(navigation image)
Home American Libraries | Canadian Libraries | Universal Library | Community Texts | Project Gutenberg | Children's Library | Biodiversity Heritage Library | Additional Collections
Search: Advanced Search
Anonymous User (login or join us)
Upload
See other formats

Full text of "Historia do romantismo em Portugal"

Google 



This is a digital copy of a book that was prcscrvod for gcncrations on library shclvcs bcforc it was carcfully scannod by Google as part of a projcct 

to make the world's books discoverablc online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, cultuie and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journcy from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materiais and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we have taken steps to 
prcvcnt abuse by commcrcial parties, including placing technical restrictions on automatcd qucrying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuais, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrainfivm automated querying Do nol send aulomated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machinc 
translation, optical character recognition or other áreas where access to a laige amount of text is helpful, please contact us. We encouragc the 
use of public domain materiais for these purposes and may be able to help. 

+ A/íJí/iííJí/i íJíírí&Hííon The Google "watermark" you see on each file is essential for informingpcoplcabout this projcct andhclping them find 
additional materiais through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are lesponsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countries. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can'l offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search mcans it can bc used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite seveie. 

About Google Book Search 

Googlc's mission is to organize the world's information and to make it univcrsally accessible and uscful. Google Book Search hclps rcadcrs 
discover the world's books while hclping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full icxi of this book on the web 

at |http : //books . google . com/| 



Google 



Esta é uma cópia digital de um livro que foi preservado por gerações em prateleiras de bibliotecas até ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa disponibilizar livros do mundo todo na Internet. 

O livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse então parte do domínio público. Um livro 

de domínio público é aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condição de domínio 

público de um livro pode variar de país para país. Os livros de domínio público são as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza histórica, cultural e de conhecimentos, normalmente difíceis de serem descobertos. 

As marcas, observações e outras notas nas margens do volume original aparecerão neste arquivo um reflexo da longa jornada pela qual 

o livro passou: do editor à biblioteca, e finalmente até você. 



Diretrizes de uso 

O Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de domínio púbUco e torná-los amplamente acessíveis. 
Os livros de domínio público pertencem ao público, e nós meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho é dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restrições técnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que você: 

• Faça somente uso não comercial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada p;ira o uso individuíil, e nós solicitamos que você use estes arquivos para fins 
pessoais e não comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Não envie consultas automatizadas de qualquer espécie ao sistema do Google. Se você estiver realizando pesquisas sobre tradução 
automática, reconhecimento ótico de caracteres ou outras áreas para as quEus o acesso a uma grande quantidade de texto for útil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de domínio público para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuição. 

A "marca dágua" que você vê em cada um dos arquivos 6 essencial para informar aa pessoas sobre este projoto c ajudá-las a 
encontrar outros materiais através da Pesquisa de Livros do Google. Não a remova. 

• Mantenha os padrões legais. 

Independentemente do que você usar, tenha em mente que é responsável por garantir que o que está fazendo esteja dentro da lei. 
Não presuma que, só porque acreditamos que um livro é de domínio público para os usuários dos Estados Unidos, a obra será de 
domínio público para usuários de outros países. A condição dos direitos autorais de um livro varia de país para pais, e nós não 
podemos oferecer orientação sobre a permissão ou não de determinado uso de um livro em específico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google não significa que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequências pela violação de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missão do Google é organizar as informações de todo o mundo c torná-las úteis e acessíveis. A Pesquisa de Livros do Google ajuda 
os leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcançar novos públicos. Você pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



li' 



HISTORIA 



DO 



ROMANTISMO 



im ptmrmm. 



POR 



THEOPHÍLO BRAGA 



OEIA GERAL DO ROMANTISMO 

s^ z^ T^ :b T T — :í^'ic T^^ O Tj z. j^ 1^ O — O JL ^ T 1 i^az 






NOVA LIVRARIA INTERNACIONAL 

96, Rua do Arsenal, 96 

1880 



EDIÇÕES DA NOVA LIVRARIA INTERNACIONAL 

96 e ICJ Rur do Arsenal — LISBOA 



Da Educação moral, intellectual e physica por Herbeit 
Spencer, 400 réis, elegantemente cartonado para brin- 
de óoo réis. Edição superior, br. 600, cart. . . 800 réíís 

Materiaes para a Hislona da Litteratura Bra^fileira . 
Cantos e Contos populares do Brazil, collegidos por 
SylvioRomero, com estudos críticos, notas de Theo* 
philo Braga, e musicas, 3 vol. br. 2^^100, cartoníí- 

dos 2;Í70i) 

Bibliotheca das Idéas Modernas : Controvérsia da edade d:^ 
terra por DRAPER: Origens da familia por LUBBOCK: 
A iheoria atómica na concepção geral do mundo por 
WURTZ; Natureza dos elementos chimioos por BKR- 
THELOT; Reguladores da vida humana por MOLES- 
CHOT; Os velhos continentes por RAiMSAY; O que c 
A força por SAINT-ROBERT; Sociedade primitiva por 
TYLOR; Evolução dos seres vivos por O. Schmidt; As 
Evoluções da historia por LITTRE. Cada volume, 5o 
reis, os dez vols. elegantemente cartonados. . 700 reis 

Comte e o positivismo, ensaio sobre a fundação e as bases 
da philosoptiin positiva por Teixeira Bastos, 200 réis. 

^ievista de Estudos Livres, órgão do moderno movimento 
lilterario e scientitico do Brazil e Portugal, collaborado 
por novos e illustres professores e escriptores de ambos 
os paizes, taes como Theophilo Braga, Teixeira Bastos, 
dr. António José Teixeira, dr. José Augusto Vieira, Mar- 
tins Júnior, Sylvio Romero, Julio Lourenço Pinto, Ra- 
malho Ortigão, J. Leite de Vasconcellos, Carlos Kozeritz, 
Carlos de Mello, Luciano Cordeiro, Oliveira Martins, Reis 
Dâmaso, Sá Chaves. Clóvis Beviláqua, Filippe de Fi- 
gueiredo, Frederico de Barros, Dr. Philomeno da Cama- 
rá , fobias Barreto, etc. 

Grosso volume de 700 paginas 8.» grande br. 3l6oo; os 
3 vols. encadernados 11 ^000 réis 

Miraf^ens Seculares: Epopea cyclica da historia por Thec- 
phílo Braga. Ultimo volume da Visão dos Tempo:^ 
Edição esmerada, br. 800 réis. cart ijâooo reis 

Projecto de um Programma federalista radical para o pai - 
tiiio republicano poriugue:; por Teixeira Bastos, conn 
prologo de Carrilho Videira, 60 réis. 

A Cholera em Valência e o systema de prophilaxia anti- 
cholerica do Dr. Ferran, por Philomeno da Camará, 
lente de medicina da Universidade 8.*^ br 400 réis 

C4 Questão Social, as Bodas lieaes e o Congresso Repu- 
blicano, discurso por J. Carrilho Videira 100 réis. 

Curso de Historia da Littersítura Portuguesa, adaptado ás 
aulas de instrucção secundaria e superior por Theo- 
philo Braga. Grosso vol. de cerca de 5oo paginas, 8.** 
grande, 1886. . i^Soo réis. Este livro approvado peio 
Conselho Superior de Instrucção Publica, por pro- 
posta do Conselho do Lyceu Central de Lisboa e 
adoptado além d'este por outros Lyceus, é a mais 



HISTORIA 



DA 



IITTERATURA PORTUGUEZA 



ROMANTISMO 



I 



HISTORIA 



DO 



ROMANTISMO 



EM PORTUGAL 



POB 



THEOPHILO BRAGA 



IDEIA GERAL DO ROMANTISMO 
OARRBTT - HBSRGULANO - CASTILHO 




LISBOA 

KOVA LIVRARIA INTERNAOIONAL 

96, Rua do Arsenali 96 

1880 



\ 



r 



LOAN STACK 



Imprensa de J. G. de SouíaNeTes — Roa da Atalaia, 6S 



?Ofloso 



A di£Bciildade de escrever a Historia da lÃtteratura por- 
íugueza moderna dSo está em manter a imparcialidade do 
juizo que se emitte sobre cada escriptor; para isso, basta 
ter sempre presente que se dá uma prova de proibidatte 
diante .do tempo que julga todos, para n3o ousar fazer da 
historia um tribunal de resentimentos pessoaes. De mais, 
a historia litteraria, como disse Guizot, tem sobre a histo- 
ria geral a máxima vantagem de possuir e poder mostrar 
os objectos que pretende fazer conhecer, assim está tam- 
bém menos sujeita a aberrar da verdade. 

Para nós, porém, subsiste uma forte dificuldade, que 
não será possivel vencer: n'este período da historia mo- 
derna da litteratura portugueza temos de pé com todo o 
seu persligio a opinião fundada sobre as primeiras emoções 
produzidas pelas tentativsí^ românticas de 1824 e de 1838. 
Esta opinião está atrazada mais de meio século e em des- 
accordo com o estado actual da critica. Tendo de analysar 
aqui reputações que se nos impozeram por costume e auc- 
torídade não discutida, e que vemos respeitadas por ba- 
l)ilo, quando procurámos o fundamento d'essas admirações^ 

l' 050 



só achamos com pasmo talentos sem disciplina entregues 
a um humanismo insciente e sem intuitos philosopbicos. 
Foi por isso que essas reputações só produziram admira- 
dores em vez de continuadores do seu espirito. Este livro 
vae de encontro a muitos preconceitos e será por isso bas- 
tante atacado, mas conseguindo agitar a opinião que se im- 
mobihsa em dogma, conseguiu-se tudo *; estamos na situa- 
ção em que se achava Phocion, que suspeitava sempre ter 
dito alguma tolice quando se via applaudido pelo vulgo. As 
criticas acerbas e pessoaes com que temos arrostado em 
vinte e três ^nnos de actividade litteraria (1857-1880) têm- 
w$ fortalecido profundamente, porque no$ provam, a cada 
instante a pbrase çle Hume, em mna carta 'a Adam Smith : 
«Nada produz uma m^ior presumpção de falsidade do que 
assentimento da multidão.» No dia em que nos cercassem 
.03 applausos unanimes julgavamo-nos perdidos, deixaría- 
mos de escrever. 



1 Aos que se julgarem offeodidos por violarmos o callo dos seus ídolos lit- 
terarios, apresentamos a máxima de Paulo Luiz Courier, que resume a nossa 
disciplina^ moral: tEmbora tos acciísem, tos condemnem, tos prendam e vos 
enforquem, publicae sempre os vossos pensamentos. O fazel-o não é um di- 
reitç, é antes um^deTer; obrigaç&o restricta é para todos os que tem idAías, o 
communical-as aos outros para o bem commum. A verdade inteira pertence a 
todos: o que entenderdes que 6 atil^ podeis sem receio poblícal-o. » 



HISTORIA 



i i . ' i 'I. 

•I í í I . 



PO 



EOMANTISMO M PORTUGAL 







Gomo das. luotas communaes eburgiíezas do século xiii» 
depois de anuUado o feudalismo, se decaiu no cesarísmo 
<lo século XVI, DO abSQlutismo do sieculo xyu» no despotismo 
<ão século xYui, até que a Revolução veiu sacudir este pe-* 
sadello de mor|p, afQrmando a iudependencia da sociedade 
iDívile geaejralisanda as immuaidades locaes da commuDH 
na Declaração das Direitos do homem^ eis uma tenebrosa 
âolu^o de coutinuidade, que constihie por si o trama d$t 
historia moderna, e que influiu profundameale qq modo de 
desenvolvimento d^s litterãturas. . Desde quç os dialectos 
românicas receberam forma escripta, até qoe o Romantismo 
:se.servisse d^elles para exprimirem consiçientemente as ca* 
racteristicas nacionaes, e o espirito da nova civilísaçâo que 
os produziu, houve um profundo esquecimento., da Edade 
Media, que durou seis séculos, e em que as litterãturas da 
Europa se exerceram em falso, imitando as obras da/cul* 
lura greco-latina, porque não se inspiravam das suas. ori^- 
gens tradicionáes, onde encontrariam uma natural fecundi- 
dade, bem como o seu destino sociaU 



8 HXBTOBIA DO BOMAKTISMO EM FOBTUOAli 

 transformação das litteraturas modernas, ou o Roman*^ 
tísmo, encetou no mundo intellectual o que a Revolução 
franceza iniciara na ordem politica; estes dois factos resu* 
mem-se na dupla expressão do génio e da vontade nacio- 
nal, pelo individualiséio da inspiração e pela universalidade 
do suffragio. Existe uma relação bislorica entre esses, dois^ 
factos. O pbenomeno social da revolução franceza foi pre- 
cedido por um extraordiímrio sentimentalismo e paixão pela 
naturesa, que principiou pela litteratura até penetrar nos> 
costumes; um tal exagero, proveniente de uma nova activi- 
dade, morai, provocou como consequência a condemnação 
do falso idylio, e uma mais vasta communicação com o sen- 
timento humano. Gervinus conheceu a importância d'esta 
phase espontânea do romadtismo, iniciada por Montesquieu 
com o seu > enthusiasmo pela constituição ingleza, pôr J. 
Jácques Rousseau, trazendo ao critério da naturesa a noção 
do estado, da arte e da educação, por Diderot recompondo 
philosophicamente as paixões, renovando assim as theorias 
dramáticas, fazendo prevalecer a ideia 3obre a forma, a 
espontaneidade á imitação, a simplicidade ájbelleza aíTectada. 
A este periodo, a que chamaremos Proto-Romantico,' suc- 
cedeu-se uma reacção pseudo-classica, que predominou em- 
quanto se manteve o^i^egimen espectáculos© e mentido do 
primeiro Império. Gervinus explica por outra forma a in- 
terrupção: «Esta primeira phase de um romantismo incon- 
sciente e ainda não denominado, foi interrompida e atrazada 
pela revolução franceza. A França só se occupou da inde- 
pendência pohtica, ao passo que a Allemanha insistiu mais 
em querer realisar a sua emancipação intellectual.*» Ame^ 
lancolia romanesca do fim do século xviii, que apparece 
na Allemanha e Inglaterra, é que põe em evidencia a con* 
nexão histórica com esse periodo inconscienie, ou proto- 

* mst. du XIX siècle, t. xix, p. 111. 



ZDBIA «'«■Ay, 



romaotieo, 4iue reyive na semAkrie da época âa Restam^a- 
C3o. Mas, a emancipação intellectual conduzia, logicamente 
ao progresso moral iniciado na independência politica; o 
. philosopbo ÍDglez Mackintosh o sentia: cA litteratara alie- 
mã foi apontada como cúmplice da politica revolucionaria, 
B da philosophia materialista. ^ i Gervinus. cbega á mesma 
conclusão^ dizendo, que a Âllemanba attinge o desenvolvi- 
mento nacional, completando a sua educação intellectual, 
antes de realisar a transformação politica. ^ Foi por isto, 
que o impulso do Romantismo veiu dos povos germânicos, 
allemães e inglezes, para os novo-latinos, propagando se do 
novo centro de elaboração, a França, para a Itália, Hespa- 
nba e Portugal. O Romantismo, albeio a doutrinas philoso- 
pbicas, sem uma intenção clara do que pretendia, rompia 
com o passado, do mesmo modo que as novas instituições 
politicas se haviam elevado sobre as ruinas do regimen ca^ 
tholico feudal. Na sua vacillação doutrinaria, o Romantismo 
reflectiu todos os movimentos reaccionários e líberaes da 
oscillação politica. 

Depois da queda do império napoleónico, os reis do di- 
reito divino colligaram-se para extirparem os fermentos de 
liberdade deixados pela Revolução; vendo que essa aspira* 
ção à independência politica se manifestava simultanea- 
mente em todos os estados da Europa, suspeitaram na sua 
insensatez egoísta, que essa aspiraj[;ão era produzida por 
uma immensa liga secreta, e ligaram»se também na cba* 
mada Santa-ÂIIiança para restabelecerem na sua integri- 
dade o antigo regimen. A Europa soffreu essa estupenda 
vergonba e atraso systematico infligido pela realesa mori- 
bunda. N'este período histórico conhecido pelo nome de 
restauração, o Romantismo serviu a causa reaccionária, for^ 



1 EssaU philosophiqueSf p. S64. (Trad. LeoD SímoD)# 
* BUt. du XiX $iècle, t. xix, p. 5. 



10 HiSTOBi DO aenAimBuo em pobtugai. 

falecendo a {Hropagaiicla clerical com a exaltação mystica do 
cbristianismo, e idealizando o ritual cavalbeíresco da Edade 
media para lisongear! a aristocracia qiie julgava recuperar 
os seus foros- Este? período roíôanlico, a que em França 
deram o nome de emaniielico, achasse representado em 
Chateaubriand e Lamartine; a idealisação cavalheiresca, 
empregada no drama e no romance histórico, em breve se 
achou transformada em critica scíentíQca no estudo das Can- 
ções de Gesta da Edade media. Foi o romantismo emanue- 
lico o que entrou tardiamente em Portugal, predominando 
a feição religiosa em Herculano, -e a medieval e cavalhei- 
resca em Garrett; Castilho, como uma espécie de Ducis, re- 
presentava o pseudo-dacissimo post-reVoluoiooario. As tor- 
pesas da Restauração, as agitações da Inglaterra provocando 
a implantação do regimen constitucional, as revoluções li- 
beraes nos diversos estados, fizeram renascer nos espíritos 
mais intelligentes os princípios de 1789; as naturesas in- 
génuas e fortes protestaram contra o obscurantismo da Santa 
AUiança, como Byron, ou pugnaram pela independência na- 
cional, como Thomaz Moore, ou Mickievik, ou perderam a 
esperança na causa da justiça, e formaram o grupo dos in- 
comprehendidos, como Shelley, Espronceda, Leopardi e Hei- 
ne. É este propriamente o- período do romantismo liberal, 
também conhecido por duas manifestações dístinctas, os 
satânicos, cuja exaltação sentimental é conhecida pelo nome 
de Ultra-Romantismo, e essa outra eschola que se distingue 
por ter sabido introduzir na idealisação litteraria os inte* 
resses reaes da vida moderna, a que se deu tardiamente o 
nome áe-Realismo. É esta a ultima phase do Romantismo, 
que subsiste identificando os seus processos descriptivos 
com a disciplina' da sciencia; falta-^lhe ainda o intuito philo- 
sophico, ou o processo deductivo, para poder tomar como 
objecto da arte o condicionalismo da actividade e das rela- 
ções humanas. O fim do Romantismo na AUemanha foi a 



IDEIA GERAL 11 

sua dissolução em trabalhos de sciencia, que Gervinus de- 
fine: «transição da poesia para a sciencia e do romantisaio 
para a critica J» E accrescenta: «Os próprios mestres da 
poesia, cuja vida se prolongara até aos novos tempos, os 
Goethe, os Riickert e os Uhland, seguiram a grande direc- 
ção d'esta época, e reconcentraram-se cada vez mais jno 
seio da sciepcia.^* Egual dissqlução se operou em França, 
com a renovação dos estudos histoi^icos, óom a erudição cri- 
tica da poesia da Edade Media, e com a concepção realista 
na arte; mesmo a Portugal chegou essa corrente de disso- 
lução crítica do Romantismo, que ainda persiste como no 
seu ultimo reductp em Hespanha. 

Expor as causas que levaram a Europa a esquecer-se das 
suas relações com a Edade Media, como conseguiu dcsco- 
bril-as, comprehendel-as e renovar n'esse conhecimento as 
suas instituições politicas, litterarias e artísticas, tal é a 
ideia geral, que julgamos indispensável para a intelligencia 
da Historia do Romantismo em Portugal.^ 



* Cp. cit., p. 107. 

2 Ibidem, p. 109. 

3 A difficuldaíde que todos os erttieos experimentam era definir o Roman- 
tismo, bem como a iocerte^a de doitrtnas dos escriptores d'essa época de trans- 
formação litteraria, que obedeciam inconscientemQnte a uma necessidade re- 
voltante da transformação social, sò se explica pela complexidade dos factos con- 
tidos sob esta desiiçnação. Decompondo-a nos seus elementos, taes como o /Vo- 
to-RomantismOy o Âomantismo religioso (chrislâo e medieval) o Romantismo li' 
beral (nacional, e satânico oa ullra-romantico) e por ultimo a soa Ditsoluçõâ 
(realismo e disciplina scieotifica) depois doesta analyse, que resnlta do estudo 
«omparatiYo da politica e da litteratura moderna, a verdade estabelece-se por 
ei nesmo. 



IDEIA GERAL DO ROMANTISMO 



. § 1. Gomo a Eotopa se esqoecea da edade media. — § 8. Marcha da reoas- 
coDca românica. — § 8. Causas do Romaatismo: A..) A erodicSo medieval 
dos historiadores modernos: &.} O que se deve ao elemeoto romano; l>^ 
O que se de?e ao elemento chrístão; o) O elemento bárbaro ou germâni- 
co. — SyAcreaçSo da Esthetíca pelos metaphysicos. — O) As revoluções 
nacionaes entre os povos modernos.— § I. Porque chegou o Romantismo* tão 
tarde a Portugal. — g-5. Gçmo foi comprehendido o Romantismo em Portu- 
gal: a.) Estado dasciencia histórica; — 1>) Estado das ideias philosophicas 
sobre Arte; o) Renascimento de um espirito nacional phantastico. — g. 6^. 
Consequências contradíctorias. 



I 1. COMO A ÇUROPA SE ESQUECEU DA EDADE MEDIA. — 

Quando a Edade media acabava de sair da elaboração syn- 
cretica e lenta de uma civilisação, quando estava terminado 
o cyclo das invasões, criadas as línguas vulgares, caracte- 
risadas as nacionalidades, defmidas as formas sociaes, in- 
ventada a poesia sobre tradições próprias, quando lhe com- 
petia dar largas a uma plena actividade, tudo isto foi des- 
viado do seu curso natural, pelos dois grandes poderes que 
dirigiam o tempo. A egreja modelando a sua unidade sobre 
a administração romana, e a realesa fortalecendo a sua in- 
dependência sobre os códigos imperiaes, fizeram como es- 
tes proprietários das margens dos rios tornados inavega- 
veis por causa dos açudes, torceram a corrente, violaram 
a marcha histórica dos tempos modernos a bem das suas 
instituições particulares. No meado do século xv a Europa 



XDUÁ OBBAIi 13 

estava quasi esqaedda de que provinha da Edade media; 
no seeuio xvi era essa edade considerada nm estádio tene- 
broso pelo qaal se passara como provação providendal. O 
modo como o conhecimento das relações da civilisação mo« 
dema com a Edade media se obliteron, é nm problema his* 
torico de alta importância: as línguas vulgares foram bani* 
das da participação litúrgica, e o latim a pretexto da uni- 
versalidade tomado a lifigoa oflBci^i da egreja e das suas« 
relações com os estados; como nas mios do clero estava a 
exploraçio litteraría, por um habito inveterado o latim tor* 
nou-se até ao ãm do século passado a linguagem exclusiva 
da sciencia. D'aqiit uma impossível vulgarisaçSo. As \m^ 
goas românicas, por esta dependência constante da aucto- 
ridade do latim, soffreram uma aproximaç3o artificial da 
affeetada urbanidade; os grammatii^os, imbuídos dos typos 
lingmsticos dos escríptores do século de Augusto, dbama» 
ram ás construcçoes mais peculiares e origlnaes das novas^ 
línguas^ iduAismost Se i^ervamos nos factos juridicosdá^se 
a mesma violação; o- direito communal, pagado* á forma 
escripta no meio das grandes luctas das claeises servas qtte 
se levantaram á altura de povo, foi de repente substituído 
pela vontade oa arbítrio reãll; o renasdmento- do direito ro* 
mano interessava* a realesa e por isso voltou -ao seu vigor; 
sorvia de modelo para a codiflcaç3o« Em qdanto á poesia a 
mesma delurpação; as^ Garções de Gesta^ espontâneas^' e re- 
passadas das/tradfções mais vivas das luctas para a cívíIh 
sacão moderna, i&P9m substituídas pelos feito» dos gregos 
e romanos, ()ue 'terminaram no extenuado idylico do paiz 
AeTendre^ do» ii^rmÍAaireiS' romanees de Brutus e Clelia, 
e éas imitaçõe»^ de Féne^n, d doá embelleea4o& polvilhos 
de Tress«t A epopôa da Ejdade^^ media, íafspírada ^laofera 
da consolidação das nacionalidades, perde b"9eu'espiri(o 
para ealoar^se sobre os^ moldas de Virgílio. AriostO' inditu- 
larisa o fundo épioa tdas priíicipaes Gestas; Ga8|ãe$ imita a' 



14 ' HISTOBIA DO BOMASnSllO BU POBTUGiLL 

Eneida, para eantar a luicíonalidaâe p(H*tuguezá; Tasso se- 
gue a mesma corrente erudita para cantar o feito que as^ 
segurou iadirectamente á sociedade medieval ã sua estabi^ 
lidada. 

- I^a arte repeie-sc a mesma yiolaçlk^; a arcbitectura go* 
tbica é despresada pelas ordens gregas; o estylo ogival^ 
creado ao mesmo tenpo em que o povo assegurava ;a sua 
•iadependeflcia de terceiro estado» e assimilava á sua indola 
aryaoa o cbristianiismo semita, ligado á vida nova por esta 
augo&ta tradição da crença e da liberdade, foi banido dae 
oonstrucçoes para seguir*se a louca parodia de uma arte 
que nada tinba de commum com o estado aotual. A bisto* 
Fia, escripta sobre a pauta rbetorica de Tito-Lívio, tor* 
QOu-se por essa falsidade da narração declamatória, a efiCd*» 
mehde das cortes. Imitou se o tbeatro romano; nâs trage* 
dias chegou*se a ignorar completamente a existência do 
povo; em vez de erear» traduziu-se e commentou-se labo* 
ríosamente os escriptos que nenbumas ideias trouxeram á 
civilisaçSo, obras de rbetoricos, que empeceram o labor in* 
teiiectual pelo perstigío da auctoridade. Â critica tomou-se 
uma simples comparação material ou craveira dos typos do 
bello da Grécia e de Roma. k& conseqomciae palpáveis 
d'esta longa desnaturação vêem^se no século xvi: A egreja 
proclamasse urisíocraUca, no Concilio de Trento; a reaiesa» 
cria os exercitas pentMmenies, e tomasse cesarista, isto é» 
corrompendo para dominar com segurança. A unidade pa- 
pal foi qu^ada pela Reforma; o cesariano foi sentenciado 
e executado pela Revolução. Mas o estado de atraso em 
que ficaram os espíritos, desnorteados do seu fim, durou 
mais algum tes^o; os factos de prompto se tomam eon- 
suimnados» a» ideias por Issb que vão mais longe, difficil- 
mente se recebem. 

A Allemanba, original pela sua raça forte, ainda rica de 
mytbos próprios, com ubm lingoa de radicaes» com um in- 



IDBIAOBBIZ. 



15 



cUvidoaiisino espootaneo e beHas tradições épicas, desna* 

tora-se ante o cttbolicismo, fica imitadora da poesia da Pro^ 

v^nça, esquece as suas epopèas, adopta a Bíblia em latim» 

gasta as soas forças em uma pbantdstica recoastnicçSo do 

Santo Império, e por íim aanlla^se na imitação servil da 

litferaLura cfàcM da corte de Luiz xiy. Na loglaterra, o 

veio normando abafa por vezes a.genaina impetuosidade 

saxónica; preãoininam os imitadores clássicos, os Pope^ os 

Dryden, os iyricos lakisías. Ikfas Doestes dois poYOS havia 

um micleo de tradições vigorosas resultantes da vitalidade 

da raça; -esta força natural bavía de impellil*aè á originaU* 

dade. 

De facto a Allemanha, resgatasse da subserviência da 
Fraaça, e knitando provisoriamente a litteratura ingieza, 
achou de prompto a soa fáçãio nacional. 

A França, a nação que provocou a creação' da poesia mo- 
derna em todos os povos, pelo entbusiasmo que produziam 
a« canções dos seus trovadores, pelo interesse que se li* 
gafva ás Gestas dos jograes, esqueceu este passado esplen** 
dido, para contar a actividade litteraria de^ Malberbe. ▲ 
Ilaliã, tornada 9 sede da erudição, venceu muitas vezes a 
Gcarrente deieteria, pelo eneyclopedismo dos seus grande» 
génios que presentiram e aspiraram a unidade nadonal; 
a pintura, como n2o teve que imitar da antiguidade, attin^ 
giu logo no seoulo xv a máxima perfeição; a musica, proi* 
corando os modos gregos, e querendo barmonisar^se com 
a tradição gregoriana da egreja, jazeu embryonaría até ao 
século xvni. A HespaiAa, perdeu a creaçSo do seu Boman- 
oeiro, já exttnola no século xv; os poetas traduziram e imi- 
taram a antiguidade» como Santilbana ou Yiibena, maa o 
tbeatro foi origibal, não só porque sob a pressão caibolica 
era o único órgão dar opinião publica, mas porque ae ba^ 
* seava scA o fbado tradictotíal e histórico da nacloBalidade. 
Portugal nunca dera (órma is tradiçõesr, que poasnia; a soa 



16 HI8T0BIÁ DO BOMÀHTISlf O BM PORTU GÁL 

litteratura, como o notou Wolf, teve de imitar sempre» 
attifigttido por isso uma prioridade de qaem d3o elabora, e 
uma perfeição de quem só reproduz mechanteamente; em 
vista d'este caraeter o Romantismo só podia appareeer n'este 
paiz, quando eUe estivesse auctorisado, e se admittisse co- 
mo iraitaçSo. Logicamente lòi Portugal o ultimo paiz onde 
penetrou o Romantismo. Por uma conn^xSo evolutiva pro* 
fuoda, em todos os paizes onde se estava operando uma 
noVa ordem na fórma politica, 6eguiu*se egualmente essa 
crise litteraria, que f^zia com que se procurasse reflectir a 
expressão ou caracter nacional nas creações da iitteratura. 
Por isso durante as luctas do Romantismo, muitas vezes os 
partidários dos novos principios litterarios féram accosadDs 
de pertúri)adores da ordem publica, como em ^raaça, e 
até assassinados como demagogos pelo despQtismp na Itália* 

§ 2. MANCHA DA RENASCENÇA. BOMANIGA.--€!ompetÍa á 

Memanh^r, que iniciará com a Reforma a liberdade de^on* 
soiema, completar a obra proclamando a /ifrer^íadatío senti- 
menío. O movimento do Romantismo partiu da AUemanba, 
porque era a nação que pelos seus hábitos phíiosopbicos 
mais depressa podia ebegar á verdade, de uiba toncepçlo 
racionaUe porque os thesouros das suas tradições i. apesar 
dos séculos que se immolou ao.cathoticismo, eram pcír tal 
fórma ainda ricos, ' que ao primeiro trabalbo deCIraaf, re« 
constiluio^se a velba linguai alIemS, pelo trabalho deilaeob 
6rimm, a mytbologia e O; symboHsmo germânico, peiòitna-* 
balho die Guilherme Grimm e Lachmann, as Epopêas da AI- 
lemánriha, a ponto de um Stein levar «o ei^iríto nacional 
para a independência^ e Bismarok aprovéMar esta mesma 
corhente da renovação das tradições e fundir ;tod«S' as oon« 
fe(ferações em{ us» absurda. uniâcaçSo imperíoL <. < 

Depois da Altâmanha; era á Inglaterra, ipeias oeodiçoes 
4e indepe^depcia! civil e politica provenientes das su»s in-^ 



IDEIA GEBAL 17 

síituições, que se podia ir procurar o segredo da originali- 
dade Ijtteraria. Pela justa coexisteocia entre uma aristocra* 
cia territorial e as classes industriaes, a realesa não pôde 
usar as forças sociaes segundo o seu arbítrio; a crise re- 
ligiosa provocada por Henrique vni, e a revolução politica 
de Cromwel, foram dois dos maiores impulsos para a dis- 
soluçSo do regimen catholico-feudal. Uma sociedade traba- 
lhada pelas emoções de tão importantes movimentos, não 
podia deixar de se inspirar da sua actividade orgânica; os 
escriptos de um Shakespeare, de Ben-Jonhson, de Marlow, 
de De Foè, de Fielding, de Swift, de Richardson, têm to- 
dos os caracteres da litteratura moderna: a vida subjectiva 
da consciência individual aproximada da generalidade hu« 
mana, os interesses e situações de uma vida social que se 
funda em deveres domésticos ou de familía. Os romances 
de Walter Scott serão sempre bellos e um grande docu- 
mento para extremar as litteràturas modernas das antigas, 
em que a vida publica era o objecto da idealisação artísti- 
ca; por esta clara concepção de Comle, é que entendemos 
que a palavra Romantismo exprime cabalmente o facto da 
renovação das litteràturas da Europa no principio d'este sé- 
culo. A verdade existe quando a theoria condiz com o facto; 
effectivamente a AUemanha recebeu da Inglaterra o pri- 
meiro impulso para a renovação hlteraria que se propagou 
aos povos do meiodia. 

Temos até aqui mostrado como a Europa perdeu o co- 
nhecimento das suas relações com a Edade media, e quaes 
os povos que estavam em condições mais favoráveis para 
as descobrir. Falta ainda seguir o trabalho d'essa renova- 
ção; é a esta parte que chamaremos causas do Romantismo. 
Desde o começo este século assignalou-se por um novo cri- 
tério histórico; a erudição quebrou as estreitas faixas em 
que a envolveram os commentadores das obras da antigui- 
dade, e exerceu-se sobre as instituições da Edade media. 

2 



18 HISTOBIA DO BOMAJVTiniO BM POBTUGAL 

O christiaDismo, tido até ali coíno udíco mediador da civi- 
lisação, teve de ceder a maior parte de seus tilulos ao fe- 
cundo elemento germânico modificado pela civilisação gre* 
co-romana. Diez cria a grammatica geral das linguaa romã* 
nicas, e assim se descobre a unidade dos povos românicos. 
Desde que Kant enceta a renovação pbiiosophica, o pro< 
blema da estbetica, ou pbilosophia da arte, nunca mais foi 
abandonado; por seu turno Fichte, Schelling o Hegel levam 
á altura de sciencia a critica das creações sentimentaes. A 
estas duas causas, accresce o dar-se em quasi todos os po- 
vos da Europa, em consequência da revolução franceza, uma 
aspiração nacional em virtude da qual a realesa despótica 
teve de acceitar as cartas constitucionaes: ou também, no 
periodo das insensatas invasões napoleónicas, os povos ti- 
veram de resistir pela defensiva, reconhecendo assim pelo 
seu esforço o gráo de vida da nacionalidade. As litteratu- 
ras tiveram aqui um ensejo para se tornarem uma expres- 
são viva do tempo- - 

Sciencia complexa, como todas as que analysam e se fun- 
dam sobre factos passados dentro da sociedade e provoca- 
dos por ella; a historia litterada só po^ia ser creada em 
uma época em que o homem dotado de faculdades menos 
inventiva* , está comtudo fortalecido com o poder de obser- 
var- se e de conhecer o gráo de consciência ou de fatalidade 
que leve nos seus actos *. 

• 

I 3.® Causas do romantismo, a.) Erudição medieval 
dos historiadares modernos. — Apesar da immensa elaboração 

1 «A historia da litteratara é de origem moderna; pertence meema em grande 
parte a ama época qaasi recente.^ (Halhm, Introd.j p. i, t, i.) £ra esta tam- 
bém a ideia de Bacon, no Ifvro De áugmentis scientiarum; elle considerava a his- 
toria litteraria,*como a»Im da hiitóHa, a ot versai; o êea plano ^afa nma Tor- 
dadeira .histoi;ia ,era, invçs;tjg(Mr a origem dp ícafia 8c^ei|çia,.a direpç^^ que se- 
guiuj ás controvérsias quê motivou, as escolas qae desenvolveu, as suas rela- 
Gde0 C0tt a fto«iedtide eivíl, e ioliieiicia mottia que eierooran eatre si. 



IDEIA OBBÁX. 19 

económica e scientiflca, o século xix distingae-se princi- 
palmente pelo génio histórico: a renovaç3o intellectual par- 
tia da abstração metaphysica para a critica, das hypotheses 
gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico 
para a philologia, oppolfc aos desígnios providenciaes o indi- 
vidualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para 
alardear erudição, um intuito serio indagando nos factos mais 
accidentaes os esforços do homem na sua aspiração para a 
liberdade; só em um periodo assim positivo é que se podia 
achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a His- 
toria. Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada 
e profana, de historia antiga e moderna; todas as creações 
do homem, por mais fortuitas níerecem hoje que sejam es- 
tudadas nos documentos que restam; as instituições sociaes, 
as industrias, os dogmas, o (iireito, as linguas, as invasões, 
as obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, super- 
stições, são objecto de outras tantas sciencias, separadas 
por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas, 
em um único fim — a sciencia do homem. Em todas estas 
creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos 
períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a falta 
do desenvolvimento da rasão, a auctoridade impõe-se á con- 
sciência e á responsabilidade moral, emfim a paixão não deixa 
ao homem a posse plena de si mesmo, o acto praticado re- 
vela quasi sempre um paciente em vez de um órgão activo. 
A historia religiosa ou politica, a historia das invenções, a 
historia da linguagem, moslram-nos o homem n'este estado 
secundário, n'esta dependência de espirito; terror sagrado 
e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela 
necessidade de uma communicação immediata, são moveis 
violentos que arrastam o homem em vez de serem exerci- 
dos e dirigidos pela sua liberdade. Nas condições senli- 
mentaes em que entra já um elemento de rasão não acon- 
tece asisim: as creações artísticas não são provocadas pela 



20 BISTORIA DO SOMAJNTISMO EM POBTUGAL 

interesse, não têm um fim calculado, pão se impõem do- 
gmaticamente, não se exigem, nem são fatalmente neces- 
sarias. Isto prova o seu grande valor, a sua proximidade dos 
resulladojs flnaes d'esta grande e unitária sciencia do. ho- 
mem. 

É por isso que no século que soube conceber a philosophia 
da historia, que soube deduzir da discordância das religiões 
e das linguas, das raças e dos climas uma harmonia supe- 
rior, a tendência para a perfectibilidade indefinida do ho- 
mem, só a esse século competia lançar as bases positivas 
da historia das litteraturas. Dá-jse aqui uma coincidência que 
explica este facto; o primeiro que formulou o principio— 
O homem é obra de si mesmo, — que, na Scienza Nuova 
achou uma lei racional da vida collectiva do homem sobre 
a terra, esse mesmo, o inaugurador da philosophia da his- 
toria. Viço, propoz do modo mais racional as bases da cri- 
tica homérica e a verdadeira theoria da evolução do thea- 
tro grego. N'estes dois processos estavam implicitos os mo- 
dos como a moderna historia procede no exame das hlte- 
ratqras. Foi também Sèhlegel, o que primeiro fez sentir a 
unidade das linguas indo-europêas, o mesmo que deter- 
minou a lei orgânica que dirigiu a elaboração das Littera- 
turas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é 
uma creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano 
observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras^ 
da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um pro- 
ducto vivo, mas não procuravam a" espontaneidade da na- 
turesa, procuravam o cânon rhetorico dentro do qual ella 
devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir 
sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando Homero 
ou Virgilicf, não iam mais longe do que a colligir as tradi- 
ções da escola que bordaram a vida dos poetas, separados 
da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos 
<}e Struvio e Fabricio reduziram-se a vastas indagações 



I IDEIA GERAL ^í 

fcibliographicas dos monumentos que restavam da antigui- 
dade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados com 
o espirito critico da Renascença, tiveram por isso mesmo 
um vislumbre roais verdadeiro do que viria a ser a histo- 
ria das litteraturas; elles foram ás obras litterarias do thea- 
iTo romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a col- 
lisão dos interesses sociaes para recomporem o sentido dos 
fragnaentos das leis que se haviam perdido n'esta renova- 
ção da Europa chamada os tempos modernos. 

Depois de havermos passado pelo periodo theologico, co- 
mo diz admiravelmente Augusto Comte, sentimental, fata- 
lista, auctoritario, e impondo-se no afferro da tradição; de- 
pois de exhausto o periodo artístico, ou metaphysico, já com 
o sentimento alliado a um elemento racional e por isso mesmo 
dignamente creador, succedeu-se o periodo sâentifico, a que 
pertencemos, em que o homem tomando por meio único 
do conhecimento— a ra são, procura ter a consciência de 
tudo quanto se passa em si, na conectividade humana, e no 
meio em que existe. 

Segundo esta direcção positiva, a litteratura forma um 
todo orgânico, cujo valor histórico consiste em n5o ser do- 
minado por tim critério individual; analysada a obra litte- 
raria sob o ponto de vista esthetico, é preciso conhefcer o 
génio do artista, o estado do seu espirito, para ver côtíio 
foi impressionado e cokío soube imprimir ao que era uma 
particularidade do seu pathos UÉna generalidade humana. 
Porém a historia não procura isto ; vae considerar essa obra 
connexa com todas as outras manifestações da intelHgencíã, 
procurar n'elU raâis do que o espirito do individuo, as ideias 
e as tradições da sua época, mais do qufe o caracter do ar- 
tista, o génio da sua raça, todos os accidentes do meio em 
que foi concebida, o modo como a comprehenderam, a acçSo 
ob influencia que exerceu. Aqui a esthetica é especulativa» 
e a historia puramente objectiva. Mas, dirão, para que fa^ 



32 HISTORIA DO KOMAKTISMO BH POBTUGAli 

zer depender, a historia das litteraturas de uma tal comple- 
xidade de processos, não separando a obra prima, pela sua 
mesma perfeiç^ío individualista, da fatalidade do meio so- 
cial? Não será querer deduzir muito de uma observação 
que devia ser restricta? Não será diíScultar o problema cooi 
ç que lhe é accessorio e immanente? Não. A necessidade 
d'esta ordem de processos está na importância excepcio- 
nal da obra litteraria ; vimos que era a creação em que a 
liberdade humana apparecia menos compromettida pela pai- 
nio interessada e pela violência da auctoridade. Diante de 
táes documentos, procederá com verdadeiro critério o que 
poder ler melhor todos os sentidos que exprime, mesme 
aquil(o que mais inconscientemente se repetiu. Assim a bis* 
toria litleraria no século xix procura de preferencia as obras- 
espontâneas, de formação anonyma, aquellas em que me* 
nos se acèusa a individualidade; para ella acabara^n os mo- 
delos clássicos, os typos do belio, os cânones rhetoricos, 
6 todas as obras são bellas, por mais informes, por mais 
rudes, quando no seu esforço para attingir uma forma com* 
ibunicativa se aproximem mais da verdade. 

Vejamos agora o metbodo positivo na historia litteraria^ 
como se formula sobre o que temos dito. Primeiramente 
apparece-nos o facto; é p estudo da obra em si, tal como 
chegou á nossa observação; oITerece-nos no seu primeiro 
aspecto uiQ estudo comparativo, uma classificação em quanto 
á sua forma, em quanto aos sentimentos que exprime» em 
quanto aos processos empregados para esse resultado. De- 
pois do facto, o meio dentro do qual se effectuou; è o es- 
tudo da época em que foi sentida e realisada a obra, que 
reflecte em si a tradição, que é a parte fatalmente imita- 
tiva, e a aspiração moral, que é a parte que cons^itue a 
verdadeira originalidade. Depois do facto e do meio, segue-sa 
o conhecermos o agente; é o artista, o pensador, em qilb, 
peAo gráo de copscienda moral que a obra revela, vamos 



IDKA QMMAI» 23 

reconstruir o homem, restituil*o á sua individoalidade per- 
fflaneDte. 

Assim d'este.methodo positivo somos levados a conhecer 
também o caracter experimental ou objectivo da historia 
litteraria. Uma vez considerada a obra inteilectuai como en- 
tranha a toda , a arbitrariedade pessoal, a todo o capricho 
ou aberração, por isso que a sua generalidade provém da 
sua própria racionalidade, o conjuoto de obras que formam 
uma litteratura, só podo ser bem comprehendido quando 
através das suas multíplices formas podermos fixar como 
o génio privativo de uma raça se revelou n'ellas, como el- 
las, apesar il'esta corrente fatal, tiveram um elemento li- 
vre para exprimirem a consciência da nacionalidade, que 
se affirmou por essas obras, e com eflas fortaleceu a sua 
unidade, e finalmente, quando n'esse todo orgânico poder- 
mos discriminar ás diversas correntes da ewUisaçãotrms» ' 
mittida* Exemplifiquemos .estas ideias: o estudo da obra 
em si vé-se nos processos de exegese praticados com a Di- 
eina Comedia, com o Dom Quíxoie, ou com o Fausto. Do 
estudo do meio em que ella foi concebida, temos o estudo 
particularisado de certas épocas, cx)mo a Renascença, de 
certas instituições, como a do Terceiro Estado ou da mo- 
narchia ; com relação ao homem, temos o trabalho psychoio* 
gico das biographias, fundadas sobre as duas relações atite- 
cedentes, eomo a vida de Dante, de Raphael, de Comeille 
ou de Saint. Simón; Só assim, com todos estes elementos^ 
se chega ao pleno conhecimento da historia litteraria. 

Quando Jacob Grimm reconstituiu c>s velhos dialectos ger- 
mânicos na sua assombrosa Qrammatica aUemã, quando 
reoonsiroiu os elementos de vida ethniba das raças ger- 
mânicas na sua St^hologia Uuionica e nas Atuiguidades 
<ío. ZMrrào« : a iÉaportancia da» raças começava a ocoupar a 
sciedcia. Sob o<appara(o formal da unificação catholiea que 
destruiu durante séculos o quQ o cgenio alemão estava in- 



24 HISTOBIA DO B0MANTI8M0 EM POBTUGAL 

troduzindo na historia, foi o inexcedivel Grimm, unicamente, 
ajudado pela linguagem vulgar, pelas locuções, pelos ane- 
xins, pelos vestígios dos velhos poemas, pelos contratos 
civis, pelas chronicas, lendas e contos, que tornou a dar vida 
a essa raça violada por uma doutrina que lhe fdi imposta. 
Desde que se viu que existia uma manifestação fatal da ra- 
ça, é que o typo histórico de Luthero foi comprehendido, 
Immediatamente o critério novo trouxe novos documentos 
á historia das litteraturas; o incansável Saint Peiaye La 
Curne procurava, á custa da sua vida, pelas bibliolhecas eu- 
ropêas as velhas Canções de gesta francezas, que até enlâo 
só haviam merecido o despreso dos sábios. Todos os po- 
vos concorreram para este novo estudo com os seus can- 
tos nacionaes, como o que havia de mais caractecistíco da 
sua individualidade. Foi assim que se chegou a perceber o 
Sientído das canções provençaes, onde o senUmento de na* 
donalidadé e de independência, se serviu d' essa forma Ut- 
teraria para apostolar a. liberdade municipal contra a ab- 
sorpçSo prepotente do feudalismo do norte da França. Sob 
este critério da nacionalidade é que os Luziadás foram 
considerados a' unioa' epopêa erudita dos tempos modernos. 
Doeste modo ais obras mais aproximadas dos typos bellos 
da Grécia, âiais pautadas pelas poéticas de escola, quasi 
nada significam diante da historia em comparação de um 
velho canto de gueri^a, de uma: tradição local, de um auto 
hieraticodas festas nacionaes. O caracter, da cmlisaçãosê-spi 
também contt*aprotado na historia da* litteratura ; a AUema- 
nha que desde a Reforma começou a revolver-se sob o jugo 
da unidade c^tholica a ponto de a quebrar, contínuou este 
esforço nos fitas do século xvm^ sacudindo as formas daci- 
vilisaçSo q\àe recebia da França, para inât)irar-se unicamente 
do seu génio nacional. No corpo geral da^ litteraturas mo^ 
dernas, o confronto da civilisação convencional r^ebida au- 
etoritariamente pelas novas nacionalidades, com a direcção 



IDBIA GEBÃL 2& 

• 

que estava na vida e na nova ordem social, moslra-nos um 
conflicto constante : os dialectos vulgares tornados indepen- 
dentes do latim disciplinar e urbano, estavam aptos para 
exprimirem as necessidades* da inlelligencia; os novos sen- 
timentos davam origem a outras paixões, á collisão de in- 
teresses de outra ordem ; nada mais natural dp que segui- 
rem esta espontaneidade na saa creação. Não aconteceu 
assim : a tradição latina era forte, reconhecida, admittida, 
e demais a mais» restabelecida com o amor de queiíi acha 
e possue um thesouro. Assim na civilisação moderna, o es- 
pirito leigo, que se encontra nas luctas da burguezia, nas 
jurandas, nas universidades, nas communas, nos parlamen- 
tos, na Renascença e Reforma, é esta Lucta da naturesa que 
segue a sua marcha espontânea, o seu desenvolvimento 
próprio e individual, contra a pressão auctoritaria e clás- 
sica do dogmatismo da egreja. 

Esta grande lei histórica, achada nas litteraturas dos po- 
vos catholicos, por Schlegel, unicamente nas antinomias da 
civilisação, bastava para demarcar a área das litteraturas 
noYO-latinaSv Mas este grupo importaate constitue-se por 
caracteres mais positivos : em primeiro iogar, são essas lit- 
teraturas escriptas em linguas congénitas, chamadas roma^ 
nicasy que são o italiano, o francez, o provençal, o hespa- 
nhol, o catalão, o portuguez, o gallego e o românico. A 
lingua, que constitua hoje om dos elementos mais fortes 
da unidade nacional, indica também ao historiador a con- 
catenação das litteraturas. Depois da língua os sentimen- 
tos : a bondade e brandura céltica que abraçou facilmente 
o christianisrao, facilmente esqueceu os seus dogmas drui- 
dicos pelas máximas do Evangelho. Não aconteceu assim 
com os povos do norte, germanico§, saxões, scandinavos e 
slavos. 

Portanto a'6ste grupo de litteraturas modernas não ap- 
parece esse espirito implacável e cosmogonico das mytholo- , 



26 HISTORIA DO BOMANTISMO SM POBTUOAL 

• 

gias do norte, ess» individualismo forte, essa tenaddade, 
que tanto custou a ser penetrada pelos sentimentos chris- 
tãos. O tbeatro hespanhol, pelo seu imponente catholicis* 
mo, nunca poderia confundir-se coài um dialogo de Sigurd. 
Esse individualismo nacional é que dá ao hespanhol o typo 
da capa e espada, ao italiano a improvisação da comedia dei 
arte, ao inglez a tremenda tragedia histórica do génio sa- 
xão. * * 

O estudo da historia das lítteraturas modernas, em vista 
d'estes princípios, comprehende a litterátura itaUana, a fran- 
ceza, a provençal, a castelhana, a portugueza, a gallega e 
a românica. Onde começaremos este estudo? justamente no 
ponto em que uma nova raça entrou na historia. Com as 
invasões germânicas, quebra-se a unidade imperial, Roma 
deixa de ser a arbitra do mundo ; os dialectos vulgares co* 
meçam a ser reconhecidos no uso civil, e pelo seu desen- 
volvimpnto virão a fazer esquecer o latim clássico, e a se- 
rem o característico mais forte das nacionalidades. Pois 
bem, o estudo das litteraturas modernas deve começar 
mesmo antes da constituição das novas nacionalidades, no 
momento em que novas raças trabalham para se affirma- 
rem historicamente. É por isso que antes de estudar em 
si cada uma das litteraturas no vo-la tinas, que foram o resul- 
tado e são a contraprova da autonomia, do organismo de 
nacionalidades feitas, temos de expor esses elementos já 
formados, que foram aproveitados ou se impozeram á nova 
civilisação. Em todas estas litteraturas meridiouaes, ha ele« 
mentos communs, que eram coexistentes ao tempo da 
formação das nacionalidades; são elles, a tradição gre- 
cú-romanaf que em grande parte atrasou a originalidade 
doestes povos meridionaes, principalmente depois que foi 
abraçada pelo catholicismo ; o elemento germânico, resul« 
tado das invasões, e d'ondé se deriva o que ha de mais ori- 
ginal e independente n'estas lítteri^turas, como as canções 



IDBIAOKRAL 27 

de gesta ou os romanceiros ; o eledteDto céltico, o mais 
oMtteraâo, porque constituía o fundo primitivo, que ape- 
Dâs se conserva em um cyclo poético quasí erudito, e em 
vagas superstições populares ; finalmente o elemento orim^ 
tal, desconhecido na historia, emquanto se não estudaram 
as migrações indo-europêas, provado materialmente «nas re- 
lações da Europa com o Oriente no tempo das cruzadas, e 
sobretudo, depois que a moderna sciencia da philología, 
4escobríu, com Bopp, a unidade das linguas da Europa, de- 
duzindo-as de uma origem commum, actualmente represen* 
tada pelo védico, e o encadeameqto tradicional dos contos 
populares determinado por Benfey. 

a) O QDÈ SE DEVE AO ELEMENTO HOUANO 

Ao procurar nas litteraturas modernas o elemento ro^ 
mano, temos a distinguir o que pertence ás imitações for- 
çadas, meramente individuaes, das épocas eruditas chama- 
das de Renascença, e as formas de civilisaçSo transmittidas' 
de um noodo natural e aproveitadas como primeiro núcleo 
de um trabalho inteliectual que as antecedeu. De ordinário 
confundem-se estas duas feições, sem discernirem que os 
conhecimentos da antiguidade clássica de um Poggio ou de 
um Imola nao existiam na época de labor escuro da con- 
sciência, que vae desde a mudança da' sede do império do 
Occidente para Byzando até ao tempo de Carlos Magno. 
N'este longo periodo, chamado da baixa edade media, os 
. monumentos lilterarios do século de Augusto estavam mais 
do que perdidos, por isso que a sua importância era já des- 
conhecida durante os dois séculos que succederam a essa 
grande época de esplendor. Se a tradição da litteratura la« 
tina fosse transmittída como uma coisa viva, se ooexistisse 
com a formação das linguas vulgares, e com o espirito flas 
modernas nacionalidades que procuravam constituir-se, não 



28 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 

se teriam dado os seguintes factos: 1*^, a prompta disso- 
lução do latim urbano e preponderância dos dialectos rús- 
ticos, usados até nos actos jurídicos ; 2.^, a profunda anti* 
nomia entre o classicismo dos modelos rhetoricos e as pri- 
meiras tentativas litierarias, livres manifestações da lingua» 
da paixão, do interesse e da vida própria dos povos novo-la- 
tinos. O primeiro phenomeno ainda se poderá julgar sem 
solução de continuidade, em quanto á sua manifestação, 
apesar de significar que a vastidão das colónias romanas 
fazia com que a urbanidade latina fosse inyadida pela for- 
çada modificação da loquella estrangeira ; porém o seguDdo 
phenomeno revela-nos precisamente que o estrangeiro tra- 
zia uma nova ordem de ideias, um outro estado de con- 
sciência, um espirito em tudo desconhecido, que é o que 
produz essa antinomia entre a sua expressão litteraria e os 
modelos impostos da civilisação romana. Toma-se de or- 
dinário como ideia de decadência do império romano, o 
desabar de um* sumptuoso edificio, cheio de apparatosas 
columnás, de maravilhas artísticas, sendo as nações moder- 
nas os espectadores d' esta catastrophe, que correm solici- 
tas,' depois de um lethargo de espanto, a coUigirem com 
religioso respeito as venerandas relíquias, os fragmentos 
dispersos d'esta grandesa que foi. 

Assim foi para os eruditos do século xvi, para os Âidos, 
os Etieqnes, essa moderna antiguidade, como lhes chama 
Michelet, em que as próprias mulheres, como aconteceu em 
França, faziam a coUação dos differentes manuscriptos de 
um Cicero. Os que parteol doesta impressão para julgarem 
a acção do elemento latino no periodo de elaboração que 
ultrapassa o século ix, obedecem a uma miragem, que os 
não deixa nunca chegar á verdade, e os obriga a um sys- 
tema de perpetuas conciliações. 

Para discernirmos esse elemento latino nas origens litte- 
rarías da Europa, precisamos propor a questão em outros 



IDEIA GEBAI. 29 

lermos: determÍDar o ponto em que começa a decadên- 
cia romana, procurar de preferencia as causas moraes, fi- 
xar os característicos d'essa decadência, ver o que esta ci- 
vilisação extincta deu ás novas raças que entram na histo- 
ria, e explicar finalmente como o cbristianismo combateu a 
litteratura latina, ao passo que a Egreja foi successiva e 
calculadamente adoptando a tradição romana. Por este pro- 
cesso chegamos a saber o que entrou como elemento or- 
gânico na civilisaçao moderna. 

Antes das invasões dos bárbaros na Itália, e da queda 
do império doOccidente, já a litteratura latina estava morta 
em Roma ; não era preciso que estes dois cataclysmos vies- 
sem pôr em evidencia esse grande collapso intellectuai, por 
que elle já se eslava dando em consequência de causas im- 
manentes da própria litteratura, que representava fatal- 
mente o estado mpral em que se cairá. O cesarismo affron- 
toso dos imperadores que subiram ao throno depois de 
Marco Aurélio, á custa da corrupção que espalhavam no 
povo, dando-lhe panem et circenses, e lisongeando a proter- 
via dos soldados pretorianos, que n'um grito de embria- 
guez lhe conferiam ã soberania acclamando-os; o cesarismo, 
esta arte de firmar o poder sobre a degradação moral, creou 
por necessidade uma litteratura de poetas e de panegyris- 
tas, de rhetoricos e de chronistas oflQciaes, laureados nas 
recitações publicas, admittidos nos banquetes dos impera- 
dores, elevados acima de Cicero, como aconteceu com o 
ignoradp Cornelio Frontonio. Incapazes de comprehender 
que a litteratura é uma synthese do génio nacional, que 
exprime as necessidades intiihas de um povo, as violações 
da sua justiça, o ideal da sua revolução, que lhe assignala 
a sua_ parte na vida histórica da humanidade, esses desgra- 
çados declamadores, vendidos ao louvor das arbitrarieda- 
des imperíaes, e victimas d'ellas, como succedeu com Se- 
renus Sammonicus, assassinado por Caracalla, recuperavam 



SO^ HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 

á perda do pudor compondo poeipas didácticos e instructi- 
'vos sobre a pesca, sobre a caça, sobre a astronomia. Era 
a negação do sentimento poético ; sob Galliano, cem d'es- 
tes versejadoi^es appareceram celebrando em outros tantos 
epithalámios o nascimento de um neto do imperador. 

Por qualquer aspecto que interroguemos os monumen-' 
tos litterarios, acha-se sempre o symptoma intimo da de- 
cadência. A historia, esse tribunal seyero da consciência e 
da critica, levantado por Tácito no meio da pública degra- 
dação, reduzia-se a ephemérides do paço, a pequenas in- 
trigas de camarilha desenvolvidas nas suas biinimas parti- 
cularidades. Para a historia merecer ainda alguma impor- 
tância foi preciso que os rhetoricos gregos que estavam em 
Roma, e escrevendo na sua lingua pátria, ensinassem a 
verdadeira importância dos factos. Em philosophia succe- 
dia a mesma incapacidade para investigar; adoptaram um 
deplorável syncrelismo de ideias, começado pelos eclécti- 
cos gregos. A eloquência romana, essa máxima virtude do 
fórum, estava reduzida a regras, a justas proporções ensi- 
nadas nas escolas dos declamadores; na parte pratica, exer- 
cia-se em immodestos panegyricos, ultrajantes da justiça 
pai:*a captar um patricio influente, ou o imperador sangui- 
nário. Aulo Gellio declara, que no seu tempo só o gram- 
matico Sulpicius Apollinarius entendia' em Roma Sallustio f 
Emquanto novas ideias moraes entravam no mundo, e po- 
vos desconhecidos, como n'uma enchente terrível se levan- 
tavam em volta de Roma, sem se atreverem a discutir o 
seu império, mas prestes a submergil-o ao mais leve signal 
de temor; na capital das gentes, em Roma, os grammaticos 
occupavam aattenção publica debatendo entre si minúcias 
de syntaxe, propriedade de tropos, bellezas de gradações, 
do mesmo modo que em Byzancio nas vésperas da sua roina 
se ventilavam questões theologicas, ou como nos salões das 
preciosas ridículas pouco antes da Hevolução franceza. 



IDEIA OEBAL 



31 



Qaando uma litteratara chega a este estado de inanida* 
de, è mesmo na sua decadência uma prova do abaixamento 
do nivel moral de um povo. Isto era apenas a consequên- 
cia ; as causas vêem-se atravez do esquecimento que Roma 
tinha de si mesmo. Gomo dissemos, a civilisação romana 
começou a decair antes de Constantino; abstrahimos das 
causas interiores e exteriores ; bastam-nos aquelias que 
eram emergentes na indole d'es$a civilisação. Em Roma o 
desenvolvimento dos direitos civis, foi de tal fórmà formu- 
lado, que produzia esses códigos eternos, que mereceram 
ser chamados ao cabo de tantos séculos a rasão escripta; 
estava no génio romano a comprehensão da causa publica, 
e ao romano cabe o ter creado essa ordem nova de senti- 
mentos chamados virtudes cívicas. Mas o direito politico, a 
garantia do facto civil não passou de um estada rudimen- 
tar. O aphorismo de Bacon — pis privatum latet siib tutella 
júris civiliy é a grande lei da decadência achada por Guizot 
na civilisação romana. O individuo era nada em frente do 
principio da auctoridade; o cidadão romano só podia testar 
morrendo em Roma, isto é recebia um direito unicamente 
pelo facto de ter morrido no ponto era que a auctoridade 
publica podia manter-lhe esse privilegio. No tempo dos im- 
peradores levaram mais longe esta violação, formulando 
que o direito de testar era uma graça concedida pelos im- 
peradores. Uma vez esquecido este principio da indepen- 
dência politica, elemento social que os povos germânicos e 
scandinavos trouxeram com o seu jury, com as assembléas 
ao ár livre, com a liberdade de escolher patrono, fácil foi 
desenvolver esse outro principio dissolvente do cesarismo. 
Sem um protesto, sem um meio de participar da auctori- 
dade e de a dirigir reclamando, o poder torna-se um apa- 
nágio divino, e por uma illusão fácil de se incutir, a arbi- 
trariedade substituo o dever, a graça antepõe-se á justiça. 
Creado o cesarismo romano, que tantas vezes tem reappa- 



32 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 

• 

recido sob outras formas, na historia, a corrente litteraria 
veia exprimir estes sentimentos egoistas da bajulação ao 
prepotente. Foi então que a falta de uma originalidade or-. 
ganica na litleratura latina se tornou mais evidente. Roma 
fundada desde os seus primórdios sobre um contrato ju- 
rídico, um commum accordo entre os três povos luceren- 
ses, ticienses e ramnenses, attingiu mais depressa do que 
nenhum outro povo a comprehensão da ideia 'do direito. 
Passando rapidamente pelo periodo poético do symbolismo, 
elevou-se muito cedo á forma abstracta e quasi georíietrica 
da lei. As tribus errantes vinham espontaneamente sub- 
metter-se á sua disciplina, pedir a sua legislação muníci- 
paK Para o romano, desde os seus tempos mais antigos, 
occupado n'uma laboriosa conquista, e n'uma larga e forte 
•administração, a expressão do sentimento do bello foi-lhe 
quasi um luxo exterior, um accidente secundário. Ê por isso 
que a sua poesia não tem um visivel caracter de naciona- 
lidade; Niebuhr mostra que as tradições romanas são em 
grande parte copiadas da Grécia, coiflo a lenda das Doze 
Tábuas, de Tarquinio Prisco, que era estrangeiro, de Vir- 
gínia, de Mnenio Agrippa; as danças populares eram tam- 
bém de origem grega; a metrificação era baseada sobre a 
quantidade, privativa da lingua grega, que veiu desnaturar 
o verso saturnino, antigo e nacional. 

Uma vez esquecido-o principio fundamental que o romano 
introduziu na civilisaçao, e que foi o vigor da sua naciona- 
lidade, — a comprehensão da justiça, — a litteratura tor- 
nou-se estéril, sem ideia, uma artificiosa imitação das for- 
mas gregas. O theatro, a creação litteraria que melhor re- 
presenta a sociedade, não chegou a ter uma feição nacio- 
nal era Roma; se nos interesses civis, cujas collisões dão 
a acção dramática, não havia característico romano, como 
é que o sentimento vago, as descripções didácticas/ è as 
noções scientificas se libertariam dos modelos gregos? A 



lOEiA esRAXi 33 

mesma falta de caracter nacional se encontra na mytholo- 
gia romaqa, que facilmente associou os deuses itálicos a to- 
das as divindades dos povps vencidos. Este syncretismo 
que vimos nos systemas philosophicos, no eccietismo, con- 
stitue o pantheon romano. A religião era uma instituição of- 
ficíal, separada do sentimento, & por isso incapaz de ser- 
vir de vinculo de unificação nacional. A todas estas causas, 
que accusavam desde longo tempo na civilisação uma dis- 
solução fatal, veiu accrescer o desenvolvimento do colonato. 
Dois séculos antes de Christo, já o colonato estava intro- 
duzido nos costumes romanos; as novas povoações leva- 
vam á sua frente os Triumiviri ducendae coloniae. As tri- 
bus errantes vinham offerecer-se á administração romana 
para receberem a sua lei colonial, para se fixarem nas suas 
conquistas, para se defenderem sob a sua égide. Em Jor- 
nandes vemos repetidos factos doesta ordem. De facto o ro- 
mano estava adiantadíssimo na agricultura, e foi o primeiro 
povo que teve o estudo scientiflco d'este trabalho; as coló- 
nias estrangeiras, tanto conquistadas como voluntárias, 
cresciam espantosamente; o edito de António Caracc^lla foi 
uma consequência forçada d'esse desenvolvimento. Com o 
seu génio unitário e centralisador, Roma, na impossibili- 
dade de manter sob o jugo o mundo inteiro, foi unitária 
na vertigem da impotência, dando ao orbe o direito de ci- 
dade. O seu poder tornou-se puramente moral; governava 
pelo perstigio, pela auctoridade tradicional, reconhecida e 
nunca discutida. Era uma força phantastica, abstracta, pres- 
tes a reconhecer-se sem realidade desde que se tentasse 
resistir. Temos na historia um exemplo que explica este 
momento critico da vida de um grande povo; quando 
Rienzi qúiz restabelecer a velha* auctoridade imperial, teve 
unicamente a força de uma tradição colhida nos livros, do- 
minando pela fascinação gloriosa; ao mais leve ataque, 
Rienzi caiu das suas alturas de tribuno .de Roma, e a um 

3 



34 HISTORIA DO BOMANTISMO EM FOBTUGAL 

sopro casual se esvaiu esse sonho que tanlo embevecia 
Petrarcha, Roma estava n'eslas circumstancias do seu ex- 
temporâneo tribuno; em voltgi d'ella agglomeravam-se as 
numerosas tribus germânicas. Nao se atreviam a invadir à 
CidadQ eterna; eram as feras da jaula que recuam diante 
da vara vermelha do domador. Mas ás illusõe^ duram pou- 
co ; as tribus irrequietas conheceram que o jugo romano 
era apenas um simulacro risível do antigo ferro em brasa. 
Ao primeiro arremesso de uma tribu germânica na Itália» 
com a irupção dos Hunos, desfez-se o phantasma da aucto- 
ridade; depois dos Lombardos, a Gallia romana é invadida 
pelos Frankos, a Hespanha romana é occupada pelos Godos, 
a Africa romana é senhoreada pelos Vândalos. As tribus, co- 
mo os abutres sobre um campo de matança, vêm buscar um 
bocado do espolio dó velho mundo. A mudança da sede do 
império do Occidente fora um erro politico, que mais depres- 
sa fez sentir a inanidade de Roma. Por uma lei terrível, mas 
inevitável, Roma saiu da vida histórica desde que realisou a 
ideia do direito; a arbitrariedade imperial, a devassidão dos 
pretorianos, a mediocridade da litteratura e a extincção do 
espirito publico, foram a consequência da falta de um mo- 
vei superior que desse vigor á consciência da nacionalidade. 
Todos os historiadores são conformes em aflQrmar o con- 
tagio invencível de mediocridade da intelligencia humana 
desde a decadência de Roma até ao século vii; era um 
grande collapso em que a natureza precisava de um repouso 
profundo para entrar em uma, evolução nova; era a con- 
demnação das individualidades caprichosas á nullidade para 
deixarem à natureza a livre espontaneidade na sua deter- 
minação. É o que se está dando hoje, na véspera de uma 
transformação social, em que por uma lei providencial, se 
ecclipsaram os grandes políticos europeus. Este parallelisino 
faz-nos comprehender esse momento tremendo em que as 
raças germânicas^ iam entrar na historia. 



IDBLá. aBBAK. , 35 

Traziam á civilisaçao na sua corrente indeGnida, o factor 
estranho, cuja déOciencia produziu a ruina da unidade ra.> 
mana; traziam o individtuilismo germânico. Mais tarde este 
índiTídualismo foi absorvido no poder feudal, quando os 
grandes senhores constituiram a sua bierarchia pelo molde 
da bierarchia ecciesiastica, que por si imitara a unidade ro- 
mana ; mas è inegaVel que foi esta nova phase da conscien- 
<^ia humana que cooperou no que ha de mais esplendido na 
civilisaçao moderna. É admirável o modo como Tácito de- 
screve esta raça, que tirava todo o seu vigor da puresa de 
costumes, e em que as crianças ao tornarem-se homens 
vestiam as armas como a unlca túnica viril; para quem 
ãs cidades romanas causavam horror, como diz Âmmiano 
Marcellino, por lhe parecerem prisões e sepulchros. Os po- 
Tos germânicos descentralisaram as accumulações immen- 
sas das grandes cidades; começaram a formar-se os Pagi 
e os' Vici, esses dois elementos^ de força moral e material, 
das povoações minhas que se defendiam, e das tradiçõe^s 
populares, que o christianismo condemnou com o nome de 
paganismo, i 

Com que vigor falia Tácito, condemnando o seu tempo, 
quando diz dos povos germânicos: «Ali, corromper ou suc- 
cumbir, são crimes que se não perdoam com dizer: Tal é 
seculo.i^ O mesmo repetia ainda no século v o sacerdote Sal- 
viano, de Marselha: «Envergonhemo-nos e corramo-nos com 
uma salutar confusão. Onde quer que os godos sao os do- 
minadores, não se encontra desordem senão entre os ro- 
manos. Os romanos corrigiram-se sob a dominação dos 
vândalos. Successo incrível! prodjgio inaudito! Os bárba- 
ros pelo amor da puresa dos costumes e pela severidade 
da sua' disciplina, tornaram castos os próprios romanos.» 
Depois do individualismo, o germano estabeleceu o estatuto 
pessoal sobre o direito territorial; se em Roma a lei era «o 
que agradava á vo ntade do príncipe» nas povoações germani- 



36 HISTORIA DO BOMAITTISMO EM FOBTUGAI. 

cas era o que se estatuía na assembléa ao ár livre, parti- 
cipando todos egualmente da auctoridade; se o dipeito de- 
testar era para o romano um privilegio concedido pelo im- 
perador, o germano não tinha crime todas as vezes que o 
não commettesse dentro da sua garantia. Mas em contacto 
com os restos da civilisação romana os povos germânicos 
deixaram-se penetrar, no meio da ipcerlesa do direito, dos 
typos de legislação, e de instituições que conheceram no- 
tempo da sua conquista ; a classe dos lites adoptou e trans- 
formou o município romano; os nobres ou toerhman, á me- 
dida que iam dando a forma hierarchicsr ao poder, consti- 
tiíindo-se em feudalismo, apropriaram-se dos códigos roma- 
nos do Baixo Império. Corre na sciencia, que a tradição 
municipal nunca se perdeu, quer isto dizer, que o colonato 
germânico a adoptou e a transformou até ao século vii; 
mais tarde no século xii deu-se o conflicto d'estas duas for- 
mas de direito colonial e de cidade ou codificado, quando 
no século xii começou a lucla entre os barões e as com- 
munas. Que era este conflicto senão a absorvente unidade 
romana que queria anuUar a independência colonial? Mas 
sustenta-se que o municipio é todo de origem romana; ha 
mesmo duas escolas contrarias, sustentando a segunda que 
o municipio é germânico. 

EJste problema histórico tem sido sempre proposto de 
uma maneira absoluta, e como tal impossível de chegar-se 
a uma verdade, porque .em ambas as theorias ha documen- 
tos e factos egualmente convincentes. A questão propõe-se 
n'estes termos: 

Ha no municipio moderno caracteres de uma instituição 
de garantias civis. Esta feição apparece entre todos os po- 
vos que obedeceram á dominação romana. No seu período 
de mais vigor, os seus magistrados eram electivos. Pro- 
mulgada a unificação do direito romano, no edito de Gara- 
calla, decáe a instituição municipal, porque acabou a des- 



IDSIA OBRAL 37 

«gualdade civil que a motivava ; é n'este momento que perde 
o caracter electivo, e seguindo a condição mais ou menos 
importante do colonato, assím os seus funccionarlos foram 
'escolhidos entre os nobres ou entre os que o não eram. Os 
Concelhos em Portugal são esta tradição romana, tendo re- 
sascído por uma influencia cesarista. 

Ha no município moderno caracteres de uma instituição 
de garantias politicas. Em consequência da nova ordem so- 
cial/produzida pelas invasões germânicas, as povoações ru- 
raes adquirem importância, a colónia tem. vida própria e 
independente, e fácil foi confundir a velha forma municipal 
com a garantia local, a Fará. O município romano perde o 
nome, e fica principalmente politico ; o Foral era estatuído 
e processado pelos homens bons no mallum ou assembléa 
livre. É então que o caracter electivo reapparece sob a acção 
do génio germânico, recebendo de novo esta feição que ti- 
nha perdido, para tornar-se a Communa, d'onde havia sair 
esse grande elemento social, o terceiro estado. No nordeste 
da França o município é de.orjgem gallo-romana, e a Com- 
muna é qma imitação do ghild scandinavo; é n'esse ponto da 
França, onde foram mais intactas e mantidas as franquias ger- 
mânicas, que é também mais frequente o regimen communal. 

O Defensor civitatis, segundo Bouthers, nas Origens do 
direito rural, é imitado do Vogt das tribus germânicas. A 
<iommuna rural da antiga Alsacia, conhecida pelo nome de 
Colonge, com lei commum, formanda juntos o tribunal, é o 
município das garantias políticas creado por quem ignorou 
a primeira forma exclusiva e romana. Uma vez determina- 
das estas duas características, conciliam-se as duas escolas 
dissidentes dando a cada uma a sua verdade. 

Fora d'esta adopção jurídica as raças germânicas nada 
tinham a receber da cultura romana, e ficaram com a sua 
espontaneidade atè que o christianismo se tornou por sua 
vez romano, segundo o profundo verso de Dante : 



3S HISTOBIA DO ROMANTISMO EM POSTUOAI. 

Queila Boma onde Cristo é romano, 

d^onde resultou o ser-lbes mais tarde imposta essa crua 
unidade, que as levou ao feudalismo. A lítteratura n'estes. 
primeiros cinco séculos nada tinha que transmittir ; infini- 
tos grammaticos e rhetoricos gaulezes ou hespanhoes, cau- 
telosos jurisconsultos, controversistas ecclesiasticos, vale- 
ram muito, mas não tinham communicaçao possivel com a 
alma germânica. N'este período que permaneceu intacto è 
que creou o grande cyclo das epopêas do mundo moderno. 

b) ELEMENTO CHRiSTÂO 

O estado dos espiritos em Roma, no momento em que o 
christianistno se radicou no occidente, é uma consequência 
dos caracteres que esboçámos no quadro da decadência da 
civilisação ronaana. Havia uma grande incapacidade para òs 
estudos philosophicos, e as investigações da rasão nao en- 
contravam respeito; as leis imperiaes lançavam de vez em 
quando interdictos sobre os philosophos, e os grandes po- 
tentados formavam bibliotbecas para alardearem as suas ri- 
quezas, como Lucullo ou Sylla. Perdida a existência politica 
da Grécia, os philosophos trazidos para Roma eram tidos 
como seres extranhos, espécie de páreas da conquista. Na 
meio do egoismo da grande capital, e do syncretismo in- 
differente de todas ás religiões, perdido o sentimento da 
dignidade com a perda da constituição republicana, a scien- 
cia tornou-se unaa curiosidade absurda da theurgia e dos 
milagres. No meio d'esta dissolução, appareceu em Roma 
uma philosophia admittida pela necessidade de protesto. 
Foi o Stoicismo. Baseava-se sobre estes três grandes factos 
"do espirito, da observação e da acção, a lógica, a physiolo- 
gia e a moral. O grupo que abraçava estas doutrinas, fa- 
cilmente acceitava uma qualquer doutrina que tivesse pelo 
menos pelo lado pratico certos pontos de analogia com o 



IDXIÂ O^EAL 89 

Stoicismo. Não é sem fandamento que nasceu a tradição 
das relações, pelo menos litterarias, entre o stoico Séneca e 
o apostolísador Paulo. Antes de attingir uma forma dogmá- 
tica iio cbristianismo hellenico, antes de receber uma for- 
ma tbeologica na controvérsia e nos concílios, a doutrina 
de Cbristo tinba por fundamento a mor ai.. Bastava este prin- 
cipio commum, para o cbristianismo acbar ecco em Roma ; 
era elle que vinba aproveitar a base systematica» que os 
stoicos baviam formulado. O Stoicismo condemnava a es- 
cravidão como contra a natureza ; o cbristianismo evange- 
lisando a egualdade diante de Deus, propagou Ubi domi- 
nus, ibi libertas. Foi unia como espécie de rehabllitação da 
natureza, em que os stoicos sentiam em um estado de 
immauencia, o mesmo que os christãos na correlação dos 
effeitos para a causa primaria. Quando o cbristianismo 
recebeu o vicio da unidade romana, condemnou a natureza, 
como vênlos no principio da ascese mystica do monachis- 
mo. Na lógica, os stoicos tomavam a rasão como o meio 
consequente de cbegar á verdade ; os padres daegreja com- 
prebenderam a força doeste novo meio, e usaram-no ; for 
ram polémicos, controversistas, trataram de propagar a 
doutrina á força de argumentos, ' oppozeram a simplici- 
dade da ihoral ás caducas e contradictorias escolas pbi- 
losopbicas. Os afamados doutores dos primeiros séculos 
da egreja foram terríveis dialécticos; Justino, Âtbanasio, 
Tertuliano, Mínucio Felix, Lactando, Arnobío, Eusébio, Ba- 
sílio, Hilário, os dois Gregorios, de Níceia e Nazianzeno, 
Ambrósio, Agostinho e Cbrysostorao, considerarain a rasão 
e a sua actividade lógica como um meio de defeza da dou- 
trina de Jesus, como refutação das beresías, como elemento 
disciplinar e formulistico dos dogmas da fé^ como o meibor 
escudo para a polemica, finalmente foram racionalistas do 
sobrenatural. Á medida que esta necessidade foi desappa- 
recendo, e só quando acabaram as grandes intellígencías 



40 HISTORIA DO B0HAMTÍ8U0 EM PORTUGAL 

<i'este cyclo militante da egreja, é qua a philosophia, se tor- 
nou a scientia mundana^ a ancilla theologiae. 

Foi por este trabalho de racionalismo sobrenatural, que 
S. Justino ia encontrar o mysterio da encarnação no paga- 
nismo, e que Clemente de Alexandria considerava a philo- 
sophia pagã como um 'primeiro esboço das doutrinas do 
Evangelho. Na parfe moral, o christianismo venceu o stoi- 
cismo porque trocou a divagação philosophica pela pratica ; 
a apathia do stoicismo, a isempção do homem justo das 
paixões, que é senão o rudimento da abnegação da indivi- 
dualidade, do nihilismo desenvolvido pelo christianismo? 
Tudo isto indicava uma ordem nova, já annunciada por Vir- 
gílio, mas diante da decadência romana as conclusões fo- 
ram tiradas prematuramente. O principio moral de vencer 
as paixões, de as extinguir em si, levou á severidade de 
Tertuhano, á amputação de Origenes, á condemnação dos 
monumentos litterarios da antiguidade como seducções pec- 
caminosas dos sentidos. Salisbury accusa o papa Gregório 
de ter queimado uma bibUotheca de auctores pagãos; na 
controvérsia religiosa escrevia-se contra a leitura dos Uvros 
dos infleis, e com que arrependimento se accusa a si pró- 
prio Santo Agostinho, quando no livro das Confissões de- 
screve o peccado que commetteu deixando-se impressionar 
pelo quarto livro da Eneiday a ponto de derramar uma la- 
grima sobre o episodio dos amores da rainha Dido. S. Je- 
ronymo também condemnou a leitura dos livros profanos. 
Esta direcção de espíritos tão potentes, como os primeiros 
padres dja egreja, tornou mais completa a decadência da lit- 
teratura romana; capazes de crear uma litteratura, por isso 
que estavam possuídos de um outro sentimento^ exaltados, 
enthusiastas, ferventes, que formas de arte não conceberiam 
se a necessidade da polemica, a controvérsia aggressiva, o 
panegyrico eloquente lhes não tivesse absorvido ç em grande 
parte annullado a actividade? As formas que seguiriam es- 



I 



IDEIA GERAI< 41 

ião indicadas ii'essa assombrosa fecundidade de tradições 
populai*es, que formaram os Evangelhos apocryphos, e n'essa 
theoria do amor mystico exposta na allegoria do paslor 
Hermas. 

Demais, uma raça também uova na historia, fecunda, 
original e forte, abraçara o chrislianismo ; os bárbaros do 
norte deram a essa doutrina a feição do seu caracter ra- 
cionalista, e apaixonaram-se pela humanidade de Jesus. Mas 
a tendência polemica recebia o vicio dos sophislas da civi- 
lisação decadente; a egreja procurou definir-se, disciplinar- 
se, teve necessidade de condemnar as suas mais bellas con- 
cepções sentimentaes, preferiu perder a espontaneidade da 
natureza; por uma unidade formal, impassivel e calculada. 
Era o principal vicio da decadência romana, revelado na 
centralisaçao administrativa. Roma quiz centralisar o do- 
gma ; segundo o celebre verso de Dante, Christo tornou-se 
também romano ; d'entre a egualdade dos bispos, o bispo 
«de Roma tornou-se o ápice de uma hierarchia unitária. 

O concilio de Niceia estabeleceu a primeira unidade na 
doutrina da egreja; os que até ao tempo de Theodosio 
50 appellidavam christãos, ao verem assumir o poder im- 
peradores dominados por seitas philosophicas adoptaram 
essa formula geral. Assim a decadência romana incutia este 
vicio da forçada unidade á religião nova. 

As raças germânicas^ abraçando o chrístianismo redu- 
ziram-o, adaptaram-no ao seú sentimento individual. O aria- 
nismo não é mais do que esta modiflcação instinctiva ca- 
racterisada pela negação do dogma da divindade de Jesus. 
Até ao fim do século v quási todos os príncipes eram aria- 
nos; estava recente na memoria a abjecção degradante da 
apotheose dos imperadores, ê o& bárbaros do norte, te- 
nazes e sinceros na sua crença, não acceitavam a dmnisa- 
ção de Jesus, porque não precisavam d'esse cunho religioso 
romano para comprehenderem a grandeza do sacrifício. £ 



42 HISTORIA DO BOMANTIBMO SM POBTUQÁL 

DO tempo de Tbeodosío que começa a introduzir-se nas leis 
o nome de catholicismo dífferente de cbristianismo ; este 
mesmo facto assignala o momento em que a egreja começa 
a abraçar a unidade romana. O estado adopta uma religião 
que se torna uma forma politica, um partido, que ex* 
cluia dos empregos todos os que a não professassem. Â 
serie dos imperadores do Oriente foi em grande parte ac- 
clamada pelo catholicismo. Anastácio antes de ser impera- 
dor foi patriarcha de Antiochia, e para se fortalecer contra 
a revolta de Vitaliano, prometteu aos catbolicos o privile- 
gio dos empregos públicos. Justino interrompeu a succes- 
são de Âthanasio seduzindo os catbolicos com mais garan- 
tias. Justiniano, pelo facto de uma religião doestado, convo- 
cou um synodo em Byzancio para destituir um patriarcha 
não cafholico; a influencia de João de Capadócia e do juris- 
consulto Triboniano junto do imperador, provinha de um 
calculado catholicismo. O grande principio da tolerância 
inaugurado pelas raças germânicas, foi violado por Justi- 
niano por causa da unidade da religião do estado, prohi- 
bindo aos cbristãos não catholicos o direito de testemunhar, 
de doar, de succeder, de herdar, condemnando-os até á 
morte. Antes dos Árabes trazerem á Europa no século vti o 
sentimento humanitário da tolerância» já um ramo semitico 
da Pérsia a proclamava como uma provocação a Justiniano ; 
Cosroes abriu a todos os que professassem qualquer reli- 
gião o accesso aos cargos públicos. Como chefe do estado 
Justiniano intervinha na eleição e na inamovibilidade da ge- 
rarchia ecclesiastica, nomeando patriarchas, metropolita- 
nos, bispos e abbades, e depondo outros a seu bel prazer ; 
a ideia unitária levava -o a ser injusto mesmo contra os ca- 
tholicos. Justiniano, como Henrique vni, também compoz 
hymnos religiosos^ e como o antagonista de Luthero, tam- 
bém injuriou Origenes» representantp do cbristianismo hel- 
lenico. 



IDBIA OBBAL 43 

Depois de abraçar- se este vicio da civilisaçSo romana, 
d'oDde os imperadores queriam renovar a Iradição cesaris- 
la, ^a litteratnra que vae até ao secalo vii tornou-se nuUa. 
A nova ordem de sentimentos que inspirou o pastor Her- 
mas, e esses poéticos evangelhos apocryphos, o que nos dá 
a medida do seu alcança e do que teria sido a sua fecun- 
didade, gastou-se em controvérsia estéril, em polemica 
tempestuosa, que não deixou aos espíritos essa serenidade 
necessária para a concepção da obra d'arte. O próprio Jus- 
tiniano, pontifico da religião de estado, disputava com o 
papa Agapito, e os negócios poUticos eram para elle acci- 
dentaes diante das suas polemicas dogmáticas, a ponto que 
nas revoltas que procuravam desthronal-o refugiava-se en- 
tre os sacerdotes antigos deliciando-Se com a controvérsia. 
Foi elle o inventor da inquisição, esta devassa afifrontosa 
da consciência, quando creou o funccionario encarregado 
da perseguição dos heréticos, que tinha o nome de koiais- 
tor. Sob esta pressão ofiiciaLa favor do ramo catholico, des- 
appareceu o génio fecundo dós primeiros doutores da egreja 
que estabeleceram a sua disciplina; estava-se seguro que 
Justiniano fazia pelas suas multiplicadas leis e extorsões a 
favor da egreja, o que a prédica fervente não alcançava tão 
de prompto; aconteceu por consequência que no século vi 
o clero era estúpido, ignorando a simples leitura das pre- 
ces religiosas, e comprando as diflferentes dignidades da 
gerarchia ecciesiastica. O ultimo acto legislativo de Justi- 
niano, de 564, faz o retrato d'esta profunda decadência da 
nova litteratura ecciesiastica.. Como n^ decadência romana, 
o estado consultava o agouro das aves quando a invasão 
germânica roíppia as portas de Roma, em Byzancio discu- 
tia-se qual a natureza da luz que envolvia Jesus no Thabor 
ao passo que Mahooaet ii destruia o poder de Constantino- 
pla. 
Uma vez tornado religião de estado, o cbristianismo pa- 



44 mSTOBlA DO BOMANTISMO EM PORTHOAL 

rodiou a velha legislação romana e creou o seu direito ca- 
nónico, iovasao permanente da sociedade civil, e modelo 
da incerteza das jurisdic^ões feudaes. Guizot considera a 
egreja como tendo sido o typo das formas da sociedade mo- 
derna ; mas esse typo reproduziu-se em um estado eujo prin- 
cipio se pode considerar depois do século vii, que foi o prin- 
cipio dá arbitrariedade senhorial, análogo ao da graça, 
principio que tanto tem custado a extingir da vida social, 
o Feudalismo. 

Todos estes vicios da unidade romana abraçados pelo ca- 
tholicismo vieram encontrar um correctivo salutar, no ap- 
parecimento do Mahometismo na historia. NáScido no seio 
de uma poderosa raça semítica, o christianismo trouxe um 
caracter de abstracção, que o reduzia aos limites de uma 
philosophia ; assim é que foi recebido em Roma. Por um 
lado os theologos hellenistas, por outro o caracter transfor- 
mador e sentimental dos bárbaros, ambos como indo-euro- 
peus, e como taes servindo-se mais do sentimento para a 
comprehensão, deram ao christianismo essa dependência da 
imagem material, essa necessidade de fallar aos sentidos, 
d'onde procedeu a arte moderna. O christianismo deixava 
de ser semita ao entrar na Europa; de monotheista fez-se 
tritheista, reproduzindo os velhos mythos do Oriente, con- 
tra os quaes o judeu reagira com o principio abstracto 
do Jehovismo. Os Árabes formavam um dos ramos mais 
vastos da grande raça semilica ; foram elles que reagiram 
contra, esta desnaturação da ideia da divindade nua e abso- 
luta. Mahomet seria incapaz de fundar uma religião, se não 
tivesse encontrado as tendências de uma raça que recla- 
mava uma direcção. Justiniano, com mais poder, influindo 
despoticamente nos concílios, não conseguiu mais do que 
dissolução. O génio semita temia que se fosse cair na ido- 
latria, e proscreveu a imagem; viu um polytheismo e lan- 
çou a formula $ú Deus é Deus. Estes factos descobertos pe- 



IDEIA QEBAL 45 

los noYOS processos da historia, acham-se fortalecidos pela 
aothenticidade dos documentos. Procopio, historiador do 
Baixo Império, considera nas suas Amdocta, o appareci- 
mento de Mahomet como uma consequência das aberrações 
da theología byzantma com que Justiniano tanto se alegrava. 
Doeste capricho cesarista, di2 Isambert, na Éistoire de Jus- 
tinieny (p. xxvni) «não o temos por estranho aos fundado- 
res do islamismo, que ditaram a Mahomet a forma simples 
e yerdadeira DetAs é Deus, para assim pôr cobro ás esté- 
reis controvérsias theologicas do Baixo • Império.. É este o 
pensamento de Procopio, e dos espíritos esclarecidos do seu 
tempo. i> As consequências do apparecimento do islamismo 
seriam nullas se esse protesto monotheista n3o passasse á 
acção ; o árabe errante conheceu o porquê da sua existen- 
cia, e entrou na historia, avassalou o mundo, veiu preeq- 
cher o vácuo deixado pela extincção do império romano. 
Em menos de um século o islamismo constitue um grande 
povo pelo vinculo de uma mesma ideia ; é então que os Ára- 
bes se apossam do Oriente e do Occidente, a sua língua 
estende-se tanto como o latim, tornasse litteraria, e ove- 
hiculo do que havia de pratico e útil na civilisação grega. 

É este segundo momento da soa vida histórica que va- 
mos expor como um correctivo aos defeitos recebidos pela 
egreja quando adoptou na sua tradição os exemplares de 
uma litteratura decadente. 

Uma vez possuída do espirito da unidade romana, rea- 
lisada na summa hierarchia papal, a egreja adloptou a lín- 
gua^ latina para a expressão universal da sua liturgia. Ia 
de encontro á corrente natural; já desde o século de Au- 
gusto, as comedias de Flauto, algumas phrases de Cícero, 
accusavam de um modo inconsciente o desenvolvimento que 
se estava dando no latim fallado nas colónias e nas classes 
Ínfimas dá sociedade ; era o chamado sermo rústicas, vuU 
garis, pedeslris, que se ia estendendo a todas as necessida- 



46 HISTORIA DO BOHAirriSHO EM PORTDaAX. 

ctes da vida, á jnedida que o latim urbano se reduzia aos 
artiflcios dos rhetoricos. O apparecimento dos bárbaros 
coincide com este momento crítico em que a linguagem rús- 
tica occupa .0 primeiro plano, e o latim erudito fica retra- 
hido para a penumbra. Dava-se a profunda revolução so- 
cial, em que novas necessidades moraes faziam valer uma 
linguagem até então desprezível. Os padres da egreja ado- 
ptaram a lingua latina para a controvérsia, fazendo um es- 
forço para se afastarem da corrente da dicção popular e 
aproximarem-se dos modelos cicerorianos. A força da corr 
rpte dialectal era tao violenta, que o próprio legislador 
Justiniano, segundo o historiador Procopio, ao ditar as suas 
leis, introduzia sem querer o latim bárbaro; e Ludewig, 
diz que o imperador escrevia as cartas em latim dialectal 
da Ilyria, d'onde elle era natural. (Isamb. ,op. c/í., p. xlvi.) 
Foi contra esta corrente da formação das línguas vulgares 
que a egfeja se oppoz, sustentando o uso do latim clássi- 
co ; as forças vivas venceram, e a egreja restringiu ás suas 
pretenções á universalidade da lingua litúrgica. Santo Agos- 
tinho falia com assombro do facto de existir uma lingua tao 
conhecida como o latim, destinada por Deus para servir de 
meio geral de communicação a uma doutrina da humani- 
dade. Mas as consequências d'esta pretendida unidade fo- 
ram funestas; perdeu-se o uso primitivo da participação 
do povo na liturgia; o hymno deixou de ser comprehendi- 
do, o enthusiasmo religioso extinguiu-se a ponto de se não 
encontrar na Baixa Edade Media, como provou Didron, o 
minimo vestígio de conhecimento de Deus nos monumen- 
tos ícohographícos. Os livros bíblicos foram traduzidos em 
latim por S. Jeronymo, e ficaram letra morta, incommuni- 
caveis para o povOj até que uma revolução moral quç quebrou 
a unidade áo catholícismo, a Reforma do século xvi, fez 
traduzir em lingua vulgar os Evangelhos. Isto que vemos 
na parte litteraria é uma consequência do que já apresen- 



IDBIAGEBAi. 47 

támos na parte politica. Os cantos vulgares foram banidos 
do templo, os Lollards, atirados ás fogueiras, e n'esta in- 
communicabilidade do latim^ a egreja foi recebendo uma 
forma aristocrática, para rivalisar com 9 feudalismo ; o vi- 
carias, o clérigo das povoações ruraes tornou-se servo, per- 
tencendo ao dono ou patrono da egreja como uma alfaia 
d'ella ; os grandes abbades,, os bispos, que formavam o alto 
clero, tinham o seu corpo de direito canónico, com o foro in- 
dependente, com formas de propriedade suas, como a ado- 
pção da emphyteuse romana, com uma prescripçSo privile- 
giada de cem annos, com o direito de mão-morta. O ultimo 
esforço para manter esta unidade aristocrática, quebrada 
pela AUemanha, foi o Concilio de Trento, onde se reprodu- 
ziram as scenas dos concílios byzantinos, como relata S^rpi, 
Desde o momento que a egreja comprehendeu que lhe 
pertencia a tradição da unidade romana, e tendo até ali con- 
demnado os monumentos d'essa litteratura, teve de com- 
metter uma contradicção para os admittír e estudar. Assim, 
escolheu àquelles livros mais em harmonia com a doutrina 
Evangélica; Virgílio tornou-se um propheta, lido "sob esse 
pretexto nos claustros da Edade Media. Um dos principaes 
escriptores adoptados pela egreja foi Boecio; nascido em 
Roma, de uma familia consular, entendo vencido o caracter 
terrível de Theodorico, foi victima da reacç3o que os godos 
provocaram no caracter d'este monarcha contra os roma- 
nos^. Boecio morreu no martyrio, depois de steis mezes de 
prisão; foi n' estas condições que escreveu o Tratado da 
Consolação y em cinco livros, mixto de prosa e verso. O 
sentimento que inspirou este livro pertence á doutrina dos 
stoicos de Roma, como se vê por esta phrase: «Evitae o 
vicio e cultivae a virtude; que uma justa esperança su- 
stente o vosso coração, e que vossas humildes supplicas se 
elevem até ao Eterno.» Bastava isto para fazer de Boecio 
um santo; os Bollandistas o accolheram nos seus in-folios. 



48 HISTORIA DO BOMANTIBHO BM POBTUfiAL 

e nas egrejas de Itália o adoraram. O Tratado da Consola- 
ção de Boecio, foi acceito por todos os povos da Europa, 
lido e decorado, e não só ex:erceu os dialectos vulgares n» 
sua versão,' como influiu sobre as lendas poéticas do chris- 
tianismo. Um dos principaes monumentos escriptos nas lín- 
guas românicas é a Consolação de Boecio, publicada no 
principio d'este século por M. Raynouard ; João de Meung, 
o auctor do Roman de la Rose, também a traduziu para Pbi- 
lippe o Bello. Podemos dizer que pela leitura de Boecio* 
entrou na egreja o mytho grego de ^Orpheu e Eurydker 
o christianismo abraçou-o para symbolisar o dogma da re- 
dempção, e fácil foi aos doutores da escola hellenica con- 
fundirem a lenda da Descida aos infernos para tirar as al- 
mas dos patriarchas, pela primeira vez exposta no Evangelha 
de Nicodemus, com o velho mytho pythagorico, renovada 
por Boecio. Mas a acção fecundante, que Boecio teria exer- 
cido com esse livro De Gonsolatione philosophice, na parte 
sentimental, foi anullada na parte intellectual ; a egreja ado- 
ptou de Boecio o commentario á traducção da Isagçge de 
Prophyrio, feita pelo rhetorico Victorino. Foi doeste com- 
mentario que saiu esse problema inútil, que tanto esgotou 
a iatelligencia humana na Edade Media, a lucta dos Noini- 
Ttalistas e dos Realistai Boecio commentou esta celebre 
passagem de Prophyrio, que deu origem á questão: «Se os , 
géneros e as espécies existem por si ou somente na intel- 
ligencia; e no caso em que elles existam por si, se são cor- 
póreos ou incorpóreos, se existem separados dos objectos 
sensíveis, ou n'esles objectos, ou constituindo uma parte 
d'elles.» Rebentou no século xi este problema trazido da 
decadência através de Boecio, contra o qual se esgotaran^ 
Roscelin e Guilherme de Champeaux, Abailard e Santo An- 
selmo, Gilbert de la Poré, João de Salisbury, S. Thomaz de 
Aquino e Duns Scott, intervindo concílios tempestuosos, er-^ 
ros de fé, e esterilidade philosophica. 



IDBXA OBKAI. 49 

Um outro iiyro guardado pela egreja dos despojos da de- 
cadencia romana foi o livro de Marciano Gapella, intitulado 
Satyricon, que é precedido pelo pequeno romance de prosa 
» Terso Das Núpcias de Mercúrio e da Philologia; d'este 
ultimo saiu para as escolas da Edade Media essa absurda 
classificação das sciencias, conhecida pelo nome de Tri- 
mm 6 Quadrivium. As ideias de Marciano Capella nao 
tinham originalidade; eram um ecco das observações de 
Varro^ Piinio e Solino. As sciencías estavam divididas em 
dois grupos arbitrários, /chamados as sete artes liberaes. O 
primeiro comprehendia a gramgaatica, a lógica e a rheto- 
rica (trivifini) ; o segundo comprehendia a arithmetica, a mu- 
sica, a geometria e a astronomia (quadrivium). Assim cias* 
síficados os conhecimentos sem correlação, sem base dogmá- 
tica, a intelligencia Iwimana contentou-se com este horísonte, 
fora do qual os eruditos da Edade Media nada mais viram. 
No século VI o rhetorico Félix aggravou mais o livro de Mar- 
ciano Capella com um commentario, ensinando por elle em 
Auvergne; Isidoro de Sevilha adoptou-o também; no sé- 
culo u era seguido nas escolas de Paris ; no século x en- 
cootra mais três commentadores, e no século xi é tradu- 
zido em allemão. 

É n'esta lethargia intellectual da Europa que torna a 
apparecer em todo o esplendor o novo. elemento árabe, para 
corrigir com o seu positivismo as aberrações auctoritarias 
da tradição da decadência. Sobre este ponto diz Jourdan : 
«A influencia de Capella dura até á época em que as obras de 
Aristóteles e dos Árabes se vulgarisaram no Occidente, dei- 
xando o logar aos modelos de um génio superior ao seu 
e mais dignos.de serem estudados.» Depois que os Abas- 
sidas e principalmente Al-Manon, procuraram introduzir en- 
tre os arqbes as sciencias da Grécia, o espirito semita, pra- 
tico, sem logar para se esgotar sobre a cassistica dos dogmas, 
laoçou-se ao estudo das ^sciencias experimentaes, como á 



50 mSTOBIA DO BOMAHTISMO EU PORTUGAL 

medicina, a pbysica, a álgebra, e astroDômia ; Aristóteles foi 
o que mais lhes satisfez esta tendência. Coincide com o tempo* 
de Justiniano o trabalho das primeiras traducções do grego 
para syriaco. Foram qs Árabes, que commanicaraaí á Etr- 
ropa as obras de Aristóteles, vistas até então através das 
lacónicas é não comprebendidas allusões dos declamadores 
da decadência, k cada magro capitulo de duas laudas^ que 
em Marciano Gapella resumia uma sciencia, os Árabes oppo* 
zeram^lhe Euclides, as Cathegorias de Aristóteles» a Poética^ 
a Politica; os judeus traduziram para latim as obras trazi* 
das pelos Árabes, é a scieneia pela primeira vez abandonou a 
orthodoxia. Dante exalta esta direcção positiva symbolisada 
Da influencia de Áveroes: 

Eoelide geometra « Tolomoyo, • 
Ippocrate, Avicena^ e Galieno, 
Aterrm che'1 gran comento feo. 

Dante egualava no seu poema (Inf. vi) os philosophos gre- 
gos e os árabes; S. Tbomaz de Aquino e Alberto Magno 
procuravam n'eHes a direcção scientiflca, cuja primeira e 
principal. manifestação foi o apparecimento de Galileo e de 
Bacon, tendo anteriormente provocado a expansão do ly- 
rismo provençal. 

e) ELEMENTO BÁRBARO 

No meio da influencia da cadente civilisação romana, e das 
tendências para a tradição unitária do catbolicismo, é que 
apparece na historia o poderoso elemento germânico. Pelo 
conQicto entre o vivo e o morto, é que se vê a naturesa da 
lucta que o génio germaniéo teve de soffrer, e por isso mes- 
mo se vê o alcance da sua força. Êstudamol-o n'esta relação 
percaria, para assim caracterisarmos melhor a decadência. 
Este nome de Bárbaros dado aos povos germanicoç, expli- 
ca-nos o modo como elles vieram de encontro ao Império, 



n>BIA CFBlAIi 51 j 



I 



como asfolaram as grandes cidades, como tornaram incerto 
o diretlo, como arrooxaram o sen ímpeto ante a disciplina 
morai do cdíholfcisrno; eram Bárbaros^ pelos caracteres 
primitivos que apresentavam, como o instincto da hospita- 
lidade, da vingança hereditária, da paixão ardente pelo jogo 
e peias bebidas fermentadas, pelo exclusivo emprego da 
actividade nas armas, deixando ás mulheres o trabalho da 
agticaltora. Este estado prevalecia pelo menos ainda no tempo 
de Tácito, qpe escrevia acerca da Germânia cento e oito an- 
nos depois qoe Drusus^avonçoa com a sua esquadra até ao 
promoDtorío dos Cimbros ; porém Tácito comprehendeu o 
alcance do vigor d'essá raça, que eslava isolada dos vícios 
do Império para vir insuflar na vida social as suas novas 
forças. Tácito tinha o sentimento prophetico, quando exal- 
tava a puresa da raça germânica: «Sou de opinião d'aquel- 
les que pensam, que o sangue dos germanos nunca foi al- 
terado pelos casamentos estrangeiros, que é uma raça pura^ 
sem mescla, e que s6 se parece comsigo mesmo.» Bnnsen» 
aceita estas palavras como a primeira comprehensão do des- 
tino histórico das raças germânicas. 

No catbolicismo encontramos uma comprehensão egual; 
os padres da egreja soffrem o desastre da invasão, con- 
demnam-a, mas reconhecem-na como um castigo de bens, 
um facto providencial. Salviano, no livro quarto De Guber^ 
natione Dei, condemna o seu tempo dizendo: «Vós pensaes 
ser melhores que os Bárbaros... Respondo que somos me- 
lhores emquanto á fé> mas somos peores, eu a digo com. 
lagrimas, pela nossa vida. Vós conheceis a lei e a violaes; 
ao mehos eiles peccam por ignorância. Os Godos slo pér- 
fidos, mas pudicos; os Alanos voluptuosos, mas fieis; os 
Frúnkos mentirosos, mas hospitaleiros; a crueldade dos 
Saajões horrorísa, mas louva-se a soa castidade.... E nós es- 
pàntamo-nos por Deus ter entregado as nossas províncias^ 
aos* Bárbaros, qaando o seu pudor purifica a terra aânda? 



52 HI8T0BIÁ DO BOliAHTISMO EM POBTUOAI* 

conspurcada das deyassidOes romanas.^ Aqui se caracterí- 
sam as raças^ germânicas, tal como ellas estayam na sua 
rudeza, e com as feições profundas que ainda transparecem^ 
nos povos modernos, como no francez. Paulo Orosio, tapo- 
bem escreve, fazendo sentir .os destinos j)rovidenciaes das 
invasões: tSe as conquistas de Alexandre vos parecem glo- 
riosas por causa do heroísmo com que submetteu tantos 
impérios, se vós não detestaes n'elle o perturbador das na- 
ções, muitos louvarão também o tempo prese&te, exaltarão 
os vencedores, e tomarão as nossas desgraças por benefi-» 
cios. Mas, dir-se-ha: — Os Bárbaros são os inimigos do es- 
tado. — Responderei, que todo o Oriente pensava o mesmo 
de Alexandre, e que os romano^ não pareceram melhor 
aos povos ignorados cujo repouso iam quebrar. Mas, dir-^ 
me-heis: — Os gregos fundavam impérios, os germanos os 
destroem. — Outros são os estragos da guerra, outros os 
conselhos que segue a victoria. Os macedonios começaram 
por domar os povos que depois policiaram. Os germanos 
agora lançam tudo por terra; mas se, (oxalá que não) el* 
les acabassem por ficar senhores e por governar segundo 
os seus costumes, talvez que um dia a posteridade sau- 
dasse com o titulo de grandes reis aquelles que agora não 
sabemos ver senão como inimigos.» Este texto foi pela pri- 
meira vez; produzido por Ozanam ; o que elle significa não 
é bem o que está nas palavras. Se as raças germânicas, as- 
sim caracterisadas por Tácito, Salviano e Paulo Orosio, fos- 
sem consideradas como um instrumento providencial, não 
se obliteraria o conhecimento da sua acção na bistoría, não 
se ligaria ao seu nome somente a ideia de barbárie, não se 
attribuiria a sua influenòia unicamente ao chrístianismo, e 
o espirito da civílisação moderna seria comprefaendido an* 
,tes de Hegal mostrar que o individualismo germânico trouxe 
a humanidade aos tempos modernos. Na phraae de Tácito ha 
uma paixão de colorista, para assim caracterisar os vicios 



iranÁ OBHin 53 

da eivilisação romana pondo-a em contraste com essa na- 
loresa priptiitiva ; em Salyiapo» ha o espirito de condemna* 
.^o catholica» exaltando acima da decadência romana os 
Bárbaros, do mesmo modo que os patriotas mais sinceros 
chamavam as raças errantes á traição para castigarem os 
defeitos do governo da sua terra. Em Paulo Oròsio ha um 
mixto de ironia. Foi por isso que o período da elaboração 
das raças germânicas t^ve o nome de terrível noite da 
Edade Media ; dizia-se banalmente que as instituições e os 
códigos jaziam sob as ruinas da grande catastrophe ; o esr 
paço/^ue. vae do século v á Renascença do século ivi, em 
que se desenvolveu a eivilisação germânica, era conside- 
rado como um período de lethargo da intelligencia e da 
consciência humana, e contentaram-se com a supposição 
gratuita de que o christianismo fora a luz salvadora n'esta 
procella tremenda. 

Mas os factos estão em manifesta contradição com as 
afirmações declamatórias ; n'este grande período da Edade 
Media crearamse as línguas e nacionalidades modernas, as 
industrias» as formas de arte, as communicações internacio- 
naes^ a religião popular, a independência individual, — em 
summa, uma actividade orgânica e fecunda, que não podia 
provir unicamente do cbristianismo, porque cedo recebeu 
a direcção mystica, que leva á aniquilação da personalidade, 
ao nihilismo da intelligencia, á suppressão da vontade como 
o supremo ideal da perfeição. A contradição entre os re- 
sultados e a força, levava a achar uma outra origem ; quando 
Hegel veiu applicar á historia o subjectivismo do logos rea- 
lisado nos factos, e elevando-se por elles á synthese ou 
consciência da lei; achou n'essa grande elaboração que for- 
mou os tempos modernc^ mais uma conQrmação da tbeoria 
verificada no Direito, na Arte, e na Natureza. Para elle, a 
historia era a narração das vicissitudes por onde a huma- 
nidade passava para chegar a alcançar a consciência de si» 



5á HI8T0BIA DO BOMASTIBXO EM PORTUGAL 

6 como o espirito chegava á posse da liberdade, que é a 
sua essência. Em nenhum periodo, como na Ediside Media 
se vê t3o claro este esforço, tão perto de nós, com tantos 
documentos tívos. Depois de estudar a ciyiiisaçao oriental^ 
baseada nos dogmas religiosos, em que a con^iencia es- 
tava' oppressa pelo principio divino, e a liberdade esmagada 
pela auctoridade tradicional, veiu encontrar na civilisaçao 
grecíhromana, a consciência elevandò«se na philosophia e a 
liberdade fortalecendo-se na justiça, e finalmente encon- 
trando esta conquista parcial no mundo moderno, mas ge- 
neralisada^ e produzindo o individualismo, chamou-Ihe ex- 
tensivamente pelo nome do elemento que a universalisou 
— civilisaçSo germânica. 

As consequências d'esta grande restituição de Hegel fo- 
ram uma revolução completa no critério histórico ; víu-se 
que o elemento germânico era um dos últimos rainos das 
migrações indo-europêas, e um dos que apresentava os 
caracteres mais aproximados da susi origem; assim pela 
primeira vez se comprebendeu o problema das raças para 
a vida da historia. A unidade das raças indo-germanicas, 
acbou-se em seguida confirmada na unidade das línguas 
(Bopp) ; na unidade das tradições religiosas (Creuzer, Bur- 
nouf) e presentida na unidade das tradições e formas lit- 
terarias (Goelhei, Benfey). Póde-se dizer, que desde que a 
historia entrou n'esta alta direcção, o homem teve também 
uma posse mais profunda da consciência. N'esse dia aca- 
bou a revelação divina para ser substituida péla demonstra- 
ção scientifica; a humanidade conheceu-se melhor ao encon- 
trar os representantes da sua civilisação e das suas luctas. 

Vejamos qual o estado das raças germânicas antes de 
entrarem na historia, ou antes de prestarem ás luctas da 
humanidade os esforços para que estavam aptas. No tempa 
em que Tácito escrevia, eram os Suevos os principaes se- 
nhores da Germânia ; os Cimbros e Teutones extinguiam-se> 



mauLesBAL * 55 

• 

OS Anglos eram apenas coDbeeidos, e os Frankos estavam 
sem força pela desunião. De todas estas raças, o ramo go- 
thico, que comprebende os JuteS; os Gépidas, os Lombardos 
e os Burgundios, era o mais forte, porque estava de posse 
de um dogma novo, a religião odinica, onde o sentimento 
da immortalidadé se propagava pelo symbolo sensual do 
Walhalla. Foi ao contacto d'este dogma novo, que deu vi- 
gor ao naturalismo dos Saxões; que o ramo suevico se for- 
taleceu e nao foi logo supplantado pelos Godos que o inva* 
diam. Estas ideias religiosas da tbeologia odinica foraà nao 
sò um dos moveis que determinaram as migrações das ra- 
ças germânicas, mas também as tornaram aptas para rece- 
berem a doutrina mystica do christianismo. O Walhalla 
aproxima-se das descripções da bemaventurança cbristã; 
Asgard era o typo do Éden, d^onde as raças haviam sido 
expulsas. Fácil era dar-se o mesmo syncretismo que se ope-. 
rou nas superstições. Os motivos que levaram os bárbaros 
á migração e invasão^ além do seu' instincto errante e an- 
tipathico ás cidades, foram de um lado para evitar os as- 
saltos do oceano, como os Cimbros, d'outro o procurarem 
terras mais férteis, como os Frisões ; outras vezes para se 
defenderem dos ataques mútuos» vinham offerecer-se ao co- 
lonato romanO; como es Godos para se defenderem contra 
os Hunos ; outras vezes eram assoldadados pelos romanos 
como mercenários para combaterem contra os inimigos do 
império, como aconteceu nas Gallias, em que os Frankos 
são chamados para expulsarem os Godos, e para se oppô- 
rem á invasão dos Suevos, Vândalos e Burguinhões. Taes 
eram as relações que • os germanos tinham Com o Império 
antes do século v ; todas estas raças que communicaram 
com a civilisação romana e que se modificaram com elía> 
que são, por assim dizer, a primeira camada sobre a qual 
assentou a grande invasão, foram despresadas pelos novos 
bárbaros» e depois que se recusaram a seguir o christia- 






^6 * HISTORIA DO BOMÁHTISMO BM POBTUOAI. 

Dismo, ficaram como malditas e vivendo sem direitos, e por 
muitos séculos conhecidas peio nome de Gchgoths, A-goth. 
As longas extorsões fiscaes romanas nas Gallias, motivaram 
luctas violentas das classes servas, que seguiam o colonato, 
e protestavam em assembleia (bagad); estes também, re- 
pellidos pela força armada, refqgiados.nas florestas, tidos 
como bichos medonhos, foram chamados por despreso Ba- 
gaudes, do mesmo modo que ainda boje se usa o seu deri- 
vado pejorativo bigot. É esta uma das origens das raças' 
malditas, condemnadas pelos magistrados romanos, desco- 
nhecidas pelos novos invasores, e perseguidas pelo catho- 
lícismo por causa das suas velhas tradições. 

Depois que Theodorico se tornou senhor da Itália em 
493, e Ravepa ficou a capiial dos imperadores godos, è que 
as raças germânicas se encontraram como dominadoras ante 
a civilisaçao romana, e o novo espirito catholico ; eram duas 
forças deletérias que atacavam o seu vigor original. Veja- 
mos como cada uma doestas forças inertes tentou absorver 
a si este poderoso elemento, e como a parle viva dà raça 
lhe soube resistir e oppôr creaçao fecunda. Os godos, que 
formavam o principal ramo germânico, distinguiam^se tam- 
bém pelo predominio dos chefes militares, que tinham ge- 
neologias aristocráticas como os Amali e os Balti ; as ciasses 
inferiores obedeciam pela dedicação da fidelidade, e crea- 
ram para se fortalecerem a banda guerreira ou comitaíus, 
que veiu no decurso da Edade Media a produzir esse ór- 
gão de resistência, a Compagnanage. Em frente da civilisa- 
çao romana as classes aristocráticas quizeram imitar agran- 
desa decahida, quizeram apparentar-se com ella, reconsti- 
tuil-a e jnlgarem-se continuadores do Império. Theodorico 
havia sido educado no Baixo Império; assim a mythologia 
' odinica desappareceu da memoria dos nobres, ipie abraça- 
ram os incolores mythos gregos antes de acceitarem o chris- 
tianismo, que lhes Reduziu os sentidi3s com as eiteriorida^ 



IDEIA OBBAI. 57 

des do culto, como confessa Gregório de Tours. Adoptaram 
também a velha lítteratara romana ; Cassiodoro, gramma^ 
tico e cqpisla, era o principal ministro de Tbeodorico, e 
Boecio, romano, um dos seus validos. Ck)nseryam a legis- 
lação dos códigos romanos, e deixam aos vencidos o uso 
das leis romanas ; degradam a mulher (frau) á mesma con- 
dição que ella tem nos haréns da Ásia ; absorvem a si a 
propriedade, substituindo a emphyteuse pela infeudação, e 
usam do nome ài9 romanas para designarem aquelles que 
têm um foro privilegiado. Mas a parte vital da raça não 
desceu a esta degradação; deixou as cidades pelos cam- 
pas. 

As povoações rurae$, que n3o tinham' o espirito aristo- 
crático dos Amali e Baiti, conservaram a antiga instituição 
gótica do comitatus, o principio da alliança. Onde sç en- 
contra este meio de resistir á prepotência dos nobres é n'es- 
sas povoações, conhecidas com o nome romano de Vici; á 
troca dos géneros, em que consistia o commercio d'estas 
povoações, se chamava vkariare; o tributo que pagavam pela 
sua independência, era o vicanale; o ajuntamento das pe- 
quenas localidades que acendiam ao apellido para mutua de- 
fesa se chamava mánancia; o juiz pedaneo ou inferior era 
o vicarius, que administrava a Vicana justitia. Todos estes 
sentidos nos apparecem nos documentos consultados por 
Do Gànge ; eram os Vici que melhor correspondiam ao gé- 
nio individual. germânico, qne se deixara seduzir pela uni- 
dade romana ; nas cartas communaes, formuladas nas la- 
ctas burguezas, o direito de visinhança vem prescrito como 
uma conquista que se defende com anathemas. Esta lucta 
foi provocada pela absorpção dos Vici pelo poder senhorial 
que se prevalecia da jurisdicção do comítatus. Diz Guerard : 
<A maior parte dos pagm, tendo constituído condados do 
mesmo nome, e quasi sempre, sobretudo no começo, da 
mesma extensão, a divisão por condados (comitatus) sem 



58 HISTOBIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL 

abolir a divisão por paizes, a substituiu muitas yezes, ou 
foi usada concorrentemente com eUa.» ' 

Foi contra estes condes que se deram as revoltas das com- 
munas, chegando algumas atè a probibirem aos nobres o 
ficarem a noite, ou mesmo a entrarem nos seus burgos. A 
importância dos Vici, ainda que pertencendo aos problemas 
da instituição social é indispensável para conhecer esse gráo 
de liberdade que foi preciso para a formação das novas lín- 
guas românicas, para a constituição do* direito consuetudi- 
nário, para a realisação da propriedade livre ou o alodium, 
para a existência das tradições germânicas e das jurandas. 
Estas povoações ruraes ou vicanas, constituídas por coló- 
nias romanas, por lites germânicos e por aldius vieram tam- 
bém a ser conhecidas entre nós pelo nome de aldeias. Mas 
esta lucta entre as classes obreiras e os chefes do comiior 
tus, que absorviam a propriedade, tinha de dar-se também 
contra o catholicismo, que se moldara sobre a unidade ro- 
mana. S. Prospero, poeta cbristão, e imitador da poesia la<^ 
tina, exalta a unidade do catholicismo recebida em Roma. 
Diz : «Roma, sede de Pedro, tornada a cabeça do mundo 
pela dignidade apostólica, tens pela religião, o que já não 
possues pelas armas.» 

D'esta lucta com a unidade senhorial e com a unidade ca- 
tholica, que as raças germânicas que não viviam nas cida- 
des, e que conservavam pela rudesa a ii^tegridade dos seus 
caracteres, tiveram de sustentar até á elevação do Terceiro 
Estado, escreve Gervinus: «A aristocracia da christandade 
dividia*se em dois campos separados. N*esta nova forma 
de religião, que é o christianismo, a cultura intellectuat e 
os progressos;, operados na sciencia militar, levavam a duas 
vias dífferentes. Não somente os esforços tentados pelo povo 
eram reprimidos, porque elle tinha a disputar a posse do 

# 
» 

* Cartulaire de Chartres j t x p. viii. 



UMUA GBBAL 59 

I 

■ 

poder a estes dois ramos da aristocracia, n3o somente ti- 
nha a experimentar a força das armas contra as armas de 
uma nobresa secular, mas tinha a luctar também pela cul- 
tpra intellectual com a cultura de uma nobresa intelligente. 
Era uma dupla revolução contra o poder ecclesiastico e con- 
tra o poder secular.» (Inírod. á VlUst., p. 17.) As conse- 
quências d'esta lucta contra a auctoridade ecçlesiastica fo^ 
ram tSo importantes, como as dadas contra a aristocracia ; 
o baixo clero, foi constantemente absorvido pelo alto clero, 
predominaram as abbadias sobre o clero secular, mas o pova 
venceu o latim da liturgia com os seus cantos fareis, ven- 
ceu os ipontifexy architectos religiosos, com as suas ju- 
randas leigas, impoz as suas santiflcações e lendas locaes 
contra a admiração dos heroes da antiguidade, creou a 
emancipação das egrejas nacionaes, como vemos pelos Cul- 
dées em Inglaterra, como no Pelagianismo em França, tomo 
no Mosarabismo em Hespanha ; finalmente, oppozeram ao 
ensino das Collegiadas o livre exame das Universidades. 

Assim como vimos as povoações dos Vici resistirem por 
essa sua organisação á auctoridade absorvente dos barões, 
tambeih encontramos nos Pagi as condições para resistir 
ao canonismo unitário da egreja/ O Pagus, d'onde se de- 
riva o nome paiz, dado a toda a terra natal, e com o mes- 
mo sentido de pátria, conservou em virtude da sua cons- 
tituição independente, as tradições germânicas e romanas. 
Um dos motivos da persistência de tradições religiosas con- 
trarias ao christianismo no Pagus, era o encontro dos res- 
tos da mythologia romana dos antigos colonos, com os ele- 
mentos theogonicos germânicos. É sabido que os romanos 
ao encontrarem nas divindades estrangeiras analogias com 
os seus deuses, lhes davam logo os mesmos nomes ; era 
talvez para assim fazerem um syncretismo mais fácil; ou não 
crearem incompatibilidades com os sentimentos religiosos^ 
que para elles eram dependentes dos planos políticos. 



€0 HISTORIA DO ROXAHTIBICO BM PORTUGAL 

Diz Tácito, qu6 Hercules era adorado pelos germanosi le- 
vado por uma apparenle analogia; Nethon na Peníosula 
hispânica era também comparado e confundido comrHercii*- 
les. Com este processo de assimilação, o germano do P(y 
gus achava facilidade em conformar a sua crença com a das 
povoações preexistentes, e ao mesmo tempo s^ chegava a 
uma ce^ta tolerância, que os dogmsi^ catholicos canonica- 
mente definidos não podiam conceder. Além d'isso o Pagus 
tinha os seus direitos consuetudinários, e não se incommo- 
dava a adoptor as subtilesas djos códigos romanos ; nos do- 
cumentos da Edade Media consultados por Du Cange, Pa- 
ganus, é o nome dado ao que não foi baptisado ; paganus^ 
o que está sem direitos, e o que não foi recrutado ; paga- 
num, o prédio rustíco ; paganisare, seguir o costume e su- 
perstição do pagão; paganismus, terra de pagãos. A egreja 
veiua comprehender sob este nome, tirado de uma forma 
da sociedade civil, todos aquelies que não abraçavam o 
catholicismo, todo e qualquer não baptisado. 

As luctas entre o christianismo cathoUco,Ao^ imperado- 
res do Baixo Império e o christianismo ariano das raças 
germânicas, reflectiu-se nas conquistas de Africa e Itália, e 
lentamente e de uni m'odo continuo na condemnação do 
Pagus. 

Escreve Ramè, sobre documentos citados por Xiebeuf : 
«É certo que ainda no século vn havia infiéis em muitas 
partes de França. Caux era chdo de idolatras. S. Roman, 
que foi bispo de Ruão em 626, encontrou no seu território 
templos e idolos que destruiu. Havia-os consagrados a Jú- 
piter, a Mercúrio, a Apollo, e até um dedicado .a Vénus, na 
cidade de Ruão ; e com effeito o paganismo subsistia ainda 
pelos princípios do mesmo século em Berry e nos seus ar- 
redores.» (Ramé, Arch. p. 115.) O uso das imagens nas 
egrejas foi uma preponderância exercida pelo costume. do 
paganismo. O concilio de Elvira, de 205, declara-se contra 



- este uso^ probibindo que se adorem pinturas n^s paredes ; 
os que eram infiéis e acreditaram em Gbristo, como Ale* 
xandre Severo, é que o introduziram ; os gnostico$ capo- 
cratianos cóliocayam a imagem de Jesus entre Platão e Aris- 
tóteles. Quando Clóvis se converteu foi preciso usar as ricas 
alfaias e esplendor no culto para trazer pelos sentidos ao 
catholicismo as raças germânicas ; por outro lado foi pre- 
ciso acceitar os costumes e tradições inveteradas do P(igu& 
e dar-lhes apenas um ^sentido christao, por meio de analo- 
gias sensíveis. Na cbronioa dos slavos, de Helmodus» se lê 
que a ílba de Rugen era um dos principaes focos do pcigar 
nísmo; adoravam abi um deus ch^mãáo Zwanthe With; 
com os seus processos de apropriação analógica, a egreja 
querendo convertel-os, sem excluir o deus cbamou-lhe Santo 
Viío. Innumeros processos d'esta ordem se podem vêr no 
Ensaio sobre as lendas piedosas na Edade Media, de Alfred 
Maury* 

O instincto conservador da egreja encontra-se também no 
modo como até á moderna Revolução, deixou prevalecer 
na parte ecclesiastica as vélbas divisões do Pagus. Segui- 
mos Gerard, na Introducção ao Gartulario da Abbadia de 
Chartres: cA antiga divisão territorial da Gallia em Po^í, 
só se encontra nas cartas mais antigas* — A egreja somente 
a conservou, modificando^a com prudência atè á Revolução, 
de tal forma que a maior parte das divisões diocesanas re- 
presentavam aiqda fidelissimamente, sob Luiz xvi as divi- 
sões civis da Gallia sob os romanos.» (Op. cit. p. vi.) Se- 
gundo o mesmo Gerard, «o pagus correspondia algumas 
vezes ao território de uma cidade ou de uma diocese, e a 
mais das vezes a uma parte doesse território ; n'este ultimo 
caso formava de ordinário uma subdivisão diocesana tal 
como o arcediaconato, arciprestado ou o deado, e lhe dava 
o seu nome. Os pagi, muito mais numerosos qu^ as cida- 
des, multiplicaram-se ca da vez mais pela elevação de paizes 



4^ HISTORIA DO BOMANTIBlifO EM PORTUGAL ' 

secundários, pagelli, a paizes de primeira ordem, pagi.n^ 
Era d'esta elevação de povoações inferiores, e além d'isso 
pela decadência das egrejas parochiaes, pela absorpçãodaa 
Âbbadias, em que os monges tomavam a si a inAuencia dos 
padres seculares, que as tradições que vieram fundar as 
lilteraturas modernas se conservaram nos pagi. N'este pe- 
ríodo de lib^rdíide se creou o espirito leigo ; o povo tor- 
nou a egreja o centro dos seus interesses, era ali que fazia 
as suas cotopras, que erigia muitas vezes os seus tribunaes, 
consultava as sortes dos santos, cumpria os ordcUios, guardava 
as escripturas de contratos, celebrava as reconciliares. As 
predicas começaram a ser feitas no sefmo vulgaris, ou lín- 
gua rústica, cujo predominio foi a creaçao dos novos dia- 
lectos em linguas independentes. Ali impoz as santifica- 
ções locaes, que o clero aproveitou para os seus interesses 
dando forma eseripta, a Legenda^ á tradição que tomava 
mais sympathica qualquer imagem, qualquer peregrinação. 
As festas populares do Asno, ou dos Tollos, as vigílias e 
representações dramáticas na egreja, os banqueteà sobre as 
sepulturas e as danças em volta d'ellas, foram tudo conse- 
quências da vida independente do pagus, mais tarde con- 
demnadas como superstições do paganismo. O drama da 
paixão de Jesus, commoveu esteá povos crentes pelo qua 
havia de doloroso no lado humano ; assim, os godos, que 
seguiram de preferencia o arianismo, deram forma artísti- 
ca ao christianisHK), traduziram na pedia o sentimento, 
crearam uma archilectura, que despontou pela primeira vez 
no tempo de Theodorico, .ariano ; as raças que tinham o 
nome genérico de godos, con^o os bourgninhões, vand^os, 
lombardos, deixaram pelos estados meridionaes da Allema- 
nha, França, Itália e Hespanha, essa archifectura, caracte- 
risada pela ogiva, o symbolo da arte leiga, cujo ai^arect- 
mento cohicide cOm a manifestação civil da communay depois 
do século X» 



IDEIA GBBAt. 63 

Nas constituições episcopaes, partidas do alto clero, e 
inspiradas pelo espirito aristocrático da unidade romana, ap*' 
parecem as condemnaçoes mais duras contra as creações 
do génio pcSpular que invadia a egreja. Mas o que era yíyo 
triumptiou ; a hymnologia da egreja foi Tersificada sobre a 
a^ccentuação da poética vulgar ; a missa chegou a ser dita 
na linguagem' do povo; que commungava também com o 
sacerdote, como na egreja do Oriente ; a língua rústica sup- 
plantou o latim, que era obrigatório na. predica ; a doutrina 
abstracta do Evangelho, e egualmente as parábolas, foram 
reduzidas á imagem, como nas vidraças, nas illuminuras, 
e na estatuária. Assim a força da visinhança dos Via, che- 
gou a vencer o despotismo senhorial, e a força da tradição 
e do génio popular conservador nos Pagi, chegou a vencei 
a tendência aristocrática da egreja, creando os elementos 
sobre que se fundaram a sociedade, as línguas, a arte e 
as litteraturas modernas. 

A facilidade com que se vulgarísou por toda a Europa a 
designação de Romântico, para caracterisar o movimenta 
das litteraturas modernas e dííferencial-as das lítteraturaS' 
antigas ou clássicas, designação estabelecida nas discussões 
criticas entre Goethe e Schiller, e propagada pelos Schle*» 
gel, revelâ-nos um feliz achado, cujo valor importa conhe- 
cher, para o não abandonar. O Romantismo encerra a con- 
nexao histórica com os dialectos românicos da Edade Me- 
dia; esses dialectos, desenvolvendo-se em línguas nacio- 
naes, fixando as suas formas grammaticaes no uso escripto» 
tornaram-se litteraturas. As novas línguas, apenas faltadas, 
eram chamadas pelos eruditos da Edade Media, Romance, 
pela indisciplina das suas formas com relação ao latim; 
Edelestand Du Méril, cita este trecho de uma traducção ainda 
inédita dos Psalmos : «Et pour ceu que nulz ne tíent en soa 
parleir ne rigle certenne, mesme, ne raison, est loingue ro* 
mance si corrumpue qu'a poinne li uns entend Taultre, et 



6t HISTORIA DO BOXAHTISIIO EM PORTUGAIf 

a poÍDoe peot on trouveir aujourd'ieu personne quí saiche 
escrire, anteir ne pronoacier ea une meisme semblant ma- 
nieire, mais escript, ante et prononce li uns en une guise, 
et li aultre en me aqltre.» ' Este mesmo caracter foi com* 
prehendido enl Hespanha no «^seculo xv pelo erudito Mar* 
quez de Santillana, que chama romance aos cantares csiu 
regia ni cuento» de que* la gente baja è de servil çondicioa 
se alegra.» A essa espontaneidade de linguagem correspon- 
dia a espontaneidade de novos sentimentos, que revelavam 
na civilisaçao do. mundo moderno uma classe desconhecida 
nas sociedades antigas, o povo. Os críticos allemães ao ca- 
racterisarem o Romantismo ^ apontavam a indepen dencia ab- 
soluta dos cânones rhetoricos, o individualismo do senti-^ 
mento, ou a iuspicaçSo como a verdade do modo de sen* 
tir individual, e as obras litterarias baseadas sobre as tra- 
dições nacionaes de cada povo, e por isso escriptas não 
para as academias, mas para actuarem no conflicto das 
transformações sociaes. A palavra Romantismo tem este sen- 
tido compleio' e profundo, porque accentua na civilisaçao 
Occidental a relação achada pelo espirito moderno entre as 
suas linguas e as suas litteraturas. £ realmente lamentável, 
que o Romantismo adquirisse a significação estreita do fa- 
cto caduco e transitório de byronismo, porque nenhuma ou- 
tra palavra, como realismo ou mesmo positivismo, pode ex- 
primir este grande phenomeno histórico e ao mesmo tempo 
as suas vastas relações. 

Tal tem sido o trabalho da historia moderna para re- 
construir perante a critica a Edade Media. A par doestes 
processos de erudição, a Philosophià procurava os princí- 
pios fundamentaes da Arte e de todas as creaçõ.es do sen- 
timento. A marcha d'esta segunda evolução não è menos 
esplendida do que a dos medie vistas. Sigamol-a. 

^ Doe. do eecolo xit. Ap. Remie Coníemporaine^ t. th, p. 6il. 



B> A GRBAÇXO DA ESTHETICA PELA PHIL080PHIA UETAPHTSIGA 

Independeutemente de todas as theorías» de todas as esr 
colas, 6 só DO campo da observação chega-se ao resultado 
definitivo — que ba uma ordem de phepomenos que bos le- 
vam a um estado de passividade agradável, ou que correspon- 
dem aoá sentimentos de que estamos possuídos, produziu* 
do-DOS impressões tanto mais profundas, quanto é o desen- 
volvimento que attingimos dentro da civilisaçao. Estes factos 
sensoriaes, em parte recebidos pela communicaç3o directa 
com a natureza, e principalmente creados pela actividade da 
intelligencia no seu momento mais livre, agrupados e submet- 
tidos á analyse sdentifica, constituem a Esthetica. Sciencia 
muito moderna, a sua historia é a evolução do pensamento 
procurando reduzir a processos lógicos os pbenomenos da 
impressionabiUdade, e descobrir o fim racional das crea- 
ções do sentimento ; a Esttietica foi sensnalista em Baum<» 
garten, idealista em Scbelling e Hegel ; a feição positiva^ 
dada pela renovação scientifica do fim do nosso século, ba* 
seia-se sobre o automatismo do elemento tradição, subor- 
dinado a um intuito individual. 

A Pbilosophia semuaústa tinha fatalmente de tocar o$ 
problemas da sensação, de descobrir-lhe a vasta complexír 
dade, e de agrupar os factos mais característicos em uni 
dominio á parte ; foi ella que creou a Esthetica. Baumgar* 
ten, que definia a Pbilosophia — a sciencia das causas e das 
relações que podem ser concebidas sem intervenção da fô 
— achou por essa concepção justa o fio conductor para esse 
mundo novo da observação. A ideia positivista da relação 
connexa, que leva á concepção da unidade do universo, en* 
tlréviu^a vagamente Baumgarten ; competia-lhe crear a Es^ 
íhetica ou a Pl^ilosopbia da Arte, quenos eleva ás maiores ge^ 
aeraiisações, sempre à únla syntbese superior partindo uni- 
camente de relações particulares. Para Baumgarten, ó BellQ 

'5 



^6 ' HISTOBIA DO BOMANTISMO EM POBTUaiX. 

era ca perfeição concebida de um modo confuso.» Esta con- 
fusSo resulta do fraco conhecimento das relações particula- 
res, que não é indispensável para descobrir através d'eUas, 
que ha uma certa unidade ; era esta unidade, em parte con- 
cebida sem grandes processos analytjcos, o que elle chama 
a perfeição, o facto da ideia do Belh; desde o momento 
que essa concepção da unidade, não resulta de uma anaiyse 
parcial das relações, o conhecimento não adquiriu toda a 
forma lógica, e por consequência a perfeição é uma noção 
vaga, o Bello è um sentimento. Â este modo de vêr, allia 
Baumgarten outros principios rigorosos na sua theoria, como 
este : o BeUo não está na natureza, mas no nosso espirito. 
A intelligencia é que aproxima as diversas relações, que se- 
paradamente nada exprimiam ; e d'esta aproximação resulta 
a descoberta de um principio superior, a noção da unida* 
de, revelada sentimentalmente pela perfeição. O defeito da 
escola sensualista foi o rebaixar a ideia da perfeição á con- 
venção arbitraria e consuetudinária da moral, conforman- 
do-a com b bem. Foi como immobilisar-se, ficar sem pro- 
gresso, como a própria moral. 

O desenvolvimento scientifico dos problemas da Esthe- 
tica saiu da renovação metaphysica da primeira metade do 
século XIX ; foi elia que lhes iaiprimiu uma unidade impo- 
nente. Pouco deve a Kant ; essencialmente analysta e criti- 
co, o bello foi por elle bem observado no campo dos factos ; 
no campo da generalisação pouco viu;. o bello, era para 
elle um problema commum á psychologia e á lógica, o ac- 
cordo entre um producto da imaginação e uma certa norma 
do senso commum e gosto; tomava-o subjectivo, derivan- 
do-o doesta correlação passada no espirito. Ainda assim este 
modo de vêr tem a importância de haver suscitado «m Schil- 
ler, a concepção da Arte, fundada no accordo da sensibili- 
dade e da rasão, solução mais definitiva do que á concilia- 
ção entre a imaginação e o gosto, porque opera sobre as 



IDBIA. GERAL €7 

{acuidades que comprebeudem o Bello, o realisam e o com- 
municam. 

