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Full text of "Historia do infante D. Duarte, irmão de el-rei D. João IV, Obra fundada em numerosissimos documentos e com desenhos do architecto milanez o Sr. Lucas Beltrami e phototypias do Sr. Carlos Relvas .."

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HISTORIA 



]iU 



INFANTE I). DUARTE 



llíMÃO DE EL-EET D. JOÃO IV 



JOSÉ WA3IOS-COEI-.IIO 

>Or.IO r.OnUEsPONDKNTK DA ACAIiKMIA REAL DAS sClEXf IAS DE I.ISBO K 
K DA IIF.AL ACADí:MIA DF. LUCCA 
SOc:iO DO INSTITITO DE ÍIOIMIUIA ' 

i; socio hoxcbahio do oaiuneth rounr.iKz de lkiitra do mabamiÃo 



::ú-i V -.:■!;:■ -l. i; .!■.•:: : c:. L^;:í: Feltri:: 



TOMO I 



LISHOA 
1880 



1. ,-:J 



HISTORIA 



INFANTE D. DUARTE 



IRMÃO DE EL-EKÍ 1). JOÃO IV 



W 



DR. FHAnOZO 

F E R IJ A íi O E S 

A o V o o /i O O 

RUA P . L. ' • A, 4 
TELEFONA k.4 '/ / 94 




*Prc mcrta< ii7rrn',rrr /?/./•.' uincuía dantur 
Virrus crm^n haver, jhrij Suvmicwm: 

yirtfic^s eneírant imvianiit Pi^^nJera pah^uzi. 
. 4r fh-yurunr palmas p,JtiJ('tn QiA'r*ttu n' 



7 '^'/., 



C. RELVAS» PaOT, 



HISTORIA 



DO 



INFANTE D. DUARTE 



lEMÃO DE EL-EEI D. JOÃO IV 



SÓCIO CORItESPOXDENTE DA ACADEMIA REAL DAS SCIE>'CIAS DE LISBOA 

E DA REAL ACADEMIA DE LVCCA 

SOCIO DO INSTITUTO DR COUIDRA 

K SOCIO HOXORARIO DO r.ABIXETE PORTUGIEZ DE LEITURA DO MARANUÀO 



■; i:m dr::';h;3 d? -iihitT-;!: milancz : ::. Lu:à3 Fíllràmi 



TOMO I 



LISBOA 

fut omiEM í. Ni Tvi-uiiiHPiiiA nv .v:ade.^!\ :;E»i d.\s sciencivs 

1889 



; / 



_ 


1 




Éi 




___. ^__ _ -^ ^ - 





V. / 



PORTUGAL 

SUA PÁTRIA 

€ ^}ttC^o/od 



O. u. c. 



o anotor 



HISTORIA 



DO 



INFANTE D. DUARTE 

IKMÃO DE EL-EEI D. JOÃO IV 

POR 

josdé: RAJM:os-eo£:LH:o 

M>CIO CORltESPONDENTE DA ACADEMIA HEAL DAS SCIEXCrAS DE LISBOA 

E DA REAL ACADEMIA DE LUCCA 

SÓCIO DO INSTITUTO DE COIMBRA 

»: SOCIO HONORÁRIO DO GABINETE PORTfGUEZ DE LEITURA DO MARANHÃO 



Obra :::Àíii em n:;ni=r:?i:3;rr,-s d^^umsnlos 

■; :.rn dr:;r:h-: d: 2r:Lil::lj milan:: : :r. Lucas Eeítranii 

í tkl.tvtia: dj :r. Cárl': R-.lvis 



TDMO I 



LISBOA 

i'1'i: ■':;1'í:í \. n\ tvínji.kvfhia i>a Aaiii;ai\ :::\l r.vs vaym 

1881) 



V. I 



A 



PORTUGAL 



SUA PÁTRIA 



Ac /a d€(a 49iac/te92c/e?icta e /i^o^/tcétcmíá. 



o. I). ('. 



o auctor 



PROLOaO 



Sempre nos captivou o assumpto: um príncipe illustre, 
amante e amado da gloria, entregue aleivosamente por um 
imperador de Allemanha á tyrannia de Ilespanha, martyr, 
ás rnSos d'ella, da liberdade da sua pátria. Quiz a fortuna 
que, empregando-nos em outros trabalhos litterarios, en- 
contrássemos algims documentos a seu respeito; o valor 
d*ellcs despertou-nos logo vontade de melhor lhe estudar- 
mos a biograpliia, e d'esse estudo nasceu a de publicarmos 
alguma coisa do que fosse mais digno de raemorar-se. 

Oom esto desejo, procedemos, nas pouciís horas livres 
das nossas occupaç3es, a buscas minuciosas no inexgotavel 
thesoiro do Archivo Nacional da Torre do Tombo, na apre- 
ciável collecção dos manuscriptos da Bibliotheca Nacional 
de Lisboa, na da Academia Real das Sciencias e na pre- 
ciosissima da Bibliotheca Real da Ajuda, e adquirimos a 
convicção, visto o considerável e inesperado pecúlio, que 
fomos, dia a dia, amontoando, de que a vida do infante D. 
Duarte estava por escrever, e que nos corria obrigação im- 



VIII 



preteri vel de fazel-o, possuindo, como possuiamos. tanianha 
riqueza. 

Fechámos pois os olhos a obstáculos: á insufficicncia 
própria, & carência de tempo, á quasi impossibilidade de 
resuscitar um personagem bistoricO; á estranheza do gé- 
nero, que, preferindo até ahi o da poesia, amor exclusivo 
e o mais caro entretenimento nosso, raro tinhamos culti- 
vado, o mettemos hombros á empresa. 

Entretanto as frequentes descobertas, tomando-a cada 
^ jnez mais interessante, tornavam-a também cada vez mais 
árdua, e mostraram a necessidade do peeqnizas novas, Níím 
recuámos, nem trepidámos. Fomos a Évora e sahiu-nos 
ubérrima a colheita na sua ciwíosa blbliotheca; mandámos 
extrahir copias da de Madrid e do Archivo de Simancas; 
o estas acqulsiçôes lan\;aram tamanha Kiz no vulto do in- 
fante, e deram-lhe tal relevo, que nâo pudemos deixar de 
pedir ao governo que as reqtiisitassc do gabinete italiano 
relativamente aos documentos que se guardam no Archivo 
do Estado de MilSo, acerca dos processos instam-ados con- 
tra o desditoso príncipe. 

Attendeu o govei-uo benévola e proraptamente o nosso 
pedido; vieram as copias, mas não de tudo que desejáva- 
mos, posto fosse da melhor parte; e com este valiosíssimo 
auxilio concluímos quasi a nossa obra. A concluil^a obstava 
porém a repugnância de prescindir dos restantes docu- 
mentos do mesmo archivo, ainda numerosos, e de deixar 
de fora muitas particularidades attendiveis, além da pre- 
cisão de verificar certas duvidas que nutríamos, quanto il 
maneira por que o marquez Cusani os aproveitara no seu 
folheto JJ. Duartti di Braganza^ onde pela primeira vez os 



IX 

tomou conhecidos, e também a esperança de existirem 
alli outros e fartos mananciaes, sobretudo nas correspon- 
dências dos governadores do estado com a corte de Ma- 
drid. Ora preencher estes fins nSo o podia nenhum copista, 
nem mesmo o mais instruido, a não ser o próprio auctor 
da Historia do Infante D. Duarte, pela única razão de estar 
senhor da matéria, e portanto requeremos ao governo, offe- 
recendo-nos para fazer as copias, de que ficaria de posse, 
e que nos emprestaria. 

D'esta vez porém o governo não nos attendeu,ou, antes, 
esqueceu-se de nós, porque se passaram mezes e mezes, 
sem que obtivéssemos resposta alguma. Importunámos uns 
e outros; e tudo debalde. Fomos ató incommodar Sua Ma- 
gestade El-Rei, a quem, já havia annos, tivéramos occa- 
sião de falar para lhe ofícrecer, assim como a Sua Mages- 
tade a Rainha, um exemplar da nossa traducçíío cm verso 
da Jerusalém Libertada, dedicada a ambos, e Sua ^lagcs- 
tade EI-Rei rcccbcu-nos com especial agrado, e, nuo só 
mostrou conhecer as desgraças do infante D. Duarto^ mas 
até, o que é mais, interessar-sc pela publicação da sua 
biographia; nem admira n'um soberano, amigo e cultor das 
lettras, e tratando-se de um escripto, que toca de perto á 
historia pátria, á da Casa de Bragança, e á de um seu pa- 
rente credor, e tanto, da gratidão nacional, e tão olvidado 
durante a vida e depois da morte. Correu ainda muito tem- 
po, não sabemos quanto, dois annos talvez, nem aqui pre- 
tendemos traçar a chronologia d'esta odyssca litteraria, atA 
que o governo, cedendo ás instancias do sr. dr. Tliomaz de 
Carvalho, cuja illustração e bondade todos conhecem, e que 
muito nos prendeu com esse obsequio, houve por bem con- 



ceder-no8, nâo um subsidio, como é de uso, mas apenas 
uma ajuda de custo para a riagcm de ida e volta, a fim 
de copiarmos em Milào os documentos que julgássemos 
precisos á conclusUo da nossa obra. Acceitámos; esperar 
mais fôra inipossivel; e partimos, confiando nos próprios 
recursos pecuniários, embora limitados. 

Perto de dois mezes e meio residimos cm MilSo, e, posto 
o governo n3Lo nos impuzeaso a obrigação de copiar todos 
os dociunentos attinentes ao infante, segundo requerêramos, 
porque tiuhajnos em vista enriquecer com elles os arcliivos 
nacionaes, aproveitando-os depois, como qualquer pode fa- 
zer^ e faz aos outros que se guardam nas mesmas repar- 
tições, apoáar d*Í850, persistindo no nosso primeiro propó- 
sito, e desejando nío perder o ensejo, encerrámo-nos todos 
os dias no Archivo do Estado d^aqiiella cidade, e conse- 
guimos copiar mais de duzentas paginas, n.lo copiando o 
resto, ainda umas cem paginas, por escassez de meios, os 
quaes debalde cntílo solicitámos do governo. Foi pois do 
maior alcance o resultado quanto á collccção que alli se 
conhece pelo nome de Processos fie D, Duarte lU Bragan- 
ça, Quanto a una oitenta maços que corremos poça por 
peça, de tio penosa busca só se utiliaaram pouquíssimos 
documentos acerca da fuga de Fr. Timothco Ciabra Pi- 
mentel, depois de ser preso, por querer libertar o infante, 
08 quaes nâo estavam juntos com os outros, porque o col- 
lector desconhecia a tentativa, a que aliás nSo se alludia 
D 'elles, nem mesmo a sua alteza. Quanto á correspondên- 
cia dos governadores de MilSo com a cOrte de Madrid, nSo 
pára naquelle archivo. 

Outra esperança nos incitara a ir a MíUo: examinar o 



XI 

castello, onde o infante esteve encarcerado, e determinar pre- 
cisamente o logar da sua prisão. Para isso alcançámos por 
intermédio do digno cônsul de Portugal, o sr. marquez Vis- 
conti, uma licença do commando militar; mas sem fructo 
algum, porque os oíHciaes a que nos dirigimos no cas- 
tello nada sabiam da sua historia. Já resolvêramos quasi 
recorrer ao sr. marquez, para nos auxiliar com a sua in- 
fluencia e conhecimentos, quando tivemos a felicidade de 
travar relações com o insigne architecto milanez, o sr. Lu- 
cas Beltrami, que a sua competência profissional reunia a 
particularidade de ter estudado aquelle monumento, e de ter 
até publicado um livro muito estimável, artística e littera- 
riamente falando, a seu respeito. Poz-se este senhor á nossa 
disposiçUo ; guiou-nos na visita ao castello ; presenteou-nos 
com a sua obra; permittiu que nos servissemos das suas 
illustraçoes; e, ainda depois de voltarmos a Portugal, en- 
viou-nos dois bellos desenhos d penna da parto exterior e 
interior d'elle, correspondentes á prisão do infiinte, que lhe 
pedíramos e fez de propósito, grandes favores que confes- 
samos a(iui publicamente. 

Recolliído á pátria, c completa a nossa obra, sujeitáraol-a 
á apreciação da Academia Real das Sciencias, que a julgou 
digna de ser publicada á sua custa e na sua typographia, 
honra bem cabida, não pelo nome do auctor, nem pelo 
mérito do escripto, mas por ser este eminentemente nacio- 
nal, e poder servir talvez de estimulo para trilharem outros, 
com mais firme passo e mais prospera fortuna, o immenso 
campo das investigações históricas, a que tantos assumptos, 
qual a qual mais nnportante, estão chamando os escriptores 
portuguez(í3. 



^I 



Eutrcguo a impressão aos cuidados da t^pographla da 
Acftdemitt, fultava a reproducção das illustraçuea do sr. 
Lucas Beltrami c daa outras que hSo de acompanhar a 
obra, por meio da phototjpin, e este encargo tomou sobre 
si, a nosso rogo, com a maior franqueza, pi*omptid2o e ge- 
nerosidade, quem, melhor do que ninguém, o executaria, 
pela sua provada competência, que o collocou no primeiro 
logar entre os nossos artistas da especialidade, competên- 
cia assellada por tantas medalhas de expoFiyues nacionaes 
c estrangeiras, e que a Academia de Bellas Artes de Lis- 
boa reconheceu merecidamente conferindo-lhe a distincçio 
de seu sócio de mérito, n'uma palavra, e já todos o teríío 
adivinhado, o photographo amador, o sr. Carlos Relvas, a 
quem muito deve a arte nacional e o nosso livro. 

Gravas á abundância de noticias que encontrámos, salic 
a publico a Hlaturia do Infanta D. Duarte, baseada na sua 
quasi totalidade em documentos credores de fé, cujo nu- 
mero excede a mil, ah''m de vários códices manuscriptos e 
livros impressos^ e mui diversa, e muitíssimo mais desen* 
volvida do que até aqui andava, porque poucos auctores 
trataram da matéria, e esses mesmos deficientemente o quasi 
todos copiíindo os que os antecederam. É o principal en- 
tre todos o advogado João Baptista Birago, ou, antes, Ta- 
quet, como provaremos, na sua Storia di Portogallo, onde 
o conde da Ericeira bebeu muito do que diz no Portufjal 
rcsfaurado, e de que D. António Caetano de Sousa se va- 
leu largamente para a ITlslona tjenealogica, accrescentando 
todavia algumas espécies novas, e, sobretudo, a relaçSlo da 
viagem de D. Duarte, quando foi visitar o rei de Hungria 
a Stuttgart, logo depois de chegar á corte imperial, tirada 



: 



XJII 

J^^M munuscripto <la epocha, e que nao se acha em ou- 
tra parte. Eatoa foraoi ob guiaa dos escriptoros seguinte», 
os qnaets os abreviaram conâideravelraonte, porqae o ponto 
da vida do infante só entrava como muito secundano no 
pUno ãsL» 8ua3 obras, ou por nâo caber n'ellas maior des- 
euvoK^imento, ou por lhe ligarem pequena Importância. 

