tendo por mtiitos annds 
exercido corti élle o ministério de missionário no Malabaií, 
de maneira que Jàlgo que possa ser referido não sótaente 
entre os Martyres, senão também entre os Santos Confes- 
sores. Mas para não passar os confins de uma sím{(les car- 
ta, s6 uma cousa attesto a V. S. , a saber, que afama da 



— 386 — 

sua santidade, c do seu martyrio e milagres cresce tanto 
e se divulga de dia em dia n^esta minha diocese, que to- 
dos os cbristaos doestas regiões nada mais desejam unani- 
memente, senão que V. S. ponha soiemnemente entre o 
numero dos martyres da Igreja o V« JoSo de Britto. C 
em verdade parece justo que sejam acolhidos por V. S« 
os rogos de tantos christãos malabares, que se dirigem 
com justíssimo desejo a honrar com culto publico o seu 
pae e mestre dado pelo ceu, grande benemérito do Mala- 
bar, e da Igreja universal por ter derramado o próprio 
sangue pela confissão da fé catholica. E porque pedem que 
por meu meio sejam estas suas rogativas levadas aos pés 
de V. S. , ao que também me excita tanto a soUicitude 
pastoral em amplificar a propagação da fé n^esta Igreja 
de Meliapor, como a antiga amisade com tao abalisado 
companheiro durante a sua vida, depois de beijar os sa- 
grados pés de V* S. , junto com quanto empenho posso, 
também os meus votos aos de tantos povos, e peço instan- 
temente que se conceda oculto a tão perfeito Missionário, 
c valorosíssimo Martyr, esperando que estes rogos offere- 
cidos por aquelle mesmo que depois de percorrer outr^ora 
por muitos annos todo o Malabar como simples missioná- 
rio, e depois de ter sido lançado em ferros mais de uma 
vez, muito padeceu pela exaltação da fé, não serão des- 
presados por V. S., que Deus por largos annos not conser- 
ve para aqgmento da Igreja universal. Pondichery 2 de 
fevereiro de 17l2. De v • S. mui devoto e hu milde filho 
cm Christo — Francisco Laynes, bispo de Meilspor. 



Carta do Cabido de Luboa sede vacanU. . 



Santíssimo e Beatíssimo Padre, ^-tt São passados quasi 
deK annos desde que o V. P. João de Britto levantou com 
o seu sangue no Malabar um tropheo insigne sobre a gen- 
tilidade, e está ainda tão viva a memoria de tão illustre 
martyrio tanto entre os índios, como entre os portugue- 
zes, que o cabido doesta Igreja de Lisboa, sede vacante, 
pro&trado aos pés de V. S. ,.não se peja de pedir a coroa 
c declaração do martyrio pa]:a este. seu cidadão e filho. E 
do certo ulhaudo para os costumes doeste Varão desde a 



— 357 — 

sua infância, parece que em toda a sua vida preludiava 
o inartyrio. Nascido n^esta nossa cidade de nobre estirpe, 
e educado entre os pagens da corte, deu tão abonados tes- 
temunbos de si, que era por seus collegas chamado Mar- 
tyr e Santo. Tendo professado o instituto da Companhia 
de Jesus, depois de vencer não pequenas dificuldades^ 
passou ás missões da índia, onde purificou com as aguas 
do baptismo muitos milhares de seus habitantes. Reduziu 
á lei evangélica também um poderoso príncipe d^aquellas 
terras, e o levou a despedir as suas mulheres cora que an- 
teriormente se casara, excepto uma, o que soffrendo de 
mau animo uma d^ellas, arrebatada deimpio furor contra 
o defensor da castidade, bem como nova Herodiades ga- 
nhou por tal arte a vontade do rei do Maravá, que logo 
JQO mesmo dia que fora vaticinado pelo V. P. João de 
Britto, foi mettido no cárcere por sua ordem. Não emmude- 
ceu porém n^elle o innocentissimo Varão, mas antes com 
evidentissimos argumentos provou a fe apostólica, e a re- 
ligião catholica, até que (como todos attestam no Mala- 
bar) em sua defesa, depois desoffrer injurias gravissimai, 
e açoutes, foi decapitado, e morreu victima agradável a 
jDeus no dia 4 de fevereiro do anno do Senhor de 1693. 
A fama doeste martyrio vive inteira*, e todos á bocca cheia 
o chamam Martyr. Por tanto, B. P. , pedimos encareci- 
damente a V. S. que seja servido favorecer os piedosos 
desejos doeste cabido, declarando Martjr aquelle a quem. 
a causa do martyrio, a santidade da vida, as vozes una- 
nimes de testemunhas oculares, e as linguas de todos os 
malabares já chamam e proclamam Martyr. Deus nosso 
Senhor tenha em sua santa guarda por largos annos a Pes^ 
soa de V* S. para bem da Igreja romana, asylo da fé, em 
quanto de joelhos beijamos seus sagrados pés. Xiisboa em 
cabido sede vacante 1 de dezembro de 1713. De V..S. 
mui humildes filhos— ^Carlos Perim Chantre de. Lisboa, 
Diniz da Silva Andrade,' cónego de Lisboa. 