A elaboração metapbysica, com a audácia da abstracção» 
foi levada aos mais extraordioarios poutos de vista, na de» 
terminação do fim da Esthetica como sdencia. Quando Fi- 
chte succedeu a Kant, na inanidade da abstracção teve de 
fortalecer-se com esse terrível rigor lógico ; esse rigor le- 
vou-o ao assombroso exagero, mas admirável, da concen- 
tração do universo no Eu, único conhecimento de um fa- 
cto provado no acto da consciência, e por isso tomado para 
servir de norma á realidade do universo. Na philosophia de 
Ficbte ha um eteriío antagonismo entre a natureza e o £t^; 
a natureza coarcta-lbe a liberdade, o Eu procura-lhe o seu 
fim racional, para assimilal-a a si. A Arte, para Ficbte^ era 
O instrumento doesta lucta ; o fim da Arte corresponde a 
esta actividade do Eu, é pelos productos da Arte, que vae 
realisando o seu poder como creador. Que importa que Fi- 
cbte tratasse accidentalmente doeste problema, que o não 
tivesse bem definido á sua intelligencia ; uma vez determi- 
nado este fim da Arte, acabou essa falsa ideia da escola 
sensualista, que lhe dava como fim a imitação. Dentro do 
critério histórico, as creaçoes da Arte de todos os povos» 
de todas as civilisações, só se comprehendem, quando se 
descobre através d*ellas o esforço que o homem fez para 
com os objectos desconnexos da natureza exprimir as suas 
paixões, as suas ideias mal definidas, e a perpetuar as 
suas aspirações; na lucta da liberdade contra a fatalidade 
da natureza e contra a infallibilidade da tradição e da aucto- 
ridade. Ficbte foi levado a este verdadeiro fim da Arte, 
porque em volta d'eUe se estudava as obras de arte da an- 
tiguidade, com o amor do antiquário, com a vontade de 
perceber as civilisações antigas, como o faziam Lessing e 
Winkelmann. A par de uma corrente positiva, (na arçheolo- 
gia e na critica) recebeu a influencia directa da verdade dos 



£8 HIBTOBIiL DO BOHAXITISXO SM PORTUGAL 

factos, e sem o sentir determínoa para sempre esta con- 
clusão geral. D'esta pbilosophia do individualismo saiu umat. 
das formas mais originaes da Ârte> a ironia, profunda não. 
pelos seus resultados, mas pela sua origem, por isso qua^ 
é uma relação que não existe na natureza, mas que écreada 
l^ela intelligencia por meio de um contraste directo entra 
ideia e ideia. João Paulo Ricbter formulou em systema este-, 
problema isolado, mas o seu alcance vê-se nas obras d'art& 
que escreveu. O principio positivo, de que não existe ne- 
nbum conbecimento fora das relações que nos aproximam 
mais oú menos da verdade, acba-se realísado nas obras da 
João Paulo, que se lança á creação do hello, uma das fõr-. 
mas da verdade, aproximando as mais impensadas rela- 
ções. ^ 

A organisação do artista caracterisa-se pelo poder da 
achar o maior numero de relações entre as diversas formas 
da natureza ; è o phenomeno da associação de ideias, do. 
dominio lógico, tornado objectivo; uma sensibilidade ex-* 
cessiva faz descobrir o lado ou a feição por onde uma dada 
forma se assemelha ou faz lembrar outra, ou a traduz ou 
lhe serve de equivalente ; um som corresponde a uma côr 
(Fechner), uma certa paisagem a um estado moral. Ê este o 
facto authentico; na evolução do universo não existe um uni- 
i^o momento que não seja fatalmente correlativo ao antece»^ 
dente e ao consequente^ não ha em um phenomeno solado 
de continuidade, tudo é um desdobramento seriario, onmi- 
prestente, em permanente actualidade. Os nossos fracos or- 
gãoá, a dependência do tempo, a necessidade de dividir 
j^ra comprehender é que nos têm falsificado o critério da 
natureza. Foram as organisaçSes artisticas as primeiras qua 
sentiram essa continuidade, essa trama inteira da phenòma^, 
nálidade ; pelas obras de arte chegaram a reatisár o héllo^ 
porque â'essas obras conctaia-se esta verdade para a ihtal- 
ligencia. Os artistas mais completos, isto é, os que têm um^ 



í 
I 



iDXiÁ avtàÍB ^ 

tnakir receptividade, tiveram o poder de abranger e achar 
maior numero de relaçSes na natureza : Miguel Angelo, es** < 
tatuario, pintor, poeta, architecto, ou Leonardo de Vinci 
ou Raphael, foram vastoS; porque necessitavam de todas 
as formas palpáveis para lhe exprimirem a comprehens3o , 
d'essds relações estranhas que alcançavam. Nas palavras de 
Goethe sobre João Paulo, vemos uma perfeita descripçãa 
do artista : «Espirito tão bem dotado, lança sobre este mun- 
do, de uma maneira verdadeiramente oriental, olhares cheios 
46 atrevimento e de veracidade; eUe cria as relações as . 
mais estranhas, combina as cousas as mais incompatíveis ; 
mas de tal sorte que ahi se mistura secretamente um fio 
moraU que conduz o todo a uma certa unidade. ]> (Notas so* 
bre o Diwan.) Depois d'esta ideia de Goethe, que define 
perpetuamante o artista, vamos achar em um pratico, o es* 
tátoario Preault, a mesma noção d'esta capacidade : «O ar- 
tista é o que vê maior^ mais alto e mais claro do que os 
outros homens.» Quer dizer, é o que pôde ter maiores r^ 
hções com o mundo exterior, o que precisa tel-as, para 
vêr mais; através da variedade a unidade. Carlyle, espécie 
de João Paulo na historia, também positivo nos seus pro- 
<ie8âos críticos, concorda com o fim superior que se deduz 
do conhecimento d'essas relações niiais intimas: «Em cada 
òbjeoto ha uma inexgotavel significação; os olhos vêem con- . 
forme os meios que empregam para vêr.» (Hist. da Rev., 
t. I, p. 7). Este sentido inexgotavel das cousas, só pôde' 
ser achado pela Arte ; quando Schelling fez para a Philoso- 
phia de Fichte, o mesmo que Fichte fez para a Philosophia 
de Eant, elevou-se do modo mais franco e lúcido a este 
ponto de vista. Elle não fundou uma Esthetica ; mas nunca 
uma sciencia foi mais bem definida, melhor càracterisada, 
iBais sublimemente evangelísada. No dia èm que se servia 
dos problemas da Arte para exemplificar praticamente o sea 
systema philosophico da identidade, o facto da ereacSo na 



70 HISTORIA DO POHANTISXO EM PORTUGAL 

Arte perdeu esse caracter de locta de Âjax, e adquiriu a 
altura e serenidade de um órgão que serve para nos des- 
cobrir ao sentimento e á intelligenda as múltiplas relações 
do universo, fixar as suas analogias secretas e dar-nos a 
consciência da harmonia ou identificação do universo phy- 
sico e moraL 

A abstracção transcendental, por isso que não trabalha 
sobre factos reaes; mas simplesmente aproxima ideias, è 
um estado de syncretismo produzido, voluntariamente ; as 
ideias combinam-se, relacionam-se, levam a conclusões ori- 
ginaes e extraordinárias, do mesmo modo que acontece na 
Álgebra, onde por ser mais fácil operar com valores ab- 
stractos, se está sempre em permanente descoberta. O syn- 
cretismo, mesmo no estado de rudeza primitiva dos povos» 
è fecundo, caracterisa-se pela invenção, resultante da au- 
dácia de aproximar as relações das cousas e de fixar as 
mais recônditas analogias. No seu Systema de Philosophia 
transcendental, Scbelling chegou a identificar o syncretismo 
philosopbicO; ou da abstração, com o syncretismo psycho- 
logico' e natural das épocas primitivas. Elle próprio obede- 
cia á verdade que alcançava. Vejamos como Scbelling foi 
levado a uma ideia tão sublime da Arte ; partindo do ponto» 
que nenhuma Philosophia pôde existir sem ser fundada em 
um conhecimento completo, trata de mostrar que para, con- 
seguir o conhecimefitOy é necessário que se dè o accordo en- 
tre o objectivo ou a Natureza, e o subjectivo, ou o Eu; es- 
tes dois termos existem separados antes da comprehensão 
da verdade; o Eu é a intelligencia, a Natureza é o facto ou 
o producto, e quando essa manifestação revelar a lei su- 
perior que a produz, então a intelligencia identifica-se em 
uma suprema harmonia. Scbelling corrigiu d'este modo o 
exagero individualista de Fichte; o seu systema da identi- 
dade precisava de ser contraprovado com um exemplo pai- 
pavel> e elle foi encontrar nos phenomenos da Arte unni 



demonstração pratica e brilhante. O principio quasi incoeN 
cível da identificação entre o infinito e o finito, entre a reali-t 
dade e o pensamento, entre o mnndo pbysico e o mundo 
moral, comprebendia-o diante de uma obra d'arte, na sua 
forma ainda a mais particular ; a palheta de um Rapbael» 
por meio de um mero accidente material de combinações 
de tintas, consegue exprimir o sentimento moral o mais 
delicado, e n'esta justa conciliação da forma com a ideia 
j*ealisa uma harmonia intima a que chamam Bello. Schel^ 
ling, porém, levado pelo transporte da abstração sacrificou 
o seu systema, porque não deu forma scientifica a esta con- 
cepção da Esthetica ; em vez de a fundar em bases solidas» 
de codificar-lhe os factos, foi arrebatado aos últimos exa-i 
geros, reduzindo toda a Philosophia a uma Arte final, a nar 
tureza a uma eterna poesia e a actividade da intelligencia 
a um sublime poema. Ouçamos as suas palavras : «Tratasse 
de mostrar no subjectivo, na consciência, esta actividade, 
tendo e não tendo consciência. Não ha actividade tal, como 
a actividade esthetica, e toda a obra de arte para ser com- 
prebendida, é preciso que se considere como um producto 
d'esta actividade. O mundo ideal da Arte, e o mundo ideal 
dos objectos, são productos de uma uníca e mesma activi* 
dade; o encontro d'estas duas actividades, sem consciência 
no mundo real, com consciência no mundo estbetico. O 
mundo objectivo vem então a ser a poesia primitiva do es- 
pirito, que não tem outra consciência. O órgão geral da 
Philosophia e o fecho da abobada de todo o edificio é a Pbi* 
losopbia da Arte.» (Systema de Ideaiismo transcendental, 
p. 349 a 368.) £ fortalece outra vez o seu systema meta- 
pbysico com esta theoria da Arte: «Se a intuição esthetiqa 
não é senão a intuição transcendental tornada objectiva, é 
evidente que a Arte é o único e verdadeiro órgão d'esta 
philosophia, sendo ao mesmo tempo o documento que cour 
•Jfirma sempre e sem cessar o que a philosophia não pôde 



íf HIBTOBli DO BOiCAHTXBlIO EH POBTUGAL 

«ipôr exteríormèiite, ièto ê, o que ba de inconsciente ni^ 
actividade e na productividade, e 91a identidade primitiva 
€om o que n'ella ha de consciente.» (Ib., p. 366.) Esta apo^ 
theose da Arte feita por Scheiling, teve consequências pra^ 
trcas e profundas na actividade scientifica do século xix; O 
génio metaphysico, que inventou pela abstracção estes vas- 
tos systemas, logicamente arcbitectados, veiu substituir 
doeste modo dentro das raças germânicas e em uma epocá 
de alta civilisaçSo, pela fatalidade do atavismo, essas facuK 
dades poéticas da raça ariana, a que pertencem, que crea- 
ram no seu primeiro syncretismo os immensos poemas do 
Mahabharata e do Ramayana. Ás epopêas tbeogonicas que 
se tomaram bistoricaâ, succederam-se as epopêas metapby- 
sicas; a imaginação trabalba, em vez de ser sobre ima-^ 
gens da natureza, sobre postulados gratuitos com todo o 
rigor dos processos lógicos. Se Schelling nao construiu uma 
Esthetica, produziu em volta de si uma commoçSo senti-» 
mental, mystíca, religiosa, em que a noção da scienda s6 
tornou para todas as intelligencias um fim sagrado da exis^ 
tencia; as obras de arte da antiguidade appareceram com 
um sentido recôndito ; os mythos dos diversos povos foraín 
aproximados nas suas apparentes analogias, que mais tarde 
levaram ao seguro principio da filiação histórica; as lin*» 
guas estudaram-se sob o ponto de vista comparativo; as 
litteraturas sob o critério das nacionalidades; creou-se a 
pedagogia, porque a perfectibilidade tornou-se o dogma da 
educação individual. Schelling deu este grande impulso com 
a sua vaga abstracção; o que ha de verdade- n'ella não sé 
perde mais. Após Schelling veiu Hegel corrigir as theorias 
metapbysicas, representando o principio creador, a força 
no seu estado immanente sob a designação de ideia^ isto è, 
que pelo facto da suá existência tende a realísar-se, Jimitani* 
do-S6 na Antithesê; a elevação outra vez á ideia pela realidade 
«om que coúimmiicamos,^ é ao que elle chama a synthese, oa 



IDB£4 ftmgLML '79 

a plénitade tio ser pela consciência. Os problemas da Es^ 
thetica também yieràm fortalecer o systema de Hegel; a 
ideia do Bello^ para existir completamente, precisa sair d» 
sen estado de immanencia e communicar-se> exteriorisaak> 
do-se na forma limitada e palpável ; por meio d'essa forma, 
qoe é a saa antithese^ isto é, até certo ponto negação da 
sua inflnitividade, é que nos elevamos outra vez á conce- 
pção da ideia do Bello» e é por esta evolução fatal que o 
$êf precisa passar para attingir a plena existência na con<- 
seiencia de si mesmo. Â Esthetica tem sido considerada o re*- 
dticto onde melhor se defende a philosophia de Hegel; os 
maiores críticos, como Standenmaier, ou Tierscb julgam-na 
uma obra prima, quasi inexcedivel. Vejamos a rasão do fa^ 
ctQ. Hegel corregiu Schelling fortalecendo a especulação 
metaphysica com a investigação histórica; insensivelmente 
e sem o querer, abandonou o seu metbodo pelo critério pch 
sitivi8ta; foi essa realidade,, essa observação immediata so?^ 
bre as creações dos diversos povos, que o levou á verdat 
de, que toma apreciável a sua Esthetica. Este livro, porém^ 
não segue o metbodo positivo, embora Hegel vá acom-» 
nbando a theoria transcendente com a evolução histórica 
dos factos ; porque não è a historia que o leva a uma theo- 
ria final, mas é a theoria que interpreta os factos submeta 
tendo-os ás suas formulas abstractas. O jlado positivo da 
Esthetica, explica-se também pela própria biographia de He* 
gel; Rosenkrantz escreve a seu respeito: cOs thesonros 
artísticos de Berlim, as Exposições de todo o género, exci* 
tayâm o seu amor pelas artes até ao mais alto gráo...Prai 
corava com um encanto insaciável e sem se cançar, os con*^ 
certos, os theatros, as galerias, as exposições. Fazia ex-f 
tractos e notas para a historia das Bellas Artes. Amava 
apaixonadamente a musica ; tinha para a pintm'a esse sa^ 
ber vêr innato. Na poesia era em toda ella familiar. Tinha 
para a. esc.nlptura a capacidade a mais evidente, que elle 



7$ HISTOBIA DO BOlUBTiaXOEM POBTUOAL 

procurava constantemente aperfeiçoar.» A organisaçao le^ 
yava-o para o campo experimental ; a direcção transcendeu* 
tal das escolas aliemães attraía-o para as syntheses a priori. 
Já vimos qual o logar que a Esthetica occupa nos systemas 
metapbysicos ; durante essa elaboração intellectual dea*se 
uma renovação scientifica, cuja synthese se chama o positi- 
msmo. 

Desde Hume que as ideias metapbysicas baviam levado 
um terrível golpe ; como operar sobre vagos termos, sem 
realidade, sem mesmo terem rigor lógico, e pretender 
cbegar a uma verdade ? O velbo edificio da pbilosopbia an- 
tiga e da Edade Media, que se impunba fatalmente pelo sea 
formulismo dogmatico; pelas suas cathegorias sacramentaes, 
foi expellido do mesmo modo que o que é organisado re- 
pelle o corpo extranbo. A velha Psydiologia, veia reno- 
var-se na atmosphera experimental da Biologia; a gasta 
Theodicea tornou-se a Sciencia das Religiões ; a Gramma-- 
tica geral^ transformou-se na Linguistica e na Philologia 
comparada ; a estéril Moral, a Politica do empirismo, o Di- 
reito constituído, a Arte, a Litteratura, o encadeamento da 
Historia, a Economia politica, agruparam-se como pbeno- 
menos dynamicos de uma nova sciencia superior, a Socio- 
logia ; a Lógica tornou-se inductiva ou deductiva, segundo 
o processo scientifico ou pbilosopbico. Cada uma d'estas 
sciencias teve os seus obreiros especiaes, que separadamente 
cooperaram para levantar o nivel intellectual do século ; a 
um Bichat, a um Creuzer, a um Bopp e Grimm, a todos os 
que reconcentraram as suas forças na comprebensão exa- 
cta dos pbenomenos, se deve a renovação scientifica, syste- 
matisada por Augusto Gomte. Pelos elementos constitutivos 
d'essa renovação se vê claramente, que a Philosophia já não 
pode ser uma concepção individual e dogmática ; ella é um 
resultado g^ral, onde s^ harmonisam todas as concepções 
parciaes da intelligencía^ com os progressos que se vão 



IDBU OBEÁIi 75 

realisando. Por isto se yè que o PosUivismo dSo é só^ 
meote um methodo ; é uma synthese permanente, é uma 
conclusão que qualquer sem ser génio pôde tirar, dentro 
do naeio em que vive. Sem os perigos da paixão egoísta 
da tbeoria individual, e dirigindo os processos lógicos 
pela evolução histórica, ha muito mais segurança de che- 
gar á verdade, de se aproximar d'ella quanto fôr possí* 
vel. * 

C) A REACÇÃO NACIONAL ENTRE OS POVOS MODERNOS 

Assim como se conhece a originalidade das litteraturas 
pelo fundo de tradições populares em que se baseam, do 
mesmo modo se contraprova a sua vitalidade pela aspiração 
moral ou politica de que ellas são a expressão. Pelo conbe- 
dmento erudito da Edade Media descobriu-se quaes eram 
as fontes das litteraturas modernas ; pela especulação phi- 
losophica chegou-se a formular o critério por onde ae devem 
julgar as creações do sentimento. Falta agora vêr, como a 
grande commoção moral e politica produzida pela Revolu- 
ção franceza se reflectiu entre todas as nações, e conio as 
litteraturas, na sua phase romântica, se tornaram a expres- 
são viva da nova aspiração á liberdade. Foi n'este momento 
de enthusiasmo, em que se procurava a verdade no typo 
e espontaneidade da natureza, que as Litteraturas moder- 
nas proscreveram a imitação da antiguidade. Estabeleceu-se 
a lucta de^ preceitos e preconceitos de escola ; o arsenal dos 
Ícones académicos recebeu o nome de Clássico, e a livre 
manifestação do sentimento na arte, o nome de Romântico. 
Em quanto se debatiam em estéreis objecções, em ironias 
auctoritarias, em acrobatismos phraseurgicos, dava-se en- 
tre todos os povos esse estado moral da aspiração, esse 



^ Na revista de philosophfa PotitivUrnOf n.« 6, toI. i, esboçamos nm estoda 
sobre a Conttituição da Estketica potitiva, em que desenyolTemos o noTO crité- 
rio. 



vd 



HI8T0BIA DO BOICASTISICO WM. POSTUGAL 



anceío pela liberdade, qae trouxe as litteraturas á sua ma- 
nifestação de verdade. A marcha da Revolução franceza foi 
desviada por Napoleão do seu destino a bem da sua pes- 
soa ; mas a corrente de Uberdade que ella insuflara na ia- 
teilígencia moderna não foi extíncta. O interesse que a cri- 
tica impassível de Kant mostrava pela Revolução, era para 
os artistas uma paixão vebemente que os inspirava. Foi 
n'6Sta corrente que se temperou o génio de Schiller ; a*Re- 
volução reconheceu-o mandando-lhe o diploma de cidadão 
francez. N'este tempo os poemas gaôliços do bardo Ossian, 
repassados do anceio pela liberdade e d'essa vaga melan- 
cholia do génio céltico, vem descobrir ao mundo um novo 
ideal de poesia ; Goethe apaixona-se por esse novo lyrismo^ 
e. Napoleão prefere essas narrativas ossianicas ás epopêas 
de Homero. A discussão da authenticidade dos poemas pu- 
blicados por Mac-Pherson leva a descobrir o problema da 
concepção da poesia nacional, e influe no lyrismo inglez da 
escola dos lakistas. A revelação do drama indiano deKaIi* 
dasa, Sacuntala, traduzido por Schlegel, dá a conhecer que 
para attingír-se o bello não era preciso moldar as paixões 
pelas receitas de Quintiliano ; e que em todas as creações 
humanas existe uma unidade superior, uma harmonia da 
mesma origem^ da solidariedade das civilisaçoes, e da con- 
tinuidade da vida. Na Allemanha,,Grimm descobria o fra- 
gmento da Cantilena de Hildebrand e Hadebrand, que levava, 
ao estudo da poesia nacional germânica. No entanto Napo- 
leão tempestuava na Eui;opa com o caprict)o das suas in- 
vasões ; queria realisar o sonho de Carlos Magno quando 
constituiu a unidade europêa sobre a incoherenoia do mundo 
bárbaro. A Allemanba para resistir ás arbitrariedades do 
prepotente organisou-se em sociedades secretas, como a Tti- 
genâbundy da qual Fichte foi um dos fundadores, e a Bur-^ 
chenschaffy ás quaes pertenciam os estudantes, os poetas e, 
os homens de sciencia.' 



unuA GKUL 77 ; 

Era n'esta crise violenta em que se luctava pela indepen- 
dência da pátria» que o génio nacional facilmente se mani- 
festava pela litteratura. Aos desvarios audaciosos de Napo- 
leão succedeu a reacção tenebrosa e não menos funesta dos 
diplomatas, que organisaram a chamada Santa ÂUiança, 
com o fim de assegurarem á Europa a estabilidade pertur- 
bada nSo pelos exércitos e guerras napoleónicas, mas pe- 
las ideias da Revolução francezai As Restaurações forçaram 
o tempo para imporem estupidamente o Statu quo do an- 
tigo regimen que passara ; fecha-se a porta para os cargos 
públicos a toda a mocidade revolucionaria, aprovei tam-sé 
os velhos caducos, o antigo acceita-se como convenção, per- 
seguem-se as sociedades secretas, e considera-se como 
conspirador contra a pátria todo aquelle que não exprimir 
os seus sentimentos segundo as obras primas da Grécia. 
Em quanto a Santa Alliança talhava a Europa conforme um 
apanágio do cesarismo que renascia, a Grécia, abandonada 
por todas as potencias politicas, luctava contra a Turquia 
para sacudir de si esse jugo de séculos. Ali se viu uma 
poesia popular levantar o espirito nacional, e dar forças 
para a resistência tantas vezes frustrada. Fauriel colligiu os 
Cantos populares da Grécia moderna, que vieram mostrar 
á consciência do nosso tempo como a unidade politica de 
um povo e a sua liberdade se funda e renova sobre o vin- 
colo commum de uma tradição. O poeta Rigbas, coíno na 
Allemanha fizera Fichte, fundou a associação secreta Hetai^ 
teia, d'onde prorompeu a insurreição da Grécia. Mas no 
congresso da Santa Alliança, os diplomatas oppunham-se á 
heróica regeneração da Grécia, porque viam com o seo 
instincto reaccionário n'esté facto assombroso uma das cor 
becas da hydrã revolucionaria. Bem haja esse génio extraor- 
dinário, que synthetisa a nova feição das litteraturas e do 
espirito moderno, Byron, qué deixoa a voluptuosidade da 
vida italiana para ir offer^cer o seu sangue pela indepen- 



78 HISTORIA DO B0MAHTI8M0 BK POBTUGAL 

ãencia da Grécia. O exemplo de Byron impressionou todos 
os novos talentos» e a sua morte deu um relevo extraor- 
dinário aos cantos, em que tanto protestara contra os des- 
varios reaccionários e attentados contra os povos feitos pela 
Santa AUiança. O Romantismo liberal tornou-se byroniano» 
que os declassés da Restauração imitaram na forma de um 
scepticismo affectado, como em Âlfred Musset. O esforço 
da Grécia para recuperar a sua independência influiu para 
o desenvolvimento do Romantismo liberal ; o poeta enten- 
deu ligar os seus cantos ás aspirações do seu tempo. Be- 
ranger combate a Restauração do absolutismo faminto e 
obcecado em canções cheias de malicia, e Victor Hugo ele- 
va-se á phase byroniana. Na lucta do Romantismo, dá-se em 
França o mesmo facto que na Itália ; Baour-Lormiant, chega 
a pedir a banição dos românticos como uma garantia da 
segurança publica. No órgão jornalístico o Globo, sob a di- 
recção severa do radical Dubois, a mocidade que se afiSrma 
oriunda dos principies da Revolução franceza, estabelece 
os novos princípios de critica, e Goethe acompanha com in- 
teresse esse movimento disciplinado. De 1824 a 1830 a 
Globo exerce uma actividade intellectual que influe sobra 
o espirito publico ; antes da coroação de Carlos x e quando 
partido liberal se desorientava com a invasão da Hespa- 
nha, apparece o primeiro numero do jornal, como que em 
substituição das Tablettes universelles^ supprimidas pelo mi- 
nistro reaccionário Villèlle. Por effeito d'essa suppressão a 
Joven França congrega-se n'esse centro de elaboração men- 
tal, cuja fundação se deveu em parte a Thiers, e o titulo 
a Pierre Leroux. O Globo inicia o publico no conhecimento 
das sessões da Academia das Sciencias, na critica tbeatral, 
na archeologia da Edade Media, na Philologia e na Sciencia 
das Religiões ; affirmando a superioridade política da França 
liberta do antigo regimen» intentava allíar-lhe a liberdade 
4a imprensa ingleza e o espirito soientiflco allemão. Goi- 



IDUA OXBAL 19 

zot, Yillemain e Gousin, d3o pertenciam á redacção do Globo, 
mas contribuíam com communicações ; três grupos se em- 
penhavam n'essa empresa de renovação mental, e no res- 
tabelecimento do critério politico ; o primeiro, era o dos 
universatarios, á frente dos quaes estava Dubois, pela sua 
poderosa iniciativa, e Tbeodoro Jouffroy, pela critica pbi- 
losophica, collaborando com elles Damiron, Trognon, Pa- 
tin, Farcy, Agostinho Tbierry e Lermmier ; o segundo grupQ 
era formado por mancebos, filhos dos homens da Republica 
e do Império, taes como Charles de Rémusat, Duvergier 
de Hauranne e Duchatel ; o terceiro grupo era formado pela 
mocidade mais lúcida das escolas, os normalistas Saínte 
Beuve, Vitet, Merimée, Stapfer, J. J. Ampere, e ainda Ar- 
mand Garrei. Esta geração forte, pela bocca de Jouffroy, ou- 
saya dizer aos políticos reaccionários da Restauração, que 
a Rerolução que elles atacavam dera-se menos nas ruas do 
que nas ideias; ^ aos catholicos, que pretendiam restabe- 
lecer o obscurantismo medieval explicava-Ibes com uma 
grande altura moral as leis psycbologicas e históricas pelas 
quaes os dognias se extinguem. As transformações do Ro- 
mantismo, que passara da phase emanuelica para o satã-- 
nismo byroniano em Victor Hugo, desviaram por algum tempo 
a elaboração litteraria da direcção e solução scientifica qu^ 
Ibe imprimira o Globo. Era preciso substituir a macaquea- 



1 «o estado geral dos espíritos ii*e8ta época era o assompto ínexgotaYel doe 
irossoe artigos. Tal era o facto que nós considerayamos sob todos os aspectos, 
lacto poderoso qoe contioha todos os ootros, centro das nossas Investigações^ 
e que os nossos constantes esforços tinham por fim caracterisar e esclarecer 
como o mais forte obstáculo aos planos da Restauração e a mais forte objecçS» 
á» suas dootrinas; porque» ape8:ir da sagacidade dos seus illiístres defensoreé» 
eUa constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho em desconhecer a 
tealídade e a profundidade da RèyoloeSo nas ideias. Ella queria tudo atkibnir 
4s paiidee iadiTidaaes, ás iUo99ee de um momento e representar como um mel 
passageiro nma reno?aç|[o sociat. I)'aqui a esperança insensata de tudo repa- 
rar a' seu modo, è d'aqui tambeni a Taidade dos seus esforços.» Gh. Remusat, 
Paste êt Prmnt, t. ii, p.Â08. 



80 HISTORIA DO BOKANTISXO SM PORTUGAL 

ç3o da Edade Media, que consistia em um guarda roupa 
cavalheiresco, pela sciencia das origens. Existiam os ele- 
mentos para esta dissolução do Romantismo. Madame de 
Staêl; chegou á formula, que o nosso tempo tem realisado 
pela philologia e pela historia : «Nem a arte, nem a natu- 
reza se repetem ; o que importa no silencio actual do bom 
senso, é desviar o despreso que se pretende lançar sobra 
as concepções da Edade Media.» Pela systematisação da Sok 
ciologia, por Augusto Gomte, a Edade Media foi conside-* 
rada como uma evolução histórica d'onde provieram as insti-» 
tuições modernas ; conoi relação á civilisação greco-romana,, 
representava um novo progresso, a separação do poder tem- 
poral do poder espiritual, cuja confusão primitiva se ob-^ 
serva ainda na Rússia ; com relação á sociedade moderna» 
terminava com a dissolução do regimen cathofico-feúdal, o 
primeiro atacado na época do Protestantismo, o segundo 
pela Revolução franceza. Além doesta concepção lúcida da 
philosophia positiva, seguiu-se o profundo estudo encetado 
pelos phOologos allemães e francezes sobre as poesias \jr 
ricas dos Trovadores da Provença e do occidente români- 
co, e sobre as Canções de Gesta, do norte da França, cujn 
importância era ainda ignorada. As questões vagas de es* 
cola foram-se abandonando diante da renovação scientifica ; 
a rehabilitação histórica da Edade Media, determinada pelo 
Romantismo, foi também uma das causas d'esta transfor- 
mação litteraria. Mackintosh, que pertence a esta época do 
lucta liberal na politica e na litteratura, caracterisa assini o 
movimento novo : < A Litteratura d'esta época, desde pouco», 
inspira por toda a parle um interesse particular e uma cu- 
riosidade geral. Muitas nações regressaram com uma nova 
affeição aos monumentos do genió dos seus antepassados» 
£ no meio das circumst anciãs, que os erros phantastíco^ 
de alguns escriptores embaraçam, nSo temos a receiar oi^ 
inconvenientes que parecem resultar d'6sta tendência. É^ 



IDEIA aSBAL 81 

sobretudo» um modo ulil por onde se familiarisam os seca- 
los esclarecidos com as bellezas e graças próprias a cada 
liogua, e com as qualidades originaes que distinguem os 
primeiros esforços litterarios de cada uma, ua época em 
que ellas tomaram um novo impulso ; porque é isto que faz 
comprehender os caracteres naciònaes.» * A transformação 
do Romantismo provinha de uma transformação social ; em 
todos os paizes da Europa appareceram relacionados os dois 
movimentos ; se a Revolução franceza é o ponto culminante 
da dissolução do regimen catbolico-feudal, os esforços es- 
tólidos da Restauração e da Santa Alliança nada poderam con- 
tra a aspiração moderna ; esmagaram os povos, persegui- 
ram as intelligencias superiores, quizeram restabelecer as 
formas exteriores do antigo regimen, mas a Revolução es- 
tava nas consciências. É por isso que as Litteraturas proca« 
ravam outras formas, e intentavam servir de expressão a 
um novo Ideal. Acentuemos rapidamente esse duplo mo- 
vimento antes de nos fixarmos em Portugal. 

Na Rússia o Romantismo manifestou- se pela exaltação by- 
roniana ; os jovens talentos, aspirando o advento da liber- 
dade politica no seu paiz, reuniam*se em sociedades secre- 
tas, e pelas suas composições lyricas soffriam os desterros 
e os cárceres, como Puchkine. Os paizes escravisados, como 
a Polónia ou a Finlândia, abraçavam a nova poesia, que, 
como os cantos dos trovadores nas luctas da França muni- 
cipal, vinha agora proclamar o grito das nacionalidades, 
acordando-as para a independência politica. Em volta de 
Adam Mickievicz reunem-se os estudantes da lithuania e 
da Ukrania, e a litt^atura torna-se uma linguagem de pro- 
testo e de revivescência nacional; Mickievicz è internado 
pelo governo russo ; Zaleski inspira-se nos cantos popula-* 
res, emfim o byronianismo lançava os espirites ingénuos na 



Estais pkilosopUqueSf p. 43. (trad. L. Simon.) 
6 



S2 HISTOBIA DO BOMANTISUO EM PORTUGAL 

reyolta pela independência da pátria e no patíbulo. Os poe-^ 
tas no desterro, como Mickievicz e o Conde Krasínski» in-* 
fluem longe da pátria com os seus cantos, que conservam 
na geração nova o espirito de resistência pela independên- 
cia nacional. Até na Finlândia o espirito nacional fortalece-se 
na própria tradição ; em 1806 a Finlândia deixa de pertencer 
á Suécia para ser submettida por conquista ao Império russo. 
Um movimento nacional fez com que apparecesse essa extra-* 
ordinária epopêa do KalevcUa, que Jacob Grimm considerava 
comparável ás epopêas indianas pela riqueza dos mytbos, e 
queLenormant examina como uma forma épica .do génio tu<* 
raniano; em 1819 Von Schrõters publica as Finische Rtmen, 
desenvolve-se a paixão pelas origens nacionaes, paixão con* 
tinuada em 1828 pelo Dr. Lõnnrot, que organisa oKalevala. 
O mesmo facto psychologiço se repete na Hungria quando 
tentou sacudir o jugo austríaco; o génio magyar revela-se 
esplendidamente no hallucinado Alexandre PetôQ, poeta que 
arrasta apoz si o povo, e guerrilheiro junto de Bem, vivendo 
nas lendas da aspiração nacional depois de ter desappareci- 
do em uma batalha. Na Inglaterra, o Romantismo acordava 
o sentimento separatista da Irlanda e da Escossia em Tho- 
maz Mooré e rios quadros novellescos de Walter Scott. 

A Itália tyrannisada pela Áustria, encontra na* litteratura 
romântica o seu protesto eloquente; os novos escripto* 
res, Pellico e Maroncelli são encarcerados, Berchet refu- 
giasse na Grécia, e Rosseti é banido por ter tomado parte 
na revolta de Nápoles. Mackintosh resume em uma cara<- 
cterística fundamental o espirito da litteratura italiana: 
«Desde Petrarcha até Alfierí, o sentimento nacional da Itá- 
lia parece ter-se refugiado no coração dos seus escríptores* 
Quanto mais esse paiz é abandonado pelos seus compatrio- 
tas» tanto mais faliam d'elle com enlevo.» ^ Na lucta do Ro- 

1 Ensaios phUosaphicotf p. 81. (Trad» L. SimoD). 



IDBIÀ OEBAXi . 83 

xnaotismo, os Glassieos, para tríumpharem dos seus ad-* 
Ttersarios, serviram-se do despotismo austríaco; a plêiada 
romântica proclamava Ds doyos princípios litterarios no Con-* 
ciliatore. Este jornal, foi como diz Salfi: «Âccusado de ex^ 
citar os seus leitores á independência politica por meio da 
independência litteraria.» ^ 

O Romantismo italiano apresenta as suas phases distin-^ 
«tas de christianismo mystico em Manzoni, e de satanismo 
«m Leopardi, ambos porém com um profundo sentimento 
nacional. A Itália, depois de ter realisado a sua aspiração 
de séculos ou a unidade nacional, completa a sua activi- 
dade com uma pasmosa elaboração scíentifica e philosophi* 
<::^; o Romantismo dissolveu-se em um regimen mental, que 
põe esse povo ao lado da AUemanha e da Inglaterra em in* 
vonçSo e em trabalho. 

A Hespanba nao podia perder a feição nacional da sua 
litieratura sem soffrer primeiro uma decadência orgânica 
infligida pela monarcbia, e o esquecimento das suas origens 
imposto p^lo obscurantismo ca tholico, que condemnava tudo 
quaolo provinba do génio árabe ou do arianismo germa- 
nico. Para que a Hespanba tornasse a achar os seus Ro- 
manceiros, as suas comedias de capa e espada, as suas no* 
relias picarescas, as suas redoudilhas espontâneas, foi pre* 
ciso que as perseguições politicas do absolutismo lançassem 
DOS cárceres e na emigração esses escriptores que até en- 
tão imitavam os modelos latinos e o pseudo-clássicismo 
francez; deu-se essa pressão nas duas terríveis épocas de 
Í8i4 a 4920; sob o governo da camarílha em demência» 
como o caraotertsa Gervinus, e de i820a 1823, durante o 
dominíD do partido apostólico, que atacara os bomras su-* 
periores para matar com dles o fermento do. liberalismo^ 
O Romantismo em Hespanha devia de 8^ mais uma direo 



II 



^ B$sumé de ÍBiiMre de la IMl&riture iUdieM^ 41, 1^9. 



84 • HISTORIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL 

ç3o do que uma forma; mas a ausência da pátria, em que 
os escriptores se yiam separados da comíbunicaçao com o 
povo, os desalentos pessoaes nos prolongados desterros, le- 
varam-os para a imitação das novas formas, não se elevando 
acima do Romantismo religioso, que veiu comprometter a 
causa da liberdade com a falsa miragem de que a Hespa- 
nha fora grande na época do poder absoluto da raonarchia 
e do catholicismo. Os que viam mais longe caíam no des- 
alento, como Espronceda, o mais elevado representante do 
Romantismo liberal da phase byroniana. Depois da invasão 
da Hespanha pelo exercito francez, mandado por Chateau- 
briand, os emigrados preferiram quasi todos a Inglaterra; 
havia perto de oito mil proscriptos, e foi sobre um solo ei- 
tranho que desabrochou a nova litteratura ; a mocidade, que 
seguia os novos princípios lítterarios foi espontaneamente 
arrastada para a independência politica, convertendo a ica- 
demia dd Mrto na sociedade secreta dos Numantinos, que 
o despotismo descobriu, prendendo os jovens poetas Es- 
cossura e Espronceda. A censura dramática estava a cargo 
do boçal padre Carrillo, não menos faccioso que o padre 
José Agostinho, que pelo mesmo tempo exercia a censura 
titteraria em Portugal. O Romantismo religioso propagou-se 
em forma de phílosophía no humanitarismo krausista, e è 
n'este mysticismo mental que o génio hespanhol se con- 
serva, sem atacar os seus velhos inimigos, a monarchia e 
o cléricaliismo com o critério scietitifico. 

Em Portugal vemos repetir-se com os mesmos caracte- 
res o primeiro iniipulso do Romantismo. O movindento na- 
cional contra a. invasão nápoleonica não aehon ecoo na lit- 
teratura ; estava morta^pela censura regia e clerical ; vigorava 
a Qintííga sem^íabdría^ dds arcádias. Sõ depois que a nação 
tomoU conta' da. soa sòbmnia nà Revoluçio de 1820, é que 
a mocidade, á frente da qual surgiu Garrett, se sentiu inspi- 
rada pela liberdade ; o despotismo da Santa Alliança apoia 



IDUA OXBAI. 85 

ã traição de D. João vi, que rasga a Carta liberal em 1823^ 
e os homens que adheriram ás bases da conslituição sof- 
frem as masmorras ou refugiam-se em França e principal- 
xuente em Inglaterra. Foi na emigração de i8S3 e i824, 
<iue Almeida Garrett observou a transformação do Roman- 
tismo e achou a orientação do seu génio. Depois que o par- 
tido apostólico de Hespanha, servindo-se da furiosa Carlota 
Joaquina, fez com que D. Miguel rasgasse a Carta consti- 
tucional de i826 e se proclamasse aJjsoluto, perseguindo 
os liberaes com as forcas» o cacete, e o confisco, começou 
outra emigração, de i829 a 183i ; a esta segunda corrente 
pertence Alexandre Herculano, que na Harpa do Crente 
soube iospirar-se das luctas pela liberdade nacional, e que 
conheceu quanto era necessário fundar a Historia de Por- 
tugal sobre o estudo das instituições sociaes da nossa Edade 
Media. Não é uma coincidência casual o facto de serem os 
primeiros iniciadores do Romantismo em Portugal esses 
dois homens, que pela ideia politica da constituição liberal 
tiveram de procurar asylo no estrangeiro. 

§ 4. FORQUE CHEGOU O ROMANTISMO TAO TARDE A POR- 

TUOAI4. — Correndo todas as phases da litteratura portu- 
gueza, vê-se que ella nunca tirou os elementos de creação 
d'ess6 fundo vital, fecundo e sempre collectívo das tradi- 
ções nacionaes. Em vez de apresentar a originalidade que 
resulta da elaboração artistíca das próprias tradições, sò 
teve em mira imitar as grandes correntes litterarias dos ou- 
tros povos da Europa. A palavra eim/opão resume a syn- 
these histórica da litteratura portugueza; do século xn a 
XIV imitámos o lyrismo provençal; no século xv imitámos 
o lyrismo castelhano; no século xvi o lyrismo italiano; no 
século XVII as aberrações castelhanas e italianas de Gongo- 
fjstas e Marinistas; no século xvni imitámos o regimen poé- 
tico de Boileau. Quando no século xix viesse a prevalecer 



SS HISTORIA DO BOMANTISMO BM POBTUOAL 

na Europa a nova comprehensâo das litteraturas sob o seit 
aspecto nacional, em Portugal havíamos também imitar o 
Romantismo. De facto os homens que primeiro entre nós 
proclamaram as ideias do Romantismo, foram levados pelo 
que tinham ouvido discutir, a compor obras de litteratura 
portugueza com caracter de nacionalidade; mas ao procu- 
rarem este caracter, que se uao revelava pela historia, des- 
conheceram o valor da tradição, e inventaram tradições a 
capricho, sobre que flzeram romances, dramas e poemas. 
Gomprehende-se que o Romantismo exemplificasse a sua 
nova concepção das obras de arte, com a rica litteratura 
hespanhola, com a forte litteratura ingleza, porque esta& 
litteraturas foram a expressão de vigorosas nacionalidades. 
Em Portugal, nunca os escriptores receberam inspiração 
das tradições nacionaes, por um motivo muito fácil de ex- 
plicar: porque não tivemos nacionalidade. Vê-se isto nas 
condições económicas doesta nação, que foram sempre pro- 
visórias e nunca se tornaram orgânicas: do século xii a 
XIV Portugal tira os seus recursos da reconquista sobr^ 
os árabes; no século xv explorámos a riqueza colonial 
das descobertas de Africa e Açores; no século xvi ex- 
plora-se a índia e o Brazil e expoliámos os capitães do Ju- 
deu ; no século xvu espremem-se estes velhos recursos e 
alarga-se o systema de empréstimo ; no século xviii expo- 
lia*se o opulento jesuita e fazem-se confiscações a suppos- 
tos conspiradores; no século xix recorremos aos bens dos. 
frades, e explorámos o colono que regressa rico do BraziL 
Essa consciência intima que um povo tem da sua indepen* 
dencia, é o que se chama nacionalidade; e quer na ordem* 
intellectual, quer na ordem económica nada levava a des- 
pertar em Portugal essa consciência. Esta noção estava 
muito longe do espirito publico, e seria um prodígio achaca 
formulada syntheticanente na nossa litteratura. Nenhum, 
dos elementos que constituía esta nação podia ser levada * 



JDBIA OBBAI. .87 

a encontrar na sua . actividade esse recôndito caracter de 
nacionalidade; consultemos os sábios, a aristocracia, a rea- 
lesa e o próprio povo. 

Os sábios occupavam-se em inventar medallias para eter^ 
Bisarem o insolitujn decus com que Dom Miguel por de- 
creto de 31 de julho de 1828 concedera á Academia das 
Sciencias a prerogativa de poderem os seus sócios «demo- 
rar-se em uma sala, que só dista um palmo da outra em 
que até aqui eram admittidos. D'esta futilidade fez a Âca- 
demia o assumpto de uma medalha, e o faria de uma £po* 
pèa, se não se achasse empenhada em sair da palavra — 
azurrar — (o braire da lingua franceza) na qual desde lon- 
gos annos amuou, tentando compor o Diccionario clássico 
da lingua I» * Este artigo tem o grande valor de ser refe* 
rendado por Alexandre Herculano, que apesar de todos os 
seus esforços, nunca pôde libertar a Academia d'esse es- 
tado de immobilidade. Como é que estes sábios podiam des^» 
cer a investigar essa frívola cousa chamada espirito nacio- 
nal? 

Pelo seu lado a nobresa deu a sua prova de altura, 
quando enthusiasticamente pelo acto heróico em que Dom 
João VI rasgou a Constituição de 1822, desatrellaram do 
carro os cavallos, e envergaram os tirantes, disputando com 
santo fervor quaes se agarrariam á lança para pucharem o 
monarcha até Lisboa ! Elles comprehenderam o valor d'esta 
traição nos destinos d'este povo, porque alguns vieram re- 
clamar e disputar na imprensa periódica a posse d'essa ex- 
traordinária honra. ^ 

A realesa achava-se desprestigiada entre as potencias es- 
trangeiras; a propósito do casamento de Luiz xv, quando 
se discutiam os dififerentes projectos, escrevia Mathieu du 



1 Repositório litíerariOj n,® 1^ p. 29, Porto, 1834. 

^ F. Martíos de Car?aIho, ApaniãmetUos para a Hisíoria contemporânea. 



88 HISTOBIA DO BOMAMTISMO EH POBTUGAL 

Marais : «On ne veut pas Tinfant de Portugal, parceqiie Ic 
père est un peu fou.» (iii, 173.) É emanado da ehancella 
real esse documento de vergonha nacional, a Carta regia de 
2 de junho de 1800, em que Dom João vi manda impedir 
a expedição scientiflca do Barão de Humboldt na America, 
attribuindo ás suas investigações botânicas, ethnologicas e 
geographicas o intuito de encobrirem ideias novas que iam 
í)erturbar a tranquillidade dos seus fieis vassallos. 

O rei achava-se tão vinculado aos seus fieis vassallos, que 
no momento em que os exércitos de Napoleão caminhavam 
sobre Portugal, abandonou o seu povo ás arbitrariedades 
de Junot e depois ás prepotências de Beresford, refugian- 
do-se no Brazil, onde continuou os disvellos do governo pa- 
ternal. 

O povo recebe o seu rei com lagrimas, depois que os 
seus conselheiros o acordaram da apathia habitual, dizendo 
que era tempo de voltar a Portugal, porque a Revolução de 
1820... O povo era ainda o mesmo que Lord Beckford 
retratara na menoridade de D. João vi: «Legiões de men- 
digos desembocavam de todos os bairros, para se postarem 
as portas do palácio e esperarem a salda da rainha ; por- 
ique S. M. é uma mãe muito indulgente para estes robus- 
tos filhos da priguiça, e nunca entra na carruagem sem 
distribuir por elles esmolas consideraves. Graças á caridade 
mal entendida, algumas centenas de mandriões bem dispos- 
tos, aprendem a manejar as muletas em logar do exercício 
da espingarda, e a arte de fabricar chagas, ulceras, e em- 
plastros com a mais repellente perfeição.» N'esía mesma 
carta accrescenta Beckford : «Nenhuns mendigos egualam 
os de Portugal, pela força dos seus pulmões, pela abundân- 
cia das suas ulceras, pela profusão dos bichos, pela varie- 
dade e arranjo de seus farrapos, e pela preseverança in- 
vencível.» Byron ao visitar Portugal, allude a Beckford pela 
antonomásia da sua obra originalíssima o Califa de Vathek; 



IDEIA aSBAIi 89 

T 

na Child Harold Byron retrata a emoçSo que lhe produriíi 
Lisboa: «Ao primeiro relance, que bellezas Lisboa ostentai 
A soa imagem reflecte-se trémula n'esle nobre rio que os 
poetas mentirosos faziam correr sobre areias de ouro . . . 
Mas se se penetra no interior d'esta cidade, que vista de 
looge parece uma habitação celeste, erra-se tristemente en- 
tre uma multidão de objectos peniveis á vista do estran- 
geiro: choças e palácios são egualmente immundos, e por 
toda a parte os habitantes patinham na lama. Seja de que 
gerarchia fôr, ninguém se preoccupa com a limpesa da sua 
roupa ou das camisas; atacasse-os a lepra do Egypto, fi- 
cavam sem se alterar nos seus andrajos e ascorosida- 
de ... « * Herculano traduziu nas Lendas e Narrativas al- 
guns d'estes versos, adoptando-os na sua verdade. Antes 
da primeira emigração em 1823, o estrangeiro era consi- 
derado em Portugal como o hostis do mundo antigo ; está- 
vamos incommunicaveis com a Europa, ^ com o terror dás 
ideias liberaes. Os livros francezes, inglezes ou allemães 
só entravam como contrabando, e existia a censura prévia 
para toda e qualquer publicação. Garrett em i82l foi le- 
vado aos tribunaes por ter escripto o Retrato de Vénus, ^ 
e em 1827 soffreu quatro mezes do Limoeiro por coUabo- 
rar em uma gazeta que era previamente approvada pela 
censura. N'estas condições, Portugal realisava na Europa o 
ideal do Japão ou da China; ter a ideia de fundar uma lit- 
teratura para servir de expressão ao caracter nacional, se- 



1 ChiU Baroldy caDt. i, est. xiv a xxxiti. 

2 Do grande iniciador industrial José Ferreira Pinto Basto, escrevia José 
Estevaro, no sen Elogio histórico : «As viagens pareceram-lhe sempre ingrati- 
dão ao paiz ; a crença no poder estrangeiro nm iosuUo ao oosso pundonor ; o 
emprego dos capitães fóra do sólio pátrio, um attentado contra a moral pa- 
bliea; a confiança da inferioridade das nossas coisas, nma fraqaesa imperdoá- 
vel.» Jtíem. do ConsertatoriOf p, 21. 

^ Na Pastoral do Patriarcha de Lisboa, de S8 de Janeiro de 1821, commi* 
na-s* a excommunhão maior aos que lerem o Reíraío d» Vénus. 



90 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 

ria realisar o impossível. O movimento do Romantismo paf9 
entrar em Portugal tinha de ser cúmplice com a Revolu- 
ção; mas quando esta força se revelava como um agente 
dynamico do corpo social, e como tal capaz de fecundar as 
creações artísticas, o velho habito portuguez preferiu a es- 
tabilidade ç acceitou o Romantismo como mais um modela 
para exercer a sua imitação. 

I 5. COMO FOI COMPREHENDIDO O BOJtfANTISMO EM POR-. 

TUGAL. — Ao indicar as causas fundan^ntaes que provoca- 
ram o apparecimento do génio românico nas iitteraturas 
modernas, reconhece-se que esta crise dos espiriíos foi uma 
consequência lógica da nova comprehensão da Edade Me- 
dia pela escola histórica do século xix, e ao mesmo tempo> 
das verdadeiras ideias da Arte e da critica litteraria pela 
creação philosophica da Esthetica, coincidindo com a reacção 
nacional dada em todos os povos, já pelo espirito da Revo- 
lução franceza, já pelos esforços contra o calculado obscu- 
rantismo da Santa AUiança e das Restaurações absolutas. 
Para que o Romantismo fosse comprehendido e se radi- 
xjasse naturalmente em Portugal, era preciso que a reno- 
vação artística encontrasse algum doestes elementos em que 
se baseasse. Os trabalhos de organisação scientifica e lit- 
teraria só começaram depois de terminado o cerco do Porto 
em 1833, em que triumphou definitivamente a causa con- 
stitucional; mas as ambições politicas fizeram com que os 
melhores espíritos tratassem das questões de litteratura ac- 
cidentalmente. O estado em que se achava a sciencia da 
historia era quasl deplorável ; além de Chronicas monasli- ' 
cas e memorias académicas, nunca ninguém se lembrara de 
formar um quadro completo dá Historia de Portugal. Em- 
quanto ás doutrinas litterarias, Francisco Freire de Carva- 
lho glosava Quintiliano ; em quanto á renascença do espi- 
rito nacional; fabricavam-se lendas phantasiosas, emprega- 



IDEIA GEBAL 91 

TaiD-se archaismos para simular o sabor da antiguidade, 
reagia-se contra o uso dos gallicismos cora um terror de 
purista, e o chauvinismo era a base essencial de todo o es- 
tylo vernáculo. Como poderia ser comprehendido em Por- 
tugal o Romantismo com esta carência absoluta de elemen- 
tos que dirigissem o critério? 

«) Estado da sciencia histórica 

Em 1830, dando conta da publicação de duas Memorias 
de Frei Francisco de S. Luiz, escrevia Herculano : tDuas 
chaves únicas, entendemos, abrem hoje o rico tbesouro da 
Historia portugueza: guarda uma o respeitável João Pedro 
Ribeiro; outra o illustre auctor das Memorias. . . Todavia 
essas mãos robustissimas, que a edade grave não enfraque- 
ceu, já por entre o bulicio d' esta geração que vae passando 
ufana da sua ignorância, buscam apoiar-se na borda da se- 
pultura (tarde a achem elles) e quando a providencia hou- 
ver de consentir que a encontrem, podemos ter por averi- 
guado, que a Historia nacional ficará por muito tempo no 
estado em que estes dois sábios a deixaram. > Pelo trabalho 
d'esles dois escriptores se vê que apuraram datas, rectifi- 
caram alguns factos secundários, compilaram sem nexo, 
deixando quando muito monographias subsidiarias; sobre 
isto continua Herculano : tNão podemos deixar de lamen- 
tar, que os dois modernos luminares da Historia portugue- 
za ... se tenham visto obrigados a apurar datas e factos po- 
líticos . . . gastando em indagações de tal natureza aquelle 
tempo, <jue com mais proveito teriam talvez empregado em 
tirar a lume a substancia do passado, isto é, os factos rela-' 
tivos ao progresso da civilisaçSo entre nós, etc.» Entre este 
espirito compilador, que Herculano lamenta, e as especula- 
ções philosophicas de Viço e de Herder, não se conhecia 
entre nós meio termo : «Bem persuadidos estamos de que 



92 HISTORIA. DO ROMANTISMO EM PORTUOáJ. 

I 

um ou dois bomeos não bastam para coUigir tudo o que é 
necessário para que se baja de escrever (cremos que tarde 
será) uma Historia de Portugal, segundo o systema de Viço 
ou Herder: uma bístoria da civilisaçâo e nao unicamente 
das bataibas, de casamentos, de nascimentos e de óbitos ; 
uma historia que alevante do silencio do passado as gera- 
ções extinctas, « que as faça, (para dizermos tudo em bre- 
ves palavras) viver diante de nós.» Decididamente Hercu- 
lano nao formava a minima ideia da concepção bistorica de 
Yico e de Herder, que se funda unicamente sobre as causaes 
dos factos; e por isso condemnando os velbos bistoriado- 
res portuguezeSy diz que o único manancial bistorico está 
«nas chronicas dos diversos institutos monásticos. Sabemos 
que gravissimo peccado é n^este século de luzes fallar em 
chronicas de frades; mas d'isso pedimos humilissimameute 
perdão.» E depois de poetisar a missão do monge, prose- 
gue: «Podiamos levar mais longe as reflexões acerca da 
utilidade bistorica d'esses annacs das corporações religio- 
sas, qm ignorantes presumidos despres^m, porque para el- 
les só têm mérito palavras ocas de philosophantes;i^ * etc. 
Tal era o critério bistorico que em 1839 se estava formando 
para succeder ao espirito compilador e estreito de João Pe- 
dro Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz. A ideia da histo- 
ria moderna não foi comprebendida por Herculano como 
uma sciencia ; tendo somente em vista levantar do pó as 
gerações extinctas visou ao eíTeito dramático, preferindo o 
Romance histórico á própria historia: a Vá aqui mais. uma 
humilde opinião nossa. Parece-nos que n'esta cousa chamada- 
hoje romance-historico, ha maior historia do que nos graves 
e inteiriçados escriptos dos historiadores. Dizem pessoas en- 
tendidas que mais se conhecem as cousas escossezas lendo 
as Chronicas de Canongate de Waller Scott, do que a sua 

1 Panoramãt t. iii, p. 6. 



IBBIA «BBAZ. 98 

IUstoria de Escossia. Também ha qaem diga que no mais 
grado quarteirão de historias de França, escríptas até o 
^ODO de 1800, d3o tinha apparecido ainda a época de Luiz 
H.* como appareceu depois na Notre Dame de Victor Hu- 
go.» * Em outro logar exprime Herculano esle contra-senso 
com maior fervor ainda : ^Novella ou Historia, qual d*estas 
duas cousas é mais verdadeira ? Nenhuma, se o aflírmar- 
mos absolutamente de qualquer d'ellas. Quando o caracter 
dos indivíduos ou das nações è sufficientemente conhecido, 
quando os monumentos, as tradições, e as chronicas dese- 
nharam esse caracter com pincel firme, o novelleiro pôde 
ser mais yeridico do que o historiador; porque está mais 
habituado a recompor o coraç3o do que é morto pelo cora- 
ção do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo 
que passa. Então de um dito ou de muitos ditos elle deduz 
um pensamento ou muitos pensamentos, n3o reduzidos á 
lembrança positiva, não traduzidos, até, materialmente; de 
um facto ou de muitos factos deduz um affecto ou muitos 
affectos, que se n3o revelaram. Essa é a historia íntima dos 
homens que já não são : esta é a novella do passado. Quem 
sabe fazer isto cfaama-se Scott, Hugo ou De Vigny, e vale 
mais e conta mais verdades que boa meia dúzia de bons 
historiadores. — Porque estes recolhem e apuram monu- 
mentos e documentos, que muitas vezes foram levanta- 
dos ou exarados com o intuito de mentir á posteridade» 
em quanto a historia da alma do homem deduzida lógica^ 
mente da somma das suas acções incontestáveis não pôde 
falhar, salvo sé a natureza pudesse mentir e contradizer-se, 
eomo mentem e se contradizem os monumentos^» * 

Até aqui vemos 'a falta de um critério sciehtifico da his<- 
toriá ; outras descobertas f undamentaes já tinham sido fei- 



1 Panorama, t. ni, p. 306. 

2 Panorama^ t. it, p. SI3. 



dé HISTORIA DO |U>aUKTISMO BM POBTUGAI. 

tas na Europa, e que nos revelavam em toda a sua luz â 
Edade Media, taes como a importaneía dos manuscriptos 
dos Trovadores e dos Troveiros, do lyrisrao provençal e 
das epopêas gallo-frankas, e sobre tudo o problema da for- 
mação das línguas novo-lalioas. Em Portugal nada d'ísto 
havia penetrado ainda. Os dois luminares da hisloria por* 
tugueza, João Pedro Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz, 
acreditavam que a língua portugueza não tinha connexão 
histórica com o latim e era uma derivação do celta ; esta- 
vam com o velho sonho de Bullel. João Pedro Ribeiro em 
uma polemica com Frei Fortunato de S. Boaventura (1830) 
escreve : «Quanto á auctoridade ... do conselheiro António 
Ribeiro dos Santos, principio por dizer, que sempre o res- 
peitei no numero dos philologos do meu tempo ; mas não 
foi por cegueira, antes par convicção que segui a sua opi- 
nião contra o commum^ negando á nossa lingtm a filiação 
com o latim.r* * Pela sua parte Frei Francisco de S. Luiz 
publicava em 1^37 a Memoria em que se pretende pro- 
var que a Língua portugueza não é filha da Latina. Con- 
frontemos estas duas datas, 1830 e 1837 com os grandes 
trabalhos da philologia românica ; em 1827, Frederik Diez 
havia publicado o seu livro sobre os Trovadores^ onde lan- 
çou as primeiras bases inabaláveis para o problema da for- 
ms^o das linguas românicas, e logo em 1836, começou a 
publicar essa obra extraordinária a Grammatica das Lin- 
guas românicas, onde applicava ás linguas novoiatiuas o 
«riterio comparativo de Bopp. Muito depois doestas datas> 
Herculano, evitava os celtomanos, e acosta va-se a outra by* 
pothese gratuita de Bonamy sobre a desmembração de ura 
dialecto geral vulgar que coexistia a par do latim» 

Quiinto ao confaecimentQ da poesia da Edade Media, aj 
publicações de Raynouard não foram conhecidas em Porto- 

^ Reflexões á bretissima respoila^ p. 6. 



ZDSIA OSSÁX. 95 

gaU nem tao poaco se estudou o GaDcioneíro publicado por 
Lord Stuart, onde estava o principal monumento da poesia 
lyrica portugueza do século xn a xiv. Tal era o estado dos 
conhecimentos históricos n'este período do Romantismo; 
era portanto impossivel comprehender a importância de uma 
tradição nacional; e o poder trazer a litteratura ás fontes 
da sua originalidade. Herculano reconhecia esta verdade, 
quando escreveu: «Ao passo porém, que a Arte se recon- 
struía, reconstruia-se a Hístoría. Âo lado de Goethe e Schil- 
ler, apparecia Herder e MuHer ; ao lado de Hugo, Guizot e 
Thierry.» * 

b) Estado das ideias philosophigas sobre arte 

Em Portugal reinou sempre e de um modo absoluto uma 
só escola philosophica ; a doutrina de Aristóteles no seu 
período averroista preponderou desde a fundação da mo- 
narcbia até ao tempo em que a instrucção publica foi en* 
tregue aos Jesuitas ; houve apenas um intervallo de idea- 
lismo platónico ^n alguns poetas do século xvi, e caimos 
outra vez sob a férula aristotélica do periodd^ aZ^a:andrâ/a. 

As reformas philosopbicas de Pedro Ramos, Bacon, Des'^ 
cartes, Gassendi, as novas theorias de Ntcole, Malebran- 
che, Mariotte, Thomasio, Lock. Le Clerc e Wolfio não po- 
deram penetrar em Portugal, como vemos pelos grandes 
esforços de reacção da Escholastica do Gollegio das Artes. ' 
Dom João V escreveu por via do Conde da Ericeira para 
Inglaterra a Jacob de Castro Sarmento para que traduzisse 
as obras de Baoon, que elle propuzera ; em 1735 veiu para 
Portugal a primeira folha do Novum Organum, mas os que 
tinham o monopólio da instrucção obstaram a qoe se abrisse 



1 Manorias do ConservaíoriOy p. 135. (Aan. 18 12.) 

2 Compendio hisiorico do estado da Universidade, n.« ICS. 



96 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAIi 

este novo borisonte á iDtelligencia. Ficámos amarrados ao 
poste da Lógica Barreia ou da Lógica Carvalha ; tal era o 
campo que encontrava em Portugal a doutrina da Estheti- 
ca, que desde ScheUing influirá no esplendor da litteratura 
allema, e levara á verdadeira comprehensão da antiguidade. 
Em i835 é que se publicou pela primeira vez uma tenta- 
tiva sobre Philosophia da Arte, com o titulo de Poesia: Imi- 
tação — Bello — Unidade; * infelizmente o seu auctor tinha 
recebido uma educação fradesca, e a Logica-Carvalha com 
grande custo se empaveza com a nomenclatura da philoso- 
phia allemâ. Esta prioridade pertence a Alexandre Hercula- 
no, que depois veiu a possuir-seda mais entranhavel aver- 
são ás especulações metaphysicas. Em todo o caso elle 
percebeu, que o Romantismo partia de uma renovação philo- 
sophica. Escreve Herculano : «Na torrente de opiniõeê con- 
trarias sobre a critica litteraria que na presente época com- 
batem, morrem, ou nascem, também nós temos a nossa : e 
vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos princi- 
pies em que se fundam os differentes systemas procedem 
essas questões que se têm tornado intermináveis talvez por 
esse único m€tivo. ' O génio impellido a produzir no meio 
de ideias vagas e controvertidas sobre as formas, as condi- 
ções da poesia, julga que todas ellas são indífferentes e des- 
vairado se despenha ; e o engenho dominado pelos precei- 
tos, que muitos séculos por assim dizer saniiflcdram, con- 
trafaz e 2ipouca as suas producções, temendo cair n^aqoillo 
que julga monstruoso e absurdo. Tal é geralmente o estado 
da litteratura. —Os que conhecem o estado actual das lét- 
trás fora de Portugal, na frança, na Inglaterra e ainda na 
Itália, sabem ao que ^Iludimos. Trememos ao pronunciar 
as denominações : de 'C{dâ$tco« e Ramauiicos, palavras inde- 
finidas ou definidas erradamente^ que somente tém gerado 

^ Repositório liiterúriOj n.® 7. 



IDEIA GBSAL « 97 

sarcasmos, insultos, misérias, enenhoma instrucçSo ver- 
dadeira, e que também teriam produzido estragos e mor- 
tes como as dos Nominaes e Reaes se estivéssemos no xvi 
século. Infelizmente em nossa pátria a Litteratura ha já an- 
nos que adormeceu, ao somados gemidos da desgraça pu- 
blica; mas agora ella deve despertar e despertar no meio 
de uma transição de ideias. Esta situação é violenta e muito 
mais para nós que temos de passar de salto sobre um longo 
praso de progressão intellectual para emparelharmos o nosso 
andamento com o do século. Se as opiniões estivessem de- 
terminadas, o mal ainda não seria tão grande; mas é n'um 
calios que nos vamos mergulhar, do qual; nos tiraremos 
talvez muito depois de outras nações.» * Ao escrever o seu 
estudo de estbelica, Herculano tinha em vista: «estabele- 
cer uma Iheoria segura que previna tanto o delírio d'uraa 
licença absurda, como a submissão abjecta que exige certo 
bando Utterario.» Vejamos essa Iheoria através de uma lin- 
guagem incongruehte de quem não sabia proseguir uma ideia 
e muito menos formulata; Herculano considera o Bello o 
objecto da poesia; considera-o um principio absoluto, cujo 
critério é a metaphysica, e ao mesmo tempo redul-o a uma 
mera relação, por isso qiie depende da nossa existência : 
«Para nós a soa existência depende da nossa; e a mcta- 
physica influirá sempre em qualquer- syslema que sobre tal 
objecto venhamos a adoptar. i> Depois doesta contradicção^ue 
revela uma extranhesa dos processos* philosophicos, cae em 
outra ainda mais flagrante: diz que sem philosophía as ar- 
tes não florescem, e dá essa philosophia como càúsa da flu- 
ctuaçSo^dos prihcipiosc *Sem levar o facho da philbsophia 
ao seio das èrtes, seU ekaiDinar â essência d'e$tas, as theo- 
rias formaes ficam ^sem fundamentos, e é justamente o tiue 
tem acontecido. E quando aqui ou acolá se tem tentado sob- 

* Refosiiorio litlerario, p. 84. . n - {;• • . / 

7 



98 mSTOBU. DO BOMAITTISMO EM POBTUQAI. 

pôHhe esses alicerces, é á philosophia que os tem ido bus- 
car. Este metbodo é quanto a nós o inverso do que se de- 
via seguir, e um grande mal d'abí resultou: a flucluação 
dos principios e consequentemente dos juizos críticos.» Como 
entender estes três- períodos que se repugnam? N'esta tre- 
pidação não podendo avançar; agarra-se ás velhas contro- 
vérsias de Boileau e Perrault, de Lamothe, Fontenelle e 
Huet, e braveja colérico porque Boileau comparou o Tele- 
moco ao romance de Theagenes e Charíclea, de Heliodoro; 
por fim faz-se árbitro da polemica dos antigos e modernos 
do secuto xvn, coa a phrase conciliadora: <Nós devemos 
em grande parte aos antigos o que sabemos — seria uma in- 
gratidão negal-o. Elles crearam as lettras e as levaram a 
um ponto de esplendor admirável ; mas por as crear e aper- 
feiçoar não se deve concluir, que acertaram em tudo ou 
que tudo sabiam.» O modo de discutir e de uma ingenui- 
dade primitiva; sustenta que o Bello é absoluto, porque: 
«O europeu, o cbim, ó hottentote sentirão egualmente que 
.0 Apòtlo de Belvedere é bello.» E.pela contraria, que não é 
relativo, porque se podia então equiparar os Luziadas ou 
a Ulyssea, diO Alfonso ou ao Viriato trágico: «Se dissermos 
que o Bello é relativo e resultado do no^so modo de vêr, 
da relação particular dos objectos comnosco, da harmonia 
ou desharmonia dos factos com as nossas ideias moraes, 
n'esse caso não poderemos afiQrmar que os Luziadas ou a 
Ulyssea sejam absolutamente superiores ao Alfonso ou ao 
Viriato trágico. n Depois de exaltar a poesia cejeste dos 
hymnos soíUarios de Lamartíne, o terror, delicioso de Monti, 
a anciedadq que causa a despedida de Picolominí de Schil- 
ler, •conclue:^«Jal é o Bello— para quem o julga em sua 
modalidade necessário e absoluto; uipa ideia opposta repu- 
gna e Dosaffligec nós queremos que tQdos.os teo^pos^ to- 
dos os homens o julguem e gosem como nós, e diremos 
sem hesitar— o que não fôr do nosso sentir ou carecerá de 



IDBIA OBBAL ^9 

goslo OU O terá pervertido. — » Herculano formava em vista 
d'isto uma ideia do absoluto metapbysico pelo absolutismo 
politico. 

Depois veado que precisava de phraseologia metaphy- 
sica» aproveita-se da nomenclatura de Fichte para mos- 
trar : «que o belio das imagens, o bailo chamado physico 
Dão existe nos objectos porque a unidade e o movimento 
da sua existência senam destruídas; . . . É ptis em nós, no 
mundo das ideias, que o devemos buscar — Um typo inder 
pendente do que nos cerca, deve existir, com o qual a fa- 
culdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem 
particular. Eu, Não-eu, eis o circulo das existências, os dois 
nomenos, fora dos quaes nada co'ncebemos — mas nós ad- 
miltimos o necessário e o uno sem o encontrarmos no que 
nos rodeia — cumpre pois que elles residam em nós como 
formas da intelligencia.» Como o próprio Herculano o afiSr- 
mou exemplificando com o Apollo de Belvedere, o Holten- 
lote também ' dirige o seu juizopor este nomeno do Eu e 
Não-eu, A aversão com que Herculano ficou á metaphysica 
íjllemã, prova que elle jogou inconscientemente com estas 
phrases, e que nunca mais viu nos profundos trabalhos de 
abstracção senão uma reproducção d'este seu capricho. 

Herculano applica esse typo do bello á critica da mytho- 
logia: «Com effeito ondQ exiistem as ficções dos antigos 
monstros da mythologia? Quem viu um homem ou um ca- 
vallo aliado como, o Amor ou o Pegasso? — Nem se diga 
que a crença popular Ihea tinha dado existência; isto são 
palavras que soam, mas sem sentido ... Se a phantasia pro- 
duzia esta^çrejaçô^.s, ,ell%s não foram knitadas, logo não tem 
niodp]9,;)pg9in9pM$^q.,|}^llas; etc.^ Quem cpncebia líssim a 
creação poética d^s mytbologias, nunca* vfra horisontes mais 
vasto$ do que aá explicações de um padre-mestre de sele- 
cta, e isto qua^do Creuzer, Voss e Lobeck já tinham fun- 
dado a sciencia das mytbologias compartidas. 



100 HISTOBIA DO BOHAKTISMO EM PORTUGAL 

Depois- de todo este p^ndemonium, diz: «Tendo atè aqui 
procurado derribar, cumpria edificar agora; etc.» O que 
elie vae edificar tem em vista — conformar uma theoria ra- 
soavel da unidade com os grandes líielhoramenlos litlera- 
rios. A theoria rasoavel resume-se nos seguintes aphorismos 
sem alcance: 

«A Poesia é a expressão sensivei do^Bello, por meio de^ 
uma linguagem harmoniosa. 

«O Bello é o resultado da relação das nossas faculda- 
des, manifestada como jogo da sua actividade reciproca. 

«A condição pois do Bello é a concordância da variedade 
da ideia particular com a unidade do geral; etc.» 

Depois vae applicar estes princípios á Ilíada, Eneida , Or- 
lando FuriosOy Luziadas e Jerusalém Libertada, por ura modo 
que chega a causar pena: «Se assim examinarmos toda a 
Iliada, acharemos sempre a ideia de gloria pátria servindo 
de nó a este admirável poema que hoje se despresapor moda, 
crendo-se que n'isso consiste o Romantismo. i» O juizb sobre 
Virgílio é «que sabia mendigar as migalhas de um tyranno 
e nutrir ideias generosas.» A upidade da Eneida ficou pre- 
enchida desde que Eneas «escondesse o covil de Rómulo- 
com o seu escudo celeste, o fim da sua existência eslava 
satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades buscar 
as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som 
accorde com a ideia que o dominava.» A applicação da theo- 
ria èslhetica de Herculano 2(0s Lmiadas dá esse logar com- 
mum de todas as rhetoricas: «Os 'iwzíadas são o poeiíia 
onde mais apparece a necessidade de recorrer a' uma idíeia 
independente da acção para achar a ímprescriptívbl «máo- 
de...Mo íoiiiqoaoto ú »nós,' o desbdtírkiáréntdUà Inidiá'] (Júé 
produziu este poem'a; foi sim a gloria nacional.» De Ariòslo 
e de Tasso íimita-se a diídrque cantam, um a cavallaria, o 
outro as cruzadas, isto é «o espirito huúaàno mòdiftcado de 
um certo modo» p «a réplica da Cruz á terrível pergunta 



IBSIA GEBÁL 101 

do islamismo.» Terminando este temerário esforço de qae* 
rer pliilosophar sobre art3, Herculano remata com esta va- 
cilante pergunta: «Mas pretendendo destruir o systema da 
escola clássica^ não somos nòs Rtffnantícos ? Alguém nos terá 
por tacs. . . .» E reclamp^; ^não sómoSf nem esperámos séUo 
nunca,T> 

Era com esta segurança de doutrinas que o Romantismo 
fazia ecco em Portugal; como podia ser comprehendido este 
facto esplendido do nosso secuJo, se a uma completa ausên- 
cia de trabalhos históricos accrescia uma incapacidade para 
a minima especulação pbilosophica? 

c) Renascimento de um esp^ito nacional phantastico 

Em todos os povos ondosée deu a renovação litteraria do 
Bomantismp,.yemos q espirito nacional despertadp pela nova 
concepção da Arte influir na commoção politica, no esforço 
para a liberdade. IfcrcqlafíQ, que esteve fórade Portugal 
na ^ppca da segunda emigração^ em 1831, r^ocmhece» esta 
verdade: «A revolução litteraria que a geração actual in- 
tentou e concluiu^ não foi. instincto; foi o resultado de lar- 
gas cogitações; vçm com as revoluções sociaes\ e exjdica-se 
pelo mesmo pensarrm^tQ deslas^Vi ^ Portugal tdmbem atravesr 
sou a sua crjse politica, abolindo o díVeito divino &ymboli- 
sado na divisfi do tbroqQ.0!aUar9 etredigindo a sua Carta 
constitucioQr^I, conforme a imitação .ingleza. Esta phase po- 
litica precedeu o çiovií^ento litterarío; o apparedmento do 
Romantismo entre, jió^ foi um esforço artificial. Herculano 
descrpve em poucas liQbaiS e&ta epoCa de lueta; cA época 
de 1833 foi a única época- nâvqluciotíaria porque tem pas- 
sado Portugal n'este século.. Kem antes nem depois qua- 
dra tal epitbeto ao$ succ^ssos politico» do nosso paiz; por- 
que só então foi substituída a vida interina da sociedade 

1 Elogio histórico de SebastiSo Xavier Botelho, (Hem. do Cons.) p. 31. 



102 HISTOBIA DO BOMÁNTISMO EM PORTUGAL 

por uma nova existência. As forças âociaes antigas desap- 
pareceram para dar logar a novas forças ; destruicam-se 
classes ; crearam*se novos interesses que substiluiram os 
que se aniquilaram; os elementos políticos mudaram de si- 
tuação.»^ Infelizmente, esta revolução partiu da classe me- 
dia, e as reformas decretadas implantaram-se pelo seu lado 
exterior. Portugal entrava sob a bandeira de uma revolução 
liberal em uma outra pbase económica da sua historia; 
tendo sempre vivido sem uma industria própria, susten- 
tou-se, fazendo a natural desintegração dos bens enor- 
mes das ordens religiosas. As garantias liberaes jazeram 
no papel; o habito de viver spb a tutella do despotismo 
ficou no animo publico e vê-se a cada momento na pre- 
potência ainda dos mais pequenos fonccionarios. Póde-se 
aflQrmar que a revolução que triumphou em 1833 foi ex- 
tranba ao espirito nacional, que estava atrophiado, indiffe- 
rente á lucta de dois bandos, sem comprebender mais do 
que uma simples questão de logradouro que se disputavam 
dois irmãos. As reformas decretadas por um Mousinho da 
Silveira foram extraordinariamente organisadoras ; mas o 
espirito nacional não existia, o povo estava mudo; o enthu- 
siasmo pela liberdade foi substituído pela avidez da rapina 
no momento das inflemnisaçôes. Os que haviam regressada 
do estrangeiro, traziam oseitementos bastantes para conhe- 
cerem o nosso incalculável atraso. Fizeram-se tentativas in- 
dividuaes para levantar' o nosso nível intellectual. 

O estado de atraso a que chegou Portugal sob o regimen 
do cesarismo e do obscurantismo religioso, vé*se por esta 
conrissão feita em' 1837 pela Sociedade Propagadora dos 
Oophecimentos úteis: «A nação portugueza, cUmpre confes- 
sal-Oy è uma das que fiienos tem seguido este movimento 
progressivo da humanidade. O nosso povo ignora immen- 

^ ibúfem, p. 83. 



IDBIÁ OEBÁL 103 

sas cousas, que muito lhe importaya conhecer, e esta falta 
de instrucção senle-se até nas classes que pela sua posição 
social, deviam ser illustradas. Entre os mesmos homens da* 
dos ás lettras se acha falharem repetidas rezes as noções 
elementares de tudo que nao è objecto do seu especial es^ 
tudo, e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelie 
caracter de unidade, que ganha diariamente no meio das 
outras nações.» * O primeiro esforço para sairmos doesta 
atonia, tentou-se no Porto, inaugurando-se em 10 de De« 
zembro de 1833 a Sociedade das Sciendas medicas e de 
Lifteratura; só em i 5 de Outubro de 4834 é que se deu 
á publicidade o jornal que representara os trabalhos d' essa 
associação. Entre os assumptos escolhidos para serem tra- 
tados na parte litteraria, incluiase: «Um Poema escri- 
pto em lingua portugueza com o titulo O Sitio do Porto, 
devendo ser o sr. D. Pedro iv o heree. O poeta pode- 
rá escolher o metro que mais lhe agradar e a divisão do 
poema em um ou mais cantos.» * Sob o despotismo ferre- 
nbo de D. Miguel o povo cantava-lhe hymnos obscenos; 
era a inspiração do terror. No momento cm que se respi- 
rava a Uberdade, não apparecía nenhum impeto espontâneo 
que a glorificasse. Fundou-se em 1836 a Sociedade dos Ami- 
gos das Lettrasy e em 1837 a Sociedade Propagadora dos 
Conhecimentos úteis; tinham ambas em vista fazer resurgir 
o espirito líacional. Procuraram realisar este nobre pensa- 
mento por meios artificiaes, propagando a monomania dos 
livros portuguezes do século xvi e xvn, a que deram o nome 
de clássicos; estabeleceram um purismo affectado na lin- 
gua, renovaram archaismos e bravejaram contraí a corrente 
dos gallicismos ; fabricaran} lendas nacionaes e inventaram- 
nas a bel-prazer; inventaram cantos populares ; protestaram 



1 Panorama, t. i, p. i, 

2 Repontorio, n.» l/ 



104 HISTORIA DO BOMANTISIIO EM PORTUGAL 

contra as ruinas dos monumentos que o governo aUienava 
ou deixava derrocar ; e por fim deixaram-se ir com a ii^ 
dififerença publica e atiraram-se á orgia das ambições do 
poder representativo. A propo.sito do amor que se devia 
aos livros clássicos, escrevia Herculano em 1839: «Assus- 
tam os livros pesados e voluniosos do tempo passado as al- 
mas débeis da geração presente: a asperesa e severidade 
do estylo e linguagem de nossos velhos escriptores offende 
o paladar mimoso dos affeitos ao polido e suave dos livros 
francezes. Sabemos assim quaes s5o os documentos em que 
estribam glorias alheias; ignoramos qiiaies sejam os da pró- 
pria, ou, se os conhecemos, é porque extranbosnol-os apon- 
tam, viciando-os qua$i sempro.Symptoma terrível da deca- 
dência de una mção é este; porque o é,da decadência da 
nacionalidade, a pear de todas; porque tal symptoma só ap- 
parece no corpo soQÍal quando este está a ponto de dissol- 
ver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens 
ao livel dos brutos. Desenterra a Allemanha.do pó dos car- 
tórios e bibliothecas seus velhos chronicões, seus poemas 
dos Niebelungo^ e Minnesingers ; os escriptores encarnam na 
poesia, no drama e na novella actual, as tradições popula- 
res, as antigas «glorias germânicas, e os costumes e opi- 
niões que fQratxi: o «mesmo fazem a Inglaterra de hoje á 
velha Inglaterra, e a França de hojje á velha Franç^a : os po- 
vos do Norte saúdam o ^dda e os Sagas da Islândia, e in- 
terrogam com religioso respeito as pedras runicas cobertas 
de musgos e sumíd^as no âmago das selvas : todas as na- 
ções emflm, querem alimentar-se e yiver da própria sub- 
sistência. E «nós? Reimprimimos 03 nossas, qhroni^tas? Pu- 
blicámos os nos$os numerosos inéditos? estudámos os mor 
numentos, as leis, os usos, as crenças, os livros, herdados 
de avoengos? Não! — Vamos todos os dias ás lojas dos li- 
vreiros saber se chegou alguma nova semsaboria de Paul 
de Kock; alguma exageração novelleira do pseudonymo 



IDEIA OERAL 105 

Micbel Masson; algum libello aDti^ocial de Lameonaís. De* 
pois corremos a derrubar monumentos, a converter em la- 
trinas ou tabernas os logares consagrados pela historia ou 
pela religião . . . E depois se vos perguntarem : De que na- 
ção sois? respondereis: Portuguezes. Callaevos; que men- 
tis desfaçadamente.» ^ 

Pelo seu lado Garrett, reclamava desde 1827 a admira- 
ção dos clássicos: «Ninguém acreditará que é o mesmo 
Portugi\ez em que hoje se ora e escreve, aquella fluida lin- 
guagem de Frei Luiz de Sousa, aquelle idioma tão doce, 
natural e porém riquíssimo, de Frei Thomé de Jesus; nem 
os períodos estropeados e boursouflés com que hoje se ar- 
ripiam os ouvidos, são nem sequer longes d'aquellas ora- 
ções tão redondas, tão gentilmente^ voltadas do nosso Lu- 
cena, Esta exaltação desvairada, carece de correctivo . . . 
Depois o estudo dos clássicos é o complemento do remédio ; 
mas quem se atreverá a receital-o? Já por ahí me chama- 
ram antiquário e Affonsinlx^ ; que tanto falto em vidas de 
santos ç chronicas de frades ique ninguém pôde ler. Mas 
para quem assim me criticar^ ^hi vâe a resposta: Não es- 
iudeis noite e dia essas chronicas de frades com que zom- 
beteaps; mas a vossa mascavada linguagem morrerá com- 
vosco e cq> m^ia dúzia de bonecos e bonecas a quem agrada, 
porque mais não entendem.» * Pela sua parte Castilho to- 
mou a. sprio esta superstição, e toda a sua vida foi sacrifi- 
oadar á vernaciilidadei; ,p9i*a .0lle a arte só teve um fim, o 
purismo Fhelorioo» por oqde.íifleriu sempre os talentos dos 
escriptores. . . 

Apoz a questão do^ clássicos levantaram os puristas a 
questão dos galUciisn^os: cA leitura frequente dos livros 
francezes, prosegue Herculano, tem corrompido a nossa lin- 



1 Panorama^ t. iii, p. 196. 

2 O Chronistaj vol. i, pag. 67. 



106 HISTORIA DO ROMANTISMO SM PORTUGAL 

guagem por tal maneira, que já hoje (1837) é impossível 
desinçal-a dos gallicismos . . . essa liç3o dos auctores fran- 
cezes poz em esquecimento os portuguezes . . . pela falia de 
conversar os escriptores nacionaes encurtámos e empobre- 
cemos as formas e os elementos do discurso. Sabemos que 
muita gente escarnece dos que amam a pureza da lín- 
gua; . . .» E descrevendo os clássicos: «estes versam mui- 
tas vezes sobre matérias áridas e pouco importantes para 
este século. Contam milagres de santos por vezes incríveis, 
descrevem usanças monaslícas, pregam sermões sem unc- 
çao, e quando muito pintam pelejas dos nossos maiores em 
que ordinariamente já de antemão lhes sabemos das vicio- 
rias.» * 

Garrett também attríbue a falta de originalidade da lit- 
teratura portugneza á imitação franceza: «Vulgarísou-sc 
esta lingua entre nós, tomou-se por molde è exemplar para 
tudo; a nossa perdeu-se, e o modo, o espirito, o génio, 
tudo o que era nacional desappareceu, e tio rapidamente 
como por encanto. — Este nimio respeito e consideração 
em quô tomámos pois os Portuguezes a litteralura france- 
za, damnou e empeceu a nossa. D'ahi me parece que se 
devem empenhar todos os qiie amam a litteralurá portu- 
gneza e desejam seu augmento, em estudar também a das 
outras nações, coofibinal-as umas com outras, sem= fazer es- 
cola de nenhuma, aproveitando de todas, mas sem delir oa 
confundir o caracter da nossa própria' e nacional.» ' Tanto 
a causa do mal como o remédio proposto, provam a tae- 
nhuma comprehensão que então havia do que era caracter 
nacional. Esse carácter faltou aos trovadores portuguezes 
do século XII a xiv, aos poetaé palacianos do século xv, aos 
quinhentistas, aos seiscentistas e aos árcades; o mal que 



1 Panoramay t. i, p. S2. 

2 Chronista, vol. i, p. 16 e 17. 



IDEIA GERAL 107 

se lhes tornoa patente em 1827» tinha acompanhado sem- 
pre a lítteratura portagueza. Onde estava pois a causa d'esta 
constante falta de originalidade? Disse-o Wolf: na falta de 
uma base de tradiçSes sobre que se desenvolvessem as crea- 
ções individaaes. Por isso em vez de estudarem essas tra- 
dições, os novos escriptores foram imitar as outras littera- 
turas para contrabalançarem a influencia da franceza: «o 
único, ainda que incerto correctivo que vejo a este mal, ó 
o fomentar a applicaçSo ás outras litteraturas e idiomas ; 
por onde dividida a attenção, e quebrada a força dos per- 
stigios, revertamos a sentimentos mais rasoaveis e menos 
exclusivas opiniões. Assim poderá formar-se uma Escola 
mais eccietica; e a língua e a lilteratura pátria nao colhe^ 
râo pouco fructo se assim se conseguir.» * 

Por isso que os livros dos escriptores nacionaes não eram 
lidos e o povo estava sem tradições, os escriptores trata- 
ram de inventar lendas e cantos populares. Ignacio Pisarro 
de Moraes Sarmento escreveu um Romanceiro pelo gosto 
do de Segura, mas sem dissimular o artificio litterario ; o 
mesmo fez Serpa com os Soldos ; Herculano inventou a tra- 
dição do convento da Batalha onde também forjou um canto 
popular dito pelos reis Magos, que apresenta como lôa 
'ícòra mui prima de certo leigo afíhmado jogral d^aquelle 
tempo;)» * Bellermann, no seu Portugiesische Wolkslieder und 
Romanzm, apesar do seu profundo senso critico, acceitou 
como popular esta contrafacção de Herculano. Este génio in- 
ventivo que levava os escriptores do século xvi a falsifica- 
rem os monumentos históricos e poéticos, dava-se agora 
<iom maior força n'esta supposta renascença do espirito na- 
cional; o árcade Castilho fabricava um Auto pelo gosto da es- 

<iola de Gil Videdté, que se dizIá ter sido escripto nà par- 



\ ÍWd, p. 239. 
^Panorama, t. iii, p. 101. 



108 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 

tida de el-rei D. Sebastião para Africa, pelo guarda-mór 
da Torre do Tombo António de Castilho. Pelo seu lado 
Garrett, contrafazendo a poesia popuíar, como se vô no pri- 
meiro volume do seu Romanceiro, dizia no frontispicio da 
romance o Arco de Sant'Anna, que achara essa memoria 
em um manuscripto do Convento dos Grillos na cidade do 
Porto. 

De todos estes inúteis esforços só se conseguiu divulgar 
por via do Panorama, jornal litterario imitado do Penny Ma- 
gazine e que se publicava em numero de cinco mil exem- 
plares,* os poucos factos da historia jportugueza, . necessá- 
rios para se crear essa linguagem 'emphatipa e patriótica 
de todos os livros, de todos os discursos, de todas as poe- 
sias, o berço de Camões, a espada de Affonso Hefiriqfm e do 
Condestavel, o estandarte das Quinas, as terras <jío Gama e 
de Pacheco, as façanhas dç^s , ^Ib^iquorques e D. João de 
Castro, o século do venturoso D. Manoel, os gafeõçs da ín- 
dia, e os mares nutica d' antes, nqvegado^, . ^ renascenpa do 
espirito nacional limitou-se a eflja .^itilaç^o exterior, que o 
burguez facilmente adoptou para expr^e^são do seu patrio- 
tismo e como esconjuro eloqu.epteip^defiíiitivO/Çontríf a poli- 
tica de iberismo. . , . » . 

Edgar Quinet. no 3W eloquente protesto conti;^^ a inter- 
venção estrangeira chamada por D. Maria ii pí» 1847 con- 
tra Portugal, explica a laulyi^ solidarie^íiclç entre as tranfor- 
mações politicas e a, renovação litter^ria; «PQctugal nSo se 
contentava com qma imitação estéril, cpmo/sp jpjga; o re- 
nascimento politico fpndava-se sobre o r^n^isci^^ento do pró- 
prio espirito portfiguez. N'este paiz, quç. (ieijíára de pensar 
havia dois séculos, fim^ vida imprevista. brilhava em obras 
inspiradas pelo amqr e pel£| tradiçãq nacípqal. Numerosos es- 
criptores surgiam, que todos á uma fortaleciam o seu génio no 

' Panorama, t. i, p. S3 ; t. ii, p. 1. 



IDEIA GEBAL 109 

mesmo sentimento da pátria restaurada. Uma côr de indepen- 
deDcia bastara para dar ás almas energia ; a civilisação morta 
levantava-se. Quem o acreditaria, se não fosse bem notó- 
rio? os últimos quinze annos- produziram mais obras origi- 
naes do que os dois séculos passados; e, segundo a ex- 
pressão de uma homem cuja auctoridade ninguém negará, 
(Almeida Garrett) nunca se vira no espirito publico um mo- 
vimento tão profundo, um esforço tão sincero, uma espe- 
rança tão viva, uma emoção tão verdadeira, uma inspiração 
tão indígena desde a época dos Luziadas.i» Em seguida Qui- 
nei explica a rasão do movimento: «Se alguma vèz houve 
movimento nacional, era o que se operava em plena clari- 
dade. O escriptor conspirava nos seus livros, o deputado na 
sua cadeira, o povo no fundo das províncias. Quando está 
assim feito o accordo entre a, intelligencia do pequeno nu- 
mero e a consciência de todos, não é difficil preVêr as con- 
sequências.» E condemnando então a intervenção armada 
da Hespanha, Inglatetra e' França contra o levantamento 
nacional que repellia o absolutismo de D. Maria n, exclama : 
«A nação queria reviver; a rainha acha mais legitimo o 
governar um cadáver.» * De facto, a vida moral da nação 
acabou depois que a làonarchia bragantina chamou para se 
manter no arbítrio 'a intervenção estrangeira. 

As obras de Garrett, concebidas n'este periodo de trans- 
formações politicas em que revivesceu a nacionalidade por- 
tugueza, inspiram-se dos sentimentos e agitações do mo- 
^^lilo, e por isso têm um certo relevo de realidade. A tra- 
gedia de Cadão liga-se ás aspirações retolucionarias de 1820, 
irando 8ç,pr/)i:Íamo^í.Q principio da soberania nacipnal; no 
^n;o''dr«áteíi^'ylfe>íei|:íG«'^pelt-'eombalia a reacção clerical, e 
S6guiido ouVimQS*(Jízêr1íí|zia ino typò' do feíspo a satj^aj^e 
WFraiiciscO'*de S. Luiz; no Alfageme de^Santa/rem, ti- 

. * 

^ Oòras compie/aí, de Edgar Quinei, t. x, p. SB a 61. 



11 ' HISTORIA DO B0MANTI8UO EM PORTUGAL 

rava o movknento dramático das paixões que se debatiam 
em 1842 entre os setembristas (partidários da soberania 
nacional) e cabralistas (partidários do favoritismo do paço, 
ou da realesa por graça de Deus). * 

§ 6. CONSEQUÊNCIAS C0NTRAD1CT0EIA8. — DepoiS dO qUB 

temos yisto acerca das condições em que estávamos para 
abraçar o Romantismo, conclae-se que, tanto pelos Iraba- 
lhos históricos da Edade Media, como pelas especulações 
philosophicas sobre Arle e Litleratura, como pela vitalidade 
do espirito nacional, éramos incapazes de comprehender 
esse movimento. Os mesicos escriplores, que primeiro pre- 
sentiram a necessidade de romper com a tradição arcadica, 
trepidaram no seu intuito, e vociferaram contra o Roman- 
tismo; tanto em Garrett como em tíerculano, as palavras 
de conderanação, os protestos de respeito aos modelos con- 
slituidos estSo em contradição com as obras. Herculano rea- 
gia contra a auctoriíiade da tradição romana, do mesmo 
modo que as litteraturas modernas estavam reagindo: «fio- 
wa, que viva e. possante não alcançara subjugar inteira- 
mente este cantinho da Europa, cadáver já profanado pelos 
pés de muitas raças barbaras, conquistou-nos com o esplen- 
dor da sua civUisação que resurgira triumphante. Netos dos 
Celtas, dos Godos, e dos Árabes, esquecemornos de todas as 
tradições d' avós para pedirmos ás cinzas de um império morto 



1 No. n.o 64 do Correio Porluguez (22 de fevereiro de 1842) ee lô acerca 
da demora da representação do Alfcujeme de, Santarém, lido em fins de setem- 
bro de 18Í1 : «por informações que teiíiòs por seguras, nos veiíiá noticia que 
o notório dinectqr do ilie^tro ^ 4fi4 d^s (oodes (Emiíe Qoux),40poié de (res 
mezes de ensaios demorados e preparativos que nunca acabavam, fora diter á 
emprezk — que o Alfa^eme de Santarém era uma satyra dos últimos acooteci- 
moAtos que ttitauraram a Carta constilnciooal; qoa os Cartistas ameaçavam 
que baviam de ir pateal-a e insultar o auctor e a peça, se ella fosse á sceoa ; 
o que era forçoso por tanto reiiral-a infallivelihente.» No n.<* 67, Emite Doux 
voiu justificar-se; Garrett era eíTcctivaiflenle setembrista. 



IDEIA QEBAI. 111 

e extranhOf até o génio da própria lingua,y> * Parece que 
quem applicava assitn pela primeira vez a Portugal a lei de 
Schlegel, compreheaderia a liberdade de movimento do Ro- 
mantismo. Não foi assim; Herculano considerava: «a anciã 
da liberdade descomedida, a misantropia, os crimes, a in- 
credulidade dos monstros de Byron são o transumpto me- 
donho e sublime d'este século de exagerações e de renovação 
social. 9 3 Herculano entendia, que a palavra ?omantismo 
era usada <iCom o fito de encobrir a falia de génio e de fazer 
amar a irreligião, a immoralidade e quanto ha de negro e 
abjecto no coração humano j> e por isso accrescenta: vnõs 
declarámos que o não somos, nem esperámos sel-o nunca.^} 
Para Herculano o Romantismo limitava-se: 1.*, a amar a 
pátria, em verso; 2.®, em aproveitar os tempos heróicos do 
christianismo ; 3.°, desterrar os numes gregos substituin- 
do os pela nossa mythologia nacional na poesia narrativa 
e pela religião, philosophia e moral na lyrica. E da intran- 
sigência doesta sua theoria romântica accrescenta: «Nossa 
theoria fora a primeira a cair por terra diante da barbaria 
d'essa seita miserável que apenas entre os seus conta um 
génio — e foi o que a creou — génio sem duvida immenso 
e insondável, mas similbante aos abysmos dos mares tem- 
pestuosos que saudou em sçus hymnos de desesperação: 
— génio que passou pela terra como um relâmpago infer- 
nal, e cujo fogo minou os campos da poesia e os deixou 
áridos como p areal do deserto ; — génio emãm, que não 
tem com quem comparar-se, que nunca o terá talvez, e que 
seus eji^agerado^ admiradores apenas tem pretendido ma- 
caquear. Falíamos de Byron. -7-Qual é, com effeito a ideia 
dominante nos seu3 poemas? Nenhuma, ou o que é o mes- 
mo> um scept|cismo absoluto, a negação de todas as ideias 

^ BÊm. do Coniervatorio^ p. S8. 
* Panorama, l. ii, p. 123. (1837.) 
3 Repotitorio litterario, p. 88. 



112 HISTORIA DO BÓHANTISHO EH PORTUGAL 

I 

positivas. Com um sorriso espantoso elle escarneceu de tu- 
do ... » E depois de muito logar commum de um calholico 
chateaubrianico, Herculano remata : «De sua escola apenas 
restará elle; mas como um monumento espantoso dòs pre- 
cipícios do genro quando desacompanhado da virtude. Dos 
seus imitadores diremos só. que elles falrão com seus dra- 
mas, poemas e canções em honra dos crimes, que á Eu- 
ropa volvendo a si, amaldiçoe um dia esta Htteralura, que 
hoje tanto applaude, Nossa prophecia se verificará, se, como 
cremos, o género humano tende á perfectibilidade, e se o 
' homem não nasceu para correr na vida um campo de lagri- 
mas e depenhar-se na morte nos abysmos do nada. No meio 
das revoluções, na época em que os tyrannos, enfurecidos 
pela perspectiva de uma queda eminente, se apressam a es-' 
gotar sobre os povos os thesouros da sua barbaridade, — 
emquanto dura o grande combate, o combate de séculos 
— os hymnos do desespero soam accordes com as dores 
moraes; mas, quando algum dia a Europa jazer livre e tran- 
quilla, ninguém olhará sem compaixão ou horror os desva- 
rios litterarios do nosso século, y>^ Não contente em con- 
demnar tresloucadamente o trabalho da creaçãô daâ littôra- 
tnras modernas, prorompem lhe dos lábios palavras de ir- 
risão contra os esforços para resolver os problemas da Arte : 
«Rimos hoje com uma paixão insultuosa d'aquélles pobres 
philosoi>hos realistas e nominalistas, que se' travavam em 
combates è derramavam seu sangae por causa das ques- 
tões entre as escolas a que pertenciam; 'mas temos nós por 
bem demonstrado que, dentro talvez de pouco terfipoos 
nossos descendentes náo rirão de nós porqitè seguimos dif- 
ferentes seitas e crédòs 'em Philosophia, erá Lettras, è em Ar- 
tes.» * Depois d'estes anathemas contra o espiHto moderno 



1 ReposUorio lillerariOj p. 88. 

2 Panorama, t. iii, p. 115. 



xiNUÀ as&ix. 113 

HereulaDO continuoa a escrever; mas a sua obra d3o teve 
uma ideia fundamental, não te?e um plano, não educou uma» 
geração. O byronismo, apesar da condemnação £le Hereu'^ 
lano, prevaleceu na litteratura, e importa por isso julgal-o. 
Na evolução do Romantismo, deve*6e a Byron e$sa sub^ 
stituição do sentimentalismo idylico» que se immobilisira 
como expressão da beatitude ehristã, pela linguagem de pro^^ 
testo da consciência contra as violências praticadas peio sys* 
tema de restauração do antigo regimen em toda a Europa; 
Byron rompeu com esse ideal de convenção, de que tanto 
se aproveitava o clericalismo, e deu á poesia um destino 
positivo, fél-a o grito de aspiração da liberdade, no coofli- 
clo do individuo contra a sociedade atrasada, na revolta 
das nações opprimídas contra a coUígação obcecada da di* 
Çlomacia da Santa Allianç-a. A concepção deJGfyroo, chamada 
pelos escriptores académicos satanismo, impressionou pro- 
fundamente as novas intelligeneias, e em toda a Europa foi 
imitada, provocando a manifestação 4e novos talentos. Te- 
ria Byron a consciência ou o intuito de uma transforma- 
ção do ideal poético moderno? Não tinha; ella {>ropi>o era 
auctoritario nasr suas. admirações por Pope e pela antigui- 
dade ; mas a nova concepção provinha de om estado «ce- 
pcicmal da sua personalidade. Sem ser um^genio, acbou-se 
na situação em que se revela a espontaneidade creadora: 
ofifendído no orgull^) pela siia primeira manifâstaçiq intel- 
lectual, offenâido nas mas relaçae3 copoi a sociedade in^esa, 
offendido nos seus sentimentos pela dissolução forçada da 
familia, acha-se como u^ out-law w imundo moral e pro- 
cura equilibrar-se, fortalecef-»se, procurando em si mesmo 
uma noção de justiça. Desde:qM. achou es&a noção sentiu 
a necessidade do protesto, e tewaf*élô(jwhtía da procla- 
mação. Qualquer outro |icídV1^..9ucfiumb»la; o nobre lord 
não podia succumbir, porque tinha na mão uma força que 
actua poderosamente nas sociedad^)>i)rgqe2as^~i(^ dinhei* 

8 



114 mSTOBIA DO BOMAIITISVO Xlf POBTUOAL 

ro. Um homem qae se acba com cem mil libras esterlinas 
de rendimento, adquiria um ponto de Tista original sobre o 
universo; bastava contemplar as paixões, os bomens, as so- 
ciedades por esse prisma tão particular, para compreben- 
der as jicções de um outro modo, por um aspecto impre- 
visto. ByroD pintou as cousas como as viu, e o seu modo dê 
ver assombrou; imitaram-no no traço pittoresco, na phrase 
de imprecação, no desdém superior do desalento, em tudo, 
até na dissolução da vida dissipada, mas não tiveram o ponto 
de vista exclusivo de Byron — o prisma assombroso das cem 
mil libras de renda. É isto o que explica a influencia da 
homem sem ter sido na realidade um génio ; influencia que 
se tornou' doentia para os outros imitadores medianos, e 
que ainda subsiste em Portugal e no Brasil., onde se adoece 
e se morre pela monomania do byronismo extemporâneo. 
Pela sua parte Garrett, nas Lições de Poesia e de Littera-- 
tura a uma joven senhora, também propõe os altos proble- 
mas da esthetica; mas seguindo os moldes pueris das Carias- 
a Emilia; tinha em vista introduzir entre nós — o tão engra- 
çado quanto proveitoso methodo de Demoustier para ensinar 
divertindo»* O insulso idylico de Demoustier é excedido por 
Garrett, que convida a sua Lilia ao prazer, a reclinar-se-Ihe 
no seu peito com os braços enlaçados, nó sacro manto de 
immortaes verdores, fi isto o que elle diz do Belh. Para^ 
nos explicar o fim das Bellas Artes, e sem querer «viajar nos: 
intermundios das abstra^ões cbimeritas,» invoca o: 

Cantor das graças, Demotittier mimoso, 
> Oh tflin^meas Tersos bafejar do Etysiof 
Traie am sorri^ afláfel 
Da toa doce Emilia^ 
Torna coa «Ue amável 
O |Me« esifk «ei» 

Mais linda qae eUa. aais gentil qae Emilia 
t maié sensivel tala • minlili Lilia. 



isnAonuL 115 

£ depois d'isto qae Garrett descreye as diversas escolas 
litterarias: <E estes s3o òs três géneros de poesia mais dis- 
tinctos e conhecidos, oriental, romântico e clássico. O pri- 
meiro è o dos Psalmos, de todos os livros da Biblia, e ainda 
hoje seguido na Ásia. O segundo é o de Millon, de Shac- 
kespear; de Klopstock, e de quasí todos os inglezes e ai* 
lemães. O terceiro finalmente é o de Homero e Sophocles, 
de Virgílio e Horácio, de GamSes e de Filinto, de Tasso e 
de Racine. — Os poetas hespanboes antigos escreveram quasi 
todos no género romântico, ou n'aquelle que outras regras 
nao tem m^ais que a imaginação e phantasia. Mas os moder- 
nos já se amoldaram ao dassico e muitos d^eUes têm progre- 
dido admiravelmente. Dos nossos portuguezes também al- 
guns afinaram a lyra no modo romântico, porém poucos. 

Hoje é moda o romântico^ é finora, 

É tom achar t)88ían melhor qoe Homero, 

Gatar Shackespear, desdenhar Coroeille. 

De Paris os modernos elegantes 

Deixam Racine para lerem Schiller ; 

Cbamain yil serTÍIismo ás regras d'arte, 

'Antiqoario a Boileaa, pedante a Horácio. i 

Só gostam de Irminsolf e de Teatates, 

Obscuros sonhos do £s<:oces sombrio. 

E as risonhas ficçdes da coita Grécia 

Áureos nomes d'Áscreu sédiços dizem. 

Yenufe e amores, graça» e ^cupidos 

Já moite fietos sáo, já muito lidos.» ^ 

É certo, que pouco tempo depois disto, Garrett depozr 
as regras e escreveu o Camões, dizendo entSo, que nem era* 
clássico nem romântico. Como Hercutaho, viu também est» 
nova phase do sentimento moderno como uma batalha pa- 
lavrosa de nominalistas, e em todos os seus livros chasqueou 
sempre da revolução litteraría. 

Por essas palavras vimos como Garrett mofava do Ro- 
mantismo; elle sacudia de si os cânones rhetoricos que re- 

1 o ChimUta, p. 180. 



116 HISTOBIA DO BOMANTISMO BM POSTUQAL 

cebera na educaçâo de seu tio, lia os modernos moniimen- 
los lilterarios, imitava-os, dava-se como o inaugurador de 
uma época nova na litteratura portugueza, mas protestava 
que não era romântico. A falta de comprehensão d'este fa- 
cto que symbolisa a liberdade do sentimento, não obstou a 
que Herculano e Garrett escrevessem livros que se desvia- 
ram, do trilho batido até ao seu tempo; mas esses livros 
nao tiveram em vista realisar uma these superior, e os es- 
forços d'estes dois homens longe de se coadjuvarem, cedo 
se inutilisaram pela desmembraçao ; nenhum teve o dom su- 
blime de vêr robustecer-se em volta de si uma mocidade 
prestante. Pelo seu lado o árcade Castilho no prologo dos 
Quadros históricos, maldiz com phrases mais duras ainda 
do que as de Herculano essa espontaneidade do Roman- 
tismo que veiu perturbar-lhe o seu mundo jdylico. Es- 
tes três homens, em quem a opinião publica via os seus 
representantes litterarios, separar^m-se por pequenos re- 
sentimentos pessoaes; Castilho chamara a Herculano, se- 
gundo corre oralmente, esse gallego do chafariz da Ajuda; 
por seu turno Herculano feriu Castilho chamando-lhe cego 
de corpo e de alma, e rompia com Garrett por causa do 
contracto de propriedade litteraria com a França; Castilho 
disputava a Garrett a antonomásia de príncipe da lyra, e 
Garrett ria-se d'elle chamando-lhe compadre. Quando ve- 
mos a imponente aipisade entpe um GoSthe e um Scbiller, 
e quanto pôde a bem do 'desenvolvimento de uma ideia a 
acção continua de um centro litterario, só podemos expli- 
car a dissensão entre Herculano, Garrett e Castilho não tanto 
pelo caracter de cada um,. como pela falta de comprehen- 
são da críse litteraria que se passaya na Europa e da qual 
elles, pela circumstancia do tempo* ^ram-os* representantes 
em Portugal. Com a boa vontade qve os poderes públicos 
tinham então pelo desenvolvimento intellectual d'esta terra, 
o que se não teria feito se estes três homens fossem um 



IDEIA OBBAL 117 

pouco mais iotelligcntes para se proporem um plano, e mais 
devados para se nao odiarem! Se mais se n3o tivesse feito, 
peio menos nao se veriam em breve esterilisados todos os 
esforços que cada um tentou parcialmente. 

Garrett chega a fundar o theatro portuguez, faz uma cru- 
zada fervorosa para que o governo dote a arte dramafica 
com um ediScio digno; funda o Conservatório; estabelece 
prémios; mas não apparece uma mocidade vigorosa e acti- 
va; os dramas nacionaes n3o se escreveram, e apenas como 
testemunho de um esforço de regeneração ahi estão de pé 
somente as paredes do theatro de D. Maria ii. 

Herculano procura fundar a historia portugueza ; abriram- 
se-lhe todos os archivos, coUocaram-no em um logar privi- 
legiado libertando-o dos cuidados da vida ; eil-o que simula 
desgostos, deserta do commercio das lettras e entrega-se 
á cultura e negocio do azeite. Ninguém teve ainda um maior 
poder espiritual sobre este paiz como Herculano, mas nunca 
o soube exercer. Da renovação dos estudos históricos em 
Portugal apenas restam volumes fragmentários, sem uma 
ideia capital e por isso até hoje illegíveis. 

Pelo seu lado, Castilho não teve outro plano litterario se- 
não glorificar por todas as formas a sua pessoa. Inimigo da 
liberdade do Romantismo, abraçou essas doutrinas desde o 
momento que viu que lisongeava assim a opinião publica; 
sem plano na sua actividade, nunca manifestou uma origi- 
nalidade qualquer, e lançou-se a traduzir a esmo. Se os dois 
escriptores antecedentes não levantaram uma geração, este 
contribuiu fortemente para corromper as ideias litterarias 
do seu tempo. 

A mocidade que surge por si, e se faz forte pelo estudo 
e pela moral, nada lhes deve, e isto lhe dá direito de os 
julgar com impassibilidade. 



I •. 



LIVRO I 



ALMEIDA GARRETT 



(1799 — 1854) 



l:Í'í 






.V'' 



Na obra da nossa revolução litteraria que se seguia á re- 
volução politica de 1832» cabe a Garrett o primeiro logar» 
não., porque tivesse uma consciência plena do facto moral e 
social que se passara na Europa e se reflectira em Porto- 
^al, mas porque póssuia essa intuição artística, com que 
suppria o estudo, que o levou a comprebender as obras 
primas da arte moderna e a procurar penetrar*se do seu 
vesfMrito. Um accidente da sua vida determinou esta eleva- 
rão do critério: foi a emigração para França e Inglaterra 
em 1823, justamente quando lá se debatíam as doutrinas 
do Romantismo. Sem possuir a erudição indispensável para 
fundar a época moderna da lilteratura portugueza, dirigiu-se 
caprichosamente pelo seu goèlo; com esse tino que se tor- 
nava a maior parte das vezes uma intuição, conseguiu ba- 
nir de si o resto das impressões clássicas ou académicas 
que lhe haviam incutido na mocidade ; comprehendeu que 



120 HISTORIA DO BOMAKTISMO EM POBTUGAli. 

O povo portaguez também tinha um génio tmcional, que 
era preciso determinal-o na poesia e no theatro. Esse gosto 
ou intuição ievou-o até onde era necessário a base scienti- 
fica; faltou-lhe esta, e por isso a poesia do povo foi tratada 
como uma predilecção de artista^ e o theatro, sem o vigor 
de uma these philosophica, reduziu* se á única corda do j7a- 
triotismo, Comprehendeu que na litteratura portugueza es- 
tava tudo para crear, mas o gosto que adivinhava nao pôde 
traçar-lhe um plano, apreseatar-lhe uma ideia fundamental 
emfim, a unidade da obra. A sua vida é o commentario do 
qúe esere¥(Ki ; ^le|an|e ;la época da Restauração, ficou sem- 
pre frívolo' e sensual; a verdade natural traduzia-a no sen- 
timentalismo apaixonado, attingindo a béllesa da phraso 
pelos hábitos da eleganicia. Pensador nuUo, encobria a falta 
de educação philosophica com um christianismo á Ghateau- 
briand; decidindo-se sempre pelas ideias generosas, debalda 
procurava em volta de si uma mocidade em quem influisse^ 
Seduzido finalmente pelas ambições politicas do constitucio- 
nalismo a obra d'arte t^rnou-se para elle um accidente, e 
ao mesmo tempo ambicionou os titulos, as fitas, as honras^ 
para. dar realce ao Utterato. Dá ao seu estyJo uma aleolada 
deaaffectação e familiaridade, mas no intimo era verdadeiro 
6 sincero, Faltoi>lhe a individualidade que lucta; por ter 
ido com a corrente da moda não creou as obras primas de 
que era capaz; por ter vivido com os hábitos anachronicos 
do antigo regimen succumbiu exhausto sem passar peia ve- 
lhice. 



1.— Edoeacão clássica de Garrett. ((8H a 1823) 



Tendência liberal do espírito de Garrett. — Direcção clássica impressa por Frer 
Alexandre da Sagrada Familia.-** Reage contra o meio absolatista da soa 
familia. — A yida da UniTersídade e as tragedias philosopbícas e Outeiroa 
poéticos. — Abraça os príneipros da Retoloção de 1820. — Os ensaios de 
Gatão 10 theatro do Bairro Alto. — Seu casamento com D. LuisaMtdosi.— 
Soa primeira imitação elmaoista e depois pbilÍDtísta.'^Saa Tida em Lisboa 
até & emigração em 1823. 

O homem superior, que representa uma época, cumpre 
a pesada fatalidade de resumir em si, a par das aspirações 
de que foi o órgão, os velhos preconceitos contra os quaes 
reagiu, as dissolventes, influencias que procurou anuUar, e 
até os próprios erros e aberrações que ajudou a extinguir 
pela sua missão genial. Ha portanto na vida do homem su- 
perior duas biographias tontradíctorias, que são o resultado 
do meio d'onde surgiu e do meio que pôde fundar pela sua 
individualidade. Dá-se isto com Garrett, e não é a menor 
prova da superioridade reconhecida; como Camões, que se- 
guia nas suas lyricas a pauta da medida velha ou da redon« 
dilha peninsular antes de abraçar o subjectivismo petrar- 
d)ista da escola italiana, assim o auctòr inimitável do poema 
Cafiões, do Frei Luiz de Sousa, e do ardente lyrismo das 
Folhas cahidas, que imprimiu á litteratura portugueza uma 
direcção nova, começou por ser um reverente imitador dos 
árcades quando se chamou Jonio Duriense, um frivolo ai- 



122 HI8T0BU. DO EOMASTÚMO BM PORTUGAL 

míscarado do século xyiií quando imitou Demoustier no Ly^ 
cm das D amas ^ um rhetorico elmanista quando versejou 
nos Outeiros poéticos da sala dos Gapellos em Coimbra e 
nos abbadeçados de Odívellas, e finalmente um meticuloso 
pMlintista, quando o estudo da lingua portugueza se Ibé 
tornou uma necessidade para uma fecunda actividade litte- 
raria. O estudo d'esta phase primeira das manifestações da 
sua vocação seria negativo e inútil, se n'esse acervo de pre- 
tenciosas vulgaridades arcadicas se n3o descobrissem os es* 
forços latentes de um claro espirito contrafeito pelos res- 
peitos auctorilarios de que só pôde emancipar-se quando se 
acbou de repente em um mais vasto meio mental. Foi esse 
o fructo das duas emigrações de 1823 e de 1829, a que o 
forçaram as reacções politicas do regimen absoluto. A obra 
em que Garrett accentuou a sua individualidade nunca será 
bem comprehendida em quanto se não conhecer o período 
em que todas as deletérias tradições académicas, pastoraes 
e sentimentalistas do século xviii o absorveram e o domina* 
ram. 

Garrett nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799, e desde 
1810 viveu na ilha Terceira,. até vir frequentar os estudos 
superiores na Universidade de Coimbra em 1814; estes fa- 
ctos exerceram na sua vida uma orientação fundamental, b 
é por elles que explicaremos esse instincto de liberdade 
que o fez protestar contra as forcas dó Campo de Santa 
Ânna e abraçar o princípio da soberania nacional procla- 
mado na Revolução de 1820. O Porto distingue-se pelo seu 
grande espirito de independência, como o manifestou quando 
era um simples burgo industrial, como o revelou reagindo 
contra a invasão napoleonica, e contra as forcas miguelinas 
no seu memorando cerco de 1832; as ilhas são sempre 2{pi- 
madas de um sentimento separatista, de uma aspiração á 
liberdade, e a Terceira provou-o abrindo asylo e fazendo-se 
reducto dos emigrados liberaes^ em 1831 ; a mocidade de 



123 

Coiínbra, qoanâo o obscuruitismo mraacbal estopedecia este 
paiz, representava nos seas passatempos escolares as tra- 
gedias philosophicas de Voltaire, lia as obras dos Encyclo- 
pedistas maa grado as queixas da Intendência da policia, e 
saudava com eothasiasmo a obra do Synedrio. N'este meio 
em qae se acbou sempre, Garrett não podia deixar de de* 
clarar-se um tanto jacobino, e por isso acbou-se muito cedo 

. em conílicto com a familia, onde predominava o espirito de 
reacção clerical, que procurou incutir-lhe na sua primeira 
educação. Para bem comprebender este conflicto entrare- 
mos em algumas particularidades: José Ferreira de Sousa, 
natural da ilba do Faval, casado com D. Antónia Margarida 
Garrett (íilba de Bernardo Garrett, natural do Russillon) 
teve os seguintes filhos : Alexandre da Sagrada Familia, que 

, foi bispo de Angra, António Bernardo da Silva de Almeida 
Garrett, que foi pae do poeta, e mais dois filhos, que fo- 
ram 4»negos da Sé de Angra. ' António Bernardo casara 
no Porto com D. Anna Angusta Leitão, de quem o poeta 
foi o segundo genito; assim a sua infância decorreu parte 
na ilba Terceira, parte junto da cidade do Porto, na quinta 
do Castello e na quinta do Sardão. Na ilba Terceira, em 
contacto com o erudito bispo e com os cónegos seus tios 
obedecia á educação clássica ; no Porto, na soltura do campo 
recebeu a communicação das tradições populares que lhe 
acordavam uma nova intuição poética. 

Passou Garrett a puerícia junto de seu tio D. Frei Ale- 
xandre da Sagrada Familia; este venerável ancião, que es- 
crevia Odes e traduzia Metastasio em segredo, que só ad* 
mittia actividade intellectual para fechar os seus productos 
na gaveta, segundo o preceito do venusino, dirigiu os pri- 



1 No UtíI) y das Contas para as Secretarias do ioteidente MaDÍqoe, fl. 300 
(12 de abril de 1799) acha-se iadiciadp como pedreiro livre um tal David Gar^ 
rett. 



124 HISTOBIÁ DOBOICASTISMO SM POBTUOAI. 

meiros estudos do sobrinho e as prematuras tentativas lit- 
terarias» que datam de 1814. ^ 

Em uma Ode á morte do velho tio, intitulada A sepuMra 
do bem feitor, escreve Garrett: 

Oh TarSo extremado, 
Não, nSo morreste aíoda oo mett peito : 

Tu em minha alma teara 
As sementes primeiras desparríste 

Das lettras» 4^ Ttrtade, 
Qoe á sombra augusta do teu nobre exemplo 

Tenras desabrochando . 
Cresceram quanto sSo: infante ainda 

meu singelo peiio 
Me a?igoraste da constância tua... ^ 

Em uma nota a esta poesia, queixa-se Garrett de não ter 
sido contemplado em 1821 no testamento de seu tiof <0 
sábio e virtuoso prelado cuja memoria celebram estes ver- 
sos, era proxirap parente do auctor. Sabemos que foi o único 
de seus parentes que de s. ex.* não recebeu dons de for- 
tuna : elle julga porém dever-lhe mais que nenhum pelo amor 
da virtude e das leltras que na infância lhe inspirou com 
exemplo e conselho nos primeiros rudimentos de educação 
que d'aquelle ihsigne e illustre varão recebeu.» ^ O des- 
peito que transparece sob estas palavras, é apenas produ- 
zido pelo desgosto de haver descontentado aquelle velho 
que o educou, pelo facto de se ter manifestado a favor da 
conspiração de Gomes Freire. As palavras sublinhadas in- 
tencionalmente por Garrett levam a suppôr que alguém 
na familia teve interesse em afastal-o da sympathia do 
octogenário bispo. ^ Na divisão da familia portugueza em 

1 Fabulas, p. 99. (Obras, t. xvir.) 

2 Lyrica de João Minimo, p. 94. (Ed. 1829.) 

3 Ibidem, p. 194. 

4 Consignaremos aqui algumas datas sobre Frei Alexandre da Sagrada Fa- 
milia; nasceu na ilha do Payai a 23 de maio de 1737; licencíado*em Phíloso- 
phia (humanidades) em 1759, em Coimbra, entra para o Mosteiro de Bran- 
canes em Setúbal, onde professou a 13 de junho de 1762. Frei Alexandre cul- 



ÁLUBI0A OABBVTT . 1^5 

absolutistas e liberaes, Almeida Garrett foi o único que 
em sua casa se sacrificou á causa da liberdade. As primei* 
ras revelações do talento de Garrett foram no púlpito a que 
subiu por uma travessura infantil; ninguém presenlia que 
esse fervor precoce, que parecia leval-o para a vida cleri- 
cal, seria posto ao serviço da liberdade na Oraç5o á morte 
de Manuel Fernandes Thomaz, por onde começaram as suas 
perseguições politicas, e na eloquência parlamentar da es- 
querda constitucional setembrista. A educaçSo religiosii e 
humanista de Garrett deu-lhe uma grande indifferença pe- 
los trabalhos da renovação scientifica do século xix, e por 
isso não teve um pensamento, uma unidade de plano na sua 
actividade litteraria. No Tratado de Educação descreve os 
seus primeiros estudos com um certo orgulho, que para um 
espirito philosophico seria um protesto: «Eu tive a boa for- 
tuna de receber uma educaç5o portugueza velha, sólida de 
bons principios de religiSo, de moral, de sãos elementos de 
instrucção, e com quanto fosse mal aproveitada, das melho- 
res que se dão, não direi em Portugal, mas pela Europa.» * 
E mais adiante, referindo-se ás vantagens da educação hu- 
manista para os homens que hão de no futuro tomar parte 
no regimen parlamentar, que tanto carece dè uma pala- 
vrosa actividade: «O grego e o latim são os necessários ele- 
mentos d'esta educação nobrô. Deixar fallar modernos emo- 
dernices, petimetres e neologistas de toda a espécie: oho- 
mein que se destina ou o destinou o seu merecimento a 



tÍToa a poesia erudita e académica; juifámoe qàe per isso o eoDfondem cen 
Frei Alexaodre da SíIva, eremita de Saotp Agostiobo, conhecido pelo nome ar- 
cadico de Sihú^^ qoand^^ dizem que elte pertencera & Arcádia de Lífboa. Em S4 
de outubro de 1781 foi eleito bispo de Malaca, sendo eagrado aS4 defoTereiro 
de 1783. Transferido anles da posse do bispado para S. Paolo de Loanda, re* 
sidia por três annos na diocese de Angola, sendo transferido para Angra em 
1812. Tínba mais dois irmãos, cónego e arcediago, oa Sé de Angra, os padres 
Manuel Ignacio e Ignacío da SiWa.lerriò á t% de abril de 1818 
1 Tratado de Educação, p. I. (Ed. de Loudres.) 



126 HISTOBTA DO BOXÂNTISIIO VU POBTUGAI. 

mna vocação publica, d3o pôde sem vergonha ignorsir as 
bellas-lettras e as clássicas.» ^ 

Nos prologoá dos seus livros, Garrett espalhou com certo 
desvanecimento todas as particularidades com que se lhe 
pôde reconstituir a biographía. A influencia de D. Frei 
Alexandre foi corroborada por uma outra pezada auctori- 
dade do hellenista terceirense Joaquim Alves, que adoçava 
as escabrosidades dos versos da Grammatica de Port-Royal 
com ca melhor marmellada que ainda se fez,» como se des- 
creve no prologo da Mérope. Esta disciplina de grecismo á 
Joaquim Alves, não decidiu o talento da criança só á imí- 
taçao inconsciente da tragedia grega, levou-o também para 
a admiração dos lyricos, das peças eróticas de Alceo e de 
Sapho, que traduziu. Nas Flores sem fructo acham-se bas- 
tantes odesinhas de Sapho, como Bellesa e bondade, o Sa- 
crifício, e de Anacreonte, como A Lyra, Goso da vida, A 
força da mulher, A Rnsa^ A Pombinha, e de Alceo, como o 
Inverno, A espada do poeta, cuja leitura lhe teria sido susci- 
tada pelas ponderações admirativas de Joaquim Alves, qQ& 
não teve a crítica bastante de lhe explicar como a maior 
parte d'essas odes lascivas são falsificações da época ale- 
xandrina. Ainda embalado pelo fausto da Regência, que se 
conservou em Portugal como as velhas modas nas aldeias, 
Garrett declara-nos a fonte por onde houve o conhecimento 
de Sapho: «Na elegante collecçiosinha publicada nos fins • 
do século passado em Paris, com o titulo de Oeuvres de Sa- 
pho ...» * Da traducção de Anacreonte diz com certa ja- 
ctância pueril: «os presentes estudos sobre Anacreonte s3o 
traduções tão severamente liitéraes quanto o génio das duas 
línguas (f permittei» ^ N^esta parte o boiri de Joaquim Al- 



1 Traiúdo de Educação, p. 81. 

2 Flora tm fruetó, p. «t5. <Sd. 18^.) 

3 md,f p. 226. 



▲IMEIOA OIBBBTT 127 

ves serviu de Pae-velho, ou segundo o reího calão das es- 
colas, de Burro. O lyrismo grego conhecido através d'esla 
fonte, que acceitava os apocrypbos alexandrinos, e tradu- 
zido sobre o assucarado francez das edições destinadas para 
as damas da alta sociedade, afastava Garrett para muito 
longe da verdadeira poesia. A esta época pertence esse ma- 
nuscripto, de uma esmerada calligraphía, intitulado Odes 
(1814 a 1823) do qual diz o herdeiro do poeta no Cata- 
logo dos Atitographos : c O índice mostra terem sido cincoenta 
os assumptos escolhidos. Estes porém nem todos foram es * 
criptos ou não foram traslados para aqui; e d'aquelles que 
o foram, acham-se muito inutilisados peio auctor, rasgadas 
muitas das folhas em que estavam escriptos.» ^ Pertence 
também a esta influencia clássica a ^Affmsaida ou Funda* 
Ção do Império Lusitano, poema heróico — Angra, 1814 e 
1815.» D'este autographo se lê no citado Catalogo: «Ficou 
iucompleto; consta dos três primeiros cantos, parte do quarto 
canto, contendo, ao todo, mil e seiscentos versos. Ê escri-* 
<).to em verso solto.» ^ Pobre alma, atrophiada pela mecha- 
Dica poética dos fazedores de poemas épicos pela pauta de 
Le Bossu, as tradições populares com que te embalaram a 
mulata Rosa de Lima e a tia Brigida, è que te conservaram 
accesa a alampada de Eros, com que Psycbe se salvou da 
obscuridade do medíocre 1 Foi essa luz que te revelou a exis- 
tência dos cantos herokos d'esta povo; foi essa mesma tra*» 
dição que te fez sentir o colorido das cantigas soltas, que 
te fez crear essa poesia simples e ardente das Folhas cor 
^<^> a'esse lyjrismo nnicOí que nunca as arcádias senti- 
ram. Nas FTdre^ semfru^o intercala Gaiírett por vezes^ d'es^ 
tas cantigas populares^ ccmqo espécie de vcritas de velho can^ 
óoneiro; exemplo: 



* Mim, p. xiTi. 

* A. p. XXT. 



t28 HISTORIA DO-BOMAlITIilCO BM POBTUaAL 



t 



Por (eos òfhoê negros, negros, 
Trago negro o coração, 
' De tanto pedír-Ibe amores . . . 
E eitos a dixer qiio nfto. ^ 

Soepiro 'que nasce d'alma, 
Qae à flor dos lábios morroo . • . 
Coração que o não entende 
Não o quero para meu. ^ 

Nunca a linguagem individual pôde achar estas expres- 
sões profundas, porque o sentimento restringe-se á perso- 
nalidade do poeta. Garrett interpretando em outras quadras 
estas cantigas do povo, ensaiava-se em um lyrismo novo, 
do mesmo modo que a mão que lança as primeiras lettras 
segue oê traços que tem á vista. Foi esta influencia domés- 
tica quem conservou no espirito de Garrett a feição e sentir 
nacional que o libertou mais tarde das mais auctoritarias 
convenções. 

Estas referencias populares do primeiro lyrismo de Gar- 
ret são um presentimento genial; foi glosando e commen- 
tando os cantos do povo, as serranilbas, os cantares guaya^ 
dos e de ledino, que Sá de Miranda, Ghristovam Fal63o, 
Camões, e Francisco Rodrigues Lobo, acceitando a parte 
viva da tradição provençal, se tornaram os primeiros lyri- 
cos porluguezes. 

Quando Garrett entrou em Coimbra perdeu durante dois 
annos o dom da poesia; (1814 a 1816) é como as aves que 
se esquecem do canto ào mudarem de terra. A catadura 
tyrannrca dos lentes, de qué Garrett tanto se riu ^empre, 
já nas liii^es de direito, ^ já de matbematica, prodoziu-lhe 
esse estado míarasinatioe do sentimento, que o conservou 
silencioso. Garrett vivia na< iâtimidade lítteraria do pesado 

1 Op. cit, p. 190. 
2/Ò., p. 163. 

3 Nas Fabulas^ Garrett rfdícQlarisa os lentes de direito « o sei «ttpido 
romaDÍsmo : 



AUUOOA OABBBTT 129 

Frei Francisco de S. Luiz, que o arrastou insensivelmente 
para -a erudição e para o género didáctico, como veremos 
BO Retrcoo de Vénus. Reinava em Coimbra a monomania das 
tragedias, que^ eram o udíco meio que os estudantes tinham 
para exprimir sentimentos Iiberaes, mau grado a intolerância 
despótica do Bispo-Conde-reitor-reformador D. Francisco 
de Lemos, que escangalhava os theatros; (Í8i7 a 1818) 
Garrett sacrificou em parle o lyrismo á imitação das b*age- 
dias de Voltaire e de Cróbillon, e por tanto voltou i velha 
influencia clássica de seu tio e do pedagogo Joaquim Al- 
ves. ^ Mas o fervor liberal que agitava os estudantes de 



VoU fegundo bvi doolo rtie ensinava* 
Meu mestre José Vaz, homem discreto 

£ de saber profundo, 
Em toda a sociedade íilWe mundo • 

Por força bade re^er 
famoso direito de accrescer. 
' {Op. cit. p. «9.) ' : 

• 

Effl nota accre«c«dta: «No meqpHrociro anáo da Universidade erá a eipli- 
cAcão d'este romanismo um dos pontoa mais graures das causas de direito» 
(Op. cit. p. 273.) Esta sciencia da sebenta cathedratica perpetoa-se até boje, 
em que os trabalhos de Bfommsen, Maeqqardt e Lange aihdia ali s3o desconhe* 
eidos. Garrett deixou nos seus versos alguns traços característicos da vida aca« 
demica, quê ainda encontrámos: 

Verdade é, no Qoebra-Gostas 

Minha vez escorreguei, 

Fui preso por Vtrdeaes, 

E á Pot ta- Férrea m... eí. 

Has que* doutor fiquei eu, ' 
.Se nunca o Marttni li, 

Se o que soube da Instituía 

£ do Dfgesto esqueci? 

(Op* m. p. 77.) 
1 Em ■« 6i«li6to datado de Coimlira de 1819, Garrett cfaas^eiá-da trvge* 
dia do padre^ José Agostinho de Macedo intitulada Bfanea dê Boêsiy dizendo 
que St>pht>cle8, Eurípedes, Gorneille, €rebi)len, Racine, Voltaire* e Alierí feram- 
por elle annulUdos, faltando-lbe apenas para o triumpho ceinplelo vencer Ma- 
nuel José de Faita e Hanuet Gaetaiio Pimenta de Aguiar, dois wediôeres ee* 
cripleresdraontticêieportuguezes inteiramente obeciros: 

V/ictqfioso o padre ji^ Branca qstentaj 
Só para vencer lhe restam^ dois magaoos, 
Mas temíveis rivaes — Paiva e Pimental 

9 ^ 



130 HISTORIA DO BOMAITTIBUO SM POBTUOÁL 

Coimbra foi o qae deu aos versos de Garrett, escríptos n^éste 
tempo, esse lado vivo e natural, que se sente esmagado 
umas vezes debaixo do mecbanismo bocagiano, outras ve- 
zes debaixo das conslrncções archaícas de Filinto; o que 
ha de acceitavel na Lyrica de João Minimó vem do calor re- 
volucionário, que podia mais que a erudição e que o pedan^ 
tismo catbedratico. Era essa aspisação da liberdade, que 
reagia contra o eslylo inquisítorial da Universidade, que in- 
spirava o grotesco das Fabulas. 

Um dos característicos mais pronunciados nas épocas de 
decadência litteraria é o género didáctico, em que a falta 
de sentimento procura acobertar-se com o fim scientifico; 
na litteratura latina os poemas didácticos multiplicam-se ao 
passo que a ideia do bello se oblitera sob o cesarismo que 
aproximava Roma do Baixo Império; no século xviii, nà 
edade da corrupção politica e do convencionalismo senti- 
mental, repete-se o mesmo pbenomeno^ em que a pobre 
poesia vem servir as banaes regras de moral, e a lechno^ 
logia das artes. Era esta a poesia que não encommodava 
os ócios da auctoridadei e que todos os funccionarios po- 

Jo9e Agostioho de Macedo era o pontífice lilterario do primeiro quartel do 
mcqIo iix, e Garrett atacon-o de f reate, como o« diMÍdeotee de Coimbra íife- 
ram a Castilho mais tarde ; no soneto aupracilado e nos Tersos: 

um tal poeta lá da tua terra, 
Que fax Orientei e baplisa Gomat... 

Em uma nota, Garrett caracterisa-o como: «o mais atrabiliário escríptor que 
ainda creio que tivesse a lingna portugnata. rancor que toda a vida profes- 
sou « qoâolos profesitaram as lettras no seu tempo, uma inveja imprópria de 
talento tflo vecdadeiramenle superior o arraàtoa a desvarios que detlustraraai 
o seu noma e mancharam a sua fama. Nem o furioso e sanguinário que foi 
em seu partido nem a perteguiçio poUíica de que a mim próprio um fez oic- 
tima, puderam mover- me a desacatar n*eUo o bomem de letlrau que toda?ia 
honro ainda. Sai que no auctor do BetreUo de Vénus, no redactor principal do 
Portuyuez, elle perseguia principalmente o ainda mais odioso auctor do poema 
Camões, Todas as soas oiTeosas porém foram só^ioliticas.» (Obras de Garrett» 
t. XVII, p. S71.) José Agostinho de Macedo, que attSicava Garrett,, saudou eoi 
Castilho o espirito arcadico que renascia. 



AUOBIDA OABBBTT 131 

diam lôr e até escrever^ sem perigo de decaírem da graça 
real. Garrett via apenas a manifestaçSo exterior doeste fa-' 
€to; Dé Lille, Esmeoard, Darwin, José Agostinho compu- 
zeram pêças didafclicas^ e Jonio Dur^nse^ qniz também Ta- 

^ zer am poema n'esse diapas3o« Tal é a origem do Retrato 
de Vénus, poemeto em (|aatro cantos dedicado á gldriflca-* 
çao da PinCnra: «tanto o poema, como as notas e ensaio 
s3o da minha infância poética ; s3o compostos na edade de 
dezesete annos. Isto não é impostura: sobejas pessoas ha ahi, 
qnè m'o viram começar e acabar então. É certo que desde 
esse tempo até agora, em que conto vinte e dois, por três 
vezes o tenho corrigido; e até submettido á censura de pes- 
soas doatas e dâ conhecida philologia, como foi o ex.""^ 
sr. Sam Luiz, qoe me honroa a mim e a este opúsculo com 

• suas correcções.» ^ As três correcções de que aqui falia Gar- 
rett, são: a oopia constando apenas de três cantos, datada 
do Porto de 48ift, com uma dedicatória Aos pintores portu^ 
guezes. N'este período eslava Garrett dominado pelo furor 
elmanista, como se pôde ver pela dedicatória do poema : 

As primícias do canto, os sons primeiros 
Qaê a farto, a medo balbocíou na lyra, 
fatft inviome Tos^cnaiagra, oh ?ates. 

Merecíeis CamQes, CafmQes faltaram, 
£ fraco oosei tomar divino emprego. 
Nas débeis axas mal despontam plumas ; 
Soopria arrojo Unto o bom desejo : 
Vaiha a matéria, se a2o vale o canto* 

Y\ng^ d'i9ii vóo o Pindo a altiva agoii, 
Vas do moflie aas quebras descansando, 
Também 14 ebegarA rasteira pomba. ^ . 

• 

Garrett assignando-se então Jonio Duriense revelava a in- 
fluencia da Nova Arcádia a que obedecia; as emendas d'esta 



t Retrato de Vénus, p. 164. (Ed. 1867). 
' Catáloço dot AutographoSf p. xtii. 



Ití2 HISTOBIA X>0 BOlCAHTIfillO EM POBTUGAL 

primeira redirão Gonsistiram em despojal-a de todo o. me- 
cbanismo poético elmanista^ A segunda copia data de 4831, 
«mais augxaentada do:.q»6 a antecedexite, mas úifferente 
aioda da que serviu para. a edição de 1831.» ^0 maau* 
^scripto já.coastaya então de quatro cantos, com as notas e 
Ensaio sobre n Historia ãa Pintura. À terceira redacção é a 
que icorre Jmpressa desde 1823» e que deu causa a um pro- 
cesso judicial em outubro d' esse anno^por um libelio do 
promotor fiscal contra João Baptista da Silvn Leitão de Àl* 
meida Garrett accusado de abuso de-libardade de imprensa 
no poema do Retrato de Yenusl Lido o innocente poemasi- 
nfao cQsts^ a crer como a intolerância poUlíca sb servia de 
escrúpulos religiosos da mais refalsada ortbodoxia para des- 
cobrir intenções revolucionarias em uma innocente citação 
de YQltaíre ou da Nova Heloim^ e naB apaixonadas imita- 
ções do poema de Lucrécio, que os encyclopedistas haviam 
rebabilitado. O Retrato dejenm procura ji?^assat>sa do çs- 
pirito poejtico do poema De Natura rerum, mas não é aos 
dezeseteiannos que se chega á compr^hensão moral do es- 
tado de scepticismò a que as revoluções de Roma e as lu- 
çtas entre Mário e gcylla arrastaranj Lucreèfo. óarrett imita 

poema na parte exterior, na fabula cb» que eUe se ia des- 
viando pela leitura de Chateaubriand p de Madame de Staêl: 

FícçOes ! . . • e ákire&s 'ficções deBdenba o éabío? 
A doofa, a mestra ánlilgiiidade' o éi^a. ' ' * 
Mão. Fabula gentil, tõlxk tf meus tenbVf ^ 

Oroa-me a lyra c'os festões de rosas, 
Qoe ás maifgeDs talies da Gastalia pufa: * ^ 
Flores que onlr^^tfra do Epictlro ao tÉte ' 
Co austero assaibpto ibe ehtraBça8t« aáienas, 
Essas no caoto me desparze agora, (c^ i.) 

1 O ipQemeto descreve vagamente e mau as ideias syncrcT 
ticas do ensino ofíicial a decadência de Roma, o renasci- 

* Catalogo dos Autographos, p. xyii. 



ALMXIDA GABEEtT Íd3 

mento das Artes, a tomada de Constantinopla, e ems^aída 
a ennmeraçlo dos nomes dos píiltores italiajnos oaracterisa^ 
dos com o seu conveniente epitbeto; o quarto canto é de« 
dicado aos pintores portnguezes* A intenção erudita do poe* 
meto deflne-^e melhor çm nm Ensaio sobre a Historia da 
Pimura, glosado de Lanzi e do outros, sem a mínima Iu2 
própria; segue-se um quadro tnstorico da pintora portu- 
gueza, onde com uma doce miragem intellectnal avadça: 
«Tem-se escrípto muito, e fainito controvertido sobre a pín* 
iura portagueza e sua historia ; mas, tanto nacionaes como 
estrangeiros (affoitamente o digo) sem critica. O exame de 
seus escriptosy das obras dos nossos artistas me suscitou 
a ideia áe entrar com o facho da phílosophia n'este caho9 
informe, e desembaraçar quanto em tíám fosse cbm o fio 
da critica este inextricável labyrínto.» Raczynskí, quando 
estudava a Arte portogueza, foi atraz d'este programma 
pomposo, e não pôde conter este delicado epigt*amma : 
«L'autem: consacre bnsuite quinze pages à Texamen^de cette 
matière, et cite bon nombre de pelntres les plus connt!^s . . . » ^ 
Ânnos depois, Garrett pediu aós livreiros Bertrands que 
retirassem da vend^ p poema; o animo de lucro da parte 
de quem se devera importar da reputação do pbeta, fez 
com que o Retrato de Ventis entrasse na oolleecao das obras 
completas *de Garrett. É natural que esta mesma causa traga 
ainda á publicidade o poemeto do Roubo das Sabinas, em 
dois cantos, em verso solto em numero de oitocentos e qua* 
renta versos» escripto em 1820; a Alfonsaida, de que já 
falíamos; e o poemeto bA*ai-comico em quatro cantos, mas 
de que somente escreveu o primeiro e soguudo cantos, in* 
titulado O X ou A Incógnita, de 1821 « ' A autolatria que 
Almeida Garrett professava foi a caulsa de n3o ter inutiii* 



^ IHctianaire httiorico-artisHqw du Pariugd, p. 108« 
^ Caldogo dot Autographotj psg. ist» * 



134 HISTOBIÃ DO KOMANTISIIO SM POSTUGAL 

sado estes esboços de uma vocação qne se define; por isso 
fica também sujeito á triste eventualidade de nos mostrar 
os meios comp venoeu a corrente da mediocridade do seu 
tempo que por vezes o envolveu. 