Outra obra se publicou, a qne jA nos referimos, e essa 
modernamente, em mil oitocentos e setenta e um, sob o 
titulo de D. Daartn di Brafjanzn, pelo marquez Cusani, 
reunilo de uns artigos que escrevera no jornal politico mi« 
lane» La Perseveranzti, por occasiSo das buscas para o 
deecubrmien(o dos restos do desgraçado principe, a qual 
h independente das duas primeiras, e versa sobro a prisflo 
do infante no cafetello de Mi lio e sobre o seu processo e 
morte, cxtrahido tudo dos documentos que se guardara no 
ArcUivo do Estado d'aquella cidade, os mesmos que nós 
OOptámoa e examinámos. Subido foi o interesse que moveu 
Cite opúsculo entre os apaixonados da historia pátria, pelo 
valor e pela noN^idade dos factos que poz no domínio do 
publico. Sâo provas, alúm de outras, do que avançamos a 
TtsiUi de Sua Híigestade o Imperador do Brasil (sempre 
foUcilo pelas nossas coisas litterarias) áquelle archivo para 
[tw oa ditos documentos, conforme nos asseverou o seu 
' dIr<>ctor, o sr. César Cantu, e o livro com que sahiu A 
los o »r. conselheiro José Silvestre Ribeiro, T). Duarte de 
íxijamia, fundado principalmente nVUes, e para o tempo 
Kor na Historia genealógica. Bom serviço prestaram o 
'maxx|ne2 Cusani e o sr. Silvestre Ribeiro com estas duas 
I obras de divulgação bistoricíL servi ço por que todos lhes 
deremofl ser gratos, mormen^nv primeiro, pois sem as 



rERíJ AfJ DES 

AOVOOAao 



XÍV 



saas revelações talvez ainda por multo tempo ficasse quasi 
ignorado um período ta© curioso da biographia do nobre 
irm3o de D. JoRo IV. Dois annos antea do opúsculo de 
Cusani, estnmptira-ae outro, em Cassei, DanU vuui Otutrtich 
odcr der Infunt Dom Duarte, de Gustavo de Veer sobre 
a prisSo e entrega do príncipe portuguez, cujas fontes sJlo 
as geralmente conhecidas o que portanto, embora digno 
de especial mençílo, nXo oÔ*ercce circumsJancias novas. O 
mais que ha impresso consiste nos manifestos publicados por 
causa das mesmas prisSo o entrega, proximamente a ellas, 
e nos sermões proferidos nas suas exéquias. 

Das obras que especificámos as duas únicas que abran- 
gem toda a vida do infante, mas succinta e irregularmente, 
slo a Historia fjenealoíjica e o D. Duarte de Bragança do 
sr. Silvestre Ribeiro, porrpie mesmo a Sforia dí Porttujallo 
de Birago nílo vae sonSo até mil seiscentos e quarenta e 
três, seis annos antes da sua morte. As outras, como vi- 
mos, sSo parciaes. 

Muito differente i^ o nosso escripto, na extensSo, nos fun- 
damentos e na contextura, de todos os mencionados: na 
extensão, porque, emquanto Birago sú dedica ao infante o 
livro sexto da sua historia, a qual forma apenas um vo- 
lume de oitavo, D. António Caetano do Sousa cincoenta e 
cinco paginas da sua monumental obra, o conde da Eri- 
ceira menos, o marquez Cusani, o sr. Silvestre Ribeiro e 
Veer um folheto pequeno, c os manifestos e sermCes só 
poucas paginas, a nossa publicaçJlo abrange dois volumes de 
mais de setecentas paginas cada um ; nos fundamentos por- 
que a nossa obra estriba-se nas correspondências officiacs 
e em memorias fidedignas, emquanto as suas carecem 



i 



XV 



muitas vezes d* esses solidoB alicerces, ou 08 diApozerxun de 
tal maneira que ficaram inconsistentes, incluindo a própria 
historia de Birago, qae na parte relativa ao infante se de- 
riva muito menos d'eUes do que das informa^'iles do seu 
verdadeiro auctor, Taquetj e na contextura porque a área 
em que construímos o nosso edifício é muito mais extensa, 
e porque á vida propriamente do infante se entretecem, 
n2o para enfeite, mas por necessários, muitos aconteci- 
mentos do seu tempo, e até dos anteriores, quer de Por- 
tugal, quer de paizes extrangeiros, ao passo que as já pu- 
blicadas de pouco mais tratam do que da sua biographia. 
Necessários chamámos & estes acontecimentos, e assim 
c. Com eíTeilo, como formar idca da juventude, da edu- 
caçílo, da mocidade, dos passatempos, omtim da existência 
de D. Duarte noa paços de Villa Viçosa, sem descrevel-os, 
som descrever a grandeza da casa de Bragança, sem mos- 
trar a influencia do caracter de seu pae, o duque D. Theo- 
doaio, f» de sua avó, a duqueza D. Catharina, no seu espi- 
rito, sem esboçar em quadro rápido os successos políticos 
om que no bou tempo figurou o velho duque, por cujo ca- 
racter se foi conformando o de seu filho? Como penetrar 
AS causas da animosidade do governo hespanhol a D. Diiarte 
sem alumial-as, prescnitando o estado das relaçííea entre o 
dito governo e a corte ducal? Como afiguríir-se a sua car- 
reira militar, para o que ha tilo poucos subsidios, sem his- 
toriar as campanhas do exercito em que militou? Como 
explicar ou atenuar a acção traiçoeira o ingrata do impe- 
rador Fernando Dl, ôcm lho col locar ao lado a preponde- 
rância iUimitada da Ilespanha sobre a Allemanlia? Oomo 
comprehcndcr os conselhos que o infante deu de dentro 



, I. 0« U. — T. U 



do cjustello Ae MHlo acerca dos negócios de Portuga), sem 
6»lK>r quaes eram oeses negócios? Como comprebendor o 
que se passou no congresso de Monster com reUçIo á etia 
Ub«rdad«, sem desonevei' este grande theatro dos interesses 
9 das intrigas politicAs da Europa e sem pôr em seena 
m scttft principaes actores? 

DtTÍde-ae a iioasa obra em dois Tolnmes, como já 
dito, abrangendo cada nm nore Bttm^ podendo-se ooe 
derar o ultimo oouo appendice. O primeiro 
dfisdo o ttftf^iiBiMitn do inâmto atú ao ani Hf de mil i 
o quarenta e tret» um «ano depois do estar preso no 
tolla de IGãks • ffioB snmmanos qne pteeedem os 
linoa ee -rê qoal o 9tm coateudo. O s e gund o afarmcari| 
reela da Tida do mfiyite €>obbi qoasi lodos ots rariadoe e nn- 
mareeea i^v^edoa |Hum a ssa bbadade, as aecociaçuea 
iniçrrsíwi de MiUKler • s» do Iraldb cofirs o iafinrtel 
Laia XIV pata • iftfflM im, es pi e mwm qno Qm 

s, a asa morle e £i^osi{Ses tea- 

» a V Ê Omfnm m^ d*elbs» a ^nsiadp tea 

motivadas per «sfte« a paHsda das sa 

o ceeadHk # fabnlia ^MT IX Jeêa I V de« a a^aiist 

• cm iWtisaL e a bast a r ia do 

mm Dl Maria de Ura e Jbme- 

^)m>i»i a iieatr a c*B S l««MÍ a i 

adTil^IK J«fe lY.eoede 

lia» de Lma ^tedm de CH^ew i 

^ a lÉe^eUk da «ma «mm da iMfta 
dMk âítfMie^ % eittve d» eeti caialK «e^ Cf* fea se aamtm 
{«■aa» saasb i^<i|em ia Str df Istbaa» e;. s<r Basflirpa»> 
é>eilab«erimn baa pbulicmièsiw a «MMÉ» mas se %a Mta 



\'VI1 

receber os seus restos, ou a parte da egreja do Santo Agoa- 
^nho de Villa Viçosa, onde elle eâtá. 

Oft documentos de que nos servimos derivam, na maior 
parte, das correspondências diplomáticas do primeiro mar- 
cjuez de NÍ7,a nas suas duas embaixadas em França, e das 
<ie ChriatovSo Soares de Abnu, representante do governo 
^e Portugal neste palz, o também no congresso de Muhs- 
ter, e do dito Luiz Pereira de Castro, sendo todos ou orI< 
£Íuaes ou dos próprios copiadores d'aquelle8 ministros, e 
da collccçâo do Archivo do Estado de Milito, já mencio- 
nada, o daa do Arcbivo de Simancas, tanto uns como ou- 
tros em geral oríginaes. Além d'e8la3 copiosas origens, 
bebemos cm veias menos abundantes, mas diversissimaa, 
dignas de credito, quer pela authenticidade , quer pela 
procedência, entre aa quaes especificaremos só a corres- 
pondência do Francisco de Sousa Coutinho, embaixador 
uguez em líollanda, e alguns volumes de manuscriptos 
[ativos á cnsa de Bragança. 

Entre as obras impressas de que nos servimos avultam a 
Historia genealógica^ a de Birago, o as de Galeazzo Gualdo 
Priorato, o PoHngal convtnzida con la razon, de Nicolau 
Fernandes de Castro, U castello di M'ãano, do sr. Lucas 
Beltrami, o as Ni-gotiatíom tonchant la paix de Mumtcr, 
de Bougeant; d'ellas e das menores, assim como dos raa- 
iptos, códices ou dociunentos, fazemos indicação nos 
competentes. 
Kecouhecemos o mérito das publicaçSes de D. António 
Caetano de Sousa e de Innocencio Francisco da Silva, mas 
fomos obrigado a diseentir de algumas das suas asserções ; 
n qnc fizemos sempre com o respeito e moderação que se 



j^ 



_^ 



XVIIf 



devem a homens taío beneméritos, como silo os auctores da 
Historia genealógica e do JJiccionario hihUijgrapJiico portu' 
ffuez, hoje continuado com tanto empenho o bom fructo 
pelo BI*. Brito Aranha. É escusado dizer que nSo nos guiou 
o propósito de conjjural-os, porém só o de acertar com a 
verdade. Nom isto lhes dlminue na minima parte o valor. 
Todos erram; o mister de escriptor é lertU de escolhos, 
fadigas e incertezas, por pequena que seja a obra, quanto 
maie em doía monumentos, como estea, que encerram em 
grande parte a historia e litteratura portuguezas, preciosos 
o abundantíssimos repositórios de noticias, onde, por assim 
dizer, cada pagina, cada artigo, e ás vezes cada linha ou 
cada nome, sâo objecto do novas indagações^ para que 
nào chegaria a vida de muitos homens, e de que ó força 
prescindir-se, embora contra vontade, sob pena de não se 
publicar coisa alguma, e de se privar o publico do conhe» 
cimento de tamanhas preciosidades. O mesmo se applica, 
posto em menor grau, aos outros auctores de que também 
discordámos. 

Nada mais diremos do nosso livro. Quanto ao plano 
seguido, quanto ás fontes consultadas, elle falará por si; 
quanto á maneira por que executámos esse plano e apro- 
veitámos essas fontes, o publico que o decida. O que po- 
demos afiirmar é que trabalhnraos cora amor o consciência. 

É grande a relação das pessoas, a que nos constituímos 
cm divida, por causa do auxiUo que nos prodigalisaram ou 
da urbanidade com que nos attenderam; nâo ó também 
pequena, infelizmente, a dos que, por inércia, vaidade 
ou ignorância, deixaram de prestar attençâo aos nossos pe- 
didos, o que sentimos por elles mais do que por nós, e 



XIX 



roais ainda do que por ellea pela importância do assumpto. 
Mas faleroo» só dos primeiros. 

Agradecemos a Sua Magestade El-Rei a honra de nos 
receber, como jil fica mencionado; a Sua Alteza, o Prín- 
cipe Real, a benevolência cura que nos ouviu e a carta que 
nos deu para estaminarmos o arcliivo da casa do Bragança; 
e aos ex."'*** sra.: José Luciano de Castro, presidente do 
conselho de ministros, ministro e secretario d estado dos 
negócios do reino, a ajuda de custo para a nonsa viagem a 
Míláo; dr. Thomaz de Carvalho a parte essencial que teve, 
e cora t»^o boa vontade e diligencia, em alcan^^l-a; Tho- 
maz Ribeiro a vinda das primeiras copias tiradas no arcliivo 
d aquella cidade; Lucas Beltrami e Carlos Relvas os fa- 
▼orea já confessados; dr. Xavier da Cunha e visconde de 
Caatilho, nossos particulares amigos, a um a relaçUo ma- 
nuscripta de Luiz Pereira de Sampaio, creado do infante,. 
qac de propósito comprou para a nossa obra, e a outro a 
repetida e lisonjeira referencia a esta na sua notável publi- 
cação Linhoa antiga; Ferdinand Denis a noticia da rica 
ooUecçlU) de manuscriptoa do duque de Cadaval, existente 
na Bibliotheca Nacional de Paria; José Maria Neporau- 
ceno o generoso empréstimo do retrato do infante e de ou- 
tros para as illustraçScs; marquez Visconti, cônsul do Por- 
tugal em Milão, a protecção e obséquios que nos dispensou; 
Ceear Cantu, o celebre historiador, director do Archivo do 
Estado d'esta cidade, o fervor litterario cora quo por elle 
fomo? acolhido; António Porro, Ghinzoni, Paghcci Brozzí, 
empregados do mesmo archivo, o trabalho que tiveram com 
as nosáas buscas; Saldanluv da í.laraa, bibliothecario da Bi- 
bliotheca do Rio de Janeiro, os importantes apontamentos 



XX 



Bobre alguns manifestos acerca do infante^ que se guardam 
na repartição a seu cargo ; Simões de Castro, bibliothecarío 
da de Coimbra, algumas indagações que alli teve a bon- 
dade de fazer; Roasel, bibliotbecario da de Madrid, e Fran- 
cisco Diaz, director do Archivo de Simancas, o incoramodo 
cora as copias que mandámos tirar; o padre Ceriani, dire- 
ctor du Blbliotheca Ambrosiana de Milão, alguns esclareci- 
mentos bibliographicos ; Garzolini, de Trieste, o presente 
que nos fez do rarissimo opúsculo de Veer, cuja edição 
está esgotada, e que só muito difficilmente poude obter; 
João Carlos de Almeida Carvalho uma indicação genea- 
lógica com que nos favoreceu ; Rodrigo Vicente de Almei- 
da, official da Bibliotheca da Ajuda, a da preciosa viagem 
do infante, quando foi para o exercito com o rei de Hun- 
gria, e a de algumas poesias da mesma bibliotlieca, e outros 
obséquios inherentes ao seu emprego; Duarte lluet de Ba- 
cellar, descendente de Duarte Cláudio Huet, camareiro do 
infante, a resposta (negativa) que nos enviou sobre a exis- 
tência de manuscriptos d'este na sua casa; Joaquim Ore* 
gorio Nunes Prieto, nosso provado amigo, os passos que 
deu por causa das illustraçoes e os seus esclarecidos con- 
selhos artisticos; visconde de Athouguía, e José Ferreira 
Chaves, nosso amigo, por eguaes motivos; Fernando Pa- 
lha ims apontamentos sobre um impresso raro, que se prende 
á vida do infante; Brito Aranha o empréstimo da Quwtío- 
ne delia indq^endeTíza portughese a Romaj de Ademollo, 
que não conheciamos; António Carlos de Figueiredo Feio 
as buscas a que procedeu, para nos obsequiar, no cartório 
da Relação de Lisboa; o nobre milanez, conde Scotti, du- 
que de San Pietro e marquez Gallarati, da família do mar- 



XXI 



quei Qallarati, advogado do infEiiite, a amabilidade com 
que noa attendeu e a franqueza com qae poz á nossa dis- 
' posiçlo o sen cartono; e em geral os empregados das bi- 
bliotíiecaB e árchiyos portnguezes em que trabalhámos, dis- 
tíngaíndo-se entre todos os nossos amigos Jofto Pedro da 
Costa Basto e José Manuel da Costa Basto, offidaes-maiores 
da Torre do Tombo. 



