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Full text of "Historia insulana das ilhas a Portugal sugeitas no oceano occidental, composta pelo padre Antonio Cordeiro .."

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HISTORIA INSULANA 



HISTORIA 

I]\SULA]\A 

DAS 

ILHAS A PORTUGAL SUOEITAS 

iNO OCEANO OCCIDENTAL 
COMPOSTA PELO 

PADRE ANTONIO CORDEIRO 

DA COMPAXHIA DE JESl'S 

INSl'LANO TAMBEM DA ILIIA TERCEiaA, E EM IDADE 0E 7G ANNOS. 

PARA CONFinMACAO DOS BONS COSTCMES, ASSIM MORAES, 

C«»M(> SOBI'.ENATIKAES, DOS XOBBES AXTEPASSADOS INSIXANOS, XOS PRESENTES 

E KLTIROS DESCEXDEXTES SEUS, E SO PARA A SALVACAO 

DE SIAS ALMAS, E MAIOR GLORIA DE DEOS. 



VOI.lJMIi; 1 



LISBOA 
TYP. DO PANORAMA -^MZ do Arco do Bandeira— 1 li 

M DCCC LIVI. 



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PROLOGO AO NOBRE LEITOR 



Depois de ter composto a FilosoOa inteira, que dictei na Universi- 
<1ade de Coimbra, ha quarenta annos, desde 676 até 680, e a Theologia 
Escolaslica, que na mesma Universidade li, até o anno de 696, e a Mo- 
ral Theologia, que ensinei na dita Universidade ; e depois dos dous to- 
inos que compuz de Resohi(oes Theojuristicas em quatro annos seguin- 
tes na Prìmacial Curia de Braga, e em os seffuintes oito na Curia do 
Porlo, e jà quasi nove em està Regia Corte de Lisboa, fui obrigado a 
Indo dar à imprensa por N. M. R. P. Michael Angelo Tamburino, Pre- 
posito Cerai de toda a Companhia de Jesus; e por mais que me escusei 
iv)r minha incapacidade e idade, nao tive outro remedio, senao (comò 
Religioso) obedecer, e està seja a desculpa, que ao nobre Leitor pe^o, 
me admitta. Vejo porém me dirao, que ainda que eu sahisse com os 
ciuco tomos referidos (da Filosofia, Theologia Escolastica, e Moral, e 
coro OS dous Theojuristicos) parece temeridade o sahir com este sexto 
tomo da Historia, e historia vulgar e Insulana; porque com vulgar his- 
toria deveria sahir um secular, e d'ella muito erudito, e nao hum Reli- 
gioso, e com historia Insulana, hum que Insulano nao fosse, para ser 
menos suspeito. Mas.a estas duas duvidas respondo, que se de historia 
nao houvesse Authores Religiosos, nem das mesmas Religioes haveria 
llistoriadores, e ficaria privada a Christandade da Historia mais util ; e 
senao fosse Insulano o que Hisloria Insulana compuzesse, jà por isso 
raesmo nào seria entao menos, mas muito mais suspeito, por escrever 
o que deveria ignorar mais, pois mais sabe cada hum, ou deve saber, 
(la propria casa, do que da alhea, de oulra sorte nao se darla credito 
aos Reinoes, Hisloriadores de seus proprios Reinos, mas aos de Reinos 
alheios, de que nem tanta nolicia, ou experiencia lem. 

Deixados com ludo jà os apontados molivos, que a compòr a Histo- 
ria presente me moverào, o principal foi, e ainda he, fata que haja guem 
n ella me emende; porque havendo muito mais de trezentos annos que 
as Ilhas de que tralamos, se descobrirào, e povoarao; e tendo sahido 
d ellas sugeitos muito eminentes, nao so nas armas, governos, enasle- 
tras, mas (o que a ludo vence) em a Calhohca Fé, e sanlidade; com tudo 
ainda nào houve alégora, quem sahisse com historia d'estas ilhas, mas 



so de huma, ou de outra apontamentos alguns, e esses muito diminufos^ 
e menos examinados, e ainda fabulosos, vendidos por verdadeiros; com 
razao logo repito, que o principal motivo de me arrojar a compòr liis- 
loria tal, foi para que haja guem fCella me emende, e entao saia perfeita, 
e a mais util n3o so a racional vida, nobre e bumana, mas à Christàa e 
Catholica, que he o ultimo firn da tal historìa. 

E se alguem reparar de se tratar nesta historia de muitas Genealo- 
gias, repare tambem que, quando he necessario tfatar d'ellas, até a mes- 
ma Sagrada Escritura em o seu velho e novo Testamento, o faz tao dif- 
fusamente, comò vemos : darò està que para saber quem forao os des- 
cubridores, e povoadores primeiros de huma nova terra, de forca se ha 
de dizer de quem elles descendiao, e quem descende d elles» e se mais 
se reparar, achar-se-ha, que se nao diz cousa de que alguem possa sen- 
tir-se, mas a nobreza e virtude dos ascendentes, pSra que os descen- 
dentes as imitem, e se lembrem dos Christaos brios que devem obser- 
var ; e a que nao devem desestimar os outros, que so querem ser con- 
tados por netos de quem nunca os chamou; e de quem forào chamados, 
e iograo suas riquezas, nem os appellidos querem. 

Porém disto mesmo alguns dirlo, que o n5o deve examinar pessoa 
Religiosa ; e na verdade assim he, quando n3o he necessario : mas nao 
he assim, quando necessario o he, comò o faz a mesma Igreja Catholica, 
a Inquisi(;3o do Santo Officio, e as Religioes mais puras, que nao sendo 
necessario, nunca se mettem n'isso, e sendo-o, o nio fazem, so por nao 
publicar defeitos alguns alheios, e menos por Ih'os impor (que isso he 
so de gente soberba, ambiciosa e ociosa) ; mas por se conservarem na 
limpeza e nobreza, os que a tem, e isto com a verdade pura, e nao com 
a infernal emularlo. E porque a verdade ordinariamente se nao acha em 
a presente materia, sen5o em os sugeitos de mais annos, de mais lifao 
de livros, e de Religiosa consciencia, pode o nobre Leitor dar-se por 
seguro, que nao acharà n'esta Historia cousa, de que seu Author duvi- 
dasse ser verdade ; e se està com eflfeito faltar em cousa alguma, para 
isso (terceira vez o repito) que a compuz, para que haja quem a emende. 



Vale. 



PROTESTAgAO CATHOLICA E POLITICA 

Religioso Author d'està Historia, corno sempre firme e fiel Calho- 
lico Romano, confessa e protesta, que o senlido, com qiie em alguns 
lugares d'ella chama Santos, e ainda Marlyres a alguns sugeitos de in- 
signe fama de virtudes, nem foi, nem he outro mais, que explicar a 
commua opiniao que ha de suas vidas e mortes : pois declaral-os por 
Sanlos, ou por Martyres, so à Santa Madre Igreja Catholica Romana per- 
tence, e assim o confessa o Author. 

Declaro mais, que, quando em algumas partes d'este livro representa 
ao Serenissimo Rei, e Senhor nosso algum outro genero de governo, po- 
litico, ou militar, de mar e terra, he so huma humilde proposta, que os 
soberanos Princepes estimao ouvir a seus vassallos, que sempre devem 
eslar promptos a ouvir, e aceitar as leis de seus soberanos. 



Vistas as infofmacées, pode-Se itnprimir o livro intitulado, Historfa 
Insnlana, e impresso tornare para se conferir, e dar licenca que corra. 
Lisboa 23 de Dezembro de 1716. 

Basse Monieiro Ribeiro Rocha Fr. Rodrigo Lancastre Guerreiro. 



DO ORDINARIO 

Concedemos licenga, para que se possa imprimir o livro, Ilistoria 
Insulana, e impresso tornare para se conferir, e darmos licenza que 
corra, e sem ella nao correrà. Lisboa 30 de Dezembro de 1716. 

M. Bispo de Tagaste. 

DO PAgo 

Sexhor 

Vi por ordem de V. Magestade, a Historia Insulana, que tem composto 
Padre Antonio Cordeiro da Companhia de Jesus. Dos elogios, cora que 
loda a sorte de Escritores celebrou està Religi^o Sagrada, a quem suas 
heroicas empresas fizerào verdadeiramente a Primogenita da Igreja, or- 
denou o Padre Christovao Comes bum proporcionado volume, porém 
de todos OS gloriosos titulos, que n'aquelle livro se achao dados à Com- 
panhia de Jesus, nenhum me parece tao proprio comò o do Sol. Ile o 
Sol aqnelle Pianeta Principe, cuja substancia he a fonte dos res[)lando- 
res. Pelo beneficio dos seus effeitos se conserva o mundo, e a elle se 
Ihe deve a preciosa producgao dos metaes, que sao flihos dos seus raios. 
Depois de illustrar hum emisferio, para que nào haja parte do mundo, 
que nao sinta por experiencia a benegnidade dos seus influxos, quando 
parece que acaba no Ocddente, cometa outra nova vida em ulilidade dos 
Antipodas. até que comò Feniz das luzes torna a nascer do seu mcsmo 
Occaso. Nao se Ihe podem extinguir as chamas, porque sao maiores do 
que todo o impeto dos ventos, e do que todo o pezo de hum diluvio. 
Os eclìpses sao embara^o da nossa vista, nào sào defeito do seu fogo; 
lie constante no seu curso, inalteravel no seu circulo, e ou seja no ber- 
co, ou seja no tumulo, sempre he o mesmo na diflerenca das estayocs, 
na successao dos tempos, e no giro dos seculos. Todasestas proprieda- 
des venera, e admira o mundo na Sagrada Companhia de Jesus, porque 
ella desde a sua fundacào foi a oflìcina de todas as sciencias de tal sorte 
declaradas e reduzidas a methodo, que podemos dizer, que parecerào 
seus filhos OS seus inventores. Assim o dizem com geral acclamacào as 
Kscriluras expliradas por Lorino, e por A Lapide, as Historias Rihiicas 
de Saliano, e de Cordono, aTheologia Especulativa de Soares, e de Vas- 



lì 

t|Qes, ^ Polemica de Bellarmino, e de ValenC^i, a Moral de Molma, e de 
Sanchcs, a Ascetica de Alvares de Paz, e de la Puente, a Historia Ec- 
clesiastica de Bollando, e de Popebrochio, a Profana de MafTeo; e de 
Strada, a Filosofia de Fonseca, e de Oviedo, as Mathematicas de Clau- 
dio, e de Des Ghales, de maneira que se conhece com evidencia o grande 
fur.damento, com que no dia 17 de Agosto do anno de 1716 disse no 
pulpito da Casa de Sao Roque a estrella de maior grandeza da minha 
Sagrada Congrega^ao, que se n3o podia discorrer solidamente em qual- 
qner genero de letras sem os resplandores d'este Sol prodigioso. Pela 
religiosa efBcacia d'estes valerosos soldados todos os dias eslamos vendo 
destruidos os monstros das heresias com tanta gloria da Igreja, corno 
lerror do Inferno, de que resulta conservar-se a pureza da verdadeira 
Religiao, e verem-se arrastradas pelo magestoso carro da Divindade as 
Ursas do Septenlriao, confundidas as impiedades de Luthero, as blasfe- 
mias de Calvino, e as loucuras de Zuinglio. Como se nao bastasse ao 
seu zelo, ver-se defendido em Alemanha o rebanbo de Pedro pelos vi- 
gilantes latidos de bum Canisio, entrarlo os raios deste mystico Sol a 
doutrinar a barbaridade do novo mundo com os milagres de bum Joseph 
de Ancbieta, a salvar aos Abexins das superstigoes de Nestorio pela pru- 
dencia de bum André de Oviedo, e dando liberdade é impaciencia d'a- 
quelle fogo, que herdarao do ardente espirito do seu Patriarcha Santo 
Ignacìo, fizerao correr a moeda do Evangelho no Beino antipoda de Or- 
rooz pelas maos de bum Gaspar Barzeo, e seguirem-se os Canones da 
verdade etema pela doutrina de Marcello Francisco Mastrilhi, e de Ro- 
dolfo Acqnaviva, illustrando com Patriarcbas a Ethiopia, com Mestres 
aos Doutores da China, e com Apostolos as Ilhas do Japao. Por està 
causa nao póde extinguir ao Sol da Companb«a a actividade do seu ar- 
der a conjarada malicia de tantos Tyrannos, que se apostarào para a sua 
destruic^o em obsequio dos seus idolos; mas de todos esles edipses, 
que Ihe causar3o as nuvens da infidelidade, e da inveja da sua grande- 
za, Dio se colheo outro fruto, senao sahir excessivamente luminoso a 
pezar do odio, e da barbaridade, coroando-se com as palmas de infini- 
tos Martyres, que ferlilizarao aquellas searas Evangelicas com as vitorio- 
sas correntes do seu sangue. Nao ofTendem a este Sol as nuvens, que 
se Ihe oppoem, porque, comò a luz das sciencias, e das virtudes Ihe he 
naturai, pouco importào as contradigoes dos que cegào com as suas lu- 
zes, pois confusos, e desenganados de o nao poderem offuscar, por si 
inesmo sedesvanecem. Todas estas prerogalivas vejo, Senhor, recopiladas 
no Padre Antonio Cordeiro, que comò raio procedido d'aquelle Sol dis- 
rorreo por todo este Reirjo, allumiando com a sua doutrina as Universi- 
dades de Coimbra, e de Evora, os Estudos de Braga, de Lisboa, do 
Porto, e OS da sua Patria a famosa Ilha de Angra, e nao satisfeito de 
Ihe revelar as sciencias com sublilissimas novidndes. comerou a vjda de 
Apostolo nas fervorosas Missoes de Viseu, de Pinhel, de Torres Novas, 



HISTOMi 

INSULINA LUSITANA 

lAWVLO PRIHEIRO 

DA CllEACÀO, OU PRINCIPIO DAS ILHAS OCCIDENTAES, TOCANTES 
À MO.NAKCIIU PORTUGUEZA. 

CAPITOLO I 

Das varias opinides, que houce em està materia. 

i Primeira opiniSo de muitos Toi, qnc todas as Ilhas que hojc lia 
no ninr Oceano Occidental, forao em seu principio partes da terra firme 
•la Europa, e Africa, parte3 contigiias eom ella, sem entre ellas. e a ter- 
ra firme haver entao mar Oceano algum, corno agora vemos que ha; e 
que as Ilhas Terceiras, vulgarmente ch^adas dos Acores, se continna- 
vào com a terra da Villa de Cintra, e por està com a serra da Estrella, 
(pie em CJnlra vem acabar, e amhas sao serras bem celcbres em Porta-' 
jral: e que as Ilhas do Porto Santo, e Madeira erao contiguas coro a ser» 
ra de Monchique do Beino dos Algarves; e até das ilhas chamadas Cana- 
rias, sente està opiniao que se continuavao com Africa, e erao parte 
d'ella; e milito mais sente o mesmo das Ilhas chamadas de Cabo Verde. 

i Funda-se està opiniao, em que de outra sorte ficariao fundadas 
no ar, e nao poderiao sustentarrse, corno vemos sustentarem-se até ago- 
ra. E con(ìrma-se, porque vemos que quem das Ilhas Terceiras navega 
a Portugal, vai ordinariamente demandar a Rocha de Cintra, comò cada 
parte vai naturalmente buscar ao seu todo: logo d'este todo erao aquel- 
ias Ilhas parte, e nHo mediava de antes o Oceano. Està opiniao refere o 
Doutor Gaspar Fructuoso, varao na virtude e letras veneravel, de que 
em seu lugar faremos a bem devida memoria, e refere-a no seu tomo 
maouscrìpto lib. i. cap. 27, cujo originai està no Collegio da Companbia 



16 HISTORIA INSIXANA 

de Jesus da Cidade de Ponla Delgada da liha de Sao Miguel, qne vi com 
atlencao, e todo fielmente copiei. 

3 Parece porém nao ler fundamenlo, mais que imag'mario, està opi- 
niao, porque para que as Ilhas nSo ficassem fundadas no ar, mas pudes- 
Sem sustentar-se, nao he necessario continuarem-se, a ollios vjstos, com 
aignroa outra terra firme sem mediar mar algum; pois basta conlinua- 
rem-se em o seu proprio, e terreno fundo do mar, do qual fundo so- 
bera acima sobre esse mar vastissimo, em o meio do qual ficao feilas 
Ilhas, e mais firmes, de algum modo, do que a chamada terra firmi}; 
porquo. assim corno a terra, que nao tem por cima mar, tem comturlo 
allos montes, e entre si mui distantes com profundissimos valles, som 
que por isso os montes fiquem fundados no ar, mas em suas proprias 
raizes mais lìrmados, e exemptos, do que os infcriores valles: assira tam- 
bem a terra, que tem por cima de si ao vasto mar, (pois nào ha mar, 
que nao tentia por baixo de si a terra, e mais ou menos a baixo) là se 
divide tambem em seus valles mais profundos, e em seus montes tao al- 
tos, que sahem sobre o mar, e alguns sobre as nuvens, e formào em 
cima as Ilhas, de que algumas sao tao grandes, que excedem a muilas 
que chamào terras lìrmes; comò ainda se duvida, se a America, ou o Bra- 
zìl he terra firme, ou Ilha; e Ilhas sabemos que sao Inglaterra, Escocia, 
e Irlanda, e oulras ainda maiores. 

4 E quanto a confirmaQào ^acima opposta, de quo, quem vera das 
Ilhas Terceiras para Portugal, vem sempre buscar a Rocha de Cinlra, 
comò cada parte ao seu todo: rasào he està indigna de allegar-sc; pois 
he argumentar das obras da natureza para as da liberdade humana. e 
esla costuma ir buscar a parte aonde tem o iiegocio a que vai; e a na- 
tureza sempre vai, e necessariamente demandar o seu centro: e assira 
comò seria muito aereo dizer que as ditas Ilhas Terceiras sao parie do 
Inglaterra, de Franca, de Hollanda, do Maranhao, de Angola, ou do Bra- 
zil, porque a estas partes se vai das ditas Ilhas muito amiudadaraenlc; 
assira parece dizer aereo, que, porque das Ilhas Terceiras se vera buscar 
a Rocha de Cintra, por isso d'està s5o parte. Nao ha pois que Iratar de 
tal opiniao. 

5 A segunda opiniSo he tomada ex Dialog. Platonis, deThymeo, e 
Elysio, in princip. aonde diz que havia jà nove mil annos, qus os Allie- 
nienses tinhào vencido, e subjugado o bellicoso povo da liba Atlanta, e 
que houvera està antigamente no Oceano Atlantico, de Africa para o Poen- 



uv. I cap. I 17 

te; e que os Reis da Atlanta erao tao poderosos, qne vencerao aos Reis 
de Hespanha, e senhorearao grande parte d'ella: e no colloquio que in- 
titaloQ tambem Atlanta, dìz d^esta Ilha cousas admiraveis. Donde infe- 
rirao alguns, com o mesmo Platao, que pois a Atlanta era maior que 
Africa, e Asia juntas, estendendo-se desde Cadiz, ou boca do Estreito atè 
às que boje chamao Indias de Castella, ou Antilhas, e até às grandes 
Ilhas chamadas Isabella, ou S. Domingos, (que tem de comprinaento cen- 
to e cincoenta legoas, e de largura quarenta) e a Ilha que boje cbamao 
de S. Joao, e outras varias Ilhas; inferirao, que a tal Atlanta occupava 
a maior parte de todo o Oceano, e que entre ella, e Hespanha nao ha- 
vla mar algum; accrescentando, que a Atlanta se sobvertera com as ira- 
mensas aguas que por ella corriào, e com os fataes incendios, e terre- 
molos, que dos mineraes de cobre. enxofre, salitre, pedra hume, arre- 
bentarao de tal sorte, que todo o seu vastissimo lugar ficou feito bum 
mar apaulado, sem em muitos annos se poder por elle navegar; até que 
com tempo se purificou a lagoa tao fatai, e ficou bum Oceano Occi- 
dental, e navegavel, e n'elle muilas Ilhas, comò reliquias da Atlanta, de 
que humas sao as sobreditas Terceiras. 

6 Confirmao este juizo com muitos, e mui varios exemplos, tirados 
de Antonio Galvao no seu tralado de diversos dcscobrimentos, porque 
nao póde negar-se que bouve jà em outros tempos muitas terras, Ilhas, 
Cabos, e Angras, ou Enseadas, que desflzerao as aguas, e apartarao hu- 
mas das outras, pela pugna naturai da bumidade da agua com a secu- 
ra da terra; e assim dìzem muitos, que junto a Cadiz bouve as Ilhas cha- 
madas Frodisias, multo povoadas; e que a mesma Uba de Cadiz era an- 
tigamente continuada pom Hespanha, e que de Hespanha a Ceuta se con- 
tinuava a terra Arme, e se passava por terra; a Uba de Serdenha com 
Corsega, a de Sicilia com Italia, Negroponte com a Grecia; e conforme a 
Plinio lib. 2 cap. 87 e 100, antigamente se formarao de novo as Ilhas 
de Delos, e Rhodes; e a buma o mar cortou da terra, comò a Sicilia da 
Italia, a Chipre da Siria; e outras a mesma terra firme livrou do mar pa- 
ra si: semelhantemente pois podemos dizer com fundamento, que as Ilhas 
Terceiras, ou forao partes da Atlanta, ou de Portugal forào cortadas. 



éOL. i 



18 HISTORIA INSULANA 

CAPITULO li 
Da fabulosa Ilha Atlanta. 

7 D*esta scgunda opiniao, comò de huma mais larga explica^ao da 
primeira, e confirmacao, se póde dizer ser mais falsa ainda, pois ordi- 
nariamente huma mentirà so com outra se conQrma; e ainda que a au- 
thoridade de Platao he muito grande no que prova com a razao, e me- 
reca credito de ter ouvido o que conta que ouvio, nenhum credito me- 
rece quera Ih'o disse, pois sao factos, que sem se provarem, nao se crem; 
maiormente quando seus fundamentos ou sao manifestamente falsos, ou 
sonhos aereos, e contra o commum sentir dos mais Historiadores. Va- 
mos pois aos fundamentos. 

8 primeiro fundamento de Platao he, liaver bm seu tempo ja no- 
ve mil annos que os Athenienses tinhao vencido aos moradores da Ilha 
Atlanta; e isto he tao falso, que se falla de annos solares de doze mezes 
cada hum, nem ainda hoje ha tantos annos que Deos creou o Ceo, e a 
terra; e se suppoem que o mundo dura ab seterno, corno parece suppoz 
depois seu discipulo Aristoteles, he huma quasi heresia, que se nao pó- 
de dizer; se porém falla de annos Egypcios, ou lunares, d'estes nao con- 
tcm mais nove mil, que setecentos e ciiicoenta annos solares; e comò 
Platao floreceo quatroccntos e cincoenta annos antes da vinda de Chris- 
to, que juntos com os ditos 730 fazem mil e duzentos annos solares an- 
tes do nascimento do Uedemptor, segue-se que temerariamente disserào 
a Platao, fsem escrita historia alguma, ou outra prova) que 750 annos 
antes, tinhao ja os Athenienses vencido a Atlanta, pois nem testemuiihas 
vivas podiiio ja cntaò ter de 750 annos antepassados; e abaixo veremos 
que 1200 annos antes da vinda de Christo, nao tinlia havido tal Atlan- 
ta, mas Oceano immediato sempre a Ilcspanha. 

9 scgundo fundamento he, contar Platao da Atlanta, que estive- 
rà antigamente n'esle nesso Oceano, lanf^da desde a boca do Estreito, 
6u de Cadiz atò ós Indias de Castella, ou Anlilhas, e que era maior 
que Africa, e Asia junlas; e que entro ella, e Ilespanha nao havia mar 
algum; mas que, por se sobverter com aguas, e incendios, dcixara o seu 
vastissimo lugar feito hum paùl, e por muitos annos innavegavel, ale que 
com elles purificado, ficou feito o Oceano Occfdental que hoje temos. Ao 
que se responde, que com muita razao a liistoria se comparou a pintu- 



LIV. 1 GAP. Il 19 

ra, pois 11 istoriar sera fundamento, he pinlar comò querer; e quanto 
sem fundamento se diga o sobredito. 

10 Mostra-se primeiro; porque implica, e repugna cx)m a razao, ter 
estado a Atlanta n'esle nosso Oceano, e com tudo ser maior que Africa, 
e Asia juntas; pois (corno consta por experiencias) de Portugal a Goa vao 
cinco mil legoas, e de Goa a China vao mais de mil, e duzentas; e sabe 
Deos quantas vao ainda atè o Qm da firme Asia; e por experiencia tam- 
bem consta, que este Oceano lodo nao tem tantas legoas; pois ainda que 
a Atlanta nao corresse desta sorte, de Occidente a Oriente, (o que he 
conlra o mesrao Platào) mas corresse de nosso Norte ao Sul, ainda por 
es a via nao he maior o Oceano, desde o nosso Norte, e Pòlo Arctico até 
a terra Austral além do Estreito de Magalhaes da parte do Pòlo Antar- 
tico: Ingo se a Atlanta era maior que Africa, e Asia juntas, e o nosso 
Oceano he muito menor que ellas, repugna ter estado tal Atlanta no dito 
Oceano, salvo se disserem que estava no mais vasto, e alto ar, e ficarà 
sua opiniao verdadeiramente aerea. 

11 Mostra-se segundo; porque tambem contra a razao naturai he, 
que estando a dita Atlanta pegada com Hespanha, som haver mar entre 
melo; e estando Hespanha, e Europa com Asia, e Africa pegadas, que 
comtndo ainda a tal Atlanta fosse liha; porque Ilha he aquella terra, que 
por loda a parte he cercada de agua: « se a Atlanta pegava com Asia, e 
Africa, bem se segue que nao era Ilha: e sendo maior que as duas jun- 
tas, e nao sendo estas (comò consta) em si llhas, menos o podia ser a 
tal Atlanta: e se o mar destruhio huma tal, e tanto maior parte que Afri- 
ca, e Asia, com maior facilidade deslruiria alguma d'e^las, que era tan- 
to menor que a Atlanta: logo cousa he evidente,, que Atlanta tal nunca 
houve em este nosso Oceano; e quo as nossas Ilhas delle nunca forao 
partes de tal Atlanta. E se quizerem dizer, que posto que a Atlanta pe- 
gasse com Hespanha, pegava comtudo por tam menor distancia, ou por 
lingua de terra tao pequena, que a ficava fazendo peninsula, id est, pe- 
ne insula, e porisso ainda com rasao a tal Atlanta se chamava Ilha: con- 
tra isto està, que ainda (comò dizem) a dita Atlanta em si era maior quo 
Africa, e Asia juntas; e se estas sendo menores, ainda nao sào Ilhas. me- 
nos podia ser a tal Atlanta maior. 

12 Mostra-se terceiro: porque dizer Platao, ut supra, que os Reis, 
e povos de Atlanta (por està estar pegada com Hespanha) vencerao os 
Beis de Hespanha, e senhorcarao grande parte d^ella, etc, ho falsidade 



20 IIISTORIA l:\SULANA 

evidente, que comò verdade creo Platao, e (cuidando ser tal) a escre- 
veo. Prova-se, porque das historias mais antigas, e geraes do mundo, e 
em especialidade de Hespanba, sabemos dos Reis todos que n^elIa hou- 
ve até hoje, desde o diluvio de Noe; e de nenhum delles conta Aulhor 
algum (mas so o sonhou Platao) que fosse vencido de moradores da Atlan- 
ta, nem que com estes tivesse guerras, nem ainda das taes guerras ha 
historia alguma, havendo-a de muitas outras guerras: logo so sonhada 
he, e nao verdadeifa, tao chimerica Atlanta de Platao. 

CAPITULO III 

Dos primeiros Reis de Hespanha, e Portugal. 

13 Sabemos pois que aos 1636 annos solares da creagao do mundo, 
em que acabou a primeira idade d'elle com o diluvio de Noe, reparlk) 
este Mundo aos tres seus filhos, Sem, Gham, e Japhet, dando Asia a 
Sem, e a Cham a Africa, deo Europa a Japhet, que antes de vir para el- 
la, feve ainda là na Armenia bum quinto Albo, chamado Thubal, que es- 
colbeo para sua babitafao a mais occidental, e ultima parte da Europa, 
que se cbamou depois Hespanba; e comò Deos entao a cada bum con- 
cedia copiosa descendencia para reparagao do Universo, entrou Thubal 
jà com muilos descendcntes pelo mar mediterraneo alò cbegar ao Estrei- 
to de Gibraltar, e desembocar por elle em o vasto Oceano, visto o qual, 
e nao querendo ver-se em oulro diluvio corno Japhet seu pai, e seu avo 
Noè se tinbào \45to, voltou sobre a mao direita, costeando por mar sem- 
pre a terra, e veio a dar em a foz de bum vistoso, e bem espraiado rio, 
e aqui, saitando em terra, fundou n'ella buma povoa^ao, a que cbamou 
Cethubala, que quer dizer, Ajuntamento, ou Povoacuo de Thubal, Villa 
hoje celebre, e celeberrimo porto, seis legoas da Real Cidade de Lisboa. 
Està Cetuval porém foi a ordenada Republica primeira que bouve em to- 
da a Hespanha, de que foi o primeiro Bei Thubal, aos 143 annos do di- 
luvio, e aòs 1801 da creacao do mundo, e 21G1 antes da vinda de Chris- 
to Senhor nosso: e reinou Thubal 133 annos, e faleceo aos 300 depois 
do diluvio, e foi sepultado no promontorio, ou Cabo de S. Vicente: ten- 
do sempre observado a lei da Natureza de bum so Deos, e a lingua He- 
brea, e deixando jà povoada muita parte de Hespanba, e muito mais a 
està sua primeira, que depois se cbamou a Lusitania. 



LIV. I GAP, III 21 

14 A este primeiro Rei Thubal succecleo no Rcino de toda Hespa- 
Dha sea filho Hibéro, n'ella jà nascido, que Ilibéro se chamou, por no 
mesmo tempo ter vindo da Hibéria da Asia a Ilespanha o Gigante Nem- 
broth, sbando primo de Hibéro, e neto de Cam, e bisneto de Noè: o 
qual Gigante deu tambem o nome ao rio Ebro, e foi chamado Saturno: 
corno tambem chamarao a seu bisavó Noe, per ser Saturno nome quo 
daTio aos primeiros Fundadoros, e ser Nerabroth fundador de rauilos 
povos em a mais Hespanha: comò aos flibos dos fundadores chamavao 
Joves, ou Jupiter a cada bum, e as filhas cbamavao Junos, e aos netos 
Hercules: e assim fìngirao os Poetas muitas fabulas: mas nao obstanle 
vir Nembroth com varias companhias de gente, e serem bem recebidos 
de Thubal, sempre este foi o Rei absoluto de Ilespanba, e depois d'elle 
sea filbo Hibero, de quem Hespanha se chamou Hiberia: e foi este Rei 
primeiro inveutor da pescarla, e reinando trinta e tres annos, faleceo 
aos 333 depois do diluvio universal. 

lo A este segundo Rei de Hespanha Hibéro succedeo seu filho Idu- 
beda, ou Jubalda, em cujo tempo morreo em Italia seu tresavò Noè, de 
900 annos de idade: e Hespanha se hia povoando muito, e multo mais 
por Cantabria, e o que hoje chamao Castella, e reinando 66 annos Idu- 
béda, morreo aos iOO depois do diluvio, e aos 1905 antes da vinda de 
Christo. A Idubéda succedeo por quarto Rei de Hespanha seu filho Bri- 
go, que por mais affeigoado aos Lusitanos, ihes fundou muitas Cidades, 
qoe tomavao o sob renome de Briga, corno a Cidade de Lagos no Algar- 
ve se cbamou Lagobriga, a de Coimbra Conimbriga, e em grande parte 
de Hespaoha veio o nome Briga a significar o mesmo que Cidade: e os- 
te Briga foi o que mandou povoar Hibernia, que de outro Hespanhol, 
chamado Hiberno, seu descobridor primeiro, tinha jà tomado o nome 
de Hibernia. Reinou Brigo 51 annos, e seu filho Tago foi quinto Rei de 
Hespanha, e deo o nome ao celebjado rio Tejo: e em trinta annos, que 
reinou, mandou povoar Berberia em Africa, Fenicia, e Albania em a Asia. 
Succedeo-lhe em sexto Rei de Hespanha seu filho Belo, (chamado por 
sobrenome Tardelano) e d'elle toda Hespanha tomou o nome de Beli- 
ca, que fìcou a que hoje chamao Andaluzia, e ao rio Belis, que passa 
{K)r Sevilha, e a que hoje chamao Guadalquibir, nome Arabigo, que quer 
dizer Rio Grande. Reinou pouco mais de trinta annos, morreo aos 2167 
da creagao do mundo, 511 depois do diluvio, 17U0 antes do nascimen- 
to de Christo: e n'este Rei Boto, sexto Rei de Hespanha, e de Noe neto 



24 IIISTORIA INSULANA 

tassem a seu filho Hispalo, e foi o undecimo Rei de loda ella, e gover- 
nando-a so qualorze annos, Ihe saccedeo seu filho Hispano, ou Hispao, 
annos 604 do diluvio, 1702 antes do nascimento de Chrislo, e 22G0 des- 
de a creafao do mundo, e fundou lantos povos governando, que d'este 
Hispano, e do pai Ilispalo tomou todo o seu Reìno o nome de Hespa- 
nha, e de Hespanhoes os moradores, do nome do seu Rei duodecimo 
Hispano: reinou trinta e bum annos, e morreo sem deixar fìlhos; o que 
sabendo em Italia seu avo Hercules, deixou Italia para vir succeder a seu 
neto, e reinar em Pórtugal, e Hcspanha, e n'ella teve ainda o sceptro 
vinte annos, e morreo jà velho, no de G56 depois do diluvio, 2312 da 
creacao do mundo, e 1670 antes do nascimento de Cbristo; foienterra- 
do ém Cadiz; e dos Gentios que vinbao à sua sepultura em romaria, foi 
adorado por Deos, e Ihe chamarao os Antigos Apollo Egypciano; e por 
suas grandes obras tomàrao muitos depois o nome de Hercules, de que 
mais celebre foi o Grego Hercules Alceo, filho de Amphitrion, a quem 
attribuirao muitas das grandes obras d'este nosso decimo terceiro Rei 
Hercules. 

20 Por decimo quarto Rei de Pórtugal e Hespanha nomeou Hercu- 
les, antes de morrer, a hum irmio, ou parente seu, cbamado Hespero, 

\ famoso^ Capit3o, que comsigo tioba trazido de Italia; e este foi o que a 
Hespanha deu o nome de Kesperia, ou Hesperida; porém comò d este 
Hespero soubesse hum irmao seu, por nome Atlante Italo, que era pou- 
co aflfeicoado aos Porluguezes, e Andaluzes, com huns, e oulros veio de 
Italia a ajuntar-se, e em varias batalhas despojou do Reino a Hespero, 
que para Italia se voltou fugindo, tendo reinado sómente onze annos em 
Hespanha, que come^ou Atlante a governar, sendo d'ella o Rei decimo- 
quinto, e mais amigo dos Portuguezes, e tanto, que em Pórtugal vi- 
via ordinariamente, e d'ahi governava toda Hespanha. 

CAPITULO V 

Do decimo-quinto Rei de Hespanha Atlante; fundamento 
da fabulosa llha Atlanta. 

21 E aquì descubro eu o fundamento que teve PlatSo para dizer, 
que OS Reis da Uba Atlanta vencerSo aos Reis de Hespanha, e senhorea- 
rao grande parte d'ella; porque corno este Bei Atlante de Italia veio por 



LIV. I CAP. V 25 

mar a Porlugal, e em varias batalhas, ajudado dos Portuguezes, venceo 
lolalmente, e despojou ao Rei de llespanha llcspero, Allanla, cuidarao 
ser este Atlante: e p6r vir com niuitas gentes por mar, ao tal Atlante 
chainarao liha Atlanta, e dos que coni elle vieiào, cuidarao ser da liha 
Atlanta moradores, e d'aqui inferirao que os Reis, e moradores da liba 
Atlanta venferào aos Ileis de Hespanha, e corno a Italia, entao mais por 
mar do que por terra, se coramunicava com llespanha, sendo que tam- 
bem por terra se comraunica: d'aqui tambem levantarao, que a liba 
Atlanta, sendo Uba, pegava tambem com llespanha; e porque Platao, e 
OS seos nab sabiao ainda a largura, e comprimento do Oceano, por isso 
nelle cuidarao ter estado a Allanla, que muito maior fingiào do que na 
verdade be o Oceano: e emflm, comò jà em tempo de Platao se sabia 
nao haver ja tal Atlanta no Oceano, resolverao, e disserao, que tinha si- 
de do mar, e de suas proprias aguas, submergida quasi toda; e eis-aqui 
porque cuidarao alguns depois, que as Ilhas do Oceano sào reliquias dei- 
xadas da Atlanta, sendo tudo pura falsidade levantada nos pés do nosso 
Atlante. 

22 A este decimo-quinto Rei de Hespanha Atlante cbamavao de an- 
les Kilim, e depois, sobre Atlante, Ihe chamarào Italo; porque, comò os 
Gregos aos bezerros das vaccas chamem Italos, e Atlante entao fosse se- 
nhor de muitos gados, que efao as riquezas d'aquelles tempos, e d'aquel- 
las terras, por isso a este Atlante chamavao por sobrenome Italo, e ain- 
da à mesma terra que mais abundante era de gados, e bezerros, comò 
ainda hoje be, chamarào Italia, e Ihe conGrmou tal nome o mesmo Atlan- 
te Italo, quando depois vollou, comò veremos, a governal-a. Estando 
pois era Italia llespero, e Atlante em Porlugal, e sabendo este que Hes- 
pero fiù hia fazendo senlior de toda Italia, e que Ihe chamava Hesperia 
a grande, para distincào da nossa Hesperia, ou Hespanha, (sendo està 
muiUj maior do que Italia, pois a nossa llespanha tem quasi trezentas 
legoas de comprimento, e Italia tem so 2S5, no largo tem Italia 250, e 
su 102 no mais largo, e Hespanha tem de largo 250 legoas, e G30 de 
circunferencia, pouco mais ou menos, fallando sempre, e igualmente de 
l^oas de quatro milhas cada buma, ao modo Hespanhol) determinou-se 
Atlante voltar a Italia, e fazer guerra a Hespero; mas este vcndo-o là, e 
com malta soldadesca Portugueza, lego veio bumilde sogeitar-se Ihe, e 
flKHTeo d'abi a poucos dias, e Atlante entao casou a Electra, sua Alba 
Portagueza, com Saturno fiibo de Hespero, e os màndou povoar, e go- 



2(> HISTOUIA INSULANA 

vernar certa parte junlo aos montes Alpes, e ficouse Atlante senhor de 
loda Italia. , 

23 Tinlia Atlante levado de Portugal comsigó (além da Portugneza 
Electra sua filha) a oatra Portugneza filha, chamada Roma: e corno vio, 
que està gostava mais de tratar com os Portuguezes, seus naturaes, que 
Atlante de Portugal tinha levado, deo-os por vassallos à dita filha Roma, 
e Ihes fundou huma povoacao em o monte Capitolino de Italia, e Ihe 
deo nome da dita filha, chamando à Povoacao Roma, de que a filha 
Portugueza ficou feila senhora; e esle lugar he aquelle, que depois Ro- 
raulo, e Remo, celeberrimos irmaos, reedificàrao, e accrescentarao, e he 
hoje a famosa Roma, que depois foi cabeca do mundo todo, assento de 
seus Emperadores, e hoje de toda a Igrcja Catholica he a cabeQa, e Cor- 
to primo fundada, e povoada pela Nagào Portugueza, posto que depois 
reedificada pelos dous irmaos Romulo, e Remo. Nem pareca nova està 
sentenza, pois muitos Authores dizem que antes de Romulo, e Remo era 
fundada jà Roma, e se chamava Valencia, outros, que fora fundada por 
huma neta de Eneas, filha de Ascanio, que tinha por nome Roma, outros 
que por alguns Gregos, que alli vierao depois de tomada Troya; e ou- 
tros, que pela Portugueza Roma, filha do dito Atlante, nascida, e crea- 
da em Portugal, comò se póde ver no tom. i da Monarchia Lusitana, lib. i 
cap. 10, e se de Constantinopla dizem muitos, com Garibay, lib. ni 
cap. 6, que nao foi fundada, mas so reedificada por Constanlino; e que 
tambera Lisboa foi so reedificada, e nao fundada primo por Ulysses, nao 
he multo que se negue ter sido Roma fundada pelos dous Romulo, e 
Remo, quando tao nobre principio Ihe damos, comò huma Princeza Por- 
tugueza, filha do grande Rei de toda Hespanha Atlante: de quem se fin- 
gem Poetas que sustentàra ao Ceo sobre seus hombros, com verdade 
nós diremos que a Roma, comò a cabeca do Ceo da Igreja Catholica, fun- 
dou a filha de Atlante, e n'isso mais mostrou ser huma Real Portugue- 
za, e Roma bum Regio parto Portuguez. 

CAPITOLO VI 

Dos seguintes Reis de Hespanha descendentes de Atlante. 

24 Antes porém que Atlante voltasse de Portugal para Italia, além 
das duas filhas Roma, e Electra; tinha mais bum fillio, aìnda do pou- 



LIV. I GAP. VI 27 

ca idade, chamado Sicóro; e fazendo-o primeiro acclamar Rei de loda 
a Hespanha, se foi acudir a Italia, e n'alia, pela dita Portugueza, fi- 
Iha sua Roma, fez primo fundar a Imperiai Koma aos 678. annos depois 
do difnvio, 2334 da creagao do mundo, 1628 antes do nascimento de 
Christo. Deixo as varias fabulas que d'este Atlante fingirào os Poelas, por 
continuar com os antigos Reis de Hespanha para o intento d^ liisloria. 

25 Decimo-sexto Rei de Hespanha ficou feito filho de Atlante, e 
reinando quareota annos, por este tempo nasceo là em Egypto o Patriar- 
cha Moysés; e cà em, Portugal, onde principalmente Sicóro residia, nas- 
ceo hum seu filho chamado Sicàno, que (morto o pai) ficou decimo-se- 
plimo Rei de loda Hespanha, e com reinar trinta e hum annos, nào teve 
em Hespanha guerras, comò nem seu pai Sicóro as tinha: mas porque 
os Portuguezes, que tinhao fundado Roma, erao perseguidos là dos Abo- 
rigenes, e Enotrios, comarcaos do libre, Sicàno Ihes mandou de cà, de 
Portuguezes, e Andaluzes, lai soccorro, e apos este, foi o mesmo Rei 
Sicàno com tal exercito, que comò famoso Capitao venceo, e de lodo 
deslruhio, nao so aos Enotrios, e Aborigenes, mas aos Giganles Cyclo- 
pas, e Lelrigones, que roubavao a Uba Trinacria, (assim chamada entSo 
por eslar formada em tres quinas) que agradecida ao Portuguez Sicàno, 
sea Restaurador, d'elle se chamou Sicania, nome que o tempo mudou 
em Sicilia, e he hoje a famosa Hha d'este nome, nao so restaurada pe- 
los Portuguezes, mas por muitos d'elles, que niella ficàrao, novamente 
habitada. Dos Cyclopas, (por serem os primeiros que fabricarao ferro, 
e broDze, e armas d'elles) fabulizarao os antigos, que tinhao em o meio 
da testa hum so olho; que erao os proprios ministros de Vulcano, Deos 
do fogo; e que faziào os raios, com que à terra atirava Jupiter, quando 
irado. Dos Letrigones se diz que erao povos tao ferozes, o indomitos, 
que cornilo carne humana, e comò muito valentes, e huns publicos la- 
droes, summamente todos os temiào, e d'elles fingiao muitas fabulas. E 
a todos estes comtudo venceo, e desbaratou o Portuguez Rei Sicàno com 
OS seus Portuguezes, e Andaluzes; e deixando Roma, e Italia jà liber- 
lada, e pacifica, se voltou a Portugal com alguma parte de seu Iriun- 
fante exercito, até'que cà morreo, tendo (comò jà dissemos) reinado 
triota e bum annos. 

26 A este Rei decimo-septimo Sicàno se seguio Siceleo, seu filho, 
e foi o decimo-oitavo Rei de Hespanha, quando jà em Italia reinava Ja- 
zio filho da Portugueza Electra, irm3o do Rei Sicàro avo do dito Sice- 



28 HISTORIA JNSILANA 

k'O ; e porque a este Jazìo queria seu irmao DardaDO despojal-o do 
Keìno de Italia, pedio Jazio soccorro ao nosso Rei Siceleo, qae pas- 
sando logo a Italia com poderoso exercilo fez amigos entra si aos deus 
irmaos, seus tios; mas o Dardano malandò pouco depois ao indio Ja- 
zio à traìcao, e voltando com muitos Aborìgenes a dar batalha a Sier- 
ico seu sobrìnho, foi deste tao vencido, que fugìndo nao parou senao 
na Asia, e n'esta fundou huma Cidade, que delle tomou o nome de 
Dardania; e de bum neto de Dardano, por nome Trovo, se diamou 
Troya, e de Ilo filho de Trovo se denominou //iiim, o qua! Ilo foi pai 
de Laomedonte, e avo de Priamo ; e até de bum genro de Dardano, 
cbamado Teucro, tomou a dita Cìdade tambem o nome de Tenaria: e 
està he aquella Troya laraentada por Eneas, e seu Poeta Virgilio; se 
bem póde ainda gloriar-se de ter sido fundafao de bum braco Portu- 
guez, qual era Dardano, fìllio de Elcctra, nascida em Portugal, e filha 
do sobredito nosso Atlante : que se Uoma foi fundada por huma tal 
Portugueza, que Ilio deo seu nome; Troya pelo fllho de outra Portugue- 
za Electra, irma de Roma, foi fundada, corno partos do Atlante Portu- 
gal. Foi a fundacao de Troya pelos annos de 1509 antes da vinda de 
Christo. Ficando pois Siceléo senlior absoluto de Italia, deo d'ella toda 
governo a Coribantho seu primo, filho do jà morto Jazio, e depois de 
alcangadas as vitorias d'aquelics rebellados Aborigenes, em Italia mor- 
Tiso Rei Siceh^, deixando declarado Rei de toda a Ilespanha a Luso, 
seu filho, que com os mais se veio logo para Portugal. 

CAPITULO VII 

Do Rei Luso, e sua Lusitana descendencia, 

27 Rei decimo-nono de Ilespanha foi o dito Luso, e comefou a reinar 
pelos ditos annos do 1309 antes da vinda de Christo, e foi tao celebrada 
sua vinda pelos Portuguezes, que o coroarao solemnemente no celebre tem- 
pio de Hercules, no Cabo que hoje chamào de S. Vicente; e tao affei- 
(joado so raostrou aos Portuguezes. e Ihos fundou tcrras, e povoagoes 
tantas, que os mais povos de Ilespanha comegarao a chamar aos Portu- 
guezes Lusitanos, e às terras d'estes Lusitania, nome que até hoje con- 
senao, assim a terra, comò os moradores d'ella; ainda que alguns di- 
zem que do dito Lusd, e do rio Ana, (que he o Betis, ou Guadiana, que 



Liv. I CAP. vn 29 

era mourisca lingua he rio Ana) tomou està Provincia o nome de Lusi- 
tana; outros, que de Lisias tomou o nome, e os moradores de Lusitanos. 

28 certo he que a antiga Lusitania comprehendia as Cidades do 
Badajoz, Albuqnerque, Merida, Guadalupe, Talaveira, Alcantara, Placen- 
aa, Samora, Avila, Ciudad Rodrigo, Salamanca, e outros muitos lugares 
d aqaella parte de Castella, que chamao Estremadura; e ainda loda Ga- 
liza, corno diz o Agiologio Lusitano tom. i. Iloje porém a Lusitania com- 
prehende nào so o Reino de Portugal, mas tambem o dos Algarves, e 
por outras parles se Ihe accrescentarao a Provincia de Entre Douro, e 
Minho, que era da Galiza antiga, e a Provincia de Tras os Montes, que. 
era do Reino de Leao, e a Provincia Tarragonense, e outros lugares da 
Provincia Belica, ou Andaluzia, que Portugal hoje tem alem do Guadia- 
na; e por isso todas eslas terias, e seus moradores conservao o nome 
de Lusitania, e Lusitanos. 

29 Jaz pois a Lusitania na ultima, e melhor parte de Hespanha, 
janlo 30 Oceano, em 33 gràos de altura, e acaba em 42 e bum quinto; 
tem hoje de comprimento 91 legoas, da ponla do Cabo de Sào Vicente 
para o Norie ale a foz do rio Minho; de mais largo tem trinta e oito le- 
goas, da Rocha de Cintra ale a Villa de Alegrete!; em oulra parte tem 
trinta e cinco, da barra de Villa do Conde ale a Cidade de Miranda ; e 
por oulra parte tem vinte e seis legoas de largo, da foz do Guadiana 
ale Cabo de S. Vicente: em circumferencia tem mfls de duzentas e 
noventa e huma legoas, (fallando sempre de legoas de quatro milhaS, e 
nao menores.) Do mais de Portugal, das Provincias, grandezas, e Nobre- 
zas que conlém, e das Monarchias que tem ultraraarinas, e a si sugei- 
las, comò o mundo novo em o Brasil, no Maranhào, em Angola, e Ethio- 
pia a Alta, e em todo o Oriente, desde Goa ale a China; razao de ser 
nào so huma das melhores parles de Europa, mas tambem da melhor 
d'ellas, de Hespanha a cabega, por ser quasi loda llespanha hup) Certao 
de Portugal, e esle ter os melhores portos d'ella, aonde entravao, habi- 
lavao, e sahiao os Reis d'ella; nào he possivel fallar de ludo isto, mas 
so nos convem tornarmos a seguinle successao dos nossos Reis, para o 
intento que levamos. 

30 A Luso pois, (de Hespanha o decimo nono Rei) succedeo Siculo 
seo filho no anno de 1476 antes da vinda de Christo, 830 depois do di- 
luvio, e 2486 da creacao do mundo. Esle Sìculo imitando a seu avo Si- 
oeieo, foi tambem de Portugal com grande Armada, e exercito a Italia, 



30 flISTOniA INSULANA 

e fez qne os Aborigenes rcslituissem a Roma, e a scus Ilespanhoes, e 
Portuguezes quanto Ihes tinhao roubado, e indo logo a Trinaòria, ou Si- 
cilia, em batalha acabou de desiruir aos Giganles, que infestavao aquella 
Uba, que tendo tornado do nosso Siceleo o nome Sicilia, d'esle Siculo o 
conflrmou em Sicnlia, ou corno de antes, Sicilia; e tanto se alargarao os 
Portuguezes, e mais Hespanhoes por Roma, qiie aquella terra se chamou, 
Latium, cousa larga; e os Toetas fingirao chamar-se Lnlium, do verbo, 
Lateo, que significa eslar escondido; porque (conio fabulizao) n'aquella 
terra se tinha escondido o Deos Saturno fugindo de seu filho Jupiler, 
que vinba perseguindo; ao que alludio Ovidio I Faslor-ìhì: Dieta quo- 
que est Latium terra, latente Deo: e Virgilio no 8 da Eneida ibi Latium- 
que vocari Maluit, bis quoniam laluisset in oris. Nome que depois se 
estendeo a toda Italia. E reinando Siculo sessenta annos, morreo em firn 
sem deixar fillio algum, e n'elle se acabou a descendencia do famoso 

Luso. 

CAPITULO Vili 

Dos Inlerregnos que houve em a Lvsilania. 

Vendo-se os Lusitanos sem do seu Luso terem descendentc, nao qui- 
zerao de puro sentimento eleger mais Rei algum, e comegarao a se go- 
vernar em liberdade aos 1416 annos antes da vinda de Cbristo, e aos 
890 do diluviof porém toda a mais Hespanba, passados dous annos, eie- 
geo por seu Rei bum Capi tao Africano, chamado Testa, e por sobreno- 
me Tritao, que reinou na mais Ilespanha sdenta e quatro annos; e Ibe 
succedeo Romo, seu lilho, na opiniào de alguns. No anno pois duodeci- 
mo do reinado d'esle Romo, por medo dos Andaluzes entrou em Anda- 
luzia com grande exercilo de Gregos o Capitào Bacho, de quera fingirao 
OS Poetas muitas fabulas, que de outros do mesmo nome se diziao: esle 
pois de Andaluzia quiz por vezes entrar em Portiigal, e nào podendo 
vencer ao valor Porluguez, usou de tal ardii, que a bum filho seu poz 
por nome Lysias, e Ibe mandou que o mais que pudesse, imitasse as 
acgoes de Luso, e inventou que seu filho Lysias tinha a alma de Lu- 
so, e que separada do corpo se passara para o de Lysias, e seu 
nome e acQoes a demonstravam; e comò a demonstravao; e comò Ba- 
cho sabia que os Portuguezes entao criao na transmigrafao das almas, 
-facilmente tudo Ihes fez crer, e logo elegerao a Lysias por seu Rei, e 
nSo so Lusitanos de Luso» mas de Lysias Lusitanos se comerarao a cba- 



LIV. I CAI*. Vili 31- 

mar, e a seu Reino Lysilania; e este he o senlido, em qiie se devo ex- 
por a Oliava vinte e huma do canto terceiro de Camoes, e de outros 
qae em materia fallarao variamenle. E conseguido este engano, se vol- 
toa astuto Bacho para Italia, e na sua Lysitania ficou Ly.>ias, sendo o 
seu vigesimo primeiro Rei, e igovernando alguns annos morreo sem dcs- 
cendencia, e tornarao os Lusitanos & sua liberdade, sem querorem ad- 
mittir a outro Rei. 

32 Tinha em a mais llespanha succedìdo ao seu Rei Romo El-Rei 
Palatuo, e contra este indo com hum exercito de Pòrluguezes o Portu- 
guez Capilào Licinio, o venceo de tal sorte em bataiha, quo Ihe tirou o 
Reino, e o fez sahir fugindo de llespanha; mas com os sous Portugue- 
guezes se houve tao ingratamente, que 5iabendo-o Palatuo so voltou a 
Portugal, aonde no mesmo tempo aporlou com mais soldados o famo- 
so Hercules Alceo, ou Thobano, e juntos ambos com o portuguez exer- 
cito derao balalha a Licinio, (a quem chamavào Caco), e jiinto ao Gua- 
diana o vencerao, e obrigarào a ir fugindo para Italia; e ainda que Palatuo 
ficou restituido ao mais Reino de Hespanha, nunca os Pòrluguezes o 
quizerào por seu Rei, mas seconservaraoemsuaamadanberdade;eatéo 
mesmo Hercules se foi logo para Italia, onde era Rei Evandro, e encon- 
Irando-se la com Licinio Caco, o milou, e d'aqui se levanlaiao as fabu- 
las enlre Caco e Hercules, que Virgilio loca em sua Eneida lib. 3, e o 
fingir-se de Caco sor fillio de Vulcano, por ser Caco o primeiro, queem 
llespanha inventou fazerem-se armas de ferro. 

33 Mas he tal a ambigao de governar nos homens, que hum mes- 
mo Portuguez tirou aos seus Pòrluguezes sua am'ida liberdade, so por 
virser Rei d elles. Era este homem muilo rico, e morador quasi sempre em 
campo; succedeo ver, e observar por muitas vezes, que abelhas Ih'as 
ealravao, e sahiao no tronco aberlo de huma arvore, e indo curioso so 
a ver o que alli buscavào, achou huns favos de mei dentro formados, 
(cousa ale ali nunca vista, nem sabida em Hespanha) e vendo logo, 
e provando o dulcissimo iicor que os favos linhao, se fez nao so in- 
venlor, mas prodigioso x\uthor do mei, e o dava a provar, comò hum 
manna vindo do Geo ; e tanto se fez respeilar, e venerar, dos Porlu- 
goezes, que dentro de pouco tempo o elegerao por seu Rei; e d'ahi a 
oilo annos (morto Eritrèo, que no mais Reino de Hespanha succedeo 
a Palatuo, seu pai) tambem por seu Rei de Hespanha o elegeo, e sendo 
no nome Gorgoris, ficou corno sobrenome o de Mellifluo; mas porque a 



32 1 USTORIA INSULANA 

Lusilania so de liuma vez esleve oitenta e oito annos, e de outra vez 
alguns oulros, governando-se era sua liberdade, por suas leìs, e sem 
Rei, è n'estes interregnos leve ainda seus Reis loda a mais Hespanha, 
(que forao Testa, Tritào, Homo, Pulatxw, e Eritrèo) por isso Mellifluo 
Gorgoris foi de Portugal o Rei vigesinìo segundo, e o vigesimo quinto 
de Hespanha loda; e governando setenla e sete annos morreo aos 1227 
depois do diluvio; e aos 1079 anles do nascimento de Christo Ssnhor ros- 
so. E por estes tempos dizem succòdeo a fundagao de Cartago na costa 
de Africa, tres legoas alraz de onde està a Cidade de Tunes, a qual Car- 
thago fundarao dous Capitaes da Piienicia, naturaes de Tiro, chamados 
Zaro, e Quarquedon. Item succedeo a destruigào de Troya aos 2787 da 
crea^ao do mundo, 1131 do diluvio, e M75 antes da vinda de Christo, 
e 334 annos depois de fundada pelo grande Bardano. 

CAPITULO IX 

Da fundaQào de Lisboa em tempo do Malli/luo Rei Gorgoris, 
e de Utisses e do Rei Abidis fundador de Santarem. 

34 N'este mesmo reinado de Gorgoris, dizem muitos que da des- 
truicao de Troya, e da sua liha no mar Jonio, Itaca, veio hum Rei se» 
Ulisses langado ao Mediterraneo, e entrando pelo Estreito de Gibraltar 
no Oceano, e dobrando sobre a costa Lusitana, veio a dar sobre a gran- 
de foz do rio Tejo, e entrando por ella fundou pouco adianle huma Ci- 
dade, à qual de seu nome poz o nome de Ulyssea ou Ulyssipo, e niella 
ficou por seu primeiro Governador; o que sabendo o Rei da Lusilania 
Gorgoris, e acudindo a lanfar fora de seu Reino quem sem licenC'a sua 
enlràra n'elle, de lai- sorte o aplacou Ulysses, que Gorgoris nao so Ihe 
deu licenca para a fundagao da Cidade que tinha comecado, mas reliran- 
do-se com o exercito mandou huma filha sua a Ulysses para casar com 
elle, e outras muitas Lusitanas para casarem com os Gregos : e està 
Princesa, filha do Rei Gorgoris, he aquella, a quem chama Homéro a 
Nympha Calipso; e a quem, debaixo do nome de casta Penèlope, escre- 
vendo a seu marido Ulysses, compoz Ovidio a epistola ao principio das 
suas Heróidas. Mas porque sahindo, das de Ulysses, algumas nàos de 
Gregos a roubar as costas dos Lusitanos, estes se levanlarao con tra aquelles 
com tal impelo, que tornando a embarcar Ulysses com muitos dos seus 



LIV. I CAI>. IX 33 

Grcgos, se vollou a sua Grecia, sena se atrever a ter guerra com solda- 
dos Purluguezes ; o qiie ainda que Gorgoris estiraou muito, por ver jii 
quieta a sua Lusitania, muitu com ludo seiUio pela ausencia da fìllia ; e 
por isso assentou logo paz perpetua com os Gregos, que ficarào eai a 
nova Ulyssea, que hoje he a fatai Cidade de Lisboa, fundada em il8(), 
anles da vinda de Clirislo. 

33 Outros, de Lisboa dizem, que nao foi Ulysses seu primeiro fun- 
dador ; e que nem tal Ulysses veio alguma bora ao Oceano, nem do Me- 
diterraneo passou (comò se colbe de-Homero em a sua Odissèa de Ulys- 
ses ;) e ainda 'accrescentào muilos, que tal Ulysses nao houve em o muu- 
do, e que ilomero nao compuzera mais que buma pintada idèa, ouexeni- 
piar de bum perfeito Heroe; ou Capilao, corno faziào Poelas, e Filosofos 
geulios. E assim dizem, que quando Tbubal, nelo de Noè, veio depois 
do diluvio, e fundou Cetuval. com elle veio tambem Eliza seu sobrinbo, 
e de Noè bisneto, e que no mesmo tempo fundou a dita Lisboa, cba- 
mando-lbe Elizon, ou Elisboon, (que quer dizer, babitagào de Eliza) o 
que provao dos taes nomes que leve Lisboa ao principio ; e de bum ce- 
lebre rio na Arcadia, cbamado, Elizo, ou Elizon, ou Elisboon ; e que 
deste Eliza tomarao o nome os campos Elysios, e antigos povos Luzòes, 
e ainda a mesma Lusitania, porque a este Eliza, primeiro que a algum 
oulro, chamarào os Antigos Luso, e Lisias, e companbeiros de Bacbo, 
por lerem acompanhado a Noè, seu bisavò, a quem por ser o primeiro 
que plantou vìnha, denominavao Bacbo, assim corno ao dito Eliza cba- 
marào tambem Pboroneo, do Pronietbeo, por ser o primeiro invenlor 
do fogo ; e este be oulro novo sentido da oilava 21 do canto 3 de Ca- 
moes; o que ludo póde ver-se no Arcebispo D. Rodrigo da Cunha, na 
Ecclesiastica historia de Lisboa, i. part. cap. 2 .e 3. 

36 Conciliao porèm estas sentencas muìtos outros aflìrmando, quo 
quando Tbubal fundou Cetuval, fundou primo Eliza a Lisboa, e d'elle to- 
mou OS nomes de Elizon, Elisboon, ou Elisbona, mas que tambem na 
verdade fai depoìs reediGcada, e augmentada, por yiysses, e que d este 
se cbaiDOu Ulyssea, Ulyssipo, ou Ulyssipolis; pois estes sao tambem os 
Domes que desde o antigo conserva a tradi^So de Uiyssipo em ialim» e 
ou com a ielra, U, ou com a letra 0, ao principio, depois com a tetra 1, 
e com y, e dous ss adiante, ou com bum so, que de todos estes modos 
se acha escrito tal nome, e no Portuguez idioma, se diz sempre Lisboa; 
com que ambas as ditas opinioes ficSo assim conciliadas. E se alguem 

VOL. I 3 



34 HISTORIA INSULANA 

aqui quìzesse a perfetta descripgào d*esta cidade» qncreria nlSo so coasa 
que he fora do nosso intento, e que por muitos he jà principiada, e por 
nenhum completa ; mas que tambem quereria a hum incomprehensivel 
comprehender, e recopilar orbém in orbe^ corno n'esta Cidade estamos 
vendo sempre, e comprehendendo nunca. Vamos pois adiante com o in- 
tento. 

37 Ao dito Gorgorls pois, Rei vigesimo segando da nossa Lusita- 
nia, e o vigesimo quinto da Ilespanha toda, se seguio no Beino Abidis 
seu fliho, a quem, alem de muitas fabulas, que Ihe attribuirao os Poetas» 
com verdade se Ihe attribue o invento de lavrar, e cultivar a terra, pian- 
tar arvores, e fazer enxertos; e em especial a fundagSo da grande, e 
Ueal Villa de Santarem, situada quatorze legoas de Lisboa sobre o Tejo, 
e primeiro se cbamou Abidis, e depois Scalabis, ou Scala Abtdis^ ou 
Scalabicastro, e tandem se chamou Santa Iria, e cormpto vocabulo Santa* 
rem, de cujas grandezas n3o podemos por bora mais dizer, mas so que 
foi Abidis ultimo dos antigos Reis de Portugal, e Uespanha, porque 
com reiuar trinta e sinco annos, morreo sem deixar Glhos, aos 10i6 
annos antes da vioda de Cbristo Senhor dosso. 

CAPITULO X 

Das longas esterilidedes: tempestades^ e incendios de Hespanha^ e vinda 
a ella dòs CtllaSy e tnUras na^es, e fundofào de Vizeu. 

38 N'este tempo comecou tal secca, e esterilidade em toda a Iles- 
panha, qtie em vinte e seis annos continuos nSo chovco n'ella nem huma 
gotta de agoa (outros dizem que por multo menos annos) e o certo lie 
que durou por tantos, que toda Hespanha fìcou abraznda, sem fonte 
alguma perenne; lodos os gados morrerao à fome, e sede, e os mora- 
dorus se forSo buscar outras tenras em que podossem viv^, e nos ca* 
minhos morrìSo os mais d'elles ; e particularmente em Portugal se des- 
povoou de lodo a Provincia do Alem-Tejo, e o Beino do Algarve, conno 
terras mais visinhas aos ardores do Sol, e melo dia ; e entSo se acabou 
a antiga Corte de Cetuval ; e so nos frescós, e altos cumes da Serra da 
Estrella, e em algomas terras de Entre Douro, e Minho, e Galiza, fica- 
r3o alguns moradores. A l3o fatai secca se seguirlo ventos tempesluo* 
SOS, que nem deixavio em pé edificio, ou arvore; até que a ira do Ce« 



LIV. I GAP. X 35 

se applacoa, e tiverao firn estes seus castigos ; e os que tinbao escapada 
em as alturas, ou em as terras estranbas, tornarao a vir outra vez para 
suas patrias, e as acbavao t2o ermas, e desertas, que de novo as torna- 
vao a povoar, exceplas por mais annos as terras do Alcm-Tejo, e Algar- 
ve, onde o castigo do Geo fora maior. 

39 Cono està occasìao vierao de outras Provincias a Hespanba nnui- 
tas diversas Na^oes a reediQcal-a. A Portugal vierSo huns Francezes dia- 
mados Celtas ; e entrando pelo Beino do Algarve junto a Tavìla, ou Ta- 
\ira, passai^o ao Alem-Tejo, e fuodarao a celebre Cidade de Elvas, Cor- 
te ao depois das armas Lusitanas, e tbeatro das vitorìas que Portugal 
alcancou de toda Flespanba; e nao so do Alem-Tejo, e Algarve» nias tam- 
bem na Provincia de Àquem-Tejo, que boje cbamao Estremadura, fun- 
dàrjo OS ditos Celtas muitas povoacoes ; e até passando o Guadiana se 
communicarao com os Hibéros até o Guadalquibir, e d'aqui Ibes veio o 
nome de Celtiberos ; porem da mais Lusitania nao forao restauradores 
esips Celtas, porque em Lisboa fìcarao descendentes ainda dos seus Gre- 
gos, que vierao com Ulysses; nas Provincias da Beira, e Traz os Montes 
OS que se tinbao salvado na Serra da Estrella; e Entfe Douro» e Minbo 
OS Gregos, que viei'ao àquellas partes com Diomedes, 

40 Cbegados os 923 annos ante^ da vinda de Cbristo, succedeo em 
Hespanba o fatai incendio dos montes Pirineos, que a dividem de Franca 
nos qua^s, em suas vastas brenbas, e em seus antigos matos, por des- 
cuido de buns pasteres, se pegou fogo, e incendio tal, que durou por 
muitos mezes continuos, e aìnda muito longe se sentilo as labaredas, e 
de tal sorte abrazou até a mesma terra, montes, e pedreirji^, que os 
antigos metaes n ella gerados se derreterSo, e formarao grapdes rios 
perennemente correntes, até de ouro, e prata ; e a està fama logo com 
a ambicào da prata, e ouro, conrxirrerao da Pbenicia embarca^oes, que 
por mercadortas mui commuas se carregavSlo de ouro, e tanta prata, 
que d^esta fazi3o até as andioras, por nao terem jà onde a levar; e bum 
dos mais ambiciosos foi Sichéo, mando da famosa Bainha Dido, que em 
taotas rìqaezas levou para si a morte, que refere Virgilio ^m sua Eneì- 
da. Mas OS Piienices tornando, jà bydropicos de ouro, e pondo em a Illia 
de Cadiz seu assente, para por Andaluzia entrarem à caca do ouro, fo- 
no tao acometidos dos Celiiberos ji feitos Lusitanos, que x^enddes, e 
bigidos deixarao de todo Hespanba. 

41 Pouco depois pelo^ annos de 758 antes da vinda de Cbristo^ 



36 HISTORIA INSULANA 

foi Roma edìficada, e accrescentada pelo seu Romulo, e Remo, 873 an- 
iios depois de primo fundada pelos Porluguezes, corno jà dissemos^ e a 
llespanha concorriao Nagoes tao varias, e tanto mais ambiciosas de ri- 
quezas, do que, de a povoarem, que ale bum Nabuchodonosor de Ba- 
bylonia veio, e chegou junto a Toledo, anno 581 anles da vinda de 
Christo; mas ajuntando-se logo os Plienices de Cadiz, e Andaluzia com 
OS Portugaezes Geltas, e Lusitanos, envestirSo a Nabucho, e aos Judeos 
que trazia, e a todos langarao fora da llespanha. Quebrando porém de- 
pois OS Porluguezes com os Phenices sobre o soldo, Ihes tomarao loda 
iVndaluzia ale o Guadalquibir, e ale junto de Cadiz ; e vindo enlao de 
Carlhago muilos Africanos em soccorro dos Phenices que em Cadiz tinhao 
fjcado, conlra estes mesmos se levantarao os que vinhao a soccorrel-os, 
e se flcarao com a llha donde flngindo pazes com os Porluguezes Tur- 
detanos de Andaluzia, se forao mettendo, e fundando alguns lugares em 
llespanha, e comegou Carlhago 4'esla sorte a senhorear parte da Hes- 
panha em o anno de 509 anles da vinda de Christo Senhor nosso. 

42 Nao muilo depois mandou Carlhago por Capilao de Cadiz, e 
dos Africanos que entravao por Hespanha, ao famoso Annibal, o qual 
por favorecer aos Andaluzes, chegou a tal balalba com os Porluguezes, 
que com vir no meio d'ella huma grande lempeslade, durou a balaiha 
lodo bum dia, e de huma, e oulra parte morrerao oitenta mil homens, 
sem a Victoria se determinar; mas deve -se conceder aos Portiéguezes, 
pois seu braQO matou n'ella ao grande AnnibaI; e na manhàa do outro 
dia se retirarSo ambos os exercitos, e aléos Portuguezes Turdelanos, que 
andavao em Andaluzia, se recolherao à sua patria Portugai, deixando a 
Andaluzia o nome de Provincia de Turdelana. No anno de 501 anles de 
Christo, OS jà nossos Cellas Lusitanos derao com huns barbaros, que 
entre Cetuval, e o Tejo tinh3o escapado da acima dita destruicao de 
llespanha, e ainda qoe nos costumes er^o barbaros, erao do illustre 
sangue dos Chaldeos, (que comsìgo ThubaI linha trazido) e tambem erao 
dos Turdulos antigos, e n3o podendo estes so resistir ao valor dos jà 
Lusitanos Cettas, fugirào-lbe, e nào pararao ale passarem o Tejo, e o 
Mondego, e pararem no districto em que hoje està a Cidade, e Bispado 
de Vizeu em o CertSo da Provincia da Beira, nSo muilo longe da Serra 
da Estrella, e là multiplicarao estes tanto, que d'elles se povoou a Bei- 
la loda; de cujos mpradores nao he pequeno louvor, o serem os mais 
antigos, e verdadeiros Portuguezes ém o sangue. 



UV. I GAP. XI 37 

CAPITULO XI 

Da tinda dos Carlhagineses a Portugal^ e dos Laconicos Gregos; 
funduQào de Braga^ Coimbra, Aoeiro, e Lagos, 

43 Ghegado yi o anno de 43 i antes da vìnda de Christo, chegou 
tambenu de Cartbago huma Armada de Africanos à foz do rio Douro 
junlo ao Porto, e alli fez tao miseravel naufragio, que escapando d'elle 
Capitao Himilioré se tornou iogo para Africa ; mas os mais soldados 
Africanos, contentando-se da terra, pedirao aos moradores Gregos, Ihes 
concedessem lugar aonde fundassem huma Gidade a seu modo, e que el- 
les so governassem por suas leis, e ritos Africanos, e fosse exempta 
de todo tributo: tudo Ihes concederuo os moradores; e escolhendo 
silio pela terra dentro fundarao a Cidade celeberrima de Braga, oito Ic- 
goas além donde tinhao naufragado, e em o mesmo lugar, onde hoje 
Braga està; derao-llie este nome em memoria de bum rio cbamado Bra- 
cada, ou Br^gada, que corre pelas terras de Cartliago, ao qual depois 
OS Mouros, e os Turcos cliamarao Magéreda: e està parece foi a funda- 
Cào de Braga; nao obstante outros dizerem que a fundarao os Gregos, 
1150 annos antes da vinda do Salvador, e trinta so dopois dafundagao 
de Lisboa por Ulysses, e outros aflirmarem que a fundarao Egypcio^, e 
mnitos, qne huns Francezes Gellas, chamados entao Bracatos, ou Bra- 
caros, 296 annos antes da vinda de Ghristo, e que, porque estes Gallos 
Celtas se forao misturando com os Gregos d'aquella terra, veio està a 
chamar-se Gailogrecia, e (andando o tempo) Galiza; nome que em vcr- 
dade teve loda a terra d'Entra Douro e Mìnho. Seguia-se agora descre- 
ver està Augusta Cidade, mas comò nem a Beai Lisboa descrevemos, 
nào be bem que o fagamos a està Braga Augusta, por n3o dilalarmos 
mais intento a que vamos. 

44 Trinta e bum annos depois de os Africanos chegarem, e funda- 
rem a Braga, chegou o de 403 antes da vinda de Christo, em que bou- 
ve taes terremotos em Ilespanba, e tanto maiores em as terras mariti- 
mas, que até as mesmas feras vinbSo dos matos metter-se entra as gen- 
tes, feìtas com o medo mansas : e no anno de 372 antes de nascido o 
Salvador, cbegirSo i nossa Lusitania, ao porto da Alca^ar do Sai, qua- 
tro naos Gregas, vindas da Peloponneso, a com gentas da Provincia La- 
conica, que enfodadas jà das guerras das suas terras» vinbSo buscar ou- 



38 HISTOIUA EVSULANA 

Iras, em que passassem a vida mais pacifica, enire as quaes gentes vi* 
nhào buns povos cliamados Colimbrìos, e indo-se os outros asseiitar sua 
morada em o Alem-Tejo, entre os Turdetanos, e Celtas que là viviào, 
OS Gregos Laconicos Colimbrios, sem desembarcarem navegarao costean- 
do a Lusitania» ale darem em a foz do rio Munda, ou Mondego, pelo 
qual entrando acima fundàrao buma Gìdade, a que chamar3o Golimbria, 
e com pouca mudan^a ao depois se chamou sempre Goimbra, que sinco 
legoas do mar està fundada, posto que alguns accrescentao, fora funda- 
(la primeiro em bum lugar mais baixo, que cbam9o Gondeixa a velba, e 
que ao dépois se mudàra para o lugar eminente aonde hoje està, e se 
a brevidade que levamos o permittisse, d'està inclita Coimbra, d*esta 
Corte de alguns Reis de Portugal, desta Universidade que compete com 
ai maiores do Universo, e com mysterio fundada por Laconicos, e Gre- 
yos, por em si conter, laconicamente recopiladas, as letras da antiga 
Grecia, e até da lingua Grega ter em si buma Regia Cadeìra ; d'està 
iiunca acabariamos, se quizessemos locar suas grandezas. 

45 Fundada assim Coimbra aos 372 annos antes da vinda de Cbris- 
to, passarSo alguns dos Gregos adiante, com muitos outros Geltas, e 
chegando a bum bom porto, aonde hoje està a excellente Villa de Aveì- 
j'o, com primeiro nome de Talabrica, ou Talabriga, que no nome de 
Aveiro com o tempo se mudou ; be a Villa tao grande, que excede à 
muilas Gidades, be de grande commercio maritimo, pelo multo bom sa» 
que alli se faz, e multa louca que lavra, e a melhor, e mais certa pes- 
carla; além dos mantimentos que Ihe vem da Provincia da Beira, don- 
de, póde ser, tomasse depoìs o nome de Aveiro, que come^ou em o In* 
laute D. Jorge. lilbo d'el-Rei D. Joao II de Portugal: e islo baste dizer 
d'està Villa excellentissima. 

40 Chegado adiante o anno de 347 antes da vinda de Cbristo, e o 
de 3615 da creac3o do mundo, estando o Capi tao Bohodes de Cartbago 
em Andatuzìa, e fingindo familiaridade com os nossos Portuguezes do 
Algarve, se passou a este Reino com capa de mercancìa, e com licenca 
d'elle fundou buma Povoa^o, que intitulou Lacobrlga, e hoje he a Ci- 
dade de Lagos, cabe^a d'aqueìle Rerno, ainda que pela peste, que ha 
mais de sesàenta annos padeceo, ficou muito dimlnuida ; mas lem babià, 
e porto capacissimo. È n'este tempo, dizem, florei^eo o grande Alexan* 
dre Magiu). I).?pois, tambem cota capa deamizade, se veio'tambem met- 
ter oa Lusitatìhi b CapitSo Hìaheital, Cartbaginez, e aioda mais depois, do 



Liv I GAP. xn 39 

anno de 230 antes ile Christo nascido, veiooutro Carlhaginez, Harailcar, e 
enlrando em Lisboa com prelexto de huma romaria pruniettida ao tem- 
pio de Minena que em Lisboa estava, nella se easou com a filha de 
iiiun Cidadào nobilissimo, e riquissimo, e deixando pazes assentadas 
eulre a Lusitania, e Carthago, se voltou a Africa r/)m a sua Losilania, e 
em luima das Ilhas Baleares, chamada a Coelhcira, nascco deste matrimo- 
nio famoso, celebre, e verdadeiro Lusitano AnnibaI, terror dos mesmos 
lìomanos, e gloria dos Portuguezes, que nasceo no anno de 2i5 antes 
de nascer Christo bera nosso, com o qual AnnibaI os Portuguezes derao 
grandes batallias aos Romanos; corno tambem os Portuguezes de Braga, 
e d'Eulrc Douro, e Minho vencerao aos liomanos muitas vezes, com ou- 
tm Capitào seu naturai, chamado Afric<ino. a cujo exemplo fizerao tam- 
l)em o raesmo os Portuguezes de Lisboa com bum seu Capilao Ulisbo- 
Dense, E aos lsi>2 annos antes da vinda de Christo foi Carlhago cercada, 
destruida, e queimada pelo grande Scipiao, e seus Romanos, e de tal 
sorte, que desasele dias, e desasete noites esteve ardendo ; e tendo seis 
legoas de circuito, e setecentas mil pessoas, cincoenta mil somente 
escaparao dentro do grande Castello, que em si tinlia. 

CAPITULO XII 

Da oiWa dos Romanos a Hespanha, e victori'ts que d'elle conseguio 
maior Poriuguei e Principe Vinato^ ali morrer so por trai^So. 

47 Passado o anno de 200 antes da vinda de Christo, e vindo a 
ilespanha os Romanos para a conquistarem, e entrando pela Provincia 
(la Andaluzta, comecarao a fazer muitas eotradas nas terras da Lusitania, 
querendo-a conquistar sem mais direìto, ou justi^a para isso que a in- 
gratidlio com que pagavSo os beneficios antigos, e fataes soccorros, que 
dos Portuguezes tinliào recebido Boma, e loda Italia ; e tantos estragos 
feziao, tantas crueldadps, e traic5es, que os verdadeiros, e antigos Por- 
tuguezes da Serra da Gstrella n5o podendo jà sofrel-os se resolverao a 
buscar, e destruir aos Romanos, e ajuramentando-se com bum seu va- 
kroso Poriiiguez (nascido n'aquelia parte onde hoje. està Vizeu, em a 
Provincia da Beira) assentarci lodos em andar sempre a caca dos Roma- 
in»s, até os lancarem fora de toda a Lusitania: e de tal sorte tornarlo 
esia empreza» e em taes emboscadas se mettiSo, que sabindo d'ellas, 



40 HISTORIA INSUIANA 

Ihes nao escapava Romano qne, nao passassero ao fio da espada, e até em 
as lerras occupadas dos Uomanos, tao furiosamente davao de repente, 
que totalmente a todos destruhiìio; e vendo que em Andaluzia andava 
j:i por Capitào dos Romanos o Pretor Sergio Galba, arordar3o aquelles 
Portugnezes em eleger lambem seii Capitào, qne a todos os governasse, 
e Ihe obedecessem todos corno a :>e\ì General, e ainda comò a seu Rei, 
e com efteito elegerao ao dito valeroso Portuguez, que primeiro os ti- 
nha convocado, e a quem jà tinhào visto obrar corno insigne Capitao. 
Este pois se chamava Virialo, (que até de insigne varao tinha o nome) 
nascido, comò dissemos, em Vizeu, pelos annos de 200 antes de Chris- 
to nascer, e andando ja em qnarenta de idade, quando foi eleito Capitào, 
ou Rei dos Portugnezes, e jà dos Romanos era tao temido, que so era 
ausencia, e de palavra se vingavào d'elle os Romanos, chamando-lhe la- 
drao, salteador. e Capitao de ladroes; comò se o defender a anliga, e 
propria patria, nao fosse acQào nobilissima, e honeslissima ; e pelo con- 
trario invadir a terra, e patria alheia, niio fosse buma infame ladroice, 
comò bem notou o douto Brito em a Monarchia Lusitana lib. 2 cap. 8. 

48 ceno be, que contra tal Viriato nunca se atreveo a sabir o 
Romano Pretor Sergio Galba, e succedendo-lbe no anno de 147 antes 
da vinda de Cbristo, o segundo Pretor Romano Cayo Vetilio, e vindo 
logo buscar a Viriato com mais de dez mil Romanos, e outros muitos 
Andaluzes, Viriato em buma emboscada o esperou, e com tal valor o 
accommetteo, que a qualro mil dos Romanos degollou, e a muiros 
raais Andaluzes ; e do Pretor Vetilio buns dizem qi^e alli morreo, e ou- 
tros, que entao foi preso pelo grande Viriato: mas comò escapou fugin- 
do Tenente Questor, este ten-.eiro, e Romano Capitao velo depois com 
cinco mil Celtiberos, e seis mil Romanos, e ofiferecendo em campo aber- 
lo buma batalha campai a Viriato, este o venceo de tal sorte, que com 
Vida so escapoa Questor fugindo em bum cavallo. 

49 Quarto Capitao Romano tinha vindo a Castella Gayo Plaucio, 
raas Viriato jà com Portuguez exercito forraado, entrou tanto pelo Rei- 
no de Toledo, que chegou quasi às portas de Madrid, assolando ludo 
quanto achava, até que sabindo-lbe Plaucio com dez mil homens de pé, 
e 1300 de cavallo, ^e em tempo ao que os Portugnezes andavào distan- 
fes saqucando a terra, Viriato dando mostras de aceitar a batalha, de 
repente, e à vista do inimigo se relirou com tal pressa, que em poucas 
horas se na\) vi3o bum ao outro exercito ; de que irritado Plaucio, man-. 



uv. I GAP. xn 41 

don quatro mìl dos seiis que o detivessem até elle chegar, e Viriato 
orilào virando com a mesma pressa sobre aquelles qiiatro mil, e dego- 
landcvos a lodos, com tal pressa volton a Porlugal, que, quando Plaucio 
chegou, jà nao achou mais que os campos cheios de sangue dos Roma- 
nos, e se retirou assombrado ignalraenle do esforfo, que do ardii de 
Viriato. Ajuntando comludo novas gentes, veio Plaucio buscar a Viriato. 
ale jiinto a Evora, que do alto de bum monte, aonde com seu exercito 
eslava, desceo sobre Plaucio, e Ibe deo tao porfiada batalba, que venci- 
dos tandem os Romanos. so poucos de cavallo, e fugindo com Plaucio 
escaparào, e se forao metter nas mais fortes pra?as da Andaluzia ; e se 
liersuadiào todos que Viriato se farla absoluto senhor de toda Hespanha; 
e ainda pnssaria a conquistar a mesma Roma, e sugeitar toda a Italia ao 
braco Portuguez; e temendo isto, 

50 Quinto Capitào veio entao de Roma o Pretor Claudio Unimano 
com a mais, e melhor gente de toda Italia: mas o grande Viriato, anno 
de 146 antesde vir ao mundo Chrislo, o foi logo em o mesmo mez desafiar 
dentro a suas terras, e dando Ibe batalba, que durando duvidosa, e san- 
guinolenta muilas horas, cedeo finalmente a Viriato de tal sorte, que de 
tmlo grande exercito Romano se livrou so Claudio fugindo; e os des- 
lìojos forào laes, que com elles n3o podiao jà mover-se os Portuguezes; 
e Viriato contentando-se com as insignias Romanas, as collocou nos mon- 
tes mais altos de Portugal, entre arcos triunfaes de suas victorias. 

51 Sexlo Capilao, vindo entào de Roma, Cayo Negidio, Pretor da 
nllerior Hespanba, enlrou em Portugal pela Provincia da Beira até jun- 
to a Vizeu, e com bum exercito de gente innumeravel; acodio logo Vi- 
riato a sua propria patria, e acbando ao Negidio enlrincbeirado, o cercou 
e a fome o obrigou a dar batalba; mas vendo que seu partido era mul- 
to inferior, e separando mctade dos seos Portuguezes em cillada, com 
a oulra rijamente commetteo ao inimigo, que cuidando ter so a Viriato 
era huma parte, onde o queria vencer, de repente pela oulra foi tao 
fortemente corametlido dos Lusilanos Viriatos, que de tao grande exer- 
cito Negidio Si) escapou, e à unha de cavallo, deixando os seus suas rì- 
quezas, e os Estandartes Romanos em as maos dos Portuguezes. 

5:2 Septimo, Capitilo de Roma veio logo, no anno de 145 antes de 
Chrislo nascido, o Pretor Cayo Lelio; mas este prudentemete fugio sem- 
pre de dar batalba a Viriato, porem a muitos lugares de Castella que 
estavao pelos Romanos, Viriato destruio, e assoloa livremente, e era tal 



42 HiSTORlA INSULANA 

valor dos Portuguezes, que trezentos d'estes encontrandose com dez 
Diil Homanos, com morte de so 60 Portugiiezes matarao a trezentos e 
viute dos Romanos, e aos mais puzeruo em vergontiosa fugida, e assim 
o confessa Garibay live vi cap. 9, de sua historia: e o que mais he, que 
inuitos Romanos juntos. encoutrando no caminlio a lium Portuguez, e jà 
forido, e commettendo-o todos, o Portuguez pelejou com tal valor, que 
malandò dos Romanos ao primeiro, voltarao os mais as costas, e fugi- 
rao. 

53 Oitavo pois Capìtao contra o nosso Viriato mandou Roma enUio, 
no anno 143 antes de vir Clirislo ao mundo, nào jà so Prelor algum, 
mas em pessoa a bum Consul, Fabio Emiliano, que tinha vencido o 
Reino de Macedonia, e era irmao de Scipiao o menor que destruhio a 
Carthago, e comsigo trouxe este Fabio quinze mil Romanos de pé, e 
dous mil de cavallo ; e comtudo em cbegando a Hespanha, foì Viriato 
logo buscal-o, e desafìal-o; mas era tal sua fama là em Roma, que nem 
com tao grande exercito se atreveo Fabio a aceitar bataiha com Viriato, 
e este, deslruindo entao os campos, rendeo duas Cidades, que estavao 
presidìadas de Romanos, e deixou n^ellas presidios Portuguezes, e ató 
ao grande exercito do Consul que, eslava entrincheirado, llie tomou Vi- 
riato huns comboys, e Ihe degolou muitos Romanos, sem comtudo o 
Consul se atrever a saiiir a pelejar com Viriato, até que passados alguns 
niezes, e jàem o de Setembro, e em huma noile escura, no meio d'ella era 
])onlo, desalojou Fabio de repente, e andando a loda a pressa duas mi- 
Ilias, deu subitamente com Viriato, que posto estava ainda em véla, comò 
sempre, quasi lodo seu exercito eslava no primeiro somno, e comtudo 
Viriato, Ctìm os que puderao imilal-o, receberao a bataiha, e a susten- 
tarào grande parte ainda do dia, e até que vendo bcm que seus solda- 
dos enlrarào na bataiha, e pelejavào sem ordem, e que ale a fortuna 
eslava jà de Viriato invejosa, retirou-se com os seus este Leao ao allo 
de bum monte, deixando a Fabio com so as armas de alguns soldados 
mortos, e coro a n5o pouca gloria de ter feilo reliiar a bum Poiluguez 
Viriato, que com isso se deo por satisfeilo. 

54 Nono Capilao por Roma, e successor de Fabio, veio o Prelor 
Pompilio, DO anno de 142 antes de ao mundo vir Christo; com quem 
Viriato'assenlou pazesi largaudo*lhe as pracas que a Roma linha tornado 
em Andaluzia, e se recolheo a descansar em sua patria a Reira: e pas- 
sados alguns dias de retiro, eis-que salie o retirado Lobo Viriato com 



UT. I GAP. xn 43 

€xercito grande que ajnntou, e entrando pela parte que boje chamao 
Kibacoa em Castella, e a tempo qne cono secreto aviso de Viriato, ontras 
nacoes Hespanholas entravao tambem por outras partes, e em nenhuma 
ficava Uomano algum com vida. Attonito Pompilio salilo com poderoso 
exercilo em demanda de Viriato, mas d'este foi t3o vencido em bataiha, 
qae morrerao niella todos os qiie n*eila entrarlo, excepto o dito Pompi- 
lio, que com mui poucos fugindo escapou; e Viriato seguio com tal ani- 
mo a vitoria, que todas as terras dos Romanos a que elle chegou, e ain- 
da às que se Ihe entregav3o, a todas passou ao fio da espada, até que 
enTadado ]a de degollar Romanos, se voltou para a sua Lusitania; e tal 
terror meteo nas nacoes onde chegou està ac(ào, que Hespanha quasi 
loda se deo por libertada dos Romanos; que so ouvirem o nome de Vi- 
nato, llies era grande terror. 

55 Decimo, Capitao Romano veio, em 141 antes de Christo, contra 
insigne Lusitano Viriato, Quinto Pompeo, nomeado Pretor de Hespa- 
nha, e comò jà Viriato trazia em seu exercito muita soldadesca estran- 
geira, sem d'ella se acautelar, comò sempre he bem, por isso dando ba- 
talha Pompeo a Vinato junto à Cidade de Evora, e sendo excessivamente 
exercito do inimigo muito mais numeroso que o nosso, por culpa dos 
estrangeiros (que, quando menos se cuida. sao infìeis) foi forgado a Vi- 
riato retirar-se com os mais dos Portuguezes, e com estes so, passados 
poucos dias, voltou sobre os Romanos com tal impeto, que os venceo 
totalmente, e destruhio matando-Ilies quatro mil de pé, e mais de qui- 
nbentos de cavallo, trazcndo vinte e sete cativos Estandartes dos de Ro* 
fìia, e nao satisfeilo ainda com isto, entrou l(%o em Andaluzia, e rendeo 
a forga de armas a antiga Cidade Utica, presidiada eniao pelos Romanos, 
de que em Roma pasmados mandarao. 

56 Undecimo Capitao contra o invencivet Viriato, que foi Quinto 
Fabio Maximo Serviliano, Consul de pouoo eleitu com Lucio Metello Cai* 
vo, e trouxe comsigo Serviliano dezoito mil de pé, e mil e seiscentos 
de cavallo, e em cliegando a Hespanha, Ihe mandou hum dos Reis da 
Africa dez encastellados Elefantes, e cavallos Numidas trezentos, e es- 
tando n*este tempo Viriato em Portugal, Serviliano Ihe tomou com tal 
poder algumas pracas da Fronteira, e ainda com boa resistencia, e ca- 
pilulacoes muito honradas; mas comò Serviliano Ih'as nao guardasse de- 
pois, antes a quinhentos Portuguezes matasse a sangue frio, sahio logo 
Viriato coQtra o falsario Romano, e Ibe apresentou bataiha; porém ob- 



44 HISTORIA INSULANA 

servando que os nossos cavallos Portuguezes nao podiao aturar os Eie- 
fantes armados, vollou com os Portuguezes em fugida tao apressada, 
que vendo ja ao inimigo afastado bem dos Elefantes, volton entào sobre 
elle, e o venceo tao fatalmente, que Ihe degollou a 3600, fugiudo Ser- 
viliano com os que puderao, seguindo-o, escapar. 

57 Este mesmo Capitao Serviliano ficou sendo Pretor o anno se- 
guinte de 139, antes de Christo, e por se vingar de Viriato poz-llie cer- 
co a buraa praga importante; mas acudio tanto, e logo Viriato, que quasi 
som sentirem os Romanos se metteo dentro da praca com muitos Por- 
tng[uezes, e sahindo d'ella logo ao outro dia, com cavallaria, e ìnfantaria 
formada, rompeo, e deslruhio de tal sorte aos Romanos, que os Tez re- 
colher ao alto de bum monte, do qual nao bavia outra sabida senao a 
por onde tinbao entrado, e tomando-lbe està os apertou tanto, que so 
por piedade os nao passou todos à espada, mas aceitando-lbes tregoas, 
oderecidas em nome da Republica Romana, e multo à vontade da Lusi- 
lania nossa, deixou-os Viriato, e se velo a Portugal. 

58 Duodecimo Capitao em flm, e no anno de 138, antes de Cbrislo 
nascido, veio de Roma outro Consul novo, cbamado Quinto ServilioSci- 
piao, irmao do antecedente Serviliano, e em seu lugar; este pois que- 
brando logo, sem aviso, ou causa alguma, as tregoas assentadas com 
seu irmao, entrou pela Lusitania com exercito armado ; o que sabendo 
Viriato Ibe destruhio logo varias terras dos Romanos, e Ibe inviou tres 
Embaixadores, (e infaustamente todos tres erao Estrangeiros, de que j;i 
se nao devera conflar) a Ibe lerobrar as pazes assentadas, e ou dar a 
causa de as quebrar, ou assental-as de novo : cbamavao-se os Estrangei- 
ros Dictalion, Minuro, e Hulaces; a estes pois sobornou, e venceo o sem- 
pre infame, e falsario Servilio, e com taes promessas, que tornando es- 
les para dar a reposta da Embaixada ao inviclo Viriato, o forSo buscar 
lodos tres no melo da alta noile, e acbando-o dormindo, (porém, comò 
sempre, armado, e deitado em a terra fria, tendo por cabeceira o seu 
escudo), bum, que nome nSo merece, bum d*estes tres vilissimos, e 
abominaveis traidores, levantando a espada, degollou de bum golpe a 
cabeca do maior Capitao, que entào tinba o mundo, e fugindo logo todos 
tres, nao pararao senSo em o seu centro de traicJ3es, o falso Consul 
Servilio. 

59 Deixo eterno sentimento que mostrarao os Portuguezes da 
morte d'oste seu Pnncipe» e mais verdadeiro Rei, e as exequias fataes 



Liv. I GAP. xni 45 

que Ibe fizer3o, a bum vcncedor sempre, e successivamente de dozo 
Capitaes Romanos, e em muitas mais batalhas trìanfante, e restaurador 
de teda Ilcspanba ; pois o douto Garibay (com ser nào Portuguez) con- 
fessa, que este grande Capitao fez em a guerra mais, e maiores faca- 
nbas que outro Hespanhol algum, e que por muitos annos, foi sempre 
de Romanos vencedor desde a Lusilania até os Pyrineos, passando T( jo, 
e Ebro, e sempre triunfador ; e até o Historiador Romano Floro em o 
seu lib. I, cap. 17, diz estas formacs palavras : Lusilanus Virìatus erexit, 
DuXy aique Imperaior; et {si fortuna cessisset) Hispanice Romulus. E ac- 
crescenta qje morreo de tal traigao, ibi : Ut videretur aliter vinci non 
poiuisse, eie., e dito isto nào ha mais que dizer. 

CAPITOLO XIII 

Das mais gnerras de Portugnly e do seti grande Sertorio, 
vencedor de lodo o poder Romano. 

60 Morto grande Viriato, succedeo-lhe no governo outro, so no 
Dascimento, (nao no valor), Portuguez ; porque em fim foi vencido dos 
Romaoos, que por se temerem ainda dos soldados Portuguezes, os di- 
vidirao por fora de Portugal, e no anno 136, antes da vinda de Christo, 
$d apoderarao das principaes Cidades, e povps da Lusitania, exccpta a 
Provincia d'entra Douro e Minho, aonde por vezes forao vencidos os Ro- 
maoos, até pelas mulheres Portuguezas, que pelejavao nao menos que 
OS maridos: assim Decio Bruto, que de Roma tinha vindo por Pretor da 
Lusitania, foi dos Bracharenses vencido em batalha no seguinte anno de 
135, e voltando Decio Bruto para Roma no anno de 130, pelos tumul- 
to3 graudes, que là entao bavia, nem voltarlo a Portugal tantos Pretores 
de Roma, nem os que voltarlo, tiverSo guerras dignas de memoria. 

61 Cbegado porém o anno de 80, antes da vinda de Cbristo, deo 
Deos a Portugal bum digno successor de Viriato, que foi o grande Ser- 
torio, com a occasi2o seguinte. Era naturai Sortono de Italia, nascido 
de pais honestos entre os povos Sabinos, e depois de se fazer nas letras 
sabio, se deo às armas tanto, que foi mandado de Roma por Pretor a 
Franca, aonde venceo muitas batalhas, e n*eitas perdeo bum olbo, qual 
ootro Felippe Rei de Macedonia, Antigono, e Annibal; e em as guerras 
de Roma entre Sylla, e Mario, seguio Sertorìo a Mario centra Sylla, e 



48 HISTOniÀ INSULANA 

se unir com Metello, e ambos, centra os Portuguezes dobrarao entào a 
guerra: mas a Sertorio tambem se Ihe veio ajuntar bum Capitao Italiano 
cbamado Marco Perpéna com mais trinta companbias de soidados ve- 
teranos; e eslando os Poituguezes cercando em Valenza a buma antiga 
Cidade chamada Lauróna, e acudindo-lhe Pompeo, Sertorio, e os Portu- 
guezes acommetterao em tal cillada, que ihe matou dez mi! homens, 
e com pressa se retirou Pompeo, e Sertorio (que comsigo jà trazia scis 
mil de pé, e dous mil de cavallo), rendeo a dita Cidade, e a destrubio:' 
e recolbido Pompeo a Aragao, Sertorio se recolheo a Evora, e entào de 
furtes muros cercou toda a Cidade, e em bum so, e grande cano, por 
ciina de Tataes arcos, metteo copiosa agua dentro da Cidade, obra que 
tanto depois restaurou El-Rei D. Joào III. 

G8 Anno de 75 antes de Cbristo, sahio por buma parte Pompeo, 
e Metello pela outra, cada bum com seu exercito; e sabindo Sertorio a 
Pompeo, Ibe deu tao forte batalba, que nào so Ibe deslruio ao exercito, 
mas ao mesmo Pompeo ferio, que fugindo Ihe escapou: e logo indo em 
busca de Metello, taes encontros teve com elle, que, posto que Ibe ma- 
tou muita gente, e buma vez o ferìo, Metello comtudo por seu brago, e 
experiencia de velbo, a si sempre, e aos seus bvrou melbor que Pom- 
peo, até que o deixou Sertorio, e se voltou a Evora. Mas nào contente 
ainda com taes victorias Sertorio, mandou aprestar logo buma Armada 
Portugueza, e com ella entrando o Mediterraneo tomou os soccorros, que 
vinbào de Roma para Ilespanba, e nào deixando porto inimigo, (|ue nào 
roubasse, nem inimiga nào que nào vencesse, poz a Metello, e Pompeo 
em tal estado, que Metello sem ter jà que corner, nem que gastar, se 
retirou a Franga a refazer-se ; e Pompeo indo a metter-se no Certào mais 
seguro que acbou, d'abi avisou a Roma Ihe acudissem logo, senào que- 
rià(j cedo ver a Sertorio em Roma : e assim vindo soccorro a Pompeo, 
e voltando jà de Franga reforgado, tornou a gueri-a a accender-se. 

G9 E comò ausente ainda -Sertorio, Herculeo, que licara em seu 
lugar, viesse a batalba com Probo Emiliano, Capitào de Roma, e levan- 
do Herculeo menos gente, e ainda nào tao exercitada, comtudo Hercu- 
leo, e seus Portuguezes vencerào tanto a Probo, que até a este mesmo 
tirarào a vida, ganbarào onze Estandartes dos Romanos, e comsigo trouxe- 
rào lanlos despojos de armas, e cavallos, que ficou està Victoria multo 
illustre. Mas Herculeo, soberbo com o successo, Toi tao temerario bus- 
car a Metello, que jà tinba o seu partido excessivo, e acomettendo-o foi 



LIV. I CAP. XIII 40 

Tendilo d'elle, e fugindo se veio a Sertorio que ja linha descmbarcado; 
e aste consolando a Herculeo, e mandando-o conduzir gente de novo, 
sahio logo com a sua em busca de Metello que andava j«i em Catalunha, 
quando eis que de repente enconlra em o camìnho com a maior parte 
do esercito de Metello, que cativos, e despojos levava ja por novas da 
Victoria a Pompeo, e tao subitamente n elles dea o fatai Sertorio, que 
em breve os despojou de tudo, e aos Romanos das vidas, e voitou-se. 

70 Porem nSo podendo jà a fortuna com tantas victorias de Serto- 
rio, come(^a a voltar a roda centra elle, e persuadindo-o se ajuntasse 
com seos Capitaes Perpena, e Uerculeo, e fosse buscar Metello ao Bei- 
no de Valenza, achou com elle a Pompeo, e juntos dous fataes exercitos 
em bum so, e o poder Romano de Imma parte, e o Portuguez da mitra, 
e iogo, sem esperar mais, Sertorio commetteo ao inimigo, e so travou 
a bataiha mais borrenda que tinha visto o mondo, e depois de durar 
por multo tempo, com successos multo varios de huma, e nutra parte, 
finalmente o invejoso fado fez que ficasse Sertorio buma vez vencido, 
mas ainda de tal sorte, e tanto a custa do inimigo, que d'cste, entre do 
pé, e dp cavallo morrerao alli oito mil liomens, e dos nossos, entre mor- 
tos, presos, e feridos, fallarao mil e seiscentos de cavallo, e cince niìl 
de pé; mas em flm ficou o campo pelo inimigo, e se retirou Sertorio, 
Dio menos constante n'esta adversa, do que em tantas, e tao prosperas 
iortonas, e a Cidade de Valenza, que por Sertorio eslava, se rendeo ao 
ìoimigo. E nunca tanto em Ilespanlia, e ainda em Roma, se celebrou Vi- 
ctoria, quanto està, por verem niella vencidos Portuguezes, cousa pouco 
^'ezes vista no mondo. 

71 Retirado pois Sertorio, e sabendo que Pompeo o vinlia ainda 
buscar, marcliou logo para elle com o seu ja recolliido, e rcformado 
esercito; e acbando a Pompeo sobre Placencia, o fez levanlar o cerco, 
e aceitar bataiha, e n'ella o venceo tao fortemente, que fez fugir a Pom- 
peo, e Sertorio ficou senhor do campo, e de todos os despojos; e nào 
satisfeito ainda, foi buscar logo a Metello, que cstava cercando a Cala- 
borra; e assim comò cbeguu, o acommetteo, matou-lhe tres mìI soldados 
velhos, e o fez ir fugindo a valer-se de bum posto inaccessi vcl e Sertorio 
voltando a Galaborra a confirmou em sua obediencia, corno de antes es- 
tava 

72 Depois estando Fluesca cercada por ambos juntos, por Metello, 
e Pompeo, e acodindo-lbc Sertorio, foi em buma madrugada tao subita- 

VOL. I 4 



30 llISTOniA INSLLANA 

mente acommellirlo, que obrigado se metteo era a Cidade, e com me- ^ 
nos credito de seu v^lor, mas ainda com quasi nenhuma perda deseu 
Portugiiez exercito. D*aqui tornando porem occasiao algims Romanos 
quo andavao com Scrtorio, julgando que esle jii nao podia conservar-se, 
e querendo congracar-so com a sua Roma, tratarao com Pcrpena a abo- 
minavel traifao de matarem a Sertorio, conjurando-se a isso> para recu- 
perarem a grac^ de seu povo Romano. Teve noticia Sertorio, e queìxan- 
do-se aos Portuguezes de sua guarda, estes em ouvindo tal, com tal Tu- 
ria derao logo nos Romanos, (que com elles andav3o) que degollarao a 
muitos, e todos fariao o mesmo, se o proprio Sertorio Hies nao fosse à 
mao, e OS impedisse; mas ainda assim quasi todos os traidores perece- 
rao, cxcepto o falso Perpcna, de quem nem a Sertorio, nem a outrerik 
subio ao pensamento tal traiQ3o; porem este buscando outros Romanos, 
com elles lornou a macliinar a morte de Sertorio, e se conjurar3o em 
lìngirem Imma nova de outra Victoria repentina, e para a festejarem 
mais, irem jantar com Sertorio; e quando Perpena derramasse bum copo 
pela mesa, atravessassera a Sertorio a punhaladas. 

73 Derao pois a nova da Qngida Victoria a Sertorio, e o convidarao 
a jantar para a festejarem mais, aceilo Sertorio, (contra a senlenfa do 
Portuguez Poeta, que disse: «Porquo nunca louvarei Capìtao que disse, 
Nao cuideiì e pondo se todos a jantar, comegou Perpena a soltar-se em 
palavras pouco honcstas, quaes sabia que desagradavao multo a Serto- 
rio, e que o reprehenderia d'ellas; mas este escandalisado de ouvir tal, 
se encostou sobre a mesa, e cobrindo-se com o Real sago militar, signi- 
ficando assim quo nao gostava tal ouvir, entao Perpena perfido fez o 
Sinai dado, derramando o copo; e no mesmo ponto bum dos iraidores 
romanos atravessou a Serlorio com bum punbai, e outros juntamente 
com vinte e buma punhaladas; e deixando-o envoltoem seu proprio san- 
gue, fugirao todos jiintos, temendo, que se o sabiao os Portuguezes, 
vingariào sua morte. Mas sabendo-o depois os Portuguezes, recolhcndo 
logo corpo morto, o levarào fora da Cidade, e tao Reaes exequias Ilio 
flzerao ao modo entao gentilico, e com sentimento tal, que a vista de 
tal morto se matarào a si proprios. nao so muitos soldados Portugue- 
zes, mas esquadroes d'clles inteiros, e as cinzas de tal Heroe trouxerao 
a Cidade de Evora, aonde Ihe derào Regia sepultura, Icvanlando-lhe co-* 
lumnas, e memorias immortaes. Entre os papeis se acbou o testamento 
fello por Scilorio; e n'olio se vio deixava por trcu universal berdeiro ao 



LIV. I GAP. XI V*^ 51 

falso amigo Perpcna. quo visto, se dobrou era lodos o scnliracnto da 
morte de hum Principe tao liei a seu proprio vassallo, e da infldelidade 
de hum tao traidor vassallo para coni seu mesrao, e tal Principe. 

71 Foi Sertorio, Romano segando o nascimento, porem segando o 
aflecto, e profissao foi connaluralizado em Porlugal, e casado na Lusi- 
tania Corte de Evora com Portugueza illustre, posto que nao deixou fi- 
Ihos ; e pode ser problema, se foi mais affeicoado aos Portugnezes, se 
OS Portuguezes a elle. certo he que nem elle diminuhio jamais o 
amor que tinha aos Portuguezes, nem estés o que a Sertorio tinfiiio, 
pois aiites de os Uomanos o matarem, vingar3o os Portuguezes sua mor- 
te; e achando-o morto depois, o honrarao com exequias Ueaes, e suas 
cinzas trouxerao a sua Corte de Evora, e Ihe derao Regia scpultura, 
aonde com o seu Senado esperarao o que fariao Metello, e Pompeo ; 
mas estes vendo quo o traidor Perpena com so outros Hespanhoes, mas 
sem Portuguez algum, estava ji; ambos o acommellerao, e vencendo-o 
facilmente, o prenderiSo, e o malarao, em vingan^a de os privar de (quan- 
do nao vencesscm, corno nunca venceriao) ao menos pelejarem com 
lium Sertorio, e com seu Portuguez fatai exercito : e deixando a hum 
Affranio por seu Capitao em Hespanha, ambos, Metello, e Pompeo, se 
relirarao a Roma anno de G9, tendo a morte de Sertorio succedido anno 
de 71, antes da vinda de Christo. 

CAPITOLO XIV 

Da vinda de JiiUo Cenar conlra Portugal. 

73 A té anno de 63 nao liouve guerras outras em .Hespanha, e 
Portugal, porque o Portuguez exercito, nao vendo jà a inimigo competente 
a quem ir buscar, elegerao o descanso das guerras passadas; porém os 
mais antigos Portuguezes da Serra da Estrclja, de repente sahirao com 
tal impeto sobre as terras a Roma obedìentes, que a toda a Hespanha 
pozerao em grande rovella, e a Roma obrigarao a mandar logo sobre 
Portugal grande Julio Cesar, Pretor de Roma, fillio de Lucio Cesar, e 
por aqui descendente de Julio Ascanio Rei de Alba, e fillio do grande 
Eoeas,, donde veio a familia dos Julios : mas a mài de Julio Cesar foi 
Aurelia, filha de Cayo Cotta descendente de Anco Marcio, quarto dos 
Beis de Roma: e porque o tal Julio Cesar nasceo no mez Quintil, (que 
era desdc Marco o quinto mcz) i)or isso o mez Quintil se cliamou Julio 



52 inSTORIA INSILANA 

ou Julho: e Gasando JuUo Cesar com Cornelia filha do Censul Cina, teve 
por filha a Julia, que casou com o Pompeo de que acimn tratamos. 

76 Corria o anno de 59 antes da vinda de Christo, quando o tal 
Julìo Cesar cntrou, bem a sua custa, em Portugal, e envestindo a Serra, 
e Serranos da Eslrella, foi muilas vezes por elles robatido com morte 
de multa gente, até que, nao pelo brago, mas por ardii militar venceo 
aos tacs Portuguezes, e pacificando a maior parte da Lusitania, deixan- 
do n'ella por Prelor a Tuberon, se voltou a Roma, onde no anno se- 
guinte foi eloito Consut com Marco Calphurnio Bibulo : mas tornando a 
Lusitania a fazer guerra aos Romanos, e vindo a acudir-lhes buns Le- 
gados de Pompeo, em quanto elle nuo vinha, e langando entretanto fora 
de Roma a Pompeo o mesmo seu sogro Jnlio Cesar, e cada bum d'es- 
tes procurando ter por si a Lusitania, e toda flespanba, o Cesar se 
adiantou, entrou em Ilespanha, venceo aos Legados de Pompeo, tornou 
a pacificar a Lusitania, e deixando nella por Pretor a Quinto Cassio 
Longuinho, se tornou a Roma anno 44 antes de Christo nascer, tempo 
cm que na Lusitania succederuo terremotos tao fataes, comò yi os tinha 
havido no anno de 63, e taes successos, e entradas do mar pela terra 
dentro, qne muita terra anliga occupou de novo, e a outra muita nova 
descobrio, onde nunca imngìnarào a haveria. 

77 Voltado a Roma Julio Cesar perseguio tanto a Pompeo que em 
Grecia o foi achar, o o venceo, e o fez ir a valer-se de Plolomeo Rei de 
Egypto, e esle infiolmonte deo a morte a Pompeo; e os dous filhos fu- 
girSo para Africa, e dalli para Ilespanha, e ficando em Cordova Scxlo 
Pompeo, e Cneo Pompeo em Seviiha, procuràr5o, com bum bom soc- 
corro de Portuguezes, vingar-se dos Legados de Julio Cesar, e os \en- 
cerao; mas voltando a Portugal o Cesar, e vencendo a Cneo Pompeo, 
por tralcio de bum criado deste o malou; e vindo o Sexto Pompeo In- 
go contra Cesar, se fez forte em Seviiha; Cesar se veio a Portugal, e com 
benignidade, mercés, e titulos, em chegando a Beja mandou Embaixa- 
dores de paz, e amizade a muitas Cidades Lusitanas, e recebendo d*ellas 
tambem Embaixadores, estes Ihe renderao vassallagem, e a Beja deo o 
titulo de Pax Julia, e de Colonia Romana; e passando a Evora, e con- 
firmou em o titulo de Mimicipio Romano, e taes favores Ihe fez, que 
d*aqui tomou o nome do LihemlHas Julia; e logo veio render-se-lhe o 
Reino do Algarve, e Cesar fez a Mertola Municipio Latino, e a chamou 
Julia ìUrtilis, Dc Evora cheguu Cesar a Santarcm, inlitulou-o Colonia 



LIV. I GAP. XY 



53 



Romana, e clia;nou-lhc Julium Prasidinm; e passando a Lisboa, d'ella 
foi bem recebido, e concedeo o ser Municipio dos Cidad3os Romanos, 
(cousa qne em a Lusitania nao leve Cidade outra alguma, posto qne às 
Colonias Unhao ainda por mais nobres) e Mie chamou Felicitas Julia; e 
sem entrar mais por Portngal, se vollou Julio Cesar de Lisboa para Ro- 
ma, onde entao se iutitulou Eraperador do ninndo; mas dentro de tres 
annos se Ihe acal)oii o Imperio, morrcndo alravessado com vinte e tres 
punhaladas, às maos de Bruto, e Cassio, e outros sessenla Romanos Se- 
nadores, e diante de huma estalua do grande Pompeo sea inimigo, em 
i3 de Marm, anno 42 antes da vinda de Christo. 

CAPlfuLO XV 

Do prÌHciiìio do Imperio ile Julio Cesar^ e uniào com Portngtd 
ale a tiuda de Christo, Senhor, e Salvador nosso. 

78 Morto Julio Cesar, cr»mecou em Roma a governar o Triunvirato 
de Ottaviano, (sobrjpho de Julio Ce<;ar) e de Marco Antonio, e do Con- 
sul Marco Lepido; e com esla occasiao, e chamamento de Roma foi Sex- 
Io Pompeo a ella su por vingar a morie de seu pai» e seu irmao: mas son- 
do seu exercito deltalianos sómente, foi emfim vcncido por Oclaviano: 
e por Marco Antonio foi preso, e morto, e acabou entao a geragao dos 
Pompeos. E entrando logo no mesmo Triumvirato a discordia. Marco Le- 
pido foi lanfado fora d'elle, por querer matar a Octaviano, e pouco de- 
pois fez esle guerra a Marco Antonio; e estc a si proprio se matou, por 
Ibe dizerem ser morta a sua amnda Cleopatra, a qual (sendo ainda viva, 
e sabendo i morie de Marco Antonio) a si propria se tirou a vida, e fi- 
cou Octaviano absoluto Emperador. E acabou em Roma nào so o gover- 
no de Consules, mas o do Triumvirato; e mudado o nome Octaviano, 
se comecou a chamar Augusto Cesar. 

79 Citegado o anno de 28 antes de vir Giiristo ao mundo, e estan- 
do quieta a Lusitania, os de Gali/^ entrarào pelas terras (|ue erao sogei- 
tas a Braga, e està se persuadio que tinhao sido chamados, e ajudados 
pelos naturaes, e comarcaos da Cidade do Porto, e vencendo Braga fa- 
cilmeDte aos que tinhao vindo de Galiza, declarou guerra contra o Por- 
to, e corno esie cbamasse em seu favor aos Romanos que andavao em 
Hespanha, entre os qqaes se achava jà o Emperador Augusto Cesar, com 



54 HI4T0RIA INSILANA 

osta occasiao enirarao a primeira vez os Romanos na Provìncia d'Entre 
Douro Minho, e se accendeo mais a guerra de Braga contra o Porlo: 
mas corno da parte de Braga até as mulhcres pelejavào mais que os ho- 
mens, depois de varias batnlhas, e victorias, que os de Braga alcancarao 
dos do Porto, Augusto emfim compoz eslas Cidades com paclos mui ven- 
tajosos de Braga sobre o Porto, e a Braga concedeo o tilulo de Colonia 
Romana, e de se cliamar Augusta: e d'aqui sempre flcou alguma antipa- 
tliia entro estas duas Cidades de Braga, e Porto. 

80 E porque Augusto Cesar por algura tempo se deleve em Tarra- 
gona de llespanha, duas cousas n'eila fez, com que a si se fez mais ce- 
lebre: primeira foi, mudar o modo do coniar os annos, porque se antes 
se dizia v. gr. (succedeo islo tantos annos depois da creacao do mun- 
do: ou, tantos depois do diluvio, ou, depois da Fundacao de Roma, eie.) 
mandou que d'ahi por diante se dissesse, (tantos annos da Era de Ce- 
sar:) e porque trinta e oito annos anles do nascimento de Christo ven- 
ceo este Augusto Cesar a seu compelidor Marco Antonio, mandou quo 
d'aquelle anno por diantc se contassem de novo modo os annos, dizen- 
do-se sórnente assim, (Era de Cesar, tantos annoij querendo que nera 
seus annos todos ficasscm em memoria, senao os em que acabàra de 
vencer seus inimigos, e assim quem aos annos do nascimento de Christo 
Senlìor nosso accrescentar trinta e oito, farà justamente os annos da Era 
de Cesar; e pelo contrario quem d'està tirar 'óS annos, justamente acer- 
larA OS annos do nascimento de Christo; cousa muito necessaria para 
bem se enlendereni os tempos^das datas, ou assignaturas de escrituras 
antigas. Mas comò o mesmo Cesar, so dous annos antes do nascimento 
de Christo se tornou de Hespanha para Roma, e aìnda n'esles dous an- 
nos acabàrao seus exercitos de vencer por là os Alemaes, Armenìos, e 
Parthos; e por cà acabàrao de sugeitar de lodo a llespanha, e apaziguar 
a Portugal na sua Provincia ultima d'Entre- Douro e Minho; com mais 
razao querendo o dito Cesar que a conta de seus annos comefasse des- 
de quando acabou de vencer seus inimigos, houvera de comefal-a desde 
que acabou de vencer a Portugal, que foi a ultima corea de todas suas 
victorias. Porém n'isto mesmo ainda, e muito ao depoìs venceo Hespa- 
nha ao dito Cosar, que deixando a era d'esle no contar, comegou em o 
Beino de Aragao, e logo no de Castella, a contar os annos, desde so o 
nascimento de Christo Salvador nosso, anno mil e qualroccntos e quin- 






LIV. I CAP. XM 5o 

ze, e a «sta Divina conta lomou a Coma de Porlugal, rcinando o inviclo 
Rei D. Joao I. 

8i Ullinfiamcntc alTectou esle Augusto celebrar-se com o edicto, qiie 
referc o sagrado Evangellio, qiie se tornasse a rol, e se iTialriculassc lo- 
da o mundo, corno se lodo estivesse dehaixo de seu imperio Romano; 
mas ignorava que cnlilo (aos 3%2 annos da creacuo do mundo, 230G 
do diluvio de Noè, em o Reino de Judéa, em a ditosa Cidade de Be- 
tlilem, aos 25 dias de Dczembro) o verdadeiro, e Divino Emperador de 
ludo o que Deos omnipotente creou, e creara; nasceo feito homem por 
virtude do Espirilo Divino, e da sempre immaculada e sacralissima Yir- 
gem Maria, Senhora nossa, na qaal o Verbo Divino, segunda pessoa da 
Santissima Trindade, e Unigenito Filho do mesmo Padre Eterno se unio 
i nossa humana natureza, e tao ineflavel composto fjcou sendo, junta- 
mente Deos» e Homem, e em quanto Homem sem Pai, porém com a ver- 
dadeira, e humana Mai, e em quanto Deos sem Mài, e s6 com seo Eter- 
no Pai; e foi unicamente o que ti-ouxe a verdadeira paz ao mundo todo, 
e na Cruz (em que morreo por nos remir do cativeiro das culpas) a ver- 
dadeira Victoria de todas nossas guerras. 

CAPITULO XVI 

Conclusdo do principio das Ilhas. 

82 Supposto assim o brevissimo compendio dos Reis, e guerras qiie 
hoave em Uespanha, e Portugal, desde o diluvio de Noè ale o ineflavel 
nascimento de Christo Salvador nosso ; conclue-se primo, que nem as 
Ilbas do Oceano forao alguma bora parles da terra Firme, nem no Oceano 
boove a fabulosa Uba Atlanta, pegada com Àfrica, e Ilespanba, mas im- 
mediato a estas correo sempre o Oceano, nem (o que mais falsamente 
se oppanha) nem Reis alguns de He^[)anha, ou Portugal forao jd mais 
invadidos, e muito menos vencidos em batalbas pelos Reis, que na Atlanta 
se sappoem terem reinado, nove mil annos antes de Platuo, porque, se 
se fallava de annos Solares, consta que muitos menos tinba o mundo 
desde sua creacao, e se Plalao fallava de annos de quatro mezes, (corno 
em algum tempo se conlavao em o Egypto) ainda vinhào a ser tres mil 
annos de doze mezes, e nem tantos havia que tinba succedido o diluvio 
de Noe; e se fallava de annos Lunares, em nove mil de Lunares nao ha 



56 HISTOIUA INSULANA 

mais que setecentos e cincoenta de doze mezes, quo com qualrocenlos 
e cincoenla (quc de Platao corriào atè a vìnda de Chrìsto) faziiio mil e 
duzcntos antcs da vinda do Rcdemptor; tempo em que noticia nao liavia 
da tal Atlanta em Hespantia, e Lusìtania, e nem nesla havia Reis entao» 
e logo se llie seguio oRei Gorgoris Mellifluo, corno vimos acima no cap^S. 

83 Conclue-se pois segundo, que o verdadeiro principio, e creasse 
das Ilhas, que estao no Oceano, he o«que se colhe da Sagrada Escritu- 
ra, Genes. i, aonde creando Deos em o primeiro dia o Geo,, a terra, e 
a luz; e no segundo dia o Firmamento no meio das aguas, e chamando 
ao Firmamento Geo, entao no terceiro dia mandou que as aguas, que 
estavao debaixo do Geo, se ajunlassem em hum lugar, e apparecesse 
secco todo lugar que deixavao, e a este lugar, deixado secco, pozDeos 
por nome Terra, e às aguas separadas chamou Mares, e porque a natu- 
reza do elemento da agua he buscar sempre da terra os valles mais pro- 
fundos, a estes se recolherao as aguas; e corno sobre os valles se levan- 
tava a terra em vastìssimas alturas, e d'estas erùo muitas unidas humas 
com outras, e com menores valles entre si, outras alturas porém erào 
entre si separadas com mais prorundos valles intermedios, a estes tam- 
bem as aguas occuparao, tanto em circumferencia das suas proprias al- 
turas. que fìcarào sendo Ilhas; porém as outras alturas mais unidas en- 
tre si com valles menos profundos, fìcarào sendo a que chamao terra 
firme. E ainda que o sagrado Texto diz que mandara Deos se ajuntas- 
sem as aguas em hum lugar, (Congregentur aqucB in locum unum)^ nem 
por isso quer dizer, que aquelle lugar fosse hum so por identidade, mas 
que fosse hum per continuativa uniào, corno em effeito vemos, que o 
Oceano Occidental com o Orientai se une, e continua o Mediterraneo 
com Atlantico, e assim os outros mares. 

84 D*este mesmo modo pois, com que comecarao as Ilhas em o 
principio do mundo, tambem d'este mesmo modo tornarao a comecar, de- 
pois do diluvio de Noè, e persistem ainda hoje: e Oca mais manifesta a fa- 
bula d'aquella liba Atlantica, a uniao d'ella com Hespanha, e Africa, os 
fingidos Reis que tinha, as imaginadas guerras que Azera, e que vence- 
ra, e a sua fabulosa destrui^ao, deixando ao Oceano feito hum fatai paul, 
cu apaulada lagoa, que depois n'este Oceano se convertesse outra vez; 
pois isto so s5o sonhos, que a Platao occorrerao, ou Ihe disserao; pois 
de tal nao trata historia outra alguma, havendo tantas de antiguidades 
do mundo, assim de antes do diluvio, comò ainda mais depois d'elle. 



IJV. I GAP. XVI 37 

85 E se alguem perguntór, quando antcs do diinvio, ou depois 
d'elle forao algumas Uhas povoadas : ao tempo antes do diluvio dirSo 
alguns que o Paraiso terreal foi a primeira lllia feila por Deos nesso 
Senhor, e povoada por Adào, e Eva lego no principio do mundo; e que 
parece que assim se colhe da Sagrada Escritura, aonde se diz, que tendo 
Deos separado as aguas em hum lugar, e descuberto a terra, que cba- 
matnos terra firme, (Genes. i, n. 9.) accrescenta cap. % n. 8, que jà 
desde o principio linha Deos plantado o Paraiso, e que nelle poz o ho- 
mem que creara: Plantucerat autem Dominus Deus paradisum à prin» 
eipiOj in ^uo posuit hominem, quem formaverat, eie. LogO esle Paraiso, 
que d'antes, e desde o principio tinha Deos plantado, era terra diversa 
d*aquella terra firme, que Deos apartou das aguas ; logo era alguma 
liha das aguas cercada, pois o mesmo texto accrescenta, num. 15, que 
da terra tomou Deos ao homem, e o poz no Paraiso ; e num. 23, con- 
clue, que do Paraiso Qeos tirou depois ao liomem, e o tornou a por na 
terra, de que o formara : Et immisit eum Dominio de paradiso, ut ope» 
raretnr terram de qua sumptus est : logo està terra era a firme, e o Pa- 
raiso era huma liha por so Deos formada a principio, e por Adao primo 
habitada: mas iste nao toca a historiador, senuo aos sagrados Exposito- 
res, aonde se. pode ver: pois d'està sorte parece comecar3o logo as Ilhas 
€om a creacao do mundo. 

80 E quanto ao tempo depois do diluvio, coherentemente outros 
dirio, que, assim corno o Paraiso terreal Tei a primeira Uba antes dodi- 
lavk), assim depois deste a primeira Uba foi a arca de Noè, em que os 
viventes escapar3o do diluvio, comò escapao do mar os navegantes re- 
colbeDdo-se a Ilhas, que para esse firn tambem Deos as creou, E que 
assim corno o mar, separando-se da terra firme, deixou nao so a Uba do 
Paraiso intacta, mas a outras muitas Ilhas, de que nao faz mencao a 
Sagrada Escritura : assim tambem as aguas do diluvio univorsal deixa- 
rio, além da sua Uba, ou arca de Noè, a outras muitas Ilhas, quando 
se recolherau, e cessarao as aguas do diluvio ; e d'estas Ilhas nao dire- 
iDos DOS agora, mas sómente de algumas, quando, e por quem se man- 
teo descobrir, e povoar; e por quem se descobrirao, e povoarao. 

FIM DO LIVRO l'RIMKIHO. 



INSULINA LUSITANA 



DAS ILHÀS CHAMADAS CANARIAS, E DAS DE CAHO VERDE. 

CAPITULO I 

Do principal deseobridor de llhas, e de occuUas Urras firmeSf 
Serenissimo Infante D. Ilenrique. 

{ Sendo decimo Rei de Portugal Dom Joao I, do nome, e casado com 
a Infante D. Felippa, neta dei-Rei D. Duarte III, de Inglaterra, e filba 
(Io Infante D. Joào Duque de Alancastre, e de sua mulher Branca, ber* 
deira do Ducado, dos qnaes nasceo Ilenrique, Duque do Alancastre, e 
depois Rei de Inglaterra : teve o dito liei D. Joao I, da tal Rainha D. 
Felippa, depois do Infante D. Duarte, qua Ihe succedeo no Reino, e do 
Infante D. Fedro, Duque deCoimbra, teve ao nosso Infante D. Henrique, 
Doque de Vizeu, Mestre da Ordem de Ghristo, senhor de Lagos, e Sa- 
gres no Aigarve, cujos irmaos mais mocos forao D. Isabel, que casou 
com Fetippe Uuque de Borgonha, e Conde do Flandres, e D. Joao Mes- 
tre de Santiago, e pai de D. Isabel, que casou com D. Joao, Rei segmido 
do nome, de Castella : e antes de ser Rei, e ter os ditos filhos legitimos, 
tinha jé o nosso D. Joao o I, de huma D. Ignez, que ao depois foi Cosa- 
meodadeìra de Santos, a bum fìllio por nome D. Affonso, que casou com 
D. Brites, fitba unica, e herdeira do grande Condestavel U. Nuoo Alvrez 
Pereira, e foi o primeiro dos Serenissimos Duques de Braganca, «ijya 
fllha D. Isabel casou com seu tio o Infante D. Joao, Mestre de Santiago, 
de que nasceo D. Isabel, Rainha de Castella, e D. Brites, que casou com 
sea primo o Infante D. Fernando, fìllio d'el-Rei D. Duarte, e irmao de 
D. Alfonso V. 



(50 HISTORIA INSULANA 

2 Nascco pois o nosso Infante D. Ilenrique em a Cidade do Porto 
a 4 de Marco de 1394, na quarta feira de Cinza; n'ellc competirao as 
virludes de luim grande Principe com as de perfeitissimo Calholico. Nos 
primeiros annos se deo tanto as letras, que além de bom latino, sahio 
lumi insigne Mathemalico, e singular Cosmographp, e so por melhor 
contemplar cm as estrellas do Geo, escolheo para sua especial habitai^o 
a mais alta montanha no Cabo de S. Vicente, onde poucas vezes chove, 
raramente o Geo se turba, e sua serenidade se ve ordinariamente pa- 
tentissima, e d'aqui, e de antigos escriptos que ajuntou, e observacoes 
que fazia, veio a alcanc^F, que pela parte do meio dia se podia nayegar 
a India Orientai, e que na demanda d*este descobrimento se descobrì- 
riào muitas, e varias Ilhas, que no nosso Oceano, e em outros roares 
mostrava o Geo que havia ; e tanto se afTeiQOOu ao estudo das letras, e 
a todos OS que a ellas se entregavao, que até seu proprio palacìo que 
em Lisboa tinha, o deo para nelle se formarem estudos novos, em que 
as letras, e sciencias se ensinassem, e aprendessem. 

3 A tao grande estudiosidade ajuntou este verdadeiro Principe tao 
grande applicando a nobilissima arte da Gavallaria em a terra, enavega- 
Cao por mar, que dos maiores pilotos era elle o maior Mestre, e dos 
mais déstros homens de cavallo era Principe destrìssimo, comò adverte 
Joao de Barros, i. part. cap. 17, e veremos largamente n'esta obra; e 
d'aqui lUe veio a este Infante aceitar o perpetuo governo do Reìno do 
Algarve, por alli Ihe vir a melhor eavallaria que havia em Africa, e d*alli 
mais facilmente mandar embarcacoes a descobrimentos que intentavat. A 
estas moraes, e regias virtudes ajuntou tao Beai liberalidade em premiar 
servigos, tao inflexivel justiga em distinguir huns dos outros, e castigar 
a culpados, que ao seu palacio, e ao seu servilo acudiao os melhorcs 
fidalgos, e seguiao a pessoa de tal Principe em os maiores couflictos, 
e Ihe dcfendiao os póstos, e as pragas com toda a fidelidade, e valor, 
sabendo terem todos nao so pontual a paga, mas seguro o premio e 
augmento. 

4 Competirao pois tanto n'este Principe as virtudes naturaes, e 
muito proprias de seu alto estado, com as sobrenaturaes da alma para, 
e Catholica, que nao so nunca admittio fallar-se-lhe em casamento, mas 
(com viver setenta annos) foi tao puro, e exemplar em seus costumos, 
que morreo virgem purissimo; e na verdade a quem tao bem occapado 
andava sempre, e em taes yìllades moraes se exercitava, nSo costuma 



LIV. II CAP. I CI 

Deos Taltar com sobrenaturaes auxìlios, para cooseguir lambcm as vir- 
tades mais Di\ inas ; que a quem nunca està ocioso, mas sempre bem 
occupado, nera o proprio demonio se atreve a tenlar. A pureza pois 
ajunlou este Catliolico Infante tao Divina Fé, Esperanca. e Charidade, 
(|ue pela Defensao da Fé se poz fronteiro perpetuo no Algarve conlra 
teda a perQdia Maliometana de Africa; e ainda (corno em seu lugar v(- 
remos) foi expòr a propria vida pela Fé nas Catliolicas pracas cpie jà ti- 
lìhamos entre os mesmos Maliometonos; e com descobrir tantas Ilbas, e 
tio Dovas terras firmes, nas cm que liavia genles, fez logo [)régar a Fé 
Catholica» e povoar de Calbolicos as que estavao despovoadas. A cbari- 
dade (ainda com o proximo, quanto mais com Deos) mostrou coni elTeito 
maitas vezes em arriscar a propria vida por salvar a de seus vassallo^v 
nos encontros que a seu tempo veremos teve com os Mouros; e no mo- 
te, oa divisa que tinba em suas reaes armas, em as quaes se lia, «Von- 
lade de bem fazer.» 

5 Com està tao real, e ajustada vida adquirio tanto poder em està 
Monarchia Lusitana, que qualquer intento que emprendia, acabava ; e 
a^im OS Reis, seu pai, irmào, e sobrinho, d elle confìarào sempre nao 
so perpetuo governo do Reino do Algarve, porta de Africa para Iles- 
paoha, mas tambem a grande administra^ao, e Mestrado de toda a Or- 
dem Uililar de Christo, e suas muitas, e muito grandes terras, Com- 
iDendas, e datas, com que vinlia a ser Imm segundo Rei de toda a Mo- 
narchia Lusitana ; e até o mesmo Papa Eugenio IV Ihe deo sua propria 
authorìdade para reformar a Ordem de Christo; julgando, e com razao, 
qoe tao ajustado Principe, ainda que secular, de Kegulares podia ser 
Beformador perfeito, comò de facto o foi; e entre as grandes datas qne 
i Ordem de Christo deo, foi, fundar-lhe huma rica Ermida junto ao Tejo, 
quasi legna de Lisboa com a invocagào de N. Senbora de Bethlem, (d'on- 
de tornea o nome a alta torre, ou Castello, que dentro do mesmo rio 
se levantou depois defronte da dita Ermida) e para està mandou vir do 
Convento de Tomar Deligiosos Militares, que servissem a Senbora de 
Bethlem, e recolhessem, e hospedassem os que, vindo em nàos de fora, 
alli parassem ; para o que Ihes doou rendas copiosas, e com so huma 
liissa cada Sabbado por sua alma ; 'tanta era a devogao com a Virgem 
Mii d este grande Principe, e tanta a charidade com os proxiaiog|,| 
cìalmente navegantes. 

6 Està Ermida porém, e suas rendas tirou da Ordem ^ 



m a Yirgem 



62 IIISTOKIA INSILANA 

El-Bei D. M«nnocI, sobrinho do dito Infante D. Ilenrique, e cm lugar 
d'ella deo a Ordem a Igreja de nossa Senliora da Conceicao, que està 
fora de Lisboa, e linlia sido de anles synagoga dos Judeos, quando ainda 
se nao tinhao convertido; e na Ermida de Bclhlcm fundou bum magnifico 
Convento aos Ueligiosos de Sao Ilieronyrao; e porqueo dito Rei morreo 
anles de o acabar, deixou que seu corpo se d{?positasse na Ermida velha 
de Bejblem, e depois cm se acabando a regia fgreja nova, para ella se 
trasudasse o dito seu corpo ; e que seu successor, e fillio El-Rei D. 
JoHo III, acabasse a Igreja, e Convento, corno ludo acabou, e com tal 
magnificencia, que foi depois sepultura de outros Keis: d'onde podemos 
dizer que ao grande Infanle I). Ilenrique deve conbeccr tambem por seu* 
Fundador primeiro o magnifico Convento de Belblem; e a dita Conceicao 
Ulyssiponense da Ordem de Cbrislo. 

7 Cliegou finalmente a morte a este, na fama, immorlal Principe, 
em 1463 a ireze de Novembro, dia cm quo ao depois veio a celebrar-se 
a festa de outro illustre Principe o Santo Stanislao Kostka, Polaco, da 
Companhia de Jesus, e o transito do Santo, cbamado Homobonus, pro- 
curador insigne da pobrcza, e bem commum ; para se nos ensinar que 
nosso Principe Ilenrique nao so foi Religioso, e Santo Principe, mas 
verdadeiramenle bomem em ludo pio, e bom. Morreo pois de idade de 
quasi setenta annos. De seu lestamenlo se diz que deixou a conquista, 
e descobrimento de novas terras A Coroa real,5que entao tinlia seu so- 
brinho D. Afl'onso V, e porque tinha adoptado por fillio a seu sobrinho 
Infante D. Fernando, quo era casado com D. Briles, sobriiilia tambem 
do mesnfK) D. IIenri(|ue, e filha do Infante D. Joao, ao dito D. Fernando 
deixou Mestrado da Ordem de Christo, e com elle as Ilhas da^Madeira, 
de Cabo Verde, e das Terceiras; e ludo (corno diz Damiao de Goes) con- 
firmou El-Rei; e por morte do dito I). Fernando passou ludo ao Infante 
D. Diego, (a quem matou El-Rei D. Joao. II), e deste D. Diego passou 
tudo ao Infante D. ManocI, que depois succedeo no Reino a seu cunliado 
U. JoSo II, mas tudo o dito Rei D. Manoel encorporou depois na Co- 
roa, d'onde nunca mais salilo. 

8 Faleceo no seu Reino do Algarve, em a Villa de Sagres, e d'ahi 
foi seu corpo trasladado para a Villh da Bataiha, e n ella jaz em aquelle 
real Tempio, que seu pai D. Joao o I edificou; sua sepultura està junta 
à do pai, comò as dos mais Infanles seus irmaos: porèm a do nosso D. 
Ilenrique està dourada, e lem por divisa duas bolsas, e lelras tambem 



LIV. II GAP. II 63 

doifradas, porque por sua industria se descolrio tambem a Mina, do que 

vioba muito ouro a Portugal. EmAm que a cste grande Inrante D. Hen- 

rique parece nao deve menos a Coroa de Portugal, do que ao grande 

Conde D. llenrique, tronco dos Reis d'està Corea, e seu exemplar, nao 

menos em o nome, qae nas obras : porque com suas virtudes admira- 

veìs, com suas Uivinas letras, (ou revelacoes Divinas, na opiniao de mui- 

ti)s) e com seu braco ìnvencivel sugeitou mais Reinos é Coroa de Tortu- 

gal, do qoe nesle o outro llenrique terras : fez converter mais Gcntios, 

do que o outro venceo Mouros, e se o primeiro llenrique, so por dila* 

lar a Fé de Christo obrou tanto, tudo o que o nesso segundo empren- 

deo, e descobrio, é Ordem de Christo o sugeitou : com que ficou csla 

Ordem tendo bum tao vasto Imperio, que nao se assignarà outra cm o 

mando que o tcnha mais dilatado. Tanta se deve a tal Principe. 

9 Mas comò quem mais Ihe deva, suo as llhas, de que em especial 
se compoem està historia, para a qua! so tocamos està noticia prcambu- 
la, e brevissima, pois sua vida requerc penna mais subida, e ampia, ra- 
tìo, lic continuemos com os mais presupposlos a està obra. 

CAPITULO II 

Do anlùjo^ e ftel llialoriador das Ilitns, o Reverendo^ 
e Veneraeel Doulor Gasjwr Fruclnoòo. 

10 Em a Cidade de Punta Delgada da liba de S. Miguel, em o an- 
no do nascimento de Christo Senlior nosso de 1S2t2, nasceo o Uoutor 
Gaspar Fructuoso; seuì pais erào Cidadàos da dita Cidade, e nao so do 
sangue limpissimo, mas ricos, e muito nobres. Desde o primeiro uso da 
razao deo logo mostras de muito devoto à Virgem Senhora nossa, e era 
de tao boa indole, e mansidao, que a todos levava os olhos sua grande 
iDclinacao i virlude; come^ando a esludar Grammatica, foi logo conhe- 
ddo nao su do Mestre, e mais condiscipulos, mas da nobreza da terra, 
por sogeito que ao depois viria a ser bum grande homem em santida- 
de, e lettras; mas, comò ainda em este tempo se davao de sesmaria as 
descubertas terras daquella nova Ilha, e aos pais do estudante se tinbao 
dado muitas que elles mandavao lavrar, e cultivar, ordenàrao ao seu Gas- 
par, fosse em os dìas de semana de manhS assìstir aos homens, que cui- 
livavào as terras, para que o (ìzesssm com cuidado; poròm a applicagào 



Gì HISTORIA LNSULANA 

do filho era lai aos seus livrìnhos, que indo a vigiar os trabalhadores, 
pegavà lego dos livros de tal sorte que nao despegava dgBiles; e aclian-' 
do-o assiin o pai por muitas vezes, e aos seus trabathadores descuìdados 
do trabalhOj enradado repreliendeo asperameute'aó Gibo, e Ihe disse que 
ji que DUO prestava para lavrador, elle o mandaria fora de sua patria a 
cstudar às Universidades ; e com efleito depois de pouco tempo embar- 
cou filho para Porlugal, donde o mandou a Salamanca, e n'eUa Ihe 
mandou assistir com mezada nobre, e que estudasse; donde.se segifio, 
que ch^gando o filho d'ahi a annos a ser Vigano da Parochial da Villa 
da Ribeira Grande: e fazendo hum rico frontal para o Aitar mór, man. 
dou por nelle o seguirne quasi enigma, qoe representava em o panno 
do meio do frontal, da parte do Evangelho, hum Ugurado arado, de bor- 
dado de euro, e por baixo d elle huma letra que dizia: «Se soubera», 
e da parte da Epistola hum semelhanlemente figurado livro, e por baixo 
d'elle outra letra que dizia: «Nao soubera»; e isto vio, e reparou, ha 
quasi cincoenta annos, quem agora isto escreve. Ohi se hoje os pais en- 
tendessem bem este enigma, e melhor o praticassem, nao dando estado 
a seus filhos contra a licita inclinacuo, e vontade d'elles, quanto maiores 
augmontos, e credilos de suas casas Ihes resultariaol 

11 Chegando pois o maucebo a Salamanca, e jà perfeilo Latino, co- 
mecou, e acabou de estudar Filosofia, com tao exceliente engenbo, pe* 
netragao tao profonda, que foi niella nao so graduado, mas venerado de 
todos; e vendo-se jà chegado a idade de podòr-se ordenar de Sacerdo- 
te» se voltou à sua liha para tornar as Ordens, e todo se dedicar a Deos, 
e à sua Igreja. Chegado a liha, repararao todos vir nào so tao sabio com 
os estudos, mas tambem tao exemplar em os coslumes, que n3o so Ihe 
derao todas as Ordens Sacras com geral applauso, mas de todos os es- 
tados concorriao muitos a pedir-lhe conselho, e communicar com elle 
suas consciencias, e com isto fez jà entao grande abaio, e mudanga nos 
que tratavao. Mas vendo que Ihe fallava ainda a perfeila Theologia, e 
Mofal, (por mais que tivesse jà de Theologia mystica). 

12 Yoltou-se da sua liha a Salamanca, por se aperfei^oar em tao . 
maiores sciencias; e sendo n'ellas seu Meslre o Doulissimo Fr. Domin- 
gos de Soto, da Sagrada Ordem de Sao Domiugos, taes progressos fez 
em toda a Theologia, e tanto o respeitava o dito seu grsinde Mestre, que 
em Ihe perguntando tal discipulo alguma duvida, coslumava o Mestre 
pcdir tempo para a ver, e satisfazer-lhe. procedim^cnlo nos coslumcs. 



LIV. II GAP. U 65 

e exemplo da vida que fazia esle sujeìto, era tal, com ser ainda mau- 
cebo, e cursante aìnda, que com n'aquella celebre Universidade lìaver 
Uotos, e tao insìgnes talentos ein virlude, e ietras, todos veneravao ao 
dito Fructuoso, e concorriao a elle por conselho, e todos d'elle tiravào, 
aioda mais que do nome, grande fruclo; e assìm conclubio os seus es- 
tudos, graduado Doutor nào so nas Artes, mas em toda a Tbeologia. 

13 De tal Doutor correo tanta fama d^ sciencia, e santidade, que 
cbegaodo ao Bispo D. Juliao, em cuja Diocesi està Braganga, para ella o 
pedio com muila instancia, e por conselbo de seu Mestre Soto veio o 
Doutor para Braganga, a foi singular aiivìo para o Bispo no governo do 
Bispado. £ porque jà em Salamanca tinba enlrado a ainda nova entao 
Relìgiao da Companhia de Jesus, cujo Collegio tinba ido a fondar o Pa- 
dre Miguel de Torres, com este teve o Doutor grande familiaridade, o 
tal coDceìto formou da Companbia, que d ella disse ao dito Padre mui* 
tas cousas, que ao depois se virao terem sido profecias; e comò tambem 
em BragauQa bavia ja Collegio da Companbia, cujo Reitor era o Padre 
bui Vicente, esteve o Doutor algum tempo em Braganca, lendo alterna- 
tivamente Casos com os Padres da Companbia, e tendo jà no Bispado 
BeDeDcios, que passavao de mil cruzados de renda cada anno; com tu- 
do deiiando entao D. Juliao o Bispado, e morrendo D. Jorge Bispo das 
Ubas Terceiras, a quem succedeo D. Manoel de Almada, que ainda es- 
tava em Lisboa, este se empeobou tanto em levar comsigo para as di tas 
llhas ao Doutor, que o mesmo Bispo, e muitos nobres d'ellas, que na 
dita Corte estavao, escreverao todos ao Doutor, pedindo-lbe se viesse 
para a sua Uba, e Ihe maudàrao as cartas por bum seu sobrinbo, para 
mais persuadirem. 

li Doutor Fructuoso vendo isto, e persuadindo-se ser maior ser- 
vilo de Deos voltar à sua Uba. se foi logo ver com o seu novo Bispo D. 
Àatouio Piuheiro, (que tinba succedido a D. Juliao) e renunciando em 
suas maos os Beneficios que tinba, sem tirar pensao alguma, conseguio 
delle licenza, (que multo sentido a deo) e se veio a Lisboa ao Bispo D. 
Ihnoei; e vendo este, e observando, na sciencia, e virlude do Doutor, 
que sua preseiH;a accrescentava, e em nada dimìnubio a sua tao grande 
lama, tratou com elle, e com o Rei, que aquelle Doutor fosse o Bispo 
de Angra, e que elle D. Manoel se flcaria em Lisboa; mas nem o Rei 
pode acabar com o Doutor que aceitasse, (tanta era a sua virlude, tao 
youca a sua ambicao) e porque estava entio vaga a Parocbial Igreja da 
\ot. 1 5 



66 HISTORIA INSLLAXA 

Villa da Ribeira Grande em S. Miguel, està aceitou o Dontor, com ^er 
de menos renda, do que era a dos BeneHcios qiie renunciàra: instou-lhe 
entao o Bispo, que ao menos, em quanto elle Bispo n2o hia para o Bis- 
pado, aceitasse d'elle o governo, e o avjsasse de todo o que importas- 
se. Respondeo-lhe o Doulor, que o bom governo de qne mais necessi- 
tava seu Bispado, era de haver n'elle CoIIegios da Companbia de Je- 
sus; que tratasse disto, e descansasse entao. 

15 Chegado à sua liha de S. Miguel, foi n'ella recebido o Doutor 
Gaspar Fructuoso corno bum Pai da Patria, e todos com elle communi- 
cavao snas consciencias, tomavSo seus conselhos, e venerarao suas ra- 
ras virtodes, e comecou logo a ser o Director espirilnal, o Mestre, e Con- 
fessor d'aquelle grande espirito da Vcneraveì Beata Margarida de Cha- 
\es, naturai da Cidade de Fonia Delgada, e n'ella tida, e vencrada por 
Santa: cuja vida, e obras maravilhosas veremos em sai lugar; e ambns 
estes dous sugeitos rogàrao tanto a Deos puzesse n'aquellas Ilhas CoIIe- 
gios da Companhia, e tanto persùadir3o aos mais pios, e nobres Cida- 
daos procurassem assira, que o Serenissimo Rei D. SebastHo fundoti 
logo Collegio de Angra na Uba Terceira, e desta comecarao a ir Pa- 
dres em Missao a liha de S. Miguel, até que n'esta tambem, pelos mai» 
devotos moradores d'ella se fundou o Collegio que boje tem, e que via 
comecar o mesmo Doutor Fructuoso, e com tao estraordinario gozo seu, 
que vendo-o dizia publicamente, e em voz alta, iVunc àimiitU sertum 
tutm Domine, etc, E assim podemos dizer que ao kIo, e oragoes d'estc 
grande servo de Deos, e da sua confessada a Beata Margarida de Cha- 
ves se deve a fundacao do Collègio da Companhia de Jesus da Uba de 
S. Miguel. 