Uma das correntes mats fortes que iam inutilisando o ge* 
nio de Garrett, foi a monomania idas tragedias na época da 
sua formatura em Coimbra; queip diria que o admirador 
de Racine, de Voltaire a de Crcbillon, seria o auctor do Frei 
Luiz de SousQ. A tragedia phiiosopbica era a única mani- 
festação que os homens illustrados tinham então em Por-^ 
tugal para communicarem os seus sentimentos liberaes ; o 
liberalismo, isto é, essa vaga noção republicana mesclada 
com o indefinido systema constitucional preponderava em 
1817 a 1818, e agitava os estudantes. A marchada politica 
europêa produzia entre nós esta espécie de phenomeho das 
marés politicas. Os tbeatros académicos surgiram para da* 
rem expansão aos generosos sentimentos; entre os estu^ 
dantes que erigiram o theatro do GoUegío das Artes em 
1813^ apparecia agora um novo enthusiasta, João Baptista 
da Silva Leitão de.Alnjeida Garrett. Fundaram um novo 
theatro na rua dos Goutinhos, e abi rep^esentat*am de 1817 
para 1818, Garrett, Joaquim Larcher e José Maria Grande, 
que fazia os papeis de dama. Para este theatriídio escreveu 
Garrett duas tragedias, Ltwrma e Xerxes «refundição dos 
Persas, que datava de 1811. ^ Entre outras tragedias de 
Crebillon, representou-se o Rhadamisto, traduzido por João 
Eloy Nune^ Cardoso, estudante do segundo anno medico, 
de Aldeia Gallega, Garrett comprkz-se em citar este nomo 
do seu contemporâneo nas Fabulas e no Romanceiro, Os 
médicos eram .os prineipaes cultores da tragedia philósa» 
phica, porque o estudo das scieacias naturaes lhes dava uma 
certa independência intellectual que faltava aos theologos e 

, . . . 

1 Garrett e os Dramas românticos, p. 133. 



ALMBIDA OABBETT 135 

juristas da Universidade; o lente da cadeira de Anatomia 
Francisco Soares Franco escrevia tragedias em verso, como 
a Hermínia, e o lente da cadeira de Instituições medico-cií- 
rurgicas José Feliciano de Castilho fazia representar em sua 
casa tragedias, como as de Monti, que os filhos traduziam 
e desempenhavam. Desde 1818 a 1824 suspenderam-se os 
divertimentos tbeatraes ; ^ foi n'este intervailo que Almeida 
Garrett refundiu a sua Merope; escreveu o primeiro e parte 
do segundo acto em verso solto da tragedia Édipo em Co- 
lona, de 1820; oS Árabes ou o Crime virtuoso^ drama de 
1821> de que resta parte do primeiro acto; o projecto e 
esboço das primeiras scenas de um drama em três actos, 
intitulado Ignez de Castro; principio, de acto de El-rei Se- 
rapião; projecto de uma comedia em dois actos, e princípio 
do primeiro, intitulada Cifrão. ^ 

£m 30 de junho de 18i0 recebe Garrett o gráo de ba- 
charel em direito; quando a revolução levada a cabo pelos 
treze beneméritos, em agosto e setembro d'esse anno, foi 
celebrada nos Outeiros poéticos da saia dos Capellos, em 22 
de novembro, Garrett affirmou os seus sentimentos de li- 
berdade recitando uma ode enthusiastica, em que ainda obe- 
dece á imitação elmanista. Sae de Coimbra formado em di- 
reito em 1821, regressando á ilha Terceira nos mezes de 
abril 6 maio; o empenho de um despacho félon'esse mesmo 
anno partir para Lisboa. Diz elle no prologo das Fabulas : 
cOs cinco annos da vida de Coimbra passaram, o çocego 
da casa materna a que regressou, cança-o. Elle sae outra 
vez da sua ilha tranquilla para as tempestadeís da capital.» 
Trabalhava-se para a reunião das Cortes constituintes e dis- 
CQtiam-se as bases da nova Constituição de 1822; D. João vi 



) o .JheaUro em Coimbra^ por F. M. de Carvalho. (C<mmlnicen9$t d.<> 2:355 
e 2:356.) 
^ Catalogo dos Auiographos, p. x? o xvi. 



136 HI8T0BIA DO BOMAMTISMO EM POBTUaAL 

obsií&ára-se a permanecer no Rio de Janeiro, e os partidá- 
rios da liberdade debalde aspiravam a uma justissima so- 
lução republicana/ diante da prepotência dos nobres, taes 
como a casa opu]entissi|na de Cadaval, diante do poder fa- 
natisador das ordens monásticas, e de um exercito ao ser* 
viço da realesa. N'estas condições os grandes talentos e as 
mais heróicas vontades de homens como Manuel Fernandes 
Thomaz, como José Ferreira Borges, como Manuel Borges 
Carneiro óu o coronel Sepúlveda, deviam ser anuUados 
pelo ludibrio, pela decepção e pela morte. Quando Garrett 
chegou a Lisboa encontrou os amigos da Universidade; 
lembráram-se das suas representações de tragedias philo* 
sophicas nos divertimentos escolares, e Paulo Midosi foi o 
primeiro a propor uma recita de curiosos ço theatro do 
Bairro Alto, offerecendo a sua casa no Chiado para os en^- 
saios. Garrett encarregou-se de fornecer a composição dra- 
mática, e entre^ dez e iiilite dias deu por completa a trage* 
dia Catão. Era um assumpto conforme com o estado do 
espirito publico. Este facto foi um dos mais fundamentaes 
da vida de Garrett, porque determinou o seu casamwito> 
O Catão foi posto enl scena em 29 de setembro de i82i, 
sendo a parte de Catão desempenhada por Joaquim Lar-> 
cher, a de Marco Bruto pelo próprio Garrett, a de Manlio 
por Carlos Morato Roma, a de Porcio por Netto, a de Sem* 
proniò por Mathias Carneiro Leão, e a de Decio por Josô 
Frederico Pereira Marecos. * O iheatro do .Bairro Alto era 
construído no largo de S. Roque no logar occupado l;ioje 
pela Companhia de carruagens lisbonenses ; convém distin- 
guil-o do antigo theatro do Bairro Alto, onde se represen- 
taram as celebres comedias do Judeu. A satã continha duas 
ordens de camarotes, com uma varanda corrida sobre a se- 

1 Merecem lér-se os artigos patilieadés pelo sr. Paolo Midosi com o tilalo 
Os ensaios do Catão, publicados em seis folhetins do Diário de Noíieiat, por 
conterem bastantes factos desconhecidos. 



V 



Al^MEIDA GARRBTT 137 



gundá; fora constrnido' pela direcção do pintor Joaquim da 
Costa é do carpinteiro Vicente Romano, curioso que vein 
mais tarde a fazer parte da companhia. Era proprietário do 
theatro do Baiito Alto o escrivão do crime d'esse bairro 
Dyonisío José Monteiro de Mendonça ; inaugurou-se o theatro 
pelos fins de 1815, mas teve de estar um anno fechado por 
causa do luto forçado pela morte de D. Maria i. Foi um re- 
vés que perturbou para sempre a emp reza. Quando se tor- 
nou a abrir, inaugurou-se com a comedia o Príncipe Per- 
feito, e era uma das principaes glorias da companhia o 
sapateiro Jo3o dos Santos Matta, que fazia de primeiro gala. 
Qoándo esta companhia retirou para o theatro do Salitre, 
a actividade do theatro do Bairro Alto foi diminuta, revi* 
vendo era 1820 com o regresso dos seus actores, sendo 
emprezario Evaristo José Pereira; foi ephemera esta vida, 
que durou da paschoa até aos acontecimentos de 15 de se- 
tembro de 1820, em que o emprezario se resolveu a toJ- 
tar para o Salitre. Apenas ali funccionou uma companhia 
faespanhola, ficando depois disto o theatro para sempre fe- 
chado. A representação da tragedia o Ckitão, em 29 de se* 
tembro de 1821, trouxe ao abandonado theatro do Bairro 
Alto as principaes familias de Lisboa; diz o isr. Midosí: 
«Convencionou-se entre as senhoras que a toilette seria mo- 
desta, e que todas se apresentariam de chapéos. As poucas 
pessoas da minha familia, que vivem, conservam grata me* 
moria d'está récita, e que foi tão bem aoceita que a 2 de 
outubro de 1821 representou-se, mas acompanhado, o Ca- 
tõO', de tima>farça O Corcunda por amor, em que coUabo- 
rou men pae, porém onde a parte principal coube a Gar- 
rett. Vivia ii'esta época nm negociante por nome Luiz Midosi, 
que tinha uma formosíssima filha de treze annos por nome 
Luiza Midosi.» ^ Na segunda representação em 2 de outu- 

1 Citados folhetÍDS do sr. Paolo Midosi. 



138 HI8T0BIÁ DO BOHANTIBMO BH POET^GAL 

bro de 1821 é que Garrett se apaixonou por Luíza Midosi, 
que contava treze aunos e meio; estava ella em um camarote 
da segunda ordem toda vestida de branco, com um çhapéo 
de setim côr de rosa ; Garrett recitou o prologo de Catão 
com os olhos fitos onde ella estava, dando intenção aos ver« 
sos: 

E tu seio gonlil, delicias, mimo, 
Afago da existência e encanto d'ella, 
Ob 1 perdoa m a pátria te nSo deixa 
primeiro logar em nossas scenas. 

Estes versos foram gravados em uma caixa com tampa 
de oiro e com o retrato de Luiza como se achava vestida 
na noite de 2 de outubro de 1821. O casamento effectuou-se 
a 11 de novembro de 1822, mas a felicidade não correspon- 
deu ao eothusiasmo do coup de foudre. Depois do casa-i 
mento D. Luiza projectou um pic-nic monstro em Cintra, 
formado de vinte pessoas, partindo em burriniios, no velbo 
estjio satyrisado por Tolentino, da casa das sr,** Fricks de 
Campolide; Garrett escreveu para essa festa passada Da 
quinta da Cabeça, a 8 de abril de Í822, o Impromptu de Cm- 
tra, ali representado por seu cunhado Luiz Francisco Mi- 
dosi, que fazia de ingénua, e pelo sogro, que fazia de gra- 
cioso, ^ Em 12 de agosto doeste mesmo anno foi Garrett 
despachado ofiicial da secretaria do ministério do reino. O 
Impromptu de Cintra ficou inédito. 

Garrett ajuntou a este manuscripto a seguinte nota, qn^ 
revela as relações especiáes d'essa época em que reproda-^ 
ziamos já anachronicamente a galanteria á Luiz xv: «Con- 
servo isto, não pelo que vale, mas para memoria d'este3 
saudosos dias que, na companhia de amigos, passei no de- 
licioso sitio de Cintra.» ^ Logo em 26 de maio se represen* 

1 A data do casamento fixa-se em outros trabalhos, em 1 1 de noTeiúbro ée 
1822. 

2 Catalogo dos AutograpkoSf p. x?. 



ÁLIIBIDÁ OABBBTT 139 

tou oittra vez em Cintra o drama de Garrett em dois -actos 
Os Namorados Extravagantes. D'aqai foi fácil o enredar^se 
n'essas intrips de alcova, e em dispender o seo talento em 
odes confldenciaes, a Jalia, a Lilia, a Ânnalia, que agora 
succediam ás Delmiras e Mareias, das férias do Porto, 

, grato «mprego 

De iiin rapas amador do bello sexo, 
EDthosiai ta e cálido. ^ 

Este estado moral e intellectual está cabalmente reflectido 
n'essa outra obrinba insignificante em que dá lições de Poe- 
sia a Júlia. Ab, perfumado e empoado Demoustieri até cá 
este canto beato e triste se estendeu o teu mutido da sen- 
siblerie equívoca, dos finos requebros e intercortados sus-» 
piros ; viesté*nos supprir os Âmorinbos lúbricos do pincel 
de Watteau e de Boudier com as tuas allegorias mytbologi* 
cas, com os teus versos alliados em doce connubio com a 
prosa, e com a tua elegância de braço dado com a insipi*» 
dez. A boa sociedade portugueza, onde a mulher cumpriu 
á risca o nosso velho anexim : Chorar, parir e fiar, hado 
respirar satisfeita com as tuas Cartas a Emília; a tua des* 
envoltora bade-lbe parecer mais pura que os ditos sujoa 
das comedias do Judeu i Entra, suave Demoustier e empoa 
a cabeça a esta gente, que até boje só conheceu a cinza da 
tristesa biblica. 

As ideias litterarias de Garrett, antes da emigração em 
1823, estão completamente representadas no Lyceu das Da- 
mas — Lições de Poesia a uma joven senhora, 1823; quatro 
d'estas lições foram publicadas em < 827 no jornal o Chro* 
nista, ^ o á parte a insufficiencia d'essa composição, surpre- 
hende-nos o encontrar no plano de reproducção das obras 



1 lyrica de João Minmo, p. 39. 

2 Vol. I, p. 109 ; I5i; 177 ; e vol. ii, p. 175. 



140 HISTOBIA DO B0UANTI8M0 EM POBTDGAL 

comptetas de Garrett, em 1839, ainda annuiK^iado o itla/ceu 
das Damas (inédito) no eslylo e pela forma' das Cartas a 
Efhilia, dé Demoosítier, com o íim de aperfeiçoar a educa- 
ção litleraria do bello sexo. » * Pois nao progredira visivôN 
mente o poeta depois da emigração de Portugal, que lhe inspi- 
rara os poemas Camões, e D. Branca? Para que voltar a 
qste passado mesquinho da falsa imitação de Demoustier? 
Garrett também se servia da litteratura como meio de ga- 
lanteria ; pertencia á época da Restauração, e por isso nlo 
quiz anullar esse livrinho que o tornaria sympathico aobêUo 
sexo. No inventario dos seus papeis, a que procedeu seu 
genro, encontra-se o «lenço d'eslas Lições de Poesia a nm 
joven senhora; dividiam*se em três livros: I Princípios ge- 
raes, contendo: lição 1 Principio das Artes — o BeUo. 2 Fim 
das ArteSy prazer e instrucção. 3 Poesia, sua antiguidade^ 
seus vários géneros. 4 Poesia antiga até Homero. 5 Homero. 
6 Hesiodo -— Alceu. 7 Sapho. 8 Anacreonte. 9 Pindaro, Co- 
rina. 10 Thespis, Esehylo. 11 Sophodes, Euripides. 12 Xris- 
tophanes. 13 Poesia na Sidlia. — Livro II. Poesia latina: 
cap. 14 Poesia na Itália^ Enio, Scipião, ele. 15 PlaulOf Ci- 
pião, etc. 16 Aperfeiçoamento da poesia latina pela conquista 
da Grécia. Lúcio, Lucrécio, CatuUo. 17 Horácio, 18 Virgi* 
lio. 19 Phedro, Pérsio, eic—Lmo III. Poesia moderna: 
lição 20 Invasão dos Bárbaros. 21 Meia edade, formação 
das línguas vivas. 22 Poesia do Norte e Meio*dta. 23 Tro- 
vadores, primeiro elemento da poesia moderna. 24 BardoSy 
segundo demento da poesia moderna. 25 Árabes, terceiro tle* 
mento da poesia moderna. 26 BMia, quarto demento da poe- 
sia moderna. %1 Formação da poesia moderna, suas divisões. 
Conclusão. ' 



1 Prospecto, da casa Bertrand* 

2 Apud romioce BeleMy p. xxxin : Catalogo dot Áutograj^, diplmaSj do* 



cumentot poUtkos -e lUtèrariatf etc. 



' AUISIDA OABBBYT Idl 

> Quem lér este sioiples esboço suspeita (embora se des- 
cubra á primeira vista ausência de uma noção syntheUca 
e sobre tado do espirito da historia litteraria) que devem, 
existir n'essas paginas algumas d'essas observações com 
qoe Garrett revelou mais tarde a sua intuição artistica. 
Nem isso; é tudo chato e pueril, cpmo o modelo que se pro- 
poz imitar, como esse inoolor e insípido Demoustier, cuja 
tradução portugueza tanto encarece, feita pelo seu patrício 
Ferreira Borges: «Â prpposito do amante de Emilia; tu já 
léste a elegante tradução de suas lindas CartaSy com <que 
brindou a nossa lingua o sr. F. B? Não te parece que lhe 
ficam tão bem' os trajos portoguezes áquella sucia de deu- 
ses e dôusas, que estaAam arlequinados á parisiense? Eu 
por mim, gosto mais d'elles assim: acho mais pilhéria ao 
padre ApoHo dando ás gambias atraz de Daphne e gritando 
com derretida lamuria : 

Cruel,, ea t*o peço, pára. 

«Mas eila não parou, e foi correndo, ioda mal t para se fav 
zer n'uma arvore. É tão bonita esta fabula em portuguez: 
causou-me dobrado prazer do que no original, qne, apesar . 
de beUo, tem todavia uma certa affectação em que forçosa», 
mente oae a lingua franceza apenas a desviam do seu tri*. 
lho natural e chão. Sempre è lingua de trapos : viva a nossa 
portugueza, que é outra casta de idioma I» ^ £ assim que 
ensina a sua Lilia e lhe procura desenvolver q gosto. Que 
<^^ado deplorável esle em que traduziamos Demoustier em 
Portugal, ainesquinbando*QOS na sua estolidez! Se Garrett 
deiíou um documento incontroverso do seu talento, foi o 
ter vencido esta falsa direcção em que se achoa arrastado,. 
Renan ao estudar o livro de Greozer sobre a Symbolicat dá 
3 Demoustier a importância de citar-lhe as Cartas a Emi" 

^ o Ckronisíaf ?oI» i, p. 155, 



142 HISTOBIA DO BOMAHTISKO EM TÓ&TVQiã* 

lia sobre a Mythologia : c É evideDte qae a própria antigui- 
dade cessou de comprehender a soa religião, e que os ve- 
lhos mythos que desabrocharam da imaginação primitiYa 
perderam muito cedo a sua sígóiQcaçSo. A ideia de fazer 
doestas fabulas venerandas um todo cbronologico» uma es- 
pécie de historia divertida e conveniente, nS^ data de Boc- 
cacio ou de Demoustier: Ovidio realisou-a em um livro um 
pouco menos máo do que as Cartas a Emilia. » ^ Léo Joa- 
bert, ao estudar a Historia das Religiões da Grécia antiga, 
de Maury, accrescenta para o julgamento de Demoustier: 
cPara um homem de senso e de gosto, o haver folheado as 
Cartas a Emilia, é um desagradável accidenle que se não 
deve repetir. Não se arrosta duas vezes com o tédio does- 
tas tolices pretenciosas. » ^ Esta é a verdade; as Lições de 
Poesia a umajoven senhora, que procuravam «fazer amável 
o estudo das lettras, e introduzir entre nós o tão engraçado 
quanto proveitoso*methodo de Demoustier, para ensinar di- 
vertindo» são como o seu modelo, tolas e pretenciosas. N'a- 
quelle estãdò de espirito, se Garrett se não tivesse visto 
forçado a emigrar de Portugal, a sair d'este meio chilro e 
sensivel, estava perdido para a litteratura; e ainda assim 
a frivolidade da época penetrou-o tão intimamente, que ape- 
sar de ter realisado perfeitas creações artísticas, n»mcapôde 
dar á sua obra um plano philosophico. 

EKtractaremos aqui algumas passagens da lição ^iv, por 
ventura aquella, em que tendo de expor mais factos^ eslava 
mais seguro de cair na banalidade. Trata-se da Historia da 
poesia antiga; Garrett ataca o assumpto com este tom: 

«Ha poucos modos de vida tão fáceis, como o de impos- 
tor: e se ha coisa então em que este ofiBcio seja facttiffio, 
é em litteraturas e antiguidades: 



1 Études d^Histoire religieusej p. 9. 

< Essais de critique et d'Histoirej p. 101. 



ÃIMETDA. OABBSTt 143 

«QoerM to lér como ea cito 
Os Egy poios e Cbaldeos» 
Os Persas e os Hebrons, 
£ depois es Ghanaoetis, 
Hohabitás, Philistous... 

«e outros mais que acabam em eus, dos quaes custa pouco 
a dizer, que foram grandes homens, porém que nada sabe- 
mos d'elles? 

«Assim fazem quasi todos» e assim faria qualquer agora, 
enfiando um rosário de inúteis conjecturas antes que che- 
gasse a entrar em matéria. Eu que pretendo pouco da fa- 
ma» e CQjo fim é dar á minha discípula: 

«Fáceis liçOes do meo saber ÍDgeooo, 
Qae a doutora cebenta carapaça, 
^ Jamais na lisa frente 

Encaixei doutamente ; 

ceu que adoptei a lettra do elegante Procopio: 

Domina judicCj tutus ero; 
Do meu bem, do meu amor 
Só quero gforia e louvor; 

«eu por mim contento-me de te dizer, que em poesia o mais 
antigo que conheço são as composições gregas e hebraicas. 
Os Gregos foram provavelmente os povos europeus que pri- 
meiro cultivaram as bellas-artes. Se a risonha e engenhosa 
Mythologiâ dos antigos a houveram elles do Egypto ou da 
índia ou de ambas as partes; se Homero, foi tão somente 
um traductor, um coilector de trovas, n!isso não me metto 
eu: o que sei, e o que me importa» é que as obras que nos 
chegaram com o seu nome, as que nos vieram com esse 
outro de Hesiodo, são as mais completas e antigas que na 
Europa se conhecem: 

«t£ que me importa a mim que o grego Homero 
Nio seja o auctor da lUiada divina, 
Se eu gosto quando a leio, e lél-a quero 
Âpocrypba on genoina? 



144 HISTORIA DO SOMÁNTISMO BH POItTUOÁL 

Podom es^as questões doB anliqnartofl • 

Fazer menos formosa 

ÂndromacUa saudosa 
Quando ás porias de Troya assediada 

Co' filhinho oos braços 
Vem dar — talvez os últimos a*braço8 

Ao seu querido Heitor? 
Poesia tão seasivel) delíctada, 

Toda meiguice e ámqr, 
Toda arrobada, languida, ternura, 
Perdo acaso de sua formosura 
Se 03 críticos em duvidas eulrarem, 

£ altas questões tra?drem 

Sobre o nome do auctor? 

«Simples, natural é essa poesia grega; grave e sublime a 
tempo, e a tempo engraçada e mimosa, sempre elegante. 
Modelo é e será de toda a poesia clássica. Toda elja é sen- 
tidos; tudo n'ella lisongeiá suavemente: não tem as nossas 
metaphysicas; tudo o que pinta vêem-no os olhos, palpa-o 
o tacto; mas quanto mais delicada e difiicil é essa maneira 
de pintar!» Depois d' isto passa a fallar de Hesiodo: «tam- 
bém não foi muito nrais antigo, é para assim dizer o Dante 
da poesia clássica.» E percorre assim a lista dos aedos gre- 
gos: «D'estes cantores divinos ou divinisados, Amphion é 
o primeiro cilja data é pouco mais ou menos certa... 

,Co*os. magos sous da lyra, . .^, ,i 

Go'a eloquência divina 
Que a branda persuaçSo no poítb inspira, ' . ^ 

Aos homeos rode^, bárbaros ensina 

A erguer i^ma cidade, 

E sua bruta fereza 
. Ço'a? brenJias a dei&ar na soledade.» 

• 

Lino é caràcterisado em poucos traços: «Lino tambeóa se 
fez nomeado na Grécia pelo primor com qué associava os 
sons da voz aos da lyra, encordoada então com simples fios 
de linho, aos quaes elle substituiu as cordas muito mais 
harmoniosas quemnda hoje se usam*» Bella par^hrase para 
não fallar nas cordas- de tripa. «Foi grande impostor Or- 
pheu; inventou que, morta a mulher, a fora elle buscar ao 



ALMBIDA aàXKBTt 



146 



inferno, e que Plutão lh'a restituíra. Tu sabes esta linda e 
mui terna historia; nao te enfadarei a repetir*t'a aqui as- 
sim . . . Orpheu foi um hábil impostor, mas professou uma 
moral sa, estabeleceu na Grécia as cerimonias religiosas que 
trouxera do Egypto. » 

Gomo se pôde explicar este acervo de frivolidades em um 
homem que mais tarde deu provas de talento e de tino ar- 
tistico, senão pela influencia do seu mestre de grego Joa- 
quim Alves, e pela disciplina auctoritaria do seu tio frei 
Alexandre, que o amesquinharam ao ponto de eleger por 
modelo a Bemoustier? A este organismo viciado, só o tó- 
nico de uma viagem ao estrangeiro, para readquirir o senso 
commum, para respirar na almosphera das ideias. Se elle , 
não tivesse talento, voltaria á pátria curado da monomania 
de escriptor e toirnado homem pratico; se dentro d'aquelle 
cérebro falseado existia alguma centelha doesse estado a que 
se chama génio, ella então alcançará vencer esses vapores 
carregados do pedantismo pedagógico, e transluzirá na sua 
naturalidade. As circumstancias favoreceram o desenvolvi- 
mento de Garrett; a restauração do absohitismo em Portu- 
gal obrigou-o a procurar asylo no estrangeiro, justamente 
no período em que as doutrinas do Romantismo sé discu- 
tiam nos theatros em novos dramas, nos jomaes em theo- 
rias criticas, e em poemas inspirados por um intuito philo- 
sophico. 

Em 1820 estava já Garrett absorvido pela iôiltação das 
formas de Filinto Elysio, e cóm o sentimentalismo idylico pro • 
pagado por João Jacques Rousseau, que se tornara uma 
monomania naturalista do fim do século xvui. Garrett nas- 
cera n'este meio falso, e obedeceu-lhe fatalmente; era moda 
admirar a natureza, mas a natureza convencional, como uma 
paisagem de Watteau; em 1820, quando ainda estava eni 
Coimbra, o Jardim Botânico seduzia Garrett como um almo 
recinto sagrado a Flora: , 

10 



146 BZ6T0BIA 90 BOIUJITIBIIO EM PORTUGAL 

, Aqoii oodeo parfame saudável 

Respiro de mil flores, 
Gomo «Oto embeber-se^me a exísteocia 

Em caia trago doestes» . 
Qae 08 seqoiosos pulmões, té qui só fartos 

* De ár pestileute e mâo, 
D'este soave e paro ávidos sorvem, 

£ com elle o remédio 
Ao trabalhado, enfraquecido peito, 

Ao mui pausado saogce 1 

Era este o estylo naturalista, que viá as coisas através 
de epítbetos variados» que amava Gessner e Florian; era 
um poucochinho mais do que o bucolismo do século xvi. 
Garrett commeuta esta ode ao Passeio de madrugada no Jar- 
dim Botânico de Coimbra: «Em 20 de junho áeASiO, e na 
convalescença de perigosa moléstia, fui de madrugada res- 
pirar o puríssimo ár do sitio chamado em Coimbra— fora 
de portas. Achei aberto o Jardim Botânico: entrei. Eu e 
dois oxL três trabalhadores éramos os únicos viventes de- 
spertos. Ali. debaixo da palmeira que está no ultimo plaao 
no Jardim, escrevi estas linhas.» * D'esta doença .falia Gar- 
rett nos versos recitados na sala dos Capellos na noite de 
22 de novembro' de 1820, quando ali se celebrou um Ou- 
teiro poético, como signal de regosijo nacional por se ter 
acabado o protectorado inglez. O seu collega da Universi- 
dade, Castilho, também bateu palmas n'este Outeiro calhe- 
dratico, ultimo resto de um costume portuguez completa- 
mente extincto» hoje substituído pelos discursos ^cademícQs^ 
orações de recepção, toasts, etc, N^aquelle tempo os paetri- 
ficadores eram parte obrigada de todas as funcções publi- 
cas ou familiares; e era tal o perstigio d'este uso, que os 
desembargadores, os bispos, os lentes e generaes não dariam 
prova plena da sua gravidade se não soubessem metrifipar 
uma campanuda Ode epõdica, um desalinhado Dithyr^mbo 

^ o Chrmstãf toI. n, p. 69. 



AUfBii>A aASBirv 147 

OU pelo menos uma conceituosa Decima; Garrett educado 
também para este género de tertúlias tinha fatalmente de 
admirar Bocage, o deus dos Outeiro9 poelicos; a admiração 
consistia n'e8te tempo em imital*o usando os tropos que lhe* 
eram característicos, e em que residia o segredq da harmo- 
nia elmanista; escreve Garrett, na composição do Outeiro, 
da sala dos Capellos : 

Ergo tardia voz, mas ergo- a livre. 
Ante vós, ante os céos, ante o noiverso, 
Se M céos, se o moodo mioiía voz ouvirem. 

Felizmente Garrett contrabalançou esta desastrada influen- 
cia pelo estudo das riquíssimas construcções dos versos de 
Filinto; Castilho obedeceu mais tempo, ao elmanismo, que 
o fez produzir o insnlso poema das Cartas de Ecco, Isto 
basta para discriminar a dífferença entra os dois èscripto- 
res; ambos escreveram ^as suas primeiras obras dentro de. 
um meio litterariamente absurdo e corrupto, porém Garrett 
iEQodiâcou a corrente porque tinha individualidade artística; 
Castilho sõ abandonava uma influencia, quando outra lhe 
apresentava melhor vantagem de imitação. Garrett descreve 
a lucta entre a influencia da poética elmanista e pbilintbta: 
< A metrificação de Bocage, jutgamrua sua melhor qualidade ; 
eu a peor; ao menos, a que peoreâ effeitos causou. M9o fez 
elle um verso duro, mal soante, frouxo; porém nSo slo es- 
ses os únicos defeitos dos versosl As varias ideias, as di- 
versas paixões e affectos, 9s distinctas posições e circum-) 
standas do assumpto, do objecto, de mil outras coisas — . 
variada medida exigem,^ coâoo exige a mosica vários tons: 
e cadencias. A mesma medida sempre, embora cheia e boa, 
o mesmo tom, embora afinado, a mesma harmonia, embora» 
perfeita, o mesmo compasso embora exacto, fazem monó- 
tona e insupportavel a mais bella peça de musica ou de po.e- 
sia. E taes são os versos de Bocage, que nos pert^dem 



148 HISTORIA .DO BOXAlrrUlfO BM POBTUOÁL 

dar para typo seus apaixonados cegos ; digo €egos, porque 
muitos tem elie (e n'esse numero que conto) que o sâo, mas 
não cegos. » ^ Nao haverá aqui uma allusao directa a Cas* 
tilho, que metrificava então em pleno elmanismo ? Continua 
Garrett: cMas emquanto Bocage e seus discípulos tyranni-; 
savam o gosto, Francisco Manuel, anico representante da 
grande escola de Garç3o, gemia no exilío, e de lá, com os 
olhos fitos na pátria, se preparava para luctar contra a enor- 
me hydra, cujas innumeras cabeças eram o gallicismo, a 
ignorância, a vaidade^ todos os outros vícios que iam de- 
vorando a litteratura^iacionál.» ' Castilho, nas Excavações 
poéticas arrependè-se de ter declamado contra Filinto, e nas 
notas da Primavera ataca Bocage e ós defeitos do elmanismo 
a que tanto tempo obedecera. 

Reinava também em Portugal a monomania das tradu- 
coes; a incapacidade de creação original fazia preferir todo 
o que se tradazisse. Bocage e Filinto haviam dispendido as 
suas faculdades em traduzir, traduzir, traduzir. Garrett teve 
também de luctar algum tempo contra esta corrente, e ven- 
ceu-a oppondo-lhe bellas creações oríginaes ; Castilho foi ar- 
rastado pela mesma absorpção, ficou totalmente n'ella e 
morreu traduzindo. Garrett caracterisa este estado dissol-» 
vente: «Mas de traduções estamos nós gafos: e com tradu- 
ções levou o uitimo golpe a litteratura portugueza; foi a 
estocada de morte qne nos jogaram os estrangeiros . . . Esta 
manta de traduzir subiu a ponto em Portugal, e de tal modo 
estragou o gosto do publico, que n3o só lhe não agrada- 
ram, mas quasí não entendia os bons oríginaes portugue- 
zes; etc.» (ib.) Doesta época (I8%0-1824) existe em poder 
dos herdeiros de Garrett, o CatidlOj traduzido e aonotado, 
contendo as seguintes odes : A Gorneiio Nepote, Ao Pardal* 



1 Escripto em 1826. Víd. prologo do Parnaso lusitano, 
» Ikid. 



* ÀIMKDÁ OÁSBSTV iM 

siidio de Lésbia; Á morte do Pardal3iobo, A Lésbia, a Fla^ 
yk), A si mesmo, a Furio e Aurélio, a Asinio, a Fabolio, a 
Calvo Licinio, á Penmsula de Sirmioo, €anto napcial e Epit 
thalamio de Peleu e de ThelíSr Este manoscripto traz a se? 
guinte nota autobíographica : cEmprebendi esta versão ao 
mea ultimo anuo de Coimbra, 18i0 a 1821, e de dezembrq 
a janeiro d'esse anno, abi traduzi alguns d*esses poemetos ; 
o que também fiz pelo mar, na minba viagem á ilba Ter-r 
ceira na primavera do mesmo anno e na curta residência 
que lá fiz. Em fevereiro de 1824, em Londres, continuei a 
obra, e agora me cinjo a ella com mais firmes tenções de 
levar ao cabo. Havre, 20 de abril de 1824.» ' A lubríci- 
dade da época da Restjruração é que prendeu Garrett á trat 
dução de CatuUo, depois de chegar a Inglaterra ê França; 
mas o numero incalculável de obras primas do Romantismo 
cedo o desviou do culto exclusivo da antiguidade, e é n'esse 
anno de 1824 que se operou a profunda revolução psycbo^ 
lógica que lhe deu a sua soperioridéMe artística. 

O sentimento artístico de Garrett já antes de 1823 lu- 
ctava para se emancipar da subserviência da mythologia; 
em' uma nota a uma ode sapbica sobre o Amor maternal 
descreve Garrett este seu e^orço: «Dlzia-me um certo co*f 
nhecido dos meus tempos de estudante: — Homem, os teu$ 
versos não sei que lhes falta: não te digo que são máos; 
mas, tão pouca riqueza da fabula I Nem Júpiter, nem Yet 
nus, nem Apollo: não sei como podes fazer versos sem my-T 
thologia. Se tu és poeta, que fazes dúzias de odes sem in'« 
Tocar uma só vez as Musas t — Eu não sou poeta, (respoodi 
ao meu amigável Aristarco) no sentido commum. A confesr 
sar a vefdade, nem me lembra assim de cór de quatro no^ 
mes feitos de deuses da fabula. Pinto d^après nature o que 
posso nas minhas regrinhas curtas e compridas; mas nunca 

1 Caialogo dos Auiographos ; apud HeleM, p. xiTk 



150 HISTORIA IX) BQIUMTIBIIO EH PORTUGAL 

entendi em sei* poeta no ligor.e certa vâlía dá palavra. 
Qaando comecei 4 babojar a tal fonte de Aganipe (d'est)0 
nome ainda me recordo eu) tinha a mesma mania qoe tu 
tens; mas depois certos AlIemSés e Inglezes que li, fize-» 
ram^me perder a devoção aos Santos de Hesiodò. N3o re- 
provo o. uso da fabula; ma& a tempo e horas. O muito re^ 
cheio da mythologia dá ás composições modernas um ár 
de affectaçao e desnacionalidade pedantescameúte ridículo. 
Quero fazer versos portugnezes, em portugueze porta guez- 
mentel Além de què, (como cem vezes te teidio dito,) para 
mim só e para os meus amiigos os faço. Elies e eu temos 
pouco que haver coin Martes e Saturnos^ e muito com a na^ 
tureza e o coração^ unics» e verdadeiras fontes da poesia e 
de todas as beílas*artes. Da poesia (perdõa-me) cá da m\^ 
nha poesia: n3o fallo da outra que é moda por ahi, de que 
nao entendo nem quero entender, porque me cheira siifiS- 
cientemente á Phmix Renascida, eao Conde da Ericeira. 
— O meu crítico sorrtu-se e eu fiz o mesmo. i> * Fixámos 
a data d'esta descripção autobíographica antes de 1823^ por 
que da Ode que ella commenta traz a seguinte nota: tBoa 
parte d'esta Ode foi roubada ao seu auctor e publicada com 
outras coisas que a desfiguram em uma broehurasinha im- 
pressa em Coimbra em 1823. » 

A viagem á ilha Terceira em 1821 nao deíKou de desper* 
tar-lhe o sentimento, falsificado pelo convencionalismo ár- 
cadico; o pobre Jânio Dtaiense, que assim se chamava o 
poeta filiado no estado pastoral do Màmnide Egynmse, (Cas- 
tilho) ficaria mais annos atrophiado no insulso idylio, se o 
contacto com a natureza o não arrancasse aos Ménalos, aos 
Pindos e á convivência do Pégaso. Os versos que escreveu 
por esta occasilo lembram já aquelles naturalissimos e me- 
tancholicos do poema Camões, que a atmosphera do estran- 

« 

1 o ChronUtaj Tol. i, pag. 68. 



ALMXIDA OÁBiurpr ' 151 

ff 

geiro lhe havia de inspirar. No fragmento da poesia O Mar, 
falia das lagrimas saudosas: 

Qae a fio d'es(es olhos bo deslísam,. . . 
€o'a poDta do alvo maoto ameiga a face 
Que o acre ardor do pranto me h« creHado. * 

É O mesmo timbre cto canto v do poema Camões; mas 
Garrett estava em 1821; saia do banco das escolas onde 
dominava a chateza arcadica, e por isso ao recordar-se de 
Coimbra e das flores dos jardins do Mondego, volta á tra- 
dição: 

Por tentura o meo Joniú passeando, . . i 

Sempre pessoal em toda a contemplação artística, Gar« 
ret acompanha esse fragmento com anota: «Este fragmento 
foi' escripto no mar em longa e penosa viagem nos mezes 
de abril e maio de 1821.» Era ainda a influencia arcadica 
que o fazia escrever um poema heroi*c(»nico em quatro can- 
tos, intitulado X ou a Incógnita^ allusivo aos successos de 
i821>, que não chegou a passar do segundo canto, e que 
para soa gloria ficou inédito ; ^ era mais uma concepção by* 
brida como a Benteida ou a Santarmaida, influenciada pelo 
R&ino da Estupidez, que se lia bastante em Coimbra. 

Na sua vinda para Lisboa, Garrett veia encontrar accesa 
a tradição arcadica; eram ainda moda os Outeiros poéticos, 
e a sua vivacidade de rapaz attraiu-o para elles. No prologo 
da Lyrica de João Mínimo descreve um Outeiro poético 
de Odivellas, em que tomou parte : «No verão de 182 .. . 
succedeu uma tarde de junho, qufe me encontrei no conhe- 
cido café do M. com uma sucia de rapazes, leaes filhos de 
Apollo; e, como é natural, a nossa animada conversação en- 
trou logo petos dístrictos poéticos. Yeiu-se a fallar em Ou- 



1 o ChronisU, vd. i, p. 7S. 

2 Catalogo dos Autographosy p. xxy. 



162 ' HIBTOBIA SO BOMilfTIfiMO BK PORTUGAL 

teiros, alegre e engenhoso passatempo de nossos pães, qaasi 
perdido boje na barafunda das malditas politicas» despresado 
e mal avaliado por uma mocidade estragada e libertina que 
tem o descôco de preferir as cartas da Nova Heloísa e do 
excommungado St. Preux ás Eglogas do pastor Albano e 
da pastora Damiana, *— que ousa^p antepor os descompos- 
tos versos de Francisco Manuel e suas Odes hyerogliphicas 
aos retumbantes, alíisonantes e nunca assas louvados sone- 
tos da escola elmanistat . . . Vamos a Odivellas ao Outeiro 
de S. João . . . ba mais de dez annos que se não faz . . . 
Vae N. e N. N. que bão-de aterrar tudo com sonetos e col- 
chêas; e já levam provisão de quartetos e consoantes, d'isto 
que chamam nariz de cera, que servem para todo o mo- 
te; •. . Começaram logo a illuminar-se as janellas das fret*^ 
raS; e a luzir pelas rotulas, pelas grades as airosas toucas 
e os feiticeiros véos, certamente pouco avaros, que de vez 
em quando o lampejo de um lindo rosto, de matadores olhos 
inflammavam a imaginação dos nossos jovens poetas e lhes 
faziam dizer milhares de coisas bonitas. Era electricidade 
que se estava esperdiçando:— Vamos a isto; a isto rapa- 
zes! foi a voz unanime. E brados de Motel Mote, — aos 
quaes, depois de breve silencio, respondeu uma voz flau* 
tada e sonora, que parecia mesmo de um cherubim— de 
que não está costumado a coisas d'este mundo: 



Amor seu facho n^esta noite apaga. 

«Debandou toda a pbalange; passeon-se, esfregou-se a 
testa, roeram-se unhas até ao sabugo, e aSnari.— palmas: 
Lá vae; e saiu o soneto . « . Seguiram-se colchéas e mais so- 



1 Garrett refere-se a ama composição de João Xavier de Mattos, qaeFilinto 
Eljsio citava como sabida de cór pelas peixeiras do teà tempo^ o as ladinas 
das comedias de cordel recitavam. 



ÀJÚãMtDJL QAXaMtt 153 

netos e muitas versalbadas outeiraes de' toda á espécie e ca- 
libre, com maito e mui guloso doce que ás madres nos dei- 
tavam» e que, ao menos para mim, nio foi a menos agradável 
circumstancia da noite.» Aqui, fica uttia completa descrípção 
do que era um Outeiro poético, que os costumes do século 
xviii mantiveram entre nós até á época do Romantismo. Os 
poetas que então viviam na intimidade de Garrett eram José 
Frederico Pereira Marecos, Larcber, Carlos Moralo Roma, 
Paulo Midosi, e alguns outros, cujas obras se perderam. A 
Lyrica de João Mínimo, que encerra as composições poéti- 
cas de Garrett desde 1815 a 1823, e as Flores sem fructo 
em que está colligida uma grande parte do que escreveu 
em 1823, resentem-se doeste est} lo arcadico, modificado por 
um intelligente estudo da metrificação de Filinto Êlysio, que 
revelou a Garrett a melodia do poema Camões ; as estropbes 
são quasi sempre em endecasyllabos com os seus bemisti-' 
chios, com um sentimentalismo de qoem abriu os olbos aos 
horisontes de Rousseau, e com a personalidade de quem 
ainda respira na atmospbera sodalitia de Horatio. Quando 
Garrett se quer elevar á generalidade do sentimento, can- 
tar um ideal huúdano, limita-se a estas theses de Acade- 
mia, como são o amor maternal, a infância, a soledade, os 
desejos, etc. A^s Fabulas s5o egoalmente um^ producto do 
espirito poético do século xviu, inspiradas pela leitura do 
desenvolto abbade Casti. Mas a melancholía romântica facii^ 
mente se apossava de Garrett, valetudinário e timido ; quando 
Goethe, ao escrever o Werther, essa concepção de uma forte 
individualidade, nao se pôde eximir á fascinação dos pee-^ 
mas de Ossian, como é que o ténue Garrett deixaria de ser 
impressionado, e para sempre, das aventuras de Fingal e 
das festas de Selma? Nas Flores sem fructo vem uma tra- 
dução de uns trechos do poema de Oscar y com uma intro- 
dução em verso calcado sobre o mesmo estylo, da qual diz: 
€fil-a eu para me exercitar n'um género que nos meijs pri- 



154 HI8T0BIA. DQ IIOKAin'ISM0 BM PORTUGAL 

• 

meiros annos^ me parecia o sublime dos sublimes ...» * 
Garrett conservou toda a sua vida essa luelaocboUa ossia-? 
nica; em todas as suas obras predomina o vago scismar de 
quem tira o ideal de um passado que não torna. Foi esta 
melancholia, que precisou empregar-se em uma saudade 
qualquer, que o levou a sentir o passado, a a descobrir as-* 
sim o sentimento nacional^ que devia produzir o nosso pri^ 
meiro movimento romântico. Se Garrett cão saísse de Por- 
tugal, não teria em 1824 escripto o poema Camões, e, co- 
mo Castilho, talvez nunca houvesse comprehendído o espirito 
da litteratura moderna. 

A historia politica da primeira metade d'este século é o 
mais flagrante documento da imbecilidade de um povo. De- 
pois que D. Jo3o vi conheceu que o império do Brazil lhe 
escapava, lembrou-se, para não perder tudo, de voltara Por- 
tugal, antes que as Cortes constituintes o destituíssem. Nao 
sabendo coisa alguma da situação politica, a pretexto de um 
empréstimo mandou a Lisboa#o negociante Pereira de Al- 
meida para informal-o secretamente se poderia ainda en- 
trar em Portugal. No diá 3 de julho de 1821 entrava do 
Tejo a frota com a família Bragança, d'onde o rei aó desem- 
barcou depois de receber auctorísação das cortes; jurou a 
Carta constitucional, passou por todas as humilhações e ter* 
rores para conseguir apoderar-se do poder executivo. Car- 
lota Joaquina, digna irmã do infame Fernando vn, vendo 
que não podia apoderar-se do partido liberal, com o qual 
o rei se conciliara, tornou^se o centro da reacção absolu- 
tista contra todas as reformas inauguradas pela revolução 
de 1820. D. João vi não era entranho a estes manejos, posto 
que simulava attender mais os conselhos dos liberaes; mas 
a nomeação de seu filho o infante D. Miguel para commaa- 
dante em chefe do exercito é a prova evidente da sua mi 

1 Flôrts sm fruehy p. 226. 



At.UBIDA OABBBTT 155 

fé. Quando o regimento vinte e três de infanteria saia de 
Lisboa para as províncias do norte em observação com re- 
ceio dos movimentos do exercito do conde de Amarante su- 
blevado contra a Constituição, p mesmo regimento suble- 
vou-se tatnbem á.vo£ do seu coronel; eca voa plano concer- 
tado. D. Miguel foge do palácio da Bemposta para Santarém, 
d'onde proclama contra os pedreiros-livres^ que usurpavam 
os inauferíveis direitos de seu pae; pretendendo ir contra 
a rebellião de sen filho» D. João vi retira-se para Villa Fran- 
ca, d'onde é trazido para a capital pelos fidalgos que se 
substituíram ás cavalgaduras. D. João vi rasgou a Consti- 
luição e acceitou o poder absoluto; como premio do movi- 
mento o Conde de Amarante foi feito Marquez de Chaves, 
e o infante D. Miguel commandante em chefe do exercito. 
Começaram asperseguições.contra os partidários da Re- 
voloção^e 1820 e da Carta constitucional de 1822; o grande 
Manuel Fernandes Thomaz succumbiu. Os que recearam a 
estrangulação nos cárceres refugiaram-se nos paizes estran- 
geiros. Foi em julho de 1823, oito mezes depois do seu casa* 
mento, que Garrett emigrou para o Ha vre acompanhado por 
sua mulher. Para resistir na sua nova situação acceitou o 
logar de caixeiro na casa do banqueiro LaiQtte, onde rece- 
beu o ordenado de 2:000 francos por fazer a corresponden-» 
da estrangeira. Em 23 de agosto d'este anno regressou 
ainda a Portugal, mas a Intendência geral da policia houve 
por bem considerado perigoso para a ordem publica, e obri* 
gou-o a abandonar a pátria ; âeu-|he a honra do desterro. * 
No prologo das Fabulas e Folhas cahidas escreve o poeta : 
«A causa do povo é trahida, abandonada . . . elle não a aban<> 
dona; prefere o exílio, e em terra estrangeira o ouvimos 
cantar as suas impi^ecações, as suas saudades, e a constan* 
cia indómita do auctor do Catão.it (p. xvu.) 

^ Démittido do seu logar de official da secretaria do Mioisterio do Reino, por 
decreto de 30 de agosto de 189 S. 



)56 HISTOBIÁ DO BOMANTISMO XM POBTUOAL 



2.— liftieiieía da emigracã* de 1823 a 4827 



o Congresso de Verona extinguindo a fórroa constitacional ^m Hespanba, d«* 
termina a queda da Constituição em Portugal em 1833. — Byron sentenceia 
Chateaubriand. — £«tado politico de Portugal, segando as reminiscências di- 
plomáticas de Lor.d HoUand. — Estado da liUeratara antes da emigraç&o. 

— O grande Sequeira abandona a pátria. — Relações com Garrett, peio sea 
qoadro da Marte de Camões. — CamOes torna-se para os portugueses oiiia 
expressSo da pátria : Origens do ideal camoniano. — Gon^Jições moraes em 
que foi escripto o poema Camões, — Como Garrett comprehendia o Roman- 
tismo. — Caracter lyrico- elegíaco d*este poema, impróprio da soa feição épica. 

— Ánalyse da sua estroctura : falta de acçfto ; inferior á poesia da realidade 
histórica; imperfeita comprehensão das tradições nacionaes. — Condições 
em que (oi escripto o poema t). Branca. — A lenda do trocador Joio Soares 
de Paiva superior em verdade o poesia á pbantasmagoria de Âben-Afae. — 
O typo de Frei Gil mal comprebendido. — A composição do poema Adozinda : 
sentido litterarío. — Em 1827, Garrett perde a sua* actividade poética. 

O poemeto de Byron intitulado a Eãade d$ bronze resume 
na3 suas estrophes repassadas de sarcasmos eternos a in* 
dignação que oà homens líberaes da Europa sentiram ao vér 
decidir-se no Congresso de Verona a ruina das novas ga- 
rantias constitucionaes : cTres vezes feliz Verona ! desde que 
a monarchica trindade fez luzir sobre ti a sua santa presen« 
ça; . . . Sim, dae vivas t fazei inscripçõest levantae ultrajan- 
tes monumentos para dizer á tyrannia que o mundo acceita 
ò seu jugo com satisfação.» E aecrescenta: «Que estranho 
espectáculo é este Congresso! parece destinado a aggregar 
todas as incoherencías, todos os contrastes t Já não fallo dos 
soberanos, « . . parecem-se todos como peças^ batidas no 
mesmo cunho; masi^s belfurinheiros que fazem dançar os 
bonifrates e pucham pelos cordéis^ apresentam mais varie* 
dade do que estes rombos monarchas. Judeus, auctores, 
generaes, charlatães, intrigam ante da face da Europa as^ 



AiMMmA' OABBBTT 15t 

sombrada de tão vastos desígnios* Ali, Metternich, q pri- 
meiro parasita do poder, capêa a todos ; ali Wellington es- 
quece a guerra ; ali Chateaabriand accrescenta novos cantos 
aos seus Martyres . . .,» ^ É profimdissima a ironia d'esta 
allasao a Chateaubriand; este apparatoso catholico susten- 
tou DOiGongresso de Verona que era preciso invadir a Hes- 
paoha 6 restabelecer no tbrono o despótico Fernando vii; 
assim aconteceu. A trindade satânica da Santa Alliança vira 
na ccHislituição bespai>ho]a de 1820 um abysmo para a causa 
dos bons tempos de outr'ora ; o perigo dos seus interesses 
dynasticos fez convocar o Congresso de Verona, Foi ahi que 
Chateaubriand, esse Tartufo de génio, se elevou ao seu 
olympo, convencendo a cabilda diplomática de que era pre- 
ciso esmagar na Peninsula a obra da liberdade constitucio* 
nal. O daque de Angouléiiie veiu á Peninsula, e depois da 
tomada de Trocadero, o general francez ajoelhou em terra 
e entregou a sua espada a Fernando vu, como sígnal de 
consummada a becatomba da liberdade. Fernando vn, que 
era do estofo dos seus contemporâneos D. João vi, ou Gui- 
lherme lu» tomou á lettra o symbolo da espada;, quebrou 
, todas as amnistias promettidas em presença da Europa, e 
mandou trucidar RiegO; Empecínado, Bessieres, emíim to- 
dos os que trabalharam pelo regimen parlamentar. Foi en- 
tão que a França comprehendeu a sua vergonha ; orgulhoso 
com a iua guerra de Skspanha, Chateaubriand caiu do po- 
der, tendo de lançar-se na oppósiçao liberal para combater 
os que o destituiram» É eloqu^te este grito de Byron ainda 
sobre o Congresso: <Eu nao sei se os anjos choram; mas 
os homens choraram bastante . . . para conseguir o qué? o 
chorar mais ainda.» ^ Estes prantos partiram também de 
Portugal; a nossa primeira Carta constitucional alcançada 



^ Byroo, Edade de bronze, esUncia ix e xti. 
2 Byroo, Edade de bromej est. i. 



158 HISTOBIi. DO BOXAIITIBMO EU PORTUaAL 

peia revolução de i890« seguia a sorte da de Hespanba; o 
nosso Trocadero, foi Yilia Franca, onde não correu sangue 
mas o lodo do mais baixo dos esgotos— a falta de dignidade 
bumana. Em 5 de junho de 182^ a obra de Ghaieaubriand 
tinha produzido o seu effeito em Portugal. Foi então que 
começou a emigraçãQ. No poema Camões, escripto ii'«stas 
crises, Garrett allude á sorte de Hespanba: 

• Eia ! vamos 

Deixa o caminho da iofeíiz Pyrene; '* 

Taes magoas como abi vão poupa a meãs olhos ; 

Assas teoho das minhas. Largo 1 aos mares. . . , 

Em nota accrescenta Garrett: «Quando se escreviam es- 
tes versos, lodos os horrores da reacção absolutista de 1824 
assolavam Hespanba ; e em França era thema de todas as 
vaidades da Restauração o imbelle triumpbo do Trocadero. 
D'áhi a seis annos estava vingada a injuria da liberdade pe- 
ninsular.» * Para se comprehender como estes successos 
que hallucínavam a França se reproduziriam era Portugal 
com todas as suas vergonhas, basta conhecer o caracter dos 
dois actores doeste período, D. João vi e sua mulher Car- 
lota Joaquioã. Eram naturezas fadadas para a catastrophe. 
Basta*nos extrair das Reminiscências diplorhaticas de Lord 
Holland algumas linhas: 

«Pouco sei acerca de Portugal e dos portuguezes, que 
possa ter o interesse da novidade. O rei e a rainha^ muito 
contrários de princípios, de caracter, de procedimento, ti- 
nham uma aversão natural um pelo outro. Na realidade, 
nada bavia de commum entre elles a não ser a lealdade re- 
pugnante das suas pessoas e as suas maneiras canhotas. O 
rei era muito bem intencionado, mas fraco e tímido ; tinha 
um tal medo de ser governado pelos seus ministros osten- 
siveís, que se tornava a victima de baixas e obscuras intri- 

1 Poema Camões ^ not. D, c. i. • 



▲UmDA GsABBBTT 159 

gas, e OS seus conselhos eram sempre vaeillantes, irreso- 
lutos e incertos. O zelo exagerado da rainha pela causa do 
despotismo. impropriamente designado pelo nome de iegiti* 
midade, parecia ter atenuado a aversão do rei por uma as- 
sembléa representativa e uma forma constitucional de go* 
verao. A rainha era vingativa, ambiciosa, egoísta, e tinha 
uma inclinação pronunciadissima por toda a espécie de in- 
trigas politicas ou amorosas. — Em geral os homens influen* 
tes de Portiígal nao são privados de talento nem de instruc- 
çâo, mas a vaidade substitue n'elles a acção de um patrio- 
tismo mais illostrado. São animados de pequenas invejas e 
cheios de perfldias; empregam mais astúcia nas negocia- 
ções com os estados poderosos do que prudência nó goverao 
do seu paiz. Araújo (o Conde di/i Barca)'um homem com- 
petente, esperava que, fazendo macaquices á Inglaterra e 
á França illudiria os projectos de ambas, e acabou por dei- 
xar Portugal na subserviência de uma e por abandonar o 
$eu soberano e q Brazil inteiramente ao capricho da outra. 
Sousa, Conde do Funchal, desejoso de assimilar no seu paiz 
as instituições de Inglaterra, e sinceramente affeiçoado á 
casa de Bragança, conseguiu gastando a sua vida em ca- 
balas com os reformistas e em perseguil-os, o perder 
as boas -graças do seu soberano recusando o posto que o 
poderia pôr eqi condições de executar os seus planos. Com- 
tudo as soas ideias eram justas e esclarecidas; mas, com 
boas intenções, metteu-se em vias pouco judiciosas e muito 
indirectas para as realisar. Naufragou completamente, e 
foi-lhe preciso toda a sua jovialidade natural e a sua soltura 
na conversação para se consolar de todas as decepções po- 
liiicas e pessoaeá a que se viu exposto.» * 

N'estas condições começaram em 1823 as perseguições 
dos constituciqnaes ; Garrett» que escrevera o elogio do 

' Soufienirs diplomatiqueSf de Lord HoUaod, cap. tiii, p. 196. ^ 



160 HISTORIA DO BOMAHTIfllfO MU PORTUGAL ' 

grande revolucionário politico Manuel Fernandes Thòmaz» 
demiUido do seu emprego no Ministério do reino em 
30 de agosto de 1823, teve de refugiar^se em Inglater- 
ra. .0 gcande artista portuguez JoSo Domingos Bomtem- 
po, ^ e o gigante estadista José Xavier Mousinho da Silveira, ^ 
o que lançou as bases das reformas politicas que transfor- 
maram a sociedade portugueza, viram*se 'forçados a expa-> 
triar-se. Durou esta perseguição politica até 1827 ; foi jus- 
tamente o periodo mais fecundo da vida de Garrett* Revê-» 



1 •Hl."'» e ex.i^o sr. A p retenção de JoSo Domingoi BomtempOj compositor da 
musica, que faz o objecto do requerimento iocluso, sobre o qual sua meges^ 
tade é servido niandar-me informar por aviso de v. ex.* em data de 5 docor- 
rente, tem por fim eonceder-se ao ^uppiicante licença para continoar ba pratica 
de admitlir em sua casa a sociedade, a que dá o titulo de — Philarmonica — 
para que do producto das assigoatoras que ali cfoucorrem possa supprír a soa 
subsistência e de sua numerosa família. 

«Ainda que seja certo que á lai sociedade costuma concorrer grande parte 
das pessoas da maior gerarchia e consideração doesta capital, a ella tâmbem'cOn" 
correm niuUos indivíduos, que assim como o supplieante não merecepi o melbor 
conceito na policia, por isso mesmo que a titulo de Ensaios mais a miudo se 
reúnem; e assim para evitar que com este titulo se estabeleça algema Sotie- 
dade secreta, entendo que convirá se faça persuadir ao recorrente qoe tal pra- 
tica deve immediatamente cessar. Sua magestade porém Ordenará o que lôr 
servido. Deus guarde a v. cx.* Lisboa, 10 de julho de 18^3. Ill"» e ex.™» sr. 
Joaquim Pedro Gomes de Oliveira. — intendente geral da policia 4^ corte 
e reino, Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro.» (Contas para as Secretarias, 
Li?. xxH, fl. «8, v.) 

^ €l\\,^<* e ex.*"*» sr. Gommunicaodo-me o corregedor de Portalegre, qqe no 
juizo da sua correíçílo se achavam pronunciados por associações secretas uns 
individues, e entre clíes o administrador geral dá Alfandega granda doesta ca* 
pitai, José Xavier Mousinho da Silveira^ natural de Castello de Vide, qne.açajikoa 
de ser provedor em Portalegre, aonde propagou a seita dos Pedreiros livres, 
que tinha plantado e promovido em Setúbal, quando ali foi juiz de fórai eoiide 
é constante qqe estabelecera duas Lojas, d'elle6; açcrescentando ser am liber- 
tino de primeira ordem, e tão escandaloso que nunca ali ouvia míssa^ e poo- 
eas vezes a familía, e um declarado inimigo da religião e dos thronos^*aiiooi 
ao que aquelie ininistro requeria, e mandei proceder á priMo dos out^^os ^êos 
que' se tiúhsim refugiado para esta capital, porém não. me delibero a mandar 
egualmente proceder á prisão do dito José Xavier, por isso que n'elle' concorre 
a circnmstancia de empregado de tal graduação, e |oi ha pouco Secretario de 
Estado, sem que sollicite de v. ex.* a resolução do que sua magestade queira 
se pratique a sen respeito. Deus guarde a v* ex.* Lisboa. 19 de julho de' 182 3. 
III."* e ex."**" sr. Manuel Marinho Falcão de. Castro. — O intendente geral da 
policia da côrle e reino, Simão da Silva Ferraz de Lima e Caslro.f (Contas para 
as Secretarias, LiT.xiii, fl. .86, V. — S8.) 



itJiaiftA CÍAMURt 161 

laiiam«se fecátdades novas, »m novo modo de seátir; a sua 
òrgaiiis^3o estará apta para receber as impressde& mais 
delicadas, ^ra se impressionar com a^ ideias mais género^ 
sas. Com rasio o próprio Garrett o confessa, depois de 1827 
nunca mais foi poeta, fi com o trabalho casual e de simples 
distràçSo doestes quatro annos» que Garrett abre um novo 
borísonte á poesia portúgueza. 

A musa ' d^ Garrett (bi a melancholia ; è este o único sen* 
timentõ das suas obras de arte, a única expressão dos cara* 
cteres que concebeu, o único eJBTeito dos seus quadros. Esta 
melancholia nlo era uma feição privativa do seu organismo, 
nem uma consequência dos desastres politicos, em que se 
viu envolvido ; era uma fatalidade do meio em que nascera 
e da educação que lhe imprimiram. O povo portuguez foi 
sempre triste; quando a egreja lhe fixa o entrudo para ter 
uma breve espansão, mascarasse e pede esmola; N3o se 
passa debalde por três secubs de queimadeiro fanático e de 
garrote cesarista; a sua mudez veiu-lhe do terror da pes- 
quisa inquisitorial e da mordaça da rasão de estado. Este 
estado de extorçao moral foi tSo longo que produziu o alei- 
jão physico; quem vê hoje os retratos d'esses homens ri- 
jos e corajosos, que tiveram a audácia de crear um parla- 
mento ionstituinte em 1823, fica assombrado, admirando-se 
como aquellas caras alvares e grotescas, como esses ho- 
mens feios, possuíram íntelligencias rectas, convictas e de- 
cididas. Têm todos physionomias tristes, e a sua eloquência 
correspondè-lbes na rudesa lúgubre mas forte. A esta ma- 
nifestação da vida publica, ajuntemos-lhe a escuridão das 
cidades pela, estreitesa das ruas, pela falta de illuminação; 
as tropelias dos valentôes-fidalgos e a excessiva sordidez 
das ruas, cuja límpesa era feita pela voracidade dos cães 
vadios ; a falta de communícação entre os diversos pontos 
do paiz por não existirem estradas, e d'aqai a necessidade 

usual de fazer testamento antes de se metter á jornada; a 
11 



162 HIBTOBIA DO JUmiKTlBIfO XK PORTUGAI. 

infallivel intimidade na fannlia de nm parente frade, que 
dirigia as conscieneias e se tomava o santo casamenteiro ; 
a ignorância completa de todo o movimento politico que se 
passava na Europa» e um horror a tudo quanto era estran- 
geiro, caracterisado com a irrisória expressão de modernis- 
mo; os divertimentos domésticos reduzidos a resar-se o terço 
em commum e em correr aos domingos a via-sacra; a au* 
ctoridade paternal fundada sobre o terror, e o amor da 
mãe em occultar bypocritamente os vidos precoces do Q- 
)tio. Byron tev^ rasão quando nos chamou povo de escra* 
vos, e Garrett recoQbe.ceu essa triste justiça dizendo que: 
«não é muito para lisongear o amor próprio nacional; mas 
tenha paciência, que assim não é muito grande a injustiça 
do nobre lord.» ^ Em 18ãã ainda se cantavam nos serões de 
familia as modinhas soturnas do tempo em que Beckford 
as ouvira ás damas do paço; mas D. João vi era o Jonio 
doestes descantes em falsete: * 

LonVeioos todos 
O grande R«i, 
QuA a justa Lei 
Jura seguir... 

Era assim que se recebia o ultraje nacional com que o 
monarclia rasgava a Constituição. Mas a Modinha não bas- 
tava para alimentar a vida sentimental da nossa classe me- 
dia; a imaginação também precisa que tratem d'ella, que 
lhe dêem mais alguma coisa, além da masticação dós Pa- 
ter-noster, um livro, por exemplo. Um livro? Não é isso a 
mina de pólvora, a faisca revolucionaria, a attracção do 
abysmo? Para que se inventaram os índices expurgatorios 
do século XVI e xvn? Para não deixar que o livro nos viesse 
perturbar as consciências. Para que se erigiu a Real mesa 
censória do século xvni ? Para que o livro não viesse tra- 
zer-nos Ímpetos de sedição contra o paternal governo. Sem- 

I Poema -Comovi oota K. 



168 

pre o livro negro, o livro maldito, o pesadello do Qualifí* 
cador do Santo OfBcío e do Intendente da policia ! Mas era 
j^eciso deixar a imaginação portagoeza repastar-se em al- 
gum livro. Um livro, senão morre-se de tédio ; as chronicas 
dos frades e. dos monarchas offerecem bons exemplos de 
liberaes fundações e legados piedosos, e de reccmhecidos 
sacríQcios á causa das dynastias. Mas o chronicSo não cabe 
no açafate da costura, e só por si enchia o cesto barrelei- 
ro; só se pôde ler n'um púlpito. Os livros dos poetas s3o 
escfiptós em panegyrico de Iodas as ephemerides do paço, 
sâo obras de occasiao e ignoram que existe um sentimento 
eterno que vibra com todas as aspirações da justiça. A so- 
dedade portugueza precisava de um livro, um livro qual- 
quer que a distraísse, e toda a sua litteratura de sete se* 
culós nada teve que dar-lhe; os Contos de Trancoso e o 
Feliz Independente aggravaram-lbe o mal que soffria, au- 
gmentaram-lhe a somnolencia. A litteratura franceza da corte 
de Luiz XV, sobre tudo a litteratura feminina e sensível, era 
a que melhor quadrava á nossa sociedade, no estado geral 
de idiotismo e cblorose; homens e mulheres devoraram os 
romances de Madame Cottin ; Clara d' Alba, Malnina, Ma* 
thUde, Amélia de Mansfeld eram os confidentes de muitas* 
lagrimas ingénuas. A Madame Cottin succedeu Madame Gen- 
lis, com a sua Adélia e Theodoro, As Noites do Caslello, com 
a Menina de Clermont, e sobretudo com esse sentimenta* 
lismo calculado e frio, insensível e secco no intimo, tocante 
e frágil apparentemente, sentimentalismo de seter fôlegos, 
como o caracterisa Carlyle ao faltar da Genlis. Era esta a 
afinação da alma portugueza; chorava*se por um nada, a 
ternura era um signal de educação fina ; a trístesa era uma 
distinção e uma prova de moralidade. O honrado pae de fa- 
mília não dava palavra em casa ; uma boa mãe educava e 
vencia os Ímpetos dos filhos chorando ; a ternura era o nexo 
de todas as relações. Este habito constante tornou o senti- 



164 RI8T0BU JM BOMAimSIfO VC FOBTUOAL 

« 

meDtalismo, que já de si era falso« uma cousa postiça e me: 
ebaniea. Os pães levavam os fflbos a vêr as execuOões na 
forca da praça; a caridade abria as Rodas para esconder as 
crianças rejeitadas pelas filbas-famiiias; ninguém se levan^ 
tava ao vér um rei abandonarnios ao invasor e voltar para 
o seu povo depois do perigo passado, mas cborava-se muita 
lagrima doce, muito dolorido suspiro ao lôr a bistoria de 
Zdia no deserto. Ab ! Paulo Luiz Gourier, acorda o senso 
eommum n*esta gente! Garlyle, escangalha este beatíQco 
$enti«ieDtalismo, esta jmmobilidade tradicional I Micbelet, 
descarrega o teu magnetismo sobre estes versos marasma- 
dos i Mas estes verbos da intellígencía ainda oSo tinham fal- 
lado; a Europa começava a sair do mesmo estado sentimen- 
tal em que estávamos. Era preciso que Portugal respirasse 
o ár livre da rasSo e da verdade. Garrett viu-se forçado» 
pela queda da Gonstituiç3o, a refugiar-se no estrangeiro; 
foi pela emigração que o poeta conheceu que bavia borison* 
tes mais largos do que a rhetoriea, e que os escriptores 
nunca haviam escripto na lingua que o povo fallava. Gar- 
rett estremeceu ante o espectáculo novo do Romantismo e 
Bi%) o acceitou francamente; a sua antiga melancbolia tori- 
nou-se mais funda, mas também mais verdadeira com a sau- 
dade da pátria. Ao menos era já um ideal com realidade, 
era um sentimento sem convenção, era uma revelação da 
vida. Demittido do seu logar de official da Secretaria do 
Reino em 30 de agosto de 1823, e suspeito ao absolu- 
tismo restaurado, pelo facto de ter escripto o elogio do 
constituinte Fernandes Tbomaz, Garrett viu-se forçado a 
emigrar para Inglaterra, mal com a familia, que era a pri- 
meira a condemnar o seu liberalismo. Fraco e valetgdina* 
rio, o clima de Inglaterra era-lbe uma provação; regressou 
momentaneamente a Portugal, ^ d'onde foi immediatament^ 

* «Tendo chegado liontem á c&pital o official da secretaria de estado dos oe- 
focíos do reiao, João Baptisla Lttiao Garrett, Tíndo de loglattira, e de esUr 



AuiEIDi. QABSSTT 165 

mandado sair pela Intendência da policia; o anno de 1823 
foi estéril para elte, nostálgico, sofifrendo em Birmingham 
a dura acclimação, e entretendo-se no outubro em passar' 
a. limpo os cadernos da sua viagem e a rever algumas ode^ 
sinbas de Catullo, que em tempo vertera. Estava loúgé^ 
â€f toda a concepção litteraria. Em França dardejava na 
olympica vaidade Chateaubriand, contente porque a estulli- 
cia a que elle chamava a sua guerra de Hespanha matara a 
Constituição hespanhola restabelecendo o bestial Fernando 
VII ; por este acto da França expirara também a nossa 
Constituição de vinte e dois a um bocejo de D. João vi. Mas 
a França comprehendeu o erro, e o ministro teve de fa- 
zer-se depois um caudilho da liberdade para tornar forte 
a sua opposição ao governo. A Edade Media inventou o 
fablieau do diabo pregador; 'o nosso século viu a tradição 
morta a pretender dar vida á liberdade. A França tornou-se 
como a Inglaterra um asylo para os emigrados portugue- 
zes; Garrett expulso então de Portugal veiu para França 
em 1824, onde encontrou outros foragidos, como o erudito 
José Victorino Barreto Feio, e o grande pintor Domingos 
António Sequeira, a quem Raczynski compara com Ram-^ 
brandt. * Sequeira, tendo-se énthusiasmado pela revolução 
de 1820, e abraçado francamente as ideias da Constitui- 
ção, entendeu que não estava seguro.em Portugal, quando, 



ali Gom indívidaos portuguezfs samniameote easpeitosos, taes como os qae se 
e?adiraiD, por oecasião da reslauração d^é^te reÍDo; havendo até trazido car^ 
tas, das qoaes apresonloa duas : e seodo o sobredito por si mesmo assas sus- 
peitoso, julgo dever ponderar a y. ex.*, que, não obstante elle estar debaixo das 
\ht&9 da policia, seria conveniente fa7el o sair do reino, por isso qoe esto» 
convencido que a sua presença, especialmente n'esta capital, pôde ser nociva 
á segurança publica. V. ex.* porém, tomnndo na consideração devida esta mi- 
nha ponderação se servirá cummunicar^me o que el rei nosso senbor determina 
a este re<ipeUo. Deus guarde . . . Ili.™^ e ex.™** sr. Maouel Marinho Falcão de 
Castro. O intendente geral da policia da côrte~e reino, Simão da Silva Ferraz^ 
de Lima e Castro. — Lisboa 24 de agosto, de 1823.J» (Papeis da Intendência, 
Liv. XXII, fl. 69 V.) 

2 Dictionaire hishnco-artistique du Portugalj p. 26%. 



166 9I8T0SIÁ DO BOMÁHTUMO BM PORTUaAL 

depcHS de Chateaubriand ter restaurado o absolutismo em 
Hespanba em 1823» aconteceu aqui, não uma derrota da liber- 
dade como no Trocadero, mas a ignominia humana da jornada 
de Villa Franca. Sequeira obteve pela influencia com o Du- 
que de Pelmella o passaporte e refugiou-se em Paris. Gar- 
rett dedicou-lhe nma ode com a epigrapbe de Virgílio: Fuge 
litus avartmt 

Bem vindo sejas, ob Sequeira illustre, 

D'es8a terra maldita, 
Oode cracj6cou a Liberdade 

Povo de Ingratos servos. 
Ta, que os louros de Vasco e de Campello 

Reverdecer fatias, • 
Por aqu«Ile maoioho priguiçoto 

Que foi terra de Lysia, 
Fílbo de Rapbael, bem viodo sejas, 

Á este asylo santo. 
Com o nobre pincel nSo polluido 

No louvor dos tyrannos, * 

Aqui celebrarás antigas glorias 

Da que foi bossa patría. . . ^ 

N'estes versos de Garrett já se vê que duas ideias novas 
lhe revolucionaram a mente; a primeira foi o espectáculo 
da actividade que observava^ que lhe fez reconhecer Portu- 
gal como um maninho priguiçoso; e a segunda, o valor das 
tradições nacionaes para fundar sobre ellas a obra de arte. 
Garrett deveu bastantp á communicação com Sequeira ; nas- 
ceu-lhe a paixão pelo bello ; o pintor trabalhava para a Ex- 
posição de 1824, e Garrett começou a trabalhar também 
sobre o seu ideal de saudade. O quadro que Sequeira pin- 
tava era a Morte de Camões; era uma composição simples 
e rembrandtesca: o poeta deitado sobre a sua pobre en- 
xerga agita-se ao ouvir lêr as novas que chegam da bata- 
lha de Âlcacer-kibir; de repente chega ao ponto em que se 
descreve a derrota do exercito portuguez e a morte de el- 

1 Fíôrit wn fruetOy p. 71. 



ÂUOBZDA GABBBTT 1617 

rei D. Sebastião, e possuído do dom prophetíco da suprema 
angustia expira bemdízendo o céo por não sobreiFÍver á li- 
berdade da sua pátria. Que moTimento para um quadro ! 
mas o pincel que tratava com mestria inexcedíTel o Juizo 
Final, bem sabia concentrar todas essas agonias da hora 
tremenda em um único vulto. O quadro da Morte de Camões 
influenciou inevitavelmente sobre a imaginação de Garrett. 
No manuscrípto do poema Camões, se lè esta nota: «Come- 
cei este poema em 13 de maio de 1824, por occupar e 
distrabir o atribulado espirito, que em tanto desterro e so- 
lidão, e com tão afadigada vida, não sei eu* como ainda são 
o conservo. — Havre, em 9 de junho de 1824. Que coisas 
nSo iam por minba terra, em quanto eu cá de tão longe, e 
Ião alheio a taes barulhos, sonhava com as memorias de 
soas antigas venturas!» ^ Por aqui se vô que a mesma data 
de 1824 é cemmum ao quadro da Morte de Camões e ao 
poema; Garrett põe em palavras os traços de Sequeira, 
representando no fim do poema Camões também em um 
pobre leito: 

Voltastes ? E qae no? as 

Me traxeíe? 

•^Tristes novas, cavalleiro. 
Aí, tristes. 1)'esta carta qae vos trago 
Sabereie tado. — Ao Tate a carta entrega ; 
Do Missionário era, que dos cárceres 
De Fez a escroTe. Saudoso e triste, 
Mas resignado e plácido, lhe manda 
Consolações, palavras de brandura, 
De alIÍTÍo e de esperança : • Extincto i tudo 
N*etta mansão d$ lagrimas e dares; 
As lettras dizem tudo; mas a pátria 
* Da eternidade só a perde o impio 

Dent ê tiríwU restam: cansolaé-vas, . .» 

— tOhl consolar-me? (exclama, e das loftos tremulas 

A epistola fatal lhe cae. . .) Perdido 

É tudo pois! . . , f No peito a voz lhe fica ; 

1 Catalogo dos Autographos^ p. xtiii. ... 



168 HI8T0BIA sa BOIU3ITI8MO ■■ POK.TUaAL 

E da taí^nh» f<|lpe amort^Mlo 
* loclina a frente, e como m passara, 

Fecha laDgaidamenta 06 olhos tristes. 
JUeiado o nobre conH» te aproxima 
Do leito. .. Ai! tarde vens, auxilio do homem. 
Os olhos turvos para o céo levanta r . 

£ j& no arranco extremo: -> «Pátria, ao meooflip 
Jantos morremos. . •» E expirou co'a pátria. 

Depois doestes rápidos versos qoe dos dão uma justa ideia 
da M^te de Camões do protentosp Sequeira, Garrett escre- 
veu a seguinte nota: cÉ notável coincideoGia, e que muito 
lisongeia o meu pequenino amor próprio, que emqaaQto 
eu» humilde e desconhecido poeta, rabiscava estes versL- 
nhos para descrever os últimos momentos de Gamões, o sr. 
Sequeira immortalisava e^n Paris o seu nome e o da sua 
nação com o quadro magniOco que este anne passado de 
1824 expoz no Louvre, em o qual pintou a .mesma sema. 
Valha-nos, ao menos, descabidos e esquecidos como esla- 
mos, que haja ainda portugoezes como o sr. Sequeira, que 
resu5€item, de quando em quando, o adormecido ecco da 



> 



1 



nossa antiga fama. 

A obra de Sequeira foi assim julgada pela imprensa fran- 
ceza: «Daremos as honras do Louvre ao Gamõ^áo sr. Se- 
queira. . . O rosto do velho poeta n'este quadro é bello; 
bem entendido, bellesa poética. Nos membros devorados 
pela velhice e miséria, por entre a barba desgrenhada, avis- 
tam-se ainda os signaes da grandeza de alma, e os vestí- 
gios da organisação superior que fazia juntamente o grande 
poeta, e o guerreiro valoroso. Este quadro, despido de to- 
das as seduções da arte, arrebata muito alèm do ordinário; 
o assumpto é representado com singelesa e energia. Em- 
flm, esta tela encerra o que lodos os pintores devem procu- 
rar, — a verdade e o pathetico.» ' Pçdemos aflfirmar, que o 

1 Poema Camões, canto x, not. D. 

2 No Correio francez, u.° 261, de 1824. Descripção feita por Serrurs; tra- 
duzida na Caria, n.° 13, de 1826. 



▲LmiDA GÁBRKTT 169 . 

mesmo sentimento que suscitou ao assombroso pintor Sé<^ 
queira o assumpto da Morte de Camões foi o mesmo que actuou 
em Garrett, que se desculpa da relaç3o accidentaí entre essas 
duas maraTilhas da arte portugueza, e em Domingos Bom* 
tempo, que ahi compoz a sua Missa de Requiem dedicada at 
Camões. Esse sentimento que inspirou os três génios refb* 
giados ao mesmo tempo em Paris vae-nós ser revelado pela 
historia. Em quanto na pátria Camões morria abandonado, 
e os críticos do jaez de Manuel Pires, Verney e José Agos- 
tinho ultrajavam a epopéa da nacionalidade, era no estran- 
geiro que os portuguezes conheciam a profunda relação en- 
tre a pátria e Camões, a ponto de adoçarem as suas sauda- 
des estudando os Luziadas. Os* factos são por si eloquentes: 
em 1607, o padre André Bayão, que estava por mestre de 
rhetorica em Roma, traduzia os Luziadas para latim; em 
1622 Frei Thomé de Faria, bispo de Targa, emprehendia 
e publicava aos oitenta annos de edade outra versão latina 
dos Luziadas dedicada á nação portugaeza, que estava extin- 
cta; em 1624, João Franco Barreto vae á restauração da Ba- 
hia, e foi na ausência da pátria que adquiriu esse amor que 
empregou na revisão dos Luziadas em 1631, e que foi a oc- 
cupação da sua vida, depois que regressou de Paris, onde 
fora em 1641 com o embaixador Francisco de Mello. João 
Pinto Ribeiro, o que levantou o grito da independência 
em 1640, commentava os Luziadas. Frei Francisco de 
Santo Agostinho Macedo, que em 1644 estava na corte 
de Lniz xni, traduz também para latim o poema dos Lu- 
ziadas. Durante a sua ausência de Portugal, na corte de 
Castella, è que Faria e Sousa se occopára na coordena- 
ção dos Gommentarios da grande epopéa. Durante a sua 
^sistencia em Paris, é que o Duque de Palmella se distra- 
ia em traduzir para verso francez os Luziadas, da qual 
diz: «que havia encetado em 1806 no verdor da mocidade, 
animado pelos conselhos de alguns litteratos írancezes mais 



170 HI8T0BU DO BOMAVTISMO BX PORTUaAl. 

^eminentes com os quaes me achava ligado de ami&ade, es«- 
timulado principalmente pelas solicitações de Madame de 
Staêl ...» ^ Os litteratos que fortaleciam o Duque de Pai- 
mella no seu intento, seriam Bouterweck, Sismondi» Gha* 
teaubriand, e os dois Scblegel, que nas suas obras fizeram 
sentir a importância moderna e o sentido actual da epopèa 
portugueza. N'esse mesmo anno de 1806, Byron escrevia 
essas mimosíssimas: 

StARZAS a DMA JO?BN 

ocompanAanifo a» Rimas ú» Camõ$i. 

Àh, caral por Tentara á dádifa, que exprime 
paro afecto meo, darás valor per isso ; 
Sio cânticos de amor de om ideal sablimOf 
O tbema «terno sempre — o éden a o abysso. 

Hão»de acbal-o om abysmo a frívola ioTOjosa, 
E as solteiras também, qoe ficam para tias ; 
E a popilla gentil, qae por pudor nada oosa, 
Qoe em fria solidão conta dias e dias. 

En coisa algomaegoalas esses pobres entes; 
Lé) querida este livro; ah, lé>o com ternura, 
Nilo é em váo que peço anceios teus veberoentes 
Para o grande Camões em tanta desventura. 

CamOes era em verdade om bardo, am génio immenso. 
Nada tem de fictieia a cbamma qoe o devora ; 
Um amor como o d'elte bas-de encontrar, eo penso, 
Mas nunca o infeliz destino seo, senhora. 

A ode de Raynouard sobre Camões ' foi logo ooidiecida 
em Portugal; mas foi longe de Portugal, outra ytt em Pa* 
ris, em 1817, que o Morgado de Matbeus fez a opulenta 
ediçSo dos Luziadas, que ha-de ser sempre uma maravilha 
da imprensa moderna. N'este mesmo anno o espirito nacto^ 
nal agita-se contra o protectorado inglez, e depois 4as for- 
cas do Campo de Santa Anna, apparece o projecto de um 



1 Apad, Jur.f Obras de Camões, i, p. ilO. 

2 Garrett cita-a ao seo poema^ p. 203. 



ALMBIDA OABaXTT 171 

moAumento a Gamões, que nio foi levado a cabo por causa 
da má vontade dos governadores do reino na ausência de 
D. Jo3o VI. N2o é acaso esta serie de factos. 

Em 1820 o primeiro compositor portuguez João Domin- 
gos Bomtempo, vivendo em Paris» onde fizera a sua educa- 
ção musical, publica a celebre Missa de Requiem €ouvrage 
(msacré à la memoire de Camões, ^f escripta para a festa da 
inaugaração do mallogrado monumento. Baibi caracterísa 
Bomtempo de talento extraordinário, ^ e era esse mesmo ta- 
lento que o fazia comprebender como o ideal da pátria se re- 
presentava em Camões. Por tudo isto vemos, como è que 
Sequeira em 1823 também em Paris pintava o quadro da 
Morte de Camões, e Garrett escrevia o seu poema. Já no fim 
rio século xvi os dois portuguezes Benito Caldeira e Henri- 
que Garcez traduziam para castelhano os Luziadas, para com- 
municarem aos extranhos entre quem viviam o seu senti- 
mento nacional. 

Todos os grandes creadores da noya pbase do Romantismo, 
ao exemplificarem como a obra de arte é tanto mais bella e 
eterna quanto se funda sobre o caracter nacional, interpre- 
taram a epopêa de Camões como a prova mais eloquente 
da soa doutrina pbilosopbica. Schiegel, aãirmando que de- 
pois de Homero, nenhum poeta excedia Camões na intuição 
poética das tradições nacionaes, concluiu superiormente, que 
os Luziadas suppriam uma litteratura inteira. Raynòuard, 
Thimoleo Lecussan Verdier, Millié, em França, celebram em 
odes ou traduzindo os Luziadas, a gloria de Camões. Em 
h^laterra John Adamson, amigo intimo de Garrett, publica 
^m 1820 as suas Memorias de Camões. Tudo conspirava para 
«icordar na alma do exilado essa ideia poética em que o sym- 
^lo mais vivo dá pátria se via concentrado em Caniões. 
Garrett não teve consciência de que obedecia mais a uma 

' Joaquim de Vascoocellos, Os Músicos portuguetet^ t. t, p. it* 



172 HISTORIA DO ftOXAHTISMO EM PORTUGAL 

corrente Htteraria do que a um affecto patriótico r â prova 
está em que depois de defender a originalidade do poema 
Camões das reminiscências do quadro de Sequeira, coq« 
tínuou a derender-se de não ter imitado Lemercier, nem 
Ferdinand Denis: «Depois de ter o meu poemeto quasi aca*^ 

x 

bado, vi extractos de uma composição de Lemercier, que 
algum longe de analogia poderá ter com esta: é sobre Ho- 
mero. Porém é tão excêntrico e extravagante em suas coi- 
sas e modo o tal Mr. Lemercier, segundo vejo de outras 
obras suas, que nem procurei lêl-a; sei todavia que o seu 
plano é diverso, e que nenhuma luz podia dar-me no meu 
intento.» * 

A obra de Lemercier, a que aliude Garrett, são os ex- 
tractos dos poemas sobre Hamero, e. Alexandre, (Í801) que 
foram publicados com a Atlântida em 18!23, juntos com 
o poema Moysés, em quatro cantos. Lemercier foi um 
revolucionário da litteratura moderna, a quem succedeu 
Victor Hugo tanto no espirito como na cadeira da Acade- 
mia; el!e está ligado á nossa historia litteraría pelo seu bello 
dr^ma Pinto, em que é heroe o grande revolucionário de 
1640. Por tanto as excentricidades e estravagancias de Le- 
mercier notadas por Garrett, denotam-nos que o poeta emi- 
grado ainda tinha certos pontos de vista em que dominava 
a personalidade arcadica de Jonio Duriense. É certo porém, 
que pelos poemas de Lemercier, viu Garrett que nem só os 
nomes de cidades ou de reis serviam para titulos de poe- 
mas^ e que a característica do heroe consistia na individua- 
lidade. Garrett defendia a sua originalidade, porque con- 
fessando que não acceitava o Romantismo, cuidava que a 
concepção do poema Camões era puramente pessoal e não 
uma consequência das novas ideias litterarias que viu rea- 



1 Catalogo dos Autographos, p. zix. Este paragrapho é omisso no prologo 
de todas as ediçOes do poema Camões, 



AiMMiDA QAMawrt 17$ 

Jisadas em volta de si. Foi por causa disto, que mais outra 
vez defende a sua originalidade da prioridade de um tra- 
balbo do benemérito Ferdinand Denis intitulado: Scêneã 
de la nalure sur ks tropiquea^ et de leur influence sur la 
Pmie, suivie de — Ckimões eí Joseph índio, publicado em Pa«> 
ris em 1824. Garrett escreve mais tarde» arrependido das 
suas reclamações: <Na primeira edição do meu poema Ca^ 
mm, que é doesse anno, fiz à semsaboria de me pôr a 
dar explicações em como não tinha nada a minha compo- 
sição com a do sr. Denis. Consta-me, que entendendo pro^ 
yaTelmente mal as minhas palavras, aquelle escriptor, que 
também tem merecido da nossa litteratnra» se offendeo d'eK 
las. Peço-lhe aqui scriemoe desculpa, e declaro a minha eon« 
vicção intima de que, assim como eu não sabia de sua o6ra, 
nem a vira antes de publicar a minha, o mesmo estou certo 
que lhe acontecesse.» ^ No Resume de VHistoire Litteraire 
du Portugal, de 4826, escrevia Mr. Ferdinand Denis: cLem- 
brareí aqui, que dois mezes depois da publicação das Sce- 
nas da Natureza sob os trópicos, nas quaes se acha um 
episodio sobre a vida do grande poeta, appareceu em por* 
togaez um poema anonymo intitulado Camões. Deixo a ou* 
tros o cuidado de decidir acerca do mérito da obra; o au« 
ctor confessa, é verdade, que appareceu só depois de mim» 
mas que seis mezes antes o seu trabalho estava composto. 
Dois annos antes, tive eu a honra de lêr o meu episodio 
em presença de uma numerosa assembléa, em casa de M. 
Tharot, um dos professores do CoUegio de França.» * A 
causa doestes equívocos encontra-se no estado intellectual 
q\l$ estas palavras de Garrett descobrem: «Não sou clássico 
nem romântico, não tenho seita nem partido em poesia, as- 
sim como em coisa nenhuma; e por isso me deixo ir por 



' Poêisa Camõet, oot. I, GtBtQ ix. 



174 mSTOSIA DO BOMAVnSMO im portuoal 

onde me levam minhas ideias boas ou más, e nem procaro 
converter as dos outros^ nem inverter as minhas nas d^el- 
les.» * Em 1825, tanto em politica como em litteratura es- 
tava-se n'Qm d'aquelles momentos decisivos em que todo 
o homem de bem linha fatalmente de ter uma opinião e de 
a sustentar; a liberdade obrigava o absolutismo a fazer con- 
cessões, e a verdade atacava as falsas macaqueaçoes das 
obras da- antiguidade. 

O que era o poema Camões tratado por um dassico, ahi 
o temos bem claro n*esses dois cantos em oitava rima, es- 
criptos no fim do século xvn por Manuel Lopes Franco, que se 
guardam entre os Manuscriptos da Academia das Sciencias ; 
basta lêr os argumentos: «Canto i. Expõe-se a matéria, 
fallà-se com o heroe que se celebra, iníplora-se Galiope, 
mostra-se Gamões vaticinado; faz-se Concilio no Pindo para 
sahir á luz, descrê ve-se a determinação, etc. — Canto u. 
Sabe Camões á luz e celebrase o seu nascimento; procura 
a Universidade de Coimbra, é ílluminado das Sciencias, 
volve para Lisboa; referem-se os amores que teve com uma 
dama do paço; pondera-s'e a força do amor, origem toda do 
seu desterro.» * A écloga Cintra, em que Faria e Sousa con- 
centrou todas as situações da vida do grande épico é tam- 
bém uma obra clássica. Trocar a vida real pela vazia alle- 
goria mythologica, a linguagem de dentro pelo epilbetorhe- 
torico, o sentimento natural pelo molde já auctorisado, por 
um processo assim, o assumpto b mais poético, como as 
desgraças generosas de Camões, só serviu para oitavas e 
éclogas bariaes. 

Mas vejamos agora como Garrett foi arrebatado incon- 
scientemente pelo romantismo. O poema Camões, exprime 
um novo estado do sentimento; Garrett começou por tirar 



1 Catalogo dos ÂuíographcSt p. xi. 

2 Academia das Scíeacias (G. 5 ; E. âl ; Part. 4.) 



ÀIMEIDk OISBBTT 175 

a iospiraçlo do meio e das circumstancias que o tocavaqi. 
Olbou em volta de si, em vez de correr atrás dos Faunos : 

Eo tí sobre a» comiádas dat montanbai 
B'Albion soberba as torres elevadas 
Uda feodaes memorias recordando 
Dos Britões semibarbaros. Errante 
Pela terra estrangeira, peregrino 
Nas solidões do exilio fui sentar-me 
Na barbacan ruinosa dos castellos 
A conversar co'a8 pedras solitárias, 
E a perguntar ás o[iras da mfto do honem 
Pelo homem que as ergueu. A alma enlevada 
Nos romanticot sonhos, procurava 
Áureas fleçdes realisar dos bardos. 
Murmurei os tremendos esconjuros 
Do Scaldo sabedor, ^ fallei aos eccoí 
Das ruiaas a liogua consagrada 
Dos menestréis, — Perfis solemnemente 
Todo o rito, invoquei firme e sem medo 
' Os génios mysteriosos, as aérias 

Vagas formas da virgem de alvas roupas, 
Que as tranças d'ouro penteando ao vento, 
CaaM^ as canções dos tempos que passaram 
Ao som da harpa invisível, que lhe tangem 
Os domados espirites que a servem, 
Gomo o subtil Ariel, por invisivel 
Encantado feitiço.» * 

N'estes versos, em que Garrett allude á impressão rece* 
bida das obras de Walter Scott e de Shakespeare, se vê a 
coocep^o exterior que elle formava dò Romantismo; era 
uma espécie de guarda-roupa da Edade Media e não a con- 
tinuação d'essa lucta dos dialectos que procuraram fazer-se 
valer contra o uso exclusivo do latim clássico, e agora con- 
tinuar essa lucta na expressão livre do sentimento moderno. 
Os críticos comprehenderam muito cedo esta verdade his- 
tórica; os artistas não, e teriam inutilisado o problema no 
ultra-romantismo^ se a sciencia da historia não viesse cor- 
roborar a aspiração ao natural. 

O poema Camões, como escreve Garrett em uma nota 



1 Poema Camõet, e* tn. 



176 HISTORIA DO BOKUmSMO BU PORTUGAL 

autobiographica, ^ foi quasi todo composto do verão de 1824 
em iDgouville ao pé do Havre de Grace, aa margem direita 
do Sena, indo-o acabar a Paris no inverno de 1824 a 18S5; 
«n'uraa agua-furtada da rua Coq-St.-Honoré, passávamos 
com os pés cosidos no fogo, eu e o mea velho amigo o sr. 
J. V. Barreto Feio, elle trabalhando no seu Sallustio, eu 
lidando no meti Camões, ambos proscríptos, ambos pobres, 
mas ambos resignados ao presente, sem remorso do pas- 
sado, e com esperanças largas no futuro.» A amisade de 
Barreto Feio teve uma decidida influencia sobre a creaçao 
dô poema Camões; n'este tempo estudava na Bibliothèque 
Boyal o exemplar da edição de 1572 para fazer uma edi- 
ção critica das obras do poeta, encetada em 1826 na casa 
Didot, mas que não foi por diante, porque lhe foi permit- 
tido, em virtude de novas alterações politicas, regressar a 
Portugal. * O estudo critico de Barreto Feio pa,ra a biogra- 
phia de Gamões, influiu n'essa parte do poema em que 
Garrett acceita a errada tradição de ter sido o grande épico 
perseguido pelo Conde da Castanheira, e de ter amado uma 
D. Catherina de Athayde, que não é a fílha de D. António 
de Lima. Barreto Feio, apesar da sua erudição latina, pos- 
suía o segredo de produzir enthusiasmo petos nossos mo« 
numentos n^cionaes ; em Hamburgo fez elle apaixonar um 
negociante portuguez de secos e molhados pela reproduçíSo 
do theatro de Gil Vicente I ^ A amisade de Barreto Feio e 



1 Ibid.f not. D, c.'i. 

' Obras de Camões^ 1. 1, p. xiii. Ed. de Hamburgo, de 1831. 

' Referiino*oos a Jeié Gomes Monteiro, qoe por occasifto do asMssinato é&$ 
lentes de Coimbra em 1828, abandonou o terceiro anno jurídico da UoWerM- 
dade, emigrando para Inglaterra. D'ali partio para Hamborgo onde chegou a 
associar-se com o cônsul e negocianjle portoguex José Bíbeiro doe Santos, au- 
xiliando com os dinheiros da casa as edições de GamOes e de Gil Vicente em- 
prebendidas por Barreto Feio. Estes dois negociantes foram escriptores e me- 
recem aqui uma índicaçSo biograpbica. José Ribeiro doe Santos, nasceu em 
V;iUa Nova de Gaia em 1798, e vi?eu sempre no estrangeiro como cônsul por- 
tuguês, e d'elle resta um Tratado consular; estabelecido em Han^ui^ eom 



ALMSIDA OARBBTT 177 

de Garrett n'este período da emigração, tem uma certa ana- 
logia com a digressão de Lacurne de Saiute. Pelaye e do 
presidente de Brosses na Itália; como de Brosses, Feio an- 
dava preoccupado com o estudo do seu Sailustio, ao passo 
que Garrett compenetrava-se do espirito da nossa epopêa 
nacional, como Lacurne desenterrava dos velhos archivQs 
as Gestas francezas. 

A publicação da versão critica portugueza das celebreis 
Cartas amorosas de Marianna Alcoforado, em Paris em 
18á4, pelo Morgado de Matheus, o opulento editor dos Lu- 
ziadas, era um facto que contribuia para acordar nos emi- 
grados o sentimento nacional. No cemitério do Père La- 
chaise se encontravam juntq da sepultura de um outro expa- 
triado, mas pelo intolerantismo religioso, o poeta Filinto 



õAia poderosa casa commercial de secos e nivlbados, emprebaodeii ama expe- 
dição- scieotifica e commercial á Africa, que mereceu ser historiada em um li- 
vro por um escriptor allemão que o acompanbaTa. Na sva ausência, a casa de 
Hambargo sospeodeu pagamentos com vm passivo de mais de duzentos coatos 
de réis, e ao receber em Angola esla noticia, morreu fulminado a bordo do seu 
navio Vasco da Gama, a 13 de fevereiro de 181 d. (Vid. a soa biograpbia no 
^T de Janeiro, n.<' 13, de 1842, Porto, per José Feliciano de Castilho. Bibl. 
Nacíon., Coll. de jornaes, A, 130.) 

José Gomes Monteiro nascera também no Porto, em 1807 ; entroa aos deze- 
sefs aanog para os cursos de leis e cânones da Uoi?ersidade, fagiodo de Portu- 
gal, como já dissemos, em 1828. Não tinha a illustração sufBciente para 
cooperar nas ediçOe^ de Gil Vicente e de Gam96s, na época em que ellas ap-> 
pareceram. Do trabalho sobre os Luziadas falia Garrett referindo- se a Barreto 
Feio ; no trabalho sobre Gil Vicente o auctor allude a outros escriptos anterio- 
res, e n'este caso só estava o enidito Barreto Feio ; por tanto o nome de José 
Gomes Moiileiro n'efs«ia adições foi uma como compensoç^ éi saa coadjuvaç&o 
pecuniária. José Gomes Monteiro, depois da faliencia de Hamburgo, voltou ao 
Porto,- onde exerceu algum tempo o cargo de recebedor de fazenda ne bairro 
de. CSi^doleiU^ Os sens trabalhes litteraries resomiram-se a uma trade§io frouxa 
de poesias allemãs, Eccos da Lyra kutonica, uma Carta a Thomaz Northon so- 
bre a Situação dá líhií dos Amores, baseada sobre úm critério errado, e um 
volume inédito sobre a realidade historico-allegorica da oovella do Amadis 
de ^Gauhj que em outro logar apreciámos. Altribue-se-lhe uma novella em 
prosa intitulada Crisfal e Maria, que chegámos a vèr, mas uSo tem o menor 
merecimqçto. Foi nos QpS; da sua vida gerente da livraria. More,- teado por esse 
^motivo de, defender uma tradução portugueza do Fatis/o feita por Castilho. Fal- 
leceu a 12 de julho de 1879. Dizia possuir bastantes cartas de Garrett. 



178 mSTOSIA DO BOMáHTIBMO BM PORTUGAL 

« 

ElysiO) que LamartiDe celebrara em uma sentidíssima ele- 
gia. Outros, como o Dr. António Nunes de Carvalho, ado- 
çavam as agruras áo desterro fazendo investigações nas bí- 
bliolbecas de Paris e Londres para copiarem os extraordi- 
nários monumentos da iiUeratura e da historia de Portugal 
ali archivados. 

O poema Camões publicou-se em Í8ti5, em Paris, ano- 
nymamente, á custa de António Joaquim Freire Marreco, a 
qi:em Garrett chama: 

• 

Certo amigo na angQ3tia, que aos tormenloe 
Hirradores, qae a Tida me atrasavam 
Adoçaste o amargor, e com benigna 
Dextra cravaste a roda do iafartuaio 
Gravo que o gyro bárbaro Ibe empeça. . . 
A ti minhas endeixas mal cantadas. . . 

As condições particulares em que Garrett escrevia, im- 
primiram no poema Camões um tom elegíaco tao constante, 
que lhe dá o movimento subjectivo de uma longa ode. A 
sua feiç3o lyrica obriga-o a divagar nas descripções, em vez 
de seguir a marcha natural do poema, que é narrativa. 
Garrett trabalha sobre dois factos que a vida de Camões 
lhe ministra: a chegada a Portugal em 1570 depois de 
dezesete annos de ausência, e a sua morte depois do de- 
sastre de Alcacer-kíbír* Esta realidade excede toda a poe- 
sia. Entre estes dois extremos, Garrett preferiu inventar 
todas as situações do poema. Gomo o fez.elle? A sua ten- 
dência lyrica o explica ; recolheu-se na estéril contemplação 
melancholica» em vez de procurar a realidade para vêr o 
que ella tinha de ideal. Sigamos a marcha do poema : a ac- 
ção começa com a chegada do galeão, em que o poeta re- 
gressa, ao porto de Lisboa; entram no escaler os passagei- 
ros, Camões e um missionário. Quando o escaler larga, é 
que se notam os choros de um escravo que ficara a bordo; 
era António, o jáo, amigo de Camões. O poeta insta com 6 



ALMBIDA oiBBnr 179 

mestre para que atraque de novo para tomar o seu escra* 
vo, o mestre alterica, segu^n-se bravatas entre' ambos, e o 
missionário intervém' cora a sua doçura e consegue que o 
escravo seja trazido para terra. Os passageiros cbegain a 
terra, cada quai se dispersa, e Gainlões embrenbando-se 
pela cidade com o escravo ao acaso, 6 convidado pelo mis"- 
sionario para pernoitar no mosteiro da sua ordem. Ga- 
mões dá alguns pardáos ao jáo para procurar albergue, 
mas o missionário nao o consente, e v3o todos caminho do 
mosteiro. £ ests a dkmnutisstma acção do primeiro canto, 
todo dispendido em effusões lyricas. N3o tem recursos épi- 
cos; é falsa a seena do desembarque, crá o abandono do 
jáo na cidade para elle desconhecida. E comtudo a rea- 
lidade histórica excede a maior epopèa: Camões chegava 
á pátria, depois de ter perdido no mar, e quasi á vista 
de Lisboa, o sen grande amigo e poeta, o valente Reitor 
da Silveira; Lisboa estava quasi deserta, apesar de estar 
enfraquecida a immensa mortandade da chamada Peste 
grande de 1569; e as portas da cidade estaram guarda- 
das pelos honrados da terra para que não entrasse nin- 
guém doente. Pelas ruas marchavam lugubremente, e com 
gritos fervorosos e resas hallucinadas, as procissões de pe- 
nitencia e de acçio de graças. £ entre esse ruído qué Ca- 
mões desembarca ; é entre esse tropel medonho, arrastado 
por um inexplicável sabbath, que o poeta pergunta a si 
mesmo se desembarcou em Lisboa, e vae ao acaso a ver 
se de80(rt)re a antiga casa humilde de seus pães no bairro 
da Mouraria, onde encontra ainda viva sua mSe, ^muito ve- 
lha e muito pobre. 9 

Tal é o beHo canto que a realidade histórica nos revela 
ter sido este momento da vida de Gamões. O canto de Gar- 
rett é ténue e descolorido, apesar de toda a sua elevaçSo 

lyrica. 
O canto II do poema Camões è theatral, é um doestes qua- 



180 HISTOBU IK) BOXAirmilO BM POBTUaAI. 

dros de líbretto. Quando os três se dirigiam para o mos- 
teíro, ouvem dobre de siaos, ais carpidos; e brandões fu- 
néreos roínpem a escuridade da noite. O jáo toma como 
máo agouro o encontro do saimento ; Gamões por um pre- 
sentimento aziago entra no mosteiro; com um movimenta 
desencontrado do féretro, desprende-se do cadáver uma gri- 
nalda de rosas que vem cair a seus pés. Camões aproxi- 
ma-se» vae para vêr quem seja; é uma donzella, amorta- 
lhada em vestes cândidas, Natércia! Os éccos do templo 
repetem o nome de Natércia, e o poeta cae sem sentidos- 
em terra. 

O caracter theatral doeste canto, resente-se das impres- 
sões que em Inglaterra recebera Garrett ao vêr represen- 
tar as tragedias de Shakespeare ; Camões entra em Lisboa, 
como Hamlet no cemitério; Hamlet vê aproximar-se um 
saimento rico e apparatoso, confunde-se na multidão para 
vêr quem era.. . <Ah! a minha bella Ophelia! Eu amava 
Ophelia; ás aíDições de quarenta mil irmãos todas juntas 
não egualavam a minha.» ^ £ então que Hamlet cae em um 
mysterioso accesso de fúria. A grinalda que Ophelia tecia 
ao cair na corrente, é essa que aqui rola da cabeça de Na- 
tércia e vem cair aos pés de Camões. Põde-se imitar uma 
scena d'estas, mas não é descrevendo; e Garrett em vez. 
de dar aos seus personagens essas falias que são relâm- 
pagos da consciência, liraitou-se ao. verso descriptivo. 

Garrett pairava no vago da imaginação, porque lhe faU 
tava o apoio histórico; Camões chegava á pátria em 1570^ 
e desde 1556 que D. Gatherina de Athayde era morta. O 
poeta, como é sabido, tem a liberdade do anachronismo» 
mas» aqui a realidade ultrapassa em bellesa todos os artiS- 
cios da imaginação : Camões ao chegar a Lisboa, encon- 
tra viva sua velha e pobre mãe D. Anna de Sá ; o filho tam^ 

1 Hamlet, acto v. 



AUOBIOA aARBBTT 181 

bem se lhe apresenta pobre e exhausto de forças pelos ru- 
des trabalhos da guerra e dos mares. A casa é humilde, e 
mal tem onde recolher o bom António, o escravo jáo. A 
mãe conta-lhe os longos terrores da peste grande, e o poeta 
narra-lhe os naufrágios e prisões, os seus desalentos, e 
€omo no meio de todos os desastres esperava trazer da 
índia para a sua pátria o maior thesouro, um thesouro 
eterno. Tral-o comsigo, através de todos os accidentes ino- 
pinados da sorte que ]h'o quiz tirar. É o poema dos Lu- 
ziadas. A boa mãe sorri-se amargamente d'aquella alma 
sempre generosa e imaginativa. Dias depois Camões recebe 
um bilhete de uma dama do paço; conhece a lettra; era da 
formosissima D. Francisca de Aragão, que nos tempos em 
que frequentava a corte lhe pedia versos. O que será? 

Mas deixemos este elenco rigorosamente histórico, para 
proseguírmos na ficção de Garrett. No canto m do poema 
Camões, o poeta volta a si e acha-se recolhido na cella do 
missionário, com o jáo velaodo-lhe cuidadoso. É então que 
o missionário lhe falia, e Camões reconhecido promette 
contar-lhe o motivo do seu desmaio. Narra-lhe os com- 
bates em Ceuta e no Estreito, como perdeu um olho baten- 
do-se contra os piratas e defendendo seu pae. Volta á corte 
e apaixona-se por uma filha do Conde da Castanlieira, o ter- 
rível valido de D. João ni; pensando em merecel-a entra no 
Mosteiro de Belém, recolhe-se em contemplação junto á se- 
pultura de D. Manuel, e foi ali que o génio da pátria lhe 
inspirou a empreza 'que encheu a sua vida. Foi ali que teve 
a primeira ideia do poema. Quando ia n'esta parte da nar- 
ração, interron^e-o um mensageiro com uma carta mys- 
teriosa e anonyma, que o convida para comparecer como 
cavalleirtí em uma dada hora e em um dado sitio em Cin- 
tra. 

No canto iv, prosegue a narração até chegar á' historia 
dos seus amores com Natércia, e como ella mesmo lhe pe- 



182 HIBTOBU DO BOMAHTISItO BU PORTUGAL 

diu que fosse engrandecer-se nas armas; narra a partida, 
á viagem tempestuosa, o desterro de JVIacáo, e como está 
finalmente na pátria tendo realisado a obra do seu pensa- 
mento, mas yendo ao mesmo tempo o naufrágio de todas 
as suas esperanças. Antes de partir para o praso myste* 
rioso de Cintra, entrega o seu poema ao missionário para 
lh'o guardar. Esta situação faz lembrar, ou, talvez foi sus* 
citada pelo episodio da vida de Dante, quando desterrado 
de Florença entrou no Mosteiro de Santa Croce-del-Corvo, 
e depois de ter ali encontrado a paz no bom prior Fra Hi- 
lário, lhe confiou á sua guarda o deposito da Divina Come- 
dia. 

O canto V é todo subjectivo e elegíaco; Camões vae a Cin- 
tra, e todos 0$ sitios recordam as horas dos seus amores, 
as passadas illusões; é este canto o que menos acção apre- 
senta, e o que è mais lido e repetido, principalmente pelo 
retornello : 

Rosa de amor, rosa purpúrea e bella, 
Quem entre os goÍTos te esfolhoQ da campa? 

Depois de uma prosopopêa á gruta de Macáo, soidão que- 
rida, onde o poeta passou doces horas de tristesa, exalta 
Cintra, como estancia amena e throno da vecejante prima- 
vera. Camões perde aqui o seu typo enérgico da lucta e 
declama como um scismador melancholico. É no meio d'este 
desalento, que o interrompe a voz do missionário, conso- 
lando-o, dizendo que lhe obteve uma audiência de el-rei D. 
Sebastião: 

— tMas o livro? 

«Á cdrfe 
Vim per ellie e por t^ ; oommigo o troive. 

O canto VI é uma longa divagação descriptiva baseada em 
emoções da historia de Portugal; a acção resume-se no em- 
penho 4e D. Aleixo de Menezes conseguir do joven monar- 
cha uma audiência ao poeta para lhe lêr os Luziadas. O 



ALMEIDA QàJLsasrr 183 

canto VII é uma effusão lyrica sobre o bon vkux temps, em 
que Garrett esboça os sentimentos do romantismo; des- 
creve a anciedade dos pretendentes, e como o monarcha e 
a eôrte vão ouvir lêr o poema em uma gruta de Cintra ; a 
leitura è narrada minuciosamente pondo em Terso a sum- 
ma dos cantos dos Luziadas, com um ou outro centão mais 
pittoresco. O canto vui encbe-se com este mesmo processo, 
e sem outro movimento. O canto ix é egualmente pobre de 
acção: o rei fica maravilhado com os Luziadas, não sabe 
como reconhecer esse prodígio, e pede ao poeta que tome 
a yél-o. Gamões sae; narrasse a falsa tradição da morte de 
Bernardim Ribeiro divagando solitário na serra de Cintra, 
e é n'estas alturas que se torna effectiva a carta mysteriosa : 
Gamões vé*se frente a frente com um Conde, que se de* 
^ clara seu inimigo e que o odeia como rival ! Quando Ga- 
mões ia para cruzar a espada, o Conde declara que não 
pôde erguer ferro para o homem que foi amado pela mu- 
lher que elle adorou; que o convidou para vir ali para lhe 
entregar o retrato de Natércia, porque é um legado de honra 
que ella lhe pediu antes de morrer. Diante de tamanho ca- 
valheirismo. Gamões restitue-Ibe o retrato, os ódios tor- 
nam-se ali em convicta amisade, e choram juntos o objecto 
que ambos amaram. Gamões volta a Lisboa, onde já corre 
entre doutos e indoutos o. seu livro. Esta ideia do legado 
de honra é perfeitamente á d'Ârlincourt ; á d'Ârlincourt, o 
dizemos, porque em 1827 Garrett escrevia no Chronista, 
que d^Arlincourt era a segunda celebridade da Europa de* 
pois de Walter Scott. No canto x descreve-se Gamões na 
mais atroz indigência; D. Aleixo de Menezes já não tem in- 
fluencia na corte; vê-se a faina da partida do exercito para 
Africa, e Gamões despede*se sobre a praia do missionário 
que se tornara o seu maior amigo. Depois da partida da 
expedição, o poeta caminha com o seu escravo António, que 
pede esmola, as forças alquebram-se-lhe, vem-lhe o tédio 



184 HISTORIA DO BOMAHTIBMO BK POBTUGÁL 

da vida e adoece. É n^esta situação qae um mensageiro o 
procura; é o Conde, que fora oulr'ora seu inimigo, que lhe 
traz uma carta do missionário, que está no captiveiro de 
Fez, e em que lhe conta os pormenores da derrota de Al- 
cacer-kibir; Camões ouve lôr, etjuando chega ao ponto col^ 
minante da catastrophe expira, dizendo que — ao menos 
morre com a pátria. Este lance sublime na verdade da tra- 
dição histórica, está aqui apoucado ás molas theatraes, perde 
a sua grandeza, torna-se convencional e recortado. 

O poema Camões é só isto, com versos frequentissíma- 
mente quebrados nos seus hemistychios, para dar um certo 
movimento á descripçSo e encobrir a immobilidade da ac* 
çao; é como uma serie de odes de Philinto, intercortadas 
por poucos diálogos, e ligadas por um interesse scenico. 
Os juízos litterarios que existem sobre este poema sao ainda 
as primeiras impressões produzidas pelas leituras de 1825, 
que têm dominado as novas opiniões até hoje. Nós mesmo 
nos surprehend^mos da differença que vae áo nosso pasmo 
religioso de 1859 á nossa ratificação presente das antigas 
impressões. A verdadeira obra do génio é a que resiste á 
ratificação do sentir de cada individuo e de cada época. Tudo 
o mais é obra de occasião, um accidente na historia da in* 
telligencia; n'este plano secundário, o poema Camões é do 
melhor que entre nós produziu o Romantismo. O seu in- 
tuito nacional tornal-o-ia sagrado, se por ventura o poema 
tivesse propagado o ideal da pátria. Mas não; o amor da 
pátria, a tradição nacional, levou uma direcção errada, con- 
verteu-se n'isso que em França, c'esta mesma época dos 
Românticos, se chamava o chauvinismo. (Vid. p. 89.) 

Depois de ter feito notar a deficiência de acção no poema 
Camões, façamos como Fauriel ao criticar a tragedia de Car- 
magnola de Manzoni, apresentando as condições vitaes para 
uma outra ídealisação. Interrompemo-nos no momento em 
que o poeta recebe a carta da D. Francisca de Aragão; era 



ALUEIDA OABBBTT 185 

e&ta dama formosissima e prioceza a que mais distinguira 
Camões na época em que floresceu na corte de D^ João m, 
pedindo versos somente a elle e despresando todos os outros 
poetas. Camões cumpre o mandado da illnstre dama; era 
para communicar-ihe algumas palavras de D. Gatherina de 
Âthayde, que lhe ouvira antes d'ella morrer no paço: que 
se um dia Gamões voltasse á pátria^ Ibe dissesse que sem- 
pre o tinha amado, e que o seu amor a matava. Camões re- 
Golhe-se dilacerado e adoece; D. Manuel de Portugal, sa- 
bendo da sua intimidade com D. Francisca de Aragão, reata 
a antiga amisade e promette apresental-o a D. Sebastião 
para dedicar-lhe o poema. Emquanto o poeta está doente 
visitam-no os seus antigos inimigos disfarçados e roubam- 
lhe o Parnasso, pensando que lhe subtraiam os Luziadas. 
Quando Gamões dá pelo roubo, ergue-se a custo e ca- 
minha trémulo para o paço: ia offerecer o seu poema ao 
m para o salvaguardar; D. Mannel de Portugal encontra-o 
e acompanha-o. Vencidas as delongas dó Santo OíScio, ap- 
parecem oís Luziadas; emquanto o poeta o ia revendo, o jáo 
cae doente de nostalgia; é o poeta que vella á sua cabeceira, 
eomo se conta também de Miguel Angelo. As intrigas tra- 
balham contra o poeta, e decidida a expedição de Africa, 
Bernardes é preferido a Camões para escrever a epopêa do 
futuro triurapho. Chegada a noticia da derrota de Alcacer- 
kibir, Camões cae doente; agrupam-se em volta d'elle to- 
dos os que seguiam o partido da independência nacional. 
Mas o exercito de Philippe ii camioha sobre Portugal, e é 
então que o poeta expira para não vér a pátria escrava, 
Fhilippe u ao entrar triumphante em Portugal, quer vér Ca- 
mões, engrandecel-o ; disseram-lhe que morrera proclaman- 
do que acompanhava a pátria. Morrera como Sadi; a sua 
morte hade perturbar para sempre aquelle triumpho. 

É isto o que dá o simples esqueleto da historia com leves 
modificações que pertencem á liberdade artística. Esta se- 



186 BISTOBIA DO BOMAHmílO SM PORTUGAL 

ria a acção verdadeiramente epica de um poema sobre Ca- 

« 

mões, porqae elie foi épico na sua individualidade, e não 
um apathíGO e melancholico scísinador , como os Adolphos e 
os Obermam do Romantismo. A historia convence-iM)s de 
que a poçsia é uma realidade, e que o ideal é a generali- 
dade do real. ^ 

A melancholía vaga do typo de Camões de Garrett ex- 
plica se também pela relação intima da obra com o auctor; 
foliando dos annos da emigração, escreve Garrett: c Passei 
ali cerca de dois annos da minha primeira emigração, tão 
só e tão consummido, que a mesma distracção de escrever, 
o mesmo triste gosto que achava em recordor as desgra- 
ças do nossQ grande génio, me quebrava a saúde e destem- 
perava mais os nervos. Fui obrigado a interromper o meu 
trabalho: e dei-me, como indicação hygienica, a composi- 
ção menos grave. Essa foi a origem de D. Branca, que fiz, 
seguidamente e sem interrupção, desde julho até outubro 
d'esse anno de 1824, completando-a antes do Camões.. •» ^ 
No poema de D. Branca já Garrett teve em vista imitar o 
digressivo byroniano; esta sua feição poética não è menos 
interessante. Para bem a conhecer temos algumas notas au- 
tobiographicas publicadas pelo actual possuidor do Catalogo 
dos Autographos de Garrett. São os fragmentos de uma 
carta a Duarte Lessa; eis a parte essencial: 

€ Agora em linguagem chã e corrente: lembra-se d'aquel- 
las nossas conversas sobre antígualhas portuguezas e o 
muito que d'ellas se podia aproveitar, quem de nossas le- 
gendas e velhas historias e tradições fizesse o que tem feito 
Inglezes e AUemães, que é> vestil-as dos adornos poéticos 

1 Acaba de poblicar-se em Paris orna tradução em prosa do poema, com o 
titalo : Camões, poême traduit du portugais, uvec une introduction et notes por 
Henri Fa&re, ouwage orne du portrait de Garrett, Paris, 1880, íd-S.^' de zlt 
— 221. £ orna edição primorissima. A lingoagem em prosa dá am grande re- 
levo á sensiblerie da época em que Garrett escreveu. 

^ Not. D. do canto i. 



AUaODA QtÈXBMPl 1B7 

e sacodír-lhes a poeira do esquecimento com assisada esco- 
lha 6 apropriado modo? Pois desde entSd, (e já de mais 
tempo me fervia isto na cabeça) n3o fiz s^ão pensar no 
geito com que me haveria para armar assim nma coisa que 
se parecesse, mas qoe de kmge, com tanta coisa boa que 
por cá ha por estas l^rras de Ghristo, e que pelas nossas, 
de tão ricos que somos, se esperdiçam e andam a monte 
por desacerto de lettrados e barbaridade de ignorantes. 

«Acertou de vir ás minhas mãos um livro portuguez, que 
para mim foi achado aqut . . . Eram as Chronicas de Duarte 
Nunes: apesar de já kdas e relidas, me deitei a ellas como 
esfaimado, e lemio e escrevinhando, segundo é meu acha- 
que, deparei na Ghronica de D. Affonso iii, com a relação 
da conquista do Algarve; e ao pé logo, em mui concisas 
palavras, a historia da infante D. Branca, filha d aquelle rei 
— que foi senhora do mosteiro de Lorvão, d'onde foi man- 
dada para abbadeça do mosteiro de Holgas de Burgos, que 
é o mais nobre e mais rico mosteiro de freiras que ha em 
Hes[^nha . . . Com esta infante teve amores um cavalleiro • . . 
do qual pariu um filho ... 

«Deu-me no goto esta historia; e como lhe não vi impos- 
sibilidade poética, assentei de a ligar com a conquista do 
Algarve, e fazer d'ahi poema, romance, ou o que mais quei- 
ram chamar-lhe, porque de nomes não disputo, e muito m^ 
nos de nomes dos meus rapazes. 

«Ora eis ahi o argumento e origem. D. Branca é por- 
tanto um personagem histórico, e não menos o são D. Payo, 
mestre de Santiago, e Aben-Afan, rei de Silves, cojo reino 
dilatei eu por todo o Algarve, que entre diversos reisinhos 
e principesinhos estava repartido. Nem me pareceu dema- 
siada licença poética, mormente em nossos dias, que muito 
maiores as estamos vendo, e em boa prosa, que não em 
verso. 

«Histórica è também a caçada e fatal combate das Antas, 



188 HIBTOBIA DO K01CASTI8X0 BM PORTUGAL 

em que ficaram mortos os seis cavalieiros de Santiago e o 
mercador Garcia Rodrigues» defendendo-se até á ultima como 
homens que eram* Por veutura haverá ahi quem ache este 
caso ainda mais poético; mas é pura verdade, tal qual a 
eonta Duarte Nunes; e bem o creio eu, que os nossos mer" 
cadores d'aqueUe tempo, sabiam tanto do covado como da 
espada, nem se deixavam insultar de cavalleiros com medo 
de fanfarrouadas oa calotear de senhoras a troco de corte- 
zias. 

«Não ha lá princezas mouras, no que diz a Ghronica; po- 
rém metti-lh'as eu, que também sou chronista em . • . mi- 
nha casa; e uns por outros. Deus sabe quem mais mente, 
se os poetas, se os chronistas. A ida da rainha D. Beatriz 
a Gastella para a concessão do Algarve é igualmente histó- 
rica ; e emfim, até as brucharias de Frei Gil não são fabu- 
las, pelo menos da minha cabeça. Frei Luiz de Sousa, na 
Historia de S. Domingos, nos refere miudamente suas fei- 
ticerias, pacto com o diabo, e mais coisas, que servem de 
.fundamento ás que imaginei: finalmente sua milagrosa con- 
versão e exemplar penitencia, que Deus *permitta sirva de 
exemplo a todos os nicromantes, bruxos, feiticeiros e en- 
cantadores.» * 

Á parte este estylo da graça portugueza, que ainda se 
prende com os dichotes de António José, õs fragmentos da 
carta a Duarte Lessa deixam*nos claro a origem do poema 
D, Branca, os seus elementos tradicionaes e poéticos e a 
intenção do auctor. A concepção do poema saiu de uma lei- 
tura, ou antes de um paragrapho da Ghronica de D. Afibn- 
so lu de Duarte Nuoes ; mas tratar uma tradição nacional não 
é pôr em verso o que está na prosa ingénua dos cbroní- 
cons, e muito menos phantasiar á vontade tecendo suppos- 
tas lendas. A arte interpreta as tradições nacionaes inspí- 

1 Catálogo dos AutograpkoSf p. xxh. 



AUniDA OAKBBTT 189 

% 

4 

raodo-se d'eUas, restítuiodo-Ibes a Tida primitiva, as suas 
cores, interessando-Dos, fazendcMios solidários com o pas- 
sado» que è em que consiste o vinculo mais forte da na- 
cionalidade. Era assim que Oelensgleger e Riikert trataram 
as tradições suecas e germânicas. Garrett leu essas linhas 
maliciosas da Chronica e pôl*as em verso á sua guisa, como 
o compositor que no repente melomanico submette ao con- 
traponto as rubricas da opera. Com esta infame teve amth 
res um cavaileiro . . . D'aquí saia completamente toda a ver- 
dade e toda a vida da tradi^; era preciso estudal-a antes 
de interpretal-a. Para que inventar uns amores com o mouro^ 
Aben-Afan? Na corte de Affonso m estava em moda o gosto 
poético provençalesco da çôrte de S. Luiz, que ali apren- 
deram a imitar os fldalgos que se refugiaram em França 
por occasiSo das luctas com D. Sancho ii. Eram estes tro-^ 
vadores os que se apaixonavam pelas princezas; em França 
o tinham aprendido com o exemplo recente de Conde de 
Champagne por Branca de Gastella, Vendo com esta luz a 
tradição portugueza, encontramos essas notáveis palavras 
do Marquez de Santillana acerca de João Soares de Paiva, 
trovador da corte de D. Afifonso ni: «Avia otras (obras) de 
Joban Soares de Pavia el qual^ se dice aver muerto en Ga- 
licia por amores de una infanta de Portugal.i^ * Como pro- 
vámos no estudo da escola provençal portugueza, ^ João 
Soares de Paiva é esse trovador da corte de D. Afifonso m. 
Com a tendência lyrica de Garrett, ersf este um melhor pro- 
togonista para o poema de />. Branca, mais verdadeiro, 
mais nacional. Que mundo de sentimentos se lhe revelava 
só n'esta palavra trovador ! Esses receios e segredos do na- 
morado; essas remotas allegorías á dama dos seus pensa- 
mentos e occultando sempre o seu nome; essas lendas ter-' 



^ Trovadores galeciíh-poriuguezegf p. 101 e 102. 
2 Carta ao Condesta?el, § iy. 



190 HI8T0BIA ]K> BOMAXTI8M0 BII POBTUGIL 

riveis coino da dama d^ Fayeloo de Cabestaing; es3es votos 
deoodados; em^ todas as aventurais da terra saota e das 
biograpbiaâdo Monge das Ilhas de Ouro! Este è qm seria 
o poema aaciosal, do tempo de Q. AfiEònso nu o que nos 
restituiria á vida uma' época e a tomaria eonbecida e amada 
fóra do dominio da erudição. Ignorando esta realidade poé- 
tica» Garrett estragou as tradições épicas da conquista do 
Algarve com o syncretismo de uma imaginação mal diri- 
gida. O episodio de Frei Gil, o typo da nosso Fausto pofr- 
tuguez, está também mal aproveilado no poema;. Garrett 
não comprebeodeu esta lenda, que por si dava um bello e 
grande poema, e inutilisou-a em um episodio. Basta lem- 
brarmo*nos de que o Fausto se perde irr^Bediavdmente 
nas lendas allemã^, inglezas, fraocezas, italianas e bespa- 
nbolas, e que se salva na tradição portugueza por interces- 
são da Virgem, esse feminino eterno^ de Goethe, com que 
salva o Doutor pelo pantheismo da arte no fim do secxào xviii. 
É inútil dizer aqui o modo áú reconstruir sob a intelligen- 
cia da pbilosopbia e da arte a tradição do Fausto portuguez ; 
este titulo mostra até que ponto Garrett não soube com- 
prebendel-a. Levado ainda pelo respeito de Filinto, ^ e im- 
pressionado pelo (M^eron de Wieland, tradozido pelo foragido 
do Santo Officio, imitou a procissão grotesca dos frades e 
das nonas no cerimonial disciplinar da distribuição da posta 
de toucinho chamada a Tremenda. Qualquer dos contos po- 
pulares de frades lhe dava uma peripécia mais caracterís- 
tica dos velhos costumes. Foi justasiente este p episodio 
que mais quadrou ao gosto do publico e o lado por onde 
todos conbecem o poema de D. Branca. 

Já no fim da vida, Garrett comprebeodeu que se não sou- 
bera aproveitar da lenda de Frei Gil; nas Viagem na mi* 



"IA primeira edição de D. Branca trai as iDiciaes F. E.,'coin a mUoçio de 
flubmetter o gosto aatoritario do publico a esta obra altribaida a Filinto Isiieio. 



ÂlMMSDJi OAIBSTT 191 

nhã terra escreve: c Algures lhe cbameí já o nosso Dr. 
Fausto: e é com effeito. Não lhe falta senão o seu Goâthe . * . 
Nós precisamos de quem nos cante as admiráveis luctas — 
ora cómicas» ora tremendas do nosso Frei Gil da Santarém 
com o diabo. O que eu fiz na J9^. Branca é pouco e mal es- 
boçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece ali 
senão episodicamente; e é necessário que appareça como 
protogonista de uma grande acção» pintado em corpo in- 
teiro, na primeira luz, em toda a luz do quadro . . . Lem- 
bra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me 
faziam lêr a historia de S. Domingos, tão rabujenta e sem- 
sabor ás vezes, apesar do encantado estylo do nosso me- 
lhor prosador; e eu que deixava os outros capítulos para 
lèr e reler somente as aventuras do santo feiticeiro que 
tanto me interessavam.» ^ 

Estas revelações mostram-nos até que ponto o ter sido 
embalado com as tradições nacionaes fecunda o génio e 
a predisposição artística. Á medida que Garrett avançava 
na sua carreira iitteraria o amor pelas tradições portugue- 
zas afervorava-se n^elle. É por isso que a sua terceira obra 
da emigração foi a Adozinda, poemeto trabalhado sobre o 
romance popular da Splvaninha. As condições d'este traba- 
lho, intimamente ligado á vida do auctor, encerram a me- 
lhor parte da sua educação iotellectual. Discutindo o valor 
poético das tradições nacionaes com Duarte Lessa, que o 
fortalecia no plano de tirar d'esses elementos perfeitas obras 
de arte, Garrett dedicou-lhe a sua primeira tentativa da Sffl- 
vaninha. Em uma carta, em que expõe algumas observa- 
ções superficiaes sobre as phases da poesia popular portu- 
gueza, faz uma pequena recapitulação dos seus trabalhos 
tentados segundo o novo espirito romântico: <No meti poe- 
masinho de Camões^ aventurei alguns toques, alguns longes 

1 ftayeiM M mifiAa terra, t. n, p. 141. 



192 HISTORIA DO BOU ANTISMO BM POBTUGIL 

de estylo e pensamentos, annunciei para assim dizer, a pos- 
sibilidade da restauração doeste género, que tanto tem dis- 
putado na Europa litteraria com aquell'outro, e que faoje 
coroado dos louros de Scott, dé Byron e de Lamartine, vae 
de par com elle, e, não direi vencedor, mas também não 
vencido. 

«D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e 
com o alahude do trovador desafiou a lyra dos vates; ou- 
tros díbão, não éu, se com feliz ou infeliz successo.» ' 

Dojntuito da Sylvaninha, diz: «Creio que é esta a pri- 
meira tentativa que ha dois séculos se faz em portuguez, 
de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior 
extensão, n'este género de versos pequenos, octosyllabos 
ou de redondilhas, como lhe chamavam d'antes os nos- 
sos.» 2 Via a poesia popular por este característico exte- 
rior, e em vez de a estudar explicando-a pela ethnologia 
da raça, tratou de contrafazel-a na Adozinda. Garrett já a 
este tempo citava os trabalhos de Grimm, mas não compre- 
hendeu esta profunda observação d'esse sábio: «O homem 
que quer fazer isoladamente e tirar poesia popular do seu 
sentimento próprio, erra quasi sempre, poder-se-ia dizer 
inevitavelmente, n'esta empreza que se propoz desempe- 
nhar; raramente ou nao fica áquem ou além da justa me- 



^ Lese em um artigo de Herculano, Qual o estado da nossa Litteralura: 
«Mas a Portugal não coabe o figurar Doesta lide (do Romantignio): A parle 
theerica da litteratara ba vinte annos que é entre nós qaasi oulia : O movi- 
mento ÍDteliectud da Europa não passou a raia de um paiz onde toda? as at- 
tençOeS) todos es cuidados estavam applicados às misérias p«iblícas, e aos meios 
de as roiíover. Os-, poemas èd D. Bra^a e Comdex, appdrecflran «in dia oas 
paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os anuMnciem; um 
representando a poesia nacional, o romântico; outro a moderna poesia sentímen- 
tal do norte, ainda que dascobriado ás vezes o «afacter meridionaNeiseo aoc- 
tor. Não é para este lugar o exame dos méritos ou deméritos doestes dous poe- 
mas ; mas o que devemos lembrar é que elles sSo para nós os primeiros e até 
agora os únicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a dos nossos 
maiores.* (Repositório liííerario, de 15 de outubro de 1834.) 

2 Romanceiro^ 1. 1, p. I. Ed. 1853. 



ALMUDA OABBBTT 198 

4 

dida das cousas; ou não a alcança ou a ultrapassa.» As ex- 
pressões d'essa insondável eloqueiicía do povo, reduziram- 
se na Adozinda á pbrase elegante e conceituosa ; os breves 
mas fundos traços com que na Sylvaninha se colloca a ac- 
ção, na Adozinda converteram*se no descriptivo demorado, 
paysagista, supprindo por Qstes retratos do mundo exterior 
a impossibilidade de ver para dentro do mundo da consciên- 
cia. As narrações, que são a acção e a explicam, ampliain-se 
no dialogo theatral e de effeito. Portanto, a Sylvaninha é 
uma temivel pedra de toque para a Adozinda; uma é a ver- 
dade, a outra a convenção, uma a natureza, a outra o arti- 
ficio, uma a espontaneidade e a outra o esforço. O que ha 
de bello na Adozinda, pertence ao fundo popular; mas a 
ingenuidade popular nunca pode ser contrafeita, por isso 
Garrett não attingiu essa justa medida de que falia Grimm. ^ 
Almeida Garrett vivia com parcos meios durante a pri- 
meira emigração, sem se aproveitar do indulto de 5 de ju- 
nbo de 1824; porém sua mulher D. Luiza Cândida Midosi 
entendeu requerer em fevereifo de 1825 em nome do ma- 
rido para que lhe fosse concedido regressar a Portugal. Foi 
o requerimento a informar á Intendência geral da pplicia, 
e na morosidade da informação morreu repentina e mys- 
teriosamente o sórdido D. João vi, a 10 de março de 18i5, 
deixando a regência a sua filha D. Isabel Maria; só e^i 24 
de maio de 1826, é que a Intendência respondeu que não 
havia inconveniente em permittir a entrada do proscripto, 
referindo-se a Garrett com as phrases da mais degradante 
compaixão. Garrett desconheceu esses» documentos secretos 
da policia, senão nunca teria acceitado um tão ultrajante 
perdão ; ^ a única cousa que seria a honra do poeta, elle pro- 

* Esta parte do trabalho de Garrett, cootinoada oo Romanceiro^ ficou esta- 
dada no cap. vn das Epopéas Motarahes, 

^ Beprodozimos aqoi esses ignorados docamentos copiados do Arcbivo da 
Policia, hoje na Torre do Tonobo: 

«Por aviso de 22 de fe?ereiro do eddo próximo passado (1825) íoisnama- 

13 



«194 HIBTOBIA 90 BOMIIITIPMO Wi PORTUGAL 

ppío foi o primeiro a contraditàl-a ; n'esse docamento datado 
de 24 de maio, se lé:. «O bacharel João Baptista da Silva 
Leitão de Almeida Garrett, arrebatado pelas ideias do tem- 
po, pela verdura dos anãos e pelos excessos de uma ima- 



ge^tade, que Deas Um em gloria, servido mandar oavir esta Intendência sobre 
o requerimento do bacharel João Baptista da Silva Leitfto d*Almeida Garrett, em 
qne pretendia voltar a este reino, d'onde por motivos politícos se achava expa- 
triado. Pela informação qne inelosa levo por copia á presença de v. ex." íoi 
julgado incompativel com a publica segurança o regresso do suppiicante, con- 
8Íderando-se perigosa pelos motivos na mesma informaçSo ponderados, a soa 
eiistencia em Portugal: Continua por tanto o seu extermínio até agora en 
que apparece de novo sua desgraçada consorte, implorando a regia clemência 
de soa magestade, e invocando a sempre saudosa e respeitável memoria da 
l^eneficencia do fallecido soberano sobre a soa desventurada situação: fuoda- 
menta o seu direito á consideração de sua magestade, em princípios qne as 
circumstancias do tempo e mesmo as do suppiicante hoje fazem mudar de figora 
& sua pertenção. 

^ O bacharel João Bjiptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, arrebatado 
. pelas idéas do tempo, pela verdura dos annos, e pelos excessos de uma imagi- 
nação ardente, foi como outros muitos (hoje restituidos aos pátrios lares) am 
sectário fogoso dos princípios democráticos, que vogaram durante o fatal pe- 
ríodo da Revolução, e que infelizmente halincinaram as cabeças dos iocaalos 
e inexpertos : restaurada porém a monarchia, se retirou de Portugal immedía- 
lamente, temendo que uma vingançat sanguinária surgisse d^entre nós, sacrifi* 
cando tantas victimas, quantas os sectários do systema constitucional : desva- 
necido porém este terror á vista das indubitáveis demonstrações de clemeneia 
e piedade com que o. augusto soberano, qne Deus tem, procurou conciliar os 
ânimos dos seus vassallos, olhando mais como effeito de erro do qne da mal- 
' dade, os desvarios da maior parte d elles. O suppiicante regressou por isso á 
sua pátria, donde depois da insinuação da policia, que o julgou perigoso, foi 
obrigado a sair; e isto antes do régio indulto de 5 de junho de 1821: appa- 
recendo porém este, não foi o suppiicante comprehendido nas suas excessões; 
é Dão tendo os seus anteriores excessos feito objecto de processo que o cos- 
demnasse, foi o suppiicante, como muitos, perdoado, e foram portanto releTa- 
dos os seus desvarios pelo dito decreto de amnistia, em que foi incluído, pro- 
cedendo unicamente de cauteUas da polícia a sua expatriação depois do men- 
cionado indulto. £ tendo por isso experimentado até agora como castigo dos 
seus erros, todos os rígones do extermínio e da indigência; ã vista de cQJos 
•oífrímeoto^ únicos fructos que o suppiicante tem colhido e visto colher a Eu- 
ropa inteira das desorganisadas theorias de que foi sectário, é de esperar qne 
desenganado pela experiência e atenuado de trabalhos^ haja mudado de prín- 
cipios, filhos da inexperiência e fogo da mocidade, como bem persuade o si- 
lencio que elle na sua emigração tem guardado» abelendo-se de imitara seguir 
o systema dos outros que não tem cessado de escrever e propagar principies 
sediciosos ; e então não faà motivo para que o suppiicante seja excluído da regia 
clemência, de cujos effeitos ainda não ha gosado, quando outroSi pele bmdos 
•m idênticas circumstancias, tem aproveitado; não sendo por isso taoto per* 



AI*UWa>A CMBKBTT •■ 185 



•^açlo ardente foi como outros muitos (boje r^titoidc» aos 
pátrios lares) um sectário fogoso dos princípios democráti- 
cos, qiie vogaram durante o fatal período da Revolução ...» 
No fim da sua vida escrevia Garrett esta deplorável pagina 



iemer o seo regresso, qoando em ootro tempo te jolgon na informacSo inclaM> 
não 8ó peia mudança maito prova?el do sopplícante, mas até mesmo pelo es* 
tado actoal dos povos, em coja maioria existe a convicção dos perigos e malee 
•certos que as Revoloções constantemeate acarretam sobre elles ; sendo moi díf* 
ficil que om homem sem preponderância e sem fortnna lhe pudesse fazer revi- 
ver principies contra os quaes a experiência tanto os ha prevenido. 

Á vista pois das rasões expostas, julgando mudadas as circomstancias qos 
ditaram a primeira citada informação, parece-me não ser o suppiicanle indi- 
gno da real clemência, para obter o regresso que implora, depois de longos sof- 
írimentos; julgando entre tanto útil medida da policia o obrigar a assigoar 
termo de conformar á ordem legitimamente estabelecida a sua conducta e ob 
seus principies, ficando por isso debaixo da vigilante inspecção da policia, para 
j^ontra elle proceder irremissivelmente logo que afastando*se dos seus deveres 
se torne por isso indigno da regia beneficência, a que se acolhe, e merecedor 
de severa justiça, que deverá punir qualquer reincidência dos seus excessos. 
. £ quanto se me offerece informar a v. ex.* sobre o requerimento de D. Luíza 
Cândida Midose de Almeida Garrett, em cumprimento do aviso de 9 do cor- 
rente. O que tenho a honra de levar â presença de v. ex.*' para o fazer pre- 
sente ao governo d'esles reinos, que determinará o que for servido. Deus guarde 
etc. 1\\.^ e ex.™o sr. Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas, âi de maio 
de 18^6. (Papeis da IntjBndencía ; Contas para as secretarias, Liv. xxiv, fl. 143. 