LIVRO I 



Nascimento de D. Duarte. — Seus pacs. — Sen baptismo. — Sua ama. 

— Morte de sua mSe. — Sensação que este acontecimento produz na 
familia de Bragança e sobretudo no duque D. Thcodosio, seu pae. 

— Noticias acerca de D. Catharina, sua avó. — Preponderância que 
cila exerce em seu marido e em seu íiiho, o dito duque. — Noticias 
d'e8tc. — Passa a Africa com D. Sebastião. — E feito prisioneiro e 
.solto sem resgate. — Procura Hespanha impedir que volte a Por- 
tugal. — Morre seu pae, o duque D. João I. — Sua educação, sob a 
vigihincia da duqueza D. Catharina. — Acode duas vezos a defen- 
der o reino contra os inglezes qu(! vecm por D. António. — Estorva 
Hespanha os seus projectos de casamento. — Casa com D. Aunado 
Velasco. — Noticias acerca do Villa Viçosa. — O palácio ducal. — A 
eapclla. — Os jardins. — A tapada. — Pessoas notáveis que a visita- 
ram. — Poema de Lope de Vega a seu respeito. — Influencia que 
D. Catharina, morta a duqueza D. Anna, toma, já decadente, na 
educação dos netos. — Chrisma-se D. Duarte. — Morre D. Cathari- 
na. — Grande tristeza de D. Theodosio por esta causa. — Mudança 
na familia ducal pela morte do D. Catharina. — A vinda de Filippc 
III a Portugal desperta D. Theodosio do seu abatimento. — Ma- 
neira por que vae encontral-o a Elvas com o duque do Barcellos. 

— D. Theodosio e Filippe III nas cortes de Lisboa. — Contrarieda- 
des que lhe levanta o seu comportamento. — Salutar acção d'estes 
exemplos no animo juvenil de D, Duarte. 



I 

Em Villa Viçosa, capital do poderoso ducado de Bra- 
gança, aos trinta dias do mez de março de mil seiscentos 

H. I. D. D. — T. r. 1 



e cinco, ás quatro boras da manliX *, veiu á Inz do mundo 
D. Duarte, iUustre por nascer cm ber^^o tâo nobre, porém 
ainda maia illustre pehis virtudes, que, desde a juvenil eda- 
àe, lhe esmaltaram a vida, pelos feitos militares quo pra- 
ticou em terra entranha, e sobretudo pela aureola de mar- 
tyrio, com que aprouve á crueza da *orte lacerar-llie e lau- 
rcardbe a fronte nos derradeiros, atribulados annoa, 

Fel-o grande a jerarcliia; toniaram-o maior as raras qua- 
lidades de que o colmou a natureza, e a que elle deu su- 
bidos quilates, já no remanso da pnz, já noa perigos da 
guerra; constituiu-o credor de perdurável fama a sua in- 
quebrantável constância no Boffriraento, e a triste morte 
que lhe occasionou Hespanha, sacrificando-o no altar do 
ódio e da vingança, em que desejara immolar também uma 
nação inteira. 

Teve por pães D. Theodosio, segundo do nome, e sé- 
timo duque de Bragança, e sua mulher, a duqueza D. Anna 
de Velasco, iilha de D. Joào Fernandes de Velasco, condcs- 
tavel de Oastella, sexto duque de Frias, ciindc de Haro, 
raarquez de Berlanga, camareiro mór do el-rei catholico, 
doa conselhos de estado e guerra do mesmo soberano, go- 
vernador de Milão, presidente do conselho de Itália, e de 
D. Maria Giron, sua primeira mulher, filha do D. Pedro 
Oiron, primeiro duque de Ossuna. 

Segundo fructo d'este casamento, D. Duarte fora prece- 
dido na existência, apenas um anuo, por seu irm^o, o du- 
que de Barcellos, D. Joílo, quo depois foi segundo do nome 
entre os de Bragança, c quarto entre os reis portuguezes, 
o qual nasceu a dezoito de março de mil seiscentos e qua- 
tro, com legitimo contentamento de seus pães, parentes, 
vassaílos e creados, c para felicidade da pátria. 

Nâo produziu menor jubilo o nascimento de D. Duarte 



' Fr. Timotheo Cíabra Pimentel, Panefft/ríco funeral ein a morte do 
sr, D. Duaríe. Lisboa, 165Õ, 4.» 



3 



n*688a família oriunda dos nossos monarchas, e para o reino 
.agrilhoado verdadeira e nahiral represontante d'elles; pois 
• desde entào viu firmar-se em raízes mais eolidaa e augurar 
dora» de longa estabilidade a sua descendência; porque dois 
filhos varões promettiam segurar, para o futuro, com braço 
forte o mal visto solar, se D. Theodosio, posto se achaasu 
ainda na força da virilidade, viesse a morrer por alguma 
das muitas e imprevistas determinações do destino. 

Ura dos primeiros cuidados com o ducal infante consi»- 
tiu, como era próprio da alma piedosa dos nobres senhores 
de Bragança, em fazel-o entrar no grémio da egreja. Por 
. isso a dezesete de abril, decorridos poucos dias depois do 
tutscimento, foi baptisado por seu tio D. Alexandre, arce- 
Kispo de Évora, na capella do paço de Vília Viçosa, a qual 
ee achava preparada cora as mais ricas armaçSes e com a 
magnificência do costimie em tao solemnes actos. 

Nilo achamos descripto o baptismo de D. Duarte; mas 
por ser inteiramente egual ao de seu irmSo primogénito, 
faremos uma id/'a d'elle, historiando este. Depois de terem 
resado completas no coro os capellães, sahiu D. João, le- 
Tado nos braços de Luiz Gonçalves do Menezes, veador. 
Acompanharam-o a duqucza D. Catharina, sua avó, o du- 
que geu pae, e 1). Duarte e D. Filippe, seus tios, com os 
fidalgos, donas, damas e officiaes da corte. Precediam a 
comitiva todo» os menostreia, atabales, trombetas, chara- 
mr^llas, Jirantoft com armas, porteiros da canna e porteiros 
da maça. os outros ottíciaes da casa e o voador de D. Ca- 
tharína. A eata levava pelo braço seu filho D. Duarte, e a 
cauda D. Francisco de Noronha. Da sala grandfí do paço, 
seguiram pelo terreiro e passadiços e rua da Varanda, ar- 
mado tudo de ambas as partes, até á porta da capella, de 
ricos pannos de arras. Ao mesmo tempo já estiva na capella 
o arcebispo de Évora, revestido em pontifical, com capa e 
mitra, sentado em uma cadeira, encostada ao altar, da parte 
da epistola; da do evangelho estava a cruz de metropolitano 

1* 



e o báculo e todos os capellSes o religiosos, que aBsistiram. 
Tendo chegado o préstito, levantou-se o arcebispo e, com 
a cruz deante e o báculo e todos os capellSes em procissSO; 
dirigiu-se á porta do santuaiio, junto da qual^ acbando-se 
já ahi D. Cathariua, o duque de Bragança e o recem-nascido 
nos braços de Luiz Gonçalves de Menezes, começou a 
celebrar o oflBcio na forma usada, depois de lhe haver 
tirado a mitra o deSo da capella. Foram padrinhos D. Ca- 
tharina e seu filho D. Duarte. Conferido o baptismo, resoa- 
ram alegremente os atabales, as charamellas e os outro» 
instrumentos, e o arcebispo, subindo ao altar, despiu as 
vestes pontifícaes, e acompajibou D. Catharina e os duques, 
voltando, pelo mesmo caminho por onde tinha ido, até á ca- 
mará da duqueza. Apresentou o prato da fogaça e a vela 
Christovào de Brito Pereira j o prato e o gomil António de 
Sousa de Abreu; e o saleiro Ruy de Sousa Pereira. De D. 
Duarte foram também padrinhos seu tio do mesmo nome 
e sua avó D. Catharina. Levou-o nos braços JoSo de Tovar 
Caminlia; e apresentaram as insiguias ChristovSo de Brito 
Pereira, Ruy de Sousa Pereira, e Heitor de Figueiredo de 
Brito *. 

D. Francisco Manuel de Mello na sua obra: Tacão j)or- 
tuffuez, vida, morte, difos efeitos de d-rei D. Joào JV, in- 
feUzmentc incompleta pela morte do seu auctor, pinta- nos 
a duqueza D. Anna como o mulher de singular virtude, as- 
sistindo aos officios de ama, aia e mestra do duque de Btur- 
cellos, egualmente com o amor de m2e com que o creavaí*. 
A Historia genealógica da casa real, segu5ndo-o e trans- 
crevendo até as suas palavras, supprime a de ama, o que 
faz Buppor não o ter ella sido. Fr. Raphael de Jesus dia 
claramente que foi ama de peito e de respeito do duque de 



< D. Âotonio Caetano de Sousa, Sistorta gmtaXoyioa da casa real 
portuguesa. LÍBboa, 1735 a 1748. 4.o gr. 
* Bib. Nac, Mes. 



Barcellos D. Leonor de Sousa, filha de Pedro Garcia de 
Castro e mie de Jeronymo Garcia Collaço, appellido que 
UBOU por o ser do mesmo duque, o qual o empregou no 
»eu serviço em Villa Viçosa, e, já rei, no logar de aeu. 
moço da goarda-rotipa ^. NSo amamentando D. Anna o 
primogénito (nem as senhoras da casa de Bragança o cos- 
tomavam fazer, gorahnente, a aeus filhos), nâo creou tam- 
bém D. Duarte, para o que, á mingua d'esta razlo, va- 
leria a espoci.il da gravidez que pouco depois do primeiro 
parto lhe sobreveiu, causa bastante para impedir a amamen- 
tação, pelo menos na maior parte do tempo. Reforça-noa as 
preaumpçSea o ter D. Jo5o IV feito mercê, em mil seiscen- 
los e quarenta e seis, a D. Maria de Sá, além de outras, 
de vinte mil réis de tenya nas rendas que possuirá em Lei- 
ria a casa de Villa Real, e declarar o secretario de estado 
Pedro Vieira da Silva que a mesma senhora tivera o em- 
prego de ama do infante D. Duarte', pelo que podemos 
conjecturar que o seria de leite. 

Comtudo se a duqueza faltou a seu filho segundo com o 
maia delicioso dever maternal, n3o se eximiu de satisfazer 
os outros, e de repartir com elle, e depois com I). Catharina 
e D, Alexandre, os carinhos e desvelos que sabemos deu 
ao primeiro. No seu regaço gosou o ducal menino as alvo- 
radas da existência; não bebeu o leite de seus peitos, mas, 
embalado pelo seu arquejar suave, e aquecido ao seu tépido 
calor, dormiu, como ave ainda inplumo em ninho de rosas 
r verdura, os angélicos somnos da infância; e tomou do seus 
lábios, juntamente com mil beijos, longos e ferventes, as 
palavras que mais cedo se balbuciam na vida : os nomes de 
pae e de mSe. 

D. Theodosio, repartido entre o amor da esposa e doa fi- 
lhos e os graves negócios da casa, aentia-se feliz; e via 



« Blh. Nac, Mea., Vida d*', d-rti D. João TV, 

'Bib, da. Ajud», Msa., MiBcellauRaa, vol. 37, foi. 141. 



6 

correr o tempo velozmente, ao passo que, desctddoso dos 
inales vindoiros, bordava para si e para os seus longa e 
doirada teia de brilhantes venturas. Em quatro annos, qua- 
tro J6^etoB haviam abençoado e rico thalamo, e os paçoa de 
Villa Viçosa estrugiram outi-a vez com as corridas, os ri- 
sos e o chilrar infantis, que trazem sempre a alegria á, 
convivência do lar, e muito mais aos coraçííes paternos. 

Mas este estado tSo auspicioso e afortunado devia durar 
pouco: no dia sete de novembro de mil seiscentos e sete, 
oito mezes depois do nascimento de seu ultinjo filho, D. Ale- 
xandre, a duqueza D. Anna dLiíia adeus ao mundo, dei- 
xando murchas todas as esperanças do inconsolável esposo. 
Amavam-se muito para se verem separados tão depressa e 
eternamente; confiavam muito na vida, como é próprio dos 
felizes, que se cejjam com o brilho que os illumina, e por 
íeao a morte veia súbita, cruel, inesperada, e conseguinte^ 
mente mais terrível, metter- se-lhes de permeio, arrebatando 
um d'elle8, a flor que animava e enchia de perftmaes o ni- 
nho domestico, e aniquilando para sempre o espirito do ou- 
tro, que vivia do seu formoso espirito. 

A joven duqueza até o instante íinal testemunhou a seu 
marido o maia entranhado amor e respeito; nem quiz fazer 
testamento para que tudo ficasse ao seu arbítrio. £lle, pela 
sua parte, correspondendo a tamanha fineza, mandou ceie- 
brar-lhe exéquias sumptuosas e muitos officios; tributou-lhe 
todas as demonstrações de pezar, que se podem exigir de um 
coração verdadeiramente apaixonado ; e nunca mais tirou o 
lucto que vestiu por sua morte, bem claro signal da tristeza 
que o dominava*. 

Para D. Duarte a perda da mile foi, por assim dizer, o 
primeiro rebate, que lhe deu o destino, do futuro medonho, 
para que estava guardado, collocando-lhe logo tâo fatal des- 
graça junto do berço. Mas nao permittiu a edade, pois 



• D. António Caetano de Sousa, Híst. genealógica. 



coutava apeuaa dois annos e meio, avaliar, como devia, o 
imraonso golpe, que acabava do icril-o; e, inconsciente, 
continuou, (|Uval dantes, brincando c sornndo, posto i|ue á 
beira de om tumulo, embora n2o achasse para ILe responder 
08 beijos, as palavras e oa sorrisos dn que, sobre todoe, o 
amava, porque o tinha gerado nas suas entranhas e via n'elle 
uma parttt do seu corpo e da t«ua alma. 

E»tc triste acontecimento produziu a mais funda sensaçAo 
na familia de Bragança. As \nrtude8 da fallocida duqueza, 
06 sííus vinte e seis annos, a fecunda prole com que ad 
ditara o marido, o amor com que este a idolatrava, tudo 
fazia querida e venturosa. !>. Thcodosio, embora na força da 
vida, experimentou abalo tamanho com este infort\mio, <|ue 
deixando-se penetrar da magua ou do desengano, dentro de 
^uco 80 tomou como se a doença e a cdade houvessem 
cnusado na sua natureza os efFeitos do costume. A dor que 
sentia no intimo comniimicou-se-lhe ao corpo, e, como e© 
ainda não bastasse esta clara mostra dos seus padecimen- 
tos, quiz também quo o trajo e os exorcicios da sua caaa 
RO compuzessem por eUes '. Julgaram muitos excessiva a 
compostura a que reduziu a sua pessoa e estado, porém 
nKo D. Thcodosio, que, postos os olhos unicaraonte no anjo 
que perdera, parecia esqueccr-se e levantar-se do mundo, para 
aó o contemplar na morada celestial, onde as suas crenças 
piedosas ou o julgavam ou pediam a Deus que o levasse. 

Morta D. Anna, abson-ido o espirito do duque pela tris- 
teza o continuas praticas religiosas, a que mais se deu d'alli 
em deante, D. Catharina ficou exercendo, como outr'ora, 
abeoluta influencia no seio d'aquella illustrc famiha, pelo 
menos, noa primeiros tempos, quanto aos negócios internos^ 
e lambem quanto á educaçlo dos netos '. 



1 Bíb. Nac, MsB.y D. Francisco Manuel de Mello, Tadto poríuyu^, 
— D. António Caetano de Sousa, Hitt. genealot/tca. 
* Idem, idem. 