Carta da Universidade d^ Évora» 



Beatissimo Padre — r Julgamos - que será mui agradá- 
vel a V. S. e á Igreja universal se commemoramos as vir- 



— 358^ 

tudes eximias e a morte preciosa aos olhos de Deus do V. ' 
P. JoSo de Britto. Foi elle portugaéz e natural âe Lis- 
boa, religioso professo e sacerdote da Companhia de Je- 
sus. Nascido de pães muito nobres, passou a primeira ado*- 
lescencia etitre os illustres moços fidalgos do paço dos reis 
pórtuguezes, onde pela sua excessiva mansidão e paciência 
todos a -cada passo o chamavam Santo e Martyr. Deter- 
minado a dizer adeus ás vaidades mundanas, alístou-sê nà 
Companhia de Jesus. Ardendo logo em desejos vehemeri" 
tes de imitar S. Francisco Xavier, pediu com grandes 
instancias a missão da índia c a alcançou. Alli propagou 
admiravelmente a fé cathollca em cinco reinos da provín- 
cia de Madure, que lhe tocara. Foi pasmosa ia sua pairei^- 
monia na missão; absteve-se sempre dé carnes, peixe c 
vinho sustentando-se ls6 com hervas e agua. Sofifreu em 
ódio da fé as maiores asperesas sendo lançado muitas ver- 
tes em cárceres, e arrastado sobre rochas e espinhaes, es^ 
pesihhado e esbofeteado cdm a maior ignominia entre 
aquelles povos. Tendo no espaço de quinze annos padecido 
estes e outros trabalhos e ludíbrios, voltou a Portugal por 
mandado dos seus superiores, para promover os úegòcios 
da sua aíflicta província, concltiidos os quaes logo se pas* 
soa de tiovo á Ináia contra a vontade manifesta ãb sere- 
níssimo rei de Portugal D. Pedro segundo dVste nomoi 
que o havia escolhido para mestre do seu primogénito o 
príncipe do Brasil. Restituído á índia, regenerou com o 
baptismo em quinze dias oito mil gentios no reino limi- 
trophe do Malabar. Desejoso doeste sacramento um prin* 
vipe visinho e muito illustre n^aquelle paiz, demittiu de 
si e exterminou todas as màlheres com que havia casado, 
excepto a primeira. Entre estas uma recorreu ao rei do 
Malabar "seu tio, e de tal sorte o incitou e aos brabmenei 
X!ontra o pregoeiro da castidade, que orei logo no mesmo 
dia, como predissera o Servo de Deus, o mandou prender 
e agrilhoar em durd cárcere, onde x>ccupando-se incessan- 
temente em orar, em pregar o Verbo divino, e em outrai 
obras de piedade e caridade, se mostrou valorosíssimo cam- 
peão de Christo. Finalmente só por amor de Christo, cuja 
fé espalhara com grande proveito por espaço de vinte an- 
nos, depois de cruelissímos tratos e affrontas, foi decapita- 
do e voou á bemaventurança celestial. Tudo isto e tão 
vulgar e está tSo propagado, que não ha ninguém que o 
ignore, ninguém que quotidiahamí»nte nao falle nVsfa 