«Satisfazendo ao que o governo d*estes reinos ordena no aviso, que de v. ex.* 
recebi datado de â2 do corrente, pelo qual sou mandado informar se haverá 
algum motivo que deva embaraçar, que João Baptista da Silva Leitão d*Âl- 
meida Garrett regresse a estes reinos d'ende foi mandado sair por ordem d'esta 
mesma Intendência; incombe-me expor a v. ex.% que os motivos que occasio- 
fiaram aquella medida da polícia, se acham mencionados na Conta da copia 
inclusa, que subiu â presença de vossa magestade em 7 de março de 1825, na 
qnal se produziram as causas porque na referida época se julgou perigosa a 
sua presença n^estes. reinos, attento o estado de agitação em que se achavam 
fs espirites em matérias e opiniões politicas que os dividia; mas sendo recen» 
temente mandado informar um requerimento de D. Maria Uidosi de Almeida» 
em que pedia a sua magestade licença para seu marido voltar á sua casa, ea 
expus na Conta, que dirigi á presença do mesmo augusto senhor, pelo minis-^ 
terio dos negócios da justiça em 24 d'est6 mesmo mez as rasões que me parece- 
ram próprias para se haver contemplação e equidade com o mencionado Garrett, 
permittindo-se-lhe o seu regresso a esta corte, mediante as cautellas e provi» 
dencias, que apontei na dita informação ; agora porém devo accrescenlar, que 
depois da data d'aqnella primeira informação nada mais consta na policia contra 
o supplicante que obste o seu regresso. A vista do que, sua magestade se di- 
gnará resolver o que bem lhe aprouver. Deus guarde etc. 26 de maio ds 1826.. 
111.*»* e ex.»<> sr. Conde de Porto Santo (Papeis da Intendência : Contas psriL 
as secretarias, Liv. xxiv, fl. 151. 



196 HXBTOBIA DO BOICllinSMO BV POBTUOAL 

para refutar, talvez, a imputação mais gloriosa da sua vida: 
cÉ um sopbisma de calumuia, por ventura admissível coma 
epígramma se, republicano e demagogo, o auctor do Ca* 
wões, de GU Vicente e de Frei Luiz de Sousa, houvesse ai* 
guma hora professado as bypocritas doutrinas do nivela- 
mento social, que tão poucos acciamam com sinceridade e 
menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa 
e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedica-^ 
ção a causa da monarchia, sustental-a como inseparável da 
cama da liberdade do povo^ da qual é não menos zeloso e 
strenuo defensor.» * 

Pouco depois de regressar á pátria Garrett foi reintegrado 
no seu antigo logar por decreto de 26 de agosto de 1826, 

Conferida a regência a D. Miguel a 3 de julho de 1827, 
recomeçaram as perseguições politicas. Foi então que Gar- 
rett esteve preso no Limoeiro, por um processo intentado 
contra o jornal o Portuguez, redigido por Paulo Midosi, Luiz 
Midosi, Carlos Morato Roma, António Maria Couceiro, Joa- 
quim Larcher, e Garrett, A composição da Adozinda foi um 
allivio para as suas horas de prisão: «esteve por espaço de 
três mezes preso sem mais pretexto do que o de ter tido 
parte em uma publicação censurada e impressa com todas 
as licenças necessárias. Não foi preso o censor, nenj pro- 
bibida a publicação, nem no ãm de Ires mezes se achou 
matéria de culpa! * O látego do absolutismo já se agitava, 
no ár, e para escapar á arbitrariedade sò' havia o refugio 
do desterro. Garrett emigrou novamente para Inglaterra,, 
mas esta segunda emigração não foi nada fecunda para as 
lettras; estava então nos seus trinta annos, relacionado com 
algumas famílias inglezas, já adaptado á vida estrangeira 
e tomando a emigração como uma excursãO; só procurou 



1 Fábulas e Folhas cahidas, p. xi. 
^ RímancHrOi t. i,p. 19. 



ILHXIDA OABBBTT 197 

divertir-se, flartar e vêr mundo. É por isso que em uma 
nota do poema Camiões escreve: cRealmente desde esta 
época, (i82S) n3o tornei a emprehender uma obra poética» 
n3o tornei propriamente a fazer rersos . . . Coisas velhas e 
anteriores, emendei e concluí muitas.» ^ Esta esterilidade 
poética foi um terrível symptoma ; a vida sensual da Res- 
tauração attraía-o> levou-lhe a ingenuidade moral; a sau- 
dade da pátria, que tanto o inspirara^ n3o o accommettia 
agora, envolvido nas pequenas paixões dos outros numero- 
sos emigrados que viviam á solta, sem plano de resistên- 
cia, nem ideal politico. Era preciso a forte emoção da rea- 
lidade da vida para Garrett ser outra vez chamado ao amor 
da Arte; diz elle, depois de contar a sua longa esterilidade: 
c canção á victoría da Terceira, assumpto que fana poeta 
a burra de Balaam do mais prosaico jornalista, com dois 
ou três peccadilhos mais, se tanto, s3o os únicos (versos) 
de que me accuso.» Isto nos está indicando qual será o mo- 
vei da sua terceira e ultima phase litteraria. 

Ainda n'essa primeira época da emigração, Garrett occu- 
pou-se em fazer uma synthese histórica dá* litteratura por- 
tugueza, que muito lhe devia servir para i}eterminal-o no 
caminho da renovação romântica. O Bosqueja da historia da 
Poesia e da lingua portugueza, devia revelar-lhe o espirito 
nacional nas creações litterarias, mostrar-lhe até que ponto 
as correntes clássicas e auctoritarias da imitação o atrophia- 
ram, e revelar-lhe as condições mais seguras para restituir 
a esse espirito a sua expressão viva ; não foi este o intuito 
tfesse trabalho destinado unicamente a uma empreza de li- 
vraria. 

Apesar dos muitos erros do Bosquejo da historia da Poe- 
sia e lingua 'portugmza, publicado em Paris em 1827 em 
frente de unia selecta de excerptos da litteratura portugueza» 

^ CamõeSj nota F. dq canto i« 



^9^ HISTOBIà DO BOliASTMlfO SM POfiTUOAli 

este rápido esboço detia eoosíderar-se uma revelação de 
um grande génio critico» porque não tinha precedentes, por- 
que nunca nenhum escriptor nosso presentira o nnnimo vis* 
lumbre de unidade pbíIosophican'esta descurada litteratura; 
Garrett determinava-lbe a sua evolução histórica, caracteri* 
sava-lhe os principaes escriptores, as feições de cada epoca^ 
mas, tudo isto estava feito já com uma valentia inexcedi- 
vel por estrangeiros. De 1805 a 18i9 o grande pbilologo 
Boulerweck, publicava na Historia da Poesia e da Eloquên- 
cia dos povos modernos a Historia da Litieratura portu- 
gueza, accentuando os traços por forma que ficarão para 
sempre definitivos ; ainda em 1819 o grande historiador Sis- 
monde de Sísmondi, nas Lilter aturas do Meio Dia da Eu- 
ropa, historiava a vida moral e artistica da litteratura por- 
tugueza, seguro nos seus juizos sobretudo quando se en- 
costa a Bouterweck. ^ Em 1825 o erudito viajante Ferdi* 
nand Deuis publicava o seu Resume de VHisloire litieraire 
du Portugal^ com aquella lucidez vulgarisadora do espirito 
francez. Conhecidos estes livros e as condições em que fo- 
ram escriptos, e a superioridade intellectual d'aquelles que 
souberam achar a unidade phílosophica da litteratura por* 
tugueza e a sua cqnnexão com o grupo das litteraturas ro- 
mânicas que a explicam, é que se conhece o mediano va- 
lor do Bosquejo de Garrett, composto sobre estes valiosos 
recursos. Garrett parte ainda dos seguintes preconceitos: 
da existência de uma lingua romance, que era o provençal 
d'onde saíram as outras linguas novo-latinas ; da formação 
do portuguez pela mescla das linguas de todos os povos que 
invadiram a Peninsula, sem comprehender que não pôde 



1 BoQtennreck, foi auxiliado com os sobsidios materiaes para a Histoda da 
títteratura portugueza, por om sábio portuguez seu amifto, modificando assim 
p seu plano, que era tratal-a como um supplemento da Litteratura espanhola ; 
suppómos com algum fundamento que este sábio será António de Araújo, o 
Conde da Barca, amigo c protector de Filinto. 



existir uma língua sem unidade syntaxíca» embora no le- . 
xico tenha os mais desligados elementos; ignora a relação 
dialectal entre o portuguez e o gallego ; ignora o período da 
poe$ia provençal portu|[oeza, e da imitaçio castelhana, e: 
nem remotamente faz entrar o elemento tradicional na con- . 
stituição da litteratura. Ainda assim, o Bosquejo pertence á 
primeira época da emigração de Garrett, quando a sua acti-, 
Yidade intellectual se exerceu motivada pela necessidade de 
consolar-se pensando e escrevendo acerca da pátria. * 



* o dr. ÀDtoDio Nones de Carvalho era o que enlão se occopava mais d« 
copiar 08 moBumentoB portogoezes dispersos pelas bibliothecas estrangeiras 



100 HIBTOBIA DO BOMâlTIBIlP MM POBTUaiI. 



3.— Da segoBda emigração em 1828 até ã marte de Garrett 



Caracter da segunda emigraçSo em 1828. — Garrett descreve os seus amores 
em Inglaterra.— -Conhece as consequências da reacçSo^chateaobrianesca k 
attrjbue-a ao Romantismo. — Chama as Inctas do Romantismo guerras do 
áUcrim e mangerona. — A expedição dos Açores, sopposta perda de inéditos. 
—Durante o cerco do Porto. — Ò romance histórico Arco de SanVAnna e a 
lenda de FernSo Lopes. — A vida politica desperta ambições desenfreadas em 
todos os homens prestantes, e inotilisa-os para a litteratara. — Nas Viagens 
na minha terra satyrisa o seu tempo e é a primeira victima dos erros da 
época: o titulo, as comraendas. — A ultima phase lyrica das Folhas cahidas, 
— RelaçOes com a sua vida. — Os inéditos: o romance brasileiro Helena.—^ 
Garrett* condemna a fraca geraçio que dirige e* sente a impossibilidade de 
organisar escola. — Aulolatria deduzida da sua carteira. — Os últimos mo- 
mentos de Garrett, pelo seu admirador Gomes de Amorim. — Conclusões. 

De todos os males accumulados sobre a nação portugueza 
pela imbecilidade de D. João vi, que provocou a invasão 
franceza e nos abandonou depois ao inimigo fugindo para 
o Brazil com as riquezas publicas, deixando-nos entregues 
a nma defeza heróica sem recursos, e como premio d'ella 
escravisando-nos ao protectorado degradante de Inglaterra, 
de todos esses males não foi talvez o menor o nascimento 
dos seus dois filhos D. Pedro e D. Miguel. Na corte do Rio 
de Janeiro foram os dois príncipes criados á solta, deixa- 
dos á espontaneidade de instinctos brutaes, em exercidos 
de forças e em seduções das damas do paço; para trazer 
os dois príncipes á disciplina moral pensou-se em casal-os, 
6 negociou-se os casamentos com duas princezas da família 
real da Áustria. Por um accidente imprevisto a princeza 
destinada para D. Pedro morreu, e como príncipe herdeiro 
fez-se-lhe o casamento com D. Leopoldina, que era a des- 
tinada para D. Miguel. D'aquí se originou o ódio profundo 
entre os dois irmãos, ódio alimentado pela mãe D. Carlota 



AunoDA «Maown ' 201 

Joaquina, que, pela preferencia exclusiva que dava ao in« 
fante^ chegou a fazer d'elle o instrumento cego do seu es* 
pinto reaccionário. Nas tradições byzantinas da familia, diz-se 
que para vincular a si o infante D. Miguel, Carlota Joaquina 
o ameaçava de declarar á nação que elle não era filho de 
D. João VI. Emfim estes factos revelam como depois da 
morte inesperada e mysteriosa de D. João vi em 10 de maio 
de 1826, as cousas se encaminhavam para tremendas catas- 
trophes. D. Pedro estava no Brazil como imperador, e a re- 
gência do reino, deixada em testamento a uma filha do mo* 
narcha, mandou-o cumprimentar e pedir-Ihe as suas ordens; 
D. Pedro não se sentia seguro no throno de lá, e mandou 
para cá a Constituição de 1826, como meio para vir a to- 
mar conta d'isto. Levanta-se então um partido chamado rea^ 
lista, excitado por Carlota Joaquina e auxiliado por seu ir- 
mão o miserável Fernando vn ; D. Pedro para ir de encontro 
ao mal nomeia o infante D. Miguel seu logar-tenente no 
reino e^ abdica o throno de Portugal em sua filha D. Maria 
da Gloria. D. Miguel é chamado da corte de Vienna de Aus-- 
tria, onde estivera desterrado, e desembarca em Lisboa a 
22 de fevereiro de 1828. Elle entendia que isto era tam- 
bém seu, e depois de jurar a Constituição para tomar conta 
do poder executivo, dissolve as camarás, simula uma con- 
vocação dos três estados da sociedade antiga, e declarou-se 
rjel absoluto em 30 de junho de 1828. Começou o terror da 
legitimidade, que durou até ao anno de 1833, sofifrendo a 
morte, o desterro, a emigração, sem fallarmós no confisco 
dos bens, para. cima de quarenta e seis mil e seiscentas pes- 
soas. 

Garrett, conhecido pela policia como partidário das ideias 

democráticas, logo que viu levantadas as forcas e atulhadas 

as enxovias, refugiou-se em Inglaterra. Sob o suave governo 

V da regência de D. Isabel Maria, havia Garrett soflfrido três 

mezes de cadeia como redactor do Portuguez; agora com 



2QSS HI8T0AIA DO BOMAmUUIO JB» POBTUaâL 

as forcas lâigiiQlinas anr<M*ádas era*lhe impossiyel evitar a 
iBorte. Bastava para tanto o seu talento litterario» por- 
que a inveja que lhe tinha o padre José Agostinho de Ma- 
cedo, o auctor da Besta esf(Hada e da Tripa virada, que 
açulava com os seus desregramentos de linguagem os fu- 
rores dos legitimistas, n3o hesitaria em fazer-lhe uma tre^ 
menda accusação publica para o brindar com o garrote. ^ 
Em quanto se organisou o exercito Uberal, Garrett viveu 
em Inglaterra assistindo como artista ao trabalho da reno- 
vação do Romantismo. A joven rainha D. Maria da Gloria 
era como a dama dos pensamentos dos voluntários liberaes,. 
e na preoccupação d' este pensamento Garrett emprehendea 
e publicou em Inglaterra um livro ou Tratado de Educação, 
destinado a uma princeza: O livro é pueril, e sem sciencia 
pedagógica ; a falta de philosophia no critério do auctor è 
supprida por muita religião e muita moral em pbrases vagas 
e com citações auctoritarias. Tratando da educação scienti- 
âca, Garrett apresenta também uma classificação das scien- 
cias, base de uma methodologia, abaixo do que já então se 
conhecia de Bacon ou de D'Alembert. ^ 

Doeste período da emigração é também o livro intitulada 
Portugal na balança da Europa, formado com artigos sol- 
tos da época em que redigia o Portuguez, e em que con- 



1 Segunda Tez demittido do seu iogar por decreto de 18 de agosto de 1828. 

2 Eis o schema d'essa classificação : 

Geologia. 

j Zoologia. 

I Sciendas qm descrevem os objectos da naturesa {Botaoica. 

[MÍDeralpgia. 
Anatomia. 

Pysica. 

II Sciendas que analysam suas propriedades {Cbímica. 

Physiologia. 

Medicina. 

IH Sciendas que as applicam aos usosj commodos egosos da vida, { Archilectura. 

'Agricultara ele* 



jdLionDA «Asurrv 



208 



diie pela necessidade do regimen- cobstitoeionàl. A oãtros 
trabalbos se refere Garrett, uns deisados na ilha de S. Mi* 
guek ao end)árcar na expedição para o Porto, em 27 de jo« 
fifaG de 18ã2, outros, como om po^na sobre os Doze iè 
Ingktíerra, uma tragedia do Infame Santo e um poema so* 
bre a getíealogia dos Menezes, perdidos oa barra do Porto 
em um naTio mettidO' a pique pelas balas miguelistas. A 
vida em Inglaterra não foi de simples galanteria, como pode 
soppôr-se pelos episódios contados por Garrett no romance 
digressivo das Viagens na minha terra; as incertezas da 
cwsa liberal, as traições, a apatbia, tudo levava aquelle es« 
pirito a procurar nos trabalhos litterarios uma verdadeira 
consolação moral. Pertence ao anno de 1828 a primeira 
coHeccionação dos seus versos, que intitulou Lyrica de João 
Mnémo, em que se acham reunidos os primeiros ensaios 
comprehendidos até á época decisiva de 1824. Os emigra- 
dos portuguezes representaram-lhe em Plymouth a tragedia 
.Catão; * era uma recordação saudosa da grande época libe* 



1 No Almanach insulano para-Âçóret e Madeira, para 187l,encontfa-8eiima 
relação d'e8la recita do CatSo, em jaoeiro de 1829: tÉ para aqoi memorar 
moitas das nossas ilIastraçOes militares, politicas e lítterarias, que se encon- 
tra?am no concarso dos espectadores. A par de Almeida Garrett, a quem o'esta 
narrativa compre prestar a primeira homeoagem, via- se o grande general Conde 
de Villa-Flor. No mesmo banco com José Estevam e major Menezes, comman- 
dante dos Toluntarios, estavam sentados Passos Manuel e Passoe José. Ali se 
viam Alexandre Herculano, José da Silva Carvalho, Joaquim António de Aguiar, 
Marquez de Loulé, Balthazar de Almeida Pimentel, Simão José da Luz, coronel 
Xaxier, Bernardo de Sá Nogueira, Luiz da Silva Monsínho de Albuquerque, 
Cândido José Xavier, Agostinho José Freire, Luiz Pinto de Mendonça Arraes, 
António César oe Vasconcellos Corrêa, José Maria Baldy, marquez de Ficalho, 
major Pacheco, Joiio Gromes da Silva Sanches, Júlio Máximo de Oliveira Pi-' 
menteJ, D. Carlos Mascarenhas, general Pisarro, Joaquim Bento Pereira, João 
Nepomoceno de Lacerda, Vellez Caldeira, Januário Vicente Camacho, José Víc- 
torino Damásio, Joaquim António de Magalhães, António Cabral de Sá Nogueira, 
Bartholomea dos Martyres, e outros mais, que não occorrem de momento ^ 
nossa reminiscência. 

•Segueiu-se à representação da tragedia a jocosa farça intiulada Os DoidoSy 
cgoalmente executada com toda a mestria, e sobretudo com inexcedivol veia 
eomica, bem*propria para dispertar a expansiva e contagiosa hilaridade, que 
«m geral se manifestou.» Pag. Sâ9. 



204 HIBTOBIA DO BOMAXTIflfO BM PORTUGAL 

ral de 1821. Junto de Garrett vivia o seu antigo compa* 
nbeiro Paulo Midosi, em cuja casa se fizeram os primeiros 
ensaios da tragedia inaugurada no theatro do Bairro Alto. 
O poeta eslava em uma grande elaboração artistica, que 
precedeu a esplendida revelação do seu génio dramático: 
«Em Londres, na ultima emigração, só as reiteradas instan* 
cias de meu pae, (Paulo Midosi) do marquez de Ficalho e 
de Jervis de Ãthouguía o forçaram á leitura do que escre- 
via.» * 

Os emigrados portuguezes reuniram-se na bahia de Belle 
Isle, d'onde embarcaram a 2 de fevereiro de 1832, para a 
ilha Terceira. Garrett, alistado no batalhão académico, se- 
guiu para esse único reducto aberto aos liberaes ; nos pró- 
logos dos seus livros allude ás mil difflculdades que emba- 
raçavam a expedição e que compromettiam a causa dà 
liberdade, aproveitada por D. Pedro a beneficio de sua filha. 
Pela sua parte D. Pedro em cartas que escrevia ao Mar- 
quez de Rezende, diz que o povo portuguez não faz caso 
da liberdade, e que o seu pensamento é constitucionalisal-o 
á força. Garrett celebrou em uma ode a victoria de Villa da 
Praia, e a si mesmo se confere o titulo de Tyrteo: «Que 
é do Alceo que bramia liberdade, o Anacreonte que zom- 
bava com o prazer, o Tyrteo que precedia as phalanges da 
Terceira ao pé do pendão azul e branco da joven Rainha dos 
exilados? í> * 

Durante a campanha na ilha Terceira, Garrett foi apro- 
veitado pelo governo da Regência para redigir os decretos 
de reformas judiciaes e administrativas. Garrett descreve a 
partida da expedição liberal da ilha de S. Miguel, em 27 
de junho de 1832, e falia com saudade das amisades e dos 
livros que ahi deixou. Fechado no cerco do Porto, onde to- 



^ P. Midosi, Os ensaios do Calão. 

2 Prefacio dad Fábulas e Folhas cahidas, p. xxi. 



205 

dos for^m dignamente heroes, e occupado especialmente 
em trabalhos de secretaria, Garrett occupava-se nas horas 
de desenfado elaborando o seu lindo romaace histórico O 
Arco de Sant'Ánna, que só acabou dez annos depois d*essa 
época memorável. O romance é dedicado ao seu comman- 
dante o coronel Luna. Garrett entbusiasmara*se também 
com os romances históricos de Watter Scott, que elle desde 
1827 recommendava á imitação. ^ Comprebendeu perfeita- 
mente o seu modelo ; no campo do romance histórico, Her- 
culano considerava-o infundadamente como seu discípulo. 
No momento em que a cidade do Porto resistia com o mais 
assombroso heroísmo ás forças accumuladas em volta d'ella 
pelo poder absoluto coUigado com o fanatismo canibalesco 
dos frades, Garrett teve a intuição histórica das antigas lu« 
ctas do burgo independente contra a prepotência feudal do 
seu bispo. Com um grandíssimo tino artístico aproveitou 
a lenda do bispo do Porto azurragado por mão de el-rei D. 
Pedro 1, o Justiceiro, na prosa pittoresca de Fernão Lopes, * 
por ventura estimulado pela festa popular que annualmente 



1 o Chronista, toI. ii, p. 87. 

2 «Certo foi e nom ponhaes duvida, qoe el-reí partindo-se d^Antre Doiro e 
Minho por vir á cidade do Porto, foi ioformado que o bispo d*e88e logar (Porto) 
qoe então tinha grande fama de fazenda e hooFa, dorioia com ama mulher de 
um cidadão dos bons que havia na dita cidade, e que elle nSo era ousado do 
tornar a elle, com espanto d*ameaças de morte que lhe o bispo mandava poer; 
el-rei quando esto ouviu, por saber de que guisa era, nom via o dia que esti^ 
vesse com elle para ih'o haver de perguntar; e logo sem muita tardança, de- 
pois que chegou ao logar e houve comido, mandou dizer ao bispo que foise ao 
paço que o havia mister por causas de seu serviço, e ante que chegasse, fallou 
com seus porteiros, que depois que o bispo entrasse na camera, lançasse todos 
fora do paço, também os do bispo, como quaesquer outros, e que ainda que al- 
guns do conselho viessem, que não leixassem entrar nenhum dentro ; mas que 
lhe dissessem que se fossem para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa, 
em que não queria que fossem presentes. O bispo como veiu, entrou na camera 
onde el-rei estava, e os porteiros fizeram logo sair todos os seus e outros em 
guisa que no paço nom ficou nenhum e foi livre toda a gente. £I-rei como foi 
adeparle cóm o bispo, desvestiu-se lego e ficou em uma saia d'escarlata, e per 
sua mão tirou ao bispo todas soas vestiduras, e começou de o requerer, que 
]be confessasse a verdade d'aquel maleficio em que isso era culpado ; e em Ih» 



206 HISTOBIA DO BOMiKBnnXK POBTUOIL 



se celebrara diante do nicho jonto do Arco de Sanf Aim^, 
na parte velha da cidade. Garrett possoia o talento dramá- 
tico, e por isso o Arco de StmfAnna é animado nos diálo- 
gos e cheio de interesse nas situações ; o sen inimitável es- 
iylo digressivo, com que aligeira o processo descriptivo, 
acha-se impropriamente empregado no romance, porque o 
dilue em excesso e enfraquece o andamento da acção. Quando 
Garrett, passados annos poz a ultima mao no Arco de Sant^- 
Anna para terminal-o, foi ainda com o mesmo espirito de 
combate, para acordar o espirito publico contra os meneios 
do clericalismo. Aqui se vê a differença entre o processo 
de Garrett e o de Herculano; Garrett inspira-se da tradição 
nacional, não para a diluir em prosa archaíca, mas para tor- 
nal-a um meio de expressão por onde a aspiração moderna 
se pôde tomar syrapathica. 

Em 24 de julho de 1833 eutrava em Lisboa o Duque da 
Terceira^ e o triumpho sublime da causa liberal ficava de- 
finitivo. Garrett foi então pela segunda vez reintegrado no 
seu logar de officíal por decreto de 28 de julho de 1833, oo- 



dizendo isto, linha na mão am grande açoatd para o brandir com eUe. Os cria 
dos do bispo qoando no começo viram qoe os deitavam fóra, e isso mesmo o 
outros todos e qae nenhum oom oasara lá d'ir, pelo que sabiam que o bispo 
fazia, desi juntando a esto a condição d'elrei, e a maneira que em taes feitoa 
tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar algum máo jogo ; e (oram-so 
á pressa ao Conde Velho, e ao mestre de Chrislus D. Nuno Freire, e a outros 
privados do seu conselho, qoe acorressem asinha ao bispo ; e logo tostemenente 
veheram a el-rei e nom ousaram de entrar na camera por a defeza que el*rei 
tinha posto, se nom fora Gonçalo Vasques de Góes seu escrivfto da Paridade, 
que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobscreveram det-^oi de 
Castella a gram pressa; e per tal azo e fingimento ouvéram entrada dentro aa 
camera, e acharam el-reí com o bispo em razões da guisa que havemos dito, 
o nom lh*o podiam já tirar das mãos, e começaram de dizer que, fosse ena 
mercê de nom poer mSo em elle, cá por tal feito*, nom lhe guardando soajor- 
diçfto, haveria o Papa sanha d'elle, demais qoe o seu povo lhe chamava algoz, 
que per seu corpo justiçava os homens, o que nom convinha a el de fazer por 
muito malfeitores que fossem. Com estas e outras taes razões, arrefeceu el-rei 
de sua brava sanha, e o bispo se partiu dante elle com semblante triste e tor- 
vado coração.» (ColUcção de Litros inedUes da Historia paríugueza^ t. it, 0. 2t 
a â3. Ghroo. de D. Pedro i, cap. vii.) 



AUlBIB^OANtKVT 207 

meçando para eile uixia éra nova de trabalho. Havia um fer- 
vor de renascença nacional, e uma das primeiras preoccQ- 
paçóes de Garrett era a restaaraçSo do theatro portuguez 
6 a creação de um Conservatório. Tudo quanto Garrett po- 
dia e valia foi empregado na consecussão d'esla alta em- 
preza ; estava no esplendor do genio^ e no período da mais 
briUiante fecundidade. Emquanto os seus companheiros das 
lides do Porto se degladiavam no parlamento, se destituíam 
e se apoderavam das pastas ministeríaes, Garrett proseguia 
no empenho desinteressado da fundação do tbeatro nacio- 
nal, e era o primeiro a fixar os typos das novas formas dra- 
matizas com as bellas concepções do Auto de GU Vicente, 
do Alfageme de Santarém e da D. Philippa de Vilhena. * 
N'esta generosa aspiração foi Garrett surprehendido muitas 
vezes pelas grandes agitações politicas dos setembristas de 
1836 e dos cabralistas de 484ã; mas o seu pensamento foi 
realisado integralmente, á custa do enthusiasmo que infun- 
dia em volta de si. Como antigo partidário da Revolução de 
1820, Garrett seguiu o partido setembrista, que fez reviver 
a ideia da soberania nacional pondo em vigor a Carta consti- 
tucional de 1822. 

Garrett por decreto de 14 de novembro d'esle anno foi 
nomeado juiz de segunda instancia commercial: «Garrett 
tão pouco caso fazia das suas funcções de juiz, que ao ve- 
lho Francisco,» fiel de feitos de João Carlos Vieira da Cruz, 
antiquissimo escrivão da segunda instancia commercial, já 
fallecido, quando lhe levava os autos, de que era relator, 
dizia-lhe: 

«—Oh Francisco I que queres que ponha aqui nos au- 
tos? 

«—Ponha V. ex.* Vista ás partes. 

^ Esta parte da aetitídade líttararia de Garrett ó tSo importante^ que foi 
tratada em am livro especial intilolado Garrett e ot Dramas rov^ntia^, (Víd- 
Bisioria do Tkeatro portuguez, yol. iv.) 



• 



208 HISTORIA DO BOMAanSHO m TOBTXJQAX0 

« — Lá vae por tua conta, retrucava ainda Garrett; e es* 
crevia — Vista ás partes. 

«Não obstante tamanha repugnância á magistratura e quí- 
zilía á jurisprudência, a Associação dos Advogados cbamou-o 
desde logo para o seu grémio.» * 

A profanda admiração que Garrett consagrava ao Duque 
de Palmella, o chefe do Cartismo, ou partido da Carta ou- 
torgada em 1826, prova-nos que elle fez algumas conces- 
sões das suas doutrinas da soberania nacional; vindo por 
essa via a entrar em um mÍDÍsterio de conciliação na época 
regeneradora de 1852. Nas terríveis oscilações politicas de 
1836, 1842, 1846 e 1852, Garrett soube conserrar-se eatre^ 
o partido nacional e o partido do governo pessoal da rai- 
nha, recebendo todas as honras, como ministro na Bélgica 
e em Copenhague, como o pariato, e lamentando-se sempre 
da fatalidade das revoluções. * Na celebre legislatura de 
1841 proferiu elle a resposta ao Discurso da coroa, conhe- 
cida pelo titulo de Discurso de Porto fireu. 

Misturando Garrett quasi sempre a sua personalidade ás 
obras litterarias que escrevia, admira-nos o não ter elle pu- 
blicado Memorias ou qualquer outra relação da época fecunda 
de luctas moraes por que a Europa passava no tempo em 
que esteve fora de Portugal. No catalogo dos seus autogra- 
phos encontram-se umas Memorias de João Córadinho^ de- 
1825, que o seu actual possuidor caracterisa de «rascunho 
em três capítulos de um conto satyrico allusivo á época em 
que foi escripto.» ^ No mesmo catalogo se encontra citada 
um Diário da minha viagem a Inglaterra — 1823, Birmin^ 
gham, lendo-se a seguinte nota logo na primeira folha: «Os 
primeiros cadernos d'este Diário são copiados d'outros què 



1 Paulo Midosi, Ensaios do Calão, (Vid. Officío de lâ de novembro de 18il.) 

2 Na reacçSo cabralina de ISil, Garrett foi demittido do logar de Ghronísta- 
■mór do reino, em 16 de jolbo. 

3 Apud Helena, p. xxx. 



ALMEIDA OABSVTT 209 

escrevi Da minha primeira viagem. Agora para os juntar ao 
que voa escrevendo e lhes dar egoal formato, os trasladei 
para este livro. Birmingham, outubro 5 de 1823.» * No 
prospecto da edição completa das obras de Garrett publi- 
cado pela casa Bertrand, em 1S39, ai se cita como devendo 
formar o novo volume da coliecção o seguinte: ^Dois an- 
nos da minha vida^ Reminiscenciaf da emigração e Memorias 
do cerco do Porto.:» Ainda em 1843 escrevia Garrett, talvez 
despeitado pela sua demissSo de Chronista-mór do reino, 
de 16 de julho de 1841: «Eu tenho posto termo ou pelo 
menos, suspensão indefinida a toda a occupação litteraria 
propriamente dita, para absolutamente me dedicar, em- 
quanto posso e valho, á conclusão de um ti^abalho antigo^ 
mas interrompido muitas vezes, que agora jurei de acabar: 
são Vinte annos da historia de Portugal, período que co- 
meça em.lSiO e chega aos dias de hoje, mas que não sei 
se já anda mais enredado e confuso do que o dos mais an- 
tigos e obscuros séculos da monarchia. Espero começar a 
publical-o no fim doeste anno; e nenhum tempo ou logar 
me sobrará portanto para mais nada.» ' Esta obra não che- 
gou a ser publicada, porque, segundo os editores, ou antes 
em nome d'elles diz Garrett, que estava «receioso de arros- 
tar com a audaciosa responsabilidade de historiador con- 
temporâneo.» Nós cremos que os Vinte annos da historia de 
Portugal nunca foram escriptos, porque no Catalogo dos au- 
tographos e inéditos de Garrett não se acha o minimo ves- 
tígio d'esta obra. Na litteratura portugueza não existem 
memorias históricas, porque os nossos escriptorés não re- 
ceberam essa livre educação que nos ensina a julgar o nosso 
tempo. A historia geral da Europa, ^esde a Edade Media 
até hoje, funda-se tanto sobre as memorias particulares, 
como sobre os documentos. O mais que tivemos foram as 

1 A^nd Helena, p. xxxit. 

^ Romanceiro, t. i, prologo, p. xxni (ed. 1813). 

14 



310 HI8T0BIA DO BOMÁHTItXO BM POBTUGAI» 



I 



Belações de viagem e os Roteiros; foi por onde Garrett co* 
meçou, mas não pôde passar além pelo vício da educação 
nacional. 

No começo da reacção cabralina, que em 1841 acabou de 
desilludir todos os verdadeiros partidários da Carta consti- 
tucional de 1826, desillusão que Herculano descreve com 
amargura no novo prologo da Voz do Propheta, Garrett en- 
tendeu dever retirar-se por algum tempo da política, e en< 
tregar-se á revisão dos seus trabalhos litterarios: cN'esse 
anno, retirado a descansar no campo de grandes fadigas de 
corpo e de espirito, deu emfím algumas horas de mais la- 
zer a repassar as composições de sua infância litteraria, e 
a escolher as principies das que, em mais feita edade, lhe 
tinha arrancado a condescendência com amigos, ou a irre- 
sistível inspiração de algum objecto ou circumstancia da vida 
que mais o impressionara. Resmas e resmas de ^papel lhe 
vimos destruir e queimar ao fazer d'esta escolha.» * Doeste 
trabalho resultou a refundição definitiva da Lyrica de João 
Minimo, das Flores sem fructo e das Fabuias. 

N'este período da vida de Garrett é que collpcâmos essa 
tardia paixão amorosa que transparece no exaltado lyrismo 
das Folhas cahidas, paixão absorvente e fatal, que lhe exau- 
riu o vigor physico e o levou á sepultura. Nada ha de mais 
ardente na poesia portugueza do que essas estrophes re- 
passadas de sensualidade velada por uma elegância artís- 
tica; sensualidade excitada pela posição social dos amantes, 
ambos casados e em lucta com a decepção e com o tédio 
da edade. A mulher de Garrett vivia em Paris; no emtanto 
o coração do poeta era disputado por duas damas da aris- 
tocracia lisbonense, ávidas de emoções romanescas, e or- 
gulhosas por acordarem uma tal paixão no delicado poeta, 
e de serem cantadas como o seu ideal. 

< Prologo das Fábulas e Folhas caUdas, p. ti. 



AUliaDA «ABBKT* Sll 

Na odesinha o Anjo cahido, Garrett faz um trocadilho com 
os nomes occultos d'essas damas: 

Ea só. — E ea morto, ea descrido, 
Ea liye o arroja atrevido y r 

De amar om aojo sem luz. 
Gravei- a ea n^essa cruz 
Mioha alma que renascia, 
Que toda em sua alma puz, 
£ o neu sér se dividia. ^ 

Mas uma paixão vence a outra, e é Doeste conflicto que 

lhe vem o esgotamento pbysico : 

cr 

Pois essa luz sciotillante 
Que brilba no teo semblante 
D'0Dde lhe vem o esplendor? 
Não sentes no peito a chamma, 
Que aos meus suspiros se inflarama 
£ toda reluz de amor? ^ 

Na pequena ode Nm és tu, cheia da eloquência a mais 
abundante, e da realidade a mais ideal, descreve o seu des- 
alento : *' 

Era assim : o seu fallar, ^ ^ 

Ingénuo e quasi vulgar, 

Tinha o poder da ra«ão, 

Qce penetra, não seduz ;^ 

Não era fogo, era luz 

Que mandava ao coração. ^ 

£ n'essa outra ode Seus olhos: 



■•» 



Seus olhos — se eu sei pintar /i ^* 

O que 08 meus olhos cegou — 

Não tinham luz de brilhar, 

£ra chamma de quAmar ; 

£ o fogo que a ateou ^ 

Vivaz, eterno, divino. 

Gomo o facho do destino. ^ 



1 Folhas cahidas, p. 112. 

2 Ibid., p. 167. 

3 (6td., p. 189. 







$12 HI8T0BU DO BOXÁITISMO BM POBTUOII. 

Dítído, eterno! e soaTe, 
Ao mesmo tempo : mas grave 
E de tão fatal poder, 
* Que, um só momento que a tí, 
Queimar toda a alma senti . • . 
Nem ficou mais do meu sér, 
Senão a cinza em que ardi. ^ 

O poema admirável doesta paix3o, intitula-se Cascões ;sSiO 
oito estrophes em verso de redondilha maior, de uma ar- 
dência e profundidade subjectiva, que, ousamos affirmal-o, 
em nenhuma litteratura antiga ou moderna poderá achar-se 
cousa que lhe seja comparável. Depois d'esses dramas de 
alcova, Garrett tirou como partido das suas decepções um 
livro, a que deu o nome de Folhas cahidas; metteu-o no 
prelo em 1851, mas ou pelo receio da inconfidência, ou pe- 
las novas occupações pela sua chamada ao ministério, as Fo- 
lhas cahidas só appareceram na publicidade em princípios 
de janeiro de 1853. D'esses versos escreve o poeta: «Não 
sei se são bons ou máos estes versos; sei que gosto mais 
d'elles do que nenhuns outros que,flzesse. Porque? É impos- 
sível dizel-o, mas é verdade.» ^ O publico leu com avidez 
as Folhas cahidas, que se tornaram um pequeno escândalo : 
«Em poucos dias porém desappareceram as Folhas ; —Iq-* 
vadas de bons e de máos ventos . . . voaram. » ^ Com a febre 
do amor, uma outra febre acabava de consummir Garrett; 
era a febre da representação e do poder. Visconde, por de- 
creto de 25 de junho de 1851, par do reino por decreto de 
13 de janeiro de 185S, ministro dos estrangeiros n'esse 
mesmo anno, em que se condecorou com varias gram-cru- 
zes,* a inanição atacou-o morrendo em Lisboa, em 9 de de-'^ 

1 Folhas cahidasj p. 218. 

2 Ibid.y p. 116. 

3 Jbid., p. IX. 

4 Gram*Cruz da ordem da Rosa, em 27 de março de 1852 ; do Nichan Iftíar 
da Turquia, em II de abril de 1852; da ordem de Leopoldo, em 19 de junho, 
de 1852; da Estrella Polar da Suécia, em 2 de julho de 1852; Balioegram- 
cruz do Hospital, em 4 de agosto de 1852. 



ALMEIDA OABRBTT 219 

zembro de 1834. Gomes de Amorim^ que o acompanhou 
até aos seus últimos momentos, descreve no Archivo Pitto- 
resco as minúcias com que Garrett mobilou a casa da rua 
de Santa Isabel, onde procurou tratar-se da sua doença; 
descreve também a solidão em que morreu o poeta, solidão 
explicável, porque as damas que o recebiam não queriam 
que as tomassem por suas amantes. * Depois que Garrett 
expirou, o seu grande amigo e sarcástico Rodrigo da 
Fonseca Magalhães descrevia assim o passamento: «Mor- 
reu como bom christão ; abraçado á cruz, com os ol^os na 
luz. D Eram estas phrases o commentario perpetuo das Fo^ 
mas cahidas. 

O estado de espirito em que estava Garrett pouco antes 
de morrer, e quando já se attribuia pubhcamente o titulo 
de chefe da Htteratura, vê-se no romance Helena, que dei- 
xara incompleto e .inédito, cujo ultimo caderno tem a data 
de 3 de setembro de 1853. (p. xxix.) N'este romance ha 
uma confissão ingénua da nenhuma influencia que Garrett 
exercia na mocidade do seu tempo, que, sem uma direc- 
ção sensata se lançara nos exaggeros do Ultra-Romantismo; 
diz elle: «eu escrevo uma historia, não faço versos á lua, 
debruçado nos balcões ideiaes de uma creação caprichosa 
e imaginário estylo . . . devorado pelo verme roedor dos 
negros pensamentos que balouçam tristemente ao vento da 
solidão no crepúsculo da noite . . . etc, etc, com três ver- 
sos na mesma rima. seguida, e um agudo depois em ôo, 
coração, desesperação ou similhantes . . . e imbasbacado fica 
o Grémio Litterario, o Centro Commercial, e não sei se a 
Academia depois de regenerada.» (p. 50.) Garrett referia-se 
ao lyrismo banal da escola de João de Lemos e de Palmei- 
rim, e apodava a mallograda reforma da Academia das . 



^ A sua TÍDYa casoa em Paris com o oegocianto Luiz d'£tríllac. Os seus 
maauscriptos ficaram a uma filha natural do poeta. 



214 HI8T0BIA DO B0XÁHTI8K0 BX POBTUOAI. 

Sciencias de Lisboa, de que fora vogal na commissão or- 
ganisada em 38 de junho de 1851, n'essa febre papelística 
do primeiro momento da Regeneração. A Helena foi a ul- 
tima obra de Garrett, por ventura o seu enlevo de espirito 
quando recebeu a derradeira decepção politica, vendo Salda- 
nha atraiçoar o movimento da Regeneração, que se apoiava 
nas resistências de 1836, 1846 e 1847, paràrehavero favori- 
tismo da rainha. O romance é. lòcalísado a algumas léguas 
da Bahia, não longe do semicírculo do Recôncavo; Garrett 
faz isto apenas em duas linhas, á maneira de rubrica thea- 
tral, porque a sua imaginação, além de um nome de be- 
gónia, de um sabiá ou de um macísso de palmeiras nada 
mais lhe pôde representar da grande vida da America. De- 
pois que se lêem bs romances de um Gabriel Ferry, Gus- 
tavo Aymard ou Paul du Plessis, tão plagiados por Mendes 
Leal no Calabar e Bandeirantes, é que se vè bem a aca- 
nhada organisação dos nossos preconisados talentos. Gar- 
rett conhecendo a impossibilidade de pintar a vida da Ame- 
rica, transportou para ali as paisagens da Escossia, da 
Suissa, o conforto inglez e a galanteria franceza. Arranjou 
um fundo' de quadro falso, para desenhar á vontade. As 
suas descripções resumem-se nas minúcias das vestimen- 
tas, do serviço de mesa, na disposição da mobília. Era essa 
também a preoccupação com que se instalara na residência 
de Santa Isabel. Garrett dizia com desespero, que qualquer 
ignorada miss íngleza, apenas vinda do collegio, compunha 
uma novella com mais vida, graça e invenção do que elle 
próprio com esforço. Entra aqui por muito a acção do 
meio. 

O sentimento da Helena é taoibem aff^ctado e de uma 
tenuidade que chega ao fade: Garrett não nascera impune- 
mente em 1799, dentro ainda do século xvin; herdou fa- 
talmente a sensiblerie idylíca, e só conseguiu uma vez sa- 
cudil-a com um ímpeto natural no Frei Luiz de Sousa e nas 



ALMBIDA GABBBTT 215 

Folhas cahidas. A HeUna tem uma acção sem movimento e 
faltam-lhe caracteres ; incapaz de desenhar um typo, uma 
entidade moral, em vez de a fazer fallar, obrar, descreve- 
Ihe o fato, as posturas, a edade. N'este romance ha um 
viajante francez o sr. de Bressac, que estivera nas luctas 
da independência da Grécia, e desgostoso se retirara entre- 
gando-se dilettantescamente ao amor da botânica; no seu 
período bellico, tivera intima amisade com um mancebo 
brazileiro, e salvara uma criança de nove annos que ado- 
ptara como sua, a quem puzera o nome de Helena. Lem- 
brou-se de ir um dia herborisar á America e partiu com a 
carta do seu amigo, que o recommendava a um tio, o Vis- 
conde de Itahe. A situação começa com um monologo de 
contemplação do Conde de Bressac por uma passijQora que 
encontrou próximo da Bahia, á qual poz o nome da sua pu- 
pilla mysleriosá. No meio doeste devaneio botanico-pater- 
nal, é surprehendido por um preto, typo ridículo, chamado 
Spiridiao Cassiano de Mello e Mattos, que com outros pre- 
tos o veiu buscar em uma canoa para casa de seu amo. É 
recebido na intimidade pelo Visconde de Itahe, que tem 
uma filha muito linda, chamada Isabel» e uma esposa muito 
doente chamada Maria Thereza ; falla-se do primo que está 
em Paris, e com quem o Visconde projecta o casamento de 
sua filha; n'isto a dona da casa morre de inanição. Em 
consequência d'islo o sr. de Bressac persuade o Visconde 
de Itahe a fazer uma viagem até á Europa, e começam a 
discutil-a. Aqui ficou interrompido o romance pelo falleci- 
mento de Garrett. O desenlace da Helena é fácil de prever, 
pelas palavras vagas e presentimenlos do fragmento: de fa- 
cto o Visconde vem com a filha á Europa, mas sabe que o 
sobrinho que tanto amava, e que julgava seu- futuro genro, 
é pretendido pelo sr. de Bressac para a sua pupilla. Tra- 
va-se aqui o conQicto de duas paixões, segundo a situação 
já revelada nas Folhas cahidas, Helena morre de romanlis- 



216 HI8T0BIA OO BOMÁHTI8X0 EM POBTUGÍlL 

IUO9 de Bressac consola-se escrevendo monogrâphias sobre 
a saa passiflora, e a filha do Visconde regressa á pairit 
sem qaerer casar, sacrificando a vida á propagação evaii- 
gelica e emancipação dos escravos. È esta a consequenda 
lógica eín harmonia com o espirito do romance e com a 
orientação do romantismo emanuelico. 

Âiém de outros peccados iitterarios, como o elogio em 
bocca própria, que Garrett usa em todos os seus prólogos 
por falta de consciência da acção que exercia, algumas 
ve2es caiu no acto infeliz do plagiato, para supprir as- 
sim a falta de estudo ou de ideias. Citaremos o facto bem 
conhecido do artigo de bibliographia sobre o Romancero 
espagnol de Damas-Hinard; publicado na lUustration de 16 
de novembro de 1844; os factos superficialmente citados 
n'esse artigo foram traduzidos por Garrett formando o texto 
original do seu Opúsculo acerca da Origem da lingua par^ 
tugueza, publicado ainda em 1844, em Lisboa. O grande 
talento artistíco de Garrett não tinha outras bases scienti- 
ficas além das suas primeiras leituras do tempo de Coim- 
bra; para ser dirigente possuia a generalidade de vistas, 
mas faltava-Ihe uma especialidade. Os velhos espíritos es- 
pecialistas, o erudito exclusivo e maçudo, reagiam contra 
a seducçào do seu brilhantismo, e o cardeal Saraiva ao ver 
a leviandade em que caiu Garrett plagiando esse pobre ar- 
tigo francez, dizia compungido mas glorioso — EUes são as- 
sim. Esta phrase caracterisa bem os escriptores portugue- 
zes do Romantismo, plagiaram, imitaram, paraphrasearam, 
traduziram como quem quer fazer livros sem ter ideias* e 
quando chegaram a exercer acção não tiveram a consciên- 
cia de um destino. 

Quando nós vemos a bella organisação litteraria de Yii- 
lemain ser quasi completamente aniquilada pela ambição 
politica, como o provou Littré no seu Discurso de recepção 
na Academia franceza, é quando comprebendemos até que 



ALMBZOA OABBETT 217 

ponto Garrett foi ioutitisado pelo desejo de participar tam- 
bém do poder, ser ministro, ter medalhas, dispor de io- 
fluência. O trabalho litierario tornou-se para élle acciden- 
tal» uma distracção, um desenfado; os que o queriam afastar 
dâ politica chamavam-lhe poeta, e ê triste vêr o poeta de- 
clarar que já pode ser almotacé do seu bairro^ porque já 
perdeu o dom da poesia I Ó prazer da creação artistíca eleva 
o homem e dá-lhe o primado entre todas as gerações; o 
prazer de mandar tem uma certa sensualidade de caniba- 
lismo que dura pouco^ mas que fascina muito as organisa- 
ções imperfeitas, E esses poetas ministros, embaixadores, 
persidmtes 4e republicas, e dictadores momentâneos, sao 
como dizia Gomte^ vocações frustadas, abortivas, que nas- 
ceram estéreis: corromperam a arte e corromperam a po- 
litica. No prologo da Historia de Portugal, em 1846, Her- 
culano observa a influencia do periodo politico constitucional 
na esterilidade dos talentos: aos bons engenhos, osquen'es- 
tes últimos tempos a nossa terra tem indubitavelmente pro- 
duzido, são jprçados a viverem na atmosphera mirradora 
do mundo politico, ou a exercitarem cargos públicos, que 
lhes consommem o tempo e acanham por fim as faculdades 
do entendimento.» N esta terrível verdade estava incurso 
Garrett, e com elle tantos eminentes espíritos como Rodrigo 
da Fonseca Magalhães, Manuel Passos, José Estevam, ab- 
sorvidos pelos partidos políticos. O proprío Herculano fica- 
ria esterilisado se um despeito profundo o não fizesse aco- 
Iher-se á tranquillidade consoladora do estado. A politica 
a que Herculano se refere não pôde ser o facto da partici- 
pação de um homem ás funcções sociaes do seu paiz, por- 
que essa intervenção dá ao talento o relevo da realidade 
e de uma philosophia pratica, mas sim o conflicto de pe- 
quenos interesses de grupos que aspiram á governação, e 
a que Augusto Comte chamou com tanta lucidez os parti- 
dos médios. 



St8 HI8T0BIA DO BOM AKTIBIfO EM PORTUGAL 

As mais bellas inspirações de Garrett s3o aquellas que 
se ligam á participação directa da politica de principios: o 
Catão foi escripto sobre as emoções democráticas da Revo- 
lução de 4820; o poema Camões, nos desalentos da emi* 
gração em 1824, depois de rasgada pelo absolutismo a Carta 
liberal de 1822; o desterro o o cárcere despertam-lhe em 
4827 a comprehensão da poesia popular e tradicional; o 
Arco de SanfAnna, é concebido dentro do cerco do Porto 
em 1832, n'esse contagio de heroísmo; o Alfageme de San- 
tarém foi escripto entre as luctas do elemento constitucio- 
nal puro contra o facciosismo da rainha na época da dieta- 
dura cabralina em 1842. Esta relação superior entre o 
espirito e o êm tempo, é que accendeu por vezes em Gar- 
rett a faisca do génio, como no Frei Luiz de Sousa e nas 
Folhas cahidas, e o torna o primeiro n'essa época de reno- 
vação litteraria. Desde o 6m do cerco do Porto em 1834 até 
hoje, a politica em Portugal não foi mais do que a agitação 
egoista de partidos médios : intPmidar ou corromper, era o 
meio de exercer a auctoridade, e Costa Cabral pela pressão 
arbitraria e Rodrigo da Fonseca Magalhães pela dissolução, 
foram os dois pólos da nossa vida parlamentar. Não havia 
ideal de liberdade ; eram lodos conformes (Bm considerar a 
realesa como a glândula pineal da vida da nacionalidade. 
Foi por isso que a politica esterilisou os talentos, uns pelo 
excesso da importância individual, outros pelo despeito de 
vaidades não satisfeitas. 



LIVRO ÍI 



ALEXANDRE HERCULANO 



(1810 — 1877) 



Quando um dia a geração moderna procurou relacionar 
Portugal (X)m o movimento estrangeiro, dando-lhe a conhecer 
as questões fundamentaes do nosso século na sciencia, na 
politica, na litteratura ie na historia, e se organisaram as 
Conferencias democráticas, um ministro conslilucional vio- 
lou o exercício da liberdade do pensamento, mandando por 
uma portaria fundada sobre uma consulta do procurador 
geral da coroa, e por intimação policial, prohibir essas 
Conferencias. Aquelles que pensavam que a circulação das 
ideias é o estimulo vital de todo o progresso em uma socie- 
dade, e que explicavam a decadência e o atraso da sua pá- 
tria como consequência da apathia mental, protestaram mas 
não foram ouvidos. O parlamento estava fechado, e a im- 
prensa jornalística na espectativa de uma politica de expe- 
dientes, deixou passar sem reparo esse ultraje á dignidade 
de um povo livre. Havia em Portugal um homem que era 



220 HISTORIA DO BOXAHTISMO EM PORTUGAL 

ouvido como um oráculo; Herculano era considerado como 
uma consciência inquebrantável, e a sua voz acostumada ã 
energia do protesto, quando se pronunciava fortalecia-se com 
o .assentimento dos espirilos. Nunca ninguém exerceu um 
poder tão grande, na forma a mais espontaneamente reco- 
nhecida; as opiniões entregavam-se á sua afiirmaçâo, como 
um povo se entrega a um salvador. Tinha o poder es- 
piritual sobre a nação. Aquelles que foram violados no 
seu direito consultaram-no, appellaram para elle em ta- 
manha iniquidade. Alexandre Herculano ao cabo de muito 
tempo publicou uma Carta, em que dizia que as grandes 
questões do tempa eram o infallibiltsmo e o marianismo! 
que para elle a Democracia eram os miguelistas do cerco 
do Porto, quando andavam munidos de sacos para o mo- 
mento em que podessem entrar na cidade. 

Desde esse dia em diante Herculano rompeu com a ge- 
ração nova do seu paiz, e a esta competia retirar-lhe o po- 
der espiritual, fazendo o processo critico da intelligencia 
e da missão do grande homem. ^ Herculano ainda teve 
conhecimento do espirito de severidade que o chamava 
perante a critica, mas a morte eliminou esse factor social, 
que pela sua immensa auctoridade e pelo estacionamento 
em que se deixara ficar começava a exercer uma acção ne- 
gativa. Hoje, que os que o idolatraram em vida se esque- 
ceram do fetictie quando os convidaram para a subscri- 
pção de um monumento, hoje sem paixões, nem violências 
de combate, deve-se revisar a obra de Herculano com jus- 
tiça e trazer á verdade o homem legendário. 



1 Foi Aste o peDsamento do nosso artigo da Bibliographia critica^ p. 193 a 
â03 ; eomprimos am dever moral a despeito das admirações incooscieDles, que 
AOS brindaram com a phrase — pedras atiradas á janella de fierculano. 



lUfSZDA OASBBTT 22i 



§ I. — (De 1810 a 1830.) Estado do espirito publico desde o principio do se* 
colo até á reYoloção de 18iS0. — Hereditariedade e atavismo de Herculano. 
— Primeira edocaçao no Mosteiro da? Necessidades. — O curso de commer* 
cio na Academia real de Marinha. — Herculano decide-se pelo governo abso- 
luto em 1828. — Versos contra a Carta constitucional. — Os caceteiros mi- 
guelistas e a anedocta do gilvar. — A expedição franceza ao Tejo em 1831, 
e a revolta de iofaoteria I a favor dos libcraes. — Herculano acba-se en- 
volvido n'esse movimento; refugia-se na esquadra franceza, e parte depois 
para Plymouth. — O embarque de Bellelsle. — Gomo estes successos influi* 
ram no seu caracter e talento litterario. 



O typo de Herculano indicava a sua naturalidade; havia 
na sua physionomia e no trato pessoal a secura do saloio. 
Nasceu em Lisboa a 28 de março de 1810, filho de Theo- 
doro Cândido de Araújo, recebedor da antiga Junta de Ju- 
ros. Isto não foi sem influencia na educação que recebeu na 
Academia Real de Marinha com destino para a aula de com- 
mercio. O pae de Herculano ficou totalmente desconhecido, 
mas em um manuscripto de versos do século xvui, que per- 
tenceu á livraria do bibliographo Innocencio Francisco da 
Silva, * acha-se uma Epistola dedicada a Theodoro Cândido 
de Carvalho por um fraco poeta José Peixoto do Valle, em 
que se exaltam as suas virtudes como dignas da eternidade. 
A Epistola é realmente extraordinária, e alguma cousa d*a- 
quella honradez tradicional se conservou na independência 
de caracter do filho. A hereditariedade moral é um dos phe- 
nomenos que mais deve interessar a critica moderna, so- 
bretudo quando as biographias são consideradas por Maud- 
sley como um dos mais importantes subsidies da psycho- 

1 Ca/a%o, n.M: 803. 



222 msTOBiA i>o bomahtumo sm portugal 

logia. * O avô de Herculano, Jorge Rodrigues de Carvalho, 
era pedreiro e mestre de obras da c.asa real; como e^cri- 
ptor Herculano conservou sempre uma predilecção pela ter- 
minologia archítectonica; ínspirou-se do amor da archile- 
ctura no pequeno romance A Abóbada, e foi o prinaeiro 
a protestar nos seus ar ti tos do Panorama, no Brcúio a 
favor dos Monumentos, contra a indififerença do governo 
constitucional que deixava expostos á demolição os mostei- 
ros e collegiadas secularisados pela lei que extinguia as or- 
dens religiosas em 1834. O valimento de Herculano no paço 
e a sua sympatbia pela família dos Braganças tinha raízes 
nas antigas funcções de seu avô; e a oscillação do seu es- 
pirito entre a causa de D. Miguel ou a de D. Pedro era o re- 
sultado de uma affeição indistincta, que a violência dos 
acontecimentos q a pressão dos partidos obrigou a definir. 



1 Aq ar. Theofloro Cândido de Carvalho * 

EPISTOLA. 

Não são heroes, Carvalho, os qoe na guerra 

Cerrados esquadrões rompem, assolam, 

Vertendo o sangue humano : os seus triumphos 

Mo meio do terror e da carnagem 

São bárbaros, atrozes, desbumanos. 

Mão é beroe o avaro que famíoto 

Em seu Ibesouro ceva n vil cobiça, 

£ em sórdida ambição sempre inquieto 

Dorme sobresaltado cm montes de ouro. 

Sem dar ura real de esmola ao pobre afilícto. 

Nãt) é beroe aquelic que cercado 

De dourada baixella em lauta mesa, 

Vivendo entre grandezas e gosando 

Dos bens que nSo merece, só procura 

Augmentar quanto pode, a dura sorte 

Do desgraçado e triste desvalido, 

Sem que d'uma só yez se compadeça 

Dos gemidos, dos ais, do pranto acerbo 

Do triste orphão, da tímida donzelia. 



# Pae de Alexandre Herculano. (Nota de lonocencio.) 



ÀiMsmÁ. aAuuBTT 223 

Ao determinar a data do Dascimenlo de Hercalano em 
1810, fica-se coDheGendo o desgraçado meio moral em que 
foi orientado o seu espirito. Yivia-se na incertesa, no jugo 
do protectorado de Inglaterra, aspira va-se á liberdade em 
uma constituinle, sopbísmava-se essa aspiração com uma mo- 
narchia parlamentar para tornar a cair no absolutismo crasso. 
Geraraih-se as naturezas descontentes; os typos azedos e 
mal humorados; a lucta do constilucionalismo com o despo- 
tismo foi ferrenha e cannibalesca; propagavam-se as ideias á 
eacetada^ callavam-se os descontentamenlos com a forca, e 
era normal o conQsco dos bens dos que seguiam princípios 
oppostos aos dos que usavam do poder. A nação, depois 
da entrada dos francezes^ que saquearam o paiz, e depois 
da fuga de D. João yi, que levara comsígo para o Brazil 
todos os dinheiros dos cofres públicos, estava na mais ín- 



Nâo 83o heroes, Carvalho, esses iyrannus 
Qoe Da Hyrcania ou no Cáucaso creados 
NuDca cessam de obrar accOes infames, 
Que desbouram a terna bumanidado. 
Ueroe é só aquelle que a virtude 
A difficil virtude segue honrado, 
Que um só passo não torce na carreira 
Da mageslosa estrada da alta gloria. 
Este o caracter teu, Carvalho iíluslre, 
Estas as qualidades que te adornam : 
^Csles 08 dotes teus, os teus costumes, 
Costumes sãos da edade do Saturno. 
Em teu formoso peito se agasalham 
As virtudes gentis do Eterno filhas : 
A Justiça, a Rasão, a Honra e o Brio. 
Um'alma bemfazeja o eco benigno 
Em ti depositou: tenção brilhante 
Be a todos fazer, de amar a iodos. 
Esta é a lei, Carvalho, que te guia bem, 
Que rege os passos teus e que presida 
A todas as acções que tu praticas, 
£ que devem gravar teu graade nome 
Em níveo jaspe, a par da eternidade. 

José Peixoto do Valle. 
(Inédito — Ms. de Poesias varias, p. 397. Cat. n.° 1:803.1 



224 HISTORIA DO BOMAHTISMO BM POBTUGÁL 

sonda vel miséria, entregue a uma Junta que governava em 
nome do monarcha que abandonou o seu povo ao inimigo 
recommendando-lhe obediência cega. D. João vi entregue i 
preoccupaçao de organisar a capella real mandando ensinar 
musica aos pretos, de vez em quando enviava para Por- 
tugal uma Carta regia, para não desacostumar o povo da 
sua paternal soberania. Âs ordens religiosas, absorvendo 
cada vez mais a riquesa territorial pelas doações do fana- 
tismo, apoderavam-se das inlelligencias educando-as no sen- 
tido das doutrinas que mais convinham á sua associação 
egoista. Reinava a mediocridade nos espíritos e a estupidez 
nes multidões. Os ínglezes, inflilravam-se no paiz, e iam 
introduzindo nos commandos militares oíBciaes exclusiva- 
mente inglezes, e a um leve golpe de mão provocado pelas 
circumstancias Beresford convertia Portugal em uma feito- 
ria de Inglaterra. O espirito de revolta que precipitou Go- 
mes Freire, existia na nação contra os inglezes que nos tra- 
tavam peior do que os exércitos de Napoleão, e em Hercu- 
lano no seu escripto de Jersey e Granville conserva-se essa 
nola de patriótica hostilidade; o mesmo contra Byron e o 
Child Harold. 

O povo portnguez sabe pouco ou nada da sua historia, 
mas com uni instincto de verdade dei.^ou retratado este pe- 
. riodo de degradação em um pasquim, abafado pela Inten- 
dência da policia : * 

— Quem perde Poflogal? 
«O Marecbal. 

— Quem sancciona a lei? 

fO Rei. 

— Quem sSo os executores? 

«Os Goveroadores. 



Para o Marecbal? Um paohal. 

Para o Rei ? A Lei. 

Para os Governadores? Os Executores. ^ 

1 ArchíTo da lotendeocia da policia, Liv. xvi, fl. 271, de 15 de janeiro de 
1817. 



Os estados de Hercalano foram incompletos, mas isto 
longe de prejadical-o caasou-lhe a autonomia da intelligen^ 
da, e um grande rigor de eritica e de methodo. Depois de 
PooaJiial t^ expulso os Jesuítas o ensino publico flcou a cargo 
de outras ordens religiosas; os Padres do Oratório, inimi- 
gos dos Jesoitas no fervor pedagógico, acharam nas refor- 
mas de Pombal o ensejo de desenvolverem a sua activida- 
de. Floresceram acreditados como mestres; e ao Oratório 
pertenciam o grammatico António Pereira de Figueiredo, au* 
ctor do Novo ^hthodOy e o padre Theodoro de Almeida, o 
da Becreação philosophica e do insUlso romance do Fdiz In^ 
dependente do mutèdo e da fortuncu Este regimen conser- 
voa-se até á abolição dos conventos ; todos passavam na sua 
educação pela fieira dos frades. Quem escapava ao prurido 
da sedocçSo da vida claustral, ficava para toda a vida eivado 
de nma erudição theologica e casuista. Assim aconteceu a 
Herculano, que se mostrou sempre versado no conhecimento 
dos Concílios, das Bulias, dispendendo o seu vigor nas quês* 
toes clerieaes da Concordata sobre o Padroado do Oriente, 
sobre as Irmãs da caridade e sobre o Casamento civiU Eile 
frequentara até aos quatorze annos as aulas dos Padres do 
Espirito Santo nó mosteiro das Necessidades, cursando as 
disciplinas da Grammatica latina, da Lógica de Genuense, 
e da Rhetorica de Quintiliano. ^ Isto bastava para cair em 
um pedantismo invencível, se um dia a emigração para 
França não puzesse Herculano em contacto com a sciencia 
e com a evolução do espirito moderno; fieou-lhe comtudo 
essa feição auctoritaría, que a educação catholica pela leitura 
da Biblía amoldou a um tom parabólico, e com a emphase 
do psalmp. 



1 No prologo da ediçlo. dos Annaei de D. João ///, do Frei Lqíz de Soosa, 
publicados por Alexandre Herculano, lêem- se estas paJaTras aotobiographieas : 
«essa congregação celebre, a quem as letras portogaezas tanto doTeni, o a fua» 
%ói flietmoff devêfM» part$ da noua educação littermia,^ p. ix. 

15 



226- HISTOBIA BO bomahuímo bm pobtuoal 

Be 1825 a 1826 frequentou HercoIaDO o primeiro anno 
do curso mathematíco da Academia Real de Marinha, sendo 
approrado segundo a classificação d'esse tempo, com des- 
tino para a aula de Commerdo, o que equivalia a ter de 
repetir o anno caso quizesse proseguír no Curso de Mathe- 
matica; seguiu a direcção em que o impelliram, e feito o 
exame do segundo anno obteve da Junta de Commercio uma 
espécie de diploma. Entre os seus estudos regulares cita-se 
também a frequência da aula. de diplomática na Torre do 
Tombo, dirigida pelo paleographo Francisco Ribeiro Guima- 
rães. 

Estava-se n'essa terrível época de indecisão paHtica, em 
que o sophisma do constitucionalismo pela liga do partido 
monástico com o absolutismo se via exposto a um acto de 
violência; D. João vi regressara sem pudor a Portugal, e a 
nação ainda mais degradada recebeu-o com festas ; o estylo 
das modinhas brazileiras era applicado aos hymnos em lou- 
vor do monarcha pela Constituição que jurara. 

E tudo assim; D. João vi, espécie de Vitellio levado em 
triumpho, estava por tudo ; tanto se lhe dava ser constitu- 
cional, despótico ou simples presidente de Republica, ^m- 
tanto que o deixassem reinar. Deu-se a ViUafrancada; o 
povo comprehendeu o prejurio do nK>narcha, espalhando o 
pasquim: 

ÁJerla! alerta! 
Que o rei deserta. 

 nobresa exigiu que D. João vi rasgasse a Constituído e 
se proclamasse absoluto; foram buscal-o a Yilla Franca de Xi- 
ra, e para manifestação de adhesão entranhavel á pessoa do 
monarcha, a nobresa tirou os cavalios do coche real e pu- 
chou-o até Lisboa. Foi uma honra inaudita ; durante sema- 
nas muitos titulares e militares de altas graduações recla- 
maram pela inprensa o serem incluídos na lista dos que 
haviam puchado o coche real. Quem se achar n'um meio as- 



hl mi »tmiv «— opiiAga fiSSJ 

mm degradada, abtes de ter oohstitaido o sea caracter, se 
dSo; éama natoresa moraliDeate robo&ta, fica perdido. O 
bcnaifflii é taíqbem alguma^ <::oa8a feiío pelos acóQteoimbntos; 
H6fi;oianò tinha eotão qbiiiiiie aonos ; e por isso nio nos aã^ 
mira que,, em uma época em gue era forçosa a decisão por 
am partido, eiie pendesse» eomo se diz ^na phrase viãgar, 
porá a baníkudQ arrocho. Herculano seguki primeiramente 
o absolutismo; quem oosará culpar uma criança saida da 
escola dos Padres das: Necessidades, sem outros conheci* 
mentos além de umas vagas humanidades? A corrente era 
para o absolutismo e na aula do Commercio os alumnos aço* 
lados pelos que se sentkm despeitados com o desterro de 
D. Miguel em Vienna de Áustria, citavam pelo Terreiro do 
Raço — Viva D. Miguel m ábsabtío de Portugah 

Em 1828, a 22 de fevereiro, chegou D. Miguel a Lisboa; 
cantavam-se bynmos exaltados e.parodias picarescas: 

D. Miguel chegou á harra, 
Saa mãe lhe dea a mão : 
* ^- Vem eá filho da miaba alma, 

Mão jure» Coiíslituiçâo, 

Acompanhava-se Q3da copla deãenxa&ida com um retor- 
nello estridente, cantado ao compasso de cacetadas, e como 
uma réplica ao trágala, perro, do hymuo constitucional hes- 
panhol : 

Kei chegou, 
Rei chegou, 
Em Belém 
Desembarcou. 

Logo que D. Miguel chegou a Lisboa, sua irmã Isabel Ma- 
ria, que occupava a regência, declinou n'elle os seus pode- 
res, e começou então o regimen do terror. A torpe Carlota 
Joaquina, para tornar o fílhd um instrumento passivo da 
reacção absolutista, revelou-lhe que elle não era filho de D. 
João VI, e que se lhe não obedecesse em tudo o desaucto- 



128 BIBT0BI4 DO BOKânWBO SM VOBTUOIL 

raya declarando o sea adolterío á na(ioi Os liberaes viam 
no estòayado Miguel apenas o filho do feitor da quiala do 
RamalhSo. Não existe na nossa historia uma época de maior 
degradado e insensatez; o facto da independência do Bra* 
zil, por D. Pedro, que se fizera patrono da causa liberal, 
lançou muitos homens sinceros e ingénuos patriotas na usur« 
pação miguelista; as violências dos caceteiros, as prisões 
por denuncias secretas e os enforcamentos converteram mui- 
tos pretendidos legitimistas em liberaes. Yacillava-se na onda 
dos acontecimentos, sem uma clara noção da independência 
civil; os partidos, á falta de ideias que os delimitassem, 
distinguiamnse por affrontosas alcunhas. Os que pretendiam 
uma Carta constitucional como base dos direitos políticos 
eram os Malhados; ^ os que só reconheciam a soberania na 
pessoa do rei por investidura divina, eram chamados o^ 
Realiskis, os Corcundas^ os Caipiras, os Orelhudos, os Bur* 
ros, ou Sligtielistas. Vieram ainda azedar mais o conflícto 
civil as insígnias de cores distinctivas, azul e branco para 
os liberaes, azul e vermelho para os absolutistas, e as can- 
tigas provocadoras, de parte a parte como: 

Of IhlhadM Dft« qiêriam • 
D. Migoel por gMeral, 
Pois agora ahi o têm 
Feito rei de Portugal. 

Oh Braga fiel, 
Oh Porto ladrão, 
Villa No?a jura 
A CoDslitaicão. 



- 1 Nome tirado dos cavallos que Tiraram a earroagem em qoe andava D. 
giel, » cQjo desastre se fez eeta ciM^tiga : 

Qaereis yét o tosso rei, 
Ide vél-e a Qoeliis, 
Qae lá está embalsamado 
Para sempre, amen Jesus. 



àSMKAMSmm HÉSOOLAVO 229 

Effectiyameiíte, logo a i3 de março de I8â8 dissí^Yen a 
camará doâ deputados, e a 3 de maio D. Mígod inyestiu-^e 
da soberania convocando as oôrtes á antiga, com o clero, a 
nobresa e o poYO, que em 1 ( de julho o declararam único 
réi legitimo de Pc»*tugal. Apenas a cidade do Porto reagiu 
contra esta monstruosidade, fomentada pelo fuiatismo das 
ordens mcmachaes e pela imbecilidade das casas arístocra** 
ticas. Os mumdpios fizeram manifestações de adhesSo ao 
monarcha absoluto, e no «xdo da estupidez pubttca enlen^ 
dia-se que Portogal só podia existir entregando-se á liga 
do throno e áo altar; a Uberdade era considerada como uma 
desmoralisação do secolo, e como tendo já feito perder a 
Portugal a sua colónia mais rica. Desd^ a proclamâçSo de 
D. Miguel, começou o systema de propaganda absolutista 
pelo espancamento pelas roas. Os aais baUucínados parti- 
dários do throno e do altar fermavam ranchos de caceteiros, 
percorrendo as ruas a todas as horas do dia, cantando o 
estribilho: 

Fi6k«, Mtàiitdol 
Gbocíi»! Jttdin< 
Acaboo-se a goerra 
D. Miguel é rd. 

Onde encontraTam um liberal coidiecido, ou que tinha 
cara de ser malhado, derrubavam^^no i cacetada, aos gritos: 
Viva elrrei D. Miguel i, nosso senhor 1 Quem não correspon- 
dia a este salve era amachucado. 

Alexandre Herculano, com os seus dezoito annos estava 
então no vigor ^a edade, e nio contente de exaltar o rei 
absoluto como seu senhor, em odes e sonetos emphati- 
cos, que lhe ia depositar nas reaes mãos a Queluz, filiou-se 
tamberú n'um bando de caceteiros. Esta phase da sua vida 
seria completamente desconhecida, se lhe não ficasse im- 
pressa na face uma cicatriz, cuja historia se repete oral- 
mente. Todos os biograpbos de Herculano guardaram um 



230 mSTOBIA 00 SMIASTailOSM' PORTUGAL 

silencio syslematiòo sobre esta phase da saa vida ; apenas 
em uma. bíographia que appareceu na Aclualidade, se allude 
á cícaCríz, conhecida pelo nome de gil-Yaz da feira das Amo** 
reiras. * 

Conta-se que a scena se passara por occasilo da festa do 
Espirito Satito> na feira annnal das Amoreiras, ás Aguas*^ 
Livres; ali se «ncontravam oé ranchos dos caceteiros mi- 
gnelistas, e se batiaim com outros também alentados dd 
campo constitucional. InsultaTaiOhse com ditos: Fora, Ma* 
Ihado! Fera, Corcmydat^^m seguida: trabtdhávck ç caceie, 
como se dizia na lisgoagem do lempo. Alexandre Hercidano 
pertencia a nm gropo de rapazes que andava de rixa com 
oatro pequeno grupo de estndaíKtes liberaes; era Valeniee 
destimido, e foi pon isso qoe^ quando vieram ás mãos ao 
anoitecer, lhe atiraram a segerar, dáodo^lhe uma navalhada 
BO rosto. Dizia-se que lb'a ite^aium official de márioliarO 
Galhardo, de quem veiu a ser parente ;e amigo. Foi talvez 
por esta circumstancía de haver na sua mocidade pertencido 
ao partido do absolutismo,. K|uâtf{ercu1ano nunca escreveu 
a historia d'esse heróico cêfco do Pbrto, de que elle foi tes- 
temunha, e cujos heroes conbéfiia« 

Os talentos litterarios de Herculano acbavam-se também 
alropbiajdos pela persistencia>das formas ai^eáitieas ; se* elle 
nao se visse um^dia forçado a seguir o eaminbo da emigra- 
•çao, seria como Goçta e Silva, ou eomb Gastilhò, não exer- 
ceria uma acção tão profdnda na renovação da tlittera tara 
port!:^oeza da época do Romaatismo. No. seu ferwir neac- 
cionarío, Herculano incensou, o» atrabiliário iligisel oom va- 

^ «Alexandre .Ibrcnlafto tinha kis face uma éfdalHx, reèattado #b mm lérl- 
indQto em 1$S8 por oro iodividqo com.q9*iP tivera iimaeonteoda pnf caifta de 
uma qoestfto nascida de divergência dé princípios politicos. biz-se que o grande 
èficriptór tdfa nos primeiros amíos d4 vida ardéàte deftiÉèor doft principio» pdr 
. i)iie se nB||ia a antiga monaroiíia, a accre«cantarii0 q4ie«o aucior doesse ferioMoto 
— nm official de marinha -^ foi depois seu companheiro de emigraçio e seE 
intimo amigo*» (ÂctiOlHade, sèUmbtt) d» 1877.) 



ALBXA]n>BB HEBCULAKO 031 

rios sonetos, cujas copias ainda %e conservam por mãos de 
curioços; D* Miguel dava audiências ás quintas feiras nos 
paços d^a6li;iz^ e os poetastros iam ali em caravana offe- 
recar-lhPas soas Odes e Epistolas, trazendo em remunera-* 
ç'Sio cédulas de mil e duzentos e dois mil e quatrocentos réis 
em papel. Innocencio Francisco da Silva mostrou-nos por 
lettra de Herculano uma doestas Epistolas, que eile levava 
ao beija-mão de Queluz» e Sousa Monteiro, antigo legítimista 
também consiervava outras peças doesta phase litteraria bem 
como o curioso bibliophilo Rodrigo José de Lima Felnen 
Âioda se repelem de memoria alguns versos de uma viru- 
lenta Satyra intitulada 0$ Pedreiras, em que se apodi^vam 
os liberaes da ruina da pátria, e se atacava, a Carta : 

A Carta maldita, infame e danada, 
' Qne em março qoat burro, jà foi foB^uíada . . . 

Referia-se ao acto de 13 de.março de 1828, em que D. Mi- 
guel dissolveu o parlamento e se tomou absoluto. N'essa 
Satyra fazia Herculano a historia da Carta constitucional, 
trazida do Rio de Janeiro, onde ficara D. Pedro, por 

Staart brejeiro, patife da marca, 

Ivrado ioimige do noaeo moBarcha, 

Qoe já nos fizera perder o Brazíl 

Por mSÓ de um tratado tergonboso ê Til . . . 

Referia-se a Lord Cbarles Stuart, que negociou o, tratado 
da independência do Brazil, e que em Lisboa mandou co- 
piar o celebre Cancioneiro do Çqllegio dos Nobres^ que pu- 
Meou em Paris quando ali esteve por embaixador ; a sua 
bibliotbeca era extremamente rica das mais preciosas rari- 
dades da bibliographia porlugueza. 

Este período da vida de Alexandre Herculano serivindò 
4)ara c^nracterisar o meio social açterior ao cerco do Porto, 
meio deprimente em que as intelligencias mais robustas 
mal se podiam elevar acima dos preconceitos mantidos pela 



Í82 HUTOUÁ IK> BOKAHTIBMO BM VOBTUOIL 

educação monachal, este período teiii a particdarídade de 
DOS expliear o h<miem em grande parte da sua ulterior aeti- 
Tidade. ^ Por elle se vê que Herculano seguia tím jittenh 
tara as Telhas pautas académicas, e seria um ccrainnador 
de José Agostinho de Macedo, porque estava em accordode 
doutrinas. Gomo venceu Herculano este meio deprimente? 
Eis a base d'este estudo litterarío. 

Uma grande parte da vida moral da mocidade de Ale- 
xandre Herculano acha-se esboçada oomo reminiscência nos 
seus versos; e essas composições, que reuniu com a Ikirpa 
do Crente, são a prova de que era um espirito profunda- 
mente poético, que desabrochou aos primeiros soÃrimentos 
pela liberdade. 

A Harpa do Crente, publicada em três fasciculos na 
primeira edição de 1838, encerra curiosas revelações omit- 
tidas nas edições subsequentes em oitavo. O poemeto lyrico 
A Seniana Santa, dedicado ao Marquez dé Rezende em tes- 
temunho de amisade e veneração, traz algumas notas de va*^ 
lor autobiographico: «Eis o poema da minha mocidade: são 
os únicos versos que conservo doesse tempo, em que nada 
n'este mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje 
me dissessem: Fazei um poema de quinhentos versos acerca 
da Semana Santa, eu olharia ao primeiro aspecto esta pro- 
posição como um absurdo; entre tanto eu* mesmo ha nove 
annos realísei e$te absurdo. Não 6. esta a primeira das mi- 
nhas contradi(^ões, e espero çm Deus e na minha smcora 
consciência, que não seja a ultima. — Quando eu compuses- 
tes versos, ainda possuia toda a vigorosa ignorância da ja- 
ventude; ainda queria conceber toda a magnificência do 
grande drama do christianismo, e que a minha harpa estava 
afinada para cantar um tal objecto. Engana va^^me : a Semam 
Santa do poeta não saiu semelhante á Semana Santa da re* 

'1' Adiante Teramoi como dettniia estes foits primeiros ensaios. 



lígtSo.» Eii^ segaida, tomando os mytbos do sacrifido como 
o maior facto do Doiverso, diz que só honve no mondo om 
Klopstock, e que até á consommaçSo dos séculos talvez nSo 
appareça outro: cPorque» pois, não acompanharam estes 
versos os outros da primeira mocidade no caminho da fo- 
gueira? Porque publico um poema falho na mesmíssima es- 
sência da sua concepçSo?— Porque tenho a consciência de 
que abi ba poesia ; e porque não ha poeta» que, tendo essa 
consciência, consinta de bom grado em deixar nas trevas o 
fructo das suas vigilias.» * Determinada pelo próprio Her- 
culano esta composição em 1839, vê-se que o chrístia- 
nismo idealisado foi uma orientação prema'tura do seu espi- 
rito, e que as suas tentativas de tradução da Messiada eram 
os restos de uma preoccupaçSo da mocidade. 

Herculano era intelligente e novo, amoroso e honrado, e 
por isso não podia deixar de sacrificar^se pela causa da jus- 
tiça. Na sublime poesia .A Vittoria e a Piedade, exclama, 
até certo ponto em contradição com os factos, mas cheio de 
dignidade : 

Ea Dviie* fis soar mevi pobrei cantos 

Nos paços dos senhores I 
Ea jamais consagrei hymoo noatido 

Da terra aos oppreacores. 

Era uma illusao do sentimento, porque mais tarde o sol- 
dado do cerco do Porto declara que na sua amisade por D. 
Pedro V o ia tornando no seu animo um rei absoluto, que 
o seria em todo o paiz, para salvação d'este» se chegasse 
aos trinta annos. 

Outras recordações da mocidade vigorosa de Herculano 
transparecem nas suas Poesias, que animam o seu passado 
com uma luz sympathica. Na bella composição lyrica Moci^' 
dade e Morte, uma das jóias da poetia portugueza, descrê 

« 

1 Barpa do Crente, primeira serie, p. Si. Ed. da 18S8. 



S3é HIBTOBIà DO SQMAKTIfKO BM «OBTUOAL 

ve-36 essa grave crise pathologica» que se liga á febre trau- 
mática resultante da aventura da feira das Amoreiras: 

SoleTaDtado o co)'po, os olhos íítos, 
As rnugras mios tratadas sobre o peito, 
Yéde o, tão moge, velador de eogostias^ 
Pela alta noite em solitário leito. 

Pur «ssas foces palUdas, caTadas, 
Olhae, em Go as lagrimas de^lisam, 
G com o poiso, qae apressado bate, 
Do coraçSo os estos harmenÍBam. 

É que Das veias Ibe circola a febre; 
fi que a írpote lhe alaga ó suor frio ; 
É qoa lá dentro â ddr qae o Tae roendo. 
Responde horriTel, Intimo cicio . . . ^ 

D'esta crise resultou uma transformação intellectual, e 
surgiu um homem boyo. Herculano amara, como todos os 
portuguezes, prematuramente» e esses primeiras amores 
foram também cheios de decepção, dando mais relevo á sen- 
sibilidade do poeta» e maior poder de realidade á expres-> 
são subjectiva do sentimento. Na poesia A Felicidade retrata 
esse primeiro desalento e desorientação da sua vida : 

Triste o dom do ]^oeta ! No seio 
Tem Tolcfto que* as entranh&s lhe accende ; 
E a mulher que yestio de seus sonhos 
Nem sequer um olhar lhe compreheade ! 

£ trabido, e passado 4« angislias, 
Ao amor este peito cerrara, 
E, quebrada, no tronco do cedro 
A minha harpa infeliz pendurara. 

Um yéo negro cubriu-me a existência, 
Que gelada, qoe iautil corria ; 
Meu engenho tornou -se um mysterio 
Qoe ninguém o^este mundo entendia. 

Estes versos são uma revelação fundamental do caracter 



1 Poeitfl», p. 63. Seg. edíe. 



285 

de HercQlano; lidos isdadameiite podem tomar-se càmo uma 
rajada á Mdnfredo, de um romântico iucemprehendido, mas 
aproximados de outros despeitos^ vé-se que Heccnlano pre^ 
cisara de um pretexto imaginário» uma catastropbe moral, 
para justificar as suas queixas de desalento, e as mudanças 
DOS seus planos de trabalho. Aos vinte annos, foi um t^o 
negroy um .amor trahido que Ibe cubriu a esistoock; aos 
iriota e <kâs ânnos íoi o seu baixel ou esquife, qm esteie a 
afttndar-^se nos pareéis da politica, devendo a D. Fernando 
o acolher-se a porto seguro; finalmente aoa quarenta e qua* 
tro annos, o véo negro e o esquife foram substituídos por uma 
outra cousa, oíruncarmi a sua carreira histórica, deixando 
a gloria litteraria, a uni6a ambição de sua existiracia, como 
elle próprio confessa. A transformação d'estes motivos mos- 
tra a tendência melancbolica do caracter, que um dia havia 
de leval-o ao isolamento (na quinta de Vai de Lobos) e ao 
tédio (motivo da pabHcaçSo- dos Opúsculos.) Voltemos ao pe- 
ríodo do primeiro desalento. 

Essa poesia é datada de maio de 1837, como se vê na 
niustração, ^ mas as recordações mais antigas de que trata 
é que nos interessam. 

Apoz essas quadras tão cheias de espQut^ueídade, segue se 
uma estrophe em que explica a turbulência dos seus primei- 
ros annos como quem procurou aturdiir-se da desesperança : 

E embreoheifdiift por «ntre o§ deleites 
Más tocaiMÍo*«, íugia-me o gÍMo.; 
Se o colhia, durava em .memeiílo i 
Apoz Tinha o remorso amargoso ; etc. 2 

Como forte, Herculano era de uma indole ao mesmo tempo 
^moravel e rancorosa ; révelou-o sempre na complacência 
<^om que aturou Bulhão Pato e Silva TuIio, e como perma- 
neceu irreconciliável com Castilho f Essa brandura revela-se 

* Pag. 81. 

* Poetias, p. «18. 



236 HIBTOBXA DO BQKAXTnKO Bf FOBtrUCMl. 

Bos hábitos da sua mocidade; era apaixoaado pelas flores, 
e quando se deíxaira impressioiiar petos desaiaatos da emi- 
graçSo, eram para as flores as soas primeiras saudades. 
Um dia esse amor da mocidade baívia de apoderar-se do 
velho, edmaria tudo» os amigos, os livros, a admiração, 
para seguir através de uma illosão antiga, para ir fazer-se 
trabalhador da terra, proprietário rural na quinta de Vai 
de Lobos. Na poesia tão repassada de melanchoBa e de ver- 
dade, Tristesas do desterro, Herculano allude ás saas affei- 

(^es que vieram com a edade a tomar^se absorventes : 

♦ 

Arvores, flores, qne ea amava tanto, 
Como viveis sem mim ? Nas longas vias, 
Qw voo seguindo, peregrino e (kobre, 
Sob este rude céo, entre o ruído 
Dos odiosos folgares do Síeambro, 
Do monétoiío som da liogua soa, 
Pelas horas da tarde, em vartea extensa 
E ás bordas do ribeiro que murmura, 
Diviso ás veses,. em distancia um bosque 
De arvoredo onde bate o sol cadente, 
E veni-me á ideia o laranjal viçoso, 
£ os perfumes de abril que eUederrftma, 
E as brancas flores, e os dourados fructos, 
E illudo-Die : essa várzea é do meu rio, 
Esse bosque o pomar da minha terrf. 
Aproximo-me ; o sonho de um momento 
Etitio se troca em acordar bem triste, 



Ai pobres fldrés, que en amava tanto, 
Por certo não viveis 1 O sol pendeo-vos, 
Mirradas folhas para o chCo ferveste : 
Ninguém se condoeu : seeeu-ee a seiva, 
E morrestes. Morrestes sobre a terra, 
Que por cuidados meus vos educara. 
E eu? talvez n 'estes campos estrangeiros 
Minha existência, o fogo da desdita 
Faça pender, murchar, ir<ee mirrando, 
Sem que tome a vdr mais esses que amava, 
8em que torne a abraçar a arvore aineea, 
Que se pendura sobre a Ijmpha clara 
Lá no meu Portuga) i 



1 PoeiiaSf p. 175, 



ALltAWMW HnOULAVO tSt 



Em outra poesia A vôlta do Proicripto, egoalmente bella 
pela realidade do sentimeoto, toma a alludir a essa paixão 
pelas flores que cultivava: 

Coota-se qoe o sen amor fora trabido, 
E qw mirrado achoo de amor o myrto, 
Qne deixira ▼içoso, • qoe aaadára 
Desde além do oceano em sen delírio. ^ 

Oa o arbwto que dQtr'ora plantara, 

Qoe por mim cultíTado crescera, 

Qae entre 'aognstias já mais esquecera ... * 

Uma das paixões mais prematuras de Herculano foi a 
aspiração litteraria; elle o revelou com toda a franquesa 
no prologo da terceira edigão da Historia de Portugal, mas 
já nos seus versos escriptos no período da emigração faz 
vibrar com eloquência esse sentimento^ que era o resultado 
de uma vocação que se definia. Assim na Moddada e morte 
exclama : 

Oh, tn, sede de um nome glorioso, 
Qoe tfto fagaeiros senhos me tecias, 
Fugiste, e só me resta a pobre herança 
Be TÔr a luz do sol mais algans dias • . . 

£a qne existo, e que penso, e fallo e TifO, 
Irei tão cedo repousar na terra ? 
Oh meu Deus, oh meu Deus I um anno ao menos ; 
«> Um louro só . • . e meu sepulchro cerra I . . • 

Dizer posso : Existi ; que a dór conheço ! 
Do goso a taça só provei por horas ; 
£ serei teu, calado cemitério, 
Que engenho, gloria, amor, tudo devoras I 

SÓ faltava um impulso para que esta vocação abafada pela 
acção deprimente do meio em que se. achava, podesse de- 
sabrochar; esse impulso foi a necessidade forçada da emi- 



1 Aid., p. «07. 
< Ibid., p. 204. 



28S hi8toiu!l m> BOXÁitTisifO «r mrtugal 

graçSo para Inglaterra e Fraiiça. Adiante expliêareino& es- 
sas cir^nmsUincias: em qcie se achoo envolvido. A par da 
gloria litteraría sorria-lhe também a gloria imlilar; as tra* 
dições heróicas da resistência de Portugal contra as hostes 
napoleónicas, incendiavam-Ihe a imaginação e inspiravam-) he 
o sentimento nacional, qae era oma das expressões de ver- 
dade na sua poesia. 

Na ode A Felicidade^ descreve esta pháse ideal da sua 
juventude: 

£ra bello esse tempo da vida, 
Em qae esta harpa fallava de amores; 
Era bello qt^ando o estro aceendiam 
Em miobA aima da gaerrat 4)a terrores. 

Na poesia a Cruz mutilaâai retrata com toques tSo vivos 
esse typo do veterano das guerras peninsulares desde a la- 
cta desarrasoada contra os exércitos da Republica franceza 
até ao triumpho dos exércitos imperiaes; era esse um ideal 
da sua velhice: 

Cansado, o ancião guerreiro, que a existeocia 

Desgastou no yoWer de cem combales, 

Ao vér, que emfim, o seu paiz querido 

Já não ousam calcar os pés de extraubos, 

Vem assentar- se á luz meiga da tarde, 

Na tarde do viver, junto do teixo 

Da montanha oatai. Na fronte calva, 

Que o sol tostou e que enrugaram annos, . 

Ha um coíbo fulgor sereno e santo. < 

Da aldeia semideus, devem Ibe todos 

tecto, a liberdade, a bonra e Tida. 

Ao perpassar do veterano, os telbos 

A mão que os protegeu apertam gratos ; 

Com amorosa timidez os moços 

Saúdam -n*o qual pae .*. . 

s « . . . . Awiffl do T6lh» 

Pelejador, os derradeiros dias 
Derivam para ò tumule suaves 
Rodeiados de affectos. • . 1 

Quando um dia este sentimento nacional se fortificasse 

í Poesias, p/125. 



AxjoeAiiDBB antcirbANO 989 

com o deseoYoIvimento da rasao/o poeta toirnar-seHa es*» 
pontaoeamente bistoríador. Assim aconteceu. Mas essa de-^ 
seoTolvimento foi mais tarde paralysado pela tendência con^ 
templativa de uma exaggerada educação catholica. 

Assim como nos escríptores da Renascença italiana em 
Portugal existem Testígios da sua antiga adbes3o á ^cola 
hespanbola, ou dos versos de redondilha, assim também ^ 
nos dois chefes do* movimento romântico se conservam 
os s^naes da sua maneira arcádica, d'onde se despren* ^ 
deram pelo facto de assistirem no tempo da emigração á ^ 
renovação das litteraturas românicas. Garrett precipitou-se 
no vigor dos annos e contra o sentimento da sua família no 
movimento liberal ; Herculano, como lâo tinha em volta de 
si o estimulo d'essa geração enthusiastica da Universidade 
de Coimbra, não comprebendeu logo a verdade das doutri- 
nas poUticas que mais tarde veiu a seguir. Herculano cour 
servou até ao fim da vida um certo despeito contra esta 
marcha dos primeiros passos políticos, e á medida que os 
annos o faziam estacionar, voltava instinctivamente para a 
preconisação do regimen absoluto^ revelando-se como uma 
naturesa descontente; umas vezes escrevia: testa geração 
vae perdida, » * e mostrava-se partidário das velhas ideias, 
outras vezes avivava o passado com uma saudade irreflecti- 
da: cNós, que assistimos á $uppressão de uma parte dos 
velhos mosteiros do Minho, e.que vimos as lagrimas do povo, 
que n'elles encontrava os soccorros da doença e o pão na 
decrepitude, não sabemos se aquellas lagrimas meíltiam, se 
mentem as theorias dos politícqs que escrevem no silencio 
do seu gabinete . . . ' Este íicou o typo do sentimentalismo 
de Herculano ; a educação fradesca reflectiu-se em todas as 
suas obras. A coniprehensão da liberdade nunca se elevou 



1 Panorama^ toI. ui, p. €6 (1886). 

2 Ibid,, vol. 1, p. SIS : O Minho romaniico. 



fi40 BIBTOBIA DO WOÊUMTtMMO Bf POETUOAL 

DO séa espirito acima de uma cansa de grande periga so^ 
etai, e para o homem que em Portugal propagou as formas 
da litteratura romântica, essa renovação era a consequên- 
cia de uma desorganisaçlo moral: ca anciã de liberdade 
desoommedida, a misantbropia, os crimes, a incredulidade 
dos monstfos de Byron sSo o transompto medonho e su- 
blime d'este século de exaggeração e de renovação social.» * 
Sem este passado de Herculano não se poderia compre- 
bender a situação de espirito do litterato, nem o retra* 
himento e despeito contra o seu tempo, nem a incapacidade 
de dirigir a geração moderna que lhe concedeu o maior po- 
der espiritual que se tem concentrado em um homem. É 
assim que se tornam explicáveis todas as contradições d'a- 
quelle caracter, aliás sempre sincero. ' 

Não devemos terminar esta época da vida de Herculano 
sem explicar as circumstancias que determinaram uma re- 
volução fundamental na sua vida — a conversão aos princí- 
pios ou ao partido liberal. A causa de D. Miguel, patroci- 
nada pelos governos reaccionários de Inglaterra, França e 
Áustria, parecia radicar-se, por isso que fora possível ao 



1 To/d., vol. II, p. 123 : Nmlíat de cavállaria. 

2 absolatÍBiDO dos primeiros aDoos de HercaUoo nSo é tradicional ; o sen 
espirito Teia com o tempo a essa orientaçio primeira. No seo opúsculo O Clero 
portuguet, pablícado em 18il, explica elle assim a miss&o histórica da mo- 
narchia absolata: «Veia o secolo x?i : com. elle Teiu a moaarchia absolata — 
essa grande civilisadora e rooralisadorii das naçOes modernas: — a nobresa 
e o clero modificaràm-se pelo seu influxo-— ciTÍlisaram-se, — e como a ci- 
vilisaçio nada mais é que a fórmula profana do chrislianismo, o clero co* 
mecon a ser verdadeiramente chrisião.» (pag. 3.) A monárchia absoluta, a graade 
moralisadora das naçOes modernas! As monarchías de D. Mamei, Carlos t, 
Pbílipp4 II, Henrique' tiii, Luiz xit e Luiz xt, de Leopoldo, com a nobresa da 
prostituição palaciana e com o clero do quoimadeiro, a civilizarem a Europa? 
isto só por uma fascinação pelo principio do direito diviío. Nflo do« adaúrará 
encontrar no fim da vida Herculano julgando a Democracia moderna como um 
bando de ladrões, como se lô no prologo que poz á Voz da Propheta ; assim 
fechou a rotaçio do seu espirito. 

Este periodo da vida de Herculano andava biographado por Innocencio Fran- 
cisco da Silva em um caderno manuscripto com o titolo de AkuBO Fogundes 
Bezerro, que elle mostrava secretamente aos amigos. 



AUSASBBX ESBCCLÁRO 841^ 

governo absolutista cootractar um empréstimo no estran« 
geiro* Em fins de 4830 e começo de 1831 crearam-se em 
Lisboa uos regimentos e terços chamados OrdenançcLs, es- 
pécie de tropa de terceira líuba, a que nas> províncias cor- 
respondiam os Milicianos; Herculano foi nomeado tenente 
de nm d'esses terços, sem soldo, apenas com o direito de 
usar uma farda verde e cbapéo de bicos. Á medida que se 
organisava a resistência dos liberaes na ilha Terceira, onde 
se installou o Conselho de Regência, em 3 de março de 
1830, o governo absolutista de D. Miguel redobrava de bar* 
baridade, atropellando còm uma incrível imbecilidade os 
principios mais intuitivos do direito internacional. A quéd^ 
do gabinete de Wellington e o adveato ao poder de um mi- 
nistério liberal, em Inglaterra, deram á resistência liberal 
novas condições de vigor; por outro lado a reclamação da 
França contra o attentado de que foram victimas Saurinet 
e Bonhoomie, acabara de desacreditar perante a Europa 
o governo absolutista, que se havia rebaixado pelas mais 
estupendas atrocidades. ^ Ou pelo trabalho gratuito e forçado 
das Ordenanças, ou pela repugnância dos assassinatos con- 
tra os liberaes, que se exarcebaram entre 6 de fevereiro e 
16 de março de 1831, Herculano entendeu dever abando- 
nar a causa que estava perdida perante a moral e a huma- 
nidade. Herculano achou-se envolvido no pronunciamento 
militar de 21 de agosto de 1831, d'onde resultou o ter de 
emigrar escondidamente de Portugal. Esta circomstancia da 
sua vida não anda bem explicada, e por isso insistiremos 
n'ella. 
Ás 9 horas da noite de 21 de agosto de 1831, revoltou-se 

1 N*estes tempos as noticias da resistência liberal na ilba Terceira acirra- 
ram a seivagéria migaelina, que o povo resumiu no anexím : 



Chegou o paquete ; 
Trabalha o cacete ! 



16 



, J(i3 HISTORIA DO BdUanSMO BM POBTUGAIi 

O rQgimento de infanteria n.^ 4, aquartelado no Campo 4^ 
Ourique, desfllando pelas ruas da cidade de Lisboa, ao som 
de musicas marciaes e gritando: Viva a Carta constituch^ 
nali Viva D. Pedro IV e D. Maria IL Herculano morava en- 
tao em uma casa próximo do Largo do Rato, (n'om pateo 
á direita da rua de S. Bento, como averiguou o sr. Mouti- 
nho de, Sousa, em communicação ao Diário de Noticias) e 
saiu para vêr a passagem do regimento de infanteria n.® 4; 
envolvido na onda de povo que acompanhava o regimento, 
foi correndo as ruas da cidade; ao chegarem ao Rocio, pela 
vima hora da madrugada, o regimento foi atacado por ou- 
tras forças absolutistas que sairam para abafar o movimento, 
resultapdo mortes e prisões numerosas. Herculano conse- 
guiu evadir-se, indo bater á porta do antigo amigo de Bo- 
cage, Frapcisco de Paula Cardoso, também poeta de gosto 
arcadico e conhecido na íitteratura do primeiro quartel d'este 
século pelo nome de Morgado de Assentis; morava elle em 
uma ca3a contigua ao chafariz da Mãe d' Agua, á Praça da 
Alegria. Em casa de Assentis também se escondera n'essa 
noite o liberal Galhardo, com quem Herculano tivera o con- 
flicto na feira das Amoreiras. Ali ficaram ambos escondi- 
dos, até poderem Iransportar-se para bordo da esquadra 
franceza do almirante Roussin, que tinha o Tejo bloqueado 
em virtude de uma reclamação do governo francez. A inti- 
mação do governo francez fora feita em 9 de julho de 1831, 
e o acto inconsiderado do Visconde de Santarém, recusan- 
4o-se a todas as explicações, determinou o bombardeamento 
no dia seguinte á uma hora da tarde. O perstigio do governo 
absoluto de D. Miguel desfazia-se pelas provas manifestas 
da insensatez ; e a esta orientação dos espíritos se deve at- 
tribuir a revolta de infanteria n.° 4, e essa curiosidade que 
levou Herculano a seguil-a até ao Rocio. No paço da Ajuda 
corria entre as damas e açafatas que as infantas, Isabel Ma- 
ria, Anna de Jesus, e Maria da Assumpção seriam levadas 



AUaUVDVa HSBXHTLAIIO S43 

para bordo da esquadra franceza como reféns; e aâ infan- 
tas polavam de contentes, porque esperavam continuar os 
ídylios das quintas reaes de Queluz e de Caxias com a of- 
ficialidade franceza. Â esquadra constava dos baixeis Le 
Sufiren, Le Tiident, La Marengo, VAlgesiras, La Vilte d$ 
Marseille, VAlger; e das fragatas Melpamene, Palias, Didon; 
das corvetas PerUy Égle, e dos brigues Endymion e Dragon. 
Foi a bordo da fragata Melpomene, que Alexandre Hercu- 
lano se refugiou do partido que servira e com quem se 
achava em casual hostilidade. De bordo da Melpomene^ que 
recebia todos os que quizessem emigrar de Lisboa, passou 
Herculano para um paquete inglez com o lente da Acade- 
mia de Marinha Albino de Figueiredo, que conhecera nos 
seus primeiros estudos, com o capitão de cavalleria Ghris- 
tovam Bravo, e com o. entSo já seu amigo Joaquim Rodri* 
guês Galhardo, que veiu a morrer com a patente de gene- 
ral reformado. 

Envolvido na corrente da emigração portugueza começada 
em i&ih e continuada em 1828 é 1831, Herculano tomou 
parte n'esta terceira phase, quando já as agonias do des- 
terro se achavam temperadas pela protecção a uma causa 
moralmente triumphanle; desembarcou em Plymouth, vindo 
depois para Jersey, arribando a Granville; esta peripécia 
da sua vida tratou-a elle em um pequeno escripto das Lm- 
das e Narrativas; de Granville transportou-se a Rennes, 
onde se demorou até 1832 em que tomou parte na expe- 
dição de Belle-Isle, que se dirigia para a ilha Terceira, onde 
era o foco da resistência dos liberaes. Logo que desembar- 
cou na ilha Terceira alistou-se como voluntário da rainha, 
círcumstancia a que allude na sua prosa poética A Velhice. ^ 
Como o governo de D. Miguel era ludibriado pelo senso 
commum europeu, pode vêr-se em uma carta do grande 

1 Panorama^ toL it, p. SI3. 



244 msTOBjA' DO eoilautismo bm ^òbtugal 

eompositor atlemSo Mendelssohn, datada de Paris de il dè 
janeiro de 1832; ^ tudo impellia Hefculano para abraçdros 
principios políticos, que a crvilisação de Inglaterra e França, 
observadas de perto, lhe impunham á consciência, que era 
a primeira a protestar contra o passado. Pelo menos assim 
se caracterisou a si próprio: «Louvado Deus, que entre tan- 
tas qualidades ruins de que a natureza não foi escassa com-^ 
migo, tenho algumas excellentes, e tal é, além d^outFas, a 
de nina consciência de tão fino tacto e tão sem cerimonia. 



í Mendelssobn, caracterisando o género lítterario do Vandeyilie, diz: «Não 
«6i de Dada mais prosaico, e comtado o effeito é absoryente. A peça noTa que 
mantém a TOga ao Gymnagio ó o Guitarrista de Lisboa; é as delícias do pu- 
blico. cartaz annnncia um personagem desconhecido, mas apenas elle entra 
em scena, todos riem e applandem, e percebe-se qae o actor imita até à illii- 
são D. Miguei nas suas maneiras, nos hábitos eero todos ós seus gestos; de* 
mais a mais dá a entender que é rei, por mais ãe um sifínal, e eis aqui a peça» 
Quanto mais o desconhecido procede de uma maneira estúpida, ignóbil e bar- 
bara, maior é a alegria do publico, que não deixa escapar nem um gesto, |ie- 
nhuma palavra. Uma revolta forçou-o a refugiar-se em casa d'este guitarrista, 
que é o realista mais dedicado* possível, mas que tem a desgraça de ser ma- 
rido de uma mulher bonita. Um áos favoritos de D. Miguel forçou esta mulher 
a encontrar-se com elle na próxima noite, e pede ao rei, que chegou no meio 
d'este arranjo, a auxiliai- o e a mandar cortar a cabeça ao marido: — Com 
toda a vontade I responde-lhe D. Miguel, e em quanto o guitarrista conheoe 
que tem em casa D. Miguel, e cbeio de jubilo se lança ao« pés d'elle, o rei as* 
signa a sentença de morte, d'este desgraçado, e assigna também a do favorito, 
porque quer para si a mulher e ficar emlogar d^elle. A cada nova barbaridade 
que commette, nós applaudimos, nós rimos, e este estúpido D. Miguel de thea- 
tro causa-nos o maior prazer. Assim acaba o primeiro acto. No segundo acto, 
é meia noite; a mulher bonita está sósinha, bastante inquieta: D. Miguel in- 
trodoz-se em casa d'ella pela janella, e emprega mil recursos, em pleno thea- 
tro, para captar- lhe o amor. Fala dansar, cantar diante d'elle; a mulher não 
o pôde aturar, pede-lhe de joelhos que a deixe, até que D. Miguel lhe bota as 
mãos, e arrasta-a bastantes vezes de um a outro lado da scena. Se a mulher 
não agarrasse uma faca, e se nVste momento não batessem á porta, as cousas 
poderiam sair-lhe mais desagra<^aveis. No desenlace o guitarrista salva ainda 
uma vez o rei dos soldados .francezes que acabam de chegar, e de que D. Mi- 
guel tem um terrível medo por causa da sua bravura e do seu amor pela liber- 
dade. Assim se termina a peça com geral satisfação.» Letires de Mendelsschn^ 
p. 808 (Lellre i) trad. franc. de Rolland. 

Como se vé esta composição do Luthier de TÀshorme versava sobre os suC'* 
cesses que motivaram a expedição franceza de 1831; é natural que os emi- 
grados portugueses que se achavam em Paris assistissem a esta represeotaçãa 
que atraia uma concorrência continua ao Gymnasio. 



ALBXÁSDBE HBBODXiAllO 845 

qtie apenas digo ou faço uma parvoíce, a seote e exp9e com 
uma admirável claresa e convincente lógica, de modo que 
sempre tem a habilidade de me fazer titubear e quasi sem- 
pre a de me fazer confessar com exemplar humildade, que 
sou um solemnissimo tolo.i^ ^ 

A emigrarão foi para Herculano uma transfiguraçSo da 
iotetligencia ; surgiu um homem novo. Nas amarguras do 
desterro o sentimento foi estimulado peia realidade da vida, 
e eil-o que surge um grande poeta. Em verdade Herculano 
é um grande poeta; os que o cercaram de admirações como 
historiador, desconheceram ineptamente a alta superiori- 
dade do auctor da Mocidade e morte e da Victoria e Piedade^ 
6 por isso não poderam explicar porque é que Herculano 
nunca escreveu senão prosa poética quer na historia critica, 
quer na polemica politica, e como sendo este o lado impres- 
sionavel com que se impoz ao publico, é também «ste o 
signal da sua falta de disciplina philosophica. Âs Poesias de 
Herculano trazem impressas as emoções novas da situação 
em que se achava ao sair de Portugal escravo, e isto bas- 
tava para que a sua bella organisação poética se desligasse 
para sempre do convencionalismo arcadico. O conhecimento 
dos poemas de Ossian, que tanto impressionaram Garrett, 
das canções de Beranger, dos versos de Lamartine e de 
Casimir Delavigne, ensinaram-lhe a tentar novas formas 
strophicas; mas uma cousa ficou profundamente portugueza, 
a linguagem da saudade, esse sentimento exclusivo com 
que nos tornámos conhecidos na Europa. Uma cousa nos 
surprehende na leitura dos versos soltos de Herculano, é 
a intima analogia que têm com os do poema Camões, de Gar- • 
rett; ha n'elles o mesmo rythmo, o mesmo arranjo de phrase, 
a mesma vaga saudade; o Camões dê Garrett fora escripto 
em 1824, e bem podia ser um dos estimules da sua nova 

1 Panaroma^ toL it, p. 242. 



246 HI8T0BIA DO B0KAXTX8K0 BK POBTUGAL 

idealisaçSo. Mas um facto nos revela que ambos estudaram 
essa versificação difQcil em uma fonte commum: os archaís- 
0K)s, que ás vezes dão tanto relevo poético á pbrase, e que 
Herculano empregou sempre nas suas reconstrucções poe- 
ticas do passado no romance histórico, foram adoptados no 
estudo sempre proficuo das obras de Filinto Elysio. Garrett 
e, HercuIanOr que inauguraram entre nós as formas littera- 
rias do Romantismo, acharam no estudo de Filinto, que no 
fim da vida traduziu o Oheron de Wieland, as indicações 
do espirito clássico para a transformação evolutiva da litte- 
ratura moderna. No poemeto subjectivo Tristesas do desterro, 
em que se reconhece a cadencia garrettiana, descreve Her- 
culano as. primeiras emoções ao deixar a pátria, a saudade 
que o devorava em Inglaterra, o tédio do desalento em 
França, e a impressão nova dos phenomenos vulcânicos das 
ilhas dos Açores, quando foi reunir-se ao exercito liberal 
na Terceira. Esses versos têm a bellesa do que é vivo: 



Terra cara da pátria, ea te hei saudado, 

D^eotre as dores do exílio. Pelas ondas 

Do irrequieto mi^r mandei-te o cboro 

Da saudade longínqua. Sobre as aguas 

Que d'Albíon nas ribas escabrosas 

Vem marulbaudo branquear de escuma 

A negra rocba em promontório erguido 

D'onde o insulano audaz contempla o immenso 

Império seu, o abysmo, aos olhos tur?os 

Não si^ntida uma lagrima fogío-me, 

E deyorou-a o niar. À vaga incerta, 

Que róia livre, peregrina eterna, 

Mais que os bomens piedosa, irá depôl-a, 

Minba terra natal, nas praias tuas. 

Essa lagrima aeceíta : é quanto pôde 

Do desterro en?iar-te um pobre filho. 

Como vimos, a revolta militar em que Herculano se achou 
compromettido foi em 21 de agosto de i83l, e ainda em 
fins d'esse mez seguiu caminho da emigração para Ingla- 
terra; Herculano deixa entrever esta circumstancia: 



ALBZÁNDRB HBBCX7LÁN0 24 • 

Jà 86 acercava o tenebroso inverno ; 
' Vinba fugindo a rápida andorinha, 
Para um abrigo te ir pedir, oh pátria, 
Em cujos valles nunca alveja a neve : 
Junto de mim passou : «m suas azas 
Também mandei o filial suspiro. 

Pelo dorso das vagas rugidoras 
Eu corri além mar por estas plagas. 
Pelas antenas, em nublada noite 
Outi o vento <uf, que assobiava 
E de ouvíl-o folguei. Da pátria vinha : 
Seu rijo sopro lefrescou-me as veias. 

Quem, nunca, esquece 

O tecto paternal, embora adeje 

Ao redor d'eile o medo dos tyranoos? 

A nostalgia da sua natureza de meridional é expressa 
com uma commovente ancíedade: 

Ob, dae-me um valle 

Onde haja o sol da minha pátria, e a brisa 
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro 
£ a larangeira em flÔr, 6 as harmonias 
Que a natureza em vozes mil murmura 
Na terra em que nasci (p. 169.) 

A pátria era para elle então um éden ; a saudade dos seus 
torna-se uma paixão que lhe dá mais intensidade subjectiva 
á linguagem: 

Eu, prófugo, como elle, o éden nativo 
Perdi ; e perdi mais. Despedaçados 
Os affectos de irmão, de amante e filho, 
Restam-me na alma qual buída frecha, 
Que no peiío.ao cravar-se, estala e deixa. 
Caindo, o ferro na ferida occnlto . • • 

* 
Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria 
Me reflecte, alta noite, a tua imagem, 
Por entre um véo de involuntário pranto ! 
QuSo triste cogitar em mim desperta 
A imagem cara 1 Á noite, o bom do velho 
As bênçãos paternaes de Deus co'as bênçãos 
Sobre minha cabeça derramava, 
E ao começar o dia ; e ellas^desciani 
A um coração isempto de remorsos 
Onde encontravam filial piedade. 



9tS HUTOBU no BOliJLHTXSHO BX FOBTUGAL 

£ agora 1 É-lbe mysterío o mra destino, 
Qaal o seu, para mim o exitio occolla. 
Saciado talvez de dôr e affrontas 
Dorme já sob a campa o somoo eterno? 



Ab se om dia raiar para o proscripto 

O suspirado ahôr do sol da pátria, 

£ se entre nós de om impio as mãos 91'goeram 

A barreira da morte, aí d'elie I ai d*elle 1 ^ 

No pequeno escripto De Jersey a Granville, Herculano 
descreve com certa graça e humorismo, a que nao estava 
acostumada a língua pòrtugueza, os dias terríveis da emi- 
gração de 1831. Eis o quadro da suá vida de emigrado 
em Plymouth: «Miss Parker, de Plymouth, era uma don- 
zella de sessenta annos ; excellente creatura que nos dera 
cama e luz por dois mezes n'aquella cidade, mediante a ba- 
gateila de três shellings semanaes por cabeça. A Ingla- 
terra, como todos sabem, é o paiz da franca e. sincera hos- 
pitalidade. Éramos ahi nove portuguezes, em seis camas 
e três aposentos, o que dava certo ár pythagoríco e mys- 
terioso á família, que, dirigida por Miss Parker, podia ser- 
vir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ain- 
da viviam em Plymouth. Ninguém tinha uma patroa como 
nós, e os seus lodgings eram a pérola das albergarias de 
Plymouth. A principio, havía-se encarregado de nos prepa- 
rar a comida; mas poucos dias podemos resistir aos abo- 
mináveis temperos do%paiz. — Miss Parker foi o uriico fô- 
lego vivo da Gram-Bretanha a quem, na minha estada em 
Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos para Jer- 
sey, deu-nos um cabazínho, em que levássemos a nossa ma^ 
talotagem, e derramou algumas lagrimas ao despedir-se de 
nós.» ^ «Abandonámos emfim o solo de Inglaterra. Seria pela 



1 PoesiaSy p. 173. 

2 Lendat e Narrativas^ ii, p. 988. 4.* ed. — Durante a permanência em Ply- ' 
mouth Herculano entregaya-se à poesia, e abi escreveu em setembro de 1831 
-o bymno intitulado Deuf , transcripto em todas as Selectas das escolas. 



ALBXAJIPBS HKBOULANO ^ 249 

Tolta do meio dia quando saltámos no chasse-marée que de* 
via 6onduzir-nos de Jersey a Saint-Malò, atravessando aqueila 
estreita porção do canal que nos separava da França. Com- 
moda ou incommoda, era necessário aproveitar aqueila de- 
testável jangada para passarmos á França, e isto por duas 
rascas urgentíssimas: a primeira, porque nenhuma outra 
embarcação havia no porto de Saint-Hélier com destino im« 
mediato para a costa fronteira; a segunda, porque o preço 
da passagem era apenas uma libra esterlina, e uma libra 
esterlina era o fôlego maior que podia sair da bocca das 
nossas bolsas . . . Nós seguimos, pouco mais ou menos, o 
ramo do sul, e a mudança do vento, posto que ameaçadora, 
tinha sido momentaneamente uma vantagem de commodi- 
dade: o chasse-marée corria á bolina, e por isso o seu ar- 
far se tornava mais suave. No horisonte, quasi pela popa, 
divisávamos ainda o promontório de Noirmont, e pela nossa 
esquerda prolongavam-se quasi imperceptivelmente as cos- 
tas de França, como uma linha negra lançada ao través dos 
mares. — O chasse-marée havia-se posto á capa. O vento 
não consentia já que surdíssemos avante, e o arraes, de- 
pois de breve conferencia, á proa com o seu companheiro, 
veiu declarar-nos que seria impossível seguir o rumo de 
Saint-Maló; que era necessário pôr a proa nas costas da Nor- 
mandia, e dirigirmo-nos a Granville; que flnalmente ahi po- 
deríamos tocar em terra na nianhã seguinte. O chasse-ma- 
rée, destinado a transportar gado de França para as ilhas 
do Canal, ia em lastro, e o lastro era de areia. Se não fos- 
sem os terríveis balanços da embarcação, a pocilga em que 
nos achávamos poderia passar ao tacto, único sentido de 
utilidade n'aquella situação, por uçaa praia deserta. Depois 
de apalparmos por longo tempo em volta de nós, achámos 
por fim uma vela e alguns cabos, lançados para uma extre- 
midade do areal fluctuãnte. Ao menos tínhamos um leito, 
senão macio, mais enxuto que esse com que contávamos. 



2Õ0 mSTOBIÂ DO BOllAimSlIO BX FOBTUaAL 

Uma pouca de areia húmida por pavimento, algumas bra^ 
ças de lona por leito, e por agasalho e cobertura a toldá 
de um miserável barco, eram, com as trevas que nos ro- 
deavam n'esse momento, toda a nossa consolação e abri- 
go.» No meio de uma borrasca nocturna foram lançados.por 
cima de restingas cno recife de um ilhéu, visinho das cos- 
tas de Normandia;» a saida foi extremamente difficil, como 
a entrada havia sido extraordinária ; d'a]i partiram já com 
o sol alto, e em poucas horas aportaram a Granville. 

Para todos os emigrados era incerta a sorte dos paren- 
tes sob o regimen canibalesco de D. Miguel; e esta situa- 
ção moral aggravava mais o desalento dos emigrados por- 
tuguezes. Como Garrett, Herculano também designou os 
francezes, onde ambos se refugiaram, com o nome ethníco 
de Sicambros: 

Sob este rude céo, entre o ruído 
Dos odiosffs folgares do sicambro 
Do moDÓtODO som da língoa sua • . • 

Os folgares odiosos, como se sabe pela carta de Man- 
delssohn, que já citámos, eram os Vaudevilles políticos, 
cheios de cotiplets engraçadíssimos, e de allusões satyricas 
aos ministros da Restauração. A saudade da pátria era para 
o poeta desterrado a preoccupação absoluta; mas de re- 
pente saiu da sua prostação nostálgica, e perguntou a si 
mesmo se uma terra escrava podia ser pátria do poeta: 

Terra iníame I de serTOs aprisco, 
Mais cbaiQar>te teu filho não sei : 
Desterrado, mendigo serei ; 
De outra terra meus ossos serão ! 

Mas a escravo, que pugna por ferros, 
Que herdará deshonrada memoria, 
Renegando da terra sem gloria, 
Nunca mais darei nome de irmão. ^ 

1 Poeiiatf p. 101. 



ALSZARDBB HEBCITLANO 251 

SSo Yigoríssimas estas estrophes da poesia O Soldado; o 
coração do rapaz de viote e dois auDOS palpitava com ver- 
dade: «Onde é livre tem pátria o poeta;» se um dia Her- 
culano incensou a tyraúnia, esse facto foi uma fatalidade 
imposta pelo meio social á inconsciência dos dezoito annos. 
Na bella ode Victoria e Piedade, descreve outra vez o mo- 
tivo do desterro forçado, e o embarque na expedição para 
a ilha Terceira em 1832: 

No despontar da vida, do infortonio 

Harcbou-me o sÃpro ardente ; 
£ saudades earti em longas terras 

Da minha terra ausente. 
O Eólq do desterro, ai, quanto ingrato 

É para o foragido , 
Ennevoado o céo, árido o prado, 

* O rio adormecido! 
£a lá chorei, na idade da esperança 

Da pátria a soa sorte : 
Esta alma encaneceu ; e antes de tempo 

Ergueu hymnos á morte . • . ^ . 

Que alenta n^essas estrophes com que descreve o alista- 
mento dos voluntários, e o embarque em Belle Islé, a 2 de 
fevereiro de 1832, e no dia 10 a partida da armada, para 
a expedição da ilha Terceira, e o começo da campanha libe- 
ral 1 Pela primeira vez a litteratura portugueza se inspirava 

dos conílictos da vida nacional: 

<• 

, Mas quando o pranto n>e sulcava as faces. 

Pranto de atroz saudade, 
Deus escutou do vagabundo as preces, 

D'elle teve piedade. 
«Armas! — bradaram no desterro os fortes, 

Gomo bradar de um só : 
Erguem -se, ?dam, cingem ferros; cinge-os 

Indissolúvel nó. 
Com seus irmãos as sacrosantas juras 

Beijando a cruz da espada, * * 

Repetiu o poeta : — «Eia, partamos I 

Ao mar !» Partia a armada. 

1 Ibid., p. 112. 



252 mSTOBIA. DO BOHAHnBMO BK POBTUaAL 

Pelas ondas azaes, correndo affontos 

As praias demandámos 
Do Telho Portogal, e o balsão negro 

Da guerra despregámos ; 
Da goerra, em que era infâmia o ser piedoso, 

Nobresa o ser cruel, 
E em que o golpe mortal descia envolto 

Das maldições no fel. ^ 

« 

Os nossos lyricos modernos, que pensam ter feito esqoe* 
cer Herculano como poeta, nunca temperaram na realidade 
da Tida as suas tintas impressionistas, e por isso procuram 
o vigor da estrophe na violência das anlitheses e no relevo 
das imagens. Herculano tira as imagens das impressões no- 
vas que vae recebendo; a natureza vulcânica das ilhas dos 
Açores assombra-o, e ao desembarcar na ilha Terceira os 
restos dos vulcões extinctos dão-Ihe a imagem com que re- 
trata o estado da sua alma: 

Eq já yi n'oma ílba arremessada 
Ás solidões do mar^ entre os dois mundos, 
Vestígios de vulcões que bio sido extinctos 
Em não sabidos séculos. Scinlillam 
Aqui e ali, nos areientos plainos. 
Onde espinbosas sarças só yegetam, 
Restos informes de metaes fundidos 
Pelas cbammas do abysmo, entre afumadas 
Pedras que em parte amarellece o enxofre. 
Que a lava em rios dispersou, deixando 
Só d^ello a cór em lascas arrancadas 
Das entranbas dos montes penbascosos. 
A natureza é morta em todo o espaço 
Que ella correu, no dia em que, rugindo, 
Da cratera fervente, á voz do Eterno, 
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando, 
A enguliu e passou, qual sumiria 
De soçobrada náo celeuma inútil. 
Tal é meu coraçfio, Bem como a lava 
£ o desterro ao trovador. ^ 

As viagens para Inglaterra e França, para os Açores e 



1 Poesiat, p. 113. 
» Ibid., p. 177. 



AUBZAMDBB HXBCYTLAKO S&3 

para as costas de Portugal, foram para o talento poético de 
Herculano o mesmo que a Tiagem do Oriente para Camões 
e Bocage; deram-lhe um grande poder descriptivo. Na ode 
bem enérgica ^4 Tempestade, converte o terror da morte em 
uma esperança: 

Oh morte, amiga morte I é sobre as Tagas, 

Entre escarcéos erguidos, 
Qae ea te invoco, pedindo* te ff^neçam 

Mens dias aborridos: 
Qaebra doras prisões, que a natureza \ 

Lançou a esta alma ardente ; 
Qoe ella possa voar, por entre os orbes, 

Ao^ pés do Omnipotente. 
Sobre a nio, que me estreita, a prenhe nuvem 

Desça, e estourando a esmague, 
. E a grossa prda, dos tufóes ludíbrio, 

Solta, sem rumo vague. 



E ea que velo na vida, e já nSo sonho 

Nem gloria, nem ventura; 
Eo, que esgotei tão cedo até ás fezes 

O cálix da amargura : 
Eo, vagabundo e pobre, e aos pés calcado 
^ De quanto ha vil no mundo, 

Santas inspirações morrer sentindo 

Do coração no fundo, 
Sem achar no desterro uma harmonia 

De alma, que a minha entenda, 
Porque seguir, curvado ante a desgraça 

Esta espinhosa senda ? 1 



Na primeira edição da Harpa do Crente, esta poesia traz 
a seguinte nota : < A bordo da Juno, na bahia da Biscaya. 
— Março de 1832. n 

Era .uma alma de Tyrteu que se interrogava; no fragor 
da metralha não podia deixar de ser um valente soldado. 
Herculano foi um dos sete mil e quinhentos bravos desem- 
barcados no Mindello, e teve a sua parte n'essa epopêa do 
cerco do Porto. 



1 Poífiai, p. 89, 91. 



S5é HISTOBU DO BOIUNTISMO BH POBTUGAL 



§ II. — (De 1832 a 1846.) — Durante o cerco do Porto: Bernardioo António 
Gomes, António Fortanato Martins da Cruz e José Carneiro da SiWa. — Bo^ 
leto. — Alexandre Herculano nomeado em 1833, segundo bibliothecarío da 
Bibl. do Porto. — Logar qae occapa até 1836 : Trabalhos depois do cerco : 
BepoHtorio litterario, — Sociedade de Jorispradencia. — Jornal da Socie- 
dade dos Amigos das Lettras (Lisboa 1836.) — O cerco do Porto nos versos 
de Herculano : Harpa do Crente, — A revolução setembrista : 1836. Passes 
Manuel. — A Voz do Prophetá. — Vinda de Herculano para Lisboa em 1836 ; 
redacção do Diária do Governo, — Nomeado bibliothecario da Ajuda e das 
Necessidades. — Fundação do Panorama. Missão d*este jornal. — Os romances 
históricos (Sociedade Propagadora dos Conhecimentos nteis.) — 1840 depu- 
tado pelo Porto. — Conflicto das ambiçOes políticas; não o fazem ministro da 
Inetrucção publica, e retira-se da politica. — Impressão produzida pelos gens 
romances históricos. — Relações com Garrett e Castilho, é sua dissidência. 
— Dependência da casa real e seus estudos históricos do Panorama, como base 
da Historia de Portugal. — Cartas sobre a Historia de Portugal, á maneira 
de Thierry, na Revista Universal Lisbonense. — Época brilhante de Herca- 
lano.^ Entra para a Academia das Sciencias de Lisboa. 



A lacta pela liberdade inaugurada na ilha Terceira, em- 
bora dirigida pelos interesses dynasticos de D. Pedro nr, e 
coadjuvada por uma parte da aristocracia despeitada, tem 
o quer que seja de grandioso pelo motivo inicial. Se do lado 
absolutista o povo era fanatisado para praticar as carnifici- 
nas, do lado liberal esses espectáculos de.degradaçlo hu- 
lúana da Justiça das Alçadas, faziam com que os mais ob- 
scuros ainda se portassem como heroes. O archipelago dos 
Açores foi o primeiro núcleo da. resistência dos poucos ho- 
mens livres que usavam o nome de portuguezes, e' é essa 
uma condição mesologica de todas as ilhas, em que predo- 
mina o espirito de independência. D. Pedro iv aproveitou 
esse primeiro núcleo e dirigiu-se de Belle Isle para os Aço- 
>res a 10 de fevereiro de 1832; a expedição chegou á ilha 
de S. Miguel a 22, e desembarcou na ilha Terceira a 3 de 
mar(o d'esse mesmo anno. No meio dos grandes combates 



ALBXÁHDBX HXBCUUkVO 255 

• 

e de falta de recursos, haTÍa a anarchia das opiniões; uns 
queriam, depois da adhesão do archipelago ao regimen li- 
beral, que saíssem em expedição para a ilha da Madeira, 
mas D. Pedro iv quiz que se dirigissem para o continente 
do reino. Foi isso a vista do génio; o Porto tinha em 1829 
ficado abandonado ás atrocidades do governo insensato de 
D. Miguel, e existiam ahí profundas feridas, que insurgiam 
mais do que todas as proclamações. D. Pedro, que havia 
mudado a sede do governo da ilha Terceira para S'. Miguel 
a 26 de abril de 1832, ali organisou a expedição com que 
projectava fazer o desembarque no continente; reuniu as 
tropas na planicíe do RelvSo, procedendo ao embarque ás 
duas horas da tarde do dia 27 de junho. Garrett allude a 
esta despedida solemne dos amigos da ilha de S. Miguel, 
e do abandono ali dos seus manuscriptos. Herculano, que 
pertencia ao batalhão dos voluntários, ainda não tinha ma- 
nuscriptos, contava vinte e dois annos, e já admirava o au- 
ctor do Camões. 

Por um motivo estratégico, perfeitamente expUcado por 
Agostinho José Freire, a armada dirígiu-se para as costas 
do norte de Portugal ; avistaram terra entre Vianna e Villa 
do Conde em 7 de julho, e depois de uma intimação inútil 
ao commandante das tropas absolutistas da província, co- 
meçou o desembarque na praia do Mindello, que se fez em 
menos de quatro horas, no dia 8 de julho. Foi sobre a praia 
que D. Pedro iv entregou ao batalhão de voluntários a ban- 
deira que lhe fora offerecida pelas senhoras da ilha do Fayal. 
Na madrugada do dia 9 entraram no Porto os soldados lí- 
beraes, e o povo arrancou imínediatamente as forcas da 
Praça Nova, que funccionavam havia quatro annos para man- 
terem o terror miguelino. Na poesia O Soldado, * Hercu- 
lano pinta com delicadas cores esta situação moral dos emi- 

1 Na primeira edição da Harpa do Crente, lé se: •Porto — Julho de 1832.» 



%6 HI8T0BIA DO BOKJJRTISIIO BIC PORTUGAL 

grados ao chegarem á, pátria, e a saudade convertMa em 
sanha de irmãos: 

Do mea paiz qnerido 
A praia ainda beijei, 
£'o velho e amigo cedro 
No yalle ainda abracei. 



Foi a esperança Bovem, 
Que o vento some á tarde : 
Facho de guerra acceso 
£m labaredag ardei 

Do fratricidio a luva 
Irmão a irmão lançara, 
E o grito: Ai do vencido! 
Nos montes retumbara. 

As armas se hão cruzado 
O pé mordea o forte ; 
Gaiiio ; dorme traoquiilo : 
Deu-lbe repouso a morte. 

Ao menos, n' estes campos 
Sepulchro conquistou, 
£ o adro dos extranhos 
Seus ossos não guardou. ^ 

Já era um bem para o emigrado o poder ao menos ser 
sepultado em chão portuguez. A campanha da liberdade co- 
meçava por um revés ; o triumpho de Souto Redondo em 
7 de agosto seguido de uma inexplicável retirada em de- 
sordem até aos Carvalhos, fez convencer que a causa estava 
perdida, se se não limitavam as operações á defensiva. As 
forças eram diminutas e convinha poupal-as, como suprema 
táctica: eram 8:544 soldados e 2:100 voluntários, contra 
mais de 80:000 homens de todas as armas da parte dos 
absolutistas, além de mais de 40:000 sitiantes em volta do 
Porto. Às linhas fecharam-se no dia 8 de setembro pelo ata- 

iPíKíUW, p. 101. 



ALBZAJDBS HOtCULAlTO 257 

• 

que dos miguelistas no Alto da Bandeira, nas fortificações 
do norte e á Serra do Pilar. Era uma lucta desegual è des- 
esperada; os livres foram grandes. Herculano, então ob- 
scuro voluntário, retrata essas emoções da campanha em 
que era infâmia o ser humano; em um prefacio com que 
precedeu a edição definitiva da Voz do Propheta, referin- 
do-se a uma carga de baioneta, escreve estas linhas de rea- 
lidade que explicam os seus versos: «Assim vi morrer al- 
guns soldados do 5 de caça*dores e de voluntários da rainha 
no temerário reconhecimento de Vallongo, que precedeu a 
batalha de Ponte Ferreira.» * Eis o quadro poético: 

E a bala sibilando, 
E o trom da artilheria, 
£ a tuba clamorosa 
Que os peitos acceodia; 

E as ameaças torvas, 
£ os gritos de furor, 
E d^esses que expiravam, 
Som cavo de exterior; 

E as pragas do vencido, 
Do vencedor o insulto, 
*E a pallidez do morto, 
No, sangrento, insepulto; 

Eram om caos de dores, 
Em convulsão horrível, 
Sonho de accesa , febre, 
Scena tremenda, incrível 1 

E suspirei : nos olhos 
Me borbulhava o pranto, 
E a dôr, que trasbordava, 
Pedia-me infernal canto. 

Oh, sim! maldisse o instante 
Em que buscar viera, 
Por entre tempestades 
A terra em que nascera. 

1 Opúsculos, t. I, p. 16. — No artigo A vida soldadesca, publicado no Pan,, 
i, nr, p. 91, torna a referir- se ao combate de Pbote Ferreira em 23 de julho 
de 1832. 
17 



2&8 HI8T0BU DO BOXAHTISHO BX POBTUOAL 

Que é, em fraternas lidee 
Um caoto de victoria? 
t delirar maldito; 
£ tríampbar sem gloria. 

Maldito era o triampbo 
Qoe rodeava horror, 
Qoe me tingia tudo 
De sangainosa côr. * 



£ os fortes lá jaziam 
Go'a face ao céo Toltada ; 
Sorria a noite aos mortos ^ 

Passando socegada. . • 

Contrários aindf ha pouco, 
Irm&os, emfim, lá erami 
O seu tbesouro de ódio, 
Mordendo o pó, cederam. ^ 

A refrega era dura; d3o bastavam os combates nas linhas 
e as granadas chovendo dia e noite sobre a cidade, a fome 
appareceu com q seu terrível séquito da cholera morbus e 
do desalento. Os generaes projectaram abandonar a cidade, 
como^ tinham feito em 1829; mas D. Pedro iv era novo 
e brioso, não quiz, mandou picar as amarras para a esqua- 
dra se fazer ao largo. Na poesia de Herculano transparece 
este desalento : 

Oh morte, o somno teu 
Só é somno ipais largo ; 
Porém, na juventude 
£ o dormil-o amargo; 

Quando na vida nasce 
Esta mimosa flor, 
Gomo a cecém suave, 
Delicioso amor. 

Quando a mente accendída 
Cré na ventura e gloria ; 
Quando e presente é todo, 
* £ inda nada a memorial 



1 Poetiat, p. 102. 
< Ibid., p. 106. 



iXBXAirPBB HBSOULAHO S59 

I 

Morrer, morrer, qoe importa? 
Final suspiro oavil-o 
Ha-de a pátria. Na Arra 
Irei dormir traoqQÍllo. ^ 

N'essa outra poesia O Mosteiro deserto^ o poeta descre- 
vendo o abandono dos conventos pelos frades qoe andavam 
capitaneando em volta do Porto os povos fanatisados, de 
trabuco e cruz alçada, como se viu na guerra dos^curas con- 
tra a Republica hespanhola, traz mais um quadro de bata- 
lha com traços de realidade que raras vezes entram na 
idealisação litteraria: 

E á Toz das trombetas, 
Ao trom dos cambões, 
Ao som das passadas 
De vinte esquadrões; 

E em meio do fogo. 
Do fumo alvacento, 
Em rOlos ondeando 
Nas azas do tento, 

De agudas baionetas 
A renque brilhante 
Tremente avançava 
Ao brado de — avante 1 

E ao baço ruido 

• 

Dos leves ginetes, 
No plaino calcando 
Da relva os tapetes, 

Os ferros cruzados 
Luctavam tinindo, 
Peões, cavalleiros 
De involta ruindo, 

E a férrea granada 
Nos ares zumbia, 
E aos seios das alas 
Qual raio descia. 

E aos Ares, revolta, ^ 

A terra espirrava, 
E o globo incendido 
Um pouco se alçava. 

' 1 ?iii^^ p. 108. 



260 msTOBi DO BoiaxnsHO bh fortuoal 

E prenhe de estragos, 
Com fero estampido, 
Mandava %i\ golpes 
Em rochas partido. ^ 

No meio do tropel avislavam-se os frades animando os 
que combatiam contra a liberdade; andavam com a cruz er- 
guida, açulando os irm5os segundo o espirito do versiculo 
de S. Mathèus, que diz teu trouxe a espada, e vim trazer 
a desunião entre o pae e o filho, entre o irm5o e o irm5o ; 
vim metter a guerra entre elles.» Ò que elles interpreta- 
vam nos púlpitos com allegorias, aqui cumpriam-no á let- 
tra. 2 Na poesia do Mosteiro deserto, traça Herculano este 
protesto : • 

Na gargafita da serra oq sobre o oateíro, 
Pelo pinhal da encosta ou da campina, 
N'esse dia de atroz carDÍficioa, 
Negros, ons vultos vaguear se viam : 
A cruz do Salvador ua esquerda erguida, 
Na dextra o ferro, preces blasphemando : 
«N&o perdoeis a um sói» feros bradando, 
Entre as fileiras rápidos corriam : 

E era o Mooge que bradava, 
E era o Monge que corria, 
E era o Monge, que blasphemo 
Preces vãs a Deus faiia; 

1 Poesias, p. 190. 

2 • Secretaria d'Estado dos Negócios Ecclesiasticos e de Justiça. 

•A El-rei Nosso Senhor constou, por officio que ao intendente geral da po- 
licia da corte e reino dirigiu o corregedor da comarca de Braga, que os reli- 
giosos do convento de S. Fructuoso da dita cidade, quando viram que se fa- 
ziam preparativos para a defeza do reino contra os rebeldes, resolveram qae^ 
se as circumstancias o exigissem, ficassem, dois d*elles, que se achavam en- 
fermos, guardando o convento, e os outros se apresentassem armados e se unis- 
sem aos mais defensores da religião, do soberano, e da pátria, e tendo mere- 
cido a approvaç2o de soa magestade a louvável deliberação destes bons reli- 
giosos e fieis vassallos que n'isto mostraram conhecer que ninguém deve dei- 
xar de expor-se aos trabalhos e aos perigos para um fim tfto justo e tão im- 
portante: Determina que V. P. Reverendíssima assim íh'o faça constar: O qae 
de ordem do mesmo senhor communico a V. P. Reverendíssima para sua intel- 
ligencia e execução. Deus guarde a V. P. Reverendíssima, palácio de Queluz em 
22 de dezembro* de 1831. Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio deMendóça. 
Senhor Ministro Provincial dos Religiosos Menores reformados da ProvincÍA*da 
Soledade. • 



AUEZAXDBB WSaCULAXO ' 261 

YSs, qoe á tarde, n^fsse plaiso 
No sangue de irmSos retíoto 
Sô restava o moribando, 
O cadáver só do extiocto. 
£ por gaodras e por mootes, 
Aterrados, persegaidos, 
Em desordenada ioga 
Retiravam-se os vencidos. 
£ os vencidos eram esses 
Qoe a esperança da viçtoria 
Arrastara, miserandos 
A uma guerra impia, sem gloria ^ 



Essas scenas de pranto e de luto 
Quem as trouxe a esta terra querida? 
Foi o MoDge, qoe em ânimos rudes 
Installon o furor fratricida. 2 



Uma das batalhas mais decisivas do cerco foi a de 29 de 
setembro de 1832, em que entraram em parada 8:384 Jí- 
beraes, e dentro da cidade 7:liO contra 35:000 miguelis- 
tas; venceram os que luctavam pela vida, e d'esse irium- 
pho resultou a força moral da causa da liberdade em todo 
o paiz. D. Pedro iv conheceu que um dos seus primeiros 
actos depois da viçtoria seria a extíncção do Monachismo 
em Portugal, nação atrophiada por esse parasita que a ata- 
cou desde a sua origem; de toda a obra do Constituciona- 
lismo fori essa a maior reforma, e a ella, apesar do nega- 
tiva, devemos todos os fructos que nos ligam ainda á civi- 
lisação moderna. Na bella ode A Viçtoria e a Piedade, 
Herculano, já no fim do cerco, lembra esses grandes Jan- 
ces: 

Fanatismo brutal, ódio fraterno, \ 

De fogo céos toldados, 
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas^ 
» De inúmeros soldados ; 

Comprar com sangue o p9o, com sangue o lume, 

Em regelado inverno ; 
Eis contra o que, por dias de amargura 

Nos fez Ittctar o inferno. 



^ Poesias y p. 191« 
í Jbid., p. 199. 