8 



II 



SSo limitadiasimas as noticias que restam ácorca da piu-n- 
cia c juventude de D. Duarte. K preciso proceder muitau ve- 
zes por conjecturas, mais ou menos fimdadaa, para lançar 
alguma luz escassa níis trevas que noa cercam. Por isso, 
julgámos conveniente, n'este periodo da sua vida, comple- 
tar, quanto possível, o quadro em que figura, esboçando, 
ao de leve, os dois importantes vultos doe personagens, que 
maior influencia deWam exercer na sua educaçito moral e 
litteruria: a duqueza D. Catharina e o duque D. Theodosio; 
tirando depois dos traços biograpliicos de ambos as inducçSes 
que nos parecerem próprias, e compondo melhor, mas ainda 
imperfeitamente, esta parte da Historia que emprehendemos 
escrever. 

Começaremos por D. Catharina. 

Quem nXo conhece este nome venerável nos fastos da 
historia portugueza? Quem nSo conserva tenazmente gra- 
vadas na memoria as feições politicas da nobre e infeliz ri- 
val do poderoso Filippe TI? Nasceu D. Catharina a dezoito 
de janeu'o de mil quinhentos e quarenta, do infante D. 
Duarte, filho d*el-rei D, IManuel e da infanta D. Izabel, 
filha de D. Jayme, duque de Bragança. Tanto ella, como 
sua irmã D. Maria, ficaram, pela morte do pae, de tenra 
edadc, e foram morar com a mãe no paço real, onde todos 
as honravam como príncezas, tanto em particular, como em 
publico, e onde, em companhia d'aquella virtuosa senhora, 
eram muito estimadas, principalmente a futura duqueza, 
pela rainha D. Catharina, que as tratava tSo carinhosamente 
como se fossem filhas. 

Ainda muito joven, deslinon-a el-rei D. JoSo 111 para 



mulhor de D. JoSo, filho do duque de Bragança D. Theo- 
dosio I, consorcio que se realíaou a oito de dezembro de 
mil quinhentos e sessenta e três, sendo celebradas as bo- 
da» na Curte, no próprio paço dos nossos reis com espcciaes 
demonatraçíJea do estima da parte de D. ScbastiSo, o qual 
n'essa conjunctura concedeu o titulo de duque de Barcellos 
AO primogénito dos de BragançA e a estes o tratamento de 
excellencia. 

Ligada, por muitos laços, a uma serie real de gloriosos 
■Ascendentes, D. Catharína era-o, além d'isso, em mui pró- 
ximo grau de consanguinidade a poderosos monarchas, pois 
Yinl»a a ser sobrinha de D, .Toilo III, prima coirmã de Fi- 
lippe n de Heapanlia, tia d'el-rei P. Sebastião e sobrinha 
do cardeal-rei I). Henrique. 

Teve D. Catharina uma esm orada oducaçílo litt oraria pró- 
pria de quem se creou n'c88e paço erudito, onde todos os 
infantes seus tios e sou pae tanto se instruíram. Dotou-a 
a natureza de animo verdadeiramente régio na prospera c 
na adversa fortuna, de constância admirável e de nunca 
desmentida prudência. Cônscia do que valia c de quem vi- 
nliaj conservou-se sempre n'uraa esphera superior, o que, 
ao r muitos pareceu cffeito da vaidade c orgulho, foi para 
outros resultado natural da sua posição e caracter. Nunca 
usou do titulo de duqueza ; assigriava-se unicamente Cathn 
rina; c os reis nomeavam-a nos alvarás de morc«**s e nas 
curtais particulares pelo parentesco em que se achavam com 
ella (sobrinha, prima e tia), como as infantas. Charaavam- 
Ihe todos a senhora D. Catharina, formula que ató se guardou 
no seu epitaphio, e fallavam-Ihe por alteza; chegando os go- 
vernadores do reino a aconselhar a Filippe IV que na pra- 
gmática se nSo especificasse a sua pessoa, para a deixar na 
permissSo em que estava. Ha até quem julgue qtie do mes- 
mo modo lhe fallou o dito soberano a fim de lisongeal-a, 
quando mais precisava d'ella, na occasiSo em que a visitou, 
«ntM de se apoderar do reino. 



10 



Foi sobremaneira notável o papel que esta senhora re- 
presentou sempre nos negócios da casada Bragança, e ainda 
mais notável o como procurou fazer vingar o» seus direi- 
tos ao throno de Portugal, 

Visitada por D. Sebastião, pelo poderoso monarcba lica- 
paiibol, pelo duque do PiuTua Raynuncio, polo caideal Ale- 
xandrino, e pelo embaixador do duque de Saboya, honrada 
pelos reis c summos pontUíce», tratando de egual a eguul 
com as testas coroadas, procurando constantemente enuobre- 
cer o antigo solar, para que se achasse mais forte e mais il- 
lustre, quando fossem attcndidae as suas pretençocs, D. Ca- 
tharina soube conciliar com o respeito devido ao rei, que as 
cortes, e nâo o paíz, reconheceram, a soberania e a inde- 
pendência da própria personalidade. 

Preterida a sua justiça, dominado o reino, morto o es- 
poso, concentrou- se a duqueza no amor da família, no cui- 
dado e engrandecimento do seu eetado, de que ficou gover- 
nadora durante a menoridade de D. Theodosio, na cultui-a 
do espirito deste e do de seus irmãos, D. Duai'te, D. Ale- 
xandre e D. Fillippe, e na pratica dos exercícios religio- 
sos e de caridade, em que foi extreme, continuando no paço 
ducal a viver como princeza, acatada de todos, e merecendo 
até as deferências, posto que muitas vezes nSo as mercês, 
de Hespanha. 

Eara preponderância exerceu D. Catharina em seu ma- 
rido o duque D. João I. Seu filho primogénito, costumada 
desde pequeno a respeital-a e vel-a respeitada por quem lhe 
dera o ser, viveu sempre voluntariamente sujeito á aucto- 
ridade materna, nSo s*» emquanto ella administrou o ducado, 
porém mesmo depois de attingir a maioridade. O falJcci- 
mento da duqueza D. Anna veiu, como vimos, augmen- 
tar essa prepouderancia. 

Foi mais intima e aturada do que a de D. Catharina a 
influencia do duque D. Theodosio na alma e na educação 
moral e intellectual de D. Duarte, seu filho predilecto; ser- 



II 



B-Ihe de companlieiro durante vinte e cinco annos ; muitas 

suas virtudes e costumes iicaram a este como herança; 

alguns dos traços da sua vida serão lembrados e repetidos na 

liistoria do nosso desditoso príncipe, e até por elle próprio 

todos estes motivoíi levaram-nos a dar ás noticias a seu res- 

^P^to maior extcr&ao do que á primeira vista parece neces- 

Nasceu D. Theodosio a vinte e oito de abril de mil qui- 
nhentos e sesâcntíi e oito. Passada a puerícia, era que o fo- 
ram educando os duques seus pães com o exemplo quoti- 
diano do trato delicado e dos bona costumes, o melhor pre- 
ceptor d'aquella e da subsequente edade, appHcou-se aoa 
esstndos dagrummatica e da rhetorica, níis quaes fez louváveis 
progressos, doutrinando-o na primeira Femào Soares Ho- 
mem, que já era mestre da familia em mil quinhentos e se- 
tenta e sete, conforme se vê na sua grammatica, nesse anno 
impressa em Coimbra, Ajudava^o nas UçSes e tomava-Ih'a» a 
própria duqueza D. Catharina, para o que era competente, 
devendo-se portanto attribuir, sequer em parte, ao seu amor 
e inteUigencia o adiantamento de D. Theodosio. 

Nâo contava ainda onze annos, quando, por não poder 
pae, gravemente enfermo, acompanhar D. SebastiSo á 
jornada de Alcácer, foi por elle nomeado para o re- 
presentar, dundo d esta maneira clara prova o duque de 
quanto desejava servir a seu rei, obrigação que os senhores 
da casa de Bragança estavam costumados a exercitar com 
liu^ueza e alvoroço, pois nâo somente lhe sacrificava a 
fazenda, mas ainda o fíUio primogénito. 

Acompanharam- o D. Jayme, seu tio, e uma numerosa 
comitiva de creados, vassallos e fidalgos, que passavam de 
oitenta, sendo os da sua guarda duzentos. Subiram a muito 
08 gastos que o duque D. João fez para esta jornada na ma- 
gnificência das tendas, no apparato pomposo da sua familia, 
na riqueza daa baixellas e em tudo que podia pertencer ao 
huúmento da pessoa de seu filho; e avaliou-se, como ex- 



ia 

traordinario, o dispêndio que teve com a gente que par& 
ella tirou das suas terras. 

No dia da batalha, se acreditarmos o auctor da Historia 
genealógica, e o da Jornada de Africa^ o valor de D. Thoo- 
dosio tornou-se digno de menção, principalmente attendendo 
á edade. Obrigado por el-rei, ao principio, arecolher-ee no 
seu coche, sahiu d'eile, depois de travada a lucta, montou a 
cavallo, e, por nSo ter logar certo, começou a percorrer o 
campo, seguido dos seus, acudindo aonde lhe parecia que 
era mais necessário o aoccorro; e supportou, em companhia 
de D. António, prior do Crato, a maior força da sangtiino- 
lenta pí^leja, até que ticou prisioneiro, depois de ter rece- 
bido uma gloriosa ferida na cabeça. Levado á presença do 
xarife, acolheu-o este com as maiorea attençSes e visitou-o 
duas vezes, por considerai-o o despojo mais precioso de to- 
dos 08 de tão assignalada victoria. Mandou elrei D. Hen- 
rique a Africa, logo que succedeu no throno, Jorge de Quei- 
roz, pessoa da obrigação do duque, para libertar o joven 
captivo; escreveu Filippe 11 «una carta ao soberano marro- 
quino com o mesmo intento; e enviou-lhe o duque um pre- 
sente do valor de cem mil cruzados; pelo que o moiro, sem 
rosgate nem pretender por ello coisa alguma, soltou o duque 
de Barcellos, com pouco mais de um anno de captiveiro, 
conseguindo-se em breve também a liberdade dos fidalgos 
e mais familia qtie Uie pertenciam, um dos quaes era o poeta 
Pedro líarroso, nobre por nascimento e de quem o Parnaso 
de Villa Viçosa de Francisco de Moraes Sardinha * traz al- 
guma» composições. A esta generosidade do monarcha in- 
fiel se referirá varias vezes o infante D. Duarte, compa- 
rando a com o captiveiro, em que o lançou o imperador de 
Allemanha, por paga dos seus serviços, como veremos. 

Apenas libertado, partiu D. Theodosio direito a Ceuta, 
mas, entrando em TetuSo, onde havia galés de Hespanha, 



t Bibl. Nac, Mbb. 



13 



Ba pudera embarcar, ímpediram-lh'o com diâ&imu- 
i; pelo que, conhecendo Jorge de Queiroz os traiçoei- 
roa intentos doa heapanhoes, fez um protesto a Pedro Ve- 
negaa de los Rioa, o agente que el-rei catholico mandara a 
rHarrocos incumbido deste negocio, mostrando os prcjidzos 
rqae resultavam ao duque de eimilhante dila(;âo, o que fa- 
ria preaente a Fiiippe II para castigar injuria tão ines- 
ia. Em6ra, depois de vários estratagemas para Ibo 
'embaraçarem a v^iagem, cbegou D. Theodosioá nossa cidade 
de Ceuta, onde foi recebido com as maiores demonstrações 
de regosijo, e, atravessando o estreito, entrou por Gibraltar 
■ em Ue-spanha, sendo tão considerável a demora que, havendo 
seguido a Uberdade em vinte e aete de agosto de mil 
quinlientos e setenta e nove, recebeu n'a<[uella praça a no- 
tticia da morte d'el-rei D, Henrique, seu tío, acontecida era 
RAlmcirim a trinta e um do janeiro de mil quinhentos e oi- 
teiita, isto ii cinco mezes depois. 

Ainda nuo findaram aqui aa insidias. Fiiippe H, convindo- 
rouito retor o dmjue de Barcellos como refém para oa seus 
deaignios a respeito de Portugal, determinou ao de Mcdina- 
Sidonia que, com o pretexto de festas e demonstrações de 
apreço, o foêse demorando qunnto possível em Andaluzia. 
7Io poderam taes astúcias ficar longo tempo encobertas; 
oonheceram-aa D. Theodosio e os seus; e D. Thoodosio 
cveu uma carta ao pae, advertindo-o do que não lhe 
reiuiaai^se embaraço o cUe estar retido em Ilespanha para 
fazer o que de^àa, porque de boa vontade se sacrificaria 
pelo bem da pátria. Remetteu o duque de Bragança esta 
carta aos Três Estados; e Fiiippe II, recuando ante a idí'a 
do ee tornar maia notória a queixa de violação do direito de 
hospitalidade e do das gentes, e mais do que isso, temendo 
Lcerlamente indignar contra si os portuguezes e inimisar-se 
rcoiii o próprio duque, ordenou que deixassem ao arbítrio 
de D. Theodosio a eua jornada para Portugal, onde este en- 
trou a quinze de março de mil quinhentos e oitenta, a tempo 



14 



que ainda seus pães estavam em Almeirim, por causa das 
pretençSes ao reino, gastando por conseguinte quasi sete 
mczes desde que sabiu de Marrocos. 

Essas pretenç^Gs ao reino, a que tinha tSo incontestável 
direito a duqucza D. Catharina, por ser neta d*el-rei D. 
Manuel pela linha masculina, docidiram-as, como se sabe, 
a astúcia, a fraqueza, a corrupção e os exércitos. Filippe 
n logrou o termo dos seus ambiciosos intentos, e poude 
cevar á farta a indómita avidez no corpo d'esta naçSo, 
enfi-aquecida pelo sobejo expandimento das forças vitaes, 
com que, em sacrifício á gloria e á causa da humanidade, 
descobriu, avassallou, colonisou tâo grande parte do mimdo, 
e que uma fatalissima desgraça acabava de prostrar em tor- 
ra. Ao Demónio do Meio-Dia, como avisadamente lhe cha- 
mou a posteridade, faltava ainda esta preza; a sua tyrannía 
era vasta e precisava de vastos limites. 

Não sobreviveu muito á vassallagem da pátria e ao des* 
preso dos direitos manifestos de sua esposa o duque D. JoSo, 
pois morrou a vtnte e dois de fevereiro de mil quinhentos 
8 oitenta e três, pouco mais de um anno depois de Filippe 
n entrar em Portugal, succedendo-lhe seu filho D. Theo- 
dosio, com quinze annos apenas de edade, no ducado de 
Bragança, porém n3o no governo d'elle, que, segundo o 
testamento do duque fallecido, ficou a cargo de D- Catha- 
rina. 

Sob as prudentes o sabias vistas d'e8ta princeza, adquiriu 
D. Theodosio notável desenvolvimento nas bellas lettras 
e no estudo das sciencias, em que o doutrinou António de 
Castro. Foi para uso do seu ducal discípulo que este es- 
creveu em mil quinhentos e oitenta e oito a obra intitulada : 
Tratado dos princijnoft da ffeometría e gmgraphia, o qual 
se conservava manuscripto na livraria do conde da Ericeira, 
infelizmente pasto das chammas, com todas as preciosidades 
que continha o aeu palácio no terremoto de mil setecentos 
e cincoenta e cinco; isto segundo D. António Caetano de 



15 _ 

Sousa *, pois Diogo Barbosa Machado ^, a dá existente no 
seu tempo na do marquez do Louriçal. De línguas estran- 
geiras soube o joven duque, depois de completa a sua edu- 
cação, o latim, que aprendeu com Fernão Soares Homem, 
o árabe, o italiano, o inglez e o hespanhol. Alcançou tam- 
bém, além d'isso, um não mediano conhecimento das artes 
liberaes e dos livros sagrados. 

