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A HISTORIA ECONÓMICA 



(HISTORIA UNIVERSAL DO COMMERCIO 
E DA industria) 



VOLUME VI 



DADE CONTEMPORÂNEA 



OBRAS DO MESMO AUCTOR 



Os Réprobos (poema) — Esgotado. 

O Poema do Trabalho. 

A Eleição Camarária do Porto e a politica actual do 
Palx (1895). 

A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. 1 — Edade antiga. 
A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. II — Edade media. 
A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. 111 — Edade media. 
A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. IV — Edade moderna. 
A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. V — Edade moderna. 
A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 

industria). Vol. VI — Edade moderna. 

Na Penitenciaria (poemeto). 
Entre o Breviário (poemeto). 

A Lista Civil, discurso proferido na Camará dos Deputados, na 

sessão de 6 de julho de 1908. 
A Crise Vinícola, discursos proferidos na Camará dos Deputados, 

nas sessões de 6 e 7 de agosto de 1908. 

Projectos parlamentares. 

Novos Projectos Parlamentares. 

O Poema da Vida. 

Comentário ao Código Commercial Portuguez. Vol. I. 

Comentário ao Código Commercial Portuguez. Vol. 11 

O Direito Aéreo. 

O Poema da Amargura. 

Hespantaa e Portugal e suas afiinidades. 

O Direito Internacional. 



A ENTRAR NO PRELO 

A Historia Económica (Historia universal do commercio e da 
industria). Vol. Vil. — Edade contemporânea. 

O Ramo de Oliveira (romance). 



ADRIANO ANTHERO 

Da Academia das Sciencias de Lisboa 



A HISTORIA ECONÓMICA 



(historia universal do commbrcio 
e da industria) 



VOLUME VI 

EDADE CONTEMPORÂNEA 

(EDIÇÃO DO AUCTOR) 



••••<*:;*::••••• 



1925 

IMPRENSA MODERNA, L. DA 

Rua da Fabrica, 80 

PORTO 



Com paciência, estudo, canceira e grande despeza 
de livros, que temos comprado, e grande trabalho sobre 
outros livros, que temos consultado, devendo notar-se que 
as nossas bibliothecas são muito deficientes neste género, 
temos quasi concluído a obra que emprehendemos — A 
HISTORIA ECONÓMICA, ou, por outro titulo, como já 
explicámos no prologo do 5° volume, A HISTORIA UNI- 
VERSAL DO COMMERCIO E DA INDUSTRIA. 

Este volume trata da Europa no século XIX. Ha-de 
seguir-se o 7.° e ultimo volume, que tratará das outras 
partes do mundo, também no século XIX. E, no fim 
desse outro volume, faremos uma ligeira apreciação da 
historia económica do tempo decorrido no século XX. 

Vamos separar, por isso, o estudo do século XIX do 
estudo do século XX, porque, apesar de estar correndo o 
primeiro quartel deste século XX, os phenomenos políti- 
cos, sociaes e económicos que nelle se teem dado, esta- 
belecem uma corrente tão distincta e característica em 
muitos pontos, e tão diversa dos tempos anteriores em 
tantos factos, que nos pareceu de melhor methodo, para 
a mais fácil assimillação da historia dos dois séculos, o 
não confundir a mistura do seu estudo; e tanto mais 
que, nessa ultima parte, havemos de seguir mais estri- 



ctamente o synchronismo, de que falíamos no prologo 
do /." volume. 

Dissemos então: «Na edade antiga, na edade media 
e nos tempos modernos, o commercio e a industria não 
tinham o caracter solidário dos tempos contemporâneos. 
Cada povo labutava como a crisálida no circulo do seu 
isolamento, trabalhando por conta exclusiva dos seus 
interesses, e tendo apenas uma influencia indirecta sobre 
a civilisação geral. 

«E certo que, afinal, a lei providencial da historia 
apanhava, como num órgão universal, essas notas sol- 
tas da grande orchestra do progresso, e ellas chegavam, 
d esse modo, a vibrar unisonas no coração da humani- 
dade. Mas, em todo o caso, era precisa para isso uma 
elaboração lenta e um processo a posteriori, 

«Assim, nessas edades, a par do estudo geral de 
cada época, pode e deve fazer-se em separado o estudo 
particular de cada um dos povos que tiveram então 
figura predominante. 

«Mas, na edade contemporânea, o commercio e a 
industria tem uma corrente cosmopolita, solidaria e 
indivisível, que faz estremecer, ao mesmo tempo, como 
a corda magnética, os recantos do universo. 



«A crise da Inglaterra, por exemplo, actua logo no 
resto do mundo ; a destruição dos algodoeiros nos Esta- 
dos- Unidos chega logo como o gulf-stream aos confins 
da Europa. E, por outro lado, se em qualquer das 
épocas anteriores, os povos notáveis pelo commercio 
eram. poucos, e eram também restrictos os factos da sua 
vida económica, na edade contemporânea, quasi todos 
os paizes tomaram honrosamente o seu logar neste fes- 
tim maravilhoso, que tem por candelabros as fornalhas 
das officinas, por orchestra os sussurros dos volantes e 
o restrugir das machinas, por óleo santo o suor dos 
operários, e por hóstia consagrada a mercadoria; de 
modo que, na edade contemporânea, seria inconveniente, 
quanto ao methodo, e incompetente, quanto ás propor- 
ções do nosso trabalho, examinar isoladamente cada 
uma das nações. 

«Por isso, ao passo que, nas outras épocas, have- 
mos de tratar da historia social e politica de cada paiz 
commercial, relacionada com a sua vida económica, de 
modo a combinar o methodo analytico e o synthetico, 
na edade contemporânea, seguiremos o synchronismo 
compatível com a natureza deste estudo.» 

E, com effeito, a separação dos phenomenos politi- 



cos e económicos, nas edades anteriores, foi-se transfor- 
mando, na edade contemporânea, numa correspondência 
mutua e cosmopolita de causas e de ejfeitos. 

A semelhança de uma nova e grande corrente que 
trasborda por todas as costas, o movimento de cada 
paiz foi actuando logo nos outros povos ; e quasi que, ao 
mesmo tempo, surgiu no geral dos Estados uma fermen- 
tação análoga, tanto politicamente como economica- 
mente. 

Deu-se até n este per iodo uma transformação singu- 
lar na historia politica ; porque, anteriormente, ella 
estava subordinada, regra geral, á influencia dos im- 
perantes, e, ao contrario d isso, nesta edade, foi-se 
subordinando á influencia dos povos. 

E, no movimento económico, deu-se também uma 
transformação análoga ; porque o desinvolvimento 
industrial e commercial de cada paiz, o seu progresso 
e as suas innovações não ficaram, regra geral, isoladas 
logo nos limites de cada fronteira ; antes, por uma 
transfusão universal, foram actuar immediatamente nos 
outros povos. 

E accresce que, na edade contemporânea, começa, 
por assim dizer, também sijnchronicamente, o estudo 



collectivo da humanidade, em vez do estudo egoísta, 
singular e exclusivista de cada nação, como acontecia 
nas outras edades. 

Mas, apesar de tudo o que deixamos exposto, pude- 
mos ainda neste volume combinar os dois systemas — o 
synchronico e o analytico, de forma que, a par da 
apreciação dos phenomenos e factos collectivos, conse- 
guimos incluir nas extensas paginas d' este livro também 
o estudo especial e separado de cada povo europeu. 

Naturalmente, não haveria proporção rasoavel de 
um volume só que pudesse também conter, em separado, 
o estudo dos outros differentes povos da Ásia, Africa, 
America e Oceania; e nem todos elles, teem ainda uma 
vida nacional tão característica para constituírem 
agrupamentos económicos bem dístinctos. 

Por isso, em relação a essas outras partes do 
mundo, não poderemos no sétimo volume combinar tão 
completamente os dois systemas. 



A HISTORIA ECONÓMICA 



CAPITULO I 

Ligeiro esboço da historia politica geral da época 
contemporânea até o fim do século XIX 

Como dissemos no prologo do 1.° volume, a expo- 
sição da vida politica dos differentes povos é muito 
conveniente para o estudo da historia económica; não 
só porque ella explica, e até determina em muitos casos 
os diversos accidentes do commercio e da industria, 
mas também fornece referencias chronologicas para a 
ligação dos acontecimentos. E, no periodo contempo- 
râneo, essa exposição é ainda mais importante que nos 
outros períodos, porque nelle se deram grandes trans- 
formações politicas e sociaes, que influiram também 
mais poderosamente no movimento económico de todo 
o mundo. 

Ora, para maior destaque d'essa influencia, convém 
subdividir a historia politica contemporânea até o fim 
do século XIX, de que trata este volume, em quatro 
épocas, nas quaes as correntes dos factos foram quasi 
determinadas por uma causa ou causas commus, ou, 
pelo menos, similares. 

E, assim, temos que a primeira época decorreu 
desde a revolução franceza até á queda de Napoleão, 
em 1814, época esta em que predominaram as agi- 
tações d'essa revolução e as luctas napoleónicas. A 



12 A HISTORIA ECONÓMICA 



segunda vai desde a queda de Napoleão até á revolu- 
ção de julho de 1830, em que a sociedade foi geral- 
mente abalada pelas luctas da liberdade contra o 
absolutismo. A terceira, desde 1830 até 1848, em que 
a revolução de julho influiu grandemente no movimento 
politico da Europa; em que ficou geralmente assegurado 
o systema constitucional; mas em que despertaram 
varias luctas entre os próprios liberaes, e a fermenta- 
ção socialista e republicana começou a agitar differentes 
Estados. A quarta, desde 1848 até 1870, em que mais 
prevaleceu também a forma constitucional, e com ella 
a estratificação mais ordeira e pacifica dos povos ; mas 
em que, por outro lado, se desinvolveu muito mais a 
fermentação socialista e republicana. Finalmente, a 
quinta época decorreu desde a guerra de 1870 da 
França com a Prússia, em que a AUemanha foi unificada, 
a França desmembrada, e se estabeleceu na Europa o 
regimen da paz armada, continuando mais activa a fer- 
mentação socialista. 



A primeira época principiou, pois, com a revolução 
franceza, que iniciou, ao mesmo tempo, uma transforma- 
ção profunda na sociedade ; porque, então, rompeu tam- 
bém a fermentação activa da liberdade, e sobreveiu uma 
conflagração geral na Europa, que abalou os velhos 
preconceitos, e alluiu completamente o mundo antigo. 

As ideias da Enciclopédia tinham alargado os hori- 
sontes dos espiritos, n'um sentido mais liberal, e como 
diz Castellar, tinham educado na liberdade as gerações 



EDADE CONTEMPORÂNEA 13 



revolucionarias \ O ódio contra a realeza tinha augrnen - 
tado successivamente desde Luiz XV. O absolutismo do 
rei tornou-se geralmente repulsivo, e as despezas da 
corte tornaram-se também odiosas. 

Com effeito, a lista civil não comprehendia menos 
de quatro mil pessoas. A rainha, os filhos do rei e seus 
irmãos, suas irmãs, suas cunhadas, suas tias e seu primo, 
tinham, cada um d'elles, a sua casa particular, que com- 
prehendia quasi três mil pessoas. Só ao serviço da rainha 
estavam quinhentas. 

O luxo d'esta corte era egualmente desordenado. 
As cavallariças reaes continham quasi mil e novecentos 
cavallos, com mais de duas mil carruagens ; e as despe- 
zas d'este serviço montavam cada anno, pela moeda de 
então, a sete milhões e setecentas mil libras ^. O ser- 
viço da mesa, mesmo depois que Luiz XVI ordenou 
certas economias, custava anualmente dois milhões e 
novecentas mil libras. E os creados roubavam escanda- 
losamente, e enriqueciam em pouco tempo. 

Em vista d'esta desordem, o total das despezas da 
casa civil e militar attingia, em 1789, trinta e três milhões 
de libras. E não era tudo, porque havia, além d'isso, 
presentes feitos pelo rei, pensões concedidas aos corte- 
zãos, aos amigos da rainha, a certas familias privilegia- 
das, como, por exemplo, á de Polignac, cujos membros 
partilhavam setecentas mil libras, por anno, e cujas rapi- 
nas indignavam até os próprios embaixadores extran- 
geiros. 



1 Castellar. Movimento Republicano da Europa. 

2 A libra equivalia a um franco. 



14 A HISTORIA ECONÓMICA 



Sob Luiz XVI, como sob Luiz XV, a terrível phrase de 
Argenson ficava verdadeira: A côr te é o tumulo da nação. 

E, a par d'isto, o desgraçado episodio do chamado 
collar da rainha mais desprestigiou Maria Antonieta \ 

Por outro lado, a organisação da administração pu- 
blica produzia também um grande descontentamento. 



1 Esse episodio consistiu no seguinte: Uns poucos de ourives, 
de Paris, haviam reunido, com grandes despezas, alg^uns diamantes 
de rara belleza, e feito com elles um collar que pretendiam vender 
por uma somma então equivalente, pouco mais ou menos, a 300 con- 
tos da nossa moeda. O cardeal de Roham, Esmoler-Mor do reino, 
estava então no desag^rado da rainha Maria Antonieta, e a condessa 
de Zamothe, que era intima da mesma rainha, persuadiu-o de que 
ella dissiparia as suspeitas que, no espirito de Maria Antonieta, se 
haviam levantado contra o cardeal, e encarregou-se de lhe entregar 
a justificação escripta do prelado, a que a própria condessa respon- 
deu por escripto, fingindo atrevidamente uma correspondência entre 
a rainha e o cardeal. Dahi a pouco, disse-lhe a condessa que a rainha 
desejava muito possuir aquelle collar, que, a pouco e pouco, iria pa- 
gando com o producto das suas economias, mas sem que o rei de 
nada soubesse ; e que estava disposta a dar uma prova de regia con- 
fiança ao cardeal, encarregando-o da respectiva compra. O cardeal 
caiu no laço, comprou-se o collar, e este foi entregue á condessa, 
que, antes disso, lhe prometeu uma conferencia secreta com a rai- 
nha, num dos bosques do jardim de Versalhes. Uma rapariga, extre- 
mamente parecida com a Soberana, representou este pape! com tal 
perfeição, protegida pelo escuro da noite, que o prelado se persua- 
diu de que estava effectivamente com Maria Antonieta. Chegado o 
prazo para o pagamento da primeira prestação, descobriu-se o en- 
redo. Os ourives queixaram-se de se lhes não ter pago, e Maria 
Antonieta, indignada de se haver assim abusado do seu nome, exi- 
giu uma satisfação publica. 

Instaurou-se, então, perante o parlamento um processo de que 
não havia exemplo nos fastos judiciaes. Mas, entre todos os accusa- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 15 



Assim, os pesos e medidas variavam de província 
para provincia, e, ás vezes, de um cantão para outro 
cantão, apesar das medidas anteriores de Luiz XI \ 

Nas provindas, chamadas paizes do Estado ^, a re- 
partição dos impostos era feita pelos deputados da pro- 
vincia. Nas províncias, chamadas paizes de eleição, os 
impostos eram repartidos directamente pelos agentes do 
rei. E havia sete tarifas differentes, e sete grupos diffe- 
rentes de territórios para a gabella (imposto do sal). 

Ao sul de uma linha que partia de Genebra e ia 
dar á embocadura do Charente, isto é, nas regiões do 
Rhodano, Dordogne e Garona, todos os francezes esta- 
vam sujeitos ás mesmas leis civis, inspiradas no direito 
romano. Era o paiz do direito escripto. Ao contrario, 
ao norte d'essa linha, era o paiz do direito costumeiro, 
que constava de 185 differentes costumes, isto é, 185 
diversos códigos. 

Havia províncias, onde as mercadorias podiam cir- 
cular livremente ; e outras, cheias de alfandegas interio- 
res, que embaraçavam o transito, e com variada legis- 
lação e differentes regimens de umas para outras. 



dos, só a condessa de Lamothe é que foi declarada ré e condemnada 
a prisão perpetua, depois de açoutada e marcada nos dois hombros 
com a letra V., inicial a voleure (ladra), sentença que fielmente se 
cumpriu n'esta ultima parte. Comtudo, a condessa evadiu-se da pri- 
são, e refugfiou-se na Inglaterra, onde, debaixo do titulo de Memo- 
rias Justificativas, publicou uma série de libellos atrozes contra 
Maria Antonieta. E tudo isto desprestigiou o throno. 

1 A Historia Económica, vol. V, pag. 11. 

2 A partir de Luiz VI, as províncias de França foram divididas 
em províncias que faziam parte do dominio real, ou províncias de 
eleição, e províncias de Estado. 



16 A HISTORIA ECONÓMICA 



A organisação judiciaria não era menos complicada 
que a organisação administrativa. Havia justiças senho- 
riaes, baliados e senescalias . 

As justiças senhoriaes correspondiam aos tribunaes 
de simples policia correccional. O juiz julgava os pe- 
quenos delictos — injurias, offensas corporaes, arruidos, 
embriaguez, etc. Os baliados e senescalias julgavam 
todas as questões dos direitos feudaes. Para os proces- 
sos relativos a impostos, havia os tribunaes de ajudantes 
(aides). E os parlamentos, em numero de doze, eram, 
ao mesmo tempo, tribunaes de primeira instancia e de 
appelação. 

As despezas publicas tornaram-se enormes, e muito 
superiores ás receitas. Os impostos indirectos eram 
cobrados pelos rendeiros, a quem o rei vendia o direito 
de os receberem; e elles, na cobrança, praticavam toda 
a casta de abusos. 

A organisação social era também desgraçada. O 
clero tinha grandes privilégios, e dispunha de fortunas 
consideráveis e de enormes rendimentos, principalmente, 
o clero regular e o alto clero secular. A nobreza, que 
era também privilegiada, possuia egualmente grandes 
fortunas, e exercia quasi todos os cargos públicos im- 
portantes e rendosos ; e ambas essas classes opprimiam 
gravemente o povo. 

O terceiro estado é que não era privilegiado, e 
constava de burguezes, de lavradores e de artistas, in- 
dustriaes e operários. 

A primeira d'essas classes comprehendia todos os 
que não trabalhavam por suas mãos, todos os homens 
de profissões liberaes, professores, médicos, advogados, 
homens de lei, notários, escrivães, procuradores, que 



EDADE CONTEMPORÂNEA 17 

correspondiam aos actuaes solicitadores, homens de fi- 
nanças, desde os banqueiros até os cobradores de im- 
postos, emfim, os grandes commerciantes. 

Essa classe tinha enriquecido durante o século XVIII ; 
mas tinha também sido directamente attingida pela di- 
vida franceza, pagam ^ tos irregulares e ameaças de 
bancarôta, nos últimos tempos. E nasceu d'ahi nos bur- 
guezes também o desejo de uma transformação politica, 
que lhes permittisse vigiar os dinheiros do Estado e 
participar até da sua administração. Demais a mais, os 
burguezes eram geralmente instruidos. Liam Voltaire, o 
demolidor, e Rousseau, o propagandista da theoria da 
soberania do povo e do apostolado da egualdade; e 
estavam imbuidos d'essas ideias. E, assim, ao passo que 
desejavam uma reforma politica, desejavam também 
uma reforma social. 

Os lavradores, em geral, eram colonos, jornaleiros 
ou rendeiros. Segundo a expressão de Richelieu, cons- 
tituiam as mulas do Estado. Todos os encargos pesa- 
vam sobre elles, como impostos director, no importe 
de mais de 50 ^/q do seu rendimento, dízimos á egreja, 
direitos feudaes, o chamado champort (direito sobre 
certas parcelas de trigo), direitos sobre as colhctas em 
favor do proprietário, e direitos banaes ou taxa^, esta- 
belecidas sobre o uso dos fornos, moinhos e lagares 
senhoriaes. E, quanto á terceira classe, os artistas, indus- 
triaes e operários, além de estarem comprimidos nos pri- 
vilégios da nobreza e clero, estavam muito descontentes 
com o regimen das corporações ^, que, de cada vez, se 



1 Sobre este regimen, vide A Historia Económica, vol. 2.°, pag. 
32, e vol. 5.°, pag. 75. 

Volimx- VI 2 



18 A HISTORIA ECONÓMICA 



tornara mais exigente e mais abusivo. E accrescia que 
o contracto commercial com a Inglaterra, assignado em 
26 de setembro de 1786, de que já falíamos no vol. 5.°, 
tinha, pela concorrência d'aquelle paiz, arruinado com- 
pletamente a industria franceza \ 

E para cumulo de ruina e desgraça, a França atra- 
vessava uma terrível crise de miséria e de fome, porque 
as colheitas anteriores tinham sido muito fracas, o pão 
estava carissimo, e, por toda a parte, somente se viam 
mendicantes esfomeados. 

Ora todas estas causas conjugadas criaram por 
todo o paiz, apar de um grande descontentamento, 
uma grande fermentação revolucionaria, 

N'este estado de coisas, estando as finanças desgra- 
çadas, como já dissemos, para cuja desgraça, além dos 
desperdícios da corte e da má administração do Go- 
verno, tinham contribuído as guerras com a Allemanha 
e a lucta com a Inglaterra nas colónias ", Luiz XVI tentou 
levantar o paiz d'essa ruina financeira. Mas, como tam- 
bém já dissemos no 5," volume, os esforços dos seus 
ministros tornaram-se inefficazes. 

Com esperança de um remédio salutar para tudo 
isto, foram convocados os Estados Geraes, que se re- 
uniram em 4 de maio de 1789 ', d'onde resultou a As- 
sembleia Nacional, que depois tomou o nome de Assem- 
bleia Constituinte; e mais ardente se tornou a excitação 
revolucionaria. 



A Historia Económica, vol. 5.", pag. 96. 
A Historia Económico, vol. 5.°, pag. 95. 



^ Os Estados Geraes não se tinham reunido desde 1614. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 19 



Seguiu-se a tomada da Bastilha, em 14 de julho de 
1789, a fugida de Luiz XVI de Paris, com destino ao 
estrangeiro, a sua prisão em Varennes e a sua volta 
para Paris, a Convenção Nacional, a morte do rei e da 
rainha, e o fim da realeza. 

Esta revolução franceza trouxe comsigo a guerra da 
França com a Áustria, Prússia, Hollanda e Nápoles 
colligadas; uma segunda guerra de colligação da Ingla- 
terra, Áustria, Prússia e Itália contra a França; e a in- 
vasão do Egypto e Syria por Napoleão Bonaparte. Veiu 
depois o Directório, de que fazia parte o mesmo Bona- 
parte (1795); a guerra com a Itaha; o consulado d'elle 
(1799-1804); a sua proclamação como imperador (1804- 
1814); e as guerras napoleónicas contra a Áustria, In- 
glaterra, Prússia, Itália, peninsula ibérica e Rússia, até 
que, em 6 de abril de 1814, aquelle imperador teve de 
abdicar em seu filho, indo residir, por accordo das na- 
ções, para a ilha de Elba. 

Depois, em 30 de maio d'esse anno, fez-se o pri- 
meiro tratado de Paris, em que foi proclamado rei de 
França Luiz XVIIl ^ E, no mesmo anno, reuniram-se 



1 N*este período, até o fim do século XIX, o governo da França 
foi constituido da seguinte forma: Luiz XVI, que começou a reinar 
em 1774 e foi morto em 1793; a primeira republica: Convenção Nacio- 
nal, desde 21 de setembro de 1792 a 26 de outubro de 1795; Directó- 
rio (27 de outubro de 1795 a 9 de novembro de 1799); Consulado 
(1800 a 1804); império de Napoleão (1804 a 1814); Luiz XVIII (1814 
a 1824); Carlos X (1824 a 1830); Luiz Philippe (1830 a 1883); a se- 
gunda republica (1848 a 1852); Luiz Napoleão, como presidente d'ella 
(1852); o mesmo Luiz Napoleão, como imperador, sob o nome de 
Napoleão III, (1852-1870). A terceira republica, sendo presidentes 
Thiers (1871); Mac Mahon (1873); Grevy (1879); Camot (1887); 
Casimiro Perier (1899); Félix Faure (1895); Loubet (1899). 



20 A HISTORIA ECONÓMICA 



em Vienna os imperadores, os reis e os estadistas mais 
importantes da Europa. O fim d'essa reunião, conhecida 
na historia sob o nome de Congresso de Vienna, foi or- 
ganisar de uma forma definitiva a carta da Europa, já 
tão alterada pelas guerras do império, e restabelecer um 
equilibrio internacional durável, havendo, comtudo, no 
fundo de tudo isso, um desejo geral de enfraquecer a 
França. N'este sentido, foram-lhe tiradas ao norte muitas 
das suas fortalezas, como Philippeville, Mariembourg, 
Bouillon, Saerrelouis e Zandau. Na fronteira oriental 
franceza, Huningue foi desmantellada, e a Sabóia e 
Nice foram restituídas ao Piemonte. A Baviera foi en- 
grandecida com o Baixo Palatinado. A Inglaterra, além 
do Hanover, que ella conservou até 1837, conservou 
também muitas das colónias que tinha tirado á França, 
e ficou quasi que senhora do Mediteraneo por Gibral- 
tar e Malta e pelo protectorado das ilhas Jonias. 
A Rússia arrogou-se definitivamente a Lithuania, o 
grão ducado de Varsóvia, erigido em reino, e a Finlân- 
dia. A Áustria retomou o Tyrol, a Lombardia, as pro- 
víncias Illyricas e a Dalmácia. A Prússia, mais encarni- 
çada ainda que as outras potencias em abaixar a França, 
estendeu-se até á fronteira septentrional franceza, pela 
acquisição do grão ducado do Baixo Rheno, e engran- 
deceu-se com uma parte da Saxonia e da Pomerania 
sueca e com o ducado de Posen. 

Os Estados secundários também tiveram uma larga 
parte nas modificações territoriaes. Assim, a Hollanda 
e a Bélgica, reunidas, formaram o reino dos Paizes 
Baixos. A Dinamarca foi privada da Noruega, que foi 
dada á Suécia; mas, em compensação, foi augmentada 
com o ducado de Luxemburgo. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 21 



Criou-se a confederação germânica sobre as ruinas 
da antiga confederação do Rheno, e confiou-se a dire- 
cção dos seus negócios a uma dieta de que faziam 
parte a Áustria, Prússia, Dinamarca e Hollanda. 

A Suissa foi engrandecida com mais três cantões, 
Génova, Valais e Neufchatel, e coUocada sob a neutra- 
lidade permanente ^. 

A Itália soffreu uma alteração completa, pela resti- 
tuição de Piemonte ao rei de Sardenha e das Legações 
á Santa Sé, e pela criação dos ducados de Modena, 
Parma, Toscana, Lucca, Massa e Garrara, collocados 
quasi exclusivamente sob a influencia da Áustria, já se- 
nhora da margem esquerda do Pó inferior. 

A Cracóvia foi erigida em cidade livre, sob o prote- 
ctorado das três grandes potencias circumjacentes — 
Rússia, Prússia e Áustria, como para attestar ao mundo 
a antiga existência da Polónia. 

Comtudo, o congresso de Vienna não se limitou nos 
seus trabalhos á modificação dos territórios ; porque 
adoptou também dois grandes principios, que merecem 
ser assignalados— a liberdade de navegação dos rios 
e a abolição da escravatura 

O governo dos Bourbons, descontentou a França. 
Tinha sido restaurado no intuito de governar libe- 
ralmente; mas não aconteceu isto, porque resusci- 
taram com elle todos os erros das antigas governações. 



1 Quer dizer que não podia atacar nenhum outro paiz, nem 
ser atacada por elle, para o que ficou sob a garantia das nações in- 
terventoras do congresso. — Adriano Anthero, O Direito Internacio- 
nal, pag. 367. 



22 A HISTORIA ECONÓMICA 



Por isso, Napoleão, ao vêr o descontentamento da 
França, resolveu tentar novamente a fortuna; e, em 
1815, desembarcou no gfolfo de S. Juan, seguindo n'uma 
marcha triunfal até Paris, onde assumiu outra vez o 
poder. 

Este facto deu logar a uma nova colligação da Eu- 
ropa contra elle, a qual teve por epilogfo, n'esse mesmo 
anno, depois de um governo de cem dias, a batalha de 
Waterloo, em que Napoleão foi derrotado, entregando-se 
em seguida á confiança da Inglaterra, que o desterrou 
para a ilha de Santa Helena, onde falleceu, em 1821 ^. 



2/ época. Após a batalha de Waterloo, Luiz XVIII 
entrou novamente em Paris, e governando sempre com 
tendências absolutistas, alienou as sympathias do povo. 

Por sua morte, em 1824, sucedeu-lhe Carlos X, que 
seguiu o mesmo systema, até que, em juího de 1830, 
houve uma revolução popular, chamada a revolução de 
julho, que o depoz, e nomeou em seu logar Luiz Filippe, 
da casa de Orleans. 

N'este intervallo, em 1815, o imperador Alexandre 



1 Raffy, Repetitions Ècrites d'Histoire Universelle, — Weber» 
Historia Universal, tradução de Delfim de Almeida. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 23 



da Rússia ^, o rei Frederico Guilherme da Prússia " e o 
imperador Francisco José da Áustria ^ celebraram em 
Paris, em 26 de setembro de 1815, a chamada Santa 
Alliança, á qual adheriram todas as potencias da Eu- 
ropa, excepto a Inglaterra e o Papa, este por causa da 
seu exclusivismo ortodoxo, 

Ahi, os três soberanos prometteram governar os 
seus súbditos, como verdadeiros pães de familia, e man- 
ter a religião, a paz e a justiça; de modo que se 
consideravam membros de uma só religião christã, in- 
cumbidos pela Providencia de dirigir os seus gover- 
nados, como se todos estes fossem também membros de 
uma só familia; e convidaram as demais potencias a 
adoptarem os mesmos principios. 

Mas, no fundo das coisas, a Santa Alliança o que 
mais pretendia era converter a religião em vehiculo da 
força monarchica; e para que se realisasse um tal in- 
tuito, houve ainda differentes congressos, como o de 
Aix la Chapelle, em 1818, o de Troppeau, em 1820, o 



1 A Rússia, n'este período e até o fim do século XIX, teve 
como imperadores Catharina II (1762-1796); Paulo I (1796-1801); 
Alexandre I (1801-1856); Nicolau I (1856-1855); Alexandre II (1855- 
1881); Alexandre III (1861-1894) e Nicolau II, depois de 1894. 

2 A Prússia teve como g^overnantes Frederico Guilherme II 
(1786-1797); Frederico Guilherme III (1797-1840); Frederico Gui- 
lherme IV (1840-1861); Guilherme I (1861-1871); o mesmo Guilher- 
me V, como rei da Prússia e imperador da Allemanha, sob o titulo 
de Guilherme I (1871-1888); Frederico III (1888); Guilherme II, 
desde 1888 em diante. 

3 Na Áustria reinou José II (1780-1790); Leopoldo II (1790- 
1792); Francisco José I (1792-1806); Francisco 1 (1806-1835); Fer- 
nando I (1835-1848); Francisco José II, desde 1848 em diante. 



24 A HISTORIA ECONÓMICA 



de Laybach, em 1821, e o de Vienna, em 1821, inspira- 
dos no mesmo pensamento. 

Com a Santa AUiança, as ideias reaccionárias tive- 
ram uma grande protecção dos imperantes, e o próprio 
papa Pio VI! ^ resuscitou, em 1914, por meio de uma 
bulia, a sociedade jesuitica, e restabeleceu também ou- 
tra instituição anachronica, já cahida no esquecimento, 
como foi a ordem de Malta. 

Em todo o caso, a minar e contrabalançar essa 
reacção, o movimento da revolução franceza e as suas 
ideias liberaes fizeram despertar o espirito de emanci- 
pação ou liberdade por toda a parte; e d'ahi se origi- 
naram differentes luctas civis em todos os Estados da 
Europa. 

Em Portugal " esse espirito liberal deu logar á re- 
volução de 1920, e á respectiva constituição; e, depois 
d'isso, á lucta entre D. Miguel, que representava o 
absolutismo, e era secundado pelos sectários d'esse 
regimen, e D. Pedro IV, que havia promulgado a carta 
constitucional de 1826, e pugnava pelo systema liberal: 
lucta essa que terminou, em 1834, pela derrota do mesmo 
D. Miguel na batalha da Asseiceira. 



1 N'este período contemporâneo, até o fim do século XIX, 
houve os seguintes papas: Pio VI (1775-1800); Pio VII (1800-1823); 
Leio XII (1823-1829); Pio Vlll (1829-1831); Gregório XVI (1831- 
1846); Pio IX (1846-1878); Leio XIII (1878-1903). 

2 Em Portugal, n'esta edade contemporânea, até o fim do sé- 
culo XIX, reinaram D. Maria I (1777-1786); D. Joio VI, como regente 
(1786-1816) e como rei (1816-1826); D. Pedro IV (1826-1828); D. 
Miguel (1828-1834); D. Maria II (1834-1853); D. Pedro V (1853-1861); 
Lui7. I (1861-1889); Carlos I (1889-1908). 



EDADE CONTEMPORÂNEA 25 



Em Hespanha \ o movimento popular promulgou a 
constituição de 1812; mas, voltando depois a coroa ao 
systema absoluto, rebentou, em 1820, uma revolução 
militar, dimanada dos regimentos reunidos em Cadiz, 
que o governo mandara embarcar para a America do 
Sul. E de tal modo se propagou essa revolução que o 
rei Fernando VII foi obrigado a jurar a constituição de 
1812, ao que depois se seguiu uma guerra civil. 

Em Nápoles, Fernando III, rei das duas Sicilias ^, foi 
obrigado a acceitar a constituição hespanhola. Aconte- 
ceu a mesma coisa na Sicilia, depois de uma lucta vio- 
lenta. E, no Piemonte ^, deram-se factos análogos, que 
obrigaram o rei Victor Manoel I a abdicar em favor 
do irmão Carlos Félix, depois de ter sido egualmente 
proclamada a constituição. 



^ Na Hespanha, também até o fim do século XIX, governaram 
Carlos IV (1788-1808); José Bonaparte (1808-1814); Fernando VII 
(1814-1833); Isabel II (1833-1868); regência de Serrano (1869-1870); 
Amadeu de Sabóia (1870-1873); Republica (1873-1875); Affonso XII 
(1875-1885); Affonso XIII, d'ahi por diante. 

2 Os imperantes de Nápoles, no tempo de que estamos tra- 
tando e até á unificação da Itália, foram Fernando III (1759-1805); 
José Bonaparte (1806-1808); Joaquim Murat (1808-1815); Fernando 
IV, e depois o I do reino de Nápoles e duas-Sicilias (1815-1825); 
Francisco I (1825-1830); Fernando 11 (1830-1859). 

Na Sicilia, Fernando I (1815-1825); Francisco I (1825-1830); Fer- 
nando II (1830-1859); Francisco II (1859-1860). 

3 No Piemonte, no mesmo tempo, governaram Victor Amadeu 
III (1773-1796); Carlos Manoel IV (1796-1802); Victor Manoel I 
(1802-1821); Carlos Félix (1821-1831); Carlos Alberto (1831-1849); 
Victor Manoel II (1849-1861). E na Itália unificada, os reis Victor 
Manoel II (1861-1878); Humberto I (1878-1900). 



26 A HISTORIA ECONÓMICA 



Na Allemanha, ^ as ideias liberaes fermentaram tam- 
bém com toda a força. Mas a Prússia pugnava pela 
reacção; e, por isso, em breve ahi se organisaram dois 
partidos — o aristocrático, reaccionário e conservador, 
e o liberal, que procurava a organisação politica sob 
uma forma democrática. 

O governo tentou abafar a expansão d'essa corrente 
liberal por numerosas prisões e proscripções. Mesmo 
algumas Universidades foram supprimidas; oppoze- 
ram-se sociedades conservadoras ás sociedades revolu- 
cionarias; e foram adoptadas muitas medidas repressivas. 

Comtudo, a fermentação liberal não passaria do 
campo dos principios, se não tivesse apparecido um 
incidente que mais sobresaltou o Governo. 

Assim, em 1817, que foi um anno de fome intensa, 
(e as grandes calamidades augmentam sempre o des- 



1 Já vimos os imperantes que g^overnavam na Prússia. 
"Em Saxe, governavam Frederico Augusto III, como eleitor (1763- 
1806) e I como rei (1806-1827); António I (1827-1836); Frederico 
Augusto II (1836-1854); João (1854-1873); Alberto (1873-1902). 

Na Baviera, Carlos Theodoro, como duque (1777-1799); Maxi- 
miliano José I, como duque (1799); Maximiliano José, como rei 
(1805-1825); Luiz I (1825-1848); Maximiliano José II (1848-1864); 
Luiz II (1864-1886); Othon I (1886); regência do seu tio Leopoldo, 
d'ahi por diante. 

Em Baden, Carlos Frederico, duque (1771-1806); o mesmo Car- 
los Frederico como grão duque (1806-1811); Carlos (1811-1818); 
Luiz I (1818-1830); Leopoldo (1830-1852); Luiz II (1852-1856); Fre- 
derico I (1856-1907). 

Em Wurtenberg, Frederico I, eleitor (1797-1816), o mesmo Fre- 
derico I como rei (1816-1864); Carlos I (1864-1891); Guilherme II 
depois de 1891. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 21 



contentamento do povo), celebrou-se, com grande fer- 
vor, em toda a Allemanha protestante, o terceiro 
centenário da Reforma; e a recordação d'este grande 
acontecimento despertou geral enthusiasmo. 

Como preludio d'este jubileu, alguns estudantes e 
professores novos da Universidade de Hesse, em me- 
moria da batalha de Leipzig, reuniram-se em Wurtenberg, 
próximo de Eirenach. Pronunciaram-se discursos exal- 
tados; cantaram-se canções patrióticas; e queimaram-se 
differentes livros, em que se preconisava o absolutismo 
e a reacção. E um dos jovens, Carlos Luiz Sand, con- 
cebeu o criminoso designio de matar o conselheiro russo 
Augusto Kotzebue, que era tido como espião e traidor 
em favor da Rússia; e que tinha attrahido o ódio da 
mocidade académica, tanto por isso, como pelas infor- 
mações que dava á corte da Rússia, relativamente á 
Allemanha, e pelos opúsculos e jornal que publicava, 
onde defendia a realeza e os privilégios dos nobres, 
censurando asperamente os propósitos reformadores da 
mocidade. 

Effectivamente, em 23 de maio de 1819, Sand vibrou 
em Kotzebue uma punhalada que o matou, sendo, por 
isso, condemnado á morte. 

Ora, esse attentado, ajuntando-se ao progresso 
d'aquella corrente liberal, fez que tanto o governo da 
Prússia como o da Áustria se assustassem fortemente, 
e mais se accentuassem as medidas repressivas, e que 
a lucta dos partidos tomasse um aspecto mais hostil 
por toda a Allemanha. 

Comtudo, nem todos os Estados commungaram no 
espirito reaccionário d'aquelles dois. 

Assim, em 1816, o grão duque de Weimar, o mesmo 



28 A HISTORIA ECONÓMICA 



illustrado príncipe que havia abrilhantado a sua corte 
com as glorias da litteratura e da poesia, dotava o seu 
paiz com uma constituição. 

Dois annos depois, Nassau seguiu o mesmo exem- 
plo, embora menos liberalmente. No Wurtenberg, tam- 
bém, depois de grandes luctas, se introduziu o systema 
representativo. Em 1818, foram egualmente dadas cons- 
tituições á Baviera por Maximiliano José, e a Bade pelo 
grão duque Carlos. Em 1820, o grão ducado de Hesse- 
Darmstadt obteve também uma constituição análoga á 
dos outros Estados, supposto que um pouco menos 
democrática. 

No norte, a aristocracia obstou muito tempo á in- 
trodução do systema representativo; mas, por fim, as 
-insurreições populares obrigaram os Governos ás exi- 
gências da época; e foi assim que no Hanover se 
instituiu uma assembleia nacional, baseada n'uma cons- 
tituição. 

E, embora essa constituição fosse menos liberal, o 
descontentamento do povo, que se manifestou em diffe- 
rentes motins, obrigou o duque de Cambridge a conce- 
der, com permissão da Inglaterra, uma outra mais 
liberal. 

Em Brunsvk^ick, foi também, depois de vários movi- 
mentos, proclamada uma constituição (1830). 

No Meklemburgo, onde os agricultores ainda eram 
servos, e a burguezia não tinha importância, é que, 
n'esta 2."* época, se não tornou sensivel a expansão li- 
beral; porque a representação nacional ficou sempre 
composta de elementos aristocráticos, e privada do po- 
der legislativo. Mas, já na Saxonia, a fermentação libe- 
ral tornou-se tão activa que obrigou o rei António a 



EDADE CONTEMPORÂNEA 29' 



dar-lhe, mais tarde, em 1836, uma constituição egual- 
mente liberal. 

No eleitorado de Hesse, em 1807, foram restaura- 
dos todos os privilégios do passado, inclusivamente o 
poder feudal e a antiga organisação communal. Mas o 
movimento Jas ideias e uma revolução popular obriga- 
ram o eleitor Guilherme I a dar egualmente ao paiz 
uma constituição liberal. 

E a maior parte dos outros pequenos Estados da 
Allemanha foram também dotados com o systema re- 
presentativo. 

Na Inglaterra, ás luctas napoleónicas, succedeu um 
grande abatimento. O rei Jorge IV ^ entregou-se aos 
prazeres e divertimentos; e, tendo na sua m.ocidade 
caminhado de harmonia com os Wigs, lançou-se depois 
nos braços dos Tories, desattendendo obsecadamente. 
as reclamações do povo. Nos últimos tempos da sua 
vida, tornou-se até mysantropo, e viveu retirado e soli- 
tário, occupando então o logar de primeiro ministro o 
grande estadista Canning, cu^os principios se aproxi- 
mavam da politica dos Wigs. 

N'esta época, os Inglezes alongaram o seu império 
na índia com as conquistas feitas á ^rança e HoUanda 
e com a completa submissão dos Naoabos, que tinham 
sido considerados até então como alliados; e, depois, 
com a submissão dos Mahratas, conseguiram a completa 
sujeição de toda a índia, estendendo assim o poder bri- 
tânico desde o Indo até o Irraouady (1817), em mais de 170 



1 Na Inglaterra governaram até o fim do século XIX — Jorge 
111(1760-1820); Jorge IV (1820-1830); Guilherme IV (1830-1837); 
Victoria I (1837-1900). 



30 A HISTORIA ECONÓMICA 



milhões de habitantes. E, ainda depois de longa lucta, 
conseguiram submetter os Sicks, montanhezes livres e 
independentes, que até ahi não puderam ser domados. 

Também na Grécia, fermentaram n'esta época as 
ideias da liberdade e da emancipação. 

Assim, em 1820, houve um levantamento contra o 
domínio da Turquia, commandado por Alexandre Ypsi- 
lanti. Esse movimento foi abafado pelos Turcos, que 
praticaram então as mais horrorosas crueldades. Mas, 
em 1821, houve outra sublevação, também contra a 
Turquia; e, em 1822, a Grécia chegou mesmo a consti- 
tuír-se em republica, sob a direcção de Manvocordato 
e Demetrius Ypsilanti, irmão de Alexandre Ypsilanti. 

Ainda então, apesar da sympathia da Europa e do 
concurso de voluntários que accorreram de differentes 
paizes, a Grécia não pôde resistir ás forças da Turquia, 
que praticou os maiores horrores e crueldades sobre 
os vencidos. Mas, tendo depois fallecido o impera- 
dor da Rússia Alexandre I, em 1825, succedeu-lhe seu 
irmão Nicolau I (1825-1835), que, em virtude das suas 
sympathias pela Grécia, pôde conjuntar também a In- 
glaterra e França a favor d'ella. E essas três nações, 
depois de terem desbaratado a armada turca, na bata- 
lha de Novarino (1827), obrigaram a Turquia a reco- 
nhecer a independência dos Gregos (1829), cujas pos- 
sessões foram depois, na conferencia de Londres de 
1832, constituídas pela Morea, Livadia, uma parte da 
Thessalia e pelo Negroponto o Ciciadas \ 



^ Governaram, desde então, até o fim do século, Othon I (1832- 
1862), e George 1 (1863-1913). 



EDADE CONTEMPORÂNEA 31 



Mas não foi somente na Europa que, nesta 1.^ época 
do século XIX, fermentava o anceio da liberdade. Na 
America do Norte, já no século anterior se dera a 
emancipação dos Estados Unidos, e com ella o estabe- 
lecimento do governo republicano. E esse exemplo, jun- 
tamente com a diffusão das ideias liberais e o anceio 
da emancipação, que é outro fermento da liberdade, 
levou as diíferentes colónias a proclamarem a sua inde- 
pendência das respectivas metrópoles. 

O México levantou-se contra a Hespanha, em 1812, 
commandado pelo creoulo Iturbide; e o vice-rei foi 
obrigado a assignar um tratado que reconhecia a inde- 
pendência d'esse Estado. 

Não tendo o governo hespanhol ratificado o mesmo 
tratado, o congresso mexicano, votou aquella indepen- 
dência, e elegeu aquelle Iturbide como imperador. Mas 
essa instituição do império desgostou os antigos realis- 
tas e os novos republicanos, o que deu logar a que 
Iturbide tivesse de renunciar ao trono; e o México 
foi, então, convertido em republica (1824), com uma 
constituição moldada na dos Estados Unidos. 

Ainda assim, Iturbide, animado pelas dissensões in- 
testinas, tentou restabelecer o império; mas foi também 
infeliz na tentativa. E, sendo derrotado e vencido, foi 
afinal fuzilado. 

As provincias da América Central, fieis á Hespanha 
até 1821, destacaram-se também, então, da metrópole, e 
juntaram-se ao império ephemero de Iturbide. Só em 



32 A HISTORIA ECONÓMICA 



1824, é que ellas se constituíram em confederação de 
cinco republicas, cuja reunião se tornou completa em 
1828. 

Quanto á vice-realeza de Hespanha em Buenos Ay- 
res, em 1810, sob a influencia dos acontecimentos da 
Europa, tanto essa colónia como Montevideu e o Para- 
guay expulsaram os vice-reis, mas só proclamaram a sua 
independência, em 1816. E, em 1817, o congresso de 
Tucuman occupou-se da constituição, que foi promul- 
gada, só em 1819. 

O Chili libertara-se também, em 1910, para recair 
novamente, por causa da rivalidade dos seus chefes, na 
sujeição primitiva (1914). Mas, em 1817, tornou-se a 
levantar, e, depois de uma guerra sangrenta, pôde al- 
cançar a sua independência, em 1818. 

Em 1811, Venezuella proclamara egualmente a sua 
independência. Esse primeiro grito foi suffocado sem 
difficuldade, especialmente, pelo auxilio do clero; mas a 
insurreição de novo se ateou, commandada por Bolivar, 
que, sendo nomeado dictador, organisou uma guerra 
terrVel e sem quartel contra os Hespanhoes, que, por 
seu lado, se houveram com o mesmo fervor. 

Venezuella e a Nova Granada reuniram-se, então, 
por um tratado, e escolheram Bolivar por generalíssimo 
do exercito colligado. E, no congresso de Hangostura, 
as duas republicas convencionaram federar-se n'um 
único Estado, denominado — Estados Unidos da Colum- 
bia (1819). 

Apesar d'isso, ainda a guerra continuou por algum 
tempo, até que, finalmente, a Columbia conseguiu a sua 
independência, em 1824, nomeando Bolivar seu presi- 
dente. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 33; 



Não contente em libertar a Columbia, esse heroe 
quiz também ser o libertador do Peru. Esta colónia 
tinha-se constituido em republica, pelo auxilio de um 
aventureiro inglez, o almirante Cochane. A lucta das 
facções, porém, assumiu tal gravidade que os realis- 
tas prepararam-se para restaurar o antigo estado de 
coisas. 

Foi, então, que Bolivar correu em auxilio da repu- 
blica ameaçada. Os Hespanhoes foram completamente 
derrotados na batalha decisiva de Ayacucho (1824); 
e Bolivar foi proclamado pelo congresso de Lima pro- 
tector perpetuo do Estado que elle acabava de libertar. 

Quanto ao Equador, formava elle trez departamentos 
da Columbia, que foram, portanto, comprehendidos na 
emancipação d'ella. Mas, em 1839, seguindo o exemplo 
de Venezuella, declarou-se independente, sob o nome 
de Republica dei Equador. 

Assim das antigas colónias a Hespanha só conservou 
Cuba e Porto Rico ^ 

Quanto ao Brazil, em 1818, a corte portugueza, 
fugindo da invasão franceza, capitaneada por Junot, 
procurou refugio n'essa colónia. 

Apesar do systema absoluto que então dominava no 
Brazil, a presença do rei e do Governo teve como con- 
sequência o augmento de regalias para essa possessão 
portugueza, modificando de um modo sensivel as suas 
relações com a metrópole. 



1 America, Historia de su colonizacion, dominacion g inde- 
pendência, por Coroleu, completada por Manoel Aranda y Sanjuan. 
— Weber, Historia Universal, traduzida por Delfim de Almeida. 
Volume VI 3. 



34 A HISTORIA E CONOMICA 



Com effeito, o Brazil deixou de constituir uma sim- 
ples colónia, sendo até erig^ido em reino, em 1815. Mas 
isso não apagou a exaltação dos espiritos, que deseja- 
vam emancipal-o completamente da metrópole. 

Em 1817, rebentou lá uma revolução separatista, 
que foi abafada. E, depois de D. João VI ter vindo 
para a Europa, em 1821, deixando na America o seu 
filho D. Pedro, com instrucções de conservar o Brazil 
sempre unido á coroa portugueza, ou. se isto se tornasse 
impossivel, ao menos, de o salvar para a dynastia de 
Bragança, levantaram-se differentes provincias, procla- 
mando o mesmo D. Pedro, como defensor perpetuo do 
Brazil, em março de 1822. E, alguns mezes depois, em 
outubro do mesmo anno, uma assemblea nacional lhe 
conferiu o titulo de imperador '. 

Este outhorgou, então, em 1824, uma constituição 
liberal; mas, apesar d'isso, descontentou os Brazileiros, 
e, em 1830, teve de abdicar em seu filho, D. Pedro II, 
partindo para a Europa, a defender a coroa de sua 
filha D. Maria II. 



3.^ época. Na terceira época (1830-1848) a revolu- 
ção de julho influiu grandemente na Europa, no sentido 



1 No Brazil, governaram D. João VI, como regente (1786-1816), 
e como rei (1816-1821); D. Pedro I, como regente (1821-1822), e 
como imperador (1822-1830); D. Pedro II, (1830-1889); e a repu- 
blica, proclamada em 1891 e organisada sob o nome de Republica 
fios Estados Unidos do Brazil, depois d'isso. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 35 

liberal. Surgiram contendas entre os próprios consti- 
tucionaes, e começaram a palpitar fortemente os dese- 
jos da republica, e a levantar-se também fortemente a 
fermentação socialista. 

Na França, Luiz Filippe proclamou uma Carta 
Constitucional, mais liberal, mas em que predominava 
a burguezia; de modo que somente os burgezes é que 
tiraram proveito da revolução. Isto descontentou o povo 
e a nobreza, e deu logar a que os motins continuassem 
em Paris, e que uma forte opposição, constituida por 
antigos legitimistas e por bonapartistas e republicanos, 
principiasse a hostilizar o Governo. 

Sobretudo, estes últimos fizeram-lhe correr os maio- 
res perigos. Organisados em sociedades secretas, levan- 
taram vários movimentos revolucionários ou varias 
insurreições, como, por exemplo, em Lyon, desde 1831 
a 1835, e, em Paris, em 1832 e 1834. 

Luiz Filippe respondeu a estas insurreições, com 
medidas repressivas; e, entre essas agitações e conten- 
das da liberdade contra a oppressão, se passou quasi 
inteiramente a vida interior do reino. 

No exterior, a conquista de Algéria, já começada na 
época anterior, foi definitivamente acabada, em 1841, de- 
pois de uma lucta renhida, que durou sempre, desde 1835. 

A Bélgica, em 1830, no mesmo anno em que se 
dava a revolução de julho, revoltou-se contra a Hol- 
landa; e, depois de uma lucta armada, proclamou 
a sua independência, em 13 de novembro do mesmo 
anno. 

Apesar d'isso, a Hollanda continuou as hostilidades 
até que, em 1831, pela resistência belga e pela inter- 
venção da França, os HoUandezes tiveram de reconhe- 



36 A HISTORIA ECONÓMICA 



cer aquella independência, ficando a Bélgica a ser 
governada pelo rei Leopoldo I ^. 

Na Polónia, a 29 de novembro de 1830, levantou-se 
Varsóvia, forçando o duque Constantino, irmão do czar, 
a retirar-se, e proclamando um governo provisório. 

Seguiu-se uma guerra com a Rússia, em que os Po- 
lacos se encheram de gloria, até que foram vencidos. 
Da Polónia livre ficou apenas subsistindo a cidade livre 
de Cracóvia, como para attestar os restos independen- 
tes d'esse paiz. 

Na Suissa, também em 1830, começou a levantar-se 
uma agitação contra os governos aristocráticos, no can- 
tão de Argovia, agitação essa que foi ganhando os de 
Soleure, Friburgo, Zurich, Saint-Gall, Thurgovia, Vaud, 
Berne, Lucerne, Shaffouse, e, sobretudo. Bale. Deu isso 
em resultado a revisão de varias constituições e a divi- 
são do cantão de Bale, por virtude de uma deplorável 
guerra civil, em duas partes — Bale-Ville e Bale-Cam- 
pagne. 

Ao mesmo tempo, foi confirmada internacionalmente 
a neutralidade permanente da Suissa "". 



1 Na Bélgica, até o fim do século XIX, governaram os reis, 
Leopoldo 1 Saxe-Coburgo-Gotha (1831-1865); Leopoldo II Saxe- 
Coburgo-Gotha (1865-1909). 

Na Hollanda, também n'este período contemporâneo, até o fim 
do século XIX, governaram: Guilherme V (de Orange) (1751-1795); 
republica Batava (1795-1806); Luiz Bonaparte (1806-1810); Gui- 
lherme I (de Orange), como rei dos Paizes Baixos (1814-1831); o 
mesmo Guilherme I, como rei da Hollanda, (1831-1840); Gui- 
lherme 11 (de Orange), (1840-1849); Guilherme III (de Orange), 
(1849-1890); Wiihelmine (de Orange), de 1890 em diante. 

2 Adriano Anthero, O Direito Internacional, pag. 367. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 37 



A Alemanha agitou-se também, desde logo, á nova 
da revolução de julho; e muitos soberanos tiveram de 
dar, também desde logo, nova constituição, ou mesmo 
de renunciar ao trono. 

Assim, o duque de Brunswick retirou-se diante de 
seu irmão; o rei da Saxonia retirou-se também do 
trono diante de seu sobrinho; o eleitor de Hesse Cas- 
sei, diante de seu filho, que depois illudiu todas as con- 
cessões que tinha feito ; o Hanover e a Baviera recebe- 
ram instituições mais liberaes. E, em vista de tudo 
isso, a Dieta de Francfort voltou ás medidas repressivas 
de 1820, annulando as constituições que tinham sido 
novamente concedidas, e reprimindo severamente as 
palavras, discursos e tentativas de liberdade. 

A revolução de julho teve egual repercussão na 
Itália. Principalmente, os paizes do centro abalaram-se 
desde logo. Os soberanos de Parma, Modena e Tos- 
cana foram obrigados a recuar ou fugir diante do 
movimento liberal. As Romagnes insurgiram-se, por 
sua vez, contra o soberano pontífice, Gregório XVI ^, 
que se achou, assim, reduzido a Roma. 

Em 1831, os delegados de todos os Estados da 
peninsula chegaram até a reunir-se em Bolonha, e ahi 
constituíram um Governo central. Mas tiveram de ceder 
perante a intervenção da Áustria, e de modo que até 
os reis destituídos foram repostos nos seus tronos; e a 
Itália continuou a soffrer a oppressão dos Austríacos. 

A revolução de julho influiu egualmente na Ingla- 
terra. O novo rei Guilherme IV (1830-1837) já se tinha 



1 Foi pontífice desde 1831, e falleceu em 1848. Vide pag. 24. 



38 A HISTORIA ECONÓMICA 



aproximado dos Wigs; e as eieições, feitas sob s 
influencia das ideas liberaes, levaram ao poder lord 
Grey, que teve como coUegas lord Russell e lord 
Brougham. 

Ora, o acto principal do novo ministério foi o bill 
de reforma, votado, em 5 de julho de 1832, isto é, a 
reforma das eleições do Parlamento. Até então, os 698 
deputados eram nomeados em numero desegual e arbi- 
trário pelos condados, grandes cidades, villas, portos 
de mar, universidades de Cambridge e Oxford, Paiz de 
Galles, Escócia e Irlanda, Mas havia um tal arbitrio 
n'estas designações que muitas cidades importantes só 
elegiam um deputado, e algumas outras não elegiam 
nenhum, emquanto que havia muitas villas, que eram 
propriedade de um só senhor, e este dispunha de mui- 
tas cadeiras no parlamento. E até 471 deputados esta- 
vam sob a influencia directa de 104 pares e de 121 
grandes proprietários. 

Pela reforma de John Russell, o numero de villas 
eleitoras foi diminuido; as cidades importantes que não 
tinham representante directo, receberam o direito de o 
elegerem; dez libras de rendimento davam a faculdade 
de votar; diminuiu o numero de deputados; e augmen- 
tou o numero dos eleitores. 

E esta reforma foi seguida da adopção de duas 
medidas radicaes, a abolição da escravatura dos negros 
nas colónias, e a lei sobre os pobres, regulamentando a 
taxa que havia sido estabelecida pelo Governo a seu 
favor, de modo a regular a percepção dessa taxa e o 
seu emprego, em proveito dos enfermos internados nos 
hospicios ou casas de trabalho, segundo a edade e as 
forças. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 39 

Em 1837, a rainha Victoria substituiu Guilherme IV. 
Pela sua ascenção ao trono, o Hanover separou-se da 
Inglaterra, e constituiu-se em reino independente. 

No seu tempo, a índia, que, segundo já vimos, estava 
inteiramente submettida, e que foi approximada da Eu- 
ropa por meio de uma linha directa e regular de com- 
municações com Londres, atravez do Mar Vermelho^ 
recebeu uma constituição, que ella conservou até 1855. 
De modo que, por essa constituição, havia um Gover- 
nador Geral em Bengala, que, por seu lado, tinha abaixo 
d'elle as presidências de Madrasta e Bombaim e o 
governo de Agra. 

Também a Inglaterra, em 1838, firmou a sua influen- 
cia no Afganistan, de que os Russos a queriam privar. 
Conquistou, depois de uma guerra violenta, o Sidney e 
o Pendjab, que foram reunidos ao império indiano, e 
impoz a sua suzerania sobre o Belutchistan. E também 
n'esta época, teve guerra com a China, por causa do 
celeste império ter prohibido a importação do ópio, de 
que os Inglezes faziam grande consumo. 

Já o imperador Kia-King, que reinou desde 1795 
a 1820, tinha prohibido, pela primeira vez, essa impor- 
tação ; mas, apezar d'isso, o contrabando conseguia 
introduzir na China muitas caixas d'esse narcótico. De- 
pois, com o seu successor, Tao-Konang, que reinou 
desde 1820 a 1851, aconteceu a mesma coisa, e, em 
1839, foram ah aprehendidas 22 mil caixas em navios 
inglezes, ancorados em Cantão. 

Seguiu-se, por isso, a guerra entre as duas poten- 
cias, que terminou, em 1844, pelo tratado de Nankin, 
ficando por elle abertos a todos e quaesquer navios, 
sem distincção de nacionalidade, os cinco portos de 



40 A HISTORIA ECONÓMICA 



'Cantão, Amoy, Fu-Tcheou-Fou, Ning-Po e Shang-Hai; 
e ainda a China abandonou aos Inglezes a ilha de 
Hong-Kong, e lhes fez outras concessões commer- 
ciaes. 

A França, também no mesmo anno de 1844, além 
de conseguir as concessões mercantis que haviam 
sido concedidas á Inglaterra, obteve mais a permissão 
dos Chinezes se poderem fazer christãos, o reconheci- 
mento da cruz e das imagens consagradas como signaes 
do christianismo, e a restituição ao culto cathoHco 
das egrejas que tinham sido convertidas em pagodes 
ou em edificios públicos. 

Em Portugal, pela victoria de D. Pedro IV sobre 
D. Miguel, em 1834, ficou definitivamente assente o 
Governo Constitucional. Mas despertou então a riva- 
lidade entre os cabralistas e os progressistas, que trouxe 
uma agitação permanente até 1852, e deu também logar 
a uma guerra civil em 1846 e 1847. 

Em Hespanha, Fernando VII falleceu em 1833, de- 
pois de ter feito reconhecer como rainha sua filha 
Izabel, ainda menor (1834-1862), nascida do seu quarto 
casamento com Maria Christina, de Nápoles, que foi 
proclamada regente. Mas D. Carlos, irmão do fallecido, 
e que este, n'um momento de hesitação, tinha decla- 
rado rei, reclamava a coroa para si, apoiando-se na 
lei salica, importada na peninsula por Filippe V, que 
prohibia as mulheres de subirem ao trono. 

Resultou dahi uma guerra civil de dez annos entre 
Christinos e Carlistas, chamados também Apostólicos, 
por causa da sua dedicação e devoção pelos negócios 
da Egreja: guerra que terminou pela convenção de Ber- 
gara, fugindo D. Carlos para França. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 41 



No mesmo tempo da guerra carlista, levantava-sef 
outra g-uerra civil entre os partidários da rainha, que 
seguiam uma politica moderada, e os que pretendiam 
uma politica mais rasgadamente liberal. Essa guerra 
terminou, em 1843, pela proclamação da maioridade de 
Isabel, podendo depois d'isso o governo constitucio- 
nal funcionar livremente. 

Nos paizes escandinavos, (^) também se fez sentir a 
fermentação liberal, porque a Dinamarca teve a sua 
primeira constituição só em 1849; e a Suécia e Noruega, 



1 Quanto aos paizes escandinavos, até 1815 a Noruega perten- 
cia aos reis da Dinamarca. Depois de 1815, a Dinamarca, Suécia e 
Noruega formaram trez reinos distinctos. Mas a Suécia e Noruega 
tinham um rei commum. Todas ellas se tornaram no século XIX 
monarchias constitucionaes; a Noruega, porém, logo no tempo 
da união (1915), obrigou o rei da Suécia a aceitar uma constituição 
muito liberal para a época, e, no fim do século, obteve o sufrágio 
universal. 

A Suécia conservou as velhas instituições e a antiga Dieta, 
dominada pelos nobres e clero. Mas, em 1865, foi ella substituida 
por um parlamento moderno, eleito pelo suffragio censuario. 

A Dinamarca teve a sua primeira constituição, em 1849, e uma 
outra, em 1866. 

Na Suécia e Noruega, n'este período, até o fim do século XIX, 
reinaram Gustavo III (Holstein Gottorp) (1771-1792); Gustavo 
Adolfo IV (Holstein Gottorp) (1792-1809); Carlos XIII (Holstein 
Gottorp) (1809-1818); Carios XIV (Bemadotte) 1818-1844); Oscar I 
(Bernadotte (1844-1858); Carlos XV (Bemadotte) (1859-1872); 
Oscar II (Bernadotte) 1872-1907). 

Na Dinamarca, governaram Chrisitiano VII (1766-1808); Frede- 
rico VI (1808-1839); Christiano VIII (1839-1848); Frederico VII (1848- 
1863); Christiano IX (1863-1906). 



42 A HISTORIA ECONÓMICA 



SÓ no tempo de Oscar I, obtiveram também differentes 
garantias liberaes. 

Mesmo na Turquia, o imperador Mahmoud \ que, á 
imitação de Pedro Grande da Rússia, quis civilisar brus- 
camente o seu paiz, reorganisando o exercito, formando 
e instruindo a marinha, fomentando o desinvolvimento 
do commercio, da industria e da agricultura, embora 
com o monopólio dos productos mais lucrativos em 
seu favor, e promulgando um código, em que se esta- 
belecia a egualdade de direitos para todos os cida- 
dãos, alargou também a liberdade dos seus súbditos. 
No tempo d'este imperador, até as modas do occidente 
da Europa acharam bom acolhimento em Constanti- 
nopla. 

Quatro guerras encheram o reinado de Mahmoud, 
a saber: contra a Rússia, Servia, Provincias Danubia- 
nas e Egypto. 

A guerra contra a Rússia, que foi a primeira d'ellas, 
terminou pelo tratado de Bucharest, em 1812, que cedeu 
ao czar a Besserabia e a fronteira de Pruth. 

A guerra da Servia terminou, em 1830, com a inter- 
venção da Rússia, que fez reconhecer o principe de 
Milosh como hospodar hereditário, mas ficando sujeito 
á suzerania nominal do czar, e obrigado a pagar-lhe 
um tributo annual. 



1 Na Turquia, n'este período, até o século XIX, governaram 
Selim III (1789-1807); Mustapha IV (1807-1808); Mahmoud II 
(1808-1839); Abd-Ul-Mendjid (1839-1861): Abd-Ul-Aziz (1861-1876); 
Mourad V (1876-1876); Abd-Ul-Hamid II (1876-1909). 



EDADE CONTEMPORÂNEA 43 



Em todo o caso, a Servia ficou dependente da 
Turquia, e considerada nominalmente, como uma parte 
do império. Só alcançou mais tarde a sua independência 
no congresso de Berlim de 1882, em que foi proclamada 
como reino autónomo, sob o reinado de Milão I ^. 

Com as províncias danubianas, Moldávia e Valachia, 
aconteceu a mesma coisa; porque também acabou a 
guerra pela intervenção da Rússia, a cuja suzerania 
ficaram sujeitas. 

No Egypto, no principio do século XIX, governava 
o vice-rei Mehemet-Ali; e o seu dominio estendia-se 
até a Arábia, onde elle submetteu os Wabitas, e até ás 
regiões distantes do Nilo superior. 

Seu filho Ibrahim, incumbido por elle de submetter 
a Syria, apoderou-se primeiramente de S. João de Acre, 
e bateu em seguida o exercito da Turquia, no desfila 
deiro de Beilan, que domina a Ásia Menor. 

Penetrou n'este paiz, e marchou sobre Constanti- 
nopla. O sultão pediu o auxilio dos Russos, que lan- 
çaram cinco mil soldados nas costas da Ásia. E, então, 
pela intervenção das potencias occidentaes, que se 
temiam do augmento do poder da Rússia, acabou a 
guerra, pelo tratado de Kutaieh, em que a Turquia 
cedeu ao vice-rei do Egypto o districto de Adana, 
chave da Syria e os quatro pachalicks d'este paiz: 
Alep, Damasco, Tripoli e S. João de Acre (14 de março 
de 1833). E, por seu lado, a Rússia obteve da Turquia 



1 Os reis que governaram a Servia até os fim do século XIX,. 
foram Milão I (Obrenovitch) (1882-1889), e Alexandre I (Obreno- 
vitch) (1889-1903). 



44 A HISTORIA ECONÓMICA 



a obrigfação de abrir livremente o Bosphoro, que até 
ahi estava fechado, mesmo para as potencias accidentais. 

Mas esse tratado não chegou a ser executado, pela 
opposição d'aquellas potencias, que não desejavam que 
a Rússia podesse tomar assim conta do Mediterrâneo. 

Ora, o sultão Mahmoud só tinha acceitado cons- 
trangido a vergonha do tratado de Kutaieh (1833). Pre- 
parou, por isso, a desforra, e, em 1839, invadiu a Syria. 
Mas o seu exercito foi completamente derrotado por 
Ibrain», e a sua frota cahiu também nas mãos de Mehe- 
met-Ali, pela traição de um pachá do mesmo sultão. 

Mahmoud falleceu, poucos dias depois, succeden- 
do-lhe seu filho, de 16 annos de edade, Abd-Ul-Medjid 
(1839); mas, então os representantes das grandes poten- 
cias, por uma nota de 1839, obrigaram-no a não proce- 
der sem o concurso d'ellas, o que foi talvez a salvação 
do império turco. 

Quanto aos Russos, tinham elles augmentado suces- 
sivamente o seu poder na Ásia. Assim, em 1799, tinham- 
se apoderado da Geórgia; em 1801, da Gouria; em 1803, 
da Mingrelia; em 1804, da Imerethia; em 1813, por 
cessão da Pérsia, de Chirvan e Dagestan, quer dizer, 
do litoral do Mar Caspio; em 1828, das provincias de 
Nakkitchevan e Erinan. E o tratado de Tourkmanchai, 
que fez esta ultima concessão, abandonou-lhes também 
a navegação exclusiva do Mar Caspio, e os deixou inge- 
rir, por uma das clausulas, nos negócios exteriores da 
Pérsia. Era o mesmo que abrir-lhes não somente esse 
paiz, mas também a Ásia Menor. 

Senhores assim da vertente meridional do Cáucaso, 
foram depois submettendo, pouco a pouco, as terríveis 
populações que tinham achado, até então um asylõ 



EDADE CONTEMPORÂNEA 45 



inviolável nas montanhas; até que, depois de luctas 
encarniçadas, completaram a sujeição d'ellas, em 1859. 
E também puderam completar a dominação dos Khir- 
guises, que tinham resistido aos imperadores anteriores. 

* 
* * 



4.^ época. A quarta época da historia politica d'este 
período decorreu, como já dissemos, depois da segunda 
republica franceza, até á guerra da França com a 
Allemanha, em 1870. 

Essa repubhca pouco tempo durou. Proclamada em 
24 de fevereiro de 1848, e dirigida primeiramente por 
um governo provisório, presidido pelo general Cavai- 
gnac, e depois por Luiz Napoleão, desde 1 de dezem- 
bro de 1848 a 2 de Dezembro de 1851, foi em seguida 
submettida á dictadura do mesmo Luiz Napoleão, até 
que, em 2 de dezembro de 1852, foi restabelecido o 
império na pessoa delle. 

Mas, apezar de durar pouco tempo, influiu também 
largamente na Europa. 

Assim, na Itália, determinou, desde logo, o adianta- 
mento das instituições constitucionaes. Já depois de 
uma revolta da Sicilia, o rei de Nápoles, Fernando II, 
tinha concedido uma constituição liberal, em fevereiro 
de 1848, e, quatro dias depois, o Grão Duque de Tos- 
cana fez a mesma coisa. 

Por seu lado, em 4 de março, o rei Carlos Alberto 
outorgara ao Piemonte a constituição que elle próprio 
tinha promettido, desde alguns annos ; e Pio IX promul- 



46 A HISTORIA ECONÓMICA 



gava, também n'esse anno, uma constituição para os 
Estados pontificios. E, a par de tudo isso, a revolução 
geral italiana caminhava a grandes passos, tomando um 
caracter radical, para a expulsão dos Austríacos e pro- 
clamação da republica unitária. 

Effectivamente, em breve se levantou uma insurrei- 
ção geral contra a Áustria, em que entraram alguns dos 
reis da peninsula, commandados por Carlos Alberto. 
Ma£, tendo este sido vencido na batalha de Novara, 
abdicou em seu filho Victor Manoel 11, que se apressou 
a fazer a paz com os Austriacos. E seguidamente sucum- 
biram também outros Estados e cidades, que egualmente 
se tinham levantado contra a Áustria. 

Apezar d'isso, o movimento republicano despertou 
por toda a parte. Mesmo em Roma, obrigou o papa 
Pio IX, que se receava dos republicanos, a refugiar-se 
em Gaeta. E, estando aquella cidade, assim privada de 
pontifice, uma assemblea constituinte, eleita por suffra- 
gio universal, em 6 de fevereiro de 1849, o destituiu 
do poder temporal, e proclamou a repubHca democrá- 
tica, com um poder executivo de seis membros, entre os 
quaes figurava Mazzini, que em breve se tornou o mais 
nfluente do Governo. Então, a França interveiu com 
um exercito, que occupou Roma, e destituiu o governo 
republicano; e, alguns mezes depois, aquelle pontifice 
recolheu novamente á capital. 

Apesar do desastre de Novara, o Piemonte, ficara 
constitucional, e o seu novo rei Victor Manoel II não 
quiz revogar um estatuto promulgado por elle próprio. 

A Áustria, que conservava o Governo absoluto, na 
parte da Itália occupada por ella, descontentou-se com 
isso, e d'ahi resultou uma indisposição entre os dois 



EDADE" CONTEMPORÂNEA 47 



paizes. Então, o Piemonte, receiando um ataque, tra- 
tou de se preparar militarmente; a Áustria exigiu o 
desarmamento ; e, não accedendo o Piemonte, seguiu-se 
a guerra da Itália de 1859, na qual a França tomou 
também parte, a favor da península. 

Os Austríacos foram vencidos, e terminou a guerra 
pelo armistício de Villa Franca, seguindo-se a paz de 
Zurich, no mesmo anno de 1859. 

Por essa paz, a Lombardia foi cedida ao Piemonte, 
e a França adquiriu a Sabóia e o condado de Nice. 

Mas não ficaram por ahi as agitações do Piemonte 
e da península. Victor Manoel 11 tinha repudiado, em 
1859, os votos de annexação da Itália Central ; mas, 
em 1860, resolveu acceital-os, e realisar essa annexa- 
ção. Adquiriu, assim, desde logo, Parma, Modena, 
Romagna e o Grão Ducado de Toscana. 

Nesse mesmo anno, pelos esforços de Garibaldi, a 
Sicilia foi annexada ao rei de Nápoles, Francisco José II. 
Mas depois o mesmo Garibaldi tomou essa cidade, e 
proclamou-se dictador, protestando embora a sua fide- 
lidade á causa da Itália e de Victor Manoel II. 

Então, este rei, tomando a iniciativa da unificação 
de toda a península, invadiu o reino napolitano e os Esta- 
dos Pontífices; e em 13 de Fevereiro de 1861, a Itália 
inteira, inclusivamente o património de S. Pedro, reco- 
nheceu o mesmo dominio. 

Victor Manoel foi, então, proclamado rei de Itália; 
e para isso muito contribuíram os esforços do seu 
grande ministro Cavour, que pôde conseguir a alliança 
estrangeira, especialmente a franceza. 

Resultou d'ahi a guerra da Áustria com a França e 
Itália, que terminou pela derrota dos Austríacos nas 



48 A HISTORIA ECONÓMICA 



batalhas de Magenta e Solferino, sendo o i mperador 
da Áustria obrigado a ceder a Venecia a Napol eão III, 
que, depois de acabada a guerra, a restituiu á Itália. 

Na AUemanha, também a explosão de fevereiro foi se- 
guida de novas concessões liberaes. Apesar d'isso, o par- 
tido democrático pediu a revisão do pacto federal de 1815, 
em vista da unidade allemã; e para esse ef feito reuniu-se 
em Francfort — sobre o Mena, um parlamento nacional, 
onde o archiduque João foi nomeado vigário do império; 
e se decretou uma bandeira geral germânica, bem como se 
confeccionou um código de lei para todo o povo allemão. 

O império foi depois deferido ao rei da Prússia. 

O imperador da Áustria, com o fundamento de que 
esta assemblea excedeu os seus fins, chamou òs seus 
delegados. Muitos outros Estados fizeram a mesma 
coisa ; e com isso infiltrou-se a desordem por toda a 
parte, e o próprio parlamento foi obrigado a dissol- 
ver-se. Emfim, a 2 de Dezembro de 1849, o archidu-^ 
que João abdicou o seu titulo de vigário do império. 

Depois, antes que viesse a restabelecer-se a grande 
Dieta, o que só teve logar, em 31 de março de 1851, 
houve muitos conflictos interiores, de modo que pouco 
faltou, para que a AUemanha se dividisse em duas — a 
pequena AUemanha, agrupada em volta da Prússia, e 
a grande AUemanha, em volta da Áustria. E, ao mesma 
tempo, houve também grandes desordens na Prússia, 
até que Frederico Guilherme I deu uma constituição 
aos seus Estados. 

Na Áustria, houve ainda mais sérios abalos; porque 
este vasto império era constituido por diversas raças, 
que aspiravam, desde ha muito, a formar nacionalida- 
des distinctas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 49 



E, por isso, a revolução de fevereiro fez-se ressentir 
não somente em Vienna, onde o ministério Metternich 
cahiu diante de uma manifestação dos estudantes (13 
de março 1848); mas também na Itália austriaca, na 
Bohemia e na Gallicia. E essas perturbações obriga- 
ram o imperador Fernando IV a abdicar em seu sobri- 
nho Francisco José, de 18 annos de edade (2 de abril 
de 1848), que promulgou uma constituição nova para 
todos os habitantes do império. 

A Hungria tinha obtido já importantes concessões, 
como a administração distincta, um ministério também 
distincto do da Áustria, e a reunião de uma assemblea 
nacional em Buda-Pesth. Mas o paiz achou um inimigo 
ás suas portas, e quasi, no seu seio, o ban da Croácia, 
Jellachick, todo dedicado á Áustria; e teve, por isso, de 
recorrer ás armas contra elle. E, tendo esse ban sido 
auxiliado por Francisco José, que os Húngaros não 
queriam reconhecer, a Áustria, não contente com as 
próprias forças, pediu O auxilio dos Russos. 

Então, a Hungria foi invadida por toda a parte. 
Kossuth, nomeado governador geral pelo parlamento, 
fez prodigios de valor ; mas, sendo vencido, teve de 
retirar-se do seu paiz, que ficou exposto ás represálias 
dos vencedores. 

Entretanto, a rivalidade entre a Prússia e a Áustria 
fazia que o grande ministro de Guilherme II, Bismark, 
sonhando com a unidade allemã sob a preponderância 
da Prússia, fosse preparando tudo caladamente para a 
lucta; e achou occasião propicia na complicação da 
guerra dos ducados. 

Assim, o rei da Dinamarca possuia os ducados uni- 
dos de Schieswig e de Holstein, e este ultimo fazia parte 

Volume VI 4 



50 A HISTORIA ECONÓMICA 

da confederação allemã. Em 1863, tendo o rei Frede- 
rico VII fallecido, o marido de sua sobrinha, Chris- 
tiano IX, foi reconhecido rei pela Dinamarca. Mas os 
ducados não o reconheceram, antes proclamaram como 
tal a Frederico de Augustembourg I, e recorreram á 
Dieta allemã, para sustentar, como sustentou, essa 
nomeação. 

A Áustria e Prússia intervieram por sua vez, e a 
Dinamarca foi vencida e obrigada a ceder-Ihes o Schles- 
wig e o Holstein; e, na administração d'estes Estados, 
sobrevieram logo complicações entre os vencedores. 
D'ahi surgiu o pretexto que Bismark tomou para enviar 
tropas ao Holstein, e, como consequência, a guerra 
com a Áustria. 

A campanha foi rápida. A Áustria, esmagada em 
Sadowa, teve de acceitar o tratado de Praga (1886), 
donde resultou a ruina da antiga confederação da Alle- 
manha, ficando, então, a Áustria excluida também da 
antiga Allemanha; a passagem d'esta para a exclusiva 
dominação da Prússia; a enorme extensão do poder 
prussiano, que annexou a si o Hannover, Nassau, 
Hesse, Francfort, Schleswig e Holstein; e a confede- 
ração do Norte, formada por todos Estados ao norte 
do Mena. 

Os Estados federaes ficaram autónomos; mas todos 
os poderes militares e diplomáticos eram confiados a 
um Governo federal, presidido pelo rei da Prússia, que 
ficou também presidente da Confederação. 

Sadowa marcou o fim da preponderância franceza 
na Europa. 

Também a revolução de fevereiro se fez sentir nos 
Principados Danubianos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 51 



A Moldávia e Valachia estavam sujeitas ao duplo 
protectorado da Rússia e Turquia. E, sobretudo, o jugo 
dos Russos era-lhes muito pesado. Mas, no mesmo anno 
de 1848, levantou-se também lá uma revolução liberal, 
que obrigou o hospodar de Valachia a dar uma consti- 
tuição. Os Russos, para abafarem essa revolução, que 
desarranjava todos os seus projectos da preponderância 
sobre o Danúbio, invadiram os Principados; e os Tur- 
cos, para contrabalançarem a influencia dos seus vizi- 
nhos, mandaram também um exercito. 

A revolução foi vencida, ficando essas províncias 
novamente sujeitas a um jugo, ainda mais pesado, da 
Russsia e Turquia combinadas, que, também de com- 
binação nomearam o respectivo hospodar. Mas o im- 
perador Nicolau da Rússia, attribuindo-se uma ideia 
exagerada da sua força, exigiu da Turquia que lhe 
delegasse o protectorado effectivo e perpetuo sobre 
todos os súbditos gregos do império turco, em numero 
quasi de onze milhões, o que lhe daria uma grande 
influencia no mesmo império. E, sendo repellida essa 
pretensão, a Rússia invadiu a Moldávia. Era a guerra. 
A Turquia pediu o auxilio das potencias occidentaes; 
e, então, a Inglaterra e a França uniram-se a ella contra 
a Rússia. 

O primeiro theatro d'essa guerra foi n'aquellas Pro- 
víncias Danubianas, onde os Russos foram vencidos 
(1854); e, pelo tratado de paz d'esse anno, a Áustria, 
é que ficou encarregada da guarda d'ellas. 

A Inglaterra e a França foram depois atacar a 
Rússia com os seus navios de guerra, no Mar Báltico. 
Bombardearam Cronstadt, Swealborg e Helslngfors; 
tomaram Aland, e ao mesmo tempo bloquearam os 



52 A HISTORIA ECONÓMICA 



portos do Mar Branco ; e prosseguiram as hostilidades 
em todos os mares, no Cáucaso e mesmo em Kamstcha- 
tka. E, alem d'isto, os exércitos alliados resolveram 
fazer a guerra dentro da própria Rússia; de modo que 
entraram na Crimeia, e tomaram Sebastopol (17 de outu- 
bro de 1855), seguindo-se o tratado de Pariz de 1856, 
pelo qual a Rússia restitituiu á Turquia as praças que 
lhe havia tomado. 

Quanto ás Provincias Danubianas, formando, sob o 
nome de Provincias Unidas, dois Estados distinctos, 
mas com uma legislação commum, em 1859, escolheram 
como chefe o general Couza, ficando, assim, sujeitas á 
Turquia. Couza tornou-se odiado pelo seu caracter 
despótico; e, por isso, uma revolução liberal o desti- 
tuiu, e nomeou em seu lugar o principe Carlos de 
Hoenzollem. E, então, attendendo á sua origem, os 
mesmos Estados tomaram o nome de Romania, e Bu- 
carest tornou-se a capital. O tratado de Berlim (1878) 
constituiu a Romania independente, e ajuntou-lhe Do- 
broutcha, em troca da Besserrabia, que foi dada á 
Rússia. 

A 26 de março de 1881, o principe Carlos tomou 
o titulo de Carlos 1, rei da Romania. 

Aquella guerra da Crimeia levantou também as 
esperanças da Bulgária, que era vassalla da Turquia, e 
que supportava com impaciência o jugo mussulmano. 
A menor revolta era abafada com sangue; as hordas 
dos Albanezes pilhavam e queimavam as aldeias, e 
matavam as mulheres e creanças; e os Búlgaros, ater- 
rados, emigravam em massa, procurando um refugio 
nos paizes vizinhos. Animados secretamente pela Rússia, 
reclamaram uma constituição, que a Porta recusou. Foi 



EDADE CONTEMPORÂNEA 53 



O signal de um levantamento geral; e os Romenos, os 
Sérvios e os Montenegrinos fizeram, então, causa com- 
mum com elles. 

A conferencia de Constantinopla tratou de regular 
a situação entre o sultão e aquellas Provincias Danu- 
bianas, mas em vão. E a Rússia começou as hostilida- 
des, que se prorogaram até 1877, em que se fez o 
tratado de S. Stefano, logo modificado pelo de Berlim 
de 1878, ficando a Bulgária, ao norte dos Balkans, cons- 
tituida em principado autónomo, supposto que tributário 
do sultão. Podia eleger o seu principe, mas não podia 
ter nenhuma fortaleza no seu território. 

Ainda assim, embora a Bulgária não tivesse obtido 
o tornar-se um reino independente, constituiu-se em 
monarchia (1879); e a coroa foi offerecida ao principe 
de Battemberg ^. 

O Montenegro, que estava sujeito á Rússia, obteve 
egualmente a sua independência por essa campanha, 
em que entrou com as outras Provincias Danubianas. 
E a sua autonomia foi depois também confirmada no 
congresso de Berlim (1878), ainda com o augmento de 
parte de Antivari ^. 

Na Polónia, houve, em 1864, uma insurreição contra 
a Rússia, que foi duramente reprimida, a ponto de que 
mesmo a lingua polaca foi proscripta, e a russa tor- 
nou-se a lingua official. 



1 Neste período, governaram lá os reis Alexandre 1 (Battem- 
berg) (1879-1826), e Fernando I de Saxe Coburgo, dahi por diante. 

2 Governaram no Montenegro, até o fim do século XIX, Danilo, 
principe (1852-1860), e Nicolau 1, principe, de 1860 em diante, e que 
só foi proclamado rei, no século XX, em 1910. 



54 A HISTORIA ECONÓMICA 



Vejamos agora, além do que fica exposto, o que 
se passou de mais importante nas outras partes do 
Mundo. 

A Algéria estava já unida à França como irmã. 
Restava ainda, porém, submetter, quasi ás portas d'ella, 
o território dos Kabilas, considerado inaccessivel; e, um 
pouco mais longe, na entrada do deserto, os oásis, cuja 
posse era indispensável aos Francezes, para que o seu 
dominio não tivesse intervallos. Foi essa a obra dos 
seus generaes, desde 1850 a 1858. 

O paiz do Senegal estava também, desde ha muito, 
submettido á França; mas, em 1856 e 1860, ella pôde 
annexar o paiz de Oualo, Toro, Dimar e Damga. 

Mesmo no Extremo Oriente, o Japão, depois de 
uma revolução violenta, em 1868, havia-se organisado 
em Estado moderno. Era primeiramente governado 
absolutamente, constituindo uma monarchia guerreira e 
feudal. O povo estava dominado pelos senhores ou dai- 
mios, rodeados dos seus homens de armas, os samorais. 
Esta nobreza tinha um chefe hereditário — o shogun ou 
taikoun, que era o verdadeiro senhor do paiz. 

O imperador ou mikado só tinha conservado uma 
auctoridade religiosa. 

Como os imperadores chinezes, também os sho- 
guns, primeiramente tolerantes, fecharam depois o 
Japão completamente aos Europeus, salvo a feitoria 
hollandeza de Desgima. Mas, em 1853, os Estados 
Unidos quizeram abrir o Japão ao seu commercio, e 



EDADE CONTEMPORÂNEA 55 



uma esquadra appareceu diante do Jeddo, que forçou 
o shogun a tratar com aquella republica (1854), no 
sentido de lhe abrir alguns portos. Alguns outros Esta- 
dos se apressaram a concluir tratados análogos; e 
Nangasalci, Kobé, Yokoama e outros foram abertos cio 
commercio estrangeiro. 

Depois, a Inglaterra, a França e a Rússia, por sua 
vez, em 1858, 1860 e 1862, obtiveram ainda outras 
vantagens a favor dos estrangeiros. A Rússia conse- 
guiu até a parte meridional da ilha de Saghalien, cujo 
norte já lhe pertencia. E, tendo posteriormente o 
Japão cortado as garantias que havia concedido, o almi- 
rante inglez Kieper bombardeou Kagosimo, em 1863, e 
as boas relações anteriores foram restabelecidas. 

A par de tudo isso, houve no Japão uma guerra civil 
demorada (1858-1868). E, por fim, o mikado tornou-se 
único senhor; e, sustentado pela maior parte dos no- 
bres Japonezes, resolveu transformar as instituições do 
Japão, para salvaguardar a sua independência (1868). 

O antigo regimen feudal foi abolido. Com um 
admirável poder de assimilação, os Japonezes appro- 
priaram as instituições da Europa moderna; e, esti- 
mulados por um patriotismo ardente, empenharam-se 
também em desinvolver rapidamente as forças militares 
do paiz. 

Havia sempre uma grande rivalidade entre o Japão 
e a China; e esta rivalidade fez rebentar mais tarde 
entre as duas nações a guerra de 1895, provocada pela 
questão da Corea, que era um império independente, 
mas sobre o qual os dois Estados tinham pretensões. 
E já issso havia produzido numerosos conflictos entre 
elles. 



56 A HISTORIA ECONÓMICA 



Com grande surpresa da Europa, o Japão ficou rapi- 
damente e completamente vencedor; e a China teve de 
assignar o desastroso tratado de Simonoseki, cedendo 
o Porto Arthur, Formosa, Pescadores, etc. ^. 

A China, despeitada por ter de abrir os seus portos 
ao commercio do mundo, começou a tractar mal e a per- 
seguir os estrangeiros, especialmente os Inglezes e Fran- 
cezes; e d'ahi se originou outra guerra, também inten- 
tada pela Inglaterra e França contra os Chinezes, que 
terminou pela paz de 1866, em que o rio Azul e seis 
novos portos foram abertos ao commercio universal. 

As perseguições da Cochinchina contra os Chris- 
tãos e o despreso das reclamações da França, que se 
reputava com direitos antigos sobre esse paiz, pois que 
já a Turane lhe tinha sido cedida, em 1787, e bem assim 
a practica de differentes aggravos contra a Hespanha, 
levaram estas duas nações a declarar guerra áquelle 
Estado, que terminou pelo tratado de Saigon, em que 
a Cochinchina abandonou á França as três provincias 
de Saigon, Bien-Hoa e Mytho, e abriu os portos de 
Tonkin ao commercio de todas as nações. 



No Novo Mundo rebentaram também differentes 
guerras e agitações. 

Assim, nos Estados Unidos, a descoberta das minas 
de ouro na parte do México e na Califórnia, annexados 



^ Ladislau Batalha. O Japão por dentro. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 57 



á confederação, tornaram-se uma fonte de riqueza con- 
siderável. Mas, sob esta apparente prosperidade, occul- 
tavam-se as causas de uma grande discórdia politica e 
social. Os Estados do norte, que foram os primeiros 
colonisados e onde preponderavam quasi exclusiva- 
mente os industriaes, commerciantes e marinheiros, eram 
proteccionistas; os Estados do sul, onde preponderava 
a agricultura, eram livres cambistas. Mas a questão 
principal era a da escravatura. 

No norte, a maior parte dos habitantes repulsava 
a escravidão, e por isso tinham recebido o nome de 
abolucionistas ; emquanto que os do sul reputavam a 
escravatura uma instituição necessária, por intenderem 
que a cultura do algodão e do assucar somente era pos- 
sível com os negros; e, também por isso, foram deno- 
minados esclavigistas. Eram, em geral, democratas, e 
tinham obtido por muito tempo a maioria nas eleições 
presidenciaes. 

A eleição, em 1861, do presidente Abrahan Lincoln, 
que tinha opiniões esclavigistas, foi o signal de guerra 
entre o norte e sul, chamada guerra da Secessão. Os 
americanos do sul queriam tornar-se independentes dos 
do norte, e criarem, por isso, uma repubhca também 
independente. Os outros, pelo contrario, queriam a 
federação total, e não a separação. 

Esta guerra, depois de graves desastres, acabou, 
em 1865, pela victoria dos federalistas. 

O México, desde que se libertara da Hespanha, 
n'essa lucta sangrenta que durou desde 1810 a 1829, 
foi sempre victima de uma continuada anarquia; e 
tendo sido eleito presidente o indiano Juarez, em 1861, 
as relações com a Europa tomaram uma feição peri- 



58 A HISTORIA ECONÓMICA 



gosa. Juarez chegou mesmo a expulsar os representantes 
de Hespanha e da Santa Sé; a prender alguns vice- 
consules de França; e a exercer actos violentos sobre 
os próprios Francezes e demais estrangeiros. 

Por isso, a França, a Inglaterra e a Hespanha decla- 
ram-lhe guerra. Mas, depois de vários incidentes, foi 
feita pelo general Prim, commandante dos Hespanhoes, 
uma convenção com Juarez. E, não tendo a França 
annuido, aquelle general retirou-se com os seus solda- 
dos, no que foi acompanhado pelos Inglezes. 

Ainda assim, o general francez pôde vencer os 
Mexicanos, e entrar no México. O paiz pronunciou-se, 
então, pelo restabelecimento do Império, com Maximi- 
liano, archiduque da Áustria, e genro do rei da Bélgica, 
indicado pela França. Mas, apezar d isso, continuou a 
lucta. Os Francezes foram obrigados a retirar. As 
forças imperiaes do México foram vencidas pelas forças 
republicanas, protegidas pelos Estados Unidos. A repu- 
blica foi novamente restabelecida; Juarez foi também 
novamente nomeado presidente; e Maximiliano, fusilado. 

No Brazil, onde já rebentara uma grande revolução, 
na provincia de S. Paulo, em 1842, outra em Alagoas, 
em 1844, e ainda outra em Pernambuco, em 1848, 
houve, em 1852, guerra com o general Oribe, que se 
levantara contra a republica do Uruguay, e devastava as 
fronteiras brazileiras; e, por causa d'isso, também com 
Buenos Ayres. Em 1864, houve ainda outra guerra com 
o Uruguay, e, desde esse mesmo anno a 1869, com o 
Paraguay, que era commandado pelo presidente Lopes, 
que foi vencido. 

No Uruguay, também o Brazil teve guerra com a 
republica platina, em 1864. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 59' 



* 
* * 

5.* época. Esta época principia com a guerra entre 
a França e a Prússia. 

Em 6 de julho de 1870, o duque de Gramon, minis- 
tro dos negfocios estrangeiros em França, annunciava 
ao corpo legislativo que o general Prim, primeiro minis-- 
tro de Hespanha, tinha chamado ao trono d'esse paiz 
o principe Leopoldo de Hoenzolern, e que este prín- 
cipe o tinha acceitado, com pleno consentimento do 
chefe da sua familia, o rei Çuilherme da Prússia. 

A França viu n'isto uma tentativa de reconstrucção 
do antigo império de Carlos V, e o desiquilibrio da 
Europa, com prejuízo d'ella. Pediu, por isso, a renuncia 
do pretendente á coroa, o que promptamente obteve ; 
mas queria também que o imperador Guilherme se 
obrigasse a não consentir que, de futuro, qualquer prin- 
cipe da sua raça fosse chamado a reinar, ao mesmo 
tempo, na Hespanha e na Allemanha, ao que elle se 
recusou. Essa recusa pareceu tão grave ao ministério 
que a França declarou guerra á Prússia. 

Mas tudo isto, afinal, encobria a rivalidade que 
havia entre as duas nações. Ou por este pretexto ou 
por outro qualquer, a guerra, mais cedo ou mais tarde, 
havia de estalar. 

Contava a França com a desunião da Allemanha, e 
talvez com a intervenção internacional de alguns 
paizes da Europa em favor d'ella. Mas Bismark 
arrastou todos os Allemães, e, assegurando a neutrali- 
dade europea, deixou a França isolada. 



60 A HISTORIA ECONÓMICA 



O resultado da guerra foi a derrota completa dos 
Francezes, e a deposição de Napoleão III, que, em seguida 
á tomada de Sedan, onde elle próprio estava encerrado 
com um exercito de 130 mil homens, commandado por 
Mac-Mahon, se entregou á confiança da Prússia; e, após, a 
proclamação da republica franceza, a capitulação de 
Bazaine com a praça de Metz, onde estava também cer- 
cado com um exercito de 170 mil soldados; o cerco e 
tomada de Pariz; e, por fim, a paz de Francfort (1871), 
pela qual a França perdeu a Alsacia, menos Belfort, 
quasi uma quinta parte da Lorena, com a praça de 
Metz e todo o material de guerra. E foi, alem d'isso, 
obrigada a dar uma forte indemnisação. 

Depois d'esta guerra, como diz Weber, apparece- 
ram á luz do dia, para serem acceitos e reconhecidos 
por todos os Estados, três princípios cheios de futuro: 
a seria participação dos povos na formação e organisa- 
ção das reformas politicas e sociaes; o desinvolvimento 
da noção da liberdade, em todos os dominios da vida 
publica, desinvolvimento esse baseado no direito com- 
mum e na individualidade nacional e pessoal ; e o dever 
de limitar a guerra a um fim completamente definido, 
e atenuar os effeitos delia, por meio de convenções 
internacionais, no sentido humanitário. 

Mas, apezar d'isso, não acabaram as luctas exter- 
nas e as perturbações internas de differentes Estados. 
E, coisa também fatal para a vida das nações! — intro- 
duziu-se em alguns d'elles o systema da paz armada, 
com receio da desforra da França e dos abusos da 
Allemanha. 

E, comtudo, nem mesmo assim, acabaram as agita- 
ções! 



EDADE CONTEMPORÂNEA 61 



Na Allemanha, os catholicos e socialistas ag^ita- 
ram-se contra Bismark, o chanceller, que estava gover- 
nando violentamente os Estados prussianos, e queria 
reduzir pela força os seus adversários. 

A lucta contra os catholicos apaziguou-se depois, 
pelos esforços de Leão XIII; mas a dos socialistas tor- 
nou-se cada vez mais grave. 

Divididos primeiramente em dois grupos — os de 
Lassale e os de Carlos Marx, tinham tido a principio 
pouca influencia; mas esta engrossou em breve, de 
modo que, em 1875, os dois grupos formaram um só 
partido, sob o nome de democracia social, e a sua 
preponderância nas classes operarias tornou-se muito 
grande ^. 

Bismark redobrou, então, de violências; mas nada 
aproveitou, porque o socialismo augmentou progressi- 
vamente, mesmo no numero dos seus candidatos ao 
parlamento. E, por fim, o próprio chanceller, teve de 
comprazer, fazendo votar leis socialistas, como, por 
exemplo, a de seguros para os trabalhadores, no caso 
de doença, enfermidade e velhice. 

Na Áustria, chegou a haver conflictos sangrentos 
entre os Austríacos e os Tcheques, que pugnavam pela 
sua autonomia; e, mesmo nos outros povos d'esse impé- 
rio, o espirito liberal e as agitações que d'ahi provieram, 
levaram o imperador a fazer, em 1896, uma outra 
reforma constitucional. 

Na Hungria houve também differentes agitações, 
não só entre os Magyares e os Croatas, que pretendiam 



Vide capitulo III. 



62 A HISTORIA ECONÓMICA 



a sua autonomia, mas também entre os próprios Aus- 
triacos e os Húngaros, que suspiravam sempre por se 
verem desannexados. 

Na Rússia, como vimos, Alexandre II inaugurou o 
seu governo por uma aberta de medidas liberaes; mas, 
sendo de natureza timida e fraca, em breve se deixou 
imbuir pelos sectários do absolutismo, e depressa vol- 
tou ao systema terrorista do seu antecessor Nicolau I. 

Então, a esse systema terrorista do governo corres- 
pondeu o terrorismo revolucionário, chamado nihilismo. 
Os descontentes, principalmente, jovens, e, sobretudo, 
estudantes e operários, não esperaram as reformas paci- 
ficas, e pretenderam destruir o regimen absoluto pelo 
terror. De modo que muitos altos funccionarios foram 
assassinados, e o próprio czar, depois de ter escapado 
a dois attentados, foi também morto por uma bombéi, 
em 1881. 

* 
* * 



Examinemos agora as outras partes do mundo. 

A França tinha levado, como já vimos, perto de 
30 annos a conquistar a Algéria (1830-1858). Mas a 
Algéria é apenas a parte central da região do Altai do 
Maghreb, e continua a este pela Tunísia, e a oeste por 
Marrocos. A França devia, por isso, tender natural- 
mente para estender a sua influencia sobre estes dois 
paizes. 

E, com effeito, sob o pretexto de reprimir as pilha- 
gens dos Kivas e Kroumirs, um exercito francez occupou 



EDADE CONTEMPORÂNEA 63 



a Tunísia, em 1881. E o bey teve de assignar o tratado 
de Bardo, que estabeleceu o protectorado francez. 

Também a França quiz occupar uma parte de Mar- 
rocos; mas d'ahi seguiram-se complicações internacio- 
naes, que só terminaram em 1906, pela conferencia de 
Algeciras, de que faltaremos no volume seguinte. 

A abertura do canal de Suez, em 1869, abriu um 
outro caminho para as índias, e mais curto; e as expe- 
dições inglezas viraram-se, então, para o Egypto. 

Até ahi a influencia franceza é que tinha dominado 
lá, depois de Bonaparte; mas, desde 1868 até 1879, as 
finanças egypcias desorganisaram-se completamente; e, 
por isso, os governos inglez e francez, de accordo entre 
si, impuzeram ao Egypto dois controleurs, para vigiarem 
essas finanças, ao que se chamou condomínio franco- 
inglez (1876). E, ao mesmo tempo, foi criada uma 
commissão internacional, encarregada de assegurar o 
pagamento da divida egypcia. 

O regimen do condomínio não durou, porque esta- 
lou no Egypto um movimento anti-europeu, provocando 
uma nova crise (1882). E, entretanto que o governo 
francez tratava de fazer resolver a questão egypcia, 
por uma nova conferencia nacional, a Inglaterra operava 
com rapidez e decisão; e para isso, pelo facto de terem 
sido mortos alguns Europeus em Alexandria, as tro- 
pas inglezas occuparam essa cidade, e em seguida 
o canal de Suez e o Cairo. De modo que o Egypto 
ficou na realidade um protectorado inglez, debaixo da 
occupação ingleza. Essa occupação do Egypto teve 
por consequência um azedume de muitos annos entre a 
França e a Inglaterra. A França, por muitas vezes, 
tentou combinar as coisas mais rasoavelmente para ella, 



64 A HISTORIA ECONÓMICA 



reabrindo a questão do Egypto; mas, por fim, obteve 
somente a neutralisação do canal de Suez, em caso de 
guerra. 

E não foi esta a única desintelligencia que houve 
entre os dois povos, a propósito d'essa região; porque 
houve outra ainda, por causa do Sudão egypcio. 

Este paiz tinha-se tornado independente (1881-1885). 
O governo francez enviou para o Congo a missão Mar- 
chand, na região do Alto Nilo, onde ella occupou 
Pachola (1898). Mas, nessa occasião, um exercito 
anglo-egypcio, que acabava de conquistar o Sudão, 
chegou também diante de Pachola, á qual se arrogava 
com direito. 

Esteve, por isso, a rebentar uma nova guerra entre 
a Inglaterra e a Prança. Mas, afinal, esta cedeu ; e, pela 
convenção de 1899, abandonou todo o Alto Nilo á 
influencia ingleza. 

Quanto ás outras regiões africanas, a convenção de 
Berlim de 1885 reconheceu o Estado independente do 
Congo, sob a soberania do rei da Bélgica, e determi- 
nou os respectivos limites. 

Depois d'essa convenção, as potencias europeas 
apressaram-se a occupar na Africa os territórios vagos; 
de modo que, dentro de alguns annós (1885-1900), todo 
o continente foi partilhado por uma serie de convenções 
diplomáticas. E a Prança, a Inglaterra, a Allemanha e 
a Bélgica, apar dos Portuguezes, tornaram-se as prin- 
cipaes potencias africanas. 

Assim, a Prança, das suas feitorias do Senegal e 
da Guiné adiantou-se, pouco a pouco, até á bacia do 
Niger, destruindo os sultanatos mussulmanos de Samory 



EDADE CONTEMPORÂNEA 65 



e Rabah. Conquistou o reino negro de Dahomey, 
em 1892; occupou Tombuctu, a grande cidade do 
Sudão, em 1894; e attingiu as margens do lago Tchad, 
em 1898. 

Já Brazza, partindo das feitorias de Gabão, anne- 
xara pacificamente os territórios do Congo francez 
(1875-1885), annexação que se prolongou mais tarde 
até alem do Tchad, pela occupação de Ouadi. E ainda 
os Francezes adquiriram também ao nascente o porto de 
Djibut, e a sudeste conquistaram aos Hovas a grande 
ilha do Madagáscar. 

A Inglaterra, partindo do Cabo, annexou progressi- 
vamente a Africa austral inteira. Teve de luctar contra 
os indigenas — Cafres e Zulus, e contra os Boers. Estes^ 
recuando diante dos Inglezes, fundaram mais ao norte 
dois Estados livres — o Estado de Orange e o Transvaal. 
Mas a descoberta das minas de diamantes e de ouro 
atraiu a essas regiões grande numero de Inglezes, que 
estabeleceram logo conflicto com os Boers. O governo 
inglez sustentou-os; e, após uma guerra demorada 
(1899-1902), que foi primeiramente desastrosa para a 
Inglaterra, esta annexou as duas republicas, conservan- 
do-lhe, comtudo, a sua autonomia ^. 

Cecil Rhodes, de harmonia com a expansão ingleza 
na Africa austral, fundou em 1895 a colónia da Rhode- 
sia, na bacia do Zambeze. 

Alem de tudo isto, a Inglaterra possue também uma 
parte do Sudão, a Nigricia e uma parte da Africa oriental. 



1 Estas duas republicas, desde 1909, formam com o Natal e 
Colónia do Cabo um vasto Estado Federal. 

Volume VI 5 



56 A HISTORIA ECONÓMICA 



A Allemanha occupou, em 1882 e 1890, muitos terri- 
tórios, a saber: uma vasta região ao sudoeste, — o Tog-o 
e o Cameron, e uma parte da Africa oriental. E enviou 
duas expedições, para luctar contra os indig-enas revol- 
tados (guerra dos Herreros), que foram afinal ven- 
cidos. 

A Itália quiz também constituir na Africa um impé- 
rio colonial; e, para isso, tractou de se estabelecer na 
Abyssinia. Mas, sendo derrotada em Adoua (1896), 
teve de reconhecer a independência do Negus abys- 
sinio, Menelick; e apenas conservou alguns territórios 
em redor de Massouah ^. 

Quanto á Ásia, já vimos que, em 1817, a Inglaterra 
completou a conquista da índia. Mas a preoccupação 
constante dos Inglezes foi proteger as fronteiras d'esse 
vasto império, estabelecendo a sua influencia sobre os 
povos visinhos. 

N'esse sentido, em 1889, tomaram debaixo do seu 
protectorado o Estado de Sikkim. Em 1824, tinham 
alcançado o porto de Singapura, que commanda o 
estreito de Malaca, e annexaram depois os Estados vizi- 
nhos, que formaram os Estabelecimentos dos Estreitos 
(Straits Seetlemenis). E, tendo a rivalidade da França 
e Inglaterra levado esses dois paizes a Sião, reino inde- 
pendente, entre o Annan e a Birmânia, uma convenção 
de 1896 delimitou as zonas de influencia das duas nações. 

Era principalmente ao oeste que os Inglezes se sen- 
tiam ameaçados; porque a cercadura montanhosa que 



1 Em 1911, a Itália obteve Tripoli e os principaes portos da 
costa. Mas esses factos não pertencem a este volume. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 67 



separa a índia dos platós do Iran (Afganistan, Belu- 
tchistan e Pérsia), é atravessada por muitas brechas, 
por onde pôde passar a invasão. 

Ora, sobre o Iran, ao mesmo tempo que os Inglezes, 
adiantavam-se também os Russos, senhores das margens 
do Caspio e conquistadores do Turkestan. E essa rivali- 
dade anglo-russa, na Ásia central, esteve, muitas vezes, 
para desencadear a guerra. 

Por isso, os Inglezes puzeram o khan do Belutchis- 
tan debaixo do seu protectorado. Já contra o emir de 
Afganistan, sustentado secretamente pelos Russos, 
tinha a Inglaterra enviado numerosas expedições, algu- 
mas das quaes tiveram um fim desastroso; e tanto que, 
n'uma d'ellas, em 1812, foram mortos 17 mil Inglezes. 
Mas, em 1880, depois de uma guerra de dois annos, 
esse emir foi obrigado a acceitar a alliança ingleza e a 
ceder a fronteira scientifica, isto é, o accesso dos des- 
filadeiros que levam á índia. 

Em 1885, tendo os Russos occupado os oásis de 
Meru e Pendjeh, no caminho do Herat, esteve imminente 
uma outra guerra, anglo-russa; mas o conflicto terminou 
pacificamente, por convenções que delimitaram a fron- 
teira russa-afaghan, no Turkestan e no Pamir. 

Já vimos como a Rússia, bloqueada na Europa, tra- 
ctou de se estender na Ásia. E as suas expedições mili- 
tares continuaram também n'esta época. 

Já em 1866, os Russos tinham entrado em Samar- 
kand. Em 1875, entraram em Kiva; em 1880-1881, 
tomaram a fortaleza de Turkmenes; e em 1884, com 
a occupação de Mery, todo o Turkestan se tornou 
russo. 



68 A HISTORIA ECONÓMICA 



A construcção do caminho de ferro transcaucasiano, 
de que fallaremos no capitulo III, foi facilitando a con- 
quista e a colonisação. 

A attitude hostil da Inglaterra forçou os Russos a 
pararem á entrada do Afganistan, mas a influencia 
d'estes é que se tornou preponderante na Pérsia. 

Como também já vimos, os Russos foram invadindo, 
pouco a pouco, o império chinez, para se approxima- 
rem dos mares temperados. 

Assim, os Chinezes foram expulsos primeiramente 
da embocadura do Amur (1852), onde foi edificada 
Nicolaiewsk. Depois, em 1858-1860, pelos tratados de 
Aigoun e de Pekin, tiveram de ceder toda a costa, 
desde Amur até á Corea; e os Russos fundaram na 
extremidade meridional d'esta região um grande porto 
de guerra— Vladivostok. Para levarem os seus sol- 
dados a tão grande distancia, construiram á pressa, com 
dinheiro francez, os 8.000 kilometros do caminho de 
ferro transiberiano (1897-1900). Mas Vladivostok e 
Nicolaievsk estavam fechados pelos gelos durante o 
inverno; e, por isso, a Rússia, em 1898, adquiriu da 
China uma enseada magnifica e livre, á entrada do 
golfo de Petchili, o Porto Arthur \ 

Já vimos que a Cochinchina em 1858 teve de ceder 
á França uma parte do Delta do Mekong com o porto 
Saigon (1867). O rei vizinho de Cambodje, para esca- 
par á rivalidade dos Francezes, collocou-se logo sob o 



1 Pela guerra com o Japão em 1904 e 1905, a Rússia teve de 
ceder esse porto aos Japonezes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 69 



protectorado de Sião (1863); e, em 1867, em conse- 
quência dos conflictos com os Annamitas, os Francezes 
annexaram três novas provincias da Cochinchina. 

Pensavam elles que o Mekong podia ser uma via 
de penetração na China. Mas reconheceu-se que elle 
estava erriçado de rápidos, sendo, por isso, uma via 
muito difficil; e que havia mais ao nascente uma outra 
bem melhor — o Sangkoi ou rio Vermelho, cujo Delta 
forma o Tonkin. 

Alem d'isso, os mandarins annamitas eram hostis aos 
Francezes, e o Tonkin era percorrido por bandos de 
guerreiros chinezes, chamados pavilhões negros, o que 
fez suster as tentativas da França. E, então, dois fran- 
cezes, Dupesis e Garnier conceberam o projecto de 
conquistar o paiz; e sem ordens officiaes, e apenas com 
um punhado de homens, apoderaram-se audaciosamente 
do Hanoi e de todas as cidadellas de Tonkin. 

Desgraçadamente, Garnier foi morto pelos pavilhões 
negros; e o Governo francez teve de entregar Tonkin 
aos Annamitas (1874), contentando-se com a liberdade 
commercial, e com a vaga promessa de submissão á 
França. 

Quando, mais tarde, os Francezes quizeram retomar a 
politica de expansão indo-chineza, encontraram maiores 
difficuldades, porque o Annan estava ligado á China 
por um novo tratado. Em 1883, pela morte do com- 
mandante Rivière, que fora enviado ao Hanoi, para 
proteger os Francezes, a França mandou uma nova 
expedição, que bombardeou Hué, capital do Tonkin; e, 
então, o imperador dos Annamitas reconheceu o pro- 
tectorado francez, e entregou Tonkin. Mas foi preciso 
combater em seguida a China, que protestara contra 



70 A HISTORIA ECONÓMICA 



essa entrega; e, só depois de uma lucta por mar e 
por terra, é que ella, n'esse mesmo anno de 1885, 
pelo tractado de Tien-Tsin, abandonou o Tonlcin á 
França. 

E também, depois de numerosos conflictos com o 
Sião, os Francezes estabeleceram o seu protectorado 
sobre, Laos e estenderam a sua influencia á margem 
esquerda do Mekong ^. 



1 Cezar Cantu, Historia Universal, traduzida por António 
Ennes. — Dr. Jorge Weber, Historia Universal, traduzida por Delfim 
de Almeida. — S. Marcillac, Manuel dHistoire Contemporaine. — 
Albert Malet, LEpoque Contemporaine et Dixhuitieme siècle (Revo- 
lution et Empire). — Jules Isaac, Histoire Contemporaine. — Raffy^ 
Repetitions Ecrites d' Histoire Universelle. 



CAPITULO II 
Explorações e Descobertas 

Priíicipaes explorações e descobertas na Ásia, Africa, 
America, Oceauia e reg-iões polares, n'este período. 

No período de que estamos tractando, o mundo 
alargou-se muitíssimo, tanto physícamente, pelas explo- 
rações e descobertas, como também moralmente, pela 
evolução social e intellectual. Vejamos, pois, desde já, 
quanto ao mundo physíco, as principaes d'essas des- 
cobertas e explorações. 

Começando pela Ásia ^, em 1801 a 1804, Henrique 
Julío Klaproth, nascido em Berlim, explorou ao serviço 
da Rússia parte da Sibéria, e d'ahi passou á China, 
em 1806. E, n'uma segunda viagem, explorou também 
o Cáucaso e a Geórgia. 

O allemão Ulrico Jasper Seetzen, em 1804 a 1811^ 
explorou a Syria e a Palestina, cuja geografia physíca 
não estava ainda bem estabelecida, e cujas noções eram 



1 Falíamos das explorações da Ásia. Mas, como se verá no 
decorrer d'este estudo, alguns dos seus exploradores, nas respectivas 
expedições, exploraram e visitaram também differentes regiões da 
Africa. 



72 A HISTORIA ECONÓMICA 



ainda extremamente vagas. Foi o primeiro viajante 
europeu que, depois de Ludovino Basthema (1503), 
entrou em Meca. Colheu muitas e importantes noticias 
sobre as regiões que percorreu, e falleceu em Saana, 
capital de Yemem, em 1811. 

O francez Adriano Dupré, em 1807 e 1809, percor- 
reu a Pérsia, e publicou um livro curioso a respeito 
d'essa viagem. 

O inglez Luiz Burchardt ^ seguiu as pisadas de 
Jasper Seetzen, tomando o nome de Ibralim-Ibn-Abdallh. 
Tinha aprendido a lingua árabe em Cambridge, e fez-se 
passar por um indio mussulmano. 

De 1809 a 1811, residiu em Alep, não interrompendo 
os seus estudos acerca da lingua e dos costumes syrios, 
senão para uma excursão de seis mezes a Damasco, a 
Palmyra, ao Haouran e ás cataratas. E, em 1813, explo- 
rou as margens do Nilo na Núbia, e, em 1814, visitou 
Djeddale, Meca e Medina. 

Em 1807, o Governo de Bengala organisou uma 
expedição ás fontes de Ganges, composta de Web, 
Raper e Hearsay, expedição que, em 1 de abril de 1808, 
chegou a Herduar. 

Também em 1808, a Companhia das índias enviou 
aos emires de Sindhy uma embaixada, composta de 
Nicolau Hankey Smith, Henny Elis, Roberto Taylor e 
Henrique Pottinger, sendo a escolta commandada pelo 
capitão Carlos Christie. E esta embaixada deu em 
resultado os Inglezes ficarem conhecendo melhor um 
dos seus paizes limitrofes. 



1 Luiz Burchardt nasceu em Lausanne, mas de família ingleza, 
e, por isso, é conhecido como inglez. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 73 



A companhia, muito satisfeita com o modo como 
o capitão Christie e Henrique Pottinger procederam, 
confiou-lhes outra missão, bem mais difficil, a saber: 
o irem por terra atravez de Belutchistan, com o gene- 
ral Malcolim, embaixador da Pérsia, e reunirem, a 
respeito d'este vasto e extensíssimo território, dados 
mais exactos e mais completos do que então se pos- 
suiam. 

E, effectivamente, elles cumpriram essa missão, por- 
que exploraram o Belutchistan e Afganistan, fornecendo 
curiosas noções a tal respeito. 

Em 1808, a Inglaterra enviou uma embaixada ao 
rei de Cabul. O embaixador escolhido foi Mounstuart 
Elphinstone, que deixou uma interessante narrativa da 
sua missão, e muitas informações novas acerca desse 
paiz. 

Em 1812, a Companhia determinou também a via- 
gem de Moorcroft e do capitão Harsay ao lago Man- 
sarovar. Tractava-se desta vez de trazer um rebanho 
de cabras de Cachemira, de grandes sedas, cujo pello 
servia para a fabricação d'esses chalés famosos no 
mundo inteiro; e, alem d'isso, de desfazer a asserção 
dos Indús de que o Ganges tem a sua origem para lá 
do Himalaya, no lago Mansarovar. 

Essa missão explorou o Himalaya e o lago Mansa- 
rovar, e averiguou que, realmente, o Ganges não sahia 
d'esse lago 

Em 1817, Prazer, também inglez, fez uma excur- 
são ao Himalaya, e Hodgson ás nascentes do Ganges, 
colhendo também ambos elles noções preciosas. 

Em 1808 e 1814, John Macdonald-Kinneir percor- 
reu em muitas direcções a Ásia Menor, a Arménia e o 



74 A HISTORIA ECONÓMICA 



Kurdistan; e Wiliam Price, na mesma época, explorou 
a Pérsia, e estudou os caracteres cuneiformes. 

Em 1812, Web e Moorcroft, exploraram também o 
Himalaya. E Web subiu até ao Nitigrant, a collina mais 
elevada do universo. 

Em 1819, o capitão Sadler, do exercito da índia, 
atravessou a península inteira da Arábia, desde o porto 
de El-Katif ao golfo Pérsico, e até Yambo, no Mar 
Vermelho. Foi o primeiro Europeu que fez a travessia 
da Arábia. 

Em 1837, o allemão bavaro Heinrich Shubert, depois 
de ter percorrido o Egypto inferior e a peninsula do 
Sinai, penetrou na Terra Santa, e dirigiu-se com uma 
pequena caravana árabe a El-Kalil, o antigo Hebron. 

A estrada que seguiu não fora ainda percorrida por 
nenhum europeu; e verificou elle que o lago Asphaltit 
nunca podia despejar no Mar Morto, pela razão de lhe 
ficar em nivel muito inferior, pelo menos, seiscentos 
pés. 

Ao mesmo tempo, o estudo physico da bacia do 
Mar Morto era completado e rectificado por dois mis- 
sionários americanos, Edward Robinson e Eli Smith. 
Mas não foi só essa região, tão interessante pelas 
recordações que evoca em todas as almas christans, 
que se tornou objecto dos estudos dos eruditos e dos 
viajantes. Toda a Ásia Menor ia em breve entregar-se 
á curiosidade do mundo, porque os viajantes atraves- 
saram-na em todos os sentidos. 

Assim, Eichwald, em 1825 e 1826, explorara a 
margem do Mar Caspio; Perrot, visitou a Arménia, e 
Dubois de Montpéreux percorreu o Cáucaso, em 1839. 
Emfim, o allemão Alexandre de Humbold, graças á 



EDADE CONTEMPORÂNEA 75. 



generosidade do imperador Nicolau, da Rússia, e aju- 
dado de outros sábios, completou, na parte asiática 
russa e no Ural, as observações de physica geral e de 
geografia, que tão corajosamente fizera já no Novo 
Mundo, e de que a seu tempo fallaremos. 



* 
* 



Quanto á Africa \ a primeira exploração foi ini- 
ciada por Napoleão, no Egypto; pois, quando invadiu 
esse paiz, rodeou-se d'um estado maior de sábios e de 
artistas distinctos, para o estudarem e explorarem devi- 
damente; e essa reunião de sábios foi que primeiramente 
deu uma ideia exacta da antiga civilisação do Egypto. 
Mas esta iniciativa de Napoleão ficou depois invali- 
dada; pois, quando elle sacrificou tudo á sua paixão^ 
guerreira, não quiz ouvir fallar mais de explorações,, 
viagens ou descobertas. 

Desde 1816 a 1824, o doutor Oudney, associado 
com Clapperton e Denham, todos inglezes, explorou 
o Fezan, no paiz dos Tibus, torneou o lago Tchad, 
visitou Kuka, então capital do Bornu, e as principaes 
cidades de Bornu, bem como o paiz de Loggum e 
Kano. 



1 Aconteceu aqui o mesmo que já expozemos, quanto á 
Ásia. Muitos exploradores que tiveram principalmente por seu pro- 
pósito explorar regiões africanóis, exploraram também algnmas re- 
giões de outras partes do mundo. 



76 A HISTORIA ECONÓMICA 



Clapperton, voltando á Inglaterra, preparou-se para 
nova expedição, aggreg^ando a si o cirurgião Dikson e 
o capitão de mar e guerra Pearce, e também o cirur- 
gião de marinha Morrisson. 

Essa expedição chegou, então, a Djannah; e ahi mor- 
reram Pearce e Morrisson. Mas Clapperton continuou 
na expedição. Demorou-se, então, em Katunga, onde 
residiu algum tempo. Chegou a Bussa, Demorou-se 
também algum tempo em Kulfa, e penetrou por fim em 
Kano, indo morrer a Sokatu. 

O seu criado Lander continuou as explorações no 
interior da Africa, e visitou differentes cidades ou re- 
giões como Carto, Gowgie, Gatas, Dandy, Kulfa, Bussa, 
Ouaoua e Badagry, d'onde, em 1828, embarcou para 
Londres. 

Em 1816, o francez Mollien tractou de pesquizar 
as nascentes dos grandes rios do Senegambia, especial- 
mente do Djoliba; e chegou ás nascentes do Gambia e 
do Rio Grande, e depois a Timbu, capital de Futa, 

Um outro explorador, também francez, Renato Cail- 
lié, em 1816, tractou d'explorar o Senegal, e para isso 
juntou-se á exploração inglesa do major Gray. Mas essa 
expedição nada aproveitou. 

Em 1827, o mesmo Caillié organisou uma nova 
expedição, e chegou a Tombuctu, capital do Sudão, e 
atravessou a Senegambia até Marrocos. 

O inglez Alexandre Gordon Laing descobriu a fonte 
de Djoliba. Visitou a cidade de Ma-Boun; bem como 
as fontes do Niger; e, afinal, foi morto pelo gentio. 

Ricardo Lander e seu irmão John Lander chega- 
ram a Katunga e a Moussa, onde o sultão de Borgu 
mandou uma escolta ao seu encontro. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 77 



Chegaram depois a Rabba, na ilha da Bibi, que é 
a segunda cidade dos Fellans, e ainda depois a Sokatu, 
residência do rei. Explorando o Niger, a que os indige- 
nas chamavam Djohba ou o Kuara, chegaram também 
a Egga. 

As explorações no valle do Nilo foram egualmente 
objecto de assiduas emprezas; as mais importantes, 
porém, foram as de Frederico Cailliaud, Russeger e 
Ruppel. 

Quanto a Frederico Cailliaud, francez, fez elle a 
descoberta em Labarah das minas de esmeraldas, men- 
cionadas pelos auctores árabes, e abandonadas desde 
séculos; encontrou nas escavações da montanha, a lâm- 
pada e alavanca e as cordas e instrumentos que tinham 
servido para a exploração d'essas minas pelos operários 
de Ptolomeu ; e descobriu a antiga estrada de Coptos 
a Berenice, tão importante para o commercio da índia. 

Explorou também o valle do Nilo, levantando mui- 
tas plantas, desde 1819 a 1822; e visitou muitos oásis, 
onde os Europeus até então tinham ido. 

Algum tempo depois, Eduardo Ruppell dedicou-se, 
durante sete ou oito annos, á exploração da Núbia, do 
Sennaar, do Cordefan e da Abyssinia ; e, em 1824, subiu 
o Nilo Branco, até mais de sessenta legoas da sua 
embocadura. 

Alem d'isto, o naturalista allemão, José Russegger, 
visitando também, desde 1830 a 1837, a parte inferior 
do curso do Bahr-el-Abiad preludiava com essa via- 
gem official os grandes e profundos conhecimentos que 
Mehemet-Ali ia fazer das mesmas regiões. 

A expedição do Pleiad, sob a direcção do Dr. 
Baíkie, executada de julho a setembro de 1854, realisou 



"78 A HISTORIA ECONÓMICA 



um bom reconhecimento do Kuara inferior e do seu 
grande afluente, o Benué. 

Em 1849, foi confiada pelo governo inglez uma 
outra expedição a James Richardson, que, não sendo 
homem de sciencia, viu a necessidade de se fazer acom- 
panhar de bons exploradores. E, seguindo o conselho 
do cavaleiro Bunsen, sábio eminente, que occupava 
então o posto de embaixador da Prússia, em Londres, 
teve de pedil-os á Allemanha, que lhe proporcionou o 
Dr. Overweg, joven naturalista de Hamburgo, e Hen- 
rique Barth, seu compatriota. 

Em 1850, a expedição estava reunida em Tripoli, 
prompta a entrar no Fezzan, e de lá nas regiões inte- 
riores. E atravessou o paiz de Air no interior do Sahara, 
que é um bello e grande oásis montanhoso e uma ver- 
dadeira Suissa, no meio do deserto. 

Em principio de 1851, Richardson succumbiu a uma 
rápida doença; mas esse triste acontecimento não enfra- 
queceu a actividade dos dois companheiros. E, n'esse 
mesmo anno, exploraram elles o lago Tchad e as re- 
giões circumvisinhas ao S. e S.O. Também em junho 
d'esse anno, Barth foi até Adamâoua, paiz do sul, que 
é atravessado pelo Benué, rio considerável, que se 
pode considerar como um braço oriental do Kuara. 

Em setembro de 1852, morreu Overweg; e Barth, 
que ficou só, fez uma longa correria no O., explorando 
o Sudão ocidental, que Clapperton já tinha visitado. 

Durante mais de dois annos, o ousado viajante 
ficou absolutamente sequestrado de todas as noticias 
exteriores; mas, em novembro de 1854, reappareceu 
em Bornu, tendo estado quasi um anno em Tombuctu. 
E em Bornu encontrou um novo companheiro, que a 



EDADE CONTEMPORÂNEA 79 



sociedade geográfica de Londres lhe mandava para 
substituir Overweg. Foi Eduardo Vogel, seu compa- 
triota, que possuia grandes conhecimentos de historia 
natural, e que tinha a pratica de observações astro- 
nómicas. 

Vogel chegou a Bornu, em 1854; e, tendo Barth 
deixado essa cidade, em 1855, ahi ficou elle só, por sua 
vez. Quiz então explorar o Sudão oriental, como Barth 
tinha feito ao occidental, e ir a Ouaday. E para isso 
deixou Kuka, em fevereiro de 1856, e contornou o lago 
Tchad pelo sul, para subir ao N.O., com direcção a 
Ouaday. Desde este momento, porém, não houve noti- 
cias d'elle. 

Em 1860, organísou-se em Gotha uma larga expe- 
dição, sob a direcção de M. Heuglin, que já tinha uma 
longa permanência no Sudão egypcio. E todas as scien- 
cias foram representadas n'esta expedição, que devia ir 
ao mar Vermelho, pela Alexandria e Suez, e do mar 
Vermelho a Kharthum, pelo porto de Massâouah, e ás 
partes pouco conhecidas da Alta Núbia, que confinam 
pelo norte com a Abyssinia. De Kharthum, os viajantes 
iriam ao Darfur e ao Ouaday. 

Ao mesmo tempo, um viajante isolado, M. Moritz 
de Beurmann, que offerecera expontaneamente o seu 
concurso ao convite de Gotha, devia ir ao encontro de 
M. Heuglin, atravessando o Fezzan, e ganhando o 
Bornu para seguir d'ahi ao N.E. para o Ouaday, isto é, 
tomando o mesmo itenerario que Vogel tinha tomado. 

Beurmann cahiu sob o ferro dos assassinos, como 
Vogel ; e, do lado do Nilo, a expedição principal che- 
gou apenas alem de Kharthum, dissolvendo-se, em 1862. 
Comtudo, esta expedição allemã não foi inútil para o 



80 A HISTORIA ECONÓMICA 



adiantamento da geog^rafia africanéi, por causa dos 
trabalhos preparatórios que produziu, constatando as 
noções adquiridas sobre a metade oriental da Africa 
do Norte, e bem assim, por causa dos resultados par- 
ciaes que teve, relativamente á Núbia, 

Esta região, na sua parte superior, tinha sido visitada, 
em 1823, também por Eduardo Rijppel, naturalista alle- 
mão, e, em 1837 a 1838, por José Russegger. As rela- 
ções que este explorador deixou da sua expedição são 
excellentes; e Ruppel, por seu lado, reuniu n'uma serie 
de noticias a collecção de seus estudos sobre o Don- 
golah, Sennâar e Kordofan. Foi o primeiro Europeu 
que viu este ultimo paiz. 

A origem das fontes do Nilo, adormecida desde 
muitos annos, tornou-se, então, uma das mais ardentes 
questões geográficas. 

Em 1840, Mahomet-Ali, o reformador do Egypto, 
organisou uma expedição para explorar essas fontes. 
Sabe-se hoje que o Nilo se forma em Kharthum, 
pela reunião do rio Azul, que vem do coração da 
Abyssinia, e do rio Branco, reputado pelos indigenas 
como o ramo principal. Mas esta expedição, depois 
de ter descoberto o Nilo Branco, não pôde subil-o 
em todo o cucso, por causa das baixas aguas. Em 
todo o caso, fundou uma missão catholica em Gon- 
dokoro. 

De 1847 a 1852, dois jovens missionários, muito 
activos, da egreja anglicana, o Dr. Krapf e o padre 
Rebmann exploraram as paragens da Africa tropical, 
que, até então, defendidas por um clima perigoso para 
os Europeus, e pela reputação de ferocidade dos povos 
do interior, era uma das regiões do mundo mais com- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 81 



pletamente ignoradas. Alem das costas, nada se conhe- 
cia; e nenhum viajante tentara ainda atravessar esta 
zona temida. 

Entre as descobertas dos dois activos missionários, 
a que mais retiniu na Europa, foi o annuncio de dois 
picos, cercados de neves eternas, a 320 kilometros, 
quasi acima da costa, e não longe do sul do equador. 

Este facto foi depois verificado, em 1860 e 1861, 
pelo barão Decken, viajante allemão, que subiu uma 
grande parte da altura do Kilimandjaro, e cujas explo- 
rações enriqueceram a carta d'esta região. Mas aquella 
noticia produziu ao principio taes duvidas e sobresal- 
tos na Europa que a Sociedade de Geografia de 
Londres elaborou um plano explorador, cuja direcção 
confiou a Richard Burton, o qual associou a si Speke. 

De 1857 a 1859, esses dois exploradores inglezes 
fizeram uma viagem aos grandes lagos da Africa aus- 
tral, e descobriram assim o Kazeh ou Tabora, que é um 
dos centros mais importantes da Africa austral, e che- 
garam também ao lago de Tanganika ou Grande Lago, 
que os árabes chamam Oudjidji ou Oudjiji, do nom.e de 
uma cidade das margens orientaes. Este lago é pouco 
navegável fora da costa, por causa das frequentes tem- 
pestades que levantam a agua, muitas vezes, em vagas 
de quatro metros de altura. 

Burton achou-se então doente, e, não pôde seguir 
para o norte. Seguiu, por isto, somente Speke, e des- 
cobriu mais o lago Nyansa, a que chamou Victoria 
Nyansa. 

Com um novo auxiliar, o capitão Grant, o mesmo 
Speke emprehendeu, em 1860, uma segunda expedição, 
para proseguir no reconhecimento do lago Victoria- 

Volume VI 6 



82 A HISTORIA ECONÓMICA 



Nyansa; e verificou, assim, que esse lago estava em 
communicação directa com o Nilo Branco. 

Os dois viajantes, em fevereiro de 1863, encontraram, 
em Gondokoro, Samuel Baker, que tinha feito a sua 
exploração pelos altos paizes do Nilo. E, partindo os 
outros dois para a Europa, Baker continuou com sua 
joven esposa nas explorações; de modo que chegou 
ao lago, já assignalado por Speke, sob o nome de 
Luta-Nzighé, que elle chamou Alberto Nyansa, e con- 
siderou como a segunda fonte do Nilo. 

Em 1852, Livingstone, missionário protestante es- 
cossez, emprehendeu a primeira viagem de exploração. 
N'esta primeira viagem, que durou de 1852 a 1856, foi 
do centro do continente austral, onde chegou pelo 
sul, isto é, desde o Cabo da Boa Esperança, pelo lago 
Ngami, até Lynianti; e de lá até á costa Occidental, a 10 
graus de latitude sul. 

Na segunda expedição, em 1858, explorou a bacia 
do Zambeze, e, sobretudo, o valle do rio Chire, 
affluente do Zambeze; e chegou, em 2 de setembro 
de 1861, ao lago Nyassa ou Maravi, tão grande como 
o Tanganika. 

A terceira e ultima viagem foi emprehendida, em 
1865. Independentemente de suas vistas philantropicas 
acerca da extincção da escravatura, esta viagem teve 
por objecto a exploração de todo o espaço comprehen- 
dido entre o delta do Zambeze e as paragens de 
Zanzibar, e também o complemento da exploração do 
Nyassa e da região dos grandes lagos. 

Durante quatro annos, não houve noticias d'elle. 
A sociedade de geografia de Londres organisou, pri- 
meiramente, uma expedição, commandada por Young, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 83 



que adquiriu a convicção de que Livingstone vivia 
ainda, e que devia estar perto do sul do lago Tanga- 
nika. E organisou depois, em Londres, em 1872, uma 
outra expedição para o descobrir, formada por dois 
officiaes de marinha Dawson e Kenn, e por Osvald 
Uvingstone, filho do mesmo illustre explorador. Esta 
expedição, porém, baldou-se completamente. 