â62 mSTOBIA. DO BOlUJrTtSlfO BM FORTUaiL 

Mat da fera viíetoria, emfini, colhemos 

A cVôa de cypreste ; 
Qoe a fronte ao vencedor em ímpia lacta 

Só essa c*rôa veste. 
Gomo ella, toryo soltarei nm hymno 

Depois de triumphar, 
Oh meus irmãos, da embriaguez da guerra 

Bem triste é o acordar ! 
N^essa alta encosta, sobranceira aos campos 

De sangoe ainda impuros, 
Onde o canbSo troou por mais de um anno 

Contra invencíveis muros, 
Eu, tomando o alaúde, irei sentar -me. 

Pedir inspirações 
Á noite queda, ao génio que me ensina 

Segredos das cançOes. ^ 

Na segunda serie da Harpa do Crente, offerecida A Ro- 
drigo da Fonseca Magalhães, em testemunho de sincera ami- 
sade, acha-se datada do Porto, em agosto de 1833, a esplen- 
dida ode A Victoria e a Piedade. Herculano acompanhada 
de uma nota omitlida nas edições ulteriores: «Este frag* 
mento, que segue, e qufe sertirá para intelligencia dos pre- 
cedentes versos, pertence a um livro já todo escripto no 
entendimento, mas de que só alguns capítulos estão trasla- 
dados no papel. A guerra da Restauração de 1832 a 1833 
é o acontecimento mais espantoso e mais poético d'este sé- 
culo. Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava 
comnosco o auctor de D. Branca, do Camões, de João Mi- 
nimo; o sr. Lopes de Lima, e outros ; mas a politica engo* 
dou todos os engenhos e levou-os comsigo. Os homens de 
bronze, os sete mil do Mindello não tiveram um cantor; e 
apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha hu- 
milde prosa uma diminuta porção de tanta riqueza poética. 
Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca valia, 
não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da po- 
litica. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito 
immundo do jornalismo. E o mais è que poucos conhecem 

iPoeríof, p. 111. 



àlXUJXBBM HBBCULAVO 263 

uma cousa: que politica de poetas yale> por via de regra, 
tanto como poesia de políticos*» 

 esta nota, já um pouco despeitada, ajunta Herculano 
o fragmento do livro que andava em esboço, a que dava o 
titulo Da minha Mocidade — Poesia e meditação, cap. . . : tO 
combate da ante-vespera estava ainda vivo na minha ima^ 
ginaçao : eu cria vêr ainda os cadáveres dos meus amigos 
e camaradas, espalhados ao redor do fatal reducto em que 
estava assentado: ainda me soavam aos ouvidos o seu cla- 
mor de eotbusiasmo ao accommeitel-o, o sibilar das bailas, 
o grito dos feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, 
o gemido doloroso e longo da sua agonia, o estertor dos 
moribundos, e o arranco final do morrer. Os dentes me rani- 
geram de^colera, e a lagrima envergonhada de soldado me 
escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas 
quantos .valentes caíram n'esse dia ! Eu ia amaldiçoar os 
cadáveres dos vencidos*, que ainda por ahi jaziam; porém 
pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:— Lem- 
bra-te de que também fomos soldados: lembra-te de que 
fomos vencidos ! — E eu bem sabia que inferno lhes devia ter 
sido, no momento de expirarem, as ideias de soldado e de 
vencimento conglobadas n'uma só, como tremenda e inde- 
lével ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os 
umbraes do outro mundo. Então orei a Deus por elles; 
antes de irmão de armas eu tinha sido christão ; e Jesus 
Christo perdoara, entre as affrontas da cruz, aos seus as- 
sassinos. A ideia de perdão parecia me consolava da perda 
de tantos e tão valentes amigos. Havia n'essa ideia torren- 
tes de poesia ; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, 
talvez a melhor das minhas pobres canções.» 

A intuição do artista não o enganou n'este juizo. ^ A 



1 Não podemos explicar porqoe é que Hercalano Da edíçSo defíniti?a dos 
seus tersos cortoa todas as referencias pessoaes, tornando o livro menos va- 



^ 264 SI8T0BIA DO BOMASTMICO MM. POSTUaiIi 

Tida da. guerra fizera-lhe desabrochar um génio dovò? 
era essa a poesia por onde devia de começar a transforma- 
ção da litteratura. Herculano, mais do que a gloria das ar* 
mas presafa a gloria das lettras. Em 5 de julho de 483^ 
estava já a causa liberal triumpbante; Herculano desde mais 
tempo fora passado á segunda linha, e impedido no serviço 
da Bibliotbeca publica do Porto, sendo nomeado segunda 
bibliothecario. Estava então aquartelado em uma casa do 
Largo da Fabrica (hoje Largo do Correio) ;' na rtta dos Loyos^ 
na casa do contraste do ouro se encontrava com os seus 
Íntimos amigos e camaradas Dr. António Fortunato Martins 
da Cruz, Dr. Bernardino António Gomes, José Carneiro da 
Silva, e outros com quem cooperou na fundação da Socte- 
dade das Sciencias medicas e de Litteratura, e collaborou no 
Repositório litterario; apparecia de vez em quando n'este 
pequeno cenáculo Almeida Garrett, conhecido affectuosa- 
mente entre estes condiscípulos da Universidade pelo LeU 
tãosinho. Herculano conheceu-o aqui de perta e foi o pri- 
meiro a julgar com justiça a influencia dos poemas Camões 
e D. Branca. 

Depois do triumpho do cerco do Porto, e do estabeleci- 
mento do regimen parlamentar, todos os espíritos com- 
prehehderam a necessidade de reformar a instrucção geral 
do paiz, desenvolver o gosto pela leitura, e promover os 
hábitos da associação, ni^io de se exercitar a liberdade e a 



1Í080 por iníntelIigÍTel nos trechos mais inspirados. O rompimento com algang 
personagens, seria causa d'e8ta amputacSo ; de facto Rodrigo da Fonseca Ha* 
galhSes, e António Feliciano de Castilho, a quem dedicou a terceira serie da 
Harpa iio Crente, estSo no caso supposto. 

1 Eis o Boleto de aquartelamento de Herculano : 

cBua do Largo da Fabrica, n.»' 120 a 130. 

Sr. Narciso José de Oliveira. 

Aquartelará o^ sr. Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo, ^.^ bibliothe- 
cario da Real Bibliotbeca d*esta cidade, que cantinúa desde 13 de maio — 
dando-lbe agua, lenha, sal, luz e cama. — Porto, 2 de outubro de 1833.-* 
Mello, coronel de 2.*, L.*« 



ALBXÁKDSB BEBCULAITO 265 

iDidativa particular. Fandou-se no Porto a Sociedade das 
Scienoias medicas e de Litteratura, inaugurada em 13 de de- 
zembro de 1833, em casa do Dr. António Carlos de Mello 
6 Silva; e depois reunida nas suas sessões em uma sala da 
Academia de Marinha e Commercio ^ (boje Academia Po- 
lytecbnica); a contar de 15 de outubro de 1834 começaram 
a publicação de um jornal, o Repositório lilterario, onde se in- 
seriram os trabalhos dos sócios. Á Sociedade das Sciencias 
medicas e de Litteratura pertenciam Agostinho Albano da 
Silveira Pinto, José Carneiro da Silva, António Fortunato 
Martins da Cruz e Alexandre Herculano, que viviam na 
maior intimidade; D. José de Urcullu, e Jo3o Pedro Ribeiro 
também contribuíram com algumas communicações histó- 
ricas para o Repositório, e Frei Francisco de S. Luiz ofifer- 
tou á Sociedade uma memoria biographica sobre Jacob de 
Castro Sarmento. 

Herculano era então segundo bibliotheiario da Bibliotheca 
do Porto, formada da Livraria do Bispo que abandonara a 
cidade á entrada dos liberaes; no meio dos seus trabalhos 
de organisação, Herculano contribuiu sempre com estudos 
críticos, históricos e com poesias para o Repositório littera- 
rio. Algumas poesias não foram mais tarde colligidas na 
Harpa do Crente, e é uma d'essas A Elegia do Soldado, ^ 
inspirada pelo sentimento geral da morte de D. Pedro iv 
em 24 de setembro de 1 834 ; n'essa poesia acham-se tre- 
chos bastante eloquentes, com a cadencia solemne dos thre- 
nos bíblicos: 

$obre a encosta do Líbano, rugindo 

O noto furioso 
Passou um dia, arremessando á terra 

cedro mais frondoso ; 

* Repositório^ p. 41. 

2 Na primeira edição, da Harpa do Crente^ de 1838, vem com o titulo D. 
Pedro, mas foi ommittida sem fundamento nas subsequentes ecfiçOes. Á primeira 
redacção publicada no Repositório litterario dÍTerge fundamentalmente da re- 



266 HISTORIA DO ROMAmiSlIO BM PjOSTUGAL 

Auim te sacudia da morte o sdpro 

Do carro da TÍctoria, 
Quando cheio de esperanças ta sorrias 

Filho caro da gloria. 



Plante- se a acácia — o líheral arbusto 

. Junto ás cinzas do forte : 
Elle foi Rei — e combatea tyranoos, 
Ghorae, choraelhe a morte! 



E dirigindo-se a D. Miguel,— que só veiu a morrer a 14 
de novembro de 1866, lança-lhe uma imprecação ultra- 
jante : 

Nas orgias de Ronaa, com teus sócios 

Folga, vil oppressor, 
Folga com os hypocrítas ioiquos, 

Morreu teu vencedor. 
Envolto em maldiçõoSf em susto, em crimes, 

Fugiste, miserável. 
Elle, subindo ao céo, ouviu só queixas 

£ um cbôro lamentável. 



dacção de 1838, cujas variantes aqui apresentamos com referencia aos excer* 
ptos intercalados no texto acima : 

. Pela encosta 

Plante-' se a acácia, o symholo do livre ... 

Nas orgias de Roma, a prostituta, 

Folga vil oppressor ; 
Folga com os hypocrítas do Hbre 

Morreu teu vencedor. • 

Envolto em maldições, em susto, em crimes. 

Fugiste, desgraçado ; 
Elle subindo ao céo, ouviu só queixas 

£ um choro não comprado, 

O final da Elegia traz suprimida a ultima estrophe que está sobstitaida por 
esta outra ; 

Para o sol do Oriente outros se voltem, 

Calor e luz buscando; 
Que eu pelo bello sol qi^ jaz no occaso 
Cá ficarei chorando. 

Esta poesia Vem datada do Porto em novembro de 1834. É pena qae teja 
desconhecida, e que ande desmembrada das Poesias de Hercalano. 



AWBTAIWXBW BMÈOOLàMO 267 

O final da Elegia traz um traço pessoal que nSo deixa de 
ter hoje para nós um certo encanto: 

£a também combati : — nas pátrias lides 

Também colhi um louro ; 
prantear o companheiro extíocto 

MSo me será desdouro. 
ISagra a vileza adoração aos yivos, 

Haro adoloa Augusto; 
Cantor humilde louvará sem mancha 

Depois da morte o justo. ^ 

No programma dos assumptos escolhidos pela Sociedade 
das Sciencias medicas e de Litteratura, acha-se sob o n.^ 
4.^: cUm poema escripto em lingua portugueza com o ti- 
tulo de O sitio do Porto, devendo ser o sr. D. Pedro o heroe 
do poema. O poeta poderá escolher o metro que mais lhe 
agradar, e a divisão do poema em um ou mais cantos.» 5.^ «A 
Historia das campanhas, sitio do Porto e mais feitos do exer- 
cito libertador em Portugal e Algarves, depois do desem- 
barque nas praias do Mindello, até á total aniquilação do 
Usurpador e seus partidários.» ^ 

O modo como estes assumptos eistão formulados revelam 
o critério inferior que os concebeu, e portanto, que nao 
seriani tratados de uma maneira satisfatória; nenhum mem- 
bro da Sociedade de Litteratura emprehendeu o poema pro- 
jectado nos moldes de uma Pedreira. Não faltava sentimento 
poético e enthusiasmo pela liberdade ; nos versos de Her- 
culano estão as provas eloquentes de como a vida do sol- 
dado n*essa grande lucta era já por si um poema. Faltava 
a critica, ignorayam-se as obras primas das outras littera- 
turas» Foi Alexandre Herculano o que melhor comprehen- 
deu a necessidade de uma renovação do critério litterario, 
nos artigos Qucd é o estado da nossa Litteratura? — Qual é 



^ Repotitario lUterario, p. â3. 
2 Ibid.y p. 8. 



t 



268 HISTORIA DO SOHASTISIfO XK FOBTUOAIi 

O trílhí) que ella hoje deve seguir? ' e nos estudos de esthe- 
tica intitulados Imitação, Bello, Unidade. ^ As ideias de Her- 
culano estavam ainda bastante confusas, mas o seu conhe- 
cimento da língua allema e ingleza levavam-no a traduzir 
algumas bailadas allemães de Burger e de Schiller, ^ e a 
imitar Lewis. O exemplo fazia mais do que a ^heoria. Em 
um pequeno prologo com que precede a Leonor y de Burger, 
exprime o verdadeiro caracter da litteratura moderna ^ela 
obfa do poeta allemão: «Burger empregou admiravelmente 
a poesia nas tradições nacionaes; e é a elle e a Yoss, que 
devemos a renovação d'este género inteiramente extincto 
na Europa depois do xvi século, o qual na collecção, publi- 
cada depois por Herder, se pôde considerar como a histo- 
ria dos terrores e das esperanças, dos preconceitos e dos 
sentimentos das ultimas classes da sociedade, ou, por ou- 
tro modo, como a historia intellect.ual do povo- A leitura 
de Homero, a cujas obras Burger era familiar e de que 
mesmo traduziu alguns trechos, o convenceu de que a poe- 
sia deve ter, além do bello de todos os tempos, de todos 
os paizes, tm caracter de nacionalidade sem o qual nenhum 
povo se pôde gabar de ter uma litteratura própria;^ * em 
nota accrescenta: «teremos occasiao de apresentar mais ex- 
tensamente esta verdade tantas vezes menoscabada, esque- 
cida ou ignorada.» Aqui estavam as bases para a transfor- 
mação da litteratura, e a este critério deveu Herculano a 
sua superioVidade. Passado esse estado moral que lhe sag- 
geriu tão bellas composições lyricas, a vida da paz levou-o 
do estudo das tradições nacionaes para a historia e para a 
polemica erudita; é por isso que em uma carta a Soares 



1 Repositório liUerariOj p. I e 13. 

2 Ibid.y p: 53 e eefr. 

3 Nas Poesias de Herculano, não ▼enr» a bailada de Schiller O Catalleiro de 
Toggenburgo, publicada^no Bepositorío, p. 71. 

4 Repositório litterariOj p. 38. 



ALZZAHDRB HBSOULAKO 269 

de Passos, escrevia: «Fui poeta alé aos vinte e cinco an- 

ttOS.» 

Esses vinte e cinco annos estão com toda a sua pujança 
na Harpd do Crente, e foram completados no Porto; quando 
em 1836 abandonou o logar da Bibliotheca e se fixou em 
Lisboa, a sua paixão era á historia no romance e na mono- 
graphia. ^ 

Entre as theses propostas para serem discutidas na So- 
ciedade das Sciencias medicas e de Litteratura, appareceu 
este assumpto: Qual o estado da nossa lilteratura? Qual o 
trUho que ella hoje deve seguir? Coube a Herculano o «en- 
cargo diílicultosoí de tratar por escripto esta questão ur- 
gente no meio da actividade da transformação das institui- 
ções de um povo. Para a primeira parte era-lhe indispen- 
sável fazer a exposição histórica da litteratura portugueza; 
fal-a a traços largos, mas attribue a decadência da littera- 
tura do fim do século xvr e xvu ao abuso das metaphoras 
recebido da Itália. Não admira esta débil comprehensão em 
quem tinha só vinte e quatro annos, mas a solução pro- 
posta para a reforma é capital: «Um Curso de^ Litteratura 
remediaria os damnos que devemos temer, e serviria ao 
mesmo tempo de dar impulso ás lettras.» Herculano já co- 
nhecia os cursos de litteratura moderna de Villemain, e so- 
bre, elles moldou um t)lano rasoavel, que só veiu a ser rea- 
lisado vinte e cinco annos mais tarde no Curso superior dç 
Lettras; por esse meio, diz elle: «Qncon traríamos finalmente 
o espirito de liberdade e nacionalidade da actual litteratu- 
ra.» * No ensino da Eloquência, que julga necessário para 
um povo que entrou no regimen parlamentar, suggere tam- 
bém íim ponto de vista sensato, uma compilação dos dis- 
cursos dos deputados da Constituinte «á maneira da que 
se fez em França das orações dos representantes nacionaes 

• 

^ BêposUifrio lUUrariOf p. 6. 



270 HISTOSIá. BO BOMAanSMO XM POBTOSAb 

desde o principio da RevoIaçSo.» ' Em vez de regras theo* 
ricas queria o exame dos monumentos de Demosthenes, 
Cicero, Mírabeau, Pitt, Mackintosk, Burdett, Burke> Sheri- 
dan, Canning e Fox. 

O conselho era salutar, e bem se vé que Herculano ad* 
qoirira pontos de vista novos durante esse anno tormentoso 
da emigração ; mas o systema parlamentar era-lhe pouco 
conhecido. Um systema em que tudo se sophisma, a von- 
tade nacional no voto,e a sua manifestação na maioria do 
parlamento, deve actuar poderosamente na oratória! Assim 
aconteceu; não houve quem tornasse a achar o espirito dos 
revolucionários de 4820, mas surgiram os grandes orado- 
res, Costa Cabral, os Passos, José Estevam, em concessão 
perpetua com a monarchia. 

No meio da transformação mental que se operava no paiz, 
as reformas decretadas oHicialmente precisavam da coope- 
ração de todas as energias indivíduaes e collectivas; o que 
os indivíduos faziam podemos inferil-o da fundação de as- 
sociações, como a Sociedade de Sciencias medicas e de bit- 
teratura, a Sociedade de Jurisprudência, do Porto, a Socie- 
dade dos Amigos das Letlras, a Sociedade de propagação dos 
Conhecimentos úteis, e Associação dos Advogados, de Lis- 
boa; os estabelecimentos litterarios propunham as suas. re- 
formas, discutindo os professores a reorganisação da Escola, 
medica do Porto, e da Universidade de Coimbra. Este espi- 
rito de iniciativa era uma novidade nos costumes portugue- 
zes ; era o fructo das três emigrações do elemento liberal em 
1823, 1829 e 1831. Uma corporação persistiu na estabili- 
dade, a Academia Real das Sciencias de Lisboa; falseando 
a sua tradição revolucionaria conscientemente desempenhada 
pelo fundador o Duque de Lafões, pelo abbade Corrêa da 
Serra, os seus membros esterilisaram-se no momento em 

1 Repotitorio Utterario, p. 14. 



iXjaAHDBB HBBCnUUTO 271 

qae procararam viver do favor official. Ainda era vivo* o 
grande medievista portuguez João Pedro Ribeiro, o funda- 
dor da critica diplomática, ainda a Academia das Sciencias 
6ra respeitada pelos trabalhos d'este, de António Caetano 
do Amarai, e de Trigoso, e já succumbia á sua degrada- 
ção interna: a Academia das Sciencias adheriu ao obscu- 
rantismo sendo a primeira a reconhecer D. Miguel como 
legitimo monarcha e a tomado como seu protector. Elle, 
que nem sabia escrever o seu nome, assignando as senten- 
ças de morte com o horrífico gatafunho Migelt D. Miguel 
concedeu uma recepção ofQcial á Academia em pezo, e por 
graça especial permitiiu que entrassem para uma sala mais 
interior no palácio, mas contigua áquella em que costuma- 
vam ser recebidos os académicos. Cousa estupenda I A Aca- 
demia teve uma ideia, mandou cunhar uma medalha para 
perpetuar essa insolitum decus, em i829. Discutiu-se por 
muito tempo a inscripção latina e a allegoria, e depois de 
mil vacinações appareceu a medalha gravada pelo francez 
Dubois. No Repositório litterario, em que collaborava o in- 
signe João Pedro Ribeiro, protestou-se contra esta bajulação 
da inépcia: cD'esta futilidade fez a Academia o assumpto 
de uma medalha, e o faria de uma epopêa se não se achasse 
empenhada em sair da palavra — azurrar — (o braire da 
lingua franceza) na qual desde longos annos amuou, ten- 
tando compor o Diccionariô clássico da lingua 1» * De facto 
o primeiro e ultimo volume publicado do grande Dicciona- 
riô da Academia acaba na palavra azurrar, e de 18 f 8, pelo 
menos, data a circulação da anedocta: A Academia ficou a 
zurrar. * No fim do artigo chasqueando a medalha da Aca- 
demia, escrevem Herculano e José Carneiro: «o fim do au- 
çtor foi ludibriar uma fracção d'este corpo respeitável, in- 



1 Repotitorio UtUrQriey p. 28. 

2 Nas Fabulas e Contos da Garrett, o segundo intitu)a-se ?elo turro o burro, 



272 HISTORIA DO BOICANTIBMO BU PORTUGAL 

digno de formar parte d'elle, e que amparada pelo estúpida 
poderio do governo d'essa época, ousou tecer uma pagina 
criminosa e ao mesmo tempo ridícula para a historia d'a-* 
quella Academia.» * Passados annos Herculano veiu a ser 
vice-presidente da Academia, mas foi-lhe impossível incutir 
yigor a essa estabilidade filha da apathia idiotica. Em 1834 
o ataque a esse reducto do pedantismo tinha uma rasao de 
ser, e era pelo sarcasmo que se podia estimular; hoje nera 
isso. Em um artigo de Agostinho Albano da Silveira Pinto 
Sobre a instrucção publica em geral, lê-se este bello princi- 
pio: cHa cento e quarenta annos que Leibnitz disse — que 
aquelle que fôr senhor da educação pôde mudar a face do 
mundo. A reforma pois da instrucção publica é necessária, 
e é também necessário que seja prpmpta; e fora beíç con- 
veniente ter sido já de antemão preparada, para que, ter- 
minada a guerra civil e logo que a desejada paz começasse 
a sarar as profundas feridas de tão sanguinosa e proQada 
lucta, se podesse offerecer á mocidade portugueza uma in- 
strucção regular e methodica e ao par da instrucção euro- 



e D'e])e se descreye com as cores as mais picarescas a Academia Real das 
Scieocias de Lisboa : 

Que produções, que produções I Oh quanto ' 

Quauio seria maia, se um deus maligno 

Inimigo de guapos académicos, 

Das três que Deus nos deu potencias d^alma 

Lhes não sacasse duas á sorrelfa, 

Deixando só memorias e memorias ... 

Quanto seria mais, quanto fulgira 

£m gordos, grossos, grandes calhamaços 

A portugueza, magestosa líagoa, 

Se 08 novos sábios no começo á empreza, 

A antigas manhas não perdendo o atfinco, 

Não encontrassem por desgraça nossa 

Go'um perGdO azurrar — zurrar maldito! • • • 

Ficaram no azurrar sempre zurrando. 

Obras d$ Garrett ^ t. xtii, p. 15. 
^ BeposUorio liUerariOj p. Si. 



ÀUBLASDBM HBRCULAHO 273 

pêa, a qual tem de ser o apoio mais firme das instituições 
politicas . . .» ^ Pâfa fazer as reformas era preciso estudar, 
e a ambição politica do parlamentarismo absorvia todas as 
tocações, apoderava-se dos talentos. Esta orientação dos cé- 
rebros passou de pães a filhos na forma da única preoccu- 
pação dos que estudam — ser empregado publico. Na sua 
vida no Porto, Herculano achou-se por algum tempo fora 
doeste prurido geral ; foi ai que teve a concentração para os 
primeiros estudos históricos. Póde-se di2er» que ai adquiria 
ô saber especial com que mais tarde se revelou na redac- 
ção do Panorama e na Historia de Portugal, porque quando 
um dia se deixou levar também pela ambição politica e se 
retraiu pelo despeito, nunca mais estudou e apresentou o 
phenomeno do estacionamento iptellectual. 

No Repositório litterario começou Herculano a publicar 
mna noticia sobre os Manuscriptos da Bibliotheca publica da 
cidade do Porto, em que apparQce já o typo dos estudos 
históricos e biographicos com que mais tarde tanto influiu 
para a popularidade do Panorama. O primeiro estudo é 
uma noticia de uma recensão mais antiga do livro de Duarte 
Barbosa, de 1529, para ser comparada com o texto de 1558 
publicado por Trigoso. Em um pequeno preambulo refe- 
re-se ainda aos passados dias do cerco: «Os manuscriptos 
que se encontram n'este estabelecimento nascente, já for- 
mam uma collecção preciosa. —Salvos por assim dizer no 
meio do estrondo dks armas, elles poderam escapar de um 
total naufrágio á força de incessantes cuidados que se lhes 
dedicaram. Espalhados por diílerentes partes se reuniram 
n'esta Bibliotheca, da qual constituem uma das grandes ri- 
quezas.» ^ 

O segundo estudo versa sobre as Gbronicas manuscriptas 



1 Repositório litíerariOf p. 9. 
2i6id., p. 110. 

18 



\ 



274 HI8T0BU. DO SOXAUTISIIO mm. PORTUGAL 

de D* Sebastião S e determíDação do maDuscrípto de Frei 
Bernardo da Cruz. Herculano contava á^aminar uma serie 
de apontamentos manuscriptos do cruzío D. Fructuoso in- 
titulados Mónumenta renmi memorabilium ab anno 1669, 
cujo original, citado por Barbosa Machado, se achava n'a- 
quella Bibliotheca. Circumstancias imprevistas o embaraça* 
ram. Para a Bibliotheca do Porto fez recolher Her-culano 
os principaes thesouros litterarios da livraria de Santa Cruz 
de Coimbra e dos mosteiros do Minho, depois da extincção 
das ordens monásticas, e não obstante o ímmenso trabalho 
de organisação foi n'esses três annos que Herculano adqui- 
riu a melhor parte do saber que determinou a sua vocação 
histórica. 

Foi em uma Bibliotheci que o insigne erudito Muratori 
pôde levar a cabo os seus espantosos trabalhos de erudi- 
ção medieval; quando um dia Herculano por uma intransi- 
gência politica ise demittiu da Bibliotheca do Porto, a sua 
nomeação para as Bibliothecas da Ajuda e Necessidades 
veiu restituir-lhe as condições indispensáveis para a re- 
construcção histórica que se tornara o ideal da sua vida» 
mas faltava-lhe já a tranquijlidade moral; achou-se envol- 
vido nos ódios e despeitos políticos, peado com as transi- 
gências do paço, invadido por elev^^dissimos importunos que 
o queriam honrar tirando-lhe o tempo. É esta uma phase 
nova que convém historiar, e na qual Herculano ia ascen- 
dendo intellectualmente. 

A abolição dás Ordens monásticas e a extincção dos Di- 
zimos, foram as duas únicas medidas radicaes que o sys- 
tema constitucional executou, e que até hoje tém influído 
áempre na transformação da sociedade portugueza; sem a 
abolição dos frades, a geração portugueza afundava-se na 
imbecilidade, e o regimen liberal caía por não achar apoio 

1 Ibid,, p. 112 6 150. 



nas consciências; sem a abolição dos Dizimos o trabalho con- 
tíniiava com o caracter de servídãb ecclesiasticsr. O què 
aconteceu á lei da extincção dos Foraes, que era a lei da lí- 
bertação da propriedade territorial, que foi revogada por toi* 
nistros de uma aristocracia reaccionária, esteve para acon- 
tecer á lei qa© extinguia os frades. Depois de lavrado o 
decreto que é a gloria de Joaquim António de Aguiar, ó 
Conselho de Estado recusou-se a approvar o decreto, não 
queria que se extinguissem as Ordens religiosas ; esses so- 
pbistas do constitucionalismo eram o ardiloso Palmella, ò 
interesseiro Saldanha, e outros do mesmo jaez. Foi n'essas 
luctas contra as perfldias que D. Pedro iv adquiriu a hy* 
perthrophía de coração a que succumbia em poucos mezes; 
n'um momento de resolução D. Pedro iv assignou o decreto 
da extincção das Ordens religiosas, e Joaquim Antoúio de 
Aguiar assistiu na imprensa á sua composição e impressão, 
sem que os seus collegas do ministério o soubessem. É por 
isso que em uma carta de D. Pedro if ao Marquez de Re- 
zende se lê, que elle havia de dar liberdade a este povo, 
que não queria saber o que isso era. * 

A indecisão no espirito publico, se os frades seriam ou 
não postos fora de Portugal, revela-se n'este protesto con- 
victo de Herculano O Mosteiro deserto, onde mostra bmonga 
dirigindo ás carnificinas da lucta fratricida: 

Caia em pó ô Mosteiro ; e maldito 
^ . O que ergael-o outra vez intentar, 

Se Dão treme ante as noas caveiras 
Que insepultas verá branquejar. ^ 

Depois d'estçs versos eloquentes de Herculano, não çe 
comprehende como empregou o seu estylo poético fazendo 
reviver o sentimento de saudade pelas Ordens monásticas. 



1 Manuscriptos depositados na Academia dae Scicncias. 

2 Poesias, p. «00. 



. 27^ HIBTOBIA DO BOMÁRTIflfO JBM P0STU91Ii 

Era ama d'essa$ contradições tSo frequentes nos caracte- 
res que» nio possuem uma disciplina pbilosophica em que 
apoiem as suas opiniões. 

Em 1834, Herculano foi mandado a Coimbra para pro- 
ceder á arrecadação da opulenta Livraria de Santa Cruz. 
Doeste facto dá elie conta no seu artigo a faror dos IVfonu- 
mentos: «Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações do 
serviço publico. Residimos abi quando foi supprimido o con- 
vento de Santa Cruz. Correu então a noticia de que se pre* 
tendia pedir ao 'governo que esse bello.edíBcio fosse dado 
ao Município. Mas, para quê? Para a camará o arrasar e 
fazer uma praça. » ^ Em outro pequeno artigo os Egressas, 
Herculano relata a retirada dos monges de Santa Cruz, e 
a anedocta de ter ficado no convento um frade entrevado 
com oitenta annos de edade ; quando o mandaram sair re- 
spondeu que estava leso, que não tlnba para onde ir; quando 
Ibe retorquiram, para casa de algum amigo, o octogenário 
apontou para um passarinbo, que chilreava em uma gaiola, 
como o seu único amigo. ^ Herculano declara que saiu apres- 
sadamente e que não pôde reter as bagadas de pranto. Es- 
tava-se n'esta indecisão sentimental, <e o alimentar o falso 
ideal do monacbismo a um povo atrophiado por elle era 
vinculal-0 para sempre a esse esteio do obscurantismo. A 
obra sentimental de Herculano, a que elle chamou roman- 
ces históricos, teve o' grave defeito de uma idealisação do 
monacbismo no momento em que a imaginação do povo 
portuguez tanto precisava esquecer esses bonzos que o ha- 
viam bestialisado. A liquidação dos bens das Ordens reli- 
giosas, expropriação de thesouros do culto, bibliothecas e 
objectos de arte de pintura e escuiptura, fez-se de umtnodo 
tumultuario; o paiz estava extremamente pobre, e os que 



1 Opusculoty t. II, p. 2i. 

2 Ibid,, t. I, p. 149. 



ALBXAHSSB HBBOCLARO 277 

baviam batalhado pela liberdade queriam recompensas. As 
leis de indemnisação provocaram conflíctos, que se agrava- 
ram com a revolução chamada de Setembro. Herculano, que 
deu em diOFar os frades nos seus versos e em prosas poe* 
ticas, reclamou com energia a favor dos monumentos ar- 
cbitectonícos, contra a estupidez que os entregava á demo* 
lição dos municípios provinciaes. ' Mas o brado nunca foi 
ouvido, porque esse despreso dos monumentos provinha 
de que a nação ignorava a sua historia. Portanto em vez 
de um brado de sentimentalismo patriótico, mais força teria 
uma simples vulgarisação da historia nacional. Foi isso o 
que se não fez, e ainda hoje não existe um jsimples resumo 
de uma Historia popular de Portugal, que actue por um cri- 
tério justo sobre a consciência da nação. Esta seria a direc- 
ção scientiíica ; a expansão sentimental communjcou-se em 
fervor, crystalisou-se em phrases feitas, e os brados patrio< 
ticos peccnaneceram estéreis. 

Herculano queria a reforma e não a extincção dos frades; 
para elle a ordem dos Benedictinos devia ser poupada: 
cAinda hoje não ousaremos afiSrmar que a sua conserva- 
çã.o fosse inteiramente desvantajosa: deixaremos decidir 
esta questão gravíssima por aquelles que, sem nunca saí- 
rem d'entre o bulício das grandes cidades, julgam os moU" 
ges dos campos pelos frades viciosos das povoações.» ' Her- 
culano pôe aqui em confronto as lagrimas do povo, ao vêr 
os frades deixarem os conventos, com as theorias dos polí- 
ticos. Foi por lisongear estes sentimentos de espíritos fa-^ 



1 «O9 velhos mosteiros do Mioho e da Beira estão ha muito convertidos em 
casarias semelhaotes a alojameotos de soldados, e os templos TeDeraveis da 
Edade. Media se derrubaram para em logar d'elles se alevantarem salas ou ar- 
mazéns, de mais ou meoos âmbito, poitém onde nem uma pedra, falia do pas- 
sado, onde nada respira uma ideia religiosa.» Panoramaj t. í, p. 2. Era esta a 
ideia fixa do espirito de Herculano ao tratar da educaçfto publica, e das ques- 
tões philosopbicas ou politicas. Como poderia dirigir o sen tempo? . *' 

2 Panorama, toI. i, p. 212 (1887.) 



278 msTOBU. do bouavtibmo bm pobtuoal 

natisados que se achavam perturbados eom o golpe fuúãa- 
meutal do ministro Joaquim António de Aguiar, que Her- 
culano começou a exercer a sua primeira influencia moral; 
os do campo absolutista d'onde saíra poupavam*o, e os do 
campo liberal temiam*no. Eile descreve esta situação inter- 
média: «Reprehendando o passado em seus absurdos, fo- 
mos taxados de impiedade: affrontaudo-nos com o presente 
em seus desvarios, nos criminaram de obscurantismo.» ^ 
«O que levámos dito é a substancia do que temos escripto 
ha dois annos,*e de que não havemos tirado senão má von- 
tade de homens exdusivos, postoque nos fique a paz da 
nossa consciência.» ^ D'aqui um caracter exacerbado, tor- 
nando*se sempre descontente, como elle próprio o confes- 
sa: «nós, homens de velhos hábitos e velbas ideias (sõmol-o 
ainda que o não queiramos acreditar) em uma época de trans- 
ição, condemnados estamos a deixar escoar a nossa vida 
no meio da lucta da antiga sociedade que morre e da nova 
sociedade que assassina.» ^ A sociedade nova é que er;ã as- 
sassinada pela velha sociedade do monachismo e do abso- 
lutismo; Herculano inverteu as condições do phenomeno, 
e insensivelmente se acbou do partido da que elle julgava 
victima, complicando o presente que precisava transfor- 
mar-se apresentando-lhe já nos protestos do libello, já nas 
imagens dos romances, a figura do passado, que só preci- 
sava ser posta na evidencia do processo histórico. 

Depois da morte de D. Pedro iv, o Duque de Palmella 
era o senhor do machinismo constitucional; elle fora a causa 
da reacção absolutista de 1824, occultando a Carta decre- 
tada por D. Pedro iv em 1826; agora tirava partido d^essa 
mesma Carta para se acobertar com ella e monopolisar o 



1 Ihid., t. m, p. 115 (1839.) 
3 Ibid., U III, p. 67. 



ÁLSZANDBE EBBCULAKO 279 

poder. A situação politica começada com o parlamento de 
1834, e que provocou a revolução de 9 de setembro de 
i836 resume-se D'estas palavras proferidas pelo Conde da 
TaipA na camará dos pares: «A experiência tinha mos- 
trado que era impossível sustentar-se qualquer governo pa- 
triótico em presença de uma facção, cujos indivíduos se 
tinham feito a si mesmos artigos da Carta constitucio- 
nal; na camará dos pares tinha-se creado uma maioria 
dos seus Íntimos; o mesmo acontecia no Conselho de 
Estado, e nos logares do poder judiciário tinham inves- 
tido pela maior parte creaturas suas; ... as maiorias do- 
minavam tudo, e a marcha dos negócios era impossível 
para um ministério qué não pertencesse á facção; Todos os 
amigos da boa ordem viam com pesar que um movimento 
revolucionário era necessário . . . Ninguém conspirou ; a re- 
volução de 9 de setembro appareceu pela força das cou- 
sas; foi um acto espontâneo da população de Lisboa : o seu 
fim principal era aniquilar a facção que nos dominava ; mas 
como ella tinha feito da. Carta constitucional (de 1826) um 
escudo^ ao abrigo do qual escarnecia de toda a força moral, 
era preciso ferir o escudo para ferir o fim : a revolução re- 
vogou a Carta constitucional.» *■ A joven rainha D. Maria ii 
era facciosa, e não comprehendia cousa alguma do regi- 
men liberal; a facção de Palmella intimidou-a com as exi- 
gencias do povo, representadas na força moral dos Setem- 
bristas, e ella entendeu que devia impôr-se á nação tor- 
nando os Cartistas (partidários da Carta de 1826, da facção 
Palmella) os favoritos da independência do throno. Em 4 
de novembro de 1836, a rainha foge do paço das Necessi- 
dades para o paço da Ajudk, demilte o ministério popular 
ou Setembrista, e faz desembarcar da esquadra ingleza surta 
no Tejo uns setecentos soldados coih que procura defen- 

1 Diário do GovemOj de Si de jaoeiro de 1837. (SessSo de SI de janeira 



$80 HI8T0HTA DO BOMÁNTISMO EM POSTUOAL 

der-se.' Era uma doudice da mulher boçal e mal aconselhada,^ 
que se foi aggrayando atè descambar no mais franco áe^ 
potismo em 1842» quando entregou a nação ao arbítrio do 
seu valido Costa Cabral. A nação estava n^om gráo bemân- 
flmo de inconsciência animal; soffrefu tudo adorando 9 sua 
raípha, e glorificando os grandes miseráveis de avidez sór- 
dida e de paixões sanguinárias, que hoje figuram no nosso 
pantbeon constitucional. Edgar Quinet, que passou por este 
tempo pela cidade de Lisboa, diz nas suas Vacances en Es- 
pagney que a cidade lhe deixou a impressão de, um povo 
morto, governado por uma rainha salda do tumulo como 
continuando a sorte de Ignez de Castro. 

Depois' que os homens da Revolução de Setembro de 
1836 fizeram restabelecer a Constituição de 1822, com as 
modificações que as cortes lhe fizessem, foi ella mandada ju- 
rar em todo o reino em substituição da Carta constitucio^ 
nal de 1826, dada por D. Pedro iv. A Carta de 1822 era 
mais liberal e prestava-se a menos sophismas, como se ob- 
servara com a de 1826 nas mãos. de Palmella; Alexandre 
Herculano foi um dos funccionarios que não quiz jurar a 
Carta imposta pelos Setembristas, dizia elle, para não vio- 
lar o seu primeh^o juramento; requereu a demissão de se- 
gundo bibliothecaríO; e partiu para Lisboa, onde se fixou de 
vez. N*esta primeira pratica do regimen parlamentar ainda 
se não conhecia a necessidade das opposições, como estí- 
mulo normal do poder, e em vez da discussão franca e da 
modificação das opiniões, a polemica tomava o caracter de 
accusação, a opinião exercia-se na forma de sedição, e os 
partidos perseguiam-se entre si como se o decahido esti- 
vesse fora da lei. Era um estado transitório da pratica do 
systema sem raizes fradicionaes nas instituições portugoe- 
zas, e que se adaptava artificialmente á nossa vida nacio- 
nal. Os espíritos mais lúcidos, como Mousinho da Silveira, 
viam n'estas luctas de facções partidárias o gérmen de dis- 



ALSXAHSBE HERCULANO 281 

solução do systema constitucional ; Herculano, apenas com 
vinte e seis annos de edade> e vigorosamente poeta, nada 
percebeu do que se passava e protestou contra a abolição 
da Carta de i826 com dois folhetos intitulados a Voz do 
Propheta, em prosa cadenciada, em pequenos períodos imi- 
tando 'a linguagem biblica, mas modelados sobre os escri- 
ptos revolucionários de Lamennais, Palavras de um Crente, 
(que Castilho por este tempo traduziu do francez) e Li- 
vro do Povo. A chamada Revolução de Setembro produziu 
em Herculano um desalento moi^l, e pela primeira vez des- 
creu dos destinos da pátria; esse estado sentimental é só 
o que se acha na Voz do Propheta e mais nada . A prosa 
biblica fez impressão sobre os conservadores Cartistas, e 
o nome de Herculano repetia-se ; veiu então para Lisboa em 
flns de 1836. Na poesia A volta do Proscripto, usa esta forma 
dythirambica, tão expressiva: 

£is as plagas da sandade ; 
Eis a terra de sens sonbos ; 
Eis 08 gestos tão lembrados ; 
Eis os campos tdo risonhos 1 

Eis da infaDcia o tecto amigo ; 
Eis a foote qoe mormara; 
Eis o céo paro da pátria ; 
Eia o dia da ventura ! . . . ^ 

O proscripto, como o Dirceu das Lyras, achou todos os 
sítios, mas não as mesmas impressões: ^ 

Conta- se qoe o sen amor fora trahido 

E que mirrado achou de amor o myrto ... * 

Herculano como verdadeiro peninsular consolou-se da de- 
cepção inesperada ideal isando novos amores; na poesia Fe- 
licidade, descreve essa nova situação da sua alma, que lhe 



1 PoesiaSf p. 906. 
« lUd*, p. 207. 



282 HISTOBIA DO ROKAHTISMO BM POBTUOAIi 

durou até ao fim da vida ; transcrevemos esses traços au- 
tobiograpbicos : 

Has, emGm, jbq te acheíi mea consolo ; 
Eu te achei, oh milagre de amor I 
Outra Tez vibrará um suspiro 
No alahttde do pobre cantor. 

Eras tu, eras tu que. eu sonhava ; 
Eras tu quem cu já adorei, 
Quando aos pés da mulher enganosa 
Meu aienlo em canções derramei. 

Se na terra este amor de poeta 
Coração ha que o possa pagar, 
Serãs tu, virgem pura dos campos, 
Quem virá a minha harpa acordar. ^ 

Seguem-se a estas outras estrophes egualmente apaixo- 
nadas; esses amores foram longos annos envolvidos no 
segredo, e só quando em 1867 o auctor do titulo do casa- 
mento cívii; introduzido no código, veiu a casar catholica- 
mente com D. Marianna IJerminia Meira, ambos sexagená- 
rios, é que se pode bem explicar a verdade d'esta eslrophe : 

No silencio do amor, da ventura, 
Adorando- te, oh filha dos céos, 
Eu direi ao Senhor : tu m*a deste; 
Em ti creio por ella, oh meu Deus I» ^ 

Para Herculano o amor fora um motivo de idealisação no 
meio dos disparatados conflictos políticos entre Setembris- 
tas e Cartistas; o seu tédio por esses conflictos não o ac- 
commetteu de repente ; serviu o seu grupo, teve a sua hora 
de ambição, até que deixou ir para diante a baccbanal. Em 
fins de junho de 1837 foi-lhe confiada a redacção do Diário 
do Governo, que então não era o órgão da publicação offi- 
cialdos documentos legislativos; era um jornal de discus- 
são politica como qualquer outro, em que o governo se de* 
fendia. Herculano redígiu-o apenas alguns mèzes, e isto 

1 Poesias, p. ^19. 

2 im., p. S20. 



ALIXAVDBS BEBOULANO 283 

pode explicar-se pelo facto da queda do ministério setem* 
brista em janho de 1837, acompanhada de revoltas par- 
ciaes, conspirações de despeitados e movimentos do exer- 
cito. A persistência do governo setembrista, até 1839, faz 
com que Herculano esteja fora da politica, e se entregue 
totalmente aos trabalhos de litteratura. Foi este o seu pe- 
ríodo fecundo, e aquelle em que influenciou no espirito por- 
tuguez, apaixonando-o pelo seu passado tradicional e histó- 
rico, provocando-lbe o reâpeito pelos seus monumentos e a 
admiração pelos seus escriptores esquecidos. N'est6 período, 
que começa em 1837 com a fundação do Panorama pela 
Sociedade propagadora dos Conhecifnentos úteis, é que Her- 
culano disseminou os elementos que lhe deram mais tarde 
esse extraordinário poder espiritual que exerceu inconscien- 
temente sobre a nação portugueza. Nõ Panorama, que se 
distribuía semanalmente, bem como no Museu pittoresco, 
do Porto, reproduziu-se typographicamente as formas do 
Penny Magazine, então em grande voga em Inglaterra, como 
propagador de litteratura entre o povo. Era um fructo da 
emigração. Este jornal teve uma grande influencia em Por- 
tugal na época do Romantismo ; no livro das contas da So- 
ciedade das Sciencias medicas e de Litteratura, do Porto, 
acha-se inscrípta a assignatura do Penny Magazine, e em 
um artigo de D* José de UrcuUu, no Repositório litterario, 
fallando dos periódicos inglezes, escreve: «Resta-nos dizer 
alguma cousa de um periódico que pela sua baratesa e pro- 
digioso numero de exemplares (200:000) que se publica, 
deve excitar a admiração geral dos nossos leitores. Este 
periódico é o Penny Magazine, que teve principio no dia 
3i de março de 1832, e se publica todos os sabbados por 
20 réis cada numero; consta de 8 paginas em 4.*^ com mui- 
tas gravuras abertas com bastante delicadesa em páo.» ^ 

^ 1 Repositório lUterariOj p. 80. 



284 HISTORIA DO ROlfAlinSMO EM PORTUGAL 

O Panorama reprodazio materialmente em Portugal o Penhy 
Magazine, e na parte das gravuras servíu-se dos velhos cli- 
chés do jornal londrínp; tal ficou até hoje o typo do jornal 
tilterario em Portugal, como se vê na Época, Semana, Ar- 
chivo universal. Revista universal lisbonense e Archivo pitto- 
resco. Estes moldes batidos esterilisaram-se pela atropbia 
da invenção litteraria. Herculano foi redactor do Panorama 
até ao n.° 115, ^ mas continuou a contribuir sempre para 
essa interessante revista durante as duas séries mais notá- 
veis d'essa publicação. A sua saida da redacção deve attri- 
buir-se á participação mais activa que tomou na politica 
militante. Pela liga de. todos os elementos reaccionários caiu 
em 1839 o ministério setembrista, e a rainha D. Maria ii 
viu-se um pouco mais desafogada na sua soberania discri- 
cionária. Casada então com o príncipe allemão D. Fernando 
Saxe-Cobourgo, este não podia olhar com indifferença os 
partidários da independência pessoal da rainha; os Cartis- 
tas faziaoi-se valer por este favoritismo do paço. Foi por 
tanto em 1839, que Herculano saiu nomeado por D. Fer* 
nando bibliothecario real das suas livrarias dos palácios da 
Ajuda e dàs Necessidades. Herculano considerou esta graça 
Qomó tendo-o posto a coberto nos seus meios de subsistên- 
cia das vacinações dos partidos, que então se perseguiam 
cortando-se mutuamente os viveres. Em 26 de novembro 
fez-se uma liga ou espécie de fusão temporária entre os 
Setembristas e Cartistas, e a este facto se deve attríbuir a 
Qleição de Alexandre Herculano como deputado pelo Porto 
em 1840. A fusão dos dois partidos foi temporária; do lado 
dos Setembristas estavam os principaes oradores, taes como 
os chefes Manuel da Silva Passos, Almeida Garrett e José 
Estevam, mas do lado dos Cac]||stas estava a argúcia e a 
violência material. ' N'este meio Herculano nada tinha a fa- 

1 Panorama, t. iii, p. 2il. 

2 Acerca d*esta época, escreveii Herculano na Carta sobre a Propriedade 



ÁLBZJUTOBK HaUOULAXO 285 

zer; não %abia f aliar em publico, e quando o tentou pela 
primeira yez estribando-se nos seus apontamentos, José Es- 
tevam, com a andaeia de estudante de Coimbra, soltou-lbe 
o terrível aparte: «Largue acebental» Herculano callou-se 
e não pôde proseguir. Tínham-lbe os seus correligionários 
promettido a creação de um ministério de instrucção pu- 
blica, e Rodrigo da Fonseca Magalbâes, que só pensava em 
fusionar os partidos, ou dissolvendo-os com favores ou ra- 
ptando-lhes as principaes individualidades, não attendeu ao 
seu comprommisso, d'onde resultou que em 184 i Herculano 
abandonou para sempre o parlamento, e ficou despeitado 
da politica. 

No folheto, extremamente raro, publicado em 1841 por 
Herculano, O Clero portugmz, elle preoccupa-se outra vez 
com a questão das Ordens monásticas em Portugal: «De- 
pois, as gerações continuaram a dar o preço do seu suor 
para as pompas do clero, e a enthesourar a sua má von- 
tade para o dia da vingança. Este chegou, e a cólera po- 
pular foi cega e bruta como sao todas as grandes cóleras. 
O clero ficou litteralmente aniquilado, e nós os homens do 
povo batemos as palmas— digâmol -o em boa consciência — 
sem saber o que fazíamos. É por isso que devem perdoar- 
nos; Deus á nossa intelligencía, a Posteridade á nossa me- 
moria.» (Pag. 5.) Herculano entendia que bastava uma re- 
forma nos frades, em vez da extincção, e isto por argumen- 
tos históricos: «Este estado indicava até onde a reacção po- 



litteraria: testando ea e y. ex.* (Garrett) oa camará dos deputados na iegis- 
latora de 1840, tioba y. ex.' apresentado om projecto de lei sobre aqtteila ma- 
téria, (propriedade iitteraria). Pertencia eu á minoria da camará, e no sen zél» 
por fazer passar uma providencia, que, sinceramente o creio, reputava útil o 
justa, y. ex.* teve a bondade de fallar commigo e cora outros membros da op- 
posição, para que não a fizéssemos a esse projecto sobre que ia deliberar-se. 
D'eotre os indivíduos com quem v. ex.* tratou o assumpto, rocordo-me d^ qua- 
dro, dos srs. Sá)ure, Ferrer, Ha'reca e Seabra, o ultimo dos quaesreluctou an- 
tes de acceder aos desejos de v. ex.*.i (Opuc^ ii, 60 J 



38& mSTOBU. DO BOMASTUKO BX PORTUGAL 

pular devia chegar D'esta parte, indicava que era necessária 
nma reforma e não uma aniquilação.^ (Ibid.f p. 11.) Ne* 
nhum progresso poderia introduzir-se em Portugal, se a$ 
Ordens monásticas persistissem; reformal-as era dar-lhes 
força para nos alrophiarem mais. Não se atrevendo a pro» 
nunciar-se sobre a questão dos Dizimos^ no Panorama, por 
causa do regulamento do jornal, no opúsculo do Clero por^ 
tugtiez, entende que essa suppressão do rendimento eccle* 
siastico foi ferir os interesses do clero rural, condemnan^ 
do-o a viver das esmolas da côngrua. . 

Âs conclusões do opúsculo emphatico e cheio de pezadas 
figuras bíblicas, revelam a falsa direcção mental de Hercu- 
lano, que impreca assim contra os políticos : co povo, idó- 
latra ha dois dias, è hoje philosopho, d'aquella philosophia 
da ignorância e de corrupção, que vós e só vós lhe ensi- 
nastes. — Se continuarmos a caminhar assim por esta estrada 
de perdição, o lio mais forte da sociedade, o sacerdócio^ 
desappãrecerá ; o templo do Crucificado cairá em ruinas, 
mas a nação ficará esmagada debaixo d'ellas. Ai dos que 
abominam a cruz, porque a cruz é eterna.» (Ibid., p. 15.) 
Senle-se aqui outra vez o tom cavernoso da Voz do Pro- 
pheta. Herculano idealisava então o christianismo sentimen- 
tal, e ao contrario de Chateaubriand deslumbrado pelas 
pompas da egreja, voltou-se para o typo descriplo por La- 
martine nos Deveres civis do Cura, desenhava com ternura 
o typo dos parochos ruraes, vestidos de estamenha gros- 
seira como um verdadeiro operário da granja religiosa; 
d'esses cérebros boçaes diz: «a classe mais respeitável do 
nosso paiz morria litteralmente de fome, quando sobreveio 
a Revolução de 1836. — Então appareceu uma lei, cujo fim 
parecia remediar este mal, mas cuja esseticia não era se- 
não o resumo da perseguição feita anteriormente ao clero ; 
etc.» Abraçando esta causa poética do clero secular, ata- 
cava assim os inimigos setembristas, onde havia democra- 



ÁLaZÁHDBB BBBCULAVO 287 

tas 6 livres pensadores. Foi n'esta correote de ídealisaçSo 
clerical qoe em 1844 veiu a escrever o pequeno romance 
do Parocho da Aldêa, em que pretende fazer pára o catho- 
licismo o que Goldsmith fez com o Vigário de Wakefidd na 
famiiia protestante. 

A preoccupação saudosa dos frades, que já estavam iden- 
tificados com a nação portugueza, é que levou Herculano 
a fazer sentir a sua falta reclamando a favor dos monumea- 
tos abandonados, e a tomar os monges como os heroes 
princípaes dos seus romances históricos. 

A marcha dos acontecimentos políticos seguiu o seu rumo 
disparatado; ninguém se entendia, porque não havia ideias. 
António Bernardo da Gosta Cabral logo em i84ã appellou 
para a força bruta, dando o extraordinário espectáculo de 
ir ao Porto como ministro revolucionar a guarnição militar. 
Seguro da força e do favoritismo da rainha, restabeleceu a 
Carta de 1826, e começou a exercer então sobre o paiz in- 
teiro um systelna de pressão que ficou na historia com o 
nome de CabraUsmQy e que só pôde ser derrubado por meio 
de uma revolução bastante séria em 1846. Como o valido 
de D. Maria n perseguia duramente os Setembristas, que 
se haviam insurgido, em Torres Novas, os Cartistas torna- 
ram-se Cabralistas. A historia da vida nacional doeste pe« 
riodo é commovente pelo estado de cretinisação em que se 
achava o povo, e pela falta de vergonha com que os pode- 
res públicos, sem critério algum politico, reclamavam a in- 
tervenção estrangeira da Quadrupla alliança. Do que foi 
este systema, póde-se inferir por este trecho de uma carta 
de Herculano escripta ao fim de trinta annos, acerca da ne- 
cessidade de pedir a favor dos inundados de Vallada: «Pe- 
dia a todos os governos possíveis. Se ainda reinassem os 
Cabraes, até a esses pedia. Pedia ao António. Mais: pedia 
ao José. Mais ainda : pedia ao João, que sempre desconfiei 
que fosse o peior dos três. Ora, por mais mal que alguém 



38S HI8T0BU SO BOMAHTI8KO MM. PORTUGAL 

pense dos mioislros actuaes, nioguem de certo os compara 
oom aquelles amigos. > * Tal era a impressão d'esse tempo 
^0 fim de triata anDos..Da «situação tranquilla em qae se 
Yta collocadOD escrevia Herculano na advertência da sua 
Hittoria de Portugal: «Esta situação vantajosa e excepcio- 
nal, devo-a a sua magestade el-rei. EUe a creou para mim 
espontânea e generosamente : espontânea e generosamente 
.m'a conservou» a despeito de mais de uma procdla vioknta, 
que tem ameaçado afundar o meu débil esquife, porque sou 
navegante assas rude e inhabirem evitar wm arte a fúria 



» 



3 



das tempestades: 

Por. aqui se vê que durante esses terríveis quatro an- 
nos do despotismo cabraiista, Herculano esteve a coberto 
com o favor do paço. Foi durante estes quatro annos que 
reuniu os materiaes, e metteu mãos á obra da Historia de 
Portugal; a procella violenta, a que allude aqui de um modo 
vago e mysterioso» ^ que o fez abandonar a politica, depois 
de 1853 converteu-se em outra allusão egualmente tene- 
brosa contra os que truncaram a sua actividade histórica. 
Era uma natureza poética e violenta, para quem a melan- 
cbolia romântica tomoa a forma do descontentamento ; em 
quanto a geração que lhe succedeu seguiu o Ultra-Roman- 
tismo, elle também foi tdtra na apprehensãò de persegui- 
ções á sua pessoa. Villemain viveu como Herculano n'este 
estado psychologico, espécie de vesânia hereditária trans- 
mittida sob o terror do regimen absoluto. 

Quando Herculano veiu para Lisboa em 1836 e tomou 
conta por alguns mezes da redação do Diatio do Governo, 

1 A Renascença, n° 1, Porlo, 1878. 

2 jiist, de Portugal, toro. i, p. xiv. (1816.) 

3 Na lUustraçàOf joroal liUeraríó de 1845, traz HercolaDo orna carta em que 
acceotúa esta segunda phase de despeito: «díIo me importa o que vaé peio 
mundo social. Cheguei a obter a triste tranquillidade de incrédulo politico.* 
(Pag. 51.) E prometteodo a sua collaboraçSo quando outros trabalhos Uttera- 
rios o não oceupem, diz que só um caso o fará faltar á promessa, e é se a 11- 
lustração se tornar politica. 



iilk) achou logo as condições para o desentokimento da sua 
actividade Httefaiia. A Sociedade dos Armgoa das Letiras, a 
qoe Herculano pertencera, ^ disáolveo^e por drcumstan- 
cias imperiosas em sess%) de 15 de novembro de 1836; ^ 
a fundação da Sociedade propagadora dos Conhecimentos 
nt(^, patrocinada pela rainha, e á qual pertenciam todos 
os homens importantes do constitucionalismo, aehou-se com 
bastantes recursos pecuniários, e emprebendeu a obra da 
elevação do nivel intellectual do paíz, tantos séculos atra- 
sado pelo obscurantismo monachal. Esta Sociedade fundou 
o Panorama em 1837, e começou a publicação de alguns 
inéditos da historia e da litteratura portuguesa, taes como; 
as Reflexões sobre a Lingtia portugueza do árcade Francisco 
José Freire, e a Vida do Cardeal-Rei. Herculano estava en- 
tão em- todo o seu vigor intellectual; conhecia a litteratura 
franceza, sabia inglez e allemão, e compreheodia que as 
tradições nacionaes são o elemento mais sympalbico das lit- 
teraturas que se renovam com o intuito de estabelecer uma 
relação entrea sociedade e o escriptor. 

No primeiro numero do Panorama achasse esta descri- 
pção do estado intellectual do paiz, que motivava o esforço 
dà Sociedade propagadora dos Conhecimentos úteis: «A na- 
ção portugueza, cumpre confessal-o, é uma das que menos 
tem seguido este movimento progressivo da humanidade. 
O nosso povo ignora immensas cousas que muito lhe im* 
portava conhecer, e esta falta de instrucção sente-se até nas 
classes que pela sua posição social deviam ser illustradas. 
Entre os mesmos homeps dados ás lettras^ se acha falha- 
rem repetidas vezes as noções mais elementares de tudo 
quanto não é objecto do seu especial estudo, e a sciencia 
em Portugal está ainda longe de ter aquelle caracter de uni-* 
dade, que ganha diariíimente no meio das outras nações.» 

1 ColtaboroQ do d.<> 2 do /ornai da Sociedade dos Amigos das lettras, p. 63. 

2 Jornal da Sociedade dos Amigos das LeUraSy n.® 5, p. 160. 

19 



290 BI8T0RU DO BcmiJrnsiio bm fobtu^al 

No segundo Tolume do Panorama vem uma aDedocta qne 
dá ideia do estado dos nossos professores da Universidade 
de Coimbra : te outro professor de certa Academia célebre, 
que dava a ras3o de serem as viagens do Brazil mais de- 
moradas de lá para cá, do que de cá para lá» do seguinte 
modo:— Meus senhores, forçosamente assim hade aconte- 
cer, porque para lá desce-se; e para cá s6be-se.» {Pan„ 
YOl. 11, p. 2; 6 de janeiro de 1838.) 

«Assim a Sociedade propagadora dos Conhecimentos tUeis 
julgou dever seguir o exemplo dos paizes mais illustrados, 
fazendo publicar um jornal que derramasse uma instrucção 
variada, e que podesse aproveitar a todas as classes de ci- 
dadãos, accommodandõ-o ao estado de atraso em que ainda 
nos achamos. Sinceramente confessamos a nossa decadên- 
cia intellectual . . . » (Pan., -t. i, p. 2. 1837.) Fizeram D. 
Maria n protectora da Sociedade, formada por um cerlo 
numero.de accionistas, havendo uma assembléa geral e uma 
direcção para a administração do capital. O effeito do Pa- 
norama foi incalculável: «logo ao 5.® numero se tiravam 
-5:000 exemplares, caso único em a historia das publicações 
periódicas em Portugal.» (Pan., t. i, p. 53.) «Quando este 
jornal começou a apparecer nada mais era, quanto á forma, 
do que uma imitação do Penny Magazine. . . » {Pau., t. ii. 
p. 1.) Em uma circular de 1839, fallando-se da prosperi- 
dade do Panorama, lê-se: «nem obsla o deixar de ser o prin- 
cipal redactor o sr. Herculano, porque além de continuar 
a ministrar-nos os seus interessantes artigos, algumas pes- 
soas zelosas da instrucção publica nos têm presenteado com 
o fructo dos seus estudos ...» Entre essas se distinguem 
Cunha Rivara, F. Adolpho Varnhagen, Trigoso, Silva Leal 
e outros. * 



1 Em 1839 creoa-8« om Lisboa a Sociedade EscholastkíhPhilofnaticaj cejo 
órgão de estados foi o Cosmorama litterúfie; servia apenas para ensaiar os ba* 
bilidesos do jornalismo Goostitocional; 



Por portaria de 26 de julho de 1838 foi permittido á So- 
ciedade o poder imprimir inéditos da Bibliotheca da Corte. 
A prosperidade económica era também eicellente, tendo a 
Sociedade em valores em 30 de julho de 1839, a quantia 
de 11:876)$530; basta detalharmos algumas parcellas signi- 
ficativas, taes como: Prestações dos accionistas, 1:465f$700; 
assignaturas do Panorama^ \ :690^S60 ; vendas avulsas do 
Panorama, I:532j6i5; assignaturas e vendas avulsas do 
Panorama, pelos correspondentes das províncias. 2:513^415 
réis. Em 16 de agosto de 1839 os Estatutos da Sociedade 
foram reformados, sendo o capital então de 10:000í?000, 
dividido em 2:000 acções de 5^(000 réis. 
'Herculano foi encarreglado da redacção do Panorama 
desde 1837; esta circumstancia influiu poderosamente na 
forma da sua actividade mental. Seguindo o typo do Permy 
Magazine, era-lhe preciso redigir o pequeno artigo archeolo- 
gico sobre cousas portuguezas, a biographia histórica e lit- 
teraria, a monographia, o excerpto clássico, e o romance 
histórico, que estava eutão em moda por toda a Europa. 
Herculano cumpriu á risca este plano, e o Panoroma se- 
guiu sempre o mesmo systema, sendo o principal educador 
da classe media em Portugal e o agente que mais desper- 
tou o sentimento patriótico. Com os recursos da Sociedade 
propagadora dos Conheòimentos úteis, é que Herculano pu- 
blicou em 1838 em três series as suas Poesias com o titulo 
de Harpa do Crente, o opúsculo Da Escola Polytechnica e 
do CoUegio dos Nobres, em 1841, e o romance histórico o 
Eurico, em 1844; * e bem assim a edição da Chmnica de 
elrei D. Sebastião, de Frei Bernardo da Cruz, em 1839, e 
os Annaes de eUrei O. João IH, de Frei Luiz de Sousa, em 
1844. O periodo da sua actividade artística está separado 



2 Algans fragmentos do Ewrico^ «A batalha de Chryaas,» foram publicados 
na Bstista universal lUbonense, de 1S4S-1843. 



Stl HI8T0BIA DO BOKáHTiniO «IC rOBTUOAL 

do período da saa actividade histórica por um despeito que 
so&eii no conflicto dos partidos políticos em 1842. O pri- 
OQteiro, que vae de 1837 a 1840, comprehende a serie de 
todas as suais tentativas de introdocção do romance histó- 
rico em Portugal, tentativas reunidas sob o titulo de Len- 
das e Narrativas, e os primeiros esboços dos dois roman- 
ces que formam o MonasHcon; o segundo período começa 
tom os estudos para a Historia de Portugcdy cujo primeiro 
volume data de 1846 e termina com o ultimo volume da 
Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal, em 
1859. 

Herculano «/bí poeta até aos vinte e cinco annosv como 
escreveu com grande rigor biographico em uma Carta "ia 
Soares Passos; coincide esta transformação da sua capaci- 
dade litteraria com o regresso para Lisboa em Í836, e com 
a natureza especial da actividade exigida para a redacção 
do Diário do Governo e depois do Panorama. Não tinha já 
o ócio de espiríto indispensável para toda a ídealisação poé- 
tica; o conflicto da. soberania nacional da Revolução de Se- 
tembro lançou-o no temor da liberdade, e entregou-se com 
boa íé á causa pessoal da rainha, então acobertada com ó 
nome de Cartismo. Os romances históricos de Walter Scott 
exerciam por toda a Europa uma fascinação pasmosa; Her- 
culano debaixo d'essa impressão, seguiu o exemplo do au- 
ctor de Waverley, deixando a poesia a Garrett, como aquelle 
a deixara a Byron, para se entregar exclusivamente ás nar- 
rativas novellescas em prosa. Era esta uma forma de acti- 
vidade compatível com os trabalhos da erudição, e até certo 
ponto um estimulo de curiosidade que o iria attraindo para 
o campo da histoj*ia. Foi o que aconteceu. Herculano ini- 
ciou em Portugal a imitação das novellas de Walter Scott, 
em condições que pouco o coadjuvavam; não tinha uma vida 
e um sentimento nacional a avivar, porque Portugal estava 
inteiramente esquecido do seu passado^ não estava fortale* 



ddo com O estado das tradições» que ainda tíSo haviam sido 
exploradas, e faltava-lbe esse talento descriptivo de Scott 
qqe era por elle próprio excedido no dom maravilhoso do 
dialogo com que viviflca as peripécias menos fecundas. Todo 
isto infiaiu na forma pálida e sem relevo dos romances h\&^ 
torícos de Herculano, em que o efifeito artístico está preju- 
dicado por um esforçou que o estylo rbetorico não conse* 
gue encobrir. 

O poder de Walter Scott no romance histórico provinha 
de muitas círcumstancias que actuavam no seu espirito; na 
família ainda persistiam as tradições das luctas pela in- 
dependência escoceza; a infância fora embalada pelas can- 
ções jacobitas de uma velha tia, e pelos contos da gente do 
campo sobre as atrocidades do exercito de Gumberland, que 
fizeram que devorasse com encanto todos os velhos roman* 
ces de cavalleria e novellas da litteratura ambulante, (de 
cordel) e assim adquirisse essa qualidade que já nos pas- 
S2|tempos escolares o tornava um extraordinário narrador. 
O estudo da philosopbia escoceza nos cursos tao fecundos 
de Dugald Stewart, deram-lhe a disciplina da observação 
psychologica, e o interesse scíentifico pelas tradições popu- 
lares. As suas viagQns pelas montanhas da Escócia, o amor 
com que colíígia as tradições locaes, com que observava os 
typos do vulgo, fizeram que os seus personagens se tor- 
nassem vivos no romance, e as suas descripções pittores- 
cas deixassem a impressão da realidade. É isto o que ex- 
plica a impressão immensa produzida por Walter Scott na 
imaginação europêa, desde o Waverley' em 1814 até aos 
Contos de um avô a seu neto sobre a Historia de Escócia, 
de 1828. O romance histórico era um grande elemento para 
determinar a originalidade nas litteraturas modernas; esta- 
belecendo a iãcalisação da vida social da Edade Media, se- 
parava-a assim da vida moderna, coadjuvando o poder de 
reconstrucção subjectiva a que não se poderia chegar se fi-* 



294 HI8T0BIA BO BOMAaniliO BK PORTUGAL 

cassemos constantemente parodiando os modelos litterarios 
da antiguidade greco-romana. Os romances de Walter Scott 
foram imitados em todas as litteraturas da Europa, e se ás 
vezes o mestre era excedido na comprehensão da época 
histórica como nos Noivos de Manzoni, ou egualado como 
na Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, (Í83i) as imita- 
ções eram pálidos recortes de personagens conhecidos em 
volta de uma acção imaginaria, ou o desenvolvimento pro- 
lixo de uma lenda, ou ás vezes a localisação de uma aven- 
tura de phantasia em uma determinada época, mas sem 
relação alguma tradicional, nem realidade descriptiva. O ro- 
mance histórico decaiu até ao pastiche inconsciente, e tor- 
nou-se uma monomania. Herculano obedeceu a esta tendên- 
cia geral, e estabelecendo o parallelo entre o romance his- 
tórico e a historia, chega a dar a primazia ao romance, que 
mais tarde tinha de abandonar. ^ Os romances de Walter 
Scott foram lidoá em Portugal pelas traduções francezas de 
Defautcompré, de 1830, e foram uma das principaes ale- 
grias domesticas da sociedade que saia da atonia mental do 
ascetismo monástico. Ramalho e Sousa, que também esti- 
vera em Inglaterra durante a emigração, e que conhecia o 
dialecto escocez, tentou traduzir alguns dos principaes ro- 
mances de Walter Scott, taes como o Waverley, Quintino 
Durward, Ivanhoe e Anua de Gierstein. Era uma fascina- 
rão; Herculano tornára-se o grande amigo de Ramalho e 
Sousa, e d'elle veiu a herdar os apontamentos do Dicciona- 
rio que mais tarde vendeu á Academia das Sciencias. Her- 
culano não pôde resistir ao prurido do romance histórico, 
e como o bibliophilo Jacob com relação á historia de França, 
começou com menos recursos a romantisar a historia de 
Portugal; no Panorama publicou alguns peguenos roman- 
ces baseados sobre a tradição coUigida nas chronicas e no- 

1 Panwamaj t. lu, p. 306 ; Ibid.f U i?, p. 243. 



bíliaríos, como o Bispo Negro, a Dama Pé de Cabra, e a Morte 
do Lidador. Faltava a Herculano o contacto directo com a 
tradição viva do povo, e, como um pintor de natureza morta, 
exagerava as minúcias para altingir o efleito da realidade; 
abusou dos archaismos excessivamente, pondo em circula- 
ção no romance a nomenclatura que seria melhor empre- 
gada como complemento do Elucidário de Viterbo. A his- 
toria de Portugal não era conhecida, e as tradições popula- 
res, e as particularidades da vida provincial estavam bem 
longe de serem exploradas e observadas; assim, os roman- 
ces históricos tanto podiam pertencer á época neo-gothica, 
como á época de D. João i^ como ao período das navega- 
ções do oriente. Faltava um trabalho prévio de erudição 
sobre os Costumes e vida domestica portugueza, análogo 
ao de Thoma? Whrigt em Inglaterra, e de Paul Lacroix em 
França. Apenas Garrett começara uma pequena exploração 
acerca dos Cantos populares portuguezes no seu Roman- 
ceiro. Como observaremos nas consequências de toda a acti- 
vidade litteraria de Herculano, elle nunca teve uma disci- 
plina philosophica no seu espirito, além da lógica dos Pa- 
dres das Necessidades; por isso faltava-lhe o poder de dar 
vida e movimento psychologico ás paixões, de metter em 
acção as lendas, e de fazer fallar os personagens, de os de- 
finir pela lógica ou condicionalismo dos caracteres. É este 
o lado inferior dos seus romances, e esta inferioridade ex-^ 
plica-nos a sua incapacidade^para as composições dramáti- 
cas, em que Garrett era tão eminente, e ao mesmo tempo 
essa falta de graça, de fina ironia, tão^necessaria nas linhas 
descriptivas, tão indispensável na invenção dos typos. O 
Mater-Galla ou o Doutor Pataburro, do Mmge de Cister, é 
a amostra do esforço violento do espirito de Herculano para 
ter graça. A falta de verdade^o sentimento, por impossi- 
bilidade de exercer a analyse psychologica, levava Hercu- 
lano a reproduzir os sentimentos romanescos que então 



S9ft HUTOBIà BO JMMUSnMa m< NBTUOAXi 



/ 



predominaTam nas fórmas exageradas do Ulira-Ronuaitis* 
mo; como homem de um só parecer^ i Sá de Miranda, Her* 
e»laao conhecia só uma paixão, o despeito, e todos os seus 
personagens s3o individualidades isoladas do seu meio pdo 
despeito, como Eurico, ou como Frei Vasco. A leitura da 
Notre Dame de Paris, de Victor Hugo, que tomou de as- 
salto as emoções da Europa em 1831, veiu sobrepôr-se no 
espirito de Herculano á influencia de Walter Scott. O pro« 
blema do celibato clerical, ou a collisao do amor na alma 
de Cláudio Frollo, collocou*a Herculano na alma de um 
presbytero imaginário de uma época social tão pouco co- 
nhecida como a sociedade gothica da Península; a paixão 
pelos monumentos archi tectónicos da Edade Media, como 
revelação da vida moral e intima dos indivíduos, que Vi- 
ctor Hugo exprime fazendo passar ã acção do seu romance 
na bella egreja de Notre Dame, e que expõe theoricamente 
no capitulo Ceei tuera cela, foi também seguida por Hercu**^ 
lano no pequeno romance a Abobada (1839.) O amor des*^ 
peitado de Vasco é ainda uma reprodução de Cláudio Frollo, 
como a soltura de D. Vivaldo a imitação de Phebus. Não 
lera esta a forma do talento de Herculano, e comtudo os 
seus romances foram immensamente lidos, e sobre elles se 
baseou a sua gloria, que reverteu em pouco tempo em um 
poder espiritual sobre a sociedade portugueza; exerceram 
uma influencia profunda na litteratura, porque todos os ta- 
lentos que appareceram vieram orientados no sentido do 
romance histórico, em que se esgotaram. No prologo da 
quarta edição das Lendas e Narrativas, Herculano retrata 
as condições em que se achava a sociedade portugueza 
quando appareceram os setis romances, e ao mesmo tempo 
a extensão da sua influencia: c Quinze a vinte annos são de- 
corridos, desde que se deu um passo, bem que débil, para 
quebrar as tradições do Allivio de Tristes e do FeUz Inde- 
pendente, tyrannos que reinavam sem émulos e sem conspir 



raç5es na proTiQois do romaace portu^e^. N^estes qntnse 
ea tinte annos creoii*se uma Utteratara, e pôde dizer^se 
que dIo ha anno que nlo Ibe traga um progresso.» E em 
eotra passagem do mesmo prologo, referindo-se ao faeta da 
taieiaçâo de am género novo na litteratura a II ode á eS'» 
eola do romance histórico: <A critica para ser jasta nSo bade 
porém attender só a essas circornstancias : bade considerar 
também, os resnltados de taes. tentativas, que a principio^ 
é licito suppõr» inspiraram ontras análogas, como por exem- 
plo os Irmãos Carvajales e O que foram Portuguezes, do 
sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria dos 
talentos da nossa litteratura a emprebenderem composições 
análogas de mais largas dimensões e melbor delineadas e 
vestidas. Todos conhecem o Arco de SanfAnnay cujo ultimo 
volume acaba de imprimir o primeiro poeta portuguez d'este 
secttlo; Um anno na Carte, do sr. Corvo, e o Ódio velho 
não cansa, do sr. Rebello da Silva ... o aoctor da Mocidade 
de /). João F, romance de que já se imprimiram algumas 
paginas admiráveis, mas que na parte inédita, que équasí 
tudo, nos promette um emulo de Walter Scott. Emfim o 
Conde de Castella, do sr. Oliveira Marreca, vasta concepção» 
posto que incompleta, inspirado pelo exemplo doestas fra- 
cas tentativas, e dos que em dimaisões maiores o auctor 
emprebendeu no Eurico e JíÊonge de Cister. í> {Lendas e Nar- 
rativas, I, vni.) 

Herculano reclama que a critica para ser justa deve pon» 
derar os resultados das suas tentativas; os resultados foram 
essa dupla monomania do romance histórico e do drama 
histórico, que esgotou a quasi totalidade dos escriptores por- 
tugueses do Romantismo. Poucos escaparam a essa falsa e 
tardia corrente, que ainda boje domina, e que as emprezas. 
editoras exploram lisongeando com pbantasmagorias insen- 
satas esta orientação da curiosiadde publica. Os romances 
históricos de Herculano são parodiados com facilidade, e 



SÍ98 HI8T0BIA »• BOHAKTUaiO BK MBTUOAL 

serrem de typo para todas as épocas; a época acceniua^se 
com o nome de um rei; a iiaguagem simula-se com ar- 
/ chaismos e com uma construcção redundante; o dialogo 
destaca-se materialmente por meio de um risco significa^ 
tivo; as paixões reduzem*se a aventuras sem nexo á ma- 
neira dos imbróglios improvisados do tbeatro italiano. Eis 
aqui está a receita, mais ou menos bem servida, segundo 
a fúria de escrever, segundo a preoccupação do estylo; 
quem perguntar por sentimento e intuição da historia, por 
preparação pbiloso^hica para a analyse das paixioes, por in* 
tuito na relação da obra com o seu tempo, não é compre* 
hendido e repellem triumpbantemente estas questões como 
tbeorias allemãs. 

Herculano conheceu este vicio desgraçado com relação 
ao drama histórico: tQue resulta de se escolherem para 
objectos de composições dramáticas successos e indivíduos 
pertencentes a uma geração e a uma sociedade cuja indole 
e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vício do 
thealro antigo: fazer abstracções e desmentir a verdadeira 
arte.— Ponham-se ahi em vez d'esses nomes tão conheci- 
dos do fim do XIV século, signaesi algébricos: cortem-se to- 
das as allusões aos acontecimentos políticos ou pessoas no- 
táveis de então, e o drama pertencerá á época e ao paiz 
que nos aprouver. » ^ Isto mesmo se deve repetir para com 
o romance histórico; as imitações que Herculano cita de Men- 
des Leal, Rebello da Silva, Andrade Corvo e Marreca pec- 
cam pelas mesmas qualidades, e n'este sentido servem para 
a condemnação da obra de Herculano, como resultados d^ella. 
Para alguns escriptores o romance histórico tornou-se uma 
paixão exclusiva, como em Arnaldo Gama, que abandonou 
a advocacia, morrendo no conflicto de uma sociedade mer- 
cantil como a do Porto, esgotado em fazer romances segundo 

1 Jfdm. do Conservatório^ p. 137. 



O typo fixado por Herculano, sem ?ida subjectiva como os 
do mestre, e superiores em talento aos supracitados. 

De facto são esses os principaes romaoces históricos 
produzidos depois das tentativas de Herculano, e á parte 
o de Garrett, todos os outros s3o falsos no estylo, no sen- 
timento, nos caracteres, sem vida, nem invenção, porque 
uns não tinham talento, outros não tinham philosophia. Her* 
ealano conservava profundas illusões acerca da sua aptidão 
no romance histórico, pensando que pondo alguns nomes 
históricos conversando á maneira dos antigos diálogos dos 
mortos, e entremeando a linguagem de archaismos, fazia 
reviver uma época, como a de D. João i, no Monge de Cis- 
ter, e a de D. João u, no Mestre Gil. ^ O que era a vida na 
corte de D. João ii pôde vêr-se nas relações do Nobiliário 
de D. Luiz Lobo da Silveira acerca do terrível Coudel Mór» 
e de Fernam da Silveira, ' para se julgar quanto Herculano 
andava longe do effeíto da realidade; as cantigas do povo 
em vollã da sepultura do Gondestavel pintam-nos mais ao 
vivo a época de D. João i, do que as pretendidas scenas 
da tavolagem ; como os amores se comprehenderão nas aven- 
turas de Juan Rodrígues dei Padron com a filha de el-rei 
D. Duarte. Antes de fazer romances históricos convinha es- 
tudar as tradições nacionaes e populares (lendas, contos, 
romances, superstições, anexins, usos, costumes lacaes) 
como fez Jacob Grímm, e depois é que as creações líttera- 
nas desenvolveriam esses assumptos. Mas como podia Her- 
culano inspirar-se das tradições portuguezas, se não as co- 
nhecia, e interpretal-as litterariamente, se elle já em 1839, 
.descria do futuro da pátria? Eis as suas palavras cheias de 
illusão pessoal e de desalento: cNós procurámos deseotra- 



1 Este Eomaoce é attríbaido a Igoacio Pisarro de Moraes Sarmento nos Bi' 
hoços de apreciações litterarias; diz -se que Herculano o retocou fundamental' 
mente. 

2 Vid Poetas palacianos. 



soo* HisTOBiA oo mouèMnaMO ix roBTnoAi. 

nbar do eâquecímeQlo a po«$ia nacional e popular dos nos* 
SOS maiores : trabalhámos por ser historiadores da vida íq« 
Uma de uma grande, nobre e generosa nação que houve 
no mundo, chamada naçSo portugueza, a qual ou já não vive» 
ou se vive, já nem ao menos tem esforço ou virtude para 
morrer sem infâmia.» ^ Isto que Herculano escrevia m 
vinte e nove annos, repetiuro em 1866 na polemica do Ga* 
samento Civil; assim como os sete palmos de terra, que es- 
perava não Ibe negariam, já se acham também em verso 
na Harpa do Crente. Já se vê o ponto de vista falso em 
que considerava a tradição; em vez de interpretal-a como 
um estimulo de renovação do espirito nacional, abraçava-se 
a ella como um refugio. Para Herculano a concepção litte* 
raría foi uma querella de antigos e modernos ; apoiava^se 
no passado contra o presente que se demolia pela mu 
pratica do regimen parlamentar. Não comprebendeu o lado 
vivo do elemento tradicional. 

A tradição é o húmus d'onde floresce toda a concepção 
artística; é pela tradição que a obra individual se liga ao 
sentimento da multidão. A verdadeira missão do génio con- 
siste em vivificar com a aspiração nova as velhas formas 
tradicionaes sempre sympatiiicas a uma nacionalidade. Pôr 
em romance a lenda antiga, metrificar o conto solarengOi 
reproduzir o velho archaismo, sem outro intuito mais do 
que contrafazer o passado na sua rudeza ou ingenuidade, 
é uma habilidade estéril, mas nunca arte ou littératura. É 
um perigo, porque leva uma sociedade a immobilísar-se na 
contemplação do passado, sem tirar doesse culto o estimulo 
de renovação. Os romances e as pequenas novellas de Her- 
culano são esta estreita reproducção imitativa do passa- 
do; desalentam em vez de impulsionar. Fortalecemos este 
ponto de vista com o pensamento de Guizot: <Não ba de- 

1 o Chronisia (Viyer • crer de oatro tempo) PanoratM^ iii, 30€« 



esdenciâ quando as id^as se agitam; mas qua^o ém om 
grande império a sociedade, que se sente opprimída e 
doente, nSo concebe alguma grande e nobre esperan^, 
quando em vez de avançar para o futuro ella n3o inroea 
sen9o as lembranças e imagens do passadS, è então q^e a 
decadência é verdadeira; pouco importa o tempo que uma 
sociedade leva a cair; desmoronasse com uma ruina inces- 
sante.* * 

Na renovação da sociedade portugueza pelo triumpho do 
systema representativo no cerco do Porto em 1833, a vida 
da nacionalidade dependia d'este rompimento brusco com 
o passado; precisávamos mais de quem nos esclarecesse o 
futuro do que^quem noá' revestisse de cores saudosas o pas- 
sado. A única força social que poderia conciliar estes dois ex- 
tremos tão antinomicos seria a litteralura ; a imagem do pas- 
sado seria o symbolo querido por meio do qual se vulga- 
risassem as ideias novas. Herculano não comprehendeu isto, 
e idealísando a vida claustral, e as algaradas contra os mou- 
ros e as bravatas dos senliores feudaes, fez-se o escriptor 
predilecto da nação portugueza, mas immobilisou a moci- 
dade de duas gerações que nada comprebenderam d'esse 
grande período de renovação intellectual que vae desde a 
descoberta do homem ante-fiistorico até hoje. No fim da 
vida, Herculano, que começara por descrer do presente por 
uma doença moral, acabou por duvidar da sciencia do sé- 
culo, considerando, a nomenclatura de novos factos positi- 
vos como uma outra forma de gongorismol 

Não faltava a Herculano a comprehensão das formas do 
romance histórico, como erudito, faltava-lhe o talentocomo 
artista. Adheriado á iniciação do regimen parlamentar em 
Portugal, em que a classe media era chamada pela eleição 
a compartilhar com a realeza uma parte da soberania, im- 

1 Hiit. des Origines du Gouvem, representatif, S.« leç. 



B08 HZ8T0BIJL DO MKâXTmCO aK VgBTUOAL 

portava manter o réspdto d'essa nova conquista da líber* 
dade política estabelecendo a saa continuidade bistorica, 
faiendo sentir como o terceiro estado surgiu das classes 
senras, como se extíoguiram as c<^s» e como o munici- 
palismo foi o línico esteio da yida iocal^ resto quasi apa- 
gado da existeocia nacional abafada pelo cesarismo. Hercu- 
lano tevê um vagoinstiucto da época mais eloquente da 
historia de Portugal para ser vivificada pelo romance, a a 
que exerceria uma acção saudável no exercício das novas 
formas politicas; aqui o erudito foi superior ao artista: cA 
época dos reinados de D. Fernando e de D. João i é incon- 
testavelmente a mais dramática da historia portugueza. 
S3o-no os factos políticos e a vida civil d'esse tempo; as 
pessoas e as cousas. A nobreza era chegada ao apogeu da 
^ua grandeza, porque as instituições feudaes que se haviam 
misturado com a nossa primitiva Índole social, tinham to- 
<;ado então a meta do seu predomínio, quando já a sua di- 
latada agonia começava no resto da £uropa: o povo dava 
signaes exteriores de que existia, e existia robusto: a mo- 
narchia esgotava a sua generosidade e os testemunhos do 
-seu temor para com a aristocracia ua ve^spera de dar prin- 
cipio ao duello da morte para que ia reptal-a, e que devia 
durar cem annos. N*estes dois reinados operou-se uma 
transformação social : o fim do século xiv foi um período re- 
volucionario, revolucionário não tanto para as pessoas como 
para as cousas; os elementos da vida social foram então 
chamados a uma grande lucta, e, como acontece sempre 
>em similhautes situações, tanto os que deviam ser venci- 
dos, como os que deviam de ficar vencedores combateram 
energicamente. Os grandes vultos históricos doesse tempo 
— os personagens extraordinários, diríamos quasi homéri- 
cos, que então surgiram — os caracteres profundamente dís- 
tinctos e 'altamente poéticos, quer pela negrura, quer pela 
formosura moral— todos nasceram da situação social do 



paíz; foram o resultado e o resumo doesta, e por ella só* 
mente se podem comprebeoder, avaliar e e.^plicar.» ^ Eis 
achada a época em que surge á vida civil a classe popular» 
com relações profundas com a época de inauguração do re-* 
gimen parlamentar, consequência d'essa evolução primiti- 
va; é n'este campo que Herculano coHoca os seus princi- 
paes romances históricos como Arrhas por foro de Hespa- 
nha, em que pinta D. Leonor Telles, a Abobada^ o Monge 
de Cister, O Chronísta e Mestre Gil. Em 4842, quando Her- 
culano escrevia esse quadro do advento do terceiro estado, 
entrava com enthusiasmo no estudo histórico das institui- 
ções da Edade Media portugueza e abandonava o romance; 
quando se exerceu na actividade novellesca era dirigido ape- 
nas por um vago ínstincto e sem plano. Por isso póde-se di- 
zer dos seus romances históricos, o que elle escrevia dos 
dramalhões Ultra-Romanticos: «Se porém essas imagens tão 
aproveitáveis para a arte, forem arrancadas do quadro em 
cujo chão e luz apropriados a ellas, unicamente se devem 
contemplar, ficam convertidas em desenhos de morte-côr, e 
o que mais é, perderão os seus lineamentos característicos: 
serão abstracções; etc.»^ Nas Arrhas por foro de Hespa- 
nha falta a malícia popular, qu0 na Europa inventou os /a- 
hliaux, e que em Portugal vemos revelar-se n'esse rifam 
de escamho, contra os amores tresloucados de D. Fernando: 

Ex tollo yai, ex toIIo Tem 
de Lixboa para Santarém. 3 

Na Abobada falta esse espirito da liga secreta das confra- 
ternidades obreiras, das Jarandas, sem o que se não com- 
prebende o deposito da tradição artística conservado por 
Affonso Domingues, o architecto da Batalha. Na peninsula 



1 Mem. do ConservcUorio, p. ISf. 

2 íbid., p.. 13S. 

3 Feroão Lopes, Chr. de D.- FernandOt cap. 36. 



9M HISTORIA 9* ttQII4»nW9 ■■ ■«ETUOáL 

as Irmawiades foram o primeiro nuéleo de orgtoísaçSo á- 
lih e á medida que as garantias políticas eram recoiiheci* 
das pela realesa, ellas dissolviam-se, mantendo-se apenas a 
tradição nas classes industriaes. 

Em uma canção do tempo de D. Âffonso iii, faUa*se já 
da decadência das Irmandades, dizendOi que a verdade 

ca de tal gaysa se foi a perder 

que nem podemos ea novas aver, 

nem já ooo anda na Ynnaiiade. (n,^ 155.) 

As cerimonias symbolicas das Mestrias, ou da Compagno- 
nage, que ainda se conservam nos livros populares alíemães 
estudados por Goôrres e pelos irmãos Grimm, e de qae 
ainda nos séculos xvi e xvii existiam restos nos emblemas 
dos officios dá procissão de Corpus em Portugal, revelam 
a intima pdesia dos costumes e da vida popular do terceiro 
estado. Tanto na Abobada como no Mestre Gil,y Herculano 
não tocou esta fonte original de poesia, por isso os seus 
romances ficaram sem vida. Os hábitos palacianos da corte 
de D. João i, precisavam primeiramente ser comprehendi- 
dos pela leitura dos poemas da Tavola Redonda, que o rei 
citava aos seus companheiros de armas comparando-se a 
el-rei Arthur, que o Condestavel imitava seguindo quixoles- 
camente as virtudes de Galaaz, e que D. Duarte colligiu 
na sua bibliotheca. Falta este elemento no Monge de Cister. 

Foram estes processos críticos que deram a superiori- 
dade a Walter Scott; elle mesmo diz de si no Waverley: 
«Elle tinha lido os numerosos romances poéticos, que desde 
a época de Pulei, foram o exercício predilecto dos bons es- 
píritos italianos, e havia procurado um divertimento nos in- 
numeraveis reportorios de Novelle, que o génio doesta na- 
ção elegante e voluptuosa produziu pelo modelo do Deca- 
meron.í (cap. iii.) O talento de evocação do passado era 
proveniente d'esta communicação poética com a Edade Me- 
dia;, da qual foi um dos reveladores no seu estudo do Tris- 



ÈJLiBíXàm>mM ístmvtAXo ^ 305 

l#t}. Esta faHa $eDte^e'es|)eciaIm6Dte no Eurico de Âle^ 
xandre Hercalano; ' .'■ ' 

c/Jb leitura dos Martífves de Qhtíemhúuíã revelou a Her- 
ciAaBO a poesia da raça gothica, como em 1810 reTelára a 
Agostinho Thierpy o^geoío^os frankos, inclt^ndo^lhe essa 
pasmosa intuição bistomca dos M:i$$ liérmfigms. Á ma* 
neira dos ilfor/júres, Hqrculano <|uiefasertami)em um poema 
em. prosa; os el^aaentos para a \ida social e domestica das 
raçab germamcais existiam )á 'beúoi aocessivtís nas Canções 
de Gesta, como o Fierabms, jfablicadq (ior.Immanael Bek* 
ker desfie 1829, Berte (mai^ grtmds píès,'i^0T Pautin Paris, 
em 1832, Garin le Loheram, em 18â3, emfím a sublime 
Gbámon de Roland, em 4836; em vez de recompor a ?ida 
eoilêGtíva, metteu-se no stibjectiirismo pbantasista, prece- 
<Hipando-se com a tbese social do cetibato clerical, deixan* 
dose arrastar pela declamação do UÍU^ai-Romantisim). 

O Eurico é uma imitação do Cláudio Frollo, da Notre 
Bamè de Paris, traosportaída para um:4}oadro da Edade Me- 
dia, np.meio de uma socied^Me em conflicto de raça e de 
crença. O modo como Herculano oomprebendeu esse con- 
flicto é débil, apagada, e sem ideal; temos um^ base de 
Gomparação perfeita, uma realidade na collisão dos amores 
do arcebispo de Toledo, Eqlogio,* com uma-dònzella árabe 
Leocricia, que a converte ao cbrisUamsmo, refugiando*se 
ambos no amor mjstico e morreíido ao niesmo tempo pelp 
naarljrio. Nos escriptores ebristãos como Álvaro de Cór- 
dova^ e nos escriptores árabes citados por Dozy, a historia 
dos amores de EulogiO' é tio beila, a sociedade hispano go- 
tfaica e árabe do século ix está tão viva, qoese Herculano 
QSttidasse esse assumpto ti^adicional não se daria ao tra*^ 
balho 'de inventar um Surico ultra-^romantico, meditando 
phrases rhetorieas, e morrendo theatralmente. 

No meio do seu, fervor i;;9mantico, Herculano escreveu e 
fez representar úò theatro do Salitre em 1838 o drama em 

20 ' 



306 mSTOBIà DO B01U1I7I8X0 BM POUTUGAL 

prosa O Fronteiro de Afrim, ou três noites aziagas. ^ O 
drama nãd tem importância artistica; falta4be.a linguagem^ 
as situações, emfimo deseolx) dos caracteres; se Hirculaítió 
não tinba este dom da visão subjectiva no romance, onde 
a parte descriptiva supre em grande parte o movimento das 
paixões, como podk manifestal-o no tbeatro? O facto da 
composição do Fronteiro de Africa é que é digno de reparo, 
porque se liga a esse fervoroso movimento produzido por 
Garrett para a fundação áfi um Conservatório geral da Arte 
dramática, ao quai pertenceu também Herculano ' como 
censor. No Jornal do Conservatório, começada a publicar 
em 8 de dezembro de 1839, Herculano collaborou òom al- 
guns escriptos metapbysicos Da Arte, (fragmentos) Tohur 
BohUy e nas Memorias do Conservatório com um elogio his- 
tórico de Sebastião Xavier Bôteibo, e com extensos pareceres 
sobre a comedia A Casa de Gonçalo e o drama D. Maria 
Telles. 

Este quadro da renascença da litteratura dramática ficou 
tratado no livro Garrett e os Dramas romantic(^. Emquanto 
Herculano pbilosophou disse deploráveis banalidades, como 
nos escriptos Da Arte, acervo de phrases de uma visão al- 
legorica em que contempla Affonso Domingues, o archite- 
cto da Batalba,«6rão-Vasco, o pintor do quadro O Menino 
entre os doutores, é Gamões, o poeta da epopôa nacional os 
Luziadas. Eis uma amostra d'éssa miragem inteUectual: 
«O substractum da, arte è um só, o ideal. As suas expres- 
sões è que são varias, — as formas. Ha pois em cada obra 
artistica três elementos distinctos, e todavia inseparáveis: 
o idealy. o poeta, a forma. Dá4be o primeiro a substancia; 
o segundo as condições absolutas; a terceira as condições 
relativas, dependentes do mundo material. O ideal é o mys* 



1 Impresso fraodQlosameDte no Rio de Janeiro em 1862. 

2 Jorwd do ContervêioriOf p. 108* 



ALwxÀMDmm HBBomcJuio 807 

terio; o (foeta é o vidente; a forma é a re\'eUçSo escrípta. 
Ob pedantes da Phílosopbia disseram á Trindade do Evan^ 
gelbo— Mentira! — Os pedantes das Poéticas dirio á míatia 
trindade— Ânathema.» ' N9o admira que Herculanp viesse 
a detestar a pbilosophia, porque nSo sabia discernir a ima- 
gem da ideia. Âppareceu em seguida no Jornal do Conser^ 
tatorio uma réplica, parte em prosa e parte em verso, as- 
signada por Um defensor de Horácio: 

Quem profana o alt|ir, a cuja sombra 
Te ergueste sacerdote do meu culto? 
£ és ta qaem me ipsolia despiedado, 
Sem ao menos pensar não tenho altares? 
Onde achaste a trindade do meu culto? 
Oode achaste esses molde$ tão sublimes 
* Para n*elles vazar tuas j^deias ? 

Esses moldei quaes sSo? — a Natureza, 
Te bradará com toz que tu desprésas 
A rasão, se ralSo ouvir quízeres. 2 

O cDefensor de Horácio» era Castilho, que reagia contra 
as novas doutrinas litterarias recebidas da admiração das 
obras primas do romantismo ; elle representou o elemento 
da reacção clássica, ao qual ^e ligavam todos os espirites 
postbumos da Arcádia. Herculano replicou com um artigo 
sarcástico Tobu-Bohu, Sonho abphometico, lyrico, phantas^ 
tico pelo Doutor in utroqtie Ichheit, que começa por umas 
considerações históricas justas, mas termina com uma graça 
lorpa. As considerações merecem ser citadas: «Estamos em 
Portugal n'uma posição pouco vantajosa para a nossa litte- 
ratura: nem tão isolados dos outros povos, que, todos en- 
trados em nós mesmos^e nas nossas cousas sejamos origí- 
naes á força de nacionalidade; nem tanto em contacto com 
o movimento artístico 6 scientiãco da Europa, que a tempo 
e compasso entremos nas gralides harmonias do coro ge- 



1 Jornal do Conservatoriú, p. 29»^ 



906 HISTOEIA 99 WaWKTWmi. WUL MSTUOÁL 

ral de civiU&içlo que âe toda a parte se al6vuta: .Oui/iaos 
faUat' de lobgB no que Yae pelo mundo, ia oomo tafi!ito| de 
pDOívtDGia imitâf&QS áH eégaé, exag^çráoias quaaio dos dir 
zem que é moda na capíUl sem veroJiQâ prijtíeiro i^ mt 
fica bem a (aoda. D'aqui a sincera, devoção com. qae pri* 
meiro copiámofi os luilanoa» depois os Castelbaoòs >e por 
fim os Fraocezes.» E d^qis de indicar a propa^ção da 
movimento romântico da Inglaterra para a ÃHemaoba e da 
Allemanha para a França, accrescenta: «e nós, como estas 
colónias longiquas dos Rongiános, que obedeciam ainda aos 
cônsules de Roma quando já Alarieo reinava em Roma, nós 
religiosamente nos curvávamos ainda diante da sombra de 
uma auctoridade qtie já não existia.» * Nos outros. três tra- 
balhos que criámos da collaboraçâo de Herculano nas ife- 
morias do Conservatório, acham-se considerações bastante 
justas, que já aproveitámos na Historia do Theatro, taes 
como o considerar a transformação da Jitjteratara portqgueza 
como resultante das transformações SQciaes de 1833, a jm^ 
perfejção dos -dramas faístoricos por faU? de ui^ Irabalt^o 
de erudição histórica a par da idealisação arijstíca, como 
se viu na Allemanha.com Hélder e.MiiHer ao lado de Goe- 
the e Schiller, na França Guizot e Thierry ao lado de Vi- 
ctor Hugo;, finalmente, a falsa linguagem figurada, empha- 
tica e cheia de epitbelos, proveniente de un^ certa inca- 
pacidade pbilosophicá para analysar as paíws, e de falta 
de invaginação para recompor syntbeticamente os caraCjte-. 
res. O que Herculano dizia com tanto acerto dos, dran^s 
ultra-romantico3 apresentadQS ao Conservatório de 1840 a 
1842, cabia-lhe como çiuctor dçs romances, históricos, em 
que o archaismo da Jiíf^uagem suppria a falta de evocação 
da época ou a intelligencia, da tradição que desenvojLvía. Q 
trabalho fundamental deveria começar por uma renovação 

« 

1 Jotnal do ConsertatoriOy p. 101. (1 ^e março de 1840.) 



pbilosophica^ q/o» promoanãa a actividade mtotal tnflairíá 
oa crítiea; doiitrinaffia e oonqparitifa^ na politica e pratiesh 
utente nas reforoiaB qiie d'eiia demam, e por oitimo na 
ilistoria» cmiio processo do tiosso passado. Faltou está god- 
di(3o primaria^ e por isso foram descoordenados toctosos 
moTímentos de tratksfiirmaçSo politica e intetiectual ; os des^ 
peílos 6 a» separações tnutitisaram moilos esforços* A kltii 
de crítica não fecundou nem disdplinoa os escriptores, e 
Herodlano» . que se concentrou no trabaiho* da JKslem de 
Portugal, deveu a parte mais justiSeavel do seu desalento 
á falta de uma oomprebensio e julgameato da critica sobre 
a direcção da sua obra; 

Retirado da politica desde 1842, vivia Herculano ua Ajuda, 
em cato in<lependente destísaida ao biUiotbecarío real; ali 
no seu remanso de naufk*ago politica procuravam-no os no- 
Yòs escHplores, e Herculano deixava-se adorar. A mocidade 
em ve^ de trazer doutrina vinha pasmada de adoúração; 
quando Herculano se dignava coUaborar em alguma das 
suas epbemeras revistas litterarias, ella ficava com impor- 
láBcra garantida* Na Mlmtração (jornal universal) publicada 
em abril de 4S&ã, achasse já um enfatuamento auetoritarío 
em Heroulauo; elie emprehende uma galeria ée TypQ$,pQr' 
íuffuèzes, a cooneçar pdo galkgo; protestando qiie nós te- 
mos typos nacionaes dá-^no^ o mtuíto do Parocbo da Aldia: 
«foi uma experiência.» Mas o-gallego é-gue é lameotavd; 
imagine^se uma das mais birtas e insulsas caricaturas de 
Nogueira da SUva/na edição 'de Tqlwtino, só^assim é que 
sé pôde iHEiagiQar a graça de Herculano, nos longos discur- 
sos da Vida, di^ e feitú& de Lazaro Thomé. EUebem qiier 
ser irónico, masr cáe na imprecação, e essa no estylo de an- 
tigos hábitos mentaes, como n'esta phrase em que iuespe- 
radamente declama a favor dos frades: «arrosta com o pe- 
rigo de dizer mal dos frades, mudos, debaixo da campa do 
monachismo, e dos padres, que só te responderão com uma 



310 HI8T0BX4 90 BOMAirmilO' SM FORTUSAL 

lágrima furtiva.» (Gap: 2) ^ A aoctorídade romântica de 
^BrcuIaDO crédcia ; escreveu |«ra a creação da Opera nacio- 
nal 0*1 drama lyrico os Infantes de Cetoa, posto em niasvca 
por Miro expressamente pacata Academia PiíitarmoQiOa, è 
o Gtíodô de Farrobo, emprezark) da Companhia italiapa fél-o 
cantar na. noite dè 31 de abril de 184lit. Os que assistiam 
a eáSQ desempenho, escreveram: €A poesia percebia**se pou- 
co ...». ' O dom da graça anda sempre ligado ao talento 
draoQfttico, e' Herculano não tendo possuído esta qualidade 
t3o- característica de Garrett, assim como nSo pôde dar re- 
levo ao romance, também em historia nunca podería sair 
dos moldes severos mas tnortos em que escrevia Hailam ou 
Guizot. 

O Gonde de Backzynski, que vem a Portugal (13 de maio 
de 1^42) e estudou com tanto interesse ã Arte doeste paiz, 
não podia* deixar de aebar-se em contacto com Alexandre 
Herculano, que fora o primeiro a reclamar a favor dos nos- 
sos monumentos destruídos, por falta da sua comprehensão. 
O illustre fundador da historia dá Arte portugueza, escreve 
de Herculano estas linhas: <É um dos homens mais ami- 
gos da verdade, qm eu conheço em 'Portugal, de uma grande 
vlvpcídade de espirito; eruditíssimo, escriptor de urid me- 
rfto geralmenie reconhecido, de uma imaginado ardente, 
cheio de zelo e ie^fatigavel. "Foi já deputado ás cortes. Aban- 
donando a^ politica pela scíencía, prestou a esta ultima um 
serviço' que a *nação não poderá bastantemente reconhe- 
cer, i^' Radczynski degioroií^se em Portugal atè 1843, e já 
em Paris durante o*anno de 1847 é que escrèvetr^esse jpizo 
sobre f Herculano; conheceu portanto Herculano no seu pe- 
ríodo de fervor lítteiario, quando, despeitado da politica, 
no momento em que os Gartistas se tornavam Gabralistas, 

1 }Ut^lraÍiQ^ p.,157. ' ^ 

* lllustração^ p. 4. 

> IKeítonatre hitt&rkoartitiiqw dM FcHugtUf p. 131. 



AXMxàaMm íÊKaiecUkgo 311 

voltou a «ua poderosa organtsaçio para a Httm*atQra, k sua 
imagítíaçao era apreciada pelos peqdeoosromanees históri- 
cos ptibfíeadòs no Pamòrama, de ^e fora redactor exchisivo 
atè junho de 1839, e ua Ittustraçõo, romances (jae veio a 
colligir sob o titulo de Lendas e Narrativa^. (Mcupava-se 
em^rgaulsar o texto do manuscripto de 9rei*Lniz de Sousa, 
Ânnaes de D. João Ill\ achados na BíUiótbeca real das Ne- 
MSsidades, que dL Sociedade prapagtídora dos Cònheánimtos 
ut0Í8 ãiandou publicar etíi 1644; ainda em 1844 publicou o 
pequeno drama lyri<^o Òs Infantes ãe Ceuta, e á custa da 
supracitada associação o rêmanóe histórico da Sociedade go- 
thica na peninsula Eurico, o Presbítero. Parte do Mfmge de 
Gstér, já era conhecido por fragmentos nO Panorama. A 
. imaginaçSo portugueza naicotisada pelas insípidas novellas 
do AlHvió de Tristes, do padre Mdtbeus Ribefro, e FeUz In- 
depmdente^ do padre Tlieodoro de Almeida, recebeu as suas 
primeiras emoções dos romances históricos de Herculano. 
As primeiras impressões 's3o sempre as mais indeléveis. 
Em 4843 e 1844 já Herculano abandonava o campo do ro- 
mance^ histórica ; embora o Monge ãe Cister só apparecesse 
era J848, a parte prindpal havia muitos aonos que ficara 
incompleta no Panorama. Herculano reconcentrava-se cada 
vez mais no campo da historia especial; por isso escrevia 
Rackzynski^ talvez sobro notas levadas de Lisboa: cEUe es^ 
creve qnàa Historia de Portugal durante a Èdqde M^dia, que, 
sem duvida será uma obra> ^de alta importância para as 
sciencias, e mais particularpiente para o seu paiz.» . 

N'esta phrase de Rackzynsh» contèm«se uma revelação im- 
pprtantissíma, e é, que a fíistona de Portugal em que tra- 
balhava Herculano, (Í842-1846> se limitava desde a ^a con- 
cepção primitiva ao perimido mediev jl : dtiranfó a Edade Me- 
diak Quando mai$ tarde^em 1863, Heroulano veiu, desilludir 
os que espelhavam ai;ida iimà Historia de Portugal úéòmplQtai 
pondo no frontespicio da. terceira edição tatá ao reinado dè 



' 312 HIBTOBIA PP MKUinrMIfO Blf .^OBTUGAL 

U. Affirnso lUr oao fez mais do.qu6'(lefiair eom verdade 
o plano do seu trabalho/ lemlHira 'C(mtiDaas$6 dizenda iqt)^ 
GOBtf ariedattes ionQttieraa Ide bd^iaiB trimeado o ísau lavor 
bbtorieo. Houve jpi9r:taatOB'esMs desgo^os uma certa ptan^ 
tasmagorU tbeatrStI; HerculaDa >e^a romauíQsco. 

Em 1836 {Hiblfcou o profo^sd^ ^ebiatoría.da Uotveii^ir 
dade de Giezen, Hftnri S^aeQer, o priíBeiro voluma da. sua 
beUa Hi$tma êe PQitíugal^ formaado parte de um va$l;o 
corpo çle^Historiía doj$^ Estados- etirop^us ; só em 183^9 é que 
se publicou o segundo volume. A obra foi coubecida. em 
Lisboa, e cremos que nãq^^evit. iuSoencia na jletermma- 
ç3o«de Há^culaoo em octaceuti^r os. seus estudos díspers<!^ 
sobre as instituições; sofíiaes p^trtuguezs^, taea como Foraes, 
jBeus.da coroa e Classes servas* Qu^do o ][yrímeiro volume, 
da íUstoria de Hereulana app^receu á iu% em '184<6» já. a 
obra de Scbaeffer foi ali aproveitada peid segurauça da sua 
critica. Foram estes dois^olumes de Scbaeffer os* únicos 
traduzidos em fraicez; os três volumesi restantes,' publica- 
dos ao fim de um longo intervaUo> em 18S0, 1852 e i^^k 
cruzam-se com os litros da flwímâ de Herculano,, cujo 
quanto volume, de 1853, ficou o limitte irrevogável <k) aeu 
trabalho. ^ Cremos que q complemento total do trabalho de 



1 ktíistwiiú (fó Pàrtugal úb Sehaeffér Jêi •iflteirúiDtkídaèrii 18Í!^ t^a o'8tti 
auctor me(ier mãos á HistQría de ^espfínha^ d^ ciiada colleccSo. F, Ad. W4r' 
nbagen, que era admirador de llerculaoo, diz da obra de Sptiaeffer: testada 
profoúdainente M faclose datftÂsoiièfado dê priocbop&ções.» BeirU^à vtiâwr- 
sal lisbonense f.^oh.it^.tS, f * 

Em uns artigos publicaclos na Gazeta de Colónia intitulados PòHvqeX m 
AUmê,nha^ por Hflfddng^ aeham^io a^umfts iadieacões' biògrapbfcas acerca de 
Scbaeffer: «Nasceu este desiincto historiador em* Schlitz, pequena aUèa.dff 
Grâo-Ducado de Hcsse, a ^5 de abril de 17^4, formou -se no seminário nisto- 
rico de ÔíesseO) e accetikiiiem 1816 o logarde preceptor eu utqa famitta aris- 
tocrática de Darmstadt. Durliote sua permanecia n'aquella icapitat, ^ebaefflir 
começou a occupar-se da pènrnsula ibérica. Desde seus primeiros ttabaltios, o 
jofeoaactor* excitou geraliradlDiraçáo pèr^teus pt-itfttiidqs cofibecimealò» da'líí^ 
toria de Hespanba e da Portugal. Seido d«^Ois nomeado profeaspr cie bisiAriaJ»a 
Universidade de Gieseen, esta posição vantajosa )he proporcionou os meios de eo- 
prekeader maiores irabalbot. ^i- ali qoe publicou dnagcbrae que fÉodarân tf^ 



âobaf^Ear; desalerrtou HercõlaQo; «its se-eHe (Hz que IBè 
trcmearam o seu trabalhOiliuDca niaguem se Isenriu dd eon»- 
froóto da superioridade de Sebaeffek^para o enfraquecer; 
Se* a Historia de Portugal nSo passou além dô Afiòriso itr, 
i porque essa obra, coiao o revelou Rackzyaski, nascera 
QQS Bioldes de uma monograpèia, cujo tHolo dèãne bem o 
intuito primitivo de Herculano, que não pretendia passar 
além da Edoáe Media poríugueza. A e^ecialisaçSo d'eÃtes 
-estados é que o relacionou com Lúif i Gibrarió, auctor dá 
Economia púHiica »(» Edade Media, com cuja amisadésegto- 
nava, como o revda na iGai^ta a Garrett. Nós julgámos, qoe 
para fazer s^ historia do estado das pessoas, da propriedade, 
das fprma^ tributariasv das instílui(^es asuDÍcipaes, da pe* 
QalicÍE|<)e< era preciso esboçar as trinsformaçoes bistAi^icas 
da península para se comprehtoderem <essas justificaçiSes 
'de formas sociaes romanas, germanicaá, árabes e frankas, 
^am Portugal. Foi o que fez Herculano; e sobre tudo oseà 
í&taito revela-se no nobre orgulho com que entende tdr ino- 
vada lesta ordem de estudos: ^mhievm úéliistoriasociai.,1 
cujo estado nao recetámos dizel^o, équasi ioleíramenteDOVO 
em Portugal...» ^ Os trabalhos de Anlonio Caetano do Ama^ 
ral e de João Pedro Ribeiro, e o Eiètádario de Viterbo, 
eram os umcos subsídios para a bistoría social portugueza, 
mateiiaes de erudição» sem a his da «rltica comparalivsr. 



r«y«tidlo liUtria. ft BUtoria dê Betpanha, e a Historia de Portugal Isím áaâk 
o|>iys íèrn^o) uma parte da vasta co^ecçio da Bittoria dçt Ettados Eúriffetís 
de Hefereo e TJckert.-^Como Alexandre UercuIaDO n&o quer continuar a sua 
«bik nteoitêotal e vive em retrahimentè pMIoeopbíco, òccopado com a agri^ 
cultura e alegrando se quando o azjBíle do^oliTae^ de Vai de Leboe pe^teooe 
áe melhores marcas do paiz, a Historia de Portugal de Henrique Scbaeffer, que 
^mè Ué ao ÚB% de agosto de 1899, ^^ Aíodii bojef o onico trabalho venAídei- 
.ram^teacieutifico que abrange toda a liístoria poriugneza desde asorigeas da 
monárchía até aos tempos modernos. 

«0 lí?ro de Schaeffer, principalmente a parte que trata do estado social do 
reino nos primeiros tempos da monarchia, é muito estimado; etc.» (Vid. a 
Áçtuqmdài de 1873.) 

^ Éitt. d$ Portugal, t. ir, p. r* 



814 msTOBi 9o moMÀsmBUO m fobtuoal 

Héroolano exeedea-ot em critica de particularidades, mas 
não foi mais looge na recompo^c^o synthetica da vida so- 
cial ; £altaTa-)he o talento kiarrador de um Thierry ou de 
om Micholet, e é por isso que sendo importantes os dois 
volumes em que traia largamente da sociedade portqgoeza, 
s^ quasi illegiveis peia fóriha de allegaçflo jurídica em que 
estão escríptos. 

A ideia de senrir as doutrinas politicas constítucionaes 
levou em 1820 Agostinho Thierry a publicar np Courrier 
(rançais as suas celebres Carias sobre a Historia de França^ 
que exerceram uma acção profunda na renovação dos esta- 
dos históricos e sobretudo no espírito democrático appli- 
cado á critica das instituições sociaes da Edáde Media. A 
Portflgal também se estendeu a acção de Agostinho lliiérry, 
e á imitação das Cartas sobre a Historia de França, publl^ 
cou Herculano na Revista universal lisbonense, redigida por 
Castilho, umas cinco Cartas sobre a. Historia de Portugal, 
por i84S. ^ Estas Cartas mal revelam a seriedade do his- 
toriador de f846, imitando puerílmente na Carta ii o sys- 
tema empregado por, Agostinho Thierry para restabelecer 
a ortograpbia dos nomes germânicos, como Theoderich, 
Theod-mir, Leud-vi-ghild, que Nodicr satyrisou acremente. 
Já se falia dos Mosarabes, que deriva dd palavra árabe At- 
mostárabe, ou adscripto aos árabes, mas cuja. adserípçio 
não pôde explicar porque descreve os Árabes como ainda 
no barbarismo. Na Carta iii, discute a questão dos nossos 
antigos; chronistas, se Portugal fói dado em dote á'p. Ta- 
reja, discussão que foi aproveitada para a nota sexta àSíHi^ 
toria dê Portuga}; na Caria ly discute a necessidade de nova 
divisão dàs épocas d^ historia portugueza, e cita directa- 
mente a obra de Agostmlio Thierry, pez annos de Estudos 



1 Na Rev, universal lisbonensei i, p. 816, art. 197 ; n, Wí; ih, 5<l)|56i, 
891 ; lY, 637, 661; t, 848, 879, 911, 931» 958^ 973. 



histmcos; a Carta y encerra algumas aMdoctas sobre os 
costoines da sociedade portogaeza, materialmente extracta'» 
dos 6 mais nada. Faltava a Hercalmio esse poder de recom- 
por a vida moral que tanto fez admirar em toda a Enropa 
as Cartas de Agostinho Tbíerry, e per isso esta inftnencia 
do grande bistoriador do Terceiro ' Estaâo foi passageira^ 
SQbmettendo*se ao processo analytico e doutrinário de Goi- 
zot. Em todo o caso á primeira influencia da critica histo- 
rica de Agostinho Thierry deveu Herculano a éomprehen- 
são da independência* das iustítuiç&fô municipaes na Edade 
Media, e os seas constantes protestos contra a absorpçio 
do systema^ de centraliseçSo administrativa empregado pela 
monarcbia constitucional contra essa instituição destinada 
a realisar na sociedade tíiodema o sdf-^gouvemement. Foi 
de Agostinho Thierry que Herculano aprendeu o seu mu- 
nicipalismo, que léfou alguns escriptores contemporâneos 
a iliudírem<-se com os seus sentimentos democráticos; mas 
Herculano era exclusivamente monarcbico, e por isso para 
elle o municipio nunca poderia ter outro' desenvolvimento 
mais do que a liberdade dos impostos loeaes. Pelo seu mo^- 
narchismo o ideal da emancipação da muniâpio ficou infè- 
condo por incompleto, e mais tarde contradictorío pelas 
suas afirmações antí^democraticas. 

No prologo da sua* Historia^ Herculano descreve de um 
modo bem doloroso as condiç?$ês em que se acha todo aquelle 
que etaipreheoder escrever uma historia de Portugal: tAs 
coUecções impressas de 'monumentos historicoB, que^todos 
ou quasi todos os paizes possuem, faltatn n'este nosso. Do- 
cumentos aVulsps, derramados por obrtis eácríptas em epo» 
cas nas quaès as*luze^ diptomaticas quasi que não existiam, 
mal podem, 'ás vezes, pelo errado da sua leitura e por se 
acharem confundtdos com diplomas rorfados, ser acceitos 
como auòtoridades seguras* Outro caracten tèm ós que se 
encontram HQas Memorias da Academia real das Sciendas, 



9^ Hi8T0Bi4>tiQ! mmÉonann m «ORTuaiL 

OU ii9$ obras t^oiUioadds ifieloè eem socids; tnas esses do^^ 
Gumeiítds, wmeiw parte reâozenhsà a sínopleg exiradtosi 
oqQio côovéin ao& fiQS<}ue ae 'propõem os áoetares qne.ds 
citam. Assim, qiQeaiseoticopaiP da hisUiRr|a {lortugaeea; bade 
sepuUiir^se nos a^ebivos pudicos» e descobrir entre mHba'^ 
res da pergamitíbos» ' frequeatemente âiffioets de decifrar» 
aqueile qoe.fasiao £eii)iiit£iBto: bade indagar nos* monumen* 
los estrangeiros oade é que se enconlnam passagens qud41- 
Iqatrem a historia do. seu paiz: faade arvivar as inscripçSeSy 
conhecer os cartórios pariiciiiares daâ catbedraes» dos mu- 
joieipios e dos mosteiros ; hade ser paleographo» antiquário, 
viajante, bibliografiho, tudo. < Coai# bastaria um individuo 
sem abundantes reciursas pecuniários, sem influeneia, sem 
.uQ(ia saúde de ferro, a tão gnande etnpreza? F6ra impossí- 
vel.» (Hisi., U lyXí.) Ainda hlDje esta situação de qualquer 
bistoriador portugaez è rígofosament&a m^ma;oS'archir 
vos estão sem inventario^e a Academia das Seiencias n3o 
se preoacupa oom monumi^kto» bistorilsos. Herculano acbou^ 
se em uma posição excepeiônal, para tratar esta diffioii em- ' 
ppeza: todoí o seririram com boa vontade. Nomeado btblio*- 
ttecario. das Necessidades e da Ajudai obteve assim os 
meios de subsiatencia para^ poder dediòar^se ao estudo, fa- 
cultando-se-lhe a Torre do Tombo, e recursos para expirar 
(oâQ$! os cartórios (tos.'aa)steiros» calhedraes e collegiadas 
do paiz; demintiram-âe os eufprôgados eom.qtie embirrai, 
imprimiram^e os documientos que serviraâi de lUúátraQfio 
ou appar«ato ao seu livro, mas. toda esta boa vontade con- 
^verteurse faciimealeem bajulação, e assim enervaram aquelte 
aatui^eza forte tornândo-o sistematicamente esterit. A diffi- 
culdtâè o o sacriQcio eram o estimulo d' aqueUa natureza;. 
apFanaram-dhe o camiftho, foi como quebrar-lbe os braços. 
Diz- Herculano,' refêrindo^seá porotecção. que acoeitou do 
paço: cFõra da. situação tranquilla em vqoe me vejo coilo- 
cado> nunca me teria ^dialançaído a uma enapreza^ que ea 



ll 



^àXÉx%mÊkntmtnnjÈÈCh' 3Í? 



prciprío reconheçd merecer a ica^açlio de atrevida . . . 
Esta sitfiaçSo vantajosa e^excepciADffldeto-a á Bua Bòjages- 
tade el-rei. Eilèad^eou para mim es^onftahea e géiíerosa^ 
meDte. — Se e^te livro n9& f&r inteiramente inútil para* a glo^ 
ria da pátria^ a soa mage8ta||e joais que a mim o agradeça 
ainação.» (Jfr., 1. 1, p. xnr.) Foi esta tranquillidade o que inuti^ 
liso» Hercalano» fazendo^o estacar noiitniftrdâs^uá^condtrtík- 
çãoç. ao paço deve ana^ião attrit)i>ir a interrupção do mo- 
numento: como é que Herculaiio seria grato aos Braganças, 
fazendo a historia do reinado de D. Duarte, D. Affouso v 
e D. João II, sem falsear a verdade? De D. JoSo iv, de D. 
A£Gonso vi e D. Pedro ii, sem se insurgir contra essa^ dy- 
aastia dissolvente? Abandcmaria ^Histaria para Qear agra- 
decido. Faiiava<-lhe â estimulo do protesto. 

«-Averiguar qual foi a existência das gerações que passa- 
ram, eis o mister da historia.» {Hist; Port., t. i, Introti.) 
Phrases vagas, que nada significam, porqi^e a edistenciavídS} 
se comprehende só por si, mas pelo condicionalismo do 
meio, e pelas circumstancias que a modificam, e as gera- 
ções é uma palavra que nâo encerra a ideia de raça, de povo, 
de nacionalidade, de gente, tendo especialmente um sentido 
farailista, que é o que sob a forma de divisões dynasticas 
e biographias de reis foi seguido por Herculano. Caracte- 
risando os antigos historiadores que faziam paginas rheto- 
ricas sobre a Historia de Portugal appensando-lhe falsas tra- 
dições á maneira dos agiographos, e dando peio fervor do 
estylo imaginoso a medida do seu patriotismo, Herculano 
sepára-se d'eiles por uma característica bem profunda : «El- 
les tratam a historia como uma questão de partido littera- 
rio, eu apenas a considero como matéria de sciencia,T> (Ib.^ 
t. I, X.) Foi este ponto de vista o que deu segurança ao cri- 
tério de Herculano, consultando as fontes directas dos do- 
cumentos, e pretendendo explicar as phases sociaes da na- 
ção porlugueza. 



918 HIBTOBIA DO BOlfAimnaiO BM rOBTUGAL 

Quando Hercolano eiaprebendeu a Historia de Portugal, 
começada a publicar em 1846, nio existiam somente as mo- 
nograpbias de Joiio Pedro Ribeiro» de Frei Francisco de S. 
Luiz e de António Caetano do Amaral, o ponto de vista 
geral segundo o espirito sçientifico moderno já estava de- 
terminado; sem a Historia de Portugal de Schaeflfer, publi- 
cada em 1836, Herculano não se elevaria acima da erudição 
fragmentaria das monographias. Desde o momento que Her- 
culano sentiu que lhe era impoâsivel levar a cabo a sua obra, 
o verdadeiro serviço á pátria teria sido o traduzir com fran- 
queza a obra de Scbaeffer, que termina na revolução nacio- 
nal de 18Í20, esclarecel-a com- notas ou additamentos dos 
seus estudos, e se possível fosse amplial-a até ao Cerco do 
Porto e estabelecimento do regimen parlamentar. Este tra- 
balho, porém, tinha o defeito de tirar o perstigio aò histo- 
riador portuguez, e de orientar a nova geração n'essa or- 
dem de trabalhos. 



I 
j 



AuauxwÊM inscuLÃiK) 319 



S III.— (Pe 1816 a 1866.)— Ânalyse da Bitfma de Portugal de Berço* 
lano. — Descoobece a elbnología da peoingala, e oj>orque da desmembra- 
çSo do território portogoes. — rA» taetaa polemicas da Hú^oríe de PoriU' 
geA orientam o espirito de Heecolapo no sentido aoti-clerical. — A Bitioria 
das Origens da Inquisição em Portugal, — O Bu e o Clero j e a qoestâo da 
Coneofdaia. — Situação da Academia das ScieDcias. — Os Portagalia Moníh' 
menta. — Abstenção da actividade Utteraria e eileocío systematico de Her- 
coUdo. — loUueocia da morte de D. Pedro ▼ ooestado de os^píríto de Herculano. 
-— Bellra-se para a vida rural, onde eucoiptra dovos desalentos. — A qoestão 
do Casamento civil em 1866, cootradictada pelos actos. — A visita do impe- 
rador do Brazil, e o fallecimeoto de Herculano. — Aoalyse geral das formas 
da sua actividade — Goaclasão. 



Para fazer a Historia de Portugal estavam traçados os 
principaes lineameDios, e publicados os docomeDios que in- 
teressam directamente as origens nacionaes; Fiorez, ná Es^ 
pana Sagrada^ tinba publicado os principaes Cbronicões; 
Idasdeu^ na Historia crítica de Espafkt, discutia com profun- 
didade a etbnologia peninsular, e as épocas históricas dos 
romanos, dos germanos e dos árabes; Roussew Saint-Hi- 
laire applicava os novos metbodos históricos á constituição 
dá unidade bespanhola. A Historia de Portugal estava im-* 
plicitamente tratada como um capitulo da historia de Hes- - 
panha; as relações de dependência, de desmembraç3o e de 
autonomia politica explicam-se pelos accidentes de unifica- 
ção ou desmembração dos outros estados peninsulares. Por 
tanto o período dos primeiros séculos da monarchía portu- 
gueza é realmente o mais fácil para o historiador, por causa 
dos inúmeros recursos estrangeiros. O trabalho de Hercu- 
lano consistiu na severidade do methodo scientiQco, aban- 
donando a credulidade dos nossos chroni^tas beatos. Para 
a comprehensao moderna da organisação romana na penin- 
sula, existiam os bellos trabalhos de Savigoy sobre a His^* 
toria do Direito romano na Edade Media, e para o conheci- 



( 

mento da organisação da sociedade germânica os luminosos 
Ensaios de Guizot e a sua Historia da Civilisação em França; 
para a civilisação árabe, condemnada pelos chronistas pe- 
ninsulares, mas rehabilitada pela critica de hoje, existiam 
os váslos estudos de Hammer e de Dozy; para a cdnstitoi- 
ç^ das poyoaçúés segundo, as cartas communaes, existiam 
m ricos documentos publicados por Munoz y Romero. N5o 
era preciso talento.para tratar oa primeiros séculos de Por- 
tugal, bastava a capacidade para uma iqtelligeníe compila- 
ção, de tão abundantes e :preciosas iontes. Desde que Her- 
culano teve de entrar na vida intima do povo portugiiez, 
contida nas Inquirições de D. Affonso m^ desde que achou 
uma renascença na época de D. Diniz, o trabalho desliga- 
Ta*se dos subsídios da historia de Hespanha, e ara de força 
caminhar âósinbo. Não será este também um motivo por 
que não quiz avançar? 

Herculano, para justificar o abandono das origens dos 
primiliyos povos que habitaram o território portuguez, como 
laiú conhecimento sem proveiló para a explicação do facto 
da unidade nacional, funda-^sg nos «rros de methodo que 
prejudicaram as investigações de Frei Bernardo de Brito e 
ws preconceitos que até certo ponto viciaram as Memorias 
de António Pereira de Figi;ieiredo, António Caetano do Ama- 
ral « Paschoal José ide Mello. Mas quando estes eruditos es- 
craveram ainda não estava creada a linguistica ou a pbilo-, 
logia comparada, que é a verdadeira chave para reduzir 
os nomes de logares ás formas conhecidas das linguas- d'és- 
3as differentes -raças; nem tao pouco se conhecia ainda a 
r-aça -chamada turaniana ou ibérica, que^ precedeu na Ku- 
Popa as migrações àricas. Também os phenomenos de per- 
sistência de qualidades ethnicas, ou de recorrência aos ty- 
pos pri0iitiT0S^ ainda lâo estavam determinados paja An- 
tropologia, e por isso toda a investigação deveria consistir 
qtoorio muito em entender bem. os geographos aWigoà, 



ALXZASDttE HEBCULANO 321 

• 

como StrabSo, Ptolomeu, Pomponio Mella, Plinio, Itinerá- 
rio de Antonino, Avieno, e Silio Itálico, corrigir-lhes- as 
textos viciados dos manuscriptos antigos, e organisar os á\{- 
ferentes mappas da peninsula segundo as. épocas em qoe 
cada um escreveu. O erro de methodo consistiu em fa^r 
syntheses prematuras, subordinando a evolução das raças 
da peninsula á antropologia mosaica, e determinando como 
persistente através de tudo o typo ibérico; e com relação 
a Portugal, fixando a tribu Luzitana, assim chamada pelos 
Phenicios, como o typo originário e ideal da nossa raça. 
Herculano fugiu d'estas investigações, que fizeram «malba- 
ratar tantos -estudos e tantos talentos históricos verdadei- 
ros» (i, 12) mas a sua abstenção proveiu da ignorância da 
linguistica, da antropologia e da falta de applicação da cri- 
tica moderna á interpretação dos geographos gregos e ro- 
manos. A falta da ethnographia das raças antigas da penin- 
sula é que fez com que Herculano não tivesse comprehendido 
este phenomeno de oscillação social, que se dá na penin- 
sula, na desmembração e na unificação politica dos seus dif- 
ferentes estados. Schaeffer começando a sua Historia de 
Portugal, conhece que o facto da unificação d'este paiz, en- 
tre os outros estados ainda desaggregados, é o «enigma de 
uma revolução que se fez com bem pouco ruido.» Como ex- 
plicar esse enigma? Tal é a missão do historiador; e a so- 
lução só a poderá encontrar nos caracteres ethnicos que 
distinguem as raças. Se esse facto de unificação se fez com 
tãó pouco ruido, é porque era favorecido por condições na- 
turaes, porque essa apparente revolução estava na ordem 
das cqusas. O cosmopolitismo semita (phenicios, carthagine- 
zes, mouros e árabes, e mesmo os judeus) não se fez sen- 
tir nos povos que se tornaram in{iependente3 sobire o ^ólo 
portuguez ; e este facto é de alta importância para diiij[ir 
a investigação das raças que se integraram no nosso tfpo 
nacional. 

21 



322 HI8T0BIÀ DO SOMAHTIBMO BM POÍtUGÀL 

Nos pbenomenos históricos, assim como nos pheDom6- 
Dos de ordem physica, nenhuma energia se extingue, e o 
saber restabelecer a cadeia da evolução é o que caracterisa 
a capacidade do historiador. Differente é a immobilidade 
persistente do Luzitano, segundo os historiadores do século . 
XVI, e dos eruditos do século xvin» e differente é a consi- 
deração dos pbenomenos ethnicos de recorrência, deXradí- 
ção e de orientação peculiar. É este ultimo ponto de vista 
o que se deriva da sciencia moderna. Os característicos de 
nacionalidade fixados por Herculano são iliusorios: as ra- 
ças sem o cruzamento com outras não produzem aggregadO: 
nacional com consistência e vida histórica; dí 'língua ò o 
producto que uma raça mais facilmente abandona, e a prova 
é a promptidão com que os povos conquistados adoptam a 
lingua dos conquistadores, como a extensão da língua latina 
nos dialectos românicos, e do Árabe na península e entre os 
Persas; existem nações com diversas línguas, como a Áus- 
tria, a Suíssa, a Itália, e a circumstancia do território é 
também accidental, como se viu antôs da unificação da Itá- 
lia e da Allemanha; existem mesmo nacionalidades sem ter- 
ritório, como o Judeu, ou abandonando o seu território ori- 
ginário, como as nações formadas da corrente das migra- 
ções germânicas. Não nos admira, portanto que na parte 
da geographia antiga de Portugal, a obra de Herculano nas- 
cesse atrasada, sem mesmo uma clara exposição dos geo- 
graphos gregos e romanos. 

Expondo as suas ideias acerca do organismo collectivb de 
nma nacionalidade, Herculano vacillava na determinação dos 
caracteres de um povo e do condicionalismo que o mantém 
em aggregação; a sua historia devia de ser lambem vacU- 
lante e sem. um ponto de vista. Diz Herculano: cMuitos e 
diversos são estes caracteres, que podem variar de uns 
para antros povos; mas ba três, pelos quaes commumente 
se aprecia a unidade ou identidade nacional de diversas ge- 



ÁL8ZASDXS HXBCULAKO 323 

rações successjvas. São cUes— a raça— a lingua— o lerri- 
tork). E na verdade, fora doestas três condições, a qação 
moderna sente-se tão perfeitamente extranha á nação an- 
tiga, como á que nas mais longiquas regiões viva afastada 
d*ella.» (Hist., i, 13.) Com estes princípios, que mostrare- 
mos contradictados paios factos, é que Herculano se dirigia 
Qa investigação do passado histórico de Portugal; como a 
raça dos Luzitanos teve diversos cruzamentos, e como o 
território da Luzit^nia variou segundo as épocas da coo* 
quista e administração romana não condizendo com o ter- 
ritorio sobre que se fixou Portugal, e como os dialectos 
d'essas tribus cellij?as apeoas.se conservam em raros ves- 
tígios toponymicos, Herculano concluiu que desapparece- 
ram e degeneraram totulmenle, e que nada influíram na 
orientação do aggregado nacional, 

A falia dos estudos de etimologia peninsular influiu na 
errada architectura da Historia de Portugal, de Herculano, 
que começa a sua narrativa pela morosa é quasi illegivel 
eicposição do domínio árabe e da reconquista neo-gotbica» 
até que o Condado portugucz se separa autonomicamente. 
A dissolução do domínio árabe não a explica, porque se Ibe 
fosse accessivel esse problema comparado com a dissolução 
da unidade ronfana e da unidade gothíra na península, des- 
cobriria a tendQncia separatista dos povos peninsulares, ten- 
dência que produzia a independência de Portugal, cuja con- 
iservação como individualidade nacional constitue propria- 
mente a essência da sua historia. Depois de tratar dos 
conflictos dynasticos até D. Affonso iii, (Livro i a vi) Her- 
culano enceta um novo Irabaliio, a Historia social portu- 
gmza, descrevendo am mqis de volume e meio a structura 
dps municípios romanos» do colonato, d^s classes servas, 
d^ divisão territorial administrativa, da condição civil das 
classes populares, origens dos concelhos,, lypos íoraleiros, 
e emflm o systema judicial e tributário, (Livro vii, P. i a 



d2f4 HISTOBIA. DO B0MASTI8M0 BM PORTUGAL 

III, e Livro viii, P. i a iii.) O modo como isto é feito, me- 
ramente descriptivo, sem a luz do critério bi6torico-comp4- 
ratíTO, 6 sem a prévia preparação do estado de civilisaçSo 
da peniosula e das condições que determinaram a separá- 
.ç3o da nova nacionalidade portugúeza, torna-se de uma 
aridez invencivei e sem intuito para a comprebensão da 
origem das nossas instituições. Assim para Herculano, a 
desn^mbraçm de Portugal da unidade momentânea Âsturd- 
leoneza é incomprehensivel, porque ora a attribue ao Conde 
D. Henrique, aos planos superiores com que defende D. 
Tbereza pela perspicácia politica, e a seu filbo D. Affonso 
Henriques, ora crê nas forças immanentes ao próprio Con- 
dado, que motivavam a sua desmembração. Na explicação 
das instituições romanas, ignora as conclusões sobre as ori- 
gens d» civilisaçao árica, e separa essas instituições como 
differentes da constituição social germânica, quando têm ty- 
pos similhantes e idênticos, provenientes do mesmo tronco 
d'Gnde esses povos se destacaram; d'aqui a itopossibilidaíe 
de comprehender os municipios e o colonato. Na exposição 
das instituições germânicas, desconbeceu os resultados his- 
tóricos determinados por Savigny acerca da unidade das 
instituições sociaes dos godos, lombardos, frankos, saxões 
e burguinhões, instituições que variaram depois segundo a 
época e território do seu estabelecimento definitivo em na- 
cionalidades; conseguintemente, não explicou a origem das 
classes servas por uma decadência dos homens livres ger- 
mânicos, mas por lima elevação do escravo antigo, que at- 
tenuou o seu estado pela servidão da gleba, e por tanto 
nem conheceu as Irmandades, {Arimania) e se as conhecesse 
não' comprehenderia o seu caracter de resistência; para 
Herculano havia também um único. typo de feudalismo, o 
fraúcez, e porque o não *via rigorosamente egual na pe- 
Dtnstíla, não eomprehendia o que dle considerava formas 
accidentaes do feudalismo; sem conhecer o desenvolvimento 



ÀIXUXDKE VEaOULàJÊO 9^. 

«da banda guerreira sobre a banda agrícola dos germanos» 
Dão pôde explicar a realeza com caracter electivo, a sua 
tendência para tornar^e heriditaria, e na paniasala a sua 
dependeiM^ia das cortes. Com relação aos Árabes, Herculano 
q3o soube destacar o elemento mauresco, que provocava a 
cevivesoencía de qualidades elbnicas do antigo elemento 
ibérico, e ^or isso a deflnição das. origens do elemento po- 
tpular, a qae os escriptor^s hespanhoes chamaram Hosà- 
rabCf foi vagamente esboçada, por Herculano como um fa- 
^;to existente, mas seo^ raizes senão a do encontro de duas 
«oeiedades que se odiavam, a sociedade árabe triumpbante 
^ a sociedade gothica decaída mas fortiflcada pela crença 
cbristã. O ponto de vista christão falsificava-ihe na historia 
a comprehensão pbilosophica, e por is$o a colligação e 
•e unificação das monarchias com o cathoUcismo servindo- 
4be.de regimen policial, nunca lhe appareceria como a causa 
*de se nãQ terem formado Estados federaes na península, 
•e pix* tanto de terem produzido a decadência inevitável d*es* 
tes povos. 

Descrevendo os caracteres de uma nacionalidade Hercu* 
lano indica: o territmo, e limita-se a- transcrever os dados 
dos geographos antigos, sem corrigil-os, nem tirar do ter- 
ritório as deducções do melhodo tão severo de Ritter. Pelo 
território se explica um dos porquê da nacionalidade por* 
iogueza; esse território ãcha*se dividido pelos geographos 
antigos, principalmente por Strabão, nas seguintes zonas: 

a) Uma parte es tendia-se desde o Cabo Nerio ou de Fi- 
nisterra até ao Douro; era ao que propriamente se cha- 
mava a Galliza ou o território dos Callaecos. 

bj Outra parte estendia^se desde o Douro até ao Tejo, e 
â'este rio até ao Guadiana, ou propriamente o território da 
Luzitania. (Opinião também recebida por Ptolomeu.) 