-r 3Sd — 

matéria, niugucm que não confesse por verdadeiro Santo 
e Martyr este Servo de Deus. Por toda ã parte se propa- 
gam as suas virtudes, a sua pregação e milagres, de modo 
que os príncipes, e outros homens piedosos da Ásia e da 
Europa trazem comsigo as suas relíquias era guardas de 
ouro e prata. Por tanto a Academia d^Evora prostrada 
humildemente aos sagrados pés de V. S. , por voto una- 
nime de todos 08 seus doutores, supplíca que seja servido 
de referir nos fastos dos Martyres este V. Varão cheio de 
tantos merecimentos e virtudes, e ornado com o glorioso 
laurel da morte aue'sofireu por Christo, para maior glo- 
ria de Deus e esplendor da Igreja romana. A memoria da 
tao asaignalado beneficio será em nds perdmravel|. epa qq an*» 
to beijando reverentemente os sagrados pés de V. S., ro* 
gamos a Deus pela sua dilatada saúde sobre a terra, a 
eterna felicidade nos céus. Évora 8 de desembro de 1713* 

— Beatíssimo Padre,, beijam 09 sagrados pés de V. 8. 

Domingos Fernandes, reitor da Academia d^Evora. 

— O doutor Luiz Fragoso, cancellarío da mesma A^ade-. 
mia — O doutor Francisco de Sandey lente de pcima de 
theologia na mesma Academia — Matheus Jano, lente de 
véspera de theologia na mesma Academia. 

Revistas — João Zuccherini, vice-promotor da fé. 



360 — 



PARTE VII. 



CONCI.I78SO. 



OfTerécentio aos nossos conterrâneos es tendida mente 
relatadas as glorias de um Beato portugaez, fizemol-o sétn 
ter cibos a outro fim mais do que avivar uma memoria 
de tanta lionra nossa, e gloria do nosso reino, ou para 
melhor diser da religião. Dizemos da religião e nossa, por- 

3ue dos famosos exemplos de virtude e santidade do B. 
oão de Britto, resultarão ao reino em particular, e á 
christandade em geral muitos e muito grandes bens,, sendo 
certo que é para os imitarmos, e dar gloria a Deus, que 
a Igreja os propõe á veneração dos fieis. 

Mas já vae longa esta Memoria, nem ainda que nos 
sobra a vontade, a poderíamos protrahir. Todavia antes 
de acabar não podemos deixar dVxclamar, que são occul- 
tos os conselhos, insondáveis os juisos e immenso o abys- 
mo da incomprehensivel Divina Providencia! Quando 
Portugal jaz abatido e prostrado, e lançando os olhos des- 
fallecidos para a Africa, a Ásia, e a America através das 
immensas aguas do Oceano, que outr^ora subjugou e as- 
sombrou com o poderio de suab armadas, se recorda com 
saudade dos dias da sua gloria, como o naufrago, que ten- 
do a custo salvado sobre uma taboa a própria vida, olha 
da praia para o frágil baixel que soçobrando prestes está 
para. ser engolido pelas ondas domar com as riquezas que 
lá deixou para as perder irreparavelmente, eis que a re- 
ligião lhe vem alentar os ânimos com as glorias de utoi seu 
filho que vae ser levantado sobre os altares \ quando Por- 
tugal pelo entibiamento de seu antigo zelo, e pelas com- 
moçoes politicas dos nossos tempos perdeu am<jrparte das 
suas Igrejas e missões da Ásia, cujos campos regou e fer- 
tilisou com o ouro, o suor, o saber, a santidade, o valor 
c o glorioso sangue de seus filhos, vê pela primeira vez 
tributar as honras dos Santos a um dos milhares de por- 
tugueses martyres da fé nas terras do Oriente, Desejada 



— 361 — 

honra qué nos dias da sua maior prosperidade nunca ha- 
via podido conseguir ! 