Henrique Stanley, repórter de um jornal americano, o 
New-York- Herald, foi, então, chamado a Pariz pelo seu 
director, que se achava lá; e esse director encarregou-o 
de ir descobrir Livingstone. E, de facto, este o des- 
cobriu, encontrando-o ao pé do lago Tanganika. 

O Dr. Schweinfurth, de origem allemã, embora nas- 
cido em Riga (Rússia), tentou descobrir pelo norte as 
origens do Nilo, que Livingstone procurara pelo sul; 
e n'essa tentativa estudou as regiões que ficam acima 
de Kharthum e os povos Nouèrs, Dinkas, Chilluks, 
Bongos, Mittus, Niams-Niams e Mombutus. 

Em 1869 a 1874, o Dr. Nachtigal visitou as regiões 
dos Tibbus, chamadas Tibesti, Kânen, Borku, e outras 
do interior. 

O escossez Cameron, que foi também em procura 
de Livingstone, de cuja morte teve noticia durante a 
expedição, foi o primeiro europeu que pôde conseguir 
atravessar, de um lado a outro, a parte equatorial da 
Africa, entre o 5.° e o IO.'* graus de latitude Sul. Fez 
essa travessia, partindo de este para oeste, e recolheu 
muitas e valiosas noções para a geografia d'essa 
época. 

M. Alexandre Marche, e o seu amigo Marquez de 
Compiegne, foram também os primeiros que tentaram 
subir o rio Ogowai ou Ogôoue, até 160 kilometros da 



84 A HISTORIA ECONÓMICA 



sua embocadura. E, desde 1872 a 1874, as suas viagens, 
que duraram dois annos, deram noticias, também muito 
proveitosas á g-eografia. 

Depois, em 1875, uma expedição, composta de M. M. 
Marche, Brazza e Ballay, subiu egualmente o Ogôoue, e 
penetrou no interior da Africa. 

Em 1874, Stanley, fez uma segunda viagem, também 
no interior da Africa, e reconheceu bem o lago Tan- 
ganika e as regiões circumvizinhas. 

Houve ainda outras expedições ou viagens menos 
importantes, como a de Samuel Baker, Gordon, Linant 
de Bellefonds, e Heuglin (Martin Theodoro); a expedi- 
ção italiana na Africa equatorial; a de Durmaux-Duperé, 
de Soleillet, de Largeau, do Dr. Ervin, de Von Bary, de 
Bonnat, e do allemão Dr. Lens. 

Serpa Pinto, portuguez, fez a travessia de Angola a 
Cafreria. Capello e Ivens, também portuguezes, explora- 
ram as possessões portuguezas ultramarinas de Angola e 
Moçambique. E, ainda outro portuguez. Silva Porto, de 
1879 a 1890, foi de costa a contra costa, de Benguella a 
Cabo Delgado. 



Quanto á America, no principio do século XIX, o 
capitão Meryweather Lewis e o tenente Wiliam Clarcke 
foram encarregados pelo congresso dos Estados Unidos 
de reconhecer o Missouri, desde a sua foz no Mississip^ 
até á nascente, e atravessar as montanhas Rochosasi 
pelo caminho mais curto e mais fácil, que puzesse em 
communicação o golfo do México e o Pacifico. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 85 

Em 14 de Maio de 1803, deixaram elles o Wood-Ri- 
ver, que se lança no Mississipi para entrar no Missouri, 
e foram explorando as regiões por onde passavam, 
assim como as regiões do Yellow-Stone, rio quasi tão 
grande como o Missouri. E ainda depois, descendo 
pelo rio Colômbia, exploraram também a sua bacia. 

Em 1807, um joven official, o tenente Zabulon 
Montgomery Pike, foi encarregado também pelo governo 
dos Estados Unidos de reconhecer as nascentes do 
Mississipi; e, realmente, explorou não só essas nascen- 
tes, mas outras muitas regiões d'esse rio. 

Daniel Wilians Harmon, associado da Companhia 
do Noroeste, explorou os lagos Huron, o Superior, 
o das Chuvas, o dos Bosques, o Monitoba, Winnipeg, 
Athabasca e do Grand Urso, e chegou ao Oceano 
Pacifico. 

Em 1819, o major Long foi incumbido pelos Estados 
Unidos de explorar o paiz situado entre as Montanhas 
Rochosas e reconhecer o curso do Missouri e dos seus 
principaes afluentes. E a sua expedição, n'esse mesmo 
anno, reconheceu effectivamente aquelle curso, e explo- 
rou muitas d'aquellas regiões. 

A exploração do Mississipi, abandonada desde a 
expedição do Montgomery Pike, foi retomada, em 1820, 
pelo general Cass, que explorou parte d'elle, e chegou 
ao lago Winnipeg. 

Em 1831, Schoolcraft, partindo de Santa Maria, 
visitou as tribus do lago Superior, entrou logo no rio 
de S. Luiz, e chegou aos lagos Báculo, Winnipeg, Cass, 
Tascodiac, Travers, Marquette, Lassalle, Kubbakunna, 
Itasca ou da Corça; e explorou também o Mississipi, 
desde o nascente até á Foz. 



86 A HISTORIA ECONÓMICA 



Enfim, em 1831, o capitão Wyeth e seu irmão explo- 
raram o Oregon e a parte vizinha das montanhas 
RochosaSv-'i Humeldt fez longa permanência na America 
Central, e forneceu informações muito importantes 
acerca d'ella. 

è 

Quanto á America do Sul, em 1815, um g-eneral 
prussiano, o principe de Wied-Neuwied, em compa- 
nhia dos naturalistas Freirciss e Sellow fez uma viagem 
d'exploração, nas provincias interiores do Brazil. E, 
annos depois, o naturalista francez Alcides d'Orbigny, 
durante oito annos consecutivos, percorreu o Brazil, o 
Urug-uay, a republica Argentina, a Patagonia, o Chili, 
a Bolivia e o Peru. 



* 
* 



Na Oceania, no principio do século XIX, um dos 
maiores colonisadores de que a Inglaterra pôde orgu- 
Ihar-se, Stamfort Raffles explorou Java, e deu impor- 
tantes noticias sobre o interior, até então pouco conhe- 
cido. Foi também o primeiro viajante que penetrou no 
interior da Sumatra. 



* 

* 



Houve egualmente n'este século XIX, differentes via- 
gens de circumnavegação, como a dos russos Adão 
João de Krusenstern, em 1803 a 1806; Othon Kotzebue, 
em 1815 e 1818; Frederico WiUiam Beechey, de 1825 



EDADE CONTEMPORÂNEA 87 



e 1827, e Lutké, desde 1828 e 1829; a dos Francezes 
Luís Cláudio de Saulces de Freycinet, desde 1817 
e 1821, Duperrey e Dumont de Urville acamaradados, 
desde 1822 a 1825, BougainviUe, de 1824 a 1826, e 
outra vez Dumont de Urville, de 1826 a 1829. 



Quanto ás expedições polares, no principio do 
século XIX, os geógrafos começaram a discutir a pos- 
sibilidade e as vantagens de uma passagem, condu- 
zindo dos portos da Europa aos da China, pelo norte 
da America e estreito de Behring. 

Para isso, tractou-se de observar as mudanças 
imprevistas que as estações e os gelos experimentam 
nos mares polares. 

Wiliam Scoresby, simples baleeiro, foi o primeiro 
que assignalou á Europa sabia quaes eram essas mudan- 
ças. No estio de 1816, elle pôde aterrar na costa orien- 
tal da Goenlandia, fechada até então aos navegadores 
modernos, correr as costas d'essa região em muitos 
graus de latitude, e verificar o deslocamento de cinco 
a seis mil legoas quadradas de gelo. 

Em vista de uma memoria, redigida por elle, o almi- 
rantado inglez, fez partir quatro navios, divididos em 
duas expedições, que deviam operar concorrentemente. 
A primeira tinha por fim procurar a passagem pela 
bahia de Baffin ; e a segunda, abrir directamente um 
caminho pelo estreito de Behring, navegando dire- 
ctamente para o norte de Spitzbergen. 



88 A HISTORIA ECONÓMICA 



Os nomes dos commandantes d'estes quatro navios 
teem ficado celebres. Foram, para os navios destina- 
dos á bahia de Baffin, John Ross e Edward Parry, e, 
para a expedição no Mar Glacial, David Buchan e John 
Franklin. 

A primeira expedição chegou á Goenlandia, ao 
sitio, onde, nove séculos antes, os Scandinavos tinham 
baptisado essa terra com o nome de Terra Verde 
(Groenlândia), e onde, segundo as chronicas irlan- 
dezas, nos séculos X a XIV, floresciam, sob a tu- 
tella dos bispos de Cardar, as duzentas aldeias do 
Oster e Wester Bydg, povos de ricos e ousados colo- 
nos, com relações com a mãe pátria e com as cos- 
tas americanas. Hoje ha apenas simples vestigios de 
Cardar. 

As expedições ahi communicaram com os Esqui- 
mós. O capitão Ross deu a esta região o nome de 
Hylands- Ar diques, e seguiu a costa na direcção de 
nordoeste, entrando no estreito Lancastre, e voltando 
em seguida para Inglaterra. 

Houve depois a expedição de Franklin que, em 1819, 
embarcou em direcção á bahia de Hudson. Chegou 
apenas ao ponto conhecido pelo cabo de Tarnagain, e 
teve de voltar, em 1822, podendo, depois de muitos 
perigos e incidentes, chegar á Inglaterra. 

A expedição de Parry, depois de verificar a exis- 
tência dos estreitos do Principe Regente e de Barrow, 
foi levada pelo mar para as ilhas chamadas hoje 
Archipelago de Parry, onde as principaes receberam 
d'este navegador os nomes de Cornwallis, Bathurst 
e Melville. Entre ellas, penetram ao norte na bacia 
polar, muitos canaes, o principal dos quaes foi bapti- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 89 



sado com o nome de Wellington. A expedição chegou 
depois a 75° de latitude norte, logar que Parry chamou 
Bushnan-Cove. 

Desde 1821-1823, Parry, acompanhado do capitão 
Lyon, tentou outra expedição, que entrou na bahia de 
Hudson. Entrou depois também no estreito de Fox, e 
dirig-iu-se, costeando pelo este e norte da grande ilha 
de Southampton, para a bahia Repulsa. Invernou na 
ilha de Winter, dobrou depois o cabo Penrhym, a 
peninsula Amiticki, um pequeno grupo de ilhas que 
designou sob o nome Ouglit, e tocou a ilha Igloulik. 

Houve uma segunda viagem de Franklin, em 1825, 
na qual tocou o rio Makensie, e, levado pelas suas 
aguas, desceu ao mar polar. 

Em 1827, voltou á Inglaterra, sem ter conseguido 
ultrapassar o circulo polar. O mesmo aconteceu ao seu 
antigo logar-tenente Beechey, que emprehendeu tam- 
bém uma viagem, com destino ao polo artico. 

João Ross (1829-1833), percorreu de novo as regiões 
boreaes, descobriu a peninsula Boothia Félix e o polo 
magnético, e tomou posse d'elle em nome de Gui- 
lherme IV. 

O capitão Back (1833-1835) descobriu o grande 
rio de Poisson ; e, entrando nos gelos, explorou uma 
parte das regiões articas; e os nomes de Corkburn, 
Beaufort, Barrow e Richardson que rodeiam o nome 
real de Victoria, dado ao promontório, o mais notável 
d'estas paragens, tornaram-se os monumentos mais notá- 
veis da passagem d'elle. 

Mac Clure, em 1850, descobriu a passagem de 
NO. do Oceano Atlântico para o Pacifico, pelas zonas 
boreaes. 



90 A HISTORIA ECONÓMICA 



Em 1853, Kane chegou até 80° N., no estreito que 
que fecha o Estado de Groenlândia; e Hayes, na mesma 
direcção, adiantou-se até 81", 35 N. 

A passagem do NE. (communicação pelo este entre 
o Atlântico e o Pacifico) tentou também muitos explo- 
radores do século XIX. 

Assim, uma expedição austriaca, sob o commando 
de Payer e Weyprecht, descobriu o archipelago Fran- 
cisco José, alem de Spitzbergen. Mas á expedição de 
A. E. Nordenskjõld é que estava reservada a honra 
d'esta longa travessia, no navio A Vega. 

Essa expedição deixou Tromsô, em 21 de julho 
de 1878; dobrou o cabo Tscheljuskin; reconheceu a 
embocadura do Lena; e, depois de vários incidentes, 
penetrou no estreito de Behring. A passagem de NO. 
ficou assim realisada. 

Em 1879, de Long fez outra expedição no navio 
Jeannete, com o fim de encontrar uma via navegável 
da costa americana á Sibéria, e de explorar especial- 
mente a Terra de Wrangel. N'este sentido, em agosto 
d'esse anno, partiu de S. Francisco. Em 1881, des- 
cobriu a ilha Jeannete, a ilha Henriette, e a ilha de 
Bennet, onde falleceu de naufrágio, a 13 de junho 
de 1881. 

Em consequência d'este desastre, o polo norte foi 
abandonado por alguns annos. Mas foi posto nova- 
mente na ordem do dia, pela expedição do norueguez 
Fridtjot Nansen. 

Partiu elle da Noruega sobre o Fram, em julho 
de 1893, com o fim de se deixar arrastar pela cor- 
rente polar, que, segundo as previsões, devia atravessar 
o polo e ir dar á Groenlândia meridional. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 91' 



E tendo-se-lhe juntado a expedição de Joansen, 
dirigiu-se para o extremo norte em trenós, a partir de 
14 de março de 1895, e attingiu 86",14' N. Depois, os 
dois exploradores retiraram-se para a terra de Francisco 
José, e invernaram n'este archipelago. 

A 7 de agosto de 1896, ambos elles embarca- 
ram no cabo Flora, a bordo do Windward. E o 
Fram, por seu lado, em outubro de 1895, attingiu 
uma alta latitude, a de 85°,57' N. 

Por esta expedição, verificou-se um vasto desloca- 
mento dos gelos desde as ilhas da Nova Sibéria até á 
Groenlândia oriental. A expedição de Nansen foi a 
primeira que se manteve durante um anno em latitudes 
que variavam de 83° a 86°, e os dados scientificos que 
ella recolheu, são de grande interesse. As sondagens, mi- 
nuciosamente effectuadas, demonstraram que o Oceano 
glacial constitue uma depressão considerável da crosta 
terrestre. 

Jackson, em 1895-1896, explorou também a terra de 
Francisco José. 

Andrée, em 1897, concebeu o projecto de ir ao polo 
em balão. E deixou, assim, em balão, com Frânkel e 
Strindberg, a ilha dos Ursos; mas a empreza falhou, e 
os aeronautas tiveram um fim desgraçado. 

Em 1898, Wellmann, tentando também ir ao polo em 
balão, o que não pôde conseguir, descobriu muitas 
ilhas, especialmente, a terra do Graham. 

Em 1899, o duque dos Abruzzos deixou a No- 
ruega, sobre a Stella Polare; explorou o norte da 
terra de Francisco José; e invernou na terra do prín- 
cipe Rodolfo. E o capitão Cagni adiantou-se em tre- 
nós até 86°,33. 



■92 A HISTORIA ECONÓMICA 



* 
* * 

Quanto aos mares polares no sul, em 1818, Wiliam 
Smith, vindo de Montevideu para Valparaiso, descobriu 
as Shetlands do sul, terras áridas e nuas, alcatifadas de 
neve, mas onde se repotreavam immensos rebanhos de 
vitellas marinhas, que, até então, se não tinham encon- 
trado nos mares do sul. 

Sabendo isto, os baleeiros apressaram-se a visitar 
essas paragens; e, em pouco tempo, se fez o desco- 
brimento das doze ilhas principaes e de innumeraveis 
rochedos, quasi inteiramente privados de vegetação. 

Dois annos depois, Botwel descobriu as Orcades 
meridionaes; e, depois, na mesma latitude, Palmer e 
outros baleeiros entreviram ou julgaram reconhecer 
as terras que receberam o nome de Palmer e de 
Trindade. 

Em 1819, o capitão Bellingshausen e o tenente 
Lazarew, ambos russos, reconheceram a Geórgia meri- 
dional; e, sete dias depois, descobriram a sueste uma 
ilha vulcânica, dando-lhe o nome de Traversay, cuja 
posição fixaram a 52", 15 de latitude e 27 21, de longi- 
tude do meridiano de Paris. Depois d'isso, fizeram no 
porto de Jakson os concertos necessários, e foram 
direitos ao sul, até 70". 

Ainda Bellingshausen, no verão de 1820, descobriu 
nos mares oceânicos 17 ilhas novas. E, tendo voltado 
a Fort Jakson, n'esse mesmo anno, fez nova expedição; 
de modo que, em janeiro de 1821, chegou a 70" de 
latitude, e descobriu uma ilha que recebeu o nome de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 95 



Pedro I, a terra mais meridional que, então, se conhe- 
cia; e descobriu também uma nova terra, que foi cha- 
mada a Terra de Alexandre II. 

Weddell, inglez, descobriu o archipelago a que deu 
o nome de Orcades austraes, e internou-se no polo,. 
214 milhas mais longe que todos os seus predecesso- 
res. Deu também, o nome de Jorge IV, á parte do mar 
austral que elle explorou. E coisa singular, os gelos 
tinham diminuído á proporção que se caminhava mais 
para o sul ; as tempestades e os nevoeiros eram conti- 
nuados ; a atmosphera estava constantemente carregada 
de uma humidade compacta; e o mar era profundo e 
aberto, e a temperatura singularmente amena! 

Em 1830, o baleeiro John Biscoê, inglez, chegou 
até 68'',51 de latitude e 10" de longitude oriental, onde 
todos os indícios mostravam a vizinhança de uma grande 
terra. Mas o gelo prohibiu-lhes o continuarem para o 
sul; e, por isso, Biscoé teve de proseguir no seu caminho 
para oeste, approximando-se do circulo polar. Emfim, 
a 27 de fevereiro d'esse anno, viu muito distinctamente 
uma terra de uma extensão considerável, montanhosa e 
coberta de neve, a que poz o nome de Enderby, não 
podendo aportar lá por estar completamente rodeada 
de gelos. 

Depois, a 66",27' de latitude e 84°,10' de longitude, 
reconheceu uma ilha, a que poz o nome de Adelaide. 

Controvérsias animadíssimas se tinham manifestado 
depois d'esta viagem, acerca da existência de um conti- 
nente austral, e da possibilidade de navegar para alem de 
uma primeira barreira de gelos, possibilidade já demons- 
trada pelas ilhas descobertas. Por isso, três potencias 
resolveram, na mesma época, enviar uma expedição. 



«94 A HISTORIA ECONÓMICA 



A França confiou o commando da sua a Dumont 
d'Urville, a Inglaterra a James Boss, e os Estados 
Unidos ao tenente Carlos Wilkes. 

Este ultimo reconheceu a terra de Palmer, n'uma 
extensão de 30 milhas, até ao ponto em que ella vira 
para S.E., ponto a que deu o nome de Cabo Hope. 
E entrou na bahia a que deu o nome de bahia de 
Pinners. 

Ao mesmo tempo, no principio de 1839, Balleny 
concorria com o seu quinhão para o reconhecimento 
das terras antarticas. Tendo partido da ilha Campbell, 
ao sul da Nova Zelândia, chegou a 61°, 5^ de latitude 
e 164'',25' de longitude, a O do meridiano de Pariz. 
Seguindo, então, o seu caminho para O, reconheceu 
muitos indicios- de vizinhança de terra, e descobriu a 
sudoeste uma faxa negra que, vista ás seis horas da 
tarde, não podia deixar de ser considerada como terra. 
Eram três ilhas consideráveis, das quaes a mais Occi- 
dental, a mais comprida, recebeu o nome de Belleny. 
Mas não pôde apportar a nenhuma d'ellas, por causa 
do gelo. 

Depois, descobriu também outra ilha, a que poz o 
nome de Sabrina. 

Em 1837, partiu também Dumont d'Urville para a 
sua expedição. Depois de ter atravessado varias regiões 
de gelos soltos, que elle foi quebrando, de modo a 
seguir viagem, as corvetas puderam encontrar-se de 
novo n'um mar inteiramente livre, a 62",9' de latitude 
e 39°,22 de longitude O. 

No parallelo 62'',57', reconheceu primeiramente uma 
terra baixa, a que deu o nome de terra de Joinville; 
mais adiante, uma grande terra montanhosa, a que cha- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 95 



mou Terra de Luiz Fillipe; e entre ellas, no meio de 
uma espécie de canal, atulhado de gelos, uma ilha, a 
que deu o nome de Rosamel. 

Ainda depois disso, reconheceu, a distancia da terra 
de Luiz Fillipe, uma ilha que recebeu o nome de Astrolábio. 

No dia seguinte, fez-se o levantamento d'uma grande 
bahia ou antes d'um canal, a que se deu o nome de 
canal dOrleans, entre a Terra de Luiz Filippe e uma 
banda alta e pedregosa, que devia ser, no intender de 
Urville, o começo das terras da Trindade, traçadas até 
então muito incorrectamente. 

Dando ahi como terminada essa expedição, veiu 
a Batavia; e, em 1 de janeiro de 1840, fez-se de vela 
para uma nova expedição, atravez também das regiões 
antarticas. 

N'esta expedição, os expedicionários visitaram uma 
nova terra, que recebeu o nome de Adélia, onde des- 
embarcaram. 

Sabendo que os Estados Unidos tinham organisado 
em mui larga escala uma outra expedição de descober- 
tas, a Inglaterra sobresaltou-se, e debaixo da pressão de 
sociedades eruditas, resolveu enviar também uma expe- 
dição sua ás regiões, onde, depois de Cook, somente se 
tinham aventurado os capitães Wedel e Biscoé. 

O escolhido para essa expedição foi James Clark 
Ross, que era sobrinho do famoso James Ross, explo- 
rador da bahia de Baffin. 

Assim, dois navios, o Erebus e o Terror, debaixo do 
commando d'elle Ross e de Crozier, deixaram a Ingla- 
terra, em 29 de setembro de 1839. 

Em 1 de janeiro de 1841, a expedição chegou a mais 
de 62", e atravessou alli o circulo polar. 



96 A HISTORIA ECONÓMICA 



A 11 de janeiro, avistou-se terra, a cem milhas pela 
proa em 70",47' de latitude sul e a 172",36' de longi- 
tude oeste. Nunca se vira terra tão meridional. 

Recebeu ella o nome de Victoria, e uma sua cordi- 
lheira, o nome de Cordilheira do Almirantado. Havia 
ao sueste alg-umas pequenas ilhas, de que Ross tomou 
posse, em nome da Inglaterra. 

A 23 de janeiro, a expedição passou para diante 
de 74° de latitude, a mais austral que até então se 
attingira. 

Descobriu depois uma pequena ilha a que deu o 
nome de Franklin, situada a 76'',8' de latitude sul, e 
a 168°,12' de longitude E. 

Descobriu a montanha vulcânica onde está o vulcão 
ErebuSy nome que a expedição lhe deu; e havia tam- 
bém ahi um outro vulcão extincto, que recebeu o nome 
de Terror. 

Agora, para se avaliar a parte que cabe a cada 
um d'esses três exploradores das regiões do sul, 
pode-se dizer que d'Urville foi o primeiro a reconhecer 
o continente antartico; que Wilkes seguiu as costas 
d'esse continente, durante mais longo espaço ; emfim, 
que Ross visitou a sua parte mais meridional e mais 
interessante. 

Em 1897, o belga Adriano de Gerlache, n'uma 
expedição do navio A Bélgica, partindo de Anvers, 
explorou os canaes de Cockburn e do Beagle, e parou 
em Hushuaia. 

A 14 de janeiro, explorou parte da bahia de Saint 
John (ilha dos Estados) e o cabo ao Sul; em 21 de 
janeiro, entrou no estreito de Brancfield; explorou a 
bahia de Hughes (terra de Palmer) ; descobriu um 



EDADE CONTEMPORÂNEA 97 



estreito que atravessa o archipelago de Palmer, (estreito 
de Gerlache) ; seguiu para o S.O.; divisou a terra de 
Alexandre I; e adiantou-se até 71°,31' S. e 85°,16' O. 
Depois invernou no polo sul. O navio, apesar de blo- 
queado, attingiu, ainda assim, em 31 de maio, 71°,36' S. 
Em 14 de março de 1899, A Bélgica sahiu dos gelos, e 
dirigiu-se em linha recta para Punta-Arenas, onde che- 
gou a 28, e d'ahi voltou para Anvers, em 5 de novembro 
de 1899. 

Borchgrevinck (1898-1899) invernou no cabo Adare, 
e adiantou-se sobre o gelo até 78°,34'. Essa expedição 
confirmou os resultados metereologicos da expedição 
belga, e também os dados de J. Ross ^. 



1 Charles Pergameni — Grands Voyages Polaires — J. Verne, 
Os Exploradores do Século XIX, traducção de Pinheiro Chagas. — 
A. Hervé e F. de Lanoye, Voyages dans les Glaces. — Lannier, La 
Geographie Appliquée A La Marine, Au Commerce, A La Agricul- 
ture, A La Statistique. 

Volume VI 7 



CAPITULO III 



Alargamento do mundo moral, pelas muitas descobertas industriaes, 
e pelo progresso das sciencias, artes e lettras. — Applicação da 
electricidade e vapor. — Desinvolvimento da arte naval. — Tele- 
grafia, chrono-photografia, raios X, estereoscopia, etherisação 
e cloroformisação. — Novos productos industriaes e commer- 
ciaes, e abundância dos outros já existentes. — Augmento dos 
jazigos mineraes e exploração dos metaes preciosos. — Desinvol- 
vimento crescente nas industrias e commercio. — Museus indus- 
triaes e commerciaes. — Exposições universaes. — Unidades 
monetárias. — Socialismo. — Communicações marítimas, aquáti- 
cas, férreas, terrestres e aéreas. — Isthmo de Suez. — Correntes 
marítimas. — Liberdade dos mares e d'alguns estreitos e rios. 
— Portos francos. — Caminhos de ferro. — Estradas carrossa- 
veis. — Communicações aéreas. 



As explorações territoriaes de que temos tratado, 
e, portanto, ao alargamento do mundo physico, tam- 
bém corresponderam, n'este período, as explorações 
scientificas, industriaes e litterarias, e, sequentemente, 
o alargamento do mundo moral. E tudo isso produziu, 
geralmente, um progresso enorme nos factores econó- 
micos. 

Logo em 1801, os sábios mais eminentes francezes, 
como Monge, Conte, Berthoiet, Fourcroy, Chaptal, e os 
principaes industriaes e banqueiros, fundaram em França 
a Sociedade para a animação da industria nacional, com 



100 A HISTORIA ECONÓMICA 



O fim de obterem descobertas úteis. E esta sociedade 
provocou, realmente, varias experiências e descobertas, 
e propagou a instrucção industrial, distribuindo até 
para isso varias recompensas. 

A seu exemplo, o governo francez propoz prémios 
pecuniários para o aperfeiçoamento das maquinas. E foi, 
assim, que a industria dos productos chimicos deveu a 
Leblanc e a Thénard a fabricação da soda, do sal 
amoniaco, do branco de alvaiade e do aluminio ; a 
Eduardo Adam, a distillação aperfeiçoada do álcool, e a 
Betholet, o branqueamento pelo chloro. E Filippe Lebon 
inventou a thermolampada, apparelho que, pela distilla- 
ção da madeira, dava ao mesmo tempo calor e luz ^. 

A chimica continuou a seguir a via traçada por 
Lavoisier. Gay-Lussac, Davy e Berzellius, desinvolvendo 
essa sciencia, applicaram-se, sobretudo, ás relações do 
peso e do volume entre compostos e componentes. 
Dalton imaginou a theoria atómica, theoria essa que, 
depois de ter encontrado viva resistencici, acabou por 
ser adoptada por todos os chimicos, como sendo o 
melhor instrumento do trabalho. 

Pouco a pouco, constituiu-se, ao lado da chimica 
mineral, a chimica orgânica. 

Os trabalhos dos allemães Liebig e Hoffmann e dos 
francezes Wurtz e Bertholet, e as indagações de Saint 
Claire, Derville, Helmholtz, trouxeram a criação d'uma 
chimica-physica, e a introducção dos methodos da phy- 
sica na chimica, apar de innumeras applicações praticas. 



1 Paulo Risson, Histoire Sommaire du Commerce. — Perigot, 
Histoire du Commerce Français. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 101 

A industria dos productos chimicos que d'ahi se 
derivou, tomou g-rande incremento, assim como a chi- 
mica-agricola, a industria de matérias colorantes, a dos 
productos pharmaceuticos e dos explosivos, etc. E a 
technica da metallurgia foi também transformada pro- 
fundamente ^. 

Em 1834, Gammet, de Lyon descobriu novas tinturas, 
como o azul celeste factício. 

Perrot, de Rouen, em 1839, descobriu um processo 
para variar as cores; e Lag-ier, de Avignon, em 1844, 
descobriu a tintura da garancina: descobertas essas 
que deram logar a um grande numero de productos de 
phantasia. E a um modesto preparador de chimica no 
lyceu de Lyão, chamado Vergouin, se deve também a 
descoberta de extrair da hulha matérias colorantes ^. 

Apar d'isso, desde 1834, o cautchu de Guibal e de 
Rattier começou a entrar nos tecidos elásticos, pela 
mistura com os estofos. E a sua vulcanisação, isto é, a 
mistura com o enxofre, tornou-o mais solido, e permit- 
tiu applical-o á grande industria. 

O inglez Elkington, em 1840, e Ruelz, em 1841, 
descobriram o doiramento e prateamento galvânicos, 
donde nasceu o prateamento christofle. 

A mechanica fez também grandes progressos. Logo 
em 1802, se applicou em Mulhouse o vapor á fiação. 
A maquina de tecer, chamada Jacquart, inventada por 
José Maria Jacquart, no principio do século XIX, facul- 



1 Jules Isaac. Histoire Contemporaine. 

2 Blondel, L'Essor industriei et commercial du peuple allemana 
pag. 85. 



102 A HISTORIA ECONÓMICA 



tando o trabalho dos operários, augmentou singular- 
mente a producção da seda de Lyão. Ternaux a appli- 
cou também na fabricação dos chalés de cachemira, e 
foi também elle que introduziu em França as cabras do 
Thibet. Achard, associado com Zenoir Dufresne, roubou 
á Inglaterra o segredo da Mull-Jeny \ espalhando-o pela 
França. E data egualmente do século XIX a invenção da 
maquina de costura, que uns attribuem ao austriaco 
jose Madesperger, em 1825, outros ao norte-ameri- 
cano Elias Howse, em 1844, e outros ao brasileiro Fran- 
cisco João d'Azevedo, de Parayba, em 1867. 

Oberkamp criou em Jouy, perto de Paris, a industria 
das telas pintadas, que se espalharam logo em Mulhouse 
e em toda a Alsacia. 

Mas nada ha que possa comparar-se aos progressos 
da electricidade e do vapor. 

E' antiga a descoberta da electricidade, mas as suas 
applicações é que são do século XIX. 

Depois do allemão Seebeck, em 1818, haver desco- 
berto o phenomeno conhecido por Ef feito de Seebeck; 
Ampere, em 1826 e nos annos seguintes, ter estabele- 
cido a theoria do electro-magnetismo, descoberto a 
eleciro-dynamica, e reconhecido que, sem a intervenção 
do magnete, as correntes eléctricas exerciam entre si 
uma acção mutua; e Arago haver descoberto também, 
em 1831, a sua lei de inducção electro-magnetica : é 
que, em 1833, outro sábio allemão, Gauss, tirou das 
descobertas anteriores o telegrafo eléctrico, e, dois 
annos depois, nos Estados Unidos, foi construído por 



^ A Historia Económica, vol. IV, pag. 688. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 103 



Morse o primeiro apparelho pratico: apparelho esse 
que, juntamente com o seu alfabeto, se tornaram do 
uso universal. E, por seu lado, quasi ao mesmo tempo, 
o francez Breguel fazia egual descoberta. 

Depois, em 1853, um outro francez, empregado 
dos telégrafos, chamado Bourseul, inventou o telefone; 
mas essa invenção só foi utilisada mais tarde, em 1877, 
graças ao americano Grahan Bell, que a aperfeiçoou ^. 

Também no século XIX, se inventaram os telégrafos 
de translação, que consistiam em transportar rapida- 
mente a própria correspondência. Mas o transporte 
d'esta correspondência no caminho de ferro não cons- 
titue telegrafo de translação; porque não attinge a velo- 
cidade sufficiente para assim ser considerado. 

Entre esses telégrafos de translação, havia a consi- 
derar, em primeiro logar, o pneumático, em exploração 
nas grandes cidades, e que foi inaugurado em Inglaterra, 
em 1854. Consistia elle em transportar, sob a acção do 
ar comprimido, os telegrammas em caixas cylindricas. 



1 Luiz Figuier, Les Merveilles de la Sience, vol. I. julio Isaac, 
obr. cit. 

A descoberta do telefone foi devida, como dissemos, a Bour- 
seul, em 1855, mas, precedida de trabalhos importantes, a tal respeito, 
de Page e La Rive, em 1837, e de Froment, em 1854. 

Já no século XVIII, em 1772, um joven monge de Gauthey 
(França), apresentou á Academia de Sciencias de Pariz, por inter- 
médio de Condorcet, um systema que permittia a correspondência, a 
grande distancia, por meio de tubos metálicos, em que a voz se pro- 
pagava. A experiência deu bom resultado; mas recuou-se, em face 
da despeza que tal systema trazia. Esse telefone, conhecido por 
telefone acústico, é ainda empregado para a correspondência entre 
os diversos andares de uma casa. 



104 A HISTORIA ECONÓMICA 



introduzidas em tubos metallicos, cujo diâmetro não exce- 
dia 75 millimetros. Esse modesto systema foi limitado 
ao uso inter-urbano das grandes cidades, alliviando 
assim, muito a exploração da telegrafia eléctrica, mais 
própria para as communicações a grandes distancias. 
Tinha, porém, o inconveniente do seu enorme preço, e, 
por isso, em Portugal, nada houve a tal respeito \ 

O telegrafo sem fios, isto é, a communicação tele- 
gráfica, sem o emprego de fio conductor, baseado na 
propagação das ondas hertzianas, que se prolongam 
atravez do espaço, como as ondas luminosas, é outra 
invenção do século XIX. Foi Hughes que, em 1877, 
demonstrou que era possivel a telegrafia atravez do 
espaço, a uma distancia superior a 500 metros. Mas 
os trabalhos de Hertz e Branly é que fundamentaram o 
systema da telegrafia sem fios; e, mais tarde, os tra- 
balhos do inglez William Preece, em 1884, e de Edisson, 
em 1892, e ainda os do mesmo Branly e de Marconi, 
em 1895, vieram completar a invenção '. 

Em 1891, applicou-se também a electricidade aos 
cabos submarinos, para communicar telegraficamente 



1 Luiz Figuier, obr. cit. — Encgclopedia Portugueza, na palavra 
Telegrapho. 

2 Encyclopedia Portugueza, na palavra Telegrapho. 

Desde 1793, havia em França e n'outros paizes o telegrafo 
aéreo, inventado por Chappe, e que, por meio de signaes feitos no 
alto de um mastro, e repetidos de poste em poste, permittia corres- 
ponder, dentro de alguns minutos, com as principaes cidades. Esse 
telegrafo, porém, desappareceu totalmente de França, em 1892, e 
foi \ambem desapparecendo dos outros paizes, á proporção que se 
ia estabelecendo a rede telegráfica. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 105 



O pensamento atravez dos mares, sendo o mais antigo 
d'elles o que foi submergido entre a França e a Ingla- 
terra. 

Também no século XIX, se tractou de estabele- 
cer linhas eléctricas subterrâneas. Isso, porém, não 
deu resultado, pela carestia d'ellas; e porque, sendo 
revestidas de gutta-percha, era preciso renoval-as fre- 
quentemente; e, sendo metallicas, alem de ficarem 
muito caras, em pouco tempo se deterioravam, por 
se acharem debaixo da terra. 



Apar de tudo isto, a força motriz da electricidade, 
foi applicada também ás carruagens, de modo que, 
em 1842, foi estabelecida em Nova York a primeira 
linha de tramways, pelo francez Loubet, que, regres- 
sando da America, obteve a concessão de outra linha de 
tramways em Pariz, ao longo do cães de Billy. 

Na Inglaterra, é que essa invenção appareceu apenas 
em 1860; mas, depois d'isso, ao passo que os tramways 
progrediam lentamente em França, tomaram grande 
incremento n'aquelle paiz e na Bélgica, e, em seguida, 
n'outras nações. 

Alem das applicações que ficam mencionadas, a ele- 
ctricidade, depois dos trabalhos scientificos de Seebeck, 
em 1818, CErsted, em 1820, Farady até 1831, Maxwell, 
Fleming, Lenz, Kelvin e von Helmholtz até 1848, e, 
enfim. Ampere, Biot, Savard, Laplace, Brandy, Marconi, 



106 A HISTORIA ECONÓMICA 



Hertz e outros mais, trouxe também muitas differentes 
applicações, chimicas e thermicas, scientificas, judi- 
ciaes, etc. 

São exemplo das applicações chimicas a producção 
electrolytica do sódio e da soda cáustica, do carboneto 
de sódio, do oxigénio, do hydrogenio, do carboneto de 
cálcio, do doiramento e prateamento, do cobreamento 
e nikelagem, e dos vários productos extrahidos da bet- 
terraba ou seus resíduos, de que adiante fallaremos. 
E são exemplo da applicação thermica a illuminação e 
aquecimento. 

E g-raças aos trabalhos de Raynaud, Marey, Dememy 
e Lumière, no fim do século, a electricidade, bem enca- 
minhada, pôde prestar grandes serviços á industria, á 
geografia, e ás sciencias. 

Serve ella também á astronomia, para fixar as lon- 
gitudes. Assim, a longitude de um logar é marcada pelo 
momento em que o sol passa no meridiano d'esse logar; 
e, por isso, o telegrafo eléctrico fornece, por assim 
dizer, um meio ideal de fixar o momento d'essa passa- 
gem. Basta que dois observadores, coUocados em dois 
pontos differentes, observem, ao mesmo tempo, a hora 
n'um bom chronometro, e que o signal do momento em 
que é necessário notar a hora do relógio, seja dado a 
estes dois observadores pelo telegrafo eléctrico ^. 

A electricidade tem dado egualmente logar a faze- 
rem-se muitas observações meteorológicas importantes, 
pelo conhecimento do barómetro e thermometro, as 



1 Luiz Figuier, obr. cit. vol. II. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 107 



quaes ella verifica, apar do estado do ceu, em differentes 
cidades e logares. E, graças a esse serviço, a appro- 
ximação das tempestades é assignalada nos portos 
do mar. 

Nos caminhos de ferro, os serviços da electri- 
cidade são também enormes, para dar aviso da falta 
de segurança na via e prevenir o encontro dos 
trens, etc. 

Pode ser posta ao proveito da medicina, trans- 
mittindo rapidamente os symptomas do mal, e podendo, 
assim, um medico distante indicar logo o remédio, ou 
ser chamado também rapidamente. 

Pode, por meio d'ella, avisar-se de qualquer parte o 
hotel onde se deseja ir, logo que o comboio chegue, 
de modo que a refeição esteja prompta, e se evite a 
demora e, portanto, a perda de tempo. 

Judicialmente, pode fazer-se, por meio do telegrafo, 
uma procuração forense, ou qualquer aviso ou partici- 
pação que evite a perda d'algum direito ^. 

Pode egualmente obter-se mais promptamente a pri- 
são do criminoso, ou prevenir-se a fugida d'elle. 

Pode também prevenir-se a segurança publica, mesmo 
em logares distantes. 

No commercio, as vantagens da electricidade são 
também enormes, noticiando rapidamente os preços dos. 
differentes mercados. 

E ainda ella fornece muitas outras applicações, 
egualmente proveitosas. 



1 Luiz Figuier, obr. cit. vol. II. 



108 A HISTORIA ECONÓMICA 



Quanto ao vapor, já Salomão de Caux, em 1515, 
teve a ideia de aproveitar a pressão do vapor de agua 
para motor industrial. Em 1663, o marquez de Worcester 
retomou a ideia de Salomão de Caux, e applicou-a, 
construindo o que elle chamou uma fonte de vapor, para 
elevar a agua. Em 1689, Savery inventava um appare- 
Iho, chamado bomba a vapor; e esta maquina, embora 
muito imperfeita, deu logar, na Inglaterra, a numerosas 
applicações na industria mineira para o esgotamento da 
agua. E tornou-se mais practicavel, quando, em 1705, 
dois operários — Newcomen e Cauwley, associados com 
Savery, e baseando-se na descoberta da utilisação do va- 
por, feita por Papin, em 1687, pensaram em fazer actuar 
esse vapor sobre uma das faces d'um embolo metallico, 
escorregando por attrito no interior d'um cylindro, 
emquanto a outra face d'esse embolo estava em relação 
directa com a atmosphera. Era, em summa, a criação da 
maquina a vapor de effeito simples, que não devia tar- 
dar, graças ao génio de Wat, a ser transformada em 
maquina de duplo effeito, e receber, então, numerosas 
applicações. 

E, realmente, Fulton, fundado n'essa invenção, cons- 
truiu, em 1803, o primeiro barco a vapor. Em 1827, 
Seguin, inventou a caldeira tubular, que Stephenson, um 
anno depois, applicou á sua locomotiva — O Foguete ^. 



1 Cit. Encyclopedia Portugueza, na palavra Vapor. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 109 



E successivamente a utilisação do vapor, e o aper- 
feiçoamento das maquinas próprias para o seu aprovei- 
tamento nos diversos ramos da industria, obtiveram 
grande progresso. 

Uma das mais importantes applicações foi a dos 
caminhos de ferro, barcos a vapor e submarinos. 

Já antes dos caminhos d£ ferro, se construiram carris 
de madeira, e mesmo de pedra. Em algumas estradas 
antigas da Itália, descobrem-se ainda hoje duas fachas 
de pedras, sensivelmente paralellas, o que parece attes- 
tar que já os Romanos empregavam a via de locomoção, 
que, depois de passar por grandes transformações, rece- 
beu actualmente um dos processos mais commodos e 
mais rápidos. Fez-se depois uso dos carris de madeira. 
Ha memoria do seu emprego, em 1676, nas minas 
carboniferas de New Castle, e era principalmente nas 
explorações minerias, que se fazia uso d'elles. 

Estes carris, porém, tinham de ser abandonados em 
breve tempo; já pelo facto da madeira ser de pouca 
duração; e já por não ter a flexibilidade sufficiente, 
para supportar grandes pesos, nem a consistência neces- 
sária para oppor á tracção dos vehiculos. E, porisso, 
estes defeitos fizeram lembrar a conveniência de reves- 
tir esses carris de chapas de ferro. 

Depois, em 1739, foram experimentados os car- 
ris de ferro fundido. Mas ainda esses carris, apesar 
de se irem propagando successivamente, eram dema- 
siadamente frágeis, para supportarem o peso dos vehi- 
culos. Por isso mesmo, succedeu-lhes, também no prin- 
cipio do século XIX, o emprego dos carris de ferro 
forjado, material esse que depois cedeu o seu logar 
ao aço. 



110 A HISTORIA ECONÓMICA 

Ora, em 1804, adiantou-se muito a construcção dos 
caminhos de ferro com a applicação do vapor, como 
força motriz. Deve-se uma grande parte do seu aper- 
feiçoamento a Blockelt; e Stephenson, de quem já falía- 
mos, construiu a primeira locomotiva, em 1817. Mas 
tudo isso ficava reduzido a pequenas secções de minas 
ou de grandes fabricas. 

Ainda assim, a construcção dos caminhos de ferro 
encontrou, primeiramente, grandes demoras em alguns 
paizes. Mas, depois da primeira metade do século XIX, 
graças ao desinvolvimento da metallurgia e das inven- 
ções mechanicas, tomou grande incremento. 

O primeiro paiz que os emprehendeu, foi a França, 
em 1823. Seguiu-se, em 1825, a Inglaterra, que explorou, 
então, uma linha entre Stekton e Darlington; a Áustria, 
em 1826, a Bélgica e Baviera, em 1834, a Saxonia, 
em 1836, a Prússia e Sileria, em 1837, a Dinamarca e 
Suissa, em 1848, a Suécia, em 1849, Portugal, em 1853, 
a Grécia e a Turquia, em 1857. 



» 



A applicação do vapor á navegação é também do 
principio do século XIX. Como já dissemos, Fulton 
construiu o primeiro barco a vapor, em 1803. Em 1819, 
teve logar a primeira travessia do Oceano. E propa- 
gou-se depois rapidamente a navegação a vapor, de 
modo que, tornando-se mais e mais numerosa, foi sul- 
cando todos os mares. 



EDAOE CONTEMPORÂNEA m 

Também Fulton, como egualmente já dissemos, foi o 
inventor dos barcos submarinos; e até chegou a offere- 
cer um d'elles a Napoleão, que regeitou a offerta, por não 
confiar na invenção. Em 1815, os irmãos Ccemis conti- 
nuaram as experiências submarinas; e, em 1864, um 
pequeno navio, construído para navegar debaixo d'agua, 
destruiu o Housatonic, durante a guerra da separação 
dos Estados Unidos. Vencedores e vencidos morreram 
juntos ; mas a experiência foi concludente. 

Desde então, não se interromperam as indagações. 
E Zéde e Goubet, em França; Holland, na America; 
Nordenfelt, na Allemanha; Peral, na Hespanha; Fontes 
Pereira de Mello, em Portugal; Pullino, na Itália; Apos- 
tolloff e Tempoff, na Rússia; Mello Marques e Jacintho 
Gomes, no Brazil, foram melhorando e aperfeiçoando a 
invenção \ 



Também a applicação do vapor e da electricidade 
influiu poderosamente na agricultura, pela fabricação 
das differenfes maquinas, chamadas locomoveis, taes 
como os cultivadores, as ceifeiras, as debulhadoras, as 
enfardadeiras, as trituradoras, as encelleiradeiras, as 
locomotoras ou caminheiras, as maquinas para drena- 
gem, etc. 



Encyclopedia Portugueza, na palavra Submarino. 



112 A HISTORIA ECONÓMICA 



Os Estados Unidos foram os primeiros que fabrica- 
ram esses locomoveis. As regiões immensas e os espaços 
sem limites d'esse paiz, prestavam-se a isso; e, graças 
ao espirito industrial e activo d'esse povo, desde o 
principio do século XIX, a agricultura começou a exer- 
cer-se no solo americano, por meio d'esses diversos appa- 
relhos mechanicos, que só deixam ao trabalho do homem 
uma pequena parte. A maquina a vapor, o mais econó- 
mico e potente de todos os motores, foi-se applicando, 
por isso, nos differentes Estados, as operações agricolas, 
e ahi prestou importantes serviços. 

A Inglaterra, onde a propriedade estava muito 
accumulada, não tardou a seguir o exemplo dos Esta- 
dos Unidos. Na França, pela divisão da propriedade, 
hesitou-se a principio se eram convenientes as maqui- 
nas agricolas; mas, ainda assim, também os locomoveis 
tomaram logo enorme incremento em alguns departa- 
mentos do norte. 

Principalmente, depois da exposição de 1851, estas 
maquinas foram-se generalisando por tal forma que, pelo 
menos, nos Estados Unidos e nos outros paizes mais 
adiantados, todo o serviço agricola se ia fazendo por 
locomoveis ^. 

Tem-se empregado egualmente os locomoveis nas 
fabricas, nas obras publicas, e até nas ruas mais fre- 
quentadas das cidades, para varredura, para esgotos, 
para preparar a argamassa, e para muitos outros mis- 
teres. 



1 Luiz Figfuier, obr. cit. vol. I. 



EDADE CONTEMPORÂNEA UJ 



A arte naval soffreu também uma transformação- 
radical. O ferro substituiu a madeira, que, alem de ser 
mais pesada, está sujeita á destruição dos insectos ; e 
começaram a estabelecer-se porões com muitas divi- 
sões, cujo segredo tinha sido revelado por Dodd, 
em 1808, e posto em pratica por C. W. Williams. 
A substituição das penas de rodizio pela rosca de 
Archimedes (hélice) de 16 pés de diâmetro, inventada 
pelo engenheiro francez Sauvage, alliviou o navio de 
um peso de 10 tonelladas ; e, dando-lhe elegância e 
commodidade, facilitou a entrada dos canaes. 

Em 1816, os Estados Unidos inauguraram a primeira 
linha de paquetes, em communicação directa e regular 
com a Gran Bretanha; em 1821, inaugurou-se outra 
linha de New York para Livepool; e, pouco tempo 
depois, ainda uma outra, de New York para Londres e 
para o Havre. E a Inglaterra, por sua vez, em 1823 
a 1837, estabeleceu linhas regulares de Londres para 
os Estados Unidos. 

Desde então, houve aperfeiçoamentos incessantes. 
E a velocidade dos navios, as dimensões e a tonelagem 
augmentaram successivamente. 

Alguns, pela forma e disposição do velame, e 
também pela forma afilada da frente da linha de 
agua e da rectaguarda, tiveram o nome de clippers, 
do inglez to clip (cortar), e adquiriram uma grande 
velocidade. 



Volume VI 



114 A HISTORIA ECONÓMICA 



Em 1820. os constructores inglezes substituíram a 
madeira pelo ferro; e, desde log"0, começou este a ser 
empregado geralmente. 

Abriu-se, então, uma nova era de progresso e des- 
involvimento na construcção naval. A diminuição do 
peso, ligeireza e a superioridade da resistência, as 
combinações múltiplas a que se prestava a armação do 
ferro, e a possibilidade de dar aos navios dimensões 
irrealisaveis pela madeira, e tudo isso junto á menor 
despeza de alimentação, comparada com o antigo sys- 
tema de transportes, fez que a construcção de ferro 
prevalecesse sobre a construcção de madeira, como 
também a navegação a vapor foi preponderando sobre 
a navegação á vela. 

Mas, apesar das vantagens apreciáveis que dava a 
applicação do vapor á navegação, a generalisação do 
novo transporte por mar fez-se com lentidão ; e, 
até 1860, a marinha de vela conservou uma importân- 
cia real sobre a navegação a vapor, devido a que tam- 
bém ella tinha feito grandes e rápidos progressos, nos 
últimos 25 annos. 

Assim, no fim do século XVlll, era representada 
apenas por três pesados mastros ou por brigues, mal 
arranjados e de dimensões reduzidas, que levavam qua- 
tro a cinco mezes, para irem da Europa ao Pacifico. 
Unicamente os Estados Unidos, sempre alerta, haviam 
tentado introduzir na construcção dos seus navios de 
commercio certos melhoramentos e certa regularidade 
no seu emprego. Mas, desde os primeiros annos do 
século XIX, fez-se sentir fortemente o progresso da 
marinha mercante, e, no segundo quartel d'esse século, 
foi enorme o seu adiantamento. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 115 



Ora, a evolução maritima, os grandes paquetes e 
o desinvolvimento da navegação exigiam engenheiros 
amadurecidos pela experiência e pelo estudo, conhe- 
cendo as maquinas até nos minimos detalhes, e o 
seu funcionamento e construcção ; e exigiram tam- 
bém officiaes instruidos, sabendo as coisas do mar, 
as leis naturaes que influem nas marés, nas corren- 
tes, nos ventos, nas monções, bem como geografia, 
cosmografia, oceanografia, calculo de distancias, lei- 
tura das cartas, legislação aduaneira, regulamentos de 
portos, etc. 

Maury, em 1840, constatou que a circulação da 
atmosphera obedecia a leis, geralmente regulares, ope- 
rando diversamente, segundo os logares e épocas do 
anno, sobre a marcha dos navios; e levantou, então, a 
carta dos ventos prováveis para cada mar e para cada 
estação. Descobriu também as correntes maritimas, de 
que adiante fallaremos. E, graças a elle, desde 1848, as 
suas theorias, postas em pratica, abriram uma nova era 
á sciencia náutica, segundo egualmente veremos, quando 
tratarmos especialmente das correntes. 

Os instrumentos náuticos, por seu lado, soffreram 
profundas modificações. A bússola e o compasso, que 
forneceram um novo meio de orientação, foram postos 
ao abrigo das oscillações e das irregularidades que 
anteriormente falseavam, muitas vezes, o seu emprego. 
O antigo astrolábio e a sua succedanea — a arbelles- 
trella foram abandonados ; e, para determinar as lati- 
tudes e longitudes foram substituidos aos processos 
rudimentares dos dois séculos precedentes alguns ins- 
trumentos engenhosos de uma precisão minuciosa. Aos 
octantes e sextantes imperfeitos de Hadley e Fouchy, 



116 A HISTORIA ECONÓMICA 



mesmo depois de aperfeiçoados pelo professor allemão 
Mayer, succedeu o sextante duplo de Rowland, tornado 
cada vez mais perfeito. 

Houve differentes conferencias intemacionaes, para 
determinar os sig^iaes maritimos e a sua significação, e 
para regular os meios de prevenir a abalroação, consi- 
gnar os processos de illuminação dos navios, estudar e 
fixar uma medida única de arqueação, a fim de evitar os 
inconvenientes da variedade de systemas no commercio 
maritimo internacional, e regular também os direitos de 
navegação estabelecidos pelos differentes paizes, e 
examinar e aperfeiçoar os regulamentos da policia 
sanitária e quarentenas. E tudo isso redundou egual- 
mente em proveito da navegação *. 



Quanto á photografia, embora houvesse trabalhos 
imperfeitos anteriores, pode dizer-se que, pelo menos, o 
seu complemento, foi também do século XIX, pelos 
esforços de Wedgwood, em 1802, Nicephoro Niepce, 
em 1813 a 1826, Luiz Jacques Mande Daguerre (1813 
a 1829), Talbot, Niepce de Saint Victor, Archer e 
Fry (1851) e Russel (1861). 

E, com respeito ás cores dos corpos, as numerosas 
experiências do mesmo Daguerre, Edemond Beequerel, 
Niepce de Saint Victor, Poitevin, Carlos Bennett, Cros, 



1 Noel, Historie du Commerce du Monde, vol. III. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 117 



Ducos de Hauron, Gabriel Lippmann, e dos irmãos 
Lumières, descobriram o meio de as produzir. 

A photografia, alem dos grandes serviços que 
presta ás artes, é uma ajuda precisa nas mãos dos sábios; 
e as vantagens dos methodos photograficos são muito 
apreciadas na astronomia, metereologia e physica. 

Também presta serviços ao naturalista e ao medico ; 
pois que a micografia permitte fixar a imagem dos mais 
pequenos bacillos. 

Emfim, a applicação da photografia ás artes indus- 
triaes dá também grandes resultados, como, por exem- 
plo, nos vitraes, nos esmaltes photograficos, na orna- 
mentação da porcellana, dos metaes, dos estofos, ate. 

A chrono-photografia ou methodo e analyse do 
movimento pela photografia, é também do século XIX. 
A primeira applicação foi realisada, embora muito 
summariamente, em 1865, por Onimus e Martins. Depois, 
Jansen e Marly aperfeiçoaram essa applicação. 

E a cinematografia, que é constituida também por 
um apparelho chrono-photografico, teve egualmente 
origem no século XIX, e foi devida a Plateau, Marey, 
Demery e Edisson. 

Os raios X foram descobertos, em 1895, pelo physico 
Roentgen, e o radio, três annos mais tarde, por Curie. 
E, é certo que a radiografia ou photografia pelos 
raios X, que tem uma origem de energia eléctrica, 
presta grandes serviços á medicina e á cirurgia, desco- 
brindo no organismo humano um corpo estranho ou 
uma lesão profunda, e tendo ainda outras applicações 
úteis. Demais, o estudo dos animaes vivos e dos mor- 
tos, mesmo sem dissecação, tornou-se possivel pela 
radiografia. Algumas múmias podem revelar a sua 



118 A HISTORIA ECONÓMICA 



natureza, sem estarem abertas. Podem descobrir-se 
fraudes pharmaceuticas ou industriaes, sendo as subs- 
tancias diversamente opacas aos raios X. E esse modo 
de analyse revela ainda a carga mineral das sedas tin- 
gidas, a differença das cores dos quadros antigos e 
modernos, os defeitos nas peças metallicas, ou do iso- 
lamento nos cabos eléctricos, o conteúdo de caixas 
suspeitas ou os explosivos, a presença dos machos ou 
fêmeas nas chrysalidas dos sirgos, e a • natureza dos 
metaes e das ligas, etc. 

A industria faz também numerosas applicações das 
propriedades dos raios X. Assim, a transparência de cer- 
tos corpos permitte descobrir as falsificações ou imita- 
ções d'esses corpos. E também a transparência para os 
raios X, do carbonio e da maior parte das suas combi- 
nações não metallicas, permitte differençar claramente 
o diamante das suas imitações. E a mesma cousa acon- 
tece com a imitação de outras pedras preciosas. 

A estereoscopia ou photografia em relevo, que se 
obtém, collocando n'um estereoscópio duas radiografias 
idênticas, foi também invenção do século XIX \ 

Também nos telescópios, o século XIX teve o mérito 
de um outro invento; porque, supposto fosse antiga a 
descoberta telescópica, em todo o caso, na primeira 
metade d'esse século, William e Herchel, construiram 
telescópios celebres, o maior dos quaes tinha uma dis- 
tancia focal de 12 metros, e ampliava seis mil vezes. 
Lord Ross, excedeu ainda estas gigantescas dimensões. 



1 Luiz Figuier, obr. cit. vol. III. — Encyclopedia Poríugueza, na 
palavra Radiographia. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 119 



no seu Leviathan, que media 16'",76 de comprimento, e 
cujo espelho tinha 1™,83 de abertura. E Faucault, substi- 
tuindo os espelhos metallicos pelos parabólicos de 
crystal prateado, realisou ainda um outro importante 
progresso. 

A etherisação ou modo de anesthesiar, foi tam- 
bém uma invenção do século XIX, devida a Jakson, 
em 1847. Associou-se elle com Morton, para explora- 
rem esta descoberta ; mas o chloroformio não tardou a 
supplantar o ether, graças ás pesquisas de Flourens, 
Bell e Simplon. 

E mesmo a applicação da vaccina contra a variola, 
pertenceu ao periodo de que estamos tratando; porque 
as primeiras experiências d'essa applicação foram feitas 
na Inglaterra pelo medico Eduardo Jenner, em 1798. 

Cuvier, no principio do século XIX, formulou as leis 
de anatomia comparada, e, graças a estas leis, pôde 
constituir a paleontologia. Os trabalhos de Cuvier 
imprimiram um novo desinvolvimento aos estudos geo- 
lógicos, que, em seguida puderam, por sua vez, consti- 
tuir-se em sciencia. E o desinvolvimento da geologia 
aproveitou, sobretudo, á industria mineira, que forneceu 
aos geólogos preciosas observações. 

Na segunda metade do século, as ideias de Darwin 
sobre a evolução lenta das espécies, cuja theoria foi 
chamada transformismo, deram á sciencia uma impulsão 
nova, e orientaram, especialmente os naturalistas, no 
estudo dos organismos interiores. 

O cirurgião francez Bichat, contemporâneo de 
Cuvier, foi o fundador da physiologia. Abandonando 
a indagação das causas, deu o exemplo de estudar os 
phenomenos vitaes em si mesmo. 



120 A HISTORIA ECONÓMICA 



Aos trabalhos de Bichat, seguiram-se as descober- 
tas e as theorias (theoria cellular) da escola allemã, que 
levaram a constituir em sciencia distincta a histologia 
ou sciencia dos tecidos. Mas foi Cláudio Bernard, que, 
também no meio do século, pelas suas descobertas e 
ensinamentos, fez dar á phisiolog-ia progressos decisivos. 
Com «lie, triunfou o methodo experimental das sciencias 
physicas e chymicas. E, ao mesmo tempo que a medi- 
cina era transformada, começou a estudar-se a acção 
dos medicamentos, com uma precisão scientifica. 

Nos fins do século, um sábio francez — Pasteur, fez 
novas descobertas, notáveis por ellas próprias, e infi- 
nitamente benéficas pelas suas applicações praticas. 
Os seus trabalhos sobre os micróbios ou bactérias não 
só modificaram profundamente as concepções physio- 
logicas, mas determinaram também immenso progresso 
na medicina e cirurgia, pela vaccinação e seroterapia, 
cura do carbúnculo (1881), da raiva (1885), da diphte- 
ria (1894), da peste, e pelo emprego da asepsia e anti- 
sepsia. E, em todas as grandes cidades do mundo, teem 
sido fundados Institutos Pasteur, onde os sábios traba- 
lham, na procura das vaccinas que immunisam, ou dos 
soros que curam. 



A este movimento extraordinário nas sciencias 
industriaes e nas suas applicações úteis correspondeu 
um grande movimento em outras sciencias, e na historia 
e nas lettras e artes ornamentaes. 

Assim, Ficte, Shelling e Hegel constituiram gran- 
des systemas metaphysicos. Kant fez uma revolução 



EDADE CONTEMPORÂNEA 121 



nas ideias, ao mesmo tempo que a Europa occidental 
a fazia na politica. 

Em França, Victor Cousin, nos últimos tempos do 
primeiro quartel do século XIX, e durante o segundo 
quartel, fundou a escola do electismo, em que tractou de 
combinar as ideias de Descartes, com as da escola 
escocesa e de Kant. 

No meiado do século, surgiu a reacção contra a 
metaphysica, nas obras de Augusto Conte, Stuart Mill, 
Littré, Darwin e Spencer, que fundaram a philosofia 
moderna, chamada positiva, ou antes a nova sciencia 
sociológica. E depois veiu a influencia da philosofia 
allemã de Shopenhauer, cuja doutrina leva ao pessi- 
mismo absoluto, e a philosofia de Nietzeshe, que estu- 
dou o modo fugir ao pessimismo de Shopenhauer. 

Desinvolveu-se muito a economia politica e o direito 
commercial terrestre, e especialmente o marítimo, que 
obteve grande progresso. 

A historia abandonou a phantasia e a imaginação e 
tomou um caracter impessoal e uma observação posi- 
tiva com Fustel, Taine, Renan, Coulange e Alexandre 
Herculano. 

A litteratura soffreu também profundas modifica- 
ções. 

Assim, na primeira metade do século XIX, o roman- 
tismo ^ desbancou o antigo classissismo. Depois, na 



1 O romantismo, segundo Theophilo Braga, representava a 
melancolia e o desalento do espirito. Dava expressão aos senti- 
mentos que se compraziam evocar o passado que elle procurava res- 
taurar no seu antigo domínio; espalhava os protestos de revolta- 



122 A HISTORIA ECONÓMICA 



segunda metade, ao romantismo em decadência succe- 
deu o realismo, isto é o cuidado de reproduzir nas 
obras a realidade, tal qual é, e o gosto de uma obser- 
vação exacta, precisa e minuciosa. Essa escola realista 
triunfou, sobre tudo, no romance e no theatro. 

A tendência realista fora já marcada nas obras de 
Balsac ; mas foi no segundo império francez que appa- 
receu o typo mais perfeito'do romance realista, na 
Madame Bovary, de Gustavo Flaubert (1855), que vem 
a ser a historia da vida d'uma pequena burgueza da 
provincia. 

Na mesma época, o drama romântico era substi- 
tuido pela comedia burgueza de Emilio Augier (Le 
Gendre de M. Poirier, 1854) e de Alexandre Dumas 
filho (Le Demi Monde, 1855). 

Foi ainda o puro realismo que depois inspirou os 
romances de Maupassant, afilhado e discipulo Flaubert 
(Une Vie, 1883). 

Na Inglaterra, na Rússia e nos outros paizes, os 
maiores romancistas foram também realistas, como 
George EUiot, Dostoiewsky, Tourgueneff, e o mais popu- 
lar de todos, Tolstoy (A Guerre et a Paz, Anna Kare- 
line), cuja influencia moral foi grande na Rússia e em 
toda a Europa; e, em Portugal, Camillo Castello Branco^ 
Júlio Diniz e Eça de Queiroz. 



dos, génios insubmissos ; e lisongeava o gosto banal de uma bur- 
guezia cordata. 

E nós podemos acrescentar que se chamaram também d'essa 
escola os escriptores que, nos princípios do século XIX, se afastaram 
dos auctores clássicos da antiguidade. — Adriano Anthero, A Hes- 
panha e Portugul e suas affinidades. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 123' 



Do realismo e das tentativas litterarias de Taine deri- 
vou-se o naturalismo, ou a litteratura com pretensões a 
scientifica. 

A influencia de Taine foi considerável, nos últimos 
30 annos do século : philosofo, critico, historiador, 
espirito vigoroso e systematico, tentou introduzir na 
philosofia, na critica e na historia, o methodo experi- 
mental das sciencias naturaes, e demonstrou que os 
factos humanos são determinados pela raça, meio, cir- 
cunstancias, occasião, etc. ( Philosophie de lart, Littera- 
ture anglaise — Origines de la France contemporaine). 

Foi n'estes methodos pseudo scientificos, e n'estas 
tentativas naturalistas, que se inspiraram os romances 
dos irmãos Goncourt, e, sobre tudo, de Emilio Zola 
(Histoire naturelle dune famille sous le second Empire 
1872-1894). 

Um outro escriptor que exerceu na geração con- 
temporonea uma influencia comparável á de Taine, foi 
Renan, também philosofo e historiador. No ponto de 
vista puramente litterario, Renan é um dos escriptores 
mais originaes e mais puros do século XIX ; e d'elle se 
derivou toda uma linha de escriptores delicados e 
engenhosos, como Anatole France, Jules Lemaitre, 
Maurice Barres. 

Mas, na diversidade das produções litterarias do 
século XIX, ha ainda outras correntes e outras influen- 
cias, que, muitas vezes, se entrecruzam. 

Assim, veiu o romance psycologico, sendo o primeiro 
modelo dado por Stendal, com o Fromentin (Domini- 
que, 1863), e depois por Paulo Bourget. 

Mesmo o theatro foi renovado, pela influencia do 
norueguez Ibsen, o auctor dramático mais notável da 



124 A HISTORIA ECONÓMICA 



século, cujas obras, ao mesmo tempo realistas e 
symbolicas, representam, sobretudo, o individuo, luc- 
tando previamente contra os preconceitos e contracção 
social. 

Na poesia, é que o lyrismo romântico prevaleceu 
mais tempo. O mestre popular, Victor Hugo, viveu e 
reinou até 1885; e o grande poeta inglez Tennysson, 
foi também um romântico. 

No entanto, entre 1850 e 1860, constituiu-se uma 
escola nova de poetas, mais impessoaes, attendendo, 
sobretudo, á perfeição da forma. Foi a escola par- 
nassiana, cujo mestre era Leconte de Lisle (Poèmes 
Antiques, 1858), que teve por discipulo Heredia, auctor 
de admiráveis sonetos ( Les Trophèes, 1893). Depois a 
forma parnassiana perdeu também de moda, e a poesia 
foi tomando formas novas mais livres, e variadas e diver- 
sas como a natureza. 

Surgiu, então, a escola symholica ^, regeitando 
todas as formas antigas. O seu mestre foi um poeta 
original e doente, Verlaine (Sagesse, 1881). 



l O symbolismo consistia em exprimir o mundo moral, pela 
correspondência do mundo phisico, isto é, por meio de representações, 
correspondências ou noções physicas (sgmbolos), que traduzissem 
bem as ideias moraes. Parallelamente, os symbolistas, reivindicavam 
grande liberdade de forma, com a syntaxe, com o vocabulário, com 
a rima e com a métrica. O seu verso livre, cujo comprimento excede 
muitas vezes o alexandrino, distingue-se, muitas vezes, difficilmente 
da prosa. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 125 



O movimento artístico correspondeu ao movimento 
litterario. Teve a mesma variedade, as mesmas audá- 
cias, foi dominado pela mesma tendência realista — a 
preocupação de reproduzir a natureza com exactidão 
e sinceridade. Estendeu-se também, mais ou menos, a 
todas as nações; mas a França ficou o centro artistico 
mais activo, e o paiz das livres indagações e das inicia- 
tivas originaes. 

Foi na pintura que as novas tendências se affirma- 
ram mais completamente. A pintura histórica passou 
ao segundo plano. Os pintores representaram, sobre- 
tudo, as paisagens e as scenas dos costumes contem- 
porâneos. 

Assim, na França, o chefe da escola realista foi 
Courbet, contemporâneo de Flaubert. Na mesma época, 
a pintura franceza contava dois illustres paisagistas, 
Millet, pintor da vida rústica, e Gorot, que ministrou 
os aspectos mais poéticos da natureza, as luzes da 
manhã subtis e doces nas arvores e na agua. Depois, 
o realismo, sob a influencia de Manet, tornou-se e 
impressionista \ isto é, orientou-se para o impressio- 
nismo, recorrendo a processos novos cada vez mais 
audaciosos, para exprimir toda a vida e todo o brilho 



' Os impressionistas propunham-se representar os objectos, 
segundo as suas impressões pessoaes, sem se preoccuparem com as 
regras geralmente admittidas. 



126 A HISTORIA ECONÓMICA 



da luz. Os chefes da escola foram Manet, Sisley, 
Degas e Renoir, Henri Martin, Benard, etc. Mas os 
impressionistas são apenas uma escola, no meio de 
muitas outras, e os maiores pintores do fim do século. 
Puvis de Chavanncs, pintor de frescos, de uma compo- 
sição harmoniosa e de uma nobre serenidade, e Car- 
rière, cujas obras teem uma belleza superior, pela 
sciencia do modelado e profundeza da expressão, não 
se ligaram a nenhum grupo. 

Na Inglaterra, as obras mais originaes são as dos 
Peraphaelitas, assim chamados, porque se inspiravam na 
pintura do século XV, anterior a Raphael ; mas houve, 
em muitos outros paizes, na Allemanha, na Suissa, na 
Noruega e na Hespanha, um grande numero de artistas 
de talento original. 

A esculptura evolucionou também para o realismo ; 
porém, a estatuária clássica conservou partidários fieis, 
que obedeceram sempre ás tradições antigas. 

De todas as artes, a architectura foi a que menos 
se desprendeu do predominio clássico. Em compensa- 
ção, houve, no fim do século, um verdadeiro renasci- 
mento das artes decorativas; e, sob influencias diversas, 
formou-se o moderno estylo de decoração, que mira á 
simplicidade e naturalidade. 



Tantas descobertas e tão grande progresso nas 
sciencias e nas artes, apar das explorações territoriaes 
e dos acontecimentos poHticos, não podiam deixar de 
influir poderosamente nos demais factores económicos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 127 



Effectivamente, começando pelos productos, já o 
bloqueio continental fez apparecer muitos productos 
novos. E' que era preciso supprir a carência que resul- 
tava d'esse bloqueio, por meio de novas invenções ; e 
Napoleão foi o primeiro a despertar a iniciativa parti- 
cular, com prémios destinados aos inventores. 

A côr da cochenilha foi substituida pela côr da 
garança e do pastel; o café do cafezeiro, pelo café de 
chicória ; o assucar da canna, pelo assucar da uva e da 
beterraba \ E d'este assucar de beterraba e da sua 
fabricação surgiram ainda muitas outras substancias. 

Assim, para tirar o assucar, preme-se a beterraba. 
Sai d'ahi o sueco, d'onde se faz o assucar. Este assu- 
car, sendo bem refinado, assemelha-se ao das Antilhas, 
e o residuo que a pressão deixa, serve ainda para 
alimento da gado. 

Como é impossível tirar da polpa todo o liquido 
que ella contém, é também impossível tirar do liquido 
todo o assucar; e d'ahi se deriva um novo residuo que 
se appelida melaço. 

Este melaço, distillado, dá álcool, e depõe um 
outro residuo, impróprio para a distillação, que os 
franceses chamam vinasse. A chimica apodera -se 
d'esta substancia, lança-a n'um forno, onde os gazes 
que ella contém, se inflamam, sob a influencia do calor 
de um outro forno adjacente e communicativo, e sai 
d'ahi um corpo solido negro, mas de consistência e 



1 Perigot, obr. cit. O assucar de beterraba já era fabricado na 
Sibéria, ha mais d'um século, mas em quantidades insufficentes. 
Risson, obr. citada. 



128 A HISTORIA ECONÓMICA 



brilho metallico — a potassa bruta. Vende-se ella n'esse 
estado para as saboarias, e a que se não vende n'essa 
forma, é lixiviada, de maneira a dar um liquido que se 
concentra, e que na ebulição dá o sulfato de potassa 
para uso dos fabricantes de salitre e aluminio. £, depois 
de arrefecido este liquido, forma ipso facto o chloreto 
de potássio, que se emprega também na fabricação do 
salitre. 

Quando se lança mão d'este ultimo producto, e se 
separa o que elle contém de chloreto, e se torna a 
lançar na caldeira, produz-se na ebulição o sal de soda, 
que se emprega na vidraria. O residuo, também depois 
de arrefecido, torna-se a levar ao fogo, e sai de lá 
potassa pura, servindo para uso da fabricação do crystal. 

E este Protheu da chimica — a beterraba acaba por 
fim em potassa bruta, contendo phosphato e carbo- 
nato de cal, que serve para espalhar nos campos, como 
estrume, e para a vidraria. 

Houve também de novo no século XIX, a produção 
da soda, devida aos trabalhos de Leblanc e Thernaud 
de que já falíamos, bem como do sal amoniaco e do 
branco de alvaiade; a distillação aperfeiçoada do álcool 
e do chioro ; a produção do gaz de illuminação ex- 
traido da hulha, invenção essa devida a Minclen (1804); 
a de muitos productos chimicos e pharmaceuticos ; a 
descoberta das cores tiradas da hulha; a dos explosivos; 
a dos productos das industrias alimentares, como, por 
exemplo, conservas e carnes congeladas; a das indus- 
trias photograficas, e a fabricação do aço, pela invenção 
do inglez Bessemer. E, finalmente, surgiram no mercado 
muitos outros productos, devidos ao maior desinvolvi- 
mento da industria e ao intercambio internacional. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 129> 



Aug-mentaram enormemente os metaes preciosos, 
pela exploração das minas de ouro da Rússia, na Sibé- 
ria, que principiou em 1820; pela das minas também 
de ouro de Califórnia, descobertas em 1848, que em 
breve desbancaram mesmo as antigas minas de Potosi; 
e, depois de 1851, pelos jazigos auríferos da Austrália, 
também muito abundantes. E d'ahi resultou não somente 
um grande elemento de matérias primas para as indus- 
trias preciosas, mas também para a abundância de 
numerário : o que influiu efficazmente nos preços e nos. 
mercados. 

E Nobel descobriu a dinamite. 



O que temos exposto, a respeito das sciencias e 
das artes, da applicação do vapor e da electricidade e 
dos productos, mostra já quão grande serie de indus- 
trias se criou e desinvolveu, no período de que estamos 
tratando. E teríamos de encher muitas paginas, se men- 
cionássemos todas aquellas que foram descobertas ou 
aperfeiçoadas. 

Mas, ainda assim, vamos fazer especial menção de 
algumas d'ellas. 

Uma foi a industria da cortiça, que é das mais cara- 
cterísticas ; porque, apesar de todas as indagações, nunca 
se conseguiu fabricar outra matéria que possua as qua- 
lidades de leveza, elasticidade e incombustibilidade, 
próprias d' esse producto. Elxperimentaram-se todas as 

Volume VI 9 



130 A HISTORIA ECONÓMICA 



qualidades de substancias leves e esponjosas, mas 
nenhuma correspondeu ao programma; e, por isso, os 
povos que possuem a cortiça, ainda conservarão o 
monopólio por muito tempo. 

Em primeiro logfar, encontra-se ella na França, no 
departamento dos Pyrineus Orientaes, do Var, dos 
Alpes Maritimos, na Córsega, colónias algerianas e 
tunizianas; e vem depois Portugal, Hespanha, Itália, 
Áustria, Grécia e Marrocos. De modo que a cortiça é 
uma riqueza do Mediterrâneo. 

Desde tempos remotos, a única applicação d'este 
producto era a das rolhas. E o corte d'ellas, por mais 
bem feito que seja, fornece muitos residuos. 

Primeiramente esses residuos eram queimados, e, 
como a cortiça não queima bem, constituiam um com- 
bustível de má qualidade, por forma que, para se tirar 
proveito d'elles, tornavam-se necessários combustores 
especiaes. Felizmente, porém, criou-se uma outra im- 
portante industria — a da apara das rolhas, que, por 
meio de processos de agglomeração, não somente apro- 
veita os restos, mas também faz com elles outros diffe- 
rentes productos, que possuem qualidades indispensá- 
veis para muitos empregos especiaes, e até para se 
extrair gaz de illuminação. 

As rolhas trabalham-se facilmente á mão. Porém 
inventaram-se maquinas engenhosas que abreviam o 
trabalho, e dão resultados industriaes satisfatórios. 

A cortiça agglomerada é um isolador notável contra 
as variações da temperatura. 

A industria frigorifera, que egualmente foi criada 
no século XIX, emprega-a também com bom resultado; 
e nada se encontra melhor, para encher as duplas pare- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 131 



des isoladas dos entrepostos dos navios frigoriferos ou 
dos wag-ons refrigerantes. 

O tijolo de cortiça representa um papel importante na 
construcção, para estabelecer paredes muito leves, inso- 
noras, e que guardam muito bem o equilibrio thermico. 

Depois de alguns ensaios, que não foram muito 
felizes, porque os processos de agglomeração não esta- 
vam devidamente aperfeiçoados, esse tijolo de cortiça, 
bem fabricado, tomou o seu logar entre os materiaes 
de que o architeeto e engenheiro podem servir-se com 
segurança e utilidade. 

O pó da cortiça está reconhecido como excellente, 
para fazer em caixas ou em qualquer outro recipiente, 
o acondicionamento de fructas e legumes delicados, ou 
que se quer transportar em viagem ou navios. 

A sua preparação necessitou de maiores indagações 
do que se poderia suppor; porque não é fácil pulverisar, 
até o ponto que se deseja, esta matéria de uma elastici- 
dade tão perfeita que foge á ferramenta. Mas industrias 
especiaes resolveram o problema. 

Uma das appHcações mais notáveis dos agglomera- 
dos da cortiça é o linoleum, vulgarmente chamado cor- 
ticite, cujo inicio data approximadamente de 1870, e que 
tomou muita importância na construcção. Apto para 
evitar a humidade, é um inimigo da poeira, um isolador 
thermico, e uma substancia própria para constituir super- 
ficies lisas e não escorregadias. Sendo, como é plás- 
tico, permittindo a sua applicação, onde se quizer, 
o linoleum. assumiu um logar industrial e commercial 
importante. Vem a ser uma simples mistura de cortiça 
em pó, óleo de linhaça, goma e oca, tudo preparado 
segundo a respectiva industria. 



132 A HISTORIA ECONÓMICA 



A potencia motora do vapor foi sensivelmente 
augmentada pela invenção de Seguin, na caldeira tubu- 
lar (1828), a que já nos referimos. Depois usou-se a 
força motora da electricidade, por meio das maquinas 
dynamo-electricas de Gramman. 

Nos últimos annos construiram-$e também motores 
a petróleo. Inventaram-se também outras maquinas, 
cada vez mais complicadas, e cada vez mais potentes. 

A agricultura, como já notámos, tornou-se scienti- 
ficamente industrial. No século XVIII, ella conservava 
ainda os processos rotineiros da meia edade, a não ser 
nos paizes novos (Estados Unidos); e, mesmo a força 
das quedas de agua e do vento só era aproveitada para 
os moinhos. Mas depois começou o trabalho mecânico 
a substituir-se ao trabalho á mão ; e os velhos ins- 
trumentos tradicionaes foram sendo também substitui- 
dos pela charrua a vapor, semeadoras e ceifeiras mecâ- 
nicas, debulhadeiras, maquinas de pisar e envasilhar o 
vinho, etc, ^. 

Ao mesmo tempo a chymica agrícola forneceu novos 
processos, para melhorar os terrenos e augmentar o 
seu rendimento, por meio de estrumes chymicos, taes 
como phosfatos, nitratos de potassa, etc. 

E, para generalisar as praticas scientificas, funda- 
ram-se, geralmente, em differentes paizes, institutos agri- 
colas, escolas de agricultura e quintas modelos. 

Finalmente, as exposições internacionaes, que tam- 
bém são obra do século XIX, fornecendo os melhores 
modelos industriaes, e mostrando o desinvolvimento de 



1 Vide pag. 111. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 133 



cada nação, serviram de exemplo e incitamento aos pai- 
zes mais atrazados, e fomentaram, cada vez mais, a anciã 
do progresso. 

Essas exposições internacionaes foram: em 1851, em 
Londres; 1855, em Pariz; 1862, em Londres; 1865, no 
Porto; 1867, em Pariz; 1871 a 1874, em Londres; 
1873, em Lyon; 1873, em Vienna; 1873, em Philadelphia; 
1878, em Pariz; 1879, em Sidney; 1880, em Melbourne; 
1883, em Amsterdam; 1885, em Antuérpia; 1885 e 1886, 
em Nova Orleans; 1888, em Barcelona; 1888, em Cope- 
nhague; 1888, em Bruxellas; 1889, em Pariz; 1893, em 
Chicago; 1897, em Bruxellas; 1900, em Pariz. 

Com tudo isto, as industrias manuaes foram decres- 
cendo, de modo que, por um lado, no fim do século, o 
trabalho á mão quasi que somente era applicado ás 
industrias de luxo ; e trabalhava-se mais barato. E, por 
outro lado, surgiu a grande industria. 

E' certo que, antes do século XIX, já havia algumas 
grandes officinas, conglobando centenas de trabalha- 
dores. Mas era uma excepção; porque o regime normal 
consistia na divisão em pequenas officinas, onde o 
patrão agrupava alguns artistas. No século XIX, pelo 
contrario, a officina tornou-se uma excepção, e a 
fabrica constituiu a regra geral. 

Assim se fizeram, sobretudo, nas regiões hulheiras 
e na visinhança das grandes quedas de agua, enormes 
agglomerações de operários, cujo desinvolvimento é 
um dos traços mais caracteristicos do século XIX. 
E, por isso mesmo, a população operaria foi crescendo 
muito, em detrimento da população rural. 

Pode, assim, dizer-se que os caracteres essenciaes 
da industria no século XIX, sobretudo depois do pri- 



134 A HISTORIA ECONÓMICA 



meiro quartel, se resumem em que a grande industria 
substituiu a pequena industria, e foi penetrada pela 
sciencia; de modo que foram as preparações dos sábios 
que incitaram a actividade dos industriaes. 

A fabrica saiu do laboratório, e substituiu a officina; 
e ao trabalho de mão substituiu-se, quanto possivel, o 
trabalho mecânico. A maquina substituiu também o 
homem. Fabricaram-se objectos em grande quantidade 
e baixo preço. E, como já dissemos, surgiu enorme 
quantidade de industrias novas. 



A descoberta ou preparação de novos productos, o 
grande desinvolvimento industrial, o alargamento do 
mundo physico, e a exploração de novas regiões ter- 
ritoriaes, apar do enorme alargamento das communi- 
cações, de que adiante fallaremos, deram também logar 
a um grande desinvolvimento do commercio. 

Os commerciantes não se limitaram a vender no 
seu paiz. Procuraram desembocadouros em todos os 
povos do mundo. O commercio exterior, cuja impor- 
tância é uma caracteristica essencial da força econó- 
mica dos Estados, tornou-se também a condição essen- 
cial da vida de alguns d'elles: por exemplo, a Inglaterra 
e a AUemanha, que só encontraram na venda dos seus 
productos o dinheiro necessário para a sua alimentação. 

Por outro lado, os preços tenderam a tornar-se uni- 
formes. Estabeleceram-se bolsas em quasi todos os 
paizes, e museus commerciaes em alguns d'elles, como, 



EDADE CONTEMPORÂNEA I35 



na Belgfica, onde havia amostras dos productos de 
exportação e de importação e dos empacotamentos e 
respectivos aprestes ; e onde as respectivas mesas 
davam instrucções completas, quanto á procura nos 
paizes estrangeiros, ao curso dos câmbios, taxas adua- 
neiras e telegráficas, e tarifas de transportes por terra 
e por mar ^. 

As companhias de seguros terrestres e maritimas 
augmentaram prodigiosamente, dando assim ao com- 
mercio outras tantas garantias. 

Augmentou egualmente o estabelecimento dos ban- 
cos, de sociedades anonymas, de associações poderosas, 
sob a forma de trusts, carteis e rings, e camarás de 
compensação ou clearing-houses, ampliando com issO' 
as forças económicas, pela expansão do credito, ou 
pela reunião dos esforços individuaes ^. 

Os próprios consulados tiveram também por missão 
especial o concorrerem para o desinvolvimento do 
commercio do seu paiz; e criou-se internacionalmente 
a missão de agentes, commissarios commerciaes, e até 
de conselheiros commerciaes junto das legações, com 
o mesmo propósito de favorecerem o commercio do 
respectivo Estado ^. 

Tornou-se maior a approximação das nações, e com 
ella o intercambio internacional. E as exposições de que 
já falíamos, ao passo que augmentavam esse intercam- 



1 Mareei Dubois, L'Europe, la Belgique. 

2 Adriano Anthero. Commentario ao Código Commercial 
Portuguez, vol. I pag. 154 e seguintes. 

3 Noel, obr. cit. vol. III. 



136 A HISTORIA ECONÓMICA 



bio, forneciam os modelos mais aperfeiçoados, e desper- 
tavam também o desejo das transacções internacionaes. 

O dinheiro unificou-se em cada paiz, havendo uma 
única moeda embora com os seus múltiplos ou submul- 
tiplos, e acabando com isso a confusão monetária dos 
tempos anteriores. 

Assim, na Allemanha, a unidade monetária era o 
marco, valendo approximadamente um franco e 24 cên- 
timos ; e, porisso, reputando o franco em 18 centavos 
ou 180 reis, era egual a 22 centavos e três milavos 
ou 233 reis da nossa antiga moeda. Dividia-se em 
100 phennigs. 

Na republica Argentina, a unidade monetária era o 
peso, que se dividia em cem centavos, com o valor 
nominal de cinco francos (=90 centavos ou 900 reis 
da nossa antiga moeda). Nos Estados Unidos da Ame- 
rica do Norte, era esse peso reputado como equivalente 
a 965 millessimos do dollar ( ^ ^ 80 centavos e três 
milavos ou 893 reis da nossa antiga moeda). 

Na Austria-Hungria, a unidade monetária da pauta 
das alfandegas era o florim, dividindo-se em 100 kreu- 
izer, e valendo 2 francos e cincoenta cêntimos ( = 45 
centavos ou 450 reis). Mas a unidade monetária esta- 
belecida por lei de 1892, posterior á da pauta das 
alfandegas, era a coroa ( -- 18 centavos e sete milavos 
ou 187 reis). 

Na Bélgica, a unidade monetária era o franco, divi- 
dindo-se em 100 cêntimos (-18 centavos ou 180 reis). 

No Brazil, a unidade monetária era mil reis, ( 50 
centavos e cinco milavos ou 505 reis). 

No Chile, a unidade monetária era o peso, que se 
dividia em 100 centavos (33 centavos e sete milavos 



EDADE CONTEMPORÂNEA 137 



OU 337 reis). Nos Estados Unidos da America do 
Norte, o peso chileno era reputado em 365 millesimos 
do dollar ( = 33 centavos e oito milavos ou 338 reis). 

Na China, a unidade monetária era o tael {^=a 10 
maces = a um escudo e vinte e nove centavos e seis 
milavos ou 1$296 reis). O mace dividia-se em 10 conda- 
rins, e o condarin em 10 caches. 

No Congo (Estado Livre), a unidade monetária era 
o franco, dividindose também em 100 cêntimos (=a 18 
centavos ou a 180 reis). 

Na Costa Rica, a unidade monetária da pauta das 
alfandegas era o peso (prata), que se dividia em 100 
centavos, com o valor nominal de 5 francos (=^90 cen- 
tavos ou 900 reis). Nas estações officiaes dos Esta- 
dos Unidos da America do Norte, considerava-se como 
unidade monetária da Costa Rica, o cólon (ouro), equi- 
valente a 465 millesimas do dollar de ouro ( = 46 cen- 
tavos ou 460 reis). 

Na Dinamarca, a moeda referida na pauta das 
alfandegas era o rigsdaler, que se dividia em 96 skillings, 
e valia francos 2,78 (=50 centavos e 4 milavos ou 504 
reis). A moeda nova era a coroa = 25 centavos (ouro), 
que se dividia em 100 ores, e valia francos 1,39 (=25 
centavos e dois milavos, ou 250 reis). A lei monetária 
de 23 de maio de 1873 fixou a proporção entre duas 
moedas da maneira seguinte: 1 rigsdaler = a duas 
coroas ; 48 skillings = 1 coroa. 

No Equador, a unidade monetária empregada na 
pauta das alfandegas era o sucre, que se dividia em 100 
centavos e valia cinco francos, valor nominal ( = 90 
centavos ou 900 reis). No Boletim dei Ministério do 
Estado VII, 980, (Madrid, 1898), menciona-se a piastra 



138 A HISTORIA ECONÓMICA 



(prata), como tendo curso no Equador e Guatemala,, 
com o valor de 5 francos. Nos Consular Reports LVII, 
n.'' 213, pag. 17, (Washington, 1898), menciona-se o 
peso de prata com a unidade monetária do Equador, 
com valor fluctuante, que, no 1." trimestre de 1898, 
oscillou entre 409 e 434 millesimas do dollar de ouro 
(=37 centavos e 8 milavos e 39 centavos e 2 milavos, ou 
seja í?37,8 e í^39,2 respectivamente, ou 378 reis e 392 reis). 

Nos Estados Unidos da America do Norte, a uni- 
dade monetária era o dollar, que se dividia em 100 cents, 
e valia 5 francos e 18 cêntimos ( = 93 centavos e dois 
milavos ou 932 reis). A casa da moeda dos Estados 
Unidos reputava mil reis de Portugal, (ouro), equiva- 
lente a um dollar e oito cents. Segundo esta equivalên- 
cia, um dollar correspondia a 92 centavos e 6 milavos 
ou 926 reis. 

No Haiti, a unidade monetária era o guide, que se 
dividia em 100 cêntimos, com o valor nominal de cinco 
francos ou 90 centavos ou 900 reis. A casa da moeda 
dos Estados Unidos reputava um guide =z965 millesimas 
do doUars (ouro). A equivalência sobre esta base em 
ouro portuguez vem a ser 89 centavos e 3 milavos ou 
893 centavos e 3 milavos ou 893 reis. 

Na Hespanha, a unidade monetária era a peseta 
( = a um franco, 18 centavos ou 180 reis). 

Na Inglaterra, a unidade monetária era a libra 
sterlina (20 shillings, equivalente a 4 escudos e meio 
ou 4.S500 reis; shilling (12 dinheiros ou pences, equiva- 
lente a 22 centavos e meio ou 225 reis ; dinheiro ou 
penny (4 forthings), equivalente a 18 milavos e 75 cen- 
tésimos do milavo ou 18 reis; forthing, equivalente a 4 
milavos e 60 centésimas do milavo ou 4 reis. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 139 



Na Itália, a unidade monetária era a lira (^=1 franco» 
ou 18 centavos ou 180 reis). 

No Japão, a unidade monetária era o yen (ouro),^ 
equivalente a 0,498 do dollar = a 46 centavos e um 
milavo ou 461 reis). 

No México, a unidade monetária era o peso, que se 
dividia em 100 centavos, com o valor nominal de cinco 
francos ( = 90 centavos ou 900 reis). 

Em Marrocos, a unidade monetária era o real, que 
valia 25 centésimos da peseta hespanhola ou de 1 franco 
( = a 4 centavos e meio, ou 45 reis). 

Nos Paizes Baixos, a unidade monetária era o 
florim, que se dividia em 100 cents, e valia aproxima- 
damente 2 francos e 11 cêntimos ( = 38 centavos ou 
380 reis). 

No Peru, a unidade monetária era o sol (prata), que 
se dividia em 100 centavos, e valia nom.inalmente 5 fran- 
cos (90 centavos ou 900 reis). O sol de prata do Peru 
tinha curso fluctuante, de modo que, no fim do 1.*^ 
semestre de 1898, era reputado pela casa da moeda dos 
Estados Unidos como equivalente a 418 millesimas do 
dollar (ouro americano) =38 centavos e 7 milavos ou 
387 reis. 

Em Portugal, a unidade monetária era o real com os 
seus múltiplos, a saber: a coroa de ouro, do valor de 
lOSOOO reis, a meia coroa, do valor de 58000 reis, o 
quinto de coroa, do valor de 2$000 reis, e o decimo de 
coroa, do valor de ISOOO reis. 

Na Rússia, a unidade monetária, desde os princi- 
pies de 1897, era o rublo ouro, equivalente a 772 mil- 
lesimas do dollar dos Estados Unidos ( = 71 centavos 
e 4 milavos ou 714 reis). Dividia-se em 100 kopecks. 



140 A HISTORIA ECONÓMICA 



Não se deve confundir com o rublo papel, que tem o 
valor approximado de 48 centavos ou 480 reis. 

Na Suécia e Noruega, a unidade monetária era a 
coroa (krona), que se dividia em 100 oeres, e valia 
approximadamente 1 franco e 39 cêntimos ( = 25 cen- 
tavos ou 250 reis). 

Na Turquia, a unidade monetária era a piastra de 
ouro, equivalente a 44 millesimas do dollar dos Estados 
Unidos ( = 4 centavos approximadamente ou 40 reis). 
As moedas cunhadas eram de 25, 50, 100, 200 e 500 
piastras. 

No Uruguay, a unidade monetária era o peso, que 
se dividia em 100 centésimos, e valia approximadamente 
5 francos ( = 90 centavos ou 900 reis) \ 



Nas próprias classes trabalhadoras, operou-se uma 
revolução, porque foi abolida a escravatura. 

Os congressos de Vienna de 1815 não ousaram 
estabelecer essa abolição, e apenas formularam o voto 
<le que as nações alli representadas empregassem para 
tão humanitário fim os seus melhores esforços. 

Coube á Inglaterra a iniciativa da perseguição da 
escravatura, arrogando a si o direito de visita a todos 
os navios que julgasse suspeitos do trafico dos negros. 



1 Adriano Anthero. — Commentario ao Código Commercial 
■Portuguez, vol. I, pag. 595 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 141[ 

A França reconheceu por um tratado de 1831 tal 
direito, que, annos depois, em 1845, se viu obrigada a 
regularisar por outro tratado com a Inglaterra, estabe- 
lecendo-se um cruzeiro 'de navios inglezes e francezes, 
nas costas occidentaes e orientaes da Africa, para 
cohibir o trafico, segundo se dizia, feito pelos Portu- 
guezes. 

Já em 1839, as camarás britannicas tinham adoptado 
o bill de lord Palmerston, dando aos navios inglezes a 
faculdade de capturarem os navios portuguezes que se 
entregassem ao commercio dos negros, ou fossem sus- 
peitos de tal commercio, ficando os bens e pessoas de 
bordo sujeitas á jurisdicção exclusiva das auctoridades 
de Sua Magestade Britannica. 

O tratado de 1845 entre a França e a Inglaterra foi 
a nova edição correcta d'esse bill. 

O governo portuguez de então deu ordem ao seu 
ministro, barão de Moncorvo, para fazer sentir ao 
governo inglez que reputava como iniquo esse direito 
de visita, embora sob um pretexto humanitário. E a 
Inglaterra, no mesmo anno de 1845, por uma nota de 
lord Aberdeen, deu-nos amplas satisfações sobre o que 
nós julgávamos offensa da nossa soberania. 

Concorreu muito para isso o livro de Sá da Ban- 
deira « O trafico da esa avatura e o bill de lord Pal- 
merston», em que elle desaggravou Portugal da injus- 
tiça que lhe era feita. E aquelle tratado de 1845 era 
tanto mais injusto que, já em 1843, tinha havido um 
tratado entre a Inglaterra e Portugal, em que as duas 
potencias consentiam jnutuamente na visita e n'outros 
procedimentos graves, quanto ás embarcações dos dois 
paizes, quando estas se tornassem, com fundamenta 



142 A HISTORIA ECONÓMICA 



rasoavel, suspeitas do trafico ; devendo, em todo o 
caso, estas visitas ser exercidas por navios do Estado, 
auctorisados expressamente para esse fim. 

Os Estados-Unidos não annuiram ao direito da 
visita, e, por causa d'isso, esteve para haver um con- 
flicto com a Inglaterra, em 1858. Mas, pela abolição 
g-eral da escravatura, acabou a contenda; porque, então, 
os negreiros ficaram equiparados aos piratas. 

O ultimo paiz que a aboliu, foi o Brasil, em 1889, 
devido em grande parte aos esforços de Joaquim 
Nabuco e José Patrocinio. Mas, de facto, ainda ella 
persistiu em alguns povos, e até para a reprimir, ha a 
União ou Bureau da repressão do trafico de escravos, 
instituido, em execução do auto geral da conferencia de 
Bruxellas de 2 de julho de 1890 \ 

* 
* * 

Também no período de que estamos tractando, o 
socialismo foi cada vez agindo mais fortemente, e per- 
turbando muito o andamento regular da sociedade. 

Assim como no mundo physico, ha o quadro dos 
abysmos e das alturas, dos valles e das campinas, e, 
apar do superficie immensa dos mares, ha as arestas das 
rochas e as cadeias das montanhas; emfim, como no 
mundo physico, ha uma serie continua d'esses phenome- 
nos que quebram o nivelamento do globo, também no 



1 Adriano Anthero. O Direito Internacional. 



EDADE CONTEMPORÂNEA I43 



mundo moral e social, ha os múltiplos accidentes que 
estabelecem a desigualdade da humanidade. 

O proprietário ao pé do proletário, o rico ao pé 
dos desherdados de bens de fortuna, o forte ao pé do 
fraco, o homem que dispõe de aptidões priveligiadas, ao 
pé do destituído de habilitações, o trabalhador ao pé do 
indolente, o protegido ao pé do desamparado, em 
summa, a differença de condições estabelecida por 
toda a parte constitue outras tantas variantes, que 
teem feito, desde o principio do mundo, a desegual- 
dade das classes sociaes. 

E esta serie de desegualdades tem levantado sem- 
pre ou nos espíritos visionários e nos indagadores, 
ou nos condoídos de alheios infortúnios, ou nos deses- 
perados da vida e da sorte, repetidos esforços, pací- 
ficos, ou violentos, para apagarem essas desegual- 
dades e estabelecerem, quanto ser possa, o nivelamento 
social. 

O primeiro systema aventado para attingir esse 
nivelamento social, devia ter sido naturalmente o mais 
radical e menos scientifico ; já porque os primeiros 
impulsos da humanidade foram indisciplinados e rudes; e 
já porque, não havendo ainda o lastro scientifico, depois 
accumulado pelas gerações posteriores, não havia ele- 
mentos para organisar, desde logo, um corpo doutri- 
nário. 

Por isso, o primeiro systema que surgiu na humani- 
dade, foi o communismo puro, que é de todos o mais 
radical, e que pôde definir-se a forma de nivelação 
social pela simples communhão de bens.. 

Este systema dividiu-se em communismo religioso, 
civil, livre ou philosofico e absoluto, conforme devia ser 



144 A HISTORIA ECONÓMICA 



realísado pela Egreja, pelo Estado, pela simples von- 
tade dos cidadãos, ou pela acção combinada do Estado 
e da Egreja. 

A primeira espécie de communismo — o religioso, 
também chamado theocratico, no caso em que os chefes 
da religião eram os imperantes, existiu primitivamente no 
Egypto, na índia e n'outros povos antigos. 

Os Judeus proclamaram também essa doutrina, sob 
a formula de que toda a terra é de Deus. No Êxodo, 
por exemplo, diz-se: Obedecei exactamente á minha voz, 
e guardai a minha alliança: toda a terra me pertence. 
No Levitico, acha-se egualmente o seguinte texto: A 
terra é minha, e vós sois estrangeiros e colonos, a quem 
abrigo. Nos Psalmos, encontra-se também: A terra é 
do Senhor com tudo o que ella contem. 

Este communismo religioso foi também estabelecido 
pelos primeiros christão na Egreja de Jerusalém, depois 
da morte de Christo. 

Os Romanos, commandados por Tito, invadiram, no 
anno de 70, a Judea. Tomaram aquella cidade, queima- 
ram o templo, e levaram captivos todos os christãos ; 
mas, dez annos depois, outra communidade semelhante 
foi fundada no Egypto por S. Marcos, primeiro bispo 
de Alexandria, e, em breve, a instituição se propagou 
por toda a parte. D'ahi os conventos e as ordens reli- 
giosas, que obedeciam aos mesmos princípios do com- 
munismo religioso. 

As formas ou regras principaes d'essas ordens foram 
a de S. Bazilio, que preponderou no Oriente, e as de 
Santo Agostinho e S. Francisco d'Assis, que se espa- 
lharam por todo o mundo catholico. Mas, quaesquer 
que fossem as variantes, no fundo dominava, como 



EDADE CONTEMPORÂNEA 145 



principio superior, o communismo, dos bens, regulada 
pelo poder religioso, de harmonia com a proclamação 
da Biblia de que a terra pertence unicamente a Deus. 

E, se é certo que esse principio geral não obstava 
á acquisição dos bens pela Egreja, esta acquisição era 
no presuposto do que esta distribuiria pelos pobres e 
necessitados os seus rendimentos, segundo a egualdade 
pregada pelos evangelhos. 

As ágapes ou jantares communs dos christãos, que 
tiveram logar nos primeiros tempos do christianismo^ 
foram também um reflexo d'este systema communista. 
E a administração dos Jesuitas no Paraguay, já nos tem- 
pos da historia moderna, foi outra pratica d'elle. 



O communismo civil foi egualmente pregado e exer- 
cido já na antiguidade. 

Na Grécia, Minos estabeleceu-o em Creta. A legis- 
lação de Lycurgo inspirou-se n'este systema ; e foi 
assim que, tomando todas as precauções para banir o 
luxo e a riqueza, ella consignava a partilha das terras 
e a meza e educação commum. Platão e Sócrates 
apostilisaram egualmente semelhante systema. E, em 
Roma, as lutas agrarias, as tentativas dos Grachos e 
todas as perturbações civis, provenientes da desegual- 
dade das fortunas, representaram a mesma elaboração 
communista. 

Eguaes ideias fermentaram, sob o esforço de diffe- 
rentes propagandistas, na edade media, e produziram 

Volume VI 10 



146 A HISTORIA ECONÓMICA 



differentes movimentos revolucionários, até que foram 
organizadas em corpo de doutrina por Thomaz Morus, 
o grande chanceller da Inglaterra, morto sobre o cada- 
falso, e um dos mais eminentes homens do seu tempo, 
pela sua illustração e virtudes. Esse corpo de dou- 
trina teve o titulo de Utopia, também conhecido por 
Livro de Ouro; e foi publicado, em 1516. 



* 
* * 



O communismo livre ou philosofico, já pregado tam- 
bém na antiguidade, foi posto em pratica no principio 
do século XVI, pela seita dos Anabaptistas, cujos sectá- 
rios, ainda n'este periodo contemporâneo, existiam na 
Allemanha, Estados Unidos, Hollanda, Alsacia e outras 
regiões. 

Esta seita, apesar de proscripta com a pena de 
morte, na Dieta de Spira, em 1529, chegou a tomar á 
força, em 1534, Munster, capital da Westephalia, e ahi 
poz em pratica o seu systema; até que, por fim, essa 
cidade foi retomada pelas forças do império, e foram 
exterminados os anabaptistas que estavam dentro. 

D'ahi por diante, parte d'esta seita fundiu-se na dos 
irmãos Moravos, que tinham quasi os mesmos principies 
reguladores. 

Pode talvez enfileirar-se aqui o communismo dos 
Mormons, seita fundada por José Smith, e da qual 
existiam no plató dos Estados Unidos que fica entre as 
Rochosas e a Cascata, uns 200 a 300 sectários. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 147 



Finalmente, o communismo absoluto, a saber, o que 
devia exercer-se pela acção combinada do Estado e 
da Egreja, foi pregado, também no século XVI, por 
um homem de génio e de uma actividade extraordi- 
nária, o calabrez Campanella. Segundo elle, o com- 
munismo era determinado por Deus; e, n'este sentido, 
os sacerdotes, e, portanto, a religião, deviam ser os 
interpretes da vontade divina, e o Estado, o seu 
executor. Destas duas forças combinadas é que devia 
resultar esse communismo absoluto ^. 



Como acaba de ver-se, no communismo, ha como 
formula geral — a communhão dos bens, operada directa- 
mente, e esta communhão fere bruscamente a liberdade 
humana, e ataca de frente a desigualdade das fortunas ; 
e, como é natural, devia, por isso, encontrar por toda 
a parte uma opposição e reacção immediatas. Fez isto 
que, já no século XVII, se começasse a debater a 
questão de attingir de outra forma a nivelação social ; e 
d'ahi surgiu o socialismo, que pode definir-se o systema 



1 Alfredo Soudre, Histoire du communisme. 



148 A HISTORIA ECONÓMICA 



do nivelamento social por meios indirectos, e que 
M. Tougan-Baranowski define mais longamente, como 
sendo a ordem social, na qual, em consequência de 
eguaes obrigações e eguaes direitos para todos, e de 
todos participarem no trabalho e terem o seu quinhão no 
gozo dos fructos desse trabalho, a exploração duma 
parte dos membros da sociedade por outra, se torna 
inútil \ 

Sobre o incêndio da revolução franceza, já Mirabeau, 
Robespierre e Babeuf apostilisaram o socialismo ; e,. 
depois d'isso, até o fim do século XIX, quasi todos os 
visionários que se perderam no platonismo das abstra- 
cções ideaes, ou os doutrinários convictos, ou os deses- 
perados e maus, que se corroiam na inveja das fortunas, 
alheias, fizeram d'esse systema o desabafo dos seus 
ideaes e da sua ingenuidade, ou a expansão da sua 
doutrina, ou a explosão da sua inveja e do seu rancor. 

E tanto augmentou o desinvolvimento do socialismo 
que chegou a constituir um systema perfeito, organi-^ 
zado em bases e prlncipios definidos. 

E, com effeito, em primeiro logar, o socialismo 
moderno começa por considerar viciosamente organi- 
sada a sociedade actual, pelas seguintes razões : 

a) O capital deve ser abolido, com o fundamento- 
de que representa a exploração do trabalhador pelo 
capitalista. Como antigamente, o explorador explorava o 
escravo, assim, na doutrina do socialismo, o credor 
explora o devedor; o grande industrial e dono das. 



1 M. Tougan-Baranowski. Evolução Histórica do Socialismo» 
Moderno, traduzido em francez por Joseph Schapiro. 



EDADE CONTEMPORÂNEA I49 



maquinas explora o operário; o proprietário do solo 
•explora os trabalhadores ; e o patrão que tem grande 
■estabelecimento, explora os seus caixeiros e criados. 
Porisso, é necessário que o capital seja commum. 

b) O principio da livre concorrência, como remédio 
«económico, é falso. Assim, o retalhista não pode concor- 
rer com o commerciante por grosso. O pequeno pro- 
prietário, que não dispõe do capital e instrumentos de 
cultura, não pode concorrer com aquelle que dispõe de 
tudo isso. O lavrador que só tem um solo secco e fraco 
e de mau clima, não pode também concorrer vantajosa- 
mente com outro que tenha por si melhores condições. 

c) Na livre concorrência, não ha certeza de que o 
g-rande proprietário ou industrial cumprirá os seus deve- 
res sociaes. Era necessário para isso que elle tratasse 
de regular a producção, segundo o consumo social, e 
de produzir a quantidade e qualidade de mercadorias 
que a sociedade demandasse. 

Ora, sob a livre concorrência, a empreza ignora 
tudo, inclusivamente as necessidades das sociedades e 
a producção social. Não sabe qual a quantidade e qua- 
lidade de mercadorias que os seus concorrentes produ- 
zem ; e é obrigado, porisso, a satisfazer a sua fregue- 
zia de olhos vendados. D'ahi resultam as crises, as 
fallencias, os prejuisos, etc. 

Por outro lado, os que chegam a essa posição de 
emprezarios, não são, geralmente, os mais competentes ; 
e d'ahi resulta um outro vicio de organisação econó- 
mica — a inhabilidade d'essas empresas. 

Emfim, a retribuição e lucros das emprezas não são 
determinados pela utiUdade d'ellas e da sociedade, em 
geral, mas pelo capital que os empresários possuem. 



150 A HISTORIA ECONÓMICA 



d) A antiga ideia de valor, como dependente só da 
utilidade e raridade, é outra ideia falsa. O valor, segundo 
alguns socialistas, por exemplo, Marx depende ou por 
outra, é representado apenas pelo trabalho crystalisado ; 
pois qualquer producto corresponde apenas ao valor do 
operário que o produz, junto ao demais trabalho crys- 
talisado nas matérias primas e nos instrumentos, ou no 
capital, que foram empregados no producto ; e isto, sem 
levar em conta os elementos naturaes, que devem ser 
communs a toda a humanidade. Ou, pelo menos, segundo 
alguns outros socialistas, como por exemplo, M. Tou- 
gan-Baranowski, se o valor não depende só do traba- 
lho crystalisado, visto que pode haver elementos natu- 
raes, como o solo e o clima, que concorram para a 
criação do producto, e mesmo para a sua melhor 
qualidade, esse trabalho vem a ser o elemento substan- 
cial do preço, e, portanto, do valor. 

e) A civilisação está cheia de vicios, que tornam 
insufficiente a riqueza social, e que muito a podiam 
augmentar. Assim, na organisação actual, ha um grande 
numero de pessoas que são improductivas, taes são : 

Os parasitas domésticos que abarcam três quartas 
partes das mulheres das cidades, e metade das mulheres 
dos campos, pela absorpção nos trabalhos do menage 
e complicação domestica; três quartas partes das crian- 
ças, plenamente inúteis nas cidades e pouco úteis nos 
campos ; e ainda três quartas partes dos criados, cujo 
trabalho produz unicamente uma complicação social. 

E os parasitas sociaes, taes como : 

Exércitos de terra e mar, que teem por objecto a 
destruição; legiões de funccionarios fiscaes ; grande 
quantidade de manufactores, reputados úteis, mas que 



EDADE CONTEMPORÂNEA 151 



são relativamente improductivos, pela má qualidade dos 
objectos fabricados; muitos mercadores e agentes 
commerciaes ; dois terços dos agentes de transportes 
por terra e mar ; os que descançam por lei ou por 
accidente, ou voluntariamente; os sofistas e controver- 
sistas, que enganam ou controvertem a verdade ; os 
ociosos, que passam a vida sem fazerem nada, aos quaes 
se deve ajuntar os criados e toda a gente que serve 
estes ociosos ; os prisioneiros, que representam uma 
classe de ociosidade forçada; tudo que está em rebe- 
lião aberta contra a industria, leis, costumes ou moral 
como as loterias, e casas de jogo, verdadeiros venenos 
sociaes ; os cavalheiros de industria; as mulheres publi- 
cas, mendigos, ladrões, etc; os agentes de criação 
negativa, que não trabalham para satisfazer as necessi- 
dades naturaes da humanidade, mas para satisfazer as 
necessidades criadas pela imperfeição da ordem social 
actual. Taes são, por exemplo, os agentes da edificação 
d'um muro de cerca; os da desarvorisação d'uma flo- 
resta útil ao paiz, porém destruida pela rapacidade do 
proprietário, que não pensa no interesse commum; e os 
da fundação de muitas emprezas concorrentes, onde 
uma só bastaria para as necessidades da communidade. 

Em segundo logar, a sociedade não tira todo o 
proveito possivel de alguns operários que emprega no 
trabalho productivo. Acontece isso também, por exem- 
plo, no parcellamento excessivo de propriedade e da 
industria, em que, por falta de instrumentos, capitaes,^ 
estrumes, drenagens, o rendimento é menor; quando, 
pelo contrario, se a propriedade e a industria se con- 
centrassem, o rendimento seria maior. 



152 A HISTORIA ECONÓMICA 



Em terceiro legar, outro viciamento da socie- 
dade está na falta de atractivos no trabalho. Regra 
geral: não se trabalha senão para satisfazer a fome 
e as necessidades naturaes, e ordinariamente tra- 
balha-se muito mal. Considera-se o trabalho económico 
como sendo massador e desagradável, e que, porisso, pro- 
duz fadiga. Não aconteceria isto, havendo gosto e amor 
pelo trabalho, como se dá com o caçador, que acha a 
caça agradável, e, por esse motivo, se não fatiga com ella. 

Finalmente, o único laço que reúne os diversos 
domínios económicos, é a troca regida pela concorrência 
sem plano algum de organisação social. Cada qual pensa 
unicamente em si, sem se importar dos outros. O resultado 
é a guerra encarniçada entre elles, o enriquecerem uns á 
custa dos outros, e a ruina das empresas desgraçadas, 
as bancarrotas, as crises industriaes e commerciaes, etc. 

Ora o socialismo do século XIX, tende a remediar 
todos esses vicios, ou parte d'elles, por meio de vários 
alvitres. Esses alvitres, embora assentem numa base 
commum, como veremos, são differentes, conforme os 
diversos systemas, e mesmo, conforme os diversos socia- 
listas e escriptores. 

Esses systemas podem classificar-se do seguinte 
modo : 

Socialismo : Communismo : 

Centralista ; Centralista ; 

Corporativo ; Corporativo ; 

Federativo ; Federativo ; 

Anárquico. Anárquico. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 153 



No socialismo centralista ou o collectivista, elabo- 
rado principalmente por Saint Simon, todos os meios de 
producção devem ser concentrados na mão do Estado. 

A disposição d'esses meios de producção e a sua 
distribuição por todo o paiz devem ser confiadas a um 
poder central, cuja figura corresponde, no governo eco- 
nómico, á do governo politico moderno. 

A este poder central serão ligadas differentes aucto- 
ridades provinciaes, que estarão em contacto com os 
productores e consumidores. O conjuncto formará um 
systema complexo e hierárquico, de auctoridades econó- 
micas, subordinadas umas ás outras. As auctoridades 
locaes transmittirão ao poder central as informações 
relativas á natureza e qualidade dos pedidos sociaes; e 
o poder central repartirá depois, segundo estes pedi- 
dos, os meios de producção entre as auctoridades 
locaes; e estas, por seu lado, os darão aos trabalhadores 
isolados, ou formando grupos, conforme o principio: a 
cada um, segundo a sua capacidade, a cada capacidade, 
segundo a sua obra. 

No systema de Saint Simon, que foi o primeiro que 
estabeleceu estas bases, a reunião dos operários consti- 
tuiauma hierarquia, onde havia empregados superiores e 
subalternos, chefes e subordinados ; e o Estado tinha 
até o caracter de uma communidade religiosa. 

Segundo Pecqueur, a distribuição não deve ser des- 
egual. O Estado inquirirá quaes os objectos que é 



154 A HISTORIA ECONÓMICA 



necessário adquirir para a distribuição corresponder ás 
necessidades, e fixará as horas para cada industria, 
segundo as difficuldades e inconvenientes do respectivo 
trabalho. A remuneração deve ser a mesma para cada 
operário, desde que a tarefa normal seja conveniente- 
mente executada; aliás soffrerá a devida reducção. 

Na distribuição do salário, hão-de ter-se em conta as 
despezas do Estado com a sustentação dos velhos, doen- 
tes e crianças, bem como a dedução de uma certa parte, 
para reconstruir o capital social e para outras despezas. 
O resto é repartido em partes eguaes pelos operários. 
A distribuição é feita em dinheiro. A usura é prohi- 
bida; e cada um pôde dispor do seu dinheiro, ou comprar 
outros objectos nos depósitos do Estado, que executa, 
por sua própria conta, as importações e exportações. 
Os preços são fixados também pelo mesmo Estado. 

As imprensas também do Estado estão francas para 
todos, mas qualquer cidadão tem de imprimir á sua custa 
o que desejar. A educação da mocidade está a cargo do 
Estado, tendo ella de seguir as profissões para que 
mostre maior capacidade, ou que o Estado julgar mais 
convenientes. 

Roberto, outro sectário d'este systema, preconisava 
também a desegualdade da remuneração, intendendo 
que devia ser feita em proporção dos productos do 
trabalho. 

Os Marxitas vão mais longe ainda, porque esten- 
dem a organisação económica a todas as nações. 

Assim, a sociedade futura equivalerá a uma vasta 
associação, correspondente ao Estado. Esta associação 
terá certas relações económicas com as associações 
análogas, visto que nenhum Estado moderno pode 



EDADE CONTEMPORÂNEA 155 



prescindir da importação estrangeira. Estas relações 
entre Estados socialistas independentes não podem 
ser reguladas por qualquer potencia superior; mas 
as convenções basilares estabelecerão o equilibrio entre 
a importação e a exportação, de modo a cada Estado 
poder pagar com os seus productos o que tiver 
recebido. 

Os Marxitas inclinam-se para a egual remuneração 
de todos os géneros de trabalho, admittindo apenas 
uma excepção a favor dos trabalhos menos agradá- 
veis, e são partidários acérrimos do trabalho obri- 
gatório. 

N'este systema centralista, os membros do poder 
estão sempre sujeitos á fiscalisação do povo livre ^. 

Communismo centralista ou collectivista. — O socia- 
lismo centralista não admitte a uniformidade do con- 
sumo, e concede inteiramente a liberdade de cada 
cidadão escolher os objectos do seu consumo, e dispor 
d'elles, nos limites fixados pela norma do seu rendi- 
mento. 

Pelo contrario, o communismo centralista estabelece 
a uniformidade de consumo até no vestuário, salvas as 
differenças de sexo, edade e saúde, e de outras 
condições naturaes. Mas consigna a plena liberdade 
d'esse consumo, podendo cada qual, acabada a sua 
distribuição, ir buscar ao fundo commum o mais que 
desejar, conforme as suas necessidades. 



1 Bellamy, no seu livro Looking Backward (1888) organisou 
um plano completo da sociedade, conforme o socialismo centralista. 



156 A HISTORIA ECONÓMICA 



Encontra-se a representação typica do communismo 
•centralista na Içaria de Cabet, cujo plano foi inspirado 
directamente pela Utopia de Morus. 



Socialismo corporativo. — O representante mais notá- 
vel do socialismo corporativo foi Luis Blanc. Entre 
os socialistas posteriores ha como adeptos Jaurés e 
Hertzka. 

O socialismo centralista quer concentrar a direcção 
de toda a producção social nas mãos de um poder cen- 
tral; o socialismo corporativo quer, pelo contrario, con- 
fiar o poder a corporações ou associações operarias, 
•chamadas syndicatos de producção, 

Luis Blanc, para conciliar a ingerência do Estado 
com a liberdade de iniciativa particular, intendia que o 
Estado devia reunir na sua mão todos os ramos da 
producção que exigem ou admittem uma centralisação, 
taes como, os seguros, os caminhos de ferro, a explo- 
ração mineira, os estabelecimentos de credito, e mesmo 
todo o commercio grosso e de retalho. E, estando, 
assim, na posse d'estes factores económicos, devia pro- 
curar, pouco a pouco, substituir todas as empresas 
capitalistas privadas por associações operarias, syndi- 
catos de producção, que se formariam livremente, e ás 
quais o Estado prestaria o seu apoio. 

O salário n'estes syndicatos devia ser, nos primeiros 
lempos, egual para todos. Mas isto, provisoriamente; 



EDADE CONTEMPORÂNEA JSJ- 



porque, depois, a equidade pedia que o trabalho fosse 
proporcional ás forças de cada um, e cada qual fosse 
remunerado, conforme as suas necessidades. 

Os syndicatos dirigiriam a producção de um modo 
automono, e distribuiriam e repartiriam peles seus mem- 
bros todos os bónus, feita a dedução da parte do Estado. 

Communismo corporativo. — O communismo corpo- 
rativo acceitando os demais princípios do socialismo 
corporativo, quer a communhão dos productos. 



Socialismo federativo. — O socialismo federativo 
disting"ue-se claramente do socialismo centralista, da 
mesma forma que se distingue do socialismo corporativo. 

Assim, o socialismo centralista quer uma org-anisa- 
ção total da harmonia social, representada pelo seu 
ideal de Estado, e mesmo uma organisação mundial 
sob essa forma, cujas partes concordem perfeitamente 
entre si. Esse Estado pode conciliar-se com uma certa 
liberdade de organisações locaes; mas esta liberdade 
não deve exceder certos limites, e é preciso reconhecer 
a supremacia absoluta de um poder central. 

O socialismo federativo, ao contrario regeita a reu- 
nião dos diversos grupos socicJistas n'um todo com- 
pleto, isto é, no Estado ou poder supremo. 

E differe também do socialismo corporativo; porque 
este agrupa os membros da sociedade em corporações, 
segundo as profissões e géneros de trabalho produ- 



158 A HISTORIA ECONÓMICA 



ctivo, emquanto que o socialismo federativo pretende 
reunir os representantes das diversas profissões n'uma 
mesma collectividade económica. 

O grupo do socialismo federativo é a communa 
socialista, que engloba, tanto quanto possivel, todos 
os géneros de trabalho," e produz, por seus próprios 
esforços e meios, a maior parte dos productos que os 
seus membros consomem. 

Tem de commum com o socialismo centralista que 
cada grupo hade estar em relações estreitas com os 
outros, e não pode satisfazer as suas necessidades sem 
elles, o que exige um poder commum. Mas, por outro 
lado, o socialismo federativo fracciona a sociedade 
n'uma multidão de communas, fracamente ligadas entre 
si, sem haver necessidade de qualquer poder ou enti- 
dade estranha que regule superiormente o seu regimen. 
E' um passo para a anarquia. 

Entre os anteriores representantes do systema fede- 
rativo, deve citar-se Owen, Thompson e Fourier; e, entre 
os mais modernos, Duhring e Oppenheimer. 

Segundo Owen, que é tido como o pae do socia- 
lismo inglez, a separação entre as cidades e o campo, 
e a agricultura e a industria desapparece. Não ha 
propriedade particular, quanto aos meios de producção, 
nem quanto aos objectos do consumo; porque os par- 
ticulares só podem dispor d'elles para os consumirem. 

Cada qual tem de habitar no edificio central da 
communa, que é um grande palácio, onde cada familia 
terá o seu alojamento. 

As differentes communas são completamente inde- 
pendentes umas das outras, mas devem ligar-se para 
executar os trabalhos que excedem as forças de uma só. 



EDADE CONTEMORANEA 159 



Thompson, discípulo de Owen, ajuntou ao plano do 
mestre a criação de uma orgfanisação económica superior 
á communa, para o caso em que os conflictos ou inte- 
resses d'ellas exijam a sua acção. E Fourier intendia que 
taes communas deviam ser constituídas por associações 
de algumas centenas de famílias que tivessem uma eco- 
nomia commum. A communa assim organísada foi cha- 
mada por elle phalange, e o palácio onde os membros 
d'ella habitassem, phalansterio. Ahi, todos deviam tra- 
balhar em commum; porém cada individuo viveria como 
quizesse, também em commum com os outros, ou com 
economia separada. As cidades deviam desapparecer, 
para serem substituídas pelos palácios da phalang-e em 
commum. 

Communismo federativo. — O communismo federa- 
tivo, acceitando também o principio da divisão em com- 
munas ou phalang-es, distingue-se do socialismo federa- 
tivo, porque estabelece a communidade dos productos 
do trabalho, da mesma forma que no communismo 
centralista, e a liberdade de consumo, sem ser restrin- 
5'ida pelo bónus do trabalho. 



Socialismo anárquico. — Para os anarquistas, a ordem 
social e ideal não será realisada, senão quando todo o 
poder do homem sobre o homem for expulso, e quando 
todos os homens forem egualmente livres, e não conhe- 



160 A HISTORIA ECONÓMICA 



cerem senhores. A livre vontade do homem deve ser 
a única lei da sociedade anárquica. Porisso cada um 
deve ter a liberdade de fazer o que bem lhe parecer. 

Pôde ter-se como o primeiro apostolo dos anarquistas 
modernos, Godwin. Depois de Godwin, veiu Prouhdon, 
que considerou também a associação livre dos indivi- 
duos como única forma admissivel da collaboração 
social. Porisso, elle regeitava todas as formas históricas 
do Estado e todas as formas do Governo. 

A ordem social anárquica do futuro devia ser fun- 
dada unicamente no principio da livre associação, e 
seria realisada pela adopção das transformações pro- 
postas por elle Prouhdon, sobre a situação económica 
do seu tempo. E, entre ellas: a adopção do systema de 
credito gratuito, e a organisação das trocas dos produ- 
ctos sem o intermédio do dinheiro. 

Prouhdon era contrario ao communismo, e queria 
assegurar ao individuo o fructo do seu trabalho. 

Tolstoi foi também anarquista; mas não organisou 
nenhuma theoria. O maior anarquista, pelo talento, 
extensão do saber e poder de espirito, foi Kropotkine. 
Ao contrario de Prouhdon, regeitava toda a proprie- 
dade privada e todo o direito do proprietário ao pro- 
ducto do seu trabalho. Regeitava também o traba- 
lho obrigatório e forçado. As trocas deviam fazer-se 
livremente e por necessidade mutua, sem ser por 
dinheiro. 

Communismo anárquico. — Este communismo acceita 
as bases do socialismo anárquico, mas quer que o& 
bens e productos sejam communs. 



EDADE CONTEMPORÂNEA fgl 



Quanto á realisação dos ideaes do socialismo, alguns, 
como Thomas Morus, intendiam que se podia effectuar 
simplesmente pela vontade do principe ou imperante; 
outros, como Fourier, pela simples evolução ou simples 
adherencia das classes populares, isto é, pela propaga- 
ção pacifica das ideias ; outros, como também Fourier, 
pelo estabelecimento practico de communas socialistas; 
outros, como Owen, pelo estabelecimento d'essas com- 
munas ou phalanges, junctamente com o auxilio do 
Estado; outros, como Luis Blanc, Jaurés e Kautsky, pelo 
estabelecimento dos syndicatos de producção; outros, 
como os chartistas ingflezes e Bronterre Obvien, pela 
simples conquista do poder. 

Finalmente, segundo Carlos Marx e Lassale, seu 
discípulo, e Engels, seu collaborador, a tarefa do movi- 
mento socialista também consiste na conquista do poder 
politico pelo proletariado. Attingido este fim, o proleta- 
riado aproveitar-se-ha do poder, para tornar o Estado 
proprietário de todos os meios de producção que per- 
tencem agora aos capitalistas. E isto, pela união dos 
proletários de todos os paizes. 

Mas para os Marxitas, a conquista do poder politico 
é um fim, ainda muito distcmte. Segundo elles, o pro- 
gramma practico importa uma serie de medidas, também 
practicas, correspondentes aos interesses da classe ope- 
raria, e que são outros tantos trabalhos de approxima- 
ção para a rccJisação da ordem socialista. E para isso 

Volume VI 11 



162 A HISTORIA ECONÓMICA 



é necessário luctar por medidas legislativas e outras que, 
mesmo nos limites da economia capitalista, contribuam 
para o levantamento social do proletariado e para a 
introducção progressiva de elementos da ordem socia- 
lista futura. 

N'este sentido, segundo os mesmos Marxitas, o 
programma actual deve ser: imposto fortemente progres- 
sivo; abolição das heranças; confiscação dos bens de 
todos os emigrados e rebeldes; centralisação do cre- 
dito nas mãos do Estado, por meio de um Banco 
Nacional, constituído por capitães do Estado e com 
um monopólio exclusivo; centralisação das industrias 
de transporte nas mãos do Estado; multiplicação das 
manufacturas nacionaes, dos instrumentos nacionaes de 
producção, arroteamentos e melhoramentos dos terre- 
nos cultiváveis, segundo um plano collectivo; trabalho 
obrigatório para todos; organisação de exércitos indus- 
triaes, especialmente em relação á agricultura; reunião 
da agricultura e do trabalho industrial; preparação de 
todas as medidas capazes de fazerem desapparecer pro- 
gressivamente a differença entre a cidade e o campo; 
educação publica e gratuita de todas as crianças; abo- 
lição das formas actualmente usadas do trabalho das 
crianças nas fabricas; reunião da educação e producção 
material; expropriação da propriedade territorial; e affe- 
ctação do rendimento territorial ás despesas do Estado. 

Em todo o caso, os partidos socialista, já nos últi- 
mos tempos do século XIX, interessavam-se pouco nas 
questões que diziam respeito á realisação immediata da 
ordem social. 

Preoccupavam-se, principalmente, de luctar pela me- 
lhoria da situação da classe operaria na sociedade. E o 



EDADE CONTEMPORÂNEA 163 



movimento socialista dos últimos tempos, comprehendia 
três correntes principaes: a lucta politica parlamentar, 
para obter leis de toda a natureza, favoráveis aos operá- 
rios; o movimento syndical; e o movimento cooperativo, 
nas suas differentes formas. 

Onde os municipios estavam orgfanisados socialmente, 
havia já a municipalisação social, e essa municipalisação 
entrava egualmente no programma socialista; mas tudo 
isto não dispensava a conquista do poder pelo pro- 
letariado. 

Os socialistas mais modernos do século XIX, Marx, 
Eng-els, Vanderveld e Kautsky, assentavam todos nas 
mesmas bases essenciaes. Mas Kautsky era adversário 
da confiscação dos meios da producção. E todos 
accentuavam a proclamação de Karl Marx: «Proletários 
de todos os paizes, uni-vos», que era o fundamento da 
Internacional ^. 



A natureza e proporções d'esta obra não permittem a 
critica e apreciação demorada d'estas doutrinas socialis- 
tas. Mas, para que o leitores não julguem que as perfilha- 



1 Wells, Recent Economic Changes. — Karl Marx, Le Capital. 

— Emile de Zaveley, Le Socialisme Contemporain. — M. Paul Leroy- 
Beaulien, Collectivisme. (Examen critique du mouveau socialisme). 

— Alfredo Soudre, //ísíoíVe du Communisme. — Catellar, //isíor/a dei 
movimiento republicano en Europa. — M. Tougan-Baranowski, Levo- 
lution historique du socialisme moderne, traducção franceza de Joseph 
Schapiro. — Bourdeau, Le socialisme allemand et le nihilisme russe. 



164 A HISTORIA ECONÓMICA 



mos por completo, diremos unicamente que o socialismo 
contém um principio justo — a necessidade moral e 
social de melhorar convenientemente a sorte do pro- 
letário, de forma que não seja victima da exploração 
das classes capitalistas, e alcance a sua independência 
politica, tão amplamente como qualquer outro cidadão, 
salvo as consequências naturaes e logficas que se deri- 
vam da vida e fraqueza de cada um. 

N'este sentido, devem trabalhar e concorrer para 
essa tarefa governantes e governados. Mas a suppres- 
são de um Governo central, a collocação de todas as 
fontes de producção no poder directo da sociedade, a 
repartição forçada dos rendimentos, e distribuição egual 
por todos os operários, a abolição da propriedade e 
das heranças, e, em summa, tantas outras bases em 
que assentam os systemas socialistas, não passam de 
utopias, cuja realisação traria a perturbação da ordem, 
da disciplina social, da justiça e da moral, e a des- 
truição do estimulo individual, que é a fonte de todas 
as iniciativas e de todas as grandes obras da huma- 
nidade. 

O mundo ha-de existir sempre com os seus vicios, 
erros e crimes, com os seus egoismos e invejas, com a 
sua indolência e perguiça, com os seus interesses e 
abusos, e com as suas fraquezas; e tudo isto destroe o 
ideal dos socialistas. 

Por isso mesmo, os syndicatos de producção de Luis 
Blanc, experimentados em 1848, não deram resultado. 

Em todo o caso, o pensamento syndicalista das 
sociedades modernas, a sua união universal, a lucta 
pacifica pelo alcance do poder politico e pela sociali- 
sação dos municípios, mas dentro da ordem, e ainda 



EDADE CONTEMPORÂNEA 165 



outros princípios socialistas, sejam ou não acceitaveis, 
são meios leg-itimos dos socialistas quererem attingir o 
seu ideal, e devem ser respeitados. 

* 
* * 

As communicações tomaram egualmente um grande 
desinvolvimento, pela applicação da força motriz do 
vapor e da electricidade tanto ás communicações ter- 
restres como ás marítimas, e até pela realisação de 
viagens aéreas e construcção practica de aeronaves e 
hydro-aviões. Na própria superfície dos mares, pela 
descoberta das correntes de que adiante fallaremos, 
feita, em 1845, por Maury, se verificaram novos ca- 
minhos. 

No século XVIII, regra geral, eram raros e demora- 
dos os transportes, e difficeis as communicações. A rede 
das estradas estava ainda muito pouco desinvolvida, 
mesmo em França, onde ella era mais cuidada que nos 
outros paizes. Havia também poucas pontes sobre os 
grandes rios ; e, geralmente, passava-se em barcos. As 
mercadorias eram transportadas por empresários, em 
carros de duas rodas. Os homens viajavam em diligen- 
cias; e, de dez em dez kilometros, mais ou menos, havia 
estações, onde se mudavam os cavallos. As cartas e 
correspondência postal eram transportadas também em 
diligencias, que tinham o nome de malapostas, e que 
andavam noite e dia. 

Depois, como já dissemos, vieram os caminhos de 
ferro, especialmente, desde 1832 em diante, e, na segunda 



156 A HISTORIA ECONÓMICA 

metade do século, as redes férreas e eléctricas, os auto- 
móveis e as grandes companhias de navegação pro- 
pagaram-se pelos differentes paizes e, até, geralmente, 
abarcaram o globo inteiro em todos os sentidos. E, no 
fim do século, já se cruzavam as aeronaves, e começou 
a prestar-se a este novo meio de conducção todo o 
cuidado \ 

Alem disso, apar das linhas férreas nacionaes, esta- 
beleceram-se linhas transcontinentaes, que mais facili- 
taram as communicações geraes. 

Assim, na Europa, formaram-se nove grandes linhas 
férreas transcontinentaes: cinco do norte para o sul, e 
quatro de oeste para este. 

A primeira, do norte para o sul, vem da Mancha 
ao estreito de Gibraltar. Atravessa a França e Hes- 
panha, passando por Pariz, Bordéus, Madrid e Cadiz. 