€l Outra estendia-se desde o Ana até ao Sacrum, e era 
a Turdetania. {ab Am ad Sacrum Turáifani. Plín. e PtoL) 



-4y 



396 HISTORIA DO &01IA1ITIÍ1IO Alt P<AlTUaAL 

Tiremos as dédacções para 6 facto da nacionalidade; a 
tendência de aggregáçlò nacionafl coméçdu a organisar-se nd 
região de* Entre Douro e Minho, onde existia nm elemenio 
éthnicò de raça árica (distíngné«se pela cohesSó nacional) 
sobretudo as coloilias gregas e romanas, como se Vé pelo 
regimen èmphyteutico da propriedade, que ainda prevalece 
no Minho. A importância d'este facto exige uma maior com- 
provação. Segundo os geographos antigos desde o Douro 
até ao Cabo de Finisterra o território era totalmente habi- 
tado por colónias gregas; faltando do Rio Lima, diz Silio 
Itálico, «que corre pelo terreno dos Gravios.» Também Wi- 
òio diz ^gi'ecornm soboles omnia, » Este fado que ainda hoje 
se authentiCa na belleza escuiptural das mulheres da Maia, 
de Vianna, de muitas povoaçSes das costas do norte, appa- 
• rece em muitos usos popularíes privativamente gregos, como 
os Jardins de Adónis, (trigo grelado) êm um grande numero 
de inscripqões lapidares a deuses hellenicos, e em um grande 
talento ârchiteclonico, como notaram Roqueimont e Rac- 
zynski. Diz Strabão, na descripção da Hespanha: «Nos que 
vivem junto ao Douro observam-se muitos rasgos da vida 
e costumes dos Spartanos ou Laconios. » E um pouco adiante : 
«Os Lusitanos ou Gallegos • . . fazem seus casamentos ao 
estylo dos. gregos, t A fronteira iuzitaniea fixada pelos geo- 
graphos antigos nas margens do Douro é um facto bem si* 
gnificsflivo, que só pelas colónias gregas do norte se p6de 
eompt^ehender; os gregos e pheoicios andaram sempre ena 
conflicto nas suas expedições maritimas e commerciaes, até 
que pela violência da sua çituaçao os gregos fizeram-rse sub* 
stituir na lucta chamando os romanos e entregando-lhe a^ 
Suas colónias, para assim se acharem de freme os pheni- 
tíos com esse novo pbderi Portanto os limites dos lozUa* 
nos determinam-se no ponto em qiie òs phenicios naocco* 
{)ação dtí península ibérica, já então por causa doesse novo 
povo chamada Span, se encontraram com as colónias gre- 



AUEXAmoiiB BMaaohAMO 327 

gas do norte. E isto que se deduz do antagonisino dos dois 
povos, verifica-se na conquista árabe, em que o domínio 
sarraceno se não elevou também acima do Douro. Esse do- 
mínio árabe propagou-se facilmente sobre o território onde 
existira a dominação phenicia; era uma revivescência se- 
mita, e foi também o mais difficil de conquistar tanto para 
os romanos, como para os neo-godos. Aqui temos os ele* 
mentos heterogéneos bem caracterisados para se estabele- 
cer uma aggregação nacional. Âssimilou-se facilmente a re- 
gião central (víd b) a titulo de libertação do domínio árabe, 
e conservou-se a aggregação pela acção vigilante das ordens 
de -cavalleria. Por ultimo a terceira região, como refugio 
dos árabes foi conquistada pelas incursões marítimas, em 
que o génio da nova nação se manifestava com uma certa 
consciência histórica na conquista dos Ahjàrves dlalémrmar 
(em Africa) no reinado de D. João i. ' 

Do lado da Hespanha dava-se também o phenomeno da 
differenciação elhnica pelo apoio dos Pyrenneos, conser- 
vando a raça primitiva mais pura ou estacionaria (Bascos 
e Aquitánios); do lado de Portugal estabeleceu-se um certo 
cosmopolitismo, uma facíL assimilação de raças progressi- 
vas (ex. normandos e fránkos) e capazes de aproveitarem 
os estímulos da visinhança do mar. O typo ibérico hespa- 
nhol, determinado pelo antropologista Paul Broca como aná- 
logo ao berber da África, vêm-nos explicar a rasão da fá- 
cil cohabílitação dos phenícios, das colónias mauritanas, do ^ 
elemento carthagínez, das colónias scythicas administradas 
pelos romanos, dos Alanos (elemento scylhico que acompa- 
nhou os germanos) da fácil conquista árabe, e pelo grande 
numero de povoações«maurescas que acompanharam a in«* 
vasão sarracena, a formação do typo ou raça Mosarabé, 
com a persistência dos caracteres ethnicos primíliv(js. 

Sobre a persistência dos caracteres ethnicos primitivos 
de um povo através dos seus diversos cruzamentos e trans- 



328 • msTOBiA DO bomastibmo em fostugal 

formações históricas, diz o illustre antropologista Paulo^- 
Broca: «A nação cruzada que resulta d'este mixto, ado- 
ptando a língua^ os costumes, a nacionalidade da raça es^ • 
trangeira, pôde esquecer com o andar do tempo até a exis- 
tência dos seus antepassados autoetbones, cujos caracteres^ 
physicos continuam por tanto a predominar no seu seio; 
mas ás vezes recordamse, como o provam os Celto-Scytha^ 
mencionados por Plutarcho e os Geltibericos da península . 
hispânica.» ^ Das migrações e elementos célticos que entra- 
rstm na população dos estados da Europa, omesmo illustre 
antropologista chega á seguinte conclusão: «O que se es- 
palhara por toda a Europa não era uma raça, mas uma ci- 
vilisação, que, por assim dizer, se tinha inoculado de povo 
a povo, porque o bem inocula-se como o mal.»^ Esta af- 
firmação reforça extraordinariamente o primeiro facto da 
persistência dos caracteres ethnicos do Celtibero; um facto 
análogo, mas ainda de uma forma mais abstracta se dá com 
o dominio romano, em que os caracteres exteriores da cir 
vilisação, a lingua, o direito, a administração e a cultura 
foram recebidos pelos povos peninsulares, sem que existis- 
sem famílias romanas na península mas sim colonos sub* 
mettidos ao império. Se vemos dò lado etbnico dar-se uma 
transformação constante nos povos ibéricos, adoptando a 
cultura céltica, phenicia, romana, wisigothica e árabe, o que 
prova o seu caracter eminentemente progressivo, pelo lado 
antropológico vemos appafecerem condições de persistên- 
cia e revivescência do .seu typo ibérico nos elementos scy- 
ticos dos Celtas, no turaniano do phenicio, no colonato ro- 
mano, nos alanos dos wisigodos e nos mouros dos árabes. 
Aqui podemos repetir com Paulo Broca, que os caracteres 
physicos persistem no Celtibero, e que estas repetidas con- 



1 Mem, d^Antropologie, t. i, p. 368. 
• « Ibid., p. 870. 



ALBXAHDi» HEftCULAHO 329 

dfçoes de revivescência fizeram com qae o Celtibero não se % 
esquecesse da sua origem. * Por consequência é no génio 
ethnico que se deve procurar a tendência separatista dos 
povos peninsulares» que é o caracter fundamentai da sua 
bistoria politica, e cujo conhecimento e disciplina consti- 
tuirá a forma da civiIísaç3o deGnitiva d'estes povos. 

Comparando os pequenos estados da península aos esta- 
dos independentes da Grécia, Strabão explica por esta causa 
a dorainaçíío dos Iberos por outros povos invasores: «Este 
mal, pois, actuou com mais intensidade entre os Iberos, 
porque ao seu caracter emprehendedor unem a desconfiança 
que têm uns para com os outros, e conlentando-se em fa- 
zerem-se invasores de propriedades alheias, e propriamente 
salteadores, atrevidos somente para pequenas emprezas, 
nenhuma cousa emprehendiam em grande, nao se tendo 
reunido em grandes communidades. Porque é certo que se 
conseguissem sustentar-se mutuamente, nem os Cartbagi* 
neses, nem antes d'elles os Tyrios, que invadiram a sua re- 
gião apresentando forças superiores, terjam podido domi- 
nal-os, como fizeram de uma grande parte. Nem depois dos 
Tyrios os Celtas, que slo' chamados Celtiberos e Berones, 
nem depois doestes o salteador Viriato, nem Sertório, nem 
nenhum outro intentaria nem conceberia a ambiciosa pre* 
tenção de dominai os. t' E explicando o génio separatista 
pela influencia do território, continua Strabão: «Porque nem 
a natureza do terreno è para reunir muitas cidades por ser 
estéril, e porque uma grande parte d'elle está fora de com- 
municação e sem civiHsação, nem tão pouco o modo^e vi- 



1 o íilostre antropologista ainda afflrma: «Ora a observacSo prova, qae as 
lingaa» se eilinguem sempre moi lentamente e que a maior parte doa povos da 
Europa occidental tem muitas vezes unidade de lingua, consertando sempre o 
j$9u typo a despeito mesmo dos crusamentos que eiperimentaram.» Ibidemy p. 
d83. 

2 SlrabSo, vers&o Cortês y Lopes, Dicdonario geographm y histórico de la 
Espêàa antiguay i, 104. , 



390 BI8T0RIA 90 BOMÁMTIBIfO SM POBTUCMLL 

'Yer, nem os costumes de toda a Ibéria são como os que se 
observam em toda a costa marítima do nosso mar, e assim 
n3o podem ser indicio de grande numero de ddades. Pois 
em geral, os que vivem em pequenos povoados costumam 
ser bravios, e n'este estado se acba a maior parte dos Ibe- 
ros; de modo que nem as próprias cidades suavisam os 
seus costumes a não ser com difficuldade, por isso que as 
montanhas da Ibéria e as suas muitas brenhas offei^ecem 
ensejo para se atacarem uns aos outros.» ^ Da sua falta de 
trabalho agrícola, falta Strabão referindo-se outra vez ao ge- 
pio indomável dos Iberos: «homens/que se criam sem pre- 
caver as necessidades^ antes viv^m pessimamente á maneira 
de feras attendendo só á necessidade presente; etc.» * 

No povo hespanhol persistem ainda hoje todos estes ca- 
racteres; a Índole de salteador, desenvolvida nas guerras 
contra os romanos, reappareceu na lucta contra os árabes, 
nas guerrilhas das guerras napoleónicas, e os cabecilhas 
como Viriato, reapparecem como o Cid, ou como os gene- 
raes carlistas. Â tendência separatista, explica profunda- 
mente o génio hespanhol, nas suas revoltas e pronuncia- 
mentos, e em todos os accidenteâ da sua historia nacional. 
Ainda persiste o costume das povoações isoladas, povoas 
ou aldeias y o 'despreso pelos trabalhos agrícolas, os. ódios 
locaés, e o descuido do futuro, como se vé pela máxima ou 
adagio popular: «Quem vier atraz que feche a porta.». Dos 
Iberos do norte, boje Bascos, diz Strabão: íipois aqui não 
só se diíFereDcíam por seu valor, senão também por suas 
crueldades, e por certa espécie de furor próprio das fe- 
ras.» ^ 

A persistência do espirito separatista é o caracter quasi 



1 Ibid., p. 113. 
2/6td., p. 114. 
3 IbH., p. lis. 



ÁX.EXA»NtíB HttBC0LANO S&l 

exdasivo da historia dos povos peninsulares, que osciila na 
diovimento de muficaçâo e desmembração. As raças que 
precederam os Romanos, como acabámos de notar, TÍviam 
em pequenas communidades, e pela acção administrativa e 
organisaçSo do colonato, os Romanos deram-lhe a sua pri«* 
meira unificação politica, cuja tradição se conservou na cul- 
tura hispano-romana, que debalde se tem querido conver- 
ter em raça. Circumstancias especiaes determinaram a m- 
vasao germânica da península, e a Hespantia desmembrasse 
outra vez em estados autouòmos dos Vândalos, Suevos e 
Alanos. Operasse outra vez uma segunda unificação (6*42- 
649) pela acção preponderante dos Godos, mas resistem a 
essa força unificadora os Asturos^ Gantabros e os Bascos, 
povos em quem persistia mais puro o caracter etbnico pri- 
mitivo, sendo ^ox isso os primeiros que resistiram aos Ara- 
bes, quando estes no fim do século vu determinaram uma 
nova desmembração da península. Gomo semitas, os Árabes» 
apesar de se assenhorearem profundamente da peninsula, 
nunca poderam attingir a unificação política, desniembran- 
do-se nos reinos de Toledo, Badajoz, Sevilha, Granada, Má- 
laga, Almeria, Murcía, Valência, Dehia e Baleares. Gomeça 
a unificaçãa outra vez com o esfoi^ço da reconquista christi 
ou neo-gothica, coexistindo com a desmembração das As» 
tupias e reino de Leão, ligando a Galliza, Portugal e Gas- - 
tella, e Navarra com o AragSo, prevalecendo a desmem- 
bração, no reino de GasteUa, no de Aragão, no de Portugal, 
no condado de Galliza e no condado de Barcelona. Um sys- 
tema natural se ia" estabelecer nas Confederações, cõnlo a 
do século XI entre Leão, Navarra e Gastelia, e no século xni 
etiíre Aragão, GasteUa e Naiarra, mas appareceram as am- 
biçCes monarchicas e as preoccupações dynasticas, pertur- 
bando a organisação racional dos estados da península. As 
ambições monarchicas, sob a férma de conquista fizeram 
unificações violentas, como a de Sancho Magno, jungindo a 



88) BI8T0BIÁ DO SOMÁHTIfllO SM POHTUOAL 

a Navarra, Castella e parle de Leão; como a de Affonso vii, 
fundindo Caslella, Leio, Aragão, Navarra ftos condados de 
Barcelona, Urgel, Foix, Palias e Montpellier; e como Fer- 
nando com a Castella, Leão e Galliza, Zamora e Toro. As 
preoccnpações dynasticas, pelas formas da vontade testa- 
mentária^ desmembravam outra vez os povos uniGcados, como 
vemos nos mesmos monarchas citados; Sancho Magno faz 
em Í035 a desmembração deixando a Navarra ao seu pri- 
mogénito, Le!So e condado de Castella ao segundo filho, 
Aragão ao terceiro, o senhorio de Sobrarbe e Ribagorza ao 
quarto. Affonso vii deixa Castella a Sancho, Leão a Fer- 
nando, Aragão é repartido por Jayme Conquistador entre 
seus dois filhos. Fernando deixa Castella ao primogénito 
Sancho, Leão a Affonso, Galliza a Garcia, Zamora a Urraca» 
Toro a Elvira. As usurpações monarchica# entre irmãos 
também foram uma causa transitória de unificação, como 
as usurpações de Sancho (Castella, Leão, Galliza, Toro, Za- 
mora) unificadas em seu irmão Affonso até Affonso vii. 
(4157) Em quanto os estados peninsulares fiuctuaram n'esta 
oscillação politica de unificação e desmembração, Portugal 
attingiu muito mais cedo as suas condições da estabilidade; 
deve attribur-se isto não só á preponderância de elemento 
árico em Portugal facilmente aggregado ao Celta marítimo, 
^ como.á circumstancia do meio histórico, (situação separa- 
tista até Fernando e Isabel) como ao estimulo da proximi- 
dade do mar, que pelas navegações nos trouxe as condições 
económicas da independência nacional. Eis aqui o facto ca- 
pital da vida histórica do povo portuguez; todo o trabalha 
deve visar a pôr em relevo este grande destino em quanto 
á consciência nacional, e a deduzir a necessidade da funda- 
ção do Federalismo peninsular emqoanto á constituição po- 
litica. Toda a erudição que não vise a uma den^nstração 
è estéril; a mediocridade fortaleee-se no methodo exclusivo 
do nSiil praeter facta^ bomo se os factos desconnexos po- 



▲UBZÁHDEB HBBCULIHO 833 

dessem perceber-se toais do que as lettras baralhadas de 
um alphabeto. Mas o rigorismo do3 factos não obsta a que 
se bSo erre on na particularidade ou no ponto de vista; 
é fácil o exempliScar estes dois casos em Herculano: acerca 
do rescripto pontiOcio que legitimou o casamento de D. 
Âffonso III com D. Beatriz tendo ainda viva sua mulher 
a condessa Malhilde, diz Herculano: «Do mesmo modo que 
succede com outros documentos capitães para a historia 
d'este reinado, ignora-se a existência doeste rescripto ponti- 
ficio que deferiu á supplica, apenas sabemos indirectamente 
que ella não foi baldada.» ^ Estes documentos estavam pu- 
blicados pelo visconde da Carreira, * sem comtudo o histo- 
riadob querer corrigir o seu texto. Se Herculano, na direc- 
ção dos Monumentos históricos da Academia empregasse a 
sua extraordinária influencia para a acquisição do Cancio- 
neiro da Yaticana, aí acharia grandes elementos para a his- 
toria da conjuração aristocrática que deu o throno a D. Âf- 
fonso III. £m quanto aos erros de ponto de vista indicaremos 
a comprehensão da vida politica do Terceiro Estado, tão 
necessária para a intelligencia das Cortes portuguezas; diz 
Herculano: «Aqui observamos somente que em França data 
do reinado de S. Luiz a convocação dos delegados burgue- 
zes aos parlamentos, e a modificação do direito de revia- 
dieta ou guerra privada (Guizot, CivUis. en Pranc.^ lect. 44 . 
e 45) e qne estes factos de grande significação social, pos- 
toque então de menos importância pratica, se repetem em 
Portugal como reflexos no reinado de D. Affonso iii.» ^ Ha 
aqui a distinguir dois factos fundamentaes, que Herculano 
confunde; já no tempo de Carlos Magno e seus successores 
se convocavam os estados, costume que se obliterou com 



í Bi$t. de Portugal, t. m, p. 73. (2.* ed ) ' 

2 GoHecç. n> xlti, BollaB : Qui celêêtia iimul, de xiii das kál* Jvlii, «on. 
II., e In nosiro proposuUHt, iii Nod. Julii, ann. ii (1262.) 
' Hiêi. de Portugal, t. iii, p. 82 (ed. 2.*) 



334 HISTOSIÁ DO BOMANTIBMO BM P<mTnaAL 

a preponderância do regimen feudal; no tempo de S. Luiz 
o costume de chamar i pariidpação do governo a nobreza, 
o clero e o terceiro estado avivava-se segundo o augmento 
do poder real, mas o^sas três ordens era4D convocadas se- 
paradamente e era em separada que cada uma emittia o seu 
voto. Â ideia da convocação simultânea dos três estados» 
reunidos eiq commum para deliberarem, e constituindo esse 
poder novo dos Estados geraes, pertence a Philippe o Bello, 
(4302)^ que encetou esta via politica, até então desconhe- 
cida nas monarchias, mas com origens no malhtm germ2(- 
nico. Se as classes servas que se tornaram povo surgissem 
á vida politica por se elevarem da escravidão, este facto ac- 
cidental da convocação simultânea dos Estados geraes fica- 
ria infecundo para a liberdade moderna; como as classes 
servas eram os homens4ivres germânicos decaídos pelo de- 
senvolvimento das instituições feudaes, desde que a realeza 
se separou do feudalismo pelo facto da hereditariedade, ha- 
via apoiar-se n^estas classes restituindo-lhes as suas anti- 
gas garantias. É isto o que nos explica a evolução das in- 
stituições modernas; em um ensaio de Herculano, Do es- 
tado das classes servas na Península desde o VII até ao XII 
século,^ insiste em querer. achar n'essa situação servil uma 
modificação benefíca da escravidão. No conflicto da realeza 
com o poder senhorial, fund.mdo-se os cadastros da no- 
breza, chamados Líwroà de Linhagens, unicamente para sub- 
melter essa classe altiva d nobreza do foro dèel-rei, viu Heiv 
culano n'esse fado apenas um. meio de obstar aos impedi- 
mentos canónicos. No estudo das Classes servas, refere-se 
Herculano, em i837, á sua situação desalentada, dizendp 
que só conhece abnegação e zelo pela sciencia «aquelle que 
n*esse duro lavor deixou passar os melhores dias da sua 

1 BMbard, Droi7 mumcipal au Man^nr-Age, 6 BooUric, La France wu$ fÀs- 
< Ânnoês das Scientíat ê das Ultras ^ t. i, p. 3S1, (1857). 



ALBXASDEB HSBCULAHO 335 

vida, sem saber o que a mocidade tem de gozos, a edade 
viril de ambições, e a velhice de vaidades, e cuja recom- 
pensa uuica será escrever-llie na campa: Aqui dorme um 
homem que conquistou para a grande mestra do futuro, para 
a Historia, algumas importantes verdades.^ ^ Herculano pro- 
jectou este seu epitaphio em 1857, no vi^or jdos (Qua- 
renta e sete annos ; se tivesse renovado o methodo da eru- 
dição histórica como um Savigny, como um Jacob Grimm, 
compeiíam-ihe essas palavras. Mas que verdades históricas 
achou» mesmo com relação a este pequeno povo? O seu 
cbristianismo e o seu monarchismo lhe perturbaram sem- 
pre a boa vontade do critério. Os escriptores estrangeiros 
reconhecendolhe a sua probidade scientiQca, consideram-no 
apenas como o primeiro producto das instituições livres ini- 
ciadas em um paiz morto. 

Na revista The Dublin Unicersity Magazine, n.° 160, de 
fevereiro de 1847, a Historia de Portugal de Herculano foi 
perfeitamente comprehendida ; atlende-se ai em primeiro 
logar á influencia das instituições liberaes sobreoescriptor: 
cQuando reflectimos que é somente ha poucos annos que 
existe alguma cousa que se a^similhe á liberdade de fallar 
ou de escrever, o apparecimenlo de uma obra tal como a 
do sr. Herculano é uma prova da aptidão dos seus com- 
patriotas para tomar parte no progresso litterario e scien- 
tiflco da moderna Europa, e que, não obstante a tarefa e 
o êxito átè hoje infeliz das suas instituições liberaes, o são 
juizo e as opiniões illustradas vão fazendo progressos.» O 
critico inglez referiase aqui aos grandes esforços dispendi- 
dos em implantar as instituições liberaes em 1820, 1826, 
1829 e 1832, e aos erros poljticos da.monarchia constitu- 
cional, que pela teodeocia para o absolutismo provocou o 
movimento de 1836, as reacções de 18 i2, a revolução de 

1 /6td., p. 587 (pepraâocíiio aos OpBscubt.) 



336 HISTORIA DO BOXANTISMO BU PORTUGAL 

1846 e a intervenção armada de 1847. Efifectivamente tudo 
isto atrasava a manifestação da intelligencia portugueza;.e 
a obra de Herculano, tinha aos olhos da Europa o grande 
valor de demonstrar como qualquer cousa que se assimi- 
Ibe á liberdade de fallar ou escrever 4ransforma os espiri- 
tos. No juízo da citada revista acham-se estas phrases fun- 
damentaes: «nós reputamos o sr. Herculano inquestiona- 
velmente o primeiro dos historiadores portuguezes; não 
esquecendo nunca de que é inferior a Barros em energia e 
eloquência, e até talvez lhe nao seja superior em profundi- 
dade de saber ...» Isto chocoa profundamente o escriptor, 
mas era verdade. 

Embora escripta com o critério scientifico, a Historia de 
Portugal íicou atrasada por incúria do seu auctor; (1846- 
1877) n^essa obra nada se falia sobre a antiguidade pre- 
histórica da península, nem nos bellos trabalhos sobre os 
Iberos publicados nas Memorias da Academia de Yíenna, 
nem sobre a onomatología pheoicia e céltica doeste territó- 
rio, tão importantes para determinar as raças que o habi- 
taram; não quiz aproveitar-se do Corpo das Inscripções la- 
tinas pubUcado por Húbner, que derramam tanta luz sobre 
as divisões administrativas da península, nem tão pouco dos 
grandes trabalhos de Waitz sobre os povos germânicos e 
sua constituição social. Na Grammatica de Diez teria achado 
a verdade para ratificar a sua ideia sobre a formação dos 
dialectos românicos fallados actualmente em Portugal e Hes- 
panha. A Historia de Portugal ficou stereotypica ; a scién- 
cia progrediu, e ella ficou como prova do estacionamento 
de um espirito. • 

Pelo seu espirito catholico e pela falta de um critério po- 
sitivo da historia, Herculano não podia julgar com verdade 
ás grandes épocas da civiUsação humana d'onde a nossa pe* 
quena nacionalidade ^ortugueza surgira. Citamos um exem- 
plo com relação á decadência romana e invasões germani- 



AIXSLÃSÚIKM HBlBCtlLAllO 397 

4 

cas: fFoi úm mundo qoé desabou com toda a civilisa^So 
^^figa, reisumída e cootída n'eUe^ Deas soltou a torrente 
das novas migrações, 6' estas» descido do septemtrião paf a 
o Meio Bia da Europav renovaram qnasi inteiramente as 
sociedades decrépitas, depois de demolirem e de arrasarem 
qoasi tudo o que representava o passado. D'aqueUarev.(v 
loção immensa nasceram as nações modernas.» (Historia de 
Portugal, lutròd.) 

£ste^ período representa um systema completo de com* 
prefaensão histórica. Em primeiro logai* a rhetorica falsa s& 
procura o grandioso, sem se preocoopar de qoe os mpndos. 
não desabam, a que uma sociedade é um conjuncto moral, 
que se não pôde equiparar a um^ aggregado material, se- 
não como uma metáphora, mas nunca em metápbora de m&- 
táphora; Essa noção de Bossuet, em que nos apparece Deus 
' soltando a torrente das invasões è boa para o púlpito e não 
para a historia, onde o pensador procura as causas com- 
plexas e intimamente reladoáadaj? dos movimentos que se 
operam nas sociedades humanas. Por ultimo, a civilisação 
romana não se ex^ioguiu, porque continuou a escrever-se 
em latim, e os códigos romanqs continuaram a ficar em vi-, 
gor; * se essa civilisação soffreu foi mais por causa jdochris* 
tiánismo, que desviou o corso da actividade humana par^ 
um estéril mysiicismO;^ do que das próprias invasões J)arba- 
ra^, fánatisadas por esse mesmo christianismo. 



1 Dii admirafeimento S»TÍgDy) e isto revela o >€ríterio!da «eo(ã hitt<nieaf 
nèo coHfrttiModido por EerciilaDd: «A^ftteBtâo da duradb) do diroSio romafiO" 
trai còmsigo a aeceasidade de examinar a duraçio do próprio povo em iidob 
e para qvom o -direito eaisU», e nós nio podenofl admittir a peraiiteacia do 
direito aon cooetalar previaaMale a petsieteacia da aafiiiMralidado o da admi- 
oiilra^io romamatr Se a nação ramaBa doeappavecea ooK as ^rainas de império , 
do Ooíeideiito, nio havoria/Bem oeceseidade aemposfibilidade.dt eaoBertat a 
legisiação i^ana. O moeiBO aconteoeria pooeo naii ou meiíoe le os véicidofr 
ttreesem perdido a líbeodade 'pesaeal o« a eita ial^il>a propsiodado; aonfaiiiBar 
rasão de existência para orna legtalaçSa. een objecto* -^-oáiflataO} ^oe apcni»- 
steocia da legislação preeuppOe a persistência da orgaaiaaçio {«dieiaria, lAo 

22 



S38 HISTOBIA DO BOlUaritKO BX POBTUOAL 

Na sua obra Estudos SQb^ne os Bárbaros e a Edade Media, 
Uttrè ucicamento dirigido pelo critério da contiauidade hisr 
torica cbega a um resultado opposto ao de Herculano, que 
acreditava na diBiuoUção da sociedade antiga pelos invaso- 
res germânicos, e na possibilidade d'esses povos bárbaros 
aiqda iaventarem formas sociaes mais perfeitas. Littré resta- 
belece a correlação das phases da sociedade nooderha de- 
duzindo-a dos elementos romanos: «Se a vida do império 
n3o fosse truncada pelos bárbaros, se, depois do desenvol- 
vimeato religioso e do cbrislianismo houvesse o tempo bas- 
tante para operar-se um desenvolvimento politico, póde-se 
affirmar que elle se effectuaria pelos ricos, pelos poderosos, 
pelo3 aristocratas, que .teriam. reclamado e exigido direitos 
políticos e intervençlo no governo. Assim uma solução feu- 
dal estava: na natureza das cousas mais do que se tende a 
acreditar; e bem longe de espantarmo-nos da instituição 
do feudalismo é preciso ver n'eUa o producto de condições 
officiaes desde longo tempo determinadas. Isto é tao ver- 
dadeiro, que esta solução aao prejudicou em cousa alguma 
a evolução total; porque o f endemismo produziu a communa, 
e por sua vez a communa produziu a democracia.i^ ^ Não 
se pôde pôr com mais claresa as duas sociedades romana 
e germânica em relação histórica; na primeira o deseavol- 
vimento da grande propriedade (latifundia pejrdidere Ita* 
liam) formava o gérmen de. um novo poder senhorial, cuja 

sendo pos8Í?el admittir dos reinos da conquista a administraçSo da lei ro- 
mana sem joiíes e^ribanaes' romanos.» Estes príooipios, qne foram applieados 
fiódamentalmente nos grandes trabaU^)' de Savigiiy^. respondem aos que pre- 
tefidOB' pintar a Edade Media eomo -líma éra de -^cadeoeia, attriboindo á Phi- 
loéopliia poeitifa a 'interpretação* de am progresso, como oeceisidade de provar 
& doutrina da cootinuidftde histórica* fierculano imitava apenas o proeesso^da 
escola Aislorica 4ie Savtgny no- ested^^das institQiçdes soctaes, mas sem com* 
psekeider o seo espirito, qoe%ra • interpretar os factos pela lei de cootimii* 
dada; O <confiieto.«nlre4i escote kittmca {^vtignj) ^afeêeolàfhUatiqtkiea (Gans) 
acabiMi dêsde jqB»:a meta|iii|é«Ba. foi ap«ada pòr Angntt» Conste completando a 
eymiNsesdfotifioa pela creaçfto da Sociologia. .( . 
». Op. cit»j p, BU. í.« ed. * 



ÁLSXAHDSB BSBCnhÀXO ' 3S9 

evolução foi ÍDlerrompida pelas invasões germânicas ; mas a 
conquista conservou o systema da grande propriedade, e 
consequentemente a reacção das classes servas contra o feu- 
dalismo, a sua organisaçSo administrativa em communas e 
o reconhecimento do seu poder politico em democracia. 
Herculano nada- viu d'esta evolução, porque no seu estudo 
sobre As Classes servas da Península, julgava-as como es- 
cravos que se elevaram, em vez de achar o facto positivo 
da decadência dos homens4ivres durante o desenvolvimento 
do feudalismo. 

Com prineipios tão falsos de critério histórico como è que 
Herculano havia de considerar a invasão árabe da península, 
a civilisação d'esla grande raça semítica, e as monstruosi- 
dades e devastações praticadas pela reconquista cbristã, se- 
não como cousas explicáveis por um providencialismo su- 
perior aos destinos humanos. Por isso a^Historia de Portu- 
gal derivà-se da cbronica^ conservando o seu espirito nos 
pequenos iactos accidentaes das biographias dos monar- 
chás, e quando pretende entrar no funccionalismo das insti- 
tuições sociaes não sabe achar o seu nexo e fiea na mo- 
nographia parlicu^rista em que os factos sem luz se tor- 
nam quasi illegiveis. Uma vez perdido o ponsamenlo da 
Historia, isto- è, não achado o principio philosophico da 
Historia de Portugal, continuar seria uma violência por as- 
sim dizer automática ; Herculano obedeceu a essa falia do 
estimulo que vem de um pensamento, e deixou«»se licar na 
inércia, abandonando a Historia de Portugal como um edi- 
ficio interrompido não pela falta de materfal mas pela falta 
de destino. ' 

Não se conhecia em Portugal a critica histórica, quando 
Herculano emprehendeu a sua grande obra; a historia na- 
cional baseava^se sobre um certo numero de tradições claus- 
traes, sem a poesia da elaboração auonyma, e falseadas pe- 
los intuitos de um destino privilegiado reservado pela pro- 



340 mSTOBIA DO BOKAHTISMO SM POBTUGAL 

vidência a este poro. Fiados no perstigio d' estas tradições- 
qoe já no meado do século xvi eram conhecidas, como o 
Sonho úo Quinto Imperio^ do Mundo, e que o padre Vieira 
tentou explorar na época da Restauração de 4640, os po* 
deres públicos muitas vezes abandonaram a defeza da na- 
ção á eventualidade dos acontecimentos, seguros de que a 
providencia manteria por meios divinos o nosso delStino no- 
futuro da humanidade.. Quando o eiercito francez oceupava 
já o território portuguez, tendo o seu quartel general em 
Abrantes, na corte de D. João vi estava tudo como d'antes; 
como disse o proloquio popular, ignorava-se que estavamos^ 
já envoltos na catastrophe. As tradições mais queridas dos^ 
eruditos d'este paiz obcecado pelo catholicismo, eram a pa- 
rodia do lábaro de Constantino ou o apparecimento de Christo- 
a AGíonso Henriques assegurando-lhe a victoria na batalha 
de Ourique, a fidelidade de Martim de Freitas, o pacto das 
cortes de Lamego, espécie de Carta Magna dos portugue- 
zes, e uma invencível credulidade na vinda deJ). Sebas-^ 
tião da ilha encantada, como Arthur da ilha de Avalon; esta 
ultima, sobretudo, é que tinha profundas ramificações po- 
pulares por se ligar aos restos mysticos^o culto solar da 
polytheismo indo-europeu. Reagindo contra este estado men- 
tal; Herculano fortaleceu-se na concepção moderna consi- 
derando a historia «como matéria de sciencia,» mas e^ag-^ 
gerou a severidade da critica repellindo incondicionalmente- 
as tradições como falsidades. Diz elle com uma certa al- 
tura: «Não ignoro o risco da situação em que me coUoquei, 
Ha muitos para quem os séculos legitimam e «antificam todo- 
o género de fabulas, como legitimam e santificam todo as 
dynastias nascidas de uma usurpação. Aos olhos ã'estes, as 
cãs da mentira são ^também respeitáveis. A critica, dizem 
elles, mata a poesia das^antigas eras, como se a poesia de 
qualquer época estivesse nas patranhas mui posteriormente 
inventadas. São excellentes talvez as suas intenções; nãa 



AUtJÁXimB HfiBC1JX.AK0 341 

*sei se o mesmo se poderá dizer dá sua intelligencia. Para 
«estes o meu livro será um grande escan^lo» emelbor fora 
deixarem de o ler.» (BisL, i, p. ix.) Herculaao previu a tem- 
pestade, porque coubecia o horisonte íutellectual portuguea ; 
<}iz elle: «Conto com as refutações, conto, atè, com as in- 
jurias.» Assim aconteceu; veiu o volume a publico, a seve- 
ridade dò methodo fez lêl*o com interesse, nao encontra- 
ram n'elle a narração do apparecimentò de Ghristo a Affonso 
Henriques, não acharam dramatisada a lenda gratuita de 
Martim de Freitas, não. viram acatadas com auctoridade le- 
gal as Cortes de Lamego, que os partidários do absolutis- 
mo miguelíno consideraram o palladio a que não' resistia o 
constitucionalismo de O. Pedro iv, e insurgiram-se contra 
o escriptor e contra o livro. Choveram opúsculos por vários 
padres e eruditos monacaes* do theor e forma que Her- 
culano definira no prologo da sua obra: «Muitas destas re- 
futações, já o prevejo, hão-de estribar-se na opinião de his- 
toriadores e antiquários, ertuUtos^ iUusires, gravíssimos, pro-s 
fundos, e com todas as mais classificações que se costu- 
mam aggregar ao nome de qualquer escriptor moderno, 
guando, na falta de monumentos ou diplomas legítimos se 
querem sustentar opiniões absurdas ou infundadas.» (HisL, 
I, p. X.) Para que citar essa folhetada estéril e illegivel, se 
ella representa o atraso dos estudos históricos em Portu- 
lugal?^ Os pregadores serviram-se do púlpito lançando á 

* 

1 Raczynski, que escrevia em 1847, do seu Diccionario histórico artistko de 
Portugalf diz: i Bastantes pessoas accusam o sr. Herculano de ter procurado 
diminuir a gloria de Portugal, porque pretende que a batalha de Ourique nfto 
foi uma grande batalha ; porque acha que a lingua portogueza deriva do la- 
tim ; porque elimina os sonhos e milagres, e não adopta, a propósito de Egas 
HorIz, as chrobicas e a ft'adíçfto.»'Eram estes os uoicos tópicos da accusaç&o 
<;ontra a Hiátoria de Herculano ; {i resposta era continuar a applicar o mesmo 
critério scientifíco, por isso que Raczyoski considerava o primeiro volume como 
«umi exemplo de critica sil, de boa fé, e de applicaçfio.» 

2 Pôde verse no Diccionario de looocencio essa lista de folhetos que os cu- 
riosos coUígem 'Com sacrificío. No vol. iii dos Oputcúlos encontram-se os libei- 

. loa e tóplicas de Herculano, armados com om graode appar&to de patrolo|ta. 



342 mBTpBIÂ DO BONAJmBMO BM PORTUGAL 

execração publica o nome de Herculano, que veiu pouco 
depois a ter a gloria de ser inscrípto como livre pensador pela 
Congregação de Index. Foi á melhor recommendaçSo para 
Herculano n'este recanto da península ser recebido como 
egual na phalange dos homens de sciencia da Enropa. Hercu- 
lano era catholico, e encommodou^se com essa lucta clerical^ 
como se vê pelos seus virulentos opúsculos de réplica Eu 
e o 'Clero, e a Soíemnia verba. De facto esse encommoda 
representava ainda uma subserviência inteilectual, e ao 
mesmo tempo uma crise da consciência ; Herculano fechou- 
se em um chrístianismo tradicional» que para elle foi mo- 
ral e pbllosophia da historia, foi. poesia e foi sciencia, fot 
liberdade e emancipação racionalista. Esta crise, levando-o 
a atacar a egreja no Concilio de Trento, determinou uma 
tendência theologica nas suas questões históricas; assim foi 
n'esse espirito de combate anti-clerical que historiou a parte 
diplomática das Origens da Inquisição em Poftugaiy que 
desvendou ao paiz a torpeza da Concordata de S 4 de julho 
de 1854 sobre o Padroado do Oriente, que luctou contra a 
iniroducçSo das irmSs de caridade francezâs no seu Mani- 
festo ao partido liberal, e que por ultio mredigíu os artigos 
sobre o Casamento civil e os Opúsculos com que os funda- 
menta. Foram os* absolutistas que fizeram Herculano libe- 
ral; o mesmo se pôde dizer do clericalismo, que pela sua 
propaganda estúpida contra o sensato historiador, o tor- 
naram dô ferrenho catholico em christSo semi-deista. 

Podia-se applicar, o verso de Virgílio á polemica levan-- 
tada pelos, padres contra o auctor da Historia de ^Portugal: 
Tantae ne animis celestibus iraet Gabe por ventura tanta có- 
lera em ânimos sagrados? Herculano fizera tão pouco. Atem 
d'essas poucas palavras já. citadas do prologo, apenas es- 
creveu nas notas da obra: «Discutir todas as fabulas, que 
áe prendem á jornada de Ourique fora processo infinito. A 
^pparição de Ghristo ao príncipe antes da batalha estribasse 



ALBZÁin»S BSBOULAIIO 848 

tom um documento, tio mal forjado, que o menos instruído 
álumno de diplomática o regeitará como fòlso ao primeiro 
aspecto (o que facilmente poderá qualquer veriGcar no Ar- 
cbivo nacional; onde hoje se acha.) Parece, na verdade im- 
possivei que tSo grosseira falsidade iseryisse de assumpto 
a discussões graves.» (Hist., i, p. 486.) Das Cortes de La- 
mego diz de passagem: c Faremos a devida justiça a esta 
invenção de alguns falsarios do século xvi, quando tratar- 
mos da historia das instituições e legislação do berço da 
monarchia.» (Ib.J Padres e miguelistas reagiram com força 
de impropérios, e Herculano uma vez desviado do seu tra* 
balbo e perturbado, não continuou a publicação da Hiêtoria 
de Portugal; foi esta posiçlo que o tornou sympathíco ao 
paiz inteiro, e foi assim que acabou de còncentrar-se n'el)e 
o grande poder espiritual de que se achou espontaneamente 
investido. O odíum theologicum, quê dirigiu a polemica a fa- 
vor do Milagre de Ourique^ ainda latejava ao fim de vinte 
annos, como se viu nas palavras do Siglo futuro, de MaQnd, 
por occasiíio da sua morte. 

A severidade dá critica histórica n3o exclue uma clara 
interpretação do fundo de realidade que existe nas lendas 
e tradições; Herculano exaggerou essa severidade com pre- 
juízo do effeito pittoresco que falta na aridez das suas dis- 
cussões e argumentações innumeras. A lenda de Egas Mo- 
niz, de Martim de Freitas, são accidentalmente altudidas, 
sem lhes investigar as fontes mais remotas, sém interpre- 
tar as vestígios symbolicos; da primeira, remonta á redac- 
ção mais antiga do Livro velho das Linhagens^ do século 
XIV, da segunda redul-a ao mytho da lealdade dos antigos 
cavalleiros. Existem tradições análogas na historia dó ou- 
tros paizes, que merecem ser comparadas. Se Herculano 
proseguiàse na sua historia, eliminaria outras tradições que 
chegaram a influir profundamente na forma da nossa acti- 
vidade histórica ; assim a crença nas Ilhas encantadas oa 



344 HI8T0BU. SO BQlUHTtflWO BM rOBTUOAL 

I 

encobertas» qoe apparec» ^m tafitas^doaçõesi regias, ft^ um 
dos grandes estimoios das Xtf>ssas eiEpedições marítimas; a 
iQDda do Preste Joãa^ isto é', da existeaeia de. um reino 
dbírifrtão na Ásia» foi lambem um dos motores que levaranot 
os nossos viajantes do século xya emprehendereín ã em- 
preza do caminho da índia. 

. Foi JaooJb Gfimoat que oom a- sua extraordinária erudição 
e iptuiçfio poética comprebendeu ó quanto^ ba de verdade 
nas tradio^s; bastava a nossa actividade histórica ter^tdo 
determinada por algumas d'e$sas lendas tradieionaes para 
njerecerem ser discutidas. Apesar de reconhecer e demon- 
strar a falsidade das Cortes de Lamego, Herculano promet- 
teu disctttil-as porque' desde o século xvu' foram a base ef- 
leetiva da GonstituiçSo politica de Portugal. NVste caso se 
acharam muitas lendas^ forjadas, mas que chegaram a exer* 
cer acfião sobre o espirito publico. Acceitar as tradições 
como historia é um syn&retisn»>, da Incapacidade menta); 
rèjeital-as por maravHhosas .e ^embusteiras é uma critica 
estreita sem uma lúcida compreben^ão phHosopbica. 

Com relação ao caracter critico úsl Historia de Portugal, 
onde aSa tradições e as lendas são totalmente eliminadas 
e nem. sequer discutidas» podemos appfiicar o seguinte pen- 
samento da Uttré: «A lenda nada tira á dignidade da 
historiai com toda a certesa; e mesmo, para quem a sabe 
apreciar, ella é uma parte access^ria sem duvida, mas im- 
portante. Sem a lenda, o historiador não pódé re^esea- 
tar nem o asf^ecto moraL nem as concepções, nem aseren- 
ças, nem o ideal de uma época antiga; oom a condição 
porém que a não^.tomará por uma bistoria reaU mas. por 
uma historia íicticia que* diz respeito aos sentimentos e ás 
ideias, não aos factos.» * . 

Herculano viu . discutida ineptámeâte a sua Historia de 

. ■ • '• ' ' ' 

^ Éiudé» iur Us Barbar 06 j ^. \69. L . . . 



ALmCANDBE HBRCULANO t^45 

Partugal, e sentia qoe a sua actividade litteraria desde 1836 
não exercia acção alguma sobre o espirito publico, apesar 
de ser profundamente admirado. Em 4851 quebrou o seu 
protesto de 18ií5, em que se declarara permanecer na «triste 
tranquUlidade de incrédulo politico f» ó que se passava em 
Acoita de Herculano era tão lamentável, que elle escrevia em 
24 de julho de 1851: <iEm civiiisação estamos dois furos 
abaixo da Turquia e outros tantos acima dos Hottentotes. 
Agitâmo-nos no circulo estreito de revoluções incessantes 
e estéreis; a legalidade tornou-se um impossível, a acção 
governativa um problema insolúvel.» Herculano, que em 
1836 se decidira sinceramente contra a soberania nacional 
pela Carta outorgada, em 1851 reconheceu que linha sido 
ludibriada a sua boa fé; o cartismo transformára-se na vio- 
lência pessoal do cabralismo: «facção saída do partido Car- 
tista, e que ainda hojef conserva, aviltando-o, esse nome 
qoe já leve alguma gloria.» * No prologo da ultima edição 
da Voz do Propheta, Herculano faz a historia d'este ludi- 
brio, a que succedeu um outro, que decidiu o seu rompi- 
mento definitivo com a politica. Herculano acompanhou Sal- 
fiha no primeiro pensamento da Regeneração, mas descobriu 
logo a perfldia d'esse movimento. 

Na lucla contra a restauração subrepticia do governo ca- 
bralisla identificado com o poder pessoal de D. Maria ii, 
restauração que se fez a despeito dos lamantaveis aconte- 
cimentos de 1847, o Duque de Saldanha foi o chefe do mo- 
vimento liberal que venceu e tomou posse da situação do 
paiz em 1851, com o nome de Regeneração. N'este anno 
íandou o professor João de Andrade Corvo o jornal politico 
O Paiz, no qual Herculano teve uma»collaboração activa; 
appareceu o primeiro numero em 23 de julho, com um pro- 
gramma negativo, em que apparecem algumas das ideias 

1 o Paiz, U de julho de 1851. « 



343 ^ USTQIUA DO B0MAMTI6U0 EX POBTUOAL 

exclusivas de Herculano: nao quer a centralísação adpií- 
nistrativa, nem uma exclusiva acção executiva nos minis- 
tros, nem contractadores dos rendimentos públicos, cujos 
privilégios e corpo fiscal são um estado no estado, nem o 
excesso do funccionalísmo, nem o abandono do Padroado 
portuguez do Oriente, etc. Os artigos políticos de Hercu- 
lano conheçem-se materialmente pelos longos peHodos cheios 
de incidentes, pela polemica imprecativa e pelo desvaneci- 
mento da erudição histórica, na forma de dissertação pe- 
zada. Âcham-se ali paginas preciosas para a historia poli- 
tica desde a Revolução de Setembro de 1836 atè á Rege- 
neração em 1851, em que Herculano se confessa desilludído 
de Saldanha, que ludibriou o paiz; foi esta a causa da ter- 
minação do jornal no fim d'este mesmo anno. A leitura dos 
artigos do Paiz revela-nos as doutrinas politicas que Her- 
culano professava ; algumas sendi^ profundamente justas 
estavam viciadas no seu espirito por preconceitos de edu- 
cação e de hábitos mentaes que as tornavam inefficazes. 
Herculano queria: i.^ A restauração das formas munici- 
paes, como meio de reagir coutra a centralisação adminis- 
trativa. Nada mais justo, e foi por este lado que ao mani- 
festar-se em Portugal o espirito republicano, Herculano foi 
por algum tempo considerado como um dos seus esteios. 
2.® Que as eleições fossem a representação das localidades, 
pela entrega do mandato a individualidades locaes. Era um 
vago presentimento da forma mais clara do mandato impe- 
rativo. 3.® Considerava o corpo diplomático como inútil, 
desde que na Europa acabaram os segredos de estado, e que 
a liberdade se fundava, quer nacional, quer internacional- 
mente no regimen da publicidade. 

A estes principios tão justos, que ás vezes dão alguma 
solidez á sua critica, alKa-lhes preconceitos invencíveis de 
um espirito desequilibrado. Em um artigo intitulado A 
Desegualdade e a Democmcia (Paiz, 30 de agosto de 1851) 



ALBXAHDUB KEBCULAHO 



347 



sojsteiita como ineiequivel a egualdade politica, coosida- 
rando as doutrinas democráticas como utopias inâividuaes, 
censurando como de vistas sem alcance as doutrinas de 
Tocqueville. Mais tarde, no prologo á Voz do Propheta Her- 
culano examinou outra vez o que era a Democracia, e so- 
bre vinte e quatro annos de reflexão concluiu que era a la- 
droeira. Outra ideia deprimente, e corollario do principio 
anterior, era : que a Monarchia era a única condição de or- 
dem e de progresso para Portugal, e que nas differentes 
revoluções observara sempre a identiflcação do povo com 
a causa do throno. Herculano tirou partido doesta afiQrma- 
ção atrasadora, vivendo encostado ao paço desde 1839, e 
pelas suas sympathias pessoaes com D. Fernando e D. Pe- 
dro v, podemos consideral-a como uma noção pratica para 
elle, mas não com valor theorico. Mas, peor ainda do que 
a negação da Democracia e do que a apotbeose da Monar- 
chia, é a sua consagração constante da causa da religião, 
que elle considerava como base essencial para refundir a 
geração futura, para educar o povo e para regenerar o 
destino da nacionalidade. N'este campo foi estabelecendo 
uma divisão entre o Christianismo e o Catholicismo, entre 
o clero opulento e os parochos ruraes, enlevando-se em uma 
idealisação da confraternidade evangélica, considerando «a 
Civilisação como a forma profana do Gbristianismo,» *■ e fa- 
zendo consistir a actividade futura da humanidade na reli- 
giosidade. Estas ideias, que propaga nos primeiros annos da 
redacção do Panorama, em 1851 chegaram a actuar mais 
intimamente no seu espirito, porque anaiysando o estado 
de decadência da instrucção popular propõe como meio de 
elevação do nível intellectual ^padres virtuosos que propa- 
guem os princípios suaves e eminentemente liberaes da verda* 
deira religião. j^ ^ Com o tempo o seu espirito retrocedia; e 

1 o Clero PortuQueZf p. 3. 

^ O Paiz, a.» 84, (1851.) . 



348 HI8T0BIÁ DO BOMAMTieitO BM PORTUGAL 

se a sua negação da Democracia em 1851 se tornoa para 
elle nos sacos dos ladrioes em 1873; se o seu amor da Mo- 
narcbia chega a manifestar-se em 1863 na confissão de que 
se D. Pedro v vivesse mais tempo se tornava para eUe ab- 
soluto, o mesmo phenomeno se dá com a preoccupaçao re- 
ligiosa, considerando em 1871 como questões vitaes do sé- 
culo XIX o Immaculatismo e o Infallibilismo, e tendo verda- 
deiro pezar de não encontrar no pequeno oratório do lar 
a delicia espiritual de uma crença nunca discutida. 

Em 1856 ainda lamenta a extincçâo das ordens monásti- 
cas: cA extincção, por exemplo, das ordens monásticas, ao 
mesmo tempo que despresava direitos legitimes, os que os 
monges tinham ás suas dotações, e condemnava á miséria 
muitos indivíduos innocentes e respeitáveis, atirava para o 
mercado ou desbaratava sem tino e sem previsão um enor- 
me cumulo de propriedade territorial, que, alienada por 
um syslema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais 
útil á prosperidade geral do que realmente foi.» Estudos so- 
bre algumas questões socic^s, principalmente relativas á Agri- 
cultura. (A Patria^n.'' 47, 1856.) 

«Movia á piedade a situação do clero regular; causava 
graves apprehensoes a desorganisação do secular;» Ib. 

Em um artigo publicado no Paiz em 7 de outubro de 
1851, propoz Herculano, que era um serviço patriótico o col- 
ligirem-se os diversos documentos históricos dispersos nas 
caniaras municipaes; nos cartórios das sés, coUegiadas e 
corporações extinctas, fazendo archivar na Torre do Tombo 
aquelles que interessassem á historia pátria. Esta sugestão 
foi attendida, e o próprio Herculano, cuja Historia de Par- 
tugal estava interrompida no seu terceiro volume desde 
1849, foi encarregado pelo governo áe visitar todos os ar- 
chivos do paiz, com plenos poderes para colligir e reclamar 
tudo o que entendesse a bem dos monumentos históricos. 
Durou a expedição scientifica de Herculano dois annos; na 



àJLBXÃSDSE HBBOUI^AKO 349 

Carta aos Eleitores de CitUra allnde a esta época, que po- 
deria ter sido saudável e fecunda para a sua intelligeucia : 
«Durante mezes no decurso de dois annos, tive dé vagar 
pelos districtos centraes e septemtrionaes do reino.» N'esta 
viagem tão instructiva para um historiador, pelo conheci- 
mento directo dos vários typos da ethnologia nacional, pela 
confrontação dos usos, pela persistência dos costnmes, 
pela interrogação das tradições «poéticas dos romances, dos 
contos, dos anexins, dos symbòlos jurídicos, das supersti*' 
ções vulgares, das differenciações díalectaes, de tudo quanto 
é preciso para apresentar um povo vivo na historia, Her- 
culano nada viu senão os Ghronicoes, e o quadro lugubre- 
mente pezado das misérias publicas, * de que apenas trans- 
creveremos essas linhas que se ligam á sua paixão histó- 
rica: «Vi deflnhados e moribundos os restos das instituições 
municipaes, que o absolutismo nos deixara.» D'essa viagem 
de dois annos e do trabalho histórico, tirou Herculano a li- 
ção, que poderia ser util se elle a não viciasse com a sua 
preoccupação monarchico-religiosa, — que a restauração da 
vida municipal è «a expressão da vida publica do paiz e ga- 
rantia da descentralisação administrativa, como a descen- 
tralisação administrativa é a garantia da liberdade real.» ' 
Foi por esta opinião histórica, que o espirito moderno em 
Portugal na sua phase metaphysica se enganou conferindo 
a Herculano esse immenso poder espiritual, da mesma forma 
queos christãos sentimentaes o reconheceram também como 
um vidente. 

Na volta da sua viagem das províncias, ao fim de dois v 
annos, é que Herculano publicou o seu quarto volume da 
Historia de Portugal. (1853.) Quando estava mais habilitado 
com documentos, e quando o publico se interessava já pelo 



* Carta acerca das freiras de LorvSo, de 1853. 

2 Carto, de S2 de maio de 1858 (Jornal do CommerciOy n.* 1:399.) 



350 HISTORIA DO BOMÁirriSKO m POBTUaAL 

> 

conhecimento do passada nacional, Herculano resolve trun- 
car o seu trabalho. 

Já vimos as condições em que Herculano se separou da 
politica em fins de 1851 ; a publicação do quarto volume da 
Historia de Portugal era uma conciliação com as lettras: 
«Illusões de um momento o affastaram das occupaçôes lít- 
terarias a que 6e dedicara com intimo affecto; mas ásperos 
desenganos o reconduziram ao tranquillo retiro d'onde não 
devera talvez ter saído.» * A parte os effeitos de eslylo, de 
que sempre abusa» Herculano descreve a tempestade con- 
tra o primeiro' volume da -Historia como uma cou^a pas- 
sada, considerando como um erro o ter perdido tempo em 
refutação de líbeilos sem sciencia; por tanto não foi a po- 
lemica passada que o fez depor a penna de historiador. Um 
novo motivo veiu azedar o seu descontentamento. Da pri- 
meira polemica, escreve elle: «O auctor do livro foi accu- 
sado de tudo: de impiO; de inimigo da pátria, de vendido 
aos eslrangeiroSi de ignorante, de orgulhoso, e até de fal- 
sario. O livro, esse, propriamente não foi accusado de nada ; 
porque para haver accusação contra o livro, cumpria pro- 
var (ou tental-o ao menos) que taes ou taes entre milhares 
de monumentos em que elle se estribava ou não existiam, 
ou eram falsos, ou mal interpretados; . . .» E mais adiante: 
aComo homem que é, o auctor teve a fraqueza de repellir 
essas aggressões, e de retardar assim a continuação do sen 
trabalho.» (1846-1849.) «Assim elle commetteu um dupli- 
cado erro (cumpre confessal-o aqui) malbaratando o seu 
tempo, e dando vulto a cousas, que, consideradas á luz his- 
tórica e htteraria eram insígniQcantissimas.» ^ Os textos 
árabes apresentados pelo professor de árabe do Lyceu de 
Lisboa, Ânionio Caetano Pereira, discípulo de Frei João de 



1 Uxit, de Port.f t. iv, p. ▼. 

2 BUt. de Pdrt.^ l. !▼, p. tii. 



albxáxbbs mmcuLAvo 951 

Soasa, por onde queria demonstrar que a escaramuça de Ou- 
rique fora uma grande batalha campal» acbaram-se sem au- 
tbenticidade diante da critica competentíssima do arabista 
bespanbol D. Pascboal de Gayangos. O opúsculo de Antó- 
nio Caetano Pereira fora levado para Madrid por D. Sini- 
baldo de Mas, que o offertou a Gayangos, e este em 2 de 
janeiro de 1852 escreveu uma longa carta a Herculano pro* 
vando a ignorância que Pereira tinba do árabe, e como 
atropellou os textos para servir o seu intuito. Foi ura trium- 
pbo completo, de que Herculano tirou todas as consequên- 
cias; António Caetano Pereira perdeu a cadeira de árabe, 
sendo dada a Augusto Soromenbo, que estivera seis me- 
zes em Madrid junto de Gayangos como subsidiado do go- 
verno, 

Herculano achava-se em 1853 em toda a sua gloria; es- 
perava-se que proseguiria na publicação da Historia. De 
repente surge um novo embaraço, um pretexto para inter- 
romper a obra; como o seu livro era estimado e se julgava 
indispensável para a elevação do paiz, poz-se epi greve no 
trabalho histórico. Procura-se o motivo, mas elle próprio 
declarou terminantemente que sendo-lhe indispensável pro- 
seguir na investigação de documentos para a sua Historia 
no Archivo da Torre do Tombo, não podia ali entrar com 
honra em quanto se achasse como guarda-mõr o conse- 
lheiro Macedo I Que fazer? D'este homem, contra quem ati- 
rava um repto mortal, escrevera Herculano no primeiro vo- 
lume da Historia: «Muito devi ao conselheiro Macedo, se- 
cretario perpetuo da Academia, facultando-me sem restricçao 
o uso da sua livraria, tão rica e escolhida em tudo, prin- 
cipalmente em trabalhos históricos modernos . . •» ^ O con- 
selheiro Joaquim Jo^è da Costa Macedo, era um dos funda- 
dores da historia da Cosmographia e Geographia da Edade 

1 Op, ctV., f, p. xir. 



352 HI8T0KIA DO aOMAHTISMO KH POBTUQ Ui 

/ 

Media, citado com altos elogios por Âvezac, pelo Visconde 
de Santarém e por Major, que lhe chama eminente sábio 
poriuguez;^ já se vê que a confissão de Herculano não 
era de favor. O rompimento de Herculano puramente pes- 
soal, não deveria ser attendido, se contra Macedo se não 
apresentassem factos análogos aos que a paixão bibliogra- 
phica fez praticar ao sábio italiano Libri. O conselheiro Ma- 
cedo foi pois demittido de guarda-mór da Torre do Tombo, 
e n'este intuito a Academia das Scieucias secundou os es- 
forços de Herculano, para que a Historia de Portugal po- 
desse ser continuada; os materiaes para o quinto volume 
chegaram a ser colligidos, (fragmentos da Parte i do Livro 
ix) ^ mas desde 1853 em diante tudo ficou suspenso; lamen- 
tando-se da dissolução social, das cousas e dos homens, 
Herculano confessava aos que o admiravam que o trabalho 
ficaria irrevogavelmente truncado! Tudo se moveu para o 
demover daquella tyranna resolução ; no prologo da edição 
de 1863. Herculano confessa que até o rei D. Pedro v foi 
ao pé d'elle pedir-lhe^para continuar a Historia. Em 1854 
ainda imprimiu uma pequena dissertação sobre a Origem 
provável dos Livros de Linhagens, que mais tarde serviu de 
prologo á edição d'esses livros nos Portugalice Monumènta 
histórica, publicados á custa da Academia das Sciencias; 
n'essa dissertação segue um errado caminho, crendo que 
os livros de Linhagens se organisaram para libertar as re- 
lações da vida social dos ataques dos impedimentos canó- 
nicos que iam até ao sexto gráo de parentesco, ao passo 
que pela luz do critério comparativo se vê que os Livros 
de Linhagens nasceram com a independência do poder real, 
quando o direito (de conferir nobresá se tornou um dos di- 
reitos exclusivos da soberania no século xui. ^ Por este es- 

1 Vida do Infante D. Henrique, p. 196. trad. port. 

2 Historia da Fazenda publica nos primeiros tempos da Monarchia, 

3 Esta opinião demoDstrámol-a na Historia do Direito portuguez^ 1868. 



ALSXAHDBB BBBGULAKQ 35$ 

tido se dedaz, que trabalbâVa já na época nova de transfor- 
mação politica do reinado de D. Diniz; mas a publicação 
n'esse mesmo anno de 1854 do livro sobre a Origem do es- 
tabekcimmlo da Inquisição em Portugal, revela também que 
um despeito profundo o flzera tomar esse assumpto histó- 
rico como um ataque aos seus inimigos, e que o clerica- 
lísmo na sua forma particular de jesuitismo é que se tor- 
nava a preoccupação exclusiva de um espirito que se jul- 
gava perseguido. 

Os despeitos de Herculano contra a politica ou contra a 
litteratura e historia) observam-se claramente nas suas re- 
lações com a Academia das Sciencias, e isto faz comprehen- 
der esse estado de um temperamento biliosp que lhe dava 
ao caracter a fòrma do descontentamento. Vimos como em 
1835 escreverá da Academia das Sciencias, dizendo que fi- 
cara no trabalho do Diccionario a Azurrar; em 21 de fe- 
vereiro de 1844, a Academia elegeu-o seu sócio correspon- 
dente da Classe de Sciencias moraes e BellasLettras; es- 
tava-se então no feVvôr admirativo do Eurico. Pertenceu 
durante sete annos á Academia, para a qual nada traba- 
lhou, porque andava occupado com a publicação dos três 
volumes da Historia de Portugal; (1846-1849) em conflicto 
pessoal com o secretario perpetuo da Academia requereu 
para ser omittido do catalogo dos sócios, sendo-lhe satis- 
feita a vontade em votação da assembléa geral de 19 de 
fevereiro de 1851. Foi durante este anno que collaborou 
activamente na redacção do Paiz, voltando por desillusão 
politica out;ra vez ao remanso litterario. Em 13 de fevereiro 
de 1852 foi novamente eleito sócio effectivo da quarta sec- 
ção (Histpria e Antiguidades) da segundai classe '(Sciencias 
moraes, pditicas e Bellas Lettras)ipela commi^Q* encar- 
regada por decreto de 7 de jai^irp de IíSqS d^ trabalhos 
preparatórios para se cons^lituirem as secções .das classes 
de que se compõe a Acadejnía. Nomeado sócio da Acade- 

23 



354 HISTORIA DO SOKAKTISMO SM FOBTUGAL 

mia de Turim em 1850 e da Academia de Historia de Mar 
drid em 1851, era uma vergonha que estivesse de fora da 
Academia das Seiencias de Lisboa, quando se trabalhava 
na sua reforma ; a entrada de Herculano em 1852 foi uma 
graçãy que pezou sobre a Academia. Em 31 de janeiro e^ 
em 8 de março de 1855 foi eleito vice-presidente da Aca- 
deniia, e declarado sócio de mérito, em assembléa de 14 de 
junho do mesmo anno, com a quantia annuai de duzentos 
mil. réis. Em rigor, Herculano não havia trabalhado na Aca- 
demia alé este tempo, e a sua elevação a sócio de mérito, 
embora merecida, era um favor pessoal para contêl-o; a 
reeleição para vice-presídenie da Academia em 'il de de» 
zembro de 1855, é indicio de que se demittira antes de 
tempo. Tendo já abandonado a continuação da Historia de 
Portugal, emprehendeu á custa da Academia a publicação 
de um corpo de documentos históricos, comprehendendo os 
documentos jurídicos, códigos e leis consuetudinárias, e os 
documentos litterarios, pequenos chronicons e monumra- 
tos de iitteratura; esta collecção era moldada sobre as for- 
mas seguidas por Pertz, nos Monumenta germânica da Acar 
demia de Berlin, mas infelizmente Herculano preoccupouse 
mais com a publicação dos documentos que iltustravam a 
sua Historia do que com as necessidades dos que de futuro 
trabalhassem n'este mesmo campo. A publicação começou 
em 1856, tendo Herculano o subsidio mensal de quarenta 
mil réis, pelo trabalho dos pequenos prólogos que prece- 
dem os monumentos históricos; quando um dia, aafim de 
alguns annos de* interrupção dos monumentos, um acadé- 
mico perguntou pelo estado da publicação, Herculano es- 
creveu despeitado á Academia e maodou demittir^se. Desde 
que Hepculano resolveu suspender o trabalho da Ifátaria 
de Portugal, ftindou em ISStí a expensas e com um subsi- 
dio mensal da Academia das Sdeocias essa vasta compila- 
ção de Documentos para a Historia de Portugal, em que 



JkLBXAiri»]|B HBaOULANO . 3Õ5 

I 

visava priacipaloiente fortalecer com provas a parte da obra 
que deixara escripta. Tal é a origem dos Portugaliae Ma- 
nutnenta histórica; uma grande parte doesse trabalho dis* 
peodeu-se improíicuamente em reproduzir documentos já 
conhecidos como o Código Wisigothico, os Livrçs de Linha- 
gens, alguns pequenos Chronicons, e as Ordenações de D. 
Duarte; a parte principal, os Foraeít e os Diplomas de con- 
tractos, é que representa ump verdadeiro serviço. A parle 
não publicada é que deveria ter sido entregue aos que es- 
tudam, como são os Obiturarios, para a orientação da chro- 
nologia da nossa historia, as Inquirições de Affooso iii, para 
o conhecimento do estado e vida sociaKno século xui, e o 
grande Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano completado 
pelo Cancicmirio da ^juda, para a vida intellectual da aris- 
tocracia das cortes de D. AÍTonso iii, D. Diniz e D. Affonso 
IV, completando este corpo litterario com as inapreciáveis 
iraducções das grandes lendas da Edade Media, como a Vi- 
mo de Tundal, * e a Historia de Barlaam e Josaphat, * que 
se acham entre os Manuscriptos da Livraria de Alcobaça, 
parte na Bibliotheca nacional, parle na Torre do Tombo. 
Herculano não empregou a sua extraordinária influencia pnra 
se proceder á publicação d'esse pasmoso monumento do 
Cancioneiro da Vaticana, onde se encerra a vida moral e 
importantíssimas allusoes históricas a essa revolução de pa- 
lácio que fez substituir D. Sancho ii por seu» irmão D. Af- 
fonso lu; foi preciso que um joven philologo, o Dr, Ernesto 
Monací nos restituísse o grande livro das nossas origens 
luteranas, base da descojberta do tes^to autbentico, que se 
julgava perdido. Esta segunda phase de descontentamento 
com a Academia, ligasse já ao estado melancholico do seu 
espirito na vida do campo. Vivia na catastrophe. 

1 Catalogo da Linaria de Alcobaça, Cod. n.^ 211 : Histma do CavalleiTo 
TungíHi. Ooira verslo, Cod. o.<> 266*: BUtoria do CawAUiro Ubulú 

2 Barlaam t Jofaphaty ov Cod. d.» 26C. (Na Torre do Tombo ) 



856 HISTORIA. DO B01UNTI8X0 EM PORTUGAL 

Em 1855 era Herculano presidente da Gamara niunicipál 
de Belém; as ideias que havia exposto nos seus artigos po- 
líticos e no exame das antigas instituições monicípaes fa- 
ziam crer que lhe seria sympathico o exercício d'esla ma- 
gistratura electiva. Preslou-se-lhe esta homenagem. Deu-se 
porém um pequeno conflicto entre os trabalhadores da Ga- 
mara municipal e a sentinella da porta do quartel de arli- 
Iheria n.® I, acerca da colloCação de um columnello para a 
illuminação do concelho. Herculano officiou immediatamente 
ao governador civil de Lisboa, para que ou dissolvesse a 
Gamara ou punisse o oíBcial que dera á sentinella a ordem 
de impedir os trabalhadores. * O que elle exigia era inex- 
equível, porque a classe militar tem um foro especial, que 
não pôde ser invadido pela auctoridade administrativa ; de- 
balde lhe representaram que a dissolução da Gamara era 
•uma inconveniência, sobretudo quando se propagavam no 
publico os terríveis boatos da febre amarella, em uma oc- 
casião em que os intelligentes esforços eram precisos. O 
presidente com os demais vereadores insistiram pela dis- 
solução da Gamara, o que foi levado a effeito por decreto 
de 31 de outubro de 1855. Em um officio para o governo 
civil, de 13 de outubro, Herculano, além de outros com- 
mentarios pejorativos, lança estas phrases, qtie são uma 
variante da sua preoccupação de catastrophes: «Quando nas 
altas regiões Mo poder* se desmente por tal modo as regras 
mais triviaes do bom governo; quando se tolera que os 
instrumentos da ordem publica se convertam impunemente 
em instrumentos de anarchía; quando assim estalam os ia- 
ços da vida civil, ao homem honesto, mas inhabilltado pela 
sua condição social para obstar a esses abusos extremos, 
só resta encerrar-se no sanctuario da vida privada e deplo- 
rar a ruína da republica.» ^ Não era caso para tanto; á custa 

* Officio n.« 641. Publicado no jornal A Pátria, 
2 A Pátria, n.« 25, de 1853. 



ALBZXSDBB HSBCIJLASO 357 

d'este conflicto, aggravado por phrases, se libertou Hercn- 
lano dos encargos da presidência municipal; ^ voltou ouira 
vez ao remamo literário da Ajuda. D. Pedro v» lambem 
preoccupado com velleídades litterarias, conhecia os traba- 
lhos de Herculano, e quiz conhecel-o de perto. Pintayam- 
lb'o como um homem intratpel por um entranhado e des- 
medido orgulho, e pela linguagem brusca de um caracter 
indisciplinado; D. Pedro y foi procural-o ao seu gabinete 
de trabalho e travou com elle uma intimidade louvável, mas 
sem vantagem para o seu espirito. Começou por lhe pedir 
que tornasse a metter mãos ao trabalho da Historia de Por- 
tugal, que o paiz inteiro consagrara. Herculano descreve 
estas relações pessoaes com o joven monarcha com um des- 
vanecimento que pinta o homem theatralmente catoniano; 
diz elle, que tentou um ultimo esforço pára retomar os há- 
bitos lítterarios em 1855: cSe, porém, o tentei confesso in- 
genuamente que não%i para servir o paiz. Outros senti- 
mentos me impelliram a isso. Foi na affeíção de D. Pedro, 
no desejo de lhe comprazer que achei alentos para galgar 
de novo a Íngreme ladeira d'onde me tinham precipitado; 
foi animado por elle que prosegui em ajuntar materiaes, 
n3o para levar a cabo os ambiciosos desígnios concebidos 
nà edade das audácias, mas para concluir o quadro sincero 
da época mais, obscura da nossa deturpada historia ; para 
deixar no mundo um livro em vez de um fragmento.» ^ Por 
aqui se vê que a Historia estava planeada somente dentro 
dos limites da Edade Media portugueza, e que a parte da 
organisaçao da fazenda publica é que era o remate final da 
obra. Mas a intimidade de D. Pedro v foi para Herculano 
uma paixão exclusiva que lhe absorveu o tempo: «Era uma 
doestas affejç5es individuaés, modestas e desinteressadas, 

f^i A poblicaçSo dos docomentos d'e8ie cooflicto paeiado um anno no jornal 
A Pátria, revelam um certo alarde qae andava a par da soa modéstia. 
2 Prologo da 3.« ediçSlo da BUt. de Portugal, de 18d3. 



358 HISTOBIA ÍK> B0MÁNTI8M0 SM POBTUOAL 

que nascem como uma flor singela, nos pedregaes da vida.» * 
E accrescenta ao lyrísmo em quef se deixava cair: «nem me 
pejo de confessar que elle começava a* exeriBr já sobre o 
meu espirito aquelia espécie de absolutismo morai, que» 
provavelmente, havia de exercer, se vivesse, no geral dos 
ânimos; singular espécie de absolutismo, que encerrava a 
esperança da regeneração dos costumes públicos, e conse- 
guintemente, a única esperança da manutenção da nossa 
autonomia e da nossa liberdade; etc.» Ou estas palavrals tém^ 
um sentido mystico, ou Herculano fechava o circuito das 
suas ideias politicas voltando por sentimento ás ideias que 
nos seus primeiros annos abraçara pelo perátigio da tradi- 
ção. O pensamento fundamental da vida de Herculano «so- 
nhos dourados da ambição litteraiia, único dos vãos idolos 
do mundo a* que fiz sacríBcios» ' estava concentrado no 
plano da História de Portugal; porém este trabalho não era 
para servir a sua nação nem a sua época, mas uma divida 
pessoal á realeza t Se elle o não confessasse com uma ab- 
soluta franquesa nao ousaríamos suspeital-o. Escreve Her- 
culano na citada prefação: €íQuando ha dozesete aúnos pu- 
bliquei a primeira edição d-este volume, destinava o encetado 
trabalho ao 'estudo de um principe, então na puerícia . . . 
pagava assim uma divida contraída com o pae. Põra a este 
que eu devera uma situação isempta de pesados encargos, 
a qual me tornava possível dedicar a maior e melhor parte 
do tempo ao duro e longo lavor que hoje exige a co.mpo- 
siçao hiistorica.» Nós lioje entendemos que os seiscentos 
mil réis de ordenado de blblíolhecarío da Ajuda foram para 
Herculano um desastre, porque Ibe tirou o estímulo de es- 
crever a historia de Portugal para os portuguezes- isto é 
eondemnando a realesa ligada com o catholicismo, qué atro- 



1 Todos 08 extractos aulobíographicos qae seguem são de 1868. 

2 Prefação de 1863 na 3.* edição da Hisf, de Portugal 



. ALBZAVPBB HCKOULAXO 359 

phíou este povo extinguiodolbe a sua vida aulcMioina e lo- 
cal pela reforma dos Foraes no tempo de D. Manuel, a sua 
Tida iatelleclual eutregandonos aos Jesuítas e aos Inquisi- 
dores no tempo de D. João iii, Qaalmente a sua vida nacio- 
nal» submettendo-nos aos hespanboes no tempo do Cardeal 
D. Henrique, ou aos exércitos de Napoleão pelos absurdos 
diplomáticos de D. João vi. A histoda ad mum Delphmi 
não podia ser isto. 

A aproximação de D. Pedro v de Herculauo, foi também 
resultado de uma reacção contra as intrigas palacianas que 
procuravam affastal-o de um espirito intransigente no meio 
das tergiversões da politica constitucional; Herculano, para 
pintar a amisade que trazia para elie o mooarcba, relata es* 
3as intrigas na alludída prefação: «Na procella em que nau- 
fragou o meu pobre livro, o nome do soberano fora mur- 
murado em voz baixa, associado aos satellites da reacção, 
calumniado, como o tinba de ser depois . . . Malquistar 
o soberano com o cidadão era «grande, era nobre ; mas 
era incompleto; completava-se malquistando o cidadão com 
o soberano. Infelizmente a tentativa falhou.» — «A alma 
do rei era d'essas. Buscou-me e desceu, como diria o 
mundo, a justiiicar-se, porque nunca inquiriu se para che- 
gar do thiono ás regiões do dever ou da justiça era pre- 
ciso descer ou subir. Movia-o, além d'isso, o instincto pró- 
prio da sua edade e da sua índole. Queria sondar o abysmo 
de orgulho, de ódios implacáveis, de impiedade, de paixões 
impetuosas de que lhe fallavam.com susto.» Depois aceres* 
cenla: «o rei achara que todas estas negruras de feroz ple- 
beu se reduziam a Uma sinceridade talvez rude, e a since* 
ridade^ ainda rude, tinha para elle o attrativo do novo, do 
impensado.» 

Os que estavam em volta de Herculano conheciam-no, 
elle é que se não conhecia a si; de facto o orgulho inson- 
dável transparece nas suas palavras. Senão veja-se coma 



360 HIBTOBLi IX> BOlfA>TI8X0 BK POBTUGAL 

elle julga a sua rudesa tbeatral pelo effeito de atirativo que 
produzia no auimo do monarcha» e pelo effeito salutar: 
«Achava onde retemperar o animo lasso do incessante es- 
pectáculo da condescendência interessada, do applauso gros- 
seiro que vale o insulto ...» Mas inconscientemente vae 
subindo n'este diaps3o, e chega a contrapor á soberania do 
rei a soberania da sua própria intelligencia, como ex[riica- 
ção da intima familiaridade que lhe dispensava D. Pedro v: 
«Não tinha ciúme de uma soberania superior á sua, a da 
razão, nem o humilhava a dignidade humana, que equivale 
no súbdito á magestade do rei.» ^ 

São extraordinariamente assombrosas estas palavras, mas 
são um relâmpago para dentro de um caracter ; ellas nos 
explicarão tantos factos de modéstia tbeatral revelados na 
imprensa pelo próprio Herculano, que assim augmentav» 
a esphera do seu poder espiritual sobre a sociedade por- 
tugueza. 

Os motivos do silencio systematico de Herculano, resu- 
mem-se na pbrase brusca mas verdadeira de Diderot— um 
éscriptor só se cala quando não tem ideias; para nós esse 
despeito litterario de Herculano era um estado psycholo- 
gíco, que se repetia periodicamente, como vimos na sua 
situação lyrica e na sua phase politica. Só poderia ter dis- 
ciplinado o seu espirito pela educação scientifica^ e philoso- 
pbica, mas á primeira oppunha-se o seu exclusivp huma- 
nismo, e á segunda o fervor das crenças chrislãs, que fe- 
chava as suas syntheses em effusóes poéticas. Herculano 
imagínou-se tracasseado pelo jesuitismo acobertado em to^ 
das as repartições áo estado; mas isto, embora elle d diga, 
é inacreditável, porque dispunha da amisade intima do mo- 
narcha, e porque tudo quanto desejou foi sempre Cumprido 
ájrísca. A critica exercia no espirito de Herculano uma ác- 

t Prefacio, p. XIII. Ed. 1868. 



ÁL8ZAHDRV RBROULAHO 361 

çao perturbadora ; o faeto de apparecerem dois disparates 
escriptos pelo padre Recreio conlra a Historia de Portugaly 
levou Herculano á halkicinação na carta ao patriarcba de 
Lisboa, Eu e o Clero, e nas réplicas tremebundas da So- 
kmnia Verba. A polemica sobre a Historia de Portugal, por 
ter excluído a lenda milagreira de Ourique provoca a ex- 
clamação sincera: Oh tam magna nihil! A Historia ficou in- 
terrompida porque nascera limitada ás instituições sociaes 
da Edade Media, como p próprio auctor o dá a entender 
DO prologo de 1863; o desgosto da censura clerical foi um 
pretexto que se tornou pose de effeito, systema tão pecu- 
liar em Herculano» mesmo nos seus actos publicados de ab- 
negação. Um espirito intelligente qué procura actuar sobre 
a evolução do seu tempo nunca succumbe diante da critica, 
seja ella enervante pela bajulação fetichista, ou demolidora 
pela má fé e pela perversão calculada. Acima de tudo, o 
escriptor serve as ideias; se o louvam e assim lhe augmen- 
tam o seu poder espiritual sobre o seu tempo, esse poder é 
para ser empregado a favor da ^laior ef&eacia das ideias 
propagadas; se o deprimem, quanto mais flagrante íôr a 
injustiça, mais se estabelecerá a necessidade de verificar a 
accusação, nascerá o conflicto das opiniões, e assim se con- 
segue por um meio indirecto uma certa actividade mental 
em que. se produz a maior somma de ideias. Para o escri* 
ptor que visa ao Qm social, o seu trabalho está sempre fora 
do alcance da violação moral; porque, emfim, não é um ho- 
mem, que, com duas palavras de despeito pôde dirigir a 
opinião de uma conectividade, nem impor á admiração qual- 
(jfuer nullo. A opinião fórma-se lentamente, e dissolve-se 
também de um modo leuto. Todos os que pensam e escre- 
vem deviam ter sobre estes accidentes da vida litteraría 
uma completa disciplina de espirito; nem um despreso ob- 
cecado de despeito pessoal, nem um impressionismo doen- 
tio e esterilis ador. 



362 HISTORIA DO B01U1IT181I0 SM POBTUGAL 

Herculano abandonara a politica em 1851, e a participa- 
. ção aos cargos públicos em 1855; mas a preoccupação re- 
ligiosa absoryia*a; eile via lavrar em Portugal o jesuitismo, 
kitroduzir-se nos conselhos dá coroa, e apoderar*se outra 
vez dos destinos da nacionalidade. 

Herculano attribuia a suspensão da sua Historia a ma- . 
cbinações clerícaes: aExcodendo pouco a edade de trinta 
annos quando delineei os primeiros traços de uma empreza 
ousada, dotado de organlsaçSo robusta, naedindo oshorison- 
tes dá existência -não tanto pelo compasso dos annos, como 
pela intensidade dos esforços de que me sentia capaz, se 
duvidei de que chegasse a completar o edificio cujos ali- 
cerces lançada, tinha Grme fè em que o subiria a uma aU 
tura, na qual fosse comparativamente fácil a outrem põr-lhe 
o remate. Tal foi a origem d'este livro. A sua' sorte-, po- 
rém, devia de ser diversa da que eu previra.» 

Em seguida refere-se ás animadversões que a obra su- 
scitara, e revQla que o seu objectivo na réplica foi o partido 
clerical: «Âo livro sem intenção politica íiz seguir um que 
a tinha. Vendo no partido que engrossava a occultas, e que, 
antigo, se recompozera com elementos novos, cim perigo 
para a sociedade, trouxe á luz uma das mais negras pagi- 
nas da sua genealogia e que, se nao é o seu eterno re- 
morso, hade ser a sua eterna condemoacao perante Deus 
e os homens. Os três volumes da Historia do fstabekcmmío 
da Inquisição provaram sem réplica possível, uma verdade 
importante para a solução da lucta que agita a Europa • . * 

<Em toda a parte e com todos encontrei a reacção in- 
fluente que me reduzia ao silencio eá inacção. Inhibido de 
proseguir, sem o sacrifício compleito da dignidade e sem 
risco certo da honra, na coUecção dos materiaes para a vasta 
edificação que emprehéndera, tive a final de ceder e de fe* 
char a bem curta distancia os limites da imprudente em- 
preza. 



ALfilCANlttB HBB0T7LAN0 S6S 

«N3o o fiz sem lucta: disputei palmo a palmo a minha 
vida intollectual. N'e8Sa lucta achei sympathias e ailianças 
por todo o paiz, sobretudo entre a mocidade das provín- 
cias mais inteiligentes e enérgicas, as províncias do norte. — 
D'além do Atlântico mais de uma yoz amiga procurou con- 
solar o maldito da reacção e dos poderes públicos, que a 
serviam. Algumas d*essas vozes saiam do seio do sacerdó- 
cio; uq[ia descia do throno. Um príncipe extranho que presa 
mais e conhece melhor os dias de grandesa e de gloria 
d'este paiz do que a maior parte dos filhos d'elle, apres- 
sou-se a offerecer ao perseguido um asylo junto de si. Se 
n3o acceitei a oíFerta, a que a fraternidade litteraría e a 
nobre maneira porque era feita tiravam todos os vislumbres 
de humilhação, foi porque ainda esperava que nao podes- 
sem prívar-me dos últimos sete palmos de terra pátria a 
que todos temos direito. 

«Do mesmo modo que por meios indirectos me fora ti- 
rada a possibilidade de continuar a Historia de Portugal, 
foi-me emfim indirectamente restituída. 

«Era tarde.» N'este despeito é que se demitliu de vice- 
presidente da Academia das Sciencias. ' «Quiz proseguir e 
não pude, ou para melhor dizer, desejei e já não sabia que- 
rer.» 

Esta ideia o fazia pòr em relevo as intrigas diplomáticas 
para o Estabelecimento da Inquisição em Portugal; este li- 
vr<f interrompido de^de 1^855 foi lançada como um repto 
ao partido clerical, mas ficou sem ecoo, líão se leu; d'ai 
talvez a demora de quatro anôos para o ultimo volume. A 
historia da Origem da Inquisição em Portugal é uma dis^ 
cussão de attribuições cahonícas dos bispos, e das negocia- 
ções diplomáticas com a cúria, eitraidas de documentos de 
refalsado espirito. Quanto a um ponto de vista superior so- 

1 Carla ao ministro do Reino pela t,* classe dá Academia, 1856. 



364 BXSTOBIA DO BOMiJITISICO BM POBTUOÁL 

bre esta tremenda iostituiçâo, oada I A parte dramática, os 
processos do Santo officio, com as grandes catastrophes dos 
Autos de fé, a revelação dos costumes e vida domestica, e 
estado da sociedade portugueza através d'esses documen- 
tos, nada d'isso tocou Herculano; foi á parte morta e esté- 
ril da diplomacia, e dqixou o largo campo do funccionamento 
da inslituição que atrophiou esta desgraçada nacionalidade. 

A Historia das origens, e estabelecimento da Inquisição em 
Portugal foi começada aates de 1852; a criara era um repto 
contra o partido clerical e contra a reacção pessoal que fal- 
sificava o constitucionalismo. O prologo deste livro tem a 
desconnexão e o estylo de um exaltado artigo de fundo jor- 
nalístico, mas é precioso para a revelação do estado de es- 
pirito de Herculano sobre os acontecimentos da Europa de- 
pois de 1848. A agitação socialista e apprehensôes da bur- 
guezía que acceitou as tropelias monarchicas pelo terror das 
novas aspirações «abriu caminho e subministrou pretextos 
por toda a Europa a uma reacção deplorável*» Herculano 
diz que á sombra d-estes movimentos começa a reacção mo- 
raly ou propriamente o ultramontanismo ; o seu livro era 
destinado a salvaguardar-nQs do perigo futuro, mostrando- 
nos o século xvi, em que se deu a alliaaça da monarchia 
e do clericalismo,. como o da maior degradação moral, e 
das maiores monstruosidades á custa do indifferentismQ ge- 
rai. Doesse passado Herculano vê ainda um resto nos exér- 
citos permanentes c nascidos com o absolutismo e só para 
elle, e com elle deviam ter passado para o mundo da tra- 
dição.» Contra este erro politico oppõe Her(vilano uma ideia 
justíssima «aniquilamento d'essa força bruta, encarregada 
nominalmente de cumprir um dever, que é, que não pode 
deixar de ser commum a todos os cidadãos,-^ a defezada 
terra natal.» 

A Historia da Inquisição em Portugal era da parte de 
Herculano um aviso contra a reacção do clericalismo. Po- 



ALBZAHDRie HEBCUIJUIO 365 

rém, como féz essa Historia? «Podíamos escrever a Híst(h 
ria da Inquisição, d*esse drama de flagícios que se protrabe 
por mais de dois secQlos. Os archivos do terrível tribunal 
aí existem quasi intactos. Perto de quarenta mil processos 
restam ainda para darem testemunho de scenas medonhas, 
de atrocidades sem exemplo, de longas agonias. NSo qui- 
zemos. Era mais monótono e menos instructivo. Os vinte 
annos de lucta entre D. Jo3o in e os seus súbditos de raça 
hebrea» elle para estabelecer definitivamente a Inquisição, 
elles para lhe obstarem, offerecem matéria mais ampla a 
graves cogitações. Conhecermos a corte de. um rei absoluto 
na época em que a monarcbia pura estava em todo o seu 
vigor e brilho; conhecermos a corte de Roma na conjun- 
ctur^^ em que, confessando os seus anteriores desvios, ella 
dizia ter entrado na senda da própria reformação, e poder- 
mos comparar isso tudo com os tempos modernos de liber- 
dadp.» (Pag. xin.) Eis aqui está o livro; uma discussão pe- 
zãdamente canónica contra a usurpação da jurisdicção dos 
bispos a quem compelia exclusivamente o julgamento das 
causas de heresia, e em seguida uma exposição inlriaca- 
damente diplomática das negociações de D. João ni com a 
Cúria para introduzir np seu reino o novo tribunal do Santo 
Offlciò. A simples leitura de um processo inquisitória!, d'es- 
ses quarenta mil archivados, encerra mais lição do que to- 
dos esses três volumes, que diflScilmente se podem lêr, da 
obra de Herculano.» Ao fim de 'tanto trabalho Herculano in- 
terrompeu-se e s6 depois de quatro annos é que terminou 
a obra, cônscio da sua inefDcacia. 

O livro não produziu impressão, porque logo em 1857 se 
deu a usurpação do Padroado portuguez no Oriente pela 
cúria romana. Herculano saiu â terreiro com o seu opús- 
culo A Reacção uliramontana, em prosa desalentada, ràâs 
com a predilecção do assumpto em que reveíava a sua eru- 
dição dos cânones ; o eQeito do protesto foi também nullo 



366 HISTOBIA 2>0 BOMAirriSMO EM BOBTUQ&L 

nas regiões. do poder, porque logo em i8S8 teve de pro- 
testar èm um Manifmto ao Partido liberal contra á iotro-^ 
ducção das irmãs da caridade francazas. 

Estes protestos, em estylo semi-biblico, em desalento 
sobre o futuro da nação, influíam sobre a sua lenda pessoal; 
Herculano estava já em estado de mytho; procurava-se nas 
suas palavras um sentido mystagogico. Foi assim que os 
eleitores do circulo 26, de Cintra, se lembraram votar em 
Herculano nas eleições de 1858. Herculano escreveu então 
uma Carta, de í2!á de maio, por meio do Jornal do Çommer" 
cio, ^' em que declara ter recusado eSs^^a boura do mandato 
que lhe quíz conferir um circulo da Beira, e que não acceita 
agora o mandato dos eleitores de Cii^tra, porque não per- 
tence a essa terra, e a sua opinião é que só existem depu- 
tados locaes (de campanário) capazes de satisfazerem as ne- 
cessidades dos circulos junto do parlamento. A ideia é ab- 
surda, porque todo o talento que nascesse em um sitio 
insignificante só podia ser deputado local adaptando-se pela 
longa permanência a essa localidade. Quanto distava Her- 
/Culano da ideia tão clara e tão justa do mandato impera- 
tivo! Era isto o que elle q^ieria sem o saber cjizer. 

Fez um grande eíTeito sobre o paiz esta abstenção de 
Herculano^ resignando. o mandato de deputado por Cintra; 
fez ainda mais ecco a rejeição de uma medalha da Torre 
e Espada, que lhe quiz conferir D. Pedro v. Era uma ab- 
negação catoniana, que ninguém saberia, se elle próprio 
não flzesse alarde da sua modesta superioridade acinia das 
honras; na carta aos eleitores de Cintra dá-lhes a saber 
<iue rejeitou o diploma de deputado por um circulo daBeira^ 
e pelo Jornal do Commercio dá a saber ao paiz que reco* 
sou o diploma de deputado por Cintra. O mesmo processo 
segue na rejeição da grã-cruz de S. Thiago, onde diz tam- 

1 N.» 1:899, 46 38 de maio de. 1858. 



ALXXAMDBE HSBODLAHO 867 

bem em carta ao Jornal do Commcrdo (n/ 2:702) : «EN 
rei o sr. D. Pedro v, que Deus tem comsígo, procurou-me 
um^dia para me pedir, dizia elle, um favor. Era o de ac- 
ceitar a Gommenda da Torre e Espada. Recusei, e com a 
sinceridade que elle encoDtrou em mim, expuz-Ihe ampla* 
líiente os motivos da minha recusa. Aquelle grande espi- 
rito, complexo d^ extrema doçura, de alta comprehensao 
6 de profundo sentir, debateu sem se irritar, as pondera- 
ções, talvez demasiado rudes, que lhe íiz. Concluiu por me 
dizer, que cada um de nós podia proceder n'aquelle as- / 
sumpto em harmonia com as próprias convicções. Que elle 
cumpria o que reputava um dever de rei, e que fizesse eu 
o que a consciência me ditasse.» Esta revelação autobio- 
grapbica é um relâmpago de luz para a modéstia e abne- 
gação theatral. 

Por carta régia de i7 de maio de 1861, foi nomeado 
Herculano par ^o reino; não era honra que se não tivesse 
dado a mercieiros retirados do commercio, e recusou tam- 
bém. Na carta alludida diz: «Deixo de parte a historia da 
recusa do pariato.» Por fim, logo que D. Luiz subiu ao throno 
quiz honrar o amigo intimo de seu irmão com a grã-cruz 
de S. Thiago, instituida paia o mérito scientifico, litterario 
e artístico, em 1862; Herculano escreveu ao Jornal do 
Commercio: aVeiu depois a Grã-Cruz de S. Thiago. Fiz o 
mesmo que fizera a respeito da Gommenda. Nem mais nem 
menos. Tinha motivos para crer que a iniciativa da mercê 
Yínba de el-rei. Procedi n'essa hypothese do mesmo modo 
que procedi com el-rei D. Pedro.» * Esta necessidade de 
explicações diante do publico, que pasmou com a heróica 
' abnegação, fazem*nos tomar a sério estas palavras irónicas 
do próprio Herculano a propósito do seu despreso pelas 
honras civicas : «No^immenso consummo que se está fazendo, 

. ^Jornal do Commcrcto nJ* 2:75S, de 7 de dezembro de 1862* 



336 HI8T0BIA DO BÓMAirTISllO EM FORTUOAL 

que se tem feito ha trinta anoos, de fitas, de insignias, de far- 
das bordadas, de titulos, de graduações, de tratamentos, 
de rótulos nobiliários, o homem do povo, que queira e possa 
morrer sem esta classífícação, deve adquirir em menos de 
meio seculo' extrema celebridade.^ ^ Herculano contava cin- 
coentp e dois annos, e nunca ninguém em Portugal chegara 
como elle a esse gráo de celebridade que se torna uma 
gloria nacional, e o reconhecimento do máximo poder es- 
piritual conferido espontaneamente a um individuo. A morte 
de D. Pedro v acabou de aggravar o estado psychologico 
de Herculano, que rompeu com a relação da capital refu- 
giando-se em Vai de Lobos. 

D. Pedro v era o amigo intimo de Herculano; admira- 
vam-se mutuamente, mas as admirações foram estéreis. 
Com a morte do joven monarcha, Herculano achou-se so- 
litário, e isso influiu para deixar o emprego do paço. 
Em uma caria a monsenhor Pinto de Campos, escreve-lhe 
logo depois da perda do seu amigo: «V. s.* espanta-sede 
que eu nada escrevesse a respeito da morte de D. Pedro v. 
Não cré v. s.* na profundidade da.afflicção do pae qúe pôde 
escrever sobre o tumulo do filho? Se eu tivesse um filho 
e me morresse, não me custava mais a morte d'elle do que 
me custou a d'aquelle pobre rapaz. Era commigo, aqui, 
n'este mesmo humilde aposento onde escrevo a v. s.^ que 
aquelle martyr, que esta terra nem coraprehendia nem me- 
recia., vinha muitas vezes buscar lenitivo, e onde mulitas 
vezes o não encontrava, porque" nem sempre podia escoa- 
der-Ihe que o meu desalento acerca do futuro era mais pro- 
fundo do que o d^elle.ilra uma amisade desinteressada como 
nunca teve rei nenhum, como nunca ninguém achou em 
rei. Se esie seculo pôde produzir santos, elle era-o. A rai- 
nha affeição por D. Pedro começsh^a a degenorar em pai- 

^ Jornal dê Qmmercio n/^ â:752, de 7 de dezembro de 1862. 



ALEZAHDBB HRBOULAKO 369 

x3o, e eu a perceber como se pôde ser fanático. Desconfio 
de que se continuasse a yivef chegaria a fazer de mim o 
que quize3se. Felizmente aquella alma pura, aquella grande 
intelligencia não j)odia querer senão o justo e honesto; in- 
felizmente Deus não quiz que esta ultima luz da esperança 
alumiasse os horisontes de uma nação condemnada a mor- 
rer. Era uma espécie de profanação dizer em um livro o 
que eu sinto a respeito d'elle. Não se alinham phrases a si- 
milhante propósito. D. Pedro é para mim uma d'aquell»s 
recordações que se levam até ao tumulo, e que aí se es- 
condem, como o perfeito avaro leva o seu ouro e o enterra 
ii'um logar solitário. Fez-me commendador da Torre e Es- 
pada, cousa que se dá a poucos, não lb'o acceitei. Deu-me. 
um retrato seu e o Ancien Regime dé Tocqueville, annotado 
por elle; acceitei-os e guardo-os. São cousas pequenas que 
me cabem na cova; hão de ir commigo.i» Estas palavras 
denotam uma boa alma, mas revelam a incapacidade para 
espirito dirigente; nunca se achou em uma tão.perfeita har- 
monia o poder espiritual com o poder temporal, como quando 
o joven rei D. Pedro v ia fumar o seu cigarro junto de Her- 
culano na vivenda da Ajuda. Pedro v admirava Herculano, 
e se este tivesse ideias e conhecimento dos grandes pro- 
gressos do seu tempo, o joven monarcha poria em obra to-, 
das as sugestões do mestre; mas Herculano estava despei- 
tado com o seu tempo, com o seu paiz e com a sociedade 
que o cercava, era um doente moral, e se Pedro v estava 
desalentado no seu governo (como se prova pelas notas 
comparativas ao livro Grèce contemporaine, de Abont, o de- 
salento de Herculano era ainda mais profundo, e não ser- 
via senão para enfraquecel-o. . 

D. Pedro v era eminentemente sympalhico á nação pela» 
sua moralidade e aspiração de justiça ; a coragem e abne- 
gação que revelou por occasião da febre amarella de Lis- 
boa fanatisou o povo. Esperava-se do joven monarcha uma 

24 



370 HISTORIA DO R0UAHTI81I0 XM PORTUGAL 

acção profunda sobre a transformação d'este paiz; os jor- 
nalistas ibéricos sonhavam n'elle a personificação da unifi- 
cação dynastíca da península ; afixaram atè cartazes procla- 
mando: Viva D. Pedro V rei absoluto. Vimol-os em Coim- 
bra, ainda esfi^angalhados pelas esquinas em 1861. A geração 
nOYa, a esperança futura, estava n'esse estado de espirito; 
não nos admira a sua consequente esterilidade. Nas suas 
boas intenções D. Pedro v cercava-se das primeiras intel- 
igências do paiz; por algumas cartas de Herculano, sabe-se 
que o joven' monarcha ia bastantes vezes conversar e fu- 
mar para o quarto de estudo do seu régio bibliothecario e 
historiagrapho. Como aproveitou Herculano esta situação 
' excepcional para dirigir a consciência de um rei, facto ex- 
traordinário, que aspirava a exercer o poder de um modo 
justo e fecundo? Herculano desalentou-o com um pessi- 
mismo catholico e estreito, e nunca se prestou a servil«o 
na propagação dos estudos scientifícos. O seu estado de es- 
pirito resume-se n'esta phrase estylosa, que era a synthese 
philosophica a que chegara: «O calor parece ir-se retirando 
d'este musculo chamado o coração humano, á medida que 
o Christianismo se vae alongando das consciências. » * Sem sair 
d'esta orientação religiosa dada por Herculano, D. Pedro v 
o mais que podia ser era metaphysico; e com a educação 
exterior que se costuma entre nós dar a um príncipe sim- 
plesmente para figurar em recepções officiaes, o ser meta* 
physico era o cumulo da superioridade. 

Em um despacho secreto do embaixador hespanhol Pas- 
tor Diaz, de 10 de dezembro de 1859, acha-se o retrato de 
D. Pedro v como metaphysico; o embaixador hespanhol, 
para captar-lhe as boas graças fallava-lhe «de^losofia trans- 
cendental que no es possible eludir cuando se tiene el honor 
ie entrar en colóquios con este soberano, t^ Descreve com tra- 

1 darta de 17 de dezembro de 187G. 



ALEXA2n>SB HEBCDLAVO 



3571' 



ços picarescos uma conversa entre o emprezario Salamanca 
e D. Pedro v, na qual o rei «habia dicho con el mayor. 
aplomo, que los caminos de hierro paralizaban las primeras 
industrias, que se daba demasiada importância á la civilí- 
zacion que podian aumentar, y que Portugal y Espana no 
tenian industria, ni comercio, ni necessidades para soste- 
ner los ferro-carriles.» Em seguida Pastor Diaz resume as 
ideias fundaraentaes da metaphysica do joven monarcha: 
«que el mediodia de la Europa eran pueblos caldos y gas- 
tados que ya no servian para nada, que no tenian actividad, 
ni iniciativa, ni entusiasmos, y que la raza latina habia dado 
de si todo lo que podia ...» Pastor Diaz explica em parte 
estas afirmações porque «em hijo de un alleman»^ mas 
não sabia explical-as como a obra da exploração catholico* 
monarchica sobre os povos meridionaes. D. Pedro v via os 
resultados de uma certa decadência, mas era-lhe impossí- 
vel reconhecer as causas históricas. Isto anullavá toda a sua 
boa vontade; para a renovação politica obstavam os seus 
respeitos religiosos, para a renovação intellectual, prejudi- 
€ava-o a indisciplina metaphysica, que viciava os seus po- 
bres aphorismos económicos. Por fim as formas consti- 
tucionaes envolviam-no, e as conveniências de camarilha 
ataram-no; não tinha a edade e experiência bastante para 
poder harmonisar-se com a Carta, nem a critica para saber 
julgar os que o cercavam. Da sua dotação tirava todos os 
annos trinta contos de réis para as urgências do estado; 
era uma medida de expediente. Foi por esta forma que 
mandou fundar o Curso Superior de Lettras como uma fa- 
culdade humanista, composta de três cadeiras para apro- 
veitar as aptidões dos homens que elle intellectualmente 
mais considerava; as cadeiras eram: 1.* Historia geral e 
pátria^ destinada para Herculano ; 2.^ Litíeraturas grega e 



1 Ap. Mi Mistian en Portugal^ p. 204. 



S72 HI8T0BIA DO B0MAHTI8X0 XX FOBTUOAI. 

latina, para o seu antigo perceptor de grammatica latina e 
portagueza Viale; 3.* de Litteraturas modernas da Europa, 
e especialmente a portugueza, reservava-se para o grande pu- 
rista e rhetorico Castilho. Era o melhor que o joven rei 
podia conceber. De facto Herculano não tendo feito discipu» 
los com os seus livros, poderia levantar uma geração litte- 
raria com o ensino oral; recusou-se formalmente a esse 
trabalho, apesar da insistência sublime de D. Pedro v t Cas- 
tilho não quiz ser menos do que Herculano, e recusou tam- 
bém a nomeação de professor de Litteratura, dizendo que 
empregava melhor a sua capacidade fazendo traducções pa* 
raphrasticas. Assim ficou atrophiado na origem um pen-^ 
samento generoso, e a fundação tornou-se um arsenal de 
rhetorica espectaculosa, sem acção sobre a nossa transfor- 
mação intellectual. * 

Herculano pertencia como sócio correspondente ao Insti- 
tuto de França, e merecia essa honra ; mas estava illudida 
acerca do motivo da sua nomeação. Essa honra foi solici-^ 
tada pelo sr. Dantas^ quando pertencia á embaixada portu- 
gueza de Paris, e elle próprio escreveu a pequena biogra- 
phia do escriptor, que se distribuo lithographada pelos so-: 
cios do Instituto para fundamento da proposta e da votação. 
Pelas suas relações com Prosper Merimé e com outros 
escriptores francezes, o sr. Dantas conseguiu essa distincçãa 
scientifica para o nosso paiz; em geral os francezes igno- 
ram o movimento intellectual dos outros povos, e o nome 
de Herculano era-lhes extranho, se o sr. Dantas não pro- 
vasse o jseu alto valor. Natarla a monsenhor Pinto de Cam- 



1 Esti» joTen monarcha tioha a Telleidade litteraria ; qtiando morreo, eorren > 

a tradição que deixara trinta Tolames de escriptos inéditos. No 8ea feticbísmo 
pelo monarcha, Herculano excIamaTa com nncção patriàrchal : Perdia as noi- j 

tet a Bicrever, em quanto os outros dormiam l Com uma malícia natural, qae 
era uma das formas do bom senso de Castilho, esto parodiou o dito de Herca- 
Jano: «Coitado I passava as noites sem dormir, para fazer dormir os outros.» 
J)e resto esses pretendidos inéditos nunca appareceram. J 



ALEXANDRE HEBCULAKO B78 

pos, de 2 de junho de 1862, Herculano escrevia Jngenua- 
mente : «I^o Instituto de França ha homens que me estima- 
ram, e que sem eu solicitar me associaram áquella corporação 
illustre, e que hoje me. são pouco aflfectos, porque não pen- 
sam como eu.» Para a Academia de Berlim admitlir Her- 
culano, empenha va-se el-rei D. Fernando, mas nada se con- 
seguiu; en^ verdade Herculano era extranho a estas solici- 
tações, mas conclue-se de tudo que sem a legenda dos amigos 
-6 dos fanáticos admiradores nunca o verdadeiro mérito con- 
segue abrir por si o caminho na vida. 

Na sua carta a monsenhor Pinto de Campos, de 2 de ju- 
nho de 1862, falia <idas ponttialidades cortezãs em que sou 
fraco official;i> de facto era-o, porque a sua morte proveiu 
d^essa imperícia. Sabendo da chegada do imperador do Bra- 
2il a Lisboa, depois da viagem de recreio pela Europa, 
veiu immediatamente da sua quinta para cumprimental-o, 
quando ainda se achava meio convalescente de uma consti- 
pação; a etiqueta palaciana obrigou-o a descobrir^se, e as- 
sim começou a pneumonia dupla, que em poucos dias o levou 
á sepultura. Herculano era systematicamenteabstemio; este 
falso preconceito hygienico levou-o gradualmente a uma 
profunda anemia que o fez succumbir ao primeiro ataque 
inflammatorío. Uns leves conhecimentos das leis geraes da 
biologia, tel-o-iam fortalecido com um regimen saudável 
que lhe prolongaria a vidst até um alto cume; mas não é 
impunemente que se condemna a scíencia de um século, 
chamando*lhe gongorismo de pbrases. Foi victima da sua 
própria condemnação. 

< Desde 1855, como se pode fazer ideia pela predilecção 
dos estudos de agricultura publicados por Herculano na Pa- 
tria, o seu espirito olhava para a vida dos campos como 
um idylio de tranquillidade moral. Como um Cincinato mo- 
derno, Herculano faliava em deixar a penna, para ir agar- 
rar-se à charrua. Elle laborava n'esse preconceito económico « 



374 HI8T0BIA DO BOMANTIBMO BM tOBTUGAL 

qué a riqueza de Portugal lhe deve advir exclusivamente 
da producçio agrícola > sem se lembrar que o desenvolvi- 
mento das pequenas industrias locaes, até boje abandonar 
das á espontaneidade popular e á persistência tradicional, 
são o verdadeiro elemento da formação de valores capazes 
de se aqgn^entarem pela troca com os produclos estrangei- 
i!OS. Com a morte de D. Pedro v, e com o despeito contra 
a sociedade do seu tempo, Herculano resolveu abando- 
nar o logar de bibliotbecario real, refugiando^se na $ua 
quinta de Vai de Lobos, que adquirira com o pequeno ca- 
pital produzido pelos seus livros/ O mesmo exemplo foi se- 
guido pelo medico do paço o Dr. Bernardino António Go- 
mes, que egualmente se despediu do serviço real e comprou 
a quinta de Ladeiras, também próximo de Santarém. Um, 
liomem de lettras, outro, bomem de sciencia, nenhum co- 
l^becia as relações do saloio com a terra ; para o saloio a 
terra bade sustental-o sem trabalhar, e quando essa está já 
bem esterilisada, passa para outra, abandonando-a ao pror 
prietarío, que se desgosta vendendo-a a quem tenha ainda 
illusões sobre o rendimento da agricultura. É por isso qqe 
i> que. adquire propriedades em volta de Lisboa, começa 
logo por dispender em vez de colher, e como nunca pôde 
ressarcir as perdas, toma. como resolução ultima o desfar 
^er-se a tempo de bens que só trazem desgostos. Â situa- 
ção de Herculano como proprietário agrícola foi assim; 
precisou logo de dinheiro, para começar a reparação do^ 
«stragos do saloio. Isto influiu na sua actividade, propondo 
á Academia das Sciencias a compra dos apontamentos para 
um Diccionario portuguez, que lhe deixara em testamento 
o. finado traductor de Walter Scott, Ramalho e Sousa. A 
venda fez-se, ficando Herculano a receber o juro de dez 
contos, ou seiscentos mil réis por anno. Mas a terra não 
lhe levava também só os meios produzidos pela litteratura, 
' produzia-lhe profundos desalentos, effeito da solidão, de 



ÁLVSÁVDBB HBBCUI.A1V0 375 

modo que o vácuo iotellectual revelava-se pelo tédio dos 
longos serões de inverno. *■ Para sair d'este estado doentio 
do espirito, e ao mesmo tempo para acudir' ás urgências 
da terra, é que emprehendeu a compilação dos seus peque* 
nos escríptos ou Opúsculos, dispersos em um trabalho de 
trinta annos pelos diversos jornaes. Repositório, Panorama^ 
Revista peninsular, Revista Universal lisbonense, lUusiraçõo, 
Semana, Annaes das Sciendas e das Lettras, Paiz, Pa- 
iria, etc. O descontentamento que o fez romper con^ á po- 
Utica, com a litteratura e historia, também o atacou no iso- 
lamento do campo, onde as mil scducçôes da sua gloria o 
iam provocar, como se viu na visita do imperador do Bra- 
zil a Vai de Lobos i A confissão d'este tédio é uma curiosa 

m 

pagina psychologica: 

cPara o velho que vive na granja, na quinta, no casal^ 
como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso 
anfractuoso paiz, ha na existência uma condição que todos 
os annos lhe prostra o animo por alguns mezes, doença mo- 
ral, mancha negra na vida rústica, fácil de evitar nas cidiai* 
des. É o tédio das longas noites de inverno; das horas es- 
tereis em que o pezo do silencio e da soledade cáe com 
duplicada força sobre o espirito. Para o velho do ermo, 
n'esses intervallos da vida exterior, a corrente impetuosa 
do tempo parece chegar de súbito a pégç dormente e es- 
praiar*se pela sua superfície. Â leitura raramente o acari- 
cia, porque os livros novos são raros. — Nas intermináveis 
noites de inverno, a inércia da intelligencia, que vaguêa no 
indefinito 3em o norte da realidade, vae-se convertendo pouco 
a pouco em intolerável tormento; tormento no qual ha por 
fim, o quer que seja da cellula circular e esmeradamente 
branqueada onde o grande criminoso é entregue, sósinho, 
á euménide da própria consciência. N'esta extremidade, por 

1 opúsculos, i. I, p. TIL 



376 mSTOBlA DO soicahtibmo bm pobtugal 

mais somnolenta e obscurecida que esteja a meute, por 
mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, aiuda 
o mais árido, é preferível, cem vezes preferível, ao fluctuar 
indeciso no vácuo. — Foi por isso que comecei a ajuntar os 
disjecta membra de uma grande parte do meu passado ia- 
tellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir, a completar. 
Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos 
negros junto dos quaes cumpria que longamente me assen- 
tasse ao cabo de cada um dos poucos estádios que ainda 
me restam a transitar pela estrada da vida. Que esta con- 
fissão ingénua sirva para ser absolvido da espécie de cor- 
reria que, apesar dos mais firmes propósitos, faço, ainda 
uma vez, na republica das lettras.» * 

Estas palavras encerram o desalento dè uma ultima illa« 
são; na sua mocidade Herculano revela a paixão pelo tra- 
balho da terra, pela cultura das flores, (vid. p. Í236) e abor- 
recido da gloria litteraria encontrou também o tédio da vida 
campestre. Em uma Epistola de Castilho, datada de 20 de 
dezembro de 1830, ha esla preciosa referencia á predilec- 
ção agrícola de Herculano: 

Larga o sacho ao frenético Alexandre, 

Se Schiller e o Pbantasma o deixam liVre ; 

E em nota aocrescenta: «O nosso amigo Alexandre Her- 
culano, em principio de estudos ainda a esse tempo, mas 
em quem já se admirava o infatigável fervor do. trabalho, 
assim mental como corporal, porque já então,- como ainda 
hoje, as suas horas de desenfadamento eram dispendidas 
em cavar e jardinar.]» «No estudo da lingua allemã andava 
todo e na sociedade do sr. Assentiz fazia ás noites leitura 
da sua traducçãô do Phantasma de Schiller.» ' O tédio dM 



1 Opúsculos, t. I, p. Yn e ix. (1878.) 
^ Excamções poeticaSy p. 16. 



' AUBXANDBE BEBCULAKO 37*T 

iongas noites de inverno veiu-Ihe destraír a ultima illusão 
que o acariciara — o remanso da vida campestre; isto aca- 
bou de o definir. Era uma natureza descontente. 

Uma cousa parecia caracterisar em Herculano a centelha 
do génio, e foi isso talvez o que exerceu uma acçSo fasci- 
nadora sobre o espirito dos seus admiradores: nunca se 
. mostrou satisfeito. Diderot definiu profundamente o génio 
n'essa phrase— ««e âme qui se tounnente; Herculano vivia 
-em continuo descontentamento, e se este estado de espirito 
proviesse da apprehensão do futuro, da febre da iniciação, 
seria proclamado apesar de todos os seus erros, um génio. 
Mas esse descontentamento era o testemunho da sua infe- 
rioridade; \ falta de disciplina mental revela-se n^elle de 
um modo involuntário pelas contradições de toda a sua 
vida, que o punham em conflicto com os seus maiores ami- 
gos, dp quem se afastou irreconciliável, taes como Garrett, 
Castilho, Marquez de Resende, Rodrigo da Fonseca Maga- 
4bães, Oliveira Marreca e Seabra. Escrevendo sempre em 
todos os momentos graves da historia contemporânea, que 
a geração ia perdida, que não acreditava no futuro da pá- 
tria, que não servia o seu paiz, voltava-se para o passado, 
avivava a tradição do monachismo, e perturbava a emanci- 
pação da sociedade civil com um dei&mo christão com que 
acobertava a falta de critério philosophieo. Esse'desconten- 
tamento, que se ti^aduzia ás vezes por uma modéstia osten- 
siva, rejeitando com apparato as honras sociaes, era em 
geral um estado de despeito de um espirito que não sabia 
deduzir dos actos descoordenados das pessoas a marcha 
progressiva das cousas. Filho da ultima época do absolu- 
tismo, explicava a historia pela vontade dos indivíduos, e 
o progresso social pelo que ha de mais retardatário — o in- 
fluxo religioso ; a nação atrasada conferiu-lhe por isso o po- 
der espiritual, lie que elle se sentiu investido, mas de que 
não soube usar. 



978 HISTOSU J>Ò BOMUITIBUO EM POtlTUQU. 

O silencio de Herculano na litteralura fora também um 
systema de celebridade mythica. Rossini, o grande compo- 
sitor da escola italiana, calou-se para sempre, quando co- 
nheceu a profundidade de pensamento da escola allema que 
«começava a preponderar na musica moderna; não se quiz 
empenhar em uma lucla do génio creádor. Em Portugal 
ninguém se alevantára acima de Herculano, e o silencio 
do escri^tor tornou-se uma das formas do despreso pela 
•sua sociedade; era um protesto como o do, militar que que- 
bra a espada no meio de uma campanha sem bravura. Mas 
aqui a efficacia da acção augmentava com o isolamento in- 
dividual do iniciador; Herculano não o entendeu assim. 

Desgraçado do escriplor que não se apaixdna pela sua 
obra, tirando d'ella própria o estimulo para o trabalho; um 
dos grandes espirilos do século xvui, ao terminar a sua 
Historia da Decadência do Império romano, declars^: cNão 
dissimularei que tive uma primeira emoção de alegria n'esse 
momento em que me achava desembaraçado, e que ia tal- 
vez firmar a minha reputação. O meu orgulho abateu-sè 
logo; e uma humilde melancholia se apoderou de mim, ao 
lerabrar-me que me separava do antigo e agradável compa- 
nheiro da minha vida, e que, fosse qual fosse a duração 
que a minha obra ateançasse a vida do historiador de ora 
em diante* seria breve e percaria.» A mesma emoção se 
dá com Michelet, ao acabar a sua História de França, consi- 
-derando-se elle próprio filho da sua obra. Mesmo, quando 
a injustiça ou os desastres nos assaltam, um pensamento 
dominante, a preoccupação de um trabalho que se tomou 
uma manifestação da nossa vida, é o apoio moral mais se- 
*guro que se pôde descobrir; ali o sentimento foge ás emo- 
ções doentias, ali a rasão se exerce, mantendo o equilíbrio 
«contra as violências exteriores que a perturbam. Para Her- 
culano o trabalho não foi nada d'isto, postoque declare que 
a gloria litteraria foi a sua única ambição no mundo. Quem 



ALSXiJKPItB HER0UI.ANO 



'òn 



.visar a dirigir o seu tempo, a ir de encontro aos erros, a 
fundar disciplina moral, não pode aspirar á gloria liltera- 
ria;'para obtél-a é necessário lisongear a época que só me- 
rece cautério, e que paga a lisonja lançando-se na admira- 
ção fet|chista. \Herculano conseguiu a admiração feticbista, 
e isso cortou-ltie a actividade, deixou-ro sem estimules meu- 
laes. 

^ ' Contra esta admiração publica oppoz Herculano um si- 
lencio systematico, abandonando as lettras ; na carta em que 
em 1862 recusa a grã-cruz de S. Thiago falia do alongo si' 
lenciOs que tenho guardado^ e que espero continuar a guar-^ 
dar acerca das questões politicas e das questões litterarias.,.^ 
O seu silencio era sybilino e a nação queria ouvil-o; fo- 
ram perturbal-o com uma nova bonra, nomeando-o para a 
Commissão revisora do Projecto de Código Civil, do seu an- 
tigo amigo António Luiz de Seabra; fora nomeado para a 
revisão da redacção litteraria dos artigos, mas cabe-lhe 
4 gloria de ter feito a redacção do título sobre aguas* 
Em i865 escreveu no Jornal do Conmeíxio a carta djando 
parte ao público de que redigira no Código a emenda rela- 
tiva ao Casamento civil a propósito de umas inepcias do 
Duque de Saldanha, de quem estava separado desde 1851; 
d'essa polemica que se agitou na imprensa, resultaram os 
opúsculos intitulados Estudos sobre o Casamento civil, pu- 
blicados em 1866, e desde 22 de dezembro d 'esse anno 
inscriptos no Index dos livros prohibidos pela Congregação 
de exame de Roma. Era a ultima honra que lhe faltava; 
^ssa mesma o procurou para envoivel-o no nimbo de um 
Jivre pensador, que não era. 

A questão do Casamento civil em 1865 foi aproveitada 
por Herculano para lançar aos ventos uma epistola prophe- 
tica. Vejamos que relações existiam entre Herculano e esta 
conquista do civilismo, A legislação civil portugueza eslava 
na. mais profunda immobilidade, consignada nas Ordenações 



§80 HISTOBIÁ DO BOUJLNTIBMO BM PORTUGAL 

V 

do Reino dadas a este paiz sob o domínio hespanhol ! É pas- 
moso, mas é um grande facto histórico. Como existiam có- 
digos civis europeus, como o francez e o sardo, era fácil 
glosal-os, e apropriarmo-nos d*elles confeccionando uma 
cousa; assim se fez por um processo absurdo. encarregando 
d'essa alta missão um jurisconsulto, e submettendo depois a 
obra a uma commissão sem plano, sem capacidade philo- 
sophica e histórica. D'aqui resultou um constante conflictq^ 
entre o redactor do Código civil e a Commissão revisora, 
e um producto mórbido filho de emendas, alterações, supre- 
sões e toda a qualidade de accidentes que provoca o par- 
lamentarismo. Herculano fora nomeado oflQcialmente como 
membro da Commissão revisora; pensámos nós que fora 
para servir a pátria com as suas luzes históricas acerca das 
instituições do passado para se fazer evolutivamente a trans- 
ição para o civilísmo moderno, mas o historiador não deixa 
illusões sobre os seus actos. Diz elle, na celebre carta ao 
Jornal do Commercio, de l de dezembro de 1865: «Fui mem- 
bro da Commissão revisora do projecto do Código civil. Se 
ncmtei esse longo e laborioso encargo, não foi para servir o 
paiz. O paiz não precisa dos meus serviços, » Isto é pasmoso, 
sobretudo quando se aproxima d'essa pi\tra declaração acerca 
da Historia de Portugal, escripta para uso do príncipe, em 
que diz que a pátria não lhe deve nada. Depois continua 
na carta: «Acceitei, porque m'o pediu o próprio auctordo 
projecto primitivo do Código ...» O jurisconsulto António 
Luiz de Seabra pediu a assistência de Herculano para a 
questão de linguagem, uAa das dificuldades da redacção' 
imperativa dos artigos; Herculano complicou o trabalho 
com a paixão dos archaismos, e introduzindo provincia- 
nismos particulares na redacção de artigos de auctorida- 
de geral. * A final o Código civil saiu estropeado da com- 

1 Citaremos as palavras gaivagem e ákorcas, do art. 462.*^ do God. Gír. 



AI.EZABDBE HIBCULÁIIO 381 

missão; compilado dos códigos modernos, era quasi impos- 
sível que não reproduzisse alguma das grandes conquistas 
do espirito civil moderno; foi assim inconscientemente que 
se introduziu n'elle a ideia, do casamento reduzido á sua 
base histórica e philosophica de um contracto. Herculano 
complicou a problema com uma proposta, que alterou capi- 
talmente essa ideia moderna : o casamento conservaria um 
duplo caracter de sacramento para os catholicos, e de con- ^ 
tracto civil para os não catholicos, e a lei devia reconhecer 
esta antinomia, acatar a usurpação da egreja, tornando o 
contracto civil de natureza excepcional, para os não catho- 
licos. D'aqui resultou a impossibilidade de pôr em pratica 
essa disposição nova do Código civil, e o recurso de um so- 
phisma addiaodo esse progresso pela dependência de um ' 
regulamento, que só appareceu ao fim de doze annos. Na 
referida carta ao Jornal do Commercio, Herculano cáe na 
ingenuidade de declarar: «de uma proposta que fiz derivou 
a divisão do casamento em religioso e civil, embora no de- 
senvolvimento legislativo que devia tornar essa divisão uma 
cousa pratica, bem poucas disposições se contenham dô 
iniciativa minha, e, até a alguns desse voto em contrario.» 
Ninguém viu a triste consequência d'este erro da fazer 
coexistir no mesmo. Código dois princípios antinomicps, o 
contracto civil e o sacramento; levantou-se a polemica na 
imprensa ; o marechal Saldanha, que se tomara o caudilho 
do clericalismo, saiu com um folheto a favor do sacramento. 
Herculano, que desde a falsificação do movimento da Ra- 
generação de 1851 rompera com o militar empavezado, ir- 
ritou-se contra essa theologia da caserna, e na alludida carta 
exclama: «Ha dois ou três dias, voltando do campo, e da 
campo assaz remoto e solitário para não chegar até lá o 
ruido dos negócios do estado, vim encontrar a opinião pu*. 
blka da capital singularmente digitada. Fallava-se por toda 
a parte na legislação relativa ao casamento contida no pro- 



382 HI8T0BIÁ DO BOHAHTISHO laU FèBTUGAL 

jecto de Código civil ... -A th£ologia encostava-se ás hòmhréi^ 
ra$ dos quartéis ...» Herculano nSo podia perder este en- : 
sejo para trovejar propheticamenle: «Alheio e indífferetite 
ha muito a todos os debates políticos ; desenganado atè das 
lettras, que foram a minha primeira e ultima illusão, n3Q 
esperando nem crendo no futuro da lerra onde nasci,- de- 
veria conservar-me extranho a este singular debate ...» 
Mas nao se conservou, porque era ura momento espectacu- 
loso; veiu explicar a sua doutrina, dizendo que tentara «prfr 
de accórdo o sacerdócio e o império. 9 De que modo? Par- 
tindo de que o acto do casamento civil se achava já legiti- 
mado na Ordenação, Liv. iv, tit. 46, | 2.^ em que se dava 
á mancebia a sancção jurídica I Monstruoso. «Na Ordenação 
o que o absolutismo fizera fora elevar a mancebia á digni- 
dade de matrimonio. — A commissao acceitou, pois, o prin- 
cipio perfilhado pela monarchia absoluta. — Expurgando-o 
das asquerosidades de que vinha polluido, cercando-o, como 
contracto civil, das garantias, das formulas, das condições 
dos contractos, dava-lhe aquillo de que carecia, a gravidade 
e a auctoridade moral ...» Herculano para justificar esta 
triste comprehensao da lei civil, escreveu três opúsculos 
Esttidos sobre o Casamento civil, em que os cânones se de- 
batem atrapalhadamente com a legislação consuetudinária, 
para mostrar que o casamento civil é a elevação da mancebia 
á altura de dignidade jurídica ! Mais lhe valera ter ficado ca- 
lado, do que vir assim perverter o critério publico, insuflando 
nos espíritos a deplorável ideia de que o contracto civil do ca- 
samento, a única concepção universal e sublime pela continui- 
dade histórica das civilisações, é, perante uma religião tran- 
sitória, cheia dê mythos atrasados e de superstições degra- 
dantes, uma legitimação inicial da mancebia. Assim proce- 
dia o grande homem na conciliação do sacerdócio e do impé- 
rio; o mais pasmoso é a illusão do espirito publico que julgou 
Tér em Herculano um iniciador da liberdade de consciência» 



▲LEXAHDRB HEHCrLANO 383 

Herculano contradíctou immedia lamente as doa trinas so- 
bre o casamento civil, casando em 1867 catholicamente, 
escolhendo para padrinho um pobre que encontrou á 
porta da sé, * A maior força na propagação dos princí- 
pios consiste no exemplo; e o que fizera com relação á 
emancipação civil fêl-o também contra as doutrinas da ne- 
gação da propriedade lilteraria, que sustentara contra Gar- 
rei em 1851, vendendo á Academia das Sciencias os apon- 
tamentos de um Diccionario portuguez que lhe legara o 
traductor portuguez de Walter Scolt, André Joaquim Ra- 
malho e Sousa. Outras contradições e antinomias de cara- 
cter poderíamos expor, mas as que ficam bastam para ex- 
plicar tanto no homem como na sua obra, que provinham 
da falta de uma disciplina philosophica, que elle suppriu 
no seu espirito por um vago sentimejito religioso; e essa 
falta encobre-a por uma naturalidade simuladamente rude 
mas no fundo theatral, e pela emphase de um estylo figu- 
rado, que visa a impressionar pela condemnação do pre- 
sente e pela recomposição poética das crenças que se dis- 
solvem. 

A missão da Philosophia acha-se assim descripta no pro- 
logo do Monge de Cister, de 1848, quando a nação imbeci- 
lisada sofTrera a invasão estrangeira chamada pela sua mo- 
narchia: «Com a rapidez da cholera ou da peste, corre por 
todos os ângulos de Portugal e encasa-se em todos os po- 
voados uma cousa hedionda e torpe, que, inimiga do pas- 
sado e do futuro, se chama illustração, que tendo por lógica 
o escarneo, e por syliogismo o camartello, se chama Philo- 
sophia. Deus a mandou ao mundo como mandou Attila oa 
a Inquisição, como um verbo de morte. Seu mister é apa- 
gar todos os santos affectos da alma e incarnar no coração^ 



^ Isto n9o foi iem ínflaencia na falta de rigor em que ficoa esta parte do 
Código ciril, que ló em 1878 p6de eer regulamentada. 






.384 HI8T0RU. DO BOKAKTIBMO BH POBTUOAL 

em logar d^elles, pm cancro para o qual nossos avós não 
tinham nome, e qae extranhos designaram pela palavra 
egoismo.» Estas palavras authenticam uma completa indis* 
ciplina mental, e um enfatuamento que tornava incapaz de 
subordinal-a. De facto durante muitos annos a Philosophia 
foi para o espirito publico portuguez pma cousa medonha, 
de que se fallava a medo, e era synonímo de abjecção, como 
Republica era synonimo de anarchia. Assim se pervertiam 
as ideias fundamentaes, e o resultado foi o ter a nação des- 
cido atè ao ultimo gráo da inconsciência, como se vé pela 
pratica dos sophismas do Constitucionalismo. Os espirites 
dirigentes iam com a onda. 

A falta de uma philosophia que lhe dirigisse o critério, 
resente-se em todos os pontos de vista históricos de Her- 
culano; testemunha de uma profunda transformação social 
e litteraria, renovada em 1830 depois da queda da reacção 
systematica da Santa Alliança, que pretendia abafar os prin- 
cípios da Revolução franceza, Herculano vê n'esse grande 
facto a consequência de um individualismo criminoso, de 
um um egoismo selvagem, que só pôde ser temperado pela 
abnegação do christianísmo: cO caracter estampado na 
frente do século actual è o individuaUsmo, ou mais claro, o 
egoismo. O furor dos diversos bandos civis, que pelejam 
por sustentar umas formas de governo ou por derrubar ou- 
tras, e as luctas das opiniões litterarias, scientificas e reli- 
giosas, não são por certo resultado de convicções profun- 
das, como eram as Cruzadas, ou as Reformas protestantes 
nos tempos de uma fé viva.» * Convém restabelecer a ver- 
(}ade. 

O facto das Cruzadas foi uma doença de hallucinação si- 
milhaote ao millenario, á feiticeria e aos semeadores de 
peste; quando a Europa entrou na corrente do criticismô 

1 Panorama^ t. ii, p. 107. 



IIXZAHDBB mOCCIiASO 385 

protestante, decaiu nas eonsoiendas o poder catholico-feu* 
dal, cuja dissolução se completou na politica pela grande Re* 
ToIuçSo de 1789. Todos os factos que se seguiram depois, 
vieram d'este impulso, e Herculano n3o podendo estabele- 
cer a sua íntima continuidade nao^ conseguiu comprehen- 
del-os; quando o regimen da sciencia se generalisava pela 
fundação da cbimica, da biologia e das descobertas indu. 
striaes como a applicação do vapor, da ielegraphia e de ou- 
tras que multiplicaram as relações e a actividade do ho- 
mem, o impulso da fé já não podia motivar as determina- 
ções humanas, mas sim as convicções demonstradas. Foi 
assim que esse individualismo, que preponderou durante o 
largo período da dissolução do regimen catholico-feudal, 
veiu a ser também disciplinado, quando a Sociologia, syste- 
matisando os complexos factores sociaes, estabeleceu o ac- 
cordo entre as forças staticas da sociedade ou o collecti- 
vísmo, e as forças dynamicas ou o individualismo, ou melhor, 
na coexistência da conservação e da revolução como condi- 
ção do progresso. Âs instituições modernas surgiram <l'esta 
dissolução, não comprebendida pelo nosso historiador. 

Herculano apoiando-se unicamente na estabilidade do pas^ 
sado, tinha medo da liberdade, e mostrava sentir a falta 
do absolutismo e da superstição, porque eram as garantias 
da ordem: «Em tempos de servidão, o poder absoluto dos 
reis e ministros era para o homem o que para a criança 
fora o pae, o aio ou o mestre— o temor ficava sendo ainda 
elemento de vida publica; então o clero continha o povo 
no aprisco da superstição; e a superstição também então 
se julgava elemento social. Quebradas as antigas formas de 
governo, não por nós mas pelo século, achámo*nos geração 
livre, com a educação e com todas as reminiscências do 
passado: corrompeu-se o povo não porque a sua índole fosse 
má, mas porque forçosamente se havia de corromper. Qual 
é o homem que nascido em ferros e em ferros levado até 

25 



â86 HISTORIA DO BOXAKTISIIO VM. POBTUGAL 

á educação tífíI» se nSo torne liceocioso, restituído de salto 
á liberdade natural?» ^ 

. O que vemos com relação á politica refleete-se também 
nas concepções de Herculano acerca da lítteratura: a civi* 
UsaçSo sendo para elle a fórmula profana do Ghristianismo, 
o Romantismo só podia significar a Arte chrisfã. Aqui o 
erro é desculpável, porque esta ideia prevaleceu algum 
tempo na Europa. 

Em geral dá-se também ao Romantismo o nome de Arte 
christã; os críticos especíaes, desajudados das noções po- 
sitivas da Sciencia das Religiões, suppozeram que a espe- 
culação moral e subjectiva que se exprime no Romantismo 
pela complexidade de sentimentos, era um novo estado da 
consciência humana provocado pela elevação religiosa do 
Christianismo ; d'aqui determinaram como característico da 
Arte romântica o vago, o indefinido, como esforço para de- 
finir morphologicamente essas entidades metapbysicas da 
immortalidade, na alma, e do infinito, em Deus. Sobre es* 
tas bases ocas fizeram-se tbeorías criticas, chamando ao 
Romantismo o Ghristianísmo na arte; esta phase acha-se 
bem representada pela escola emanuelica dos românticos 
francezes, e aquelles que generalisaram mais estas abstrac* 
ções> como os poetas da Allemanha, fizeram um ultra-ema-, 
nuelismo, foram pantheistas. Para restabelecer a verdade, 
no problema, convém ter presente, que o Gbristianismo é 
um factor que se não pôde eliminar, mas que ainda não está 
comprehendido. O que representa o Christianismo como re* 
Mgião moderna? Uma consequência reflexa do estado dos 
espíritos, e não uma acção directa; por isso Christianismo 
e Romantismo são manifestações simultâneas d'esse estado. 
As religiões antigas, como o polytheismo védico e greco- 
romano, eram formadas sobre mythos tradicionaes; esses 

1 PanoTimai t» n, p. 211. ^ i 



. AI.BXÀHI«B HXBCITLÂNO 'S8t 

mythos foram elaborados em personificações, allegòrias; 
symbolos, e as suas formas foram decaindo em lendas, con- 
tos, epopêas e outras formas tradicionaes das lítteratnras 
d*esse$ povos. Á medida que os mythos iam decaliindo do 
respeito sagrado, as religiões foram perdendo a sua base, 
e dissolvendo-se; é por isso que o brahmanismo soffre no 
seu seio uma transformação profunda, o buddhismo, e õ 
polytbeismo greco-romano é facilmente substituído pelo 
christianismo. Eis o grande facto: importa explical-o. Em 
yez da base mythica, o espirito humano procurou para a 
sua crença uma base moral; ial é o pensamento d'essas 
duas religiões, J3ttddhismo e christianismo, tão análogas nas 
suas formas dogmáticas e cultuaes. O desenvolvimento das 
especulações moraes fez triumphàr o christianismo sobre o 
polytbeismo mythico da civilisaçSo greco-romana, e essa 
mesma especulação na forma de subjectivismo sentimental 
desenvolveu as manifestações litterarias do Romantismo, 
differenciadas por esse caracter das litteraturas clássicas. 
Por tanto, a critica explicando o Romantismo pelo Christia- 
nismo syncretisou os factos, elevando a causa aquillo que 
também era um resultado. Â passividade mystica do chris- 
tianismo, que recebeu nos claustros a forma lítteraria, é si- 
milhante a essa impressionabilidade doentia da escola by- 
Foniana das litteraturas românticas ; dífferem apenas no fim 
individual. Os que sentiram essa impressionabilidade, e pra- ' 
ticaram a especulação subjectiva do sentimento, como Pe- 
trarcha, Dante, Miguel Angelo, Shakespeare, Diderot, têm 
todos os caracteres de Românticos, postoque a consciência 
d'esta renovação só apparecesse no século xix. 
. Havia em Herculano uma incapacidade philosophica para 
julgar bem o seu meio social, e Sobretudo para poder dis- 
ciplinar uma geração. Â exclusiva educação clerical deu-lhe 
a comprehensão ascética sobre o mundo exterior; o retrato 
que faz da sociedade portugueza, immensamente carregado 



888 HX8T0BIA 90 BOMAansiio XM roBTnajkx. 

em 1839, mais carregado ainda em 1851 nos artigos do 
Paiz^ ainda mais desalentado no prologo do quarto Tolume^ 
da Historia em 18K3» e no prologo de despedida de 1863, 
repete*se com mais violência na carta sobre o Casamento 
civil de 18651 Sempre a condemnaçao, e nunca um ár de 
esperança; era para quebrar todas as energias. No artigo 
sobre o Gbristianismo escreve, em 13 de julbo de 1839: 
cPortugal convertesse em paiz de bárbaros; o assassínio ò 
um desafogo; a dobrez um mérito, o prejurio um calculo 
de interesses, e apenas o parricidio será um feito, não hor* 
rendo, não abominável, não maldito, mãs digno de se re« 
prehender nos jornaes.» ^ Proclamava a necessidade de edu'^ 
car a geração nova como via directa para a transformação 
do futuro, e apresentava o Christianismo como a panacêa 
exclusiva : cjulgámos poder alevantar a voz em favor da re-* 
ligião, que tão esquecida anda em o nosso Portugal » E em 
seguida lança sobre o futuro este olhar de previsão, que 
denota a falta de critério: «Ainda está occulto no provir 
qual será o symbolo universal do Christianismo; mas a 
missão do presente é a religiosidade, i» ^ D'este feitio a sua 
direcção sobre os espíritos foi uma calamidade. Em 1851, 
em artigo de 29 de outubro, no Paiz, escreve estes traços, 
sobre o estado de Portugal: 

<iA historia politica é uma serie de desconchavos, de tor-- 
pezas, de inepcias, de incoherencias indesculpáveis; ligados 
comtudo por um pensamento constante, o de se euriquece** 
rem os chefes de partido! Ideias, não se encontram em toda 
essa historia, senão as que esses homens beberam nos li-> 
vros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal*os-eis. 
progressistas^ amanhã reaccionários; hoje conservadores, 
amanhã reformadores ; oMae porém com attenção e eacon*- 
tral-os-eis sempre nuUos. 

1 Panorama^ t. iir, p. 210. 
^ Panorama, i, u, p. 108. 



. ALBSABBBX HBBOULAirO 889 

cA historia da nossa indastría é a historia da lacta entre 
o trabalho e a administração. Quando o tem querido pn>» 
teger os governos só tém sabido contrarial-o. Lede a pauta 
da alfandega, as leis dos foraes, esse cabos de leif incohe-n 
rentes e parvas que se têm feito, e vereis sempre a mesma 
ignorância dos principies económicos geraes, ignorância da. 
índole e necessidade do paiz ... 

<A historia da instrucção publica é similhante ás outras. 
As escolas superiores têm de estar em defesa permanente^ 
mente contra as aggressões dos políticos ignorantes, que 
as consideram como inimigas suas irreconciliáveis. — As 
escolas primarias, a instrucção do povo, a mais essencial 
de todas para o bem da nação, essa, abandonada, esque- 
cida, perseguida pelos tartufos políticos e não tendo força 
para luctar com elles succumbiu ...» 

O remédio que apresenta, é derivado da mesma preoc- 
cupação religiosa, quer ^padres virtuosos, para propagarem 
os princípios suaves e eminentemente liberaes da verdadeira 
religião.» ^ £ ha que numero de annos havia já Augusto 
Comte demonstrado que os progressos têm uma evolução 
normal, primeiramente scientificos, depois moraes e conse- 
quentemente económicos? Quem quizer transformar um 
povo, antes de refrear-lhe coactivamente os costumes dé- 
lhe noções verdadeiras das cousas, isto é, sciencia, que a 
moral e a industria brotarão d'essa energia mental. PorOm, 
Herculano já comparava Portugal aos últimos dias da deca- 
dência do império romano, comparava-se aos anachore- 
tas, e comparava Lisboa a Nicêa discutindo subtilezas 
theologícas quando os devastadores lhe demoliam os mu- 
ros. 

Uma cousa attenúa estas jeremiadas; eram parte obri- 
gada do seu estylo, que precisava de metáphoras violentas» 

1 PiUz, D.» 84, de 18S1. 



390 BIStOBIÂ DO BOKABTIBXO W POBTUaAL ' 

ãe paradigmas históricos de effeito ^ para ejicobrirem a falta 
de abstracção e de anaiyse subjectiva. 