16 Em cbegando este Doutor a tomar posse da sua Igreja da Ri- 
beira Grande, (que da Cidade de Penta Delgada dista so tres legoas) co- 
mecou logo a tratar da dita Igreja, e em sua vida tanto a augmentou de 
ricos ornamentos, e preciosas pefas, qoe todos diziao que jà nao paro- 
eia sen5o buma Igreja de Padres da Companhia. Do pulpito elle era o 
Prégador continuo; e com ser zeloso, e no reprehender severo, cada vez 
concorrilo mais ouvintes a ouvil-o, e da Cidade o perseguSo muitas vo- 
zes que Ibes fosse là pregar, e ninguem j4 mais se sentio queixoso d'el- 
le, pela virlude, e exemplo que n'elfe admìravao todos. No administrar 
dos Sacramentos era t3o indefeclivel, que n'isso, quanto podia, aliviava 
multo aos seus Curas. Tendo gastado loda a manb3 em confessar, dizer 



Liv. n CAP. II 07 

ITtssa» pregar, e dar a CommunIi3o, e vindo jà depois do meio dia para 
casa a hospedar pessoas graves que esperavSo por elle, e estando todos 
pondo-se à mesa, chegou a porta hnma veiha, pedindo-lhe que a fosse 
confessar, porque viera ja tarde; pedio muìto aos liospedes que jantas- 
sem, e nào esperassem por elle, e sem tornar bocado> o nao podérSo de- 
ter, e se foi para a Igreja. 

17 Mas quem poderà recopilar d'este admiravel Var5o suas virlu- 
des? As Theologicas, Fé, Esperanpa, e Charidade, n'elle estavao tanto de 
assento, quanto em tlio sabio, e tao subido Tbeologo; pois perguntando 
por vezes, porque mais se applicàra à Theologia, do que a outras scien- 
cias, costumava responder, que por melhor se salvar; e assim pela gran- 
de Tbeologia que alc^ncou, e frequencia que tinha de toda a Sagrada Es- 
critura, nunca em materias de Fé teve nem a minima duvida; antesou- 
vìndo ser falecido o Padre Gonzalo do Rego da Companhia de Jesus, na- 
turai da mesma Uba de S. Miguel, e que tinba estudado em Salamanca, 
companheiro do Doutor, e a este, passando por Evora, o tratou singu- 
Ivmente; ouvindo pois ser falecido o dito Padre, disse advertidamente, 
qoe nao onsaria encommendalo a Deos, mas Ihe pediria o encommen- 
dasse ao Senbor, porque sabia ser bum grande Santo, e por tal julgado 
na Provincia da Companbia: e ouvindo o martyrio que o Francez Jaquez 
Sona, herege, dera ao Santo Padre Ignacio de Azevedo, e a todos seus 
companheiros, e comò S. Pio V, Pontiflce entao da Igreja, mandàra que 
por elles se nao dissessem Missas; perguntada a razao ao Doutor res- 
pondeo, que quem roga pelo Martyr, faz injuria ao martyrio, e que a 
laes Santos Martyres baviamos nós rogar, que elles rogassero por nós. 
E de tao grande Tbeologo me persuado eu, que estas resolu^oes nSo fo- 
no senao revelagóes Divinas, e partos da grande Fé de bum tao Santo 
Doutor. 

18 Pois de sua Divina Esperanca as provas s3o, a continua instan- 
cia, com qoe a Deos, e ainda aos Reis, e aos Bispos, pedio houvesse 
nas Ilhas Collegios da Companbia, e o conseguio, e vio em sua vida: e 
tambem a conGanca com que estando em Salamanca, e correndo bum 
anno totalmente estetil, e faminto, sem Ibe cbegarem a elle, nem aos 
seas dous companbeiros, os annuaes provimentos das suas Ilbas, e ven- 
do-se jà em quasi extrema necessìdade, e por outra via requeridos pela 
paga do que tinbao tomado fiado, o Santo Doutor os exbortou a espe- 
rarem em Deos, e se recolbeo a seu estudo; e passadas poucas boras 



68 raSTORIA INSULANA 

chamàrao o Doutor & porta, e Ihe enlregàrao hum copioso presente de 
maDtimentos, nao se Ihe dizendo mais do que, que huroa sua devota es- 
piritual Ihe mandava o tal soccoito: pasraàrSo os comtpanbeiros, e o Dou- 
tor gravemente os reprehendeo de sua pouca esperan^a na misericordia 
Divina; e tirando logo o necessario para aquetla noite, mandou tudo a 
mais repartidamente aos outros necessitados Academicos, sem reservar 
cousa alguma para o outro dia, em que de repente Deos Ihes acudio coni 
largo provimento, que das suas Ilhas Ihes tinha fallado. 

19 E jà d'aqui se ve quao ardente Charidade teria para com Deos, 
e com proximo, sugeito a quem Deos amava tanto. Em dia que o vul- 
go chama dos finados, veio da sua Igreja tanto pao de ofTertas para ca- 
sa de seu Parocho o Doutor, que à fama concorreo grande numero de 
pobres, e maior ainda de meninos, dizendo, (corno costumao) pao por 
Deos, etc, e pondo-se o Doutor per si mesmo a repartir-Ihes o pao, 
chegou a dar-lhes o proprio que tinha para jantar, e a flcar sem pao a 
mesa, e casa; o que vendo hum seu cunhado, nobre bospede, enfadada 
disse, que muitos d'aquelles o enganavao, e nao erao pobres; e respon- 
deo Doutor: «Federa por amor de Deos, se me enganao, deixai-me en- 
ganar por amor de Deos: e assira n'este, corao era semelhantes casus, 
soccorria Deos logo. E chegando outras vezes a dizer-lhe muitos, pa- 
ra que dava tudo por amor de Deos, pois podia adoecer, e nao ter com 
que curar-se, respondia, acceso em o amor de Deos, maravilhosas dou- 
trinas, e concluhia: «Se adoecer, e nao ti ver com que curar- me, vende- 
rei OS livros; e se estes n3o bastarem, irei para o Hospital; e se là me 
iiào quizerem recolher, nao o saberà El-Rei: e continuava entào, tudo 
dando, e so por amor de Deos, e charidade com o proximo: mas huma, 
e outra charidade mostrava ainda mais, quando sabendo que alguns pi- 
ra tas Francezes tinhao entrado, e roubado a liha da Madeira, persuadio 
à Misericordia de S. Miguel, que pelas casas dos ricos tirassem esmola 
de dinheiro, e o mandassem à Misericordia da Madeira, para acudir ao» 
mais roubados pobres; e acorapanhando o mesmo Doutor os que tiravao 
a esmola, tirou maior soraraa de dinheiro, com que fez logo acodir a 
roubada liba: a tSo longe se estendia a ardente charidade d*este amante 
de Deos. 

20 Nera so com às esmolas corporaes que aos pobres fazia, mos- 
trava este servo de Deos o amor que a Deos ììtAiol, mas muito, e mul- 
to mais s3o as espirìtuaes esmolas. A pessoas que aodavSo em peccado 



Liv. n GAP. n 69 

apartava d'elle; as que andavSo em odio, punha em paz reconcìliando-as 
entre sì, e com tal valentìa de espirito, que todos se Ihe rendiao; a to- 
dos dava o melhor conseiho, sem se negar a alguem que Ih'o pedìsse; por 
quasi qaarenla aauos prégou milhares de vezes n'aquella liha, e sempre com 
grande fructo, estranhando vicìos, e encommendando virtudes; e comtu- 
do nunca repetia a mesma prégagao, e ordinariamente a nao escrevia se- 
nao depois de a ter prégado; e antes so com Deos, e com a Sagrada 
Escrìtura consultava as suas prégagoes, e por isso n'ellas provava o que 
dizia, nao so com exceilentes, e sempre diversos passos, mas com subi- 
dissimos conceitos: donde jà se ve o muito que exercitava a cada huma, 
e todas as obras de misericordia, espirituaes, e corporaes. 

21 Nas mais virtudes moraes foi tao insigne, que para as consevar 
sempre todas, se fundou na humildade, e dasapego das cousas d'este 
mundo, com que largou as rendas dos primeiros Beneficios, sem nem 
d'elles reservar congrua alguma, com que regeitou Bispado. e governo, 
e se coDtentou com so aquelia Vigairaria, sem jà mais admittir ascenso 
d'ella, e so n'ella se conservou ale a morte, por melhor a Deos, . e ao 
proximo servir. A humildade ajuntou, desde o primeiro uso da rasao, 
a devocao da Virgem M3i de Deos, de qoem a Virgem Senhora nossa 
Ihe alcancou tal pureza vìrginal em toda a vida, que com correr, e man- 
cebo, tantas terras, nao so nunca perdeo a virginal pureza, mas à guar- 
da d'ella se excitavao todos os que olhavao para elle, e elle a conservou 
com a continua estudiosidade, sem à occiosidade dar alguma bora, 
lugar, e muito em especial com a rigorosa penitencia, e paciencia inven- 
civeU porque por sua morte Ihe acharSo cilicios de diversas castas, e 
asperas disciplnas, jejuava tres dias no semana, quartas, sestas, e sab- 
bados, e na Quaresma as sestas a p3o, e agua, e com ser de colica mui- 
to acbacado, so depois de veiho poderao acabar com elle beber vinho, 
e ainda o nSo bebia se n3o com tres partes de agua, e quando a colica 
mais apertava, e tanto que pela testa se estava vendo correr o suor 
em fios. Dio se Ihe ouvia outra cousa mais que invocar a paixao de 
Chrìsto, e Santìssimo nome de Jesus, e com està paciencia, e peniten- 
cia conservou tantas, e tao admiraveis virtudes, que seria nunca acabaV 
qoerer aqui recopìlal-as tadas. 

22 Tendo pois jà este servo de Deos quasi setenta annos de idade, 
(desde 1522 em que nasceo, até dia do Apostolo S. Bartholomeu do 
aooo de 1591) parece teve revelacào de sua ditosa morte, porque ainda 



70 HISTORIA INSULANA 

indisposto, andava ainda de pé, e indo de manhaa a sua Igreja, disse 
Missa com a pausa, e devogao que n'elle se observava sempre, e reco- 
lliehdo-se a casa jà em o firn da manhaa, logo em comecando a tarde 
rezou Vesperas, e Completas, e acabadas ellas pedio, e recebeo a Santa 
Ungao' e invocando os santissimos, e devotissimos nomes de Jesus, e 
de Maria, entregou em suas maos aquelle ditoso espirito. Sabida sua 
morte, foi, nao so n*aquella Villa da Ribeira Grande, mas em toda a 
grande liba de S. Miguel, tao cborada, e sentida, que todos clamavao, 
Ihes faltara a columna de toda aquella terra, e de todos o seu Mestre, e 
Pai universal. Acudirao logo o Illustrissimo Bispo, o M. Reverendo seu 
Visilador, e com elles toda a mais nobreza Ecclesiastica, e secular, e 
depositando o defunto na sua mesma Igreja, que he de nossa Senhora 
da Estrella, acìma dos degràos da Capella mór, ao^pé do Aitar Ibe pu- 
zerao huma nobre campa com seu letreiro que diz: 

Aqui jaz o Doutor Gaspar Fructuoso, que foi 
Vigario, e Prégador d'està Igreja, vere Va- 
rao Apostolico, insigne em letras, e virtude. 

Compendioso Epitafiio, mas multo mysterioso, e merecido; porque a 
substancia de bum Var3o Apostolico he a virtude, e letras, que n'este 
compendio de tal vida se tem bem manlfeslado ; e ainda que das letras 
se diz estarem acima das Estrellas, Sapiens dominabitur ustris) e aqui 
aos pés de huma Estrella; (titulo da sua Igreja) he, que ficando o cor- 
po aos pés da Estrella da terra, sobre as estrellas do Geo subio a alma, 
levando por humilde o lugar, que por soberbo perdeo bum Lucifer : e 
com razao se inlitula, ainda depois de morto, ( Vere Varao Apostolico) 
porque aos segundos Apostolos, aos Padres da Companhia de Jesus, em 
Vida sectìpre amou, e estimou tanto, que, bem comò o Santo Velho Si- 
meao, em vendo no Tempio a J3sus, nao quiz ver mais n*esta vida, e se 
parilo para a ontra, dlzendo o seu Nunc dimiitis : assira este nosso, ver- 
dadeiramente Fructuoso velho, em vendo aos seus Jesuitas, aos Padres 
da Companhia, de assento n'aquella liha, pouco depois se partio para a 
Berna venturanca, nao esperando oulra maior em esla vida, e cumprindo 
sua promessa, de em islo vendo, dizer o Nunc dimittis; o ainda nàode 
todo se auscntou dos seus tao amados Padres da Companhia ; porque 
alem de Ihes deixar a livraria que tinha, de mais de qualrocentos volu- 



U\\ II GAP. HI 7i 

mes ìmpressos, e dezaseìs manuscritns de sua Thcologia, e sua propria 
ietra ; d e;ita tamheiB Ihe deixou huin grande tomo, cliamado couiinum- 
luenle, Descobri mento das Illias; e a que elle intitulou, Saiulades da 
terra ; e Ilie hia ajunlando outro, a que chamnvào Saudades do Geo : e 
^ OS livros, que bum Auttior compoe, sào os tìliìos da sua alma, que 
^eiupre sào niuito amados, e a ahna aonde aùia, costuma estar muitu 
mais do que aoude auima ; bem podemus dizer, que nem de lodo se 
ausenluu dos'seus Padres da Companbia este Yarào Apostolico, pois 
llies deixou suxi alma, e muito especialmente em bum tal seu livro, que 
a Omipauiiia lem, e guarda, corno reliquia sua, e de siugular estima : e 
com baver jà 1^3 annos, que morreo Varào tao santo, em 1591, e ba- 
ver ja |>eiau de duy.entos que nasceo, em 15:^2, aìnda agradecida està 
sua (k)mi)anJìia de Jesus, Ibe offerece este reconbeci mento, e publicagào 
de sua santa vida, e 5<'ibedoria singular; que póde Deus ainda, e ca na 
teira, cajionizar alguma bora, corno piamente cremos cauouizou em o 
Ct'O. 

CAPITULO III 

Das Ilkas chamudas hoje as Canarius. 

23 Com niuita razno, e nao sem algum mysterio, comcfon seu li- 
vro Veneravel Doutor Gaspar Fructuoso, por queixas da verdade, a 
quem costuma a fama muitas vezes enconlrar, porquo bc lai a verdade 
deste sabio Doutor, que se por ella comega, be portjue com tal verdade 
falla sempre, que com ella ninguem póde enconlrar o que elle afìirma, 
e assiiD seguindo està bistoria sempre no que d elle tìraremos, e mnn 
era bum apice fallando à pura, e una verdade, em o muito que de novo 
ajunlareraos aqui, de proposi o passaraos em o livro d'este Doutoi* os 
seus oito Capitulos primeiros, que das ditas queixas Iralao, e i)assamos 
ao nono, do descobrimento das Canarìas, que pois foi o primeiro de 
Ilhas jiesle Oceano Occidental, tambem deve ser primeiro na Historia: 
e jhjnine por algiira tempo, e de algum modo forao sugeitas à Corea de 
l*>rlugal. corno veremos, por isso ainda as meltemos entre as Ilbas Lu- 
sitaiias; mas com maior brevidade, pelo menor commercio que com ellas 
lioje lumos. 

ii Canarias pois se dizem boje as Ilbas, que antigamente se dizifio 
FurLunulad, ou bemafortunadas ; sao por todas doze em numero, posto 



72 msToniA insulana 

qiie enfi nigiimas cnrtas nauticns so se apont3o onze, sem contarem a qne 
rhamao liha do Inferno, correm de Leste a Oeste, assentadas em 28 graos 
da parte do Norte, distao de Hespanha 200 legoas, e a que està niais 
pento da costa de Africa, treze legoas sómente dista d'ella, e do Cabo 
que chamao Bojador, mas outras Ilhas distao dezasete legoas. Os nomes 
lioje proprios, e as mais nomeadas d'estas Ilhas, sao os seguintes : Forte 
Ventura, Lancerote, Gram Canaria, Tenerife, Palma, liha jìo Ferro, Go- 
racyra ; as outras ciuco Ilhas sao de raenos nome, e de todas he tal a 
vizinhanfa de humas com as outras, que algumas so distao nove legoas 
entre si ; e entre a Gomeyra, e Forte Ventura ha so hum quarto de le- 
poa de mar; e ainda assim houve mulher na Gomeira, que sabendo que 
seu filho hia em Forte Ventura condemnado jà a morrer» ella sem espe- 
rar barco, e com sua provisao para livrar ao filho se arrojou ao mar, e 
nàdando chegou é liha, e o livrou, dando-lhe melhores azas a està mai 
amor, que o temor a algims corardes homens. 

25 Sobre quem, e quando descobrio a estas Ilhas, ha varìas opi- 
DJoes. primeiro descobrimenlo se attribue a bum Capitao Carthaginez 
chamado Hannon, que em o anno de 440, antes da vinda de Christo, 
sahindo de Andaluzia com naval Armada sobre a costa de Africa, e Gui- 
né, casualmente foi dar com a vista nas Canarias, e d'ellas nao teve mais 
que so a vista de fora, e a demarcafao que fez, e em 1784 annos se- 
guintes, se nao tornarlo a buscar as ditas Ilhas, até que chegado o anno 
4344 depoìs da vinda de Christo Senhor nosso, e reinando jà em Aragao 
D. Fedro IV, quiz Dom Luis de Lacerda, neto de D. Joao de Lacerda, 
ir nao so a descobrir. mas tambem a conquistar as taes Canarias, e pe- 
dio ao dito Rei ajuda para isso : mas parece que nao teve Bffeito està 
empreza. Depois, reinando em Castella D. Henrique III, jà no anno -de 
1393 ou (segundo outros) no de 1405, sahirlo de Franca alguns Fran- 
cezes, e de Castella muitos Biscainhos, e Andaluzes, e com a Armada 
tornarao em demanda das Canarias, e nao so as descobrirao, mas cati- 
varao n'ellas cento e cincoenta pessoas, que trouxei*5o a Hespanha, e 
Franca, e ficou sendo este o segundo descobrimento d'estas Ilhas. 

26 terceiro descobridor das Canarias, vendo-se jà os naturaes 
d'ellas, se accendeo mais em seu alcance; e logo no anno de 1417, go- 
vernando em Castella a Rainha D. Calbarina, viuva do Rei D. Henrique 
III, e mai do Principe D. Joao o II, se resolveo, (por ser hum grande 
fidalgo, Almirante de Franca, que com multa gente tinha bem servido 



Liv. n GAP IV 73 

em guerra à Goroa de Castella, e se chamava Massen, ou Ruben de Bar- 
camonte) se resolveo a pedir i Rainba Regente a conquista das taes Uhas 
com titulo de Rei das Canarias, e com a successSo para bum sobrinho 
seu por nome Mossen Mossen Jo3o Betencurt; e tudo a dita Rainba Ihe 
coQcedeo, e ainda o ajudou a tao gloriosa empreza. 

27 Prepararao logo os dona nomeados Reis, primeiro, e segundo 
das Canarias, hnma grande Armada em Seviiha, e animosos partirlo i 
conquista; mas corno a Gram Canaria tinha dentro em si mais de dez mil 
lìofflens de peleja, naturaes seus, que brava, e barbaramente a derendi3o, 
nanca os dous Reis invasores a poderSo conquistar; porém conquistarSo 
logo a Uba que chamao Ferro, e per fabula Inferno; e depois d*esta, a que 
se intitula Forte Ventura; e em terceiro lugar a que chamao Lancerete, 
e Desta liba fìzerao os novos Reis forte Castello, e de todas tres com- 
merciavao com Hespanha, mandando-lhe escravos muitos, multa coura- 
ma, mei, cera, ursella, e multo Ago, e sangue de dragao. E neste tempo 
faltou d'estes dous Reis, Barcamontes Betencores, o primeiro, e tio do 
segundo, e huns dizem que a falta foi, porque comò valoroso morreo 
em aquellas guerras ; e outros que, por se passar a Franga, a buscar 
maior soccorro com que tornar i conquista; mas o certo be (diz o nesso 
Fructuoso) que de algum d'estes modos morreo o primeiro Rei, e Ihe 
succedeo na Coroa o dito sobrinho Betencurt, a quem o tio a deixou. 

28 Continuou este segundo Rei a conquista, e com soccorro de al- 
guns Castelhanos conquistou a quarta liha, chamada Gomeyra, e ficou jà 
Rei de quatro Ilhas ; mas sentindo entao mais a falta do valeroso tio, e 
soccorros que esperara, e vendo que Ihe restav3o por conquistar oifo 
lihas, e entro ellas a principal, que era a Gram Canaria, cabeca das ou- 
tras todas, e de maior numero de gente, e mais bellicosa, assentou com* 
sigo, que jà nao era possivel sustentar-se em seu reinado, e comegou a 
traiar a qnero venderia o que jé tinha conquistado, e para que parte pas- 
sarla; e d'està resolugao veremos o efieito no eapitulo seguinte. 

CAPITULO IV 

Do direilo adquirido por Portngal às Canariai^ 

29 Tendo sido as Canarias primeira vez descubertas antes da vin- 
da de Chrìsto; segunda vez depois duella nos annos de 1*193, ou 1405, 



74 mSTORlA INSULANA 

e terceira vez no de 1417, pelos seus Reis Bctencores; e a Ilha da Ma- 
deira tendo sido descuberta, e povoada em 1420, e correndo logo gran- 
de fama d'ella, està moveo finalmente ao sobredito segundo Rei das Ca- 
narias a vender as qualro, em que reìnava, ao nosso Lusitano, e Sere- 
nissimo Infante D. Uenrique, de que ao principio tralainos, e de facto 
llias vendeo por certas fazendas, que o Infante Itie deo uà dita Ilha da 
Madeira, para onde (e para perto) o dito Rei de Canarias se mudou, e 
jà emlim sem reinado, e na Madeira ficou, e dura ainda boje a descen- 
dencia dos Bentecores. corno em seu lugar veremos. 

30 Estando jà pois o Infante, com litulo de compra, e venda, fei- 
to senhor das Canarias, expedio logo Armada, que comiuistasse d elias 
as que fattavao ainda por render, e enviou a U. Fernando de Castro por 
Capitào mór da Armada Portugueza: mas nào foi Deos servido dar-lbes 
boni successo, porque investindo logo a Gram Canaria, tao forte, e por- 
liadamente forao rebatidos d ella, que se retìrarao, e muito destruidos 
Yoitarào ao Infante, que desgostado de tal successo, e considerando que 
Castella dora o reinado d'aquellas Ilhas aos Bctencores; e que estes coni 
ajuda de Castella tinliao conquislado as qualro Ilhas, eslas quatro, e o 
direito às mais largou liberalmente, corno Principe, à Coroa de (Castel- 
la; e disto trata Joào de Barros part. i lib. i cap. 22. Castelhanos ha 
que dizem, que o segundo Rei de Canarias BeleniX)r, primeiro que ao 
iiosso Infante, as tinha de antes vendidu a hum Pedro Barba de Caui- 
jjoij, vizinho de Seviiha, e este a hum lìdaigo tambem de Seviiha, Fer- 
uào Feres, que por demaiida de preferente as tirara ao Infanto por sen- 
tenga do Papa Eugenio IV, e assira os dosc^Midenles do dito Fernào Pe- 
res as livevao, até que o Catholico Rei D. Fernando V, de Castella coni 
grande Armada investio até a Gram Canaria, unindo-se com liiim do 
dous Reis d'ella, e voncendo ao outro, e ultimamente tirando-a a ani- 
Los. 

31 Consta porera, que de Portugal levando D. Marlinho Conde du 
Atouguia, a Rainha I). Joanna, (ilha d ol-Rei 1). Duarte de Portugal, por 
inulher de flenrique IV de Castella, d este alcan^ou doai;ào das dilas 
Illias Canarias, e as vendeo depois ao Marquoz U. Pcdro de Menoz<»s, 
primeiro do nome, o qua! tambem as vendeo ao Inrante D. Fernaiulu, 
irmào dei-Rei D. Alfonso V, e o Infante niauduu h.go tornar posse d el- 
ias pcHo Portuguez Diogo da Silva, que dejwis f:>i o primeiro Conde de 
Portalegre: mas porque vindo logo de Caslella u Cavalluiiu Fernào Peres, 



uv. II CAP. V 75 

oa de Peraza, e mostrando corno tìnha comprado muito de antes as taes 
Uhas ao segundo Rei d*ellas Betencor, e com todas as licencas do prì« 
meìro Rei seu tio, e dos Reis proprios de Castella, tambem o dito In- 
fante D. Fernando as largou logo ao Cavalleiro Peraza, de quem as her- 
doa sua filha D. Ignez de Peraza, mulher de D. Garcia de Herrera, fi* 
dalgo Castelhano ; dos quaes (alem de outros filbos) nasceo D. Maria 
de Ayala, que cason com o sobredito Diogo da Silva, primeiro Conde 
de Portalegre; e porque das ditas lihas a Gomeira, e a do Ferro ficarao 
em morgado, e Condado ao irmSo D. Guilherme de Peraza, partirao-se 
as outras doas Ilhas, (Lancerote, e Forte Ventura) e coube a D. Jouo 
da Silva, segundo Conde de Portalegre, pela dita sua mai, renda de mais 
de trezentos mil réis cada anno, que se se cobrao ainda, sabel o-ba quem 
iiie toca. 

32 E temos dado a razSo de 'metermos n'esta historìa Insulana as 
Ilhas Canarias, que est3o hoje em a Coroa Castelhana, por a Lusitania 
ai ter possuido jà tantas vezes, e com os referìdos titulos, e ainda hoje 
ter algum direito a ellas; e multo mais por assim as metter na sua ilis- 
toria Doutor Fructuoso, a quem seguimos, e de cuja verdade, e anti- 
guidade devemos todos fiar-nos, ao menos segundo aquelle tempo em 
qua escreveo; que hoje muitas cousas poderao '}& estar muito mudadas; 
que sabendo-o o nós, advertiremos, e neste sentido vamos com a 
bistoria por diante. 

CAPITOLO V 

Da grandevif e qualidades das qualro Canarias, 
que primeiro se descobriiào. 

33 A primeira liha conquìstada das Canarias foi a que chamao I!ha 
do Ferro; Ite tao pequena que tem so legoa e mela de comprido, e està 
doze legoas ao Poente da liha da Palma, e corre de Sueste a Noroeste 
com trps legoas e meia de circuito. Tem bum so lugar, hoje Villa cha^ 
mada Lbanos, ou Chaos, e aos vizinhos chamao os Ferreuhos; e da mui* 
il pedra que tem, assim no interior, corno nas rochas, e costas do mar 
parece toda escorias de ferro, até na cor, e se afDrma que se rabricuu 
ji nella ferro, e daqui Ihe velo o nome: nem rio, nem fonte, ou pofo 
ttfm; porem junto do lugar, em huma fajà, ou valle, (aoiule o vento iiAo 
cliega seoao brando) està huma graude arvore, subre a (inai ludos os 



76 HISTORIÀ INSULANÀ 

dias, e multo mais de manha se assenta huma nevoa, ou nuvem branca, 
que pelas folhss da arvore destilla tanta, e t3o boa agua doce, e se fór- 
ma d ella bum t3o grande tanque em baìxo, que d'ella bebem nào so os 
animaes, mas a gente da tal liha : tanta he do Creador a providencia 
que lem de suas creaturas, e tanta a piedade d'aquella arvore, e nuvem 
em que o Divino tomou nossa humana natureza, que assim acudia a es- 
tes lìomens. material da arvore nem os mesmos naturaes o conheciao, 
e so a viao estar sempre em o mesmo ser, sem jamais envelhecer, nem 
crescer, oiì diminuir; antes com as mesmas folhas, e tao verdes sempre 
corno dantes. 

3i Depois porem, que entrarSo n'esta Uba os Castelbanos, fizerao 
tao grande tanque ao redor da dita arvore, que leva tres mil pipas de 
agua, e Ihe chamao a Agua Santa, e à arvore a Santa Arvore; e a todo 
fecbarno de tal sorte, que so pelas Justi^as se reparte, tres, ou quatro 
vezes cada semana: prudentemente comtudo se fabricarao depois cister- 
nas varias n'esta Uba, em que recolhem multa agua, de que tambem se 
provem: a dita Santa Arvore quizerao sempre muitos conbecer, e so vierSo a 
ajuizar, que se parece com aquella, que em outras partes cbamSo Til: e 
eu dissera, que por este nome ter tres letras, e n'isso ser emblema da 
Santissima Trindade, que se em està tivermos a Divina virtude da Es- 
peranca/ nem nos fallare jamais a fundamental arvore da Fé, nem a so* 
bernna agua da Charidade Divina. contrato da terra be de 13, queijos, 
breu. cevada, muito gado miudo, e muitos porcos. 

35 A segunda lllia conquistada foi a que chamarao Forte Ventura, 
por se achar n'ella hiima escritura que dizia; que por Forte Ventura 
fora povoada: e na verdade ventura grande foi, porque lem mais de de- 
zoito legoas de comprimenlo, e quarenta em circuito: e com so quatro 
povoncoes ter entao dentro em 3i, tinha comtudo tres Reis, ou Regulos: 
mas por nlio haver na Uba arvores, de que os naturaes flzessem armas, 
foi mais facilmente conquistada. Das suas quatro povoa^óes a primeira 
se chamava a Villa, a segunda Oliva, a terceira o Porto, e a quarta o 
Curralcjo. De gado miudo ha muito nesta Illia, e tambem muitos carne- 
lòs. Foi conquistada dia de S. Filippe, e Siinliago, e d'estes Santos he 
a invocacao da Igreja principali e o commercio entao era lodo com a 
liha da Madeira, por Ihe ficar perto: e loda a inimizade era com a vizi- 
nba Berberia, em que faziào assaltos, e de que traziao prezas, mas com 



LIV. II €AP. V 77 

a entrada dos Catholicos (adverle Fructuoso) havia jà n'esla Ilha algun» 
Fidalgos, de appelidos, Perdomos, Sàvedras, etc. 

36 A terceira Ilha que se conquistou, foi a que se chama Lancerò 
te, e de bum seu principal Rei tomoa esle Dome: he quasi taiianha co- 
rno a dita Forte Ventura, e està d'ella a Oesnoroeste, e muilo perlo. Di- 
zem que foi conquistada tambem por hum nobre Porluguez, chamada 
Nudo Ferreira, que servia enlao aos Reis Catholicos, e era parente do* 
Coodes de Castanheira em Por-tugal. He Ilha em grande parte infructi- 
fera: tem so duas povoacoes, huma he a Villa, outra se chama Paria* 
e nao so foi faci! de conquistar, mas os naturaes se aparenlarao muito 
eom OS Castelhauos: tem buma Igreja Parochial, è duas ou tres Ermidas- 
GoDde d'ella he hum D. Agostinho Herrera, de quem be o multo sai que 
ali se fai. Duas vezes a saquear3o ji os Mouros : e comtudo ha n'ella 
algons Fidalgos, Perdomos, Cifuentes, Herreras, Sàvedras, e Betencores, 

37 A quarta Ilha, que o segundo Bei dos Betencores conquistou, 
00 mandoQ conquistar por hum Joao Macbim, e D. Diego de Àyala, foi 
a chamada Gomeira: e custou t3o pouco a conquistar, que aos conquis- 
tadon^ receberao os naturaes com bailes. Cbamar-se Gomeira ( dizem 
buDs) foi por se chamar assim a filba do Rei que tinha a Ilha : outros 
dizem, quo por as arvores d'eila langarem todas goma. Tem de compri- 
mente doze legoas, e quatro de largo, e he de figuara evada : dista da 
Uba do Ferro nove legoas, da Palma outras nove, e cince do Tenarìfe^ 
(aliando de terra a terra. Tem està Uba buma so fonte, mas muitos po- 
{os de agua dece, e boa: dà muito pao, multo vinho, e muito queijo, e 
uio so muito gado, e muitos veados, mas dà a melbor urzella, que se 
leva para Fiandres: e tinha entao tambem tres engenhos de assucar, e 
taota besta de albarda, que (afQrma o bem Fructuoso) que indo alli dar 
roubado bum Gaspar Borges, artifice, Ibe offerecerào lego casamento, 
promettende-lbe em dote; alem de dinbeiro, e bens, de raiz, cincoenla 
asnos de carga; e qoe respondera lego e artifìce: «Se eu tal Qzesse, se- 
riamos entao cincoenta e bum. E nSo Ibe fallarao mais em tal materia. 
Tem mais a Uba huma boa, e nebre Igreja Parochial da Assump^o da 
Seohora, e bum Convento de Franciscanes, e cince Ermidas, e tao bom 
porto, que até eQt3e se nàe tinha n'elle perdido navio algum: mas fora 
da Villa, per teda a Uba nao baverìa mais que sessenta moradores. 



78 HISTOMA INSCUNA 

CAPITULO VI 

Da Gram Canaria, e mais llhas suas. 
t 

38 A quinta Illia conquìstada dizemos ter sido a Gram Canaria, 
porqne ainda que o Doutor Fructuoso, lib. | cap. i% diz que foi a 
terceira que se conquistou, seguio aqui està opinilo, tendo atraz se- 
guido a contraria, de que os Reis Betencores nSo conquistarao a Gram 
Canaria, mas so as quatro acima apontadas; e por irmos coherentes, di- 
zemos ter sido està a quinta conquistada. E confìrma-se, porque depoìs 
de segundo Rei Betencort vender ao nosso Infante Dom Henrique o 
dìreito todo que tinha ds Canarias, ainda o dito Infante mandou Armada 
Portugueza conquistar a Gram Canaria, e ainda mais depois a conquis- 
tarao OS Reis de Castella : logo està he a verdade. 

39 He pois a Gram Canaria, na figura, liha redonda, e de quarenta 
legoas em circuito; fica ao Sudoeste de Lancerote, e Forte Ventura, das 
quaes dista vinte legoas, e he terra alta. Chama-se Canaria, nUo tanto 
pelos passaros Canarios, que tambem n'elia se d3o, quanto pelos mui- 
tos càes que se acharao nella, brancos, e malhados, sobre mui ferozes, 
e tao grandes, que excedem a grandes lobos, e por isso Ihe chamarao 
a Canaria, e a Gram Canaria ; sendo que tem tantas outras grandezas, 
(corno \eremos logo) que jìor ellas Ihe vem bem o titulo de Grande. 
Tinha de antes ciuco, ou seis Reis, que unidos a defendiao, e por isso 
cu^^tou tanto a conquistar, que so por se dividirem entre si, por isso 
forào por partes conquistados, e despojados todos; que de antes nSo ti- 
nha sido de Cossarios entrada» por mais vezes que foi acometida, e dos 
de Berberia vizìnhos, e barbaros; mas he tao fortifìcada loda a Ilha, e a 
gente tao bellicosa, que n3o cedia a outra alguma. 

40 No militar, e politico he a cabega das outras llhas Canarias, e 
nesta reside o Governador, que tem jurisdifao de baralo, e entello, posto 
que a mesma tem cada Governador das outras principaes llhas, no que 
toca ao criminal; e para o que toca ao civel, tem o Tribunal, e Audìen- 
cia Real, com Desembargo de tres Ouvidores seculares, e Regente, aon- 
de vào iinalizar as causas das outras llhas, etc. No Ecclesiastico he a 
unica Diecese, e Bispado de todas as ditas llhas, posto dizerem alguns 
que a Cadeira Episcopal estiverà algum tempo em Lancerote, ou na Pal- 
ma. Na mesma Carlos V, fez por Tribunal do S. OfQcio» com os neces- 



Liv. n CAP. VI 79 

sarios Minìstros, e officiaes. Alétn da sua Sé, tein mais duas IgrejasPa- 
rochines, e bum Convento de Religiosos Franciscanos, outro de Domi- 
nicos. e algumas Ermìdas. Bispado chega a mais de sete mil cruzados 
de renda; o Inquisidor a dous contos de reis; o Deao a mil e quinlienlos 
cnizados. A unica Cidade de loda a liha se thama Santa Anna, e consta 
de tres mil vizinhos; e por ser a liha conquistada em o dia de S. Anna, 
tomou seu nome a Cidade. 

41 Dnas legoas da Cidade para o Sul està huma nobre Villa, e de 
quinhentos vizinhos, onde ha tres engenhos de assucar, e se chamaTeN 
de. que tambem ahnnda de algodao : de Telde sé vai i Guia, Villa qne 
^aml)em com engenhos se occupa; e adìante da Guia se seguem Gnimar, 
e Arucas, d'onde dizem que he tal o assucar, que ao melhor da Madei- 
ra se jguala : em flm que de assucar havja em loda a Gram Canaria 
vinte e qualro engenhos, e cada hum de seis, e de sete mil arrobas de 
assucar: se hoje ha mais, on menos, là o saberao; corno se ha nella ain- 
da tantos mercadores comò havia ent3o, de quarenta, e cincoenta mil 
cruzados para cima; que hoje he mais celebre em admiraveis vinhos, e 
antigamente em camelos, e ainda em os fructos he tao tempora, que de 
meado Abril para dianle ha jà nvas maduras. figos. meloes, etc, e tudo 
tao sazonado comò em Hespanha o sSo pelo Estio, e Outono: o que pa- 
rece provém do pouco, e poucas vezes que chove em està liba, e p<»r 
isso nìlo he mais povoada: e pela parte do Sudoeste ha grandes Tebres, 
pela multa vizìnhan^a da ardente Berberia. 

42 A sex la Uba das Canarias, por (na opiniao mais provavel) em 
sexto lugar ser conquistada, he chamada Tenerife: dista trinta legoas de 
Lancerote, e Forte Ventura, e quinze legoas da Gram Canaria: corre de 
Leste a Oeste com quinze legoas de comprimento, porém de largo com 
seis em bumas partes, e oito em outras, e dez legoas em alguns biga- 
res: e com ser toda a Uba muito alta, he altissima no melo, aonde teni 
hom Pico chamado Teyde, tao exc€ssivamente ievantadot que de sessenta 
legoas ao mar se està vendo, e se afTirma ser mais alto ainda que o da 
liha ctiamada do Fico : e com, em o mais do anno» estar pelas neves 
muito alvo, lem comtudo tal vulcao pela banda do sul, Sueste, e Su- 
doeste, que sempre està lan^ando fumo; e bem mostra està Uba que em 
muitos tractos ardeo mais que as outras Ilhas, e parece que em sua 
primeira povoa^ao forSo por vezes, em diversos tempos, e lugares, lan- 
fando-Uie alguns casaes de genies» e que cada povoacao destas separa- 



80 HISTORIA tXSULANA 

das fazia seu ReÌDO à parte, e tinha seu particuìar Rei, e assim havia 
nella nove Reis, que ordinariamente andavao em guerras entre si, e por 
isso erào guerreiros muìto destros, e forao os mais custosos de conquis* 
tar; e tambem por isso d'estes he quo se tirarào mais cativos. 

43 Ha n'estallha doze, ou treze povoa^oes, cuja cabega he a Ci' 
dade da Alagoa, que lem dous mil visinhos, e duas Igrejas Parochiaes, 
das quaes huma he da Senhora da Gonceigao, e outra de Sao Christo- 
vao, em cujo dia se conquistou a Uba: tem mais tres Conventos de Re* 
ligiosos, Dominicos, Àgostinbos, e Franciscanos, e bum Convento de 
Freiras de Santa Clara, que està fora da Cidade; desta para o Ceste, 
quatro legoas, estava a Villa chamada Orotava, de trezentos visinhos, que 
colhem multo pao, vinho, e assucar. Em outra Villa chamada Icade, de 
duzentos visinhos, se faz vidro, de que muito levào para fora, por ser 
multo rìjo. Nove legoas da Cidade, de banda do Norie, està a Villa cha* 
mada Guarachico, povo de quinbentos visinhos, que lavrao muito vinho, 
e muito assucar, que vai para Castella, Flandres, e Inglaterra; e ha n'es- 
ta Villa bum Mosteiro de S. Francisco, de cuja Capella mór (com ser to- 
da de madeira bem lavrada, e ser grande) dizem ser toda feita de bum 
so pào; e a quem vir a grandeza excessiva dos pinheiros que ha n'aquel. 
ia terra, nào pareceré incrivel; e na mesma Villa ha lavradores de vinte 
até trinta mil cruzados de renda de suas lavouras, e de engenhos pro- 
prìos de assucar. Da banda do Sul està bum lugar chamado Àdexe, don- 
de a familia dos Pintos tem dous engenhos de assucar, que nos seis me- 
zes da safra moem oito e nove mil arrobas, e tem quatro legoas de ca- 
naveaes. 

44 He geralmente està liba muito fertil, até de pàos de multa es- 
tima, e cheirosos, muito abundante de mei, vinho, e assucar, e so de 
especiarias, e azeite he fatta, mas nao de pescado em todo seu circuilo^ 
n'ella se fabricào muito» panos, sedas, e linhos; tem muitas, e frescas 
aguas doces com que se rega toda, e he muito salutifera, e de bons ares, 
e n ella se dào muilos» e bons ginetes mouriscos, e assim nunca tinha 
sido entrada, nem saqueada de ìnimigos; e sobre tudo he de tao bom 
governo, que duella para fora se nao póde levar dinheiro algum, senào 
empregado nas drogas da terra, com o que nao so he muito rica, mas 
enriquece aos Estrangeiros, que a ella vao commerciar. 

45 Septima conquista da Uba he a que chamào Palma, pelas mui- 
las palmèiras, que ha niella, e carregadas de tamaras; esti treze legoas 



LIVRO II CAP. VI 8i 

ao Noroeste de Tenerife, e da Madeira sesseola; tem dezoìlo de compri- 
tnento, dezasete de largura. Ttnha de antes qiiatro Reis, e as mulheres 
erào tanto mais varonis do que os homens, que ellas em a conquista pe- 
lejarao até nào poder mais, e a maior parte dos maridos se metterao eni 
suas covas até morrerem a Tome, mas ja lioje as mulheres sao muilo 
polidas, e os liomeiis sao os mais guerreiros de todas aqueilas lihas, ten- 
do sido de antes mui Taceis de conquistar. A terra be multo alta, e cai- 
mosa; a povoagào sua principal se cliamava de antes Àpuron, porém Car- 
los V a fez Cidade, e Ihe deu por nome S. Miguel de Santa Cruz da Pal- 
ma, e passa de dous mil visinhos. Os naluraes da Uba contao, que an- 
tes, e depois d'ella conquistada, caiiìào do Ceo no alto cume da Uba huns 
corno confeilos, muito alvos, e miudos, que davao nao so sustento, mas 
grande confurto, a quem os comia, e que os coziao muito cedo, e no 
mesnio dia os coinìào, e que Uies cliamavào Graca do Ceo, e manna de 
grande cbeiro; mas que tanto que na Uba bouve trato de mercadorias, de^- 
a[>pareceo, e nào'cabio mais aquelle manjar do Ceo. Repare bem o Leitoi . 
4G Quasi loda està liba, exceplas algumas terras de assucar, està 
pUntada de vinbos pelo Sul, e pelo iNorte, tanto assim, que dà ciuco, o 
sejs mil pipas ao dizimo, e o termo da Cidade duas mil, com que ren- 
de de direilos, de entradas, e sabidas na Alfandega, trinta mil cruza- 
dos. rendiinente do pào be tao abundante, que buma /anega de se- 
meadura dà cento e dez, e mais. No meio da Uba està a Cidade coni 
deus Coflveutos de Dominicos, e Franciscanos; e sendo que de antes nao 
era forliiicada, e por jsso foi entiada, saqueada, e queimada por Fran- 
cezes Lutberanos, a "ii de Julbo de 1553, e pelo Pé de Pào, e Jacques 
Sona: comtudo em os primeiros dez annos foi restaurada de forte, e de 
novo tao fortificada, que nào so està mais lustrosa, e popolosa, mas de 
tudo ioexpngnavel. 

47 Ha Desta liba fataes madeiras de pinheiraes, e bumas a que cba- 
mao Tea, que dào o bi^u, e corno em este, assim em taes madeiras so 
atea o fogo. Ha outras arvores que d3o almecega: e outras cbamadas 
Dragoeiras, corno alias paUnas, que feridos d3o bum q.ue parece sangue, 
e qua lego se coalba, e be o Drago medicioal, e que mal derretido com 
poQca queotura tira das armas uotadas iQda a ferrugem: e s3o arvores 
ddezas de se cortarem. Fìnabnente os ares d'està Uba sao t3o sadios, 
qne Dunca n'eila bouve peste, nem ptisisicas» nem parlesias, nem ainda 
tempestades até oc Inverno; mas algumas oevoas» que pelas manbas sao 

VOL. I 6 



82 HISTORIA INSCLANA 

niedicinaes, e so de tarde nocivas, por nao Icrem viracao do mar: e naa 
bó de Castella, e suas Indias, mas de nact)es estrangeiras, he a mais bus- 
cada esla Palma; porém a melhor palma Ihe levaifio quarcnla Ik^Iigiosos 
da Companliia de Jesus, que indo a pregar a Fé Catholica em o Brasil, 
l)ouco de antes descuberlo: pela Fé, e u vista d'està liha forao lodos 
quarenta marlyrizados pelo dito Cossario herege Jacques Soria, e sera 
uste levar da liha a palma, desta, e d'ella levàrao a do raartyrio os qua- 
lenla para o Geo, sendo o seu valeroso Capilfio, o illustrissimo Padre D. 
Ignacio de Azevedo, mais illustre ainda pela morte, ou sangue de seu 
inarlyrio, do que pelo illustre sangue herdado: mas està materia pedo 
mais alla, e subida pi3una, e assim vamos contiiiuundo com a humilde 
liossa desta historia. 

CAPITULO VII 

Conclue-se em tjeral com a notìcia dns Cannrias. 

48 Dos primeiros povoadores das Conarias se nao sabe quem fosse 
ao certo; o certo he que ncm Gentios, nem Mahometanos, nem Mouros, 
ou Turcos forao; porque os que as habitavào, quando forao conquisladas 
por Calliulicos, nao adoravao mais que a bum so Deos, e por isso re- 
ceberSo com facihdade a Fé Catholica; e por so alguns outros usos bar- 
baros se costuma dizer que erào Gentios. Que nunca fossem Mahoiiie- 
lanos, e menos Mooros, ou Turcos, consta de terem sido povoadas es- 
tas Ilhas niuitos secnlos antes de haver no mundo Turcos. ou Monros, 
ou ainda Mahometanos; e de-semjìre as Canaiias terem guerra com a 
mais visinha Africa, e so de alguma dellas, e em algum tempo anligo 
muitas pessoas em Africa casavao, e licarao parlicipando do sangue Afri- 
cano: mas OS mais so de entre si se propagavao, e dijpois de conqnista- 
dos se aparenlàrao mais com os Calholicos conquistadores, e tanto, quo 
jà hoje nem ha d'aquelles antigos a que chamavSo Gentios, que nào li- 
nhao outra Fé, ou oulra lei mais do que crer em hum su Deos, donde 
se segue qae nem Judeus forao alguma bora, mas so seguiao a substan- 
eia da primeira lei da natureza, e do primeiro uso da razao, que trou- 
xerao ou dos Hebreos mais «ntigos, ou dos primeiros povoadores da 
Africa, e Carthago, comò acima jà tocàmos. 

49 Hoje porém n'estas Ilbas commummente sao ja todqs Catholi^ 
cos, sem rasao alguma de Idolatras, e menos de Hereges> e so pela vi- 



Liv. n CAI», vn 83 

sìnl«n^a parlìcìpao algutna cousa de Africanos com cores meìo morenas 
em muitos dos nainraes, e ordinariamente de eslatura alta, e tao puros 
nos cost'.imes, que da sanlidade d estas Ilhas so aponto o niaior porten- 
to, Thainnaturpo em milagres, o prodigioso Apostolo do Brasil, o 
^^rande, e Veneravel Padre Joseph de Anchiela, naturai d'eslas Canarias, 
e Religioso professo da Companhia de Jesus, e desta o segundo Xavier: 
|ìo)s ja da sua Canoniza^ao se tcm em Roma tratado muìto, e de sua sua- 
vissima vida« e morte se tem composto tanto, e por tSo subidas penas, 
que sÀ) da Santa Madre Igreja esperamos por-se a coroa a i3o admiravel 
santidnde, corno todos venerao em bum Anchiela, de quem està limita- 
da penna n3o piide voar a ser elogiadora» 

50 Gcralmente o dima das Canarias he lai, que nem chove n'elias 
muìto, nem muitas vezes, e o maior dia n'ellas n3o passa de treze Iìo- 
ras, nem de treze a maior noite. Em nenhuma d'estas Ilhas ha blchos 
peconlientos, e nem aìnda rans ha, senao em buma alagoa da Uba quo 
cliamao a Gomeira; sendo que de gados sao multo abundantes, e ainda 
de cavallos, e camelos; e comtudo niio bavia ao principio entre elles ar- 
mas de ferro, ou de fogo, mas de pào semente, com que so brigavao, 
e fòrtemente. De aves ha muitas, de que as mais pequenas, e que me- 
l!ior cantao, chamadas Canarios, derao, corno dizem, o nome i Gram 
Canaria, e està a todas as mais Ilhas. Dos fructos da terra ha os mais, 
e 05 melhores comò vhnos, excepto azeite; e batatas so as ha na Go- 
meira, e Palma, duas d'estas Ilhas, mas em o seu mar de todas ha de 
ham peixe abundancia: d'onde vem serem ordinariamente tao sà'iias es- 
tas Ilhas, que nunca bouve peste n*ellas, nem mu'ta outra casta de doen- 
C^s, e assim sSo terras salutiferas: e atc salinas ha em Forte Ventura, 
e Lancerete, de que sabe mnito sai, e se provém as mais Ilhas. 

51 Particulares datas n estas Ilhas tiverao alguns fidalgos pobres, 
qne hoje s3o ricos Titulares.\ assim tem os Condes de Lancerete n està 
liha, e uà de Forte Ventura: e os Condes da Ayala em a Gomeira, e 
Ferro, e em outras outros; mas a Gram Canaria, Tenerife, e Palma, em 
loda a alguem outrem est3o sugeitas, senao so à Rea! Coroa de Castel- 
la. Advirta o Lettor porém, que o que d*estas Canarias flca dito, he so 
Imm compendio puro, e verdadeiro do que em seu antigo estylo, e em 
seu tempo, diz o Doutor Gaspar Fructuoso em seu citado livro; que em 
tempo de boje pòde ser estcjao mudadas muitas cousas, que aqui nem 
se DegSo, nem se alQrmao. 



84 HISTORIA INSULANA 

CAPITOLO Vili 
Breu noticia da$ Ilhas de Calo Verde ^ t $eu clima. 

52 Se pouco dissemos das nobres IlhasF Canarias, ironos poderemos 
dizer das de Cabo Verde, assim pelo pouco que d'ellas druem os antigoi 
Chronistas, Barros, e Goes, corno por o Doutor Fructuoso locar so est» 
malerìa no lib. i de &ua Historìa cap. 21, e passar logo no cap. 22 ao 
descobrioiento das Antilhas, ou Indias Occidentaes, que extende ale o 
cap. 26, e ja em o cap. 27 tralar das opinioes que houte do principio 
das Occidentaes Hhas Lusitanas^ corno dissenios jà no [ib. i, pelo que 
compendiemos agora, e com menos confusao, o que pudermos alcan^ar 
d'estas nossa^ Ilhas chamadas de Cabo Verde. 

53 que se diz hoje Cabo Verde, se dizia anligimente Cabo Asi- 
nario, e aindaque o Carthaginez Danon (que comò acima dissemos Toi o 
primeiro que vio as Canarias) leve juntamente enlao vista d'aste Cabo, 
e so com a vista se ficou ; de pois comtudo em o anno de 1443 (Jà go- 
vernando El-Rei D. Alfonso V em Portugal) bum Kscudeiro seu, cbamado 
Dinis Fernandez, morador na Corte de Lisboa, rfco, e it honrados fei- 
tos^ movido com favorcs, e mercés pelo dito misso Infante D. Henrìque, 
fui de seu mandado, em bum so navio, desQubrir da co^ de Africa o 
mais que pudesse; e partiodo com e£feito, e passando o rio Canaga, que 
divide OS Mouros dos Jaiofos, e està em a altura de qu'rnze graos e meio 
da parte do Norie, tomou hinna Almadia de quatro negros; e dando maì:^ 
adiante com bum Cabo, que Africa lanca alli fora contra o Poente, e re- 
presenèando-se-lbe com verdura grande, Ifee chamou o Cabo Verde, sen- 
do de antes cbamado Asinario ; e boje este Cabo Verde he de Africa o 
mais celebre Cabo, que està no Oceano Occidental, em altura de qua- 
torze gràos e bum ter^o; e porque o descubridor Dmis Fernandez expe- 
rimentou aqui bravo temporal, nao passou mais adiante, mas sahiudo 
em homa Ilhela muiU> vizioha ao Cabo, fez grande matan^a em cabrai, 
com as quaes, e com os oegros se toHou a Portugai, onde foi bem re- 
cebido do Seal Infente, nao so pelas novas que trazia, mas lambem por 
aquelle» bomens fiegroa, que foraa es primeifo» que rai Portugai se 
virao. 

54 Correo io|^ tanto a fama do novo Cabo Terde, ji pelos Porto- 
guezes descuberlo, e que bavia Ilhas )uato a eUe^ que de Genova vierio 



uv. II GAP. vin 85 

^ Porliigal tres navìos, e por Cabos d'elles tres Genovezes nobres, An- 
tonio de Noie, e hom seu irniao, e hum seu sobrinho, e offerecendo-se 
ao ROSSO Infìinle para irem descnbrir as Ilhas de Cabo Verde, e dando- 
Ihes Infante por gaia, e Cabo seu a hum Vicente de Lagos, Porlugnez, 
e a hum Luis de Cademusto, Veneziano, os mandou descubrir as dilas 
I!has era o anno de 1413, e este parece o verdadeiro descubrimento de 
Ines Ilhas, corno se colhe. das Chronicas de Barros, e de Goes, e da do 
Principe D. Joao, <jue depois foi o grande Rei Dom Joao o II de Porlii- 
fal; pois ja no anno de 14G0, fez seu pai El-Rei D. Alfonso V doagao 
das Ilhas de Cabo Verde, e das Terceiras ao Infante D. Fernando seu 
irmao ; d onde se segue que as de Cabo Verde jà erSo descuberlas, e 
primeiro que as Terceiras, e nos annos sobreditos, comò se vera no des- 
ctìbrimenlo das Terceiras. 

55 A primeira liha qne acliarao os ditos descubridores, chamarao- 
Ihe a Boa Vista, mas ainda melUor nome Ihe derao Ioga depois, chaman- 
do-Uie Santiago ; a segunda a Maya; e i terceira S. Felippe, ou liha do 
frigo; por todas tres descubrirera em o primeiro de Maio, dia dos ditos 
dous Apostolos: e passando logo o rio Rtia, ou Caramanca, chegar3o alò 
t> Cabo Vermelho, e delle se voltarào a Portugal. E porque estas Ilhas 
de Cabo Verde sao onze, os nomes das outras oilo sao, o da quarta S. 
Chrislovao, quinta a do Sul, scxta a Brava, septima S. Nicolao, oilava 
S. Vicente, nona, Razabranca,jdecima,.S. Luzia, undecima S. Antonio,, 
on S. Anlao, comò (d'estes nomes, e da ordem com que vao) consta 
da doacio Real, que El-Reì D. Jo3o II fez ao Duquede Beja D. Manoel, 
Rei que Ihe succedeo. 

56 Eslao todas estas Ilhas arrumadas desde quatorze gràos e melo 
até dezoilo, ficando-lhe o Cabo Verde em quatorze graos, e hum terco, 
conforme a Ptolomeu. A Uba de Santiago està Ireste a Oeste do dito 
Cabo norenta e ciuco legoas, em quinze grios e meio; e conforme a ou- 
tras carias. eni quatorzf^ e meio. A Maya està de Santiago a Leste doze 
tegoas. A de S. Felippe està ao Sul de Santiago treze legoas e meia, 
tamhem era quatorze gràos e meio. A Brava està ciuco legoas, Leste 
Oeste de S. Felippe. Entre Santiago, e a Maya ha hum Baixo em quinze 
gràos e meio. ciuco legoas de Santiago ; e a Norte desta Santiago, em 
dezaseis gràos e dous tercos, esQo dous Baìxios ruins. Suo Nicolao està 
trinta legoas de Santiago ao Oeste, em dezasete gràos, e ao Oeste de S. 
Kifioiao, se'ì& legoas, està S. Luzia em dezaseis graos, e bum tergo; e ao 



86 HISTORIA INStlAXA 

Sul d estas duas Ilhas estuo dous Ilheos de grande pescaria. S. Vicente 
està ao Oeste de S. Luzia cìnco legoas, em dezasete grùos e meìo esfor- 
fad«)S. S. Antonio està ao Oeste de Suo Vicente em dezoita gràosy me- 
uos bum quarto, e entre estas os Canaes suo muito limpos. 

CAPITOLO iX 

Qnalidades da$ princìpaes Ilbas Ae Cabo Verde. 

57 A lilla de Santiago, cabeca das onze de Cabo Verde, corre de 
Norte a Sul, e tem dezoito legoas de comprido: a Cidade se intìtuia 
tarribem de Santiago, e consta de duzentos vizinbos, e pelo meio a corta 
huma ribeira; be a cabeca do Bispado das outras suas Itbas, cono Bispo, 
e Catbedral. Por està Uba v3o as n«nos de Castella para as saas Indias, 
assim corno as da India Orientai de Portugal vem pela Terceira, e por 
a de Santiago vao as de Portugal para Angola, Gutnè, Congo, e outras 
partes. Tem muitos gatos de algalia, e tambem infìnidade de Bugios, 
muitas galinbas, e gulipavos. De fructos da terra dà muito assucnr, de 
que se faz muita conserva, mas nao chega ao da Madeira; nem dà trigo 
algum; mas tanto milbo branco, grosso, e mìudo, que carregao navios 
para fora; dà muita fructa de espinbo, muitas peras, ffgos e n>eloes, e 
todo anno uvas, jà em agra(o, jà que comecao a alimpar, e jà madu- 
ras; feijoes, e aboboras de muitas castas. Ila nella muitas arvores, corno 
maceiras, que dao buns bugalhos, dos quaes abertos tirao muito algo- 
dao. Oa tambem muitas bananeiras, cujos iìgos paitidos ao travez, em 
cada talbada mostrao a figura de bum Cructfixo, ou Cinz, e dizem que 
d'aquelles era o fructo vedado do Paraiso terreal. mais veremos abaixo. 

58 A Uba de S FiUppe se cliama taml)em Uba tlo fogo, porque da 
bum altissimo pico seu salie continuamente tanto fogo, e às vezes deità 
de fogo taes ribeiras, que esfriadas se converl^m em cinzas, e pedra pò- 
mes, (corno dizem) e vao dar ao mar; e em tempo sereno, e de noìte 
ebega a ver^se este fbgo de quinze legoas ao mar; e até a mais alta niN 
vem de fumaca, que sobre seu cume fórma este pico, ebega a ver-se de 
mais de vinte legoas ao longe, quando o tempo eslà sereno, e o Ceo lim* 
pò: deste pico dizem ser tao alto, que por liiilui iniagmaria, desde o 
baixo langada ao ponto correspendente a sua altura, tem tres legoas, quo 
em Hespanba conlém doze aulba^ e nao obstaate tal altui^, e tal fi^ 



LIV. Il CAP. IX 87 

d'esla, e dislnr so sete Icgoas d'ella a oulra Ilha que cham5o Brava, se- 
lf aiinos csleve esla encuberta depois de descuberta a oulra de tanto 
f.»«(o, e altura; e assim dizem que excede esle Vulcano de fogo ao furio- 
so ilas Indias <le Castella, ao bravo da India Orientai, e ao tremendo de 
Sicilia, coin todus serem Kinns espanlosos. 

59 Da Ilha de S. Antonio se diz constar de«oito legoas pouco mais, 
on menos: e do mesmo tamanho he a Ilha de S. Luzia; e assim està, co- 
rno a Ilha Brava, e a do Sai, e a da Boa Vista, sào dos herdeiros de D. 
Mariinlio de (fastello Branco, diz o Doutor Fructuoso; mas que a de S. 
Antonio ei*a de hum lidalgo de Evora Gonzalo de Sousa, genro de Ber- 
nardino de lavora, Reposteiro mór; porém que a de S. Vicente era do 
Condi^ de Portalegre, Mordomo mór d'el-Rei. 

GO Em algumas d estas Ilhas sahe ambar, e muito, corno na Ilha 
Brava, na de S. Lnzia. na do Sol. e da Boa Vista: e por estas Ilhas vinha 
a Porliigal bastante o:To. por commercio que tinh'io a^n Cabo Verde; 
lioje porém vem ja tanto ouro das novas minas do riquis«imo Brasil, que 
vin(h) a Pori.igal corre polo mtmdn lodo. Ale corvos brancos ha n'estas 
Illia<, que parev.e fui tàiào a cor aos homens; tem grande diversidade de 
aves: iunumeraveis pombas, mas tambem lagarlos verdes que as comem; 
rolas miiitas, e ad(^ns, e dìo-se as fructas quasi todas de Portugal, e ex- 
cellcnlissima horfalira, e t/ida a casla de legumes, grande copia de algo- 
dOo, muitis. e ligi'iris-siinos c^vallos, egoas, e outras bestas de servigo, 
e rauilo, e bora pescado em quasi todas as Ilhas; vacarla de numero e.\- 
cessivo, e maior numero de cabras. 

61 E com tudo nao sem fondamento ainda dura a ma fama de nao 
serera sadias estas Ilhas para os que vao para la de Portugal; porque 
t(Klas cstao debaixo da Zona torrida, e nao dào trigo aìgum; nem n'ellas 
olmvc mais que qualro mczes do anno, Junho, Juiho, Agosto, e Seplem- 
bro: e em lodo o mais tempo, nem de dia, nem de noite, nem ainda de 
madnigada cahe orvaiho algum, ou algum sereno, que faga humedecer 
Imma foiba de pa|)el deixada fora ao ar: e na principal Uba Santiago he 
1*50 nocivo pcscado, que causa muila esquinencia, e camaras de san- 
f\uK e ainda assim o bom Doutor Fructuoso, que confessa tudo islo, per- 
si.^le em aflirmar serem muito sadias estas Ilhas, e que suas doengas 
vem da inlomperanca no comer, e proceder dos que là vao; e que os 
que sào regrados, e continenles vivem muito n'ellas. 

Gì O certo porém he, que para us que vao de fora he o clima mul- 



90 HISTORIA IXSULANA 

ao descubrimcnto das Canarias, sabendo dos intentos com quc o Infante 
D. Ilenrique de Portugal qiieria descubrir novas llhas no Oceano, Ihe 
viera dar nolicias da Uha do Porlo Santo, e qne pelos sinaes deste Cas- 
lelhano mandara enlào o dito Infante a Uarlholonieu Pereslrello, e a Joào 
Gontalves Zargo, e a Tristao Vaz Teixeira, a descubrir a U\ì Uba, e que 
esles tres a descubrirào. 

3 Accrescenlao outros, qne o Infante D. Ilenriqne, vindo do cerco 
de Ceyla, desejoso de augmentar a Ordein MiliUir de Christo, inandou 
por deierrainafào sua descubrir a costa de Africa, desdeojà descuberlo 
Cabo de Nàin, até o Cabo Bojador, sessenta legoas adiante do de Nam, 
d'onde nunca poderao passar os exploradores: e quc visto isto, se offe- 
recerao ao dito Infante dous nobres, e esforrados Cavalleiros de sua ca- 
sa, Joao Gongalves Zargo de alcunlia, e Trislao Vaz Teixeira, para irem 
a descubrir a dita cosUi de Bcrberia, e Guinù; e qne o Infante Ibes dera 
liuma barca, (que assirn chamavào entào aos navius pequenos, corno ain- 
da boje na Inijja Orientai a grandes naos) coni ordeni (pie cbegnssom ao 
Cabo de Mojador, e delle ao diante fossein descubrindo o (pie acbas- 
sein: e (jue a estes Cavalleiros deu tal lempcstade, anles de cbegareni :\ 
costa de Africa,- (junto a qual entào se navegava sóuiente) que seni s;«- 
ber aonde estavào, e pelo navio ser pe<|ueno correrao grave perigo de 
alTundir-se, e invocando os Santos do Ceo, se Ibes descubrio bunia ihna 
liba, a qual por isso clianwrào Porto Santo, e vendo-a, demarcandn-a, 
e noiando-a estar tolalmeiite deserta de gente, se vukarào ao Infante 
coni as ditas iiovas. 

4 Logo se llie olTerecerik) muitos para a irem povoar, e entre elles 
(diz doutor Fructuoso) buma pessoa nolaveK a saber, Barlbolameu 
Perestrullo, lidalgo da casa de D. Joào, Princii)e. innào do nosso Infante 
D. ilenri(pie : e esle niandou logo aprestar, e dar tres navios, hiun ao 
(libi PeresU'ello, outro a Jnào Gonvalves Zargo, e ontro a Tristào Vaz 
Teixeira: mas porque o tìdalgo Perestrello, entre o mais ({ue levava para 
està povoacao, levou Uunbem buina a)elba, cpie parindo no mar, fui lan- 
C^ida na Iliia com os QUios, e multiplicou t^into« que nào se piantava, ou 
semeava cousa, que os coelbos nào roessem: de ijue (l(\sgoslado o Peres- 
trello se voltou a Portugal, deixando a Joào Gonralves, e a TrisIào Vaz 
na dita Uba, corno adiante veremos. 

o certo pois lie, que (dado S(»jno verdadeìras as (hias oiiiniòj^s 
acima, e succedessem aos annos de 1417, atti 1419), o cerio inique no 



Liv HI ckp. n 9i 

anno de 1420, Jo3a Gongalves 2^rgo, e Tristao Vaz Toixeira. da casa do 
uosso Infante D. Henrique, e por ordern d'elle sahii^aa de Lagos a as- 
saltear as Canarias, e que indo, e voltando coin grandes lormentas, per- 
liidos forao dar em huma Iliia, e por niella se salvarenv, IIh3 chamarOo 
a lilla do Porto Santo, e d*ella tornarao com taes novas a(.> Infante D. 
Henrique, que alegre com tal descubrimento d'està primeiraliha de Porlo 
Santo, deo logo d'ella a Capitania a Barlholonieu Perestrello, tìdalgo da 
casa do Infante D. Joao, irmào do dito D. Henrique; e com o dito Po- 
resirello mandou tambem para a dita Illia os dous primeiros descuhri- 
dores d'ella Joao Goncalves, e Tristao Vaz, que era bum navio cliegarào 
de Lagos a Porlo Santo em o anno de 14^1, e nella estiverào dous an- 
nos, DOS quaes andava o navio trazendo novas da Uba a Lagos, e levan- 
do mantimentos de Lagos, a liba, ató que o Capitao Perestrello, enfa- 
dado d'aquella quasi praga de coelbos, se voltou a Portugal, deixando 
ìà OS dous companlìeiros, e os mais que com elle tinbào ido; e que de- 
pois, comò diremos, descubrirao a Madeira. 

6 Està pois parece a mais provavel. opinino dos descubridores, e 
primeiros povoadores da liba de Porlo Santo, (iorque ainda (|ue fosso 
vista priioeiro, e visitcìda de Francezes, e Castelbanos que andavao em 
demanda das Canarias, fui depois nao so vista, e vi:^ilada, mas descu- 
berla loda, e babitada por mandado do Infante D. I]enrì(|ue, e pelos so- 
breditos Portuguezes; sem que obste a variedade sobredita, |iois com a 
diversidade, e distin^ao dos tempos se concordào as opinióes diveisas. 

CAPITULO II 

Do silio, qmaUdades^ e povoapùes de Porlo Sanlo. 

7 Està a Uba de Porto Santo em quasi trinta e tres gvios de altu- 
ra da parte do Norie, cento e quarenla legoas de Lisboa» 1!2 da Madei- 
ra, de terra a terra, e 20 de porlo a porlo; seu comprimenlo corre de 
Nonleste a Sudueste, por quasi quatro legoas, e sempre Ci)m legr)a e 
meia de largura, e de circunferencia mais de oilo, com varias j)onlas, e 
eiiseadas. Quasi no meio da Uba se levanla bufu (>ico, alto, e redonib^ 
e em sima com terreiro, e casas, em que em tempo de gueri-as coni 
Castella se rocolbi3o da liba, e por isso Ilio cbamao o Vko di» T^aslclK 
e uà venlade lem subida tao trabalbosa, que os de cima se iiudem du- 



tA mSTOHIÀ ÌNSULANX 

compniilieìro craqoelles dous primeiros inx'efirtores d*est3i liha, por re- 
solver fica ainda, porque mais ao Perestrelics do que a algum dos on- 
Iros dons se de© a llha. Do Doulor Frncttìoso parece coliegir-se, que a 
Perestrello fez o ìnrante primeiro Doijatario d'esla primeira liha des^^jjj 
lierta, por denotar assim, que PerestreUo era, por seu sangue, e suas 
obras, da primeira fidalguia, e em o premio merecia ser primeiro. e por 
isso d'elle dix o cilado Historiador, nao somenle ser huma nolavei pessoa, 
iiem so ser Malgo da casa do Infante D. Itenrique, mas laml)em da ca- 
sa do Serenissimo Infante D, Joao, que do Infante D. Henrique era irmao. 

13 Tomos |)ois que o primeiro Donatario, e da primeira liha des- 
i«!jLMla foi Barlholomeu Perestrello, por ser huma estrella da nobreza, 
e fidalguia, além de o mereccr por suas obras: e assira està Capitania 
Doiialaria Hie confirmoii El-Rei Dom JoHo o I, e Ih'a deo de juro para 
s(nis fillìos, e desccndentes por linlia direjtn» e mascufina. Era este pri- 
meiitì Ca[)ilao casiKlo com Bealriz Furtada de Mendonca, (que nera no- 
bilissimas mulheres usavao de Dom, ainda entao, com a fucìlidade que 
hoje mulheres muito ordinarias): deste matrimonio nascerSk) so tres fi- 
Ih;»s: a primeira foi Catìiarina Furtada, que casou com Mem Rodriguez 
<te Vnsconcellos, do Canisso da liha da Madeira; a segunda foi Izeu Pe- 
lasi rolla, que casnu com Pedro Correa Capitao da Illia da Graciosa; ler- 
iiv'u'iì filila foi Beatriz Furtada. 

1 ì Supervivco este primeiro CnpilHo A sua mullier primeira, e ca- 
snu segunda vcz com Isabol Moni/, irma de Garcia Moniz, e de D. Chris- 
tovào Moniz, Bispo de annel, Carmoiila, e d'està segunda mulher hou- 
ve so a Barfiìolnmeu PereslrcHo, segutido do nome, que, morlo o pai, 
Ficou aiuda menino; e entao a mai, nào querendo raorar mais no Porlo 
Salilo, liouve alvara d'el-Uei, e vendeo a Capitania ao sobredito Pedro 
Cornea senlior da Graciosa, e genro do primeiro Perestrello, e llfa ven- 
deo, assim conio o marido a possuira, por pre^n de trezentos mil rèis 
em dJnheiro, e iriiita mil réis de juro, cujo capital todo ainda nSo che- 
ga a dous mil cruzmios, (tanta era a barateza d'aquelles tempos, ou t3o 
pouco nclles era o dinheiro). Govemou Pedro Correa, comò segundo 
Capitao Donatario, a Porto Santo, até que seu Cunhado, sondo jà de ida- 
de, e vindo jà de Àfrica, de servir a EMtei, poz demanda ao cunhado 
Pedro Correa, e se julgou por nulla assim a iicen^a d'EI-Rei, comò a 
M^nda feita, e que se descontasse ao comprador o prefo cftie dera, pela 
renda que rccebera. 



LIV. Ili GAP. Ili 95 

15 Foi sepundo Capilao Donatario de Porlo Santo (por nnllamen- 
te lor siilo Pedro Correa) Barlholomeu Perestrello, segando do nome, 
€ El-Hei o confirmou na casa, conio tinha confirmado a seu pai; e ca- 
roli coin Guiomar Teixeira, fdlia do primeiro Capitao de Macliieo em a 
Madeira, Tristao Vaz Teixeira, e honve d'ella bum so filho, Bariliolnmeu 
Perestrello, terceiro do nom(5. qiie casou com Aldonsa Delgada, filha de 
Garcia Uodriguez da Camera; poréra comò o marido malou està sua mu- 
Itier, e rom dispensa casou com sua prima D. Soinnda, irma do dito Ca- 
pitao ila Machico: e da [)rimeira llie tiiiha tìcado hum fìllio, Toi este. 

16 tei-ceiro CapilOo de Porlo Santo, chamado Garcia Perestrello; 
Méin do (]ual leve o pai da dila sua segunda mulher os fìllios seguin- 
les: primeiro, Manoel Perestrello, que nunca casou, e foi varao de gran- 
te viriudes; segundo, Ilieronyino Prrcstrello, que casou com D. Elvi- 
n, ima de Chrij>lovao Martins de Grinao, e de alcunha o Pervi; tercei- 
rn, D. Krancisca Perestrella, mullier de Joao Rodriguez Calassa no mes- 
mo Porlo Santo; e lodos estes fillios da segunda mulher forao, em pena 
ilo [wi ter dado a morte a primeira mulher, forao no livramento do pai 
1»Ij?;h1os iwr baslanlos. e foi a casa ao primeiro fdho Garcia Perestrello, 
<|iie casou com huma filha de Diogo Taveira, Desemhargador, e C(Tre- 
gtMJor do Fimchal, e d ella houvc primeiro, Diogo Soares Perestrello; 
JHìjfuiKlo. AmlM'osio Perestrello, que foi Frade Carmelita ; terceiro, e 
quarto, duas tìlhas, que forao Freiras na Annunciada de Lisboa. Mas 
conio esle Garcia l^erestrello (seguindo a seu pai) matou tambem sua 
pnipria mulher, e foi degollado por sentenra, e por diligencias do De- 
wliargador seu sngro, ainda em vida do pai. que morreo em Aljezur 
'lo Al«fnrve com sessenla annos de ìdade, e vinte e tres do governo da 
liha, tornarao os filhos de D. Solanda a pertender a casa de Porto San- 
lo, fazen<lo-se julgar cm Homa por legilimos filhos : jKirém cegando o 
niJiis volilo; e falecendo o mais moco, cessou a demanda, e o Desembar- 
gador conseguio dei-Rei a casa de Porto Santo para o nelo Diogo Soa- 
IV8 Perestrello, que jà estava de posse d'ella. 

17 Quarto Capitilo Diogo Soares Perestrello, casoo com D. Joanna 
de Castro, mulher muito princi|)al do mesmo Porto Santo, e d'ella leve 
OS filhos s^uintes: primeiro, Diogo Perestrello; segando, Manoel Soa- 
res, que fcisou com D. Maria Loba; terceiro, André Soares; e em quar- 
to lugar t8ve a D. Joanna <le Castro, que casou no Canisso da Uba da 



tS H19T0IUA tNSL'LANA 

Madeira; e morto este (|uarto Capitao Dingo Soares Perestrello, Ibe sac- 
C4^(leo na casa seu pritneiro fillio Diogo Perestrello, segundo do nome. 

18 Deste quinto Capitao Diogo Perestrello, s^undo do nome, dì;^ 
Doutor Fructiioso que em seu tempo goveinava« e era bom Capitao, 
blando, e de boas partes, e artes, e casado na Calhela da Madeira; e 
que casura com D. Maria, filha de Gaspar Ilomem, fidalgo/morador uà 
dila Villa da Calheta, aonde o dito Capilào seti genro residia o mais do 
tempo, por a mulber nao querer residir no Porto Santo; porém que to- 
dos OS annos, no verao, hia este quinto Capitao residir na sua llha, e 
\alerosamente a defendia dos Cossarios Francezes» pondo-se na prava, 
(qiie tem quasi tres legoas de are^l) e impedindo-llies a entrada, atè de 
dentro de covas feitas na area, e com tal valor, que nunca, eslando es- 
te Capitao na lllia,* foi ella tomada de Francezes, tendo sido tres veze:$ 
sa<iueada, quando tal Capitao estava ausente. 

19 Finalmente foi està Uba de Porto Santo nao so descuberta pò- 
los Porluguezes, sem ter sido antes povoada de algucm oulrem; e nào 
isó povoada pela maior nobreza de seus ìllustres Capitàes Perestreilos, 
cuja de:^cendencia cùnda hoje dura, mas ainda os mais povoadores neni 
forào de delinquentes de cadeas, nem de degradados por seus crimes, 
nem de Judeos, ou inrecta outra na^^o, seuao de Portuguezes limi)os, e 
nobres, pois (comò diz- o citado Fructuoso) foi povoada esla Iliia de gen- 
te (idaiga, e nobre, comò Perestrellos, Calassas, Pinas, Vasconcellu.s, 
Mendes, Vieiras, Castros, Nunes, Pestanas, e que se aparentàrao logo 
com a melUor nobreza das outras Ilbas, comò veremos. 

CAPITULO IV 

Do pri metro casual^ e $0 paretai descubrimento da celeberrima Ilha 

da Madeira. 

20 Reinando em Portugal D. Jo3o o I, e ainda em loglaterra D. 
Doarte III, do nome, havia nella hum nobre Cavallelro Inglez de alcii- 
nba chamado o Iklachim, que quereodo casar com huma nobre Dama 
Anna Àrfet, e nUo querendo d'esu os parentes, se resolverao ambos a 
passar a Franca, que Unha guerras eolio com Inglaterra; e com tal pres- 
sa Qzerao, que embarcando-se em hum navio que partia de Bristol, 
uem esperando pelo PiiotOi se eatregarSo ao mar : eis (jue sobrevindo- 



Liv. m CAP IV 97 

Ihe huma forte lempeslade, e nao'tendo Piloto que o governasse, per- 
ii idos por alguDs dias, forao. sem saber por onde hiao, dar em huma 
poDta de terra, e em huma fresca ribeira, que allì da terra sahia ao mar; 
que vendo a Dama Arfet, pedio ao seu Machìm que ao menos por 
deus dias a desembarcasse allì, para se desenjoar; e assim o fez Machim 
com outros Geis amigos que p acompanhavao, mas na terceira noite tor- 
nou tal tempestade, que o navio desappareceo, e os que ficarao em ter- 
ra, se derao por mais perdidos do queo navio no mar; e à Dama Ar- 
fet deo tal accidente, que sem dizer mais palavra alguma, dentro de 
tres dias expirou. 

21 Vendo Machim tal successo, enterrou alli mesmo a defunta, e 
pondo-lhe de pedra huma campa em cima, e hum Crucifixo que comsi- 
ga trouxera a defunta, levanlou mais sobre ella huma grande Cruz de 
pào, com hum letreiro em lalim, que continha o successo, e pedia aos 
Chrìstaos que em alguma bora allì fossem, fizessem em aquolle lugar 
Imma Igreja da invocapao de Christo Senhor nesso ; e voltando-se logo 
a(« companheiros, Ihes rogou instantemente, que coro as roupas, e pe- 
cas que alli estavao, e aves que podiao tornar, se fossem seguindo a 
ventura, que elle alli ficaria até morrer, acompanhando aquella sepultu- 
ra: mas nao querendo deixal-o os amigos fidelissimos, e ficando-se com 
elle, foì tal o sentimento de Machim^ que de pura dor da morte de tal 
esposa, morreo ao quinto dia: o que vendo os companheiros Ihe abrirào 
sepultura junto a da defunta, e cnterrando-o niella, Ihe puzerao em cima 
outra grande Cruz de pào, e n'ella escreverao o flm do lastimoso suc- 
cesso. 

ìì Executada esla obra de tanta piedade, se resolverao entao os 
pasraados companheiros de Machim a deixarem a terra, que viao brava, 
e deserta, e se entregarera ao mar: e com effeito em o batel que tinha 
ficado do navio: ou (corno dizem outros) em huma canoa que fizerao do 
tronco de huma grande arvore, se metterao todos, e deixando a Ilha, 
forao em poucos dias dar na costa de Berberia, aonde, sendo cativos, 
forao todos levados a iMarrocos: eis que acharao elli todos aquelles pri- 
meiros companheiros, que com a tempestade tinhao no navio deixado a 
Ilha, e pelo mesmo rumo do batel tinhao entrado na mesma Barberia, 
e levados cativos àquella mesma Corte de Marrocos ; e vendo-se todos 
jantos, e de huma, e outra parte referindo-se os successos, reparemos 
corno aqui so ajuntou com o cativeiro a'Iiberdade. 

VX)L. I 7 



98 HISTOHIA INSILALA 

T 

23 Presonle se achou a representafao d'esla tragedia hum Piloto 
Castelliano, e tambem alli cativo, por nome Joao de Amores, (em os 
quaes a tragedia comccara) e inrorniando-se com loda a attencao dos 
ventos que trouxerao com a primeira tempestade de Bristol de Inglaler- 
ra a nova Illia, e os dias quo gastarao ale dar n'ella, fez conceito pru- 
dente, e curioso da altura em que devia eslar a Ilha. e comsìgo conser- 
vou cste soy:redo, até que resgatado este Piloto, e navegando jà de Ber- 
beria para sua Castella, e Andaluzia, que entao com Porlugal andava em 
guerras, foi cativado no mar por hum navio Portuguez, cujo Capilao era 
Joao Gonfalves Zarco, que andava correndo a costa do nosso Reìno do 
Algarve: e querendo o Piloto ganliar a gra^a do Capitilo, Ihe communì- 
cou ludo quanto tinha alcanjadoda nova Ilha, e comò so podia descobrir, 
e povoar: e era ouvindo isto o Capitao, voltou kigo com o Piloto a ter- 
ra, e levou ao nosso Infante D. Ilenrique, e remettendo-os este do 
Algarve a Lisboa a seu pai el-Rei D. Joao o I, veio logo tambem o mes- 
mo Infame, e conseguio do pai dar, comò deu, logo hum navio a Joao 
Gonfalves Zarco, e ordem que com o tal Piloto fosse logo descubrir a 
nova Ilha: e rom cfTeito parlirao do Algarve em a entrada de Junho de 
1419, e forào dama Ilha de Porto Santo, que jà anles se tinha descu- 
berla, e a governava seu primeiro Donatario Barlholomeu Perestrello, 
corno ja'disseraos. 

CAPITULO V 

Do descnhrmenlo de (oda a Ulta da Madeira feito for ordem 
do Infante I). Ilenrique. 

24 Quando este navio chegou a Porto Santo, jà entre os navegan- 
tes era fama publica que do Porlo Santo se via a poucas legoas hum ne- 
grume tal, e tao niedonho, e perpetuo, qne ninguera se atrevia a che- 
gar a elle, e todos.os mareantes se aHastavao dalli; e huns diziao eslar 
alli abysmo, e outros a boca do Inferno, e que aquelle negrume era 
fumo da fornalha infornai, ctc, e comò o Capitao Joao Goncalves, e o 
Piloto (]astelhano estavao no Porlo Santo observando ludo isto, e virao 
que nem nos quarleiróes das Luas se desfazia o negrume espantoso, nem 
se alreviao a ir examinal-o, até que por voto do Piloto, com que con- 
cordava Capit3o somente, sahirao de Porto Santo em hum navio c^m 
alguns barcos, tres horas antes de sahir o Sol, e jà junto ao mcio dia 



I 



uv. m CAP. Y 99 

cliegarao àquella medonha escuridade, que cada vez Ihe parecid tanto 
mais horrenda, quanto mais perto d'ella a observavao, e sem distingiii- 
rem ainda terra, mas sómente ouvindo horrendos estouros, e roncos do 
mar, com que todos bradavao ao Capìtao, e Piloto se voltassero, e nao 
se meltessera em tao mortai abysroo. 

25 Porera o animoso Capi tao, e seu Piloto investindo aquella escu- 
ridao, lanc^rào seus baleis fora, e n'elles a bum Antonio Gago, (varao 
nobre, dos Gagos do Algarve) e a Gonzalo Ayres seu amigo, com ordem 
que fossem robocando o navio junto àquclle nevoeiro, e por onde ouvis- 
sem mais bater o mar: e a pouco espago andado viram por entre a ne- 
toa a huns altos picos, sem distinguirem ainda que era terra; e logo mais 
adiante virao o mar mais claro, e huma ponla de terra, sem aindà ere- 
rem que era; e porque o navio se charaava S. LourenQo, entao o Ca- 
pitào bradoti, (Oh S. Lourenfo chega) e a està entao flcou por nome, 
ApoDta de S. Lourengo ; e passando està para a banda do Sul, onde jà 
anevoa nào descia tanto ao mar, virao» e conhecer3o a terra, levantan- 
do allos gritos de alegria; e vendo huma seguinte praia, fermosa, e es- 
pacosa, alli lanfarào ferro com folias, e cantares, e por ser jà tarde fl- 
zerSo alli noi te. sem alguem sahir a terra. 

26 Ao amanhecer do outro dia foi ao batel hum Ruy Paes com or- 
to do Capilao Joào Goncalves. que observasse o sitio, e disposigao da 
terra, e Ihe trouxesse as novas do que achasse; e este Ruy Paes foi o 
primeiro Portuguez, que na Ilha da Madeira poz o pé: indo pois, e nao 
Nendo desembarcar na praia, pelo arvoredo que ale o mar chegava, 
epàos que huma grande ribeira alli trazia, foi o Paes para o Nascente 
desembarcar em hunscalhàos, posto a que chamao ainda hoje o desembar- 
cadouro, e aonde os Inglezes tinhao desembarcado de antes, e vendo ser 
a terra muito agradavel com varios prados, e grandes arvoredos, e ob- 
servando alguns cortados, e rasto de gente por entre elles, foi dar nas 
sepalturas, Cruzcs, e letreiros dos falecidos Anna, e seu Machim; e com 
estas novas se tornou ao Capitao, e seu navio. 

fi Entao a dous de Juiho de 1419, desembarcou do navio o Capi- 
Bo Zarco, e com elle dous Sacerdotes, e alguns dos nobres que vinhào, 
e desembarcados todos no lugar das sepulturas, derao as gragas a Deos 
por Ihes descubrir aquella nova terra, e fazendo benzer agua, na terra 
^ forao lancando, e tomando posse d'ella em nome do mesmo Deos ; e 
sbando huma casa formada dentro do grande tronco de huma ancore, 



100 ^ inSTORIA INSULANV 

alli prepararao aitar, fizerao celebrar Missa, e no firn d'ella responso de 
dofuntos sobre as duas sepulUiras de Anna Arfef, e Machim; e ludo era 
dia (la Visilagao de S. Isabf.l a dous de Julho; e n'este raesmo lugar 
se fundoii depais Imma Igreja a Christo dedicada: e entrando logo algun^ 
pelo arvoredo, e ribeira acima, a ver se encontravao alguns bichos, cu 
animaes ferozes, nao acharào cousa vìva, senio muitas, e mui diversas 
aves que se Ihes vinliao às maos; o que vendo, colherao avcs, e lenha, 
e terra de varios poslos, com outros varios sinaes, e em as barcas se 
voltarao ao navio. 

28 Logo ao outro dia tres de Jiilho, o Capitio, e Piloto Castelhano 
se metterao em bum batel, e outros nobres em outro, a que governava 
bum Alvaro Affonso, e assira forào correndo a costa junto a ella, e ob- 
servando as pontas, praias, ribeiras, e fontes de boas aguas ; e porque 
huma salila de bum seixo, se Ibe poz por nome Porto do Soixo; e por- 
que em outra praia mais abaixo acharào huns pàos derrubados com o 
vento, mandou o Capitao fazer d'elles buma Cruz, e arvoral-a alli mes- 
rao, e ficou ao tal lugar por nome Santa Cruz, que foi depois nobre 
Villa da Capitania de Macbico. Cbegando mais abaixo a buma grande, e 
alta ponla, que a terra alti faz ao mar, virào innumeraveis aves que se 
Ibes vinliào por s )bre as cabcg.ìs, e remos, que por nome Ihe ficou 
Ponta do Garajao, tres para quatro legoas de Macbico para o Occidente. 
D'està ponta duas legoas adiante, se ve oulra ponta, que com a priraei- 
ra faz enseada, rauito aprazivel, raza com o mar, e de arvoredo muilo 
uniforme, sobre o qual se deixavào ver os cedros entao altissimos. Logo 
entro as duas pontas acharào huma ribeira, e Ihe chamarao a ribeira de 
Gonzalo Ayres, por niella desembarcar este nobre bomem, e ir ver se 
achava animaes ferozes, e so aves achar. 

29 Uepararao logo em bum valle, que faz aquella bahia entre as 
duas pontas, e porque o virào cubiirto de seixos sera arvoredo algum, 
cheio so de funchos, e por entre ^Mes vindo tres ribeiras, chamarào a 
este posto o Funchal, quo depois foi, e h )je he a nobre Cidade d'esla 
Uba; no cabo da qual estào dous Ilheos onde passarào a noite, (com as 
aves que tomavao) mas dormindo nns baleis: pela moiihà i)assarào à se- 
gunda ponta, que tinhao observado, e por arvorarem n ella huma Cruz, 
Ihe ficou por nome Aponta da Cruz; e logo dobrando a ponta derào com 
huma fermosa praia, e Ihe chamarào a praia fermosa. Mais adiante virào 
entrar no mar huma grande ribeira, a qual querendo passar a vào huns 



LIV. U( GAP. V 101 

mancebos de Lagos, d'ella forao tao arrebalados quo se Ihes nao acii- 
dira batel, perigariào niella, e por isso Ilio charaarào a ribeira dos Ac- 
corridos. e passando-a virao diias ponlas, que da Illia entravao no mar, 
e entre ellas buina grande lapa, ou camera de pedra, e rocha viva, onde 
entrando os baleis, tantos lobos marinhos virào nella, que Uie chamarao 
Camera de lobos, e se recrearao malandò a muilos; e até o Capitào Joao 
Gongalves Zarco d'aqui tomou o chamar-se Joào Gongalves da Camera, 
corno abaixo veremos; e porque logo se seguio a ponla d'onde linhao 
comefado està volta, que derào pela costa a toda a liha, por isso à pon- 
la cbamarào Ponla do Girào, e desta com a noile se recolherao ao Illieo 
donde linbào comefado aquella volta, e cm a manbà se recolherOo todos 
ao seu navio. 

30 Voltados logo em o outro dia para Porlugal, e chegados a Lis- 
boa com taes novas, e sinaes da nova liha, tanto o festejarao os Sere- 
nissimos Senliores Ilei, e nosso Infante, pai, e lìllio, que mandarao fazer 
logo procissoes publicas de accao de gragas a Deos, derao nome à nova 
terra de Illia da Madeira, pela muita de que eslava cuberta; e el-Rei to- 
mou por fidalgo da sua casa ao descubridor Joào Gonfalves, e Ibe con- 
firmou appellido de Joào Gongalves da Camera, e Ibe deu por armas 
Imm Escudo em campo verde, e nelle Imma torre de homenagem, com 
Imma Cruz de ouro, e dous lobos marinhos encostados a torre com pa- 
quife, e folhagens vermelbas, e verdes, e por timbro outro lobo meiri- 
nho, assenlado em cima do patiuife; e demais llie fez el-Hei merce de 
Capiiào Donatario da jurisdicgào do Funchal, que he jurisdicgào de me- 
dile da dila liha, e de juro, e berdndo para elle, e seus successores: e 
assim este di toso Capitào ficou sendo o chefir, e primeiro tronco das il- 
lustres familias dos Cameras, lào extendidas, e augmenladas, comò 
adiante veremos. 

31 Logo no anno seguinte, em Maio de 1450, derào os ditos Prin- 
cipes a inleira Capilania da liha de I*orto Santo a Bartholomeu Percs- 
Irello, que jà de anles era fidalgo da casa do nosso Infante D. Ilenrique; 
e a segunda Capilania Donataria da Madeira, tambcin de juro, e berda- 
de, e chamada de Machico, comò a outra do Fuuchal, cada buma do 
meia Uba da Madeyra, derào os mesmos Princi|)es a Trislào Vaz Teixei- 
ra, Cavalleiro da casa do Infante, e por antonomasia chamado commum- 
menle o Trislào, de cuja illustre ascendencin, e descendencia em seu 
logar Irataremos; e aos tres Capitàes se derào tres navios; e dos histo- 



102 HISTOniÀ INSULANA 

riadores, huns discorrem, que os dous vinhao debaixo da bandeira de 
Joao Gongalves da Camera; outros que cada bum dos Ires vinha exem- 
pto do outro, corno exeraplos vinhao nas Capitanias, e jurisdifoes; e as- 
sim cada historiador falla confórme a sua aifeicao; sobre o que se podem 
ver Joao de Barros no principio da primeira Decada, Antonio Gal vao no 
tratado dos descubrimentos. 

32 certo he que El-Rei deo ampia licenza a loda a pessoa que 
quizesse embarcar-se entao, e ir povoar as duas Ilhas, de Porlo Santo, 
e Madeira, e especialmente aos homiziados, e condemnados que bouves- 
se em as cadeas do Reino; e que os tres Capitaes nao quizerao levar cul- 
pado algum por causa da Fé Divina, ou de trai^ao, ou de ladroice; e 
demais levarlo dìversas castas de animaes domesticos, e gados. E tam* 
bem he certo que todos forao dar direitamenle na Uba de Porto Santo, 
da banda de Leste, e em hum porto, chamado o Porto dos Frades, por 
huns Franciscanos derrotados terem ido alli dar; e desembarcando os 
tres navios, o Capitao Perestrello escolheo de gentes, e animaes os que 
quiz, e OS mais com os outros Capìtles se passarlo brevemente a Ma* 
deira. E emQm he certo que o Capitao do Funchal Joao Gon^lves da 
Camera levava comsigo jà sua mulher Constanga Rodriguez de Àlmeida, 
e tres filhos duella, aiada menores, Joao Gon^alves, Helena, e Beatriz, 

CAPITOLO VI 

Do terceiro descubrimento do interior da Ilha da Madeira, e da diviselo 
das jurisdifòis dos suas Capitanias, especialmente da do Funchal. 

33 Deixado o Donatario Bartholomeu Perestrello na sua Capitania de 
Porto Santo, partirlo os dous Donalarios para a Madeira, e a entrarlo 
pelo porto de Macliim, donde tomou o nome està Capitania de Machico; 
e logo ambos levantarlo (confórme a petiflo do Inglez alli sepultado) a 
Igreja da invocaflo de Chrislo. ficando a Capella mór sobre a sepultura 
do Machim; e porque a primeira Missa que nella se celebrju, foi no dia 
da Visilacao de Santa Isabel, ficou sendo està Igreja Casa da Misericor* 
dia, e a primeira Igreja, que houve em toda a Ilha; e aqui poz o Capi- 
no Tristlo Vaz a cabe(;a, ou corte de sua Capitania, corno o outro Ca- 
pitlo Jolo Gonfalves a poz em o Funchal, para onde se foi logo. 

34 Chegando este Capitao ao Funchal, fez levantar huma Igreja ao 



LIV. Ili CAP. Yl 403 

Nascimento da Yirgem Senhora, e por haver alli muito calliao junto ao 
mar, Ihe ficou o Ululo de nòssa Senhora do Calhao; mas pDrqiie d'alli 
para dentro da liha era tanto, e tao alto o arvoredo, que m?m podia cor- 
tar-se. nem por elle abrir-se carainho, mandoii o Capilào por-ine o fo- 
go, que achando tanta materia e tao disposta, se ateou tao bravemente, 
que sete annos conlinuos ardeo no vallo o fogo, e nào so polas arvo- 
ras de cima, e muito mais por baixo d ellas, em infìnita cahida, e sec- 
ca lenba, mas tambem por baixo da mesma terra andava lavrando 
cruel fogo pelos subterraneos troncos sem se poder apagar, o tal foi 
aquelle incendio, que as gentes por Ihe escaparem, se tornavao da 
terra para o mar, a salvar-se em os navìos; até que amainando o fo- 
go na costa mais junta ao mar, fez segunda morada o Capilào em lium 
alto que ficava sobre o Funchal, e para defesa d'està segunda rasa fun- 
doa defronte d'ella huma Igreja à Conceigao da Seuhora, que a respeito 
de nutra se chamou nossa Senhora de Cima; e n'esta fundou depois o 
segundoCapitàoJoaoGoncalves tambem bum Convento de Freiras Fran- 
ciscanas, e da Observancia, tao magnifico, illustre, e observantc, corno 
qualquer dos grandes de Portugal. 

35 • A primeira Capitoa Constanga Rodriguezde Almeida, corno pes- 
soa de grande virlude, e muito devota, fundou, nas casas que sou ma- 
ndo primeiro Capilào levantara para si, fundou huma Igreja à glorio- 
sa Virgem, e Martyr Santa Catbarina, e junto a està Igreja muitas ou- 
tras casas para viverem pobres merceeiras, que servissem a dita Igreja 
de Santa Calharina, e Ihes deixou esmola competente a scu sustento; e 
Capilào seu marido aos Frades de s. Francisco, que comsigo trouxc, 
e aos que achou derrotados, e com elle vieiào de Porlo Santo, fundou- 
Iheshum Hospicìo,, e huma Igreja de S. Joào Baptisla pela ribeira aci-r 
ma; mas depois se mudarào estes Frades para dentro da Villa,* aonde 
lM)Ìe eslào defronte de Santa Calharina alem da ribeira, e he jà bum 
gravissimo Convento de cincoenta Frades, e de grande observancia, exera- 
plo, e muitas leiras. : 

36 El-Uei, e o nesso Infante D. Henrique tinhào cada mez aviso da fe- 
licidade, abundancia, e frescura d'està Uba da Madeira, e ihe mandavào 
Mvios cera loda a casta de gados. e animaes domesticos, e sementes dos 
frutos necessarios, e ludo frutilìcava tanto que de cada alqueire de tri- 
go semeado colhiào ao menos sessenla; e as vacas, marnando ainda, ja 
parilo. E Infanto sabendo das muitas aguas, o ribeiras que havia na 



104 msroiiiA insulana 

dita liha, providentìssimamente mandou buscar a Sicilia plantas de canas 
de assucar, e Mestres de o fazerem, para o mandar fazer na liha; e tal 
effeilo leve, e coin tal successo, que o assucar da Madeira he o melhor 
que se sabe haver no mundo, e lem enriquecido a muitos mercadores, 
assim forasteiros, corno naturaes da liba : cuja madeira era tanta, tao 
grande, e tao boa, e loda scrrada com engenhos de agua» especialmente 
da parie do Norie d'està Uba, que d'està madeira se coraegarao em Por- 
tugal a fazer navios grandes, de gavea, o castello de avanle, nao ha vendo 
de anles mais que Caravelas do Alvarvc, e Barineis em Lisboa, pois nao 
linhao ainda entào para onde navegar mais: e assim parece se confirma 
erro de se lancar fogo em o principio a tanta madeira, que podia Ira- 
zer-se a Portugal, e escusar esle de a mandar vir de oulros Reinos para 
fazer la navios graades; e ale na dita liba se sente jà falla de madeira, 
pela muita que se gasla nos engenhos do assucar, e por isso até d'estes 
ha jà menos. 

• 37 Passados os primeiros dias, em que cada Capitilo se accommo- 
dou na cabega de sua Capitania, ambos entào se ajunlarào para corre- 
rem a Uba, e repartirem iguahnente (confórme a ordem expressa do In- 
fante) OS termos dajurisdicàodecadahum: para islo prepararao gente de 
pé, e de cavallo, para por terra irem abrindo caminhos eslreitos, mas 
sempre perto do mnr; e barcos que junto a costa sempre hiao, para que, 
quando fosse necessario, a elles se recoUiessem os Capitaes. Do Funchal 
pois partirao por terra os Capitaes com os de pé, e de cavallo, e che- 
gando a bum alto que està sobre Camera de Lobos, tra^ou logo aUi o 
Capitao do Funchal huma Igreja dedicada ao Esprrilo Santo, e outra 
em humas altas serras mais abaixo, com a invocacao da Santa Cruz ; e 
tomou estes altos para si, e seus herdeiros. E logo mettendo-se os Ca- 
pitaes em OS bateis, forao adianle pela costa do mar, e a mais gente por 
terra; mas estes com perigos a cada passo, por ser a llha d'aqui para 
baixo multo fragosa, de rochas alias, profundas ribeiras, e asperrìmos 
caminhos; e so depois de muitos dias passarao tres legoas adianle até 
huma furiosa ribeira, aonde os Capitaes em lerYa, e os bateis na agua 
OS estavao esperando, e aqui ficou o nome de Hibeira Brava, que he 
hoje bum dos melhores lugares da llha, e he huma quasi quinta da Ci- 
dade, corno dizem ser Sicilia de Italia. 

38 Aqui se lomarao os Capitaes a metter em os bateis, e indo lui- 
ma legoa adianle virao huma ponta da terra, que entrava no mar, e nos 



Liv. IH CAF. vr 103 

vieiros de sua alta rocha figurava ao longe lumi Sol, e a Ponta do Sol 
a inlilularao ; e o Capilào do Funchal iracou logo aqui mesmo huma 
Villa, que foi a primeira de sua jurisdiirào, o se fundou depois; £ n'esle 
porto eslà huma tao grande fazenda, que o dito Capitao a tomou para 
seus filhos, e hoje nenhum a tem, por so dividir, e vender, sondo quo 
houve anno, em qiie deo vinte mil arrobas de assucar, e chama-se a 
Lombada. Pouco adiante, em huma ladeira, Irarou o Capitao do Fun- 
chal huma Igreja do Apostolo Santiago; e nuo podendo jà passar por 
terra com o fogo que andava ateado, todos se melterao em o mar, e 
passadas duas legoas derào em deserabarcadouro, a que chamarao Ca- 
Ihela, sobre a qual tomou o Capitao para seu fillio, Joao Gonfalves da 
Camera, huma Lombada grande, e logo para o Poente tomou outra para 
sua fllha Beatriz Gongalves, e mais adiante outra para a mesma filha; e 
era bum alto de boa vista de mar, e terra iracou a Igreja de nossa Se- 
' nhora da Estrella, que muito encommendou a seus tìlhos. E logo mais 
abaixo, junto a huma fermosa ribeira, se fundou depois a Villa da Ca- 
Ihela, que veio a ser o illustre titulo do Conde Simao Goncalves da Ca- 
mera. 

39 Da Calheta passarao os Capitaes a ultima ponta, e por hum 
Pargo que acharao n'ella, Ihe derao por nome a Fonia do Pargo; e aqui 
vira a liha para o Norie duas, ou tres legoas até outra ponta, que o Ca- 
pilào de Xlachico, sera o do Funchal, foi descubrir, e por isso se cha- 
fflou Ponta do Tiistao, a qual jaz ao Noroeste, e aqui se dividem as Ca- 
pilanias, e se reparte a liha d'està ponta de Noroeste da banda do Norie 
€Ootra Sucste da banda do Sul, aonde se fixou hum póo de oliveira, 
qae deo nome a estoutra ponta, e para marco, e divisa das Capitanias o 
mandou de Portugal o Infante D. Henrique; e està ponta da oliveira, e 
sea lugar chamado Canisso, he o firn da jurisdiccao de Machico, e o 
principio da jurisdic^ao do Funchal, ludo confórme ao regimcnto do In- 
fante D. Henrique; e assira os Capitaes ambos da Pontado Pargo se tor- 
Barao ao Funchal, e aqui se apartarào, cada hum para a sua Capitania, 
ficando Joao Gongalves com quatorze legoas da banda do Sul, que he o 
melhor da liha, e tres da banda do Norie; e ficando com o mais Tristao 
Vaz Teixeira. 



/^ 



106 lUSTOniA LNSL'LANA 

CAPITULO VII 

Do interior da Capilania do Fnnchal, e desia sua Cidade, 
e seu sitio, 

40 Nào Sem razao, da Ilha de que tralamos, diz o DoulorFrucluoso 
iiv. n cap. 13, que nao se houvera chamar lUia da Madeira, mas Uba 
das pedras, por ser lodo o seu interior cheio de rochas, e montes, em 
valles despenhados com infìnitos caìhàos. Jaz no Oceano Occidental està 
liha da Madeira, na altura de trinta e dous graos e dous termos, na parte 
do polo Septenlrional ; fica distante do Quantim em Africa, cento e dez 
legoas, do Leste da Illia ao dito Cabo de Quantim; das Canarias sessenta 
legoas; de Portugal cento e cincoenla ; das Ilhas Torceiras quasi o mes- 
mo. Na sua figura lie huma pyramide deitada, que corre de Leste a 
Oeste, em comprimento de quasi dezasele legoas, e em largura de qua- 
tro, e na base de seìs legoas, que tem da parte do Occidente na ponta 
do Pargo; e o cume da pyramide tem na parte do Orienle na ponta de 
Sao Lourengo para onde està liba vai sempre estreitando. 

41 Àqui, da banda do Sul faz buma bahia de quasi ciuco legoas de 
largo, desde a ponta de Sào Lourengo até outra ponta, entre as quaes, 
Sem mais temor que com tcmpestade levantarem ancbora, podem an- 
chorar os navios que quizerem. Da ponta de S. Lourengo para o Occi- 
dente, huma legoa, està o lugar cbamado Canissal, de so quinze mora- 
dores, com ser terra raza, e de pao; e vai por diante a Capitania de 
Macbico, do que ao dopois Iralaremos; porém dentro da sobredita maior 
baliia, desde a ponta do Garajào até outra chamada de S. Cruz, vai ou- 
tra mais recolhida bahia, de legoa e meia de entrada, dentro da qual, 
desde o Corpo Santo até S. Lazaro, se estende a Cidade do Funchal por 
quarto de legoa com seu porto de calhào miudo, e area, tao cursado a 
seus tempos em carregar, e descarregar navios, que tem sua semelhan- 
ga com Lisboa, e està situada a Cidade em terra chà, e entro duas ri- 
beiras, huma da parte do Nascente com a Freguesia de nossa Senhora 
do Calhào, ainda fora dos muros da Cidade, e com as Ermidas de S. 
Fedro, e S. Joao que estao da parte do Poente, e a outra ribeira, cha- 
mada de Santa Luzia, por vir de bum monte, cm que est<i a Ermida 
d està Santa. 

42 Pelo meio da Cidade corre esla ribeii^a tao caudaJosa, que com 



ijv. HI cAF. vn 



107 



ella, e dentro da Cìdade moem varios engenhos de assucar, e moihhos 
com pedras alvas, e se regao horlas, e jardins, e loda a Cidade se alim- 
pa, e pela tal ribeira acima se recollieni cada anno qualrocenlas pipas 
de rico vinho, e muilas frulas. E com ludo a Cidade està murada, e lem 
huma Fortaleza ao principio, na ribeira de nossa Senhora do Calhào, qua 
chamào a Fortaleza nova, e da oulra parte outra Fortaleza, quc chamao 
a veiha, e com boa artelharia para o mar, e para a terra, e aqui tem o 
Capitao sua morada, que ainda fica fora do muro da Cidade, mas com 
tres portas no muro para o mar, e outras tres para a terra, com vigias. 
Perto da porla principal do mar està a casa da Alfandega, fecliada, e 
murada de cantarla, por terra, e por mar, que chega a bpter n'ella, e 
lem dentro regias officinas. 

43 A principal rua d'està Cidade, e dos muros para dentro, he a 
dos homens mercadores, Portuguezes, Inglezes, Francezes, e Flamengos, 
em cujo principio, junto a Senhora do Calhào, està a praca, nào multo 
espafosa, mas fermosa, com casaria nol)re a roda, e pelourinho de jaspe, 
d'onde sahe a maior rua da Cidade, onde o Bispo tem o sen Pago com 
prdira, e aonde està o Collegio de Sao Bartholomeu da Companhia de 
Jesus, defronte do qual morava D. Maria, viuva de Duarte Mendes de 
Vasconcellos, fidalgo, em ricas casas, com engenlio de assucar, e loda a 
febrica d'elle: e logo està a Sé, com torre muilo alta, e loda de canta- 
ria, coruchèo de azulejo, relogio que se houve dnas legoas quando loca 
a rebate, e abaixo muitos, e bons sinos : tem a porta principal para o 
Poente, dentro varias Capellas, e nove Allares, e no arco da Capella mór 
para dentro tem o coro, bem ornado, e nos pulpilos do cruzeiro se di- 
tm a Epistola, e Evangelho. Tem mais (além do perfeilo Collegio da 
Companhia de Jesus, e sua rica Igreja) bum grande Convento de S. Fran- 
cisco da Observancia, com fermosa Igreja de oito Capellas, fora o Aliar 
mór, grande cerca, e cincoenta Heligiosos, cujo Guardiao he Commissa- 
rio, cu Custodio de loda a Ilha, sugeito porém ao seu Provincial dePor- 
Uigal. E nesta rua que vai da Sé para os Franciscanos, nao ha (dizFru- 
cluoso lib. 16 cap. 16), mais casaria secular, que a de Joao Dornellas, 
e a de Antonio Barradas, homens multo principacs ; o mais ludo sao 
horlas. 

44 Ha mais nesta Cidade bum Convento de Freiras de Santa Clara, 
Franciscanas, de grandes rendas, e maiores virtudes, e de sessenta Frei- 
ras de véo proto ; fica sobre huma rocha muilo forte, e com boa vista 



10« IIISTOUJA IXSULANA 

para o mar, mas aao para a terra, por razao dos altos muros, e com 
pequena cerca ; scii vizinho era Francisco Goncalves da Camera, tic do 
Conde Capitào, por cuja morte ficou governando a Capitania. Do meio 
d'està ma, chamada de S. Francisco, sahe.outra, em que mora André 
de Betencor, fidalgo dos maiores da liha, e morgado, fliho de Francisco 
de Betencor, e de D. Maria, e mora em humas grandes casas, ou Pa^os 
defronte da Igreja de S. Pedro, que he o firn da Cidade, da parte do 
Poente. Na rua que cliamao de S. Maria, mora Antonio Ferreira, Conta- 
dor da Cidade, e Francisco de Medeiros fidalgo, e D. Maria, mulher de 
Antonio de Aguiar, fidalgo; e na rua da Diaria mora Mem Dornellas, fi- 
dalgo grande, corno em palavras formaes diz o jà citado Frucluoso. 

45 Outras muitas ruas tem està Cidade, que todas estao calgadas 
de pedra miuda, com que chovendo fica muito lavada, e limpa. Tem mais 
huma grandiosa Misericordia, porque muito rica, e muito caritativa. Foi 
Funchal sempre Villa até o anno de 1308, em que El-Rei D. Manoel a 
fez Cidade, por ter sido senhor da dita Illia antes de ser Hei: e llie ac- 
crescenton muitos privilegios, eassininao pagào direilos dosmantimen- 
los, mas com paclo de pagarem o quinto dos assucares; e logo o mesmo 
Rei Ihe mandou fazer huma Alfandega Beai, e huma illustre Sé, que ain- 
daque nào muito grande, he a mais Lem acabada do Beino de Porlugal, 
e tem deus Curas, e duas Freguesias mais em a Cidade, que toda consta 
de dous mil vizinhos, porque muito de seu maior sitio se occupa em 
abegoarias, de assucar, vinho, hortas, e jardins, que a fazem nat) so mais 
estendida, mas mais rica, mais fresca, e aprasivel. 

4G Nao obstante termos dito d'està liha da Madeira, ser o seu Cer- 
ta© interior tao fi'agoso, montuoso, e cheio depedras, que apenas se cul- 
tivao d'ella duas de dez partes; porque commummente nao ha nella terra 
cha, senao a bocados; e de terra massapez, preta, e ruiva, que chamao 
saloes; sào comtudo tao frutiferos, que cada salao d'estes vai outro tanto 
ouro; e assim tem muitos, e excellentcs pomares, particuiarmenle de fruta 
de espinho; dà tanta noz, e castanha, que vai a quatro vinlens o alquei- 
re. Amendoa da muita, e tambem tanto sumagre, quo moido se embarca 
para fura; e dando ordinariamente tanto vinho, da trigo tao pouco, que 
se de fora Ihe nào forem, ao menos dez mil moios, passarà mal. Dà po- 
rém muita, e excellente hortaliga, de alfaces, e couves Murcianas, mas 
estas nao espigao là, e de fura Ihe ha de ir semente todos os annos. Tem 
preciosos jardins, e liervas tao odoriferas, que aflìrmào os mareantes, 



LIV. Ili CAI». VII ìi)\) 

que mais de dez legoas ao mar deità està Illia de si Imma fraj^'rancia, e 
cheiro tao confortativo, e suave, que em grande parte alimenta aos quo 
percebem. 

47 Comtudo ainda no interior d'està Capilania do Funchal ha al- 
puns póslos rendosos, e lugares bons; porque bum quarto de legoa da 
Cidade para o Occidente corre a ribeira dos Acorridos com largura de 
bum tiro de arcabuz, e tanta agua, que parece bum boni rio: e de Ci- 
merà de Lobos vcm pela agua abaixo a madeira corlada em os monles, 
e com marcas de seus donos assinada até o mar, onde a colhem; às ve- 
zes com a furia das aguas se perde pelo mar dentro; e outro quarto de 
legoa adianle està o lugar de Camera de Lobos com duzentos vizlnlios 
em Imma so rua, e a Igreja no fim com dous Engenlios de assucar de 
(lous bons fidalgos, bum por nome Antonio Correa, outro Duarle Men- 
(les de Vasconccllos; e logo para o Norte, dous liros de bésla, està hum. 
Convento Franciscano, cbamado S. Bernardino, com oito Heligiosos, e 
lìuma Fregucsia de nossa Senhora do Rosario com Irinta visinhos, e 
moilos pomares, vinbas, etc. e ao Occidente da mesma Camera de Lo- 
bos està a Lombada da Caldeira, por ter huma grande cova dentro, que 
he dos berd^iros de Antonio Correa, gente muito principal. 

48 Huma legoa adiante do Cambra de Lobos està a grande quinta 
de Luis de Noronba, com Engenbo, casarias, Capellào, (comò tem as 
mais das outras quinlas) e com pomares, vinbas, bortas, etc. o d'ahi 
raeia legoa para o Occidente, està o Campanario, lugar de cem vizinlios, 
e Imma legoa adiante o lugar de Ribeira Brava, que por ahi corre, e 
lem Irezentos vizinbos, com muitos pomares de castanha, e nozes, e bom 
pjrlo, que jà pertendeo por vezes ser Villa; e adiante meia legoa se- 
gue-se a Ribeira de Tabua com trinta fogos, e d'aqui sao gente nobrc: 
e a outra meia legoa se segue a Lombada de Joào Esmeraldo, Genovez, 
e tao rica, que jà chegou a dar no anno vinte mil arrobas de assucar, 
e foi a maior casa da Uba, e toda bcrdou seu filho Chrislovao Esmeral- 
do, que tinlia oitenta Escravos, e além de lìngenhos, casarias, e Igreja, 
andava em a Cidade com oito bonrados bomens por criados, e com tao 
grande fausto, que com o Capitilo do Funchal competia sobre quem ha- 
via ser o Provedor da Alfandega Real. Joao Esmeraldo foi casado com 
hama senhora cbamada Agueda de Abreu. filha de Joao Fernandez, se- 
nhor da Lomba do Arco, e irmao de Confalo Fernandez, marido de 
I). Joanna de Sa, Camareira mór da Rainba. 



M2 lIISTOniA INSULANA 

S. Vicente, com duzenlos e cincoenta vizinbos; e tres legoas d'esle oa- 
tro liigar, a que chamlio o Seixal, com vinte vizinhos; e meia legoa 
adianle fica o liigar da Magdalena, que consta de trinta vizinhos, e està 
pela terra dentro cni a ponta do Trislào, aonde se dividem as duas Ca- 
pitanias Donalarias da iMadeira, e donde vae a liha virando para o Sul, 
e fazendo a ponta de sua figura de piramide deitada, com tres legoas 
mais até a Ponta do Pargo, aonde acaba a liha; posto que em alguraas 
cartas de marear a trazem com a figura de Imma follia de Memo. 

CAPITULO IX 

Dos Capitùes Donatarios de Machico. 

53 A Capilania de Macbico (conforme a Fructuoso liv. 2. cap. 20.) 
lem da parte do Sul quasi qualro legoas de comprimento, e quatorze 
da parte do Norte; he de multo arvoredo, e tanta madeira, que vai 
d'està Capitania para a outra; e da muito trigo no seu Norte. De assu- 
car primeiro que se fez em loda a liha forilo treze arrobas era Mach!- 
co, e vendeo-se a arroha a ciuco cruzados. De Candia mandou vir o Se- 
renissimo Infante D. Ilenrique a Malvazia, e n'esta jurisdicfào de Ma- 
cbico pegou melhor esle vinbo do que em alguma outra parte de loda 
a Uba. Segue-se agora dizermos quanlos Capitàes Donatarios lem Udo, 
de quao illustre sangue, e de quanto mais illustres obras. 

54 primeiro Capitào foi Tristào Yaz Teixeira, que pela singular 
cavallaria, nobreza, e obras, foi sempre cbamado o Tristào, sem usar de 
outro appellido, e El-Hei Ihe dco por armas buma ave Feniz, que he 
singularissima entre as aves; e elle mesmo em seu testamento se nomea 
sómente Tristao, porém seus descendentes ajuntarao à Feniz no escudo 
huma Cruz, e huma fior de Liz, armas dos Teixeiras, e assim se vem 
Iioje esculpidas no arco da Capella de Sao Joao Baptista na Igreja maior 
de Macbico d'estes Capitàes. Foi casado com buma fidalga, que devia 
ler com elle algum parentesco, pois se cbamava Branca Teixeira. e pro- 
cedia da illustrissima casa de Villa Beai; e deste matrimonio nascerao 
quatro filbos, e oito filbas. Dos v.iroes o primeiro foi Tristao Teixeira, 
e segundo Capitao, de que fallaremos. 

55 segundo foi Henrique Teixeira, muito rico em Macbico, que 
casou com Beatriz Yaz Ferreira, e della teve por filbos a Joao Teixeira 



L1V. Ili GAP. IX 113 

Velbo, a Fedro Teixeira, e a Henrique Teixeira; ilem aiMaria Teixei- 
ra mulher de Joào de Abreu, a Brites Teixeira, rnulher de Joào do Re- 
go, Cavaiieiro do Aigarve. terceiro iiliio deste primeiro Capitao fui 
Joào Teixeìi*a, que casou com Felippa de Mendoga Furtada, de que nas- 
ceo outro Joào Teixeira, e Trislao de Mendoca, etc. D. Solanda mulher 
do terceiro Capi tao de Porto Santo, e D. Felippa de Meodo^a, mulher 
de Diogo Moiiiz Barreto, e outras duas tillias mais, que morrerào soltei- 

135. 

56 Oreste mesmo primeiro Capitao o quarto filho foi Lanzarote 
Teixeira, grande Cavaiieiro, que casou com Brites de Goes, de que tevc 
a Antouio Teixeira, morador detraz da iiha, e a Francisco de Goes, e 
Lanzarote Teixeira de Gaula; e teve mais por lilhas a D. Joanna, mu- 
lher de Vasco Marlins Moniz, e a D. Catharina, mulher de Garcia do 
Caoissal, e a Judith de Goes, que casou no Aigarve, e a Helena de Goes, 
que casou coiu Fernào Nunes de Gaula, e a Anna de Goes, mulher de 
Goofalo Pinto, e Iria de Goes, mulher de seu primo Joào Teixeira. Das 
uilo filhas deste primeiro Capitao de iMachico, a primeira foi Tristou 
Teiieira, que casou com' hum (ìdalgo Genovez, Micer Joào; segunda, 
kabel Teixeira, mulher de Joào Fernaiidez de Lardello; terceira. Brites 
TeLxeira, solteira ainda entào; quarta, Catharina Teixeira, mulher de 
Gaspar Jilendes de Vasconcellos; quinta, Guimar Teixeira, mulher do 
seguudo Capitao do. Porto Santo; sexta, Solanda Teixeira; septima, ou- 
tra Catharina Teixeira, que casou em Lisboa com bum fidalgo; oìtava, 
Aona Teixeira. Faleceo este primeiro Capitao em Silves do Algaive, 
aoiHle tJHha ido a negocio, e faleceo de oitenta annos de ìdade, tendo 
ja goveruado cincoenta. 

57 se^undo Capitao de Machico Tristao Teixeira, por suas pren- 
das foi chamado a Lisboa, e muito estimado das Damas de Palacio, e em 
eOeito casou com Guimar de Lordelo, Dama da excellente Senhora, de 
que Dasceràa, prinieiro filbo tamb(^m Tristao Teixeira, de que abaixo; se*- 
guodo, Gutteire Teixeira, que casou com buma filba de Antao Alvares 
de Santa Cruz; terceira, Imma iìiha D. Violante Tei.\eira, que casou coni 
kAù Rodriguez Negrào, iitho de Garcia Rodriguez da Camerdi que viu- 
^udo casou segunda vez com Vasco Marlins Barreto, filho de Vasco 
Marlins Moniz. * . • 

38 Viuvo este segundo Capitao casou outra vez com D. Alda Men- 
des, ì! ma do Bispo que era entào da Guarda, mas morreo sem deixax* 

\0L. i 8 



1 1 i HISTOntA INSrLANA 

fllhos deste segundo; e jaz sepultado na Capello de Sao Joao Baulista 
(la Igreja maior de Macluco, que elle mesmo tinha mandado fazer para 
sepnltura dos CapitSes Donalarios d'aquella Capitania, e com Missa quo- 
tidiana, de que ficou depois por administrador hum seu descendente, 
por nome Trislao Castanho. 

59 terceiro CapitSo Donatario de Machico foi Tristao Teixeira, se- 
f,'undo do nome, que por Rcar governando em huma ausencia do pai, se 
intilulon Goverdador, e casou com Grimaneza Cabrai, filha de Diogo (]a- 
I»ral, e sobrinha do Capitao do Funchal, e d'ella liouveos Tillios seguin- 
ics. Primeiro, Diogo Teixeira, de que abaixo fallaremos; segundo, 1). Ma- 
ria Cabrai, mulher de Cbirio Catanho, (irmao de Rafael Catanlu), e do 
{«'rederico Catanbo, Capitao da guarda de Francisco Rei de Franc-a) de 
que bouve a Hieronymo Catanho; terceiro, Catbarina Teixeira, que mor- 
reo nioca; quarto, Manoel Teixeira; quinto, outra irmi! que morreo Frei- 
ra no Funchal. Morreo este terceiro Capitao, e jaz sepultado na Capel- 
la de seu pai, e seus avós. 

60 quarto Capit3o foi o dito Diogo Teixeira, e casou com D. An- 
gela C^tanha, filha de Rafael Catanho, de que teve duas fìlhas; primei- 
ra, D. Margarida, que casou com Antonio Vieira, Meirinlio da jurisdic(;ro 
de fachiro; segunda, D. Maria, ainda menina. El-Rei D. Joao IH tiroii 
cste quarto Capitilo do governo por mente capto; e este morreo em 1310, 
e jaz na Capella de seu pai, e avós, e por sua morte, nao deixando li- 
Iho varao, nem iimao, passou a casa à Coroa. 

61 Quinto Capitao de Machico foi Antonio da Silveira, a qiiem El- 
Rei D. JoSo III deo està Capitania no segjinte anno de 1511. Tinha sido 
(Sto Antonio da Silveira, por seus servifos, Capitao na India, e em 154'., 
vendeo esla Capitania, com licenc^i d'el-Rei, ao Conde de Vimineo Doni 
Alfonso de Portugal, que ficou em Africa com El-Rei D. Sebnsliao, e 
veiideo-llì'a a retro por seis annos em preco de trinta e ciuco mil cru- 
zados, e morreo sem remir a Capitania, no anno de 1552, e com ella se 
licou Conde de Vimioso que a governava. 

62 sexto CapitSo de Machico foi o dito Conde de Vimioso, de- 
IMìis do qual passou a seu fillio o Conde D. Francisco, ,que morreo na 
iiafalha defronie da liba de S. Miguel, corno em seu lugar diremos: e as- 
sim tornou està Capitania para a Coroa, e ja em tal eslado, que, exc4)p- 
tas poucos pcssoas, nSo havia n'ella jà quem pudesse sustentar commo- 



UV. in GAP. IX 113 

damate hum cavallo. Assim acabSo as casas^ em sahindo dos proprios» 
e verdadeiros senhores dellas. 

63 Oliavo Capitao de Machico foi Trisl3o Vaz da Veiga, que por 
sangue era fìllio de Manoel Cabrai, e de Antonia de Lemos, e neto por 
seu pai de Diogo Cabrai, e de Bealriz Gongalves da Camera, filha mais 
veiha do prìmeiro Capilio do Funchal Joào Gon^alves Zargo; e por sua 
mai Antonia de Lemos era o dito TrislSo Vaz da Veiga da casa da Tro- 
ia, e da dos Taveiras, e bisneto de Nuno Gon^alves de LeSo, Chanceller 
mór d>l-Rei D. Joao II, em cuja Clironica se faz menc3o d'elle; e por 
outra parte vinha a dita Antonia de Lemos de hum fidalgo chamado Luis 
Pires de Buarcos, on Buacos, fìdalgo do tempo d'el-Hei D. Alfonso V. a 
(|uem Servio nas guerras contra Castella, e era senlior de alguns tugares 
ria terra de Coirobra, e de sangue Alemao; e emfìm era o dito Tristào 
Vaz da Veiga, por linha roasculina, dos Veigas, Tidalgos bem conhecidos 
era Lisboa no tempo dei-Rei D. Jo3o I, e jà antes de Portugal ser Bei- 
no erao illustres, e mais ha de oitocentos annos havia em Castella illus- 
ires Veigas, donde procedera os de PorlugaL 

Ci Deste oitavo Capitao trata Fructuoso no lib. ii, desde o cap. 21 
ale cap. 2G, e refere suas obras, e fa^anbas. Foi moco fidalgo d'el- 
Rei D. Jo3o III, e de dezaseis annos foi para a India em 1532, e là Ser- 
vio mnitos annos à Goroa de Portugal, até na China, e Japao, e no cer- 
co de Malaca, de que era CapitSo, e teve os primeiros postos, e alcan- 
rou gnmdes vitorias, e emfim se voltou a Portugal, e Filippe tondo va- 
ga està Gapitania de Machico, Ihe fez mercé d ella, e sobre a fazenda 
Real tomou cem mìl rèis, que d'ella se pagav3o, e sobre Ih'a dar toda 
livre, Ihe deo mais huma Commenda de duzentos mil réis de renda, tu- 
lio em 23 de Feverciro de 1382, e em 19 de Novembro de 1385, (por 
5er jà morto o Conde Jo5o Gonfalves) mandou o mesmo Rei ao nosso 
Tristao Vaz da Veiga por General da guerra de toda a Uba, e por Alcai- 
(1«5 mur da Fortaleza do FunchnL coin o que nao so a Gapitania de Ma- 
chico tomou logo ao seu aniìgo, e inaior lustre, mas tambem toda a 
iUia, e se defendeo dos inimigos; e em 138U tinha huma gale de deza- 
i>eie remos por banda, com sua esfera de bronze, e huma fragala mais, 
qiie por banda lancava doze remos, e tudo mandou fazer este Capitao 
coin dinheiro da Imposicao ({ue EI-Rei Ihe concedeo para fortiGca^oes, 
e toda a costa da Uba andava entao iimpa. 
63 Em 1590 tinlia este Capit3o cincoenta e tres $mos, era allo. 



116 HlSTORIA mSCLANA 

espadaudo, e bem proporcfonado, e de barba Portugueza, e meia bran* 
ca; tinha grande, e rica casa, Imm Vedor, dous Escudeiros, cinco pa- 
gens, e doze escravos: tinha muita renda em Lisboa, e alguma em Ar- 
ronclies, e quarenta moios de trigo na Uba Graciosa, que eram parte de 
seu patrimonio; alèm do habito de Chrìsto com duzentos mil réis de ten- 
i;a até vagar Commenda, e novecentos mil réis da renda da Capitania de 
Macbico, e qaatrocentos mil réis de General da guerra. E além das ar* 
mas dos Cabraes, e Lemos, tem as dos Veigas, que sao, bum Escudo 
de ouro, e azul, no quarto de euro de cima bmna Aguia cinzenta com 
as azas abertas; e no segundo quarto tres flores de Liz de ouro em cam- 
po azul, e em triangulo; no terceiro quarto da parte de baixo tem as 
mesmas flores de ouro em azul;. e no ultimo quarto outra Aguia comò 
a primeira ; elmo com guarni^ao de ouro por baixo; paquife de ouro, 
vermelbo, e verde, com dous penacbos azuis, e bum branco em o meio; 
e por Umbre buma Aguia comò as outras. 

66 Teve este Capitao muitos irmaos legitimos: primeiro, Diogo Vaz 
da Veiga, que militou em Arzilla, e morreo eleilo Capìtào de Tangere; 
segundo, Lourengo da Veiga, de grarides servi^os, que faleceo sendo Go- 
vernador no Brasil em tempo de Filippo II, e deixou seis filhos^eduas 
filhas; Fernao da Veiga, que depois de ir à India duas vezes, morreo sol- 
teiro em Lisboa: Domingos da Veiga que na India morreo servindo: Ma- 
noel Cabrai da Veiga, e Sebasliao Vaz da Veiga, que tambem na India 
morrerao: e Luiz da Veiga Religioso; ilem D. Maria, mulher de Joào Ta* 
veira, e D. FeUppa, mulher de Diogo das Povoas, Provedor da Alfaude- 
ga de Lisboa. 

67 Terceiro irmao do Capilio Tristào Vaz da Veiga foi Ltiis da Vei- 
ga, que morreo no celebrado cerco de Ormuz. Quarto foi oditoTristao 
que nunca casou; quinto, Hieronymo da Ve^a^ que faleceo em Goa de- 
pois de feitos grandes servigos; sexto, Simào da Veiga, famoso soldado, 
e Capitao mór de Armadas, que morreo em Africa na botallia dei-Rei 
D. Sebastiao; septimo, Gaspar da Veiga, que sendo ferido no cerco oe 
Mazagào, foi depois morrer na India; oitavo foi D. Brizida Cabrai, mu- 
Uier de Francisco Boteiho de Andrade, Guarda mór do Infante Dom Luiz, 
e teve por filho a Diogo Botelbo de Andrade, que tambem morra) na 
balallia d'el-Rei D. Sebastiao em Africa. 

G8 Finalmente està Capitania de Macbico na Madeira, ainda que nao 
tem Cidade, corno tem nella a Capitania do Fuoclial» lem conUodo, 



UT. m GAP. X M7 

^\èm de nobilissima Villa, e Cabega de Machico, de quasi seis centos vi- 
sinhos, tem demais a nobreza de sangue, e fidalgos de geracao l3o an- 
ligos, qne nao sem rasao se prezao de serem a gema da fidalguìa de 
loda a liha, comò conta Fructuoso no lib. ii cap. 15, e ainda demais tèm 
a nobilissima Villa de Santa Cruz com oitccentos visinhos junto ao mar, 
t com bom porto, e t3o melhor terreno, do primeiro assucar, e da pri- 
meira malvazia, e das primeiras, e mais frescas frutas, que até em Por- 
togal nao sao aigumas Cidades, maiores, ou mais nobres que està Villa, 
e qoe està Capitania; e seus Donatarìos forSo tambem Gondes comò os 
do Funchal, e sabido he quaes hoje o sao, e o poderao mostrar os Ex- 
cellentìssimos Gondes de Vimìoso. 

CAPITULO X 

Do primeiro Capitdo Donatario do Funchal em a iJadeira. 

69 Cora muita razao o doulo, e sempre veneravel Fructuoso intro- 
dnz està materia em o seu liv. 2. cap. 3. advertindo, que comò todos 
OS homeos procederlo do mesmo pai, e mai, Adam, e Beva, claro gsI«1 
qoe nenhum nasceo fidalgo de seu primeiro principio, nem com o pri- 
^leffio da fidalguìa; mas a cada bum depois Ilio derào suas obras, ou 
^ seus antepassados; pu a acei tacilo de seu soberano Principe^ que com 
eUa Ihe deo a fidaiguia, corno a Abel a derào suas gratas obras, e o acei- 
tal-a$ Deos, e a Caim a tiraruo suas ingratidues rusticas; a Sem, e Ja- 
pheth respeito guardado ao pai Noe, e fez servo vii a Cham o perdido 
respeito ao mesmo pai; e emfim a ambi{So tirou a primazia a Esaù, e 
a temperanca de Jacob a alcan^u com a bengSo de seu pai Isaac; e sem- 
pre crescer<i mais a fidalguìa, que comeca em obras proprias, para os 
^ns descendentes, do que a que so se jacta das dos aspendentes, jfi 
alheas. 

70 Dos pais pois, e ascendentes de Joao Gonpilves Zargo, primei* 
roCapitSo do Funchal, nào ha certeza alguma; porém de suas obras 
In meraorias iliustres, porque se dìz, que estando o nosso Infante D. 
Henriqiie no cerco de Tangere^ n'elle se acliou Joao Gongalves, e pe • 
l^jou valerosamehtc, que o mesmo Infante o armou Cavalléiro. Mais so 
dìz, que desafiando iium Mouro a quem da dita praga se atrevesse a 
pelejar com elio, e que sahiado successivamente tres, e Qcando todos em 



120 mSTORIA TNSUfANA 

qiie elle mesmo tinha man4ado tizev para scu jnzigo, e dos mais sens 
descendentes. 

CAPITOLO XI 

Do segando Donatario^ e CapHào do Furichal. 

76 Joao Goncaives da Camera, chamado o da Porrinha, (por costu- 
mar trazer huam pào na mào), filho mais velho do insigne Zargo, siicce- 
deo ao pai na Capitania, e governo do Punchal, e foi t3o grande Caval- 
leiro, e em armas tao conhecido, espccialmenle em Arzilla, e em Ceula 
de Africa, que casou com D. Maria de Noronha, Riha de Joao Henriques, 
que era fiIho de D. Dingo Henriques, Conde de Gijon, e filho naturai 
dei-Rei de Castella D. Henrique; e da dita bisneta d'esle Kei houve os 
Jilhos seguintes : primeiro, Joao Goncalves da Camera, que morreo mo- 
ro; segundo, Simào Gon^ahes da Camera, que foi depois o terceiro Ca- 
]»itao; terceiro, Pedro Góncalves da Camera, que casou com D. Joanna 
(le Sé, filha de Joao Fogassa: e da Camareira mór da R^inha D. Catha- 
rina, mulber dei-Rei D. Joao III, da qual D. Joanna houve a Antonio 
iionfalves da Camera, Monteiro mór dei-Rei D. Sebustrào, e a Joào Fo- 
gassa, que morreo solteiro; e a Pedro Gonralves da Camera, que chama- 
v3o PorrSo ; e a tres filhas, que forao Freiras no Fnnchal, das quaes 
vierao duas reformar o Mosteiro da Esperanc^ em Lisboa, aonde Imma 
d'ellas foi muitos annos continuos Abbadessa. 

77 quarto filho d'este segundo Capil3o foi Manoel de Noronha, 
que casou, primeira vez, com D. Beatriz de Menezes, neta do Conde D. 
1 Quarte, e d'este casamento nasceo Antonio de Noronha, que casou em 
Castella, a D. Maria que casou com D. Simao de Casleibranco. Casou se- 
gunda vez o dito Manoel de Noronha com D. Maria de Taide, fliha do 
senhor da Ericeira, e deste casamento nascerao Luis de Noronha, Com- 
mendador de S. ChristovSo de Nogueira, acima do Douro : e D. Anna, 
mulher de Pedro Affonso de Aguiar, e nascerao mais seis filhas, D. Joan- 
na, D. Cecilia, D. Elvira, D. Bartoieza, Dona Constanca, e D. Antonia. 
Este pois Manoel de Noronha, quarto filho do segundo Capilao, comò 
{(rande soldado, é sua custa foi da Madeira soccorrer a ^afìm, e com elle* 
forao outros fldalgos da mesma Madeira, corno Joao Dornellas. esforfado 
Cavalleiro, e de grande nome, e fama entre os Mouros, e que de humi 
sahida trouxe em o peito Luma lan^.ada, e era casado na Madeira; e foi 



lìv. m GAP. XI 121 

famhem Henrìque de Belencor, fidalgo qne là o fez grandemente, e o 
<.apiino da prac^ era enlao Nnno Fernandes de laide. 

78 Ho mesmo sogundo Capilao, além dos sobreditos qnatro filhos, 
nasrerrio mais as filhas segninles: primeira, D. Felippa deNoronha, mn- 
V\(tr de Henriqiìc Ilenriqnes, senhor das Alcacovas, de qne houve a D. 
Fernando Henriqiies, e a D. André Henriques, e a Dom Joao Oenriques, 
que ficou na liha, e foi pai de D. Alfonso Ilenriqnes. Segnnda filha foi 
ì). Mecia de Noronha. mnllier de D. Martinho de Casteibranco, Conde 
de Villa-Nova de Portimao, de que nasceo D. Francisco de Casteibranco, 
Imrdeiro da casa, e Camareiro mór dei-Rei D. Joao III, e f). AfTonso de 
TK-islelbranco, Meirinho mór, e I). Jo?[o de Casteibranco, e D. Antonio 
de Casteibranco, Deao de Usboa, e D. Maria de Noronha, mulher de 
Ilora Nuno Alvarez Pereira, frmao do Marqnez de Villa Real, e a mulher 
(le Joao Bodrignez de Si. Alcaide mór do Porlo; e a mulher de D. Ro- 
tingo de Sa, Alcaide mór de Moin-a ; e a mulher de D. Rodrigo de Sa, 
Alcaide mór de Mmira; e a mulher do pai de Alonso Peres Pantoja. Ter- 
<*eini filha do dito segnndft CapitSo se chanfiou, corno a mai, D. Maria 
ile Noronha, e casou com o Marichal, e d'etles nasceo o Marichal Femao 
€onlinho, que morreo na India; e a mulher de D. Luis da Silveira, Conde 
ila Sorteiha, e outra que morreo Dama do Paco. Quarta filha do mesmò 
J^pmdo Capil3o foi D. Conslanga de Noronha, que nunca casou. Quinta 
foi D. Isabel, primeira Abbadessa do Ftmchal. Sexla, D. Elvira, e sepli- 
ma D. Joanna, ambas Freiras. Citava, huma que morreo menina; e ulti- 
mamente leve bum filho naturai, e legltimado, Garda da Camera, pai 
de Joao Goncalves da Camera, de Santa Cinz de Machìco. 

79 Fez este segundo Capilào o Mosleiro das Freiras de Santa Cla- 
ra, acima do Funclml, em a Igreja de nossa Senhora da Conceic?lo, para 
recrrfhimento de suas filhas, e das de bomens principaes; e comerando-o 
em 1492, jà em 1497, veio da Conceicao de Beja a* Alba D. Isabel com 
qualro Freiras mais para o novo Convento. Foi este segundo Capit3o do 
FunchaL espeiho de bons Capilaes em valor, e christandade. Morreo no 
Fuudial a de Marco de 1301, e de 87 annos, tendo governado 34. 



i22 tnSTOlUA INSULANA 

CAPITULO XII 
Do terceiro CapUào^ ckamado o M/iynifigo, 

80 SimSo Goncalves da Camera, segiindo fillio (por falecer cedo o 
priiìieiro) se seguio na casa ao [kiì Juao Gorigalves da Camera, o da l'or- 
rìnha» e no mesmu anno fui contirmado em lerceiro Capilao do Funcluil 
por Cl-Hei D. Manoei. Chamario liie o Magnilia)» porque nunca algiiem 
Ihe pedio cousa, que elle, podendo, a nao desse. Foi Ulo dado a guer- 
ra, em honra de Deos, e da Coroa, c<3ntra Mouros, que nove vezes pas- 
sou a Africa, e à sua custa levava muila geiH^, e bons soccorros, »lém 
de outra gente, (|ue da mais nobre tambeai Ina, corno o jà noiueado 
Joao Dornellas, e achar-se com o Duque de I)ragan(a na tomada de Aza- 
itìor; e n'estas idas a Africa gaslou tanto este, com rasao cliamad(> Ma- 
gnifico Capit3o, que morrendo achou ter gaslado mais de oilenla m.l 
cruzados, de que seus herdeiros pagarao ainda ciiK*oenla. E por servi- 
Cos tao grandes El-itei Dom Manoei, em o akno de 1508, fez Cidade a 
Villa do Funclial; confirmou os foraes, e lìberdades, (|ue Ei-Bei D Af- 
funso V. tiniia dado à dita Villa, e Ihe accre^^centou oulros que hoje lem. 
rom que nao i)aga direitos de mantimentos alguns, mais que o direito 
do quinto do assucar. E o mesnio Key à sua cusla Ihe fez a Iteal Aifaa- 
dega. e a Sé Episcopal, corno abaixo dìremos. 

81 Casou este terceiro Capitào com I). Joanna, filha de Dom Con- 
cilio de Caslelbrana), Governador de Lisboa, senhor de Villa iNova do 
Porliniao, da qual houve os filhos seguinlos. Primeiro, Jjoao Goncalves 
da Camera, que logo Ihe succedeo. Segundo, Manoei de Noronha, Bis- 
jio celebre de Lamego, e Camareiro do secreto do Papa Leào X. Tercei- 
] 0, Joào Kodriguez de Noronha, c|ue casou com D. Is;d)el de xVbreu, ti- 
lUa de Joao Fernandez do Arco na mesma Madeira, de que nao houve 
lilhos, e foi Capilao de Ormuz em tempo do Governadoi* D. Duarle de 
Menezes. Quarto, D. Felippa de Noronha, mulher de D. Duarle de Me- 
nezes, fillio herdeiro de 1). Joào de Menezes, chamado o Coijde ViUn, 
imr ser Coride de Tarouca, Prior do Grato, e Capilao de Tangere, Coiii- 
inendador de Coimbra, e Mordomo-niór dei-Ilei I). Vinnoel, de (jue hou- 
ve a D. Joao de .\Jeni.»zes, Capilao de ijn^^'ere, e a I). Pedro de Mone- 

R'S. 

8i Viuvou da (liM priineiia nuillior este terceiro (/ipilào, e t:jsou 



uv. IH GAP. unì 123 

segonda vez com D- Isabel da Silva, fillia de Dom Joao de Xtmì&r Re- 
gedor da Jusli(a, e fillio iierdeiro do Conde de Tarouca, e da casa de 
Àtougiiìa, e neto d'este foi Conde de Atougiiia, chamado Joào Gor>- 
Calves. Do segundo inalrimonio d'este terceiro Capitao nascerao e^iiès lì- 
llìos. Priineiro, Joao Gongalves de Ataide, qne morreo solleiro. Segan- 
do, Luis Gon^^alves de Ataide, senhor da liha deserta, e casado com 
D. Violante da Silva, filila de Francisco Carneyro, Secretario d'el-Rey, 
de qae nasceo Joao Gon^alves de Ataide, e Martini Gon(;ìlves. Terceiro, 
Xres filhas, D. Brites, D. Isabel, e D. Maria, Freiras no Funchal. Quar- 
ta), bum fillio naturai, Francisco Gongalves da Camera, grande Cavallei- 
ro, e soldado do liabito de Christo com ten^a, e depois Capitao General 
de guerra na Illia, e casado, e tem tìllios. 

83 Por indisposivoes renunciou o governo esle terceiro Capitao no 
anno de 1528, em seu fillio morgado, e se foi para Matozinhos do Por- 
to em Portugal, onde viveo retirado, e em 1530. faleceo, e depois se 
trasladàrào seus ossos para a Capella de Santa Clara do Funchal, jazi- 
gode seu pai, e avo. Por si^ morte levou Luis Gongalves de Ataide, 
iilbo da segunda mulher, a Uba deserta, que tambem era do morgado; 
inas por ter sido promettida em arras a sua mai, porisso a levou; e 
rende bum anno por outro duzentos mil reìs. D este terceiro Capitao do 
Fuodial trata mais largamente Fructuoso, e de suas idas a Africa, no 
liv. 2. desde o cap. 32. atè 36. 

CAPITOLO XIII 

Do quarto CapUào JoSo Gon^alves da Camera, Itrceiro do nome. 

8i Seguio este Capitao os illustres passos, e beroicas obras de seu 
pai, levando varios soccorros aos Portuguezes que conquistavao praras 
<^Qi Africa, e especialmente ao Serenissimo Duque de Bragan^a, (pio aii- 
diH'a em Uio Real empreza, e tao Catbolica: do que tudo trata larga- 
utente nosso citado Fructuoso liv. 2. cap. 37 e 38. 

8ò Foi este Capitao casado com D. Leonor de Vilbena, fillia do 
bionde Prior D. Joao de Menezes, e d'ella bouve os fillios seguinles. 
l'rìaieiro, Sim3o Goncalves da Camera, seu successor. Segundo, Luis 
GoiM;alves da Camera, Padre da Companbia de Jesus, multo estimado 
Jescu proprio Fundador S. Ignacio, e multo valido de grandes, e so- 



I2i HISTORIA INSULANA 

beranos Principes. Terceiro, Fernao Goncalves da Camera, que matarSo 
OS Mouros em Tangere. Quarto, Marlim Gonfalves da Camera, Clerigo, 
Donlor, e Tlieologo em Coimbra, e grande Privado d'el-Rei D. Sebas- 
tiao. Quinto, Rui Goncalves da Camera, celebre, e famoso Capit3o da 
India em Ormuz. Sexto, D. Isabel de Vilhena, que cason com o aftni- 
ranle de Portugal D. Lopo de Azevedo, de que nascerlo o Almirante 
D. Antonio de Azevedo, e D. Jo3o de Azevedo. 

86 Faleceo este quarto Capit3o no Fnnchal de 47 annos de idade, 
e dizem que de peste, em o anno de i536, jaz sepultado com seu pai, 
e avós na sua Capella mór das Freiras de Santa Clara; e com morrer 
tiio ceJo^ fez na guerra acc5es mui gloriosas, que largamente refere o 
citado Fructuoso no cap. 37 e 38 do liv. 2 de sua Historia. 

CAPITULO XIV 

Do quinto Ctipitàfl do Funchaly e primeiro conde da Calketa. 

87 Simao Goncalves da Camera em vida do quarto CapitSo seu pai, 
no anno de 1533, foi soccorrer a Villa de Santa Cruz do Cabo de Gué, 
e com tal valor, que fez que os Mouros deixassem o cerco. Em 1537, 
e tendo ainda s6 vinte e quatro para vinte e ciuco annos de idade, foi 
confìrraado na Capitania do Funchal por El-Rei D. Joao 111, e logo em 
1538, casou o mesmo Rei com D. Isabel de Mendoga, filha de D. Ro- 
(Irijro de Mendo?a, senhor de Moro em Castella, a qual tinha vindo a 
Portugal por Dama da Rainha I). Catharina, e deo-lhe El-Rei em doto 
oilenta mil cruzados em juros, dinheiro e offlcios. Em 1542, velo este 
quinto Capilào com sua mulher para a Madeira, trazendo jii o primeiro 
liiho seu JoSo Goncalves da Camera, depois na liha teve o segundo; Rui 
Dias da Camera, grande soldado em Africa; terceiro, D. Aldonsa de ^len* 
(loco, que casou com D. Joao Mascarenhas, CapilSo dos Ginetes; quarto, 
I). Leonor de Mendoca, mulher de D. Jo35o de Almeida, Alcaide mór do 
Abrantes. Teve mais lilhas legitimas a D. Joanna, e D. Ignes, Freyras 
no Funchal: e por filhos naluraes a Fernao Gonc^ilves da Camera, estii- 
dante em Coimbra; e a Pedro Goncalves da Camera, que em Coimbra 
inorreo, sendo tamhem esludante; e com toda està casa voltou este Ca- 
pitno para Portugal, e ficou na liha governando seu tio Francisco Gon- 
calves da Camera. 



uv. MI CAP. XIV 125 

88 Governando pois este Francisco Goncalves, e pi eni o anno de 

1366, a 2 ou 3 de Oulubro (diz o nosso Frucluoso no ilv. 2, cap. 44, 

43, 40 e 47), chegarao a Madeira Ires navios de guerra, Cossario^^, 

Fraucezes Lulheranos, qua biào para a Mina, e sentindo-se jà faltos dt» 

gado para seu suslento, se resolverào ein o ir buscar a lerra, e pam 

iiso na praia fermosa, buma legoa do FunebaU langarain amiados niil 

soldados, ou, conio oulros dizem, oitocentos, deixando os do niariliuK^ 

^'overno nos navios: vendo islo os da Cìdade acudirao a cavallo, e seni 

impedirem o passo aos inimigos, se puzerOo a observar quem erao, e o 

que faziao, e por os verem armados Ibes Tugiùo; e sabeudo os ininiigo:5 

qae a Cidade linba menos de dous mil vizinbos, e aquelles de cavalk) 

Ihes fugiào, resolularaenle os seguirao, e in\eslirao a Cidade, aonde o 

coufiado Francisco Gongalves com jà poucos, por Ibe fugiiem os mais, 

fez alguma resistencia, e logo se recolbeo à Forlaleza; e os Francozes 

lamarido Hvreniente a Cidade, que estava jà deserta, commetterao a For- « 

laleza, que tinba Irezentos bomens dentro, e muitas raulberes graves, OjP 

a lonaarào facilmente, e degollarào quasi todos, e forao acbar ao Gover- 

uador Francisco Gongalves entre as mulberes, e so por rogos d'ellas es- 

capou com vida. 