A segunda vem das boccas do Rheno ás boccas do 
Rhodano, ou de Amsterdam a Marselha. Atravessa os 
Paizes Baixos, a Bélgica e a França, passando em Rotter- 
dam, Anvers, Pariz, Lyão e Marselha. 

A terceira vem das boccas do Elba ao mar da Sici- 
lia e ao mar Jonio, ou de Hamburgo a Reggio e 
Otranto. Atravessa a AUemanha, a Suissa, a Itália; e 
passa por Goethinge, Cassei, Francfort — sobre o Mena, 
Darmstadt, Heidelberg, Carlsruhe, Rastadt, Offem- 
burgo, Bale, Lucerna, túnel de S. Gothard, Milão, Pla- 
cencia, Parma, Modena, Bolonha, Ancona, Bari, Brin- 
disi e Otranto. Ou, quando vae a Reggio, então, de 
Bolonha segue para Florença, Roma, Nápoles e Reggio. 



1 Adriano Anthero, O Direito Aéreo. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 167 



A quarta, vem do Báltico ao Adriático, de Stettín 
a Trieste, por Berlim, Dresde, Praga, Gratz e Laybach. 

A quinta vem do Báltico ao mar Negro, por S. 
Petersburgo, Moscou, Kharkoff; e vai d'ahi a Odessa e 
Taganrog. 

E as quatro grandes linhas que se dirigem de oeste 
para este da Europa, são as seguintes : 

Primeira. A linha da Europa septentrional, de Pariz 
a S, Petersburgo. Atravessa a França, Bélgica, AUe- 
manha e Rússia. Passa por S. Quintin, Liège, Colónia, 
Koenisgsberg, Kowno, Vilna e S. Petersburgo. 

Segunda. A linha da Europa central de Pariz a 
Moscou e á fronteira da Ásia. Passa por Strasburgo 
ou Forbach, Mayença, Francfort, Nuremberg, Praga, 
Olmutz, Dresde, Breslau, Varsóvia, Smolensk, Moscou 
e Nijni-Novgorod. 

Pode-se ir também por esta linha, sem interrupção, 
de Lisboa ou de Cadiz a Nijni-Novgorod, passando 
por Madrid, Pariz, Berlim e S. Petersburgo. 

Terceira. A linha de Danúbio, que vai de Pariz a 
Odessa. E' parallela ao curso de Danúbio, e passa por 
Srasburgo, Carlsruhe, Stuttgart, Augsburgo, Munich, 
Salzburgo, Vienna, Pesth, Temeswar, Bazias, Bucha- 
rest, Galatz, Jassy, Kichenau e Bender. Era o caminho 
mais curto para ir a Constantinopla, graças á navega- 
ção do Danúbio e do Mar Negro. 

Quarta. A linha da Europa Meridional, ou de Bor- 
déus, Lyon, Marselha e Constantinopla. Parte de Bor- 
déus, e passa por Tolosa, Cette, Marselha, Lyon, Monte- 
Cenis, Turin, Milão, Veneza, Trieste, Agram, Sisseck, 
Bosna-Serai, Uskup, Andrinopla, e chega a Constan- 
tinopla. 



168 A HISTORIA ECONÓMICA 



Na Asia, os Russos construíram o transcaucasico, 
destinado a juntar, pelos caminhos de ferro da índia 
ingleza, a Rússia ao golfo de Bengalla; e, em 1869, lan- 
çaram, atravez do norte asiático, o transiberiano, com o 
fim de ser prolongado até o mar da China, como já foi 
no século XX. Essa linha communica com a linha euro- 
peia, que tem o seu terminus em Nijni-Novgorod. 

Na America, a primeira linha transcontinental foi 
construida nos Estados Unidos, em 1861, entre New 
York e S. Francisco; e logo se seguiram outras quatro 
linhas, também transcontinentaes, sendo uma d'ellas no 
Canadá, que põe a costa do Atlântico a quatro dias do 
Pacifico. 

E a America do sul foi atravessada pelo transan- 
dino ^. 

A rede dos caminhos de ferro foi completada pelas 
linhas de navegação, onde os serviços de transporte 
se tornaram tão regulares, como por terra. 

Assim, em 1816, os Estados Unidos inauguraram a 
primeira linha de paquetes regulares, a Black Bali Line, 
que partia, no primeiro dia de cada mez, de New York, 
para Liverpool. 

Cinco annos depois, em 1821, estabeleceu-se uma 
outra linha, a Red Star Line, a 21 de cada mez, 
também entre New York e Liverpool. Ainda pouco 
depois, a Black Bali Line organisou uma terceira linha, 
que partia, a 16 de cada mez, ao passo que uma quarta 



1 Bainier, la Geographie appliquée á la Marine, au Commerce, 
á TAgricuIture, á Tlndustrie et Statistique — France. 



EDADE CONTEMORANEA 169 



linha, a Smalow Tail Line, organisava também uma 
partida com serviço semanal, entre New York e Liver- 
pool. E, em 1836, constituiu-se mais uma nova com- 
panhia de corridas com o nome de Dramatic Line. 

Entretanto, differentes outras linhas se foram esta- 
belecendo simultaneamente entre New York e o Havre, 
de uma parte, e Londres, da outra. 

O primeiro serviço para o Havre foi criado em 1822. 
Depois, um segundo, em 1823, e um terceiro, em 1832. 

Londres, por sua vez, viu formar, em 1823, a pri- 
meira companhia, que ligava esse porto a New York; e, 
em 1837, uma segunda companhia augmentava grande- 
mente a frota da sua predecessora. E, em seguida e 
successivamente, a Allemanha, Áustria, Dinamarca e 
alguns outros povos, organisaram as suas linhas, ou 
pelo menos, os seus transportes transatlânticos, não 
somente com a America, mas também com as outras 
partes do mundo. 

Assim, na Inglaterra, em 1833, appareceu a Penin- 
sular and Oriental Line, servindo os mares do extremo 
oriente e do Mediterrâneo, de Falmouth a Alexandria, 
com escala por Vigo, Porto, Lisboa, Gibraltar e Cadiz. 
E ainda depois, pelas cartas que lhe foram concedidas, 
essa linha foi obrigada a entreter as suas carreiras 
entre a Inglaterra e a índia. 

Fundaram-se também o Cunard e a Royal Mail, 
em 1840, a Imman Line, em 1850, a Guion Line, 
em 1866, e a Wite Star Line, em 1870. 

Em França, a Compagnie des Messageries Mariti- 
mes (1851) a Compagnie Générale Transatlantique, a 
Compagnie des Chargeurs Reunis, a Compagnie des 
Messageries Nationales, a Compagnie Havraise Pénin- 



170 A HISTORIA ECONÓMICA 



sulaire, a Compagnie Fraissinet, a da Navigation Mixte, 
a Societé des Transporta Maritimes à Vapeur, a Com- 
pagnie des Bateuax à Vapeur du Nord, e ainda outras 
emprehenderam também respectivamente as viagens por 
todo o globo. 

A Allemanha, embora entrasse muito cedo na via 
das grandes emprezas maritimas, ficou depois estacio- 
naria, longos annos; e, só a partir de 1870, é que tomou 
no movimento da grande navegação uma parte succes- 
sivamente crescente. Na occasião em que tractava de 
estabelecer colónias nas diversas partes do mundo, e 
de espalhar os seus agentes commerciaes em todas as 
praças de commercio, ella queria que linhas de navega- 
ção regular puzessem Bremen e Hamburgo em com- 
municação com os paizes productores, e que o pavilhão 
allemão se mostrasse em todas as direcções. 

Em 1870, já contava um certo numero de socieda- 
des, em que sobresaiam as companhias Hamburg-Ame- 
ricanisch e Norddeutscher : a primeira, criada, em 1843, 
de Hamburgo para os Estados Unidos, e a Nord- 
deutscher, criada, em 1857, de Bremen para Ne\\r York; 
e foi estabelecendo também novas Hnhas para Baltimore, 
Nova Orleans, Brazil e extremo oriente. 

A Áustria, em 1836, fundou o Lloyd Austríaco, que 
partia de Trieste para os portos austriacos da Illyria, 
Istria, Hungria, Dalmácia e Venecia, e que depois se 
reorganisou com o nome de Lloyd Austro-Hungaro. 

A Itália criou também a Companhia Geral de Nave- 
gação, e a Hespanha a Companhia Espanhola Transa- 
tlântica. 

No Japão, fundou-se, em 1861, a Companhia Mitsu- 
Bishi (Os três diamantes), e, em 1882, a Companhia 



EDADE CONTEMPORÂNEA 17X 



Kioto Unyu Kaisha, que se fundiu com a primeira^ 
formando a Companhia Nippon Yusen Kabushki Kaisha. 
Emfim, no fim do século, formou-se também a Compa- 
nhia Osaka Shosen Kaisha, que entretinha serviços 
regulares com a China, Formosa e Vladivostock ^. 



Como já dissemos, em 1845, Maury descobriu as 
correntes maritimas que, apar da sua influencia nas 
communicações maritimas, influíram também grande- 
mente no commercio. 

Dividem-se ellas em superficiaes e profundas, geraes 
ou constantes, periódicas e temporárias. 

São superficiaes ou profundas, conforme caminham 
á superfície ou debaixo das aguas; sendo de notar que 
as correntes superficiaes estão bem conhecidas e estu- 
dadas, mas as submarinas são ainda quasí totalmente 
ignoradas. São constantes as que circulam sobre todo 
o globo, sem nunca afrouxarem ou pararem. Periódicas,, 
aquellas que, submettidas á influencia das estações, alter- 
nam, segundo a direcção dos ventos a que devem a sua 
origem: taes são, por exemplo, as produzidas pelas 
monções da índia. Temporárias, as que podem manifes- 
tar-se a cada momento em todos os logares e em todas 
as orientações; de modo que só persistem, em quanto 
duram os ventos irregulares que lhes deram origem. 



1 Noel, obr. cit., vol. III. 



172 A HISTORIA ECONÓMICA 



Ha também no mar correntes fluvio-maritimas, que 
são produzidas pelo desag^oamento dos g^randes rios; e, 
por isto, só podem existir nas embocaduras d'elles, taes 
como o Mississipi, Orenoco, Amazonas. Por exemplo, 
a d'este rio, estende-se a mais de cem leg^uíis pelo mar 
dentro, e pode colher-se agua doce n'uma grande 
distancia da praia. 

Em geral, a velocidade das correntes excede a dos 
rios. Nos altos mares, mantem-se a três ou quatro léguas 
por hora. 

São devidas á differença da temperatura e evapora- 
ção da agua no equador, e á desegualdade do sal dos 
mares, combinada com a rotação da terra e com a 
impulsão dada ás aguas superficiaes, pela força dos 
ventos. 

Assim, a rotação terrestre produz sob o Equador 
uma corrente de este para oeste, em sentido inverso do 
jnovimento da terra; porque as moléculas da agua não 
obedecem completamente, como a parte solida do globo, 
ao movimento de oeste para este. Por isso, estas molé- 
culas ficam retardadas, e formam, então, uma corrente 
do este, que vae para oeste, e que se chama a corrente 
equatorial. Se não houvesse continentes, essa corrente 
seria regular em volta do globo, mas a America a detém 
no Atlântico, assim como a Ásia no Pacifico, fazendo-a 
desviar. 

Por outro lado, a evaporação no equador produz 
ahi um abaixamento successivo do nivel do mar, que, 
segundo as leis do equilibrio, deve ser continuamente 
preenchido. De lá, duas grandes correntes polares de 
agua fria, que vem dos mares polares para o equador, 
ao encontro uma da outra. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 173 



E O movimento d'estas correntes g-eraes, equatorial e 
polares, determina, como veremos, muitas outras; e, entre 
essas, três correntes, travessias ou retrogradas, cada qual 
em cada um dos oceanos, Pacifico, Indico e Atlântico. 

Examinemos, por sua vez, estas diversas correntes. 



Correntes equatoriaes. — As correntes equatoriaes 
dão-se, pois, em volta do equador, do este para oeste, 
ao contrario do movimento da rotação da terra. Dão-se 
no Oceano Pacifico, entre 10° e 20° de latitude N. e 
0° e 20° de latitude S. E entre o equador e o 10° de 
latitude N., ha também uma contra- corrente equatorial, 
de oeste para este. 

No mar das índias, a corrente equatorial dá-se no 
parallelo que fica entre 10° e 20^* de latitude S. 

E no mar Atlântico, dá-se a 2 ^2 de latitude N. até 
30° de latitude suL 

Assim, a latitude das correntes equatoriaes não 
é a mesma em todos os mares. 



Grandes correntes polares. 

Correntes do polo austral. — As correntes do polo 
austral afluem ao equador em todo o circuito do globo^ 
As do polo boreal,, não podem ir senão pelos estreitos.. 



174 A HISTORIA ECONÓMICA 



As do polo austral formam três grandes correntes, 
similhantes a três grandes rios, que entram no Grande 
Oceano, no mar das índias e no Atlântico. 

Relativamente á corrente do Grande Oceano, as 
aguas desembocam em 75*^ a 140" de longitude O. 
Essa corrente fria marcha para o norte até 60° de 
latitude S., onde vem dar ás costas occidentaes da Pa- 
tagonia; e ahi divide-se em dois braços desiguaes, por 
causa dos ventos de oeste, que sopram com violência 
na passagem do cabo de Horn. O mais pequeno d'esses 
braços dobra o cabo, e fintra no Atlântico. O principal 
sobe ao norte, ao longo das costas do Chili e do Peru, 
e forma a corrente do Peru ou Chiliana ou de Hum- 
boldt, cuja profundidade se avalia em 1.740 metros, e 
cujas aguas são mais frias que as do oceano, 5 ou 6 
graus. 

Esta corrente Chiliana, que produz uma brisa fresca 
no Peru, e abaixa a temperatura d'este paiz, chegéindo 
ás ilhas Gallapagos, perto do equador, junta-se á grande 
corrente equatorial do suL, que atravessa em toda a sua 
largura o Oceano Pacifico, passando pela maior parte 
entre 0° e 20° de latitude S. 

Chegando ás paragens da Austrália e do Archipe- 
lago da Malásia, encontra uma região incompletamente 
fechada, e divide-se, porisso, em três braços. 

Um passa entre a Austrália e as ilhas de Sonda, 
para entrar no Oceano Indico e fundir-se na corrente 
equatorial d'este mar. 

Outro braço, passa entre a costa oriental da Aus- 
trália e a Nova Zelândia, que contorna. E' a corrente da 
Nova Hollanda, que, depois de ter tocado 50" de lati- 
tude S., percorre de O. para E., ao longo d'este parai- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 175 



leio, o Oceano Pacifico, onde se confunde com a cor- 
rente travessia ou retrograda d'este Oceano; e, por 160° 
de longitude oeste, subdivide-se em dois ramos: o do 
sul, que se perde na corrente de Humboldt, e o do 
norte ou corrente de Mentor. 

O terceiro braço, o mais importante, passa ao norte 
da Nova Guiné, contorna a ilha de Borneo, reflecte-se 
nas costas de Sumatra e de Java, e dirige-se para o 
N. E., ao longo das costas da China e Japão, para 
formar o Gulf Stream do Pacifico, chamado pelos japo- 
nezes Kuro-Siwo, Tessan ou corrente Negra, por causa 
da côr carregada das suas aguas. 

Ao norte do estreito de Sangar ou Matsmai, esta cor- 
rente afasta-se das costas, e encontraf a contra-corrente 
fria, vinda do norte, entre esse estreito e a costa de 
Yesso. E' nas aguas frias d'esta corrente que existem as 
pescarias da China, que se podem comparar ás da Ame- 
rica Septentrional. O limite dessas duas correntes é 
fácil de verificar, pelo calor e côr das aguas. 

A 40" latitude N., a corrente do Japão separa-se 
em dois braços. Um que vai para o norte, até ás ilhas 
Aleutinas e estreito de Behring. Os habitantes das 
Aleutinas, que não possuem nenhuma espécie de arvo- 
res, não teem, para construir as canoas e para os usos 
domésticos, outra madeira alem da que essa corrente 
arrasta. 

O outro braço vae para S. E., e toma a 40° a costa 
do N. O. da America, onde se reflecte. Depois, toma 
para o sul uma direcção parallela a essa costa; e deriva 
lentamente para a corrente equatorial do Pacifico, a 
qual, segundo já vimos, atravessa também o Oceano 
entre 10° e 20" de latitude. 



176 A HISTORIA ECONÓMICA 



A corrente do Japão, cuja temperatura é de 30''» 
mas que só tem 5" a 6^ a maior que o mar, adoça o 
clima da parte meridional d'esta região. 

O trajecto d'esta corrente é notável pelos seus 
nevoeiros e tempestades, e torna as paragens das ilhas 
Aleutinas tão brumosas como as da Terra Nova. 
Aquece também a costa occidental da America do 
Norte, a Colômbia Ingleza e a Califórnia. A Colômbia 
Ingleza, graças a tal corrente, pode até cultivar o 
milho. 

As duas correntes equatoriaes do Pacifico são sepa- 
radas, como já dissemos, por uma contra-corrente 
equatorial, dirigida de O. para E., comprehendida entre 
o equador e 10° de latitude N. 

No meio do circuito, acha -se um mar de Sargaços. 
Ha também outro mar de Sargaços no Pacifico, 
entre 50° a 60°, parallelos do sul, e os meridianos 
142° a 180°. 

* * 

A corrente do mar das índias, forma-se na parte 
oriental d'este mar, entre 10" e 20" de latitude S,, e entre 
Java e a Austrália. E' de agua quente, e dirige-se de 
E. para O.; mas, em vez de ser situada no equador, 
acha-se no parallelo 20" de latitude S., e toma o nome 
de corrente equatorial. 

Divide-se em dois braços, a 70° de longitude E. 
que involvem ao N. e S. a ilha de Madagáscar. 

O braço NE., contorna o norte d'esta ilha, e forma 
a corrente de Moçambique, ^sia. corrente é muito forte 



EDADE CONTEMPORÂNEA 177 



entre a costa d'Africa e Madag^ascar, e toma o nome 
de corrente das Agulhas, a partir do Porto-Natal. Con- 
torna a colónia do Cabo, sem tocar as costas ; dirige-se 
para o cabo da Boa Esperança; e entra no Atlântico^ 
seguindo a costa occidental da Africa, onde se confunde 
com a corrente polar sul da mesma costa. 

O segundo braço banha as ilhas Mauricia e Reunião, 
e vem juntar-se á corrente das Agulhas, na altura 
do 32° parallelo. Esta corrente volta para traz, a partir 
do 20° de longitude, seguindo de O. para E. o paral- 
lelo 40°, sob o nome de contra corrente do Cabo 
ou corrente travessia ou retrograda do Oceano Indico, 
até a costa da Austrália, que percorre, para voltar 
depois ao seu ponto de partida. 



A corrente polar do Atlântico meridional vem do 
cabo de Horn, e atravessa em linha recta esse Oceano, 
adiantando-se até o Cabo da Boa Esperança, onde se 
desdobra. Um braço entra no mar da índia por 39°, a 
fim de formar a contra corrente do Cabo, de que já 
falíamos. Outro sobe para o norte, ao longo das costas 
d'Africa tomando o nome de corrente polar sul da 
costa de Africa; e, chegando ao golfo de Guiné, con- 
funde-se com a corrente equatorial, e corre parallela- 
mente ao equador, sem exceder o parallelo 2 ^1^ de 
latitude N. 

Tocando a 22° de longitude, lança no hemisfério 
norte um braço considerável, conhecido por braço nor- 

Volume VI 12 



178 A HISTORIA ECONÓMICA 



deste da corrente equatorial, e que se faz sentir, algumas 
vezes, até 30° de latitude. 

Depois, seg^uindo o caminho O., chega ao cabo 
de S. Roque, tendo percorrido, desde a costa d'Africa 
até esse cabo, 2.500 milhas. A largura, que era pri- 
meiro de 160 milhas, cresce até 360, e attinge mesmo 
a 450. 

Perto do cabo de S. Roque, essa corrente divide-se 
em dois braços. Um dirige-se para o sul, parallela- 
mente ao Brazil e forma a corrente do Brazil. Esta 
corrente, um pouco ao sul do trópico de Capricórnio, 
sob 40'^ de longitude O., subdivide-se também n'outros 
dois braços. O mais pequeno continua o seu caminho 
ao sudoeste, ao longo da costa; mas o outro volta a 
E. aos 30° de latitude, acaba por tocar 40°, e forma 
a corrente travessia do Oceano Atlântico, que se dirige 
ao longo d'este parallelo. 

O segundo braço da corrente equatorial, que forma 
a corrente principal, sobe um pouco para o norte, e, 
seguindo as costas da Guyana, toma ahi o nome de 
corrente das Guyanas, correndo ao longo da costa baixa 
d'ellas, para a ilha da Trindade. Nos arredores do 
equadbr, é atravessada pela corrente do Amazonas, de 
cujo encontro resultam grandes turbilhões. 

Mais longe, recebe as aguas do Orenoco, augmen- 
tando com isto a sua velocidade. Penetra depois no mar 
das Antilhas, e forma a corrente do mar das Antilhas. 
Uma parte passa ao norte d'estas ilhas. A outra passa 
ao sul, contorna o Cabo Catoche, e dá volta ao golfo 
do México, sem comtudo se approximar das costas, ao 
longo das quaes ha correntes variáveis, dependentes 
dos ventos. N'este transito, a temperatura da corrente 



EDADE CONTEMPORÂNEA 179 



eleva-se a 27° ou 29°. Chegada ás costas americanas, 
contorna-as, inclinando-se para o norte, e recebe o nome 
de Gulf Stream. 

Esta corrente (Gulf Stream), que não é senão a 
continuação da corrente equatorial, sai do golfo pelo 
estreito de Bahama, com sessenta kilometros de largura, 
similhante a um rio magestoso, cuja corrente excede 
em rapidez a do Mississipi e do Amazonas. A sua velo- 
cidade toca perto de sete kilometros por hora, apezar 
de um vento do norte que sopra constantemente n'estas 
paragens. 

Acha-se reforçada pelos braços derivados da cor- 
rente equatorial, passando ao norte das Antilhas. A sua 
direcção é a principio de S.O. a N.E., seguindo um 
pouco longe das costas da America, de que é separada 
por uma corrente inversa de temperatura muito menos 
elevada. A partir dos Estados Unidos, corre franca- 
mente para E., passa abaixo da Terra Nova; sobe o 
parallelo 40" de latitude N.; transborda de alguma 
forma sobre o Oceano ; e occupa um espaço de muitas 
mil léguas quadradas, cobrindo de suas aguas quentes 
as aguíis frias d'este mar. 

Ao norte dos Açores, e quasi no parallelo da Finis- 
terra, subdivide-se em quatro braços. Um, primeiramente, 
sob o nome de corrente polar norte da Africa, e depois, 
sob o nome de corrente Guiné do Norte, vai juntar-se á 
corrente equatorial e fechar o circuito. As aguas d'esta 
corrente polar da Africa são, na altura da ilha de Cabo 
Verde, mais frias 4° a 5° que as aguas adjacentes; 
mas aquecem-se, approximando-se do equador. 

O segundo braço do Gulf Stream, chamado corrente 
da costa de Portugal, dirige-se para o estreito de 



180 A HISTORIA ECONÓMICA 



Gibraltar, e forma a corrente que leva as aguas do 
Oceano para o Mediterrâneo. 

O terceiro braço penetra no golfo de Casconha, na 
altura de 46° parallelo; corre quasi que ao longo da costa 
de Hespanha; contorna aquelle golfo; e sobe para o 
norte, ao longo da costa de França, para retomar, sob 
o nome de corrente de Rennel, uma direcção para o 
N.O. contraria á sua direcção primitiva. 

O quarto braço, ou braço do N.E. do Gulf Stream 
é o mais considerável. E' o próprio Gulf Stream, con- 
tinuando a sua carreira na direcção primitiva. Uma 
parte contorna a Irlanda e a Inglaterra, para descer 
pelo canal de S. Jorge e pelo mar do Norte. O resto 
penetra até os mares polares, involve a ilha Feroé, e 
passa entre a Islândia e a costa da Noruega, cujo clima 
adoça. 

Esta grande corrente d'agua quente divide-se em 
dois braços nas alturas da Scandinavia. Um sobe para 
Spitzberg, cujo clima egualmente adoça, e derrete os 
gelos que rodeiam esta ilha. Outro penetra no oceano 
Glacial, pelas praias da Sibéria, e forma a corrente 
polar árctica. 

As aguas do Gulf Stream distinguem-se das aguas 
visinhas, pela sua densidade e grau de sal, côr e trans- 
parência. Até ás costas da Carolina, são de azul anil, 
emquanto que as aguas que a rodeiam, são verdes. 

Esta corrente arrasta também arvores, troncos, etc^ 
Levou outr'ora para os Açores o cadáver de um pelle 
vermelha e os restos de uma piroga, que tiveram certa 
influencia nos projectos de Colombo. 

Ha n'ella, durante o inverno, nevoeiros e borrascas 
produzidas pela lucta da corrente e ventos que teem 



EDADE CONTEMPORÂNEA 181 



direcções quasi oppostas. Mas, se, por esse lado, é 
perigosa aos navios, por outro lado, em algumas par- 
tes, é de um grande soccorro para aquelles que as 
borrascas de neve e lufadas violentas de vento impedem 
de fundear nos Estados Unidos. N'essas circumstancias, 
pôde o Gulf Stream, ser olhado como um logar de 
refugio. 

Os ventos de oeste que percorrem a superficie 
da corrente, aquecem-se, e carregam-se de vapor. 
Assim, graças a esta corrente, as costas occidentaes da 
Europa teem uma temperatura relativamente doce, 
emquanto que as do Lavrador estão presas por bar- 
reiras de gelo. 

As aguas do Gulf Stream, circulando, assim, no 
Atlântico, tiram o calor excessivo ás regiões quentes, 
para o transportar para as regiões frias; e chamam as 
correntes frias ao Oceano Glacial Boreal, para temperar 
o clima ardente dos trópicos. 

E' no centro da grande corrente do Oceano Atlân- 
tico do Norte que se encontra um outro espaço immenso, 
conhecido pelo nome de mar de Sargaços ou varechs, de 
que já falíamos. 



Correntes do Polo Árctico. — Estas correntes, como 
dissemos, não podem vir senão pelos estreitos; e por 
isso não podem ser fortes como as Austraes. 

As três saidas do polo Boreal são: o espaço que 
ha entre a Suécia e a Islândia e entre esta e a Groen- 



182 A HISTORIA ECONÓMICA 



landia; a saida do mar de Baffin pelo estreito de Davis; 
e a do estreito de Behring. E de cada uma d'estas sai 
uma corrente. 

Emquanto á primeira, conhecida por corrente árctica, 
desce ella ao longo da costa oriental da Groenlândia 
até o cabo de Farwel; dobra este cabo, e sobe ao longo 
da costa occidental, n'uma direcção opposta á da cor- 
rente da bahia de Hudson. 

Emquanto á segunda, que vem do mar de Baffin 
pelo estreito de Davis, reune-se com outra da bahia 
de Hudson, e perde-se no Gulf Stream, a 45° de 
latitude N. Mas uma parte pequena d'ella desfia ao 
longo da Terra Nova, e segue os contornos das 
costas dos Estados Unidos, que refresca. E' provável 
que os bancos da Terra Nova se tenham formado 
no encontro d'esta corrente com as do golfo, pela 
accumulação dos restos de toda a sorte, levados pelas 
montanhas de gelo, que ahi chegam do norte d'estas 
paragens. 

Esta corrente fria augmenta o rigor do clima de 
N.E. da America e da Groenlândia. A sua existência é 
verificada pelo transporte de gelos que se accumulcim 
nas paragens da Terra Nova. 

Pelo que respeita á corrente que vem pelo estreito 
de Behring, já vimos que se derivava de lá uma contra 
corrente fria que encontrava a de Kuro-Siwo. Entre- 
tanto, por esse estreito de Behring, não pode passar 
grande corrente; já pela sua estreiteza; e já porque a 
saida é contrabalançada por um dos braços da cor- 
rente Kuro-Siwo, que vai para as Aleutinas e estreito 
de Behring. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 183 



Existe no mar das Antilhas uma contra-corrente 
que leva as aguas do ísthmo de Panamá para Vene- 
zuella. 

Ha também a corrente particular da bacia de 
Hudson, de que já falíamos. 



* 
* « 



No Mediterrâneo ha duas correntes: uma supe- 
rior com velocidade de sete milhas por hora, a não 
ser entre Ceuta e Gibraltar, em que só tem duas 
milhas e meia, que vai do Oceano para o Mediterrâ- 
neo; e outra inferior, d'este para o Oceano. A razão 
da superior é a grande evaporação; e a razão da 
inferior está na força do sal com que fica o Mediter- 
râneo, pela grande evaporação que soffre, o qual arrasta 
as aguas. 

A superior percorre o Mediterrâneo, aproximando-se 
mais da Africa do que da Hespanha, e dá volta á bacia 
Occidental. Um braço penetra no canal de Malta, com a 
velocidade de duas milhas por hora na bacia oriental ; 
segue as sinuosidades da costa, passando pelas Syrtes, 
costas do Egypto e da Syria ; e forma um vasto circuito, 
que vem fechar-se mesmo no canal de Malta. 



184 A HISTORIA ECONÓMICA 



* 

* 



No mar Báltico, ha uma corrente á superfície, de 
ag-ua pouco salgada, que se dirige para o norte, em- 
quanto uma contra-corrente submarina de agua salgada 
vai do mar do Norte para o mar Báltico. 

Ha também duas correntes eguaes no mar Negro, 
em relação ao Mediterrâneo. 

No mar Vermelho, onde a evaporação é muito 
activa, onde chove raras vezes, e onde não vai dar 
nenhum rio, uma corrente superior leva do Oceano 
Indico as aguas necessárias para compensar essa evapo- 
ração. E outra submarina para o Oceano Indico vai 
restituir a este mar o sal correspondente. 



* 



As correntes periódicas são as que se produzem em 
certas partes do anno, para desapparecerem em seguida, 
ou reproduzirem-se n'um sentido contrario. São sempre 
produzidas pelos ventos periódicos. Encontram-se, so- 
bretudo, na zona do Oceano Indico, onde reinam as 
monções, no mar da China, numa parte do Grande 
Oceano, também no mar Vermelho, no Golfo Pérsico, etc. 

No golfo do Manar, ha uma corrente que se dirige 
para o norte, de maio a outubro, e para o S.O., de outu- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 185 



bro a maio. No mar da China, uma corrente vai de 
S.O. para N.E., desde 15 de maio a 15 de agosto, e em 
sentido contrario, de outubro a abril. 



O estudo das correntes veiu prestar grandes servi- 
ços ao commercio e navegação, abreviando as viagens. 
Assim depois que Maury levantou, em 1860, a carta 
dos ventos e correntes, a viagem do Rio de Janeiro a 
New York por navios de vela foi reduzida de 40 ou 45 
dias a 30 dias. A viagem de New York para a Califórnia 
exigia a media de 180 dias. Os estudos de Maury redu- 
ziram-na a 135 dias; e hoje as clippers fazem-na em 100 
dias, e, algumas vezes, em 92. E de Inglaterra a Sydney 
um navio, guiado pelas antigas instrucções, levava 125 
dias, pelo menos, e á volta o mesmo tempo, o que prefazia 
250 dias. Maury mostrou que era preciso fazer da via- 
gem da Austrália uma verdadeira viagem de circumval- 
lação do globo, isto é, dobrar o cabo da Boa Esperança, 
vindo da Europa, e voltar depois pelo cabo de Horn: 
e a somma d'estas duas travessias effectua-se em 130 
dias e até em menos, em vez d'aquelles 250. 

As correntes influem egualmente no clima, tornando 
mais quentes ou mais frias as costas por onde passam, 
conforme são de agua quente ou de agua fria ^. 



1 Bainíer, La Geographie appliquée à la Marine, au Commerce, 
à L'Agriculture, à L' Industrie et à La Statistique — France. 



186 A HISTORIA ECONÓMICA 



Apar do movimento dos navios, vapores e corren- 
tes, houve outras circumstancias que favoreceram a 
navegação maritima, e, portanto, as communicações. 

Uma d'ellas, foi o estabelecimento de faroes. Antes 
do século XIX, era-se obrigado a reduzir sensivel- 
mente a duração das operações para a navegação de 
longo curso, e de as limitar para a cabotagem á dura- 
ção de um dia, a fim de evitar os perigos da marcha 
ao longo das costas, muitas vezes inhospitas. Mas, no 
século XIX, foram-se estabelecendo faroes quasi por 
toda a parte, e sobretudo, em França, nos Estados Uni- 
dos, na Itália, na HoUanda, na Inglaterra, na Hespanha 
e na Algéria. E mesmo os apparelhos da illuminação 
d'esses faroes foram augmentando de intensidade, com 
tanta rapidez, como o seu numero ia crescendo. 

Já em 1783, o engenheiro Teulève tinha dado mais 
intensidade á luz, inventando os reflectores parabólicos. 
Em 1822, Augustin Fresnel descobriu os faroes lenti- 
culares. Chance introduziu uma innovação, que permittiu 
dirigir para o horisonte maritimo, grande quantidade de 
raios luminosos, divergentes do lado das terras. Depois 
a luz, que até ahi fora alimentada com azeite mineral 
de shisto, passou a sel-o por azeite de colza; e, logo 
depois, a electricidade, substituindo o azeite, obrigou 
os engenheiros a darem aos apparelhos novas disposi- 
ções. Emfim, os respectivos edificios foram construidos 
de propósito para terem faroes, e, portanto, mais aper- 
feiçoadamente e mais propriamente para esse mister; e, 
em 1863, appareceram os faroes metallicos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 187 



As modificações sobrevindas á estructura e dimen- 
são dos navios, e o desinvolvimento da navegação 
levavam as differentes nações a preoccuparem-se com a 
construcção de estaleiros, logares ou bacias de repara- 
ção; com a facilitação do accesso nos portos e prepara- 
ção também de portos anteriores; com a desobstrucção 
das enseadas, invadidas por areia e terra; com a cons- 
trucção de diques e molhes do mar; com a disposição- 
das bacias marítimas ou fluviaes, de modo a multiplicar 
ou tornar mais rápido o movimento da marinha; assim 
como, para a navegação fluvial, a tractaram de dar ás 
eclusas, formas e disposições mais de harmonia com o. 
material da navegação, sempre em progresso. 

Para visitar e reparar os navios, os engenheiros; 
inglezes e americanos inventaram as docas fluctuantes;: 
e de 1830 a 1860 houve, também n'essa parte, progres- 
sos importantes. 

Emfim, muitos trabalhos consideráveis foram exe- 
cutados em muitos portos, para os desentupir e tornar 
mais accessiveis. E, n'este sentido, por toda a parte, se 
fizeram gigantescas transformações, contribuindo para 
estimular o movimento da navegação e para a abertura 
de desimbocadouros, outr'ora desconhecidos. 

Assim, na Inglaterra, por exemplo, Londres, Glasgow 
e New Castle augmentaram prodigiosamente em melho- 
ria e movimento. 

Aconteceu a mesma coisa com o Havre, Bordéus», 



"188 A HISTORIA ECONÓMICA 



Marselha, Rotterdam e Amstterdam, Hamburgo, Génova; 
e mesmo fora da Europa, com alguns portos dos Esta- 
dos Unidos e com Hong-Kong, Melboume, Adelaide, etc. 



Com o desinvolvimento do movimento maritimo, 
levantou-se de novo a ideia dos portos francos, os quaes 
outr'ora tinham dado grande resultado. 

Em França, a criação d'elles remontava a Colbert, que, 
por uma ordenança de 1669, dera nascimento aos três 
primeiros; e, já no tempo da revolução, existiam quatro, 
a saber: em Marselha, Dunkerke, Bayonna e Lorient, 
'Cuja criação remontava a Colbert. E estes portos tinham 
•contribuido fortemente para o progresso commercial 
d'essas cidades, fazendo o officio de feiras permanentes, 
abertas a todas as nações. Esse privilegio de portos fran- 
cos foi supprimido no tempo da primeira republica, pelo 
iundamento de que augmentavam o contrabando; porém, 
os maus effeitos d'essa suppressão não se demoraram. 

Ainda depois, em 1814, foi novamente concedido a 
Marselha o privilegio de porto franco, mas também lhe 
foi retirado, em 1817, por não ter dado grandes resul- 
tados. Depois, em 1880, voltou-se á ideia de portos 
francos; e, foi assim, que, ao lado das docas de Londres, 
que já constituiam portos francos, e do porto de Anvers, 
cujos direitos eram muito reduzidos, se constituiram os 
portos francos de Bremen, Lubeck, Hamburgo, Kola, (na 
Rússia), Copenhague, e, nos mares da índia, Singapura ^. 

1 Noel, obr. cit. 



EDADE CONTEMORANEA 18^ 



Apar de tudo isso, a abertura do isthmo de Suez 
produziu uma grande revolução marítima e commercial 
em metade do globo, com a comunicação directa do 
Mediterrâneo para o mar Vermelho. 

Já nos tempos remotos, os soberanos egypcios ti- 
nham reconhecido a vantagem inestimável que lhes daria 
uma passagem por agua entre o mar Vermelho e o mar 
Interior. E certos escriptores attribuem a um rei do 
Egypto da 16.^ dynastia, em 2173 antes de Christo, a 
primeira tentativa da abertura d'essa passagem para o 
transito das mercadorias do oriente, que se effectuava 
atravez do seu território. 

Plinio e Strabão attribuem ao grande Sesostris, que 
viveu no século XVI antes da nossa era, também o re- 
começo dos trabalhos para essa comunicação; outros 
escriptores, pelo contrario, o attribuem a Nechau II, 
filho de Psametico, que reinou de 617 a 601 antes de 
Christo. Sendo esses trabalhos interrompidos, foram 
retomados do sexto ao quinto século, também antes da 
nossa era, no curso da dominação persa no Egypto, 
por Dário, que os acabou. Mas essa via navegável não 
tinha então o comprimento e importância que tem o 
canal actual. Não cortava o isthmo em toda a sua 
largura, e não punha Suez em communicação directa 
com Peluse. 

Os açoreamentos continuados tornaram lago esse 
canal impraticável, e, já no tempo de Cleópatra, a com- 



190 A HISTORIA ECONÓMICA 



municação estava interrompida de todo. O imperador 
Adriano, em 125 da nossa era, fel-o abrir de novo, 
e, assim aberto, recebeu o nome de Canal de Trajano. 
Os serviços, porém, que essa obra prestou, foram peque- 
nos, porque brevemente se inutilisou. 

A ultima tentativa de reparação foi a emprehen- 
dida, em 639, por Amru, em nome do califa Omar. 
Mas o canal foi definitivamente destruido, em 767, 
por ordem do califa Abu-Giaffar-el-Mansur, para esfo- 
mear Medina revoltada; e, depois, as areias do deserto 
completaram também com o seu tributo essa obra 
destruidora. 

Os trabalhos ficaram abandonados, durante muito 
tempo; e, só no século XVlll, a recordação das antigas 
tentativas chamou de novo alguns espíritos esclarecidos 
para elles. E, então, Argenson, em 1738, meditando 
sobre a decadência do império ottomano, cuidou de um 
canal do mar de Levante ao mar Vermelho que perten- 
cesse em commum a todo o mundo. Mas a sua ideia 
ficou em projecto. 

Os estudos foram seriamente retomados durante a 
expedição de Bonaparte ao Egypto, que até levou para 
lá uma expedição de engenheiros. Mas, com a vinda 
d'elle para a Europa, ficou de novo prejudicada a 
empreza. 

Só em 1859, havendo Lesseps conseguido a conces- 
são da abertura do canal, nas condições actuaes, é que 
este foi começado, e só, em 1869, foi concluído. 

As consequências económicas que d'ahi se deriva- 
ram, foram enormes. 

Reanimou-se o Mediterrâneo, que estava quasi redu- 
zido a um lago; e restituiu-se-lhe grande parte da acti- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 191 



vidade que tinha antes da descoberta da passagem 
pelo Cabo. Approximou-se a distancia da Europa com 
o extremo Oriente. Até ahi predominavam os navios de 
vela, nas viagens para a Ásia, porque o percurso era 
tão grande que demandava uma porção enorme de com- 
bustível e de mantimentos e sobre-excellentes : o que não 
permittia economicamente aos vapores abordar ao Cabo 
da Boa Esperança para mercadorias pesadas e de pe- 
queno valor. Mas, com o encurtamento da distancia, 
foram elles que predominaram nas idas para o Oriente. 
As viagens pelo Cabo tornaram-se por isso menos fre- 
quentes, ao passo que augmentaram as que se faziam 
por aquelle isthmo. Tornaram-se também os serviços 
marítimos mais numerosos. Augmentaram as compa- 
nhias marítimas. E progrediu enormemente o commer- 
cio entre os dois continentes. 



A proclamação da liberdade dos mares, favoreceu 
também as communicações marítimas, e contribuiu egual- 
egualmente para o desínvolvímento do commercio. 

Vinha de longe a pretensão de differentes Estados 
ao domínio dos mares. Em 1493, o papa Alexandre VI 
promulgou a celebre bulia que reconhecia a soberania 
de Castella e Aragão nos territórios já descobertos por 
Christovão Colombo e a descobrir, nas regiões situa- 
das ao oeste do meridiano que passava a cem legoas 
de distancia para o occidente das ilhas de Cabo Verde; 



192 A HISTORIA ECONÓMICA 



e reconhecia aos Portug"uezes o domínio da parte que 
ficava ao nascente. E, depois, pelo tractado de Tordesi- 
lhas, de 7 de julho de 1494, foi rectificado o meridiano 
de separação dos dominios portugfuezes e castelhanos, 
fazendo-o passar a 370 legoas para o occidente do 
archipelago de Cabo Verde. 

Assim como a Hespanha e Portugal reclamavam o 
dominio d'esses mares, e, portanto, a Hespanha recla- 
mava também o dominio do Pacifico, Génova pretendia 
a soberania do mar da Liguria; Veneza, a do mar 
Adriático, e até havia a cerimonia do casamento sym- 
bolico dos doges com esse mar; e a Turquia, a do 
mar Negro. 

Os reis da Dinamarca e Noruega pretendiam tam- 
bém o dominio exclusivo dos mares dinamarquezes, e 
ainda no século XVII se reconhecia o seu dominio nos 
mares da Islândia e Groenlândia. 

Os Inglezes contentavam-se, ainda nos tempos que 
precederam o século XVII, em chamar seus aos mares 
que cercam a Gran Bretanha; mas, sob Carlos I e 
Carlos II, já pretendiam o dominio de todo o mar 
comprehendido entre a mesma Gran Bretanha e os 
Estados Unidos. E os Hollandezes quizeram também 
arrogar-se o direito exclusivo sobre a passagem do 
Cabo da Boa Esperança. 

Nos principios do século XVII, as pretensões, espe- 
cialmente, da peninsula ibérica ao dominio dos mares, 
prejudicavam sensivelmente o commercio hoUandez, que- 
queria expandir-se e desinvolver-se; e, então, Hugo 
Gocio publicou, em 1608, a sua obra Maré Liberam, 
em que proclamou a liberdade dos mares. Esse livro, 
causou enorme sensação no mundo culto. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 193 



Respondeu-lhe, então, o portuguez Serafim de Frei- 
tas, na obra De Justo Império Lusitano, defendendo a 
nossa soberania maritima, segundo o tratado de Tor- 
desilhas. E, como a doutrina de Grocio contrariava tam- 
bém os Inglezes, que mais do que outro qualquer povo 
tendiam a dominar o mar, Carlos I incumbiu Selden de 
combater esssa doutrina; e, por isso, este publicou, 
em 1635, o seu livro Maré Clausum, em que só con- 
cordava com Grocio n'uma coisa, a saber, que eram 
condemnaveis as pretensões dos Portuguezes e Hes- 
panhoes á soberania dos mares. De resto, sustentava 
que os mares eram tão apropriáveis como a terra, e 
que os reis da Inglaterra tinham um direito incontes- 
tável ao dominio exclusivo do mar Britânico. Por mar 
Britânico intendia elle o Oceano septentrional e o 
Oceano occidental, n'uma extensão que, por um lado, 
chegava até á America, e, por outro lado, excedia a 
Groenlândia e a Islândia, para ir dar a regiões ainda 
desconhecidas. E acrescentava Seldem que, mesmo até 
os limites onde o mar perdia o nome de Britânico, o 
rei da Inglaterra possuía sobre um e outro d'aquelles 
Oceanos direitos os mais extensos, a que não era licito 
obstar. 

O dictador Cromwell aproveitou-se da doutrina do 
Maré Clausum, para promulgar o acto de navegação 
de 1651, que procurava aniquilar o commercio hoUan- 
dez. Welle se estipulava que nenhum producto do solo 
ou da industria da Ásia, Africa ou America podia ser 
importado na Inglaterra, a não ser em navios inglezes 
ou das colónias de propriedade ingleza, e cuja equipa- 
gem fosse também ingleza, pelo menos, nas trez quartas 
partes. E as próprias mercadorias da Europa só podiam 

Volume VI 13 



194 A HISTORIA ECONÓMICA 



ser importadas na Inglaterra em navios ingflezes ou do 
paiz da producção: o que especialmente era destinado 
a prejudicar a Hollanda ^. 

Com o andar dos tempos, as pretensões acerca da 
soberania dos mares foram decaindo, mas, ainda assim, 
só muito tarde é que a doutrina de Grocio recebeu a 
consagração do direito positivo. 

Ainda em 1822, a Rússia tentou reivindicar a sobe- 
rania de parte do Oceano Pacifico, ao norte de 51° de 
latitude, no mar de Behring, soberania essa que lhe não 
foi reconhecida, graças á intervenção audaz dos Estados 
Unidos. Mas, posta de lado a propriedade dos mares, 
tentou-se ainda obter indirectamente esse predomínio, 
regulando a navegação com preceitos policiaes e im- 
posição de taxas tributarias em alguns d'elles. Isto 
equivalia também a ter o dominio dos mares, porque 
restringia o modo como elles podem ser livremente 
aproveitados; e, assim, também essas pretensões foram 
repellidas ". 

Ora este principio da liberdade dos mares foi-se 
affirmando altamente depois da revolução franceza; e o 
próprio Governo inglez, a partir de 1855, foi reconhe- 
cendo publicamente que nenhuma nação tem a faculdade 
de prohibir ou taxar a navegação de outro paiz. 

Mesmo quanto aos estreitos, foram também abolidos 
os direitos que oneravam a livre passagem por alguns d'el- 
les, como aconteceu com o estreito de Sund e os de Beit. 



1 Calvo, Le droit International theorique et pratique. — Adriano 
Anthero, A Historia Económica, vol. IV, pag. 605. 

- Adriano Anthero, O Direito internacional, pag. 195 e se- 
guintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 195 



A Dinamarca impoz, durante muitos séculos, impos- 
tos ou taxas de passagem sobre todos os navios mercan- 
tes que atravessavam esses estreitos. E estes impostos 
foram, pela primeira vez, fixados e reconhecidos n'um 
tratado, concluido, em 1645, entre o Governo dinamar- 
quez e os Estados Gerais das Provincias Unidas. Foram 
depois sanccionados por outras nações, especialmente, 
pela França, nos tratados de 1663 e 1762; e, por fim, 
a Dinamarca, em 1857, cedeu d'esse direito, por 
16:456.945$10, que lhe foram pagos por differentes 
nações da Europa e pelos Estados Unidos. 

O estreito de Bosphoro ou canal de Constantinopla, 
embora sujeito a restricções, quanto aos navios de 
guerra, tornou-se também livre, quanto aos navios mer- 
cantes, pelo tratado anglo-turco de 1809, e pelas con- 
venções internacionaes de 1841, 1856 e 1871. E o 
estreito de Magalhães, que foi objecto de contendas 
entre o ChiH e a Republica Argentina, foi neutralisado 
perpetuamente, pelo tratado de 23 de julho de 1881, 
celebrado entre as duas republicas. 

Todavia, se o alto mar e alguns estreitos se tornaram 
do dominio commum de todos os povos, os mares ter- 
ritoriaes, em geral, e os golfos e bahias ficaram legalmente 
submettidos á soberania dos Estados cujas costas são 
banhadas por elles. Mas esta soberania tem um caracter 
mais convencional que real. Resulta ella, com effeito, 
do accordo das nações, e implica apenas uma jurisdicção 
que permitte aos Estados costeiros impor aos navios 
estrangeiros que abordam ao seu território, regulamentos 
fiscaes, aduaneiros e de policia, quanto ao accesso, 
salvo os casos determinados por convenções interna- 
cionaes. 



196 A HISTORIA ECONÓMICA 



O systema de classificação dos navios, geralmente 
adoptado, favorecendo também a navegação, veiu a 
favorecer egualmente as communicações. Essa classifi- 
cação consiste no certificado do estado da segurança 
d'elles e da sua maior ou menor resistência para a 
navegação, passado por instituições ou corporações pró- 
prias para isso, de grande respeitabilidade, e geralmente 
conhecidas como taes no commercio, ou garantidas 
officialmente pelos Governos: o que serve, principal- 
mente, para melhor regular os contractos de seguro. 

Foi, em 1760, que se criou na Inglaterra a primeira 
d'essas instituições — o Lloyd Register. Em 1825, essa 
instituição tomou-se — o Lloyd Register of British and 
Foreign Shipping, que foi melhorada, depois disso, 
em 1834. Pelo modelo inglez formaram-se, em 1828, o 
Bureau Veritas, em Paris; em 1858, o Veritas austríaco, 
em Trieste; em 1867, o Germanisher Lloyd Rostoch. 
E em 1861, formou-se na Itália, o Registro Italiano; e 
em 1881, o Veritas Italiano, em Génova. 



A cartografia enriquecendo-se de documentos aper- 
feiçoados e de elementos preciosos, também favoreceu 
as communicações. Aos roteiros grosseiros, incomple- 
tos e rudimentares da Edade Media, e mesmo ás cartais 



EDADE CONTEMPORÂNEA 197 



mais bem traçadas, porém, muitas vezes, inexactas, dos 
séculos XVII e XVIII, foram substituidas cartas náuticas, 
bem desenhadas, e levantadas scientificamente e mathe- 
maticamente, indicando a profundidade dos mares, as 
enseadas, os escolhos, os fundos e as correntes. 



Ao passo que se construiam vias férreas por toda 
a parte, os Governos foram utilisando as vias de agua 
de que dispunham, para ligar entre si as principaes 
artérias, ou tornando os rios navegáveis, ou abrindo 
canaes, e ajuntando assim um elemento poderoso de 
circulação e de riqueza a favor de industrias producto- 
ras de matérias pesadas. Os estados Unidos, sobretudo, 
e, na Europa, a França e Allemanha deram á canalisação 
um desinvolvimento enorme. 

Estabeleceu-se também a livre navegação dos gran- 
des rios. Assim, em 1815, foi estabelecida a livre nave- 
gação do Rheno, e, portanto, a abolição das antigas 
portagens, que, desde tempos immemoriaes, embaraça- 
vam a navegação ^. Houve reclamações da Hollanda; 
mas a contenda terminou pela convenção de Mayença, 
em 31 de março de 1831, que declarou esse rio livre, 
desde o sitio onde tem condições de navigabihdade 
até o mar, compreendendo o Yssel e o Vaal. 

A navegação do Escalda, largamente debatida desde 
o principio do século anterior, foi declarada livre, 



1 Adriano Anthero, O Direito Internacional, pag. 243. 



198 A HISTORIA ECONÓMICA 



em 1835, pela separação da Bélgica e Hollanda, ficando 
a sua navegação debaixo da vigilância d'essas duas 
nações marginaes. Ainda assim, alguns direitos de pas- 
sagem subsistiram em favor da Hollanda, mas acabaram, 
pelo tratado de 12 de maio de 1863, que ambas essas 
nações cellebraram. 

A livre navegação do Elba foi decretada, em 1861. 
A do Danúbio foi proclamada no congresso de Paris 
de 1856; a do Mississipi, em 1820; a do Uruguay, 
em 1851; a do Paraguay e Panamá, em 1853; a do 
S. Lourenço, em 1854 ; e a do Congo e Niger, pela 
convenção de Berlim de 26 de fevereiro de 1886. 

As communicações carrossaveis tiveram egualmente 
um grande desinvolvimento no século XIX. E, logo no 
fim do segundo quartel d'esse século, as estradais a 
macadam se propagaram egualmente ^. 

Finalmente, a navegação aérea, começou também a 
desinvolver-se no fim do periodo, para tomar no século 
actual um progresso extraordinário ^. 



1 Mac-Adam, engenheiro escocez, passa por ser o introductor 
do systema de empedramento, que tem o seu nome. Esse empedra- 
mento foi introduzido em Paris, em 1869, e propagou-se depois pela 
Europa. Mas já um antigo empedramento tinha sido usado na 
França, no tempo de Luiz XVI. 

2 Adriano Anthero, O Direito Aéreo. 



CAPITULO IV 
França 

Leve esboço da historia politica da França, n'este período. — Influen- 
cia da revolução franceza e das guerras napoleónicas e bloqueio 
continental no movimento económico da França, até á queda 
de Napoleão. — Invenções que houve durante esse tempo, de- 
terminadas, em grande parte, pelo mesmo bloqueio. — Prejuízos 
da França, por causa d'elle. — Estado do paiz e regimen res- 
trictivo económico, durante a restauração. — Governo de julho, 
e suas tendências liberaes, e promulgação de differentes 
medidas n'este sentido. — Reacção que se levantou contra 
ellas, e como o Governo teve de arripiar caminho. — Reformas 
legislativas que fez. Revolução de 1848, e segunda republica.— 
Socialismo e estabelecimentos socialistas. — Descontentamento 
que tudo isso produziu, e como levou á proclamação do impe- 
rador Napoleão III. — Progresso económico da França durante 
esse imperador. — Guerra de 1870 com a Allemanha. — Procla- 
mação da terceira republica, e adiantamento enorme da França 
até o fim do século XIX.— Productos, agricultura, industria, com- 
mercio e marinha. — Centros económicos principaes. Commu- 
nicações. 

A historia politica da edade contemporânea abre 
também com a revolução franceza. Já falíamos delia 
no capitulo I, e, porisso, basta dar agora uma noticia 
chronologica muito resumida dos seus principaes acci- 
dentes. 



200 A HISTORIA ECONÓMICA 



Em 23 de junho de 1789, abriu-se a Assembleia 
Constituinte, a que se seguiu a Assembleia Legislativa 
(1 de outubro de 1791-21 de setembro de 1792). 
Depois, veiu a Convenção Nacional (21 de outubro 
de 1792-26 de outubro de 1795), que condemnou á 
morte, e fez decapitar Luiz XVI, e a rainha Maria 
Antonieta. Seguiu -se o Directório (27 de outubro 
de 1795-9 de novembro de 1800). Após elle, surgiu o 
Consulado, em que predominou Bonaparte, Consulado 
esse, que teve como consequência a elevação do mesmo 
Bonaparte a imperador, sob o nome de Napoleão I, e 
cujo Governo se passou em guerras continuas com 
quasi toda a Europa. 

Em 1814, foi elle vencido na batalha de Waterloo. 
e a França voltou ao antigo regimen monárquico, sob 
Luiz XVIII, que reinou até 1824. 

De um espirito judicioso e cultivado, esse monarca 
tinha sabido apreciar as necessidades da França; mas 
não teve força para luctar contra o zelo imprudente 
dos seus partidários, que desejavam o absolutismo; e, 
porisso, descontentou a nação, e teve o seu reinado, 
sempre mais ou menos perturbado por agitações libe- 
raes, promovidas, principalmente, pelos carbonários. 

A Luiz XVIII, succedeu Carlos X (1824-1830). 

Voltando este rei abertamente ás ideias reaccioná- 
rias, também descontentou profundamente o povo, o que 
deu logar á revolução de julho de 1830, que o depoz, 
e nomeou Luiz Filippe. 

No tempo de Carlos X, teve logar a guerra da 
Turquia contra a Grécia, na qual os Russos, Inglezes e 
Francezes intervieram a favor dos Gregos, que obtive- 
ram a sua independência, pela paz de Andrinopla (1829). 



EDADE CONTEMPORÂNEA 201 



Luiz Filippe (1830-1848) era de ideias liberaes, e 
foi bem acceito pelos differentes partidos, que concen- 
travam as suas esperanças n'um reg^imen constitucional, 
como o da Inglaterra. 

Segundo já vimos no capitulo 1, essa revolução de 
julho, trouxe geralmente um levantamento liberal por 
toda a Europa ; e, mesmo na França, houve alguns 
movimentos revolucionários. 

Assim, em Lyon, em 1831, rebentou um motim de 
tecelões de seda, que se encontravam sem trabalho, e 
que foi reprimido pelo Governo, sendo depois minis- 
trados alguns soccorros aos operários. Pela morte do 
ministro Casimiro Perier, que tinha podido conservar 
os differentes partidos n'um certo equilibrio, os extre- 
mistas levantaram-se em Paris; e esse levantamento foi 
abafado violentamente pelo Governo, de modo que 
ficaram mortos 800 dos revolucionários. 

Na Vendea, houve uma revolução, que foi egual- 
mente reprimida. Apar d'isso, as doutrinas socialistas 
começaram a espalhar -se largamente e a perturbar 
continuamente a sociedade franceza. E a taes insurrei- 
ções e movimentos revolucionários, juntaram-se ainda 
frequentes conspirações contra a vida do rei, que pôde 
escapar-lhes; bem como um outro movimento dos repre- 
sentantes do império, a favor de Luiz Bonaparte, filho 
do ex-rei da Hollanda, também Luiz Bonaparte, e da 
rainha Hortênsia. 

Foi no tempo de Luiz Filippe que se acabou a 
conquista da Argélia (1834-1847). 

A anciã liberal do povo, não contente com o espi- 
rito acomodaticio dos ministros, reclamou medidas mais 
rasgadas, e entre ellas o suffragio universal; e, tendo-se 



202 A HISTORIA ECONÓMICA 



O Governo opposto, foi proclamada a segunda repu- 
blica (1848-1852). 

Esta republica, tomando um caracter todo socialista, 
decretando o direito ao trabalho, estabelecendo até 
officinas communs por conta do Estado, e produzindo 
uma g^rande penúria geral e uma grande desordem social, 
deu logar á proclamação do império e á nomeação 
de Luiz Bonaparte como imperador, sob o nome de 
Napoleão 111. 

O império viu-se logo involvido n'uma serie de 
guerras, que deviam precipitar a sua queda. 

A primeira foi contra a Rússia, de concerto com a 
Inglaterra e Piemonte — a guerra da Crimeia (1853-1855). 

A segunda foi contra a Áustria, também de concerto 
com o Piemonte, em que ella foi vencida na batalha de 
Solferino e perdeu a Lombardia, que foi reunida ao 
Piemonte; havendo a França obtido Nice e Sabóia, como 
preço do seu concurso. 

Outra guerra foi na Syria. Tendo os montanhezes dru- 
sos matado os Maronistas christãos, a França, conforme, 
a convenção de Paris de 1856, mandou um exercito 
lá, que pacificou a região, e garantiu a segurança dos 
christãos. 

Houve também uma expedição muito importante na 
China. Depois do tratado de Nankin, feito com a Ingla- 
terra, a China teve de abrir cinco portos ao commercio 
europeu (1842), Cantão, Annoy, Fou-Techeou-Fou, 
Ningpo e Shang-hai; e os Francezes obtiveram ainda o 
livre exercicio do christianismo no celeste império. 

Mas os Chinezes não observaram depois as obriga- 
ções d'esse tratado, e isso levou uma frota anglo-fran- 
ceza a apoderar-se de Cantão, e a forçar a China a 



EDADE CONTEMPORÂNEA 203 



assignar um novo tratado, em Tien-Tsin. Sendo, porém, 
os embaixadores que estavam encarregados de o rati- 
ficar, recebidos a tiros de canhão, foi este o signal dé 
uma guerra maior (1859), em que a China teve ainda de 
assignar mais outro novo tratado de Tien-Tsin, e de 
pagar uma grossa índemnisação. 

N'uma guerra com o imperador de Annan, os Fran- 
cezes obtiveram também a cedência de três provincias, 
— Saigon, Bien-hoa e Mytho. 

Entretanto, um francez notável, Lesseps, começou 
a abertura do isthmo de Suez (1859), de que já falía- 
mos, cujos trabalhos acabaram em 1869. 

Em 1863, a França interveiu no México, juntamente 
com a Inglaterra e Héspanha, e, por intervenção d'ella, 
foi lá collocado como imperador, Maximiliano, irmão 
do imperador da Áustria. Levantando-se, porém, os 
Mexicanos, depois d'isso, contra o mesmo imperador, a 
Inglaterra e Héspanha fizeram retirar as suas tropas; 
e mais tarde Napoleão mandou também retirar o exer- 
cito francez, abandonando Maximiliano, que foi, então, 
fuzilado pelos Mexicanos (1867). 

No mesmo anno 1867, Garibaldi tentou uma expe- 
dição contra Roma, que os Francezes tinham evacuado 
no anno anterior; e Luiz Napoleão enviou, porisso, 
tropas aos Estados Pontificios, que bateram os Garibal- 
dinos e os demais Italianos que se lhes tinham reunido. 

Em 1870, surgiu a guerra com a Prússia, da qual 
já falíamos no capitulo I, e com ella a derrota da França, 
a deposição de Luiz Napoleão e a proclamação da 
terceira republica, ainda existente. 

No tempo d'esta guerra, e quando Paris estava cer- 
cada pelos Prussianos, deu-se também um movimento 



204 A HISTORIA ECONÓMICA 



grave dentro d'essa mesma cidade, que foi o levanta- 
mento revolucionário chamado a Communa, que, depois 
de muita ruina e mortes e desordens, foi abafado pelo 
Governo, á custa de muito sangue. 

Acabada a guerra de 1870, a França gozou de paz 
no interior ; mas houve ainda differentes luctas no 
exterior. 

Assim, no Tonkin, onde as relações commerciaes 
tinham sido travadas pelos piratas chamados Pavi- 
lhões Negros, teve a França de mandar um exercito 
commandado pelo almirante Courbet, que obrigou a 
China a assignar o tratado de Tien-Tsin, reconhe- 
cendo o protectorado francez no Tonkin. Recome- 
çadas mais tarde as hostilidades, o mesmo Courbet 
accupou Ke-Lung, na ilha Formosa. E, ainda depois 
d'isso, a França pôde reunir sob a sua administra- 
ção o Annan, Tonkin e Cochinchina, sob o nome de 
Indo-China. 

Na Africa, fundou ella estabelecimentos prósperos no 
Senegal, no Congo e em Madagáscar; e, em 1896, con- 
quistou o Dahomey. E, tendo surgido um conflicto 
entre os Francezes e o soberano dos Hovas de Mada- 
gáscar, a França mandou lá duas expedições, uma, 
em 1885, e outra, em 1894, que terminaram por tomar 
conta de toda a ilha, e collocal-a sob o protectorado 
francez. 

Fora das guerras de conquista que resultaram de 
todas essas luctas e expedições coloniaes, a França 
gozou sempre de paz, depois da guerra desastrosa 
de 1870, e reparou economicamente as suas per- 
das. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 205 



As luctas da revolução franceza, e depois as luctas 
napoleónicas e o bloqueio continental perturbaram o 
movimento económico da França até 1815. Mas, ainda 
assim, houve intervallos que fizeram excepção a esse 
estado geral. 

Assim, no Governo do primeiro cônsul, Napoleão 
Bonaparte, a paz no exterior e a reparação das desor- 
dens no interior, permittindo o restabelecimento das 
relações com os povos vizinhos, e chamando o movi- 
mento e emprego de capitães para as operações agrí- 
colas e industriaes da nação, fez renascer a confiança 
geral, e estimulou o desinvolvimento económico. 

Pela reconstituição das academias e sociedades 
scientificas, que os Jacobinos, no seu exaggero pela 
egualdade e no seu ódio a toda a superioridade, tinham 
supprimido, reappareceram os trabalhos dos eruditos, 
e com elles as descobertas que deram lugar a novas 
fontes de riqueza. 

A chymica applicada tomou uma extensão illimitada. 
O chloro, descoberto pelo allemão Scheele, foi empre- 
gado por BerthoUet na tinturaria e branqueamento da 
roupa. Prieur conseguiu fixar o verde e o azul, que, 
antes da sua descoberta, mudavam ao contacto do ar. 
Darracq aperfeiçoou a fabricação do alcatrão. De- 
rosne serviu-se do carvão para descolorar. Os irmãos 
Gouin deram á côr da garança a solidez e o brilho 
da cochenilha. Leblanc extraiu a soda do sal miari- 



206 A HISTORIA ECONÓMICA 



nho, e provocou a criação, em Saint-Denis, do pri- 
meiro estabelecimento destinado a fabrical-a. Brichoz 
e Leseur livraram a França da tutella da Inglaterra 
e da HoUanda, quanto ao fornecimento do alvaiade e 
do branco de chumbo. Vauquelin poz em circulação 
um novo metal — o chromo, e Darcet e Decroos expe- 
diram para toda a Europa os sabões de ioilette, que 
a França primeiramente pedia á Inglaterra. E, gra- 
ças ás descobertas de Brongniart e de muitos outros 
sábios instruidos na sua escola, a faiança, a louça 
de barro e o crystal desinvolveram-se e aperfeiçoa- 
ram-se, dando alimento a uma centena de fabricas, 
tanto em Paris como nas provincias. 

Na industria, Velther ajuntou aos productos de algo- 
dão já existentes, os fustões, as cambraias e os tulles. 
Charlieu e Morainville inventaram apparelhos idênticos, 
o primeiro para a lã e o segundo para o linho. Em relo- 
joaria, houve progressos notáveis sob a direcção de Bre- 
guet, de Pons, de Lepaute e de Robin, entretanto que 
Rebours e Cauchois dedicavam os seus cuidados á cons- 
trucção de lunetas, e Jecker á dos instrumentos de óptica. 

As cordas foram melhoradas pelo duque de Roche- 
foucauld. Conte deu á industria dos lápis um desinvol- 
vimento rápido, que lhe permittiu tirar o monopólio 
d*elles á Inglaterra. Darcet pae e Proust, com o auxilio do 
vapor, reduziram os ossos a massa liquida; e também com 
os ossos, Darcet, filho, compunha a gelatina em folhas 
destinadas ao decalque dos desenhos. Emfim, Argand 
desinvolveu a illuminação, introduzindo uma corrente 
de ar na torcida dos candieiros, entretanto que Zuinquet, 
Carcel e Bordier entregaram ao consumo novos can- 
dieiros, ainda mais luminosos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 207 



O desinvolvimento da França, levantou o ciúme dos 
Inglezes; e, quando Napoleão, em 1804, começou a 
promulgar um pauta, cujos direitos affectavam directa- 
mente a Inglaterra, esta respondeu, fechando todos os 
seus portos aos navios de França; sujeitando também 
os navios das potencias neutraes á visita dos seus cru- 
zadores, a ver se levavam productos francezes ; e deci- 
dindo que as contravenções seriam julgadas e punidas 
nos portos britânicos. 

Resultou d'ahi o bloqueio continental, decretado por 
Napoleão, em Berlim, em 1806, pelo qual eram prohibi- 
das todas as trocas e todas as communicações com a 
Inglaterra. Esse bloqueio foi imposto, não somente á 
França, mas também aos paizes alliados ou occupados 
pelos exércitos francezes, taes como a Hollanda, a Hes- 
panha, Nápoles, Áustria, o reino da Etruria, a Prússia, 
AUemanha e outros Estados. 

Unicamente a Rússia e a Suécia, então em paz com 
Napoleão, é que representavam o principio da neutra- 
lidade; e, ainda assim, o imperador, temendo que os 
navios d'essas potencias servissem ao contrabando, pro- 
mulgou em Milão, a 17 de setembro de 1807, um decreto, 
completando as disposições precedentes, e determinando 
que todo o navio, qualquer que fosse a nação a que per- 
tencesse, quando tivesse soffrido a visita de um navio 
inglez, ou tivesse effectuado uma viagem á Inglaterra, 
ou mesmo que tivesse soffrido qualquer imposição do 
Governo inglez, seria desnatar alisado e considerado 
como propriedade ingleza, e, por consequência, como 
objecto de boa presa. E isto mesmo se daria com 
todo o navio expedido dos portos inglezes ou colónias 
inglezas. 



208 A HISTORIA ECONÓMICA 



Esse bloqueio continental causou á França grandes 
prejuízos; mas causou muitos mais á Inglaterra, ao 
passo que aproveitaram com elle algumas outras nações 
da Europa, como veremos. 

Com effeito, na França, a falta de matérias primas 
e productos industriaes, que até então eram fornecidos 
pelos Inglezes, fez despertar a fermentação de novos 
productos e novas industrias, como já vimos; e o 
augmento do commercio continental compensou em parte 
a carência do commercio maritimo. As próprias neces- 
sidades da vida interior e a diminuição de productos 
exteriores que resultaram d'esse bloqueio, obrigaram a 
maiores exforços para a sustentação da vida nacional. 

Porisso, a agricultura realisou grandes melhoramen- 
tos. O vinho, o trigo e a batata cobriram espaços 
maiores. A fiação de algodão augmentou as suas ma- 
quinas, e melhorou e cresceu consideravelmente. Por 
outro lado, pelo impulso de Napoleão, que tinha decre- 
tado o premio de um milhão de francos ao artista que 
inventasse uma maquina capaz de fazer para o linho 
aquillo que Arkwrigt havia feito na Inglaterra para o 
algodão ^, FiHppe de Girard, dotava a França de uma 
admirável maquina, por meio da qual convertia o linho 
em fios da maior finura: o que fez também augmentéu- 
muito os demais productos linheiros, como teias ordi- 
nárias, teias superiores e rendas. As sedas e pannos 
progrediram egualmente. 

A primeira d'estas industrias tinha quasi dobrado, 
em 1812, e a dos pannos, obrigando a imitar as maqui- 



1 Vide vol. IV, pags. 82, 687 e 688. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 209 



nas inglezas, quanto ao aperfeiçoamento, e a inventar 
novas maquinas para a frisadura, tinha também melho- 
rado sensivelmente. 

A suppressão das jurandas e mestrias e dos regfula- 
mentos relativos á fabricação tinha permittido aos 
estabelecimentos do Elbeuf e Darnetal fabricar vinte 
qualidades differentes de pannos, em vez de uma só 
qualidade, que outr'ora as corporações prescreviam. 

A chymica, devido ao génio de Lavoisier, tinha 
podido supprir no mercado nacional muitos géneros da 
índia e das Antilhas, que as leis prohibitivas do império 
afastavam dos mercados francezes. A descoberta do 
acido muriatico pelo sueco Scheele, e o seu aperfei- 
çoamento por Berthollet e Chaptal, deram á fabricação 
do papel um immenso desinvolvimento. Succedeu-se 
depois a composição dos ácidos nitricos, do nitro-muria- 
tico, do amoniaco, antes d'isso importado do Egypto, do 
alun artificial, composto por Chaptal, e que, substituindo 
vantajosamente o alun de minas, deu logar a um grande 
commercio, quasi de seis milhões de francos por anno; 
e bem assim a composição da caparosa, das prepara- 
ções mercuriaes, das cores consideradas até então inen- 
contraveis, a não ser no oriente, e do anil e garança. 

A arte da tinturaria, que não passa de uma serie de 
operações chymicas, tinha attingido um grau de perfei- 
ção muito elevado, entretanto que o chymico João 
Raymond descobria um processo para fixar na seda a 
côr do azul da Prússia, superior á do anil; e, augmen- 
tando com isso o valor dos productos das manufacturas 
de Lyon, fez que as fabricas de impressão sobre as 
teias de Hnho chegassem a dar o vermelho da garança 
sobre o algodão, de uma beleza rara. E a tintura do 

Volume VI 14 



210 A HISTORIA ECONÓMICA 



algodão, que era apenas conhecida em França no 
momento da revolução, estendia-se a todas as cores, e 
até dava aos tecidos imitados da índia, taes como 
o nankin, as nuances que tornam tão estimados os 
estofos d'esse paiz. 

A decomposição do sal marinho conduziu á des- 
coberta da soda, necessária ás saboarias, vidrarias, 
branqueamentos e tinturarias. 

O assucar de canna deixara de ser importado, em 
consequência do bloqueio dos portos pela Inglaterra. 
Mas o assucar da beterraba o substituiu; e o aperfeiçoa- 
mento dos processos empregados foi tal que, em 1811, 
um chymico, M. Barruel, offereceu ao imperador alguns 
quintaes d'esse assucar de beterraba, que custava a 
distinguir do assucar de canna. 

A vidraria, a cerâmica, a curtimenta, a industria das 
armas e do ferro desinvolveram-se egualmente, sob a 
pressão das necessidades. Baccarat e perto de duzentas 
vidrarias de toda a natureza surgiram vigorosas, durante 
o periodo do bloqueio continental. 

E, na metallurgia, os progressos excederam os de 
todas as outras industrias; de modo que, em 1812, o 
desinvolvimento havia augmentado cinco vezes mais que 
antes da revolução ^. 

Apesar de tudo isto, a França, como já dissemos, 
soffreu muito com o bloqueio, embora não fosse tanto 
como a Inglaterra; porque esta, perseguida por toda a 
parte, e espiada pelos cruzadores dos Estados ligados 
contra ella, que repelliam o seu commercio, tomavam-lhe 



1 Noel, obr. cit. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 211 



OS navios e queimavam-lhe as mercadorias, assistia 
impotente á accumulação dos seus stocks industriaes e 
commerciaes; e via os seus mercados sem negocio 
e os seus operário sem trabalho, reduzidos á fome; as 
suas casas commerciaes desapparecerem ás centenas, 
em fallencias successivas; e a miséria lançar o espanto 
nas suas populações desesperadas. 

Mas, por outro lado, tanto a França como os paizes 
coUigados não tinham livre saida para os seus pro- 
ductos ; e a exportação dos g-eneros agrícolas, de que 
a agricultura franceza quasi que tivera o monopólio, 
havia soffrido uma grande diminuição. Falharam os 
artigos coloniaes, e a marinha ingleza tinha impedido 
o commercio ultramarino. 

Alem d'isso, para prevenir o contrabando, o Governo 
francez foi obrigado a guarnecer as fronteiras com um 
exercito aduaneiro, cujo custeio era muito dispendioso, 
e de cada vez se tornava insufficiente, pelo desinvolvi- 
mento crescente do mesmo contrabando: o que também 
inutiHsava em parte aquelle bloqueio nos seus peiores 
effeitos contra a Inglaterra ^. 

E a tudo isto, que já enfraquecia o movimento 
económico da França, ou, pelo menos, impedia o vôo 
natural de tantas descobertas, as guerras successivas, 
que roubavam muitos braços á agricultura, ao commer- 
cio e á industria, exigiam grandes despesas e pesados 
impostos, e traziam alterado o socego interno, que é 
uma das condições impreteriveis de todo o movimento 
económico. 



1 Noel, obr. cit. 



212 A HISTORIA ECONÓMICA 



A restauração não seguiu a politica livre-cambista 
que Turgot tinha querido inaugurar, e que, um pouco 
mais tarde, a Assembíea Nacional Constituinte quiz 
também adoptar. E, pelo contrario, esforçou-se por 
defender os proprietários, os agricultores e, sobretudo, 
os productores do trigo contra a concorrência dos 
géneros estrangeiros. Imitava, assim, os conservadores 
inglezes, que, para serem agradáveis aos lords, proprie- 
tários de grandes dominios, estabeleceram na Inglaterra 
consideráveis direitos aduaneiros. 

N'este sentido, uma primeira lei de Luiz XVIII car- 
regou os trigos estrangeiros do direito de 0,50 fr. por 
quintal (25 de abril de 1816), o que, ainda assim, repre- 
sentava uma taxa muito moderada. Mas logo uma 
segunda lei estabeleceu a escala movei, que augmentava 
e diminuia os direitos, conforme a colheita era melhor 
ou peior em França (16 de julho de 1819). 

Depois de ter protegido a agricultura, a restauração 
quiz dar também satisfação ás reclamações dos indus- 
triaes; e, porisso, os donos das forjas, que continuavam 
a fazer as fundições com o carvão de lenha, e que não 
podiam sustentar a concorrência dos altos fornos ingle- 
zes, obtiveram um direito de entrada, que foi até 170 
por cento. E todos os productos estrangeiros — assuca- 
res, couros, sedas, casimiras, etc, foram egualmente 
onerados. 

A consequência d'aquellas primeiras medidas foi a 
carestia extraordinária do preço do pão, que se tornou 



EDADE CONTEMPORÂNEA 213 



mesmo inabordável para uma grande classe da popula- 
ção. Mas ellas favoreceram muito a cultura, de modo 
que o numero dos hectares semeados passou de quatro 
milhões, em 1815, para cinco milhões, em 1830. 

O commercio, altamente prejudicado pelo bloqueio 
continental, levantou-se naturalmente alguma coisa, nos 
primeiros annos da restauração, graças á paz da nação. 

A industria desinvolveu-se também, mercê dos pro- 
gressos scientificos. Affirmou-se o credito do Estado, 
e o regimen fiscal não foi aggravado. 

E, assim, o Governo chegou a estabelecer a ordem 
nas finanças, a confiança no credito, a levantar a agri- 
cultura e a defender a industria ^. 

Aconteceu, porém, depois d'isso, que as nações 
estrangeiras usaram de represálias aduaneiras contra a 
França, estabelecendo também um regimen restrictivo, 
a respeito de muitos productos francezes, o que veiu 
por fim a tornar embaraçosa a expansão económica do 
paiz. E, para que esta expansão pudesse alargar-se 
livremente, era necessário que a nação entrasse também 
n'um regimen económico de liberdade, o que não acon- 
teceu. 



O Governo de Julho, que succedeu á restauração, 
tinha tendências liberaes. E, apar d'isso, o exemplo da 
Allemanha, organisando o Zolverein, essa vasta sociedade 



1 J. A. Bernard, Histoiíe Contemporaine de 1815 A Nos Jours. 



214 A HISTORIA ECONÓMICA 



mercantil que uniu os Allemães n'unia associação econó- 
mica liberal, abolindo as alfandegas interiores, estabe- 
lecendo a communhão de interesses, e alliviando enor- 
memente os encargos aduaneiros, da qual associação 
f aliaremos no capitulo VI; e, também, ao mesmo tempo, 
o exemplo da Inglaterra, que passara, então, a refazer a 
sua legislação commercial e industrial n'um sentido libe- 
ral: reflectiram-se grandemente não somente em França, 
mas por toda a Europa. N'este sentido, Luiz Filippe 
algumas medidas livre-cambistas abraçou, e alguns im- 
postos aboliu. Mas a opposição do próprio parlamento, 
onde preponderavam os conservadores, e, portanto, os 
proteccionistas, foi tal que o rei teve de regressar ás 
medidas restrictivas. 

Em todo o caso, o reinado de Luiz Filippe tornou-se 
pacifico por excellencia. A agricultura foi favorecida, 
e o commercio e a industria seguiram o movimento 
ascencional, já inaugurado pela restauração. O numero 
das maquinas, sempre crescente, deu uma expansão 
extraordinária ás artes industriaes. O desinvolvimento 
das estradas e dos caminhos de ferro augmentou as 
communicações, e favoreceu as trocas. Proseguiram 
com actividade os trabalhos públicos. Introduziram-se 
grandes adoçamentos nas penalidades. Apagou-se da 
legislação criminal a pena da golilha, e a mutilação do 
punho para os parricidas; e admittiu-se o beneficio das 
attenuantes. E a lei de 1832, que obrigou cada com- 
muna a ter uma escola, contribuiu grandemente para a 
instrucção popular. 

No commercio, é que, pelo systema protector, o 
desinvolvimento foi menos considerável que nos outros 
factores económicos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 215 

* 

Com a revolução de fevereiro de 1848, as ideias da 
livre concorrência e livre cambio, que iam de harmonia 
com a theoria da fraternidade dos povos, proclamada 
pelos socialistas, circularam com mais força do que 
nunca; e, ao mesmo tempo, a victoria alcançada na 
Inglaterra a favor da liberdade dos cereaes ^ influiu 
também sobre a propagação d'essas ideias. 

O novo Governo, porém, estava em más condições 
para corresponder ás esperanças do povo; porque era 
composto mais de utopistas e revolucionários de profis- 
são que de homens de Estado. E, durante os quatro 
annos que esteve no poder, não fez mais que agitar o 
paiz, irritar os camponezes, pelo lançamento de impostos 
pesados e impopulares, e pela consolidação arbitraria 
dos fundos que estavam nas caixas económicas, e ater- 
rar as cidades, proclamando o direito ao trabalho em 
favor do operário, perturbando os interesses, e impondo 
ao Estado a obrigação de fornecer meios de subsistên- 
cia aos indigentes, incapazes e enfermos. E, alem disso, 
a criação de ateliers nacionaes, decretada, em 26 de 
fevereiro de 1848, sob a pressão de Luis Blanc, abriu 
o caminho ás desordens da rua; e logo, desde o fim 
d'abril d'esse anno, mais de 100 mil homens embriaga- 
dos, divididos por esquadras e sustentados pelo thesouro, 
constituiram um exercito de sediciosos, que ia pôr em 
perigo a sociedade e a fortuna publica. 



1 Vide capitulo V. 



216 A HISTORIA ECONÓMICA 



E, no meio de tudo isto, a assemblea constituinte, 
composta de gfrandes capitalistas e g^randes industriaes, 
para os quaes a protecção pautal parecia uma necessi- 
dade de existência, não alargou as restricções aduaneiras 
do commercio. Na assemblea legislativa, Saint Beuve, 
fazendo-se ecco das aspirações livre-cambistas, propoz a 
abolição d'essas restricções. Mas essa proposta, com- 
batida fortemente por Thiers, que se tornou o campeão 
inabalável da protecção commercial, foi regeitada por 
uma grande maioria. 



Todas estas circumstancias, conjugadas com as agi- 
tações socialistas d'essa segunda republica, travaram 
o desinvolvimento económico da França. 

A situação financeira tinha-se resentido fortemente 
das perturbações de fevereiro, e a maior parte dos 
ramos da actividade nacional tinham sido profunda- 
mente abalados. Stocks consideráveis de mercadorias 
estavam por vender. O Governo provisório tinha jul- 
gado que faria diminuir a accumulação, fechando os 
mercados interiores aos productos similares estrangei- 
ros. E, como vimos, a assemblea constituinte e legislativa 
persistiram no mesmo systema. 

Tudo isso aggravou, como já fizemos sentir, a situa- 
ção económica, e prejudicou o desinvolvimento commer- 
cial da França n'essa época. 

Mas tudo mudou com o império de Napoleão III, 
que, tendo estado na Inglaterra, onde assistira ás luctas 



EDADE CONTEMPORÂNEA 217 



travadas contra o systema proteccionista, e á victoria 
alcançada pelos livre-cambistas, vinha imbuido d'essas 
ideias liberaes. 

Porisso, logo se mostrou propenso a introduzir na 
França a reforma económica da Inglaterra. 

Começou pela promulgação de varias medidas livre- 
cambistas, e tentou mesmo abolir todas as prohibições 
ainda em vigor. Mas encontrou uma opposição tão 
grande, e tão forte alarme nacional se levantou, que 
teve de parar; até que, por fim, pelo tratado commercial 
com a Inglaterra de 23 de janeiro 1860, foi estabelecido 
o livre-cambio entre os dois paizes. 

Já as primeiras medidas liberaes de Napoleão tinham 
feito alargar enormemente o movimento económico da 
França; e esse tratado deu-lhe ainda mais amplo vôo. 
E d*elle se seguiu também a generalisação do regimen 
de convenções commerciaes. 

Com effeito, esse exemplo dos dois paizes que, pelos 
seus capitães, industria e commercio, tinham, por assim 
dizer, alimentado o mundo inteiro, foi promptamente 
seguido por muitos outros. A primeira convenção fran- 
ceza d'esse género foi com a Bélgica, em 1861. Depois, 
com o Zolverein, em 1862; com a Itália, em 1863; e 
seguidamente com a Suissa, Suécia, Noruega, cidades 
hanseaticas, Hespanha, Paizes Baixos e Áustria. E essas 
convenções, estabelecendo o intercambio mercantil, fize- 
ram dar ao movimento transaccional da França um 
grande adiantamento. 

As industrias alargaram-se e multiplicaram-se por 
toda a parte; e apesar dos esforços que os Francezes 
já tinham feito, desde 1858 a 1861, para corresponderem 
ás exigências da sua clientella interior e exterior, che- 



218 A HISTORIA ECONÓMICA 



garam com difficuldade a satisfazel-a. No interior, a 
prosperidade accusava um acréscimo de bem-estar em 
todas as classes da sociedade; e, no exterior, as trocas 
progrediam com uma rapidez superior á dos periodos 
antecedentes. 

N'esta marcha ascencional, todas as industrias, sem 
excepção, figuravam com honra. A exploração e expor- 
tação das matérias primas, os algodões, as lans, os 
linhos, as sedas, as pelles brutas e as hulhas consti- 
tuiam artigos principaes do commercio. 

A industria manufactora, por sua vez, metamor- 
foseou-se. E a reforma aduaneira, sobrevindo quasi 
simultaneamente com a diffusão das maquinas e com o 
aperfeiçoamento das sciencias mecânicas, tinha feito 
nascer no dominio da producção uma organisação 
económica nova, que teve enorme influencia no regi- 
men social. 

A grande industria com as suas gigantescas fabricas, 
cujo funccionamento provocava e facilitava as agglome- 
rações operarias, e abaixava os preços da mão de obra, 
dominou geralmente. 

Sobretudo, os objectos de grande consumo, tinham 
tomado um vôo rápido; e, entretanto que as necessida- 
des interiores achavam no abaixamento dos preços um 
estimulo para o augmento das compras, a exportação, 
criando novos desembocadouros no estrangeiro, augmen- 
tava também consideravelmente. 

Resultados análogos se patentearam na agricultura, 
apesar de que as legislações anteriores tinham errada- 
mente profetisado a decadência no regimen da liberdade. 

A viticultura é que mais se distinguiu n'essa pros- 
peridade. E o commercio dos vinhos e aguardentes 



EDADE CONTEMPORÂNEA 219 



tornou-se também muito superior ao dos annos que 
precederam a liberdade commercial. Augmentou eguaU 
mente a fabricação do assucar nacional. Finalmente, a 
navegação, os transportes e o trafico maritimo acompa- 
nharam esse movimento ascendente, influindo também, 
de per si, no progresso dos outros factores. 



* 
* 



A guerra com a AUemanha, de 1870, abateu provi- 
soriamente o movimento económico da França, em conse- 
quência dos destroços da lucta e da enorme indemnisação 
que os Francezes tiveram de pagar aos Allemães. Mas, 
tendo ella sido paga em breve termo, o paiz restabele- 
ceu-se depressa; e até o fim do século continuou pro- 
gredindo, n'uma grande escala ascendente. 

Para se ver isso, basta comparar os seguintes ele- 
mentos : 

A França, que, em 1850, só colhia 75 milhões de 
hectolitros de trigo, no fim do século, produzia 108; e a 
superficie arável, que, em 1870, era de 6:857.152 d'hecta- 
res, no fim do século, era de 6:986.628. 

A cultura da batata augmentou também prodigiosa- 
mente. E a beterraba que, em 1876, occupava 529.000 
hectares, em 1892, occupava já 615.000. 

A cultura de algumas outras plantas industriaes e a 
das plantas tinturiaes é que diminuiu. 

Assim, o linho e o cânhamo foram occupando uma 
superficie cada vez mais restricta; não porque o solo 
francez fosse impróprio, mas porque diminuiu muito o 



220 A HISTORIA ECONÓMICA 



consumo, depois que foram decaindo certas industrias, 
como a fabricação das velas, cordas e cabos; e porque, 
apar d'isso, o commercio exterior importava esses géne- 
ros em muito boa conta, fazendo impossivel a concor- 
rência da producção nacional. 

Quanto aos productos tinturaes, g^arança, gauda, pas- 
tel e açafrão, também a concorrência irresistivel dos pro- 
ductos chymicos, derivados da hulha e de outras substan- 
cias, bem como a concorrência das matérias tinturaes 
das colónias, prejudicou egualmente muito essa cultura. 

E, com relação ás plantas oleosas, cujas sementes 
eram empregadas na fabricação dos azeites ou dos óleos, 
aconteceu a mesma coisa; pois que, por um lado, o 
estrangeiro importava estas sementes em grande quan- 
tidade e boa conta nos mercados francezes; e, por outro 
lado, o consumo dos azeites vegetaes de illuminação 
diminuirá perante os progressos do óleo mineral, petró- 
leo, gaz e outros productos, que dão luz mais barata. 

E com a colza e o nabo silvestre aconteceu também 
a mesma coisa \ 



Sobre os productos próprios do solo francez, remon- 
tamo-nos ao que já dissemos no volume V, paginas 97 
e seguintes. 

E quanto ás industrias, d'este periodo, no reino mine- 
ral, a producção da hulha que, em 1870 era de 13:330.000 



^ Mareei Dubois e J. E. Kergomard, obr. cit. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 221 



toneladas, em 1893, era de 25:173.000. A producção do 
ferro, que, em 1873, era de 3:051.000 toneladas, em 1893, 
era de 3:517.000; e análogo prog-resso se deu nos outros 
mineraes. E a fundição dos minérios e dos metaes, que, 
em 1870, dava 1:381.000, em 1893, ascendia a 2:003.000; 
sendo a fabricação do aço a que mais progressos fez. 

Também nas outras industrias se accentuou egual 
adiantamento. 

Por exemplo, na industria derivada dos productos 
veg-etaes, a producção do assucar de beterraba refi- 
nado augmentou, de modo que o seu consumo era, 
em 1873, de 259:717.427 kilogrammas, e em 1893, 
de 576:000.000. 

Em todo o caso, depois que a França, pela guerra 
de 1870 com a Allemanha, perdeu as minas de hulha 
do Sarre, aconteceu que os concorrentes d'ella, pelo 
menos, os AUemães, os Belgas e os Inglezes, ficaram 
tendo hulha em maior abundância e mais barata; de 
maneira que, n'esse ponto, a lucta contra a concorrência 
metallurgica dos estrangeiros tornou-se difficil. 

E não foi, somente pela falta da hulha, que a indus- 
tria metallurgica não pôde luctar contra os estrangeiros. 
Accrescia também que apenas o ferro é que podia 
encontrar-se em quantidade sufficiente e em boa conta; 
pois o cobre, o estanho e o zinco, etc, eram importa- 
dos de fora. E vinham, assim, accumulados de dois ónus 
que tornavam a mercadoria mais pesada, a saber: o 
ónus que provinha do lucro dos donos d'esses materiaes, 
e o dos intermediários ^. 



^ Mareei Dubois e Kergomard, obr. cit. 



222 A HISTORIA ECONÓMICA 



Foi, por isso, que a França voltou ao systema pro- 
tector, pela pauta de 1892. 

Enumerar todas as industrias practicadas em mais 
de 150 mil fabricas e manufacturas da França, seria, 
como expõe E. Reclus, resumir o trabalho humano. E, 
como também diz o mesmo auctor, só a principal fabri- 
cação — a das matérias textis occupava mais de dois 
milhões de operários. Para a seda, a França tinha o 
primeiro logar entre as nações. Para as lans, pannos, 
tapetes e flanellas, disputava a superioridade á Ingla- 
terra. Para a fiação e tecidos de algodão, a sua pro- 
ducção, cinco vezes mais fraca do que a ingleza, e 
mais fraca também que a dos Estados Unidos, preferia, 
pela qualidade dos seus tecidos, a todos os paizes do 
continente, e mesmo á Inglaterra. As rendas egua- 
lavam em valor as de todos os outros paizes. Emfim, 
as manufacturas de tecidos, cânhamo, juta, e, sobre- 
tudo, de fibras misturadas, eram também muito impor- 
tantes. 

Em todo o caso, uma revista geral de todas as 
industrias francezas, especialmente, na ultima época, 
isto é, desde 1870 até o fim do século, leva a cons- 
tatar que as provincias do norte e nordeste foram as 
mais activas. No departamento do Norte, sobretudo, 
a riqueza hulheira produziu uma agglomeração de 
productos de toda a ordem. Foi a zona industrial 
por excellencia. Podem também citar-se, especialmente, 
as differentes regiões hulheiras em volta do macisso 
central. 

Tratando dos centros principaes, nós veremos, 
então, especificadamente, a expansão da industria fran- 
ceza. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 223 



O commercio da França, absolutamente fallando, 
augmentou muito n'este século XIX, a ponto de que 
ella se tornou uma das primeiras potencias commer- 
ciaes do mundo. No fim do século, só tinha acima 
de si a Inglaterra, a Allemanha e os Estados Unidos; 
mas, em todo o caso, foi elle diminuindo alguma 
coisa nos últimos annos. E' que todos os vizinhos 
tratavam de se tornar cada vez mais independen- 
tes dos Francezes, fabricando tudo o que lhes era 
necessário, imitando mesmo os objectos preparados 
em França, e até copiando-os servilmente, em vez de 
os comprarem. 

E, depois, o desinvolvimento social geral, a faci- 
lidade das correspondências e a abundância de infor- 
mações tornaram cada vez menos circunscriptas as 
invenções, e menos efficazes os processos ingenhosos 
do estylo e da arte, que sempre teem honrado a indus- 
tria franceza. 

Assim, desde que se dava qualquer invenção, tor- 
nava-se logo presa de todo o mundo; e o privilegio que 
resultava da marcha distinctiva de cada nação, tornava-se 
também matéria indifferente. De modo que os Estados 
mais favorecidos n'esta lucta ardente foram aquelles que 
tinham em abundância matérias primas, como a hulha 
e os metaes. 

Ora os Estados Unidos teem o sufficiente para si, 
e concentravam-se também em si próprios, repudiando 



224 A HISTORIA ECONÓMICA 



por meio de impostos enormes, os objectos de fabrica- 
ção estrangeira. A Inglaterra era obrigada a pedir fora 
alguns productos, especialmente, objectos de alimenta- 
ção. Mas, apesar d'isto, o seu império colonial, repar- 
tido por todas as latitudes, é tão independente como 
os Estados Unidos, e possue os mesmos elementos de 
prosperidade natural. 

A Allemanha deveu a prosperidade crescente da 
sua industria e do seu commercio aos esforços da intel- 
ligencia e diplomacia, e tinha também grande riqueza 
em hulha e metaes. E, ao passo que mais se enriqueceu 
com as bacias hulheiras do Sarre, que, pela paz de 
Francfort de 1871, tirou á França, esta soffreu, n'esse 
ponto, um grande desastre. 

Por tudo isto, é que a França apezar de occupar 
no fim do século o quarto logar entre os grandes paizes 
commerciaes do mundo, tinha sentido uma certa dimi- 
nuição no seu movimento mercantil. 

As importações consistiam, principalmente, em maté- 
rias primas necessárias á industria (hulha, sedas, lans, 
algodões, couros). Os objectos alimentares vinham 
em seguida. E os productos fabricados occupavam a 
ultima classe. 

Na exportação, pelo contrario, os objectos fabrica- 
dos occupavam o primeiro logar, e a exportação dos 
géneros alimentares compensava apenas n'um terço os 
que vinham do estrangeiro. 

Fazia commercio com todo o mundo ; mas os paizes 
com quem a França mais relações commerciaes entreti- 
nha, eram a Gran Bretanha, a Bélgica, a Allemanha, os 
Estados Unidos, a Hespanha, Portugal, a Itália, a Repu- 
blica Argentina e a Rússia. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 225 



Já no volume V, pag. 123 e seguintes, especificamos 
os centros económicos principaes da França, na edade 
moderna. Mas como o tempo traz sempre mudanças, 
vamos também especificar os principaes n'este periodo. 
E mal podem elles especificar-se, porque a França, n'esta 
edade contemporânea, constituiu um immenso laborató- 
rio por toda a parte do seu paiz. 

Em todo o caso, devido á g-randeza d'essa nação e 
á influencia que ella exercia e tem exercido em Portugal, 
faremos uma exposição, um pouco mais larga e mais 
detalhada. 

Logo no sul e na região do Garonne, encontra-se 
Tolosa, que, já no século XIX, occupava por sua popu- 
lação o sexto logar entre as cidades de França. E' ahi 
que se vinham interpor todos o géneros da rica planície 
garonnesa. Sendo a primeira cidade commercial do sul, 
era também a primeira cidade industrial, tendo fabricas 
de moagem, papellarias, curtimenta, tabacos, amidone- 
ria, serragens, fundição, fiação, etc. 

Seguindo para o norte, destacava-se a cidade de 
Bordéus. O porto bastava para conter mais de mil navios; 
mas nem todos encontravam nas bordas do cães pro- 
fundidade de agua sufficiente para acostar á margem; 
d'onde resultava uma perda de tempo e dinheiro con- 
siderável, que lhe não permittia sustentar a concorrência 
com outros portos de melhores condições. Para reme- 
diar este inconveniente, abriu-se em Bacalan, a jusante 

Volume VI 15 



226 A HISTORIA ECONÓMICA 



da cidade, uma bacia de dez hectares de superfície, a 
cujo cães, n'um comprimento de 1.800 metros, podiam 
ser acostados 80 navios collocados dois a dois; mas, 
infelizmente essa bacia, cuja profundidade, segundo as 
marés, variava de 6 metros a 9 metros, foi-se obstruindo 
á entrada por montões de vasa, que se renovavam á 
proporção que se tiravam. Não entravam, porisso, lá 
navios de um certo calado, e, mesmo nas marés altas, os 
grandes navios não podiam sem perigo tocar o ancora- 
douro. Além d'isto, os bancos perigosos do Gironda 
retardavam, muitas vezes, a marcha das embarcações. 

Apesar, porém, d'estas e outras desvantagens, não 
contando com Paris, era o terceiro porto de França no 
movimento dos navios, e o quarto no valor das trocas. 
No século XVIII, tinha tido o primeiro lugar. 

Era ao commercio dos vinhos, principalmente, que 
elle devia a importância considerável que Bordéus alcan- 
çara no commercio do mundo. 

No golfo de Lyão, Narbonna, que chegou a ter no 
século XIV 200 mil habitantes, estava muito decaida, 
porque o seu porto era impróprio para navios de grande 
lotação. Mas, ainda assim, era bastante industrial; e o 
commercio de vinhos tinha feito a montante uma povoa- 
ção tão industrial como a própria cidade. 

Beziers, Pezenas e Cette eram também muito indus- 
triaes. 

Montpellier não tinha uma industria tão activa como 
já tivera; mas, ainda assim, tinha grande fabricação de 
velas, de sabões e de colchas de lã, muito apreciadas, 
sobretudo, na America. Faltava-lhe, porém, um porto 
de mar. Tem porto de rio, mas esse apenas recebia 
barcas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 227 



Nimes, a maior cidade mediterrânea, depois de 
Marselha e Toulon, tinha uma grande fabricação de 
chalés, tapetes, estofos, lenços e gravatas, que occupava 
milhares de operários. Produzia, sobretudo, tapetes 
avelludados. 

Em todo o caso, a sua industria estava em decadên- 
cia, pela concorrência da America e dos fabricantes 
de Ambusson e Beauvais, que imitavam muito bem 
os productos de que Nimes tivera outr'ora a especia- 
lidade. 

Marselha, era a metrópole de sul rhodaniano, e o 
principal mercado de todo o Mediterrâneo. Possuía 
grandes fabricas metallurgicas, onde se trabalhava em 
mineraes importados da Algéria, Hespanha, Itália e de 
outras regiões estrangeiras. Para o tratamento do 
chumbo tinha mais importância que outra qualquer 
cidade de França. Moia os trigos que lhe expediam 
os portos do Oriente. Transformava em productos 
manufacturados as sementes oleosas e os oleos pro- 
vindos dos portos do Levante, da Índia, do Senegal e 
da America do Sul. Curtia as pelles de cabra, compra- 
das em todas as costas do Mediterrâneo. Preparava as 
massas alimentares, os salgados e as conservas neces- 
sárias aos marinheiros. Por uma das suas principaes 
industrias, a dos sabões, Marselha, desde ha mais de 
um século, tinha a primeira classe no mundo, e só ella 
fornecia mais de metade do sabão que se fazia em 
França. Três mil operários trabalhavam nas suas ola- 
rias. Também só ella preparava mais de três quartas 
partes do assucar da região. Não dava á marinha o 
elemento por excellencia, isto é, os próprios navios; 
mas, se fazia construir somente pequenas armações, os 



228 A HíSTORL\ ECONÓMICA 



seus armadores pediam em grande parte os seus navios 
aos canteiros de Seyne e de Ciotat, que são verda- 
deiras succursaes de Marselha. A ribeira de Génova 
construia-lhe também um numero considerável de em- 
barcações. 

Pelo movimento do porto e valor das suas transa- 
cções, Marselha era o primeiro porto da França, e um 
dos dez ou doze mais importantes do mundo. 

Aries e S. Luiz, que era o terceiro porto mediter- 
râneo francez, só excedido por Marselha e Cette, cons- 
tituiam também centros importantes. 

Toulon era a 15.^ cidade da França, pelo numero 
dos seus habitantes; mas, como cidade essencialmente 
militar, o seu movimento económico não correspondia 
á sua grandesa. 

Tarascon era uma das cidades francezas, onde o 
movimento das mercadorias attingia maiores proporções. 

No Jura, na bacia do Saone, Besançon, tanto pela 
industria de relojoaria d'ella própria, como das mon- 
tanhas e aldeias que a rodeiam, tinha tomado uma 
importância tal que fornecia nove decimas dos relógios 
vendidos nos mercados francezes. 

Doubs possuia uma escola de relojoaria; e era também 
muito industrial em varias industrias. 

Morteaux constituia desde o meiado do século XIX, 
o centro de vastas officinas. Todas as aldeias que a 
rodeiam, estavam cheias de teares e de fabricas. 

Montbélliaud era também o centro natural de todo 
o districto manufactor que se estendia ao norte, no 
território d^ Belfort e do Alto Saone. Ahi se traba- 
lhava, sobretudo, em tecidos de estofos e fabricação 
de artigos de relojoaria. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 229 



Chalons, em frente da qual o Saone e o Doubs já 
estão reunidos, onde vem dar o canal do centro, via 
artificial mais importante que o curso das aguas natu- 
raes, e cujo porto está muito bem situado como escala 
de navegação interior, era um grande interposto de 
cereaes, de ferro e de vinho. Possuia um canteiro de 
construcções, e fazia grande industria e commercio de 
tannoaria e de telha. 

No departamento do Saone e Loire, Creuzot era o 
grupo de estabelecimentos industriaes mais considerá- 
vel que existia em França. Ha dois séculos, uma pobre 
cabana de carvoeiro occupava o lugar onde hoje se 
eleva a cidade. Uma fundição de canhões, uma vidra- 
ria e algumas officínas metallurgicas foram fundadas 
lá, antes de revolução de 1789; mas, ainda assim, 
Creuzot, em 1837, ainda não passava de uma aldeia. 
Depois é que engrandeceu rapidamente. Já no fim 
do século XIX, era uma das mais importantes cidades 
de França; e o seu movimento metallurgico tornou-se 
tal que não bastavam a hulha e ferro da região. Impor- 
tava ainda combustivel das outras bacias do centro da 
França e mineral da ilha de Elba e Algéria; e, em volta, 
havia muitas aldeias, convertidas rapidamente em cida- 
des industriaes como Montecenis, Montchanin, Blanzy, 
Saint-Vallier. 

Lyon, n'uma situação admirável; porque dois gran- 
des rios se reúnem lá, e duas zonas de clima, tendo 
cada qual uma producção differente, se confundem, faci- 
litando um grande mercado de trocas, tinha uma impor- 
tância capital, mesmo entre todas as cidades industriaes 
do mundo. Como as outras grandes cidades industriaes 
da França, tinha fabricas de toda a espécie. Distin- 



230 A HISTORIA ECONÓMICA 



guia-se também pela construcção de maquinas, fabri- 
cação de productos chymicos e manufactura de papeis 
pintados. Mas a sua grande gloria era a da fabrica- 
ção da seda. Essa industria, em que Lyão não tinha 
rival, veiu-lhe da Itália. 

No plató central da França, Puy-en-Val era uma 
cidade muito commercial. Antigamente possuia grande 
industria e commercio de rendas; mas isso decaiu, pela 
concorrência de outros mercados. E ultimamente a fonte 
económica mais segura era a venda de gado bovino 
para os mercados de Marselha e Lyon, e a de machos 
para os Pyrineus. 

Roquefort era um grande centro de queijaria. 

Aubin, Castres e Thoré eram muito industriaes, por 
causa das suas minas hulheiras. 

Clermont possuia muitas e importantes fabricas de 
massas e semola, fornecendo os productos d'este género 
mais apreciados de todo o mundo. Os seus doces e 
pasteis de damasco eram expedidos até para as cidades 
do Levante. 

Clermont trabalhava diversamente em metaes, ma- 
deiras e fibras textis. Fabricava os mais bellos vitraes 
da França, e fazia um grande commercio de gado e 
géneros agricolas. Pelos caminhos de ferro communi- 
cava com todas as regiões da França. 

Rion era também muito industrial e commercial. 

Perigot criava mais porcos do que todos os outros 
departamentos do centro. Utilisava as suas minas de 
ferro e as suas pedreiras inexgotaveis. Tinha diversas 
fabricas, sobretudo, para a fabricação de rails e papel; 
e tinha também grande abundância e commercio de 
trufas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 231 



Perigueux, rodeada de arvores fructeiras, era uma 
cidade muito industrial por sua fabricação de carros, 
suas fabricas metallurgicas, seus pannos, seus moinhos 
e suas preparações alimentares, que os gastronomos 
celebravam. E era também um cidade muito commer- 
cial, g-raças á sua posição no valle de Isle, no ponto 
do cruzamento de duas linhas férreas de primeira 
ordem. 

Limoges, a cidade mais importante de toda a ver- 
tente Occidental do plató granítico da França, tinha 
feito a reputação mundial pela cerâmica; e, sobretudo, 
pelos esmaltes applicados em metaes, que eram muito 
apreciados ^. No periodo de que estamos tratando, uma 
centena de estabelecimentos na cidade e nos arredores, 
com muitos milhares de operários, occupava-se uni- 
camente da cerâmica, da fabricação de massas alimen- 
tares e da pintura de porcellana, cujos productos eram 
expedidos para todas as partes do mundo. Em todo o 
caso, a hulha faltava na região, e as fabricas eram 
obrigadas a pagar muito caro o combustível, Limoges 
possuia também fiações de lã e algodão, manufactu- 
ras de estofos, fabricando especialmente teias finas e 
papel. 

Limousin era também distincta na fabricação de 
porcellana, papel e feltro. 

Montluçom tinha augmentado rapidamente, a ponto 
de se tornar a cidade principal de AUier, embora não 
seja nem fosse capital ; assim como Commentry, cidade 
hulheira, tinha augmentado egualmente. 



l Vide vol. V, pag. 135. 



232 A HISTORIA ECONÓMICA 



Vichy, por ser estação de banhos frequentada por 
banhistas de todo o mundo, tornou-se uma cidade 
cosmopolita, o que produziu um grande commercio 
interior. 

Saint Etienne, graças á sua bacia hulheira, consti- 
tuía a sétima cidade de França. Tinha uma enorme 
industria de fitas, cuja origem remontava ao século XVI. 
Outra industria muito importante era a dos instrumentos 
de guerra. Trabalhava também enormemente, e com 
grande perfeição, tanto nos objectos de estofo, como 
nos de ferro. E todos os arredores de Saint Etienne 
tinham, como teem, grandes fabricas, onde utilisavam a 
hulha dos seus poços. 

Rouanne, a cidade principal da região do Alto 
Loire, gosava também, como Saint Etienne de uma 
grande importância no comercio e na industria, ficando- 
Ihe, contudo, um pouco inferior. 

Na região de Charente e Vendea, Angouleme cons- 
tituía um grande centro económico. Os principaes esta- 
belecimentos d'essa cidade e arredores eram os de 
papellaria; e uma outra industria importante consistia na 
exploração de pedreiras, cujas rochas, muito fáceis de 
serrar, eram de uma bellesa especial. O Estado possuia 
também nos arredores de Angouleme vastas fabricas 
militares. 

Cognac era uma cidade pequena, mas a industria e 
o commercio de aguardente era enorme; e tornou-se 
o entreposto de toda a aguardente que se fabricava 
n'essa região. Mas a phyloxera destruiu parte dos seus 
vinhedos, e, por isso, nos últimos tempos do século 
passado, os proprietários aproveitavam as sementes 
importadas da AUemanha, e preparavam uma aguardente 



EDADE CONTEMPORÂNEA 233 



inferior, que misturavam áquella outra que os vinhedos 
produziam. Utilisavam também uma grande quantidade 
das aguardentes de Cognac para fabricação do vinho 
Champagne. 

Todos os vinhos que se queimavam nas Charentes^ 
tinham o nome de cognacs, e eram expedidos com esta 
designação para a Inglaterra, Allemanha, Rússia e 
outros paizes, e mesmo para a America. 

Na bacia do Loire, Nevers, capital do departa- 
mento, occupando uma situação das mais feHzes, por- 
que está situada perto da confluência do Loire e do 
Allier, em face da parte mais larga e mais fácil da 
planície onde se reúnem os dois rios, e n'um terraço 
exposto aos raios do sol, era muito notável pela sua 
industria de faiança, porcellanas e esmaltes, a qual 
tomou, desde os últimos tempos do século XIX, grande 
importância. 

Havia ali uma fabrica de canhões e projécteis, per- 
tencente ao Estado, que foi, também nos últimos tempos 
do século XIX, convertida em escola de caldeiria e 
serralheria. 

Bourge era egualmente muito industrial. 

Orleans, a capital do Loiret, constituia uma das 
principaes cidades históricas da França. Edificada na 
curva de Loire a mais adiantada para o norte, no 
logar, onde as communicações são as mais fáceis com 
a bacia central do Sena, Orleans, tornou-se, por assim 
dizer, o complemento de Paris. Occupava-se, especial- 
mente, da fabricação de lans; mas era mais importante 
por seu commercio que por suas manufacturas. Seus 
viveiros de plantas e seus jardins expediam arbustos e 
flores para toda a parte da França. 



234 A HISTORIA ECONÓMICA 



Mans e seus arredores tinham uma industria muito 
considerável na fiação e tecidos do cânhamo, fabricação 
de papel, cerâmica, trabalho do ferro, metallurgia, 
fabricação de intrumentos agricolas e de teias e outros 
estofos. 

Maine possuia também muitas fabricas de tecelagem 
e fiação de algodão, fornos de cal e grandes moinhos 
de cereaes. 

Nantes era um dos centros mais activos do commer- 
cio e industria franceza. Situada no logar do Loire onde 
a maré pôde levar navios de um calado médio, sem 
que os baixos desvios do rio os forcem a frequentes 
mudanças de velas, estava, naturalmente designada para 
ser o entreposto de trocas entre o commercio maritimo 
e o tráfico fluvial. 

Sendo o também um grande entreposto de géneros 
coloniaes para toda a bacia de Loire, Nantes recebia, 
sobretudo, assucar que as suas fabricas refinavam, e 
que, em grande parte, vendiam á Inglaterra; e, n'esta 
industria, vinha logo depois de Paris e Marselha. Possuia 
também fabricas de metallurgia, fundições de chumbo, 
ferro e cobre, fabricas de óleos e de sabão, de adubos 
chymicos, de construcções maritimas e de maquinas 
agricolas e industriaes. Tinha também uma grande 
manufactura de tabaco, e grandes fabricas de conservas 
de carne, peixe e legumes. 

Os canteiros, estabelecidos a jusante da cidade, na 
ilha de Prairie du Duc, lançavam cada anno muitos 
navios nas aguas do rio; mas esta industria havia dimi- 
nuido nos últimos tempos, 

S. Nazaire tinha um movimento de navegação muito 
considerável. Os grandes transatlânticos das Antilhas, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 235 



de que este porto era o ponto de partida, e outros 
mais vapores faziam regularmente escala por ahi. Toda- 
via, o verdadeiro centro de commercio era sempre 
Nantes. 

Brest, a cidade mais populosa da Finisterra e de 
todo o littoral francez entre o Havre e Nantes, era 
sobre o Oceano o que Toulon era sobre o Mediterrâneo 
— o grande arsenal de França. Graças ao mercado 
considerável que offerecia aos géneros da região, Brest 
constituiu uma das mais importantes enseadas da França. 
E era muito considerável o commercio que lhe provi- 
nha dos vapores transatlânticos. 

Rennes tornou-se também importante, pelo seu trá- 
fico. 

S. Maio, apesar do seu porto haver sido muito 
melhorado, bem como Saint Servan não tinham já uma 
actividade comparável áquella que tiveram outVora; 
mas, ainda assim, eram portos importantes. 

Os Maluinos armavam para a pesca da Terra Nova 
muitas dezenas de navios, e faziam grande negocio com 
as ilhas inglezas da Mancha~e com a própria Inglaterra. 
Os géneros alimentares exportados de S. Maio eram 
em grande quantidade, e o movimento dos viajantes era 
extraordinário. 

Na baixa Normandia, Alençon, que se tornou notá- 
vel na historia das artes e do luxo, pela manufactura 
das rendas de França ou rendas de Alençon, achava-se 
decaida n'essa industria, que estava em parte deslocada; 
e a principal importância provinha-lhe da venda dos 
potros. A pobreza relativa da França em cavallos dava, 
então, um valor crescente aos soberbos animaes que 
vinham de Alençon e arredores. 



236 A HISTORIA ECONÓMICA 



O porto de Caen, com o seu ante-porto de Oustra- 
lian era muito commercial. 

Honfleur, porto modesto, hoje muito decaído, tinha 
bastante commercio. 

Na bacia do Sena, temos de começar por notar 
Troyes. 

Na época da revolução franceza, a tecelagem, que 
era a especialidade de Troyes, foi quasi abandonada, 
para ser substituída pela industria de barretes e bonés, 
que tomou cada vez mais extensão, de década em 
década. Mas, já no fim do século XIX, os objectos de 
lã e de algodão é que alimentavam quasi toda a expor- 
tação de Troyes. Possuia também fabricas de quei- 
jaria; e, nos seus arrabaldes, havia muitos viveiros de 
plantas e muitos jardins, cujos productos se expediam 
para toda a França. 

Epernay constituía um dos grandes centros do com- 
mercio de vinhos de Champagne, como acontecia tam- 
bém com Chalons. 

Reims era uma cidade muito industrial. Não somente 
se occupava como Epernay e Chalons na preparação e 
expedição do vinho de Champagne, mas trabalhava, 
sobretudo, na fiação e tecellagem das lans, principal- 
mente, da flanella e tecidos de arras. E, segundo as 
fluctuações da moda, modificava as formas e qualidade 
dos seus estofos. 

Guise tinha muitas fabricas, e, entre ellas, as mais 
importantes eram de caloriferos e panellas esmaltadas. 

S. Quentin tinha também numerosas fabricas de algo- 
dões, lans, chalés e bordados, officinas de construcção e 
manufacturas de assucar de beterraba, E era centro de 
um grande districto industrial, que se liga com o norte. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 237 



Em Chantilly, trabalhavam mais de 2.000 operários 
na confecção das rendas. 

Beauvais era também muito industrial, e distinguia-se 
pela fabricação dos tapetes, equivalentes aos Gobelinos. 

Louviéres e Elbeuf eram egualmente centros muito 
industriaes, onde preponderava a fabricação dos pannos. 

Rouen, por quasi todo o século XIX, esteve muito 
ameaçada no seu commercio; não só porque apenas 
podiam subir até lá os navios de cabotag-em de um 
tirante de agua menor que três metros; mas também 
pela rivalidade do Havre, que guardava a embocadura 
do Sena, e procurava tornar-se o entreposto geral de 
toda a bacia d'esse rio. E tudo isto havia feito diminuir 
notavelmente o tráfico exterior d'essa cidade. 

Mas, nos últimos tempos d'aquelle século, Rouen fez 
aprofundar o rio, e os navios de um tirante de seis 
metros já tocaram, desde então, o porto sem difficul- 
dade. E mesmo os de tiragem superior acostavam já 
no cães de Rouen. Esta cidade era por seu commercio 
a quinta de França. 

Escusamos de fallar de Paris. Já no volume V tor- 
námos bem sahente a sua grandeza e a sua importância 
industrial e commercial, na edade moderna. E ainda ella 
augmentou assombrosamente na edade contemporânea. 
Basta dizer que em todos os géneros se tornou uma das 
prodigiosas metrópoles do mundo. 

' O Havre era o segundo porto da França, e de 
grande entrada para o café, cobre, madeira, lans, pel- 
les, trigo e hulha. Expedia, sobretudo, tecidos de lã, 
algodão e artigos de Paris. Era também muito indus- 
trial. 

E' digna também de citar-se Dieppe. 



238 A HISTORIA ECONÓMICA 



No norte da França eram bastantemente industriaes 
Amiens e Bolonha. Nesta ultima cidade, havia até uma 
fabrica de pennas d'aço, a mais importante de toda a 
França. 

Calais formava uma cidade dupla, porque era, ao 
mesmo tempo, militar e muito industrial. 

Arras perdeu a industria tradicional dos tapetes, mas 
em compensação tornou-se um grande mercado europeu, 
quanto a cereaes. 

Valenciennes perdeu egualmente a sua industria 
tradicional de rendas; mas, também em compensação, 
tinha uma fabricação importante de cambraias e cam- 
braietas. 

Lille era egualmente muito industrial em quasi todos 
os géneros, sobretudo, nas fiações do linho e do algo- 
dão, e na fabricação de teias, fitas e podões. 

Roubaix e Tourcoing eram egualmente centros indus- 
triaes importantes. 

Dunkerque tornou-se, pelas obras maritimas, o sexto 
porto de França. Tinha um commercio notável, e um 
grande deposito de guano e de nitrato de soda: géneros 
esses muito importantes para as necessidades agrícolas 
da região do norte. 

Na bacia de Mosa e Mosella, Charleville era tam- 
bém uma cidade de grande industria e commercio. 

Mirecourt era egualmente importante, especialmente, 
pela sua fabricação de cortumes, violões, órgãos e 
outros instrumentos de musica. E, nos arredores, milha- 
res de operários andavam empregados na fabricação 
das rendas. 

Finalmente, N-ancy era outro centro muito indus- 
trial. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 239 



Quanto a communicações, os caminhos de ferro 
estabeleceram uma rede que abrangia todas as terras 
principaes. As estradas tornaram-se numerosas, sobre- 
tudo, na região de agricultura e industria mais intensa, 
como era no norte e nordeste; e, depois de 1866, ten- 
deram a tornar-se principalmente afluentes das vias 
férreas. 

O melhoramento e construcção de canaes, e também 
o melhoramento dos rios navegáveis, por meio da 
compostura e melhor acondicionamento dos seus leitos 
e das eclusas, e por canaes lateraes: vias navegáveis 
essas que podiam luctar contra os caminhos de ferro 
para a conducção de objectos muito pesados e sujeitos 
a demora: tudo isso tornou a França um dos paizes da 
Europa mais bem fornecidos de communicações. 

O movimento da navegação resentiu-se natural- 
mente do progresso geral. 

Assim, os navios que, nos transportes e commercio da 
França, cooperavam com as colónias e nações estran- 
geiras, ou que serviam a grande pesca, só de 1857 a 
1869, cresceram em numero de 40 para 100. A nave- 
gação a vapor desinvolveu-se também enormemente. 
E, para auxiliar esse movimento, muitas companhias de 
navegação se formaram, por meio de capitães particu- 
lares, ou com o auxilio do Governo. 

Logo em 1851, se fundou em Paris a companhia da 
Messageries para os portos do Mediterrâneo e mar 



240 A HISTORIA ECONÓMICA 



Negro, e, apar d'ella, differentes empresas se foram 
formando, como por exemplo, a Companhia Geral 
Transatlântica, para o commercio entre Havre, America 
do Norte e Antilhas, e outras de que já falíamos a 
paginas 169 e 170 \ 



1 Noel, Histoire du Commerce du Monde vol. III. — Piolet 
& Bernard, Histoire Comtemporaine de 181S A Nos Jours. — Marsillac, 
Manuel d'Histoire Contemporaine de la Revolution A Nos Jours. — 
A. Amman & E. C. Courtan, Le Monde Au XIX Siecle. — Jules Isacc, 
Histoire Comtemporaine (1819-1920)— AVbcri Mallet-XVIII Siecle. 
Revolution, Empire et LEpoquc Contemporaine. — Ch. Perigot, //zs- 
toire du Commerce Français. — Mareei Dubois et Kergomard, Précis 
de Geographie Econqmique. — E. Reclus, Nouvelle Geographie Uni- 
verselle, La Franca. 



CAPITULO V 



A Inglaterra 



Leve esboço da historia politica da Inglaterra, n'este período. — Retar- 
damento do seu movimento económico até 1815. — Causas que 
o produziram: guerras e bloqueio continental, etc. — Em todo 
o caso, como esse bloqueio obrigou a Inglaterra a desinvolver 
os próprios recursos. — Agitações operarias, por causa dos 
effeitos produzidos pela introducção das maquinas, e espe- 
cialmente, das maquinas a vapor, na diminuição do trabalho 
manual e na baixa dos salários. — Plethora dos productos fabri- 
cados durante o bloqueio, por causa da diminuição da exporta- 
ção. —Miséria do povo que d'ahi resultou. — Luctas entre os 
livre-cambistas e proteccionistas, desde 1815 até 1846. — Bills 
liberaes de Roberto Peei, a respeito da importação e exportação, 
e progresso enorme que produziram. — Productos, agricultura, 
industria, commercio e marinha. — Centros económicos princi- 
paes. — Communicações. 



Quando começou a revolução franceza, o trono da 
Inglaterra estava occupado por Jorge III. 

Seguiu-se a guerra com a França, com todos os 
accidentes do bloqueio continental: guerra essa, em 
que a armada franceza foi destroçada por Nelson, pri- 
meiramente na batalha de Abuckir, em 1801, e depois 
na de Traf algar, em 1805. 

Volume VI 16 



242 A HISTORIA ECONÓMICA 



O rei tornou-se louco e cego, em 1810; e, então, seú 
filho, também chamado Jorge, é que exerceu a regência, 
sob a influencia do grande ministro Pitt, continuando 
com a guerra contra Napoleão. 

Vencido este, em 1814, na batalha de Waterloo, o 
congresso de Vienna (1815) consagrou a supremacia 
maritima da Inglaterra, cujas colónias se estendiam por 
todo o mundo \ 

Em 1820, morreu Jorge 111, e succedeu-lhe aquelle 
filho, sob o nome de Jorge IV (1820-1830). 

O seu ministro Lord Castlereagh, que succedera a 
Pitt, criou, por suas exaggeradas medidas fiscaes, o 
desgosto do povo; e a opposição que se levantou por 
toda a parte, o levou ao suicídio. O grande orador 
Lord Canning, que lhe succedeu, tinha ideias mais 
rasgadas. Favoreceu, assim, liberalmente as reformas 
económicas; e, apar d'isto, sustentou a emancipação dos 
catholicos, que estavam postos de lado, e reclamavam 
a sua independência politica, só podendo conseguil-a 
afinal, já no governo do Duque de Welington (1829). 

A Inglaterra interveiu, em 1827, a favor dos Gregos, 
na guerra entre elles e a Turquia, obrigando esta nação 
a assignar a paz de Andrinopla (1829), em que foi 
proclamada a independência da Grécia. 

A Jorge IV succedeu Guilherme IV (1830-1837). 

A reforma eleitoral foi o grande acontecimento 
d'este reinado ". Houve uma outra reforma importante, 
a abolição da escravatura em todas as colónias inglezas, 



1 Vol. Ill, pag. 256 e 257. 

2 Vide pag. 38. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 243 



mediante uma indemnisação, paga pelo Governo aos 
antigos proprietários. E avultaram egualmente as medi- 
das promulgadas, para diminuir o pauperismo, estabele- 
cendo-se a percepção da chamada a taxa dos pobres 
paga por cada cidadão, e organisando-se os hospicios 
chamados Workhouses, onde os indigentes eram recebi- 
dos com a obrigação do trabalho manual. 

A Guilherme IV succedeu sua sobrinha, a rainha 
Victoria (1837-1901). 

Houve, em 1847 e 1848, grande agitação na Irlanda, 
que reclamava a sua independência, tendo á frente o 
grande agitador 0'connell; e o Governo viu-se obrigado 
a reprimir essa agitação. 

Na lucta entre a Turquia e o Egypto, a Inglaterra 
interveiu juntamente com a Rússia a favor d'elle, o que 
obrigou a Turquia a assignar o tratado de Londres (1840), 
pelo qual Mehemet-Ali teve de evacuar a Syria, e assi- 
gnar também no anno seguinte (1841) o tratado de 
Bosphoro, que fechava o estreito dos Dardanellos á 
marinha militar de todas as nações. 

Estabeleceu-se á força no Kabul. Submetteu o Sind, 
reprimiu as incursões dos Silks. Por meio da guerra, 
chamada do ópio, obrigou a China, pelo tratado de 
Nankin, a ceder-lhe Hong-Kong e abrir ao commercio 
estrangeiro os portos de Cantão, Annoy, Fou-Tchou-fou, 
Ning-po e Shang-Hai (1842) \ 

Em 1850, dominou uma insurreição que se levantou 
na índia. 

Em 1854, entrou com a França na guerra da Crimeia 



1 Vide pag. 46. 



244 A HISTORIA ECONÓMICA 



contra a Rússia, com o fim de proteger o império 
ottomano, e obrigou os Russos, pela paz de Paris 
de 1856, a desistir das suas pretensões contra os 
Turcos \ 

Fez nova guerra á China, juntamente com a França, 
em 1860, para obrigal-a a manter as concessões ante- 
riores. Em 1879, assenhoreou-se do Egypto, onde o 
Icediva só ficou reinando de nome, d'ahi por diante. 

Em 1884, tentou submetter o Sudão. Mas foi infeliz 
n'essa tentativa; porque o paiz levantou-se em massa, 
sob a direcção de um chefe fanático, o Mahdi ou pro- 
pheta, que, depois de ter morto o general inglez Gordon, 
pôde repellir o exercito inglez. 

Também a Inglaterra sustentou na Africa do Sul 
uma campanha contra os Zulus ou Boers, para se 
apoderar do Transwaal, onde elles se tinham esta- 
belecido. N'essa campanha, foi morto o principe Na- 
poleão; e, afinal, os Inglezes tiveram de desistir da 
empreza (1885). 

A Inglaterra teve também guerra com o Afghanistan, 
para vingar a mortandade que estes haviam feito dos 
soldados inglezes e manter a segurança do império 
das índias. 

Finalmente, n'uma ultima guerra contra os Boers, 
em 1899, conseguiu a submissão do Transwaal, que 
obteve um Governo autónomo, sob o protectorado da 
Inglaterra, com a faculdade de conservar quasi intei- 
ramente os seus direitos politicos e civis. 



1 Vide pag. 51 e 52. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 245 



* 
* 



O movimento económico da Inglaterra, neste periodo 
até 1815, foi retardado por differentes causas. 

Em primeiro logar, as guerras com Napoleão emba- 
raçaram esse movimento. Eram necessários para a lucta 
capitães e soldados, e foi preciso também reformar e 
augmentar a marinha; e tudo isto prejudicava a agri- 
cultura, a industria e o commercio. Depois, o bloqueio 
continental, que se derivou d'essas guerras, interrom- 
pendo bruscamente as relações mercantis da Gran Bre- 
tanha com a Europa, deu um golpe rude e imprevisto 
no movimento económico dos Inglezes; e causou-lhes 
grandes embaraços, sobretudo, nos primeiros annos. 

A Inglaterra foi-se recuperando alguma coisa, pela 
extensão do seu commercio colonial, pelos esforços que 
fez para o desinvolver, e pelo contrabando que, não 
obstante aquelle bloqueio, pôde introduzir grande quan- 
tidade de mercadorias inglezas na Europa. Mas, ainda 
assim, o prejuizo foi muito grande ^. 

Também a Inglaterra, nos primeiros tempos do blo- 
queio continentinental, desinvolveu mais o seu com- 
mercio com os Estados Unidos, o que lhe proporcionou 
uma pequena compensação d'aquelle prejuizo. Mas essa 
mesma compensação foi acabando, á proporção que 
os Estados Unidos se foram approximando mais de 
França, e, com o pretexto da bandeira neutral, foram 
protegendo Napoleão. 



1 Vide capitulo I e IV. 



246 A HISTORIA ECONÓMICA 



Apar d'isso, a agitação resultante da introducção 
das maquinas e da fixação dos salários augmentou a 
desordem do paiz. 

Já mostrámos no IV volume d'esta obra que a inven- 
ção da maquina de fiar de Arkwrigt, no século XVIII, 
produziu uma grande revolução industrial na Ingla- 
terra ^; e a applicação do vapor trouxe novos metho- 
dos de industria e uma grande influencia nos salários, 
que se tornaram mais diminutos, como era natural, por 
ser menor o trabalho e mais dispensável o esforço 
manual. 

Já isto havia produzido uma situação convulsionaria 
das classes operarias, entre as que receiavam a intro- 
ducção das maquinas como prejudicando o trabalho 
manual, e as que desejavam a plena liberdade na ado- 
pção d'ellas, como garantia do progresso da industria. 

O parlamento, obrigado a conhecer d'essa diver- 
gência, optou a favor da liberdade plena. Mas, apesar 
d'isso, a agitação e discussão duravam, ainda em 1800; 
e accrescia que, tendo os salários baixado muito, os 
industriaes queixavam-se azedamente dessa baixa. 

Para dirimir semelhante contenda, o Governo publi- 
cou o chamado acto de arbitramento, pelo qual, todas 
as vezes que houvesse contestação, quanto aos salários 
de qualquer industria, a questão podia ser sujeita a um 
arbitramento. Mas também isso não deu resultado. Os 
preços arbitrados não eram mantidos, e a agitação con- 
tinuou. E, em 1813, houve até na Escócia um movimento 
revolucionário, em que tomaram parte 40 mil tecelões. 



1 Vol. IV, pag. 689. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 247 



Depois de grandes debates, prevaleceu no parla- 
mento a doutrina do laissez faire; e, porisso, o campo 
das pretensões e discussões a tal respeito ficou plena- 
mente livre, entrando os operários n'uma vida normal. 
O mau effeito, porém, d'essas agitações e exaltações 
internas fez-se resentir na industria e no commercio. 

Ora, em geral, tudo tem prós e contras; e foi tam- 
bém assim que o bloqueio obrigou a Inglaterra a desin- 
volver os seus próprios recursos, e, sequentemente, a 
sua agricultura. Porisso, começaram, então, a cultivar-se 
muitos terrenos abandonados, e que serviam somente 
para a pastagem. Introduziram-se os carneiros merinos 
e saxonios; e já no século anterior, a Inglaterra tinha 
introduzido também os carneiros da índia e os próprios 
merinos na Austrália, que só vieram a dar resultado na 
primeira e segunda década do século XIX. E, alem 
d'isto, por meio das maquinas de toda a ordem, foram-se 
desinvolvendo todas as industrias, de modo que, ao ter- 
minar o bloqueio, a Gran Bretanha tinha em si uma 
verdadeira plethora de productos fabricados. 

Em todo o caso, apesar d'estas pequenas compen- 
sações, é certo que os outros factos já mencionados 
tinham prejudicado muito a industria e exportação, e, 
portanto, o commercio da Inglaterra. 



Em 1815, estavam acabadas as guerras napoleónicas; 
e, porisso, os productos inglezes não estavam sujeitos 
ao bloqueio continental. Ao mesmo tempo, a marinha 
tinha-se desinvolvido enormemente. Os productos mi- 



248 A HISTORIA ECONOMIC;^ 



neraes haviam crescido, pela descoberta e abundância 
de jazigos hulheiros, tão commodos que afloravam á 
superficie do solo. Tinha augmentado também a des- 
coberta e exploração dos jazigos de ferro, quasi todos 
próximos da hulha; e tinha crescido egualmente a ex- 
ploração de outros mineraes. E tudo isso, junto á abun- 
dância de matérias primas que os navios inglezes iam 
buscar ás suas colónias, e ao desinvolvimento da pro- 
ducção da lan na Austrália, fazia que o commercio inte- 
rior não desse vasante á quantidade e aglomeração de 
productos fabricados: tanto mais que vinha ainda dos 
tempos anteriores a plethora de que já falíamos. 

E, acrescia também o facto do commercio estar 
embaraçado pelo systema restrictivo, que provinha ainda 
do acio da navegação de Cromwel; porque os outros 
paizes, mais desinvolvidos que no tempo desse estadista, 
usavam de represálias, que, por issso mesmo, eram mais 
efficazes. 

A própria marinha, que tinha tido por tanto tempo 
a supremacia maritima, sofria uma grande concorrência 
dos outros paizes; porque todos os pavilhões fluctuavam 
livremente nos mares. E essa concorrência era tanto 
mais sensivel quanto o commercio internacional dimi- 
nuia geralmente, pela influencia das leis aduaneiras que 
vigoravam por toda a parte. 

Todas estas circumstancias, juntas á restricção da 
livre importação dos cereaes, produziram uma profunda 
miséria, a ponto do governo inglez publicar leis que 
protegiam a pobreza, e provocar, desde 1820, uma pe- 
tição do alto commercio de Londres em favor do 
alargamento do regimen protector. E, no mesmo sen- 
tido, se levantou a opinião publica de Inglaterra, sendo 



EDADE CONTEMPORÂNEA 249 



até um membro do próprio gabinete, Huskisson, que 
se poz á frente do movimento. Cheg-ou mesmo a 
constituir-se uma liga, sob a direcção de Cobden, que 
pugnava pela livre importação dos cereaes. 

Mas a lucta entre os livres cambistas e os pro- 
teccionistas durou até 1846; e, então, Roberto Peei 
apresentou ao parlamento um projecto que visava á 
reducção gradual, durante três annos, dos direitos em 
vigor sobre os cereaes, e á sua suppressão completa, a 
partir de 1 de janeiro de 1849. E esse projecto foi 
convertido em lei, n'esse mesmo anno. 