No prologo da terceira edição da Historie^ de Portiigaí, 
espécie file testamento litterario dè HercoIaDO, declara ella 
que a gloria litteraria fora a única ambição que o movera^ 
e a ultima que o abandonara. A nação inteira reconheceo 
unanimemente essa gloria, quando o escriptor se entregava^ 
a uma absoluta abstenção de actividade intellectual; essa 
descrença era a posse de um poder sem destino. A gloria, 
a que se visa, é um estimulo diverso da vocação. Como en^ 
outro logar diss^émos: «A vocação litteraria resulta deiimâe 
organisação especial ; é essa sacrosanta fatalidade que leva 
um homem a usar e gastar o seu corpo sacriflcando-o á acti"* 
vidado da intelligencia ; a vocação litteraria levava Anquetil 
Du Pérron a sentar praça por dinheiro e a ir servir na In-: 
dia, para lá descobrir o zend, resistindo a todas as seduc- 
çôes das bayaderas, affrontando os climas inhospitos da Ásia, 
para estudar os dogmas das religiões da índia, e enrique- 
cer a sciencia da Europa com o livro dó Atesta; foi a vo- 
cação litteraria, que fez morrer Oltffried Miiller debaixo 
do ardente sol de Delphos; foi também a vocação litteraria, 
que levou Agostinho Thierry a cegar sobre os monumentos- 
da Historia de França, e que o fazia dizer, ante o Instituto, 
quando já não podia continuar o seu trabalho, perto de 
morrer: — Eis aqui o que eu fiz, e o que eu faria se tivesse- 
de recomeçar a minha carreira; eu tornaria a tomar aquella 
via que me trouxe a este estado. Cego, e soffrendo senr 
esperança e quasi sem allivio, eu posso dar este testemo* 
nho, que da minha parte não será suspeito. Ha alguma 
cousa que vale mais do que os gosos maleriaes, que é me-^ 
Ihor do que d fortuna, melhor do que a saúde, é o sacrifl- 
cio pela sciencia. — Para o progresso do homem sobre á 
terra, estas palavras valem mais do que o afchado da mais 
pura moral. Que diríamos de um Littré, d'esses dois sán- 



ALXZAIIDBB HXBOULAVO B&% 

tos obreiros Jacob e Guilherme Grímm, de um Pedro José 
Proudbon, ou de um Baspail, e de tantos outros ? Yeneran^ 
das sombras que passaram imprimindo direcção ao sea 
tempo; mas não se queixaram, e trabalhavam por isso 
mesmo que havia quem divergisse das suas opiniões. ]> ^ A 
vocação não se preoccupa com a gloria, peio contrario o 
conflícto com o meio social, com as ideias preconcebidas^ 
com as opiniões estacionarias, é uma condição natural para 
o desenvolvimento da sua energia. Natureza melancholica^ 
um pouco tendendo para a vesânia periódica da persegui-^ 
ção, o que se explica pelo temperamento* irritável, que se 
caracterisava vulgarmente como orgulho, e pelo resto de 
orientação da tremenda crise do absolutismo, Herculano não 
sentia na sua actividade o apoio inabalável de um destino. 
Depois da polemica do Milagre de Ourique, em que dera 
um relevo pasmoso ás inepcias de alguns padres obtusos^ 
julgou-se victíma de uma vasta conspiração clerical, contra 
a qual nem o próprio governo tinha força para o proteger I 
Resolveu não progredir nos seus estudos históricos, dizendo 
que lhe haviam quebrado a penna nas mãos. No prologo 
àQS, Opúsculos explica o seu isolamento: «Após largos an-i 
nos consummidos na vida agitada das lettras, em que o meu 
baixel mais de uma vez fôra açoutado por violentas tempes-» 
tades, tinha, emQm, ancorado no porto tranquillo e feliz do 
silencio e da obscuridade.» Herculano gosava os effeitos 
theatraes d'esta abdicação em que <o espirito sentia bem 
a própria decadência.» 

Para Herculano proseguir na Historia de Portugal falta- 
va-lhe um ponto de vista; escrever para apurar datas de 
casamentos, de bulias e rescriptos que regularísavam os in-*. 
teresses de príncipes, é um mister bem ingrato. Compre^ 
hende-se que, nas luctas politicas da França em que o pas^ 

1 Bihliopaphia critica, p. 196. (1878t) 



HXITORIA. DO BOBUaXiaMO BK FOBTDaAL 

sado reagia pela Restauração contra os prmdpios de 1789 
que se expandiam na sociedade moderna, Agostinho Tlúeirrji 
se lance ao estudo da historia como a um campo de bata-^ 
lha, para sustentar que a Democracia de hoje era nascida 
d'essas classes servas que luctaram contra os barões feu-f 
daes. É assim que se acha vida na historia, que se recon«> 
strue o passado. Gomo é qae Herculano podia comprehen- 
der a vida politica de um povo atrophiado pelo catholicismo, 
se elle era um christSo fervoroso e poético? Como julgar 
d instituição da realeza, que atacou as garantias locaes ío** 
raleiras, se elle era sinceramente monarchico ? Como, apre- 
ciar os Municípios, se elle acceitava a centralisação admi< 
nistrativa do constitucionalismo com pequenas restricções? 
Sem o intuito de um processo, de um inquérito, de um 
protesto^ mesmo, não se faz historia; Herculano tinha só 
o ponto de vista da veracidade diplomática, e por isso o te* 
dio que produz essa obra fundamental, que ninguém lé, 
porque não tem encanto, atacou-o também a elle« aborre- 
ceu-se do trabalho e abandonou-o. No seu desalento cbro- 
nico, Herculano chegou também a perdar as esperanças 
sobre a marcha progressiva do século xix : «Na minha de- 
cadendia intellectual vem-me ás vezes ao espirito a suspeita 
de que este século vae acabar nos braços do gongorismo 
scientificOf como o xvi expirou nos braços do gongorismo 
das phrases e das imagens. i> * Os grandes problemas da 
atomicidade, da equivalência mechaoica do calor/ da analyse 
spectral, da physica sideral, da synthese chimica, da bisto- 
chimia, da physiologia e pathologia cellular, do transfor- 
mismo, da evolução orgânica, da psychologia experimenta); 
a constituição scientiãca dos factos sociológicos, na íingnís-' 
tica, nas religiões comparadas, na archeologia pre-historica^ . 
na pntropologia, ethnologia, na mesologia, elementos ccm^ 

1 Carta a iodrade Ferreira, de 15 de junho de 1S72^ . ' 



crètos de uma novasciencia —a Sociologia» toda esta sominisi 
de esforços que asseguram ao bomem uma DO?a conscien- * 
cia^ eram para aqaelie espirito dirigente os symptomas de < 
gengorismo scimtificol A consequência d'este estado mental 
foi a impossibilidade de actuar sobre o seu tempo, e de 
educar uma geração. 

Acceitando o ponto de vista, que Herculano tentava es* 
crever uma vasta Historia de Portugal, e nao uma mono- 
graphia das Instituições sociaes da Edade Media portugueza, - 
as proporções qae deKneára, e o processo extremamente 
analytico seguido, não só tornavam a sua realisação incom-> 
pativel com a acanhada vida de um só homem, como tor* - 
Davam essa obra gigante absolutamente illegivel, sem ac* 
ç3o sobre o espirito e a educação publica, valendo unica- 
mente para ser consultada de um modo parcial e sempre 
com menos vantagens do que qualquer monograpbia. «Por- 
tugal, como já em outro lògar dissemos, é o paiz que mais 
desconhece a sua historia; d'aqui resulta o abandono da 
tradição nacional na arte, o despreso pelos seus monumen- 
tos, a separação lamentável entre os escriptores e o povo, 
a falta de convergência e de plano na actividade política 
dos que exercem a auctoridade, e, o que è mais triste, da 
parte da nação a incapacidade de julgar as instituições abu-^ 
sivas que atrophlaram a sua energia, e a apathia. com que 
se submetteu sempre a toda a ordem de tropelias da rea-^ 
leza, que ainda em 1847 chamou solH*e Portugal uma in- 
vasão ou intervenção estrangeira para manter-se na sua 
posse dynastica. O maior serviço que se pôde fazer' a esta 
nação é recordar-lhe a sua historia ; d'ella se derivam todos 
os estimules de renovação intellectual, moral e económica^ 
porque os factos do seu passado são bem eloquentes para 
convencerem de que, pela influencia secular do jesuitismo 
se atacou mortalmente a manifestação da intelHgencia por- 
tugueza, pela extincção das cortes se abafou a vida nacional 



394 msTORU. do bomáhtisho >h mbtugal 

partindo a orientação da vida publica da devassidSú pdU-^ 
ciana, e pelo regimen do absolutísmo-cesarisia dispende- 
ram-se as riquezas nacionaes em faustos e fundações e&tu-' 
pidas, em tratados que arruinaram para sempre a nossa 
industria, e em um systema administrativo das colónias 
cujo fim era o engrandecimento dos governadores ou fidal- 
gos arruinados, que iam pela rapina official desempenhar 
as suas casas. 

«Pôr em relevo a historia d'esta pequena nacionalidade, 
é fornecer-lhe as noções que hãode determinar os seus 
actos de transformação e de progresso; os povos não se 
movem pela vontade dos tribunos, nem os agitadores têm 
esse poder fascinador que arrasta as multidões como ou- 
tr'ora se julgava. Dizia um ministro francez, a propósito 
dos levantamentos populares, que antes de se procurarem 
os chefes se procurassem as ideias que sugeriam esse movi- 
mento. Se os tribunos têm acção sobre um povo n'uma dada 
hora, é só porque exprimem com maior clareza a ideia que 
está na consciência de todos. É por isso que em um povo 
apathico e atrasado, como o portuguez, todos os esforços 
para o seu desenvolvimento serão improfícuos em quanto 
elle não^adquirir as ideias que hão de ser o estimulo ou o 
determinismo da sua própria acção. Para fallar a este povo 
sem interesses, em grande parte alheio ás conquistas do 
seu tempo, a lição mais agradável e persuasiva é a da sua 
historia; encadeiem-se-lhe os fados e elle comprehenderá 
a rasão da sua independência para luctar por ella, perce- 
berá como reduzido a beneficio de uma familia se immobi- 
lisou em feudo, e saberá pela expressão da sua soberania 
fundar um regimen de Uberdade politica, e sacudir todas 
as invasões da esphera civil, simplificar os serviços pú- 
blicos, e explorar as fontes vivas da sua riqueza.» * 

* o PoHHvtsmOf yoI. ii, p. 110. 



ALBZAHDRE HBHOITLANO 



395 



Este deve ser o critério do historiador, em quanto á su» 
acção pratica e emquanto ao intuito pbilosóphico; para con^ 
seguir este fim, o historiador tem dois caminhos, segundo 
âs condições em que trabalha, ou emprehender o resumo 
ou condensação accessivei ao tempo e á intelligencia do 
vulgo, ou começar as suas investigações partindo dos sue- 
cessos modernos para a antiguidade. Para se fazer um bom 
resumo é indispensável uma obra fundamental onde fiquem 
as provas dos factos com toda a sua amplitude, e essa obra 
fundamental nunca a tivemos porque as chronicas monás- 
ticas e ofiiciaes só consignaram o que convinha ao catbolí^ 
cismo e á monarchia conciliados em explorar os povos pe- 
ninsulareSé Sob o ponto de vista de lição era pela historia 
moderna que se devia começar, investigando a causa da 
transformação do regimen absolutista em liberal desde a 
introducção das ideias francezas ou jacobinismo atè á trans* 
igencia provisória do constitucionalismo inglez. Todo esse 
miserável reinado de D. João vi, a falsificação do movimento 
sublime de 1820, o terror miguelino de 4828, a epopêa do 
cerco do Porto, a dictadura perpetua atacada em 1836, 
1846, 1847 e 1851, prevalecendo sobre a vontade nacional 
o arbitrio de D. Maria n, que[eloquentes factos para darem 
á nação a resistência que torna um povo livre e emprehen- 
dedor ! Estava Herculano em estado de emprehender este 
trabalho tão proficuo? Possuía todos os elementos concre- 
tos; tinha sido testemunha immediata dos successos, co-» 
nhecia os homens, os caracteres, e sentia as grandes indi-* 
gnações da justiça. Era, acima de tudo, ouvido com adhesão 
espontânea. Porque não fez esse grande serviço nacional? 
Porque se deixou amputar'pela dependência ; acceitou o fa-^ 
vor do paço em 1839, e não tratou de enr^ncipar a sua 
consciência d'esse deismo estreito que o fazia considerar a 
€ivilisação humana como a formula profana do christianis- 
mo. Isto, que não fez á nação, íambem o não fez para si. 



896 HI8T0BU DO WOUÀMTIBUO BK FORTUaAIi 

consignando as suas Memorias, que seriam de uma im- 
mensa luz para a historia do constitucionalismo portugue?.^ 
Preferindo refugiar-se no passado mais remoto, ao empre* 
bender a Historia de Portugal ^idestinava o encetado traba-^ 
lho ao estudo de um principe então na sua puerida • . . » ^ 
Significa: «Âd usum Delpbinil» 

A erudição também tem ás vezes a importância das ma-> 
nifestações do génio, como em Cujacio, em La Gurne d& 
Sainle Pelaye, em Muratori, em Jacob Grimm; a educação, 
autodidacta de Herculano encaminhaya-o para este ideal. A 
discussão da Chronica de D. Sebastião, de Frei Bernardo da 
Cruz, a edição da Chronica de D. João III, de Frei Luiz de 
Sousa, a edição do Roteiro de Vasco da Gama, e por ultima 
o plano dos Portugalice Monumenta histórica, da Academia, 
das Sciencias moldados pela collecção dos Monumenta Gerr 
manica de Pertz, revelam a capacidade bibliologica de Heri- 
culano, e se elle se bouvesse limitado ao campo da erudi- 
çae histórica teria sido o mais digno continuador dos tra- 
balhos críticos, e paleographicos de João Pedro Ribeiro. 
Assim teria exercido uma acção profunda sobre a renovação 
dos estudos históricos em Portugal, e teria educado com a 
severidade scientiffca a geração que o admirou até ao feti- 
ebismo. 

Havia muito que fazer, e nunca a Herculano faltaram os 
recursos para a publicidade; n'este campo elle teria exer- 
cido a sua actividade até ao fim da vida, e achar-se-ia cerc- 
eado de discipulos formados na pratica das recensões dos 
monumentos portuguezes* inéditos. O conhecimento da re^ 
novação histórica da primeira metade d'este século tentou«o; 
seduzido pelas vistas de Agostinho Thyerry, de Guizot, 
e pelo exemplo de Schaeffer, que escrevera umabellaffâ- 
toria de Portugal, e de Roussew Sainte Hilaire^ na Historia 

1 Bi9i. de Port, l. i, 8.* ed. ' 



de fkspanhãy qoiz metter em obra as suas Memorias sobre 
as antigas instituições soeiaes portuguezas; quiz também 
ser historiador. Para isto tinba apenas a severidade crítica» 
mas nenhum poder de evocação do passado, nem a aptidão 
synthetica para relacionar a nacionalidade portugueza com 
as transformações politicas da península e com o movimento 
geral europeu. Assim ficou em tudo a meio caminho; os 
seus trabalhos de erudição, nao espantam como os de um 
Florez ou de um Muratorí, e a sua Historia pouco se eleva 
acima de uma monographia, de cujos moldes pretendeu 
desligar-se. O seu trabalho não influenciou o bastante para 
educar uma geração, e quando um dia se achou investido 
inconscientemente de poder espiritual sobre este paiz, não 
soube exercel-o, porque não tinha uma comprehensão phi- 
losophica das necessidades doeste povo, e essa esterilidade 
de vistas, essa impossibilidade de dirigir os que se lhe en« 
tregavam foi também uma das causas do seu retraimento, 
e do ostracismo voluntário a que se condemnou. 
, Os verdadeiros homens de sciencia, os espíritos supe- 
riores conhecem-se pela sua influencia, influencia que se 
avalia pelo numero e grandeza dos discípulos. Citemos al- 
guns exemplos: João Míiller, o creador da Physiologia mo- 
derna, tem como discípulos Bischoff, Henle, Nasse, Schwan, 
Koeliker, Dubois-Reymoiid, Reichert, Virchov^r eHaeckel! O 
grande philologo Boeckh levanta o génio de Òttfríed Môl- 
ler e de Dissen; a superioridade de Savigny faz desenvol-' 
ver a capacidade extraordinária de Jacob Grimm e os emi- 
nentes Guilherme Grimm, Eickhorn, Dirksen, Hasse, UU" 
terholzner, etc. 

Póde-se dizer que um homem influe sobre o seu tempo, 
quando é um Herder, um Lessiog, um Darwin ou um 
Meyer; mas isolar-se n'uma individualidade theatral, como. 
Herculano, recebendo as bajulações de mediocridades que» 
nem sabiam avaliar o seu metbodo bistorico, é ter sido in- 



{398 HI8T0BI4 no «oiMJmtMO bm pobtugal 

\ 

I 

fecundo* A acção de uma robusta iadívidaalidade reflecte-sé 
fatalmente sobre uma geração; o apparecimento desgraa*^ 
des compositores aliemaes, Weber, Mayerbeer e Poizl, tiram 
a sua origioalidade da direcção do abbade Vogler, um dos 
compositores mais origiuaes da Allemanha. Emfim os exem* 
pios são sem numero. Em volta de Herculano só se agrur 
param mediocridades, para quem era de uma inesgotável 
complacência; frequentava-o Rebello da Silva, no retiro pa^ 
triarchal da Ajuda; dedícou-Ibe o seu romance histórico 
Ódio velho não cansa, mas nem por isso deixou de escre- 
ver esse vergonhoso livro dos Fastos da Egreja,^s,em ad- 
quirir a severidade do metbodo scientifico na historia; com 
Mendes Leal enganou-se elle tomando os Homens de Mar* 
more como original, e julgando-o um génio dramático, elle 
que foi em tudo um rhapsodista; emflm, aturava Bulhão 
Pato, saudando-o pelo insulso poema da Paqvita, que ou- 
sou um dia parodiar o estylo digressivo de Musset e de 
Byron; até o próprio Silva Tullio, que sem se saber como 

se elevou a sócio de mérito da Academia das Sciencias sem 

• 

ter escripto cousa alguma, se tornou um dos seus mais in- 
times commensaes, sugerindo-lbe a venda á Academia do 
manuscripto do Vocabulário de Ramalho. Outros ainda mais 
obscuros captaram a complacência do Mestre^ cujos ditos 
escreviam em notas e propagavam com uncção, fortificando 
por meio d'essas legendas da amisade deslumbrada o po- 
der espiritual que elle já possuia. Herculano vivia na lenda, 
e em todo o Portugal e Brazil era considerado como o li- 
mite máximo da capacidade portugueza, como um assom* 
bro; as suas obras eram lidas com recolhimento e orgulho. 
Era uma emoção que se não discutia; quando Herculano 
morreu estava n'esse estado mental que só se define pela 
palavra moderna, que exprime uma cousa moderna, Jn/oí- 
Ubilidade. 
Em que serviu Herculano a^sociedade portugueza, que 



ALVXANSSB BBBCULASO 



tanto prBeisava de ímpalso para se réorganisar desde que 
entrou no regimen do parlamentarismo? Revocou-a ao seu 
passado» faik)u*lhes dos frades, fallou-lbe das resistências 
heróicas contra os mouros da fronteira, faliou*lbe do cava-» 
]beirismo dos capitães da Africa, emfim inspirou-lhe um 
patriotismo negativo, que arredava o espirito publico da 
corrente das ideias modernas. Em vez de proclamar a ne'* 
cessidade do conhecimento da renovação phUosophica que 
se operava na Europa em 1832, esterilisou-nos na contem- 
plação de um christianismo pessoal, meio poético e meio 
heterodoxo ; em vez de provocar o estudo das sàencias na- 
turaes, único meio de fazer progredir e fecundar uma ge- 
ração, fecbou-se em um humanismo romântico com que 
deslumbrou a mocidade ; ^em vez da acção directa, metteu-se 
em um systema de despeito pejorativo, e extinguiu a sua 
capacidade politica tornando-se apaniguado do paço. Gbe-. 
gou a ter o máximo poder espiritual sobre a nação portu- 
gueza, mas não soube usal-o para dirigir uma época. É 
que esse poder não tinha uma origem racional e orgânica ; 
esse poder espiritual era o resultado do fetichismo por um 
homem. Poucos serão os cérebros capazes de resistir a essa 
aura inebriante da consagração publica; Herculano caiu em 
uma autolatria inconsciente, que uns chamavam altivez de 
earacter, e outros o cumulo da vaidade. Todos amaram e 
respeitaram Herculano, mas ninguém lhe deveu uma ideia, 
iieiam-se os seus livros, as obras poéticas, litterarias ou 
históricas; qual a ideia que d'aí saiu fecundando o espirito 
moderno? Nada, debaixo d'essa rhetorica emphatica, mas 
patriótica; nenhuma noção iniciadora para a consciência^ 
debaixo d'essa acumulação de factos concretos e de proces* 
SOS polémicos a que elle chamou historia. Ninguém poderia 
impulsionar mais a evolução da nacionalidade, se é que . 
tivesse a comprehénsão do poder espiritual de que se achava 
investido. 



400 HI8T0BI1. DO BOMMrriSMO MK FOBTUOAL 

O estacionamento intellectual dá*s6 também nos cérebros 
os mais disciplinados pela participação sdentifica ; todos os 
antigos professores e naturalistas da escola taxonomica de 
Guvier sao de um desdém intolerante contra a philosophia 
zoológica, e principalmente contra o transformismo darwi- 
niano. D'onde se vê que é preciso que passe esta gerarão 
estacionaria para que as novas theorias entrem na circula- 
ção do ensino pratico; por isso Gomte e com elle Maudsley 
entendem que a morte é um factor natural do progresso, 
pela eliminação d'aquellas individualidades que possuem o 
maior poder social na edade em que já não avançam. £ 
quando essas individualidades se» acham investidas de um 
immenso poder espiritual sobre a sociedade do seu tempo, 
e, sem saber usar doesse poder, condemnam pelo descon- 
tentamento da edade as gerações que entram no conflicto 
da vida, a morte é para elles um bem, porque é a consa- 
gração da gloria, e para a sociedade uma causa de pro- 
gresso, porque cessa de actuar umaJorça dissolvente. Foi 
este o caso de Herculano. Só os espíritos dirigidos por 
uma perfeita educação philosophica, que sabem julgar-se e 
julgar as condições do meio social, é que podem dizer como 
Littré, saudando os novos obreiros da philologia emFrança: 
«Quando se é velho, e prestes a deixar a carreira, que sa^ 
tisfação em voltarmo-nos para aquelles que vêm, e em 
prestar bom testemunho á obra dos novos!» ^ Em 1858 
escrevia Herculano no prologo das Lendas e Narrativas, 
elogiando a geração dos ultra-romanticos: «E todavia, apesar 
do immenso talento que se revela nas mais recentes com- 
posições,^ quem sabe se, entre os nomes que despontam 
apenas nos horisontes litterarios, não virá em breve alguém 
que offusque os que nos deixaram para nós somente um 
bem modesto logar?» Aos quarenta e oito annos de edade, 

1 Préface de la Gramm» hishrique de la Langue françaite, p . xix. 



AUCKAirDBB VÉMXJOLAMO êSt 

I 

Herculano ainda acreditava na possibilidade de se manires- 
tar ama geração mais forte, porque elle mesmo ainda sé 
sentia progressivo; mas os que o cercavam tantas home- 
nagens lhe deram, que o enfraqueceram, enojaram-n^o^ e 
elte envolveu no seu despreso soberano os novos que mais 
tarde apparéceram sem o apoio das correntes officiaes. 

A educação fradesca de Alexandre Herculano no Mos* 
teiro das Necessidades, a que allude mais de itma vez, 
nunca foi modificada por uma reorganisação mentat scien- 
tifica; era simples humanista, segundo o sentido antigo 
d'esta palavra; quando passou o periodo da sua actividade 
litteraria no romance e na erudição histórica ficou-lhe um 
despreso profunda peías sciencias modernamente constitui* 
das, de que n3o pôde tomar conhecimento, e uma orienta-' 
çao intellectual no sentido da theología dos seus primeiros 
annos claustraes. Para elle a linguagem phílosophica era 
apenas periodos sonoros, e as modernas doutrinas scientt* 
ficas uma nova forma de gongorismo ; é o que se lé em uma 
carta: «Ando tão alongado da litteratura actual e está este 
espírito tao velho, (mais velho ainda que o corpo) que fre- 
quentemente me escapa o sentido de muitas cousas que por 
ai se escrevem^ caindo-me a mente cansada e gasta, na sin- 
gular illusao de nSo achar senão periodos> aliás sonoros oa 
moldados pelas fórmulas deuma obscura philosophia.— Na 
minha decadência intellectual, vem-me ás vezes ao espirito 
a suspeita de que este século vae acabar nos braços do 
gongorismo scientifíco, como o xvi expirou nos braços do 
gongorismo das phrases e das imagens.» Isto já não é o 
estacionamento, é o passado . condemnando o presente; éo 
maior poder espiritual que existiu n'este paiz desauthorando 
as novéis intelligendas que fallavam em cousas neras, como 
Prehistoria, Etbnologia.« Linguistica ou Glottologia; Mytbo^ 
graphia, Symbolistno comparativo e origens poéticas ou< Pa* 
lecmlologia sen^mental, Esthetica» Mesologra, Demographia/ 

26 



402 ' HISTOBIA BO BOIUIITISMO BM POBTUaAL 

f 

Sociologia, Realismo na Arte, e outros elementos da pro- 
funda renovação scientifica doeste século. A geração nova 
precisava ser fortalecida, já que não podia ser dirigida por 
Herculano. E o que elle fez, condemnando as tentativas de 
renovação mental, repetiu-o reprovando o novo critério po- 
litico da Democracia na carta sobre as Conferencias do Ca- 
sino e no prologo em que precede nos Opúsculos a Yoz do 
Prophetct, declarando com longas demonstrações dos concí- 
lios que as questões vitaes do nosso século eram o Imma- 
ciUatismo e o InfalUbilismo. Herculano caíra na primitiva 
orientação theologica, como se vê; reapparecen esse estado 
no motivo da composição do livro sobre as Origem e esta- 
belecimento da Inquisição, (1854 a 1859) na polemica da 
Reacção tútramontana, (1857) no Manifesto ao Partido libe- 
raly (1858) e nos Estudos sobre o Casamento civil (1865 e 
1866.) Ficou n'esse theologismo, e entre os seus papeis acha* 
ram-se como últimos escriptos quatro cartas contendo uma 
extensa discussão sobre assumpto religioso, e três capitulos 
Sobre a conversão dos Godos ao catholidsmo. 

Herculano não se elevou acima da metaphysica (Cristã, 
e n'este estado de. espirito com uma simples noção de crí- 
tica histórica omittira por simples bom senso a relação do 
milagre de Ourique na Historia de Portugal. Foi quanto 
bastou para que o clero portuguez lhe fizesse uma guerra 
dos púlpitos e da imprensa reaccionária, atacando-o co* 
mo se fosse um Feuerbach. Herculano continuou acredi- 
tando na divindade de Jesus, chegou a mandar construir 
na sua vivenda de Valle de Lobos uma capella^ mas ape- 
sar de tudOí os seus actos de caridade evangélica e as suas 
afSrmações deistas não obstaram a que algumas obras 
suas fossem incluidas no Index, e que a imprensa reaccio- 
Baria de Hespanba escrevesse isto por occasião da sua 
morte: cNós, porque não dizel-o? — quando vemos quebrada 
pela morte a penna de umjmpio, louvámos a misericórdia 



AX.VZÀinttB H1&B017Z.Á1I0 403 

de Deus, qae livra a sociedade de um inimigo, e pedimos 
ao céo pela alma do desgraçado que mallogrõu seus taleo- 
tos sacriflcando-os á revolução.» * 

Estas palavras têm o grande valor de um facto psycholo- 
gico, porque demonstram que a moral do cbristianismo já 
boje é inefficaz para dirigir as paixões dos seus adeptos. 
Na morte de Stuart Mill também os catholicos procederam 
do mesmo modo em Inglaterra, dizendo: «M. J. Stuart Mill, 
que acaba de prestar as suas contas, teria sido um escri- 
ptor inglez notável, se a consciência de si próprio, que Ihfr 
era innata, junta a uma extrema presumpção, não fizesse 
d^elle um biltre litterario de primeira ordem. A sua morte 
não é perda para ninguém, porque era um incrédulo, mas 
um incrédulo amável e um perigosíssimo sujeito. Bem de- 
pressa estes «luminares do pensamentoi> que compartilham 
as suas opiniões se irão encontrar com elle, e isto será bem 
bom para a Egreja e para o Estado.» ^ São estes os chei- 
ros que escapam involuntariamente da. gangrena da hypo- 
<;risia, mal acobertados com o almíscar beato e sensual de 
todas ás sacristias. As pbrases contra Herculano são acima 
de tudo uma prova de estupidez; porque Herculano não foi 
um livre-pensador, nem acompanhou a evolução da ideia 
revolucionaria depois de 1833; e pela predilecção dos seus 
«studos canónicos e de historia ecclesiastica, se não enten^ 
déssemos que o deprimíamos com isso, para meUior daNp 
a conhecer chamar*1he-iamos— um padre da egreja. 

Por um capricho de caracter, Herculano^ quiz ser àbsie-- 
-mio; a falta de hygiene na vida do campo, aggravou a ane- 
mia em que se deixara cair, e nos últimos annos de Valle 



^ El Siglo futuro f de Madrid. Âp. Diário de Ifoticiaiy de 21 de setembro de 
1877. . ' 

^ D'um Eceksiastico com vinte $ oito annos de eotereicio. (fHo CkurchnHerald 
<de 14 de maio de 1878.) Spencer na laa Introducção á Sdincia eocialf p. S93 
iiroa a luz qne se encerra D*este facto. • « . 



" 'A•?^ 



40á HISTOBIA DO BOXAHTXBXO BM FOBTUGÁI. 

de Lobos soffría por vezeâ febres sezonatícas, que o enfra- 
queciam profundamente. Na segunda viagem do imperador 
do Brazil a Portugal, Herculano entendeu do seu dever ir 
comprimentar o amigo que Ibe offerecera o asylo do seu 
império; ^ desacostumado das etiquetas palacianas arrefeceu 
durante a espectativa da audiência e recolheu-se a casa 
com uma pneumonia dupla. Não tinha o suíQciente vigor 
para ser tratado, caindo immediatamente na consumpçãa 
adynamica; no dia 12 de setembro de 1877, á meia noite^ 
os médicos em conferencia }ulgaram-n'o irremediavelmente 
perdido, e no dia 13 aggravou*se progressivamente o seu 
estado, entrando na agonia ás cinco horas da tarde até ás 
dez em que succumbiu. Aquelle amor que Herculano reve- 
lava nos seus versos, a sympathia pelas plantas, foi a sua 
ultima preoccupaçãò ; sabendo que ia morrer pediu aos qu& 
o rodeavam que lhe abrissem a janella para vèr as arvores. 
A noticia da sua morte causou uma impressão immensa; 
todas as celebridades do mundo ofBcial se dirigiram a San* 
tarem» para irem ao cemitério da Azoia acompanhar o ul- 
timo despojo do homem que em Portugal foi mais admi- 
rado. Durante dias a imprensa jornalística explorou a emo- 
ção, mas nenhum dos admiradores do typo leudarío mostrou 
haver estudado as obras de Herculano; nenhuma voz se le- 
vantou explicaodo o homem com a severidade que compete 
aos que ficam na historia. Fallou-se em um monumento, 
abriram-se subscripções, fez-se um silencio em volta do 
mytho, que. se rompeu por alguns signatários reclamarem 
o seu dinheiro quando notaram que ficara tudo em nada. 
Estes factos encerram uma significação profunda, que po- 
remos em relevo como a conclusão do presente estudo. 
Em uma sociedade apathica intellectualmente e ecouooii* 



1 Á pedido do imperador coosta qoe Hereubno efcrerera « sua Caria sobre 
« EmigraçãOí Tid. Opusculoi, t. it. 



ALBZAHDBE BBBCVXíANO ' 405 

camente, como a portngaeza, submettída a todas as trope- 
lias de uma realeza parasitíea occupada em sophismar as 
garantias constitucionaes, o ter poder esph itual sobre uma 
sociedade n'estas condições deploráveis é um symptoma 
claro de mediocridade. É porque essa inlelligencia lison- 
geou de algum modo as forças staticasde conservação que 
preponderavam na sociedade porlugueza; é porque com o 
seu trabalho não incommodou a apatbia mental incutindo- 
lhe ideias, obrigando-a a pensar, a discutir, a ter opiniões, 
a estimular-se para a acção. Herculano era monarchico, 
com intimas relações de favor com o paço, e por isso como 
historiador ao estudar as instituições portuguezas, em vez 
de procurar n'esse problema das origens os elementos de 
evolução para as transformações iniciadas pelo regimen li- 
beral, escreveu para uso de um príncipe, declarando que 
a nação nada lhe devia porque não fora para ella a sua 
obra. Herculano era também um catholico, com uma erudi- 
ção de canonistas e santos padres, fallando contra a extinc- 
ção das ordens monásticas, dizendo que a instrucção só po- 
dia alcançar-se á custa de padres instruídos, prognosticando 
que o futuro da civilisação era a religiosidade, e por isso 
a analyse histórica serviu-lhe para manter a veneração im- 
movel do passado. 

Quando se observa nos viajantes e diplomatas estrangei- 
ros o quadro da sociedade pòrtugueza doesta época tão es- 
téril do constitucionalismo, e nos lembrámos que ella con- 
feriu a Herculano indisputavelmente um absoluto poder - 
espirítualy é então que cessa a illusão que perverte a cri- 
tica, illusão que fazia achar no homem uma superiorida- 
de reconhecida unanimemente. A actividade de Herculano 
examinada com um intuito philosophico leva a deduzir uma 
conclusão importante acerca da missão do escriptor : As so- 
ciedades humanas compõem-se de forças de conservação, 
naturaes e instinctivas, as quaes deixadas a si mesmas teu- 



406 HISTOftU DO BOMANTI8M0 SM POBTUOAI. 

dem para uma espontânea immobiiidade ; todo o homem 
capaz de ter ideias, fatiando, escrevendo, phantasiando» 
imaginando, inventando, deve ter em vista impulsionar es* 
sas forças staticas, tomando-as apenas como factos reaes 
que modiflcam as concepções subjectivas. Só assim é que 
essas forças de conservação se podem aproveitar como ba- 
ses de ordem; é por isso que o escriptor, o artista, emfim 
todos os que pensam por si devem ser revolucionários, co* 
mo impulsos individuaes contrabalançados pela colleclivi- 
dade estável. Quem não cumpriu esta missão por instincto 
próprio, ou quem a não comprebende e põe as suas forças 
intellectuaes ao serviço do passado, exercendo uma acção 
improgressiva, só pôde ser admirado pelos que estiverem, 
do lado da inconsciência. 



LIVRO III 



A. R DE CASTILHO 



(1800 — 1875) 



 superstição do estylo, o culto e admiração pelas pom* 
pas rheloricas sao um symploma terrível em uma socie- 
dade; ou não existe liberdade intellectual para poder ter 
ideias, para communical-as, e se exerce a palavra em phra- 
sés sonoras sem sentido, ou realmente domina uma atonia- 
Viental, uma incapacidade de formar juízos, e se adoptam 
opiniões preestabelecidas, sobre tudo aquellas que têm o 
apoio da auctoridade ofiBcial. O século xvii em Portugal foi 
o século da rhetorica e dos oradores; o século xix, em que 
o constitucionalismo deu importância á burguezia pela ne- 
cessidade das maiorias, serviu-se da antiga rhetorica para 
envernisar as banalidades que supprissem a falta das ideias;. 
Fez-se estylo nos relatórios, nos artigos de fundo do jorna- 
lismo e nas obras de litteratura, e acceitava-se submissa- 
mente a opinião apoiada por uma auctoridade official do 
inundo politico ou litterario. Coinp rehende^se que o século 



408 HI8T0BIA DO BOMÁHTIBHO Blf POBTUQAL 

do gongorismo fosse rhetorico, porque diante das fogueirag 
da Inquisição, não havendo entre nós liberdade intellectual 
quando ella se exercia com vigor nas Academias da Eurd- 
pa, a palavra servia unicamente de objecto e fim do dis- 
curso, contornava-se, virava-se, porque nada havia a dizer. 
O talento oratório gastou-se todo em Sermões, em que o 
cérebro humano descea aos maiores contrasensos. A inca- 
pacidade da analyse scientiQca e da concepção subjectiva 
conhece-se n^esse falso lyrismo seiscentista, e na predilec- 
ção exclusiva dos poemas-chronicas. Eâta situação mental, 
conservada durante todo o século xvui, até ás primeiras 
communicaçoes com a Europa em 1824 o 1828, persistiu 
na sociedade portugueza reorganisada pelo constituciona- 
lismo. O vicio palavroso do regimen parlamentar manteve 
a necessidade da rhetorica na litteratura; ninguém se oc- 
cupava com as ideias, bastava o estylo para a reputação e 
futuro de um homem. O exagerado humanismo da Univer- 
. sidade e da instrucção elementar, manteve o habito de dis- 
pensar as ideias preferindo os eflfeltos da palavra. Foi n'este 
meio que Castilho se tornou um grande escriptor pelo es^ 
tylo, pela vernaculidade, pelo sabor quinhentista, pelas 
phrases arredondadas de locuções obsoletas ; uma vez re- 
conhecido como auctoridade, fácil lhe foi converter-se eta 
pontiSce litterario, atacar a liberdade do Romantismo pre- 
ferindo a convenção arcádica, impor á burguezia, que pre- 
cisa ter alguma cousa que admirar, reputações sem funda- 
mento. 

A morte de Garrett em 1854, e o silencio systematico 
de Herculano em 1859, deixaram Castilho em campo como 
o luminar dos novos; os seus juizos conferiam talento, o 
vulgo acceitava essas consagrações, e os medíocres cerca- 
vam-no, gloriflcavam-no para alcançarem a vénia, que os 
dispensava das duras provas da vocação. Achou-se assim 
fundada uma pedantocracia, a que se deu o nome de Elom 



CASTILHO 



409 



gio mutuo. As primeiras ideias que circularam perturbando 
este éden da idiotia pareceram um attentado ; Castilho trans- 
igiu com o Romantismo traduzindo Goethe e Shakespeare, 
mas jà era tarde, a critica scientifica apequ-o. Entràva-se 
em um outro regimen mental, em que pooderava a ^cien- 
cía e a philosophia, focos de ideias que collocaram os no- 
vos em dissidência com um passado que se prolongara 
muito além do seu momento histórico. 



410 HI8T0BIA DO BOXAHTISMO BM POBTUOAI. 



g I. (De 1800 a 1831.) — NascímeDto e lendas da ínfaDcia de Castilho. — 
lofltteneia do accideote desgraçado da cegueira sobre o sen taleoto e cara- 
cter. — A piedosa coDfraternidâde dQAogasto Frederico de Castilho. — Pri- 
meiros estados; a poesia abafada pela rhetorica; persisteociji da tradição 
arcâdica nos seos eosaios. — A acclavaçSo de D. JoSo ti em 1817, assam- 
pto do sea primeiro poema. — Castilho maldiz os princípios da liberdade e 
da egaaldade. — Em 182Ò celebra no Outeiro da Sala dos Capellos em Coim- 
bra a conquista da soberania nacional. — Em 1824 exalta nos mesmos Ou- 
teiros poéticos a restauração do absolutismo. — Retiro no priorado de S. 
Mamede da Castanheira dô Vouga desde 18ii6 até 1834.— Influencia do 
poemeto de Ecco e Narciso na sua Tida. 

Quasi todos os agíographos encetam a vida dos santos 
dando-lhes sempre pães honrados, em quem a propensão 
da virtude se ia sublimando até 'a predestinação dos filhos. 
O mesmo se deu com António Feliciano de Castilho, segundo 
o intuito da sua laboriosa genealogia appensada á versão 
do drama Camões ; veíu á luz com o despontar do século, 
nascendo em Lisboa, a 2& de janeiro de 1800, do Dr. José 
Feliciano de Castilho, lente da faculdade de medicina e 
principal redactor do Jornal de Coimbra, e de sua mulher 
D. Domicilia Máxima de Castilho. O século surgiu impul- 
sionado por novas doutrinas politicas, e pela constituição 
de novas sciencias, que tendiam a fazer terminar o regimen 
je volucionario ; mas esses dois poderes que se dissolviam, 
o catholicismo e a monarchia, que se achavam sem destino 
em a novii era scientiíica e industrial, perturbaram com me- 
donhas reacções a evolução da Europa, e a monarchia en- 
trou na renovação das grandes guerras, e o catholicismo 
n'essa colligação obscurantista que desceu até ao absurdo 
da infallibilidade. Amedrontado pelo ecco das luctas sociaes, 
Castilho não querendo comprehender o século nas suas fl u- 
ctuações de principies e de crenças, adheriu ao lado stat ico 



CASTILHO 411 

das instituições, cantou a monarchia absoluta, retirou-se de 
corpo e alma para a admiração dos exemplares antigos 
cuja predilecção adquirira nos seus primeiros esludos, e 
preferiu sempre a imitação á invenção. A sua infanda está 
ornada com as doces lendas domesticas; ora se conta a sua 
fraqueza valetudinária, já a precocidade 'da sua retentiva, 
tradições sempre coloridas e animadas pelo suavíssimo es- 
pirito de família, e que exerceram uma grande acção na 
forma d'aqueUa individualidade. ^ Eis um precioso dado au- 
tobiographico : «Encetava eu a carreira do estudo, e tão 
menino, tão menino, que o ouvirem-me já lêr e verem-me 
formar caracteres, era ^nunca a minha vaidade o esqueceu) 
um thema de admirações e de felizes prognósticos para os 
parentes e amigos da faqiilia.» ^ 

A reputação de Castilho foi um producto d'essas lendas 
domesticas propagadas por seus irmãos; na supposta bio- 
graphia bespanhola de Gadiz exaltasse o talento de Castilho 
para as Mathematicas, apaixonando-se pelo geometria, ape- 
sar de cego. Comparam-n'o ao génio extraordinário de Sam- 
derson, retratado por Diderot, e a Salinas, também cegos. 
N^s Excavaçôeã poelicas produz-se um testemunho de Joa* 
quim Machado de Castro em que o insigne esculptor da Es-* 
tatua equestre iica tão assombrado com- os talentos do me- 
nino cego para a esculptura, que escreve uma jaculatória a 
pedir a Deus pela sua saúde, e á nação para que aproveite . 
aquelle prodígio. Embalado nos frocos da lenda onde Castilho 
viveu comparado também a Homero e a Milton, quando saiu 



1 «Adquirida uma certa aura de reputação pelas insinuações lísongeirasque os 
próprios membros da família lhe dispensavam pela imprensa, adquirida conr 
facilidade e 8%m critica por parecer desacato a estranhos o quebrar- se o persti- 
gio de uma adoração cega e inconsciente cimentada por aííeições domesticas, 
a familia Castilho assegurou-se em 'breve da solidez e fortaleza dasbases^ em 
que ella poderia assentar o edíficio de uma escola liUeraria inteiramente sua.» 
Graça Barreto, Á questão do Fausto j p. 67. 

^ Castilho, na Chaoe do Enigma^ p. SOI do Amor e Melmcholia, 



412 HISTORIA DO BOKANTISUO EU PORTUGAL 

d'ella para ser analysado pela critica desprevenida só dei- 
xou a Dú uma inconsciente mediocridade. O que Castilho 
seria sem as lendas fraternas podemo^s descobril-o pelo typo 
de um outro poeta também cego, natural dd PortO; e quasí 
octogenário António Joaquim de Mesquita e Mello. No seu 
poema em oitava rima O Porto invadido e libertado, diz 
Mesquita e Mello: «O auctor leve a desgraça de cegar quando 
contava apenas um anno de edade, e na de dezenove an- 
nos em que agora se acha, (1815) soffre ainda aquella triste 
sorte.» Mesquita e Mello vivia improvisando em saráos fa- 
miliares e morreu desconhecido depois de 1875 ; se tivesse 
irmãos que o proclamas^sem génio seria um segundo Cas- 
tilho. * 

Os primeiros annos do poeta correram esquecidos na ame- 
nidade campestre, distraído á sombra das arvores de uma 
quinta dos arredores de Lisboa (Lumiar) ; ali disf ructou a sau- 
dável liberdade e soltura da meninice, convalescendo em foi* 
guedos innocentes. É certo porém que esíes campos áridos, 
que se pulverisam com as ventanias constantes de julho e 
agosto, esta pobresa de seiva, esta devastação systemalica 
do saloio que esgota a terra não lhe cons^tindo um pêlo 
de verdura, contribuíram bastante para lhe darem uma 
ideia mesquinha da natureza, quando por uma calamidade 
lamentável veiu a perder uma das suas mais immediatas 
relações com ella. 

Em uma nota ao Epicedio á morte de D. Maria i em 
1816, lê-se: «O auctor caiu por uma grande escada, tendo 
um anno de edade; padeceu de vermes muito, e alguns an- . 
nos teve tosse convulsiva pela edade de quatro annos, que 
lhe durou muitoi e á força da qual deitou grande quanti- 
dade de sangue pela bocca.» Os cuidados assiduOs de uma 
tão atribulada infância, nas crises perigosas que atravessou» 

1 Castilho cita em um dos seas livros este metrificador. 



CASTILHO 413 

qs carinhos e condescendências para com uma criancinha 
doente, as vontades adivinhadas, os caprichos satisfeitos, 
ãzeram-n'o impertinente, acintoso, qualidades que mais tarde 
se desenvolveram por causa de uma fatalidade, a cegueira. 
£ impossivel poder julgar com inteira justiça o mérito Ut^- 
terario de Castilho, comprehender a sua individualidade e 
dar a rasao dos seus defeitos, sem considerar a influencia 
d'este accidente pathologíco que modifica profundamente a 
natureza moral. 

Na alludida nota do Epicedio de 1816 se le: cNa edade 
de seis annos teve sarampao, que começando a sair se lhe 
recolheu. Começaram então- chagas grandes mui doridas 
por todo» o corpo; incharam-lhe as capellas superiores dos 
olhos, e ganharam volume maior que um ovo de pomba, e 
dureza dè pedra: em todo o tempo esteve cego havendo 
tal aperto das capellas sobre os bugalhos dos olhos, que 
pelo espaço de dois annos não foi possível descobrir um 
único ponto â'estes, sabendo apenas se era dia ou noite; 
mas conservandO:se sempre ás escuras, porque a luz lhe 
fazia dores horrorosas. Passados os dois annos, a beneficio 
de banhos de mar, começou a melhorar de quasi todos os 
incommodos, , e começaram a desinchar as capellas dos 
olhos; restou-lhe porém até hoje, dezeseis annos de edade, 
e terá sempre ' alguma adherencia da pálpebra ao globo no 
olho direito, de que está absolutamente cego, cicatrizes e 
opacidade no olho esquerdo, por onde distingue apenas 
vultos e cores, mas não objectos ipais pequenos, nem let- 
tras. N'este máo estado o auctor tem em seus irmãos, que 
se applicam egualmente que elle, quem lhe leia ; e tem es- 
perança de continuar na vida de lettras a que seus pães o 
dedicam. x> A publicação do Epicedio, como se vê pela nota 
extractâda, foi para chamar a atlenção sobre o pequeno 
prodígio, de qttem se dizia que aos sete annos compui^era 
um poemazinho sobre as Flores, e que fora educado por 



. 414 HISTOBIA DO ROMAHTISMO SIC POBTUGÀL 

uma mestra D. Escholastica, e brincara com uma primita 
da mesma edade. Cegou em uma iedade em que elle mesmo 
uem sabia o que perdia. É este o momento mais poético da 
sua yida I Quem não bade protegel-o, amparal-o, estender- 
]ha a mão, dar^lbe as falias mais meigas, abrir-lbe o seio, 
a alma, quando a fatalidade lhe cerrou a porta para todas 
as alegrias. Criança e cego I faz lembrar aquella dolorida e 
sentidíssima lenda allemã da filha de um rei, cega de nas- 
^cença, e que não sabia que o era; todos lhe occultavam essa 
infelicidade. Um dia foi o seu noivo que lhe descobriu o se- 
gredo e a infeliz princeza morreu de melancbolia. Assim 
estava aquella pobre alma no meio de tantas caricias e mei- 
guices da famiiia, e assim. viveu não conhecendo a profun- 
didade da catastrophé, até que distracções mais intensas, 
paixões de si vãs, como a pretenção litteraria, o absorve* 
ram completamente e lhe povoaram a obscuridade* Aqui 
temos d primeiro motivo do litterato; o tempo desenvolveu 
a perícia, a acuidade de outros sentidos deu-lbe a harmo- 
nia quasi sempre irreprehensivel dos seus versos; a íma- 
gin^ão que reconstitue as cousas e que procura adivinhar 
as intenções ensinou-lhe essa prosa digressiva e cheia de 
incidentes, sem ideias, mas agradável. A situação excepcio- 
nal do seu espirito não lhe deixou ter um plano, e mante- 
ve-o além do termo natural em uma prolongada puerilidade. 
D'estê modo ficou sempre criança, e é este o característico 
por onde se determinam todas as suas bellezas e defeitos. 
A graça, a frescura, a promptidão, uma brandura que pa- 
rece ingenuidade, mesmo os Ímpetos indomáveis da indi- 
^gnação, o animo reservado e rancoroso, não foram mais do 
que as qualidades peculiares dos tempos infantis fixadas no 
homem pela situação já descripta. 

No Elogio histórico de seu irmão Augusto Frederico de 
Castilho^ esceeve o poeta estas Fmhas autobiographicas : 
«Uma enfermidade cruel me havia fendo e derribado: eu 



CASTILHO ' 415 

pendia mais de meio para a sepultura. O meu setime amio 
parecia não dever completap-se: as lagrimas maternas e 
muitas outras caíam abundantes sobre mim; e uma pobr^ 
criancinha, que só por instincto podia adivinhar o ^ue era 
ser irmão, o que era ser amigo, e o que fosse morrer, não 
só chorava como os outros (contam-n'o quantos admiraram 
aquella criança sublime) mas cercava*me de affagos, de ca- 
rícias> de disvellos quasi maternos, renunciava os seus pas^- 
satempos para estar commigo; . . . EmQm, passou a morte, 
e eu levantei, como que já de dentro da sepultura, esta ca- 
beça fadada a muitos mais longos infortúnios ; levanteí-a, 
mas lá dentro tinha-me ficado a melhor parte d'ella: os 
meus. olhos se voltaram para o cèo e não n'o viram; os bra- 
ços de meu irmão me apertaram e ea não vi meu irmão!» ' 
Sobre esta dedicação sympathica, tão frequente entre ir- 
mãos, ^ disserta Castilho retratando Augusto Frederico, e 
contando os seus mútuos estudos litterarios: «Dois annos 
contava eu ap^as na vida, quando junto de mim, e mais 
para mim do que pak'a todo o mundo, nasceu a meus pães 
o seu quarto filho. Desde essa hora até á ultima da sua 
existência terrestre, eu fui o seu companheiro insepará- 
vel ...» ^ «os dois annos que eu demais contava tinham de 
pôr forçosamente no principio uma difierença de alcance en- 
tre as nossas comprehensões. Nas primeiras disciplinas elle 
foi o meu livro, eu o seu mestre; o latim, a eloquência, a 
poética, â philosophia racional e moral, e as linguas, assim 
entre nós as aprendemos sob a direcção d^ mestres abalí- 
sados* . •» ^ «O trato assíduo das chamadas humanidades, 
o commum das nossas occupaçoies e passatempos, e a coo- 
fraternidade ou identidade dos nossos gostos, para logo fi- 
zeram desapparecer d'entre nós toda a difierença de an*> 

1 JHem. do Coiuervafofio, p. 88. 
< md., p. 37. 
) Ibid., p. 89. 



416 HI8T0BI1. DO B0IU1ITI8M0 EM FOBTU0AL 

nos; . • . Entrados no mesmo dia e hora alomnos ás escolas 
de Direito da Universidade de Coimbra» que tínhamos de 
onrsar inseparáveis até o fim, sentimos a forçosa necessi- 
dade de dar de mão ás amenidades litterarias t3o do nosso 
uso e natureza.]) ' Depois da formatura em cânones Augusto 
Frederico foi despachado prior de S. Mamede da Casta- 
nheira do Vouga, e Castilho acompanhou-o, vivendo com 
elle n'esse retiro durante oito annos, até ao tríumpho da 
causa liberal. 

Castilho deu-nos a chave do seu caracter desconfiado e 
malicioso; elle não ouvia somente a linguagem das pala« 
vras, interpretava também as intonações, e d'aqui iostincti- 
vas más vontades, e o habito constante de uma ironia, que 
se tornou como habitual, uma espécie de perfidia. Diz elle : 
«A voz humana, não é somente, como ao vulgo parece, 
uma interprete dos pensamentos; ella o é principalmente 
das affeições e movimentos inarticulados do nosso animo ; 
as palavras não são, porque assim o digamos, senão o corpo 
da phrase, e os geslos o seu trage; mas o calor e a alma 
do discurso é o tom que o acompanha, e alguma outra cousa 
ainda mais subtil, mais indefinivel e mais sem nome que o 
repassa. Para comprehender bem a fundo esta verdade, è 
mister haver feito por necessidade apor espaço de tão lar- 
gos annos, como eu, um não interrompido nem distraído 
estudo sobre a expressão fallada. Aquelles a quem sua des- 
graça houver iniciado n'esta sciencia; adivinhai^ muitas vir- 
tudes e não menos vicios, muitas excellencias e não menos 
vilanias pelo ínéro som e modulação da voz humana; para 
os habituados a vèr pelos ouvidos, dtfficilmente se achará 
corlezão ou comediante, que, por mais que estude dissimu- 
lações, lhe possa dar trocados ou falsificados os sentimen- 
tos, que lh'os elle não conheça; permilti-me pois a triste 

1 Mm, do Conservatório^ p. 40. 



OA8TILB0 417 

vaidade de me julgar n'esta matéria bom juiz ...» * É im- 
portantíssimo este facto psychologico; referindo-nos á ce- 
gmra de Castilho nunca tivemos outro intuito a não ser a 
deducção das modiQcações que este facto exerce nas formas 
da iotellectualídade. É pasmosa a intuição como Castilho 
descreve essa outra linguagem de que a palavra é o corpo 
material; a sciencia moderna da philologia descobriu que 
antes da linguagem fallada, ou da palavra, existiu o periodo 
da intonação, e o periodo da gesticulação, progredindo-sè 
evolutivamente de um para o outro. As naturezas que reú- 
nem eslas três linguagens possuem o dom da eloquência. 
Castilho era eloquente não pela espontaneidade mas pela 
precisão e correcção descriptiva ; o poder de comprehender 
as muUímodas intonações da palavra, dava-lhe ao crité- 
rio uma tendência pejorativa, uma desconfiança, que reve- 
lava em ditos profundamente sarcásticos. Na sua mocidade 
compararam-n'o ao celebre cego inglez Samderson, cuja 
biographia psychologica foi escripta admiravelmente por 
Diderot; as exigências da vaidade foram-n'o identificando a 
Homero e a Milton. Com a repetição d'estas cousas tomou-as 
como uma realidade effectiva. 

Começou por comprehender a litteratura como uma no- 
bre, ociosidade, que dava communhão e convivência com os 
espíritos elevados; bastava-lhe constância e pachorra para 
fazer o mesmo que todos os que tinham poetado. Só um 
grande habito ou uma espontaneidade fervente pôde eman- 
cipar a imaginação da mechanica aborrecivel da metrifica- 
ção. Castilho começou por fazer versos muito harmoniosos; 
continuavam a toada bocagiana, e o que estes tinham de 
fluência, os outros disputaram em esmero de correcção ; os 
adjectivos serviam para colorir e fechar o endecasyllabo, e 
^tapar os vãos deixados pela deficiência do pensamento. 



1 Jíetn. do ánuervúiorio, p. 39. 
27 



418 msTOBiÁ DO BomansMo xm pobtugal 

Conversaya^se sobre a habilidade da criança, ad sodales, 
louva va-se, applaudia-se ; os encómios foram-n'o soprando 
em ambições. Muitas vezes as desgraças que assignaiam os 
génios^ deslumbram a imaginação dos que se acham feri- 
dos pela sorte, e consolam-os assim persuadindo-os que 
sâo também eleitos, e columnas de fogo no deserto da 
vida. O génio é a falta de consciência das' forças que se 
agitam dentro do individuo, e ao mesmo tempo a afllicção 
d'essa lucta, que a humanidade admira em creações eter- 
nas; é um aleijão que opprime o que o traz, e a que nós 
fazemos a apotheose, que invejámos sem saber que fogo 
lento gera essa febre de inspiração, essa hallucinação de luz 
que o faz vér em todos os tempos, em todos os legares, 
com uma intuição prophetica, que assombra; o génio é como 
uma harpa eólia, através da qual perpassam as ondas so- 
noras das gerações, que a vão ferindo e desferindo para 
ouvirem o canto das suas tristezas, dos seus desejos, dos 
.seus sentimentos. 

Estes são almas de excepção e não nascem em qualquer 
presepe, nem vem ao mundo pelo acaso de uma noite lú- 
brica; apparecem quando as circumslancias os evocam, para 
virem dar forma e impulso ao tempo que precisa renovar- 
se. Castilho não teve o horóscopo do génio, nem o decurso 
da sua vida lhe deu essa transfiguração sublime. Por si, 
elle nunca se esqueceu de se fazer passar por isso, pro- 
vocando os seus amigos para que o proclamassem príncipe 
dos poetas contemporâneos. 

O talento é o poder realisador, a consciência das formas ; 
qualquer, pelo habito machinal pôde chegar a dominal-as, 
tornar-se independente d'essa attenção que attenúa as fa- 
culdades inventivas. Aqui a habilidade chega a fazer-se ad- 
mirar. É sobre estes dados psychologicos que se foi for- 
mando o talento de Castilho. 
Eil-o nos estudos da boa latinidade, recebendo o pó sa- 



cudido da cabelleira do supersticioso cultor que se extasia 
ante as bellezas dos exemplares que vae descobrindo ás no^ 
veis iatelligencias. 

A continuidade de repetir os mesmos trechos, a certas 
faoras do dia, com minúcias de efymologista, torna a ad- 
miração habitual, sem carecer de fundamento, dá-Ibe iftôâ 
intolerância faDatica, que distingue todos os mestres de la- 
tim. O seu mestre José Peixoto usinava e.brandia a férulà 
nos Geraes, espécie de Lyceu que havia ao Cunhal das Boi- 
las, na rua da Rosa. (Outubro de 1810 a 1815.) 

Latino Coelho no seu panegyrtco de Castilho retrata este 
importante personagem, que tantia influencia teve sobre o 
talento do traductor de Ovidio. A única apreciação consis- 
tia em desentranhar das palavras sentidos que o auctor 
nunca tivera; era uma casuistica da arte, em que se gas- 
tava muito engenho, e mais nada. Isto se chamava a edu- 
cação clássica; entendia-se que o privilegio do latim dava 
direito a ignorar tudo o mais; era ellé que fornecia todo 
o apparato de títações, e que fazia retumbar as salas das 
academias. Esta era a sciencia que não compromettia, que 
não precisava de censura. A corrente das ideias que abri- 
lhantam o século xvm acha-se anathematisada entre nós em 
todos os escriptores contemporâneos d'ellas. Para compre- 
hendel-as, era indispensável pensar, e as intelligencias do 
Meio Dia, principalmente na peninsula, são morosas, e con- 
servam a tradição do quietmno religioso. Da leitura dos es- 
criptores da pura antiguidade fbrmaram-se os gordos^com- 
mentarios que abafavam os textos, os scbolios, as contro-' 
versias, as notas, os argumentos, e^ de tudo isto saiu uma 
sciencia formal chamada Rhetorica. 

Sciencia dos Quintilianos declamadores, flrmava-se em 
bases convencionaes, com as quaésr se graduatà a intensi- 
dade das emoções, dos transportes, como quem dá a um 
r^isto, ou possue nmaV válvula dé segurança 1 Era esta 



4fí0 msTOBià DO iti^iuiRnffif o em pobtuoal 

uma parte da educação liberal, trazida do quadrivium da 
.edade media para as academias do século xyhi. 

O espirito clássico, que impoz na lucta da edade media o 
latim ao uso das lioguas nacionaes, triumphou em Portugal. 

Castilho foi frequentar, como diz o seu panegyrista : cNos 
geraes do Bairro Alto a Bhetorica com Maximiano Pedro de 
Araújo Ribeiro, que ali a professava, com tanto esplendor 
e eloquência, quanta è possível em mestres de oratória, 
quasi sempre opulentos de exemplares, pobríssimos de en- 
genho e invenção. Era Maximiano um cultor apaixonado da 
velho Quintiliano, bom humanista, e achacado da enfermi- 
dade de fazer versos, ora oríginaes, ora versões de escri- 
ptores da antiguidade. Traduziu Pérsio e Juvenal. Calculava 
rhetoricamente os seus enthusiasmos em odes pindáricas, 
de que ficou pouca memoria. Escrevia comedias de própria 
lavra, de que não resta hoje recordação no theatro nacio- 
nal. Era Castilho o seu discípulo amado, como aquelle em 
quem reluziam vísiveis mais lumes de poesia. Â Castilho 
tomava por confidente dos seus desafogos métricos, e a 
elle elegia por auditório o Pindaro ephemero do Cunhal das 
Bollas. Tinha por Cicero um amor que raiava em adoração. 
Ás bellezas nativas, que um simples, mortal hadé achar 
desprevenido nos discursos do celeberrimo orador, juntava 
Maximiano perfeições, que elle próprio esquadrinhava, ca- 
lumniando de sublime as expressões mais triviaes e fami- 
liares que o orador escrevia sem pretenção. A estes tem- 
pos de vida litieraria pertencem os primeiros versos por- 
tuguezes de Castilho. ]> 

É chistoso este retrato escapado da penna do hábil es- 
tyllista Latino Coelho. 

N'estes ditosos tempos matavam-se as horas compondo 
epistolas sobre a amísade^ aos annos felizes dos conheci- 
dos, odes genetbliacas no nascimento dos príncipes; não 
havia desembargador que não poetasse, não havia chino 



tao bem ajustado debaixo do qual se nSo fosse aninhar um 
soneto. Os versos eram bem medidos, bem esteiados e en^* 
gommados com epitbetos, havi^ admirações de transportes, 
6mfim a turba vatum ia nas pegadas de Horácio como os 
bons carneiros de Panurgio. Gastílbo seguiu o movimento; 
eile mesmo na Primavera descreve-nos a amisade e admi*^ 
ração que tributava ao sábio António Ribeiro dos Santos» 
mais conhecido pelo nome arcadico de Elpino Duriense. 
Foi levado na torrente, por falta de individualidade; é uma 
primeira consequência do seu caracter de infância ; não teve 
força para resistir, não alcançava mundo fora 4as estreitas 
paredes da Rhetorica, do mesmo modo que as crianças li- 
mitam o universo ao quintal da tiasa em que Dasceram. Â 
dependência continua em que também a desgraça o collo- 
<^ára, a necessidade incessante de uma mão que o guiasse, 
tíraram-lhe a energia da virilidade; como carecia de am- 
paro quando seguia^ não concebia como o espirito podesse 
progredir sem a tutelia da auctoridade; curvou^se a ella, 
reconheceu-a, foi com os mestres.^ 

Yiu na poesia o que todos os demais viram, um bria» 
quedo infantil, como torres de cartas; nãi^ era a expressão 
profunda e séria das {^dxões humanas, mas úm meio de 
entreter os intervallos das palestras familiares, do ínegmo' 
modo que as charadas e adivinhações. 

Os poetas não sabiam o que era a dignidade do pensai 
mento; empenhavam todo o seu esforço em cantar os gran-^ 
des á sombra dos quaes iam vivendo; este defeito macála* 
as melhores composições de Diaíz^ Qúiti, Garção, Dias Go* 
mes, e Filinto; tornaram insensivelmente a poesia uma 
coosa official, cerimoniosa, das festas da corte; isto se vê 
nos volumes das composições dos sodos da Acadmiia dos 
Obsequiosos do logar de Sacavém. 

to 

* Vid. Primavera. 



\ 

^12 mtfiomiA. po Boiumui» bm fobtdoai. 

« 

Ga^tiibo, eomo criança, foi embalado na doce illusao da 
origem díYiaa da realeza ; caotou*a com toda a ingenuidade 
da sua alma; na morte de D. Maria i concorreu, com to* 
dos os poetas, Gom o seu Epkedio chorado e miserado. ^ 
Quando : cantou, depois do le roi est mort, o vive le roi no 
poema extenso á coroação de D. João vr, não se esquece 
de lembrar que já cantou ou carpiu a defunta rainha na 
sua urna cineraria. Era um serviço lembrado á magnani* 
midadedo rei. 

Reinaya n'este tempo também despoticamente o peta» 
lante padre José Agostinho de Macedo ; fundara a maneira de 
Adisson, um Espectador portuguez para fustigar os que se 
rebellavam. contra a sua tfaeocracia. Representava entre nós 
a litteratura franceza do secuio xvin ; tragedias racinianas, 
todes á Rousseau, poemas didácticos á imitação do insonsa 
Delille, Yoltairiano orthodoxo, o atrevido . padre affectava 
em tudo uma erudição de encyclopedista. Lera no Ensaia 
sDbre 0$ Épicos^ de Voltaire, dois desacertos sobre Gamões, 
e tratou de os repetir em Portugal Levantou-se a polemica 
com Pato Moniz. Pela defeza do poeta nacional, yé*se que 
nenhum lado o eomprehendia; era preciso que surgissem 
HumboMt, Schtegeli e Quinet, para nol^o apresentarem 
mmo a epopêa única que aconq)anha o movimento daEa* 
ropa moderna na Renasoençá;. José Agostinho de Macedo 
era tio vingativo como ^orgulhoso; atacava em tudo e por 
tudo o^bre Pato Monia; procuron aviltado demonstrando 
que o seu Epkedio á morte de D. Maria i era* inferior ao 
de. uma criança; Castilho não còmprehendeu o fim para 
que o elevavam comt^s^ando^ a Ptc de la Mirandela, a 
Tasso e a Pasoal; são sabia'qtie.o atiravam á cara de oia 
bom homem.. Assim começaram os seus primeiros cré- 
ditos, e põde-se dizer que conservou na litteratura por- 

1 No /omal de Ccm^a^ n.» i, P, 2.» 181ô. 



CASTILHO 



423 



tugueía esse espirito de reacção acobertado com um clas- 
sicismo doutrinário e impertinente, que José Agostinho de 
Macedo sustentara nos sermões e nos libellos políticos. Se 
as individualidades se continuam na historia, o auctor da 
Besta esfolada e das analyses dos Lusíadas transmittiu o 
seu espirito ao auctor da Tosquia de um camello e da Pream- 
bular do poema D. Jayme. 

Nunca a lyra desceu tão baixo na mão dos poetas cesá- 
reos, como no poema em três cantos: Á faustissima acda- 
mação de sua magesíade fidelíssima o sr. D. João VI, ao 
throno: Poema dedicado ao mesuno senhor por seu auctor An* 
tomo Feliciano de Castilho. ^ A bajulação chega também a 
enfadar os mesmos que procura engrandecer, quando desce 
abaixo de um pudor conveniente. Só uma falsa ideia do sen- 
timento e da poesia, e uma errada comprehensão dos mo- 
delos antigos, podia delinear assim um ediQdo composto 
de três pilhas de seiscentos e sessenta e três versos, sete- 
centos 'e sessenta e seis, e mais seiscentos e cincoenta e 
três com outros cincoenta versos da dedicatória, ao todo, 
mil setecentos e trinta e dois versos para cantar, o mais $u- 
pinamente alvai* de todos os heroes, D. João vi. 

O próprio panegyrista Latino Coelho, não pôde deixar 
passar esta noticia sem uns laivos maliciosos de verdade: 
<iMas D. João VI era o rei mais bondosamente prosaico, de 
quantos se tém assentado no throno portuguez. Medíocre 
na prosperidade, e medíocre ainda no infortúnio, nem ad- 
mirava pelas suas acções, nem interessava pelas suas des- 
venturas. A sua corte podia ser uma comedia de intriga, 
mas repellia infelizmente para a nação todas as ambições 
da tragedia purpurada. Um rei, que reina antes de o ser, 
embarca ao estrépito dos francezes, que indireita para o 
Brazil, escoltado pelos seus cortezes alliados, que se acclima 

1 Jorml de Coimbra de 1817, toI. xi, n.* 59 ; parte h. 



42é HI8T0BIA DO BOHASTIflfO SIC POBTUaAL 

á sombra dos coqueiros, que desconhece com um cosmo- 
politismo verdadeiramente assustador o menor assomo de 
nostalgia, que prosegue em se deliciar no Rio, como d' an- 
tes na pavorosa Mafra, com a melodia soturna do canto- 
chão; que depois ouvindo rugir ao longe o tigre popular, 
reparte o seu animo entre condescendência e terrores, que 
acceita as bases da Constituição, com a sinceridade de um 
Manuel Borges, e depois com monacbal sinceridade as anuUa 
sem azedume e sem pezar; um rei que a si decreta a co* 
rôa de imperador, e pede, nos seus receios dynasticos, a 
toga de presidente da republica ; um rei assim é um exem- 
plo seguro para moralistas, mas é o péssimo dos assum- 
ptos para poetas. É a burguezia coroada com todos os ac- 
cídentes afortunados ou adversos da sua despoetisada con- 
dição.» * 

Eis o digno ideal para o interprete dá dôr pungente e 
da acerba magoa que rasgou o peito da infeliz Lysia, quando 
viu Maria excelsa, o esplendor das Musas, tornada cinzas 
funéreas. Tal é o espirito d'essa poesia. 

Este .poema á coroação do monarcha é um mixto de al- 
legorias mythologicas, ainda abaixo das pinturas das salas 
da Ajuda que representam D. João vi levado pelos tritões 
dentro de uma concha. ^ 

Segundo a Lyra de Castilho o magnânimo João só devia 
suster as rédeas do Império Universal; é por isso que não 
lhe pôde negar seu canto; um canto sublimado ao Grande, 
ao Augusto Heroe, ao Pae da Pátria, ainda não disse tudo, 
ao Nume d'ella. Quer remontar-se ab jove principium, não 



^ Revista Contemporânea de Portttgal e Brazily tol. ii, p. 178, (1860). 

2 «/ea» ti sur une coquille. — Tel est le sujet d'oo6 peioture quí se voit 
dans la sale d^audience, quí represente le retoor de ce soaverain da Brésii ea 
18ãl. Le roi se tíent deboot sar une eonqae, et íl est acompagné de sa nom- 
breose famille. Oq ne peat rieo voir de pios ridícale. Cest Foâchiní qoi d'est 
rendo coapable de ce crime de lèse-majesté.» RaczjDski, Ui Ártet en Portu^ 
Sal^ p. 268. 



CASTILHO 



425 



sabe c['0Dde começará a dar priDcipiò ao canto. A mente 
Umítada de mortal, o engenho da espécie humana não po- 
derSo tecer lodos os louvores, porque a natureza não dá 
dem boccas, nem um cento de línguas, nem uma voz de 
ferro, que egualem o assumpto. * 

Isto faz lembrar o canto de Vidigal no poema do Hys- 
^ope, quando, depois de escarrar e pôr os olhos em alva, 
começou a beliscar na pansa da bandurra, para exaltar atè 
aos astros a camará municipal de Elvas por mandar deitar 
quatro gatos de ferro em um sino rachado. Se alguma vez 
Castilho se mostrou um génio foi n'este poema, em que 
ÍDConscíentemente se eleva ao mais alto cómico. 

•O poema vae-se desdobrando em myriades de versos, re- 
quebrados, campanudos, cuja harmonia é dada por aquella 
inspiração que o poeta Waller descobriu quando cantou a 
morte de Oromwell, e a elevação ao throno de Carlos ii. 

O nascimento do monarcha é brilhante de despejo: viu 
a luz primeira no suave maio, quando a esposa de Titão 
saiu mais bella derramando orvalho no carro d'ouro; n'esse 
dia Lampso soberbo e Phaetonte ufano, surgiram com garbo 
novo do Oriente, e foram assim pisando o Esquadrão dos 
tastros c6m mais vaidade; até as Pleyadas refulgentes se 
adornaram com novos resplendores, e Scjila e Charybides 

* 

^ Dos Tassallos o bem, o bem da Pátria ; 
Se a Pátria exolta ; se largando o lato 
No throDÒ assenta dos Afós herdado 
MagnaDÍmo JoSo, que só deTia 
Do Império llDitersa! suster as rédeas, * 

NSo podéra eu tâmbem negar meo caoto 
Ao grande, Augusto Heroe, ao Pae da Pátria, 
E mais quft ao Pae da Pátria, ao Nume d*ella. ^ 

CAKT. I, T. 70, etc. 

A mente do mortal, o engenho humano 
De todos o louTor jámáis tecera: 
Cem boccas, lingnas ceoto, e tos de ferro 
Natureza ofto dá, que o assumpto egualem. 

T. «7. 



426 HIBTOBIA DO KOMAMTIBMO BH POSTV<G(Ui 

deram tréguas ao mar» na montanha de Eocelado cessaram 
as labaredas^ parecia que mostrava ao miindo uma univer- 
sal primavera. No averno pararauí os supplicios, e as tilbas 
da Noite nos rios infernaes tinham suspeodido os hórridos 
flagelios. Esquecia dizer que o Fado sobre o molle berço 
bafejouo ao cingir a fronte com frondosos nardos, para que 
a inveja não podesse , escurecer o bribo e a gloria das fu- 
turas acções. 

As Graças tomaram-D'o em seus braços e o nutriram aos 
seus niveos peitos, e no puro leite d^ellas bebeu os nobres 
sentimentos, dos quaes bem que do fecundo gérmen bro- 
tam mil feitos immortaes» qíie servem de honra á pátria e 
de brazão e de esmalte ao Throno.^ O poema vae todo 
martellado n'esie diapsão. 



Nasceste Grande já: Teos Altos Feitos 
FizerafD*te maior: a Gloria herdada 
B^oatra gloria immortal cobrir soubeste. 

V. 104. 

Ao mando ostentas piedade augusta, 
Sagas prodencia, rectidão, justiça, 
/ Um génio liberal, affavel, Í>rando 
Ba santa paz o amor, da guerra o ódio. 

Y. 121. 

Egual a Castilho n'esta idealisaçSo de D. João ti só encontramos o metrifi* 
cador portuense João Evangelista* de Moraes Sarmento (1773-18Í6) db qual 
transcrevemos para aqui alguns Tersos como termo de comparação: 

Teu nome, João Sexto, só teu nome 
Na bocca de. um dos lusos resoando 
Basta a accender d'amor VesuTio inteaso. 
A ideia de quem és sopra em nós outros, 
Faísca que eiectrisa os seios d'alma, 
Que o sangue em ondas faz fevér nas faces, 
Que escalda a mente, e que alvorota os pulsos, 
Para affrontar por jli mil mortes juntas. 
A ideia de quem és, mais alta sempre 
Ao Globo, que a teos péis, teu mundo roda, 
£ eixo d'ouro, eixo ídcoocosso, eterno. 

(Foe«ta«, p. 180.) 
1 Canto I. T. 129 alé 170. 



CASTILHO 437 

» 

A falsidade do ideal disputa competenota com aquella 
Deosa que lhe appareceu n'um extasis sublime sustendo na 
dextra um brilhante facho similhante ao da Tocha Oriental 
ca formosa e cândida Verdade,» que o força para que surja» 
brade e rompa o silencio, e levante nas azas do louvor os 
Grandes Feitos do Mònarcha Excelso.* Isto parece uma 
caricatura grotesca em vez de um encómio para apre- 
goar os feitos de D. João vi, que não passou de escavar 
rapé n'um dos bolsos do coUete, e desentranhar frangãos 
assados das algibeiras do casaco. A leitura doeste poema 
faz^nos lembrar uma estampa do frontispicio das gros$as 
edições da Academia da Historia portugueza, ou os frescos 
estúpidos que estão nas salas do palácio da Ajuda. 

N'este tempo a poesia descera ao mister de pregão mer- 
cenário,, pcdia-se esmola em verso; isto vemos nos sonetos 
de Garção, nas satyras de Tolentino. Sobre este ponto diz 
o testemunho insuspeito de Latino Coelho: «Quando o poeta 
canta o povo, como Beranger, recebe a moeda do povo, a 
gloria ; quando se lembrava outr'ora de cantar os reis, à 
similhança de Boileau, conseguia a magra pensão do poeta 
cesáreo. Castilho recebeu uma rendosa mercê em paga da 
sua oblata.» ^ D. João vi remunerou burguezmente aquella 
inspiração burgueza que o fazia seu Nume, e despachou o 
poeta para o logar de escrivão, com a renda annual e vita- 
lícia de quatro mil cruzados. Estes factos definem o artista, 
caracterisam a sua feição. ^ 



1 Dedicatória do poema, t. 2, 5, SO. 

2 híméa citada, p. 179. 

3 Decreto da mercê: 

«For effeito da minha real muiificencia, con atteação ao dístiacto talento 
que tem manifeetadp Aotooio Feliciano de Castilho, e á grande applicaçSo com 
qnO' 6e dedica ao eetodo das sciencias na Universidnde de Coimͻra; Hei por 
bem laier- lhe mercê da propriedade de nm doe oíBcios de EscriTão e Chancel* 
ler da Correcção de Coimbra, qae se áeba vago, não tendo ficado filhos legi* 
timos do ultimo proprietário; e soa outrosim servido conceder lhe faculdade 
para nomear serventoario, sendo pessoa apta e approTada pela mesa do de- 



428 HISTORIA DO BOXAiniSMO BM POBTUOAL 

« 

N'este poema, que é um aviltamento da arte, o maior 
monumento da sua decadência, canta-se a fugida do rei 
para o Brazrl, e o temporal que a esquadra soffreu na al- 
tura das ilha$;^ canta-se o Decreto de 10 de fevereiro de 

» 

1792 em que D. JoSo vi resolveu assistir e prover o des- 
pacho dos Negócios em nome da rainha sua mãe, e assi- 
gnar por ella durante o seu notório impedimento, não se 
fazendo alteração na ordem normal e chancellaria. ' 

Nas notas ao poema, as paginas vem recheadas de De- 
cretos, Portarias, Regulamentos, Provisões, OflQcios, Cartas 
regias, Resoluções, Diplomas, Alvarás, Editaes, Avisos da 
Secretaria, todos os papeis oflSciaes expedidos durante o 
reinado do monarcha celebrado. É d'aqui que tira a mar- 
cha do poema, que não tem acção ,^ já o exalta por dar a li- 
berdade aos presos pelo nascimento da princeza, já o en- 
grandece por fazer no logar da Azinhaga, termo de Santa- 
j*em, um deposito de rezes vacuns, por crear a companhia 
de veteranos e o monte pio litterario, e providenciar a fa- 
vor dos expostos e mestras de meninas em Lisboa, e a 

sembargo do. paço. A mesma mesa o tenha assim entendido, e lhe mande pas- 
sar 08 despachos necessários^ Palácio do Rio de Jaoeíro, em 8 de jonho de 
1819. Rubrica de sna magestade. — Registada a fl. 26.» (PablicadQ aas £xca- 
tações poéticas j fl. 61.) Desde este decreto data a annollaçfto da sentença for* 
mulada por Garção: 

Almotacé qne qneiras ser de am bairro 
Ezcluido serás sendo poeta. 

Os obreiros das Cortes de Vinte, foram lefados para a inauguração do con« 
stítncionalismo, qae se havia de perder nas mãos das mediocridades litterarías 
6 dos palavreadores metaphysicOs. Isto tornoa ineíBcac esse snUime moTÍmento 
nacional; e não ha litterato, com dois ou trez folhetins, e alguns Tersos qne 
não tenha sido ou não queira ser ministro. 

A tensa da propriedado de nn ofBcio de escrivão tornou-se no longo reinado 
de D. liaria i e regência de D. João i o pagamento dos encómios dos poetas; 
a José Daniel Rodrigues da Costa, auctor do Almocreve das P«to«, e protegido 
do Intendente flianique, foi* lhe também dado o offlcio de escrivão em Portale- 
gre. 

t Verso Í72, i. 

s Verso 850, 1. 



CASTILHO 329 

barra de Aveiro, e o eDcanamento do Cávado, e a diligen- 
cia entre Coimbra e Lisboa, e as commendas, títulos, e pre- 
bendas com que assignalou vários individues, tudo isto 
forma uma espécie de Cbronica em verso, desdobrada aos 
olhos munificentes do soberano. Toda a insistência sobre 
este poema, não deixa vêr a minima parte dos seus ridicu- 
los e degradações, nem tão pouco deixa bem patente um 
exemplo para fugirem os futuros escriptores. Ha porém um 
lado que defende Castilho; tinha a fraqueza de criança, e 
deixou-se levar pelos que lhe aconselharam este meio de 
tornar-se protegido. O modo. como elle julga os factos da 
sua época, são o ecco das palestras domesticas que ouvia ; 
maldiz a Constituição hespanhola por querer estabelecer a 
responsabilidade real, e diz que a egualdade e a liberdade 
são um criminoso orgulho, cujos princípios têm desterrado 
a paz do mundo inteiro e manchado de sangue as purpu- . 
ras dos reis; era isto ao que se chamava ideias france- 
zas. * 

Pouco depois de Castilho ler escripto esse protesto con- 
tra a liberdade moderna, deu-se uma tranformação no seu 
espirito, e os livros dos encyclopedistas operaram uma mo- 
mentânea visão de Saulo. A nova comprehensão da liber- 
dade, que o levou a figurar nos improvisos do Outeiro 
poético da Sala dos Capellos em 1820, quando a nação por- 
tugueza, pondo termo ao domínio inglez de Beresford, reas- 
sumiu os seus destinos, acha-se assim descripta n'esta pa- 



ó crímiooso orgulho, os teoe princípios 
Tem desterrado a pâz do íoteiro Mundo, 
De sangue as Régias Purpuras manchado, 
Abatido as NacSes ao jugo, á morte. 
Quem primeiro sonhou louca egualdade, 
£ livres qoiz deixar de todo os homens, 
Bebido tinha da corrente escura 
Bo Gallo insano, que Teloz se alonga 
Lá junto ás altas, invernaes Geienas. 
Canto I, ▼. âdl, 299. 



430 HISTOBIA DO BOMAHTMMO EM PORTUGAL 

gína autobiographica : «O su3o da philosopbia do ultimo 
século também por nós, como por todos, bavia passado. E 
as crenças da nossa infância pareciam estar secas; digo, 
pareciam, porque de crenças taes sempre lá ficam vivas al- 
gumas sotterradas raizes, que, ao primeiro sopro do céo, 
reproduzem e renovam o perdido, e ás vezes com melbo- 
ría; mas emfim, por então eram nuilas: perdoo eu a quem 
taes livros desalmados nos entregou^ ou nos entregou a el- 
les antes de corroborado o entendimento; foi a crueza nao 
menor, senão muito mais atroz, que a de lançar crianças 
ás feras do monte; e Deus perdoe, se pode, aos que, sem 
terem por si a desculpa de ignorância, se põem a escrever 
taes livros, á luz do sol de Deus, respirando o seu ár, e 
saboreando-se em todos os seus benefícios. Deus lhe per- 
doe, e a mim, que arrastado de seu exemplo, também le- 
vei meu pequeno engenho, como victima ao horrendo altar 
iJo nada; entoei, como hymnos á razão, vaidosas e insen- 
satas parodias dos Livros Santos; e das sublimes inspira- 
ções de Moysés, perante quem os maiores homens acurvam 
o joelho, fiz em ridículos versos um passatempo de pre- 
sumpçosos e néscios, mais um arrimo a suas impiedades, 
mais um enxerto na immensa arvore da Insipiência para 
d'elle brotarem fructos de perdição.» * Na CoUecção de Poe- 
sias recitadas na Sala dos Actos grandes da Universidade de 
Coimbra, nas noites de 21 e 22 de novembro de 1820, ap- 
parecem os taes ingénuos fructos de perdição; entre os poe- 
tas que celebraram os acontecimentos do dia 17, figura 
António Feliciano de Castilho com alguns Sonetos e Odes 
contra o despotismo: 

Despótico poder já nos dSo doma: 
Ante taes feitos, qw serbO na historia 
Dias dooradod, qoaes yia Grécia e Boma? 

1 Memorias do Conservatória, p. 13. 



CASTILHO 431 

N'este afamado Outeiro, que celebrava . as bases da Con- 
stituição portugueza tomadas da hespanhola, figuraram Au* 
gusto Frederico de Castilho, com seu irmão, estudantes do 
quarto anno de Cânones, José Frederico Pereira Marrecos, 
Pedro Joaquim de Menezes, José Maria Grande, José Maria 
de Andrade, Fernando José Lopes de Andrade, o padre 
Emygdio, e João Baptista da Silva Leitão de Almeida Gar* 
rett; Eram estes os novos espirites, que liam as obras dos 
encyclopedistas, e que se apaixonavam pelo principio da 
soberania nacional, proclamado na Revolução de (820; Cas- 
tilho ia com a corrente, e quíindo em 1823 D. João vi ras- 
gou brutalmente a Constituição de 1822, a Universidade de 
Coimbra, como reducto da estabilidade, foi a primeira a 
saudar a reacção do absolutismo, celebrando um novo Ou- 
teiro poético para exaltar a restauração do despotismo. 
Castilho foi levado a recitar poesias n'este desgraçado Ou- 
teiro, e nas Excavações poéticas, reconhece a sua lamentá- 
vel contradicção, attribuindo-a á auctoridade paternal e a 
uma prevenção de segurança. * 

N*este correr da inspiração, alentada pelas clássicas e in- 
fatuadas tradições de todas as arcádias, este culto intenso pe- 
las Musas, nove senhoras muito respeitáveis e condescen- 
dentes ao appello do cantor palaciano, nãopodia deixar de 
se conservar sempre vivo em outras lyras. Castilho come- 
çou a ser então festejado nos Outeiros poéticos, velha usança, 
que de todo passou de moda, e deixou ao abandono os 
poetas que ficaram hoje a suspirar pelas brisas. Os miran- 
tes, pela eleição de alguma nova abbadessa, bordavam-se 
de luminárias, e de véos alvejantes que fluctuavam nas vi* 
rações da noite; a multidão apinhava-se no adro, e ao som 
de escarros constipativos e maliciosos, lá se escutava uma 

^ 

1 Op, ciLf p. 41, artigo traoscripto do n,* 17 da Guarda Avança, de 1835, 
explicando- se acerca dos qae o exprobaTam de haver saudado a reacção abso- 
lutista de 1823. ' , • %' 



^2 HIBTOBU. DO XOICAHTIBMO SM POBTUOAXi 

VOZ afflaQtada e argeDtinai que declamava docertiente do ár 
a terna divisa do — Lá voe mote. Os poetas apressavam-se 
a giosal-os, com a mesma presteza de quem sabe apanhar 
mosquitos no ár. Â poesia, doeste modo, resumia-se em um 
bom provimento de rimas, para salvar nos acasos da in- 
spiração; o verso .por si lá se endireitava com um nariz de 
cera, com mais uma palavra, com mais um prolongamento 
na intonação da voz. 

Pertencem a esta escola os bons versos de Bocage e de 
Jo3o Xavier, e os repentes sarcásticos do Lobo da Madra- 
gôa. 

Estes versos dos Outeiros políticos explicam-nos como 
Castilho foi irresistivelmente' arrebatado para as composi- 
ções dramáticas, que estavam no maior furor da moda em 
Coimbra desde 1816 alé 1825; a tragedia voltairiana era o 
meio subrepticio de. dar largas ao sentimento da liberdade, 
que o absolutismo reinante procurava abafar por todos os 
modos. Castilho também escreveu d'e^sas tragedias á João 
Baptista Gomes, temperadas com todas as figuras e tropos 
do elmanismo. O Iheatro n'esta crise politica adquire certo 
interesse entre os estudantes e os filhotes. Em casa do Dr. 
José Feliciano de Castilho, que então morava ao Arco de 
Almedina, onde é hoje o club, fízeram-se bastantes repre- 
sentações particulares de 1824 a 1825; tomavam parte 
n'estas representações os filhos do cathedratico, e Joaquim 
José Dias Lopes de Vasconcellos, com António Dias de Oli- 
veira, que foi ministro em 1837, e actualmente ainda juiz 
do Supremo tribunal de justiça. Castilho, que seguia as pi- 
sadas de Monti, traduziu d'este poeta a tragedia Aristodemo, 
em verso, cujo typo era desempenhado por Augusto Fre- 
derico de Castilho, que foi padre. Castilho escreveu depois 
outra tragedia em verso, em cinco actos, intitulada Canace, 
que ficou ignorada, e A festa do Amor filial, drama em dois 
actos, também inédito. ^ " 



De l8StS para 1826 arraàjoa^se um mYO ibeatriaho na 
rua do SargentOrMór, em Coimbra» em casa de José Auto- 
Dio Rodrigues Trovão, com freote para o cães; a tragedia 
de La Motbe, os MachabeoSy traduzida por JoSo Baptista 
Gomes, e as comedias de Goldoni, A mulher amorosa, O 
Pm de familia, e um atUo moderno de Santo António for- 
maram o principal reportório; em uma doestas récitas é que 
um tal Francisco Ignaeio de Almeida veiu á scena recitar 
uma Ode de Gastiibo. Feitas estas representações, confli- 
ctos ibtimos dissolveram a sociedade dramática, e uma nova 
se organisQu para levar á sceea a opera cómica 0^ Tanian^ 
qtieiros, escripta por PigauU Lebruo, N'e$te tempo, como 
sabemos pela confissão de GarreU no Chroni^tay PigauU 
Lebrun era considerado em Portugal como o terceiro ho- 
mem de génio do século, hombro com hombro com Walter 
Soott; a sua opera cómica foi traduzida na parte da prosa 
por António Ferreira de Seabra, ena parte métrica por 
António Feliciano de Castilho. O lente de musica da Uni- 
versidade e. mestre da capella da sé, Francisco da Boa-^ 
Morte regia a orchestra ; a musica da opera era arranjada 
pelo organista João José Borges; * o estylo da modinha do 
século xviu predominava despoticamente, a ponto de algu- 
mas chegarem até nossos dias, como a Joven Ulia, agar* 
rada á musica da Semiramie de Rossini, ou a de Garrett, 
Sobre um rochedo. Que o mar baiia, etc. 

A poesia, que não era então outra cousa mais do que o 
artificio da metrificação, tornou-se uma parte obrigada das 
festas reaes; casamentos, anniyersarios, coroações, exêr 
quias, eis os assumptos <Dbrigados das Musas. Em.Hespa- 
nha este habito servil tomara o nome, de Gertanam, e em 
Portugal cbamava-$e-lbe! .Outeiro;, na^ festas religiosas, eomo 



A o Theaíro im Coínt^a^ (1560-^1936) por Francisco Martin* i» Carvalho. 
(ConimbricDAse, ann. xxxii, 1870.) 

28 



434r HI8T0BIA DO BOKÀBXntMO SM PORTUGAL 

ntítagres, canonisaçõesj padroeiros» era uiQa cerimonia in- 
dispensável o ccHigresso dos poetastros, a que se chamava 
também á maneira italiana nmá Academia. O uso d'eslé di- 
vertimento litlerario, pela sua frequência na Itália, Hespa- 
nba e Portugal, foi introduzido pela educação dirigida pelos 
Jesuitas, que impozeram á Europa um absoluto humanis- 
mo. O Outeiro y pela sua origem religiosa, conservou quasi 
\ sempre esse caracter e era essencialmente freiratico ; ser- 

via para celebrar as eleições dos abbadeçados, foi usado 
também entre as pompas budhicas da procissSo do Corpo 
de Deus, * desde Í719, e nos regosijos políticos, como no 
celebre Outeiro da sala dos Capellos em Coimbra em 1822. 
O ultimo representante dos Outeiros poéticos foi Castilho, 
que ainda em 1867 propunha a sua restauração, a propo- 
>^ sito da estatua a Bocage: «Vão longe aíjuelles dias dos tão 

À afamados Outeiros poéticos de Portugal; já também agoní- 

^ savam quando os eu alcancei; mas eram donosa occupação 

V e bom estimulo de engenhos^ em quanto a juventude era 

juventude, e a politica nos não tinha a toctos e de todo 

dessalgado; naas quem nos diz que ao pê do vosso Bocage 

^ resuscitado, não poderiam, se os evocásseis vós, resuscitar 

egualmente aquelles certames nocturnos dos engenhos, no 
dia ou no triduo do anniversario do monumento? E se re- 
suscitassem, não seria esse um facto bemfecundo?. ..»' 
Castilho seguira a primeira vibração liberal de i820, ed'essa 
época restam d'elle documentos litterarios, como O Tejo, 
EHogio dramático aos annos do sereníssimo sr; D. Pedro, 
príncipe real, em 1820, e uma Ode á morte de Gomes Freire, 
a primeira victima da liberdade portugueza. Também pa- 
gou homenagem a essa deplorável forma litteraria dos Elo- 
' gios dramáticos, em um que se intitula A Liberdade, e nos 

1 Dr. Ribeiro Gaimarães, Summ, de varia Historia^ f. iy^ p. 39 
» Citrías dê ex:^ ir. A. F. d» CattUho $ rf« Canutra Í9 Setúbal, p. 10, Lis- 
boa, 1867. 



4 



I 



CASTILHO ' ^ 435 

versos qae se distribuíam pelos theatros nos espectactrlos 
de gala, taes como a Cantata : Os ais ão povo luso emfim 
venceram, que se eâpalhoa no theatro da Rna dos Condes 
por occasiSo do regresso de D. João vi do Brazil, em 1821: 
É lambem doeste mesmo anno o Canto: Agora que dos Céos 
o longo espaço, no qual faz a descripç3o das festas pelo an*' 
niversario da Revolução de 15 de setembro de 1820; e a 
Cantata : Emquanlo a pátria docemente gosa, que se distri- 
buiu no jantar Constitucional dado na Sala 'do Risco, no Ar-* 
senal de Marinha em commemoração do dia 24 de ago^o 
de *820. 

A morte de D. João vi em 1826 veia truncar repentina- 
mente os planos do despotismo, por meio de uma conci- 
liação da soberania nacional com a monarchia da graça de 
DeuSy com esse produclo hybrido da Carta outorgada por 
D. Pedro iv. N'este annõ Augusto Frederico de Castilho, 
ordenado de presbytero, fora despachado parocho da egreja 
de S. Mamede da Castanheira do Vouga, do bispado de 
Aveiro; Castilho refugiou-se da transformação constitucio-' 
nal junto de seu irmão, onde se conservou até ao fim do 
cerco do Porto. D'esta época da sua vida falia o poela au- 
tobiographicamente : «Emquanto nós ai disfructámos em 
ócios quasi sempre estudiosos as delícias da natureza, da 
confraternidade, e de geral estima, as nuvens das tempes- 
tades politicas amontoadas ab longe, depois de largas as y 
solações por todas as outras partes começaram também de 
ameaçar um monte, que por tão inaccessivel lhes houvéra- 
mos ...» * «De oito irmãos que ao todo éramos, só dois, 
elle e eu permanecíamos ainda intactos das perseguiç(5es, 
fructo amargo, mas indispensável das grandes crises dos 
estados. — A hora da perseguição era pois inevitável e soçiu; 
meu irmão, que a tempo a presentiu, desampara commigo 

1 Mmorias do Contervatorio, p. 18. 



43ê HI8T0UA DO BOiaiITISMO BM POBTUOAL 

O seu remaoso de oito annos, (i82S-i884) a amísade en* 
tranhada de todo um poTO, e o templo onde o cadáver, 
sempre chorado de nosso pae nos ficava sob a luz perpétua 
da alampada ...» Na Tida solitária de S. Mamede da Cas- 
tanheira do Vouga «dormia descansado, traduzindo Ovidio, 
romatisando, fazendo os seus castellos — bebendo n'esse 
retiro o vinho da frasqueira de um cónego» aprendendo do 
seu criado Francisco ^ quando se plantavam as couves ...» 
Era uma vida perfeitamente arcádica «catechisado pagSo 
por Chomprè.» 

A vida na residência de S. Mamede da Castanheira do 
Vouga foi um período de remanso mental qae confinou Cas- 
tilho no mundo do idylio; partiu de Coimbra para a serra 
com seu irmão padre em '23 de outubro de 1826, indo ha- 
bitar o passal na antiga quinta das Limeiras dos Condes da 
Feira. ^ Namorado da Ecco mysteriosa do convento de Vai- 
rão, Castilho identificavarse com a antiguidade; escrevia no 
Templo das Musas, que era uma palhoça no Alto da Pedra 
Branca, fora do passal, á beira do sobreiral de S. Sebas- 
tião; 3 estava inteiramente occupado em fazer Iraducções 
dos clássicos latinos: «A esses annos da serra pertencem 
pois, como já n'outras partes declarei, as iraducções das 
JUetamorphoses e dos Amores de Ovídio, muitas das baga- 
tellas encorporadas nas Excavaçoes poéticas, Noiíe do Cas- 
tello e os Ciúmes do Bardo. » * O campo influiu no caracter 
idylico do escriptor, pendendo para a frivolidade, e elle o 
confessa: «todas quantas aspirações benévolas eu vim a pa- 
tentear nos dois livrinhos que ainda hoje amo. Felicidade 



1 D'e6te criado e caseiro de S. Mamede, Fraocisco Gomes, grande borda 
d'agiia, qae havid eoterrado três priorei«, aprendeu Gastíllio esse sabor Terna - 
culo da sua Jíngaagera, que ás vezes chegava ao plebeismo. Excav. p.|16, 
Ji0t. 10. 

2 Amor ê Melancholia, p. 201: Chave do enigma, 

3 lòid,, p. 349. 

4 2bid,y p. 318. 



eâETOMo 487 

pela Agricultura e Felicidade pela Instrucção nSo sSo seoSo re^ 
míniscencias d*aqueIÍ6 praso da minha vida. » Era no retiro 
do Templo das Musas, que Castilho escutava o ruido da ar- 
tilheria na acção da Ponte do Marnel, e o bombardeamento 
continuo do cerco do Porto; o poemeto da Noite do Cas- 
tello traz a assignatura da «Residência parocbial de S. Ma- 
mede da Castanheira do Vouga, 4 de junho de i830.> Com 
o triumpho da causa dos liberaes, Castilho saiu do seu re- 
tibo para acompanhar o irmão padre que se .envolvera na 
politica parlamentar; pelo seu lado proclamou*se também 
liberal, publicando um opúsculo com a Epistola ao Usurpa- 
dor na saída de Portugal, onde mimosea o vencido com es- 
tas phrases: 

£91 hora má, do porto desaffiprrei 
ó príncipe das trevas 

Em três yeces má hora a prda infanda 
Commetta o már, co*ae Fúrias por Nereydas, 
Por galerno os tufões, e ao leme a parca^ 

Sequioso o cadafalso te pedia ; 
Mas foi lei do Senhor na infância do homem: 
Nao matarás Caim 1—^ Deram- te a vida, 
Porque enchentes de sangue generoso 
Go'um pouco sangue tíI se não remiam. . . 

Este opúsculo vendía-se a 60 réis ; D'esse mesmo aano 
publicou outra Epistola ao Povo nas Eleições de 1834, onde 
proclama : 

PoTO) oh nobre sem fausto, oh rei sem jugos, 

Vate plebeu, que de plebeu se presa 

Te envia o pensamento, o amor, os sustos. 



t 



O vate plebeu encarregou-se de desmentir estas palavra» 
organisando uma remdtissima genealogia no drama Camõe»^ 
e fazendo-se no fim da vida visconde do seu nome. N'esU 
Epistola Castilho indica ao povo em queoq hade votar, lem*^ 



438 HI8T0BIA DO BOXAKTISlfO SM POBTUOAL 

/ 

Ixraodo que fajam d^aqaelles que trouxeram da emigração 
O' estrangeirismo: 

Procura oê que já boD8,-eptrando em ferros 
Mais dos ferros no horror se acrisolaram ; 
. Procura os que deixa udo os patrioa muros, 
Peregrinos por terras de estrangeiros, 
Nos andaram sciencia enthesoorando,' 
Emqqanto os mais ou fofos volteavam, 
Oo com o feio de acções nos desluziam, 
Ou suppondo polir-se o único estudo 
Punham no perverter seus pátrios modos, 
O trajo, a mesa, o somno, o amor e a lingua ; 
Estes, do chão natal profanadores, 
Longe do pensamento^ os outros se amem 
Que amaram só do Extranbo o que nós sirva, 
< Nunca o seu jogol 

Castilho, no tirocinio da Universidade, filiou-se na es- 
cola, para a qual tinb^ já tão bons preparativos. Âcredi- 
tou-se nos Outeiros de Santa Clara e Therezinhas; mais 
tarde, quando os Outeiros passaram para o theatro, tam- 
bém lá foi colher seus louros, exaltando a grandeza com 
que D. João vi jurou ás bases da Constituição e em seguida 
como as rasgou; parece que se jurara ou encartara poeta 
cesáreo da casa Bragança-Bourbon, pelo que vemos do Tri- 
buto saudoso á memoria do Libertador, e no Transito do sr. 
D. Pedro K Tudo verduras de uma infância perpetua, que 
se desdobra em uma prolixidade de fructos. 

Vejamos agora como Castilho sente e ama a natureza; 
deve-lhe apparecer. com aquella transparência e graça dos 
sete annos. Já dos trabalhos anteriores se descrimina qual 
bade ser o género de assumptos da sua predilecção. 

A fabula desenha-se-lhe á phantasia graciosamente, como 
um brinco infantil; escolhe o mais infantil de todos os as- 
sumptos—o amor não correspondido de .uma terna nym- 
I^a por um mancebo cruel. Foi n'umas férias de Coimbra, 
qoe deu começo ao pojBmasioho florianesco das Carkts de 
Meco e Narciso^ que influenciou na sua vida. 



• cABTiusa. V 439 

À mytboiogia é da todas as creiações a que tem menos 
recursos poéticos, quando se igoora a concepção que ella 
traduzia^ O sentimento do maravilhoso è o primeiro que* s^ 
n^iíesta no liomam, é o primeiro também que dá forma 
á sua poesia. Esses typos do velho olympo são como con- 
chas sem pérola para os que só conhecem a mythologia 
pela rotina das Academias; no fogo da inspiração o muito 
que consegue é deixar-nos somente am pósinho calcinado 
que qualquer sopro espalha. Era e foi assim que Cas- 
tilho complrehendeu a antiguidade, através de Ovidio.que só 
prociírava engraçadas aventuras, scenas lascivas^ jogos, 
brincos, transformações de amores, para divertir uma so* 
ciedade sem crenças^ e uma corrupção ameaçada pelo té- 
dio; a mythologia pelas Cartas a Emilta è uma galanteria, 
uín thema para requebros de irfirase e ternos versinhos de 
Demoustier, peior ainda que as secoas e absurdas indica- 
ções do Diccionario.de Cbompré. Um falso conhecimento 
das fórmas e das imagens falsiâcou-lhe a expressão do. sen- 
timento* 

A mylbologia é uma phase dos symbolos materlaes que 
exprimem o sentimento religioso, depois de ordenados e de 
determinada a unidade d'elies. É um facto humano, incon- 
sciente, que Pythagoros, Empédocles, Xenophanes e Thales 
procuraram interpretar; umas vezes o simples nome de. um 
phenomeno constituia-se em realidade independente pela 
audácia da metáphora: Nemen, numen. Outras vezes a lei 
dos phenomenos naturaes véla-se sob uma forma dramática, 
sacramental dos ipysterios eléusíàos; as differentes inter- 
pretações de um mesmo facto considerado em civilisações 
differentes dão-lhe uma existência múltipla; o modo de per- 
petuar um successo, e pela decurso do tempo perdida a 
memoria d^elle e cònseryadj^ apenas a fôi;ma que o lembra, 
tudo isto encerra as causas de- transformação e o sentido do 
polylheismo grego. O orphis.mo de Pythagoras, o systema 



440 HIBTOIZA DO «NUVmUfO BM FOBTUOAI. 

«Yhemerísta, o exclttsivhmo de Dapuis e de Creozer^ a era- 
dição de Voss e de Lobeok, etevaram á aUora de uma scíen- 
eia antropológica isto que para algaus desasisados parece 
uma curiosidade, uuia ficção divertida creada pelos poetas, 
como um deus ex màehinà para valer aos seus heroes sos 
lances difficeis. 

A mythologia comparada tem encontrado nos symbolos 
religiosos de todos os povos uma unidade que leva á lei da 
sua formação; e esses typos ideados na índia, na Per^» 
na Grécia, na Etroria exprimem uma poesia, a da primeira 
impressão do mundo, do regosijo da vida, da appar^M^ia 
das realidades, um sentimento puro não viciado por ne- 
nhuma tbeologia convencional e arbitraria* É o que não sa- 
bem 08 poetas das Arcádias, os Mèmnides Eginenses. * 

As Cartas de Beco e Narciso! a. primeira obra que Cas- 
tilbo escreveu intenctonalmiente para o publico, frocto das 
lições de José Peixoto, seu mestre de latim e de poesia 
«e muito bom poeta «latino e português.» Foi esse eximio 
interprete do Lacio Pindo, que lhe excitou n'alma o pri- 
meiro amor das Musas da sábia Roma; foi elle que lhe fez 
exprimir :Ra pátria língua, os altos versos de Virgilio, o can- 
tor de EneaS) e os sons da lyra venusina, e os temos quei- 
xumes do amante de Gorína; Oh! bem hajas interprete fa- 
cundo, exímio Peixoto. ^ £asinou<-lhe a conhecer a antigui- 

• '.,'.'■ ! •" 

1 Nome piTdtico de. CbsUUio- na Arcádia, da ^Rona. 

2 GraçaB, graças a ti, Peikoto exímio, 
Do Lacio Pindo íaterpreto facundo! 
Ta foâte, quem primeiro o anifor das Mosaò 
Ba sÀbía Roma me eiciita^te ii'almah 
Os altos verbos do cantor de Eneas, 
Os sons dá lyra, qve afaraoã Venosa, 
Dp-amaate de Ceriaaaa tornas qopixas, 
Me fizeste exprimir oa pátria lingoa. 
Bm cantos qoe inda tntSó softaTa a casto. 
Oh vatAy^oja mjlo plaoteu mw (6«trO| 
Qlha com brando rosto os Tractos d*e!le. 

Cari. ãè SccOf p. 10, ed. 4." 



«USTILHO ' 441 

dade, as nobres e vetnstissimas tradições dos homens pri- 
mítívos, como engraçadas allegorias, finos tropos, que se 
prestavam facilmente á mechanica do verso. Andava n'este 
tempo eta voga o chato e assucarado livro de Demoustíer 
intitulado Cartas a Emlia sobre a Mpthologia. Era também 
moda o systema de cartas a Sophia, a Heloísa, restos do 
se(^lo xvni. Olhada a mythologia por outra qualquer face, 
a não seguir os trabalhos de Vossio, Dupuis, Creuzer, Gui- 
gniaut, Preller, ou Otfried Múller, ella só apresenta uma 
serie de puerilidades engenhosas, que deleitam a imagi- 
nação e nos desenfadam dos cuidados da vida. Âquelles 
vultos serenos de Olympo hellenico desenha ram-se-lhe na 
phaniasia como figurinhas recortadas, visualidades, capri- 
chosas do paganismo. 

É esta a tendenda infantil; Castilho procurou reprodu- 
tivas, como quem aviva uns traços mal debuchados que se 
apagam. Â escolha da acç3o mede o artista : £(;co é a alma 
do poeta, solitária, não tendo no mundo quem lhe responda 
á expansão que a lança para a natureza que se lhe esconde. 

Castilho tinha um sentimento vulgar, é as tradi<(^s clás- 
sicas da escola não o deixavam comprehender as cousas. O 
^mídr grego, índefimvel, artista, como o achamos na pede*- 
rastia, nao d podia fazer sentir o Jòsé Peixoto; ainda Ot- 
fried MiJiiler nHo tinha encetado esse trabalho. Ha na my- 
thologia hellenicá o amor com um caracter de fatalidade in- 
vencível, é um destino diante do qual se verga. O forte, o 
héroe triumpha d'eUe, não o conhece; ama o fraco, aquelle 
nSo sabe resistir e se deixa ferir; ali a mulher conserva 
aihda o seu ideal indiano de perfeição a fraqmza; é ella 
que é vencida pelo amor. 

Esta é a base de todos os mythos, é o que explica as 
uniões desnaturaes de Pasiphae, de Bíblis, os Ímpetos ver^ 
trginosos de Pbedra, de Sapho; £úco entra também no coro 
das suas irmãs prostradas pelo amor. 



442 HISTOBIA DO BOMAKTIBMO BM PORTUGAL 

Na paixão de Ecco e Narciso é que apparece o pcuhos^ 
que só se encontra mais tarde nas obras de arte; a verdade 
da alma da Grécia transparecia brilhante nas creações po- 
pulares. A educação litteraría de Castilho, a tulella forçada 
em que se achava sob a virga férrea da auctoridade ma- 
gistral, empeciam-na de descobrir estas cousas, achadas 
pela ciitica moderna. O OwidiOf co]bs iktamorphoses estava 
já traduzindo, (1836) apresentava-lhe a serie d'estes violen- 
tos amores, não como um accesso natural e franco da alma 
antiga, mas como enredos licenciosos, devaneios lúbricos 
dialogados declama toriamente para excitar a sensualidade 
das damas romanas em quanto as escravas liam no touca- 
dor d'ellas. 

Os mestres, e os mesmos poetas illudiram-n'o; acreditou 
n'elles com a boa fé de criança.* Sem se lembrar de que 
nos tempos ante-homericos era desconhecida a escripta, e 
que nos poemas homéricos nem uma só vez è claramente 
citada, concebeu abstrusamente Ecco pelo tom da pastoral 
de Longus, e pôl*a a escrever os seus requebrados galan- 
teios peia casta das arvores do bosque. 

A forma de Carta tinha sido adoptada por Pope^ para 
os insuisos anhelos que poz na bocca de Heloisa e Abai- 
lard. A Carla presta-se ao monologo vago, scismador, tem- 
pestuoso, como é a poesia romântica; era a forma menos 
grega que podia escolher. A serenidade da arte clássica, a 
harmonia de todas as partes absorvendo-se na perfeição do 
conjuncto, a nitidez dos traços, das cores, deixando predo- 
minar em todas as creações um aspecto visivel, particular- 
mente esculptural; nada, nada disto se encontra n'esse in- 
nocente livro das Cartas d'Ecco; a frescura primitiva, a 
suavidade, a natureza espontânea e simples, está ali substi- 
tuída com um colorido de adjectivos — de gentil, amaveU 
formoso, lindo,- bello, juvenil, terno, doirado, cruel, tyranno, 
ingrato, e isto variado segundo as exigências da metriâcaçSo. 



CABTIXJEO 443 

Os versos n6iu uma vez. se quebram» estão inteiriçados 
pela promptidão dos epithetos. Aqaeilas iras, ameaças, ar- 
rojos e esperanças são ainda de uma alma infantil; è por 
isso quer o assumpto se esgota depois da primeira carta^ 
até á puerilidade. Ecco escreve no tronco de um cboupo, 
que cresce nas verdes margens de um sereno rio augmen- 
tado pelas temas lagrimas que chora. No delirio da paixão, 
ella não se esquece das figuras> da rbetorica do mestre Ma- 
ximiano, para medir as emoções: 

Em lagrimas, em ais consummo os dias, 
Em lagrimas, èm ais as noites velo. 

Ecco vae queixando-se, e invocando o exemplo dos ani- 
maes que também amam; o rei dos animaes não se enver- 
gonha de arrastar os grilhões que o amor lhe lança. É uma 
comparação de maior para menor, mas não importa; o que 
Ecco aspira é encher os campos com filhos formosos como 
Narciso^ e ornar as florestas com novas Nymphas que ven^ 
çam as Nymphas suas rivaes. ^ Désculpe*se pela candura e 
ingenuidade da alma do poeta ; as círcumstancias foram-lbe 
prolongando a infância; faz ideia da vida, pelo arranjo do- 
mestico; privado da vista nunca pôde abandonar o lar, 
ama-o, enfeita-o como um typo de um quadro flamengo. 
Tem um ideal bui^uez de commodidade, que lhe faz esco- 
lher, de preferencia por Mecenas D. João vi, o mais com- 
pleto de todos os alfirves. 

Narciso, não sei porque influição amorosa, foi ler a epis- 
tola da sua incógnita Amadora, é lhe envia paz e saúde, ao 
tSter da resposta. Depois começa a tirar-lhe da cabeça essa 

1 Tu que podes eucbor os nossos campos 
De filhos, como tu, formosos todos ; 
Tu, que podes ornar estas florestas 
Be Nymphas novas, que estas Nymphas vençam, 
Esta gloria a ti mesmo basdo ncgar-te? 

Pag. ^1, ediç. quartA. 



4âá HISTORIA DO BOMASnSHO BM POBTUOAL 

hailueiíiJiçSo. Dá graças ao céo, porque desconhece o amor» 
o Moo^ro, de cujo fadio tem ouvido citar os bárbaros ef- 
feitos. Pede-ihe que não se fie n'eUe; que é pequeno infante 
mas é boiiçoso e amigo de brincar; que só tem alegria em 
cravar fundas settas, e exulta com o pranto e os ais que 
arranca. £lle gera cuidados, e faz murchar os prazeres, faz 
do somno pacifico uma guerra, e anda acompanhado do re* 
ceio, da inveja, do odío e do dume voraz. O amor è fiiho 
da rocha caucasea, do tigre hyrcano e de Megeras. Á vista 
d'isto pede-Ihe que se deixe de imaginações: e para mos- 
trar em factos a verdade, nao se esquece de retorquir tam- 
bém com a sua figurinha de rhetorica: 

o mondo para- mim é todo graças, 
Angustias para ti é todo o mondo.* 

JNÍ'este ponto está esgotado o assumpto; tudo o mais não 
tem movimento; gira sempre no mesmo eixo;* o poeta con- 
tinua os mooiologos como uma criança inquieta, que se não 
cansa die assoprar freneticamente em um assobio de feira 
até quebral-o. O poema é todo d'este feitio do mais teioioso 
elmanismo. O amor ali é uma cousa ainda não sentida, nem 
tão pouco adivinhada. O esmero dos versos> regrais, ca* 
denciados, adjectivados, metapborisados, tem uma doçura 
que nauséa; são como a linguagem de uma crialnça que dá 
uma lição bem sabida. Foi este o livro que lhe deu nome 
em Portugal e no Brazil, e aquelle que serve sempre de 
antonomásia; foi por isso que nos demorámos na aprecia- 
ção ã'elle. Apesar de toda a mythologia académica d'este 
livro, o auctor ousou chamàr4he romance.^ O resto do li- 
vro é digno de compaixão pelas futilidades da puerícia. 

A carta que o auctor recebeu de uma senhora, pelo cor- 



1 Pag. 42. 

2 Pag. 168. 



reío de Lisboa» defendendo o seu sexo atacado nas àartas 
SEcco, fórma uma lenda revelada na Cham do Enigma, do 
Amor e àklaneholia. 

O Processo de Cf/thera, exn que a mais noYa das graças, 
Âglaia, yem accusal-o, servindo de representante das Senho- 
ras portuguesas toca o ridículo; o auctor defende-se em ou- 
tro discurso, e depois escuta a sentença concebida n'estes 
termos : 

«O Supremo tribunal de Gytbera depois de haver atten- 
tamente ouvido o discurso recitado por Âglaia, contra o 
Poeta Auctor das Cartas d'Ecco e Narciso, assim come a sua 
defeza apresentada pela sua Musa, declara que o accusado 
está innocente; e como tal determina que o seu credito pu- 
blico lhe seja restituído por todo b Imperiade Amor: or- 
denando egualmente, que a accusadora convencida, como o 
foi, dá calumnia, seja por três dias privada de tomar parte 
nas Festas de Cythera, e nunca mais seja vista por Mancebo 
algum durante a sua estada no banho. Cythera, 1 de abril. 
— Vénus.— Os Prazeres.— Os Jogos. — Os Amores.» Eis o 
resultado de um espirito que não pôde soltar-se livre das 
faixas; é esta a causa de tudo aquillo de que a gente hoje 
sò ri. Foi uma boa sociedade a d'esses tempos; estas gra- 
ças fizeram as delicias dos serões nas famílias. Sobre este 
pedestal o proclamaram génio. Não faltaram imitações dos 
poetastros do reino. Marotas e Brandmnos escrevendo suas 
confidencias. Era mais um passo além do Piolho Viajante e 
do F^liz Independente. 

Castilho nao concebia a poesia como a expressão subje- 
ctiva dos sentimentos; estava privado de contemplar o 
mundo exterior, e tendia constantemente para elle. Imagi- 
nava a natureza como a vira aos sete anoos, por is$o a sua 
poesia tinha cpor objecto apresentar-nos> os mais risonhos 
quadros campestres animados com toda a doçura e subli- 
midade do sentimento.» 



446 HISTORIA DO noiíAsntêuo ism pobtuqal 

♦ 

Castilho xão imagina a dífferença na ordem de factos que 
expriraetn o bello, ou que exprimem o sublime. Dá-nos me- 
tápboras è imagens de similhança por ideias; assim a poe- 
sia è a «Primogénita das Musas ; naseea no meio das flo- 
restas, crèou-se entre os' Amores ao seio da Natureza, 
cresceu nas cabanas simplices dos primeiros homens. A sua 
fronte sempre risonha e serena ftSo se coroou de louros, 
mas de rosas e de murtas ; os seus passos eram ligeiros, 
o seu ár elegante, sem affectaçao de magestade, o seu trajo 
um véo transparente. Foi.ella e nSo Pan, quem offerecen a 
primeira flauta aos pastores, quem lhes ensinou a tirar 
d'ella sons fáceis e harmoniosos. Os primeiros cantos que 
ella inspirou, tiveram por objecto descrever o amor em to- 
das as suas differentes sitiiaç?5es,: e piritar os campos em 
todos os seus pontos de vista mais agradáveis.» * Quem faz 
esta ideia da poesia nSo podia elevar-se acima das Cartas 
d'Ecco e Nánaiso. O poemeto affectado produziu uma grande 
emoção na sociedade portngueza, atrazada epiegas, que vira 
sempre na leitura mn perigo. 

Castilho já então aconselhava á mocidade que evitasse o 
movimento romântico, dizendo-lhe: «cantae a ternura, o 
amor, o prazer e a felicidade.» Eis o ideal do bucolismo 
estafado das pastoraes calcadas sobre a Daphne e Chloe de 
Longus; é um género falso, impossível, ridiculo, insípido. 

Castilho sente de vez em quando uma saudade da natu- 
reza que se lhe furta; vae para ella, e engana-se, sonha em 
toda a parte um rio que corta os prados ao longe, um re- 
banho que pasce no valle, um bosque extensíssimo e fron- 
doso cujas cimas são meneadas por um zephyfo; agora ouve 
as aves a saltar de ramo em ramo ou por entre as flores 
tão gentis como ellas; além vê um pastor coroando com 
murta e rosas as tranças da sua bella pastora* Finge valles 

1 Cartas d'Ecco, p. 19. 



OA.STIUIO > 447 

ornados de' violetas, florestas onde as nymphas estão Jtín- ' 
tas^ e mtt Faunos que halÂtam as grutas. ^ 

depois dos sete annos Castilho não tornou aicommunicàr' 
com a natureza senão através de Floria», edos idylios ar- 
tiflciaes e de uma ingenuidade tola de Gessner. Elle nos diz 
que é pela estrada florida de Gessner que se pôde ir até ao 
seio da natureza. 

A fâUa de individualidade facilita-lhe o fallar pela bocca 
dos ternos pastores, não é preciso sentir quando o som das 
frautas, o aroma dos festoes, os gemidos das grutas vêm 
encher sonorosamente o verso. É tudo quanto pôde dar a 
poesia chamada pastoril. Agora entendem-se melhor as har- 
monias brandas, melifluas da sua Primavera. 

É um doestes livros que trazem ó sello do esquecimento, 
como ós insectos de um dia de calor, que bailam em uma 

. 1 ^e a nataceza me negou seqs qoadros ; 
Se os fracos olhos meus não descortinam 
soblíme espectáculo dos campos; 
Se de uma rocha no elevado cume 
Não me é dado sentir, gosar prazeres, 
Vendo um rio, que ao longe os prados corta, 
Vendo um rebanho, que no valie gira, 
Vendo um bosque extensíssimo e frondoso, 
Cujas òimas um Zepbíro menéa. 
Vendo as aves vqar de um ramo em outro 
Por entre as flores tão gentis como ellas. 
Vendo como' um pastor de murta e rosas 
Coroa as tranças da pastora bella, 
E um beijo em premio docemente furta, 
Se não me é dado, contemplando o mundo 
Vér j ah ! vér quanto é grande a Natureza, 
Co'as Musas meditando eu sinto e góso 
NoTas acenas, pbantastícas, risonhas. 
Finjo mil valles, que violetas ornam. 
Planto florestas, aonde ajunte as (íymphas, 
Faço um rio correr por entre um bosque, 
Que em si retrata a abobada pendente. 
Que o tolda e guarda, e d'onde cheiro as fiôres ; 
Mando mil Faunos habitar as grotas, 
.'Dou rebanhos ao campo, ares á relva, 
E graça a todo o mundo-, e luz ás sombras. 

Cartas d^Ecco^ p. 16. 



4i8 mSTOBU DO BOMâSTUMO XM POBTUOAL 

rest6a do sol vinda por entre a folhagem do arvoredo ; é 
^ uma Primavera breve e duvidosa como a de uei paiz sem 
vida. Cita-se por ser uma das coroas da gloria de Castilbo; 
não se ataca a gloria do homem desmerecendo o livro qae 
teve uma influencia funesta sobre o gosto de todos e é pre* 
ciso modifical-a. Ha nas Cartas de Ecoo e Narciso um lado 
real, que tornou sympalhico o poemeto. 

Este livro liga-se á historia intima de Gaslílbo, e deu 
causa ao seu casamento com uma senhora reclusa do con- 
vento de Vairão, a qual, como se lé na^ bíographia bespa- 
nhola: <rse arrojo á escribirle á Coimbra donde residia» es* 
tas palabras: 

«Si 86 08 preseDtase una Ecco 
«Imitaríeis tos a vuestro Narciso?» 

«puso despues una firma supuesta y las senas, para que 
si queria le dírigiese la respuesta ... La respuesta fué cual 
merecia una declaracion que asi lisongeaba el amor próprio 
dei poeta; entablaron los dos amantes correspondência, sin 
saber el afortunado ciago quíen era la que se babía pagado 
dei, hasta que ai cabo de mucho tiempo hubo de descubrir 
el nombre de su embozada amiga . . . ; * no obstante vários 
obstáculos en que no tuvo parte alguna la voluntad, retar- 
daron su himeneo hasta el ano 1834 . . . Vivió con ella poço 
mas de dos anos . . . Murió su esposa en 10 de febrero de 
. 1837; y él ha prometido escribir un libro entero dedicado 
á su memoria.» (p. 6 e 7.) Foi na constância d'este matri- 
monio que escreveu os Citimes do Bardo. Este successo co- 
meçado pela puerilidade innocente das Cartas de Ecco a 



1 Na Chave do eniçima explicam- se melbor eslas alIasOes; a caria recebida 
por Castilbo fdra de 27 de eetembro de ISSI, remetfida de Aturara, correio 
de Yilla do Conde. (p. 222.) nome supposlo era Maria da Egipeclação Silva 
Carvalho, e o nome verdadeiro D. Alaria Isabel de Baeaa Coíi&bra Porlogal. 
(p. 244.) 



CÁ8TIE1I0 449 

Narciso, terminou õom uma oerimooia também paeril ãa ' 
hecatombe da correspondência amorosa, sobre as cinzas da 
qaal mandou pôr uma pequena lápide que está em um 
quintal de uma casa de aluguer em Lisboa; o livro promet- 
tido reduziu-se ás probas piegas do Amor e JUelancholia, 

Castilho guardou Qelmente a tradição arcádica; sempre 
criança, e de passo tíbio e mal seguro, teme aventurar*se 
pelos muados da iilteratura subjectiva do Romantismo, que 
se aproveita dos sentimentos novos da edade moderna para 
as suas creações artísticas. Todas as allusões dos seas pró- 
logos referem*se ao movimento de Garrett no impulso dado 
á litteratura nacional. Fazendo profissão de fé mythologica, 
lembra-se da invocação da D, Branca e da inspiração que 
abjurava os «Áureos nuifies de Ascreo, ficções risonhas — 
da culta Grécia amaveU e diz que não se alista «debaixo 
das bandeiras triampbaes dos modernos espancá-numes.» ^ 

O renascimento áà critica, da bistoria, da philosophia, do 
direito politico, as invenções, as revoluções que agitaram o 
século que se abria, tudo para o poeta dos idylios eram 
loucuras, desvairamentos, ruinas. Eile mesmo se sente in- 
fante no meio d'este ruido de cyclopes: «quando me olho 
6 me vejo a brincar com flores e cordeiros, ao tempo que 
em redor de mim estão no choco tão grandes destinos do 
mundp, não me lastimo, porém rio-me, e cuido estar vendo 
em mm próprio um menino, que pôr um dia de tempestade, 
entfaesoura coiichas e fórqaa lagôasinbas na praia, emquaato 
andam á vista galeões alterosos á lucta com os elementos, 
e na mesma praia uns pasmam, outros se aterram, outros 
suspiram pelo instante do naufrágio para se arremessarem 
aos despojos; apenas o mar os cuspir*» ' Fique embora na 
doce illusão dá sua poesia paatoiril; é ai, n'esse mundosi- 



1 Primavera, pag. 41. (1837.) 

2 /6id., p. 43. 

20 



450 HISTOBIÂ W) BQHAOTIMiO EM FOBTUQAL 

nho, remimMefkeia da quinta ajardinada dos arrabaldes de 
Lisboa oode lhe con^euiatinfenda, que elle se mostra aos 
amigos. Na Primatera áiz que teve a intenção de reira- 
tar-se na sua .faoe moral, conset^ando^a taltoomo cautára 
aos vinte e cinco annos.;^ De vez em quando o poeta tor- 
na-se intolerante com o seu bueolismo; mal diz o tempo, 
porque se n3o volta para as cabanas das serraoias. Quando 
o género bocólico era deslavado mas innoòente, sapporta- 
va-se; assim, violentando a que o admirem, dá vontade de 
limpar o rosto d'essas falsas caracterisaçSes. 

A verdadeira^ a intima poesia da natureza só se encon- 
tra reproduzida na primeira impressão vinginal nos poemas 
da índia. O divino poema do Ramayana eleva, beatifica o 
que o escota; sudra que ò ouvisse lêr, ficava n'esse instante 
livre. • '•'•• ■ .' •• ' '• ' 

Na Grécia, a poesia da natureza não M achada nem por 
Daphnis, SteBichora ou. Theocrito; a vida^ pastoral tem ali 
também um caracter aryano, profundo ; o boi^ cantado nas 
theogonias orientaes; entra nas legendas da vida pastorícia 
dos reis da edade faeroica. Ancfaises era pastor da Troada, 
Paris do monte Ida; o sceptro era o cajado desfolhado ; os 
heroes derrubam os monstros que andam roobando os bois. 
Assim foram as \^lháá lendas de uma vida que passara, 
avivando as saudades do passado, e dando expressão a esse 
sentimento. A poesia veiq revelal-o na soa forma mais io* 
genua; um dialogo de pastores sobre a lavoura, sobre os 
rebanhos, uma aposta, a alegria das cearas, as torrentes, 
as calmas, compunham os successos de uma vida tão sim- 
ples como pacifica. Suppoz-se assim uma edade de ouro, hy- 
pothese gratuita qua deu: origem á tradição litteraría do ba- 
colismo. O poema de Hesiodo, os rudimentos do theatro 
hellenico, alguns personagens da tragedia clássica sãa o 

1 Primavera, pag. 30. 



fuD^aroento. da: arte de TbeoGiriUil airte 4ronfenoíoBaI e es-^ 
treita, com qoe o yate de Syjracusa chega, á custa de mnila 
esforço,, a tpç^r a braodara e amenidade campestre; Ellel 
Dão copia jdirectamente da natureza; canla sobre as remi* 
Discencías da Sipilía, no bulício de Alexandria, no palácio 
dos ptolomeus, com os outros poetas a quem Ilmon o Síl- 
iographo chama noelros fechados em uma gaiola. Theocrito 
obedece a toda a. metralha de preceitos impostos pelos 
grammaticos, e m meio Idas adulações, poela da corte de 
Hieroi^e de Ptolomeu, vem aliviar- se. e desabafar, aspirando 
a vida desassombrada dos campos. Egger, nas ilfemorm d^ 
litteratura antiga, diz que é favor demasiado o cbamarlbe 
génio pelos seus idylios. Modos os poetas pastoris segui- 
ram as pisadas de Theocrito, ^rviraoi^^se do mesmo molde; 
vir^m a n^itureza através do prisma baço dos seus idylios. 

• 

Na renascença dos modelos da antiguidade, com as trage- 
dias, com as epopéas, com a comedia, floresciea também o 
idyjiQ; por si chega a formar um género dominante^ infe-* 
ctando a . litteratuira italiana, franceza^ hespanhola e portu- 
gueza. Todos, os nossos poetas lhe sagraram suas lyras; 
Bernardim Ribeiro domina o bucolismo ; és poetas france- 
zes inaitam os antigos e fazem dos quadros campestres uma 
aguarella descorada, que serve de typo n'esla tradição titte* 
raria ; Racan, Sagrais, Mad. Deshoulières e Fontenelle lan- 
çam as balisas ao género pastoral. 

EsXes diajiogos da pastores absorviam sempre a musa dos 
poetas cesáreos. O próprio Salomão Gessner, o génio pas- 
toril da Allemanha, é accusado pelos seus de ter imitado 
os francezes, que também o reproduziram mais tarde. Com 
uma alma sempre infantil, e já de si também poeta cesá- 
reo, Castilho nâo podia faltar á tradição bucólica ;.elle con- 
fessa abertameqte essa predilecção pelo gmer^ 6 declara* 

1 Obr. cit., pag. S67. 



453 anroBUL do BOMAivieiio bk pobtuo^al 

■ 

todo o desvanecimento qoe tem pelos sens mestres Floriao 
e Gessner: «Alguma cousa farSo para aqui palavras do meu 
Fioriao, que» porque delle s3o, as verterei de muito boa- 
mente.— Oh, se nós podessemos lêr em seu original texto 
os bons auctores d'essa Âllemanha, enlevar-nos-ia a tanta 
singeleza, a tanta doçura por onde de todas as outras sa 
extremam suas obras! Em conhecer a natureza, e especial- 
mente a natureza campezina, ievam-nos elles uma infinita 
vantagem: amam-n'a mais deveras, retratam-n'a com tintas 
mais fieis. Todos os nossos poetas pastoris nada têm que 
vér com as meras traducções de Gessner. Ninguém jamais 
fecha a Morêe de Abel, os Idylios ou Daphnis, sem já se sen- 
tir mais soffrido, mais terno, mais mavioso, e porque tudo 
diga, mais virtuoso que antes da lição. Nao respira senão 
moral pura e fácil, e virtude d'aquella qoe logo vem tra* 
zèndo bemaventuranças. Fosse eu parocho de aldeia, que 
seoipre á estação da missa, havia de lêr e reler Gessner 
aos meus freguezes: e por certíssimo tenho que todos 
meus aldeões se fariam probos, todas minhas parochianas 
castas, e ninguém me havia de ao sermão adormecer. — 
Isto dizia de Gessner Florian, digno de o louvar pelo mui 
bem que o sabia comprebender e s eguir. Isto não o escre- 
via eu, nem o dizia, mas amplamente o sentia n'esse bom 
tempo que já lá vae. Gessner não era para mim um nome, 
senão um individuo presente, um suavíssimo contubemal; 
nem já as suas obras me eram livrosí, mas realidade,- vida 
e mundo.» ^ Estes poetas paçtoris têm uma innocencia de 
leite, navegam em mar de rosas, vêm uma deosa em cada 
nuveNQi. 

Castilho desct^eve a influencia de tão miríficos modelôis: 
«Muitoi apnDvèitei em tão boa escola: como poeta niO; que 
imi o sat)^, meus leitores; como homem sítn, que d'issa 

1 Prtmawro, pag. 10. (1837.) 



CASTILHO 468 

tive moi eabal e experíiaeDtaãa certeza. Minhas nalíTas pro- 
penções benéficas se arraigaram ; minha ifOerior aspereza, 
qae todos de si a têm» se amolleceo; sentia^me palpitar no 
peito um coração da edade d'oaro; esvoaçaTa-me na ca- 
beça uma alma inteira de Árcade ; compunl^a todo o mea 
«conomico futuro de uma choupana, um pomarínho e pom- 
bas mui brancas e cordeiros mui nédios; em sunmia, se 
Flprian fosse meu parocho, propõr-me-ia nas suas homilias 
como um santo da sua bemaventurança.» ^ Que engraçada 
infanda I prolongada ainda até aos trinta e cinco annos de 
«dade do poetai Mas Florian é um ecco amortecido de 
Cíessner; o mesmo poeta pastoril da ÂUemanha, na opinião 
do profundo Herder,' de Augusto Schlegell, e de Jo3o 
Paulo Richter não dá pelas plantas de Tbeocríto. EUe n3o 
(irou dos Alpes, nem das cabanas, nem das bozinas dos pas- 
tores o delicioso colorido da natureza ; segundo João Paulo 
é uma espécie de requeijão fresco da aldeia, que os â*an- 
<;ezes acclimaram ao pé do super fina idylico de Fontemlle. ^ 
O primeiro erro de todos estes poetas biM^licos estava em 
não collocar o mundo pastoral fora da decantada edade de 
^uro ; estayam fora da sociedade civil, sem paixão, n'uma 
beatifica monotonia. Quando se concebeu que a poesia do 
idylio não consistia em frescas fontes, esconsos valles, froiv- 
dentes arvoredos, ciciosos regatos, fissipide armento, e ter- 
nas queixas de enamoradas pastoras, mas na simplicidade 
€ no remanso da vida, então é que poderam haver eserí- 
ptos como Hermann e Dorothea de Goethe, foi então que 
Schiller pode abrir o seu poema da Resignação com este 
verso: cE eu também nasci na Arcádia» não menos enér- 
gico que o cE eu também sou pintor» de C!orregio. Eslas 
são as creações puras do Romantismo; mas CasUlha. desa- 

1 Primaveraf pag. II. 

2 Obrat completasy S.* parta, pa;. 127, lli. 
^ Poética^ t. II, pag. 1 40, 



i&i BI8T0BU DO BOlUimSIIO EM POBTUOAL 

tou com elle, odelaya-o âe morte. Atè disse: «Qaando será 
que ootro bofDem, da laia e costumes dos nossos velhos, 
possa dizer na sinceridade da soa alma:— Se fosse paro- 
cho, leria Byron ou Scbiiler á estação da missa, para tor- 
nar castas e probas as minhas ovelhas?' Â immensa felí- 
cidade cansa; é preciso CQOtrastes» agitações, para que a 
creaçSo do. artista corresponda ás multímpdás volições, e 
* encontradissimas impressões que se passam no individuo» 

Os idylios gessnericos, e os dos seus imitadores estafam 
pela monotonia da felicidade ; é sempre o mesmo tom, a vi- 
bração da mesma corda; nos de Castilho este defeito tor- 
nasse insuportável pela prolixidade e abundância dos ver- 
sos e minúcias dos detalhes ; é como estas caricias forçadas 
de uma pessoa que nos está encommodando ; é como quem 
mata uma sede vivíssima das calmas com um copo de agua 
morna. 

A Primavera foi escrípta (182i) sob o influxo dos pasto- 
res Elmirò, Anfrizo, Josioo, Aulíso, Salicio^ Albano, Fran* 
izino, que ornavam de grinaldas e festões a cabeç-a do Mém- 
nide Eginenàe, entre o descante da MnAa Lilia morreu 
ensoado no violão do padre Leitão. É n'este livro, de to- 
dos, aquelle em que o poeta se mostra mais criança. Causa 
dó o lembrar que foi precrso lél o; uma pagina avulsa qual- 
quer, basta para ficar odiando para sempre o género pas- 
toril. As qualidades de criança, a frescura, a graça, a es- 
pontaneidade e uma iignorsTuda feliz, a candidez, a expan- 
são e alegria, deviam realçar n'este assumpto; o poeta teve 
a força de dominar todos estes instinctos, e com o intuito 
de imitar Florian e Gessner» deixou apparecer somente a 
loquacidade e a indiscrição. 

A preâUecçãa por Gessner e Flòrian, na França expHca- 
se pelo exaggerado sentimentalismo propagado por João Jac^ 

^ Fclmaveray pag. II. 



' ' cAtnCKo ' 455 

(fofs Rousseau, que faiôà dizer a -Voltaire, qoe o auctor 
ii Jfava Hehim desejava audar de^qoaftpd pés. Foi quando 
se viu a poesia separada da rsetígiao, ^ em logar d'ella fa- 
teicado um Olympo, não com a synpatbia sensaal da Re- 
nascença, como dXt Taiiie, nem com o espirito arcbeologico 
DodernO; mas por conveniência; era uma espécie de giria 
grega e latina tão necessária como um chino ; citavam-se 
aí musas e as graças, como quem faz eartinbas de namo- 
rado; havia um diccionario mythologfco como um código 
de pragmática palaciana. ^ 

K inspiração de Castilho alenHava-se exclusivamente da 
trájição do século xviii ; exaggerou ainda mais todos estes 
defeitos; elle próprio nota em si um estiramento de perío- 
dos.^ Ali a natureza está revestida de páphias allegorias ; po- 
vôan Faunos os montes, andam Dryadas á escuta pelos ar- 
voredos, brinca com Flora um Zepliiro inconstante, a Au- 
rora abre o roxo mez das flores, Hamadríades, Nayades, 
Silvaios, os ledos Eisos, a amorosa Vénus, Vertumnos in- 
soffriôos, Gastatias fontes, FavonÉos subtis, todo o sacro 
povo norador do Olympo, com os dons de Pomôna enfei- 
tam a natureza inteira. Na, sua ingenuidade infantil, com 
que, n) ebulição do pleno século xix, o poeta procura cha- 
mar para o mundo dos idylios, não se contenta só em acon- 
selhar o leite e o mel dourado, ^lle mesmo se transporta 
a esse ooiundo: <Metti-me pytbagerieo aos vinte e três de 

^ «On \it alors le spectacle le. plus.exiraprdinaíre et le plus ridicule, la 
poésie géparée de la relígion, dont clle eet le fond naturel et Telement ÍDlime, 
i'01ynipe reUaapé non par sympatbie arebeólog^iiie, eomme aQjonrd'boi, mais 
par convenance, .poiír remplir uo cadra «i^e^t ajou^fr uoe parade de plus à 
toutes ceiles dont ce siécle s'élait aíTublé. II. y eut une sort de jargon grec et 
lalin conveDtblé aa méme tiiobre qii'QD« [^erru^uê; oo emp^oya AppoiloD et 
Jes Uosses comine rbemisticbe el;la cet^ure; ofi m\i «d ffiune rÁmour et les 
Gracée comne les cédrats confits et lee billels doux; il y eot un díctionnaire 
mytbologiqne comme ud code da eavoir-Tivre et los panares dieax aotíques ar- 
ríverent á cette bumilíation extreme de servir de pasticbes et de paraveots.» 
Taíne, La Foníaine et ses Fables, p. Sil. 

2 Primavera, p. 36. 



456 HISTOBU DO R01UH7IIX0 EM POBTUOU. 

» 

agosto do mao de t822| tendo sido gastos os mezes, que 
desde a feitura do Poema decorreram alé esse, em acabar 
de me resolver e appareltiar para tão grande façanha; e 
permaneci na observaocia do YOto atè vinte e três de agostc 
« do seguinte anno. Acabei o noviciado, e em logar de pro* 
fessar, despedi-me.» ^ 

A impossibilidade da vida aconselhava, tomava evidenb 
a. falsidade do ideal. Castilho é como um d'estes poetas A 
decadência clássica na litteratura do* Império em Françt; 
pertence á escola descriptiva, didáctica, e com uma proca- 
' rada melodia de versifieação embala os ouvidos para ião 
ouvirem as pequeninas comparações de cousas fúteis ; >e- 
lille, o mestre de todos estes pseudo-poetas; passava em 
revista todas as descripçOes e ufanava-se de ter feito ioze 
Camellos, quatro, cies, três cavallos, seis tigres, dois gitos, 
muitos invernos, immensos estios, innumeras primá^ras, 
cincoenta e seis occasos, uma infinidade de auroras : Cas- 
tilho faz também o seu inventario. 