89 Sabendo isto os da oulcp Capitania de Macbico, e Santa Cruz, 
acudirao logo para dar subre os Francezes, pararào raeia legoa defionle 
da Cidade, por Ibes vir aviso do Capitilo prezo Fiancisco Goncalves, que 
liào coinmeltessem aos Francezes, porque o matarìào a elle, e a sua niu* 
llier, e que os Francezes se queriào ir logo; e comtudo quinze dias es- 
tiverao na Cidade, scm damno seu algum, roubando e saqueando gran- 
des thesouros. Morreo-Ibcs comtudo o seu Capilào Francoz, por dar bu- 
ina baia em buma pedra, e desta buma lasca dar na perna ao Francez, 
^ oào fazer este cura alguma, e Ibe sobrevirem berpes, e morrer: e di- 
2iio ser bum Conde, ou irmào de bum Conde. Passidos os quinze dias 
se forào esles hereges, nao so saqueando, e levando tndo, e mais de 
liam milbrio de ouro, mas deixando deslruidas as Igrejas, e Imagens. 

90 De tudo tinba ido aviso a Lisboa por diligencìa da Villa de Santa 
Cruz de Macbico, e por mais depressa que de Lisboa sabrrào oito Ga- 
kùcs, e por General Sebasliào de Sa, o do Porlo, e dianle d'elles Joào 
Gorifalves da Camera, fìlbo do Capitào Donatario Simao Gongalves com 
inais dous navios, e muitos parentes, e amigos, nenhuns cbegarào \à se- 
tiào dous dias>depois de partidos os Francezes, e com a detenga que li- 



126 HtSTORIA INSULANA 

zerao em terra, com qae ainda mais a destruirao, partirSo ja tarde em 
l^usca dos Francezes, e jà os nSo poderUo encontrar; e ainda que por 
tal successo forao depois em Lisboa alguns culpados, comtudo so Fran- 
cisco de Porres, fidalgo, fìllio do Capitao Donatario do Fayal» Toi sen- 
tonciado a degollar, e a sentenza se mudou em so degredo para o Bra- 
ZÌI; e depois veio a mon*er na Illia Terceira por sentenza capital do Mar- 
quez de Santa Cruz em o anno de 1383; 

91 que fica dito d*esta desgra^a do Funclial, he em sobstancia 
totalmente o mesmo que o cìtado Fructuoso rerere extensamcnte no seu 
liv. % cap. 4i, 46, 4fi e 47, sem se Ihe addir, nem discorrer mais so- 
hre tal successo. E no cap. 48, accrescenta o seguinte quasi por formacs 
palavras. 

92 Com sobredito morgado Joao Gon^alves da Camera tinliHo idj 
no soccorro dous Padres da Companliia de Jesus, enviados pela Provin- 
cia de Porlugal, e forao os primeiros que d'està Religiao entrarlo n'a- 
quL'Ila Illia, e pelo esemplo, prégacao, e devogao dos- taesi\idres ?e mo- 
vtM) o povo a p(Hlir a El-Kei Ihe concedesse, e fundasse bum Collegi ) 
d'flh's no FuncbaI; e no anno de I?i70, na Quaresma forao seisd'estes 
llL'Iigiosos, a saber, Reilor Sianoci de Siqueira, Prefeito Pedro Quares- 
nia, e o Padre Belcbior de Oliveira, e mais tres IrmSos. a quem o Rei 
deo de renda cada anno seiscenlos mil reis, com os (juaes, e com rtu- 
iras esniolas, em 1578, acal)ou de fazer bum Collegio o segundo Reilor 
Pedro Rodrtguez, de multa virtude, e erudi^ao: e lìmdou bum magnili* 
co Tempio, em que prégao, confessao, liizeui doutrinas, e ensinao Tb«!- 
\\Y^\\\ mora!, lalim, e Rhetorioa, envolto tudo com os bons coslumes, o 
virliides, de que suo singtilar exemplo aonde quer que se achao. Na) 
sei qual d'eslas anisas foi maior para a liba, se o que perdeo com os 
(^ossarios, se o que ganliou com estes Religiosos. Ob bemaventurada e 
mais que diiosa perda! 

91] El-Rci D. Sebasliao, em 1576, fez a esle quinto Capiiao Simao 
Gon(;alves da Camera, pelos seus s*rvifos, e de seus avós, Conde da 
Callida, Villa da mesma Madeira, na mesma Cjipitania do FuncbaI, e Ihe 
doo OS oiricios do dito Condado, concedendo-lbe que os officiaes se cba- 
massem, em lodos os autos, escriluras, termos, e mandados publicos 
com esfas palavras, (pelo Conde nosso senbor. e por seu liiho berdein), 
depois que for servido leval-o desta vida), e p(»rquc no FuncbaI bavia 
vinte e bum Tabelliaes do Judicial, e oito das Nolas, e seis EsquereJ»>- 



LIV. Ilf CAP. XV 127 

rp5, ordonon el-Rcì D. Uenrique em 1570, que fossem dez Escriviies do 
JudìciaL qiiatro Notarìos, e tres Esqueredores, e em satisfagào do qiie 
desmerabvou de datas ao Conde,'lhc deo mais os doiis oflìcios de Escri- 
vàes dos Orfaos, e o do Meiriiilio da terra, e o de Escrivao da AIìdoU- 
caria, e UmIos os do Jiidicial d'està sua jnrisdìcv3o. Tinha o Conde boiìs 
qualro contos de renda, em dinheiro tiido, porque ale a renda dos moi- 
nhos se Ihe paga em dinheiro, e nclo em trigo. 

94 Pclos seiis vassallos se inlilnlava assim : Conde Simao Gon- 
ptlves da Camera, do Consellio*d'el-Rei N. Senhor, Capitao, e Gover- 
nador da Jusiica na liha da Madeira, e na jurisdicfSo do Fimch il, Védor 
(le sua Hizenda em toda a dita liha, e na de Porlo Santo, e senhor das 
Illias deserlas, eie. El-Kei llié punha sempre nascartas, Dom, elle niin- 
ca qniz, nem qiir» seus fillios o livessem ; morreo a 4 de Margo (U 
1580, de idade de 68 annos, e de governo 44, fol enterrado ond.> 
seus antepassados na Capella de S. Clara. 

CAPITULO XV 

Do sesto Capildo do Funchnl^ e seijnndo Conde da Culhrta 

93 Joao Goncalves da Camera, filho do quinto Capilào do Fiincltal, 
e piimpiro Conde de Calliela, succedeo a seu pai em sexlo Capitao, o 
«irimilo (k)i)de: cjisou com I). Maria de Alemcaslro, filha de D. Luis do 
Atamaslro, neto d'el-IV'i I). Joau II, e (segundo dizem) d'el-Kei Chiov), 
'iu (:iij(|ni!o, de Graiiada; e por morie de seu |)ai mostrando as palcn- 
ttsijiH» linha del-Uei l). Schastiao, que o (i/era priineiro Conde de C.i- 
Iìm'Iìi, fai cofilirmado em sogundo Conde: mas dalli a pouco feridn dii 
|»»'^le em Almeirim, semlo de m:i;ia idade, e deixando hum so fiIho lior- 
<Wn), menino ainda de seis mezes, chamado Simao Gonr;alves da Came- 
ra. Depoi.s mcltendo-se na posse d'esles Keinos Filippe II. mandou à 
lilla ila Madeira por Caj)irao mór, e G*)veniador d'ella o Deserabarga- 
rt'H" Jiirio LeiUìo, e |X)r Capilào mór da guerra a I). xMTonso Ferreira, 
t'jimle de Lanccrole, e senhor de Forle Venlura: e no anno de I58i, 
f-M Anlonio (iirvallia! à Cidade do Funchal com treicentos homens a sua 
ciisb. para im|>edir o desembarcarem os Francezes com o senhor 1). 
Antiinio: n'este eslado ficou cntao a Madeira. 

96 Isto he (diz Frucluoso cap. 50) o que soube por muitas, e di- 



1 28 HISTORU. INSUL ANA 

versas inrormacoes de muitas pessoas da Madeira, e de outras partes, e 
de muitos, e varios papeis que vi, e li, e especialinente do que compoz 
Conego Ilieronymo Dias Lei te, da niesma Madeira; o qual tiroa 
que compoz, de bum caderno de tres folhas de papel, que anda 
uos Escritorios dos sobredilos Capilaes, sobre o descubrimeDlo da Ma- 
deira, feito por Gongalo Ayres Ferreira, (cujo originai cometa com es- 
tas palavras: Chegamos a està Illia, a que puzemos o nome de Madeira) 
que veio por companheiro do Zarco a deseubril-a , o traslado do qual 
mandou o seguudo Conde, e sexto Capitao Joao Goncalves da Camera ao 
di io Conego; e este da sua letra llie accrescentou ao pé, Que o tal Gon- 
zalo Ayres Ferreira era criado do Zarco; porem cbegando isto à nolicia 
dos descendentes do tal Gonzalo Ayres da Madeira, (que sao a mais il- 
lustre, e grande gera^ao d'ella) mostrarlo ao dito Conego bum antigo 
Alvarù do Infante D. Ilenrique, feito em 1430, em que cliama a Gonco* 
lo Ayres companbeìro do Zargo. em que se continha o rilbamenlo do Ud 
Concaio Ayres : e este foi (accrescenta Fructuoso) o primeiro liomera 
que na Madeira leve fillios, e ao primeiro chamou Adào, e ao segmulo 
Eva, d'onde procede a gera^ào chamada, da Casla grande da Madeira, 
que vcm da grande casa de Drumoudo, e dos Reìs da Escocia, e d'onde 
l)rocedem os Ferreiras da Illia de S. Miguel. Assim aciiba com a Hislo- 
ria da Madeira o verdadeiro, e douto Fructuoso no tim do liv. u cap. 
r>0, mas porqne no mesmo livro mette (corno costuma) em di versas par- 
tes outras materias que aqui tinUSo o seu logar, pede a bistorìa que as 
ponlianios aqui. 

CAPITULO XVI 

Do principio y e augmetUo do Estado Ecclmastico 
em a Madeira, 

97 Os primeiros Sacerdotes queentrarao na Uba da Madeira, forilo 
sem duvida da sempre veneravel, e Sarafìca. Ordem de S. Francisco ; e 
nao sem fundamenlo se podem cbamar os primeiros dcscubridoms Ec* 
clesìaticos, nao so d està Uba mas da de Porto Sauto, porque os primei- 
roa que«naufragantes a liabitarào alguns dias, forào os Heligiosos Frau- 
ciscanos,* que nella com bum naufragio forao dar, e que com os primei- 
ros descubridores da Madeira se passarao a ella, e outros dous Frades 
Franciscanos, que o primeiro Capitao do Funcbal levou comsigo de Por- 



Liv. in CAP. XVI 129 

tagal pnn a Mailoira, e d'esles Religiosos devia ser aijuelle que benzeo 
a«,'aa. e com ella beuta abendirooii as Il!ias, e foi o priiiieiro que nelia 
disse Missa, e o Responso sobre a sepultura dos desposados Inglezes 
eiii Alachico, comò tiido em seu lugar fica jà dito; e comò costuiiiào scr 
esles Seralìcos Ueligiosos os priaieiros eia o servigo de Deos, e do prò- 
ximo. 

98 Porem o Ilio Calljolico, corno em ludo ditoso Joao Gonfalvo.-. 
ZaKgo, logo que fuudoa a Villa do Funclial, e vio nào liiilia aiiida S;i- 
cerdoles seculares ooui jurisdicgào l^arodnal, escreveo ao Infaale D llon- 
lique, pediudo que lli'os mandasse, e o luraute, corno Alestre da Ordeiij 
ile CUrislo, ordenou a D. Frei Podio Vaz, Prior enlào de Tliomar, qn- 
provcsse aquuila falta; e o diio I^rior l'einetteo logo à Madeira bum Saci ;- 
date com litulo de Vigano, e outros com titulo de Beueficiados; e •!<» 
inesina sorte proveo com outros seaielbaates a Villa do Macliico. Sabti.- 
do (listo Sispo de Tangere, sem mais licenfa dei-Rei, impetrou li.i 
l*a|wi luun Breve paia aaaexar a lllia da Madeira ao Bispado de Tanj^i - 
re; que subendo a Infaale D. Biites, (comò Tutora do Duque seu i. 
llw; Mostre da Ordem de Cliristo) passou logo provisao em o anno de 
il72, ao Capitao do Fuaclial, que uem a tal Bispo coasentissem i.a 
lilla, uem o povo Ibe obedecesse; e juatamente com està veio outra p:t - 
visào do dito D. Prior de Thoaiar, aolificaado ao povo, que ao lai Di- 
po lìm obcdecesse, e que cedo el-Kei crearia Bispado proprio na IÌUa 
rta Madeira; e o mesaìo escreveo ao Vigario de Machico, cliamado Jofn 
Garcia, que fui o pi'iiaeiro. De ludo isto, e das dilas provisoes, e exo- 
cufào d'ellas, coasla do Toaibo da Camara do Funchal, aonde estao. 

99 Pouco depois em o anno de 1508, raandou o Coaveato doTbo- 
Qiar à Illg da Madeira bum 1). Joao Lobo, Bispo de anel, e foi o pri- 
loeiro Bispo que aa liba ealrou, cbrismou, e deu Ordeas. Cbegadu o 
anoo de i514 e decreto do Suaimo -Poatifice Leao X, feito aos 12 de 
iunho, foi por el-Bei D. Maaoel ao mesmo anno creada a Cidade do 
Funchal, e nomeado por seu primeiro Bispo proprietario D. Diogo Pi • 
nheiro, Vigario que tiaba sido de Tbomar; e com elle se crearào, e coa- 
firmarao quatro Digaidades, e doze Coaegos; e depois a supplicagao do 
B.sj)o se crcon de aovo a digaidade de Meslre-escola. Nuaca o Bispa 
Wnlieiro foi a Uba, por em Portugal ser occupado em o servilo, e ne- 
ffms do Rei, e de lodo o Ueiao ; mas maadou bum Bispo l). Duar- 

VOL. I 9 



130 IllSTOniA INSULANA 

te, e luim Provìsor, e Vigario Geral, e assim governou o dito Bispo doze 
;mnos, e fiileceo no.de 1506. 

100 Segiiindo-se logo na Monarchia de Portugal el-Rei D. Joao III, 
(' vendo qne tinliao descuberlas oiilras novas terras iillramarinas, fez, , 
com approvafao do Summo Pontifice. a D. Martinho de Porlugal (qua 
era parente do Rei) Arcebispo da Madeira, e do que de novo era des- 
culierto; mas lanibcm este Arcebispo nunca foi a liba, e so a ella man- 
(lou bum Bispo, chamado D. Ambrosio, qne indo, cbrismando, e dando 
Ordens na Uba, d'ella voltoli a Portugal dentro de bum anno, de 1539 
])ara loiO, e o novo Arcebispo deu Constituicocs & Madeira, tomadas 
(le oulros Bispados: aos Concgos concedeo tres raezes de estatulo, seus 
^meios dias de barbas, e oiitros dias de bospedes, e de lavagens de so- 
l)repeHizcs, etc. e ainda ncsle tempo nao tinba cada Conego de annual 
]-enda mais que doze mil réis c^ida anno; e morreo esle unico Arcebispo 
eni I5i7, sem jàmais sabir de Portugal. 

iOl Em 1548, veio hum Bispo das Canarias a Madeira, e com li- 
(•enea exercitou n'ella o officio de cbrismar, e de dar Ordens, e logo pc> 
los annos de 1550, pedio el-Rei D. Joao III ao Papa, fizesse Bispados 
dislinclos nas ultramarinas parles descuberlas, por serem tao dislanles 
rntre si; e que ficasse a Madeira cOm a de Porlo Santo, e o vizinho Cas- 
tello de Arguim em Africa, sendo bum so Bispado; conu) jà o erao as 
Illias dos Acores, e S. Tbomé, e India; e que seu Melropolilano fosse o 
Arcebispo de Lisboa: e ludo o assim pedido concedeo o Papa, e foi feito 
IJispo da Madeira D. Gaspar, da Heligiao da Graga de Santo Agoslinbo: 
mas nem este foi à Uba, e so là mandou hum Provisor seu, e foi pro- 
niovido a Bispo de Leiria, e dabi a Bispo Conde em Coimbra: e para 
Bispo do Tuncbal foi D. Jorge de Lemos, Frade f>ominico, a foi o pri- 
ineiro pispo proprietario que la residio, e acbando que a Cidade do 
riinobal nao tinba mais Parocbias que a mesma Sé, erigio mais dentro 
(la Cidade duas Freguezias, a de N. Senbora do (-albào, e a de S, Fe- 
dro, e na da Sé poz dous Curas: e em 1559 renunciou o Bispado, e 
Ihe succedeo D. Fernando de lavora, Dominico tambem, e brevemenle 
largou Bispado, e foi posto nelle D. Ilieronymo Barrelo, Clerigo se- 
ciilar em 1573, irm3o dos nobres Barretos do Porto, e fillio de bum ir- 
mao do Reverendissimo Padre Joao Nunes Barrelo, da Companliia de 
Jesus, Palriarcha da Ethiopia: e este D. Ilieronymo foi o que. fez ad 
Consti luigoes Synodaes da Madeira em 1578, porque se governa o Bis- 



LIV. Ili CAP. XVIl' 131 

pado, conforme ao Concilio Tridentino: e depois foi proraovldo a Bispo 
do Algarve: e na Madeira Ihe succedeo D. Luiz de Figiieiredo, e Lemos, 
qae era OeSo da Sé de Angra, de quem em seu lugar trataremos maivS 
largamente* 

GAPITULO XVII 

Conclue-se com a Itka da Madeira^ DeserlaSy e onlras. 

102 Restava dizer do governo civii, e politico da Illia da Madeira, 
qaal he sabido, e muito semelhante ao de Portugai, porque alem do 
Capitao Donatario, que ha muilos annos nao assiste na Capitania do Fun- 
dial, mas em Portugai, e na liha poem el-Rei Governadur triennial : e 
alem do Ouvidor, (se o Donatario o qiier ter distincto de si) e alem do 
tommum governo do Senado da Camara, tem Juiz de fora, e sobre elio 
Corregedor com beca de Desembargador do Porto com posse lomada, e 
determinada alcada, e passando della vem de direito as causas a Lisboa 
aos Desembargadores dos Aggravos, aonde finalizao na fórma costuma- 
da: e alem de tudo isto tem o governo da fazenda Real, com Provedor 
que he Regio officio, Contador, Juiz da Alfandega (e outros officiaes, e 
tudo immediato ao Conselho Real da fazenda em Lisboa; e de toda a 
Gdade do Funchal, e ainda da Capitania de Macbico, he tao lustroso o 
(rato, corno do sangue a nobreza, sondo que a abundancia de fruclos ju 
Qio he tanta, comò nem he tanto^o assucar, posto que delle se facao 
tanlas conservas ainda, e tao varias especies de doces, que até se carré- 
gio para fora comò preciosa droga, e rendosa, mas a principal de todas 
he a dos muitos, e excellenles vinhos, que para as nacoes estrangeiras, 
6 para Brazil, e Angola està indo continuamente, e enriquece muito 
todaallha. 
I 103 Outras Ilhas demais ha junto à da Madeira, qde cliamSo De* 
I ^ertas; hama he, a que (depois de estar jà na Madeira) o felicissimo Joào 
Gno^alves Zargo, observou haver distante so seis legoas; e mandando-a 
descubrir, e achando que era de rochas, e sem agua doce dentro, a nuo 
Ottodou logo povoar, mas so Ihe mandou laudar algum gado grosso, e 
^Igumas aves, que multiplicarao logo, e flcou cliamando-se a liha Deser- 
ta; tem duas legoas de comprimonto, e hum terco de largura ; tem jà 
pistores, e hum Feitor, e sua Ermida, aonde hum Clerigo Ihes diz M is- 
sa: e ji tem agua, posto que salobra, e alguma cevada, e trigo dà, aiu- 



132 HrSTOIWA INSULANA 

da que pouco, mas muilo gado, e nao lem coellio, nem rato algom, he 
por natureza inconquislavel, por ser tao cercada de continuadas, e al- 
tisssimas rochas, que se nao podem subir senào por tal carréiro, que 
dous pastores deitando a rodar penedos de cima, levao com dles abai- 
xo quanto cncontrao, corno ja de facto succedeo a muitos Inglezes, que 
querilio ir buscar gado. Erao senhores d'està Ilha os Capilaes doFunchal, 
mas este senhorio passou d'elles brevemente a Luiz Gonfalves de Atai- 
de, e chega a render duzentos mil réis cada anno. 

104 D'està primeira Ilha deserta, e so bum terfo de.legoa de cora- 
primento, està outra deserta Itba, que tem so buma legoa de compi- 
mento, e ainda menos de largo; e por isso lambem a nik) povoarào, e 
so llie deitarao cabras, que a ella vao buscar com càes. A terceira liha 
deserta, ou Ilhéo (que cbamao o Ilbeo Cbam) jaz entre a primeira de- 
serta, e a Madeira, e de so meia legoa de tamanbo, porém de roebas 
alto, e em cima plano, mas por amor dos ventos se nao semea; e d'isUi 
quatro legoas da Madeira, e so meia legna da maior deserta, por cujo 
respeito estas tres Illias se cbamao Desertas, comò do nome da Uba Ter- 
ceira se cbamao Ilbas Terceiras, as mais Ilbas dos Afores, corno diz Fru- 
ctuoso liv. Il cap. 51, e ao Capitao do FuncbaI pertenciào estas tres De- 
sertas, por elltj as descubrir, posto que hoje nem todas fhe pertenfao. 

105 Ultimamente trinta legoas da Madeira para o Sul, e indo para 
as Canarìas, estao duas Ilbotas mais, a que cbamao as Sakagens, coni 
distancla de tres legoas entre si, e l^ima lem meia legua de terra, e a 
outra i)Ouco mais, a maior tem algum gado, e ambas senbor Casielba- 
no de,quem sao, porque ambas devem entrar no numero das doze Ca- 
narias, de que no liv. ii jà Iratamos, e trata o Historiador Barros) por 
serem descuberlas por Castelbanos todas doze. E assim conclue-se que? 
na altura da Madeira s3o sinco as Ilbas, que debaixo do dominio de Por- 
tugal est3o, e* que pela ordem de seu descnbrimenlo s3o, primeira Por- 
lo Santo, segunda Madeira, terceira, quarta, e quinta, as tres clìamadas 
Desertas, e com estas acaba Fructuoso o seu livro segundo, e he jà tem- 
po que passemos com està nossa llistoria Lusitana lusulana a dos liba» 
dos Agores, ou Terceiras. 



FIM DO i.lVaO TEl;CEl[U). 



niSTORIA 

INSULANA LUSITANA 

lilVRO aUARTO 

DA ILHA DB S.\NTA MAfìlA, Ql'E DAS NOVE DOS ACORES, FOI A PIUMEIRA 
QUE SE DSSCUBIIIO- 

CAPITULO I 

FnudamenioJt qiie havia pnra se hnscarem as ditas Itlias, e das formiijas 
qn€ primeiro apparecerào. 

1 Em anno de 1428 do Nascimento de Cliristo Senhor nosso (con- 
forme a Frucluoso em o sen liv, 3) indo o Infante D. Pcdro de Portngal 
'1 Inirhierra, Frango, Alcmanha, Jerusalem, eie, e voltando a Italia, Uo- 
D», e Veneza. descubrio, e comsigo ironxe luim Mappa, em que estava 
ji lodo amhito da terra, e jà o Estreilo, (que depois se chamou dt3 
Magalbàes) a qne chamavao Cola do Dragao, e o CatK) de Boa Esperan- 
% e à fronteìra de Africa : e Antonio Galvao conta, que Francisco do 
Soasa Tavares Ihe dissera, que em 1328 Ihe mostrara o Infante D. Fer- 
nando entro Mappa acliado no Cartono de Alcobapi, feito liavia mais de 
cento e setenta annos, que continba loda a navegafao da India, com o 
^-ahfi de Boa Esperanca, e devia ser o que o Infante D, Fedro comsigo 
linha irazido ; e de tal Mappa se devia valer o nosso descubridor o In- 
btrte D. Ilenrique, e das noticias havidas dos Venezianos, para mandar 
fazcr OS descubrimenlos d'cstas novas Ilhas- - 

2 Outros porém vendo o quao remotas esl5o de toda a terra firme 
^stas Ilhas dos Afores, e que nera ainda no dito Mappa antigo vinliao 
assentadas laes Ilhas, e advertindo juntamente na ajustada, e santa vida 
do Infante 1). nenri<]ue, comò ao principio d'està historia contamos, 
3Ì«iz3o, e nem scm fundaniento, quo o devoto Infante teve alguma re- 
^clapìo, ou inspirarào Divina, em que, com a constancia que veiemos, 



I3i IlISTOniA INSULANA 

perscverou em mandar dcscubrir taes Ilhas. E na vertade se (coma di- 
zem OS Tl)eoIogos) Déos especialmenle concorreo, ainda com Genlios, 
I)ara serem primeiros inveiitores de artes naluraes, comò com Ilippo- 
crates, e Galeno para a invenfao da Medicina, com Apelles para af da 
Pintura, com Plalao, e Àristotdespara a da natura) FilosoTia, dando Hies 
jìaturaes auxilios, mas muito poderosos, para descubrirem, e enssinareni 
nquoHas artes em bem commum, nao sera de admirar, se concorresse 
k'om nosso Infante para afcanfar, e descubrir as mais remolas Illias, 
para commum bem do mundo, e especial dos navegantes. Mas fosse por 
i.nde fosse alcanfada tal noticia, a certo he que 

3 Reinando em Portugal o invicto Rei D. Joao I, mandou o Infante 
I). Henrique, da Villa de Sagres no Algarve, bum grande Cavalleiro, (de 
(•uè logo failarcmos) com ordem que navegasse direitamente ao Poente, 
it descubrisse a primeira liba, tomasse duella nolicias, e Ihas trouxesse. 
Kavegou prosperamente o arentureiro, e em poucos dias de viagem, deo 
com a vista em huns penedos, que vio sobrelevantados era o mar, e ob- 
i^ervando que erao pequenos para Ilbas babitaveis, e que junlo a elles, 
V entre elles (por se encarreirarem muitos) fervìa- continuamente o mar, 
jioz-lbes por nome Formigas, e observou que estavào em Irinta e sete 
gràos e melo de altura, da parte do Norte Septentrional, e que conti- 
r:uavao em direilura de Nordesle a Subsudoeste, e em comprimento do 
tiro de buma bcsta, e com largura do vinte covados, ou sessenta pal- 
mos, i)Ouco mais, ou menos; e em buma ponta tinba bum penedo, que 
5>obre a agua sabia comò buma casa de sobrado; e na oulra ponta tinba 
«nitro semelbante penedo, mas menos levantado sobre o mar, comò bu- 
ina casa terreira; e os que biao no meio d'està carreira de penedos, erao 
variamente mais baixos, e alguns afa^^tados dos outros, mas tao pouco, 
qwe por entre elles podia so passar bum barco de pescar. 

4 E com elTeito biao da Uba mais vizinba barcos a pescar al(i, e 
apanbavào multo peixe, até escolares, e grande multidao de marisco; e 
no maior penedo de buma das pontas tinbao tal abrigada naturai, que 
se podiào recolber niella vinte barcos; e succederà jà, que eslando os 
pescadores em a terra, ou pedra do tal penedo grande, e ceando, viera 
por vezes alli, ao faro do comer, bum lobo marinho, e tao grande coma 
bum grande bezerro, e junto à pedra comia o que Ibe lancavao os pes- 
cadores, e por temerem cabir, Ihe nao lancavao o arpéo. e o matav^o. 
£ d'este maior penedo, buma Jegoa ao Sueste, se observavào outn» 



LIV. IV CAP. II 135 

formigns, e Innlo mais pcrigosas, quanto menos dcscubertas, porque, 
(juaiulo <) mar eslava mais clieio, aintla enlào iiào vencia eslas segunilas 
fnniiijjas, mais que sete, ou oilo palmos; e quando vazava o mar, ainda 
a* uài> (Ifsculiriàu b^in, e crào ao modo de eiras de terra postas ei;i 
Iriangido : e cada Imma, se fora de terra, e nào de pedra, levaria lumi 
ah|;ieire de semcadnra, e eulre estas eiras de pedra passava algum mar, 
e fiindo, mas peritoso. 

5 Oliservado ludo isto no anno de 1431 se persuadirao os envia- 
di>s Jesoubridores, que nào liavia mais liha do que aipiellas Formigas, 
e Iriiles se voltiirao. e derao de ludo ao Infante nolicia, e Guidando que 
Infante dt»sislisse do intento, ou se desse por mal servido, elle pelo 
coulrario se connrmou tanto, ou nas revelaroes, ou nas adquiridas no- 
ticias, que linha, que logo era o anno soguinte d^ 1432 toi-nou a man- 
giar i»s mesmos descubridores das Formigas a descubrir as Ilhas quo» 
IKjrlo tl'ellas eslaNào; e pò. que jà be tempo de dar noticia de quem (ìì\uì 
ir>Ws insignes sugeilos, (jue de antes a primeira vez, e segunda vez 
«i'^ni, loj nai'ào a doscubril as, vejamoi o. 

CAPITULO II 

Quem forSo^ e de que (jitalidade os primeiros descubridores da Ilha 
chamada Saula Maria. 

G Houve era Portugal (diz o nosso Fructuoso liv. 4 cap. 3) bum 
Ugo cbamado Martini Goncalves de Travassos, casado coni Imma ri- 
salga, cujo nome era Catliarina Dias de Mello, de que teve dous lìllios; 
primeiro, Xuno Martins de Travassos, tao abalizado fidalgo, e de tanta 
valia no Beino, que teve por seu pagera a bum Fernao Uodriguez Pe- 
rora, que depois deo por parenle aos Pereiras, e veio a ser amo da \\r 
6ule Duqueza D. Brites, mài dei-Rei D. Manoel, e Ibe creou os Infanlos. 
Osejiundo fillio do dito Martim Gonfalves de Travassos, fui Diogo Con- 
falves de Travassos, que casou eom DonaViolanta Cabrai, lìlbade outr«» 
li«lalgo era Portugal, cbamado Fernao Velbo, e de §ua mulber D. Ilaria 
Alvres Cabrai/ filba do Alcalde mór de Belmonte, cbefc dos antigos jì- 
«lalgos Oibraes : da qual D. Violante Cabrai, e de Diogo Goncalves de 
Travaj^stis nascerào Rui Velbo de Mellt», Eslribeiro mór del Rei D. JoIiuII, 
e l*edru Velbo de Travassos, e Nuno Velbo Cabrai, ou de Travassos. Do 



136 IIISTOniA TXSrLANA 

ifjesmo Fcrnao Vi»lIio, e D. Maria Alvres Cabrai nasrcn ontra Riha, lì- 
Titroja Voiho Cabrai, que casoii coro oulro fidalgo, N. Soares, de fjne 
iiasceo Jorio Soares de Albergaria: e assim esla D. Tareja, comò a oulrn 
inTìà D. Violante Cabrai, er?.o inniis inleiras, e b'jjìlimas, nào so rie Al- 
varo Velbo, que ficoii cm PortwgjH, mas lambem de Goufalo YelUo Ca- 
lerai, cbamado o Famoso, de que ajjfora Iralaremos. 

7 Cbamava-se esle famoso fidaljjo, nao so Gonfalo, mas Frei Gon- 
r do Velbo Cabrai, porqne era Commeridador do Castello de AbnonroU 
i;!ic està sobre o Tejo acima da Villa rie Tancos: e Brifo na Monarchia 
lAisilana liv. ,3, rap. 14, diz que anligamenle houve buma Cidade cba- 
) lad.ì Mòro, aonde ag[ora esla o dito CastiHIo- de Almoiirol. fundado em 
tjrrecìfe mellido pelas a<,Mias da Tejo, qne com suas correnles o rerca, 
r Taz Uba, para onde vào em barcos, e no verao be Imma das alegres 
Jjabilafoes «jue ba, e de iirande paswitempo. E era o mesmo fìdalgo lam- 
I»^m senbor de varios higares, corno das Pias, no termo «le Tbomar, e 
•le Bezelga, e Cardiga, e sobre tudo muilo privado del-Kei D. AfTonso V, 
V do posso Infante D. Ilenriqne. 

8 Tal fìdalgo, corno este, escolbeo pois o Infante para o primeiro 
desoubrimenlo das Ilhas dos Ahmvs, quando descubrio asFormigas em 
<13I, e ao mesmo niandou no anno seguinle de li32, a descnbrìr .is 
Ilhas, e com breve, e |)ros[)era viagem deo o dito fìdalgo com buma 
l!ha em quinze de Agosto, dia de N. Senliora da Assiimprào, sentìo cu- 
llo jà quadragesimo nono anno do Reinado dei-Rei D. Joao 1. tendo 
n mesmo Rei, e na vespora de oulro semelhante dia da Assumpcào da 
Senhora, vencido a El-Rei de Castella em batalba no campo de s. Jorge, 
rcima do lugar, aonde depoìs se edificou o Mosleiro da Batalba. que ti-' 
liba succedido em o anno de l'WS, e por isso o rlìlo descubridor da 
liha ihe poz por nome. Santa Maria; e no mesmo anno de l4tW nasceo 
vm Portugal o Serenissimo Infante D. AOonso, fillio dei-Rei I). Duarle, 
e neto do que ainda reinava.D. Joao 1. 

9 descuhridor, e Commendador Frei Confalo Velbo Cabrai des- 
embarcou na liba pela parte de Oesle, em buma pequena praia. que 
rbamurao dos Lobos, e ilo ('nbreslarde, por o parererem assim as pon- 
las de tal praia: e a(|ifi se fundou depois a primeira povoarao, junto a 
buma rìbeira. que lodo o anno corre: logo foì o Commendador corn»ntlo 
a liba loda a roda, parie por terra, e i»arlo por mar, prr a maileira «la 
terra nào dar lugar a mais; e touiadas as noticias, niedidaS:. e ^inaes da 



Liv. IV CAP. m 137 

tr»m, vollarao lodos para Portngal: e flanrlo conta rio Uvh ao Infante, 
fi.-on este tao alopre, qiie Ingo mandon deifar garlo enfi a liha, e come- 
nid jnniameiìle a proparar a povoarao inleira d'ella: e Ingo fez merré 
t'.' Capiiào Oonafario ria dila liha de Sanla Maria ao dilo Commondador 
i'rvi Goiiralo Vellio Cabrai: e llie concedeo mais o poder levar, jìara po- 
> Mrern a dila Illia, nào so os que qiiizessem com elio ir, de seus pa- 
Miles. amijjns, e eonheoidns, mas da mesma Real casa d'elle Infante: e 
lissitn qnasi tros armos aridon este Commendador, e primeiro Capitao de 
S.nita Maria ajimiando tao grande' nobrcza para Irazcr comsigo, que o 
veracissimo, e enidilo Fructiiosn no seii liv. in cap. li, (e o continua no 4) 
nizdos dilos primeiros povoadores eslas palavras formaes, ibi: «Todos 
fcao do ronselho dos Heis, e muito privados, e dos mais honradns fi- 
(lal;,'os, que bouve n'aqnelle tempo: o que ludo vi por papms aulbenti- 
ri)s eni fóima devida pelas jnslicas; e assim foi, e bc fama commua en- 
Ire OS antigos, e modernos.» 

10 Mas porque o ciiado Frurtu^so he dilTusissimo em seu estylo, 
V om Genealogias exlonsissimo: e com ludo serve muito tal materia pa- 
ri OS descendenies atlenderem Is virtu<les de seus ascendenles, e os 
itnilaivm. e ainda v(Tem aos vicios, e castigos d'elles, e os fugirem: e 
l:iiu!)om para nào screm pombas covardissimas arpielles que descendein 
ih generr)sas Agnias; por isso convém recopilarmos o superfluo, e nào 
«leixarmos o ulil, e ajunlar com a clareza a brevidade, nao nos fazendo 
cscuros por sor breves: mas accrescentando o quo de oiitros Ilistoria- 
(1 «rcs, e de papeis autlientiros. e tradigoes sempre observadas, puder- 
mos uesla materia, aìnda(iue com traballio, alcancar; seja pois. 

CAPITULO III 

Da nscenderìcia^ e (ìrscfvdenna dos potoadores 
da sobredila liha. 

il dito desrnbridor de Santa Maria Frei Concaio Velbo Cabrai, 
Ciminendador de Almourol tla Ordem de Chrislo, e senlior dos lugares 
das Pias, Bezelga, e <:ardiga, ora fillio do grande fidalgo Fernao Velbo, 
e de sua logilima mulber I). Maria Alvares Cabrai, e por esla mai era* 
Mo do senbor da aniiga. e illustre casa de Belmonte, chefe dos Ca- 
line:;; porém corno ainda enlào nào podiao ca^ar cs Commendadoi'es 



ih 



HlStOni.V iNì^ULANA 



professns ila Orilem de Chrislo, nuo leve Frei Gonrnlo descenflencia al- 
t;uina, e assiin so Iralarenios dos irinàos que Une, ponine aléin do pri- 
iiieiro irmao Alvaro Vellio que ficou em Porlusal, leve mais irinfis, D. 
Tareja Vellia Cabrai, mài do segiiiido Capilao Donatario de Sanla .Maria 
f; S. Miguel, de que abaixo fallaremos: ilem D. Leonor Velha, que ca- 
sou com Fernào Vaz Pacheco, corno em ì>ìì[ì lugnr diremo;^. 

12 A terceira irmà pois do descuhridor Frei Gonzalo foi D. Violan- 
te (librai, que casou com Dingo GonC'dves de Travassos. lìdalgo que era 
Vodor, e Escrivao da pnridade do Infante i). Pedro, fìlbo del-Uei D. 
Joào, (a (luem ajudou a tomar (lenta em Africa) e do (-onsellio d'el-Uei 
D. AlTonso V, do cujos filhos tambem ì^oi Aio, e Padrinbo; e esle Dingo 
Gonfalves de Travassos era fillio de Marlim Goncalves de Travassos, e de 
D. Calharina Dias de Mello, e ambos da grande lìdalguia de IN)rtugal: 
«la (|ual D. Violante, e Diogo Goncalves de Travassos nasceo Hny Vellio 
de Mello, Eslribeiro mùr d'el-Uei D. Joao II, e a esic sobrinbo de Frei 
Gonzalo forào a Commenda de Almourol, e as terras quo o tio linha: e 
j)or morrer o sobrinbo sem filbos, d'elle passarào a Commenda, e as 
terras a D. Xuno Manoel, quo depois foi Conde do Uedondo. 

13 Nasceo mais desta D. Violante, irmà de Frei Gonv^il^^ e do di- 
Io seu marido Diogo Goncalves de Travassos, nasceo Pedro Velbo do 
Travassos, do qnal casado Ilcarao varios lìlbos, e liibas, e netos, nào so 
rm Santa Maria, mas tambem na Uba de Sào Miguel. Ilem nasceo da 
dita D. Violante, e Diogo Goncalves de Travassos, Niuio Velbo de Tra- 
>assos, ou Cabrai, qne casou com Imma fidalga cbamada Africanes, (de 
que abaixo fallaremos) e deste matrimonio nasceo D. Grimaneza Alon- 
so de Mello, qne depois casou com Lourenco Anes de Sa Leonardes, br- 
inem dos mais nobres da Uba Terceira na Villa de S. Scbastiào; e deste 
casamento nasceo Nuno Lourenco Velbo (Cabrai, (pie casou duas v(»/.rs, 
ambas nobre, e limpamenle, de quem nasceo Haltbasar Velbo Cabrai, 
que casou com Maria Manoel de Cbaves, pais de Manoel Cabrai de Mel- 
lo, que com so Ordens raenores foi Conego do Funcbal em a Madeira, 
depois Conego de Angra na Terceira, e logo Arcediago, Vignrio Cerai, 
lYovisor, e Commissario <la (bilia da Cruzada, e qtit3 sendn moco ti-ve 
bum fillio de mulber nobre, e limpa, cli.iinad.» IkM-nardo Cabrai de Mol-~ 
lo, Cidadùo de Angro, e que aìuihi tJSii desn'fnbnria. 

14 OuJro irinrjo te\o o dilo Niirio Ldiireiin.» Vcibn Ca!»ra!. qne se 
fliamava Sebiislirio yiniws Velilo Cjì.IuI, ij'.c «'as«.t: coiu Dona Maria de 



Liv- IV GAP. m 139 

Almeida, de que nascco D. Ignoz Nunes Veiho, coiti quctn casou Miffiiel 
c!e Figueiredo de Lcmos, de que nascerào D. Luiz de Figiujrn^do de Le- 
mos, ((|ue de Deào da liha Terceira Toi para illustre liispo da liha da 
Madeira) e D. Mecia de Lemos, que casou corn André de Sousa, fiiho 
de Joao Soares, terceiro Donatario de Santa Maria. K do mesnio Nuno 
Lourenfo Vellio nasceo tanfibem llieronvma Nunes Vellio, que foi qiiar- 
ta avo do septimo Gapitao Donatario de S. Maria, Braz Soares de S(ju- 
sa, e de seus irmaos, corno veremos. Nasceo mais do mesmo Nuno Luu- 
renfo Veiho hum Diogo Velho, que la ficou em Santa Maria: e huni Ma- 
thias Nunes Velho Cabrai, pcssoa nnuito principal, e que lirou iiislru- 
nienlos de sua fidalguia, e casou com Maria Simóes, de que deixou (ì- 
Kk)s, e viveo na sua quinta da flor da Rosa em Santa Maria. 

15 A outra irmù do descubridor Frei Confalo Velho foi D. Tareja 
Velho Cabrai, que era casada com o primeiro N, Soares de Albergarla, 
(ie que nasceo Joao Soares da Albergarla, que casou com D. Branca de 
Scusa, Dama da Rainlia, e fdiia de Joào de Sousa Falcào, fìdalgo da ca- 
sa (i ei-Rei, e de D. Maria de Ahnada. prima com irmà do Conde de 
AbrancJies: e este foi o segundo Capit^o de Santa Maria, e Sao Miguel, 
corno al)3Ìxo se vera; e teve por fìlhos, nào so a l^edro Soares que mor- 
reo na India, e a D. Maria que casou em Portugal, e a D. Violante, que 
casou, e nao teve Dlhos, mas tambem teve a Joao Soares, de Sousa, ler- 
otiro Rapitao de Santa Maria, que casou a primeira vez com D. Guimar 
da Conila, flllia de Francisco da Cunha (ie Albuquerque, e de D. Brites 
da Camera, irmsi do quarto Capitao de Sao Miguel; e segunda vez casou 
Cora D. Jurdoa Faleira, fillia de Fernào Vaz, QIho de Joào Vaz das Vir- 
tudes, e de Anna de Rezende. 

16 Do primeiro matrimonio nasceo Fedro Soares de Sousa, quar- 
ta» Capitio de Santa Maria, casado com Dona Brites de Moraes da liha 
da Madeira: e do mesmo primeiro matrimonio nasceo tambem Nuno da 
Canlìa de Sousa, que casou com D. Francisco Ferreira, e d'esles nasceo 
Joao Soares de Sousa, que casou em Santa Maria com Dona Felippa da 
Conha, dos x|uaes nasceo Manoel da Camera de Albuquerque, com quem 
Cisoa D. Marqueza de Menezes; e destes nasceo Joao Soares de Sousa, 
« a'^ou com D. Anna de Mello, viuva do sexto Capitào Pedro Soares de 
Sousa; ilas (juaes na;*ceo Antonio Soares de Sousa, que ainda vive ciisa- 
do t>m Ponta Deigada com t). Antonia, jà viuva, e de que tem lìlhos. 

il De I^cdro Soares de Sousa, quarto Capitào de Santa Maria, e dà 



l IO inSTOniA INSl'LANA 

dita sna mnllier D. Britos rie Moraes nasceo o quinto dito Capìtao Brn» 
Soai'os (!e Sousa, qiic rasoii c/)m h, Dorolliea de Mollo, Tilha de Joào 
Nnries Velhn, e de I) Maria da r.amora: e o dilri quinto Capilao era Com- 
inundador (U S. Pcdro do Sul em Poftnpral. D'este pois nasceo o sexlo 
(lapitào Pi'dro Soaro*? de Soiisa, qne casoii sogunda voz com D. Anna 
(h Mi'.llo, ft (ri\sl(?ì matriinonio nascer) o septimo Capitao Bras Soares dt^ 
Sousa, fìda!«{0 d;i Casa de S Magc'stade, e casado. dilo scxto (Capilao 
IVulro Soares linha sido casado primiMra voz com l>. Victoria da Costa, 
do (|ue liouve hum (ll!io cliamado Bras Soares. Commendador. de Santa 
Maria, mas morroo nas guerras do BrasiL e so Imm fillio naturai dei- 
xou: e lamhem teve o dilo soxlo Capilao dous filìios bastardns. hum 
chamado I.ouronm Soares de Sousa, fidatilo (ìlhado, e de grandes ser- 
vicos. e a haslarda I). Ifrncz, que ficou na lllia de S. Maria. 

18 Com dilo primeii'o descubridor Frei Concaio Veiho Cabrai 
veio mais à liba de Santa Maria bum nobre Gonzalo Annes, que por Ilio 
iiiorrerem os muilos flllios ale alli nascidos, e nascendo-lbe ainda Imma 
fìlha, se resolvoo a por-lbe nome, que até alli ninguem tivesse, e assim 
Ihe cbamou Africa; e ponfuc e sobrenomc d'elle era Annes, ficou a filba 
chamando-se Africa Annes, e vulgarmente a cbamavao Africanes. Morto 
pois pai, ou (corno outros dizem) voltando da Uba para Portugal, por 
buma morte que fizera na Uba, alli deixou a filba encommendada ao seu 
grande amigo, companbeiro, e talvez parente, o illustre Frei Concaio; 
e oste logo deo a (bla Africanes por mulber a bum George Velbo, ipie 
ora tambem dos mais nohres, e primr^iros povoadores gue vierao li liha, 
e d'oste casamento pmcedorao os chamados de sobrenome Jorgos, con- 
ferme ao eslylo anttgo dos descendentes tomarem por sobrenomes os 
iiomes (bìs ascondenles. .Morto Jorge Velbo, casou Africanes segunda vez 
com bum sobrinbo do sobredito Frei Concaio Velbo, que se cliamava 
Nufìo Velbo; e «leste segimdo marido, e de Africanes nascerHo Duarle 
Nimos Velilo, (de que bouve mais descendencia) e Grimanoza AiTnnso de 
Mollo, que casou com aquclle nobre LouronfO Annes da Illia Terceira, e 
d'eslos nasceo Ignes Nunes Velbo, que casou com Miguel de Figueircdo 
<io I.emos. que fijrào pais do illustre Bispo do Funchal D. Luis de Fi- 
gueiredo de Lomos. 

15) D'eslos Figueiredos rofore o douto Frucfuoso, que dando hum 
aniigo Bei de Porlugal bat:il!ia a iuimigos, pelojarao de tal sorte d<ms 
nobros iriunos, que quebradas as espadas, arremcttorào logo a humus 



LIV. IV GAP. Ili 141 

figiieiras que viao, e tirando dellas forles paos, loniarao aos iiiiini[,^os, 
e OS doslruirao de sorte, que aeabada a balallia, a ambos chanion El« 
liei, e dando a hum o appellido de Fìgiieiredo, ao outro per{j^iJiitou (pie 
appellido queria: este respondeo, (pie sua lama llie bastava, e (|ue ella 
soaria; e desde entào llie dianiarao Soares; e que o entào. Uei lizeni se- 
ulior de Albergarla a este scgundo irmao, e os seus descenderiles so 
diainarao, Soares de Albergarla; e estes sào os legitiinos J^oares, (]ue 
bem poderào cbamar-se, Soares de Albergarla; e estes sao os legiiiinus 
Soares, que boia poderào cbainar-sc, Soares de Flgueiredo. 

HO De laes Tigueiredos era o anligo, e illustre Bispo de Vizeu D. 
Gonyalo de Figueircdo, quo teve bum (ìlbo, e tres lilhas; o lilbo se ciia- 
mou Fernào Goiicalvcs de Figueiredo, que casou coro Maria Uias, (pevS- 
soa muito prlncipal) e destes nasceo Dingo Soares de Albergarla, do 
que nao fìcarao fllbos, e foi Aio dei-Rei D. Joao. Nasceo mais do dllo 
Feniuo Gongalves, Fernào Soares de Albergarla, que casou com D. Isa- 
bel de Mello, filila de Estevào Soares, de que nasceo D. Brites, mullier 
de Affonso de Slqueira, e ama da excellente senliora; e outra D. Isabel 
de Alello, raulber de Antao Comes de Abreu, e outra D. Briles, muilier de 
Diego de Mendonca, Alcalde mór de Moura, e Isabel Soares, mullier de Vas- 
co Carvallio, e D. Briolonja, mullier de Joào Gomes da Silva, seiiiior da Clia- 
niusca. De D. Briles, e Diogo de Mendonga nasceo D. Margarida, mu- 
Iher de Jorge de Mello, Monteiro mór, D. Joanna de Mendonga, segunda 
mullier do Duijue de Braganga, e Pech^o de Mendoga, Alcalde mór de 
Moura, e Antonio de Mendoga, e Cbiistovao de Mendoga. As tres lilbas 
do sobredito Bispo de Vizeu foruo Ignes Gongalves de Figueiredo, Ma- 
ria Gongalves de Figueiredo, e Brites Gongalves de Figueiredo; e todas 
casarào, e tiverào multa descendencla; da primelra descendeo Gongalo 
de Figueiredo, pai do Conde de MaiiaHa: e da segunda nasceo Ayres 
Gongalves de Figueiredo, senlior das terras de Freigedo, e Alcalde mór 
de Gaya. Da terceira nasceo Tareja de Figueiredo, mai de Fernào de 
Figueiredo, que casou com Meda de Lemos, e forOo pais de Miguel da 
Fiiroelredo de Lemos, que velo à Uba de Santa Maria, e nella casou 
com Ignes Nunes Vellio, Olba de Sebastiao Nunes Velbo, de que acima 
se fallou ja. 

21 Casou terceira vez a sobredita, e nobre Africanes com Pcdrca- 
nes de Alpoim, homem eslrangeiro, mas nol)re, e dello teve aliida a Bui 
Femandes de Alpoim, que morrco sem desceudoncia, e a Estevao Pires 



ii2 HISTORIA INSULANA 

de xVlpoim, e Guilhelma Fernandes de Alpoim; e d'estes vem os Alpoins 
de S. Miguel, e da Terceira. E està he a substancia verdadeira do que 
dilTusametite traz o nosso Fructuoso, e consta de outros papeis autlien- 
ticos que se ^^xamìnarao. E n'este mesmo seu liv. 3. cap. 3 e 4« traz 
Fructuoso as armas, e brazoes dos Velhos, Cabraes, Mellos, Soares» e 
outros, que lie escusado referìl-os aqui. 

CAPITULO IV 
Da altura, podo^^es, o ferlilidade da Ilha de Santa Maria. 

22 Jaza dita Uba neste nosso Oceano em trinta e sete graos da parte 
do Norie Septenlrional, e corresponde direitamenledeLesteaOestecoin 
Cabo de S. Vicente, e este Cabo com ella de Oeste a Leste, em dis- 
tnncia de duzentas e clncoenta legoas. Ao Norie de Santa Maria Ihe fica 
a pouta cbninnda de Nordeste da Ilha de Suo 5figuel, de cuja Gìdade, e 
porto, ao de Santa Maria, ha vinte legoas, e do de Villa franca dezaseis; 
poréni so doze de terra a terra. Commuinmenle se dizia ter pouco mais 
de Ires legoas de comprido, e nào chegar a duas de largo; mas exami- 
nada a vcrdade em o anno de 106G, se achou ter quasi ciuco legoas de 
comprido, e de largo quasi tres, e nove de redondo; he de figura ova- 
da, e corre de Leste a Oeste. Da parte do Oriente d'ella lem huma ponta 
baixa alò o mar, e n'este bum Ilheo redondo, e allo, mas pequeno, a 
<|ue chamùo o Castellete; e comecando d'aqui com a testa em o Oeste, 
aornle chamào Lagoinhas da parte do Norie, e da parte do Sul chamHo 
Monte Cordo. 

i.'J Do Castellete pois, por està parte do Sul, meia legoa, esUi ou- 
tro Ilheo maior, a que chamaò o Castello, onde se abrigao navios, e tem 
seu porto para os bateis embarcarem os vinhos, que por alli se dao 
multo bons. Adiante do Castello està bum porto de pescadores, que cha- 
mào Calheta; e huma legoa adiante està huma ponta chamada Malbusca, 
rocha alta, e medonha; mas bum tiro de pedra mais além se segue hu- 
ma liijà com moradoi-es pertencentes a Freguezia, e lugar do Espirito 
Santo, que estil meia legoa pela terra dentro. Da roclìa Malbusca, mela 
legoa, vai oulra rocha, a que chamao Ruyva, tao alta, e tao ingreme, 
(]ue calìindo de cima agua, ainda que seja pouca, sem locar na rocha, 
chega a bai\o. Mais adiante se segue huma prata de area^ e para dea- 



LIV. IV CAP. IV 143 

tro huma .Vlden de qiiinze vizinhos, com a celebre Ermida de N Senho- 
ra dos Hemedios, de muitos miiagres em enfermos; e por loda a Ermi- 
da, huin Uro de bésla do mar» sahe Imma fonte de agua salobra, aondo 
s« lem lavado muitos enfermos, e conrado saude, pelo que Ihe chamao 
a runtc de N. Senhora. Està mais adiante Inim areal, que chamao a Prai* 
nha, para dentro da qnal vao muitas ladeiras com vinhas, e ponco dis- 
tmles outras vìnhas cliamadas o Figueiral; acìma das quaes em iìuma 
njclia se tira pcdra, de (jue se faz muita cai; e tambem se tirao pedras 
(le manuore, de qne se fazem mós, cousa que nao ha nas outras Ilhas. 

21 Andando mais dous tiros de arcabuz, e enlre duas viiihas, eslfio 
duas furnas taes, que a huma se nào acha o fim, mas com candeas ac- 
cesa» se lira d'ella hum barro cinzenlo, tao macio,- e tao fino, corno sa- 
1)30, e serve para lavar panno, e tirar qualquer nodoa d'elle, posto ao 
Sol, porque chupa a nodoa, e o deixa puro, e limpo d'ella. Seguc-sj 
mais a(Jiante a ponta chamada de iMarvào; e logo Imma bahia para a 
parie do Occidente; e depois d'ella sahe huma ribeira tao grande, que 
fom ella moem oito moinhos; e aqui eslà hum areal, e portOr que clia- 
mào Porlo Veiho e adiante outro que chamao o Porto Novo, com duas 
ribeiras que lambcm sahem ao mar; e enlre esles dous portos eslà huma 
siilmla para hum allo, aonde està a Villa do Porlo, cabefa de toda està 
liha, [>ara a banfla do Sudoesle. 

25 Tem esla nobre Villa, sobre a rocha para o mar, Imma Ermida 
de N. Senhora da Conceicao, que he a primeira casa que se vé,de fora. 
Tem a Igreja Malriz da Hha, coni hum Vigano, bum Cura, e quatro Be- 
neliciados, hum Organista, hum Thesoureiro, e quasi quatrocentos vizi- 
nhos, e mais de mil e selecenlas pessoas de Communhiio; e pela liba 
lem mais tres Freguezias menos principaes, que sao, a de S5o Pedro 
com Vigario, e Cura, e mais de trezenlas pessoas de Communhao ; a 
do Esiiirilo Santo tambem com Vigario, e Cura, e quatrocentas pes- 
soas de Communhao a de Sanla Barbara com Vigario, e pessoas de Com- 
mmiliào a duzcntas e cincoenta. Tem mais a dita Villa tres mas gran- 
des, que sahinilo de adro da Igi'eja Malriz vào parar ao mar, com mui- 
tas rua:> travessas, e se continua ale a Ermida de Santo Antao, que eslà 
pela terra dentro. Orago da Igreja principal he N. Senhora da Assum- 
PC^K). e Padroeiro da Igreja da liba he Sào Malhias. Ha na Villa Casa 
da Sanla Misericordia com boa renda lìxa de moìos de trigo cada anno; 
^ Senado da Camera com igual n^nda; Mestre de latim» e Prégador 



144 inSTOUlA INSUIANA ^ 

coni ,lres moios de trige de renda, e dez mil ròis em dinheiro; e Inim 
ConvoMto de Freiras, qiie daiUes nao erao professas, furidado pelo Re- 
verendo Clerigo Fernando de Andrade, coni dezoilo moios de renda de 
Iri^'o cada anno para quinze Freiras; e sol)re ludo lem, aléin de Cleri- 
gos seculares, liuni Convenlo de Religiosos Franciscanos, que sào de beiu 
esi)iritual nao so para esla Villa, mas para loda a Illia. 

2G A defeza desta Villa, e de loda a Illia, era de anles pouca, sen- 
do que lem huma legoa de postos por onde podia ser enlrada, e o fui 
enlào Ires vezes, de iMouros, Inglezes, e Francezes; mas depois se Ihe 
fizerào no Caslello da praia dous Forles'com qualorze pecas, e adianie 
lunn Forte com algumas: na Villa do^is Forles com sete pe(,as: na ponia 
de Mai'vào, e no Figueiral, e na Trainila oulros Forles com sua arlellia- 
ria: o que ludo nao so manda o Governador, e Capilào Donatario, (co- 
rno abaixo veremos) mas immedialamenle lumi Capilào de arlelliaria com 
Irinta Arlillieiros, além do Capilào mor, olDciaes, e gente de ordenan- 
Va: que quanto pelas mais parles da lllia, he por nalureza inconquìsla- 
vel, haveudo alguem que das roclias so com pedras a defenda. 

il Ao redor desia Villa, pela lerra dentro, ludo sào terras de Iri- 
go, e loda a Illia he lào abundanle de agua, que so a dita Villa lem mais 
de quarenla e cinco fonles, que correm lodo o anno, e algumas g!*ar.des, 
e fermosas: na Freguezia de N. Senhora da Sen-a ha oiilras lant^is. e na 
de Santa Barbara vinte e Ires fonles, e pela rocha a roda da Illia sào 
innumeraveis, e todas de boa, e doce agua: a genie nào so da Villa, 
mas de loda a Iliia, he da ascendenza que jà vinijs, onde ainda ha miii- 
los nobres, e fidalgos, e d'esles quasi lodoi sào de estalura allos, pro- 
porcionados, e de presenta grave, e grandes espiri los, e tao presum- 
pluosos, que he pequena a terra para nobreza lauta; e por isso sào mui 
inclinados a ca(;a, e pescarla: e assim se conservào huns com oulros, e. 
raramente jà hoje casào fora, ou admillem de fora casamenlos. 
^ 28 Hum quarto de legoa da Villa, indo pelo Sul, està no mar hum 
Ilheo, com terra por cima, de quatro alqueires de semeadura, mas com 
tanto Garajào, que quem la quer ir, traz quatrocenlos, ou quinhenlos 
ovos d'elles, e tao bons corno os melbores de galinhas; porém deve ir 
com a cabega bem cuberta, para nao vir sem orelhas, porque so a eslas 
arreraetleni fortemente. Pela terra se segue adiante a Ponla do Cabres- 
tante, e adiante mais a Praia de Lobos, e logo huma Ermida chamada 
4os Anjos, mais de legoa do sobredilo Ilheo; e pouco depois se segue o 



LIV. IV CAP. V 145 

Uonte Cordo, e adiante huma rocha tao ìogreme, e tao alta, quo nin- 
goem com huma besta chegari de baixo à superficie da rocha; e com- 
todo he de notar que no mais alto de cima sahe huma perpetua fonte 
de agna, e da grossura do punho de hum homem sera haver era toda 
1 Uba terra alguma mais alta do que està: e ainda ih mais de notar, 
qoe por baixo da dita fonte, e rocha vai huma tao grande fuma, ou con- 
cavìdadc, que entra meìa legoa pela Ilha dentro, e a fonte sahe por ci- 
ma: e aqui vai dando volta & Ilha para o Nordeste. Na rocha poréra se 
apaoha muita urzella, que he comò musgo do mar, e de cor cinzenta, 
e tal Unta azul deità de si, e tao fina, que vence à que se lira do Pastel, 
posto qne da urzella dasCanariasdizem que ainda he melhor. Mais adianle 
segoem-se as Fajans, a que chamào Lagoinhas, de baixo das quaes està 
oalra fuma junto ao mar, d'onde pescadores de S. Miguel vir3o huma 
i^ez sahir doze lobos marinhos, comò em alcatéa, e alli os pescadores os 
vinhio perseguir, e notarao, que antes dos taes lobos se recolherem a 
saa furna, levantavao as cebecas, a ver se apparecia algum. Aqui faz a 
liba testa, e firn da banda do Sul. 

CAPITOLO V 

Do tracio do Norte, e seu interior da Ilha, e singularitlades d'ella, 

29 Voltando pela banda do Norie, e Nordeste, oulra vcz alò onde 
comefamos, està, dous tiros de bésla pela terra dentro, a Freguezia, e 
logar de Sanla Barbara, que passa de quarcnla vizinhos, e duzentas e 
dncoenta almas de Communhao; e adiante, mais de moia legoa, està a 
Ponta do Alvaro Pires de Lemos, aonde hum genro seo vendeo terra 
boa, e de hum moio de semeadura, por quatro mil e setecentos reis, 
seodo que no anno de 1568, (com ser armo esteril) deo a dita terra 
qoinze moios de trigo. Mais adiante estao humas fajas com vìnha, aonde 
nao ha (diz Fructuoso) alqueìre de terra de vinha que nao de huma pi- 
pa de vinho, e mais; d'ahi a mais de legoa se segue a Ponta de S. Lou- 
renco, aonde de huma alla rocha abaixo sahe huma ribeira e chega ao 
mar sem tocar na rocha, e n'ella està a Ermida de S. Lourenco. Depois 
se té Ilhéo chamado do Romeiro, com dcz alqueires de terra, e her- 
^ em cima, e em baixo huma tao comprida fuma, quo parece atraves- 
» llhèo; a boca he de altura de trcs lancas, e dentro tcm muitas fur- 
vot. I 10 



146 IMSTORIA INSULANA 

has, caminhos, reiretes, ludo de pedra aspera, e que parece engessada, 
e de agua feita pedra, que de cima vern ein gollas, e corno cera se coa- 
Iha, se congela corno vidro, e imiita fica no ar depeiidurada. corno re- 
gelo. Oli neve; ou conio tochas, e cirios quo se vào fazendo, algumas tao 
compridas qnUr chegam abaixo, ficarido oiitras periduradas em o ar, e 
brancas corno alabastro: e tendo o pavimento lunna lagcm, as gottas que 
cahem n'ella se levanlao em outras tochas; ontras (icào em figura de 
confeitos; o parece està fuma, ou casa de cerieiro, ou de confeitciro, ou 
Oratorio de cera bem ornado. 

30 Quasi rneia legoa adiantc da tal Fuma està huma Ennida de 
Santo Antonio, aonde linlia estado a primeira FreguivJa de Nossa Senho- 
ra da Purilica^ao, e succedco, que quorendo-a mudar, botarao sortes, a 
que Santo ficaria a Igreja, e saliio a sorte a Santo Antonio, ^ porisso 
mais adianle està a dita Fregnezia cliamada de Santo Antonio, e com 
raais de com vizinhos. E ainda mais de logoa adianle, està o Castellcle, 
d'onde comecàmos o circulo d'està liha; mas ainda pelo mais interior 
d'ella tcm varios moradores, e higares, posto quo menores, e bum sin- 
gular posto, a que chamilo o Ahnngro, por so dar alli. Toda esla liha 
està tao (irmada em podra viva, que a niaior altura do terra, commum- 
mente nao passa de dez palmos; d'onde vein que raramente ha n'osta 
liha tremor do terra, e se alguma vez treme, he tremor pequeno, e 
brando: e ainda quando a Iliia de S. .Mii^^iiol teve tremores Titaes, algu- 
ma cousn, mas mui pouco so sentirlo n'esla liba: porisso tambcm, ain- 
da que teni multa lenlia para o gasto, para obras de madeira nào teni 
multa, por nao ter terra profunda d'onde saia. 

31 Em algumas partes a terra que tem he tudo barro vermeiho, o 
esteril para fruto; porùm para loufa he excellenle, e da tal loufa ver- 
melha se prove a dita liba, e dà provimento d'ella a S. Miguel, e ainda 
a Uba Terceira: mas em todas as mais parles a loiia he tao frutifera, 
que bum grao de Irigo laura cento, e conio e doz espigas, nào passan- 
do em outras terras de quarenta ao mais: e o trigo l>c tao perfeilo, que 
sempre vai mais que o das outras Ilhas, e faz pouco custo em mondas, 
e leva menos semente: e o mesmo se experimenta na cevada. Tem muilo 
gado està Uba, e lodo multo mais gordo que o das outras, especial- 
mente vacum, e de carneiros, e ovelhas, pelo multo, e nielbor pasto 
que em si lem, e por isso grande copia de lacticinios, e queijcs osm> 
biores das mais Ilhas, Vinho tem, som necessitar de fora: teda a casta 



LIV. IV CAP. V 147 

de boa hortaliga, e tao grande alguma, que ha r#baos de tres palme s 
em roda, e nabos corno bolijas; e os melhores meloes, posto que de 
poaca dura. Pescado tem mnito, mas algura d'elle he menos gostoso; e 
deaves so Ihe faltao perdì7.es, e codornizcs; quo de coelhos lem tantos, 
qae davao a Ires por hum vintem; e tem milito bons foroes, e caes de 
cap. Era firn he tao barata a terra, que d'ella a que levava hum moio 
de trigo de scmeadura, se vendia no anno de loOO, a dous mil reis só- 
menle, havendo jà porto de oitenta annos que era povoada a Ilha, 

3i Uouve n'esta Ilha huma moga solleira, tao desobediente a sua 
mài, que em està charaando, ou perguntando alguma cousa, nem hia, 
nem respondia; e com isto tanto exasperou a mai, que perdida a pa- 
cieocia, levantando a mao, e voz ao Geo Ihe lanfou por maldigao, que 
filhos viesse a ter, que aincla que quizessem, nao podessem responder- 
Ihe: vaio tempo em que casou a moga com hum Affonso de Carvalho, e 
leve d'elle dous filhos, e huma filha, e todos tres totalmente forao mu- 
dos; e assim castigou Deos em estes netos a desobediencia da mài, e a 
impaciencia da avo. 

33 Outro homem houve na mesma Ilha, chamado Joào Vaz Melao, 
qoe tinha lai virtude de curar enfermos, que porisso Ihe chau^arào, o 
Joào Vjjz das Virludes; esle sem ser Medico, nem ainda Cirurgiao, ti- 
nha buma grande casa preparada so para curar enfermos, ainda de ou- 
tras Ilhas, e so por amor de Deos curava a todos, particularmenle de 
torceduras, pernas quebradas, e semclhantes achaques, e outros muilo 
diversos, com tal successo, que nem enfermo algum Ihe morreo, quan- 
do curava, nem ferida alguma Ihe parecia incuravel, e ordinariamente 
so com azeite, e hervas fazia as suas curas. Aflìrma-se, que nao haven- 
do entìo na Uba azeite algum, e querendo elle curar huns enfermos vin- 
dos de outras Uhas, huma sua filha Ihe respondeo, que a jarra do azeite, 
ja nenlìum tinha: e porfiando o velho pai que fosse buscar o azeite; e 
pelo contrario a filha affirmando que vinha de ver a jarra, e nenhum 
azeite estava niella, replicou o pai: Hora torna la com a graga de Deos, 
qoe a jarra tem azeite, e nao sejas desconfiada. Foi a filha, e achou a 
jarra cheia de azeite. 

3i Forao taes, e tantas as prodigiosas curas d*este Joao Vaz das 
Virtodes, quo succedendo ir a Lisboa, era jà tal a fama de suas curas, 
qoe vendo-o là, o chamarào para curar a El-Rei D. Manoel, e com tal 
successo, e Ho brevemente o curou, que o raesmo Rei Ihe disse que pe- 



148 IIISTOIUA INSULANA 

disse. E comedido» velilo obrigado llie pedio liuraas cabecadas de ter- 
ra, que na liha estavao por dar, e todas nao levarìao mais de vinte moios 
de semeadura, dos quaes cada bum valia entao a dous mil reis sómen- 
te; e coni isto se contentoii o bom veiho, sendo quo se pedisse todas as 
terras que na Ilha ainda estavao por dar. todas Ih'as daria o Rei, e os fi- 
Ihos do velilo ficarilio remediados. Mais se affirma de tao virtuoso ho- 
mem, que costumando fazer-se era aquella Uba pelo Espirito Santo bum 
Bodo comraum para a pobreza que vcin de fora, e succedendo faltar a 
carne, mandou o devoto vcllio tirar do seu gado varios carneiros, que 
deo logo, e se malarilo, e coinerao em o Bodo: cis qne ao outro dia se 
acharao em o gado do tal bomcni tantos carneiros, quantos estav3o d'an- 
tes. e enlre elles repararao, que andavào tantos com os signaes nas gar- 
gantas, por onde tinhao sido degollados, quantos se levarao para aquella 
festa do Espirito Santo, que das tres pessoas da Santissima Trindade he 
tao poderoso, comò o Padre Eterno, e comò o Divino FiUio, 

33 Finalmente se affirma, que d'este prodigioso Joao Vaz das Vir- 
tudes ficou comò por beranca tal virtude de curar em seus filbos, netos, 
e bisnetos, que parece milagrosa: o certo be que, ou por sobrenatural 
auxilio, ou ainda por auxilio naturai, (de que tratamos na nossa Tbeo- 
logia Escolastica, na materia da Graca, e Auxilios) póde Deos conceder 
a buma pessoa, e a seus taes descendeutes, a virtude curativa de sarar 
a outros enfermos para bem communi de oulros, e muito mais em no- 
vas povoacoes, aonde nao ba outros Medicos, ncm nolicia de outras rae- 
dicinas applicaveis; e nem scr isso prova de Santidade da pessoa que 
lem tal virtude, nem ser em tal pessoa, ou familia milagre rigoroso, mas 
naturai Providencia Divina; e qual d'eslas causas fosse, Deos o sabe: 
que quanto o serem verdadeiros os factos acima refcridos, parece indu- 
bitavel, 'pois bc tradii:ao antiga, e sempre commua de toda aquella Uba, 
e OS casos acima referidos traz por verdadeiros Fructuoso, liv. 3, 
cap. 9, e 10. 

CAPITULO VI 

Do primeiro Capitdo Donatario da Ilha de Santa Maria, 

3G primeiro Capitao foi (comò acima jà tocàmos) o muito illus- 
tre, famoso fidalgo Frei Gonzalo Velbo Cabrai, Commendador de AI- 
raourol da Ordem de Cbristo, e senbor das terras do Pias, Bezelga, e 



LIY. IV CAP. VI 149 

Cardiga, na jarisdiccao de Tliomar^ chamava-se por antonomasia o Fa- 
moso, pelas famosas acQoes qiie obrou, acompanhando aos Reis de Por- 
tagal Da conquista de Africa; porque os Commendadores professos da 
Ordem de Christo, ainda entao nao casavao, e el-Rei D. Manoel foi o pri- 
mciro que Jhes alcangou dispensa para casarem: Frei Gonzalo (que an- 
tes florecera) nunca casou; e comò descabrio a liha de S. Miguel, dire- 
mos abaixo tralando d'ella; consta porém que a ambas governou com 
tanto valor, prudencia, e brandura, que de todos foi sempre muito obe- 
decido, e amado. 

37 Depois vendo-se ja veiho o dito Fr. Confalo, e que comsigo li- 
oba trazido para a Illia a dous sobrinbos, aìnda meninos, Nuno Velha de 
Travassos, e Fedro Velho de Travassas, fillios ambos d'aquelle grande 
Odalgo Diogo Gonfalves de Travassos, e da irma d'elle Capitao D. Vio- 
lante Cabrai, e que ambos erao ja liomens capazes, e multa aptos para 
governar, resolveo-se voltar a Lisboa, corno voliou, e pedio ao Infante 
D. Heorique Ibe confirmasse a renuncia que queria fazer das duas Capi- 
taoias das Ilbas de Santa Maria, e Sào Miguel nos ditos dous seus sobri- 
nbos; porém corno na casa do Infante tinha Qcado outro sobrinlio do Frei 
Gonfajo, GIho de outra sua irma D. Taroja Velbo Cabrai, e do fidalgo 
da casa dos Soares de Albergarla; e eslc sobiintio tinha feito grandcs 
senricos ao Infante, que o estimava muito, e inclinava para elle, o mes- 
mo foi saber isto Frei Gonzalo, que renunciar as Capitanias ambas no 
sobriaho Joao Soares de Albergarla, e aos mais sobrinbos repartir a 
GommeDda, e senhorios de terras que mais tinha, e tudo approvou o In- 
bnte com especial agrado, e confirmou- por carta patente que veremos, 

38 A este primeiro Capitao Donatario das Ilhas de S. Maria, e S. 
Uiguel passou o Infante o Alvarà seguinte, que traz Fructuoso no seu 
liv. ni cap. 12, e diz assim no seu antigo modo de fallar: 

iEq Infante D. Ilenrique, Duque de Vizeu, senhor da Covilba, etc, 
©andò a vùs Fr^ Confalo Velho, raeu Cavalleyro, e Capitao por mim em 
minbas Ilhas de Santa Maria, e Sào Miguel dos A^ores, que tenhais està 
mancyra suso escrita, acerca da justica, e feitos civeys. Vós mandareys 
aos Joizes das terras, que oufào as Partes que em litigio forem, e as 
maDdem vir perante si, e Ihes fagao cumprimenlo de direiLo; e se das 
sentencas.que os Juizes derem, quizerem appellar, appellempara vós, e 
WìsconGrmareis as sentengas dos Jiiizes, ou as corregey, qual virdes que 



150 Ill.'^TOlUA INSULANA 

he direyto; e se de vossa senlenca clles quizercm appellar, vós Ihcs nao 
recebercis as appcllagoes, nem Ihes dareis, salvo estromento de aggra- 
vo, ou carta lestimunhavel para mim com vossa reposla: e eu entào de- 
nunciarey o quo vir que he direyto, e vosmandarey o qiic fafais: porém 
vós nao deixeis de mandar executar as ditas sentenfas, posto que com 
OS estromentos, ou cartas testimunhaveis a mim venhao. E se for em fey- 
to crime, em que algum. ou alguma fa^ao o que nao devera, e merecao 
pena de justifa, vós manday prender, e apenar em dinheyro, e degradar 
para onde vos prouver, e agoutar manday aquelles que o mereccm, sem 
dardes para mim appellacao. E se for feyto tao crime, perque merecao 
morte, ou talliamento de membro, vós mandareys aos Juizes que dem a 
seijtenca, e o julguem, e da sentenfa que derem, appellarào por parte 
da justica, e inviarao a mim a appellacào, e de mim irà 'i casa d*el-Rei 
meu Senhor, e eu vos enviarey a denunciacao que de là vier. Outrosi avi- 
sareys aos moradores d'essas Ilhas, que nao vao com nenlium aggravos, 
nem appellafoes, nem estromentos, nem cartas testimunhaveis a outra 
justica, senào a mini, ou a meus Ouvidores, por que a jurisdicfao loda 
he minha, civel, e crime, e de mim irao as appellacóes das mortes dos 
homens, e talhamentos dos membros a casa d'el-Rei meu Senhor, por 
que vós, nem oulro algum Capitào, nao lem poder de malar, nem de 
mandar talhar membro: e nos outros casos vós tende a maneyra suso- 
dita: e quem quer que o contrario fizer, e em eslo usurpar minha ju- 
risdiccao, pagarà por cada vez, e cada bum, mil réis para minha Chan- 
cellaria. E outrosi se o Tabelliao de si errar em seu officio por falsida- 
de,vósosuspendereysdo officio, e me fareis a saberoerro, comò he, e 
vos eu mandarey a maneyra que tenhais. E outrosi sereis avisado, que 
se a essa Uba forem Diego Lopes, e Rodrigo de Bayona, sem vos mos- 
trarem minha liccnca, que os prendays, e tenhays bem prezos, até m'o 
fazeres a saber, e vos mandar comò fagais, e m'os enviem prezos a mi- 
nha cadea. E quanto he a inquiricao que me cà enviastes, vós vede là 
feito, e determinay, comò virdes que he direyto, cumprindo lodo as* 
sim, e pela guiza, que por mim he mandado, sem nel-o pordes outra 
briga, nem embargo, porque assira he rainha mercé. Feyto em minha 
Villa de Lagos a dezanove dias de Maio. Joao de Gorizo o fez, anno do 
Nascimento do Senhor de mil e quatrocentos e setenla.» Atéqui o Alva- 
rà do Infame. 



LIV. IV GAP. VII Ì31 

39 Renunciadas pois as Capilanias pelo primeiro Capilao Frei Conca- 
io, deteve-se este tanto em Portugal, quo là morreo sem tornar às Ilhas; 
e jaz na sua capella da Igreja Matriz de N. Senhora da Assumpfao da 
Mila do Porto. 

CAPITOLO VII 

Do segando Capitdo da dita Ilhal 

40 Joào Soares de Albergarla, de cuja fidalgiiia jà fallàmos, foi o 
sobrioho, em qucm o primeiro desciibridor, e Capilao de ambas as Ilhas, 
de Santa Maria, e Suo Miguel, Frei Concaio Velho Cabrai renunciou coro 
effeito ambas as ditas Capilanias; e a caria de confirmacao traz Fructuo- 
soliv. 3 cap. 13^, com as antigas palavras, ibi: 

41 tEu a Infante Dona Bealriz, Tnlora, e Curadora do Duque meu 
Dlho Dom Diogo, fago saber a qnanlos està minha virem, e o conheci- 
mento d'ella perlencer, que eu dou carrego a Joao Soares, Cavalleyro 
da sua casa, na Uba do Sanla Maria, que elle seja o Capilao em ella, as- 
sira, e pela que o he em sua liba da Madeyra Joao Concalves, e que el- 
le a mantenha pelò dito Senhor era juslica, e em direyto; e morrendo 
elle, a mim me praz, que seu filho, primeyro, ou segundo, tenha este 
carrego, por a guiza susodila, e assim de descendente em descendente 
porlmha direyta; e sendo em tal idade o dito seu lìiho, que a nao pos- 
sa reger, que o dito Senhor, ou seus herdeyros porào alli quem a reja, 
até qua elle seja em idade para rcger. Iiem me praz, que elles tenhao 
d'està terra a jurisdiccào pelo dito Senhor, meu filho, do civel, e cri- 
me, reservando morte, ou talhamento de membro, que por appellacao 
\enha para o dito Senhor; porém sob embargo da dita jurisdiccào me 
praz, que os mandados todos do dito Senhor, e correycao, sejao ahi 
cumpridos, assim corno cousa propria. Outrosi me praz que o dito Joao 
Soares haja para si todos os moinhos que houver em està Uba, de que 
assim Ihe dou carrego, e que ninguem faca ahi moinhos senào elle, ou 
qaem a elle prouver; e em isto se nao entenderà mó, que a fafa quem 
qoizer, nao moendo outrem em ella, e nao faca ahi atafona. Item me 
praz, que todos os fornos de pào, em que ouver poya, sejao seus; e po- 
rém nao embargue, quem quizer fazer fornalha para seu pao, que o fa- 
^ e nao para outro nenhum. Item me praz, que tendo elle sai para 



132 IIISTOniA LVSULANA 

vender, o nao possa alii vender outrem, dando-lho a razao de meyo real 
de prata o alqueyre, e mais nao; e quando o nao tiver, que o vendao os 
da liha à sua vontade aie que elle o tenha. Outrosi me praz que de lo- 
do que houver de renda o dito Senhor em a dita liha, elle haja de 
dez hum; e o que o dito Senhor ha de haver na dita Ilha, he conteudo 
no forai, que para elle mandey fazcr: e por està guiza me praz, que ha- 
ja està renda seu filfio, ou outro seu descendente por linha direyta, que 
dito carrego tiver. Itera me praz que possa dar per suascarlas a ter- 
ra d'està liha, forra pelo forai da dita liha, a quem Ihe parecer, com tal 
condigao que aquelle, a quem der a dita terra, a aprbveyte cinco annos; 
e nao a aproveytando, que a possa dar a outrem; e depois que aprovey- 
tada fòr, se a deyxar por aproveytar até outros cinco annos, que por isso 
mesmo a possa dar a outrem: e isto nao embargue ao dito Senhor, quo 
se houver terra por aprove)'tar, que nao seja dada, que a possa dar a 
quem sua mercé fòr; e assira me praz que as de o seu Glbo, ou her- 
de}T0S descendentes, que o dito carrego liverem. E mais me praz que 
OS vìsinhos possao vender suas herdades aproveytadas a quem Ihe aprou- 
ver; e se quizerera ir de urna Ilha para outra, que se vao, sera Ihe pp- 
rera nenhum erabargo. E se Qzer maleficio algum homem em cada buma 
das Ilhas, que mereca ser agoutado, e fugir para outra Ilha, que seja en- 
tregue onde lem o maleficio, se requerido for, e pedir ser prezo, para 
se fazer d'elle cumprimento de direyto. Outrosi me praz que os mora- 
dores da liba se aproveytem dos gados bravos que niella andarem, se- 
gundo Ihe ordenarà o dito Joào Soares, e os que depois d'elle por o 
dito Senhor, e por seus herdeyros o carrego tiverem, resalvando os ga- 
dos que andarem nos Irhéos, cu outro lugar cerrado, que o senhorio o 
lance: e isso mesmo me praz, que os gados mansos pasclo assira em 
buma parte, corno em outra, trazcndo-os à mao, que nao fa^ao damnof e 
se fizerem, que o pague seu dono. Feyto era a Cidade de Evora a do- 
ze de Màyo. Alva[;eanes a fez, anno de nesso Senhor Jesu Cbristo de 
mil e quatrocentos e setenta e quatro. A qual carta vista por mira, eu 
a confirmo, e bei por confirraada, assira, e pela raaneyra que era ella be 
conteudo, sem outro erabargo que buns e outros a ella ponbao. Dada 
em a Villa de Torres Vedras, a 24 de Junho, anno do Nascimento de 
nosso Senhor Jesu Cbristo de mil e quatrocentos e noventa e dous.» Até* 
qui a carta da Infante e do Duque seu filbo. 



LIV. IV GAP VII 153 

42 Veìo este segundo Capilao das Ilhas de Santa Maria, e S. Mi- 
guel, veio de Porlugal jà casado com D. Beatriz Godiz, de competente 
oobreza, e com hum sobrinho chamado Felippe Soares, e jà lambem ca- 
sado com Constanca da Grela: fez seu ordinario assento, e residencia em 
Santa Maria, por ser entao mais povoada, e de tanta nobreza, corno jà 
vimos, e Da Ilha do Sao Miguel exercitava a sua jurisdic^ào, visitando-a 
moitas vezes, mas porque a dita sua mulher adoeceo, e em Santa Maria, 
e Sao Miguel faltavao Medicos, com a doente se embarcou, e a foi curar 
a Madeira, mas là da doen^a, e abaio da viagem brevemente faleceo, pò- 
rem foi t3o estimado do primeiro Capitao do Funchal Joao Gonealves 
Zai^o, e de seu lerceiro fillio Rui Gongalves da Camera, que por Ihes 
agradecer a hospedagem, e pelos grandes gastos que fizera em a ida, e 
oa cura, e morte da mulber, e na vinda que bavia de fazer, se resolveo 
em vender a Capitania de Sao Miguel ao dito Bui Gongalves, filho do 
Capitao Joào Gon^alves, e fìcar-se com a Capitania de Santa Maria, e ven- 
deo-lbe tao barata a de Sao Miguel, comò veremos, e admiraremos, quan« 
da tratarmos d'està Uba; e tudo foi approvado, e confirmado pelas pes* 
soas reaes. 

43 Jà viuvo pois segundo Capitao de Santa Maria, e sem filho 
herdeiro, voltou da Madeira a Lisboa, e El-Rei logo o casou com D. 
Branca de Sousa, fillid de Joao de Sousa Falcào, fidalgo da casa dei-Rei, 
qoe residia em Alter do Cbao, e era parente muito chegado do Bar3o 
Tdho, e do famoso Poeta Cbristovao Falcào, que fez a celebre Ecloga, 
diamada (Cristal) das primeiras syllabas de seu nome, e por sua mai era 
a dita D. Branca Qlha de D. Mecìa de Almada, prima com irma do Con- 
de de Abrantes. Foi celebrado este casamento em Lisboa a 20 de Ja- 
nho de 1492. Vier3o os^dous casados para a sua Uba de Santa Maria, 
e viverSo casados sete annos, e liverao os filhos seguintes ; primeiro, 
Jo3k) Soares de Sousa, terceiro Capitao; segundo, Fedro Soares de Sou- 
sa, qoe faleceo na India ; terceiro, D. Maria, que casou nobremente no 
Keioo com bum Feitor dei-Rei, chamado Jo3o Femandez, de que nasceo 
<Hitra filha, que casou com bum fidalgo cbamado D. Joao; quarto, D. 
Violante, que casando com bum Tidalgo Castelhano das Indias, morrer3o 
^Qìbos sem deixarem berdeiros. 

44 Faleceo emfim este illustre Capitao Jouo Soares de Sousa, de mais 
dooitenta annos de idade, em a dita Uba de Santa Maria, e com grande 
nome, e exemplo de virtudes. Foi valente Capitao, e tao animoso, quo 



154 HISTORIA INSÙ LANA 

comraettendo-0 huma vez, e de repente quarenta homens armados, (qua 
de hama nào Castelhana tinhao, sena poder prever-se, saltado em terra)* 
ette lancando a dous de huma rocba em baixo, fez tornar os mais aos 
barcos, em que tinhao vindo a terra: e em outra occasiao, com so bum 
negro seu, e quatro bomens brancos, pelejou tres dias com bum navio 
de Caslelhanos, ale que desfalecidos os cinco Portuguezes de pelejar, 
forao prezos, e levados a Castella, e o valente Capilao se resgatou, e 
voltou à sua liba, e oito dias depois se ajustarao as pazes enlre D. Af- 
fonso V Rei de Portugal, e D. Fernando Rei de Castella, anno USO. 

CAPITOLO Vili 

Do terceirù Capitào de Santa Maria, 

45 Foi terceiro Capitào de Santa Maria Joao Soares de Sousa, filho 
do segundo Capitào Joao Soares de Albergarla, casou com Dona Guimar 
da Cunha, da liba de Sao Miguel, filba de Francisco da Cunba, e de D. 
Brites da Camera, a qual era filba naturai de Rui Goncalves da Camera, 
terceiro Capitào de Sao Miguel, e neta de Joao Goncalves Zargo, Capi- 
tao primeiro do Funcbal : e o Francisco da Cunbà era filbo de Pedro de 
Albuquerque, (primo de Aflfonso de Albuquerque Govemador da India) 
e de sua mulber D. Guimar da Cunha, prima de Nuno da Cunha, que 
tambem foi Governador da India, aonde o dito Francisco da Cunha foi 
duas vezes Capitào mór de nàos; e finalmente veio a viver em Villa Fran- 
ca de Sao Miguel, na Ponta da Garca; e por ter gastado no servilo dei- 
Rei ludo que tinha, foi requerer a Lisboa a EURei D. Jo3o II, e (co- 
rno conta Garcia de Rezende cap. 211) achou Francisco de Albuquerque 
ao dito Rei n9o s6 doente, mas jà s6 duas horas antes de expirar ; e 
cbegou comtudo a fallar-lbe, e pedìr-lhe, que pelas cinco Chagas de 
Cbristo Ibe flzesse alguma mercé, porque era fidalgo, e multo pobre; e 
Rei ouvindo iste, Ibe fez passar logo, e com multa pressa, mercé de 
trinta mil réis de tenca, e a assinou, e de palavra Ibe disse, que tomasse 
a prata que na casa estava, que nSo tinha jà que Ihe dar; e sahido o fi- 
dalgo, disse Rei entre as agonias da morte aos que alli eslavào : e là 
agora posso descubrir iste : Nunca em minha vida me pedirao cousa d 
honra das cinco Chagas de Cbristo, que nao fizesse.» Oh devotissimo 
Rei! 



LIV. IV CAP. Vili 155 

46 D'esle tcrceiro Capitao, e da tal D. Guìmar da Cunha nasceo 
I%dro Soares de Sousa, quarto Capitao, de quem abaixo fallaremos; se- 
gundo nasceo Manoel de Sousa, que por fazer huma morte, se ausenlou, 
e andou trinta e cinco annos por Italia, e Franfa, e em grandes guer- 
ras, e voltando jà a sua liha, deo com Cossarios Francezes, que em o 
raesmo lugar, onde tinha morto ao outro, o matarao a elle, que de tan- 
los pisrigos tinha, para tal exemplo, escapado. Terceiro, nasceo Nuno da 
Cunha, homem de muila virtude, brando, e pacifico, que casou com D. 
Francisca, filha de lium nobre, e rico homem, chamado Sebastiao Luis, 
da Cidade de Ponta Delgada, pai de Hieronymo Luis, homem principal 
da mesma Cidade; da qual D. Francisca houve Nuno da Cunha hum filbo 
Joao Soares, corno o Capitao seu avo, o qual sendo de lenra idade, e 
estando em huma janella raza, que nao tinha ainda grades, por serem as 
casas feitas de novo, e passando para hum enfermo o Santissimo Sacra- 
mento, querendo o menino ver a gente, e campainha que hia tangendo, 
cablo com a cabega para baixo, e dando nas pedras da calcada, sendo a 
altura grande, nao morreo, e so Ihe ficou hum geito em hum olho ; o 
que todos julgarao por milagre, que parece o guarda o Senhor, para 
d'elle fazer hum grande Santo, comò està mostrando seu proceder, que 
he agora de quinze annos, diz Fructuoso liv. 3, cap. 14. 

47 Quarto nasceo D. Joanna, que casou com Heitor Gonfalves Mi- 
nhoto, lao rico, que se mais vivera, acabara de comprar toda a liba; e 
d'estes houve muita descendencia ; primo D. Guiomar, mulher de Joap 
d'Arruda, filho de Fedro da Costa, de Villa Franca; secundo D. Bran- 
ca, mulher de Fernao Monteyro de Gamboa, de que nasceo D. Felippa 
aiada solteira entao; tertió Francisco da Cunha, que herdou do pai muita 
rìqoeza, e casou com huma fìdalga da Madeira, de que houve filhos, mas 
vivendo depois estragadamente em Santa Maria, soube em fim arrepen- 
der-se, e indo-se com loda a sua casa para a Madeira, là se recolheo a 
fazer penitencia em huma fuma de huma rocha do mar, e alli em certas 
horas colhendo algum peixe, d'elle tomava para sustentar a vida, e o 
mais punha sobre os penedos, àonde o vinhao buscar mocos da terra, e 
allideixav5o pedagos de pao, com que o penitente, indo-os depois bus- 
car, se sustentava; e porque os mogos tinhao reparado em tal penitente, 
6 Ibe queriao fallar; e saber quem era, elle se escondia de humas em 
oatras furnas, e penedos, de tal sorte, que sete para oito annos viveo 
D'est» penitencia, sem jamais fallar a pessoa alguma, e alli mesmo mor- 



156 HISTOUIA INSULANA 

reo com fama de santidade; tendo, antes de se ir para tal deserto, casado 
lionradameDte na Madeira a tres filhas que levou, e casadas as deixoii 
com que ainda levara, sem d'elle poderem saber mais. 

48 Morta a dita primeira mulher do terceiro Capi tao de Santa Ma- 
ria, segunda vez casou este com D. Jurdoa Faleira, filha de Fern3o Vaz 
Faleiro, e de Felippa de Rezende da mesma Ilha, e d'ella teve ainda os 
filbos seguintes;. primo Gonzalo Veiho, que morreo mo^o pò mar, indo 
para Lisboa; secundO Alvaro de Sousa, que casou com D. Isabel, filba 
de Àmador Vaz Faleiro, da qual teve huma fiIha D. Jurdoa; (eriio Rui 
de Sousa, que morreo na India em huma batalba; quarto André de Sou- 
sa, que casou com D. Mecia, irm3 do Bispo do Funchal D. Luis de Fi- 
gueiredo de Lemos; quinto Migual Soares, que casou com D. Antonia, 
neta de Anna de Andrade, viuva de Concaio Fernandes; sexto Belcbior 
de Sousa, que tambem casou com D. Maria, filha do Bacbarel Joao de 
Avelar. Terceira vez casou (morta a segunda mulher) o dito terceiro Ca- 
pitao com D. Maria, filba de Nuno Fernandes Velho, e ainda d'ella teve 
estes filhos; D. Branca, e outra menina, que morrerao ambas; item An- 
tonio Soares, que ha pouco foi para a India, e Jo2o Soares, enfermo ìn- 
curavel. Teve mais este Capitao muitos filhos naturaes, e com os legiti- 
mos, teve por todos vinte e qualro filhos. 

49 Era este terceiro Capitao bum homem muito alto, grosso, e ani- 
moso, magnifico fidalgo, e tao liberal, e esmoler, que d'isso parece mor- 
reo pobre, mas na verdade rico de muitas virludes: nao arrendava as 
suas terras a bum so, mas repartidamente a muitos, para remediar a to- 
dos; e rendeiro que Ihe devia meio moio de trigo, se era pobre, com 
bum saco de trigo Ihe pagava; sendo senhor dos moinhos, quasi que 
por senhorio o n3o conheciSo, e cada bum Ihe pagava o que queria, o 
mandou citar a alguem por divida; antes em bum anno de fome.man- 
dou langar pregSo, que quem Ihe tomasse ovelha, ou carneiro de seu 
gado, Ihe tornasse a pelle, e a la, e o mais Ihe perdoava: sobre tanta 
charidade, e liberalidade, na justi^a era tao recto, que sem ser letrado, 
nunca deo sentenza, que na Relagao se revogasse, ou mudasse; e até 
em a arte Nautica foi insigne. Finalmente havendo sido travesso em sua 
mocidade, morreo comò muito bom Christao, e com muitos sinaes de 
predestinado, e em idade de setenta e tresannos, a 2 de Janeiro do anno 
de 1571. Foi sepultado na Capella mór da Matriz da dita Uba, junto à 
porta da Sacristia, aonde estavao sepultadas suas duas primeiras mulberes. 



LIV. IV CAP. IX 157 

CAPITULO IX 

Do quarto Cupilào da llha de Snnla Mario. 

50 Conlinuou-sc esla Capitania por liriha varonil. e legilima sem- 
pre, era Fedro Soares de Sousa, quarto Capilào, e fillio do terceiro ; 
morto seu pai, foi confirmado na Capitania, e casou (tendo-se creado 
na Corte) com D. Briles de Moraes, da llha da Madeira, fìlha de Joao de 
Moraes, da mesma llha, e oriundo do termo de Vizeu; dos Moraes, Gou- 
veas, e Azevedos de Portugal; e a mài se chamava Calharina Femandes 
Tavares, dos Tavarcs, e Teixeiras moradorcs em Santa Cruz, da Capi- 
tania, e Capitaes de Macliico cm a Madeira, de que là tratamos jà mais 
propriamente. 

51 Foi este quarto Capitilo imilador nas virtudes do dito terceiro 
Capilao seu pai ; e sua mulher foi igualmente imiladora d'elle, porque 
ambos erao tao virtuosos, que d'elles nunca liouve aggravo, oj escan- 
dalo; erao tao charilativos, e liberaes com os pobres, que nenhura hia a 
sua casa, que o nao amparassem, e perisse de todos erao mùi amados, 
e obedecidos: erao tao devotos, espiritu^es, e amìgos de Deos, que mo- 
raado em o paco da sua quinta, meia legoa da Matriz da Villa do Por- 
to, nunca comtudo perdeo elle Missa; arites além dos dias Santos de 
guarda, nos outros tinha por devocao perpetua ir tres vezes cada sema- 
oa oavir Missa; que ainda entao nào teimavào tantos fidalgos por ter Missa 
em casa, nem ainda para as mulheres, e multo menos para si. 

52 Nasceo d'este quarto Capitao, e de sua mulher, frimó Joao Soa- 
res de Sousa, que seguindo a virtude de seus pais, e nao a vaidade da 
Corte de Portugal, onde andava, se metieo Religioso em S. Hieronymo 
no Convento de Burgos em Castella, aonde procedeo com singular exem- 
pio, e augmento de virtudes. Secundó nasceo d'eiles Bras Soares de 
Albuqoerque, que se seguio na casa, comò abaixo diremos. Tertio nas- 
ceo Henrique de Sousa, que faleceo mofo em a Corte de Lisboa. Quarto 
Antonio Soares, que morreo nas Indias de Castella. Quinto nasceo huma 
filha, Anna de Sào Joao, que se fez Religiosa no Convento da Esperanpa 
de Penta Delgada na llha de S. Miguel; e ultimamente teve este Capitao 
huma filha naturai, chamada Concordia dos Anjos, que tambem metteo 

jiosa com a sobredita irma paterna. 

53 A este quarto Capitao de Santa Maria, e fdho segundo do ter- 



1()2 HISTORIA 1N8UUNA 

foi Commendador de Snnta Maria, e militou até morrer nas giierras do 
Hrasil: e so deixou huma filha naturai, que casou com Manoel Pereira 
ile Castro, Secretario da Mesa da Consciencia, que depois se desquilou 
«ralla: e deixou mais oulra filha naturai, por nome D. Marina, (ou Ma- 
rianna) que morreo solteira. 

63 Teve mais esle sexto Capita© Fedro Soares de Sousa por filhos 
l»astardos, a Lourenfo Soares de Sousa, que foi homem de grandes ser- 
\ icos feitos a S. Magestade, que por isso o fez fidalgo de sua casa: mas 
so (leixju descendoncia, nao o sei. Item teve por filha bastarda a huma 
I). Ignes, que na dita Ilha vivia ainda solteira, quando morreo o nosso 
Fructuoso; e assim nao havendo ainda entao doscendente algum varao, e 
legilimo do tal sexto Capitao Fedro Soares, que herdasse a Capitania. 

6i Segunda vez casou este sexto Capitao com Dona Anna de Mel- 
lo, fidalga de igual nobreza, e limpeza; e d'este matrimonio nasceo D. 
Dorothéa, que escolheo o estado de Religiosa, e entrou, e professou a 
Rogra de S. Francisco no Serafico Convento da Esperanca da Cidade de 
Ponta Delgada da liba de Sào Miguel; e emfim nasceo d'este mosmo se- 
gundo matrimonio do tal sexto Capitilo bum filho varao, que se chamou 
Bras Soares de Sousa, comò sou avo paterno. 

CAPITOLO XII 

Do Reptimo Capilào Bras Soares de Sousa. 

65 A este septimo Capitan (comò tambem a seu pai) ja nao cbegon 
com sua Vida, ainda que larga, o nosso Doutor veiho Fructuoso: e por 
isso d'estes sexto, e septimo Capitàes nao dizemns mais: e so sabemos 
(|ue pelos senbores Reis de Portugal foi confirmado nao so na Capita- 
nia, mas tambem no foro, que na casa Rea! tinbao seus multo illuslres 
avós: porque nao so era filbo legilimo do sexto Donatario, mas primei- 
ro neto do quinto, segundo neto do quarto, terceiro neto do quarto, ter- 
ceiro neto do Donatario terceiro, quarto neto do segundo Donatario Jo3o 
Soares de Albergarla, e quinto neto da legitima irma D. Tareja Velba 
Cabrai, irm3 (digo) do grande, e Regular Frey Confalo Veiho Cabrai, 
da Ordem de Christo, Commendador de Almourol, Senhor de muitos 
lugares, comò Pias, Bezelga, e Cardiga, privado dos Reis de Portugal^ 
e do nosso Infante D. Heirique, e primeiro descubridor, e Capitao Do- 



uv. IV cxp. XII i63 

Botano de ximbas as Ilhas de Santa Maria, e S3o Miguel, e tao illustre 
vario he o que fica sendo quasi quinto avo legai do dito septìmo Capi- 
lo, e este sendo seu quinto neto legai, e legitimo seu sexto sobri- 
ubo. 

66 Porém para desengano d'està setnpre> e t5o mudavel vida, consta 
qoe dito septimo Capiiao foi o ultimo que teve a dita Capitania, e qne 
està de tal casa se passou a outras diversas, no tempo em que Castella 
eotrou em a Corca de Portugsl; e se porque està Uba nao seguio em a 
Ragia demanda a Portugal, mas a Castella, Ihe deo Castella tal paga, s6 
OS jyizos Divjnos« que sempre sao inscrutaveis, o poderao saber; que 
OQtrem so podere dizer, que nSo devia Castella tirar à tal casa a sua Ca- 
pitaria, porque ainda que o septimo Capitao nao deixasse Albo varao le- 
gitimo, com tudo durava entao, e dura ainda a baronìa legitima dos pri- 
neiros Capitaes da dita liba, que tanto merecerao n3o se ihes tirar a 
Capitania da liha que elles descubrlrao, povoarao, ennobrecerSlo, e de- 
teoderdo tanto com as fazendas, e vidas. Porque. 

G7 He de saber que do terceiro Capitilo Donatario da Uba de Santa 
Varia, Joao Soares de Sousa, e de sua primeira mulber Dona Guimar da 
Cunha, nao so nasceo o quarto Capitao Fedro Soares de Sousa, mas na<- 
ceo tambem ^eu legitimo irmao Nuno da Cunha de Sousa, qne casca 
CMn D. Francisca Ferreira; e d'estes nasceo Joao Soares de Sousa, que 
casca com D. Felippa da Cunba, que forao pais de Manoel da Camera 
de Albuquerque, que casou com D. Marqueza de Menezes; e d'estes nas- 
ceo Jo9o Soares de Sousa, que casou com D. Anna de Mollo; e ultima- 
mente d*estes nasceo Antonio Soares de Sousa, que ainda boje vive ca- 
sado com huma conhecida, e bem nobre, e limpa fìdalga, de que falla- 
remos em seu lugar. 

G8 Em este pois, que por legitima baronia he terceiro neto de bum 
inteiro, e legitimo irmào do quarto Cupitao de Santa Maria, e quarto neto 
do terceiro Capitao, n'este he que se devia continuar a Capitania de tao 
tt)bre, e fìdalga gera(ao, especialmente tendo-se conservado em igual 
oobreza, e limpeza; ao que podia mover muito que a mesma mai do 
septiiQo Capitao Bras Soares de Sousa, D. Maria de Mollo, enviuvando 
do sexto Capitao Fedro Soares de Sousa, casou segunda vez com Joao 
Soares do Sousa, de quo nasceo o sobredito Antonio Soares de Sousa 
boje vìvo, e irm3o materno do sobredito Capitao ultimo, que jà por ba- 
n)Qia, e legitimi; descendia do terceiro Capitao; mas emfim assim quer 



164 HISTOIUA iNSULAfCA 

Deos que vejaaios a instabilidade das nobrezas, e graadezas d*esla vida, 
para que dos uào fiemos d'ellas, e tralemos das da outra. 

CAPITOLO XIII 

Dos Commendadores da Ilha de Santa Maria. 

69 Em todas as Ilhas os dizìmos sao da ordem de Christo, e or* 
dinariaaieDte sao dos Reis de Pjrlugal, corno Mestres, e AdministradO' 
res da dita Ordem, com obrigacao porém de darem o delerminado e ne- 
cessario para os Minislros, e servilo da Igreja; e EI-Rer manda arrendar 
OS taes dizimos a queAi mais lan^a n'elles €om a dita obrigacào; e assim 
se observou por algum tempo na ItLa de Santa Maria, ale que EMlei 
deo sómcnte vOS dizimos d està Ilha em parlkular Commenda; porque os 
direilos Reaes de enlradas, nunca os Reis os derao, nem os lem senhor 
algum no Reino, corno nota Frucluoso lìv. 3, cap. 22, mas ainda d es- 
tes, e dos dizimos de sempre a redizima aos Cipit^es Donatarios. 

70 primeiro Commendador pois de nossa Senhora da Assum- 
pcao da Ilha de S. Maria (que assim se intitula esla Commenda) Toi D. 
Luis Coutinbo, filho do Conde de Marìalva, e irmào do ultimo Conde, 
que casou a filha com o infante D. Fernando ìrmao d*El-Rei D. Joao Uh 
que morrerao sem descendentes, e passou o Condado a Coroa, aiuda 
que se Ibe fez demanda, e algumas cousas se Iho tirarao. Casou es*o 
primeiro Commendador D. Luis Coutinbo com Dona Leonor de Menda- 
iiha, filha de bum Alcaide-mór, fìdaigo illustre, e nasceo dos taes casa- 
dos D. Francisco Coutinbo, (de quem logo fallaremos) e Dona Joanna 
Coutinha, e Dona Maria Coutinha; porém o tal primeiro Commendador 
Ibi por Capitào-mór de nàos a India, e foi a Saboya com a Infante, e ent 
fim faleceo de morte subita. 

71 segundo Commendador foi D. Francisco Coutinlio fiIho do 
primeiro Commendador, por cuja morte ficou a viuva D. Leonor de Vi- 
Ihena administrando a Commenda pela menoridade de Dom Francisco 
seu filho, e foi tao santa senhora, e tao esmoier, que bavendo geral fo- 
nie em Lisboa, mandava por à porta taboleiros de pào para os pobre^, 
e dava muitas esmolas particulares, e a Religiosos: e dizem que mila- 
grosamente se Ihe augmenlava em casa tudo. Morta pois està Senhora^ 
casou D. Francisco com huma iima do Barào de Alvito D. Rodrigo Lo* 



UT. IV GAP. xin 165 

ho, chamada Dona Felippa de Vilhena: e dous ìrmSos d'està casarao 
(D. Felippe Lobo, Trinchante-mòr d'EURei, que ao depois foi à Mina, e 
oatro irmao que ao depois foi pagem do arremecao) com duas JrmSs 
<le D. Francisco Coutinho, que er3o D. Joanna, e D. Maria. 

72 Teve cste segando Commendadop Dom Francisco Coutinho de 
sua mulher D. Felippa cimx) filhos, e duas filhas: primeiro, D. Francis- 
co, Commendador, corno diremos abaixo: segando, D. Fedro, terceiro, 
n. Concaio, quarto, D- Bernardo; quinto, D. Hieronymo: dns duas fi- 
lhas, buma era D. Antonia de Vilhena, que foi Freira em Santa Clara 
de Santarem; a outra D. Joanna, que casou com Dom Miguel de Noro- 
nha, filho sogundo de D. Alfonso de Noronha, irmao do Marquez de 
Villa lleal D. Fedro, fiIho do Marquez D. Fernando; e o dito Dom Mi- 
irnel de Noronha leve outro irmao chamado Dom Jorge de Noronha, que 
rason com Oona Isabcl, filha de Antao Martins da Camera, CapitSo Do- 
natilo da Capitania da Praia da Ilha Terceira, mulher de grande virtù- 
(ie: e a mai do mcsmo Dom Miguel de Noronha era Dona Maria de Sa. 
(Oli Di^ca) cnja filha casou com o filho mais velho do Conde ^e Tentu- 
gnl. e ella morreo do primeiro parto sem herdeiros. Ita Fructuoso liv. 3, 
cap. 2i, oil fincm. 

7.3 Este mesmo segundo Commendador foi homem de grandes par- 
les, e artes liberaes, e grande Cavalleiro ; achou-se com o Infante D. 
Luis na tomada de Tunes, e foi multo valido do Senhor D. Antonio, fi- 
llio do Infante. Em hum dia estando El-Rei comendo, se veio a fallar em 
Imm negro do dito D. Francisco Coutinho, o qual estava prezo, e o man- 
daviio desorelhar por ladrào, e querendo D. Francisco comprar-lhe as 
orelhas, tanto se Ihe pedio por ellas, que D. Francisco desislio da com- 
pra, e reparando outro fìdalgo em as «ao comprar, disse para El-Rci : 
«Senhor, he multo dinheiro para carne tao ruim.» E o Rei ouvlndo o 
diio mandou soltar logo o negro. Tir^ha esste D. Francisco grande fausto 
em seu Vrato, nem se servia senao com Escudoiros nobres, e faleceo em 
i8 de Outubro de 1565. 

71 terceiro Commendador de Santa Maria foi D. Luis Coutinho, 
filho mais velho do sohredilo segundo Commendador: sendo de vinte e 
nnco annos, fez-lhe mercé da Commenda El-Rei D. Sebastiao polo Alvaré 
sei^ijinle. 

73 «Dom Sebastiao por graca de Deos Rei de Portugal, e dos Al- 



166 HISTORU mSCLANA 

garves d*àquem» e d*aléat mar» em Africa sef4ior de Gutné, NavegscS^'» 
Commercio de Etbiopi», Arabia, Persia, e da India, etc. Fa^o saber aos 
que està minba carta virem, que por parte de D. Luis Coutinho, fidalgo 
de minha casa, e Cavalleiro da Ordem de Chrìsto, filho de D. Francisco 
Coutinho que Deos baja, me foi apresentado bum Alvaro de lembran^a 
dei-Rei meu Senhor, e avo, que santa gbria baja, por elle assinado, per 
que Ihe aprouve de por falecimento do dito D. Francisco fazer mer(é a 
seu Qlbo mais velbo, que por sua morte fic^isse, da Commenda de nossa 
Senhora da Assumpc3o da Uba de Santa Maria, que o dito D. Franeisco 
tinba, corno he declarado no dito Àtvarà, de queo traslado he o seguiate: 

76 cEu El-Rei fa^o saber aos que este meu Alvarà virem, qoe ha* 
vendo respeito aos ser\'ic.os que me tem feilo D. Francisco CoutinlK), fi- 
dalgo de minba casa, e aos que espero que ao diante me faca, bei por 
bem, e me praz, de por seu falecimento fazer mercé a seu filbo mais 
velbo, que por sua morte ficar, da Commenda de Santa Maria da As- 
sumpcSo da Uba de Santa Maria das Ilbas dos Agores, que elle D. Fran- 
cisco bora tem, e para sua guarda, e minba lembranga Ihe maudei dar 
este Alvarà por mim assinado, o qual quero que se cumpra, e guardo 
inteiramente, corno se fora carta feita em meu nome, passàda pela Cban- 
cellaria, posto que por ella duo passe, sem embargo da Ordenagao do 
segundo livro titulo vinte, que dispoem o contrario André Soares o fez 
em Lisboa a vinte e ciuco de Septembro de mil e quinlientos e cincoeiN 
ta. Pedindo-me o dito D. Luis Coutinho que por quanto o dito seu pai 
era falecido, e elle ser o fillio mais velbo que por seu falecimento fica- 
ra, segundo fez certo por eertidiio de justifìcagao do Doutor Antonio Vaz 
de Castellobranco, Juiz dos meus feytos da fazenda, e das JustiGcacoes 
d'ella, a quem vinha, e pertencia a dita Commenda, conforme ao dito 
Alvarà de lembran^a, bouvesse por bem de Ihe mandar passar carta era 
fórma d'elle. E visto seu requerimento, e o dito Alvarà, bavendo respey- 
to aos servigos do dito seu pay, e aos que espero que elle D. Luis à 
dita Ordem, e a mim fafa, Hei por bem, e me praz, de Ihe fazer mer- 
cé, em Commenda com o babito d'ella, dos dizimos da terca da diti 
Uba de Santa Maria, e a dizima do pescado, que antrgamente se arreca- 
dava pelos ofDciaes dosReys passados para sua fazenda; e assira a vin- 
tena do Pastel da dita Uba de Santa Maria, e dos dous Ilheos que estio 
jdnlo d'ella no mar» bum que se cbama de S. Lourengo, que està detrai 



LIV. IV GAP. XIII 167 

da liha, e onlro qne està dcfronte da Illia; dos quaes Ilheos hey por 
Itein qiie o dito U. Luis se possa aproveylar no que Ihe bein vier, seni 
dulles pagar direylos alguns, e por està presente carta lli'os conto, e bei 
por coulados: e Ihe fago isso mesmo doagao, e mercé da dizinia do Pas- 
UìL que saliir da dita Illia para fora do Reyno, que anda coin adita Com- 
menda, comò tudo à dita Ordem, e a mim pertence, e pertencer póde, 
|K)r qual(|uer maneira que seja, e corno tinlia. e possuhia o dito D. Fran- 
cisco scu pay pela carta que da dita Commenda Ihe foy passada, porque 
de lodo Taco, por està doagào, mercé ao dito D. Luis com o habito da 
diia Urdem corno dito he; com tal declaragao, que elle sera obrigado a 
|)agar a sua custa os mantimentos, e ordenados do Vigario, e Clerigos, 
li Tliesoureyro, e quaesquér outras Ordinarias de Officiaes Ecclesiasticos 
da dita liha, e dar o Irigo necessario para farinha para as hostias, e o vi- 
nho, vélas, e candeas de ciTa para o servilo da Igreja da dita liba, cada 
>ez que para isso for pedido: e por tanto mando ao Capitao da dita Uba 
eao sea Ouvidor, Juizes, e Ollìciaes da dita Camera, e povo d'ella, que 
liajik) ao dito D.Luis porCommendador da dita Comarca, comò o era o 
dito D. Francisco seu pay; e ao Conlador da minha fazenda na Contado- 
ria da Uba de S. Miguel, que Ibe de a posse d'ella: e assim mando ao 
Almoxarife, ou Recebedor do Almoxarifado da Uba de S. Miguel que 
liora he, e pelo tem[)o for, que Ihe deyxe baver, e arrec^dar a si, ou 
por quera ibe aprouver, o rendimento da dita Commenda, que confor- 
me està carta Ibe pertencer baver; e isto desde o dia do falecimento do 
dito seu pai em dianlo, na maneyra sobredita; e cumprào, e guardem, e 
fa?ào inteyramente cumprir, e guardar està minha carta, que por firme- 
za Ihe mandey dar, assinada, e seliada com o sello da dita Ordem, a 
qual se registarà no livro do registo da dita Contadoria, para se ver, o 
saber comò tenbo feyto està mercé ao dito D. Luiz; e ao assinar d'ella 
se rompa o dito Alvari de lembranga acima trasladado. Dada em Lisboa 
aos 27 de Junbo. Gaspar de Magalhaes a fez, anno do Nascimento de 
nosso Senbor Jesu Christo de 1537. Sebastiao da Costa a fez escrevèr. 
E darlbe-ha posse da dita Commenda Fedro Henriques, Contador da Or- 
dem de nosso Senhor Jesu Christo; posto que acima diga que Ih'a de o 
Contador de minha fazenda da Uba; a qual darà por si, ou por sua com- 
tnissào, cada vez que para isso for pedida.» A qual carta està assinada 
pelo Cardeal Infante. 



DISTORIA 
IN8ULANA LUSITANA 

E.IVRO 9Uli\TO 

DA ILHA DE S. MIGUEL. 

CAPITULO I 

Do primeiro descubrimento da liha di Sào Miguel, 
e seus descubridores, 

I Quizerao dizer alguns, que pelos annos de 1370, do Nascimento de 
Clirjsto, selenta annos antes de ser descnberta pelos Portngnezes a liha 
de Sào Miguel, dera com ella hmu Gregu, que tendo em Cadiz huma 
tormenta, d'ella levado foi dar em esla liha, e vendo-a, a quiz povoar, 
^ peilir, e para isso a quiz experimentar, e vollou, e lancou n ella muito 
gado: mas que lodo morrera logo niella, e por isso desislira de a [)e- 
dir, e povoar, e Ocara corno de antes encuberla: e por fundaniento lo- 
mào, que quando muito depois se descubrio, se acliou, onde hoje he a 
Villa da Alagoa, muila ossada de gados, especialmente de carneiros, e 
que assim puzerao iquelle posto, o Porlo dos Carneiros : mas islo (diz 
Fructuoso lìv. 4, cap. 1.) he huma mera fabula, e eu julgo se levantou 
de que descuberla a liha de Santa Maria, manduu o Infante D. Ilenri- 
que muitas cgoas, que lancassem nella, e tal tempeslade deo no navio, 
^ que hiào as e^^oas, (e là jà junlo a estas duas Ilhas) (|ue por esca- 
parera os Naveganles, lancarDo as egoas ao mar, e daqui chaniarào ao 
tal mar, o Val, ou Valle das Egoas: e corno a ossada d'eslas podia lan- 
Cap mar àquella parie mais proxima da liba de Sào Miguel,* esle po- 
to ser fundamcnlo da fabula subjedita. 



172 HISTCmU IXSULANA . 

2 certo he que eslando jà descuberla, e povoada a Illra de Santa 
Maria, e fngindo hum negro a seii senhor para a mais alta serra que 
tom da banda do Norie, doze legoas da aléli encuberta S. Miguel, e an- 
dando lìiim darò dia à enea para corner, reparou em o que via, e descn- 
Jjrio ser onlra muilo maior Hha, e voltando mm a nova ao senhor, para por 
ella alcnnfar o perdilo da sua fugida, o dito senhor, e outros, seguran- 
do-se da nova, derào dVlla logo parte ao Infante, que achou concordar 
a nova com a nolicia dos Mappas antiquissimos, qne o Infame là com- 
sigo linha. K este negro dizem ser o primeiro homem quo descubrio, e 
vio a liha de Sào Miguel: que assim por infirmes meios descobre l>eos 
iTìuitas vezes o que os horacns mais fortes por seus meios nào desco- 
brem. , 

3 Ouvida pelo Infante a dila nova, e achando-se com elle là entao 
famoso desnibridor de Santa Maria Krei Gongalo Velho, lornou o In- 
fante a mandal-o que ilescuhrisse tambem està segunda liha, e vindo, e 
voltando ao Infante sem a poder descubrir, o Principe entao Ihc adver- 
tio. que tinha passado por entre o Ilhco, e a terra; e deste dito tirarao 
alguns que o dito descobridor com seu navio passara por entre a Uba 
de S. Miguel, e o Ilheo que chamao de Villa Franca, sem dar fé da 
liha, (cousa que, corno veremos, era naturalmente impossivel;) e o In- 
fante queria dizer sómenle, que tinhao andado entre huma, e outra Ilha, 
e por a de Sào Miguel ser quatro vezes maior que a de Santa Maria, 
por isso a està chaniou Ilheo, e Terra à outra; que quanto do Ilheo de 
Villa Franca nom d'elle os descubridores derào noticia ao Infante. 

4 Segunda vez pois o Infante mandou que o illustre Fr. Concaio 
voltasse a descubrir a liha; e ainda aqui fabulizào. que chegando ao so- 
))redìto Ilheo de Villa Franca, quo està quasi pegado com a Ilha) aìnda 
està se nào via, e so se ouviao sahir d'ella grandes grilos, que àizifìo: 
«Nossa he està Ilha, nossa he:» e que pareciào serem vozes dos demo- 
nios, que na ilha andavao. Mas deixadas eslas fabulas, a verdade ho, 
que vindo desta segunda vez o diloso Frei Confato Velho Cabrai, 
e pondo a popa no Norie da Ilha de Santa Maria, foi dar direitainenle 
na Ilha que luiscava em oilo de Maio do anno de 1444 dia da Appari- 
Cfio de S. Miguel o Aujo: e assim o descubridor Ihe chamou logo Ilha 
de S. JligueL governando entào jà em Portugal o Infante D Pedro, li- 
Iho, del- Rei 1). Joào I. e irmao d'el-Hei D. Duarte, que tambem jàera 
falecido, e tiniia deixado de so seis annos a D. Allonso V, aquemodi: > 



LIV. V GAP. I i73 

D. Pedro sea tio entregou o governo do Aeino em 1448, e aqui chama« 
liu eulào a estas duas Ilhas, de Santa Maria, e S. Miguel, Ilbas ùo3 
Afores, ou por se verem alguns nella» que de fora vinliào, ou por nel- 
las haver muitos bilhafres, que no pilliar se parecem com os A(ores; e 
d estas duas Ilbas vulgannente passou o dito nome às outras sete Illias, 
que depois se descubrirào, chamando-se todas, Ilbas dos À(ores, e ul- 
timaaiente Ilbas Terceiras, corno em seu legar verenios. 

5 A primeira parte de S. Miguel em que f^iltarao os descubridores 
da liba» foi, onde cbamarao a Povoagao velba, e tornando lego ranios de 
arvores. pombos, caix3o de terra, e outros sinaes de nova Uba, voltarao 
kvando tudo ao Infante, o qual logo fez mercé ao illustre Frei Concaio 
YeUio Cabrai da Capitania Donataria de S. Miguel tambem, comò Ihe 
tioba ja feito da Capitania da Uba de Santa Maria, e ficou Capitao de 
ambas, tendo a outros dado so metade de buma Uba, comò na Madeira, 
iiepartindo-a em a Capitania de Funchal, e de Macbico. Tanta maior es- 
timagao fazia aquelle Principe deste Capitao, que de outros. 

6 Tinhao flcado na liha» e em aquella chamada Povoa^ao velha, 
bDDs Cavalleiros naturaes de Africa, que o Infante de là tìnba trazido, e 
e maudado ao principio, nao para povoarem, mas para experimentarem 
a terra d'aqueila nova Uba; e estes que assim ficarào, tal arroido, bra- 
mido, estrondos, e terremotos sentirao na tal Iliia, por mais de anno 
que ficarào n'ella até voltarem os Povoadores Portuguezes com o nova 
Donatario da Uba, que os dìtos Àfricanos se resolviao em desempararem 
a Uba peios borrendos tremores, que nella experimentavao, e com efl'ei- 
to a desemparariao, se Ibes tivesse navio em que podessem embarcar- 
se: e succedendo entretanto que bum d'elles andando alguns passos pelu 
terra dentro acbou bum bomem morto, deo ^arte logo aos mais ; e al- 
voro(ados se baveria gentio no Certao da Uba, derao com oulro bomem, 
e prenderao, e este posto a tonnento confessou, ter viudo da Uba de 
Santa Maria com bum seu amigo, e a mulber él'este, com a qual elle 
vivo tinba adulterado, e i)elo nao castigarem em Santa Maria, se vietào 
lodos tres para aquella Uba deserta, e que elle, por ficar com a mulher, 
matara o marido, que era aquelle morto; e em ouvindo isto o Mourisco 
que Infante tinba mandado por maioral, e Juiz dos outros Mouriscos, 
Sem inquirir mais cousa alguma sentenciou que logo enforcassem o ma- 
tador, e querendo este que Ihe ouvissem sua defeza, perguutara o Juiz, 



171 HtSTOHlÀ INSULANX 

que pena se dax^a em Portugal, a quem commettia adulterio; e respon» 
<lendo-se-Ihe qae EI-Rei o mandava enforcar, o Juiz logo, sem querer, 
nem do <;alpado, inquirìr mais coosa alguma» a final sentenciou dìzendo 
t5Stas palarv*ras : Forcarle^ Forcarti^ e depoU iirarte inquirieiotie. E no 
mesmo ponto arrebatarao o Multerò, e o eoforcarSki. Isto o que em breve 
se collie 4e Fructuoso liw 4 «ap. 2« 

CAnTDLO II 

Do melkor descnbrimenlo^ t descripfào da llka de Sào Miguet. 

7 Passado barn anno« pouco mais, por mandado do Infante foì do 
Algarve outra vez o primeiro GapitSo de Sao Miguel Frei Gonzalo a pò* 
voar a dita Uba oom muitos, e muilo nobres Povoadores Portuguezes, 
<de que trataremos em seu Ingar) e com gados, aves, trìgo, lego- 
mes para povoarem, e semearem, e com o mesmo Piloto, com que 
a prìmeira vez viera, qne tinha bem observado, e demàrcado a Illiat 
chegando porém à sua vista, reparou que a Ilha que observara, tinha 
bum muito alto pico na ponta do Oriente, e outro na do Occidente ; d 
qnc a Uba que via, nSo tinha mais que bum so pico da banda do Oriente 
sohredilo, e da banda do Occidente era raza; Uem reparou que u'aquelle 
mar achava grande numero de solta pedra pomes, que encontrax-a sobre 
a agua, e da mesma sorte muitas arvores; e que isto denotava nao ser 
aqnella a Ilha que deixara* 

8 E nùo ol>stante isto, animando-se a entral-a, foi dar no mesmo 
posto d onde tinha sahido, na Povoa^ao veiha, que foi a primeira, que 
lìouve nesta Illia, e alli acabarao de entender, que o pico que faltava da 
banda do Occidente, tinha em o anno antecedente voado ao ar, e c^hira 
espalhado em o mar, «om pedras, terra, e arvores, pelo repentino, e 
furiosissimo fogo, que do fundo da terra rebentou, e causou os terre* 
motos, medos, e estrondos, que os que tinh3o flcado em a outra banda 
da Ilha, experimentarao; e no posto, aonde o grande pico estiverà, fica- 
rao sete profundos, e planos valles, a que d alli por diante cbamarSo 
Sete Cidades: e àquella Occidental ponta da Uba chamarào, a Ponta dos 
Itfosteiros, por o parecerem as formadas sete concavidades: e he està a 



LiY. V CAP. m 175 

onica vez que siibterraneos fogos, e taes tremores de terra, ediQcarao 
(iidades. costumando destruil-as, e arrazai-as. 

9 Foi està segimda virìda dos descubridores, e povoadores Portn- 
gueze^ da liha de S. Miguel em o anno de 1445 do Nascimento de 
(telo, a 29 de Seplembro, dia da Dedicacao de Sao Miguel o Ànjo, 
tendi) jà sido a primeìra vinda, e appari^ao da tal liha em dia da Appa- 
ricio do mcsmo Sao Miguel a oito de Maio do anno antecedente de 1444, 
que parece quiz Deos denotar, que se atéli andavao diabos n'aquella 
liha, veio o Ànjo Sao Miguel langal-os d'ella, corno em o principio do 
murulo laiicou do Geo aos diabos ; e que se de todo o genero humano 
lium Divino Guardamór, bum S. Miguel o Anjo, quiz ser d'està Uba seu 
esppcial Anjo da Guarda ; vejao agora là os moradores d'ella, quanto 
devem comò Anjos proceder, ou seguir a S. Miguel, lanfando fora de 
si peior diabo do peccado, e quanto devem celebrar a bum seu tao 
grande Anjo. 

IO Confirmados pois os 'povoadores Portuguezes d'està Uba no no- 
me de Sao .Miguel que Ihe impuzeròo, fundarao logo segunda povoacao, 
deixando aos Mouriscos a primeira em que estavao sùs, e separados, 
sera OS Portuguezes se aparenlarem com elles, nera elles com os Porlu- 
piezes, ale que os taes Mouriscos cbegarào emfim a extinguir-se, e li- 
cario povoando està Uba os Portuguezes sómente, que foram logo ao 
principio de Portugal, e da Uba de Santa Maria, e ale da Uba da Ma- 
^in, Em contar qucm erào estes povoadores, de quem descendiào, e 
que descendencias tiverào, gasta o erudito Frucluoso em o seu liv. 4, 
dpjMle cap. 3. até o cap. 38, em perpetuas genealogias, cuja subslan- 
cia «'wnente em seu liigar recopilaremos, comò muilas vezes faz a Sagra- 
da Esi'.rifura, para nem fallarmos ao que deve servir a cada bum para 
imitar a seus grandes. e bons antepassados, e nSo seguir aos màos; e 
e para inloleraveis \m sabirmos com repetidas, e idenlicas bistorias; e 
^im descuberta a liba, demos a piena noticia d'ella toda. 

CAPITOLO IH 

Descnpcdo geral de Sào Miguel^ e parlicular da banda do Sul. 

i\ Ao Norie de Santa Maria està a Uba de Sao Miguel, e ao Sul 
desia fica a oulra, doze legoas de terra a terra; mas be tao huipda a 



176 HISTORIA INSULANA 

(le S. Miguel, e lancava de si tantos vapores, qua sem esla se descabrir, 
esteve a de Santa Maria doze annos descuberta; porém rogado o aniigo 
arvoredo^ (ìcou tao sugeita a ventos» que estes Ihe fazem graade damno, 
e a tem ja tornado menos fertil do que dantes era: corre de Leste a 
Oeste, e faz buma ponta para o Nordeste, e outra para o Noroesle, e 
tem de comprido dezoito legoas, mas nào he mais larga que duas le- 
goas e meia, e no meio huma so legoa, da Resaca do Sul em a Villa 
da Alagóa, até o Habo de Peixe da banda do Norte, com via t3o raza 
aqui, que aos Navegaotes parece conlinuarem-se os dous montes, e se- 
rem duas Ilbas, e nJo huma so. Com o morrò do Nordeste fica por li- 
nha direita duzentas e cincoenta legoas de Cetuval; e o dito morrò he 
bum tao alto Pico, que os Navegantes que vom do Oriente, o divisao 
trinla legoas ao mar: e geralmente consta està Uba de buma Cidade, 
cincx) Viilas, e vinte e dous lugares, trinta Freguezias, mais de cem Sa- 
cerdotes seculares, dos quaes sào Vigarios trinta, nove Curas, e qua- 
renta e dous Beneficiados, e juntas as Ig'rejas com as Ermidas, todas 
sào noventa e sete. Dos Religiosos, e Religiosas em particular diii^mos. 

li Da parte de Leste cometa està Uha wm a Povoa^ào cbamada 
Nordeste, que ao principio era bum lugar, e da jurisdicfào de Villa Fran- 
ca, (corno diz Damiao de Goes, iv part., cap. ult.) e El-Rei D. Manoet 
em Lisboa a 18 de Julbo de 1514, o fez Villa, e tem duzentos e cin- 
coenta e nove vìzinbos, corno se mostrou no anno de 16G6, e buma so 
Freguezia da invocagao de Sao Jorge, com Vigario, Cura, e tres Bene- 
llciados; he terra de creagues de gados, madeira de cedro, pouco \i- 
nho, costa ingreme, e segura de inimigos, e com bateis por mar se coni- 
munica com as mais partes da liba; e tem o seu porto distante bum 
quarto de legoa para o Sul; e vào là embarcagoes a buscar trigo; e so 
bum lugar mais, chamado S. Pedro, tem por seu termo està Villa, e 
adiante buma Ermida de nossa Senhora de Nazareth; e mela legoa mais 
adiante estào as chamadas Prainhas, que entre si tem buma grande ba- 
bia de area, e logo a ponta de terra que se cbama Topo, com o dito 
morrò, ou alto Pico do Nordeste; e d'ahi a huma legoa vai virando a 
Uba para o Nordeste, e se continua em rocba talhada, e alta com duas 
ribeìras, das quaes huma se cbama Agua Retorta, outra a Ribeira do 
Arco, porque o fez na terra para sabir ao mar. 

13 D'aqui para o Sul corre a costa, e buma legoa depois està a 
mai%pilta rocba que ba em toda a liba, e se cbama a do BodC; por d el« 



LIV. V CAP. Ili m 

b whir hum; e correndo para Noroesle dous liros de escopeta, vai dar 
eoa liuto lugar charnado Fayal, por ter tanla Faya, que Ihe deo o nome; 
està enire duas ponlas, que llie fazeni liuma bahia coni bom porlo, a 
que salie hmna ribeira, pela qual entra do mar multo pescado: ha n'este 
lugar uuiila fonte, muito arvoredo, boa fruta, especialmenle de espinho, 
e US mellioros limoes que lia em loda a liha, no tamanlio, e no gumo: 
as terras que lem por cima das dìtas rociias, de huma. e outra parte, 
sào algumas de tiigo, e paslel, e o mais de crea^oes de gados, vacum, 
e cabrum, e em partes porcos montezes, e pombos torquazes; e porque 
(la Villa do Nordeste dista j:i tres legoas este lugar do Fayal, por isso 
he (lo termo jà de Villa Franca: e coin o lugar ser de pouco mais de 
quareula vizinhos, lie de gente tao limpa, e tao nobre, que d'elle por 
vezes toma Villa Franca hoinens para o seu governo, ricos, e aparen- 
lados com loda a lllia: a FregiitvJa deste lugar he de nossa Senhora da 
Craya: a gejite nubre he dos Velhos, e Cabraes, descendenles da Ilha 
de Santa Maria. 

i4 Iluma legoa do Fayal està a Povoacao vciha, (que foi a primei- 
ra desta Ilha, e habitada algum tempo dos sobreditos Mouriscos, comò 
e foi Hespanha, Italia, e oulras Provincias) lugar grande e de so puros, 
e liiupos Porlugiiezes; do qual diz Fiuctuoso liv. 3, cap. 39, que em 
sea tempo linha cento e^tres vizinhos; e eu na inquirigào de 1666, aclui 
(jiie wnsiava de duzentos e vinte e tres vizinhos: tem no meio a sua 
Freguezia nossa Senhora dos Anjos com Vigario, e Cura, a qual man- 
duu fazer Joào d Arruda, e seus lilhos homens fidalgos; tem mais a Er- 
Uìida de Santa Barbara, que foi a primeira Igreja, e em que se disse a 
jirimeira Missa n'osta Ilha. Està oste lugar em fresco valle, com nove 
fuutes, e quairo libeiras, que se ajuntào em huma, chamada entào a 
Grande, que ùs vezes leva tanla agua, comò hum grande rio; e tanta 
ttadeira. e penedia, que faz borrendo cstrondo; ha por equi muìtas aves, 
e poinbos torquazes, muita fruta de espinho, e figos brejafotes, e vinhas 
em lena lavradia, (cousa rara em eslas Ilhas) e ludo o quo aqui se dii, 
h inelhor de loda a Ilha. Pelo incendio das furnas (que em seu lugar 
IMìiporemos) foi esla terra, distante lumia legoa, cuberla de ciiiza, e pe- 
dra |K)!nes, mais de ciuco paimos de alto, mas pouco depois se culli- 
vou Como de anles, e melhor ainda. 

13 Pouco adiante, jiela costa do Sul, està hum posto, que chamao 
oFonriirho. por parecer fazerem-o as pedras, defrontc das qunes, hum 

VOL. 1 li 



178 HISTORIA ÌNSULANA 

tiro de pedra ao mar, sahe n'este, e do fundo d'elle, sahe, dez palmas 
acima, tal fonte de agua doce, que nuo so se toma doce em cima, mas 
doce se tira do fundo do mar, em tres borbulhoens de dez palmos de 
triangolo; e nao he cousa nova, pois sabemos, que o AIpl>eo, metten- 
do-se no centro da terra em Grecia, vem sahir cem legoas adiante na 
fonte de Aretusa jnnto a Saragoga de Sicilia, e traz aqui o que là no 
principio llie deilarao: e o Guadiana em Hespanlia, depois de se metter 
por baixo da terra oilo legoas, sahe tanto depois fora da terra, resus- 
citado rio: e era Italia o Pado (por outro nome Eridano) sahe semellian- 
temente, onde fingem cahira Faetonte: e o Eufrates, enterrando-se prì- 
nieiro, resuscita ao depois sobre a terra, he o diamado Nilo: e assim 
nao ha que pasmar de que se na Ilha de Santa Maria, com suas impe- 
ne!raveis rochas, e subterranea abundancia de aguas doces, se rebaleS' 
so d'esfas para o mais baixo da terra algum rio, viesse a sahir aqui, em 
so doze legoas de distancia, e onde so duas braras de agua salgada 
nchou, para afaslar, e vcncer. Mais póde ser de adrairar, que das ditas 
tres fontcs, nao s() da grossura, e altura de huma lanfa vengao duas ao 
mar. e mui^o mais a terceira; mas que da rocha saiao. e em direito do 
sobredilo Forninho, oulras tres fontes junlas, e que duas d'ellas sejao 
de agua doce, e a terceira de vinagrc, ou quasi lai. 

1() Duas legoas da sobredila Povoapio està a Penta da Garf^i, que 
por assim o par(»cer, Ihe derào esle nome; e ahi mesmo bum legar cha- 
inndo da Piedade, por ser desta invecacao a sua Igreja, quo fiindou em 
terra sua bum nobre varao Lopcanes de Araujo: tem està FregueziJi 
quasi cem vizinhos com seu Vigario, e he da jurisdiccao de Villa Fran- 
ca, mas tem poucas aguas, e poucas frutas; porém muito bom trigo, o 
paslel. D'aqui mais huma legoa, e pelo mesmo Sul, correa Ri l)eira Sec- 
ca, (que so no nome o he) e aqui està bum Engenho de assucar, que 
fnndou o sobredito Lopeanes de Aranjo, e depois houverao este Engt;- 
nho OS filhos de Sebastiao de Castro, e o houverao de bum Gabriel Coe- 
Iho; e agora (diz Fructuoso no seu tempo) o tem Diogo Leite, (fidafgr», 
de que em seu lugar faremos mencao) por falecimento de Manoel de 
Castro, e Antonio de Castro, e nao sei se ha ainda la) Engenho de as- 
snrar, porque oulros que havia em Sào Miguel, jà acabarSo comò at^ 
barào muitos dos muilos mais que liavia em a Madeira. 



LIV. V CAP. IV 179 

CAPITULO IV 

Da antigOy e nobre Villa Franca de Sào Miguel, Agua de Pdo, 

e Alagoa. 

17 Da sobredila Ribeira Secca, e seu Engenho de assucar, come- 
00 OS ricos Orredores da celeberrima Villa Franca do Campo; cha- 
raa-sc do Campo, por ser situada em bum quasi razo com o mar; cha- 
nia-se Franca, porque d'esde seu principio comecou com franqueza, e 
liberdade de pagar ella direitos; e Villa se chama, por nao so ser fella 
lai pelos Reis de Portngal, mas ser a primeira de loda a Uba, e ter o 
primeìro lugar, e fallar primciro, quando se juntao as Cameras da Uba 
loda; e logo em seu principio se edificou de sorte, que jà enlao pare- 
cia huma pequena Corte, com illustres Capitaes, fidalguia, e nobreza 
qoe se extendeo por loda a Uba, de que foi o seminario, origem, cabe- 
a e ra3i, corno confessa o mesmo Fructuoso liv. 4, cap. 40, e ainda 
que ?eio tempo, em que se arruinou, (corno em seu lugar veremos) se 
edificoo comtudo, e tao nobremente, que aos nobres d'ella concederào 
nossos Reis os mesmos privilegios que lem os Cidadàos do Porlo em 
Portugal, além de Ihe confìrmar lodos os que de antes lìnba. 

18 Tem està Villa sabidas excellenles, com ricos pomares, e ren- 
dosas qainlas, e dentro lem muito nobres, e grossos contratadores df^ 
Ingo, pasleU e assucar: tem duas Freguezias; a Matriz he dedicada ao 
Anjo S3o Miguel, Orago de loda a Uba, e consta de quinbentos e quin- 
» vizinhos; a outra Freguezia be da invoca?ao de Sao Pedro Apostolo, 
e coDtém duzentos fogos, ou vizinbos, e a Villa loda passa de setecen- 
tos, a que algumas Cidades de Porlugal nao cbegào. A Malriz tem oito 
Beneliciados, Vigario, Cura, eie. corno lambem lem a outra Freguezia 
deS. Pedro; tem boa casa da Santa Misericordia, e dous Conventos mais, 
tam de Religiosos Franciscanns, e nutro de Beligiosas de Santa*Clara, 
e seis Ermidas, Sào Joao Baplisla, Santa Catharina, N. Senbora do Des- 
terrò, Corpo Sanlo. Sao Pedro, e Sanlo Amaro. Do Mosteiro de Freiras 
dizem que foi o primeiro de lodas as Ilbas, e he da invocac^o de Santo 
André, e de cincoenta Religiosas, e trinta servas, e de abundanle ren- 
da, e por isso mnito observanle; o dos Religiosos lem menos sugcitos, 
e nao menos exemplares, e be dedicado a nossa Senbora do Rosario, e 
por provisao dei-Rei lem o pulpito da Villa. 



180 HISTORIA INSULANA 

19 He governaila està Villa pelo seu Senado da Camera, set» tnv 
bres Juizes Ordinarios, Almotaceis, etc. e na milicia tem seu Capitao-mòr, 
e tres Companhias de duzentos bomens cada huma, com seas Capitaes, 
quo sempre sao dos mais nobres, dos quaes foi o primeiro Capitào Pe- 
dro da Costa, e seu Alferes Jorge Furtado; o segando foi Pedro Rodri- 
guez Cordeiro, cujo gerirò foi o seu Alferes Gaspar de Gouvea; e n'esla 
Villa, para a segurar na sugeicào a Felippe II de Castella, poz o Mar- 
quez de Santa Cruz setecentos soldados de presidio, que durou pouco; 
mas per si a Villa està forlifìcada da banda do mar, e eom portas fc- 
cbadas, e tem para o mar bum Forte com boa artelbarìa, mas n3o sei 
que tenba soldadesca paga, senào de ordenanca» e a seus tempos, e so- 
bre tudo o da milicia, o Capitilo Donatario be o que governa em loda a 
Ilha. 

20 Defronte d'està Villa, e bum tiro s() de berso, està bom Ilhéo, 
qne levaria tres moios de semeadura, se se semeasse: e tem Imma bo- 
ta, feita por arte, por onde cabom navios de scssenla toneladas, e den- 
tro mar capaz de vinte navios, mas so qual.ro nadarào nelle, e por bai- 
xo tem tambem fendas naluraes abertas, por onde Ibe entra tambem 
agua do mar, e com tal furia, que se metle dentro do llbéo, que se veni 
alguns pedagos de pàos, e de navios perdidos: ao rcdor d'este IIIr»o, q 
oiìlvG elle, e a terra ha bom anclìoradouro, e serve o Ilhéo muilo para 
boas pescarias; serviria tambem de mellior Forlaleza, comò a do Bugio 
era a entrada do Tejo. Emfim tem Villa Franca nove Logares, ou Aldeas 
mais que estao debaixo do seu governo, ciuco da banda do Norte, e da 
banda do Sul qualro. 

21 Segue-se a Villa Franca, e pelo mesrao Sul para o Poente duas 
legoas, a Villa de Agua de Wo, nome que d'esde o mar Ihe derao os 
])iiineiros descubridores da Uba, porque vendo cahir uma ribeirade bum 
•Mio, e a prumo a um baixo, pareceo a muilos ser anligo, e grajid« 
l)ào, (jiie de baixo chegava ao mais alla; e a outros pareceo que em 
;tgua, qne do alto vinha precipituda ao baixo, e ;ichando logo scr assim, 
vhamarao àquella agua, Agua de Pào, e esle mesmo nome derao a Vil- 
la, que alli depois se edilìcou; està a Villa edilìcada em bum valle, e 
lem a ribeira secca da parte do Occidente, e da parie do Oriervle; a ri- 
l)fìira do paul, a quem bum allo pico toma a vista do mar: he Villa bem 
]irovida de lenlia, e frulas; tem duzentos e cincoenta fogos, ou vizinbos, 
Vigai il); e qualro Bciiyflciados, Tbcsourciro, e Cura, tcui mais tres Et- 



LIV, V CAP, IV 181 

nidas, hiima da Trindade, feita por huma Beota cliamada Margarida Af- 
fooso; outra de nossa Senliora do Rosario, e a terceira de Sao Fedro, 
Ja parte do Poenle. Era està Villa de antes hum lugar de Villa Franca, 
e em 28 de Juliio de 1505, foi feita Villa por El-Kei D. Manoei, com 
meia legoa de termo ao redor, e està junta a bum pico grande chama- 
do da Figiieira. 

22 Abaixo hum tiro de berso està o porto d'està Villa, chamado 
Val de Cabassos, porqiie quando os descubridores da liba alli chegarào, 
repararao estar a terra cuberta de humas grandes flores brancas, que 
<Hn verdade erao da *erva qne chamSo Legacao, e pareceo-lhes serem flo- 
res de oabassas, ou cabassos, e por isso chamarao àqnelle porto. Porto 
(le Val de Cabassos. He pois porto bom, e facilmente defensavel ale com 
pedras de cima; e lie fortificado com baluarte, e cavas. Junto a estè por- 
to està huma Ermida da Concei(ao da Virgem Senliora, e d'està dizem 
qoe fola primeira, que da dita invocagSo lionve em aquella Uba, e que 
aqui comecou o priraeiro Mosteiro de Fneiras, que bouve em todas as 
Ilhas; que para as Religiosas serem, comò devem ser, immaculadas, pela 
inunaculada Conceicào d? Virgem Senhora nossa haviao comecar. Ha tao 
nnbre gente n'esta Villa, que d'ella forao muitos bomens à sua custa a 
Africa, e là forao Armados Cavalleiros, e tomàrao aos Mouros Benaha- 
mad, iugar junto a Arzilla; e em 1321 tomarao para està sua Villa. 

23 Por està costa do Sul, de Occidente a Poente, e legoa e meia 
depois da Villa de Agua de Pào, està a chamada Villa da Alagoa por hu- 
ma que leve de agua nativa defronte da porta da Uba principal, onde 
depois se formou terra lavradia. Fez Villa a este Lugar EI-Rei D. Joao 
lUem 11 de Abrii de 1522. A Igreja .Matriz be da Invoca^ao da Santa 
Cruz, com duzentos e vinte e sete fogos, ou visinhos. A segunda Fre- 
ffkm se chama do Porto dos Cameiros, (por os terem alli ian^ado os 
ivmieiros descubridores que os traziao) e consta de duzentos e dezaseis 
nsDhos; e a Villa de quatrocentos e quarenta e tres» corno constou pe- 
1<« roes do anno de 1666. Tem mais està Villa da Alagoa tres Ermidas, 
prìaeira de S^o Sebastiao. segunda de N. Senhora do Rosario, terceira 
4o EspiriU) Santo; e acima da Villa hum quarto de legoa, està a Ermida 
de N. Senhora dos Remedios, de muitos milagres, e grande romagem, 
af^ pé de hiira monte chamado o Vulcao. A Klatriz da Villa tem Vigario, 
ÌMim Cura, e quatro Beneficiados. termo d'està Villa be de trigo, e 



1S2 IIISTORIA IXSCLÀNA 

pastel, e muitos, e bons vinhos; e além de ludo ista se carregSo aqof 
OS frutos da Villa de Ribeìra Grande, e seu termo. 

24 Adiante mais, cousa de huma legoa, e jà da urisdic^o da Cida- 
de, està o lugar de S. Roqae, por ter deste Santo a sua Igreja, com Vi- 
gario, e Cura, e cento e vinte e seis vistnhos, e a pouco espago se segue 
huma Ermida da Santa Magdaiena, de mui frequente romagem; e depois 
logo a forca da Cidade, e defronte d'ella, bum tiro de besta ao mar, està 
lium Ilhéo, que por representar a bum cao em a figura que faz, deo 
aquelle tracto, e lugar de Sao Roque, o vulgar nome de Lugar de Bos- 
to de Cao. E ba por aqui tantas vinfias, que (comò diz Fructuoso) d'el- 
las se recolhe cada anno mais do mil pipas de vinbo. E queixa-se o dito 
Author, que valendo de antes buma pipa de vinbo dous até tres cruza- 
dos, valla jé em seu tempo tres atè quatro mil réis. Pela terra dentro 
tambem bum quarto de legoa da Cidade, esté o lugar da Faja, com Frò- 
guezia de nossa Senbora dos Anjos, (que de antes tinba estado em oo- 
tro lugar mais acima) e com Vigario, e trinta e seis visinbos, e perlo 
buma Ermida da EncarnacHo. 

CAPITULO V 

Da Cidade de Ponta Delgada. 