Estas duas considerações animara-nos a crer que te- 
mos n^este acontecimento um penhor da restauração das 
glorias dos nossos maiores, se lhes imitarmos as virtudes, 
o denodo, e o zelo pela religião, cujo estandarte lhes deu 
a conquista de immensos povos, e serviu por toda a parte 
como de base e coroa aos padrões não perecedouros que 
ainda hoje estão apregoando por todos os fins da terra, e 
eternisando o Ínclito nome portuguez, que em esforço e 
piedade vencerá em perpetuidade todos os mármores e 
bronzes da terra. Porque em fim essas pedras, esses bron- 
zes, esses desmoronados baluartes que na Africa, na Ásia 
e na America amostram ainda hoje as lusitanas quinas, 
são todavia memorias mudas e sem movimento, sujeitas 
a ruínas e ao esquecimento. Mas a piedade, a religião de 
nossos maiores, o seu zelo pela propagação da fé, são me- 
moria viva, e estatua animada com tantas linguas para 
publicar essas grandezas quantos são os povos que conver- 
teram, e as Igrejas que fundaram \ com tantas azas para 
voar e as fazer estimar por toda a parte, quantos são os 
Martyres que com o seu sangue confessaram a fe, de Jesu 
Christo por sua industria e esforços annunciada em tão 
remotos climas, e a povos tão diversos por natureza, leis 
e costumes \ com tanta vida quanta recebe e renovará por 
todos os séculos com o culto dos altares que a Igreja hoje 
decreta ao Beato João de Britto. 




46 



SaaATAS MAIS VOTAVXIS »'XSTA OBRA. 



PAO. 


LIM. 


XRRAT. 


XMBUD. 


9 


16 


conplemento 


complemento 


11 


11 


no dia de 


no dia da 


17 


2 


feita a ProciMao 


feita a Profis* 


n 


11 


exercieios 


exercieios 


2T 


17 


três dias 


taes dias 


35 


8 


aiaba 


ainda 


n 


11 


comtndo 


comtudo 


34 


20 


lhe 


lhes 


>» 


21 


lhe 


lhes 


36- 


20 


serra 


seara 


3T 


18 


concerto 


conceito 


40 


18 


convertido 


convertidos 


42 


10 


Golocandá 


Golocondá 


48 


22 


arrenegado 


arrenegando 


64 


19 


occupavamas 


occupavam as 


«2 


14 


Caranbantd 


Carabantii 


71 


2 


mésmá 


mesma 


77 


2 


Superioe 
colidia 


Superior 
oolíegio 


78 


•14 


« 


16 


cem 


com 


7» 


6 


Turucurim 


Tutucurim 


80 


16 


alguns alguns 


alguns 


83 


22 


] >repo8Íçdes 


proposições 


80 


22 


1 áiser-lhe 


fazer-lhes 


93 


9 


consideraçãe 


consideração 


96 


14 


busear 


buscar 


V» 


26 


acouselharam 


aconselharam 


102 


7 


muudo 


mundo 


n 


16 


monoscabe 


menoscabo 


119 


24 


muiito 


muito 


144 


19 


siugular 


singular 


n 


23 


no 


ao 




•A«. 


LI]f 


14« 


10 


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162 


12 


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27 


166 


29 


101 


13 


192 


6 


199 


26 


206 


H 


209 


31' 


218 


33 


n 


36. 


228 


38 


242 


26 


245 


10 


n 


22 


265 


6 


260 


23 


269 


28 


270 


30 


276 


31 


276 


11 


308 


10 


» 


20 


322 


28 


361 


14 



KR&AT. 

pergunta 

mttjestade': 

Raganadadeven 

lhe 

do occasiSo 

sojei- 

ceinsigo 

nartyr 

exsiUabani 

ficon 

venderam 

Iracti&oatarti' 

•erom 

Collogio 

SDspicit 

evultu 

con et 

Inqne 

lhes 

eseripto 

ugmentoa 

prescseve 

Savra 
lo 
partipando*lh^a 
fresca memoria 






^ 



BMBHD. 

pergunto 

mâje&tade, 

Rauganadadeven 

lhes 

da occasiSo 

sujei- 

comsigo 

martyr 

exsibilaYam 

ficou 

vendeifiD 

íructificar%o 

serem 

CoUegiD 

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e vultii 
continet 

Inque 

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escripto 

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