Duas vezes acudiu com forças importantes D. Theodosio 
ao governo de Filippc II, que lh'o solicitou, para mais attra- 
bir, por meio da sua presença, a dos fidalgos portuguczes ; 
em mil quinhentos e oitenta e nove, quando D. António pas- 
sou a Portugal, auxiliado por uma armada ingleza, e mar- 
chou sobre Lisboa ; e em mil quinhentos c noventa e seis, 
quando outra armada d 'esta nação accommcttcu as costas 
do Algarve, destruindo Faro, e querendo tomar Lagos, 
d'onde foi valorosamente repellida pelo esforço de Ruy Lou- 
renço de Távora, quo então a governava. 

íí'estíis duas expedições, e na maneira por que para cilas 
se preparou, não por acceitar de bom grado o governo do 
rei intruso, mas por guardar respeito á lei e aos factos con- 
summados, reservando para mais tarde, quando o ordenasse 
a Providencia, a satisfação dos direitos da sua familia, ma- 
nifíístou o duque D. Theodosio quanto era prudente e ge- 
neroso, tendo ao mesmo tempo ensejo de convencer-se me- 
lhor da influencia popular da casa de Braganra, e de como 
ella se expandia espontânea e irresistível no meio da su- 
jeição que, em geral, abatia os ânimos. Na segunda d'estas 
oceasiòes, em que se armou para defender o reino dos in- 
glezes, foi tão acompanhado e festejado, que muitos dos 
títulos e fidalgos, irapellidos pela sua cnthusiastica alegria, 
chegaram ao extremo de lhe beijarem a mão — involuntária 
manifestação dos sentimentos que lhes lavravam no intimo 

1 Ilisf. genealógica. 

2 liibliothtca luòifana. 



16 



dalma, sentimentos, que, apesar de abafados pelas vozes 
ingratas da tyrannia, lhes bradavam que elie, o senhor 
d'e8sa casa opulentíssima, tão grande, taio parecida cora a 
real portugueza, e tSo chegada a ella em parentesco, era o 
representante dos seus reis naturaes, e o progenitor do seu 
futuro monarcha, o libertador da pátria. Nilo passaram, nem 
podiam passar desapercebidos estes factos á corte de Hes- 
panha, indecisa entre o desejo de nSlo se malquistar com Por- 
tugal, malquistando-se com o duque de Bragança, e o de nâo 
o engrandecer, animando por esse modo os novos e mal 
contidos súbditos, e impeUindo-os talvez a levantarem-se 
contra o seu abominável dominio. Foi por temer este ultimo 
perigo que FUippe II, quando, pouco antes, chamou o archi- 
duijue Alberto a Hespanha, niio elegeu D. Theodotiio para 
o substituir, porém sim uma vice-regencia de cinco mem- 
bros, pelo menos muitos assim o jidgaram, entre os quaesD. 
Catharina, que chegou a queixar-se ao próprio rei de tal 
procedimento. 

Veíu o anno de mil quinhentos e noventa e oito, e fal- 
Icceu a dezesete de setembro Filippe II, succcdendo-lhc no 
throno da vastissiraa monarchia hispano-portugueza, seu 
filho Filippe IIL Contava o duque D. Theodosío n^essa 
epocha trinta annos; urgia contrahir logo matrimonio, para 
assegurar a successâo do estado de Bragança; e as diligencias 
empregadas n'este sentido no fim do reinado anterior con- 
tinuaram com maior empenho. Duas foram as noivas primeiro 
indigitadas: uma das filhas do archiduque Carlos, duque de 
Styria, Garinthia e Carniola, e conde de Uoritzia; ea princeza 
Maria de Medicis, filha de Francisco, grão -duque do Tos- 
cana e de sua mulher a grâ-duqueza D. Joanna d'Auôtria, 
filha do imperador Fernando 1. O casamento com uma das 
filhas do archiduque, ao principio favorecido por Filippe 
n, para contentar apparen temente D. Catharina, resolvera* 
80 cm nada pelo sen ioteresse politico, que o levava a não 
querer o engrandecimento da casa de Bragança, e portanto 



17 



que o duque ficasse sendo cunhado do fíituro rei, pois desti- 
nava uma das filhas do dito archiduque ao príncipe &eu ri- 
lho, conBorcio que Be realiaou algum tempo depois. O de 
Maria de Medicis, embaraçado pela mesma consideraçSr' 
6<*oa egualraentc de nenhum effeito, pelo enlace matrimo- 
nial de Heíirique TV de França com esta princeza, em vinte e 
aete de dezembro de mil e seiscentos. Mal logrados ambns, 
o rei de Flespanha propoz a D. Catharína e ao duqtie seu 
filho o casamento com D. Anna de Velaseo, filha do con- 
destiivel de Castella, D. JoSo Fernandes de Velasco. 

Annuiu D. Catharina ao convite, guardando dentro d*i\l- 
ma as offenaaa recebidas, pola neceusidade que havia dv 
assegurar a descendência ducal, razSo superior a quaes- 
quer melindre» que podessom existir; pelo desejo do con 
tentar el-rei, poia doesse facto lhe. viriam talvez novos an 
gmentOB á casa; e por nSo querer excitar maiores antn 
goniamoB, recusando ligar seu filho a uma das famílias mai 
antiga-** e preclaras do reino de Flespanha; motivos que o 
duque attendeu. 

Obtida a dispensa da Santa Só Apostólica, por serem os 
nubentes primof» terceiros, visto que a futura duqueza era 
bisneta de D. JoSo AíTonso de Gusmilo, quarto duque de 
Medina- Sidónia, irmSo da duqueza de Bragança D. Leonor 
de Mendonça, mulher do duque D. .Tayme, c feito o con- 
tracto nupcial, realisou-BO o consorcio a dezesete de junho 
do mil fueiscentos e três, com magnifica pompa e grosso 
dispêndio, como era costume em família de tanto poder e 
riqueza, e como agora se tomava necessário, para que se 
mantivesse aos olhos de todos, e dos estranhos sobretudo, 
DO alto conceito, d'onde as desgi-aças do tempo e o rancor 
dos inimigos a pretendiam derrubar. Além da esplendida 
recepção á noiva e ao seu acompanhamento, e da larga 
aposentaria aos que de fora concorreram á festa, e niJo 
foram elles poucos, houve banquetes, caçadas, toiros, ca- 
valgadas, torneios e comedias no paço; depois do que, 



n. t. o. o. — T. i. 



18 

u duque despediu os hospedes com valiosos presentes, po- 
d<? lido -se dizer íjuc íw festas duraram desde o dia do casa- 
meuto até oito de junho ^ 

Nâo tardou muito o fructo primeiro d'eata auspiciosa 
união. No anuo seguinte, mil seiscentos e quatro, a dezoito 
de março, conforme já dissemos, nasceu D. JoSo, que logo 
foi intitulado duque de Barcellos, pela concessão que para 
Uso tinha a casa; no outro auno, a trinta de março, como 
também já se sabe, D. Duarte; em mil seiscentos e sei» 
D. Catharina; e em mil seiscentos e sete D. Alexandre. Ma» 
esse breve periodo de ventura para os dois esposos cor- 
touo desapiedada, subitamente a morte da joven duqueza, 
e com t&o triste acontecimento fugiu a alegria do nobre 
solar. 



III 



Antes de proseguirmos com a vida de D. Duarte e com 
as noticias preliminares acerca de D. Tbeodosio, julgamos 
neccssaiio escrever alguma coisa a respeito da capital do 
ducado de Bragança e dos logares, que, por elle os fre- 
quentar tantos annos, ae ligam intimamente â sua historia. 

Quem nos nossos tempos for a Villa Viçosa mal imaginará 
que essa torra de província, tào modesta ao presente, scr- 
vixi de corte a casa tSo poderosa; que o seu paço, teste- 
munha outr*ora de tanto esplendor, e ainda hoje digno da 
contemplação do viajante nacional e estrangeiro, viveu du- 
rante seciUo e meio uma vida semelhante á dos paços dos 



' Bib. Nac, M&a., D. Francisco Manuel de Mello, Tácito portugvct, 
— D. António Caetano de Sousa, Hist, genealógica. 



19 



reíS) € se ornou d© aoberbaa galaa, c rceooxi de muaicas 
harmonioâas, para celebrar as festas de seus nobilíssimos 
senhores, os quaes viu entrar tanta vez galhardos e ovantes 
por suas portas, entSo arcos de triumpho e gloria, agora 
objecto de tristeza e abandono ; mal pensará que nas salas 
d^essa morada principesca se acotovelaram tantas noites c 
dias, perpassando uns pelos outros, ruidosos e alegres, oa 
CAvalleiros e as damas, ou nos saráos luminosos, ou nas 
recepções solemn^s, quando a ellas concorriam os príncipes, 
os nobres, os embaixadores; que essas ruas, onde impera 
quasi unicamente a solidão e o silencio, que esses ares, onde 
apenas sôa dobil o rumor do trafego quotidiano, chisparam 
e retiniram com o galope da cavallaria e soaram com o 
tropel dos infantes armados e com aa salvas do antigo cas- 
tello, ou porque oa duques partissem com as suas forças 
a defender a pátria, ou a enramar novos loiros áa quinas 
portuguezas, chamados por seus soberanos, que eram tam- 
bém seus amigos e parentes, ou porque se esperasse a vinda 
de algum monarcha, ou o recebimento de alguma nova du- 
qucza. Agora só lá de quando em quando os nossos reis 
vío tirar do seu costumado torpor e quietação a terra que 
foi corte de seus ascendentes, e talvez mover-lhe saudades 
cjom a acanhada pompa dos thronos modernos da sua gran- 
diosa existência, evocando, ainda que por instantes, me- 
morias do que já não existe; e isso mesmo fazem-o para 
se desenfaatiarcm da vida monotonamente ceriraoniatica da 
capital do reino em diversões venatorias na extensa tapada, 
a qual ainda attesta pela sua grandeza o poder das eras 
passadas. 

Situada quasi como atalaya do reino, próximo dos seus 
limites, quatro léguas ao poente de Elvas e oito de Évora, 
podeso di/cr que Villa Viçosa estava no caminho dos dois 
paizes peninsulares, ou para servir com suas forças e opulên- 
cia de duro obstáculo a uma invasão estrangeira, ou para 
receber no regaço da paz a visita doa povos de ambos elles, 

2# 



30 



qaer no trato commercial qnc alli atti-ahiam os duques e sua 
numeroaissima família, com todo o aequito de dependências 
e adherencias, quer nas occasiões das soberbas festas com 
que chamou a si muita vez as povoações circiunvizinbas 
« as distantes de uma e outra nação. A sua prosperidade 
andava poróm ligada á residência que ahi estabelecera a caaa, 
como veremos. 

Protegida pela cruz e pela espada, cresceu Vílla Viçosa, 
mas conservou-se humilde á sombra do convento de Santo 
Agostinho, fundado em mil duzentos e sessenta e sete, e das 
torres e ameiados muros do çastello, com que a fortilicara 
o rei lavrador. Desde o meio do século decimo quinto, por 
n*ella se estabelecerem os primeiros dui^ucs de Bragança, 
medrou consideravelmente, posto nSo tanto, como era de 
esperar do baftj de tâo nobres sonliorcs, porque n3o vi>-iam 
então com o fausto dos seus descendentes. N'umas casas, 
que, dentro do castello, mandou edificar o condestavel D. 
Nuno Alvares Pereira, residiram os duques com a simplici- 
dade e rudeza, que n'esse tempo se encontrava nas m;us 
illustres famílias, o até na do soberano. Os palácios dos 
nossos reis foram com eíFeitn bera mesquinhos, emquanto o 
gosto das artes e o luxo e tbesoiros das conquistas do atém- 
mar nSo tomaram o povo portuguez, antes sóbrio e severo, 
n'ttm povo conquistador e ostentoso. Nem os de Évora, nem 
os da Alcáçova, dentro do castello de Lisboa, nem os da 
Moeda, onde hoje se vô o Limoeiro, nem muito menos os 
de S. Thomé ou os de Santos-o-Velho eram condignos da rea- 
leza. Foi D. Manuel o primeiro que levantou habitação pró- 
pria do cargo supremo da magestade, os famosos paços da 
Ribeira, assim chamados pela sua situaçiXo, tSo bem esco- 
lliida para morada do chefe de imia nação essencialmente 
navegante. Foi também no reinado do monarcha ventu- 
roso que o duque D. Jayme principiou o palácio de Villa 
Viçosa e a sua tapada, poucos annos depois de voltar de 
Hcspanha, para onde o triste caso de seu pae o duque D, 



21 

'eraaiido U, decapitado na praça de Évora, o obrigara a 
rctirar-so, ainda pequeno. 

Tomado ao sea paiz, restítuido a todas as honras, bens 
e direito», favoneado pela alta protecção d'el-rei D. Manuel, 
que, segundo se uffirma, o cliegou a declarar herdeiro pre- 
Bumptivo da coroa, e não menos por D. Jo5o III, seu filho, 
o qual, aaaim como aquelle, lhe ajuntou novas mercês ás 
antigas, D. Jayme ordenou a nua casa com um esplendor 
verdadeiramente real, e foi desde entSo que Villa Viçosa 
entrou na época do seu maior poderio. D'esta situação, que 
continuou nos governos dos duques D. Theodosio I, D. JoSo 
I, D. Tlieodoaio 11 e D, JoSo 11, cahiu porém, e com ac- 
celerada rapidez, a cCrtc bragantina no abatimento em quo 
hoje a vemos, pela elevação do ultimo ao throno de Portu- 
çal, na feliz restauração de mil seiscentos o quarenta, quo 
transferiu para Lisboa nào sá a corte ducal, mas também 
muitas farailias e interesses a ella conjunctos. 

No tempo em que estamos, Villa Viçosa achava-se na 
eua cdade de oiro. Transbordara, havia muito, das muralhas 
com que o rei lavrador a cingira no secido decimo terceiro; 
docaplara a extensílo e os habitantes; adornara-se com o 
seu rico palácio c os seus formosos jardins; er^'uera aos 
ares as torres dos seus nove conventos c das suas egrejaa 
e ermidas ; franqueara aos enfermos as caridosas portas do 
seu hospital ; fortílccera com obras de arte modernas a sua ve- 
Uia defesa; regidarisara e rasgara os seus terreiros; abrira, 
particularmente nos últimos cincoenta annos, varias ruas, 
espaçosas em comparação das anteriores, pois tinham o dobro 
da largura: c povoara-as na máxima parte de nobre casa- 
ria, em cujas paredes destacava o fino o alvo mármore do 
Eirtremoz. Tanto crescimento e primor cidadSos nào haviam 
comtudo prejudicado em coisa alguma os seus ares lavados 
e sadios, a amenidade e verdura dos seus arredores e a pu- 
reza salutar das suas aguas : era ainda, como d'ante8, a villa 
viçosa. Três fontes a refrescavam no interior, e, depois 



22 

de llie proporcionarem commodo e proveito, divididas em 
dois perennes ribeiros, a abraçAvam, regando as frescas 
hortas c as bastas arvores de ÍTUCt9, que a apertavam, como 
n*ura cinto de esmeralda. Nâo eram menos bellas as sahidaa 
que tinha para se espraiar e folgar pelos campoa circiim- 
jacentes. Abundava o seu tenno na pesca e na caça, porque 
lhe corria a oeste a ribeira de Luçafece, e a este as de As- 
geca e de Borba, em cujas aguas pescavam os seus habitantes 
os tão nomeados picões, bordalos e pardelhas, e porque as 
Buas terras marginaes lhe forneciam lebres, coelhos, per- 
dizes e outras aves. Dava ainda preço a Villa Viçosa a vi- 
ainhança cm que ficava de Évora e de Portalegre, jornada de 
um dia; de Elvas, jornada de meio-dia; de Badajoz, distante 
sete iegoAs; de Olivença, cinco; de Estremoz, duas e meia; 
o de oatraa villas seis a três; nSo fallaodo na de Borba, de 
que unicamente a separava meia légua, mas tSo acompa- 
nhada de hortíis, vinhas e pomares, e de tamanha frequência 
de çnminhantes de ambas as i>ovoaç5e8, que bem se podia 
dizer que eram unidas. Nem faltava a poesia com os seus 
myBteríos para matisar de crenças pittorescas a formosura 
d'aquelle6 sitios, pois corria no povo, de pnes a alhos, a 
fabula de uns gigantes que se julgava terem dado o nome á 
ribeira de Asseca e ás suas proximidades*. 