25 Descuberta a Uba de Sao Migue!, e povoada em 1444, e em 
liiS, esteve quasi cincoenta annos até o de 1499^ sem ter dentro de si 
outra cabeca. ou governo, senao a sobredita Villa Franca do Campo, e 
Ponta Delgada Ibe obedecia, comò bum semente lugar seu, sem baver 
outra Villa em toda a Uba; mas corno no dito lugar de Ponta Delgada 
bavia tambem multa nobreza, e fidalguia, a quem cuslava jà muito re- 
correr, e obedecer is ordens de Villa Franca, e entro buns, e outros hou- 
vesse algumas brigas, quando biào a Villa Franca, os de Ponta Delgada 
mandàrao secretamente a Lisboa bum Fernao Jorge Velho, fillio de Jor- 
ge VeHiO, e de Africanes, a alcanfar que Ponta Delgada fosse Villa, e 
nao obedecesse a Villa Franca, e diz Fructuoso que dentro de bum mez 
Ponta Delgada veio feita Villa por el-Rei D. Manoel em 4499, servindo 
de Capitào Donatario Pedro Rodriguez da Camera, pela ausencia de sea 
irmllo Ruy Gongalves da Camera, que eslava em Lisboa; e por mais em- 
bargos que Villa Franca poz a està rcsolugào, nunca se Ibe deferto» ao- 



LtV. V GAP» V 183 

te.< mesmo Rei D. Manoei em Abrantes a 29 de Maio de 1507, e em 
|>ei-gamiiiho Rea! confìrniou Poiila Delgada em Villa; e depois Ei-Kei D. 
Juno IH a levaDtou a Cidade, de seu motu proprio a 2 de Abrìl de 15i6, 
e d'a<|ui fìcou sempre alguma opposirao entre Villa Franca, e Poiila DeU 
yada. que ale em os rapa^es dura quando se eiicontrào: e assim fui Fon- 
ia Uelgada, quasi cìncoenla annos, lium puro l^ugar sugeito a Villa Fran- 
ca: e quasi quarenta e sete annos Villa livre sobre si, e tem jà 148 aii- 
nos de Cidade, ale o presente anno de 1714. 

26 Por eslar esla Cidade junto a Imma delgada ponta, que do in- 
terior da Uba, e do biscouto miudo vai quasi raza ao mar, porisso se 
cluuna Ponta Delgada; sendo que à dita ponla cliamarào jà Santa Clara, 
|ior lìuma Ermida que alli tem da mesma Santa. Està assenlada a Cida- 
de junio ao mar, e em plano, sem subidas, ou descidas de multa con- 
sidera^au; de comprido, à beira mar, occupa quasi bum quarto de ìq- 
g^ia, e no mais largo do meio, o tiro de buma escopeta; tem varias ruas, 
torreiiles do Norie a Sul, a outras atravessadas; no aimo de 1060 linba 
pek)s roes dos Parocbos mil e seiscentos e vinte e tres visinbos; a casa- 
ria de nobres be tambem nobrc, mas em nenbuma rua be uniforme, 
por se melterem casas terreas entro sobradadas; tem os Donalarios biim 
itmito Dobre Pa(o com jardim dentro, e no meio da Cidade; tem sobre 
porlo buma boa Fortaleza com Irinla pegas de hronze, e buma de mais 
de viale palmos de com|)rimento; nào tinba gente paga de guarnicào, 
loas de ordenanca em guarnicào sempre, e seu CapilOo com boas casas 
I»ra elle, graneis, e casa de polvora, e de municocs de guerra, e Ei- 
ffiida de Sào Braz; tem poco de agua de servilo para a gente, e aleni 
i'\&so cisterna, que leva mil e duzentas pipas de agua; nao tem cava a 
roda, e parece ser tudo pedra viva. Hoje dizem que tem jà soldadesca 
paga. 

27 porto desta Cidade he tao aborto, que da porta de Santa Cla- 
ra ale a ponta que chamào da Gale, vào tres legoas de enseada, sem 
abrigo algum para os navios, mais que fazer-se à véla com qualquer tem- 
pestade, estejao carregando, ou descarregando, com que succede às ve- 
as levantarem, sem lornarem. A xVlfandega esteve sempre em Villa Fran- 
ca, ale que (comò veremos) se subverteo a Villa, e ainda que se reedi- 
ficou. mudou-se comtudo a Alfandega para a Cidade, e niella tem nobre 
assento, com seu Juiz, que cbamào Juiz do mar, e be posto nobilissimo, 
de que ale o mesmo Donataiio depende, e so ao Provedor da fazeuda 



184 IlISTOniA msvLANA 

Real da liha Terceira csW sngeito; e tcm Cenfador da Alfandoga, Pei- 
tor, e outros minislros inferiores. 

28 A Cidade se governa pelo sen Senado da Camera, qne de antoìi 
constava de dons Juizes Ordinarins doa mais nobres da Cidade, e tsen ter- 
mo, ((jue he so de Imma legoa) e ha miiilos annos se tirarào, e se poz 
em liigar d*elles Jiiiz de fora, qne serve tambem de Correg(tdor da liha 
de Santa Maria, e de Jniz dos Residnos em toda a liha de S!So Miguel: 
d'este Juiz de fora se recorrc ao Onvidor do Capitao Donatario, »e lem 
Ouvidor distincto; e se o nao lem, ao mei^mo Capitao; porém se o Cor- 
regedor vai a Sao Miguel em correicao, cessa a Ouvidoria. e s6 ao Cor- 
regedor se recorre do Jniz de fora. Tem mais o dito Senado da Camera 
Ines Vereadores, hum Procnrador, e bum Escrivìlo da Camera, e bum 
Thesonreiro, e todos sao Cidadàos nobres, e quatro Ministros do povo, 
<? da Cidade dous Almotaceis cada tres mezes, além dos mais Escrivaes, 
Tabelli5es, Alcaides, eie, e tem pra^a bastante perlo do mar, e seu Pe- 
lourinho, cadea, e ludo o mais necessario. 

29 Quanto ao Ecclesiastico secular tem Ponta Delgada tres Fregiie- 
zias: a Matriz he de Sao Sebasliao, he Igreja grande, e de tres naves, 
tem Vigario, Thesoureiro, e Cura, e dez Beneficiados, e seu Mestre da 
Capella: e ha n'esla Freguezia quatro Ermidas, de S. Braz, das Chagas, 
de Corpo Santo, e da Trìndade. A segunda Freguezia he a de S3o Pe- 
dro, que tem Vigario, Cura, e oilo Beneficiados, e ires Ermidas, buma 
da Madre de Deos, outra de Suo Confalo, e outra da Natividade, com a 
devola Confraria dos Pretos. A terceira Freguezia he a de Santa Clara, 
com Vigario, e Cura, e tem Imma Ermida da invocacao da Piedade. Alcm 
d'esles Ecclesiasticos ha muitos outros Clerigos extravaganles, e a lodo 
este estado Ecclesiastico governa hum Ecclesiastico Ouvidor, poslo pelo 
IJispo de Angra, aonde so se recorre em todas as causas Ecclesiaslicas, 
c|uando o dito Bispo nao està visitando Siio Miguel, ou nao manda Li seu 
Visiiador. Ila mais em Ponta Delgada buma Santa Casa de Misericordia 
com seu costumado governo de Provedor, Mesa, eie, da qual diz Fru- 
ctuoso liv. 4 cap. 43, que n9o he tao rica de edificios morlos, corno he 
riquissima de coracoes vivos, e accesos em muita charidade. 

30 Quanto ao eslado Religioso he n'esla Cidade copioso, e de mul- 
to fruto, e exemplo. Tem bum Convento da observancia de S3o Fran- 
cisco, e da invocacao da Conceicào da Senhora, que consta de mais de 
Irinta Keligiosos, e tem seu Nuviciado, e por provisào Ueal o pulpito de 



LIV. V GAP. V 185 

S. Sebnstìiìo, e devotissima Irmandade de Terceiros, e Terceiras seciila- 
ros. Tem ontro Convento de Religiosas Eremitas de Santo Agostinho, 
rliamados Gracianos, qne sem ser multo copioso, comò se o fosse, tra- 
inila em a vjnha do Senhor, comò Religiào em ludo milito exemplar. 
Tem mais hnm Collegio da HeligiAo da Companhia de Jesus, que ordi- 
pnriamente tem doze Religiosos ao menos, com paleo de Estudos, e seu 
fieilor, Prereilo, Lente de Moral, e ontro de Rhetorica. outro de Lalim: 
e OS mais sào Prcgadores, Confessores, e muitas vezes Missionarios, nao 
sipnrtoda a liha de S. Miguel, mas jà lambem algumas vezes pela 
liha de Sanici Maria, com aqnelle Apostolico zelo, que costumào Religio- 
sa rhomados Apostolos: e he de notar qne este Collegio nem por El- 
Ilei he fimdado, nem por algum outro fundador parlicular, com orde- 
nwlo aignm pani o sustenlo dos Religiosos, nem esles o Iev3o por ensi- 
nir. pregar, confessar, e aconselhar, e multo menos por missas, que nao 
rlizera por esmola, mas sómenle comecou com parliculares esmolas das 
mais devotas pessoas d'està Cidade, por qucm faz os mesmos sacrifi- 
fins, e ora^oes, qne farla por aquelle que fosse seu total, e especial Fun- 
dador. Poréra corno este Collegio velo de Angra, e os Conventos de SOo 
Kramjisco, e da Gra^a vierìlo lambem dos seus principaes da Uba Ter- 
ceira, por isso là, e nao aqui, nos delereraos mais. 

31 Nem so varoes Religiosos, mas lambem Religiosas observantis- 
siraas ha n'esta Cidade, das quaes o primeiro Convento be o de N. Se- 
Rtwra da Esperanca, fundado por D. Felippa Coutinba, mulher do Ca- 
pilo Ruy Gonfalves da Camera, segundo do nome, onde ambos tem sua 
.sepoltura, e fimdado para vinte ciuco Religiosas de véo preto, e ciuco 
Novifas (e bojo he de muitas mais Religiosas) e debaixo da obediencla 
dos l'relados de Sao Francisco. segundo Convento he o de Santo An- 
dré, feito, e dotado pelo nobre, e pio Cidadao Diogo Vaz Carreiro para 
^inle e seis professas. e lambem ciuco Novicas, da Regra de Santa Cla- 
r^. e da obediencia do Ordinario. terceiro Convento he de Sao Joao, 
cwno de Santo André, fundado por quarto 

Convento se comecon ha cincoenta annos, com titulo da Conceicao, e 
Hreve do Papa para cincoenta Religiosas, das quaes entrassem com Ao- 
t»^ Irinla e nove, e dez noraearà o Padroeiro das parentas nobres, e po- 
hrRs do Fundador, e bum lugar livre para huma fìlba do Padroeiro, e 
wnderà obediencia ao Ordinario: seu Fundador foi o M. Rever. Fran- 
cisco de Andrade, e Albuquerque, nobre, e rico Clerigo da dita Cidade, 



186 litSTOMA INSULANA 

qiie conheci niiiito bera. Aléna d'esles Conventos de verdadeiras ReligiO* 
sas, lem està incsina Cìdade varìos RecolliìiueiUos, e lodos sào necessa- 
rios. 

m Ha mais n'esta Cidade multa nohreza, e fìdal^^uia, que ao prin- 
cipio tinliào seus fóros, e filliamentos tirados, mas comò estavào Torà ja 
de Lisboa, e tinliào datas copiosas de terras, d'ellas Iratavao, e Taziào 
pouco caso de tirar oros; fazendo mais caso de ser fìdalgos de geracàu 
])or seus anligos brazoes, e ricos, do que ser somente fìdalgos de livru, 
e na verdade pobres, comò sào muilos no Keino de Forlugal, e ainda 
uà Corte, e miseravelmenle pobres: e por isso bavia bomens multo ri- 
cos, corno bum Gaspar do Uego Baidaya, que tinba Irezentos, e sessen- 
ta e seis moios de renda do trigo cada anno, fora rendas, e fóros ì\ó 
outro genero; e o mèsmo, e mais, leve seu liiho Francisco do Kego do 
Sa, cbamado o Grào Capitao, de que em seu iugar tralaremos mais. Mas 
tambem n'esta Cìdade o trato, ainda dos mais nobres, era antìgamente do 
tao pouco fausto, que so tratavào de ter bons cavalios, boas armas. os 
criados necessarios para as lavouras; e o seu vestir era tao commum, e 
ordinario, que todos por meias de seda usavao so de botas, e para es- 
tas aflìnna Fructuoso, que nào consentiào so castrassem os carneirijs, 
por screm dos nào castrados as pelles de mais dura, e mais fortes paia 
botas; e assiin se tratavào mais corno nobres, e ricos lavradores farlos, 
do que corno Cavalbeiros fantasticos, e famintos. 

33 Confessa mais Fructuoso, que n'esta Cidade, e seu termo ba 
poucas carnes para tanta gente, e que a mais d'ella se mantem com pcs- 
cado a maior parte do tempo, e que de pescado ha muito; mas isto de- 
ve entender-se de gente ordinaria; e pobre, e de alguma rira, e avarei:- 
ta, porque |)ara a gente nobre, e prudente, ainda que o carneiro ite ruiu), 
por nào caslrado, ha bastante, e boa vaca, e lanla caca de coelhos, cu- 
doniizes, e pordizes, que estas valem a trinla léis, codornizes a ires, e 
quatro por hum vintem, e a vintem os coelhos. Ila n'esta Cidade a mi*- 
llior agua que ha em toda a liha; mas he tao pouca, qne nem moinlios 
de agua lem, senào d'ahi tres legoas em Uibeira Grande, ou nào miMitis 
longe, em Agua de Pào; nem a roupa se lava senào junto a borda do 
mar, e em mare vazia, com alguma agua solobra ipie ali sahe, e couìlu- 
do ao redor da Cidade, e ainda dentro della; ha muilos poniares, e jar- 
dins, e amila, e exa»llente horlalira ; e com islo passemos da (adade. 



LIV. V GAP. VI 187 

CAPITULO VI 

CofUinua a descripfdo, especialmenie ao Norie da Ilha 
de S, Miguel. 

34 Da Cidade de Ponta Deigada, pelo Sul, e para o Poente, ineia 
legna da Cidade, està bum lugar chamado o Lugar da Relva, pela mul- 
ta que ali havia de aiites, e agora asta o Lugar, e juDto d'elle a quinta 
de bum Joao Rodriguez Ferreira^ de quem diz Fructuoso liv. 4 cap. 
4i) que descendia dos Reis de Escocia, e da grande casa de Drumond, 
e que era bomem grande Cavalleiro, e de grandes forcas, e valenlia. 
lugar he de nossa Senbora das Neves, e Freguezia que lem Vigario, e 
eeoto e trinta sete viziuhos. Meia legna adiante està o porlo cbamado 
dos bateis, por baixo do lugar das Feteiras, pelo rouito fèto que alli ha- 
via, cuja Freguezia he de Santa Luzia, coni Vigario, e noventa e dous 
visinbos; e huma boa Igreja de N. Senbora de Guadalupe, que inandou 
fazer o generoso fidalgo Jorge Camello da Costa Colombreiro, casado com 
D. Margarida, filba de Fedro Pactieco, e ali moravào estes Tidalgos. Ti*es 
quartos de legoa adiante, e pela terra dentro dous tiros de espingarda, 
està lugar daCandelaria com Igreja da Purificacào de N. Senbora, com 
Yìgario, e quarenta e bum visinbos; e d^abi meia legoa està a Ermida 
de N. S^bora do Soccorro; e outra meia legua mais adiante està o Lu- 
gar de S. Sebastiao, com Vigano, e sessenta e oito fogos. 

35 Segue*se bem perto logo o Pico cbamado das Gamarinbas, (por 
ter as arvores que as dao) a que tambem chamao o Pico das Ferrarias, 
por parecer ferro o biscouto que d'elle corre, e se suppoem ha ver aiti 
Vieiros de enxofre; salitre, marqueziia, e ferro; e ao pè do tal Pico da 
banda do Leste, sabe huma ribeìra, em que póde moer buma azenha, e 
comtudo he de agua tao quente, que sómente n ella se peiào leìtoes, e 
se coze peixe, até que se cobre com a mare cbeia. E aos ires de Juiho 
de 1638 succedeo (caso efpantoso !) que defronte do tal Pico, para a 
parte do Sul, aos tres quartos de legoa pelo mar dentro, nelle arreben- 
tou, e sahio, desde o fundo do mar, tal fogo, que lanciava quantidado 
de area negra, e aita, que vcnceria a tres alias loiTes, postas huma so- 
bre oulra, e o fumo se via sobre as nuvens ; e cabindo a dita area fez 
bum lllieo tal sobre o mar, que so por cima, e so quando veio a pri- 
meiraMnveroada, se diminuio, e airida deixou aiU bum baixo tao peri- 



188 IIISTOniA INSIXANA 

poso, corno grnnde: e o fogo qiie o cansoii, duron, sahindo sempre fu- 
rioso, por tres scmanas inteiras. D'ostas Ferrarias pois, dous liros de 
l>ésta adianle, està a ponla quo chamao os Escalvados, e aqui acaba a 
liha pela parte do Sul ale o Poenle, ou Oeste, e conieca a dobrar para 
o Noroesle. e Norte. 

3G Tornando agora a comecar da ponta do Nordeste ontra vez, e 
jA pela banda do Norie; nao ha d'esla banda porto algum, senao so para 
Iinfeis, e porisso o qne enfi nnvjos se ha de embarcar, vai por terra do 
Norie |)ara o Sul, porenfi pouco mais de diias legoas pela estreileza da 
Ilha. Da Villa pois de Nordeste pelo Norte legoa e meia, està o lugar de 
S. Pedro com fgrcja deste Apostolo, e seu Vigano, com cento e dons 
A isinhos. e comraiimente se chama o Nordeste pequeno, em comparacao 
da \nila antecedente. Deste Nordeste pequeno, huma legoa adiante, cor- 
re huma Lomha, chamada Algaravia, por ter sido de hum marido, « 
iTìulher, ambos vindo do Algarve; por cuja morte veio està terra ao po- 
(ler de Anlao Rodriguez da Camara, e d'esle a seus herdeiros. Meia le- 
gna adiante està o Topo de Pedro Rodriguez da Camera, e logo perlo 
Lugar de nossa Senhora da Grafa, chamado a Achada Grande, com 
Igreja, e seu Vigario, e trinta e dous vizinhos. Segiiem-se adiante varias 
ribeiras, e entre ellas huma que chamSo da Salga, ou por alli dar à cos- 
ta hum navio, que de sai hia carregado; ou por se fazer alli salga da 
Dontaria que no interior tracto se cacava; e aqui chamao a Acbadinha, 
em comparacao da dita Achada Grande; e assim Achada, comò Achadi- 
nha signifìcao terra cha; e aqui està o Lugar de N. Senhora do Rosa- 
rio, com Vigario, e quarenta e tres vizinhos. 

37 Pouco adiante està a ponta chamada dos Fenais da Maya, (para 
distìnfao dos da Cidade) e a Freguezia he dos Reis Magos. com Viga- 
rio, e setenta e dous vizinhos, gente nobre, e rica. Logo se segue o Lu- 
gar da Maya, que tomou o nome de o comecar huma mul.her, chamada 
Ignes Maya, e lem pouco adiante seus moinhos ; he Lugar que tem as 
ruas inteiras de casas de teiha, quando em outras Villas, e até na Cida-' 
de ha muitas casas cubertas de pallia, sendo que a teIha se faz n'este 
]\jgar da Maya; e ainda que dantes tinha setenta e oito fogos, ou vizi- 
nhos, (cx)mo aflìrma Fructuoso liv. iv cap. 45) jà em 28 de Juiho do 
anno de 1606 achei que tinha duzentos e cincoenta vizinhos, e porisso 
por vezes pertendeo ser Villa, mostrando ter gente nobre, e estar mul- 
to longe de Ribeira Grande, em cujo termo fica: a Freguezia he do Es- 



LIV. V CAP. VII 189 

pìrito Santo, lem Vigario, e tinha Beneficiado qiie se llie lirou para Ri- 
beira Gi*ande; e lem mais cinco Ennidas, diias de N. Senlìora do Uos;h 
rio, huma de S. Sebasliao, outra de S. Fedro, e outra de Santa Catha- 
rina. 

38 Segue-se mais adiante a ponla de S. Bras, por ter huma Ermi- 
da deste Santo, e ainda mais adiante eslà o Lugar de Torto Fermoso, 
coro Parocliia de N. Senhora da Grata, e sen Vigario, e cem viziniios, 
corno pessoalmente examinei:.e tambem teve Beneliciado, mas nuidun- 
se para S. Fedro da Cidade. Nesle Lugar moravào os Pachecos, anliga, 
e nobre geragao; e em buma ponta diante do Lugar eslà bum morgailo 
de trinta moios de trigo juntos, e de renda cada anno, que be burnii 
parte da grande casa dos Bruns, e Frias, de que fallaremos eni sen lu- 
gar. Mais adiante se segue o Porto de Santa Iria, de que se servia de 
aotes a Villa da Kibeira Grande; e d'aqui para dentro da teira, pouco 
espago, està a Erraida de S. Salvador, (que era do celebre (idalgo, e ce- 
leberrimo compositor D. Francisco Manoel de Mello), e isto junto às ca- 
sasde Calharina Ferreira, mulber de Antao Rodriguez da Camera. Adian- 
te logo està a Ribeirinba, (pai-a distincgao da Ribeira, que dista ainda 
lium quarto de legoa para o Pocnte) de boas aguas, ebem avizinhada de 
tanta gente, que podera ser Freguezia à parte, e be so arrebalde da Ri- 
beira Grande, e aqui tinba a sua quinta Bui Gago da Camera, parente 
coohecido do Conde Capi tao da Uba. 

CAPITOLO VII 

Da famosa Villa da Ribeira Grande, e mais Lfiyares do Norie, 

3;J A nobre Villa cbamada Ribeira Grande tomou o nome de bum.i 
grande ribeira, que jà boje a corta pelo me io, sendo que ale o ajmo de 
1513 nào tinba para a parte do Poente mais que duas casas aleni da 
ribeira, onde boje be a maior |)arte da Villa: està situada quasi no muiv) 
(Ja banda do Norte) ila Uba, em buma grande babia ao pé de buma 
^rra; era.de anles Lugar da jurisdiccio de Villa Francai; porem em 4 
rteAgoslo de 1307. El-Rci D. Manoel, eslando em Abrantes, a fez Villa 
com huma legoa de termo ao rcdor. Nào tinba de anles mais que buma 
'^iFregiiezia: mas no anno do 1377 o Bispo de Angra t). Gaspar de 
Faiia aeou no ancbuldo d'osla Villa, cbamado Ribiira Secca, cieou se- 



1!)0 HlSTORIA INSULANA 

gunda Fregiiczìa d'està Villa com a invòcacao de S. PeJro. A Matriz pois 
se intitula, Nossa Senhora da Purificac5o, ou Nossa Senhora da Estrella, 
por (ìcar da parte da estrella do Norte; e n'esla Igreja gastou lambem 
muito bom fidalgo Fedro Rodrignez da Camera; e ainda està Matrix 
com Ihe separarem a nova Fregiiezia de S. Pedro, ainda flcon com mil 
e diizenlos e onze vizinhos, comò Jichei ter no anno de 4666, e ctiega 
a milito mais de mil e trezentos com a dita segunda Freguezia. 

40 Tem a dita Matriz Vigario, doiis Curas, e dez Beneficiados, e 
bum Thesoureiro, bum Organista, e Mestre de Capella, alerà de Mestre 
de Lalim qne na Villa ba com ordenado annua! de dois moios de trigo, 
e oito mil réis em dinbeiro. Da Dedicafìio, e sagracao d està Igreja Ira- 
ta Agiologio Lusitano tom 2, a ÌS de Margo: està situada em bum 
allo, e da sua enlrada se està vendo a maior parte da Villa, muitos cam- 
pos, vallos, montes e o vasto mar. Da riqneza de pecas, ornamentos, e 
accio d'està Igreja basta dizer que foi d'ella muitos annos sen douto, e 
santo Vigario, e Prcgador, o Veneravel Doutor Gaspar Fructuoso, cuja 
Vida aponlamos no liv. ii cap. 2. Dentro d està Matriz ba mnitas Ermi- 
ih:>, a sabcr, N. Senbora do Rosario, Santa Lnzia, Santo André, S. Se- 
iKistiào, N. Senbora da Conceifuo ; N. Sentjora da Consola^ao, (que h9 
<l().s nobros Colombreiros) N. Senbora da Charidade, que era da mul- 
to nobrc Julia Taveira; e N. Senbora de bum Francisco Tavares Ilomem. 
E ninila na segunda Freguezia da Ribeira Secca, (por so correr no in- 
vorno) qr.c passa de duzenlos e quarenla vizinbos, ainda haoutra Ermi- 
da (In irivocarao da .Madre de Deos. 

U De Religiosos lem està Villa bum bom Convento da Observan- 
cia de S Francisco, que he muito ohservanle, e exemplar; tem mais o 
Mosioiro de Jesus de Religiosas de Santa Clara, e da Regra, e obedien- 
cia de S. Francisco; fundou-o em suas proprias casas Pedro Rodrigues 
ih Camera com sua mulher D. Maria de Betencor no anno de 4545, e 
depois augmentou muilo seu filho Ilenrique de Betencor e Sa ; e ba 
nelle Noviciudo de dez Novigas ao mcnos, e muitas Religiosas de véo 
preto, e he muito necessario, e ainda ulil cada bum d'estes Convento^ 
em buma Villa tao grande. De vfòw ba mais n'esta Villa buma li^-ao; e 
cadeira de Tbeologia Moral, que desde anles do Advento até passar a 
Pasohoa, vai aquella Villa Icr bum Padre da Companbia de Jesus, do 
Collegio de Ponta Delgada, e assiste n'esla Villa o dito tempo cx)m ou- 
tro seu companbèiro Religioso, por obrigafao de bum legado que dei- 



LIV. V CAP. VII 191 

xon liura devoto Clerigo, e Reverendo Padre. E demais fazem os Padres 
lodo tempo que là eslào, prégj^óes, doulririas, e confissoes de saos; 
eenfemios, alem das resolucues, e continuos conselhos; e là vejao os 
zelosos de tao grande Villa, se llics convem mais, que ao menos tres 
Heligiosos da Com|)anljia residao là todo o anno, e em todo exercitem 
seus ministerìos, e leào tambem o Latim para mellior criagao da moci- 
(lade, eie. 

42 Ha mais n'osta Villa, e jnnto da prnfa d'ella, huma Igreja, de 
anles inlilulada do Espirito Santo, na qual com licenfa dei-Rei, e Dulia 
Apostolica se institulìio a Irmandade, e casa da Santa Misericordia, e seii 
Hosiritiil junlo para enfermos desempnrados, e o Orago de Uido he o de 
Santa Maria; tem Capellao mór, e trcs Capellaes mais, e doiis meios Ca- 
p.fcs; e jà ha cincoeiita-annos qne es«a Misericordia, e seu Hospital li- 
nlia vinte e sois moios de Irigo de renda cada anno, e dezaseis mil reis 
'•m dinlieiro, e que cada Irmào de entraila dava tres mil rois, e jà hoje 
ti.'rà multo maior renda, conforme a experiencia de muitos tesladores 
que se fiarào, e com rnzao, da pontualidade, e verdade com que nas Mi- 
sericordias se cumprem os lègados. 

43 govt*rno d'està Villa (desde que o he, ha duzentos e sete annos) 
foi sempre corno o das mais Villas, com seu Snnado de Camera, Jui2'\s Or» 
dinarios, Vercadores, e lodos os mais Ministros da politica; na milicia o 
>euCapitMO mór, e muitos Capitaes mais com multo numerosas Compa- 
nfe, assim os Capitaes, conio os Alferes erào os de melhor nohrrzn, 
Como (le facto forHo Rui Cago da Camera, Capitao de huma Comp.mhia, 
e seu primo Antonio de Sa por seu Alferes, até que Rui Cago foi eleito 
^^ipilìio mór, e dito Alferes em Capitao, conforme a regra do Ascenso 
qne se ohs**rva na milicia ; mas a nobreza maior que tem jà ha muitos 
annos osta Villa, he ser o titulo dos oxcellentes Condes de Ribeira Gran- 
de, que por isso a d(»vem eslimar mais; pois se sao de loda a Uba Ca- 
pilàes Generaes, so d'esla Villa sao Condes; e assim a devem defender, 
favo!v.cor, e augmentar, comò a cousa mais particularmente sua: e muito 
n^'ùs por nesta Villa estarem os moinhos mais cammuns de loda a liha, 
'Ip que Conde. por Capitao Donatario, tem trezentos e cincoenta moios 
rte renda cada anno, porque sao seis os moinhos, e cada bum tem duas 
Nns, e delles os melbores moom sete moios em vinte e qualro horas; 
®iK)de moleiros que levr^o, e Irazem o pilo, tem mais de cincoenta, e 



192 HISTOniA LNSULANA 

cada hum anda com duas besUs de carga, e levao a dez reìs por cada 
alqueire de carreto. 

4i Ile muilo Tarla esla Villa de pao, carne, e legumes; e sòde fa- 
vas cliega a rccollier quali'ocentos moios, e vende mais de duzenUis ; e 
de linlio recolhe mais de cince mil pedras, e porque passào de mìl oi 
teares de linlio n'esla Villa, vende ainda Ires mil pedras; mas corno do 
porto de Santa Iria so usa para hateis, por ser a costa brava, leni por 
sentenc^ Ileal, o servir-se do porto da Àlagoa, aonde manda, e carre^<i 
quanto vai para fora da tal Illia; d'onde vem que, ainda que em Uibcii'<i 
Grande ha multa nobreza, grandes morgados, e os nobres se tralao coiui: 
tai's; comtudo a gente de servigo ganlia (anto, que a respeito do meno:! 
(jue cstes gastào, suo mais ricos, do que aquelles que em seu tralo, ca- 
valhs, armas, e criados gastao ainda mais do que tem, especialmentfi 
Cepijis que a grande ribeira d'està Villa, com enclientes llie levou ruas 
ì:iteirasde sobrados, e ale as pontes de pedra, e aos nobres, e Vicoi 
loci;u refazrl-as. Finalmente lie esla Villa maisJiue farta deagua doce, 
(le seu nascimento perfeitìssima; mas até nesle nao he jà tao perfeìla, 
pelos novos incendios que ao perto se levantarào, corno em seu lugar 
veicinos. 

45 Continuando pois o Norie d'està Illia, està de Ribeira Grande 
para o Poente, dous tergos de legoa, o Lugar cbamado Uabo de Peixe, 
nunie (|ue se llie impoz, ou de o parecer assim na ponta que faz ao mar; 
ou (lonio diz Frucluoso liv. 4 cap. 47) por alli se acharhum tao de.^- 
conht'cido, e grande peixe, e com tal cauda, que os Mouros (que no 
detcubrimenlo da Illia vierào a cortar o niato della, e h>go se reparli- 
rào a sei'vir p^'la Ilha) pendurarào a dita cauda do peixe em lugar 
allo, e pjM'gunlados d'ondii vinhao , quando vinliào d'este Lugar, 
respundcrào: «De Itabo de Peixe.» Mas a Igntja deste Lugar he da ìn- 
vocagào do lioni Jesus, e tem Vigario, e de anles tinha Beneficiados, 
que se mudarào para Riboira Grande, e consta de duzenlos e vinte t: 
quatro vizinhos, e duas Ermidas mais, Imma de N. Senliora, (que Uu 
anles era a Parochia) e oulr-a de Sào Sebasliào no dm do Lugar para e 
Poenle; e lem e^le Lugar hinna fennosa bahia, da qual à Villa d'Alagoa, 
da parie do Sul, he o mais eslreilo da lllia, e o mais razo, com huuu 
so logoa de leira, e jà desde !libi;ira Grande até a lai bahia he hum cori- 
linuado areal, e falto de agua; e ainda o Lugar lem so pógos de agua 
salobra, mas he abundanlc de tudo o mais, e de nuiila, e excellunle ca- 



UV. V 6AP. VII 193 

(I. E lego hum terco de legoa adiante, està bum morrò, e huma muilo 
rendusa, e grande quinta, com sua Ermida de S. Pedro, tudo do antigo 
hcome Dias Uaposo, pai de Barao Jacome Raposo, e avo de Àyres Ja- 
come Raposo, que alli morarao, e Iie casa tao nobre, e poderosa, que 
be (las mais ricas desta liba, se para ella tornar seu senbor Ayres Ja- 
come Correa (diz o nosso Fructuoso.) 

46 Mais adianle de Rabo de Peixe est«i o Lugar dos Fenaes, (do 
maito feno que ba alli) cuja Igreja be N. Senbora da Luz, e tambem tem 
duzentos e vinte e quatro vizinbos, com seu Vigario, e Cura, e tinba do 
aiiles hum Beneficiado, que foi para SOo Pedro da Cidade; fem esle Lu- 
gar niuila abundanoia de carnes, de cagas, de perdizes, e muilo bom 
pescatlo, mas a agua lociì de salobra, e porque d'ahi adianle, meya le- 
goa, podem inimigos desembarcar; para os impedir, mandou o Capilào 
Kogo Lopes de Espinosa levanlar alli bum forte muro: oli se a este Ca- 
pilào, tao zeloso do bem communi, imitaSwsem outros, comò estaria està 
liha nào so bem povoada, mas segura I Aos Fenaes se segue hum bis- 
^ulal de malo, a que cbamào as Capellas, ou por alli as fazerem pelo 
Sào Joào, ou por cbamarem Capellas as vaccas malbadas que alli andao. 
Adianle mais sahe ao mar buma pequena ponta da terra, aonde està o 
L^ar de Santo Antonio, por d'este Santo ser a Parocbial Igreja ; e no 
firn do Lugar està a Ermida de N. Senbora do Rosario, que mandou fa- 
^ Dobre, e poderoso Alvaro Lopes da Costa, de quem foi aquella 
l^rra; e outra Ermida da Madre de Deos està no principio do Lugar, o 
qual disia legoa e meia dos Fenaes, e tem cento e cincoenta e dous vi- 
siiihos, com Vigario, e Cura, ou Beneficiado, e jà be do termo da Cida- 
de: e meia legoa mais adiante està outra Ermida de S. Barbara, e de 
JDuila romagem. 

47 Passada mais buina legoa, e sobre buma ponta grossa da babia 
^la lugar cbamado Bretanba, (ou por assim cbamarem os antigos u 
qualquer terra alla; ou por alli ter sua fazenda bum Bretao) e tem Pa- 
fochia de N. Senbora da Ajuda, com Vigario, e setenta e oito visinbos. 
I)ous tercos mais de legoa està o lugar dos Mosteiros em buma faja de 
l^rra lào boa que dà o melbor trigo da liba, de que se faz pao sem tu- 
fo, corno em algumas parles de Portugal: a Parocbia he de N. Senbora 
da ConceigHo, e tem selenla visinbos com seu Vigario; cbama-se Mostei- 
r*>s, pruque bum tiro de bésta ao mar tem diante de si quatro Ilbéos 
cum jin)[)orcao ciilrc si lai, que repiesentào quatro Mosteiros edificados 

vOL. I 13 



194 HISTOBIA INSULANA 

no mar: e tamberh porqoe alli pela costa, e ponta Rnyva, até os Escal- 
vados estao taes conravidades, que outros tantos Mosteìros representao; 
V. lem porto de batèìs, que dos muitos ventos se abrigào com os Ilheos: 
e logo, bum tiro de bèsla, fica a ponta Riiyva, por assim o parecer na 
cor; e ninis adiante logo a ponta dos Escalvados, que por està parte he 
firn da liha para o Poente. 

48 Por toda està Costa do Norte, e Sul da Uba de S. Miguel, ba 
mnitos, e mui seguros pesqueiros, e póstos de pescar, e o melhor pei- 
xe sempre he o que se toma da banda do Norte; e de ambas as partes 
o mnrisco he multo, e excellente, e o melbor be o que cbamào Cracas, 
V em Latim Umbelicvs marinus, por o parecerem; e no gosto, e sabor 
d'elle vencem às Ostras, ameijoas, e a lodo o outro raarisco. Os Caran- 
gnejos, e em particular os que cbamUo Mouriscos, sao os melbores que 
lin, por mais delicados, limpos, e creados n3o em lodo, mas em lizos, 
e lavados penedos, e por isso sao comò os Ginetes de Alrica mais ligei- 
los. Ila tambem muitos camaroes, lapas, buzios, eie, poréra as lagos- 
tns (e nào so n'esta, mas em todas as Ilhas dos Afores) sao as melbo- 
res, e maiores das que se acbào em qualquer outra parte. 

CAPITOLO Vili 

Do interior da Ilha, sevs fogos, e tremores. 

49 Irata do interior da liha de S. Miguel o Doutor Fructuoso, b*v. 
4 rap. 48, e diz que em seu comprimento be hum espinhaQo, lodo mon- 
tuoso, e descalvado jà, ou descubcrto; sendo que em seu descubrimeo- 
to eslava toda a Uba cuberla de espesso, e allo arvoredo. Nos lugare^ 
oonde nao chegou a pedra pomes, e cinxeiro, lem lM)ns pastos de boa, 
e varia lierva, e grande cfeaeào de gado, e de carne mais gostosa, co- 
rno he sempre a de pastos descuberlos ao SoL e as rezes lem mais for- 
ca, e sofrem mais trabalbo: e comò n'esta liha o pasto be multo bumi> 
do, e verde, he por isso desgostoso o canieiro, que he mais buinido; 9 
mui gostoso cabrilo, e cabra; e assim no acougue se corta chit>arro 
em AbriI, Maio, e Junho. Anligamenle aqui se matavrio chibarros wiia- 
dos, por ser melhor a carne; mas porque a pelle dos castrados he mais 
delgada, e de menos dura, e na liha de Si5o Miguel em os primeiros du- 
zentos annos nao bavia homem que nào trouxesse botas, anlcs queriàa 



LIV. V CAP. MU 195 

ttelhor pelle para calcar, que melhor carne para corner; e tanto era o 
(rado n*esta liha, que a corner, e calgar, ludo acudja: e corno jà ha mais 
de cincoenta annos se calca, e veste mais politicamente na tal liha, jà do 
botas se nao usa tanto, comò nem tambem do carneiro, e de o castrar, 
corno experìmentei ha cincoenta annos. 

hO Das Celebris Fumas da liha de Sào Miguel derao jà noticia al- 
pns Aallìores: Agiologio Lusitano tom. 2, a 4 1 de Abril: e dos Eremi- 
ta das ditas Fumas fallou Frei Diogo da Madre de Deos, e o Padre Mn- 
iM)ei da Consolacao; item o Padre Frei JoSo de Suo Dento, Eremita da 
Sma d'Ossa trat. do ultimo Vulcao de fogo, que rebentou na Ilha de Sào 
Miguel anno 1652, e o nosso Doutor Fructuoso liv. 4 cap. 49. Mas por- 
qùe no anno de 1664 para 65 vi, e observei com meus olhos na mos- 
ma Ilha as ditas Fumas, ha cincoenta annos, por isso nao so do que di- 
zem OS citados Authores, nem so do que là ouvi, mas do que com os 
olhos vi, "e examinei, recopilarei o principal que puder. 
, 51 Fornas chamao n'esta Ilha a huma vasta, e profunda concavi- 
dade, que no meio de seu comprimento faz a terra em figura ovada, com 
circDito de mais de duas legoas, e huma de comprimento; e moia legoa 
de largo vao, em cima ^ntrc as rochas, e outra quasi meia legoa de lar- 
gura em profundo valle, mas tao profondo, que a quem a ella chega, 
6 qaer olhar para o Ceo, d'este Ihe parece nao ve jà se nao huma c^r- 
i^ra de cavallo mui comprida, por terem de altura as rochas do huma. 
6 OQtra banda, mais de meia legoa a prumo; e o peior he, que por mais 
^ a arte abrìo caminlio pela parte do Oriente da banda do Sul, ainda 
1» tal, que descer por elle a cavallo, sera peccado mortai, pelos mor- 
bes precipicios a que evidentemente se exporà, comò dictarao jà lentos 
de Moral; e aìnda as bestas de carga nao vao com ella abaixo, mas S(3 
ll»e8 tira logo ao principio da descida, e as cargas se sobrepoem em ta- 
Iwas, e estas a cordas, per que os vao <5nviando até abaixo, mas gente 
loda a pé, e atraz de bestas, e cargas, comò vi descer a cavalleiros fa- 
>Mos; e ainda que tem aberto outro caminho da banda do Norte, a quo 
dtìmSo Pé de Porco, ainda este segnndo he mais ingreme, e peior que 
primeiro, e so para rusticos fragueiros. 

52 S3o comtudo estes dous caniinhos tao apraziveis, delicìosos, o 
KHitns em ludo o mais, que a vista he dos melhores, e mais altos ar- 
voredos, e cedros altissimos, habitado tudo de tao innnracraveis, e no- 
^ castas de aves, que nunca os olhos ficao satisfeitos de tal ver; e 



196 IirSTORIA INSULANA 

menos os ouvidos da celeste consonancia, e barmonia de humas suavi9- 
simas, e novas musicab; e até o mesmo olfaclo se sente arrebatado dot 
odoriferos balitos que sobem de bervas preciosissimas, e vistosissimas 
flores, que povoào este tracio onde eslào taes caminhos: mas outros que 
se quizerao buscar por oulras parles, se achou serena, e pararem na 
vordadeira represenlacao das furnas, e cavernas do profundo infernu; 
porque logo no descubrimento da Uba, e na priineira povoafao velba, 
reparando bum devoto Clerigo em bumas linguas de fogo, e Tumacns que 
sobre a terra via ao longe, animoso se atrevia a ir com bum companbei- 
ro examinar o que via; vio comò meia legoa de i*ocba precipilada ao furi- 
do, e tao medonba, e de malo tao envolto em fogo, e fumo, que nào 
descubrio por onde poder passar àvqnle, e se voltou para a sua anligt 
povoagao; e coniando a muilos o que cbegàra a ver, outros se resolve- 
rao com elle tornarem a examinar aquelie abismo, de que o dito (Meri^ 
go tinba sido o descubridor primeiro, o com efleilo, indo, e andaìMlo duas 
legoas pela parte do Oriente, derao em buma Encumeada de Garami- 
nbaes, pela muita que em toda ella bavia, e rompendo algum caminbo 
com grande traballìo, e perigo, descerao meia U^goa de rocba ingreme 
abaixo, e examinando o que poderào, se vollòrào por balizas, ou i>or 
mareos, que tinbao deixado para isso, e contarao o que se segue, e que 
virao. 

53 Virao pois, e acbarao em baixo bum valle de mais de meia Itv 
goa de comprido, de largo quasi outia meia, e ao [)é da descida buma 
ribeira de claras, e frescas aguas, e em pouca distancia bum ribeiro de 
claras, e frescas aguas, e em pouca dislancia bum ribeiro de agua que 
sendo fria, parecia verde, vermelha, dourada, e ferrugenta, segundo os 
diversos fundos, ou laslros que embaixo tinba; e logo mais adiante pa- 
ra Sul virao duas abertas furnas grandes, com estreila, mas andavel, 
pedreira viva entro si; das quaes furnas a primcira, que fica da parte do 
Occidente, be a mais alta, de agua clara. mas tao quenle, que nella met- 
tendo dentro leitoes, cabras, e porcos grandes, e tirando-os logo, sabem 
jà pellados todos, e em mais tempo, vem cozidos; e de peixe se tira si> 
a espinba; e se estuo ouvindo sempre lums eslrondos mui tremendo:*; 
no meio della a agua fervendo acima, dois covados de altura, de gros- 
suia duas pipas furiosas; a segunda fuma be conio a dita primeira, b 
nào menos eslrondosa, e medonba. Da agua, ou polme de arnbas ciinc 
bum canal até oulras duas furnas para a parlu do Norie, quo sào muìio 



L1V. V GAP Vili 197 

Bìiis largas, e de.agua mais medonha, e fervendo sempre, e mais turva. 
Mais adianle estava Ingo hum liorrendo, e grande oiho aberlo ha terra, 
qiie estava sempre fumegando fumo espesso; e a elle vizinha huma cal- 
«leira fervendo, por tanlos olhos, tanto, e l3o cinzenlo polme, e figuran- 
do em cima tantos circuios, coroas, e cabe^as calvas, que ihes chamao 
as Coroas dos Frades, 

51 Logo mais adiante estava liuma tao funda cova, on fuma, qne 
se julga ser a mais tremenda de todas, porque ainda acima de si lan- 
fava bum tao furioso borbulliao, e de polme cinzento, e escuro, que so- 
line a cova subia quatro covados, e em grossura de Ires pipas, e polo 
««Irondo se cliama a Fuma dos Ferreiros, e parece ser a cova, ou a for- 
ja do fabuloso Vulcano, Junto d'ella, lui cousa de sessenta annos, se abrio 
oulra cova menor cora Ires olUos do roasmo polme, cor e fervura. E lo- 
po em buma grula da parte do Oriente se ve Imm grande olho de agun, 
»|»e fene, e sobe ao ar bum covado, com ser da grossura de hum quar- 
to de tonel: e aqui se ajuntao as aguas das fumas antecedentes, e for- 
.ntìo Imma ribeira quente, que para o Sul se vai juntar com outra quen- 
tft. e outra fria, e enconli-ando-se mais com putras ribeiras frias, vao to- 
das, juntas em huma, sahir ao mar do Sul, com realidade, e nome ain- 
da de Uilieira quente, e cada vez mais quente. 

55 Entre as ditas furnas, e a dita grnta est<i hum outeiro de ter- 
J^i qne se póde chamar de furtacores, porque todas, e milito vivas, ns 
representa em diversas partes; e se diz ser todo de enxofre mistura<lo 
^oiQ branda, e molle pedra branca; e dalli huns levao multo enxofre, e 
^ scrvem d elle assim comò o achao; outros o apurao fervendo-o a fo- 
Vfìf e deitando-o derretido em seus canudos de cana, com que fica tao 
l^erfeito, e formoso corno o mais fino que de fora vem; e por mais que 
^ tire da terrena superfìcie d aquelle outeiro quente, logo no mesmo 
Ingar se torna a achar exhalada da terra, e vaporada. Junto da sobre- 
dita ribeira quente, da banda do Sul para a parte do Poente, està huma 
pequpna caldeira, e fen-endo de tal sorte, que passando por ella Imma 
<^pre corrente ribeira fria, fica sempre ainda fervendo, e tao quente 
^0 de antes: e daqui se tira muita pedra hume, e de bom rendi- 
inenlo. Das sobredilas furnas para Leste, com inclinafào para o Sul, es- 
tà fuma fervendo polme cinzento, e aqui cliamao o Tambor, porque pro- 
priamente arremcda era seu estrondo, comò oulras que parecem dis- 



198 IIISTORIÀ INSULANA 

parar artelharia, arcabuzaria outras, e outras tocao trombetas; tal he em 
baixo, a batalha de huns com outros melaes, e elementos oppostos. 

56 Ilum tiro de arcabuz das furnas para o Occidente està a terra 
aberta em varias bocas, e ao redor algumas covas, d'onde sahem tanto» 
fumos, e de taes fedores, que brutos que alii cheguem» e se detenhao, 
aves que por cima pouzem em alguma arvore, em breve espago cahem, 
e morrem; e so os caens, se Ihes cortao as oreliias, por eilas lahcSo a 
pe<^aha, que pelos narizes receberào; e desta qualidade ha alguns pe- 
quenos campos pela ribefra quente abaixo, e a tudo isto charnSo os fu- 
mos, e fedores; porém tem-se observado, que pessoa humana nao re* 
cebe mal algum de taes fedores, se em nenlium dtssies se detem mais 
de huma bora; e se por mais se detem, dao-ltie vomitos, desmaios e ac- 
cidentes; e tirando-a logo para fora, torna em si, e para tudo. Pouco es- 
pago adiante satie no baixo da rocha cbamada (Pé de Porco) huma grande 
ribeira de tao Clara, sàdia, e fresca agua, que dizem ser a melbor qiìe 
ila em toda a Uba, e comtudo vai fervendo pelos fundos- mineraes, que 
corre, e assim Ihe cbamào, Bibeira que ferve; mas n'esta bum pouco mais 
abaixo, se mette outra agua que sabe a ferro; e por isso quem quer a 
perfeita agua d'aquella ribeira, deve-a tornar mais acima, junto i roeba 
d onde salie, e aonde està feita a fabrica da pedra hume, que fez bum 
Joào de Torres, Mestre d'ella. 

57 Da Ribeira que serve, pouco espaco para o Poente, està ja hu- 
ma Ermida de N. Senhora da ConsoiagQo, e jà de muita romagem, fei- 
ta, e fabricada por bum nobre varào Balthezar de Brum da Silveira, que 
depois foi para Castella, e là morreo, e era tio Capitào mór Manoel de 
Brum e Frias, da Ribeira Grande, Padroeiro de dous Conventos de Frei- 
ras de Ponte Delgada. nobilissima pessoa, de quem a seu temi)o falla- 
remos; e perto desta Ermida nasce a Ribeira quente, e turva, a quem 
tempera logo outra mui fria, ficando a Ermida no meio ; e na ribeira 
comi)osla de ambas, se curao muitas pessoas de varias enfermidades, e 
muito mais de sarna, tomando banhos alli; e so Ihe fallao ofllcinas, e 
editicios, para podercm igualar-se às celebres Caldas da Rainha junto a 
Obidos, e vencerem as outras junto de Bouzella em Porlugal. 

58 Està mais tres tiros de bésla da sobredila Ermida, huma ala* 
goa, cujo circuito chega a huma legoa, e loda de agua docc, e comtuda 
por vezes se ve vazar, e encher corno o mar, e no verào seccar-sc parte 



LIV. V GAP. Vili 199 

Al dita alaffoa: e para a parie das fiirnas, por baixo da rocha, e encu- 
nmada (fraride. e por cima de hum ter<;o eslào uiiida gualro, ou cinai 
funias fervendo, e rinnegando, corno as sobreditas. Dizeiii qtie do loda a 
temi ao redor da alagoa, se pode fazer caparrosa se liouver Mestre qu(5 
a saiba fazer, corno jà se fez de alguina terra da (pie està entre as fur- 
nas. Finalmente dizem que este fatai valle, e tao profondo, e especiai- 
inente a [)arte aonde ticaruo tantas fiirnas, devia ser de anles alguma 
grande montanlia, a quem a furia do fogo, e mineraes sublerranei^s, reben* 
tarMlulevantaraoaosai*es, epartefoidar no mar, adonde se submergio, e 
prie formoli oiilros dos qiie se vem n'esta Uba. E conformando- me eu 
com este parecer, so accresòento, que ba quasi cincoenla annos, que 
liido que d ellas està dito, vi, observei, e apontei, conio em u idado 
entio mancebo, curioso, e desejoso de saber, e jà enlao coni nove an< 
DOS de Religioso, e Mestre jà de Hbetorica; e confesso que tndo o so- 
Im^ìIo he pura verdade, de que sou testimunba ocular, e ludo concoi- 
dactim qua o douto, e lidelissimo Fructuoso diz. Mas devc-se muito 
3dvmir, que, corno o tempo tuda muda, muilas cousiis |)oderào estar 
J3 boje mudadas, corno eu jà entào achei mudadas muilas; e com islo 
vaiQos à segtmda, e fresca parte d'esle fatai valle. 

59 Da grande legoa que vimos, e que occupa o fatai valle, em que 
ss referidas furnas, nem lodo elle he d ellas; mas quasi meia legoa, co- 
loe^ndo o dito valle do Norie d elle para o Sul; e mar, tanto lem de 
boni paraiso, quanto a oulra maior parte lem de medonho inferno; e as 
^ difliciliissimas descidas que aponlàmos, de cima para tal valle, coni 
'^tio as descrevemos a lodo o sentido deliciosas, porque ambas vem a 
dar em a primeìra quasi meia legoa, que se pode cliamar valle de de- 
teites. Parece-me pois este valle lodo, e tao profondi», bum muilo alto, 
^ grande Galeao, langado de Norie ao Sul, que com sua alta popa para 
* terra em o Norie, de ingreme rocha altissima, e com iguaes coslados 
^ semelhantes rochedos, desce algum tanto ao convez dilalado peb 
^'ente, e Poente, ale ir dar com a proa em o Sul, e vasto mar; mas 
^ tal dessemellian^a, que nem mastros, nem jà sobrado algum leni 
de bum a outro costado, porque corno se Ihe pegou o fogo no paiol da 
Polvora que tinha desde o convez inira a proa, voou lodo o alto iute- 
^. Beando so a forte, comprida, e grossa quiiha com as suas fortissi- 
^ paredes dos coslados: porém comò o incendio d este fatai Galcào 
^ levaulou da polvora, e mineraes que eslavào no paloi debaixu da sua 



200 m-^ToniA rcsrr.AXA 

]ìroa, e convez. por isso nrini ficoii aiiirta a liorronda fonte rio fopo com 
1:intos regatos delle, qnantas fnrnas vinios jà; e o liigar onde a casa do 
l'irne, e a Camera Real, e o Castello de popa tinliao estado. fìcou tan- 
to sem fogo finalmenle, qne com o tempo se fez hiim paraiso, (corno 
j^t^ora veremosì mas paraiso da terra, e d'este mondo, d'onde sem jà 
siibida, mas com descida semj)re, se vai facilimamente àquellas furnas 
do inferno. 

60 He pois està primeira parte de tao profimdo valle, he hnma 
(piasi meia legoa de terrai, e corno posta em quadro, bom quasi a mesma 
l 'goa de distancia entro os lados. e perto de dnas legoas em roda; c/)rta 
#'sle quadro hum amenissimo rio do frosqnissima agua doce, e salutifera, 
Ji'jra oulras muilas font<^s, e regatos. que fazeiH o ar mui sadio, e de 
Jiella virafào: tem muitas arvore^s fructiferas, muilos prados deleitosos, 
jnuila variedade de lienas, sem alguma ser nociva, e lantas, e tao di- 
>ersas flores, que sào continua recreavào da vista: as aves sao innume- 
raveis; e muitas nao conhecidas, e oiitras de inaudita, e grata musica; 
V animai nenhum que possa fazer mal: seanis, e hortas commummente 
?s nao tem, por nao ter quem as culiive, poìsnemmoradoresci)ntinuos. 
uom Freguezia alguma ha lA em baixo, pclas descidàs diflìceis, e subi- 
das mais diflìcultosas: e comtudo ainda algimia gente nobre tem là seus 
pastores, ou quinteiros, e alguma habiwfào, aonde possao estar quando 
la vào. 

61 principal qne rende està bella parte de tal valle, he mei, e 
cera, de sorte que até os Padres da Companhia de Jesus lem atli col- 
yneal tao grande, que cada anno Ihes dà hum quarto, ou meia pipa de 
jncl, e alguns annos pipa inleira, e mais de pipa, e a cera correspon- 
dente; e assim cera, corno o mei. excede na perfeic-ào ao do qualquer 
oiitra parte, por tambem as hervas, as flores, e as aguas excedeivm 
niuìto a todas as desia Illia; e so à fiibrica d>.ste mei, e cera, he que 
vai abaixo gente de traballio; e em arcas, e quartolas, poslas sobre gran- 
des, e forles taboes, que por cordas vao arrastando homens adiante, he 
que tudo sobredito sobe acima do rochedo do Oriente, pelo caminho 
quo acima descrevemos: que se houvera bom caminho de sahir de tal 
l>i ofundidade a t^o elevada altura, cultivar-se-hia o fertilissimo valle: e 
s<.Mis frutos, e até as excellentes, e preciosas madeiras que ha n'elle, se 
aprov(Mlarino: e concorreiiào moradores, e seria habilarlio m\\\U) appe- 
teoida; e là lem os Padres nao so casa sulTicieute, mas Ermida para se 



L!V. V GAP. IX 201 

im Misj^n p/aqiielles dias, em que là vao, e mandao fabricar, e reco- 
\\n sobrodilo. 

Ci Voja-se apnra là, se rom razno chamamos Paraiso a està pri- 
«ipira parie d'oste valle, e Inrorno à segunda: e qnào facilmente, do que 
osie mimdo cliaina Paiaiso, se vai sem snbida, mas com descida sem- 
pre an hif»Tno: e quanto he difficnlloso dos mais aitos postos deste miin- 
«lorliPjjar ao Paraiso, ainda da terra, quanto mais ao do Geo. r.onside- 
r.'-s» hem este conflado de Inferno, e Paraiso: està recopiiacao dos qua- 
tro Novissimos do honiem, juntos lodos: pois so meditando n'esla vjda, 
OS tres primeiros de Morte, Juizo e Inferno, cheparemos ao quarto do 
THeste Paraiso. E assim apontada tao grande meditafào, vamos conti- 
nuando a H istoria. 

CAPITULO IX 

De oulras Furnas, Fotjns, e Tremores d'està Ilha^ e em especial 
de Villa Franca, 

fi3 Mela logoa além da grande Villa de Ribeira Grande, e rauito 
>ntr»s de se chegar às Furnas acima relatadas, està buma pequena con- 
fflvidade de so sers alqueires de terra, ou de semeadura, (quenas Ilhas 
h** mesmoì d onde jà se tirou muita pedra bume, e està cercada de 
li'imas que!iradas, on rochas mais pequenas, e mais facilmente permea- 
V''is \\eh parte do Poente, e porrjue tem taml)em dentro algumas cai- 
<l'iras, e furnas de fogo, mas muito menos em numero das outras jà 
<l'*sfri[)tas. por isso Fructuoso liv. 4, cap. 50. a estas de que tratanios, 
ri«m.i as Furnas pequenas, e às outras as Furnas grandes: senao ((ui- 
''Tmos chamar-lhes a estas o Purgatorio, e às outras o Inferno. A es- 
I'» vi en fambem. ba quasi cincoenta annos, e parece que algum tanto 
jà miidadas do que scriao de antes; do que vi pois, e apontei, e do quo 
fi. dÌRo seguirne. 

61 Entrando pois n'eslas furnas pela parte do Poente, està logo 
l"ima alagoa, ou fuma maior que lodas as acima rcferidas, mas de cin- 
gilo potme. e que sempre està fervendo: e logo para a parte do Orien- 
K dez ou doze palmos. corre bum grande ribeiro de agua darà, e fria, 
''WS que correndo ferve, e fervendo corre: seguem-se algumascaldeiras, que 
N de largo quinze, e vinte palmos cada buma, e de comprido trinta: 
Jiwis para o Oriente se estào vendo quatro olheiros peijnenos, dos quaes 



202 HISTORIA INSL'LANA 

sào Ires de ngua darà, e huin de aRiia cinzenla, e medonlia: e om pou- 
ca dislancia outros de agua clara« doce, e fria. e p(»r todo esle espaco 
sahein oiitros muitos olhos de furioso fiimo. queiitura, e cheìro tao mào, 
que se por cima passao algiinrias aves, cahem al):^ìxo e inorrein. Ksla 
terra loda he de pedra hume. corno tal cin/enta, o clieiro he de enxo- 
fre, e logo abaixo da superlicie de pedra hnme, he tudu [)edrcira dura; e 
mais acima ria fralda jà da serra, eslào nulras caldeirasL perpetua, e me- 
doiiliameiite fumegando. Da grande, chamada Sete Cidades. de que aqni 
torna a fallar Fructuoso, ja failamos, e nein n'eilas ja se ve fogo algum, 
nem sinaes delle. 

63 fatai tremor de terra que sul)verteo Villa Francai, conia Fru- 
ctuoso liv. 4, cap. 69, 70, e 71, a suhslancia pois he. Sendo Bui Gon- 
ralves da Camera, o quinto Donatario da lliia <le Sao Miguel, e cori-en- 
do anno de 15i2, eni o mez de Outnbro tinha vindo à dit^ llha. pcu* 
oulra secreta causa, Frei Antonio de Toledo, irniào do Arcebispo da Uì\ 
Cidade, e parente bein chrgado do duque de Alva, e Religioso da Sa- 
gra<la Ordem de Sào Doinirigos, e fazendo ollicio de Prègador Aposto- 
lico, exhortava à penilencia de peccados, afììrniando que por elles esta- 
va para vir àquella llha hum grande castigo, e indo de hmta Dclgada 
aonde pregava, a pregar o mesino em Villa Franca, chegado o dia 21 
do dito mez, foi jà Iarde à |)orla do Ouvidor Kcclesiaslico, dizendo que- 
rer rallarihe; e mandando-lhe dizer o Ouvidor (|ue ao outro dia Ihe fal- 
larla, respondeo o Frei Ad'onso, (pie pjKliTJa ser (|ue ao outro ilia jà elle 
Ouvidor nào polleria fallar-llie; e retirou-se da Villa o dito iVégador: e 
jà alguns dias anies pelas mas andavfio os meninos ijronosticainlo o cas- 
tigo, e claramenle no dia vespera d'elle diziào os taes innocentes: «An»a- 
iihà havemos mcurer todos, e esla Villa se liadealagar » U os inaicMts 
nà) cnMido ainda, dizìào barbaramente: «Dizioni (pict nos havemos ile ahi- 
gar està n«)ite, [Jois c^^emos bcm, e UKureremos farl(»s.» Algims porèiu 
(ou) |)rudenle, e Chrislào temor se retirarào da Villa, quan<lo outros 
bem acaso vierào entào de novo |)ara ella. Capitào Donalaric», tpie na 
Villa eslava, se sahio para hnina quinta tivs h^goas, e so por cium»* 
d elle, o foi a muiher seguìmlo. e hum (iliio ainda pequeno, chamado 
iManoel da Camera, por nào quererem loval-o, obrigado das saudades da 
mài, a foi seguindo a pé, até (jue os pais o mamlarào tornar a cavallo 
por hum Kscudeiro (pie os acompanliava. 

60 Chegada pois a uoile dos 21 paia os 2i de Oalubio de 1322, 



UVRO V CAPr IX 20$ 

no quarto dia da lua, em huma quarta feira, diias horas antes do ama- 
iihecer, estando o Ceo ainda estrellado, e serenissimo o tt^inpo, sem ha* 
ver bafo de vento, qne entào era de lavante, e sem preceder outro si- 
ual da terra, ou do Ceo, eis que de repente dà hum tremor na terra tao 
espatUoso, e impetuoso, que a- hum grande monte, e serra, que pela 
parte do Norte estava acima da Villa, sohre ella o langou coni tao hor- 
rendos penedos, tanta terra, e tanto lodo, que em espago de hum Cre- 
do Gcoii submergi^a a Villa, e nem altos edificios, nem sumptuosos Tem- 
plos, nem d^onde tinhao estado, se vio.jà pela manha, e pelos i)oucos 
que se tinhào retirado, e escapado. Ào primeiro terremoto que isto fez, 
OQ desfez, se seguio logo outro pelo dito espa^o, ainda que mais mode- 
rado, e a boras de Terga outro multo espantoso, e o quarto terremoto 
ao meio dia, e é vespera o qi^o. 

67 Da rìbeira para a parte do Oriente, onde tinha estado a nobre 
Villa, tudo com ella jazia alta, e profundamente enlerrado, e razo por 
cima tudo: para a parte do Foente tinha a Villa bum perjueno arrahalde 
com algumas casas, a que o terreno diluvio nao chegou, por se ter a 
elle recolhido o seu Nué Frei Affonso de Toledo, que n'esta occasiào, 
corno de antes, andava pregando; e clamando, Penitencia, Fenitencia, a 
set«nla pessoas, que com elle oscaparào, e andavào em prantodesfeito, 
e desfeitas. primeiro ediQcio que tìcour totalmente enterrado, foi o 
Convento de Sào Francisco, por ficar mais perto da serra que correo, e 
delle so tres Frades escaparào, que, sem saberem conu), a terra impe- 
tuosa OS levou, e foi pdr salvos em huma parte abaixo da Villa, aonde 
agora està o Convento das Freiras; corno tambem huma Negra sobre a 
ttm foi levada ao mar, e langada em hum baleU que là andava des- 
aouirrado, e de dia, e de terra fui visto com a Negra dentro, e buscado 
6 trazido para terra. Tambem escaparào os prezos da cadea, por se llies 
^rem as portas com o primeiro tremor, e estarem acordados: e ale 
>o fflesmo mar queria enterrar o diluvio da terra: mas ao longo dello 
Ui6 escaparào duas casas, humas de hum Bui Vaz, de dois forles so- 
^os; outras de hum Joào de Outeiro, honiem dos mais ricos d esla 
lilla, e sogro de D. Gilianes da Costa. lugar do monte, ou serra que 
cuH'eo sobre a Villa, de quo distava hum quarto de legoa, tìcou todo 
tólu poline de sabao, e pedra pomes, e o maior penedo com innunie- 
ravfis oulros, corno furiosas balas, passarao arrazando ludo, o so para- 



2f)l nisToniA insulana 

no no mnr. som fnzer damno algiim a quatro, ou cince navios, qiie no 
jiorU) oslavào, e a pento em terra. 

68 A Imma innnndagao de terra, qne vio ver correndo Imma mu- 
liier, fiiRìa està, e niio podendo jà escapar-Ihe, se pt*gon a urna iahoa, 
<? assini lalioji, conio mullier levun a iniindavào da terra ao mar, e d'este 
\no dar à costa em hum calhao, e d'elle depois tirada se salvou a lai 
mulher. Da carna em qne eslavào dons casadog. Negro, e Negra, se le- 
vnnlou Negro fugindo ao diinvio, e foi colhido, e morto: e a Negra. 
sinìì acordar, na cama Toi levada pelos ares. e posta si l)orda do mar, 
dcoi'dou entiìo, e siinlindo agna, e lodo, cnidon logo que chovia, mas 
vendo mais o que era, e aonde eslava, airaslando-se por cima do lodo 
J4ara a terra dura se salvou. Onlra Negra, qnerendo escapar, se fìegoii 
a Imma figueira, porém està com a Ne(|^. foi arrebalado indo, dar no 
mar, e indo gente de terra a bnscal-a. enlao so largou a figueira; e em 
terra conlou qne no mar vira a seu proprio senhor, e a dous Frades, 
dndarem envollos em l(xlo, lodando coni mar, e terra. Hum Comes 
Fernandes, homem nobre, oilo dias antes d'este fatai terremoto se linba 
cmbarciido do porto da dita Villa Franca para a liba da Madeira, e no 
mcsmo tempo, em que succedeo este terremoto na Uba de Sao Miguel, 
^ìnfirao os naveganles tremer o mar, e o navio em que hiao; e repa- 
nudo no tempo, sem poderem julgar qne fosse aquillo; em chegando A 
Madeira, onvirào dizei <]ue era perdida a Uba de S9o Miguel; erindo-se 
d'elles de tal dito, cbegou a noiicia do successo em poucos dias, e en- 
tenderào que a ma nova nDo sómente be quasi sempre certa, mas de al- 
gnm modo be adivinbada sempre. 

69 Acabado em Villa Franca o lamentavei terremoto, e diluvio, aco- 
dio a gente qne estava em montes, e quintas, e o Capitao Donatario, 
(que avisado do successo veio logo) e Iqdos cbegando a vista do posto 
onde a Villa estiverà, nem signal d'ella ja viào, e menos cada hum de 
suas proprias casas, familias, ,e riquczas; e tanto que. de pasmados* e 
attonitos, tornarao em si. a brados de Frei AfTonso de Toledo, buns to- 
marào logo por Parodila sua a Krmida de Santa Calbarina, quo no ar- 
rabalde esciipàra; outros logo comecarao a edificar Imma Ermida à Se- 
nbora do Bosario, mais com perpetuns correntes de lagrimas de seus 
ollios, que com oulra alguma agua, e a està Ermida tiverào por Paro- 
dila 'sua alguns dias; e os mais com o Capitùo, antes de procurarem des- 



LIV. V CAP. IX 205 

enterrar cada hum suas euterradas casas, forao por cima de ludo i\& 
posto correspondenle à siibterrada Maliiz do Arclianjo Sào Miguel, e 
descubrindo-se einfim, e achando-a deiTubada coni alguina gente denti o 
morta, e acudindo ao Sacrario, o acharào ainda cerrado, e o cofre tani- 
l)ein, mas a fechadura d'este aberla, e della hnnia pequena lasquinlia 
fora, e no cofre nenliuma fórma. 

70 Sentidissiinos lodos ajuisarào, que Anjos do Geo tiniìào liradiì 
ao Santissimo, e levado para o outro Sacrario mais vizinbo, que era o 
de Agua de Pào: e este juizo confirmào com o dito de bum Fernào Va- 
utiegas Caslelhano, e outras pessoas do intacto arrabalde, que ailìrma- 
rio terem visto levanlar-se do lugar da Malriz huma erande claridade, e 
que lego tambem ajuizarào, ser aquella claridade Imma procissuo de An- 
jos, que levavào o Santissimo para algum outro Sacrario; e accrescen- 
lào, que huma Constanca Viccnle, vtuva de Joào Pires, ouvira no mes- 
mo tempo procissào taf, que Ibe pareceo levarem o Senhor a algum en- 
ftrao com campainha, etc. E estes ditos refere i^rucluoso, sem dizer 
niais sobre elles. Porém comò a dila Igreja era grande, e nova, porisso 
OS mais \izinhos que poderao, se recolberào a ella; pùde serque algum 
Ikmo Christào (fosso ou nào fosse Sacerdote) vendo comecar a Igreja, a 
^'Mr, e a cabir, acodisse ao Sacrario, e rompendo com a pressa o co- 
fre, da que quebrou a lasca, commungasse o Sacramento em tal caso, e 
finalmente ahi morresse comò os mais: pois os Anjos uHo era necessa- 
rio quebrar lasca do cofre para tirarem delle ao Santissimo, nem mais 
difficii Ihes era levar o Sacramento a mais distante lugar, que ao mais 
viziriho, e menos a Igreja de Agua de Pào, que tambem cahio com o 
niesmo terremoto; e os ditos daquellas {)essoas sào considera^oes pias, 
se he qnè eslào enlOo acordadas, e em vigia. 

71 Logo come(?ou a cava por muilo em cima das casas d'aquella 
grande Villa, e nas nobres casas do Capitao Donatario nenbuma pessoa 
viva se acbou, tendo-Ibe licado n'ellas varios (llbos, huma irmà, e muiia 
uulra familia; porém em algumas outras casas se acbou gente alguma 
ainda viva. NdS casas de bum Genovez Agostinbo lmi)erial, furOo aclia- 
dos, elle, e sua mulher, Aldonsa Jacome, em huma sala ambos vivos, e 
era oulras suas cameras a mais gente de casa, morta loda. Hum moro 
chamado Adam, acliarào debaixo de huma casa, e viveo ainda muilos 
annos, e servindo sempre a Misericordia; corno tambem se acbou ainiia 
vÌNO buia Joac Curdeiro, que depoia fui muilos «uuius Bencliciadu ^a 



200 WISTORIA INSriANA 

In^rejn de S. Sehastiao de Ponta Delgada. E dous dias depoìs do tal di- 
luvio, indo lìum fìlho pelo alto, em cujo fundo fìcava a casa de seu pai* 
por esle clainou tao altamente, que ouvio o pai, e este clamou tanto 
polo fillio, qne cax'atìdo-se o tirarao, e viveo ainda muitos annos. E sem 
sor necessario cavar, foi achada urna menina de tres annos em cima de 
linm monte de lodo, sentada sobre liiimas taboas, e brincando com pa- 
Ihiniias. 

72 Nove dias jà depois d'està fatai subversao, indo huma procissao 
jK)r cima d'onde estiverà a subvertida Villa, ouvirao-se huns gritos, e 
<lamores do fundo da terra, e cavando-se alli logo a toda a pressa, de- 
rào. ja depois de grande cava, com o sobrado de huma lagea, e abrin- 
flo-o salìirào tres homens, naturaes de Guimaraes, Marcos Pires, e Ni- 
f olao Pìrcs, irmaos, e hnm qne de antes era jà morador alli; vinhao jà 
(jiiasi mìrrhados, sem figura de homens. e postos de joelhos, e pasma- 
<los, com as maos levantadas ao Ceo nao cessavao de dar grac^s a Deos; 
I». olliando para o ('.apitao Donatario, a quem por vezes chamavao: f Se- 
iihor, Senlu)r», Ihcs disse o Capitilo: «Nao me chameis senhor, qne Sfi- 
nhor so Deos o Iie.» Perguntados logo, comò tanto ainda viverao debai- 
M) da terra, e qne pensamentas tinhao, responderao, que humas vezes 
cuidavao qne o mondo se acabara, oulras qué aquillo fora desastre, qne 
so sobixì ellos viera; e que em (ìm de pasmados nào sabiao qua cuidas- 
$iem ; e que nos nove dias comiao so de bum pouco de biscouto, que 
acaso tìDliHo là, e bebiào de lìum vinho, que estava tornado jà vinagre, 
o [)nra molar a sede se valiào de algumas gottas de agua, que cahiao da 
lena supcrior que os subterrara ; mas que o seu maìor tormento fora 
iiinn homem, que ao terceiro dia, de pasmado Ibes morreo, e de seia 
dias molto o linhao entre si. 

73 Ouvindo isto notarao as presentes, e repararao que bum d'estes 
bomens trazia bum saquinho ainda comsigo, e n'elle trinta mii reis, e 
que todos tres diziao que nunca mais tornariao a tal terra, e assim logo 
se embarcarào para Portugal, mas ao depois se reparou. que em o anno 
seguinle forar) esles os primeiros que de Portugal voltarao àquella mes- 
ma liba, e ao mesmo porto. A que nao obrigara a ambi^ao ! E a quan* 
tos nem abre os olbos seu castigo ! Huma Felippa Goncalves foi tirada 
de debaixo de huma casa, viva ainda, porém tao pasmada, e attonita* 
que fallando de antes» e beni, vivendo depois cincoenta annos, nunca 



L1V. V GAP. VX 207 

mnis fnlloii, e tendo oind» perreito o jnizo, respondia a proposito estas 
palavras somcnte: «Sim, Nao», sem poder pronunciar outra palavra. 

74 Sobre o luf^ar onde a Villa estiverà, durou a cava hum anno, e 
a ella levavào caes do c^i^n, e fila, sem terem comido, para apontarcnì 
aonde llie desse o faro de algnma carne Inimana, para aili cavarem os 
homens, e christamenle enterrarem os mortos: e feito assim, acharao 
muitos mortos, quando ja snhiào pelas portas, a muitos mais nas suas 
ramas, e a oiHros indo jil para a sua Matriz de S. Miguel o Anjo, e nesta 
a muitos outros, e homens houve a quem acharào era o meio da porta- 
ila da sua casa, e posto j;l a cavallo cora huma lanca na mao, e esporas 
i':n OS pés, sem poder malar a morte, que primeiro o matou assim a 
elle, conservando-lhc a postura a inundafào da terra que o cercou. E 
Toì multa a gerite que se achou em vàos ainda livres de suas casas, mas 
inorios de pasmo, e à fomc, e algnns ainda expirando. Os mortos se 
onterravao piamente no destricto onde de antes estiverà a Matriz da 
Villa, e seus adros, e comò a Villa Franca linha vindo entao multa gente 
<le fora com navios, e multa da mesma liha, e ainda na mesma noite« a 
iiftgoriar, finalmente se achou que a gente que faltava, passava de ciuco 
wil pessoas. maiores, e menores, e muitos mais seriìlo, se muitns nào 
tivessem sahìdo às colli(3Ìtas de suas quintns, e a negocios de outros lu- 
pares da liha: e tambem scrino menos os que perigassem, se o tremor, 
e diluvio. acontecesse de dia, e nao pouco depois da mela noite. 

75 que tamhem de riquezas se perdeo, foi muìto, de que algu- 
mas se acharao ainda & borda do mar, e muitas na fatai cava, mas por 
Riais qne se elegeo depositario do dinheiro que se achava, ainda muitns 
*l«e de antes erào pohres, sahirJio d'aqui ricos, outros com muitas p^o- 
jwdades que herdarào, mas-dos mais fai a perda mui goral, e muito 
pranele. Porém a maior que faltou na Villa, foi huma Imagem da Virgem 
SenlM)ra nossa, de vulto, que parecia de ciuco annos, e indo sobre o 
fliliivio de teira ao mar, e passado quasi hum anno, appareceo em bu- 
ina praia de area branca, da liha do Tenerife, (huma das Canarias) da 
P^ do Sul, e achando-a huns pcscadores, que do Norte da dita liba 
tiiihao vindo alli pescar, e levando-a comsigo para o seu Norte a Guarà- 
duco, onde hi3o vender o peixe, e erahi querendo ir a Oroliva, Fregne- 
zin dos ditos pescadores, e n'clla collocar a sua achada Imagem, nimca 
(por mais que remavào) poderao sahir com a Imagem da Freguezia de 
Guaraciiico: e dando conta de tudo ao Parocho, e ao povo, Ibes entro- 



208 HISTOÌRIA INSCLAIVA 

guiTio a Imngcm, quc com solemrie procissao foi posta no aliar mór da 
Fi ri^uezia, e Igreja de Sanla Anna ; e succedendo depois ir li genie da 
dila Villa Franca, por sinaes certos que linhao, contiecerào a Imageiu, 
puhlìcarào mais o caso, e se augmentou muilo a dcvociio desta SiMiIiora. 
78 K porque a primeira cousa que se fez, logo era entrando o dia 
dcpuis da tremenda noile do terremoto, e diluvio, foi a nova Ermida da 
Vii gein Senhora do Rosario, (comò jà dissemosj todos lizerao enlào volo 
à Senhora, de em todas as quartas feiras de noite, ou de madrugadd, 
ii'eri) àquella Senhora em procissao, e ac^ào de gragas; o que prudenie- 
inenle se commutou em irem huma vez todos os annos com procissio 
s.'>ieniiie, e Missa. que tudo sabendo El-Uei de Porlugal, concedeo topi 
taiilus i)rivilegios, favores, e exenip^Ges aos moi-adores que fìcaiào da 
dila Villa Franca, e a tornassem a reedilic^r seni se irem a oulias lerras, 
e aiuda aos que de novo fossem viver n'ella, que dentro de poucos au- 
nos, e no lugar do arrabalde que escapou, da outra banda da ribena 
paia Poente, se ievanlou a mesma, e tanto outra Villa Frane;», (jue a 
exceileo, e excede nos edificios, commercio, povo, riqueza, e nobreza, 
que concorreo para ella, com que està segunda Villa Franca vence muilu 
à primeira, e logra privilegios, e fóros muilo maiores, e maior religiào 
aiijda, e piedade. 

CAWTULO X 

Das oittras partes a que chegon o Terremoto de Villa Franca. 

77 Huma legoa de Villa Franca para o Nascente se Ievanlou bum 
gj-ande monlào de terra tao furioso, que levou diante (juanto aciiava, 
ale de gado, e casaes inleiros, e duns mulheres levou ao mar, e malnu 
trinla pessoas. Mais adiante onde chamào o Lonral, se Ievanlou oulia 
terra, e levou hmn casal com a gente delle. Na Ribeira Clui, entreViiia 
Franca, e Agua de Pào, cahio hum casal, e morrerào quatro pessoas, 
mesmo suca^deo em Ponla Delgada, (que ainJa enlào era Villa) e o 
mesmo na d'Alagoa. Dentro em Ribeira Grande nada houve, mas pi.r 
fora cahii'ào algumas casas. Em a Villa de Nordesle cahirào a Igreja M;:- 
triz de S. Joào, e muilas casas, ainda casas de campo, e de Aldeas, i> 
da parie do Sul, e do Nordesle, correo muila terra, e com tal furia» 
que pareciao balas de bombardes. 

16 No lonuo dos Fonaes da Maya, e no da mesma Maya, correrào 



LIV. V CAP. X 209 

as coroas de quatro montes, ou picos, com altura de huma lanca de ter- 
ra, e com tal impeto, que nao so muitas terras até ao mar, mas levarao 
curraes iuteiros de gados, e os moinhos da xUaya, e algumas casas com 
quaranta pessoas, e as rochas que estavao juntas ao mar, quebrarao ; o 
nao so OS picos ficarào tao fatalmente tosquìados; e (comò se diz) des- 
calvados, mas os campos por onde bla a tosquiada, e furiosa terra, fi- 
carào sem mato algum, tendo-o de antes, e sem madeira da multa qut^ 
de antes tinbào, e por muilo tempo infructiferos, posto que o tornarlo 
)à a ser; e comtudo, por mais fondo que se lavre terra, a madeira quo 
de antes estava debaixo, ainda nao apparece. Na mesma Maya fìcou de- 
bailo da terra, em bum v^o, buma mài com bum seu fiiho Frade, e ji 
de Missa; este a confessou, e animou a sodrer com pacìencia o castigo 
da mao de Deos, e d'abi a cinco dias forao acbados ambos, e tirados 
vivos, e vivi'nio ainda muiios annos. 

79 Em algumas partes, comò nas descriptas Furnas, arrebentou a 
terra, e de tal profundidade, que sobre si levou todas as arvores, sen- 
do muitas as que tinba, e as foi collocar muito longe; n'ellas se vio ir 
dìante buma Faia, comò General d'aquelle exercito de arvores, que pelo 
ar se via, e vendo-se depois o lugar onde pouzarao, acbou-se estarem as 
arvores na mesma ordem, em que estavào de antes. E comò nenbuma 
terra salilo do centro d'ella, pois nenbum sinal, ou buraco aberto deixou 
(1 isso; mas so se sacudio aquella codea de terra, (mais ou menos alla) 
qoe sobre as fundamentaes pedreiras dos valles, e montes assentava, 
d'aqui se infere que os dilos terremotos, nao tanto forSo de fogo sub- 
tórraneo, (que nao appareceo em Villa Franca, nem em outras muitas 
parles) mas foi a conversao, que em o mais baixo da terra se fez da de- 
loasiada bumidade em ar, e vento mais demasiado, que nao acbando 
por onde sabir ao seu centro, que be sobre a terra, entao furiosamente 
^tirou com a que em cima Ibe impedia a sabida, e com os calbéos mais 
sollos, e amoviveis; e entre a tal terra postos, e por isso impelilo tudo 
nSo tanto para o lugar superior acima, (que este vinb^o buscar o ar, o 
^eoto impellentes) quanto para os lados, ou ilbargas, que Ibe deixasseui 
Hvre a furiosa sabida para onde assim sabiao. Sobre isto se póde ver a 
FilosoGa que imprimimos jà, nos Fisicos naturaes, na materia de ven- 
tos, terremotos, etc. 

80 Caso be mais ponderavel, que estando na sobredita Maia os fi- 
ibos de bum Luis Fernandez da Costa, junto da ribeira cbamada do 

VOL. I 14 



210 mSTORIA INSULANA 

Preto, e honi Alfaiate com elles, chamado o Rebello, em huma casa ter- 
reira debaixo de outra sobradada, e estando jà dormindo alta noite, ca- 
blo com diluvio repentino a Torre sobre o sobrado, em o qual estava 
bum d^aquelles filhos, chamado Belcbior da Costa, moco de dezoito an- 
nos, e estando huma Imagem da Sacratissima Virgem posta em huma 
parede, de repente se achou fora da cama o mancebo, posta em a rua, 
e com a dita Imagem da Senhora em suas maos, e so com huma leve 
ferida na magS do rosto» e os que estavSo debaixo do sobrado, todos 
tambem escaparao sem ferida; e o Alfaiate Rebello tanto medo, e*pas- 
mo concebeo, que sem comer nem beber, ficou sempre a tremer por 
muìtos dias, até que assim expirou. Oh que devota medìtac3o d'este, e 
semelbantes casos jà acima referidos podemos todos tomar, para nos 
valcrmos sempre do matemal patrocinio ; com que a Mai de misericor- 
dia, a purissima Senhora M3i de Deos, sempre aoode a seus devotos, e 
se poem nas m3os d'aquelles, que se entregao nas suas m3os, e se dei- 
t3o a seus sagrados pés. 

81 Deixo outros particulares, e identicos prodigios que n'esta Ilha 
entSo acontecerlio, e muito mais o ditatado Romance, qae é dita fatai 
Tragedia se compoz logo ent3o, e em estylo antigo, e singelo, que co- 
meta: cEm Villa Franca do Campo, Que de nobre precedia, Na Uba de 
S. Miguel, A quantas Yillas havia, etc. E com taes consoantes procede, 
e chega quasi a quatrocentos versinhos do que faz men^ao o citado Agio- 
logie Lusitano. E tambem deixo as festas de cavallo, que para ali\iar a 
tao affligìda gente, fez pouco depois em Villa Franca o Capitao Dona- 
tario, que em outro lugar virao melbor. 

CAPITULO XI 

Da peste que suecedeo ao Terremoto^ e incendios que a elle 
succederlo. 

82 Encadeados andSo muitas vezes os males em està vida, e assim 
mal tinh9o parado na Ilha de S. Miguel os tremores de terra em o an- 
no de 1522, quando no de 23 entrou logo n'ella a peste: e ainda mais 
encadea a Divina Mai de misericordia os favores que nos faz, porque 
tendo jà acudido, e tanto quanto vimos, aos terremotos passados, toma 
agora a acudir à imminente peste, pois junto a Villa de Nordeste andan* 



LIV. V GAP. XI 211 

do hum pastorinho guardando o seu gado, vio diante de si huma mu« 
ther vestida de branco, e entre duas cortinas levantada em o ar, e ado- 
rando-a o pastorinho, por Ihe parecer a Virgem N. Senhora, ella o cha- 
moa, e Ihe mandou, voltasse à Villa, e dissesse aos que encontrassc, 
qae em a seguinte quarta feira alli viessem, e achariao alli junlas seto 
Crozes; e que no caminho encontraria huma bicha com a boca aberta 
para elle, mas que sem temor passasse, porque aquella era a peste que 
vinha à Villa de Ponta Delgada, e que aos de Nordeste Ihes dissesse, 
que alli onde achassem as Gruzes, Ihes levantassem huma Gasa com a 
ÌQyoca0o de Nossa Senhora do Franto, porque ella rogarla a seu Filho 
indo pelo povo todo; e ao pastorinho accrescentou que Ihe trouxesso 
hom cordSo, em que Ihe faria huns nós, para por elles Ihe resar o seu 
Rosario; e a mesma Senhora, voltando o pastorinho com o cordào, niel- 
la com sàas maos santissimas fez os ditos nós, e encommendou ao mogo, 
qoe a teda a mais gente desse os taes nós a beijar. certo he, que lu- 
do assim se achou no determinado tempo; e que a Ermida se fez logo 
com a dita invocac3o, e he de grande romagem, e n'ella tem a Senhora 
obrado muitos milagres; e que assim encadeou com os beneficios, em o 
tempo dos tremores, os que quer fazer agora na occasiao d'està peste. 
83 No dito anno pois de 1523, a quatro de Julho, tendo vindo da 
Bha da Madeira, havia perto de hum anno, a caixa fechada de hum Joao 
ABòDso, Secco de alcunha, e chegando elle ao depois nos ditos qua- 
tro de Julho» e abrindo a sua caixa, deo de repente tal peste junto da 
Igreja de S3o Fedro em Fonta Delgada, que durou na dita Villa oito an- 
DOS, até mez de Maio de 1531, e conhecida logo, muita gente desem- 
paroQ a Villa; porque ainda que cessava algumas vezes, logo tornava a 
>tear-se tSo mortai contagio: e dentro de tres annos, no de 1526, indo 
OQtro Jo3o Affonso, de alcunha o Cabreiro, de Ponta Delgada é Ribeira 
GnoMle, comsigo levou a peste a estoutra Villa em huma manta que levava 
de PdDta Delgada; porque o mesmo foi deitar-se niella huma negra, que 
^tar a morte sobre si; e logo tambem,morrer3o dous filhos do dito 
AfloDso, e de vinte de Fevereiro até Marco morrer3o na dita Villa, e do 
PMe, cento e setenta pessoas; e as outras despejar3o a Villa, desteiha* 
fio as casas» e a Villa se tornou hum Ervacal, que so com gados, que 
coiaessem a herva, tornou a parecer que tinha side Villa, e se tornou 
> povoar» mas faltando-lhe jà mais de mil pessoas levadas da peste, que 
^ Ponta Delgada continuoa ainda até 1531, e Ihe levou passante de 



ili HlSTORIA INSULANA 

duas mil pessoas, fora muitos Mouros, que de Africa, e do Algan^e tf- 
iiliao à liba trazido os naturaes d'ella, e por a verem jà com menos 
t;ente, e elles Mouros serem tantos, que iìiMo ordido treìgào de se le- 
vaDtarem com a liha, e colbidos, forao quasi todos mortos: para que 
aprendao os Christuos, nao se servirem de Mouros; pois nuDca de iaiiel 
Mouro bom Chrislao. 

84 Dos anlec^dentes terremotos, e da referida peste tirou a Virgem 
Senbora Mai de Deos tao grande fruto, e bem communi da Uba de Sao 
Miguel, qual foi o principio de Coaventos de Freiras Religiosissimas ; 
porque a bum pobre Cavalleiro Jorge da Mota, de Villa Franca, que do 
diluvio tinba escapado na sua quinta, d'ella em buma noite Ibe fugio hu- 
ma filba jà mulher, com quatro irmàs mais pequenas, e caininbando de 
noite, nao pararao senào em buma Ermida da Virgem ?enlu»ra da Con- 
ceigao, aonde cbamao Val de Cabassos, junlo à Villa de Agua de Pao; o 
persistirao tao constantes em largar o mundo, e fazer penitencìa, que 
nem o dito seu pai, nem Justigas Ecclesiaslicas, e seculares, nem o mes- 
mo Capitao Donatario as poderao persuadir ao cx}ntrario; e ainda as pe* 
quenas, tornando com o pai, voltarao logo a metter-se com a irma na 
clausura em que se tinbao recolbido. Cbamava-se de antes a mais velba 
Petronilba da Ck)st3, e logo se cbamou Maria de Jesus, e buma sua vir- 
tuosa Companbeira Isabel AfTonso, que tinba vindo das partes de Bra- 
ga; as quatro irmas pequenas se diziào Guiomar da Cruz, Catbarina de 
Sao Joao, Maria de Santa Clara, e Anna de Suo Miguel, e estas seis fo- 
rao as primeiras Freiras, na vida de rigorosa penitencia, e eslreilissima 
pobreza, da primeira Regra de S. Clara, em que entao ficarao. 

85 Passados dous mezes, vierào de Villa Franca duas principaes, 
e .ricas donzellas, filhas de Joao d'Arruda da Costa, e sem elle o saber, 
se metlerao, e ficarào no Conveniinho de Nossa Senbora da Conceifio, 
nao obstante ter o pai casado por cartas a buma das filhas com pessoa 
gravissima, que cada dia esperava de Portugal, e nunca as poderào apar- 
tar d'aquella Virgem Senbora da Conceifào: e logo comecarao a vir tan- 
las outras para aquella Casa, que o Capitào Donatario se fez seu Pa- 
droeiro, Ibes fez casas, e ofTicinas, e Ibcs conseguio Bulla de Homa codì 
lodos OS privilegios de verdadeirasReligiosas; eassimestiveraoalliquajii 
dez annos, até que por estaiem junto ao mar, e expostas a Cossarios 
Friìncezes, se repartirào d'alli, e parte forao fuiidar o Mosteiro de Santo 
André em Villa Franca; e a oiitra parie multo depois, no anno de 13i0^ 



LIV. V GAP. XI 213 

em 23 de Abrii, se mudou para Ponta Delgada, e Ibes fundou Convento 
D. Felippa Coutinho debaixo da invocafao da Esperanfa, e Regra de 
Santa Clara; e por Confundadoras vierao tambem da Uba Terceira, da 
Villa de Sao Sebastiao^ duas irmas, Maria da Madre de Deos, e Isabel 
dos Arcanjos. Tanto fruto tìrou a Mài de Deos dos castigos dados com 
terremotos, e pefste. 

86 Gompendiemos corno tambem pudermos, a incompendiavel nar- 
rafao de outros terremotos, e incendios d'està Uba, qiie o Doutor Fru- 
ctuoso vastissimamente faz em o mesmo liv. 4, cap. 82, até o cap. 90. 
Em anno pois de 1563, a 25 de Junho, em buma sesta feira, à buma 
bora depois da meìa noite comecou de repente a tremer a terra em a 
mesma sobredita Villa Franca, e até pela manha, em quatro boras, tre- 
meo mais de quarenta vezes, e continuarao os tremores todo o sabbado, 
e Domingo até vesperas, e tSo furiosa, e medonhamente, que tornando 
a repetir os tremores às Ave Marias, buns desemparar3o a Villa para a 
Virgem Senbora da Piedade na Ponta da Garca, buma legoa da Villa; ou- 
tros para a Cidade jà de Ponta Delgada; e outros se embarcarao nos 
narios que andav3o levantados, e nem pais de Qlbos, nem maridos de 
molheres se lembravao, valendo-se, apartados, dos navios, a que pri- 
ineiro cbegavao, dos quaes alguns for5o dar derrotados na Madeira. 

87 •• Os que da Uba, e Villa tinbao ido para a Ponta da Garca, do 
caminho se voltàrao para a Villa, por vir sobre elles do Geo buma es- 
pantosa nuvem, e jà de conbecido fogo, e fuzilando raios tao continua- 
mente, que debaixo da tal nuvem paràr3o os fieis, e clamando pela Vir- 
SBm Sacratìssima com a sua Ladainba, (caso milagroso!) em cbegando a 
Wiecar a Ladainba da Senbora, e dizendo as palavras, Sancta Maria, 
Ora prò noW*, se levantou a nuvem de fogo, e se foi para o Norte, dei- 
taodo de si tantos, e tao espantosos relampagos, que a gente ficou ca- 
llida em terra; e logo veio outra nuvem altissima, que com langar de si 
^nta cinza quente. e d ella formadas tantas pedras, e tSo grandes, que 
%mas pareciio grandes bolas, e bum diluvio mais do Inferno, que do 
Ceo: comtudo aìnda que escaldou, e ferie a muitos, a ninguem, por be- 
neficio da invocada Virgem, a ninguem matou, nem ferie de sorte que 
n«C5essilasse de cura. Passadas as ditas nuvens, se seguirao logo outras , 
^^ huma de cinza tao quente, que nem nas m3os se podia tolerar: e 
<Hitra de cinza, e polme tao frio, que enregelou a todos: e logo come- 
?^u a chover terra comò pimenta em seus grSos formada; e todos affip- 



214 HISTORU mSULANA 

inar3o, buns verem eDtSo a Virgem Sacratissima em o ar rogando pelns 
peccadores; outros verem a mesa da Dtvioa Cea com o Santissimo Sa- 
cramento niella: e outros ao Espirilo Santo em figura de huma resplan- 
decente Pomba: tantos advogados sempre diante do Tribunal do Eterna 
Padre, queira Deos que mere^amos, nos nao faltem. Durou està mortai 
tribulacao desde os' 25 de Junho até os 29 por todo o dia, e noite de 
Sao Fedro, e comtudo nem casa alguma cahio, nem morreo pessoa al- 
guma. Assim mortifica Deos, e vivifica. 

88 Nas mais partes da Uba ainda durarlo mais os espantosos ter- 
remotos, fogos, diluvios, e castigos, pois durarlo até 5 e 6 de Julbo, 
donde foi tanta cinza ao mar, e com ella tantos gados, e tantas madei- 
ras, que bumas Caravelas que vinb3o de Alfama de Lisboa, e de Vianna 
do Minbo, oitenta legoas antes de cbegar a està Uba, Ibe cbovia cinza, 
e com pés a langavao fora, e com tudo o sobredito se vi3o impedidos a 
navegar, e usav3o de varas para passarem bum quarto de legoa, cbeio 
tudo de pedra pomes em altura de oito palmos. Na Villa de Nordeste, e 
seu termo cabir3o muitas Igrejas, mas nao a Ermida da Senbora do Pranto, 
sobre a qual se vio a mesma Virgem Senbora com manto preto, e ao sea 
aitar nada cbegou, sobrepujando multo a innundac^o de terra ao redor 
d'elle, e multo mais sobre o telbado, sem que comtudo elle cabisse. E 
vindo sete liomens em romana a està Se nbora do Pranto, ao v<filtar, e 
passar de buma ribeira, sendo melo dia, se Ihes tomou noite escura, e 
clamando à Senbora que Ibes valesse, de repente a cada bum sobre o 
bordao se Ibes poz buma tal luz, que passarao sem perigo. 

89 Na Villa de Ribeira grande for3o ainda mais tremendos os suc- 
cessos, porque comò a serra, ou monte de Vulc5o, que be o maior de 
loda a Uba, inclina mais para Ribeira Grande, do que para Villa Franca, 
e d'este Vulcao be que queria sabir o fogo, por isso em a Villa de Ri- 
beira Grande se sentiào taes abalos, que parecia andar aquella Villa corno 
barca sobre o mar, e mar mais de fogo, que de agua. E quasi todas as 
casas cabirSo, e as que ficarao em pé, todas se abrirao; e em fim arre- 
bentou fogo arrancando o monte Vulcao, e com tal furia, que pedras, 
ainda maiores que casas ìnteiras, langou duas legoas ao longe; e fez tre- 
mer tambem a Ilha Terceira, trinla legoas distante, e nao so alli cboveo 
cinza, mas ainda em Portugal, e especialmente em Braga. Seccarao-se 
as fontes, e ribeiras de agua, e pela ribeira do Salto corria ribeira de 
/ogo ao mar; e no mais alto ar andavao arvores inleiras, que pareciào 



LIY. V GAP. XI 215 

demonios ardendo em fogo. Com o fogo dos mineraes do centro reben- 
toa tambem o Pico do Sapateiro, perto da mesma ribeira, e rebentan- 
do em dous de JuUio, correo ribeira de fogo ao mar por tres dias, e 
tres noites. 

90 Convento de Jesus de Freiras Franciscanas (que em 1536 ti- 
nliao foodado em Ribeira Grande Fedro Rodriguez da Camera, e sua mu- 
Iber D. Margarida de Betencor) espiritualmente vierao fundar duas Re- 
ligiosas do Convento de Jesus da Villa da Praia da Uba Terceira, D. 
Joanna da Cruz, e D. Catharina de Jesus, que passados quatro annos 
passarao para o seu Convento da Praia. Este Convento pois com os di- 
tos terremotos, e incendios se arruinou; e as Religiosas se passarao a 
Rabo de Peixe, e d'aqui ao Mosteìro da Esperan^a da Cidade, e logo a 
Immas casas de Dona Margarida Travassos Cabrai, viuva de Jorge Nu- 
nes Botdho, e depois a outras casas; e Diogo Vaz Carreiro Uies ofTere- 
ceo Convento de Santo André, que elle acabava entao de levantar, e 
furao as primeiras Freiras que entrarao no tal Convento; mas reediQcan- 
do-se seu arruiuado Convento, tornarlo para Ribeira Grande. 

91 Em a Cidade de Ponta Delgada, no mesmo anno de 1563, e 
mez de Junho, em dia de Sào Joao Baptista, comegou a tremer a terra 
braodameute até 28 do dito mez, em que ao Sol posto comegarao maio- 
res qae nunca os terremotos, abalos, e estrondos até o primeiro de Ju- 
liK), e se vio ter sahido do seu lugar o grande monte Vulcào até o mais 
alto ar, e estar feito buma borrendissima boca do Inferno, e este ter-se 
IHissado do centi*o da terra mais profundo para a regiao do ar mais alta, 
^ estar jà ameagando a ultima, e universal ruina a toda a terra; e o mes* 
iQo estarem armando outros picos da terra arremessados, e no ar sus- 
leotados pelo fogo, com borrendas, estrondosas, e infernaes batalhos en- 
(re si, feita de todas o alvo a negra terra; e entào tornando em si a ago- 
Qizaote Cidade do mortai pasmo, em que estava, e acudindo ao amparo 
^3 veDcedora do Inferno, a immaculada Conceigao da Virgem sempre pu- 
rissima, mesmo foi sahir està Senhora em procissao, que pararem os 
terremotos, sem se sentirem mais em a Cidade, e toda està se ver, de 
^brazada, e sepultada, que se imagìnava jà, restituida a vida pela Mai 
do Aulhor della. 

9i Destruido pela veneedora Virgem da Conceigao aquelle aereo In- 
ferno, e lancado pelo ar até o mar, os efifeitos que deixou, forao primei- 
ro, que cessarao as aguas todas xom que se moia o pao; e he multo de 



216 HiSToniA iNsrrjiNA 

rotar, que no mesmo tempo om que o Capitao Donatario, para Ihe ren- 
clerem mais os moinhos, tìnlia por sentenca que alcan(ou mandado que- 
brar as parlicniares atófonns todas, no mesmo tempo a agua se seccou, 
e OS moinhos com ella. E quando quinze dias depois tomou a correr a 
;ìfiu2i, vinha cheia de cinza, e pedra pomes: e em o pico chamado das 
Berlengsfs, se seccou huma grande alagoa. Segundo efieito foi, que n es- 
tà liha, por Irinta dias a fio, nunca se tomou a ver Sol perfeitamente 
claro, mas impedido sempre de obscuras, e assombrosas nuvens: e d'es- 
te segundo effeìto foi causa o terceiro efleito, que foi tanta a cinza, e le- 
vissima pedra pomes, que pela ribcira da Praia, da banda do Sul, cor- 
njo de tal sorte pelo mar dentro, que fez n'elle bum grande campo, e 
«nreal, e vai agora caminlio commum de pé por onde de antes andav3o 
OS navios; a profondar valles igualou com suas rocbas; encravou o Lu- 
gar de Porto formoso; ao da Maia cubrio de sorte que jà nem parecia 
ter estado alli; mas a Villa Franca nào chegou, parando bum quarto de 
legoa antes da Villa. 

93 Pelo mesmo tempo quiz Deos corresse o vento do Poente, onde 
fic3o as outras Illias vizinhas, senào seriao alagadas, e por isso cincoenta 
legoas d'està Uba para o Nascente, encontrarao navegantes bum tao gran- 
de taboleiro de terra, e com tanto fundo, que ainda conservava levan- 
tadas muitas arvores em si; e outros taboleiros virào de mais de legoa 
de largo, e de maior comprimenlo; e bouve navio que ató Lisboa cbe- 
gou, lancado ós pàs a cinza fóro: e em firn ale em Coimbra, e em Bra- 
t;a cboveo entao cinza. Os Lugares dos montes que voarao, ficarao con- 
tavidades, e furnas profundissimas, porque atraz dos altos montes que 
l)or cima da Uba eslavào, voou o multo mais que enchia as ditas con- 
ravidades; e de curiosos qne enlao as quizerao ver, bum Aflonso Pires 
Ji)i tao temerario, que là mesmo expirou: outros correrao grandes peri- 
f(os, e se vollarao. A perda na Uba foi tanta, que so no termo de Ponta 
Jìelgada se perdeilio tres mil moios de novidadc, e a terga parte das 
tiMTas frucliferas ficou perdida por alguns annos; e toda a perda causa- 
da por cste terremoto, e incendio se avaliou entao em trezenlos mil cru- 
zados. 

94 Algumas terras, que ficarao cubertas de cinza, e lodo, e pedra 
l'omt'S, e em pouco n\enos de tres palmos, e fizerao codea, ficarao na- 
turalmente irremediaveis; as outras porém se remede5o facilmente. Vi- 
via enluo em Villa Ti anca bum Manoel Vieira, filbo de Feruào Viei- 



Liv. V GAP. xn 217 

n, e nelo de Pedro Vieira, (innSo de Violante, segimda mulher de 
Pi'dreaoes do Canto na liha Terceira) e bìsoeto de Duarte Galvao, cu- 
y\ fiJho dito Fedro Vieira, deìxando o pai era Lisboa, se veio casa- 
ro para està liha, e tornando depois para Lisboa em tempo d'el-Rei 
I). AiTonso V, foi por este enviado Embaixador a Castella, fldalgo, e ho- 
inem de muito saber; e voltando de Castella, por ser principal tornou 
a està Illia, e levou para Lisboa a mulher que niella tinha deixado, mas 
ainda ce dei^tou fìihos, e flihas, hum dos quaes era o dito Femao Viei- 
ra, qae viveo na Villa d'Alagoa, homem principal, e abastado, casado 
com Heva Lopes, filha de Alvaro de VulcSo, e de Mecia AfTonso, da ge- 
ncào dos Madiados da liha Terceira, (que tambem sHo fìdalgosì cujo 
dito filho Manoel Vieira foi primeira vez casado com M6r da Ponte, fi- 
lila de Sebastiao Alfonso, nobre morador do Lugar do Fajlil, e de Cons- 
tmca Rafael, fidalga do Tronco dos Colombreiros: e segunda vez he agora 
casado (diz Pructuoso liv. 4, cap. 90 e 91) com Petroniiha de Braga, 
(liba de Antonio de Braga, e de Francisca Fea, de Ribeira Grande. Este 
]iOìs Manoel Vieira, por ser homem poderoso, bem entendido, e muito 
amigo do Capitao Donatario Manoel da Camera, alcancon d'el-Rei, e em 
1566 tirou quantas aguas pode ajuntar, e fazendo grandes levadas pelas 
t^rras, e por junto a ellas, e com pouco mais trabalho, deo com toda a 
cinza levadica, e com toda a pedra pomes em o mar, e com està arte, 
<!e que aqni fui elle o primeiro inventor, alimpou de sorte as terras, que 
9s restituhio a todo o seu ser, e fertilidade antiga; imitando-o logo ou- 
tros muitos» conseguir3o o mesmo: e ficou a liha restaurada da parte 
do Norte, e se isto nao fizera, se despovoaria. 

CAPITULO XII 

Dos TerremoioSf e Incendios mais modemos. 

93 Quasi quarenta annos depois da santa morte do Doutor Gaspar 
Fnictuoso, residia em o Collegio da Companhia de Jesus da Cidade de 
l'onta Delgada o Padre Hanoel Gon^alves da mesma Companhia, que era 
ham dos bons Prégadores do dito Collegio» e morreo depois de Reitor 
de Braga; a este Padre ordenou a santa Obediencia, que pois estava Va 
no tempo do terremoto, e incendio seguinte, apontasse em summa o sue- 



218 nisTontA insulana 

cesso d'elle; e porque juntamente o Capìt3o Donatario, que entJio era o 
ultimo Conde de Villa Franca D. Rodrigo da Camera, Unha pedido ao 
mesmo Padre huma piena Relagio do dito successo, e o Padre a com- 
poz, e entregou ao dito Conde em muìtas folhas de papel, e d'ella tirou 
Imma summa, que se ajuntou ao livro do dito Fructuoso, por isso so 
a substancia desta summa referìremos aqui. 

96 Em anno do Nascimento de Chrìsto Senhor dosso de 4630, 
em segundo dia do mez de Septembro, em huma segunda feira vinte 
e cinco da lua, às nove para as dez da noite, estando o tempo sereno, 
e quieto, de repente come^ou a terra a tremer tao forte, e conlinuameih 
te, que o relogìo da Matriz, com ser sino bem grande, por si mesmo se 
locava comò a subito rebate de inimigos queentravaoaCidade;eagente 
experimentando serem falaes terremotos; toda desemparou as propria^ 
c'asas, temendo a ruina a todas, e pelo campo andava, e se nao dava 
ainda por segura. temendo que ale a terra Ihe fallasse, e so enchia 
OS ares de clamores, pedindo todus a Deos misericordia: durou seni 
parar tal terremoto quatro horas depois d'ella : eis que n'este ponto 
com horrendos estouros, e eslrondos, e Iremores mais horriveis, arre- 
bentou a terra de improviso, e lanQou de si, ale o mais alto ar, tSo es- 
pantoso incendio, e tao medonho, que lodos, e em toda a parte jà cui- 
davao o tinhao sobre si, e os lanibia a lodos abrazando-os. 

97 Os que poróm mais ao longe (comò em a Cidade) Ihe ficavSo, 
tornando jà mais em si, advertirSo, e virào ultimamente, que o furioso 
incendio no mais alto ar continha muitas, e muito grandes arvores, e 
involvia em si a muilos gados de toda a sorte, e grandeza, e que sahìa 
de bum valle, ou alagoa secca, nao muito longe das mais antigas furnas, 
e duas legoas de Villa Franca; item, que na manlià de quarta feira, qua* 
Irò de Septembro, comcgou hum tal diluvio de cinza em toda a liha, 
que nas mais partes chegava a dez, e doze palmos de altura, e em ou* 
tras a vinte, e a trinta, sublerrando casas ale os telliados; e depois se 
soube que chegou a cinza nào su a liha de Santa Maria, mais de diize 
legoas distante, mas tambem i liba Terceira, distante trinta legoas» e 
com tal pasmo db lodos, que na Terceira tkou a(|uelle anno por anto- 
nomasia chamado, o Anno da cinza ; e ainda hoje ha gente na Terceira 
que se lembra d està cinza. a)m ter succedido ha oilenta e quatro an- 
nos. E que mais he, que alò na Uba das Flores, e na do Corvo, que 



uv. V GAP. xn 2(9 

disQo de S3o Miguel mais de sessenta legoas, até li cbegou a ciDza, e 
li ctìoveo com assembro dos seus moradores. 

98 Sahio em outros fatalissìmos effeitos este tal terremoto, e incen- 
dio, porque n*aquelle valle, ou alagoa secca, aonde arrebentou, apanhou 
varia gente, que andava parte guardando gado, parte recolbendo baga de 
louro, (de que n^aquella Uba fazem azeite para as candeas do servilo or- 
dJDarìo, e para isto he bastante azeite) e d'està gente se achou faltarem 
cento e noventa e bum sugeìtos, que do incendio, e terremoto flcarào 
qneimados, e subterrados. De dous Lugares inteiros (a saber, Ponta da 
Garca, huma le^oa das Furnas, e a PovoagSo, duas legoas distante) as 
casas, e as Igrejas arrazou; e abrindo-se depois, quando se pode fòzer, 
ciminho para acudìr-se a bum Sacrario, cavando, se achou bum pedalo 
do tecto da Igreja ainda em pé, e debaiio o Sacrario do Santìssimo ; e 
reparoQ-se, que huma Imagem de vulto do Menino Jesus, que de antes 
esUva no retabolo, a acbar3o fora d'elle, e em pé sobre o Sacrario, com 
' tal sito, e apparencia, ()ue se via estar defendendo-o; e abrindo o Sacra- 
rio, e custodia de dentro, acharSo o Sacnimento intacto. Oh testimunho 
iiiialiivel d*este mysterio da Fé! Oh, conven(3o-se evidentemente os ainda 
eegos hereges que o neglo i Em certa parte das furnas mais antigas vi- 
viio em communidade buns Ermitaes penitentes, e devotos, que sentin- 
do OS tremores, e temendo os incendios, todos logo acudir3o ao Santis- 
simo, que em Sacrario tinh3o, e sabindo-se com elle jà por baixo de in- 
ceodio altissimo livrarSo ao Senhor, e pelo mesmo Senhor forào sem 
Ngo livres; e por outra parte indo tugindo outra gente, clamou huma 
^ pessoa pela Virgem do Rosario, e so està escapou, perecendo as 
ouÌ8 todas, que nem ao Santissimo, nem i Santissima Virgem acudirao. 
90 Em Villa Franca, que està duas legoas das Furnas, for3o tam- 
bem taes os terremotos, que cabindo algumas casas, de sessenta Freiras 
(qoe seu Convento tinha) so quatro, ou ciuco ficarao, por serem ja 
^dhas, e as mais todas juntas se sabir3o, e vierSo metter no Convento 
da Esperanca da Cidade. Na quinta feira, ciuco de Septembro, por todo 
dia, e em toda a liba, se escureceo de tal sorte o Ceo, que o dia foi 
todo Doite escura ; e tendo feito o Collegio da Companhia de Jesus em 
lodos os dias antecedentes, na sua Igreja, as Ladainhas dos Santos, de- 
pois da primeira Missa, com todas as preces da Igreja, e sempre com 
prégagao do pulpito, em jejuns ate de pao, e agua passava os dias, e na 
iQesa estava sempre bum prato de cinza da que estava cabindo do Ceo» 



220 «ISTORIA INSULANA 

fora ontras pcnitcncias de ciiicios, e disciplinas nas costas na dita quinta 
fi3ira sahio o dito Collegio pela Cidade com buina procissao na ordem 
seguinle : Às onze horas para o melo dia (que enlSio parerla meia noile) 
lììào diante meninos em grande numero, e todos com as insignias da 
])enilencia, e no meio d'elles bum andor com o Menino Jesus vestido de 
liicto, e cahmdo-lhe entào de cima a cinza que entao chovia. Seguia-se 
logo a Confraria dos Officiaes da terra ; e logo a dos Estudantes com a 
sua Imagem da Yirgem Senhora, e ludo de lucto; e se conclubia a pro- 
cissao com bum palio preto, e o santo, e sacratissimo Lenbo da Cruz 
de Christo debaixo do palio, com os Padres do Collegio com innumera- 
veis lumes, e gente innurneravel, entoando sempre o Psalmo de Miserere 
mei Deus. E corrida a Cidade se recolbeo outra vez à sua Igreja, e aca- 
bou com prégacao, cujo tbcma foi o da Divina Sapiencia, e da Yirgem 
Sacratissima, Cum eo eram cnncta componens; e se affirma nSo Bear pes- 
soa em toda a Uba, que entao se nao confessasse. 

100 Em Domingo seguirne, oito de Septembro, se abrìrSo na 
Igreja do Collegio os Santuarios das Reliquias^ com a Rainba de todos 
OS Santos no meio de todas, e a letra que dizia. Et in pleniiudine San- 
ctorum detentio mea, sobre que tambem foi a prégacao d'este dia. E he 
inuito de notar, e agradecer a Deos, e i Yirgem sacratissima, qae com 
ainda ent^o durarem os terremotos todo o mez de Setembro até a en- 
trada de Outubro, com tudo desde este Domingo por diante, e jé desde 
a quinta feira da procissao, nSo forao jà sen3o mui tenues, e brandos, 
nem se tevantou incendio mais algum, nem se sabe perecesse mais algu- 
ma casa, ou pessoa, e so d'ahi a annos com algum tremor de terra ar- 
rebentou o IMco, cbamado de Jo3o Ramos, bum quarto de legoa da Ci- 
dade para o Norte, e fez buma pequena boca em cima, por onde sempre 
està lancando.fogo moderado, comò se ve em outras muitas partes d'està 
llha: e dizem que està be a naturai seguranga que jà tem, porque pare- 
cendo ser toda està Uba em seu centro bum continuado Etbna de fogo» 
tantas cbaminés tem jà, e tSo naturaes, que jà nao necessita de abrir 
hocas, nem de abaiar a terra, para as abrir, pois tem jà tantas, e tac^ 
graiides, e sempre abertas. 



LIV. V CAP. XIII mi 

CAPITULO XIII 

Des primeiros tres Capitàes Donatarios da Ilha de S. Miguel^ 

Gonfolo Velho Cabrai^ Joào Soares de Albergarla, e Rui GonQohes 

da Camera. 

101 Primeiro Ca^itao Donatario da Ilha de Sao Miguel foi (coma 
vimosjà no liv. 4, cap. 3,) aquelle grande fldalgo Frei Gongalo Velho 
Cabrai, cuja illustre ascendenza jà acima propuzemos, e a transversai 
descendencia dasirmas que teve; pois nao teve propria descendencia, por, 
aléna de ser de varias terras senlior, ser demais Comraendador da Or- 
dem de Christo, cujos Commendadores ainda entao nao casavao; e so iìa 
nove teve a singular excellencia de ser juntamente Donatario de duas 
flbas inteiras, quando de Imma so, o Porto Santo, o foi o fidalgo Pe- 
reslrello, corno dissemos no liv. 3, cap. 1, e nem o Capilao Joào Gon- 
(alves Zargo o foi de toda a Madeira, mas de so ametade d'ella, comò 
da oulra metade o grande Tristào Teixeira; porém o famoso Fr. Gonzalo, 
deambas as duas Ilbas de Santa iMaria, e Sào Miguel, foi inteira, e jun- 
taniente seu primeiro Capitào, e Donatario. 

102 segundo Capitào da Ilha de $ào Miguel foi Joào Soares de 
Albergarla, sobrinho do primeiro Capitào, e filho de Imma irma d'elio 
D. Tareja Velha Cabrai, qne era casada com outro Soares de Alber- 
garla, tao grande, e antigo fidalgo, que com renunciar n'este segan- 
do ambas as Ilhas o primeiro Capitào, ainda nem para si, nem para 
seos direitos successores quiz usar dos illustres appellidos de Velhos, 
Cabraes, etc. mas conservar o dos famosos Soares, e so ajuntar-lhe o 
dos Sousas, aonde segunda vez casou. Governando pois este segundo 
Capilao Joao Soares de Albergarla, e adoecendo-lhe sua primeira mu- 
Iber, a levou a cural-a a Ilha da Madeira, e raorrendo-lhe là, foi a Lis- 
Ih», aonde El-Rei vendo-o viuvo, o casou logo com huma Dama do Pa- 
co, D. Branca de Sousa, filha de Joào de Sousa Falcào, e de D. Moria 
de Alraada, prima coirmà do que entào era Conde de Abranches; e d*a- 
P veio ajuntarem os Capitàes de Santa Maria o appellido de Sousas ao 
seuauiigo de Soares, podendo ajuntar Ihe os appellidos de Velhos, e 
^^braes. em memoria do tio Confalo Velho Cabrai, que descubrio as 
Ulìas, e n'elles ambas as renunciou. 



222 mSTOBIA mSCLANA 

103 Com a dita occasiSo da doenca, e morie de sua primeìra mti- 
Iher, e muito mais pela pouca ambigao, e grande virtude d'este segundo Ca- 
pitao de ambas as Ilhas; e quercndo agradecer ao GapiQo do Funchal, 
e a seu terceiro filho Rui GoD^alves da Camera» a grande hospedagem 
que Ihe fizerao em a Madeira, se resolveo a vender ao dito Rui Gon- 
(^Ives a inteira Capitania da liba de S3o Miguel, e em pre^o tSo barato, 
que affirma Fructuoso liv. 4, cap. 66, que Ih'a vendeo por oitocentos 
mil réis em dinheiro de contado, e quatro mil arrobas de assucar; as 
quaes ainda que entao valessem a tres mil e duzentos réis a arroba, e 
a tostao arratel, ainda o capital preco da venda nSo passava de tnota 
mil cruzados, ou de trinta e dois mil, com os oitocentos mil réis em di- 
nheiro, sendo que nao muito menos rende cada anno ao CapitSo Dona- 
tario a Capitania vendida. Porém nao ha que admirar, porque ainda en- 
tao a Capitania era de muito, e muito menos rendimento do que he boje; 
e com OS terremotos, e incendios da liha de S3o Miguel, até ella mesma 
era ainda entao mui contingente, e por isso o seu mesmo segundo Ca- 
pi tao quiz antes vender a Capitania de Sao Miguel, do que a da Uba de 
Santa Maria, e so com està se quiz entao ficar; e a venda emfim a con- 
firmou pela m3o Real da Infante Dona Beatriz, que do Reino era entio 
Regente, em Evora a 10 de Marco de 1474, e em nome dei-Rei D. Af- 
fonso V. 

104 terceiro Capitao pois, e jà so da Uba de S2o Miguel foi o 
dito Rui Gon^alves da Camera, que logo entSo velo para S3o Miguel; 
veio porém jà casado com Dona Maria de Betencor, Alba de Nossen Solo 
de Betencor, que tinha sido segundo Rei das Canarias, e succedido n'eN 
las ao primairo Rei seu tio, (comò jà dissemos liv. 2, cap. 3, e 4) mas 
d'està Senhora Franceza nao teve filho algum Rui Goncalves, e por isso 
com ella fez partilhas em vida de ambos, e ella flcou com cento e cin- 
coenta mil réis de foro cada anno, e trinta tambem de foro em Ribeini 
Grande e outras fazendas de tal renda, que tudo junto em cada anno 
rendia dous mil cruzados; e entSo ella mandou vir da Madeira bum sten 
sobrinbo legitimo, por nome Gaspar de Betencor, e instituio morgado 
n'elle; e nem ainda em vida do marìdo consentio que llie cbamassem 
Capitoa, nem ella se intitnlava senSo so D. Maria: deixou em seu testa- 
mento ao Conselho de Villa Franca dois moios de terra, jà limpa, e fhi- 
ctifera, com condigao que os gados que viessem de caminbo, podessem 
dormir em a tal terra buma noite, e mais nao: mandou fazer no Fon- 



LIV. V GAP. XIII 223 

M da Madeira, na Igreja de S3o Francisco à mio direita do Crazeiro, 
hama Gapella, e que a ella levassem os seus ossos: foi enterrada na Ca- 
pella-mór da Matriz do Archanjo Sào Miguel em Villa Franca, muito an- 
ies de se subverter, porque entao là residia o Governo da liha loda. 

105 Ficou pois este terceiro Capitào, das partilhas, com a Capita- 
yini, que rendia ainda tao pouco, qne para flcar igualado com o sobre- 

^ dito que a mulher levou, coube ainda ao Capitao bum quarto da fazen* 
da, que cham3o Ribeira de agua de mei em a Madeira. Vierao da Ma- 
deira com este terceiro Capitao (além de outros homens honrados) tres 
seos filhos, e huma fllha, todos naturaes, e reconhecidos do dito seu 
pai; de que se seguio copiosa descendencia, comò veremos agora; reser- 
vaiuk) porém sempre o que Ihe "succedeo na Capitania, para seu lugar 
abaixo. 

106 Antao Rodriguez da Camera foi o segundo Albo naturai que da 
Madeira veio com este terceiro Captt3o; Servio a El-Rei em Africa al- 
gnns annos à sua custa, e sahio tao grande Cavalleiro, que em buma oc- 
casi3o indo elle com muitos a cavallo cortejando a El-Rei D. Manoel, que 
a cavallo bia tambem pela Corte de Lisboa, e succedendo passar bum 
Indio por diante com bum Elefante que levava a mostrar, todos os ca- 
vallos, até o do mesmo Rei se alterarlo com tal vista, e ftigirao, e ca- 
hirio alguns Cavalleiros; mas Antao Rodriguez de tal sorte govemou o 
seQ cavallo, que envestindo ao Elefante, fez que seu cavallo puzesse a 
bota sobre a anca do Elefante, e dando-lbe com e tercado huma leve es- 
padeirada, se voltou para El-Rei, dizendo que nada era aquillo; e man- 
dando El-Rei logo a seu Estribeìro-mór, que tal cavallo comprasse a lo- 
do preco a Antao Rodriguez, este logo o offereceo, mas dado sim, e 
por prefo algum nao; e nem vindo El-Rei em tal, nem querendo ven- 
del-o Antao Rodriguez, voltou este com o cavallo para a liba d'onde o 
Inha levado, ensinado jà por elle, e de sorte, que em ouvindo o tal ca- 
dilo algum repique de sinos, ninguem o podia ter em estrebaria, até 
iDontado sabir della. 

107 Antes de casar este Antao Rodriguez da Camera, das terrai 
406 pai Ibe deo, e de outras que comprou instituio bum morgado de 

y cem rouios de renda, e voltando a Lisboa casou com D. Catbarina Pe- 
reira, fidalga Dama da Duqueza de Braganca, e tornando com ella pa- 
ra Sao Miguel, della bouve dous filbos legitimos, Rui Pereira da Ca- 
ldera, e D. Mecia Pereira; e voltando depois a curar-se ao reioo, fale- 



224 uiSToniA insulana 

ceo em Vianna de Caminha, aonde esU enterrado; e a mulher D. Catha* 
rina tornou viuva para Lisboa, e viveo ainda quarenta annos, e morreo 
de oitenta: seu fillio Rui Pereira, depois de servir em Africa fui despa- 
cliado para a India por Capilao de Sofala, e arribando a Lisboa» morreo 
ahi solteiro. 

108 A este Rui Pereira da Camera succedeo em o mor^ado sua 
irma D. Mecia Pereira, que casou coro D. Goraes de Mello, (fillio de 
Diogo de Mello, e D. Maria Manoel, e d estes nasceo tambem D. Calha- 
rina de Noronha, mulher de Simào Ribeiro, Comraendador e Alcaide 
mór de Pombal, e da D. Anna Pereira, e D. Leonor Manoel, entao ain- 
da solteiras) do qual D. Gomes de Mello, e da morgada D. Mecia nas- 
ceo D. Maria Manoel, Dama da Princé^a mài d El-Rei D. Sebasliào que 
coin ella foi para Castella, nasceo mais D. Rodrigo de Mello, que casou 
coni Dona Antonia de Vilhena, filha de Pedro de Tubar, e de D. Brites 
da Silva, e morreo em Africa na batalba d*El-Rei D. Sebastiào; nasceo 
tambem e ficou coni o morgado Dom Francisco Manoel, que vindo da 
Iiulia casou com Dona Ursula da Silva, filha de Francisco Carvaiho Es- 
crivao da Casa da India. Tinha o dito Antào Rodriguez, antes de casai , 
duas fi!has naturaes; primeira, Guimar da Camera, de quem nasceo Rui 
Cago da Camera; segunda, Maria da Camera, de que nasceo Joao Xunes 
da Camera, Vigano, e Ouvidor da Ilha de S. Maria, e irmao tambem do 
D. Dorothéa, mulher do illustre Capitao Donatario Bràs Soares de Scu- 
sa, da dita Iliia de Santa Maria. As armas do sobredito Antào Rodrigue/. 
da Camera trazem accrescentadas às dos Cameras, dous puxavanles ao 
pé da torre, em sinal de sempre irem avante, assim na paz, comò na 
guerra. 

109 terceiro seu filho naturai, que com este Capitao Rui Goi.- 
Calves da Camera, veio da Madeira, foi Pedro Rodriguez da Camera, ,^e 
tido, dizem, de huma mulher nobre, da geragào dos Albernazes) c<isou 
com D. Margarida de Betencor, filha de Gaspar de Betencor, de quo 
nascerào os fillios seguintes: primeiro, Joào Rodriguez da Camera, quo 
casou com D. Helena, filha do Contador Martim Vaz de Bulhào. da qual 
nasceo huma D. Joanna, que faleceo soiteira. Andando pois em Afrita 
este Joào Rodriguez da Camera com outro irmào seu Manoel da Came- 
ra, com quem andava mal, e vendo-o ir caplivo jà dos Mouros, arremo- 
tendo com a lanca enrestada ao Mouro, que o levava, e pegando ao ir- 
mào por bum braco o poz nas ancas do cavallo, a entrando ambus li- 



Liv. V GAP. xm 225 

Tres pela nossa prega, disse entao o resgatado ao ir^o estas palavras: 
'Pois irmao corno Gcamos?» Respondeo-lhe Joao Rodriguez: «Como d'an- 
tes:> E El-Rei o despachou com urna Commenda de mais de cem mil 
reis na Beira, ao pé da Serra da Estrella, em Esirinta; aonde estando 
ji perto da morte, casou com D. Gatliarina, de que teve estes filbos: 
Rai Gon^alves da Camera que morreo solteiro, com vinte annos de ser- 
vicos na India; Item, Bernardim da Camera, valente soldado, e grande 
Cavalleiro, que casou na Villa de Nordeste. Item, Apollinario da Came- 
ra, que ficou em Africa na jornada d'El-ttei D. Sebasliào. Teve mais este 
Joào Rodriguez da Camera, tres QUias: primeira, D. Guimar, que mor- 
feo indo para Dama da Emperalriz: segunda, D. Brites, que com bum 
grande e poderoso fidalgo està casada em Castella: terceira, D. Marga- 
rìda, casada com Pedro Rodriguez de Sousa» filbo de Balthezar Rodri- 
goez de Santa Clara, onde morreo sem filhos. 

110 Do mesmo Fedro Rodriguez da Camera o segundo (Ubo e ne- 
to d este Capitao Rui Gon^alves da Camera, foi o sobredito Manoel da 
Camera, que . deixando so bum fillio naturai, morreo solteiro na India. 
lerceiro,nfimào da Camera grande Astrologo, morreo solteiro em Lis- 
boa. quarto, Henrique de Betencor e Sa, morou em Ribeira Grande, 
andou multo tempo em a Corte, e casou com D. Simoa, filba de Bal- 
tliezar Vaz de Sousa, e de Leonor Manoel, e teve estes filbos, Rui Con* 
calves da Camera, que casou com U. Luiza (filba de Hieronymo Jorge« 
e de Bealriz de Viveiros) de que leve tres filbas no Mosteiro de Jesus 
(je Bibeira Grande, e era fidalgo de magnifica condi^ao, e de grande 
charidade: teve mais a Uanoel da Camera que dispensado casou com sua 
pareDta D. Maria, (filba de Rui Cago da Camera, e de Isabel Botelba) 
de que bouve filbo, e fijba; teve tambem o dito Henrique de Betencor 
e Sa, a Henrique da Camera, que morreo na India; e Francisco de Sa» 
que faleceo solteiro; e a sete filbas, das quaes falecerao tres solteiras, e 
outras tres no Mosteiro sobredito jà professas; e so a septima, cbamada 
D. Margarida, casou com Cbristovào Dias, nobre, e rico da Cidade de 
Penta Delgada. 

1 11 Do dito Pedro Rodriguez da Camera o quinto fiibo foi Anto- 
nio de Sa, que faleceo solteiro; corno tombem faleceo solteiro o sexto fi- 
lbo Luis Goncalves da Camera. septimo foi Dona Francisca, que ca-» 
soa com D. Antonio de Sousa, viuvo, fidalgo porèra dos Sousas do Rei- 
no, e muitos annos Vereador da Cidade de Lisboa, e Pedro Rodrigue» 

\0L. i 15 



226 BISTORTA INSULANA 

da Camera Ihe dé^em dote cincoenta moios de renda junlo a Ribeira 
Grande, que com o mais passava entao de dez mil cruzados; e conten- 
tou-se D. Antonio de Sousa, sendo ìrmao do Conde de Prado, e D. Ma- 
ria de lavora, mnlher de Pedralves Carvalho, Cnpitao de Alcacer Se- 
giier: de outra primeira mùlher tìnha jà D. Antonio de Sousa a D. Mar- 
tinlio de Sousa, e a D. Jorge de Sousa, que duas vezes for5o por Capi- 
taes de nios à India; e da segunda mulher D. Francisca leve alnda a 
Dom Fedro de Sousa Commendador da Ordem de Christo, e muito pri- 
vado d'El-Rei D. Joao III, e a D. Joào de Sousa, e ambos estes irmaos 
falp.cerao solteiros: mas o terceiro irmao Dom Dias de Sousfi casou no 
Beino, e teve fllhos, e filhas, e a dita fazenda cà n'esta Ilha. E com ter 
tantos fillìos o dito Fedro Rodriguez da Camera, ainda foi tao pio, e es- 
moler, que fundou o Convento das Freiras de Jesus de Ribeira Grande 
com dezoito moios de renda cada anno, e trinta mil reis de juro per- 
petuo; e deo multa renda ao Hespital, e accrescentou a Matriz da dita 
Villa, e Ihe deo bum rico Pontificai, e outro à Igreja da Maya, e foi 
Locotenente do Capil3o Donatario Rui Gonc<ilves seu sobrinlio, em cuja 
ausencia governou sete annos com multa paz, justifa, exemglo, e sem- 
pre bom nome; e sua mulher D. Maria de Belencor faleceo vinte annos 
depois d'elle, e com grande fama de multa virtude. 

112 dito terceiro Capilao Rui Gongalves da Camera teve mai» 
huma filha, tambcm naturai, que casou com bum fidalgo Francisco da 
Cnnha, dos Cunhas do Reino: cste appellido ganhou hum antigo Alferes, 
que andando com a bandeira em huma batalha, e vendo que o Inimigo hi% 
vencendo, metteo a bandeira em a fenda de huma grande pedra, acu- 
nhando-a com outras, e investindo aos inimigos, com tal valor pelejou, 
que recuperou a viteria jà quasi perdida, e vilorioso se voltou; e entao 
vendo o seu Capitào ao seu Alferes comsigo, e sem bandeira, e pei^un- 
tando por ella respondeo, «Bem àcunhada a deixei;» o que sabendo o 
Rei, entre outras mercès que fez ao tal Alferes, Ihe concedeo de mais, 
que elle, e seus descendentes se appellidassem «Cunhas.» Do dito poi» 
Francisco da Cunha, e da dita sua mulher nasceo D. Guimar da Cunba, 
que casou mm Joao Soares, terceiro Capilao Donatario da Ilha de Sant.i 
Maria, e segundo do nome; e assim flcarao liados os Capitaes Donatario» 
d'estas duas Ilhas. 

113 Era este terceiro Capitao de Sao Miguel Rui Goncalves da Ca- 
mera, homem alto, e grosso de corpo» discreto porém, e mui solicìlo 



LIV. V CAP. XIV 227 

«Il Fazer povoar, e cultivar a terra, ao qae pessoalmente sahia visitan- 
tlo-a, ou a cavallo, ou em huma mula ; e assim elle repartio a major 
parie das terras d'està com o pacto, ou titulo de sesmaria, a saber, de 
qaeem cinco, ou seis annos, quem se entregava da terra, aalimpasse,'e 
fizesse fructifera, e livesse n'ella algum genero de casa, ou cafua, e cur- 
ral; e nao o fazendo assim, poderia o Capitào tirar-lhe a terra, e dal-a 
a OQtro; e isto significa a palavra sesmaria ; outros dizem que a pala- 
vra he, cseemaria,i dirivada da Italiana, cseemo, ou seemato,t qne 
<pier dizer divisào, ou cortadura; e que tambem he palavra dirivada dtr 
estoutra palavra, «ssisma,» que significa o mesmo. Governou esle Capi- 
no vinte e bum annos para vinte e dous, desde o firn de 1474, até o 
de 1497, em que fez seu testamento, e por seu herdeiro, e testaraen- 
teìro noroeou ao seu filho mais veiho Joao Rodriguez da Camera ; e a 
mais fazenda que pode, separou para sua alma, e para pagar a quem 
bevesse. Foi sepultado na mesma sepultura eni que sua mulher D. Ma- 
ria de Betencor, e ao dito seu Albo mandou que bouvesse licenga d'el- 
Rei para se enterrar tambem na mesma Capella mór da Matriz de Villa 
Franca. Pouco antes que morresse, correo fama que vinbao Castelbanos 
^e a Uba; e fazendo-se logo alardo geral de toda a Uba, para se sa- 
ber as armàs que n'ella bavia, nào se acbarào mais que cento e setenta 
laD(as de costa, e trìnta e seis Gebanotes; e com isto que tiverao ainda 
por innito, se derao por contentes para se defenderem; tal era entao o 
seu brafo, e o seu valor. 

CAPITULO XIV 

Do quarto Capitào Joào Rodriguez, ou Joào Gorifalves da Camera. 

114 Quarto Capitào Donatario da Uba de Sao Miguel foi o primeiro 
filho qwe tìcou do sobredito terceiro Capitào ; porque ainda este ter- 
tóro Dao teve filbo algum legitimo, legitimoucomtudo por El-Rei o pri- 
B^iro filho dos naturaes que leve, e conseguio licenca para Ibe succe- 
der na Capitania, e casa. Nasceo Joao Rodriguez da Camera ainda na 
iiha da Madeira, d'onde veio com o pai para està Uba; mancebo ainda 
iQditoa em Africa alguns annos, e voltando a Lisboa casou em vida do 
pai com D. Ignes da Silveira, Dama do Pa^o, à qual El-Rei D. Joao II, ti- 
^ feito mercé de dezaseis mil réis de ten^a em sua vida, e pagos n'esta 
libi, para onde depois veio com o dito seu marìdo: tiverSo filhos: o pri- 



228 ntSTORIA LNStJLANA 

meiro, Rui GoD^alves da Camera, de que abaixo fallaremos ; segun(f(^^ 
Joao de Mello, que sendo tooco leve de buma Maria Dias bum flibo, por 
uome Rui de Mello, que casou na India, e o pai cà, jà reformado se meU 
teo Religioso em Alcoba?a; terceiro, Dtogo Nunes, que foi desposada 
com D. Maria fìlha de Joao de Outeiro, e de Guimar Raposa, viuva de 
Rui Yaz Gago do Trato; e sendo mo^o de pouca idade, sem fazer vid» 
com a esposa, se foi a Portugal, e d'ahi a Africa, e là o matarao. Quarta 
liiho foi Garda de Mello; e logo tres fillias, D. Joanna, D. Brites, e D. 
CStharìna. 

' li5 Governando este quarto Capjt3o veio buma Armada de Cas- 
tella, que entao trazia guerra com Portugal; e vendo o Captt3o a pouca 
gente, e poucas armas que bavia de peleja, usou d'este ardid, ou es- 
tratagema; mandou logo por na praia onde o inimigo podia lan^r gen- 
te, em fileira singela os verdadeiros soldados armados com Tortes langas, 
e assim chegavao a toda a frente da praia; e logo por detraz dobrou 
tantas fileiras de mo^os, e tantas mais atraz de mulheres, e com Qngi- 
das lanQas de altas canas nas maos; que querendo desembarcar o inimi- 
go, e vendo tal exercito na praia, dosistio do intento, e largando as ve- 
las se voltou, e flcou a Uba livre pela disposi^ao de bum Capitao sabio, 
e experimentado. 

116 Jà em vida de seu pai, que estava em Lisboa, tinha este Ca- 
pitao governado a Uba por provisao do Grao Mestre, ou Governador da 
Ordem de Cliristo, o Duque de Beja entào, que ao depois foi Rei D. Ma- 
iioel; e he de se ponderar a tal Provisao que diz assim: 

117 tEu Duque vos fafo saber a vós Juizes, Officiaes, Fidalgos^ 
Cavalleyros, Escudeyros, e homcns bons, e povo da minha Uba de Sào 
Miguel, que a mim disse Rui Gongalves da Camera, fidalgo de minba 
Casa, e do Consclbo del Rey meu Senhor, e Capitao por mercé da dita^ 
Uba, comò elle deyxàra'em seu cargo de Capitao a Joao Rodriguez dasr 
Camera, fidalgo da minba casa, seu filho; daqualcousaamimmeapraz ^ 
por sintir delle que he tal, que usarà do dito cargo assim comò pen— 
tence ao servilo del Rey meu Senhor, e meu, e bem da justifa; peLo 
qual vos rogo, e encomendo, e mando a todos em geral, e a cada bu«3i 
em especial, que obedecais ao dito Joao Rodriguez em todas as cousas, 
que ao cargo da dita Capitania pertencerem, assim tam cumpridamente^ 
corno farieis ao dito Rui Gongalves seu pay^ se là estivesse, e de direyfc^ 



LIT. V CAP. ^v 229 

soìs obrìgados a fazer. que de him, e outro assim cumprirdes, vo lo 
agradecerey, e terey em servilo: do contrario (o que de vós nao espe- 
ro) me desprezaria, e tornarla a isso, conoio fosse raz3o. E por este 
mando ao dito Joao Rodriguez, que no dar das terras ten}ia està ma- 
nevra, <^nvem a saber, que as qua forem dadas, nao Ihes de espaco, 
nem Ibes buia com ellas; nem de terra alguma de novo a homens, que 
tiverem terras na dita liha; e sómente darà das terras maninhas àquei- 
Ids que tei ras nao tiverem, assim aos moradores da dita Uha, comò 
iqueiles que de novo vieram a ella viver. E qualquer cousa que elle, 
acerca do que dito he, fizer em contrario, mando que nao seja valiosa. 
Feyta em Santarem a 25 de Dezembro. Joao Cordovìl o fez em 1487.» 

118 Depois deo este Gapit3o muitas terras de sesmaria a alguns 
tìomens princìpaes, que em seu tempo vierao para està liha, mas adoe- 
ceodo, e indo curar-se a Lisboa, faleceoléemoannodel50!2, eficousua 
mullier tres annos mais na Uha, até que seu filho Bui Gongalyes veio da 
Corte com sua mulher a tomar posse da Capitania, comò abaixo dire- 
inos; e a mai se resolveo a tornar para Lisboa com o quarto lilbo Gar- 
da de Mello, e com as tres filhas acima ditas ; porém (oh fado inevita- 
^el, oh ineicrutaveis juizos Divinos, oh casos lastimosissimos!) em huma 
caravela se embarcou mai, filho, e tres filhas, ha quasi duzentos e trinta 
iannos, e nem de taes pessoas, nem de toda a mais gente da caravela, 
nem d'està em parte alguma houve até hoje noticia, e parece que o mar 
so a póde dar. 

119 Era este Capitao Joao Rodriguez da Camera (diz Fructuoso, 
liv. 4, cap. 67,) grande Cavalleiro, muito discreto, e tao benigno, hu- 
niilde, e cortes, que a muitos fidalgos de Portugai affeicoava a irem vi- 
^er com elle na liha ; porém governou tao poucos annos, morreo tSo 
<^o, e tal morte tiverlo sua mulher, seu filho, e as tres filhas, que pa^ 
J^ece, que quao venturoso fui seu pai, (comò jà vimos) tao pouco ventu- 
^^ este Ibi, com ser seu filho. 

CAPITOLO XV 

Do quinto Cofildo Bui Gon^lves da Camtra^ seguudo do nome. 

120 Este quinto Capit3o, quando o quarto, e pai seu faleceo na 



230 HISTeRfA INSULÀNA 

Corte de Lisboa, eslava là tambem com elle, e por nao ter ainda i ida- 
de competente, govemou por elle em a Uha seu tio Pedix) Rodriguez 
da Camera até o anno de 1504, mas em vida ainda do pai tinha jà ca- 
sado este Rui Goncaives da Camera com D. Felippa Coutinho, filha de 
Lopo Affonso Coutìnho irmlo do Conde de Marialva, (e do Gonde de 
Borba, que depois foi Conde do Redondo) cuja fflba do tal CoDde 
de Marialva casou com o Infante D. Fernando, Gllio d'eKRei D. Ma- 
noel, e irm3o d*el-Rei D. Joào III. D'este antigo appellido, Cautinbo, 
comò do dos Cunhas aciraa tocàmos, se diz vir antigameiìte do caso 
seguinte. Em buma bataiha indo-a jà perdendo os de buma parte, o seu 
valeroso Alferes, nao obstante a bandeira que apertou bem comsigo, se 
metteo tambem no mais arduo da bataiha, e pelejou de tal sorte, e a 
seu exemplo os mais, que por sua parte se declarou a vitorìa; mas ao 
valeroso Alferes tinb3o aperlado tanto os contrarios por Ibe tornar a 
bandeira, e o Alferes tanto mais pela conservar, que com Ibe levarem a 
espada ambas as mSos, nunca Ihe poderao levar a bandeira, até que os 
seus }à vitoriosos Ibe acudirao, e o Alferes se reeotbeo sem as mlos, 
mas com a bandeira; e perguntando entao com que guardàra a bandeira 
tendo perdido as maos, respondeo: «Com os cotiniios dos bra^os a guar- 
dei.» que sabendo o Rei, depois de api*emiar ao tal Alferes, determi- 
nou que dalli por diante se cliamasse, «Cotinlio,i de sobrenome: e o' 
vulgo, nao sem mysterio, mudou este appellido de «Cotinhos, era Cou- 
linbos,» porque o famoso Alferes, dos cotos de seus bragos fez invio- 
laveis Coutos da bandeira. 

121 Era està D. Felippa, Dama da Excellente Serrfiora, quando ca- 
sou com Capitào Rui Goncalves da Camera; o qual com ella veio a 
està Uba tornar posse em o anno de 1504, e govemou alguns annos; 
mas nao Ihe faltarao logo aggravados, homens nobres, Cavalleiros, e Q- 
dalgos, que por causa (diz Fructuoso liv, 4, cap. 68,) de desapparece- 
rem humas escrituras, por causa de mulheres, ou por se recolberera 
bomiziados em sua casa, centra o dito Capitào propuzerao a El-Rei ca^ 
pitulos, e foi mandado ir emprazado a Corte, e com elle forao rauitos 
seus amigos em o anno de 1510, e todos em chogando a Corte, forào 
logo com mesmo Capitào mandados para Africa, a Tangere, e d'ahi 
forào por ordem d el-Rei soccorrer Arzilla cercada de Mouros, e erio 
quarenta de cavallo, e cincoenla bésteiros, e alguns de pé, os que com 
Capitào forào d'està Uha, e là andarào em Àfrica o anno inteìro de 



uv. V CAI». XV 231 

18 IO, e fizerao fainosas cavalgadas, e là forao arnaados Cavalleiros; e pa- 
rece que se equivocou Damiao de Goes uà Clironica d'el-Kei D. Manoel, 
3 part. cap. 3> onde isto poem nos anrios de 1309, SIO, e 511, e tu- 
du attribue ao primeiro Kui Goricalves da Camera, corno tambem diz a 
lieia^o dos Capitàes da Madeira; sendo que o primeiro Bui Goncalves 
da Camera, e aiuda seu Filiio Joao Rodriguez da Camera, jà ambos erao 
eiilao mortos; e a equivoca^ào de Goes, e d^aquella Rela^ào da Madei- 
ra, esteve em ambos estes, terceiro, e quinto Capitao de Sao Miguel, 
se diamarem do mesmo nome Itui Goncalves da Camera, e por isso se 
attribuirem as acQoes de bum ao outro ; e assim o sente o citado, e 
douto Frucluoso. 

122 certo he, que ainda nao obstantes taes servjQOS, voltando 
de Africa este nosso quinto Capitao, ainda pelos capitulos que se tinhao 
dado contra elle, sahio contra elle sentenza, per que foi privado da ju- 
risdicc^o, e Capitania de S. Miguel, e sem ella andou na Corte este se- 
guiido Rui Goncalves da Camera seis annos, até que pela amizade que 
coalrahio com o Wonteiro mór George de Mello, grande privado dei-Rei» 
e por contralarem enlre si, ique se se restituisse a jurisdicfào, e Capi- 
taoia de Sào Miguel ao dito Rui Gongalves, casaria o fliho deste com 
D. Joanna de Mendofa, filha do Monteiro mór; este em breve tempo tu- 
doconseguio, e se cumprio tudo; e no anno de 1317, voilou jà resti- 
iuido à Capitania, e Uba Bui Goncalves da Camera, com grandes festas 
de seus amigos; mas aos que o tinhao capitulado, vierào tambem cartas 
Beaes, para que o dito Capitao nem com elles, nem com suas cousas 
podesse mais entender ; e nos antecedeutes sete annos tinha governado 
a Capitania seu grande, e prudente tio Fedro Rodriguez da Camera. 

123 Depois de tantos desgostos, de seu emprazamonto, privacào 
de sua casa, e falaes gaslos de Africa, e Lisboa, Ihe sobreveio o irifaus- 
tissirao da subversào de Villa Franca, e deseslrada- morie de seus filhos, 
e irmà, porque tendo de sua mulher tres fllhos legitimos, Simào Gon- 
calves da Camera, Manoel da Camera, e Joao de Sousa, e duas legilimas 
lìllias D. Hieronyma, e D. Guimar, e bum fillio naturai Miguel da Sil- 
veira; so Manoel da Camera Ihe ficou vivo, tendo-lhe falecido de antes 
primeiro, e acabando-lhe os mais em Villa Franca, enterrados, ou sub- 
Uìfrados vivos, com demais huma irmà d'este mesmo Capitao, comò ja 
largamente referimos : com esles desgostos pois, e com jà sessenta annos 
Aj idade, e ba^endo trinta e tres que entiara a governar, succedeo que 



S32 ìnSTORIA INSULANA 

em hama qnarla feira 20 de Oulubro de 1535. indo depois de janlar a 
descansar hiim pouco em seu leito, e vindo sua mulher jà a competen- 
tes horas despertal-o, sem ter dado sinal algunì de si o achou morto. 

124 Porém tinha tanto de antes lidado com a morte, e preparado- 
se para ella, que tinha onze annos antes feito jà seu testamento em 20 
de Janeiro de 1524, tinha nomeado a mulher por sua Testamenteira, e 
por herdeiro seu a seu unico ftlho Manoel da Camera; tinha deixado 
muitas esmolas, e obras pias, e que de sua ter^a se resgatassem cada 
anno dous cativos de terra de Mouros, os mais dtesemparados, além de 
muitas JMissas que mandou se dissesem por sua alma ; è jà em Ponta 
Delgada tinha, com zelo do bem commum, e da pobreza, mandado fazer 
muitas atafonas junto a S§o Francisco, e abaixo da Parochia de S30 Pe- 
dro; e tinha determinado se sepultasse seu corpo na Capella mór de S3o 
Francisco, e assim se cxecutou: com que prudentemente se pode jnlgar, 
que quem tanto em vida se preparou para a morte, ainda que a ieve 
subita, nao a teve improvisa, que he a de que Deos nos livre. 