As consequências propicias dessa lei foram enormes, 
e deram um golpe mortal sobre todo o systema econó- 
mico; de modo que, desde 1846 a 1849, continuados bills 
reduziram ou supprimiram os decretos estabelecidos 
sobre a importação de certo numero de productos desti- 
nados ao commercio interior e á transformação industrial. 

Os decretos sobre matérias primas e sobre os 
objectos de primeira necessidade e de outros artigos, 
que produziam para o fisco um rendimento insignifi- 
cante, foram abolidos; e da mesma forma o foram os 
direitos differenciaes, de que a marinha mercante não 
tinha necessidade, e que não serviam senão para levan- 
tar os preços, travar o commercio e limitar o consumo. 
Por outro lado, os artigos de grande consumo foram 
muito alHviados; e uma outra lei ordenou a retirada dos. 
drazubacks, tornados inúteis, pela entrada franca de 
matérias primas. 

Em resumo, todo o arsenal aduaneiro dos tempos 
antigos caiu por terra. 

O acto da navegação de Cromwell subsistia ainda 
como symbolo, mas tinha levado já alterações profun- 



250 A HISTORIA ECONÓMICA 



das. E foi, por fim, quasi revogado inteiramente por 
um bill de lord João Russell, que deu ao governo a 
faculdade de tomar medidas restrictivas, mas somente 
contra os Estados que recusassem á marinha ingleza a 
reciprocidade do tratamento que a legislação nova con- 
ferira a todas as nações estrangeiras. 

Então, a importação e exportação cresceram enor- 
memente; sobretudo, a importação de matérias primas, 
como algodão, lans, seda grega e cadarço, necessário 
para muitas manufacturas, e a exportação dos productos 
transformados por essas matérias primas e da hulha, cujo 
emprego estava generalisado. A exploração dos mine- 
raes, e, com ella, a metallurgia tomou grande incremento. 
Aconteceu a mesma coisa com a marinha. Augmentou o 
rendimento das alfandegas, e diminuiu a divida publica: 
dando tudo isso um grande desmentido ás doutrinas dos 
proteccionistas. 



Examinemos agora especialmente os factores econó- 
micos próprios da época de que estamos tratando. 

O solo inglez tem uma aptidão agricola pronunciada, 
graças á natureza geológica do terreno e á natureza 
.particular do clima. 

Os cereaes representavam os géneros mais cultiva- 
dos — trigo, cevada, aveia e centeio, conforme a varie- 
dade das regiões e as suas condições especiaes. 

Os campos occupados com essa cultura eram cinco 
vezes mais vastos que os de França; e mais vastos 
podiam ser ainda, se não fosse o systema da grande 



EDADE CONTEMPORÂNEA 251 



propriedade que predominava no paiz, e os grandes 
proprietários preferirem dedicar á criação de gado o 
tempo que podiam dedicar á cultura. 

Em todo o caso, os productos agricolas augmenta- 
ram muito, devido não somente ao desinvolvimento da 
agricultura, como também ao melhor e maior aprovei- 
tamento dos terrenos. 

E, com effeito, no século anterior, assim como na 
edade media, ainda existiam vastas florestas; e de tal 
modo que, por exemplo, os paizes de Kent e de Sussex 
faziam as fundições com o calor da lenha. Mas, no 
século XIX, foram-se ellas devastando e cortando, para 
darem logar á cultura, por forma que, no fim do mesmo 
século, a sua superficie total estava reduzida a 4 por 
cento. 

Se essa cultura occupasse todas as terras que eram 
susceptiveis d'ella, a Inglaterra daria largamente com 
que alimentar toda a sua população. Mas, como já dis- 
semos, a preponderância da grande propriedade obstou 
ao desinvolvimento dos campos de cereaes; porque, 
embora a cultura d'elles fosse tão pratica e tão hábil 
como podia ser, os proprietários de vastos domínios 
empregavam na pastoreação, principalmente, por toda 
a Escócia e Irlanda, milhares de hectares, que podiam 
dar excellentes ceifas. Assim, geralmente, os productos 
agricolas só chegavam para três ou quatro meses no 
anno. 

Preponderava a cevada, por causa da cerveja, que 
era tão commum na Inglaterra como o vinho na França. 
Depois, a aveia, que se applicava ao wiskey, e servia 
também para forragem ; e em seguida, o trigo. O cen- 
teio era muito pouco. 



252 A HISTORIA ECONÓMICA 



Foi sempre augmentando muito a cultura da batata, 
que tinha tanta importância para a alimentação do povo 
inglez como o pão a tinha para o povo francez. 

Não havia paiz onde a horticultura e jardinagem 
fosse mais cuidada. 

As fructas não encontravam solo muito apropriado, 
a não ser a pêra, maçã, cerejas e cidra, da qual havia 
muita producção. Porisso poucos fructos se cultivavam. 
A uva, só em estufas, e havia-as de 20 hectares. 

A cultura das plantas textis, linho e cânhamo, dimi- 
nuiu muito, pela concorrência dos outros paizes, mais 
bem dotados n'esse género. Comtudo, a Irlanda ficou 
sempre grande productora do linho. 

Nas plantas industriaes, o tabaco diminuiu muitís- 
simo, pela concorrência das colónias. Mas, em compen- 
sação, a producção do lúpulo tornou-se enorme, por 
causa do grande consumo da cerveja; e tanto mais que 
encontrava um clima apropriado, pela doçura relativa e 
pela humidade. 

Os productos tinturiaes desappareceram, em face 
dos progressos rápidos das tintas chymicas. 

Cultivava-se também muito o zimbro ou junipero, 
cuja baga serve para o gin, espécie de aguardente, que 
se fabricava em grande quantidade. 

Como já notámos, a Ilhas Britânicas estavam antiga- 
mente muito cheias de florestas. 

Quasi toda a região central do Tamisa, do Kent e 
da planicie do York ao Border foram cobertas por ellas. 
Quasi todas desappareceram por causa dos arrotea- 
mentos e devastações; mas havia ainda muitas im- 
portantes, especialmente, no Hampshire e no Gloces- 
tershire. 



y 



EDADE CONTEMPORÂNEA 253 



A Escócia e Irlanda tinham menos florestas que a 
Ingflaterra. Mas havia também por todo o paiz muitos 
parques de lords, que formavam pequenos bosques. 

* 

* * 

No reino animal, a Inglaterra esmerou-se em dar 
a cada região do seu paiz os animaes que melhor 
podiam lá prosperar, e até de modificar as raças e as 
qualidades de cada uma, conforme as necessidades da 
agricultura ou do consumo e commercio. 

Foi assim que tornou proverbiaes os cavallos de 
Lincoln e de York; os carneiros Cheviots, South-Downs, 
para a lan e os Dilley para o talho; e, no gado bovino, 
as raças Durham e Ayer. 

Augmentou muito o desinvolvimento da caça, e, 
principalmente, da pesca, devendo especialisar-se entre 
os peixes do rio a dos salmões. 

Continuou com actividade a exploração das hulhei- 
ras, exploração relativamente fácil, porque, segundo já 
dissemos, ellas afloram á superficie do solo; bem como 
a das minas de ferro, que, regra geral, ficam próxi- 
mas d'aquellas outras; e também as de estanho, uma 
das grandes riquezas da Inglaterra, que vinha já dos 
tempos antigos ^; e, ainda apar d'isso, a exploração 
do cobre, chumbo e de outros mineraes: o que tudo 
proporcionava aos Inglezes uma grande quantidade de 
productos industriaes metallurgicos. 



1 Vide vol. IV, pag. 663. 



254 A HISTORIA ECONÓMICA 



* 
* * 



A abundância da hulha e dos outros productos 
mineraes, alhada á introducção das maquinas e ao 
génio industrial do povo inglez, trouxe um progresso 
industrial enormissimo. 

Sobretudo, a exploração e desinvolvimento das 
industrias metallurgicas augmentou de tal modo que o 
principal centro — -Birmigham só tinha como rival na 
Europa os centros metallurgicos da Westephalia. E, no 
fim do século, esse ramo occupava milhões de operá- 
rios, e exigia a força motriz de dez milhões de cavallos. 

As industrias de productos chymicos, a cerâmica, 
a vidraria, as da cerveja e álcool, as industrias textis e 
as derivadas da madeira, e pôde até dizer-se que a 
totalidade das demais industrias acompanharam o desin- 
volvimento geral, e por quasi todas as terras da Gran 
Bretanha, como veremos mais detidamente, quando tra- 
tarmos dos centros económicos. 



O commercio desinvolveu-se egualmente muito. 

O movimento exterior era favorecido, não só pelos 
muitos tratados commerciaes que a Inglaterra celebrou 
com os paizes estrangeiros, sobretudo, depois de 1860, 
como também por differentes outras condições que 
vamos expor. 



EDA DE CONTEMPORÂNEA 255 



Assim, a Inglaterra, juntamente com as suas colónias, 
formava o mais vasto dominio que tem existido \ onde 
havia os productos mais variados, tanto agricolas como 
industriaes. Compartilhava de todas as zonas climato- 
lógicas de um e outro hemisfério. Tinha todos os cami- 
nhos e todos os portos do tráfico universal. Havia 
tomado a dianteira na industria, e de modo que podia 
produzir muitissimo e, com mais barateza que, geral- 
mente, os outros paizes. Dispunha de meios de trans- 
porte, superiores aos dos seus rivaes. E estava situada 
no centro das nações continentaes, e próxima dos povos 
mais ricos e mais adiantados e da melhor clientella 
productora e consumidora, mas que não podiam com- 
petir em meios de transporte com ella. 

A marinha mercante desinvolveu-se também muitis- 
simo, a partir dos tratados de 1860, a ponto de que, 
em 1880, já os navios a vapor tinham duplicado e os 
steamers quadruplicado. E a frota commercial, dividida 
n'uma cinquentena de grandes companhias, cada uma 
das quaes possuia dez a cem navios e n'um grande 
numero de pequenos armadores, avassalava o mundo 
inteiro. 

Tudo isto deu aos Inglezes a hegemonia commercial 
no século XIX. 

Porisso, os productos inglezes forneciam matérias 
primas mesmo á França, Bélgica, e á própria Allema- 
nha, que iam prover-se d'ellas, especialmente, nas 
docas habilmente fornecidas de Londres e Liverpool. 



1 Vol. III, pag. 256. 



256 A HISTORIA ECONÓMICA 



Acresceu ainda que differentes outros paizes, sem 
terem as condições que a Inglaterra tinha, quando 
estabeleceu o livre-cambio, trataram de imital-a n'essa 
parte; e, até por esse motivo, foram muito prejudicados 
pela concorrência dos Inglezes. E, quando quizeram 
remediar o mal, restringindo a importação, já era tarde; 
porque a influencia commercial e industrial da Ingla- 
terra tinha tomado a dianteira, de forma que já não 
puderam banil-a inteiramente. E' certo que alguma coisa 
diminuiu, então, o commercio inglez; mas essa dimi- 
nuição pouco affectou a Inglaterra, tal era a expansão 
que o seu tráfico havia tomado. 

Isto, quanto ao commercio externo. 

Pelo que respeita ao commercio interior, esse, esti- 
mulado por uma grande facilidade de comunicações ^ e 
por uma considerável cabotagem, apar do desinvolvi- 
mento do commercio exterior, tornou-se maior do que 
em nenhum outro paiz do mundo. 

* 

* * 

A Inglaterra exportava muito mais do que impor- 
tava. A exportação consistia, sobretudo, em productos 
manufacturados e matérias primas. 

Vinham em primeito logar os tecidos e fiados, e 
depois a hulha e maquinas. Os objectos de alimentação, 



1 Sobre communicações, alem do que exporemos no fim d'este 
capitulo, vide vol. VI, pag. 714 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 257 



porém, contavam-se n'um grau minimo. E, n'essa parte, a 
França e os Estados Unidos é que, principalmente, 
contribuiam para a alimentação da população britânica. 

Da índia vinham trigo e outros cereaes, arroz, chá^ 
café, algodão, juta e seda. 

A França mandava alem dos géneros alimentares,, 
como cereaes, farinhas, gado, manteiga, ovos, fructas, 
vinhos, também alguns productos industriaes de certas 
industrias, que em França estavam mais desinvolvidas 
que na Inglaterra, por exemplo, os da seda. Em troca o 
Reino Unido mandava-lhe hulha, metais brutos, maqui- 
nas, navios, tecidos, louças, vidros; e, em grau menor^ 
objectos industriaes, e até matérias primas, como linho» 
lan e cânhamo, apesar de não serem de origem bri- 
tânica. 

A Allemanha, não obstante ser também rica de 
hulha e ser muito industrial, entretinha com a Inglaterra 
relações muito activas, mas vendia mais do que com- 
prava. Expedia gados, géneros agricolas, lans, madeira; 
e comprava nos mercados inglezes algodão, lan, seda, 
chá, café, estofos, maquinas, navios, etc. A' proporção, 
porém, que, pelo decorrer do século XIX, a Allemanha 
se foi desinvolvendo industrialmente e a sua marinha 
augmentando, as trocas entre os dois paizes foram 
diminuindo. 

A Rússia mandava para a Inglaterra cereaes, madei- 
ras, obras textis, e recebia em menor quantidade pro- 
ductos manufacturados. 

O movimento com a Dinamarca era muito grande. 

Na Ásia, a China era o grande mercado de chá 
para os Inglezes. E o commercio com a índia era 
enorme. 

Volume VI 17 



258 A HISTORIA ECONÓMICA 



A Inglaterra fazia também grande negocio com a 
Africa, sobretudo, com o Egypto, Cabo, Algéria e 
Guiné, vendendo abundantemente os seus productos 
em troca dos africanos. 

Na America, depois dos Estados Unidos, eram as 
colónias inglezas das Antilhas, o Chili, a republica 
Argentina, e, principalmente, o Brazil, onde a Inglaterra 
fazia mais negocio. 

Emfim, o grupo oceânico da Austrália e Nova 
Zelândia era de um valor inapreciável para o tráfico 
da metrópole. Depois da índia, constituia elle o maior 
commercio de todo o império colonial. 

Com Portugal, o commercio da Inglaterra era tam- 
bém extraordinário, como veremos detalhadamente no 
capitulo XXIII. Pôde dizer-se que, pelo menos, até o 
primeiro quartel e meio do século XIX, Portugal não 
passou de uma colónia económica dos Inglezes. 



* 
* 



Mal se podem especializar os centros industriaes e 
commerciaes mais importantes da Inglaterra, mesmo no 
século XIX; porque ella já constituia então um vasto 
laboratório industrial e commercial, que abarcava todos 
os seus domínios. Mas, ainda assim, apontaremos 
alguns que sobrelevavam aos demais ^ 



1 Quanto aos centros principaes na edade moderna, veja-se o 
vol. IV, pag^. 704 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 259 



Começando pelo paiz de Galles e Monmouth, a 
cidade e porto de Caernarvon era muito importante 
como porto de pesca e cabotagem; e tanto que, em 
1877, foi frequentado por 2.844 navios, na somma de 
280.685 toneladas; e o seu movimento cresceu ainda 
mais até o fim do século. Era também muito rica na 
exploração das pedreiras. 

Swansea era, como ainda hoje é, o centro do mundo 
para o tratamento do cobre. Os navios levavam para as 
suas fundições, não somente o metal do Cornwall e de 
Anglesey, mas também o de Cuba, Chili, Bolivia, Lago 
Superior e Austrália do Sul. Recebia também nas suas 
fabricas outros mineraes, para os purificar e transformar 
em ligas ou fundir em barras. 

Ao oriente de Swansea, Cardiff, o decimo ou decimo 
segundo porto de Inglaterra na importância, e porto car- 
bonifero por excellencia, era também muito notável. 

Merthyr-Tydfil, rival de Swansea pela população, 
cresceu espantosamente, devido á sua industria mineira. 

Na peninsula cómica, Falmouth, cujo porto pôde 
abrigar frotas inteiras, tinha um grande commercio. 

Towey, que tem uma enseada accessivel a todos os 
navios, e com todos os ventos, apesar da sua deca- 
dência, com relação ao tempo antigo, era ainda muito 
frequentado. 

Plimouth reunida já no século XIX a Devenport e a 
Stonehouse, tornou-se a cidade mais populosa de toda 
a costa meridional da Inglaterra; e, apesar de ser uma 
cidade essencialmente militar, tinha grande commercio 
e industria. 

Na bacia do Severn e golfo de Bristol, havia como 
centros importantes Dudley e Worcester. 



260 A HISTORIA ECONÓMICA 



Bristol, que, nos tempos anteriores, só cedia á capi- 
tal, foi destronada d'essa primazia por Liverpool; mas 
era ainda um dos portos mais frequentados da Ingla- 
terra, e estava dotada de um grande movimento indus- 
trial. 

Na vertente da Mancha, Southampton tinha grande 
industria e commercio, bem como Plimouth, apesar de 
ser uma praça de guerra. 

Na bacia do Tamisa, Londres, o grande empório do 
mundo, não era relativamente a primeira cidade indus- 
trial da Inglaterra; porque, n'esse ponto, não era egual 
a Manchester, Birmingham, Sheffield, Leeds e Glasgow; 
mas era-o, absolutamente fallando, assim como era 
também a primeira, pelas transacções e movimento 
maritimo \ 

Dover era outro centro muito importante. 

Na bacia do Wash, Oxford e Cambridge eram 
notáveis, sobretudo, pelas suas universidades. 

Na bacia de Humber, a cidade de Birmingham 
occupava já um dos logares mais proeminentes no 
movimento industrial e commercial do mundo. A sua 
actividade não estava concentrada somente nas fabri- 
cas, onde trabalhavam milhares de operários; compre- 
hendia também uma multidão de pequenas officinas. 
A sua primazia consistia nas obras metallurgicas. Fabri- 
cavam-se n'essa cidade objectos de metal de toda a 
ordem, canhões, armas e maquinas a vapor, ferramen- 
tas, jóias, bronzes preciosos, Ídolos chinezes, etc. Era 



Vide vol. IV, pag. 704. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 261 



também em Birmingham que se encontravam as maiores 
fabricas do mundo para a electrolypia dos metaes e 
para a fabricação das pennas metallicas. 

Ao norte do condado de Stafford, havia um grupo 
de cidades industriaes importantes e, entre ellas, Stoke- 
Upon-Trent, Wedgwood e Hinton, que constituiam 
também uma região de fabricação de louças; e succe- 
diam-se ainda outras cidades muito industriaes, predo- 
minando entre ellas todas a de Stafford. 

A jusante da confluência do Trent e do Tamisa, 
eleva-se a grande cidade do Burton-Upon-Trent, que 
era outro centro industrial, muito importante, sobretudo, 
para a cerveja. 

Leicester, outra cidade muito industrial, tornou-se o 
centro principal para a fabricação de carapuças. 

Sheffield, admiravelmente situada na confluência de 
cinco rios, era dos grandes empórios da industria 
ingleza. A sua população, quasi que centuplicou entre 
1801 e 1871. Já nem o ferro das suas minas lhe bas- 
tava; e, porisso, ella mandava buscar ainda o da Scan- 
dinavia. 

Leeds, que, já no século XVIII, era a quinta cidade 
<ia Inglaterra, tornou-se a primeira do mundo, como 
centro da fabricação dos pannos e teias. Era também 
muito importante na fabricação das maquinas. 

Halifax que, depois de ter sido superior a Leeds, 
ousava apenas dizer-se rival d'ella, tinha grande fabri- 
cação de pannos, sarjas, tapetes e algodão. 

Brighouse, Cleckheaton e Elland, já no circulo de 
attracção de Manchester, eram egualmente muito impor- 
tantes. 

Bradford não passava de uma aldeia, no principio do 



262 A HISTORIA ECONÓMICA 



século XIX, e foi somente, em 1822, que lá se estabele- 
ceu a primeira fabrica a vapor. Mas, já nos últimos tem- 
pos do mesmo século, tinha um grupo de fabricas quasi 
sem rival para a fabricação de pannos e de meias de 
lan; e, nos arredores achava-se Saltaire, fabrica modelo, 
onde trabalhavam ás vezes milhares de operários, sobre- 
tudo, para a fabricação de alpaca. Bradford estava 
cercada de aldeias, também muito industriaes. 

Hull goza na costa oriental da Inglaterra de uma 
situação análoga á de Liverpool na costa occidental. 
Tem até maiores vantagens; porque, pelo estuário do 
Humber, encontra-se na saida de muitos rios navegá- 
veis, que a põem em communicação fácil com toda a 
região central da Inglaterra. Mas, se está mais bem 
coUocada que Liverpool para o commercio fluvial e 
de cabotagem, é menos favorecida para o tráfico do 
mundo, pois que olha somente para a Allemanha, 
Noruega e paizes do Báltico; emquanto que Liverpool 
olha não só para a Irlanda, mas também para a Africa 
e Novo Mundo. 

Apesar d'isso, porém, se o movimento industrial e 
commercial do Hull não chegava ao de Liverpool, era 
também extraordinário. 

Na bacia do Mersey e Ribble, condados de Cherter 
e Lancaster, logo na parte superior do Mersey, encon- 
trava-se a cidade também do mesmo nome — Mersey, 
grande centro económico. 

Midlesborough, apesar de ser cidade muito mo- 
derna, já no fim do século, tinha um grande movimento 
económico. 

Manchester, ainda no século XVIII, se occupava quasi 
exclusivamente do trabalho sobre lans. Pelos fins do mes- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 263 



mo século, ajuntou-Ihe os trabalhos sobre algodões; 
e, no século XIX, tornou-se, sobretudo, a metrópole 
d'estas mercadorias. Centenas de fabricas, sem contar 
officinas de menor importância, apertavam -se tanto 
na cidade como nos arredores para a fiação e teci- 
dos de algodão, fabricação dos pannos e sedas, bran- 
queamento, fundições, moagem, etc. E, ao norte de 
Manchester, havia também uma plêiade de cidades ma- 
nufactoras. 

Liverpool é uma cidade relativamente moderna, mas 
que prosperou rapidamente. Uma das razões d'essa pros- 
peridade consiste em ella occupar exactamente o centro 
geográfico das duas ilhas irmãs — a Inglaterra, propria- 
mente dita, e a Irlanda, e estar situada á borda de 
bacias hulheiras que se tornaram o centro das manu- 
facturas do mundo inteiro. E esta situação central 
offerecia uma vantagem para o commercio estrangeiro, 
que escolhera Liverpool como entreposto; porque todas 
as mercadorias podiam distribuir-se facilmente d'ahi por 
toda a região. O seu porto pôde conter milhares de 
navios, e disputava a Londres a primacia commercial do 
mundo. 

No condado de Lancaster, a cidade mais notável da 
região era Barrow-in-Furness. 

Situada perto da ponta meridional da peninsula 
cumbrienna, o seu augmento parecia prodigioso. Em 
1866, o logar onde hoje está essa cidade, só tinha 
uma casa, e no porto só fluctuava um barco de pes- 
cador. Dez annos depois, Barrow era já uma aldeia im- 
portante; em 1874, já tinha mais de quarenta mil habi- 
tantes ; e continuou a crescer, por forma a constituir no 
dos maiores centros económicos da Inglaterra. 



264 A HISTORIA ECONÓMICA 



Sunderland, na embocadura do Wear, era menos 
considerável na exportação dos carvões da região. Mas 
as vastas docas que costeiam o mar, estavam cheias de 
navios, assim como o próprio rio, em todo o seu curso 
inferior. Depois de Londres e Liverpool e dos portos 
do Tyne e do Wear, possuía mais navios que outra 
qualquer cidade do Reino Unido. 

New Castle era uma das grandes aglomerações de 
casas e fabricas que havia na Inglaterra. O movimento 
do seu porto só era inferior ao de Londres e Liverpool ; 
e, pela somma da sua tonelagem, tinha mais importân- 
cia que Hamburgo, Marselha e Anvers. 

A cidade de Glasgow, na Escócia meridional, tor- 
nou-se a mais populosa da Gran Bretanha depois de 
Londres, apesar de que, em 1801, não tinha ainda mais 
que oitenta mil habitantes. Era, sobretudo, uma cidade 
de industria, com extrema variedade de trabalhos. 
Occupava-se da fiação de algodão como Manchester, 
dos pannos como Leed e Halifax, da juta como Dun- 
dee, dos navios como Middelsborough, e da metallurgia, 
dos vidros e das louças como Birminghan e New Cas- 
tle. E, em todos estes trabalhos, era uma das primei- 
ras. O seu commercio estava em relação com a sua 
industria. E acrescia, para augmentar a sua importân- 
cia, que, nos seus arredores, havia muitas cidades tam- 
bém manufactoras. 

Edimburgo não era cidade industrial, nem tinha 
preponderância commercial, senão pela producção litte- 
raria e scientifica. 

Na Escossia septentrional, que era muito pouco 
habitada, Dundee tornou-se a cidade mais populosa 
d'essa região, e a primeira para a fabricação das teias 



EDADE CONTEMPORÂNEA 265 



e da juta e cânhamo de Bengala, não somente na 
Escossia, mas em toda a Gran-Bretanha. Tinha gran- 
des canteiros de construcção e muitas fabricas de curti- 
menta. Fabricava muita marmellada de laranja, e entre- 
gava-se intensamente á grande pesca. 

Perth e Aberdeen tinham também muito commercio 
e industria. 

Na Irlanda, Dublin distinguia-se pela fabricação das 
popelinas e cerveja. Possuía algumas das maiores cer- 
vejarias do Reino Unido. Nos últimos annos, tomou uma 
importância extraordinária, como porto de provisão 
para a Inglaterra, propriamente dita, para onde enviava 
gado grosso, porcos e géneros agrícolas, em troca de 
mercadorias para toda a Irlanda. 

Belfast era a cidade irlandeza que havia crescido 
mais rapidamente. Em 1821, só tinha 27.000 habitantes, 
e, no fim do século, a sua população tinha quintupli- 
cado. E o movimento da navegação crescera ainda mais 
rapidamente. A industria de linho, muito antiga no paiz, 
é que principalmente fez a prosperidade de Belfast, e, 
entre as numerosas fabricas d'essa cidade, as mais 
prosperas eram, realmente, aquellas onde as teias são 
tecidas. 

Gallwai era muito commerciante. Limerik, outrora 
a terceira cidade do reino irlandez, foi perdendo muito 
da sua importância; mas, ainda assim, no fim d'este 
periodo, as industrias locaes abarcavam a navega- 
ção, a pesca, a salga e a fiação de linho, rendas e 
luvas. 

Cork, era, no fim do século, também um centro 
muito importante, e a terceira cidade da Irlanda; e tinha 
por especialidade a fabricação das luvas. 



266 A HISTORIA ECONÓMICA 



* 

* 



No periodo de que estamos tratando, nenhum Es- 
tado, excepto a Bélgica, augmentou mais as communi- 
cações do que a Inglaterra, por meio de bellas estradas 
em todo o interior, e por todas as saidas da cabotagem; 
e, alem d'isso, recompoz e entreteve com todo o cuidado 
os caminhos, até então intransitáveis. 

No fim do século, o Reino Unido contava quasi 
25.000 kilometros de caminhos vícinaes e de longas e 
boas estradas. 

O desinvolvimento das vias férreas foi também 
enorme. 

Segundo já vimos \ os primeiros caminhos de ferro 
na Inglaterra datam de 1825, em que foi construída a 
primeira linha de Manchester a Liverpool; e, no fim 
do século, o desinvolvimento das vias férreas excedia 
32.000 kilometros. 

A sua repartição é que era das mais deseguaes. 
Assim, no centro e oeste de Inglaterra, propriamente 
dita, havia-se ramificado mais a rede. Lancashire e 
Sttafford constituíam as regiões mais bem servidas. Em 
volta de Liverpool e Manchester, a com})licação de vias 
era enorme. Porém, a Escossia e Irlanda estavam muito 
menos favorecidas. 



1 Vide pag. no. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 267 



Os rios e canaes foram também consideravelmente 
melhorados. E, apar de tudo isto, as companhias marí- 
timas de que já falíamos ^, communicavam a Inglaterra 
com todas as regiões do mundo ^. 



1 Vide pag. 169. 

2 W. Cunningham, The Groath of English Industry and Com- 
merce, vol, II — Ianies;'íE. Thorol Rogers, The Industrial and Com- 
mercial History of England, vol. II — Noel, obr. cit. — M. Z. Lanier, 
L'Europe. — Mareei Dubois e Kergomard, ob. cit. — E. Reclus, Nou- 
velle Géographie Universelle, Europe du Nord-Ouest. — Henri Cons, 
Précis d'Histoire du Commerce. — Victor Delville, Manuel de Géo- 
graphie Commerciale. — Marsillac, obr. cit. 



CAPITULO VI 
A Allemanha 

Esboço politico da Allemanha no século XIX. — E, quanto ao seu 
movimento económico, de que modo o bloqueio continental a 
favoreceu, ao contrario do que succedeu com outros paizes. — 
Como, depois da queda de Napoleão, a Allemanha soffreu nova 
crise, e como esta crise se ag-gravou com a legislação proteccio- 
nista de outros povos. — Como a Allemanha continha em si 
elementos poderosos para a lucta económica. — Estabelecimento 
do Zolverein e seus principaes eff eitos. — Como a guerra com 
a Áustria, em 1866, concorreu também para o adiantamento 
económico da Allemanha. — Seu progresso extraordinário depois 
da guerra com a França de 1870 e 1871. — Productos. — Agri- 
cultura. — Industria e seu grande desinvolvimento. — Adianta- 
tamento enorme do commercio. — Centros económicos principaes. 
— Communicações. 

Napoleão supprimiu o Santo Império Germânico, e 
instituiu a Confederação do Rheno, sob o seu protecto- 
rado. Depois da queda d'elle (1815), o congresso de 
Vienna substituiu áquella Confederação do Rheno a 
Confederação Germânica, sob a presidência austríaca. 
Em 1848, após uma revolução que rebentou na Áustria, 
a Confederação Germânica foi dissolvida; e o parla- 
mento que a substituiu, composto de representantes de 
todos os Estados confederados, offereceu a coroa impe- 



270 A HISTORIA ECONÓMICA 



rial ao rei da Prússia, Frederico Guilherme IV, que a 
recusou, tratando apenas de criar uma união parcial 
restricta aos Estados septentrionaes. 

A Áustria fez baldar as combinações prussianas, e 
restabeleceu a Confederação Germânica, em 1850, pro- 
vocando com isso uma rivalidade entre os dois Estados 
que arrastou a Áustria á guerra de 1866, onde foi ven- 
cida pela Prússia, na batalha de Sadowa. A Confedera- 
ção Germânica foi, então, dissolvida; e a AUemanha 
lhe escapou, para se sujeitar ao jugo da Prússia, onde 
reinava Guilherme 1, que, pela guerra com a França, 
em 1870, acabou de firmar a supremacia allemã, e foi 
proclamado imperador hereditário da AUemanha. Suc- 
cedeu-lhe o filho Frederico 111 (1888); e a este o filho 
Guilherme 11, que se esmerou porfiadamente em fazer 
também da AUemanha uma potencia colonial, a desin- 
volvel-a por toda a forma sob o aspecto económico, e 
a tornal-a o primeiro Estado militar do mundo. 



A AUemanha até 1815, em que terminaram as guer- 
ras napoleónicas e a agitação da Europa, soffreu, como 
em geral toda esta, os desastres dessas guerras. Mas o 
bloqueio continental, ao contrario do que succedeu nos 
outros paizes, em vez de prejudicar o commercio e 
industria dos Allemães, favoreceu-os. 

E, na verdade, antes dessa época, a industria allemã, 
tão florescente na edade media e nos primeiros séculos 



EDADE CONTEMPORÂNEA 271 



da edade moderna, não tinha cessado de defcair, esma- 
gada pela concorrência da Inglaterra, que alem de estar 
senhora das manufacturas de Portugal \ graças ás con- 
cessões commerciaes que lhe tinha imposto, exercia 
uma preponderância incontestada em quasi todos os 
outros paizes da Europa. 

A França e a Hespanha, pela sua situação geográ- 
fica, pelas suas colónias e poderosa marinha mercante, 
haviam podido escapar á pressão ingleza. Mas a Alle- 
manha, paralisada em todas as suas acções, pela divisão 
do território e pelo numero considerável de pequenos 
Estados independentes, devia soffrer, como soffreu, a 
concorrência ruinosa das manufacturas inglezas, até o 
dia em que o bloqueio, excluindo dos fnercados conti- 
nentaes os productos da Gran Bretanha, deu momenta- 
neamente aos Allemães a vida e a prosperidade que 
vieram compensar, economicamente fallando, os desas- 
tres da guerra. 

A queda de Napoleão foi para a AUemanha o signal 
de uma nova crise, e tanto mais que a Inglaterra, por 
meio das suas maquinas, tinha alargado e aperfeiçoado 
os seus productos, e conseguido uma barateza maior; 
e até fabricava os algodões de forma que substituíam 
bem as teias de linho estrangeiras, dispensando e pre- 
judicando assim os linhos da Silezia. E o mesmo acon- 
tecia com os pannos da Baviera, que eram prejudicados 
não só pela concorrência similar dos Inglezes, mas 
também pela dos Belgas. 



1 Vide o capitulo XXIII sobre Portugal. 



272 A HISTORIA ECONÓMICA 



Demais a mais, uma nova legfislação restrictiva na 
França e na Bélgica veiu aggravar a situação. E a 
própria Áustria, com o fim de defender as respectivas 
industrias, prohibiu nas suas provincias de Veneza e 
Lombardia a importação dos productos estrangeiros, e, 
especialmente, das teias da Suabia, 

Mas, apesar da situação dolorosa a que taes cir- 
cunstancias sujeitavam a AUemanha, ella continha em 
si elementos importantes, para vencer o perigo. Na 
fabricação dos tecidos e dos cabedaes, nas obras de 
aço, cobre, madeira e artefactos de palha, os seus 
artistas haviam guardado a antiga reputação. As teias 
de Lusacio, de Brunswick, os algodões, pannos, rendas, 
porcellanas, faianças, vidrarias e aços da Saxonia, as 
refinações de Hamburgo, as obras de pau de Nurem- 
berg, o commercio de Leipzig, e o movimento econó- 
mico de Munich, Stuttgard, Gotha, Weimar, Carlruhe, 
lena, Dresde, Gcetinger e Hanover conservavam-lhe 
uma importância especial. E o commercio de Ham- 
burgo rivalisava ainda com o das maiores praças da 
Europa. 

Como diz Noel, só faltava a todos estes elementos 
alma enérgica, para os tornar fecundos e dar-lhes todo 
o valor. Foi essa a obra do Zolverein, cuja iniciativa 
foi tomada pela Prússia. 

Consistiu elle n'uma grande associação económica 
de toda a AUemanha, em que foram abolidas as alfan- 
degas interiores, uniformisados os direitos aduaneiros 
n'um systema amplamente liberal, reunindo como n um 
feixe todas as actividades da pátria allemã. E, quanto 
aos paizes estrangeiros, havia egualmente um regimen 
aduaneiro, fundado no principio de reciprocidade ou 



EDADE tONTEMPORANEA 273 



retorsão ^, até que esses paizes tivessem adoptado tam- 
bém o principio da liberdade do commercio. 

Ainda assim, a empresa levou tempo a concluir; 
porque, primeiramente, a Allemanha estava dividida em 
differentes associações, e depois é que, devido aos 
esforços da Prússia e ao talento eminente de Frederico 
List, que organisou a respectiva constituição do Zolve- 
rein, se foi alargando a área d'esta collectividade. 

A queda dos Bourbons e a revolução de julho, 
espalhando por toda a parte uma nova fermentação 
liberal, como já vimos ^, veiu ajudar os desejos da 
Prússia, porque o movimento iíisurreccional que essa 
queda tinha produzido além do Rheno, havia concorrido 
para apertar o laço federal entre as differentes cortes 
allemãs, e incitado os governantes a darem aos res- 
pectivos povos penhores de solicitude, favorecendo-lhes 
também os respectivos interesses, e libertando as tran- 
sacções dos embaraços que até então detinham o seu 
desinvolvimento. 

Demais a mais, todas as associações criadas depois 
de 1819, estando repartidas em zonas distinctas parali- 
savam as forças que podiam resultar da cohesão. Os 
resultados com que ellas tinham contado, não cor- 
respondiam á espectativa, e o contrabando, favorecido 
por essa mesma fraqueza de acção, coartava muito as 
vantagens financeiras e commerciaes que se tiveram 
em vista. 



1 Sobre retorsão, Adriano Anthero, O Direito Internacional, 
pagf. 350 e seguintes. 

"^ Vide capitulo III. 

Volume VI 18 



274 A HISTORIA ECONÓMICA 



Por isto, essas pequenas associações desejavam sair 
do seu isolamento, e esse espirito publico actuou eg-ual- 
mente nos governantes. E foi assim que, em 1 de 
janeiro de 1834, depois de quinze annos de esforços e 
experiências, estava fundado e organizado o Zolverein 
e todas as associações fundidas n'elle. Mesmo alguns 
pequenos Estados que estavam na espectativa, adheri- 
ram depois promptamente. A própria Áustria adheriu 
também em 1853, devido principalmente aos esforços 
do seu ministro Brusk. 

O primeiro effeito de Zolverein, foi agrupar em 
volta da Prússia, que devia mais tarde tirar d'isso um 
proveito considerável, uma população de 33 milhões de 
almas, vivendo sob a mesma legislação commercial e 
submettida á mesma regra, no respeitante ás relações 
económicas. 

O segundo effeito foi um augmento rápido e muito 
importante das trocas da Allemanha com as outras 
nações, coincidindo isso com um progresso accen- 
tuado em todos os ramos da industria manufactora 
do paiz. 

A guerra com a Áustria, em 1866, e a derrota dos 
Austriacos, d'onde resultou a preponderância da Prús- 
sia sobre os Estados da antiga Confederação Ger- 
mânica, concorreu muito para o progresso económico 
da Allemanha, pela iniciativa da própria Prússia. Mas, 
desde 1870, após a guerra com a França, é que o 
progresso dos AUemães foi enorme até o fim do 
século XIX. 

A victoria allemã arrancou á França duas das suas 
melhores provincias, a Alsacia e a Lorena, onde abun- 
davam grandes jazigos de carvão e de outras matérias 



EDADE CONTEMPORÂNEA 275 



primas; e fez do rei da Prússia o imperador da Allema- 
nha. Os príncipes do sul, entraram, então, na confede- 
ração do império; e a Allemanha saiu de tudo isso 
poderosa e preponderante na Europa. E, embora o tra- 
tado de Francfort, que acabou aquella guerra, estabele- 
cesse theoricamente um regimen de paz, porque na pratica 
era o regimen de paz armada, a Europa viveu, desde 1871, 
na ameaça de uma nova lucta; e a Allemanha, assim 
unida, poderosa e preponderante, cuidou de se engran- 
decer também economicamente, o que pôde conseguir 
de uma forma quasi maravilhosa. O próprio Bismarck, 
nomeado ministro do commercio, proclamava que, de- 
pois das victorias militares, queria offertar ao paiz as 
victorias económicas. E, realmente, a partir de 1871, 
o novo império cobriu-se de officinas, fabricas e ma- 
nufacturas de toda a ordem. 



Especializando agora os factores económicos, e 
começando pela população, o império allemão, desde 
1872 até o fim do século, augmentou n'ella 12.300:000, 
isto é, quasi 30 por cento, de modo que, em 1899, 
essa população era de 55 milhões. E, sobretudo, a 
população operaria cresceu na proporção de 66 por 
cento \ 



^ Georg-es Blondel, LEssor Industriei et Commerciale dii 
Peuple Allemand. 



276 A HISTORIA ECONÓMICA 



Nos últimos vinte annos, duas das cidades allemãs 
— Manhein e Dusseldorf, augmentaram em população 
100 por cento; oito augmentaram de 80 a 100 por cento; 
quatorze, de 58 a 80 por cento; quatro, de 28 a 50 por 
cento. E, no quadrilátero de 65 kilometros, entre Munich, 
Gladbach, Dortemunde, Duisburg e Colónia, a população 
cresceu 80 por cento. Essen, em cinco annos, augmen- 
tou 32 mil almas. Dusseldorf, em vinte annos, mais que 
dobrou. 



Já no volume V, pag. 199 e seguintes, dissemos 
quaes os productos próprios do solo allemão. Ora os 
productos agrícolas e, portanto, a agricultura, dimi- 
nuíram em proveito das industrias propriamente ditas, 
que chamavam a si a força dos trabalhadores. Apenas 
a beterraba, por causa do assucar, augmentou enorme- 
mente. Aconteceu a mesma coisa com a batata, que 
era a compensação da pobreza da AUemanha em trigo. 
E também a producção do cânhamo e linho, outrora 
tão copiosa, era ainda assaz activa para entreter as 
respectivas industrias e fornecer também um pequeno 
saldo á exportação. 

As florestas estavam muito devastadas no fim do 
século, apesar de ser ainda grande a sua superfície. 

A criação do gado era muito considerável; porque 
a AUemanha não podendo offerecer aos cereaes vastas 
superfícies de cultura, em compensação, dedicava a essa 
criação animal a parte do solo rebelde áquelle outro 
emprego. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 277 



Quanto ás industrias mineraes, a exploração mineira, 
só nas quatro bacias principaes, Ruhr, Alta Silezia, 
Saxe e Mosella, n'uma superfície de 3.600 milhas qua- 
dradas, cheg-ou a dar uma producção annual de 710 
milhões de marcos. 

A producção do zinco, do cobre e chumbo augmen- 
tou egualmente; e, com tudo isto, a industria mineira, 
sobretudo, ao pé dos jazigos hulheiros, deu ás maqui- 
nas, locomotivas e material das vias férreas de toda a 
espécie, uma impulsão tão considerável que, no fim do 
século, havia muitas maquinas que somente se podiam 
procurar na Allemanha. 

Merece especial menção a casa Krupp, que era a 
primeira casa metallurgica da Allemanha. Não contente 
em desinvolver os seus estabelecimentos de Essen, 
esforçou-se por augmentar a producção, tanto pela 
compra de casas rivaes, por exemplo a de Pavezes Me- 
tallurgicos Gruson, em Magdeburgo, como annexando 
industrias complementares, e ainda fusionando-se com 
o canteiro de construcção Vulcano de Stettin. Comprou 
também em Kiel um vasto canteiro de construcção, 
chamado A Germânia; de modo que, unindo assim uma 
fabrica metallurgica aos canteiros marítimos, pôde for- 
necer, ao mesmo tempo que o material ordinário das 
construcções navaes, folhas de aço, pavezes, placas, 
couraças, necessárias aos cruzadores da marinha impe- 
rial, maquinas, caldeiras, peças de artilharia e seus 
projecteis. Em 1899, o numero de pessoas empregadas 
Ji'essa casa Krupp era de 41.750. 



278 A HISTORIA ECONÓMICA 



As industrias de electricidade merecem também 
menção especial. Os centros eram: Meerane, Plauen, 
perto de Dresde, Meissen, Milau, Cofditz, Dõbeln, 
Thõha, Lugfo, Waldemburgo, etc; e, sobretudo, Nurem- 
berg, onde a fabricação das maquinas eléctricas era 
uma das principaes industrias. 

A industria têxtil foi certamente uma das mais typi- 
cas na evolução económica, com os principaes ele- 
mentos que a caracterisam, como são: reducção pro- 
gressiva da mão de obra, augmento do trabalho das 
mulheres e dos rapazes e raparigas, substituição das 
maquinas ao trabalho humano, e desinvolvimento enorme 
da producção. 

A industria linheira occupava outr'ora o primeiro 
logar nas industrias textis da Allemanha, e a teia fiada 
pelas próprias mãos da familia era o vestuário histórico 
dos Allemães; mas a industria do algodão supplan- 
tou-a. E' que esta era uma industria moderna, favorá- 
vel ao emprego das maquinas e á geralisação da mer- 
cadoria. 

Por toda a parte, onde essa industria se estabeleceu, 
logo attingiu um desinvolvimento extraordinário, ao 
mesmo tempo que obteve um triunfo, pela grande pro- 
ducção mecânica, em vista das vantagens que ella 
encerrava; e tudo isso, por forma a sustentar a con- 
corrência nos mercados do mundo. E ainda a annexa- 
ção da Alsacia e Lorena fez augmentar mais de metade 
essa mesma industria algodoeira. 

As regiões onde ella mais se desinvolveu, foram a 
Prússia rhenana, Silesia, Saxe e Wurtemberg. 

O progresso de semelhante industria foi tal que, 
em 1896, dava o dobro da producção de 1875. Depois 



EDADE CONTEMPORÂNEA 279 



de 1896, é que diminuiu alguma coisa, em consequência 
das medidas protectoras dos Estados Unidos e de outros 
paizes ; e essa diminuição fez-se principalmente sentir 
nos fustões e outros estofos grosseiros análogos. 

A industria dos pannos, das sedas, dos velludos, 
e das rendas desinvolveu-se também muitissimo. E a 
das confecções tomou igualmente um grande incre- 
mento, sendo os principaes centros Berlim, Breslau 
e Erfurt. 

As industrias chymicas alcançaram da mesma forma 
grande progresso. 

Sabe-se a importância que tiveram no século XIX 
as industrias colorantes. Foi, como já dissemos \ a um 
modesto preparador de chymica do lyceu de Lyon, cha- 
mado Vergouin, que pertenceu o mérito da descoberta 
de extrair da hulha as matérias colorantes; mas foram os 
Allemães que tiraram o maior proveito d'ella. Sobretudo, 
nos últimos tempos do século XIX, a producção aug- 
mentou, cada anno, 8 a 10 por cento, e os salários dos 
operários augmentaram também na mesma proporção : 
o que prova a prosperidade d'essas industrias. 

Em todos os outros ramos das industrias chymicas 
dava-se também um progresso extraordinário. Só a 
grande fabrica da Silesia, em Saarau, ao SO. de Bres- 
lau, entregava, n'uma proporção sempre crescente, soda, 
potassa, sal de Glauber, chloro, acido sulfúrico, amo- 
niaco, etc. Pode dizer-se, de um modo geral, que para 
todas as grandes industrias chymicas, a Allemanha 
manteve o primeiro logar nos mercados do mundo. 



1 Vide pag. 101. 



280 A HISTORIA ECONÓMICA 



Com OS productos pharmaceuticos dava-se a mesma 
coisa; mas, também no fim do século, a tarifa americana 
prejudicou bastantemente essa industria. 

Quanto a porcellanas, faianças e vidrarias, ao lado 
das manufacturas do Estado em Berlim e Meissen, cujo 
fim principal era o conservar as tradições artisticas, 
formou-se uma grande quantidade de estabelecimentos 
livres, para sustentar o consumo ordinário; e a con- 
corrência entre elles obrigou-os a produzir cada vez 
melhor. 

Outr'ora, o publico allemão só procurava arti- 
gos de bom gosto entre os productos estrangeiros, 
e, sobretudo, francezes; mas, nos últimos tempos do 
século XIX, a porcellana allemã achava já por toda a 
parte desembocadouros vantajosos, e mesmo na pró- 
pria França. 

Quanto aos moveis, brinquedos de crianças, instru- 
mentos de musica, obtiveram elles egualmente um 
grande progresso, a ponto de se exportarem em muita 
quantidade para a Hollanda, Suissa, Servia, Romania e 
Bulgária, e até para a America do Sul. A fabricação 
dos brinquedos de crianças e bonecas, só no districto 
consular de Leipzig, ocupava, no fim do século, trinta 
mil operários dos dois sexos. 

As fabricas dos instrumentos de musica tornaram-se 
também prosperas. E, em summa, egual prosperidade 
se deu em todas as industrias propriamente ditas, como 
a do papel, do cabedal, livros, encadernações, etc. Só 
nas de arte e luxo, é que a Allemanha não progrediu 
tão vantajosamente, embora não ficasse estacionaria. 
N'essa parte, porém, a superioridade da França foi sem- 
pre evidente. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 281 



* 
* 



Quanto ás industrias agricolas, a população agri- 
cultora da Allemanha, desde o meado do século, di- 
minuiu muito em proporção da população das outras 
industrias. 

No meado do século, ainda ella formava 65 por cento 
da população total. Em 1870, era já de metade; no 
recenseamento de 1882, já tinha descido a 42,5 por 
cento; e em 1895 só era de 18:501.307 \ 

Por outro lado, até o meio do século XIX, a Alle- 
manha tirava do seu solo todos os géneros indispen- 
sáveis à sua subsistência, e apenas pedia ao estrangeiro 
géneros coloniaes ou produtos análogos. As industrias 
textis trabalhavam também quasi exclusivamente a lan 
e linho indigena. E as outras industrias, as da pedra, 
papel, madeira, cabedal, e mesmo as metallurgicas, só 
tiravam também do estrangeiro uma pequena parte das 
matérias primas. 

Depois de 1850, porém, e, sobretudo, depois de 
1871, mudaram-se as coisas. A importação dos pro- 
ductos agricolas de toda a ordem passou para a pri- 
meira classe, e a das matérias primas que o paiz não 
produzia, vinha em segundo logar. 



1 Georg-es Blondel, Elude sur les populations rurales de VAl- 
lemagne. 



282 A HISTORIA ECONÓMICA 



A Allemanha precisou, assim, de pedir ao estran- 
geiro não só muitos cereaes, mas também quantidades 
consideráveis de plantas commerciaes, flores, legumes, 
e mesmo batatas; e era egualmente tributaria do 
estrangeiro, quanto ao gado. A própria silvicultura, 
que também se desinvolveu muito depois de 1871, 
não pôde por fim acompanhar o consumo sempre 
crescente do pau de toda a ordem; e a necessidade 
da madeira de marcenaria augmentou continuada- 
mente. 

Comtudo, muitos agricultores trataram zelosamente 
de fazer progredir a lavoira e de industrialisal-a, 
aproveitando algumas das invenções scientificas con- 
temporâneas. E muitas leitarias, distillações e assu- 
cararias se multiplicaram pelos campos. Sobretudo, 
as assucararias tomaram enorme incremento. N'essa 
parte, os AUemães, desbancaram a própria França, 
que até 1870 tinha o primeiro logar na fabricação 
do assucar de beterraba, e tornaram-se, assim, os 
primeiros fabricantes e exportadores d'esse género. 
E, apar disso, a cervejaria e distilação do álcool tor- 
naram-se também muito importantes. 



* 
* 



A pesca, sobretudo, a pesca a vapor, fornecia grande 
abundância de productos. Em 1872, formou-se a pri- 
meira sociedade para a pesca do arenque; e, em 1898, 
a frota piscatória era já de 118 vapores, representando 
um capital de 15 milhões de marcos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 283 



Ao grande movimento industrial correspondeu um 
movimento commercial ainda maior. 

Assim, o commercio interior augmentou enorme- 
mente, graças também ao enorme desinvolvimento da 
industria e das communicações, de que em breve fallare- 
mos. E tudo isso influiu no commercio externo ; tanto 
mais que o augmento industrial trazia a necessidade 
de importação de matérias primas e a transfusão de 
productos industriaes por toda a parte. 

Augmentou este depois de 1871 até o fim do século, 
60 por cento ; e, n'este movimento ascendente, era a 
navegação maritima que figurava em primeiro logar. 
Só essa fornecia 66 por cento do commercio exterior, 
e, sobretudo, com os paizes ultramarinos. 

Hamburgo, por exemplo, que, em 1871, recebia 
apenas três a quatro mil navios por anno, cujo total 
não excedia meio milhão de toneladas, no fim do 
século, recebia vinte e seis mil navios por anno, de 
uma tonelagem superior a quinze milhões. O commercio 
d'esse porto chegou a dominar toda a Allemanha, uma 
parte da Áustria, os paizes scandinavos e todo o nor- 
deste da Rússia; e o seu tráfico representava mais de 
duas partes de todo o tráfico allemão. 

Para esta expansão do commercio externo contribuiu 
também a emigração. Não se encontrava, com effeito, 
um ponto do globo, onde os negociantes allemães se 
não tivessem estabelecido; e eram por milhares de 



284 A HISTORIA ECONÓMICA 



cifras as sommas introduzidas por elles no estran- 
geiro, e confiadas a empresas, também na maior parte 
allemãs. 

A cidade de Londres, os cães de Rotterdam, de 
New York, de Pernambuco, de Shangai, etc, abunda- 
vam de Allemães. Os Inglezes, apesar de tão industriaes 
e activos, iam estabelecer-se unicamente em certos 
paizes; os Allemães, porém, estabeleciam-se por toda 
a parte; e a facilidade com que se adaptavam a qual- 
quer paiz, era prodigiosa. 

A marinha mercante, que tanto auxilia o commercio, 
augmentou muito, principalmente, a que estava ligada 
ao Mar do Norte, como augmentaram egualmente as 
construcções maritimas. 

Os principaes canteiros eram os de Hamburgo, 
Stettin, Kiel, Flessing, Rostock, Dantzig, Elbing, Gees- 
temiinde, Bremeshaven, Wilhelmshaven e Vegesack. Só 
a Companhia Norddentsher Lloyd chegou a ter 95 gran- 
des vapores e 141 pequenos, com um total de 448.168 
toneladas. 

A companhia de Hamburgo Amenka attingiu 85 
navios de alto mar, medindo 425.000 toneladas. A 
Deutshe-Line attingiu também 18 grandes navios, e 
havia ainda muitas outras companhias, também impor- 
tantes, navegando para todos os portos do mundo. 
E todas ellas eram outras tantas artérias de commercio 
allemão. 

Para desinvolver mais o seu tráfico, a AUemanha 
lançou-se nas emprezas de colonisação; e, se taes em- 
presas não deram todo o resultado que se esperava, 
ainda assim, serviram, cada vez mais para o desinvolvi- 
mento económico dos Allemães, que se esforçaram por 



EDADE CONTEMPORÂNEA 285 



fazer valer as aptidões colonisadoras da sua raça, bem 
como a facilidade com que appropriavam a ling^ua e os 
costumes dos paizes distantes. 

Esta febre colonisadora, ateando-se, desde 1880, por 
meio da animação do Governo, dada aos particulares 
ou ás companhias, fez que a politica da Allemanha 
criasse colónias do império com subvenções votadas 
pelo Reichstag. E, sobretudo, o que a Allemanha tinha 
em vista, não eram as conquistas militares do território 
de taes colónias, mas sim assegurar novas facilidades de 
compras e vendas. 

Criaram-se até sociedades colonisadoras, para auxi- 
liarem esse movimento. E os próprios missionários, 
estabelecendo-se nessas colónias, e mesmo em algumas 
dos paizes estrangeiros, vieram coadjuvar semelhantes 
emprezas. 



Escusamos de especificar os paizes com que a 
Allemanha fazia o seu commercio, porque pôde dizer-se 
que era com todo o mundo. 

Em todo o caso, a Inglaterra vinha em primeiro 
logar, por causa dos productos coloniaes de que a 
Allemanha carecia; depois, a America do Norte, que lhe 
fornecia cereaes e algodão; e, em seguida, a Rússia, o 
Brazil e a Austria-Hungria, que a Allemanha inundava 
dos seus productos manufacturados, a França, Algéria, 
Paizes Baixos, Suissa, Itália, etc. 

Importava, principalmente, matérias textis, cereaes, 
gado, café, géneros coloniaes, pelles e cabedaes, algo- 
dão e vinhos. 



286 A HISTORIA ECONÓMICA 



E exportava, sobretudo, tecidos, assucar de beter- 
raba, ferro em obra e em bruto, zinco, hulha, maquinas, 
cores, papel, artigos de couro, livros, objectos de arte, 
artigos de madeira, lan fiada, seda bruta e lúpulo. 

* 

* * 

A propósito das industrias, notámos já quasi todos 
os centros económicos mais importantes. Mas vamos 
ainda accrescentar alguns dados, que ampliam o que já 
dissemos ^. 

Na Alsacia e no alto Rheno, Mulhouse era muito 
importante, e tinha um cortejo de cidades secundarias, 
que eram também outros centros industriaes. Continha 
muitas fabricas de fiação e tecidos de algodão, de 
cervejaria, outras de construcção maritima e diversas 
manufacturas, etc; e era também uma grande potencia 
financeira da Europa. Foi em Mulhouse que se cons- 
truiu, em 1812, a primeira maquina a vapor da Alsacia. 

No baixo Rheno, havia Strasburgo, também muito 
importante, como praça militar; mas fracamente desin- 
volvida no commercio e na industria, apesar da grande 
emigração dos Allemães para lá, depois que essa praça 
lhes ficou pertencendo pela guerra de 1870. 

No valle do Sarre, havia o grande centro industrial 
de Saarbriiken, situado no meio da sua rica bacia 
hulheira. 



1 Quanto aos centros mais importantes na edade moderna, 
veja-se o vol. V, pag. 295 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 287 



Metz era como Strasburgo, uma cidade militar, 
pouco abundante, por isso mesmo, de industria e 
commercio. 

Na Floresta Negra, a grande industria era ainda a 
exploração do pau, embora em muitas partes as flores- 
tas estivessem devastadas e substituidas pela agricul- 
tura. Havia minas muito productivas, mas estavam 
quasi abandonadas, A emigração no inverno era muito 
grande; e o trabalho favorito dos homens da montanha 
consistia na fabricação de relógios de pau e mesmo de 
metal branco. Não havia ahi grandes centros de com- 
mercio; mas, ainda assim, além de outras cidades 
menos importantes, Friburgo era um centro industrial 
e commercial notável. 

Lautern, a principal cidade de Palatinado, estava 
cheia de fabricas de toda a espécie, de modo que, 
apesar de ser uma cidade antiga, parecia muito mo- 
derna, por estar sempre ennegrecida pelo fumo. 

Francfort, coUocada n'uma bella situação, era tam- 
bém muito notável por seu commercio e industria. E 
distinguia-se entre todas as cidades rhenanas, pelo trá- 
fico de livros, e fabricação de caracteres de imprensa, 
em que vinha logo depois de Berlim e de Leipzig. 

Colónia, era antes, uma cidade de guerra, potente- 
mente fortificada, do que um grande centro industrial e 
commercial. 

Aix-La-Chapelle ppssuia muitos elementos de riqueza 
nas suas minas de carvão, de chumbo e zinco; e tinha 
também muitas fabricas metallurgicas e de alfinetes, e, 
sobretudo, de pannos. 

Dusseldorf era egualmente muito industrial e com- 
mercial. 



288 A HISTORIA ECONÓMICA 



Solingen estava no mesmo caso, e era o centro 
principal da quinquilharia. 

Elberfeld e Barmen, que se fundiam num amon- 
toado de fabricas, occupavam já um espaço de 8 kilo- 
metros. E a sua população inteira gravitava em volta 
das fiações de seda, algodão, linho, manufacturas de 
fitas, tinturarias, fabricas de cores e outros estabeleci- 
mentos industriaes. 

Essen enfileirou-se em menos de um século no 
numero das grandes cidades da Prússia, e cresceu de 
anno para anno, assim como as suas vizinhas Altennes- 
sen, Altendorf e Borbeck, que, ainda bem pouco tempo 
antes, não passavam de aldeias. Era em Essen que 
estava a celebre fabrica de Krupp, que entregava á Alle- 
manha e a tantos paizes civilizados os seus famosos 
canhões. E, comtudo, os canhões, balas e as carretas 
eram uma fraca parte dos productos da immensa fabrica; 
porque o movimento d'ella, em toda a metallurgia, era 
também enorme, segundo já vimos. 

Na planície da Baviera meridional, Augsburgo, por 
seus capitães, commandava a industria de uma grande 
parte da Baviera, e possuia as melhores tinturarias 
allemães e um grande numero de outros estabeleci- 
mentos industriaes. 

Ratisbonne, onde a navegação do Danúbio é muito 
mais fácil que a partir das cidades a montante, tornou- 
se um logar de entreposto e de trocas muito commer- 
cial, favorecido como tal pelas vias naturaes que lá se 
cruzam. 

Munich, que engrandeceu rapidamente, occupava 
também um logar notável entre os grandes centros da 
industria e commercio. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 289 



Nuremberg- era egualmente centro industrial e mer- 
cantil muito importante, e quasi que monopolisava o 
commercio dos brinquedos infantis, fabricados nas cida- 
des da Franconia, e depois expedidos para todos os 
paizes do mundo, como também já notámos. 

Em Stein, perto do Nuremberg, estava a mais cele- 
bre manufactura de lápis do mundo. 

As cidades mineiras e industriaes, Bremen, Hanover 
e Brunswick, atraiam a si um numero de habitantes^ 
cada vez mais considerável, sendo todas três de uma 
grande importância económica. 

Bremen era também o segundo porto da Allema- 
nha. Só tinha como superior Hamburgo. Os seus 
negociantes, conhecidos pelo espirito de iniciativa, 
fundaram, em 1827, o Nordeutsche Lloyd, e expediam 
os seus navios para as duas Américas, extremo Oriente 
e mares do Sul; e armavam baHeiras para o Oceano 
Antárctico. Mas era com os Estados Unidos que faziam 
o seu principal negocio. Em 1880, a sua frota com- 
mercial constava de 296 navios, com o total de 197.050 
toneladas. 

Leipzig era a primeira das cidades allemãs no com- 
mercio de livros, revistas e jornaes. 

Chemnitz tinha decuplicado em população, desde o 
principio do século XIX até o fim. Era a Manchester 
allemã, repleta de tecedores, fabricantes e impressores 
de estofos; e as comunas que a rodeiam, compunham-se 
também de fabricas e casas de operários. Constituía a 
terceira cidade da Saxonia, onde se fabricavam quasi 
todas as industrias e n'uma grande quantidade, como 
tecidos, botões, passamanaria, instrumentos de musica 
e mathematica, etc. 

Volume VI 19 



290 A HISTORIA ECONÓMICA 



Magdeburgo era um grande entreposto de cereaes, 
de beterrabas e de outros géneros agrícolas, e o prin- 
cipal mercado de assucar. Havia por toda a parte fabri- 
cas de refinações de assucar de beterraba, e fabricas 
metallurgicas. E havia egualmente nos arredores muitas 
officinas e muitas fabricas de fiação. 

Berlim, a capital da Prússia, engrandeceu enorme- 
mente, sobretudo, depois da victoria sobre a França. 
Sem ter especialidade industrial, como Essen, Elberfeld, 
Solingen, Aix-la-Chapelle ou Chemnitz, possuia, com- 
tudo, grandes fabricas, e todas as industrias estavam lá 
representadas, 

Hamburgo, de que já falíamos, com o seu anteporto 
de Cuxafen, era o grande empório do commercio da 
AUemanha e um dos primeiros do mundo. 

Meissen, na margem esquerda do Elba, era notável 
e celebre nas artes cerâmicas. 

Lubeck foi outr'ora a cidade mais commerciante da 
Europa; mas, já no principio do século XIX, estava 
muito decaida. 

Os portos de Wismar, Rostock e Breslau, eram 
outros centros importantes de commercio. 

Kiel, a capital de Holstein, era também muito in- 
dustrial e populosa. 

Dantzig, apesar de estar decaida da sua enorme im- 
portância antiga, tinha ainda um grande commercio, 
sobretudo, de cereaes e madeira, e uma grande indus- 
tria de pannos, papel, productos chymicos, distillação 
de aguardente, muito famosa, e muitas officinas, ma- 
quinas, canteiros de toda a espécie, etc. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 291 

* 

* * 

Quanto ás communicações, os caminhos de ferro, 
obedecendo a um plano uniforme, cruzavam-se por toda 
a parte. E as communicações por agua, em consequên- 
cia do grande movimento que attingiram, tornaram-se 
também muito importantes. E tanto mais que os rios 
da AUemanha teem a vantagem de ser mais regulares, 
que na maior parte dos outros paizes. 

Foi melhorado o Rheno, entre a fronteira suissa 
e a fronteira hollandeza, gastando-se n'isso, desde 1830 
a 1894, a somma de 338:873.000 francos. 

O Elba tinha uma tiragem de agua muito fraca; e as 
brumas e os gelos contrariam, durante uma grande 
parte do anno, a sua embocadura. Mas nem porisso os 
Allemães desanimaram, antes dispenderam n'elle, nos 
últimos annos do século XIX, mais de 8 milhões de 
marcos; e estenderam uma cadeia de reboques até á 
fronteira da Bohemia. Tornou-se, assim, navegável em 
todo o seu percurso, que não é inferior a 720 kilome- 
tros; e tornou-se também tão frequentado que, desde 
a fronteira austriaca, circulavam 2:500.000 toneladas de 
mercadorias. E este movimento augmentava ainda mais, 
á proporção que se aproximava de Hamburgo, onde 
attingia 10 milhões de toneladas. 

O Oder foi também objecto de importantes traba- 
lhos. E, em todas as grandes cidades da AUemanha, 
criaram-se sociedades náuticas, para melhorarem os 
cursos fluviaes. 

Houve egualmente grande cuidado, quanto aos ca- 
naes. Assim, foi acabado o de Dortemund, na emboca- 



292 A HISTORIA ECONÓMICA 



dura do Ems, que teve por fim ligar directamente as 
regiões industriaes de Westephalia com o mar do Norte: 
o que permittiu levar em boa conta os productos das 
minas de Westephalia, hulha e ferro, não somente aos 
portos do mar do Norte, mas também pelo canal de 
Kiel ao do mar Báltico. 

Tentou-se o canal do centro, destinado a ligar o 
Rheno com o Elba. Tentou-se egualmente o canal de 
Finow de Stettin a Berlim. E abriu-se o canal de Kiel '. 



1 Georges Blondel, LEssor Industriei et commercial da Peuple 
Allemand e Etudes sur les populations rurales de lAllemagne — Mar- 
eei Dubois et Kergomard, obr. cit. — E. Reclus, obr. cit. — Lannier, 
L'Europe — Bannier, Cours de Geographie Commercial L'Europe. — 
Noel, obr. cit. — S. Marsillac, Manuel d' Histoire Comtemporaine. — 
Jules Isaac, Histoire Contemporaine. — A. Amann e E. L. Constan, 
Le Monde du XIX Siècle. 



CAPITULO VII 
Áustria e Hungria 

Ligeiro esboço politico da Áustria e Hung-ria, n'este período. — Quanto 
á parte económica, de que modo o império austríaco foi pre- 
judicado, principalmente, até o meiado do século, e ainda depois, 
até 1866, por differentes causas. — Como tinha no seu seio 
grandes elementos de riqueza. — Como progrediu muito depois 
d'isso. — Productos, agricultura, industría e commercio. — Cen- 
tros económicos principaes. — Communicações. 

Leopoldo II, que succedeu a José II (1790-1792), 
morreu, quando a monarquia dos Hapsburgos ia repre- 
sentar uma das primeiras figuras na colligação europeia, 
formada contra a revolução franceza. 

Succedeu-lhe Francisco II (1792-1835); e a Áustria, 
entrando de facto n'aquella colligação, foi vencida na 
Itália por Bonaparte, perdendo, pela paz de Campo- 
Formio, as provincias belgas, o Milanez e o Mantuano, 
e recebendo como indemnisação os despojos de Veneza. 

A guerra renovou-se, em 1758, e terminou pela paz 
de Luneville, em 1801 ; e, emquanto essa paz durou, o 
imperador da Áustria applicou-se a reanimar a agricul- 
tura, a industria e o commercio, a concertar as estra- 
das, a centralisar a administração, e a reorganisar as 
finanças. 



294 A HISTORIA ECONÓMICA 



Entrando os Austríacos em nova colligação contra 
a França, foram vencidos em Ulm e Austerlitz (1805); 
e, perdendo com isso varias provincias, viram estabele- 
cer a Confederação do Rheno, sob o protectorado de 
Napoleão, sendo Francisco José obrigado a renunciar 
á dignidade de imperador da Allemanha. Por isso, d'ali 
por deante, ficou apenas com o titulo de imperador da 
Áustria, sob o nome de Francisco I. 

A guerra seguiu ainda com differentes intervallos e 
alternativas até á queda de Napoleão, em 1814. E, em 
1815, o congresso de Vienna reorganisou o território 
continental, restituindo á Áustria quasi todas as pro- 
vincias perdidas, e entre ellas o Milanez, a Venecia e 
a Illyria, e attribuindo novamente a Francisco José o 
titulo de imperador da Allemanha, com a presidência 
da nova Confederação Germânica. 

A este monarca succedeu Fernando I (1835-1848). 
O principe de Metternich, ministro dos estrangeiros, 
que já dirigira a politica de Francisco José, e prepon- 
derara também na politica da Europa, continuou a re- 
presentar egual papel no tempo do successor. Todas as 
aspirações liberaes foram esmagadas; e, pela annexação 
da Cracóvia e seu território, foi supprimido o ultimo 
vestigio da republica da Polónia. 

Em todo o caso, a revolução franceza de 1848 re- 
percutiu-se na Áustria. Allemães, Magyares, Slavos, 
Italianos insurgiram-se, e romperam bruscamente o feixe 
mal atado do império. Foi o exercito que salvou a dy- 
nastia dos Hapsburgos. Mas Francisco José I, sobrinho 
e successor de Fernando 1, em quem elle tinha abdicado 
(1848), viu-se obrigado a dar, em 1849, uma constituição 
liberal ao império, embora ella nunca fosse applicada. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 295 



Surgiram, ainda depois disso, novas insurreições dos 
Italianos contra os Austriacos, e dos Sérvios, Esclavões, 
Croatas e Saxões contra os Mag-yares, que foram cruel- 
mente abafadas em rios de sangue. 

Então, a Áustria, cheia de orgulho militar, e con- 
fiando n'um exercito de 600.000 homens, forçou a Prús- 
sia a evacuar Hesse, e a humilhar-se na Conferencia de 
Olmutz (1850). 

Em 1855, teve de sustentar uma nova guerra contra 
a Itália, que estava alhada com a França; e foi vencida 
nas batalhas de Magenta e Solferino, em que o Piemonte 
ganhou a Lombardia, menos Peschiera e Mantua. 

Em 1864, surgiu ainda outra guerra com a Prússia 
e Itália, que terminou em 1866, pela derrota dos Aus- 
triacos em Sadowa. A Áustria perdeu com isso o qua- 
drilátero lombardo-veneziano e Veneza, que foi cedida 
a Napoleão III, o qual depois a entregou a Victor 
Manoel. Teve de renunciar a favor da Prússia aos 
direitos sobre o Sleswig e Holstein, e deixar que a 
Allemanha soffresse uma reorganisação federativa, pre- 
sididida também pela Prússia, e de que os Austriacos 
foram excluidos. 

Em 1867, inaugurou-se com a Hungria o systema 
dualista da união pessoal, fortalecida por concessões 
liberaes, que satisfizeram os Magyares e Allemães do 
império. Mas os Tcheques, Polacos e SIavos, não fica- 
ram contentes, e isso' produziu algumas perturbações 
interiores. 

Depois d'isso, a Áustria e Hungria tiveram uma 
paz duradoira até o fim do século, sob o governo 
do mesmo Francisco José 1, que durou todo esse 
tempo. 



2% A HISTORIA ECONÓMICA 



Quanto ao movimento económico, a Áustria e Hun- 
gria viram-se embaraçadas, sobretudo, até meiados 
do século XIX, e ainda depois d'isso, até 1866, por 
differentes causas, taes foram: as luctas napoleónicas 
até 1815, com todos os inconvenientes da guerra, e 
com a enorme inutilisação de braços para a agricultura, 
industria e commercio; as varias crises financeiras no 
interior, algumas d'ellas provocadas mesmo pelo ágio 
cambial que a moeda nacional teve de soffrer quasi 
sempre, em relação ao estrangeiro; as diversas agita- 
ções no interior; e também as differentes guerras no 
exterior, de que já falíamos. 

Todas estas causas bastavam, de per si, para entro- 
pecerem o movimento económico. Mas, alem disso, a 
Áustria e Hungria, sob o ponto de vista etnográfico, 
tinham grande diversidade de população, o que preju- 
dicava a unidade dos esforços para o bem commum, e 
enfraquecia as forças vitaes do império. 

No meio d'essa diversidade, podiam distinguir-se 
três grandes classes: primeiramente, os AUemães ao 
oeste; depois, os Magyares ao nascente, que separa- 
vam os Slavos do Norte (Polacos, Moravos e Tcheques) 
dos Slavos do Sul (Bósnios Croatas, Styrios, etc); e 
ainda os Slovenos, Romenos, Italianos, Ladinos, Tziga- 
nos, e outros que entravam no conjuncto da população. 

Mesmo no lado religioso, embora preponderasse 
o catholicismo, havia também grande diversidade de 
crenças. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 297 



Demais a mais, em vista das solicitações múltiplas 
e encontradas que resultavam do dualismo imperial, 
foi por muito tempo impossivel assentar n'um ponto de 
vista determinado; porque as provincias cisleithanias, 
mais industriaes que agricolas, visavam, sobretudo, ao 
commercio de exportação para o Mediterrâneo, Levante 
e Oriente. E, pelo contrario, a Hungria, grande paiz 
agrícola, tinha mais interesse em enviar os seus géne- 
ros para as nações excessivamente povoadas do occi- 
dente. 

Por outro lado, os gravames feudaes e as servidões 
territoriaes oneravam a agricultura. 

E havia uma deplorável repartição do solo, porque 
vastos dominios eram ainda propriedade de mão morta, 
e outros eram tão grandes que os seus possuidores não 
os tinham nunca percorrido. Alguns tinham até cente- 
nas de kilometros quadrados. A pequena propriedade 
não occupava o terço do território, e compunha-se, 
principalmente, de parcellas muito pouco consideráveis; 
emquanto que a propriedade media, onde se fazem de 
ordinário os grandes progressos, é que estava muito 
mal representada. 

O regimen das corporações, mais exagerado ainda 
que nos outros povos da Europa, e uma legislação 
aduaneira, muito restricta, aggravavam também o mal. 
E accrescia uma grande falta de communicações; por- 
que, apesar do desembocadouro que os portos do 
Adriático offereciam ao commercio, este effectuava-se, 
na maior parte, pela via terrestre, e, sobretudo, pela 
Allemanha, sempre debaixo do regimen aduaneiro res- 
trictivo dos dois paizes. 

Mesmo as sedas da Lombardia, que forneciam um 



298 A HISTORIA ECONÓMICA 



elemento muito importante das trocas, não procuravam 
a via marítima, e transitavam, sobretudo, pela Suissa 
e pela Itália. 

A principal artéria fluvial do império era o Danúbio. 
Mas este rio, embora tivesse, como tem, uma vasta rede 
de afluentes navegáveis até para vapor, e permittisse á 
Áustria o fazer circular numa certa medida as merca- 
dorias destinadas á exportação, era insufficiente para 
facilitar devidamente o progresso commercial, porque 
desaguava num mar interior, e acabava, nesta época, 
n'um paiz ottomano ; de modo que não fornecia uma 
saida maritima inteiramente livre. 

A perda da Lombardia, em 1859, e mais tarde a de 
Veneza, em 1866, fez também perder á Áustria a liber- 
dade de communicações pelo Mediterrâneo, e mais a 
lançou sobre o Danúbio, que, segundo acabamos de 
mostrar, não satisfazia inteiramente ás condições econó- 
micas de que o império precisava. 

Finalmente, metade dos habitantes da Áustria e mais 
de metade dos da Hungria, não sabiam ler nem escrever. 

Por tudo isto, até metade do século XIX, e mesmo 
até 1866, como já dissemos, o movimento económico 
da Áustria, se não retrogradou, foi porque o progresso 
actua sempre, de per si, até nos povos menos favoreci- 
dos. Mas, em todo o caso, o avanço foi demorado e 
pequeno ^ 

E comtudo, o império tinha no seu seio grandes 
elementos de riqueza, e poucas regiões ha tão favore- 
cidas sob differentes aspectos. 



1 Noel, obr. cit. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 299 



A agricultura dispunha de terrenos excellentes. E' 
certo que a Áustria e Hungria tinham rochas nuas, 
areias errantes, terras saHnas, steppes que nada produ- 
ziam, e pântanos inúteis, que seria possivel conquistar, 
e que também nada produziam. Achava-se em 12 por 
cento a superficie inculta ; e mesmo em alguns valles fér- 
teis dos Carpathos, podia-se caminhar dias inteiros, sem 
encontrar uma habitação. 

Mas tinha também grandes extensões de terra negra 
tão fecundas como o Tchernozion da Rússia, provinda, 
egualmente, da decomposição continua de plantas, du- 
rante milhares de séculos ^. 

O trigo tinha terras muito appropriadas, taes eram 
as de alluvião da Hungria e do solo bem cultivado da 
Moravia e Bohemia. 

O centeio encontrava também um bom terreno nas 
regiões frias e elevadas. O milho tinha o seu logar 
próprio na Hungria, Croácia e Esclavonia. O arroz 
encontrava nas partes baixas, tantas vezes inundadas, 
da Hungria e Banato condições excellentes — humi- 
dade intensa e estio ardente, como lhe convinha, e 
segundo o dictado geral, pés na agua e cabeça ao sol. 
O vinho tinha, como tem, na Áustria ie Hungria as 
melhores aptidões do solo e do clima; e, porisso, tor- 
nou-se uma das maiores riquezas do império. 

E, de facto, os vinhos da Hungria, entre os quaes 
o tão afamado vinho Tokay, deviam a sua qualidade ás 
condições do solo e do clima. 

As cepas eram plantadas sobre os terrenos vulcani- 



1 Vol. V, pag. 447 e 448. 



300 A HISTORIA ECONÓMICA 



COS, que se desinvolvem na margem direita do Theiss, 
quer na montanha, quer na planície; e, durante os 
mezes ardentes do verão, que caracterisam o clima 
continental da Hungfria, as uvas chegam rapidamente 
á madureza. 

A Transilvania, a Styria, a Dalmácia, o Tyrol meri- 
dional, a Carinthia, a Carniola e a Baixa Áustria teem 
por egual terrenos próprios para o vinho, embora infe- 
riormente áquelles outros da Hungria. 

O clima do sul era muito conveniente para a cultura 
da amoreira. A Bohemia, sobretudo, muito própria para 
cultivação do lúpulo. Finalmente, climas e regiões tão 
diversos, prestavam-se egualmente á abundância e varie- 
dade das fructas. 

As pastagens eram abundantes, e o subsolo encer- 
rava thesouros mineraes, também muito abundantes. 

Desde o meiado do século, e, principalmente, desde 
1866, tudo mudou. Contribuíram para isso as medidas 
liberaes promulgadas, em 1848, aboHndo as imposições 
feudaes e as servidões territoriaes: medidas essas que 
deram grande liberdade á agricultura, e com ella maior 
amplitude ás terras cultiváveis. E, já em 1857 e 1859, 
tão sensível se tornou o progresso, que os cereaes 
e farinhas deram, pela primeira vez, um excedente 
do consumo a favor da exportação. E na Hungria, 
nos últimos tempos do século, os domínios dos nobres 
foram divididos, e a propriedade dos lavradores foi 
augmentando, á proporção que augmentou a proprie- 
dade media. 

A industria, em 1854, foi libertada da servidão do 
regímen de artes e officios, e, em 1856, adoptou-se 
uma legislação aduaneira mais favorável. E tudo isso, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 301 



com a entrada da Áustria no Zolverein de que já 
falíamos \ trouxe uma era nova. 

Ora, desde então, as relações commerciaes torna- 
ram-se mnito grandes, não só na Europa, mas também 
no Levante, onde algumas das industrias puderam con- 
correr com as similares estrangeiras. O assucar indigena 
tornou-se objecto de uma attenção particular. A indus- 
tria mineira, a metallurgica, a têxtil e muitas outras 
alcançaram um grande progresso. E também a Áustria 
se lançou com grande actividade no desinvolvimento 
das suas communicações. E, se a guerra com a Prússia, 
em 1864 e 1866, causou uma perturbação momentânea, 
a velocidade económica estava já adquirida, e prestes 
retomou o seu andamento. 

Então, os géneros agrícolas augmentaram geral- 
mente ainda mais, e em grande quantidade, até o fim do 
século. O assucar indigena, que já attingia 1:900.000 
quintaes métricos, continuou crescendo extensamente. 
Augmentou egualmente a producção da batata, e mais 
cresceu a producção dos cereaes e das farinhas. A 
criação dos merinos, introduzida por Maria Thereza ', 
tinha sido pouco scientifica até o meiado do século, 
consistindo apenas em migração de bandos enormes de 
um território para outro. Mas a modificação da pro- 
priedade agrícola, pelas reformas liberaes que ficam 
mencionadas, fez augmentar as terras aproveitáveis; e, 
á proporção que as esteppes foram rasgadas, adapta- 
ram-se á criação do gado ovino os processos dos paizes 
occidentaes. 



1 Vide capitulo VI. 

2 Vide vol. V, pag. 200. 



302 A HISTORIA ECONÓMICA 



Apesar d'isso, a quantidade do gado ovino, e, por- 
tanto, a lã decresceu bastante, pela concorrência da 
Austrália, como aconteceu por toda a Europa, 

A criação do gado equídeo foi vivamente animada 
pelo Governo, na Hungria e Transilvania, dotadas de 
grandes pastagens, pertencentes a um numero limitado 
de criadores, que dispunham das melhores raças da 
Europa. N'essa parte, o império era o segundo Estado 
europeu, porque vinha logo após a Rússia. 

O gado suino e caprino teve também um progresso 
correspondente. 

As florestas é que estavam muito diminuídas em 
algumas regiões. 

Assim, as de Carso, perto de Trieste, foram quei- 
madas e devastadas pelos pastores e dentes das ca- 
bras, o que não permittiu que se renovassem. E as 
tentativas feitas nos últimos annos do século para con- 
seguir essa renovação, ficaram infructiferas, tanto por 
faltar a terra vegetal que a tempestade e o vento haviam 
levado, como pela incúria dos aldeões. 

As montanhas de Dalmácia, outrora tão arborisadas, 
estavam quasi nuas. Acontecia a mesma coisa com as 
planícies da Panonia, também outrora muito arbori- 
sadas. 

Demais, os indígenas do Tyrol, exerciam uma grande 
industria na fabricação de vários objectos, de pau ou 
madeira, que expediam para os mercados distantes, 
como bonecas, brinquedos de crianças e ornamentos de 
toda a ordem. E essa industria era tão activa que elles 
destruíram nas montanhas a espécie de pinheiros que 
serviam para esses trabalhos de esculptura, madeira 
essa que, por isso, já eram obrigados a importar do 



EDADE CONTEMPORÂNEA 303 



estrangeiro com grande despeza. Mas, apesar de tudo 
isto, as florestas ainda occupavam a quarta parte da 
Áustria e Hungria; e as montanhas da Croácia ainda 
estavam cheias dos mais bellos exemplares da Europa. 



A industria mineira era fraca no Tyrol; mas, nas 
outras provincias, tinha grande importância. 

Em 1854, foi promulgada uma lei liberal acerca das 
minas, que punha a propriedade d'ellas sob o regi- 
men commum, e as livrava da legislação excepcional; 
e esse facto deu uma forte impulsão á exploração mi- 
neira, e, como consequência, á industria metallurgica, ao 
mesmo tempo que favoreceu o desinvolvimento dos ca- 
minhos de ferro. 

Assim, a extracção da hulha progrediu muito, e, prin- 
cipalmente, nos últimos 20 annos do século. Mas, apesar 
de tudo, não pôde satisfazer ás necessidades do consumo, 
concorrendo também para isso o facto da Bohemia, a 
grande fornecedora do carvão, occupar uma situação 
excêntrica, longe dos portos do mar. 

Os jazigos de ferro eram enormes na Styria e Ca- 
rinthia; mas, desgraçadamente, essas regiões dos Alpes 
eram mal providas de combustiveis. Em todo o caso, a 
fabricação do ferro e as industrias que d'elle se deri- 
vam, tomaram um grande incremento. 

A fabricação do aço decaiu muito, depois de um 
desastre financeiro que houve, em 1873; mas, nos últi- 
mos tempos, retomou novo desinvolvimento. A produc- 



304 A HISTORIA ECONÓMICA 



ção do cobre, chumbo, zinco e dos metaes preciosos é 
que era pouco activa, e occupava poucos operários; 
porque a fundição do ferro e do aço constituiam, por 
excellencia, as industrias metallicas. 

A areia dos cursos de agua da Hungria e as rochas 
da Transilvania e Bohemia continham ouro e prata. As 
minas de ouro de Fleurs, perto de Gross Glomekner, 
que, ainda nos primeiros tempos do século, davam dez 
a quinze kilogrammas de ouro por anno, é que, em 
1876, foram definitivamente abandonadas. 

Uma das industrias já tradicionaes no paiz, a da 
vidraria e cerâmica, desinvolveu-se também muito n'este 
século XIX. Pilsen e Eger, ricas em hulha, tornaram-se 
os dois centros mais notáveis da vidraria. A Hungria e 
a Styria vieram em segundo logar. Foi também na 
Bohemia que se estabeleceu a maior parte das fabricas 
de porcellana em Praga e Carlsbad; e, quanto á faiança, 
foi principalmente na Hungria. 

O império era uma das regiões mais ricas de sal 
gemma e sal marinho. No sal gemma, a Galicia, com 
as suas minas de WieHcza, tinha até o primeiro logar 
na Europa. 

O petróleo é muito abundante na Galicia; mas a 
vizinhança da Rússia, que é tão rica nesta matéria, e 
podia importal-o fácil e baratamente na Áustria e Hun- 
gria, pela via do mar Negro e do Danúbio, impediu o 
desinvolvimento da exploração dos poços d'aquella 
região. 

Em compensação, o mercúrio, tão abundante na 
Istria, e que só tinha grande concorrente na Hespanha, 
representava um enorme valor commercial. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 305 



O commercio da Áustria e Hungria não collocavam 
estes paizes no logar que elles deviam occupar nos 
Estados europeus. 

O desinvolvimento ainda insufficiente da sua indus- 
tria, relativamente fallando, a difficuldade de unir n'uma 
coordenada expansão nacional tantos povos de raças 
differentes, como já fizemos sentir, os interesses oppos- 
tos da Cisleithania e Transleithania, e a insufficiencia 
de communicações, de que adiante fallaremos, impedi- 
ram por muito tempo que o trafico progredisse nos 
termos devidos. 

Demais, o fraco desinvolvimento do littoral, possuído 
pela Áustria e Hungria, não permittia que o commercio 
maritimo tomasse uma importância egual ao das outras 
nações. Porisso, as trocas por mar só representavam a 
quinta parte das trocas por terra, e o movimento da 
navegação desinvolveu-se lentamente. 

A nação tratou de compensar esses inconvenientes, 
multiplicando as vias de communicação para os portos 
do Adriático, por meio do desinvolvimento das vias 
terrestres. Mas, apesar d'isso, Fiume e Trieste não pu- 
deram chamar aos seus territórios as mercadorias alle- 
mãs, pela maior despeza dos transportes. 

A' primeira vista, parece que o commercio interior 
devia ser muito considerável; pois que o império se 
compunha de duas regiões differentes, como já dissemos, 
uma adiantada na industria, e outr^, sobretudo, agricola, 
entre as quaes regiões, as trocas eram necesarias. Mas, 
por um lado, o sentimento da solidariedade económica 

Volume VI 20 



306 A HISTORIA ECONÓMICA 



não era ainda profundo, e o antagonismo das raças 
restringia as relações que a natureza parecia impor. 

Por outro lado, a mão de obra das riquezas agríco- 
las e das riquezas industriaes era insufficiente; e, como 
já notamos, o systema de vias de communicação era 
incompleto. 

Ainda assim, a cabotagem era muito activa, sendo 
exercida no Adriático pelos súbditos dálmatas do impé- 
rio. Spalato, Zara, Gravosa e Fiume eram os principaes 
centros d'essa cabotagem. 

Quanto ao commercio externo, embora o império 
não dispozesse de colónias, em todo o caso, senhor de 
uma numerosa marinha, tentou disputar aos grandes 
povos marítimos do Occidente os mercados do Oriente 
e do Levante, e pôde conseguir uma grande parte do 
seu intento. N'este ponto, se houvesse de se apreciar a 
aptidão marítima da Áustria e Hungria, attendendo 
simplesmente ás qualidades da articulação do seu litto- 
ral, devia até suppor-se que o império estava entre os 
paizes mais favorecidos da Europa. Mas as costas da 
Istria e Dalmácia estavam em relações difficeis com as 
provincias interiores do império, e o Adriático não era 
austríaco ou húngaro senão de um modo bem factício. 
Apesar d'isso, á força de engenho na construcção das 
linhas férreas que occupavam a zona alpestre, o impé- 
rio tirou d'esta visinhança do mar todo o partido possí- 
vel; e os Istriotas e Dálmatas, que antigamente só 
viviam da pesca, tornaram-se os corredores de um 
commercio marítimo activo, a ponto de que o movi- 
mento dos portos aystríacos, em 1891, excedeu nove 
milhões de toneladas, tanto de entrada como de saída. 
O porto de Trieste, sede da potente companhia do 



EDADE CONTEMPORÂNEA 307 



Lloyd austríaco, occupava o primeiro logar. Tinha elle 
contra si, comparado com Génova e Marselha, o facto 
dos caminhos de ferro atravessarem montanhas e terem 
grandes rampas, de modo que os transportes soffriam 
uma demora relativamente maior; mas estava 200 kilo- 
metros mais perto do canal de Suez que Génova, e ainda 
muito mais que Marselha; e, devido na maior parte á 
grande navegação d'aquella companhia, o seu movi- 
mento era muito activo. As priricipaes linhas d'essa 
companhia eram Corfu, Pireu, Constantinopla, Smyrna, 
Egypto e Índia. 

Dava-se no império, sobretudo, depois do meiado do 
século, um phenomeno que é raro nos paizes de pequena 
industria; e vem a ser que as exportações eram superio- 
res ás importações. Provinha isso de differentes causas. 

Em primeiro logar, a fertilidade das regiões agríco- 
las, taes como a Hungria, Galicia e Bohemia compen- 
sava largamente a mediocridade dos paizes montanhosos, 
de modo que a monarquia podia vender cada anno 
objectos de consumo n'uma somma considerável. 

Em segundo logar, embora a industria não estivesse 
muito adiantada, attendendo á grande riqueza mineral 
da Áustria, ainda assim, a exportação dos productos 
manufacturados excedia bastantemente a importação. 

A respeito do commercio, vem o ponto dizer que 
os Tyrolezes faziam a volta ao mundo como cantores e 
vendedores de tapetes e luvas. Em certas aldeias, que 
tinham essa especialidade de tráfico tão lucrativo, só 
ficavam, no inverno, mulheres, crianças e velhos. 

Acontecia, porisso, que, sendo essa região do Tyrol 
tão productiva que não cedia á fecundidade mesmo da 
Zelândia, a exploração do solo Hmitava-se a essa agri- 



308 A HISTORIA ECONÓMICA 



cultura, junta ao cuidado dos pastos. Mas os indig^enas 
sabiam em muitos logares augmentar os seus rendimen- 
tos, pela fabricação de vários objectos que expediam para 
mercados distantes, como bonecas de pau, brinquedos 
de criança e ornamentos de toda a espécie. E essa indus- 
tria e commercio eram muito activos, como já dissemos. 

Os paizes com que a Áustria fazia mais commercio, 
eram, em primeiro logar, com a AUemanha, que lhe 
pedia mais productos do que vendia. E esta diversidade 
de trocas explica-se por duas razões. 

Por um lado, a Áustria e Hungria, ricas em cereaes 
e gado, contribuiam para alimentar os paizes pobres e 
muito povoados da AUemanha do sul e do este. E, de 
facto, a Baviera, a Saxonia e a Prússia pediam-lhe 
parte das suas subsistências. 

Por outro lado, a AUemanha possuia na fronteira 
austro-hungara duas das suas mais ricas regiões indus- 
triaes, a Silesia e a Saxonia, que forneciam productos 
que a Áustria não fabricava, ou que fabricava em 
pequena quantidade, por exemplo, tecidos de algodão, 
lan e seda. E, em abono de tudo isto, a Hgação resul- 
tante do Zolverein intensificava também muito as rela- 
ções entre os dois paizes. 

Mas, a partir de 1884 em diante, verificou-se que as 
vendas e compras da AUemanha diminuiram, o que se 
explica pelo maior desinvolvimento industrial da Áustria 
e Hungria. 

Vinham depois da AUemanha as Ilhas Britânicas, que 
importavam no império mais objectos manufacturados 
do que compravam. Seguiam-se a Itália, França, Suécia, 
Rússia, Principados Danubianos; e, fora da Europa, o 
Levante, Estados Unidos, Brazil e Egypto. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 309 



As importações consistiam, sobretudo, em algodão 
bruto, algodão fiado, café, pelles, tecidos, tabaco, hulha 
e maquinas. 

As exportações, principalmente, em cereaes, assucar, 
pau e madeira, artigos de couro, gado, ovos, seda, 
objectos de vidraria, papel e cerveja. 

* 
* * 

Quanto aos centros económicos principaes, a cidade 
de Vordenberg era conhecida no mundo commercial 
pelas suas fundições, em que se empregava o ferro de 
Erzegerb. 

Onnsbruck, a capital do Tyrol, n'uma situação admi- 
rável para o commercio, na planície dominadora do 
Inn, era também um centro importante de industria e 
commercio. 

Linz era uma das cidades mais populosas e mais 
commerciaes, e o entreposto necessário do sal de Salze- 
burgo, da madeira e outros productos da Bohemia. 

Vienna, uma das cidades mais importantes da Eu- 
ropa e uma das que augmentou com mais rapidez, era 
também uma das mais sumptuosas e das mais bellas, e 
a maior cidade industrial e manufactora da Áustria e 
Hungria. Fabricava quasi a decima parte dos productos 
de todo o império. E, entre as suas diversas industrias, 
distinguia-se a da seda, carruagens, locomotivas, ma- 
quinas de toda a espécie, pianos e outros instrumentos 
de musica, compassos e mecanismo de precisão. Os 
Viennenses tinham também singular gosto para os 
pequenos objectos de arte e de luxo. Eram muito 



310 A HISTORIA ECONÓMICA 



hábeis em abrilhantar os papeis e estofos, tornear o 
pau e o marfim e imprimir lavores nos couros. 

O porto de Trieste era, no século XIX, o empório do 
Adriático oriental; e o caminho de ferro que o ligou a 
Vienna, produziu uma verdadeira revolução no movimento 
geral do seu tráfico, pois que, por esta via do Adriático, 
prolongou-se ella, por assim dizer, até o coração da Eu- 
ropa. Tornou-se o primeiro porto da Áustria e Hungria e 
também um dos primeiros do Mediterrâneo. A companhia 
do Lloyd austriaco, uma das sociedades que possuem 
maior numero de frotas do Mediterrâneo, já estava ins- 
tallada ao sul de Trieste, na borda do golfo de Mugia. 

Trieste conquistou mesmo sobre Veneza a prepon- 
derância commercial. 

Fiume, o porto húngaro, tinha muito menos impor- 
tância como porto que Trieste. Como diz E. Reclus, 
não era o espaço que faltava aos navios, eram os na- 
vios que faltavam ao porto; mas tinha muitas fabricas 
de papelaria, imagens, descortição de arroz e de amido, 
fabricação de moveis e outras, e muitos canteiros de 
construcção. 

Buda-Pesth sobresaia, pela grande moagem; e exer- 
ceu, alem d'isso, muitas outras industrias. 

Cracóvia, a antiga capital da Polónia, era muito in- 
dustrial e commercial. 

Praga, a terceira cidade do império, era também 
muito industrial e commercial; e não só abundava na 
fabricação de muitos productos, mas tinha também os 
arredores cheios egualmente de fabricas, e com a 
dupla vantagem de se acharem perto de um grande 
centro de consumo, e na proximidade de minas de hulha 
que lhe forneciam o alimento necessário. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 311 



Pilsen era também muito industrial e commercial. 

Carisbad, a primeira estação de banhos de toda a 
Europa, e que, porisso, na estação balnear atrai uma 
população numerosissima, tinha uma grande industria, 
especialmente de rendas e porcellanas. Estava rodeada 
de povoações muito industriaes, e fazia um grande com- 
mercio devido também áquella população fluctuante. 

Kadno, a cidade que occupa o meio da bacia 
hulheira, possuia os maiores estabelecimentos metal- 
lurgicos da região. 

Troppeau era também muito industrial, e, sobretudo, 
na fabricação de pannos. 



Quanto a communicações, o Danúbio era a melhor 
via de navegação; e o" império fez grandes despezas 
para reprimir as suas divagações, bem como as mudan- 
ças do leito entre Linz e a saida da planicie húngara. 
Trabalhou mesmo na destruição das Portas de Ferro; 
e, em 1896, inaugurou uma canalisação, que permitte 
aos navios fluviaes passar essas portas sem grande 
trabalho. Mas, em todo o caso, a communicação por 
essa via tinha os inconvenientes que já expusemos. 

Os cursos de agua da zona alpestre são mais fluctua- 
veis que navegáveis, tal é o caso do Adige, que car- 
regava trens de madeira, com destino á Itália. 

O Inn supporta navios a vapor de fraca tiragem na 
sua zona inferior. Só nos grandes valles longitudinaes, 
é que circulavam os rios úteis ao tráfico. 

Estes valles, sobretudo, os do Drava e os do Sava, 



312 A HISTORIA ECONÓMICA 

\ 

tinham a vantagem de continuar directamente para o 
Mediterrâneo. Mas esses rios ligam-se ao grupo trans- 
lesthanio na maior parte do seu curso, 

A Bohemia é sulcada do norte ao sul por uma 
grande artéria fluvial, composta do Moldau e do Elba; 
e graças aos numerosos trabalhos de barragem e de 
eclusas, pôde assegurar-se a sua navegação, a partir de 
Leitmeritz, e, alem d'isso, no fim do século estava-se 
estudando o projecto de um canal entre o Elba e o 
Danúbio. 

As vias carrossaveis eram consideráveis nas regiões 
occidentaes do império, onde a industria estava mais 
desinvolvida; mas eram apoucadas nas outras regiões, 
e, sobretudo, na Hungria. 

Os caminhos de ferro começaram em 1837; m.as a 
actividade da construcção só começou em 1860, e, desde 
1865 a 1874, houve mesmo uma verdadeira febre de 
construcções que trouxe até uma grande crise financeira. 

Depois, essa febre continuou, de modo que a Áustria 
e Hungria encheram-se de vias férreas, principalmente, 
na região bohemia do Nordoeste, Moravia e Silesia. 

Quatro vias atravessavam os paizes montanhosos 
do norte da Hungria e havia muitas outras em differen- 
tes regiões \ 



1 Noel, obr. cit. — Louis Asseline, Histoiíe de LAutriche. 

— Daniel Lévy, LAutriche-Hongrie: ses constiíutions el ses Natio- 
nalites. — E. Reclus, Nouvelle Geogiaphie Universelle, LEurope 
Centrale, L 'Autriche. — Onesine Reclus, La Terre à Vol d'Oiseau, 
Le Conte de Medinen, Les Finances d' Autriche. — Lanier, LEurope. 

— Bainnier, Cours de Geographie Commercial dEurope. — S. Marsil- 
lac, obr. cit. — A. Amman & E. C. Courtan, obr. cit. 



CAPITULO VIII 
A Suissa 

Leve esboço politico da Suissa. — População. — Superf icie. — Situação 
commercial. — Como a falta de littoral é compensada por outras 
vantagens. — Como pela sua situação foi neutralisada perpetua- 
mente, em 1816. — Zonas physicas de que se compõe. — Systema 
orographico e hydrographico, e belleza e variedade de íispectos 
que d'ahi se derivam. — Como tudo isso provoca a afluência de 
estrangeiros e viajantes, e progresso que d'ahi tem resultado. — 
Clima e vento feún. — Riqueza e progresso da Suissa. — Pro- 
ductos, agricultura, industria e commercio. — Centros económi- 
cos principaes. — Communicações. 

E' a primeira vez que, no decurso d'esta obra, tra- 
tamos em separado da Suissa; e, porisso, á imitação do 
que temos feito com os outros povos, nos volumes ante- 
cedentes, começaremos por consignar um leve esboço 
da sua historia politica, mesmo desde tempos anterio- 
res, e por dar algumas noções também sobre os facto- 
res económicos da sua população, situação, aspecto e 
clima: tanto mais que tudo isso influe, como veremos, 
no seu movimento industrial e commercial. 

Até 1273, a Suissa fazia parte do império allemão. 
Então, Rodolpho de Hapsburgo, descendente de uma 
familia de Argovia, onde elle governava em nome do 
imperador Ricardo, foi, por morte d'este, nomeado 



314 A HISTORIA ECONÓMICA 



imperador, graças á intervenção do papa Gregório X. 
Porém, o império recaiu n'uma desordem grande, e 
algumas povoações sentiram a necessidade de se allia- 
rem entre si para a defeza e protecção commum: taes 
foram as do valle do Uri, as de Schwitz e os monta- 
nheses do Vallais, que mais tarde deviam, formar parte 
do cantão de Unterwalden. E a estes cantões foram-se 
juntando outros mais. 

Em 1351, a Áustria entrou em guerra com a Suissa, 
e isso deu em resultado que, em 1352, já havia oito 
cantões confederados. Em 1353, formou-se a confede- 
ração de treze cantões; em 1803, compoz-se ella de 
dezenove, pela nova constituição dada por Bonaparte, 
conhecida na historia sob o nome de Acto de Mediação; 
e, em 1815, de vinte e dois, pelo Pacto Federal, elabo- 
rado pela assemblea de Zurich e acceito pelo congresso 
de Vienna. E estes cantões foram, então, arredondados 
com vários territórios da raça franceza, italiana e allemã. 

Porisso mesmo, na Suissa fallam-se diversas linguas. 
A allemã é usada nos negócios geraes da Confedera- 
ção, e é fallada por 69 por cento da população suissa. 
Falla-se francez nos cantões de Genebra, Vaud e So- 
leure. E o italiano é a linguagem do cantão do Tessino 
e de alguns valles dos Grizões e do Vallais. 

A superficie é de 41.182 kilometros. A sua popula- 
ção era no século passado de 3 milhões aproximados, 
composta de Allemães, Francezes, Italianos, Romanhos 
ou Rhetes ou Rumandos, Ladinos e Judeus. 

Quanto á sua situação commercial, não tem littoral. 
No século, XIX de que estamos tractando, só havia na 
Europa um outro Estado, a Servia, que também não 
tinha littoral. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 31 5 



E, por outro lado, é o paiz mais montanhoso da 
Europa. E isto equivale, em certo ponto, a uma bar- 
reira de transito, apesar de que os próprios Alpes 
na Suissa não constituem barreira insuperável entre os 
paizes do norte e sul; antes são profundamente cor- 
tados por valles, que do centro do paiz se dirigem em 
todos os sentidos, e offerecem um g-rande numero de 
passagens, relativamente fáceis. Uma d'ellas até presta 
accesso a uma via férrea de grande importância, de 
que adiante f aliaremos, a de S. Gothard. 

Estes inconvenientes, porém, estão compensados por 
differentes vantagens, taes são : 

1." A Suissa está no centro da Europa, entre pai- 
zes muito commerciaes, e communicando facilmente com 
elles. Partilha até com a França a navegação do lago 
de Genebra; com a'Allemanha, a do lago Constança e 
a do Rheno; com a Itália, a do lago Maior; e com a 
Áustria tem a communicação do rio Inn. 

2.'' Aquelle mesmo facto de ser muito montanhosa 
e as montanhas serem muito bellas torna a situação 
económica da Suissa mais importante, pela grande quan- 
tidade de viajantes que atrai, e porque esta situação 
montanhosa dá-lhe muito bellas paysagens, lagos, gelei- 
ras, montes de neve, etc, que são outros tantos cha- 
marizes de estrangeiros. 

3.^ A sua situação central dá-lhe também grande 
importância militar, embora em desproporção com a 
força do seu exercito e pequenez do seu território. 
Como já disse um escriptor notável, a potencia que se , 
apoderasse da Suissa, poderia fazer desembarcar á von- 
tade os seus exércitos no theatro das operações, ou 
pelo Rhodano, ou pelo Saona, Pó e Danúbio. De 



316 A HISTORIA ECONÓMICA 



Genebra, poderia marchar sobre Lyão. De Bale, pode- 
ria descer ao valle de Saona, passando por Belfort. 
De Constança, poderia lançar-se sobre o Danúbio. 
A Itália podia ser invadida nas suas linhas de defeza 
contra a França. E a Áustria poderia ser tomada. 

Foi exactamente por esta situação particular que as 
nações reunidas no congresso de Vienna de 1815 re- 
conheceram que o interesse geral da Europa exigia que 
a Suissa fosse declarada em neutralidade permanente; a 
saber, que não possa ser guerreada nem guerrear senão 
em legitima defesa ^; e isto, sob a sancção d'aquellas 
potencias. 

Ora, esta neutralidade permanente, devida a uma 
tal situação, garantindo uma paz também permanente, 
e abolindo a necessidade de exércitos, pois basta a 
simples força policial, é mais uma outra vantagem 
económica d'este paiz. 

Quanto ao aspecto, a Suissa divide-se em quatro 
regiões. 

A primeira, ao O., compõe-se do macisso do Jura, 
que comprehende parte da Suissa occidental. E, na 
direcção de O. para NO., á altura de 250 a 350 metros, 
estende-se uma dilatada e ondulosa planicie, que se 
chama Hochebene, e que, principiando no lago de Gene- 
bra, vae terminar no Wasser-Scheide, serie de collinas 
arborisadas, situadas entre o Rheno e o Danúbio. 

A segunda região, no centro, é uma alta planicie 
de 250 metros a 400, regada pelo Aaar e seus affluen- 
tes, e comprehendida entre o Jura e os Alpes. 



1 Adriano Anthero, O Direito Internacional, pa^. 367. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 31 7 



A terceira região, a SE., é uma alta terra que sus- 
tenta o macisso dos Alpes. Tem a nascente o planalto 
de Engadine, nas fronteiras do Tyrol. 

A quarta, é constituida pelo valle do Tessino, ao 
sul, que partilha já do clima e natureza da peninsula 
italiana. 

O Jura e os seus montes não excedem a altitude 
de 1.766 metros. Ainda não ha geleiras ahi, mas ha 
lagos fundos ou cavernas, onde o sol nunca entra, e 
que existem cheias de neve. 

Nos Alpes, na altitude de 2.600 metros aproxima- 
damente, é que se encontram neves permanentes, e 
geleiras, que descem muito abaixo d'esta altitude, sendo 
raras as que teem menos de um miriametro de extensão. 

Para se fazer ideia da quantidade de gelo que con- 
tem uma só das grandes geleiras, basta saber que as 
ha de 366 metros de espessura, cobrindo 20 kilometros 
de extensão. O numero das grandes e pequenas gelei- 
ras anda por 600, e a superficie que ellas occupam, está 
calculada em 209.609 hectares. 

Já este espectáculo faz uma paysagem encantadora. 
Mas, alem d'isso, a belleza dos Alpes, especialmente 
dos Bernezes, é muito grande. 

Quanto ao systema hydrographico, o nó central 
d'aquelles montes da Suissa é o S. Gothard; e d'ahi 
ou dos seus arredores saem o Rheno com seus affluen- 
tes — o Thur e o Birse; o Rhodano com os d'elle — ^Arve 
e Doubs, que se lhe juntam pelo Saona; o Aaar também 
com os seus affluentes — Emen, pequeno Emen, Saane ou 
Sarina, Thule, Reuss e Linth, que ao sair do lago Zurich, 
toma o nome de Limmate; o Inn, affluente do Danúbio; 
e o Tessino. Mas só começam a ser navegáveis, no mo- 



318 A HISTORIA ECONÓMICA 



mento de deixarem a Suissa, o Rheno para o norte, em 
direcção á Allemanha, o Inn para E., em direcção ao 
Tyrol, o Rhodano para O., em direcção á França, e o 
Tessino para o sul, em direcção á Itália. 

Os saltos e cachoeiras que os rios formam, consti- 
tuem também uma das bellezas mais pittorescas da 
Suissa. 

Os lagos representam o mais formoso ornamento 
deste paiz; e os dois maiores, são alimentados também 
pelos dois maiores rios que nascem nos Alpes. Assim 
o Rheno mergulha no lago de Constança, e o Rhodano 
no de Leman ou de Genebra. 

Deve, alem destes lagos, notar-se o de Wallenstatt, 
o de Zurich, o Zug, o dos Quatro Cantões ou Lucerna, 
o Maior, também suisso em parte, o Neuchatel e o 
Brienne; e ainda o Brienze e o Thun, ligados pelo 
Aaar, o Morat ao pé do Neuchatel, e o Lugano, no 
Tessino. 

A Suissa possue differentes canaes. Os mais impor- 
tantes são os dois de Linth, a saber: um de 5 kilo- 
metros, indo de Mollis ao lago Wallenstatt, e o outro 
de 16 kilometros e meio, indo do lago Wallenstatt 
ao de Zurich; estando ambos elles, em todo o seu 
percurso, encerrados em diques de 2 metros e meio, 
e servindo para drenar todos os terrenos pantano- 
sos da planicie que se estende entre Wesen e o lago 
Zurich; o canal do Aaar, entre o lago de Thun e a 
cidade de Berne; os canaes que communicam o lago 
Morat (Friburgo) com o lago Neuchatel, este com o 
lago Bienne, e este ultimo com o Aaar; e o canal de 
Entre Rochas, destinado a reunir o lago de Neuchatel 
e o de Genebra. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 319 



O clima é geralmente são. A distancia egual do 
polo e do equador deveria tornai -o muito doce. 
A elevação, porém, do solo, diminui a vantagem da 
situação. Reina um inverno perpetuo no cume dos 
Alpes, e todo o alto paiz é coberto de neves, desde 
outubro a maio. Ainda assim, em muitos valles, goza-se 
de uma temperatura muito mais doce; e tanto que lá se 
cultivam tabaco, figueiras, oliveiras e vinho. E os valles 
do Tessino, que estão expostos ao sul, teem uma tem- 
peratura, ainda mais amena que a da Suissa situada 
ao norte. 

Ha o foehn (feún) ou vento do sul, que é uma cor- 
rente de ar quente, que vem do Sahará, e que, depois 
de ter assollado com o nome de sinmn a Africa do 
norte, e com o nome de sirocco a Itália, chega aos 
Alpes. Na primavera, o feún eleva a temperatura a 
30 e 35", derrete as neves dos pastos alpestres, e torna 
a sua exploração fácil. 

Sem o feún, dizem os habitantes dos Grizões: nem 
o bom Deus nem o sol douro podem nada. 

Mas este vento, quasi sempre tão útil, é também ter- 
rível, quando sopra em tormenta. Desgraçada da em- 
barcação que se exposer, então, na superficie dos lagos 
a toda a sua fúria. N'essa occasião, qualquer lago, 
fervendo, assemelha-se a uma grande cratera, cheia de 
fumo; e na terra, a sua violência é tão grande que os 
camponezes não podem accender lume nas cabanas, 
emquanto elle dominar a região. 



320 A HISTORIA ECONÓMICA 



O clima é tão irregular que, no mesmo dia, se expe- 
rimentam os calores insuportáveis da Hespanha meri- 
dional e o frio glacial da Laponia, a ponto de que, 
em muitos logares, sobe a mais 31", e, noutros, desce 
a menos 31°. 

As chuvas são muito desegualmente distribuidas. 
As variações da temperatura são súbitas, as trovoadas 
frequentes e fortes, e, muitas vezes, acompanhadas até 
de saraiva. Outr'ora, eram também muito frequentes 
n'este paiz os tremores de terra. 



* 
* 



A Suissa, no século XIX, era, como hoje, muito 
pobre em productos mineraes. 

Tinha apenas alguma hulha nos cantões de Zug, 
S. Gall e Lucerna; alguma antracite e linhite em Valais; 
e algumas minas de ferro no Jura e nos Grizões. 

Era, porém, como ainda é, muito abundante em 
pedras de toda a espécie — granito, porphido, már- 
more, alabastro, ardósia, pedra mó e gesso. Tinha 
grande abundância de sal nos cantões de Argovia e 
e Vaud, cujas salinas representavam um artigo de forte 
exploração. E havia asphalto no cantão de Neuchatel, 
que era objecto de um tráfico importante. As aguas 
mineraes constituiam, como actualmente acontece, uma 
das grandes riquezas d'esse paiz, pela attracção de 
muitos estrangeiros; e, entre ellas, as de Louèche, no 
Valais, S. Maritz e Ragatz, em S. Gall, Vex, no Vaud, 
e Baden, na Argovia, tinham uma voga prodigiosa. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 321 



Quanto aos productos vegetaes, o solo suisso divi- 
de-se em cinco zonas, sob o aspecto da flora. 

A primeira zona vai até 550 metros de altitude. 
Prosperam ahi a vinha, a amoreira, e o castanheiro. 

A segunda zona vai de 550 metros até 850. Ha cam- 
pos de trigo, bosques de carvalhos, nogueiras e arvores 
de fructa. Esta zona é muito abundante em prados. 

A terceira zona vai até 1.300 metros, ou mesmo 1.800. 
E' a zona chamada dos pinheiros. Ha ahi também muitos 
abetos, plátanos, bordos e muitos prados. 

A quarta zona vai de 1.800 metros a 2.150. E' a 
região inferior alpestre, onde apenas se encontra herva, 
tojo, betula e a rosa dos Alpes, e onde é impossível 
qualquer cultura. Chega até o limite das neves eternas. 

Finalmente, na quinta zona, desde 2.150 metros para 
cima, ha as neves eternas, e os valles, com raras exce- 
pções, transformados em geleiras. Apenas, em muito 
poucos logares expostos ao sol, se encontra musgo 
nas pedras das montanhas \ 

Nas florestas, havia no século passado, como ainda 
ha, faias, laricios, pinheiros mansos e bravos, abetos, 
cedros dos Alpes, plátanos, nogueiras, carvalhos, cas- 
tanheiros e bétulas. 



1 Francis Otwel Adónis e C. D. Cunningham, no admirável 
livro La Confederation Suisse, dividem-na só em três zonas : a pri- 
meira até 700 metros; a região montanhosa até 1.290; e o districto 
alpestre até 2.280, D'ahi para cima cessa toda a cuHura. 

Volume VI 21 



322 A HISTORIA ECONÓMICA 



Essas florestas eram muito convenientes, porque 
garantiam as avalanches e desabamentos. Porisso, o 
Governo empregou todos os esforços para a sua con- 
servação. Mas, como ellas pertenciam, na maior parte, 
a particulares, as medidas do Governo não puderam 
ser tão efficazes, como era mister. E, porisso, as 
florestas diminuiram muito, desde o principio do sé- 
culo XIX, embora, no fim delle, ainda cobrissem 
70.000 hectares. 

Assim, a Suissa não fornecia a madeira precisa para 
as suas necessidades industriaes. E tanto mais que as 
florestas davam logar a uma grande industria, a de 
esculptura, bijuteria, objectos de adorno, etc, prepa- 
ração de chalets de madeira, cujos materiaes já fabri- 
cados se exportavam para o estrangeiro, onde, depois, 
eram armados. Precisava, porisso, de pedir madeira aos 
paizes estrangeiros. 

Relativamente aos productos agrícolas, a agricul- 
tura estava muito desinvolvida, onde ella era possível, 
graças ao génio dos habitantes, á instrucção geral e 
especial, espalhada por toda a parte, e ao estimulo 
resultante das escolas e estabelecimentos appropriados. 

Assim, a instrucção geral era obrigatória, mas a 
serio. As escolas eram uma das grandes predilecções 
dos Suissos. Ricos e pobres as frequentavam, e via-se 
o rico sentado ao pé do pobre, sem distincção. Não 
havia d'esses rapazes vagabundos, que não frequentam 
as aulas. 

Encontravam-se em muitas cidades jardins de infân- 
cia, onde as crianças eram mandadas, desde que tinham 
quatro ou cinco annos, e onde começavam a estudar 
botânica e a formar o atractivo e gosto pelas plantações. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 323 



Havia muitas escolas de agricultura. Uma de viti- 
cultura em Lausane; uma de jardinagem em Genebra; 
e escolas de leitaria e queijaria em Lornthal e em 
Fri burgo. 

De tempos a tempos, faziam-se conferencias sobre 
viticultura, horticultura, tratamento de forragens e cria- 
ção de gado; e havia cursos agricolas em differentes 
partes do paiz. 

E o génio dos habitantes correspondia á iniciativa 
do Governo e á instrucção geral e especial. Rochedos, 
outr'ora estéreis, foram cobertos de vinhas e pastos. 
A charrua traçou sulcos na borda de precipicios tão 
escarpados que custava a conceber como um cavallo 
ou um boi lá podiam subir. 

Comtudo, as terras aráveis, raras e mediocres, só 
chegavam a dar duas sétimas partes do que era pre- 
ciso para a alimentação dos Suissos, embora houvesse 
alguns cantões que produziam cereaes bastantes para 
elles. 

A colheita constava, sobretudo, de trigo espelta, 
aveia e centeio, nas terras baixas dos cantões de Vaud, 
Berne, Argovia e Thurgovia. A do trigo era muito 
pequena. Cultivava-se milho nos Grizões e S. Gall. 

Esta pobreza de cereaes era supprida pela cultura 
da batata, que constituia uma boa parte da alimentação 
dos camponezes. 

A Suissa, que estava dividida como a França em 
grande numero de pequenas propriedades, desinvolveu 
muito a cultura hortícola. 

Entre as culturas arborescentes, a vinha tinha o pri- 
meiro logar. Principalmente, em volta dos lagos, onde 
a agua adoça o clima, é que havia mais vinho, e, nos 



324 A HISTORIA ECONÓMICA 



cabeços do lago Genebra e do Neuchatel, é que era 
cultivado com mais cuidado. O Valais e S. Gall tam- 
bém produziam bastante. 

Os vinhos de pasto mais celebres eram os do lago 
Leman ou Genebra e Neuchatel. 

Uma grande parte de todos os vinhos da Suissa 
era transformada em champagne, que ia concorrer nos 
Estados Unidos com o champagne francez. 

As arvores fruteiras implicavam grande cuidado nos 
cantões do norte. Havia valles inteiros que se asseme- 
lhavam a grandes pomares. Fazia-se também vinho de 
fruta; e preparava-se muita fruta secca ; e, no norte, 
muita cidra e kirch. 

Nas culturas industriaes, havia algum tabaco, linho 
e cânhamo. O absintho crescia naturalmente no Jura, 
e dava logar a uma grande industria da sua bebida. 
Havia também alguma colza, que se aproveitava para 
azeite. 

A maior riqueza da Suissa, estava, porém, no gado. 

Os pastos e prados, fora da alta montanha, eram 
communs e occupados por muitos rebanhos, que anda- 
vam quasi que em liberdade, sob a conducção de um 
pequeno numero de pastores, durante a bella estação. 
Desde que as neves se derretiam, os animaes de toda 
uma região subiam conjunctamente aos Alpes, donde 
desciam somente com a apparição das primeiras neves. 
E os productos do leite e queijo eram partilhados 
entre os proprietários, depois da campanha. Assim, os 
rebanhos iam pastando, segundo as estações, nos pra- 
dos dos valles, e depois nos Alpes. 

Havia grande abundância de gado grosso, princi- 
palmente bovino. Os bois pertenciam a duas raças — a 



EDADE CONTEMPORÂNEA 325 



de Schewitz, escura, de talho médio, que povoava, 
sobretudo, as montanhas; e a do Jura ou raça de 
Abundância ou do Friburgo, que é malhada e habitava 
sobretudo os platós, especialmente, nos cantões do 
Berne e Friburgo. 

Os cavallos eram fortes e bons, mesmo para carro. 
As cabras eram também numerosas, e davam um leite 
excellente. 

Havia muitas abelhas no Valais, que produziam mel 
afamado ; e muito sirgo, no Tessino. 

A caça, que primeiramente teve grande impor- 
tância, diminuiu muito, pela guerra encarniçada, feita 
aos animaes selvagens. O viado e cabrito montez 
desappareceram. Restava ainda a camurça, que ten- 
dia também a extinguir-se; e, já nos últimos tempos 
do século XIX, somente se encontrava nos cantões 
dos Grizões, Appenzell e Valais. Mas, no intuito de 
obstar á completa extincção d'este animal, o Go- 
verno, então, só permittiu a caça d'ella durante trez 
ou quatro mezes, o que preveniu a destruição com- 
pleta. 

Também já raramente se encontrava, desde o meiado 
do século passado, a cabra alpestre e o lobo. Ainda 
havia, porém, ursos nas florestas do Jura. 

Em compensação, os lagos e os rios forneciam aos 
pescadores um tributo abundante de peixes, trutas, etc. 
As enguias do Tessino eram objecto de um commercio 
considerável, tanto com a Lombardia, como nos can- 
tões vizinhos. Viam-se também vagões inteiros de 
caracoes tomarem o caminho da Itália, no tempo da 
quaresma. 



326 A HISTORIA ECONÓMICA 



Quanto ás industrias mecânicas, em geral, apesar 
de faltarem rriineraes e hulha, eram muito activas, pelo 
génio dos habitantes e instrucção geral e especial de 
que já falíamos; pelas muitas quedas de agua, que 
forneciam motores naturaes e eléctricos ; pelos peque- 
nos impostos de importação das matérias primas, em 
consequência da liberdade de commercio, de que adiante 
fallaremos; pelo baixo preço em que a mão de obra 
ficava, attenta a simplicidade dos costumes e a falta 
de luxo; por haver muitas vias de communicação; pela 
liberdade de trabalho, pois não havia monopólios; pela 
boa legislação industrial e commercial; pelo grande 
consumo interno, em vista da aglomeração de estran- 
geiros e viajantes ; e, finalmente, porque a Suissa podia 
supprir facilmente a falta da hulha e do ferro, importan- 
do-os da Allemanha. 

O próprio trabalho siderúrgico tornou-se importante. 
As forjas de Liesstal e as officinas Shaffhouse eram 
afamadas. As fabricas de maquinas e ferramentas de 
Zurich, Winterthur e Oerlikon contavam-se entre as 
melhores da Europa. E Aarou era o centro de uma 
importante fabricação de canhões e cutellarias. 

A relojoaria era muito notável. Datava de 1587, e, 
no fim do século, produzia quasi um milhão e meio de 
relógios. E dizemos de relógios, porque, relativamente 
ás caixas de ouro, como a Suissa não possui esse 
metal, já no século XIX, eram principalmente fabrica- 
das nos Estados Unidos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 327 



Na preparação de caixas de musica, Genebra occu- 
pava o primeiro logar no mundo. E exercia outras mais 
industrias importantes, como, por exemplo, a tecelagem. 

Havia escolas de relojoaria, em Genebra, Neuchatel, 
Chaux-de-Fonds, Locle, etc. 

Iam muitas máquinas de relógios para os Estados 
Unidos, onde as caixas, pela abundância do ouro, fica- 
vam mais baratas, como já fizemos ver. Mas esta expor- 
tação foi diminuindo, nos últimos tempos do século XIX, 
á proporção que os Estados Unidos se foram eman- 
cipado d'essa importação, pela sua própria perícia na 
relojoaria. 

Estava muito desinvolvida a cerâmica e a faiança. 
E os centros principaes eram Winterthur e Carouge. 
Muito desinvolvida também a industria de instrumentos 
de precisão (Genebra) e de instrumentos de precisão 
(Glaris). 

As mais importantes, porém, de todas as industrias 
eram as de fiação e tecidos, e, sequentemente, a da 
respectiva tinturaria. Derivavam da tradição, alem das 
causas que temos apontado. E a principal d'ellas era a 
do algodão, em que a Suissa rivalisava com a própria 
Inglaterra e França, e cujos centros principaes eram 
Berne, Zurich, S. Gall e Appenzell. 

A do linho era também muito importante. Berne, 
por exemplo, fabricava até muitas teias adamascadas. 

A industria da seda, que datava do século XVII, 
tomou-se considerável com o asilo dado aos calvinistas 
francezes, pela revogação do edito de Nantes. E tanto 
se desinvolveu que, no ultimo meiado do século XIX, 
concorria com a seda de Lyon. Os centros principaes 
eram Bale, Zurich e Gall. 



328 A HISTORIA ECONÓMICA 



Os trabalhos de lã e cânhamo é que não tinham 
grande valor industrial. Occupavam apenas algum dis- 
trictos dos cantões de Argovia e Thurgovia. Mas, ainda 
assim, Bale possuia também muitas fabricas de lanifícios. 

Em 1835, os cantões, afim de facilitarem a fabricação 
dos tecidos, supprimiram todo o obstáculo ás transa- 
cções interiores, estabelecendo a liberdade de com- 
mercio, na acepção mais completa. E, assim, apesar das 
difficuldades de accesso que a sua situação geogra- 
phica oppunha ao transporte das matérias primas, e, 
apesar da raridade dos capitães, n'essa época, a tecela- 
gem de algodão triunfou plenamente; e as manufacturas 
produziam espécimens, que podiam rivalisar com os 
melhores da Europa. 

Em todo o caso, os inicios foram penosos. Não 
podendo nos primeiros annos lutar no próprio territó- 
rio com os algodões inglezes e francezes, a Suissa 
esmerou-se em concentrar os seus esforços na fabrica- 
ção de certas especialidades, em que a proximidade 
da Itália lhe fazia intervir, tal era a da seda; e chegou 
a despejal-a em praças distantes do Oriente, Extremo 
Oriente, índia e America. Mas o tempo, a perseve- 
rança e o progresso das maquinas, a poz mais tarde 
em condições de concorrer, mesmo no algodão, com os 
productos similares dos paizes vizinhos, até no próprio 
território d'elles, e tomar, no ponto de vista industrial, 
um logar considerável, 

A realisação de reformas liberaes, e a conclusão de 
tratados de commercio com as grandes potencias do 
continente, e com os Estados Unidos, desde 1848 a 
1868, acabaram por dar á Suissa ainda maior impulsão 
económica. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 329 



E esta impulsão foi encontrar um elemento particu- 
larmente poderoso de progresso, na abertura do S. Go- 
thard, que, reduzindo as distancias que separam a 
Allemanha da Itália, serviu de grande via de penetra- 
ção e de transito para os productos destinados ao 
Oriente, e substituiu, n'uma certa medida, para os 
objectos de valor e para os viajantes, o transito pela 
via marítima. 

Ultimamente, a Suissa, para luctar com a França, 
tratou de desinvolver as industrias de luxo. E para 
isso criou muitas escolas e museus. 

Também uma das industrias mais importantes era 
a dos hotéis. Havia uma escola profissional de hote- 
leiros, frequentada por grande número de alumnos, 
entre os quaes figuravam em grande proporção os 
filhos dos proprietários dos 1:593 hotéis do paiz. 

Essa escola estava installada no Hotel de Inglaterra 
em Onchy-Lausanne, e funcionava desde 15 de Outubro 
a 15 de Abril. Admittia alumnos internos e externos. O 
internato era de 120 francos por mez. O programma dos 
estudos comprehendia allemão, francez, inglez, arithme- 
tica, caligraphia, geographia, contabilidade, conheci- 
mento dos productos comestíveis, e exercícios práticos, 
taes como sobre a administração de cozinha, modo de 
servir á mesa, etc. 

Além disso, ententendia-se geralmente que o hote- 
leiro devia saber muita coisa, e ter conhecimentos muito 
variados. Por exemplo, devia visitar as adegas, ouvir 
lições theoricas sobre o tratamento dos vinhos, etc. 

Durante o inverno, os alumnos iam por turno servir 
os jantares de mesa redonda do Hotel Beau Birage, e 
ahi aprendiam a arte difficil, que tanto sangue frio 



330 A HISTORIA ECONÓMICA 



reclama — a de trinchar, mudar os pratos e talheres 
sem estrépito, não derramar molho sobre o fato dos 
convivas, etc. \ 

E também a industria da preparação e ensino de cria- 
das, destinadas a servir na Suissa e no estrangeiro, era 
importante. Havia até uma escola de serviçaes, que 
durava alguns mezes. 



O commercio interno e externo era muito con- 
siderável, devido egualmente ao génio dos habitan- 
tes, á sua Índole activa e ao systema liberal d'esse 
commercio; porque não havia direitos protectores, e 
apenas pequenos impostos fiscais para as despezas 
dos cantões. 

As razões que levaram a Suissa a este systema 
liberal, eram variadas. 

Primeiramente, bloqueiada pela Europa, convinha- 
Ihe adquirir, por meio de uma politica aduaneira liberal, 
a hulha, os mineraes e os demais objectos necessários 
á sua industria. 

Em segundo logar, não tendo divida publica, e 
tendo pequenas despezas orçamentaes, não precisava 
de muitos impostos. 

Em terceiro logar, como os transportes para lá eram 
por terra, não se tornava tão perigosa a concorrência 
dos outros paizes. 



1 Vide o jornal A Província de 27 e 30 de Setembro de 1898. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 331 

E, finalmente, o preço dos productos era relativa- 
mente menor; porque também era mais barata a mão 
de obra, e havia a gratuitidade da força motriz de 
quedas de agua. 

E, além de tudo, os estrangeiros que viajavam ou 
estacionavam na Suissa, pelo que lá consumiam ou 
levavam para o seu paiz, constituíam outro elemento 
poderoso d'esse commercio. 

A importação consistia, principalmente, em cereaes 
e farinhas, algodão, tecidos, seda (matéria bruta), ani- 
maes, vinhos, hulha, ferro e metaes. 

E a exportação, sobretudo, em sedas, algodão, reló- 
gios, vinhos, queijo, seda em fio, algodão também em 
fio, animaes, leite, pelles, chapéus de palha, bijuterias 
de madeira, materiaes de chalet, absintho, etc. 

Os principaes paizes com que fazia o commercio, 
eram Allemanha, Inglaterra. Áustria, Hungria, França, 
etc. E, fora da Europa, os Estados Unidos representavam 
o paiz que mais commercio fazia com a Suissa, em con- 
sequência do grande numero de Suissos que lá estava. 



Quanto aos principaes centros económicos, Gene- 
bra tornou-se uma das cidades mais importantesdo mundo, 
pela instrucção. As suas escolas, que eram das melho- 
res da Europa, e a sua Universidade, que era frequen- 
tada por mais de 500 estudantes, e entre elles 200 
estrangeiros, occupavam e occupam um logar muito hon- 
roso entre as escolas e as Universidades do universo. 
E a Universidade tinha até uma coUecção de historia 



332 A HISTORIA ECONÓMICA 



natural muito importante. No século XIX, esta cidade 
dobrou o numero dos seus habitantes; mas perdeu em 
grande parte duas das principaes industrias, que faziam 
a sua reputação — a joialheria e relojoaria. E' que a 
França e os Estados Unidos, que se proviam outr'ora 
de relógios nas officinas de Genebra, começaram a 
supprir, de per si, o próprio consumo, pelo menos, em 
relógios ordinários; e muitas das fabricas genebrezas 
ficaram arruinadas. 

Apesar d'isso, como cidade industrial e commercial, 
tinha immensos recursos, e a fabricação de relógios era 
ainda muito importante. 

A vizinhança da França augmentava também muito 
a sua importância. 

Neuchatel e o seu districto, eram, apesar do que 
deixamos dito, o centro principal da industria de reló- 
gios do mundo. 

Berne, que occupa uma bella posição commercial 
entre o valle do Rheno e o do Rhodano, desgraçada- 
mente não é favorecida pelo clima, porque os extremos 
do calor e frio são maiores ahi que nas outras cidades 
da Suissa. Em todo o caso, tinha grandes fabricas de 
vitraes, fornecidas pelos productos das suas vastas 
pedreiras; e preponderava nas grandes industrias na- 
cionaes, queijos e pannos de linho e de lan. 

Bale era a porta commercial da Suissa, do lado da 
Allemanha, da Alsacia e França do Norte; assim como 
Genebra, sobre o Rhodano é a porta que se abre á 
França do Sul. A industria de seda, fitas, productos 
chymicos e outras mais industrias, alimentavam, como 
teem alimentado, o seu commercio com o estrangeiro. 
Era também uma das praças da Europa onde o nego- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 333 



cio monetário tinha feito afluir mais capitães; e, como 
cidade universitária, possuia grandes thesouros de arte 
e sciencia e um curioso museu. 

Lucerna aproveitou muito com a abertura do tunnel 
de S. Gothard, que lhe deu uma parte do commercio 
da Allemanha e da Itália. 

Zurich, a cidade mais populosa da Suissa, tinha 
grande industria de seda, algodão e metaes. As suas 
maquinas de vapor eram expedidas até para Inglaterra, 
Estados Unidos e Brazil. Tornava-se também muito 
notável pelos seus estabelecimentos scientificos. 

Depois de Zurich, a principal cidade do cantão era 
Winterthur. Havia poucas cidades da Europa que, em 
numero tão pequeno de habitantes, tivessem tanta fabrica 
de ferramenta industrial, tantos caminhos de ferro e 
tantas escolas e instituições publicas. 



A Suissa, no centro do continente, está na passagem 
de toda a Europa. Mas, por causa do seu relevo, tem 
sido difficil estabelecer as communicações. 

Antes dos caminhos de ferro, os terrestres represen- 
taram um logar muito importante no commercio deste 
paiz, e explicavam em grande parte o seu movimento 
commercial. 

Esses caminhos eram : 

O do monte de S. Bernardo, ainda do tempo dos 
Romanos, que unia o Pó ao Rhodano, por uma alta 
passagem de 2.500 metros de altitude ; e o caminho que 
foi obra de Bonaparte, depois da batalha de Marengo. 



334 A HISTORIA ECONÓMICA 



O caminho de S. Gothard, o mais frequentado, que 
junctava os valles do Tessino ao valle do Reuss. 

O caminho de Simplon, aberto por Napoleão para 
approximar Paris de Milão. Corta a crista alpestre a 
200 metros, pouco mais ou menos. Este caminho per- 
deu muito da sua importância, depois da abertura do 
S. Gothard. 

Havia também caminhos carrossaveis pelos collos 
do Bernardin, do Splugen, da Maloya e do Bernina. 

A Suissa começou os caminhos de ferro, em 1846; 
e, nos últimos tempos do século, possuia já uma grande 
rede. Assim, communicava já com a Allemanha por 8, 
com a França por 5, com a Áustria por 1, o de Alberg, 
com a Itália, pelo S. Gothard. 

Esse túnel de S. Gothard fez diminuir alguma coisa 
o transito pela França, e aproveitou, sobretudo, á Alle- 
manha. 