Duas coisas avultavam mais do que todas em Villa Vi- 
çosa: o palácio ducal e a tapada. Tanto aquelle, como esta, 
formam, por assim dizer, parte essencial da historia do in- 
Dfinte; nSo podemos pois deixar de os descrever com miu- 
deza. Foram o dieatro da sua meninice, adolescência e jo- 
ventude; passou ahi dois terços da vida com seus pães, 
com sua avó, com seus irmãos, e^ apresentando-os como 
entlo eram, parec«zá que o vemos e aos entes de que re- 
oabeu a edacaçSo e multiplicadas provas de amâsade, ao 



1 Bib. Nac^ Ms«., Fraadsco dt Manm Sardinha, Pa 



rrfeFffla 



23 



passo que daremoe nina idc^a da magnificência da ousa d» 
Bragança. 

Deveu o palácio, como dissemos, o seu principio aos cui- 
dados do duque D. Jajme, porém muito concorreram para 
o ampliar e aperfeiçoar Oí* quatro seus successores jA mei'- 
cionados, pois foram importantes os accrescimos que Uil 
fez D. Tíieodosio I, e nZlo menos os de D. Jo3o I, moti- 
vados pelo seu casamento, e os que tiveram logar gover- 
nando D. Theodosio 11 e D. Jo^o II, effeituados por causa 
iclentica, nSo fallando, por serem muito posteriores aos acon- 
tecimentos que narramos, nos com que D. .ToSo V o engran- 
deceu, na occasijo dos reciprocos desposorios dos principes 
de Portugal e de Hespanha. 

Mas é do seu estado no tempo de D. Duarte que pre- 
tendemos fallar, ao que nos habilita felizmente o auctor do 
Parnaso de Villu Vii^om, o qual escreveu a sua obra em 
mil seiscentos e dezoito, isto é, quando ainda vivia o pae 
do nosso illustre protogonista, e durante a meninice d'c5te. 

Poder-no8-hiamos servir do Epit&me das festas (pie «e Ji- 
zeram no casnvmnto do strenisstnio j>rincipr D. João, d'eiite 
nome o geifunão t oitavo duque de Bragança, de Diogo Fer- 
reira de Figuoirôa, impresso em Évora um anno depois 
que elle se celebrou, em mil seiscentos e trinta e trea; 
preferimos todavia a relação do Parnaso, porque nos apre- 
senta 08 paços ducaes como foram desde o nascimento de 
D. Duarte até quasi á sua partida pani Allemanha, e nilo 
desfigtirados pelas obras, que D. .ToSo lhes fez pouco antes 
d*e8te facto, e pelos adornos da solemnidade, objecto prin- 
cipal do escripto de Figueirôa; além de que, o Parnaso 
se recommenda por mais extenso e minucioso. Quanto íI fé 
que merecem os dois auctores, o primeiro nSo vale menoí- 
do que o segundo, pois se um era creado do duque, e as- 
sistiu ao que narra, o outro mostra-se perfeito conhecedor 
do assumpto, e dá signaes evidentes de ter frequentado as 
peaeoas e os logares. 



24 

O Terreiro do Paço de Villa Viçosa, aasim dito por ahi 
SC achar o paço ducal, era quasi quadrado e media de 8U- 
perficie quinze mil quiulientos e quarenta e quatro metros 
proximamente*. O palácio occupava um dos ladof?; á es- 
querda, formando angulo com elle, estendia-se um lanço com 
três andares, tendo quatro J anel In s cada andar, c á altura do 
primeiro andar, um Jardim, chamado das Damas, ou da Du- 
queza, que deitava para a praçn ; á direita, o convento daa 
Cluigas, sepultura das senhoras da casa, ou recolhimento 
das que por elle queriam deixar o mundo, e algims edifícios 
nobres, entre os quaea e o convento mediava a desemboca- 
dura da rua dos Fidjdgos; fronteiro ao palácio o conveoto 
de Santo Agostinho, jazigo dos duques. 

Depois d'esta8 indicações, prosigamos resumindo o Par- 
nnm. 

Era o paço de Villa Viçosa de formoso e rico aspecto, 
de mármore todo, em obra dórica, jónica c corinthia. Com- 
punha-se do Paço Velho e do Novo, que cornara com vinte 
e cinco jancllas de frente, com portas verdes, côr da libré do 
duque. Ante a poi-ta principal havia ura taboleiro, largo e 
bínu proporcionado, a que se subia por um só degrau. En- 
trada oUa, encontra va-se outro taboleiro espaçoso, sobro o 
qual estava uma abobada pequena com sua varanda, quo 
servia por cima de passagem entre os dois pa^os. A escada, 
foiTMOsa o ampla, dava logar a dez homens a par, e recebia 
d<' duas janellas, que olhavam para o Terreiro do Paço, 
abiuidante claridade. O tecto d' esta eaciída era em artezSes, 
pintados e doirados, ostentando no meio as armas ducaes; nas 
paredes via-se debuxada a memorável victoria qxie D. Jayme, 
bisavô de D. Theodosio, alcançou na cidade doAzamor con- 
ti*a os moiros. Acabando de subir a escada, punhíim-se os 
pés na abobada de que falíamos, e entrava-se no andar 



1 Bili. Nac, jAIfis., Planta de Villa Viçosa pelo tenente-general Ni- 
«olao de Laugrcs. 



25 



nobre. Do lado esquerdo do edifício, isto é, da escada para 
o norte, fic4iva o Paço Velho, onde residia o duquG. Encon- 
tra va-se primeiro a anla, grande e bclla, de figiira quadran- 
gular, tendo de comprimento trinta e seis palmos o de largura 

I quinze, com cinco janellas, que cabiam para o terreiro. Esta 
sala tinha o tecto doirado em partes, e cm artezííes, ao todo 
dezoito* em nove estavam os nove celebres da fama, e nos 
outros nove as nove musas e Âpollo. Na porta da entrada 
d'e8ta sala admirava-se pintado o rio Guadiuna, a que cor- 
respondia o rio Tejo na da ante -camará, quo lhe ficava 
em frente, significando que entre Tejo e Guadiana habíta- 

, vam 08 duques. O tecto pelo meio dos artezoea tinha uns 
qoartiVs muito bem pintados e doirados, e por baixo d'aquel- 
les, todo em roda, uma cinta de pintura de tintas finas e de 
boa invonçSo, que muito o realçavam. N'esta sala havia 
uma a6 chaminé, cuja gnamiçào era de mármore, de laça- 
rias e carrancas. Três portas davam para o seu recinto: a 
do cartório, que chamavam a Casinha; a do thesoiro; e a 
da guarda-roupa do duque. Occtipnva a sala, a uma parte, 
um estrado real, a quo so subia por dois degraus, e a outra 
parte, outro esti-ado, sobre pés, com seu encosto na parede, 
tilo alto que nilo se lhe podia chegar, e outro menos alto, 
cm que ae costumavam pV as baixellas e peças do oiro e 
pratíi da casa, excepto as que ficavam no sou serviço e no 
da capella; du cjual prata e oiro assim expostos diziam 

rulguns ourives e homens entendidos que valeria mais de 

rccm mil cruzados. Estas riquezas collocavam-se alli por 
occaailto da visita de príncipes e distiuctos personagens, para 
jue vissem logo uma pequena mostra das posses da opu- 

rientissima familia. Soguia-soa antecâmara de D. Theodosio, 
que o auctor louva, mas não descreve. Nas soteas d'este 
lado, isto ir, por baixo da parto do andar nobre acima des- 

cripta, eslondia-se um longo corredor, que facultava eom- 
municaçSo para outros legares do edifício, com varias janol- 
Uâ «em portas, a fim de darem sempre claridade ao inte- 



26 



rior, e que tarabem serviam de ornato á frontaria dos pa- 
ços. Andando este corredor, chegava-ae a uma grande por- 
ta, por onde se entrava do terreiro. D'aqui via-se a abobada 
da antc-camara, e a porta do Reguengo, qao era um for- 
moso pomar, sobre o qual ficavam as janellas díis co.stas dos 
paçoB. 

Entrando pela porta do Reguengo, tomava-sc uma larga 
rua, com uma latada clieia de fructos e ramagens. A di- 
reita havia dois tanques,* um d'elle8 tamanho c tào pro- 
fundo, que comportava nm barco em quo se navegava todo. 
Tinha também o Reguengo duas noras, que o regavam, e 
fontes bellas e copiosas. A sua disposição era em ruas com 
arvoredo, entremeiado de murta c outras plantas, que a mão 
do jardineiro affeiçoara artisticamente, e de flores de varia 
côr e perfume. Das janellas do fundo desfructavam-se per- 
feitamente estas bellezas. 

Do lado direito do edificio, que corria da extremidade 
sid para o norte, alongavam-se no andar térreo as soteas 
do Paço Novo, nas quaes estavam: a casa do escrivão da 
fazenda, que tinha todos os livros e papeis tocantes a ella; 
a das obras de todo o género de pedraria e carpentaria, 
para o arranjo e aiigmento dos paços, da fortaleza e da 
tapada; e entre ambas a dos contos, em que assistiam 
quatro contadores, para tomarem contas aos almoxarifes de 
todo o ducado, e a outras pessoas que deviam dal-as. 

Tornando á porta por onde se entrava no Reguengo, 
cm ^ahindo do palácio, ia-se terá capella, ficando á direita, 
pela rua acima que a ella conduzia, aa janellas da ca- 
mará c ante-camara do duque, tomando de rosto a formosa 
varanda que alli havia, e deixando atraz outra, á maneira 
de eirado, cheia de mil curiosidades e ramalhetes de arvores 
anSs de varias castas, como em competência, suggere o 
auctor, da formosura que na varanda defronte algumas vezes 
apparecia de damas o donzcllas. Debaixo d'esta varanda, 
subia uma escada a uma sala que servia de coro, com tri- 



27 



bana para a capella, da qual D. Thoodosio ouvia ii8 pré- 
çSes e OH ofUcios divinos. Nesta sala estavam os orgâoa 
o piilpito. Potico antes de ee chegar ao alto da eâcada, 
encotitrava-ae um claustro com pilares, rodeiado de muitas 
s, que se conimunicavam entro si, alguiuan destinadas 
5mento ao serviço religioso, como a casa da cora e outras. 
A capcUa nâo era grande, porém muito formosa e clara, 
fallando na perfeição dos ornatos. Entrando, ficava por 
o coro, que servia ao duque dfí tribuna, como disBG- 
BQS^ com três janellas á mào direita; a do logar dos or- 
^e a qao fazia de palpito, sacadas de balaustres de 
mármore, do mesmo modo que as liombreiras dos portiidos 
,€ os liminares delles, e a terceira de grades de ferro junto 
altar-môr, d'onde assistiam ás muitas missas que na ca- 
|>ella se diziam as senhoras da casa, as quaes, entro damas, 
Qoçiis da camará, moças do retrete e mais servidoras, paa- 
Í-Savam de duzentas. 

Deixando a capella e segumdo á mão direita, camiuhava- 
6e por baixo de uns arcos abobadados, e, virando á es- 
querda, deparava-se lun terreiro, o qual tinha no meio um 
poço píira serviço da cozinha. Ao redor d'aquelle eata- 
i: a ucharia, a caaa do escrivSo da cozinha, e a do 
da pella. Sahindo d'e8te logar por onde se entrara, 
lefrontava-se, á esquerda, com a cavallariça, e, continuando 
por baixo da escAda da capella, chegava-se a outro terreiro, 
lo cercado de casas, a que chamavam a Ilhu, as quaes 
na maior parte habitadas por escravos casados do 
daqae, c por creados, a que se concediam as melhores. So- 
bre o mesmo terreiro dava a porta do forno do vidro, que 
D. Theodosio aJli estabelecera com larguíssimas despezas, 
chamando para tal tim officiaes estrangeiros competentes. 
Depois, sahtndo da Ilha por onde se entrara, ia-se ter á 
rua da Porta do Nó. Ahi, logo ao principio, á esquerda, 
tiC4iva a portív da cavallariçii, e, caminhando pela dit^ rua 
abaixo, do mesmo lado esquerdo, varias casas, entre as 



quaes o collegio dos moços do côro^ onde de continuo aâsi&tia 
o reitor com elles, e algumas de creados, e no fim a enfer- 
maria era que se tratavam oa.qne nSo tinham al)rígo e eram 
de f/ira. Da enfermaria sabia-se pela Porta do Nó para o ca- 
minho de Borba, que desembocava no Terreiro do Paço, a 
qual era feita de uma pedra de côr aobre azul com quatro 
nós cegos e um corredio. 



IV 



Como se vê, esta narraçSo dos paços de Villa Viçosa é 
de subido valor, mas incompleta, porque deixa de descrever, 
e até de mencionar, muitos dos seus compartimentos mais 
importante:*, limitando-se á sala, á casa do cartono, á do 
thesoiro, d da guarda-roupa do duque, todas trea com por- 
tas para a dita sala, e á sua ante-caraara: isto no antbir 
nobre do quarto chamado o Paço Velho, sito da parte es- 
querda; e no andar debaixo do mesmo, só falia do corredor 
que acompanhava a frente do paço d'e8te lado, parece que 
em quasi todo o comprimento, e tinha porta para o terreiro. 
Quanto ao Paço Novo, conta unicamente que havia n'elle a 
casa do escrivSo da fazenda, a das obras e, entro ambaa, 
a dos contos, no andar inferior, sem nos dizer nada do 
superior. Finalmente descreve a capella e outras depen- 
pendcncias do palácio: cozinha, cavai laricas, casas para 
creados, casa do jogo da pella, forno do vidro, collegio 
dos moços do coro, e enfermaria. A camará e ante-ca- 
mara de D. Theodosio deprehende-se que ficavam no Paço 
Velho, do lado do fundo, para onde tinham janellas. Falta 
portanto muito á deacripçao. 