125 Ficou D. Felippa sua mulher, cuja vida foi de muito exemplo 
sempre, de muita oracào, e de grande charidade, e especialmente dada 
a compor disconlias: fez da sua terca a maior parte do Convento das 
Freiras da Esperanga em Pjnta Delgada, em terra que para elle derSo 
Fernando de Quenlal, e sua mulher, e n'este Convento recolheo as Frei- 
ras que se vierào da Villa dAlagoa, e junto ao mesmo Convento fez hn- 
mas casas, em que viuva se recolheo, e que por sua morte deixou at> 
mesmo Convento ; por seu Testamenteiro deixou ao sexto Capilao sea 
filho, e trasladou os ossos do marìdo para a Capella mór do tal Mostei- 
ro, e n'elta, e em o habito de Santa Clara se mandou enterrar, e assim 
se exoculou em looi, em que faleceo, sendo jà de idade de oitenta 
annos. 

CAPITOLO XVI 

Do sexto Capitào Manoel da Camera^ primeiro do nomee 

126 A seu Pai Rui Concai ves da Camera, segundo do nome, sue- 
cedco seu nilio Manoel da Camera, primeiro do nome: sendo jà de sei» 
annos o vio hum grande letrado, que passava por alli de Indias de Cas* 
Iella, e pergiintando que menino era aquelle, accrescentou, que ainda 
que tinha irmàos mais velhos, ha via ser mui rico, e grande senhor ài 



LTV. y GAP. X7I 233 

jwrìsdìccSo, mns que primeiro havia ser cativo, e passar grande Iraba- 
Iho, e turto assira succedeo, corno veremos. Depois, por seu pai o ter 
osado sem elle enl3o vir n'isso, e por ver hum Galeao que linha feito 
se«i pai em o Porlo dos Carneiros, e commiinicando seus inlenlos cont 
Piloto, e com alguns nobres amigos da terra, cora elles se embarcou 
ìK) Galeno, d«ixando o pai sangrado dezaseis vezes, e sera noticia do ca- 
so, e indo o Galeao desgarrado à Madeira, e d'ahi a Mazagao, nesta prn- 
ca hospedoii o Capilao d'ella Antonio Leite, tio do Padre Antonio 
Uile da Corapanhia de Jesus, que ficava era o Collegio de Sao Miguel, 
1^0 o vaio buscar D. Affonso de Castellobranco, seu parente, e fillio do 
ftmde de Villa Nova, e com gente de cavallo o levou para ^afim, e jii 
Qìristovao Soares tinha vindo era huraa caravela da liha a buscal-o, e 
de Lisboa tarabera hura Joao de Mello cora ordera del Rei para Ufo le- 
>*ar, e logo chegou carta dei-Rei que o chamava & sua real presenta. 

127 Nao pode jà alfazer Manoel da Caraera, velo buscar aEl-hei a 
Porliigal, e a Alconchete, aonde entao estava, e El-Rei o fez casar logo 
«Hn a desposada filha do Monteiro mór D. Joanna de Mendofa; e vindo 
«lepois a El-Rei nova que o Xarife tinha cercado a Villa de Cabo de Gué, 
njandou là Manoel da Camera cora gente, e cora promessa de logo Ihe 
ir soccorro ; foi Manoel da Caraera, entrou na Villa, defendeo-a quatro 
Jnezes, até que sera Ihe vir soccorro algura, mortos os raais dos solda- 
dos, entupida a cava, batidos os rauros, e arrazados, e queiraado o bn- 
'narie da polvora, com alguns duzentos horaens entrarao a praga os Mou- 
»*os, e a tomarao, e cativarao a Manoel da Caraera; e tres dias depois 
<^egou entao soccorro proraettido. Anno, e meio esteve prezo erahn- 
ma masraorra, e sempre cora braga ao pé, até que por seu resgate deo 
^"inte mil cruzados,'e El-Rei dous Mouros que cà tinha, aléra de oulr;as 
I^eitas, e entao o Xarife o deixou vir, e Ihe deo huraa tao rica alcatifa, 
^ ficou em està casa por meraoria a seus herdeiros. 

128 El-Rei, em chegando Manoel da Camera, o fazia Conde da Vil- 
^ d Alagoa, e por nao acceitar està mercé, Ih'a fez dos dizimos do pes- 
<^o da llha, e de sessenta raoios de renda para sempre, nas terras dos 
proprios que el-Rei tinha na Relva, termo da Cidade; Uem, Ihe concedeo 
^ dar todos os oflìcios da Cidade a quem quizesse, até o de Escrivjio 
<b Camera, e Orfaos. sem outra confirmagao, e sera Chancellaria, tiran- 
do OS olficios de sua Real fazcnda: e sobre ludo Ihe fez raercé de cons- 
^luir, e por o morgado desta Capitania de S. Miguel, fora da lei Men- 



234 HISTOUIÀ INSULANÀ 

tal, qiie he hiima das maiores merces que el-Rei faz a vassallo seu. E as- 
silli se vio cumprida a profecia d'aquelle acima dilo Indialico lelrado. 

Ii9 Em quanto vìveo o pai, nao tornou o Capitio Manoei da Ca- 
mera a està liha, e tornando, morto o pai, a tornar posse, brevemente 
voltou para Lisboa. Porem vendo el-Rei que os Lutheranos andavào mui- 
to insolentes, ordenou que se fizessem Fortalezas em as Illias, e que os 
Capilaes d'eltasresidissemcada bum em sua Capitania; e assim no Gm de 
Dezembro de 1552 tornou Manoei da Camera para a liba de S. Miguel, 
e com elle veìo o Doutor Manoei Alvarez Cabrai, que na mesma liba tinha 
sido Corregedor, que trouxe muitas armas, e ordem para fazer bum 
langamento de trinta e tres mìl cruzados (avaliando primeìro todas as 
fazendas, e a Alfandega dei-Rei) para se pagar a artelbarìa que ei-Rei 
mandava, e se comegar buma Forlaleza: para a tragar velo bum Isidoro 
de Almeida, Malbematico queentao compunba de Forliricagoes, e bum ir- 
mao seu Ignacio de Gouvea, e por primeiro Sargento mòr veio bum Joào 
Fernandez de Grada. 

130 Correndo entao o Capit3o a Uba toda, Tez por ordem dei-Rei 
companbias, e OlQciaes d'ellas, os mais nobi*es em cada Villa, em Pon- 
ta Delgada fez quatro Capitàes, Jorge Nunes Botelbo, Gaspar do Rego, 
Mencio de Vasconcellos; e Alvaro Velbo, e Ibes deu Alferes, e Sargentos. 
Em Ribeira Grande fez tres Capitàes, bui Gago da Camera, Joao Tava- 
res, e Gaspar do Monte, com suas companbias de duzenlos e cincoenta 
bomens de cada buma; e em Rabo de Peixe. termo da Ribeira Grande, 
fez Capitào a Fernao de Anes, e isto ludo fez em Junho de 534, e assim 
durou alò 571, em que se mudarao estes Capitàes. e se poz por Capi- 
tào mór em Hibeira Grande a Ruy Gago da Camera ; e voltando onlao 
Manoei da Camera ao Reino, tornou para està Illia [)or ordem d*ol-Ue'', 
com seu (Ubo D. Ruy Goncalves da Camera jà casado, e foi a [Himeira sez 
que cà veio: e ambos aqui esliverào oito anuos. Ao Sargenlo mór pa- 
gava el-Rei do tributo dos dous por cento das sabidas; de|)0is Ibe man- 
dou pagar das iraposigoes das Villas; e mais depois forào iladas aos pti- 
vos as (liias iniposigoes, dando os povos porem, do segundo lancaiuento 
onze mi! cruzados; o que fez l'ernào Cabrai Provedor da fazenda, e jis- 
sim se julgou no Reino, (|ue das imposiroes se nao pagasse mais ao Sar- 
geiito mór; e terceiro infn;amei]lo se frz tainhem por Duarle Borges dt? 
Baniboa, Provedor da fazcnda, e em tempo do mesmo Capitào Donata- 



LIV. V GAP. XVI 23JJ 

rio; e comegou a Forlaleza Manoel Machado> naturai da Ilha, e seu pri- 
meiro Mestre de obras. 

131 Teve este sexto Capitao cìdco filhas, e bum fillio de sua legi- 
tima muiber, d'este filho chamado Uuy Gongalves da Camera, terceiro 
do nome, corno succedeo na Capitania ao pai, e foi o primeiro Conde, 
d'elle se tratarà, quando se tralar do septimo Capitao Donatario de S. 
Miguel. A primeira tilha foi D. Felippa de Mendoga, que casou com D. 
Fernando de Castro, Albo de D. Diogo de Castro, Àlcaide mór de Evo. 
ra, Capitao, e senbor de Àlegrete, e Conde de Basto. À segunda filila 
U. Hieronyma de Mendoca quizerao seus pais casar, quando ella ja ti- 
iiba quarenta annos, e' ella Ibes respondeo, que pois suas irmàs erao 
Freiras pobres, queria ella ser Freira rica ; para Ibes acudir a elias : e 
assim acompanbou sempre a seus pais aie ambos morrerem, e ficou por 
cabe(^ de Casal, ale cbegar da Uba seu irmào, e Ibe caberem a ella qua- 
renta mil cruzados; e foi sempre de tal vida, que so Ibe fallava o veo 
prato, para ser buma perfeila e santa Religiosa, e corno tal nunca se 
chamou; nem assinou senào, Hieronyma das Cbagas, era multo dada a 
jejuns, cilicios, disciplinas, e oragào; fez seu testamento, e mandou que 
a eoterrassem no babito de S. Francisco, e na Capella mór de sua Igre- 
ja, que era de seu pai; deixou ciuco annaes perpetuos de Missas, e que 
ciuco criadas suas, Terceiras honradas, ouvissem as taes Mis^ds sem[)re, 
e que a boras de Vesperas fossem encommendar sua alma a Deos, e as 
de seus pais; e que a cada buma das taes ciuco mulberes se Ibe dessem 
cada anno vinte e cinco mil réis de ordenado, e nomeou para sua Tes- 
lameDteira a Casa da Misericordia de Lisboa, e Ibe deixou ludo o mais 
remanecenle de sua fazenda, para pagar aquelles cinco ordenados, e prò- 
^er n'elles gente virtuosa, e assim viveo, e morreo fidalga com commua 
opiniào de santa. 

132 A terceira filba foi D. Margarida, Freira na Madre de Deos em 
Xabregas: a quarta D. Joanna de Mcndoga, Freira em Santa Clara de 
(timbra, a quinta Soror Isabel, Freira em Jesus de Celuval, senbora 
<|06jà ca fora era de rara abslinencia, e penilencia. Sua mài D. Joanna 
nooca foi a Uba, por nao passar o mar, poreni a sua doutrina, e exem- 
pio de virtude devem as (ìlbas a multa que alc^n(ar3o, e o Capitao a 
•toa morte que teve, porque ainda que em Lisboa, em bum Domingo às 
W)ve horas do dia, querendo ir a Missa, Ibe deu bum accidente de par- 
ila, ou de ar, que Ibe tomou a parte diretta, e para ella Ibe inctinou 



230 HISTOBIA INSULANA 

a boca, e tiron a falla, nao Ihe tirou o juizo, com que viveo ainda cine/) 
(lias, recebeo todos os Sacramcntos, e faleceo corno piissimo Christ3o : 
deixou era hnm breve testamento ao Riho Riiy Gon^alves da Camera 
por seu herdciro, e Testamenteiro, de sua terfa deixou trezenlos mil rèis 
para tres ofGcios por sua alma : mandou que o enterrassem no habito 
de S Francisco, e qiie aos Religìosos por cada hnm dos tres Oflìcios 
Ihes dessero cincoenta cnizados, e bum nuDio de trigo, e huma pipa de 
vinho: e na sua Freguezia mandou fazer oulros tres Offlcios com dez mi! 
reis de esmola cada bum ; mas qne o enterrassem os Religiosos de S. 
Francisco, sem pompa, em bum alaude, se nao cbamasse fìdalgo algum 
e so seus crtados o acompanhassem, e ludo assim se fez, e foi enterra- 
do na dita sua Capella, aonde estav^ entorrada sua mulher. 

133 Tendo nascido este Gapitao em 1504, falleceo em 13 de mar- 
?o de 1578, sendo jà de 74 annos de idade, dos quaes per si, e por 
seu fìlho governou quarenta e tres annos a Capitania. Era t3o benigno, 
e misericordioso para com sous devedores, que nunca os quiz vexar; era 
grandioso em obras, comò bem se ve na sua Capella, que comecon a 
fazer no Mo^leiro de S. Francisco da Cidade em Lisboa, era emflm mul- 
to hnmilde, muìto affavel para todos, e para ninguem avaro de cortezia, 
virlude moral, que assim a tivessem todos os senhores que govemao, 
ile todos seus subditos serico mais obedecidos, e nunca expcrimentariao 
ìnsolencia alguma. 

CAPITULO XVII 

De alijuns homens famosos, e familiax que vierào povoar 
a Ilha de Sào Miguel. 

134 Insuperavel materia aqui tomou o Doutor Fructuoso, e depois 
d'elle Padre Antonio Leite da Companhia de Jesus, (que no seu Col- 
legio de Sao Miguel esteve muitos annos) em quererem explicar Genea- 
logias antigas, que tanto mais se impilerò, quanto se explicao mais, co- 
mò se ve era os mais dos Nobiliarios antigos, e ainda na fonte d'elles to* 
dos, no alto Conde D. Pedro, Infante de Portugal, fillio d'el-Rei Dom 
Dinis, e bonra de toda Hespanha, a quem addio suas Glossas o illustre 
Marquez de Monte Bello, e lìdelissimo sempre Portuguez, D. Feliz Ua*- 
chado: pelo que resoluto quasi estive a passar totalmente tal materia; 
onas comò vejo a Sagrada Escritura clieia de Genealogias, nSo so em o 



Liv. V GAP. x?n UT. I 237 

Testamento velbo, mas tambem no Novo, nos sagrados Evangeli^tas; er 
corno mesmo Deos nos manda por hum Santo Isaias, que attendamo:$> 
ipedra, de que fonK)S cortados, e à cova de qucsahimos, Isai. 51, num. 1. 
Que consideremos bem nossos maiores, corno verte o doutissimo Padn^ 
Jtfarianna; e Sào Paulo so prohìba tralar de Genealogias, de que so nas- 
(mk contendas, e que sao vas, e ìnuteis, corno a Tìmolbeo escreve, 
Epist 2 cap. 1 num. 3. e corno emfìm todo o extremo, em materias 
moraes, he ordinariamef^te vicioso, por isso me resolvi a nem tralar tan- 
to d ellas, que fique mundana, e va, ou fantastica bisloria, nem tao pou- 
00 as tocar, que falte à fidelidade dos Religiosos, e Catliolicos Doulores 
a que sigo, e ao fruto que devem tirar os descendentes. dos exemplos 
de seus antepassados, imitando os bons, e dos «naos fugindo sempre. 
Recopilemos o multo, e o melbor que se diz d'islo, reduzindo a tìlulos 
de algumas Genealogìas, o que d'ellas póde ser de maior utilidade, e 
iinita^ao commua. 

TITULO I 

Dos Velhos, Cabraes, Mellos, e Travassos, Soares de Albergarla^ 

e Sùusas. 

133 Jà d'estas familias tratamos no liv. 4 cap. 2, e 3, e no liv. 5 
cap. 1, e as mais das casas nobres d'estas duas Ilhas de Santa Maria, e 
Sic Miguel se acharào ligadas com as ditas primeiras familia.^: e o mes- 
ino consta dos Soares de Albergarla, e Sousas; porque o primeiro clia- 
inado Soares traz o nosso Conde D. Fedro fol. 133, de que nasceo I). 
^'iro, pai do D. Ufo Soares Belfazer, de que nasceo Ufo Ufes Soares, 
Govemador da Beira, Conde de Vizeu, Vieira, e terra de Basto, do quaf 
nasceo Santa Senhorinha, que morreo em 972. Monja de Sào Itento; e 
•ogo esles mesmos Soares se cliamarao de Scusa, dos quaes o primein> 
fol D. Egas Gomes de Sousa, bisneto do Conde D. Gocoy, irmào da dita 
Santa Senhorinha, e por nascer na terra do rio Sousa, e a conquistar 
w Mouros, tomou de Sousa o appellido, comò dos mesmos Soares, e 
de outra terra loraarao o nome de Soares de Albergarla; e d'estes Sou- 
sas, que de anles erao Soares, veio depois Dom Mem Garda de Sousa, 
^ que nascerao duas filhas, huma foi D. Constanfa Mendes de Sousa, 
da q«al veio està linha de Sousas até Ilenrique de Sousa. primeiro Con- 
^ de Miranda, de que nasceo Diogo Lopes de Sousa, segundo Conde^ 



238 KISTORIA INSULAI9A 

€ d'este primcìro Marqaez de Arronches, e seu Irmaro o Cardeal D* Luis 
de Sousa, Arcebispo de Lisboa, e Capellao mór d'el-Rei D. Fedro IL A 
outra filha deDom Mem Garda de Sousa foi D. Maria Mendes de Sou- 
sa, qiie casou com Dom Louren^o Soares Valladares, de que nasceo D. 
I^es Lourenco de Sousa, que casou oom Martim Affouso, chamado o 
Cliichorro, flllio d'el-Rei D. Affonso III de Portugal, e assim continuoa 
està segunda linha de Sousas ale Femao de Sousa, senhor de Gouvea, 
que casou com D. Felippa de Mei lo, e seu neto Femao de Sousa Go- 
vernador de Angola, e pai de D« Diogo de Sousa, Arcebispo de Evora, 
e Thomé de Sousa, Alcaide mór de Villa Vi(osa, de que nasceo o Arce- 
bispo de Braga, e depois de Lisboa, e seu irm3o FernSo^de Sousa, pai 
de Thomé de Sousa, Ctnde de Redondo. E d'estas iUuslres familias bas- 
ta està breve noticia. 

136 Dos Melios so advirto, que o primeiro d'este appellido foi D. 
Mcm Soares de Mello, (comò se ve no Conde D. Fedro Ut. 45) filho de 
D. Soeiro Reymondo, de Riba de Vizella; o qual Mello era casado confi 
D. Tareja Affonso Gatta, filha de Affonso Pires Gatto, filho de Fedro Nu- 
nes Velho, que era filho de Nuno Soares Velho, (assim se ligarao sem- 
pre entre si estas familias:) de Mem Soares de Mello, nasceo Affonso 
Mendes de Mello, que casou com Dona Ignez Vasques da Cunha, e d'es- 
tes nasceo Martim Affonso de Mello, casado com D. Marinha Vasques, 
filha de Eslevao Soares o Velho, senljor de Albergaria; (e d'aqui veio o 
appellido de Soares de Albergaria) do tal Martim Affonso de Mello nas- 
ceo outro do mesmo nome, senhor da Villa de Mello, de que houve mais 
descendentes: do primeiro Martim Affonso de Mello nasceo mais Vasco 
Martins de Mello, Guarda mór d'el-Reì D. Fernando, e Alcaide mór de 
Evora,' que primeira vez casou com Teresa Correa, filha de Goncalo Co- 
mes de Azevedo Correa, de que nasceo Gonzalo Vaz de Mello, avo 
de Fedro Vaz de Mello Conde da Ataiaya, e pai de D. Leonor de Mello, 
que casou com D. Alvaro de Ataide, filho de D. Alvaro Gonc^lves de 
Atayde, primeiro Conde de Atouguia. 

437 Do mesmo Vasco Martins de Mello, e de sua segunda mulher 
D. Maria Affonso de Brito nasceo outro Martim Affonso de Mello, Guar- 
da mór dei-Rei Dom Jo3o I, e Alcaide mór de Evora, e Olivenca, que 
casou primeiro com D. Brites Pimentel, filha de Joao Affonso Pimentei, 
primeiro Conde de Benaiyente; e do tal primeiro matrimonio nasceo ou- 
tro Martim Affonso de Metlo, de que nasceo D. Rodrigo de Mello, Conde 



Liv. V m. i 239 

de Olivenca, e d'este nasceo D. Felippa de Mello, que casou com D. Al- 
varo de Braganc^, fillio do segando Duque, e nelo do primeiro Infante 
D. AITonso, filho dei-Rei D. Joao I ; e do dito D. Alvaro nasceo D. Ro- 
drigo de Mello, primeiro Marquez de Ferreira, e d'este nasceo D. Fran- 
cisco de Mello, segundo Marquez, que casou com D. Eugenia, filha do 
Duque de Braganca D. Jayme; e d'este D. Francisco de Mello, segundo 
Marquez, nasceo D. Alvaro, lerceiro Marquez, que foi pai de D. Fran- 
cisco de Mello, quarto Marquez, de que nasceo D. Nuno Alvar'ez Pereira 
de Mello, quinto Marquez de Ferreira, e primeiro Duque do Cadaval, 
que casou tres vezes; primeira com liuma filha do Conde de Odemira, 
de que Ihe ficou Imma filha, a quem o Duque herdou, por Ihe morrer 
pupilla: segunda vez casou com huma Princesa da Casa de Lorena, de 
que Ihe ficou outra filha, que casou com o Marquez de Fontes: lerceira 
vez cnsou com huma sobrinlia dei-Rei de Franca, de que o primeiro fi- 
lho casou com a Infante a Senhora D. Luiza, filha dei-Rei D. Pedro II 
de Portugal, de que nao teve filhos, e morrendo, casou o segundo filho 
Duque D. Jayme com a viuva de seu irmao, e tambem nào tem filhos 
d'ella. 

i'ÌS Do sobredito D. Alvaro de Bragan(;a, tronco dos Marquezes de 
• Ferreira, e Duqnes do Cadaval, nascerao mais varias filhas, huma das 
qiiaes cason com D. Francisco de Portugnl, primeiro Conde do Vimioso, 
de que nasceo o segundo Conde D. Afl'onso de Portugal ; e outra filha 
do dito D. Alvaro casou com o Infante D. Jorge de Lancastro, filho dei- 
Rei I). Joao II, e primeiro Duque de Aveiro, de que nasceo o segundo 
Duipie D. Joao de Lancastro, e deste o terceiro Duque D. Alvaro, de 
qne nasceo o quarto Duqne de Aveiro, e d'este o quinto Duque D Ray- 
«inndo, que foi para Castella, e morreo sem descendencia, e Ihe succe- 
deo no Ducado, por sexlo Du(|ue de Aveiro, D. Pedro de Lancastro, ir- 
rogo legiiimo do quarto Duque, e Inquisidor Cerai, Arc«bispo de Lisboa, 
cnia legitima irma casou com o Conde de Portalegre, de que nasceo D. 
Joào (la Silva, Marquez de Gouvea, e D. Frei Alvaro, Bispo Conde de 
Coimbra, e D Juliana de Lancastro Condessa de S. Cruz. 

139 Nasceo mais do sobredito Martim Afibnso de Mello, (av6 d'a- 
Wlle Conde de Olivenga D. Rodrigo de Mello) e de sua segunda mu- 
fiep D. Briolanja de Sousa, nasceo, digo, Joao de Mello, Copeiro mór 
del- Rei D. AfTonso V, e Alcaide mór de Serpa, de que nasceo primeiro 
Porleiro mór Alcaide mór de Serpa ; segundo, o Monleiro mór Jorge 



140 HISTORIA INSITLANA 

de Mello, que casou C(Hn D. Margarida de Mendoga, Glha de Diega de 
Mendo^a, Àlcaide mór deMourSo, eirmao da segunda mulher doDuque 
de Bi aganga D. Jayme; e etn terceiro lugar Dasceo D. Leonor de Mello» 
que casou com Nudo Barre to, Alcalde mór de Faro, e destes oasceob. 
Isabel, que casou com D. Alvaro de Castro o do Torrao, dosquaes nas- 
ceo D. Leonor de Castro» que seudo Dama da Emperatrìz D. IsabeU e 
doEmperador Carlos V, casou com o Duque de Gandia, que viuvo d'ella 
professou a Beligilio da Companliia de Jesus, e D'ella morreo santissima- 
mente, e foi terceiro Geral d'ella, e he Santo canonizado S. Franciscfl 
de Borja, de que descendem muitos Principes. 

140 Item, nasceo do dito Joào de Mello, Copeiro mór d*el-Rei D. 
AfTonso Y, nasceo Garda de Mello, Akaide mór de Serpa, e deste nas- 
ceo D. Jorge de Mello, que depois se fez Ecclesiastico, e foi Abbade de 
Alcoba(;a, eBispo da Guarda, de quem foi fìllio D.Antonio de Mello, qoe 
casou com D. Joanna da Silva, sua prima; e destes nasceo D. Jorge ufi 
Mello, que casou com D. Maria da Cunha, Qlha de Cliristovao de Meila^ 
Porteiro mór del- Rei D. Joao III, de que nasceo D. Antonio de Melk), 
do Consellio dei-Rei por Portugal em Madrid, que casou com D. Fraii* 
cisca lleiiriques, e d'estes nasceo D. Jorge de Mello, que com oMarqnez 
de Ferreira acclamou em Evora a El-Rei D. Joào IV, levando a Bandei- 
ra, e foi Mordomo da Rainlia D. Luiza; e casou com D. Margarida de 
lavora, fillia de Pedro Guedes, Estribeiro mór, Governador da Casa da 
Porto, e senlior de Morsa; e este teve os lìlhos segninles: D. Joseph dti 
Mello, que depois de militar em Alem-Tejo, e indo beni de^pachado para 
a India, na viagem se mctteo Religioso da Conipanhia de Jesus, aoa<ltì 
depois morreo coni opiniào de Santo; item, D. Joào de Mello, que depoii 
de Bispo d'Elvas, e de Vizeu, morreo Bispo Conde de (^oimbra com fa- 
ma conslante de grande esmoler, e de exemplarissimas virtudes ; item, 
D. Pedro de Mello, Governador do Maranhào, que deixou por filhos le- 
gitimos a U. Antonio de Mello» casado com D. Joanna de Mendoca inua 
do Estribeiro mór, e senhor de Mursa; Luis Guedes de Miranda e Li- 
ma, fillio de Peilro Guedes, Estribeiro mór del-Uei D. Joào IV, erde 
D. Maria de Meiidofa, irmà de Luis de Mendoga Viso-Rei da India; e a 
D. Francisco de Mello casado na Beira ; e a 0. Luis Joseph de Me 
Maltez; e a U. Joseph de Mello, Ecclesiastia), da Junta dosTres Est 




LIVRO V TIT. II 241 

TITOLO II 

Dos Cameras, e Betencores. 

Ut Assim corno vimos jà no liv. 3 a illustre famllia dos Cameras 
multiplicada nao so em a Capitania do Funchal, mas tambem na de Ma- 
chia), e na da Uba de Porto Santo; assim agora a veremos extendida 
Dio so por toda a Uba de Sao Miguel, mas tambem pela de Santa Ma- 
ria, e mais Ilbas; que se os Reis soberanos se nao desprezao de se ser- 
w em seus Reinos de seus proprios parcntes, e comò a taes os tratao, 
e nomeao, menos devem desprezar-se os Capitaes de se servirem de seus 
parentes, e comò a taes os tratarem; quando até com vassallas suas ca- 
savio os Reis antigamente, e entao melhor conservavao em sua nacao 
seus Reinos, e os livravao de serem conquistados de outros Reis: e por 
isso perguntando bum dos Capitaes de Sio Miguel, de quem se bavia 
servir na dita Uba em occasioes de guerra, respondeo, que de seus pa- 
rentes, de que a Uba estava cbeia. 

142 Vejamos pois agora està verdade. Certo be, que o terceiro Ca- 
pitào de Sao Miguel Rui Goncalves da Camera, (sendo legitìmo filbo do 
primeiro Capi tao do Funcbal Joao Gongalvcs da Camera o Zargo) com- 
tndo nem Qlbo algum legitimo, nem legitima filha leve: mas illegilimos 
leve muitos: além do primeiro, Joao Rodriguez da Camera, que em quar- 
to Capitao Ibe succedeo, teve por segundo filbo, Antao Rodriguez da 
Camera, que casou com Dona Catbarina Ferreira, Dama da Duqueza de 
Bragaoca, e d'este segundo Albo n3o so nasceo Rui Pereira da Camera, 
<pie morreo solteiro, mas tambem D. Mecia, que ficou com bom mor- 
gado em Ribeira Grande, e abi casou com D. Comes de Mello, Albo de 
D. Diego de Mello, e de D. Maria Manoel: e d'estes nasceo D. Francis- 
co Manoel, que voltando da India succedeo no morgado, e casou com 
buma filba do nobre Francisco Carneiro em Sao Miguel, de que ficarao 
fflbos: nasceo mais Dom Manoel de Noronba, morto sem fillios em Afri- 
ca, e D. Rodrigo de Mello, que tambem sem filbos, e em Africa morreo 
oabatalba d'el-Rei D. Sebastiao, e D. Maria Manoel, Dama da mai do 
loesmo Rei D. Sebastiao, com a qual foi para Castella. 

143 Do mesmo Antao Rodriguez da Camera nasceo D. Maria da 
Camera, que casou com Joao Nunes Velbo, filbo de Duarte Nunes Velbo, 
do qual casamento bouve a descendencia em Sao Miguel, e em Santa 

VOL. 1 IG 



242 lIISTOniA INSULA.NA 

Maria, que acima so] vio jà: nasceo mais D. Guimar da Camera, qne ca- 
sou com Paulo Cago, do quo nas^,eo Ruy Cago da Camera, que casou 
com D. Isabel, ou Francisca de Oliveira, de qne nasceo oiilro, e tercei- 
ro Ruy Cago da Camera, que casou com I). Anna de Bctcncor, filha de 
Braz Barbosa: e d'cstos nasceo Concaio da Camera, Alferos mór, e D. 
Barlìara da Camera, quo casou com o Licenciado Duarle Ncym3o; e do 
sobredito [)rimeiro lUiy Cago da Camera nasceo tambem Paulo Cago da 
Camera, quo casou com D. Isabel do Medoiros, filha de Hieronymo de 
Araujo, fidalgo de Villa Franca; dos quaos nasceo Pedro Cago da Ca- 
mera, que casou com Maria da Costa, (Uba do Antonio da Costa, de Ri- 
beira Grande: e do mesmo Paulo Gago nasceo mais Hieronymo de Arau- 
jo da Camera, que casou com huma filha de Luiz Leìte, de Ponta Del- 
gada: e d'esles nasceo Manoel da Camera, que c^asou com Margarida Ca- 
brai, e forao pais de oulro Manoel da Camera, (que casou com Isabel Co- 
bes) e de Maria Leite, que casou com Manoel Pereira da Sìlvoira, nobre 
Cidadao de Ponta Delgada, irmao do Padre Joao Pereira da Companhia 
de Jesus, e fillios ambos de outro Cidadao Antonio Pereira d'jElvas, e 
de sua legitima mulher Apollonia da Silveira. 

144 mesmo torcoiro Capitilo Rui Gonc^-ìlvcs da Camera le^'e por 
tcrceiro fillio a Podro Rodrigucz da Camera, que casou com D. Maria 
de Betencor e Sa, de que (fura ciuco (juc morreifio soltoiros) nasceo Ilen- 
rique de Betencor e Sa, que casou com I>. Simoa, filila de Ballhezar Vaz 
de Sousa, e de Dona Leonor Manuel em Uibeira Grande, dos quaes nas- 
ceo Manoel da Camera, (pie casou com D. Maria, fdlia de Ruy Gago, e 
liverao fillios: nasceo mais Ruy Gonralvos da Camera, que casou com D. 
Luiza, filha de Hieronymo Jorge, e de I). Brites de Viveiros, de que 
nasceo Simao da Camera, que casou com I), Cecilia Ramalha, filha de 
Francisco Ramalho, e de Leonor Nota, de que nasceo Valentim da C-a- 
mera, que casou com D. Joanna de Sa, filha de Simao Lopes, e de D. 
Maria de S.ì, dos quaes nasceo huma unica filha D. Maria, que casou 
porém duas vezes: primeira, com Manoel Rcbello de Castel lobranco, fi- 
llio do Capitao Ballhezar Rebello de Sousa; e segunda vez com André 
da Ponte, fillio de Bartholomeu do Quental, e de Meliciana Qiiental, e 
de anihos estcs maridos teve a dita I). Maria filhos; ilem, nasceo do di- 
to Simao da Camera, segundo filho Manoel da Camera, Sargento mór, 
que casou coni D. Maria Coulinha, filha de Joao de Frias, e de D. Bri- 
tes IVreira, liiha de D. Joao Pereira, nolo do Conde da Feira: nasceo 



Liv. V TU. n 243 

mais do sobredito Simao da Camera, outro tcrceiro fillio do mesmo no- 
me, e quarto filho Rodrigo da Camera, e ambos estes deixarào filhos em 
Ribeira Grande. 

145 Do mesmo Pedro Rodriguez da Camera, lerceiro filho do ler- 
ceiro Capitao Donatario Rni Gonfalves da Camera, nasceo mais Joao Ro- 
driguez da Camera, que morou na Acbada Grande, e era Commendador 
de Estrinta na Serra da Eslrella, o casoii duas vezes; primeira com D. 
Mena, fillia do Contador Martim Vaz de Bulliao; segunda vez casou 
com D. Catharina na dita Serra da Estrella, e d'este segando matrimo- 
nio ainda que houve filhos, nHo ficou d'ellos descendencia; poròm dopri- 
meìro matrimonio nasceo Rcrnardim da Camera, que casou na Villa de 
Nordeste, com D. Luzia Brandoa, filila de Manoel Dias Brandào, e de An- 
na Alfonso, e d'estes nasceo Dona Maria da Camera, que casou a pri- 
meira vez com Antonio de Brum da Silveira, e seus filhos nao deixarào 
descendencia; e a segunda com Antonio Borges da Costa, de que nas- 
ceo Duarte Borges da Camera, que casou com Dona Maria de ^rias, de 
qne nao houve filhos; e nasceo mais D. Maria da Camera, que casou 
com Gaspar de Medeiros de Sousa, dos quaes nasceo Gaspar de Medei- 
ro8 da Camera, que casou com D. Maria, filha de Miguel Lopes, e de 
D. babel do Canto; e erafim do dito Pedro Rodriguez da Camera nas- 
ceo tambem D. Francisca, quo casou cm Lisboa com D. Antonio de 
Soosa, irm3o do Conde do Prado, de que nasceo Dom Dinis de Sousa, 
com filhos li no Beino, e a fazenda cà em Sao Miguel. 

146 Nasceo mais do mesmo tcrceiro Capitao Ruy Gonfalves da Ca- 
mera, D. Brites da Camera, que casou com Francisco da Cunha e Albu- 
qoerque tinha chegado da India, emuitorico, ed'estes nasceo D. Guimar 
di Conila, que casou com o terceiro Capitao Donatario de Santa Maria 
Wo Soares de Sousa, corno jà se vio no liv iv, cap. 8 do terceiro Ca- 
piBo Donatario da dita Rha, e da muita descendencia que d'elle houve, 
blinda ha. E està he a copiosa descendencia que da illustre familia dos 
(^ras ficou em estas Uhas, porque n'ellas nao sei que dos seguintes 
CipltSes Cameras ficasse alguma outra descendencia nas dilas duas Ilhas, 
alTofllhas Freiras que em S. Miguel cntrarao, e morrereo muitas, e 
com nao menores rcsplandoi^es de virtudes, que de seu illustre 



i46 Da illustre familia dos Betcncores descubrimos o seu tronco 
^ liv. II cap. 3, ondo vimos, que bum grande Ahnirante de Franca foi 



344 HISTORIA INSULANA 

prìmeiro Gatbolico que conquistoo tres Ilbas nas Canarias, anno de 
1417, e foi legìUmo Rei das taes Ganarìas, e se cbamava Mussen, ou 
Ruben» de Barcamonte, e por sua morte ibe saccedeo na Coroa seo so- 
brìnbo Hossen Jo3o de Betencourt, oa Betencor, que conquistoo a quar- 
ta Uba das Canarias, e por nio poder conquistar a principale cbamada 
a Gram Csinaria, vendeo as quatro que tinba ao nesso Serenissimo In- 
fante D. Hen(ique por certas Tazendas, e rendas que Ibe deo na flba da 
Madeira, (quo jk depois das Qanarias se tinba descoberto) e para ella 
jé sem Reinado se mudou o dito Betencoort, segundo Rei das Cana- 
rias, (de cuja deseendencia agora tratamos) Filba legitima d*este segun- 
do Rei das Canarias era Di Maria de Betencor; que com elle tinba ido 
de Franca para ellas, e vindo d*ellas para a Madeira, casoa com Boy 
Goncalves da Camera, filbò legitimo do prìmeiro Capitao do FuncbaI, e 
que foi terceiro CapitSo de S. Miguel, mas porque d*esle matrimonio 
nio bouve deseendencia alguma, e a varonia dos Betencores se continuou 
e dura ainda, de bum legitimo irmSo da dita D. Maria, e estas duas ìl- 
lustres familias de Cameras, e Betencores comecario logo tio Uadas por 
isso as ajuntamos aqui. 

148 Do tal pois segundo Rei das Canarias Mossen Jo3o de Beten- 
cor, nascerio Mici Maciot de Betencor, e a dita D. Maria de Betencor, 
mulber do terceiro CapitSo da Uba de S. Miguel, e ambos nascidos ain- 
da em Franca de mulber com quem U tinba casado o dito s^undo Rei 
das Canarias, comò tambem de Franca tinba vindo ji casado o tal irmSo 
da dita D. Maria. De Mici Maciot de Betencor nasceo na Madeira Gas- 
par de Betencor, que casou com D. Guimar de Sa, Dama do Beai Paco 
de Portugal, filba de Henrique de Sé, do Porto, de que descendem os 
illustres Marquezes de Fqntes, e prima coirmi de D. Violante Condeca 
da Castanbeira, e este Gaspar de Betencor foi o sobrinbo, que a tia D. 
Maria cbamou para S. Miguel, e fez morgado n'elle, por n3o ter Tilbos 
de seu marido Buy Goncalves da Camera, terceiro Capitio Donatario de 
S. Miguel. 

149 D*este pois Henrique de Betencor nasceo o primeiro 6Ibo va- 
rio Jo3o de Betencor e Sé, que casou em S. Uiguel com Guimar Gon- 
calves, filba de Concaio Vaz, o moco chamado o Andrinbo, e de boma 
filba de Fedro Cordeiro, da famìlia dos Cordeiros, de que Irataremos 
em seu lugar abaixo; e do tal Joio de Betencor e Si nasceo primeiro fi- 
^ho Francisco de Betencor e Sa, senbor das Saboarias da Madeira, pan 



LIV. V TIT. II 245 

onde tinba voltado de S. Miguel, casado jà com D. Maria da Costa e 
Medeiros, fiiba de Diogo Alfonso Colombreiro; e d*estas familias abaixo 
bilaremos. Do tal Francisco de Betencor nasceo André de Betencor e 
Si» quo casou com D. Isabel de Aguiar, grande fidalga da Madeira, fi- 
iba de Bay Dias de Aguiar, e de D. Francisca de Abreu ; e do tal An- 
dré de Betencor, e da dita sua mulber nascerlo primeiro Francisco de 
Betencor, segundo, Buy Dias de Aguiar, e ambos morrerao sem flibos, 
e snccedeo na casa o terceiro filbo Gaspar de Betencor e Sé, a quem 
logitimamente succedeo seu Albo Francisco de Betencourt e Sé, que ca- 
sca com D. Anna de Aguiar, dos quaes nasceo D. Gaspar de Betencurt, 
moco fidalgo da Gasa Beai, que casou com D. Margarida de Miranda, e 
d*estes nascerSo primeiro D. Manoel de Sé, que se fez Clerigo, e assim 
norreo, segundo D. Bartbolomeo de Sé, que casou e morreo sem filbos, 
terceiro D. Francisco de Betencurt e Sé, que foi Beligioso professo da 
Companbia de Jesus, e morreo pregando em S. Boque de Lisboa com 
grande exemplo de virtudes, e de por servir a Deos; desprezar a gran- 
de casa de seus pais, e foro que tinba na Casa Beai, conforme ao de 
seos pais, e avós; e ultimamente se seguio na casa D. Bernardo de Be- 
tencurt e Sé, que ainda eslé solteiro; e por varonia, sempre legitima, e 
ijlostre, be oitavo neto do segundo Rei das Canarias Betencurt. 

ISO Muitas outras, e muito nobres familias samrao da dita linha 
dos laes Betencores, que se tem tocado, e tocar3o em seus lugares, por- 
qae do primeiro Gaspar de Betencor, neto do dito Bei das Canarias, 
nasceo tambem Henrique de Belencor, fidalgo da casa d*el-Rei D. Ma- 
noel, cujas filbas casario assim em Lisboa, comò em Castella, com D. 
Abaro de Luna, fillio de D. Fedro de Gusm3o ; comò tambem em S. 
Vigoel com os Barbosas Silvas, e com os Gagos da Camera. Nasceo mais 
Gaspar de Perdomo, que casou com Brites Velba, dos primeiros Yelhos 
OAraes; do qual casamento nasceo D. Simoa, que casou com D. Jo3o 
hnm, bisneto do Conde da Feira, aonde depois casario os Frias. Item 
nasceo D. Margarida Betencor, que casou com Fedro Rodriguez da Ca- 
n^, comò vimos em os Cameras. E emfìm nasceo D. Guimar de Sé, 
qoe casoQ com Antonio Zuzarte de Mello, fidalgo de Evora; de que hou- 
^ illostre descendencia. £ d'aquelle Joao de Betencor, Bisneto do dito 
Bei das Canarias, nasceo Sim3o de Betencor, pai de Antonio de Sé, que 
casco com D. Felippa Pacheca, filha de Fedro Pacheco, e neta do pri- 
ntóro Antao Pacbcco; mais nasceo D. Margarida de Sé, que casou com 



246 IlISTOUU INSl'LANA 

Gaspar do Rogo Baldaxa, do quo descedem os Regos. E emfim d'aquel- 
le André de Betencurt, quarto nelo do sobredito Rei, nasceo D. Maria 
de Agiiiar, que casou com Manoel Alvares Ilomem, de que nasceo Fran- 
cisco de Betencor, que casoa com D. Maria Rebella ; e d'esles nasceo 
Joao Borges de Betencor, que casou coro D. Calharina da Camera, fdha 
de Ruy Cago da Camera, e de D. Anna de Betencor. 



* TITULO in 
Dos GagoSy Raposos, Ponles, Dicudos, Correas, Pachecos, 

151 De Beja velo para S. Miguel, no principio do descubrimenlo d'es- 
tà Uba, bum conbecido fidalgo, cbamado Rui Vaz Cago por alcunha o do 
Irato, pelo grande contrato que tinba com o Beino; veio jà casado, com 
huma fidalga, cbamada Catbarina Comes Raposa, e era filbo de Louren- 
CO Anes Cago, fidalgo tambem de Beja, e irmao de Eslevao Rodrìguez 
Cago, pai de Luis Cago, que com o primo Rui Vaz Cago veio para està 
liba, e d'estes dous primos veremos com dislincgao a desccndencia. Luis 
Cago casou na Uba com Branca Affonso da Costa, fidalga dos Colom- 
brciros: era Capitao em Ribeira Grande, e tao rico jà, que a cada buma 
das muitas filbas que leve, deo em dote vinte moios do trigo de renda 
cada anno, quo boje rendem, e valem dobrado: d'elle nasceo Paulo Ca- 
go, que casou com Guimar da Camera, filba do Anllio Rodriguez da Ca- 
mera, de que ja acima Iralàmos: e d'este Paulo Cago nasceo Rui Cago 
da Camera, Capilao-mór de Ribeira Grande, do que nascilo oulro Rui 
Cago da Camera, de que nascerào Gouralo da Camera, Alferes-raór, e 
D. Catbarina, casada com Joao Ror[.:o$ de Bolencor, e oulra filba casada 
com Sebasliao Borges da Silva, Lealdador mór; e dos desta linba de 
Luis Cago, e Branca Afi*onso bouve mais desccndenlcs quo deixo. 

152 Do outro primo Rui Vaz Cago, e de sua mulber Catbarina 
Comes Raposa nasceo primcira filba Isabel Rodriguez Raposa, que ca- 
sou com bum N. de Abreu, fidalgo do Reino, cuja filba Anna dcAbreu 
casou com Pedro de Azurar, Estribeiro-mór do Senbor Dom Jorge, Du- 
que de Aveiro. Segunda filba foi 1). Mccia, ou Maria Raposa, que casou 
com Estevào Nunes de Atouguia em Porlugal, de quo nasceo D. Catba- 
rina, que casou com D. Diogo de Sousa, Vice-Rei do Algarve, a qùem 



LIV. V TIT. Ili 247 

pela mii ficou um morgado de cento e^trinta e oìto moios de trigo de 
rada cada anno cm a liha, e d'cste D. Diego nascco D. Maria de No- 
ronba, que casou com o Conde da Castanheira, de que nasceo o Conde 
D. Ioao de Ataide. Terceira filila de Rui Yaz Cago, e de Catharìna Co- 
mes Raposa foi Brites Rodriguez Raposa, que casou com Jacoine Dias 
Correa, Cidadao do Porto: dos quaes nasceo Jurdao Jacome Raposo, quo 
primeira vez casou com Francisca Rodriguez Cordeira, filha de Jo3o Ro- 
driguez Cordeiro, Feitor da Fazenda Real: e segunda vez com Margari- 
da da Ponte, fiIha de Pedro da Ponte o Veiho, de Villa Franca, e do prl- 
meiro matrimonio nasceo;[Sebasliao Jacome Correa, que casou com Ignez 
da Ponte, fiIha de Pcdro da Ponic Raposo, quo casou com Maria Car- 
neira, fillia de Antonio Ricado Carneiro, fidalgo de Villa de Conde, de 
que nasceo Manoel liaposo Dicudo, quo casou primeira vez com D, An- 
na de Vasconcellos Lcile, e segunda vez com Anna de Mcdeiros, filila 
de André Dias, fillio de Gaspar Dias, e d'oste IManocI Baposo nasceo Pe- 
dro da Ponte Bicudo, que casou com D. Isabel Boteiha de Sampaio, de 
?TO nasceo Manoel Raposo Correa Bicudo, e outros fillios e filhas Frei- 
ras. 

153 Do sobredito Joao Jacome Raposo nasceo mais Andrò Jacome, 
pai de Pedro Jacome, de que nascco oulro Pedro Jacome Raposo, que 
por preferente tirou bum morgado da Uba a bum Conde de Lisboa. E 
de Jacome Dias Correa, e Beatriz Rodriguez Raposa nasceo tambem 
D. Isaliel Correa, que casou com Joao da Silva do Canto, fidalgo de An- 
gra, de quo fallaromos cm seu lugar; e nasceo mais Barilo Jacome Rapo- 
so, que casou coni Calbarina Simoa, filba de Martim Simao, do lugar 
dos Altares da Uba Terceira, de que nascco Ayres Jacome, que casou 
com Maria do Conto, filba de Bras do Conto, de Angra, de que (além 
de ires filb'as Frciras na Esperanca da mosma Angra) nasceo Fcrnao 
Correa de Sousa, quo casou com D. Bornarda de Lacerda, e d'estes nas- 
cerao varios filbos, que morrerao sem dosccndencia, e D. Maria Clara, 
casada em Lisboa com Julio Cesar, e D. Teresa, casada com Ileitor Men- 
des, e ambas tambem sem filbos. 

15i Nasceo mais de Jacome Dias Correa, e de Beatriz Rodrigues 
Raposa, Calbarina Comes Raposa, quo casou com Manoel Vaz Pacbeco, 
fidalgo de Villa Franca, fillio de Tbomé Vaz Pacbeco, e nolo de Pedro 
^'^ Pacbeco, que veio de Portugal casada: da dita pois Caliiarina Comes 
Raposa, e de Manoel Vaz Pacbeco nasioo Francisco l'aibeco Raposo, 



250 lIISTOnU INSULANA 

na India; e terceiro filho do primeiro Pedro Botclho foi Diogo Botelho. 
cujo (ìllìo Francisco Botellio foi Embaixador a Saboya; e o filho d'esU 
foi lambem Diogo Bolelho, e Governador do Brasil, que foi pai de Nane 
Àivarez Botelho, celebre em guerras na India, per que foi Conde o filbc 
D. Francisco Bolelho. 

158 Do primeiro Gonzalo Vaz Botelho nasceo jà na liha de Sanb 
Maria Nuno Gon^alves Botelho, que na mesma liba casou nobremonte, 
e d'elle nasceo Jorge Nunes Botelho, que casou com Margartda Travassos, 
e d'estes nasceo outro Nuno Goncalves Botelho, que casou com Isabel di 
Macedo, fldalga dos Capitaes da Ilha do Fayal, de que nasceo Fernao d( 
Macedo, fìdalgo filhado,' que casou em Villa Franca de S. Miguel eoa) 
D. Barbara d'Arruda, e liverao por filho a Francisco d'Arruda, fidalgc 
filhado em Villa Franca. Nasceo mais do dito Gonzalo Vaz Bolelho, ou- 
tro do mesmo nome, chamado de Alcunlia o Andrinho, que casou com 
huma filha de Pedro Gordeiro, de que nasceo a fìlha que casou com N. 
de Macedo, fidalgo, irmao do segundo Capillio do Fa}'al, e do tal casa- 
mento nasceo Briles de Macedo, que casou com Gaspar ilomem da Costa; 
e do mesmo Andrinho nasceo outra filha Guimar Goncalvcs Bolelba, qae 
casou com Joao de Betcncor e Sé, fidalgo. 

159 Item, do mesmo primeiro Gonzalo Vaz Botelho nasceo Joao Gon- 
Calves Bolelho, que casou com Isabel Dias da Costa, de que nasceo Jo3o 
d'Arruda da Costa, que casou com Calharina Favella, filha de Joao Fa- 
vella, fidalgo da Ilha da Madeira, e de Bcalriz Coelha, Dama do Pac-o 
d'el-Rei D, AffonsoV, e deste Joao d'Arruda nasceo Amador da Costa, pai 
de iManoel da Costa, Cidadao de Ponta Delgada, e de Isabel Dias da Costa 
que casou com Antonio Borges, filho de Balthezar Rebello, e de Guimar 
Borges ; do qnal Antonio Borges nasceo Duartc Borges da Costa, que 
casou com e d'esics nasceo Antonio Borges, 
que casou com D. Maria da Camera, cujo filho Duarte Borges da Came- 
ra, casado com I). Maria de Frias, nìio leve descendcntes, mas seu tio, 
irmSo legitimo de seu pai, loi o Padre Gonzalo de Arez, daCompanhia 
de Jesus, santo, e sabio, boni Prégador, muito humilde, e exemplar, 
que foi Reitor de Angra, e Reitor por vezes de Ponta Delgada sua pa- 
tria. Nasceo mais do sobrcdilo Joao d'Arruda da Costa Bealriz da Costa, 
que casou com Manoel do Porto, Cidadao vindo do Porto, de que nas- 
ceo outro Joao d'Arruda da Costa, deste oulro Manoel do Porlo, que 



LIV. V TIT. IV 231 

foi pai de Maria d'Arruda, casada com Manoel de Mcdeiros, fdho de 
Gaspar Dias. 

160 De Nuno Gongalves Botelho> fillio do primeiro Gonralo Vaz 
Boteiho, nasceo mais Diego Nuiics Botelho, Conlador da Fazcnda Rcal, 
e Cavalleiro da Ordem de Christo, que cason com Isabel Tavaros, fìlha 
de Rui Tavares o VelIio; e d'eslcs nasceo Jorge Nunes Bolclho. que ca- 
soa com Hieronyma Lopes Moniz, filha de Alvaro Lopcs, e de Maria Mo- 
nii, e d'este Botelho nasceo D, Catliarina Bololha, miillicr de Jacome 
Leite de Vasconcellos, fidalgo filhado de quo a[)aixo fallaremos. Do ou- 
tro Jorge Nunes Bolclho, filho do sohrcdifo Nuno Gonfalvos, nasceo 
homa filha, que casou com Fcrnao Correa de Sousa, fidalgo que veio 
da Madeira; e outra filha D. Boqueza, quo casou com Francisco do Ro- 
go de Sa, chamado o Grao Capillio, de. que nlio ficarao descendenles, 
porém do cunhado Nuno Gongalves Bolellio, segundo do nome, nasceo 
mais Fedro Botelho, que casou Leonor Vaz na Villa da Praia da liha 
Tcrceira; item, nasceo Ilieronymo Botelho, quo casou na Ilha de Santa 
Maria com Guimar Faleira; e d'esles nasceo André Goiigalves de S. Payo, 
que casou com Maria Paclieca, filha de Antao Pacheco; e d'esles nasce- 
rio Antonio de S. Payo, quo casou em Ribcira Grande: e Dona Maria, 
que casou com Francisco de Belencor e Sa na Cidade, e D. Isabel Bo- 
telha, que casou com Perirò da Ponte Bicudo, morgado em Ribeira Gran- 
de; do dito André Gonfalves de Sào Payo, !c)i lambcm inteiro, e legi- 
tifflo irmao Confalo Vaz Bolclho, e outros que liverao multa descenden- 
cia na Ilha, Brasil, India, eie. 

161 Da anliga familia dos Leilcs concordao os mais dos Ilistoria- 
^ores, que vem de Francezcs, (juo por sercm muilo alvos se chamarao 
J^ìles, e que vierao a Portugal, e ajudarao a tor.ìnr Lisboa aos Mou- 
fos. cerio he que nem. lodos os Francezes se chamao Leites, e que 
conaludo se suppoem virem de Franra, e quo de l'ranga tem os Leites 
'sLizes nas suas Armas, com varias divisas conforme as varias familias, 
^^ qoe se aparentarao. Dizem pois que o primeiro que se acha d'està 
laniilia, foi Alvaro Anes Leite, e que era senhor de Calvos, e Basto em 
Entre Douro e Minho; e na vcrdade entro Douro e Minho, no termo do 
'^rto, se conserva ainda està familia com nobreza, e fidalguia muito 
conhecida; porque do dito Alvaro Anes Leite nascerào tres filhos, dos 
quaes terceiro foi Alvaro Leite, fidalgo jà, e senhor do morgado de 
Oaebranloes era Gaya, a pò piena, junlo ao Porlo, em lompf) d'El Rei, 



254 IUSTÌJrIA INSULANA 

tos privilegìos, e ludo depois confirmarSo, assim o Papa Alexandre VI, 
corno El-Rei Dom Manoel de Porlugal. 

166 Da dita Aldonsa Leite, e do Doulor Joao Rodriguez de Ama- 
rai nascerao Ires filhoi: Diogo Leile de Amarai, que casou com D. Ma- 
ria Pereira de Vasconcellos, flilia de Jacome Rodriguez de Vasconcellos 
de Alvarenga, e d'eiles nasceo Diogo Leitc de Azevedo, Ddalgo filhado 
nos livros d'El-Uei, do liabito de Chrislo, e o primeiro d'esla famìlia 
que de Porlugal veio a Ilha de Sao Miguel, e era Villa Franca casoa com 
D. Helena de Castro, filha de Sebastiao de Castro, e irma de Manoel de 
Castro, ambos irraaos multo ricos, e que tinhao vindo do Porto: e dos 
taes Diogo Leite de Azevedo, e D. Helena nasceo Jacome Leite de Vas- 
concellos, fidalgo filhado, que casou com D. Catliarina Botelha, (comò jà 
dìssemos nos Botellios) e d'elles nasceo Diogo Leile Botelho de Vascon- 
cellos, fidalgo filhado, e que com gente à sua custa foi servir a El-Rei 
D. Joao IV na conquista do Castello de Angra, e leve por isso o ha- 
bilo de Christo com tonfa, e em Angra casou com D. Maria do Canto, 
fidalga dos Cantos da Ilha Terceira, comò em seu lugar diremos; e d'este 
matrimorno nasceo em Sao Miguel Jacome Leite Botelho de Vasconcel- 
los, que teve mais irmaos, Clerigos, Religiosos, e Freìras, e elle leve 
lambem o habito de Christo, e tambem casou em Angra com D. Maria 
de Mollo e Silva, filha de Luis Coelho Pereira, e de D. Isab'el de Mollo, 
de que tralaremos, quando da Ilha Terceira, e de Luis Diogo Leite, fi- 
Iho morgado do ilito Jacome Leite, e quo nasceo jà em Angra, e là tam- 
bem ficou, e casou com huma filha do grande morgado, e fidalgo Joao 
de Teve de Vasconcellos, da qual tem jà muitos filhos. 

•167 segundo fillio da dita Aldonsa Leite foi Vasco Leite, que ca- 
sou com Maria Correa, filha de Martim Correa no Porto; e d'oste casa- 
mento nascerao Diogo Leite, pai de I). Briles Leite, casada com Manoel 
de Moura, de que nasceo I). Joanna Leite, raulher de Francisco Pinto 
Ilennquos, fillio do Alvaro Pinto, senhor das honras de Paramos; e do 
mesmo Vasco Leile nasceo mais I). Francisca, que casou com o Doulor 
Francisco Ferreira, Desembargador do Porto, pais de oulra Aldonsa Lei- 
te, casada no Porto com Francisco Vieira da Silva, de que nasceo Anto- 
nio Leite de Amarai. lerceiro fillio da primeira chamada Aldonsa Lei- 
te, e do Doutor JoSo Rodriguez de Amarai foi Briolanja Leite, que ca- 
sou com Duarte Tavares, de que nasceo Diogo Tavares casado no Porto 
com Maria do Couto, e d'estes nasceriio Manoel Leite, pai de Marlim 



LIV. V TiT. IV 255 

Leìle, Matheos Leite, e Diogo Leite; e do dito Dii^o Tavarcs, e Maria 
do Coulo nasceo D. Antonia, qnc cason com Simào Ribeiro Pessoa, qne 
forao pais de D. Maria Leite de Vasconcellos. 

168 Dos Araaraes acima liados cora os sobreditos fidalgos Lcites, 
so brevissimamente trata o erudito Padre Leilc, scndo quo (corno do 
acima vimos) a varonia, ou linha masculina dos taes Lcites he d^aquelle 
loao Rodrignez de Amarai, que casou com a primeira Aldonsa Leite, de 
(fUò se continuou a varonia até o sobredito fidalgo Luis Diogo Leite; 
mas jé he cousa muito usada nomearem-se muitas f^imìiias pelos appel- 
lidos das linhas femininas, sendo diversos os da hnha masculina, ou por 
«sim serem obrigados com as condicoes de alguns morgados; ou com 
oatro algum affecto, e titulo; certo he porém qua os Amaraes suo fami- 
iii muito anliga, e muito nobre, e muito multiplicada em Portugal, es- 
peciaimente Da Provincia da Bclra, e em Vizeu, d'ondo foi para S.' Mi- 
goel Doulor Jorge de Amarai e Vasconcellos, e na Ilha casou com 
D. Brìtes de Medeiros. 

169 D'este matrimonio nascerao o Padre Francisco de Amarai da 
Gompanhia de Jesus, a quem antes de fazer a Profissào do quarto voto 
veìa pela dita sua mai bum bom morgado na Ilha, de cuja renda Tun- 
doQ dito Padre a Capella de Santo Ignacio com boa renda fìxa que 
para ella comprou, e fez ouiras grandcs obras pias, e esmolas quo em 
sea testamento deixou; e foi lìio exemplar, quo por nao largar a Beli- 
&o, ncm deixar de fazer niella a ultima profìssao solomno, largou o 
niorgado a quem por sua morte pertencia, e na Religiao morreó sabio, 
e santo; e da mesma sorte, e na mesma Companhia de Jesus morreo 
ouiro seu irmao, o Padre Christovao de Amarai: e da mesma familia de 
Amaraes» posto que de outras linhas, morrerao na Companhia o Padre 
Prancisco de Amarai, Valido, e Prégador d'El-Rei D. Aflonso VI, e o Pa- 
dre Fedro de Amarai, grande Lente da Sagrada Escritura no Collegio 
de Coimbra, que compoz hum tomo sobre a Magnificat, e o imprimio, 
e foi celebre, e incansavel Prégador, e passou muito de no venta annos 
de idade, e n'ella estava ainda compondo Sermoes para imprimir: e em- 
&n Padre Miguel de Amarai, que. sendo jà Doutor, e Mestre em Ar- 
te Da Universidado de Coimbra, se metteo na Companhia; pedio, e foi 
P>ra a India a pregar ao Gentio, e tornando depois de muitos annos a 
Portogal, sem querer n'elle ficar, voltou com muitos outros Religiosos 
da Companlìia, e na India morreo com constante opiniuo de Santo, e ver- 



256 HISTOniA INSULÀNA 

dadeiro Apostolo. E assim nao so no sangue, mas muito mais nas vir- 
tudes, illustre a familia dos Àmaraes. 

170 A illustre familia dos Vasconcellos, quanto ao appellkla oq no- 
me, deduzem muitos de bum Castelhano Rei, que mandando bum fidai- 
go para certa terra, e vendo que bia de ma vontade, por deìxar buma 
senhora, a que andava affeigoado, Ihe disse cntao o Rei, «Vaz-con-zellos», 
querendo dizer que bia com ciumes; e o fidalgo ent3o tomou o sobre- 
nome de Vasconcellos. Quanto porém ao sangue, os Nobìliarios dedu- 
zem OS Vasconcellos, e por linba direita, de Requeredo Rei dos Godos; 
e primeiro que se acba com tal appetlido, be bum D. JoSo Pires de 
Vasconcellos, em tempo de D. Sancbo II, e D. Affonso III, Beis de Por- 
tugal, e foi casado com a Condeca D. Maria Soares Goelba, de que oa&- 
ceo D. Rodrigo Anes de Vasconcellos, que casou com D. Elvira de Scu- 
sa, neta de Martim Cbicborro, filbo d*El-Rei Dom Affonso II, e do tal 
casamento nascerao tantos filhos, e filbas, que d^elles procedem as mais 
das casas grandes de Portugal, e a dos senbores de Alvarenga, d'onde 
buma filba casou em Vizeu, e se unirSo os Vasconcellos com os Àma- 
raes, comò vimos jà na linba dos Leiles; e dos mesmos sobreditos Vas- 
concellos, era aquelle Martim Mendes de Vasconcellos, que foi casar i 
Madeira com D. Helena da Camera, filba do primeiro CapitSo do Fun- 
cbal, e d elles nasceo outro Martim Mendes de Vasconcellos, que foi ca- 
sar a Uba Terceira, aonde se ajuntarao os Teves, e Vasconcellos, e com 
ambos agora oulra vez os Leites, comò veremos depois nas familias da 
Terceira', Graciosa, etc. 

TITULO V 

Dos MedeiroSy Araujos, Borges, Sonsas, Rebellos, Dias. 

171 muito nobre Rui Yaz de Medeiros, de Ponte de Lima, e 6ui- 
maraes, foi com os primeiros povoadores para a Uba da Madeira, e niella 
casou oom Anna Gongalves de MendoQa, dos nobilissimos Mendo^as Fur- 
tados, e d'abi com o terceiro Capit3o de S3o Miguel Rui Goo^alves da 
Camera passarao para S. Miguel, e q'esta Uba tiverao os filbos seguìntes: 
primeiro, Vasco de Medeiros, que casou na Villa da Alagoa com Catlia- 
rina da Ponte, com a qual deixando bum Albo Amador de Medeiros, sa 
foi com mais dous tìllios servir a El-Rei em Africa; e foi tao ditoso, quo 
sendo cativo dos Mouros, foi d'elles emQm martyrizado pela Fé; seguo- 



LIV. V TIT. V 257 

do, Rafael de Medeiros, que casou na liha de Santa Maria com huma fi* 
Iha de Antao Rodriguez Carneìro, e de Anna da Costa, de que riasceo 
Ilaria de Medeiros, miilher de Antonio Camello Pereira, Qlho de outro 
AdIooIo Camello, e forào pais de D. Catliarina, que casou com Duarto 
de Meodoca, Fidalgo conhecido, de que Ucou huma (ìllia; e foruo tambem 
pais de Gaspar Camello, que teve muita descendencia: terceiro, Joào Vaz 
de Medeiros, que casou com Isabel de Frias, filha de Uui de Frias, dos 
qoaes nasceo outro Rui Vaz de Medeiros, Cavalleiro do tiabito deChris- 
to: quarto, JordàiT Vaz de Medeiros, casado, e com filhos, em Villa Fran- 
ca: quinto, huma filha, que casou com Digo Alfonso Colomtirciro, de que 
Basceo D. Maria da Costa e Medeiros, mulher de Francisco de Belencor 
e Si, que voltou para a Madeira: sexto, Guimar Rodriguez de Medeiros, 
de que logo fallaremos: seplimo, Maria de Medeiros, que casou com Ro- 
drigo Alvarez, lìiho de Alvaro Lopes do Vulcao. 

ìli Com a dita familia dos Medeiros, e pela dita sobredita Guimar 
Bodriguez de Medeiros, sexla fiiha de liui Vaz de Medeiros, se ajunla- 
fio OS anligos, e illustres Araujos. de que se tratar quizessemos, ainda 
r«topilando, seria nunca acabar. primeiro pois chamado Araujo (con- 
forme ao Conde D. Fedro tit. 5G | 8) foi Payo Rodriguez de Araujo, e 
tomou tal appellido dos Araus, ou Araùs, dos quaes descendia, e que o 
tempo verteo em Araujos, e com ser casado com D. Brites Velho de 
Castro, sempre seus descendcntes conservarao o appellido de Araujos; 
e assim foi pai de Vasco Rodriguez de Araujo, senhor de Araujo, Lin- 
dozo, e outras tirras; e foi primeiro avo de Concaio Rodriguez de Arau- 
jo, e segundo avo de Pedreanes de Araujo, e terceiro avo de outro Payo 
ftodriguez de Araujo, Embaixador dei-Rei Dom Joao I. a Castella ; e 
quarlo avo de Alvaro Rodriguez de Araujo, Commendador de Rio Frio, 
6 senhor das outras tcrras; e quarlo avo tambem de terceiro Payo Ro- 
driguez de Araujo, que casou com D. Aldonsa, filha de Pedro Comes de 
Abreu, senhor de Regalados ; e quinto av6 de D. Margarida de Abreu, 
qoe casou com D. Rodiigo Sotomayor, fìllio do Conde de Caminha Pe- 
dralves Sotomayor. 

173 Desles pois tao illustres Araujos era Lopeanes de Araujo, que 
^0 tao principal varao de Entre Douro e Minho, e de Vianna, veio 
pva Sào Miguel em 1306,. e casou com a sobredita Guimar Rodriguez 
de Medeiros, e tiverao cinco filhos : primeiro. Maria de Araujo, qùe ca- 
^ com Antonio Furtado em Villa Franca, de que nasceo Lopeanes 

VOL. I 17 



238 HISTOniA INSrLANA 

Fnrtado, marido de Ignes Correa, filha de Gonfalo Correa; e nasceo mm 
Leonor de Medeiros, mulher de Fernào Vaz Pachilo: segundo, Brites de 
Medeiros, mulher de Joao da Mota na mesraa Villa Franca, qu« era filho 
de Jorge da Mota, de que nascerao Joào de Medeiros, e Miguel Bolellio, 
(|uc casou com Solanda Cordeira, filha de Joao Rodriguez Cordeiro: ter- 
reiro, Miguel Lopes de Araujo, que casou com Catharina da Costa, filha 
de Gaspar Pires o Veiho, e d'elles nascerao Francisco de Araujo casndo 
ein Lisboa, e Manoel de Medeiros, e Maria de Medeiros, que casou com 
Manoel Rehello, fillio de Ballhezar Rebello: quarto, Hieronymo de Arau- 
jo, que casou com Anna Pacheca, filha de Manoel Vaz Pacheco, e de Ca- 
tharina Comes Raposa, dos quaes nascerao Gaspar de Araujo, e Antonio 
de Araujo, e Francisco de Araujo, e Isahel de Medeiros, que casou com 
Paulo Cago da Camera, filho de Rui Cago: quinto, Francisca de Medei- 
ros, que casou com o Bacharel Jurista Joao Gonfalves, a que alguns cha- 
mao Jolio Goncalves Ramaiho, que da serra de S. Gonzalo de Amarante 
tinha vindo para esl^i liha de Sao Miguel; e d'elles nascerao D. Brites 
de Medeiros, que casou com o Doutor Jorge de Amarai e Vasconcellos, 
([ue de Portugal tinha ido a Ilha, e forào pais dos Padres Francisco de 
Amarai, e Christovao de Amarai, da Companhia de Jesus, e do Doutor 
Joào de Amarai e Vasconcellos, e de Gregorio de Amarai, e de huma 
T). Joanna, Freira em Cellas de Coimbra. De todos os sobreditos Me- 
deiros, e Araujos houve lantos mais descendenles, que toda a Ilha de S. 
Miguel està chela d'elles. 

174 Dos Borges Sousas Rebellos de Slio Miguel, o que se alcanca 
he, que houve na dita Ilha bum Pedro Borges de Sousa, que para ella 
tinha ido de Portugal, e foi pai de Duarte Borges, e av6 de Antonio Bor- 
ges, que era feilor da Fazenda Real em Sào Migtiel, e ftdalgo; deste 
Antonio Borges nasceo Clara Borges, que ires vczes casou em Pr^rtugaU 
e com fidalgos, e là deixou descendentes, de quo alguns forno para .-« 
India, aonde tambem morrerao irmaos da dita Clara Borges, chainado^S' 
Pedro Borges, e Hieronymo Borges: nasceo mais do dito Antonio Bor^ei* , 
Duarte Borges de Gamboa, de quem se sabe que foi Provedoi* da Fazer* - 
da nas Ilhas, e depois Thesoureiro mòrdo Beino, e Cavalleiro do habilo 
de Christo com teiifa ; e deste nasceo Antonio Borges, que ficou e^^n 
Africa na bataiha dei-Rei D. Sebastiao, e estivo ficou la outro seu rm^Tio 
chamado Vasco da Fonseca Coutinho, a quem fugindo do cativeiro cfó 
Africa dee El-Rei D. Henrique o habito de Christo com tenfa; e outro 



L!V. V GAP. V 239 

frmao d esles Francisco Borges de Sousa foì Inquisìdor da Mesa grande 
da Inquisi(ao da India ; e todos estes forao terceiros netos do primeìro 
Pedro Borges de Sousa. 

175 Nasceo mais do fidalgo Antonio Borges, Guimar Borges, qne 
casou com Balthezar Rebello, Àimoxarire da Fazenda Real, e Lealdador 
mór dos pasleis, de quem nascerao tres filhos: primeiro, Antonio Bor- 
ges, qoe casou com Isabel Dias, e depois com Beatriz Castanha, filha de 
Fedro Castanho; e do tal Antonio Borges nasceo Duarte. Borges da Cos- 
ta, que casou com Maria de Sao Payo, filha de Manoel Cordeiro de Sào 
Favo Benevides, e de Meda Nunes de Arez, filha do Licenciado Gongalo 
Nanes de Arez, e da filha do Almoxarife de Angra; e do tal Duarte Bor- 
ges da Costa nascerao os dous Padres da Companhia, Padre Joao Bor- 
ges, e Padre Gonzalo de Arez, e Antonio Borges, que casou com D. 
Maria da Camera, que for3o pais de Duarte Borges da Camera, Jniz da 
Alfandega, ou do mar comò là dizem, que casou com D. Maria deFrias, 
emorrerao sera deixar dcscendencia. Segundo filho de Balthezar Rebel- 
lo, e de Guimar Borges foi Manoel Rebello, que conscrvou o appellido 
de sua nobre varonia, e casou com Maria de Medeiros, filha de Miguel 
Lopes, da Villa de Agua de Pào ; e d'estes nasceo Francisco Rebello, 
chamado o Senador, assim por sua nobreza, comò por grandes talentos: 
de que nasceo huma niha, e Balthezar Rebello, (comò seu visavò) e ca- 
soncom hama filha de Francisco Soares de Mello, Capitao mór da Villa 
daAlagoa. Terceiro filho do dito Balthezar Rebello foi Pedro Borges, 
?ne casou com Anna de Medeiros, e por aqui se metteo na familia dos 
Jorges e Dias, de que agora tralaremos. 

176 Os Jorges de appellido comegarao do muito nobre Jorge Velho, 
qne casou com a igualmente nobre Africa Anes, ou Africanes, (de quo 
Iratamos jà quando dos illustres Velhos da Ilha de Santa Maria); deslcs 
>i«3cerao, e descenderao muitos, que por sobrenoine tomarao o appetti- 
lo Joi^e, (comò sabem todos os que alguma cousa. sabem de Genealo- 
P^): nasceo pois Fernào Jorge, quo foi o que Irouxe o Alvarà de Villa 
* Ponta Delgada, quando no principio era so lugar sugeito a Villa Frau- 
Q; nasceo mais Pedro Jorge, e foi pai de Catharina Jorge, mai de Diogo 
^tt Carreiro, que fundou o Convento das Freiras de S. 
^^ Penta Delgada ; e lambem foi pai de Hieronymo Jorge, que casou 
luìina filha D. Luiza com Rui Gongalves da Camera, pai de Simao da 
ditterà, de que nascerao outros muitos Cameras. Nasceo tambem do 



i 



260 HISTORIA LNSCLANA 

]>riineiro Jorge Yelho, Ignes Alfonso, que casou em SmVat Maria oont 
Jorge da Fonte, e leve por Qlbos a Alvaro da Fonte, Joào da Fonte, e 
Adam da Fonte, e todos tres Cavalleiros da Ordem de Chrìsto. E nas^ 
ceo entfim o filbo mais vellio Joao Jorge, que prìmeira vez casou coro 
Catharìna Martins, vinda de Beja, na Villa de Agiia de Pao, e segunda 
vez com Beatriz Vieente, vinda do Algarve. 

177 Da prìmeira malher nasceo Feroao Jorge, qiie casou em Agua 
de Pào com Isabel Vieira, fìiha de Fedro Vieira; e oulro Joao Jorge nas- 
ceo da segunda mulber, que casou com Izeu da Costa, e d*estes ambos 
irmàos houve muila descendencia ; ìtem, nasceo da prìmeira mulher, 
Ignes Jorge, que casou com Fernao Gii Jaques, ndalgo de Lagos no Al- 
garve, e Isabt.1 Jorge, que casou com Vasco Mcente Raposo, tambem do 
Algarve; nasceo mais da segunda mullier. Maria Jorge, que casou com 
Gaspar Pìres Cavalleiro, filbo de Pedralves Preto. fidjrigo, e de sua mu- 
llier Catharìna Luis, e d'estes nasceo outra Catharìna Luis, que casou 
com Miguel Lopes de Araujo, filbo de Lopeanesde Araujo, e de Guimar 
Kodrlguez de Medeiros, de quem nos Medeiros failamus jà; e desta Ca- 
tharina Luis, e de Miguel Lopes de Araujo i>asceo Anua> de Medeiros, 
que casou com Gaspar Dias, e d'estes Dias agora tratarenK)s, pois da 
familia dos Jorges basta jà o sobredito. 

178 Com a grande fama da fertilidade, e riqueza da Uba de Sào 
Miguel, e multo mais em o primeiro seculo depois de descul>erta, biào 
de Portugal continuamente muitos, e buns a commerciar, e a voltar, ou- 
iros com casa, e familia mudada, e la ficavOo povoando; entre estes foi 
lium chamado Manoel Dias, que fez em Ponta Delgada, seu assento, e 
tao bem soube negociar, particularmente com os Ir^Mezes que biào là 
àquella liba, que nella se casou com Margarida Fernandez,- mulber no- 
bre, irma de Isabel Fernandez, casada com Antonio Mendes Pereira, e 
filbas ambas de Francisco Fernandez, pois deste teni ainda lioje liunia 
terca avinculada bum terceiro neto do tal Manoel Dias : e este enrique- 
ceo tanto, que bum seu filho, chamado Christovao Dias casou coni tal 

* fidalga comò D. Alargarida de Sa, filha de Henrique de Belencor e Sa, 
de Ilibeira Grande, neto do primeiro Bui Goncahes da Camera, terceiro 
Capitao Donatario da Ilha; e do dito Manoel Dias, outro filbo foi Gaspar 
Dias, que tal sociedade assenlou com buns ricos contratadores Inglezes^ 
que embarcando-se buma vez com elles, e morrendo-lhe os socios uo 
mar, ficou berdando d'elles loda a riqueza que Icvavào, e se voltou para 



UV. V TIT. V 261 

a Hha, mais rìco qne pai, e irmao; e sendo jà Ci Jadao de Ponta Delga- 
da, ra^ou com aquella fidalga Anna de Medeiros, desceadente dos Me- 
Jèims, Jorges, e Araajos. 

179 D'este pois Gaspar Dias, € da dita sua multier nascerao os fi- 
Ihos segnintes: primeiro, André Dias, que casou com Margarida Pache- 
<a, filha de Antào Paclieco, e de Ignes Ferreira, de que nasceo Gaspar 
deMadeiros, primeiro do nome, que casou com D. Maria da Camera, 
da illustre familia dos Cameras, fiIha de Antonio Borges, e de outra D 
Maria da Camera, da Villa de Nordesta, e tiverao por filho a Gaspar de 
Hedeiros da Camera, segundo do nome, e casado com 

Nascerao mais do dito André Dias tres fillios, 
Anlao Pacheco- pai de André da Ponte, por ser sua ra3i fi!ha de Pedro 
da Ponte Raposo; item Joao de Sousa Pacheco, que casou com D. Ma- 
rianna de Paria-, item Anna de Medeiros. que* casou primeir a vez com 
Manoel Raposo, e segunda vez com Jo3o de Mello d'Arruda, de que nas- 
<%ri0 Jordao Jacome Raposo, e André Dias de Araujo, e D. Marianna 
lapnsa. Segundo filho de Gaspar Dias foi Miguel Lopes de Araujo, ca- 
^^do com Francisca de Oliveira, filha de Estevao de Oliveira, e de Ignes 
Manoel, fìUfta de Manoel Pavào, que de Portugal se mudou para està 
^'ha. Terceiro filho foi Manoel de Medeiros, que casou cora D. Maria 
^'Arruda, de que nasceo outro Manoel de Medeiros, fidalgo filhado, que 
^^soa cora D. Feliciana de Andrade, e forao pais de Antonio de Medei- 
'^, Cavaileiro do habito de Christo, e mogo fidalgo, casado com D. Ma- 
^a Coutinho. 

180 Quarto filho de Gaspar Dias foi Anna de Medeiros, casada com 
*^edro Borges de Sousa, filho de Ballhezar Rebello de que nascerao Fe- 
••ppc Borges de Sousa. grave Ecclesiastico, e Frei Gaspar da Boa Nova, 
*^ranciscano, e Miguel Lopes de Araujo, que casou com D. Isabeldo 
^anto, dos Cantos fidalgos da liha Terceira; e deste matrimonio nasceo 
^ *. Antonia, que casou com seu primo Pedro Borges de Sousa, de quem 
^*Sovou ainda moca, e casou segunda vez, e teve filhos. Nasceo mais do 
'^«bredito Pedro Borges, e de Anna de Medeiros Agostinho Borges de 
^oiisa, Provedor da Fazenda Beai de todas as Ilhas Terceiras, que ca- 
^t)u com I). Maria de Bet(».nc^r, filha do Doulor Antonio Ferreira de Be- 
^encor, naturai de Villa de Agua de Pào, e Provedor tambem das ditas 

; lllias, de cnjo matrimonio nascerao os filhos seguintes. 

I 181 Vicenle Borges de Sousa, que foi bom Jurista na Universidade 



262 lilSTORIA INSULANA 

de Goimbra, e seodo do primeiro provimento Juiz de fora A*e^9, largaci 
a Jndicatura, e se veio para a Uba acudìr a demandas de bum seu bona 
iDorgado, e depoìs casou com a filha de bum nobre CidadSo Antonio 
Pereira dElvas na mesma Cidade de Penta Delgada. Segando Pedro Bor- 
ges de Sousa, o que casou com a sobredita prima U. Antonia. Outro 
filbo foi Antonio de Betencor, Jurista tambem, e Juiz de fora de Ponta 
Delgada, por ser jà nascido em Angra da Uba Terceira, e morreo sem 
fìlbos; e buma irrnS sua D. Anna Zimbron, assim cbamada, por n*ella 
nomear sua tia D. Anna Ferreira de Betencor o morgado, que seu ma- 
ndo D. Alonso Zimbron, fidalgo Castelbano, e marido da dita D. Anna 
Ferreira Ibe deixara; e porque a dita D. Anna Zimbron de seu marido 
Francisco Pacbeco de Lacerda nao teve filhos, foi a morgado nomeado 
em outro seu irm3o, de que agora trataremos, e foi este. 

18:2 Agostinho Borges de Sousa, segundo nome, Provedor da Fa- 
zenda Rea! de todas as ditas Ilbas, Cavalleiro professo da Ordem de 
Christo, fidalgo fiibado, com grande ten^a, da casa de S. Magestade, e 
Familiar do Santo Officio da Corte de Lisboa, que tinba estudado direi- 
to em Coimbra, e foi nao so n'elie prudentissimo, mas o maior Ministro 
dei-Bei que tiveruo as Ilbas ; porque so o oflicio be verdadeiramente 
Regio, e sem escrupulo muito rendoso, e de quem até os Bispos, Go- 
vernadores, e Donatarios dependem, e ainda muitos Grandes de Porlu- 
gal que aceitao tcn^as, ou consìgnaQoes na Fazenda Rea! daquellas lUias; 
e emfìm be n'eilas corno bum Yédor da Fazenda Real, que fazenda seu 
officio comò deve, entào tem tambem grandes inimigos, cohk) teve o dito 
Agostinbo Borges; casou porémìllustrementecom buma fìlba de Vital di> 
Betencor, e Yasconcellos, bum dos mais illustres, e antigos fìdalgos da 
Cidade de Angra; e teve d'ella por filbo a Zimbron de Betencor, quo 
berdou a grande casa do pai, mas nao o Regio cargo, por nao sofrer os 
encargos, que o magnanimo pai sofreo. 

183 Porque chegou a tanto a inveja, (de que nem escapao sobera- 
nos Principes, nem os Sanlos mais justificados) que ao sobredito Gaspar 
Dias, visavò materno do dito Agostinbo Borges; com evidente, e notoria 
temeridade, e Hilsidade levantarao que tinha raga de Cbrislao novo, <^ 
sem mais fondamento que o terem o dito Gaspar Dias, e seu irma^^ 
Christovào Dias, e o pai de ambos Jlanoel Dias, terem vindo de Par— 
tugal a liba de S. Miguel, e n'olia terem contralo muito opulento, co- 
mò se contratar nao fosse de Clirislàos vellios tambem, e de fidat- 



Liv. V UT. VI 263 

gos, e Principes; mas ludo jà totalmente se achou ser evidontemeni 
le faUo por oxpclissimas devassas juridicas, e por dobradas senlengas 
da Rea! mào do Serenissimo Rei D. Joào IV, e nllimamente pelo exac- 
ti:^inM) Tribunal da Santa Inquisicao, que ao dito Agoslinho Borges li- 
rou as inquirì(;oes, e acliou ser jimpissimo de toda a raga, e o admittio 
em seu Santo OIQcio; e està he a pura verdade, que nào so dìgo, mas 
^uto assim ser. 

TITULO VI 

Dos BarbosaSy Silms, Tavnres^ Novaes, Quentaes^ 
FariaSy Machados. 

184 Pelo tempo dei-Rei D. Alfonso V, era fidalgo de sua rasa Ru 
. Esleves Barbosa; oriundo de Entre Douro e Minho, e casado com Felip- 

pa da Silva, illustre fidalga, e irma do famoso Silva, Regedor de Lisboa, 
de quem descendem tantas casas litulares d'està Coroa de Portngal. Do 
dito casamento, além de outros fìlhos nasceo Rui Lopes Barbosa da Sil- 
va, que casou com Branca Gongalves de Miranda, e com ella veio para 
a llha de S. Miguel em tempo de seu terceiro C.apitào Donatario Ruy 
Gontalves da Camera, primeiro do nome; do tal Ruy Lopes Barbosa foi 
primeiro filho outro Ruy I^opes Barbosa, que casou com Guimar Fer- 
nandez Tavares, filha de Fernando Anes Tavares, do tal casamento nas- 
ceo Francisco Barbosa, que cason a primeira vez, e nao leve filhos, a 
segunda casou com Isatiei de Miranda na Uba de Santa Maria, e teve 
della a Hercules Barbosa da Silva, que casou com Isabel Ferreira, filha 
de Fernào Lourento, e de Leonor Ftìrreira, filha de Gaspar Ferreira, 
Lealdador mór dos pasteis, do tal Hercules nasceo Bras Barbosa da Sil- 
^a» Lealdador, e Alferes mór em Ponta Delgada, que casou com D. Ca- 
Iharina de Belencor, de que nasceo D. Anna de Betencor, que casou 
com Ruy Cago da Camera, e d'cstes nasceo D. Calharina da Camera, 
casada com Joao Borges de Betencor. 

185 E ainda que pela dita via està ja a familia dos Barbosas em 
"nha feminina, comtudo o primeiro Luis Lopes Barbosa leve outro filho, 
^bastiào Barbosa da Silva, que casou com Isabel Nunes Botelha, de que 
'^sceo Heitor Barbosa da Silva, fidalgo que casou com Guimar Pacheca, 
filha de Fernao Vaz Pacheco, e|de Isabel Nunes, de que nasceo Nuno Bar- 
l^^i que da segunda mulher Anna Jacome, filha de Jurdao Jacome Ra- 



264 TiisTonu insulana 

poso, do Villa Franca, leve onlros filhos, e do dito Heilor Barbosa nas- 
cf»o mais oulro irmao chamado Pcdro Barbosa, que casou com Maria de 
Medciros, de que lambem leve fillios, e assim là se veja agora aonde 
està ainda a varonia dos Barbosas; qne linbas femininas lem oulras mui- 
las ainda, assim de Irmàs do mesmo Heilor Barbosa, que casarào, e li- 
verao filhos, corno lambem por huma filba do segundo Ruy Lopes Bar- 
bosa, de qucm nasceo mais Isabel Barbosa, que casou com o fidalgo 
Antonio Borges, filho de Duarle Borges, e nelo de Fedro Borges de Sou- 
asa, corno jà fica largamcnle dito no antecedente lil. v. Alem de que Her- 
cules Barbosa (nelo do sobredilo segundo Ruy Lopes Barbosa) nao so 
leve varias irmas casadas, mas tamliem oiUro seu irmao chamado Duar- 
te Barbosa, de que talve^ ficaria ouira voronia dos Barbosas. Islo posto 
dos Barbosas Silvas, vamos jà aos Tavares. 

186 Fernao Tavares (que tinba dtms irmaos fidalgos da casa do 
descubridor o Infante l>. H^nrique, e era dos Tavares oriundos de Por- 
lalegre, e Aveiro) leve por primeiro fillio a Ferniio de Anes Tavares, 
que era primo coirmào de Simào de Sousa Tavares, Alcaide mór de 
Aveiro, e pai de Francisco Tavares de Sousa, lambem de Aveiro Alcal- 
de mór, e famoso na India: este pois Ferrìào de Anes Tavares, com fa- 
vor do dito Infante se foi para a Madeira por huma morto, que se llie 
imputava, e na Madeira casou com Isabel Goncalves de Moraes, dos 
muilos nobres, e antigos Moraes de Braganra, e com a dita mulher s«^ 
mudou para S. Miguel em companhia do primeiro Huy Gonfalves da 
Camera, terceiro Donatario de S. Miguel; da tal mulher leve muilos fi- 
lhos, e fìlhas. 

187 primeiro filho foi Ruy Tavares, Cavallciro de Africa que om 
S. Miguel casou com Leonor AJTonso, filha de Francisco Enes, nobre rao- 
rador de Ribeira Grande, e deste matrimonio nasceo, primeiro, Joào 
Tavares, que casou com Luzia Goncalves, filha de Joao Goncalves da 
Yarzea, que forào pais de Ballhesar Tavares, casado com Oitharina de 
Figueiredo, filha de Lopo Dias, Cavalleiro do habito de Santiago, e de 
Guimar Alvaroz: e este Ballhezar levou o morgado do avo, e deixou por 
filhos a Leonel Tavares, e Ballhesar Tavares: tambem leve muilos irmàos, 
(lios dos ditos dous; Ruy Tavares, que casou primcira vez no Porto, e 
leve (ìlhos, e segunda vez em Vianna, e morreo Corregedor em Ponte 
de Lima: oulro irmao foi Gaspar Tavares, que casou em Uabo de Peix<»; 
e oulro Manoel Tavares, que no mesmo Rabo de Peixe casou, e dtjixou 



LIV. V TIT. VI 2C5 

filhos; e oalro ainda foì Belchior Tavares, casado com Iiuma filha de Jo3o 
Cabnl de Vulcao, de que nasceo huma filha, qiie casoii com Manoel de 
Vngn: e as irmàs forao, Catharina Tavares, casada com o Licenciado Mi- 
guel Pereira, fidalgo de Vianna e pais de Isahel Pereira, casada com 
Antonio Machado, da Cidade, e de Susanna Pereira, casada com Miguel 
Vaclieco, e com filhos: e aoulra irma foi Maria Tavares, que casou com 
f.ypriano da Ponte em Villa l'ranca. 

488 Do primeiro Ruy Tavares nasceo segundo, Balthezar Tavares, 
qne casou na Cidade de Ponta Delgada com Maria Cabrai, filha de Sebas- 
tilo Velbo Cabrai, e dos ditos nasceo Daniel Tavares, pai de Francisco 
Tavares Homem, que foi pai de Ruy Tavares, que casou com huma Ir- 
ma (le Manoel de Brum e Frias: e do mesmo Balthezar Tavares nasceo 
timbcm Joao Cabrai, que casou em Ribeira Grande com Catharina Jor- 
pe, filha de Jorge Goncalves, do habito de Santiago, e liverao filhos. Nas- 
m terceiro Garcia Tavares, e quarto Joao Rodriguez Tavares, e ambos 
forào, e morrerào famosos na India, e quinto nascerao mais trcs filhas, 
Isabel Tavares, Maria Tavares, e Francisca Tavares, e todas tres casarao 
na Illia, e tiverao filhos. 

189 segundo filho do primeiro Fernao de Anes Tavares foi Hen- 
riqne Tavares, Cavalleirp era Africa, que casou na Illia, e »eve por filho 
« Liiis Tavares, Cavalleiro Fidalgo, que casou com Isabel Vaz, filha de 
Nro Vaz, Lealdador mór dos pnsteis ; e do tal Luis Tavares nasceo 
'Jenriqne Tavares, que casou em Sanlarem com Leonor da Paz, de que 
<eve filhos; e Pedro Vaz Tavares, que na Uba casou; e teve filhos: e 
^'e^n^lo Tavares, e Francisco Tavares ; e quatro filhas mais do mesmo 
'A Tavaras, e de lodos houve na Uba descendencia. 

190 terceiro filho do dito Fernào de Anes Tavares foi Concaio 
Tavares, Cavalleiro de Africa, que casou com Isabel Correa, filha de Mar- 
lin» Anes Fnrtiido, e de Solanda Lopes, e d'elles nasceo o Padre Duar- 
^ Tavares, da Companhia de Jesus, que morreo na India servindo em 
'•nm Hospital com fama, e exemplo de Santo; nasceo mais o Licenciado 
Antonio Tavares, Juiz de fora de Tavira, e casado com Branca da Silva, 
f'Iha de bum fidalgo chamado Sebasti5o Barbosa da Silva; e do tal ca- 
^menlo nascerao o Capitao Gonzalo Tavares da Silva, quo casoii na Ci- 
vade de Ponta Delgada, e deixou filhos; e seu irmao Joao da Silva, que 
^«ìbenfì casou, e deixou descendentes; e dos ditos dous irraaos houve 
^inda oiais huma irma Joanna Tavares, que casou com Sebastìào Jorge 



266 HISTOMA I^SILANA 

Formigo, do habito de Santiago, de que fìcoa tnuita descendencia em 
Ribeira Grande. 

i91 Quarto fìlbo do mesmo Femao de Anes Tavares fui Guimar 
Fernandez Tavares, que casou coni Huì Lopes Barbosa, fìdalgo que dVU 
la houve muitos filbos. Quinto fui Felippa Tavares, que casou còm Luis 
Pires Gabea. de que ficarào em Pouta Delgada, e em Villa Franca mui- 
tos descendentes cliamados Cabeas. Sexto Tilho foi Anna Tavares, que ca- 
sou com Antonio Carneiro, Cidadào do Porto, prinu) coiruiao de outro 
Antonio Carneiro, Secrelario del-Kei, e pai de Pedro de Alcaceva, So- 
crelario tambem d el-Rei; deste casamento nascerao dous fìllios cegos, 
Frei Antonio Carneiro, Franciscano, e Miguel Tavares, que sendo cei^n 
se formou Doutor em Medicina; mas tambom nasceo Simoa Tavares, qtie 
casou com Antonio Lopes, fìllio de Alvaro Lopes, nobre Cavalleiro; e di 
tal casamento nasceo Francisca Carueira, que casou com Bartholomeu de 
Amarai, de que ficarno Tillios, Amaraes da Beira, e Carneiros do Porto. 

idi Dos Novaes Coutinhos, e dos Quentaes Senoes trala o Condc 
D. Pedro tit. 65, e a Chronica d*el-Kei U. Mauoel. Houve pois bum gran- 
de fidalgo chamado Vasco Fernandez de Mendofa Coulinlio, senbor do 
Coutim, e de outras terras, que teve os fìllios seguintes: primeiro, de 
quo Ingo fallaremos: segundo, Lopo Aflbnso Novaes Coutinlio, de que 
casado nascco Bui Lopes Coutinlio em Li.^ioa. e D. Felippa Couliiiba, 
que casou com o quinto Capilào de Sào Miguel Buy Gongiilves da Ca- 
mera, Segundo do nome; e D. Ignes Serra: lerceiro fillio foi o Gìnde de 
Marialva, que casou a fìllia unica com o Infante D. Fernando, irinfio d el- 
Rei D. Joao IH, e o Conde de Borba, depoìs Conde do Redondo. pri- 
meiro fillio pois do diti) Vasco Fernandes foi Francisco Botellio de No- 
vaes Quental, (que por Quental, e Novaes, e parcce que pela mai des- 
cendia da illustre fidalguia de Franca, e foi o primeiro que em Pertugal 
usou dos ditos appellidos); deste nasa*o D. Maria de Novaes Quental, 
Dama da Bainlia mulber d el-Bei D. AiTunso V de Portugal, e d abi c;;- 
soii com Ambrosio Alvarez Homem de Vasconcellos, fìllio de Pedralves 
flomem, e de Dona Margarida Mendes de Vasamcellus, irmà do Capìtùi 
de Macliico da Madeira; e foi para a illia Terceira o dito Ambrosio Al- 
varez Ilomem com a diUi sua mulher e com datas de tecras, e o officio 
de Memposteiro mór de Cativos em todas as Illias. 

193 Desta D. Maria de Novaes, e do dito Ambrosio Alvai-pz IIo- 
mem de Vasconccllus ^grandes lìdalgos) fui primeiro fìlbo Pedro de Nu- , 



uv, y TiT. VI 26T 

vaes, que casOu em Suo Miguel com Beatriz Botclha, fìlTta de Antao Gon- 
(alves Botelho, e neta de GoDcialo Vaz, o Grande, e por provisao ReaL 
(dì Locotenente do DoDatario, e deo muitas terras de sesmaria; e d'elles 
oasceo Joào Serrao de Novaes, que casou com BeaLrìz Lopes, filila de 
Lopo Dias» na Praia da Terceira; dos quaes foi filho Miguel Serr3o, que 
casou 0)01 Isabel Nunes, filha de ftlanoel Galvao, e de Catharina Nunes, 
e oasceo d'elles (aiém de outros filhos) huma filha, que casou com Ma- 
noel da Fonseca (fìdalgo horaem da Terceira); do diro Joao Serrao do 
Novaes nasceo tambem Manoel Serrilo, que casou com Isabel Gongal- 
ves, e Catharina de Novaes, que casou eom Bartholomeu Boteiho, varào 
fidalgo, e Isabel Serra, que casou em Villa Franca com Manoel da 
Ponte. 

194 Nascerao mais do dito Fedro de Novaes, primeiramente André 
de Novaes, Capi tao das Galés de Carlos V, e Francisco de Novaes, quo 
caaoa com Joanna Ferreira de Drumond na liha da Madeira, descenden- 
te da Rainha de Escocia 0. Bella; item, Margarida de Novaes, que casou 
em Villa Franca, e della nasceo Joao de Novaes, que casou com Maria 
Jorge, filha de Jorge Affonso, do Nordeste, de que bouve filhos; e final- 
mente nasceo do mesmo Fedro de Novaes, Antonio de Quental, que ca- 
sou com Isabel Cardosa, fidalga de Lisboa. 

195 Da sobredita D. Maria de Novaes nascerao (além do dito filho 
Fedro de Novaes) Fernao de Quental, que casou com Margarida de Ma- 
tos, filba de Joao da Castanheira, fidalgo que veio de Fortugal, e deo o 
nome a hum pico acima da Cidade de Fonta Delgada; e d esHes foi filho 
ÀUonso de Matos, que primeira vez casou com Guimar Galvoa, filha de 
Fernao Gon(^lves; e segunda vez casou com Beatriz Cabeceiras, filha de 
Bartlmlomeu Rodriguez da Serra; e da primeira mulher teve n Sebastìào 
de MalQs, e outros filhos. Item, Toi pai de Fernao Quenta 1, e Hieronymo 
Quental, que casou com huma filha de Pedro Jorge, de que nasceo Ma- 
ria Quental, que casou com Ballhezar Gongalves, filho de Gongalo Anes 
Itamires; e Isabol Quental, que casou com Salvador Goucalves, filho tam- 
bem do dito Gonzalo Anes Ramires.. Nasceo mais do sobredito Fernao 
de Quental Isabel de Quental, que casou em Villa Franca com André de 
Ponte de Sousa. Da sobredita l). Maria de Novaes nasceo mais Louren- 
co de Quental, que viveo em Portugal, e d'elle procedem os Novaes, e 
Quentaes do dito Beino; item, nasceo D. Violante de Novaes, que da Uba 
Terceira fui para Dama da Rainha, e monco solteira; e emfim nasceo 



2G6 HISTORIA INSCLANA 

Formigo, do habito de Santiago, de que fìcou inulta descendencia enì 
Ribeii'a Grande. 

191 Quarto filho do mesmo Fernao de Anes Tavarcs fui Guimar 
Fernandez Tavares, que casou coni Itui Lo|)es Barbosa, fidalgo que dVU 
la houve muitos nilios. Quinto Toi Felippa Tavares, que c^isou cono Luis 
Pires Gabea, de que ficarào eni Ponta Delgada, e em Villa Franca mui- 
tos descendentes chainados Cabeas. Sexto FiIho foi Anna Tavares, que ca- 
sou com Antonio Carneiro, Cidadào do Porto, prinu) coirmao de outro 
Antonio Carneiro, Secretarlo d'el-Hei, e pai de Pedro de Akuiceva, So- 
crelario tambem d'el-Rei; deste casamento nascerao dous filhos cegos, 
Frei Antonio lìarneiro, Franciscano, e Mi}(uel Tavares, que sendo ce^o 
se Tormou Doutor ein Medicina; mas tambem nasceo Simoa Tavares, que 
casou com Antonio Lopes, filho de Alvaro Lopes, nobre Cavalleii-o; e d?) 
tal casamento nasceo Francisca Carneira, que casou com Bartholomeu de 
Amarai, de que ficarào fillios, Amaraes da Beira, e Carneiros do PorU». 

192 Dos Novaes Coutinhos, e dos Quenlaes Serróes trala o Condo 
D. Pedro tit. 63, e a Clironica d'el-Uei U. Manoel. Houve pois huin gran- 
de fidalgo chamado Vasco Fernandez de Moiidoga Coulinho, senhor de 
(ìoutim, e de outras terras, que teve os filhos seguintes: primeiro, do 
que logo fallaremos: segundo, Lopo AlTonso Novaes Coulinho, de que 
casado nasceO Bui Lopes Coulinho em Lisi)oa. e D. Felippa Coutinha, 
que casou com o quinto Capilào de Sao Miguel Uuy Gongidves da (Mi- 
niera, segundo do nome; e D. Ignes Serra: terceiro filho foi o Ginde do 
Marialva, que casou a lìlha unica com o Infante D. Fernando, irniao del- 
Rei D. Joào IH, e o Conde de Borba, depois Conde do Bedondo. pri- 
meiro filho pois do dito Vasco Fernandcs foi Francisco Boteiho de No- 
vaes Quental, (que por Quenlal, e Novaes, e parcce que pela mài des- 
cendia da illustre fidalguia de Franca, e foi o primeiro que em Perlugal 
usou dos ditos appellidos): deste nasceo D. Maria de Novaes Quental, 
Dama da Bainha mulhor dei-Bei D. AlTonso V de Portugal, e d ahi ca- 
sou com Ambrosio Alvarez flomem de Vascx)ncellos, filho de Pedralves 
Homeni, e de Dona Jlargarida Mendes de Vasconcellos, irnià do Capila.') 
de Machico da Madeira; e foi para a liha Terceira o dito And)rosio Al- 
varez Homem com a dita sua mulher e com dalas de leu'as, e o officio 
de Meniposteiro mór de Calivos em todas as Ilhas. 

193 Desta D. Maria de Novaes, e do dito Ambiosio Alvarez Ho- 
mem de Vasconcellos ^grandes lidalgos) foi primeiro fillio Pedro de Nu* 



Liv, y TiT. VI 26T 

vaes» qne casóu em Suo Miguel com Beatrìz Botclha, fìllia de Antao Gon- 
Calves Boielho, e neta de Gonzalo Vaz, o Grande, e por provisao Beai 
Ibi Locotenente do Donatario, e deo mujlas terras de sesmaria; e d etles 
nasceo Joao Serrao de Novaes, que casou com Beatriz Lopes, filha de 
Lopo Dias, na Praia da Tercetra; dos quaes Toi fìllio Miguel SerrSo, que 
casou com Isabel Nunes, filha de Manoel Galvao, e de Catharina Nunes, 
e nasceo delles (além de outros fillios) huma filha, que casou com Ma- 
noel da Fonseca (fìdalgo homem da Terceira); do dito Joào Serrao do 
Novaes nasceo tambem Manoel Serrao, que casou com Isabel Goncal- 
ves, e Catharina de Novaes, que casou eoin Bartholomeu Boteiho, varào 
fidalgo, e Isabel Serra, que casou em Villa Franca com IManoel da 
Ponte. 

i94 Nascerlo mais do dito Pedro de Novaes, primeiramente André 
de Novaes, Capitào das Galés de Carlos V, e Francisco de Novaes, quo 
casou com Joanna Ferreira de Drumond na liha da Madeira, descenden- 
te da Rainha de Escocia D. Bella; ìtem, Margarida de Novaes, que casou 
em Villa Franca, e della nasceo Joào de Novaes, que casou com Maria 
lorge, filha de Jorge Alfonso, do Nordeste, de que houve filhos; e final- 
mente nasceo do mesmo Pedro de Novaes, Antonio de Quenlal, que ca- 
sou com Isabel Cardosa, fidalga de Lisboa. 

195 Da sobredita D. Maria de Novaes nascerao (além do dito fillio 
Pedro de Novaes) Fernao de Quentai, que casou com Margarida de Ma- 
tos, filha de Joào da Caslanheira, fidalgo que veio de Porlugal, e deo o 
nome a hum pico acima da Cidade de Ponla Delgada; e d e^^tes foi fillio 
AfloQso de Matos, que primeira vez casou com Guimar Galvoa, filha de 
Femào Goncalves; e segunda vez casou com Beatriz Cabeceiras, filha de 
Barlliolomeu Bodriguez da Serra; e da primeira mulher teve a Sebastiào 
deMalos, e outros filhos. Item, Toi pai de Fernào Quenta 1, e Hieronymo 
Oocnlal, que casou com huma filha de Pedro Jorge, de que nasceo Ma- 
ria Quental, que casou com Balthezar Gon^alves, filho de Gongalo Anes 
ftaniires; e Isabel Quental, que casou com Salvador Goncalves, filho tam- 
1*09 ilo dito Gonzalo Anes Ramires.. Nasceo mais do sohredito Fernào 
de Quental Isabel de Quental, que casou em Villa Franca com André de 
Ponte de Sousa. Da sobredita D. Maria de Novaes nasceo mais Loureu- 
Co ile Quental, que viveo em Portugal, e delie procedein os Novaes, d 
Quenlaes do dito Beino; item, nasceo D. Violante de Novaes, qne da liha 
Teic<ìira fui para Dama da Bainlia, e monco soUeira; e emfim nasceo 



270 HISTOWA INSriANX 

fio dito scu Pondador, corno Ibes merece, pois n3o sei que sahissetn 
iiinda com sua vida. 

200 Dos Machados, e Farias de Sao Miguel muito havia que dizer, 
porqne por .Machados descendem de hum Gaspar Machado, e de scu lì- 
Ilio Joào Machado Cannona, naturaes de Barcellos de Entre Donro e 
Minho. e da illustre ramilia dos Machados de Montebello, grande senhor 
(le muitas lerras, de que trataremos quando dos Machados da liha Ter- 
ceira. Dos Farias diz o Doutor Fructuoso liv. 4, cap. 54, que llies veio 
i'ste appellido de hum antigo ascendente seu, que obrando huma grande 
fafaiìha, e ouvindo-a o Rei perguntou quem a fizera; e noracanrto-se-lhe 
;ì pessoa, jà famosa, accrescentou o Rei, e Esse, faria;t e d'aqui tomoli 
o ohrador de faranhas, e todos seiis descendentes, o appellido de Farla. 
Vejrio agora là que illustres obras faz quem se intitula Faria. Do dito pois 
Fernào Machado, e de seu fillio Joao Machado ficarao tres filhos, a sa- 
l)or, Gaspar Machado de Faria, Abbadc rico em Villa de Conde, qne 
morreo no anno de 4637, e deixou por seu herdeiro a hum seu primo 
Manoel Machado de Miranda, fìdalgo da casa de S. Magestade* Outro fi- 
llio foi Francisco Machado, que casou com Ignes de Barros em Barcel- 
los; e outro filho foi Antonio Lopes de Faria, que de vinte annos foi 
para a Ulta de Sào Miguel, e là casou com D. Maria Pimentel na Villa 
<ln Alagoa a^m cem moios de renda de dote, e morreo pclos annos de 
1GW). D'esle matrimonio nasceo Antonio de Faria Maya, que huraa vez 
casou com D. Margarida Nunes, outra com D. Luiza do Canto, irma de 
I). Maria do Canto, m«lher de Diogo Leite Boteiho, fidalgo bem conhe- 
gdo, e cllas ambas Fidalgas da liha Terceira; e d oste Antonio de Faria 
Maya nasceo Francisco Machado de Faria, quo casou, e tem maitos fi- 
llios. e he huma das prìncipaes, e ricas casas de Ponta Delgada. Mas 
vanios por diaiae com a bistoria. 

CAWTULO XVIII 

Das rendas, on riquezas, feriilidade^ e frutos d'està Ilha, 

201 Assim comò no Capitulo antecedente, e seus scis litulosreco- 
pilàmos parte do muito que o Doutor Fructuoso traz das Geragoes d'a- 
qrn»lles que descubririlo, e povoarào a liba de Sào Miguel, e muito mais 
deixamos, que vira mais propriamente na bistoria das x)utras Ilhas ; as* 



LTVRO V CAP. xvin 271 

«ìm tambera agora recopilaremos o muito mais que diz, ecom excessiva 
iDiudeza, das materias apontadas n'este Capitalo, qne elle Iraz no liv. 4, 
e em dez Capitulos, desde o 51, ale 60, por nera fallar a substancia, 
nem lambem usar mal da paciencia do curioso Leitor. 

204 Ha cento e vinte annos rendia a Illia de Sao Miguel para El- 
Rei, do dizimo do trigo, mil e duzento8 moios cada anno, e em muilos 
annos jà mil e quinhentos : do dizimo do vinho cada anno quinhentas 
Vipas; e muito de outros muitos Trutos, fora a renda incerta do paslel, 
edo qne chamào miuyas, e a grande, a dinheiro, das entradas, e sahi- 
<las na Alfandega; e isto sem se cultivar mais que a terfa parte desta 
llha. Rende ao Donatario Conde de Ribeira Grande, assira da redizima, 
que dos frutos da terrra, e direitos da Alfandega Ihe dà El-Rei, corno 
(los moinhos de toda a llha. e do mteiro dizimo do pescado, ervagens, 
«saboaria, e de outras rendas que la tem, e ainda na Uba da Madeira, 
rende Ihe ludo licitaraente trinla rail cnizados cada anno, e rauito mais 
eslando là : licitaraente digo, porque houve jà ascendente seu, que es- 
tando na llha abarcava tddo o navio que vinha, comprava-lhe as fazen- 
'las que trazia, e d ellas fazia estanque na terra, e as punlia a vender 
em logeas de caixeiros seus, e Ihes punha os precos qne qucria; e para 
pagar aos navios contratava cora os Conventos de Freiras, e homens ri- 
i'os da terra, tomando-lhes os seus trigos, e obrigando-se a Ihos dar ja 
inoidos em farinhas nos moinhos; porém comò os Conventos, e ricos nào 
inandav3o trigo ao moinho, e so mandavao buscar farinha, e està a nào 
Nia haver no moinho, seni ter ido a elle trigo de que se fizesse, co- 
llido este engano, se levantou tal motim em toda a llha, que correo 
grande perigo nào so a casa, mas ainda a familia, e a pessoa do tal Do- 
natario, se logo nlio mandasse por muitos barcos buscar trigo às outras 
"has. e melel-o nos moinhos: e comtudo foi mandado tirar da llha para 
Porliìgal tal Capitao Donatario. Veja cada hum comò se ha. 

203 Alcm das grandes rendas d'el-Rei, e dos Donatarios. ha homons 
15o ricos nesta llha, que fora outras grandes rendas a dinheiro, Rui Vaz Ga- 
P^fchamado o do Irato) chegou a ter mil e Irezentos moios de trigo do 
i'<?nda. cada anno. Ayres Jacome Correa teve quatrocentos moios de renda 
6 seiscentos mil réis cada anno na Terceira em dote de sua mulher, e 
outras varias rendas; e jà seu pai Bar5o Jacome Raposo tinha duzentos 
n^oios de renda; e irezenfos moios de renda tinha Jacome Dias Correa. 
^^m do Hego Baldaia chegou a quatrocentos moios de renda; e o mes- 



/ 



272 HISTORIA INSULANA 

mo leve seu filho Francisco do Rego de Sa» chamado o Grao CnpiUk)^ 
Antonio de Bruin (de cuja nobreza Irataremos em seu lugar) tintia de 
renda annuale e (ixa n*esla Ilha tres mil cruzados, e dous mil cruzado:^ 
de renda em outras Illias, e lanlas fazendas mais, que cliegava a perlo 
de trezenlos mil cruzados de seu. Gonzalo Vaz, o Grande, leve duzen- 
tos moios de renda; e o mesmo leve seu fillio Gongalo Vaz Bolelho. Af- 
fonso Bodriguez Cabea leve de renda quatrocentos moios, mas porque 
fui Bendeiro d'el-Bei» lodos Ih'os levou. Boa sera a lembranga d eslu 
caso. 

20 i Fedro AITonso Colombreiro tinha cento e vinte moios de ren- 
da; cem moios Antonio Lopes de Paria na Villa da Alagoa, fora outras 
grandes rendas. AITonso Anes dos Mosteiros veio de Fortugal, e levo 
cento e cincoenla moios de renda. Gaspar Dias, o genro de Miguel Lo- 
pes de Araujo, teve duzentos moios, e mais de quinze mil cruzados em 
movcis, e nào menos seu irmao Cliristovào Dias. Manoel Pires de Alma- 
da, fidaigo da casa de S. iMagestade, teve multa Tazenda, e muitos fillios, 
dos quaes bum foì o Padre Gonzalo do Uego, da Comiianbia ^de Jesus, 
e muilo santo, e lelrado. Finalmente concine Fructuoso, qucjà n'aquelle 
tempo OS Conlratadores da liba de Sao Miguel negociavao cada anno em 
trezenlos mil cuuzados, e que biào àquella liba cada anno cousa de vinte 
e cince naos Inglezas, e tanta a verdade dos da terra, que nem dez es- 
crituras se fazìào, nem se queixava alguem, e as letras que se passavào, 
se cumpriào ponlualmente. E eu digo que queira Deos que sempre as- 
sim seja. 

205 Da fertilidade d'està Uba be grande prova, que nao se semea 
nella às folbas, corno em o Alem-Tejo, e em outras terras de Portugal, 
mas a mesuia terra se semca cada anno, e de trigo, e porque oste se 
nào torna a semear, senao seis mezes depois de se collier o antecedente 
ti'igu, ainda n'estes seis mezes se torna a semear a mesma terra de va- 
rios legumes, e em Janeiro, e Fevereiro outra vez de trigo, que desde 
Junbo ale Agosto se recolbe, e rendia tanto no principio, que dava a 
sessenla por bum, e ainda boje a vinte por bum rende ordinariamente, 
recolhendo vinte moios de trigo quem semeou bum so molo, e cbamao 
moie de terra, a que leva bum so molo de semeadura, e alqueire de 
terra, a que leva de semeadura bum so alqueire, e este modo de fallar 
passou d'aqui aos mais campos, de bortas, de pomares, de vinbas, de 
paslos, e aiuda de matos, dizendo-se que Ticio tem dez alqueires de pò- 



LIV. V CAP. XVM 273 

mar, ham quarteiro de terra de hortas, meio moio de vinha, hum moio 
de malo, etc. 

206 As terras, ou campos nos principios da Ilha pelos Capit^es 
Donatarios se reparliao de graga aos povoadores, ao que chamavao dar 
de sesfharia, (nome que vem da palavra ItalìaDa, «Semo,» que significa 
dividir, desbastar) porque Ih'as davào, para em os primeiros cinco an- 
Dos as porem cultivaveis, e se ficarem com ellas para sempre, ou, se as 
nao fizessem capazes de cultura, as perdessero, e se dessem a outrem, 
e a islo he que vinhao dos mais nobres de Portugal a povoar as Ilhas, 
e por isso os que depois vendiào algumas de suas terras, as vendiào 
l5o baratas, que hum Fedro Anes, sapnteiro, em a Villa de Nordesle 
comprou hum moio de terra por huns sapatos de vaca, (que entao va- 
liio li tres vintens:) e hum Adam da Silva huma lomba de terra, quo 
reodia mais de dez moios de trìgo cada anno, por cuidar que Ib'a com- 
/ pravao bem, a vendeo por qualro carneiros, e huma viola. Hum padraslo 
de Fedro Teixeira, e de Antlio Teixcira, em Villa Franca, vendeo humas 
terras juntas à ribeira do Salto de hibeira Grande, por huma casinha de 
telha, e terreira em Villa Franca. Fernao Alfonso, avo materno de Fran- 
cisco Pires Rocha que hoje vive, (diz Fructuoso) e governa em Ribeira 
firande, comprou a hum Fedro Aflfonso, escudeiro do Conde de Mon- 
santo, cinco moios de terra, juntos a ribeira da dita Villa, que hoje va- 
lem muitos mil cruzados, e os comprou por cinco mil réis, comò consta 
da escritura breve, e muito authentica, feita em pergaminho. A hum Af- 
fcoso Anes da Ribeira Grande davao tres moios de terra, no posto cha- 
roado Pico do Ermo, por cinco mil réis, e dous moios de terra no mor- 
rò de Ribeira Grande, por outros cinco mil réis, e n5o os quiz comprar, 
por ser jà rico, e Ihe parecerem muito caros. 

207 De tal barateza de terras de trigo se seguio valer o trigo t3o 
b^to. qne hum Fedro Anes, morador na Ribeirinha, comprou a Luis 
Cago, avo de Rui Gago da Camera, oito moios de trigo por tres mil e 
dieentoa- réis, e em pastel pagos; e este mesmo Fedro Anes deo seis 
^Iqoeires de trigo por huns sapatos brancos para huni seu criado, os 
floaes valiao entSo trinta réis sómente: e hum Francisco Anes, sendo 
coTKlemnado em hum tostao para o Alcaide, por elle Ihe deo hum moio 
de trigo. No anno de 1500 e mais annos adìante, valeo o trigo a qua- 
tro réis o alqueire ; e vendendo hum Affonso Anes de Ribeira Grande 
^pttlro moios de trigo, o comprador, por nSo ter dinbeiro prompto, 

VCL. I 18 



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y 



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274 HISTORIA INSULANA 

Itie deo em paga a espada, e se embarcou, e o vendedor deo a espada 
por bum loslao, e se deo a si por muito bem pago. Depois no anno 
«le 1507 valia o trigo a cinco réis o alqueire, e bum mercador de Lagos 
do Algarve, sobejando-lbe da carga do navio dons mois de trigo, os 
(lava por duas gaUinbas, e dous frangos qiie biao a vender, e nacf qni- 
2;erao dar-lb os, e deixou o trigo a bum seu cunbado. Em 1508 Fer- 
nando Alvarez de Ribeira Grande disse à mullier que se alegrasse, pois 
tiiilia muilo trigo para vender, porque Ibe trazia nova de Villa Franca, 
i|ue jà trigo valia a seis tosloes o moio. 

208 Luis Goncalves, sapateiro na Ribeira Grande, pedio a bum 
Gongalo Pires meio moio de trigo por buraas botas, qne enl3o valiao 
«'ito. ou nove vintens; e a outro bomem, por Ib'o rogar muito, aceitoii 
uutro meio moio por outras botas. E por bumas botas de cordovao deo 
lium moio de trigo, e tres couros de vacca postos na Villa da Alagoa 
lium Fernao Alvarez de Ribeira Grande. E desta mesma Villa bum Pe- 
(Iro Vaz, valendo entao os sapatos a dous vintens, mandou por Jium 
\inlem em dinbeiro, e pelo nutro vintera quatr-o alqueires de trigo, e 
ainda o sapateiro Luis Goncalves se queixava de mal pago. E outro 
Fernao Alvarez, av6 do Padre Baltbezar Goncalves, Beneficiado em Ri- 
beira Grande, iiào quiz dar bum barrete vermeiho, que trouxera de 
1/isboa, por dous moios de trigo. Mas que muito; se bum Joao Martìns, 
de alcunba o Calcafrades, vendeo dez para doze moios de terra, ondo 
chamao Agua rctorta, a Jo3o AfTonso o velbo do lugar do Faial, e tb'os 
vendeo por pano de Londres azul para bum gabào; e as taes terras de- 
rào muito trigo, e paslel? E por nove moios de trigo comprou bum no- 
bre bum capuz de do. E bum Lopo Goncalves de Ribeira Grande, nao 
tendo onde jà recolher o trigo das eiras, rogou ao Vigario de Mibeira 
Grande Freì Affonso, que na Estac5o da Missa avisasse. que quem qui- 
zesse trigo, fosse buscar quanto quizesse a casa do dito bomem, e so 
duas pessoas forSo là, sendo o povo de mais de mil vizinbos. 

209 Tal fertilidade de terra até no nascer do mesmo trigo se es- 
tava vendo, porque se acbou buma espiga de trigo com sessenta filhas 
ao pé; e em quintal do Beneficiado Joao Soares da Costa, da Igreja 
de S5o Sebastiao de Ponta Delgada, se acbou bum pé de trigo, em qua 
se contarao mil e trinta gr5os, e de outros pés, bum tinba trezentos, 
outro quinbentos graos; e ainda em 1665 quem isto esci'eve, vio que 
sobre a paiha do trigo, as espigas d'elle tinbao oito e nove ordens, oa 



Liv. V GAP. x\m 273 

rihira de graos de trigo, e havia à roda algumas de dez ordens de graoJ5. 

E barn Manoel de Almeida, homem principal do lugar de Fanaes, em 

terra junta ^ Ermida de Nossa Senhora d'Ajiida, achou cm sua seara 

tara pé de trigo com cento e setenta espigas, e n'ellas so quatro do 

qnatro ordens de grUos, as mais de sete ale doze ordens; a raiz d'este 

pè era t3o grossa corno a barriga da perna de hnm homem, e a rama 

figurava hnma gavella; e por isso este pendurou na Igreja da Freguezia. 

ale qae da espiga a espiga o levarao os dcvolos da Senhora, e isto se vio em 

canno de 4369 e da Ilha de Santa Maria trouxe Manoel Fernandez, En- 

qaeredor de Villa Franca, huma espiga de trigo com qiiatorze ordens 

d'elle, e jà n3o ha que admirar de hum Rni Tavares, de Ribeira Grande, 

semeando junto à sua eira dczoito alqneires de trigo, recolher d'elles vinto 

noios; e era rauitas partes correspondia a terra com sessenta moios a 

ham de semente ; e nao se fazia o pao senao do oiho da farinha, e o 

mais se nao aproveitava; e no anno de 1580 chegou a dar està Ilha de- 

ajitomil moios de trigo, com ficar muito perdido em as eiras, pois nem 

ale lodo Outubro poder recolher-se lodo. E no seguinte anno de ISSI 

ainda houve mais trigo; e de cenleio nenhum caso se fazia, senao para 

dar ao gado, e fazer da palha enxergoes. 

210 _ Porém comò o tempo ludo gasla, parece que tambem foi gas- 
Undo a grande, fertilidade da mesma terra, quo jà dà menos trigo do 
<ine d'antes, e fez crescer d'elle o prefo; de sorte que jà no anno d(», 
'530 chegou a valer a tres mil réis o moiq; e no anno de 15G1 chegou 
ii a soìs mil réis, e no de 4380 e 84 tornou a tres mil réis o molo, e 
no de 83 a sete mil e duzentos cada molo ; e emfìm hum anno por ou- 
Ito se suppoem jà hoje valer hum moio de trigo oito mil réis; ter mil 
nuzados de renda, quem de renda lem cincoenla moios, e a està pro- 
porlo qnera mais renda lem de moios, e a causa nao he so o serem / 
jS as lerras menos ferteis, mas tambem o mulliplicar a gente muito em ^ 
as Ilhas, e gastar là mais, e o mandar muito trigo a Portugal, ao Al-/ 
PKe, a Africa, à Madeira, ao Brasil em farinhas jà; e haver jà là mais 
dinbeiro do que em os principios havia, e jà faustos, e gastos mui su- S 
periluos, em busca dos quaes mandào para fora o trigo, e por isso Ihes ^ 
falla a mesma terra, por castigo Divino de peccados. 

244 N3o he comtudo, de so trigo, a fertilidade d*estallha, porque 
lambem nas carnes de loda a casta he tao fertil, que lan^ados gados 
•^dla, moltiplicarao de modo, que em muitos aonos nao bouve a^ougue 



276 HtSTORIA INSULANA 

na liba, mas cada bum mandava matar a vacca, e cameiro qae qaeriar 
e a melbor carne tornava para sua casa, deixando de graca a mais a 
quem levar a quìzesse, e nem de cabecas, nem miudos faziSo caso en- 
tào; e quando, passados alguns annos, cbegou a vacca, e cameiro a 
por-se em pre^o de tantos seitis, e quando a real se vendia o arratel, e 
gado sem custar prego algum se hia buscar ao mato; mas custavSo os 
porcos a tomar, por se terem feito bravos, e se bia em montana a el- 
les, até que se domestìcarao; e toda està casta de carne be tao boa, que 
a vacca be corno a de entre Douro, e Minbo; os porcos corno os da Bei- 
ra, e melbores por se susteniarem com junsa, e leite; e be a carne tao 
cxcellente, e barala, que leitoes bons, e gordos valiào aDtiganaente a dez 
icis, e quando multo, a vintem, e boje valem a tostao, e mais; e bum 
porco de chiqueiro, e de Ires annos valla bum cruzado, e jà agora vale 
tres ou quatro mil réis, e mais; e erao de antes tao gordos, que da sua 
mantelga dava bum porco doze canadas; mas ao diante valeo tudo tanto 
mais, que por carestia se refere vendem-se vinte vaccaa grandes, e jà 
prenbes, por vinte cruzados. 

212 Nem suo menos as cames de aves de penna, porque além de 
algumas bravas que se acbarao na terra, vierao gallinbas de toda a cas- 
ta, e multìplicarao tanto, que se davao trinta ovos por dez reis, e pelo 
mesmo prego buma gallinba, e por quatro reis bum frango; e com ovo» 
jugavao OS rapazes as suas laranjadas; e de Guiné vierao no principio 
gallinlias de outra casta, mais pequenas, e de maiores pennas, e no cor- 
rer mais ligeiras, ainda que no voar mais tardas, e os ovos que punhao, 
erào pardos, e quasi pretos, sendo ellas em muita parte de cor branca, 
e cinzenta, e a estas cacarao tanto que as desingarOo. Pombas, e pom- 
bos se acbarao tantos n'esta Ilha, e de tao varias castas, e tao confiados 
que vendo de novo gente, se Ihe vinbao por nas cabegas, em os hom- 
bros, e nas maos, e por mais que as apanbavào, cada vez se vinbao en- 
tregar mais, sem sabereni acautelar-se, por nao terem ainda visto gen- 
te; d onde veio, que corno os de Portugal, indo àquelia liba, com qual- 
quer cousa enganavao aos primeiros Ilhéos, e liies levavao por ella os 
mais ricos frutos que da terra tinhao, em comparacào de sua malicia, 
charaavao àquelles Ilhéos, pombas na candura; e ob prouvera a Deos qua 
ainda boje assira fossem! 

213 Das outras aves ba tantas, que de humas que cbamao Eslapa- 
gados, na praia de Villa Franca cagadores tomarào a dez mil; e de oo- 



Liv. V CAP. xviii 277 

Iras ^ que cham3o Parddlhas, tres cacadores em huma noite matarao sete 
mil e seiscentas, e outras vezes em carros as traziao: e corno estas Par- 
delbas sao pretas corno corvos, e de corpo tao pezado corno palas, e bico 
de Gaviào com que pilhao o peixe de que vivem, das pennas se enchiao 
OS colclìoes, a pe'ie se derretia corno toucinbo, e della» e do corpo lo- 
do (se Ihes tapao a boca quando as apanhtto) se tira tanto azeìte, que 
cada dez Pardelbas davao ordinariamente buma Canada, e os cai^dores 
d ellas em voltando pareciao lagareiros de azeite. Em Àfrica ba ainda 
d'estas aves, no inverno até Margo, no mais tempo nao aturao a maior 
queotura, e em S. Miguel as desincarao os foroes. Em alguns tempos se 
vem na dita Andorinbas: de fora Ibe vem Falcoes, Conos, Afores, pa- 
las bravas, e ba muitos linlilboes, algumas alveloas, loulinegros, cana- 
rios poucos n*esta Uba: mas innumeraveis meiros, e muitos de cor bran- 
ca, e de regalada musica. 

214 Rolas fez trazer à Uba bum dos Capilaes Donatarios: oulro fez 
levar perdizes, e multiplicarào tanto, que jà biao sendo praga, e s3o lan- 
tas ainda, que ordinariamente valem a trinta réis, e por muitas dizem 
alguns, que de Portugal là vao, que nao sao tao boas, e na verdade nao 
sio tao preciosas; visto serem tao baratas: o certo be que da Uba veni 
a Lisboa grandes barris cbeios d'ellas, e que sao as melbores de Lis- 
boa, por Ibe virem dadas. Codornizes s3o lantas na tal Uba, que ordi- 
oariamente dao quatro, e mais por bum vintem, e sao comò pequenos 
perdigolos, e ainda mais sadias, que cozidas fazem buma exceliente, e 
temperada cea com bum vintem, comò com este tambem a faz bum coc- 
IIk) assado, e com pouco mais custo buma perdiz, ou bom frango: que 
quanto o carneiro nao be demasiado na Uba de S. Miguel. Mas das co- 
dornizes ba menos em Portugal, e nenbumas em muitas partes d'elle. 
Deixo as mais castas de carnes, comò de patos, perùs, cabritos, borre- 
gos, e loda a casta de lacticinìos, e baratissimos. 

2i5 peixe be tanto em està Uba, que de loda a casta o matavao, 
tomando-o à m9o, e a borda do mar sem anzol, e até aos porcos engor- 
davao com peixe, e ninguem o queria ji salgado. Os peìxes que cbamao 
Cavallas erao tantos comò as sardinbas, onde ba muitas, e assim davao 
seis^Cavallas ao real, e sardinbas aos cestos, e noventa gorazes por bum 
viuffim, e ale dos pargos nao se aproveitavao senao das ventrecbas; e 
Bem do mais regalado peixe, que cbamao Bicudas, faziao muito caso; e 



278 HISTOniA INSULANA 

chegou lempo que nem às ceas comiao senaQ|galIirriias, frangos, coeRies» 
cabritos, borregos, aves, etc. 

216 Do vitibo se Dao fazem n'esta Uba vinbas, (corno nem nas ov- 
tras Ilbas) senào em campos de biscooto, que da terra com o fogo fot 
formado, e assim se admirao todos moito de ouvìr dizer, ìsg cavao as 
vinbas, porque as nao ba aonde a terra se póde cavar ou lavrar, e dar 
trìgo, ou outras searas; e nao fazem mais que piantar as vinhas entre o 
biscouto, pedras, e lagens, podar as vides, mondal-as das silvas, e erva 
ìnimiga, e vindimar as uvas estendidas sobre as iagens; e em maitas 
partes he assim o vinbo exceliente, posto que o nao seja tanto n'esta 
]|ha, por mais bumida, e do Sol menos ferida; e tempo boore em quo 
lium Jorge Gon^alves Cavaileìro, morador em Ribetra Grande, mandou 
com vinbo da terra amassar a cai para bumas casas que fazia; poréni 
na verdade foi excesso, porque desta Uba o vìnho he bom, e cliega a 
dar d*cile ciuco mit pipas, e da Madeira ihe vem mais exceliente, e vale 
dobrado. 

217 Das terras lavradias nao so se occupao em o trigo as mais d'eU 
las, mas tambem em lìnho« e tanto, que ainda vai para as outras Ilbas, 
para o Brasi!, e para Portugal; aonde Ibe levantao que he de menos du- 
ra, e curado com sTgua salgada; sendo que Ribeira Grande, que he a 
mai do linbo, he cbeia de ribeiras de agua doce, onde o linbo se cura; 
e certo be que o que da Uba vem de mimo, e sem pre(o, mas dado 
a Portugal, be n*este o n\ais perfeilo, e estimado linbo, (corno se ve nas 
ricas Àlvas, penteadores preciosos, sobrepeiizes, linbas. botoes admìra- 
veis) e so que vem a vender, padece a nota de ser de meuos dura» 
porque custa mais. 

218 Outras terras se semeao de pastel, que he huma erv^ vinda 
de Tolosa, e seméada da bum genero de alfaces, cujas fulbas se seguo 
primeira, segunda, e terceira vez^ (e mais nao, porque jà nào serven) 
para o seu firn:) as foihas segadas se moem em Engenhos, e a massa 
nioida se poem em taboleiros feila em bolos, que na figura parecem pùes» 
ou pasteis, de que touiàrao o nome, e bem escorrida se eoa ao Sol, e 
seca a metem em togeas ladrilbadas, a cada dez quinlaes de pezo d'ella 
Ibe deitao huma pipa de agua, para que ganiie cator, virando a ao me- 
nos cada dous dias, e quasi feila em [mj, se vende aos quintaes d^ezi>, 
e no principio custava dous tosloes cada (luintai até passar muito de 



/^ 



Liv. V GAP. xvni 279 

dous mil reis; e de Inglaterra, Hollanda, e ale de Sevilha vinh3o navios 
a canx'gar de pastel, por meUior com elle pegarem as tintas nos pau- 
1105. e cspe<:ialmente a cor preta. que sabendo CURei fez conirato coni 
OS inoradores da Ilha, de Ihes dar Engenlios proinplos para moerem :) 
pastel, e a Cosla segura de Cossarìos, e Ihe pagariào, além do dizimt}, ^ 
a vintcna, e se Ihe puzerao Officiaos Reaes, cujo principal se inlilulavn 
Lealdador dos pasleis; mas porque os Offlciaes Heaes brevemente faltii- 
rào com os Engenhos, para si os fizerao os lavradores, e comludo fiCJt- ^ 
rio 5empre pagando o dizimo, e vinlena a El-liei, e El-Rei aos Ollìciaes y 
OS seus salarios: porém Deos Nosso Senhor dispoz que fallasse o con- 
trato do» pasleis, e que os Eslrangeiros para as linlas se remediasseiu 
la de outro modo, e jà hoje he pouco, ou ncnhum esle coiilrato, por- 
que (corno la dizem) «Quien lodo lo quiere, lodo lo pierde.» 

219 Em higar pois do sobredilo pastel enlrou n'estas Ilhas o mi- 
Ibo, mas tao mal aceilo, que nem os oflìciaes, nem ainda os escravos 
queriào corner pào delle, nem ainda de mistura com o trigo; e ha mt- 
nos de sessenla annos, o pouco que semeavào, so o gaslavào em assai, 
lenras ainda, as macarocas, e comer o milho assado por novidade; di- 
IHiis a exemplo de Porlugal, e oulros Reinos, vierao a fazer farinha do 
milho, e mislurado com algum Irigo corner o pao delle, que jà hoje ho 
là tambern suslenlo de muila pobreza, e muito mais em annos, em quii 
liouve menos trigo. Mas lem-se experimcnlado que assim corno o pas- 
cei purificava, e ajudava as terras, e de sorte as estercava, que o trigo 
^meado depois do pasl^el, sahia mais, e melhor; assim pelo contrario o 
millK) grosso com a sua grande, e maci^^i cana, e seu grado, e muilo 
8i'iH>, attenua, e enfraquece as terras das Ilhas, e as torna menos fer- 
tós, e se nao dà depois delle, nem tanto, nem tao bom trigo. 

220 treraogo porém, jà d'esde o anno de 1350, hum Barào Fer- 
'^ikIcz, morador enlre os Mosteiros, e Brelanha de SOo Miguel, foi o 
Primeiro que o semeou ao redor da seara de trigo, junto aos caminhos 
^m carreiros; e depois sem';ou de tremofos per si sós hum alqueire do 
^«Ta; e advertindo que depois o trigo semeado na terra que linha sid) 
^^ tremocos, sahia melhor, mais limpo, e mais, para isto comefarào x 
"^r delle no lugar de Santo Antonio; e achou se que com suas raizes, 
^ ramas (que qgando muito chega à cintura de hum homem) esterca a 
^fra, e com sua sombra Ihe faz tanto l>em, que debaixo delle nao nas- 
^ lierva ma, antes a desin^a das mas hervas. porque, corno dos legu* 



/ 



280 HISTORIA INSULANA 

mes he o mais grosseirOi dos peiores, e mais grossos hamores da ter- 
ra é que se cria, e por isso a pui^a, e deixa tanto melhor, que se de^ 
])Ois do tremolo no anno seguinte semeào a terra de pastel. e depois 
(le trigo; e ainda, se no mesmo anno semeào tremolo em Outubro* e o 
cortao em Janeiro, e lavrào sobre elle a terra, e semeào o trigo, da en- 
tào novidade excellente; além de que o tremolo se ado(^ em agua do- 
ce, e se come sem Tarlar, ou enfastiar, e vai a quarenta reis o alqueire, 
e algum se embarca para fora; e ale a palba be para os fornos lenha 
boa, e vai a carrada a dous lostoes; e emlìm arremeda ao Girasol, para 

Sol sempre inclinando com suas follias, e hastes. 

y 221 Com OS Contratadores que vinbào de fora a liba, vinbao muitas ve- 
zes frutos de novo, e se plantavao na terra, e assim vindo buns de homa 
jiao de Indias de Castella, e pousando em casa de bum Sebastiao Pires, 
derao-lhe humas batalas, de que a mulher plantou algumas, e com vì- 

1 em jà murcbas, nascerao comtudo, e se multìplicar3o de sorte, que em 
iiavios vào muitas para fora, e na terra servem jà aos pobres de sus- 
lento, e aos ricos de regalo, feilas em caixas de doce a que cbamào ba- 
tatada, sao bumas raizes que se eslendem por baixo da terra, de meio 
palmo, de palmo, e de mais, em comprimento, e grossura de bum bra- 
go bumano, com casca delgada, e lodo o àmego doce, e sem dissabor 
algum; a rama sabe delgada sobre a terra com folbas comò as da iiera, 
e plantao-se em canteiros Teitos a enxada debaixo da terra; assadas ao 
lume sao excellentes, e multo sàdias, e multo melbores que os Inbames, 
(a que cbamào cocos) os quaes sào mais rus^ticos, e saliem em follias 
mais alias sobre a terra, comò escudos, ou adargas: e que os mimosus 
se comem cuzidos, e sào bons, e saluiiferos: ba d'elles muitos, e mal 
cullivados, que picào algum tanto na garganta, e so pobres usào del- 
]es, e sustentào corno pào: e nem dos Inbames, nem das batatas ba em 
Portugal, por mais que alguns queirào, que jà cà as virào, mas enga- 
uào-se. 

222 De an'ores de fruto so nao ba na Uba de S. Miguel cereijas, 
e ginjas; e ainda que ba oliveiras, nunca d'ellas se fez azeite algum, as- 
sim por poucas. a que o ar do mar consome, comò por Ihe ir de Por- 
tugal, de todas as outras frulas de Portugal ba là: e muilas sao melho* 
res, comò loda a frula de espìnlio, e loda a casla de^magàs, e maiores 
do que em Portugal, e muilas de muita dura: e algumas que sao prò- 
prias do Brasil, corno cauas de assucar, flgos, bauauas, eie, que quauto 



LIV. V CAP. XIX 28 i 

dos outros figos, duas vezes em o anno sahem varias flgueiras com 
elles e perfeilos, corno coro perfcitas rosas, e cravos era o inverno, 
e de toila a hortalica em lodo o anno: tal he d'aquellas terras a fertili- 
dada, a qiie ajnda multo o nunca haver grandes calmas no verao, nem 
frios grandes no inverno, nem passarem muilos tempos em que deìxe 
de chover, e serepi Ilhas fundadas em fundamentos igneos, e conser\'a- 
rem sempre igual calido, e humido: e por isso até com os frutos pro- 
prìos de algum tempo, se anticipao a elle, com albiquorques, damascos, 
e alperelies, e infìnidade excellente de amoras d'esde Maio por dtante, 
com uvas em todo Juiho, e vinho novo a vender no mez de Agosto, e 
assiro lodos os mais frutos. ^ 

223 De lenlia, e arvoredos duella, se achou tanto em Sao Miguel, e 
Qo basta, e alta, que além de por cima d'ella fazerem em o principio as 
tslradas, scm poderem rompel-a por baixo; até canas se achavSo de tan- 
ta grossura, que faziao cangas, timoes, e arados d*ellas, e nao erao as 
nuiis grossas; e comò do M aluco se afflrma haver là canas mui altas, e 
de cinco palmos de grossura, e cheias de tanta agua, que cada huma le- 
^a huma pipa; e de agua tao doce, e excellente, que d>lla bebem os 
Reìs; assim affirmava bum bomem, e homem verdadeiro, que em Pon- 
ta Delgada (sendo ainda bum lugar) vira (onde entao estava o pelouri- 
fìho, e defronte da cadea) vira ainda buma malva, que sendo multo al- 
ta, er-a da grossura de buma pipa: que grossura, e altura pois teriao ou- 
^n» pàos? E com tudo, com a entrada do assucar, e Engenbos delle na 
"ha, e com ella ser estreita, e ter t3o grandes, e profundos valles, que 
d'elles se nao podia irazer para fora a lenba, tanta se gaslou, que fui 
^bem causa de se tirarem os ditos Engenbos, e de jà boje na Uba ser 
<^tosa a ienba. 

CAPltULO XIX 

^ ra/ffi/ia, t destreza da gente d'està Ilha, e do muito que se vive nella, 
e dos monstroSf que nella se virào. 

224 l)*esta materia trata Fructuoso em quatro capitulos, desde 60 
'te 64 do seu liv. 4, o principal tocaremos. Em os principios da Uba 
^ niella os bomens t9o dados à montarla, e exercitados nella, que 
^iD exercicio, e continuo, e forte mantimenlo adquirirao forgas, e des- 
^ezas estupendas, A bum Fedro Ribeiro, e de Bibeira Grande, inves- 



282 mSTORlA INSULANA 

tindo hama vacca brava, e dando-lhe por dianle huin furioso encontrSto, 
ou focinhada, elle immovel persislindo saliio n eslas palavras. tTal sois 
vós vacca? pois comò a buina cabra vos bei de ordeiibart,e lan^ando- 
Ibe a mao a buma perna deo com a vacca em terra, e a subjugou do- 
baixo de seus joelbos coai tal forca, que quieta a ordenbou. conio se fos- 
se buma cabra, sem ella mais se atrever a olbar para elle: e a buoi lou- 
10, a que ninguem se atrevia a apparecer, com deslreza ganhando-lbe a 
volta, e lan^ando-lbe a forte mao a cauda, Ibe deo tal paiicada em o es- 
pinba^^o, que derreado cabio, e para nunliuma cousa mais prestou. K 
com este bomem ser grande de corpo, com suas maos levantava buina 
ancliora grande de navio, e a punba a seus peitos. E indo emfim a Afri- 
ca com Capitao Donatario Manoel da Camera na occasìao da tomada 
da Villa, e Cabo de Gué, tomou este bum montante, e sabindo aos Mou- 
ros matou tantos, e fez tal serra de morlos, que nao podiào jà cbegar- 
Ibe OS vivos; e acometendo muitos mais à roda, depoìs que cansou do 
matar u'elles» se deitou no cbao, dizendo estas palavras: «0' caes comei- 
me agora», e alli o maliirào entào. 

223 Ilum Joào Lopes, que morava nos Mosleiros, foi bomem d:^ 
laes forcas, que andando na debniba coni buma cobra de gado, e \kv 
se tirar acaso o tamociro do mourào. comegando a ir cabindo para a par- 
te de buma rocba despenbada, elle pegando na rèz (]ue andava no mou- 
rào, e fazendo fincapò, teve mào em todu o gado, que se bla jà despi^- 
nliando, e so duas rezes se alTogarào, ainda da parte de cima, iicandii 
as mais todas vivas; mas que muito, se este bomem, indo por qualquer 
ladeira com o seu c^irro, e bois, se bum d'elles se sahìa. e cabia cansa- 
do jà da canga: elle o tornava em seus bra^os, comò se fosse buma onc- 
Iha, e levava à canga oulra vez? e a qualquer oulro boi. pegando-Ihe 
polo pé, ou pelo corno, o fazia eslar'quedo; e para casa, e de longe It- 
vava hum boi morto às coslas, a)mo se levasse buma cabra: e cai hu- 
ma occasiào tomou sobre suas C(»slas bum quarleiro de trigo em deus 
i^acvos grandes. e buma tarrafii clieia de peixe, e tudo levou caminiu) 
dti huina legoa para sua casa; e o inesmo faziao outros bomens, es|f 
ciahnente seu (ilbo, Joào Lopes Meirinbo: e até lumia sua fllba. Maria 
Lo|)cs, com ser mulbcr de Manoel de Oliveira, bomem rico, e nobn», 
diesando a liiuaa mó de atafoiìa, (que dlGlcìlmente moviào dous boiiu'ns 
e ineltendo-lbe o bra^o pelo olbo da mó, a levanlava, e punba onde (|uo- 
ria. 



uv. ▼ CAF. XIX 983 

226 Balthezar Rodriguez de Sousa de Santa Clara, de Ponta Del* 
gada, era bomem tSo valente, que pegando com huina mao pela ponla 
a bum touro, e com a outra pelo queixo» o derrubava em terra; encon- 
trando buma vez dous homens na rua, e a espada brigando, lan^ou-se a 
bum grande cao, que bia passando, e pegando-lbe em buma perna, com 
elle em o ar, por nùo levar espada, se metteo entre as espadas dos que 
pelfjavao, e esgriraiu de tal sorte, que os contendores pasmados de tal 
liomem, se apariarao entre si, e do bomem multo mais; ao qual dìzen- 
do-ibe bum seu escravo, e mouro buma vez, que o nao bavia acoutar, 
arremeteo a elle, e tomando-llie a barriga com as màos, de tal sorte Ih a 
abrìo, que Ibe comegarào logo a sabir as tripas envoltas em muito san- 
gue. Este mesmo bomem, em langando a mao a bum poldro Turìoso, o 
fazia parar, sem bolir mais: a hum grande cao de fila, feita aposta, o 
partio cerceamente pelo lombo com buma cutilada; e com oulra, pelo 
loeio, totalmente dividiu a bum grande porco pendurado: encontrando a 
lium almocreve que derrubava buma parede para passar bum jumento, 
pegaodo d'este, o lanfou, comò pela, da outra banda; virào-o por vezes 
quebrar entre as maos duas ferraduras junlas; e com as màos levaiilar 
liuma pipa cbeia de vinho, e pelos peiitens; vindo buma egoa callida cui 
Imma funda ribeira, e a seis bomens juntos sem a poderem tirar, clic- 
Rou elle, e fmcando os pus, pegou pela cabefa a egoa, e a lanfou da ou- 
^■a parte, cbamando aos bomens borregos: e o mesino fez outra vez a 
lium seu cavai iu, Treado, e sellado; e as mesmas forgas tinbuo, seu pai, 
^'u irmao, e dous seus filtios. 

, 227 E ainda mais celebrado caso foi, que levando o Onvjdor. e 
Dìuiia gente com elle, a Fedro Rod;iguez pri*z , irniào do sobredilo 
BalUiezar Itodriguez, salilo esio com capa, e espada, e tirou a loddS o 
f^m das màos, pelejando mais de buma bora, e tornando o irinào a 
e«lregar-se a prizao, o irmào Ballhesar segunda vez ìWo tornou a tirar; 
^ vendo-se ja ferido o Ouvidor, grilou da parie dei-Bei que prendesseni 
Quelle bomem; e com serem mais de dnzentos os da parie da jusliga, 
'iuiica poderào prender, e o deixarào. Querelou entào o Ouvidur da 
'«riila recebida; e defendendo-se o Ballbezar Uodriguez, ser a ferida lào 
P<iqi:cna, e elle bomem de lanlas forgas, que nào podia ser cbogar a al- 
K^ein com sua espada, e tao pequena fenda impr imir, e qiie o niesnio 
Ouvidor fora o que se ferirà nas guardas da sua espada; e euifim assim 
^ julgou. Eis-que cstaudo janlaado o cbamado feridor, Ihe dorào aviso 



284 HISTORIA INSULÀNA 

qiie vinha o Ouvìdor com muita gente armada a prendel-o: e pergun- 
lando elle se virihao jà perto, e respondendo-se-lhe que vinhao ainda 
longe, continuou o jantar com grao socego; mas tornando quem Uie dis- 
se que jà vinha perto a gente a prendel-o, levantando-se entao, tomou a 
lanca, e adarga, e montando a cavallo, Ities sahio ao encontro, e vendo 
mais de cem lìomens que vinhao com o Ouvidor a huma carreira de ca- 
vallo, metteo elle as pernas ao seu, com a lart^a enrestada. e bradando: 
a Afasia, afastao, todos logo se afastarao, e passou livre, ficando attoni- 
tos todos. 

2:f8 Casco, de alcunlia, mancebo morador em a Bretanba, e que 
levava aos hombros vinte alqueires de trigo, vendo em Ribeira Grande 
ir fugindo huma noviiha, e muito brava, som querer entrar na cobra da 
debuiha, elle arremefando-se a ella, e pegando-lhe pclos pés, e pelas • 
maos, a trouxe comò huma oveiha, e a metteo em a cobra: bum filho 
d'esle, ausentando-se-lhe hum furioso boi, lanQOu-lhe a raao com tal for- 
(a a huma punta, que Ih a arrancou do lugar onde estava; outra vez em 
a ponta de Ribeira Grande, inveslindo-o hum touro, que vinha fugindo 
do corro saltando os palanques, elle com tal forga Ihe langou huma mao 
à cauda, e outra à perna, que o derrubou, e acudindo mais gente b le- 
varao para o corro. Vive ainda este homem, e com ser velho, lem falaes 
forcas ainda, (diz aqui o Fructuoso cap. G2). E outros homens havia 
n'esta liha, que langando huma mao à ponta de hum bravo touro, e lo- 
go outra m3o a barba, o estendiào em terra. 