No interior podiam distinguir-se as seguintes linhas: 

1.° De Bale a Schaffhouse, Constança, Coire ou 
Alberg; 

2." De Bale a Zurich e a Coire ou Alberg; 

3." De Bale a Berne, Friburgo, Lausanne, Genebra; 

4.° De Bale a Neuchatel e Lausanne; 

5.° De Bale a Lucerna, S. Gothard e Bellinzona; 

6/' De Lausanne a Brigue; 

7.° De Neuchatel a Chaux-de-Fonds. 

Dos seus rios, o Rheno é navegável na Suissa. Os 
outros rios, ou não são navegáveis, ou teem pontos 
pequenos de navegação. 

Os seus lagos são também mais próprios para diver- 
timento de turistas que para a navegação, a não serem 
os de Genebra e Constança. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 335 



O de Genebra tem 7 kilometros de comprimento, e 
4 a 13 de largura; e os seus portos suissos e francezes, 
Genebra, Coppert, Ouchy (perto de Lausanne) Vevey, 
Villeneuve, Bouveret (Suissa) Evian e Thonon (França) 
são servidos por numerosos vapores. 

Acontece a mesma coisa com o de Constança, onde 
o porto de Romanshorn fazia grande commercio com 
a AUemanha; e também com o de Zurich, Lucerna e 
Neuchatel. 



Vê-se, em conclusão, que este paiz, apesar da peque- 
nez do seu território e população, tornou-se, já no 
século XIX, um dos principaes da Europa, economica- 
mente fallando, pela sua industria, pelos seus produ- 
ctos naturaes, pela intelligencia com que soube criar 
no exterior mercados de consumo, sempre crescente, 
pelo espirito liberal das suas instituições, previdência 
liberal da sua legislação aduaneira, e repugnância que 
sempre mostrou por toda a protecção official ^. 



1 Francis Otwel Adónis e C. D. Cunningham, La Confede- 
ration Siiisse. — Noel, obr. cit. — Conner, Commercial Géography. — 
Mareei Dubois et Kergomard, Précis de Gtographie Economique. — 
Delville, obr. cit. — Mareei Dubois, obr, cit. — Richard Cortambert, 
Geographie Commercial et Industrielle des Cinq Parfies du Monde. 
— M. L. Lanier, LEurope. — Bannier, Cours de Geographie Commer- 
cial, LEurope. — E. Reclus, Nouvelle Geographie Universelle. LEu- 
rope Centrale. — Onesine Reclus, La Terre à vol d'Oiseau. — Piolet 
& Bemard, Histoire Contemporaine de 1815 A Nos Jours. — E. C. 
Courtan, Le Monde au Siècle A^/A'. — Albert Malet, XVIII Siècle. 
Revolution, Empire et LEpoque Contemporaine, 



CAPITULO IX 
A Bélgica 

Ligeiro esboço politico da Bélgica, n'este periodo. — Como, ao contra- 
rio do que geralmente succedeu nos outros paizes, ella aprovei- 
tou com o governo de Napoleão. — Como o congresso de Vienna 
de 1814, reunindo no mesmo sceptro a Bélgica e Hollanda, deteve 
o progresso dos Belgas até 1825. — De que modo a Bélgica entrou 
depois n'uma via mais satisfactoria até 1830. — Como posterior- 
mente, pela separação dos dois Estados, ella progrediu enorme- 
mente até o fim do século. — Productos, agricultura, industria e 
commercio. — Centros económicos principaes. — Communicações. 

A Bélgica, em 1714, pelos tratados de Rastadt e 
de Bale, ficou pertencendo á casa da Áustria. 

Em 1792, a França, tendo declarado a guerra ao 
imperador Francisco II, invadiu a Bélgica. Em 1795, 
este paiz estava totalmente conquistado, e, em 1801, 
foi, juntamente com a Hollanda, declarado possessão 
franceza, formando, então, nove departamentos. Mas, 
depois da queda de Napoleão, em 1814, pelo congresso 
de Vienna, a Bélgica, também juntamente com as provin- 
cias hollandezas, foi erigida em reino, sob o nome de 
reino dos Paizes Baixos, e dado a Guilherme, principe 
de Orange-Nassau (Guilherme I). Em 1830, as provín- 
cias hollandezas e as provindas belgas separaram-se de 

Volume VI 22 



338 A HISTORIA ECONÓMICA 



uma forma violenta, e guerrearam-se encarniçadamente. 
Depois de longas conferencias, que tiveram logar em 
Londres, em 1831, e, graças á intervenção da França, a 
Bélgica foi reconhecida como reino independente, sendo 
a coroa dada a Leopoldo I, principe de Saxe-Coburgo. 
Comtudo, somente depois de 1839, após o tratado de 
paz concluido entre a Hollanda e a Bélgica e a par- 
tilha de Luxemburgo e Limburgo entre as duas poten- 
cias, é que este reino foi definitivamente reconhecido 
por todos os paizes. 

Gozou, então, de paz até o fim do século, sob o 
governo do mesmo Leopoldo I (1831-1865), e de 
Leopoldo II (1865-1909), que, por virtude do congresso 
de Berlim de 1884, foi, em 1885, também declarado rei 
do Estado Independente do Congo. 



* 

* 



Já dissemos que, regra geral, todos os paizes da 
Europa, durante o periodo da revolução íranceza e das 
guerras napoleónicas, foram mais ou menos prejudica- 
dos no seu movimento económico. Mas com a Bélgica 
deu-se o contrario. 

E, com effeito, como também já dissemos, tanto ella 
como a Hollanda foram incorporadas por Napoleão no 
império francez. Mas a Bélgica, pela sua vizinhança da 
França e pela affinidade dos habitantes d'estes dois 
paizes, foi objecto de cuidados especiaes do imperador. 

Assim, em 1807, foram inaugurados os trabalhos 
de canalisação, destinados a estabelecer communicações 



EDADE CONTEMPORÂNEA 339 



mais directas entre os departamentos belg-as do norte e 
Paris, junctando o Escalda ao Oise, trabalhos esses que 
terminaram em 1810. Foram reorg-anisadas as cama- 
rás de commercio que já existiam; foi augmentado o 
numero d'ellas com muitas outras; e ainda um decreto 
lhes ajuntou o estabelecimento de camarás consultivas 
de manufacturas, fabricas, artes e industrias, nas prin- 
cipaes cidades flamengas. 

O porto de Anvers tornou-se egualmente objecto 
de grandes melhoramentos, que, embora tivessem por 
intuito principal a marinha de guerra, favoreceram tam- 
bém a marinha mercante. E, ao mesmo tempo, cresceu 
muito o movimento de Ostende. 

Alem d'isso, no momento em que os acontecimentos 
politicos da França desviavam, em geral, da Europa 
central a corrente mercantil, a Bélgica, pelo regimen 
liberal das suas tarifas, tinha chamado o movimento 
económico para aquelle porto de Anvers, rejuvenescido 
e augmentado pelos trabalhos hydraulicos, e que era 
servido por um rio profundo, como o Escalda, e por 
numerosos canaes. Mesmo uma grande parte das mer- 
cadorias francezas destinadas á exportação tomava o 
caminho do seu cães, e uma grande região manufactora 
recebia por elle as suas provisões. 

A liberdade dos direitos de entrada sobre as maté- 
rias alimentares e productos de consumo assegurava 
ás pessoas uma vida commoda, e aos productos das 
manufacturas e minas preços tanto mais baratos quanto, 
pela densidade, sempre crescente, da população, esses 
productos se offereciam em maior numero. 

A agricultura era das mais adiantadas da Europa; e 
a hulha abundava no subsolo, assim como abundava o 



340 A HISTORIA ECONÓMICA 



material do ferro e ao alcance delia. E tudo isto con- 
correu, n'esses primeiros quinze annos do século, para 
que progredisse o movimento económico dos Belgas. 

O congresso de Vienna de 1814, reunindo no mesmo 
sceptro a Bélgica e Mollanda, deteve essa marcha ascen- 
dente, e criaram um certo antagonismo entre os dois 
paizes, que tinham interesses contradictorios; visto que, 
estando separados pelas crenças religiosas e pelos cos- 
tumes politicos, não o estavam menos pelas questões 
materiaes. 

Demais a mais, os Belgas, naquelles primeiros quinze 
annos do século XIX, tinham-se aproveitado da sua 
reunião á França e da protecção dos Francezes, para 
se lançarem em numerosas emprezas que reclamavam 
uma protecção aduaneira. Os Hollandezes, pelo con- 
trario, preoccupados quasi exclusivamente dos seus 
recu/sos maritimos e coloniaes, inclinavam-se para a 
reducção dos direitos aduaneiros e para a liberdade 
commercial. 

Ora, em 1814 e 1816, as potencias alliadas deitaram 
abaixo a legislação aduaneira restricta, e substituiram-na 
por tarifas muito moderadas, sem darem qualquer satis- 
fação ou compensação ás manufacturas belgas; e, então, 
ficaram estas sem defeza contra o commercio de Ingla- 
terra, cujos depósitos, segundo já vimos \ regorgita- 
vam de productos manufacturados, que ella não tinha 
podido despejar nos mercados internacionaes, durante 
o bloqueio continental. 

E o Governo dos Paizes Baixos tratou, então, de 



1 Vide capitulo V. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 341 



prodig-alisar toda a animação á pesca e navegação, que 
eram as principaes fontes da riqueza neerlandeza, des- 
prezando a Bélgica. 

Por tudo isso, Ostende e Anvers decairam rapida- 
mente da sua antiga fortuna. Basta dizer que este 
segundo porto havia recebido, em 1815, mais de três 
mil navios, e só registrou 999, em 1817, e 385, 
em 1818. 

Por toda a parte, o descontentamento tornou-se 
profundo, a ponto de que, já em 1816, houve scenas 
violentas em Gand, onde os operários queimaram todas 
as mercadorias estrangeiras; e os Estados flamengos 
reclamaram energicamente mais justiça para os negó- 
cios da Bélgica, e menos parcialidade para os da 
Hollanda. 

O rei Guilherme tratou de dar satisfação aos Bel- 
gas; e, n'esse sentido, em 1822, instituiu uma Sociedade 
Geral, onde os negociantes, que estiveram até então na 
dependência do banco de Amsterdam, encontraram 
grande auxilio. E, dois annos mais tarde, em 1824, um 
tratado com a Inglaterra admittiu reciprocamente os 
negociantes dos dois Estados ao commercio das res- 
pectivas colónias do archipelago oriental e da ilha de 
Ceylão. 

Em 1825, a Bélgica entrou n'uma via mais satisfacto- 
ria; porque, apar da Sociedade Geral, fundou-se uma 
outra sociedade importante, sob o nome de Maatshappy, 
que contribuiu também grandemente para o augmento 
das fabricas ou manufacturas e para o movimento 
maritimo do porto de Anvers. E ainda se constituiram 
outras vastas associações, que desinvolveram muito a 
viação e canalisação. 



342 A HISTORIA ECONÓMICA 



A exploração das hulheiras teve, então, uma orgfa- 
nisação regular. Em 1827, emprehendeu-se o canal entre 
o Mosa e Mosella. Foi aberto á navegação o de Char- 
leroi a Bruxellas. Realisou-se o canal de Gand até o 
mar; e foram restaurados os de Ypses a Nieuport e 
de Bruges a TEcluse por Damme. E de tal maneira a 
Bélgica progrediu que, em 1830, já podia luctar contra 
a concorrência das nações vizinhas. 

Foi, então, que se deu a separação dos dois 
paizes. 

Durante os dois annos posteriores, a Bélgica teve 
de soffrer a falta ou deficiência de alguns mercados, 
onde já tinha entrado, e cujo monopólio passou para 
as mãos dos Hollandezes. Mas, porisso mesmo, os 
Belgas trataram de desinvolver mais as suas relações 
com os paizes vizinhos, e também de melhorar ainda 
mais o porto de Anvers, que elles consideravam como 
a couçoeira da sua grandeza económica, bem como de 
estabelecer um regimen aduaneiro muito liberal. E de 
tal modo desinvolveram a viação que, em 1845, já a 
rede das vias fefreas do Estado ligava as principaes 
cidades, ao mesmo tempo que se diffundia a viação ter- 
restre, e a canalisação e navegação recebiam impulso 
vigoroso. 

Sobreveiu depois a guerra da França com a Alle- 
manha, que não fez parar a ascenção d'esse movimento 
económico; e, desde então, até ao fim do século, o 
progresso foi enorme. Contribuiu para isso a paz que 
a Bélgica gosou; a velocidade já adquirida; o génio 
activo e industrioso dos seus habitantes; a larguesa da 
sua instrucção, espalhada por todas as camadas sociaes, 
e o desafogo das finanças publicas. E, alem dos recur- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 343 



SOS materiaes de que já falíamos, o Congo Belga come- 
çou a apresentar-se como um grande recurso para a 
alimentação do commercio e para escoamento dos pro- 
ductos da metrópole. 

Pode affirmar-se que, n'esta segunda metade do 
século, nenhum paiz do mundo realisou progressos tão 
consideráveis. 



A extracção e abundância das matérias mineraes de 
que a Bélgica é pródiga, constituia a primeira das suas 
riquezas. Vinha, em primeiro logar, a hulha, que fornece 
um enorme jazigo de quasi 100 mil hectares, e se desin- 
volve n'um comprimento de 180 kilometros, com uma 
largura media de 10 kilometros, entre as hulheiras fran- 
cezas da bacia valencienna e as explorações da região 
do Rhur. 

Distinguiam-se duas bacias de valor differente. As 
camadas mais espessas e mais fáceis de explorar, e 
também as melhores, estendiam-se na provincia de 
Namur e no Hainaut. Mons e Charleroi eram os gran- 
des centros de exploração n'esta zona. 

A bacia oriental da provincia de Liège, embora 
desse productos menos estimados e menos abundantes, 
era também objecto de grande exploração. 

A producção total do carvão, que, no fim do 
século XIX, se elevava a 21.250:000 toneladas, excedia 
sensivelmente o consumo. 

Os productos metallurgicos quasi que multiplicaram 



344 A HISTORIA ECONÓMICA 



desde 1845. Todas as forjas, fundições, ateliers de 
construcção mecânica, fabricas de Cokerille ^, fabricas 
de aço de Angleur, forjas de Providence contribuiam 
para este augmento ; mas á sua frente achava-se a 
Sociedad da Vieille Moniagne, cujo nome e impor- 
tância cresceram sempre nos últimos três quartos do 
século. 

Tendo ella nascido de uma concessão dada em 1806, 
pelo governo francez a um chymico de Liège, o abbade 
Dory, e sendo reconstituida depois, em 1837, essa 
sociedade tinha por objecto a exploração das minas de 
calamina da Velha Montanha, antigo paiz de Limburgo 
e de todas as outras de calamina, blenda, chumbo e 
hulha que adquirisse, bem como a fabricação de zinco e 
chumbo, e demais operações que se ligassem á explo- 
ração e commercio d'estes mineraes. 

Até 1846, a existência da sociedade era ainda mo- 
desta, e as fabricas limitavam-se a satisfazer as exigên- 
cias das regiões vizinhas. Mas, desde então, ella tomou 
enorme incremento, e não tardou a ter um logar pre- 
ponderante na Bélgica. Para se ver isto, basta notar 
que, em 1837, a producção do zinco era apenas de 
229:000 kilogrammas, e, em 1891, excedia 19.418:000 
tonelladas. 

A Bélgica fornecia também muito porfido, már- 
more, ardósia e silex, phosfato, argilla plástica e toda 
a sorte de pyrites, que serviam para a fabricação do 



1 Cokerille foi quem nos princípios do século XIX introduziu 
em Vervieres a maquina de fiar a lã, pelo que esta cidade ficou 
sempre um grande centro de lanificios. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 345 



acido sulfúrico. Mas as minas mais importantes eram 
as de ferro. 

Esta abundância de productos mineraes trouxe com- 
sigo um g-rande desinvolvimento das industrias corres- 
pondentes. 

O progresso da extracção da hulha foi grande 
depois do meiado do século, embora não pudesse com- 
parar-se com o da Allemanha. As minas de ferro eram, 
como já notámos, muito abundantes por toda a parte e, 
sobretudo, no Luxemburgo, Hainaut e provincias de 
Liège e Namur; mas a extracção só era verdadeiramente 
activa na vizinhança das hulheiras do Hainaut e Na- 
mur. O cobre e o chumbo eram pouco explorados, pela 
concorrência das minas do Novo Mundo, e as próprias 
minas de zinco da Vieille Montagne, nos últimos tem- 
pos do século, foram egualmente prejudicadas por 
essa concorrência do Novo Mundo e de outras mais 
regiões. 

A industria das pedras, mármores, ardósia, grés, 
gesso, porfido, etc, era muito importante. Mas, sobre- 
tudo, a fabricação de maquinas e materiaes de cami- 
nhos de ferro, faianças, porcellanas e productos chymi- 
cos, era extraordinária. 

A fabrica de Keramis, fundada em 1767, produzia 
faianças finas. A vidraria muito activa em Charleroi, 
Jumet, Namur e Bruxellas, e ultimamente representada 
pelo estabelecimento de Saint Lambert, um dos mais 
importantes da Europa, entretinha n'uma cifra muito 
elevada as necessidades do paiz. 

Depois de 1878, foi prohibido o fazer trabalhar nas 
minas e pedreiras subterrâneas rapazes e raparigas que 
não tivessem attingido 12 e 13 annos. 



346 A HISTORIA ECONÓMICA 

* * 

E' sabido que nem todas as partes da Belg^ica são 
egualmente férteis. A Campina, ao norte, tem poucos 
terrenos próprios para a cultura, porque as grandes 
florestas e pântanos occupam ahi vastas extensões. 
O Condoz é árido e frio. As Ardennes, entrecortadas 
também de florestas e pântanos, são pobres de cultura; 
mas prestam-se muito á criação de gado. Porém, a 
zona costeira dos polders, pacientemente conquistada 
ao mar, é de uma fertilidade maravilhosa ; e a Flandres 
e Herbaya, que continuam as planicies baixas do norte 
da França, são também, geralmente, de uma grande 
riqueza agrícola. 

Ora, apesar d'aquella ingratidão de uma extensa 
parte do solo, os terrenos incultos e as landes foram 
successivamente aproveitados; e a agricultura, sobre- 
tudo, desde 1870, adiantou-se de tal modo que, segundo 
diz Delville, em nenhum outro paiz, mesmo n'aquelles 
que eram justamente afamados, por exemplo a Lom- 
bardia e Inglaterra, o progresso agrícola foi mais 
considerável *. 

Realmente, a Bélgica era o paiz mais rico da Europa 
em terras laboráveis, e occupava também o primeiro 
logar na cultura dos cereaes e farináceos. As plantas 
industriaes, beterraba, linho colza e tabaco, no qual a 
Bélgica era também o primeiro paiz da Europa, repre- 



1 Delville, obr. cit. 



EDADE COMTENPORANEA 347 



sentavam uma importância crescente na economia agri- 
cola, sem fazerem mal á producção dos cereaes, g-raças 
á exploração dos terrenos vagos e ao accrescimo da 
cultura intensiva. 

Quanto aos vinhedos, recuaram, assim como na 
França e Allemanha, na direcção do sul, desde que as 
facilidades de communicações permittiu importar com 
pequena despesa vinhos dos paizes que os possuiam 
em quantidades consideráveis e em qualidade supe- 
rior. Demais a mais, os vinhos belgas não eram agra- 
dáveis. 

A Bélgica era, como a Hollanda, sua vizinha, a 
terra promettida da horticultura e da jardinagem de 
luxo. Em nenhum paiz da Europa, os jardins horticolas 
occupavam uma extensão relativa tão grande ; e, alem 
d'isso, os vastos campos laboráveis podiam ser classi- 
ficados também como jardins, pela maneira da sua cul- 
tura e producção. E tal era o gosto da jardinagem que 
havia innumeras associações floraes. 

Os jardineiros belgas não só expediam plantas e 
flores para Inglaterra, França, Allemanha, Rússia e 
outros paizes da Europa, mas até para o Novo Mundo, 
e para os próprios paizes donde tinham vindo os ori- 
ginaes. 

A Bélgica tratava egualmente com cuidado da cria- 
ção do gado. 

Possuía muitos cavallos, ao contrario do que podia 
suppor-se de um paiz onde o trabalho se fazia á 
enchada, por causa da grande divisão da propriedade; 
mas a razão d'isso estava em que elles se tornavam 
indispensáveis para os trabalhos de transporte e de 
industria. 



348 A HISTORIA ECONÓMICA 



As mulas e machos eram pouco numerosos, e ia 
diminuindo cada vez mais o numero de cabeças de 
gado ovino, como acontecia, geralmente, na Europa, em 
vista da concorrência do Novo Mundo. 

* 

* * 

Já vimos como eram importantes as industrias mine- 
raes e metallurgicas, , 

Nas industrias derivadas do reino vegetal, sobre- 
saíam a do assucar de beterraba, cerveja, farinhas, 
massas alimentares, álcool e café de chicória. 

As industrias textis de linho, algodão e lan eram 
das que mais avultavam. E a de rendas e palha entran- 
çada era também muito importante. 

* 

* * 

Basta attender á situação central da Bélgica, e que 
está rodeada de paizes muito commerciaes, prestando- 
se, porisso, a ser um corredor da passagem de diffe- 
rentes povos, e, ao mesmo tempo, ás communicações 
naturaes que ella contem, apar das artificiaes de que 
já falíamos, e tornaremos a fallar, e tudo isso conju- 
gado com a actividade e progresso industrial d'essa 
nação, e com a superabundância de algumas matérias 
primas e de productos fabricados, basta attender, dize- 
mos, para tudo isso, para se ver logo que o commercio 
d'esse paiz devia ser muito grande. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 349 



E accresce que a Bélgica foi um dos primeiros Es- 
tados que estabeleceu a liberdade commercial nas suas 
relações com os outros paizes; porque nada tinha a te- 
mer, abrindo as suas fronteiras aos productos similares, 
e nem precisava, porisso, de recorrer á protecção dos 
direitos pautaes. 

Só por excepção, é que ella recorreu a esse expe- 
diente pautal; e, então, mesmo com direitos prohibiti- 
vos, como quando carregou de taxas muifo pesadas, as 
uvas francezas, para impedir a ruina dos horticultores 
que se entregavam á cultura artificial d'ellas. 

Demais a mais, a mão de obra era muito barata. E 
tudo isso devia trazer, realmente, como trouxe, grande 
desinvolvimento commercial. 

O seu commercio exterior, no fim do século, eleva- 
va-se a 3 milhões de milhares de francos por anno. A 
própria Inglaterra foi relativamente excedida na activi- 
dade mercantil por este pequeno povo. 

E esse commercio exterior era também facilitado 
pelo Museu Commercial, estabelecido em Bruxellas, 
onde havia amostras dos productos de exportação e 
importação e dos empacotamentos e respectivos apres- 
tes. As mesas e direcções d'esse Museu davam todas 
as instrucções, quanto aos preços nos paizes estrangei- 
ros, cursos de comboios, taxas de alfandega e telégra- 
fos e tarifas de transporte por terra e por agua. E todos 
os dias era publicado um boletim publico, onde estavam 
tratadas as questões industriaes e commerciaes. 

O commercio interior e de transito, devido á 
densidade da população, á extensão e facilidade das 
communicações, ao grande movimento de passageiros 
e mercadorias, e á moderação de tarifas, era egualmente 



350 A HISTORIA ECONÓMICA 



importante. E accresce ainda que a abertura do túnel 
e caminho de ferro de S. Gothard e os grandes traba- 
lhos executados no porto de Anvers atrairam para esta 
praça e para este paiz as mercadorias da Itália, Suissa, 
Allemanha occidental e da França septentrional, com 
destino a Hollanda, e até os productos que a Inglaterra 
exportava para a Itália, Hungria e paizes do Levante. 

As importações comprehendiam cereaes, gados, 
fructas, géneros coloniaes, vinhos, aguardentes, algumas 
matérias primas para a industria, lan, linho e cânhamo, 
seda bruta, madeira e lenha, couros, etc. 

A exportação consistia, sobretudo, em hulha e coke, 
zinco, artigos de ferro trabalhado, maquinas e ferra- 
mentas, pedras talhadas e serradas, espelhos e vidraria, 
tecidos de algodão, de linho e cânhamo. 

Era com a França que a Bélgica fazia o principal 
commercio, para o que também contribuía a vizinhança 
e affinidade dos dois paizes, e depois com a Hollanda, 
sua vizinha, que necessitava de muitos productos da 
Bélgica. 

Com a Inglaterra e Allemanha as relações eram me- 
nores, porque esses paizes tinham muitos productos e 
industrias análogas. 

Fora da Europa, os Estados Unidos e Brazil e as 
outras republicas da America do Sul eram as nações 
com que a Bélgica fazia mais commercio; e, desde 1884, 
com o Congo belga, com o qual, de anno para anno, o 
tráfico se tornou mais considerável. 

Vê-se assim que, tanto no commercio como na in- 
dustria, este pequeno povo alcançou na Europa um dos 
primeiros logares. Mas, em compensação, os Inglezes e 
Hollandezes é que dominavam o commercio marítimo 



EDADE CONTEMPORÂNEA 351 



da Bélgica, porque a sua marinha mercante foi sempre 
muito reduzida. Ainda no fim do século, não passava 
ella de 62 navios, com a tonelagem total de 84:000 
toneladas. 

* 

* * 

Quanto aos centros principaes \ começando pelo 
sul, Namur tinha uma industria activa de vidraria e 
cutellaria, e continha também grandes fabricas e esta- 
belecimentos metallurgicos. 

Charleroi, graças á sua riqueza em hulha, era muito 
industrial e commercial, e até muito superior a Namur. 
Expedia os seus productos para todo o mundo. Cons- 
tituia um centro de trabalhos metallurgicos, e estava 
rodeada de outras cidades e de aldeias numerosas, 
todas também muito industriaes. 

Ardenne era outra cidade muito industrial, prepon- 
derando nas industrias de papelaria, de faianças e de 
pedra. 

Liège, a metrópole da Bélgica walonesa, era egual- 
mente muito industrial e commercial. A sua principal 
fabricação consistia nas armas. Em muitos paizes da 
Europa, e, sobretudo, em França, quasi todas as armas 
eram de fabricação liegesa, desde 1802. O Estado belga 
possuia n'essa cidade uma fundição de canhões e armas 
de guerra; e quasi todos os governos da Europa eram 



1 Sobre os centros principaes na edade moderna, veja-se o 
volume IV, pag. 583 e seguintes. 



352 A HISTORIA ECONÓMICA 



clientes d'ella. Um dos maiores estabelecimentos metal - 
lurgicos da Europa, e até de todo o mundo, era o de 
Seranig, fundado, em 1817, e comparável ao de Creusot 
e á fabrica de Krupp. 

Louvain, apesar de muito decaída da grandeza antiga, 
tinha ainda muitas fabricas importantes, sobretudo, de 
cervejaria, moagem e amido. 

Malines estava também muito decaida. Fabricava 
ainda as rendas afamadas, e trabalhava os couros dou- 
rados, que tão espalhados e reputados foram na Europa 
já no século anterior, assim como exercia a industria 
dos tapetes lá introduzida, e produzia bellos gobelinos. 
Mas isso não bastava para representar a sua antiga 
importância, nem mesmo para constituir um grande 
centro industrial. As suas ruas estavam desertas. 

Bruxellas, alem da importância que lhe dava o facto 
de ser a capital do reino, tinha uma grande industria, 
sobretudo, em objectos de arte e luxo; e a sua nume- 
rosa população, junta á dos arredores, bem como a 
importância que lhe provinha da sua situação central 
para o transito, desinvolvia incessantemente o seu com- 
mercio. 

Mons, outro centro hulheiro, assim como Charleroi, 
era também muito industrial e muito importante. 

Estava no mesmo caso Tournay, cuja principal indus- 
tria era a dos botões e tapetes. 

Audernade havia perdido a sua antiga gloria. 

Gand era de todas as cidades da Bélgica aquella para 
onde os caminhos de ferro convergiam em maior numero. 
Tornou-se, porisso, em população, a terceira cidade do 
reino, engrandecendo de anno para anno; e tomou 
pela sua industria o primeiro logar. Era também uma 



EDADE CONTEMPORÂNEA 353 



cidade das artes. Os principaes estabelecimentos de 
Gand consistiam na fabricação de linho e algodão. 
Uma das suas fiações — -a de Lys, era das mais vas- 
tas da Europa. Até pôde dizer-se que esta cidade se 
tornou a Manchester da Bélgica. Tinha também um 
grande commercio maritimo; e, alem de tudo isso, 
possuia uma industria especial na cultura das plantas 
de adorno. 

Anvers era o terceiro porto do continente. Vinha 
logo depois de Hamburgo e Marselha ^. Basta isto 
para patentear o seu movimento commercial. Quanto 
á industria, referia-se ella quasi unicamente ás coi- 
sas da marinha — carregação, reparação, armação de 
navios e entretenimento de equipagens, embora hou- 
vesse algumas outras industrias, como por exemplo: 
a refinação de assucar e a dos diamantes, fabricas 
de azeites, de cimento, telha, saboaria, vellas, bis- 
coitos, cigarros, conservas e estabelecimentos metal- 
lurgicos. 

Bruges estava muito decaida do que fora anterior- 
mente. 

Ostende, apesar de ser o terceiro porto da Bélgica, 
estava também muito decaido, pela concorrência de 
Anvers e Flessing. 

Propering, perto da fronteira franceza, era uma 
cidade muito animada, e muito conhecida dos cervejei- 
ros, por causa das suas cervejas e do lúpulo. 



1 Eng". Prost, no seu livro La Belgique Agricole Industrielle et 
Commerciale, gradua até o porto de Anvers como o primeiro da 
Europa depois de Londres. 

Volume VI 23 



354 A HISTORIA ECONÓMICA 



Nieuport estava egualmente muito decaído da sua 
grandeza antiga, e o seu porto quasi que não tinha 
senão um pequeno numero de embarcações de pesca, 
e também quasi que não tomava nenhuma parte nas 
trocas do interior. 



Com respeito a communicações, um systema de 
canaes, bem regulado, e de um comprimento de 860 
kilometros, ligava todos os rios, de modo que estes 
canaes e rios, sulcando o paiz em todos os sentidos, 
tornaram-se um poderoso auxilio para a industria e 
commercio; e a Bélgica tornou-se também, porisso, um 
dos paizes da Europa mais bem acondicionados, quanto 
a vias navegáveis.' 

Com relação a caminhos de ferro, em 1834, no pen- 
samento de ligar o Escalda e o Rheno, sem ser pelo 
canal do Norte, o Governo concebeu o pensamento de 
constituir uma rede, partindo de Anvers e indo dar á 
fronteira prussiana, na direcção de Colónia. Em 1835, 
teve logar a inauguração do primeiro caminho de ferro, 
estabelecido entre Malines e Bruxellas; e, dez annos 
mais tarde, em 1845, a rede do Estado ligava as cida- 
des mais importantes da Bélgica. E a iniciativa do 
Estado levou até differentes sociedades particulares a 
pedirem a construcção de outros caminhos de ferro, 
de modo que elles se propagaram por toda a parte. 

Assim se construiu a rede do Norte, que vai de 
Bruxellas a Anvers por Malines; a do sul, que vai de 
Bruxellas entroncar na rede franceza do Norte, confi- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 355 



nante com a província de Hainaut; a rede do Este, 
que vai de Malines a Liège e á Prússia rhenana; a do 
Oeste, de Malines a Ostende, por Gand. E, com as 
mais linhas intermédias, infinitamente ramificadas, a 
Belg-ica, em relação ao numero dos seus habitantes, 
era, depois da Inglaterra, o paiz mais bem provido 
n'esse género. Em 1892, já ella explorava 4:727 kilo- 
metros. 

Em 1823 foi adoptado, pela primeira vez, o vapor 
á navegação ^. 



1 Noel, obr. cít. — Piolet & Bernard, Histoire Contemporaine 
de 1815 A Nos Jours. — A. Amman et Courtan, Le Monde au XIX 
5/èc/e.— Jules Isaac, Histoire Contemporaine, 1819-1920. — Alherí. 
Mallet, XVIII Siècle, Revolution, Empire et LEpoque Contemporaine. 
— Eng. Prost, La Belgique Agricole, Industrielle et Commerciai — 
Patrie Belgique. — Conner, Commerciai Geographg. — M.c"e Ant. 
Gallet, Abrége de IHistoire de la Belgique Commerciale et Indus- 
trielle.— M&rcel Dubois et Kerg-omard, Précis de Géographie Econo- 
m/çue. — Delville, obr. cit. — Dubois, obr. cit. — Richard Cortambert, 
Géographie Commerciai et Industrielle de Cinq Parties du Monde. 
M. L. Lanier, LEurope. — Bainier, Cours de Géographie Commer- 
ciai, L'Europe. — Zeferino Brandão, Bélgica. — E. Reclus, Nouvelle 
Géographie Universelle, Europe Central, Belgique. 



CAPITULO X 
A HoUanda 

Ligeiro esboço da historia politica da Hollanda n'este periodo. — 
Como o bloqueio continental prejudicou a Hollanda, não somente 
porque ella não encontrou em Napoleão a protecção que a 
Bélgica teve, mas, também, pela guerra que a Inglaterra fez á 
marinha hollandeza. — Como depois que a Bélgica foi adjudicada 
á Hollanda, em 1815, esta explorou a Bélgica, e progrediu muito 
economicamente. — Como, apesar de ter perdido a Bélgica, 
em 1830, continuou a progredir até o fim do século. — Pro- 
ductos, agricultura, industria, commercio, marinha. — Centros 
económicos principaes. — Communicações. 

A Hollanda, depois de diversas vicissitudes, foi con- 
quistada pelos Francezes, em 1795. Tomou, então, o 
nome de Republica Bafava, e foi dividida em oito 
departamentos. Esta constituição, porém, durou pouco 
tempo. Em 1806, a Hollanda foi erigida em reino hol- 
landez em favor de Luiz Bonaparte, e dividida em onze 
departamentos. Em 1810, foi reunida ao império francez, 
formando também differentes departamentos. Em 1815, 
reunida á Bélgica, formou sob o nome de reino dos 
Paizes Baixos, um novo Estado, que foi dado a Guilherme 
de Orange-Nassau (Guilherme 1). Tendo uma revolução 
violenta separado a Bélgica da Hollanda, em 1831, vol- 



358 A HISTORIA ECONÓMICA 



tou esta a constituir um reino privativo, conservando 
officialmente, apesar de muito reduzida, o titulo de 
Paizes Baixos 

Depois d'isso, gozou sempre de paz, até o fim do 
século, sob o governo do mesmo Guilherme I, que 
falleceu em 1840, e em seguida, sob Guilherme II 
(1840-1849), Guilherme III (1869-1890) e Winhelmine 
Orange, depois de 1890. 



A Hollanda até 1815 resentiu-se muito das luctas 
napoleónicas, e, sequentemente, do bloqueio continen- 
tal; e tanto mais que não encontrou em Napoleão a 
protecção que a Bélgica tinha encontrado, e que 
a fortuna económica hoUandeza, dependia, principal- 
mente, do commercio maritimo ^. 

Como já vimos no volume IV desta obra, a indus- 
tria dos Paizes Baixos estava decadente no fim da 
edade moderna; e o commercio maritimo é que se con- 
servava ainda n'um estado florescente. 

Ora, o bloqueio continental affectou principalmente 
esse commercio, pela guerra que a Inglaterra fazia aos 
navios dos paizes que n'elle haviam entrado, e, sobre- 
tudo, aos paizes dominados pela França. E, por isso, a 
Hollanda, que tinha, então, uma industria apoucada, e 
vivia principalmente do seu commercio maritimo e do 



1 A Historia Económica, vol. IV, pag. 519. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 359 



seu movimento colonial, necessariamente devia ser 
muito prejudicada, como foi, pela interdicção dos 
mares. 

Em 1815, porém, foi-lhe adjudicada a Bélgica, pelo 
congresso de Vienna; e o governo hollandez explorou 
esse paiz em proveito próprio, como já vimos. E então, 
o augmento do território que lhe proveiu d'essa adju- 
dicação, os recursos naturaes que a Bélgica possuia, e 
os effeitos d'aquella exploração, contribuiram muito 
para o progresso económico da Hollanda. 

Em 1830, separaram-se de novo os dois Estados, e 
a Bélgica constituiu-se independente. Mas, apesar do 
enfraquecimento do território que d'ahi resultou, e 
apesar de ter diminuido a influencia commercial que a 
Hollanda tivera na época moderna, ainda assim, con- 
servou internacionalmente uma grande importância mer- 
cantil, devido á actividade da sua população, á sua 
situação geográfica e ao valor das suas colónias. 

Com effeito, o seu território na Europa ficou redu- 
zido, pelo libertamento da Bélgica, a 38:180 kilometros 
quadrados, e a sua população a 3.400:000 habitantes. 
Mas o seu dominio colonial nas duas Índias e na costa 
Occidental da Africa era de 1.641:000 kilometros qua- 
drados, três vezes a superfície da França, e continha 
uma população de perto de 18 milhões. E isso contri- 
buía em grande parte, para augmentar a sua fortuna, a 
sua importância politica, e o seu movimento económico. 

Alem d'isto, desde 1830, a Hollanda não deixou de 
melhorar a sua organisação maritima e as suas commu- 
nicações; de modo que, embora estivesse sulcada de 
canaes e rios navegáveis, que lhe permittiam transpor- 
tar em condições vantajosas tanto os productos nacio- 



360 A HISTORIA ECONÓMICA 



naes como os demais que os povos estrangeiros n'ella 
interpunham, dedicou-se com todo o cuidado, não só 
ao melhoramento d'essas communicações e á construc- 
ção de caminhos carroçáveis, mas até á construcção 
das vias férreas, que inaugurou, em 1837, e ao augmento 
da sua marinha mercante. 

Demais a mais, a partir de 1835, houve uma mu- 
dança notável na orientação neerlandeza, pela intensifi- 
cação dos seus esforços em todos os ramos económicos. 

Começando pela agricultura, já vimos no volume IV 
que os HoUandezes eram afamados pelo seu génio 
agricola, a ponto de serem chamados para os paizes 
estrangeiros, afim de lá formarem e cultivarem herda- 
des, que eram conhecidas por hollanderias, e se torna- 
vam distinctas pelo bom methodo da cultura ^. 

Esse génio agricola continuou na edade moderna e 
nos primeiros tempos do século XIX. 

Com effeito, a reconquista do solo roubado pelo 
mar e a transformação dos pântanos em terrenos de 
cultura foi a obra capital do povo neerlandez. 

De 1815 a 1865, no espaço de mar de 45:000 hecta- 
res, um território egual a um quadrado de 21 kilome- 
tros por lado foi retomado ás aguas. E a natu- 
reza ajudou os homens, porque as alluviões maritimas, 
misturadas de myriades de animalculos e de outros 
detritos, foram elevando, pouco e pouco, as praias 
vasosas. 

Demais, em 1850, havia na HoUanda quasi 9:000 
moinhos de vento, que trabalhavam no esgotamento dos 



1 Vol. IV pag. 510. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 361 



polders. Milhares d'estes eng-enhos serviram ultima- 
mente para outros fins industriaes, e para favorecer a 
cultura. Mas, por meio d'elles, conseguiu-se também o 
aproveitamento de muitos terrenos pantanosos, 

A maior empreza de dessecamento foi a do lago ou 
mar de Haarlen. O accrescimo continuo d'este lago 
era um dos mais temiveis perigos da Neerlandia, e de 
modo que, de 1506 a 1860, o augmento médio da sua 
superficie foi de mais de 66:000 hectares por século, 
ou 440 por anno. Nas tempestades, por mais de uma 
vez ficou reunido ao Zuiderze, e toda a peninsula do 
norte hollandez estava ameaçada de ser separada do 
continente, ou de só lhe ficar ligada pelo pedúnculo 
das dunas. 

Em 1840, a HoUanda tentou a obra do desseca- 
mento, diante da qual recuava ha duzentos annos ; e, 
em 1879, estava completamente enchuto e salubrisado 
o leito do mesmo lago. 

Tentou-se egualmente dessecar o Bierbosch e cortar 
por um enorme dique metade de Zuiderzee, obra já 
começada nos últimos tempos do século XVllI. 

Desde aquella época de 1835, por um trabalho 
persistente e judicioso, em cada anno, os Hollandezes 
augmentaram em media mil hectares do terreno apro- 
veitável, arrancando-o ás areias, ás turfeiras e ao mar. 
Cresceu também muito a população, que colonisava o 
próprio paiz; e, como consequência, os productos agri- 
colas principaes, batata, aveia, cevada, colza, linho, 
garança e tabaco, bem como a criação de gado augmen- 
taram também grandemente. 

No commercio, aconteceu a mesma coisa, em vista 
da situação geográfica e rede de communicações, e, 



362 A HISTORIA ECONÓMICA 



especialmente, no commercio marítimo, pelo desinvolvi- 
mento e augmento da marinha. 

E, para mais auxiliar o movimento mercantil, a 
HoUanda, em 1840, fez um tratado com a França, pelo 
qual, adoçando as estipulações marítimas em vigor, 
diminuiu os direitos aduaneiros de muitas mercadorias 
francezas; e também, desde 1850 a 1855, modificou, em 
relação á Inglaterra, as principaes restricções que vigo- 
ravam desde 1832. E tudo isso, com a paz de que a 
HoUanda gozava e com a liberdade das suas tarifas que 
atraíam as mercadorias estrangeiras, trouxe-lhe até o 
fim do século também um progresso económico enorme. 



A HoUanda é pouco abundante de productos mine- 
raes. Ha alguns pequenos jazigos hulheiros em Lim- 
burgo, que não podiam dar logar a uma exploração 
profiqua, e, sobretudo, pela vizinhança e concorrência 
das admiráveis minas da Bélgica e das províncias rhe- 
nanas. A turfa, que se retirava do grande numero de 
jazigos, não suppria a insufficiencia da hulha. Gueldre 
e Over-Yssel forneciam algumas toneladas de ferro; 
mas faltavam os outros mineraes. 

E, embora as colónias hoUandezas compensassem 
até certo ponto a pobreza mineral da metrópole, o 
transporte dos respectivos productos era demorado e 
custoso, para que a HoUanda pudesse, nesse ponto, 
competir com aquelles outros paizes. 

Porisso, é bem de ver que a industria metallurgica 
da HoUanda devia ser muito restricta. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 363 



Havia apenas excepção para a preparação de dia- 
mantes e rubins; porque a Hollanda tinha muitos nas 
suas colónias ; não soffria, n'essa parte, a concorrência 
dos paizes vizinhos ; e tinha também a velocidade 
adquirida, por ser uma das suas mais antigas industrias ^. 



* 

* 



Quanto á agricultura e respectivos productos, a 
aptidão agricola da Hollanda era muito grande. 

B, de facto, a abundância de terrenos gordos das 
alluviões cobrem completamente muitas regiões, e for- 
mam por toda a parte, na vizinhança do Rheno e Mosa, 
largas bandas de uma fertilidade incomparável ; e os 
depósitos d'esses dois grandes rios teem enriquecido 
os Paizes Baixos, como o Nilo tem feito a fortuna do 
Egypto. 

As regiões completamente, ou quasi completamente 
alluviaes, são as provindas de Groningue, Frisa e Guel- 
dre. A Hollanda, a Zelândia, Drenth, Over-Yssel e 
Bravante teem um solo de areias terciárias, muito 
menos próprio para a agricultura; mas os districtos 
rhenanos e mosianos quebram, de tempos a tempos, a 
monotonia d'essas extensões arenosas. A região costeira 
dos polders é também de uma grande fecundidade. O Bra- 
vante hollandez, porém, tem a sua campina innundada 
e pantanosa; e o Velube, os seus terrenos espinhosos. 



^ A Historia Económica, vol. IV, pag. 510 e seg-. 



364 A HISTORIA ECONÓMICA 



Ora, os trabalhos dos hollandezes que, para drenar, 
estrumar e cultivar os campos, eram, desde a edade 
media, os melhores que podia haver, continuaram da 
mesma forma, n'esta época. 

Os productos mais abundantes eram as batatas, que 
occupavam uma boa parte dos campos arenosos; os 
legumes, que eram objecto de um cuidado meticuloso; 
as flores e, sobretudo, as tulipas, cujo cuidado e cul- 
tura eram tradicionaes S e que os Hollandezes levaram 
a uma grande intensidade scientifica. 

As plantas industriaes perderam terreno, desde que 
a hulha se tornou a arbitra industrial. 

A cultura do linho, outr'ora tão importante, decres- 
ceu, pela concorrência da Rússia, d'onde era importado 
mais barato, e também pela concorrência dos povos 
ricos em hulha que o fabricavam mais em conta. Succe- 
deu a mesma coisa com o cânhamo. 

As plantações do tabaco prosperaram muito na 
província de Gueldre e Utrecht, tanto por causa do 
consumo nacional, como pela exportação. 

A beterraba não encontrava n'uma latitude tão 
elevada o calor necessário ; e o mesmo acontecia 
com o lúpulo, cuja deficiência representava uma grande 
lacuna para um paiz onde a cerveja era a bebida 
nacional. 

A cultura da colza manteve-se em algumas provín- 
cias, não obstante o augmento do uso do petróleo "'. 



1 Vide vol. IV, cap. XIII. 

- Sobre os productos da Hollanda, na edade moderna, veja-se 
o volume IV, pag. 510 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 365 



Mas, apesar do labor e habilidade dos Hollandezes, 
o espaço que elles foram podendo dedicar á agricul- 
tura, os cereaes e plantas industriaes e arborescentes eram 
restringidos pelo rigor do clima; porque, embora a vizi- 
nhança do Oceano modifique profundamente as condi- 
ções da situação astronómica, e torne mais doce aquelle 
clima, deve attender-se a que a Hollanda está na lati- 
tude de Lavrador, e tem a humidade constante dos 
seus múltiplos canaes e dos seus rios, além do gelo e 
neve da sua temperatura, 

Effectivamente, o solo pecca por excesso de humi- 
dade atmospherica. Vizinho do mar, e baixo e regado 
por dois grandes rios, recolhe as aguas drenadas n'um 
vasto dominio hydrografico. E, entretanto que o vento 
do nordoeste e oeste lhe traz abundantes precipitações, 
o Rheno ajunta-lhe o contingente das correntes de uma 
parte dos Alpes e da Allemanha occidental, ao passo 
que o Mosa as leva das grandes provincias da França 
e da Bélgica. Chuvas e irrigações pluviaes, gelo e neve, 
sob um céu onde a evaporação é pouco activa, com 
uma temperatura media e fria, são, na verdade, cir- 
cumstancias que prejudicam a capacidade productiva 
do terreno, e reduzem as condições das terras culti- 
váveis. 

Em compensação, não ha paiz mais favorecido para 
a vegetação dos prados; e, porisso, a criação do gado 
era a riqueza preponderante da agricultura. A Hollanda 
era um dos paizes que, relativamente á sua superficie, 
possuia mais gado domestico ; e algumas das raças dis- 
tinguiam-se por sua qualidade excellente. 

Nas industrias derivadas do reino vegetal, a refina- 
ção do assucar de canna, cuja importância vinha já da 



366 A HISTORIA ECONÓMICA 



edade moderna ^ continuou activa. Os centros predo- 
minantes eram os portos de Amsterdam e Rotterdam, 
onde vinha dar a matéria prima das colónias. A dis- 
tillação era também importante. E a genebra de Sheri- 
dam, anteporto de Rotterdam, tinha grande apreço em 
todo o mundo. 

A industria têxtil, outr'ora muito importante, não 
pôde n'este periodo, pela falta de hulha, supportar a 
concorrência da Inglaterra, Bélgica, AUemanha e França. 
Em todo o caso, mesmo pela abundância da lan, não 
occupava logar despiciente. 

Apenas a industria de cordame, pela necessidade 
de alimentar- uma marinha poderosa, é que sustentava 
com vigor a vida das respectivas fabricas. 

A industria maritima, essa continuou tendo toda 
a grandeza dos tempos anteriores; e os canteiros de 
Saardan, Rotterdam e Amsterdam foram sempre, tam- 
bém n'este século ^ enormes centros de construcção, 
embora empregassem as maquinas e materiaes estran- 
geiros. 

Nas industrias derivadas do reino animal, a fabri- 
cação da margarina, manteiga e queijos tomou grande 
incremento, devido também ao augmento da industria 
pecuária; e a conserva de peixe foi objecto de um con- 
siderável movimento e de uma grande exportação. A 
pesca foi continuando também as tradições gloriosas 
dos tempos anteriores '. 



1 A Historia Económica, vol. IV, pag. 517. 

2 A Historia Económica, vol. IV, pag. 512. 

3 A Historia Económica, vol. IV, pag. 512. 



EDADE COMTENPORANEA 367 

* 

* * 

O reino dos Paizes Baixos, mediocre na industria, 
em consequência da falta de hulha e da concorrência 
dos povos vizinhos, era um dos mais consideráveis 
Estados commerciaes da Europa. 

Era isso devido á abundância de productos coloniaes, 
á grande quantidade de productos animaes, mesmo a 
alguns productos agricolas que mandava para as regiões 
pobres dos reinos vizinhos ; á falta de productos indus- 
triaes que obrigava os Hollandezes a trocas frequentes 
nos paizes estrangeiros ; á sua grande marinha mercante, 
que tornava as importações mais commodas e baratas, 
e mais lucrativas as relações com os outros povos ; á 
sua situação central e própria para o transito que cha- 
mava a passagem das mercadorias; e, finalmente, ao 
génio activo e educação de marinheiros dos próprios 
habitantes. 

O commercio interior que a multiplicação de vias 
de comunicação, sobretudo, por agua, tornava fácil, era 
activado por duas causas. 

Por um lado, as províncias marítimas, que eram tam- 
bém as mais ricas em agricultura — Frisa, Hollanda e 
Zelândia, e, depois d'ellas, o Bravante occidental, contri- 
buíam para a alimentação das outras províncias, pelo 
envio de gado e mais géneros agrícolas e productos de 
pesca marítima. 

Por outro lado, afluíam dos grandes portos para as 
províncias os géneros coloniaes, assucar, café, chá e 
espécies, cujo consumo era importante, bem como os 
productos industriaes, importados do estrangeiro. 



368 A HISTORIA ECONÓMICA 



As importações consistiam, principalmente, em arti- 
gos alimentares, cereaes, farinhas, hulha, ferro e aço, 
matérias textis, matérias primas e productos fabricados. 

E a exportação consistia, sobretudo, em matérias 
alimentares para as regiões pobres dos paizes vizinhos, 
ostras, lan e tecidos de lan, margarina, manteiga, 
queijo, assucar, legumes, papel, couros, flores e semen- 
tes de flores. 

Os principaes paizes com os quaes era feito o com- 
mercio, vinham a ser a Allemanha, Ilhas Britânicas, 
Bélgica, índias neerlandezas. Estados Unidos, Rússia, 
França, Suécia e Noruega, Hespanha e Brazil. 

* 
* * 

Quanto aos centros principaes \ Maestricht, na 
fronteira meridional, era muito industrial, sobretudo, na 
fabricação do vidro, louças, papeis, pannos, charutos 
e bebidas. Só o movimento da navegação do Mosa e 
canal de Zuid-Willemsvaart, que vai communicar com 
Bois-le-Duc, era de mais de 17:000 embarcações por 
anno, excedendo um milhão de toneladas. 

Twenthe, na fronteira allemã, era dos maiores cen- 
tros da Hollanda na fiação do algodão. 

Tilburgo tomou, depois do meiado do século XIX, 
uma importância enorme, como centro principal da fa- 



1 Sobre os centros principaes na edade moderna, veja-se o 
vol. IV, pag. 521 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 369 



bricação de lanifícios. Já em 1879, tinha 145 fabricas. 
A sua população mais que treplicou depois de 1860. 

Bois-le-Duc encerrava também fabricas de toda a 
espécie. 

Breda era eg-ualmente muito industrial. 

Middelburgo estava consideravelmente decaída do 
que foi antigamente. 

Flessing é que tinha progredido muito na industria é 
commercio, e conquistado, pelos seus trabalhos hydráu- 
licos e correspondência dos caminhos de ferro, uma 
parte considerável do transporte de viajantes e merca- 
dorias entre o continente e a Inglaterra. 

Nimegue tinha uma importância, cada vez mais cres- 
cente, no commercio internacional da Allemanha com a 
HoUanda. 

Rotterdam, porto enormemente commercíal e indus- 
trial, tinha sobre Amsterdam a vantagem de se encontrar 
por meio dos estuários em communicação mais directa 
com o mar livre. Importava, sobretudo, géneros colo- 
níaes; e, em troca, expedia productos de agricultura 
local, gados para aHmentação de Londres, e, de um modo 
geral, todas as mercadorias pesadas, que vinham pelos 
canaes e rios. Mais de 7.000 navios de uma tonelagem 
excedente a 25 milhões faziam o movimento d'esse porto. 

O commercio de Rotterdam com o Congo era tam- 
bém muito notável depois, de 1869. Só uma sociedade 
neerlandeza possuía quarenta e quatro escriptorios n'essa 
parte da Africa, e importava azeite de palma, catchu, 
copal, café, algodão e outros géneros. 

Delft perdeu a maior parte da sua importância. 
Mesmo a fabricação das suas louças já não tinha a 
importância antiga. 

Volume VI 24 



370 A HISTORIA ECONÓMICA 



Em Leyde, apesar de estar também decaida, a 
industria era ainda importante, sobretudo, nos pannos 
e colchas. 

Amsterdam, três vezes mais povoada que Haya, era 
a verdadeira capital do reino. A sua industria, abar- 
cando quasi todos os géneros, comprehendia principal- 
mente a construcção de navios e refinação do assucar, 
preparação de cerveja e licores. O seu commercio era 
enorme. 

Haya, a capital da Hollanda, que cedia em popu- 
lação a Amsterdam e Rotterdam, tinha o movimento 
industrial e commercial próprio de qualquer capital; 
mas era também muito inferior, n'esse ponto, não somente 
áquellas duas cidades, mas a outras mais do reino. 



A Hollanda tinha uma grande facilidade de com- 
municações aquáticas, pelos seus rios e pelos canaes 
que cortam o paiz em todos os sentidos. Mas essa 
riqueza de vias navegáveis tornava difficil o estabeleci- 
mento das vias terrestres. 

Realmente, sendo o seu território muito baixo ^ e as 
inclinações raras e muito pequenas, a agua cobre os 
caminhos a cada instante, sob a forma de ribeiros, rios, 
canaes ou pântanos. E' necessário proteger o terreno 
contra as inundações, e atravessar, por meio de pontes 
compridas e dispendiosas, as correntes que embara- 



1 A Historia Económica, vol. III, pag. 100. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 371 



çam ou impedem a passagem: o que traz uma grande 
despeza, não só para os caminhos de ferro, como para 
as próprias vias carrossaveis. 

Demais a mais, o solo é de tal maneira movediço 
nas provincias costeiras que, por prudência, se deve 
renunciar a caminhos de ferro de grande velocidade, 
cuja trepidação deformaria as vias. 

Apesar disso, a Hollanda não podia retrair-se muito 
tempo á obrigação de construir caminhos de ferro que 
communicassem com os paizes vizinhos. 

Em todo o caso a construcção de vias férreas começou 
mais tarde que o desinvolvimento das estradas carrossa- 
veis, o que se explica também pela grande commodidade 
dos transportes por agua, que a Hollanda já possuía. 

Ainda em 1838, os Estados Geraes recusaram con- 
ceder a concessão de uma linha entre Amsterdam e 
Arnhem. Só em 1839, é que principiou a construcção 
do primeiro caminho de ferro, e já então as estradas 
carrossaveis, feitas e calcetadas a tijolo, haviam tomado 
um grande desinvolvimento. 

Em 1860, a rede dos caminhos de ferro estendia-se 
a 322 kilometros, construídos e explorados por compa- 
nhias particulares; e, em 1870, o Estado, por sua vez, 
contribuía para a criação de novas linhas secundarias, 
concorrentemente com as companhias livres; e o total 
das linhas férreas, attingia, então, 1.255 kilometros, que 
se elevou quasi ao dobro, em 1880. 

Assim, os Hollandezes depressa se desforraram da 
demora, pela brevidade com que fizeram progredir as 
vias férreas. 

As duas linhas mais importantes foram as que con- 
tinuaram de Rotterdam, Amsterdam e Hélder até o 



372 A HISTORIA ECONÓMICA 



caes de Flessingue, e as duas grandes vias allemães 
que custeiam o Rheno. 

Uma outra, mais meridional, poz em relações Colónia 
e Hersingue por Venlo, Tilburgo, Breda, Bergen e 
Middelburgo. Um ramal destacou-se de Breda para 
Rotterdam por Dordecht, e um outro ramal foi formar 
a continuação da linha allemã da margem direita do 
Rheno, passando por Yssel, Arnhim e Utrecht, a qual, 
ramificando-se também, ganhou Rotterdam, Haya, Leyde 
ou seja Amsterdam, Haardem e Hélder. E havia ainda 
as duas linhas transversaes de Anvers e Rotterdam, e 
de Liège ou Bois-le-Duc, Utrecht e Amsterdam. 

Comtudo, a exploração das linhas férreas da Hol- 
landa era uma das menos fructuosas da Europa, o que se 
explica facilmente pela concorrência das vias navegáveis ^. 

Essas vias navegáveis eram, realmente, numerosas, 
e estavam em óptimas condições para transportes e 
passageiros. 

Assim, três grandes rios atravessam a Hollanda, en- 
grossados pelas aguas de numerosos afluentes, e estavam 
já n'este periodo ligados entre si por um grande numero 
de canaes. São elles o Rheno, o Escalda e o Mosa, 

O Rheno, entrando na Hollanda, divide-se em dois 
grandes braços. Um d'elles, o Vaal, á esquerda, vai-se 
junctar ao Mosa no porto de Santo André, e depois em 
Gorkum; o outro braço ou Rheno inferior, á direita, 
chama-se Leeck. D'este braço destaca-se o canal Drusus, 
que em Doesburgo se une ao Yssel. E' o velho Rheno, 



1 Mareei Dubois et Kerg^omard, Prècis de Céographie Eco- 
nomique. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 373 



que passa deante de Utrecht e Leyde, e se engole no 
mar, ao Norte de Haya e sul de Harlem. Este velho 
Rheno nem mesmo teria força de tocar no mar, se, 
em 1806, os HoUandezes lhe não fizessem presente de 
um canal, que o regularisou, e Ihe-permittiu chegar lá. 

Essa obra é uma das mais bellas da sciencia hydrau- 
lica hollandeza. 

O Mosa, atravessando a fronteira belga e passando em 
Maestricht, divide-se também em muitos braços, e forma 
no território hollandez um dédalo de muitas ilhas e canaes. 

O Escalda sai também do território belga, e divide-se 
egualmente em muitos braços principaes, que, nas suas 
ramificações, formam as numerosas ilhas da Zelândia. 

E, quanto a canaes, nenhum paiz é hoje, e era já no 
século XIX, mais sulcado d'elles do que a HoUanda, e 
quasi todos navegáveis para navios de grande tonellagem. 

Os principaes eram o canal de U ou Imuiden, 
inaugurado em 1877, que liga Amsterdam com o mar 
do Norte, de 26 kilometros de comprido, e que termina 
ao sul da povoação de Wykaant-Zee. Havia e ha o 
antigo canal do norte, que termina em Hélder, pelo 
qual, até á abertura do novo canal, os navios de maior 
porte chegavam a Amsterdam, e que tem 80 kilometros 
de comprimento, 42 metros de largura e 7 de profun- 
didade, e passa por ser o mais bello da Europa. Maç, 
para evitar as demoras da navegação, pelas quaes o 
movimento commercial de Rotterdam estava excedendo 
o de Amsterdam, por este canal já não bastar aos 
navios de alta capacidade, é que se fez aquelle outro 
de U, que vai ao mar do Norte, caminhando para 
oeste. E mais: o canal de Rotterdam a Amsterdam 
por Delft, Leyde e Harlem; o canal de Zuiderzee ao 



374 A HISTORIA ECONÓMICA 



Dollar, composto do canal de Arlingen e Groningue e 
do canal de Winseshosen; o canal de Drenthe, que vai 
de Groning-ue junctar o Yssel, por Meppel ; o canal de 
Terneuze a Gand; o canal Guilherme do Sul, que liga 
Maestricht a Bois-Ie-Duc, prevenindo uma grande cir- 
cumvallação do Mosa. E, em 1892, começou a abertura 
de um outro grande canal, para ligar Amsterdam com o 
Rheno, também próprio para navios de grande lotação. 
Ora a Hollanda, ao passo que tratou de desinvolver 
a viação férrea, não descuidou o melhoramento d'esses 
canaes e dos portos. 



Esta somma de communicações aquáticas e suscep- 
tiveis da navegação a vapor, conjugada com o augmento 
do commercio maritimo e com a importância das coló- 
nias, concorria também para o desinvolvimento da ma- 
rinha mercante que, no fim do século XIX, constava de 
447 navios de vela e 150 de vapor, sommando tudo 
828:000 toneladas \ 



1 Noel, obr. cit. — M. M. Piolet & Bernard, Histoire Contempo- 
raine de 1815 A Nos Jours. — Marsillac, Manuel de Histoire Contem- 
poraine de Ia Revolution A Nos Jours. — A. Amman et E. C. Cour- 
tan, Le Monde au XIX 5ièc/e. — Jules Isaac, Histoire Contemporaine, 
1819-1920.— Alhert Malet, XVÍIf Siècle Revolution, Empire et 
LEpoque Contemporaine. — E. Reclus, obr. cit., Europe du Nordouest. 

— Onesine Reclus, La Terre à vol dOiseau. — Cortambert, obr. cit. 

— Bainier, obr. cit. — Ramalho Ortigão, A Hollanda. — Lanier, obr. 
cit. — Conner, Commercial Geography. — Mareei Dubois et Kergo- 
mard, obr. cit. 



CAPITULO XI 
A Dinamarca 



Leve esboço da historia politica da Dinamarca n'este período. — 
Como ella foi também prejudicada pelo bloqueio continental. — 
Como continuou a ser prejudicada, mesmo depois d'elle, pelas 
guerras em que andou envolvida até 1866. — Como em seguida 
progrediu muito. — Productos; deficiência dos mineraes; em 
compensação, grande abundância e grande capacidade do solo 
nos productos agrícolas. — Agricultura, industria, commercio, 
marinha. — Centros económicos principaes. — Communicações. 



No principio do século XIX, a Dinamarca foi arras- 
tada na guerra geral. Guardando uma neutralidade 
agradável á França, que, pela prohibição do commer- 
cio inglez, favorecia os interesses dinamarquezes, teve 
de sustentar, no mar do Norte e no mar Báltico, uma 
lucta encarniçada contra os almirantes inglezes Parker 
e Nelson. As hostilidades só terminaram em 1807, 
sendo-lhe, então, restituidas as colónias que aquella 
nação lhe havia tomado. Mas, logo n'esse mesmo anno, 
viu-se forçada a entrar no bloqueio continental. Porisso, 
a frota de Inglaterra bloqueiou a ilha de Seeland, 
incendiou 400 casas da capital, e matou 1:300 'pessoas; 
e, tendo Copenhague capitulado, os vencedores puze- 
ram o arsenal a saque, e levaram 91 vasos da frota 
dinamarqueza. 



376 A HISTORIA ECONÓMICA 



Depois, Frederico VI, proclamado rei, por morte de 
seu pae Christiano VII (1808-1839), alliou-se com Napo- 
leão, e declarou guerra á Suécia; e, também por isto, 
em seguida á batalha de Leipzig, os alliados occupa- 
ram o Holstein e Schleswig. 

O tratado de Kiel, concluido entre a Inglaterra e 
Suécia (1814), fez entrar a Dinamarca na colligação 
europeia; e os tratados de Vienna de 1815 restituiram- 
Ihe o Holstein, e deram-lhe Lauenburgo, mas tiraram-Ihe 
a Noruega, que foi entregue á Suécia. 

A Frederico VI succedeu Christiano VIII (1839- 
1848}. E Frederico Vil, que succedera a Christiano VIU 
(1848-1863), substituiu ao regimen parlamentar o sys- 
tema absoluto, o que fez estalar uma guerra civil. 

O tratado de Londres de 1852, garantido por diver- 
sas potencias, manteve de novo a unidade e integri- 
dade da Dinamarca; mas alterou a ordem da successão 
do reino, designando como herdeiro presumptivo de 
Frederico VII, o genro d'elle, Christiano — Holstein- 
Gluksburgo; e isso trouxe novas perturbações nacionaes, 
até que, em 1863, uma patente do governo dinamarquez 
separou o Holstein do Schleswig, e submetteu o pri- 
meiro d'esses ducados á constituição commum do reino. 

A Frederico VII succedeu, pois, aquelle Chris- 
tiano IX (1863-1906). 

Em 1864, a Prússia, auxiliada pela Áustria, tomou 
o Holstein, Schleswig e Lauenburgo, isto é, um milhão 
de homens e 19.000 kilometros quadrados; d'onde se 
derivou, em 1866, a guerra entre aquelles dois Estados \ 



1 Vide capitulo I, pag. 50. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 377 



Desde ahi até ao fim do século, a Dinamarca gosou 
de paz e tranquilidade. 

Por tudo isto, involvida em tantas guerras, dissidên- 
cias e perturbações, mal podia ella progredir economi- 
camente, sem que viesse o estado de paz e de repouso 
que a deixasse resfolgar. E tanto mais que, segundo 
vimos no volume V, já no século XVIII, se encontrava 
decadente do seu antigo estado, tão florescente como 
foi no commercio. Mas, em compensação, desde o 
meiado do século em diante, o movimento económico 
^lelhorou consideravelmente, como vamos demonstrar. 



Quanto aos productos, mesmo quando esta nação 
comprehendia um âmbito maior, tinha pequena capaci- 
dade para os mineraes, e poucos podia fornecer, con- 
forme já vimos no volume V. E, reduzida depois em 
território, como ficou desde 1864, apenas tinha digno 
de menção um módico jazigo de hulha em Bornholm. 
Porém, em compensação, era um paiz agrícola por ex- 
cellencia, e a agricultura fazia viver directamente três 
quartas partes da população, apesaf de que o terço 
do paiz se compunha de landes, pântanos e terras 
incultas. 

O solo arenoso, com uma porção variável de argilla, 
prestava-se muito á cultura; nenhuma alteração notá- 
vel aggravava o clima, que é muito doce e húmido; e, 
embora a latitude seja mais elevada que a da Hollanda, 
a temperatura não é tão fria, por estar a Dinamarca 



378 A HISTORIA ECONÓMICA 



banhada de mares e ser ladeiada de um braço do gulf- 
stream, que desce ao longo das costas de Noruega ^. 

Todavia, existia um contraste notável entre as ilhas, 
cuja fertilidade é muito grande, e o oeste da Jutlandia 
ou Jylland, onde a proporção das terras improductivas, 
turfeiras e landes era muito considerável. 



Desde aquella data de 1864, os Dinamarquezes não 
pouparam esforços para augmentar a capacidade do seu 
solo e, portanto, os seus productos agricolas. 

Para o desinvolvimento da agricultura, contribuiram 
já as medidas legislativas promulgadas nos últimos 
tempos do século XVIll, que foram completadas por 
outras, publicadas no século XIX, operando todas ellas 
uma transformação completa na situação dos lavra- 
dores. 

Assim, em 1791, permittiu-se a todo o proprietário 
que tivesse terras indivisas com outro proprietário, o 
poder dividi-las, acabando com isso o systema de 
communidade, que então predominava, ao mesmo tempo 
que se estabeleceram os preceitos tendentes a con- 
junctar a propriedade extremamente parcellada. 

Outra ordenança de 1799 aboliu as corveas, mas 
essa reforma só teve rigoroso cumprimento desde 1856. 

Por outro lado, uma lei de 1788 já tinha abolido tam- 



1 Vide capitulo III, pag. 180. 



EDADE COMTENPORANEA 379 



bem o domicilio forçado dos trabalhadores, terminando 
com isto a servidão da gleba. No meiado do século XIX, 
estabeleceu-se a faculdade de alienar os bens por meio 
de censo. E ainda houve outras medidas que levantaram 
a agricultura. 

Multiplicaram-se os canaes de drenagem ; e, por 
meio de arroteamentos e desbravamentos, entregou-se 
ao trabalho humano mais da quinta parte das lan- 
des, e adquiriu-se sobre os lagos e pântanos mais 
de 60:000 hectares. De modo que, nos fins do século, 
só era improductiva uma quinta parte do paiz, e a 
vegetação florestal tinha cedido extraordinariamente 
perante a cultura scientifica. 

A Dinamarca, vizinha de dois paizes muito bem 
providos de florestas, não tinha grande interesse em 
conservar ampla extensão de bosques. Mas, ainda assim, 
a costa oriental da Jutlandia, das ilhas de Fionia e de 
Seelandia, ficaram possuindo bastantes florestas de 
carvalhos, bétulas e faias, que eram as essências mais 
communs. 

Os cereaes occupavam o maior espaço dos terrenos 
agricolas. A aveia tinha o primeiro logar, por causa do 
clima e da natureza do solo, e Bornholm e Seelandia 
eram os seus dominios predilectos; de modo que, n'esta 
ultima provincia, havia até grandes campinas de aveia, 
sem solução de continuidade. Mas a cultura scientifica 
do trigo foi fazendo diminuir essa outra de aveia. 

A cevada era também cultivada na Seelandia e La- 
land. O centeio, muito empregado na alimentação, era 
o recurso da Jutlandia. Havia espalhado por differen- 
tes partes bastante sarraceno, e produziani-se muitas 
batatas. 



380 A HISTORIA ECONÓMICA 



Entre as plantas industriaes, figuravam na primeira 
linha a beterraba e o lúpulo; e depois, embora em 
menor importância, a colza, o linho e o tabaco. 

Havia muitas arvores fructeiras, macieiras, pereiras, 
ameixoeiras, cerejeiras, e muitos productos hortícolas 
e jardineiros. Odense, Fionia e Aarhus, na Jutlandia, 
tinham até a velha reputação que lhes deram, desde o 
século XVI, os jardineiros frizões estabelecidos lá. 

A criação do gado contribuía poderosamente, com a 
cultura dos cereaes, para a prosperidade da Dinamarca. 

Os pastos e os prados, que são alimentados por 
uma humidade abundante, recordavam os dos hollan- 
dezes; e, porisso, a Dinamarca, na quantidade do gado 
bovino, era, como a Irlanda, relativamente, o paiz mais 
bem provido da Europa, figurando entre as raças me- 
lhores a de Thy, boa leiteira, e a de Jutland, própria 
para engorda e talho. 

Havia muitos cavallos, fortes e grandes, também na 
Jutlandia, e pequenos, mas vigorosos, da raça laalan- 
deza, nas ilhas. A coudelaria real de Fredericksburgo 
velava pela conservação das raças nacionaes. 

Havia muitos carneiros, nos districtos pobres da 
Jutlandia occidental. Depois da Inglaterra e, Hespanha, 
a Dinamarca era o paiz que relativamente possuia mais 
carneiros na Europa. 

Havia egualmente muitos porcos, nas ricas herdades 
das ilhas e da Jutlandia oriental ^. 

Como os Dinamarquezes foram sempre excellentes 



1 Quanto aos productos da Dinamarca na edade moderna, 
veja-se o volume V, pag. 299 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 381 



marinheiros, entregavam-se á pesca; e, da mesma forma 
que os seus vizinhos da Noruega, pescavam bacalhaus, 
arenques, cavallas, rodovalhos, linguados, etc. Os rios 
davam salmões, trutas e enguias. As ostras dos parques 
dinamarquezes tinham muito apreço, e eram expedidas 
em grande quantidade para Hamburgo e Berlim. 

Em todo o caso, a pesca não contribuia para a 
prosperidade geral que havia no paiz, tanto como se 
poderia suppor, attendendo á extensão das costas e 
abundância da vida animal no mar. E' que os habitan- 
tes achavam na agricultura um modo de vida mais fácil 
do que na pesca, e não queriam expor-se ao perigo do 
mar, indo procurar um género que vendiam por baixo 
preço. Por outro lado, os jovens do littoral, preferiam 
engajar-se em viagens de longo curso. 

Ainda assim, a pesca estava muito longe de ser uma 
industria desprezada, sobretudo, ao longo das costas 
occidentaes, onde a terra não fornecia ao lavrador um 
rendimento sufficiente, e onde as aguas eram muito 
ricas em peixe. 



A Dinamarca não tinha, como ainda não tem, con- 
dições industriaes. 

Conforme já dissemos, possuía apenas um mediocre 
jazigo de hulha em Bornholm, e faltavam-lhe mineraes, 
como a natureza geológica do solo deixava adivinhar. 
Faltavam-lhe também as pedras. Não tinha quedas de 
agua que supprissem a hulha, como tinha a Suissa. 
Estava n'uma situação exterior á Europa e excêntrica 



382 A HISTORIA ECONÓMICA 



ás grandes vias. Não possuía rios navegáveis, como, por 
exemplo, a HoUanda. E os únicos grandes elementos 
que, n'estas condições desfavoráveis, podiam estimular 
a industria, eram a riqueza agricola e a actividade mari- 
tima. Porisso, também, as industrias principaes vinham 
a ser aproximadamente esses dois ramos, a que se 
juntavam os misteres domésticos e a fabricação pri- 
mitiva de objectos necessários á vida, alimentação e 
vestuário. 

N'estes termos, as industrias mineraes e metallurgi- 
cas eram quasi nullas. Ainda assim, havia, sobretudo, 
em Copenhague e Odense, muitas fundições, fabricas 
de construcções de maquinas agrícolas e bastantes ouri- 
vesarias, bijuterias e relojoarias. 

Em Copenhague, estava também estabelecido um 
grande canteiro naval; e fabricavam-se por toda a 
parte muitos tijolos que, nas estradas e nas edificações 
substituíam a pedra. E a argilla dava também logar a 
grande industria de telhas, louça, etc. Jutlandia e 
Bornholm eram até afamadas n'esse ponto. 

A agricultura, como já vimos, estava n'um estado 
prospero e d'ella viviam directamente três quartas 
partes da população. Nos cereaes, o centeio e cevada 
levaram ainda vantagem sobre a cultura do trigo, mas 
a cultura ia-se modificando em favor do cereal mais 
nobre. 

Nas industrias derivadas do reino vegetal, é que a 
Dinamarca sobresaía. 

Assim, havia por toda a parte fabricas de distilla- 
ção, de preparação de assucar, de cerveja, de massas 
e de artigos alimentares. 

Nas industrias derivadas do reino animal, havia tam- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 383 



bem muitas fabricas de cortimento e luvas e prepara- 
ção de pelles, como era próprio d'um paiz tão rico de 
animaes, e muitas fabricas de conserva de peixe. 

Finalmente, nas industrias maritimas, alem da con- 
serva de peixe, fabricavam-se engenhos de toda a ordem 
para a pesca. 



O commercio interior era pequeno, porque a riqueza 
agrícola, quasi a única do paiz, estava repartida por 
todas as províncias, e, por toda a parte, era mantida a 
industria rural. No entanto, as fabricas de Copenhague, 
de Odense e doutras cidades, expediam os seus pro- 
ductos para as differentes regiões do paiz. 

Já não acontecia a mesma coisa com o commercio 
exterior. N'essa parte, em relação ao numero dos habi- 
tantes, a Dinamarca fazia até uma quantidade de trocas 
mais considerável que a maior parte das nações da 
Europa. E, durante dez annos, desde 1866 a 1876, o 
commercio exterior augmentou quasi metade, sobre- 
tudo, na importação, e continuou a progredir conside- 
ravelmente d'ahi por diante. 

As importações principaes consistiam em artigos de 
metal, hulha, tecidos, madeira, vinho e aguardente, e 
mesmo em géneros coloniaes; porque, embora as coló- 
nias da Dinamarca fossem vastas, comprehendendo 
1.940:000 kilometros quadrados, as três ilhas Santa 
Cruz, S. Thomaz e S. João, tinham muito pequena 
importância, e as solidões geladas da Groenlândia e 
Islândia não prestavam nenhuma utilidade á metrópole. 



384 A HISTORIA ECONÓMICA 



A Dinamarca importava também cereaes. Outr'ora, 
em vez de os importar, vendia muitos para o estran- 
geiro. Mas, por um lado, a sua população cresceu mais 
depressa que a sua producção ; e, por outro lado, a 
agricultura dinamarqueza não pôde luctar contra a dos 
grandes paizes productores de cereaes, como a Rússia 
e os Estados-Unidos, d'onde vinha o trigo que se con- 
sumia a maior na Dinamarca. 

A exportação era representada, sobretudo, em gado, 
manteiga, queijo, peixe, ovos e pelles, alguns productos 
agricolas, e mesmo alguns cereaes. 

A Inglaterra era o paiz que mais commerciava com 
os Dinamarquezes. Comprava gados e alguns productos 
agricolas, e vendia hulha, maquinas, tecidos e géneros 
coloniaes; mas, ainda assim, tinha uma grande rival na 
Allemanha. Vinham em segunda linha, a Suécia, Rússia, 
Hollanda e Bélgica. 



Quanto aos centros principaes \ Aalberg fazia um 
commercio muito activo; mas a barra do seu fjord só 
permitte a entrada ás pequenas embarcações. 

A cidade de Skagen constituía o logar de pesca 
mais importante da Dinamarca. Bacalhaus, pescadas, 
rodovalhos e linguados eram capturados aos cardumes; 
e assim, Skagen, com a sua vizinha Frederikshaven eram 



1 Relativamente aos centros principaes na edade moderna, 
veja-se o vol. V, pag. 313 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 385 



continuadamente visitadas por navios viveiros, que 
vinham tomar as carregações de peixe vivo, para o 
venderem em Copenhague e n'outras cidades dina- 
marquezas. 

Odense, a mais antiga cidade da Dinamarca, era 
um centro importante de industria e commercio, embo a 
se encontre a certa distancia do mar, e só com elle com- 
munique por um canal de pequena profundidade, onde 
apenas podem entrar navios de cinco metros de calado. 
Graças, porém, a um caminho de ferro, que atraves- 
sava a ilha (Fionia), Odense enriqueceu-se a nascente, 
pelos portos de embarque de Middelfart e de Strib, no 
pequeno Belt. 

Copenhague só ella encerrava a oitava parte da 
população do reino. Era uma cidade muito poderosa 
no commercio e nas industrias, possuindo uma enseada 
segura e um vasto porto natural. A grande industria 
de toda a Dinamarca estava concentrada na sua maior 
parte em Copenhague e nos seus arrabaldes. Fundições, 
refinações, fiações, fabricas de porcellana e terra-cote, 
e todas as fabricas onde se preparam armações e pro- 
visões de navios, cobriam uma vasta extensão de ter- 
reno, na vizinhança do porto e em muitos outros 
bairros. 

Mais de metade do commercio tinha por mercado 
essa capital; e, ainda que Copenhague só possuisse a 
quarta parte da frota commercial pertencente á Dina- 
marca, é certo que mais de metade do negocio do reino 
se fazia no seu porto. 

Esta cidade foi escolhida como sede da Companhia 
dos Telégrafos do Norte, que possuia perto de 8:000 
kilometros de fio, indo da Inglaterra e da França ao 

VoJume VI 25 



386 A HISTORIA ECONÓMICA 



Japão, atravez da Rússia e da Sibéria, o que também 
augmentava a importância de Copenhague. 

Elsenor ou Helsingor está no ponto da juncção entre 
os dois mares. Os reis da Dinamarca tinham tido o 
cuidado de fortificar a situação d'ella, a fim de receberem 
uma portagem sobre os navios que ali passavam. Ainda 
no meiado do século XIX, todas as nações commerciaes 
consentiam em pagar esse tributo, e os navios deviam 
parar sob o canhão de Elsenor. Em 1857, porém, os 
Estados Unidos recusaram -se a pagar esse direito 
humilhante; e, então, uma convenção de resgate abo- 
liu definitivamente a portagem, mediante uma somma 
de 87.345:000 francos, pagável por dezasseis nações, 
em proporção do seu commercio ^. 

Roskilde, que foi a capital e a cidade mais populosa 
da Dinamarca, antes de Copenhague, devia naturalmente 
perder, como perdeu, a sua importância, desde que as 
pequenas embarcações, em que navegavam os antigos 
dinamarquezes, foram substituidas por grandes navios; 
pois que o seu fjord está obstruido de bancos de areia, 
e somente os barcos chatos o podem subir até á cidade. 



A Dinamarca, sendo, como é, um Estado insular e 
peninsular, não tinha melhores communicações do que 
o mar, cujos golfos e estreitos a penetram por toda a 



1 Adriano Anthero, O Direito Internacional, pag. 211. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 387 



parte. Isso, porém, não bastava; e ella empregou tam- 
bém assíduos cuidados no desinvolvimento da sua via- 
ção, não só para as communicações interiores, como 
para as communicações exteriores. 

Construiu de novo muitos caminhos de rodagem, 
calcetados a tijolo, e muitos caminhos de ferro, n'um 
grande desinvolvimento, relativamente á extensão do 
paiz. 

Assim, duas grandes linhas férreas, ligadas á rede 
do Sleswig e da AUemanha, iam dar pelo norte, a Fre- 
derikshavn, servindo as duas regiões do oeste e este 
da Jutlandia. Fionia e Laaland eram atravessadas, cada 
uma, por outra via férrea. Em Seeland, seis linhas 
punham Copenhague em communicação com os pon- 
tos mais importantes da ilha, e, sobretudo, com os 
logares mais próximos da Jutlandia, Fionia, Laaland e 
Bornholm. 

A importância internacional d'estas linhas, embora 
interrompidas pela travessia dos estreitos, era enorme, 
porque a rede dinamarqueza constituia um fragmento 
da linha de Hamburgo a Christiania e a Stokolmo, 
por Gõteborg ou pelo Pequeno Belt, Grande Belt 
e Sund. 

Eram ellas, porisso, principalmente importantes para 
transportar da Europa continental á Suécia, e vice- 
versa, os viajantes desejosos de evitarem longas tra- 
vessias. Mas as mercadorias aproveitavam a via mais 
económica do mar, quando elle estava desimpedido 
dos gelos. 

Com effeito, os estreitos, umas vezes, estão desim- 
pedidos de gelos durante o anno; mas, outras vezes, 
estão fechados dois ou três mezes, por lagens de gelo, 



388 A HISTORIA ECONÓMICA 



bastante fortes, para impedirem a passagem. Sobretudo, 
a travessia do Grande Belt apresenta muitas difficulda- 
des no inverno, quando os gelos obstruem os estreitos; 
e então, os barcos empregados no transporte dos pas- 
sageiros eram carregados em trenós de construcção 
especial ^. 



1 Conner, Commercial Géography. — Mareei Dubois, Précis de 
Géographie Economique. — Delville, obr. eit. — Richard Cortambert, 
Géographie Commercial et fndustrielle des Cinq Parties du Monde. — 
M. L. Lanier, LEurope. — Bainier, Cours de Géographie Commercial, 
LEurope. — E. Reclus, Nouvelle Géographie Universelle, LEurope 
du Nordouesí. — H. Weitamayer, Le Danemarke. — A. Geffroy, His- 
íoire des Etats Scandinaves. 



CAPITULO XII 

A SCANDINAVIA 

I 

A Suécia 

Leve esboço da historia politica da Suécia n'este período. — Como a 
Suécia até 1914 soffreu, da mesma forma que, em geral, todos os 
paizes da Europa, com o bloqueio continental. — Como, depois 
de restabelecida a paz, a Suécia prog^rediu muito, conjuncta- 
mente com a Noruega, a que ficou unida. — Como o governo de 
Bernardotte (Carlos João XIII) contribuiu para isso. — Como 
este libertou a industria de muitas restricções. — Productos, 
devastação das florestas, agricultura, mau regimen da proprie- 
dade, criação de gado. Industria e commercio. — Centros princi- 
paes. — Communicações. 

Quando rebentou a revolução franceza, a Noruega 
estava unida á Dinamarca, e na Suécia reinava Gus- 
tavo III, que tinha restabelecido o poder absoluto, e 
feito uma alliança com os Francezes, que lhe cederam 
o porto de Gothenburg-o ou Gõteborg, em troca da ilha 
de S. Bartholomeu, nas Antilhas. 

A revolução franceza, porém, approximou esse mo- 
narca do partido dos reis, quando foi assassinado por 
um chefe da nobreza, que tinha sido privado por elle 
dos seus privilégios. 



390 A HISTORIA ECONÓMICA 



Depois d'uma sabia regência do duque de Sunder- 
mania, que tentou fazer entrar a Suécia na neutralidade, 
o filho de Gustavo III, Gustavo IV (1796-1809), inimigo 
irreconciliável de Bonaparte, offereceu aos principes 
de Bourbon asylo em Kalmar, e entrou em todas as 
intrigas allemãs contra a França, offerecendo até 
alguns regimentos aos alliados. 

Depois da paz de Tilsit (1807), Napoleão levou a 
Rússia e Dinamarca a invadirem a Suécia; e, então, 
quando os Russos já estavam a trinta léguas de Sto- 
kolmo, os Suecos, indignados, deposeram o rei. O velho 
duque de Sundermania retomou o poder, sob o nome 
de Carlos XIII, e salvou a Suécia, apesar de ser obri- 
gado a ceder á Rússia a Finlândia, Aland e uma parte 
da Botnia, pelo tratado de Frederikshavn (1809). 

A Dieta elegeu depois rei o marechal francez Ber- 
nardotte, principe de Ponte Corvo que, apesar de sua 
origem nacional, em 1812 e 1813, combateu á frente 
do exercito sueco os Francezes, em Gross Beeren, 
Demewitz e Leipzig. 

Como premio d'este auxilio, os alliados tiraram a 
Noruega á Dinamarca, e deram-n'a á Suécia, ficando a 
constituir com esta uma união pessoal, com o mesmo 
rei da Suécia e com o mesmo ministro dos negócios 
estrangeiros \ E Bernardotte foi também confirmado, 
na realeza, sob o nome de Carlos João XIV (1812-1844). 

Não obstante as difficuldades que a Rússia lhe sus- 
citou e a desconfiança dos democratas norueguezes, 
este rei, nos vinte e seis annos do seu reinado, realisou 
úteis reformas nas finanças, na administração publica. 



1 Adriano Anthero. O Direito Internacional, pag. 367. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 391 



na instrucção, no commercio, nas industrias, artes, 
letras e communicações; de modo que todo o movi- 
mento social tomou um grande desinvolvimento. 

Succedeu-lhe o filho Oscar I (1844-1859). Despren- 
dido de quaesquer responsabilidades para com as 
potencias vizinhas, deu á Suécia uma completa inde- 
pendência politica, rompendo para isso com a própria 
Rússia; e, no interior, continuou as reformas liberaes 
de seu pae, abolindo as corporações industriaes, eman- 
cipando os Judeus, e proclamando a plena liberdade 
industrial e commercial. 

Carlos XV (1859-1872), filho de Oscar 1, reformou 
a antiga Dieta, substituindo um parlamento, composto 
de duas camarás, á velha divisão do paiz em quatro 
ordens : clero, nobreza, burguezia e agricultores ; alar- 
gou os direitos de suffragio; fez regular n'um sentido 
mais moderno diversas questões económicas e sociaes; 
e mostrou-se sempre um protector esclarecido das 
letras, artes e sciencias. 

O irmão d'elle, Oscar II (1872-1907), mostrou-se 
como os predecessores preoccupado, primeiro que tudo, 
em manter a paz e união dos seus Estados ; e desin- 
volveu também sob todas as formas o progresso do 
seu povo. 



Durante os primeiros tempos do século XIX, a Sué- 
cia e Noruega, submettidas como a Dinamarca, ás 
vicissitudes da enorme lucta que assolava a Europa, 
soffreram muito com o bloqueio continental; e até 



392 A HISTORIA ECONÓMICA 



grande numero de navios foi tomado ou embargado 
pelos Inglezes. Mas, assegurada a paz, os dois Estados 
scandinavos retomaram o caminho do progresso. 

Já o governo de Carlos João XIV (Bernardotte) 
contribuiu muito para isso, com a sua iniciativa e 
reformas; e a velocidade adquirida n'esse reinado mais 
se accentuou depois de 1846. 

Até então, apesar d'aquella iniciativa e d'aquellas 
reformas, o trabalho industrial estava submettido a 
grandes restricções. As corporações de artes e officios, 
modeladas pelas associações allemãs, determinavam 
os misteres de cada operário, e só permittiam o accesso 
em condições ás vezes draconianas. Em 1846, porém, 
foi estabelecida a liberdade industrial e commercial, e, 
ainda depois d'essa data, uma ordem real completou 
no mesmo sentido as prescripções anteriores. 

A consequência de tudo isto foi augmentar grande- 
mente o numero dos estabelecimentos manufactureiros 
nos dois reinos da Suécia e Noruega. 

Só na Suécia, cresceu elle 25 por cento, sem levar 
em conta os numerosos pequenos misteres que se exer- 
ciam nos domicílios com o concurso da familia; e bem 
assim os trabalhos das minas, pedreiras e outros estabe- 
lecimentos da mesma natureza, e os demais ramos da 
riqueza nacional, progrediram egualmente. 

* 
* * 

Já vimos no volume V como o solo da Suécia é rico 
em mineraes. O ferro, que se encontra nos filões das 
rochas ou nos pântanos e lagos, onde tem sido rolado, e 



EUADE CONTEMPORÂNEA 393 



cujos jazigos estão situados n'uma região limitada, d'um 
lado, pelo lago Vennern, e, do outro lado, pelo littoral 
do Gefle e de Stokolmo, é uma das grandes riquezas 
da Suécia ; e de tal qualidade que os paizes industriaes, 
mesmo os que possuem muito ferro, o procuram com 
avidez, sobretudo, por ser muito rico em manganez e 
magnetes para a producção do aço. Alem d'isso havia 
outras, massas enormes de ferro, que poderiam supprir 
durante séculos a alimentação de todas as industrias 
siderúrgicas da Europa; mas essas acham-se principal- 
mente na Laponia, em logares de accesso difficil, senão 
impossivel, e onde falha o combustivel. 

Ora, também a producção do ferro cresceu de tal 
modo, desde 1864, que, em 1870, já attingia o dobro, 
e alimentava uma grande parte da exportação. 

Só as minas da Delacardia e provincias vizinhas 
forneciam 700:000 a 900:000 toneladas, que serviam 
para fabricar 350:000 toneladas de metal fundido e 
reduzido a ferro, o qual era comprado, sobretudo, pelos 
Inglezes. 

A Suécia só possue algumas bacias hulheiras nos 
arredores de Helsingborg, na Scania, muito insufficien- 
tes para a sua industria; porque, se tivesse mais hulha, 
e mesmo, se as florestas estivessem na vizinhança, 
immediata dos jazigos mineiros, e também, sobretudo, 
se as industrias de todos os paizes não empregassem 
processos que lhes permittiam tirar todo o proveito 
dos seus mineraes inclusivamente de qualidade me- 
diocre, a producção do excellente ferro sueco dobraria 
facilmente. 

Havia muito cobre em Falun, mas a sua exploração 
não pôde manter-se em concorrência com os mineraes 



394 A HISTORIA ECONÓMICA 



do Novo Mundo; e, porisso, nos últimos tempos do 
século passado, tinha diminuído muito. 

A Suécia possue muitas minas de zinco; e uma 
d'ellas pertencente á sociedade Belga da Vieille Mon- 
tagne ^, estava, como está, na extremidade septentrional 
do lag-o Vettern, em Ammeberg, e era, como ainda é, 
muito importante. 

O chumbo, o nickel e a hulha, extraidos n'uma 
pequena quantidade nos arredores do Sund, e algum 
oiro, prata e enxofre, contribuíam n'uma parte menor 
para a riqueza mineral da Suécia. Havia também mui- 
tas pedreiras de granito, porfido vermelho, mármores, 
pedras mós; e a exploração de todos esses productos 
foi egualmente augmentando, e com elles o desinvolvi- 
mento progressivo da economia geral. 



* 
* 



Como productos agrícolas, alem dos cereaes, taes 
como aveia, que era o principal, cevada, centeio, e 
também algum trigo na Scania, a Suécia produzia bas- 
tantes legumes e muita batata, que era, no século XIX, 
a cultura por excellencia d'esse paíz. 

E, nas plantas industriaes, abundavam o lúpulo e 
a beterraba, que prosperava muito ao sul da Scania, 
onde crescia, como ainda cresce, com uma rapidez 
extraordinária. 



Vide paf . 344. 



EDADE COMTENPORANEA 395 



O cânhamo e tabaco prehenchiam muito pouco ter- 
reno, mas o linho era cultivado extremamente. 

Quanto a fructas, havia as mesmas que na Europa 
Occidental, especialmente, maçãs, peras e cerejas. A 
Scania era fértil em damascos e pecegfos, e mesmo as 
uvas amadureciam rasoavelmente nos logares bem ex- 
postos. Havia também muitas nogueiras. 

As florestas que, antes de 1850, cobriam 42,8 por 
cento da terra firme, alem de 2 milhões de hectares da 
Laponia, soffreram tão grande exploração e devasta- 
mento, em virtude do emprego exclusivo da lenha para o 
trabalho das minas, que teve de intervir uma legislação 
especial, afim de prevenir a ruina. Assim, em 1875, os 
proprietários das provincias septentrionaes foram obri- 
gados a respeitar, d'ahi por diante, os fustes que tives- 
sem menos de 25 centimetros de espessura e altura de 
um homem. Na ilha de Gotland, prohibiu-se até comple- 
tamente a exploração de lenha ou madeira para vender. 



No ramo animal, a Suécia possuia bastante gado 
bovino de pequeno talho, cavallos da grande raça da 
Jutlandia, na parte meridional, e também cavallos da 
raça noruegueza, mais pequena, mas notável pela so- 
briedade, vigor e duração. 

Havia muitos carneiros, embora em menor numero 
que na Noruega, e d'uma raça mediocre ; cabras, que 
habitavam as montanhas pobres do oeste, e grande 
quantidade de porcos, sobretudo, na Delacardia e na 



396 A HISTORIA ECONÓMICA 



Gothia. o norte da península de Scandinavia tinha 
como bestas de carga as rennas ou rangifers. 

O numero de todos esses animaes foi também augmen- 
tando successivamente, durante o século XIX, e a criação 
realisou progressos correspondentes aos da agricultura ^ 

A todos estes productos, vinham juhtar-se os da 
pesca fluvial e costeira, a dos lagos e a marítima: 
pescas essas que tinham espécies muito variadas. As 
mais abundantes eram o salmão, o arenque, o baca- 
lhau, as trutas, as pescadas, cavallas e anchovas; e 
estas espécies eram consumidas no respectivo logar, 
ou salgadas para a exportação. Em todo o caso, n'este 
género, a Suécia era muito menos fértil que a Noruega, 
porque o Báltico é também muito menos rico n'esse 
ponto, que o mar do Norte. 

Tem de se accrescentar ainda a pesca no mar Gla- 
cial, das phocas, morsas, tubarões e lagostas. 

A dos arenques foi outr'ora importantíssima, como 
já dissemos no V volume '^. Desappareceram elles das 
costas suecas ; voltaram alguns annos depois ; e des- 
appareceram de novo, para reapparecerem em 1740, 
tornando a vir em 1805, para tornarem a desapparecer 
ainda em grande quantidade; acrescendo que a emi- 
gração era sempre muito incerta e muito frequente. 
Assim, esta pesca do arenque foi muito abandonada. 
A exportação, que, antes d'isso, era de 300:000 tonela- 
das, desceu logo a 2:000; e ainda os arenques do mar 
Báltico davam um certo contingente para ella. 



1 Sobre os productos na edade moderna, veja-se o vol. V, 
pag^. 356 e seguintes. 

- Veja-se A Historia Económica, vol. V, pag. 358. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 397 



A agricultura na Scandinavia, já muito em progresso, 
no primeiro quartel do século XIX, viu abrir-se diante 
d'ella uma longa perspectiva de melhoramentos, graças 
á extensão considerável de terrenos improductivos que 
podiam ser aproveitados. E' certo que a maior parte 
da peninsula é imprópria para a charrua. Lagos, pân- 
tanos, rochedos, montes de pedra, neves e geleiras, 
cobrem grandes espaços; e, nas regiões septentrionaes, 
a rudeza do clima nem mesmo consente a permanência 
dos lavradores no trabalho, a não ser em alguns loga- 
res bem abrigados, onde, ainda assim, os abrolhos e 
cardos crescem expontaneamente. Mas a Suécia, so- 
bretudo, depois de 1830, fez grandes esforços para 
dominar os obstáculos que a natureza e o clima lhe 
oppunham. 

Em 1835, n'uma população de 2.871:000 habitantes, 
contavam-se 2.067:000 trabalhadores ruraes, e, alem 
d'isso, um numero considerável de proprietários culti- 
vadores, pertencentes a outras classes. 

A cultura, propriamente dita, só cobria uma decima 
parte do solo, diminuindo gradualmente do sul para o 
norte, desde a provincia de Malmõ, onde occupava 
quasi dois terços do território, até ás solidões da 
Laponia, onde alguns pequenos campos nas clareiras 
das mattas eram as simples conquistas da lavoira. Mas 
o augmento das culturas novas na peninsula foi, desde 
então, de 40:000 hectares por anno, conquistados dire- 
ctamente ás aguas, pântanos e lagos. Desde 1841-1876, 



398 A HISTORIA ECONÓMICA 



O Governo contribuiu para o enxugamento de 198:000 
hectares ; e, alem d'isso, vastos espaços foram conquis- 
tados pelos particulares, sem intervenção do Estado. 
Ainda assim, no fim do século, o terreno aproveitável, 
não fazendo conta das pequenas parcellas situadas nas 
cidades, que serviam apenas para a cultura dos legu- 
mes e flores, em volta das habitações, os dominios culti- 
váveis eram só de 300:000 hectares. 

A agricultura primitiva do paiz não conhecia outro 
methodo senão o das queimas. Incendiava-se uma parte 
das florestas ou das turfeiras, e a semente que se que- 
ria semear, era lançada nas cinzas. Em alguns dos dis- 
trictos do interior, este methodo rudimentar dos antigos 
Lapões, era ainda usado nos fins do século XIX; mas, 
apesar d'isso, no geral do paiz, a agricultura sueca 
tornou-se uma d'aquellas que se distinguia por uma 
boa rotação de afolhamentos, applicação dos adu- 
bos, applicação judiciosa de maquinas e melhora- 
mentos regulares. E a Suécia, que, no século XVIII, 
importava cereaes estrangeiros, já no ultimo quartel 
do século XIX, produzia o sufficiente para a sua 
alimentação e commercio, e também para alimenta- 
ção dos animaes e fabricação da aguardente; e ainda 
exportava quantidades consideráveis, embora impor- 
tasse também em menos proporção, farinha de centeio 
e cevada. 

Em geral, na Scandinavia, e, porisso, também na 
Suécia, os pequenos proprietários formavam uma grande 
proporção dos habitantes dos campos, e a maior parte 
dos rendeiros cultivavam os seus dominios temporários, 
sob a garantia de costumes tradicionaes, que lhes davam 
uma real independência. Os lavradores não tinham sido 



EDADE CONTEMPORÂNEA 399 



servos, como na maior parte da Europa, e conservavam 
o costume de adquirir para si mesmos a sua habitação 
e algumas terras. 

O regimen da propriedade é que era mau; porque, 
ainda nos fins do século XIX, os dominios communs 
constituiam uma grande quantidade em toda a penín- 
sula. Os terrenos incultos, os pastos da montanha e 
das florestas pertenciam, na maior parte, em communi- 
dade, a uma paroquia e até a mais do que uma. E, em 
differentes logares, também a antiga propriedade colle- 
ctiva foi substituída pela distribuição regular das terras 
entre diversos communistas, durante certo numero de 
annos, passando cada quinhão successivamente para os 
respectivos societários. 

Até aos últimos tempos do século XIX, dava-se 
também uma excessiva fragmentação nas florestas, 
de modo que, ás vezes, o solo pertencia a um ou mais 
proprietários, as arvores a outro ou outros; e mesmo 
uma espécie de arvores a um, e outra espécie a pro- 
prietário ou proprietários differentes. Mas essa anomalia 
foi remediada por uma lei dos últimos tempos. 

E também, desde 1827, uma lei, que depois foi 
copiada na Allemanha e na Áustria, permittiu aos pro- 
prietários das pequenas parcellas reclamarem uma nova 
distribuição do solo, pelo agrupamento dos pedaços 
dispersos. O dominio melhorou muito depois d'isso, 
em favor da agricultura, não obstante subsistir ainda 
um grande parcellamento da propriedade. 

Apesar da devastação das florestas, ainda assim, 
era enorme a importância d'ellas, na economia rural 
da Scandinavia, e mesmo na industria e commercio. 

A exportação da madeira representava a metade 



400 A HISTORIA ECONÓMICA 



das vendas totaes; e mais de 500 serrarias, que rece- 
biam a força motriz das quedas de agua, preparavam 
muitos productos florestaes, como taboas, traves, tra- 
vessas, esteios para as minas, peças montadas, portas, 
janellas, toneis, pipas, moveis, grandes navios de vela, 
barcos de pesca, casas transportáveis, parquets, armá- 
rios grosseiros, cofres e diversos objectos de marcena- 
ria. E muitos d'esses artigos, especialmente as traves, 
taboas e travessas de minas, eram expedidos do golfo 
de Botnia e de Gothenburgo para o Brazil, Cabo de 
Boa Esperança, Austrália e até para a Nova Guiné; e, 
mais de metade das exportações se dirigiam também 
para a Inglaterra. 

E havia ainda uma industria importante nas regiões 
florestais do norte — a fabricação do papel de embala- 
gem, por meio da massa de madeira ; e fabricavam-se 
também lá muitos fósforos chymicos e de pau. 



As outras industrias, em geral, luctavam com a 
falta de hulha; e, alem disso, como adiante mostrare- 
mos, as communicações eram muito insufficientes, e 
tanto mais que as vias navegáveis só estão livres, perto 
de 7 mezes no anno. 

Como acontece também com a Noruega, os Suecos 
teem de dividir o anno em duas partes bem distinctas: 
uma, a da bella estação, consagrada á exploração e 
accumulação dos productos naturaes nos armazéns; e 
outra, a do inverno, destinada á exploração por mar 
dos productos armazenados. E também essa falta de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 401 



communicações, esta difficuldade de transportes n'uma 
grande parte do anno, e a reclusão da vida no inverno, 
prejudicavam o movimento industrial. 

A industria mineira era especialmente embaraçada 
pela falta de hulha. Mas, ainda assim, pelo aproveita- 
mento da lenha nos altos fornos, localisados nas regiões 
das minas, e pela facilidade da Suécia receber carvão 
do estrangeiro, a fabricação do ferro e aço, maquinas, 
quinquilherias, pregps e alguns outros artigos, tornou-se 
muito importante. 

Motala tinha a especialidade da fabricação das 
maquinas; Gefle e Stokolmo, attraíam naturalmente as 
industrias mecânicas, necessárias ás construcções marí- 
timas ; e também Stokolmo tinha fabricas importantes 
de vidraria e faiança. 

Nas industrias textis, as mais notáveis, e que a 
Suécia aprendera do estrangeiro, eram a de fiação e 
tecidos de algodão. A de pannos, mais antiga, e que 
tinha começado em Jonkõping e Upsala, nos pri- 
meiros annos do século XVll, adquiriu no século XIX, 
de que estamos tratando, uma importância grande; mas, 
ainda assim, insufficiente para tecer metade dos pannos 
de que o paiz precisava. 

Alguns industriaes occupavam-se dos tecidos de 
linho, cânhamo, juta e seda. A industria de cordoaria, 
era muito grande, como era natural n'um paiz marítimo, 
n'aquellas condições. 

A industria da distillação de aguardente, extraída 
dos cereaes, era também muito grande. Em 1855, mais 
de 40:000 fabricas forneciam enormes quantidades de 
aguardente, fora a distillação particular por alambiques. 
Mas, depois d'uma vintena de annos, essa distillação 

Volume VI 26 



402 ^ A HISTORIA ECONÓMICA 



foi muito vigiada e restringida por direitos fiscaes, e 
criaram-se até sociedades particulares com o exclusivo 
da venda da aguardente, e com a condição de não 
tirarem lucro d'ella: sociedades essas que, por seu lado, 
trataram de combater o alcoolismo, por meio d'este 
privilegio e de outros expedientes. E isso diminuiu as 
tabernas, por não tirarem tanto lucro, e, sequentemente, 
diminuiu também a distillação. 

Havia algumas cervejarias. 

A abundância de gado dava logar a uma grande 
industria de manteiga, curtimenta e luvas. 

A industria da pesca tem tido uma grande impor- 
tância na Scandinavia. E ainda mais que a agricultura, 
tem concorrido para povoar as regiões do littoral; de 
modo que os districtos do norte estariam completamente 
desertos, se os bancos do peixe não atraissem a floti- 
Iha dos pescadores. Apesar da diminuição de que já 
falíamos, o arenque e o bacalhau eram os artigos mais 
importantes; e o residuo do bacalhau e de outros pei- 
xes que continham muito phosphato, prestava grande 
utilidade para a estrumação das terras. 

Deve observar-se que, na Suécia, as industrias fami- 
liares ou domesticas estavam mais desinvolvidas do que 
nas outras regiões mais povoadas da Europa, não só 
pelo facto dos mercados serem muito distantes uns dos 
outros, mas também pelo clima e deficiência de com- 
municações, de que adiante fallaremos. 



O commercio soffreu de todas as causas que pre- 
judicavam a Suécia e a Noruega. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 403 



Pobres em si e pouco adiantados no progresso indus- 
trial, esses dois paizes estavam, alem d'isso, n'uma situa- 
ção económica pouco invejável, por estarem fora das 
grandes vias do tráfico internacional. Não tendo também 
um grande valor de productos internacionaes a exportar, 
apesar do volume das carregações que expediam, só 
realisando, pelo facto da sua industria ser mediocre, fra- 
cos beneticios, e comprando relativamente poucas mer- 
cadorias, o commercio d'esses dois Estados era limitado, 
geralmente, a alguns objectos de primeira necessidade. 

Demais a mais, nenhuma nação, excepto a Rússia, 
está mais afastada da America; nenhum povo da Europa 
está mais distante do Mediterrâneo, dos mercados do 
Levante e do Extremo Oriente; e nenhum está peior- 
mente collocado para explorar a Africa. 

Porisso, quasi todo o commercio da Suécia, salvo 
um por cento, era marítimo, e o transporte effectuava-se 
apenas n'uma proporção de metade pela marinha sueca, 
principalmente carregada de marcadorias pesadas e 
volumosas, como eram os metaes e a madeira. 

Ainda assim, o commercio exterior seguiu n'uma 
carreira ascendente, desde 1860. Estava antes d'isso 
restricto a algumas expedições de trigo, e, sobretudo, 
de ferro, e limitava-se, desde 1820 a 1825, a uma somma 
de 20:440 francos. Em 1850, já era de 104 milhões e 
meio de francos; em 1860, excedia 234 milhões; e, 
depois d'esta época, em virtude do regimen convencio- 
nal inaugurado pela França e Inglaterra, engrandeceu 
até o fim do século mais de 150 por cento. 

Em todo o caso, o commercio da Suécia era inferior 
ao da Noruega, assim como a sua navegação e marinha 
lhe eram também inferiores. 



404 A HISTORIA ECONÓMICA 



As importações consistiam, principalmente, em hulha, 
objectos manufacturados, cereaes, géneros coloniaes, 
maquinas, tecidos, matérias textis, géneros alimenticios; 
e a exportação em madeiras, manteiga, ferro, papel, 
aveia, peixes, massa de madeira e phosphoros de pau 
e chymicos, 

A marinha mercante de velas e vapor da Scaridinavia 
era muito importante, de modo que a somma das duas 
marinhas, com os barcos de pesca e cabotagem e longo 
curso, estava cotlocada na quinta classe, logo abaixo da 
Inglaterra, Estados Unidos, França e Allemanha. 



* 

* 



Na Suécia, as cidades teem mais espaço por onde 
se desinvolvam que na Noruega. Não são obrigadas a 
agachar-se ao sopé das montanhas ou invadir as areias. 
As casas, separadas umas das outras, ao menos nos 
arrabaldes, são baixas, e são de uma grande limpeza, 
pintadas de amarello ou verde, e, a maior parte, de 
vermelho escuro, com uma escada exterior, por causa 
dos incêndios ^. 

A cidade principal de toda a vertente virada para 
o Cattegat é Gõteborg ou Gothenburgo. E' a segunda 
da Suécia e a terceira da península. A sua fortuna com- 
mercial expHca-se pela situação. Está na margem de um 



1 Sobre os centros principaes na edade moderna, veja-se o 
vol. V, pag. 378 e seguintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 405 



rio navegável — o Gotha, e na parte inferior, onde as 
embarcações podiam, desde o meiado do século, subir 
mesmo os rápidos e cataratas, para entrarem no lago 
Wenern. Muitos outros logares do littoral tinham tam- 
bém a vantagem de possuir um bom porto; mas o que 
distinguia especialmente Gothenburgo, era o ser etapa 
intermediaria entre a porta do Báltico e o golfo da 
Noruega meridional e entre Copenhague e Christiania 
— cruzamento dos caminhos commerciaes: o que tem 
feito a fortuna de Gothenburgo. 

E, porisso, esta cidade, ainda que relativamente 
moderna, cresceu rapidamente, muito mais atè que 
outras cidades antigas, egualmente favorecidas pela 
natureza. Se era inferior á capital na população, era-lhe 
superior no commercio. 

Karlstad, a capital da província de Wernoland, era 
também muito importante. 

Christiehamn, situada n'um logar, onde um rio entra 
no lago Wenern, e forma um porto accessivel aos navios, 
tomou nos últimos tempos um rápido desinvolvimento, 
graças a esse porto, ao cruzamento de duas linhas fér- 
reas importantes, a ser um grande mercado que provinha 
da fabrica de Philipstad e das minas de Persberg, as mais 
importantes da Suécia, pela quantidade do seu mineral. 

Manestad e Lidkõping eram portos muito fre- 
quentados. 

Helsingfors era também importante, e possuia gran- 
des jazigos de conbustivel. 

Eram egualmente importantes Landskrona, Malmõ, 
que se tornou a terceira cidade da Suécia, Carlskrona, 
e especialmente Norrkõping, o grande mercado do 
norte, como Soder-Kõping era o mercado do sul. 



406 A HISTORIA ECONÓMICA 



Essa cidade do Norrkõping é denominada orgulho- 
samente pelos Suecos — a Manchester da Scandinavia; 
e tomou tal incremento no século XIX que, já em 1876, 
as suas 33 fabricas forneciam os dois terços de todos 
os panos preparados em todo o reino. Possuia também 
muitos estabelecimentos para a fiação e tecelagem dos 
algodões, preparação das farinhas e refinação do assucar. 

Alem d'isso, os seus canteiros entregavam ao Estado 
as canhoneiras e navios-couraçados. O commercio com 
os estrangeiros consistia, sobretudo, na importação de 
matérias primas e hulha; e as expedições, em aveia, 
madeira, ferro, phosphoros e mármore das pedreiras 
vizinhas. 

A sul havia as minas de A'tvodaberg, que rivalisaram 
na importância com as de Falun, e onde foram abertas 
as galerias da Suécia mais profundas; mas estavam 
abandonadas já na ultima vintena do século. 

Motala era também um centro importante de fabri- 
cação, mas não se podia comparar com Norrkõping.- 

Linkõping e Jonkõping eram outras duas cidades 
economicamente notáveis, sobretudo, esta ultima, pelo 
trabalho dos mineraes e metaes. Ahi se fabricavam 
maquinas, armas e instrumentos de toda a ordem; e ao 
sul estava a mais famosa fabrica de phosphoros chymi- 
cos do mundo. 

Stokolmo, a capital, era a cidade mais populosa. 

O seu porto acha-se fechado pelos gelos durante três 
mezes; e, porisso, o Governo cuidou em estabelecer 
uma enseada exterior em Ninas, no littoral mesmo do 
Báltico, e que reunisse a cidade por um caminho de ferro, 
afim de abreviar para a navegação o periodo d'esse 
impedimento. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 407 



No principio de 1879, os engenheiros puzeram a 
primeira mão na construcção do cães e nos entrepostos, 
ao nordeste da cidade, afim de transformar o braço de 
mar, chamado Silla Wartan n'um g-rande porto de 
deposito para as mercadorias muito pesadas, pau, ferro 
e carvão. 

Stokolmo não se contentou de communicar com o 
mar por três canaes naturaes, que serpenteiam entre a 
ilha da costa. Abriu também o canal sinuoso de Sôder 
Telge ou Sodertelgfe, que reúne directamente o fjord de 
Hinmerojó á principal bacia do lago Malar. Assim, 
os navios de Stokolmo podem ganhar o mar, singrando 
ao oeste para o canal, tão bem como deixando-se ir a 
este pela corrente. Em 1879, só o porto de Malar era já 
o ponto de partida de 97 itinerários distinctos para os 
vapores. 

A industria de Stokolmo já era muito activa, e com- 
prehendia fabricas de toda a espécie, fundições, refina- 
ções, fiações, vidraria, faianças, canteiros ; e na vizi- 
nhança havia uma fabrica de porcellana e faiança fina. 

Atraía naturalmente, como Gefle, as industrias me- 
cânicas necessárias ás construcções navaes. 

O commercio d'essa capital era muito importante. 
A frota mercantil, já em 1875, era de 234 navios, sendo 
165 vapores da força de 6:080 cavallos. 

Upsala possuia as grandes riquezas mineraes de 
Dannemora. 

Arborga e Gefle tinham também importância. E esta 
ultima atraía também, naturalmente, as industrias mecâ- 
nicas necessárias ás construcções navaes. 

Falun estava cheia de fabricas, graças aos jazigos 
de cobre que se encontram nas vizinhanças. Estes jazi- 



408 A HISTORIA ECONÓMICA 



gos, embora de um valor muito desegual, pois que cer- 
tas partes conteem apenas duas centésimas de metal 
puro, emquanto que outros conteem uma quinta parte, 
faziam a riqueza de Falun, ha mais de cinco séculos. 
Mas a producção tinha diminuido sensivelmente, nos 
últimos annos do século XIX, como aconteceu também 
com as minas de Cornuailles, na Inglaterra, por não 
poderem sustentar a concorrência da America do Sul e 
da Austrália. 

Wisby, capital de Gotland, supposto que decaida, 
fazia ainda um commercio considerável. Os seus mari- 
nheiros entregavam-se á pesca, e as suas praias atraíam 
no verão milhares de banhistas do continente vizinho. 



Pelo que respeita ás communicações, já no volume V, 
falíamos das más condições naturaes da peninsula. 
A única região verdadeiramente rica na Suécia, e que 
podia desejar bons meios de communicação, era a parte 
central e meridional, zona de agricultura e industria. 
Os lagos eram muito aproveitáveis, mas estavam gela- 
dos sete mezes durante o anno. O canal de Goeta ou 
Gothia (Gce Kanal), de que já falíamos também no 
volume V, recomeçado em 1805 corta a peninsula 
ghotica da Suécia, propriamente dita, passando pelos 
grandes lagos, unindo directamente o Báltico ao Skager- 
Rak, isto é, ao Mar do Norte, e dando aos portos da 
Suécia oriental uma saida melhor para o mar aberto do 
oeste. Começa elle em Soder-Kôping, sobre o Báltico, 



tUADE CONTEMPORÂNEA 409 



e termina em Gothenburgo, ao norte de Kategat; de 
modo que Gothenburgo tornou-se um ponto de saida da 
Suécia, ao mesmo tempo que uma etapa do caminho 
de ferro para Christiania, hoje chamada Oslo. 

As estradas eram muito insufficientes, n'um paiz 
onde as vias navegáveis só estão livres sete mezes no 
anno. N'esta situação, a exploração das florestas e minas 
era sensivelmente prejudicada pelo mediocre desinvol- 
vimento d'essas estradas. No norte, nem sequer havia 
outra estrada, alem da de Stokolmo a Haporando. 

Mas as vias férreas, apesar da sua construcção ter 
começado só em 1856, já no fim do século, abrangiam 
nos dois reinos 200 kilometros. 

E' certo que esta rede era muito pequena, em relação 
aos dois Estados; mas deve attender-se a que o solo 
verdadeiramente explorável e de algum valor econó- 
mico só comprehende a Gothia, na Suécia propriamente 
dita, e a Noruega, na latitude inferior a 64". Alem d'isso, 
o extremo desinvolvimento da cabotagem na Noruega, 
nas regiões susceptíveis de uma exploração fructuosa, 
restringia a necessidade de communicações por estra- 
das e vias férreas. Restava, porisso, prover a Suécia 
propriamente dita, cujas riquezas metallurgicas e indus- 
triaes e cuja população muito densa exigiam todos os 
meios de transporte. Era também preciso ligar essa 
região, excepcionalmente favorecida, ao littoral atlân- 
tico, atravez dos Alpes scandinavos. E tudo isso foi 
esboçado nos seus principaes traços, e começado no 
século XIX. 

Assim, a Suécia foi sulcada por quatro grandes linhas 
que de Stokolmo ganhavam Malmõ, Gothenburgo, Chris- 
tiania, e depois Upsal. Uma outra linha junctava Chris- 



410 A HISTORIA ECONÓMICA 



tiania a Trondjem, atravez da provinda noruegueza de 
Hamar; e havia também algumas outras pequenas linhas 
na Noruega. 

Em todo o caso, a exploração das linhas férreas era 
muito pouco remunerada, devido á concorrência dos 
canaes e cabotagem \ 



1 Mareei Dubois et Kergomard, obr. cit. — E, Reclus, obr. cit. 
— Onesine Reclus, La Terre à vol d'Oiseau. —Conner, Commercial 
Géography. — Richard Cortambert, Géogrophie Commercial et Indus- 
trielle des Cinq Parties du Monde. — M. L. Lanier, L'Europe.— 
Bainier, Cours de Géogrophie Commercial, LEurope. — A. Geffroy, 
Histoire des Etats Scandinaves. — Leonie Bernardini Sjoestedt, 
Pages Suédoises. 



CAPITULO XIII 

A SCANDINAVIA 

II 
Noruega 

Como a Noruega seguiu até 1815 politicamente os destinos da Dina- 
marca, e de que modo foi prejudicada pelo bloqueio conti- 
nental. — Como, unida, em 1815, á Suécia em união pessoal, 
seguiu também politicamente os destinos d'ella até o fim do 
século XIX. — Como, desde então, foi comprehendida nos esfor- 
ços communs dos reis da Suécia para o desinvolvimento e pro- 
gresso dos dois Estados. - Como, realmente, a Noruega progre- 
diu muito depois d'isso. — Como, sendo menos manufactureira 
que a Suécia, e dispondo de menor solo agricola, se dedicou 
especialmente á navegação e ás industrias marítimas. — N'este 
sentido, como o seu progresso foi enorme, depois de 1835; e de 
que modo realisou trabalhos importantes na illuminação das 
costas, e augmentou a marinha e farolagem. — Productos, agri- 
cultura, regimen da propriedade e aproveitamento progressivo 
de terras incultas e pantanosas. —Industria, commercio e mari- 
nha. — Centros principaes. — Communicações. 

A Norueg-a, até 1815, andou politicamente unida á 
Dinamarca, tendo, portanto, egual destino politico ; e, 
depois de 1815, esteve até o fim do século XIX reunida 
á Suécia, cujo destino politico egualmente partilhou. E 
já vimos como foi também prejudicada pelo bloqueio 



412 A HISTORIA ECONÓMICA 



continental, tendo tido até um grande numero de navios 
tomados ou embargados pelos Inglezes. 

Restabelecida a tranquilidade na Europa, e unido 
este paiz á Suécia, em regimen pessoal ^ (1814 e 1815), 
foi comprehendido nos esforços communs dos reis sue- 
cos para o desinvolvimento económico de todas as pro- 
vincias. Porém, menos manufactureira que a Suécia, e 
dispondo de menor porção de solo agrícola, e, absoluta- 
mente fallando, de menos productos mineraes, dedicou-se 
especialmente á navegação e ás industrias maritimas. 

N'este sentido, fez, desde 1855, enormes progressos 
na marinha mercante; realisou trabalhos importantes 
parra a illuminação das costas; e criou uma seria pilota- 
gem ao longo do litoral. 

Em 1875, a Noruega possuia já 112 estações de 
illuminação e farolagem, sendo 99 entretidas pelo Es- 
tado, e 13 collocadas e entretidas pelas communas. O 
seguro marítimo tinha-se também desinvolvido muito. 
As companhias de navegação, que, em 1865, eram 
apenas três, segurando 550 navios, tinham-se multipH- 
cado, de modo que, em 1873, já se contavam 13, segu- 
rando 3:592 navios; e a frota noruega, que só compre- 
hendia n'aquella data 2:272 navios, e entre esses apenas 
dois steamers, tudo n'um total de 148:712 tonelladas, 
em 1870, era de 6:693 unidades com 1.012:777 tonella- 
das, em que já figuravam 118 vapores. 

A maior parte d'esta frota era occupada na pesca 
do bacalhau, salmão, lagostas, arenques, phocas e outros 



1 Sobre união pessoal e real, vide Adriano Anthero, O Direito 
Internacional, pag. 14. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 413 



productos maritimos, e no transporte da madeira. E fora 
d'isso, a marinha mercante realisava a cabotagem nas 
costas do paiz, e a maior parte do commercio com os 
povos estrangeiros. 



Quanto aos productos mineraes, regulavam elles pelos 
da Suécia, com a differença de que o ferro, e, em geral, 
os outros mineraes eram muito menos abundantes na 
Noruega. Em compensação, havia muito mais zinco, e 
era explorado pela sociedade belga da Vieille Monta- 
gne, proprietária das respectivas minas, assim como, 
havici, também mais prata e mais cobre. E' na Noruega 
que ficam as minas de cobre abundantissimas de Suei- 
telma, que teem o seu desimbocadouro pelo lago do 
fjord de Bodo. 

Quanto aos productos agricolas, existe uma grande 
differença entre os dois Estados. A Noruega, por estar 
mais exposta á influencia do mar, e ser banhada por 
um braço do gulf stream, que desce ao longo das 
costas, tem, na respectiva atitude, um clima que é mais 
doce e humidade maior; e, porisso, é relativamente 
mais productiva que a Suécia. Mas a extensão do solo 
cultivável é muito menor ; e, por essa razão, é antes um 
paiz de criação de gado que de cultura. 

As espécies dos productos agricolas eram eguaes ás 
da Suécia; mas a quantidade é que dif feria, porque a 
Suécia, nos maus annos quasi que suppria o seu consumo, 
e nos bons annos podia exportar; emquanto que a 
Noruega só produzia dois terços do que ella consumia. 



414 A HISTORIA ECONÓMICA 



Relativamente a florestas, havia também differença, 
porque a Suécia era muito mais rica, e o seu clima convém 
melhor ao desinvolvimento normal das camadas lenho- 
sas. E' de lá que provinham esses pinheiros magnificos, 
com os quaes se fabricavam os g-randes mastros dos 
navios de velas. 

Também na Noruega foi preciso reprimir o abuso 
dó corte das florestas e, pelas mesmas razões que na 
Suécia. Ainda assim, nos últimos tempos do século XIX, 
na Noruega meridional, poucas florestas havia dignas 
d'esse nome, pela altura das arvores; e muitas fabricas 
metallurgicas foram abandonadas, por faltar o combus- 
bustivel para a fundição do ferro. 

No reino animal, em geral correspondiam as condi- 
ções dos dois Estados, apenas com algumas differen- 
ças, a saber: 

Quanto ao gado bovino, nos valles do Kjõlen e no 
littoral da Noruega, manteve-se sempre uma raça cha- 
mada das montanhas, destituída de belleza, de pequena 
estatura e desprovida de cornos, mas de uma grande 
sobriedade, contentando-se com qualquer género de 
forragem, e de modo que, em muitas partes da Noruega, 
era alimentada até com peixes. 

Os carneiros eram pequenos e de uma lã grosseira, 
tendo somente pello nas pernas e cabeça, e ás vezes 
na cauda, mas de uma resistência admirável. Ao longo 
das costas de Stavanger, e mais ao norte em todas 
as ilhas do littoral, os Norueguezes deixavam os reba- 
nhos, mesmo durante o inverno, ao vento, ás chuvas 
e ás neves; e estes animaes alimentavam-se de espi- 
nheiros e algas marítimas, e chegavam á primavera sem 
morrerem. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 415 



Os eyders, muito raros nos fjords meridionaes da 
Norueg"a, e muito communs nos archipelagos de Vester, 
Aaland e Lofoden, constituiam a riqueza principal dos 
seus habitantes. E eram protegidos contra os caçadores 
por uma lei severa de 1860. A alce não tinha ainda 
desapparecido de todo. 

Quanto ás espécies maritimas, as da Noruega eram 
eguaes ás da Suécia; e, no desapparecimento dos aren- 
ques os dois paizes andavam também parallelos. Mas, a 
Suécia era muito menos rica de animaes maritimos. Em- 
quanto a Noruega exportava o terço da sua colheita, na 
Suécia pouco sobejava do seu consumo; e o bacalhau, 
que a Noruega pescava nas ilhas de Lofoden, era em tanta 
abundância que, nos bons annos, dava quasi o dobro 
do que os pescadores francezes tiravam da Terra Nova. 

Os pescadores da Noruega atacavam também o 
esquallo pelerm, o maior peixe que habita nos mares 
da Noruega, tendo quasi 12 a 15 metros de comprido, 
e cujo figado, a única parte procurada por elles, dá 
7 hectolitros de azeite. Mas este esquallo, fugindo aos 
pescadores, quasi que tem desapparecido d'esses mares. 

Os navios pertencentes aos armadores de Tronsbeg 
deixavam também o golfo de Christiania, para irem 
aos mares boreaes pescarem a phoca e a baleia. 



Quanto á agricultura, o regimen de propriedade era 
o mesmo de que já falíamos, tratando da Suécia. Ainda 
em 1876, perto da sétima parte do solo da Noruega 
compunha-se de terras de communidade ; e, nos dis- 



416 A HISTORIA ECONÓMICA 



trictos do oeste, entre Lindernse e o fjord de Trondhjem, 
a media d'estas propriedades occupava as três decimas 
partes d'essa região, não obstante desde 1827, como já 
dissemos, se ter restringido alguma coisa o parcella- 
mento das terras. 

Alem de tudo isto, os proprietários da Noruega 
conservavam o antigo oldelsret, ou direito allodial de 
reentrar na posse de uma propriedade rural, vendida 
por elles, pagando-a pelo preço de estimação, e não 
pelo preço d'essa venda. O oldelsret só pertencia ás 
familias que tivessem gozado da propriedade, ao menos, 
por vinte annos, e perdiam esse direito, quando o pré- 
dio tivesse mudado de possuidor por três annos. 

O terreno, como já dissemos, era geralmente inapta- 
vel á agricultura. 

Não entrando em conta com as pequenas parcellas 
situadas nas cidades, servindo apenas para a cultura 
dos legumes e flores, em volta das casas de habitação, 
os dominios cultiváveis, propriamente ditos, eram de 
150:000 hectares na Noruega; e na Suécia, eram, como 
já vimos, de 300:000. 

Mas os Norueguezes augmentaram cada vez mais o 
seu fraco território agrícola com muitos milhares de 
hectares, conquistados aos pântanos e fjords; e, apesar 
do que deixámos dito, em todo este periodo, a agricul- 
tura constituiu a principal industria, occupando as três 
quartas partes da população. 

Quanto ás outras industrias, nas suas linhas geraes, 
correspondiam ás da Suécia, com a differença que o 
movimento industrial da Noruega era menor, porque ella 
tinha menos ferro, embora recebesse mais facilmente as 
hulhas inglezas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 417 



O commercio da Noruega, a partir de 1850, adqui- 
riu um rápido incremento. Outr'ora estava elle depen- 
dente de Hamburgo e Altona, quanto aos productos 
manufacturados e géneros coloniaes. Desde então, 
porém, começou ella a importar directamente os géne- 
ros coloniaes e a dirigir-se á Inglaterra para os objectos 
que não podia fabricar. 

A revogação do acto de navegação, a parte cada 
vez mais crescente que a Noruega tinha tomado no 
movimento marítimo entre a Inglaterra e os Estados 
Unidos, a extensão progressiva das suas relações com 
a Rússia, o desinvolvimento dos capitães, o melhora- 
mento do credito do paiz e a liberdade do commercio, 
dada por uma serie de leis, em 1842 \ 1857 e 1866, 
tinham desinvolvido as faculdades mercantis, aberto um 
desimbocadouro á industria interior, mesmo á domes- 
tica praticada nos campos, e dado também ao principal 
instrumento de riqueza nacional, a marinha, uma impor- 
tância crescente. 



1 Effectivamente, o commercio até 1842 não era livre. Nas 
cidades commerciaes, exig^ia-se, para ser exercido, um exame tam- 
bém commercial e a obrigação de se ter estado á pratica por quatro 
annos em casa de um negociante. E, nos campos, estava-se sujeito a 
uma auctorisação real. N'essa data de 1842, porém, foi decretada a 
liberdade commercial nas cidades, a não ser para certos funcciona- 
rios e para certos artistas e mulheres solteiras e viuvas. E mesmo 
esta excepção acabou em 1866. 

Volume VI 27 



418 A HISTORIA ECONÓMICA 



Assim, desde 1850 a 1870, o movimento commer- 
cial dobrou, e nos annos seguintes teve um augmento 
médio de vinte por cento. E esse movimento commer- 
cial era muito superior ao da Suécia. 

Parallelamente a isso, o movimento da navegação, 
teve também um augmento prodigioso, de Inodo que, 
guardadas as proporções, este paiz era dos que pos- 
suíam uma frota commercial maior. 

A importação consistia, principalmente, em cereaes, 
farinha, géneros agrícolas, tecidos, hulha, matérias míne- 
raes, metaes brutos e em obra e objectos fabricados. 
E a exportação consistia, sobretudo, em zinco, pro- 
ductos alimentares animaes, despojos anímaes, madeira 
em bruto e em obra, gorduras, óleos e alcatrão. 

Os paizes com que, principalmente, se fazia o com- 
mercio, eram a Inglaterra, Ailemanha, Suécia e Dina- 
marca. E todo esse commercio effectuava-se, também 
principalmente, pelos portos de Christiania, Bergen, 
Dronthem, Stavanger e Hammerfest. 



Quanto aos princípaes centros económicos, a pri- 
meira cidade na fronteira meridional era Frederiksald. 
Occupa-se principalmente na expedição da madeira 
levada pelo Tristedals-elv. Acontecia a mesma coisa 
com as cidades Sarpsburgo e Moss. 

Quanto a Christiania, hoje chamada Oslo, a bacia 
commercial d'esta capital da Noruega, devia, sobretudo, 
a sua importância económica á fecundidade das terras 
que a cercam, e estarem ellas dispostas em forma de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 4] 9 



latadas, de modo a receberem com toda a força os raios 
solares. Só o districto de Akhersus, que a rodeia, pro- 
duzia metade dos productos agrícolas do reino, e esses 
productos eram todos transportados pelos marinheiros 
de Christiania. 

Alem d'isso, as melhores madeiras da Noruega cres- 
ciam na vertente das collinas e montanhas que olham 
para o fjord d'essa cidade, e era também lá que se 
encontravam os jazigos de mineral mais importantes. 

Christiania estava ligada a Stokolmo por uma via 
natural, que passa ao norte dos grandes lagos. 

Centro de industria e commercio, era enriquecida 
por fiações, construcções maritimas e numerosas distil- 
lações. Pelo valor das trocas, constituía o mercado 
mais animado da Noruega, pelo menos na importação ; 
porque, na exportação, cedia a Bergen. Serviços de 
vapores ligavam Christiania a todas as cidades do litto- 
ral scandinavo, aos grandes portos da Europa Occiden- 
tal, e mesmo a New-York. 

Alem d'isso, um serviço de caminhos de ferro, que 
ia junctar Trondhjem ao norte, Gefle ao nordeste, Sto- 
kolmo a este, e Gothenburgo e Malmõ, ao sul, augmentou, 
de anno para anno, a importância de Christiania, quanto 
ao seu tráfico mercantil. A sua população, que era 
apenas de 8:000 habitantes, no principio do século XIX, 
mais que decuplicou até o fim do mesmo século, augmen- 
tando, assim, mais de 1:000 pessoas por anno. 

Todas as cidades ao sul e oeste de Christiania eram 
também centros de commercio, exportando para o 
estrangeiro madeira, taboas e mineraes, como, por exem- 
plo, Dramnen, e peixe como Stavanger. As velas aper- 
tavam-se á entrada dos fjords; os navios traçavam 



420 A HISTORIA ECONÓMICA 



incessantemente o sulco ao long-o das margens; e a 
agua estava sempre riscada do rastro dos vapores. 
Uma espantosa actividade se mostrava em todo o Ska- 
ger-Rack, e, alem de Liadenae até Stavanger. Em 1876» 
as frotas commerciaes dos portos norueguezes de Ska- 
ger-Rack e Stavanger comprehendiam mais de 5:500 
unidades com 1:270 toneladas, servidos por mais de 
46:000 homens de equipagem. 

Dramnen, uma das grandes cidades da Scandinavia, 
era também um dos portos mais activos d'esta região 
commerciante. Possuia mais navios que a própria capital» 
embora o movimento fosse menor. 

A industria local consistia, sobretudo, na exportação 
de madeira, taboas e pranchas; mas os negociantes da 
cidade tinham sabido aproveitar as riquezas florestaes, 
para as expedirem, sob a forma de moveis, parquets e 
ornamentos diversos. 

Alem d'isso, Dramnen era o porto de expedição 
para a cidade mineira de Kongsberg ou Montanha do 
Rei, situada ao sudoeste do rio Langen. E, embora as 
respectivas minas, e com ellas a própria cidade de 
Kongsberg estivessem decaídas, sempre essa expedição 
concorria para a importância de Dramnen. 