E por isso que, para dar uma idéa melhor da capacidade 



29 



dos paços de Villa Viçosa, aproveitaremos aindu alguma 
coUa do que vem n'outra obra intitulada: Rdaçào das festas 
t^ut se Jiztram no casamento do duque D. Thtodusio com 
jD. Ânna de Vtlwtco; o qual teve logar dois aiino^ antes do 
Bento de D. Duarte, e quinze antes da relação do 

ITessaa festas o quarto novo ou Paço Novo foi destinado ao 
Lconde de Haro, irmSo da duqueza, e á comitiva delia. Esta 
te do palácio edificou-a D. Theodosio então; estava ainda 
aperfeita nos sobrados superiores, e tinha alguns dos tectos 
por pintar. Occupava o conde a sala que ficava, subindo a 
eacada, á mSo direita, outra em que tomava as visitas, e 
tuna camará em que dormia. Além destas casas, havia 
a camará de D. Brás de Aragão; a guarda-roupa de D. 
?ôdro Giron : a camará do mesmo ; a de D. AtTonso de Ve- 
co; n de D. Filippe de Navarra; a de D. António de 
Velaâco; a do socretarlo do conde; a do camareiro do 
conde; a de outros creados do mesmo; e ainda restaram 
iXDuitas casas despejadas. Os aposentos do conde, e de D. 
íraz eram no primeiro sobrado, e os mais no segundo. 
'Sq outro quarto ou Paço Velho, notavam-se : a sala onde 
ava a prata e a meza de jantar; a ante-camara da da- 
Pqtieza, cm seguida a ella; a guai-da-roupa do duque, á mão 
esquerda dos que entravam na ante-camara, para a parte 
doB jardins, e com janella sobre elles; a camará da du- 
qaeza; a guarda-roupa da duqueza, que estava ao doante 
da sua camará; a camará do duque, á mão esquerda da sua 
da-roupa, e com janella para os jardins, d'onde se en- 
ava para o oratório d'e3te quarto, bem como o do outro, 
muito devoto e bem ornado. A guarda-roupa scguia-se em 
ordem a ante-camara da duqueza D. Catharina, que já fazia 
parte do terceu'o quarto, o qual ficava ao levante, e com- 
prehendia, além delia, a sala c a camará da mesma senhora. 
No ultimo quarto, que olhava ao poente, havia a sala dos 
irmãos do duque: D. Duarte, D. Alexandre e D. Filippe, 



30 

logo depois da antecâmara da daqueza, e a ante-camara, 
guarda-roupa, c camará dos mesmos, que também eram 
com muna aos três *. 

Por Figuoirôa vemos ainda que o quarto de D. JoSo, 
anteriormente ao seu casamento, isto 6, a trinta e dois, 
era no mesmo Paço Velho, e tinha janella para o Re- 
guengo. No que respeita ao do nosso D. Duarte e ao de 
D. Alexandre, só podemos affirmar que na dita epocha se 
achavam situados no Paço Novo, e tinham janellas tambera 
para o Reguengo^. 

Acerca da capella alguma coisa nos diz o auctor do Par- 
tioso da sua forma e apparencía, e muito quanto á riqueza 
dos seus vasos e paramentos, o que omittimos por brevidade. 

Foi esta capella objecto constante da maior solicitude de 
todos 08 duques de Bragança, que, á porfia, a ornaram e 
enriqueceram, desde a sua fundaçSo pelo duque D. Jayme 
até ao tempo de D. Duarte e mesmo posteriormente. Nâo 
se contentaram de obter para ella numerosas graças de al- 
guns dos sumraos pontifices, que durante este longo período 
subiram á cadeira de S. Pedro, com o que se tomou t2o 
privilegiada como a realj enriqueceram-a ainda de joiaa 
e alfaias de subido valor e sobretudo de piedosas relíquias. 
Entre aquellas sobresahia ura sacrário de prata ornado com 
as primeiras saphyras que se acharam em imia mina, des- 
coberta no tempo de D. Theodosio, perto de Villa Viçosa, 
e de que este fez presente á capella, a imitação de seu bi- 
savô, el-rei D. Manoel, que deu ao convento de Bolem a 
celebre custodia que todos conhecem, fabricada com o pri- 
meiro oiro da índia 3; e entre estas um santo sudário, tido 



1 D. Antouio Caetano de Souia. Hiat. genealógica. — Relação etc, 
j4 citada. 

* Figuelròa, Epitome^ já citado. — Ac. das Sciencias, Mss., António 
de Oliveira Caduruegti, Descrípçào de sua pátria Villa Viçona. 

3 P.« André Gomes, Sermão na» exeqiíian que ao Ex.'"° Sr. D. Theo- 
dosio Iljez o priur-mór da ordem de Santiago. Lisboa. 18.31. 



31 



creclalamente p<;lo verdadeiro, que se expunha ao publico 
de ama das janellas do paço, com grande veneração, no dia 
de sexta -feira maior, e um pedaço de lenho, julgado da vera 
crvLtf qae o papa Clemento VII dera a Honorato de Cayes, 
embaixador de França na corte de D. .ToSo III, o qual foi 
vinculado A casa em morgado sob o nome de Morgado da 
Cruz. Os duques assistiam devotamente ás funcçSes reli- 
giosas, com a família, e muitas vezes tomaram n'ellas parte 
activa D. Theodosio I, T>. João I, D. Theodosio 11, e D. 
João n. A paixão pela musica, herança de pães a filhos, 
e o desejo de equiparar em pompa a sua capella á dos 
mesmos soberanos, levou alguns a procurarem a melhor 
qae se podia encontrar, convidando para isso músicos no- 
taveia, não só do reino, mas também de paizes estrangeiros. 
Os duques acima nomeados cultivaram esta arte, e um d'el- 
!c8, o irmão do nosso D. Duarte, D. João II, aprendeu-a 
obrigado por seu pae, para que cuidasse zelosa e pessoal- 
mente das festividades. Era a capella servida com magnifi- 
cência por imi deão, sempre homem fidalgo, um thesoirei- 
ro, dezeaeis capcllães, moços do coro, e muitos cantores e 
músicos. Os seus gastos, no tempo do pae de D. Duarte, 
excederam nove ou dez mil cruzados; foi o apogeu da aua 
grandeza; e estimava-a tanto, que no testamento a encom- 
mcndou encarecidamente ao filho e successor, seguindo o 
exemplo de seu pae, que também á hora da morte lh*a re- 
commendara. Não eram porc^m somente os duques de Bra- 
gança que a augmentavam de riquezas e preciosidades; 
outros membros da casa o fizeram; e entro esses nomea- 
remoí* o próprio D. Duarte, o qual, depois de homem, a 
preseuteou com a prata necessária para um relicário, e atô 
das distantes regiões de AUemanha lhe trouxe o corpo do 
martyr S. Gandulfo, um dos únicos despojos e o de mais 
preço que recolheu daa suas campanhas militares no império, 
como veremos. 

Havia egualmente nos paços de Villa Viçosa o oratório 



32 

da duqueza D. Catharina, naturalmente um dos doía que 
mencionamos como pertenças dos dois lados do palácio, o 
qual devia ser riquíssimo, e o era com certeza de muitas 
relíquias de santos, que esta venerável senhora conseguiu 
juntar, dadivas de reis, papas e cardeaes, e fructo de aturadas 
diligencias de vários ministros e religiosos graves que ejla 
d'Í8so encarregava. 

Emfim, para nSo faltar coisa alguma a esta habitação ver- 
dadeiramente real, até n'ella existia uma imprensa, ao menos 
nos primeiros annos do governo do irmSo de D. Duarte, 
pois, no de mil seiscentos e trinta e cinco, ahi estampou 
Diogo Ferreira de Figueirôa a sua obra: Detmaios de maio 
em sonhos do Mondego. Kra então impressor do duque Ma- 
nuel Carvalho. 

Dos jardins do paço, falla-nos o Parnaso snfficientemente 
do chamado Eegueiigo, sito no fimdo d'el]e. Quanto ao das 
Damas ou da Daqueza, que lhe demorava á esquerda, e 
formava parte de um dos lados do Terreiro do Paço, sa- 
bemos, pelo que diz, que era abundante de flores e de ar- 
vores de espinho, que o adornavam muitas galerias e ale- 
gretes, e que recebia agradável frescura de vaj*ios tanques 
e fontes. 



Outro logar interessante para a historia que escrevemos, 
pelo muito que o frequentou D. Duarte, era a tapada de 
Villa Viçosa, depois dos paços, o objecto mais credor de 
geral attenção na capital do grande estado. Principiou-a o 
duque D. Jaymc pelo mesmo tempo que elles, e desde 
entSo até d subida ao throuo do duque D. João II, me- 



33 



receu sempro especiiUíB cuidados a todos oa acnlioroi* d 
BnigançA; nem otitra coisa se devia esperar, por \\\c» sor 
oommuiD) pode ilizcr-Bt', a pníxílo da •.'ii<;;i o. dos Msercicios 
equestres. 

Tinlja a tupuda de Vilia Viçosa três Ieg'uas de cireuratè- 
rencia, fecLatlas com iima parede, de mais de doze pulraos 
lie aítara, com auas bardas, que lhe dobravam a defcza. 
Nascia tão perto da villa, que nHo distava d'olla um torço 
•le nieia légua, o os soas muros oníparolliavam com mtíiUs 
áaM suas hortas, assim pela parte da t- btrada de Elvas, como 
pela que se dirigia a Monforte e Portalegre, sendo também 
acompanhada, aluda que mais de longe, das frescas hortas 
do Orcihal. Começando d'aqui, segJiia a tapada a estrada de 
£lv;iB, d*eati parte do aul, at*'- á ribeira de Aascca Velha; 
depois voltava por cima das barranceiras da ribeira, (pie lhe 
ficavam além do seu tapigo, tão perto, que só ellas se met- 
tiiun entre, as siuis paredea e as aguas da dita ribeira; e, cor- 
rendo para deante, formava um angulo, c tomava a appro- 
ximar-se, «'esta volta, da estrada do Portalegre, que ia do 
norte, até fechar com um formoso poi*tado de pedra, o prin- 
cipal d'ella. Este portado lodo de mármore, alto e largo, er- 
guia-80 defronte da estrada que vinha da villa para a ta- 
pada, ti para o Grelhai e mais partes que nomeámos. Apenar 
do muro e do tapigo que a cingiam, D. Theodosio fazia 
guardal«a por fieis e diligentes coiteiros, que, de continuo, 
din e tioite, a pé e a eavallo, a vigiavam; além d'Í6so, em 
todo*o seu circuito, havia de f(5ra quinhentos passos coitados, 
para que ninguém se atrevesse a moleatiir ou correr a caçji, 
que tííihia a recrear-ee pelos arrabaldes das hortas e das ri- 
beiras vizinhas. 

Próximo da porta principal erguiam -se dois oiteiros, de 
cojo cume se a^n5tavam formosos e extensissimos horison- 
te8. D'ahi viam-se também os paços ducaes, a densidão das 
diveriMW arvores, o como se abraçavam umas com as ou- 
troSy o£fereceiido do verjlo sombras obscuras, e de inverno 



M. I. D. D, — I. L 



3 



34 



recolhimento ao3 gados e á caça, para que em um e outro 
tempo SC reparassem de suas inclemências. D'ahi desço- 
brlam-se os montes, os bosques e os valles, que encerrava a 
tapada, coalhados de gamos, de veados, de infinitos coelhos, 
de ferozes porcos montezes e de cruéis lobos, que muita vez 
pagavam caras as suas rapinas polaa corridas que o duque 
lhes mandava dar, pelas ichòs em que vinham a perder a 
vida, e pelos aguardos cm que os coíteiroa oa matavam & 
espingarda. 

liluito variadas castas de arvores se creavam na tapada, a 
qual possuia todas as que chamam bravas, e bastantes mansas^ 
t2o excellentes e gostosas em suas fructas, como se podiam 
achar em terras mais cultivadas. Nos valles cresciam aJgims 
pereiros chamados de matto, tSo fructiferos que pareciam 
dos mais domésticos e suaves das hortas. Os freixos, quo 
havia em muitos logíires, não cediam na frescura aos mi- 
mosos e bera regados. Os sovereiros e azinheiros que oocu- 
pavam e cobriam quasi a terra, eram taio grandes e fron- 
dosos, que nào se Dies podiam antepor os melhores olivaos. 
Se nHo faltava alimento para os numerosos animaes da tapa- 
da, também não lhes escasseavam abundantes aguas, que os 
refrescassem e ao basto arvoredo, pois n'ella havia duas ri- 
beiras e maia de vinte fontes, duas noras e um lago, de taes 
dimensSos, que para recreação do duque tinlia cinco bar- 
cos. 

Uma das coisas mais curiosas da tapada era o Vergel, 
que D. Theodosio mandara plantar. Estava situado no seu 
interior^ e, alegre e odorifero, enriquecia-se de tantas per- 
feições, quG, entrando-se n'elle, parecia respirar-se outro 
ar e que se estava em outi'o clima. Tão suave ora a tempe- 
ratura d*e8te logar! Diiúeis que reinava alli continua prima- 
vera. A figura do Vergel era um parallclograramo. Circiun- 
dava-o imia parede ainda mais elevada do que a da própria 
tapada, toda de pedra e barro, com suas bem tecidas bar- 
das e duas portas, uma ao nascente, outra ao poente. O 



35 



sctt comprimento n'e8ta orientaçffo media cem varas e a 
Urgora quarenta. Ante» da porta sita ao poente, saperior 
á outra, manava uma fonte de copiosíssimas aguas, que 
«e dirigiam a quatro no meio do Vergel por canos secre- 
tofl, governados por certos registros, que as faziam subir 
em repuxos engenhosos, nas duas fontes primeiras e maia 
altas até vinte palmos, e nas duas mais baixas ató trinta 
c sete, d'onde cabiam com muita mansidão e graça, espes- 
»3indo-ae de tal maneira no ar, como se cbovcaso, e enco- 
brindo com o sen grande volume, para quem se achasse 
perto, a luz do sol, ainda que fosse dia claro. Estas quatro 
fontes eram de mármore, oitavadas e no centro de cada uma 
levantava-se outra figura de fonte, onde vinha ter o cano 
que lhe levava a agua pelo registro. Corria o Vergel ar- 
mado pelos quatro lados, fazendo outra rua bom polo meio, 
de porta a porta, em todo o comprimento, a qual atraves- 
eftva outras, quo o repartiam em seis quarteirões. Na rua 
ao longo da parede do norte crescia todo o género de ar- 
vores de espinho, nas quaes sempre se achavam fructos. Na 
do fiul roseiras de toda a sorte, e plantas cheirosas c raras, 
que deleiUivam os olhos e espalhavam rauito ao longe o per- 
fione. As arvores que occupavam os quartel r5eB e cercavam 
as fontes do Vergel, frescas e mimosas, causavam admiração 
por ser em logar tao escabroso e robusto. Eram em numero 
do cento e noventa e duas, postas egualmeute lunas das 
outras a sete passos, para que fossem menoiadas dos ventos, 
c visitadas do sol, com quo se fizessem suas fructas maiores 
c de mais gosto e cheiro. O pae de D. Duarte frequentava 
iOBuito o Vergel, assim como o resto da tapada, e demora- 
Varse ii'elle; e ate varias das suas plantas tinham sido en- 
xertadas por suas mSos. 

AJt'm de todaa estas bellezas e commodidades, havia tam> 
bera na tapada de Vil la Viçosa casas grandes e bem ador- 
nadas, que estavam convidando ao repoiso, e em que mui- 
tas vezes ficaram os iUustres visitantes ou caçadores» Nem 



36 

a religiSo deixava de ter alli o seu culto^ desdo que D. Theo- 
doBÍo mandou levantar uma ermida a S. Eustachio, onde 
costimiava, longe do ruido tlii corte, ir meditar e erguer a 
Deus as sirns oraçSes*. 