229 Christovào Luiz, fìlho de Fedro Luiz, da Villa de Agua de Pào, 
foi tao forte cavalleiro, que a cavallo langava hum dardo tao longe com 
a mHo, comò huma bésta lanca huma setta, e ainda mais. Antonio de 
Sa, fillio de Joao de Betencor, e de D. Guimar de Sa, da Cidade de 
Ponta Delgada, era tao valente homem, que em Africa, no cerco de Ca- 
bo de Guù, saindo a desafio com hum valente Mouro, (que desaflava aoi- 
Christaos) arremetendo a elle, o arrancou, e lancando-o sobre seus altos^ 
hombros, ainda que Ihe deo n^elles huma fcrida grande, Ihe subjugo^i 
as maos, e o nao largou, mas vivo o trouxe, e entregou ao Capilao. '^ 
este mesmo Sa sobre as duas palmas das m3os levantava do chSo 9 
quaesquer dous homens; e firmando-se em pé apostava com qualqac»r 
iiomem, que Ihe desse com huma tranca em as curvas com quanta for- 
ca pudesse, que ainda nào farìa curvar; e assim succedia. 

230 Gaspar Vaz, parente de Baltbezar Vaz de Sousa, (ambos de Bi* 



uv. V CAP. XIX 285 

beira Grande) seDdo Capitao de huma Companhia em goerras de Italia, 
bntos Estandartes tomou aos Monros huma vez, que a bandeira Real 
eom as mouriscas armas mandou à Ribeìra Grande a seu pai, e por mili- 
to tempo andou Da Villa até se romper, por a nao guardarem ce com a 
estimacao devida. A Gaspar Homem da Costa forao desafiar em Vill.t 
Franca bum Vianez, e outro Algaravio, e saindo-lhes elle so, sómente 
ferio a ambos, e os deixou ir curar-se: porém curados elles, e eslando 
jà para se embarcarem, tornarlo com ontros muitos a buscar ao mes- 
mo Gaspar Homem para se vingarera d'elle, e este sahindo-lhes ao en- 
contro com capa, e espada feita, nenhum se atreveo ao accometer, e 
elle OS foi acompanhando, e voltando, Ihes mandou bum bom mimo pa- 
ra mar. 

231 Belchior BaMaya, nobre filho de Gongalo do Rego, foi homem 
de tio grandes partes, corno se vera. Na Cavallaria foi tao destro, quo 
andando com Carlos V, e vindo com elle a Hespanha, nunca achou quem 
vencesse em armas de pé e de cavallo, a dous cavallos saltava do 
hom salto sem tocar com o pé em algum d'elles, e pondo so huma raao 
em primeiro. Correndo à espora flta, langava tao longe huma vara do 
doze palmos, quanto huma bésta deità bum virote, e huma vez na car- 
reira do cavallo despedio com tal forga huma cana, que ficou em a anca 
do cavallo, e se tomou à sella dentro da carreira. Na Cidade de Evora 
poz publico cartel de desafio, e nenhum o veflfceo, nem a pé, nem a ca- 
vallo. Foi t3o grande jugador de pela, que nao achou em Hespanha quem 
ignalasse, senSo bum chamado o Pranchas, e jugando com o Infanto 
D< Luis, acabado o jogo, com huma pequena corrida saltou a corda por 
ciiQa, sem se ouvir o cascavel, e o Infante Ihe mandou dar vinte mil réis, 
<lQe n'aquelle tempo era data grande. Yeio depois a Uba, e ensinou a 
^paohar do chao laranjas, correndo a cavallo. A mais grossa ferradura 
<|Q^rava entro as maos; em cujas palmas pondo a dous homens, os le- 
'^va, comò pélas, vinte passos. Na praga de Ponta Delgada vendo huma 
^ pipa, ou bum quarto de tonel cheio de agua o tomou nas maos, e 
DO ar poz a boca, e bebeo pelo baloque, comò por bum pucaro de 
^. Por vezes dando huma palmada em a anca de bum ginete cor- 
PBodo nao pode alcangar até o firn da carreira: e vendo a bum caval- 
leiro em Evora correr em pé sobre hum cavallo, correo elle outra car- 
. ^h coro huma lanca na mao, e pelo coto applicada ao nariz; e n5o po^ 
deodo fazer tal o competidor, Ibe respondeo, tFique huma pela outra:» 



i 



2S6 mSTORIA INSULANA 

e corria a cavallo cono duas lancas nas maos, e o freìo em a boca. E 
<|narenta e cinco pés saltava em tres saltos; e quarenta e sete pés além, 
lan(^va huma barra de vinte e cinco arrateis. Desafìado a huma iuta, 
mandou que Ihe atassem o brago esquerdo a huma coxa, e alado d'esia 
sorte derrubou a qiiatro homens; e iiivestido de bum touro, Ihe deo tal 
rutilada em huma coxa, que logo o jarretou. Seria nunca acabar, contar 
todas as faganhas tle tal homem. 

232 Alguns Algaravios, indo à Uba buscar trigo, procurarao por 
homens luctadores, para experimentar forfas, e encaminhados logo ao 
bigar dos Fenaes, era demanda de bum luctador celebre, e indo là o 
mais valente Algaravio, e dando com hum homem, que falquejava ma- 
4leira para Imma grande casa, e sem o conhecer, Ihe perguntoa por 
tnquelle luctador; (sendo este o mesmo que o outro demandava) e ouvin- 
do-o falqnejador, lanfou a m5o a ponta de hum grande caibro, e me- 
iieando-o no ar corno a huma varinha, com ella apontou para huma casa, 
e respondendo-lhe, disse: «N'aquella casa mora esse homem.» que 
vendo o Algaravio, acudio dizendo: «V. M. deve ser a quem eu busca- 
va, e nao tenho que ver mais, nem que mais experimentar;» e attonito 
se foi. 

233 No mesmo liv. 4 cap. 62 de Fructuoso, em prova dos bons 
Tìpes, e bora dima da Uba de Sào Miguel, se conta de huma Maria An- 
nes mulher de Joao Moreno, que morreo de 108 annos, e com trinta 
4lescen(lenles seus a cabeccira, e deixando jà multos tresnetos. E que em 
Hibeira Grande houve huma Igncs Gongalves, e Calbarina Gongalves sua 
liRìa, casada com Fernando Alvarez o pequeno; e que a filha era de cenm 
annos, e a mai tao velha, que tornou a ser menina, e chamava mai A 
filba, e so comia papa, e andava de gatinhas : mas que na mesma Villa 
bonve tambem huma Barlholeza Francisca, filha de Joao Franco, a qual 
tendo cento e dez annos, andava pelas ruas sem bordao, e com todos os 
dentes, e toda a sua vista, e bom juizo ainda, e que sem tudo isto, e 
com bordao andava huma sua filha alraz d'ella : e que hum homem, de 
oflìcio pombeiro, e de mais de cem annos de idade, andava a pé, e era 
hum so dia, caminho de oito legoas; e muitos com suas mulheres viviao 
casados setenta annos, e mais. E quem isto escreve, estando na dita liha 
em anno de 1665, soube do Cura, e Vigario de Porto Fermoso, qne 
liavia quatro annos nao morrera n*aquelle lugar (com ser grande) pessoa 
alguma mais que hum Anginho ; e n'elie havia muitas pessoas de mais 



uv. V CAP. XIX 287 

de cem annos; e lium discipulo tive eu li, qiie sobre ambos os pais, ti- 
nha ainda todos os quatro avós vivos, ba cincoenta annos. 

i34 Bcalriz Fernandez, na Villa da'Alagoa, morreo de cento e vinte 
e dous annos, e sua (ìiha Ignes Annes de cento e dez; e hunoi Fedro Af- 
fmso (de alcunha o das barbas) morreo de cento e vinte ; e outro de 
c«m annos ; hia no verao segar ainda corno de antes Maria Gonfalvcs, 
(le niogo Pires seu marido que tinha vindo de Portugal, teve quatro fi- 
llias, e bum filbo, e d'esles filhos teve netos, bisnetos, e tresnetos tan- 
tos» qiic chegoii a contar cento e dous, e Ihe assistirào à morte noventa 
<* seie. e faloceo de mais de cera annos. Outra Maria Goncalves, mai de 
Luis Galv^o, de Ponta Delgada, sabendo que a justifa hia jà a hnma 
qninla a prender-lhe o tal fill»o, de repente se vestio em traje de bomem, 
f" ninnlaiulo em bum cavallo com adarga, e lanca, passou a justir^i, che- 
pou a quinta, distante lium quarto de legoa, e dando aviso, cavallo, e 
••»nnas ao filho, o salvou, e tirando a jusli(ja devassa de quem dera tal 
J>viso, sahio ella dizendo, que nao culpassem a outrem, que ella fora, 
^mo mài, salvar a seu fillio ; e contra ella se nlo pror^deo, e morreo 
«le cento, e tantos annos, som parecer tinha tantos. He porém de repa- 
'ar, que nesta liha (corno reparei ostando n'ella) vivcm multo, e muito 
niais as mulheres, que os homens; a causa Dcos a sabe. 

tM Monstros de toda a casta se virao sempre na tal Ilha. Em o 
3nno de 1350, no termo de Ponta Delgada nasceo bum bezerro com 
duas cahecas, em tudo perfeitas, e so pegadas Imma à outra, ainda que 
<^^m Imma so oreiha cada Imma ; porém com duas gargantas, qnalro 
^Hios, duas bocas, e morrendo foi aberto, e Ihe acharao dous buchos 
denim. Em 1K80 no primeiro de Dczembro nasceo em Ribeira Grafide 
^«irn leilao ruivo corno a mai, e com todos os sinaes d'ella, a saber, 
<^'>»n huma oreiha foicada, e outra levada da arreigada até a ponta, sem 
^illerenca alguma (la mài, que hum anno anles fora assim assinalada. 
&n Villa Franca se achou hum ordinario ovo de gallinha, e dentro delle 
onim ovo mais pequeno, mas com casca dura, gema, e darà, comò os 
^Uros ovos. No lugar da Achadinha se achou hum leìtao com dous cor- 
P^ perfeitos, e huma so cahefa. Em Villa Franca, a 6 de Agosto de 
'381 nasceo hum pintào com oito pernas, e viveo coro ellas, mas andava 
c^m as primeiras duas, e arrastava tres por cada banda. Em29 de Sep- 
aro de 1383 sahìo em Ribeira Grande hum pint5o da casca, e logo 
'%o batendo as azinlias, cantou tres vezes dentro da casa» e tao alto. 



i 



S88 HISTOMA INSTLAKA 

que ouviao na ma. Pelo mesmo tempo na Villa de Agaa de Paa v!t:i 
hum hoinem, que sendo casado« e com fiihos, e barbas do rosto, de seus 
peìtos dava de marnar, e tanto leite, comò huma mulher qne cria. 

236 E nem so da terra, mas tambem do mar, se virao n'esta lliia 
monstros notaveis, especialmente da parte do Norte, aoode por vezcs 
tem dado baleas, em Rabo de Peixe, por ser porto aonde se achào mizi* 
tas Tavas do mar, corner de que as baleas goslào muito. e comtado nunca 
d'ellas se achou ambar. Em 1537 na ponta de Sao Bras, enlre Porti i 
Fermoso, e Maya, sahio hum tao grande peixe, que sem ser baiea, tini. a 
quarenta e dous covados de comprido, oito de largo, e quinze paInK'S 
de alto ; e da ponta da boca até a gueira, tinha vinte e cinco palmos : 
pela boca, se a abrira, poderia entrar buma jnnta de bois com o sou 
carro: achou-se em mare vazia de huma grande tormenta: da cabe^a ati> 
o rabo tinha taes cintas pela banda de cima, que por elias subiao os hin 
m^jis a elle, comò se sobe a hum navio: e comtudo nem espinha. nem 
osso algum se Ihe achou. No prìmeiro dia andarao cem homens com ma- 
chados a cortar n'elle; no segundo dia cento e cincoenta: e todos junla- 
mente, huns de huma banda, outros da outra. outros de cima, e sem 
se estorvarem: a primeira parte por onde o arrombarao, foi o arcalx^u- 
(0, d'onde logo sahio tanto azeite, e tao bom, que encheria tres pipas, 
e em dando na agua se coalhou de sorte, que o apanliavao em paes co- 
ma de manteiga. D'este peixe se fez rauito azeite, e tao bom. que nrrj 
so servia para a candea, mas para curar sama« frialdades, etc, tinha uni 
modo de osso junto do pescoso, e outro junto là à rabadiiha, e ludo se 
derrelia em azeite. Os nervos erao tao rijos, qoe depois com elles ar- 
rastavao troncos, traziao os bois, e bestas prezas, sem jàmais quebra- 
rem. Nào se conheceo tal peixe, posto que aiguns diziao chamar-se Ti-e- 
boiha, porém hum homem de fora, que muito tempo estiverà em Guiné, 
disse que era Espadarte, e que em Guiné. vira muito?. 

237 Em 158ii, a 10 de Junho, da parte do Sul, e da povoa^ao ve- 
Iha até a Cidado, se vio no mar huma travada bataiha de tr^ grandes 
peixes, por espaco de quatro, cu cinco dias, no Gm dosquaesdousbar- 
cos de Villa Franca encontrarào com hum dos peixes morto, e chamando 
mais bateis o trouxarao com rordas para terra. Era o tal peixe de no- 
venta palmos de comprido, dezoito de lar^o, e outros tantos de alio; e 
tambem, comò navio, tinha cintas ao comprido; cabeca de quinze pal- 
mos, e de outros quinze o rabo; em lugar de guelras tinha ao redor da 



\ 



u\. V GAP. XX 289 

cabeca, corno laboas de ferro, com cabellos corno sedas em as pontas ; 
era tao seco, que so se Ihe tirou bum quarto de azeite, pouco mais, mas 
melhor do que o da baiea; e o peixe na cor era lodo negro: disserào 
alguDs que era peixe Mulo, que nas Indias de Castella virào muitos, e 
que OS que o matarao, erào peixes Espadas, de que vinba muito atra- 
vessado pela barrìga. Outro peixe tinha sabido a liba corno bum balea- 
U); e coDclubio-se ser o peixe cbamado Boto. 

CAPITOLO XX 

Da Veneravel Madre Margarida de Chaves, tida commummente 
por Santa, e milagrosa. 

238 Dos primeiros que forao a povoar a Uba de S3o Miguel, era 
hom Affonso Annes dos Mosteiros, bomem muito nobre, e Cavalleiro 
professo do babito de Sao Lazaro, que era Ordem Militar, e nobilissima 
enlào; morou em Ponta Deigada, sendo ainda Villa, e morreo jà muito 
velho em o anno de 1340, sabre nobre era tao rico, que tinba cento e 
cincoenta moios de trigo de renda cada anno, além de outras muitas fa- 
wndas, e rendas. Fez buma rica, e bem lavrada Capeila na Misericor- 
dia de Ponta Delgada, e da invocacao de Suo Joao Baplìsta, e niella està 
sepultado em buma sepultura alla de pedra negra com buma Missa quo- 
Udiana; e para Capeila, e Missas deixou trinta moios de renda cada an- 
iK); deixou mais o sitio em que se fundou o Hospital, e renda para bu- 
atta cama, e sostento de bum pobre. Foi casado com Catbarina Enes, 
nìullier de nobreza igual a elle, e d'ella leve buma unica fiiba chaihada 
Maria Afifonso, que siiccedeo no morgado, que fundou o pai, e casou com 
hum nobre Varào, que veio da Uba da Madeira, de sobrenome, (Cbaves) 
^ ki primeiro deste appellido que houve em S. Miguel. 

239 D'està Maria Ailonso, e do Cbaves seumaridonasceoMattbeos 
fernandez, que casou com BritesUodriguez de Cbaves, vinda tambem da 
Madeira, e este succedeo no morgado do avo; e ao dito Maltheos Fer- 
J»ndez succedeo seu filho Manoel de Oliveira, pai de Sebastiao de Te- 
^e, que em|)enhou o morgado, comò fez tambem seu filho JoaoBotelho, 
^jo filbo Felippe Botellio tambem o empenbou, cada bum em sua vida: 
^*^ mesmos Mattbeos Fernandez, e Brites Rodriguez de Cbaves nasceo 

>>^ Catbarina Femaudez, que casuu com Francisco Gon^^ives, e d'estes 
VOL. i i9 



y 



290 HISTORIA INSULANA 

nasrcrao Margarid.i do Ghaves. qne cason com Belchior da Cosfa Ponte, 
p Maria de Camide mai de Francisco Aflfonso; e do me$n\o Maltheos 
Fernandez, e de Brites Rodrignez Chaves nasceo tambem Maria Rodri- 
gnez de Cliaves, qne cas^ju primeiro em Angra com Gaspar de Espinosa, 
Castclhano, e Cabo de guerra do Castello de Angra. e d este matrimo- 
nio nasceo a Madre Jo.anna da Cruz, Riìligiosa grave do Convento de S3o 
Cioncalo; e nasceo mafs D. Salvador de Espinosa, qne por snas grandes 
partes foi Capellao da Capella Real de Madrid em tempo de Felippe IV, 
e là morrei) ha mais de quarenfa annos. 

240 Da sobredita Maria Alfonso nasceo mais Anna Fernandez, qua 
casou com Fernao Carneiro, dosquaes descendeo Anna de Teves: e d'està 
nasceo Anna Carneira, mai do Clorigo Manoel Nicolao. Nasceo mais da 
mesma Maria Affonso huma filha Magdalena Fernandez, que casou com 
AITonso Enes de Chaves, que da Madeira veio tambem; e d'estes nasce- 
rrio seis filhos, primeiro, AntSo de Chaves, que morreo nas Indias de 
Castella, segundo, Gaspar de Chaves, de que nasceo Manoel de Chaves. 
que foi pai de outro Gaspar de Chaves, e .este de outro Manoel de Cha- 
ves Benavides, terceiro, Luis de Chaves, de que nasceo BalUiezar do 
Rego, pai de Anna de Chaves, m3i de Joiio de Chaves, quarto, Leonor 
de Chaves, m3ì de Francisco Affonso de Chaves, Vigario de Ribeira Gran- 
de, e de Anna de Chaves, que casou com Thomas de Torres, de que 
nasceo D. Margarida, mulher de Ignacio da Costa, que forSo pais de 
Francisco Affonso de Chaves, e de Martinho da Costa, quinto Barbara 
de Chaves, que nunca casou, e foi sempre pessoa de grande virtiide, e 
gerarao. 

241 Em sexto lugar nascilo de Magdalena Fernandez, e de Affonso 
Enes de Chaves a Veneravel, prodigiosa, e beatissima Margarida de (-ha- 
ves, da qnal contamos os sobreditos parentes, que pudemos descobrir- 
Ihe; pois de bum parente sanlo se ha de fazer mais caso que de mil 
parentescos de Hdalgos, e por isso digamos ainda o marido, e descen- 
dentes d'està bemaventurada, e logo referiremos sua santissima vida. 
Seus ricos, e nobres pais casarSo a està sua fìlha com bum fldalgo quo 
veio de Portugal, chamado Antonio Jorge Correa, CidadSo do Porto, ir- 
melo de Jacome Dìas Correa, de que jà tratamos, e trataremos aìnda en 
seu lugar, pois d'elle procedem os principaes Odaigos, e mais ricos d^ 
todas as llhas Terceiras. Teve de seu marido està grande Heroina hui 
fllho, que Ihe morreo estudando em Coimbra, e jà com fama de 






LIV. V GAP. XX 291 

virtude, e commua opiniao de Santo; outro chamado Manoel Jorge Cor- 
rea de Sousa, tambem formado era Canones, e Conego de Santarem on- 
de morreo, e na liha deixou instituida huma rica, e nobre Capella, so- 
bre qua sempre ha muitas demandas de parentes a ella oppositores, e 
tambem teve outro filho Padre da Companhia de Jesus, e huma filha 
Maria da Trindade, Freira no Convento de Santo André de Ponta Del- 
gada, e todos estes filhos procederào sempre com tanta virtude, qiie 
mostravao serem filhos de hùma mài santa, e de sua santidade toquc- 
mos agora alguma cousa. 

242 Nasceo està beata Margarida de Chaves (que este he o titulo, 
perqae he commummente nomeada) em o anno de 4545, de t3o nobres, 
rìcos, e virtuosos pais, que desde a infancìa a instituirao em singulares 
Tìriudes, e ella em chetando à idade competente, e so por obedecer-lhes 
aceitoa o estado de casada que Ihe derSo, sendo de idade de quatorzo 
aoQOS, em 4529, e he muito de notar, que dando-lhe Deos ciuco filhos, 
« de tSo rico, e nobre marido, que depois de nascido o ultimo morreo, 
a nenhnm deo ella o estado de matrimonio, mas morto o primeiro ain-t 
da estadanté, e fazendo a dous Clerigos, ao quarlo metteo Religioso em 
a Companhia de Jesus, e a filha metteo Religiosa em o observante Con- 
ato de Santo André de Ponta Delgada; mostrando bem com isto, quo 
8ó por obediencia aceitara o estado de casada, e que mais queria as vir* 
todes por descendencia de sua nobre casa, do que muitos humanos des- 
^iendeotes, e assim morto o marido, se metteo logo na terceìra Ordcm 
da Penitencia do Serafico Padre S. Francisco, sendo ainda de idade do 
^te e seis annos, dos quaes foi casada doze. 

243 N'esle estado de viuva Terceira Penitente viveo trìnta e quatro 
^0008 està Religiosissima pessoa, e tao dada à penitencia, que em lugar 
<b8 gaias que em vida de seu nobre marido era obrigada a trazer, tra- 
^ eoQtinuament^, debaixo do honesto habito de Terceira, asperos cili* 
^ e nem as noites dormia em cama, mas no puro sobrado da casa 
com ham madeiro por cabeceìra, e o mais da noite passava em orac3o, 
^ repetidas disciplinas, doze annos jejuou todos os dias, excepto os Do- 
^^àoqp^ sem tomar consoada alguma, todas as Sestas feiras a p3o, e 
^a, e da mesma sorte todas as Quaresmas, e chegou a passar huma 
^rz semana Santa desde a Dominga de Ramos até a da Paschoa, sem 
^<>Q)ar corner algum, e tendo sido tlo rica, e nSo faltando aos filhos com 
^0 necessario, confórme a suas pessoas, ofBcios, e ausencias, tudo 



/ 



^ 



292 HISTORIA LXSULAXA 

mais qoe podìa, reparlia em esmolas. Frequentava os Sacramentos da 
PeniteDcia, e sagrada CommuDhào, e para isso tiuLa bum Confessor ordL 
narìo,que era Reverendo Pddre BrasSoares, Cierigo, bom Moralista, e 
de notorias virtudes, e para se aconseihar, esegurar, econfessar-setam- 
bem, recorria sempre ao grande, e viiiuosissimo Tlieologo o Doutor 
Gaspar Fructuoso, e aos Padres da Compauhia de Jesus, quando biàa 
àquella liha em mlssoes, por nao haver niella ainda Collegio da Compa- 
uhia, comò depois houve, e ha. 

244 Continuava tanto a ora^ao, que parecia viver sómente de orar, 
enaoracaoselhecommunicavatanto Deos, que afBrma o citado Fructuo- 
so liv. 4, cap. 95, que o que dividido communica Deos a muitos Santos, 
junto communicou a està sua devota, e comtudo, quando algumas ve- 
zes Senhor suspendia o dar-ihe na oracao consoia^oes mais sensi veis, 
entao ella perseverava mais orando, e tao transformada, e coufòrme coiu 
seu Deos, corno quando recebia do Senhor os maiores bencficios, aiiida 
exteriores, porque nem sabia, nem queria buscar a Deos por interesse^ 
proprios, mas so por Ihe cumprir sua Divina vontade, e por isso quan- 
do mais se sentia elevada em o Senhor, entào a si propria se morlifì- 
cava mais, confundindo-se em o profundo de sua indignidade, e baixe- 
za, juntamente corno Martha rctirando-se, e comò Maria, nunca apartan- 
do-se de seu Deos. 

213 Àssim chegou a lograr as virtudes Theologaes em tSo subido 
grào, que da virtude da Fé Divina afGrmarào o grande Tbeologo Fru- 
ctuoso, e douto, e devoto Clerigo Bras Soares, que quando a confes- 
savao, ou fallavào de Deos com està Santa, taes cousas Ihe ouviao da 
Santissima Trindade, da Divina Eucharistia, e do amor Divino, e mais 
mysterios da Fé, e com tacs palavras, tao novas compara^óes, tanto Ter- 
vor, e firmeza, que Ihes parecia ter està creatura por Mestre ao Espirita 
Santo, e fallar nella, e que na sua oracào se Ihe revelara ludo, corno 
se tudo vira com seus olhos, e que tanto se ajustava com a Sagrada Es- 
critura, que mostrava tinha d'ella sciencia infusa. Na Esperanca a acha- 
vào tao firme, e tao regulada, que estando em oracao, e sendo arreba- 
tada em espirito ao Ceo, e vendo aos Còros dos Aojos, e aos mais Bem- 
avenlurados, a estes, e aos Anjos tudo era perguntar-lhes, Ànjos, e 
Santos do Ceo, aonde està o meu Deos, e meu Senhor? que aqui su atì- 
rava sua esperanga, e nada do mais ihe satìsfazia: e de muitas illustra- 
(óes que tinha, sempre turava hum restio de todo o que Deos nào era» 



Liv. V OAP. XX 293 

t hnma perpetua forno, e saiidade de Deos, e tao intenso odio de toda 
a culpa, qne assent^nv?io comsigo os dous citados siigeìtos, que tal al- 
ma conio aqoella, jà em està vida cstava confirmada em a Divina grara. 
2i6 Na Charidade, e amor Divino foi tao excellcnle està santa al- 
ma, qiie representando-se-ltìe ver a Christo Senhor nosso, ainda se nao 
flava seu amor por satisfeìlo, mas logo, corno por huma ohscnridade, 
«era n'efla parar, hia infinitamente adianlcem busca da Divindnde, unico 
fim, e final ohjeto de seu purissimo amor; e a hnmanidade de Christo 
puramente a excitava a se accender mais no amor Divino, e mais Ihe 
agradecer o humilhar-fe a lomal-a e a està agradecer cada vez mais o 
ranito que se tìumilliou a padecer por nós, até morrer em huma Cruz 
por nos salvar: e d'aqni lii-ava pirra si a profunda humildade, em qne 
Iv>x^o fundamento de todas as mais virtudes, da devo<;5o admiravel de 
Deos, do Senhor Sacramentado, dos Anjos, e Santos todos, e da abne- 
pfJio continua de si mesma, e perpetua mortificacao : de quo se qui- 
«essemos tralar, seria niinca acabar; pois até ir d'està vida para o Ceo alma 
Ife santa, com* ter lido larga vida, auguientou sempre as virtudes sobre- 
ditas, e o mesmo Deos manifestou tanto sua gloria, corno agora veremos. 
247 A inda em vida desta sua serva obrou Deos por ella tao gran- 
des maravilhas, que o Doutor Fructuoso affirmou, que nao ousava rogar 
« Deos por «Ila, aimta em seus sacrificios, vistos taes prodigios, quaes 
I^teos por ella obrara; mas que rogava a Deos que se lembrasse d'elle 
pelos merQcimentos de tal Santa: e nao refere comtudo, e em particu- 
•s^r, OS prodigiosos casos, por n^o estarem ainda declarados por mila- 
P^ pela Romana, e Catholica Igreja; diz porém que o Doutissimo Pa- 
dre Francisco de Araujo, indo em missao do Collegio da Companhia do 
^ns da Ilha Tercoira a S'io Miguel, e fallando muitasvezes a està Santa 
^v,i, e ouvindo fallar d'ella, e de suas maravilhas, nao so jnlgava, e 
feia qne era Sr^nla, mas que era, e Ihe chamava tPassiva Divina;» naò 
^ pelo que padecern pelo amor de Deos, de persegui(;i5es, e contradi- 
C5es do mundo, nem so pelo que em si mesma exercitara de penilen- 
^^s continuas; mas especialmente pelas grandes, e admiraveis obras quo 
^^s iK)sso Senhor por està Santa obrara, ainda cni vida della, corno 
l^rhnma sua «Passiva Divina.» 

2i8' T'il devorào tinha ao Santissimo Sacramento, que nao so com- 
"^'"Jjjava ranito frequentemente, por mandado dos Confessores, mas es- 
ondo na Igreja nao sahia d'olia em quanto houvesse Missas; e quando o Sa- 



y 



291 HISTORU LNSULANA 

cerdote commungava realmente, tambem ella espiritualmenle coimnmi- 
gava, e (cousa rara !) sentia em sua bocca o sabor dos accidentes Eu'-* 
cbaristicos, e em sua alma os effeìtos de buma real» e perfeit» Commu* 
lihao; e assim foi a que entSo intruduzio na Uba a frequencìa da Con** 
fissao e Communbao; e tal familiaridade tinha com o Senbor Sacrami- 
tado, que affirmou a seu Confessor, que se Ibe mostrassem muìtas hos- 
tias, das quaes bumas estivessem consagradas, oulras d3o, conbeceria 
e assioarìa quaes erao, e quaes d3o erao as consagradas ? Da Virgem 
nossa Senbora era tao devota, que tomando-a por valia, para que Deos 
]he revelasse quando bavia morrer, e Ihe alcau^asse que fosse em dia 
de alguma festa /da Senbora, fol-Ibe revelado que dalli a tres annos mor- 
reria; e assim succedeo, tres annos depois, e no dia do Nascimento da 
Virgem Santissima, em 8 de Setembro, com està nova satiio da orac3a 
tao alegre, que admirada a (Uba Ibe perguntou, que alegria era aqueila. Res- 
])ondeo que era o saber jà, quando bavia morrer, Nao sei de que mais 
me admire, se de tal desapego d'està vida, se de tal saudade, e tao fir- 
me esperauQa da eterna gloria. Em vida teve o dom de profecia, e com 
4^1e avisou buma vez de lium perigoso lago que o demonio bavia armar 
m seu Confessor, e o livrou d'elle; e o mesmo Confessor, e a filha d'està 
Santa, testiQcarSo que, quando actuaimcnte tinbao tentagoes secretas em 
suas almas, a Santa as conbecia e sem d'ellas Ibe darem sinal algum, 
ella acodia logo, e Ibes dava os remedios para as vencerem. Saniaquem 
tinha occultos livros profanos, e quem d'elles usava mal, e mandando a 
Lisboa comprar grande numero de livros espirìtuaes, e diversos, bia-se 
ter com os que tinbao os profanos, e pedia Ih'os emprestados, deixan- 
do-lbes OS devotos, que mais Ibe tinbao custado. e em os tendo os quei- 
mava, e quando Ihos tomavao a pedir, respoodia, que se tinbao quei- 
inado, que em seu lugar Ibes dava os que Ibes tinha deixado, e desta 
sorte extinguio a maitos livros profanos, e obviou muitos peccadus. 
Vivendo ainda em S. Miguel està serva de Deus; outra pessoa tentada 
do Demonio em entra liha. Ina jà andando em busca do seu peccado, 
eis-que de repente Ihe apparece diante a dita serva de Deos, (qùe os- 
tava em outra Ilha, e a quem o peccador conliecia d'antcs muito bem) 
Ihe disse estas palavras: «0 la nao teines a Deos?» e com isto so pas- 
mado peccador, desiste do peccado, volta para sua casa, e faz peni- 
tencia d elle. Oh quantos milagres vao em esle juntos ! mas por bruvi* 
dade deixemos outros muitos. 



uv. V GAP. XX 295 

2ii> Vendo eiiìfiin està Rei serva de Deos, que se Ihe chegava o 
re\elado tempo de sahir d'està vida para a OJtra, e advertindo, que por 
Mia morte se acliairiao os instrumentos de suas morlifìca^es, e peniteu- 
cia: a iodos de tal sorte os desfez, que nao pudessein acliar-se, nem por 
seus proprìos lillios, e a estes lembrava muilas vezes. que mais querìa 
vei OS liumildes, do que em postos, e dignìdades grandes. Oli exemplos 
iaros de humìldadet desta Ihe uascia o grande amor i virtude da pò- 
lireza, e aos pobres e assim dizìa, que se nao tivera fillios, nuda reser- 
varia em casa, que em huma mortaUia de esmola a enlerrariào; e sem- 
pre que via às suas portas muitos pobres, se alegrava entao multo, e a 
todos soccorria; e demais mandava sal)er de todos os forasteiros pobres 
e iHHirndos, e occultamente llies mandava esmolas grandes; e huma vez 
passando pela sua porta para a cadea hum pobre por dividas, podio a 
jisti^a, Ibe disst^ssem que dividas erao aquellas, e sabendoo as pagou 
tudas, e d'alti voluju o prezo para sua casa; e porque costumava corner 
i mesa com algumas . mulhercs pobres, em as vendo mal vestidas, se 
tirava seus vestidos, e Ih'os dava, e por vezes os tirou a sua propria 
llllia, e OS deo as pobres. E tanto se agradava Deos d estas esmolas, 
que muilas vezes Ihe crescia o trigo em seus celleiros, o pao cozido nas 
aitas, e em suas proprias màos tudo o mais que repartia aos pobres: e 
liuma vez que querendolhe huma pobre lallar, respondeo que nao po- 
tila, disto iogo tanlo se arrependeo, que iogo a foi buscar a sua casa 
^ Ibe pedio perdào, e Ihe deo a esmola que queria, e nunca mais a pò- 
l>re a negou. 

230 Chegado pois o dia do Nascimento da Virgem Mai de Deos, 
em oito de setembro de 1573 tendo està Santa Matrona sessenta annos 
<le idade, e recebendo està pura alma todos os Sncramentos da Igreja, 
^m dar sinal algum de sua proxima morte, espirou, e se foi com a Vir- 
gem Sacratissima a renascer a Bemaventuranga; porem a gloria desta 
liuinilde alma, que ella queria tao encuberta, descubria o mesmo Deos 
<^ taes prodigios, que so com agua tocada em huma sua reliquia, e 
'•ebendu-a em S. Miguel hum Rui Gon^alves, e na Universidade de Coim- 
^^ Imma Dona Isabel, sobrinha do Doutor Gaspar Barreto, Reitor do 
^•ollegio de S. Fedro, estando arabos jà ungidos, e para Iogo espirar, 
c^n Ihe fazendo levar a dita agua, de repente tornàrao em si, abrirao 
^^olhos, e ficarao saos de lodo. Em S. .Miguel havia huma casada, Pe- 
^iiilha Pereira, que desde seu nascimento nunca teve o terceho sen- 



/ 



206 HT^OniA INSULANA 

t'nlo do clìpirnr, o huma sua criada estava morlalTìente enfenna! tron- 
?:erào pan a criada a agoa lo':ada na reliquia da Santa: e verido-a a 
qiie carecia do scnlido, Ioìto o leve perfidilo: e bet)eiido-a a criada, fi- 
fou de repente sàa. Era Villa Kratica da mesma liha de S. Miguel huma 
?laria Francisca, sanguinaria antiira, e oiitra d > mesnfio nome e doente, 
que por incuravel jà a tinhao deixado os Medicos. era cada huraa tie- 
hendo a dita agua, saràrào perfeilamente. Em Coimbra, no Collegio da 
Tompanhia de Jesus, bum Padre Jorio Baptisla, qoe havia doze annos 
padqcia raorlaes accidentes do cor^ào, e melancolia, behendo duas, ou 
tres gottas da dita agua, nào si> livrmi logo do mais forte accidente, 
mas nunca mais Ihe tornarlo, com viver ainda muitos annos. No mesmo 
rK)llegio, e da mesma mortai dr>f nc;i, chegarào doiis. ambos jà ungidos 
?s purtas da morte : nào occorrpo darem a agua ao que ainda nao era 
Sacerdote, e morreo ; derao-a ao Sacerdote, e ae ^guiiite dia se levan- 
1'^ bom, e sao, Deixo outras maravHha*. rpn» se podem ver na recopi- 
Inda Vida d'està Santa impressa em lingoa Castelbana, cujo titulo he 
(Breve Compendio de la vitla santa do la Venerable Matrona Margarida 
de Chaves. de gloriosa memoria). E eu a tenho em roeu poder. 

231 Depois do falecimfuto d'erta Santa (diz o nosso Fnictuoso) a 
manifestou Deos por tal com muitos milagres grandes, e de diversas 
castas, que fez niio somente nesta liha, mas em l'ortugal; no Arcebis- 
padado de Evora, no Bispado de Miranda, e Braganca, e no de Coimbra, 
aonde os Padres da Companhia de Josus levarao suas Reliifuias ; de liì 
sorte, que o Reverendissimo, e illustre Cabido da Sé de Coimbra commel- 
teo ao Reverendissimo Doutor Frei Antonio de S. Domingos, Lente de 
Prima de Theologia na dira Universidade, o tirar summario dos miJaga»s, 
e dar seu juizo sobre elles: e o tirou, e julgou, nào so que os tinha por 
"» erdndeiros milagres, mas que a pessoa era santa. Seguio-se a isto man- 
dar illustrissimo Senhor D. Manoel de Gouvea, seu Bìspo de Angra, 
tirar nutro summario na Uba de S. Miguel dos taes milagres, que sen- 
do-lhe apresenlados em a Cidade de Angra, os fez ler por duas vezes 
dianle de Letrados. Theologos, e Prégadores, alguns Canonistas, e cada 
luim per si, e lodns. sem descrepar algum, dis^serào que a vida fon 
santa, e (jue as cousas que nosso Senlwr fizera por sua intercessao, assim 
em Vida, corno depois da morte, erao milagres, e por tnes os tinhào; e 
se devia escrever a sua Santidade. è a sua Mageslade, para que favore- 
cessem esle ni?gocio em Roma, e que a sua sepultura se devia ter res- 



L1V. V GAP. XXT 297 

prllo, e arntnTnonto. e fazor-Ihe niguraa diflerenca das outras; etc. que 
fonsiilonrido o dito Senhor Bispo, jiilgou a vida por santa, e approvou 
OS nìila^Tes, e mandou que jS sepultiira aonde està o corpo da santa, 
S' tivess(» resf)eito, e acatamento, e ao redor d'ella se pozesse hirnia gra- 
de, e sr>l)re islo escrevco S. Sanlìdade, a eIRei, e ao Cardeal, etc. 

ibi A {lì pois de Junho do anno de 4387, por ordem do Senhor 
Bispo, estaiulo pn^sente o Chantre da Sé de Angra, e seu Vigano Geral, 
t' cnm milita solernnidade, e musicas de Psalmos, se Irausferirno os Os- 
iris desta Sanla, fecliados na mesma arca em que estavào, para a Ca- 
l'Clla raór, e os lovarào debaixo de hum palio de borcado, cujas varas 
li'vaviio Sacerdotes, e o Conde D. Ruy Gon^alves da Camera, I). Francisco 
S'io nilio, Doulor (lilianes da Silveira Juiz de fora, o Capilao Alexan- 
<'re, e o Capitào Antonio da Silveira, e foi muilo para louvar a grande 
davixirio de Uìiio o [h)vo, e a grande cova que se fez em sua sepultura, 
^M tirarem detla terra, que levavào por reliquias, e com que Deos fez 
iniiitos milagres em louvor da Sanla. que demais sei he, (comò quem 
In cincfxmta annos est^jve lendo em està liha) que nella he venernda, e 
i'ivncada està illustre Iléroina, comò se fora jà canouisadi, e commu- 
Kipnle se chama a Heata Margarida de Chavos, e nao posso deixar de 
<*slranhar, de q«ie huma Iltia tao fica, c>om tao ricos Uonatarios, e tao 
'''cos parentes desta Santa, que nao fizessem até agora maiores diligon- 
^'as por sua canonizarjao, porque certo estou que se as fizerem, terem 
'^^lla Padroeira singular, e medianeira com. Deos, para livrar loda a liha 
^'•^ lerremntos, e inceudios desta vida, e n'ella enriquecer a liha mais, 
^ Oesviar as al mas dos incendios da outra vida, e melel-as era a Bema- 
^^niuranga. 

CAPITULO XXI 

Da fundarào do Collegio da Companhia de Jesus em Punta Delyada 

de S, ilùjuel. 

5K53 Depois da admiravel vida da hemavenlurada Margarida deCha- 
^'•^s, bem se se^'ue a fundacao do Collogio da Companhia de Jesus de S. 

'•«Hel, pois por sua iiilorcessào, e pela do Doulor Gaspar Frnctuoso, 
*•*' radicalmonle fundado. Sondo ja fundado hovia annos o Colle^rio de 
-■^nj^ra da Illia Terceira. e sondo sou Ueitor o Padre Luis de Vasmncol- 
*'>5^. oste marHhni oin miss.ìo a liha do S. Miguel o Padre Podro Comes, 

^^c de nacHo era Andaluz, creado porem, e reccbido na Companhia em 



296 HISTOniA, INSULANA 

pririiigal, e o mandou no anno de 1570, e foì tal o e^^emplo de vìrfade, 
e leiras, que o Padre deu n^iqiiella Illia. que aos inoradores detta im 
accendeo em descjos de terein alti seiaelhantes Padres, depois delle veic 
do oiesmo Collegio de Angra o Padre Pedro Freire, qiie foi o priineiru 
que em missao tainbem foi à liha de Sanla Maria, e a aiiilKi^ estas Illia$ 
com sua prégagao, e muilo mais com sua rara modeslia, e granile exem- 
pio de Vida augnientou multo a todos no amor, e devo(^o de taes Re- 
ligiosos. que sabendo o Collegio de Angra, mandou em terceiro lu- 
gar por Missionario a S. Miguel o Padre Simao Fernandez, nairiral dti 
Gouvea na Provincia da Beira, e Prégador de mutto nome em Parlugal. 

2o i Junlos estes tres Padres se i^ecoltiiao na casa da Santa misericordia, 
e nella os sostentava hum nobre Cidadào, cliamado Joào Lopes Henri- 
ques, naturai do Porto, e morador em Ponta Delgada, que tinlia doui^ 
irmaos na Companhia em a Provincia de Castella, cbamados os Padrt» 
llenriques, la muito coriliocidus, e estimados; da Misericordia sahiàotM 
tres Padres a pregar, doutrinar, confessar, e excrcitar tantas obras de 
misericordia, e com tal exemplo, que o mesmo Joào Lopes Uenriqusd 
foi prìmeiro que concorreo para se fundar Collegio da Compaiiliia em 
iNinta Delgada; porque nào sendo casado, nem tendo alguui ln'rdeii'o 
liccessario. logo euì sua vìda« para se come^ar a fundar alli Collegio da 
Companhia, deu pia, e liberalmente doze lixos moios de renda, e com 
t.ii prudencia, e zelo, que com procuragHo da Companhia (ìcon cobi'au- 
(lo, e emprtgando os rendimentos d elles em propriedadcs, corno fez, e 
^lo ainda hoje as lerras. e (|uinta chamada a Fajà: e depois deu mais 
OS primeiros ornamcntos de toda a sorte para comporem Igrx'ja, e seu 
bobrinho Sinìào Lo|)es ajudou taiubem com varias esmolas 

ilili Tralou-se logo do silio em que se fundaria o Collegio, e logo 
se assentou no em que hoje esla boin, e sailio, e li\re de monte algwm 
;i roda, denti'o aiiida da Cidade, mas da |)arle do Norie para a terra, e 
V ì\ì\ boa vista vindo para o mar: e logo htim nobre Cidadào, chaiu^do 
Manoel da Costa, irmào da avo paterna dos Padres Gongalo de Arez, e 
imi Borges da Companliia de Jesus. Ilihos de Duarle Borges da Costa, 
(leo. para se fuiidar o Collegio |)arte do siilo em que eslà, e huinas ca- 
has que alli linha, que forào o nascimento, e principio do dilo Collegio: 
foi islo em lempo, em (jue o Padre Siuiào Fernandez era Superior da 
Iiesid(;ncia: e assim se dtìve chamar dos da Companliia o prìmeiro Fun- 
dador do lai Collegio, corno l!ie chama o Catalogo dos bciureitoros J'el- 



uv. V GAP. xxr 999 

le, a quem em Janeiro de 1591, dco a Camera de Ponta Delgada a pos^ 
se do tal (Collegio, que s6 com Ululo de Residencia ficou ainda: e por- 
que ao Padre Simao Fernandez succedeo ein Supcrior o Padre Fernan- 
do Guerreiro, e poz a obra mais em torma, e por isso chainào primei- 
TO Superior alguns ao dito Padre Guerreiro, que era naturai de Alem- 
Tejo, de Almodovar, e depojs em Portugal fui Secretarlo da Provincia, 
Vice proposito de Sao Roque, de grande prudencta, e observancia, res- 
l)eitado dos Prelados, e Senbores do Beino, e o que compoz as Cartas 
Amiuaes do Oriente, e em S. Roque faleceo. 

2S6 No principio de Novembro de 1392, se abrio o fondamento ao 
Collegio, e Igreja onde ainda hoje estd, e para isso veio da Matriz de 
S. Sebastiao huma procissào gravissima, e com ella o Governador Con- 
talo Vaz Coutinlio, que tomaiìdo huma enxada na mao foi o |>rimeiro que ca- 
vando abrio oalicerce do Collegio e Igreja, e com elle o Reverendo Yignrio 
dalhtriz Sebastiao Ferreiralan^araoambos a primeira pedra de tal obra, 
e d'esde entào com comodar o inverno, nunca choveo agua que impe- 
disse traballìo ale Fevereiro do anno de 1393, em cujo ullimo dia 
^''io outra soicmne procissào da Igreja iMalriz, cujo Vigario trouxe o San- 
lissimo, e o collocou na nova Igreja. Com a procissào veio o senado da 
t^uaera, e o dito Goveniador, que ajudou a primeira .Missa rezada, dita 
lieto Padre Superior Guerreiro; e a segunda fui cantada pelo sobredilo 
Vigario da Malriz, com boa musica, e o tlvangelho cantou o Vigario de 
^nta Clara Pedro de Brum, o a Epistola o Beneliciado da Malriz Ro<|ue 
<i)ellio, p(»ss<^)a gravissima, e prégou o mesmo Superior Padre Guerrei- 
'<>• E por assim ao Collegio, conio à Igreja se terem abertos os alicer- 
<'C8 em primeiro de Novembro, por isso a Igreja, e Colk»gio lioou o 
tóalu de Collegio de todos os Sanlos, para que se lembrem de serem 
Sanlos, lodos seus habiladores. 

237 No mesmo tempo comecou logo a Confraria dos Esludantes 
^'Hn litulo de Nossa Senhora da Consolagào, que em breve se mudou 
fw Nossa Senhora da Victoria; e posto que esteve alguns annos sem 
farla de uniào à primeira Congregagào de Roma, e sem Eslaiulos, com- 
l'^do em 5 de JuHio de 1CÌ7, o Padre Antonio Carneiro, Sujjerior entào, 
"«alcanfou ludo de Roma. E jà em 1391, jiara o novo Collegicu e seu 
^lio deo Francisco de lledovaiho oilo alqueires de terra que alti tinha, 
^ Ijum llies accresicntou Leonor Dias; e o Licenciado Joào Moreira huns 
*^^0j> de huaias casas junlas a Portarla, que logo se dcrrubaiào; e ou- 



300 HTSTOniA TXSULANÀ 

tros concorrerao com boas esmolas, corno Gaspar Dìas, e sua miillìei 
Anna de Medeìros com dez nfìoios de C4iK tros arrohas de ferro, e dna* 
jìipas de vinho, e qnatorze tomos de Theologia para a livraria: e o gran- 
fie Dontor Gaspar Frnctiioso Ihe deo loda a sua livraria, e outros bens 
<1e ffrande conta, conno jà dissemos em sua vida. 

258 s*»gundo Siiperior (depois do Padre Gnerreiro) foi o Padn 
Jacoine da Ponte, pessoa nitiilo prave, e muito grande Religioso, em cujr 
tf»rupo deo 1). Briles para a Sacristia boas esnfiolas, e qnalrocenlos mi 
réis em dinheiro para o Collegio: e HieronymoGoncalvesde Araiijo de< 
<*enlo e Irinta mi) reis para o Collegio em pastel: e Alvaro da Costa dei 
lìnma tiilha com seu qnintal na enlrada da ma do Mestre Gaspar, e hiin 
ralix de prala. e cìneoenta mil reis em dinheiro. NSo se apontoii d'ond( 
ora naturai este Superior, nem o tempo em que entrou por Superior 
mas so qiie sendo-o ainda, faleceo, e com geral sentimento de todos. 

259 Terceiro Superior foi o Padre Luis Pinheiro, naturai de Avei 
ro, e comecou em Jullio de 1506, e acahou em Fevereiro de 1600 e voi 
t-,mdo ao Reino foi cxìmpanheiro do Provincial muitos annos, Visitado 
das llhas, e Procurador na Corte, aonde imprimio a Historia do JajySi 
om lingua Hespanhola. E em seu tempo tambem se derao varias esmo 
las ao novo Collegio, e bum grave Sacerdote Joao Soares deixoa ham; 
terra de imporlancia, que se metteo na cerca do Collegio. 

2G0 quarto Superior foi o Padre Scbastiiio Macbado, naturai d 
Serpa, e entrando em IP02, foi pouco depois promovido a Reitor d 
Angra: foi grande Prégador, e emfim morreo em Evora. Quinto Supe 
rior foi Padre Confalo Simoes, naturai da Louzàa; comefou em Jane! 
ro de 1603 e acabou em Nov'embro de 1604, foi muitos annos Mestre d 
Noviros, e em Coimbra faleceo com fama de Santo. Sexto Superior ff 
Padre Mathias de Sii, naturai de Braga: entrou em Seplembro de 1604 
acabou em 1606, indo promovido a Reitor de Angra; cujo triennio ara 
Itado foi feito Vice-provincial dns llhas, e as visitou comò tal, e voIlM 
do para Portugal, foi logo Preposilo de Villa Vifosa, e duns vezes Rei 
tor de Sanlarem, e ullimameiile Roitor de Coimbra, sugeito de grand 
prudencia, e sciencia de governo, e exceliente Prégador. Septimo Supc 
rior foi Padre Miguel (ìodinlio. naturai de Evora, que entrou em Jii 
Vm) de 1606, e em Julho acabou de 1610, e tornando a Poitugal fc 
Mestre de Noviros em Evora, depois Reitor do A'gnrve, e de lortah 
gre, Vice-Reilor da Puriflcaflio de Evora, Yisilador das llhas, e Reit< 



LIV. V CAP. XXI 301 

de Santarem, onde faleceo; e em seu tempo Bras AITonso Raposo, e sua 
mullier Calharina de Frias deixàrào ao CoUegio de S. Miguel ciuco al- 
queìres de vinlia, e dpìs inoìos, e melo de reuda de trigo. 

261 Citavo Superior foi o Padre Antonio Gon(;alves, naturai de Al- 
Vito» e come^ando em Jullio de ICIO acabou em Maio de i614, tiiiiiii 
lido dous cursos de Filosofia, e muitos aunos Moral, e corno lelrado 
grande, era muito consultado: e em seu tempo deo Ignacio de M(illo es- 
mola de cincoenla e Umtos mi! réis ao Collegio. Nono superior foi o Padre 
Manoel Vieira, naturai de Arrayolos, e cumegando em Maio de 1014 foi 
logo em Julho promovido a Iteytor de Angra: foi depois por vez«s Vi- 
ce-Reytor da Purificafao, e indo e visitar a Algarve, trouxe de là doen- 
ta de que morreu em Evora, com fama constante de grande virtude. De- 
cimo Superior foi o Padre Antonio Dias, naturai de Coimbra, comecoii 
em Julho de 1614, e acabou em Outubro de 1616, era Prégndor insi- 
gne, e de exceliente voz: murou a cerca do Collegio pela parte de cima, 
que he cerca boa, e grande: mas sendo Superior morreo, e està sepul- 
t^do na Capella mór. As Religiòes, e Cleresia vierao fazer suas exequias 
sumptuosaraente, lendo-as elle feito na morte do M. Bever. Padre iie- 
wl da Conipanlna Claudio Aquaviva, na mesma Igreja com Ega levanta- 
«Ja. e ornada de muitos lumes: cousa que foi tao approvada em Uouja, 
qoe logo se fez decreto de assim se fazerem as exequias dos tìeraes da 
Companhia quando falecerem. 

262 Undccimo Superior foi o Padre Felippe Dias, naturai de ?.1a- 
t^ na Beira: governou desde Outubro de 1616 até Abril de 1618, ten- 
do vindo de Ueitor de Angra, para onde tornando morreo là. Duodeci- 
n» foi Padre Roque de Abreu, naturai de Lisboa, conicfou em Abril 
^ 1618, e em 27 de Marco de 1620 faleceo, sendo Superior: porém 
^ seu tempo deo o Lianiciado Antonio de Frias novenla e tanlos niil 
f^s ao Collegio: e Isabel Luiz Ihe deixou trinta alqueires de renda fìxa: 
® illustrissimo Conde Capitao D. Manoel da Camera deo huma alani- 
Na de prala, que custou entào cento e quarenta mil rcis, e huma Cos- 
cia de prata dourada, e huin pucaro de prata para o iavatorio, e por 
outras vezes deo dinheiro, trigo, vinho, taboado, e por sua morie dei- 
^nu hum legado de oito mil cruzados em dinheiro; e tal alfccto tinha ii 
'-'^mpanhia, que desejou multo entrar nella: e o faria emtim, se a mor- 
fe nSo impedisse. Decimo lercio Su[)erior foi o Padre Manoel Nunes, 
^tai'al de Nìza: veio de Ueitor de .Vngra, entrou n'esle Superiurado eia 



302 BÌSTOniÀ INSCLANA 

Maio de IG20, e sjihio era Septembro de 1621, tendo sido em Coimbra 
Mestre insigne de Grego, e Hebreo. 

2G3 Decimo quarto Superior foi o Padre Antonio Leite, naturai de 
Lisboa, entrou em Septembro de 1G2I, e em seu tempo deo D. Catharina 
Rotelba, mulber de Jacome Leite de Vasconcellos, jà viuva» huma capa 
de Asperges de téla branca. E porque alélli se nSo lia no Collegio mais 
que Moral, ciijo primeiro Mestre foi o Padre Manoel Secco, n'esle tem- 
po se metteo a primeira classe de Latim, e depois logo a segunda, a 
€sta segunda metteo a Companbia de pura graga, sem para sostento do 
Mestre se Ibe dar congrua alguma: e a primeira metteo com algumas es- 
molas temporaes, e nao perpetuas para perpetuo Mestre: e assim deo o 
dito Jacome Leite, e sua mulber cumprio por sua morte, dezoito mil 
réis em seis annos, para sustento do dito Mestre da primeira. Hieronr- 
mo Goncalves de Araujo deo bum raoio de renda a retro; SebastiSo Luis 
Lobo, e Manoel de Araujo derào dous moios em quatro annos: o Capi- 
tao Raltbezar Rebollo de Sousa, e Hanool da Costa derSo em quatro an- 
nos bum moio: Pedro Borges de Sousa deo por buma vez doze mil réis, 
« Capitào SimJio da Camera de Sa meio moio de Irigo por quatro an- 
nos: e CapitSo Antonio Borges da Costa bum quarteiro tambem por 
quatro ^nnos: e Manoel de Figueiredo tres quarteiros: e Catbarina de 
Araujo, mulber do Licenciado Jo3o Moreira bum moio em dous annos: 
do que tudo bem se ve o desejo, e zelo que tinbUo taes Cidadaos de que 
OS Mcstres de seus fillios fosscm da Companbia de Jesus, e o agradecì- 
inento que està teve em Ibes porem cadciras perpetuas sem perpetua 
congrua para os Mestres dellas, nem ainda para as idas, e vindas de Por- 
tugal, pois até o Lente de Theologia Moral nao teve congrua delermina- 
da, nem a tem o di primeira, e o da segunda teve alguma, mas so por 
algum tempo: que ns esmolas dH fundaciào for3o para prégarem, confes- 
sarem, fazerem missoes, comò faziao os primeiros que alli vierSo, e as 
tres cadeiras metteo sem congrua a Companbia. 

261 Decimo quinto Superior foi o Padre Antonio Carneìro, naturak. 
de Lislwa, e governou desde Outubro de 1623 até Novembro de 1627^ 
e vindo faleceo depois no Collegio do Porto. Em seu tempo, e com di — 
nbeiro do Illustrissimo Conde Capitao 0. Manoel da Camera, se corik.* 
prou a Quinta da Grimaneza, e suas terras, e vinbas. Erigio se a Corm.- 
fraria dos Oificiaes de Ponta Delgada, com a invocagao de Nossa Senhc::>' 
ra da Vida, contra os incendios da liba, e veio em procissao da Igre j^ 



\ 



L!V. V GAP. XXI 303 

Matriz com loda a solemnidade, e' festa, presentes o Reverendo Padre 
Doutor Luiz Brandao, o illuslrissimo Bispo de Angra D. Fedro da Cos- 
ta, e o seu Reverendo Chandre Sebastiao Machado, e o illustrissimo Se- 
nlior Conde Capit3o l>. Rodrigo da Camera com a Senhora Condessa 
Dona Maria de Paro, e prégavào. E tinha vindo de Portugal a Imagem, 
feita là, e se coliocou no aitar em %i do Juiho de 1625, cuja Irmanda- 
ile Ihe donrou logo o retabolo, e é imitagào os Estudantes dourarào tam- 
bero o seu; e a irmandade dos Ofliciaes, na primeira sexta feira da Si- 
mana Santa comecou logo a fazer a procissào do Enterro, com o Senhor 
morto que tem dentro do seu aitar. No mesmo tempo, e no mesmo lugcir 
se deo princìpio ao Collegio novo, ou à obra reforrnada em 43 de Sep- 
\embro de 16i5, presente o Padre Visìtador Luiz Brandao; mas paroii 
depois a obra. 

265 Decimo-sexto Superior foi o Padre Diogo Luiz, naturai de AU 

palhào* que comecou em 1027 e acabou em 1631, fui depois Mestre de 

Novijos em Evora, e Reitor do Porto, e Bispo eleito do Japào, e homem 

de grandes partes, e talentos; em seu tempo se repartio o andar de bai- 

xo do Collegio em Refeitorio, e cozinha; e Manoel de Andrade, casado 

com Maria Alvarez de Aguiar, deo cem cruzados, que se gastarao em 

omamentos da Igreja; e a viuva sua mulhcr deo outras esmolas. Insti- 

lulii«-se a Confraria de Santo Ignacio por devo^ao do Governador, e Ca- 

pilào General da lllia D. Rodrigo Lobo da Silveira, naturai da Uba Ter- 

f^Jira, e neto do Funilador do Convento de Sào Confalo de Angra, fi- 

^«■^Igo de grandes partes, e sempre bcm aceito em Sao Miguel: elle pois 

'^ qiie se fundasse a dita Confraria, e que os Governadores fossem os 

^1» Juizes, Mordomos os Capilfies, e Escrivaès os Alferes, e os Sargen- 

^ fossero OS Procuradores, e Thesoureiros; e mandou fazer do Santo 

^*ong relratos, bum de soldado, outro de Religioso, e Ihe fez buma so- 

■^Hine prociss3o, e festa, e outra quando veio a confirmacao de Roma; 

^ ido para Portugal o tal Governador, entSo o Padre Luiz Lopes desfez 

^ Confraria, por razoes que teve para isso; mas succederao logo os ter- 

**^int»ios do anno de 1630. 

206 Decimo-seplimo foi o Padre Sim9o de Araujo, naturai deCoim- 
*^*^ que comecou em 2 de Setembro de 163 ^ até 13 de Fevereiro de 
*Q36, e em 1632 concedeo e Reverendissims Padre Geral à Camera de 
^««ila Delgada por seu Padroeiro o Santo Xavier, por Bulla de perga- 
^^^àsàio que està no Collegio, e se contìrmou em 1658i e a Camera fez 



304 IIISTOIIIA INSrUNA 

assento de assistir é festa do Santo, e dar cada anno cinco mil rcìs psr^ 
ra a tal festa, e de ficarem serviudo na Confraria os Otiìciacs da Carne*' 
ra que tinliào acabado. Em tempo deste Superior se acabou o Cuiredor 
grande de cima, e o pequeno que acabava na varanda, com o jo^^o dir 
truque junto a ella; e o illustrissimo Senhor D. Joào Pimenta de Abreii, 
com multo Beverendo Arcediago Manoel Cabrai de Mollo, e com INjh- 
tiOcal, e solemnidade grande benzeo os Corredores de cima, e de bai- 
xo, e no firn da mantià praticou. e ficou no Collegio até a tarde, em que 
se virào os Altares, e arma^oes, e se lerào as Poesias; e depois s^tliirào 
Padre Manoel Monteiro por Imma parte da Uba, e por outra outro 
Padre, e correrao a liba em missao Apostolica. E no mesmo tempo se 
deo de esmola para a Igreja buma alcatira grande, e outra pequcna, e a 
cadeira das praticas, e outra esmola com que se fez a bandeira das dou- 
trinas; e o Reverendo Manoel Fernandez, Vigario de Sao Pedro de Vil- 
la Franca, deixou ao Collegio dois moios de renda perpetua; e deo Ires 
moios por buma vez à Sacristia, tendo jà dado esmolas de importancia 
em sua vida. E vindo por Visitador o Padre Diogo Pereira, (depois Ad 
ter sido Lente de Tlieologia) alcancou de N. Rever. Padre Geral, que os 
Superiores do Collegio de Ponta Delgada fossem dali por diante Ueilo- 
res com patente de Roma; e logo o Licenciado Ruy Pereira de Amarai, 
Irmao da Companbia, fez as novas duas Classes, de Primeira, e Seguuda. 

CAPITOLO XXII 

Dos Reitores do Collegio de iodos os Sanlos 
de Ponta Delyada. 

207 Tendo sido cste Collegio sómente buma residencia do Real Col- 
legio de Àngra |)or quarenla e cinco annos, desde o de 1591 até o <l g=* 
IGuO, entào em 13 de Fevereiro veio por seu primeiro Reitor com pcà^ — 
tenie de Roma, o Padre Luiz Lopes, naturai da Vidigueira em Alèm-Ti :=?- 
jo, e foi ale 12 de Junbo de 1039. Em seu tempo, a 3 de Julbo A. e 
1038 tremeo a terra, especialmente em Sao Joao dos Ginetes, defroii t^ 
do qual silio, e buma Icgoa ao mar, e no meio delle, e de repente, ukt- 
rebcnlou do fundo lai fogo sobre o mar, que sobre elle fez bum tai 
Ilbeo de cinza, terra, e pedra pomes, que durou muitos dias, e noiLe>v 
e matou grande copia de peixes; e se uà terra tivera arrebentado, loda 



LIV. V GAP. XXII 305 

a consumiria. Acudio pois o novo Padre Ueitor com liuma mìssao ao tal 
logar para animar, e consolar a gente; e outra missào de Padres nìan- 
dou pela Uba toda. 

268 Porém era 3 de Novembre de 1637 tinha mandado El-Rei de 
Castella langar tacs, e tuo novos tributos na liba, qne amotinado, e ar- 
mado povo, ao estrondo do sino do Rebate, acudio tanto, e cora tal 
furia à praga, que arremetendo logo à Audiencìa, Ibe puzeruo fogo às 
portas, e assentos, e sobrc a casa da Camera lancarao tantas pedras, que 
o Governador Nuno Pereira Freire, e o Juiz de fora, com os mais da 
Govcmanca, (que dentro eslavao) correrao perigo de vida. Acudirao eu- 
tao com Cruz algada o dito Padre Ueitor» e seu Collegio, e outros Ec- 
ctesiasticos, e trazendo para o Collegio os sobreditos do Governo, os li* 
vrarik) da morte, e aquìetarao o motim. N'este mosmo Rcitorado o Re- 
^ereodo Cbantre de Angra Sebastiao Macbado deo vinte mil réis de es- 
mola ao Collegio para o Sacrario' da Igreja, e de outras esmolas se fize- 
rio D*ella varios ornamentos, e se fizerao dous sinos novos; e o Collegio 
oomprou a vinha nova, que foi de Cosme Sarmento; e fez nas Furnas a 
Casa, e Oratorio para quando li v3o os Padres: e em 1636 deixou Uie- 
roDymo Goncalves de Araujo cem mil réis para ajuda do retabolo do Ai- 
tar mór da Igreja nova. 

260 Chegado o mez de Julbo de 1639 passou por Sao Miguel o 
Mestre de Campo D. Diogo Lobo da Silveira, naturai de Angra, que bia 
para o Brasil, e com elle bia por Visitador do Brasil o Padre Pedro de 
Moura, que levou por seu companheiro, ou Secretarlo o Padre Luiz Lo- 
pes, que acabava de ser Beitor; do Brasil voltou o dito Padre Luiz Lo- 
P6S para Portugal, e nao so foi Preposito de Villa- Vigosa, mas cb^ou a 
^ Provincial da Provincia de Portugal, e depois Reitor do Collegio de 
^nìbra, e sempre varao multo regular, e exemplar, e de grande dom 
^ bom governo, que venerei sempre sendo seu subdito, ba mais de 
cìocoenta annos. 

270 segundo Reitor de Sao Miguel foi o Padre Antonio da Ro- 
^ naturai de Alvaiazere: teve o governo desde 12 de Julbo de 1620 
'te 3 de Fevereiro de 1643. Em seu tempo cbegou a felìz nova da Real 
AodamacSo do Invicto Restaurador da Monarcbia Lusitana, o Senbor Rei 
^- l(Ao IV, e foi logo recebida com repiques, e luminarias geraes, que 
^orario por muitos dias, e com o Senbor exposto na Igreja do Collegio 
^ prìmeìro de Maio de 16&1, e aos cince fez o Collegio procissao de 
VOLI 20 



306 IIISTOUIA IXSIJLANA 

accSo de gracas» com a Irmandade de Nossa Scnhora da Vida» com mai- 
tas flguras, e Anjos, e diante os meninos da escola, todos bem vestidos, 
e com capellas de flores nas cabegas, e triunfantes palmas em asm3os. 
N'este Reitorado se ac^rescentou multo o Santuario da Igreja, e se com- 
prarao os orgaos ao Convento da Esperanga, para o que concorreo Fran- 
cisco de Moraes Ilomem com esmola de trinta cruzados; e Maria Nunes, 
mulher de Joseph Femandez Pereira, dcixou ao Collegio sessenta mil 
rèis de esmola; e o dito Reitor fez as casas, e cistemas da Faja para as 
Quintas ordinarias; comprou mais Ires alqueires de vìnha junta é qae jj 
tinhSo em Bethlem, e huma morada de casas na cidade, etc. 

271 Terceiro Reitor foi o Padre Diogo Pereira, naturai de Viana de 
Alem-Tejo; comegou a 3 de Fevereiro de 1643, e acabou em 13 de Sep- 
tembro de 1646. N'este Reitorado se fez huma Missao por toda a IIIu 
que durou dou mczes, com grande fruto das almas; comprarSo-àe mais 
cinco alqueires de vinha em Bethlem; fez-se o Retabolo novo da Capella 
mór com esmolas da Camera, e do Provedor da fazenda Beai de todas 
as llhas Agostinho Borges de Sousa. Antonio Marques de Oliveira, e saa 
liiulher D. Gulmar Ferreira derùo quarenta e tantos mil rèis em dinhei- 
ro, e as duas Imagens do Santo Borja, e Santa Teresa de Jesns : e 
D. Catliarina Bolelha, e sua nora I). Maria do Canto, e a irma d'està, 
D. Luiza derao outras varias esmolas: e hum Cidadao de Angra, Luis 
Coelho Pereira, mandou trinta mil réis ao Padre Antonio de Abreu Pro- 
curador d'este Collegio, com que fez a interior Capella d'elle: pagar3o- 
se n*este tempo mais de quatrocentos mil réis em dividas; fizer3o-se at 
exequias de nesso M. Kever. Padre Cerai Mucio com grande solemnrda- 
de, e'o Rever. Vigarìo, e Beneficiados da Matriz, e disse a Missa o VK 
siiador da Companhia o Padre Gaspar de Gouvea, e ainda se comprarlo 
as terras, que forSo de Cosme Sarmento: reslaurou-se a Confrarìa do 
Santo Xavier a inslancia de seu grande devoto o Licenciàdo Bui Pereira 
de Amarai, Juiz dos ausentes, e Escrivào da Camera, com a qual fei 
que se tornasse ao Santo por terceiro Padroeiro da Cidade, ficando os 
primeiros SiHo Scbastìao, e Santo André, e que a Camera viesse no ttl 
dia em procissao à Igreja do Collegio. 

272 Quarto Reitor foi o Padre Joao Freire. E porque o Padre Hai 
noci Goncalves que aponlou os sobrcditos Superiores, e Reilores, paro 
no sobredito terceiro Reitor, e n3o achei mais apontamentos dos outras 
por isso d'este quarto Rcilor nao digo mais; e servirà islo de aviso pai 



LIV. V GAP. XXII 307 

haver quem aponte o digno de se apontar. quinto Reitor foi o Padre 
Maooel Alvarez, naturai d'Àrruda, que parece entrou pelos annos de 
1653» e tambem em seu tempo mandoo missao peKi Uba de deus Pa- 
dres, comò he proprio da Companhia. 

273 Sexto Reilor foi o Padre Concaio de Arcz, que achei jà Reitor 

DO anno de 4664, era naturai da mesma Cidade de Ponta Delgada, e da 

melbor nobreza d'ella, e a cujos ascendentes, e parentes deve muito o 

tal Collegio, assìm em sua fundagào, corno na continuacao, e augmento 

d*elle; mas a elle deve muito mais a Companhia, pela grande virtude^ 

letras, prèdica com que a Iionrou; porque na virtudo era exemplarissimQ 

nas letras foi excellente Moralista; e tinlia grande voto nas materias de 

mora! ; e na prèdica era bem ouvido« e com grande atten^ao pelo que 

dìzia» posto som forcas para aturar muitas tarefas de Àdventos, e Qua- 

resmas. No ultimo dia de seu triennio cliegou licenza para se come^ar 

Igreja nova, e poucas horas antes de acabar, e ja de noite, mandou logo 

abrìr os ajicerse», cousa que alguns Ihe eslranharuo, devendo-se-lhe lou- 

var zelo que n'isso tinha; porém vindo entao por Visilador o Vene- 

nvel Padre Manoel Fernandez, de quem faremos a devida mencao em 

seu lugar» seguio-se o Reitor seguinte. 

274 Septimo Reitor foi o Padre Manoel Gonp^ves, naturai de perto 
deCoimbra, para levantar a Igreja nova sahio o dilo Reitor com o seu 
Padre Procurador, e com o Governador Luis Veiho pelas mas da Cida- 
de, pedindo esmola, e tambem se pedio em Ribeira Grande, e em Villa 
Franca, e n'este tempo vierao os qiialro castigaes de prato do Aitar mór, 
e prato, e jarro de agua às màos, com dinheiro dado de esmolas à 
Sacrislia, e logo foi o Padre Pedro Leilao com outro Padre companheiro 
^ raissao pela Rha. por espaco, de bum mez, e a Camera da Cidade 
i iostancia do Licenciado Rui Pereira de Amarai, e para a festa do Santo 
Xavier, in perpeiuum, deo bum pedalo de terra ao Collegio, e isto be 
que se sabe d*este septimo Reitor, que ao depois foi Reitor de Bi*aga» 
^ zeloso da observancia, e morreo na Residencia de Nossa Senhora da 
^pa, entre o Bispado de Lamego, e de Yizen. 

275 Oitavo Reitor foi o Padre Mestre Joao de Sousa, naturai tam- 
de junto a Coimbra, que vindo por Visitador das Ilhas, e para flcar 

por Reitor de Àngra, aporlando primeiro em S. Miguel, escolheo antes 
® Bear Reitor alli, tinha lido Curso em Braga, e sido Prefeilo das Es- 
^las mcnores de Coimbra, e n'ellas por muilos annos Lente da Sagra- 



308 lllSTOniA IXSULANA 

da Escritura, onde foi Mestre. Era excellentissimo Prégador, Humanista 
singular, e multo copioso in dicendo, e tanto eoi os singularìssimos con- 
ceitos, quo de caha Sermao seu se podiao fazer muitos Sermoes , e jà 
quasi todo branco, e estes erào os Reitores que entao se niandavao para 
as Ilhas, d onde vindo prégou em Coimbra com geral aceitacSo, e foi 
promovido a Reitor de Braga, aonde faleceo sendo Reitor, e com gran- 
de cxemplo, especialmente de grande humildade, que he o timbra dos 
Letrados da Companhia, serem humildes, e assim acabado o Reitorado 
de S3o Miguel sem Ihe ter chegado successor, ficou por Reitor o sobre- 
dito Padre Gonzalo de Arez, que com seu zelo reedificou as aulas da 
Primeira, e do Moral. e as casas novas que se seguiao no canto do ter- 
reiro da Igreja, e tirou quatrocentos mil réis, de que o Collegio pagava 
cambio em Lisboa. 

276 Nono Reitor foi o Padre ManoelSoares, naturai da Provincia da 
Beira, enlrou em 2 de Junho de 4665, e tinba jà sido Prefeito d3 grande 
pateo de Braga, e em Sao Miguel foi tambem meu Reitor, era muito 
prudente, manso, e pacifico, e de muito bom exemplo, e assim vindo 
da liba foi Reitor de Braganga, e depois Reitor do Porto, e emfim Se* 
cretario da Provincia, e em todos os governos se houvc cum grande 
aceitagao, e muito exemplo de virtude, e em espccial de paciencia, e de 
nenhum genero de vinganga, até que morreo com o mesmo exemplo. 
Dos mais. Reitores deste Collegio nuo tenho noticia, dal-a-ha quema tiver. 

CAPITULO XXIII 

De outro terremoto, e fogo que liouve em S. Miguel. 

277 Em huma Relacao mannscrita pelo Reverendo Antonio Fernan- 
dez Francisco, Vìgario na Villa dWlagoa, e testimuntia de vista, achei o 
que recopiladamenle agora digo. Em bum Sabbado a 12 de Outubro de 
1652, antemanbàa comegou a tremer a terra conlinuadamente até os 19 
do dito mez, e com tao fortes abalos, que na Villa d'Alagoa, e om par — 
ticular na Fregnezia de Santa Cruz cahirao sesscnta casas, e nenhuma» 
na de Nossa Senliora do Rosario, e so ficou abalada sua Igreja, corno a^ 
mais das ontras casas, e o Convento dos Capuchos, e comtudo nao mor-— 
reo pessoa alguma. As Freiras de Ribeira Grande se sahirao do Gonver»- 
to, bem acompanhadas do Ecclesiastico, e Nobreza, e cstiverao quatro 



Liv. V GAP. xxni 3{K) 

dìas fora, até se tornarem a recolher; e os seculares largavao snas casas, 
com ludo que linham n'ellas, e so andavào em piocissòes, e confissòes 
pelos eampos, atéque no Sabbado 19 ao Sol posto, quando loclos cuida- 
tao estar jà livres, de repente rebentou o Pico chamado do Payo, e o seu 
Tizinibo chamado de Joao Ramos, e coni tal furia de fogo» que o vizinho 
lagar de S3o Boque se despovoou todo, e os Parochos levarao o Santis- 
simo para a Cidade, legoa boa de fogo, e com ser de noite jà todos dei- 
xario as casas, e até as Freiras queri3o deixar os Gonventos, se as nSo 
impedissem os Religiosos, e Nobreza ; e na Villa d'Alagoa, que menos 
de l^oa estava do fogo, todos se ausentavao, e so os Parochos, e o Ca- 
pitlo mór Antonio de Varia Maya, tiverSo mao em muita gente, pondo 
figìas por toda a noite, advertindo para que parte tornava o fogo,^para 
Ihe fugirem a tempo, mas o fogo era tal, que subindo da terra ao Geo, 
parecia descer d'elle em nuvens de fogo toda a noite, e no scguinte dia 
erao taes os estrondos da horrivel pedraria que os montes de si lanca- 
HOy e tal diluvio de cinza, quente, negra, e medonha, que nao so casas, 
qoiatas, e cercas, mas ainda muitas terras se perderao, e tornarao in- 
froctireras, e pcior seria, se nao fora o vento norte e rijo, que laudava 
ao mar vizinho do Sul aquelles grandes diluvios de cinza, e fogo. 

278 Quasi dezaseis dias depois hi3o aventureiros ver os lugares do 
fogo, e acbarao que o Pico de Joao Kamos so abrira huma tal chaminé 
W cima, que ainda hojc lanca fumo, e fogo, porém que o vizinho Pico 
<tamado do Payo, de tal sorte arrebentou, que fazendo outros dous pi- 
^ corno elle, do que do centro langou acima, ficou elle tao inteiro, e 
^to corno de antes, e foi misericordia Divina, que as grandes, e innu- 
D^raveis pedras que o fogo levava acima, nenhuma cahio senao a prumo, 
fonnando montes novos junlos ao do Payo. Tambem se reparou, que 
hum Hieronymo Goncalves de Aranjo (homem pio, bom Christao, e muito 
^si&oler) tinha, muitos annos antes, levado às costas ao alto do Pico de 
^ Ramos huma grande Gruz, e a tinha em cima d elle collocado, e jà 
por isso fogo tomou o caminho do monte do Payo vizinho, e nao do 
^0 Joào Ramos, sendo que d'cste se diz, que jà antes da Ilhadescuher- 
^» tinha em cima aberla a diamine do fogo, que Ihe lapou a Gruz, para 
^ d3o lancar maior. D'està sorte parou este successo, seni morte que se 
^ba de pessoa alguma, mas com destruic^So de terras. 

279 Tambem em 18. de Oulubro de 1656 pelas duas horas dama- 
^'^gada houve muitos terremotos, e no dia seguinte pelas sete horas da 



310 inSTORIA INSULANA 

tarde liouve hum tao vebemente, qoe fez abaiar os edificios, e a geob 
desemparar as suas casas, e confessarem-se os mais em dia de Saob 
Iria/ e com isso parou tudo, que o remedio dos castigos d'està vida h 
a emenda n'eila dos peccados. 

280 Resta vermos» qne se acha no antigo tombo da Camera de PoDb 
Delgada, aonde a fol. 107 estao os privilegios da Cidade do Porto, e s< 
deciarlo miudamente os concedidos aos antigos Infanc5es, e todos » 
coQcedem aos Cidad3os de Ponta Delgada, por Felippe II, em o anno d( 
1583. E a fol. 172 està o privilegio Rea), para que os Tbesoureiros d; 
Camera de Ponta Delgada que sahirem no pelouro, gozem os mesmo) 
privilegios que os Juizes, e Yereadores, comò jà de antes ostava conce 
dido à Villa de Villa Franca. A fol. 327 estao os privilegios dos Fami< 
liares do Santo Officio: e a fol. 432 estao tambem os privilegios dos Of 
ficiaes da Bulla da S. Cruzada. 

281 E porque alguns Capilaes Donatarios excedi3o os poderes d€ 
sua jurìsdicao, por isso a fol. 159 e 167 declara El-Rei, comò, conc& 
der-se ao Capitao de huma Illia em suas doacoes a jurisdicao do civel, 
e crime, nao he fazel-o Governador da Justi^a por El-Rei, e que neobn- 
ma posse, ainda immemorial, vai centra a jurisdigao Real. E que nem ( 
tal CapitSo, nem os mais Capitaes das Ilbas nao erào senbores dasllhai 
mas Capitaes semente, que be officio de Governador: e assim a fol. 13 
està a provisao de Felippe Segundo de 1584, em que mandou queima 
assim comò estava cerrada, huma eleicuo de pelouro da Camera, que 
Capitao da Uba tinha feito em falla do Corregcdor, e a este se mam 
que com o Juiz de fora a faga, e ao Corregedor se avisa que venb 
tempo da Terceira para a fazer em Sào Miguel : era entao Correge 
Christovao Soarcs de Albergnria. E assim tambem se ve julgado a 
150 ató 167, nao poder o Capitao fazer as eleigàes, e pelouros. E 9 
217 està a sentenza de Felippe II, dada em 608 para nao poder o C 
Capitao embarcar seu pao sem licenza da Camera, e para nao quebr 
posturas, e acordaos feilos na Camera. E a fol. 251 ale 258 estao e 
sentencas havidas pela Camera contra o Ouvidor do Conde Capii? 
materia de jurìsdicoes. 

282 E he ainda tao grande a jurisdigao dos ditos Capitaes das 
que no civd, e ale quantia de quinze mil rcis, (nao contando as 
sentenceao a final, sem appellafao, nem aggravo; salvo allegando 
condemnada alguma nuUidadc, porque enlào darà carlas testimi 



LIV. V GAP. XXIII 3H 

com leor de todos os autos, para se ver pelos Desembargadores, e so 
fazer o que for justiga. E no crime podem degradar por dez annos para 
alèm, a qualquer pessoa, e agoutar a quem fòr de qualidade em que 
caibio OS agoutes, e os casos taes, que Ihes devao ser dadas scmclhan* 
tes penas; e em penas de diiiheiro até a algada de quinze mil réis, sem 
dos ditos Capilaes haver appellagao, nem aggravo. Mas sendo condem- 
nados em maior pena, ou degredo, ou em degredo para as Ilhas de S. 
Tbomé, do Prìncipe, e de Santa Helena, ou em talhamento de membro, 
00 morte naturai, darlio appellagao, e aggravo à parte, e se està nao 
appellar, appellarao por parte da justiga. E darao carta de seguro de 
todos OS crimes, de qualquer qualidade que sejao. E quando algumas 
pessoas forem mandadas metter a tormento pelos ditos Capitacs, ou seus 
Ouvidores, se deve receber appellagao às Partes, ou appellar por parte 
da jostiga. 

283 E quando algumas pessoas se chamarem às Ordens, e se prò- 
DQodar que devem ser remetidas a ellas, appellarao por parte da justi- 
(il 00 receberao a appellagao interposta, posto que os casos caibao na 
3l{ada, e pronunciando que nao remettem a pessoa, entao nao serao 
obrìgados a appellar por parte da justiga, porque se a Parte appellar, 
WiìtTìo appellagao, posto que o caso caiba em sua algada. E quando 
9is Partes se chamarem i immunidade da Igreja, os ditos Gapitaes, e 
Governadores terao n'isso a maneira que pelas Ordenag5es he mandado 
qoe tenhSo os Corregedoi*es das Comarcas. E isto se guardare assim, 
^ embargo de quaesqucr provisoes que os ditos Gapitaes tenhSo em 
cootrario, por mim conflrmadas, etc. Assim se le a fol. 310 em carta 
Beai de 16 de Maio de 1620. 

284 Conclue-se pois com as noticias d'està grande, rica, e nobre 
Uia de Sao Miguel, por nSo ter eu mais noticias que d'ella possa dar, 
ooomtado ainda vir3o muitas nas historias que se seguem das outras 
Otts, aonde m^lhor cahirem, queira Deos que haja quem continue està 
obra para gloria de Deos. 



il FIM DO PRIMEIRO VOLUME. 

^1 



INDICE 



DOS 

CAPITUIAMi QCJE SE COMTKH NT ESTE VOLIJIIIE 

LIVRO I 

Da ereagào das Ilhas Occidentaes, tocantes d Monarchia Poriugueza. 

Pag. 

Cap. I Das varias opinioes que houve na materia 15 

Gap. II Da fabulosa liha Atlantica 18 

Gap. Ili Dos primeiros Reis de Ilespanha, e Portugal 20 

Gap. IV Dos que metterao a idolatria em Ilespanba, e da primeira 

batalba, que bouve n'ella 22 

Gap. V Do decimo quinto Rei de Ilespanha Atlante; fundamento da 

fabulosa Uba Atlanta 24 

Gap. vi Dos seguintes Reis de Hespanha descendentes de Atlante. 26 

Gap. vu Do Rei Luso, e sua Lusitana descendencia 28 

Gap. vui Dos interregnos que bouve em a Lusitania 30 

Gap. IX Da fundacao de Lisboa em tempo do Mellifluo Rei Gorgo- 

ris, e de Ulisses e do Rei Abidis fundador de Santarem ... 32 
Gap. X Das longas esterilidades: tempestades, e incendios de Hes- 
panba, e vinda a ella dos Celtas, e outras nagóes, e fundagao de 

Vizeu 34 

Gap. XI Da vinda dos Cartbagineses a Portugal, e dos Laconicos 

Gregos; fundagao de Braga, Coimbra, Aveiro, e Lagos ... 37 
Gap. xn Da vinda dos Romaoos a Hespanba, e victorias que d'elle 
ooDseguio maior Portuguez, e Principe Yiriato, até morrer so 

portraic3o . 39 

Gap. xm Das mais guerras de Portugal, e do seu grande Sertorio, 

vencedor de todo o poder Romano 45 

Gap. XIV Da vinda ^e Julio Gesar contra Portugal 51 

Gap. XV Do principio do Imperio de Julio Cesar, e uniao com Por- 
tugal até à vinda de Christo Senbor, e Salvador nosso. ... 53 

Cap. XVI Conclusao do principio das Ilbas 55 

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DOS CAPITULOS D'ESTE VOLUME 315 

Pag. 

CXp. XV Do sexto Capitlo do Funchal, e segundo conde de Calheta 127 
G^^p. XVI Do principio e augmento do Estado Ecclesiastico em a Ma* 

deira 128 

C^^bJ». xvu Conclue-se com a liba da Madeira, Desertas, e outras. . 131 

LIVRO IV 

Da lìha de Santa Maria^ que das nove dos Assores, foi a primeira 
que se descuhrio. 



\ 



IP. I Do fundamento que havia para se buscarem as ditas Ilhas, e 

das formigas que primeiro apparecerao 133 

kv. II Quem forao, e de que qualidade os primeiros descubrido- 

res da liba cbamada Santa Maria 135 

CIlju». m Da ascendencia, e descendencia dos povoadores da sobre- 

dita Uba 137 

CH^AP. IV Da altura, povoa^oes, e fertilidade da Uba de Santa Maria. 142 
C2^P. V Do tracto do Norie, e seu interior da Uba, e singularidades ' 

d'ella 145 

CIjiP. Vi Do primeiro Capi tao Donatario da liba de Santa Maria. . 148 

^Cj^P. VII Do segundo Capitao da dita Uba 151 

CijkP. VIII Do terceiro Capitao de Santa Maria 154 

CSap IX Do quarto Capitao da Uba de Santa Maria 157 

Oap, X Do quinto Capitao da liba de Santa Maria 158 

C^AP. XI Do sexto Capitao da Uba de Santa Maria 161 

Cap. xn Do septimo Capitao Bras Soares de Sousa 162 

CIap. xin Dos Commendadores da liba de Santa Maria 164 

C^P. XIV Conclue-se com a Uba de Santa Maria, e suas prerogati- 
vas 168 

LIVHO V 

Da Ilha de S. Miguel. 

Cap. I Do primeiro descubrimento da Uba de S. Miguel e seus 

descubridores 171 

^^. u Do raelhor descubrimento, e descripgao da liba de S. Mi- 

gael 174 

^1*. in Descripfao geral de S. Miguel, e particular da banda do 

Sul 175 

^1*. IV Da antiga e nobre Villa Franca de S. Miguel, Agua de Pào, 

e Alagoa 179 

^Ai^. V Da Cidade de Fonia Delgada 182 

« 



316 INDICE 

Gap. vi Gontinaa a descripcio, especiaUneote ao Norte da Uba de 

S. Miguel 187 

Gap. vii Da famosa Villa da Ribeira Grande, e mais logares do Nor- 
ie 189 

Gap. vhi Do interior da liba, seus fogos, e tremores 194 

Gap. IX De outras Furnas, Fogos, e Tremores d'està Dha, e em es- 
pecial de Villa Franca 20! 

Gap. X Das outras partes a que chegou o terremoto de Villa Fran- 
ca 208 

Gap XI Da peste que succedeo ao Terremoto, e incendìos qua a 

elle succederlo 210 

Gap. XII Dos Terremotos, e incendios mais modemos .... 217 
Gap. xnt Dos prìmeiros tres Gapitaes Donatarios da liba de S. Mi- 
guel 221 

Gap. XIV Do quarto Capilao Joao Rodrigues, ou Joao Gongalves da 

Gamera 227 

Gap XV Do quinto Gapitao Ruy Gongalves da Gamera, segundo do 

nome 229 

Gap. XVI Do sexto Gapitao Manoel da Gamera. primeiro do nome . 232 
Gap. XVII De alguns homens famosos, e familias que vieiio povoar 

a Uba de S. Miguel 236 

TiT. I Dos Velbos, Gabraes, Mellos, e Travassos, Soares de Alber- 
garla, e Sousas 237 

TiT. II Dos Gameras, e Betencores 241 

TiT. ni Dos Gagos, Raposos, Pontes, Bicudos, Gorreas, Pacbecos . 246 

TiT. IV Dos Botelbos, Leites, Amaraes, Vasconcellos 249 

TiT. V Dos Medeiros, Araujos, Borges, Sousas, Rebelios, Dias . . 256 
TiT VI Dos Barbosas, Silvas, Tavares, Novaes, Quentaes, Farias, Ma- 

chados i 263 

Gap. xviii Das rendas, ou riquezas, fertilidade, e frutos d'està flha. 270 
Gap. XIX Da valentia, edestrezadagented'estallba,e do multo que 

se vive n'ella, e dos monstros, que niella se virao 281 

Gap. XX Da Veneravel Hargarida de Gbaves, tida commumente por 

Santa, e milagrosa 289 

Gap. XXI Da fundacao do GoUegio da Gompanbia de Jesus em S. 

Miguel . 297 

Gap. XXII Dos Reitores do GoUegio de todos os Santos de Penta 

Delgada .'304 

Gap. xxiu De outro terremoto, e fogo, que bouve em S. Miguel . 308 



HISTORTA INSULM^ 



HISTORIA 

I]\SULA]\A 

DAS 

aHAS A PORTUGAL SiiGEITAS 

NO OCEANO OCCIDENTAL 
COIPOSTJt PELO 

PADRE ANTONIO CORDEIRO 

DA COMPAimiA DE JESUS 

INSALANO TAMBEM DA ILHA TERCEIRA, E EM IDADE DE 76 ANNOS. 

PARA CONPIRMA^lO DOS BONS GOSTDMES, ASSIM MORAES, 
COMO SOBHENATDRAES, DOS NOBRES ANTEPASSADOS INSULANOS, NOS PRESRNTKS 
, E FUTUROS DESCENDENTES SEUS, B SO PARA A SALVAgÀO 
DE SUAS ALMAS, E MAIOR GLORIA DE DEOS. 



VOLUME II 



LISBOA 
TYP. DO PANonAMA- Bua do Arco do Bandeira— H2 

M DCCC LXVI. 



UISTORIA 
IN8ULANA LUSITANA 

I.1VRO SEXTO 

DA ILHA TERCEIRA, CABKCA DAS TICRCKIHAS. 

Do descubrim^nto, nomes, e Armas da Ilha Ttrceira, 

I Supposto ser a primeira das Ilhas Terceiras, que se desciihrio, 

^ Hhn de Santa Maria, e a segunda a Ilha de Sao Miguel, (n3o obstante 

^•^niìr contrario Damilo de Goes na sua Chronica, sobre que tambem Go - 

^•^xeanes de Zurara na Chronica mór do Reino, e dei-Rei D. Joào ol), 

'*3o he facii averiguar, quenni, uem quando descubrisse primeiro a Ilha 

^♦^''ceira, porqiie, supposto tambem que as Canarias (jà antes povoadas 

'^*^ Barbaros) forao descubertas pelos Reis Betencoresem o anno do Nas- 

^'^ento de Christo 1417, e as Ilhas de Cabo Verde forao por Portngno- 

^^^ descufierras muito depois em 1443, e muito mais em 1445, da 

'■ha do Porto Santo consta ter sido propriemènte descuberta, e jà antes, 

^^n 1417 por Joao Gongalves Zargo, e Tristao Vaz Teixeira até 1419, e 

^^^ n'este mesmo anno se descubrio pelo dito Zargo a Madeira, e a 

'ha de Santa Maria descubrio o illustre Confalo Velho Cabrai em U3^, 

^ ^^ahi a doze annos, em 1444 se descubrio a Ilha de S. Miguel, nao 

^^HcordUo comtiido os Authores, em por quem, e quando foi descuberta 

'Hìa Terceira. 

a Consta poróm que pouco dopois de descuberta a Ilha do S. Mi- 

^*^^l, se descubrio a Ilha Terceira; porque tendo sido descnbcrla a de 

^^o MifrntU em liil, ja em I WO o Infante D. Henriqiie fez Coplirio Do- 

^^-ario da Torc<Mra ao fidal^^o Flamengo Jacome de Hruges, por e-ì^lar 



6 HISTORIA INSULANA 

erma, e inbabitada, e elle a querer povoar, (corno veremos abaixo 
dila doagao), e corno tambem consta que foi descuberta, nào antes, ii 
depois de descuberia a de Sao Miguel, pois foi no descubrimento a t( 
ceira; segue-se que se descubrio epa algum d'aquelles etneo para s 
nnnos, desde 44 aie 50, e corno neste de 50 jà bavia alguns annos q 
estava descubcrta, mas erma, e inbabitada, conclue-se ter sido descub 
ta pelos annos de 1445 pouco mais ou menos, perto de doiYS annos < 
pois de descuberta S. Miguel, quatorze de descuberta S. Maria, e 25 ( 
pois de descuberta a Madeiia. Do dia que se descubrio, consla que 
em dia festivo, e especialmente dedtcado a Christo Salvador nosso, p 
por isso se chama liba de Jesu Christo, e tem por Armas bum Cbri 
crucificado, e a Sé se denomina: A S. Sé do Salvador» posto que o < 
Lido tem por Armas, e seu sello a bum Menino Jesus; d'onde bons 
zem que o dia foi o primeiro de Janeiro, da Circumcisào de Cluisto, ( 
tros que o dia da festa do Corpo de Deos; e o mais provavel pare 
que foi da^quinla feira da Semana Santa, em que foi instiluido o S; 
tissimo Sacramento, e comegou a Paixao do Salvador. 

3 Maior duvida he, quem foi o primeiro que descubrio a Uba T 
ceira ; porque dizerem alguns, que foi o mesmo descubridor de Sai 
Maria, e S3o Miguel, o illustre Còmmendador Frei Concaio Velbo Cabi 
lie so consìderacao, e que parece menos crivel, pois se o fosse, tamb 
seria o primeiro Donatario d'ella, e a ella irla alguma bora, e fariao m 
Cào d'isso OS Authores, que d'estas lllias tratarào, corno Guedes, Go 
Barros, Fructuoso, e oulros. E dizer-se que o foi o fidalgo Flarnen 
Jacome de Bruges, tambem nao he crivel, pois nem o Infante D. Heo 
que na doagao que Ihe fez, nem elle mesmo na petig3o que llie fez, al 
gao tal, devendo-o allegar, antes o mesmo Bruges confessa estar jà ba 
tempo descuberta, e ainda deserta, e inbabitada a dita Ilha. Pelo que 
meu parecer he, que corno as Ilhas de Gabo Verde se descubrirao i 
1543, e a vinda d'ellas para Porlugal, e ida d'esle para ellas, be pi 
rumo da Terceira; e comò està foi descuberta pelo Norie, i)ara onde 
cao além, as de Cabo Verde, he de crer que d'estas, vindo navio pj 
Portugal, deo no Norte da Terceira, e por aspero o deixarào, contenti 
do-se coni Irazer as novas ao Infante; e que por nao sereni homens ( 
I)azes de llies entregar a nova Illia, e andar enlào occupado com as e 
iras da Madeira, e de Santa Maria, e S. Miguel, dilatou a povoagào 
Terceira para pessoa capaz que a pedisse. E nào ha quo admirar, de q 



UV. VI GAP. II 7 

escolhendo Christo, para em lodo o mando plantarem a Fé Catholica, 
hoineng de ineiios nome, liuns pesoadores, quizesse que huns mareantes 
foi^in OS que descubrissem a liha Terceira ; pois tambem quiz que a 
Madeira fosse primeiro descuberta por hum Inglez Madiim, e a do Porlo 
Santo por huns pobres Franciscanos naufragantes, e a Iltia de Sào Mi- 
guel por hum negro, que primeiro a vio desde a Uba de Santa Maria, 
corno jà disisemos. 

4 Quanto ao nome da Terceira, tocàmos acima jà por vezes, e nao 
ba duvida quo Ihe ficou tal nome, de entre as mais Ilbas, que tambem 
se chanaào dos Assores, ter sido a terceiia que se descubrio, depois de 
àmia Maria, e Sao Miguel. E quanto a todas as nove dos Assores se cha- 
maiem tambem Ilbas Terceiras, nenhuma duvida ha que assim se chamào 
lodas, ale em algumas Doagoes reaes; mas a razao nao he, (comò alguns 
quizerào dizer) por nos descubrimentos das Ilhas deste Oceano sereni 
esta^ descubertas em terceiro lugar, pois isto he manifestamente falso, 
\m primeiro se descubrirào as Canarias, as de Cabo Verde, as da Ma- 
deira, e em quarto lugar estas; e caso negado que nao contem por Ilhas 
de Portugal as Canarias, nem por isso as de Cabo Verde, ou as da Ma- 
deira, se chamao as segundas ; logo nem estas por isso se chamao as 
Terceiras : a verdade pois he que d'està Terceira he, que de Terceiras 
lomarào as demais o nome; e com razao, por ser (comò veremos) a ca- 
be^ de todas, e mais frequentada, a que mais acodem todas as nacoes, 
e a que recoiTem as outras todas, comò de sua cabeca (Napoles) tomoa 
seu Reino o nome, e semelhantemente outros muitos, e até da sua Ci- 
dade do Porto tomou Portugal o nome; e jà por isso nem a Uba de Santa 
Maria, e Sao Miguel forao chamadas Terceiras, senao depois de descu- 
berta, e povoada està por antonomasia a Terceira. 

CAPITULO II 

Do primeiro Donatario, e Povoadores de loda a Ilha. 

5 D està materia tratao Comes de Zurara, Chronista-mór do Bei- 
no, e Goes, e Barros, e Guedes, e o nesso Fructuoso, liv. 6, cap. 1, e 
no cap. 7, traz o primeiro provimento que o Infante D. Henrique fez de 
primeiro Capitào Donatario da Uba Terceira, em 21 de Mar^^o de 1450, 
cujo inteiro, e formai traslado, be o seguinte: 



8 HÌSTOrWA INSITANA 

6 t En Infante D. Henrique, Regedor, e Govornador da Ordera 
de Cavallafìa de N. Senhor Jesus Christo, Duque de Vizeu, e senhorda 
Covilhàa, fago saber aos.que esla minha carta virem, qua Jacome de Bru-f 
pes, meu servidor, naturai do Condado de Flandes, veio a mira, e me 
disse, que por quanto desde ab initio, e memoria dos homens, se nào 
sabiao as Ilhas dos Assores sob outro aggressor senhorio, salvo roeu. 
iiem a Uba de Jesu Christo, terceira das ditas Ilhas, a nlo.souberao pò- 
Toada de nenhuma gente que alégora fosse no mundo, e ao presente 
rslava erma, e inhabitada; que me pedia por mercé que por quanto elle 
a queria povoar, que Ihe fizesse della mercé, e Ihe desse minha Beai 
authoridade para elio, comò senhor das Ilhas. E eu vendo o que me asW 
sim pedia, ser servifo de Deos, e bera, e proveìto da dita Ordem, q]ie- 
rendo-lne fazer graca, e mercé, me apraz de Iho oulorgar, comò ma elle 
I)edio. E tenho por bem, e me apraz que elle a povoe de qualquer gente 
(lue Ihe a elle aprouver, que seja da Fé Catholica, e santa de N. Senhor 
Jesu Christo, e por ser causa da primeira povoagao da dita liba, haja o 
dizimo de todos os dizimos, que a ordem de Christo houver, para sem- 
pre, e aquelles que de sua geragao descenderem, e tenha a Capitania, e 
povernanra da dita Ilha, comò a tem por mim Joao Gongalves Znrco na 
liba da Madeira, na parte do Funcbal; e Trislao na parte de Machico, e 
Pereslrelo nn Porto Santo, meus Cavalleyros; e depois delle a qualquer 
pessoa que da geragào delle descender: e a hajno assim pela guiza que 
^ estos Cavalloyros a tenlio dada, e qwe da dita Ordem n hào: e quero 
que elle tenha todo o meu pode'r, e regimento de justica na dita Ilha, 
flssiin no civel corno no crime, salvo que vonhào por apivllacào de ante 
e{\e OS feytos de morles do homens, e talhaoiento de m(3mbros, qne re- 
f alvo pnra mim, e para mayor alf;nda, assim comò nas ditas Ilhas da Ma- 
df:'yra. e Porto Santo. E me apraz, por algnns serviros qne do dito Ja- 
rorn:» de Bruges tenho recebido, por quanto me disse que elle nào ti- 
ijlia iilhos legitimos, e somente duas (ilhas de Sancha Ilodriguez sua 
l'ìuln T, que, se elle nào houver filhos varoes da dita sua mulher, que, 
a sua filba mayor liaja a dita Capitania, e os que de sua geragào dcs- 
candi'vem, e nao havondo sua filha mayor fdhos, Imvemos por bem que 
,-ì filha segunda, que depois da morte da primeira ficar, possa haver a 
dita C;ipitania para filhos, e filhas, netos, p descendentes, e a^cendentes, 
nue (his ditas descenderem, com aqucllas liberdades, e poderes, que aos 
ditos Capilàes tenho dadas, porque assira o sinto por servilo de Deos, 



Liv. VI CAP. n 9 

p accrescentnmento da Santa Fé Calholica, e meu, pelo dito Jacome de 
Bruges povoar a dita liha t3o longe da terra firme, bem duzentas e ses- 
s*}nia legoas do mar Oceano; a qual liha se nunra sonbe povoada de 
nenhnma gente que no ranndo fosse atégora: e rogo aos Mestres, e Go- 
vemadores da dita Ordem que depois de mim vierem, que fafSo dar, e 
pngar 30 dito Jacome de Bmges, e seus herdeyros, que d^Ile descende- 
rem, a dita dizima do dizirao, que a dita Ordem na dita liha houver, 
corno llie por mim he dada, e outorgada, e n^o consintao Ihe ser fello 
nbre elle nenlium aggravo: e pe(;o por mercé a EIRey meo Senhor, e 
sobrinbo, e aos Reys que delle vierem, qne ao dito Jacome de Bruges. 
e aos herdeyros que delle descenderem, fafSo pagar o dito dizimo à 
tlita Ordem do que na dila liha se houver, e que Ihe fac3o pagar a dita 
«lizima do dito dizimo aos Mestres, ou Governadores da dita Ordem, co- 
mò Ihe por mim he dado, e outorgado para sempre, em todo Ihe faca 
t T, e tenha a dila mercé, que Ihe por mim he feyta. E por seguranfa 
l!»e mandey ser feyta està minha carta, assignada por minha m3o, e sel- 
Mz do sello de minhas armas. Feyta em a cidade de Silves, a 2 dias 
rio mez de Marco. Pedro Lonrenco a fez anno do Nascimento de nosso 
Senhor Jesu Christo de mil e qualrocentos e cincoenta annos.» 

7 dito Jacome de Bruges, a quem se fez t5o Beai mercé, n3o so 
era Cavalleiao do servilo do Infante, e naturai do Condado de Flandres, 
mas tao hom fidalgo, e tao conhecido jà em Portngal, que cà casou com 
Iniraa fidalga portugueza, Dama da Senhora Infante D. Brìtes, e a Da- 
ma se chamava Sancha Rodrignez de Arca; e juntaraente era t3o rico, e 
rw) Calholico. que flou d elle o povoar a liha, levar bons povoadoares, 
<* ir para ella, tudo à sua cusla, o que nao fez outro algum Descubridor 
I^onatario; e por isso mercé maior que a algum outro, pois Ihe conce- 
rteo a Caprtania nao so para elle, e para o tìiho var3o mais veiho que 
rt'elle Scasse, mas tambem para a fliha maior, em caso que nao tivesse 
(ilho var5o, e para seus descendenles, sem excep?3o alguma, exceptuan- 
<1o d esde jà entSo a successao d'està casa da lei mental do Beino; cousa 
(pie se nao concedeo a outro algum Capltao, senSo depois de muitos an- 
ws, e do niuilo anliga [)osse, e de muitos repetidos servifos. 

8 E quanto ao que diz a Doagao, que a liha Terceira està bem du- 
sentas ^ sessenta legoas pelo mar Oceano dentro, e assim se suppunha 
eoiao; porém hoje dizem alguus, que està de Portugal Irezentas e dez 



LIV. VI GAP. II II 

se soube d'elle: e accrescentarao alguns que o Diogo de Teve o raandoii 
matar, por se levantar coni a Capitania: e com elTuito se levauloii In^o 
coin Imma serra chamada de Sariliago, que o Capitao Bruges linlia f^ 
mado para si, e rende até quatrocentos nioios de Irigo cada anno. 

i 1 Succedeo depois ir Diogo de Teve a Lisboa, e ser la prezo por 
culpas le commeltidas, e enlao a Dama mulher do Bruges, se foi quei- 
xar a El-Rei de que Diogo de Teve llie malóra seu marido, e requerer- 
Ihe mandasse notificar que desse conta d'elle: e assim o fez El-Kei, 
e à prizào ihe mandou dizer, que dentro de dez dias desse copia do Ca- 
pitao Bruges, ou aonde estava, vivo ou morto, sob pena de mandar fa- 
zer justi(a d'elle Teve; e tanta pena tomou o fidalgo Teve desta Real 
nolificacao, que ao sexto dia morreo. E assim nào apparecendo o Cnpi- 
t3o Bruges, a viuva fidalga sua mulher cdsou a mais vellia iillia Antonia 
Dias de Arce com bum tìdalgo inglez, chamado Duarte Paim, Coinnien- 
daUor da Ordem de Santiago, e filbo de outro fidalgo Inglez, por nome 
Tiiomés Elim Paim, que tinba vindo a Portugal por Secretano da Itai- 
Dba Dona Felippa de Lajìca^ro, mulher d'EI-Uei D^Joao J, e o tal Duarto 
Paim comecando a demanda com os possuidores da Capilanfa da Tèìcei- 
rat morreo, e contìnuou-a bum filho seu, chamado Diogo Taim, e por 
se nao acbar a propria Doagào feita a Jacome de Bruges, (que dizem 
lh*a furlarSo, e queimarao) foi excluido Diogo Faim do direito que tinlia 
i tal Capitania. 

12 Estando pois vaga a Capitania da Terceira pela falla do primei- 
ro Capitao Jacome de Bruges, succedeo aportarem a Terceira dous fìdaU 
gos, que vinbào da terra do bacalhào, que por mandado d'el-Rei de Por- 
tugal tìnbao ido descubrir, bum se cbamava Joao Vaz Cortereal, e o ou- 
tro Alvaro Martins Homem, e informando-se da terra, Ihes contentou 
tanto, que em chegando a Portugal, a pedirào de mercé por seus ser- 
vitosi e por ser entao j<i morto o nosso Infante Dom Henrique, e Ihe 
Ut succedido no governo da Ordem de Christo o Infante D. Fernando, 
dequem era ji viuva a Infante D. Brites, e por isso Tutora, e Curado- 
n de seu filbo menor o Duque D. Diogo, fez està Infante mercè aos 
dous fidalgos pertendentes da Capitania da Terceira, repartindo-a entro 
uniios em duas Capitanias, buma de Angra, outra da Praia, corno a da 
Madeira em Imma do Funchal, outra de Machico. E porque a Doafao da 
Capitania da Prava, dada a Alvaro Marlins Ilomem, deve estar no tom- 
^ da Camera da dita Praya; e a de Joao Yaz Cortereal està, e vi no li- 



12 HISTORIA INSULANA 

vro anligo do lombo da Camera de Angra fol. 213, e n'ella se faz men- 
LAO da Doafno feita a Alvaro Marlins Ilomem, por isso ììo seu anligo es- 
T}io pouho aqui a Doa^ào feita ao dito Corlereal Capitao de Angra. 

43 «Eu a Infante D. Brites, Tutor, e Curador do Senhor Daque 
meu filho, eie, fago saher a quantos està minha carta virem, qiie ha- 
vendo eu por informa':5o eslar vaga a Capitanìa da liha Terceira de Je- 
sus Christo, do dito Senhor meu filho, por se aflìrmar ser morto Jaco- 
ine de Bruges que até agora a teve. do qual ha mnyto tempo que algti- 
tna nova se nao ha, posto que jà por muytas vezes mandey a sua mii- 
Iher, que a verdade delo soubesse, e me certificasse; e assìnaodollìe pa- 
ra elo tempo de hnm anno, e depois mais, ao qual em alguma maney- 

. ra em todas as diligencias que disso fizesse, nào troaxo delo certidao 
alguma; pelo que havendo por certo o que assira me he dito, esgaar- 
dando o damno que he, a dita Uba estar assim sem Capitao que haja de 
reger, e manter em direito, e jnsti^a pelo dito Senhor, e comò em ella 
pela causa se fazem muytas consas que s3o pouco servigio de Deos, e do 
dito Senhor meu filho; determiney prover a elo por descargo de minha 
consciencia, e servilo do dito Senhor. E considerando eu de outra parte 
OS servi^os que Joao Vaz Cortereal, fidalgo da casa do dito Senhor men 
filho, tem feyto ao Infante meu Senhor, seu padre que Deos haja, e de- 
pois a mìm, e a elle, confiando em a sua bondade, e lealdade, e vendo 
a sua disposicao, a qual he para a poder servir o dito Senhor, e manter 
seu direyto, e justiga, em galardao dos ditos servigos Ihe fiz mercé da 
Capitania da liha Terceyra, assim comò a tìnha o dito Jacome de Bru- 
ges, e Ihe mandey delo dar sua carU ante desta. E por quanto a dita 
Uba n3o era partida entre a dito Jacome de Bruges, e Alvaro Martins: 
e parte pela Rybeira Secca, que he àquem da Ribeyra de Frey Joao, fi- 

. i-ando està da parte de Angra: e da dita Ribeyra Secca pela ametade da 
dita liha até a outra banda, corno se vay de Sueste a Noroeste, e parti- 
da a dita Uba pela mesma maneira, mandei ao dito Jo3o Yaz qoe esco- 
Ihesse, e escolheo da parte de Angra, e leyxou da parte da Praya, em 
que p dita Jacome de Bruges tinha feyto seu assento, e a mim aproave 
delo, e Ihe hey por feyta a mercé da dita parte, por qoe da outra man- 
dey dar sua carta ao dito Alvaro Martins. 

14 E me apraz, que o dito JoSo Vaz tenha pelo dito Senhor a dita 
parte, que mantenha por elle em justiga, e em dyreito, e quq morrendo 



UV. VI GAP. U •OS 

elle, isso mesmo fique a seu primeiro, e scgiindo; se tal Tor, quo tenh.i 
o carrego pela guiza susodita, e assim de descendente enfi descendente 
pela linha direi ta: e scndo em tal idade o dito seu iìiiio (]ue nào possa 
r^er, o dito senhor, e seus lierdeyros porao hi quera a reja, até qiie elle 
seja em idade para reger. Uem me apraz, que elle tenha na sobredita 
Uba a jurisdigao, pelo dito senhor meu fillio em seu nome, do civel, o 
crime, resalvando morte, ou talhamento de membro, quo d.isto tal ve- 
nUa perante o dito senhor; porém sera embargo da dita jurisdicgào, a 
mim apraz, que todos meus mandados, e correygao sejao hi cumpridos, 
assim corno cousa propria do dito senhor. Outrosi me apraz, que o dit(j 
Jo3o Vaz haja para si todos os moinhos de pao queliouver na dita liha, 
de que assira Ilìe dou carrego, e que ninguem nao faga ahi moinhos, s»')- 
mente elo, e quem Uie aprouver, e isto nào se entenda em mó de bra- 
so, que a faga quem quizer, nao moendo a outrem, uem atafonas nào 
ieoba outrem, sómente elo, e a quem Ihe aprouver. 

15 Itemy me apraz, que haja todas as serras de agua que se ahi 
fiiérem, de cada huma hum marco de prata, ou em cada hum anno seu 
cerio valor, ou duas taboas cada semana, das que hi costumarem ser- 
rar, pagando porém ao dito senhor o dizimo de todas as serras ditas, e 
segUQdo pagào das outras cousas, quando serrar a dita serra. Esto haji 
tambem o dito Joào Vaz de qualquer moinho que se ahi lizer, tirando 
'ieyros de ferrarias, ou outros raetaes. Uem, me praz, que todos os foi- 
JK^s de pom, em que houver poya, sejao seus, porém nào embargue 
fluem' quizer fazer fornalhas para seu pom, que as fata, e nào para ou- 
^ nenhum. Item, me praz, que tendo elle sai para vender, o nào possa 
^nder outrem, sómente elle, dando a elle a razao de meyo real o al- 
Vieiyre, ou sua direita valla, e mais nao, e quando o nào tiver, que os 
da dita lilla o possao vender a vontade, até que elle o tenha. Outrosi 
BW praz, que de todo o que o dito senhor meu filho houver de renda 
^ a dita liha, que elle haja de dez hum, de todas suas rendas, e di- 
i^s, que se contém em o forai, que para elo mandei fazer. 

16 E por està guiza, que haja està renda seu filho, ou outro des- 
iente por linha direyta que o dito carrego tiver. Uem, me praz, quo' 
<^le possa dar por suas cartas a terra da dita Ilha, forra pelo forai, a 
Vtóm Ihe aprouver, com tal condigao que, ao que der, a terra aproveyle 
*lé cinco annos, e nào a aproveytando, que a possa dar a outrem, e de* 
pois qiie aproveytada for, e a leixar por aproveylar até outros cinco au* 



Il HISmiUA INSULANA 

nos, que isso mesmo a possa dar. E isto nem embargue ao dito senhor, 
se houver terra para aproveitar que nao seja dada, que elle a possa dar 
^a quem sua mercé for ; e assini me praz que a de seu filho, ou her* 
flcyros descendenles, que o dito carrego liver. Unn^ me praz que os vi- 
zinhos possao vender suas herdades aproveitadas a quem Ihe parecer. 
Outrosi me apraz, que os gados bravos possao matar os vizinhos da dita 
liha, sem haver ahi contradefeza, nem Kcenca do dito Capitio, resalvan- 
do algum lugar cerrado em que o langa seu dono : e isso mesmo me 
opraz, que os gados mansos pascem por toda a liha, trazendo-os com ' 
guarda, que nao fa^ao damno; e se o fizerem, que o paguem a seu do- 
no, e as coymas segundo a postura do Concelho. 

47 E por està minha carta peco ao dito senhor meu filho, que pra- 
zendo a Deos que em idade for, Ihe confirme, e haja por boa, e assim 
fafìio seus Iwrdeyros, e successores, quando a elles vierem, por quanto 
ila dita Capitania Ihe fiz mercé pela maneita em toda sobredila, com sa* 
tisfacao, e contentamento do muito servilo que tem feyto, comò dito he. 
E em testemuniK) de verdade Ihe mandey dar esti minha carta, assinada, 
e sellada de meu sello. Dada em a Cidade de Evora a dous dìas do mez 
de Ahril. Rodrigo Alvarez a fez, anno do Nascimento de nosso Senhor 
Jesus Christo de mil e quatrocentos e sesseota e quatro.* 

CAPITULO III 

Dos CapUàes Donalarios dt so a Capitania da Praia^ 
da Uh a Terceira, 

48 Alvaro Martins Homem nao era de menos qualidade, e fidalguia 
que seu companheiro Joao Vaz Cortereal, pois igualmenlea ambos tinha 
El-Rei mandado a descubrir a terra do bacalhao, e d'ella vindo ambos 
juntos aportarao na nova liha Terceir^, e de a verem vaga com a morte 
de seu primeiro Donatario, ambos a forao pedir por seus servigos a El- 
Rei; e por se nao antepor algum dos dous ao oiUro, se Ihes repartio a 
liha em duas iguaes Capitanias pelos dous igualmente pertendentes, e 
com meritos iguaes ; e repartida a Ilha, escolheo Joao Vaz Cortereal a 
Capitania de Angra, e Alvaro Martins Homem se ficou com a Capitania 
da Praia, em que o Donatario da Ilha tinha no principio posto seu as« 
sento, e a tinha mais cultivada. Deste pois primeiro Capitao da Praia, 



LIV. VI GAP. Ili 15 

qiie fldnlgn fosse suo mullier, niio dizem os Historiadores, mas siippoem- 
M qne seria de ignal qualidade a tal marido; e so dizem (refere Fru- 
ctuoso liv. 6. cap» 8,) que vivendo com sua mulber na Praia, faltou de 
Portugal embarcac^o para a Terceira, mais de oito annos, e em (oda 
(ila sa sinto multo està falla, e especialmente no vestir, que de comer 
jà havia multo grande abundancia na Uba* 

19 De Alvaro Martìns Homem, e de sua mulber nasceo AntJio 

Marlìns Homem, que succedeo ao pai em Capit3o Donatario da Praia, 

(sem sabermos quando o pai morreo;) casou porém este Antrio Martins 

com Isabel Domellas da Camera, filba de Pedralves da Camera irmao do 

^.apitao do FuncbaI da Madeira, comò se ve a margem do cilado Fru- 

Liooso, que in corpore faz a dita Isabel Dornellas naturai da mesma Uba 

Terceira, e pode ser que fosse jà nascida na Terceira, e do sobredito 

Pedralves da Camera, que da Madeira teria ido para a Terceira com o 

primeiro C?.pitao d'ella Jacome de Bruges, comò o Teve, etc. e assim 

^ aparentavOo entao os Capitaes de bumas Ilbas com os das outrns. corno 

^mos DOS das Canarias com os da Madeira os d*esta osde Sao Miguel, e 

fom estes os de Santa Maria, para nenhuns terem que notar aos outros 

^ qualidade do sangue. Morou este Capitao sempre na sua Villa da 

^*Riia. e tambem delle nao sabemos, nem o dia, nem o anno em que 

'norreo; mas sabemos que de sua mulber Isabel Dornellas da Camera 

leve primeiro legitimo fillio seu successor, que foi. 

20 Alvaro Martins da Camera, quarto Capitao da Praia, contando 
^ Bruges por primeiro: casou este quarto Capitao com D. Briles de No- 
^nlia, tambem fidalga da Madeira. segundo filho de Ant3o Martins 
'•ornem foi Domingos Ilomem, que casou com Rosa de Macedo, filba de 
^^' de Ulra Capitao Donatario da Uba do Favai; e d'este casamento nns- 
^erao, Manocl Homem que morreo na India servindo a el-Ilei, e duas fi- 
*has Freiras no Mosteiro das Cliagas da mesma Praia, que o mesmo seu 
pai Domingos Homem tinba edificado. terceiro filho do dito Antao 
^hrlins foi Pedralves da Camera, comò o avo materno, e se fez Clerigo, 
^ Theologo, e foi Vigario da Matriz da Praia. 

21 Nasceo mais do mesmo Antao Martins Ilomem, e de sua mu- 
*f>er Isabel Dornellas da Camera, nasceo Catharina da Camera, que ca- 
^>n com bum fidalgo chamado Diogo Paim, viavo jà de Branca da Ca- 
''^era. tia da dita Catharina, e Irma da sobredita Isabel Domellas; do 
4^1 casamento nasceo Antonio Paim, com Merita Evangeiba, e forao pais 



16 insToiiiA ins(;l.v.na 

de Duarte Paini, qiie casoii com Dona Bernarda fdha de Paulo Ferreira, 
do que nao ficou lilho algiim (diz Fructuuso) no mesmo tempo vivo. 
segundo lilho de Dìogo Paiin, e de Catlìarina da Camera Ibi ilieronymo 
Paim, que casou com liuma liiha de Joào de leve o mogo, da qual hou« 
ve lilhos, e lilbas, e bum Mauoel da Camera, que em tempo de Fruciuo- 
so era Vigario de Nossa Senhora da Penna, das Fontainlias. 

22 Do dito pois quarto Capitào Alvaro Martins da Camera, e de D. 
Brìtes de Noronlia, o primeiro fìllio foi Antao Martius da Camera, de 
que abaixo fallaremos. segundo foi Luiz Martins. que morreo sem des- 
ceiidencia servindo a el-Rei na India. terceiro foi Antonio de Noronlia, 
quo tambcm na India Servio, e là casou, e teve (ilbos, e filhas. quar- 
to fui Braz de Noronba, que primeiro foi Frade Franciscauo da Obser- 
vaiicia, e depois por Bulla Apostolica foi Cunugo Ilegrante no Mosteiro 
de Càrqucre em Portugal, e emfim se foi para o Brasil. Em quinto, sex- 
to, e scplimo lugar nascerao tres filbas, D. Brianda, D. Ignez, e D. Fran- 
cisca, e todas tres forào Religiosas no iMosteiro de Jesus da Praia, e de 
tanta virtude, que duas d'ellas forao Abbadessas muito tempo; e viu- 
vando a mài D, Brites ile Noronba, ao mesmo Mosteiro das filbas se re- 
colbeo, e depois de niuitos annos morreo nelle santamente. 

23 Quinto Capitao da Praia, e fìlbo do. quarto foi o dito Anlao Mar- 
lins da Camera; casou com D. Joanna, Dama da senhora D. Isabel, mu- 
Iber do infante D. Duarte, Cibo d'el-Rei D. Manoel, e bavendo d'est*» 
casamento outros filbos que falecerao mofos, superviverào tres filbas, 
das quaes buma casou com D. Jorge de Noronba em Lisboa, e nao te- 
ve descendencia; outra chamada Clemencia. nunca quiz casar, por mais 
quo el-Rei Ihe dotava a Capitania; e a terceira D. Felippa se metteo Re- 
ligiosa em Portugal. Obrigou el-Rei ao pai que viesse residir na sua Ca- 
pitania, e vindo sem a mulber faleceo na Praia, e sem successor varai/. 
E tanto caso ainda fazia el-Rei d'està casa da Praia, que tornou a offe- 
recer a Capitania a D. Clemencia, e a casava com bum grande fidaigo, 
e tornou ella a persistir em nao casar, e se ficou assim com a irmi ca- 
sada quo nao tinba descendencia. 

24 Vaga assim a Capitania, dizem que el-Rei D. Henrique deo pa- 
lavra d'ella a D. Leoniz, filbo do Conde da Feira por grandes servijos 
na liidia, e na Africa em Ceila: poróm morto là D. Leoniz pedio o Con- 
de &.\ i-.'ira a dita Capitania para bum seu irniDo naturai, D. Jorge Pe- 
reir. ;■• \/'u\ retirado lia lllia iIl* Sào Miguel; e tendo palavra da ser- 



UV. VI CAP. IV 17 

lentia d'ella por tres annos, tambem dìzem qiie D'este tempo chegou da 
lodia o inii3o do ultimo Capit9o, chamado Antonio de Noronha, e em 
paga de seQ9|ipervi(os pedio a dita Capitanìa, e nao obstante a palavra 
dada, el-Rei Ih'a deo a este Antonio de Noronha, por ser irmao do Ca- 
pìlSo morto, e descendente dos passados: mas deo-llf a el-Bei com con- 
dita de mandar lego vir da India sua mulher, e fllhos, e ir com elles 
residir na Gapitania: e pouco depois morreo em Lisboa, e de peste, o 
dito Antonio de Noronha, de cuja mulher, e flibos nao acho mais noti- 
di: porém n'este tempo os da Praia pedirao a el-Rei quem os gover- 
nasse, e Ihe propuzerao bum muito nobre, e rico varao, da mesma Uba 
Terceira, e da antiga familia dos Pamplonas, e dizem que governou a 
Capilania alguns annos, até que el-Rei Felippe II a proveo em D. Cbris- 
WSo de Moura, comò veremos abaiio. 

CAPITOLO IV 

Dos Capitàes de Angra, Cortereaes^ da Terceira. 

25 D'està celebre familia dos Cortereaes trataremos mais, quando 
ibaixo tratarmos das familias, que forilo povoar a Uba Terceira: por ho- 
n 80 diremos os que forao da Terceira, e da parte de Angra, seus Ca- 
pHies Donatarios, depois de Jacome de Bruges o ter sido de toda a 
Uba Terceira: por cuja morte se repartio a Uba em duas Capitanias, bu- 
ina chamada da Praia, por està Villa ser a sua Corte, ou cabega: outra 
diamada de Angra, por ser està Cidadc sua cabega, e Corte: e porque 
'imos ji OS Capitàes que na Praia succederao ao Bruges: dos que Ibe 
^WcederSo em Angra digamos agora o necessario, 

26 segundo Capitao Donatario de Angra, depois do primeiro 
ViB de toda a Uba o era, foi Joao Vaz da Costa Corte real, (comò jà 
^'ùaos acima) porque vindo com o outro Capitao da Praia Alvaro Mar- 
lin llomem, este trouxe o poder de repartir a Uba em duas iguaes 
hrtes, ou Capitanias ; e o Corte real trouxe poder escolber das duas 
l^itanias, e partes qual quizesse; e dizem que Alvaro Martins Ilomem 
fnaginando que o Cortereal escolberia a parte da Praia, por baver n'ella 
i^ meihores terras, e jà cultivadas, e mais povoadas, fez de sorte a par- 
^Iba, que flcou muito maior a parte de Angra, e a osta entao por isso 
inosmo escolheo o Cortereal; sobre que ao depois entre os successores 

VOL. Il 2 



i8 IIISTORIÀ INSILANA 

de hum e outro liouve tal demanda, que durou vinte annos, e per sen- 
tenga final se tornou de novo a partir a liha, e com ìgaaldadOi e cada 
hum ficou na Capitania em que estava de antes. 

27 Este segundo Capitilo de Àngra foi casado com huma fidalga 
chamada D. Maria, de alcunha a Galega, por ser oriunda da Ponte da 
Barca em Entre Douro e Minho, e o tal Joào Vaz da Costa Cortereal jà 
tinha sido Portciro mór do Infante D. Fernando, pai d'el-Rei D. Manoel. 
Da dita sua mulher teve seis fllhos : primeiro, Vasqueanes €ortereal; 
segundo, Miguel; terceiro Gaspar, todos Cortereaes; quarto. Dona Joanna 
Cortereal, que na mesma Ilha casou com hum fidalgo cbamado Guilher- 
me Moniz; quinto, D. Iria Cortereal, que casou com outro fidalgo Fe- 
dro de Goes da Silva; sexto, D. Isabel Cortereal, que casou nas mesmas 
Ilhas com Joz de Utra; Capitao Donatario da Ilha do Fayal, e da do Pico. 
segundo filho do dito segundo Capitao de Angra Joao Vaz Cortereal, 
que dfssemos fora Miguel de Cortereal, este foi Porteiro mór d'el-Bei 
D. Manoel, e casou com D. Isabel de Castro, filha deD. Garcia de Cas- 
tro, irmao do .Conde de Monsanto, da qual houve a D. Catharina de 
Castro, que casou com Diego de Mello da Silva Védor da Rainba D. 
Catharina, mulher d'el-Rer Dofn Joao III, e houve mais a D. Joanna de 
Castro, mulher de Leonel de Sousa, senhor da Ericeira. terceiro fi- 
lho Gaspar Cortereal nunca casou, mas filho seu naturai foi D. Joao 
Cortereal, Bispo de Leiria, e outro filho que morreo sem descendencia. 

28 terceiro Capitao de Angra foi o dito Vasqueanes Cortereal, 
Védor d'el-Uei D. Manoel, e alcalde mór de Tavira no Algarve, e foL 
tambem Capitao Donatario da Uba de S. Jorge, comò em seu iugar ve- 
remos. Casou com D. Joanna da Silva, filha de Garcia de Mello, Alcalde ; 
mór de Serpa; e d'ella houve os filhos seguintes: primeiro, Christovao 
Cortereal, que morreo mancebo sem descendencia; segundo, Manoel de 
Cortereal, que succedeo ao pai; terceiro, Bernardo de Cortereal, que foi 
Alcalde mór de Tavira, e casou com D. Maria de Menezes, filha de Ma- 
noel de Brito, Alcalde mór de Aidea de Galega; e d'ella houve a D. Joanna 
de Menezes, que casou com Martim Correa da Silva; quarto, Hieronymo' 
Cortereal. que morreo sem descendencia ; quinto, D. Maria da Silveira, 
que casou com D. Pe^ro Deca; sexto, D. Felippa que nao casou. 

29 Quarto Capitao de Angra foi Manoel de Cortereal, segundo filho 
do terceiro Capitao, casou com D. Brites de Mendon^a, filha de Henrì- 
que Lopes de Mendon^a, a qual tinha sido primeira vez casada com D. 



LIV. VI GAP. IV 19 

Manoel de Lima, Capitao de Ormuz; e depois Toi terceira vez casada 
oom D. Francisco de Faro senhor de Vimioso, e Yédor da fazenda d'ei- 
Bei D. Sebasti3o. D'este quarto Capitao de Aagra nascerao, Jo3o Vaz 
Gorterealt qae em vida nao casou, so dizem alguns que na hora da morte 
TWbem d3o sei que mulber, de cujos filhos tambem se nSo sabe, nas- 
ceo mais Hieronymo Cortereal, que casou com D. Luiza da Silva, fllha 
de Joi^ de Vasconcellos, Armador mór, Provedor dos Armazens, e 
Gmmnendador, porém nenhuma descendencia deixou : nasceo tambem 
Yasqaeanes Gortereal, e este herdou a Capitania do pai, e assim 

30 Quinto Capitio de Angra foi o tal Vasqneanes Cortereal, e ca- 
SOQ com D. Gatharina da Silva, filha de D. Joao Mascarenhas, CapitSo 
dos Ginetes, senhor de Lavra, Alcaide mór de Montemór, e de Alcacere 
do Sai; do qual casamento nasceo outro Manoel de Cortereal, que mor- 
feo na batalba d'el-Rei D. Sebasliao, sem mulhcr ainda, e sem filhos; 
Qtts corno està Capitania estava jà dada de Juro, e herdade, e tirada da 
tei mental, e confirmada por El-Rei Dom Sebastiao no livro do tombe 
da Camera de Angra fol. 308 e 419 por isso ficou està Capitania a Dona 
Margarida Cortereal, irma do dito ultimo Manoel de Cortereal, e filha 
do ultimo Vasqueanes Cortereal, qae casou com D. Christovao de Moura. 

31 Era este D. Christovao de iMoura filho de D. Luiz de Moura, e 
dfiD. Maria de lavora, irmà de Lourengo Pires de lavora, Embaixador 
flw foi a Roma, e Capitao de Tangere, e o dito D. Luiz de Moura foi 
Estribeiro mór do Infante D. Duarte, e Thcsoureiro mór da Infante D. 
Isabd. D'està casa dos Mouras de Portugal era Miguel de Moura, que 
^tes de Felippe II entrar em Portugal, jà ora do Conselho d'cl-Rei D. 
tojriqae, e seu Secretarlo, e tambem d'esla casa foi para Castella Fer- 
>^o de Torres e Moura, que em Cordova casou com D. Isabcl, fi- 
^ do senhor de Setina em Aragao, de que nasceo Fcrnao do Moura, 
9* casou com D. Leonor de Mendonca em Siguensa, onde teve deus 
Mios, D. Miguel de Moura. e D. Antonio de Moura, e era casa de mor- 
Pdo fico. sobredito D. Christovao de Moura tinha sido pagem da 
I^rioceza D. Joanna mai d'eURei D. Sebastiao, e filha do Emperador 
'^bs Ve irmaa de Felippe II e mulher do Principe de Portugal D. Jo3o, 
e com a Princeza foi d'este Reino para Castella por seu pagem e met- 
^o-se em bum Mosteiro de Freiras Delcalf^s, por sua morte dei- 
^* a D. Christovao deus mil cruzados de renda; e entrando D. Chris- 
tovSo por pagem de Felippe lì tal privanga com elle alcancou, que 



i 



20 HISTOIU.V INSLLANA 

velo com o Duque de Ossuna, e com outros por Embaixador a P 
gal sobre a successao do Beino, e foi Yédor da fazenda do mesm( 
lippe li e do Consellio d'estado de Portugal, e Castella. 

32 Sexto pois Capitao de Àngra foi o tal D. Cbristovao de M 
por Felippe II o casar com D. Margarida Cortereal; e por estar vag 
tao a Capitania da Praia, a deo tambem ao dito D. Christov3o, e 
Capitao Donatario de toda a Uba Terceira, corno o tinba sido nop 
pio Flamengo Tidalgo D. Jacomc de Bruges, e juntamente CapitS« 
Datario da Ilha de Sao Jorge, que jà andava unida à Capitania de A 
e além do sobredito o fez Felippe II scu Gentil-bomem de Carne 
Marquez de Castello Bodrigo, senbor de Cabeceiras de Basto, Com 
dador mór de Alcantara em Castella, e emfin) Viso Bei de Fortaga 
sobredita D. Margarida Cortereal nasceo o segando Marquez de C 
lo Bodrigo, que a Boma foi por Embaixador eml632, nasceo mai 
ma (ilha, que casou com o Duque de Alcalà: e outra Dona Mar 
Mendonga, quo casou com o Conde de Vimioso D. ADfonso de Pori 
e outra D. Margarida, que casou com D. Manrique, Conde de Po 
gre. 

CAPITULO V 

Descreve-se a Capitania da Praia, e suas Poooncòcs pelo Noroe^ 
e Norie, ale acabar passado o Leste da Ilha Terceira, 

33 Pela segunda reparticao, que per final sentcnga se mandoa 
na liba Terceira em duas iguaes Gapitanias, e ficou o marco em a< 
parte da Uba que dìamùo Folbadaes, e flcou correspondcnte ao C 
roeste, sendo que de antes Beava ao Noioesle, e mais pequena 
Praia. Chama-se este silio Folhadaes, por ser malo cheio d'està leo 
folhado; mas jà boje està muito cerrado, e lem muilas vinlias, e 
fruta por espago de legoa e meia até o lugar de Sao Boque, a qu( 
mao OS Altares, por ter junlo ao mar bum pico que parece bum 
a que vem render-se o mar, e be tao alto o pico, que serve de i 
aos pescadores que vào pescar d'aquella parte, e varias legoas ao 
e até por alli a Uba be de rocha viva, e alta, e o mar perigoso 
rcuitos baixos que n'elle ha, em direitura do pico, e da Capella m 
Igreja de Sao Boque; poi ém com serem compridos os baixos, e i 



LIV, VI GAP. V 2i 

rem sobre si cincoenta bra^as de mar, sao comtudo multo estreitos, e 
para qualquer das partes se nao acha fundo; e os ditos baixos s3o pos- 
to de grande pescaria; be este lugar dos Altares, ou S3o Roque, de Pa- 
rochia dedicada ao Santo, passa de cento e cincoenta visinhos, e d'elles 
moitos sao ricos, e nobres, comò Pamplonas, Valadoes, etc, e lem Vi- 
gano, e Ci]ra> e duas legoas de termo, e duas Ermidas, buma de Sao 
Malheos, de grande romagem; outra de Santa Catbarina, qiie be a ca- 
befa do grande morgado dos Pamplonas. 

3i Segue-se adiante, duas legoas dos Altares, ou Sao Roque, o lu- 
gar de S5o Pedro, cbamado os Biscoutos, de que alguma parte he do 
morgado dos Pamplonas, mas tudo mais he do maior morgado que fun- 
doa Pedreanes do Canto, de qije trataremos em seu fugar. D'este lugar 
a Parochial be de Sao Pedro Apostolo, e tem so Vigario, e cento e trin- 
ta visinbos, mas tem as Ermidas seguintes: buma de Nossa Senhora 
do Loreto, fundada em bum alto pelo morgado Pedreanes do Canto, 
junlo das grandes, e ricas casas em que elle viveo, boa meia legoa do 
mar, e com Mìssa na Ermida, que be a cabota do morgado; e se està 
jà callida, deve-se mandar levantar; conio tarabem a outra Ermida cha- 
mada Vera Cruz; e a terceira Ermida be de Si5o Sebastiao. Este biscou- 
to se chama o biscouto gordo, por ser em partes terra alta; e tambem 
se chama, de Materramenta, por ser a alcunha do bomem que o vendeo 
a Pedreanes do Canto, e tem buma legoa de comprido pela costa ao mar, 
e meia legoa de largo para o interior da Uba, e tudo be de vinbas, e 
pomares, e a mais fresca cousa que bavia em toda a Uba. A costa do 
mar he rara, mas multo brava, e tem comtudo bum postosinho, cbama- 
do a Casa da salga, e outro cbamado de Pedreanes do Cauto, com bum 
forte, que de antes tinba quatro pegas, por alli carregar o fidalgosuas 
rendas. 

33 Do dito biscouto para o Oriente se segue o lugàr cbamado Qua- 
tro Ribeiras; e este lugar foi a primeira Igreja de toda a Uha, aonde vi- 
nbao no principio os da Praia, tres boas legoas distante, a ouvir Missa, 
sempre junto ao mar: a costa do lugar he brava, e tem buma legoa de 
comprimento, e buma bahia, e quatro ribeiras de agua fresca que Ibe 
derSo o nome, e com ellas moem tres moinhos para os lugares visinbos: 
este porém tem so qoarenta visinbos, e sómente bum Vigario, e junto a 
elle està a Ermida do Bom Jesus, de multa romagem: e nào so o lugar 
he de outeiros, e valles, mas tambem a rocha he muito alcantilada,. 



22 HKTORIA INSULANA 

porem de tanta pomba, que por vczes se carregao barcos de pombi- 
nhos. 

30 Adìante se segue para o Nascente huma grande legoa de bis- 
couto, chamadp de Pamplona, com duas legoas jà quasi entupidas, a hu- 
ma das quaes chamao de Frei Gii, Fiade que no principio alli viveo, e 
agora he terra do Pamplona; e lego se segue o lugar chamado de Agua- 
alva, cuja Parochia he hoje de nossa Senhora de Guadalupe, que he mui- 
to milngrosa, e de grande romagem, alò das outras Ilhas: foi no prin- 
cipio Erraida, e fundada por hura Joao Ilomem da Costa, fillio de Hei- 
tor Alvarez Ilomem, (lìdalgos de quo abaixo fallaremos) e pertencia ao 
lugar chamado Villanova, e hoje o lugar da Agua-alva he Fregaezia se- 
parada: u'este lugar ha huma fonte, em que deixando dentro ham pio, 
por cspaco de hum anno, o achào em [)edra converlido, de que fizerSo 
experiencias o Bispo D. Gaspar de Faria, o Bispo D. Pedro de Castiiho, 
e outras pessoas iilustres, e assim o aflìrmarào: e lavando n'esta fonte 
a roupa sem sabao aigiim, a faz tao ai va, comò se a lavassem com sa- 
b3o. He este lugar de muitos pombaes, muito bons queijos, e derecrea- 
(j3o de loda a Ilha, pela muila, e cxcellente fruta, e tanta, que ainda jun- 
to à Igreja da Senhora estava hum castanheiro, que so elle dava mais 
de meio molo de castanhas. 

37 Com pouca distaricia d'este lugar da Agua-alva se segue o lugar 
chamado Villa-nova, e com tudo pela celebre romagem da Senhora de 
Guadalupe ambos esses lugares se chamao commummente Agua-alva: po- 
rem de Villa-nova he lugar muito maior, e de gente muito nolire: sua 
Parochia he do litulo do Espirito Santo, lem Vigario, e dous Beneflcia- 
dos, e hura Cura, e hum Thesoureiro, e he Igreja de tres naves, e bem 
ornada, e lem duas Ermidas, huma de Nossa Senhora da Vida, que es- 
tà sobre o porto, e he cabeca de hum grande morgado, que n'ella teoL 
dous Annaes de Missas pelas almas de seus Fundadores, Ileitor Alvaress 
Ilomem, pai de Pedro Ilomem da Costa, e avo de Ileilor Ilomem isam 
Costa Colombciro, que casou com Dona Luiza, fllha de Pedro Ponce d^3 
Leao, fidalgo de Lisboa: junlo da qual Ermida tem este morgado hun^a 
rica Quinta, e casaria nobre, e na tal Ermida estao sepultados os ditos 
Morgados. 

38 A oulra Ermida d'este higar he a da Madre de Deos, na qaal 
magnifico fidalgo Joao da Silva do Canto, com Bullas Aposlolicas qua 
de Roma alcanrou, fundou huma Santa Casa da Misericordia, è lego fuii- 



LIV. VI C\P. T 23 

don outra Ermida de Sao JoSo, e liumas mui nobros casas, tiido cnbc- 
Ca de bum morgado, que além do outros frutos, o fóros, so de trigo 
rende sessenta e cìdco moios cada anno: a qual Quinta està tao junta, 
que entre todas suas tcrras se nSo mette terra de outrem alguem. Ter- 
ceira Ermida ha n*este lugar, a qual he de Sao Fedro, e tambem cabe- 
Ca de bum menor morgado fundado por lìum Jo3o Evangelho, bomem 
multo nobre da familia d^este titulo. Ha n*este terrenho tanto gado, que 
zeloso (idalgo sobredito Joao da Silva do Canto, vendo abaixo de suas 
terras sahir huma grande, e fresca fonte, tao fora esteve de a tornar pa- 
ra a sua Quinta, que junto à fonte mandou à sua custa fazer tres gran- 
des tanques, e caminho para elles, para irem alli beber os gados, corno 
tic, e à fonte ficou por nome, a fonte de JoSo da Silva. Oh se assim 
hoje hoovesse fìdalgos do bem commum mais zelosos, que ambiciosos! 

39 Tem este lugar (diz Fructuoso) trezentos moradores, e além de 
moitos nobres, e outros tratantes mercadores, tem de oflìciaes oito Gar- 
pmteiros, ciuco tendas de Ferreiros, seis de Carpinteiros» oito de Al- 
fiuales, e muitos de outros officios, e quarenta teceloes, e he lugar t3o 
bem provido nao so de frutos, e frutas da terra, mas ainda das cousas 
de fóra, (pelo grande, e continuo commercio que lem com a Cidade de 
Angra^ que n3o havia n'elle pessoa alguma que pedisse esmola, porquo 
OS pobres respigando no verao apanhavao com que passar o inverno: e 
<!mGm querendo o Capitao Donatario Antao Martins da Camera fazer Vii-. 
ia a este lugar, nao o quiz este aceitar, o respondeo, que mais queria 
8er melhor lugar da liha, comò he, do que fazerem-o Villa. A costa 
d^este terreno he multo alta, e com tndo tem bahia grande, e n'ella seu 
porto de barcos, mas diante da bahia tantos baixos, quo per si se de- 
feodem de inimigos, e enriquecem a terra de exceltente pescarla. 

40 Pouco adiante d'este celebre lugar de Villa-nova se segue bum 
^real, e lego huma rocha alta, e depois d'ella bum posto de calhaos jun- 
to ao mar, e de grande, e recreativa caga de coelhos, e logo bum pes- 
Vieiro cbamado a casa velha; e aqui acaba o termo do lugar de Villa- 
Qora em huma ribeira chamada a Kibeira Secca, por mais tempo ser de 
^, do que de agua; e comeca o termo do lugar que chamao Lagcns, 
<^ a Parochial de Sao Miguel, distante huma legoa da do Espirìto San- 
to de Villa-nova. Tem S3o Miguel das Lagens hum'Yigario, bum Cura, e 
boia Beneflciado, e duzentos moradores espalhados em Quintas, e entre 

muito nobres, e ricos, e de appellidos nobres; e he terra muito 



2i TIISTORIÀ INSUUNA 

fertil de trigo, e vinho plantado em biscouto, que veio do interior da 
liha, e chega, ao mar fazendo huma caideira, ou valle, muito razo, e fru- 
ctirero; ha n'este lugar liuma Ermida de Suo Braz, cabega de bum mor- 
gado, que possuia Francisco de Betencor, e havia n'este sitio tanta amo- 
roira, e fazia-se tanta crìacao de bichos de seda, e de tal seda, que (co- 
rno affirma Fructuoso) nao a vence a de Granada. 

41 D'aqul cotneca a correr junto ao mar, e por espago de buma 
grande legoa, e com multo alta rocha, a Serra de Santiago, quechamSo 
de Joao de Teve, por oste fidalgo ter sido de quasi toda ella senhor» 
com ser tao comprida, e ter bum quarto de legoa de largura, e dar em 
cima muito, e o melhor trigo da Uba, defronte d'està Serra, e moia le- 
goa ao mar estd bum grande penedo, chamado o Ilheo Espertal, ou de 
Sebastiào Pires; e detraz da Serra, paiìi a banda da terra, se segue bum 
grande valle, de que o dito Joao de Teve, e outro fidalgo Diego Paim 
erao senbores, e tudo tao plantado de vìnhas, pomares, e bortas, que 
fica sendo buma vista admiravel; e logo se seguem terras muito chans, 
onde cbamSo o Juncal, pelo junco que alli bavìa, e ainda boje ba, mas 
jà muito n^ais trigo; e aqui està a rica Quinta do antigo fidalgo Estev3o 
Ferreira de Mello, de que so em trigo Ibe pagao cada anno mais de ses- 
senta moios; e niella està buma baixa, e larga fuma, que bum negro, 
sendo de sou nascimento mudo, com repetidos sinaes fez abrir alli» e 
acbou-se buma perenne fonte de agua doce, e excellente, e tao copiosa» 
que nào s6 so divide para a gente, gado5, e lavandeiras, mas com ou- 
tra parte d'ella moe bum moinbo. 

42 E nac so n'osta larga, e Clara fuma, que em boas descidas, e 
subidas tem a altura que levariao trinta degraos; mas tambem na terra 
de cima, aondo quer quo cavao, descobrem pogo da mesma excellente 
agua; e no melo da rocba da Serra de Joao de Teve està buma fonte 
do mesmo nome, e de boa agua; e na alta penta da dita Serra, com ser 
muito alta, està outra fonte de semelbante agua; acima ainda da qual es- 
tà Facbo, e Atalaia de perpetua vigia, que descobre todo o mar, e tem 
doze mil réis de soldo, sem mais obrigacao que levantar a bandeiraoe 
facbo quando apparece navio; e a dita fonte se cbama a fonte da Fortu* 
Da, por ter vivido alli bum bomem que se cliamava Joao Àlvarez da For^ 
tuna. 



UV. V! GAP. VI 25 

CAPITOLO VI 

Da nobre Villa da Praia^ e termo de sua Capilania, 

43 Do posto onde flcamos comeca jà a Terceira a voltar do Norie, 
e jé tambem do Nascente para o Sul, e cometa fazondo liuma enseada 
de area, que tem meia legoa de comprido, e nas mais das partes d'està 
babia se nSo póde chegar a desembarcar, pelos grandes, e perigosos 
bancos de area, a que nao podem chegar navios a inda pequenos ; nas 
outras partes em que podiao aportar, estavao antigainente trincheiras, e 
estacadas de pào piqué, e no meio da enseada bum bom desembarca- 
douro de pedra, que servia de bom porto para a Villa, que fica mais 
para dentro da terra; mas no principio do areal que corre para o Sul, 
està entro a area, e a Villa huma grande alagoa, que tem no meio bum 
Ilheo de quasi bum alqueire de semeadura, e com bum pombal dentro, 
e ao Ilbeo se nao vai senao em barco, ou com a agua até os pcìtos* 
porem murada a Villa, ha cousa de duzentos annos fez-se porto, e des- 
embarcadouro muito apto, e se segurou toda a bahia com fortes, e ar- 
telbarìa. 

44 primeiro Forte està na ponta do Nascente para o Sul, cha- 
mado do Espirito Santo, e tem onze pegas de artelharia de ferro, e 
l)roDze; logo o Forte de Nossa Senhora da Conceigao com tres pec^s de 
ferro; adiante o de Santa Catharina com seis pegas; depois o de Santa 
Cruz, das Chagas, e de Santo Antao, e estes tres tem a duas pecas 
cada barn, e para o fim da bahia tem duas Fortalezas, que chamao as 
Yeibas, e ambas com muita, e muito grossa artelheria de bronzo, e 
boma Dobre peca chamada a Aguia, outra chamada a Esfera, e muitos 
Pedreiros, e pe^as de Dado, e de Berso, etc, com que està tao forliflca- 
^ a dita enseada, ou babia, que nunca foi entrada de inimigos alguns, 
excepto no caso seguinte. 