Christiansand era uma cidade de marinheiros e 
calafates. 

Stavanger era uma das cidades mais commerciantes 
da Noruega, e a quarta, pelo numero dos habitantes. 

Bergen excedia muito em população as demais, 
alem da capital. Foi outr'ora um dos mercados mais 
frequentados da Hansa ^. 



1 Vide vol. V, pag. 320. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 421 



As chuvas muito abundantes afastavam os viajantes 
d'essa cidade, e havia sempre muita morfea, devida ao 
alimento de peixe gordo, nos pescadores do httoral. 
Mas, no fim do século, esse mal estava muito já dimi- 
nuído, graças ás medidas hygienicas tomadas pelo 
Governo. 

Trondhjem era muito industrial, e em volta d'ella 
havia também muitas cidades industriaes, que aprovei- 
tavam a força motriz da agua. Estão n'essa vizinhança 
as cidades mineiras de Rorõs e Tromsõ. 

Hammerfest, Vardõ e Vadsõ eram estações impor- 
tantes de armamentos marítimos, d'onde partiam os 
navios de pesca para Spitzeberg e mares polares. 



Quanto ás communicações, já mostrámos em que 
estado estava a penuínsula a tal respeito. Só temos 
a acrescentar que a cidade de Trondhjem foi esco- 
lhida como ponto termínus da linha transversal que 
une a Suécia á Noruega atravez dos Alpes scandi- 
navos. 

Bergen e Stavanger estavam mais bem situadas, 
para servirem de gare extrema das linhas, conforme a 
drenagem das regiões ricas da península. Estando ellas 
mais adiantadas para o oeste, poderiam entreter relações 
mais fáceis com as Ilhas Britânicas e outros paizes de 
alem mar. Foi preciso, porém, atravessar os montes 
Kjolen, no ponto mais estreito e mais próximo do 



422 A HISTORIA ECONÓMICA 



Atlântico; porque, se tivesse de se cortarem os montes 
mais ao sul, as difficuldades seriam muito maiores; e, 
alem d'isso, havia todo o interesse em atravessar as 
zonas florestaes do norte da Suécia e dos confins meri- 
dionaes da Norlandia \ 



1 Mareei Dubois et Kergomard, obr. cit. — E. Reclus, obr. cit., 
La Scandinave e la Russie. — Onesine Reclus, obr. cit. — Conner, 
Commercial Geography. — Richard Cortambert, obr. cit. — Lannier, 
UEurope. — Bainier, Cours de Géographie Commercial, LEurope. — 
A. Geffroy, Histoire des Etats Scandinaves. — ^roc\\, Le royaume 
de Norvège et Le peuple norvègien. 



CAPITULO XIV 
A Rússia 

Leve esboço da historia politica da Rússia n'este periodo. — Como 
a Rússia não foi tão prejudicada pelo bloqueio continental e 
guerras napoleónicas conforme, em geral, o foram os outros povos 
da Europa. — Como as ideias e a civilisação da revolução fran- 
ceza pouco influíram na Rússia. — Como ella, depois de 1915, 
tratou de utilisar os immensos recursos do seu solo, e como 
fez progredir o seu movimento económico. — De que modo, 
após a guerra da Crimeia, se operou uma grande transforma- 
ção económica na Rússia, e como esta procurou na Ásia oriental 
os mercados que não pôde obter na Europa. — Como também, ao 
mesmo tempo, emprehendeu importantes reformas económicas. 

— Productos. — Agricultura, mau regimen da propriedade e mau 
aproveitamento das florestas. — Industria, commercio e marinha. 

— Centros económicos principaes. — Communicações. 

Quando rebentou a revolução franceza, reinava na 
Rússia Paulo I (1796-1801), principe maníaco e bizarro, 
que tudo quiz reformar, e tudo perturbou. 

Sendo primeiramente adversário d'essa revolução, 
testemunhou depois a Bonaparte uma affeição e uma 
admiração sem limites, e expulsou Luiz XVIII de Mil- 
tau. Juntamente com a Suécia, Dinamarca e Prússia, 
renovou contra os Inglezes a neutralidade armada % 



1 Adriano Anthero — O Direito Internacional, cap. X. 



424 A HISTORIA ECONÓMICA 



conhecida por Liga dos Neutros; e tinha formado com 
o primeiro cônsul o projecto de destruir o domínio 
inglez, quando foi estrangulado no seu leito pelos 
nobres. No seu reinado, foi a Geórgia cedida á Rússia. 

Seu filho Alexandre 1 (1801-1825) seguiu no exte- 
rior uma politica nova. Renunciou á Liga dos Neutros; 
reconciliou-se com Jorge III de Inglaterra ; e entrou em 
todas as coligações contra Napoleão. Vencido em Aus- 
terlitz (1805) e em Eylau e Friedland (1807), fez o tra- 
tado de Tilsit, e tornou-se a aliar com o imperador. 

A Finlândia foi o preço da sua cooperação contra 
a Suécia (paz de Vienna de 1809), Foi-lhe cedida a Bes- 
serrabia pela Turquia, vencida de novo (paz de Bukarest, 
de 1817). A guerra da Pérsia, suscitada pela influencia 
franceza (1806-1813), trouxe para o império Chirvan, 
Karabagh e o Talisch (tratado de Goulistan). 

Os tratados de 1815 criaram, na maior parte dos 
antigos territórios polacos, um reino da Polónia, dado 
ao czar e dotado de uma constituição liberal, que foi 
governado alguns anos por um vice-rei e por uma dieta. 
A' influencia de Alexandre II, é que se deveu o pacto 
mixto da Santa Aliança, a qual se transformou logo, 
sob a direcção de Metternich e da Áustria, n'uma liga 
dos soberanos armados contra a independência dos 
povos ^. E foi também no governo d'este imperador 
que a Rússia contribuiu fortemente para a influen- 
cia de todos os congressos: Aix-la-Chapelle (1813), 
Carlsbad e Vienna (1819), Troppau e Laybach (1820), 
Verona (1822), que fizeram a politica dos reis da Eu- 



1 Vide pag. 23. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 425 



ropa, e abafaram numa cega repressão as reivindica- 
ções liberaes e os movimentos revolucionários. 

Internamente, Alexandre não seguiu uma politica 
constante. A principio, o seu reinado foi uma época de 
generosas ideias e reformas salutares : taes como liber- 
dade de circulação ; adoçamento da censura ; abolição 
da chancelaria secreta e da inquisição do Estado; pro- 
jectos da emancipação dos servos e de uma constitui- 
ção politica liberal ; tolerância para os Rascolniks ^ ; 
substituição dos coUegios de Governo ; organisação da 
instrução publica, pela divisão do império em seis cir- 
culos escolares, etc: planos esses generosos, a que pre- 
sidiu o ministro Shevanski, o Twgot moscovita. Mas, 
com essas reformas, o ministro concitou contra si toda 
a gente: — nobres, proprietários, funccionarios, e até o 
povo, que se queixava do peso dos impostos. 

A nobreza da corte accusou-o de traição, e conse- 
guiu perdel-o aos olhos do czar, que se espantou da 
grandeza d'essas reformas. Por isso, foi destituido e 
banido. 

Uma reacção politica e universal rebentou depois 
sob o ministério de Araktcheef — o instrumento da tyra- 
nia de Paulo 1, o inimigo nato de todas as ideias novas 
e de todo o pensamento reformador, e o apostolo do 
poder absoluto e da obediência passiva. Alexandre, 
tornado triste e desconfiado, renunciou ás suas ideias 



^ Os Rascolniks eram dissidentes russos, que consideravam 
como contraria á verdadeira fé a revisão das versões da Biblia e 
reforma da lithurgia, que tiveram por auctor o patriarcha Nilson, 
em 1654. 



426 A HISTORIA ECONÓMICA 



liberaes; e a opressão do gfoverno provocou, então, a 
organisação de sociedades secretas em Moscou, S. Pe- 
tersburgo, Kief e Varsóvia. Os príncipes, os nobres, os 
oficiaes, os soldados e a plebe adheriram a ellas, e 
cobriram todo o império de uma rede immensa, que 
pôde escapar á vig-ilancia da policia. 

O segundo irmão de Alexandre II, Nicolau I, que 
lhe succedeu (1825-1855), inaugurou o seu reinado pela 
repressão de uma conspiração militar, que rebentou na 
capital, e pela guerra contra a Pérsia e Turquia. 

A Pérsia, vencida por Paskievitch, cedeu as provín- 
cias de Erivan e de Nakitchevan (tratado de Tourk- 
mantchaí de 1828); e a Turquia, depois da batalha de 
Navarino, abandonou, pelo tratado de Andrinopla, o 
delta danubiano e a Geórgia turca, com Anapa, Poti 
e Akhalkalaki. 

Para assegurar a communicação com a Ásia meri- 
dional, pelas duas extremidades do Cáucaso e pelos 
cabos intermediários, Nicolau devia conquistal-o em 
toda a sua amplitude, e assim o tentou ; mas os mon- 
tanhezes Tcherkesses, Abkases e Circassianos, condu- 
zidos pelo iman Scharmyl, que fazia ao mesmo tempo 
de profeta e capitão, e pregava ás tribus mussulma- 
nas a guerra santa, conservaram, durante 25 annos, 
o exercito russo em cheque. N'esta guerra de surpre- 
zas e emboscadas, e no meio de regiões mal conheci- 
das, os Russos tiveram perdas enormes. Os montanhe- 
zes eram sustentados pelos Inglezes, que lhes forneciam 
armas e chefes. 

Do lado da Pérsia, a influencia moscovita topou 
também com as intrigas e armas da Inglaterra; e a 
Rússia procurou, então, nas steppes do mar de Arai, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 427 



sobre o território de Kiva, um outro desimbocadouro 
para a índia. E, de facto, o czar de Kiva, depois de 
uma guerra que durou muitos annos, foi obrigado a 
reconhecer a suzerania dos Russos, em 1854. 

Na Europa, o czar foi, durante 30 annos, o repre- 
sentante do absolutismo e o adversário encarniçado de 
todas as ideias liberaes. Tirou aos Polacos os seus pri- 
vilégios, e provocou uma insurreição formidável, que 
foi abafada com sangue (1831) \ Testemunhou ao Go- 
verno de Julho, nascido da revolução de 1830, e á 
França, onde os Polacos proscritos achavam uma hos- 
pitalidade generosa, uma hostilidade continua; e tratou 
mesmo de a indispor com a Europa. Salvou a Áustria 
da revolução magiar, em 1848, e poz a Hungria aos 
pés de Francisco José. 

Depois, magoado por vêr a influencia russa suplan- 
tada no Oriente pela da França no protectorado dos 
Logares Santos, e isto de harmonia com a Turquia, 
rompeu com Constantinopla, e preparou-se para liqui- 
dar em seu proveito o império turco, d'onde resultou 
a guerra da Crimeia. 

N'essa guerra, as armadas e exércitos francezes e in- 
glezes, vindo em auxilio da Turquia, venceram os Russos 
no Báltico e Mar Negro. Sebastepol, depois de uma sabia 
e heróica defeza, succumbiu (3 de setembro de 1855). 
O imperador Nicolau tinha já falecido seis mezes antes, 
desanimado pelos revezes, e detestado pelo seu povo. 



1 Fez época no tempo d'este imperador a caça violenta aos 
Polacos, aos Judeus e aos Catholicos Romanos. A historia impõe-lhe 
a responsabilidade de 200:000 victimas. 



428 A HISTORIA ECONÓMICA 



Seu filho Alexandre 11 (1855-1881) resignou-se a 
acceitar o tratado de 1856, que tirava á Rússia asboc- 
cas do Danúbio, a Besserrabia e o protectorado exclu- 
sivo dos Principados Danubianos e dos Christãos do 
Oriente, e neutralisava o Mar Negro, e o fechava aos 
navios de guerra de todas as nações. Assim, a politica 
imprudente de Nicolau tinha prejudicado a obra de 
dois séculos de esforços feUzes. 

Durante 14 annos, a Rússia recolheu-se. O novo 
czar fez-se reformador. Um ar de liberalismo passou, 
então, no paiz; e a opinião publica levantou-se, e fez 
ouvir uma voz, quasi inteiramente livre. 

As mais celebres reformas interiores foram a aboli- 
ção da servidão, a emancipação dos trabalhadores, 
decretada por um ukase de 1861, que os libertava da 
auctoridade senhorial, e organisava as communas (mirs); 
o estabelecimento do jury e da instrucção judiciaria em 
matéria criminal; os tribunaes de appellação; a abolição 
dos castigos corporaes; o adoçamento da censura, etc. 

Mas o czar recusou conceder uma constituição á 
Polónia, e, por isso, houve lá novas insurreições, que 
foram novamente reprimidas. De modo que os últimos 
restos da autonomia polaca foram aniquilados; o paiz 
perdeu as suas instituições e a sua lingua; e foi desna- 
cionaHsado. 

Nos annos seguintes, a Rússia sofreu uma transfor- 
mação rápida. Construiu caminhos de ferro e telégrafos; 
fundou fabricas, fiações e canteiros; melhorou a agricul- 
tura; desinvolveu o commercio; abriu numerosas escolas 
de toda a ordem; reformou o exercito, etc. 

Em 1870, o governo russo mostrou-se dedicado á 
alliança prussiana; e isolando por sua diplomacia a 



EDADE CONTEMPORÂNEA 429 



França da Europa, obteve por esta attitude, tão bené- 
vola para a Prússia e tão funesta para os Francezes, a 
revisão do artigo do tratado de Paris, que limitava as 
suas forças no Mar Negro. Depois, acabou a conquista 
no Cáucaso; proseguiu nas suas expedições armadas no 
Turkestan; annexou Samarcanda e Khokand; e fez de 
Bukhara e de Kiva paizes vassallos (1875). 

Na outra extremidade da Ásia, o general Muravief 
tinha assignado em 1858, com a corte de Pekin, o tra- 
tado de Aigun, que cedia á Rússia a margem direita 
do rio Amur, e o littoral maritimo; e o Japão abando- 
nou-lhe também a ilha de Saghalien. 

Em 1877, o czar interveiu na peninsula dos Balkans 
em favor das populações christãs, revoltadas contra os 
Turcos, e o sultão, vencido, assignou o tratado de San- 
Stefano, e mais tarde o de Berlim (1878), pelo qual a 
Rússia recuperava na Europa a Besserrabia, perdida em 
1856, e adquiria na Ásia os territórios de Batum, Ar- 
daham e de Kars. 

Mas as reformas realisadas no interior não tinham 
socegado a agitação russa. As Universidades eram fo- 
cos de reivindicações politicas e sociaes. Para escapar 
á vigilância da policia, formaram-se muitas sociedades 
secretas; e a seita dos nihilistas organisou na sombra 
as suas conspirações. E a 13 de maio de 1881, Alexan- 
dre n caiu debaixo das bombas nihilistas, em S. Peters- 
burgo. 

Sob o seu filho Alexandre 111 (1881-1894), produ- 
ziu-se uma reacção contra a introducção das instituições, 
costumes e modas do Occidente. Os Russos trataram de 
se bastar a si próprios; e o partido slavo e velho russo 
tornou-se o mais acreditado. Em todo o caso, a obra da 



430 A HISTORIA ECONÓMICA 



emancipação dos servos foi completada por uma outra 
de 1887, que supprimiu o imposto de capitação, a par- 
tir de um de junho de 1887, e estabeleceu a egualdade 
dos súbditos russos perante o fisco. 

A politica de conquista continuou os seus progres- 
sos na Ásia occidental; e as tropas do czar occuparam 
Mery (1885). 

Reinou depois, sem accidentes extraordinários, Ni- 
colau II. 



A Rússia até 1815 soffreu também a influencia 
nefasta das luctas assombrosas da Republica e de 
Napoleão, embora em menor grau que a maior parte 
dos paizes da Europa, visto que estava mais longe do 
theatro da guerra, e que a grandeza do seu território- e 
população attenuavam essa influencia. E, alem d'isso, o 
seu isolamento económico e politico, em relação áquel- 
les outros paizes, tornavam menos sentido o embate 
social. 

Mesmo a invasão do paiz por Napoleão, e a guerra 
tremenda que a Rússia soffreu durante essa invasão, não 
a abalaram tão profundamente como ás outras nações, 
porque, afinal, a grandeza dos seus recursos reparou 
mais brevemente as ruinas. 

Mas, por outro lado, o alargamento da civilisação e 
a transfusão das ideias liberaes e sociaes que aquellas 
revoluções produziam em quasi todos os outros Esta- 
dos, também não influíram na Rússia, como influíram 
no geral na Europa. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 431 



E' que os Russos, ainda nos primeiros annos do 
século XIX, tinham uma existência primitiva. O pro- 
gresso mal havia penetrado n'elles. A maior parte 
vivia do seu trabalho. A producção agrícola bastava á 
sua alimentação; e a industria era constituída apenas 
pela fabricação de objectos grosseiros, destinados ao 
consumo local, ou a serem vendidos nos mercados 
interiores. A importação intervinha apenas para supprir 
alguns productos que a Rússia não podia fabricar. 

Depois de 1815, porém, o governo tratou de utili- 
sar os immensos recursos que o paiz fornecia, para 
favorecer industrias novas, e de cohibir por tarifas, 
também novas, a importação dos productos dispen- 
sáveis. 

Em 1878, o numero das fábricas tinha crescido, 
de modo que se contavam 600 em todo o império, 
empregando 300:000 operários ; e a importação dos 
artigos manufacturados já se achava reduzida a uma 
quinta parte do que fora em 1815. 

A qualidade dos productos é que se conservava 
estacionaria. 

Depois de 1828, o Governo fundou escolas de artes 
e officios, e forneceu-lhes materiaes; de modo que, 
favoreceu assim o desinvolvimento da produção indus- 
trial. E, já em 1840, as manufacturas tinham entrado 
n'uma via de progresso, muito apreciável, apesar da 
pequena tendência que os fabricantes tinham para 
melhorar os seus instrumentos, e do pequeno cuidado 
e fraca pericia do pessoal trabalhador. 

Já se constatava, então, a existência de muitos esta- 
belecimentos prósperos, como fabricas de vidro e por- 
celana, em S. Petersburgo, de ferro trabalhado, em 



432 A HISTORIA ECONÓMICA 



Tuia, de roupa de mesa, em Jaroslaw, e de marroquim, 
em Torgok. O marfim era trabalhado em Arkangel, 
com muita perfeição. A fiação de tecidos estava em 
grande adiantamento. A curtimenta conservava a sua 
antiga reputação. E, nas costas do mar, havia muitos 
estabelecimentos, onde se preparava com successo a 
coUa do peixe e o caviar. 

Faltavam, porém, os capitães. Os proprietários, mal 
habituados a ver os proveitos da industria, não acudiam 
com o seu dinheiro a qualquer exploração industrial, 
e nem mesmo á própria agricultura. E o Estado, endi- 
vidado desde a guerra napoleonica, também não tinha 
recursos para isso ; porque os recursos interiores mal 
chegavam para as despesas publicas, e, muito menos, 
para pagar á Hollanda os juros do capital que se lhe 
devia. 

Depois da guerra da Crimeia, operou-se no paiz 
uma transformação considerável. O tratado de Paris, 
que prohibiu á Rússia o accesso do Bosphoro, e a 
encerrou nos estreitos limites do mar Negro, tirou-lhe 
toda a esperança de criar uma via commercial no Medi- 
terrâneo, e por meio d'este mar, no Oceano Atlântico 
e no Oceano Indico ; mas inspirou-lhe a ideia de diri- 
gir as suas vistas para a Ásia Oriental, e criar n'essa 
parte do mundo os mercados que não podia obter na 
Europa. E, d'este modo, o império russo obedeceu ás 
suas tradicções e destinos; porque, já desde Pedro 
Grande, todos os seus successores tinham comprehen- 
dido que a Rússia precisava para o seu commercio 
os desimbocadouros que somente o mar lhe podia dar, 
e que a posse dos portos russos sobre o Grande 
Oceano era uma questão de vida ou de morte. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 433 



Ao mesmo tempo, a Rússia emprehendia importan- 
tes reformas na agricultura, industria e commercio, 
como em parte já fizemos ver. 

E, com effeito, em 1857, o imperador Alexandre II, 
correspondendo ao desejo do povo, aboliu a servidão, 
abolição essa que elle ainda tornou mais completa, em 
1861, 1863 e 1876. 

Os servos da gleba foram emancipados e conside- 
rados possuidores duma parte das terras que elles cul- 
tivavam. Os lavradores dos bens da coroa, que goza- 
vam d'uma liberdade, relativamente maior que os lavra- 
dores dos proprietários particulares, receberam lotes 
que tinham de pagar por um accrescimo de impostos, 
repartidos n'um certo numero de annos. E, quanto aos 
servos dos particulares, que não passavam de escravos, 
a lei obrigou-os a pagar directamente ao proprietário 
uma quinta parte do preço dos seus lotes; e, se não 
pudessem libertar-se imediatamente, as quatro quintas 
partes da divida restante eram pagas pelo Estado, o 
qual as retomava, por sua vez, exigindo ao lavrador, 
durante 49 annos, um juro de 6 por cento sobre a 
somma adiantada. 

Havia, então, na Rússia, 23.000:000 de servos, sendo 
quasi 12.000:000 do sexo masculino; mas, já no 1.° de 
Janeiro de 1879, o numero das familias de servos que 
tinham . assignado os seus contractos definitivos, era 
de 8.370:000, representando quasi 20.000:000 de indi- 
viduos. Ainda assim, a maior parte da propriedade 
ficou nas mãos do Estado, ou das communas, ou dos 
nobres. 

O trabalho da Rússia, não só na agricultura, mas 
também na industria e commercio, fazia-se pelas formas 

Volume VI 28 



434 A HISTORIA ECONÓMICA 



antigas, em que se encontrava a influencia também das 
antigas communidades. Mas foi, sobretudo, na cultura 
do solo, onde se manteve o grupo communal. Este 
grupo chamava-se o mir na Grande Rússia, kromada 
na Pequena Rússia; e ainda havia sob outros nomes 
uma organisação análoga em diferentes provincias. Con- 
sistia ella em o território estar dividido em communi- 
dades, e cada uma d'estas ser cultivada por muitas 
familias em commum, sendo os productos repartidos 
por ellas em proporção dos seus membros. 

Apezar da emancipação dos servos, o mir foi man- 
tido geralmente; mas foi-se transformando, pouco e 
pouco, para ir dando logar á propriedade particular. 

Essa emancipação, como é natural, causou a principio 
uma certa perturbação entre os proprietários; porque 
muitos delles viviam só do trabalho dos servos, e os 
instrumentos agricolas estavam ainda muito pouco 
desenvolvidos, de modo que não podia dispensar-se 
um grande numero de trabalhadores. Mas, afinal, veiu 
ella a dar um grande impulso ao commercio da Rússia-, 
incitando, pela liberdade dos trabalhadores, maior esti- 
mulo e interesse pelo trabalho e mais activa rivalidade 
e competência em toda a serie de esforços. 

Portanto, o periodo que decorreu depois d'isso até 
1871, foi um dos mais prósperos e fecundos da Rússia. 
A' iniciativa do povo junctou-se, então, a do Governo 
que, dispondo d'uma larga paz, empregou os seus 
esforços para abrir para o nordeste as^ communicações 
que não podia abrir para o oeste e sul. 

Assim, primeiramente, senhora da Sibéria, adian- 
tou-se methodicamente para a China. Desde 1855 a 
1858, tirou a esta potencia a margem esquerda do 



EDADE CONTEMPORÂNEA 435 

Amur; depois o littoral do Pacifico até ás fronteiras 
da Coreia; e, pela posse de Vladivostock, tornou-se 
dominadora do Oriente. 

Em seguida, por uma serie de expedições feitas até 
1885, apoderou-se da grande planicie de Turkestan, até 
próximo dos platós occupados pela Pérsia e pelo 
Afghanistan; e approximou-se das regiões florestaes da 
índia, levantando com isto o ciúme de Inglaterra, e 
abrindo uma serie de conflictos, rivalidades de influen- 
cia e hostilidades occultas com esta nação. 

Por toda a parte onde a sua denominação se esta- 
belecia, a Rússia atraía a amizade das raças indíge- 
nas, pelo respeito das suas tradições e costumes, pela 
animação das industrias locaes e pelo melhoramento 
dos seus organismos económicos ; e, ao mesmo tempo, 
approximava-as da metrópole, por meio de vias de 
penetração, estradas, caminhos de ferro e estações 
coloniaes. E, apar d'isso, dentro do paiz, o movimento 
económico prosperou também muito até ao fim do século. 



Já no volume V, alem doutros factores económi- 
cos, examinamos o aspecto, situação, clima e natureza 
do solo da Rússia, na edade moderna. Nada temos a 
acrescentar agora n'essa parte ; porque as condições 
naturaes, como é evidente, permaneceram as mesmas. 
Também a qualidade dos productos na edade contem- 
porânea foi a mesma, com pequenas modificações, e, 
regra geral, só variou a quantidade e o desinvolvimento 
das respectivas industrias. 



436 A HISTORIA ECONÓMICA 



No meiado do século XIX, havia já grande explora- 
ção de mineraes. Eram quatro as principaes bacias 
hulheiras. 

A de Donetz era a mais vasta, e remontava a 1840; 
mas, só em 1870, é que a exploração começou a ser 
feita com methodo; e o verdadeiro desinvolvimento 
dos carvões d'esta região apenas principiou em 1875. 
No fim do século, contavam-se n'essa bacia 192 minas; 
mas desgraçadamente ella estava muito afastada dos 
centros metallurgicos. 

As outras bacias, também muito abundantes, porém 
muito menos exploradas, eram as de Moscou, Polónia 
e Ural. 

Comtudo, apesar d'essa abundância, pela dificul- 
dade dos transportes e imperfeição dos processos da 
extracção, as hulhas inglezas chegavam mais baratas 
aos mercados russos. 

Havia também já descoberta' uma grande abundân- 
cia de turfa. 

Havia egualmente muito ferro nas regiões lacustres 
do nordoeste, especialmente da Finlândia, que fornecia 
excelente mineral magnético; mas o imperador reser- 
vava para si a propriedade das minas de ferro da 
Europa, o que prejudicava a descoberta e exploração. 
Ainda assim, em 1897, só a Rússia europeia forneceu 
3.900:000 toneladas. 

O cobre abundava, de forma que a Rússia, apesar 
de empregar esse metal muito mais que os outros pai- 
zes da Europa, ainda o exportava. 

Em oiro, em 1897, o rendimento foi de perto de 
40:000 kilogrammas; e, quanto á platina, o império não 
tinha rival no mundo. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 437 



No Ural, no Cáucaso e na Sibéria, havia também 
muitos diamantes e pedras preciosas. 

A naphta era muito abundante, e já os productos 
russos luctavam nos mercados da Europa contra os 
productos similares da America. O principal centro era 
na península de Apecheron, mas, entre o mar Caspio e 
o mar Negro, desinvolvia-se uma vasta camada, que 
passava por baixo d'esses mares. E, alem do districto 
de Baku, as provincias de Tiflis, de Taman e Kertsh 
eram ricas em petróleo. Porisso, a Rússia se esmerava 
em applicar de cada vez mais esse producto ao aqueci- 
mento das maquinas fixas e moveis, locomotivas e á 
marinha. 

O sal, que os camponezes russos gastavam, n'uma 
quantidade considerável para as conservas e para o 
consumo ordinário, porque, ás vezes, só comiam um 
pedaço de pão com sal, produzia-se de muitas formas 
^sal gema, que provinha dos pântanos salgados e das 
fontes salinas, sal das marinhas do mar, e sal das fa- 
bricas. 

Finalmente, havia grande quantidade de mármores, 
porfidos, ardósia e argilla plástica, de que se fabrica- 
vam os tijolos, e muito âmbar no Báltico. Na Crimeia, 
colhia-se espuma do mar para a fabricação dos ca- 
chimbos. 

A Finlândia era, como já dissemos, um paiz rico em 
ferro, e também n'outros jazigos mineraes, como oiro, 
prata, zinco e cobre. Mas faltavam-lhe estradas; o rigor 
do clima não permittia a exploração d'estas riquezas; e 
as pedreiras de mármore, porfido e granito só eram 
exploradas onde as rochas abatidas podiam ser carre- 
gadas immediatamente sobre os navios. 



438 A HISTORIA ECONÓMICA 



A agricultura, sobretudo, desde aquella época de 
1856, desinvolveu-se notavelmente; e algumas regiões 
do império deveram-lhe uma transformação completa e 
um rápido augmento de valor. 

A zona de terra negra, cuja verdadeira exploração 
data do principio do século XIX, era d'uma fertilidade 
assombrosa, e não tinha, como ainda não tem, necessi- 
dade de estrume. Era também, como ainda é, um dos 
grandes armazéns de trigo do mundo. A sua producção 
alimentava a densa população d'essa região, bem como 
a região industrial, que produzia poucos cereaes, e 
ainda a região do norte, que não produzia nenhum; 
e, alem d'isso, dava um grande contingente para a 
exportação. Cultivava-se egualmente muito trigo na 
Crimeia. 

Em todo o caso, alem das perturbações bruscas do 
clima, este cereal soffria muito do emprego dos metho- 
dos primitivos e defeituosos. Emquanto que na Ingla- 
terra se obtinha dezeseis vezes a semente, na Rússia o 
termo médio era só de quatro vezes. Porisso, a explo- 
ração diminuiu bastantemente, depois que a índia e os 
Estados-Unidos aperfeiçoaram os methodos de cultura 
e os processos de concorrência; mas, ainda assim, abso- 
lutamente fallando, a abundância era muito grande. A 
maravilhosa fertilidade da terra e o clima, que, em al- 
gumas semanas de um sol ardente, faz amadurecer os 
grãos, e a modicidade dos preços, garantiam á Rússia, 
quando não fosse a faculdade de triunfar d'aquelles 



EDADE CONTEMPORÂNEA 439 



paizes, ao menos, a de luctar com armas eguaes. Só 
precisava para isso de melhorar as communicações e 
os processos de cultura. E, n'este sentido, e com grande 
incitamento patriótico, já nos últimos tempos do sé- 
culo XIX, ella ganhara o perdido. 

O centeio cultivava-se por toda a parte, e, sobre- 
tudo, na Polónia, onde a cultura era mais extensa. E a 
maior resistência d'este cereal ás intempéries, fazia até 
que a sua cultura fosse substituindo, em muitos logares, 
a do trigo. Demais a mais, fornecia a parte principal 
do alimento do povo, e fazia-se também d'elle aguar- 
dente e uma bebida nacional, chamada quass; de modo 
que, nos últimos vinte annos, a sua cultura augmentou 
consideravelmente. 

A aveia, que é o cereal dos paizes pobres, cultiva- 
va-se muito ao norte. 

O milho era uma das grandes riquezas da Besserrabia. 

A Crimeia, cujo encanto e fertilidade era já louvada 
pelos antigos, tinha attraido, depois de 1856, numero- 
sos capitães. Nas inclinações doces d'esta península, 
regada com numerosos cursos de agua, havia muitos 
cereaes; e a qualidade do solo, favorável á vinha, per- 
mittiu que os Russos destinassem vastas extensões á 
cultura d'ella. 

Assim, na costa do sul propagava-se a videira. Esta 
cultura provinha de muito longe. Já os Genovezes e 
depois os Tártaros a desinvolveram. E, em 1855, acha- 
va-se ella espalhada nas propriedades de muitos gran- 
des senhores russos, que tinham feito vir um grande 
numero de cepas de França, Hespanha e Allemanha; 
de modo que se avaliava, então, em 5.000:000 o numero 
de cepas plantadas n'esta região. 



440 A HISTORIA ECONÓMICA 



O imperador Alexandre I criou em Margaratech e 
Nikila escolas de viticultura e ©enologia, que prestaram 
grandes serviços. Os productos, a principio mediocres, 
tomaram depois logar no commercio estrangeiro, e de 
modo que, n'alguns annos, se exportavam duas terças 
partes da producção, e n'uma cifra importante ; havendo, 
já desde o meiado do século, edições contrafeitas dos 
melhores vinhos estrangeiros, como do Lunel, Riverates, 
Lacrima Christi e Madeira, as quaes não ficavam a de- 
ver nada aos originaes. Mas, coisa notável, assim mesmo, 
os vinhos fabricados na Crimeia não tinham reputação 
em S. Petersburgo e Moscou ! 

A Caucasia produzia também muito vinho; mas este 
foi sempre medíocre, porque os vinhateiros não sabiam 
fabrical-o. 

A batata representava um papel importante na ali- 
mentação do povo russo, e era também applicada á 
distillação. Porisso, teve ella um progresso constante \ 

Quanto a fructas, a sua producção era contrariada, 
geralmente, pelas bruscas mudanças de temperatura 
e pela volta do gelo ; mas, ainda assim, nas regiões 
meridionaes e na Transcaucasia, havia muitas arvores 
fructiferas. 

Nas plantas industriaes, deve destacar-se, em pri- 
meiro logar, a beterraba, que fez uma verdadeira re- 
volução económica na Rússia, no ultimo quartel do 
século XIX, modificando o solo pelo estrume, mudando 
os hábitos e antigos processos e instrumentos de tra- 



1 Sobre os productos na edade moderna veja-se o vol. V, 
pag. 460 e segTiintes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 44I 



balho e cultura, e até os próprios costumes, transfor- 
mando a criação do gado, e estimulando a extracção 
do combustivel mineral. 

E' que a beterraba industrial precisa d'uma cultura 
intelligente; e, alem da extracção do assucar, dá logar 
a differentes residuos que são muito convenientes para 
a engorda do gado e para differentes industrias ^, cujo 
aproveitamento é muito rendoso. 

Foi assim que a ambição do respectivo lucro trouxe 
o amor do trabalho e da industria, e, com elle, todas 
as modificações do antigo estado social de que acima 
falíamos. 

Demais a mais, foi preciso abrir communicações 
para levar a hulha ás fabricas e exportar o assucar. 
A cultura cada vez se foi alargando e tomando novos 
espaços; e, para os cultivar com proveito, houve neces- 
sidade de procurar as maquinas agricolas mais aperfei- 
çoadas. Com tudo isto, surgiu subitamente a cultura 
intensiva, tão atrasada antes d'isso ; e subitamente a 
terra augmentou de valor. 

Também, porisso mesmo, no ultimo quartel do 
século XIX, a invasão da beterraba foi-se estendendo 
cada vez mais pelas terras negras. O centro principal 
d'essa producção era Karkof, e, depois, Kief; e Podolia 
e Volkynia é que possuiam maiores campos de beter- 
raba. Encontravam-se ahi plantações de 1:000 a 2:000 
hectares. 

Havia muito linho e cânhamo. A Rússia era, como 
a HoUanda, o Único paiz da Europa que tinha linho em 



1 Vide capitulo III, pag. 127. 



442 A HISTORIA ECONÓMICA 



quantidade superior para exportar; e a sua concorrên- 
cia foi fazendo que a França, Inglaterra e Allemanha 
renunciassem, pouco a pouco, á cultura d'esta planta. 
Em todo o caso, o linho russo era g-eralmente de qua- 
lidade mediocre. 

Cultivava-se o tabaco em bastante quantidade; mas, 
ainda assim, era preciso cobrir o consumo por grande 
importação do estrangeiro; e a qualidade e valores dos 
tabacos nacionaes deixavam muito a desejar. 

Havia também muito lúpulo. 

A Transcaucasia offerecia excellentes condições para 
a cultura do algodão, nas partes baixas do littoral e 
dos vales. Eram também muito numerosas ahi as amo- 
reiras ; e os girasoes de Saratov davam um óleo 
precioso. 

A Rússia era verdadeiramente rica de productos flo- 
restaes. Havia no norte verdadeiras florestas virgens. 
Mas, para tentar a exploração, faltavam as estradas e 
as vias férreas; e não havia os maravilhosos fjords da 
Noruega, nos quaes se faz fluctuar a lenha e madeira 
até ao ponto de embarque; nem havia torrentes onde 
ella podesse também fluctuar até o seu destino. E, 
demais a mais, o periodo da congelação das aguas e a 
falta da articulação das costas tornavam as vias do 
transporte mais necessárias. 

As espécies mais frequentes eram, geralmente, o 
pinheiro silvestre, o pinheiro manso, a betula, o olmo, 
a faia preta e o laricio. Mas o Cáucaso tinha também 
magnificas florestas de carvalho, faia e buxo. Era ahi 
que havia a exploração mais activa e mais extensa; 
porque também se encontravam, apar da melhor vege- 
tação, as condições mais convenientes para o com- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 443 



mercio, taes como: correntes fluctuaveis, vias férreas e 
vizinhança de um mar, sempre livre de gelos, na parte 
meridional. 

O regimen e aproveitamento das florestas é que era 
mau. Começava o defeito, porque metade quasi d'ellas 
pertencia ao Estado. E, depois, essa riqueza era des- 
truída por toda a parte. 

Assim, por um lado, o consumo enorme no aqueci- 
mento d'uma população de 100.000:000 de habitantes, 
durante os largos mezes do inverno continental, exigia 
300.000:000 de esteres. Por outro lado, a maior parte 
das construções era feita de madeira. Accrescia tam- 
bém o consumo proveniente da enorme frota de navios 
e jangadas, necessárias á navegação e flutuação fluvial 
e á cabotagem. As fabricas de ferro do Ural tra- 
tavam o mineral de ferro com fogos de lenha. Mui- 
tas refinações de assucar da Podolia só empregavam 
esse combustivel, e os fabricantes de potassa faziam 
egualmente um grande consumo d'elle. Demais a 
mais, era preciso alimentar o commercio da expor- 
tação, pelo qual a madeira constituia um excellente 
mercado. 

Tudo isto dava logar a uma grande desarbori- 
sação e com progressos rápidos. E, nas margens do 
Volga, essa desarborisação modificou até d'um modo 
desfavorável o regimen deste rio, tornando as cheias 
mais bruscas e os açodamentos maiores e mais fre- 
quentes. 

Ainda assim, nas zonas das planicies até 56 a 64" 
de latitude, as plantações accupavam um espaço con- 
siderável; e a Polónia e Lithuania tinham também mui- 
tas florestas. 



444 A HISTORIA ECONÓMICA 



O clima da Rússia não favorece muito a criação do 
g-ado, porque não permitte ter os animaes ao ar livre, 
e é muito abundante de neves e gelos. Por outro lado, 
o solo não estava ainda acommodado a este género de 
riqueza, porque as steppes substituiam os prados natu- 
raes e artificiaes, em muitas regiões, e a irrigação estava 
apenas esboçada. 

Porisso, a criação de gado na Rússia não podia 
ser, relativamente fallando, tão grande como nos paizes 
criadores ; mas, no sentido absoluto, ella tornou-se 
muito importante, e tanto que, depois dos Estados 
Unidos, era o paiz que mais gado tinha. 

Já em 1870, na Rússia, comprehendendo a Finlân- 
dia, viviam 960.000:000 de animaes domésticos, e este 
numero ainda augmentou muito mais até ao fim do 
século XIX. 

A raça bovina era numerosa, nas provincias meri- 
dionaes comprehendidas entre o Pruth e o Ural, onde 
a vegetação das steppes lhe dava uma alimentação 
abundante, e entre a Esthonia e o Ural. 

A Finlândia possuia também grande numero d'estes 
animaes. Era mesmo um dos paizes da Europa mais 
ricos n'esse género. 

As regiões centraes, que dispunham de poucos pra- 
dos, e não colhiam forragens, criavam muitos cavallos; 
e os Cossacos do Dom tinham até grandes rebanhos 
d'elles, criados em liberdade nas steppes. 

O Governo cuidava muito d'esta criação, que con- 
siderava como um grande elemento da força militar; e 



EDADE CONTEMPORÂNEA 445 



tinha excellentes coudelarias tratando de melhorar as 
raças e de fazer prosperar as grandes feiras de cavallos. 
Demais a mais, os cavallos eram muito necessários, pelas 
poucas e más estradas carrossaveis da Rússia. Os car- 
neiros não eram muito abundantes. As doenças resul- 
tantes da temperatura (epizootias), os lobos \ o pouco 
cuidado e pericia em tratar d'elles, e os progressos da 
pequena cultura, contribuiam para essa deficiência. 

A raça da Rússia era medíocre; mas o Governo 
desinvolveu a propagação dos merinos. 

Os porcos eram numerosos na Pequena Rússia e na 
região das steppes. Havia uma grande abundância de 
renas ao norte e na Finlândia. Havia também muitas 
abelhas por toda a Rússia, e sobretudo na Ukrania, 
onde o mel tinha, desde muito tempo, substituído o 
assucar para todos os usos. Mas a industria da beter- 
raba fizera diminuir muito a apicultura ^. 

A criação do sirgo começava a fazer concorrência 
á França e á Itália. 

Finalmente, os cães dos trenós eram muito abun- 
dantes e muito estimados. 

A caça e a pesca constituíam também dois impor- 
tantes recursos da Rússia. Os grandes jejuns da religião 
e quaresma grega davam logar ao desinvolvimento da 
industria piscatória, que era um elemento poderoso de 



1 Os lobos faziam na Rússia uma terrivel destruição. Em 
numero de mais de 200:000 devoraram, em 1875, 180:000 cabeças 
de gado g^rosso, 600:000 carneiros, 100:000 cabras, e mais de 150 
pessoas. 

2 Vide vol. V, pags. 460 e 461. 



446 A HISTORIA ECONÓMICA 



alimentação do paiz; e o consumo do peixe era muito 
grande, mesmo durante os mezes da abstinência vulgar, 
que representam um terço do anno. 

No mar Branco, armavam-se muitos navios para a 
pesca do bacalhau, arenques, salmões, phocas, ursos 
brancos, etc, 

O mar de Azof era d'uma riqueza prodigiosa, e o 
Caspio era ainda mais piscoso. O Estado auxiliava 
muito a industria piscatória ; estabeleceu até uma escola 
de piscicultura em Nikolski, governo de Novogorod; e 
entregava cada anno 6:000 trutas aos lagos e rios da 
Rússia. 

A caça dava também muitos productos. Só nos 
últimos dez annos do século, forneceu ao commercio 
mais de 400:000 pelicas por anno. 



Quanto ás industrias mineraes, a exploração do 
minério ainda era pouco remuneradora, no principio 
do século XIX; mas as minas de oiro e prata da Sibéria 
tornaram-se mais bem exploradas, e porisso mais lucrati- 
vas desde 1830. A hulha, apenas explorada desde 1827, 
solicitou capitães estrangeiros. Em 1851, havia já tra- 
balhos de extracção effectuados com proveito; em 1863, 
as bacias hulheiras forneciam 128:500 tonelladas de 
carvão, sendo três quartas partes só da bacia de 
Donetz; e, em 1870, a producção tinha quintuplicado, 
attingindo 700:000 toneladas, para perfazer, dez annos 
depois, 4.000:000. E foi augmentando assim até ao fim 
do século. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 447 



As minas de ferro e cobre seguiram uma egual 
marcha ascendente; e, em geral, augmentou na mesma 
proporção a extracção dos outros mineraes, 

A industria petrolifera, destinada a ser uma das 
grandes riquezas da Rússia, e que tinha feito a sua 
apparição em 1863, na região de Baku, já, em 1870, 
produzia 120.000:000 de galões; e, desde então, adqui- 
riu uma importância tal que lutou com vantagem contra 
os productos similares dos Estados Unidos ; e foi entre- 
gando á exportação cifras, cada vez mais crescentes. 

Apezar de tudo, as industrias metallurgicas e chy- 
micas não estavam em relação com a abundância dos 
mineraes : o que em parte resultava ainda da inexpe- 
riência da fabricação, e da grande distancia em que as 
-bacias hulheiras estavam da exploração dos outros 
mineraes. 

Ainda assim, a fabricação do ferro e aço foram em 
constante progresso. As fundições e forjas estavam 
estabelecidas na vizinhança dos metaes, Perm e Tuia 
eram os grandes centros, e, fora d'elles, a Polónia, 
Finlândia, S. Petersburgo, Odessa, Moscou, Kaluga e 
Nijni-Novogorod tinham algumas fabricas. Alem de 
outros artigos, fabricavam-se já muitas maquinas, espe- 
cialmente agricolas, cujos serviços, nos últimos tempos, 
os camponios russos começavam a apreciar. Apezar 
d'isso, era grande a importação de todo o género. 

Os canteiros de Nicolaievsk, Sebastepol e Odessa 
construiam muitos navios e vapores de ferro e aço. 
Tuia fabricava muitas armas. A fundição imperial 
Obukhof, já nos últimos tempos do século XIX, for- 
necia ao exercito e marinha artilharia, até então com- 
prada no estrangeiro. 



448 A HISTORIA ECONÓMICA 



A quinquilharia, serralheria e pregaria, cujos pro- 
ductos eram objecto d'um enorme consumo, tinham a 
sua sede nas mesmas cidades ; mas Tever estava na 
primeira classe. 

Mesmo nas industrias do luxo, naturalisadas desde 
muitos séculos, a Rússia apezar de lhe faltar a instrucção 
scientifica, fez grandes progressos. Moscou, S. Peters- 
burgo e Tiflis tinham ourivesarias em que se alliava o 
gosto do desenho com a finura da execução. O bronze, 
as porcellanas de arte da manufactura imperial de 
S. Petersburgo, e os cristaes, a vidraria e os mosaicos 
faziam já grande honra á habilidade dos artistas e 
engenheiros. 

O reino vegetal dava logar a industrias muito impor- 
tantes, como a serragem da madeira, a preparação da 
gomma, alcatrão e therebentina, e a perfumaria. Com 
a casca da tilia, fabricavam-se tapetes, sacos, redes, 
cabos, cordas, e até coberturas de casas. 

Com os cereaes, alem da moagem que tinha por 
centro Odessa, a grande cidade da exportação de grãos 
e farinhas, fabricava-se muita aguardente. 

O álcool de batatas entrava também em grande 
quantidade no alimento dos camponios; e era na Polónia 
e em Riga onde se distillava a maior parte d'esse álcool 
e do de cereaes. 

Porisso, a preparação da aguardente continuou a ser 
muito grande, como fora no periodo antecedente. Essa 
industria até 1817 esteve em monopólio nas mãos do 
Estado. Mas, então, o imperador Alexandre 1 permittiu 
a fabricação também aos particulares, assim como a 
venda a retalho ; e somente o commercio por grosso 
continuou nas mãos do Estado. Em 1825, o monopólio 



EDADE CONTEMPORÂNEA 449 



ficou reduzido á distillação e venda aos particulares, 
segundo os preços determinados pelo Governo ; e o 
abuso da aguardente, e com elle a embriaguez, foi tão 
grande que, em 1844, 1845 e 1847, teve de ser repri- 
mida a liberdade, fixando-se até a quantidade máxima 
que se podia vender em cada taberna. 

Depois, o Estado tornou a estabelecer de novo o 
monopólio e outras medidas restrictivas, mesmo quanto 
á venda, contando com isso diminuir a embriaguez; 
mas pouco obteve, porque o abuso da bebida pouco 
diminuiu. • 

A industria mais importante era a do assucar da 
beterraba, como já fizemos sentir. No fim do século, 
havia 250 refinações, repartidas em três grupos, os da 
terra negra. Polónia e Finlândia, e governos de Karkov 
e Kief. 

As cervejarias eram também muito importantes, e 
tanto que, nos últimos tempos, a Rússia já se tinha 
libertado do tributo que, n'essa parte, pagava á Allema- 
nha, pela importação da cerveja allemã. 

Das industrias textis, a algodoeira tornou-se a mais 
importante. Havia começado, em 1825; e, a Rússia, depois 
de ter sido por muito tempo tributaria da Inglaterra, já 
em 1864, principiou a exportar 4.000:000 de rublos dos 
seus productos textis. Tornou-se até o quarto paiz 
n'este género, porque vinha depois da Inglaterrra, 
França e Allemanha; e os tecidos de algodão russo, que 
primeiramente eram pouco estimados do commercio, 
tornaram-se depois tão bons como os inglezes, e con- 
quistaram os mercados nacionaes, onde, então, os de 
Manchester já não achavam comprador. Concorreu 
também para isso o consumo da Ásia. 

Volume VI 29 



450 A HISTORIA ECONÓMICA 



Por esse grande desinvolvimento da industria algo- 
doeira, é que os proprietários russos cuidaram muito 
na exploração do algodão, ao sul do império. 

Operou-se também um grande progresso na fabri- 
cação do linho e do cânhamo. 

A Rússia foi, durante o século XVIII e princípios do 
século XIX, grande exportadora de linho. De 1820 a 
1875, quasi que perdeu a clientella, por não ter melho- 
rado a qualidade. Mas, depois d'isso, nos últimos tem- 
pos do século XIX, não contente de fornecer linho e 
cânhamo ás manufacturas do occ' lente, expedia teias 
de toda a qualidade para toda a parte, em concorrên- 
cia com os paizes mais notáveis n'esta industria. Na 
Finlândia, constibiiram-se até sociedades linheiras, para 
fornecer o consumo aos habitantes do paiz, tirando 
da Rússia dois terços do linho que fabricavam, e 
favorecendo também, assim, o desinvolvimento d'essa 
industria. 

A dos tecidos de lan nunca attingiu a importância 
que devia ter n'um paiz frio como a Rússia, e de grande 
extensão de pastos para carneiros. 

No entanto Karkov, Kerson, Poltava, Varsóvia eram 
importantes centros de lan ; e, alem d'elies, havia em 
Niini-Novgorod uma feira também de lan, onde vinham 
prover-se os AUemães, que a revendiam em Leipzig, 
Stettin e Berlim. 

A industria de seda estava pouco desinvolvida. 

Na região do sudeste, comprehendida entre o Ural e 
o Volga, teciam-se com lans de camello grossos pannos, 
muito estimados dos povos nómadas, e que eram repu- 
tados de primeira qualidade nos mercados da Ásia 
Central. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 45I 



Nas industrias derivadas do reino animal, a curti- 
menta obteve uma grande importância. A Rússia con- 
tava, no fim do século, 3:000 fabricas. Os couros rus- 
sos, cujo cheiro particular provém do óleo da betula 
neg-ra, tinham, como ainda teem, uma enorme reputa- 
ção em todos os mercados da Europa. 

Havia muita fabricação de estearina, queijo e man- 
teiga. 

Do cebo dos rebanhos dos carneiros gordos das 
esteppes dos Kirghis fabricavam-se, principalmente em 
Odessa e Karkov, velas, cirios e sabões, em grande 
quantidade. 

Finalmente, a pesca dava logar a uma enorme 
industria de conservas de peixe salgado e de caviar. 

Apesar de tudo que deixamos dito, a industria 
transformadora não representava, ainda no fim dò século, 
senão uma fraca parte do trabalho do paiz, e estava 
quasi toda na mão dos estrangeiros. Nas provincias 
bálticas, predominava a industria dos AUemães. Na Fin- 
lândia, a dos Suecos. A fabricação dos espelhos e 
vidros estava na mão dos Belgas. As grandes indus- 
trias metallurgicas foram criadas pelos Inglezes, Fran- 
cezes e também pelos Belgas. 

As principaes industrias do império, distillações e 
cervejarias, fabricas de óleos e cortumes, perfumaria, 
papel, estearina, vidros, fundições, tecelagem, dadas 
como nacionaes, eram, na maior parte, apenas nacionali- 
zadas. As fiações de seda de Girard, por exemplo, eram 
francezas e davam que fazer a 2:200 operários. ,A mais 
importante fabrica de perfumes, pertencia ao súbdito 
francez Brocard. Uma sociedade franceza explorava a 
latoaria. Mesmo as grandes obras dos caminhos de 



452 A HISTORIA ECONÓMICA 



ferro particulares eram dirigidas por estrangeiros, por 
que a engenharia imperial poucas aptidões mostrava. 
Em summa, por toda a parte, os estrangeiros predomi- 
navam. 

Quasi todos os recursos do império eram lhe dados 
pela caça e pesca, e pela cultura do solo, especialmente 
nos cereaes, vinho e cânhamo, e pela criação do gado. 
E era assim que a Rússia occupava a decima classe na 
exportação dos cereaes, e a primeira na do linho e 
cânhamo. 



O commercio exterior, foi longo tempo, embaraçado 
pela legislação aduaneira, e pelos direitos elevados ; 
e, alem d'isto, essa legislação variava, conforme a sim- 
ples fantasia da auctòridade suprema ou instabilidade 
da politica. 

Em 1841, foi adoçado o regimen fiscal em vigor, 
mas só com respeito ás relações da Europa ; e as con- 
sequências d'esse adoçamento foram insignificantes. 

Demais a mais, a Polónia e a Finlândia ficaram 
separadas por uma linha de alfandegas, com direitos 
tão elevados que muito prejudicavam o tráfico d'estas 
regiões. 

Somente em 1843, é que se realisaram reformas 
importantes n'essa matéria, e, depois, em 1850, 1857, 
1863 e 1864. 

Na primeira d'ellas, estabeleceram-se em Arkangel 
S. Petersburgo, Cronstadt e Riga, entrepostos, destina- 
dos a facilitar as reexportações. Na segunda, o reino 



EDADE CONTEMPORÂNEA 453 



da Polónia foi egualado no regimen aduaneiro ás pro- 
vincias russas. Em 1857, a unificação dos direitos foi 
applicada a todo o império, salvo a Finlândia, que con- 
servou uma organisação aduaneira distincta. Em 1863, 
um novo ukase reduziu as taxas d'um grande numero 
de artigos exportados por mar. No anno seguinte, a 
maior parte dos direitos foi supprimida, e essa medida 
foi também generalisada a todas as fronteiras exterio- 
res de terra e mar da Rússia europeia e á Polónia 
e provincias transcaucasicas, e applicada egualmente 
aos portos do mar Negro, e mesmo á alfandega de 
Tiflis, que tinham até então uma tarifa especial. 

Na Ásia, afim de facilitar as relações mercantis com 
os novos estabelecimentos russos, fundados perto do 
Amur, um outro porto de commercio foi criado, em 
1863, nas proximidades d'este rio, em Nicolaievsk, 
sobre o Oceano Pacifico. Estabeleceu-se ahi um regi- 
men distincto do da Rússia europeia, constituido por 
tarifas particulares. A franquia commercial com o 
estrangeiro era mantida em Kamtschatka. A alfandega 
russa, encarregada de vigiar as trocas com a China, 
foi transferida em 1861 de Kiachta para Irkutsk. O 
regimen da importação do chá, remodelado inteira- 
mente, permittiu a importação d'este género por mar, 
a partir de 1862, com taxas que variavam, conforme 
diziam respeito ás alfandegas de terra ou aos portos 
de mar. E, emfim, por um accordo entre o gabinete de 
S. Petersburgo e o de Pekin, as prescripções relativas 
ás trocas entre os dois paizes foram adoptadas, em 1862, 
por uma duração de trez annos, a titulo de ensaio. 

E já precedentemente, em 1852, o Governo russo 
tinha admittido o transito para as provincias trans- 



454 A HISTORIA ECONÓMICA 



caucasicas de mercadorias da Europa e das colónias, 
com destino á Pérsia. 

O reino de Alexandre II foi o ponto de partida de im- 
portantes progressos, quanto ao commercio estrangeiro. 

A revisão das tarifas, desde 1857 a 1862, de que 
acabámos de fallar; a construcção dos caminhos de 
ferro; a fundação de um banco do Estado; a criação 
de numerosos estabelecimentos de credito; a impulsão 
dada á agricultura e á industria, que a exploração das 
minas de toda a espécie e a descoberta de riquezas 
importantes no subsolo, até então desconhecidas, incita- 
vam de toda a parte; e, emfim, as medidas mais liberaes 
na ordem administractiva e legislativa : abriram ao com- 
mercio internacional faculdades novas, que provocaram 
o seu desinvolvimento. 

E, apar d'isso, a elevação dos direitos pautaes sobre 
a importação de varias mercadorias, pelos decretos 
de 1877, 1881, 1882, 1885, 1887, 1890 e 1891, estimula- 
ram a exploração dos recursos naturaes, e, com ella, o 
augmento dos productos da exportação. 

O commercio interior era muito importante; já por- 
que a Rússia queria emancipar-se, o mais possivel, da 
influencia dos estrangeiros; e já porque era natu- 
ral essa emancipação, em vista dos citados decretos 
proteccionistas. Demais a mais, estando as communi- 
cações navegáveis interrompidas, e o solo gelado e 
coberto de neve, n'uma grande parte do anno, era 
preciso nos poucos mezes que estavam livres, preparar 
os géneros, expedil-os, compral-os e guardal-os; e 
impunham-se, porisso, também as feiras. 

Havia milhares de cidades que tinham o privilegio 
de abrir feiras; mas só as grandes cidades fizeram uso 



EUADE CONTEMPORÂNEA 455 



d'este privilegio. Entre es-<^as, sobresaíam Moscou, cen- 
tro do commercio da reg-ião industrial, e Nijni-Novg-o- 
rod, também grande centro mercantil entre a Ásia e a 
Europa e que era o maior mercado de lans e a maior 
feira do mundo, onde se viam Chinezes, Bukharios, 
Persas, índios, etc. Concorria para isso a sua situação, 
na convergência duns poucos de rios. 

Perm, Poltava, Kief, Rostov e Kazan tinham também 
feiras celebres. Kazan era até um entreposto de grande 
valor para as trocas entre a Rússia e a Sibéria. Karcov 
era o entreposto e etapa intermediaria entre Moscou 
e Odessa. 

Não obstante a importância d'estas feiras, a não 
serem os Allemães, que n'ellas preponderavam, os outros 
povos da Europa eram quasi nullos. E, apezar de tudo, 
tendiam ellas a desapparecer, por causa da falta de com- 
mrnicações. E se tanto tempo conservaram a sua grande 
importância, foi devido á extensão do território do 
império, e ao clima, que obriga os Russos a fornece- 
rem-se no verão para todo o tempo do inverno. Mesmo 
a feira de Nijni-Novgorod foi nos últimos tempos 
diminuindo, cada anno, à proporção que se iam desin- 
volvendo as communicações na Sibéria. E já ultima- 
mente era Tiumen, também na Sibéria, que detinha a 
maior parte dos negociantes siberianos e chinezes. 

A navegação tinha naturalmente seguido a progres- 
são das transacções exteriores. E, se o numero dos 
navios que frequentavam os portos russos, não tinha 
auginentado sensivelmente, passando desde 1856 a 1871 
de 6:820 a 8:610 navios, com entradas e sahidas, a 
capacidade e tonellagem das embarcações é que tinha 
quasi duplicado. 



456 A HISTORIA ECONÓMICA 

A Companhia Russa de Navegação e Commercio, 
fundada em 1856, constava, no fim do século, de 77 
navios a vapor, que faziam escala de S. Petersburgo a 
Odessa, Constantinopla, Grécia e Alexandria. Havia 
também uma grande linha de Odessa, S. Petersburgo 
e Marselha, e uma outra para as escalas do Oceano 
Indico e extremo oriente. A Frota Voluntária, criada 
por subscripção, desde 1876 a 1878, era administrada 
pelo ministro da marinha, e servia, sobretudo, para 
assegurar as relações permanentes entre a Rússia da 
Europa e as provindas do Pacifico. Em 1898, já compre- 
hendia cinco vapores. E havia ainda outras companhias. 

Em 1899, com a frota finlandeza, a marinha mer- 
cante havia attingido 880:000 tonelladas, de modo que 
tinha assim excedido a de todos os paizes, excepto a 
Allemanha. 

A Rússia importava, principalmente, matérias primas 
ou productos necessários á sua industria, estofos, hulha, 
objectos manufacturados e géneros coloniaes. 

Ef^portava, sobretudo, madeira, plantas industriaes, 
pelliças e cereaes, que representavam quasi metade de 
toda a exportação, e também alguns objectos manufa- 
cturados. 

Depois da lenha e madeira, mais valioso até do que 
alguns dos cereaes cultivados na Rússia, era o computo 
de palha e feno colhido, enfardado e trazido ao com- 
mercio. Basta dizer que andava o seu importe por 
286:000 contos annuaes. 

A Allemanha, por terra, e a Inglaterra, por mar, 
eram os paizes que mais objectos tiravam da Rússia. 

Assim, a Allemanha tirava as matérias primas ne- 
cessárias á sua industria, e cereaes; e fornecia quasi o 



EDADE CONTEMPORÂNEA 457 



mesmo valor, principalmente, em productos manufactu- 
rados. A Gran Bretanha comprava muito mais do que ven- 
dia, e carregava a maior parte dos cereaes, que saíam por 
Odessa, e muitos objectos de alimentação. Mas as tro- 
cas com esses Estados tendiam a restringir-se, á pro- 
porção que a Rússia desinvolvia as suas industrias. 

A França comprava na Rússia madeiras e cereaes, 
e vendia os seus vinhos, as suas sedas, e um certo 
numero de objectos manufacturados. 

Entre os Estados asiáticos, a China era o paiz que 
mais trocava com a Rússia. Os Estados Unidos da 
America tinham também muitas relações com ella, e 
d'um valor reciproco. 



Tratando dos centros económicos principaes que 
havia na Rússia, no século XIX \ e começando pela Fin- 
lândia, eram importantes Tavastehus e Tornea. Esta 
ultima cidade era até o porto dos Lapões onde elles 
vinham vender peixe e linguas de renna. 

Uleaborg era muito mais importante que Tornea. 
Os barcos, que desciam o Ulea, traziam-lhe uma grande 
quantidade de resina e de alcatrão; e muitos trens de 
madeira vinham fluctuar no seu cães. No principio do 
século XIX, esse porto era, graças á exploração das 



^ Sobre os centros principaes, na edade moderna, veja-se o 
vol. V, pagf. 498 e seguintes. 



458 A HISTORIA ECONÓMICA 



florestas, o mais frequentado de toda a Finlândia; 
mas os portos da região povoada do sul desban- 
caram-no depois, na actividade do commercio que 
foram exercendo. 

Abo, a segunda cidade da Finlândia, pelo numero 
de habitantes, e a terceira, pelo commercio, era um dos 
grandes mercados da região. Foi também dois séculos, 
(1640 a 1827), a sede da Universidade finlandeza; mas, 
tendo um incêndio devorado os edificios escolares e a 
bibliotheca de 40 mil volumes, essa Universidade foi 
transferida para Helsingfors. 

Helsingfors era não só a principal, mas até a mais 
bela cidade da Finlândia, e um grande centro de com- 
mercio. A navegação no seu porto foi muito activa, em 
todo o século XIX, mas o movimento havia diminuído 
muito nos últimos tempos, era virtude da constru- 
cção dos caminhos de ferro que se dirigiam para a 
ponta de Hangô, isto é, para o promontório angular 
da Finlândia, á entrada dos dois golfos, onde o 
mar é muito mais Hvre de gelos que no porto de 
Helsingfors e nos outros portos do littoral, cujos ca- 
naes se fecham em novembro ou dezembro, para se 
abrirem somente no mez de maio. Helsingfors era tam- 
bém o mercado principal para as duas cidades do interior, 
Tavastehus e Tammersfors ou Tampere, que se podia 
chamar por hyperbole a Manchester da Finlândia. 

Wiborg é a terceira cidade da Finlândia por sua po- 
pulação, a segunda por seu commercio, e também a pri- 
meira por sua navegação, graças, sobretudo, á visinhança 
de S. Petersburgo. Mas os grandes navios tinham de pa- 
rar a 13 kilometros ao norte, na enseada de Transund. 

Nas provincias bálticas, Revel ou Reval, a capital 



EDADE CONTEMPORÂNEA 459 



da Esthonia, que é 'ima cidade privilegiada pela sua 
situação commercial, era o mais útil dos oortos que a 
capital da Rússia aproveitava no Báltico. Graças ao 
caminho de ferro que custeia a margem meridional, 
S. Petersbargo podia por meio d'elle importar, durante 
uma parte do inverno, as mercadorias que os gelos deti- 
nham a oeste de Kronstadt; porque os navios desem- 
barcavam essas mercadorias em Revel, ou no seu annexo 
aduaneiro Baltisch-Port, enseada mais occidental, ba- 
nhada por um mar que é mais aberto e está mais 
tempo livre dos gelos; e, assim, podiam seguir depois 
para S. Petersburgo. 

O porto de Revel era o quinto porto do império, 
pelo valor das suas trocas, e devia também uma parte 
da sua importância ao facto de estar precisamente em 
tace de Helsingfors. 

Riga, capital da provincia baltíca, n'uma situação 
admirável, era, pela população, a quinta cidade do im- 
pério ; e o seu porto, pelo commercio, era o terceiro. 
Vinha logo depois S. Petersburgo e Odessa, apesar de 
que os grandes navios não podiam entrar em plena 
carga nas bacias do Duina. 

O porto de Libau está desembaraçado de gelos, três 
semanas antes de Riga, e seis semanas antes de S. Pe- 
tersburgo; e já communicava com Vilna por um cami- 
nho de ferro. Mas a barra tem pouca profundidade, e 
muda muitas vezes de posição e largura, conforme os 
ventos. E isto explica a inferioridade do movimento 
d'esse porto, quanto a Riga e Revel. 

Ao sul de Libau, os pescadores recolhiam nas areias 
2:000 kilos de âmbar amarello; mas já o não encontra- 
vam para o norte. 



460 A HISTORIA ECONÓMICA 



Na Polónia, Warta, era importante. 

Kalisz, capital da província do mesmo nome, era 
muito commercial, e possuía muitas manufacturas de 
pannos. 

Lodz, que, em 1821, era uma simples aldeia, já no 
fim do século, era a segunda cidade da Polónia, por sua 
população e sua industria, estando cheia de fabricas de 
fiação e tecidos de algodão e de pannos, tinturarias e 
outros estabelecimentos industríaes, em numero de 
muitas centenas. Só ella fabricava sete oitavas partes 
de algodão que se tecia na Polónia. 

Radom e Lublin estavam muito decaídas. 

Varsóvia, a capital da Polónia, estava no crusa- 
mento dos caminhos europeus; mas não tinha ainda ao 
serviço do seu commercio um numero sufficiente de 
caminhos de ferro. E, alem d'isso, era constantemente 
ameaçada pelos desgelos do Vistula. Distinguia-se, ainda 
assim, pela sua actividade industrial e commercial. Fia- 
ções e manufacturas de estofos, fabricas de tabaco, de 
distillação, cervejarias, curtímenta, maquinas, ferramen- 
tas, moveis, pianos, forneciam annualmente productos 
de muitas dezenas de milhões de francos. E uma fabrica 
visinha, Zyrardowska, tinha quasi que o monopólio da 
fabricação da roupa de mesa na Polónia. 

E, quanto ao movimento commercial, pode-se fazer 
ideia d'elle, attendendo á multidão de commerciantes 
Israelitas, que percorriam, em numero de cem mil, as 
ruas de Varsóvia. De todas as cidades do mundo era 
onde a população judaica prefazía maior numero, e onde 
crescia mais rapidamente. 

Havia ainda na Polónia muitas outras cidades im- 
portantes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 461 



Na bacia do Neman (Lithuania), mas, n'um afluente 
lateral, o Viliya, Vilna, a grande cidade também da 
Lithuania, estava muito decaída. Pelo contrario, Kovno 
tinha adquirido uma grande importância. 

Vazma, na bacia do Dnieper, era muito commercial, 
como logar de passagem frequente. 

Dorogobouj era menos animada commercialmente 
que Vazma, porém, apezar d'isso, fazia um tráfico muito 
considerável de géneros agricolas. 

Smolensk, occupando um vasto espaço nas duas 
margens do Dnieper, no cruzamento de muitos cami- 
nhos, e especialmente das duas vias férreas de Riga ao 
Ural e de Varsóvia a Moscou, era um dos pontos vitaes 
do commercio do império. 

Vladimir estava muito decaída. 

Jitomir, na Volynia, fazia um commercio importante, 
sobretudo, em cereaes. 

Bransk era outra cidade de grande commercio. Os 
seus mercadores compravam muitos géneros na pro- 
víncia para Moscou, S. Petersburgo e para os portos 
meridionaes do Báltico. 

Em Kursk uma grande cidade russa, três caminhos 
de ferro, dirigindo-se sobre Kief, Moscou e Karkov 
augmentavam a sua importância commercial. 

A feira de Kursk era outr'ora a mais frequentada 
da Rússia. Mas o centro das transacções entre a região 
industrial de Moscovia e as terras agricolo-meridionaes 
deslocou-se para o sul. 

No governo de Tchernigov, as cidades importantes 
de Gloukhow, Krolovetz e Konotop eram também cen- 
tros económicos notáveis; e a primeira d'ellas tinha até 
por especialidade ser um grande mercado de cereaes. 



462 A HISTORIA ECONÓMICA 



Tchernigov, a capital do Governo, tinha também 
grande commercio de cereaes, e de cânhamo e outros 
géneros. 

Nejin, com maior população que Tchernigov, tinha 
grande industria e commercio de tabaco e grande cul- 
tura local. 

Kief, a cidade sancta dos Russos, era, como ainda é, 
uma das primeiras cidades do mundo. Tinha grande 
industria e commercio ; e contribuia muito para isso a 
peregrinação que ali faziam, e ainda fazem, todos os 
annos, diversos romeiros, no total de 300:000. 

Está situada no meio da bacia de Dnieper, onde 
todas as ramificações superiores lhe trazem as suas 
aguas e o seu commercio. 

Soumi era uma das cidades mais commerciantes da 
Ukrania. 

Poltava engrandeceu lentamente até o meiado do 
século XIX. Mas, depois d'isso, progrediu com rapi- 
dez, quando uma feira importante foi transferida para 
lá, e vastos espaços, outrora occupados por jardins, se 
cobriram de construcções. A feira onde se faziam, e 
ainda fazem, pela media, trocas no valor de 50 a 60 
milhões de francos, era frequentada, sobret-.ido, pelos 
negociantes de lan, e ahi se vendiam também muitos 
cavallos para as tropas das bordas do Don. 

Os Judeus tinham uma grande parte da industria 
e commercio de Poltava na sua mão, e os colonos 
allemães introduziram lá a fabricação dos pannos e das 
colchas. 

A industria de tecidos tinha tomado também uma 
certa actividade na cidade de Kovelaki, situada a 
juzante de Poltava. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 463 



Yekaterinoslav, cidade moderna, porque foi fundada 
por Potenkin, em 1784 \ tornou-se logo, durante o 
século XIX, um centro de bastante importância. 

Kerson, capital de um dos governos mais populosos 
da Rússia, era bem inferior ao commercio de Odessa; 
mas, como guardian da entrada do Dnieper, não podia 
deixar de reter uma parte notável das trocas da Rússia 
meridional. Todavia a barra, as ilhas e os bancos de 
areia impediam os grandes navios de subir até lá, e 
tinham elles de parar a 10 kilom.etros a oeste da 
cidade. Fazia um grande commercio de exportação, 
sobretudo, de madeira, cereaes e couros ; mas uma 
grande parte do seu tráfico consistia em expedições de 
cabotagem para Odessa, que, por seu lado, lhe enviava 
mercadorias estrangeiras. 

Nicolaiev, a Toulon da Rússia, ainda que especial- 
mente dedicada aos trabalhos militares, tinha também 
importância, como cidade de trocas pacificas. 

Odessa, o grande porto commercial da Rússia do 
sul, não está situado como Kerson, Nicolaiev e Otchakov 
perto da bocca de um rio que dê accesso ao interior das 
terras. Comtudo, podia ser considerado com o verda- 
deiro porto do Dnieper e Dniester da mesma forma 
que Marselha o é do Rhodano, e Veneza, do Pó. As 
difficuldades da entrada d'esses dois rios teem obrigado 
os marinheiros a escolherem como lugar de rendez-vous 
um ponto do littoral de mais fácil accesso ; e o golfo de 
Odessa offerece precisamente as condições necessárias 
para isso. Os vasos podem ancorar ahi sem perigo; e. 



^ A Historia Económica, vol. V, pag. 434. 



464 A HISTORIA ECONÓMICA 



pelos caminhos das steppes, os commerciantes vão junctar 
sem grande custo os caminhos que bordam aquelles rios. 

Alem d'isso, de toda a bacia occidental do mar 
Negro, o golfo de Odessa é o que se encontra mais no 
interior das terras. E é precisamente lá que a costa 
muda de direcção de um lado para o sul e do outro 
para o norte, d'onde resulta que as vias naturaes do 
paiz se dirigem em maior numero para Odessa que 
para outro ponto do littoral. Porisso, a importância 
d'esta cidade cresceu rapidamente, e, sobretudo, depois 
que aos privilégios resultantes da posição geográfica 
accresceram os dos molhes, entrepostos, caminhos de 
ferrro e as relações estabelecidas; e tudo isso já no 
século XIX. E, comtudo, a existência d'essa cidade não 
datava de mais de um século. 

Em 1880, já ella tinha 800:000 habitantes. Foi, só 
em 1830, que Odessa teve a sua primeira fabrica; mas, 
no fim do século, já possuia fabricas de moagem a vapor 
e de saboarias, tabacos, distillação, cervejaria, salgação, 
e canteiros de toda a espécie, e outras manufacturas e 
fabricas. As salinas dos arredores forneciam muito sal. 

O commercio era muito grande. O principal género 
de exportação consistia nos cereaes; mas Odessa ex- 
portava também, pelos seus três portos, quantidades 
consideráveis de lan, cebo, linho, etc; e recebia em 
troca géneros coloniaes, objectos manufacturados, vi- 
nhos e artigos de luxo, etc. 

Na região dos grandes lagos, Novgorod, tão po- 
derosa no passado ^, estava decaída de todo. 



1 Vide vol. V, pag. 512. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 465 



S. Petersburgo, a capital da Rússia, depois cha- 
mada Petrogrado, era a primeira cidade manufactora 
do império. Alguns grandes estabelecimentos perten- 
ciam ao Estado; mas a principal actividade estava 
sobretudo, nas fabricas particulares, de construcção, 
de fiação de estofos de lan e algodão, cervejarias, 
distillações, tabaco, etc. O commercio era também 
muito considerável. EUa constituia já a quinta cidade 
da Europa no numero dos habitantes. 

Kronstadt era uma cidade militar. 

Na vertente do Oceano Glacial, Kola representava 
uma grande estancia de pesca. 

Vologda era muito commercial. Expedia para o 
baixo Duina linho, aveia e outros géneros, e para 
S. Petersburgo, manteiga, ovos e teias. 

Arkangel tomou grande importância no século XVI, 
quando os navegadores inglezes fizeram do mar 
Branco a porta da communicação de Moscovia com 
o mundo occidental; mas decaiu depois da funda- 
ção de S. Petersburgo, que proporcionou um via mais 
commoda para o commercio da Rússia com o resto da 
Europa. 

Alem d'isso, Pedro Grande limitou a quantidade de 
mercadorias que Arkangel podia exportar; prohibiu para 
lá a exportação do cânhamo, linho, cebo e de mais 
de um terço dos outros géneros do império; e, pelo 
chamamento dos marinheiros e negociantes para a nova 
capital, fez diminuir muito a importância de Arkangel. 
Apezar d'isso, a situação do porto d'essa cidade, na 
única via fluvial de um immenso território, cuja popu- 
lação espalhada, como era, augmentava rapidamente,, 
não podia deixar de dar certa actividade a esse empo- 

Volume VI M 



466 A HISTORIA ECONÓMICA 



rio do mar Branco, por forma que elle representava 
ainda a quarta capital do império. 

Em 1844, o governador geral prohibiu também a 
fundação de um banco em Arkangel, o que lhe preju- 
dicou egualmente o movimento económico. 

Na bacia do Volga e Ural, Tver, outrora a rival 
mais poderosa de Moscou, tem a vantagem de estar si- 
tuada no confluente do Teverfza, que desce das alturas 
do norte e que, desde todo o tempo, offereceu um ca- 
minho para a bacia do Neva e do golfo de Finlândia. 
Os géneros deviam outrora ser transportados por terra 
de Tevertza ao Msta; mas um canal navegável abrira, 
desde ha mais de um século, um caminho navegável 
desde Tver a S. Petersburgo. E, desde então, os bar- 
cos, carregados de trigo e de outros géneros, ahi para- 
vam por centenas e por milhares, durante a boa esta- 
ção, como acontecia também com a cidade industrial de 
Torgok, situada mais abaixo sobre o Tevertza. 

Avaliavam-se em quatro mil barcos os que amarra- 
vam, cada anno, ao cães de Tver. Esta cidade era 
também uma das mais industriaes que se encontravam 
no norte da Rússia. Possuia numerosas manufacturas, 
sobretudo, de fiação de algodão e bordadura de 
couros. 

Ribinsk é a segunda etapa commercial do Volga, a 
juzante do Tver; e encontra-se á saida de dois canaes 
que fazem communicar o Volga com S. Petersburgo, 
um pelo Mologa, e outro pelo Cheksna Bello Ozero, os 
dois grandes lagos da bacia do Neva. Tinha também 
um movimento enorme de barcos e de industria e com- 
mercio; e, alem de outras, uma grande manufactura de 
cordas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 467 



Yaroslav era também centro importante; e bem assim 
Rostov, onde uma das principaes industrias era a pin- 
tura das imagens sagradas sobre o esmalte, por ter sido 
outrora conceituada como cidade santa. 

Na bacia do Oka, preponderava Tuia. Esta cidade 
foi escolhida, em 1712, por Pedro Grande, para receber 
a principal fabrica de armas do império ; e essa fabrica, 
ainda no fim do século XIX, occupava muitos milhares 
de operários, fabricando cada anno 70:000 armas de 
fogo, alem de muitas armas brancas e instrumentos de 
ferro e aço. Tinha também fabricas de instrumentos de 
mathematica, e de maquinas e objectos de prata e ouro. 
Fornecia 200:000 samovares, indispensáveis a toda a 
familia russa. Era a Liège da Rússia. As fabricas tinham 
a vantagem de se acharem collocadas ao pé de vastas 
bacias hulheiras. 

Moscou, a segunda capital da Rússia, que occupa o 
centro geográfico, onde convergem todos os caminhos, 
era também uma capital industrial. Desde o meiado do 
século XIX, contavam-se lá 650 fabricas, tendo um 
conjunto de 40:000 operários, e produzindo uma cen- 
tena de milhões de francos. Os principaes estabeleci- 
mentos industriaes eram de fiação e tecidos de algodão 
e de tecidos misturados, tinturarias, manufacturas de 
lan e seda, curtimenta e distillações. 

Koloma era muito commercial. 

Razan tinha algumas fabricas; mas era, sobretudo, 
importante como cidade de commercio, graças ao Oka, 
rio que decorre á distancia de dois kilometros, bem 
como ao caminho de ferro de Moscou a Saratov. 

Pavlovo era um dos grandes centros da industria de 
ferro. Milhares de operários fabricavam lá 300 mil 



468 A HISTORIA ECONÓMICA 



fechaduras por anno, facas, instrumentos de cirurgia e 
ferramentas de toda a espécie em ferro, aço e cobre. 

Vladimir e Suzdal estavam muito decaídas. 

Ivanova e Choyo eram muito industriaes. 

Nijni-Novogorod, para se tornar um centro muito 
importante do commercio, bastava a feira que lá se 
fazia e faz, a mais importante da Rússia e do mundo, 
feira essa nómada, como são muitos dos povos que ahi 
vêem traficar. Era frequentada por mais de 100:000 pes- 
soas. O principal commercio consistia em pannos de 
algodão e.lan. Depois, vinham os ferros, as pelles, os 
couros e os artigos de modas, dando logar á venda de 
muitas dezenas de milhões de francos. As carregações 
do chá chinez eram também muito consideráveis; pois, 
ainda nos últimos tempos do século XIX, regulavam por 
1:000 caixas, embora tivessem diminuído, por causa 
das grandes facilidades que apresentava o tráfico por 
mar de Changai e Cantão a Odessa. 

Níjní-Novogorod possuía também canteiros de cons- 
trucção e fabricas metallurgícas. 

Na bacia media do Volga, Kazan, a antiga capital 
do reino dos Tártaros, que succedeu como importante 
mercado á cidade de Bolgar, tinha um grande com- 
mercio. Situada no cruzamento das grandes vias da 
Sibéria, do Báltico e do Caspio, tratou de expedir 
as mercadorias n'essas três direcções, sem ser por 
intermédio de Novogorod. Quasi metade dos habi- 
tantes de Kazan vivia da industria e do tráfico. Alem 
das distillações do álcool, a cidade tinha fábricas de 
pelles de marroquim, que preparavam os melhores cou- 
ros, manufacturas de teias, e também fabricas de vellas 
de cebo e de alluminio. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 469 



Perm era muito metallurgica. 

No Volga inferior, havia cidades populosas, quasi 
todas de orig-em moderna. E algumas d'ellas, mais cedo 
ou mais tarde, tomaram logar entre os maiores centros 
económicos da Rússia, como foram Simbirsk, Samara, 
Sizran, Saratov e Dubovka. 

Astrakan, capital do vasto Governo das steppes 
caspias, a cidade commercial das boccas do Volga, 
não tinha a categoria que devia ter, como porto de 
saida de uma bacia três vezes maior que a França, 
e povoada de 50 milhões de habitantes. Mesmo a cer- 
tos respeitos, Astrakan era uma cidade decaída. 

Possuirá outr'ora o monopólio do commercio russo 
com os paizes de alem Caspio. Mas, nos últimos tem- 
pos do século XIX, os caminhos de terra, de um lado, 
por Oremburgo, e, do outro, por Tiflis, eram preferidos 
para os commerciantes da via maritima, e as barras 
perigosas do Volga eram cada vez mais evitadas pelo 
commercio internacional. 

No Governo de Oremburgo, as cidades de Orem- 
burgo e Ural, tornaram-se muito industriaes e commer- 
ciaes. Uma das grandes riquezas era a do sal. 

Voroneje era também centro importante. 

Karkov, a maior cidade da região, era das mais 
activas da Rússia no commercio e industria. Concorriam 
ahi 80:000 commerciantes de todas as partes. E era 
também uma das cidades da Rússia que se tinha posto 
á frente do movimento intellectual do império. 

Rostov era egualmente uma cidade de grande com- 
mercio, onde três a quatro mil navios de cabotagem 
vinham cada anno carregar cereaes, linho, lans, cebo 
e outros géneros. Comtudo, tinha a desvantagem de 



470 A HISTORIA ECONÓMICA 



haver uma. parte do rio Don, onde os navios não podiam 
subir, e a sua jurisdicção não se estender á entrada do 
mesmo rio, que pertencia ao território dos Cossacos, 
de modo que ella não podia emprehender ahi trabalhos 
de drenagem, 

Taganrog, em cujo porto, no tempo de Pedro 
Grande, podiam fluctuar 200 navios, já nos últimos 
annos do século XIX, só deixava approximar-se d'elle 
os de pequena lotação. Os de um calado de cinco a 
seis metros já eram obrigados a ancorar a 15 kilome- 
tros ao largo ; e os maiores tinham de parar mesmo 
a 40 kilometros do cães. 

Apezar d'isso, prosperou rapidamente; e graças ao 
seu caminho de ferro, é o porto de expedição mais 
próximo das terras negras e de Karkov e do Don. 

Na Crimeia, havia como centros importantes Sin- 
ferofol, Sebastopol e Kertch. 



* 

* 



A Rússia, como ainda hoje acontece, tinha más con- 
dições locaes, com respeito a communicações maritimas 
e fluviaes. Os mares exteriores, que são o Báltico e o 
mar Negro, tinham as avenidas fechadas na mão d'outros 
paizes. E, alem d'isso, os povos occidentaes da Europa 
esforçaram-se por lhe impedirem esses mares. 

E, quanto a rios, o mais importante é o Volga, que 
é navegável para vapores, em grande parte do seu 
curso. Mas, infelizmente, se não fem cataractas, tem 
muitos bancos de areia. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 471 



No mar de Azof, o Dom tinha navegação difficil, 
por ter o leito pouco profundo, e somente servia 
para barcos chatos no estio. Ainda assim, o movimento 
de barcos era grande, porque esse rio era também o 
grande caminho de trigos, cebos e fenos, que vinham 
do interior, e se dirigiam para os portos de Rostov e 
Taganrog. 

O Dnieper, um dos maiores rios da Europa, era, 
então, como ainda hoje, impraticável em muitos pon- 
tos, por causa das suas cataractas e rápidos; e era-o, 
principalmente, na bacia que obstruía a sua embocadura. 

O Dniester só era accessivel a barcos. 

O Neva gelava todos os annos durante o inverno 
até Abril. E tal era o contentamento com o desgêlo 
que havia, então, uma festa em S. Petersburgo. 

O Duina Meridional é também difficilmente navegá- 
vel, por causa dos innumeraveis escolhos e bancos de 
areia, que o obstruem. E o Duina do Norte está quasi 
sempre gelado. 

E, alem d'estes rios, estarem gelados n'uma grande 
parte do anno, havia ainda o perigo do súbito des- 
coalho. 

' O littoral do Oceano Glacial é chato, baixo e pan- 
tanoso, e o mar está gelado também, durante nove a 
dez mezes no anno. O único porto importante era 
Arkangel, na embocadura do Duina do Norte, 

As costas do littoral do mar Báltico são baixas, 
semeadas de ilhas, ilhotas, rochedos e baixos fundos, 
que tornam a approximação difficil; e a pequena profun- 
didade só consente navios de pouca lotação. Esse mar 
está gelado também, quatro ou seis mezes no anno ; é 
muito atreito a nevoeiros cerrados ; e a entrada do golfo 



472 A HISTORIA ECONÓMICA 



de Riga ou Livonia é também difficil, porque só pode 
penetrar-se n'elle por estreitos muito perig-osos. 

O mar Negro é também mau para a navegação, 
pelos nevoeiros, tempestades súbitas e ventos muito 
violentos. Os invernos são lá também muito rigorosos; 
e Odessa e o estreito de Jenikale gelam, mais ou menos, 
todos os annos. 

O mar de Azof é pouco profundo, e, portanto, só 
é navegável para pequenos navios; e gela egualmente, 
mais ou menos, todos os annos. 

Finalmente, o Caspio é da mesma forma pouco pro- 
fundo, muito cheio de bancos de areia, e, porisso, pouco 
navegável. 

Em compensação, a Rússia tinha, como ainda tem, 
um notável systema de canaes, que punham em com- 
municação os diversos mares e rios do império. 

Foi sempre muito deficiente de estradas. Servia-se 
dos caminhos que a própria natureza cavou. A pri- 
meira estrada carrossavel que tal nome merecia, foi 
construida de Moscou a S. Petersburgo, no tempo de 
Pedro Grande. Mas nem essa, nem outras que depois 
se fizeram, correspondiam ás necessidades do com- 
mercio, por terem sido traçadas como objectivas de 
fiscalisação e estratégia. Em 1896, ainda as estra- 
das não mediam mais do que 12:800 kilometros de 
extensão. 

O território não se prestava ao estabelecimento de 
caminhos de ferro, porque era preciso fazer muitas 
pontes e muitas calçadas nas regiões pantanosas, a 
nordoeste e sudoeste. 

E, porisso e por má poHtica dos imperadores, a 
Rússia repulsou por muito tempo a construcção das 



EDADE CONTEMPORÂNEA 473 



vias férreas; e tanto assim que, até 1843, não foi aucto- 
risado nenhum caminho de ferro. O imperador Nicolau, 
só permittiu a construcção da via férrea de S. Peters- 
burgo a Moscou. Mas a guerra da Crimeia abriu os 
olhos aos politicos russos, e, porisso, desde 1865 a 1880, 
foram construidos 27:000 kilometros na Rússia, 1:600 na 
Finlândia, e 1:100 no Turkestan. Depois, pararam as 
construcções, por circumstancias financeiras, e porque 
a despeza com as vias já construidas tinha sido enorme. 
Recomeçaram, porém, nos últimos tempos, de modo 
que, no fim do século, já passavam de 50:000 kilo- 
metros. 

Entre os caminhos de ferro avultavam a gigantesca 
linha transiberiana, que atravessava toda a Sibéria, e a 
transcaucasica, que atravessava o Cáucaso. 

Moscou era o centro, e d'ahi irradiavam linhas em 
todo o sentido para S. Petersburgo, Varsóvia, Odessa 
e Crimeia, Vladikavkas, Oremburgo, Nijni-Novogorod, 
Perm, lekaterinemburgo, Jaroslav e Vologda. 

De S. Petersburgo partia a linha de Finlândia; e de 
Perm, uma linha atravessava os montes Uraes, e ia 
acabar em Tiumen, n'um affluente do Irtych. 

A linha férrea de Rostov-Vladicaucaso foi prolon- 
gada até Petronsk, porto ao norte do Cáucaso, sobre 
o mar Negro, indo dar a Ouzom-Ade, sobre a costa 
oriental do Cáucaso, terminas do caminho de ferro 
transcaspiano. De lá atravessou o Caspio, chegando a 
Petrowik, depois a Novorossisk, pela linha férrea do 
norte do Cáucaso, passando em Vladicaucaso e Thi- 
koraikairo. 

Contrariamente ao que succede em muitos paizes, 
o inverno é que constitue a estação dos transportes 



474 A HISTORIA ECONÓMICA 



por terra. As camadas de neve, endurecidas por 
muitos mezes, prestam-se, ainda melhor que o solo, na 
estação quente, á condução de carros, carruagens e 
trenós \ 



1 Achille Lestrelin, Les Paysans Russes. — P. Milioukov, Essaies 
sur IHistoire de la Civilisation Russe, traducção franceza feita por 
P. Dramas e D. Soskire. — Louis Sharzynski, L' Álcool et Son His- 
toire en Russie. — Leroy Beaulien, LEmpire des Tzars et Les Russes. 
— Jando, La Russie. — Guenin, La Russie. — Noel, obr. cit. — Lanier, 
LEurope. — Chopin, La Russie. — Mareei Dubois et Kergomard, obr. 
cit. — J. Machat, Le Dêveloppement Economique de La Russie. — 
E. Reclus, Nouvelle Gèographie Universelle, LEurope, La Scandi- 
nave et La Russie. — Ladissiau Batalha, A Rússia por dentro. 



CAPITULO XV 

A península dos balkans 
I 

Turquia 

Leve esboço da historia politica desta peninsula, e, porisso mesmo, 
também da Turquia, n'este período. — Aspecto. — Systema 
orográfico e hydrografico e clima da mesma peninsula. — Turquia. 
— Seu atraso económico. — Causas que influiram n'isso. — Pro- 
ductos. — Mau regimen da propriedade. — Agricultura. — Indus- 
tria e commercio. — Centros económicos principaes. — Communi- 
cações. 

Quando começou este período da historia contem- 
porânea, a Turquia comprehendia na Europa a Romelia 
Oriental e Occidental, a Macedónia, a Albânia, a Gré- 
cia, o Montenegro, a Servia, a Roménia, a Bósnia, a 
Herzegovina, a Besserrabia, o Delta do Danúbio, Creta 
e suas dependências insulares; e, fora da Europa, os 
territórios de Pati e de Akhalzich, Samos, as posses- 
sões da Ásia Menor, o vilayet de Tripoli, o Kedivato 
do Egypto e Alger. E entrava, alem d'isso, pelo cora- 
ção da Africa. 

E também no principio d'este periodo, já a Rússia 
se tinha tornado inimiga cega e hereditária da Turquia \ 



1 Vide vol. V, pag. 433. 



476 A HISTORIA ECONÓMICA 



onde então reinava Selin III (1739-1801); e as prepo- 
tências russas não pararam mais. 

O tratado de Jassy (1792), imposto pela Rússia a 
Selin III, installou os Russos no este do Dniester, na 
Crimeia, na ilha de Taman, e na provincia de Kuban. 
Os abusos e a desorganisação do império eram, então, 
grandes; e a Porta fez esforços tenazes, para reprimir 
esses abusos, reorganisar o exercito á moderna, e me- 
lhorar a administração. Mas estes esforços nada apro- 
veitaram; e, pelo contrario, trouxeram a revolta dos 
Janissaros e a deposição do sultão (1807). 

Seguiu-se o reinado ephemero de Mustapha IV 
(1807-1808). 

Depois, Mahmud II (1808-1829) retomou activamente 
a politica de Selin III, com o apoio do enérgico vizir, 
Baraictar. Mas as reformas interiores baldaram-se tam- 
bém; e, no exterior, as desgraçadas campanhas de 
1810-1811 contra a Rússia, forçaram-no a assignar 
o tratado de Bukarest (1812), no momento em que 
Napoleão invadia a Rússia. 

A Besserrabia, em virtude d'esse tratado, tornou-se 
numa provincia russa. 

O império ottomano estava, então, n'uma desorga- 
nisação completa. 

Os pachás revoltavam-se nas provincias, e os Janis- 
saros, em Constantinopla. 

A Grécia emancipou-se (1827); e a intervenção das 
outras potencias, na questão hellenica, trouxe a des- 
truição da frota turca em Navarino (1827). A guerra 
santa, emprehendida por Mahmud contra os Russos, no 
Danúbio e no Cáucaso, resultou n'uma vergonha para 
o sultão; porque foi obrigado a acceitar o tratado de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 477 



Andrinopla (1829), que lhe custou o Delta do Danúbio, 
os territórios de Poti e de Alchalzich, cedidos ao czar. 
Também por esse tratado, a Grécia foi transformada 
eni reino independente, e a Servia, a Valachia e a Mol- 
dávia passaram para a classe de provincias autónomas, 
embora unidas ao império por um laço muito frag^il. 

Alguns mezes depois, a Porta perdeu ainda Alger; 
e, em 1833, rebentava entre o sultão e o pachá do 
Egypto — Mehemet-Ali uma lucta que ia arrancar á Tur- 
quia um novo pedaço das suas possessões territoriaes. 

Depois, o tratado de Hunkiar Skeessi, concluido 
na Rússia (1833), e a convenção europeia dos estreitos 
(1840) fechava os Dardanellos ás frotas estrangeiras. 

Abdul Medjid (1838-1861), logo na sua subida ao 
trono, promulgou o famoso hatti cherif do Gulkhané, 
vasto programma de reformas, que elle se propunha 
cumprir. Por esse acto, garantia a todos os súbditos do 
império a vida, a honra e a fortuna ; estabelecia um 
modo uniforme e regular de imposto ; regularisava tam- 
bém o serviço militar; suprimia os monopólios; e garan- 
tia a propriedade, a justiça dos tribunaes e as heran- 
ças. Mas taes promessas ficaram, na maior parte, letra 
morta, porque o trazimat ou organisação respectiva 
foi indefinidamente adiada. 

A discussão internacional levantada acerca do pro- 
tectorado dos logares santos, que a Turquia reclamava, 
em nome dos seus interesses anteriores, trouxe um 
novo conflicto com a Rússia. Mas, d'essa vez, a França 
e a Inglaterra fizeram causa commum com o sultão, e 
os exércitos russos foram vencidos na guerra da Cri- 
meia. Sebastopol foi tomada (1855) ; e, como conse- 
quência, o tratado de Paris (1856) aboliu a protecção 



478 A HISTORIA ECONÓMICA 



da Rússia sobre os Principados Danubianos; entregou 
á Turquia as boccas do Danúbio, para as colocar na 
vigilância de uma comissão europeia; fechou os estreitos 
do mar Negro aos navios de guerra de todas as poten- 
cias; e garantiu a integridade do império ottomano. 

O reino de Abdul-Aziz (1861-1876) foi perturbado 
pelas insurreições do Montenegro, que obteve a inde- 
pendência completa, em 1862 e 1863, ficando apenas a 
pagar um tributo annual, e também pelas insurreições 
da Servia e Creta. E as prodigalidades do sultão leva- 
ram o Estado á bancarrota. 

Por tudo isso, foi elle deposto e morto, sucedendo- 
Ihe Murad V, que só reinou, desde maio d'esse anno 
até agosto. 

O reinado do seu irmão e successor Abdul-Hamid II 
(1876-1909) abriu-se no meio da insurreição das pro- 
vincias slavas. A Rússia interveiu de novo no Danú- 
bio ; e, devido, sobretudo, ao apoio das tropas auxilia- 
res romenas, os exércitos russos tomaram Plevna, 
apesar da heróica resistência de Oman-Pachá ; atra- 
vessaram os Baikans; e marcharam sobre Constanti- 
nopla. 

A Turquia, vencida na Ásia, como na Europa, teve 
de assignar o tratado de San Stefano (1878); mas a 
Europa entendeu que elle era demasiadamente vantajoso 
para a Rússia e para os seus alliados, e, por isso, o 
congresso de Berlim, também de 1878, reduziu as pre- 
tensões dos vencedores. 

Ainda assim, abandonou-se, então, á Rússia, na 
Ásia, Batum, Ardahan e Kars, e na Europa a Besserra- 
bia romena até o Pruth e o Baixo Danúbio. A Roménia 
recebeu, em troca, o Delta do Danúbio e a pantanosa 



EDADE CONTEMPORÂNEA 479 



Dobrudja. Cedeu-se á Áustria a ocupação militar da 
Bósnia, da Herzegovina e do território de Lim, o porto 
de Spizza, no Adriático, e a ilha do Neu Orsova. Ao 
Montenegro, o porto do Antivari, desimbocadouro há 
muito tempo reclamado; e, em 1881, ajuntou-se-lhe o 
de Dulcigno. A Servia foi libertada do tributo annual 
que pagava á Turquia; e foi engrandecida com uma 
parte da velha Servia, com a fortaleza de Nisch ou 
Nissa, o Leskovatz e Wranja. A Grécia foi augmentada 
com a provincia da ThessaHa. Foi reconhecida formal- 
mente pela Porta a independência completa da Romé- 
nia, da Servia e do Montenegro. A Bulgária, entre o 
Danúbio e os Balkans, tornou-se principado tributário 
da Turquia, sob o governo de um príncipe estrangeiro. 
A Romelia Oriental, comprehendendo o curso supe- 
rior do Maritza, ao norte do Rhodope e dos montes 
Strandja, foi declarada também provincia autónoma, 
sob a suzerania da Turquia. Emfim, a ilha de Chypre 
foi cedida á Inglaterra, e deu-se á França a suzerania 
sobre a regência de Tunis. 

A Turquia perdeu por estes últimos tratados 
196:622 kil. e 4.504:500 habitantes. 

Em 1885, produziu-se no Oriente um movimento 
inesperado. Rasgando o tratado de Berlim, a Romelia 
Oriental, de accordo com a Bulgária, levantou-se con- 
tra a dominação ottomana, expulsou de Philippopuli o 
governador russo Gravil-Pachá, e proclamou a união 
búlgara, sob a mesma bandeira e sob um principe 
único — Alexandre de Battemberg. 

Em vista d'este conflicto ameaçador, a Servia e a 
Grécia tomaram as armas, promptas a reclamar o seu 
quinhão nos novos despojos arrancados á Turquia, 



480 A HISTORIA ECONÓMICA 



para a manutenção do equilíbrio entre os pequenos 
Estados da peninsula. 

A Servia declarou a gfuerra á Bulgária, e foi batida 
por toda a parte. Mas a Rússia, para se desembaraçar 
do principe Battemberg, que tomava a serio o seu 
papel de chefe de Estado, e recusava dobrar-se ao 
jugo moscovita, suscitou contra elle uma conspiração 
militar, que o depoz, em 1886. 

Os Búlgaros novamente o proclamaram depois 
d'isso ; mas a hostilidade da Rússia também nova- 
mente o afastou do poder. Uma regência foi installada 
em Sofia; e a questão búlgara ficou pendente sempre. 

Em 1897, o levantamento de Creta contra a Tur- 
quia fez rebentar uma nova guerra dos Turcos contra 
ella e contra a Grécia, que a apoiava. Edhem occupou 
a Thessalia, e os Gregos, batidos por toda a parte, 
puderam, comtudo, graças á intervenção das potencias, 
concluir a paz em condições que não foram muito 
desvantajosas. 



E' a primeira vez que, n'esta obra, tratamos espe- 
cialmente da peninsula dos Balkans; e, por isso, antes 
de examinarmos também especialmente o seu movi- 
mento industrial e commercial, julgamos conveniente 
expor, como já temos feito com os outros paizes, algu- 
mas noções preliminares e geraes a toda ella, quanto aos 
seus factores económicos naturaes; por que essas noções 
auxiliarão o estudo d'aquelle movimento. 

Esta peninsula é accidentada pela cadeia monta- 
nhosa dos Balkans, que se estendem do Timock ao 



tDADE CONTEMPORÂNEA 431 



mar Negro, n'um comprimento de 500 kilometros, e 
que separa as aguas da bacia danubiana búlgara da 
vertente do archipelago romeliota e turco. 

Essa cadeia é formada de vastos platós, cobertos de 
espessos cerrados de abrolhos e tojos e de magnificas 
florestas de pinheiros, sobre a vertente do norte, entre- 
tanto que a vertente do sul é, geralmente, rochosa e 
desnudada. 

Pode bem dividir-se a península em três secções : 

l.*^ O Balkan occidental, cujos cumes de porfido, 
granito e gneiss são despidos de vegetação, mas cujas 
inclinações meridionaes estão cobertas de carvalhos e 
de faias. 

2.^ O Balkan central, o mais elevado (1:700 a 2:330 
metros), formado de rochas cristalinas, que envia ao 
norte numerosos contrafortes para Tirnovo, Osman, 
Bazar e Chumla, e cujas cadeias meridionaes encerram 
grandes valles. 

3.* O Balkan oriental, o menos elevado (600 a 
700 metros), formado por camadas de greda, que se 
prolonga a este de Slivno até o mar Negro, no cabo 
Emineh. Ao sudeste, liga-se á cadeia granitica dos 
montes Strandja (1:290 a 1:500 metros), paralellos ao 
mar Negro, e que se prolongam até ás portas de 
Constantinopla. 

Os principaes rios são o Danúbio, o Timock, o Lom, 
o Isker, o Maritza, o Arda, o Vardar, o Arta e o Drin. 

O clima, em geral, é o mediterrâneo ; mas infinita- 
mente variado, segundo as diversas regiões e macissos, 
platós, planicies e littoral. 

Assim, é rude, ao norte, nas montanhas, e com o 
vento gelado também do norte ; e, ao sul, nos montes 

Volume VI 31 



482 A HISTORIA ECONÓMICA 



da Thracia e da Macedónia. Muito doce na vertente 
meridional e nos valles longitudinaes dos Balkans, e 
nas costas, onde as chuvas são abundantes no inverno. 

Na Roménia, é continental em todo o seu rigor, por 
forma que o thermometro marca 35 graus positivos no 
verão e 30 abaixo de zero no inverno. E' que os ventos 
ahi predominantes são os do nordeste, que, depois de 
terem atravessado as steppes da Rússia meridional, 
vão, ardentes no verão e gelados no inverno, desimbo- 
car nos baixos valles do Danúbio e, portanto, nas pla- 
nicies da Moldávia e Valachia. 

A Servia e Bulgária participam ainda d'este clima. 

A Grécia tem, geralmente, um clima temperado. 



* 



A Turquia estava muito atrasada, quando começou 
o periodo de que estamos tratando; e atrasada conti- 
nuou por todo elle. 

Contribuiram para isso varias causas. 

Primeiramente, o atraso que já vinha dos tempos 
anteriores ; e em segundo logar, a inércia económica da 
população. 

Alem d'isso, a própria diversidade de raças prejudi- 
cava o progresso. Eram Sérvios contra Albanezes; 
Búlgaros contra Gregos; e todos contra os Turcos. 
E estes, senhores d'estas populações diversas, a todas 
opprimiam; e a sua grande arte era precisamente oppor 
umas ás outras, para elles reinarem em paz em cima 
dos seus conflictos. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 483 



Nem podia haver progresso n'um império, onde o 
capricho era soberano. 

O Padichah ^ era ao mesmo tempo senhor das almas 
e dos corpos, o grande juiz e pontifice supremo. Outr'ora, 
o seu poder estava praticamente hmitado pelo dos feu- 
datarios, que, muitas vezes, conseguiam tornar-se quasi 
que independentes. Mas, depois de uma revolta dos 
janissaros, que foi abafada, o sultão nada teve a temer 
dos súbditos, e os limites da sua omnipotência eram 
apenas os costumes, as tradições dos seus antecesso- 
res e os interesses dos governos europeus. 

Era o mais absoluto dos monarcas. A sua lista civil, 
em proporção dos rendimentos do paiz, era também a 
maior da Europa. Demais a mais, tinha instituido por 
todo o império um orçamento do qual attribuia a si 
próprio quasi uma decima parte; e ainda tudo isso não 
era sufficiente, porque, frequentes vezes, tinha de cobrir 
o deficit por empréstimos, a juros de 15 a 20 por cento, 
aos quaes hypothecava o producto dos impostos e das 
alfandegas. 

O trem da casa do sultão e da familia era verda- 
deiramente desenfreado. Existia no palácio um exercito, 
pelo menos, de seiscentos serviçaes e escravos dos 
dois sexos, e entre elles oitenta cozinheiros. 

Alem d'isso, a própria domesticidade era rodeiada 
de uma turba de parasitas, que viviam em volta do 
palácio, e que se alimentavam das cozinhas imperiaes. 

Em virtude dos seus contractos, os fornecedores 
eram obrigados a entregar, cada dia, uma média de 



1 E' o titulo que toma o sultão dos ottomanos. 



484 A HISTORIA ECONÓMICA 



1:200 carneiros. E a importância d'este artigo de con- 
sumo permitte ajuizar a enorme somma a que devia 
elevar-se o consumo dos outros artigos. A's despezas 
correntes accresciam as provenientes da construcção dos 
palácios e kiosques, a compra de todas as bugiarias do 
Oriente, fabricadas em Paris, a das coliecções de fan- 
tasia, e as prodigalidades de toda a ordem, e os roubos 
e delapidações sem fim. 

Os ministros, os sábios e os grandes do império 
faziam por imitar, o melhor que podiam, o seu senhor, 
e como elle excediam os limites que lhes traçava 
um orçamento ficticio, apezar de serem muito bem 
pagos ; porque estava admittido no Oriente que as 
altas dignidades deviam ser realçadas pelo brilho da 
fortuna e pelas prodigalidades do luxo. E nada se 
importavam elles com os trabalhos úteis, nem restavam 
recursos económicos para esses trabalhos. E, quanto 
aos empregados inferiores, esses tinham uns ordenados 
irrisórios, e eram muito mal pagos; mas estava também 
admittido que se podiam indemnizar na multidão das 
corveas ou impostos. 

Tudo se vendia e, sobretudo, a justiça. O estado 
das finanças era lamentável; os empréstimos faziam-se 
a taxas tão exageradas, e a desorganização dos serviços 
era tão completa que, algumas vezes, se chegou a propor 
o fazer administrar o orçamento ottomano por um syn- 
dicato de potencias europeias. 

N'um tal regimen, a agricultura e a industria só 
podiam desinvolver-se lentamente. A terra não faltava; e, 
pelo contrário, vastas extensões de solo, o mais fecundo, 
estavam de pousio. Ninguém tratava de saber a quem 
pertenciam, e o primeiro que viesse, podia apoderar-se 



EDADE CONTEMPORÂNEA 485 



d'ellas. Mal d'elle, porém, se tirasse proveito da cultura, 
e tivesse a fantasia de enriquecer ; porque, então, o solo 
que fabricava, era tido como fazendo parte das terras 
pertencentes ao culto, ou qualquer pachá se apoderava 
d'ellas, fazendo até muitas vezes, bastonar o possuidor. 
Em muitos districtos, era mesmo corrente que o lavrador, 
o mais económico e o mais activo, devia limitar a sua 
colheita ao estrictamente necessário; e não se gostava 
até de uma ceifa abundante, porque o acréscimo da 
producção trazia o acréscimo dos impostos, e podia 
atrair as inquirições suspeitosas do exactor. 

Da mesma forma, nas pequenas cidades, o commer- 
ciante cujos negócios estivessem em via de prosperidade, 
acautelava-se de mostrar a sua riqueza, e fingia-se todo 
humilde e todo pequeno, deixando mesmo a sua casa 
tomar aspecto de miséria. 

A fim de gozar em paz da sua propriedade territo- 
rial, as familias mussulmanas tinham em grande numero 
cedido os seus direitos de dominio ao clero ottomano. 
Ficavam apenas simples usufructuarias, mas tinham a 
vantagem de não pagar impostos; porque, tornadas 
d'este modo santas as suas terras, os seus descenden- 
tes podiam gozar dos rendimentos até á extincção da 
familia. 

Essas terras, que se designavam sob o nome de 
vakoufs, constituiam talvez o terço da superficie do 
território. Nada tinham com o Estado, e tinham também 
um valor insignificante para os próprios usufructuarios, 
rotineiros fatalistas, que se haviam despojado dos seus 
titulos de propriedade, exactamente por causa da sua 
falta de iniciativa. E, quando assim haviam engrandecido 
os domínios do clero, a maior parte d'esses domínios 



486 A HISTORIA ECONÓMICA 

ficavam incultos. Todo o peso dos impostos recaía 
na terra trabalhada pelos desgraçados christãos, e 
ainda o total d'estes impostos ia augmentando, á pro- 
porção que augmentava também a extensão dos terre- 
nos vakoufs. 

A tudo isto accrescia ainda que, para evitar a fraude, 
certos collectores de dizimos não achavam outro modo 
mais engenhoso do que obrigar os cultivadores a amon- 
toar ao longo dos campos todo o producto das suas 
colheitas. E, emquanto os agentes do fisco não recebiam 
as suas gabellas, era preciso que os montões do milho, 
arroz e trigo ficassem n'esses campos, expostos ao vento, 
á chuva e ao dente dos animaes; de modo que, muitas 
vezes, quando o Governo tinha tirado o seu dizimo, já 
a colheita havia perdido m.etade do seu valor. 

E, comtudo, tal é a fertilidade do solo sobre as duas 
vertentes de Hemus na Macedónia, e na Thessalia, que, 
apezar da falta de caminhos, dos abusos do fisco, da 
usura e do roubo e do mais que temos exposto, a 
agricultura entregava ao commercio uma grande quan- 
tidade de productos, contribuindo também para isto o 
ser a agricultura a principal occupação dos habitantes. 

O miljjo ou trigo da Turquia e todos os cereaes 
eram colhidos com abundância. Os valles do Karason 
e Vardar davam algodão, tabaco e drogas tinturiaes. 
O littoral e ilhas forneciam arroz, vinho, azeite e 
laranjas. O vinho era também abundante no valle do 
Maritza. As amoreiras estendiam-se em verdadeiras 
florestas por algumas partes da Thracia e da Romelia. 

Na Albânia e Macedónia, dominavam os cereaes 
pobres como centeio e sarraceno; mas, nos valles e 
terras abrigadas, havia também trigo e milho. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 487 



Na Bósnia e Herzegovina, a agricultura estava tam- 
bém muito atrasada. 

Ainda nos últimos tempos da dominação turca, os 
mussulmanos bósnios possuiam muito mais propriedades 
territoriaes que a parte proporcional á sua população. 

O solo estava dividido ahi em spahiliks ou feudos 
mussulmanos, que se transmittiam segundo os usos 
siavos, não por direito do mais velho, mas indivisivel- 
mente a todos os membros da familia. 

Os lavradores christãos eram obrigados a trabalhar 
para a communidade mussulmana, já não como servos, 
mas como jornaleiros, e por mez e em tarefas. 

Os mais felizes tinham uma parte nos beneficios da 
associação, mas haviam de supportar proporcionalmente 
os maiores encargos; e, por isso, muitos christãos 
fugiam da agricultura, para se entregarem ao com- 
mercio. 

Assim, quasi todo o tráfico mercantil se encontrava 
nas mãos dos catholicos gregos e romenos da Herze- 
govina e de seus correligionários estranhos á Áustria 
slava. Os judeus hespanhoes, agrupados em communi- 
dades nas cidades principaes, acostavam-se também ao 
negocio e aos empréstimos por hypotheca. 

Mas, em despeito das boas qualidades do povo, que 
barbaria, ignorância e fanatismo subsistia ao mesmo 
tempo nos Christãos e Mahometanos ! 

A falta de estradas e as florestas e rochedos das 
montanhas conservavam-nos afastados de toda a in- 
fluencia civilisadora, e a slivovitza (aguardente de 
ameixa), de que os lavradores bósnios faziam um 
grande commercio, contribuia a mantel-os n'esse estado 
de embrutecimento. Calcula-se que os habitantes da 



488 A HISTORIA ECONÓMICA 



Bósnia e Herzegovina bebiam, termo médio, 130 litros 
cada um, d'essa aguardente por anno. 



O Governo turco era muito mais respeitador das 
arvores que os paizes orientaes e que a maior parte dos 
paizes europeus ; e, porisso, a vegetação florestal era 
grande na Albânia e nas partes elevadas das outras 
regiões. Mas essa riqueza estava quasi desaproveitada, 
pela falta de estradas e conimunicações. 

As essências mais communs eram os carvalhos, 
castanheiros, nogueiras e freixos; mas a exploração limi- 
tava-se, com pequena differença, á procura do enveloppe 
das glandes de uma espécie de carvalhos, substancia 
essa muito empregada na tinturaria. 



* 
* 



Quanto aos productos animaes, a seccura do clima, 
a asperesa das regiões montanhosas e a inconstância 
das correntes de agua, impediram sempre a criação do 
gado graúdo nas vertentes do mar Jonio e do Archi- 
pelago. Os bois só eram empregados nos trabalhos da 
cultura e no transporte dos géneros agricolas, e a 
carne contribuia muito pouco para alimentar a popula- 
ção. Em todo o caso, tanto essa espécie, como a dos 
buffalos, criava-se em grande quantidade na Romelia. 

Pelo contrario, as condições do paiz eram favoráveis 
á criação do gado miúdo. Havia muitos carneiros tam- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 489 



bem na Romelia, e a oeste, na região dos lagos e nas 
planicies visinhas do Pindo. Criavam-se muitas cabras 
em todas as regiões montanhosas, A Romelia alimentava 
egualmente bons cavallos, que tinham conservado alguns 
dos caracteres da raça árabe. E, em volta de Athos, 
eram numerosos os cortiços de abelhas. 

Quanto á pesca, os Turcos tiravam grande proveito 
da pesca das sanguesugas nos pântanos e lagos, e das 
esponjas, finas e grossas, a que se entregavam em 
grande numero, no Archipelago e nas costas da Syria 
e Berbéria. 



A exploração dos mineraes era quasi nulla, por 
causa das restricções do Governo, postas á sua ex- 
tracção, e pela falta de communicações. E, comtudo, 
a Turquia era abundante em hulha, cobre, chumbo, 
ferro e betume. 

A bacia hulheira do mar Negro, em Erelch, a antiga 
Heraclea, podia bastar por mais de um século ás neces- 
sidades da navegação interior do Mediterrâneo, se 
fosse explorada; e immensos jazigos, também inexplo- 
rados, existiam na Albânia. Acontecia a mesma coisa 
com o ferro, porque também na Albânia havia muitos 
jazigos, que não estavam aproveitados. O chumbo 
argentifero era muito abundante na região do Pelion 
e de Xanti, mas estava egualmente pouco explorado. 
As minas do cinabrio, perto de Seres, é que foram 
mais bem aproveitadas. 

Produzia-se muito sal na região do golfo de Salonica. 
E o Estado é que fazia explorar os pântanos e fontes 



490 A HISTORIA ECONÓMICA 



salgadas, perto do cabo de Panoni e Katerina, embora 
muito insufficientemente, como, em geral, acontece 
com os monopólios do Estado. 



Não havia na Turquia verdadeiramente industria. 
Os camponezes, isolados ou reunidos em corporações, 
trabalhavam num pequeno numero de matérias primas 
necessárias á habitação, ao alojamento e ao transporte. 

E, alem d'isso, o Tanzimat ou regulamento que, depois 
de 1839, carregou de pesados impostos todos os ramos 
da industria, arruinou uma certa ordem de misteres, 
outr'ora prósperos e celebres, como foi a industria dos 
estofos de seda. A Turquia da Europa já nem traba- 
lhava toda a seda que produzia. Era em Salonica onde 
residia o maior numero dos operários d'esse mister. 

Andrinopla possuia algumas fabricas de curtimenta, 
de pannos, tapetes e lanificios. Se ajuntarmos as fabricas 
de armas de Uskub e de Prichtina, cujos productos infe- 
riores iam sendo gradualmente substituidos pelos simi- 
lares da Gran Bretanha, França e Bélgica, e a fabrica 
de louça de Dardanellos, teremos a lista quasi completa 
das industrias da Turquia da Europa. E mesmo essas 
poucas eram, geralmente, exercidas pelos estrangeiros ; 
porque os Turcos tomavam uma parte minima no tra- 
balho que se produzia no seu império, tanto em relação 
á industria, como ao commercio. 

Differentes causas contribuiam também para os 
tornar menos activos que os representantes das outras 
nações. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 491 



Primeiramente, era entre elles que se recrutavam os 
senhores do paiz; e a sua ambição levava-os natural- 
mente para as honras e para os prazeres da ociosidade. 
Por desprezo de tudo que não era mahometano, e por 
incúria e ociosidade, só raramente aprendiam as Hnguas 
estrangeiras, de modo que estavam á mercê das outras 
raças, mais ou menos polyglotas. 

Alem d'isso, a lingua turca era um instrumento diffi- 
cil, para se manejar utilmente, por causa dos diversos 
systemas de caractere^ que se empregam, e grande 
numero de palavras árabes que se encontram na lingua- 
gem litteraria. 

E accrescia ainda que a fatalidade que o Alcorão 
ensina aos Turcos, tirava-lhes toda a iniciativa; por 
forma que, fora da rotina, elles nada mais sabiam fazer. 

A polygamia e a escravidão eram também para elles 
duas grandes causas da desmoralisação, que é sempre 
inimiga do trabalho. E, ainda que somente os ricos 
pudessem ter o luxo do harém, os pobres aprendiam, 
pelo exemplo dos senhores, a não respeitar a mulher, a 
corromper-se e aviltar-se; e tomavam também parte 
n'esse tráfico de carne humana, que a polygamia neces- 
sita, e que affecta as faculdades do trabalho. 

* 

* * 

Tudo o que fica exposto resentia-se no commercio, 
como já fizemos ver. E, porisso mesmo, depois da 
construcção dos caminhos de ferro, esse commercio era 
pequeno. Os cereaes, lans, pelles, passas, seda bruta, 



492 A HISTORIA ECONÓMICA 



as madeiras e os fructos é que formavam as principaes 
carregações. 

Esse commercio estava, principalmente, na mão dos 
Gregos, Arménios e Israelitas; e, graças a todos estes, 
foi augmentando bastantemente nos portos da Turquia. 

Os paizes com que o tráfico principalmente se fazia, 
eram a Inglaterra, França, Áustria e Hungria, Rússia, 
Bulgária e Itália. 

Ainda assim, Constantinopla representava um dos 
portos mais activos do mundo; porque lá se estabeleciam 
e estreitavam as relações maritimas da Europa Occiden- 
tal e meridional com as ricas regiões, tanto europeias 
como asiáticas do mar Negro; e lá passavam as enor- 
mes carregações de cereaes dos paizes danubianos e 
russos, com destino aos portos do occidente. 

Salonica, embora tivesse um movimento dez vezes 
menor, era também um porto considerável, por ser o 
logar da exportação do trigo, cevada, milho, pelles, 
algodão e tabaco da Macedónia; e os navios inglezes, 
francezes e austríacos levavam lá o assucar, café, cou- 
ros e licores. 

A marinha mercante era muito pouco importante, 
assim como a cabotagem e vapor; e estavam na mão 
dos estrangeiros. 

* 



Quanto aos centros principaes, já falíamos de Cons- 
tantinopla, a antiga Bysancio dos Gregos e Romanos, 
a Tzaganda dos Russos da meia edade, também deno- 
minada Stambul. Era uma cidade decaída, cheia de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 493 



ruinas, com edifícios baixos e ruas estreitas e sujas, onde 
vagueavam innumeros cães e muitos porcos. Mas a sua 
situação é admirável e a sua paysagem é deslumbrante. 

Edificada, no primeiro quartel do século VI, por 
Constantino o Grande, no logar da antiga Bysancif^, 
os seus alicerces e as suas construcções foram solidi- 
ficadas no sangue e cadáveres de milhares e milhares 
de escravos, violentados ao trabalho, como aconteceu 
mais tarde com a edificação de S. Petersburgo. 

Segundo a tradicção, um anjo é que determinou 
áquelle imperador essa situação; e o fundador e seus 
successores foram attraindo a população por violências 
e privilégios, e enriquecendo a cidade com os despojos 
artísticos de Roma e da Grécia. 

Aconteceu com ella o mesmo que succedeu quanto 
á Itália. Todos os povos a cubicaram. Porisso, foi cer- 
cada pelos Persas, Árabes, Avaros, Búlgaros e Russos. 
Os próprios christãos da quarta cruzada tão tentadora 
a acharam, que trataram também de a conquistar, dei- 
xando, porisso, de ir a Jerusalém, e n'ella fundaram o 
chamado império latino ^. Retomada por Miguel Paleo- 
logo, na segunda metade do século XIII, caiu depois, 
em 1433, sob o jugo de Mahomet II, que lá estabeleceu 
a sede do império ottomano. Mas, apezar d'isso, os 
Russos não deixaram de cubicar essa cidade, que lhes 
asseguraria uma grande importância na Europa; e, ainda 
no século XVIII, foi preciso que a França, Inglaterra e 
Sardenha lhes contivessem os Ímpetos e a cubica ^. 



1 Vide vol. II, pag. 46 e 145. 

2 Vide vol. V, no capitulo da Rússia. 



494 A HISTORIA ECONÓMICA 



Foi n'essa cidade que se recolheram e refugiaram 
os restos da civilisação gfrega e latina, para evitarem a 
atrocidade dos bárbaros; e depois, fugindo á conquista 
de Mahomet, se espalharam por differentes regiões da 
Buropa, como tochas reluzentes das épocas antigas, 
produzindo a renascença das lettras e das artes. Recor- 
dando isso, a alma dilata-se pelo respeito e veneração da 
cadeia providencial que prendeu os séculos pretéritos 
aos séculos futuros, n'um elo doirado de luz e de pro- 
gresso, e pela admiração dos nomes de Petrarca, Bocacio, 
Manoel Chrysoloro, Jorge Hermonymo, Cosme de Me- 
díeis, Marsilio, Ticino, Pico de Mirandola, Reichilin, e 
tantos outros clarões d'essa renascença, que abriram 
caminho á nova civilisação. 

Quanto á situação e paysagem, de uma das maiores 
eminências, via-se de um lado as casas de Stambul, as 
torres, os vastos zimbórios das mesquitas e os elegan- 
tes torreões, guarnecidos de balcões, elevarem-se em 
amphitheatro nas sete collinas da peninsula, em que a 
cidade foi edificada. Do outro lado do porto, outras 
differentes mesquitas e outras torres, entrevistas atravez 
do cordame e dos mastros empavesados, estendiam-se 
pelas collinas coroadas de casas e palácios no bairro de 
Pêra. Ao oriente, a costa da Ásia, adiantando-se n'um 
promontório, egualmente coroado de edificios, jardins 
e arvoredo, com os bosques da Judeia, abaixando-se em 
tufos de flores sobre o Bosphoro. Alem, Scutari, a 
Constantinopla asiática, com as suas casas refulgentes 
e o seu vasto cemitério, cheio de cyprestes, a contras- 
tarem, pela côr sombria e aveludada, com as tintas claras 
dos sycomoros, castanheiros e plátanos, espalhados nos 
arredores, e com as moitas de rosas selvagens, que crés- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 495 



ciam por entre as fontes. Mais longe a Kadi-Kei, 
antig-a Calcedonia e a aldeia de Prinkipo, sobre uma 
das ilhas do archipelago dos Principes, fazendo realçar, 
pela verdura da sua vegetação e amarellidão das suas 
rochas, as aguas azues do mar de Mármore. Finalmente, 
o admirável contorno e claridade das costas da Europa 
e da Ásia, as sinuosidade e belleza de Bosphoro ou 
Corno de Ouro e do golfo de Nicomedia; e a esbater-se 
a distancia, acima dos valles umbrosos, a massa pyra- 
midal do Olympo e da Bythinia, quasi sempre cercados 
de neve. Tudo isso dava á paysagem um aspecto mara- 
vilhoso e phantastico. 

Esse aspecto augmentava a attracção dos estrangei- 
ros, e até dos commerciantes e industriaes; e já vimos 
como o commercio era importante. 

Galipoli, a Constantinopla do Hellesponto, edificada 
na extremidade Occidental do mar de Mármore, que foi a 
primeira cidade conquistada pelos Turcos no território 
da Europa, e Andrinopla, a segunda cidade da Turquia, 
eram centros de alguma importância, especialmente 
Andrinopla. 

Já falíamos de Salonica, a terceira cidade, que era 
um centro notável. 

De resto, a Turquia, que segundo já vimos, era 
pouco industrial e commercial, tinha também poucos 
centros económicos importantes. 

Na parte hellenica, mereciam menção especial 
Larissa e Rodosto. Na Albânia, Prisrend, Skodra 
(Scutari) e Janina, que concentravam o commercio 
interior, e Goritza, ao sul do lago de Okrida, que era 
também um logar muito frequentado, graças á sua situa- 
ção na vertente do mar Adriático e na do mar Egeu. 



496 A HISTORIA ECONÓMICA 



E na Bósnia, a sua antiga capital, Serajevo ou Bosnia- 
Serai, e Travnik, Banjaluka, Zvornik, que vigiava a 
fronteira servia, e era entreposto para os dois paizes 
limitrophes ; Novibazar, que commerciava muito com a 
Albânia; Tuzla, que tinha abundantes minas de sal; 
Mostar, e Trebinjé, que importava alguns géneros do 
littoral dalmatico. 



Quanto ás vias de communicação, mesmo nos últi- 
mos tempos do século XIX, eram muito pouco nume- 
rosas e muito mal tratadas. 

A grande artéria carrossavel era o caminho de 
Constantinopla a Albânia e aos confins da Servia, e 
de lá, á Bósnia. 

Depois da construcção dos caminhos de ferro, 
estabeleceram-se novas estradas carrossaveis, para lhes 
servirem de afluentes; mas, ainda assim, essas estradas 
somente serviam uma zona de poucos kilometros, á 
direita e á esquerda das vias férreas. E estas mesmas 
vias, nos últimos tempos do século XIX, não exce- 
diam 1:812 kilometros, comprehendendo a Romelia 
Oriental. 

Só depois de muitas resistências e difficuldades, 
é que se fez uma combinação com os caminhos de 
ferro sérvios e búlgaros ; porque os homens de Estado 
ottomano temiam a cohesão com os visinhos, cujas 
intenções lhes eram suspeitas; e tanto mais que os 
caminhos de ferro construídos em território turco, mas 
internacionalmente relacionados, não podiam deixar de 



EDADE CONTEMPORÂNEA 497 



favorecer o commercio allemão e enriquecer, portanto, 
os inimigos mais perigosos do império ottomano e dos 
outros povos da peninsula. 

E esta falta de communicações terrestres mais grave 
se tornava, pela deficiência das aquáticas ; porque a 
Turquia não tinha canaes, e dos seus rios, só o Drin é 
navegável numa certa extensão. O Maritza apenas o é 
desde Andrinopla. E o Vardar, por ser muito lodoso, 
é também muito pouco navegável. Alem d'isto, esses 
rios são muito inconstantes de inclinação e volume, para 
poderem ser utilisados de uma forma normal ^. 



1 E. Reclus, Nouvelle Gèographie Universelle, Europe Meri- 
dional, La Turquie. — Onesine Reclus, obr. cit. — Mareei Dubois et 
Kergomard, Prècis de Gèographie Economique. — hamer L Europe. 
— Ami Boué, La Turquie dEurope, Fanshawe Tozer, Researches in 
the Higlands of Turkeij. — Raoul Bourdier et Leonard Chodzho, 
Histoire de Turquie. 

Volume VI 32 



CAPITULO XVI 

A península dos balkans 

II 

Bulgária e Romelia 

Leve esboço da historia politica da Bulgária e Romelia, depois que 
se tornaram independentes da Turquia. — Agricultura ; pro- 
ductos agricolas e regimen da propriedade.- — Florestas e legis- 
lação protectora d'ellas. — Industria. — Commercio. — Centros 
económicos principaes. — Communicações. 

Como vimos, a Bulgária foi constituída, em 1879, 
pelo tratado de Berlim, em Principado vassallo do 
Estado ottomano, sob o reinado de Alexandre l Bat- 
temberg- (1879-1886), mas, dotado de facto, de uma 
verdadeira independência. E, em 1886, a Romelia Orien- 
tal, que o mesmo tratado de Berlim tinha organisado 
em provincia autónoma e tributaria da Porta, renun- 
ciou á sua existência própria, para se fundir n'aquelle 
Principado búlgaro, augmentando-o, por isso, em quasi 
um terço de população e superficie. Reinou, então, Fer- 
nando I (1886-1909), tendo succedido a Alexandre I, que 
fora deposto. 

As condições geraes da natureza económica deste 
Estado são, geralmente, as mesmas da peninsula dos 
Balkans, de que já falíamos; e foram também equiva- 
lentes os factores industriaes e commerciaes, até que 
elle pôde emancipar-se da Turquia. 



500 A HISTORIA ECONÓMICA 



Chamamos, por isso, a attenção dos leitores para o 
que já expuzemos, em relação a toda a peninsula, e só 
notaremos a maior o seguinte : 

Até 1878, em que se constituiu o Principado, era 
enorme na Romelia a cultura das rosas e a fabricação 
das suas essências. Entre as 123 aldeias da Thracia 
Oriental que se entregavam a essa cultura, 42 perten- 
ciam ao valle de Kezanlik, e só ahi se fabricava a 
metade dos 1:650 Icilos de essências que o Oriente 
produzia. Depois das rosas, o tabaco era o producto 
que dava mais rendimento. 

Havia na Bulgária, como no resto da peninsula, 
muito trigo, que era o cereal mais importante, e muito 
centeio, que era destinado á alimentação das classes 
ruraes, sobretudo, nas montanhas. 

A cevada era empregada no alimento dos cavallos, 
e era também exportada para as cervejarias inglezas e 
allemãs. O milho dava-se abundantemente nos valles e 
nas regiões meridionaes, e era exportado para a Tur- 
quia ou utilisado na destillação do álcool, cujos resi- 
duos serviam para engordar o gado. 

Quanto ao vinho e arvores fructiferas, nada temos 
a acrescentar ao que já dissemos, com relação á Tur- 
quia. Muito poucos fructos e muito pouco vinho. Havia 
também muito pouco linho e sezamo. 

E a industria, commercio e communicações, estava 
tudo muito reduzido. 



Depois da constituição do Principado, embora a 
natureza do solo, e, portanto, os productos naturaes 



EDADE CONTEMPORÂNEA 501 



fossem os mesmos, deu-se uma grande transformação 
no estado económico do paiz. 

Assim, antes disso, havia muitos grandes dominios 
ou latifúndios, que estavam na mão dos proprietários 
turcos; mas os Mussulmanos foram emigrando, também 
em grande numero, e os camponezes foram adqui- 
rindo por baixo preço as terras que podiam cultivar. 
E, com isto, o regimen geral do solo tornou-se na 
pequena propriedade. 

As florestas búlgaras que, antes da independência, 
cobriam quasi metade do Principado, é que principia- 
ram a ser destruídas tão rapidamente e nesciamente, 
que foi preciso uma legislação protectora, para as 
reconstituir. E entre as essências de que já falíamos, 
tratando especialmente da Turquia, as nogueiras for- 
neciam matéria prima abundante para os marceneiros 
da Áustria. 

A criação do gado foi objecto de cuidados intelli- 
gentes e proveitosos, que melhoraram a qualidade das 
raças. 



A industria é que, mesmo depois da emancipação 
do paiz, não tomou grande desinvolvimento ; já pela 
falta de capitães; já porque a mocidade se dedicava, 
de preferencia, ás occupações liberaes ; e já porque os 
estrangeiros, mais bem providos de capitães e habilita- 
ções, não se animavam a valorisar as riquezas da natu- 
reza, que o Governo desejava antes reservar para os 
nacionaes ; e também porque o desinvolvimento que as 



502 A HISTORIA ECONÓMICA 



communicações tomaram, facilitou a importação dos 
productos estrangeiros, que eram mais baratos. 

Em todo o caso, a industria do sirgo tornou-se uma 
das principaes riquezas da Bulgária. Os criadores fran- 
cezes, nos últimos 50 annos do século, vinham prover-se 
das sementes ao valle de Kezanlik. Depois essa indus- 
tria foi quasi abandonada, em consequência das doenças 
do mesmo sirgo, e só retomou o seu desinvolvimento 
nos últimos annos, quando as descobertas de Pasteur 
lhe deram a segurança. 

A fiação e tecelagem de lan occupava um grande 
numero de estabelecimentos, quasi todos situados nas 
pequenas cidades encostadas aos Balkans, onde as 
quedas de agua forneciam a força motriz, como Slivno, 
Karlovo, Kalofer, na Romelia oriental ; e Gabrova, Se- 
velievo e Tirnova, na Bulgária. 

Quanto ás industrias mineraes, a única exploração 
que existia, mesmo no fim do século, era o do carvão 
de terra, que tinha jazigos abundantes. 



O commercio dependia estreitamente da agricul- 
tura. Se as colheitas eram abundantes e o preço elevado, 
a exportação dos cereaes fazia afluir o dinheiro dos 
estrangeiros, e a importação tomava um grande incre- 
mento. No caso contrario, o consumo restringia-se por 
toda a parte. 

Esse commercio desinvolveu-se bastantemente com 
as communicações férreas. E os principaes paizes com 
que elle se fazia, eram a Áustria, a França e a Inglaterra. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 503 



Os centros principaes eram Chumla, Rustchuk, 
Monastir ou Bitolia. Nich ou Nissa, a sentinella, collo- 
cada na fronteira da Servia, n'um afluente do Morava ; 
Sofia, antiga Sardica, a capital do Estado, situada 
sobre o Ysker danubiano ; Bazardjik, ou o mercado 
impropriamente designado pelo nome de Tatar-Bazar- 
djik; e a bella Philippopuli, que domina o curso do 
Maritza. 