A sua Primavera é uma bemavmturança de fátuo; não 
tem acção, e como pôde téi*a um livro que se compõe de 
«Todos os amores de que se urde e tece a domestba feli- 
cidade, se acham aqui representados por um modo que se 
recommendam e d'elles se embae de mui bom $rado o 
animo: o amor filial, o paterno, o materno, o coqngal, a 
amisade, até o affecto aos animaes, arvores, flores, e mais 
ereaturas de Deus, companheiras nossas n'este mu!ido, que 
vem de envolta com a recreaç5o.» ' 

Sempre uma nauseabunda doçura, uma lymphaíica bran- 
dura! Fiquem por uma véz destruídas estas funestas in- 
fluencias dos poetas didácticos do Império. A Primavera 
deveu o acolhimento á falta de leitura que sofifreu a nossa 



1 Primavera, p. 284. 

2 Ibid^ p. 41. 



sociedade. Tiobamos apenas chronicas succalentas de fra* 
áml O pobre livríDbo era um manná* Depressa mereceu as 
honras de occopar um logar no çafatinho de costura, ao pé 
dos romances moraes, enternecidos» graciosos da Cotin *e 
da Montolieu, ,que então se traduziam por cá, e andavam 
em moda. As leitoras amáveis estavam restrictas às Mã e 
uma fèoites, ao Grandisson, ás NoveUas em que n3o appa* 
recia uma dada vogal, e nas faltas soppria o Fios Sancta* 
rum ou tragava-se a Bíblia em família. 

Foi isto o que deu largas ao poeta: festejaram-n'o com 
cartas anonymas, a ponto de nao poder sustentar o papel 
da Narciso.' É este caso a origem do Amor e JUelanckolia 
ou a Novíssima Hehisa, (1828) que o auctor mais tarde ex- 
pUca loquaz e puerilmente na Chave do Enigma, na prosa 
que acompanba as insonsas qnadrinbas. Castilho nio conhe* 
cia a Heloísa da legenda, nem o livro de Rousseau, senão» 
não se atreveria a baptisar com esse titulo comprommettedor 
um livro banal, frio e mal feito; as quadrinhas parecem 
sortes da noite de S. João^ ou doestes ternos dísticos qne 
então era de costume bordar nos lenços de assoar ou pôr no 
papel dos rebuçados ; exprimem scismaticos enlevos e bran- 
dos queixumes que levavam á piedade os meigos corações 
dos quinze annos, e se cantarolavam em Modinhas. 

Kinsey, capellão de lord Aukland, que viajou em Portu- 
gal em 1827, no livro que escreveu d'esta viagem, pre- 
cioso pela grande quantidade de informações coilígidas, 
que hoje são para nós históricas, descreve como n'este 
tempo estavam ainda em todo o seu vigor as Modinhas bra- 
zileiras ; cantava-se a letra da Joven Lilia abandonada, de 
Castilho, adaptando-a a uma ária da Semiramis, de Rossini. 
. Kinsey, que julgou Castilho sem a influencia das lendas do- 
mesticas, falia d'este costume da sociedade portugueza: 
cAs modinhas portuguezas são peregrinamente bellas e 
simples, não só emquanto ás palavras^ mas até pela com- 



453 HX8T0KUL DO ROlCAimSMO BM PORTUGAL 

posíçSo dd musica. SSo geralmente expressão de algum 
sentimento amoroso, temo ou melancboiíco, de desespero 
ou esperança, e seu effeito è tal que, quando bem acom- 
panhadas pela voz á guitarra, chegam a arrancar lagrimas 
dos ouvintes, apesnr de acostumados á sua frequente re- 
petição.» 

Este mesmo enihusíasmo achamos nos viajantes com re- 
lação aos cantos jyricos peruanos. As relações de Portugal 
com a corte do Rio de Janeiro durante o governo de D. 
João VI fizeram reviver a Modinha brazileira, mas tendia já 
para a sua decadência pela confusão das árias tradicionaes 
com as fioritures das operas itaKanas. O Amor e Melancho- 
lia de Castilho è uma serie de quadras amorosas em es- 
tylo d0 modinha, que se vulgarisou na sociedade burgoeza 
por ter apparecido n'esta corrente de um género que se 
extinguia. 

Melhor lhe fora ter subido á pyra fumegante com as do- 
ces cartas a que respondia; o seu fumo iria formar em 
volta do auctor um vago nebuloso, uma lenda engraçada, 
já* que a realidade o humilha. Mas em roda do poeta le- 
vantava-se uma arte turbulenta, devastadora; havia um ex- 
cesso de vida que elie não sentia, era o Romantismo* 



. < 



\ 



OWTIUIO- 



45» 



« 



g II (1836 a 18Sl.) — Caetilbo faz ama transfgencia provisória com o Ro- 
maMiwio: A- Noite d9 CasMlo. — Imprtifcaçdee contra as dMlrioas IHteraria» 
do Bomanlismo. — Castilho regressa de novo aos estudos clássicos. — Os Qua- 
dros históricos. — As Metamorphoses de Ovídio traduzidas. — Â poesia arcádica 
naa Emnaçõa po$tica9,^Cui\\ho^ aniígeaelemkriata ckaaqaéa o moiimeAto 
de 184G DO opúsculo cómico da Clironka certa de Mariada Fonte. — Nomeio 
das perturbações politicas de 1847 vae à Itbâ de S. Miguel — Fundação da 
Socitdade dos Am^igos das; Lelraa-^O Drama Camões t Felidúade pela Agri- 
cultura.— k propaganda da Leitura repentina. — Polemicas . virii^lenlas. Vae 
ao Brazil em 1851. — Cooseqacncias da morte do Garrett: Castilho impOe 
as tradicçOes do latim, o: fornia a pedantocracia portugveia do Elogio niuttto. 



N3o vale apresentar novamente o quadro do renascimento 
de todas as litteratuhas da Europa na abertura do século 
iix; era preciso o hymno do Secuol si rinuova, 

A grande individualidade alcançada palas revotuções li- 
beraes e peio desenvolvimeufto dos estudos scientiíicos, as- 
signala ^ma transformação brilhante de que á humanidade 
só teve consciência nas suds'creaçõe8, — na litteratura. Coíbo 
subjectiva, realisando sentimentos que se nSo previnem, e 
cujos impulsos não podem ser calculados nem medidos, a 
Arte romântica nSo leve modelos, era essencialmente livre. 
Foi d^^esta liberdade que cada litteratura tirou forças para 
nacionalisar-se. O Roraanlismo não se. implantou sem lo^ 
cta; lucta travada, renhida, como provocam * sempre as 
ideias novas; ao cabo viu-se ao sol da verdade que os que 
debatiam contra eram velhos académicos, qm já se não po^ 
diam desacostumar da senda aristotélica. Estes se chama- 
ram os clássicos, não com o nobre sentido que lhe deu 
Goethe, mas como simples contraposição aos românticos. 
Diz Goethe na sua correspondência com Eckermann: «rA de- 
terminação dà poesia clássica e da poesia tomantica^^ que 
agora se adopta por esse muodOí e que é causa de tantas 



460 HX8T<»U. DO WOUàWtttMQ IM POSTUCIAIi 

I 

discussões e dissençQes, é, do que respeita á essência, mr- 
nba e de Scbiller. Eu tinha adoptado para a poesia o pro- 
cesso objectivo, o único que me pareceu bom. Schiiler, 
que pelo contrario, procedia de um modo todo subjectivo, 
julgou seu methodo melhor, e foi para se defender contra 
mim, que escreveu o seu tratado da poesia sentimental e 
da poesia simples. Os Scblegell apoderaram-se doesta dis- 
tincçSo e levaram- n'a mais longe, de forma que boje se es- 



f 



t 



tende por todo o mundo. 

As bellas traducções dos romances de Walter Scott por 
André Joaquim Ramalho e Sousa, a traducçSo do Oberon 
de Wieliand por Fiiinto e pela marqueza de Alorna, foram 
as primeiras disposições para o Romantismo; passaraqi por 
assim dizer desapercebidas. É a Almeida Garrett que se 
deve a renovação da moderna litteratura portugueza. Cas- 
tilho viu-se no meio doeste espirito novo, como o dormente 
da Roma pag3 que acorda na Roma do christianismo. As 
suas primeiras palavras foram de maldição aos perturbado- 
res da serenidade da velha Arcádia. Viu que não podia di- 
zer d^elles, nem de Scbiller o que Florian dizia de Gessner; 
essa leitura não podia tornar castas e probas as suas ove- 
lhas. Vejamos o pavoroso quadro d'essa invasão nos valies 
e amenidades do seu idylio, tal como nol-o descreve cir- 
cumstanciada mente no prologo dos Quadros Históricos de 
Portugal (1638): 

«A actual litteratura (onde a ha) em desconto de seus 
outros grandes peccados de sr^tieismo religioso e, o qae 
mais iòcte e indisculpavel é, de sceptícismo moral, ^ tem in- 



1 Ej$€praeck$ unt Eckermann^ fttS; Joio Paulo, Poética^ t. ii, p. i36. 

^ No prologo da segunda edíç&o das Viagem na minha Terra, respoodee a 
•ata allusfto Garrett com as seguintes linhas: «Tem sido accasado de tcepUeo, 
é Boia accMação mais absurda, que s6 deaatcia, am quem a fai, oa gra^i» 
ignorância oo grande má fé. Qaando o nosso aoetor (Garrett) lança nao da 
cortante e destruidora arma do sarcasmo, qae elte maneja com tanta força • 
dexlridada, • qae talves per isso amimo, coneoio do sen poder, ette fm f«a 



OASTlLflO 461 

trodazido e refinado muito conhecimento de relações das 
partes e indivíduos do mundo entre si ; e d^abi nos ter ex- 
premido para o coraç3o uma quinta essência mui pura de 
interesse e affecto universal, misturada com uma decima 
essência subtilisslma de egoismo esterelisador (nSo sei 
como diga, para que a entendam a verdade que me abafa.) 
«Depois que a Musa se chrismou em Natureza, e largou 
por velhos os graves cotburnos e fidalga falia do seu tempo; 
depois que se fez cosmopolita, liberal e plebea, prestes para 
tudo, para banquetes de cynicos sobre a lamagem nas ta* 
bernas, para a adoraçSo profunda do Eteroo; para dançar 
nua com as prostitutas, ou voar pelos alcantis e espinhos 
de todas as difficuldades ou de todas as virtudes; depois 
que. disse na sua nobre ou delirante ambição: Tudo é meu, 
e cravou no meio do mundo espantado bandeira livre de 
conquistadora que, remontada pelos céos, vae tremular por 
cima da cabeça de Deus; depois que olhou para o espectro 
do Passado, e lhe cuspiu na face e riu ; para o embriSo do 
Futuro, e lhe atirou veneno e rio; e disse ao Presente: — 
Dança ao redor de mim, porque eu te abri o magestoso 
manancial de todas as dores impias, — e riu; levantou-se en- 
tre todos os seus ministros uma grande confusão, porque 



toma nas m308 — Teja-sd que é sempre contra a bypoerísia, contra os lophie* 
■M, e contra os bypocrttas e sopbiatas de toãat at côret, que «lie o laz. Cren* 
ças, opiniões, sentimentos, respeita- os sempre. As mesmas soas ironias que 
tanto ferem, não as dirige nunca contra- indiyiduos: Té-se qoe despreza a fa» 
cil TÍogaBça que, «ou tSo poderosas arnas, pedia .tomar de ioímigos que o 
Bio poapam, de ioTejosos qoe o caliimniam, e a quem, por cada diclerio in- 
Bobo e epbemero com qiie o tem pertendido injoriar elle podia condémnar ao 
eterno opprobrio de um pelfODinbo immoital, como as stas obras. Ainda bem 
qoe o n2o faz!- mais importantes s2o as soas obras, e quanto a nós, mais pu- 
nidos ficam os seus émulos com esse desprezo do bomem superior qtfe se não 
•peraebo dn soa naUgnidado* insiika e iasigaificanie. 

41 Voltando á accosacão de scepticismo, ainda dizemos qoe nSo pôde ser sce^ 
piico o est»irito que concebeu, e em si acboo cores' com que pintou tSo títos, 
CMacloreo de cie&çn» tito >foplet oomo de Catão, dn Carnes, de Frti hua de 
Sooia,-*-e aqui n'e8ta obra (Viagens) oa de Frei Diniz, de Joannioba,daLrm& 
FráaciscA.* p. m. ' .'.<*■ 



< f 



469 HISTORIA DO BOKÁI^ISlfO BM POBTUaAL 

se ouviram os,:geiníidQ$i do Provir, o» Idmeaf^os do Paisado» 
as blagpb«i0ia$:do Pres!enâeu»r^E3te$ diâlatjes^.coiapreien^ 
çlioa estylOf bil)HGO, eaójam. <Uns,:akna$^g;eãerosa3Qasei- 
das para anisur. disâeramc-n^Nós pix)auraremos salvar tudo 
isto pelo amor. Outros, almas indomaivôis oascídas pi^ra o 
ti iuoiphOi.disseraiB: — Nó&assigDaIareiiK)j$ as rodas do nosso 
carro sobre estes tr^s oadavares do Tepapp. E a poesia lhe 
disse : — Ide e os bafejou . a. lodoç. 

«O povo, que só das paJ^vras albeías. compõe a^sua sa- 
bedorid; (absurdo) corre aos .tbeatro,s a aprender, como se 
coQtSuaima, explica e defende o adultério, o incesto, a trai- 
ção, o perjuríQi o parricidio, o falriQidio, Q inf^nticidio» o 
regicídio, o deicídio, hoi^rores que o grande SoIôq nena qui- 
zera. se julgassem possíveis» para Ibes prevenir penas em 
sua^ leis; palavras de agoura emaldicao, q^semelbantes 
ás qoeuma antiga religião .defei^dia, qunc^ haviam sair de 
humanos lábios, p £ com estas mesmas jpalavras que o clero 
fanático tem amotinado as turbas contj^a todos os progres- 
sos. «O mesmo povo abre livros, e n'eU:^s,se encontra com 
os mais formosos quadros.de toda a imaginayiel brandura.» 
Aqui a- jumenta de Bàlaam obrigou o falso propb^a a fallar 
verdade. «Por um ouvido um. demónio lhe inspira conuo se 
embotam os punhaes, para que a ferida seja mais vagarosa; 
como se farpaii)^ para qiie inais dp.a ; cpmP se hervam, para 
que nSo sare; por onde se hão de embeber te quanto san- 
gue hade manar, qiiaatas fibras desçozer-se, quantos gemi- 
dos e arrancos oiivir*se, com que gestos, «om que sorrisos 
è palavras se hade desesperar a agonia, como è que o pé 
se lhe hade pôr sobre os olhos para que nlo veja. o céo. 
No outro ouvido, um anjo. lhe insinua quQ.a felicidade toda 
assenta na paz interior, a paz interior na virtude, a virtcde 
no amar sempre a to,dos e a tudo,, no amar sem outro fim 
senão o próprio amar. Âppareeeram á <porfia" os sopbtsraas 
do parricidio nos Salteadores de Schiller (este não podia tor- 



nar comes seus po«di9Q/»s mais probas 6 c^^t^fr as oveUias de 
Floriao) e os exlreipos da affeiçao a um pobre c3o qo Je- 
ct^j/n de Lamartine; (admira va-se, porque enteudia como 
christão que os cães devem ser tratados como os tratava 
Misilebrancbe) os horrores de uma Justina, e as piedosas 
magoas de um Leproso de Aoste; CcUherina Hotvard e as 
Pmôes de Silvio Pélljoo. Que digo? o mesmo livro, e quasi 
o mesmo momento^ muitas vezes combina estas repugnan- 
cias: o famoso monstro lítterario intitulado Nossa Senhora 
de Paris, por Victor Hugo, é um libello diifamaíorio e in- 
fernal contra a natureza humana, e juntamente um Evan< 
gelbo do aoior materno. É a lucta perpetua do Bom e do 
Mau Principio: s3p os dois extremos do homem, nefanda* 
mente amarrados entre si pelo génio do homem; imagem 
d^aquelle supplício, inventado por um antígp rei de Itália, 
Q. desprezador dos Deoses, como lhe chama Virgílio,. q vivo 
abraçado com um cadáver, os lábios que respiram e gemem 
pregados n'uns beiços mudos que exhalam morte, e os olhosi 
que vèm. sobro dois globos que olham sem verem- Esta ó 
a incompr6i)ansivel, a espantosa Utteratura da nossa edadef 
Oh quem soUas.se . este vivo, porque o contacto doeste de* 
funetQ o nao contaminasse ! Oh quem enterrasse este morto, 
porque^ 9 presença d'esCe vivo lhe nao aggravasse a con* 
demnaçlol Homens innovadores, sublimes, inXernaes, Ro* 
manticos, algozes do coração, da alma e da fé, que resplan- 
deceis na vossa gloria como Satanaz em seu throno de fogo, 
eu 69criptor desconhecido do mais pequeno recanto do 
mundo; eii, cujas galas poéticas s3o tão mesquinhas que 
por minhas mãos as rasgo sem áò; eu vos desprezo, e por 
uma; fama sete vezes mais alta do que a vossa, por tbesou- 
ros sete vezes mais fardos de que vos rendem as vossas 
phrases magicas, não quizera ser o que sois; que assim 
como inventastes um veneno infatlivel para cada virtude, não 
inventastes outro para a vossa própria consciência» teme- 



4M BI8T0BU BO BOlUlITIillO WM POBTOaAL 

rasa tem de ser a vossa ultima hora na yiâa.»^ Se o escri- 
ptor tivesse consciência do que diz, responder*se*Ihe4a, qoe 
os contrastes que formam o processo artistico do Roman* 
tísmoy nSo s9o filhos de um systema exclusivo de elocnçSo 
quintilianesca; os contrastes apparecem sempre onde ha 
verdade na arte. Mesmo em Homero, Âchilles apresenta esta 
doçura de caracter: «Porque choras tu, Patroclo, como nma 
criança que ainda não sabe fallar, que corre atraz de sua 
m3e e que a segura pela saia, a detém e a contempla cho* 
rando para que a leve ao coUo.» ' 

E o mesmo heroe diante de Heitor mostra esta impetoo* 
sidade indomável: cGaò, não me suppliques de joelhos, nem 
pelos meus parentes. Oxalá que a minha cólera e o meu 
coraçSo me levassem a dilacerar e a comer a tua carne 
erua, pelo mal que tu me fizeste.» ' Os contrastes na poe* 
ti6a moderna, como se acham principalmente em Victor 
Hugo, nSo têm este fim immoral que lhe acha o clássico 
agoureiro; tendem constantemente a moslrar-nos que a na- 
tureza não conhece o feio, nem produz aleijões ; o que ha 
de mau é uma creação nossa, das nossas circumstancias, e 
por isso no fundo das cousas repugnantes, onde existirem 
ainda alguns vestígios da natureza, lá pôde transluzir o 
belto. É a isto o que se chama um ideal de reflexão^ em* 
quanto o bonito é um ideal immediato, evidente em si 
mesmo. 

Faltando do Roi s'amuse, explica Victor Hugo o pensa- 
mento d'este modo: «Tomae a disformidade physiea a mais 
feia . . . iUnminae por todos os lados, pelo clarão sinistro 
dos contrastes, esta miserável creatura ; e depois dae-lhe 
uma alma, e dotae esta alma com o sentimento mais paro 
que seja dado a homens, o sentimento paternal; osêr dis- 



s<i 



2 llliada, XXII, 845. 

3 Id. Ifli «. < 



fomie torfitar-&6-ba beilo.» £ quem negará . a perfeição m^ 
F«iU a sublimidade da alma de Triboolet, ó degradado boba, 
septipre verdadeiro^ mesmo interpretado aa musica por 
Verdi? » : . 

O ^omarúmxQy deúomiaaão por Victor Hugo o liberaUs^ 
iw ^a liiteratura^ foi eondemaado liia sua essência por Cas*- 
tilho: «A Uberdade e egaaldade q^ae, pkra niyelkr a face da 
terra, vão apagando a Ggura e pulverisai^o o sêr próprio 
àe Untas cousas, já invadiram e senhorearam a litter^ata* 

ra.» ^ Em França a lucta do Romantismo tinha Cevado Baoup- 

• 

liOrmiaOy Jouyi Aroault e Etiénne, a. pedirem ao rei Car- 
los X, em janeiro, a proscripção do Romantísmo ; entre nó^ 
CasUIbo ameaça os Românticos, que aíQigem a banalidade 
eothronisada, com as penas do fogo eterno è com a ago* 
ni3 da hora da morte. Quando Castilho proscrevia Scbiller 
pqr não servir para tornar probaá e castas as suas ovelhas; 
um folbetjnísia' francez^ faltando desdenhosamente do thea* 
tf o de Scbítier, di2ia que quem escreve a Dorizdlob (TOr^ 
leam merecia ser açoitado no pelourinho. Em toda a parte 
o RomwiMJ^o soijíreu uma hicta assim ridicula; as xmias 
de Goethe e Scbiller, as digressões sarcásticas de Byron, 
os epigrammas de Victor Hugo, foram confirmando aqueiiQ 
apb^rismo oriental: cA verdade é grande, ella prevalecerá.»* 
Contra a bagagem de regras desligadas conv» os ossos (le 
um esqueleto, e mais que tudo, mal cómprehendidas pelos 
que se arrogaram o noqoe de clássicos, apresentou Victor 
Hugo 0. prologo, de Cromicell; dX\ os esmaga com o pezo da 
ignorância d'eiles ; xU>s discípulos de La Harpe, que ainda 
$e regulavam nas soas composições pelo código épico do 
padre Le Bossou, e traziam presentes a definição de Vol- 
iaire, que o go^to não è para a poesia outra cousa mais do 
que os eníeites para as mulheres, mostrou-lhes que o gosto 

^ Quadros hitíaricos, pag. 6. 
30 



466 HISTORIA DO BOMANTISMO XX PORTUGAL 

«ra a ras2o do geoio, qae se revoltava contra a poesia ama- 
Beirada, arrebicada, empolvilhada, já velha no século xvnr, 
e que vinha disputar competências de mocidade com a alma 
que se renovava. * Em 1837, quando o Romantismo entre 
nós tinha sido implantado por Garrett, quando a nossa lit- 
teratura havia sido enriquecida com um tbeatro nacional, 
com o Camões, D. Bian^ca, e estava em elaboração o Al- 
fageme, com a Harpa do Crente de Alexandre Herculano, 
com o Eurico e Monge de Cister^ Castilho descrevia os es- 
tragos do Ropiantismo n'este tom: 

cÀ poesia amável, a que nas mSos e seio nos vinha of- 
ferecendo ramilbetes, fructos no regaço, amores nos olhos, 
e nas falias consolações, afiastou-se d*entre nós, onde ainda 
a alguns poderia aproveitar, e assim como ontras muitas 
boas artes e prendas, foi reclinar-se á espera na beira da 
torrente dos dias, d'onde não volverá, sem que primeiro 
se restaurem muitas óptimas cousas e todas suas, que o 
mundo velho tinha produzido. Mas d'onde vir3o estas cou- 
sas? Do mesmo mundo velho? mal o creio, que o novo 
quebrou a ponte que os juntava, e riu de ufaoia vendo 
abysmar-se fabrica que assim parecia eterna. Renascerio 
por tanto da própria natureza da terra, da indole da alma 
humana que já uma vez as produziu, oa do sopro do céo : 
renascerão tirde ; renascerão quando nós já nlo formos ; 
renascerio talvez diversas, mas renascerão. E quaes são 
estas cousas do mundo passado cuja perda tanto dóe ás Mu- 
sas e á Virtude? são as formosuras e magnificências da re- 
ligião, o respeito aos finados e a seus sepulchros, ás liç5es 
da experiência, ás obras dos antigos homens, a venera^ 
ás cãs, o quasi culto ás mulheres, a benevolência e socia- 
bilidade, o aferro dos usos e modas pátrias, o amor do es* 
tudo, que nós dissipámos com as leitoras epbémeras, e o 

1 Cfomwell, pag. 5i, edíç. de 15S0. 






•OAsmíBí».'.: -><' ' 467 

amor do torraônatai, âobre^ fdeanâissiiQo sentimento,. :mas 
impossivei onde se yive sem moita. brandura, e sem arme 
certeza de permanecer. Tudo isto se parden para nós e não 
sei qae bons haja em seu logar posito a Philoiophta.* ^ K 
•doeste modo que nas aldeias se revolta o povo contra qo^l- 
•quer ministério; estas palavras sao maievol^tas. 

O género pastoral absorvera^lbe todas aa predilecções; 
pela innocencia imbecil do muodo dos idylios, procurou Gaa- 
tílbo sustental-o delatando, ao publico fanático e nada ia- 
struido» as creacões, roman^í^ como iiQmoraes e.scepti- 
cas. Em verdade, o gienero pastoril leva a este reãnamento, 
como se pôde observar na. velha farça do Advogada P^elin^ 
onde o lypo asítuto^ vesano, soterte do campon^ Agneiet, 
cbega a pregar um logro ao trapasseiro Advogado, que aca- 
bava de enganario honrado burgue;;Coniiii6rciantd;> Levam 
^1 isto os idylios/do campo.: Demais, quando menos se e&< 
perava, o poeta, falto de individualidade, e; transi gtndoisom 
todos os poderes, d^clara1$e alfim romântico n^ pdem^du 
Ifoite do Caatéio e oo poemeto* dos Ciumeá doi ^ardo. Es- 
creve com as exigências. do publico^ e ]fo^qm.^ê qm ^ 
pa$8adas obras nao.occupam meia hora m h9raeM 9iuve'iif 
hom juizes; o partido boraoiano e caturra. dois contvbernaes 
pede f M6 torne ao seu primeiro tèaminhoçipw fim Mm int^pi- 
ração. própria nao sabe pomo canteviar a t0dos. Conhecendo 
qiae assinas obras tíi:iham o defeito da -prolâidade »descen- 
ne;ia, a que tíàmí\^i^tkfmmUQà)0..fkr¥^^ Cafitiibo» ooAta- 
nos assim a primeira. teT;giiirer«3o.da</$uã Musa::; <. 

• «Sainam s^. Nêitedlo Castetio ^e Ciu7m$^ donBaniomvtiio 
mais contraídos' e 0paQbaidoseiiín.coius^s.e;.palavy?as« (sujei- 
tos auym plano» quer. dizer com isto^.do.que^esb^pqeme- 
tos CPr4mamrfl e 2iS,Cmtas de £€cp>/pois.eo0}tudo> eaditos 



* Primavera, pag. 20, edie. 2.* Harcuidoo tambeod eoocebiaiaaiiai li pb Io- 
o;)liia. Vid. supra, p. 383. * » - » • i - ■« 





4d3 HX8T0BIÂ DO BOHiamSIIO IM FOBTUOAL 

houve -e^^tit,': que por isso mesmo ficabãím preferíado os an- 
tigos e^tè 08 velhos opodoolos (Bpii^dios a D. Maria i, e 
o poema á i(cotomiip<$k> (íè D. iom VL)k cada hora me dik 
iiúi, que toi^Dévao mea' prhneino caminho; ootro que nao 
desamp^r^e o notot uns, que «aias bUinvas obras senão lêem 
senão de escasso numero; outros, iqtie as passadas líão oc- 
cupam rheiaf hora os olhoS' dos hoâieas* graves e bons jui- 
zes. Obt quem reconheceu nunca â vei*âade da fabula do 
VelkOi do mpàt e do imrro/ totao & iHúte, que^p^ra expia- 
"Ção talvez de algum grande peoeado, entrega e desampara 
■a publico os partos do seu tinteirot C^s que não pôde ser 
contentar a todos, ir-me^heí como- e por onde o meu joizo, 
gosto é natureza me teva^m.í^^ A arte deste. modo não 
tem eleva(^^ nem u<m fim sério; é um camílabar ora a ca- 
vailo, ora eom um burro ás costas, segundo o exige o gosto 
éo público; 'd'este modo o' artista é ainfda o que pede es- 
moia em verso, como ús relhos poetai' palacianos. Â arte 
assim dá sò^ estíramentos de períodos^ e a dependência dos 
-modelos ^ara imitar,* eò otílio das tradições de escola com 
qu)e se f roteger. O artista é o que faz o gosto, o que do- 
mina e educado seu temporamediocridade anda tacteando 
as conveniências, evitando ir -contra as rajadas que lhe po- 
dem* arrancar asipennas* fingidas eom que se eádpavona. 

No prologo da iVoíie dt) CasfeUo^ de 29 de novembro de 
1835,' confessa a suà deserção litcera^ia: «Gommetti sim 
compor um poema romântico; mas não abjurei o dassico. 
Não sou transfuga dos velhoe para os novos arraiaes; mais 
depressa liOmo explorador tís entrei. » ' E no prologo do * 
Aviiar e iklanchúlia^- á^ odi^ de I8Q1 accrescenta: cNas- 
cirio, creàdò, ajuramentado na ^escola clássica, devendo sò 
a eila o prliMíro favor que achei no publico, fanatisado pe- 



2 Ed. de 1861, pag. 9. 



y cAfmtfBQ ... 4íSd 

los Telbos geoios da aattgõiiâade^ só cheguei mais tarde a 
fazer justiça a ^te livre .;e creador uiovimento da iK)3sa 
éra. Rendit-me fascinado pelos.. sifliu$perstigios,.arraataâo 
pelo caudaloso exemplOi iurgpirado.pelôsidictame&da pco*- 
pria rasSo.i>:É de 1836 a tradueção údiS Palavras.de um 
Crente, de LameonaiSr por Castilho, o que significa, que o 
:seu romantisim) .em'lrlterãltur!a:torrespockdia ao $etfvàbrismo 
€in politica^ . ' ) ; - 1 

 PhUosophia: ou a indepeirdeneia ioteltectuat, e a Liber^ 
dade ou a indepeadenEcia polii&ea, l^vantar^m ao brilbaotis- 
mo que boje tem em toda a Europa, a Jittenatura moderna* 
Castilho olha a philosophia como uma cansa de ruinbs, * e 
diz que os que sonham com liberdade mentem ou defiram. ^ 
Vejamos quem assim pensa como pôde contrafazer i a poe* 
sia de um século agitado pelas co&quistás' dos^lernos pirin* 
«ipios,. petas grandes apptiQaçõêis nas marafilbas das des- 
c(^ertas: a. poesia das almas- fortes e das almas. doentes,* 
a poesia suave e creaté de Lamartinee dos &z/rè«la$,.e a 
poesia tumultuosa^ desoladoira^aflliçtivaí. vertiginosa dôÂl- 
fred Musset, Heine,JBsprob6eda:Q todos os da escola cha^- 
mada saíamcal Castilho deu justamente, sem. o. saber, um 
poeala> rooiaoesco, a Noite do Castello, e um poemeito im^ 
petuoso, hyroniaao^ os Citrnm do. fia/xío/o primeiro é uma 
edade media recortada» cujos sentimeatos são inspirados 
pela impressão ()ue então exprciam os romances de Ma*, 
dame de Radeliffe; os Ciúmes são uma pagina intima, e sem 
grandeza; o sejoítimenta que procura ctíqimunicâr, em vez 
de tomar uma forma natural e sublime, eomo o comprehen^ 
deu Shakespeare, esvae-se em imprecações e pragias.e mo* 
nologos de fraqueza. No ciúme do Olhello, não se vê a of- 
fensa pessoal ; elle vinga não a affronta própria,^ mas a jus- 



1 Primaur^, pag 21. 

2 Quadrm histmoot^ |iag. 9. 



4tF^ aiBTOHIÁ DO ROM UtMfMÒ SM PORTUGAL 

tíça e O dever que foram ultrajados ; é executor bem contra 
aoa vontade» mas obedece a uma força moral que lhe vem 
da consciência. O pobre Bardo, traça o manto de uma ma- 
neira ehateaobrianeàca e vae bravejar aos ventos, ameaçar 
os ares, vendo o muado através de um Vexame que em parte 
talvez o merecia. Os Ciúmes do Bardo, pela sonoridade do 
verso, iéem-se dma vez; d'abi lhe vem o acolhimento do 
publico; lidos segunda vez desfazem-se como um papel 
doirado que se descotla. O defeito provém todo de o auctor 
ter renegado da catholica religiSp do classicismo e transi- 
gir com a seita dissidente que tomara a íítteratura de as- 
salto. * 

Nas luctas da escola romântica existe um homem de ta- 
lento, que empregou a sua auctoridade a favor dos cânones 
antigos, e veiu depois queimar os iticensos do seu estro ás 
conquistas da liberdade e da intelligencia. É Monti; elle foi 
em 'ponto grande o que é Castilho em proporções mais 
acanhadas. Gomo Mdnti, Castilho é o ultimo representante 
da Arcádia, com um ídylio assucarado, de forma alíndada, 
celebrando lodos os pequenos interesses dos epithalamios 
dos altos personagens; a sua elegância e correcção têm o 
quer que é de receita, a que se chama elmanismo. Monti 
celebra a morte do republicano BassevIUe, para tirar daí 
condem^nações contra a França; Castilho maldiz por seu 
turiia a revolução franceza para exaltar D. João vi. Monti 
faz^se o poeta dos successos da corte imperial, obtendo por 
essas bajolações pingues tenças, honras de historiographo 
e outras achegas; Castilho recebe lambem de D. João vi 9 
peasãade uma rendosa escrevaninha. Monli depois de amai- 



1 A falsidade d'este poemeto pôde explicar-se por esle tàcto da Biograpbia 
hespanhola de Castilho attribuida a Thomaz Gomes , impressa em Cadíz, e re- 
produzida na Gareta de Madrid^ e do Eco dei Commercio: «en este corto espa- 
cio (1831-1837) gosò Casiilbo de todos los atratÍTog de la vida détosamao- 
tee... eu espoea le sirvió de madre, de amiga y hasta de maestro.» Pag. 7. 



i 

digoar a republica, chorando' o maior dos reis e o rei ^i^^Í9 
âfôcej revoltasse contra o sangue do vil Capelo, sugado nas 
veias dos filhos da França, mas Bonaparte triumpha em 
Mareogp, e já o poeta saúda o rival de Júpiter. Pela sua 
partp Castilho depois de preben(]ado pelo despotismo, obriga 
a sua Musa a cantiar também a liberdade» nos versos a Gomes 
Freire, e depois do triumpho do.cêrco do Porto, no Tribuio 
saudoso á morte do Libertador. Montí perde o seu titulo de 
bistoriographo; Castilho com a queda dos privilégios no 
systema Uberal ficou também sem a tença, como se lè na 
sua biographia em hespanhol : «pues el oficio dado por D. 
Juao VI a nuestro poeta se abolió, sio que ei gobierno 
actual le ha^a dado Ia indemnizacion que, se acostumbra ea 
casos tales.» (p. 5.) Na sua velhice, Monti arrepende-se de 
ter adoptado a melancholia de Ossian despresando os deo- 
ses da mythología; Castilho também na velhice abandona 
as pastoraes para traduzir com affectada vernaculidade as 
obras capitães do romantismo. Monti e Castilho primam 
pelo bem acabado da forma e pela versatilidade das ideias» 
das convicções e do caracter, pela pretençSo a puristas da 
língua e pela incapacidade de tratarem scientíficámente os 
problemas da philologia. 

O Romantismo, ou a revolução moral e sentimenlal que 
se deu nas litteraturas modernas da Europa, no principio 
d'este século, foi como um renasjcimento do espirito livre, 
espontâneo e creador da edade media. O génio da revolta, 
que inspirava os fabliatix e as grandes legendas seculares, 
reappareceu na forma de um exagerado subjectivismo. Os 
escriptores servis, afferrados ás praxes académicas, limita- 
dos á imitação do clássico, oppozeram-se com todas as for- 
ças ánova manifestação do sentimento. «A característica da 
edade media em litteratura, segundo Frederico SchlegeJ^ 
é a lucta entre o espirito antigo, refugiado na lingua latina» 
e o espirito novo, que tra^isparece nas linguas nacionaes.> 



473 msTOBiA^ DO soxAittisxo nc portuoal 

No Romantismo dá-se a mesma locta ; mas em vez de ser 
a emancipação das línguas volgares, é a liberdade do sen- 
^ thnento, que procura manifestar-se sém convenção. 

Travou se a locta na Allemanha nos fins do século xvnr, 
commonicou-se á Inglaterra e à França, e só chegou a Por- 
tugal o ecco do que ia lá fora muito depois da emigração, 
em 4835. Os embaraços para a introducçao do Romantismo 
em Portugal acham-se resumidos em Castilho, a rhelorica 
velha e cansada condemnando o ideal da arte determinado 
pela philosoptiia. 

E por isso que lhe cabem algumas paginas n'este livro, 
como ao que mais contribuiu para a decadência e esterilí* 
dade da litteratora portugueza, nâo só pelos seus constan- 
tes protestos académicos, como por ter apadrinhado uma 
geração de medíocres que tanto custa a extinguir. 

Hoje a litteratura d3o é já uma nobre ociosidade, de ap- 
parato brilhante, com que se entretém a pompa das acade- 
mias, e se engrandece o luxo das cortes dos monarohas 
magnânimos; n3o é também aquíllo que Cícero julgava, 
quando a definia como uma distracção liberal, um consolo 
intimo, domestico. Em quanto se pensou assim, não se 
passava das formas pautadas, dos panegyricos, das disser- 
tações . fúteis, da arcbeologia de curiosidade, de sentimen* 
tos convenientes, da tragedias regulares não ultrapassando 
as três unidades; discutia se o mérito comparativo dos an- 
tigos o modernos, serviam- se da erudição homérica para 
demonstrar que Mentor já invocava com saudade os tempos 
antigos ; havia um certo numero de metáphoras convencio- 
naes, um Deus ex machina para os poemas ; vía-se apenas 
as formas externas, os processos mechanrcos com que os 
melhores escríptores, mais clássicos por assim dizer, tinham 
o segredo de mover, de deleitar; de arrebatar, como quem 
tem os Qos com que se fazem saltar os bonifrates. Quem 
via a litteratura d'este modo fazia uma ideia falsa, e por 



isso todas as suas creaçSes eram falsas na origem. Hoje 
vio-se' que a litter^tcira era mais do qae isto, era ufáa erea^ 
í3o humana, e como tal revelavsi o caracter do povo» que a 
tiOfba sentido^ Esta ccmiprehenslo notasse na tendência ge* 
ral de todos os espiritos em voUarem-se ao estudo de todos 
os livros em que o génio do homem apparece mais inde- 
pendefite das regras artificlaes, os poemas secialares, ano^ 
nymos, as formações das legendas, o estudo dos mythos» 

Sob este ponto de vista, a litteratura e&tuda-se para sa- 
tisfazer a necessidade do espirito, que procura constante'^ 
mente descobrir o homem tornando os seus actostonscientes. 
Taine, na Historia da Litteratura ingkza, abriu esto plano, 
fazendo as applicaçoes das descobertas recentes; determina 
as duas raças-, saxonia e normanda, uma terrivel, violenta, 
batalhadora, a outra branda, susceptível de todas as modi- 
ficações; o caracter' impetuoso do norte acha-o represen* 
íado em Shakespeare, Marlow, Ben Johnson, Milton e By- 
ron ; o caracter normando, imitador, com tendências cias* 
sicas, reflecte^se em Pope, Addisson, Dryden. A litteratura 
tem hoje esta importância ; a philosophia da arte, a Esthe- 
tica veia dar-lhe altura e consciência. Pela litteratura chega 
a definir-se o caracter histórico de uma época, muitas ve- 
zes melhor do que pelas chronicas officiaes que mentiam 
á verdade para não' divulgarem as intrigas que formavam 
as epbemerides da corte. 

As obras de arte têm o poder maravilhoso de n3o pode- 
rem ser falsificadas; foliam mais alto do que todas as op- 
pressões, delatam os crimes mais escondidos á posteridade 
pela influencia que sentem. 

Os jesuítas, que inventaram uma theologia no século 
xví, e uma moral no século xvn, como diz Míchelet; nSo 
produziram apesar dos maiores esforços .uma obra de arte. 
O despotismo de Carlos v e de Pbilippe ii, infunde um 
abaixamento da dignidade, acanha o vòo espontâneo da 



474 HIBTOBXÁ DO BOlUVnSHO ax POBTUOAI* 

inspiração, e a litteratura do seu tempo é como um aleijão 
de um bomem que sae da polé e se ri para desarmar os 
seus algozes; a litteratura picaresca uio é mais do que isto, 
é uma delação da atrocidade politica contra o desenvolvf- 
mento social. Assim a litteratura é como o templo onde fi- 
cam impressas as pegadas dos falsos sacerdotes que entram 
de noite e ás escondidas para comerem as viandas postas 
diante dos i(^olos de barro. É pela litteratura que procura- 
mos a decadência successiva do caracter portuguez, como 
uma manifefstação local de um grande ihal orgânico, o 
Constitucionalismo bragantino. Para este fim basta-nos to- 
mar como typo o poeta e prosador Castilho; todos os de- 
feitos dos últimos escriptores acham-se n^elle em gérmen. 

As formas particulares da arte tém uma analogia intima 
entre si; na architectura, escuiptura, pintura, musica e poe* 
sia, a lei das transformações de uma explicam a traqsfor- 
mação de todas as outras; em Miguel Angelo se encontra 
a successão natural e lógica na marcba ascendente da sua 
inspiração; depois de esculptor descobre a pintura, espiri- 
tualisa as aspirações vagas na poesia, e é por fim arcbíte- 
cto. É por isso que nos serviremos de um exemplo da pin- 
tura, para fazer comprébender qual è a posição de Castilho 
n'este ultimo período da litteratura portugueza. 

Elte apparece-nos como Lebrun nar corte de Luiz xiv. Le- 
brun tem a inspiração do século do monarcha que se dava 
o sol por symbolo; no meio de uma pompa íicticia as suas 
creações são também falsas ; o colorido é como o dos cos- 
méticos que purpúrea vam a face das velhas marquezas que 
provocavam acintosamente a sensualidade do monarcha; as 
composições tém o arranjo de uma pequena intriga de 
amores de alcova ; elle borda e entretece com as flores fin- 
gidas da sua palheta esta festa lúgubre e forçada do des- 
potismo devasso. A corte idmirava-o, a Academia respeita- 
?a-o^ as tapeçarias pediam-lhe rascunhos» os estofos» os 



OASTILIIO 475 

monumentos eram segundo o seu alvitre, era eHe que cor» 
rigia os' planos, • 

A época n3o via no artista uma única reprehensSo, não 
a despertava da iethargía moral em que cairá, não a en- 
coramodava, antes a lisonjeava, e lhe acerava os desejos» 
Em paga d'esta transigência, dava-lbe a gloria e rendimen- 
t09 pingues, e o despotismo sobre os outros artistas que 
queriam competir com elle. Todos estes caracteres se en- 
contram, reproduzidos em Castilho como poeta e prosador. 
Tanto a Lebrun como pintor, e a Castitho como litterato, 
o que faz illudír algum tanto com uma grandeza ou supe-^ 
rioridade apparente, é a pequeneza e vulgaridade d'aquel- 
les que se deixaram influenciar, e nao tiveram ao menos a 
força para renegarem os mestres, e abjurarem da auctori- 
dade. Mas sobem de ponto cada vez mais as analogias da 
comparação. 

Aquelle génio terrível, de creaçao profunda, alma de Mi» 
guel Atig^lo baldeada na corte' de Luiz xiv, Puget, foi per- 
seguido porque as suas composições tinham um quê de 
forte e enérgico no meio da mollicia que o despotismo da 
monarcba gerara; Luiz xiv chamava-lhe um obreiro mui 
caro; Lebrun ao menos sabia condescender com as villa- 
nias, era por isso o inimigo nato de Puget. 

Uma sociedade decadente não pôde comprehender a alta 
inspiração de um verdadeiro artista; o Milão de Crolonasô 
foi apreciado por uma mulher, que ao vèl-o disse somente 
—coitado! O grupo de Ahdromeda libertada por Perseu, 
cuja belleza consiste nas formas delicadas, pequeninas da 
mulher, foi desdenhado justamente no que elle tinha de 
mais bello e de verdade. Nao era para aquelles olhos cos» 
tumados ás trevas das pequenas intrigas o verem o «már- 
more de uma alvura de neve.» 

Assim a arte convencional de Lebrun, de etiqueta, res- 
peitadora dos usos constituídos, conservadora da rotina^ 



476 HI8T0BZA DO BOlUimBMQ EM PORTUGAL 

immobilisadora de todas as tendeocias, era uma maldição 
contínua a toda a innovação, a todo o espirito independente. 
Ella lacta para apoucar os génios firpaesMeíLe Siieur,.Claude 
Lorrain e Poussin, o que a arte, frffllc^za tem de mais 
helk). As transformações artisticas le^am ao& mesmos resul- 
tados; depois de todos os esforços pafa a foçmaíão de uma 
litteratura no seio de um povo que aspirava, ao cabo da 
lucta, a liberdade da moderna Europa, Castilho, como es- 
tes espíritos inertes e sem coragem qu0 desanimam os ou- 
tros, resume em si todos os caracteres de Lebrun, procla» 
ma-se o pontífice da immobilidade e da rotina. Tenda pro- 
curado a formação do seu talento li tterario, como e em que 
tempo appareceu nas lettras, qual a sua primeira inspira- 
ção, qual o seu ideal da poesia,. as qualidades que o fize- 
ram estyllista, como o eslyllo é o mais alto gráo a que o 
elevou o esforço, como comprehendeu a antiguidade que 
adoptara, renegando as ideias do seu .tempo, dete^rrain^-se a 
influencia que exerceu na litteratura, e pela mediocridade 
dos discípulos, apresentaremos os symptomas de uma de- 
generação lenta que se operou de dia para dia em Portugal. 

Assim cabe perfeitamente a Castilho a parte que tomofi 
na litteratura moderna, ser o ultimo e mais declarado ini- 
migo da revolução moral chamada Romantismo, e ao mesmo 
tempo o-que mais corrompeu j a' geração moderna pela sua 
falta de consciência litteraria. ^ 

Em todas as composições de Castilho apparecem sempre 
os caracteres d'aquella infância de sua alma ; não Mve- 
Ihece, parecesse com esses monges bretãosque tinham re- 
cebido o bastão do peregrino que dava uma perpetua 

t E?ta missão parece ler sido adivinhada admira velmeote por Quiaet ao des* 
crevor o mcvimAnto de inspiração nacional, na litteratura porlugueza de 1824 
a 1816: cqae cetie litterature Vétait pas ane oeavre 4'a«adéinié, mais no cri 
4'e$peranGe, qu'elle s^accordait trop biea avec les instincts de la foale pour ne 
pas concourir à ranimer ce peuple, — à moins quM ne se trouvâi à poiot nommé 
quelque grand meartrier poar Tassassíner aa préalabla«o Oeuúres, i, i, p. 59. 



l>«i \- 



<€ABTBiBO '477 



inueidade. Porém «pU infaneia iqi sempre idesbaralada» 
ou imelhoPy nanea dos dekou vêr d-ellà mais que os seus 
defeitos. Gotuo criatiça aoia odescriptivo e o excesso de 
-eoionido;'iiSo forma plano^ Yae áo acaso da ínspi nação; é 
dígressivò e íAterrofiopido de iàeideates do diôcurso o esr 
tylo;é'iiiiiiadore'ée ^preferencia traduolor. A vas^ma in- 
fância Dunea Ibe dieixou ter uma individualidade própria, a 
depeadeucia de amparo tcK^Don-o também moralm pote fraco; 
bem o coBh^e e deíende^^sô com elia» respondeodo á este 
juizo de. um estrangeiro:' 

' «E^tre os: poetas 'hoje vivos em Portugal (1829) notare- 
mos Gaètitbo, queapesar de cego desde a meninice, se tem 
todavia incessantemetite applicado às bellas-lettras e ao cul- 
tivo das Mmas. As suas Hermdes^ noesiylo de Ovidio* é 
uma das suas obras mais aotaveiis. Dá provas de notável 
talento em atguá^outros trechos poéticos, que todavia nao 
s3o em geral odnsidei^ados como bons; de facto é. muito po- 
bre de originalidade, e o seu modo da* colorir não é con- 
forme áverãadet da > natureza; as suas pbrases, postoque 
habilmente torneadas; slolalvez monótonas, eè apenas á 
harmonia dos seus versos que deve a sua fama como 
poeta.»*' 

Quando no Portugal UUMradOyM. Kinsey disse, qiie.Ga&- 
•tilho 4]ão tinba o sentimento da natureza e que» a pintava 

mal, o poeta defendes^ â'este modo: «este descriptivo é 

' I ► . • ■ ■ • • I . 

«Among tbq Jivin^ poets of Portugal may be rernarked Castilho, who. Ibougd 
bliod from Ms cradie, bag nevertbel«88' iucessaotif applièd hiiDMlf to thebd- 
]eB-lettr«0 and, Ibe culiivation o( tbiB Huft^s.Hí^ BerfÀdeê, io the slyl» of pvi^ 
di8 one among tba moít remarkable of bis woiks. He dieplays considerable ta- 
leni iV some oilrer pí«ces of -ftoetyy. wbick, bowévefi are not generally regarded 
as good; in fdçt be J8 Tery deficieiít io originali^yi aod hísmodeofcoloufiogts 
not after the troth of nature; bis lioes, tbougli they are happily turned, per- 
haps, ar«) moDOtonous, aod it is only to the barmooy of bis verses that be is inde- 
bted for bis poetical fame.» Kétiew of the litteraryhifhryaf Portufal {p, 535- 
564.) Eitraimos esta citaç&o do livro de J. de Vasconccttos O cmsummado 
Gemanukiy p* 25, por isâo que, o livro de Kinsey é eitremam^nte raro. 



478 HISTORIA DO BOMABTMIIO BM POBTUOAL 

desbotado e de eôres pouco vivas e ^oi>rías se com o de 
€essDer oa Kleíst se compara, mas é o melhor que eu 
soube ; eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo, como 
de si di^ia Kleist, caçadas poéticas de imagens, nem dis- 
€orrel-os como Gessner, de lápis na mão. U pôde ser que 
padre Kinsey, ou o seu ponto (informador) não houvessem 
de se me avantajar muito, se lhes coubesse tirar ás escu- 
ras, ou quasí, o retrato da natureza:» ^ Castilho descobre 
em toda a parte esta fraqueza, com uma simplicidade que 
desarma ; na sua vida domestica parecia vêr-se aqueile qua- 
dro de interior^ Milton entretido pela leitura de suas filhas: 
€Uma mulher, toda boa, toda extremosa, tomou unicanaente 
a peito o vingar-me da natureza; cerca*me de continuo, 
como um anjo, de amor e de luz; empresta -me olhos para 
eu vêr x) mundo >e as obras dos séculos. - .»* 

A perda de sua esposa (1 de. fevereiro de 1837) foi como 
diz em um po&t scriptum de um prologo, o maior infortú- 
nio da sua vida, uma perda -de que em nenhum tempo o 
coração se poderá consolar: t Quebrsiram-se as forças para 
continuar no trabalho, bem corno se esvairam muitas, an- 
tes todos, meus projectos.» 

Nos Quadros históricos (IS39) lamenta a morte de ura 
modelo de irmãos, que o. coadjuvava no que dizia respeito 
ao revolver, apurar e digerir todos. os successos, deíKaqdo- 
Ibe o estylo e a poesia/que é o quem tem principalmente 
á obra. ^ Todas estas circumstancias o privaram da virtude 
masculina e superior fla individualidade; fizeram-h'o um es- 
pirito pueril, entretido com combinações de Mnemónica, 
fazendo-o apaixonar. por bagatelliphas como um Tratado'de 
Metrificação, e o uso . dos versos copa Içtra pequena... O Me- 
' thodo repentino é nobre na intenção, mas piegas. 



1 Pr<inot>«ro, pag. 40. 

2 PriiMLvera, piig. 290'' . . ,• 

3 Quadros Bitfmcos, p ftg.-243l. • 



OÂBTILIIO 479 

Por toda a parte as tradocções occupam um vaior secoo* 
dario Da litteratura; reconheceu- se a impossibilidade de 
trasladar com uma precisão geométrica para uma lingua os 
sentimentos» por si indeQpidos, expressos nas differentes 
cambiantes das palavras e formas prosódícas de outra liq- 
gua. Todas as traducções modernas s3o em prosa/ porque 
ser?em para estudo, e é a prosa que dá a mais ampla li* 
berdade ao pensamento. Para traduzir uma obra de arte é 
preciso sen til-a novamente, e quem sabe sentir é creador 
também, e inventa por si. 

Com esta esterilidade de alma e sem recursos de imagi- 
nação, Castilho lançou-seaos poetas antigos ; serviu-se doesta 
abundância de phrases que trazia de memoria ordenadas em 
forma de vocabulário, ia-as baralhando pacientemente, e 
com o acinte de quem pensa enterter o vazio do espírito e 
a solidão do isolamento, seguia ora verso a terso o poeta 
que torturava, ora lhe dava tratos de polé na redundância 
de paraphraseSk • 

Traduziu, como um gramroatico sem vér o intimo das pa- 
lavras;^ começa por não comprehender o poeta que traduz. 
Ovídio foi p primeiro que lhe veiu á mão, sem escolha, ca- 
sualmente; versando-o com mão diurna e nocturna chegou 
a apaixonar-se por eile, a tornai-o o seu dilecto. Para os 



^ Ka tradocção que fez dos Fastos 'áe Ovídio, lib. vi, v, 66(^, acceiuo texto 
tt*eata forma: , ' 

Adde quod EdUis pompa qní faoeris ireot 

Arlifices eolos jusserat esse decem, 

quando de«de e tempo de Golhofredo {fontes qwUor Júris, npt. Ã x Tabula) se 
restitQiu o texto historicameote: 

Adde que d Edicfis pompa qai fqnerii ireot 
Artiflces solos jus erat esse decem, 

por isso qoe se referiam ao direito coosuetudÍDario das Doze Tábuas. É esta 
a critica que falta nas traducções de Castilho, o é por isso que o reconhecem 
como um verboso parapbraseador. 



480 HlflTOEIÂ DO BOUÀinifiUO EM PORTUGAL 

Qoe nSio sâo latiDÍ$tas, para lerem Ovidio ba$tavâ-ltos,qQal* 
quer traducçSo ou de< Paockouke ou .da^colleiação JSisard. 
Castilho diluindo cadabexametro do SulmoDeuset^em 4res 
endecasyllabos portugueses, tornará mais conheodo o exem- 
■pUr, antigo? Se elle mesmo não comprehende mais do 
que as palavras ; e essas mesmas palavras sãa como senhas 
sacramentaes Qujo val<M^ não aicãnQam os profaoos que as 
repetem. CastiJho começou pelas Metamorplwfes..em iH4l. 
nAs Meta mor pboses, diz um profuodo critícoi moderno, ne- 
nhum livro melhor do que ellas mostra* quaiato se.ignorava 
a aniigurdade benoica e divina. Estas nobres legepdas, to- 
das animadas de vagias ideias philosophicas^ da mais larga 
jç da mais, pura poesia, tornaram -se nas mãos de Ovidio 
lindos contos ornados de falires antitbeses, perfumados de 
espirito e galanteria, que uma dama romana dispenderia 
Toluntariameuie no^seu toucador.» ^ Agora compr<fheade-s6 
como Castilho obedeceu á sympatbia que o uniU' a Ovidio; 
espirito ful,il, sem profundidade, conhecendo a fabula pelas 
explicações do Diocionario de Chompré, (Vid. .p- 436) não 
vendo mais do que brilhantes nadas das imaginações antigas 
4}ue adoravam falsos nuraes^ eira Ibe Tacil jpôr em vulgar essas 
personificações aUagorieas, cujo processo de poetisação já 
estava ensinado pela rotina da estafada rbetorica das Aca- 
demias do século xvii e xvni. Que esses poetas académicos 
não comprehendessem a fábula, e a reduzissem a um ar- 
mazém de metáphoras d'onde extraiam todos os tropos 
para as suas odes saphicas, pindaricas» epodíòas, alcaicas, 
percebe-se, porque, íutelligencias vulgares, desbaratadas 
em frivolidades, não tinham assistido á descgberta dos 
grandes poemas da índia, da epopéa germânica, das.theo- 
gonias do norte, factos que enfgrandecem o século; não po- 
diam por isso partir da unidade das tradições para a lei da 

y 

1 Taíne, Essai sur Ttie-Live, pag. 17. ^ 



CAITIUM 481 

sua formação, Dçm desodbrir como os povos perpetuam os 
dogmas religiosos/ ò difreito, aa descobertas, os successos, 
n'essas' creações espontaoeas de symtolos^ legendas e my- 
thos. Castilho vive b'um mundo pbaatastico, igoora o pre- . 
sente e amaldiçòa-o. O espirito moderno ri;se d'elle, como 
o povo de Roma se riu dos dormentes que despertaram em . 
meio de uma sociedade nova, com outros usos e costumes. 
Depois dos trabalhos de Kreútzer» de Guigniaut, de PreK 
ler sobre a mytboIogia,.a opinião de Taine sobre Ovídio não. 
precisa de demonstração. O século xvi, a moderna antigui» . 
dade, comprefaendeu Ovidio como: simples pagão» e tratou 
de lhe salvar o texto e de ãpural-o com commentarios eru- 
ditos; no século xix este homem esforçou-se em voltar ao 
passado, atè se tornar um ibetorico da decadência. De um 
gosto convencional, sente-se pela inclinação do caracter > 
um lítterato byzantino; a Arte de Amar é uma composição, 
erótica sem valor, uma lisonja á depravação romana. Na. 
traducção dos Fastos, melhor do que em nenhum livro, se . 
encontra o gráo de ignorância dos homens que em Portu- 
gal escrevem; Castilho convidou mais de cem escriptores 
para commentarem o texto; tudo o. que ali se lé é ou tra- 
duzido das encyclopedias, tirado de Jacotl, das notas dos 
scboliastes; ha muita minúcia, muita citação, mas faltam 
só vistas novas; nãò apparece um único resultado da critica 
moderna, nenhuma apreciação da pbilosophia de arte, ne- 
nhuma interpretação da moderna sciencia da Mythologia; 
ainda cá não chegara esse movimento. Castilho maldiz todos 
os traductores de Virgílio : João Franco Barreto, Leonel da 
Costa, Lima Leitão^ Barreto Feio» Odorico Mendes, todos o 
interpretaram mal;^Castilho insuUa-q^, deprime o trabalho 
d'estes homens, e ameaça-nos com uma nova traducção. E 
como poderia elle comprebendel-o, quando só se achava ca- 
paz de traduzir melhor os termos da lavoura, e em menor nu- 
mero de versos ? Virgílio não é isto que entre nós se pensa. 

31 



488 HZ8T0RU DO BOKámiMO BM POBTUOAL 

É preciso uma alma puni de toda a iaveja, simples, boa 
por nalureza para.aTaliaL-o^ para. aspirar aqaelle perfume 
de melaBCfaoUaquefeSi com que elle presentisse o christia- 
nismo. Gomo é qiie vm grammatico pjòde traduzir este be« 
misticbio diyino: «Sont iacrimae rerum» quando para elle 
a arte é um mister e uma iisooja á corrupção de um novo 
Bai&o Império? Âo menos o .grammatico de Rayena, que 
juraya pela iofaljibilidade de Virgílio, tinha mais ahua para 
comprehendel-o do que um que o parodia em palavras men- 
tidas. 

O sentimento de Yirgilio só pode ser comprebemlído de- 
pois de se conhecer como elle alimentou e por assim dizer 
refrescou a alma humana durante todo este período de ari- 
dez theologica, de sevícias feudaes, que formam o decurso 
da edade media. A egreja chegou quasi a levantar-lhe alta- 
res ; S. Paulo vem ao tumulo de Virgílio^ e chora por nao 
ter chegado mais cedo, para salvar uma alma tão pura, tão 
apta para receber a doutrina do christianismo. Depois de 
se haver estudado a Renascença é que se achou desenvol- 
vido n'ella o génio de Virgílio; foi, por assim dizer, um co- 
nhecimento a posteriori. 

Dante diz n'um dos tercetos da Divina Comedia, dirigiu- 
do«se ao seu guia^ «por ti eu fui poeta, por ti eu fui chris- 
tão.» E Virgílio adiante, vendoo perturbado e querendo 
fortalecel-O; diz>lhe que um espelho não reflectiria melhor 
todas as emoções que lhe vém á face. É a alma da Renas* 
cença, o espelho em que se viu representada. Castilho não 
formou ideia do que seja a Renascença moderna, nem da 
acção que ella teve na Europa; ficou d'este modo privado 
de lér o melhor e o n^is profundo commentario de Virgí- 
lio. Uma palavra de Dante, uma legenda grotesca de Vir- 
gilio na meia edade, fazem-no-ro comprehender melhor do 
que todos os scholios de Donato, Sérvio ou Despauterio. 
Até somente com a bondade natural se compreheode mç- 



Ihor Virgílio, do que com toda a ferramenta de palavras e 
■synoDymias. Como a raça céltica o comprebendeul 

Que melhor commentario de Virgílio do que esta bon« 
^ade cellica, femiuina, incompatível com a índole vaidosa, 
6 acerada por uma inveja incessante. Casliibo ficou pri- 
vado do melhor critério para avaliar Virgílio; * é um tra- 
ductor fiel, e tanto como estes pintores chinezes que enten- 
dem que a verdade da pintura está em saber o numero de 
nevruras que tem uma folha, e limitam toda a sua ar.te a 
um processo mechanico de reproducção servil. Muitas vezes 
<as analogias dos caracteres fazem com que conheçamos 
melhor o que estudamos. Castilho modernamente represen- 
ta-nos o mesmo que Pope na litteratura inglezá; o trada- 
ctôr do Homero; tinha uma maledicência de homem rachy- 
tico e descontente, nâo conhecia amigos, nem affeiçSo diante 
úo ^eu orgulho e vaidade lítteraria; para elle a poesia não 
6 mais do que uma gymoastíca de palavras, em que, com 
apparencias de propriedade de- expressão, encobre o vazio 
do artificio. Castilho, entre nós tem também a perfeição da 
symetria, da lima que desgasta as saliências do diamante, 
procurando contornal-o para o uíBíier dentro do engaste da 
rhetorica mesquinha. 

Causas fataes e irremeíjiaveís obrigaram Castilho a per- 
manecer em uma perpetua infância. Quem o accusa por 
isso? o que- obriga a pôl-as em relevo, é o apresentarem isto 
que é uma incapacidade como faculdades superiores. Do 
seu génio pueril e infante provêm todas as suas obras Ht- 
terarias, taes como o tratado de Mnemónica, o Cérebro ar'- 
tificialf '^ o A B C repentino, os versos de lettra pequena, o 

1 Vide o admirável livro de Comparetti Virgílio nel médio evo, verdadeiro mo- 
delo de erudição em que as lendas virgilianas são explicadas sob o ponto de 
vista das origens. 

2 Esta invenção, acba-se a pag. 136 da Noite do CasUUo, em nota. Ed. de 
1864. Na Questão do Fausto, p. 69, o sr. Graça Barreto lueixa-se de nun:a ter 
encontrado esta novidade nas obras de Casiilbo; é por isso que a indicamo»» 



434 HI8T0BIÁ DO BOUASmBU» BX POBTUGIL 

seu aDachroDÍsmo idyllico, a tendeDcia irresistível para tra* 
ductor, isto é, a necessidade de ir pela mao de quem teve^ 
primeiro o trabalho de pensar; a abundância estéril do 
seu estylo, e sobretudo uma necessidade absoluta de adu* 
lações. O meio influiu também na sua mediocridade. 

Âs profundas perturbações politicas causadas pelas ten- 
dências absolutistas de D. Maria u, que de 184â a 1846 
iniciara pela facção cabrálista um regimen de violência, pro- 
duziram um levantamento popular nas províncias do norte, 
conhecido pelo nome de Maria da Fonte. Por este tempo 
Castilho escreveu um opúsculo de 57 paginas intitulada 
Chronica certa e muito verdadeira de Mjria da Fonte, es- 
crevida por mim, que sou seu tio, o Mestre Manuel da Fonte, 
sapateiro do Pezo da Regoa, dada á luz por um cidadão de-- 
mittido que tem tempo para tudo. Ê um folhetim politico. A 
tempestade do absolutismo desencadeou-se com o golpe de 
estado chamado a — emboscada de 6 de outubro,— e se- 
guiU'Se o levantamento nacional, contra o quaUa rainha 
chamou uma intervenção armada estrangeira em 1847. 

É uma das infâmias da monarchia. No meio doestas agi- 
tações Castilho foi residir na ilha de S. Miguel, por convite 
do Visconde da Praia, o homem a quem a cultura açoriana 
mais deveu. No remanso da ilha, Castilho occupou-se em 
collaborar no Agricultor michaelense, onde escreveu umas 
prosas poéticas intituladas Felicidade pela Agricultura; co- 
operou para a fundação da Seriedade dos Amigos das Let- 
tras e Artes, em Ponta Delgada, para cujas escolas escre- 
veu os Primeiros exercidos de leitura, e as Noções rudimen* 
tares, com vários Hymnos, sendo a musica de alguns com- 
posta pelo amador João Cuiz de Moraes Pereira. Logo em 
48i8 levantara m-se em volta de Castilho ruidosos confliclos 
litterarios, que motivaram folhetos, hoje desconhecidos,, 
como o Thecel, ou o Castilho em zero, e a virulenta réplica 
Ou eu, ou elles. Doesta época de permanência na ilha de S. 



CASTILHO • 485 

Miguel resultou a traducçâo ou apropriação do drama fran- 
cez Camões de Victor Perrot e Armand Dumesnil, qne Cas- 
tilho quiz fazer passar por original até 1849. No opúsculo 
de ÂDthero do Quental A dignidade das Letlras e as Utte- 
ratiiras offidoes, acha-se um extraordinário juízo critico 
d'este trabalhO; suppondo-o original: cÉ um dos mais for- 
mosos dramas do theatro portuguez e a única admirável e 
inatacável obra do sr. Castilho — o drama Camões. Nunca 
se dirá bastante d'esse livro surprehendente, que excede 
muito o Camões de Garrett no estudo da época, na inter- 
pretação do verdadeiro caracter do heroe, na intelligencia 
intuitiva do génio da nação, e no grande espirito poético e 
dramático que anima todas as scenaS; salas amplas e lumi- 
nosas de um maravilhoso palácio de poesia.» * Chama-se a 
isto impor como opinião uma primeira emoção irreflectida. 
Confrontou o critico o texto francez com a paraphrase por* 
tugueza? Nem suspeitava da existência do drama de Per- 
rot e Dumesnil, e por isso as deturpações de Castilho pa- 
receram lhe surprehendenles intuições de génio I O drama 
é falso diante da historia: Camões não conhece sua mãe, 
que morrera de parto! ama uma filha do Conde da Casta- 
nheira, que ainda encontra vrva no regresso da índia! re- 
cebe esmola de uma preta, que o sustenta; Castilho cpn- 
tentou-se em intercalar na sua paraphrase uma pequena 
comedia em redoudilhas, O Auto da boa estréa, composto 
sob o nome do Dr. António de Castilho, guarda-mór da 
Torre do Tombo e amigo do quinhentista António Ferreira, 
composição que fingiu achada por Luiz Filippe Leite e que 
serviu para illudir a boa fé critica de José Maria da Costa 
6 Silva. Conseguido este fim, como se vè no artigo O Dr. 
António de Castilho, do Ensaio biographico critico, o Auto 
da boa estrêa foi então intercalado na paraphrase do drama 

4 
f 

1 Op. dí., p. 45. 



486 HISTORIA DO BOMÀMmUO EM POBTUGAL 

Camõe$. ^ Eis aqui a única obra inatacável de Castilho, se- 
gundo a crítica de Anthero do Qaental. 

Durante os dois annos de residência na ilha de S. Miguel 
é que Castilho se apaixonou pelas questões de pedagogia^ 
e em 1850 transforma o Methode de Lecturcj de Mr. Le- 
mare, no seu pequeno livro intitulado Leitura repentiruir 
Methodo para em poucas lições se ensinar a lêr com recrea- 
ção de Mestres e Discípulos. Com o tempo Castilho persua- 
diu-se da própria originalidade, e a sua tentativa começou 
a ser chamada Methodo portiiguez Castilho. Nós seguimos 
a critica de Herbert Spencer contra a superstição usual que 
faz julgar a leitura como o fím da instrucção; se os que 
dirigem a inslrucçao publica, governos e padres, sao os pri- 
meiros a impedirem tudo quanto possa embaraçar a eman- 
cipação intellectual e moral, a leitura ficará sempre uma 
arte estéril e uma aptidão sem destino. Mas aproveitando 
a superstição usual, Castilho fez um grande ruido sobre a 
Leitura repentina, envolveu-se em polemicas virulentíssi- 
mas, como a Tosqum de um camello (José Crispim da Cu- 
nha) em J 853, 1855 e 1856, arvorou-se em apostolo indo 
ao Brazil em 1854,^ e conseguindo por fim ser nomeado 
Commissario geral das escolas do Methodo repentino, pelo 
que recebeu atè á sua morte um conto de réis de ordenado 
annual. Da sua invenção dizia Castilho: «Também eu fiz 
uns Lusiadas; só uns; foi esla carta de alforria da puerí- 
cia. Não cantei os portuguezes passados, mas forcejei por 
que houvesse portuguezes futuros, o que não vale menos, 
se é que nao vale mais.» ^ Infelizmente Castilho sobreviveu 
o bastante para vêr provada a inefQcacia da apregoada ma- 
ravilha, e notando que os Lusiadas continuavam a ser o 



' A ioda em 1870 o ir. Romero Ortíc do IWro La literatura en el tiglo xix, 
Caio no mesmo engano. 
* Chave do Enigma, p. SI 2. 
3 Carta de S9 de março de 1867 á Gamara monícipal de SetoUl. 



V 

» 



CASTILHO 487 

> 

que eram, atacou o poema como nSe servindo nem sequer 
para cartilha de escola. ^ J0SO de Deus, que se tornou 
também um apostolo da leitura; íbi atacado como imitador 
do methodo de Castilho n'estas [rtirãses: «Faremos vêr que 
tudo, que por ai tem apparecido de methodico e racional, 
é essencialmente filho do Methodo portuguez.ii João de Deus 
replicou com uma fina ironia, que encerra a critica do pro*> 
cesso para a' leitura repentina: «Do Methodo apenas sei uma 
, regra, que um dia me recitou com admiração um fervoroso 
apostolo do celebre pedagogo: 

• i, e, t, o, u, Tozeiam 
QoaDdo em cima o páo lhes lem ; 
Mfts vSo qaasi caladinhas- • 
QaaDdo carapuça têm.» 

«Sem querer por esta particularidade julgar da analyse 
que presidiu ao trabalho do sr« Ântcmio Feliciano de Casti- 
lho, é certo que vozeando as vogaes tanto- com páo, como 
sem páo em cima, (sem páo, mais vezes incomparavelmen- 
te,) e n3o indo quasi caladinhas quando têm carapuça ; nem 
a forma nem a ideia me convidavam a utilisar-me.» Casti- 
lho no meio da sua estéril propaganda, foi eloquente nos 
proteslos contra a pancada, que era parte obrigada da pe- 
dagogia porlugueza, e resto persistente da tradição do en- 
sino jesuítico, que ainda sob outras formas se conserva nas 
^ nossas escolas. A pancada passou de moda, e não foi pe- 
queno progresso, porque a nossa infância foi passada sob 
a pressão d'es8e terror branco da disciplina das primeiras 
lettras. 

Conseguido o Commissariado do methodo repentino, Cas- 
tilho visou a uma acção directa sobre a lilteraiura portu-' 
. gueza; a^hava-se sô em campo. Garrett fallecera em 1854, 
e desde 1859 Herculano fechára-se em um silebcio syste- 

1 Carta prtanbular do pMma D. Ja^m$, 



488 HI8T0BU DO BOHAIITIIVO XM POBTUOAL 

matico, odiando todas as maDifestaçôes litterarias. Com a 
propaganda a favor do monumento a Bocage em Setúbal 
em 1857, e com a anedocta phiiántropica que se liga á Epis- 
tola á Imperatriz do Brazil, o nome de Castilho avocava a 
si a admiração dos novos; em 1861 foi a Coimbra visitar 
os sitios poéticos da sua mocidade, e iam um saráo littera- 
rio no theatro académico recebeu as homenagens da nova 
geração. Faltava-Ihe tudo para ser dirigente; o trabalho da 
sua ultima época litteraria (18S8 a 1875) foi exclusivamente 
de traducções, de livros atrasados, como 0.9 Amores de 
Ovídio, (!858) Arte de amar) (1862) Fastos de Ovidio, 
(1862) Lyrica de Anacreonte, (1866) Georgicas de Virgílio, 
(1867) sem a minima acção sobre o espirito publico. Uma 
cousa lhe restava para impor a sua supremacia litteraria 
em ambos os hemispherios— o eslylo. 

Um dòs seides que o cercava chegou a sustentar na Re- 
vista Contemporânea^ que era elle e não Garrett o verda- 
deiro príncipe da poesia modern.a; ^ por uma doce illusão 
da edade veiu a considerar-sé um pontifico lítterario, pas- 
sando bulias de indulgência aos que se apresentavam nas 
lides da imprensa. Era moda trazerem todos os livros que 
se publicavam uma carta ou breve da infallrbilidade do mes- 
tre; ninguém podia ser lido sem trazer a chancella sacro- 
santa só obtida por bajulações e negação absoluta de novi- 
dade. Reinava a doce paz no santo mundo das lettras, Cas- 
tilho e o seu rebanho todos conformes em dar e receber o 
iúcenso de apparatòsos duetos. Comludo a litteratura da 
Europa avançava, e novos princípios foram introduzidos no 
mundo pelos pensadores, tendo fatalmente de produzir em 
" dado tempo os seus resultaKlos. 

Foi então que appareceram alguns esôríplores.desconbeci- 



1 No 1 .0 Tol. dag Lendat e Narrativas Hercolano reclama para Garrelt esU 
primazia, como quem sabe qoe se Um «Uipota.arlMfameQte o tea logari. 



CÂBTILBO 489 

dos, que pensavam e escreviam com independência; era 
preciso detel-os nos seus ímpetos iconociasticos (1865); já 
se não podiam fazer accusações de galUcistaSy descobriram 
outra — de nebidosos. Accusaram-os do crime de introdu- 
zir o espirito ailemao na litleratura. Crime estupendo. A 
Allemanba, ha mais de sessenta annos, tem-se tornado a 
iniciadora da actividade^ intellectual da Europa ; os estudos 
históricos, a critica sobretudo, a philosophia, as sciencias 
naturaes, tem experimentado um impulso brilhante; os sá- 
bios de Alem-do-Uheno, deixaram a lingna latina, usada nos 
trabalhos eruditos pelos Scaligeros e Wolíius, pela lingua- 
gem vernácula, mais susceptível de exprimir todas as cam- 
biantes do pensamento, por isso que era aquella em que 
se pensava; tornou-se uma espécie de álgebra, como tal 
incomprehensivel ao vulgo. Num estudo sobre Otfried Mlil- 
ler, diz Hildebrand, o traductor da Historia da Litteratura 
grega: «Por muito tempo ainda, franca e altamente se re- 
conheceu ha alguns annos para cá, que o principal traba- 
. lho dos philologos francezes, inglezes e italianos será com 
effeito o de implantar e aciimar nas suas pátrias as con- 
quistas positivas da sciencia allemã, antes de curar em con-. 
tinuar esta corrente de estudos; e a vereda que ainda se 
conhece l3o imperfeitamente, tem necessidade de ser seria- 
mente preparada. É o que se comprehendeu, e o de que 
se occupam com um notável desinteresse. Grandes talentos 
que pareciam destinados a abrir vias novas, dedicam-se a 
esta obra de interpretação e de iniciação; estendendo á 
Europa civilisada riquezas que só pertenciam a um povo, 
exaltam-lhes o valor pela clareza e com essa forma com que 
as revestem, de que tôm sós o segredo.» * 

Estas palavras de Hildebrand exprimem o facto que ca- 
racterisa 'a transformação do Romantismo na Europa, « que 

1 Bisforia ãa Utter^ greg.^ Introd* xivi. 



490 HISTORIA DO SOMASTIBMO EM PORTUGAL 

mais cedo se operoa na Âliemanha, como o vimos nas pa- 
lavras de Gervinas: c transição da poesia para a sciencia e 
do Romantismo para a critica.» Foi em 1865, que o Roman- 
tismo eoranuelico recebeu em Portugal o primeiro ataque 
da critica, e a poesia a primeira aproximação da sciencia e 
da philosophia, na lucta litteraria conhecida pelo nome de 
Escola de Coimbra. Estavam acostumados entre nós a con- 
siderar a litteratura como um divertimento, sem relação 
com o meio social; escrevia-se por uma iiabil curiosidade» 
e a syntbese do talento resumia-se n'esta plirase: um es- 
tylo á procura de uma ideia. O movimento d'esse espirito 
novo foi acompanhado em quanto deu escândalo; como não 
provinha dos indivíduos mas da época, o seu triumpbo 
consummou-se apesar da indiOerença publica e das conspi- 
rações do silencio. É por isso que pôde já ser historiado 
nas suas três phases critica, democrática e philosophica. 

Como todos os homens que ultrapassam a media da exis- 
tência se tornam retardatários nas suas opiniões, Castilho 
condemnou â manifestação da moderna intelligencia portu- 
gueza, e arvorou-se em chefe, desde 1865 até 1875, em 
que morreu, do grande grupo dos auctorilarios que consti- 
tuem a Ptdantocracia portugaeza. Tudo quanto era médio- 
cre achou apoio em Castilho, não com o intuito de animar 
os talentos indecisos, mas de perverter o jq^zo e amesqui- 
nbar os talentos provadois. Castilho nunca disse uma pala- 
vra do grande ly rico João de Deus, e dos que se lhe se- 
guiram só deixou cair equívocos monosyliabos. Diante dos 
impulsos de iniciação litteraria, tornou-se mais ferrenho tra- 
ductor, e traductor na forma quasi inútil de paraphrasta. 
As traducções não tinham um fim, um intuito, um qualquer 
espirito de revelação artística; agarrava-se ao primeiro li- 
vro que lhe caia debaixo da mão. Hoje era espalmado Ane* 
creonte de uma traducção franceza em prosa para sonoro- 
sos versos portuguezes, úias sem nos darem uma comam- 



CASTILHO 491 

V 

nicação com o ideal da Grécia; amanha atacava as comedias 
de Molière recebendo da Academia das Sciencias os proventos 
de metade das edições, que se espalliavam com abatimento 
por todos os alfarrabistas; jDor flm lembra-se de Goethe, e 
para afikmar que também tinha o sentimento romântico» 
traduz o Fausto de uma qualquer edição franceza, sem a 
minima preparação prévia, e com a mais ingénua confissão 
de inintelligencia da obra. Esta versão foi-lhe fatal ; a nova 
escola revolucionaria esmagou-o, e a todos os seus defen- 
sores, na chamada Questão faustiana, a que adiante alludi- 
remos. Não se querendo dar por vencido, abalançou-se á 
traducção do drama de Shakespeare, Sonho de uma noite 
de S. João; imaginese como um acanhado humanista de 
convento, sem saber inglez, comprehenderia a elevação ar- 
tística d^essa concepção baseada sobre as tradições celto- 
saxónicas 1 Castilho sentiu perder-se-lhe o seu poder espi- 
ritual, e que a mocidade o evitava; a sua morte teve essa 
opportunidade, que Augusto Comle considera uma condição 
necessária de todo o progresso humano. O juizo acerca do 
seu mérito resume em uma palavra, que se conservará 
como a fórmula definitiva da sua individuahdade litteraria 
— era um árcade poslhumo. 



492 HISTOBIA DO BOlTAimSMO EM FOBTUQAL 



% III. — (De 186S a 187S.) — A pedantocracía portogoeza dirigida por Casti* 
Ibo. — Diesoiação metaphysica da Escola de Coimbra cootra a apathia meu* 
tal Áo atrazado meio romântico.— Pba:;es da Escola dissidente de Coimbra: 
a) Periodo da indisciplina poética oa Universidade, e saa presistencia 
actual; b.) — Periodo de critica bístorica e comparativa, propagado ao Por- 
to, c) — Periodo de seotímenlalismo democrático em Lisboa, e disciplina em 
opinião positiva.-— O advento da Pbrlosophia positiva. 

Sob a influencia dos três priacipaes vultos da transfor- 
mação romanlicsT da litleratura porttigueza, formou-se em 
Lisboa uma sociedade com o titulo de Philomatica, á qoat 
pertenceram Rebello da Silva, Mendes Leal, Lopes de Men- 
donça, Lt!iz Augusto Palmeirim, António de Serpa, Latino 
Coelho, Andrade Corvo, então ainda jovens, e cheios de 
esperanças. A esta mesma phalange pertenceram os jornaes 
litterarios A Época e a Semana, Em vez de se porem ao 
corrente do movimento scientifico da Europa, trataram de 
seguir as pizadas dos mestres; conlinuou-se a escrever ro- 
mances hiètorícos, & maneira de Herculano, criticas littera- 
rias á maneira de Castilho, poesias pelo gosto da escola do 
Trovador de Coimbra. A Sociedade Philomatica teve o vicio 
orgânico da eraphase rhetorica, e do fetichisrao littera- 
rio; nSo tratou nenhum sócio de adquirir para o seu es- 
pirito uma qualquer disciplina philosophica, e em philoso- 
phia contentavam se com o theologismo-metaphysico chris- 
t5o; em politica eram todos monarchicos e idolatravam sem 
motivo a casa de Bragança; nos estudos históricos conten- 
tavam-se com phrases de um patriotismo banal, que se re- 
flectia essencialmente no lyrismo d'esse tempo. Faltou á 
Sociedade Philomatica o conflicto de opiniões, e uma ctara 
comprehens5o das necessidades moraes da sociedade por- 
tugueza; os jovens escriptores nlo a elevaram, mas eleva- 



cASTiLSo 493 

ram-se a si, tornam-se jornalistas do mesmo partido mo- 
narcfaico, e representantes do povo por chaticella ofScíal, 
esterilisando^se nas transigências da ambição do poder, que 
escalaram por torno. A Sociedade Philomatica converteu-se 
espontaneamente n'uma liga de ambiçSes politicas pessjoaes; 
perante o paiz fez-se por muitos annos um simulacro de 
opposição parlamentar, e sem trabalho scienlifico apodera- 
ram>se de todas as commissôès rendosas da Academia das 
Scíencias é dos differentes ministérios; Rebello da Silva 
publicava uma Historia de Portugal subsidiada pelo gover- 
no; Mendes Leal continuava na Academia as collecções en- 
cetadas pelo Visconde de Santarém; Latino Coelho seguiu 
a mesma vereda pelo ministério da guerra, etc. Todos se 
julgaram grandes* homens e talharam-se entre si purpuras 
do génio; o publico costumou se ás celebridades nSo dis- 
cutidas, porque a imprensa de Lisboa illudia systematica- 
mente a provinda. O periodo do Elogio mutuo corria sem 
protestos. Quando um dia a província reagiu contra este 
marasmo mental, o facto foi repellido em Lisboa com uma 
virulência desesperada. 

Todos os movimentos sociaes provêm na maior parte das 
noções que motivam os actos da vontade individual; se 
uma sociedade estaciona, se uma forma de governo se es- 
terilisa, se uma litteratura decae na corrente da mediocri- 
dade, é porque essa sociedade, esse governo, essa littera- 
tura n5o têm ideias. É o que se observava era Portugal, vi- 
ctima de ura constitucionalismo conservado pela ausência 
de critério politico, e com uma litteratura banal e sem in- 
tuito, inspirada por uma ignorância absoluta de qualquer 
aspiração da sociedade. Como* provocar n'estas condições 
interesse ou curiosidade pelas ideias? Agitando os espiri- 
tes, dissolvendo as admirações, quebrando os velhos mo- 
delos ligados a ideaes de convenção; era o legitimo Sturm 
und Drang do romantismo. 



494 nsTOBU do sohíotumo sk postuoál , 

Proclamar qualquer ideia no meio d'èsta beatitude iotel* 
lectual do Elogio mutuo, contradictar a critica dogmática 
dos parallelos lilterarios» era como um attentado contra 
a pátria, contra a ordem politica e atè contra a moral. Diz 
Speocer: «Nenhuma revolução nas ideias se faz sem di- 
laceração» ; ^ por isso algumas aflirmações dos escriptores 
dissidentes de Coimbra em 1865 provocaram sarcasmos dos 
velhos mestres, que se converteram em polemicas acerbas 
e em violências maleriaes, chegando até a eccoar no par- 
lamento portuguez os presagios por esse symptoma de dis- 
solução 1* Ê tempo de se estudar este movimento de dissi- 
dência, originado pela iniroducção de um espirito novo em 
Portugal; e que foi por algum tempo conhecido pelo nome 
de Escola de Coimbra. Divide-se em três phases caracte- 
rísticas esse movimento inaugurado pela renovação de um 
critério intellectual : a primeira phase, que começa em 
1865, foi exclusivamente poética e metaphysica, concen- 
trada em Coimbra; a segunda phase, que começa em 1868, 
manifestoií-se no Porto com a propagação de trabalhos his- 
tóricos em que se applicavam os novos processos da critica 
comparativa; a terceira phase, data de 1871, iniciada em 
Lisboa pelas Conferencias democráticas do Casino, em que 
preponderava ainda a indisciplina metaphysica, que foi inu- 
lilisar-se no myslicismo societário, até que começa a nova 
orientação mental pela propagação da Philosophia positiva, 
que levou os phenomenos apparen temente desvairados da 
politica a subordinarem-se ao critério da Sociologia, aca- 
bando com a perturbação revolucionaria. 

O único ponto do paiz onde se julgaria encontrar algu- 
ma actividade mental, alguma aspiração generosa, era n'esse 
foco de mocidade e de efllorescencia moral, em Coimbra, 



1 Primeiros Principios^ p. 122. 

2 ReferimO'Dos a um discurso do sr. Tbomaz Ribeiro. 



CASTILHO 495 

«nlre as gerações, académicas, formadas do que ha de mais 
Tigor e de mais futuro em cada provincia. Infelizmente 
^ morte politica infligida a Portugal com a intervenção ar- 
mada em 1847, pezava também sobre a mocidade de Coim* 
l)ra, trocista e sem comprehensão das necessidades do seu 
tempo; quando entrámos em Coimbra em 1861, ainda che-, 
gamos a vêr coladas pelas paredQS proclamações impres- 
sas que diziam: Viv^a D. Pedro V absoluto. A mocidade 
-percebia assim a historia, e aflirmava a sua affeiçâo ani-' 
^uilando o futuro. Quando depois da morte de D. Pedro v, 
o seu successor passou por Coimbra, a mocidade acadé- 
mica jazia então na mesma insensatez, e por uma commis- 
sao composta além de outros estudantes, de Vieira de Cas- 
' tro, foi-lhe entregue uma Felicitação onde se lêem estas 
-assombrosas palavras: «Os filhos da Universidade de Coim- 
bra, ao tactearem ,n'esta hora com a mão o solo do sea 
pàiz, sentem lá dentro no coração de todoelle a febre ver- 
tiginosa do enthusiasmo, e o anciado estremecimento dos 
grandes júbilos! Passa o Rei e a Rainha de Portugal 1 ..• 
Logar pois^á Academia de Coimbra, alma de vinte annos, 
alma também enamorada, que tem uma crença, um braço 
6 uma ideia para vir depor como oblata n'esse trajecto, aos 
pés da sua Rainha e do seu Reílr A baixeza excede os dis- 
parates, da Academia com as mãos pelo chão, e dasphra- 
ses incisivas em estylo de canto de papagaio. A Academia 
de Coimbra estava em um tal gráo de inconsciência. O rei 
respondeu á Felicitação, arvorando-se em antigo poder pa- 
ternal, do velho estylo da chancellaria de D. João vi: «Saem 
do coração as manifestações da vossa dedicação. Do cora- 
ção as agradeço e retribuo.— Retribuo-as e agradeçoas 
tanto mais, quanto mais espoirtaneas, tanto melhor, quanto 
abrangem tudo o que no mundo Me disvella— a Minha fa- 
mília como homem, a Minha grande familia como Rei,» E 
antes de concluir affirma, que «05 mais invejáveis títulos 



496 aisTOftiÁ DO mouAxiuhío em pobtugal 

dõssobeianos são h&je (1863!) os de pães e amigos do seu 
povo. » * 

Nioguem poderia suspeitar que no meio d'esta geração 
nulla, existiam conscieucias isoladas que se insurgiam, e 
que reagiam ousadamente contra a dissolução d'esse de- 
plorável meio. Essa reacção manifestava-se pelo protesto, 
como o da Sala dos Capellos em 18G!2 contra a disciplina 
inquisitorial da Universidade; pela formação de sociedades 
de livres-pensadores como a do mio; por uma linguagem 
cheia de aspirações servidas por uma metapbysica, que se 
applicavii á critica litteraria, á poesia, á politica, a tudo. 
Vivia-se em uma atmosphera de ideias recebidas de Prou- 
dhon e de Hegel, e comprehendia-se a historia pelas nar- 
rativas emocionaes de Michelet, e a poesia pela audácia 
descriptiva de Victor Hugo. Castilho presentiu que não po- 
dia ser adorado n'esse meio mental, e lançou-Ihe um raio 
da sua cólera clássica, destituindo os nebulosos, confundindo 
as novas ideias com os disparates de linguagem dos uni- 
versatarios que «tacteavam o solo do séu paiz.» Anlhero 
do Quental i pretextando abstenção de intuitos litterarios, re- 
plicou de um modo directo aos apodos de Castilho; tinha 
ainda a incoerência de ideias e preoccupação do estylo, de 
que nunca se libertou, mas essa réplica em forma de carta 
produziu uma grande impressão sobre o publico'. 

Na Carta Bom senso e bom gosto escrevia Anlhero do 
Quental atacando a pedantocracia : «Refundem-se as cren- 
ças antigas. Geram-se com esforço novas ideias. Desmoro- 
nam-se as velhas religiões. As instituições do passado aba- 

^1 Um documento ainda mais yergonhoso para a mocidade académica, é essa 
Rc[)r«6ealaçAo de abril de 18B4 ao Bei, pedjndo-lhe o perdão de acíOj com o 
seguinte foiídamenlo: «Voar depressa ao centro da familia para juntos orarmos 
a Deus pela diiatação das vidas do Rei e da Rainha de Portugal; para o céo 
deitar eair orvalho benéfico sobre a existência tão cara e ião necessária do prtn- 
fíipe D. Carlos.» Os poderes puidicos iiilo se achavam ealâo o'este gráo de idia- 
tia, e a itepresentação dSo foi atteodida. 



cuiviBao 4SFI 

kih*^e: ;0 fotttro Mo aparece ainda. £, enlré estas diiví- 
âas^ ; estes. .atoario8,Bstas incertezas; a^ aimas sentemi-se 
meQores; mais trisles, menos ambiciosafs de bem, meaps 
dispões aa skriõcio-e ás atoegacSes da^ consciência. Ha 
Ioda iisma. Humiaidadéiein dissolução, de que é preciso ex- 
trahiriufloia Hainianida^e viva, $&, crente e formosa. — Para 
esfe trabalho é qae se qiuerem os grandes homens. Sairão 
esses' "beéoes das Academiaetittterarias? das arcádias? das 
sabe curas >opulef>la$? dos corrilhosdq elogio muluo? SairSo 
as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvacioras do 
ohocfue das maledicências e dos doestos? Nascerão as de** 
dicâçôes do crosamento da& vaidades? Diarão a grande no* 
vidade osi^edoreâ de Horácio? Inventarão as notas forma, 
lás os que díecòram as phrases rabugentas dos livros bolO" 
rentos que chamam clássicos? £ os Sócrates e os Epicte^ 
tos descerão^ para as sues; missões das cadeiras almofada^ 
dás, das rendosas conems Utterarias, das prebendas, das 
eiploraçães^-^Fóra â'ess^ atmosphera corrupta, e, quando 
nâo corrdpta pelo menos esterilisadora, é mais provável en* 
eontrarem-se as condições que precisam para viver e cres- 
cer os bomens istieis e necessários ás transformações do es- 
pirito humano.» A Carta produziu um graude effeito peta 
qae tinha de vagas generalidades envoltas em uma deslum-* 
brante pompa oratória; era a edadè das expansões lyricas, 
e n'ellâs se dispenderam os primeiros esforços. Tinha o sea 
tanto de evolutivo; nada ha mais efficaz para estimular a 
apathia meiatal do que aisedooçãoartistiea. ^ 

^ O Dr. Corrêa Barata, na Remta de Coimbra (n.* 1, 1." serie, 1879) es- 
creve sobre esta época: «Em que peze a maitos é forçoso reconhecer esta 
grande nèunorphòse. £ aftanoe per<ia«oi em eqwottlaoOet yliitoso^kicM sobre 
ae erifCM« aa caasat ou ea anlecedentei d*aale facto, oam aobre os perigos, ae 
•ifoitaaeaa tfoa d'a^ai poéeas advir. EatejaaMs ceriea de qw aia deiormmaçfto 
«oríál 4Ô toimro qM se yrejpara ka «aia lógica, da que d« «oafaoçio artttcial 
dos aossoof ayslOBM. 

«Ea )4 qaaei atoifai do Bflia.o|^oe» qoo ora cooVtdor«da Mn ei academia 
ooa «oaaa.* odtdoteiíÉft áo-fOMaaoirto. BaUlo dagladiaTaia ao êàcoki^ o iik 



496 HisTOBi DO Boiuanmiio em pobtuoal 

A ioâiscípliaa metapbysica iniciada pela escola de Coim- 
bra na forma de aspíraçio revolucionaria aocentuou-se pria- 
cipalmente na poesia; pela primeira vez na litteratora por- 
iQgueza deixou a poesia de iospirar-se do ideal do dmstia- 
oismOy foi Tasga.dameDte aoti-clerical, socialista, republica- 
na-vermelha, humanitária. O lyrismo pessc^l enVergonhou-se 
das peqaenas emoções do individuo e vibrou os grandes 
protestos humanos ; o erotismo amoroso snbstitoia-se pela 
paixão do sacriflclo, pela haliticina^o e enthusiasmo pela 
liberdade. Gantaramrse as dores dos povos oppressos, como 
a Polónia e a Irlanda, caataram^se as revoluções socíaes, e 
as novas formas politicas da Flespanfaa e da França. Para 
uma mocidade que não estava acostumada a pensar, que 
não sabia converter a sua aspiração revolucionaria em opi- 
nião democrática, a pnesía era o único meio de exprimir 
irresponsavelmente essa aspiração, e o modo mais efScaz 
de orientar os sentimentos no^ sentido de um mais elevado 
intuito. No Parnaso portíigaeZ' moderno está representada 
esta phase revolucionaria mas. importantíssima da poesia 
porlugueza, que precedeu a adhesão consciente e positiva 
ás ideias democráticas;- a phase foi provisória, e nem po* 
dia deixar de sèl-o, mas exerceu a acção fecunda de um im- 
pulso novo, para tirar a poesia! do sentimentalismo egoista, 
para dar^-lhe formas mais. espontâneas e vigorosas, imagens 
Kiais profundas, verdadeiras e pittorescas, emfim alargar- 
ttie. os espaços* da tdatlisaçã0..As6Ím íicott.a poesia trans- 
formada nas suasi normas para. receber as si^^tões ai- 
truistas provenientes da moderna concepção positiva do 



d4T4 ooi.v^gtrftfilalMophia doftKftnl,*éM fie^ >6 dM Fiehte. Dii Jaks Smtj» 
^ae «flle»«philMO|rkof«lambia fo*an n^^sau ]»«ft €•«• qatOMn i ée M aê ét 
vma erai^rtbotegieií. CàvoíMlá pMtantD.tMas ímé^íomm thMípa» dbann 
ik)^ áO!boMMi»l»«lmMeoit#8£«D<^'À|iJfaaiitai «ipirilii^qpid-sftinoiwitaojéaitlM- 
Tersidade, -alguDs ai eslSo bem conhecidos, os qoaes, se.^Mi «• imgaa a, já 
ÊÊÊtmkm ••t«itMniigméfiiii/qnoo»a|)»iiiM.^(hii|MsiiitiMhi idat;c«|ot|toO« 



uniferso; depois d'essa phase revolucionaria» metriãca-$6 
bem, com vigor» com audácia, com colorido, a poesia paira 
em vez de arrastar-se, e só lhe falta que os talentos que a 
modulam se fortíQqaem por uma educação intellectoal. A& 
Odes modernas de Anthero de Queutal representam o pri- 
meiro impulso revoluciopario ; muitos outros livros e iomi* 
meras poesias dispersas pelas ephemeras revistas litterarias 
dos últimos quinze annos, pulsam a mesma corda sem mo- 
notonia^ com uma certa uncçSo mystica de justiça^ e pôde- 
se já dizer com alguma influencia sobre o espirito publico* 

A Escola revolucionaria de Coimbra, inaugurada na poe- 
sia, estava sujeita a uma grande responsabilidade— o tra- 
balho sério; n3o se pôde ficar inertemente rapaz de espe- 
ranças, e era preciso aproveitar uma certa hostilidade da 
opinião publica para lhe fallar a verdade sem rodeios. A 
primeira cousa a fazer, era fundar uma disciplina crUica 
para dissolver a falsa admiração, uma das principaes causas 
<]à nossa decadência intellectuaL No começo doeste século^ 
quando os fados da Revolução franceza tinham desorien- 
tado os espirites, Francis Jeffrey, o fundador da Revista de 
Edinbourg, comprehendeu primeiro do que ninguém a ne* 
cessidade de dirigir o senso critico, e a elle se deve o de* 
senvolvimento e triumpho do partido liberal em Inglaterra. 
Pbilarète Chasles, historiando a vida d'esse homem extraor- 
dinário, parte doeste seguro ponto de vista: <0 senso cri- 
tico ligado ão senso moral por liames profundos; ou antes» 
sendo um o modo inteliectual do outro, aoibos são aceor-» 
des em negar a mentira, para que cada um possa. ássega* 
rar as bases do verdadeiro, acreditar no que merece crença, 
amar o que merece ou impõe o amor, emfim dar á vMa 
humana o seu fira serio, e o seu destino real de fè, de pen- 
samento e de acção.» Na historia inteliectual da Alíemanha, 
como o observa Gervinos, a elaboraçãtr poefica doroman- 

11)0 dissolveu-se em crítica e sciaocèa, eioi .por .essa. via« 



500 HISTORIA DO BOMAinmCO BH POBTUOAL 

que O povo aUemSò cáoMDhou para a consécusslo da liber- 
dade politica. Na lacta do espirito moderno contra a reac- 
ção estúpida da Restauração em França, que pretendia re« 
stabelecer na sua forma exterior o antigo regímen, for pelos 
processos criticos iniciados pela mocidade do Globo, dirigi- 
da por Dubois e Jouffroy, que esse espirito orientado pe- 
los princípios de 1789 pôde manter as conquistas da liber- 
dade civil. Às leis psycboiogícas exereem-sé com a mesma 
fatalidade. Depois da transformação da poesia, era essen- 
cial fundar a discipUna critica; para as Litteraturas, a base 
critica consiste em começar o seu estudo pelo elemento tra- 
dicional, partindo d'ai para avaliar as concepções individuaes 
segando a mais alta comprehensão d'esse elemento; ^para 
a Politica, a disciplina consiste em restabelecer o encadea- 
mento histórico, e vér até que ponto está de accordo com 
as ideias, muitas vezes realisadas nas instituições de outros 
povos. ^ Para reagir contra o felichismo das individualida- 
des, que exercem sobre a opinião : publica um poder de 
perversão, o processo critico consiste em seguir o systema 
empregado por Eckermann, pintar o individuo no que elle 
tenha de mais intimo ainda, comtanto que se descubra o 
determinismo dos seus actos. A Escola de Coimbra mani- 
festou-se no Porto em uma phase exclusivamente crítica. 
Os factos são como os objectos, precisam de uma distan- 
cia conveniente para serem bem comprebendidos ; em quanto 
a pedanlocracia portuguesa atacava com a sua longa aucto- 
ridade os esforços d^aquelies que tentavam uma renovação 
litteraría e scientiãca n'este paiz como que affastado das 



1 Tal foi o pensamento da colleccíoaaçio do CancioMirú a Romanceiro fera' 
portuguez ( 1867- 1869) da realUaç&o da Historia da LUteratura portuguoza 
(1869 a 1871) e da crítica comparativa na revista Bibíiographia da Historia 
• Litteratora. 

> No deieovolvimente das doBtrioas democráticas interrompidas eon a morU 
de Heoriqoes Nogqeira, o restabelecimento da continoidade liislorica fat pra» 
Talecer o critério etkoieo de Feitralitmá. 



OÁBnxjBO 501 

correntes de civiisaçSo, os grandes escríptores ft*ancezes, 
italianos e allemSes yiam o que esses mesmos innovadores 
n3o se atlreviam a vêr, viram na unidade dos seus esfor- 
ços individuaes a manifestação de uma Escola vigorosa peia 
afSrmação revolucionaria, embora pequena pelo nuáiero. 
Essa Escola chegou n'este paíz a ter um nome de ludibrio; 
cbamaram-lbe Coimbrã, por causa da dissidência da sua ori- 
gem ; só os escríptores estrangeiros, que a conheceram no 
seu período de desenvolvimento logo que se propagou ao 
Porto, é que a consideraram na sua força evolutiva e or- 
ganicamente transformadora, chamando-lbe Escola critica. 
A contar de 187^2 é que começa o verdadeiro interesse da 
imprensa estrangeira pelo que se estava passando na litte- 
ratura portugueza; em Portugal só muito tarde se sentiu 
a realidade de lima transformação nos sentimentos, nas 
ideias, na linguagem e nas afflrmações politicas e littera- 
rias da geração moderna; tacitamente se acceitou a sua su- 
perioridade, e só em 1876 e 1877 foi reconhecida com fran- 
queza. Alexandre da Conceição na Evolução * de Coimbra, 
Ramalho Ortigão nas Farpas, * e Horácio Esk Ferrari, na 



1 «tA litteratura despe a desbotada tónica romântica, expressão artística das 
«therisàçõee incoercíveis do espiritualismo philosophico, e conseia da sua grande 
miâSilo evangclísadora, apossa-se das altas verdades da pbilosophia e do mo* 
vimento scientífico contemporâneo para as mostrar, adornadas com todos os 
primores da poesia e com todos os esplendores do entbusiasmo, ás multidões 
sequiosas de novos ideaes. 

«Em Portugal, digamol-o sem devaueios de patriotismo obscuro, mas tam- 
bém sem pessimismo rabojento — esta immensa transformação nas idéas e no 
ponto de vista critico acba-se já brilhantemente affirmada nos estudos histó- 
ricos e lítterarios, e nas concepções poéticas e artísticas; para o demonstrar 
bastará, entre muitos, citar os nomes dos srs. Ântbero do Quental, Theophilo 
Braga, Oliveira Martins, Luciano Cordeiro, Ramalho Ortigão, £ça de Queiroz, 
(juerra Junqueiro, ele. 

«tHa dez annos que se manifestaram os primeiros symptomas d*esta formosa 
evolução litteraria, e já boje a nova escola conquistou os direitos de cidade, 
posto que seja ainda olhada como suspeita pelos espíritos tímidos e educados 
no velho regimen auctoritario.» (A Evolução, n.° 1.°: Inlroduc. Coimbra, 1876.) 

2 a Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens 
que lêem, a (uocção da publicidade ^é predominar nos espíritos — ou seja lison- 



502 HIBTOBIA DO BOMAVTIlSlfQ EM POBTUGAL 

I^monia portagueza, *■ proclamam a si:^remacia da noi?a 
escola. Apoiemos os seus joizos com a auctorida'de dos sá- 
bios estrangeiros^ qae primeiro sonberam comprebeoder 
este movimeoto. 
A propagação da escola revolucionaria no Porto come- 



geando os, oa seja combatendo- os. Toda a obra lítteraria dá um d'esses resal- 
lados; ou se adapta is opiniões existentes e as consolida, ou reage sobre elias^ 
6 as decompõe. Toda a litteralura ou é conservadora ou é rewlucíotúiria. Que- 
remos dizer: ou transige passi?amente com as condições do meio social ou se 
debate contra o obstáculo que a influencia desse meio lhe impõe. • Em seguida 
Bamalbo Ortigão caracteriâa de um modo lúcido estas duas correntes iitlera^ 
rias em Portugal: 

«Nos tempos modernos, sob os domínios despóticos, em quanto a obra do 
pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarcbica, como fiuccedea 
em Porlugal durante o império do Santo OíBcio, a litteralura deixou egual- 
mente de ser o livre produoto artístico e cooverleu-se n'um poder do Estado^ 
o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente da íotellígencia e da 
dignidade bumana. 

«Portanto: a primeira condição social para a existência de uma litteratora 
compatível com o progresso é a liberdade. 

tTodo o escriptor português actual nasceu n*esso meio propicio. Todavia^ 
por uma fatalidade physiologica, por um effeito de bereditariedade, falta-nos a 
orientação cerebral da independência. nos£o espirito conserva o st^gma ser- 
fil, o signal da marca que, em muitas gerações que nos precederam, foi dei* 
xando a grilheta da oppressão mental. A nossa tendência de escriptores éaioda 
hoje, geralmente, para lisonjear a rotina, para comprazer com o vulgo, para 
seguir as correntes da credulidade geral. A maior parle dos individues qaefa- 
zem um livro, tem nas precauções da forma, no rebuço das opiniOes, na doblei 
do eslylo, o ar miserável de pedintes que solicitam vénia para divertir inoffen- 
Bivelmente o respeitável publico. 

«Entre as aberrações emioçntes d'esFa tendência geral, como por exemplo 
08 srs. Anlbero do Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Tbeopbila 
Braga oa historia e oa critica, o sr. Oliveira Martins na Economia politica, a 
sr.* D. Maria Amália Vaz de Carvalho no folhetim — apparece-nos o sr. Eça de 
Queiroz no romance. Na pequena Litteratura porlugueza destinada a ser ui» 
agente na evolução das idéas e dos costumes^ um elo no grande encaieimenlo das 
causas e dos e/feitos sociaes, Crime do Padre Amaro representa a obra mais 
profundamente caracterislica, etc. As Farpas^ nova serie, t. viii, p. 79 a 81. 
Lisboa, 1877. 

1 A influencia doeste progresso scienliflco (a pbase essencialmente evololiva 
porque está passando a nossa instrocção superior) cada vez é mais seosiyel ca 
Litteralura. £ interessante o que a este respeito diz no seu livro Mi mision en 
Portugal, o sr. Fernandes de los Rios, escriptor em tal caso inaospeilo, e o 
modo como elle cbama a attenção dos bespanboes para este novo movimeolo 
lilterario que se opera em Portugal, a exemplo, diz, do que se paesa em França 
• na Allemanha. 



çou proprísmenie em 1868; em f 878, toa imprensa por^ 
togaeza, fundoase a BibHogra/phia critica de Historiae Lit-' 
teratura, tomo ntâ or^0< directo de combate. Os intqitos 
são bem dares: cA puMicaçSo da Béliograplm critka 
parte apeoas de um desejo: o de vénnòs o nosso paiz en- 
trar no grande moviniento sdentiâco europen/de qae undá* 
tSo afastado, principalmeiite no qae dk r^peito ás selefif* 
cias históricas e phiiologicas.» Acerca dos obreiros, dizia a- 
intródacçiò: <É mníto pequena a collaboraçao qae espera* 
mos dos nossos conterrâneos; mas ainda assim teremos 
sempre ao nosso lado o pequeníssimo numero de mancámos 
portugmzes que têm comprehendido *a seriedade da sciencia; 
etc.» A Bibliographia critica foi generosamente- acolhida na; 
AUemanha, Itália, França, Inglaterra, Rússia e Hespanha. 
Transcrevendo aqui as palavras de alguns sábios estran. 
geiros, deixaremos authenticada com a sua voz auctorisada 
esta phase da £^o/a revolucionaria, desenvolvida no Porto. 

Na Revue critique de Histoire et LitteratuPei dirigida petos 
professores eminentes Michel Bréal, Gastou Paris, Monod 
e Morei Fatio, no número do 1;^ de janeiro de 1873 es- 
creve o grande romanista Paul Meyer: 

«Portugal é hoje o paiz da Europa em que os estudos 
scientificos estão mais atrasados. A influencia de Inglaierra 
não se faz lá sentir senão sob o ponto de vista politico e 
commercial, o movimento Htterario do estrangeiro é ali 
pouco conhecido, e a cultura nacional acha se em decadên- 
cia. Seguramente no que respeita o estudo da antiguidade 

«Se a litteratura íoflue poderosamente no vi?er intimo das sociedades mo- 
dernaS; d^ellas também é cerlo que recebe a inspiração e a indold. Ao ler as 
mais notareis producções dos nossos primeiros escriptores contemporâneos, 
ninguém dirá, com. verdade que esta ultima pba&e da nossa licteratura revela a 
desorganisação de uma sociedade. 

«E esta a opinião que fazem de nós as nações civílisadas, é esta a opinião 
que á própria Hespanba se impõe, como uma* verdade que conta, por os dias 
que passam, os argumentos que a confirmam.» A Hegemonia de Portugal na 
Península ibérica, p.^20. Lisboa, 1877. 



904 HI8T0BLÍ DO nouàjnwmo bm pobtuoal 

OQ do Oriente» a Hespaiiba oceoqpa um logar potteo eleyado 
relativamente aos outros paizes europeus; mas, ao menos 
no qae toca á historia nacional ha em Madrid e em Barce- 
lona um movimento scleutífico importante. Portugal/ que 
não tem como a Hespanha a desculpa de um estado polí- 
tico pouco favorável aos tranquillos trabalhos da erudição, 
fez pouco para a sua própria historia. É, graças aos traba- 
lhos de M. Ferd. Denjs, em França, de F. Wolf, de Beller- 
mann, de M. Fried. Diez, na Àllemanha, que a liUeratura 
de Portugal é conhecida; foi na Alt^uaiiha (em Stuttgart, 
na Bibliotheca do Litteraturíscher VereinJ, que foi impresso 
o Cancioneiro de Garcia de Resende» cuja edição original, 
publicada em 1516, é por assim dizer iaaccessivel, pois que 
se nao conhecem senão quatro ou cinco exemplares. Em* 
fim, era em Paris (na casa Âillaud) que os sábios portu- 
guezes que tinham conservado o culto. da suaJitteratura e 
da sua lingua, faziam ha vinte ou trinta annos imprimir as 
suas obras. É pois com verdadeira satisfação que annuncia- 
mos uma revista publicada no Porto, a Bibliographia critica 
de Historia e Litieratura, que se propõe exactamente o flm 
que prosegiiimos do nosso lado ha sete annos, e que desde 
os seus primeiros passos, a julgar pelos dois fascículos que 
temos á vista, se colioca a uma altura que não foi certa- 
mente nunca attingida por nenhum periódico de Portugal, 
nem de Hespanha. A Advertência pinta sob cores som- 
brias o futuro que prepara para si um paiz cujo nivel in- 
telleclual desce: a sua prosperidade desapparece, a sua 
nacionalidade mesmo está em perigo. Todavia nâo ha 
rasão para se entregar a vistas pessimistas. Sem duvida 
é .triste Vèr um distincto litterato, o visconde de Castiluo, 
produzir uma traducção do Fausto e declarar no seu pre- 
facio como a cousa mais natural do mundo, que não sabe 
allemão e executou a sua versSo sobre traducções france- 
zas. Mas o remédio está ao lado do mal. Esse remédio é 



. .. / : OâSflLHO 505 

affidie q/m tomos muitas vioe^ dn^cegado aqui mesmo e 
a ,que :não estamos iprtíximòs a renunciar: uma critica ser 
V0ra, âeiE ipíiedade para os presampçoaos. £ ms yêmos 
peh StibUogrofAiay qufe eKsa crítéca não faltou á obra do ai* 
lodido traductor, porque lemos no primeiro fascicnlo d'essa 
revista um exame muito apropriado d'essa traduoção, e no 
segundo a analyse da om largo livro sobre o Fausto escripto 
por um erudito portuguez que parece muito competente . . . 

«Os redactores da BibUoffrapkia nSo se illudem prova* 
velmente acerca do género de successo que os espera: fião 
mettamorphosearão em verdadeiros sábios os que julgam 
sél-o já;— o e:cercito de professores na maioria insigniíican* 
tes— de que sefella na Advertência, ficará o que é. O mesmo, 
succede eatre.Dós, e s:em duvida n'outras parles. 

«Uma. experiência já longa demonstroo*nos que a critica 
è sem efleíto sobre aquelles que nâo estão preparados para 
receber o seu ensioo. Mas, apesar d'tsso nao se deve 
menos apreciar sem franqueza os máos livros; em primeiro 
logar chega-se assim ás vezes a fazer-lhe diminuir a pro* 
ducçao, o que é já um resultado desejável. Depois sobre- 
tudo, uma critica rigorosa, procedendo methodica e dogma* 
ticamente^ é de um excellente efifeitó sobre aquelles que 
não sSo obpcto directo d'ella. Fornece em forma de de- 
nK)nstraclio um ensino, pratico dos mais úteis, e assim se 
forma uma escola de homens novos que podem um dia 
contribuir utilmente para a regeaeração de um paiz.» 

Mr. Paul Meyer nâo conhecia a marcha da escola revo- 
lucionaria portugueza senão pela forma disciplinadora da 
Bibliographia critica; Mr. Gaston Paris, na Romania (n.° 6, 
de 1873) já conhecia mais amplamente os p^roductos da ge- 
ração nova, B apreciando a. severidade e justiça da critica, 
exclama : «II faut bien augurer du succès de Foeuvre de re- 
generation intellectuelle à Jaquelle se sont voués en Portu- 
gal, avec autaut de courage que de taleot, MM....» 



506 BISTOBIA DO BOMAKTim*. EM PORTUGAL 

E aoereseenta: nVmAt tri^iqm z k lotta* md sJèt^- 
ment contre 1» malteitlance qa' everUe partont ane critique 
independente et rígoiireuse, H^aís contire uBeniinleHigeiíee 
satisfaiie quí opposeà ses efforts le plug reldtant dés obsta- 
des, rinertie; mais 11 est impossible qu^elle n'exerèe pas, 
par sa scienee,:par sa boxm% foi, par son energia, une in- 
flaence considérable ^iir <la jeunçsse^ et qo^elle ne se troinre 
pas tòt ou tard en nombresirflSsaQi poor mépriser les ata- 
ques ineptes dont ú\ò est Tobjeet. (Loc. cit, p. 278.) Em 
nota accrescentat: «On ne peot en avoir une idée qaant on 
ne les a pas vues. La plupart des injures adressées à nos 
amis soDt celies que serrent en tout pays aux defenseurs 
de la routine: les auteurs manqueut de politesse, de gout, 
de style, et surtout de patriotisme; ce sont des fils ado- 
ptifs de i^Allemagne, ils feraieut rougir leurs aieux, etc.i» 

Na AUemanha também foram saudados com enthustasmo 
os esforços da escola rerolucionaria portugueza; o dr. Ed- 
mundo Stengel, da Universidade de Marijorgo, publicou na 
Mgemeine Zdtung, de Augsburgo: 

«Portugal offerece-nos também agora uma prova evi- 
dente e agradável da propagação da nova sciencia (a ba- 
seada sobre o inethodo histor^ico comparativo)— e é este o 
mesmo paiz que ató hoje era adverso e antipatbico ás re- 
lações scientificas com as outras nações e que até havia cer- 
cado o seu mercado de livros com uma muralha da China, 
pois que era impossivel obter por intermédio dos livreiros 
as novas publicações portuguezas. A Bibliogi'aphia critica 
de Historia e LUteraiura, cujos primeiros três fascículos 
tenho presentes, resolveu-se finalmente a propagar de uma 
mqneira decidida o methodo scientiflco iniciado na AUema- 
nha e os resultados por elle obtidos, e combater por outro 
lado a escola que até agora tem dominado em Portugal, a 
qual não tem critério scientiflco. É este um propósito lou- 
vável, e tanto mais, quanto é pequeno o numero d'aquelles 



CAtTILKO Õ07 

seifs compalriotas que hão de auxiliar o redactor, manifes- 
tando eUê de mais na applicação pratica do seu propósito 
um tiDO critico seguro, independentemente de toda e qual- 
quer sympathia ou anlipathia pessoal. — O valor principal 
da BiUiographia, para o leitor estrangeiro consiste decerto 
nos artigos que tratam de productos de litteratura portu- 
gueza, todavia merece o juizo dado sobre os outros livros, 
em geral á altura das questões tratadas, a attençSo dos sa^- 
bios estrangeiros, assim como os eruditos additamentos es- 
palhados aqui e acolá, i» (Supplemento ao n.^ 30 da Gazeta 
gerai de Augsburgo, de 30 de janeiro de i873.) 

A missão da Bibliographia critica de Historia e Littera^ 
tara consistiu em estabelecer relações com a scíencia euro- 
péa, dando a conhecer os trabalhos da moderna escola, que 
em Portugal estavam abafados pela conspiração do silencio. 
Na inauguração dos estudos na Universidade de Berlim em 
1875, o Dr. Goldbeck referiu-se louvavelmente á transfor- 
mação litteraria que se passava em Portugal, bem como o 
eruditíssimo Gubernatis na Rivista eurnpêa. 
. Muitos escriptores estrangeiros, correspondendo ao in- 
tuito da Bibliographia critica^ offereceram algumas das snas 
obras aos collaboradores d'este jornal, estabelecendo*se as- 
sim uma admirável fraternidade litteraria; citaremos os no- 
mes de Mr. Littré, Coussemaker, August Reissmann, Ca- 
rolina Michaêlis, Wilhelm Storck, D'Avezac, Asenjo Bar- 
bieri, Emilio Hubner, Theodoro Momrasen, Plalão de Vaxel, 
Reinardsltoetner, Ascoli, G. Muller, Stengel, E. Teza, Pas- 
quale Garafolo, Monaci, Adolf Gaspary, Giuseppe Pittré, 
Mortillaro, Ad. Mussaíia, Amador de los Rios, Hermann 
Suchier, Dr. Lucking, Dr. Grober, Gaston Paris, Paul Meyer, 
Bataillard, e outros não menos distinctos, para quem a evo- 
lução litteraria portugueza mereceu apoio e franca sympa- 
thia. A Bibliographia critica acabou com o primeiro vo- 
lume (1873-1875, pag. 1 a 390, in-8.° grande) por difficul- 



508 msTOJUA DO BoxAvritiio nc fobtuoal 

dades económicas» mas ficou o impulso; pôde-se dizer que 
a escola de Coimbra fortalecida pelo trabalho scientifico e 
lítterario no Porto, assegurou o seu triumpho decisivo, en- 
trando DO magistério. 

No livro de Fernandes de los Rios, Mi Mission en Portu- 
gal, ao referir o desenvoivimento da escola revolucionaria, 
allude aos «pontifices que escomulgaran iracundamente á 
Quental, Braga, Oliveira Martins y òtros bombres de ia es- 
cuela nueva, por haber revelado la verdad critica.» ^ 

Fernandes de los Rios desculpa-se de nâo historiar lar- 
gamente esta transformação litleraria, que passava desaper- 
cebida á pedantocracia portugueza; as suas palavras têm 
um grande valor, não só porque nos apresenta como exem* 
pio á Hespanha, mas porque deixa provada a realidade de 
uma escola com unidade moral, embora os seus obreiros 
se achem desmembrados por effeito de uma longa in- 
disciplina mental. Eis as palavras do severo diplomata, que 
assistiu em Portugal a este movimento no período em que 
a pedantocracia mais o desvirtuava: 

«La forma que me be visto obligado à dar á este libro 
y la necessidad de hacerme cargo hasta de las misérias 
puestas en juego para que el pueblo portoguez me crea, 
dístinclo de lo que soy, ha robado á estas páginas él am- 
plo lugar que debia tener en ellas el estúdio de la evolu- 
tion litterariaj que se está operando en el occidente peninsu- 
lar. Para la nacion que en los albores dei siglo xix pro- 
dujo á Quintana, a mediados dei á Espronceda, y que oy 
se baila entregada, á las corrientes de un lirismo banal, re- 
ducido á madrigales inspirados en los salones de un mundo 
gastado, viejo, absurdo, farsante y testarudo como los al- 
quimistas de la edad media, — babia de ser altamente sor- 
prendente la noticia de la regeneracion litleraria nacida en 

» Op. cii., p. 651. Paris, 1877. 



CASTILHO 509 

Ckwibra, en un eatrecho círculo de jóveoes, esteàdída á 
Oporto, d.e alU á todo Portugal, y que aigun dia llevará á 
Espana la tendência nueva de Francía y principalmente de 
Alemania, á abandonar las queridas pêro ya secas fuentes 
de una inspiracion gaitada, para descobrir en los princípios 
que agítan á la edad contemporânea la base de un senti* 
miento, que en vei de alimentar-se de suenos é institucio- 
nes caducas, busca en los bedios luminosos de la razon Ia 
inspiracion social y naturalista, la aspiracion á la verdad y 
á la justicia; que en lugar de dudar y fantasear afirma y 
combate; que halla en Ias acciones, trivíales á primera vista» 
de la vida ordinária, un caracter y una significacion univer- 
sales, una tendência general á obedecer el mandato de 
nuestro tiempo, las exigências de la civilísacion. Si no me 
queda espacio para revelar esa evolucion de las letras por* 
tuguezas, completamente ignorada, en Espana; sino puedo 
hacer un paralelo entre nuestro estancamiento literário y 
el movimiento de nuestros vecinos; entre el camião, que 
ha hecbo y hace su escuela nueva y el justo tédio que 
nuestro público siente, á los que intentan entretenerle con 
ayes melancólicos õ afectaciones humorísticas, á los que 
sienten, piensan, creen y esperan como en la edad en que 
nuestros mayores se consagraban á la Ímproba tarea de 
matar el tiempo, tampoco he de omitir esta indicacion que 
sirva de busca-pié, á los que quieran saber, y no se arre- 
pentirán de averiguado, lo que literariamente está pasando 



9 



I 



en Portugal. 

Fernandes de los Rios estivera por embaixador em Por* 
tugal durante o reinado de Âmadeo; elle tratara com todos 
os nossos litteratos, e os seus esforços constantes para es* 
tabelecer as relações litterarías entre Portugal e Hespanba, 
tornaram-o capciosamente suspeito de iberismo. Feniandes 



510 HI8T01UÂ DO BOMASTItKO SM POBTUGÂL 

de los Rios em 1871, no ultimo de março, reunia a maio- 
ria dos litterakos poriíiguezes, e foi o objecto príDcípal doesse 
certame auspicioso a leitura da traducçSo por Castilho do 
Fausto de Goethe. Os jornaes desentranharam-se em toda 
a espécie de elogios hyperbolioos á traducçSo, mas nenhum 
soube mais tarde deféodel a das severas criticas de Graça 
Barreto, Àdolpho Coelho e Joaquim deéVasconcellos, com 
que acabaram de demolir o pretendido mestre. Fernandes 
de los Bios teve, n'essa noite esplendida do palácio do Ca- 
Ihariz, ensejo dò vêr em toda a sua imbecil ingenuidade a 
pedantocracia portngúeza, e alguns dos cooperadores da 
nova escola revolucionaria. Um facto lhe não escapou, e foi 
quando começou <á creer que ni los literatos nacidos en 
Portugal y estabelecidos en Lisboa se conocian unos á 
otros.» (p. 646.) O motivo doesta separação era orgânico; 
havia uma dissidência nos espiritos e nas concepções, que 
já se revelava nas obras litterarias. A dissidência dava-se 
no campo politico, pela proclamação franca das ideias de- 
mocráticas, nas conferencias e no lyrismo; davase na his- 
toria pela critica phílosophica, e pela consistência dos fa- 
ctos que conduziam á emancipação do passado ; dava-se na 
phildogia^ pela inauguração de novos methodos, na ar- 
cbeoiogia artística pela investigação das tradições, e na 
creação do romance pela observação realista. Era esta a 
evolução da Hueratura portngúeza, rapidamente entrevista 
pelo embaixador hespanhol, e que elle vein a conhecer me- 
lhor ao passo que foi verificando o valor dos ataques da 
pedàatocraeia, já na conspiração do silencio da parte dos 
velhos, já pelos ultrajes sem trégua da parte dos jovens 
que eUes assulavam contra os novos obreiros. Quando se 
dera a reuniio iitteraría do Galhariz já o movimento da 
nowt escola se desenvolvia no Porto. ' 

A dissolução metaphysica, iniciada em Coimbra pelo ly- 
rismo byroniano, com ideal poli^ e biimanilaria^ qoé se 



Ml 

substituiu ao romaatismo emdnnelieo, reappareceu em Lis^ 
boá sob -a iármaide laspiriiçãQ revoludonaria; a fundado 
éa terceira Republica fraoceza produaa esta corrente dos 
espíritos, que 30 maoifestou petas Conferencias democra* 
tieas do Casino em f87i. Nas bases d'essas Conferencias, 
se preteiídia: «Ligar Portiigal oomomovimento moderno, 
faze»do^> assim nulrír-se dos elementos yitaes de que vive 
a humanidade ci^iflisada. Procurar adquirir a consciência 
dos factos que nos rodeiam, na Europa. Agitar na opiniio 
publica as grandes questões da Pbilosophia e da Sciencia 
moderna; Estadar as condições da transformação politica, 
eéonomica e religiosa da ^eiedade portugoeza.» Este pro* 
gramma foi. truncado peia auctoridade» que mandou feebar 
as Conferencias, ficando assim reconhecida a existência da 
ideia reroluciooaría. Sem esta consagraçlo proselytica, as 
Conferencias cairiam.no Tago, porque sefluctuava ainda n^es^ 
gie estado de metapbifrsica ueroluciònaria da tradição de 1 848, 
e a pronra está no facto de ierem os seus promotores abra^ 
çado o mj^sticísmo societário, que enfraqueceu atè boje to- 
dos os; esforços para a transformaçião politica. Na democra» 
eia europè8ídera«-se £eUzmente. a alteração do critério sen«- 
tímental de f8&8; pdia noção da relatividade em politica, 
pela substituição da& aspirações indisciplinadas em opiniões 
positivas^ .. 

A rei^oluQão de 1848 foEtdaya^se sobre aspirações socia- 
listas ^ não sobre opiniões politi(^s; o sentimentalismo de^* 
moera ticO' alitado à melapbysica> revolucionaria^ fez renascer 
as>'tradi(@e8^ do idetsnio de-Aobespierres<ie a lenda mapoleO^^ 
Biea daí guerra e(Niioq4p podengksoielémentodecíviiisàção; 
apro^eitando-se ã'essa dupla corrèáte^ è qtíe um Bonaparte 
pede ^comtftotter^ o^tnaisHesecrando» prejurio^ éfm^ da'Ea* 
ropa>'iàe6looira>RepQblkáiqve'9be estava (oonfiadaj perset^ 
guir os representantes do poder legislativo, metralhar os 
cidadãos nas riuKid^ SteHS,iaeei:aas*psosm|M}0âsdas>Qm 



512 HI8T0BIÂ DO BOICAmWM BU POKTUOAI. 

ciedcías justas, e asseatãlrsobire esias-baseso seuloiperb, 
que foi recoiíheeiãa de >{H*ompt9 ^pelas moBarcbias da Eu* 
ropa. AproTeilâBdotse das tbeorías socialibtasy e eile mesmo 
declarandose socialista, obtfBve essas estQpeodfas.inaiiifes^ 
tacões plebiscitarias^ com que o suSragia universal foi so- 
phismado, e com. que legitioioq o puder roubado á nação; 
aiGobertado com a leokla nat)oladnica^ qtnz seguida e lançou 
a Euri^a no regímen da guerra, Ei'essà série de camifici- 
uas que envergonham a historia da ultima metade do sé- 
culo XIX, desde a guerra da Grimeia até á guerra^da Prús- 
sia. N'este conflicto de uma politica cesárâsia e.de uma 
metapbysioa revolucionaria,: o espirito francez foi tomando 
Gousciencia da sua ig&omiaiDsa sâtu^ição, e debalde procu- 
raria libertar-se d'elk. ide repente^ sé essa poèitica oesarisU 
com uma preoccupação dynastica não lançasse á nação 6m 
umàí aventura de guerra, e essa metapbysica revoluciona^ 
ria n&o secundasse o grito — a Berliray a Berlim! Foi ao 
Hfôio das ruinas ^o império, uas iuctas das tnès monarchias 
que sonhavam uma restauração, que as noções da Pbiloso- 
pbta positiva começaram a exercer a sua poderosa disci- 
plina. Eis o que diz LafStte: «Seja como fôr, Uma transfor- 
mação considerável se deii desde l&TOj quer %ob a infloen- 
oia dos graves acontecimentos que acabavam de- ter logar, 
quer pela acção lenta e desappercebida da doutrina positiva» 
fezendo recuar gradualmente a metapbysica democrática:» O 
espirito relativo penetrou nás massas populares,. e graças 
á intervenção preponderante de. um homem de estado de 
alta valia, M. Gambetta, prevateceu de uma maneira mais 
ou menos confusa sob o nome de opporíimismo. » ^ As rela- 
ções de Gambetta com Littré, e aapplicação constante do 
critério positivo nos discursos do grande.estadista^ revelam 
que se prooirou fundar a Bepubiiâa não em uma nnidioça 

Hm mimê OteMmrébí (m Mio; b.^ 1, lM,i) ^: Iti» 



eÁBTILHO 



513 



instantânea mas por uma eToluçSo gradual ; d'este modo as 
classes conservadoras viram na Republica uma condição de 
paz e nos novos republicanos homens de governo. Abando- 
nado o sentimentalismo democrático, a Republica deixou de 
ser proselyttca, n2o exerceu perturbação sobre os estados 
monarcUcos, e doesta fóroia a diplomacia européa n3o ma- 
chinou conflictos contra a sua existência. A democracia entrou 
em uma pbase nova> convertendo as aspirações revoluciona- 
rias em <^ni5es, e é por este claro exemplo que está 
adnando em todos os paizes. 

Em Portugal os vários elementos do partido republicano 
^âo comprebendendo isto, substituem a agitação pela dou- 
trina; deve-se isto em grande parte também ã propagação 
da pbilosophia positiva. 

No sen livro, À Philosophia experimentai em Itália, o 
prdessor Espinas apresenta o seguinte problema: <N3o é 
sem interesse o saber se o Positivismo, tomamos a palavra 
na sua mais lata significação, depois de ter attraido a acquies- 
eencia de nm grande numero de espíritos eminentes em 
França, em Inglaterra e AUemanha, obterá as mesmas adbe- 
soes nos dois paizes onde encontra adversários os mais so- 
lidameoite estabelecidos^ a Itália e a Hespanba, á medida 
que estes dots paizes de antiga cultura retomarem o curso 
de seus destinos intellectuaes.» A halia, apesar de estar 
ainda infecta pelo papado, entrou no regímen de mentali- 
dade positiva depois da dissolução espontânea do idealismo 
allemão, que viera emancipal-a da tbeologia; foi pelos pa- 
cientíssimos trabalhos experimentaes que se fundou o cri- 
tério sdentifico que traz os espíritos superiores á disciplina 
positiva. A renovaíção scientifica de um Moleschott, Her- 
zen, Mantegazza, de Lambroso, Tamburini e Lucíani, pre- 
parou o caminho para a elaboração philosophica da syn- 
these positiva; proclamou a nova doutrina na Itália, Villari, 
em 1866, no estudo A Philosophia positiva e o Methodo his- 

33 



514 HI8T0BU DO BQIUKVI0IIO BM POBTUOAL 

torico, seguindo-se 06 dote póte&tes lespiríios AngiuUi e Ar* 
digo ; este ultimo» é coosiderado o Herbert Speneer da Ita* 
lia, pala vastidão das m9J^ $f atbeses. Yê<se portanto coax) 
o positivismo &e expande na Itália por uma eTOlução nàtu<- 
ral: dissolução da mentalidade ti^ogica pelo idealismo 
metapbysico, e diasolu^o d'es(e paio regimen esperimen* 
tal sciontifico. ' ' 

Na Hespanba eontinental. ainda se está no eoBflícto das 
emoçõe$ tbeologioas com as idealisaçees mjeiapbysicas; e 
embora comecem a yulgarisar-^se as descobertas dn scien- 
cia experimental» a pbilosopbia positira está ainda longe de 
encontrar adbesões nos espíritos por íattade uma garantia 
de liberdade, (O peto atraso; da edocaolo puUica. Comtodo 
na lingua hespanhola existem bellos livros de philósopliia 
posítiva^t como a Politica de Lastarria, mas o sen appâre- 
cimento nas Repii|)lica8 bespantolas basta para ekpiicar essa 
actividade meatal. 

Em PortugAl a Pbilòsoplpk positiva foi inaugurada em 
1&72 em um.curso.de Es theíica^ no Ckirso superior de Let- 
trás; i^ sua.iaciLpfoptigâçio proveio da soa opportunidade. 
A educação polytecbnioa e medica, prosefuida como tíim 
modo de vida» oãa fundou entre, nós uma actividade seíen*- 
tiíica, m^s deixou mui((!» espiiritos^milissídencia profuBda 
com os ve^tigios.da mentalidade theobgica qtte se coBser* 
vam nas instituicoaSi e com; a inanidade metapbysica das 
faculdades bum^nistas^ A Pbitosopbia positiva foi abraçada 
entre nós como. uma i forma de emanoipação íntnlleGtual, e 
tende a radicarse como. base critica, sobrenuda n'aqattto 
que Augusto Comte mais recommendava para a propaga- 
ção, d'essa pbitosopbia» a» ^Bpplicações. ^ 

, . . ' . i . • . 

1 Na. revista PhHosúphie poiUkify Mr. iitiré ÚÁ contar il*eâla renoVlcSo 
mental : 

^ «En Poriugal, coróme en Espagne, Ia iheologie dessêcha Í'inteUigence na- 
tÍQsale> et comprima Téssor des sciepces posliifes Les granffs évônemenCs qoi 



CASTILHO 515 

A analyse da vida contemporânea, o romance, a poesia, 
a critica litteraria, a synthese histórica, a pedagogia, as 
noções politicas, tudo se revivifica por essa poderosa phi- 
losopbia; escusamos de citar aqui os nomes dos obreiros 
d'esta nova orientação, porque elles são os primeiros no 
magistério portuguez, na própria Universidade estacionaria, 
nas escolas de medicina, e assignam os livros mais actuaes 
da litteratura contemporânea. Emfim a unanimidade produ- 
zida pela base scientiSca disciplinada pelo critério philoso- 
phico revela-se esplendidamente em um facto que bade ser 
na bistoria da nacionalidade portugueza o marco de uma 
éra nova— o Centenário de Camões, em 1880. 



8'accoinplireDt ao dóbut de l'ère coDtemporaine, dissiperent sãos retour, méme 
daos les deax pays leoas si longtemps à l'écart, un regime attardé; et ce qai 
y soccéda, ce fut la metaphysique, sortoot celle qae noos coDoaissons ici aassi, 
et qui ctiercbe one conciliation «otre les seotiments catboliqaes et les é?ideD- 
ces scientifiques. Enfio la philosopbíe positive y penetra eo s'emparaot Tabord 
de qoelqaes esprits toat prepare par le inilieD general ou ?ít TEorope moder- 
no. De sorte que, daos ua iotervallé de temps três court et sãos Tempire de 
circonstaBces particulières, oo voit se soccéder le regime tbéologiqoe, le regi- 
me metapbysíqoe et le regime positif selon la formule de M. Comte. Notez bien 
ceei: VEspagoe et le Portugal furent arretes court par la tbéologie, à Tappro- 
cbe des srieoces po8Íti?es, qui, partout ailleurs, fireot de si étoooaots progrès 
daos le courant du xti síècle et du xvn. L'éffet de cet arrét fut désastreux; rien 
pltts ne germa dans cee deux pays, qui, à eo juger par leur graod éclat au 
XTiii siòcle, aurait apporté no puissaot contíogent à l'ueo?re commune. G^est du 
reste noe expérieoce sociale complete: le regime tbéologique indument proloogé, 
à tout stérelisé; mais íl a été ?aÍDCu par la situatioo générale; les esprits, be- 
nigoement mis eo possessioo d' une liberto relative, se soot portes, par traosi- 
tion, vers la doctrioe la plus voisine, à savoir, la ipetapbysique; et enfio la 
scieoce, qui s'y transplante de toote part y amòoe sa filie unique et legitime, 
la pbilosopbie positire.» 



FIM 



NOTAS 



À p^g. 194, nota 4.— Sobre Frei Àleiaodre da Sagrada Família segaimos as 
datas consigoadas oa obra do sr. Albaoo da SilToirá Pinto, Resenha dat Famir 
liat UtulareSy pag. 46 Em om precioso artigo do sr. Augusto Ribeiro O BUpa 
Frei Alexandre^ iio de Almeida Garrett (no Commercio de Portugal, n.* 247) 
o BoSso patrício corrige a data de nascimento do ?elbo prelado coUocando-a 
em 1736. O sr. Albano da Silveira Pinto, a qnem seguimos, dando o anno de 
1737, accrescenta íntencioftaimente entre pareatbesis: «a data qoe está desi- 
gnada no sen retrato, na Bibliotheca nacional de Lisboa diz 1736: nio é a 
qoe consta dos papeis de familia.» 

A data 13 de judbo de 1761Í é a da sua profissSo, como dissemos; a data 
11 de Junho de 1761 apresentada pelo sr. Augusto Ribeiro como a em que to* 
meu o habito em Brancaoes, é também a seguida pelo er. Albaoo, e qoe oai* 
tiramos por ser uma ninocia Inotil. 



A pag. 187, linha 30: Onde se lé Luiz Midosi, léa-ee José Midesi. 
A pag. 133, lioba 1K: Onde se lé Depois do casamento, Ma se Antee do 
eaeamento. 



ff 



IN.DJp.E 



HISTORIA DO ROHANTISIO El PORTUGAL 



t 



.. ■ PAG. 

Advertência . /, . . • ^ ,,^: 5 

Prelímioar .'. 7 



'Ir 



IDBbk OBRiX 00 AOilA»nSliQ 



I 



§ 1. Gomo a Eoropa ee esqueceu da edade ifiediii. i ^ ..... J ........ . tf 

g %, Marcbii djs ranasceDÇft românica ..•......•, J »•..*••,.«.»... .'. K» 

§ 8. GansaBdoRoinaotistto.... .' • »*vi.r .. U 

A.y A erodíçSo medieval dos bistoriadttrat UMltrMft ......;.'.. » 

a.) O qoe se deve ao elemento romano i7 

l>) O qae se deve ao elemento cbristão 38 

€3Í) O elemento bárbaro oa germânico 50 

By A ftitaçfto da Eatbetioa feios -m^tapbysiefe ; .... ^ ..%%.. «^ i65 

O) As révoloedisMcioMiesMitre os tiovoa nodètnai* * . -75 

§ 4. Porqae chegou o Romantismo tSo tarde a Portugal 85 

g 5. Gomo foi compreheodído o Romantismo em Portugal. '90 

a.) Estado da scíencia histórica 91 

l>) Estado das ideias philosophicas sobre Arte 95 

o) Renascimento de um espirito nacional phantastico 101 

§ 0. Gonsequencias contradictorias 110 

LIVEO I 
ALMEIDA QARRBTT 

(1799 — 1854) 

Parte geral : 119 

1. Educação clássica de Garrett 121 

f. Influencia da emigração de 1828 a 1827 156 

§ 3. Da segunda emigracio em 1828 até á morte de Garrett 200 



LIVBO II 

ALEXANDRE HERCULANO 

^ (1810 — 1877) 
Parle geral S19 



1. (De 1810 a 1830) SSl 

2 (De 1832 a 184C) \ S5I 

§ 3. (De 1846 a 1866) '. . . 313 

LIVRO III 

A. F. DE CASTILHO 

(1800 — 1875) 

Parte geral 107 

§ 1. (De 1800 a 1881) 110 

g t. (De 1^4 a IWI) ^ , 459 

§ 3. A escola de Coimbra. .... 4911 



I 
I 



I 



DEaAi^AçAo 



A propriedade d'esta obra Historia do Roslíntismo e\ 
Portugal, do Brazil, pertence ao 111.°*^ Sr. Domingos Alveí 
Bebianno, negociante, morador na roa de S. Pedro n.® 122 
Rio de Janeiro. 



,» 

l.'*