45 Quando ainda comecava a povoar-se aquella parte da Praia, e 
bviaainda gnerras de Portugal com Castella, cbegou alli huma Arma- 
^ Castelbana, e em muitos bateis (por mais Ih*o nao permittirem os 
i^ttcos do areal) lan^arao gente bem armada em terra: e fugindo os pou- 
^ povoadores do lugar para o vizioho mato, que ainda entSo era mui- 
^1 e muito alto, e basto, ficarao os Castelhanos roubando o lugar, e 
^^gando-se todos dos seus roubos, eis que bum Portuguez querendo 



26 IIISTORIA INSULANA 

ver quo hìa no lugar, sobe-se a huma alta arvore, e estando jà no 
mais alto reparando no ìnimigo, cahe pela arvore abaixo, pegando-se a 
outras juntas, que tal estrondo fizer3o, que se persuadio o inimigo vi- 
nha bum Cerlao de gente sobre elles, e largando armas, e troaxas co- 
megou a fugir para os bateis; o Portuguez cabido, levantando-se animo- 
so chamou aos mais, que sabindo todos, e valendo-se das armas que o 
inimigo deixava por fugir, eseembarcar, der3o n'eiie com lai furia, qoe 
ou feridos, ou affogados nenbum Gcou com vida, ou tomou os navios, 
e estes se forSo de tal sorte, que nao apparecerSo mais, e os Portugue- 
zes se ficarào com os bateis, com as armas, e com todos seus bens jà 
restaurados; mandarlo logo a nova d*esta primeira viteria, ou guerra 
d*aquella occasiao; e em Villa de Angra, que jà ent3o era Villa, foi no- 
va muito festejada, e attribuida àquelle Portuguez que subio à sua ar- 
vore. Tanto póde o gallo em o seu polcirol 

46 D'este victorioso lugar pois se veio a formar a Villa, que dV 
quella enseada, ou areal tomou o nome de Praia, e ficou cabota e Ck)r- 
te da segunda Capitania Donataria d'està liba. Està a dita Villa (diz Fni- 
ctuoso liv. vi cap. 2) situada em campo plano, defronte do principio do 
areal que volta para o Sul, e com a sobredito alagoa entro elle, e a Vil- 
la; be cercada de muralha com quatro baluartcs, e quatro portas, a do 
Porto, a do Rocio, e de Nossa Senhora dos Remedios, e a das Chagas: 
dentro das muralhas passa de quinhentos vizinhos; e com os que vivem 
ao redor passa de setecentos, por ser cercada de muitas, e muito ricas 
Quintas; e assim ha n'esta Villa, e sua Capitania, mais de vinte morga- 
dos grandes, e na Villa ha muita, e muito antiga nobreza, e por isso bo 
de edificios sumptuosos: de milicia de pé lem alistadas quatro compa- 
nhias, mas muito grandes, e cincoenta soldados de cavallo, e teve ji 
duzentos, e todos os cabos de milicia. Capi tao mór. Sargento mór, Ca- 
pitaes Ajudanles, Alferes, eie. Senado da Camera; que além dos Verea- 
dores, lem juizes Ordinarios, e da melhor nobreza, e Ouvidor do Dona- 
tario, e excellentes Cavalleiros, que correm em festas grandes. 

47 No Ecclesiastico lem a dita Praia huma nobre, e rica IgrejaMa- 
triz, tempio de tres naves, e da invocac5o da Santa Cruz, portaes, e pi- 
lares de marmore, Capella mór de abobada, e loda he cercada de Ca- 
pellas de morgados, e he Igreja sagrada; lem seu Vigario, dons Curas, 
oito Bcneflciados, Organista, Sacliristao, Prégador, e oulros officiaes, ^ 
na Villa oulros muitos Clerigos Sacerdotes, e porque ha muitas Blissas^ 



LIV. VI GAP. VI 27 

e saffragios que deixavao os antigos, e com determiaadas esmolas gran- 
des, e algumas de hum molo de trigo por cada Missa, d'aqui vem que 
nSo so a Vigairaria he sobre tao grave, multo rendosa, e com sua pro- 
porgao os Benefìcios, mas aos Clerìgos extravagantes rendem ainda so 
as suas Ordens muito, porque dentro da mesma Villa ba ainda, (e jd 
hoore majs) sete Ermidas, Nossa Senhora dos Remedios, Sao Sebasti3o, 
Nossa Senhora da Grara, 830 Salvador, Sao Lazaro, Santo Amaro, e S3o 
Fedro; e algumas d*ellas tao Uistrosas, e tao ricas) que cada huma tem 
a cincoenta moios de trigo, de renda cada anno, para se repartirem em 
HissaSy e outras obras pias. 

48 Tem Casa da Misericordia com duas Igrejas, hnma do Espirito 
Santo, outra de Nossa Senhora, e a renda da Casa chega a cento e vinte 
moios cada anno, e a séssenta mil réis de fóros em dinheiro, e por isso 
tem tambem Hospital famoso. Meia legoa tem a sua Matrìz hum lugar 
saffraganeo, onde chamao a Casa da Ribeira, com huma Ermida de Sao 
JoSo de Latrao, e muitas Indulgencias para os que a visitào, ou se se- 
poltSo niella, e de tudo Bulla Apostolica ; e tem o lugar séssenta vizi- 
nhos, e demais hum Hospital de Lazaros com Ermida de Sao Lazaro, o 
renda cada anno de vinte e cinco moios de trigo : e para tudo tinha a 
Villa grande numero de pogos, e de multo boa agua de beber, e ainda 
boje tem muitos, mas ha cousa de cento e quarenta annos, que de cima 
da Casa da Ribeira, meia legoa, trouxerao dentro à Villa agua nativa, e 
peremie, que repartirao em seis chafarizes, e hoje sao cinco, e so qua- 
tro correntes, porque o quinto, que he de marmore, esse nao corre; e 
be agua ainda melhor que a dos po^os. 

49 De pessoas Religiosas tem a dita Villa varios Conventos, bum 
da Observancia de S3o Francisco, que passa de trinta Religiosos, e em 
ciija Igreja ha algumas Capellas de antigos morgados; mais o Convento 
de Nossa Senhora da Luz, com séssenta Freiras de véo preto da mesma 
Ordem, e Obediencia Serafica; e outro tambem da mesma Ordem, e Obe- 
di^cia, intitulado das Chagas; porém este, ou pelo sitio mais vizinho ao 
xxiar, ou por outro titulo, se foi extinguindo com o tempo, e em 1668, 
MA n3o tinba mais que huma Freira, porém ha na Villa terceiro Conven- 
to, chamado de Jesus, da Obediencia do Ordinario, e lem setenta Frei- 
«^s de véo preto; e todos estes Conventos forao sempre de grande Ob- 
servancia, e de pessoas de grande exemplo, e virtude. De novo, e jà 
l^a mais de séssenta annos, no de 1650 junto a Villa, e fora d ella, em 



28 IIISTORIA LNSULANA 

huma Ennida de Santa Monica fundoa D. Maria da Silva bum Convenlo 
de Eremitas de Santo Àgostinho, que se chamao Frades Graciaoos) dan- 
do-lhe principio com dez moios de renda Qxos, e costumSo habitar n*elle 
seis Religiosos, com grande fruto espiritual de toda aquella Villa. 

50 Da fazenda Real tem a mesma Villa huma nobre Àlfandega, com 
todos OS OfQciaes que as Alfandegas costumao ter, mas ludo sognilo 
(comò em todas as mais Ilbas) ao Provedor da fazenda Real de Ajigrft; 
e he tao abundante de trigo està Villa, e toda a sua Capitania, qoe cada 
anno embarca tres, ou quatro, e às vezes ciuco mil moios de trigo ; e 
gastando na terra ao menos outro tanto, jà se ve que dizimo cabo a El* 
Rei; e n3o sendo menos abundante de vinho, e dos mais frutos, se aug- 
menta mais a fazenda Real, e com o dizimo d'està, e dos direitos Reaes^, 
e a renda dos moinhos, cresce tambem muito a renda dos CapitSes Do- 
natarios, que hoje tem tudo a Corea em si; e até de peixe he abandaa- 
tissima està Praia, e tanto mais gostoso, quanto participa mai» do Nor- 
te, e especialmente de muitos, e muito grandes, e excellentes Chernes» 
e Corvinas, que vem à Cidade a vender. 

51 Passada a Villa da Praia se segue ainda de sua Capitania, e bum 
tergo de legoa adiante da penta de Santa Catharina, hum posto qae cba*- 
mao Porto Marlim; e aqui està huma grande fazenda, e nìorgado que fi- 
cou de hum fìdalgo, chamado Joao Dornellas Capitao mór da mesma 
Praia, e possuhio depois o illustre Francisco Dornellas da Camera, At<- 
caide mór da mesma Praia, e depois seu filho o Alcalde mór Bras Dor- 
nellas da Camera, a quem se seguio seu irmao Manoel Paim da Game^ 
ra, a quem succedeo seu fllho Francisco Paim, que hoje vive em Angra» 
e no mesmo posto esUi huma Ermida de Santiago, e outra de & Har- 
garida, onde chamao os Graneis, e pouco pela terra dentro està o kigar 
chamado S. Catharina, Freguezìa de cem vizinhos, chamada o Cabo da 
Praia, e entro este Cabo, e Porto Martim està a Ermida de N. Senhora 
do Rosario, que era de hum Manoel Borba, descendente dos nobres Bor- 
bas, e Curvos do Alem-Tejo, por hum Gii de Borba, ou Gilianes, que 
do Alem-Tejo velo por huma morte que là Azera, e por isso muderà o 
nome em Gilianes, e foi o tronco dos Borbas da Villa da Praia, corno em 
seu lugar diremos. 

52 De Porto Martim, per deus tercos de legoa, corre a costa de» 
mar, toda raza, mas de calhao grosso, até a Ribeira Secca, que vai sahiK 
ao mar, ao Sueste ; e pela terra todos os deus tercos de legoa s3o d^ 



LIV. VI CAP. VII 29 

biscoato, plantado em pomares, e vinhas; e juùto da Ribeira està bum 
porto, em que varao barcos, e se chama o Porto de Gaspar Gongalves 
Hachado, Africano, por ter sido o melhor Cavalleiro que se achou em 
Africa, e d*este procedem os Machados dalli, e meia legoa pela terra 
dentro fica o lugar de Santa Barbara, multo antigo, e de setenta vizi- 
nhos» e muitos d'elles mui nobres; e aqui estao as ricas Quintas de Joao 
de Betencor, e de Jo3o Cardoso, e de Cliristovao Palm, e de Antonio da 
Fonseca; e nesta penta da Ribeira Secca estd huma Fortaleza nova, e para 
dentro da terra huma Ermida de S. Anna, e aqui acaba a Capitania da 
Praia, sendo d'ella tudo o que atéqui fica descripto. E tempo he jd que 
passemos à Capitania de Angra. 

aPITULO VII 

Come(a a Capitania de Angra, desde a Villa de Suo Sebastiùo 
ale a Cidude. 

53 Tem o seu principio a Capitania de Angra, pouco abaixo d onde 
ficàmos, em huma fermosa bahia, em que podem anchorar muitos na- 
>ia$, e tem bom porto, e desembarcadouro; mas por isso mesmo, e fo- 
go huma grande Fortaleza de artelbaria, e para a parte de terra, meia 
legoa, a antiga Villa de Sao Sebasliao : chamo-lhe antiga, porque d'eli» 
aGBrma o Doutor Fructuoso, que he a mais antiga Villa de toda a liba 
Terceira ; e que por expressa Provisao dei-Rei n'ella se ajuntào as Ca- 
meras, ou Senados de toda a Illia, quando succede ajuntar-se para algu- 
ma resolucSo locante a toda a liha ; e pode ser a razuo, por ser Villa 
qoe està mais no meio d està Ilha, e para a parte do Sul mais inclinada, 
onde so, podem querer desembarcar inimigos, e estar quasi em igual 
distancia da Villa da Praia, e da Cidade de Angra, scm d'estas duas al- 
gnma ir buscar, ou sugeitar-se à outra, mas usarem ambas d'este ter- 
caro meio de paz. 

54 Està situada està Villa entro huns picos, ou montes, e d'ella se 

diz tinha antigamente quinhentos vizinhos, e de gente multo nobre d*a- 

qoelles priQieiros povoadores da Uba ; e d'estes ainda hoje chega a du- 

zeatos e cincoenta, repartidos em duas grandes companhias de pé, que 

de cavallo nao tem tropa alguma alistada; e dos lugares que a ella s2o 

sQgeilos, diremos em seu lugar. Goza està Villa da melhor agua que ha 



30 , HISTOBIA IXSULANA 

em todas as dilas IMs, corno confessa o mesmo Fractuoso; e nasce den- 
tro da Villa, e em tanta copia, que moem quatro moinhos com a agna; 
e antes d isso, e so dez bracas da fonte, corre d'ella bum grande cha* 
fariz com tres bicas de pedra, e de boca de baia de dez libras, e ainda 
tresborda a agua, e comtudo ainda as mais das casas tem pocos de ex-, 
celiente agua ; e assim ha nesta Villa grnndes lavouras de trigo, muita 
crìac3o de gados, e de todos os mais frutos da terra, e de pescado do 
mar, he maito abundante. 

55 A Matriz d*esta Villa tem seu Vigario, e Cura, e quatro Benefi- 
ciados; ha n'ella Gasa da Santa Misericordia com oìto moios de renda, 
e algum dinheiro de foros annuaes. Tem mais trcs Emiidas, de S. Jo3o, 
de Santa Anna, e de Nossa Senhora da Graga, do adro da Ermida de 
Sao Joao tem admiravel vista ; a de Santa Anna està perto da Matriz, e 
tres bracas della he qne nasce a sobredita fonte, que com guarita ahi 
està fechada ; e a Ermida de Nossa Senhora da Graga està mais abaixo, 
e ainda com melhor vista para o mar. Tem mais està Villa, jà para o 
Sul, nao mcnos que seis Forlaiczas em seu destricto. A primeira, pelo 
que diremos a seu tempo, se chama a casa da Salga, e tem quatro pe^as 
de artelharia ; segunda a das Cavalas, e tem outras quatro ; terceira, a 
de Santa Catharina, e tambem com quatro pegas; quarta, a do Bom Je- 
sus, e tem ciuco ; quinta se cliama o Pesqueiro, e so tres pegas tem ; 
scxta a de Sao Sebastiào com ciuco pegas; e com estas vinte e cince pe- 
Cas se póde bem segurar a entrada de inimigos por alli. 

56 primeiro lugar sugeito a està Villa de Sao Sebastiào, he o que 
està mais junto ao mar, mas tao perto ainda da Villa, que por isso se 
chama Arrabalde, e he muito fertil, e para a Missa usa da Ermida de 
Nossa Senhora da Graga. segundo lugar he o que està da banda do 
Norie, junto ao acima dito lugar dos Altares, e se chama o Raminho, 
mas por estar tao longe vai a gente d^elle ouvir Missa a Sao Roque dos 
Altares; e da companhia dos soldados do lugar, (por elle estar na Capi- 
tania da Praia) em està Villa da Praia se faz a lista dos taes soldados; 
poròm nos dizimos, e no civcl, e justiga he sugcita à Villa de Sao Se- 
bastiào. terceiro lugar foi antigamcnte o que se chamava Portalegre, 
e estava pela terra dentro, huma legoa do mar, indo d'este para os cince 
Picos, que chamao o Paul : passava de trinta vizinhos, e sua Freguezia 
do orago de Santa Anna, de que hoje so ha as paredes, e por haver no 
tal lugar muitos Imperios com muitos folguedos profanos, se destruhio 



\ 



UV. VI GAP. VII 31 

de sorte todo o lugar, que so ficou niella bum morador por nome Ro- 
drigo Alvarez; e de tres pócos quo tinha de boa agua, so hiim existia a 
inda, e o sitio das casas se converteu cm pomares, e nem as paredes 
da Igreja, nem outro sinai de lugar baveri jà agora. Assim castiga Deos 
divinamente a quem tao profanamente assim vive. 

57 quarto, lugar sugeito a Villa de Sao Sebastiào he o vulgar- 
mente chamado do Porto Judeo, cujo nome proprio he o lugar de Santo 
Antonio, quasi huma legoa da Villa de Sao Sebastiào; he lugar de cento 
e qaatorze vizinhos, que fazem huma boa companhia de soldados, e a 
Freguezia he do Santo, e tcm mais huma Ermida de Nossa Senhora da 
Esperanca, e de multa romagem; e para o mar tem duas Fortalezas, hu- 
ma se chama Santo Antonio, e tem tres pegas, outra a Penta dos Coe- 
Ihos com outras tres pegas, o porto he pequeno, e està dcbaixo de huma 
rocba vermelha, que nao tem mais que bum caminho, por onde cabe 
bum so carro; adiante do lugar para o certao sao terras de multo gado, 
e maito trigo; e bum torco de legoa abaìxo para o mar he costa alta, e 
de calbao grosso, e para a terra he biscouto de vinhas, e pomares, e 
Deste lugar acaba o termo da Villa de Sao Sebastiào. 

58 Defronte do dito biscouto, e mela legoa ao mar estao dous Ilheos 
moito altos, bum do tamanho de tres moios de terra, outro de metade 
menos, e tao divididos entro si, que pelo melo passSo navios, e por en- 
tre elleSt e a terra podem passar nàos da India. D'estes Ilheos para o 
Leste correm por baixo d'agua huns cachopos que fazem duas pontas; 
para OS navegantes perigosas, e proveitosas para os pescadores ; e lego 
se descobrem outros dous Ilheos, que se chamuo da Mina, ou dos Fra- 
des, ou Ilheos pequenos, pois quasi os lava, e encobre o mar em tempo 
de inverno : mas d'aqui para o Sueste em diretto da liha de Sao Miguel 
corre mela legoa bum baixo com so quatrocentas bragas de agua por ci- 
ma, e em partes so sessenta; e daqui por diante ciuco legoas vào sondo 
OS baixos mais profundos, e jà menos bravos; e dizem alguns Pilotos que 
ehega oste baxio até a Uba de Sao Miguel, por sinaes que tomao para 
isso, corno de huns peixes que chamao Cavalas, que so andaoem pouco 
fiondo, e junto a calbaos: o certo porém he quo d'aquellas ciuco legoas 

atè S3o Miguel se nao tem achado fundo em tal mar. 

59 Aos sobreditos Ilheos, que jà so huma legoa distao da Cidade 
de Angra, corresponde a Uba em alta rocba, sobre a qual correm para 
dentro muitas, e boas terras de pao^ e mais adentro bum lugar chamado 



32 mSTORIA INSULANA 

a Bibeirinha, Freguezìa de Sao Fedro, e de cento e quarenta vìzinhos em 
huma so companhia, e perto d'este lugar està a Ermida de Santo Ama- 
ro, de grande romagem da Cidade, a que fica jà mais perto ; e para o 
mar tein hiima das mais alias rochas qne ha na liha, e huma ponta ao 
mar, chamada a Ponta Ruiva, e em baixo huma enseada de calhao quo 
serve para lastre de navios; e d'aqui até a Cidade vai meia legoa moito 
fertif de terras de pào, e quintas muito rendosas, e junto ao mar huma 
boa bahia, e porto que chamao as Aguas de S. Sebastiao. 

CAPITULO Vili 

Das fortalezas que cercào por mar, e terra a Cidade de Angra, 

60 Ao dito porto das Aguas de Sao Sebastiao se segue logo bum 
outeiro, comò bum pequeno monte, e n*elle huma Fortaieza, cercada de 
muralha, com porta para a Cidade, e em cima dentro com casas para o 
Capitào, artilheiros, e trinla soldados, a que vem render outros soldados 
do outro Castello grande, (de que logo fallaremos) e tem mais seu Ar- 
mazem de munigocs de guerra, e huma cisterna que leva quinhenlas pi- 
pas de agua; por dentro do alto d'osta Fortaleza desco abarxo huma abo- 
bada, ou cuberta até Imma plataforma, em que baie o mar, e tem qua- 
torze pe^as de artelharia, e quasi todas de bronze, e calibro grande, que 
nao so defendem o porto da Cidade, dentro do qual jà estao, mas tam- 
bem defendem a chogada do immigos ao antecedente porto das Aguas 
de Sao Sebastiao, e d'aqui parcce tomou està Fortaleza o nome de SSo 
Sebastiao; senao he (comò alguns dizem) por ter sido fundada, ou refor- 
mada pelo bellicoso Hci D. Sebastiao, de saudosa memoria. 

61 Ao pé d'csla Fortaleza, espaco de bum tiro de bésta, està bum 
moderado valle, que chamao Porto de pipas, por alli desembarcarem os 
caraveloes, ou barcos de duas, e tres velas, que ordinariamente trazem» 
e levao pipas das outras Ilhas, e ainda para a parte do Sul, ou mar he 
costa de calhao, tem hum muilo bom caes, e por entro elle, e a terra, 
ou costa da liha entra brandamcnte o mar, e se recolhem barcos, e 
caravelas, e às vezes alguns navios, e ficao seguros da tempestade do 
Sueste, que quando corre forte, faz grande damno nas embarcagoes 
anchoradas, e se o porlo se alargasse para os grossos calhàos, que en- 
tro elle, e o mar vao, scria Regio porto, e dos navios seguro estalei- 



LlV. VI GAP. TtU 33 

ro; mas havia vìver algum outro fidalgo t3o repnblico corno o grande 
Jo3o da Silva do Canto, que foi o que fez o dito caes é sua custa, e 
maito mais o póde fazer o Senado da Camera de Angra, ainda que para 
ISSO pedisse algum subsidio ao povo, e contratadores mais interessados; 
e eolio DO maior rocio interior do dito porto se poderiao fabricar nSo 
so caraveloes e caravelas, mas tambem navios grandes, comò ahi ji fl- 
lerao os nobres Cidadaos, Jo3o de Betencor, e Nicoiào Dias, e JoaoCor- 
deiro, e oulros muitos que no tal porto fizerSo jà nao so caraveloes, ca- 
ravelas e navios, mas tambem duas nàos bem grandes. Fructuoso liv. 
0, cap. 3. 

62 Para este porto ha hnma so porta da parte da Uba, que vem 
descendo a iguaiar-se com elle, e per caminho largo, e bom; e d'este 
porto para o Poente vai a iiha encurvando-se para dentro com rocha 
alta, e parapeito por cima, e em baixo bum campo, que serve de ma- 
tadooro da vacca, que d'alli vai para os acougues da Cidade, d'onde a 
este campo vem huma ribeìra que vai dar no mar, ainda mais baixo, e 
deixa sempre o matadouro com muita limpeza, e com caminho em ro- 
da para a Cidade, e muraiha por cima, até dar na principal parte da 
Cidade, d*onde sahe para o mar huma larga, e boa calgada, e lego co- 
laefa a entrar pelo mar bum largo, e alto caos de cantarla com varias 
escadas para o mar, e ferros a que se prendem os caraveloes que v3o 
e vem das outras ilhas carregados, e da mesma sorte os barcos de pes- 
car, e OS barcos de descarga, e desembarcos dos navios, sem ser neces- 
sario que mariola algum metta o pé na agua, pois tudo vem secco, e limpo 
acima do caes, que entra pelo mar bum bom tiro de espingarda; e bum 
tiro de mosquete do Castello de S. Sebastiào, e pouco menos do sobre- 
dito porto de pipas. 

63 Da dita principal porta da Cidade vai jà mais baixo o circulo 

d^ Uba outro tiro de pistola, a dar em bum areal, que chamSo a Praì- 

niHa, e tem porta grande para a Cidade, que cbam3o o Portao da Prai- 

i^tia, com muraiha da parte da Cidade, e aqui n'este areal se faziSo tam- 

Ideili muitos navios, e aioda galés, que defendiSio as Ilhas de piratas; e 

%ora em tal areal so se desfazem navios, quando em alguma tempestade 

quebrao as amarras, e vem a costa: com pouco entremeio de rocha, e 

^om mesmo circulo se segue em baixo outro menor areal chamado o 

^orto Novo, que pega ji com a Fortaleza grande, e celebre que chamao 

Q monte do BraziI, de que logo trataremos; e para o dito porto, ou por- 

Voi. u 3 



34 IIISTOIUA INSIXANA 

tinho novo, por ser allì rocha alta Ma Ilha, Dao ha scnao huma eslreita 
aberta por onde a pé se desce abaixo, e nao tem outra servontia para 
a Cidade. 

CAPITULO IX 

Da maior Fortaleza, ou Castello de Angra. 

64 Do dito porto, ou Portinho Novo, que fica da parte do Nascente, 
continua a Uba para o Poente, cousa de bum quinto de legoa, ou tiro 
de bcsta, e vai dar em outra maior babia, a que cbamao o Fanal; d'este 
quasi pescoso da liba (que ainda nao be posto muito alto) vai subindo a Uba 
moderadamente em direitura do Sul, e faz buma mais alta planicie em 
cima, quasi redonda, que teri meia legoa em circuito; e d'este pescoco 
da Uba sabe, e se levanta buma cabota tao alta, que consta de quatro 
altos montes; bum que vai por bum torco de legoa ao Sul, inclinando 
ao Sueste, e outro que da parte do Poente vai para o Sul tambem, e indi- 
nando ao' Sudoeste ; e de buma, e outra banda, com rocba sempre talhada, e 
altissima sobre o mar, e por entre estes dous montes, comò por entre as ore- 
Ibas de t3o grande cabc^a, sobe da dita planicie outro terceiro monte, que 
cbamao o das Cruzes, e ja menos alto, mas que jà se sobe todo, e n3o ainda, 
scnao em caracol, por ainda ser ingremc e bem alto: e d'este terceiro monte 
em direitura ao Sul vai abatendo tanto està montanba, que entre os di- 
tos montes das sobredìtas montanbas faz buma caldeira t3o profunda, 
que dizem alguns estar ao olivel com o mar, que corre pelo Nascente, 
e Poente dos dous montes ou orelbas, corno se a tal caldeira fosse a 
cova do ladr9o d'osta borrcnda cabcga; e o fundo d*esta cova tem mais 
de moio de terra de semcadura, e fructifera, e n'ella nao ba sinal d^^ 
fogo algum. 

65 Adiante da caldeira em direitura ao Sul se levanta o quarto 
monte, e na niesma altura dos prìmeiros dous, representando a testai 
de cabeca tao monslruosa, e todos os taes tres montes dianteiros fazecn 
fronte ao Oceano com tao alta, e despenbada rocba, que póde ser ques* 
tuo, qual dos dous ao outro mette mais pavor, se o Oceano ao rocheAo, 
se tal rocbedo ao Oceano. certo be que o Oceano sempre Ibe Dea de- 
baixo, e mais supcrior fica o rocbedo, do que profondo o Oceano, e 
oste cm baixo corre tao bumiidc, que nem se sabe que de cima Ibe cabisse 
alguma bora, nem que o mar alégora tirasse do lai rocbedo, pcdra a/- j 



UV. VI GAP. IX 3S 

goma, e assim corre l9o limpo alli o mar, que passio as maiores nios 
b&SL JQDto à rocba, e que com todo'o cuidado de n'ella nem locar; pò- 
rem soccedeo jà que huma grande nào foi tao ìmpellida de furioso Sul, 
que tocou na rocba; e fez-se em pedacos, sem tirar pedalo d'ella; e de 
moitos homens que se atreverao a langar-se a rocha, e querer subir por 
ella, Guidando a seus pés, e mSos darla o temer azas, cahirao despe- 
nbados tantos, que so bum (e conta dguem que outro mais) cbegou fi- 
nalmente onde escapou» e teve que contar toda a vida. 

66 Cbegado pois o tempo em que Castella entrou no governo de 
Portugal, e em que emfim entrou na Uba Terceira, (comò adjante di- 
remos) fez o prudente Felippe II tal conceito de quanto Ihe importava 
està Uba, corno cabega das mais, e tal juizo do sobre descripto monte 
do Brasil, que lego lego tratou de fundar niello bum Castello, que n3o 
so Ihe defendesse a Terceira, mas ainda as mais ilbas, ou as restaurasse 
30 menos, se por inimigos fossem entradas; e assim passado o anno de 1 

1590 e decimo depois de ter tomado a Corea de Portugal, (tempo i 

em que faleceo o Doutor Gaspar Fructuoso, anno de 1591, quando 
ainda d'està Fortaleza n3o podia dìzer mais) entao, baveri 124 annos 
pouco mais ou menos, sendo nomeado para Governador da dita Forta- 
leza bum Castelbano, cbamado D. Antonio de la Puebla, e Bispo deAn- 
gra D. Manoel de Gouvea, por ambos foi lan^ada, e com grande festa 
e assistencia, a primeira pedra da tal Fortaleza ; e be muito de notar 
qne bouve logo alli quem exclamou, e disse que n'ella fundavao bum 
grìlhao para toda aquella Uba, etc, e o tempo depois mostrou (corno 
ver^QAOs) quanto este dito parece ter sido buma profecia. 

62 Cometa pois da parte da Uba a entrada para està Fortaleza em 
boma Ermida de Nossa Senbora da Boa Nova, que tem seu Hospital 
para os doentes soldados do Castello, e com agua dentro, e cerca ca- 
paz de tudo, e em dìstancia do Castello bum tiro de mosquete; adiante, 
e poaco mais de bum tiro de espingarda, està buma fonte perenne com 
seu chafariz, bicas, e tanque, agua boa de que ordinariamente bebé a 
gente do Castello, e tem casa, e guarda do Castello, e assentos com bella 
vista; e d'aqui cometa jé a subir a Uba, mas moderadamente, (por 
aquelle seu pescoso que fica entro o Porto Novo, e o do Fanal acima 
ditos) até das em bum grande fosso de muitas cavas quadradas, e roui 
fundas, abertas ao picao, que entro si se dividem com paredes de dous 
palmos de grossura, e pedrarìa, até i fatai muralha da Fortaleza que 



3G 1IIST0RTA INSUrjlNA 

assim fica inacessivcl; mas ainda mais o ficaria, (dizem muitos) se o tal 
fosso se cavasse tanto (corno se póde fazer) que o mar passasse do Porto 
Novo ao Fanal, pois he distancia breve, (còrno acima vimos) e ficarìa a 
grande Fortaleza feita huma segimda liha; mas se convem tal fazer-se» 
là veja quem mellior o entende, pois nao póde viver milito o corpo, 
a quem pelo pescogo cortao a cabega; e a serventia até agora se reme- 
diou com larga, e forte ponte de madeira que vai sobre o fosso para a 
muraiha, e acaba com grande alcap3o de porta levadica, que per cor- 
rentes de ferro se levanta por toda o noite inteira, e com fataes gnar- 
das sempre, e perpetuns sentinellas. 

68 Segue-se pois a muraiha, que por aqui corre entre Nascente e 
Poente, e para elles com algum, mas pouco circulo, e toda do pedra e 
cai, e tufo; e he tao alta, que ainda aonde os fossos jà nSo cheg3o, (por 
abater multo a terra os ditos dous portos. Novo e Fanal) nem ahi sua 
altura, e seu solo he capaz de escadas Ihe chegarem; e juntamente he 
ilo larga, que passa de doze palmos de largura, e em cima tio incli- 
nada, e tao liza para fora, que caso negado que acima se chegasse de 
fora com escadas, ainda d*ellas para dentro diflìcilimamente poderia al- 
guem saltar, sem que o derrubasse qualquer homem que de dentro es- 
tivesse; porque da banda de dentro he o terrenho de tufo, e t9o alto, qua 
jé por dentro nSo passa a muraiha do peito de hum homem, com que 
fica a Fortaleza incapaz ale de minns, e de se Ihe abrir brecha; e so pelo 
ar com bombas se Ihe póde fazer damno, cousa que ha menos annos se 
inventou; e nem padrastos tem perto de si, d'onde possa artelharia pre- 
judicar-Ihe multo: e assim corre està muraiha desde o Porlo Novo, e Oriente 
até do Fanal da banda do Occidente. 

G9 No melo d*esla distancia, e immediatamente aos fossos sobre-^ 
ditos està a soberba porta do levadiQO porlao, e por ella se entra err^ 
hum tal corpo de guarda, que duzentos homens armados cabem n*ell^ . 
e he de alla abobada por cima, sobre a qual corre o solo de tufo juntjo 
a muraiha, e debaixo corre o dito corpo da guarda, com calaboucos tev^ 
riveis, golinhas de soldados a ellas condemnados, e outros instrumentos 
de castigos militares; e acaba o corpo da guarda com outra grande 
porta, pela qual se entra em huma grande praca, que de comprìmento 
tem hum tiro de mosquele de Leste a Oeste, e de largura hum bom tiro 
de espingarda de Norie a Sul, alò comefar a levantar-se o monte das 
Cruzes, que tem adiantc cm direilura a profunda caldeira sobredita» 9110 . 



LIV. VI GAP. IX 37 

acaba com o quarto monte da altissima rocha para o mar do Sul, a que 
lodo acompanhao os outros dous montcs, que correm pelo Nascente, e 
Poente. 

70 A dita praca ou terreiro d'està Fortaleza tem logo ao entrar, e 
para o Oriente, Imma Igreja que tem seu CapellSo mór com boa con- 
grua d'cl-Beì, e Oca do Norte amparada nao so com o mais alto solo 
quo por cima corre junto à muratila, mas tambem com està mesma, sem 
poder receber damno de fora; para a parte do Sueste est3o huAas taes 
cisiemas, que levSo tres mil pipas de agua; e voltando para o Poente, 
antes de chegar aos pés dos montes, està jà bem comecada segunda, e 
somptuosa Igreja, que parou por muitos annos, e talvez que ainda n3o 
esteja acabada; e adiante duella, e para o mesmo Poente correm tanta$ 
mas, ou quarteis de casas de pedra e cai, e dous sobrados, que podem 
alojar quinhentos soldados, e ordinariamente tem trezentos vìzinhos, e 
n*eiies quasi toda a casta de ofDciaes, e casaes inteiros; e correndo para 
o Norte se segue o Nobre Palacio dos Governadores do Castello, que 
fica com a frontaria para o Nascente defronte da primeira e ahtiga Igreja 
e sobre o grande Rocio, vendo os exercicios de guerrra que n'elle se 
fazem; e ainda outro menor Rocio corre de Palacio para ó Poente, e he 
tio nobre este Paco, que nelle morou annos o Senhor Rei D. Àffonso 
VI e n'elle mais que em Lisboa odeo por seguro de infieis alvitres seu 
irm3o Senhor Rei D. Pèdro II. 

71 Continuando pois com a muralha (que nunca despega) vai ella 
por diante da parte do Norte dobrando para o Sul, e descendo sempre 
janto ao sobredito Porto, ou Portinho Novo, e jà d'aqui por diante vai 
sobre o mar, ou porto grande, e bahia da Cidade, e vai muralha mais 
baìxa, para melhor assestar a artelharia aos navios, e he muralha tam- 
bem de cantarla, e tufo, a quem faz costas a penha continuada do alto 
monte, e por cima, junto à muralha, n3o so vai caminho largo, e aberto 
Ila rocha ao picùo, mas tambem em algumas partes v3o pedacos de vi- 
Bha bem plantada, que form3o suas Quintinhas de grande recreacSo, e 
com algumas arvorcs, e suas pequenas fontezinhas, e de excellente agua 
dece; diegada està murailia hum tergo de legoa ao mar, em direitura do 
Sol, aonde està hum Forte de multa, e muito grossa artelharia de bron- 
tt, assim de alcancar ao longe, corno de baler ao perto, e com casa 
n'elle de soldados, e munigoes, e sua fontinha de agua doce; e aqui co- 
^eca aquella rocha altissima, e talhada ató o mar. E a este Forte chamSo 



38 HISTOWA INSCLANA 

Forte, 6u Ponte de Santo Antonio ; e porque d'este Forte de Santo 
Antonio faz jà mencao Fructuoso liv. C cap. 3, antes de Felippe entrar 
em Portugal, segue-se que foì fundado multo antes pelos Portuguezes 
Reìs, e que primeirosechamou toda este Fortaleza ade Santo Antonio» e 
depois se chamou de Sao Felippe, por Felippe II, a acabar, e refonnar, 
e hoje se chama de SUO Joao Baptista. por o Resteurador de Portugal, 
Senhor Rei D. Joao IV, a conquistar, e restaurar. 

72 Continuemos pois com a muralha, que deixamos no canto que 
da outra parte fica olhando para o Occidente, e caminhando tambem para 
Sul sobre o porto do Fanal, e continua ainda sempre, e talbada em 
rocha viva até a outra ponta do Sul por baixo do segundo monte, caja 
penta se chama o Zimbrciro, e aqui est«^ outro Forte com tante, e tao 
boa artelbaria. comò o da Ponte de Santo Antonio, que da parte do 
Oriente Ihe corresponde, e tanto jà para o Sul, e em tal corresponden- 
cia, que ji nao pode passar navio algum de huma parte a outra, sem 
cahir nas balas de bum, e outro Forte; neste do Zimbreiro està huma 
moderada lapa, de cuja naturai abobada està sempre gottejando boa agua 
doco em bum ìanque inferior, que n'elle faz igual fonte para este Forte, 
do que a do Forte de S. Antonio. 

73 Em seu circuito tem este muraiha, em a altissima rocha do Sul, 
tem huma boa legoa, e toda he tao inaccessivel, que junto à porte prìn- 
cipal sahe fora com deus baluartes, e n'elles tees pedreiros de bronze, 
de huma, e outra parte, qne Ihes nao póde escapar, quem temerariamen- 
te quizes^ investir a porte; e além d'isso tem lego em o fùndo da mu- 
ralha quatro postigos falsos com interior via de abobada para o alto de 
dentro da Fortaleza; e em o restante da muralha que està sobre a Cìda- 
de, até além do Portinho novo, vao em baixo algumas plateformas com 
fortìssìmos Pedreiros, e interìores casamates, e vias para cima; mas da 
parte do Occidente, e ]à sabre a bahia do Fanal, nao vao jà em baixo 
plateformas, mas a muralha porieima até o Zimbreiro, e sempre telhada 
até mar, e por cima artelbaria, espccialmente de alcance para os na- 
vios, que nem chegar pcssao ao perto. 

74 Finalmente tem este Forteleza cento e sessente pe(as de arte- 
lbaria, repartidas todas pela jà dite muralha, e entre ellas canhoes de 
quarente e oito de calibre, e huma ainda maior peca, e muito celebre, 
a que chamao a Malaca, mais comprida, e mais grossa com excesso ; e 
este artelbaria quasi toda he de bronze; Jtem mais de quinhentes pracas 



, LIV. VI CAP. X 39 

de soldados» e bum Auditor de letras, quo com o Goveruador os julga 
a todos; tem todas as municoes de guerra; tem agua, e lentia dentro em 
abundancia; e até pedreiras de pedra de cantarla; e além de estar sem- 
pre bem provida de mantimentos, e ter seis atafonas dentro» e muita 
caca de loda a sorte, e pudera ter gados, de cabras, e ainda de vaccas, 
assim corno tem de peixe, se houvesse mais providencia em os Gover- 
nadores, comò ha em a vigia, pois até em o mais alto monte, sobre o 
Forte de Santo Antonio, tem bum Facheiro, ou Atalaya com sua casa^ e 
soldo, e dous pilares altos, bum para a parte do Nascente até o Sul se 
vigiar, ontro para divisar do Sul até o Poente; e da parte d'onde appa- 
recem alguns navios, e poem outros tantos sinacs, ou facbos embandei- 
rados ; se porém apparecem mais de sete, poem-se huma so bandeìra 
grande, e de guerra, e entao a Fortaleza dispara peca de leva a recolher 
08 soldados que andarem fora, e a Cidade toca a rebate. EmRm que, se 
se quizessem dizer as particularidades d'està inexpugnavel Fortaleza, se- 
ria nunca acabar; e assim basta dizerem eruditos, quo nao se sabe haver 
em loda a Europa Fortaleza mais inconquistavel, que osta da Uba Ter- 
ceira, cbamada o Castello de Angra. 

CAPITULO X 

Da famosa Cidade de Angra^ e seu nome. 

Iti Descuberta a Uba Terceira pelos annos de 1446 ha quasi du- 

bentos e setenta annos, e descuberta pelos mareantes que vinhSo das 

Ilbas de Cabo Verde, e pela banda do Norte no posto chamado Quatro 

Ribeiras, enlSo dos que aiti ficarao, passarao alguns, quatro legoas abai- 

20 para o Sul, e derao na bahia que acharSo junta ao monte do BrasiU 

6 alli fizerao sua tal, ou qual povoagao, e Ihe chamarSo Angra, por ser 

estylo antigo de mareantes, e descubridores, que és melborcs bahias que 

achavSo, cbamavao Angras, comò se le muitas vezes em Joao de Barros; 

dos outros primeiros povoadores, que entrarao em as quatro Ribeiras, 

se passar3o outros para a banda do Oriente, e derao em huma grande 

praia de area, com multo terrenho à roda plano, muita agua, e capaz de 

em breve cultivar-se, e alli fizerSo tambem suas povoa^oes comò pude- 

rao. Qual porém d'estas duas povoagoes fosse primeiro que a outra, isso 

lìao consta; e so consta, (comò tocamos acima cap. G) que Angra nunca 



40 insToniA insulana 

à Praia foi sngcita, e primeiro foi Villa do que a Praia; pois da sua pri* 
ineira vitorìa dos Caslelbanos maDdou logo a nova a Àngra, comò a sua 
cabeca: e ainda que o unico Capilao de loda a Ilha (Jacome de Bruges) 
residia o mais de tempo em a Praia, isso era por ter là terras para si 
tomadas, e n3o por ser a Praia cabeca de loda a Uba, pois està logo se 
divìdio em duas Capitanias» e o Cortereal foi o que escolbeo das duas, 
e a de Angra Tui a que escolbeo. 

76 Tambem quando fosse creada Villa Angra, tambem nSo consta» 
(que eu saiba) e parece o foi logo ao principio pela voz do povo, e com 
consenso tacito dos Reis ; mas consta quando foi levantada ao foro de 
Cidade, pois em sua bistoria diz Guedes cap. 7, que por El-Rei U. Joao ID, 
foi Angra feita Cidade em H de Agosto do anno 1333, ba mais de cento 
6 oitenta annos, e bavendo jà cento e sete que a dita liba Terceira era 
descuberta; mas da Madeira o FuncbaI bavia ja mais de vinte annos que 
era feito Cidade por El-Rei Dom Manoel em 1508 bavendo quasi noventa 
que tinba sido descuberta por Joao Goncalves Zargo em 1419, porém 
Penta Delgada em Sao Miguel foi feita Cidade em 15iG treze annos de- 
pois de ser Angra, e pelo mesmo Rei D. Jouo III. 

77 Comeca pois Angra com a sua babia sobre'iita, que Qca entro a 
Castello de Sao Sebastiao, ou Porto de pipas, da parte do Oriente, e o 
outro Castello, ou praga grande de Suo Joao Baptista, que so distilo bum 
pequeno quarto de legoa entro si, e outro quarto até a Cidade, e he ba- 
l)ia capaz de grandes frotas que se recolhem, o provém alli com toda a 
seguranca de quaesquer inimìgos, pela tanta, e tao proxima artelharia \ 
de buma, e outra banda ; e o ancboradouro be limpo de cachqpos, d 
bancos de area, e firmSo n'elle as andìoras tao seguramente, que nunca 
arrastSo, e su quebrando, desemparao o navio ; fica porém este porto^ 
em direitura ao Sueste, a quem cbamao là o vento Carpinteiro, porqud 
algumas vezes he tao rijo, que se as amarras nSo sao boas, e de bom 
fio, as fóz arrebentar, e dà com a embarcaQuo no areal da Prainba, oa 
no Porto Novo, e sempre a gente se salva, e ainda parte da carga; sendo 
que, ainda até em rios, corno no Tejo, e no Douro, muitas vezes se per-^ 
dem embarcacoes sem se salvar cousa dellas, e outras vezes acontece^ 
que mesmo dono, Mestre, ou Capitao do navro, por se livrar a si d^ 
dividas que lem tornado sobre elle, u deixar perder, e para isso talve*^ 
chcga a dar-lhe furo secreto, e eiilao faz maior naufragio, perdendo a 
propria alma. 



LIV. VI CAP. X 41 

78 Termina-se oste grande porto com o jà descripto caes, que co- 
meta a sabir da principal porta da Gidade, em que està corpo de guar- 
da, e casas por cima de soldadesca paga, e perpetua ; ao entrar da CU 
dade, à mio esquerda, està a Real casaria da Airandega com terreiro 
ladrilhado de cantarla, e muraiha sobre o mar, capaz de artelharia» e 
aqoi he o passeio, principalmente dos bomens de negocio, e Mestres dos 
navios, com boa vista d'elles, e do porto todo : a dita Alfandega, além 
dos seus Tribunaes, tem grandes despejos, e armazens para todo o de- 
sembarco de navios, de Frotas, e de Armadas, e para o provimento ne- 
cessario: à mao direita se alarga bum terreiro de calgadacom humcba- 
fariz no meio, allo, e de muitas bicas de doce, e boa agua» e ainda mais 
a mao direita volta sobre o mar, e ao pé da rocha da Uba, junto à mu- 
raiha de baixo, bum capaz caminho, e quasi rua que ebega ao matadou- 
ro; mas nem se communica n'este baixo com o Porto de pipas, e menos 
com Castello de S. Sebastiao. 

79 Do sobredito'chafariz do porto, correndo de Sul para o Norte, 
vai buma rua tSo larga, e tSo direita, e t3o unida, e nobre casaria, que 
por antonomasia se chama a rua Direita, e de cada banda vai ladriiho, 
que tem de largo cada bum tres pedras de cantarla, por onde costuma 
ir a gente que anda a pé, e pelo meio ainda vai tao larga, e boa calga- 
da, qae a gente que por ella anda a cavallo, ou em carruagem, nao se 
eocontra buma com outra, ebega està rua com bastante comprìmente à 
praca da Cidade, e na mesma direitura torna a continuar da outra parte 
da pra^a até outro alto chafariz de muitas bicas, a que cbam3o o Cha- 
fariz do Collegio, por o da Companhia de Jesus Ibe flcar da banda do 
Poente ; e ainda a rua vai com a mesma direitura, e casaria até o Paco 
do Marquez de Castello Rodrigo: do mesmo porto outra vez toma a sa- 
hir outra rua, cbamada de Santo Espirito, que da mesma sorte vai dar 
quasi junto a mesma praga, e da banda do Poente: da banda do Orien- 
te vai terceira rua, chamad^ de SSo Joao, desde o portao do Porto da 
Prainha, e t3o larga, tao direita, e t3o ladrilhada, e calgada, comò a pri- 
meira rua, cbamada Direita ; lego mais adiante, e da mesma banda do 
Poente corre tambem a quarta rua do mesmo mar, ou do Sul para o 
Norte, que cham3o da Palha, sondo que n!alla nSo ba casa alguma de 
palha, nem terreira alguma, ou desunida, mas teda tao fechada de casa- 
ria, tao ladrilhada, e direita, comò as suas parallelas sobreditas ; e do 
mesmo modo mais avante corre desde o Sul, rocha, ou muraiha do mar. 



42 HlSTOniA INSULANA 

corre, digo, quinta rua, que neste principio be moito larga, até detraz 
da Sé, chamada a ma de Saiinas, mas continua mais estreita, e diretta 
com casaria unida pela banda so do Oriente, e pela banda do Poente 
Ibe Oca o grande vao da Sé, de quo fallaremos. 

§0 Da mesma parte do Poente, tambem do Sul para o Norte, corre 
a rua chamada dos Cavallos, por d'estes se fazerem todos os aunos fes- 
tas Da tal rua, que he capaz d'isso, e por isso nem be lageada, nem cai- 
cada, mas de terreiro seu, e plano, e comodando desde a muralba do 
mar, a que especialmente chamao a Rocha, e com bum Chatariz para 
dentro da Gidade, continua està rua bem comprida para o Norte, pas- 
sando pelo pé do AIjube, e Pa(os do Bispo, vai parar defronte do Hos- 
teiro das Freiras da Esperanga. Citava rua corre da sobiedita rocha do 
Sul para o Norte, e se dian^a a rua de Jesus, muito comprida, e bas- 
tantemente larga; e do mesmo modo corre adiante, jà desde o Portinho 
Novo, e do Sul para o Norte a nona rua, chamada dos Canos Verdes, 
e vai parar ja defronte do campo, a que chamao a$ Covas, junto ao Ck>n- 
vento de Nossa Senhora da Gra^a; em. decimo lugar vao ainda varias 
ruas com menos ordem desde o cimo do Portinho Novo para o Norte, 
as qaaes chamao o Quarte), por aqui se alojarem os soldados do Cas- 
tello grande, quando nelle todos n3o moravao; e vai parar este Quartel 
pela banda do Castello à Boa Nova, e mais por baixo ao Convento das 
Freiras de S. Gongalo, até o dito Campo das Covas, tudo jà Fronteiro 
do Castello, com so a companha de entremeio, de bum bom tiro de 
mosquete. 

81 Tornando agora à praca da Gidade, d'ella sahe huma larga, bem 
direila, e a mais comprida rua, a que vem desembocar as dez sobredi- 
tas mas, que vem do Sul para o Norte; a que està fatai rua undecima 
corta de Oriente a Poente; e para a parte do Sul tem quasi no melo a 
dita Sé, e a rua da Sé se diz; e para a parte do Norte tem o Convento 
de Freiras da Esperanca, e no topo em cima acaba com o campo das 
Covas de huma parte, (que dà tambem nome à rua) e da outra o Con- 
vento dos Gracianos; e logo da parte d'elles està bum grande Chafariz 
de bicas, e tanque, e de exceliente agua; e d'aqui cometa bum bairro 
da Gidade, chamado Sao Fedro, que dà o nome à ma, d'onde logo ao 
principio sahe bum vistoso, e bcun comprido caminho para o Castello 
grande, e sem mais casa alguma, que da parte do Oriente a cerca, e 
Convento de Sao Gonzalo, e da parte do Poente campina de hortas, e 



iiv. VI CAI». X 43 

searas até a bahìa do Fonai, vista mui recreativa, e aiegre: mas a rua 
de Sao Fedro continua dircita ao Poente, ale a porta da Cidade, que se 
diz Santa Gatliarina, distancia de tiro de lium grande mosquete, ou es- 
merilhào; porém da parte das bortas tambem nao tem casaria, mas da 
parte do Norte a tem cóntìnuada, e boa, e com algumas Quintas Qara o 
Norie, qne quanto para o Sul, no meio desta rua sabe l)um caminho 
plano, e largo, e boas carreiras de cavallo até a balna do Fanal, d'onde 
sahem algumas ruas com casas terreiras, mas de talba, e as mais de 
pescadores. 

82 Deixo as travessas perque {se communicao estas ruas, porque 
desde junto a Àlfandega, e porta da Cidade, vai logo buma tal rua de 
Oriente a Poente, que ebega diretta ao Quarte! do Castello grande, e 
ainda se reparte para a Rocba, e Portinho Novo; e outra travessa vai 
por delraz da Sé até Sao Concaio: e até da grande rua da Sé indo bu- 
ina travessa para a Portaria das Freiras da Esperanga, volta em bama 
])oa rua para o Oriente, a qual por isso se chama a rua da Esperanga, 
e vem dar em outra travessa, muito larga, e formosa que tambem sabe 
da rua da Sé, e volta continuando em direito da rua da Espeiaiga com 
a rua dos Estudos, que Ibe ric3o da parte do Norte, com o pateo dos 
Estudantes, e o Collegio da Companbia, e o terreiro da sua Igreja, até 
dar està ma em o Cbafariz que està acìma da praga, e abaixo dos Pa- 
tos do Marquez; e daqui vai, jà mais por cima, outra larga, e taocom- 
prida rua, de casaria continuada de buma, e outra parte, que vai aca- 
bar na Graca, e nas Covas, onde acaba a d.) Sé, e ambas ornando muito 
terreiro do Convento; e està rua de cima se cbama a rua do Rego. 

83 E aquella larga travessa, que da rua da Sé vem, e reparte as 
daas ruas da Esperanga, e dos Estudos, d'aqui na mesma largura vai 
subindo sempre ao Norte, cortando a rua do Rego, e chega até Santa 
Luzia, Parochial que fica bem em cima; e està ladeira se cbama a Mi- 
ragaya, a que em o alto cerca o bairro cbamado de Santa Luzia, que 
por cima da Cidade tem muitas outras ruas, que por brevidade deixo ; 
e tambem tem seu Cbafariz da mesma boa agua da Cidade; ao redor da 
qual vai por cima este bairro entestar com o Castello de Sao CbristovSo, 
(de que abaixo fallaremos) e ebega a partir com o bairro, e Parocbia de 
S. Bento, comò veremos logo. 

84 A praga pois que deixamos be bum Rodo mui plano, e muito 
direito, em que se fazem os exercicios da milicia, e se correm todos os 



44 HISTOBIA INSULANÀ 

annos touros, tranqueiradas as mas que à praca vem. Niella cstSo os 
Pa(os do Senado da Camera, e do Tribunal da Justica, e Audiencia gè- 
ral, e as cadeas, e «nxovias por baixo, e no meio huma alta torre de 
cantaria, e em cima os sinos, e relogio da Cidade, com nobre mao para 
^óra, .que sempre mostra as horas que sao; e por baixo d'està torre as 
casas do Carcereìro, e prczos menos culpados, e mais nobres; e no canto 
para o Norte està o acougue commum da Cidade. Detraz d'este edificio 
vai bum pequeno campo iadeirento, por parte do qual desoB buina boa 
ribeira, que vai lavando as cadeas, e por baixo da praga em abobada 
passa entremqio da rua direita, e Santo Espirìto, e vai despejar ao 
mar. E aiQrma Guedes em sua bistorìa, que os da govemanca da Cida- 
de fizerao està pra^a em 1610, e em 1611, levantar3o os sobreditos 
Pa^os, torre, e cadeas, e gastarSo nove para dez mil cruzados, que mais 
em dobro custariao hoje; e devem alargar mais para traz o edificio da 
publica Audiencia, e da Camera, inda que seja comprando alguma morada 
de casas, por ser assim necessario ao bem commum, e à decencia. 

85 Da parte do Sul cerca a està pra^a nobre casaria,. e da mesma 
sorte da parte do Occidente; da parte do Norte corre o largo corpo da 
Guarda da Cidade, baixo, e alto; e logo se segue huma celebre Ermida 
de Nossa Senhora da Saude, ao depois da qual sahe da mesma praca 
huma travessa que so chama a da Saude, e vai dar no Cbafariz que està 
junto ao Collegio; e na outra quina da travéssa se segue a casa da poi- 
vora da Cidade, com interior cerca dentro, que vai por dentro topar em a 
grande cerca dos Frunciscanos; e na fronteira da Pra^a se seguem ainda 
algumas casas que acabao defronte do Paco da Audiencia, entre a qual, 
e as ditas casas saho da mesma praga para o Poenle huma larga, e su- 
bida calcada para o terreiro de Sao Francisco, com o muro de sua lar- 
ga cerca da parto do Norie, e outro muro da parte do Sul, por baixo 
do qual vem a sobredita libeira, que passa peias cadeas; e porque estas 
ficao da parte do Nascente olhando para o Poente, por isso d'asta par- 
te, e na parede das casas que alli estao, fica bum Oratorio allo, e com 
alias portas, que nos dìas Santos de guarda se abre de manhaa, e n'elle 
bum Capcltao dìz Missa, a que assìstem, e vem bem os fronteiros pre- 
sos, e se encommend3o a Deos. 

se Em outro lado das cadeas, defronte da rua de Santo Espiri- 
to, sahe da mesma praca, acima para o Nascente, outra e mui comprida 
rua de boa calcada pelo meio, e de cada parte ladrilhos de cantaria, e 



LIV. VI GAP. X 45 

casaria sempre continuada, mas subindo sempre para o Nascente em 
competencia da rua da oiitra banda que sobe a Suo Francisco, porque 
assrm para o Nascente, corno para o Norte, he de terrenho allo està Ci- 
dade, sendo qoe para o Sui, e Occidente lie de mui piano terrenho: so- 
be pois a dita rua (que chamao nao sei porque, Rua do Gallo) até a no- 
Lre Collegiada, e Parochial grande da Conceigao; e até aqui, desde a rua 
de Santo Espirito, n3o ha travessa alguma para o Sul, e mar d*elle; mas 
da outra banda sahe huma larga rua, que vai tambem dar a Sao Fran- 
cisco, e com outro Chafariz de boa agua; e d'està Conccicao, assim co- 
rno continua pelo Oriente a Cidade para o Norte, assim tambem contì- 
nua para o Sul, e Sueste, até parar com o ji dito Castello de S. Sebas- 
ti3o, que descrevemos ji\ no Capitulo Vili. 

87 Entre pois o tal Castello, e a dita Concetcao se estende o vis- 
toso, e alto bairro que chamSo do Corpo Santo, de que a maior parte 
lie de mareantes, que tem em hum alto para o mar a sua celebre Er- 
mida do dito Corpo Santo, e tem tantas ruas, ou travessas, que seria 
importuno em contal-as; so digo que para o mar, para ambos os Cas- 
tellos de S3o Jo3o Baptista, e de S3o SebastiSo, e ainda para o melhor 
da Cidade tem este bairro a mais ampia, e melhor vista; e n3o so pela 
costa do mar, e junto A sua muraiha, mas tambem pelo mais a dentro 
tem ruas para o porto da Cidade, e para a rua de Santo Espirito a rua 
que cham3o a Ladeira, acima da qual, e jà pcrto da Conceigao esté hum 
alto, e grande terreiro, e n'clle hum bem comprido Palacio do Morga- 
do, e Chefe da nobilissima familia dos Cantos, fldalgos de que abaixo 
em seu lugar trataremos; corno tambem dos chamados Homens Costas, 
que habitSo bem junto à ConceigSo, e de outros muitos; pegado poróm 
com OS ditos Cantos fìca huma sua nobre Ermida, chamada Nossa Se- 
lìhora dos Remedios, que^est^ nobremente reediflcada, e omada, e he 
de grande concurso, e devogao, com o terco cantado cada dia. 

88 Por cima da outra rua, ou subìda, que da pra(^ sahe para o 
Norte, fica hum bom terreiro plano, e quasi redoodo, aonde està o Con- 
vento do Patriarcha Serafico, e para a banda do Sul aquella larga rua 
que com o seu Chafariz vai ao melo da do Gallo, e mais por cima ou- 
tra que vai à Conceic^o, e d*esta volta correndo pelo Oriente com gran- 
des terras, e hortas para elle, e em longa direitura ao Norte; mas de 
baixo, e da parte do Poente Ihe vem huma larga rua chamada de S. Se- 
bastiao, por n'ella ficar hum novo Canvento de Freiras de singular obser- 



46 IIISTOIUA INSILANA 

vancia, que tcm fora outro Chafariz da Cidade; e pouco adiantc entra» 
e volta està rua com a da Conceigao, e vai formando o novo bairro de 
S3o BenU) ale és portas do mesmo nome, por cstar mnito porto logo 
a Parochial do Sanie para a parte do Nordeste; e para a parte do No- 
roeste vai por fora das portas de Suo Benio huma milito recreativa e 
moderada subida até o Convento de Santo Antonio dos Capuchos, devo- 
tissima saliida da Cidade, e muito recreativa com sua deliciosa cerca: 
mas antes de chegar às portas de Sao Sento, e da parte do P^nte fica 
Convento da Concei^ao das Freiras, por amor da qoal a outra ji dita 
se chama a Conceicao dos Clerigos; e defronte da das Freiras para o nas- 
cente fieao as antigas casas e assento, ou Chefe dos Monizes, fidalgos 
muito antigos, com grande jardim, ou Quinta, comò as mais das nobres 
casas d'està grande rua para a parte Uè Nascente. Que quanto por de- 
traz da Conceicao das Freiras vai jà mais ordinaria povoacao, comò pa- 
ra Noroeste atò huma antiga Ermida de Nossa Senhora do Desterro, 
e até cbegar por fora ao mai^ antigo, e terceiro Castello, de que agora 
fallaremos. 

89 Este terceiro Castello foi o primciro que houve em toda a Uba 
Terceira, e se fundou quando ainda Angra nem era Cidade, nem tinha 
tanta gente que a pudesse defender das armadas de Castella, quo com 
Portugal tinha entao guerra, e nem tinha algum outro Castello, ou For- 
taleza em seu porto, e para se recolherem a esle o fundarao os Angren- 
ses em bum onteiro allo quo fica sobre a Cidade para a parte do Norte, 
inclinando a Nornordcste, e Ihc derào logo o nome de Castello de S3o 
Cbristovao; e d'elle diz Frucluoso liv. 0, cap. 3, que era forte Castello, 
e que se renovou depois, e proveo em scu tempo com muuicoes, e ar- 
telbaria; e mais no tal tempo de Frucluoso ja havia em o porto o Cas- 
tello de S50 Sebasliao, e o Forte de SanW Antonio. E accrescenta o 
Doutor quo o Capilao Donatario Manoel de Cortereal morava em o tal- 
Castello, tendo-o por capaz disso, e que depois se mudàra para o baixo 
do mesmo Castello, .e habitava no Paco que ainda lioje chamào do Mar— 
quez de Castello Rodrigo, scu succcssorna Capilania, eque tem bello jar- 
dim, e que tudo herdou Manoel de Cortereal de sua irmaa D. Iria, mu- 
Iher de Pedro de Goes, nobre fidalgo. 

90 Jà boje porém nao sei que n'este Castello de Sao Cbristovao 
baja mais que as muralhas era seu circuito, e interior deslricto d'elle; 



LIV. VI GAP. X 47 

sendo quo na Acciamacao de Portugal, com artclharia quo se poz n*este 
Castello de Sao Chrislovno, se fazia grande damno ao (]aste1hano, quo 
estava ein o maior Castello, chamado enlào Sao Felippe, e se este ou- 
tra vez for tornado de inimigos, (ou por Ireigao de quem o governar, 
oa por successos maritimos) cuslarà muilo à Cidade nao ter capaz ain- 
da Castello de Sao Chrìstov3o, para d*elle se valer: e multo mais por- 
que sendo o sitio d'este Castello hum valente padrasto da Cidade, se de* 
via n3o disemparar, antes conservar-se sempre, e fortalecer-se, para quo 
succedendo alguma bora entrar na Ilha inimigo por algum porto da Praia 
ale Angra, e vir sobre a Cidade, nao se faga forte com o dito S3o Cbris- 
tov3o, e d*alli mais facilmente arraze a Cidade; mas està pelo contrario 
d*alli repulse, e fac^a voltar atraz: e quem na Cidade o serve de Ga- 
pitSo da artelharia, ou de Sargonto-mór, em este Castello póde morar 
sempre com i)equena esquadra de soldados, comò para o mar se faz no 
Castello de Sao Sebastiao, e nao se deixar perder t3o importante Cas- 
tello por incuria; do que vira tempo em que Ynuito se arrependao, pois 
quem ao diante nao olha, atraz fica; e cu nunca louvarei (dizia o outro) 
Capitao que disse, nao cuidei. 

91 Tambem este Castello Sao Christovao se cliama volgarmente o 
Castello dos Moìnhos, porque nao menos de doze moinhos tem perto do 
tal Castello a Cidade, donde regiamente he provida, e com tanta abun- 
dancia de agua, que quando a Cidade qucr, faz vir tal ribeira d'ella, que 
entrando nas largas ruas, por as cal^adas d'eilas corre entro os ladri- 
Ihos, deixando-os seccos, e vai parar em o mar; e o mcsmo tambem 
succede quando chove muito, e sempre as ruas eslao multo limpas, até 
de Doite, som necessitarem de outros alìmpadores, porque das janellas 
uno se lanca na ruacousa alguma, e assim nunca se ouve, tAgua vai.i 
porque nao ha casa, que por detraz nao tenha seu quintal, e algumas 
malto grande; e muitas tem da fonte agua dentro, e nunca nas ruas se 
ve despejo bumano algum, o que tanto se estranila em outras terras. 



48 IIISTOULV INSULANA 

CAPITULO XI 

Do tjoverno Ecclesiastico de Angra^ e de seus Bispos sobre iodas 
as nove Ilhas Terceiras^ ou dos Agores. 

92 Consta a Cirladc de Angra de seis Freguczias» (contando tam- 
bem por Freguezia a nobre povoacSo, que està no grande Castello, e là 
lem Capellao mór com alguns priviicgios, e cxcmpcoes especiaes.) A 
primcira Freguezia he a da Santa Se do Salvador, a cujo lado da Epis- 
tola, mettendo-se so o largo da rua dos Cavallos, està o Poco dos Illus- 
trissìmos Bispos, com bom jardim para traz, e agua de beber dentro, 
e de rcgar: e podùra o Pago estender-se mais até o canto acima proxi- 
mo da rua chamada de Jesus, e algum zeloso Bispo vira que assim o fa- 
Ca; pois Ihe rende o Bispado sempre oito mil cruzados, e algims annos 
até dez, e mais. Foi crcado este Bispado à instancia d*eI-Rei D. JoSo HI 
pelo Papa Paulo tambem'III a tres de Novembro de 1534, e com o-ti- 
tulo de Bispo de Angra, e de todas as Ilhas Terceiras; porque ainda qae 
por ordem d'el-Rei 1). Manoel em 1508 foi a Ilha da Madeira D. Jo3o 
Lobo Bispo de anel, que n elle deo Ordens, e chrismou, e se voltou a 
Portugal; e no anno de 1514 em 12 do Junho, e por decreto do Papa 
Leao X o mesmo Rei I). Manoel nomcou primeiro Bispo da Madeira a 
D. Diogo Pinhciro, nunca cste foi a dita Ilha. mas de Portugal a gover- 
nou doze annos até o de i326 per Provisor, e Vigario Cerai, que Ihe 
mandou. E ainda que a el-Rei D. Manoel succedendo seu fllho D. Joao 
III nomeou com consentimento do Papa a U. Martinho de Portugal, sea 
parente, por Arcebispo da Madeira, e de todo o ultramarino descuber- 
to, tambem este unico Arcebispo da Madeira nunca a ella foi, e so Ihe 
mandou hum de anel, chamado D. Ambrosio, que dentro de bum anno 
se voltou a Portugal na cntrada do de 1540. 

93 Logo no anno de 1550 o mesmo Rei D. Joao III alcancou do 
Papa, que por screm as ultramarinas tcrras descuberlas, tao distante^ 
entro si, fizcsse n*ellas Bispados enlre si disiinctos, comò na India, S3o 
Thomè, e lìcassc a Madeira sendo so Bispado com a do Porlo Santo, co- 
mò jii erao a Terceira com as mais Ilhas dos Aforcs, e que seu Me- 
tropolitano fosse Arcebispo de Lisboa; e ludo assim concedeo, e creou 
de novo o Papa; e sendo enlao foilo Bispo da Madeira hum Religioso 
Graciano, D. Frei Gaspar, ainda este a Madeira nunca foi; e o primeiro 



UV. W GAP. XI 49 

proprio Bispo seu, qu6 niella entrou, foi D. Frei Jorge de Lemos, Do- 
minico; e em 1559 so voltou a PorlugaK e Ihe succedeo D. Frei Fer- 
naDila de Tavora, tambem Dominico, e que tambem largou o Bispado, e 
ae Ihé se^uio D. Hieronymo Barrato» Clerigo secular, a quem succedeo 
outro secular Clerigo tambem, D. Luiz de Figueiredo de Lemos, que de 
DeSo da Sé de Àngra foi a Bispo do Funcbal da Madeira. 

94 D'onde se ve» que na Madeira nuDca entrou Arcebispo d'ella, e 
que o unico D. Uartinho de Portugal, que da Madeira foi feito Arcebis- 
po, nem li foi, nem em tal Arcebispado leve algum outro successor, ncm 
i Madeira foi jà mais appellag^o, ou recurso algum da India, ou de Sao 
Thomé, ou do Bispado das Ilhas dos Àcores; mas porque todas as Ilhas 
descuberlas erao da Ordem de Christo, por isso antes que n*ellas hou- 
tesse Bispos proprios seus, mandava o D. Prior de Thomar, com ordem 
d'el-Rel alguns Bispos de anel às ditas Ilhas, e assim no anno de U87 
Ibi às Terceìras D. Jouo Aranha, Bispo Zephiense, e deo ordens n*ellas; 
e depois, jà quasi em 1507 veio às ditas Terceiras D. Diogo Pinheiro, o 
qml sendo D. Prior, e Vigario Goral de Thomar, deo licenza a D. Jo3o 
Lobo Bispo de anel de Tangere, para ir à Ilha Terceira, e niella sagrou 
a Matrìz da Praia; e no anno de 1517 outro Bispo de anel Dumense, D. 
Doarte» depois de ir a Madeira exercitar a Ordem Episcopal, passou a 
bzer mesmo em as Terceiras, e sagrou em Sao Miguel a Parochial de 
Ribeira Grande: assim, ainda que primeiro foi erecto o Bispado da Ma- 
deira, primeiro comtudo entrou Bispo proprio seu no Bispado do An- 
ffn, do que na Madeira entrasse algum seu proprio Bispo; e està he a 
verdade, que da variedade, ou confusao, com que em tal materia fallao 
Giiedes, e Fructuoso em varios lugares, pude com paciencia, e diligen- 
eia colher. corno jà disse no liv. 3 cap. 16. 

05 Creado pois o Bispado de Angra em 1534 pelo Papa Paulo III 
■Ki primeiro anno de seu Pontifìcado, logo no de 1537 foi para a Ter- 
ceira sea primeiro Bispo D. Agostinho, do qual se diz que era tao san- 
to» corno pobre, e que tendo de antes vindo de Lisboa com hum Antac 
Vai Vigario da Ilha das Flores, este o puzera por Parocho, ou seu Cu; 
■^ Da junta Uba do Corvo, mas que depois de alguns annos tornando pa- 
^ Lisboa dito Cura Agostinho, se fez Frade Loio, e por sua exem- 
piar virtude chcgou a ser Capellao d'el-Rei, e nomeado depois primeiro 
^ispo de Àngra, donde, passados jd mais annos, voltou este mesmo 
^- Agostinho por Reformador da Uuivcrsidade de Coimbra, e acabou 

VOL. Il 4 



50 HISTOMA INSULANA 

sendo Bispo de Lamego. Uh ditoso tempo, em que da virtode se fazia 
mais caso, que do sangue, e aioda que das letras; e o mais pobre Ca- 
ra, por mais santo, era eleito por Bispoi e boje (oh desgraga!) nem o 
mais virtuoso, e mais letrado de bum inteìro Cabido, se clege em Bis- 
po d*elle. 

96 segundo Bispo de Angra foi D. Rodrigo Pìnbeiro, Dootor em 
Theologia, de quem dìzem, ter jà sido Govemador, ou Regedor da Ca- 
sa do Civel: porém d3o foi és Ilhas, e so Ibes mandou por sea Vigano 
Cerai bum Doutor em Canones, e bum Bispo de anel, cbamado D. Bai- 
thezar; e o proprietario D. Rodrigo foi promovido a Bispo do Porto. 
terceiro foi D. Frei Jorge de Santiago, da Ordem de S. Domingos, Mes- 
tre em Theologia, varSo de grandes lettras, e virtude; e entroa no Bis- 
pado em o anno de 1551, e foi por el-Rei mandado ao Concilio Triden- 
tino, e assistio nas primeiras sess5es d*elle; voltando celebrou Synodo 
em Angra pela festa do Espirìto Santo, em 1559, e foi o unico Concilio 
Diocesano que ale agora se celebrou oneste Bispado, ha jà mais de cen- 
to e cincoenta annos: fez Constituifoes tSo santas, e sabias corno elle 
era, e voltando a Portugal as fez imprimir, e com ellas voitou para a 
Ilha em 15Q1, e faleceo em Angra a 26 de Outubro seguinte, e com tan- 
ta fama de santo, quanta tìnha jà em vida, pois vindo da India o Pa- 
triarcha D. Jo3o Bermudes, e passando por Angra a Portugal, n*este per- 
guntava muitas vezes pelo Bispo de Angra, e dizia que nao se bavia cha- 
mar D. Jorge, mas Sao Jorge; està enterrado na Capei la mór da sua Sé 
com letreiro seguinte: Hic Jacet Dominus Georgius d Sando Jaeobù^ 
Poitor Angrensis, inter oves tuas primut sepuUus^ eie, 

97 quarto Bispo foi D. Manoel de Almada, Doutor em Canones, 
Chantre da Sé de Lisboa, Conservador das Ordens, e Juiz Apostolico, 
Deputado na Mesa da Consciencia, e Inquisidor, e Bispo de Angra, mas 
renunciando o Bispado, nunca foi às Ilhas, e ficou feito Capellio mór da 
Bainha D. Catharina, mulher d*el-Rei D. Joao III. Quinto Bispo foi em 
1568 D. Nuno Alvarez Pereira, Doutor Theologo, e Yisitador do Arce- 
bispado de Lisboa, sendo Arcebispo o Cardeai D. Henrìque, e faleceo em 
Angra, dous annos depois, em 20 de Agosto de 1570, e jaz sepultado 
na mesma Sé de Angra. sexto Bispo foi D. Gaspar de Faria, que suc- 
cedeo ao quinto em 1570, e foi o que em 1577 creou em Sao Miguel a 
segunda Freguezia de Ribeira Secca em Ribeira Grande, comò dissemos 
acima liv. 5 cap. 7, e d3o pudemos alcan^ar majs deste sexto Bispo. 



LIV. VI GAP. XI 51 

septimo Bispo foi D. Fedro de Castiiho, fìlho de Diogo de Castiiho, dos 
Castilbos da Uontanha de Biscaya, e depois de Mestre em artes, e de co- 
me^ar a Theologia» se passou aos Canones, e feito Lìcenciado per exa- 
me privado, foi Deputado, e Visitador do Bispado: feito Bispo de An- 
gra, foi grande observador do Concilio Tridentino, e no anno de 1582 
estando em SSo Miguel, e escandalizado dos motins da soldadesca so 
voltoa para Porlugal, e n'elle foi feito Bispo de Leiria, e depois Presi- 
ùsùte do Paco. N*esta mudanga, o Cabido de Angra vendo sea Bispo au- 
sonie» e qoe era contra o seii Bei naturai, juIgarHo a Sé por vacante» 
eleger3o Provisor, e Vigario Geral, e mais ministros, e n3o obedecerao 
mais a tal Bispo. 

98 ottavo Bispo foi D. Manoel de Gouvea, irmSo, até na santi- 
dade, do Santo Padre Ignacio Martins da Companhia de Jesus, celebre 
pelas doutrinas em Lisboa, e por successos n'ellas milagrosos; foi Bis- 
po de grande charidade, e jaz sepultado na Sé de Angra. nono Bispo 
(oi D. Hieronymo Teixeira Cabrai, entrou no Bispado em 1599, e depois 
voltoa a Portugal, e morreo sendo Bispo de Miranda. decimo Bispo 
foi D. Agostinho Bibeiro, e entrando no Bispado em 1613 o governou 
até 12 de Julho de 1621, em que faleceo, e na sua Sé jaz sepultado. 
niìdecimo Bispo foi D. Pedro da Costa, e entrou no Bispado a 24 de 
Agosto de 1623, e indo a visitar Sao Miguel, là falcceo, e foi sepultado 
na Matrìz da Cìdade de Ponta Delgada. duodecimo Bispo foi D. Jo3ó 
Kicrata de Abreu, que entrando no Bispado em 19 de Abril de 1626, 
indo tambem visitar Sao Miguel, là faleceo, e tambem jaz sepultado na 
saa Hatrìz. decimo terceiro Bispo foi D. Frei Antonio da Besurreicao, 
Religioso Dominico, e entrando no Bispado em 1635 foi visitar Suo Mi- 
guel em 1637, e a 7 de Abril faleceo là: e porque logo em 1640 suc- 
eedeo a feliz acclamac3o do Senhor Bei D. Joao o IV pararao os provi- 
meotos dos Bispados por muitos annos. 

99 decimo quarto Bispo foi D. Frei Lourengo de Castro, nomea- 
do pelo Senhor Bei D. Joao IV, e em Novembro de F71 entrou no seu 
Bispado, e depois de viver n*elle dez annos voltou promovido ao Bispa- 
do de Miranda, e n'elle viveo pouco mais de bum anno, e foi enterra- 
do na sua segunda Sé. Era Beligioso Dominico, fidalgo de sangue, e de 
l^ras, e virtudes grandes, e comò tal foi multo estimado da nobreza de 
Angra, e morreo com opiniiio de Prelado santo. decimo quinto foi D. 
^té JoSo dos Prazeres, Beligioso Franciscano, da Provincia de Xabre- 



52 lllSTOniA INSrLANA 

tj^as, varao de grande candura, e santamente morreo no Real Collegio da 
Companbia de Jesus de Angra, e està sepultado na sua Sé. decimo 
sexlo Bispo foi ì). Frei Clemente, Uetigioso de Santo Agostinho dos Ere- 
initas, doutissimo Tbeologo, e Lente da Universidade de Coimbra: mor- 
reo na visita de Sao Miguel, e là jaz sepultado no Convento de Nossa 
Senhora da Graca. decimo seplimo foi D. Antonio Vieira Leitao, quc 
de IVior de Santo Estev3o de Alfama em Lisboa foi promovido ao dito 
Dispado, e n'elle teve desgostos com a Nobreza de Angra, e com o seu 
Convento de Sào Gonzalo; e em firn morreo visitando a Illia de Sao Jor- 
ge, e n ella està sepultado, na Igreja Matriz da Villa das Velas. E quan- 
to ao numero dos vizinhos de ingra baste por bora dizer que (nao fal- 
lando em Religiosos, e Religiosas) passa de tres mil vizinhos; e que nao 
so nas mais Ithas deste Oceano, suge! tas a Portugal, mas ainda no tal 
Keino todo (excepto a innumeravel Lisboa) nao ha mais que duas Cida- 
des, que em numero de visinhos excedSo a està de Angra, as quaes sao 
Evora, e Porto; corno melhor se vera nos Capitulos que se seguirSo, e 
no quàtorze fìnc. 

100 A Sé Cathedral dos sobrcdilos Bispos foi edifìcada por el-Rei 
D. Joao III pouco depois do anno de 1534, està situada bem no meio 
do comprimento da Cidnde de Angra, e mais para o Sul, que para o Nor- 
ie da largura da Cidade, com grande, e livre adro à roda, cercado de 
parapeito alto de cantarla, e nobres ruas por todos os quatro lados, sem 
casa alguma que pegue com a dita Sé, mas com boas tres entradas, e 
sahidas para as ditas ruas; e a principal entrada he que vai da grande 
ma chamada da Sé, correndo igualmente com a ma de Nascente a Poen- 
te, e retirando-se para o Sul com multo larga subida, e de famosos de- 
gràos de cantarla, até dar no grande adro plaino, e todo de cantarla 1^ 
geado; seu froutespicio he nobre com duas altas torres parallelas, e va- 
randa sobre o meio da portada; corre de Norie a Sul com primeiras lu- 
zes por toda a parte, e com tres naves, e coro capitular em cima na en- 
trada, e em baixo a parte do Evangellio a pia baptismal com boa, e fc- 
cliada casa; adiante seguem-se duas grandes portas correspondentes a 
Nascente, e Poente, e logo quatro Capcilas de cada parte, duas menos 
fundas, e duas t3o grandes, que podiao scr Capellas mores, entre as 
quaes na nave do meio està o capitular coro de baixo, e logo se segue 
a Capella mór, redonda em columnas parliculares, com via circular a 
roda; e da parte do Evangelho Ihe fica correspondendo à nave do Nas- 



LIV. VI CAP. XI 53 

conte a Capcila nobilissima do Santissimo, corno Capdla mór d*aque1la 
nave, e da parte do Pocnte Ihe corresponde outra scmeihante Capella de 
Christo crucificado: por dclraz da do Santissimo se segue a Sacristìa 
com seu allo, e parlicular aitar por cima, e da outra parte a casa da 
Musica, e escola com outra em cima; e por detraz do circulo da Capel- 
la mór vai jardim com Tonte dentro; e as casas do Cabido, e de entra- 
da dos Conegos para o primeiro Coro alto ficuo de cada parte d'elle com 
saliida para a varanda da entrada principal. 

lOi Serve-se està Real Sé com cince Dignidades, De3o, \rcediago, 
Chantrc, Mestre-escola, e Thesoureiro mór, mais doze Conegos, e quatro 
meìos-prebendados, e varios Capellàes de so sobrepeliz, e muitos mo- 
Cos do coro; tem mais tres Curas, e bum Mestre da Capella, bum Or- 
ganista, bum Arpista, e competentes musicos, bum Sacristuo, bum Àl- 
tareiro, bum porteiro da massa, bum sineiro, e Relojoeiro, e outros 
scrventes da Igreja, além dos oflìciaes do Bispo, Provisor, Vigario Ge- 
ì-al, Mcirinbo, Escriv5es, etc. A So be Tempio tao grande, que rara- 
mente se ve toda cbea, com ter Prègadores obrigados por El-Rei, das 
Ordens dos Franciscanos, e Graciduos; mas vio-se cbea toda quando prò- 
gOQ nella o Veneravel Padre Antonio Vìeira da Companbia de Jesus, em 
a festa do Rosario, ba scssenta annos. Suas torres sao tao altas, que fu- 
gìndo acima de buma d'ellas bum menino do coro, a quem o Mestre 
qaeria castigar, e arremegando se fora da mais alta sineira, o apanbou 
V vento pela opa vermelba, e o foi por sobre o telhado do Convento 
das Freiras da Esperan^a, distancia de multo mais de tres largas ruas, 
sem receber damno algum, e foi depois bum bom Ecclesiastico. Estuo 
estas torres bem providas de nobres, e grandcs sinos, em que.ba dis- 
tincao em o tocar aos defuntos Qdalgos, ou da govcrnanca, e aos só- 
mente nobres, e aos plebeos. 

102 A segunda Freguezia (se assim podemos cbamar-lbe) be a do 
Castello grande, que pelo grande relogio da Sé be que se governa, dan- 
do là as boras com a mào buma sintinella no seu sino do Cartello, e no 
mais li se governào, e provéni, pelo seu Capellào mór, no Ecclesiasti- 
co. A tcrccira Freguezia da Cidatle bo a nobre Collegiada da Conceifào dos 
Clerigos, que no lamanbo, e scrvigo da Igreja pudcra ser Imma Sé; lem 
2^u rico Vigario, duiis Curas, olio Benvificiados, Sacrislao, Tbesoureiro, 
^Ic. muilo grande numero de freguozos, o muilos d elles (ìdalgos, e mor- 
gados muito ricos. A (piarla Freguezia por aiinclla parte, de Leste para 



Si HISTOmA INSUUNA 

Nordeste, he a de SSo Dento, qiie tambem chamlo Val de Linbares, que 
tem Vigano, Cura, e Thesoureìro. A quinta he a de Santa Luzia, que 
tambem esté no fim da largura da Cidade, correndo em bum alto do Sul 
para o Norie, e tambem tem Vigario, Cura, e Tbesoureiro; e bum seu 
Vigano, Ambrosio de Sousa Fagundes, Theologo, e bom Prégador, d'abi 
foi para Conego da Sé. A sexta Freguczia be a de Sao Fedro, que fica 
no fim do grande comprimenio da Cidade, correspondendo a mais dis- 
tante de Sao Bento, e tem Vigario, Cura, Tbesoureiro, e dous Benefi- 
ciados, e com ser grande Freguezìa,en'eilaalgumasca$as nobres, omais 
sào mareantes, e se estende a muitas partes fora da Cidade, e da sua 
porta, que cbamuo de S. Catbarina. 

103 Tem mais a dita Cidade, ao entrar do porto pela famosa ma di- 
retta, e i m3o direita tambem, a Real Misericordia com seu .Hospital 
annexo, e tudo prima fundado por El-Rei, e augmeniado depois por \*a- 
rias pessoas; be Igreja que corre com a rua, sem se afastar da direìtura 
da casaria, e por isso muito larga, de tres naves, e tres corno altares 
móres, e outros varios à roda, e menos funda, do que pedia a largura, 
por Ibe correr por detraz a rua de Sarìto Espirito; mas ainda assim tem 
todas as casas, e reparlicóes que costuma ter Imma nobre Misericordia;,^ ^; 
e logo na rua de Santo Espirito tem seu Rcal Hospital, e com mais lar — ^r- 
gueza para traz: a Misericordia ebega a cincocnta moios de renda cada^ ^ 
anno, e cincoenta mil réis em dinbciro: o Hospital passa muito de ses-.^^ 
senta moios de renda, e do fóros cento e cincoenta mil réis, além d»^^de 
Ibe dar El-Rei o dizimo dos frangos; e assim Misericordia, corno Ho^^ s- 
pital, terao a renda que a consciencia de quem os governa Ibes iew- ^r, 
porque jd em tempo de Fructuoso tinhao estas casas muita mais renu^v/a 
de trigo, e dinbciro, e so bum Religioso de S. Agoslinbo, Freì knioi^mmo 
Varejuo, de adquiridas esmolas Ibes doou dez moios de trigo de reoi^ 4i 
cada anno: e lem a Misericordia tantos Capellaes com seus ordenad^^os; 
que celebrào cada dia os Offlcios Divinos em seu coro juntos. 

104 Ila mais em Angra tanlas Ermidas, e de tanta devogao, que todos 
OS dias em tres d'ellas se canta o Terco da Senhora, na da boa Ho\a, 
na dos Remedios, e na da Saude em a praga que d'anles se cbamava de 
S5o Cosmo, e Sao Damiao; e aqui insiituhio este Tergo, e Confraria àos 
Escravos da Senhora, bum Merc.idor chamado Agoslinbo de Oliveira, ho- 
iHem de vida igiialmontc devola, e cxemplar; contras Ermidas suo ade 
Sao Lazaro com seu Hospital, a do Corpo Santo dos Mareantes, a de Sia 



UT. VI CAF« xn 55 

Joao Baptista dos Cavalleiros, a de Santa Catharìna, a de S3o Jo3o de Deos» 
a de Nossa Senhora do Deslerro, e a da Natividade, que he dos pretos que 
servem a Cidade» e por Bulla Apostolica he immediata a Roma: eassim 
n'estas Ermidas, corno nas Frepezias, e Mosteiros ha mais de cincoenta 
Confrarìas com muitas Missas cada semana» cada huma com sua Festa ca- 
da amio, e quasi todas multo bem ornadas, e tudo se sustenta de esmolas 
da Cìdade. 

CAPITOLO xn 

Do esiado Religioso gue ha em Angra. 

105 Cousa parece sem duvida que os primeiros Religiosos que en- 
trario nas Ilhas Terceiras, forio os do Serafico Padre S. Francisco» por- 
que jà quando a S.Uiguelveio aquelle Religioso DominicoFreiAffonso de 
Toledo» em o anno de 1522» comò dissemos acima liv. v cap. 0» jé ent^o 
havia em Villa Franca de S. Miguel o Convento de Franciscanos» que 
com a dita Villa se sobverteo ; e jà na Villa da Praia da Ilha Terceira 
havia outro Convento de Franciscanos» e mais antigo que o de Villa Fran- 
ca, pois muito antes do dito anno de 1522» havia na Praia o tal Con- 
vento» e jà taml)em outro na Ilha do Faial, e o principal em Angra» con- 
forme a Fructuoso liv. vi cap. 15» onde confessa nào saber quem fosse 
o Fundador do Convento de Angra, sabendo e nomeando os Fundado- 
Tes do Convento da Praia» e do Faial ; d*onde se ve que o de Angra ere 
mais antigo ; e comò da Religi3o de S. Domingos nem ha» nem bouve 
jàmais Convento algum nas ditas Ilhas» mas so aquelle Prégador Frei 
Affonso de Toledo» e depdis so houve CoUegios da Companhia de Jesus» 
e depois ainda Conventos da Graga, e no Faial bum de Garmelitas Cal- 
vados; segue-se que de Religiosos os primeiros que entrarao n*estas Ilhas 
for3o OS Franciscanos» e parece que os primeiros dous Conventos se 
fuodarao na Ilha Terceira; mas se primeiro o da Praia» ou de Angra» 
d*isso nao consta ainda» mas parece ser o de Angra. 

106 Maior duvida he» de que regra de S. Francisco er3o estes pri- 
meiros Franciscanos» que for3o às Terceiras. Do que pude descubrir 
julgo que n2o dos chamados Observantes, mas dos que chamao Conven- 
tuaes» erao : e assim parece se collie do citado Fructuoso cap. xv aon- 
de diz que antes da subverslio de Villa Franca nao havia em S. Miguel 
outro Convento mais que o que se subvcrteo » e que na Terceira havia 



56 HISTORIA INSULANA 

jé de Àngra, e o da Villa da Praia, e que d^este fora Fandador hiim 
Frei Simao dc.Novaes, irmSo de Fedro de Novais, e de Fernando de 
Quental, e que do dito Convento fora Guardiao, e nelle morrera santa- 
mente; e que Frei Vasco de Tavlra fundoa depois o Gon\*ento de Pen- 
ta Delgada no anno de 1525, mas que tambem antes de se subverter 
Villa Franca, fundou o Convento do Faial Freì Pedro de Atouguia : e 
accrescenta que o primeiro Commissario de S. Francisco, que velo as 
Ilhas, foi Frei Lopo Teixeira; seguodo, Frei Roque Bocarro ; terceiro, 
Frei Pedro Galego ; quarto, Frei Antonio Samande ; quinto, Frei Nico- 
lao Barradas. 

107 Depois d'estes Commissarios, e ji no anno de 1547, de Por- 
tugal velo seu mesmo Provincial o Mestre Frei Simao de Sousa à lilia 
Terceira, e em Angra celebrou Capitulo de lodos os Frades* que jà ha- 
via nas Ilhas, e sahio Guardiao de Angra Frei Gaspar da Estrella, e 
Guardilo de Villa Franca Frei André de Coimbra, e de Ponta Delgada 
Frei Diego de Coimbra, e Frei JoSo de Sande do da Praia, e Qcarao to- 
das as Ilhas Terceìras constituidas Custodia Franciscana, e se voltou o 
dito Provincial para Porlugal ao primeiro Capitulo que se fez em a Cida- 
de do Porto no anno de 1550, e d'elle sahio por Custodie para as Ilhas 
Frei Francisco de Moraes, a quem succedeo Fr. Antonio de Alarcao, 
grande Prégador, e a este Frei Thomé de Estremoz ; até que no anno 
de 1568, vierao os Franciscanos Observantes para as ditas Ilhas, e os- 
tando so dous annos n'ellas forao mandados outra vez para Porlugal, e 
tomarao a ficar os Conventuaes nas Ilhas, e Ihes velo por seu Commis- 
sario, e Guardiao de Angra, Frei Lourengo de Pina : porem pouco de- 
pois vindo Reverendissimo Geral Franciscano a Lisboa, o qual era Fr. 
Francisco Gonzaga, irmao do Duque de Mantua, e ajuntando-se Obser- 
vantes, e Conventuaes, todos por ordem dei-Rei renderOo obediencia ao 
Geral da Obsenancia, o sobredìto Gonzaga, e em Capitulo feito emXa- 
bregas de Lisboa, se dcr3o os Conventos todos das Terceiras é Provin- 
cia dos Algarves, cuja cabega he Xabregas de Lisboa ; e a Madeira a 
Provincia que chamao de Portugal, cuja cabega tambem em Lisboa he 
o Concento chamado da Cidade, e ficarao os Conventos das Terceiras 
sendo em lodo Observantes, conio o sao até agora. 

108 Porem tanto se multiplicarao nas ditas Terceiras os Conven- 
tos Franciscanos, que ja ha muitos annos sabirSo a ser Provìncia sepa- 
rada, e tao grande Provincia, que creio passa de trezentos sugeitos, e 



Liv. VI CAp. xu 57 

doze Conventos, e tem cm Lisboa sempre Custodie para os negocios da 
Provincia; e a Madeira fìcou separadamente governada pela Provincia 
cbamada de Portuga!; e corno da tal Provincia das Ilhas Terceiras nao 
tem ainda sabido Chronic^, tendo tambem muitos Convenlos de Freiras. 
e nSo so tem falecido muitas Religiosas, mas tambem muitos Rcligiosos 
de siogulares virtudes, e exemplos; e ainda Missionarios exemplarissi- 
mos, nSo so para as Conquistas de Portugal, mas ainda para Jemsalem, 
creio que cedo algum dos doutissimos Mestres da tal Provincia satura 
com sua historìa, e suppriri os defeitos que n'esta achar, e com os me* 
Ihores apontamentos, que là de tudo bavera ; que nós nos reduzimos 
oulra vez a Angra. 

109 Oito pois sao os Conventos do Estado Religioso que ba na Ci- 
dade de Angra; quatro de Religiosos, e de Religiosas outros quatro. o 
prìmeiro de Religiosos be o de S. Francisco, intitulado Nossa Senbora 
da Guia, e be Convento em tudo magniRco, porque passa de sessenta 
Religiosos; tem buma grande, e fructifera cerca com copiosa agua den- 
tro, ampio edificio de grandes corredores, Noviciado dentro, e bem pro- 
^ida Enfermaria, e bum magnifìco; e sumptuoso Tempio, com nobre, e 
grande Gapella da Ordem Terceira dos seculares, com grave Religioso 
Commissario, e seculares Ministros, e outros Officiaes, e outras muitas 
Capellas, e coro continuo, até pela meia noite, com exceliente musica, 
e hnm largo terreiro da Igreja quasi redondo, e pouco acima da pra^a 
da Cidade, com bella vista da melbor parte d'ella; e no mesmo Conven- 
to tem muitos doutos Lentes para os seus Religiosos, de Filosofila, e 
Tbeologia alternadamente em trìennios, muitos, e bons Prégadores, e 
sempre Religiosos de vida muito observante, e exemplar. 

1 10 Emfim he este Convento a cabeca de toda a Provincia das Ilbas, 
e D'elle reside mais, e tem seu Definitorio o Provìncial. De ludo ìsto 
nao sei que bouvesse outro especial Fundador, senao os mesmos Reli- 
giosos, e a devocao dos Cidadaos de Angra; mas segundo Fundador, 
00 Reformador.de tudo foi o Mestre Frei Fernando da Conceicao, que 
commumente cbamavao Fr. Fernando Laranjo; este foi Guardiao de An- 
gra, muito douto Lente, e Prégador, Prelado d*esta Provincia muitas 
vezes, e o Padre mais digno n'ella; este por varios meios ajunlo!i (com 
zelosa nota de alguns) tantos mil cruzados, que nao so fez: e reformou 
todas as sobreditas obras, mas reformou tambem o Convento de Penta 
Dclgada, e alguns outros Conventos da Provìncia, e comtudo era em sua 



98 HISTOMA INSULANA 

pessoa, em scu vestir, habitar, e corner tao exemplarmente pòbre. qae 
d'elle pódedizer-se, quequSo largo era para o bem commum da Religiio, 
tao apertado era para comsigo, e por està grande virtade, depois de 
grande velhice, llie deo Deos humà morte desapegada de tudo deste 
mundo, com renuncia de tudo em sua ReiigiSo, com n3o menos esem- 
plo de Catholico, que de douto, e com grandes sinaes de sua eterna pre- 
destinacSo. 

Ili segundo Convento de Religiosos foi em Angra o Real Colle- 
gio da Gompanhia de Jesus; a este» e ao da Uba da Madeira, no mesmo 
dia» e anno de 1569, e em o mez de Marco mandou fondar de sua Real 
fazenda o Senbor Rei Dom Sebasti3o, sendo entao Provincial da Com- 
panbia o Padre Le3o Henriques ; mas com a peste que entao bavia em 
Lisboa, nao partirSo os Padres senao em Mar^o do anno seguiate de 
1570, onze para o Funcal da Madeira, e outros onze para Angra da liba 
Terceira, e os que biao para està, embarcarao em sete niùs de guerra 
com General D. Francisco de Mascarenhas, que bia esperar as néos 
da India, e corno estas ja vinhao da Terceira com comboy de carave- 
las, arribariio os Padres na Armada, e tomarao a partir nas caravelas a 
deus de Maio, e no ultimo cbegarao é Terceira, e desembarcar3o em o 
primeiro de Junho: indo por primeiro Reitor do Collegio o Padre Lois 
de Vasconcellos, nao menos santo, e sabio, que illustre, (por ser noto 
do Gonde de Penda) e que tambem bia por Mestres dos casos, tendo 
ìa ido a Roma duas vezes por Procurador da Provincia de Portugal, e 
com elle biao os Padres Fedro Comes, e Baltbesar Barreira por Fréga- 
dores, e tambem dous Mestres para lerem Frimeira, e Segunda, Fedro 
Freire, e Sebastiao Alvarez; e seis Religiosos mais para estadarem, e 
servirem ao Collegio. 

112 Antes de os Padres desembarcarem sahio o Bispo D. Nudo Al- 
varez Pereira, e muitos Ecclesiasticos a esperal-os, e o Senado da Came- 
ra com Capitao mór Joao da Silva do Canto, mettendo-se em doas 
barcas alcatifadas, e omadas forao a bordo buscar os Padres, e trazen- 
do-os ao Bispo que os espcrava, elle os abra^ou, dizendo: «Agora me 
vcm todo meu descanco:» e todos assim levarao os Padres, e os bos- 
pedarao logo na Misericordia, e o magniQco fidalgo Joao da Silva do 
Canto tomou logo sobre si dar-lhcs tudo o necessario, e sustental-os, 
em quanto nao escolhiao babita^ao; e porque o dito tidalgo tinba ja fei- 
ta huma Igreja; e religiosa babita^ao, para niella metter meninos orHios, 



LIY. VI GAP. XII 50 

corno OS tem Lisboa, pedio multo aos Padrcs aceitassem aquclle ediH- 
cio, e ornato d*elle, e liberalmente logo Ihes fez doagao de tudo. e de 
malta outra madeira que para mais obra tinha junta, e se recoIherSo os 
Padres ao dito primeiro seu Collegio, de que podia chamar-se Funda- 
dor o dito fidalgo Joao da Silva do Canto, que com tal liberalidade Iho 
dea feito; e o posto era no sitio da Cidade aonde chamao a Racha, so- 
bre a bahia do porto, e mais sobre o Portinho Novo, com dilatada vis- 
ta para o mar» e adiante da rua dos Cavallos para o Sul, e n3o longe 
do Paco Episcopal, e sua Sé; mas d'abi a annos se mudarao para onde 
boje estSo. 

118 D'este primeiro Collegio, que pelo Orago da ja Teita Igreja se 
intUulava Nossa Senliora das Neves, come^ao logo a sahir os Padres, e 
a fnictificar nas almas espiritualmentc, comò do Geo vem as neves, e 
fertìlizSo as terras, e multo mais com a occasiao de huns tremores de 
terra, e com suas prégacSes mover3o tanto a Cidade, e a tanta peniten- 
da, Conflssoes, e Gommunh5es, que todos se persuadilo que se entao 
morressem, se salvavao todos, passados os terremotos, sahio logo o Bis- 
po D. Nuno a visitar, levando por companheiro ao Padre Pedro Comes, 
qoe tal fruto fez, que em a Villa da Praia, e em bum Mosteiro de Frei- 
ras da obediencia do Bispo, ouvidas do Padre todas suas praticas, Ihe 
troQxerSo é grade quantas pegas tinhao escusadas, e ainda so curiosas ; 
e as de prata as converlerao em calices, e pegas da Igreja; e o mais se 
entregou é Àbbadega para commum uso da Enfermaria, e Communida* 
de, e nao para proprio de alguma Frcira, e logo em Septembro do 
mesmo anno de 1570, adoeceo, e faleceo o Bispo, que por suas virtù- 
des se ere estar na gloria, e se vio cumprida a sua profecia, quando 
aos Padres que desembarcarao disse: Agora me vem todo o meu des- 
canco; pois logo se foi para o Ceo. 

114 Entao o primeiro Reitor o Padre Luis de Vasconcellos man- 
doa ao Padre Pedro Comes em missao a Ilha de S. Miguel, e foi o pri- 
meiro da Companbia que n'ella entrou, e andou n*ella até Agosto de 
1571, em que voltou para Angra, e no anno de 72 for3o de Portugal 
para Angra o Padre Ajidré Gongalves por Mestre dos casos, e o Mestre 
Jo3o Garcia para ler a Segunda, e o Irmao Balthesar de Almeida para 
servir no Collegio, voltando oulros para Portugal, donde logo no anno 
de 1573 veio o Mestre Simao Martiris a ler a prinjcira, em 1574 para 
75 vierao o Padre Luis Pedro Pinhào para Ministro de Angra, e oiitro 



00 IllSTOniA INSULANA 

Mestre para a primcira, e o Imiao Francisco Dias, Mestre de obras» pa- 
ra tlirigir as do Collegio, e no anno de 1576, enlrou em a Terceira 
por segundo Reilor do Collegio o I^adre Eslevao Dias, grande Prt^ador 
e bom Theologo. No anno de 1377 sabendo a Cidade de Angra quo 
mandavao voltar para Portugal ao Padre Pedro Comes, escrcveo o Sena- 
do da Camera, pedindo ao Provincial que 111 o nao tirasse, e no seguio- 
te anno llie veio patente de Visitador, e foi o primeiro Visitador da 
Companhia que liouve nas Tcrceiras, e acabada a Visita, querendo o Pa- 
dre com capa de vir dar conia da Visita a Portugal, a Camera o impe- 
dio, até com pregao publico, e grandes penas a qualquer barqueiro qoe 
levasse a embarcar, ou cousa sua, e porque alguns da Cidade, a ro- 
gos do Padre, diziao que o deixassem embarcar, centra estes chegarSo 
a metter maos as espadas, e so o mesmo posto de joelbos, e seguranr- 
do-os que se voltava para o Collegio, comò fez, apaziguou a civil con- 
tenda. 

113 Mas porque entao estava em o porto de Angra a Armada Real. 
de que era general D. Jorge de Menezes, o Padre Pedro Comes, depois 
de muita oracao, santaniente persuadio a liuns barqueiros Tossem a bum 
portinlìo de buma vinba dos Padres, bum quarto de legoa fora da Ci- 
dade, para de la mandar bum refresco ao General, e ir a visital-o, eas- 
sim sem mais que o seu Breviario se foi da Quinta & Armada, e li flcou, ^ 
clamando os barqueiros, de se verem sem mao dolo enganados, e su-—: 
gcitos às penas do Senado; porém este, por jà nao poder mais, e porar^ 
petigao do Padre, perdoou aos innocenles barqueiros, e ao Padre man— .«- 
darao matolagem nobre, e para o Padre Provincial caitas, em que \h^^z 
torna vao a pedir o mesmo Padre. Chegado o Padre a Lisboa, o pedi^-^^ 
logo para seu Confessor a Serenissima Senhora D. Catharina Duqueza àJE:^ 
Bragan^a; e pouco depois o Padre parilo por Missionario para o JapaG^lc] 
por ter muilo pedido; e porque nunca llie pedirao cousa por amor l» 
Virgem Senhora que nUo concedesse, e bum Beligioso da Companhia lF^^7i 
pcdio seu cilicio, e disciplinas, estas Ihe deo com grande repugnanc",^rr« 
por estarem lodas vermelhas de seu sangue, e o cilicio, por ser de cr»- ud 
ferro; mas achando-se com oulros semolhnnles instrunientos, de qne //. 
nha muitos; e finalmente morreo esle Santo Padre cm a India, e rrroiu 
muitas revelacoes do Geo, e nolaveis profccias sobrc os successos fi-^///- 
ros da Coroa de Portugal. 

1 10 Logo em o anno de 1 j80, em Seplembro veio da Terceira ow 



I 



LIV. VI CAP. XII 61 

outra Mìssao a Suo Miguel o Padre Francisco de Aranjo, e por compa- 
nhciro o Irmao Domingos de Goes, e vicrao ambos com o Bispo D. l'c- 
dro de Castllho, qiie vinha a visitar, e todos se deliverao cm Suo Miguel 
dous annos; e pelo mesmo tempo chegou liuma caravela a Silo Miguel 
com bum Antonio da Costa, que em Suo Miguel acclamou logo ao Se- 
nhor D. Antonio por Rei de Portugal; e ao terceiro dia elle, e ciuco Ir- 
!d3os da Companhia, que com elle vinhfio, se passarao logo i Terceira, 
e d'esla o Padre Reitor Eslev3o Dias reraetteo logo em Dezembro do 
^580, a Lisboa o Irm3o Baltbesar Gongalves com negocios de importan- 
cia, e tornando o dito Irmao é Tercelra, de li voltou mandado para Sao 
Miguel, e d'ahi a anno e melo partirSo para Lisboa o Padre Francisco 
do Araujo com os dous Irmaos, e o Bispo D. Pedro de Castilho. E muito 
depois em 1589, passar3o por S. Miguel para a Terceìra o Padre 
Francisco Fertiandes, e com elle bum Mestre do mesmo nome para ler 
a Prìmeira, em 1390, veio o Padre Pedro de Almeida para Reitor de 
Angra, (tendo ji sido Reitor da Madeira) e entao Taleceo em Angra, a 
4 de Julho de 1390, o Padre Luis de Vasconcellos com grande fama de 
rara santidade, e prudencia grande de governo. 

117 D*esta sorte fui continuando o Collegio da Companbia em An- 
gra, e no primciro sitio cbamado da Rocba, até que (comò diz Guodes 
cap. 7,) se mudou o Collegio para sitio mais commodo d Cidade, e aos 
estudos d ella, que lie pouco acima da praga, no Tim da rua direita a mao 
esquerda, fìcando 5 mao direita, e ainda bum pouco mais acima o Pa^o 
do Marquez Donatario, e abaixo do jardim do Marquez fli^a buma cerca 
do Collegio, a qual cbamào o Sitio, com bum bom solo baixo, e outro 
alto, d onde se ve o melbor da Cidade, e u'este sitio corta buma rìbeira 
de agua doce, com que nao s6 tem boria, mas muitas, e grandes arvo- 
res, e até Bananeiras do Brasili d*este sitio da mao direita se passa por 
boa abobada, e por baixo da rua publica, a outra cerca mais pequena, 
qae fica da parte esquerda, com fonte de agua dentro, e de beber, e 
com boas bortas, e latadas, tudo contiguo ao Collegio, detraz d'elle. 

1 18 A Igreja deste se segue logo com o alto frontespicio corrente da 
parte do Sul para o Norie, com largura, e comprimente proporclonado, 
fermoso, e grande Coro, ao principio, e adiante d'elle se seguem tres 
nobres Capcllas, depois ampio cruzeiro, com nao so grandes grades A 
entrada, mas adianle as pequenas da Communbao, e na fronte mais tres 
altares, dous das ilbargas riquissimos, e ainda de mais ricas Ueliquias, 



&Ì lilSTOlUA I.NSULA?CA 

c a Dobrc Capcila mór, corno cabega grande, e digna de tao regio cor- 
po, e ludo ricaineiite dourado: por cima das Capellas, sem estas fìcarem 
baixas, v3o taes tribunas, que cada huma ho liuma linda sala, d*onde os 
mais nobres vao ouvir as prégavoes, e se ouvem bem, e para ellas se 
entra enì boas entradas do Coro por cada parte, e todas tem primeiras 
luzes, que vuo dar em a Igreja ja corno segundas, fora as de cada parte 
do cruzeiro, e as do grande frontespicio, que suo luzes em ludo primei- 
ras. tecto d'està Igreja he todo de abobada, porém do cedro finissi- 
mo, (e todo admiravelmente lavrado, e repartido em paincis) que se foi 
buscar é liha das Flores, onde ainda entao melhor, e mais cbeiroso o 
havia. 

110 Do frontespicio de fora, e do de dentro, que cerca a Capella 
mór, muito podla' dizer, porque ambos silo altos, magostosos proporcio- 
nadamcnte, com as Reaes Armas humanas do Serenissimo Rei seu Fun- 
dador, e do seu Divino Padroeiro o Santissimo Nome de Jesus; e nSo 
menos poderia referir do nobre, e largo terreiro, e suas boas entradas 
que ha para a tal Igreja; e ainda muito mais do exceliente Pateo dos 
Estudos, que se segue logo para a mao esquerda da Igreja, com aula 
de perpetua Tlieologia moral, e outra do FilosoQa muitas vezes, e oatra 
que cbam3o Primeira, aonde se le sempre Rbelorica, e a que cbaoiio 
Segunda, aonde se ensina a Latinidade, e outra sala principal dos Actos 
literarios, tudo com portada principal dos Estudos para fora, e com seu 
Guarda, e Meirìnho; e se Ilio puzerem mais liuma cadeira de Theologia 
Escolastica, e outra de so Gramatica com seu Prefeito, cu Decano» fica- 
ria huma muito utìl Universidado, para de todas as Illias Terceiras virem 
alli formar-se Moralistas, Prégadores, e Parochos perfeitos» e ainda to- 
marem alli seus gràos de Mestres em Artes, de Bachareis formados, e Li— 
cenciados em Theologia; e com hum anno so anno do mais virem a Coim^ 
bra, ou a Evora a tornar o grào, Capello, e boria de Doutores, com» 
da Bahia vem, e de outras partcs. Ilaja mais zelo do bem commum, » 
menos ambicao, e logo tudo baveri 

120 Acima do dito Pateo dos Estudos para a banda do Norte corre 
Collegio contiguo de Leste a Oeste com quadra de corredores, que pelo 
Sul pegSo com o Coro da Igreja, e pelo Norte com a Capella mór, e tri- 
bunas para ella; mas do tal Sul ao Norte vai via larga, e aberta para o 
Geo, para a Igreja com primeiras luzes; e ficando da parte do Sul huma 
nobre Portarla olhando para o Oeste, e para o vasto terreiro da Igreja, 



Liv. VI GAP. mi 03 

cotn que pega pelo Coro: em cima da Portarla fica a Regia sala d'el-Rei 
D. Seba3ti3o Fundador do Collegio, e da parte do Norte fica cm baixo 
liuiiìa nobre sala, ou \Dte-sacrlstia com porta para o Crazeiro da Igreja e 
logo para diante a fermosa Sacristia, que corre com o lado do Evangelho da 
Capella mór, e com outras casas de despejos da Igreja; e por cima vai 
a via para as trìbunas do Santissimo, e mais para o Norte huma tSo co- 
piosa livraria, que nSo so das mais Artes, e Sciencias, mas até de Me- 
diciDa tem muitos, e excellentes lìvros, além dos que os Lentes, e l^ré- 
gadores tem necessariamente sempre nos cubìculos. 

i21 k fundagao Real d'este Collegio foi, consignando-Ihe el-Rei 
seis-centos mil réis de renda cada anno; dous termos em dinheiro nas 
Alfandegas, e o outro terco em trigo, e obriga^ao de doze Religiosos. 
dos quaes lessem tres, lamn, Rhetorica, e Moral, e os mais se occu- 
passem nos ministerios da Companhia, de pregar, doutrinar, e con- 
fessar, ficando competindo a cada sugeito cincoenta mil réis para to- 
dos 08 gastos, ainda communs de bum Convento, e continuas navega- 
fOes de idas, e vindas: porém he tal a prudencia, e temperanza do go- 
verno da Companhia, e tanta a benevolencia dos naturaes das Ilbas para 
CODI OS Padres, que em lugar dos doze sugeitos, tem ordinariamente 
quinze, oa dezaseis Religiosos; e em lugar das tres Cadeiras metteo jà 
por vezes quarta de Filosofia, e metterà as mais jà apontadas, se nos 
natoraes houver mais zelo do seu maior bem proprio; e em lugar de 
pregar, doutrinar, e confessar, excedem tanto, que a todas as nove Ilhas 
lem ido, e v3o muitas vezes em missoes, com que em S3o Miguel fun- 
dario o Collegio, e Residencia que là tem, no Fayal outro Collegio, e das 
mais Ilbas, Ibe pedem Residencias, e se as tivessem, nSo so Deos, mas 
ainda a Coroa Portugueza teria as suas Ihas mais seguras, porém n3o 
tem Concio com que acodir a tanto, pois so tem huma Quintinha de 
reodimento nenhum, mas de pura, e honesta recrea^So para os suetos 
dos Estudos, onde cham3o a Silveira, ou Penedo do Alcalde, e outra onde 
diamSo o Posto Santo, para alguns dias de ferias de Mestres em Agosto, 
e Septembro, comò em seu lugar diremos. 

CAPITULO XIU 

De outros Religiosos Conventos de Angra. 

122 Terceiro Convento, vulgarmente diamado da Gra^a he o 



gì IIISTOniA INSULANA 

dos Religiosos EremiUs de Santo Agostinbo. A occasiio de se fundar 
foi, que (corno diz Fructuoso liv. 6, cap« ÌQ,) pelos aunos de 1570, foi 
de Portugal à Uba Terccira bum mancebo Antooio Varej3o, naturai 
de Freixo de Espada na Cìnta, o qual sendo virtuoso, e de bom enge- 
ubo, se voltou da Uba a estudar em Salamanca, e nesta brevemente se 
metteo Religioso em bum Mosteiro de Santo Agostinbo, onde acabou os 
estudos, e jà Sacerdote voltou a Uba Terceira, onde prégou muito bem» 
e com muito fruto, e passando*se da Uba às Indias de Castella, e n'ellas, 
assim de suas Missas, e prégagSes, comò de restituigies a elle entregues 
para as applicar as obras pias que elle escolbesse, ajuntou'^mttUa^rique- 
za, e com ella terceira vez voltou a mesma Uba Terceira, e comprando 
n*ella rouitos moios de annual renda de trigo, come(^u logo na Uba bum 
Hospital para a gente que alli cliegasse dls Indias, e tendo a casa jà 
feita, mudou de intento, e dando parte dos moios à Misericordia de An- 
gra, da outra.parte, e do sitio, e cada feita fez logo doa^ao ao seu Pro* 
vincial de Portugal, para fundar em Angra bum Convento de Frades Gra- 
cianos. 

Ìì3 Em anno pois de 1379, mandou o dito Provincial tres Re- 
ligiosos, Frei Pedro da Graca Prégador, e Frei Domingos Corista, e bum 
IrmSo Frei Pedro da Resurreigao; e voltando logo o dito Pr^ador a 
Portugal a dar conta do que convinba, entretanto come^arao as guerras 
entre Felippe II, e seu primo o Senbor D. Antonio, (de que adiante tra- 
taremos) e os oulros dous que ficarào na Uba, por serem da parte de 
D. Antonio, forao prczos, e levados a Lisboa; e depois no anno de 1584, 
se fundou o Convento, e sua Igreja, e o primeiro Prior foi bum Frei 
Pedro, naturai da Uba de SSo Miguel, Albo de Sebastiao de Soosa Ca- 
mello, e de sua mulber D. Isabel, filba do Doutor Francisco Toscano; e 
correrao logo tantas Indulgencias concedidas à dita Igreja, e Correa de 
Santo Agostinbo, que o pio povo de Angra cbamava Roma ao dito Con- 
vento, e indo a elle diziao: Yamos a Roma; e assim se fundou este Con- 
vento da Graca em Angra ba 130 annos. 

12 i sitio deste Convento be no fim da grande ma da Sé, para 
a parte do Poente, e no principio da mais comprìda rua de Sao Pedro, 
que vai longe acabar na porta de Santa Catbarina: da parte do Evange- 
Ibo Oca junto a este Convento o campo cbamado das Covas; nofrontes- 
picio da Igreja para a parte do Nascente Ibe fica outro bastante terreiro, 
ao qual tambem vai dcsembocar a dilatada rua do Bego. A Igreja d'esle 



II?. Vi GAP. xm G5^ 

Convento he grande e bem aceada; o Convento he competente, e ainda 
se póde estender mais, pois por detraz para o Noroeste jà nao corre. a 
Cidade, mas s6 afastadamente a nobre casa, e Quinta do Joao Betencor 
e Vasconcéllos, fidalgo que foi Capitao mór de Angra: para este Conven. 
to, além do seu primeiro Prior acima dito, forSo logo no pTincipio tres 
Prcgadores mais, e hum so Sacerdote para primeiro Sacristuo, chamado 
Frei Fedro de Santa Maria, o n'este Convento chegarao a morar tantos 
Reiìgiosos, que d'elle se foi fundar o Convento de Penta Delgada em 
S. Miguel, e o da Villa da Praia na Terceira, e n'clle houvc sem|)ro bons 
Prt^adores^,© Confessores, e Coro às suas lioras: a Communidade acom- 
panha os defuntos às sepulturas, e om fìm serve de multo a toda a Ci- 
dade, e sobre tudo com multo exemplo de virtude, e letras. 

125 que mais se deve approvar, he, que assim corno os Fran- 
ciscanos no seu Convento de Angra insti tuirao cabcga de Provincia com 
seu Provincial, Definitorio, etc, assim os Gracianos no seu Convento de 
Angra instituirao Vice-Provincia com Vice-Provincial, nao tendo mais que 
tres Conventos cm estas Ilhas; porque na vcrdade acharao, que parecia 
centra justiga morarem tantos Religiosos em Ilhas tao alTastadas de toda 
a terra firme, e nao terem là alguma cabega superior do todos, a quem 
OS sobditos de cada casa possao, quando Ihes for licito, recorrer dos lo- 
caes Superiores, pois o recorrer cà a Portugal, em (comò se diz) a se- 
gQDda instancia, he quasi impossivel, fallando moralmente, por se to- 
marem, ou se perderem muitas embarcagoes, que primeiro morrem là, 
oa perdem a paciencia os recorrentes, do que de Portugal là chegue a 
iresoluf^o de seus recursos, e por isso muitos se escusso tanto de irem 
para as Ilhas, por nao haver là a quem possao recorrer, quando for li- 
bato: e jà por isso tambem até a Religiao da Companhia^ nao so do Ja- 
pao, e Malavar, ou Cochim fez Provincia, e da China Vice-Provincia, e 
do Maranhao; mas até nas ditas Ilhas poz jà Vice-Provìncial, que foi o 
Vadre Matbias de Sa pelos annos de 1609, depois de ter side Reitor de 
Sio Miguel, e de Angra, e mais ainda entao nao havia em Sao Miguel a 
BesideDcia de Ribeira Grande, nem no Fayal o terceiro Collegio, corno 
ji tocamos liv. 5, cap. 21, e muitas vezes nas mesmas Ilhas se tem posto 
Visitador triennal, para se nao faltar ao bom governo dos seus Colle- 
gios. 

126 E ainda he mais de approvar, que as ditas Religìoes Francis- 

cuia, e Graciana tem seus proprios Noviciados em Angra, onde tem en 
VoL. u 5 



66 lltSTOHIA liNSULANA 

tj^o muitos, e muito limpos, e nobres sugeitos das mesmas Ilbas; por- 
que parece conlra a raziio, que sustentaadu-se buma Religiao nas dilas 
Ilbas, e iiavendo n'ellas sugeitos capazes de nella entrarem» os obriguera 
a virem entrar em Portugal trezenlas legoas de mar distante» nao so com 
OS perìgos'do mar, cativeiro» naufragio, etc, mas com muito grandes 
gastos; e por isso de la nao pedem tantos, quantos haviSo pedir, se là 
entrassem Novigos, e depois viessem para ce; corno nem tantos entra- 
riao cà das Provincias Transmontanas, Mìnbo, e Beira, senao tivessem 
Noviciado em Coimbra; nem do Algarve, e todo o Alem-Tejo entrariao 
tantos na Companbia, se em Evora nao tivessem outro Noviciado; e até 
da Estremadura, e da mesma Lisboa muitos nao entrariao, se em Lis- 
boa nao tivesem Noviciado em que entrar, sendo que em taes Novìcia- 
dos nenhum entra vindo do dizimo das legoas de terra, que de Portugal 
vSo até as ditas Ilbas, e de mar. 

127 quarto Convento de Religiosos em Àngra be o de S. Anto- 
nio, Uecolela Franciscana, que està ao sahir da Cidade pela porta de Sào 
Dento, tornando logo para a mào esquerda, sahida recreativa, e de boai 
passeio, be Convento exemplarissimo, nem sei que baja outro em as di- 
tas nove Ilbas; e de nenbuma oulra se sustenta, mais que de puras es- 
molas, quo ou Ibe mandao, ou vem pedir pelas ruas em dia determino- 
do para isso, porque nem levao esmolas de Missas, nem tem Gapellas 
de anniversarios, ou musicas, nem esmolas de enterros, ou de babitos 
de defuntos; nelle sempre bouve Yaroes santissimos, e alguns passados 
tla Observancia para està Recoleta; e comtudo sempre passa muito do 
doze Frades. Tem buma linda Igreja, e Convento, e devptissima cerca, 
e agua dentro em abundancia. Quem fosse seu Fundador, nao sei; consta 
porém que o Capitào Joao de Avila (rico fidalgo de Aogra, de que fal- 
laremos) ajudou muito a este Convento, e juoto é Capella mór tem casa 
sua, e na tal Capella sepultura. 

428 quinto Convento (e jà de Religiosas Freiras) be o diamado 
de Sao Gonzalo, da Regra da Observancia de Santa Clara, porém tio 
antigo, que em seu principio foi da nbediencia do Bispo do Porlo em 
Portngal, e depois por Bullas Apostoiicas flcou debaixo da obediencii 
dos Bispos de Angra. Seu Padroeiro fui Bras Pires do Canto, e seu Fun- 
dador, cuja ftlba D. Maria do Canto casou com D. Diogo Lobo que suo- 
cedeo ao sogro no padroado de Sao Gonzalo, e do tal Diogo nasceo D. 
Rodrigo Lobo da Silvcira, que foi naturai da cidade de Angra da Uba 



UV. VI CAP. XIll 67 

Terceira, e foi tìovemfldor, é Capitio General da liba de Sào Miguel pe* 
los aoQos de 1630, e do dito D. Rodrigo nasceo D. Diogo Lobo^ s^un* 
do do nome, q/ie por Mestre de Campo, e Govemador da Armada foi 
para o Brasil no anno de 1639, e a 23 de Juiho Jevou comsigo de Sao 
Miguel Yisitador da Companbia o Padre Fedro de Moura^ cojo Com« 
paDheiro, e Seoretario era o Padre Luis Lopea. FandoQ-se o dito Con- 
vento em sitio descuberto para o Porate da Cidade de Angra, proprio 
tiro de pe(^ de grande Castello de Sao Jo3o BapUstai com larga vista 
para as bortas, bahia do Faoal, bairro de S. Pedro, e vasto mar de Des- 
te, e be Convento tao grande, que jà passou de cem Freiras de véo pre- 
to, e muitas mais tem tido, n3o so nobilissimas, mas de religiao, exem- 
pio, e santidade exceliente, corno em sea lugar veremos; e com bom 
terreiro para o Sai, e Igreja em tudo mai perfeita. 

129 sexto Convento be o de Nossa Senbora da Esperan^a, quo 
esti sitoado bem no meio da Cidade, e quasi da Sé Catbedral, e do prìn* 
cipio da roa dos Cavallos; e por incuria dos antigos nao acbo noticias 
do sea Fundador, e supponho seria o grande zelo dos Religiosos de S3o 
Francisco; e lambem be da Regular Obsenancia de Santa Clara, mas da 
obediencia Serafica, e n3o so no espiritual, mas tambem no temperai 
bem governado pelo Provincial d's^uella Provincia, e por bum seu Pa« 
dre Vigario das Freiras, que be lugar, e posto muito grave, e seu Com* 
panbeiro Confessor, e Aliviadores, e Prégadores Seraficos; e ainda que 
nSo be tao antigo, nem tao grande, nem tem tao boa vista comò o Con- 
vento de Sao Concaio, comtudo be Convento de quasi sessenla Freiras, 
e muitas muito nobres, e de grande recolbimento, e obsenancia, e muito 
grave, e perfeita musica, com indefectivel continuacao do coro, e rìco 
callo de sua excellente Igreja; e assim tem neste Convento bavido, e 
sempre ba Religiosos de grande espìrito, de quem compera quem quizer 
compor a Cbronica da Provincia Insulana, e facilmente a imprimirà é cus- 
ta dos Convenlos que tem de Relìgiosas, que podem, e gostarSo muito 
de imprimil-a. 

130 septimo Convento be o que commumente chamao da Con- 
cei^o das Freiras para distinc^ao da Collegiada Concei^ao dos Clerìgos. 
He este Convento de estalulo, e regra tao singular, e pcrfeita, qne di- 
xem que em Portugal so ba bum Convento scmelhante a este: o certo 
be que com serem de grande recolbimento, e observancia os deus Con* 
ventos acima, confcssao todos que este os vcnce no menor tra lo Com 



68 IIISTOniA INSULANA 

secularcs, ho maior rcliro so a Deos, e no especial excesso do cdto 
Divino; sao da obediencia do Ordinario, de quem tem CapellSo, e Goft- 
fessor communi, e ordinariamente Aliviadores, e praUcas dos Padresdì 
Companhia de Jesus. Do sitio jà dissemos, que he na ultima grande fa 
da Cidade para a portn de Suo Bento, sem inquietacio de casaria M 
lados, com os fidalgos Monizes da outra fronteira parte; com amplia i 
boa cerca, desempedida vista, devotissima e bem omada Igreja, Done- 
rò de mais de trinta Freiras, e muiias fidalgas exemplarìssinias. Deqni- 
do so fundasse, e por quem, me n3o chegou noticia. 

431 oitavo Convento ho o que se intitula de Sic SebasUiOb por 
ser fundado em huma nobre, e grande Ermida do Santo, que estiÙo 
de Sao Francisco para a sobredita Conceic3o das Freiras i firn da m 
olhando para o Sul, e com um retiro para o Norie: era ermida do Sa* 
nado da Camera, quo deo a està Funda^So para Freiras Capuchas da n- 
gra mais apertada o da maior pobreza de Sao Francisco: ha perla k 
cìncoenta annos qnc se fundou com puras esmolas, e fui grande prt 
em sua fundagHo o Capitao Joseph Leal, casado em Angra por vena, i 
n'ella morador, Cidadao, e Senado aiiligo do governo da Cidade, pollo 
que nascido em a Corte do Lisboa. A este Convento novo concomA 
Ingo Donzellas nobres, e de grandoÉespirilo, e he de todos o roaispo- 
bre, e por isso mosmo o mais soccorrido de esmolas que principalmenlB 
d'cllas se siistonta, e Lo huma Cai)iiclia do tal clausura, reliro, eora^ 
quo confunde a lodos seu raro exemplo, vjriude, e santidade; he da obe- 
diencia do Ordinario Angrcnsc, que llics dutonnina Capellaes, Confes»- 
rcs, Pnigadores, e chega jà a Convento de trinta Ucligiosas, deqwa 
seu tempo se publicarào suas virludes. 

CAPITULO XIV 

Do tinto, e governo da Cidafle de Angra. 

ì:J2 Const4indo a Cidade de Angra de vinte grandes mas, todas 
largas. Indrilhadas, e calcadas, o corno ja as apontiimos, e sendo todas 
de nobre casaria, duas circunstancias a fazom multo vistosa: primeiUf 
(pie nas taes rnas (exceplos alguns arrabaldes da Cidade) nenhuma casa 
lia despegada da outra, nem nos altos ncm nos baixos da parte da n». 
nem casa lerreira se mette (jiilrc as sohradodas, nem Quinta!, oo ja^ 



Liv. VI GAP. xnr 69 

dim sahe a nia; com que ficao as ruas com grande formosura continna- 
das sempre. Sc^unda circunstaDcia he, que com sercm as casas quasi 
todas de paredes feitas de pedra, e cai, e havendo muitas de dous so- 
brados na face, e por detraz de tres; comtudo nao costuma haver mo- 
radores diversos, hons que morem por baixo, e outros por cima, nem 
qae pela mesma portada se sirvao diversos moradores, mas do mesmo 
be lodo Quintal que tem cada casa para traz, com que até por dentro 
as casas sao mais limpas, mais desembaracadas, e mais largas; d'onde 
vem qae ató as travessas, que vao de huma rua para a outra, sao ruas 
baslantes, pela multa largueza que vai de huma a outra rua com os 
Quintaes que medeao de huma, e outra parte. 

133 Irato da Cidade he tao nobro que além das liteiras do Bis- 
po, e algumas Dignidades Ecclesiasticas, e do Governa dor do Castello, 
Capìtào mór da Cidade, ha outras muitas na Cidade dos ricos morgados 
della, e ainda outras carruagens de homens, e de mulheres; das quaes 
as mais nobres antigamente nao hiao & Igreja, e menos a visitas, senao 
em ricas cadeiras fechadas, e de mao, que chamav3o cadciras de mulhe- 
res, e a cada huma levavao dous negros, e às iihargas a pé hiao os cria- 
dus, e criadas; as outras nobres mulheres, por ser tao bcm assentada a 
Cidade, e ter tao perto as Igrejas, hiao a pò, mas nunca sem criada, nem 
Sem homem diante, que bem vestido acompanha por criado, e algum 
fillio, ou irm3o leva, e traz a mai, ou a irma pela mao, e a criada, ou 
criadas vao logo atraz; e de outra sorte se nao via mulher nobre pelas 
ruas, e nem ainda assim, senao nos dias Santos para as Igrejas de ma- 
nlìO, e de tarde a pagar as visitas; e sempre com recado antecedente, 
qae li vao aquella tarde; e das mulheres plebeas, nem a vender pelas 
ruas, nem em tendas a vender, ou a vender-se, se via mulher alguma^ 
nem ainda na publica Rìbeira, mas todas em suas casas cuidando, e tra- 
tando d'elias; e so homens apregoao, e vendem em teda a parte. Este 
era o estylo ha menos de cincoenta annos, e de cntao para cà nao sei 
que tempo tem mudado. 

I3i contrato desta Cidade se divide em mercadores de logea 
onde vendem a conta, pezo, e madida, de que ha mnitos; e em outros 
a que chamao contratadores de sobrado, que despachao as parlidas in- 
tciras na Alfandega, e repartidamenle as vendem, corno de primeira 
mao aos compradores de logea, que de segunda mao as vendem ^os 
parliculares compradores; e além d'estes, que sào muitos mais, ha taes 



70 msrOlUA INStJLANA 

contratadores de sobrado» qae muitos tem mais de cento, e de dnzentos 
inil cruzados» e nSo so Portuguezes, mas estrangeìros de quasi todas as 
na^s, e alguns qué entrando alli com bum p3o na mao sem mais ri- 
qneza, chegàrao por annos i sobredita excessiva pelas commissoes de 
snas terras, pclas compras que fazem aos morgados da terra de seos 
trigos, e pelas letras de cnmbios que Ihes passSo para Portugal, e on- 
tms Reinos; e tudo fazem coni tanta verdade, e fldelidade, que rara- 
mente se ve Mercador, ou contratador quebrado em està Uba, porque 
nonhum be Judeo, e raro be clìrist!So novo; e assim tambem por tal sabe 
rm'amente algum no Santo Oflicio, prezo em a dita Uba, com ter là sem- 
pre Commissarios, e Familiares seus, 

{35 Nem so da terra, mas tambem do mar foi tio grande o con- 
trito d'està liba, quo (corno em muitas partes afQrma o antigo Froctuo- 
so) tinha muitos navios proprios sous, e de alto bordo, com que com- 
merciava com Portugal, com o Brasil, com Angola» e Maranbio, e nao 
so ag frotas do Brasi t, mas as nàos da India Orientai, e as das Indias de 
Castella, quando com Portugal estava em paz, vinbSo pela Uba Terceira» 
e n'ella se refaziao, n3o so de mantimentos, mas tambem de soldadesca 
da gente de guerra do Castello, e continuav3o seguras a viagem no ftm 
mais perigoso, porém depois corno os Provedores da fsizenda Beai da 
mesma Uba, e os Provedores das Àrmadas impedito o navegarem os 
navios d'ella, e os occupavSo, e divertiJo com seus pretextos, e conve- 
niencias, e comò as nàos da Ir^dia Orientai der3o, ba poucos annos, em 
vir da India ao Brasil, e por este para a India; preoccupando o Brasil 
que bavia ir a India, e o que bavia vir a Portugal, e fazendo de deus 
annos a viagem, que nem de bum era d'antes; por isso em a Terceira 
OS perseguidos contratadores deixarSo de fazcr là embarca^oes; e até is 
mesmas Ilbas, cujos dizimos se der3o aos Reis com obrigac3o de as de- 
fenderem, e a seus mares, nem ja vao là Armadas que as defendiao, 
nem as deixao defender-se com seus livres navios. ^ se isto assim be jus- 
to, là veja quem Ihe teca. 

130 Quanto ao governo de Angra, o Politico conforme a Ordena- 
00 de Portugal consta do Senado da Camera, (feito por pelouros an- 
nuaes) de dous Juizes Ordinarìos, quo sempre suo dos mais prudentes, 
zelosos, e nobres Cidadaos, e tres Vereadores, e bum Procurador da 
Camera, e Cidade, e bum Thesoureiro, e o nobre Escrivao da Camera, 
que qao se elege cada anno, mas ho officio perpetuo, dado por sua Ma — 



LTV. VI CAP. XIV 71 

gestadc. N3o se sabe qnc tivesse alguma bora Angra Juiz de fora, Ba- 
chareK por mais que Ih'o quizerSo metter, e assim atégora se govemoii 
moito bem. Tem os que servirlo n'este Senado, e os que andarem nos 
pelouros d'elle os privìlegios dos Gidad3os do Porto, como-consta do 
lombo da dita Camera a fol. 6, e do privilegio dado em Lisboa a 20 de 
Maio de 4578, e confirmado a fol. 20 no anno de 1602, e os taes pri< 
vilegios dos Cidad3os do Porto s3o os dos Infancoes, que s9o os filhos 
dos filtios segondos dos Reis ; e dos taes privilegios gozao nSo so os 
Juizes, e Vereadores do dito Senado, mas tambem os Procuradores d'eU 
le, pelo privilegio dado em Lisboa a 12 de Dezembro de 1582 comò so 
\& no dito tombe a fol. 8G, e ainda os Thesoureiros da dita Camera go* 
zae do mesmo privilegio, que alcan^ou Bnrtholomeu da Roclia Ferraz sa- 
hindo por Thesoureiro no anno de 1632, comò do dito tombo consta a 
fol. 187. 

137 Costuma este Senado de Àngra, quando se chama a Cortes em 
Lisboa, mandar em nome das mais Ilhas seu Procurador às Cortes, o 
que nSo vem de alguma das outras Ilhas, e o Pn)curador de Àngra tom 
nas taes Cortes lugar em o primeiro banco, corno llie concedeo o Senhor 
Rei D. Joao o IV, co teve Francisco de Bctcncor Correa e Avila nas 
Cortes do anno de 16&2, e se vó no dito tombo a fol. 3i5, e a fol. 456 
està Alvarà do mesmo Rei, passado em 13 de Juntio de 165i, em que 
a peticao dos Procuradores de Angra, e com assento tomado nas ante- 
cedenles Cortes de 1653 se ordena, e concode que nunca bavera Viso- 
Uei, ou Governador General nas ditas Ilhas Terceiras, e quando o con- 
trario parecer conveniente, se n?io tomarA assento, ncm resohifao em 
tal materia, sem ser ouvida primeiro a Camera de Angra ; d'aqui veio 
que querendo El-Rei por Viso-Rei, ftu Governador General de todas as 
Ilhas Terceiriais, e nao consentindo bum bom fidalgo de Angra Procura- 
dor d'ellas em as Cortes, e estranhando-lh'o o Rei, dizendo que querìa 
qne as Ilhas fossem huma bicha de tantas cabe^as, quantas suas Ilhas 
er3o, com valor respondeo o Procurador, que a bicha que nasceo, e se 
CTcou com muitas cabefas, se Ihe cortarem as mais, e Ihe deixarem hu- 
nia so, entSo, ou morrerà, ou mudara de vida, e quo pois assim as Ilhas 
forao l3o fìeis a Coroa de Portugal, nlio sabia o que fariao, se de outra 
soiic as quizessem governar. E nào instou mais o Rei. 

138 Poem mais este Senado de Angra dous Almofaceis sempre, e 
^n^pre Cidadaos nobres, com seu Escrivao de Almolararia, e Juiz do 



It inSTORIA INSULANA 

povo, e seus misteres ; e sobro tudo tem maito bastante renda, e bom 
governo d'ella» com que acode és obras publkas; e so banaCidadegran* 
de falla de mais Medicos, e mais letrados leigos, e Joristas, visto o nao 
serem os Juizes Ordinarios ; e podera a dita Camera mandar sempre a 
Coimbra bum sugeito ao menos jà bom latino, e bom Filosofo, para 
dentro de seis annos se formar em Leis, e ontro ero outro sexenio ^n 
Medicina, e assim alternadamente se proveria a Cidade de Medico», e 
Juristas, e com so a congrua de cincoenta mil reis cada anno, obrigan- 
do-se esludante, e seus pais, ou parentes por elle a tornar para a Uba 
em acabando os estudos, ou restituir o que tiver gastado, conforme a 
fianca que para isso dare; ainda que seri mais louvavel, se das pessoas 
ricas, que morrem em Angra, e deix3o muìtas vezes legados fantasticos, 
ou de menos l)em commum, dcixassem algum para o sobredito, pois be 
liuii}a obra das de Misericordia, e muilo meritoria, ensinar, ou ajudar a 
ensinar os ignorantes, e talvez mais meritoria, que mandar dizer exces- 
sivo numero de Missas, sem saber se na verdade se dirao. 

439 Do governo da justiga tem o cuidado em Angra, além dos doos 
Juizes Ordinarios, bum Desembargador com beca, e posse tomada no 
Porlo, e a sua correi^ao se extende a todas as nove Uhas ; e quando a 
S3o Miguel vai, cessa a do Ouvidor do Donatario. Comecou està correi- 
(ào em OS annos de 1503, em o primeiro Corregedor, que foì Affonso 
de Matos, cliamado Cabefa de vacca, conforme a Fructuoso, liv. 6cap. 12. 
Continuarao succedendo Corregedores huns aos outros até o anno de 
1530, em que fazia o oflìcio Ayres Pires Cabrai ; e de 1S34 até 1540, 
vierao mais deus Ministros por partìculares Corregedores de Sao Miguel, 
e Santa Maria, (nao sci com que causa) mas nem ainda entao deixava de 
baver sempre o Corregedor das Uh*; em Angra; e lego depois dos dous 
substitutos Corregedores em Sao Miguel, tomou a unir-se a correigao de 
todas as Ilhas no Corregedor de Angra, que foi Gaspar Touro, em 1544 
a que se seguirào os mais, e entre elles Christovao Soares de Alberga- 
ria, que tinUa sìdo o primeiro Juiz de fora de Penta Delgada, e por ser 
por Castella no tempo da conipetencia entre ella, e o Senhor Dom An- 
tonio, Servio entao de Corregedor de S. Miguel, e Santa Maria, e Cas- 
tella promoveo a Corregedor de Angra, e de todas as lihas, e por està 
via subio depois multo mais, corno outros muitos por seus merecimen- 
tos, comò Diego Harcb§o Tliemudo, Bento Casado Jacome, e outros 
muitos. 



Liv. VI CAP. xnr 73 

140 Dos quaes Corr^edores o excmplar do Justica foi o quarto 
que entrou no oflick) em o anno de 4515, chamado Jeronymo Luis, (o 
Bom, a respeito de outro Jeronymo Luis, que chamarao o Mao). Ao Bom 
pois, estando de correicào em S3o Miguel, foi a julgar huma causa, em 
que bum homem multo rìco do lugar da Maia pertendia tirar a huma 
viuva, por demarca^ao de terras, humas que dizia Ihe pertenciao a elle 
e achando o Corregedor que a justica estava pela viuva. e dando Ioga 
por ella a sentenza centra o rico, appellou este para a rclagao de Lis- 
boa, e derao os Desembargadores a sentenza pelo rico, reprehendend o 
D'ella ao Corregedor; chegou a este a sentenza, estando ainda em Sao 
Miguel, e lego n'elle o zelo da justiga foi t3o grande, que substituindo 
em sua ausencia no ollicio a huni Francisco Pires Bacliarel, se metteo 
em bum navio, que para Lisboa ent3o partia, e desembarcando se foi 
apresontar a el-Rei Dom Manoel, e Ihe propoz que se vinha offerecer a 
sostentar a justiga da viuva, e que os Desembargadores que tinhao da- 
do a sentonca pelo rico, a sustentassem, «e que se nomcassem Juizes à 
causa: e mandando- logo el-Bei que se (izesse assim, e que os Desem- 
bargadores do Pago fossem os Juizes, por mais quo toda a Rela^ao ar- 
rezoarao, sahio a sentcnca pela viuva centra o rico, e o Corregedor lo- 
go logo se voltou a S. Miguel, louvado muilo do Rei, e accrescentado 
com muitos privilegios: e acabando a Correifào em Sào Miguel, se vol- 
tou para Angra, e foi dopois promovido a grandcs lugares. Oh cxemplo 
de justica, e zelo d ella! 

141 Além dos ditos (-orregedores Desembargadores, que tem seu 
Meirinho geral, e Escrivao da Correicao, (fora muilos Éscrivaes, outros 
Tabelliaes, e Enquercdores) costuraavào ir a Angra, aignmas vezes, ou- 
tros Desembargadores a particularcs devassas, e lium d'elles foi Pernio 
de Pina Marecos, casado com Mór de Paria, fìlha de Sebastiao Lopes 
Guedes, senhor de Arzila em Africa, por a ter tomado aos Mouros, e 
do tal Fernao de Pina nascerao os filhos seguintes: Maximo de Pina, 
Commendador: Valerio de Pina, Cavalleiro de Christo com tenca: Nico- 
lao de Pina, e Marcos de Pina, todos (idalgos da casa de S. Magestade. 
Nascerao mais D. Margarida, D. Marcellina, D. Violante, e outra fìlha que 
casou com Nuno Pereira de Aragao, fìlho de Fedro Pessoa, (que mor- 
feo Capitao em Africa na bataiha d el-liei D. Sebastiao) e da Dama D. 
loaona Hansil, fiIha de D. Joao Manoel Commendador das Idanhas: e o 
sobredito Maximo de Pina casou com D. Maria de Lemos, fìlha de Ma- 



7i IlISTOniA INSULANA 

noel de Lcinos» Corrcgedor de Tbomar: porém o pai Fernao de Pina Va- 
recos era Albo de Nicolao de Pina, da grande casa dos Pinas de Floren- 
Ca, e casado com Branca Ane$ Harecos, descendente das Montanhas do 
Castella; e o dito seu fìllio Fem9o de Pina, na contenda da successao de 
Portagal com Castella foi Procurador de ambas as Coroas, Vereador per- 
petuo, e Conservador da moeda, e Chanceller, e Provedor mór da San- 
ile no tempo da peste, e sem morrer d'ella foi morto à traiQlo por bom 
mancobo em Lisboa, por n3o seguir a parto do senhor D. Antonio: do 
que tudo jà se ve, de quo qualidade er3o os Ministros, quo ent3o se 
manda vao a Angra. 

142 Ainda outros Ministros ha em Angra de que so se appella pa- 
ra Lisboa, corno Provedor dos Residuos, Capellas, eie, e Juiz dos Or- 
fios, e Ausentes, e estes grandes ofiicios andao em familias de nobres, 
e fldalgos Cidadaos de Angra, e lem cada bum seus Escriv3e8« e offi- 
ciaes, e huns, e outros sao de grande rendimento; e nem a Provedor 
dos Residuos, ncm o Juiz dos Orfàos s3o letrados, sondo que sé esten- 
de sua jurisdicgao a muitas das outras Ilhas aonde v3o visitar, poròm a 
jurisdiccuo do Auditor de Guerra do Castello grande, que sempre he Is- 
trado Jurista, osta so aos militares do dito Castello se estende, e d'elle 
so se appella para o Consellio de Guerva de Lisboa, e nao para aigum 
outro Tribunal. 

143 Maior tribunal que todos he em Angra o da Fazenda Real, cha- 
mado, da Alfandoga; consta de hum Provedor, quo he bum quasi Vea- 
dor da Fazenda, e lem jurisdicgao sobre a Fazenda Real de todas a^ 
nove Ilhas Terceiras. e a todas pode ir visitar, e passa ordens a todas,^. 
e tem privilegio, e posse de nas ditas ordens fallar por (vós) a todos osst 
inferiores Ministros da Fazenda Real das outras Ilhas, ainda aos Juizes» 
das Alfandegas, corno os Vcdores da Fazenda em Lisboa. Abaixo do di- 
to Provedor se seguem na Alfandega de Angra o Juiz, Conlador d'ella, 

e logo dous Escrivaes da Alfandega, e o seu que chamao Feitor, Meiri- 
nho da vara, e outros òfficiaes inferiores, corno Pezador da Alfandega, 
etc, e de todos estes, nao so da Uba Terceira, mas de todas as mais 
Ilhas, Superior maior he o dito Provedor de Angra, e de suas ordens 
nunca ha appellagao, senao em alguns casos, para o Real Conseiho da 
Fazenda em Lisboa; d'onde vem que do tal Provedor, até os Bispos de 
Angra, e todo o Ecclesiastico, e os Governadores do Castello, e os mes- 
mos Capit3es Donatarios das Jlhas, e todos os que tem algum salario, 



UV. VI GAP. XIV yi> 

ordenado, ou ten^a, ou a qucrcm assentar na Fazenda Rcal das Ilbas, 
todos dependcm multo do dito Provedor. 

144 E ainda que tambem ha em Angra oulro Provedor, qne se in- 
tilula Provedor das Armadas, para acodir às Armadas Reaes quando là 
vie as frotas do Brasil, às nàos da India: e este he hrnn dos princìpaes 
fidalgos de Angra (corno foi Pedneanes do Canto, e JoHo da Silva do Can- 
io seu segundo filho, e quasi sempre n'esta casa dos Cantos andou o 
dito titolo) ainda este Provedor depcnde muito do da Fazenda Rcal, por- 
qae ao das Armadas toca o re(juerer, e pedir ao da Fazenda, corno tam- 
bem the fazem os mesmos Cabos das Armadas, e frotas, e os Capitaes 
mdres das naos da India; mas ao Provedor da Fazenda toca o despa- 
cbar, e acodir com ella, sem o qual nada terà effeito, pois ncm ainda 
embarca^So alguma para viagem, nem caravelSo para outra liha póde 
sahir do porto de Angra sem despacho do Provedor da Fazenda: e me- 
nos se póde arrematar direito algum dos Reaes a pessoa alguma sem or- 
dem do dito Provedor, e fianfas por elle approvadas, e haver consenti- 
mento seu. Em fim he tao Regio ofDcio oste, que por encarecimento di- 
zia hom discreto, que nao sabia el-Rei o que dava, quando dava tal offi- 
cio; e que he officio capaz de o Rei o dar a bum de seus filhos segun- 
dos. 

145 Mas tambem por isso mesmo tcm tanlos, e tao podorosos con- 
trarìos» e os que mais annos o tiverao, tiverao mais, e maiores inimi- 
gos, e nao so seculares, e nas ditas Ilhas, mas tambem Ecclesiaslicos, 
e na mesma Corte de Portugal; porque deixando jà os mais antigos, dos 
qnaes o primeiro foi Francisco de Mesquita; segundo, Fern3o Cabral; 
terceiro, Duarte Borges de Gamboa; quarto Sebnstiao Coelho: quinto 
Garda Lobo; séxto Rui GonQalves de Figueìroa ; deixados, digo, estes 
e outros, os ultiraos tres Provedores perpetuos forao Antonio Ferreira 
de Bentencor, naturai da Villa de Agua de Pào, de S. Miguel, cuja fi- 
Iha D. Maria de Betencor casou com Agostinho Borges de Sousa, pri- 
meiro do nome, que na Provedoria succedeo ao sogro, e foi pai de ou- 
tro Agostinho Borges de Sousa, que ao pai succedeo na mesma Prove- 
doria), corno jà tocàmos no liv. 5, cap. 17 tit. 5) e casou com huma il- 
lastre fidalga de Angra, filha do Vital de Betencor e Vasconcellos, de 
qne nasceo Antonio Zimbron de Betencor, que succedeo na muito rica 
casa do pai, e no grande morgado, que no tal pai tinha nomeado sua 
tia D. Anna Fef reira de Betencor; mas taes desgostos tiverao com o offi- 



76 HISTORIA INSULANA 

ciò OS ditos, e ullimos Provedorcs, que o segando Agostinho Borges li- 
vrando-se em Lisboa, morreo de doenc^, e de desgostos, e o filho An- 
tonio de Zimbron nao quiz mais procurar officio tal, cajas fiihas nao sao 
mais que a soberba de quem lem o officio, a inveja dos que o n3o lem, 
e a desgostosa morie de huns e oulros; e assim, ha muìtos annos, anda 
ja officio feito triennal em Bachareis 9e beca; e se assim convem, cu 
ser perpetuo, e em casa nobre e rica, là se considere. 