Quanto a communicações, já dissemos o estado 
geral das communicações da Turquia. Mas, com res- 
peito á Bulgária, na ultima quadra do século, três 
grandes linhas férreas a atravessavam, a saber: 

1/ A linha de Vienna a Constantinopla, n'um 
comprimento de 370 kilometros, passando por Sofia, 
Philippopuli e o valle do Maritza; 

2.^ A linha que, do occidente da Europa passa por 
Bucarest, Rustchuk e Varna, e vai dar ao mar Negro ; 

A 3/ destacava-se da grande linha de Sofia-Cons- 
tantinopla e Tirnova-Seymen ; ia servir o porto de 
Bugas, e que estava a ser completado por duas outras 
novas linhas, que, atravez dos Balkans, tinham de ligar 
Sofia e Philippopuli ao valle do Danuhio \ 



' E. Reclus, obr. cit. — Mareei Dubois et Kergomard, obr. cit.- 
Lanier, VEurope. — Piolet & Bernard, Histoire Contemporaine. - 
Albert Malet, obr. cit., e os auctores já citados, quanto á Turquia. 



CAPITULO XVIÍ 

A PENÍNSULA DOS BALKANS 

III 

A Roménia 

Leve esboço da historia politica da Roménia n'este periodo. — 
Aspecto, orografia, hydrografia e clima. — Excellentes condi- 
ções agricolas da Roménia, e como o clima as prejudicava e 
a desarborisação mais aggravava os inconvenientes do clima. 
— Agricultura; preponderância dos cereaes; má organisação 
e mau regimen da propriedade; e de que modo uma lei 
de 1862 modificou esse regimen. — Florestas. — Criação ani- 
mal. — Industria. — Commercio. — Centros económicos princi- 
paes. — Communicações. 

Os Romenos provém de uma grande colónia latina. 

Tendo fundado no século XVI os dois Principados 
distinctos da Valachia e da Moldávia, ambos estes 
foram depois obrigados pela Porta a pagar-lhe um 
tributo annual, guardando, comtudo, a sua indepen- 
dência e o direito de elegerem os seus soberanos. 

Em 1816, os Turcos occuparam as fortalezas rome- 
nas, suprimiram o governo dos hospedares ou sobera- 
nos indigenas, e confiaram a administração de toda a 
Roménia aos Gregos de Phanar, os mais vis e os mais 
' corrompidos funccionarios da Porta. 

O periodo phanariota tornou-se o mais vergonhoso 
e o mais lamentável da historia dos Romenos. 



506 A HISTORIA ECONÓMICA 

O paiz foi entregue impunemente ás exacções sem freio, 
e arrastado nas arbitrariedades e desordens da Turquia. 

Em 1829, depois da guerra dos Russos e dos Tur- 
cos, a Roménia foi occupada pelos exércitos da Rússia 
(1829-1834); mas, pelo tratado de Andrinopla, recupe- 
rou o direito de eleger os seus hospedares vitalicios, 
embora sob o protectorado da Rússia. 

Em 1848, proclamou-se a republica em Bucarest, 
mas os exércitos Russos e Turcos abafaram o movi- 
mento no seu inicio ; e o tratado do Balta-Liman (1849) 
entregou ao sultão a nomeação dos hospedares. 

A guerra da Crimeia foi favorável aos Principados 
romenos, dando-lhes a Besserrabia; e, em 1859, effe- 
ctuou-se a conjuncção dos dois Principados, sob o 
governo do princepe Couza. Mas, entrando este prin- 
cepe no campo das reformas, uma conspiração militar 
de 1866 o forçou a abdicar e exilar-se. 

Foi, então, proclamado um princepe extrangeiro, 
Carlos I de Hoensolern-Sgmaringen, da família real 
da Prússia, que ainda reinava no fim do século XIX. 
E, em 1878, depois de uma guerra da Rússia e Turquia, 
foi proclamada de novo e definitivamente a indepen- 
dência da Roménia, também sob o mesmo rei Carlos I, 
que reinou pacificamente até o fim do mesmo século. 



Quanto ao relevo, a Roménia, physicamente, é uma 
continuação da Rússia. 

Assim, partindo dos cumes das montanhas que for- 
mam a fronteira do lado da Transilvania, encontram-se 



EDADE CONTEMPORÂNEA 507 



tres zonas successivas: a das montanhas, muito estreita 
na Valachia e mais larga na Moldávia, sem, comtudo, 
se estender a uma grande distancia dos cumes; a zona 
das coUinas medias ; e, emfim, a planicie, quasi hori- 
sontal, que occupa a maior parte do paiz, e se estende 
até o Danúbio e Pruth. 

O Danúbio separa a Roménia da Bulgária, num 
comprimento de 125 legoas. Corre ahi lentamente, divi- 
dido em muitos braços, num leito largo, obstruído de 
ilhas e de bancos de areia, entre as margens pantanosas 
da planicie romena e os terraços rochosos e escarpa- 
dos do plató búlgaro. 

Tem como afluentes o Sulina e o Pruth, navegável 
em grande percurso, o Oltu ou Aluta, navegável em 
pequena parte, e outros afluentes ou antes torrentes, 
que descem do plató transylvanio meridional e dos 
Carpathos, e que não são navegáveis. 

E, quanto ao clima, embora a Roménia tenha uma lati- 
tude relativamente meridional, o paiz, largamente aberto 
aos ventos continentaes do nordeste, está submettido 
aos extremos de temperaturas muito violentas. 



A Roménia é excellentemente dotada de condições 
agrícolas; porque as montanhas podem, por uma explo- 
ração racional, fornecer grande proveito das suas flo- 
restas magnificas. 

As collinas são revestidas de uma terra amarella 
de notável fertilidade, e as planicies são formadas de 



508 A HISTORIA ECONÓMICA 



uma terra negra, também de uma fertilidade prover- 
bial; mas esse clima, pelo seu caracter continental 
muito accentuado, não permitte uma grande variedade 
de culturas. Porque a Roménia está largamente aberta 
aos ventos frios das steppes, que sopram durante 
cinco mezes, fazendo seccar tudo na sua passagem, e 
aos ventos quentes do estio, que, muitas vezes, abra- 
zam também as colheitas. 

A par d'ísso, no século XIX, a desarborisação sem 
regra nem medida mais aggravava os perigos d'este 
flagello, e faltava também um systema racional de irri- 
gação que pudesse .atenuar no estio os inconvenientes 
d'aquelles ventos. 

A cultura dos cereaes predominava sobre todas as 
outras. A porção mais vasta e melhor das planicies 
estava occupada por elles; mas os processos eram 
ainda primitivos. A agricultura dos Romenos represen- 
tava um dom do Danúbio, como a do Egypto é do 
Nilo ; mas os trabalhos romenos estavam mais atrasa- 
dos que os dos Egypcios. E, alem d'isso, a organisação 
social e o regimen da propriedade foram por muito 
tempo desgraçados. 

Assim, a nação romena estava ainda no periodo de 
transição entre a edade feudal e a época moderna. As 
revoluções de 1848, mais importantes talvez na Europa 
danubiana do que o foram na França e na Itália, fize- 
ram abalar o antigo regimen, mas não o destruiram. 
Ainda em 1856, os camponezes moldavos e valachios 
eram servos da gleba. Sem direitos, nem segurança 
pessoal, e quasi sem familia, e á mercê dos caprichos 
alheios, os desgraçados passavam a sua existência 
a cultivar a terra dos senhores ou dos conventos, e 



EDADE CONTEMPORÂNEA 509 



viviam em lodosas cabanas, que muitas vezes mal se 
disting-uiam das charnecas, e em montões de imundicie. 
Os donos do solo e dos seus habitantes eram somente 
quasi cinco a seis mil boyardos ^, descendentes dos 
antigos bravos, ou tornados nobres á custa do dinheiro ; 
e entre elles próprios havia uma grande deseg^ualdade. 
Na maior parte, eram apenas pequenos proprietários, 
entretanto que setenta feudatarios na Valachia e tresen- 
tos na Moldávia partilhavam com os mosteiros quasi 
todo o território. 

Um tal estado social devia ter por consequência 
uma grande desmoralisação, tanto nos senhores, como 
nos servos. Os nobres, possuidores do solo, fugiam 
das suas terras, á vista do soffrimento dos servos que 
os incommodava, e iam viver ao longe, na prodigali- 
dade e devassidão, dispendendo no luxo, na prostitui- 
ção e nas mesas do jogo das cidades occidentaes, o 
dinheiro que os intendentes, geralmente gregos, lhes 
enviavam, depois de terem tirado largamente a sua parte. 

Quanto á massa sujeita da população, era, geral- 
mente, preguiçosa, porque a terra, aliás tão fecunda, 
não lhe pertencia. Era desconfiada e mentirosa, porque 
a astúcia e a mentira são as armas do escravo. E era 
ignorante e supersticiosa, porque toda a educação lhe 
tinha sido dada por um clero, também ignorante e 
fanático. 

Os seus popes "' eram, ao mesmo tempo, mágicos, 
e curavam as doenças por encantamentos e filtros sagra- 



1 Os boyardos eram os nobres do reino. 
- Sacerdotes do rito grego. 



510 A HISTORIA ECONÓMICA 



dos. E, quanto aos monges, uns d'elles, grandes pro- 
prietários e possuidores da sexta parte das terras da 
Roménia, eram boyardos de toga, não menos cruéis e 
prepotentes que os senhores temporaes. Os outros não 
passavam também de servos, tendo trocado a escravi- 
dão pela mendicidade. 

Uma lei de 1862, mais ou menos bem applicada, 
durante os annos seguintes, entregou a cada chefe de 
familia agricola uma parte dos terrenos que elle culti- 
vava, variando de 3 a 27 hectares. E, depois d'essa 
época, os lavradores, tornados livres, foram ganhando 
sensivelmente em dignidade e amor ao trabalho ; a 
agricultura e producção começaram a augmentar pro- 
digiosamente ; e os bons methodos de cultura domina- 
ram também, pouco a pouco, os pequenos proprietá- 
rios. Havia, porém, muitos terrenos incultos. 

Seria fácil fazer da Roménia um jardim de tanta 
riqueza como a planicie lombarda, saneando a região, 
pelo enchugamento dos pântanos e pela drenagem das 
aguas, corrigindo os rios por meio de diques, captando 
uma parte das águas supérfluas e distribuindo-as em 
canaes de irrigação, e restituindo á cultura grande parte 
dos terrenos improductivos. Mas, ainda no fim do 
século XIX, regulavam estes por 2.600:000 hectares. 

As culturas arborescentes, que demandam cuidados 
mais delicados, estavam menos espalhadas. Ainda assim, 
as arvores fructiferas eram numerosas ao pé dos Car- 
pathos, sobretudo, as ameixoeiras. 

Nas plantas industriaes, só o cânhamo era abun- 
dante. Tentou-se introduzir a beterraba, mas, pela falta 
de um bom systema de irrigação, pelos longos perío- 
dos de seccura do anno, e pela falta de hulha, as 



EDADE CONTEMPORÂNEA 511 



fabricas de assucar não puderam sustentar a concor- 
rência dos productos similares dos outros paizes assu- 
careiros. 

As florestas eram muito abundantes, apezar das 
imprudências dos habitantes, que obrigaram o Governo 
a fazer parar por algum tempo toda a sorte de explora- 
ção. Ainda se estendiam nos Carpathos vastos macissos 
de pinheiros mansos e bravos e de faias, quasi inabordá- 
veis por falta de vias de communicação; e, na planicie, 
havia bosques de carvalhos. Mas, geralmente, as flores- 
tas eram muito deficientes. 

A criação do gado fazia-se sem cuidado e sem 
methodo. Havia poucos estábulos. Os animais ficavam 
em redis descobertos e expostos, frequentes vezes, a 
frios muito rigorosos. Os bons pastos eram em pequeno 
numero, excepto nos baixos valles. Os animais domés- 
ticos em regra, só pastavam pastos seccos, que convi- 
nham, sobretudo, aos de lan fina, e que eram muito 
abundantes, sobretudo, na Moldávia. A Valachia tinha 
muitos porcos. 



A pesca era uma riqueza dos Romenos. Os habi- 
tantes das costas do Danúbio salgavam e expediam em 
abundância os peixes que se encontravam em grande 
quantidade n'este rio e nos lagos vizinhos, e prepara- 
vam o caviar, que os grandes esturjões lhes proporcio- 
navam. 

Quanto ás outras industrias, a Roménia, paiz essen- 
cialmente agricola, explorava somente as riquezas for- 



512 A HISTORIA ECONÓMICA 



necidas espontaneamente pela natureza. As veias de 
metaes diversos, tão numerosos nos Carpathos, como 
o chumbo, o ferro, as pedras de construcção, a arg-illa 
plástica e mesmo o ouro, eram muito pouco explora- 
das. Somente as veias de petróleo tinham uma explo- 
ração mais prolifica; e já em 1875 produziam 175:000 
hectolitros de azeite mineral. E também as salinas, que 
estavam sujeitas ao monopólio do Estado, e cuja explo- 
ração era feita pelo Governo com operários livres ou 
condem.nados, foram successivamente augmentando em 
producção. De resto, quasi que não havia verdadeira 
industria. 

O paiz era essencialmente agfricola. As moendas, 
distillações, algumas fabricas de papel, de assucar, de 
pannos de lan e de objectos domésticos e grosseiros, 
e de instrumentos de cultura, eram os únicos estabele- 
cimentos onde se reunia um certo numero de operá- 
rios. Em todo o caso, nos últimos tempos do século XIX, 
a Roménia empregou todos os esforços para desinvol- 
ver a industria e aproveitar as suas riquezas naturaes, 
e começou a manifestar-se já um considerável progresso, 
n'esse ponto. 



A riqueza agricola da Roménia e a presença do 
Danúbio deram sempre logar a um commercio activo. 
E esse commercio augmentou muito depois de 1871, 
em que principiou a construcção e desinvolvimento 
das vias férreas. Antes disso, o Danúbio era a única 
porta aberta ao grande movimento das trocas. Quasi 



EUADE CONTEMPORÂNEA 513 



todas as mercadorias eram interpostas no porto de 
Galatz, situado precisamente no angulo do rio onde 
iam converg-ir pelo Sereth os principaes caminhos da 
Valachia e Moldávia. O Pruth, que os vapores, depois 
de 1861, subiam até uma pequena distancia ao norte 
de Jassy, prestava também grandes serviços aos expe- 
didores de géneros, e o Brititza e outros rios que 
descem dos Carpathos, eram grandes vehiculos dos 
transportes de lenha e madeira. Mas faltava uma rede 
bem organisada de vias de communicação terrestre, 
porque os caminhos eram difficeis de construir n'este 
paiz, cortado de correntes de água, sobretudo, na zona 
das planicies, que são as que mais concorrem para ali- 
mentar o tráfico. 

E, de facto, as terras argillosas e molles desfa- 
ziam-se facilmente ; e, para construir estradas perma- 
nentes, seria necessário, como na Hollanda, empregar 
tijolos duramente cosidos, e supprir assim a falta de 
elementos resistentes. 

A cada momento, impunha-se a construcção de 
pontes, e pode bem calcular-se quanto custariam essas 
obras de arte. 

Mas, sem prejuizo dos serviços que aquelles rios 
continuavam a prestar á Roménia e, sobretudo, o Danú- 
bio, que ficou sempre valendo mais que milhares de 
kilometros de via férrea, os caminhos de ferro deram 
outras saídas para o exterior, e, portanto, ampliaram o 
desinvolvimento commercial. 

Por essa viação férrea, e por Jassy, Bukovina 
e Delta do Danúbio, o paiz ligou-se á Polónia, á 
Allemanha do Norte e ás costas do Báltico. Pela linha 
de Jassy e Pruth ficou ligado a Odessa, ao Mar Negro 

Volume VI 33 



514 A HISTORIA ECONÓMICA 



e a todas as linhas da Rússia. Pela ponte de Guirgin, que 
tem cinco kilometros de largura de uma margem á outra 
do Danúbio, e pelo caminho do Varna, as planícies da 
Valachia ficaram em communicação directa com o mar Ne- 
gro. Além d'isso, outras linhas férreas junctavam, atravez 
dos Carpathos, os altos valles transilvanicos ás planícies 
da Hungria; e havia ainda varias ramificações interiores. 

Até 1883, o commercio com o estrangeiro era muito 
liberal. Mas, então, a Roménia cuidou de se proteger, 
como represália ás medidas proteccionistas tomadas 
pelos Estados agricolas, Hungria e França, contra a 
importação dos cereaes romenos. E isso não prejudicou 
a exportação; porque a maior parte do commercio 
passou a fazer-se com a Inglaterra, Allemanha, Bélgica 
e Suissa, paizes esses, onde a agricultura não era a 
fonte predominante da riqueza nacional. 

A importação consistia, sobretudo, em produtos agrí- 
colas, cereaes, fructos, animaes e productos alimentares 
também de animaes. Só os cereaes, nos últimos annos 
do século, representavam 25-28 7o ^^^ exportações. 

As importações mais consideráveis eram as das 
matérias textis, tecidos, metaes em bruto e trabalhados, 
pelles e couros brutos, e combustiveis. 

Os paizes com que a Roménia fazia o principal 
commercio, eram a Gran-Bretanha, Áustria, Hungria, 
Allemanha, França, Turquia e Bulgária, Rússia, Bélgica, 
Itália, Grécia e Suissa. 

* 



Relativamente aos principaes centros económicos, 
Bucarest, a capital da Valachia e da união romena, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 515 



contava-se entre as grandes cidades da Europa. Depois 
de Constantinopla e Pesth, era a cidade mais populosa 
de toda a parte sudeste do continente. Dava-se a si 
própria o nome de Paris do oriente. 

Ainda no meiado do século XIX, era apenas uma 
collecção de aldeias, muito pittorescas por causa das 
suas torres e zimbórios, que brilhavam no meio de 
bosques de verdura. Mas, graças á influencia da popu- 
lação e accrescimo do commercio e riqueza, transfor- 
mou-se rapidamente n'uma grande cidade, cheia de 
bellas ruas, grandes hotéis, praças muito animadas e 
de grande commercio e bastante industria. 

A cidade de Jassy, que foi a capital da Moldávia, 
depois de Sutchava ter sido annexada á Áustria, 
occupa uma situação menos central que Bucarest; mas 
a fertilidade dos seus campos, a vizinhança de Pruth e 
da Rússia, á qual serve de entreposto, a sua posição 
sobre o grande caminho commercial que reúne o mar 
Báltico ao mar Negro, fizeram que essa cidade augmen- 
tasse muito de população, e se tornasse florescente. 

Botochani, ao norte da Moldávia, era uma cidade 
de transito para a Polónia e Gallicia ; e Foltichiani estava 
no mesmo caso, e tinha feiras muito frequentadas. 

O commercio fez também engrandecer as cidades 
de Danúbio : Vilkov, o grande mercado de peixe e de 
caviar ; Kila, a antiga Achilleia, ou cidade de Achilles ; 
Reni ; Galatz, que se diz ter sido uma antiga colónia 
dos Gaiatas, e que era já uma grande cidade commer- 
cial do Baixo Danúbio, e se tornou a sede da commis- 
são europeia das embocaduras ^; Braila, outrora pobre 



1 Adriano Anthero, O Direito internacional, pag. 245. 



516 A HISTORIA ECONÓMICA 



aldeia, quando era uma simples fortaleza turca, e que se 
tornou depois cidade importante por suas moendas. 

Todas estas cidades, situadas sobre o Danúbio, 
eram verdadeiros portos do mar Negro e entrepostos, 
onde vinham armazenar-se os géneros agrícolas, e, 
sobretudo, os cereaes vendidos para o estrangeiro. 

Giurgiu e San Giorgio dos Genovezes, era o porto 
de Bucarest no Danúbio. Turnu-Severino era o porto 
da entrada da Valachia, a juzante dos grandes desfila- 
deiros do rio; Craiova, Pitesti, Ploesti, Buzeu, Tocsani, 
que se elevavam á salda dos altos valles da Transyl- 
vanla; Alexandria, cidade nova, edificada no melo das 
planícies, que se estendem de Bucharest a Oito, e 
grande entreposto de productos agrícolas : eram todas 
cidades importantes pelo seu commerclo. 



Quanto ás communlcações, já a propósito do com- 
merclo falíamos n'ellas, e para ahi remettemos os 
sectores \ 



1 E. Reclus, obr. cit., Nouvelle Geographie Universelle, VEu- 
rope Meridionale. —hanier, obr. cit. — Mareei Dubois & Kergomard, 
obr. eit. — Onosine Reelus, La Ter/e à Vol dOisean. — Vaillant, /a 
Roumanie. — Fr. Danie. la Roíimanie Contemporaine. 



CAPITULO XVIII 

A península dos balkans 

IV 
Servia 

Leve esboço da história politica da Servia, neste periodo. — Aspecto 
e relevo do solo. — Agricultura; como esta preencheu quasi 
unicamente a actividade económica da Servia; regimen da 
propriedade que favoreceu a agricultura; af fluência de estrangei- 
ros que também a favorecem. — Productos e seu augmento, nos 
últimos tempos do século XIX. — Florestas e respeito dos Sérvios 
pela conservação d'ellas. — Apezar d'isso e das leis que a favo- 
receram, sua devastação. — Criação animal. — Industria. — Com- 
mercio. — Centros principaes. — Communicações. 

Quando começou o periodo que estamos tratando, 
a Servia tinha estado, havia três séculos, sujeita ao 
império da Turquia. 

Levantou-se em 1804 contra ella, sob o commando de 
Kara-Georges ; e, após dez annos de uma guerra encar- 
niçada, pôde, com o auxilio dos Russos, expulsar os 
Turcos do seu território. Mas a Rússia abandonou depois 
a Servia; e assim, pelo tratado de Bucarest (1812), ella 
caiu novamente no jugo ottomano. 

Em 1815, um pastor enérgico, Miloch-Obrenovitch, 
animado pela Rússia, chegou a tornar o seu paiz inde- 
pendente, embora sob a soberania da Porta, e foi pro- 
clamado princepe hereditário, em 1827. 



518 A HISTORIA ECONÓMICA 



Divisões intestinas fizeram destituir Miloch (1839) ; 
e, depois de um reinado ephemero de Milan, seu filho 
mais velho, foi egualmente destituido o segundo filho cha- 
mado Miguel (1842). E, os Sérvios elegeram em logar 
d'elle Alexandre Georwitch, neto de Kara-Georges. 

Em 1856, o tratado de Paris declarou que as immu- 
nidades e privilégios concedidos á Servia ficavam, d'ahi 
por diante, coUocados sob a garantia coUectiva das 
potencias. 

Dois annos depois, o princepe Alexandre recusou 
invocar a assembleia nacional, provocando com isso 
uma nova revolução, que o depoz ; e, então, os Sérvios 
chamaram outra vez ao poder o velho pastor Miloch, 
proclamando o governo hereditário na familia d'elle. 

Miloch falleceu, em 1860, e succedeu-lhe aquelle seu 
filho Miguel, que obrigou todos os Mussulmanos a 
abandonarem a Servia, e que foi assassinado em 1868. 

Succedeu-lhe o sobrinho Milan Ovrenovitch. 

Em 1876, a insurreição da Bósnia e Herzegovina 
arrastou os Sérvios a uma nova guerra contra os 
Turcos; e tendo sido vencidos, solicitaram o auxilio dos 
Russos, que os tinha induzido á revolta. Então, os Rus- 
sos invadiram a Bulgária, e bateram os exércitos do 
Sultão. 

O tratado de Berlim de 1872 rompeu os últimos 
laços que prendiam a Servia á Turquia ; assegurou defi- 
nitivamente a independência do principado sérvio; e 
augmentou o seu território de 11:000 kilometros a 
367:000 habitantes. 

Quando, em 1876, se deu aquella insurreição, da Bós- 
nia e Herzegovina contra a Áustria, o princepe Milan impoz 
aos seus súbditos a neutralidade; e o gabinete austro- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 519 



húngaro, grato por este serviço, favoreceu a erecção da 
Servia em reino, e reconheceu, antes de todas as outras 
potencias, o novo rei Milan I (1887-1889). 

Milan I, inquieto pelo engrandecimento da Bulgária, 
que acabava de se junctar á RomeHa, declarou-lhe 
guerra, e foi vencido. 

Esta guerra, junctamente com o seu divorcio da rainha 
Nathalia Stourdza, tornou o rei impopular; e, porisso, 
foi elle obrigado a abdicar em seu filho Alexandre I 
(1889-1903). 

* 
* *■ 

As ramificações dos Balkans cobrem toda a Servia, 
e fazem frente no Danúbio aos Carpathos do Bonato, 
constituindo um planalto, que é formado de altas 
cadeias montanhosas, cheias de florestas, e sulcadas 
pelos profundos cortes de Morava e seus afluentes. 

O clima é o mesmo da AUemanha meridional, 
sujeito a mudanças bruscas, desde 41" no estio, a 16^ 
no inverno. 

Por isso as condições do solo e clima eram favorá- 
veis para a agricultura. Mas, tendo-se dado o caso da 
Servia andar até 1876, mais ou menos agitada pelas 
luctas intestinas, e quasi sempre sujeita ao domínio dos 
Turcos e da Rússia, estando, demais a mais, destituída 
de communicações, como veremos, e sob a dependência 
e concorrência industrial de dois grandes Estados — a 
Áustria e Hungria, é concludente que o seu desinvol- 
vimento económico devia ser insignificante. E, real- 
mente, achava-se limitado quasi exclusivamente á agri- 
cultura. 



520 A HISTORIA ECONÓMICA 



Mas, n'essa parte, o regimen da propriedade favore- 
cia o desinvolvimento ; porque, embora houvesse também 
divisão do solo em communidades familiares que pos- 
suiam e cultivavam em commum o terreno que lhes 
pertencia, havia muitos proprietários que constituiam 
a pequena propriedade. 

Alem d'isso, depois da guerra da independência, 
vastos terrenos saqueados se encontravam sem dono; 
e o governo sérvio teve a boa ideia de os offerecer 
gratuitamente aos agricultores romenos que se obri- 
gassem a cultival-os. 

Multidões de Valachios appressaram-se, então, a 
acceitar essa offerta, fugindo ao regulamento orgânico, 
pelo qual a sua pátria os condemnava a uma verda- 
deira escravidão; e repovoaram logo em grande multi- 
dão as aldeias abandonadas, dando aos campos o 
adorno das suas ceifas. 

Laboriosos, económicos e com familia, foram adqui- 
rindo meios de fortuna; e algumas até das novas coló- 
nias passaram o rio Morava. E da mesma forma que no 
Bonato e nas outras regiões da Servia do sul, um 
grande numero de aldeias se tornaram romenas. 

Os Romenos emigrados punham mais zelo em ins- 
truir os seus filhos; e, nos seus districtos, as escolas 
eram duas vezes mais numerosas que no resto da 
Servia, embora o ensino se fizesse em lingua slava. 
E isso influia egualmente no desinvolvimento do 
paiz. 

Concorreram também á Servia milhares de Slavos, 
vindos da Hungria e Slavia, para escaparem ao governo 
dos Magiares e fazerem parte da nação independente. 
E mesmo os colonos búlgaros, atraidos pela liberdade 



EDADE CONTEMPORÂNEA Õ21 



servia, vieram estabelecer-se fora das fronteiras turcas, 
nos valles do Timock e do Morava. 

A população augmentou, assim, depois da indepen- 
dência, com o excedente dos nascimentos do paiz e 
com essa emigração, vinte mil pessoas por anno. 
E este augmento de população contribuiu egualmente 
para a expansão da vida agrícola. 

Mas, apezar de tudo, ainda no ultimo quartel do 
século XIX, só estava cultivada uma oitava parte do 
solo da Servia, e quasi por toda a parte, a exploração 
era das mais barbaras. A não ser nos valles mais férteis 
como no baixo Timock, um pousio annual succedia a 
cada colheita. E, sem os mercenários que vinham cada 
anno fazer os trabalhos d'essa colheita nos campos da 
Servia, os habitantes mal teriam com que se ahmentar. 

Nos últimos tempos do século, as coisas foram 
mudando. Já havia muito milho, trigo, cevada e legu- 
mes. A cultura da vinha formava um dos rendimentos 
mais importantes da população, tanto mais que a 
videira encontrava por toda a parte condições espe- 
ciaes de terreno e clima. Especialmente, o solo calcário 
dos cabeços do sul, prestava-se maravilhosamente ao 
desinvolvimento d'essa cultura. E os Sérvios trataram 
de fazer vir da França as melhores espécies e de 
aperfeiçoar os seus processos de viticultura e vinifi- 
cação. 

Nas arvores fructiferas, convém especificar as amei- 
xoeiras, cujos fructos eram um artigo importante do 
commercio. Não só havia muitos pomares d'ellas, mas 
até verdadeiras florestas. E as ameixas eram vendidas 
em quantidade enorme aos estrangeiros, e applicadas 
também para a fabricação da aguardente. 



522 A HISTORIA ECONÓMICA 



As nogueiras eram abundantes. As macieiras e 
pereiras é que não prosperavam n'aquelle ceu. 

Nas plantas industriaes, havia o linho e o cânhamo 
em abundância. 

* 

Antigamente, a Servia era uma das regiões mais 
cheias de florestas da Europa. Todos os montes se 
achavam revestidos de carvalhos. Quem mata uma 
arvore, mata um sérvio, dizia um velho provérbio, que 
datava certamente do tempo em que os rayas ou servos 
opprimidos, se refugiavam nas florestas ou nas santas 
arvores que lhes serviam de templo. 

Mas esqueceu-se o provérbio; e, até 1876, foi grande 
a desarborisação em vários districtos das montanhas, 
devido á queima que os pastores faziam de muitas 
arvores, para alimentar o fogo nocturno, á destruição 
feita pelo povo sem ordem nem regulamento, e ao 
dente das cabras e porcos, dois grandes inimigos da 
vegetação, que roiam as plantas novas e tenras, devo- 
ravam as folhas, e escavavam e descobriam as raizes. 

Ultimamente, algumas leis protegeram as florestas; 
mas essas leis, raramente applicadas pelas communas, 
quasi que ficaram sem effeito. 

Em alguns districtos, era-se já obrigado a importar 
lenha e madeira da Bósnia. Em todo o caso, nos outros 
districtos, ficou ainda grande abundância de lenha e 
madeira, e especialmente de carvalhos. 

Havia ainda no principio do século, muitos animaes 
selvagens, ursos, lobos, sabujos e camurças ; mas, no 



EDADE CONTEMPORÂNEA 523 



fim do século, estavam elles quasi destruídos, devido 
aos caçadores, e também, em parte, á devastação das 
florestas. Os pântanos regorgitavam de sanguesugas, 
como na Turquia. 

Quanto aos animais domésticos, a Servia era o paiz 
da Europa que relativamente alimentava mais carneiros. 

Os porcos, de excelente raça, eram exportados em 
grande numero. Os bois e búfalos, muito abundantes 
até 1870, soffreram uma grande diminuição depois 
d'isso. 

Antes das relações com a China e Japão, criava-se 
muito sirgo ; mas por um lado, essas relações fizeram 
pela concorrência acabar com a industria da seda na 
Servia, e, portanto, com a criação do sirgo; e, por 
outro lado, sobreveiu a doença d'este verme. 



* 
* 



A industria estava ainda na infância, apezar das 
boas condições naturaes. Os estabelecimentos indus- 
triaes que existiam, eram, geralmente, propriedade dos 
capitalistas estrangeiros. Mesmo no fim do século, os 
Sérvios somente exerciam um pequeno numero de indus- 
trias alimentares e domesticas. 

A Servia possuia minas de ferro, cobre, chumbo e 
mesmo de prata; e não faltava a hulha, para pôr em 
pratica todas essas riquezas. Mas tudo isto era quasi 
totalmente improductivo, por falta de exploração. 

De mais a mais, a Servia tinha o grande mal de 
desprezar todos os trabalhos manuaes que não fossem 



524 A HISTORIA ECONÓMICA 



de agricultura. Apenas, como já dissemos, os Búlgaros 
lá estabelecidos é que exerciam alguma industria, e só 
Belgrado é que representava um centro industrial impor- 
tante. 



O commercio era também muito pequeno. 

A Servia exportava principalmente porcos mal engor- 
dados, que eram expedidos por milhares para a AUe- 
manha. A venda d'este producto constituía o principal 
rendimento dos lavradores. Mas vendiam também outros 
gados, fructos, madeiras, e, nos últimos tempos do 
século, alguns cereaes. 

Compravam tendas e diversos productos manufactu- 
rados. 

As trocas fazíam-se principalmente com a Allemanha, 
Hungria, Inglaterra e França. 



Quanto aos centros principaes, havia Belgrado, a 
capital, a antiga Singidunum dos Romanos e Alba 
Graeca de meia edade, que se transformara numa bella 
cidade industrial e commercial, depois da independência 
da Servia; e era um entreposto commercial necessário 
entre o occidente e oriente ; Chabatz sobre o Sava, que, 
segundo diziam os habitantes, se tornou um pequeno 
Paris ; Pozareratz sobre o Danúbio, celebre na historia 
pelo tratado do mesmo nome ; Semederevo (Semendria), 
donde partiu o signal da independência. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 525 



Quanto a communicações, estavam ainda muito 
incompletas. 

As estradas eram muito imperfeitas e muito raras. 
Mas, nos últimos tempos do século, os caminhos de ferro 
é que representavam uma figura internacional conside- 
rável ; porque a linha servia era a passagem da grande 
via que ia do occidente a Constantinopla e Salonica, 
E, alem d'isso, havia outras, sendo as principaes de 
Belgrado a Nissa, Vranja, e Tzaribod ; e a do Sme- 
derevo e Plana. 

Por temor dos Turcos, os Sérvios tinham-se opposto 
sempre a deixar construir no seu território uma linha 
que ligasse Philoppopuli ao caminho húngaro, mas a 
construcção d'essa linha foi-lhes imposta no congresso 
de BerHm de 1872. 

Quanto ás communicações fluviais, o Danúbio, de 
Belgrado (no confluente do Sava), a Negotin (no con- 
fluente do Timock), pertence por sua margem direita á 
Servia. O Sava, saindo da Bósnia, passa diante da forta- 
leza serva de Schabatz e reune-se ao Danúbio entre 
Semlim e Belgrado, formando a grande Ilha da Guerra. 
Os afluentes do Sava sérvio são o Drina, o Tara e o 
Kolubara. 

O Danúbio recebe também o rio sérvio por exce- 
lência — o Morava sérvio, o Morava búlgaro e o 
Timock. 

Antigamente, o Morava sérvio era navegável na maior 
parte do seu curso, e numerosas embarcações do com- 



526 A HISTORIA ECONÓMICA 



mercio o subiam e desciam em qualquer das estações. 
Mas, no ultimo quartel do século XIX, o volume das 
suas aguas era muito irregular para que se pudesse 
organisar um serviço de barcagens regular. E, em parte, 
era isso devido á desarborisação das montanhas da 
Servia. 



CAPITULO XIX 

A península dos balkans 

V 
Montenegro 

Leve esboço da historia politica do Montenegro, n'este periodo. — 
Como primeiramente eram occupados os pastos e florestas das 
montanhas. — Incursões dos montanhezes nos valles para colhe- 
rem os comestíveis á mão armada. — Como tudo isso mudou, 
pela intervenção da Europa. — Productos. — Ag-ricultura. — In- 
dustria. — Commercio. Centros principaes. — Communicações. 

Como já vimos, o Montenegro, no principio do 
periodo de que estamos tratando, estava ainda sujeito 
á Turquia. Mas, depois de uma guerra tenaz, que, 
embora tivesse differentes intervallos, durou desde 1815 
até 1852, pôde obter então a sua independência, sob o 
Governo do princepe Danilo (1852-1860). 

Este princepe foi assassinado, e substituido n'esse 
mesmo anno pelo seu sobrinho Nikolo (Nicolau I), que 
ainda era vivo e governara no fim do século. E a lucta 
com a Turquia continuou até que, no congresso de Ber- 
lim (1878), foi assegurada a independência do Monte- 
negro. 



O relevo e aspecto assemelha-se a um enorme pas- 
tel de cera cheio de milhares de alveloas, ou um tecido 



528 A HISTORIA ECONÓMICA 



de milhares de cellulas: tanto as montanhas são conti- 
nuadas e cheias de pequenos valles ou pequenas cavi- 
dades. 

O Montenegro tem apenas um rio navegável, o 
Tsernoievitja, que se lança no nordoeste do lago Scutari. 

O clima é muito rigoroso no inverno, e muito doce 

no estio. 

* 



Antes da invasão dos Osmanlis, as altas bacias do 
Montenegro não eram ainda habitadas. Os pastores e 
bandidos eram as únicas pessoas que percorriam os 
pastos e as florestas. Mas, para evitar a escravidão, os 
habitantes dos valles inferiores tiveram de refugiar-se 
no meio das rochas elevadas, sob o áspero clima das 
alturas, e de prover á vida, pela cultura, criação do 
gado e, muitas vezes, até pelo roubo. 

Não podendo a exploração barbara de um solo de 
pequenos recursos proporcionar aos Montenegrinos 
senão fracos recursos, muitas vezes, a necessidade 
tomava a proporção de verdadeira fome. 

Numerosos fugitivos da Bósnia, escapados ao jugo 
mussulmano, augmentavam ainda a miséria, parcellando 
extremamente os terrenos cultivados; porque o regi- 
men da propriedade do Montenegro era, então, o das 
communidades, e foi preciso dividir por esses fugitivos 
o solo em propriedades particulares de innumeraveis 
parcellas. Os pastos, porém, continuavam communs 
segundo o velho costume sérvio. 

As incursões nos valles limitrofes tornavam-se 
também uma necessidade. Muitas vezes, os Sérvios só 



EDADE CONTEMPORÂNEA 529 



podiam escolher entre o morrer de fome, ou nos cam- 
pos de batalha, em resultado d'essas incursões annuaes. 
E, porisso, estas mesmas incursões, até que a Europa 
lhes poz termo, não passavam de colheitas á mão armada. 

Mas, depois que a Europa se intrometeu nas conten- 
das dos Montenegrinos e Turcos, as fronteiras do Mon- 
tenegro foram precisamente limitadas ; e, já no ultimo 
quartel do século, estava garantida a segurança das 
pessoas e das propriedades. Os habitantes das mon- 
tanhas vinham intender-se com os das planicies, para 
trocarem os seus bons officios; e estes levavam no verão 
os seus gados aos altos pastos, emquanto que, no inverno 
os pastores das montanhas desciam para os valles; e uns 
e outros eram bem acolhidos. 

Data desde então o progresso do Montenegro. 



* 
* 



O solo prestava-se mal á cultura, e exigia um labor 
enérgico. Os campos divididos até o infinito, como já 
notámos, muito irregulares, suspensos, por assim dizer, 
nos flancos das montanhas, e sustentados por muros de 
supporte, davam cevada, aveia, milho e batatas, que 
eram as únicas plantas que o terreno permittia semear 
com successo, Mas, graças ao trabalho da população, o 
Montenegro, nos últimos tempos do século, já produzia 
o bastante para alimentar os seus habitantes e até para 
fornecer subsistências á cidade vizinha de Cattaro. 

As vinhas do Tzernitz produziam vinhos excelentes, 
mas que, por falta de utensilios e caves, os habitantes 
não podiam guardar. 

Volume VI 34 



530 A HISTORIA ECONÓMICA 



O solo era também muito próprio para a cultura do 
tabaco. 

As florestas eram immensas; mas estavam por explo- 
rar. Os pastos, que eram abundantes, alimentavam 
excellentes cavallos, éguas, porcos, bois, vaccas, cabras 
e carneiros. 

Cada anno, 100 mil cabeças de gado miúdo eram 
abatidas, salgadas, defumadas, e exportadas, sob o nome 
de castradina, para todos os portos do Adriático, da 
mesma forma que rebanhos consideráveis de leitões e de 
porcos. E grande quantidade da carne d'elles, também 
salgada ou defumada, era egualmente exportada para o 
estrangeiro. 

Emfim, os cortiços de abelhas davam muito mel> 
que era expedido para as provincias ottomanas vizi- 
nhas, ou empregado na fabricação d'um hydromel, de 
muito boa qualidade. 

Todos os rios e o lago Scutari forneciam peixes 
excellentes e, entre estes, trutas que pesavam muitos 
kilos ; peixes esses, que eram também seccos e defuma- 
dos, e expedidos para a Itália e Delmacia. 

A industria, salvo a agricola, era nuUa. Concorria 
para isso a modéstia em que os Sérvios viviam, pois 
que não tinham luxo nenhum, a não ser no vestuário; 
os poucos recursos industriaes do paiz; e a emigração 
do povo. 

Como os seus vizinhos da Albânia, os trabalhado- 
res tinham por habito emigrar, para irem nas grandes 
cidades estrangeiras, procurar os proventos que o seu 
paiz lhes não proporcionava. Contavam-se milhares 
d'esses emigrados só em Constantinopla, onde exer- 
ciam os misteres de carregadores, manufactores jardi- 



EUADE CONTEMPORÂNEA 53] 



neiros, e outros officios, vivendo em boa intelligencia 
com os Turcos, seus inimigos hereditários. E havia 
ainda muitos outros emigrados, espalhados por outras 
cidades. 



Quanto ao commercio, o Montenegro fornecia Trieste 
e Veneza de carnes seccas de cabra e carneiro, que 
a marinha procurava para as suas provisões. Expedia 
também para o estrangeiro mais de duzentas mil cabe- 
ças de gado miúdo, uma grande quantidade de carne 
de porco salgada ou defumada e leitões ; assim como 
pelles, gorduras, peixe salgado, queijo, mel, sumagre e 
pó insecticida. 

As exportações annuaes eram avaliadas em mais de 
um milhão de francos. 

Os Montenegrinos compravam aos negociantes de 
Trieste e Cattaro uma aguardente detestável, de que 
faziam uso frequente, e pólvora, armas, ferramenta, 
taboas, algodão e pannos necessários para o comple- 
mento de um vestuário dispendioso, único luxo d'elles. 



Os centros principaes eram : Cetigne, a capital, 
intermediaria do -commercio entre o lago Scutari, Rieka 
e Cattaro ; Rieka, antiga capital, celebre por suas pes- 
carias ; Niegoche, berço da casa reinante; Niksitch, 
praça forte; Podgorita, Antivari e Dulcigne. 



532 A HISTORIA ECONÓMICA 



As communicações eram deficientissimas. Só havia 
um rio navegável, o Tsernoievitja, um grande lago 
também navegável, o Scutari, que tinha por emissário 
o Bojana albanez ; e apenas um bom caminho carros- 
savel de Cetigne a Cattaro ^. 



1 E. Reclus, Nouvelle Geogiaphie Universelle UEurope Meri- 
dionale. — Lanier, LEurope. — ^Marsillac, Manuel d' Historie Contem- 
poraine. — Boulongne, Le Montenegro, le pays et ses habitants. 



A península dos balkans 

CAPITULO XX 

VI 

Grécia 

Leve esboço da historia politica da Grécia, n'este periodo.— Aspecto, 
relevo, clima, orografia e hydrografia. — Como a Grécia n'este 
periodo formou um contraste com os outros paizes dos Balkans. 
— Productos.— Agricultura. — Industria. — Commercio e marinha. 
— Centros económicos principaes. — Communicações. 

No fim do século XVIII, a Grécia, então sujeita á 
Porta ottomana, voltou os olhos para a Rússia que a 
cornmunidade de religião, e, mais ainda, os projectos 
do czar sobre Constantinopla, designavam como a pro- 
tectora natural. E, por essa protecção, o tratado de 
Jassy, em 1792, deu aos marinheiros gregos o direito 
de navegarem livremente sob o pavilhão russo, e pre- 
parou o dia do grande levantamento. 

De facto, desde então, as casas gregas, estabeleci- 
das no Mediterrâneo, desinvoiveram o seu commercio, 
engrandeceram a sua fortuna, e fundaram ou melhora- 
ram as escolas gregas, que deviam reanimar, em toda a 
península, e até no seio da capital turca, o sentimento 
extincto da nacionalidade e da independência. A revo- 
lução franceza reaccendeu também este sentimento da 
liberdade. E Rhiga de Pheres, da Thessalia, compoz, á 



534 A HISTORIA ECONÓMICA 



imitação da Marselheza, o canto de guerra da Grécia, e 
formou o plano de uma revolução. Preso pelos Austria- 
cos, em Belgrado, foi morto, em 1798. Mas, no anno 
seguinte, as ilhas Jonias emanciparam-se ; e a França, a 
Rússia e a Inglaterra garantiram successivamente a 
sua autonomia sob o protectorado d'essas nações, até 
que, em 1864, as mesmas ilhas fizeram parte integrante 
da Grécia livre. 

As guerras dos Turcos e Gregos é que foram per- 
manentes; e, em 1814, formou-se em Odessa uma 
sociedade revolucionaria, chamada Ketairia Amigável, 
que abarcou logo todas as cidades gregas da Europa 
oriental, as provindas costeiras do Danúbio, e o littoral 
hellenico do Archipelago. Todos os Gregos tomaram 
as armas. As grandes familias das ilhas offereceram os 
seus milhões aos patriotas. Os deputados das cidades 
reuniram-se em Epidauro, proclamaram a independên- 
cia da Grécia, e votaram uma constituição. O heroismo 
dos combatentes, as expedições maravilhosas dos mari- 
nheiros, as atrocidades commetidas pelos Turcos, a 
devastação da Morea pelo pachá do Egypto, Ibrahin, e 
a admirável defeza de Missolonghi e a sua destruição, 
commoveram profundamente a Europa, não obstante o 
abandono da Rússia e a má vontade da Áustria. 

Os liberaes tornaram-se por toda a parte Philhelle- 
nos. A França foi a primeira a secundar a emancipação 
da Grécia; e a opinião publica pronunciou-se com 
enthusiasmo pelos opprimidos. Poetas, artistas, solda- 
dos e capitalistas offereceram o seu generoso concurso 
á obra da emancipação. Os povos na Suissa, na Ingla- 
terra e na Allemanha, também manifestaram a sua sim- 
pathia; e as nações cederam por fim a esta pressão 



EDADE CONTEMPORÂNEA 535 



irresistível, no momento em que os Gregos, esgotados 
n'uma lucta desegual, e depois de sete annos de uma 
resistência heróica, iam succumbir. 

A triplice alliança, assignada em Londres entre a 
Inglaterra, a França e a Rússia para a pacificação da 
Grécia, decidiu o reconhecimento da nacionaHdade 
hellenica ; e a destruição da frota turca em Navarino, 
pelo ataque combinado das três frotas alhadas, apar 
da expedição franceza de 1827 que expulsou do Pelo- 
poneso o exercito de Ibrahin, asseguraram a salvação 
dos Hellenos. 

A Grécia estava arruinada, mas estava livre. E o 
tratado de Andrinopla confirmou a sua independência, 
embora lhe assignasse umas fronteiras estreitas ; por- 
que a Porta conservou Creta e a Thessalia do sul e o 
Epiro meridional, as duas províncias mais férteis e 
industriaes, regadas do sangue dos Hellenos. 

A coroa da Grécia foi, então, offerecida, em 1828, 
pelas três potencias a Leopoldo de Saxe Coburgo, 
mais tarde rei dos Belgas; e, tendo elle regeitado, foi 
proposto Othon (1832-1862), segundo filho do rei da 
Baviera, campeão ardente do Hellenismo, que acceitou. 
Este rei levou com elle um grande numero dos seus 
companheiros, confiando-lhes os cargos mais impor- 
tantes do reino ; e com isso o descontentamento dos 
Gregos foi tão grande, que elle teve de despedir a 
própria familia (1843) e sujeitar-se a uma nova consti- 
tuição, que estabelecia um suffragio quasi universal. 
Por fim, sendo accusado de pouco patriotismo, levan- 
tou-se, em 1862, uma revolução contra elle, que o 
depoz do trono, è pronunciou também a deposição da 
sua familia. 



536 A HISTORIA ECONÓMICA 



Depois de um interregno de oito mezes, durante o 
qual a coroa foi offerecida successivamente a muitos 
principes, a assembleia nacional elegeu por unanimi- 
dade o segundo filho do rei Dinamarquez, que tomou 
o nome de George I (1863-1913). 

A Inglaterra consentiu em renunciar a favor d'elle 
ás ilhas Jonias que o novo monarca reuniu ao seu 
reino, como um alegre dom da sua subida ao trono. 

Tendo-se a ilha de Creta levantado contra a Tur- 
quia (1860-1868), esteve a ponto de estalar uma nova 
guerra entre os Gregos e Turcos; mas a intervenção 
das outras potencias pôde evital-a. 

De 1868 a 1878, a Grécia mostrou-se mais calma; 
e, quando os plenipotenciários da Europa se reunfram 
em Berlim, para regularem as questões territoriaes dos 
Balkans, o embaixador da França tomou a iniciativa de 
um pedido de engrandecimento para a Grécia. E, então, 
uma nova configuração de fronteiras foi traçada do 
lado do norte, comprehendendo a Thessalia do sul, o 
Epiro meridional, as cidades de Peveza, Janina, Metzoro 
e Larissa. Era o terceiro engrandecimento obtido pelos 
Gregos, depois da sua emancipação. Mas, ainda assim, 
as suas ambições não ficaram satisfeitas, e sempre, 
n'este periodo de que estamos tratando, elles sonharam 
enriquecer-se com os despojos da Turquia, inclusiva- 
mente adquirir Constantinopla, a capital que, durante 
doze séculos, foi a sede do império grego e o foco da 
civilisação hellenica. 

Em consequência d'estas acquisições, a Grécia veiu 
a comprehender no século XIX cinco partes, a saber: 
1.*, a região do Pindo, Epiro e Thessalia; 2.% a Hellade, 
com a ilha de Eubea ou de Negroponto; 3.% o Pelo- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 537 



poneso ou a península de Morea; 4.", as ilhas do mar 
Egeu ou Ciciadas; 5.*, as ilhas Jonias. 



Todo o continente grego é atravessado pela cadeia 
hellenica — -uma continuação do Pindo, que o percorre do 
norte a sul. Essa cadeia passa pelo isthmo de Corintho, 
e termina por dois ramos principaes nos cabos de 
Mallea e Matapan. Alem d'estes ramos principaes, ha 
também um, que termina sobre o cabo Gallo; outro que. 
vai para este findar na Argolida; e ainda outro para 
oeste, que vai dar ás planicies da Achaia. E, entre a 
cadeia que vai dar ao cabo Gallo e a que vai dar ao 
cabo Matapan, fica o plató da Arcádia. 

Poucos paizes são tão cortados de golfos e tão 
cheios de pequenas penínsulas; de modo que o traço 
característico de todas as regiões é o fraccionamento 
do solo em bacias estreitas, isoladas umas das outras 
por macissos e platós de formas irregulares. 

Esta configuração physica da Grécia explica até 
o desinvolvimento independente das suas nacionali- 
dades e a rivalidade das suas republicas na antigui- 
dade. 

Não tem rios navegáveis. A maior parte das corren- 
tes são alimentadas no inverno pelas chuvas e pelas 
neves, e estão seccas no verão, ou perdidas em cavi- 
dades subterrâneas. Mas as aguas da chuva, recolhidas, 
nas vertentes das montanhas, saltam, no sopé d'ellas, 
em fontes abundantes. 



538 A HISTORIA ECONÓMICA 



A variedade de climas é muito grande. Ao norte, 
nas montanhas do Etolia. o clima é o da Rurona cen- 
tral. Ao sul e este, nas peninsulas e nas ilhas, é o da 
zona tropical. Na Attica e na Beócia, os invernos são 
frios, e os estios ardentes, de forma que a temperatura 
sobe a 30'^ e mesmo a 40°. O outomno e a primavera 
são chuvosos, o verão muito secco ; as neves muito 
abundantes nas montanhas, desde outubro a abril, mas 
não são perpetuas. 



A Grécia, n'este periodo, estava em completo con- 
traste com a maior parte dos Estados da peninsula dos 
Balkans. Os Turcos, Bulg-aros e Romenos habitavam 
paizes admiravelmente favorecidos pela natureza, e não 
tinham sabido tirar partido d'elles. Os Gregos, pelo 
contrario, habitavam em paiz de fertilidade medíocre, 
onde os recursos mineraes eram também insufficientes 
para o desinvolvimento de uma grande industria; e, 
apesar d'isto, souberam tirar das articulações maritimas 
da peninsula a compensação de um solo rochoso e 
pouco profundo, O mar consolou-os sempre das más 
provas do seu território. E' lá que elles adquiriram a 
habilidade e audácia no commercio ; e isso fez a sua 
fortuna politica e mercantil, e determinou essa intelli- 
gencia maravilhosa do negocio, que, relativamente ao 
numero dos habitantes, os collocou na primeira ciasse 
dos povos da Europa oriental. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 539 



A Grécia não tinha hulha, e, embora abundasse 
n'outros mineraes, a maior parte d'elles estava por 
explorar desde 1861, em que foi promulgada uma lei 
de minas, e começou a desinvolver-se a respectiva indus- 
tria; mas, ainda assim, a extracção só foi activa d'ahi 
por diante em alguns districtos. Os jazigos de chumbo 
argentifero de Laurium tornaram-se então objecto 
d'uma exploração fructuosa. Em Sanium, nas ilhas de 
Seriphos e de Siphnos, havia também alguns jazigos do 
mesmo mineral, mas sem exploração. O Pentelico, Hy- 
meto e Paras abundavam de mármore, mas também 
pouco explorado. Havia mnito enxofre em Milo e na 
Eubea. As salinas eram muifo numerosas, e davam 
muito sal; mas o Estado tinha o monopólio d'elle. 

Havia também minas de ferro, de manganez, de 
linhite, de petróleo, de alunite, de kaolim, e ainda de 
outros mineraes, mas quasi por explorar. 



A agricultura estava pouco desinvolvida, por causa 
das condições da geologia, clima, relevo do paiz, falta 
de braços e ignorância geral. E, demais a mais, falta- 
vam também os caminhos por toda a parte. 

Havia regiões mais bem tratadas, como a Thessalia, 
a Beócia, a Messenia, a Ellida e as ilhas, sobretudo, 



40 A HISTORIA ECONÓMICA 



Eubea e Corfu. Mas, ainda assim, duas partes do ter- 
reno de toda a Grécia achavam-se abandonadas. Por 
isso, as culturas alimentares estavam longe de supprir 
as necessidades da população. 

Os cereaes (milho, trigo, cevada, centeio, aveia), 
occupavam uma área restricta. 

Na Attica havia, sobretudo, a cevada que se 
empregava principalmente na alimentação do gado. A 
Messenia e Ellida tinha bons campos de milho e trigo. 
A aveia era muito mais rara; e o centeio muito pouco 
cultivado. 

As culturas horticolas tinham uma grande importân- 
cia. Nos jardins bem cultivados dos arredores das 
cidades e dos campos e ilhas em particular, colhiam-se 
muitos tomates, beringellas, melões e melancias. Nos 
fins do século XIX, começava-se também a cultivar as 
batatas em algumas provincias. 

As culturas arborescentes é que representavam uma 
grande riqueza do paiz ; e tanto mais que as terras 
cultiváveis da Grécia prestavam-se admiravelmente á 
producção dos vinhos, fructas e plantas industriaes, 
como o algodão, garança e tabaco. 

Especialmente, a vinha era uma das fortunas carac- 
teristicas do solo grego. E a devastação da philoxera 
em França, bem como os progressos constantes da 
fabricação das passas, animavam vivamente a cultura 
hellenica. 

Assim, a producção dos vinhos attingia no fim do 
século três milhões de hectolitros; e, apar d'isso, a 
maior parte das uvas era transformada em passas, para 
a exportação. Mas os vinhos conservavam-se com diffi- 
culdade, com excepção de alguns privilegiados. Para 



EDADE CONTEMPORÂNEA 541 



OS conservar addicionava-se-lhes, muitas vezes, resina, 
o que lhes dava um sabor desagradável, como já se 
fazia no tempo antigo '. 

A cultura da oliveira, tão prospera, foi singular- 
mente restringida durante a dominação da Turquia, que 
punia as revoltas, cortando as oliveiras. Mas, desde que 
a Grécia se libertou, reconquistou essa riqueza ; de 
modo que, não havendo mais de dois milhões de arvo- 
res quando acabou a guerra da independência, já em 
1870, se contavam sete milhões e meio; e, em 1875, 
12 milhões. 

Mas, se a cultura augmentava rapidamente, os pro- 
gressos da fabricação do azeite eram menos satis- 
factorios. 

Os Gregos comiam uma grande quantidade de azei- 
tonas. Se nós, os Occidentaes, estamos habituados a 
considerar a oliveira só pelo azeite, os Orientaes vêem 
no fructo d'ella um dos seus melhores alimentos. 

As figueiras, laranjeiras, limoeiros e amendoeiras 
abundavam no Peloponeso, e davam fructos estimados. 
As amendoeiras abundavam também nas ilhas. Quanto 
ás outras arvores fructiferas, prosperavam muito menos, 
e davam fructos medíocres. 

Nas culturas industriaes, figuravam a amoreira, o 
tabaco e o linho. Este ia em decadência, pela concor- 
rência dos outros paizes ; mas o tabaco tinha augmen- 
tado muito no fim do século, e era de muito boa 
qualidade; assim como ia augmentando a cultura da 
amoreira. 



í Adriano Anthero. A Historia Económica, vol. I pag. 289. 



542 A HISTORIA ECONÓMICA 



Pode dizer-se que a principal riqueza agrícola da 
Grécia consistia no producto das vides e oliveiras. 

As florestas tinham uma superficie muito restricta, 
porque eram destruídas por toda a parte pelos pastores, 
que lhes lançavam o fogo, para dar logar ás terras de 
pastagem. E esta ©bra de destruição nem sequer parou 
em face das leis muito rigorosas que a prohibiram, e 
dos esforços muito enérgicos do Governo para a cohi- 
bir, pela difficuldade d'essa tarefa, n'um paiz cortado 
de montanhas, como a Grécia. 

Um dos productos que se explorava nessas flores- 
tas em grande quantidade, era a casca de bolota 
(vallonée) aproveitável para a tinturaria, como aconte- 
cia na Turquia. 

* 

* * 

A criação do gado estava muito pouco desinvolvida. 
O gado grosso a que faltavam pastos, não existia, por 
assim dizer, antes da annexação da Thessalia. As pro- 
víncias do oeste, Messenia, Ellida, Acarnania e ilhas 
Jonias, só contavam ao todo 100:000 cabeças de gado 
bovino, e toda a Grécia só tinha 90:000 cavallos. Em 
compensação, alimentavam-se mais de 100:000 asnos e 
mulas, animaes excellentes para os transportes dos 
paizes montanhosos. 

Os carneiros e cabras, fáceis de criar em paizes de 
montanhas, é que eram muito numerosos, e contribuíam 
grandemente para a alimentação dos Gregos. 

A pesca era uma industria muito desinvolvida em 
todas as costas da Grécia continental e insular. E os 



EDADE CONTEMPORÂNEA 543 



Gregos iam ainda pescar as esponjas nas costas da 
Syria, Ásia Menor, e até na Tripolitana e Cyrenaica. 
A apanha das sanguesugas nos pântanos da Livadia, 
constituía também um rendimento importante. 

Os Gregos eram muito bons caçadores, e a caça 
fornecia uma grande quantidade do alimento da popu- 
lação. 



A industria, em geral, estava muito atrazada, 
apesar das condições favoráveis da Grécia; e só nos 
últimos tempos do século XIX é que principiou a levan- 
tar-se. 

Com effeito, o paiz não tinha hulha; mas, como já 
vimos, tinha muitas outras substancias mineraes, que só 
demandavam boa exploração ; e, pela vizinhança do 
mar e recorte das costas gregas, que mais aproximavel 
o tornava, podia supprir-se facilmente essa falta de 
hulha, e alcançar, pela importação, quaesquer outras 
matérias primas, a preço barato. 

Só o chumbo argentifero de Laurium é que tinha 
uma grande exploração, como também já vimos. E a 
fundição de Ergastiria, que tinha a sua sede também 
em Laurium, era uma das maiores do mundo. 

A metallurgia estava representada apenas por alguns 
estabelecimentos de reparação de navios em Syra, no 
Pireu e em Salamina, onde se installara o arsenal de 
marinha de guerra. E havia também canteiros de cons- 
trucção de navios de vela e barcos de pesca em Syra, 
Pireu, Nauplias, Patras e Corfu. 



544 A HISTORIA ECONÓMICA 



As industrias textis apenas tomaram um certo desin- 
volvimento no Pireu, onde havia muitas fabricas de 
tecidos baratos; e, entre estes, certos estofos de seda, 
cujo segredo os Greg-os tinham sabido conservar. 



A Grécia devia a influencia que exercia no Oriente, 
e a sua classe elevada entre os Estados civilisados da 
Europa ao seu génio commercial. 

O seu commercio era, realmente, muito importante. 
Em todo o Archipelago, e mesmo em todos os paizes 
orientaes, os negociantes gregos faziam a maior parte 
das trocas ; e eram os principaes commerciantes do 
Levante, onde todas as cidades continham uma aristo- 
cracia commercial de origem hellenica. 

A marinha mercante era muito considerável. Supe- 
rior á da immensa Rússia, egualava quasi a da Áustria, 
e excedia dez vezes a da Bélgica. E ainda acrescia que 
a maior parte dos navios que içavam o pavilhão turco^ 
pertenciam a marinheiros gregos. 

A cabotagem hellenica obtinha também grandes 
vantagens, pelas relações entre os portos do mar Jonio 
e do Archipelago. 

Os portos do Pireu e o de Cyra, nas Ciciadas, e o 
de Volvo, na ThessaUa, eram dos mais activos do Medi- 
terrâneo Oriental. 

A população maritima, que habitava as costas, 
n'uma extensão de 3:000 kilometros, podia fornecer 
30:000 homens de equipagem. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 545 



A Grécia importava cereaes, assucar, géneros colo- 
niaes, gados, tecidos, lans e algodões baratos. E expor- 
tava metaes, passas, azeite de oliveira, fructas, casulos 
de seda e tabacos. 

Os paizes principaes com que fazia esse commercio, 
eram a Inglaterra, França, Rússia, Turquia, Egypto, 
Áustria, Hungria e Allemanha. 



Quanto aos centros económicos mais importantes, 
na Hellade occidental, somente havia movimento com- 
mercial em algumas localidades privilegiadas da borda 
do mar, taes como Missolonghi, /íltoHko, Salona, 
Galaxidi. 

Esta ultima cidade, situada á borda da bahia do 
Pleri.tos, era antes da independência, o canteiro mais 
activo do golfo de Corintho. 

A cidade de Naupacta, chamada Lepanto pelos 
Italianos, só tinha importância estratégica por causa da 
sua posição na vizinhança da entrada do estreito de 
Lepanto. 

Athenas, a capital, engrandecida na planicie, e unida 
nos últimos tempos ao Pireu por um caminho de ferro 
retomou uma importância das mais consideráveis ; e 
tornou-se cidade maritima, como nos dias da sua gran- 
deza antiga, em que, por seu triplice mercado e suas 
pernas, apoiadas no mar, ella formava um só mesmo 
organismo com os dois portos do Píreu e de Phalera. 

Thebas, na Grécia oriental, Lauriao e Livadia, 
tinham também uma certa importância. 

Volume VI 35 



546 A HISTORIA ECONÓMICA 



Corintho, situada á entrada do Peloponeso, entre os 
dois mares, tomou antigamente o primeiro logar entre 
as cidades gregas; não só por sua importância, seu 
amor da arte e seu zelo pelo liberdade, mas também 
pela riqueza dos seus habitantes e pela cifra da sua 
população, pois chegou a ter 300 mil habitantes, mais 
do que Athenas, cuja população regulava por 180 mil \ 
Mesmo depois de ter sido arrasada pelos Romanos, 
retomou a sua importância; mas em seguida foi 
saqueada, tantas vezes, que perdeu todo o commercio. 

Não passava de uma aldeia miserável, quando um 
tremor de terra a arruinou, em 1858. Foi reconstruida, a 
sete kilometros de distancia, nas margens do mesmo 
golfo, a que dera o seu nome. E somente a abertura do 
canal, em 1893, lhe começou a dar nova e grande 
importância; porque os caminhos de ferro de Marselha 
a Trieste, Smyrna e Constantinopla vieram dar um 
grande movimento ao seu porto, 

Tripolitza tinha também uma certa importância. 

Patras no Peloponeso, á entrada do mesmo golfo 
de Corintho e no desembocadouro das planicies mais 
férteis da costa occidental, também tinha já um trafico 
importante com a Inglaterra e outros paizes da Europa. 

As outras cidades das provincias eram mercados 
secundários. 



Nos últimos tempos do século XIX, os Gregos mul- 
tiplicaram os caminhos, e construiram uma rede de vias 

1- Adriano Anthero. Megaclés, págf. 38. 



EDA DE CONTEMPORÂNEA 547 



férreas. Mas, ainda assim, as estradas carrossaveis eram 
poucas e más, não somente por causa dos obstáculos 
que os rochedos e as montanhas oppunham, mas tam- 
bém por causa da indolência dos habitantes, a quem 
bastava o mar. 

Quanto aos caminhos de ferro, um primeiro commu- 
nicou Athenas com o porto do Pireu; e depois d'isso, 
foi essa capital reunida também por vias férreas a Patra 
e a Nauplia. E, no fim do século, estava-se estudando 
a ligação das vias férreas gregas com as da Europa 
por Volo e Salonica. 

Em todo o caso, o mar é que ficou sendo o cami- 
nho por excellencia, da Grécia. Era elle o principal 
elemento do povo hellenico e o theatro da sua activi- 
dade ; e, por isso, também os Gregos se esmeraram 
em melhorar os elementos do tráfico maritimo. 

O canal de Corintho, solemnemente aberto em 1893, 
evitou aos navios vindos de Marselha, Génova, Brindizi 
e Trieste a volta do Peloponeso ^. 



1 E. Reclus, obr. cit. — L'Europe Meridionelle, La Grece. One- 
sine Reclus, obr. cit. Mareei Dubois et Kergomard, Précis de Geo- 
graphie Economique. — Lanier, LEurope. — Bainier, LEiírope. — 
Leake, Traveis in Northens Greece. — Beulé, Etudes sur le Péle- 
ponnése. 



CAPITULO XXI 
A Itália 

Leve esboço da historia politica da Itália, n'este período. — Como a 
sua historia económica, nos primeiros tempos d'elle, se confun- 
diu com a dos grandes Estados a que esteve sujeita. — Seu 
grande desinvolvimento desde 1860, em que houve a união 
territorial. — Como, então, um dos primeiros cuidados do Go- 
verno foi desinvolver as communicações. — Grande progresso, 
nos últimos tempos do periodo. — Grande riqueza do solo ita- 
liano, e como não foi devidamente aproveitada por muito tempo. 
— Productos. — Agricultura. — Industria. — Commercio- — Mari- 
nha. — Centros económicos principais. — Communicações. 

Quando rebentou a revolução francesa, os sobera- 
nos da península italiana entraram nas colligações da 
Europa contra a França; e, em consequência disto, 
Championet tomou Nápoles; Bonaparte derrotou seis 
exércitos piemontezes ou austríacos; e o tratado do 
Campo Formo (1797) criou a republica cisalpina, for- 
mada do Milanez, de Valtelina, de uma parte dos 
Estados Venezianos e dos Estados da Egreja. O resto 
do território de Veneza foi abandonado á Áustria; e o 
directório organizou, sob o modelo da republica fran- 
cesa (1798-1799), as republicas liguriana, romana e 
parthenopeana, que tiveram uma duração ephemera. 

Em 1806, Napoleão, tornado imperador, fez da 
republica cisalpina, então, engrandecida, um reino, á 
frente do qual poz o seu enteado Eugénio Beauharnais; 



550 A HISTORIA ECONÓMICA 



erigiu Lucques e Piombino em ducado em favor de 
uma de suas irmans; e destronou o rei de Nápoles, 
dando a coroa d'eUe, primeiramente, a seu irmão José 
Bonaparte (1806) e, depois, a seu cunhado Murat (1808). 

Os ducados de Parma, Placencia e Toscana foram 
reunidos ao império francez, e as ultimas provincias 
papaes foram annexadas ao reino de Itália. 

Toda a peninsula ficou, então, sob a denominação 
directa ou indirecta de Napoleão. 

Com os exércitos francezes, os principios de egual- 
dade e liberdade civil atravessaram os Alpes, e a 
leg-islação, anteriormente despótica, rotineira e semi- 
barbara, tornou-se mais regular; estabeleceu -se também 
a uniformidade e egualdade nas finanças e nos impos- 
tos; organisou-se a instrucção publica; a Universidade 
de Pavia, as academias e collegios de Piemonte foram 
reabertos e dotados; foram construidas magnificas 
estradas de Arezzo a Rimini, de Florença a Bolonha, 
de Sienne a Perusa; e, sobretudo, foram traçados os 
grandes caminhos militares dos Alpes, atravez do Sim- 
plon e do monte de Génova e Tende. 

Acabou-se a cathedral de Milão, e construiram-se 
bellos monumentos, como signaes exteriores de uma 
nova renascença. 

Mas a Itália soffria, por se ver humilde satellite da 
França; e os seus soberanos achavam muito pesado o 
despotismo do imperador, que não admittia nenhuma 
opposição á sua vontade, e que talhava, segundo a sua 
fantasia, nos reinos vassallos, feudos para os seus gene- 
raes e agentes. 

Por isso, nas Calabrias e nas gargantas selvagens 
dos Apeninos, armaram-se os camponezes, commanda- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 551 



dos por audaciosos e ferozes bandidos, e fizeram ás 
tropas francezas uma guerra de extermínio. No seio das 
cidades, organisou-se também, em nome da independên- 
cia nacional, a liga dos carbonários; e o papa Pio Vil, 
despojado e ultrajado por Napoleão, prestou aos revol- 
tosos a sua auctoridade moral. 

Com a queda de Napoleão, os dois reis da Itália, 
Murat e Eugénio foram expulsos; e o tratado de Paris 
de 1815 entregou á Áustria a Itália do norte, desde o 
Pó até o Tessino. O papa reentrou nos seus Estados. 
O rei do Piemonte, Victor Manoel, recuperou também 
os seus Estados. A ex-imperatriz Maria Luiza tornou-se 
duqueza de Parma, Placencia e Guestalla. O gran-duque 
Fernando foi reconduzido no Governo da Toscana, e o 
rei Fernando IV, no reino de Nápoles; e, por ordem 
d'elle, Murat, agarrado no Pizzo, depois de uma tenta- 
tiva aventurosa, foi impiedosamente fusilado. 

Assim, nada restou das conquistas francezas. As 
ideias da revolução foram apagadas, e o regimen abso- 
luto foi restabelecido por toda a parte. 

No entanto, contra o despotismo que d'ahi se 
seguiu, organisou-se uma conspiração geral, e levan- 
tou-se em Nápoles uma revolução, que expulsou Fer- 
nando II, e poz no trono seu irmão, o príncipe Carlos 
Alberto, do Piemonte. 

As victorías dos Austríacos em Rieti e Novara, 
desfizeram outra vez as esperanças dos Italianos. As 
tentativas de insurreição foram seguidas de reacções 
sangrentas; e o cadafalso, o exilio e o cárcere, duro e 
perpetuo, no forte de Spielberg, foram os castigos dos 
patriotas, entre os quaes figuraram Maroncelli e Silvio 
Pellico. 



552 A HISTORIA ECONÓMICA 



A revolução franceza de 1830 teve também o seu 
rebate na península, fazendo rebentar, embora inutil- 
mente, sedições em Bolonha, Modena e Parma. As 
grandes nações pediram a Gregório XVI reformas 
politicas e administrativas urgentes; mas em vão, por- 
que o Governo romano e Fernando II, rei de Nápoles, 
redobraram de vigor e multiplicaram as sentenças de 
morte, das galés, do exilio e da prisão. 

Comtudo, os duques de Toscana e Lucques mostra- 
ram-se mais humanos e mais compassivos; e o rei do 
Piemonte, Carlos Alberto, manifestou-se ainda mais 
liberal, e continuou a preparar os destinos da sua 
família. 

Em 1848, coUocou-se elle outra vez á frente da 
liga italiana; mas foi vencido em Custozza, nesse 
mesmo anno, e em Novara, em 1849. 

Veneza fez, durante 17 mezes, diante dos seus 
canaes e das suas lagunas, uma resistência heróica aos 
exércitos austríacos ; mas, por fim, teve de capitular. 
E, em vista d'essa capitulação, que destruía as espe- 
ranças da Itália, Carlos Alberto abdicou em seu filho 
Victor Manoel II, a quem os Austríacos deixaram a 
integridade do seu território, ímpondo-lhe, porém, uma 
contribuição de guerra de 75 milhões de francos. 

Todos os soberanos depostos foram de novo rein- 
tegrados; o exercito francez reabriu a Pio IX as portas 
de Roma; e a maior parte dos príncepes rasgou as 
constituições promulgadas lia sua ausência. 

Ora o rei de Piemonte não se junctou a esta reacção 
geral. Pelo contrario, inaugurou nos seus Estados um 
regimen liberal, e deu ao povo uma constituição, mo- 
delada pela constituição franceza de 1830. Cavur, eco- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 553 



nomista eminente, politico de vistas largas e liberaes, 
homem de Estado, astuto e ousado, foi nomeado pre- 
sidente do conselho; e, para levantar o Piemonte da 
deshonra de Novara, offereceu-se a concorrer com 
a França, Inglaterra e Turquia á guerra da Crimeia 
contra os Russos. E, n'esse sentido, enviou effectiva- 
mente um exercito de 15:000 homens; e o Piemonte 
obteve, assim, a garantia pelas potencias alhadas da 
independência do território sardo. 

Gavur conseguiu, então, pela sua habilidade diplo" 
matica, fazer interessar a Europa na sorte da Itália; e 
os Italianos puzeram, desde logo, a sua esperança na 
politica do grande homem de Estado piemontez, que 
fallava em nome de toda a península. O Piemonte tor- 
nou-se a nova pátria de todos os emigrados e o refu- 
gio das letras italianas e das esperanças patrióticas; e 
toda a Itália habituou-se, pouco a pouco, ao projecto 
da monarquia italiana, sob o sceptro de Victor Manoel. 

Mas a peninsula nada podia fazer, de per si, e por 
isso, Cavur procurou-lhe uma alhada potente e gene- 
rosa, e encontrou-a na França. Numa entrevista entre 
elle e Napoleão III, a guerra contra a Áustria foi deci- 
dida em principio. Esta, inquieta, lançou as suas guar- 
das avançadas no território, e intimou o Piemonte a 
desarmar; e, com a recusa deste, foi declarada a 
guerra. 

Um exercito de 100 mil francezes juntou-se a 40 mil 
piemonteses, e os Austriacos foram vencidos em Ma- 
genta e Sulferino (1859). 

A Itália adquiriu com isto a Lombardia e a sua 
independência. Depois, Parma e Modena votaram a sua 
annexação com o Piemonte. Cavur fez, então, procla- 



554 A HISTORIA ECONÓMICA 



mar o reino italiano pelo parlamento de Turin, e a 
cedência de Savoia e Nice á França, pelo tratado tam- 
bém de Turin de 1860. 

As manifestações em favor da unidade italiana 
expandiam-se por toda a parte; e Pio IX e o rei de 
Nápoles, Francisco II, tentaram inutilmente reprimil-as. 
A' frente de um exercito de voluntários, Garibaldi 
occupou a Sicilia e Nápoles, e derrotou Francisco II, 
emquanto o exercito piemontez batia em Castelfidardo 
os soldados pontifícios, commandados pelo valente 
Lamoriciere. 

As populações, consultadas, votaram por grande 
maioridade a sua annexação ao novo reino de Itália. 
Victor Manoel e Garibaldi fizeram em seguida uma 
entrada triunfal em Nápoles, onde as aclamações triun- 
faes saudaram, ao mesmo tempo, o rei e o general 
libertador. E o novo parlamento, composto de deputa- 
dos piemontezes, lombardos, toscanos, ombrios, napoli- 
tanos e sicilianos, votou unanimemente a unidade da 
Itália. 

Todavia, esta unidade estava ainda incompleta, Itália 
fatta, mas non compiuta, dizia o rei. 

Em 1866, quando rebentou a guerra entre a Prússia 
e a Áustria, a Itália alliou-se com Prússia ; e, apesar de 
ser vencida pela Áustria por terra, em Custozza, e por 
mar, em Lissa, obteve a Venecia, graças ao apoio dos 
Prussianos, vencedores de Sadowa. 

A capital do reino foi transportada, então, para 
Florença. Restava resolver a difficil questão de Roma. 
A França defendia o poder temporal da Santa Sé, e 
tinha obtido do Governo italiano, pela convenção de 
1864, a garantia dos Estados da Egreja. Em 1880, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 555 



porém, a guerra franco-allemã offereceu a occasião 
que o rei esperava. As tropas francezas foram chama- 
das á França, e o papa ficou desarmado. Então, a 22 
de setembro, o exercito italiano occupou Roma. O 
papa retirou-se para o Vaticano, e considerou-se 
como prisioneiro da Itália. 

A unidade italiana estava completa. Roma foi pro- 
clamada como capital, e o parlamento votou, em 1871, 
a lei chamada das garantias, que regulou as relações da 
Santa Sé e da Itália '. 

Victor Manoel morreu em 1878 e succedeu-lhe o 
filho Humberto I, que falleceu em 1900. 



A historia económica da Itália durante a primeira 
metade d'este período, e na parte dominada pelos gran- 
des Estados a que esteve sujeita, confunde-se com a 
d'elles. E, no resto, dividida politicamente n'uma infini- 
dade de parcellas, reinos ou ducados de pequena 
amplitude, e separados uns dos outros por fronteiras 
aduaneiras, que prejudicavam a sua extensão e fecha- 
vam, muitas vezes, todas as saidas, e tendo também, 
muitas vezes, interesses oppostos, segundo as suas 
allianças ou a sua situação geográfica, entretinha com 
os paizes vizinhos um commercio extremamente difficil, 
mnito diminuto, e quasi que reduzido aos productos 



1 Adriano Anthero. — O Direito Internacional, pag. 21 e 
seg^uintes. 



556 A HISTORIA ECONÓMICA 



agrícolas. Só o Piemonte e o Milanez, e n'uma certa 
medida, a Toscana, por causa da proximidade da França 
e dos mercados centraes da Europa, e pelo génio da 
sua população laboriosa e intelligente, havia chegado 
a criar uma industria florescente, que tinha um logar 
honroso no tráfico mundial. 

Assim, o verdadeiro desinvolvimento da Itália só 
data de 1860, em que se deu a união territorial; por- 
que, então, por um lado, a abolição das alfandegas 
internas e o libertamente dos embaraços locaes que se 
oppunham á expansão da industria e commercio, abri- 
ram um livre accesso ao mar, e produziram uma trans- 
fusão dos productos por todo o paiz, apar de uma 
facilidade maior na importação das matérias primas. 

E, por outro lado, um dos primeiros cuidados do 
Governo italiano foi, também então, o de abrir com- 
municações entre as principaes cidades, e fazer desap- 
parecer, neste ponto, as desiguldades que existiam 
entre as antigas divisões territoriaes. 

No norte e centro até Tronto, existiam já grandes 
estradas, geralmente bem tratadas e conservadas á 
custa dos differentes Estados, e um grande numero de 
caminhos, construídos e conservados á custa das pro- 
víncias e communas. Sem ser perfeita a viação nestas 
regiões, era sufficiente para as necessidades da popu- 
lação. E a Sardenha possuia também excelientes estradas. 

Mas, no sul, as condições de viabilidade eram muito 
differentes. Emquanto que, em redor de Nápoles, os 
caminhos eram tratados e conservados com cuidado, o 
interior carecia de meios de communicação. 

Os Abruzzos e a Calábria, com excepção das 
grandes vias chamadas consulares, e de alguns raros 



EDADE CONTEMPORÂNEA 557 



caminhos, nos arredores de Bari e de Otranto, de que 
as províncias tratavam, estavam completamente isola- 
dos das províncias vizinhas; e, na Sicília, era quasi 
impossível circular. Mas, com a integridade politica da 
península, as leis obrigaram as províncias a construir 
e tratar as estradas que as reunissem entre si, ao passo 
que o Estado se obrigava também a construir e tratar 
as estradas nacionaes e as grandes vias de communi- 
cação com o exterior, e, assim também com os dos 
Alpes e dos Apeninos. E, assim, já em 1863, a Itália 
possuía 22:433 kilometros de estradas nacionaes e pro- 
vínciaes, ou seja 3:509 por myriametro quadrado; e, já 
em 1878, a viabilidade geral se compunha de 1.112:000 
kilometros quadrados de estradas de toda a ordem. 

Apar d'ísto, a Itália tratou de desinvolver muito os 
caminhos de ferro. Estava ella muito atrazada n'este 
ponto, devido principalmente á divisão excessiva do 
território, que obstava ao estabelecimento de uma rede 
geral, de harmonia com a configuração geográfica com 
as necessidades do tráfico, e as diffículdades de atraves- 
sar a lombada montanhosa, que separa as duas ver- 
tentes da península. Mas o Governo também tratou 
seriamente d'esse objecto. 

Depois, asseguradas as communicações interiores, e 
facilitada a actividade agrícola, industrial e commercial 
do paiz, o Governo tratou egualmente de facilitar 
desimbocadouros ao tráfico internacional, fazendo tra- 
balhos marítimos importantes, como estabelecimento 
de faroes, reparação e escavação de portos, criação 
de canteiros, etc. 

Com tudo isto, a Itália, unificada desde os Alpes 
ao Adriático, lançou-se, em 1871, corajosamente na 



558 A HISTORIA ECONÓMICA 



obra da sua organisação ; e, em alguns annos, a fisio- 
nomia do paiz ficou transformada, de modo que todos 
os ramos da sua actividade tiveram um desinvolvimento 
enorme. Mesmo os embaraços financeiros, que não 
tinham cessado de a penalisar no passado, haviam já 
desapparecido no fim do século. 



Apesar d'isso, a Itália não tirava da immensa riqueza 
do seu solo os recursos que podia tirar; nem a sua 
industria adquiriu o desinvolvimento correspondente 
aos esforços do Governo e á abundância das matérias 
primas. 

E' certo que lhe faltava a hulha. Na classe dos 
combustíveis mineraes, só podiam citar-se as linhites 
da Toscana e as turfas também da Toscana e da zona 
alpestre do Piemonte e Lombardia, cuja extracção 
estava ainda na infância. Mas bem podia ter supprido 
a falta do mineral por meio da hulha branca ou pela 
importação do combustivel estrangeiro, para fazer 
adiantar as industrias derivadas do reino mineral. E, ao 
contrario d'isso, toda ella estava quasi no estado 
infantil. 

Havia mui vastas e ricas minas de ferro nas ilhas 
de Elba e Sardenha; e, alem d'essas regiões, havia 
também ferro em muitos valles alpestres. Mas todos 
esses jazigos não eram explorados, como podiam ser. 

A ilha de Elba possuía um dos maiores e mais pro- 
digiosos depósitos de mineral de ferro que ha no 
mundo. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 559 



Etruscos, Phenicíos e Romanos, tinham successiva- 
mente escavado ahi os jazigos de Rio-Alte e Rio-Ma- 
rina, que poderiam fornecer um milhão de toneladas de 
mineral por anno, durante vinte séculos ; e a calamite ou 
pedra imen entrava n'uma grande proporção num dos 
jazigos. 

E, se mesmo esses jazigos de ferro não eram explo- 
rados, como podiam e deviam ser, os outros metaes é 
que eram muito pouco e muito mal explorados. Apro- 
veitava-se algum cobre na Venecia e na Toscana, que 
era exportado para Swansea, algum nickel no Piemonte, 
zinco na Sardenha e mercúrio na Toscana. Havia tam- 
bém na Sardenha, na Toscana e no valle de Aoste, 
bons jazigos de chumbo argentifero ; e ao pé dos Alpes, 
no Monte Branco, havia um grande jazigo de ouro, 
onde, no tempo dos Romanos, trabalhavam cinco mil 
escravos. Nos lagoni (pequenos lagos), collocados entre 
a Pomerania e a Massa maritima, encontravam-se os 
frumachi ou soffiani, que forneciam a maior parte de 
bórax empregado na industria da Europa ^. 

Mas, como acontecia com os outros mineraes, tira- 
va-se de tudo isso pequeno resultado. 

Pelo contrario, os muitos pântanos salgados que 
havia e ha na Itália, eram objecto de grande explora- 
ção ; e essa exploração desinvolveu-se grandemente, 
sobretudo, nos últimos trinta annos do século XIX. 

Na Sicilia, havia também muito sal gema e coral, 
que eram egualmente muito explorados. 



t O acido bórax é empregado como fundente na metalluroria e 
é também para obter o esmalte na faiança e porcellana. 



560 ^ HISTORIA ECONÓMICA 



Da mesma forma, as pedreiras ditalia, que são 
muito ricas, eram objecto de grande exploração e com- 
mercio ; e citavam-se entre os mais bellos mármores do 
mundo os dos Alpes Apuanos, de Massa e de Garrara. 

A exploração d'essas mármores era feita proficien- 
temente e com muito cuidado, e por artistas que exer- 
ciam no próprio local o mister de esculptores e mode- 
ladores, e preparavam ao mesmo tempo os mozaicos e 
os objectos de um certo valor industrial e artístico. 

E também a Toscana, o Piemonte, a Liguria e o 
Bergamesco exploravam com grande proveito os már- 
mores venados de differentes cores. 

A pedra pomes das ilhas Lipari, o alabastro de 
Livorno e de Volterra, a terra de Siènne (Toscana), o 
kaolim da ilha do Elba, e as granadas e esmeraldas da 
mesma ilha, constituíam outros artigos de um commer- 
cio importante. 

O enxofre era também uma das grandes riquezas 
da Itália, sobretudo, na região do Etna, na Sicília, e 
perto do Vesúvio. 



A Itália encerra muitas zonas de uma fertilidade 
assombrosa; mas os processos de cultura estavam ainda 
muito atrazados em differentes províncias. 

Havia três zonas differentes e três systemas de 
exploração diversa. 

Na Lombardia, o solo estava dividido n'um grande 
numero de propriedades, e a cultura era muito pros- 
pera, devido, sobretudo, ao bom regímen das aguas 
de irrigação. Esta zona estendia-se desde a base do 



EDADE CONTEMPORÂNEA 561 



Monte Cenis, ao oeste, até o mar Adriático a este, na 
Lombardia e Venecia; e, do norte a sul, do sopé dos 
Alpes á base septentrional dos Apeninos. O Pó e seus 
afluentes regam este rico dominio de planícies, um dos 
mais povoados da Europa. 

Este mesmo systema de cultura, sabia e intensa, era 
applicado a todas as planicies da peninsula que tivessem 
um certo desinvolvimento. 

N'essa zona, era difficil avaliar a prodigiosa quanti- 
dade do trabalho, representado pela rede de canaes de 
irrigação, entretenimento de diques, fossos, caminhos, 
egualação da superficie dos campos e transformação 
de todas as inclinações cultivadas das montanhas. Os 
enormes desaterros que foi preciso fazer para a cons- 
trucção de caminhos de ferro, são pequena coisa em 
comparação dos degraus de cultura que os lavradores 
estabeleceram, como escada de gigantes, no contorno de 
todas as collinas e na base de quasi todos os montes 
que rodeiam o valle do Pó. 

N'esta primeira zona, não havia espaço perdido. O 
milho, o arroz, os cereaes, as culturas alimentares de 
toda a ordem, jardins, pomares e hortas, succediam-se 
sem interrupção. 

O segundo systema era o da cultura em terraços, 
applicada nas regiões montanhosas de toda a Itália. As 
riquezas vegetaes consistiam em vinhas, figueiras, laran- 
jeiras, limoeiros e oliveiras. 

A terceira zona comprehendia as altas montanhas e 
os districtos pantanosos e as maremmas. 

Esses pântanos estendiam-se nas margens e ao 
longo de certos rios, especialmente no Amo. Antiga- 
mente constituíam elles boas terras de cultura; e 

Volume VI 36 



562 A HISTORIA ECONÓMICA 



mesmo as planícies de Roma foram outrora mais ale- 
gres e salubres que no século passado. 

Mas, apesar dos progressos da Itália, desde 1866, 
ou antes desde 1870, e apesar da maravilhosa fertilidade 
do solo, a agricultura estava, em geral, muito atrasada. 
Os campos mais próprios para os productos do solo, 
algumas vezes até na própria Lombardia, ainda nos 
fins do século XIX, tinham um aspecto miserável, ao 
mesmo tempo que abundavam por toda a parte as 
casas arruinadas. E esta miséria mais augmentava, nas 
regiões do centro e do sul, onde o solo era mais impró- 
prio, e os habitantes se alimentavam só do pão de 
milho ou de milho cosido (polenta) ou de castanhas. 

E' que a população agricola era formada, nas quatro 
quintas partes, de rendeiros; e a grande maioria dos 
proprietários italianos vivia dos seus rendimentos nas 
cidades, longe das suas propriedades. Sem fallar da 
exportação dos seus capitães, que eram a consequên- 
cia d'este regimen, acontecia que, por um lado, o pro- 
prietário não vivia nas suas terras, nem se interessava 
por ellas; considerava-as apenas como um capital, cujos 
juros ia recebendo, e não tratava de fazer melhora- 
mentos que augmentassem o valor do solo. 

Por outro lado, os cultivadores também não faziam 
bemfeitorias nem melhoramentos, antes só tratavam de 
explorar os proprietários, e de ir cultivando a terra sem 
grandes despesas, e, portanto, sem poderem tirar 
grande rendimento d'ella. 

Em summa, havia o antigo absentismo, que tão pre- 
judicial foi á economia romana. 

A sorte dos pequenos proprietários não era melhor 
que a dos trabalhadores. Os das regiões montanhosas 



EDADE CONTEMPORÂNEA 563 



morriam de fome, se não podiam recorrer á emigração 
temporária para as planicies, onde trabalhavam como 
operários nomados, ou para as cidades e para o estran- 
geiro, onde se entregavam a differentes misteres. Acon- 
tecia mesmo que, de setembro a outubro, milhares de 
Italianos se embarcavam para fazer a colheita de trigo 
na Argentina, e voltavam depois para fazer também a 
colheita de trigo na Itália ^ E essa emigração tomou 
as proporções de um verdadeiro êxodo, nos últimos 
tempos do século XIX. 

Para dar á propriedade territorial a situação que 
ella podia pretender, era também necessária a realiza- 
ção de varias reformas, com a introducção dos instru- 
mentos agricolas aperfeiçoados, extensão das irrigações, 
rearborisação, augmento e melhoramento de gado, e 
sobretudo adopção de uma cultura racional. 

Um outro mal de que soffria a agricultura, era a 
falta de capitães nos proprietários, e os juros excessi- 
vos que dahi resultavam. Mesmo na região do Pó, a 
necessidade de entreter a canalisação mais necessários 
tornavam os capitães. E ainda acresciam os pesados 
impostos que oneravam a propriedade. 

Em toda a parte onde a terra era agricultada, 
cobria-se de ricas ceifas, mas nem todas as partes do 
solo eram cultivadas. Restavam ainda grandes extensões 
pantanosas e insalubres como as maremmas, as lagoas 
Pontinas, a campina ou campanha de Roma, onde se 
estavam emprehendendo com resultado importantes tra- 
balhos de enchugamento, saneamento e aproveitamento. 



1 Lltalie Economique (1895-1896). 



564 A HISTORIA ECONÓMICA 



As principaes producções da Itália eram os cereaes, 
o vinho e o azeite. O milho, cultivado por toda a parte, 
occupava grandes espaços nas provincias da Lombar- 
dia e Toscana. As lagunas do Pó estavam transforma- 
das em arrosaes, e a Itália era o paiz da Europa que 
produzia mais arroz. A colheita do trigo era insuffi- 
ciente para a alimentação do povo ; e os outros cereaes, 
cevada, centeio e aveia davam também um rendimento 
diminuto. 

A Sicilia, que antigamente constituia o celleiro dos 
Romanos, pela producção dos cereaes, já o não era no 
século XIX; e tinha maior importância pela plantação 
dos seus jardins, vinhas, laranjeiras e pomares. A prin- 
cipal producção era a das laranjas, que dava á Sicilia 
um rendimento enorme. Contava-se por milhões de 
francos os fructos que ella exportava para a Europa, 
especialmente, para a Inglaterra e para os Estados- 
Unidos. 

Como paiz vinicola, a Itália era também um dos 
mais importantes da Europa. 

A Sicilia, Apúlia, Calábria e Sardenha, cultivavam 
bastantemente o algodão ; e o linho e cânhamo occu- 
pavam grandes extensões no Piemonte, Lombardia e 
Venecia. 

A cultura do tabaco, limitada pelas restricções do 
monopólio, era insufficiente. Mas a da beterraba e do 
lúpulo, que encontravam um clima muito favorável, 
estava em progresso, e a da amoreira achava-se muito 
espalhada por toda a parte. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 565 



Quanto ás arvores fructiferas, no norte e centro 
cultivavam-se os fructos das zonas temperadas, e no 
sul os da zona tropical, como figueiras, romanzeiras, 
açofeifeiras, limoeiros, limeiras e laranjeiras. As laran- 
jeiras, limoeiros e suas variedades formavam, na Sicilia, 
na região napolitana e na Sardenha, verdadeiros bos- 
ques. 

As florestas representavam apenas 12 por cento da 
superficie total. Os dentes do gado e os machados 
ignorantes tinham-nas destruído por toda a parte, mas 
principalmente no sul. Cada individuo cortava á von- 
tade, para fazer potassa e carvão, que exportava. Mas, 
nos últimos tempos do século XIX, o Governo estava 
favorecendo muito a renovação das florestas. 

A criação de gado era muito importante e, sobretudo, 
nos últimos annos do século XIX, o augmento da cria- 
ção foi notável. E' que muitos proprietários dos latifún- 
dios, desanimados pela cultura, transformaram as pro- 
priedades em pastos. 

Comtudo, nem toda a Itália era favorável ao desin- 
volvimento dos rebanhos. Havia um contraste notável 
entre a parte continental, o valle do Pó e a região 
peninsular. Ao norte, graças á humidade do clima e 
abundância das aguas de irrigação, podiam-se entreter 
bellos prados e alimentar grande abundância de gado 
grosso. Pelo contrario, a peninsula muitas vezes áspera 
e rochosa, mal provida de rios, e esses mediocres, só 
podia, com excepção das maremmas e de algumas zonas 
de pastos das montanhas, criar gado miúdo. 

Por isso, ao norte era grande o numero de animaes 
de cornos. Os cavallos eram pouco numerosos por 
toda a parte. Havia muitas cabras nas montanhas. 



566 A HISTORIA ECONÓMICA 



Muitos porcos, sobretudo, na Napolitana, nas Roma- 
gnes e Apenino Romano. Os carneiros iam diminuindo, 
como geralmente acontecia em toda a parte da Europa. 
Muitas abelhas, cujo mel e cera constituiam uma grande 
fonte de riqueza no Piemonte. 

A pesca era uma occupação para grande parte da 
população costeira, e uma outra fonte importante de 
rendimento. 

As costas da Itália eram muito piscosas. Torna- 
ram-se também muito notáveis as pescarias das lagu- 
nas de Comachio, onde os pescadores prefaziam um 
numero de muitos milhares. E a Sicilia era egualmente 
muito piscosa, e, especialmente, muito abundante de 
atum. 



Quanto ás industrias, na parte mineral, já vimos 
que a Itália carecia ainda de muito desinvolvimento. 
Em todo o caso, o Governo, nos últimos tempos do 
século XIX, animou poderosamente a metallurgia ; e 
grandes estabelecimentos, providos de todas as innova- 
çÕes modernas, bem como uma fabrica de canhões, 
foram criados em Castellamare, Nas bellas fabricas de 
San Pier d'Arena, perto de Génova, fabricava-se todo 
o material de caminhos de ferro, locomotivas, raíls, etc, 
e maquinas para a industria e para os navios. 

Em Sestri, perto de Génova, e em Veneza, é que 
havia os maiores canteiros de marinha de guerra. Milão 
e Brescia, em estabelecimentos mais modestos, fabrica- 
vam objectos de caldeireiro e quinquilharias. Puzíoles, 
no golfo de Baia, que reunia muitas industrias metal- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 557 



lurgicas, era uma pequena Creusot; e Temi, na Ombria, 
era o estabelecimento mais activo da peninsula. Piom- 
bino em face da ilha de Elba, fabricava aços esti- 
mados. 

Nas industrias textis, a Itália, apesar dos progressos 
realisados nos últimos annos do século, era ainda tri- 
butaria do estrangeiro. Até na producção da seda, 
ficava no sexto logar da Europa, depois da França, 
Inglaterra, Allemanha, Áustria e Suissa ; e Milão come- 
çava a tornar-se uma rival seria de Lyon. Só na cria- 
ção do sirgo, é que a peninsula ficava no primeiro 
logar. 

Mas, apesar de tudo isso, tanto na industria agrícola, 
como nas industrias metallurgicas e nas textis, o movi- 
mento industrial da Itália occupava um dos últimos 
Jogares da Europa. E esse atrazo não era devido 
somente á falta da hulha. O exemplo da Suissa mostra 
que esse obstáculo não é inexcedivel. Mas, como já 
fizemos ver, o peso dos impostos contribuia também 
para esse atrazo. 

Nas industrias de luxo e arte e nas industrias ali- 
mentares, é que a Itália já tinha um logar muito impor- 
tante na Europa; e, nos últimos tempos do século XIX, 
manifestou-se por toda a península um movimento serio 
para a maior intensificação d'essas industrias. 

Os productos mais estimados eram os mozaicos de 
Florença, Veneza e Roma; as terras-cotes, majolícas e 
porcellanas de Veneza, Toscana e Milanez; os vasos 
de forma grega e etrusca, fabricados em Nápoles; os 
espelhos, vidros finos e grossos, e avellorios de Veneza 
e de Murano ; e as bijuterias de coraes, em que tra^ 



568 A HISTORIA ECONÓMICA 



balhavam milhares de operários, em Nápoles, Génova, 
Livorno e Terra-del-Greco, e cujos braceletes e colares 
eram exportados até para a China, Japão e America. 

A fabricação de massas alimentares e de aletria, occu- 
pava também milhares de operários na reg^ião napoli- 
tana, e contava mais de 100 fabricas na Lig^uria e na 
Sicília. 

Era também muito importante a fabricação de sabão, 
de artigos culinários e carne salgada, e a de chapéus de 
palha. 

Assim, pode dizer-se, em resumo, que a industria, 
propriamente dita, comprehendia todas as especialida- 
des do trabalho moderno, desde a fabricação dos alfi- 
netes até a das locomotivas e dos grandes navios; 
mas só tinha proeminência em certos artigos de luxo, 
e em certas preparações culinárias, massas e carnes 
salgadas. 

A industria da seda tornou-se ultimamente de uma 
grande actividade. Milão, como já dissemos, conver- 
teu-se em rival perigosa para Lyon ; a fabricação da 
seda em obra adquiriu alli grande progresso; e os seus 
productos eram muito procurados na Suissa e Alle- 
manha. As fabricas de lanificios contavam-se por cen- 
tenas, sobretudo, nas provincias de Novara e Biella. 
As do algodão tomaram também um grande incremento; 
mas eram inferiores ás de Hespanha, e não occupa- 
vam a decima parte dos fusos que a França possuia. 
O linho e cânhamo fabricavam-se apenas domestica- 
mente. 

Mas fora da fiação dos pannos, a grande industria 
manufactora, com as suas grandes fabricas, que são 
outras cidades, e com a sua multidão de maquinas em 



EDADE CONTEMPORÂNEA 569 



movimento, estava ainda fracamente representada na 
Itália do norte; e, a não ser em Nápoles, era inteira- 
mente desconhecida na Itália do sul. 



* 
* 



O commercio triplicou depois da unidade politica, 
devido não somente ao génio italiano, mas também á 
abertura das communicações, como já fizemos sentir, 
e ao desinvolvimento da marinha. 

Mas, apesar do progresso commercial da Itália ser 
muito grande nos últimos tempos do século XIX, tinha 
ainda muito que andar, em proporção de algumas outras 
nações europeias. Na sua actividade mercantil, a Itália 
era excedida não só pela Inglaterra, França, Allemanha, 
Áustria Hungria e Rússia, mas até por alguns paizes 
de pequena extensão, como a Bélgica e Hollanda. 

Em todo o caso, pouco tempo antes dos fins do 
século XIX, os navios italianos não se aventuravam alem 
de Gibraltar; e ultimamente já tomavam o caminho dos 
Estados Unidos e da America, e até substituíam os 
navios americanos no commercio internacional, E já 
os commerciantes, enviados pela cidade de Génova, 
exploravam a Nova Guiné, as Molucas e os archipe- 
lagos vizinhos, para descobrirem novos mercados. 

Como dissemos, influiram poderosamente no desin- 
volvimento do commercio, a marinha e as communica- 
ções de que já falíamos, e de que adiante fallaremos 
de novo. 

Quanto á marinha, a mercante, era uma das mais 
importantes da Europa. 



570 A HISTORIA ECONÓMICA 



Até O ultimo quartel do século XIX, essa marinha 
tinha limitado a sua acção ao Meditertaneo ; mas entrou 
depois também em relações com os paizes ultramari- 
nos, como já notámos. E, n'este sentido, o Governo 
concedeu prémios, para animar a navegação. 

Embora, porém, a frota mercantil fosse muito impor- 
tante, porque somente cedia á das Ilhas Britânicas, 
Estados Unidos, Allemanha e França, e ainda que 
tivesse um enorme pessoal de marinheiros e pescado- 
res, quasi em numero de 200 mil indivíduos, a Itália 
achava-se muito longe de ter uma actividade commer- 
cial em relação com o seu pessoal e tonelagem. 

A não ser em Génova, as immensas ferramentas de 
navegação só serviam para a pequena pesca e para o 
tráfico de cabotagem mediterrânea. Os navios que se 
aventuravam em pleno Oceano, eram relativamente pouco 
numerosos. Ainda em 1865, o pavilhão italiano se não 
tinha mostrado no Oceano Pacifico; e, em 1876, ainda 
raramente se tinha visto nos mares do Oriente. 

O numero dos vapores era também diminuto, o que 
egualmente diminuia a importância do commercio do 
mar largo. 

Os principaes objectos de exportação eram o vinho, 
o azeite, as laranjas e limões, arroz, seda, enxofre, 
objectos artisticos, amêndoas, gados e ovos. 

E a importação consistia principalmente em cereaes, 
café, peixe salgado, assucar, algodão grego, pelles bru- 
tas, hulha e mesmo ferro e aço, tecidos, queijo e manteiga. 

Os principaes paizes com que a Itália fazia o seu 
commercio, eram a Inglaterra, Áustria, França, Romé- 
nia e Allemanha. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 57I 



Quanto aos centros económicos, as novas commu- 
nicações influíram muito n'elles, e produziram grandes 
alterações, com respeito á época anterior. 

Assim, Turin, no alto Pó, onde convergiram todos 
os caminhos que atravessavam os Alpes, desde o mas- 
siço do Monte Branco á raiz dos Apeninos, era, por 
sua situação, um dos pontos vitaes do tráfico europeu, 
e tornou-se o centro natural do commercio do alto valle 
do Pó até o Tessino. 

Milão, onde vinham dar os sete grandes caminhos 
alpestres do Simplon, S, Gothard, Bernardin, Splugen, 
Julier, Maloya e Stelvio, era egualmente um empório 
necessário. Esta cidade, por sua população, comprehen- 
dendo as aldeias, só era inferior a Nápoles. Por seu 
commercio, ficava logo depois de Génova. Por sua indus- 
tria, egualava estas duas cidades. E, pelo seu movi- 
mento scientifico e litterario, era a primeira das cidades, 
entre os Alpes e o mar da Sicilia. 

Bolonha, que os pântanos e leito do Pó, dificeis de 
atravessar, separavam outrora dos Alpes, mas que os 
caminhos de ferro ligaram, nos últimos tempos do 
século, a todos os collos do heriíyciclo das montanhas, 
tornou-se também muito importante; porque era lá que 
vinham reunir-se as linhas de Vienna, Paris, Marselha 
e Nápoles. 

Sem a criação dos caminhos, o valle do Pó não 
teria na Europa a importância que possuia. A alta 
muralha eliptica dos Alpes separava-o completamente 
da França, da Suissa, da Allemanha, emquanto que ao 



572 A HISTORIA ECONÓMICA 



sul, O muro menos elevado dos Apeninos tornava as 
comunicações difficeis com os valles do Tigre e do 
Arno. O paiz só estava aberto do lado do Adriático. 

Mas a construcção das estradas carroçáveis e dos 
caminhos de ferro mudou tudo isso ; e a Itália do norte 
tornou-se para o commercio da Europa um dos princi- 
paes centros de attracção. Por Veneza, tinha o Adriá- 
tico. Pela via férrea dos Apeninos, tinha Génova, 
Savona, o golfo de Spezia e o mar Thyrreno. Comman- 
dava ao mesmo tempo os dois mares que banham a Itália. 
E os caminhos de ferro de Modane e os de Bremen e 
Semering faziam convergir para a baixa Lombardia 
uma parte das trocas da França, da Allemanha e da 
Áustria. 

E outras linhas da grande rede europeia, descendo 
de Pontebba, do S. Gothard, do monte de Genebra e 
do coUo do Tende, iam unir-se como ao centro de uma 
zona immensa, nas cidades florescentes do valle do Pó. 

E, na descida de cada um dos collos, assim como 
na saida dos atalhos dos Apeninos, encontravam-se 
muitas cidades e etapas, como Mondovi, a triplice 
cidade edificada sobre três cabeços; Coni, muito bem 
collocada no seu terraço triangular entre Stura e Gesso; 
Saluzzo, Pignerol (Pinerelo), Susa, porta italiana do 
monte Cenis; Aoste, Bielle, tão rica em manufacturas 
de lan ; e, no alto Piemonte, Fossano, Savigliano e Car- 
magnola, onde vem dar os quatro principaes caminhos 
dos Apeninos. No Piemonte oriental, Novara, Vercelli 
e Casale, antiga capital de Monferrat. 

Ao sul do massiço das collinas de Turin havia Ale- 
xandria, centro de convergência de oito linhas do cami- 
nho de ferro, e, portanto, uma das cidades da Itália 



EDADE CONTEMPORÂNEA 573 



onde se operava um dos maiores movimentos de passa- 
gem, Aosti, celebre por seus vinhos espumosos, Acqui, 
Como, Monza, Pavia, Cremona e Bergamo. 

Veneza, outr'ora a rainha do Adriático, estava muito 
decaida commercialmente. 

Génova era o ponto mais activo da Itália. Embora 
o seu movimento fosse inferior ao de Marselha, os 
armadores possuiam metade da frota commercial da 
Itália, e as três quartas partes dos seus navios. 

Para o vaivém das embarcações de vela e vapores 
que frequentavam a praça de Génova, e que se encon- 
travam ahi, ás vezes, em numero de 700, sem contar 
milhares de outras naus pequenas, o porto cuja super- 
ficie tinha mais de 130 hectares, já não era grande, e, 
sobretudo, não era sufficientemente abrigado. 

Uma quarta parte da sua superficie estava garan- 
tida dos ventos, mas era precisamente a menos pro- 
funda. Seria preciso duplicar a extensão e tornal-a 
muito mais segura, pela construcção de um contra- 
vagas que separasse do alto mar a vasta superficie de 
uma enseada exterior. 

Génova era também uma cidade muito industrial, que 
tinha, alem dos seus canteiros, muitas fabricas de massas 
alimentares, papeis, sedas, velludos, sabões, azeites, 
metaes, louças, flores artificiaes e outros adornos. 

A oeste, San Pier d' Arena (Sampierdarena) tor- 
nou-se uma verdadeira cidade industrial. E Cornigliano, 
Rivarolo, Sestridi Ponente, que possuia os maiores 
canteiros da Itália, mesmo do Mediterrâneo, Pegli e 
Voltri eram também cidades populosas, tendo muitas 
fiações e fundições, ligando-se umas ás outras, de modo 
a formarem um verdadeiro formigueiro humano. 



574 A HISTORIA ECONÓMICA 



Spezia, porto militar, bordado de arsenaes e can- 
teiros, não tinha grande movimento commercial; por- 
que, embora offereça um abrigo seguro, não estava 
ainda ligado com os povos de alem dos Apeninos por 
vias férreas, e não tinha outros productos a expedir, 
alem dos que provinham dos ricos valles dos seus 
arredores. 

Florença, uma das maiores cidades de Itália, era 
também muito industrial. Tinha muitas fabricas de seda 
e lanificios, mosaicos, porcellanas, pedras duras, ateliers 
de chapéus de palha e de outros objectos que deman- 
dam gosto e habilidade de mãos. 

Pisa estava inteiramente decaida, pela completa 
obstrucção do seu porto. 

Livorno ficou herdeira de Pisa, e os seus navios 
não deixaram de seguir as mesmas escalas para os 
portos do Levante, desimbocadouro natural das ricas 
bacias da Toscana. Constituía ura mercado muito mais 
activo do que a forma do littoral poderia fazer suppor. 
Em 1872, era até o segundo porto da ItaHa. Só depois 
d'isso, é que Nápoles se lhe tornou superior. 

No valle do Tibre, Roma, a capital da Itália, des- 
provida de porto, e com os campos dos arredores cheios 
de miasmas deletérios, era uma das grandes cidades, 
mas destituída de industria e commercio, a não ser 
no que é relativamente natural a um centro de grande 
população. 

Pescara, que servia de intermédio entre Romã e 
Ancona, era um importante centro económico, tendo 
por especialidade o commercio das sedas. 

Ancona era uma das três cidades mais commer- 
ciantes da costa occidental d'Italia, e a oitava de todo 



EDADE CONTEMPORÂNEA 575 



O littoral da península. Vinha depois de Veneza, e dis- 
putava a proeminência a Brindizi. 

A velha Tarento, o grande porto antigo, estava 
abandonada pelos navios, o que permittiu ás hervas e 
lichens dos pântanos estenderem os seus tapetes sobre 
as ruinas de Sybaris, outrora a primeira cidade da 
peninsula. 

Nápoles, o centro mais populoso da Itália, onde 
accorriam pessoas de todo o paiz e de todo o mundo, 
para se divertirem e gozarem, tomou também uma 
grande parte no movimento industrial italiano. Fabri- 
cava massas alimentares, pannos, sedas chamadas 
Groz de Nápoles, vidros, porcellanas, instrumentos de 
musica, flores artificiaes, objectos de adorno, e tudo o 
que se relacionava com as necessidades e usos de uma 
grande cidade. 

Nenhuma outra do Mediterrâneo tinha operários 
mais hábeis como polidores de coral. 

Era também dos arredores de Nápoles, da graciosa 
Sorrento, que provinham essas caixas, para jóias e 
outros objectos de pau de palmeira, graciosamente tra- 
balhados. 

Nápoles, com o seu bello porto, devia ser também 
uma grande cidade de commercio. Comtudo o seu 
porto vinha depois de Génova; e, ainda no penúltimo 
quartel do século, era excedido por Livorno e Messina. 
E' que Nápoles não era como esta ultima um logar de 
etapa forçada para os navios, e não tinha como Génova 
e Livorno regiões de grande extensão a servirem-na; 
pois, a pequena distancia d'ella, ao norte, ao oeste e ao 
sul, começam os macissos irregulares dos Apeninos, 
que nenhuma via férrea atravessava em toda a largura 



576 A HISTORIA ECONÓMICA 



do mar Thyrreno ao Adriático. E nem sequer estava 
lig-ada por qualquer linha férrea ao golfo de Tarento. 

Castellamare di Stabia possuía os canteiros de cons- 
trucção mais activos da Itália, depois do littoral geno- 
vez e do Spezia. 

Gaeta era um dos portos mais requestado da Itália 
para a cabotagem e pesca. 

Na vertente meridional do Adriático, os centros 
económicos importantes eram mais numerosos e mais 
activos. 

Foggia, onde convergiam quatro caminhos de ferro 
e muitas estradas, constituia um grande mercado de géne- 
ros. Não pela população, mas pela riqueza, tornou-se a 
segunda cidade de toda a Napolitania. Tinha como 
satellites San Severo, Cerignola e Lucera ; mas ainda 
assim a todas faltavam desimbocadouros directos para 
o mar, e estavam rodeadas de maremmas. A bonifica- 
ção d'estas maremmas era uma das obras urgentes a 
fazer. 

Brindizi, que, por duas vezes, no tempo dos Roma- 
nos e no tempo das cruzadas, foi uma das grandes 
etapas da passagem entre a Europa occidental e o 
Oriente, começou a retomar essa figura intermediaria 
no commercio do mundo. Bastava para isso estar situada 
á entrada do Adriático, e o seu porto ser um dos me- 
lhores do Mediterrâneo, e sua bahia excellente. 

A nova Tarento adquiriu uma certa importância no 
commercio de cabotagem, depois da abertura do cami- 
nho de ferro de Bari; mas a sua industria, á excepção 
da pesca de peixe, das ostras e do sal, era quasi nuUa. 

Na Sicilia, Palermo, a capital só estava, quanto á 
população, abaixo de Nápoles, Milão e Roma; porém, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 577 



no commercio, já ficava muito abaixo dos dois portos 
occidentaes da ilha — Trapani e Massala, e também muito 
abaixo de Messina, que é a cidade central do Mediterrâ- 
neo, e que dispunha de um porto muito profundo e muito 
abrigado, e era uma etapa dos vapores que serviam 
o commercio maritimo entre os paizes da Europa Occi- 
dental e os do Levante. 

Catanea era, da mesma forma que Messina, uma 
cidade de grande prosperidade commercial. 

Syracusa, a cidade potente de outr'ora, não passava 
de um estendal de ruinas. 

Na Sardenha, Cagliari e a sua rival Sassari, eram os 
centros mais importantes. 



* 
* 



Já falíamos das communicações, e vimos como as 
estradas eram bastas no norte e deficientes no resto da 
peninsula. 

Effectivamente, no interior, a rede das estradas era 
muito cerrada no Piemonte, Lombardia e Venecia, isto 
é, no valle do Pó e do Adige. Mas, na Itália peninsu- 
lar, dividida pelos Apeninos e pelos contrafortes que 
elles projectam em muitos repartimei)tos distinctos, 
eram difficeis as relações de umas provincias para as 
outras no mesmo mar, e de uma vertente para a outra, 
atravez desses montes. E essa falta de communicações 
era a causa principal da miséria que havia nos campos, 
visto que, não podendo os productos do solo ser expor- 
tados, eram consumidos no local ou vendidos por baixo 

Volume VI 37 



578 A HISTORIA ECONÓMICA 



preço. Só havia excepção, quando podiam transportar-se 
facilmente para um ponto da costa, porque o caminho do 
mar era o mais conveniente, por ser o mais económico. 

E também as communicações por agua, rios nave- 
gáveis e canaes só eram praticáveis na Itália septen- 
trional. 

Mas, por um lado, os caminhos de ferro internacio- 
naes, pela abertura dos Alpes em muitos pontos da 
fronteira, como o do Monte Cenis (1850-1870), o de 
S. Gothard, Simplon, Brenner e Semering, vieram dar 
grande vantagem ao commercio italiano. 

Depois que esses túneis foram abertos, os portos 
da Itália no Mediterrâneo e no Adriático tornaram-se 
entrepostos dos productos da Europa central e Occi- 
dental, destinados ao Oriente e extremo Oriente. As 
mercadorias que transitavam outr'ora pela França, che- 
gavam pelo S. Gothard, que era também o centro das 
relações entre Anvers, Bremen e Hamburgo ao norte, 
e Génova e Brindizi ao sul. 

Os productos da Allemanha central e meridional 
afluíam pelo collo do Bremen, e os de França, pelos 
caminhos do Comiche e Monte Cenis. 

Por outro lado, abriram-se grandes caminhos car- 
rossaveis atravez dos Apeninos; e, alem desses, cinco 
vias férreas os atravessaram, a saber: entre Turim e 
Savona, Milão e Génova, Bolonha e Florença, Ancona 
e Roma, Nápoles e Foggia; e ainda outras linhas, adian- 
tando-se de uma parte e outra, vinham juntar-se pro- 
ximamente nas galerias subterrâneas ou collos das 
montanhas. 

O caminho de ferro que costeia as praias do Adriá- 
tico, de Rimini a Brindizi e Otranto e que faz parte 



EDADE CONTEMPORÂNEA 579 



da linha commercial de Londres, Suez e Bombaim, pro- 
duziu também uma grande mudança na geografia da 
peninsula. 

Até então, a costa occidental de Itália, que possuia 
o Arno, o Tibre, o Gagliano, e cujo littoral tem o pri- 
vilegio dos golfos, portos e archipelagos, era a metade 
viva da peninsula, propriamente dita. Era lá que se 
encontravam os grandes mercados, as cidades opulen- 
tas, os centros de civilização e os rendez-voíis para os 
estrangeiros. Mas essa via férrea mudou inteiramente o 
eixo do commercio para a parte oriental. 

As cidades principaes, ainda não estavam criadas, 
mas tinham já um dos caminhos principaes do antigo 
mundo, e milhares de viajantes que davam volta á terra, 
passavam por lá ^. 



1 Noel, obr. cit. — M. M. Piolet & Bernard, Histoire Contem- 
poraine de 1815 á Nos Jours. — Marsillac, obr. cit. — Jules Isaac, 
Histoire Contemporaine 1819-1820. — Albert Malet, obr. cit. — E. 
Reclus, Nouvelle Geographie Universelle LEurope Meridionelle. — 
Bannier, obr. cit. — Lanier, LEurope. — Corner, Commercial Geogra- 
phy. Le Italie Economique. — Marmochi, descrizione ditalie. — Taine, 
Voyage en Italie. 



CAPITULO XXII 
A Hespanha 

Leve esboço da sua historia politica n'este periodo. — Modificações 
importantes que se haviam produzido na Hespanha, no fim do 
século XVIII, pela promulgação de medidas liberaes, quanto ao 
commercio e industria. — Esforços de Carlos III e Carlos IV, 
n'este sentido. — Desinvolvimento económico resultante d'isso. 

— Abalo que a Hespanha experimentou com a revolução fran- 
ceza, a qual fez deter o vôo que a politica, melhor avisada, acabava 
de lhe imprimir. — Como as guerras que d'alli provieram, preju- 
dicaram enormemente o paiz. — Como aos effeitos d'essas guer- 
ras acresceram os vicios da administração interior e a insur- 
reição geral das colónias. — Desinvolvimento posterior, no reinado 
de Isabel II. — Era de renovação e progresso, desde 1848 a 
1862. — Proclamação da republica; decadência e desordem com- 
pleta, nos dois anos que ella durou. — Como, ainda depois de res- 
tabelecida a monarquia, a guerra carlista continuou perturbando 
a Hespanha até 1876. — Como a Hespanha retomou d'ahi por 
diante o progresso económico, apenas com o intervallo passa- 
geiro do levantamento de Cuba e da guerra com os Estados 
Unidos. — Productos. — Agricultura. — Industria. — Commercio. 

— Centros económicos principaes. — Communicações. 

Quando sobreveiu a revolução franceza, reinava em 
Hespanha Carlos IV (1788-1809). 

O seu antecessor, Carlos III, tinha beneficiado o paiz, 
pela sua iniciativa económica, pelo seu cuidado a favor 
da administração publica, pelo seu amor ao desinvolvi- 



582 A HISTORIA ECONÓMICA 



mento das cominunicações, e pelo interesse que mostrou 
pelas colónias. \ 

Sucedeu-lhe o filho Carlos IV, que, no principio do 
reinado, se inspirou nas mesmas ideias, mas depois dei- 
xou decair as instituições esboçadas por seu pae; e, 
sob a influencia nefasta do favorito Godoi, todos os 
antigos abusos reappareceram. E, demais a mais, a 
g-uerra com a republica franceza lançou a desordem nas 
finanças, e custou ao reino a possessão de S. Domingos. 

Seguiram-se as guerras napoleónicas (1808-1814), 
em que a Hespanha retomou o seu antigo enthusiasmo, 
embora fosse muito prejudicada por ellas, como, em 
geral, toda a Europa, Durante esse periodo, houve a 
promulgação da constituição de 1912, que terminou 
com o regimen absoluto da nação. 

Em 1808, o rei Carlos IV abdicou em seu filho 
Fernando VII, que reinou desde 1808 a 1833; e a Hes- 
panha liberal teve ainda de luctar contra as violências 
e abusos d'esse rei, que a Santa alliança secundou, e 
que Luiz XVIII, rei de França, manteve contra as cortes 
hespanholas. 

A longa opressão que a metrópole tinha feito pesar 
sobre as opulentas colónias da America, provocou no 
novo mundo hespanhol uma insurreição geral, desde 
1810 a 1825, dando em resultado romperem ellas o laço 
que as ligava á metrópole, e constituirem-se em republi- 
cas independentes. 

No reinado de Isabel II (1833-1868), em cuja meno- 
ridade foi regente sua mãe Christina até 1843, apesar 



^ A Historia Económica, vol. V pag. 367. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 583 



de haver differentes pronunciamentos, apar da guerra 
civil dos Carlistas e das dictaduras passageiras, que 
agitaram o paiz, a Hespanha progrediu muito. Mas, em 
1862, essa rainha foi deposta por uma combinação 
de progressistas e republicanos, e a regência foi con- 
fiada ao marechal Serrano, á espera da escolha de 
um rei. 

A candidatura do duque de Montpensier, filho de 
Luiz Filippe, foi afastada por Napoleão ; e a do prin- 
cepe de Hohenzolern foi o pretexto da terrivel guerra 
entre a França e a Prússia. O general Prim que, segundo 
se diz, tinha sonhado colocar na sua cabeça a coroa de 
S. Fernando, teve de se contentar com a simples figura 
de medianeiro de reis; e, n'esse sentido, fez chamar o 
princepe Amadeu de Sabóia, filho do rei de Itália, 
Victor Manoel. 

Este monarca governou a Hespanha, durante dois 
annos (1871-1873), nas condições as mais difficeis, ás 
mãos com a guerra civil, insurreições locais, revolta de 
Cuba e grandes embaraços financeiros. Mas cumpriu 
com fidelidade os seus deveres de rei constitucional, 
embora fosse impotente para conciliar as simpathias 
da nação e fazer esquecer a sua qualidade de estran- 
geiro. Por isso, renunciou lealmente a coroa. 

Foi, então, proclamada a republica; e as cortes inves- 
tiram da dictadura o chefe do partido republicano Emilio 
Castelar, que energicamente combateu e venceu a insur- 
reição do sul, e resignou, afinal, as suas funcções, 
em 1874. 

Um golpe militar do general Pavia fez passar o 
poder para as mãos do general Serrano ; e, no anno 
seguinte, o partido constitucial , secundado pelos chefes 



584 A HISTORIA ECONÓMICA 



do exercito, chamou ao trono o princepe Affonso XII, 
filho mais velho da rainha Isabel (1875-1886). 

Então, as operações militares contra os Carlistas 
foram continuadas com vigor; e a guerra terminou, em 
1876, pela fugida do pretendente D. Carlos para o ter- 
ritório francez. O regimen parlamentar foi restabelecido; 
e começou a correr uma era de paz, que permittiu á 
Hespanha a reparação das suas forças e o novo empre- 
hendimento das reformas, tantas vezes interrompidas. 

Sucedeu-lhe Affonso XIII, ainda menor. Sua mãe, 
Maria Christina, tomou a regência com firmeza. Teve 
de luctar ao mesmo tempo contra os Carlistas e repu- 
blicanos; e o partido anarquista começou também a 
fazer-se conhecer por differentes attentados, que aterra- 
ram a população. E, se no interior, a situação era diffi- 
cil, não o era menos no exterior: porque a Hespanha 
teve de luctar contra os Marroquinos, que haviam morto 
uma divisão hespanhola. Cuba, patrocinada pelos Esta- 
dos Unidos, levantou-se também por sua vez contra a 
metrópole, e obteve a independência. As Filippinas 
alcançaram egualmente a sua libertação. E, por fim, a 
regente, que mostrou sempre a maior coragem, no meio 
d'estas complicações politicas, entregou as redias do 
governo a seu filho, que foi declarado de maior edade, 
em 1902. 



No fim do século XVlll, tinham-se produzido modi- 
ficações importantes na Hespanha. Haviam-se promul- 
gado medidas liberaes, para desembaraçar a industria 



EDADE CONTEMPORÂNEA 585 



dos seus tropeços e deixar mais liberdade aos fabri- 
cantes, até então submettidos a regulamentos minucio- 
sos e vexatórios, por causa das dimensões, do peso e 
da maneira de fabricar os productos. Haviam-se cohi- 
bido os abusos, ainda numerosos do regimen corpora- 
tivo. E constituiram-se nas grandes cidades differentes 
sociedades, para criar escolas technicas, de fiação e 
desenho, e fabricação de maquinas a vapor. 

Carlos 111 e Carlos IV fizeram grandes esforços para 
estabelecer e animar, mesmo com grande despesa, 
muitas manufacturas de tecidos finos e de tecidos de 
lan, cujos encargos eram pesados para o thesouro, mas 
que davam á industria particular modelos de que ella 
podia servir-se com proveito. 

A metallurgia, construcção de navios e seus apres- 
tes, as manufacturas de tecelagem, de algodão, de seda 
e pannos, cânhamo, linho, fitas, rendas, botões e curti- 
mentas, entraram n'uma via de progresso. Aconteceu a 
mesma coisa com a agricultura. Tinham sido melhora- 
das as relações com os índios e com muitos paizes 
estrangeiros. E, em summa, como já notámos no vo- 
lume IV d'esta obra, a Hespanha, muito decaida antes 
de Filippe V, entrara nos reinados posteriores n'um 
caminho de franco desinvolvimento económico. 

Mas, com o abalo da revolução francesa e guerras 
napoleónicas, o paiz experimentou uma repercussão 
profunda, que fez parar o vôo que uma politica, 
melhor avisada, acabava de lhe imprimir. Então, as 
guerras que teve de sustentar, alastraram de ruinas o 
paiz inteiro, e prejudicaram toda a expansão econó- 
mica; e, alem disto, os vicios da administração interior 
augmentaram o mal. 



586 A HISTORIA ECONÓMICA 



Acabadas essas guerras, as luctas internas não dei- 
xavam levantar o movimento industrial e commercial da 
nação; e, como já vimos, ainda ella teve de soffrer as 
violências e abusos de Fernando Vil e a guerra da 
insurreição geral das colónias, de 1810 a 1827. 

Depois d'isso, no reinado de Izabel II, as reformas 
liberaes, apar do despertamento do paiz, trouxeram um 
periodo de grande desinvolvimento económico. 

Assim, antes de 1848, a agricultura tinha caido 
novamente n'um marasmo. As terras a monte haviam-se 
reproduzido por toda a parte, aggravando a miséria da 
população, e os melhores terrenos, na maior parte das 
provincias, ficavam de pousio durante um ou mais 
annos. Com excepção das provincias bascas, dos arre- 
dores de Valência, de Murcia, de Saragoça e Granada, 
e das margens do Tejo, Guadiana e Guadalquivir, rega- 
das pelas aguas d'estes rios, e cujas veigas e huertas 
davam colheitas abundantes, os habitantes das outras 
regiões viviam pobremente, e eram apenas na propor- 
ção de 32 e ás vezes 12 por kilometro quadrado. 

O commercio de importação estava reduzido a 150 
milhões de francos ; e o de exportação a 129 milhões. 
As estradas eram poucas, e mal entretidas; as commu- 
nicações eram quasi nullas, e os transportes muito 
custosos. E a Hespanha ainda não possuia senão uma 
linha férrea de 28 kilometros, ligando Barcellona a 
Mataro. A própria Cuba tinha tomado a prioridade 
n'esse género, construindo, em 1838, um caminho de 
ferro, desde Havana a Guinas. 

Mas, desde 1848 a 1868, surgiu uma era de reno- 
vação e progresso por toda a nação. Graças aos capi- 
tães importantes que a França e Inglaterra enviaram 



EDADE CONTEMPORÂNEA 587 



para Hespanha, onde uma remuneração vantajosa os 
solicitava de toda a parte, constituiram-se differentes 
sociedades financeiras, para explorar as minas, fornecer 
g-az ás grandes cidades, dar nova impulsão á industria, 
permittir ao Governo mudar o banco de S. Fernando 
em banco nacional, destinado a ramificar-se por todo o 
reino, bem como a criar uma rede telegráfica e lançar 
a base de uma grande rede de vias férreas. 

Desde então, houve um adiantamento notável no 
progresso económico, de modo que a agricultura melho- 
rou, e, sobretudo, a viticultura e vinicultura. A industria 
propriamente dita, achava-se n'um atrazo ainda maior 
que a agricultura, porque o povo, por menos desinvol- 
vida que ella estivesse, preferia sempre os misteres 
agricolas ; mas, desde então, e, sobretudo, desde 1850, 
uma corrente geral se manifestou em favor das empre- 
sas industriaes. Os capitães estrangeiros, e mesmo os 
locaes procuraram um emprego remuneratório, tanto 
na extracção dos mineraes, cada vez mais procurados 
pelos grandes Estados da Europa, como também na 
transformação directa das riquezas do paiz. 

As agitações interiores, mesmo depois de Isabel II 
até á proclamação da republica, fizeram retardar alguma 
coisa a ascensão do movimento económico, e também, 
depois d'isso, os dois annos de republica trouxeram uma 
desordem completa, apar de uma grande immoralidade 
de costumes. Não se respeitava a propriedade parti- 
cular, e, em muitas partes, nem mesmo a vida dos 
cidadãos. Milhares de pessoas emigravam para França 
e Portugal, abandonando as suas casas, o seu tráfico e 
haveres, contentes ainda por terem salvado a vida e 
a honra. 



588 ^ HISTORIA ECONÓMICA 



Como nos tempos mais desgraçados da monarquia, 
viam-se os campos desertos, as terras incultas, as offi- 
cinas abandonadas. E, ainda peior do que isso, viam-se 
também as campinas incendiadas, e o fogo posto a 
devorar extensas e ricas searas e famosos arboredos. 
Só em Granada houve mais de 20 mil oliveiras queima- 
das. O roubo tomou vastas proporções, até então des- 
conhecidas. A pretexto de cantonalidades, decretaram-se 
impostos forçados aos ricos; e todos aqueles que dese- 
i avam salvar a sua casa, pagavam a dinheiro o privilegio 
dessa conservação. 

De Carthagena chegou mesmo a sair, por mais de 
uma vez, o general Contreras, á frente de forças milita- 
res ou de marinha cantonal, a roubar populações intei- 
ras, que eram tomadas de assalto ou bombardeadas, 
quando não faziam prompto sacrifício de alguns milhões 
de pesetas. Os saques, mortes e fusilamentos encheram 
a Hespanha de horror, perturbando tudo isto o paci- 
fico desinvolvimento dos factores económicos. 

E, ainda depois de restabelecida a monarquia, a 
guerra carlista continuou a perturbar a Hespanha até 
1876, em que terminou. Só depois, é que a nação 
pôde retomar francamente o progresso industrial e com- 
mercial 

Houve apenas um embaraço passageiro, por occa- 
sião do levantamento de Guba e da guerra com os 
Estados Unidos; mas, depois da perda de Cuba e das 
Filippinas, a Hespanha concentrou-se nos seus próprios 
recursos, e, penitenciando-se dos erros passados, adqui- 
riu um grande desinvolvimento. 



EUADE CONTEMPORÂNEA 589 



Examinemos agora detalhadamente os principaes 
factores económicos. 

Quanto ao reino mineral, a Hespanha é muito favo- 
recida n'esse género ; e, como é sabido, já ella cons- 
tituia uma das grandes riquezas do império romano. 
Assim, tem abundância de hulha nas provincias das 
Astúrias. Leon, Castella a Velha, Córdova e Sevilha. 
Ha muita linhite na Andaluzia oriental e em Murcia; 
muitas minas de ferro na Biscaia, Almeria, Oviedo e, 
Málaga; e nas provincias de Toledo, Cidade Real e 
Estremadura, ha mesmo centenas de legoas quadradas, 
tingidas de vermelho escuro pelos fragmentos de mi- 
neraes de ferro que juncam o solo. Mas a exploração 
de todas essas minas de ferro era pequena e difficil, 
pela falta de communicações e carência de combus- 
tivel. E, perto de Marbella, nas costas do Mediterrâneo, 
entre Málaga e Gibraltar, existe um grande jazigo de 
mineral magnético, que era empregado nos grandes fo- 
gos de coke e antracite de Málaga e Marbella. 

Havia muito cobre em Velcano, S. Miguel, em Eviden- 
cia e Huelva, onde está a famosa mina de Huelva, capaz 
de fornecer de cobre por muito tempo o mundo inteiro. 

Uma das maiores riquezas de Hespanha é o chumbo 
argentifero na província de Zamora, em Oviedo, perto 
de Barcelona, na província de laen e na Andaluzia, 
onde ha poucas montanhas que o não contenham, e em 
Murcia. E, em mercúrio, as minas de Almaden são as 
mais abundantes da Europa. Ha também muito mercúrio 
em Almadenego. 



590 A HISTORIA ECONÓMICA 



A Hespanha abunda egualmente em metaes precio- 
sos. E poucos paizes teem tanta quantidade de sal, 
que se encontra nos pântanos salg-ados, nas minas de 
sal gema e nas marinhas do mar. 

Havia muito mármore, pedras de construcção, kao- 
lino e argila plástica. 

Mas os hespanhoes não tiravam das suas riquezas 
mineraes todo o proveito que podiam tirar, por falta de 
comunicações e de capitães. As sociedades constituidas 
por capitalistas francezes, belgas, inglezes e allemães, é 
que davam grande actividade á extracção dos mineraes. 

O trabalho do ferro era executado em dois centros 
principaes : a norte, nas provincias bascas e nas Astú- 
rias, e a sul na Andaluzia. 

Barcellona constituia um grande centro das indus- 
trias mecânicas e chymicas e da fabricação de materiaes 
de caminho de ferro. Pamplona tinha vastas officinas 
de maquinas agricolas. A vidraria da Granja era muito 
importante. A cerâmica estava muito desinvolvida em 
Madrid, Sevilha e Barcellona. E era ainda tradicional 
a fabricação das laminas de Toledo, onde se fabrica- 
vam também outros artefactos metallicos. 