146 Concluindo pois com as noticias da tal Cidade de Angra, nem 
duvidar se póde que he a cabefa das /love Ilhas Terceiras, assim no 
Ecclesiastico por seus ilhistres Bispos, comò no Juristico, e Judicial por 
sens Corregedores, e cabegas de comarca, corno na Fazenda por seus 
llegios Provedores, e ale nos Ueligiosos pelos Provinciaes de S, Fran- 
cisco, pclos Vice-Provinciaes de Santo Agostinho, e pelos Visitadores, e 
Yice-Provinciaes tarabem da Corapanhia de Jesus; e em firn he Angra 
cabeca tal das ditas Ilhas, que o mesmo Fructuoso liv. 6 cap. 3, (sem 
ser naturai de Angra, mas da Uba de S. Miguel) confessa que parece 
lìuma Lisboa pequena. E eu confesso pela experiencia que tenbo de 
quasi todo Portugal, que abaixo de Lisboa nao ha n'elle Cidade com 
quem mais se pareva Angra, que a famosa Cidade do Porto, porque 
ainda que està he a maior no numero da genK), pois Angra nao passa 
de tres mìl visiuhos, nao he maior comtudo, nem mais bem assentada 
no sitìo que occupa, no numero, largueza, e direitura das ruas, em a 
nobreza das casarias, no concurso, e commercio das Na^oes estrangeiras 
que com Portugal tem pazes, no real porto, e bahia, nos fortlsstmos 
Castellos, e ainda na fìdalguia assentada nos livros de S. Magestade, 
comò se póde ver n'elles, e veremos adiante em seu iugar. E iste sop- 
posto, vamos a acabar jà com a costa do Sul, e Capitania de Angra. 

CAPITILO XV 

Acnba a dcacriiìcào da Capitania de Angra pelo Sul, e Oesle. 

147 Passado o grande monte, ou Castello grande do Brasil pelo 
Sul para o Poentc, e Bahia chamada dos Fanaes, que he frente para o 
mar do bairro de S. Pedro ultimo da Cidade para aquella parte, vai por 
terra huma legoa de caminho plano desde as portas de Santa Catbarina 
ale Sào Matlheos; e he tao recreativo, cursado, e contimiado este carni- 



LIV. VI GAP. XIV 77 

nho, qoe para a interior parte do Norte parece Imma sempre conli- 
nuada ma de excelientcs Quintas, e casas nobres, de qne algumas se 
podem dizer Palaclos. corno as do grande morgado dos Pamplonas; e a 
todas as Quintas vem agoa de cima do Certao da liha» com que sao 
Quintas nlo so mui recreativas, mas fertiiissimas de p3o, vìnhas, hortas» 
e arvoredos; e da mesma sorte para a banda do mar do Sul, que consta 
mais de vinbas» e amoreiras, que de outros frutos; mas com a maior re- 
creacSo da pesca do mar, e praia vaza; e porque de antes n3o havia 
ainda a contìnuada arteiharia da cortina do Zimbreiro, e Castello grande 
para està parte do Poente, por isso na dita corrente costa havia antiga- 
mente varios Fortes de artiiheria, e soldadesca de guarnìc3o; noje porém 
08 nSo ha até onde chega bem a artilharia do Zimbreiro; e tambem por 
isso bum Forte, que estava quasi bum quarto de legoa do dito Castello, 
he hoje buma Quintinha de vinha de recrea^ao dos Mestres do Collegio 
da Companhia de Jesus, que cham3o a Quinta da Silveira, ou do Penedo 
do Ali:aide; com recreativa pesca, e casaria nobre, aonde alguns sonho- 
res Bispos gostao de ir ver pescar os Padrcs. 

148 Muito pouco adiante està da parte do Nortc a devota Ermida 
ce S. Bernardo com casas, e Quinta para a parte do Norto, e tambem 
para a partendo mar, e boa sahida a elle, aonde o mar faz bum liom 
tanque de agoa cercada de cachopos, que chamao a Poca dos Padres, 
por estar junto a sua Quintinha do Penedo do Alcalde; e a dita Ermida 
de S. Bernardo, e sua Quinta fui fundada pelo M. II. Arcediago Manoel 
Cabrai de Mello, naturai da liha de Santa Maria, e descendente dos mais 
nobres descubridores d'ella, e deixou a tal Ermida, e Quinta em cabefa 
de morgado que instiluio, e hoje possuem seus nelos, com obrigagao de 
IMlissa em todo o vcrao, e servir conio de Freguezia a lauta gente. Con- 
tinuilo as Quintas outro quarto de legoa adiante, ale oulra Ermida de 
Mossa Senhora da Luz, da parte da terra, e jà da parte do mar vào al- 
Ijuns ForteS com arteiharia, e soldadesca, posto quo por aqui ainda o 
mar he de tantos calhaos, que mal póde cbegar ainda lancba, e muito 
menos navìo a desembarcar. 

149 A outra meia legoa que se segue, vai ainda com maiores Quin- 
tas de buma, e oulra parte, i)orùm da banda do mar, aonde póde ha- 

• ^er algum deserabarcadouro, logo ali ha Fortaleza com arteiharia, sol- 
dados, e Capilao, e em trcs sitios diversos, a nove, "e mais pec^s cada 
Forte, e no iim da legoa està a Freguezia, e lugar de Sào Mattbeos, de 



78 IIISTOIUA IXSITLANA 

mais de cincocnta visinlìos, posto quo espalhados: pouco adianlc esld bu- 
ina baliia de area branca, o calhao miudo, aonde so toma muito peixe, 
e salmonelcs; e ahi om rocha baL^a esté buma Fortaleza com casas den- 
tro, Capilào, e soldudescn, e qualorze pecas de artilheria. E meia legoa 
adianfe de S. Mattbeos està a Freguezia, e lugar de Sao Bartholomeu, 
de cousa de cem visinhos, e inuitos tambem espaibados» e n'elle hama 
Ermida de Sào Joseph; e d'alii se segue rocha de alta penedia; e por- 
que aqui havia buina descida» e algum desembarcadouro, mas de bum 
tò batel, tudo esté cort^do: e da mesma sorte o està outra descida mui- 
to mais adiante» onde cbamuo o Negrito, cortada tambem. 

150 [faqui por diante até a Igreja de Nossa Senbora da Àjuda, (que 
ji pertenco ao lugar de Santa Barbara) nem entrada, nem descida ha, 
senio no flm huma pequena bahia, donde até a penta da Serreta. que 
tambem chamao da balea, tudo he roclia talbada, e muito alta para dian- 
tOt buma Icgoa, mas pouco para dentro da Uba, e afastado do mar Oca 
o famoso lugar de S. Barbara» com Freguezia da Santa, e quasi trezen- 
tos visinbos, e quatro Companhias de soldados. e grande campinas de 
trigo» e outras de pastos communs do Concelbo, aonde quem quer bota 
seus gados sem pagar cousa alguma: a Igreja tem Vigarìo, Cura, e The- 
soureiro, è quatro Beneflciados; e nao so para o mar tem ja dita Ermi- 
da de Nossa Senhora da Ajuda que dizem ali appareceo, e por ali vem 
a vista as naos da India, e salvào a esla Senhora, e Ihes responde o 
Forte da terra, e manda logo nova a Cidade. Scgunda Ermida he Nos- 
sa Senhora do Dosterro, de nao menos romagem, e devogao, que admi- 
nistra o morgado dos Monizes. A terceira Ermida tem ali o Collegio da 
Gompanhia de Jesus de Angra, em huma rendosa fazenda que alli tem 
do patrimonio do Collegio. 

151 Adiante do lugar de Santa Barbara bum quarto de legoa, ca- 
bo jà Occidental da liha, està a Igreja, e lugar de S. Jorge com mais de 
oitenta vìsinlios, e seu Cura, sujeila a Santa Barbara, e podièra ser Vi- 
gano separado com seu Cura; e Santa Barbara devia ser Villa, por ser 
lugar tao grande, e tao rico, e que tem multa gente nobre, de que jà 
vierSo alguns a ser do Senado da Camera de Angra; e d'aqui por dian- 
te corre a costa tao alta, e tao brava por quasi Icgoa até a dita Serrela, 
ou ponta da balea, sendo quo por dentro sào tudo lerras de trigo, e dC 
creagoes de gados: e d'aqui comefa a voltar a liba do Ocslc para o Nor- 
ie, continuando aiuda a Capilauia de Angra. 



i 



LIV. VI €AP. XVI 79 

152 D'esle pois cabo Occidental da liha corre ainda a Capitania de 
Aogra legoa e meia para o Noroeste, com costa para mar alto, e despo- 
nbada sem caminbo até o lugar chamado Folhadaes, pela multa madei- 
ra de Folbados que alli havia, de que jà por terra se tem rocado tanta» 
qae jà por alli ba muitos tractos de vinhas, e terras de pào, e fajas fer- 
tiiissimas; e aqui em dìreito de Oesnoroeste, sem cbegar a Noroeste, aca- 
ba a Capitania de Angra, e cometa a da Praia, com igualdade huma a 
outra, cujo primeiro lugar be o de S3o Roque, que cliamao os Altares, 
corno acima jé dissemos cap. 4 e 5, e concluida assim a circumferencia, 
e costa do mar da Uba Terceira, segue-sé tratarmos do interior duella. 

CAPITULO XVI 

Do Ceriàù interior^ e feriilidade da Ilha Terceira. 

153 Vistas jà as costas maritìmas das duas Capitanias da Terceira, 
s^uese darmos noticia do seu interior Certào; e ainda que quasi to- 
dos OS lugares, povoacoes, Vlllas, e Cidade, eslao a beira-mar, ou njui- 
lo perto d elle; comtudo mais no cerlao, sahindo da Villa da Praia para 
OesDoroeste, està bum lugar, cbamado Fontainhas, pelas muitas fontes 
que n*elle ba, cuja Parocbial se intitula Nossa Senhora da Pena, e tem 
aeu Vigano, e até cincoenta moradores, e buma Ermida de Santo Anto- 
nio, cabeca de bum bastante morgado, que institubio bum Antao Fer- 
MDdes de Avila; e ba n'este lugar lavradores ricos, por ser o siiio mui 
fertU, e ficar em dislancia da Praia so buma legoa; porém desde o Nas- 
cente da dita Villa da Praia para o Poente corre o interior da Uba com 
^rastas campinas, a que cbamao os Cince Picos, porque os tem à roda; 
6 oolra parte cbamao o Paul, por n3o so ser teri*a plaina, e farta de 
agua, mas de tao vastos, e enxutos pastos, que ambas estas campinas 
passio de tres legoas, e innumeravel creagao de gados, e para a parte 
do Sul acabao em ferlilissimas terras de trigo, e para a parte do Nor- 
ie varios matos, e muitos, e fertilissimos pomares. 

i54 Da Cidade para o Poente, além d'aqoelle tao povoado caminbo, 
e quasi rua de legoa até S. MatUieos, (corno jà vimos) vai outro, que 
(iluaii3o caminbo do melo, que continua afastando-se quarto de legoa ao 
mar, e todo de vinbas, pomares, e Quintas de buma, e outrà parte, e 
todas divididas com muros, ou paredes altas de pedra, de sorte que mai 



82 HtSTORIA TNSULANA 

segue do railho mindo, nem do trigo, nem de outros legnmes. qne nao 
gastao tanto a terra com canas tao altas» e tSo grossas cada anno. 

158 De vinho he fertil, mas a gente he tanta, e tao grande de fora 
concurso, que nem para a liba basta o vinho d'ella, nem he o melhor, 
mas excellenle Ihe vem da liha do Pico, do Fayal, e de S. Jorge, com 
que abunda nào so para si, mas para as nàos da India. Àrmadas, e Fro- 
tas, que a prover-se vào alli, comò lambem as continuas embarcacrjes 
eslrangeiras, e até da liha da Madeira Ihe vem excellente vinho, e levao 
trigo, de que ha na Cidade de Angra celleiros, ou Graneis especiaes, que 
sao grandes covas abertas na terra, e cada cova he mnito funda, e leva 
mnitos moios de trigo com seu bocal redondo em cima de tres palmos 
de diametro, que se tapa com buma so pedra de cantarla redonda, a^ 
mo lìuma mó de moinho, com o sinal em cima do dono de quero lie 
aquella cova, e no grande, e fundo vao, re,dondo, da cova se conserva 
trigo, corno no ventre de sua mai a terra, t3o puro, e limpo de lodo 
bicho, e vicio, que se tem experiencia de ser melhor, e fazer melhor 
pao trigo das covas, do que o de Graneis, ou relleiros das casas de 
fora ; e nao se sabe que em algum tempo se furtasse trigo de cova al- 
guma, nem que alguma se abrisse sem o mandar seu dono, e para isso 
ha officiaes Encovadores, e Desencovadores, que o fazem destra, e per- 
feit?mente. E este he o grande campo das covas que em Angra està no 
terreiro do Convento de N. Senhora da Graca, e em laes covas chega 
a estar o trigo anno inteiro, e sempre perfeito. 

159 De peixe he tSo abnndante lodo o mar é roda dVsta Uba, que 

nao he necessario que os barcos se afastem muilo d'ella para virem car- 

regados de peixe, e quando ha tempestade de huraa parte, vera da ou- 

tra, e por terra, comò da Villa da Praia, e do Norte a Cidade de An^Ta, 

e nao so ha o peixe ordinario, e da pobreza, comò sardinhas, cavalas, 

chicharros, e em excessiva copia, nem so peixe seco que levjo os Es- 

trangeiros, e o vendem alli mais barato pelo que com elle comprao, mas 

tambem muìta casta de poixes mimosos, comò garoupas, abroteas, sai* 

monetes, tartarugas, (que até a doentes se dao) douradas, bicndas, 

cbernes,^ gorazes, sargos, mogens, tainhas, etc, e toda a casta de ma- 

rìscos, e as maiores, e melbores lagostas que ha no mar, e sobre tudo 

cracas, que todos confessSo ser dos marìscos o rei ; e o que mais he, 

que muitas casas nobres tem barcos seus, que os pcà:adures lr«zem ar- 



LIV. VI GAP. XVI , 83 

reiìdados, e o melhor peixe que tomao he do Senhor do barco, e o mais 
milito barato. 

460 De toda a casta de carnes he tao abundante a liha Terceira, 
que affima Fructuoso liv. 6, cap. 5, que havia n'ella mais de cem mil 
cabecas de gado \^caril, e havia creador, que tinha mais de quìnhen(<)s 
rezes d'eslas, e mais de cento e vinte vacas parideiras; e havia na liha 
dezasete a^ougues continuos, e na Cidade cinco de mais, nos quaes ciu- 
co se matavao cada semana vinte rezes vacaris, e que d'este gado se 
creava tanto so na liha Terceira, comò em todas as outras Ilhas dos 
Assores juntas: e disto dà a razào o mesmo Fructuoso, dizendo que se 
nào matava nos agougues outra carne, e ser a vacarli d'està Ilha tao 
branda, e gostosa corno a melhor de Entre Douro e Minho de Portugal. 
Consta i)orém hoje, que nos afougues se mata tambem carneiro, e nào 
sen3o castrado; e cabras nào vao ao afougue, com haver muita creacao 
d'ellas para lacticinìos: e d està abundancia sao testimunhas os precos, 
porque cada arratel de vaca custava so dez réis, e pouco mais o arralel 
de carneiro; e por mais Frotas, Armadas, e navios que viessem a pro- 
ver-se, se nao levantava o prego; mas jà hoje he maior, por ter mulli- 
plicado muito a gente da terra, e ser maior o concurso das Nagoes de 
fora, e o dinheiro muito mais. 

161 Das outras carnes da terra, e do ar he tanta a copia, que o 
maior porco custa quatro, cinco, até seis mil réis, e bum leitao seis vìn- 
teas, e comò he carne creada com junga, he menos nociva, e que em 
todo o anno se póde comer sem fazer mal, e muito gostosa, e muito 
mais OS toucinhos, de que vem muitos de mimo a Portugal, comò tam- 
bem vem a junca, que verde he pasto na mesma terra ainda para os 
porcos, e quando jé colhìda, e avelada, he mastigada, regalo para a gen- 
te,* e d^ella, moida em farinha, com assucar, e agua de flor se fazem 
. ealdos peitoraes, e preciosos. De coelhos he tanta a multidào, que os 
senbores de Quintas, e vinhas pagào a cacadores, que para si os vào 
inaiar, e os mesmos cacadores os vendem ao depoìs, e a vintem cada 
hum, e a muito menos os larapos; e para isso ha là muitos, e a muito 
i finos c3ies de ca(a, e excellentes forOes, e até com la^os, postos em seus 
I camìnhos, os apanh3o. De aves ha toda a boa casta, gallinhas a tostao, 
1 frangos a vintem, codomizes tres por hum vintem, perdizes a cincoenta 
^ rèis, mais caras que em outras Ilhas, porque n'esta ha mais rique- 
I 2^1 e mais compradores d'ellas: de outra infinidade, e de suas varias, e 



8i HBTO&U L\SnJt\JI 

soavissimas mnsicas, seria nooca acabar, o referil-as: basta dtzcr, coma 
diz Fnictaoso cap. 6, do liv. 6, que oa Terceira liavia muitos, e mui 
fennosos Assores, que jé dìo ha, noas que ba Falcoes, Gavioes, Biiba- 
fres, e Conos, e além de pombas bravas, muitos pooibaes de pombas 
luansas. 

1G2 De lactìcioios be abundaute està Uba, com taotas vacas, ove- 
Ihas, e cabras; que ao sahir da Cìdade, acima do Castello dos moinbos, 
nieia legoa quasi para o Norte, onde sabe a grande fonte, que por an- 
tonomasia chamao, (Onde nasce a agua) e com que ainda mais perto da 
Cidade moem doze moìnhos: loda està meta legoa de bella sahida anda 
ì^empre cheia de mo^os carr^dos de queijos frescos de toda a casta» 
r|ijeijadas> requeijoes, tao grandes, e tao baratos. que bum requeìjao,, 
(;ue enche bum len(o, custa bum ¥int^m; e he este o gazeo celebre dos^ 
Ksturlantes: e corno n'esta Uba ha sempre muito assucar, pela muita cai- 
xaria que alli vai do Brasil, niella se fazem queìjadas tao grandes, e de 
tao varios, e preciosos doces, que nem bolo de bacia, nem outro doce- 
Ihe chega, e quem come, e acaba bum», come bem, se he das que se 
fazem no Convento das Freiras da Esperanga, qu& mais especialmeote 
fazem cstas queijadas, e nem em outra Uba alguma, nem ainda em P(M^ 
tugal se fazem t3o perfeitas: ao que ajuda mais, haver n^esta Uba dìo 
so muito mei, (que chamlo de canas, por vir feito do Brasil, e tirada 
(lo assucar) mas tanto mei de abellias, que diz Fructuoso haver homem 
no Posto, ou Porto Santo, que tem quinhentas colmeas, e o melhor pasto 
d'ellas. 

103 Até de arvoredos, lenhas, e m'atos, he mais povoada, e be© 
I)rovida està Uba, porque corno tem o interior de quatro legoas de lar- 
(f 0, e sete de comprimento, e nunca teve Engenhos de assucar,. qoe 
consomcm toda a lenha, e por ser de menos fogo, tem mais do fundo 
as pedreiras, e por cima mais alta a pura terra, por isso se achao n'elto 
arvores t3o grandes, que de pereiros tal havia que do mesmo tronco sa- 
biao treze é roda, e tao cheios de fruta, que vendendo-se os peros a 
dous, e a tres por bum real, rendia cada anno seis mil réis,. so em os 
que se vendiSo; e em soutos de castanheiros, tal se achava, e tSO'anti- 
go, que seu tronco tinha de grosso circuito trinla e ciuco palmos, e effl 
cima infinidade de castanhas: e para a banda do Norie, e de Ceste, [wr 
cima das campinas chamadas PataluRO, ha tao grandes madeiras de pio* 
braacos, sanguinhos, louros,. folbados,. e cedros, e de tanta, e tao es- 



uv. yi GAP. m 8S 

pessa altura, qiie n'ella chega a gente a perder caminho: dQS cedros po- 
rém ha menos ja, por serem muito buscados, e haver muitos ofiìciaes 
que d'elles lavrao riquissimas pecas, que para Portugal, e outras partes 
se embarcao; que quanto malo ordinario para o fogo, basta sahìr de ma- 
nhaa da casa de sea senhor o seu escravo com machado, e besta, para 
Toltar com ella carregada a jantar a casa, e tornar logo depois de jan- 
tar, e voltar da mesiiia sorte à noite; tao prompta, e tao barala, e laala 
he a lenha desta Ilha. 

164 Basta pois dizer das excellencias da Ilha Terceira, oque (sem 
ser d'ella, mas da Ilha de Sao Miguel) diz o douto, e verdadeiro Fru- 
cluoso Irv. 6, cap. 2. tQne he a universal escala domar do Poenle, e 
por lodo mundo celebrada, aonde reside o corac5o, e q governo de lo- 
das as llhas dos Assores na suaCidade de Angra, etc, e no mesmo liv. 
6. cap, 6, fine, accrescenta ibi: Além da sua fertilidade, he muilo fertil 
està Ilha com o que Ihe vem de fora, das outras llhas dos Assores; coni 
qiie he, corno Rainha, de todas as llhas bem servida, porque de Sao 
Jorge Ihe vem gado, madeira para caixas, e navios, frutas, vinhos ; do 
Faial carneiros, Inhames os melhores, e até o excellenle peixe Escolar; 
do Pico OS melhores vinhos, e o que vence a todos, que he o vinlio 
passado; da Graciosa ns ccvadas, as manteigas, mel> gallinhas, e multo 
carneiro; da ilha das Flores, e da do Corvo, Cedros, e outras ricas nia- 
deiras, muila laa, e muito pano da terra, com so a cor da mesma laa, 
sacas, e sacos, gallinhas, e toucinhos, e multa courama; e até da Ilha de 
Santa Maria Ihe vai o barro para a melhor louga, e multo peixe seco; e 
de Sao Miguel loda a casta de linho em rama, e em panos, em sacas, e 
sacos; de sorte (s3o palavras de Fructuoso) de sorte que póde dizer a 
Ilha Terceira, que todas as outras llhas sao suas escravas, pois quanto 
n'ellas se cria para a Terceira, e desta sao suas Quintas as outras llhas. 
465 E nao obslanle, ser loda a Terceira tao permeavel, que em 
menos de vinte e quatro horas se arìda loda a roda pelos devotos do 
Santissimo, desde que se expoem o Senhor em Quinta Feira da Semana 
Santa até se acabar o Officio da Sesta feira, e a pé por lavradores de- 
votos que andao aquellas desasele l^oas em redondo; ainda comtudo 
lem tlo copiosa creagao de Egoas, que com cobras d'alias se debulha 
o trìgo n'esta Ilha, o que se nào faz nas outras llhas sen3o com trilhos 
de ^ado vacum, e assim ha na Terceira muita, e mui exceilente caval- 
laria» e Sdalgos curiosos de crear, e eosinar generosos Ginetes, e se 



86 HISTORIA INSULANA 

tao desenfavel era a Ilha por so genie de pé, qiic em vinte e cpiatro 
lioras a corre à roda, quào incoiiquistavel sera, tendo tanta, e tao boa 
cavallaria, que a corra, vigie e dufenda em menos horas? Sobre isto he 
de tal temperamento, e de clima tao sadio, e mantimentos tao digeri- 
veis, que niella vivem os homens lemperados mais do qne em outnis 
Ilhas, e ainda os mais nobres, de que conheci muilos fidalgos de oitent^, 
noventa, e cem annos: e d'este temperamento vem o sahirem d'alli en- 
genhos superiores para todas as artes, e sciencias, (comò adiante vere- 
mos) pois ale Pilotos sahirao dalli tao destros, que bum Ayres Fernan- 
dez foi por vinte vezes Piloto à India, sem alguma bora arribar, e o se- 
gnio seu filho Luis Ayres: e bum Manoel Fernandez foi tao insigne Pi- 
loto de toda HQgpanha, que foi o primeiro que descubrio a derrota 
de Portugal a Malaca, sem antes d'està tocar na India, e em Goa o fa- 
ziào Piloto mór do Sul, mas EUIiei D.Scbastiào o charaou, e levoupor 
Piloto mór da sua Gale Real, e seu Real Galcao S. Martinbo, em que a 
ultima vez passou a Africa, e o honrou com o habito de Cbristo, tenfas 
e outras honras: e tendo sido examinado pelos maiores Pilotos de Por- 
tugal, confessarao todos a el-Bei que aquelle homem sabia tudo o que 
elles sabiao, e que todos elles nTio sabiào o qne mais sabia elle. Oniro 
insigne Piloto sahio da mesma Terceira, por nome Joào Fernandez, que 
foi primeiro, que do mar do Sul das Indias de Castella sabio pelo Es- 
treito de MagalbSes, e partindo da Cidade dos Heis em a Capilania, e 
com a Almiranta, està se perdeo, e elle passou lodo o Eslreilo, e em 
breve apoi'tou na sua Uba Terceira, e d'abi logo em Sevilba, levando 
comsigo dous Gigantes, macbo e femea, que tinha acbado, e tornando 
em as costas do Estreito. 

166 T5o subidos Engenhos para tudo, tambem vem das medici- 
naes cousas que cria a dita Uba, porque acima dos moinhos da Agualva 
em buma pequena fuma, se tira almagre tao fino, que deitando com elle 
emplastros nos cavallos, os cura perfeitamente, corno se fora bolo ar- 
menico, ou bonarmenico : e na mesma parte junto a dita Agualva ha 
campos cuberlos de muitos cubres, berva mui medicinal para muilas 
enfermidades, e especialmente para quaesquer queimaduras de fogo; 
tanto assim, que bum grande herbolario e Fisico, que das Indias de 
Castella aportou em a Terceira, vendo, e conbecendo a berva mandoik 
^'Stillar as flores d'ella, colbidas antes do Sol nascer*, e com a tal agua^ 
curou a muilas pessoas de varias doencas; e levou muitos vasos cbeioi^ 



LIV. VI GAP. XVI 87 

da ilita a^oa, dicendo qiie levava n ella riquissima modidria, em qiie es- 
pirava fazer muito diiiheiro nas Indias de Castella, para oiìde elle voltava; 
e accn'scerjlava (jue havia na talliha a mais fina salsa parrilha que se dava 
nas Indias de Castella d'onde elle vinha; e nao quereiido dizer qiie herva 
fosse, suspeitou-se ser a que cà chainamos Hera, por està na Terceira 
se parecer mnito com a salsa parrilha das Indias, e por na tal liha se 
usar muito da dita sua hera nas enfennidades, e se darem coin ellasua- 
douros, e d'ella liaver paos tao graades, que delles fazem copos, para 
mais segura, e salutiferamente beberera. 

167 Dirà ainda alguem: Se tanto servem à llha Terceira os ài' fora 
d'ella, ejla em que serve aos de fora? Responde-se, que corno a llha 
Terceira, e a sua Angra he a cabega das mais Ilhas, d'ella levào as 
mais, que de sua cabeca costumào levar os membros de bum corpo; 
e assim corno a cabega he a que vendo, ouvindo, examinando, e pro- 
v.'inilo, he a que julga o que convem a cada membro human;), e esles 
d'ella recebem os beni formados espiritos vitaes, assim as mais llhas da 
Terceira; e corno a està vai dar loda a casta de fazendas, drogas, e es- 
peciarias que ha nào so em Portugal, e suas ricas Contfuislas, mas nas 
^"Va/^oes estrangeiras, de tudo se vào prover a Angra as outras llhas, que 
t<Mo n'ella achào, o assucar, courama, e madeira do Brasil, e Maranhào; 
^> inarfim, e escravos de Angola, e Cabo Verde: a canela, pimenta, cra- 
^o, e cousas preciosas, e ainda a pedraria, as perolas, e aijofar da In- 
^•a Orientai; toda a especie de panos, e de sedas de Italia, Inglaterra, 
f'ranca e Hollanda; e o azeile, sai, e cera de Portugal: e até o ferro, 
^''^u, enxarcias, velames, anchoras, e amarras de navios: e se nada 
^ iste querem as outras llhas, levào em prata, e ouro o preco do que 
^rouxerào; pelo que a llha Terceira, e Cidade de Angra, sem alguma 
^ora servir, senào so a seu Deos, e a seu Rei, he buscada, e servida de 
^das as outras Genles. que supposto, vamos jà com a hisloria por 
diante. 



ss HlSl^ORIA INSULANA 

CAPITOLO XVII 

Va nohreza que entrou, e povoouy e ainda habita a Ilha Terceira. 

Dos Bruges, Arcas, Paims, e Teves, e dos Homens, Cameras, Domellai, 
Noronhas, Pamplonas, e Fonsecas. 

168 Do priraeiro, e verdadeiro Povoador da Ilha Terceira, e Capit5o 
Donatario de loda ella, e dos dous Donatarios segiiintes, em que se re- 
parlio a lllia, e da Qdalguia, e ascendencia de todos ires, e siiccessao 
nas Capitanias, jà dissemos acima n'esle llv. 6 desde o cap. 2 ale o cap. 
10, segue-se agora dizermos, que povoadores mais levarao comsigo: e 
que desc^ndentes, assim dos taes Capitaes, corno dos companheiros, fi- 
carào na Terceira, e mais Ilhas, para se reconliecer a nobreza d elles. 

169 Do primeiro pois Donatario da Terceira, o fidalgo Flamengo 
Jacome de Bruges, e da Dama sua mulher Sancha Rodrignez de Arca, 
nào (icou filho varao algum, mas a primeira de suas legiiimas filhas, 
chamada Antonia Dias de Arca, ou Arce, casou na mesma Ilha Terceira 
com hum fidalgo Inglez chamado Duarte Paim, filho de outro grande fi- 
datgo Thomaz Elim Paim, que de Inglaterra tinha vindo por Secretano 
da Hainha D. Felippa de Lancastre, mulher d'el-Rei D. Jo3o o I, e con- 
fórme a doacao feila a Jacome de Bruges, e nomeadamenle a sua pri- 
meira filha, nao tendo filho varào, està filha D. Antonfa, e por ella seu 
marido Duarte Paim, erao os que se seguilo na inteira Capitania de te- 
da a Ilha Terceira, mas comò o pai, e sogro, primeiro CapitUo, era ji 
morto, e dentro de poucos annos morreo tambem Duarte Paim, por mais 
que este fez demanda à Capitania, e a continuou seu filho legilimo Din- 
go Paim, comtudo por Ihe sumirem a Real Doacao feita a seu avo ma- 
terno, e a sua mài, foi negada por sentenza a Capitania a quem perten- 
cia, e dividida, e dada aos dous que se seguirao n'ella corno veremos: 
e nem a Commenda de Santiago que tinha Duarte Paim, nem essa se 
deo no filho Diogo Paim. 

170 Casou porém Diogo Paim com Branca da Camera, filha de Pe — 
drahes da Camera, irmao do segundo Capitào do Funchal: e ainda quc^ 
desta mulher se nào contào filhos que tivesse Diogo Paim, casou est^^a 
segundn vez com Calharina da Camera, filha de Antào Martins Homerrm , 
e de Isabel Dornellas da Camera, filha tambem do dito Pedralves A a 



Liv. VI CAP. xvn 89 

Camera, e teve o dito Diogo Pairn d'està sua segunda mulhcr Catharina 
da Camera, sobrinha da primeira Branca da Camera: teve, digo, a An- 
tonio Paim, que casou na raesma Ilha Terceira com Merita Evangelha, 
descendente da familia dos anligos fidalgos do appellido Evangelhos, dos 
qnaes Joao Evangeiho instituio o morgado de Sao Pedro em Villa No- 
va: e do tal Antonio Paim nasceo Duarte Paim, comò o bisavó paterno, 
€ casou com D. Bernarda, fliha de Paulo Ferreira, e posto que d'este 
casamento se nào sahem descendentes, sabe-se comtudo que Diogo Paim 
teve segimdo filho. chamado Jeronymo Paim, irmao do sobredito Antonio 
Paim, e tio do Duarte. 

171 tal Jeronymo Paim casou com huma Alba de Joao de Teve 
moco, e d'este casamento houve, e ha ainda na liba muila descenden- 
cia, e bum Mauoel da Camera, Clerigo, e Vigario das Fonlainbas, pri- 
meiro neto de Diogo Paim, segundo neto de Duarte Paim o primeiro 
do nome, e terceiro neto de Thomaz Elim Paim, e Secretano da Rainha 
D. Feh'ppa, por linha feminina, do primeiro Donatario de toda a Uba 
Terceira Jacome de Bruges, e da Regia Dama, sua mulher. E d'aqui se 
ve, .qua ainda que a fortuna, contra a verdadeira Justiga, tirou a Capi- 
tania aos descendentes de Jacome de Bruges, e de seu genro Duarte 
Paim, nao Ibe tirou comtudo a conservammo da sua nobilissima descen- 
dencia, que ainda boje se conserva em a Uba com nobreza, limpeza, e 
riqueza, de quo tambem era bum Cbristovao Paim, fidalgo da Villa da 
Praia. He porém de advertir, que d'este Jacome de Bruges quizerao al- 
guns dizer que vinhao os Borges da Uba Terceira, mudado o appellido 
de Bruges em Borges; porém be engano, comò adiante veremos. 

172 Na ordem de tempo em que entrarlo na Ilha Terceira seus 
mais nobres Povoadores, seguem-se os da familia dos Teves, (deixada a 
precedencia na nobroza de bumas familias a outras, que essa, corno odio- 
sa, nos nao toca a nós julgar) porque corno o capitlo Donatario Jacome 
de Bruges, vindo de Lisboa pela Madeira, trouxe à Terceira comsigo, 
entre outros fidalgos, a bum Diogo de Teve, do qual consta descender 
de outro Diogo de Teve, que da Madeira foi para Castella em tempo 

. d'el-Rei D. Henrique, e Ibe foi tomado o seu morgado para a Coroa, e 
este primeiro Diogo de Teve descendia de bum Joao de Teve, celebre 
Malgo em Portugal; fillio de Antonio de Teve, e irm3o de Dona Maria 
de Teve, que casou em Portugal com Fem3o Martins de Sousa, pai jle 
Cbristovao de Sousa, senhor de Bayao, casa bem conbecida em Portu- 



60 HISTORIA INSTLAI^A 

gal: e comò succedco qiie o Capit3o Bruges se sahio da Terceira, e nun- 
ca maia appareceo, e o seu corapanheiro Diogo de Teve, sem dar conia 
do Capilao, morreo na prizao em Lisboa. 

173 Ficou de Piogo de Teve, seu filho Joao de Teve, o qual Iroii- 
xe demanda com Diogo Paim, por o pai de Joao de Teve ter tornado a 
Serra de Santiago ao Capilào Bruges, avo materno de Diogo Paim: mas 
comò se corapuzerao rasando Diogo Paim a seu filho Jeronymo Paim coni 
huma filila de Joào de Teve, (chamado o niofo) dividirào a Serra entre 
si, que rendia entào qualrocenlos raoios de Irigo; e ficou a casa dos Te- 
ves muito rica, e a Serra de Santiago chamando se, a Serra de Joàode 
Teve: e està casa se conserva hoje aparenlada com a maior nohreza de 
todas as Illi^s, pois a ultima filha do ultimo JoDo de Teve casou com 
Luiz Diogo Leite do Canto e Vasconcellos. filho morgado de Jacome Lei- 
te Boteiho e Vasconcc^llos, fidalgos bem conhecidos em Angra daTercei- 
ra, e em Ponla Delga<Ja de Sào Miguel: porém està casa dos Teves, he 
dos Tevos por linha feminina, que por varonia he dos antigos fidalgos 
Vasconcellos, pois Joào Mendes de Vasconcellos casou com D. iJaria de 
Teve, e por obriga^^ào de morgados, he està de Teves, comò em seu lu- 
gar mais largamente vereinos, quando fallarmos dos V^asconcellos. 

174 Aos appelìidos e fomilias de Bruges, Arca. Paim, e Teve, se- 
g'iem-se os appelìidos de Homens, Cameras, Dornellas, Noronhas, e Pam- 
plonas: pois ja vimos acima cap. 2. e 3, que o segundo Capilao da O 
jìilania da tarava foì Alvaro Marlins Homem: e este appellido he de tao 
grande fidalguia, e tao anliga, que dos fidalgos, que El-Rei de Porlu- 
gal mandou para casarem coai as filhas do primeiro Capitào, e descu- 
hridor da liha da Madeira, hum d'elles foi Garcia Homem de Sousa, que 
casotj com Calharina Goiiralves da Camera, filha do dito primeiro Capi- 
tfio do Funchal. coino vinios jà no liv. 3, cap. 10. E comò a este se- 
gundo (:a])ìtào da t'raia se segiìio na Capilania seu fiUio Antao Martìns 
Homem, que' casou com Isabel Dornellas da Camera, filha de Pedralves 
da Camera, irmào do segundo capitào do Funchal Joao Goncalves da 
Camera, e filhos ambos do primeiro Joao Goncalves Zargo. d'aqui vem 
OS Cameras da liha Terceira, e vem por linha legitima: pois do dita 
Joao Guncalves Zargo, primeiro que tomou o appellido de Camera, se 
nào sabe filho algum naturai, e so do seu terceiro filho Bui Goncalves 
da Cauiera consta que nenhum fillio legilimo teve, mas illegitimos lo- 
dos, de que descendem os Cameras de S. Miguel. 



Liv. VI CAP. \vn 91 

175 Quando porém esle Pedralves da Camera viesse da ifadoira pa- 
ra a Terceira, parece qiie veio logo no principio com Jacome de Bru- 
ges, (corno veio o leve da mesma Madeira, e o Paim de Lisboa, e ou- 
tros fidalgos, que por saberem da nova liha Terceira descuberla, vinhào 
para ter doacoes de terras nella) o cerio l)e que o tal Pedralves da Ca- 
mera foi casado com Elvira Fernandes de Savedra, e que d'elles nasceo 
a sobredita Isabel Dornellas da Camera, mnlher do terceiro Ca[)itào da 
Praia Anlào Marlins llonicm, e d'estes foi filha a dita Catharina da Ca- 
mera, que casou com Diogo Paim, e a dita Briles de Noronha, que ca- 
sou com quarto Capitào da Praia Alvaro Martins da Camera, segundo 
do nome. 

176 Do appellido de Dornellas, ou Ornellas, consta que veio lam- 
bem da Madeira com o dito (idalgo Pedralves da Camera, pois sua tìiha 
se cbamava Isabel Dornellas da Camera, e erào estes Dornellas fidalgos 
tao conhecidos, e que enlre os maiures da Madeira se conta Joao Dor- 
nellas, Cavalleiro de grande nome, e fama, que a sua custa foi soccorrer a 
CaGm em Africa, sendo casado na Madeira (comò vimos jà no liv, 3, 
cap. 11, do segundo Capitào do Funchal Joao Gon^alves da Camera) e 
ainda hoje dura na Madeira està nobilissima familia de Dornellas, e se 
conserva na liha Terceira, comò huma das primeiras fidalguias d'ella, 
em Manoel Paim da Camera e Dornellas, irmào, e herdeiro do Alcalde • 
mùr da Praia Bras Dornellas da Camera, filhos ambos do Governador, 
e Alcaide-mór Francisco Dornellas de quem abaixo trataremos, e do nelo 
que hoje vive. 

177 Dos Noronhas lambem consta que em si os trouxe da Madei- 
ra mesmo Pedralves da Camera, pois da dita sua liiha Isabel Dornel- 
las da Camera, que casou com o terceiro Gapilào da Praia Antào Mar- 
tins Homem, nào so nasceo D. Catharina da Capiera, que casou com o Diogo 
l*3iin, mas nasceo tambem D. Briles de Noronha, que foi mulher do quar- 
to Capitào da Praya Alvaro Martins da Camera; e ainda que acima com 
^*^tros muitos dissemos, que o dito Pedralves da Camera era irmào do 
^gundo Capitào do Funchal, agora nos parece que devia ser liiho, oa 
'^U) seu, pois dito segundo Capitào do Funchal he o que casou com 
*^- Maria de Noronha, bisneta dEl-Rei D. Henrique de Castella, e por 
^^Qi he que a dita fllha de Pedralves da Camera se chamou Noronha; 
(<^o dissemos na vida do segundo Capitào do Funchal) e d'estes No- 
^oiihas tiata Damiào de Goes, e diz que Ei-Hei D. Fernando de Porta- 



S2 HISTORIÀ INSLXANA 

gal leve huma filha naturai, chamada D. Isabel, e que està cason com 
D. Alfonso, Conde de Gijon, e senhor de Noronha, fillio tambcm natu- 
rai d'EI-Rei D. Henriqiie II, de Castella, e que d'aqui procedeo a illus- 
tre familia dos Noronhas, ou N. N. em Portugal, de que tanto usao 
OS da Madeira, e tao pouco os da Terceira, com igualmonte Ihes per- 
tencer. 

ÌIH Dos Pamplonas tratamos, porque n'este firn da separada Ca- 
pitaiiia da Praia forao propostos para o seu governo; pois (corno acima 
dissemos cap. 3, fine) quando por morte do quinto Capitao da Praia, neii 
fillio varao ficou que lUe succedesse, nem filha que tivesse successao; e ató 
Anlonio de Noronha, irmao do ultimo CapitSo, vindo da India, morreo 
de poste em Lisboa, entao os povos d'aquella Capilania vaga pedirao a 
El-Uei ihes desse Capitào Donatario, que os governasse, e Ihe propuze- 
rao para isso a bum fidalgo da mesma Uba Terceira, e Capitania da 
Praia, e da familia dos Pamplonas, que (comò refere Fructuoso) a go- 
vernou alguns annos. que sabemos d'estes Pamplonas he, serem das 
primeiras, e nobres familias quo forao povoar a Uba Terceira, e que no 
lugar de Sào Roque, chamado dos Altares, fundàrao a Ermida de Santa 
Calharina, e a fizerUo c^ibeta do morgado, chamado dos Pamplonas, que 
so em trigo passa de cem moìos cada anno, fora outra muita renda de 
vinlìos, fóros, eie, e demais tem por sua institufgao esle morgado, que 
todos OS succ^essores nelle deixem suas tercas avinculadas ao mesmo 
morgado, e que ande sempre nos filbos mais velhos por linba direìla, 
corno na Instituigào se póde ver. 

179 priineiro que de tao antiga, nobre, e rica familia achei, se 
diamava Gonzalo Alvarez Pamplona, de quem foì fillio (quanto pude al- 
cancar) Manoel Pamplona de Azevedo, que casou com huma irma da 
mài (lo Santo Marlyr Joào ^aptista Machado; e do tal matrimonio nas- 
ceo Comes Pamplona: e bisneto por linba direila Joao Pamplona, que 
casou com Dona Maria de Miranda; e terceiro neto Joao Pamplona de 
Miranda, que casou com D. Margarida do Canto; e quarto neto Confalo 
Alvarez Pamplona, segundo do nome, que casou com D. Maria da Fon- 
seca, filha de André Fernandes da Fonseca, Sargento-mór, e Ouvidorde^ 
Angra, e fidalgo da Casa de Sua Magestade, e filho de Domingos Mar— 
tins da Fonseca, que teve o mesmo foro, e posto que passarao ao dite 
fillio, e ao primeiro neto, e morgado rico Domingos Martins da Fohs 
ca, que casou com D. Ignes Pamplona, filha herdeira do segundo Con 



Liv. vr GAP. xxnì 9$ 

falò Alvarez Pamplona, e da irm3 do dito Domingos Martìns, em que se- 
juctarao dous muito grandes morgados, o dos Pamplonas, e o dt)s Fon- 
secas: e o mesmo Domingos Marlins da Fonseca leve oulro irmào intei- 
ro chamado André Luis da Fonseca, fidalgo que morreo ha pouco, de 
muito mais de oitenta annos, deixando multa descendeneia: da dita 
D. Ignes (quinta neta do primeiro Confalo Alvaroz Pamplona, e lillia 
unica do segundo) nascerào sextos netos. e septimos que hoje vivenj; e 
da irraà do seu pai, D. Margarida Pamplona, que casou com o grande 
fidalgo Dingo Moniz Barreto, nasceo D. Joanna da Silva, que casou com 
Barlboiomeu Pimentel: emfim que d'està familia dos Pamplonas basta di- 
zer que jà n'aquelles tempos era tal, que pelos povos da Praia foi pro- 
posta para seu Capitao, e Governador; mas lirou-iiro o valimento de 
Dom Cbristovao de Moura com Castella. 

CAPITOLO XVIII 

Dos Cortereaes, Costas, Sìhaz,, Monizes, Barretos, e Sampaios, 
que se conservdo na Ilha Terceira. 

180 Supposto que tocàmos jà no cap. 4, dos Cortereaes, Mouras> 
e da exceilente casa dos Marquezes de Castello Rodrigo, devemos tocar 
tarabem o principio d'onde veio este appcllido de Corlereal. Todos con- 
vem que do Algarve veio hum famoso Cavalleiro, cujo appellido era 
(Costa) e que andando na Corte, ou d'El-Rei D. ftuarte, ou jà de sea 
pai D. Joao o I, tao luzidamente se tratava, que em huma occasiào che- 
gou El-Rei a dizer publicamente ao Costa: «Com vossa vinda Costa, mi'- 
nha Corte he Real» e que d'aqui o Costa se chamara. Costa, CortereaK 
outros dizem, que a occasiào fora, de que vindo dous Francezes a Portu- 
gal a procurar homens tSo valentes, que se atrevessem a lutar, e desafiar- 
se com elles, (ao estylo antigo) sabira o dito Costa, e em sinal de cor- 
tezia lancando a mao ao brago de hum dos dous Francezes, Ib'o aper- 
toa de tal sorte, que gritando o Francez, pedio o largasse, que nào qu&- 
lia luctar com quem em huma mSo tinha taes foroas; e que entao dis^ 
sera o Rei, que com tao valente Costa era sua Corte Real; e Ihe fìcuu. 
o appellido de Costa Cortereal: e ainda que nao consta se o dito pri- 
meiro Cortereal foi o mesmo Joao Vaz da Costa, a quem se deu a Capi- 
lania de Augra, cu se foi seu pai Yasqueaoes da Costa, a (^uem as his* 



!9i mSTORTA INSULANA 

torias ja cliamao Cortereal; o certo he que todo o Cortereal descende 
dos laes Costas, qiie erào Fronteiros móres do Algarve em Tavira, e 
Silves, fulalgos que descendiao do grande D. Reimao da Costa Francez, 
que ao prinieiro Rei D. Aflbnso Henriques ajadou a tornar Lisboa. 

181 D'estes Coslas Corlereaes ficou tanta, e tao legilima descen- 
dencia na liha Terceira, e na do Faial, que o dito Joao Vaz da Costa 
Cortereal, (alem de casar sua filha D. Irìa na mesma Terceira com hum 
fìdal^'O charaado Fedro de Goes da Silva, a quem deixou o seu paco, e 
jardim por baixo do Castello de S. Chrislovao, chamado Castello dosmoi- 
nhos, do qual casamento nao sei a descendencia que flcou) alem deste casa- 
menlo. casou outra filha, chamada D. Isabel Cortereal com Joz de Utra, 
segundo do nome, e segundo Capitào Donatario das Ilhas do Faial, e Pi- 
co, cujo filho Manoel de Utra Cortereal casou tambem com D. Angela 
Cortereal, sua prima, filha do terceiro Capitao de Angra Vasqueanes Cor- 
tereal. irmao da màe do dito Manoel de Utra; e da descendencia d'cstes 
casamentos fallaremos, quando tratnrmosda liha do Faial; e omesmo Joao 
Vaz da Costa Cortereal casou na Terceira outra filha, chamada D. Joan- 
na Cortereal, com Gnilherme Moniz, que sendo illustre fidalgo dos Mo- 
nizes de Portugal, mas filho segundo, tìnha ido para a liha Terceira a 
adquirir n'ellas terras do Donatario, e este com a filha Ihe dea tantas, 
que fundou hum bom morgado com obrigacao de os successores ihe 
avjncularem as suas terfas; e se verdadeiramente o fizessem assim, se- 
ria j.i hoje multo maior ainda do que he. 

482 Dos taes Monizes Cortercaes ha n3o so na Ilha mnita descen- 
dencia, mas tambem em Portugal, na India, eie., porque o segundo filho 
(que do primeiro, e morgado trataremos lugo) do dito Guilherme Mo- 
niz, e D. Joanna Cortereal foi Ballhesar Moniz Cortereal, que da Tercei- 
ra fugio ao pai para a India, sendo ainda de quatorze annos, pouco 
«mais, e depois voltando da India casou em Lisboa com D. Violante, na- 
turai da mesma Ilha Terceira, e tornando para a India Ihe morreo cà a 
dita primeira mulher, e elle se casou segunda vez em Mo^ambique com 
D. Maria Paos da Cunha, e voltou para Lisboa, e d'este segundo matri- 
monio nasceo D. Maria da Cunha, que casou com Diogo de Mendoca, e- 
d'estes nasceo D. Joanna de Mendon^a, que casou com Manoel de Soo — 
sa da Silva, fidalgo bem conhecido, que morava no seu palacio das por— ^ 
tis da calgada de Santo André, e teve duas filhas, a segunda casou con 
seu primo o Conde de Valdereis, sobrinho patruo do Arcebispo de i 



LIV. Vi GAP. X\TII 95 

boa D. Antonio de Mendofa; e a primeira filha de D. Joanna deMendo- 
Ca, e Manoel de Scusa da Silva (qiie succedeo a esle no morgndo) casou 
Cora Marquez de Montebello D. Antonio Machado, filho morgado do 
Marquez de Montebello D. Feliz Machado senhor da anliga, e illustre 
Casa de Entre Homem, e Cavado, o qua! D. Antonio foi Govcrnador de 
Fernambuco, aonde agora està tanibem governando seu filho lierdeiro 
D. Feliz Machado, segundo do nome, que casou com D. Eufrasia, filha 
de D. Luis da Silveira, das primeiras qualidades de Portugal, e tem fl- 
Ihos, e baste tocar por bora isto da grande casa de Montebello. 

183 prinaeiro fillio pois do dito Guilherme Moniz, e de D. Joan- 
na Cortereal foi o morgado da liha Sebastiào Moniz, que casou com D. 
Joanna da Silva, filha de Gonfalo da Silva, Regedor da Jusliga em Lis- 
boa, e de D. Isabel de Noronha, e jà aqui lemos outra vez na Uba os 
melhores Silvas Regedores, e outra vez os Noronhas. Do dito Sebastiào 
Moniz foi primeiro filho morgado outro Guilherme Moniz comò o avo 
e com foro de moQO fidalgo da casa de S. Magestade, e d'este nasceo 
Francisco Moniz Barreto e Silva, tarabem Morgado, e mogo fidalgo, a 
quem se seguio seu legitimo filho morgado Manoel da Silva Moniz; e 
seu irmao o Conego JoSk) Moniz, e de Manoel da Silva nasceo Guilher- 
me Moniz comò seu visavó, e quarto avo, que era o genro do Capitao 
Donatario de Angra Joao Vaz da Costa Cortereal. Nasceo mais de Guilher- 
me Moniz, segundo do nome, Egas Moniz Barreto, que casou com D. 
Maria da Silveira, nasceo tambem Antonio Moniz, o famoso na India, e 
seus irmaos Sebastiào Moniz, moco fidalgo, e casado com D. Brites Me- 
rens, e d'estes nasceo o morgado Jo5o Merens, que morreo sem filhos, 
£ se Ibe seguio seu segundo irm3o Diogo Moniz Barreto, que casou com 
D. Margarida Pamplona, e dissipou a casa, e deixou varios filhos, e o 
terceiro irmao foi Henrique Moniz Barreto, que casou com sua prima 
D. Violante, filha do sobredito Francisco Barreto da Silva. 

184 Do primeiro Sebastì3o Moniz, e da dita D. Joanna da Silva, fi- 
lha do Regedor, e do Noroaba nasceo em segundo lagar Dona Francisca 
jda Silva, que casou com bqm fidalgo chamado Ruy Dias de Sampayo, e 
d'estes nasceo D. Antonia, que casou com Manoel do Canto de Castro, 
corno veremos abaixo nos Cantos, e Castros, mas porque o tal Ruy Dias 
de Sampayo vmvou, e casou segunda vez com D. Iria, filha de outro fi- 
dalgo chamado Constantino Machado, e o dito Ruy Dias de Sampayo era 
filho de Mem Rodriguoz de Sampayo, e de D. Brites Homem da Costa, 



96 HISTOMA INSIXANÀ 

e era neto do Gaspar de Sampayo, e de D. Joanna de Alarde, fidalga 
iilustre, por isso do sobredilo Ruy Dias de Sampayo, e da dita sua se- 
giinda inoUier nasoeo outro Ruy Dias de Sampayo, pai de Estevao de Sam- 
payo de Azevedo, e do mesmo segundo casamento nasceo mais Manoel 
de Cortereal e Sampayo, que foi para a India, e là com tal valor teve 
tao grandes postos de guerra, que chegou a sor Governador de todo o 
Estado da India, e noraeado nas vias por Viz-lley, ^ morreo antes dee 
chegar a ser, e de sua descendencia là na India, constarà là. E final- 
raente de seu pai Ruy Dias de Sampayo, primeiro do nome, e de sua 
primeìra inullier D. Francisca da Silva nasceo mais D. Isabel, que casou 
com Luis Ilomem da Costa, de que trataremos em seu lugar. 

iS5 Vistas pois assim as familias dos Cortereaes, Coslas, Monizes> 
Silvas, Ranetos, Sampayos, e Noronim, que se conservào na Uba Ter- 
ceira, temilo he jà que clieguenws, na ordem de tempo, à illustre Éa- 
milia dos Caiitos Castros, e outros, Silvas, Ferreiras, Mellos, etc. 

CAPITULO XIX 

Dos Cantos, e Castros de Angra, e familias d'onde vem, 
e que vem d'elles. 

186 Antes de haver nas Ilhas Bispos proprios, vinhao por ordem 
del-Uei, e do D. Prior da Ordem de Christo de Thomar, alguns Bispos 
às Ilhas de novo povoadas, para n'ellas chrismarem, dar Ordens, e exer- 
citarem o conimum oflìcio de Bispos Coadjutorcs, ou (corno chamao) de 
annel ; na mesma embarca^jao, eiii que hia hum destes Bispos à Madei- 
ra, foi tauìbem hum varao chamado Fedro Anes do Canto, e da mesma 
sorte passou depois da Madeira à Uba Terceira pelos annos, e em tempo 
do segundo Capitào Donatario de Angrsr Joao Vaz da Costa Cortereal, 
que muito antes foi provido, corno dissemos acima no cap. 2. 

187 Este Fedro Anes do Canto era ainda solteiro, e filho segundo 
de Jacome (ou Joào) Anes do Canto, e de sua mulber Francisca da Sii* 
va. Alba de bum Joào Soares da Silva, e pelo dito seu pai era neto de 

Vasco Anes, ou Vasco Alfonso do Canto, Cavalleiro, naturai de Guima- 

ràes, antiga Corte do Conde D. Ilenrique, pai do primeiro Rei de Por— 
tugal D. Alfonso Ilenriques, e era jà © dito Fedro Anes do Canto tac^ 
famoso Cavalleiro, quo linba militado em Africa^ e defendido hum ba.^ 



I 



UV. VI GAP* XIX 97 

Ioarte em Àrzila» e pelos muitos seus servi^os Cl-Rei de Portugal o ti- 
oba feito fldalgo flihado de sua casa Real» e ihe deo por armas hum Cas- 
tello com peQas de artelbaria em campo vermelho, a que ao depois se 
ajontarao as armas dos Castros, corno veremos. 

188 Posto na Terceìra o dito fldalgo Fedro Ànes do Canto casou 
com D. Joanna Abarca, (que segundo huns, era irm3, e segundo outros, 
era parenta muito chegada de D. Maria Abarca, mulber do Donatario 
Joao Vaz da Costa Cortereal) e o certo he, que era irma de D. Isabel 
Abarca, (da qual diremos no cap. 20) mulber do antigo fldalgo Joao 
Borges o Yelbo, de que abaixo trataremos, corno tambem dos Abarcas, 
qae descendem de bum dos Reis que bavia em Ilespanha, chamado D. 
Saocho Abarca. 

189 De Fedro Anes do Canto, e de D. Joanna Abarca nasceo An- 
tonio Pires do Canto, que nao so era fldalgo, e Provedor das Armadas, 
corno era jà seu pai, mas Cavalleiro professo da Ordem de Cbristo, 
e casca illustremente com D. Catharina de Castro, fllba de D. Francisco 
de Castro, e de D. Joanna da Costa, li neta por tal pai de D. Garcia de 
Castro, irmao inteiro de D. Alvaro de Castro, primeiro Conde de Mon- 
santo, e filhos ambos de outro D. Francisco de Castro, e de D. Isabel 
de Menezes, e netos de D. Joao de Castro, senbor do Cadaval, e o dito 
D. Garcia de Castro era casadò com D. Brites da Silva, Alba de D. Lio- 
nel de Lima, Bisconde de Villa Nova, e de D. Catbarina de Ataide: e 
ainda que t3o illustres fàmilias, e appellidos se accrescentarao aos Cantos, 
tao nobres erao jà estes que nunca mudarlo do appellido de Canto, e 
so Ihe ajuntarao o de Castro, e as armas dos Castros is dos Cantos, 
com escudo coroado ; e assim muito se enganou quem disse que o 
appellido de Canto era alcunha, pois nao be senao appellido muito anti- 
go, e muito nobre, que por nenhum dos outros se deixou. Do dito An- 
tonio Pires do Canto, e de D. Catharina de Castro, nasceo D. Joanna de 
Castro, que casou em Lisboa com Lopo de Sousa, e d'estes nasceo Ay- 
res de Sousa, primeiro do nome, que casou com D. Leonor Manriques; 
e d'esles nasceo segundo Ayres de Sousa, e D. Leonor Telles, que casou 
com Francisco de Mello, primeiro Conde da Fonte, e Marquez deSande, 
que casou com a filha do Marquez de Niza, e outra Alba casou em Lis- 
boa com Luis de Saldanha, o do Alemo : tantos fìdalgos em Portugal 
descendem de Antonio Pires do Canto, e do pai Fedro Ànes do Canto. 

190 D'este Antonio Pires do Canto, e da illustre D. Catbarina de 

VOL. II 7 



98 HISTOniA INSULANA 

t 

Castro nascoo Fedro de Castro do Canto, que corno seo pai, e avo, nao 
so conservou a mesma fidalguia, e o mesmo posto de Provedor das Ar- 
madas, mas tudo augmentou; casou pois com D. Maria de Mendo^a, fi- 
lila de Estevao Ferreira de Melio, e de D. Antonia de Lima, e neta pa- 
terna de Concaio Ferreira da Camera; Albo de Duarte Ferreira de Teve, 
e de D. Felippa da Camera, e pela mai D. Antonia de Lima era neta 
materna de Manoel Pacheco de Lima, e bisneta de JoSo Feraandes Pa- 
checo, e terceira neta do grande Duarte Pacheco Pereira, da fidalguia 
dos qoaes abaixo fallaremos. 

191 dito Pedro de Castro do Canto leve tres filhos; primeiro, 
Manoel do Canto de Castro, (de que logo abaixo trataremos) segundo, 
U. Violante, Freira em S. GonQalo de Angra, terceiro, Diogo do Canto 
e Castro, que casou com D. Isabel Teixeira, fitha de Gii Fernandes Tei- 
xeira, fìdalgo filhado, e do tal Diogo do Canto e Castro nasceo Pedro 
de Castro do Canto, que casou com D. Brites, filha do fldalgo Sargento 
mór de Angra André Fernandes da Fonseca; e d^estes nasceo Hierony- 
mo de Castro e Canto, fldalgo qte ainda hoje vive, e que por varouia 
be neto de Diogo do Canto, bisneto de Pedro de Castro e Canto, tercei- 
ro neto de Antonio Pires do Canto, e quarto neto do primeiro Pedro 
Anes do Canto. De Pedro de Castro do Canto o primeiro filbo Manoel 
do Canto e Castro succedeo em tudo a seu pai, e avós, e foi Capi tao 
mór de Angra ; casou com D. Antonia da Silva, filha de Buy Dias de 
Sampayo, e de D. Francisca da Silva, e pelo tal sogro era neto de Mem 
Rodrigues de Sampayo, e de D. Brites Homem da Costa, e bisneto de 
Gaspar de Sampayo, e de D. Joanna de Ataide, todos fidalgos muito co- 
nhecidos: e pela dita D. Brites Homem da Costa era bisneto de Gonza- 
lo Mendes Ilomem, e de Ignez Alfonso Carneìro; pela sogra D. Francis- 
ca da Silva era o dito Manoel do Canto e Castro neto de Sebastiao Mo- 
niz, e bisneto de Guilherme Moniz, (de que jé fallamos nos Monizes) e 
de D. Joanna Cortereal, e por està terceiro neto do Capitao Donatario 
de Angra Joào Vaz da Costa Cortereal, e de sua mulher D. Maria Abar- 
ca, corno \k vimos; e pela dita sogra D. Francisca da Silva, e pela mai 
d'ella D. Joanna da Silva, èra bisneto de Gongalo (ou Joao) da Silva Re- 
gedor, e de D. Isabel de Noronha. 

192 dito Manoel do Canto e Castro, primeiro do nome, de sua 
mulber D. Antonia da- Silva teve filhos legilimos, hum Alexandre que 
morreo sem fdbos, e huma D. Maria, e outra D. Ursula, que morrerao 



LlV. VI GAP. XiX Off 

Freiras na Esperanfa de Angra; e hum Manoel do Canto de Castro, se- 
goDdo do nome, quo era do habito de Clirìsto, e em Castella casou com 
huma illustre fìdalga D. Felippa de Lara, e leve em Angra a casa foros, 
e postos de seus avós por muitos annos, e morreo em fim sem algum 
l^iUmo descendente; e outro irmao que se Ibe seguia Fedro do Canto 
e Castro, nunca casou, e morreo primeiro, e sem fiibos; e tambem ou- 
tro irmSo Antonio do Canto e Castro, que foi CapitSo de Cavallos d'el- 
Rei D. Joao o IV na batalha de Montigio, e depois Sargento mór da No- 
breza em Lisboa, e do babito de Cbristo, e Sargento mór de toda a Uba 
Terceira com grande tenga, e Goverpador do grande Castello* de Angra; 
este ainda que casou em Angra, e muito fidalgamente, com D. Maria de 
Mendo(^, filba de Joao de Betencor e Yasconcellos, (de que abaixo tra- 
taremos) comtudo nao deixou d'ella filbo varao, mas duas fìlbas, que 
confórme a sua qualidade casar3o comò veremos; e comò ainda a este 
Antonio do Canto e Castro precedia por mais veiho outro seu legitimo 
rmao Jo3o do Canto e Castro, este succedeo na casa ao dito irmao Ma- 
noel do Canto e Castro, segundo do non)£. 

.193 Este pois Joao do Canto e Castro nao so ficou com a casa de 
seus avós, mas foi do babito de Cbristo com grande tenga, e Provedor 
das Armadas, e do Conselbo de S. Magestade, e ainda antes de levar a 
casa casou dentro em Angra com buma fìdalga cbamada D. Maria Caixa, 
Uba do bom fidalgo Tbomé Correa da Costa, e de sua mullier D. Catba- 
rina Caixa, de que fallaremos em seu lugar; d'este casamento nascerao 
muitos fiibos, e de bum so ba boje descendencia; porque o mais velbo 
Carlos do Canto e Castro, sendo fidalgo de grandes esperangas, e jà Mes- 
tre de €ampo de bum Tergo, morreo mancebo, e solteiro; outro cbama- 
do Tbomé do Canto e Castro, se- metteo Frade Eremita de Santo Agos- 
Uoho na mesma Cidade de Angra, e morreo cedo; outro cbamado Ma- 
noel do Canto e Castro, na mesma Angra entrou, e professou a regular 
observancia de S. Francisco; e outro cbamado Sebastiao Carlos do Can- 
to e Castro, sendo meu discìpulo,' ba mais de cincoenta annos, no latim 
em Collegio de Angra, tomou o babito de Cbristo no Convento de S. 
Concaio com boa tenga, e se seguio ao pai jà falecido; porém o mais, ve- 
lbo irmao Franciscano, annullando a profissao se fez secular, e se oppoz 
ao morgado, e o Sebastì3o Carlos faleceo em a demanda; e por mais que 
se oppuzerao ao que tinba sabido da Religiao, assim seu tio Fedro de 
Castro do Canto> filbo de Diogo do Cauto> e nolo do outro Fedro de 



102 HISTOniA INSULANA 

Vasconcellos, de que mais abaixo fallaremos; e d'cstc matrimonio des- 
ecnde hojc multa fldalguia de Angra. 

199 primeiro, (3 morgado, fillio do dito Francisco do Canto, e 
da dita sua mullier, foi Fedro Arics do Canto, Malgo, e Cavalleiro da 
Ordem de Christo, que casou com D. Maria Serra, primeira vez, e se- 
gunda vez casou com D. Apollonia Teixeira, filha de outro Odalgo cha- 
mado Gii Fernandes Teixeira. Do primeiro matrimonio nasceo Francis- 
co do Canto, quo iovou o morgado, (sendo segundo fillio, por ser jà 
morto primeiro, e sem filho varSo) e casou com Dona Anna da Sil- 
veira, filha de Estevuo da Silveira Borges, da fidalga familia dos Can^a- 
Ihaes; e do tal matrimonio nasceo Ignacio do Qjinto, morgado, e fidalgo 
filhado, que casou com I). Ignez de Castro, filha de Joao do Canto de 
Castro, pela qual pertendeo o primeiro morgado dos Cantos, que Ihe Io- 
vou cunhado, que tinha sido Ftade. Do tal Ignacio do Canto da Sil- 
veira e Vasconcellos. e de D. Ignez de Castro nascerao muitos Qlbos; o 
morgado que està casado, e sem filhos ainda, Mattieos do Canto e Cas- 
tro, que foi Religioso da Companhia de Jesus» excellente Humanista, e 
Filosofo, e que lendo em Coimbra nas Escolas menores da Universidade 
OS latìns, adoeceo de estndar, e doente ainda durou alguns annos, e 
morreo no Beai Collegio de Coimbra, e com grande exemplo de religio- 
sa humildade, e observancia. Outros irmaos d'este vivem ainda» corno 
ainda tambem vivem os ditos pais. 

200 D^estes ullimos filhos o visavò Fedro Anes do Canto, segundo 
do nome, e da mesma primeira mulher nasceo outro fillio, e mais ve- 
lilo, chamado Luiz do Canto, que casou na Uba de Sao Miguel com D. 
Barbara da Silveira; e d'esto casamento entao nao nasceo varSo algum 
que eu saiba, mas tres filhas, que todas taml)em c<isarao em Sào Mi- 
guel; a primeira, D. Maria do Canto com o tidalgo Diogo Lei te Botelbo, 
de que nasceo Jacome Leile Botelho e Vasconcellos, fidalgo, e Cavallei- 
ro da Ordem de Chrislo, que veio a casar em Angra com D. Maria de 
Mello, filha de Luiz Coelho Fereira, e de D. Isabcl de Mollo, da Uba da 
Graciosa: o qual Jacome Leite actualmente faz demanda a seu tio Igna- 
cio do Canto, e Ihe quer tirar o morgado que possue, e possuio seu pai. 
Outra filha de Luiz do Canto foi D. Luiza do Canto, que casou com An — 
Ionio de Faria Maia, e de que nasceo D. Mariana de Farla, mulher d^ 
Joao de Sousa Facheco, todos da mesma liba de Sào Miguel. E a tercel — 



LIV. VI GAP. XIX 103 

ra filha do mesmo Ignacio do Canto foi D. Isabel do Canto, quo tambcm 
casou em Sao Miguel com Miguel Lopes de Araujo, de que nasceo D. 
Antonia, quo primeira vez casou com scu primo Pedro Borges de Sou- 
sa, de que houve a Antonio Borges, e vìuva casou segunda vez com An- 
tonio Soares de Sousa, descendente legitimo dos Donatarios de Santa 
Maria, e S. Miguel. 

201 Do dito Pedro Annes do Canto, e do sua segunda mulher D. 
Apollonia Teixeira nasceo bum fllho, chamado Manoel do Canto Tcixei- 
ra, fidalgo que casou com D. Margarida da Costa, irma de Joao Homem 
da Costa, e prima da mai d'elle Manoel do Canto Teixeira; e d'este nas- 
ceo Luis do Canto da Costa, fldalgo que casou primcìro, com D. Fran- 
cìsca, filha de D. Chris tovao Spinola ; e segunda vez casou com Dona 
Antonia, filha de Manoel Correa de Mello, da Graciosa, e da primeira 
nasceo quem hoje vive, e da segunda tambem outros. 

202 Do dito Pedro Anes do Canto, e da segunda mulher nasceo 
mais D. Luiza de Yasconcellos, que casou com D. Pedro de Castello- 
branco, e d'estes nasceo D. Manoel de Castello branco, marido de D. Isa- 
bel de Mello, filha de Manoel Correa de Mello, o da Graciosa; e d'estes 
nasceo D. Francisco de Castello branco. Outro irmao de D. Manoel foi D. 
Ignacio de Castello branco, que tambem casou com huma filha de Anto- 
nio do Canto e Castro, e de Dona Maria de Mendoca, e deixou filhos; e 
outra Irma de D. Manoel, e D. Ignacio foi D. Maria, que casou com Jouo 
de Teve de Yasconcellos, filho de Joao Mendes de Yasconcellos, de que 
ha multa descendencia. 

203 Do sobredito Francisco do Canto, tcrceiro filho do primciro 
Pedro Anes do Canto, nasceo mais Joao do Canto, fidalgo que casou com 
D. Catharìna Yieira (irma do Padre Joao Baptìsta Machado, da Companhia 
de Jesus, que morreo martyrizado, e degolado pela Fé Catholica em Japuo, 
corno em seu lugar diremos) e do tal Joao do Canto nasceo Francisco do 
Canto e Yasconcellos, mo^o fidalgo Cavalleiro da Ordem de Christo, Alfcres 
inór, e Chanceller de Angra; o qual casou com D. Paula da Veiga, fi- 
lha do Femao Furlado, e de D. Maria da Veiga; e estc Francisco do 
Canto teve mais irm3os, e d'elle nasceo Joao do Canto de Yasc/)ncellos, 
(a quem chamàrao Joao do Canto Saude) fidalgo do mesmo foro de seu 
pai, e que casou com D. Maria Cortereal; filha de Sebastilio Cardoso 
ìiachado. Tenente do Castello grande, que tambem deixou descenden- 
cia ; e outra irma do dito Joao do Canto Saude casou em S. Miguel 



lOi mSTOniA INSULANA 

com hum nobre, o rico Cìdadao Antonio Pereira Botelho, de que lam- 
bem là ha descendencia. 

204 Nasceo mais de Francisco do Canto, (lerceiro fllho do primeiro 
Fedro Anes do Canto) nasceo, digo, D. Andreza do Vasconcellos, que 
casou com Manuel Paclieco de Lima, (grande fidalgo, de que fellaremos 
abaixo) e d'esles nasceo Joao Pachcco de Vasconcellos, que casou Ires 
vezes, Sem ter filhos da primeira, nera da terceira, teve-os da segunda, 
que se charaava D. Ursula de Lacerda, fìlha de Alvaro Pereira de La- 
cerda, nobilissimo Cìdadao de Angra, de que nasceo Francisco Pacbeco 
de Lacerda, que casando a primeira vez com i). Anna Zimbron, fìdalga 
morgada, viuvou d'ella sem filhos, mas teve-os da segunda mulher, com 
que casou; e leve mais outro irmao cliamado Diogo Pacbeco de Vascon- 
cellos, e de ambos estes irmaos liouve bufna irma, que casou com Fe- 
dro Ilomem da Costa, fidalgo mui conbecido. 

205 Finalmente seria nunca acabar quem quizesse exhaurir a tgual- 
mente numerosa, que fìdalga familia dos Cantos, cuja primeira, legitima, 
e varonil descendencia se conserva nos filhos de Joao do Canto e Cas- 
tro, e com nobre Palacio, de vista amplissima para mar e terra, jardim 
junto a elle, e sua Capella deNossa Senbora dos Remedios, e casa tao rìca, que 
so em trigo passa de trezentos moios de renda cada anno; e em vinhos, 
fóros e tencas, atém de graudes quintas, tem certamente de renda mui- 
tos mil cruzados cada anno; e isto desde quasi logo seu principio; pois 
por morte do segundo fìlho legitimo do primeiro Fedro Anes do Canto, 
que foi magnifico Joao da Silva do Canto, so fìcou sua legìtima des- 
cendencia na famosa fidalga D. Violante, que morreo sem filhos, e se 
unio com o primeiro morgado, outro igual a elle: mas porque do dito 
J)ao da Silva ficou (couìo jà vimos) a outra filha legitimada D. Maria 
da Silva, que casou na casa dos Borges, razao he que a estes, e oatras 
familias jà passemos. 

CAPITULO XX 

Dos Borges, Coslas^ Abarcas, Pachecos, e Limas, VethoSj e Mellos^ 
e de ouiroSy Jlomens Costas. 

206 Jà em o liv. 5, cap. i7, Ut. 5, tratàmos dos Borges, Medeiros 
Dias da Uba de Sao Miguel; mas porque os Boi^es da Uba Terceira sao 
muito diversos, e estes succederao no mais particular morgado, que de 






LIV. VI CAP. XX 105 

sud livre terca fez o grande fidalgo Joao da Silva do Canio, em que se 
conserva sua de^cendencia; por isso tendo tratado da familia dos Cantos, 
pede a razao que tralcraos dos Borges da Terceira, em que tambem se 
conserva dos mesmos Cantos a segunda linha. Para o que se ha de sup- 
por, que depois de Portugal laudar fora de todo aos Mouros, ficou o 
Beino do Algarve sendo a unica Fronteira, quo a Corea Lusitana sus- 
tentax'a centra os Mouros; e por isso o Serenissimo Infante D. Henri- 
qoe foi sempre o Fronteiro mór do Algarve, e là morava, e^ os filbos 
segundos dos melhores fidalgos Portuguezes seguiao ao dito Infante; e 
era entao o Algarve a mais celebre Praja de teda a fidalguia Lusitana, 
que do Algar\'e sahio a povonr as Ilhas do Porto Santo, Madeira, e tam- 
bem a povoar as Terceiras. Islo supposto, 

• 207 Ò tronco dos Borges da Terceira se chamava Joao Borges, (o 
Telho para distincao de outros) o qual era fidalgo, e Cavalleiro do Al- 
garve, e casou com D. Isabel Abarca, irmà de D. Maria Abarca, mulher 
do primeiro Capitao de so Angra Joao Vaz da Costa Cortereal, e tam- 
l)eni irm5 de D. Joanna Abarca, primeira raulher do primeiro Pedro 
-Anes do Canto. De Joao Borges o Velho, e de Dona Isabel Abarca nas- 
ceo D. Catharina Borges Abarca, que casou com Affonso Anes da Costa 
Cortereal, fidalgo da casa de Sua Magestade, e de Tavira do mesmoAl- 
gar\*e; e aqui se ajuntarao estes Borges com os Cortereaes e Costas, de 
qde fallaremos logo; e do tal casamento nasceo Christovao Borges da 
Costa Cortereal, fidalgo que casou com D. Izeu Pacheco de Lima, filha 
de Comes Pacheco de Lima, tambem fidalgo grande, de que logo dire- 
inos; e do tal casamento nasceo Manoel Borges da Costa, que nao so 
era tao bom fidalgo, naas tambem Commendador da Ordem de Christo, 
. 6 casou com D. Maria da Silva, filha legitimada do sobredito Joao da 
Silva do Canto, e Morgada por elle instituida. 

208 D'esle pois Manoel Borges da Costa nascerao dous filhos; pri- 
lueiro, Christovao Borges da Costa, chamado o dos Altares, por n'este 
tagar morar em quinta sua, e casou com D. Catharina Coelho de Mello, 
^ boa nobreza da dita liha Terceira; e a estes succedeo seu filho Joao 
^ Silva da Costa no morgado instituido por seu bisavó Joao da Silva 
^ Canto, e foi dos quatro Capitaes pagos do grande Castello de Angra, 
e casou com D. Maria de Toledo; succederao mais ao dito Christovao 
^rges outros filhos, e fidalgos do mesmo foro, comò Salvador Borges 
^ Costa, e Manoel Borges da Costa, e D. Izeu Pacheco, que casou 



106 IlISTORTA LNSULANA 

com Capi tao Josoph Lcal, e D. Maria Abarca Cortercal, que cason com 
Bernardo Cordeiro de Espinosa, das quaes pessoas ainda boje vivem 
muitas. 

209 segundo fiiho de Manoel Borges da Costa, o Commendador, 
foi Fedro Borges da Costa, que teve o mesmo foro de seus avós, e ca- 
sou com D. Anna da Camera, Riha de Dìogo Goncalves da Camera, da 
Villa da Praia da Terceira; e d'este casamento nasceo Joao Borges da 
Silva, que com o foro de seus avós foi para a India, e n'ella teve gran- 
des postos de guerra, e governos, comò teve seu tio* Manoel de Corle- 
real, e Sampaio, e seu sobrinho Roque Pacheco Gortereal, filho da so- 
bredita D. Izeu Pacheco; e nasceo mais D. Margarida, com quem o dito 
Bernardo Cordeiro de Espinosa casou segunda vez depois de viavo da 
primcira mulher D. Maria Abarca; Analmente nasceo D. Maria, qne oa- 
sou em Angra com bum Antonio Pereira, e deixou Albo cbamado Jo3o 
da Silva do Canto. 

210 Dos iilustres Abarcas, Cortereaes, Silvas, e Cantos, qae com 
estes Borges Costas se unirao, jé temos dito o que basta; segue-se agora 
dizermos, que fìdalgos erao aquelles Pacbecos Limas, que por meio de 
Dona Izeu Pacheco de Lima se ajuntarSo com aquelle ChristovSo Borges 
da Costa Cortereal, primeiro do nome. 

• 211 Os Pacbecos (conforme a Fructuoso vierSo a Portugal de Mi- 
nliaya, seu solar, e lugar sito na Mancha de Aragao, e d'estes foi de Por- 
ìus'jil para a India aquello, la na India cbamado o Grande Duarte Pa- 
checo, pclas faganbas que obrou no Oriente; d'este famoso Ileroe Duarte 
Pacheco, o da India, foi filho Joao Fernandes Pacheco, que casou em 
PQrlugal com D. Briles de Noronha, Alba de Comes Fernandes de Lima, 
Adalgo dos da primcira qualidade, e primo irm3o de D. Fernando de 
Lima, Velilo, e assim se ajuntarao os Limas com os Pacbecos, e No- 
l'onhas: do tal casamento nascerao dous filhos; bum dos quaes foi Ma- 
noel P aclieco de Lima, que foi para a Uba Terceira por Juiz do mar, o 
Contado r da Fazenda Beai em todas as outras Ilhas, e na Terceira casoa 
com hunia fidalga chamada D. Francisca Neta, Alba de Jo3o Alvarez No- 
to , Adalgo da casa de S. Magestade, e Cavalleiro que tinha militado em 
Africa, e na Terceira estava por Provedor da Fazenda Beai; e do tal Ma- 
no el Pacheco de Lima nasceo Antonio Pacheco de Lima, que casou com 
I) . Catharina de Menezcs, Alba de Bui Dias de Sampaio, e de D. Fran- 
cisca ih Silva, quo era Allia de Sebastiao Moniz, e neta de Guilhenne 



LIV. VI GAP. XX 107 

Moniz, e pela muiher d'este era bisneta de Joao Vaz da Costa Cortcrcal, 
Capìtao Donatario de Angra. ^ 

212 Do lai Antonio Pacheco de Lima diz o Doulor Frucluoso que 
era fidalgo maito honrado, e do habito de Ghristo, Contador, e Juiz do 
mar, e Fazenda Real, e Juiz dos Orfiios em Angra, e de tao boas par- 
tes, e discricao, que a quantos o vi3o, prendia com cllas, e que era hon- 
rador de todos, bem inclìnado» e de muito respeito, grande amigo de 
seus parentes, e desejoso de accrescentar a dita gcracjao, gentil-homem, 
gracioso, alegre» liberal, virtuoso, e temente a Deos, e de muita vìrtu- 
de, e desiateressado, eie. Estas as palavras formaes do santo, e sabio 
FroctQOso. Oh se quizesse Deos que muitos outros imitassem a este fi- 
(lalgol e seriSo ainda n'esta vida mais venerados de todos. 

213 De Antonio Pacheco de Lima, e de sua mulher D. Catharina 
de Menez^s, nasceo Hanoel Pacheco de Lima, segundo do nome, que 
casoQ com D. Andreza de Yasconcellos, filha de Francisco do Canto, e 
de D. Loiza de Vasconcellos, e pelo tal pai, neta de Pedro Anes do Canto 
Veiho, e neta pela mai, de Pedro Alvarez da Camera, e de D. Andre- 
za de Vasconcellos. D'este segundo Manoel Pacheco de Lima nasceo Joao 
Facbeco de Vasconcellos, que depois de casado, e viuvo primeira vez, 
casoQ segunda com D. Ursula de Lacerda, filha de Catharina Madruga, 
mài do nobre Qdalgo Alvaro Pereira de Lacerda, que casou com D. Um- 
belina, de que nascerao Diogo Pereira de 'Lacerda, que casou D. Ma- 
ria de Betencor, e D. Anna de Lacerda, que casou com Mattheos Pa- 
checo, filho de Fabricio Pacheco, que era dos Pachecos outra linha ; 
porém sobredito Jo3o Pacheco de Vasconcellos tinha nuo so os fó- 
ros da fidalguia de seus avós, e os ofQcios de Contador, e Juiz da Fa- 
zeoda Real, mas foi sempre o mais destro Cavalleiro que havia em Aii- 
gra, e o mostrou sempre nas publicas festas de cavallo; e igualmente o 
imitou seu filho Francisco Pacheco de Lacerda, que primeiro casou com 
a morgada D. Anna Zimbron, de que viuvou sem filhos, e depois casou 
com D. Paula de Castro; e todas estas illustres familias estao n'estes Pa- 
checos. 

214 segundo irmao do primeiro Manoel Pacheco de Lima foi 
Comes Pacheco de Lima, filho tambem de Joao Femandes Pacheco, e 
neto do Grande Duarte Pacheco, da India, e d'esie Comes Pacheco se 
diz qae morreo Capitao mór de huma Armada, e defronte de Guiné; e 
de outro seu irm3o, chamado Manoel Pacheco de Lima, se diz tambem 



108 IIISTOWA INSUf-ANA 

que fora o dcscubridor de Angola, e Embaixador d'el-Réi D. Joao III, 
ao Rei de Congo, e que là morrera : o certo he que do tal Gomcs Pa- 
clieco de Lima, ficarao duas Tilhas, priineira D. Ignes Facheco de Li- 
ma que casou com Manoel Correa de McIIo, filho de ÀfTonso Correa, e 
neto de Duarte Correa, Capilào Donatario da Graciosa; e do tal casa- 
mento nasceo outro Comes Pachcco de Lima, que casou na Ilha do 
Faial em 1580, com D. Ignes da Silveira, de que nascer3o Antonio Pe- 
reira da Silveira, Manoel Pacheco Pereira, e Cliristov5o Pereira de Li- 
ma, de que fallaremos, quando das Ilhas do Fayal, e Graciosal A se- 
gunda filha do dito Comes Pacheco de Lima, foi D. Izeu Pacheco de 
Lima, que casou com Christovao Borges da Costa, de que nasceo Manoel 
Borges da Costa pai de Christovao Borges da Costa e Pedro Boi^es da 
Costa, fìdalgos de que jà fallamos. Porcm do primeiro Manoel Pacheco de 
Lima, r>ao su nasceo o sobredito Antonio Pacheco, mas tambgm D. An- 
tonia de Lima, que casou com Estcvao Ferrcira de Mello, avo dos Can 

tos, e Castros, que por aqui dcscendem tambem dos Pachecos. 

215 Estes Ferreiras, e Mellos da Graciosa vierao para a Terceira, 

corno na historia da Graciosa diremos; entro tanto bastare sabermos que 
Duarte Ferreira de Teve, lìdalgo mui conhecido, casou com D- Felippa 
da Camera; e d^cstes nasceo Concaio Ferreira da Camera, que casou < 
D. Felippa da Cunha, e forao pais de Estevao Ferreira de Mello, n3o sc^ 
multo rico, mas multo fldalgo, e que casou com a sobredita D. Antonia d^ 
Lima, dos referidos Pachecos; e d^este casamento nasceo Luis Ferreira d^ 
Mello, quo casou e morreo em Lisboa, e Ihe succedeo seo fdbo JosepH 
Ferreira de Mello; mas as irmlis de seu pai, e filhas do dito seu av61 
tevào Ferreira de Mello, forao tantas, e tantas casarao na Ilha Terceir 
que d'està a melhor nobreza desccnde d*cste Estevao Ferreira do Mell«3f 
e comtudo a cada huma de tantas filhas deo o pai grande, e igual dot^, 
e a cada huma em bens de raiz, e livres, sem diminuir o grande mor- 
gado que a casa tinha: as principaes filhas forao D. Luzia, D. Jeanne, 
I). Francisca, D. Vicloria, e I). Ignes, fura ontras, comò a D. Maria, que 
casou coni o morgado dos Cantos. 

210 Noni parerà a alguom que abalcrao os sobreditos Borges Coslas j 
no casamento daquolle Christovao Borges da Cosla (o dos Allares) com D. / 
Calharina Cuelho de Mello; porquc està descendia de Belchior Fernandes 
de Mello, quo voltou de Chiloa da India, e por isso Ihe chamarao o Chi- 
lào, e no dito lugar dos Allares casou com reri)eUia Coelho lìdalga dos Coe- 



LIV. Vi GAP. XX 109 

Ihos, que vierSo de Castella, corno consta do Filhamento Rcal de seu fi* 
Iho, e neto: o filho pois foi Hieronymo Fcrnandes Coelho, fidalgo filha- 
do, de m]Q primeiro casamento nao flcou descendencia; e segunda vez 
casoa com D. Marta Uedovalha, filha de Diogo Vaz Redovalho, Commen- 
dador da Ordem de Christo, que de Portiigal para a liha levou a dita 
filha, e dito sea marido tiroit o brazào da sua fidalguia dos antìgos 
Coelhos de Portugal ; e outro irmao leve chamado Francisco Coelho 
de Mello; porém do primeiro irmao Hieronymo Fernandes Coelho nas- 
ceo Diogo Vaz de Mello, fidalgo do foro de seu pai, que casoucom D. 
Maria de Castro, filha do Capitao de artelharia, que tinha vindo de Via- 
na do Minho, e de sua mulher Joanna Mendes Pereira, naturai da Cida- 
de do Porto: e tambem este Diogo Vaz de Mello foi insigne Cavalleiro, 
corno mostrava nas Festas. 

217 A ninguem tambem pareca que os antigos, e nobilissimos Cos- 
tas das Ilbas se reduzem so a aquelles Borges Cortereaes de que jà fai- 
lamos, porque além dos que deixamos jà na Ilha ìb Sao Miguel, outros 
vierjo à Ilha Terceira, e esles se cham3o Costas Ilomens. ou Homens da 
Costa, e sao fidalgos muito conhecidos. Velo pois a liha Terceira emseus 
principios Heitor Alvarez Homem, e casou com Brites AQonso da Costa, 
filha de Alfonso Ànes da Costa, que da Ilha da Madeira tinha vindo para 
Villa' Franca de Sao Miguel, e era fdho de Joao (ou Pedro) Anes da 
Costa, que do Algarve tinha ido a povoar a Madeira: e o dito Heitor 
Alvares Homera era filho, ou neto de Ambrosio Alvarez Homem Vascon- 
cellos, e de sua mulher Margarida Mendes de Vasconcellos, irma do Ca- 
pitao Donatario de Machico na Madeira: posto na Terceira Heitor Alva- 
rez Homem adquirio logo tantas terras, e bens de raiz, que fundou hum 
bom morgado em Villa nova, e para cabega d*eUe fundou a Ermida de 
Nossa Senhora da Vida. 

218 D'este Hcytor Alvarez Homem, e de Brites Alfonso da Costa 
nasceo Pedro Homem da Costa, que casou primeira vez com Antonia 
Quaresma, filha de Catharina Quaresma, e neta pela tal mài de Affonso 
Anes Quaresma, muito nobre, e rico, que de Portugal foi para a Ilha 
Terceira; e segunda vez casou o dito Pedro Homem da Costa com D. 
Brites, filha de Fernao Camello Pereira, e de D. Brites Cordeira; porém 
da primeira mulher nasceo outro Heytor Homem da Costa, que casou 
com D. Luiza de Noronha, filha do grande fidalgo Pedro Ponse de Leao, 
Veador mór da Uainha D. Catharina, mulher d'El-Rei D. Joao HI, e d'el- 



110 ' HISTORIA INSULANA 

les nasceo outro Pedro Homem da Costa, que casou com D. Lùiza de 
Vasconcellos, irma de Joao Pacheco de Yasconcelios, e liiha de Manoel 
Pacheco de Lima, de que acima ji fallémos; e nasceo mais Luis Domem 
da Costa, que casou com L). Isabel da Silva, fdha de Bui Dias de Sam* 
paio, e tiverao mais descendencia; e do ultimo Pedro Ilomem da Costa 
nasceo outro Luiz Homem da Costa, pai de Bernardo Homem da Costa, 
fidalgo nihado, e Cavalleiro do habito de Christo, que he bum dos Mor- 
gados mais nobres, e ricos da cidade de Àngra, e que casou com D. Mar- 
garida, fìlba de Belcbior Hachado de Lemos, da primeira nobreza da Ca- 
pitania da Praia. 

219 Com primeiro Heytor Àlvarez Homem foi tambem para a 
Terceira outro irmào chamado Joao Alvarez Homem, e casou com Anna 
Luis da Costa, e depois com Isabel Valadao Homem, filha de Joao Va- 
ladao Homem: e d'aqui procederlo muitos outros Homens Coslas, corno 
Isabel Uomem, quo casou com Rui Gongalves Teixeira, dos quaes nas- 
ceo Gii Fernandes Teixeira, que casou com Maria Cardosa Homem; e 
d'estes nasceo D. Isabel Teixeira, que casou com Diego do Canto e Cas- 
tro, fillio de Pedro de Castro e Canto, que casou comD. Brites daFonse- 
ca, nasceo tambem D. Àpolonia Teixeira, que casou com Pedro Ànes do 
Canto, segundo do nome, pais de Manoel do Canto Teixeiia, corno aci- 
ma ji tocamos na familia dos Cantos: e n3o sao menos fidalgos estes 
Cantos Teixeiras, do que os outros Cantos e Castros, comò se póde ver 
nos Teixeiras da Madeira, e Macbico, d'onde estes vierao. 

CAPITULO XXI 

Dos CasUllusbrancos, Carvalhaes, Lobos, SihfiraSy Espinolas^ Lemos, 
e dos BetencoreSf Domellas^ e outros, 

220 Com a entrada de Castella em Portugal pelar morte d'El-Rei 
D. Henrìque, Cardeal, e com a mesma entrada na Uba Terceira, nao so 
para Portugal, mas tambem para a Terceira, veio multa nobreza de Cas- 
tella, especialmente com postos de guerra para o grande Castello de An- 
gra: e entro os que vierao, bum foi D. Gaspar Munhós de CastelbrancOt 
Aireres-mór, e depois Capi tao da dita Fortaleza, e casou com D. Hele- 
na Escocia, fidalga da Madeira, e d'elles nasceo D. Pedro de Castelbran- 
co; este pois casou em Angra com D. Luiza de VasconceUos, fiiba de 



UV. VI GAP. XXI ììì 

Podro Anes do Canto, segunda do neme, e neta de Francisca do Canto 
e de D. Iria de Yasconcellos, filha de Pedralves da Camera, e de D. An- 
dreza de Vasconcellos; e o dito Francisco do Canto era o terceiro morga- 
do de Fedro Anes do Canto o Velbo; nasceo mais do dito D. Gaspar, e da 
Pscocia, sua mulher, D. Gonzalo de Castelbranco, qnc foi Abbade na 
Serra da Estrella, e D. Martha de Castelbranco que casou com bum 
moito Dobre vario cbamado SìmSo de Aguiar Fagundes. 

821 De D. Fedro de Castelbranco nasceo D. Manoel de Castelbran* 
co, que C9S0U com D. Isabel, filha de Hanoel Correa de Mello, e de D. 
Anna de Almeida, de que fallaremos, quando das Ilhas Gracìosa, e S. Jor- 
gè; nasceo tambem do mesmo D. Fedro, D. Ignacio de Castelbranco, 
qae herdou a casa de sua tìa D. Martha, mulher de Sim3o de Aguiar Fa- 
gondes, e casou nobilissimamente com D. Maria do Canto, filha de An- 
tonio do Canto e Castro, e de D. Maria de Mendoca, filha do bom fidai- 
go JoSo de Betencor e Vasconcellos, Capitlo-mór de Angra, de quem lar- 
gannente fallaremos em seu lugar. Nasceo mais do dito D. Fedro, D. Ma- 
ria de Vasconcellos, que casou com Joao de Teve de Vasconcellos, de 
qoe nascerlo filhas, que hoje slo casadas, e de cujos descendentes dirà 
oatrem. Do dito D. Manoel de Castaibranco, nasceo D. Francisco de 
Castelbranco de cujo casamento, e descendencia outrem escreveré. 

222 Outra multo fidalga famìlia de Angra he a dos appellidos de 
Caryalbaes, Borges, Silveiras, e Cameras. primeiro Carvalhal que sei 
boavesse em Angra, foi Francisco Dias do Carvalhal, e este casou com 
Catbarina Neta, (filha de Joao Alvarez Neto, fidalgo e Cavalleiro de Afri- 
ca, e Preveder das Armadas na Uba Terceira) de quem nascerlo duas 
filhas; primeira, D. Francisca Neta, que casou com Mant)el Facheco de 
Lima, e forlo pais de Antonia de Lima, mulher de Estevao Ferreira de 
Mello, bisavós de Jolo do Canto e Castro, comò vimos na familia dos 
Cantos: a segunda filha foi Margarida Neta, que casou com Femio Fur- 
tado de Mendoga, de que abaixo fallaremos; e d'estes Netos descende 
multa nobreza, ainda que nlo usem do appellido de Netos. 

223 Do dito Francisco Dias do Carvalhal, e de Catbarina Neta nas- 
ceo Jolo Dias do Carvalhal, que casou com Maria Borges Abarca, dos 
Borges Abarcas de que jà fallamos, e d'estes nasceo Estevao da Silveira 
Borges, marido de D. Barbara Machada, dos muito nobres Machados, de 
que trataremos; e do tal casamento nasceo Francisco do Carvalhal Bor- 
ges, que casou com D. Maria da Camera, irmi do Padre Manoel da Ca- 



112 HISTOIUA INSULANA 

mera, da Companhia de Jesus, o ambos da illustre familia dos Icgitimos 
Cameras; e do tal c^isaincnlo nasoco Joào do Carvalhal Borges, que ca- 
son, e teve rauitos filhos, que aiiida lioje vivem, e doiis vlerUo servir a 
El-Uei, e liuin ji inorreo, oulro casoii nobre, e ricamente na Provincia 
de Traz os iMonles; e lumia irina de seu avo |)oterno Estevao da Silvei- 
ra Borges, cliamada D. Joanna da Silvoira, casou com Francisco do Can- 
to, mofo, e (lo Uil cnsamento nasceo Ignacio do Canto da Silveìra, e 
D. Maria do Canto, scgunda muUier de Yital de Betencor e Vasconcel- 
los, Capiti5o-mór de Angra, aonde toda a nobreza lìdalga està aparcnta- 
da com esles fidalgos Carvalhaes. 

224 D'aquelle fidalgo Joao Alvarez Neto, Cavalleiro de Africa, e Pro- 
vedor das Armadas, nào s6 nasceo a dita Catliarina Nota, que casou com 
o primeiro Carvalhal, neni su a outi*a Irma D. Francìsca Neta, mulher 
de Manoel Pacheco de Lima, e sogra de Estevao Ferreira de Mallo; mas 
nasceo tambem Margarida Nota, que casou com Fernao Furtado de Meo- 
doga, que segunda vez casou com D. Maria da Yeiga; e o dito Femio 
Furtado era fillio de Gaspar de Lemos de Faria, (que tinha vindo de Lis- 
boa) e casou com Imma fìllia de Mundos Furtado de Mendoga, filho de 
Fernao Furtado de Mcndoca, fidalgo dos [)ovoadores da Graciosa, comò 
em sua bistoria veremos: da dita pois Margarida Nela, e de Fern3o Fm^ 
tado nasceo Christovao de Lemos do Mendoca, que da primeira mulher 
teve bum fillio, que fui Frade dos Eremilas de Santo Agostinho, Reitor 
do Collegio de Coinibra, e Arcobispo Priniàs do Oriente em Goa, cha* 
mado Dom Frei Cliristovao da Silveira, e oulro secular cbamado Gui- 
Iherme da Silveira, que conlieci ser jà velilo de sessenta annos, e sendo 
pai jà de oilenla, casou a segunda vez, e teve terceiro fillio chamado 
Luis Furtado de Mendoga, que foi meu discipulo nos latins em Angra, 
onde ainda o pai me foi visitar ao Collegio, sondo quasi de ccm annos. 

223 Do segundo casamento de Fernao Furtado de Faria com D. 
Maria da Vciga nasceo D. I^aula da Veiga. que casou com Francisco do 
Canto da Camera; desto casamento nasceo Joao do Canto, a quem cba* 
marao Joào do Canto Saude, que casou com D. Maria Cortereal, filhado 
Tenente Sebasliào Cardoso Macbado, quo casou com D. Brites Cortereal, 
filila de Manoel Pamplona de Azevedo; e o tal Sebasliào Cardoso Macba- 
do era fillio de liuma innà da mài do Venoravel Padre Joao Baulistó 
Macbado; da Companbia de Jesus, que em Japào morreo pregando a Fé, 
e degoUado por ella, corno verdadeiro Apostolo, e Padre da Compa- 



UY« VI GAP. XXt fl3 

nhia. Outra ind3 leve o dito J(^o do Canto Saude, chamada D. Joanna, 
qoe casou eoi Ponta Delgada de S. Miguel com hum molto nobre, e ri- 
co Cidadio, chamado Antonio Pereira Boteiho» que li tem descendencia. 
Do martyrio do Veneravel Padre trataremos, quando abaixo escrevermos 
das mais illostres virlades de algumas pessoas d'està Ilha. 

220 Outras familias ha na Uba Terceira, de que n3o pude aòhar 
piena noticia; homa d elias be a dos iiinstres Espìnolas, que vierSo i 
Itila oom a vinda dos nobres Cabos do grande Castello de Angra, entro 
OS quaes veio bum fidalgo cbamado Felippe Espinola, e d'este naseeo 
D. Cbristovao Espinola bem conbecido em Angra, onde casou nobilissi* 
Diamente, e teve por filha a D. Francisca, que casou com Luis do Can- 
to da Costa, Albo de llanoel do Canto Teixeira, e de D. Margarida da 
Costa: qual llanoel do Canto era Albo da Pedro Anes do Canto, so- 
gaodo do nome, e neto de Francisco do Canto, terceiro filbo do primei- 
ro Pedro Anes do Canto, e casado com D. Luiza de Yasconcellos, filha 
do primeiro Pedro Alvarez da Camera, e de D. Andreza de VasconceU 
los, corno se póde ver na familia dos Cantos aetma; e do tal casamento 
de Luis do Canto da Costa com a dita filba de D. Cbristovlo Espinola, 
naseeo Joseph do Canto Espinola; e por morte da m9i d'este casou o 
pai s^nda vez com D. Antonia de Metto, fiiha de Manoel Correa de 
Udo; e assim se unirio os Espinolas cotn toda a nobreza das Ilhas. 

227 A outra illustre familia, de que n^o tenho muita clareza, bea 
dos Lobos Silveìras, que casarao na familia dos Cantos ; porque em o 
Doutor Fructtioso, e em outros papeis dìgnos de fé, aeho que bum 
Bras Pires do Canto foi o Fundador, e Padroeiro do Convento de S. 
Concaio de Angra; mas tKlo acho quem fossem os pais d'este Bras Pires 
do Canto, (e talvez se aciidm papeis anligos do dito Convento, se em 
poder de mulberes se nSo perdessem) podta ser que o tal Bras Pires do 
Canto nascesse de Antonio Pires do Canto, filho primeiro, e morgado 
do primeiro Pedro Anes do Cao^x), e que o tal Bras Pires do Canto to- 
rnasse este nome do dito seu pai, pois em toda a familia dos Cantos 
nìo se acha quem se dominasse Pires do Canto, senao primeiramente o 
dito Antonio Pires do Canto, e segundo o dito Bras Pires do Canto, e 
corno em Angra fundoa o sobredito Convento, d'ella devia ser naturai, 
mas tambem n3o adio com quem fosse casado, o certo be que do tal 
Bras Pires do Canto ficou buma filba cbamada D. Maria do Canto. 

228 Està pois D. Maria do Canto casou com bum fidalgo chamado 
YoL. u 8 



114. HISTQRIA INSCLANA 

D. Diogo Lobo, e d*este casamento Daseeo D. Rodrigo Lobo da Silvein 
e nasceo em Angra, corno affirmao as bistorìas citadas ; e foi este D. 
nodrigfo Lobo Commendador de duas commendas, da de Santa Maria 
de MorK^o, e de outra de Santa Maria de Niza, e dò Gonsellio de Soa 
Magestade, e Governador General da Rha de S« Miguel, e emriin Cover- 
nador da Armada Rea! de Portugal : d'onde parece que o tal Rodrigo 
Lobo da Sìlveira, e seu pai D. Diego Lobo, erao das illustres casas dos 
Silveiras Condes da SorteUia, e dos Lobos» Baroes de Alvito» e qoe as- 
sim cqnio o prìmeiro Fedro Anes do Canto casou primeira vez na casa 
dos Abarcas, boje Cortereaes, Marquezes de Castello Rodrigo, e segua* 
da Tez casou nas dos Silvas de Lisboa ; e seu fillio Antonio Pires do 
Canto caso» na casa dos Castros de Monsanto, Marquezes de Cascaes 
lìoje, assim tambem casaria em Lisboa Bras Pires do Canio, cuja filha 
casou com D. Diogo Lobo: de D. Rodrigo Lobo nasceo outro D. Diogo 
Lobo da SiU*eira, corno o avo, e ja no anno de 1639, foi cotn Armada 
Real por Mestre de Campo para o Brasil, e nSo sabemos da descendea- 
cia sua, mas so de buma sua irma U. Marianna de Castro, que vtveo, 
e morroo Freira. 

229 Da Regia familia dos Betencores, e dos seus troncos Beis das 
Canartas, e seus descendentes assim na Madera, comò em S. Miguel, 
tratamos ji, quando das taes Ilhas; segue-se agora tocarmos dos outros 
Reaes descendentes, que vier3o para a liha Terceira, e n'ella se conser- 
vao. D estes pois foi em Angra o mais respeitado, e celebrado fìdalgo, 
bum Jo3o de Betencor e Vasconcellos, de quem mais largamente fallare- 
mos, quando tratarmos das guerras do Senhor D. Antonio, neto dei- 
Rei D. Manoel, com seu primo Felippe II de Castella, neto tambem do 
mesmo Rei. Quem porem fosse o pai d*e3te Joao de Betencor, diz hama 
Relapao de Autlior de vista d*aqueiie tempo, que foi Francisco de Be« 
tencor. e que ainda era vivo, e viveo ainda depois muito tempo, e que 
era naturai da Villa da Praia, e casado com mulher muito nobre, e apa* 
rentada, e era legitimo descendente dos ditos dous Reis das Canarìas, 
e que dos que d'estes viefao para a Uba da Madeira, veio para a Te^ 
ceira o tal pai do dito Joao de Betencor e Vasconcellos, comò constarà 
dos flibamentos Reaes d'estes fldalgos, e tambem he certo qoe foi casa- 
do com D. Maria da Camera e Vasconcellos, filtia de Fedro Alvarez da 
Camera, segundo nome: e bisneto de outro Fedro Alvarez da Camera, 
que da Madeira velo para a Terceira, e era Qlbo legitimo do segundo 



LlV. VI CAP. XXI Mo 

Capitao do Punchal Joao Gongalves da Camera, e dos Vasconcellos di- 
remos abaixo. 

230 D'este Joao de Betencor e Vasconcellos, que ha mais de cento 
e trìnta annos vivia, nasceo Vìtal de Belencor e Vasconcellos, Morgado, 
e do babilo de Christo, com cem mil réis de tenca, que casou com Im- 
ma das filhas do grande fidalgo Eslevao Ferreìra de Mello, e segunda 
vez casoa com D. Izeu Redovaiha, fìlha de Vasco Fernandes Redovaiho, 
e de D. Maria Abarca, das antigas, e nobres familias dos Redovalhos, e 
dos Abarcas: nasceo mais do mesmo Joao de Betencor outro, e segun- 
do filho, que viveo, e morreo Religioso, e Padre da Companhia de Je- 
sus, corno duas irmas suas, Religiosas do Convento de Sào Gonzalo de 
Angra. Ao dito Vital de Betencor se seguio no morgadb o primeiro fì- 
Iho, e da prìmeìra mulher« Jo3o de Betencor e Vasconcellos, Capitao de 
Angra, e Governador da guerra contra a Fortaleza do Castello grande, 
no aoDO da Acclama^ao de Portugal, e Commendador da Ordem de 
Christo, da Commenda de Santa Maria de Tondella, e casou com D. Joan- 
na, filha de D. Francisco, e de huma irma de Manoel Correa de Mello, 
illustre fidalgo, de que faliaremos, quando da sua liha da Graciosa; e era 
tio conhecida, e respeitada a fìdalguia d'oste Joao de Betencor e Vas- 
concellos, que Ihe chamavuo o Sol da nobreza, e limpeza. 

231 Outro irmao d'este ultimo Joao de Betencor, foi Vital de Be- 
tencor comò seu pai, fìllio porcm da segunda mulher, e succedeo no fo- 
ro de seu pai, e avós, e ao irmao na Capitania-mór de Angra; e foi do 
habito de Christo com tenga, e Provedor dos Rcsiduos das Ilhas; viveo 
muitos annos, e sempre bemquisto, e estimado de todos: casou duas ve- 
zes, primeira com D. Violante, fìlha de Francisco de Betencor Correa e 
Avila, de que trataremos quando da Graciosa, e da liha do Fayal; se- 
gunda vez com D. Maria do Canto, irma de Ignacio do Canto da Silvei- 
ra e Vasconcellos: do dito Vital pois nasceo D. Branca, que casou com 
Agostinho Borges de Sousa, fìdalgo, e Cavalleiro da Ordem de Christo, 
e Provedor da Fazenda Reni das nove Ilhas Terceiras, de que nasreo An* 
tdnio Zimbron; mais nasceo do mesmo Vital outra fìlha, que casou com 
Diogo Pereira de Lacerda, e além de outras fìlbas nasceo Francisco de 
Betencor, (comò o avo materno) o qual casou com huma fìlha de Fran- 
cisco Dornellas da Camera, de que abaixo faliaremos. 

232 Do segundo Joao de Betencor nasceo o morgado Feliciano de 
Betencor, que casou com huma sua prima, fìlha de seu tio ViUil de Be- 



no HISTOniA INSULANA 

tencor, e da segunda mulher D. Maria do Canto; e além de ontros filhos 
que nascerao do dito Feliciano de Betencor, nascco tambem homa filha, 
quo casou com o fillio morgado de Ignacio do Canto da Silveira, e de 
D. Ignes de Castro; porém corno o dito Feliciano achacou de sorte qoe 
a ad(ninistra(3o de sua casa foi dada a sua mulher, e a elle silimeotos, 
e com ludo ainda vive; por isso passamos a huma sua irm3 cliamada 
D. Maria de Mendo^a, que casou com Antonio do Canto e Castro, ter- 
ceiro neto do prìmeiro Fedro Anes do Canto, e quarto filho de Hanoel 
do Canto e Castro, prìmeiro do nome, (corno jà vimos acima, e a soa 
descendencia.) 

233 He comtudo de adverlir que o dito Jo3o de Betencor e Vas-- 
concellos, segundo do nome, teve prìmeiro outro filho morgado» cba— 
mado Vital de Betencor e Vasconcellos comò o avo, e que este Vital. 
chegou a idade de mais de vinte annos, e n3o so com talentos, e par— 
tes naturaes que levaria sem duvida a Commenda, e postos de sea li-* 
lustre pai, mas tambem com taes virtudes sobrenaturaes, e tSo aEastada 
de todo vicio, que a todos levava os ollios, e parece os levou ao mas- 
mo Deos, que n'aquella idade o chamou para si, e o metteo de posse 
(corno piamente cremos) do verdadeiro morgado da Bemavenluraoca; 
porém comò do avo Vital nasceo huma irm3 do dito Jo3o de Betencor 
cliamada D. Felippa, e està casou com Francisco Domellas da Camera, 
fìdalgo de nao menos qualidade, raziio ho que d*esta familin dos Dor- 
nellas demos aqui nolicia, pois he casa tuo unida a dos Betencores. 

23Ì Porém comò jé acima cap. 17 referimos o illustre principio 
dos Domellas Cameras ; e ainda mais acima no c^p. 3, vimos tambem 
comò aos Pains tocava a Capitania de toda ilha Terceira pelo casamento 
da filha do prìmeiro Capitao, à qual filha se fez mercé de succeder ao 
pai na Capitania, comò consta do cap. 2, e por estes Pains pertendaaos 
Dornellas, que dos Pains tambem descendem, e se mostrou nos loga- 
res cilados; segue-se nuo haver mais que dizer, ou referìr do sobredito 6- 
dalgo Francisco Domellas da Camera, sen?io que sondo Capit3o mór da Pnia 
da Terceira, foi o que com seu cunhado Joao de Betencor e Vasconcellos, 
segundo do nome, for3o ambos os dous Governadores da guerra da 
AcclamacSo centra o grande Castello de Angra, e ambos o conqutstaiio; 
e Francisco Domellas foi Commendador de S. Salvador de Penama:or, 
e depois Governador do mcsmo Castello, e ao diante despachado com a 
Capitania Donatarìa, e Alcaidaria mór da Praia, em que so seguio seu 



uv. VI GAP. xxn in 

prìmeiro fìUio Bras Doraellas da Camera, qoe em Lisboa morreo solteiro» 
e 86 Iho seguio na casa seu irmao segundo Manoel Paim da Camera» qoe 
lambem ji morreo, e deixou fìlho, que he neto do dito Francisco Dor- 
Dallas da Camera. 

CAPITULO XXII 

Doi Yaicaneellos da Terceira^ e familias que d*elles deseendem. 
Dos Regos^ BaldayaSg Camellos, Pereiras, Sousas e oulros. 

235 Deixadaslradic5esemDada canoDicas, da occasiao dequoveioo 
appellido de Vasconcellos, ou Vaz con zelos, etc., o certo he que este appel- 
Ijdo he aotiquissimo, e nobilissimo. prìmeiro que se chamou Vascon- 
eellos« foi D. Joao Pires de Vasconcellos, que se achou na tomada de 
Sevilha com o Santo Bei D. Fernando de Castella,^ e casou com Dona 
Maria Soares Coelho, filha de Soeiro Viegas Coelho; e era fìlho de D. 
Pedro Moniz, e neto de D. Martim Moniz, e bisneto de D. Moninho 
Ozorio e terceiro neto do conde D. Osorìo, que no anno de 1050, con- 
qaistou grande parte de Entro Douro e Minho, aos Mouros, quando veio 
é conquista de Portugal, o Conde D. Henrìque pai dei-Rei, D. Affonso 
nenriqnes; e emFim teroeiro neto do Conde Dom Rodrigo Velozo, e nono 
neto dò Infante Velozo, e decimo neto do Rei de Le3o D. Ramiro III 
desoendente d*el-Rei D. Affonso de LeSo, e do famoso Rei Dom Pelaio, 
sendo Requeredo Rei dos Godos. 

230 De t3o altos Principes era decimo neto, e por varonia, aquelle 
prìoieiro D. Jo3o Pires Vasconcellos, e d'este nasceo D. Rodrigo Anes . 
de Vasconcellos, que casou com D. Elvira de Sousa, filha de Rui Yicen- 
te, e neta de Martim de Sousa Chichorro, filho dei-Rei D. Affonso II de 
Portugal; e do dito U. Rodrigo nasceo D. Mem Rodrigues de Vasconcel- 
los, e d*aqui se come^ou a ajuntar o appellido de Mendes ao de Vascon- 
cellos; porque deste D. Mem Rodrigues de Vasconcellos nascerSo varios 
flihos, primeiro, Joae Mendes de Vasconcellos, que casou com D. Leo- 
nor Pereira, irm3 dr nde Condestavel D. Nuno Alvarez Pereira, e 
d elles nasceo D. M? Vasconcellos, que casou com D. Affonso de 

Cascaes, filbo de D <)to dei-Rei D. Pedro o Crù, e da Senhora 

D. Ignes de Castro amento nasceo D. Fernando de Vascon- 

cellos, que casou ^el Coutinha, filha do prìmeiro Conde de 

Villa Real D. Pedr^ ^nezes, e do tal Dom Fernando nasceo D. Af- 



118 inSTORU mSULANA 

fonso de Vasconcelios, primeiro Gonde de Penella, e D. Joanna de Yas- 
concelloS) que casoa com Alvaro Pires de Tavora senhor do Mogadoaro; 
e D. Brites de Yasconcellos» que cason com D. Joao de Atayde senhor 
de Atouguia. Segundo filho do sobredito D. Mem Rodrigues de Vascon- 
cellos foi Confalo Mendes de Vasconcellos, que casou com D. Theresa 
Ribeira, filha de D. Fedro de Aragao, irmao da Rainha Santa Isabel de 
Portngal, e do tal casamento nasceo o Mestre de Santiago, chamado co- 
rno avo Bfem Rodrigues de Vasconcellos; e nasceo tambem Ruy Men- 
des de Vasconcellos senlior de Figueirù, E deixados outros de tao illus- 
tre familia, 

287 terceiro fillio do raesmo D. Mem Rodrigues de Vasconcel- 
los, foi aquelle .Martins Mendes de Vasconcellos, que por ordem dei-Rei 
D. Jo9o I, foi à Illia da Madeira de novo entao dt^cuberta, e la casou 
com Helena Gongalves da Camera, primeìra das Qlhas do descubridor da 
' dita liba, e primeiro Capìtào Donatario do FuQChal, o celebrado Joao 
Goofalves Zargo. U'este tao illustre Martim Mendes de Vasconcellos, e 
da dita Uelena Goncalves da Camera nasceo outro Uartim Mendes de Vas- 
concellos, que corno tinha vindo seu pai de Fortugal a casar na nova Uba 
da Madeira, assim elle da Madeira fui habitar, e casar na mais nova liba 
Terceira, e o tempo em que fez està mudanca, parece que foi com o pri- 
meiro Donatario de toda a liba Terceira Jacome de Bruges, que vindo 
pela Madeira trouxe d'estes Vasconcellos, e dos Teves, assim comò de 
U' Portugal trazia os Pains, e outros; que quem póde dar, e he Donatario, 
'J^eva comsigo a muitos, e mui focilmente: com quem porém casasse na 
terceira oste Martim Mendes de Vasconcellos, segundo do nome, nào me 
consta ainda; certo be porém, que casaria com pessoa nao indigna de sua 
qualidade, e consta que d'ella teve por fllho a Concaio Mendes de Vascon- 
cellos, que casou com Bartholeza Rodrigues Colombreira, da familia dos 
nobilissimos Costas, corno alBrma em sua historia o Doutor Fructuoso. 
238 Deste pois Concalo Mendes de Vasconcellos nSo so nasceo D. 
Maria de Vasconcellos, que casou com Joao de Betencor, (av6 do outro 
do mesmo nome. Capi tao mór de Angra, e Commendador de Tondella, 
e tronco de tanta descendcncia, quanta ]à vimos) mas tambem nasceo 
Pedro Mendes de Vasconcellos, de que nascerao os Qlhos segointes em 
Angra, a saber, Joao Mendes de Vasconcellos, que casou com Catharina 
Macbada de Lemos, pais de Balthezar Mendes de Vasconcellos, mando 
de D. Joanna de Barcellos, fllha de Diego de Barcellos; e dos ditos uasr 



UT. TI CAp. xxn H9 

000 Ibnoel de Barcollos» qae casou com D. IsabeU filha de Concaio Pe- 
reira, da Uba do Faynl: nasceo mais do sobredito Fedro Mendes de Vas- 
ooncellos, Martìm Mendes de Vasconcellos, que casou com Anna Vaz Fa- 
gnndes, e for3o pais de Jo3o Mendes de Yasconcellos, que casou com D. 
Haria de Teve, (os quaes jà conbeci muito bem) e for3o pais de JoSo de 
Teve e Yasconcellos, e de Martim Mendes de Yasconcellos, que comigo 
andoii em Coimbra, e de Antonio Mendes de Yasconcellos, que em An- 
gra casou, e lem. descendentes ; porém o Morgado Jo3o de Teve, com 
easar nobilissimamente, e deixar filbas, que igualmente casar3o, nSo dei- 
xoQ filho varSo que Ibe succedesse, mas so as diias flihas. Do dito Con- 
caio Mendes o avo paterno, que casou com a Camera na Madeira, là fi- 
era com outra tanta descendencia, que seria molesto em referil-a. 

239 Porém do mesmó Martim Mendes de Yasconcellos» primeiro do 
nome, be de advertir, que depois de viuvar da primeira mulher Helena 
Goncalves da Camera, casou segunda vez com D. Ignes Martins, filha de 
Martim Pires de Alvarenga, (descendente do (limoso Egas Moniz, e do 
seu fiIho D. Aflbnso Yiegas) e de D. Ignes Paes, filha de Pajo Rodri- 
gues, Commendadores, e Alcaides mores de Celorico, e Alvarenga: d*es- 
te pois segundo casamento do dito Martim Mendes de Yasconcellos nas- 
ceo primeiro Jo2o Mendes de Yasconcellos scnhor de Alvarenga, que ca- 
sca com D. Isabel Pereira, e d'estes nasceo Riiy Mendes de Yasconcel- 
los, senhor tambem de Alvarenga, e casado com D. Maria de Moura, 
filha do Alcalde mór de Lamego ; de que (além de buma filha, que ca- 
sou em Yiseu) nasceo Jacome Rodrigues de Yasconcellos, que casou com 
D. Maria Dèca, filha de D. Jo3o Dèca, Alcaidr mór de Yilla Yicosa, e de 
D. Maria de Mello, e do tal casamento nasceo D. Maria Pereira do Yas- 
concellos, que casou com Diogo Leite de Amarai, pais de Diogo Leite 
de Azevedo, e avós de Jacome Leite de Yasconcellos, e bisavòs de Dio- 
go Leite de Yasconcellos, e tresavós de Jacome Leite de Yasconcellos, 
cajo filho Luis Diogo Leite tomou a unir-se com estes mesmos Yascon- 
cellos, casando na casa dos Teves, que nio so sao Yasconcellos, mas 
Cameras tambem, por descenderem do primeiro casamento de Martim 
Mendes de Yasconcellos, que foi casar à Madeira com a primeira, e le- 
gitima Alba de Jo3o Goncalves da Camera o Zargo. E baste està noticia 
de fSo inexhauriveis Yasconcellos. 

S40 Com outros Yasconcellos Oliveiras se unirlo tambem os nobres 
Regos Baldaias, Camellos, Pereiras, Sousas, etc. Em a cidade do Porto 



120 IflSTORIA INSULANA 

havia antigamente bum J63o Vaz do Rego, homcm fidalgo, e oriundo da 
antiga» e nobre Villa da Feira; de que nasceo Concaio do Rego» CidadSo 
e fidalgo do Porto, que casou com Maria Baldaya, e viuvo duella veio com 
quatro filhos para a Uba de S. Miguel, e n'esta casou segunda ves com 
Isabel Pires Redovaiha» fidalga dos primeiros Redovalbos; do prìmeiro 
casamento nasceo Belchior Baldaya do Rego, que casou com Isabel (oa 
Brites) Rodrigues Raposa da nobilissima familia dos Gagos Raposos de 
S3o Miguel; e d'estes nasceo Manoel do Rego Baldaya, que casou em S. 
Miguel com Hieronyma Ferraz de Figueiredo, da aoliga nobresa de Sic 
Miguel, e Santa Maria, e (brao pais de Belcliior Baldaya do Rego, que sen* 
do proprietario do grande officio de Provedor dos Rgsiduos ile S3o Mf 
guel, se mudou para a Villa da Praia da liba Terceira, e n'ella foi Veret- 
dor, e Juiz, e muito respeitado Cidadao, e o qual com sua familia ajon- 
tou outra de VasconceUos CMiveiras, porque 

341 Casou dito Belclùor Baldaya do Rego com D. Margarìda de 
VasconcelloB, filba do Doutor Marcos Alfonso de Vasconcellos, Provedor 
dos Residuos, e neta de Guimar de Oliveìra e VasconceUos, e bisneU de 
Ignez de (Hiveira e VasconceUos, e tresneta de Pedro de VasconceUos» e 
quarta neta de Pedro de Oliveira e VasconceUos, e quinta neta de Mar- 
tim de Oliveira e VasconceUos, fidalgo da casa dos Infantes D. Heorique 
e D. Fernando, e casado com Tareja Velba, irm3 do grande Frei Conca- 
io Velbo Cabrai, primeiro descubrìdor, e CapitSio Donatario de ambas as 
Ilbas, de Santa Maria, e Sao Miguel, corno vimos jà em os seus descu* 
brìmcQtos, e emfìm sexta neta de Rui Mendes de VasconceUos, fidalgo 
descendente (dìz Fructuoso) de bum grande senl)or de Gascunba, ou Vas* 
conba, em Franga: que parentesco porém tivessem estes VasconceUos 
Oliveiras com os outros i& ditos VasconceUos, nao me consta; e so acbo 
que da dita sexta neta d estes, e do dito seu marido Beicbior Baldaì^a 
do Rego nasceo 

242 Joào do Rego de VasconceUos, que casou duas vezes; primeira 
com D. Maria Pacheco de Meilo; segunda vez com D. Violante de Espinosa 
Cordeira, de que fallaremos em seu lugar; pela primeira se unirSo estes 
Regos com os Camellos, Pereiras, Pachecos, Sousas, e MeUos, porque a 
dita D. Maria Pacheco de MeUo era fiUia de Gaspar Camello Pereira, 
Sargenio mór, e Ouvidor da Villa da Praia, e neta do André de Sousa 
Pereira, e bisneta de Gaspar Camello do Rego, e tresneta de Gonzalo 
do Rego Baldaya, e quarta neta d'aquelle primeiro Gonzalo do Rego, de 



Liv. VI CAP. xxni 121 

qiiem tambem era tresneto o dito Joao do Rego de Vasconcellos, mari* 
à) da tal D. Maria Pacbeco de Nello, e està por sua mai D. Leonor Pa- 
dieco de Mello era nela do Fabricio Pacheco de Mello: e està por sua 
mii D. Leonor Pacheco de Mello era neta de Fabricio Pacheco de Mel- 
lo» e bisDCta de Domingos Vieira Paclieco, e de D. Isabel de Mello, flUia 
de Luis de Espinola fldalgo flihado, e por*sua terceira avo D. Brites Ca- 
mello, mulber de Gongalo do Rego Baldaya, era quarta neta de Gas|)ar 
Camello Pereira» e quinta neta de Fernando Camello Pereira, e de D. 
Brites Cordeira, Alba de Pedro Cordeiro; e pelo Fernando Camello era 
bisneta de Alvaro Camello Pereira, fidalgo t3o grande, que era filho do 
Alvaro Concai ves Camello, antigo senbor de Bay3o, que casou com D. 
Ignei de Sousa, filba de D. Lopo Dias de Sousa. Mestre da Ordem de 
Christo; e a mulber do dito Alvaro Camello Pereira era D. Isabel de Cas- 
tellobraDCO, filba de Jo3o Camello Pereira, que era neto de D. Alvaro 
GoDcalves Pereira, pai do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, e o di- 
ta Jo3k> Camello Pereira era casado com Leonor Paes de Castellobranco 
fliha de Concaio Vaz de Castellobranco o Velbo, tronco das excellentes 
casas dos Condes de Villa nova, e dos Almirantes, e outras. 

S43 D'aquelle Gaspar Camello do Rego, que de S3o Miguel fot ca- 
gar i Villa da Praia da Terceira com Catharina de Sousa, nasceo mais 
Dona Isabel de Sousa, que casou com Manoel de Franca Machado, e d'es- 
tes nasceo Joio Camello do Rego Pereira e Castellobranco, que de tudo 
tirou instrumento juridico em 1626, corno ji tinba tirado seu pai Ma- 
noel de Franca Machado em o anno de 1601, e do dito JoSo Camello do 
Rego nasceo Manoel de Sousa de Menezes, que conheci em Angra, mo- 
rando defronte da Sé, ha sessenta annos: nasceo tambem da dita D. Isa- 
bel de Sousa, e do dito Manoel de Franca Machado, nasceo, digo. Do- 
na Paula, que casou com D. Christov3o Espinola, de que nasceo D. Fran- 
dsca, que casou com Luiz do Canto da Costa, fidalgo da familia dos Can- 
tos, aoode se póde ver. E isto basta d*estas, vamos jé a outras familias. 

CAPITULO XXIII 

Dos Barretos liados com a Beai casa io Santo Borja. E do tronco 
dot FonsecaSy Vieiras, Machados^ Pachecos, e ainda dos Cantos. 

244 N3o obstante o termos jé tocado em o cap. 18 nos Barretos 
Monizes da Terceira, nao os podemos privar da maior gloria a nobreza. 



122 HISTORIA INSULANA 

de que de bum dos mcsmos Barretos descendeo o glorioso, e Real Prin- 
cipe S. Francisco de Borja, da Companhìa de Jesus, e de antes quarto 
Duque de Gandia, Vice-Rei de Catalunha, e bisneto d'el-Rei D. Fernan- 
do Calholico; e tronco das maiores casas que ba na Hespanha, e por 
està via todas descenderem dos illustres Barretos de Portugal, donde 
tambem descendem os da Uba Terceìra; pois ainda é niaior casa, mais 
exalta bum descendente, ou parente consanguineo que chegou a ser San- 
to canonizado, do que os qoe nio passar3o da fìdalguia do sangue. 

245 priroeiro pois que acbo do appellido de Barreto, foi Con- 
caio Nunes Barreto, Fronteyro mór do Algarve, ou Vice-Rei do tal Rei- 
no, e Alcalde mór de Faro; e este deixoo qualro filbos: primeiro, Fer^ 
n3o Barreto, que morreo em Ceuta : segundo Francisco Nunes Barreto, 
terceiro, Jo3o Telles Barreto; e quarto, Gonzalo Nunes Barreto, segan- 
do do nome corno o pai, e cason com D. Isabei Pereira, filba de Diego 
Pereira, Gommendador de Santiago, e d*esle Gonzalo Nunes Barreto 
nasceo D. Ignez, que casoa com Henrtque Moniz, Alcalde mór de Sil- 
ves, em quem se ajuntarao os Barretos com os Monizes: nasceo miis do 
mesmo segundo Gonzalo Nunes, D. Isabei de Menezes, que casoa com 
Gii de Magalhaes senhor da Nobrega: e nasceo tambem D. Leonor Bar- 
reto, que casou com Martim AfTonso de Mello, Alcaide mor de Serpa, 
e deixados outros muitos irmaos varOes, que nascer3o do dito Gonfio 
Nunes Barreto, segundo do nome, o primeiro foi Nuno Barreto, Alcaide 
mùr de Faro, que casou com D. Leonor, filha de Joao de Mello, Alcai- 
de mór de Serpa, e do tal casamento nasceo bum filho, e buma fiiba, 
fìllio foi Bui Barreto, que casou com D. Branca de Vilbena, filba de 
Manoel de Mello, Alcaide mòr de Olivenca, e irmuo do Conde de Oliven- 
ca D. Rodrigo de iMcllo, com cuja fiiha casou o senhor D. Alvaro, pri- 
meiro Marquez de Ferreira, tronco da Excellentissima casa dos Duqiies 
de Cada vai. 

24G A fìlha pois do dito Nuno Barreto, e Irma do dito Bui Barre- 
to, foi D. Isabei, que casou com D. Alvaro de Castro, cbamado o do 
Torrao, e d'este casamento nasceo D. Leonor de Castro, que de Portu- 
gal foi por Dama da Emperatriz Dona Isabei, mulber de Carlos V, e 
d*alii casou com o sobredito Duque de Gandia D. Francisco de Borja, 
da qual viuvo entrou na Companbia de Jesus, e o poz a Catholica Igreja 
em scus altares. e venera por Santo canonizado, e milagroso; e irmi 



Liv. VI GAP. xxni 423 

era tatnbem da dita D. Leonor de Castro huma D. Fclippa Barrcto, qne 
casou com Francisco da Costa Cortereal o de Tavira. 

247 Entre os fillios d'este glorioso Duque Sao Francisco de Bor- 
ja, foi hum chamado D. Joao de Borjii, o qual casou com oulra Por- 
tugucza, e prima sua cm terceiro grao de consanguinidadc, chamada 
D. Francisca de Aragao, filila de Nuno Rodrigues Bairelo, e de D. Leo- 
nor de Aragao, filha de Nuno Manoel senhor de Salvaterra, e Guarda 
mór d'el-Rei D. Manoel, o qual Nuno Rodrigues era fillio do sobredilo 
Roi Barreto, irmao da mai da dita Duqueza de Gandia D. Leonor de 
Castro; e assim segunda vez tornarlo os senliores da casa de Gandia a 
descender dos Barretos Portugnezes; e podera quem compoz as li^oes 
da Reza do Santo Borja, quando comecou a quinta lìcao com estas pa- 
lavras, «Morlua Eleonora de Castro,» accrescentar, aò menos, està so 
palavra, tLusìtana,t pois tanto amou o Santo aos Portugnezes, que nao 
so casca elle com huma, mas tambem o dito seu filho com outra Por- 
tugueza, e se aparentou com Portugnezes tantas vezes, que n3o so o fez 
com OS Barretos, mas com os Perei ras, Mellos, Castros, etc. 

248 Do dito Rui Barreto, irmao da mai da Duqueza, nasc^o tam- 
bem D. Brites de Vilhena, que casou com D. Henrique de Menezes, Go- 
veroador doCivel de Lisboa; nasceo mais D. Francisca de Vilhena, que 
casou com D. Fernando de Lima, pais de Diogo de Lima. Seguindo po- 
rèm a \*aronia direita dos Barretos, nasceo tambem do sobredito Nuno 
Rodriguez Barreto, nutro Rui Barreto, segundo do nome, senhor do 
morgado da Quarteira no Algarve, e que foi grande Capitao na India, e 
das Galés em Hespanha, e casou com D. Brites de Vilhena, filha de D. 
Pedro de Menezes, (que matarSo sendo Capitao de Tangere) e era filho 
de D. Duarte de Menezes, famoso na India. E outra irmS teve este Rui 
Barreto chamada I). Branca, que foi segunda mulher de D. Joao de Cas- 
tellobranco. Do tal segundo Rui Barreto nasceo outro Nuno Rodrigues 
Barreto, comò o avo, e d'elle nasceo Jorge Barreto, Estribeiro mór d'el- 
Rei D. Manoel, e Commendador da Azambuja, e casou primeira vez com 
D. Isabel Coulinho, filha de D. Vasco Cootinho, primeiro Condc de Bor- 
ba, e do Redondo, e segunda vez casou com D. Leonor, irma de D. 
Francisco de Moura, senhor da Azambuja, de quo ficarào mais filhos, 
porém do dito seu avo Rui Barreto, segundo do nome, nasceo mais Gon- 
Calo Nones Barreto, AJcaide mór de Loulé, que morreo na balaiha d'cl- 
Rei D. SebastiSio, e tinha sido casado com D. Maria de Mendonra, filha 



124 HISTOMA INSULANA 

de D. Francisco de Sousa, Yeador d'eNRei D. JoSo III, e d'elle nasceo 
Nudo Rodrigues Barreto, Alcalde niór de Loulé. Do que ludo, e do jà 
dito no cap. 18» bem se tira que parentesco tem os Barretos Monizes da 
Terceira com o Santo Borja, e seus descendentes, assim queira Deos que 
OS ÙDitem. 

1<49 Nem tambem obstante o que dissemos no cap. 17, para o finit 
da antiga nobreza dos Pamplonas, e Fonsecas, que nSo so com Cantos» 
e Castros se ajuntarSo, mas tambem com os sobreditos Monizes Barre* 
tos, pede ainda a historia que descubramos mais o radicai principio dos 
Fonsecas da Terceira. No descubrimento pois da dita Uba (que ba mais 
de 250 annos) bum dos primeiros, e mais nobres povoadores que n'ella 
entrarao, foi Concaio Anes da Fonseca, a quem o primeiro GapitSo de 
loda a Uba fez grandes datas de terras, e especialmente de muitas, que 
estao na vasta campina chamada o Paul, hoje demarcada com os marcos 
que dividem as duas Capitanias da Praia, e Angra, quem porém fossem 
OS immediatos fllhos d'este Concaio Anes da Fonseca nao o acho, mas 
do que achei considero que, ou fllho, ou neto seu, foi bum Pedralves 
da Fonseca, que sendo na Terceira casado com D. Andreza Hendes, e 
que viuvando està d^aquelle, tornou a casar com Francisco de Betenoor 
e Vasconcellos, que da Madeira tinha vindo para a Terceira tambem viu- 
vo, e d'estes deus viuvos, marido, e mulher, nasceo aquelle Jo3o de 
Bctencor e Vasconcellos, de que fallei no cap. 21, quando dos Betenco- 
res de Angra, e quando ainda nao tinha achado este seu legitimo pai, 
que da Madeira veio para a Terceira; e porque o dito Joao de Betencur 
e Vasconcellos casou com huma filha da dita sua madrasta D. Andrea 
Mendes, e de seu primeiro marido Pedralves da Fonseca, porissoi mu- 
lher do dito Joao de Betencor de Vasconcellos, huns Ibe chamSo D. Ma- 
ria da Camera e Vasconcellos, corno no citado lugar dizemos; outros ito 
chamUo D. Maria da Fonseca, porque tudo tinha. 

250 D'cstes mesmos Fonsecas acho bum multo nobre Jacome da 
Fonseca, parente do Bispo D. Ilieronymo Teixeira Cabrai, e vindo de 
I^mego, e la casado rìca, e nobremenle, e destes nasceo Antonio da 
Fonseca, Ecclesiastico, e Agente de Portugal em Roma, e nasceo mais 
Cracia da Fonseca, Dama da Duqueza de Bragnnga, que casou conforme 
a sua qualidade, e d'ella nasceo Cenebra da Fonseca, mulher de bum 
seu parente Hieronymo da Fonseca, que forào pais de outra Grada da 
Fonseca, que em Angra casou com Antonio Dias Ilomem. Destes pois 



UV. VI GAP. IXtlI 125 

antigos, nobres, e tSo aparcntados Fonsecas dcscondem aqnclles Fonsc- 
cas Rdalgos, de qtie tratamos no cap. 17, do flm. 

251 E ainda nao obstante o muito qne acima todimos no cap. 1!) 
e 20 dos Canlos e Pachecos, devemos accrescentar o que achamos do 
outros Cantos Vieiras, e de outros Maciiados Pacliecos. Dos Vieiras pois 
he de saber, qae reinando El-Rei D. Joao IH ttavia em Lisboa bum fi- 
dalgo chamado Duarte Galv3o da Silva, casado com D. Catharina de Sousa, 
e elle Secretano do Rei, e do seti Conseiho, e qne foi seu Embaixador 
a Castella, comò jé dissemos no cap. 19 d'este fìdalgo, alóm da filha D. 
Violante da Silva, que casou com o primeiro Pedreanes do Canto da 
Terceira, e ji viuvo, nasceo mais Pedro Vieira, que veio à Uba de S. 
Miguel, e tornou outra vez para Lisboa onde morreo, comò aflirma Fru- 
daoso em sua bisloria; deixou porém em S. Miguel lium filho, chamado 
FemSo Vieira, que casou com Uova Lopes, Tilha de Alvaro Lopes, se- 
nbor do VulcSo de S. Miguel, e de Mecia AfTonso da Tamilia dos Ma- 
cbados da Uba Terceira; e do dito Femiio Vieira nasceo em S. Miguel 
Manoel Vieira, que duas vezes casou em S. Miguel. 

252 Porém, se do dito fidalgo Duarte Gnlvlio da Silva descendeo 
D. Pedro Vieira da Silva, que primeiro tambem foi Secretano de Estado, 
e Valido d*el-Rei D. Jo3o o IV, e depois de viuvo so fez Ecclesiastico 
e foi illustrissimo Bispo de Leiria, de qne ficou illustre descendencia, e 
Olustre Senbor Luis Vieira da Silva, que ainda hoje vive, tambem 
Ecclesiastico, e bum dos mais graves barretes que boje tem PortugaU 
e de t3o esemplar virtude, que tendo servido muitos annos do Deputado 
da Mesa da Consciencia, e do Santo Officio, nunca quiz aceitar o ser 
Valido dos Reis, nem Secretano de Estado, nem ainda Bispo, de tal 
sua ascendencia n3o me consta, porque a exemplar modestia d*este il- 
lustre fidalgo nao Ai lugar a se (he perguntar. 

253 Depois soube eu por boa via, qne o sobredito Pedro Vieifa da 
Silva era unico filho de Gaspar Vieira Rebello, em cuja boa casa suc^ 
cedeo; estudou em Coimbra, foi Collegial do Collegio Real de S. Paulo, 
Desembargador do Porto, e em Lisboa da Suppiicagao, e dos Aggravos, 
e depois Gonselheiro da Fazenda, e logo Secretano de Estado d'El-Hei 
D. J63o IV, e da Rainha D. Luiza, e dos Reis muito estimado. Casou 
com D. Leonor de Noronba, filha de Martim de Tavora de Noronba, e 
«nbos flzerSo em Leiria o Convento de S. Antonio da Provincia da Ar- 
rabida, de quo Qcou o f adroado a seus desccndentes; dos quaes o pri- 



12C IIISTOHIA IXSCLANA 

mciro fillio fui Gaspar Vieira da Silva, que succcdeo ao pai na casa do 
Padroado, e Comiiicndas, e cason com D. Felippa, filha de Antonio de 
Alrnada e Mello, e de D. Ursula da Silva. Uulro fillio Toi Felippe de 
lavora de Noronha, Mallcz professo, quo fui General das Galès de Malia 
e depois de lograr outras Connnendas, foi, e morreo Baulio de Lessa, e 
senhor do grande estimacao, o atéin de muitos outros fìllios, e Pdhas do 
sobredilo Pedro Vieira da Silva, (quo Toruo Religiosos e Heligiosas) foi 
tambem seu filho o ja refendo, e illuslre Ecclesiastico Luis Vieira da 
Silva. 

23 i Deixada tSo copiosa desccndencia, viuvou o illustre pai, e se 
fez Ecclesiastico, e foi feito Bispo illustrissimo do Dispado do Leiria, no 
governo Ecclesiastico mostrou ainda maiores virtudes, do que os gran» 
des talentos que no conseiho dos Ueis iinlia mostrado, e fot verdadeira* 
mente hum exemplar de Bispos, e seus successores gozao hoje do Epis* 
copal, e Regio palacio, que llies fundou e deixcu dentro da mesma Ch 
dade de Leiria. Do que ludo ainda que nao consta o juizo» qae acìma 
ja formamos, d*estes Vieiras Silvas descenderem d'aquello Duarte Gai'» 
v3o da Siva, Secretarlo tambem, e do (Conseiho d*EI-Rei D. JoSo III e 
seu Embaixador a Castella; consta com tudo a probabilidade corno que 
ajuizavamos, assim por ambos os appellidos juntos de Vieira e de Silva, 
que tanto conservou o Illustrissimo Bispo, e seus principaes fil^os, corno 
pelos Oflìcios de Secrelarios, Consellieiros, e Validos dos Reis. 

255 Consta porèm que dos sobredilos Vieiras nao so em S. Miguel 
ficarao os descendentes d'aquelle Manoel Vieira, mas tambem em a Terceira 
ficarao no fidalgo Joao da Silva do Canto; nelo materno do sobredilo 
Duarte Galvao da Silva, e nos muilos descendentes que ainda boje lì 
tem, com os appellidos delk)rgcs, Coslas, e Cantos Silvas, e outros que 
se chamarao Cantos Vieiras: e huns Vieiras anligos que fizerao seu as- 
sento em nobre lugar do Santa Barbala da Tcrceii'a, onde viveo com 
nobreza hum Sebastiào Vieira, de que jii Fructuoso faz mencao. 

250 Dos Machados Pachecos toco so, que liouve em Angra hum 
bom fidalgo chamado Constantino Machado, que casou com D. Catharina 
Pacheco Cortereal, e d'cstcs nasceo Manoel Madiado da Costa, que con- 
forme a sua qualidade casou com Barbara Cabrai, de que nasceo outro 
Constantino Macbado da Costa comò o avo, e huma D. Margarida, 
que casou com Fabricio Pacheco, e d'cstes nasceo Matiheos Pàclieco, que 
casou com D. Anna, filha do conhecido fidalgo Alvaro Pereira deLacerda, 



LIV. VI CAPr XXIV 127 

e outros muilos na mesma liha Terceira, do appellido de Machados^ 
e particularmente na grande Villa da Praia, dos quaes tambem faz mcn* 
00 mesmo Fructuoso, e aOirma serem fidalgos, corno em seu lugar 
mais largamente ainda mostraremos. 

CAPITULO XXIV 

Da familia dos CorJeiros, e Espinosas. 

257 Em muitos lugares desta historia temos enconti*ado com este 
appelklo de Cordeiros, e algiimas vezes com o de Espinosas, razao lie 
qae tambem d eiles demos aiguma noticia. muito erudito Fructuoso, 
trataùdo dos Teves de S. Miguel, diz que bouve antigamente em Pariz 
bara famoso CapitSio d el-Rei de Franga, chamado Concaio Dornellas Paim, 
e que este tivera tao faganhosos enconlros mililarcs, que querendo ne- 
gir oatros que os teve, o mesmo Rei tantas vezes o adirmàra, que Ibe 
niodou nome, e mandou que se chamasse Gonzalo de Teve, e que este 
Coi principio famoso do tal appellido ; a este Concaio de Teve (diz o 
mesmo Fructuoso) succederlo tres flihos, un tres netos, bum cbamado 
Antonio de Teve» quo veiopara Portugal, e foi Thesoureiro mór do Ueino, 
d'este nao diz mais. segundo foi Concaio de Teve Paim, que veio 
i nova Uba de S. Miguel, e era varao de tanta conta, que com o €api* 
fio Donatario da Illia repartia, e dava as terras d'ella; e d'este ficarao 
em S. Miguel dous fllhos, bum Joao de Teve Almoxarife da Uba, que 
caftoa na Villa de Agoa de Pào, e de que fìcou pouca descendencia; e o ou< 
tro filbo de Concaio de Teve Paìm foi Jo3o de Teve pai de Amador de 
Teve, e avo de Caspar de Teve, Capi tao na Cidade de Ponla Delgada. 

258 terceiro fìlbo, ou neto do primeiro Concalo de Teve ((Sia- 
mado de antes Dornella de Paim) foi Pedro Cordeiro, e este foi o pri- 
meiro de tal appellido em todas as Ilbas, que de Pariz veio com o ir- 
mio Tbesoureiro mór de Portugal, e passou a S. Miguel com o outro 
iraSo Concaio de Teve Paim, e dei^iando os appelidos de Dornellas, 
Pìim, e de Teve, conservou o de Cordeiro, que devia ser tambem de 
seus pais, e avós Francezos, e fez seu assento; e morada em Villa Fran- 
ca, que era a cabeca entao de S. Miguel. D'este Pedro Cordeiro ficarao 
sm S. Miguel quatro fìlhas; a primeira casou com Concalo Vaz Botelbo, 
moco, da nobiiiss'uua familia dos Botclhos: de que jà Iralamos nas de 



I2S HISTORIA INSULAXA 

9. Miguel. A scgunda fìlha; cbamada D. Leonor Cordeira, casou com 
Femao Camello Pereira, de qiie leve muita doscendencia» até na liha 
Terceita, e muito nobre, corno vimos jé na familia dos Camellos, e Re- 
gos. A terceira fìlha foi Catharina Cordeira, qua casou no Beino de 
PorUigal com hnm fidalgo chamado Vicente de Abreu. A quarta fi* 
Iha Tui Maria Cordeira, que casou com bum cavalleiro da casa dei-Rei» 
chamado Joào Rodriguez de Sousa, Feitor da Fazenda Rea! em S. Mi- 
guel; e viuva d este casou segunda vez com Jorge da Uota, Albo de Fer- 
nando da Mota, cidadao do Porto, e parente do Bispo do Algarve D. 
Hieronymo Osorio; e o dito Mota era Cavalleiro do babito de Aviz ; e 
tambem depois de viuvar casou segunda vez com Bartboleza da Costa. 
259 D*esta Maria Cordeira, quarta Ciba do primeiro Pedro Corde!- 
ro, e de sen primeiro marido Joao Bodriguez de Sousa, nasceo Pedro 
Rodriguez Cordeiro, que casou com Catharina Correa, Alba de Martini 
Anes Furtado de Sousa, e for3o pais de Joao Rodriguez Cordeiro» cuya 
filba casou com Miguel Botelbo, filbo de JoSo da Mota, e de Brites de 
Medeiros. Nasceo mais da (jlìta Maria Cordeira, e de Jo3o Rodrigoez de 
Sousa, nasceo (digo) bnma filba que casou com Sebastiio Rodrigoes Pan- 
china, irm9o de outros Pancbinas, e d^estes nasceo CbristovSo Cordeiro^ 
Escrivao da Alfandega, e casado com Solanda Rodriguez Benevides» e 
estes forao pais de outro Christovao Cordeiro, segundo do nome» de 
que nasceo, terceiro no nome, Christovao Cordeiro, chamado o Sol» por 
sua nobreza. Nasceo tambem do primeiro CbristovSo Rodrigoez Cordei- 
ro, e da Benevides, sua mulher, nasceo (digo) Manoel Cordeiro de Sam* 
paio, Cavalleiro do babito de Christo, e de Juiz do mar, e da Real Al- 
fandega, o qual casou com Mecia Nunez de Arez, filba do Licenciado 
Gonzalo Nunes de Arez, e de huma filba do Almoxarife de Angra, dos 
prmcipaes d'ella: d'este casamento pois nasceo Maria de S. Paio, que 
casou com Duarte Borges da Costa, dos muito nobres Medeiros Coslas» 
de que jà tratamos, quando dos Medeiros de S. Miguel; e do tal casa- 
mento nasceo, primeiro, Antonio Borges, que casou com D. Maria da 
Camera, fidatga dos Cameras, Condcs de Villa Franca, e Bibeira Gran- 
de, e do dito casamento nasceo Duarte Borges da Camera, Juiz do mar 
e da Beai Alfandega, e que casando com D. Maria de Frias, da nobilis- 
sima casa dos Bruns, (de que fallaremos, quando da Uba do Faial) mor- 
reo comtudo sem deixar descendencia, porém sua irma inteira D. Maria 
da Camera, corno a mai, casou com Gaspar de Medeiros, primeiro do 



Liv. VI GAP. xxrv 12?> 

nome, de que nasceo segando fìlho Gaspar de Medeiros da Camera, e 
deste jj lerceiro Gaspar de Medeiros, casa nào so taoTidalga, mas huma 
das mais ricas que lioje lem S. Miguel. 

260 Nasceo segundo fiiho do sobredìlo Duarte Borges da Costa, e 
de sua mulher Maria de Silo Paio, nasceo Dionisio Borges, que foi pai 
do M. Reverendo Arcediago de Angra Manoe