Mas, como acontecia na extracção dos mineraes, a 
industria mettallurgica deixava muito a desejar, por 
falta de capitães e de communicações. 



A agricultura estava muito atrazada até 1840. Contri- 
buia também para isso a falta de população, e mesmo 
a abundância de terrenos de mão morta. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 591 



Assim, em 1820, os conventos de Hespanha eram 
2:280. Os clérigos, monges e frades 118:000, e comtudo 
a população era somente de cerca de doze milhões. 
Mesmo em 1859, em que apenas havia conventos apenas 
para as missões, e em que os monges clérigos, e frades 
não chegavam a 30 mil,* a população de Hespanha não 
se elevava a mais de 16 milhões. 

Mas, desde então a 1868, os agricultores, assegu- 
rados pelos trabalhos de viação, que, desde aquella 
data, começou a desinvolver-se, e, assim, pelos cami- 
nhos de ferro, que aproximavam os centros do consumo, 
principiaram a preoccupar-se do gosto e necessidades 
das populações estrangeiras, que elles deviam satisfazer 
desde então. Os vinhos mais bem tratados deram pro- 
ductos mais apreciados, para cujo alojamento e con- 
servação os viticultores se resolveram a substituir por 
toneis ou pipas os odres de pelle alcatroada que, desde 
longos tenipos, haviam sido empregados, e que davam 
ao vinho um gosto detestável, afastando, por isso, a 
clientella estrangeira. 

E, em certas regiões, os alqueives e culturas rudi- 
mentares foram substituidos por culturas mais judi- 
ciosas. 

Ainda assim, mesmo no fim do século, as terras 
incultas occupavam quasi a quinta parte da superfí- 
cie total. Eram situadas no plató de Castella, princi- 
palmente na Mancha e na Extremadura. Mas, toda a 
costa do Mediterrâneo, graças aos trabalhos que na 
maior parte remontavam ao tempo dos Mouros, estava 
transformada em jardim, d'uma fertilidade incompará- 
vel. Poucas regiões havia na Europa tão ricas como 
as huertas de Valência, Murcia e Andaluzia. 



592 A HISTORIA ECONÓMICA 



Os cereaes occupavam, na Hespanha, quasi onze 
milhões de hectéires ; e era o trigo que representava 
metade da concorrência total. Vinham depois o milho, 
centeio, cevada e arroz. 

Nas plantas lenhosas, o vinho era a primeira das 
riquezas agrícolas ; e, para augmentar a sua força alcoó- 
lica, os Hespanhoes fabricavam, e importavam uma 
grande quantidade de álcool. 

Nos últimos tempos, porém, do século XIX, a pro- 
ducção do vinho diminuiu muito, por causa da philoxera, 
que devastou o norte e sul ; e também a Catalunha foi 
attingida gravemente. As vinhas situadas nos cabeços 
morreram. As da Andaluzia soffreram muito, e Málaga 
perdeu mais de metade dos seus vinhedos. 

A cultura das arvores fructiferas era, para os culti- 
vadores das provindas banhadas pelo Mediterrâneo, 
uma fonte de rendimentos consideráveis, sobretudo, 
desde que o valor dos fructos foi augmentando pela 
facilidade de os transportar bem conservados para 
mais longe do que outr'ora. 

As laranjeiras tomaram grande desinvolvimento na 
província de Valência. Algumas cidades d'esta pro- 
víncia, outr'ora miseráveis, como Carcagente, Villareal, 
Burriana, Aleira, Gandia e Alberique, deveram a sua 
prosperidade a esta cultura. 

A Hespanha produzia também muita laranja azeda, 
que era expedida para a Hollanda, com destino á fabri- 
cação do curaçau. 

Havia muitos limões, cidras, figos e romans. A 
província de Valença, perto de Elche e de Alicante, 
prestava-se muito á cultura de palmeiras, que davam 
tâmaras excellentes. Havia, alem d'isso, as plantas dos 



EDADE CONTEMPORÂNEA 593 



climas frios ou temperados, como o linho e canhamo,^ 
tabaco e beterraba. Cultivavam-se egfualmente plantas 
próprias da zona mediterrânea, como açafrão e garança^ 
embora tivessem perdido a importância. A amoreira, 
sobreiro, oliveira e alcaçuz encontravam condições de 
clima das mais favoráveis nas províncias do este, sudeste 
e sul. Emfim, havia, principalmente na Andaluzia, algu- 
mas culturas tropicaes — algodão, arachides, cafezeiro e 
canna de assucar. 

As inclinações de Albacete e Murcia, cheias de sol, 
produziam também muito esparto, que servia para a 
fabricação de uma grande quantidade de objectos, como 
sandálias, esteiras e cestos. Segundo Plinio, no tempo 
dos Romanos, utilisavam-se estas plantas para todos os 
usos domésticos, taes como cestos, moveis, sapatos e 
fatos; e até o fogo do lar era alimentado por ellas. 
Depois do meiado do século passado, este vegetal, 
assim como a alfa da Algéria, tornou-se também muito 
precioso, por causa da resistência da fibra. Os Inglezes 
faziam grande uso d'elle para a fabricação do papel e 
para a trama de tapetes e outros tecidos; mas, tendo 
a exportação começado em 1856, os Hespanhoes puze- 
ram tal afan em satisfazer as encommendas, que as col- 
linas e planícies do esparto principiaram em pouco tempo 
a ficar despojadas. Em muitos districtos, faziam-se até 
duas colheitas annuaes, afim de aproveitar o augmento 
do preço, que se elevou ao quádruplo, no espaço de 
alguns annos. E não se cuidou, depois, de augmentar 
proporcionalmente a cultura; porque é preciso esperar 
oito a quinze annos para que as folhas tenham uma 
fibra apreciável. 

Quanto a florestas, o solo da Hespanha foi, como 

Volume VI 38 



594 A HISTORIA ECONÓMICA 



O de tantos outros paizes, desarborisado sem medida. 
Demais a mais, as esteppes do plató central da Man- 
cha e Leão são, por sua natureza, impróprios para o 
crescimento das arvores; e, mesmo fora d'essas esteppes, 
as arvores só prosperam tendo condições de exposição 
excepcional. As verdadeiras regiões das florestas eram 
as do norte, provincias bascas, Astúrias e Galliza; mas, 
ao sul, havia muitos sobreiros, cujos productos eram 
tão estimados como os da Africa. 



Por causa do seu clima secco, a Hespanha, que 
não tem pastagens, também não podia ter muito gado 
grosso. Comtudo, a Galliza, Astúrias e Navarra, onde 
os ventos húmidos do Atlântico favorecem a vegetação 
herbácea, tinham muitos animaes bovinos. E os criado- 
res haviam aperfeiçoado as raças, pelo cruzamento com 
espécies vindas de França e d'lnglaterra. Nas outras 
provincias, a espécie bovina era pouco numerosa. 

A Andaluzia criava muito bons cavallos, que provi- 
nham da raça árabe. A feira de Sevilha constituía uma 
das mais consideráveis da Europa, com respeito ao 
commercio d'esse gado. Os asnos e as mulas eram os 
animaes de carga mais empregados, e havia-os em grande 
numero. A raça ovina, á qual convinha a zona dos pas- 
tos seccos e a zona mediterrânea, era também muito 
abundante. A Hespanha constituía n'esse ponto, e pelos 
seus merinos, o paiz mais rico da Europa; e as suas 
lans eram também das mais estimadas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 595 



A extensão tão considerável de pastos fez até da 
industria pastoril o trabalho por excellencia de numero- 
sas populações das Castellas; e, por uma derivação 
natural, a criação dos carneiros e merinos e do gado 
grosso augmentou a superficie dos pastos, á custa das 
florestas e das terras de cultura. 

Certas regiões das duas Castellas prestam-se admi- 
ravelmente á producção dos cereaes e dão colheitas 
medias de grande abundância. Tal é, na bacia do Douro, 
a Tierra de Campos, onde corre o Carrion e o Pisuerga, 
que fertilisam por sua capillaridade as aguas de uma 
esteira subterrânea, que se estende a pequena profun- 
didade abaixo da superficie. Taes são também a meza 
do Ocana e outros districtos das altas bacias do Tejo 
e Guadiana, cuja seccura é só apparente, pois que são 
alimentadas por uma certa humidade occulta. Nos ter- 
renos áridos e pedregosos, a vinha, cultivada com intel- 
ligencia, poderia dar productos especiaes. Mesmo dei- 
xada quasi unicamente aos cuidados da mãe benéfica, a 
natureza, poderia fornecer aos lavradores vinhos de 
qualidade superior. Podia dizer-se outro tanto da oli- 
veira, riqueza dos campos de Colatrava. 

A agricultura, pois, auxiliada por um trabalho de 
restauração, offerecia aos habitantes das Castellas van- 
tagens seguras. Mas a preguiça do corpo e do espirito, 
a preponderância da rotina, a persistência dos costumes 
feudaes, mais ou menos modificados, e, algumas vezes, 
também a desanimação produzida pelas seccas, demora- 
das, mantiveram as velhas praticas da vida nómada; e 
vastas extensões de terras excelentes, ás quaes centenas 
de milhares de trabalhadores poderiam pedir a sua 
subsistência, eram utilisadas somente como simples pas- 



596 A HISTORIA ECONÓMICA 



tagens. Durante uma estação, achavam-se animadas 
pelos rebanhos; mas depois, até o anno seguinte, não 
passavam de tristes solidões. 

Para se alimentar a maior parte dos rebanhos meri- 
nos, composto cada um de 10 mil animaes, que se divi- 
diam em grupos de 1.000 a 1.200, os pastores tinham 
de atravessar quasi metade da Hespanha. Um maioral, 
assistido de uns tantos rabardanes, que tinham rebanhos 
distinctos, dirigia este bando de cabeças, de etapa em 
etapa. E cada rabardane commandava por sua vez um 
pequeno grupo de subordinados. 

No principio de abril, os merinos abandonavam os 
seus pastos de Andaluzia, da Mancha, ou da Estrema- 
dura, para subirem ao norte, seguindo uma longa zona 
atravez do paiz. Depois de setembro, a viagem recome- 
çava de novo, e os rebanhos retomavam o antigo 
caminho. 

Da mesma forma, como paiz montanhoso, a Hespa- 
nha criava muitas cabras, cuja carne entrava em grande 
parte com a de carneiro no alimento dos camponezes. 



* 
* * 



Quanto á industria, enfraqueceu ella, em geral, até 
o meiado do século XIX. E Sevilha, Toledo, Segóvia, 
Valladolid e Córdova, cidades industriaes, que, em tem- 
pos anteriores, eram nesse ponto afamadas no mundo 
inteiro, tornaram-se cidades mortas. Mas, então, deu-se 
como já vimos, um accordamento notável, pela imi- 
gração de capitães e operários estrangeiros. E operou-se, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 597 



ao mesmo tempo, uma nova distribuição de trabalho, 
porque as provincias banhadas pelo Mediterrâneo, que 
eram as mais povoadas, e onde a mão de obra era a 
mais barata, bem como as do nordeste e extremo sul, 
Navarra, Astúrias e Andaluzia, ricas em hulha e mine- 
raes, concentraram em si todo o esforço industrial. A 
zona dos platós, onde faltavam desimbocadouros fáceis, 
e onde a população era rara, é que estava muito defi- 
ciente. 

Com respeito ás industrias mineral e metallurgicas, 
já atraz apontámos o que de mais notável havia nesse 
género. 

As textis eram as mais importantes. Barcelona tor- 
nou-se a primeira cidade algodoeira da Hespanha. 
Málaga e Motril fiavam e teciam todo o algodão da 
Andaluzia. E, em 1870, essa industria algodoeira tinha 
chegado a um tal estado de prosperidade que lhe per- 
mittiu concorrer, desde então, nos mercados interiores 
com os productos estrangeiros. 

A industria dos lanifícios, uma das mais antigas da 
península, e que dispunha de tão abundante e boa lan 
hespanhola, era também muito importante. A de seda 
era egualmente notável nas provincias do sul, onde se 
produzia a seda bruta — Valência, Murcia, Andaluzia e 
Barcellona; e esta, na qualidade de metrópole das indus- 
trias textis, exercia uma atracção natural nesse género. 
E também n'essas cidades se fabricavam as rendas e as 
mantilhas que as hespanholas traçam com tanta elegância. 

A curtimenta, moagem, fabricação das rolhas, a pre- 
paração do esparto, do azeite e do chocolate eram 
industrias secundarias, estabelecidas, sobretudo, nas 
provincias mediterrâneas. 



598 A HISTORIA ECONÓMICA 



O commercio exterior tomou também um grande 
desinvolvimento, a partir de 1850. Em 1864, esse desin- 
volvimento foi interrompido momentaneamente por cri- 
ses financeiras interiores; mas logo a volta da paz 
reanimou o movimento. 

Aos dois grande paizes, Inglaterra e França, que, 
havia mais de um século, partilhavam a maior parte das 
operações das trocas hespanholas, tinha vindo juntar-se 
a Allemanha. A Prússia, e depois os portos de Bremen 
Lubeck e Hamburgo, figuravam n'uma grande quantidade 
de transacções; e, em poucos annos, a Allemanha, espa- 
lhando os seus caixeiros viajantes por todas as provín- 
cias, não tardou a tornar-se adversaria terrível d'aquel- 
les outros povos, e a tirar-lhes uma parte da clientella, 
quintuplicando a cifra das suas transacções. 

Em todo o caso, o commercio interior e exterior 
resentiram-se sempre da modicidade e insufficiencia das 
communicações. 

Os caminhos de ferro não tinham a extensão que 
havia nas outras regiões da Europa; e esta inferioridade, 
alem de prejudicar a circulação, deixava improductivas 
e sem emprego numerosas riquezas naturaes e agríco- 
las, e obstava também ao accrescimo da população. 

Por outro lado, seria preciso manter uma grande 
marinha mercante para o commercio de cabotagem ; 
e tanto mais quanto as costas hespanholas são muito 
extensas, e as communicações com o interior eram 
defeituosas e insufficientes. E, comtudo, apesar de se 



EDADE CONTEMPORÂNEA 599 



terem realisado notáveis reformas nessa marinha mer- 
cante, ainda ella deixava muito a desejar. 

A exportação constava principalmente dos productos 
do solo, vinhos, cereaes, lans, fructas (laranjas, limões 
passas), azeite, seda grega, mineraes de cobre, chumbo, 
ferro e mercúrio, teias, estofos, quinquilharias, biju- 
terias. 

E a importação consistia também principalmente em 
productos coloniaes, tecidos de algodão, de lan e seda, 
metaes em obra, artigos da moda, hulha, madeira, 
maquinas e aguardente. Sendo certo que as importa- 
ções excediam muito as exportações. 

Como já notámos, na Europa, era com a França, 
Inglaterra e Allemanha que a Hespanha fazia mais 
commercio. E, fora da Europa, com os Estados Unidos, 
Brazil, Argentina, Cuba e resto das Antilhas. 



Quanto aos centros económicos principaes, come- 
çando pelas duas Castellas, Leão, Astorga e Burgos, 
outr'ora muito importantes, estavam muito decaidos, no 
século XIX. Mas Palencia devia certa prosperidade 
económica á sua situação, no meio de valles férteis e 
de muitos caminhos commerciaes. 

Valladolid tinha bastante animação, todavia, muito 
menos que no tempo em que era povoada dos Árabes. 
Possuia innumerosas fabricas, fundadas pelos Catalães, 
e estava, como ainda está, cheia de monumentos curiosos. 
Ahi se mostrava a casa onde morreu Colombo, aquella 



600 A HISTORIA ECONÓMICA 



onde viveu Cervantes, e a rica fachada do convento de 
S. Paulo, onde residiu Tarquemada, que se diz ter 
pronunciado mais de cem mil condemnações e feito 
morrer oito mil heréticos pelo ferro e pelo fogo. 

Seg-ovia e Ávila tinham alguma industria. 

Toledo, a cidade tão celebre na fabricação das armas 
brancas, estava muito decaida. Os próprios ateliers par- 
ticulares de armas foram substituídos por uma fabrica 
<lo Estado, e as laminas precisavam até de levar uma 
estampilha official. 

Badajoz, em face da fortaleza portugueza d'Elvas, 
era intermediaria do commercio entre as duas nações. 

Madrid, a capital de Hespanha, distanciava-se muito 
das outras cidades, mesmo pelo seu trabalho industrial 
e commercial. 

Na Andaluzia, os magníficos jardins de Sevilha, de 
San Lucar, de Carmona e de Utrera, os pomares e 
vinhedos de Málaga e de outras cidades entregavam 
ao commercio uma quantidade considerável de fructos. 
Ricas colheitas de cereaes faziam também d'essa pro- 
víncia um dos principaes celleiros da Europa. Mas os 
vinhos eram a única producção hespanhola que tinha 
uma grande importância económica no commercio do 
mundo. 

A industria propriamente dita, que era tão flores- 
cente nas edades mouriscas, em que as sedas, os pannos 
e os couros da Andaluzia tinham uma reputação euro- 
peia, e em que somente as fabricas de Sevilha estavam 
povoadas de mais de 100 mil operários, era, no século 
XIX, apenas uma sombra do que fora. Unicamente o tra- 
balho das minas tinha retomado uma parte do seu 
antigo valor. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 601 



Ainda assim, Sevilha, graças ao seu bello rio, o 
Guadalquivir, que lhe permitte livres communicações 
com o litoral do mar, readquiriu muita importância 
como cidade industrial. Possuia fabricas de faiança, 
manufacturas de seda e de estofos de toda a ordem e 
de tecidos de ouro e prata que, em todo o caso, não 
podiam sustentar a concorrência com o estrangeiro. O 
monopólio commercial de que gosara outr'ora, o seu 
porto, á custa das outras cidades de Hespanha \ teve 
as consequências inevitáveis que todo o privilegio 
arrasta comsigo. Não permittiu durante elle a iniciativa 
industrial desinvolver-se ; e quando veio o momento de 
agir nas condições de egualdade, a situação económica 
tinha-se convertido n'um desastre. 

O centro mais activo de commercio entre Sevilha e 
Cadiz era Jerez de la Frontera, notabilissimo, especial- 
mente pelo seu commercio de vinhos, afamados em 
toda a Europa. 

Cadiz, o grande porto hespanhol, cuja bacia está 
muito bem defendida dos ventos, não só representa um 
porto de commercio muito importante, mas está rodeada 
também de outros portos, cidades e aldeias, formando 
uma grande cidade maritima. 

Almeria, que foi outr'ora rival de Cadiz, estava 
muito decaida. 

Málaga, era a cidade mais commercial da Andalu- 
zia. O seu porto é muito vasto e bom, e os seus cam- 
pos muito férteis. Fazia um grande commercio de 
vinhos, laranjas, fructas de toda a espécie, e, sobretudo, 



1 A Historia Económica, vol. IV pag. 385. 



502 A HISTORIA ECONÓMICA 

de passas. E tinha também para alimentar o seu tráfico 
muitos estabelecimentos industriaes, especialmente, fun- 
dições e grandes fabricas de assucar de canna. 

Os portos de Marbella e d'Estepona, na costa medi- 
terrânea de Andaluzia, e do outro lado do promontório 
da Europa, a linda cidade de Algecira tomavam uma 
grande parte no commercio interlope. 

Murcia e Carthagena estavam muito decaidas da 
sua grandeza passada. 

Alicante era muito mais activa, graças á fecundidade 
das huertas que a rodeiam, e ao caminho de ferro que 
a reunia directamente a Madrid. Agrupava em volta do 
seu cães uma multidão de pequenos navios, emquanto 
que outros navios maiores ancoravam ao largo, por 
causa da falta de profundidade, e para estarem prom- 
ptos a fugir, quando se annunciasse a tempestade. Era 
proverbial a sua grande exportação de passas. 

Valência, centro das grandes huertas de Jucar e do 
Guadalquivir, e de outras cidades, como Jativa, Carca- 
gente, Aleira, Algemesi era muito notável. 

Liria, era a 4.^ cidade de Hespanha por sua popu- 
lação, e a l."* pela belleza das suas culturas, e tinha 
muito commercio e industria. As producções dos tró- 
picos misturavam-se lá com as arvores da Europa. O 
seu porto artificial rivalisava com o de Cadiz. Fabricava 
especialmente mantas de que se serviam os lavradores 
da região, estofos de lan e de seda, faianças e azulejos, 
que serviam para o revestimento exterior das casas. 

Saragoça occupa uma situação natural das mais feli- 
zes. Está quasi no meio geométrico da planicie de 
Aragão, na confluência do Ebro e de dois dos seus tri- 
butários, e no cruzamento de todas as vias naturaes da 



EDADE CONTEMPORÂNEA 603 



região. E essa situação dava-lhe um grande movimento 
commercial e industrial. 

Calatayud era a segunda cidade do Aragão, na 
importância commercial. 

Na Catalunha, Lerida era a intermediaria do com- 
mercio entre Saragoça e Barcellona. 

Tortosa, a ultima cidade banhada pelo Ebro, antes 
d'este se perder no Mediterrâneo, era também uma 
etapa do commercio entre Valência e Barcellona. Se 
tivesse um bom porto, devia tornar-se muito florescente, 
em vista dessa situação. Mas os golfos lodosos que se 
abriam dos dois lados do Delta e do Ebro, eram pouco 
apropriados ao estabelecimento de calhetas e molhes 
para a troca de mercadorias. 

Tarragona, que, no tempo dos Romanos, chegou a 
ter a população de um milhão de pessoas, estava muito 
decaida; mas, em compensação, o seu pequeno movi- 
mento industrial e commercial completava-se pela cidade 
manufactura de Réus, que engrandeceu muito rapida- 
mente, desde o principio do século XIX. 

Barcellona era a cidade mais industrial e commercial 
da peninsula. Málaga, que vinha depois d'ella, não tinha 
metade do movimento catalão. 

Bilbau, a grande cidade das provincias bascas, tinha 
também um porto grandemente animado. Entregue desde 
muito tempo ao commercio com as colónias do Novo 
Mundo, era o desimbocadouro natural da farinha de 
Castella. E, embora despida dos privilégios que teve na 
edade moderna, ainda assim, rivaUsava na importância 
commercial com Valência, Santander e Cadiz ; e, graças 
ás minas importantes dos arredores, era o terceiro porto 
d'Hespanha, pela somma de transacções. 



604 A HISTORIA ECONÓMICA 



S. Sebastião, ao mesmo tempo uma praça de guerra 
e porto de tráfico, era muito commercial. 

Tolosa, a capital de Guipuscoa, estava rodeada de 
manufacturas, que a tornavam muito industrial. 

Santander, como desimbocadouro natural das Cas- 
tellas, gosava de um verdadeiro monopólio commercial 
para a exportação das farinhas de Valladolid, Falência, 
Leon e outras regiões. Recebia também de Cuba e 
Porto Rico uma grande quantidade de géneros colo- 
niaes, de que alimentava o centro da Hespanha ; e os 
seus commerciantes, tanto indigenas como estrangeiros, 
estavam em relações constantes com a França, Ingla- 
terra, Hamburgo e Scandinavia. Disputava a Bilbau, 
Valência e Cadiz o terceiro logar, como cidade de tro- 
cas com o exterior. 

Na extremidade superior da sua bahia havia cantei- 
ros de construcção, embora muito decadentes, e o 
Governo empregava a sua actividade, sobretudo, na 
fabricação de cigarros e charutos. 

Ferrol, era um porto militar com pequena importân- 
cia commercial. 

A Corunha, pelo contrario, embora fosse também 
um porto militar, o seu commercio, a pesca e mesmo a 
sua industria occupavam um grande numero de habi- 
tantes. 

Vigo e Bayona, apesar das suas grandes e bellas 
bahias, não passavam de uns portos de cabotagem e 
pesca. 

No centro da Gallisa, havia Lugo, Orense, Tuy e 
S. Thiago, a capital d'essa provincia; mas todas ellas 
tinham pequeno movimento industrial e commercial. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 605 



As vias de communicação terrestre progrediram 
demoradamente. Ainda em 1880, o governo reconhecia 
que, proporcionalmente aos outros paizes, os kilometros 
de estradas carroçáveis eram muito reduzidos. 

E que também as communicações terrestres eram 
extremamente difficeis, por causa do relevo do paiz, 
formado de altas e rigidas montanhas, raramente corta- 
das de aberturas. De modo que as provincias, achavam- 
se, assim, isoladas umas das outras, donde também resul- 
tou essa antiga tendência d'ellas para a sua independência, 
e a fisionomia particular dos habitantes, differentes de 
umas regiões para as outras. 

Demais a mais, a Hespanha.está separada da França 
pela cadeia dos Piryneus, que é difficil de atravessar; e 
fechada pelo mar, na extremidade sudoeste do conti- 
nente, está fora das grandes vias continentaes que sul- 
cam a Europa. Accresce ainda que a Inglaterra tomou- 
Ihe Gibraltar, isto é, a chave do Mediterrâneo, que abria 
a via do Suez ; e Portugal, senhor de Lisboa e Porto, 
possue dois dos melhores portos da península sobre o 
Atlântico. Os Hespanhoes estão assim isolados de todas 
as partes. 

Quanto a vias férreas, entretanto que os caminhos 
de ferro tinham sido inaugurados na Inglaterra em 1830, 
nos Estados Unidos em 1831, em França em 1832, na 
Bélgica em 1835, na Allemanha e Rússia, e até em Cuba, 
em 1838, e na Itália em 1839, a Hespanha, ainda em 
1848, só tinha um único em exploração — o de Barcel- 



606 A HISTORIA ECONÓMICA 



lona a Mataro, n'unia extensão de 28 kilometros. Em 
1851, inaugurava-se a linha de Madrid a Aranjuez ; mas 
as guerras civis e as desordens da administração quasi 
que fizeram parar os trabalhos, que só recuperaram 
certa actividade em 1858 ; e, só depois d'isso, ate 1862 é 
que a construcção da rede férrea continuou muito dili- 
gentemente. Desde então, a Hespanha foi atravessada 
em todas as direcções, de sul a norte e de este a oeste; e 
Madrid tornou-se o centro d'essa rede que d'ahi tocava 
os principaes portos. E também uma linha cruzava ao 
longo do Mediterrâneo, partindo de Valência, ganhando 
Barcellona e atravessando a Catalunha. 

A Hespanha communicava com Portugal por quatro 
Hnhas, e com a França por duas. 

As communicações aquáticas interiores eram também 
muito deficientes, porque o Douro, Tejo e Guadiana 
não são navegáveis na Hespanha, nem mesmo para 
barcos. O Ebro, cujo curso inferior estava completa- 
mente açoriado, só era navegável na Catalunha, graças 
a um canal lateral. E apenas o Guadalquivir é que era 
navegável mesmo para navios até Sevilha. 



M. M. Piolet & 3ernard, Histoire Confemporaine dè 1815 A Nos 
Jours. — Marsillac, Manuel d' Histoire Contemporaine de la Revolution 
A Nos Jours. — A. Amman & E. C. Courtan, Le Monde Au XIX 
Siècle. — Jule Isaac. Histoire Contemporaine, 1819-1920. — Albert 
Malet, XVIII Siècle, Revolution, Empire et lEpoque Contemporaine. 

— Noel, obr. cit. vol. III. — E. Reclus Nouvelle Gèografie Universelle, 
L'Europe Meridionelle, L'Espagne. — Mareei Dubois et Kergomard, 
Precis de Gèografie Economique. — M. L. Lanier, UEurope. — 
Modesto Lafuente, Historia General de Espana, continuada por 
Don Juan Valera. — Fernando Garrido, UEspagne Contemporaine. 

— Ed. Quinet, Mes Vacances En Espagne. 



CAPITULO XXIII 
Portugal 

Leve esboço da sua historia politica, n'este periodo. — Reacção que 
houve contra as medidas do Marquez de Pombal, nos fins do 
século XVIll. — Guerras napoleónicas e prejuizos que trouxeram 
a Portugal. — Tratado commercial com a Inglaterra de 26 de 
fevereiro de 1910, e ruina industrial e commercial que d'ahi 
resultou para o paiz. — Como, além d'isso, as guerras e 
luctas civis, desde 1820 a 1834, mais augmentaram a ruina. — 
Como a nação começou a prosperar depois d'isso. — Influencia 
das leis de Mousinho da Silveira. — Administração do ministro 
Passos Manoel. — Vantagem que proveiu de ter acabado, em 
1836, o tratado com a Inglaterra. — Periodo agitado de dissen- 
sões e luctas politicas, desde 1841 a 1852. — Subida do partido 
regenerador ao poder, e como fez progredir o paiz. Levanta- 
tamento militar do duque de Saldanha, em 1870. — Tranquilidade 
que se seguiu até o fim do século XIX; e como os Governos 
que se alternaram, contribuiram para o progresso económico. — 
Productos. — Agricultura. Industria. Commercio. — ^ Centros eco- 
nómicos principaes. — Communicações. 

Quando surg^iu a revolução francesa, reinava em 
Portugal a rainha D. Maria I; mas, tendo-se ella tor- 
nado mentalmente incapaz, assumiu a regência o filho 
D. João VI, em 1792. 

As ideias d'aquella revolução iam-se espalhando 
também em Portugal; e, com a narração das atrocida- 
des praticadas em França, demais a mais, avolumadas 
pela tradição fantasiosa, aconteceu que o regente 
lhes ganhasse horror, e começasse a perseguir os 



608 A HISTORIA ECONÓMICA 



sectários ou admiradores dessas ideias. E encontrou 
para isso um poderoso auxiliar em Pina Manique, inten- 
dente da policia, que empregou toda a ordem de pres- 
sões e abusos, e mesmo de crueldades, contra aquelles 
que não commungavam no credo do despotismo. 

D. João VI, alem de combater d'este modo as 
ideias da revolução francesa, julgou do seu dever 
entrar na guerra geral contra a França; e, n'esse sen- 
tido, forneceu á Hespanha, então em lucta com os 
Franceses, um contingente, que militou com bravura 
nos Piryneus orientaes, desde 1792 a 1795. 

Tendo, depois d'isso, a Hespanha feito a paz com 
a França, e estando planeada entre essas duas nações 
a divisão de Portugal, teve o Governo de pedir urgen- 
temente o auxilio da Inglaterra, para impedir a invasão 
projectada. 

Em 1800, Napoleão quiz negociar uma alliança com 
Portugal, com a condição dos Portugueses abandona- 
rem a alliança inglesa, abrirem os portos á França, 
fechando-os á Inglaterra, concederem certos favores 
commerciaes aos Franceses, consentirem o alargamento 
da Guyana francesa até o Amazonas, cederem também 
uma parte do paiz á Hespanha até se haver dos Ingle- 
ses as ilhas da Trindade e Maiorca, e pagarem, alem 
d'isso, uma grande contribuição em dinheiro. 

O Princepe regente regeitou esta proposta, e segui- 
ram-se, por isso, a guerra com a Hespanha, as inva- 
sões francesas e as luctas napoleónicas. 

Essas invasões foram as seguintes: 

Em 1807, Junot invadiu Portugal, e entrou em 
Lisboa, a 30 de novembro d'esse anno. D. João VI foi, 
por isso, obrigado a abandonar o paiz e refugiar-se no 



EDADE CONTEMPORÂNEA 609 



Brazil com quasi toda a familia real, ficando o reino a 
ser g-overnado por uma regência. 

Junot, sendo depois derrotado pelos Portugueses, 
com o auxilio dos Ingleses, na batalha do Vimieiro de 
21 de agosto de 1808, teve de evacuar promptamente 
o nosso território. 

No anno seguinte, Soult invadiu também Portugal 
pelo norte, e pôde tomar a cidade do Porto; mas foi 
logo repellido e obrigado a voltar para a França. 

Finalmente, em 1810, Massena fez outra invasão ; e, 
tendo sido vencido na batalha do Bussaco, e detido 
após isso defronte das linhas de Torres Vedras, foi 
também expulso do reino, em 1811. 

Terminadas as guerras peninsulares, e tendo a rainha 
D. Maria I fallecido, em 1816, foi D. João VI procla- 
mado, n'esse mesmo anno, rei de Portugal, do Brazil e 
dos Algarves. Entretanto, os Ingleses é que mandavam 
em Portugal; e isso fez que, em 1820, se levantasse um 
movimento revolucionário contra elles e contra a regên- 
cia existente: movimento esse que nomeou uma nova 
regência, e convocou cortes constituintes, em que foi 
approvada depois a constituição de 1822. 

Em face d'isso, D. João VI embarcou para Portugal 
em 26 de abril de 1821, deixando como regente no 
Brazil o seu filho mais velho D. Pedro. E, em 1822, o 
Brazil declarou-se independente, nomeando imperador 
esse mesmo D. Pedro, que outhorgou aos Brazileiros 
uma constituição parlamentar e democrática. 

Em 1823, houve em Portugal um pronunciamento 
isto é, uma sublevação militar, contra a constituição de 
1822; e D. João VI aproveitou-se d'isso, para a revogar, 
como revogou, e nomear o conde de Palmella seu pri- 

Volume VI 39 



610 A HISTORIA ECONÓMICA 



meiro ministro, com instrucções de elaborar uma outra 
constituição parlamentar, que, embora liberal, fosse 
mais moderada. 

Por fallecimento de D. João VI, em 1826, dois par- 
tidos disputaram o poder, o dos Miguelistas, que pre- 
tendiam como rei a D. Miguel, filho mais novo d'aquelle 
D. João VI ; e o dos constitucionaes, que desejavam 
D. Pedro, e eram assim chamados, em vista da consti- 
tuição que, n'esse mesmo anno, elle havia dado aos 
Portugueses. 

D. Miguel foi proclamado rei, em 1828; e D. Pedro, 
tendo abdicado de imperador do Brazil, em 1831, voltou 
para Portugal, a fim de reivindicar a coroa portuguesa 
em favor de sua filha D. Maria da Gloria, na qual a 
tinha também abdicado, seguindo-se depois a guerra 
civil entre os dois partidos. 

Essa guerra civil durou, desde 18 de Julho de 1832, 
em que D. Pedro desembarcou no Porto, até 26 de 
maio de 1834, em que o partido miguelista, derrotado 
pela ultima vez, na batalha da Asseiceira, teve de 
capitular. 

Ficou D. Pedro governando como regente, na meno- 
ridade de sua filha; e, tendo fallecido, em 21 de 
setembro de 1834, começou esta a reinar, então, sob o 
nome de D. Maria II (1834-1853), junctando aos enér- 
gicos predicados de rainha as nobilíssimas qualidades 
de mulher. 

O seu reinado foi agitado constantemente pela lucta 
vivíssima dos partidos constitucionaes, pelas perturba- 
ções dos Miguelistas, e pelas guerras civis de 1846, 
1847 e 1851. Mas, apesar d'isso, devido ao impulso de 
alguns ministros, como, por exemplo, Manoel da Silva 



EDADE CONTEMPORÂNEA 611 



Passos, conhecido geralmente por Passos Manoel, e 
Costa Cabral, foi o paiz despertando sensivelmente da 
ruina, onde tão nefastamente o haviam lançado as 
guerras, o tratado com a Inglaterra e as commoções 
politicas do tempo anterior. 

D. Maria II fallecèu, em 1853 ; e o seu viuvo D. Fer- 
nando assumiu a regência até á maioridade do filho 
mais velho D. Pedro V, que foi proclamado, em 1855, 
e fallecèu, em 1861. 

O tempo que, então, succedeu ao tempestuoso rei- 
nado de D. Maria II, marcou um periodo de prosperi- 
dade material para Portugal. 

Renasceu a agricultura, e renasceram as industrias. 
Produziu-se um desinvolvimento notável na litteratura 
e na historia ; e despertou grandemente a iniciativa das 
forças vivas da nação. 

No reinado de D. Pedro V, o único acontecimento 
politico de alguma importância foi a questão do navio 
francez Charles e George. Este navio andava no tráfico 
da escravatura, em frente da costa de Africa, e foi 
apresado pela auctoridade portuguesa de Moçambique ; 
e, de harmonia com as leis e tratados para a suppres- 
são d'aquelle tráfico, o commandante Roussel foi con- 
demnado a dois annos de prisão. O imperador Napo- 
leão III mandou, então, uma esquadra ao Tejo, a reclamar 
aquelle navio, apar de uma grande indemnisação, que 
Portugal foi obrigado a pagar. Mas a nódoa d'essa 
injustiça e d'essa arbitrariedade ficou sempre carre- 
gando sobre a França. 

D. Pedro V, que revelou durante o seu reinado 
uma intelligencia superior, e acompanhava todos os 
negócios do Estado, com um critério extraordinário, 



612 A HISTORIA ECONÓMICA 



revelando também em tudo o mais ardente desejo de 
fazer a sua pátria rica e feliz, falleceu, em 11 de novem- 
bro de 1861 \ 

Succedeu-lhe o irmão D. Luiz I (1861-1889). Du- 
rante o seu reinado, houve uma paz octaviana, pertur- 
bada apenas por alguns motins insignificantes, até 1870; 
e, n'esse anno, por um levantamento militar do duque 
de Saldanha, que levou o rei a demittir o ministério do 
duque de Loulé, o qual então presidia aos destinos do 
Estado, e a nomear o mesmo Saldanha presidente do 
conselho, que, apesar disso, apenas se conservou no 
poder, durante quatro mezes. 

Este rei seguiu á risca o dictado de que o rei reina, 
mas não governa; porque nunca se ingeriu na acção 
dos seus ministros, cujos presidentes, por exemplo, o 
duque de Ávila, Fontes Pereira de Mello, Anselmo 
José Braancamp e José Luciano de Castro, foram 
homens de grande tacto politico; e, porisso, continua- 
ram a estratificar a paz e a contribuir efficazmente para 
o progresso do paiz. 

Sucedeu-lhe o filho D. Carlos l (1889-1908), que, 
dotado de grandes qualidades de homem e de rei, as 
demonstrou, principalmente, nos últimos tempos do seu 
reinado, e que mais tarde, já depois do periodo de 
que estamos tratando, foi assassinado, em 2 de feve- 
reiro de 1908. Mas essa parte da historia já não per- 
tence a este livro. 

Em todo o caso, mesmo no século XIX, tornou-se 
elle respeitado no exterior, pelas suas excelscis quali- 



1 Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu reinado. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 613 



dades de homem, de rei e diplomata; pela visita dos 
chefes das nações estrangeiras, que soube promover; e 
pela instrucção, merecimento e distincção que revelou 
nas suas viagens. E, no interior, não só por essas qua- 
lidades, como pela sua bondade e intelligencía, e pelos 
esforços que empregou sempre no sentido de que o 
paiz se levantasse, e sobres aisse no mundo civilizado. 

* 
* * 

A reacção do fim do século XVIII contra as medi- 
das do Marquez de Pombal e a agitação da revolução 
francesa, que perturbou toda a Europa, e se fez tam- 
bém sentir em Portugal, já tinham feito recuar o avanço 
que o movimento económico havia adquirido no governo 
d'aquelle estadista; e as guerras de Napoleão conti- 
nuaram a decadência. 

Depois, surgiu o tratado de commercio e navegação 
com a Inglaterra de 26 de fevereiro de 1810. Por esse 
tratado, que se destinava a ser perpetuo, estabeleceu-se 
uma reciprocidade absoluta de commercio entre os 
dois paizes, com a mesma reciprocidade de impostos, 
direitos, privilégios, immunidades e favores, até mesmo 
quanto à importação. 

Os respectivos soberanos, por si e successores, 
obrigaram-se a não fazer nenhuma regulação prejudi- 
cial ao commercio dos vassallos, que fosse de encontro 
ao estipulado n'esse tratado. 

Os Ingleses podiam comprar e possuir bens de raiz 
ou estabelecer-se com lojas em Portugal e viajar a seu 



614 A HISTORIA ECONÓMICA 



bel-prazer ; ao passo que aos Portugueses na Ingla- 
terra se não permittia nenhuma d'estas coisas, pelo 
regimen que lá estava, então, vigorando, onde até, para 
desembarcar, era precisa uma licença. 

O commercio dos Ingleses não podia ser attingido 
por qualquer monopólio, privilegio ou contracto. Podiam 
elles ter juizes especiaes para todas as causas que 
fossem levadas perante esses juizes por vassalos britâ- 
nicos. E prohibiu-se até que alguma outra potencia 
pudesse ter feitorias ou corporação de negociantes, 
nos dominios portugueses, emquanto se não estabele- 
cessem lá feitorias inglesas. 

Acabou então quasi absolutamente a industria por- 
tuguesa, que não pôde luctar com a concorrência da 
Inglaterra. 

Já estavam fechados os portos do commercio, des- 
truídos os principaes estabelecimentos industriaes, inter- 
rompidas as communicações com as provincias ultra- 
marinas, e dispersa a população operaria por causa da 
primeira invasão francesa; e a industria havia entrado 
n'um período de decadência, que mais se accentuou 
ainda com as invasões seguintes. Mas esse tratado 
confirmativo e ampliativo do de Methuen ^consumou a 
ruina. 

O próprio Governo tanto reconheceu as consequên- 
cias desastrosas d'elle que, em 7 de março do mesmo 
anno, publicou uma carta regia, dirigida ao clero, 
nobreza e povo, annunciando grandes melhoramentos 



1 Sobre o tratado de Methuen, vide vol. IV, pag. 287 a 288. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 615 



na agricultai a, que compensariam o damno que pudesse 
trazer o tratado de commercio com a Gran-Breta- 
nha. 

Mas, apesar d'essa carta regia, nem mesmo a agri- 
cultura se levantou da sua ruina. E tal foi a decadência 
posterior que, ainda em 1820 o Governo foi obrigado 
a confessar a situação horrorosa e pungente de Portu- 
gal, no officio que, em 2 de junho, enviou a D. João VI 
para o Brazil, no qual descrevendo a situação angus- 
tiosa do thesouro dizia: «que a agricultura estava pouco 
adiantada pelos immensos gravames que pesavam sobre 
os lavradores ; que a mina mais útil da agricultura, que 
era a do vinho, se achava em decadência pela aber- 
tura dos portos do Brazil aos vinhos de todas as nações, 
pela introdução do vinho de Hespanha na Inglaterra, e 
pelo favor que esta nação tinha dado aos vinhos do 
Cabo da Boa Esperança; que a nossa industria se 
tinha paralisado consideravelmente, com a livre entrada 
em Portugal e no Brazil da mão de obra inglesa, com 
cujos preços a nossa nação não podia competir; que o 
commercio decairá extraordinariamente, não só pela 
concorrência de todas as nações maritimas, a quem o 
paiz frequentara a liberdade dos mares, e mais que 
tudo pela perda que nos tinham causado os navios 
insurgentes, ou seja apresando os navios ou obrigando 
os negociantes a segurar os seus cabedaes com pré- 
mios exorbitantes, com que as fazendas não podiam ; 
sendo muito para receiar, se as coisas assim continuas- 
sem, que desapparecesse brevemente do mar a ban- 
deira portuguesa ; que para o Brazil ia annualmente 
uma porção considerável das rendas d'este reino, bas- 
tando a importância dos bens patrimoniaes da coroa e 



^16 A HISTORIA ECONÓMICA 



ordens pertencentes aos fidalgos, que faltava aqui na 
circulação interior, e nos ia empobrecendo continua- 
mente ^.» 

Diz Oliveira Martins: «Quando Napoleão caiu, e 
voltou a paz, deu-se o balanço á fortuna portuguesa. 
Era um sudário de misérias e solidão. De 1807 a 1814, 
a população baixara de meio milhão, um quarto do 
que fora. Não havia quem trabalhasse. Beresford fizera 
soldados todos os que não eram frades, nem desem- 
bargadores, nem cónegos ou capellães, cantores ou 
castrados. Não havia nem cultura nem industria, nem 
gado, nem pesca. De cada 200 recrutas, ás vezes só 
duas sabiam ler. Até o principio do século, com uma 
população de um quarto a maior, bastava importar por 
anno dez milhões de cruzados de trigo ; agora neces- 
sitavam-se quarenta e mais e vinte e três de bacalhau, 
n'um paiz que é uma facha marítima piscosa. A des- 
graça crescia de anno para anno. O século XIX era 
muito peior que XVÍII. Em Lisboa e Porto, tinham 
entrado menos 416 navios, e tinham saido menos 238. 
As importações de fora baixaram de 49 a 37 milhões. 
As exportações de 42 a 26. Para o Brazil, em XVIIl, 
tinham ido 20 milhões de géneros; em XIX, iam só 16; 
tinham vindo 24 milhões, vinham 19 apenas. No con- 
gresso (1821) lamentava o ministro, ainda sectário do 
equilíbrio pombalino, que o deficit total do balanço do 
commercio portuguez fosse de 20 milhões de cruzados. 
As finanças arruinadas reproduziam o estado da indus- 



1 Historia de Portugal, por Henrique Schoefer, continuada por 
José Agostinho, vol. VI, pag. 502. ^ 



EDADE CONTEMPORÂNEA 617 



tria e o commercio. Custava a casa real por anno apesar 
do rei estar ausente, 260 contos ; e só por si as caval- 
lariças absorviam 80. O commissariado consumia mais 
de 1.200 contos; e, ao mesmo tempo que os operários 
das fabricas de Portalegre e Covilhã pediam esmola, 
o deficit do orçamento annual chegava a 2.000 contos ^.» 
E o inquérito industrial de 1814 verificou que, em 
34 comarcas, havia 511 fabricas, das quaes 7 estavam 
fechadas, 240 em estado decadente, e somente 134 em 
estado progressivo, figurando entre estas as de cortu- 
mes de Guimarães e Bragança, a de papel de Lousã, a 
de chapéus da Covilhã, a de vidros da Marinha Grande, 
e a de ferrarias de Thomar. Nada se ficou sabendo 
por esse inquérito acerca do trabalho industrial, nem 
da importância dos capitães, valor dos productos e 
numero dos operários. Mas, apesar da insufficiencia 
das investigações, os factos e números apurados bas- 
tavam para se conhecer que a obra do Marquez de 
Pombal recebera um rude golpe com as invasões fran- 
cezas e com o tratado de 1910 ^. 



1 Oliveira Martins, Historia de Portugal, 6." edição, vol. II, 
pag. 250. 

■2 Não obstante o lastimoso estado económico do paiz, houve 
ainda assim, desde a revolução francesa até 1820, quanto ao fomento, 
as seguintes providencias legislativas, que pouco produziram: o de- 
creto de 7 de maio de 1794, que prorogou por mais dez annos o 
privilegio da fabrica de vidros junto a Leiria; o alvará de 16 de 
outubro de 1794, que prorogou também por mais dez annos a Com- 
panhia das Reaes Pescarias do Algarve; o alvará de 27 de abril de 
1797, que favoreceu as fabricas de fiação e tecelagem de algodão; o 
alvará de 7 de outubro de 1799, que prorogou por outros dez annos 
o privilegio da fabrica de vidros junto a Leiria; o alvará de 6 de 



618 A HISTORIA ECONÓMICA 



De 1820 á 1834, em consequência das perturbações 
politicas e guerras civis, o estado económico de Portu- 
gal também não podia progredir. Mas, terminada a 
revolução liberal, as medidas do ministro de D. Pedro, 
Mousinho da Silveira, de que adiante fallaremos, influí- 
ram eficazmente no movimento económico. E, sendo 
depois ministro do reino Manoel da Silva Passos, esse 
notável estadista, adoptou providencias legislativas. 



janeiro de 1802, que confirmou as condições da Real Companhia do 
Novo Estabelecimento para as fiações e tecidos de seda, estabele- 
cendo também prémios, para animar a cultura das amoreiras e a 
industria da seda; o decreto de 27 de fevereiro do mesmo anno, 
que isentou de cizas as lans que se vendessem para as fabricas do 
reino; outro decreto do mesmo anno, que isentou de direitos a 
entrada de matérias destinadas para as fabricas; a carta regia de 1 
de julho de 1802, que promoveu a plantação de pinhaes nas praias 
do mar; o decreto de 15 de julho de 1802, que mandou levantar 
uma fabrica de papel em Alemquer; o alvará de 21 de setembro de 
1802, sobre a melhor qualidade, preços e reputação dos vinhos do 
Douro; o decreto de 10 de abril de 1804, que concedia a isenção da 
contribuição que tinha sido imposta aos chapéus grossos da fabrica 
nacional, e os libertou dos mesmos direitos nas alfandegas ultrama- 
rinas; o decreto de 11 de abril de 1804, que providenciou sobre a 
cultura da vargem grande de Thomar; outro da mesma data, sobre 
a cultura de Vallongo, termo de Ourem; o alvará de 27 de novem- 
bro de 1804, favorecendo a agricultura e herdades do Alemtejo; <> 
alvará de 24 de janeiro de 1805, que concedeu vários privilégios á 
fabrica de papel e tinturaria da Quinta de Sá; o alvará de 15 de 
abril de 1807, que trata do estabelecimento de uma fabrica de 
vidros na Chã de Linhares, perto do Gerez; o alvará de 28 de abril 
de 1809, que concedeu certas isenções de direitos de importação ás 
matérias primas nacionaes e de construcção de navios ; e o alvará de 
23 de fevereiro de 1816, que prohibiu a importação dos tecidos de 
seda. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 619" 



accentuadamente protectoras da industria nacional, taes 
como : a criação de conservatórias de artes e officios 
em Lisboa e no Porto, e lançamento das bases para o 
ensino profissional de todo o paiz, e muitas outras, que 
indirectamente converg-iam ao mesmo fim, avultando 
entre essas a pauta alfandegaria, criada em 10 de 
janeiro de 1837. 

E tudo isso, apar de outras medidas, tendentes a 
desinvolver a agricultura e as communicações, estimu- 
lou e promoveu o desinvolvimento económico do 
paiz \ 

E também influiu para o progresso económico o 
ter terminado, em 3 de abril de 1836, o ruinoso tratado 
de commercio com a Inglaterra de 21 de fevereiro de 
1810, de que já falíamos. 

Em 8 de julho de 1842, foi assignado um novo tra- 
tado de commercio com esse paiz, que pouco ou nada 
influiu na industria nacional. O que, porém, influiu pode- 
rosamente n'ella, foram as providencias adoptadas pelo 
ministro Costa Cabral, mais tarde conde de Thomar, 
com o fim de ampliar as decretadas por Passos Manoel, 
acerca do ensino profissional, e desinvolver a viação 
publica ". 



1 Para honra cl'esse ministro, convém também lembrar que 
aboliu as touradas, divertimento bárbaro, impróprio de um povo 
civilisado, pelo decreto de 19 de setembro de 1836; e que se lembrou 
de tornar o Cavado navegável desde Espozende até Barcellos, 
annunciando a adjudicação das obras precisas para isso, pela porta- 
ria de 18 de janeiro de 1837. 

- Avultaram n'essa época a lei de 26 de julho de 1843, que lan- 
çou um imposto de capitação a favor das estradas; o decreto de 13 



620 A HISTORIA ECONÓMICA 



Seguiu-se o período agitado por discussões e luctas 
politicas, desde 1841 a 1851, que tolheu a tranquilidade 
publica, e sequentemente o progresso da agricultura, 
do commercio e da industria. Mas, então, subiu ao 
poder o chamado ministério regenerador, presidido 
pelo duque de Saldanha, em que entrou o grande esta- 
dista Fontes Pereira de Mello, ministério esse que teve 
por timbre conciliar os partidos e abrir a era dos 
grandes melhoramentos materiaes, coincidindo o im- 
pulso da viação ordinária e accelerada com a criação 
do ministério das Obras Publicas, Conselho Geral do 
Commercio, Agricultura e Manufactura, Instituto Indus- 
trial de Lisboa e Escola Industrial, e Repartição de 
Manufacturas, a qual, pelo decreto de 20 de agosto de 
1853, ficou encarregada do seguinte: 

1.° Preparação das leis, decretos e regulamentos 
relativos a artes e officios ; 

1.P Conservatória de artes e officios ; 

3.° Escolas industriaes ; 

4.0 Sociedades promotoras da industria nacional; 

5.*^ Policia industrial; 

6.** Privilégios por novos inventos; 

1 P Exposições publicas de productos de novas 
industrias ; 



de ag-osto de 1844, acerca das obras da barra do Douro; o decreto 
de 8 de outubro do mesmo anno, que tratou de melhoramentos da 
viação publica; a lei de 13 de abril de 1845, que providenciou tam- 
bém sobre melhoramentos da viação publica; a providencia e annun- 
cio de 18 de outubro d'esse anno para a construcção de caminhos 
de ferro, por meio da concessão de privilégios. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 621 



8." Estatística industrial ^. 

O partido regenerador caiu nos princípios de Junho 
de 1856. Seg-uiu-se o partido chamado histórico, presi- 
dido pelo duque de Loulé, que também não descurou 
o fomento, e principalmente a viação publica; e, desde 
então, até o fim do século XIX, com excepção de uns 



1 Alem dessas medidas de fomento, houve também, na vigên- 
cia d'esse governo, as seguintes: 

O decreto de 6 de maio de 1852, abrindo concurso para a cons- 
trucção do caminho de ferro de Lisboa á fronteira de Hespanha; o 
decreto de 30 de agosto do mesmo anno, auctorisando o Governo a 
construir um caminho de ferro que, partindo do Porto, fosse entron- 
car na linha férrea que devia seguir de Lisboa á fronteira; o decreto 
de 17 de jaheiro de 1853, regulando a lei de 21 de julho de 1852, 
sobre os melhoramentos da barra de Vianna e construcção de uma 
nova ponte sobre o rio Lima; o decreto de 26 de outubro de 1853, 
promovendo o arroteamento dos terrenos incultos ou libertos; o 
decreto de 20 de julho de 1854 e respectivo regulamento, desinvol- 
vendo as disposições do decreto de 14 de outubro de 1852 sobre 
celleiros, montepios agricolas e Montes de piedade; a lei de 7 de 
agosto de 1854, que auctorisou certas obras na barra de Aveiro; a 
portaria de 12 de setembro do mesmo anno, que mandou coUocar 
um farol no cabo Mondego; a portaria de 30 d'esse mez de setem- 
bro, mandando annunciar o concurso para o serviço de maias postas 
diárias entre o Carregado e Coimbra; o contracto também de 30 de 
setembro, relativo ás condições da construcção de um caminho de 
ferro entre Lisboa e Cintra; a portaria de 3 de janeiro de 1855, 
relativamente ao caminho de ferro de Lisboa ao Porto; a lei de 16 
de julho do mesmo anno, auctorisando o Governo a fazer começar o 
caminho de ferro no cães dos Soldados; e portaria de agosto, tam- 
bém de 1855, mandando construir por administração o farol do 
Mondego; a portaria de 23 de agosto do mesmo anno, approvando a 
construcção e directriz da linha telegráfica entre Lisboa e Cintra ; e 
a providencia de 29 de agosto, annunciando o concurso da navega- 
ção a vapor entre Lisboa e Açores. 



622 A HISTORIA ECONÓMICA 



pequenos tumultos ao norte do paiz, em 1862 e 1863, 
applacados quasi log-o, sem derramamento de sangue, 
e o levantamento militar do duque de Saldanha, em 
1870, de que já falíamos, Portugal gosou sempre de 
paz e tranquillidade, e viu desinvolver o progresso 
económico em todos os ramos do fomento nacional. 
De modo que a agricultura, o commercio e a industira 
progrediram muito, e manteve-se a ordem publica sem 
violência, e a liberdade sem excesso. 

Em setembro de 1871, foi chamado de novo ao 
poder o partido regenerador, já presidido por Fontes 
Pereira de Mello, que se manteve até 3 de maio de 
1877, e continuou a desinvolver o fomento nacional \ 

Esse ministério foi substituido por outro, em 1877; 
mas voltou ao poder em 1878, para cair novamente 
em 1879 K 



1 São d'esse periodo o decreto de 1 de fevereiro de 1872, 
concedendo a construcção e exploração de um caminho de ferro do 
Barreiro a Mexoalheira; a lei de 14 de maio de 1873, mandando 
proceder á construcção do caminho de ferro do Porto á fronteira 
galleg-a; a portaria de 20 de abril de 1875, auctorisando a cons- 
trucção de um caminho de ferro em Lourenço Marques; a lei de 12 
de fevereiro de 1876, que approvou o contracto de navegação a 
vapor para o Algarve; a lei de 16 d'esse mez, que approvou o con- 
tracto para a construcção de um cães, docas e caminho de ferro 
marginal do Tejo; a lei de 12 de abril do mesmo anno, que aucto- 
risou a construcção do caminho de ferro de Lourenço Marques; e 
a lei de 20 também d'esse mez de abril, que approvou o contracto de 
navegação a vapor para as ilhas. 

2 Foi d'esse mesmo Governo o decreto de 16 de abril de 1879, 
que concedeu a construcção de um caminho de ferro de Bougado a 
Guimarães. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 623 



Foi então substituído pelo chamado partido pro- 
gressista, que representava a fusão do antigo partido 
histórico com o partido reformista, presidido pela esta- 
dista Anselmo Braancamp, que só durou até os fins de 
março de 1881 ; e, no pouco tempo que esteve no 
poder, velou egualmente pelo fomento nacional \ 

Em 11 de novembro de 1881, Fontes formava outra 
vez ministério, que durou até 19 de fevereiro de 1886 -. 

Segfuiu-se o ministério progressista, presidido pelo 
também notável estadista José Luciano de Castro, que 
governou, desde 20 de fevereiro de 1886 até 14 de 
janeiro de 1890. Fez parte d'esse ministério, como mi- 
nistro das obras publicas, Emygdio Navarro, e a sua 
administração sobresaiu de tal forma que pode dizer-se, 
sem depreciação para nenhum dos outros ministros, 



1 São d'essa época a lei de 30 março de 1880, que approvou o 
contracto da construcção do caminho de ferro da Pampilhosa á Fi- 
g-ueira; e a lei de 3 de junho do mesmo anno, que auctorisou a cons- 
trucção do caminho de ferro do Douro ao Pinhão e Barca de Alva. 

2 São d'esta época as seguintes medidas: o decreto de 2 de 
agosto de 1883, que abriu concurso para a construcção do caminho 
de ferro da Beira Baixa; o decreto de 28 de setembro do mesmo 
anno, que abriu concurso para a construcção do caminho de ferro 
de Mirandella; a permissão da cultura do tabaco no Douro, decre- 
tada em 1884; o decreto de 7 de março de 1885, que abriu concurso 
para a navegação a vapor na Sado, entre Setúbal e Alcácer; o con- 
tracto provisório de 9 d'esse mez para a construcção de uma doca de 
abrigo na enseada do Funchal; o decreto de 16 de julho do mesmo 
anno, que estabeleceu providencias acerca das obras do porto de 
Lisboa; a lei de 29 de julho também de 1885, que approvou o con- 
tracto definitivo para a construcção do caminho de ferro de Viseu; e 
outro da mesma data para a construcção das obras do porto do 
Funchal. 



624 A HISTORIA ECONÓMICA 



que o nome d'elle constitue, n'esse ponto, uma das 

maiores glorias de Portugal, e um dos propulsores de 

mais largas vistas do movimento económico da nação ^. 

Emygdio Navarro deixou de ser ministro em março 



1 São d'esse ministro, em 1886: o decreto de 2 de outubro, 
estabelecendo a circunscripção hydraulica do reino; a portaria de 
9 de outubro, providenciando acerca de cumprimento das leis da 
agricultura e pecuária; o decreto de 28 de outubro, criando bilhetes 
postaes; o decreto de 18 de novembro, mandando orgfanizar a carta 
agricola do reino; o decreto de 2 de dezembro, approvando o plano 
de ensino agricola e veterinário; o decreto de 9 de dezembro, con- 
tendo instrucções para a cobrança pelo correio de recibos, letras e 
obrigações; outro decreto da mesma data, que approvou o plano 
dos serviços agricolas; outro também d'essa data, que abriu con- 
curso para as obras do porto de Lisboa ; e o decreto de 30 de 
dezembro, que reformou os Institutos Industríaes e Commerciaes de 
Lisboa e Porto. 

Em 1887, o decreto de 27 de janeiro, que continha e approvava 
as instrucções para os serviços postaes; o decreto de 3 de fevereiro, 
que criou o Conselho Superior do Commercio e da Industria; o 
decreto de 24 de fevereiro, que regulou a fiscalização das estradas 
municipaes pelas juntas geraes do districto e pela direcção das obras 
publicas; o decreto de 22 de abril, que approvou e contem o plano 
para a Escola Agricola de Coimbra; a portaria de 28 d'esse mez, 
que estabeleceu as clausulas para as empreitadas geraes de obras 
publicas; a portaria de 23 de maio, que approvou o projecto da 
construcção do caminho de ferro da Beira Baixa entre Alpedrinha e 
Fundão; o decreto de 30 de junho, que criou uma escola pratica de 
viticultura na Bairrada; outro da mesma data, que criou também 
uma escola egual em Torres Vedras; a lei de 21 de julho, que aucto- 
risou um subsidio para a navegação a vapor no rio Sado ; outro da 
mesma data, que auctorisou a conclusão dos portos artificiaes de 
Ponta Delgada e Horta, por meio de empreitadas geraes; o decreto 
de 4 de agosto, que approvou as instrucções para o serviço da posta 
rural; o decreto de 17 de novembro, que criou uma escola pratica 



EDADE CONTEMPORÂNEA 625 



de 1889, e o partido progressista caiu em 14 de janeiro 
de 1890, como já dissemos. Alternaram-se ainda depois 
d'isso no poder, até o fim do século, o partido regene- 
rador e progressista. As rivalidades partidárias e a 



de agricultura em Portalegre; o decreto de 24 de novembro, que 
criou uma estação ampelo-phyloxerica do norte; a portaria da mesma 
data, que estabeleceu na quinta da Vacaria, próximo da Regoa, a 
estação phyloxerica do norte ; a portaria de 3 de dezembro, que deu 
instrucções para o recenseamento ag-ricola pecuário. 

Em 1888: o decreto de 3 de fevereiro, que approvou e contem 
os regulamentos das escolas industriaes; a lei de 3 de junho, que 
criou uma escola industrial na Covilhã; outra da mesma data, que 
criou outra escola industrial em Alcântara; outra lei, também da 
mesma data, que criou outra escola industrial no Porto; outra de 
egual data, que criou escolas de desenho industrial em Bragança, 
Faro, Figueira da Foz, Leiria, Setúbal, Vianna do Castello e Villa 
Real; o decreto de 18 de julho, criando uma escola pratica de lacti- 
cinios, no concelho de Castello de Paiva; outro decreto da mesma 
data, criando uma escola pratica de agricultura, nos subúrbios de 
Santarém; outro da mesma data, criando uma escola fructuaria na 
quinta região agronómica ; a portaria de 10 de agosto, providen- 
ciando acerca da instrucção para tirocinio dos alumnos do quadro 
dos correios e telégrafos; e o decreto de 27 de dezembro, que appro- 
vou e contem o regulamento dos serviços florestaes da Serra da 
Estrella. 

Em 1889: o decreto de 3 de janeiro, que contem o plano dos 
serviços zootechnicos; o decreto de 10 de janeiro, que criou uma 
escola industria! em Braga; outro da mesma data, criando uma outra 
escola industrial em Coimbra ; outro da mesma data, addicionando o 
ensino de francez á escola Faria Guimarães, do Porto; outro da 
mesma data, criando escolas de desenho industrial no Funchal e 
Mattosinhos; o decreto de 16 de fevereiro, que approvou e contem o 
regulamento para o hospital veterinário de Lisboa, criado por de- 
creto de 22 de dezembro de 1887; e o decreto de 21 de dezembro 
que approvou e contem o regulamento da policia das estradas. 

Volume VI 10 



■626 A HISTORIA ECONÓMICA 



agitação republicana fizeram que os governos se pre- 
occupassem mais da politica do que das artes úteis da 
nação; mas esta, por sua iniciativa expontânea, conti- 
nuou a desinvolver-se; e no fim do século, a agricul- 
tura, o commercio e a industria tinham adquirido um 
grande progresso, como vamos ver na apreciação deta- 
lhada dos differentes factores económicos. 

Em geral, não podiamos competir com a industria 
estrangeira, mas havia alguns productos que sustenta- 
vam essa competência. Já se exercia a maior parte das 
industrias que havia pela Europa, e já Portugal occu- 
pava, no festim da civilisação, um logar que o não 
deshonrava. N'este sentido, o inquérito industrial de 
1881, verificou haver em todo o paiz entre fabricas e 
officinas agrupadas, 3:776. 

* 

* * 

Passemos agora a examinar especialmente os diffe- 
rentes factores económicos. 

Quanto a productos mineraes, havia a região carbo- 
nifera de Leiria, do Cabo Mondego, do Bussaco, do 
Douro e do Azeitão; mas de todos esses jazigos, no 
correr do século, só estiveram em exploração activa a 
região do Mondego, as minas do Pejão, no concelho de 
Castello de Paiva, junto ao rio Douro ; as de S. Pedro 
da Cova, no concelho de Gondomar, que faziam também 
parte da região carbonifera do Douro. E, nos últimos 
tempos, havia também alguma exploração na região de 
Leiria. 

Havia muitos jazigos de ferro, sobretudo, em Trás- 



EDADE CONTEMPORÂNEA 627 



os-Montes, nas serras de Roboredo, Carvalhal, Carva- 
lhosa, Carvalhosinha e Meira; mas estavam inexplorados. 

Havia também grande abundância de cobre, sobre- 
tudo, nas minas de Barrancos, Almodovar, Tinoca, 
Aljustrel e S. Domingos, no Algarve. 

Todas estas minas estavam, mais ou menos, em 
exploração; mas a de S. Domingos, pela riqueza e 
extrema abundância do seu minério e dos seus muitos 
capitães, era aquella cuja exploração tinha sido mais 
continuada e dado maiores lucros. 

Havia as regiões plombiferas do Caima, onde exis- 
tiam as minas do Braçal, Malhada, Casal da Mó e 
outras; a região do Douro, onde estavam os jazigos de 
Adorigo, no concelho de Taboaço, Gondarem e Várzea 
de Travões; a zona de S. Miguel de Acha, no concelho 
de Idanha-a-Nova; e ainda outros jazigos menos impor- 
tantes, em Tras-os-Montes, Douro e Alemtejo. 

As minas d'este minério tiveram um periodo de 
grande lavra, ao qual succedeu um quasi abandono 
total; mas algumas retomaram, nos últimos tempos do 
século XIX, o seu trabalho. 

Havia estanho na provincia de Tras-os-Montes, junto 
a Bragança; no Marão, e nas serras da Estrella e Cara- 
mulo; mas sem exploração, embora houvesse indicios 
d'esses jazigos terem sidos explorados em épocas 
remotas. 

Havia também minas de antimonio, na bacia do 
Douro, desde Vallongo até Castello de Paiva. Este 
minério encontra-se associado ao quartzo, constituindo, 
assim, um dos mais ricos jazigos da Europa; mas a sua 
exploração foi intermittente, pela má direcção das com- 
panhias exploradoras e falta de capitães. 



628 A HISTORIA ECONÓMICA 



Havia também no Alemtejo uma facha de mang-anez 
de 40 kilometros de extensão, desde Alcácer do Sal até 
á margem do Chanca, continuando ainda para Hespa- 
nha. E encontrava-se também muito manganez em 
Idanha-a-Nova e Anadia ^. 

Portugal possue uma grande quantidade de mármo- 
res, notáveis também pela variedade dos seus desenhos, 
pela firmeza das suas tintas e finura do seu contexto. 

Os principaes jazigos ou pedreiras de mármore 
existiam nos concelhos de Vimioso e Mirandella ; no 
districto de Coimbra, em vários concelhos desde Pena- 
cova até á Figueira da Foz, bem como na serra do 
Bussaco; em Chão de Maçans, districto de Santarém, 
donde saiu o mármore para a construcção da cathedral 
de Madrid ; e, no districto de Lisboa, em Pêro Pinheiro, 
Cintra, e na Arrábida, onde havia uma variedade, 
muito apreciada no estrangeiro, chamada brechia de 
Portugal ou mozaico da Arrábida. 

E também, na província do Alemtejo, districto de 
Beja, se encontravam mármores, em Ficalho, Alvito, 
Moura, etc, ; no districto de Portalegre, em Castello de 
Vide, Elvas, Ponte do Sôr, etc; e na provincia do 
Algarve, nos concelhos de Loulé, Faro, Silves, Porti- 
mão, etc. 

E todos estes jazigos tinham grande exploração. 

Havia por muita parte argilla, para fabricar louça, e 
kaolino, para fabricar porcellana; muita abundância de 



' Apontamentos de Geographia Económica de Portugal, colhi- 
dos na aula do Dr. José Aug^usto de Lemos Peixoto, por F. A. 
Gomes. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 6i9 



schisto, granito e gesso ; muito amianto, na serra de 
Portel; e também grande abundância de wofrano no 
norte do paiz *, 



Quanto a productos agricolas, constituíam elles a 
principal fonte da prosperidade do paiz, e, sobretudo, o 
vinho. Ainda assim, as terras eram mal aproveitadas, e 
havia muitos terrenos próprios para a cultura, que 
estavam desperdiçados, e muitos montes susceptíveis 
de arborisação, que estavam nus, ou, quando muito, 
reduzidos a charnecas ^. 

A cultura dos cereaes, em todo o caso, augmentou 
progressivamente, de modo que, no fim do século, a 
do milho attingia 8.000:000 de hectolitros; a do trigo 
augmentou também, embora, pelo augmento da popu- 
lação e do consumo também augmentasse a importa- 



1 Citados apontamentos. 

2 Ainda nos fins do século, em 1891, a repartição do terreno 
era a seg^uinte: vinhedos, 2,2 por cento; arvores fructiferas, 7,2; 
cereaes, 12,3; legumes, 2,7; pastos, 26,7; florestas, 2,9; improducti- 
vos, 45,8. Mareei Dubois e Kergomard, Précis de Geographie Eco- 
nomique. 

Segundo Anselmo de Andrade, no seu livro A Terra, a per- 
centagem das terras incultas era, na Bélgica, de 8 por cento, na 
Allemanha 9, na França 11, na Áustria Hungria 12, na Itália 19, nas 
Ilhas Britânicas 20, na HoUanda 21, na Hespanha 25, na Suissa 29, 
na Roménia 30, na Rússia, 31, na Dinamarca 34, na Grécia 39, na 
Suécia 49, e na Noruega 71. 



630 A HISTORIA ECONÓMICA 



ção ^; e cultivava-se centeio nas terras pobres; bastante 
cevada, que, embora se produza nos terrenos pobres, 
prefere os terrenos gordos e pouco húmidos; e havia 
muito arroz em vários terrenos alagadiços e panta- 
nosos. 

Nas plantas textis, o linho, que outr'ora se cultivava 
extensamente em Portugal, diminuiu muito, em conse- 
quência dos tecidos de algodão ; e a producção do 
cânhamo era insignificante. 

Entre os vegetaes lenhosos, comprehendendo as 
arvores de fructo, como as pereiras, macieiras, laran- 
jeiras, limoeiros, figueiras, pecegueiros, damasqueiros, 
amendoeiras, as videiras de que já falíamos, oliveiras, 
alfarrobeiras, castanheiros e sobreiros, os mais impor- 
tantes eram a videira, o castanheiro, a oliveira, a alfar- 
robeira, a laranjeira, a amendoeira e o sobreiro. 

A videira, que constituía a principal riqueza do paiz» 
dava logar a três qualidades de vinho : o verde, o ma- 
duro de mesa e de pasto, e o vinho fino ou generoso. 

O vinho verde, que deve o seu nome á incompleta 
maturação da uva, tinha como sendo as suas melhores 
quahdades, as de Monsão, Arcos de Val-de-Vez, região 
de Basto, Amarante e Livração. 

As principaes qualidades de vinho maduro eram as 
de Valle de Oura, Valpassos, Bragança, Bairrada, Valle 
do Dão, Fundão, Penamacor, Figueiró dos Vinhos, 



1 Anselmo de Andrade, no seu livro A Terra, calcula que, de 
1876 a 1885, a importação do trigo foi de 855 milhões de kilogram- 
mas ou 85 -y milhões por anno; e de 1886 a 1895, foi de 1:145 

milhões ou 114 y por anno. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 



631 



Torres Novas, Cartaxo, Arruda, Bucellas, Carcavellos, 
Collares, Torres Vedras, Borba, Redondo, Vidigueira, 
Cuba, Beja, Fuzeta e Portimão. 

O vinho generoso, conhecido no estrangeiro por 
vinho do Porto, produzia-se na região do Alto Douro. 

A producção do vinho cresceu enormemente depois 
do meiado do século. Provincias que primeiramente 
não produziam vinho, como, por exemplo, o Alemtejo, 
cobriram-se nos últimos tempos de vinhas, cuja pro- 
ducção era extraordinária. No Minho, o vinho verde 
estendeu-se a todos os recantos, e o Douro recupe- 
rou-se dos estragos do oídium, phyloxera e mildio. 



Quanto a productos animaes, a estatistica do sé- 
culo XIX, deu o seguinte: 





Numero de 


Valor total 


Valor médio 


Divisão por 




cabeças 


Escudos 


por cabeça 


kílometro 


Raça bovina . . 


625:000 


16.000:000$00 


30S00 


5,8 


Raça suina . . . 


1.000:000 


7.000:000$00 


7$00 


— 


Raça ovina . . . 


3.000:000 


2.700:000$00 


900$00 


— 


Raça cavallar . 


88:000 


2.500:000$00 


29S00 


0,88 


Raça muar . . . 


51:000 


150:000S00 


30$00 


0,56 


Raça caprina . . 


1.000:000 


700:000$00 


5$00 


1,53 


Raça azimina . 


138:000 


— 


— 


— 



E algumas raças eram muito boas, como a de Alter, 
no gado cavallar, a raça merino no gado ovino, a raça 



632 A HISTORIA ECONÓMICA 



barrozã no gado bovino, muito boa para o trabalho e 
producção do leite, bem como a raça minhota, que é 
também muito boa para o trabalho, producção do leite 
e para a engorda. Mas, em todo o caso, as nossas 
raças leiteiras ficavam, n'esse ponto, muito abaixo 
das boas raças estrangeiras, e nada se fez para as 
apurar. 

Só, em 1863, é que se pensou, pela primeira vez, 
em aperfeiçoar as nossas raças de leite. O Governo 
mandou vir da Inglaterra para a quinta regional de 
Cintra quatro vaccas e um touro da raça Alderney. 
Fizeram-se, então, alguns cruzamentos; mas os produc- 
tos obtidos espalharam-se quasi todos pelo sul do 
paiz, quando deviam ser levados para o norte. E, havendo 
sido mal cuidados, e cruzados a torto e a direito com 
todos os sangues, soffrendo a influencia de um clima 
opposto á aptidão que se queria desinvolver, perde- 
ram-se quasi totalmente; de modo que foi de nenhum 
valor o resultado que se obteve. Depois d'isso, nada se 
fez officialmente para apurar as raças de leite. Apenas 
um ou outro proprietário, conhecendo de longe as 
excellentes qualidades leitiginosas de certas variedades 
estrangeiras, importou alguns exemplares da Mancha, 
da Bretanha e de outras regiões, fazendo-as cruzar com 
differentes typos da nossa raça. 

Em todo o caso, a fabricação da manteiga tornou-se 
uma industria importante, a ponto de acabar com a 
importação estrangeira. 

A raça turina não é muito boa para essa fabrica- 
ção, por dar um leite muito butiroso, que não convém 
empregar na manteiga; mas a raça jarmella é muito 
boa para isso. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 633 

Não se exportava manteig-a; mas, desde 1885 em 
diante, já se exportava algum queijo, 27:500 kilos termo 
médio, para a Hespanha, Brazil e possessões portu- 
guesas ^. 



Quanto ás industrias, começando pelas mineraes, a 
carta regia de 18 de março de 1801, dirigida ao reitor 
da Universidade de Coimbra, abriu o primeiro período 
da attenção official d'este importante assumpto, no 
periodo que estamos examinando. 

O Princepe regente reconheceu a necessidade de 
criar uma intendência que tivesse a seu cargo a casa 
da moeda e as minas. E foi nomeado intendente José 
Bonifácio de Andrade, que era formado em Direito e 
Filosofia pela mesma Universidade. 

Em 1827, foi extincta essa intendência geral de 
minas. Depois " Passos Manoel, em 1836, seguiu o 
systema de conceder apenas o usufructo do terreno da 
mina por certo tempo, onde, por isso, o concessionário 
não podia radicar os seus plenos interesses á desco- 
berta e exploração; visto que a concessão não abran- 
gia a propriedade do terreno, e era por um periodo 
limitado. 

Veiu posteriormente a lei de minas de 1850, que, 
em attenção ás circumstancias do nosso paiz, continha 
muitas condições inexequíveis e outras insufficientes. E, 



1 Adolfo H. Baptista Ramires, As industrias de Leite. 

2 Revista Commercial, vol. I. 



634 A HISTORIA ECONÓMICA 



por fim, a legislação de 1852, que regulou até o fim do 
século, é que deu plenas garantias ao descobridor e 
explorador, distinguindo os trabalhos de investigação 
das minas em trabalhos de pesquiza e trabalhos de 
exploração, ao mesmo tempo que attendeu aos direitos 
e interesses do proprietário do solo. E, ao passo que 
concedeu ao descobridor e explorador o dominio do 
terreno da respectiva mina, impoz-lhe certos deveres, 
para prevenir o abandono e os interesses de terceiro. 

Por isso mesmo, a exploração mineira cresceu gran- 
demente depois d'essa data. Assim, em 1852, apenas 
existiam em exploração activa as minas do Braçal e 
S. Pedro da Cova; e, em 1867, existiam já 265 minas 
de cobre, chumbo, estanho, antimonio, manganez, ferro, 
antracite e linhite : 45 em Tras-os-Montes ; 56 na Beira; 
31 na Extremadura; 133 no Alemtejo e Algarve, O 
numero de mineiros empregados era de 4:500, e o 
valor de todas as minas era de 28 milhões de escudos, 
approximadamente ^. 

Sobretudo, desde 1863 a 1868, o numero das con- 
cessões pedidas foi enorme. 

Em todo o caso, á exploração posterior não corres- 
pondeu a essa febre de concessões; porque, no fim do 
século, alem das minas que já apontámos a paginas 626 e 
627, só estavam em exploração activa as minas de antra- 
cite do Pejão; as minas de antimonio da Tapada e Palhei- 
rinhos; a de sulfureto de antimonio da mina de Montalto; 
a mina de chumbo do Braçal; as de wolfrano dos 
jazigos de Panasqueira e Cabeço de Peão ; e as abun- 



1 Citada Revista Commercial. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 635 



dantes minas do Cabo de S. Domingos. A mina de 
prata de S. Martinho de Auguenda, no concelho de 
Miranda do Douro, que em tempos fora explorada por 
uma companhia importante, foi abandonada, no fim do 
século XVIII, para em 1900 continuar a ser explorada 
por uma companhia belga \ 

A exploração do mármore era muito activa em 
todos os jazigos. 

A pesca, outra industria extractiva, fornecia grande 
riqueza ao paiz. Lisboa, que era, e é também o primeiro 
porto n'esse género, armava muitas embarcações, não 
só para a pesca fluvial, como para a pesca do alto 
mar e longinqua ; e d'essas embarcações, cujo numero 
attingiu 150, algumas eram empregadas na pesca do 
bacalhau nos bancos da Terra Nova. E, no Porto, 
acontecia a mesma coisa. 

Essa industria era, nos fins do século, exercida no 
nosso paiz por cerca de trinta mil individuos, e o valor 
annual regulava por 30 mil contos '. 



* 
* * 



A agricultura estava muito atrazada até 1834, por 
que, a par das guerras, que roubaram os braços á 
lavoira e á industria, e das perturbações politicas, que 
alteravam a ordem publica e prejudicavam o socego e 
bem estar da nação, uma grande parte da propriedade 



^ Citados apontamentos. 
2 Citados apontamentos. 



636 A HISTORIA ECONÓMICA 



estava amortisada na mão dos nobres, por meio de 
vínculos e morgados ou doações reg-ias, ou na mão dos 
conventos e outras corporações, e oneradas geralmente 
com foros e laudemios pesados, pensões, quotas, cen- 
sos, rações certas e incertas, jugadas, teigas de Abra- 
hão, luctuosa e outras prestações. Os foraes, dados a 
muitas terras, também cohibiam, muitas vezes, a liber- 
dade do solo, e continham imposições, frequentemente 
vexatórias. E, alem d'isto, o systema politico absoluto 
coarctava a iniciativa do proletário ou trabalhador. 

O primeiro passo em favor da agricultura foi o 
alvará de 27 de novembro de 1804, que, de harmonia 
com os alvarás anteriores de 21 de maio de 1764, 1 de 
de junho de 1765 e 20 de junho de 1774, concedia aos 
rendeiros garantias de conservação nas herdades, em 
troca das bemfeitorias e amanhos que n'ellas fizessem. 
Mas esse alvará praticamente pouco deu. 

Vieram depois os decretos de Mousinho da Silveira; 
e esses é que, de facto, favoreceram a agricultura. O 
de 4 de abril de 1832 facilitou a extincção dos vincu- 
los, e removeu todas as difficuldades dos aforamentos; 
e o de 13 de agosto do mesmo anno, que revogou 
e cassou todas as doações por titulo genérico, feitas 
pelos reis a qualquer individuo ou corporação, extin- 
guiu a maior parte d'aquelles ónus e foraes, e tornou 
aHenaveis as terras incultas dos bens da coroa. Depois, 
a lei de 22 de junho de 1846, confirmando aquellas 
leis de 1832, extinguiu também todos os direitos banaes, 
todos os serviços pessoaes, os direitos reaes e os tri- 
butos e impostos que não tivessem a natureza de pen- 
sões censiticas, emphyteuticas ou subcensiticas e sub- 
emphyteuticas. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 637 



Vieram mais as leis de 30 de julho de 1860 e 19 
de maio de 1863, que aboliram os morgados; e essa 
abolição, comprehendendo a dos chamados vinculos 
e capellas, contribuiu também para a liberdade das 
terras, e, sequentemente, para o adiantamento da agri- 
cultura ^. 



Quanto ás outras industrias, a do tabaco foi a mais 
lucrativa de todas ellas, e constituia uma das princi- 
paes fontes de riqueza do paiz. Foi ella exercida por 
vários modos. Até 1865, constituiu um monopólio, que 
enriqueceu muita gente. De 1865 a 1888, estabeleceu-se 
o systema de liberdade; de 1888 a 1890, foi adminis- 
trada pelo Estado; e, d'ahi por deante, voltou-se ao 
systema do monopólio. 

Nas industrias textis, antigamente a do linho era 
muito extensa no paiz, porque todos os tecidos brancos 
eram de linho, sendo os districtos, onde principalmente 
se cultivava o milho, aquelles onde também se produ- 
zia o linho ; e era, geralmente, uma industria exercida 



1 Alexandre Herculano no Estudo sobre Vinculos, publicado 
no volume IV dos seus Opúsculos, e Anselmo de Andrade, no livro 
A Terra, pag. 108, dizem que essa abolição pouco ou nada concor- 
reu para o aproveitamento da terra. Mas basta attender á grande 
extensão e numero de morgados e vinculos que havia, na sua maior 
parte arruinados, cujos donos, em geral, precisavam de os alienar, e 
que, de facto, se foram libertando delles pouco e pouco, para se 
induzir que aquella medida bastante beneficio devia produzir, 
como, realmente, produziu. 



638 A HISTORIA ECONÓMICA 



na maior parte das casas dos lavradores. Mas, com o 
apparecimento do algodão, decaiu muito. Ainda assim, 
Guimarães foi sempre um centro importante da fabri- 
cação d'esse artigo, cujos tecidos tinham grande repu- 
tação, e eram muito apreciados, porque imitavam as 
melhores bretanhas estrangeiras. 

A industria do algodão tornou-se uma das mais 
prosperas e, por assim dizer, avassalou todas as outras 
similares. 

A dos lanificios, que é a industria mais antiga do 
paiz, e que principiou por ser uma occupação caseira, 
como a do linho, para mais tarde se converter em ver- 
dadeiras fabricas, adquiriu grande desinvolvimento. Só 
no districto de Castello Branco, nos últimos tempos do 
século XIX, havia 73 fabricas, entre as quaes prepon- 
deravam as da Covilhã; no da Guarda 44; no de Leiria 
11; no de Lisboa 8; e no do Porto 7. 

A industria de seda, também uma das mais antigas 
do paiz, e que chegou a ser uma das mais prosperas, 
soffreu grande abalo com a invasão francesa, que des- 
truiu uma grande parte das fabricas. Em 1892, tentou-se 
novamente reanimar a criação do sirgo, e com ella a 
industria sericola; mas a doença do sirgo e a concor- 
rência do algodão e da seda estrangeira prejudicaram 
muito essa industria, que entrou, por isso, em grande 
decadência. 

As industrias metallurgicas estavam muito atrazadas. 
Não havia os altos fornos que pudessem dar ao ferro 
todas as formas possiveis. Mas o que se fabricava no 
paiz, era tão bom como o estrangeiro. 

Em todo o caso, já no Porto e Lisboa, se fabrica- 
vam grandes maquinas, objectos do caminho de ferro, 



EDADE CONTEMPORÂNEA 639 



e todos OS artig"OS de pregaria, ferraria e cutellaria. 
E a cidade de Guimarães era, até por tradição, espe- 
cialista em artigos de cutellaria. 

A ourivesaria de ouro e prata, foi sempre uma 
arte admiravelmente cultivada em Portugal. Essa Arte 
Famosa, como lhe chama Laurindo da Costa, conti- 
nuou a sua tradição gloriosa, sobretudo no Porto, 
Lisboa, Guimarães e Gondomar, como provam muitas 
obras primas feitas no século XIX, por insignes artis- 
tas \ N'este género, eram também distinctas as fili- 
granas ". 

Tinham também progredido muito a industria de 
cortiça, de cortumes, da moagem, da distillação do 
vinho, a do papel, da saboaria, da cerâmica, da vidra- 
ria e typografia 'K 



O commercio decadente até 1852, como em geral 
tudo o mais, augmentou grandemente depois d'isso. 
Era principalmente com a Gran-Bretanha, França, Bél- 
gica, Hollanda e Brazil que elle se fazia; e nos últimos 
tempos, a AUemanha tomou também uma figura pre- 
ponderante, e desinvolveram-se as relações com Marro- 
cos e Turquia. 

Os Estados Unidos faziam egualmente um grande 



1 Laurindo Costa. Uma Arte Famosa - e Artistas Portug-ueses. 

2 Laurindo Costa. Artistas Portugueses. 

3 Citados apontamentos. 



640 



A HISTORIA ECONÓMICA 



commercio com Portugal, concorrendo também em 
grande escala com os productos similares da Europa ^. 

A Hespanha, apesar da vizinhança, fazia relativa- 
mente pequeno commercio com Portugal, porque os 
productos eram quasi os mesmos ; e os conflictos de 
interesses eram muito grandes. 

Em 1891 o detalhe do commercio era, em francos, 
em resumo, o seguinte : 



IMPORTAÇÃO 



Cereaes . 
Géneros coloniaes 
Algodões 
Tecidos . 
Maquinas . 
Ferro . . 
Hulha . . 



28.000:000 
22.696:000 
14.900:000 
13.900:000 
13,800:000 
12.500:000 
12.200KX)0 



EXPORTAÇÃO 



Vinhos . 
Cortiça. 
Peixes . 
Cobre . 



56.600:000 
15.500:000 
7.900:000 
5.784:000 2 



Quanto aos centros económicos, Lisboa a capital, 
cidade do mármore e granito e rainha do Oceano, 
como lhe chamou Alexandre Herculano, ainda no pri- 
meiro quartel do século XIX, segundo Oliveira Mar- 
tins: «tinha nas ruas focos de imundicie decomposta 
ou ambulante e viva. Os bandos de frades, com o 



1 Anselmo de Andrade, A Terra, pag. 70. — Noel, obr. citada. 
— Mareei Dubois e Kergomard, obr. citada. 

'^ Mareei Dubois et Kergomard, obr. citada. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 641 



habito gorduroso ; os cães, roendo ossos no lixo amon- 
toado junto das casas ; as carcassas de animaes mortos, 
apodrecendo ao sol; e os rebanhos de mendigos, cha- 
gados, a esmolar, davam um aspecto repugnante a toda 
a cidade. 

«De noite, corriam em direcção das praias as figu- 
ras esguias das pretas, com o alto caneco de barro á 
cabeça, a vasar no rio as sentinas das casas; e o tran- 
seunte, tropeçando nos monturos, com o olhar fito na 
luz mortiça do lampeão distante, recebia as duches 
das janellas. De dia, a essas janellas, adornadas de 
craveiros e mangericos, viam-se as mulheres mal vesti- 
das, catando-se ou namorando ; e psiu ! psiu ! chama- 
vam o aguadeiro; ou a saloia de botas e carapuça, 
montada n'um burro, vendendo hortaliça. Os gaiatos 
assobiavam; as meninas vinham pôr ao ar o macaco ou 
o papagaio, inevitável de todas as casas. Os pretos e 
pretas pullulavam nas praças. Passavam em grupos, 
correndo para a missa, as mulheres, como monos, no 
seu capote negro, escondendo todas as formas, e com 
o lenço de cassa branca, espetado como o bico de um 
pássaro virado para as costas ; e, ao passar diante dos 
numerosos santos de azulejo, pintados e collados nas 
paredes das casas, com uma candeia superior, persi- 
gnavam-se, murmurando resas com devoção. Os frades 
surgiam por toda a parte. Saiam mesmo das viellas 
mais afamadas e das travessas frequentadas pelos gal- 
legos, com a cabeça rapada e nua, nos seus trajos 
pardos; e, por baixo da capa, n'alguns d'elles, por 
exemplo nos trinos, o habito e escapulário branco com 
a cruz azul encarnada. Quando era meio dia, tocavam 
os sinos das egrejas ás Ave-Marias, e todos paravam e 

Volume VI -11 



642 A HISTORIA ECONÓMICA 



se descobriam, interrompendo as conversas e resando. 
Quando na rua passava o Viatico, os homens paravam 
também, ajoelhavam, batiam nos peitos; as segfes esta- 
cionavam no seu rodar saltitante e rápido ; descia o 
boleeiro de jaleca e botas altas com esporas collossaes 
de latão ; e, por entre a gente, passavam os irmãos nas 
suas opas vermelhas, segurando o pallio dourado, sob 
o qual ia o padre gravemente, com o vaso das parti- 
culas, andando ao toque da campainha fúnebre, ao som 
do Bemdito. 

« Um curioso traço de Lisboa eram as suas ruinas : 
o rasto do grande terramoto. Ruinas de edificios caí- 
dos, ruinas de obras por acabar. A Patriarchal jazia 
também por terra, e, por meio das suas ruinas, levan- 
tavam-se os alicerces esboroados do novo Erário; e, 
entre os montões de pedra abandonados, matavam-se 
os porcos para a cidade. S. Francisco ficara por ter- 
minar; e sobre as lages dispersas e já comidas pelo 
tempo, havia cômoros de entulhos, onde viçava a relva, 
e pastavam as cabras, no meio do lixo immundo, que 
ahi vinha vasar-se de toda a parte e de toda a espécie ; 
porque as obras eram a sentina dos transeuntes do 
bairro. Ao lado do monturo, ficava a capella, com 
outro monturo de pobres piolhosos e sentados, a esmo- 
lar nos degraus, e aglomeração de frades, contratando 
ás portas as missas, os enterros; e ainda com mon- 
turo final de mortos sobre o pavimento da egreja, por 
cujas fendas saiam exhalações pútridas ^. » 



' Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, vol. II, pag. 21 
23. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 643 



Mas logo, com o estabelecimento do regimen liberal, 
se entrou a olhar com attenção para a limpeza, embel- 
lezamento e progresso da cidade. Já o edital de 2 de 
janeiro de 1834 prohibiu que no Rocio se junctas- 
sem vendilhões de diversos géneros e adellos; e, em 
1836, foram demolidos differentes casebres que lá 
havia. 

Também em 1836, foi o nome do Rocio mudado 
para Praça de D. Pedro, e em seguida rodeado de 
bellos prédios. 

Em 1879, começou-se a nova Avenida da Liberdade, 
e até o fim do século, não cessaram os esforços das 
vereações e do Governo a favor d'aquelle progresso e 
belleza \ 

Pela sua admirável situação geográfica e topográ- 
fica, Lisboa era já uma das principaes cidades do mundo 
e das capitães da Europa. Tinha sido na edade moderna 
um dos principaes empórios commerciaes do Universo "; 
e, no século XIX, se não conquistou todo o perdido, 
readquiriu grande movimento commercial e industrial. 
O seu estuário forma um porto capaz de abrigar todas 
as esquadras do mundo '. 

Já falíamos d'essa cidade, relativamente á sua capa- 
cidade piscatória e ao grande numero das suas arma- 
ções, mesmo para a pesca longinqua. E o seu movi- 
mento industrial era também muito grande em quasi 
todos os géneros. 



1 Júlio de Castilho, Lisboa Antiga. 

2 Adriano Anthero, A Historia Económica, vol. IV, pag. 327 e 
328. 

3 António Correia, As cidades de Portugal. 



544 A HISTORIA ECONÓMICA 



Setúbal, está também n'uma admirável situação topo- 
gráfica, abrigada ao fundo de uma amplissima bahia, for- 
mada pela foz do Sado. E, escalando-se as eminências 
circumvizinhas, ha numerosos pontos, para se gozarem 
deslumbrantes panoramas. Já no século XIX, devido á 
sua admirável situação, era um grande centro de com- 
mercio e industria; e maior desinvolvimento económico 
teria ainda a sua barra, se a não obstruíssem numa 
parte as areias accumuladas pelo rio e pelos ventos que 
sopram continuadamente. As suas salinas são famosas 
e importantes, havendo attingido já 226:000 moios de 
sal a exportar annualmente; e as suas laranjas teem 
reputação mundial e uma grande exportação. 

O Porto, a segunda cidade de Portugal, já tinha, 
nos fins do século passado, uma população superior a 
200:000 habitantes. A sua barra era muito concorrida, 
e muito mais o seria pelos principaes pavilhões do 
globo, se a não obstruíssem em grande parte as areias: 
o que motivou a construcção do porto artificial de 
Leixões, que, apesar do ser regularmente concorrido, 
não satisfez as aspirações dos Portuenses, nem com- 
pensou as enormes despesas que elle occasionou. Por 
isso mesmo, já no fim do século, se tratou de o am- 
pliar e collocar em melhores condições, obra essa que, 
depois, foi começada no século XX, como a seu tempo 
veremos. 

A cidade e arredores estavam cheias de fabricas e 
officinas de todo o género, abarcando todas as indus- 
trias ; e o seu commercio, não só com o interior, mas tam- 
bém com as colónias e paizes estrangeiros, era enorme, 
não obstante o defeito da barra e do porto de Leixões. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 645 



Esta cidade dispunha também de grande numero de 
barcos para a pesca das costas, e de algumas armações 
para a pesca longínqua do bacalhau da Terra Nova. 

Braga, no coração do Minho, era a 3." ou 4.'' 
cidade do paiz. E dizemos a 3.^ ou 4.^, porque também 
Coimbra, e mesmo Évora, tinha pretensão a ser a 3.-' 
Era um grande centro industrial, onde se desinvolviam 
e completavam umas ás outras muitas industrias, com 
indiscutível vantagem e reconhecida primazia, ao lado 
das cidades mais laboriosas e industriaes do paiz. 
Desde a fabricação dos chapéus até a manipulação 
dos pregos, poucas eram as industrias que a cidade de 
Braga não produzisse, na mais progressiva escala e 
mais perfeito acabamento. Especificaremos como das 
mais importantes que lá se exerciam, as de saboaria, 
perfumaria, serração de madeira, moagem de cereaes, 
fiação e tecelagem, fundição de sinos, fabrica de pregos 
e tachas, única no paiz, marcenaria e esculptura, obra 
de talha, mobiliário, esculptura religiosa e industria de 
metaes. E algumas d'estas industrias, por exemplo, a de 
chapéus, tinha grande reputação em todo o Portugal. 
Essa de chapéus era até objecto de grande exportação 
para a America e para a Ásia. 

Ha nos arrabaldes o santuário do Bom Jesus do 
Monte, que augmentava a importância da cidade, pelas 
bellas paisagens que de lá se disfructam, das mais 
bellas da Europa, e pela concorrência enorme de nacio- 
naes e estrangeiros que demandavam esse local, afim 
de passarem a estação calmosa, de maio a setembro, ou 
para se alegrarem e distraírem, ou ainda como estação 
de repouso. 



646 A HISTORIA ECONÓMICA 



Este santuário, que é também, como obra de arte, 
dos mais bellos da Europa, começou a ser edifi- 
cado, em 1 de junho de 1784, foi concluido a 20 de 
setembro de 1811, e inaugurado em 10 de agosto 
de 1857. 

Braga abunda egualmente em monumentos religiosos, 
que lhe justificaram o nome de Roma portuguesa ou 
Jerusalém do occidente. 

Guimarães, que foi a primeira capital de Portugal, 
era notável também pela grande industria que a animava, 
e que, principalmente, consistia na de cortumes, cutel- 
laria e fiação. O linho de Guimarães era apreciado em 
todo o paiz e no estrangeiro. O commercio d'esta 
cidade era egualmente activo; e ahi se reahzava aos 
sabbados a feira semanal mais importante de todas as 
feiras do Minho. 

Vianna do Castello, na foz do rio Lima, uma das 
mais formosas cidades de Portugal, pela sua situação e 
arredores e pela belleza e encantamento d'aquelle rio, 
progrediu muito no século passado ; e mais progrediria, 
se o seu porto, de pequeno calado, não fosse inacessi- 
vel ás grandes embarcações. E, embora tivesse já uma 
pequena doca, também essa não aproveitava para os 
grandes navios. 

Coimbra, a rainha do Mondego, era notabilissima 
pela sua Universidade, pela beleza dos seus arredores, 
e tradições românticas da morte e amores de D. Ignez, 
tão sublimemente cantados por Camões, e morte de 
D. Maria Telles. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 647 



Apar d'isso, a cidade tinha também bastante indus- 
tria, e entre essa, a de palitos de que já falíamos no 
volume IV ^; e estava cheia de estabelecimentos com- 
merciaes. 

Figueira da Foz. O seu porto, cujas obras consu- 
miram grandes sommas ao Estado, só era accessivel ás 
embarcações de pequeno calado, por causa das areias 
que se accumulam na foz do Mondego. Ha uma doca 
de abrigo, que também servia indevidamente de escoa- 
douro aos esgotos, mas que também não admittia gran- 
des embarcações. 

Por estar no encontro de uma região muito pro- 
ductora, e virem também desembocar no mar, pelo 
Mondego, os productos de Coimbra e seus arredores 
e o vinho da região do Dão, o porto era muito com- 
mercial. E, no tempo dos banhos, a cidade era grande- 
mente concorrida de nacionaes e Hespanhoes, o que 
a tornava muito animada, n'essa época, 

Thomar, notável artisticamente pelo seu bello monu- 
mento do convento de Christo, que foi sede dos Tem- 
plários, era muito industrial. No fim do século, tinha 
12 fabricas de fiação e tecidos em laboração, moagens 
e papel. 

Vizeu era, sobretudo, uma cidade commercial, porque 
a funcção mercantil é que preponderava na sua vida 
económica. Para isso contribuia a sua feira anual, cha- 



1 A Historia Económica, vol. IV, pag. 285. 



648 A HISTORIA ECONÓMICA 



mada feira franca, na seg"unda quinzena de setembro, 
uma das mais importantes, ou talvez a mais impor- 
tante do paiz, e o estar no cruzamento de muitas vias 
de communicação e no centro de regiões feracissimas. 
Ainda assim, nas industrias, sobresaia a das olarias 
e havia também, ou na cidade ou nos arredores, indus- 
trias de fundição de estanho, tecidos de linho e lã, 
rendas, bordados, canastras e cestos, tamancaria, etc, 
embora em grau Hmitado, e, no geral, domesticamente \ 

A industria de calçado, especialmente a de taman- 
cos era muito importante, e constituia um artigo de 
grande exportação para todo o paiz e até para a Africa. 
E era também notável o commercio que se fazia da loiça 
de barro preto ou loiça preta de Molélos, concelho de 
Tondella, onde ella era e é fabricada. E' antiquissima 
essa industria e o seu commercio, espalhando, desde ha 
muitos séculos, os seus productos por todo o paiz e por 
varias provincias de Hespanha. 

Apesar dos processos serem os primitivos, essa 
loiça é muito curiosa, e, particularmente, as chamadas 
cantarinhas do engano, que são muito elegantes. 

Vizeu tinha também a vantagem de ser a capital do 
districto do seu nome, que abrange a província da Beira 
Alta, e que é muito productivo e industrial, e mesmo 
commercial. E o movimento económico de todo o dis- 
tricto, pela ordem natural das coisas, refluia também 
para essa capital. 

Assim, havia por differentes concelhos grande abun- 
dância de vinho e dos três typos, distribuídos conforme 



1 Amorim Sivão — Vizeu. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 649 



as diversas regiões — o vinho generoso, o verde e o 
maduro. Havia muito milho, batatas, azeite, madeira e 
fructas. Nesta ultima parte, a pomicultura, mesmo nos 
arredores da cidade, tomou um grande desinvolvimento, 
nos últimos tempos do século XIX. 

Havia muitas minas em exploração também pelo 
districto, especialmente, de wolfranio, estanho e urânio. 
Havia egualmente, pelos differentes concelhos, grande 
industria de serração de madeira, moagens, cerâmica, 
malha, papel, cestinhos de verga, que rivalisavam até com 
os da Madeira, tapetes, vidraria e engorda de gado. 

Covilhã, a Manchester portugueza, era uma cidade 
toda industrial. Da sua população, superior a 20 mil 
habitantes, mais de metade era composta de operários 
e famílias das suas oitenta fabricas de tecelagem, fia- 
ção e ultimações. 

Guarda, ao norte, era bastante industrial nos lanificios. 

Évora, a capital do Alemtejo, colocada no meio 
d'essa província, e, como tal, n'um centro muito fértil, 
tinha uma industria e commercio importantíssimos, pela 
quantidade e qualidade da producção. Alem dos géne- 
ros communs a todo paiz, salientavam-se, como ramos 
de actividade commercial e industrial, mais próprios 
d'essa cidade, os seguintes: azeites, utensilagem agrí- 
cola, cortiças, cortumes, mobília moderna e regional, 
panificação, farinação e vinhos. 

Portalegre, também no Alemtejo, era muit notável 
pela sua industria antiquíssima, tendo, especialmente, 



650 A HISTORIA ECONÓMICA 



fabricas de rolhas, lanifícios, alpercatas, moagens, pani- 
ficação e energia eléctrica. 

Na província do Algarve, Faro, a sua capital, era 
muito industrial na fabricação de aguardente, na con- 
serva de peixe, especialmente de atum e sardinha; e 
muito commercial, não somente n'essa conserva, mas 
também em figos, passas de uvas, vinho, amêndoas, 
azeite, alfarrobas, laranja, sumagre, açafrão, ovos, mel 
sal, aguardente, cortiça, obras de palma e esparto. 

Lagos, que tem uma bahia excellente, na qual se 
podem abrigar todas as esquadras do mundo, sendo, 
muito visitada por navios de guerra, era muito indus- 
trial e commercial. E acontecia com a sua industria e 
commercio o que se dava com todas as localidades 
marítimas do Algarve, em maior ou menor escala. 
Vinha a ser a pesca da sardinha e atum, cujos pro- 
ductos eram, sobretudo, vendidos ás fabricas de 
Villa Real de Santo António, para serem preparados 
em latas e remettidos para o estrangeiro. Mas havia 
em Lagos maior movimento do que noutra qualquer 
povoação algarvia, mesmo quando a sua bahia não era 
visitada por navios de guerra. 

Villa Real de Santo António era o primeiro porto do 
Algarve, sob o ponto de vista commercial, por afluírem 
lá, cada anno, muitos navios estrangeiros, que vinham 
carregar a pyrite de cobre das minas de S. Domingos. 
E tinha muitas fabricas de aguardente e álcool e con- 
serva de peixe, especialmente de atum e sardinha, de que 
fazia também um grande commercio. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 651 



Tavira está situada nas duas margens do rio Asseca 
ou Secca. Só nas marés vivas, é que as pequenas 
embarcações podem aproximar-se da cidade, devido 
á insignificância da corrente fluvial e ás areias que 
obstruiram a pequena foz, quasi por completo, e o seu 
desaguadouro por espaço de três léguas. Ainda assim, 
tinha também bastantes armações de sardinha e uma 
fabrica de moagem. 

Silves, situada na margem direita do rio Arade, 
também conhecido pelo nome de Silves e Draga e 
Portimão, tinha uma grande industria de fabricação de 
rolhas. 

Nas ilhas adjacentes, o Funchal era muito impor- 
tante pelo seu porto, pela sua belleza e aspecto e 
belleza da ilha, pela producção dos arredores, e pelo 
seu commercio e industria, e até pela salubridade do 
clima, que atraía muitos viajantes e doentes. 

Como porto commercial, o numero das embarca- 
ções que entravam annualmente n'elle, com a respec- 
tiva lotação, era o dobro das que entravam no Porto e 
Leixões, e quasi metade das que entravam em Lisboa. 
E a sua industria era também importante na fabricação 
do álcool, construcção de cadeiras, mobilia de verga e 
bordados, cuja perfeição era uma especialidade da ilha. 

E, nos Açores, Ponta Delgada era a quinta cidade 
em população. 

N'esse ponto, só era inferior a Lisboa, Porto, Braga 
e Funchal. E era também muito importante, pela sua 
belleza, producção, commercio e industria. O principal 



652 A HISTORIA ECONÓMICA 



objecto dessa industria era o álcool; e esse álcool, 
junto com as laranjas e os ananazes, produzidos na 
ilha e com o chá, constituíam também os principaes 
objectos do seu commercio. O progresso da cidade, no 
século passado, depois de 1847, foi muito notável, e, 
sobretudo, até 1877. 

Temos fallado nas principaes cidades, como sendo 
também os principaes centros económicos. Mas ha 
ainda uma villa, que é de pequena extensão e popula- 
ção, mas que, na industria e, portanto, no seu commer- 
cio, tem uma grande importância. E S. João da Madeira. 

N'esta parte, devemos a um cavalheiro de lá, o Sr. 
A. J. Oliveira Júnior, informações curiosas, que repro- 
duzimos textualmente. 

Referem-se ellas ao anno de 1924-1925. Mas o 
movimento industrial d'essa villa era já grande, nos 
últimos tempos do século XIX. 

«Alem dos ramos de trabalho ennunciados no mappa 
que segue, ha outros mais que, embora de modesta impor- 
tância, são todavia auxiliares das prosperidades locaes, 
como seja: — a fabricação de manteiga, que é aqui 
muito antiga; uma fabrica de chalés; uma fabrica de 
artigos de piassaba; uma "typografia, e também em 
montagem, uma fundição e serralheria mecânica que, a 
avaliar pela grandeza das suas installações, promette 
ser importante. 

«Taes são as informações que me foram fornecidas 
pelas diversas partes interessadas ; e, embora eu não 
possa assegurar que sejam de rigorosa exactidão, suppo- 
nho-as todavia não muito longe da verdade.» 



EDADE CONTEMPORÂNEA 



653 



S. João da Madeira e a sua industria 

Mappa demonstrativo do movimento industrial em 1924-1925 





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ARTIGOS QUE SE 
FABRICAM 


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0) 2 


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3.E 
li. 


Producção 

annual 

em unidades 


producção 

annual em 

escudos 


Chapelaria de pêlo (1) 


11 


317 


117 


56 


335 


485.000 


13:580.000^ 


» lã (2) . . 


12 


79 


18 


— 


— 


62.000 


l:116.000jJOO 


» palha (3) . 


6 


21 


35 


7 


— 


135.000 


2:520.000^00 


Bonés (4) 


9 


— 


42 


4 


— 


128.000 


640.000^ 


Sapataria (5) 


26 


307 


67 


73 


— 


79.260 pares 


5:944.500^ 


Tamancaria (6) . . . . 


8 


80 


14 


12 


— 


150.000 » 


1:200.000^ 


Velas stearicas (7) . . . 


5 


16 


9 


— 


— 


28:000 caixas 


l:400.000íkX) 


Serração mecânica (8) 


3 


40 


- 


20 


60 


— 


600.000^ 


Carpintaria mecânica (9) . 


1 


30 


— 


10 


20 


— 


150.000^ 



Quanto a communicações, a viação ordinária teve 
um grande progresso, principalmente depois de 1852, 



(1) Iniciada em 1891. E o primeiro centro chapeleiro do paiz. 

(2) Teve o seu periodo áureo no século XIX; porem, devido ao progresso 
da sua congénere (chapéus de pêlo) tem decaido. Foi a industria-mãe e chegou a 
ter, talvez o triplo da producção actual. Nada está escrito que esclareça a data do 
seu inicio, mas é provável que date do século XVII ou começo do século XVIII. 

(3) Iniciada em 1908, tem progredido. 

(4) Iniciada em 1910, tem progredido. 

(5) Iniciada em 1910, progrediu muito durante a guerra. 

(6) Iniciada em 1910, tem progredido. 

(7) E de todos, o ramo de trabalho mais novo n'esta villa. 

(8) A primeira foi montada ahi por volta de 1915. Ao incremento que a 
serração mecânica attingiu durante a guerra, succedeu a terrível crise que tanto a 
tem atrofiado. E uma das principaes victimas. 

(9) Ha apenas uma fabrica, annexa a uma das serrações e foi creada 
em 1922. 



654 A. HISTORIA ECONÓMICA 



como já vimos, pela exposição das differentes leis e 
decretos sobre esse ponto, que também já citámos. 

Na viação accelerada, os nossos caminhos de 
ferro começaram somente em 1852, sendo Portugal 
o penúltimo Estado da Europa, como já notámos ^. 

A primeira linha que se construiu, foi a do Leste, de 
Lisboa a Hespanha, seguindo-se a do Norte, que, par- 
tindo do Entroncamento, vai dar ao Porto. Em seguida, 
a do Sul e Sueste, cujo primeiro lanço foi do Barreiro 
ás Vendas Novas, com ramal para Setúbal. 

E foram-se depois construindo successivamente dif- 
ferentes linhas, tanto do Estado, como de companhias; 
de modo que, já no ultimo quartel do século, havia as 
seguintes linhas: 

Exploradas pelo Estado: 

Linha do Sul e Sueste 

Do Barreiro a Pinhal Novo, a Casa Branca, a Beja, 
a Tunes, a Villa Real de Santo António, com os seguin- 
tes ramais: de Pinhal Novo a Setúbal, de Pinhal Novo 
a Aldeia Gallega, de Casa Branca a Évora, de Casa 
Branca a Extremoz, de Casa Branca a Villa Viçosa, 
de Évora a Mora, de Beja a Moura, e de Tunes a 
Portimão. 

Linha do Douro 

Do Porto a Ermezinde, á Régua, a Tua, á Barca 
d'Alva, á fronteira. 



1 Capitulo 3.", p&g. 110. 



EDADE CONTEMPORÂNEA 655 

Linha do Minho 

Do Porto á Trofa, a Nine, a Braga, a Vianna, a 
Valença, á fronteira. 

Campanhã a Alfandega do Porto. 
Livração a Amarante. 
Régua a Vidago. 
Pocinho a Carviçães. 

Caminhos de ferro explorados por Companhias: 

Linha do Norte 

Lisboa a Setil, Santarém, Entroncamento, Alfarel- 
los, Coimbra, Pampilhosa, Aveiro, Espinho e Porto 
(S. Bento). 

Linha do Oeste 

Lisboa a Cacem, Torres Vedras, Caldas da Rainha, 
Leiria, Amieira e Figueira da Foz. 

Linha de Leste 

Lisboa a Abrantes, Torres das Vargens, Portalegre, 
Elvas e Badajoz. 

Linha da Beira Baixa 

Lisboa a Castello Branco, Covilhã e Guarda. 

Linhas das Vendas Novas 

Lisboa a Setil, a Vendas Novas, Louzã, Cascaes e 
Cintra. 



656 A HISTORIA ECONÓMICA 

Os ramaes são: 

Alfarellos á Figueira, Torres das Vargens a Marvão, 
e Torres das Vargens a Valência de Alcântara. 

Linha da Beira Alta 

Figueira á Pampilhosa, Pampilhosa a Luso — Bussaco,^ 
a Santa Combadão, Guarda, Villar Formoso. 

De via reduzida 

Linha de Guimarães a Trofa e a Fafe. 
Linha do Porto á Povoa e Famalicão. 
Porto á Senhora da Hora, a Custoias, Mindello,. 
Villa do Conde, Povoa de Varzim, Famalicão. 

Companhia Nacional dos Caminhos de Ferro 
Tua a Mirandella e Bragança. 

Ramal de Vizeu 

Santa Combadão a Tondella e Vizeu. 

Valle do Vouga 

Espinho, Oliveira d'Azemeis, Albergaria-a- Velha e 
Aveiro. 

Mina de S. Domingos 
Pomarão á Mina. 



RECAPITULAÇÀO 



Temos visto, n'uma ligeira synthese, o movimento 
politico g-eral do mundo, especialmente da Europa, 
desde a revolução franceza até ao fim do século XIX. 

Temos visto egualmente o movimento scientifico e 
literário da Europa no mesmo periodo, como elemento 
influente na historia económica d'esse continente. 

E, finalmente, apar de uma noticia cosmopolita 
geral do seu movimento económico, estudamos, n'essa 
parte, cada um dos differentes paizes da Europa. E 
vimos que, realmente, ao século XIX correspondeu a 
denominação do século das luzes, por que, geralmente, 
é conhecido. 

Como notámos, n'essa retorta immensa do progresso 
e civilização, e n'uma conquista de esforços sem limites 
e de rivalidades sem medida, a Europa ergueu-se, mais 
heroicamente ainda que o Anteu da fabula, contra a 
montanha dos preconceitos que restavam ainda da 
edade moderna; e estabeleceu na ara santa do seu 
patriotismo a estrella brilhante da liberdade. 

A revolução franceza, onde explodiu, embora n'um 
rio de sangue e n'um montão de cadáveres, a indigna- 
ção do povo, represada há tantos séculos, alumiou o 
mundo inteiro; e a propagação das suas ideias foi quei- 
mando as azas dos morcegos do despotismo. 

Volume VI 12 



658 A HISTORIA ECONÓMICA 



A esse clarão surgiu a iniciativa dos sábios e artis- 
tas, que transformou o mundo artistico e industrial. 

O commercio, que representa uma transfusão reci- 
proca no viver dos povos, erg-ueu-se, também livre e 
independente, firmado nos grandes tentaculos da agri- 
cultura e da industria. 

A marinha, como uma das irmans gémeas d'elle, 
deu-lhe novos horisontes ; e o vapor e a electricidade, 
até então escondidos na terra, forjaram a tradicional 
alavanca de Archimedes, para poderem revolver o mundo 
inteiro. E, por toda a banda, como se fosse uma seiva 
infinita do progresso, rebentara uma nova fermentação 
de descobertas e melhoramentos. 

Nos últimos tempos do século, mesmo politicamente, 
o ceu azul da liberdade, com pequenas excepções, 
alcançara já todos os recantos ; e o cadinho immenso 
da civilização do universo continuava trabalhando, 
cada vez mais proficientemente na perfectibilidade. 

Já se esboçavam os aviões; já circulavam os auto- 
móveis; e a electricidade estava anunciando novas des- 
cobertas e novas aplicações. 

Veremos no próximo volume a eclosão enorme de 
tudo isso, e como o Novo Mundo correspondeu aos 
progressos da Europa. 

N'esse volume, teremos também occasião de exami- 
nar as transformações extraordinárias e os incidentes 
prodigiosos que surgiram no século XX. 



FIM DO SEXTO VOLUME 



índice 



CAPITULO I 

Lig^eiro esboço da historia politica geral da época contempo- 
rânea até o fim do século XIX 11 

CAPITULO II 

Explorações e Descobertas 

Principaes explorações e descobertas na Ásia, Africa, Ame- 
rica, Oceania e reg-iões polares, n'este periodo ... 71 

CAPITULO 111 

Alargamento do mundo moral, pelas muitas descobertas indus- 
triaes, e pelo progresso das sciencias, artes e lettras. — 
Applicação da electricidade e vapor. — Desinvolvimento 
da arte naval. — Telegrafia, chrono-photografia, raios X, 
estereoscopia, etherisação e cloroformisação. — Novos pro- 
ductos industriaes e commerciaes, e abundância dos 
outros já existentes. — Augmento dos jazigos mineraes 
e exploração dos metaes preciosos. — Desinvolvimento 
crescente nas industrias e commercio. — Museus indus- 
triaes e commerciaes. — Exposições universaes. — Unida- 
des monetárias. — Socialismo. — Communicações marítimas, 
aquáticas, férreas, terrestres e aéreas. — Isthmo de Suez. 
— Correntes marítimas. — Liberdade dos mares e d'alguns 
estreitos e rios. — Portos francos. — Caminhos de ferro. 
— Estradas carrossaveis. — Communicações aéreas . 99 



660 índice 

CAPITULO IV 

FRANÇA 

Leve esboço da historia politica da França, n'este periodo. — 
Influencia da revolução franceza e das guerras napoleó- 
nicas e bloqueio continental no movimento económico da 
França, até á queda de Napoleão. — Invenções que houve 
durante esse tempo, deteiminadas. em grande parte, 
pelo mesmo bloqueio. — Prejuízos da França, por causa 
d'elle. — Estado do paiz e regimen restrictivo económico, 
durante a restauração. — Governo de julho, e suas ten- 
dências liberaes, e promulgação de differentes medidas 
n'este sentido. — Reacção que se levantou contra ellas, e 
como o Governo teve de arripiar caminho. — Reformas 
legislativas que fez. Revolução de 1848, e segunda repu- 
blica. — Socialismo e estabelecimentos socialistas. — Des- 
contentamento que tudo isso produziu, e como levou á 
proclamação do imperador Napoleão III. -Progresso eco- 
nómico da França durante esse imperador. — Guerra de 
1870 com a Allemanha. — Proclamação da terceira repu- 
blica, e adiantamento enorme da França até o fim do 
século XíX. — Productos, agricultura, industria, commer- 
cio e marinha. — Centros económicos principaes. — Com- 
municações 

CAPITULO V 
INGLATEBBA 

Leve esboço da historia politica da Inglaterra, neste periodo. 

— Retardamento do seu movimento económico até 1815. 

— Causas que o produziram: guerras e bloqueio conti- 
nental, etc. — Em todo o Cciso, como esse bloqueio obri- 
gou a Inglaterra a desinvolver os próprios recursos. — 
Agitações operarias, por causa dos effeitos produzidos 
pela introducção das maquinas, e especialmente, das ma- 
quinas a vapor, na diminuição do trabalho manual e na 
baixa dos salários. — Plethora dos productos fabricados 
durante o bloqueio, por cansa da diminuição da exporta- 



Pa?. 



199 



índice 661 



Pa?. 



ção. — Miséria do povo que d'ahi resultou. — Luctas entre 
os iivre-cambistas e proteccionistas, desde 1815 a 1846. 
Bills liberaes de Roberfo Peei, a respeito da importação 
e exportação, e progresso enorme que produziram. — 
Productos, agricultura, industria, commercio e marinha. 

— Centros económicos principaes. — Communicações . 241 

CAPITULO VI 

ALLEMANHA 

Esboço politico da Allemanha no século XIX. — E, quanto ao 
seu movimento económico, de que modo o bloqueio con- 
tinental a favoreceu, ao contrario do que succedeu com 
outros paizes. — Como, depois da queda de Napoleão a 
Allemanha soffreu nova crise, e como ssta crise se aggra- 
vou com a legislação proteccionista de outros povos. — 
Como a Allemanha continha em si elementos poderosos 
para a lucta económica. — Estabelecimenta do Zolverein 
e seus principaes ef feitos. — Como a guerra com a Áus- 
tria, em 1866, concorreu também para o adiantamento 
económico da Allemanha. — Seu progresso extraordinário 
depois da guerra com a França de 1870 a 1871. — Pro- 
ductos. — Agricultura. — ludustria e seu grande desinvol- 
vimento. — Adiantamento enorme do commercio. — Cen- 
tros económicos principaes, — Communicações . . . 269 

CAPITULO VII 

ÁUSTRIA E HUNGRIA 

Ligeiro esboço politico da Áustria e Hungria, n'este período. 

— Quanto á parte económica, de que modo o império 
austríaco foi prejudicado, principalmente, até o meiado 
do século, e ainda depois, até 1866, por differentes cau- 
sas. — Como tinha no seu seio grandes elementos de 
riqueza. — Como progrediu muito depois d'isso. — Pro- 
ductos, agricultura, industria e commercio. — Centros 
económicos principaes. — Communicações 293 



662 índice 

CAPITULO VIII 

A SUISSA 



Pag-. 



Leve esboço politico da Suissa. — População. — Superficie. — 
Situação commercial. — Como a falta de littoral é com- 
pensada por outras vantag-ens. — Como pela sua situação 
foi neutralizada perpetuamente, em 1816. — Zonas physi- 
cas de que se compõe. — Systema orographico e hydro- 
graphico, e belleza e variedade de aspectos que d'ahi se 
derivam. — Como tudo isso provoca a afluência de estran- 
geiros e viajantes, e progresso que d'ahi tem resultado. 

— Clima e vento feún. — Riqueza e progresso da Suissa. 

— Productos, agricultura, industria e commercio. — Cen- 
tros económicos principaes. — Communicações . . 313 

CAPITULO IX 

BÉLGICA 

Ligeiro esboço politico da Bélgica, n'este periodo. — Como, 
ao contrario do que geralmente succedeu nos outros 
paizes, ella aproveitou com o governo de Napoleão. - 
Como o congresso de Vienna de 1815, reunindo no 
mesmo sceptro a Bélgica e Hollanda, deteve o progresso 
dos Belgas até 1825. — De que modo a Bélgica entrou 
depois n'uma via mais satisfacteria até 1830. Como 
posteriormente, pela separação dos dois Estados, ella 
progrediu enormemente até o fim do século. — Productos, 
agricultura, industria e commercio. — Centros económicos 
principaes. — Communicações 337 

CAPITULO X 

HOLLANDA 

Ligeiro esboço da historia politica da Hollanda n'este periodo. 

— Como o bloqueio continental prejudicou a Hollanda, 
não sómeute porque ella não encontrou em Napoleão a 
protecção que a Bélgica teve, mas, também, pela guerra 
que a Inglaterra fez á marinha HoUandeza. — Como depois 



ÍNDICE 663 



Pag:. 



que a Belg-ica foi adjudicada á HoUanda, em 1815, esta 
explorou a Bélgica, e progrediu muito economicamente. 

— Como, apesar de ter perdido a Bélgica, ^m 1830, con- 
tinuou a progredir até o fim do século. — Productos, 
agricultura, industria, commercio, marinha. — Centros 
económicos principaes. — Communicações 357 

CAPITULO XI 
DINAMABCA 

Leve esboço da historia politica da Dinamarca n'este periodo. 

— Como ella foi também prejudicada pelo bloqueio con- 
tinental. — Como continuou a ser prejudicada, mesmo 
depois d'elle, pelas guerras em que andou involvida até 
1866. — Como em seguida progrediu muito. — Productos: 
deficiência dos mineraes; em compensação, grande abun- 
dância e grande capacidade do solo nos productos agrí- 
colas. — Agricultura, industria, commercio, marinha. — 
Centros económicos principaes. — Communicações . 375 

CAPITULO XII . 
Scandlnavia 



SDECIA 

Leve esboço da historia politica da Suécia n'este periodo. — 
Como a Suécia até 1914 soffreu, da mesma forma que, 
em geral, todos os paizes da Europa, com o bloqueio 
continental. — Como, depois de restabelecida a paz, a 
Suécia progrediu muito, conjunctamente com a Noruega, 
e que ficou unida. — Como o governo de Bernardotte 
(Carlos João XIII) contribuiu para isso. — Como este 
libertou a industria de muitas restricções. — Productos, 
devastação das florestas, agricultura, mau regimen da 
propriedade, criação de gado. Industria e commercio. — 
Centros principaes. —Communicações 389 



664 índice 

CAPITULO XIII 

Scandinavla 

II 
NOBDEGA 



Pae. 



Como a Noruega seguiu até 1815 politicamente os destinos 
da Dinamarca, e de que modo foi prejudicada pelo blo- 
queio continental. — Como, unida, em 1815, á Suécia em 
união pessoal, seguiu também politicamente os destinos 
d'ella até o fim do século XIX. — Como, desde então, foi 
comprehendida nos esforços communs dos reis da Suécia 
para o desinvolvimento e progresso dos dois Estados. — 
Como, realmente, a Noruega progrediu muito depois 
d'isso. — Como, sendo menos manufactureira que a Suécia, 
e dispondo de menor solo agrícola, se dedicou especial- 
mente á navegação e ás industrias marítimas. — N'este 
sentido, como o seu progresso foi enorme, depois de 
1835; e de que modo realisou trabalhos importantes na 
illuminação das costas, e augmentou a marinha e farola- 
gem. — Productos, agricultura, regimen da propriedade e 
aproveitamento progressivo de terras incultas e pantano- 
sas. — Industria, commercio e marinha. — Centros princi- 
paes. — Communicações . . . . • 411 

CAPITULO XIV 

RÚSSIA 

Leve esboço da historia politica da Rússia neste período. — 
Como a Rússia não foi tão prejudicada pelo bloqueio 
continental e guerras napoleónicas conforme, em geral, o 
foram os outros povos da Europa. — Gomo as ideias e a 
cívílísação da revolução franceza pouco influíram na 
Rússia. — Como ella, depois de 1915, tratou de utilisar 
os immensos recursos do seu solo, e como fez progredir 
o seu movimento económico. — De que modo, após a 
guerra da Crimeia, se operou uma grande transformação 
económica na Rússia, e como esta procurou na Ásia 



índice 665 



oriental os mercados que não pôde obter na Europa. — 
Como também, ao mesmo tempo, emprehendeu impor- 
tantes reformas económicas. — Productos. — Agricultura, 
mau regimen do propriedade e mau aproveitamento das 
florestas. — Industria, commercio e marinha. — Centros 
económicos principaes. — Communi cações 423 



CAPITULO XV 

A Península dos Balkans 

I 
TURQUIA 

Leve esbòco da historia politica d'esta peninsula, e, porisso 
mesmo, também da Turquia, n'este periodo. — Aspecto. — 
Systema orográfico e hydrografico e clima da mesma 
peninsula. — Turquia. — Seu atraso económico. — Causas 
que influiram n'isso. — Productos. —Mau regimen da pro- 
priedade. — Agricultura. — Industria e commercio. — Cen- 
tros económicos principaes. ^ Communicações . . . 475 

CAPITULO XVI 

A Península dos Balkans 

II 
BULGÁRIA E ROMELIA 

Leve esboço da historia politica da Bulgária e Romelia, depois 
que sa tornaram independentes da Turquia. — Agricul- 
tura; productos agricolas e regimen da propriedade. — 
Florestas e legislação protectora delias- — Industria. — 
Commercio. — Centros económicos principaes. — Commu- 
nicações 499 



666 índice 



CAPITULO XVII 



A Península dos Balkans 



III 



A ROMÉNIA 



Pa?. 



Leve esboço da historia politica da Roménia n'este periodo. 
— Aspecto, orografia, hydrografia e clima. — Excellentes 
condições agrícolas da Roménia, e como o clima as pre- 
judicava e a desarborisação mais aggravava os inconve- 
nientes do clima — Agricultura; preponderância dos ce- 
reaes; má org^anisação e mau regimen da propriedade; e 
de que modo uma lei de 1862 modificou esse regimen. — 
Florestas. — Criação animal. — Industria. — Commercio — 
Centros económicos principaes. — Communicações . . 505 



CAPITULO XVIII 
IV 

A Península dos Balkans 
SERVIA 

Leve esboço da historia politica da Servia, n'este periodo. — 
Aspecto e relevo do solo. — Agricultura: como esta pre- 
encheu quasi unicamente a actividade económica da Ser- 
via; regimen da propriedade que favoreceu a agricultura; 
affluencia de estrangeiros que também a favoreceu. — 
Productos e seu augmento, nos últimos tempos do século 
XIX. — Florestas e respeito dos Sérvios pela conservação 
d'ellas. — Apesar d'isso e das leis que as favoreceram, sua 
devastação. — Criação animal. — Industria. — Commercio. 
— Centros principaes. — Communicações 516 



índice 667 



CAPITULO XIX 

A Península doa Balkans 

V 

MONTENEGRO 

Pag:. 
Leve esboço da historia politica do Montenegro n'este pe- 
ríodo. — Como primeiramente eram occupados os pastos 
e florestas das montanhas. — Incursões dos montanhezes 
nos valles para colherem os comestiveis á mão armada." 
— Como tudo isso mudou, pela intervenção da Europa — 
Productos. — Agricultura — Industria. — Commercio — 
Centros principaes — Communicações 527 

CAPITULO XX 

A Península dos Balkans 

VI 

GBECIA 

Leve esboço da historia politica da Grécia, n'este periodo. — 
Aspecto, relevo, clima, orografia e hydrografia — Como a 
Grécia n'este periodo formou um contraste com os outros 
paizes dos Balkans- — Productos. — Agricultura — Indus- 
tria. — Commercio e marinha. — Centros económicos prin- 
cipaes — Communicações 533 

CAPITULO XXI 

ITAUA 

Leve esboço da historia politica da Itália, neste periodo. — 
Como a sua historia económica, nos primeiros tempos 
d'elle, se confundiu com a dos grandes Estados a que 



668 'NDICE 



esteve sujeita- — Seu grande desinvolvimento desde 1860, 
em que houve a união territorial. — Como, então, um dos 
primeiros cuidados do Governo foi desinvolver as com- 
municações. — Grande progresso, nos últimos tempos 
do período. — Grande riqueza do solo italiano, e como 
não foi devidamente aproveitada por muito tempo. — 
Productos. — Agricultura. — Industria. — Commercio. — 
Marínha — Centros económicos principaes. — Communi- 
cações 



CAPITULO XXI 

HESPANHA 

Leve esboço da sua historia politica n'este periodo. — Modifi- 
cações importantes que se haviam produzido na Hespa- 
nha, no fim do século XVIII, pela promulgação de medidas 
liberaes, quanto ao commercio e industria. — Esforços de 
Carlos III e Carlos IV, n'este sentido — Desinvolvimento 
económico resultante d'isso — Abalo que a Hespanha 
experimentou com a revolução franceza, a qual fez deter 
o vôo que a politica, melhor avisada, acabava de lhe 
imprimir. — Como as gue que d'alli provieram, prejudica- 
ram enormemente o paiz. — Como aos ef feitos d'essas 
guerras acresceram os vicios da administração interior e 
a insurreição geral das colónias. — Desinvolvimento pos- 
terior, no reinado de Isabel II. — Era de renovação e pro- 
gresso, desde 1848 a 1862. — Proclamação da republica; 
decadência e desordem completa, nos dois annos que 
ella durou. — Como, ainda depois de restabelecida a mo- 
narquia, a guerra carlista continuou perturbando a Hes- 
panha até 1876. — Como a Hespanha retomou dahi por 
diante o progresso económico, apenas com o intervallo 
passageiro do levantamento de Cuba e da guerra com os 
Estados Unidos. — Productos. --Agricultura. — Industria 
— Commercio. — Centros económicos principaes. — Com- 
municações . 



549 



581 



ÍNDICE 669 



CAPITULO XXIII 



PORTUGAL 



Pag:. 



Leve esboço da sua historia politica, n'este periodo. — Reacção 
que houve contra as medidas do Marquez de Pombal, 
nos fins do século XVIII. — Guerras napoleónicas e pre- 
juizos que trouxeram a Portugal. — Tratado commercial 
com a Inglaterra de 26 de fevereiro de 1910, e ruina 
industrial e commercial que dahi resultou para o paiz. — 
Como, além d'isso, as guerras e luctas civis, desde 1820 
a 1834, mais augmentaram a ruina. — Como a nação 
começou a prosperar depois d'isso. — Influencia das leis 
de Mousinho da Silveira- — Administração do ministro 
Passos Manoel. — Vantagem que proveiu de ter acabado, 
em 1836, o tratado com a Inglaterra. — Periodo agitado 
de dissensões e luctas politicas, desde 1841 a 1852. — 
Subida do partido regenerador ao poder, e como fez 
progredir o paiz. — Levantamento militar do duque de 
Saldanha, em 1870.— Tranquilidade que seguiu até o fim 
século XIX; e como os Governos que se alternaram, con- 
tribuiram para o progresso económico. — Productos. — 
Agricultura- Industria. Commercio. — Centros económicos 
principaes- — Communicaçôes 607 

Recapitulação 657 



ERRATAS PRINCIPAES 



Paginas 


Linhas 


Onde se lê 


Deve ler-se 


19 


28 


(1830 a 1833) 


(1830 a 1848) 


20 


10 


Zandau 


Landau 


41 


9 


porque a Dinamarca 


mas, ainda assin^ 
marca 


50 


16 


(1886) 


(1866), 


54 


27 


Desgina 


Desima 


84 


26 


Rochosasi 


Rochosas 


94 


2 


James Boss 


James Ross 


99 


23 


Bertholet 


BerthoUet 


100 


11 


Bertholet 


Berthollet 


100 


25 


Bertholet 


Berthollet 


128 


20 


Thernaud 


Thénard 


249 


18 


decretos 


direitos 


293 


17 


1758 


1798 


294 


14 


Francisco José 


Francisco I 


294 


19 


Francisco José 


Francisco I 


315 


30 


desembarcar 


desembocar 


337 


4 


1814 


1815 


337 


17 


1814 


1815 


372 


8 


Arnhdrm 


Arnhem 


372 


10 


Haarder 


Haarlen 


518 


11 


invocar 


convocar 


524 


12 


tendas 


tecidos 


600 


2 


Tarquemada 


Torquemada 



Di 



i 



w^m