N'uma d'essas casas, sita no mais interno, íiccoramodou 
o duque D. João I, com a maior magniíicencia, el-rei D. 
Sebastião, quando este cm mil quinhentos e setenta e três o 
foi ver, tomando a Évora, d^^pois do inspeccionar as praças 
do Algarve. Nao consentiu a inesperada vinda do soberano 
que o duque o recebesse como queria nos seu» paços, e 
por isso, emquanto se aprestavam, o entreteve n'eila com 
um banquete sumptuoso, apresentando-lhe admiráveis pe- 
ças apropriadas A sua inclinação vonatoria e ao logar em 
que o hospedava; a saber: ricos e bem lavrados instru- 
mentos de montaria, espingardas, cutcllos, facas, aves para 
a altaneria, cavallos e cãeB de caça, que tudo lhe offereceu. 
N'umas casas da tapada ficou o cardeal archidiaqviR Alberto, 
nomeado vice- rei de Portugal, quando, de passagem para 
Lisboa, visitou o duque D. Theodosio e sua mâe, a duqueza 
D. Catliariua, dividindo-se a sua comitiva por outras e tam- 
bém por tendas que para tal elieito ahi se levantaram. 
As casas em que poisou o cardeal vice-rei estavam bem 
ornadas, e imia das suas camarás tinha os roU'atos de todos 
08 senhores da casa d'Austna, dos reis de Portugal, dos de 
Ilespanha, dos príncipes das casas de Parma e Saboya, e 
de outras pessoas semelhantes; d'onde podemos avaliar a 
Bua grandeza. 

Afora estes personagens que honraram a tapada de Villa 
Viçosa, e chegaram ao nosso conhecimento, mereceu ella 
também ser vista e admirada pela maior parte dos fidalgos 
nacionaos e estrangeiros que concorreram em varias epochas 
á corte ducal, bastando porora lembrar de todos, entre os 



1 Bib. Nac, Mhs., FraticlBco de Moraes Sardinha, Pamoío «k Vitta 
Viçosa. 



37 

iiltimoa, o conde de Haro, canhado de D. Theodosio, na 
occasièlo em que acompanhou sua irmã, a duqueza 1). Anna 
de Velasco; e o duque de Useda, estribeiro-mór de FiUppe 
JH; o marquez de Velada; e o duque de Ossona; ob quaes, 
deixando o seu soberano em Elvas^ quando veiu a Portugal 
em mil geiscentos e dezenove, foram de propósito a Vills 
\1ço8a para allí caçarem; e o conde de Nlebla, irm&o da 
duqueza D. Lniza, noiva do duque D. JoUo ET, quando a 
trouxe a Portugal a fim de se desposar com este. 

Não pertenciam porém unicamente á classe da nobreza 
os admiradores da famosa tapada. Houve-os também nas 
outras classes da sociedade, cumprindo especialiaar a doa 
homens de lettias, tanta vez bera vindos e favorecidos na 
corte dos duques de Bragança. De um d'elles, grande pe- 
las obras e espalhada fama, encontramos memoria certa, as- 
sim como das Bensaçílles que experimentou percorrendo caso 
recinto de recreio da nobre família : queremos fallar do ce- 
lebre Lope de Vega. Este poeta hespanhol, grato natural- 
niente á Dianeira por que D. Theodosio o recebeu, e ins- 
pirado pelas bellezas naturaea o pelas maravilhas d'arte o 
opulência que o aurprehenderam^ compoz um poemeto em 
oitava rima, dedicado exclusivamente á descripçRo da ta- 
psula, o qual foi impresso em Madi-Id em mil seiscentos e 
vinte o oito, e onde com a sua linguagem poeticamente flo- 
reada nos pinta ao vivo na imaginação os encantos de que 
lhe foi dado gozar. Completaremos e amenisaremos a nossa 
descripçao com algims dos versos do illustre poeta. 



Yace uo I«job rio la insigne villti, 
Corte de vuestni casa, lu tapada, 
Cercado en Duestra lenguu de Í!n8tllla, 
Que tal grandeza pudo ser cercftda. 
Verde, eminputc y levantada sLlla 
A silvestre deldad, alta morada 
Do ocMiltaâ uinfas, de enramadas driaa, 
De floridas napeAB y amadrias. 



38 

Cinco millâ.8 de largo 7 de contorno 
Doce contieue el sitio iimccesible, 
Por la miiralla que le ciue en torno, 
A exteriores ofensas imposible; 
Por quatro puertaa de viatoao ailorno 
Permite el rauro trausito apacible, 
Donde lialliu-an mejo. verdes abrilea, 
llibl<?o8 campos, NinivèoB peiíBÍlee. 

Arroyos dulces cou sonoros saltos 
Los campos corren por diversas callee, 

Y daplicau el monte montes altos, 
Que fonnon prados y dilatan vallos; 
Escondeu sombras (de modéstia faltos) 
Sátiros viles de disformes talles, 

Las claras selvas a Pomona y Flora, 

Y duerme eu su jardin siestas la aurora. 



VI 



Na epoçtia da morte da duqueza D. Anna de Velasco, em 
que nos achamos, isto é, nos fina de mil seiscentos e sete, 
contava e duqueza D. Catharina sessenta e sete annos, e 
foi então, ou pouco depois, que, segundo paroce, começou 
a decahir de um modo a todos visível. 

Nâo era todavia só a edade que lhe quebrantava o coi^po, 
e lhe vergava o espirito varonil; acabrunliavam-a também 
08 desgostos públicos e os particulares que não lhe haviam 
faltado. 

A magua que soffieu com o prematuro fim de sua nora, 
e com a paixão de D. Theodosio, foi precedida por outra 
nSo menos acerba, a morte de sua filha D. Seraphina, mu- 
lher de D. João Fernandes Pacheco, quinto duque de Es- 



39 

ealona, marquez de Villena, conde de Santo Eateban de 
Gormaz e Xiquena, sétimo senhor de Belmonte, vice-rei 
de Sicília, e embaixador ao Papa Clemente Vil, a qual ex- 
pirou em Roma a seis de janeiro de mil seiscentos e qua- 
tro. Um anno depois da morte da duqueza D. Anna, fe- 
riram-a ainda outros dois golpes, e mais terríveis : a perda 
de seus filhos, D. Alexandre, arcebispo de Évora, e D. Fi- 
lippe, o» quaes falleceram junto d'ella, em Villa Viçosa, 
com poucos dias de íntervallo, um a onze e outro a vinte 
e sete de setembro de mil seiscentos e oito, o primeiro na 
florente edade de trinta, e oito annos, e o segundo na de 
vinte e sete apenas! Pobre mSe! De dez filhos que tivera, 
f©stavam-lhe unicamente o duque D. Theodosio e D. Dmirte, 
e este mesmo ausente em Hespanha. Como nSo devia pois 
succumbir a tantos e tSo fí-equentes golpes da fortuna aquella 
alma^ embora dotada de singidarissima fortaleza, aquella 
ahna, já assolada pelas tempestades da ambiçSo e pelas 
desgraças da patina, que eram também suas? Tantos infor- 
túnios, ajudados dos achaques e aborrecimentos da velhice, 
obrigaram-a a baixar os olhos para a terra, onde já via o 
tumulo, e a pensar na morte ; polo que quasi um anno de- 
pois de perder seus dois filhos, resolveu preparar-se para 
eUa, posto se achasse no goso de inteira saúde, fazendo o 
seu testamento ; o que teve logar a dois de setembro de mil 
seiscentos e nove *. 

Foi por este tempo e neste precário estado, que a ve- 
lha duqueza se incumbiu de D. Duarte, de seus irmSlos, 
o duque de Barcellos e D. Alexandre, e de D. Cathari- 
na, servindo-lhos desde então de segunda mXe: doce ta- 
refa certamente para quem vivia tão só no mundo e de- 
yia. precisar de amar e ser amada. E a aíFeiçâo dos avós 
pelos netos, emquanto pequenos, quasi tamanha como a doa 
pães, e em geral até mais indulgente. Contribuo para ista 



'O. António Caetmio de Sousa, Hút. genealógica. 



40 

nSo 9Ó a parecença que ha om tantos pontos da senectude 
com a meninice, mas egiialmente, e em grande parte, o ve- 
rem n'e88e8 filhos do3 seus filhos as imagens d'olle8, porém 
no tempo em que, também pequenos, brincavam no seu collo, 
e lhes sorria, junto com os seus cândidos sorrisos, a prima- 
vera da existência, porque eram moços, afortunados, e ti» 
nlmm esperança. E um reflexo do passado que naío volta, 6 
o desejo de se apegarem á vida que lhes foge. Quantas 
e quantas vezes nSLo se lembraria D. Catharina com saudade, 
ao beijar os tenros orphSos, que a rodeiavam brincando, da 
florida quadra dos seus annos, dVsse tempo venturoso, ein 
que, na companjiia do marido e dos filhos, joven, formosa, 
idolatrada, sonhava nos seus sonhos de oiro a coroa a felici- 
dade e a gloria! 

N'es8a convivência intima e quotidiana muito aprende- 
riam D. Duarte e seus dois irmiioSj que sua irmll D. Catha- 
rina pouco sobreviveu il mào, vindo a morrer em mil seis- 
centos e dez, novo desgosto para D. Theodosio e para a 
velha duqueza, n^o da sciencia dos livros, fadiga para elles 
ainda prematura, mas da sciencia do coraçilo, que, desde 
o alvorecer da puerícia, se insinua meiga, insensivelmente 
dentro d'alma, quando temos fonte pura d'onde bebamos á 
farta. 

No ensino religioso e moral nâo podiam achar os três 
irmãos melhor mestre; nem melhor companheiro nos pas- 
seios e brinquedos, pela paciência e desvello que lhe pro- 
vinham da edade e parentesco. Já conhecemos a scena, cjm 
que se passou este primeiro acto da vida do nosso protão 
gonista: o palácio ducal, a tapada, o Vergel, e os arredores 
que os anzinhavam. Foi ahi que elle desUsou suave, in- 
conscientemente, cOmo é próprio da meninice, os seus dias 
mais felizes, desde os dois annos e meio, em que fícoa or- 
phâo de mSe, até aos nove e meio, era que perdeu a avó, 
sem cuidados, sem trabalhos, pois apenas quasi no fim 
começai'ia os estudos com as liçSes do ler o do escre- 



41 



ver, em que talvez a velha duqueza llie servisse muita vez 
de ' ra. 

i ito D. Duarte chegara aos oito annos e resolveu- 

se que recebesse o chriama. Adminiâtrou-lhe este santo sa- 
cramento e a seus innàos o arcebispo de Évora, D. José 
de Mello,, succGssor de D. Alexandre, na capella do D. Ca- 
tliarina, a dez de agosto de mil seiscentos e treze. Assistiu 
D. Theodosio, e foram apresentados por Manuel Pessanha 
de Brito. 

Ia correndo tempo, a duqueza ia sentindo mais e mais 
05 embates da velhice e da desventura, © a sua decadenda 
geral annimciava próximo, lamentável desfecho. Qual seria 
A induencia d'essa previsSo no espirito já entenebrecido do 
D. Theodosio, imaginamol-o facilmente, ponderando o res- 
p^to que sempre votou a sua mfte e a veneração e quasi 
idolatria que tinha por ella, bem como a falta que lhe faria 
para a educação dos filhos, mesmo assim debilitada e en- 
vcJhecida. Realisaram-se, infelizmente, dentro em breve, os 
triste-s vaticinios, o essa mulher, modelo de sciencia, de con- 
atancia e de nobreza, que illustrou por tantos annos o du- 
cado de Bragança e a terra onde nascera, doirando as es- 
peranças du pátria agrilhoada e contendo longe com o seu 
esplendor até os próprios inimigos victoriosos, morreu, de- 
pois de setenta e três annos de existência, noa seus paços 
de Villa Viçoaa, a quinze de novembro de mil seiscentos e 
qaatorze. 

O seu nome dura e durará sempre na historia; nem foi 
preciso esperar que a morte lhe levantasse sobre a loisa ào/ 
tumulo a estatua da iramortalidadc. Ainda viva, diz D. An- 
tónio Caetano do Sousa, lhe celebraram as virtudes e saber 
Christovao da Costa, no livro que imprimia em Veneza em 
mil quinhentos o noventa e dois, Tratado ai loor de las 
mug4ire«, e Pedro Paulo de Ribera no estampado na dita 
cidade em mil seiscentos e nove, Le glorie iimnortalí dei 
triúnfi e lieroiche imprese di donne iUuatri, D. Nicolau An- 



42 

tonio coUoca-a na BÍhliothec<i Hispânica entre os erudito». 
Segundo o auctor da IJistoria gitnealogica, D. Catharma nílo 
se esqueceu de D. Duarte ao despedir-se da vicLa, e fez se- 
parar para elle doze mil cruzados em commendas da casa, 
que lhe foram dados naa de Santa Maria de Moreiras, Santa 
Maria da Alagôa e S. Thiago de Monsaraz, da ordem de 
Christo. Aqui lembraremos que eatae commcndas se pro- 
veram em D. Alexandre a dezoito de janeiro de mil seiscen- 
tos e trinta e quatro, vindo a sel-o em D. Duarte por morte 
deUe. 

Vejamos com D. Francisco Manuel de Mello qual o sen- 
timento do duque pela morte do sua mâe, de sua rale que, 
segundo as expressSes do mesmo escriptor «era a única von- 
tade que pudesse regular as suas acções t> depois do falle- 
cimento de sua mulher. «Apertou de novo a melancolia 
doeste succesBO os cordéis da severidade a D. Theodosio, 
julgando-se duas vezes viuvo pelas mortes da mâe e esposa ; 
e tanto se empregava na aspereza, que, por satisfazer ao 
sentimento devido aos mortos, começou a faltar ao agasalho 
Mo devido aos vivos. Os moços teem physica contradic^So 
com os annos provectos; por si mesma c dessimilhante, e 
por isso desagradável, da mocidade a velhice; tolcra-se, 
quando artificiosamente se desassombram as carrancas dos 
dias, communicando com alegria os velhos aos mancebos; 
a falta d'esta dextreza faz que os filhos, apartíindo-se do 
trato doB pães, quando menos os amam, as mais das vezes, 
no logar do amor, que lhe deviam, accommodam por viciosos 
outros objectos'». 

NSlo sabemos se das palavras d© D. Francisco Manuel 
de Mello se podem timr conseípiencias prejudiciaes para 
algum doa íUhos de D. Theodosio, o que é certo é que, em 
tal caso, devem referir-se a epocha posterior, attenta a pouca 
edade d'elles na que historiamos; e que ainda entUo não cabe 



* Bib. Nac, Mss., Taeito poríuffucz. 



43 

pecha alguma ao nosso bíographado , pelo muito amor que 
Bempre teve a seu pae, como este coiií*essou, e largamente ve- 
remoe no logar próprio. O que nSo padece duvida é que foi 
radical a transformação, operada por tão triste acontecimento, 
no seio díi família de Bragança, que, depois d'clle, se viu re- 

' dazida a um homem, nâo velho, mas já ua qiiadj*a dos des- 
enganos, 6 a trea meninos: D. Theodosio e seus alhos D. 

^ JoJlo, D. Duarte, e D. Alexandre, o primeiro d'efttes de dez 
annos. o segundo de nove, e o terceiro do iiete. Com o fal- 
lecimento da duqueza D. Anna ficara ainda o elemento fe- 
minino, conchego, conforto e providencia do lar domestico, 
representado peia duqueza mãe e por sua netji D. Catha- 
rina, uma, gloriosa cadeia que prendia a grande casa ao 
seu longo passado, outra, ilur nascida apenas que lhe per- 

, fomava o presente com a franca e communicativa alegria 
da innocencia. ^.íVrrebatadas ambas doeste mimdo pela dureza 
da fatalidade, esse lar tomou-ae pesado, soturno, viril de 
mais, sem a ternura c doce clandade que só emanam do 
coração da muUier. 



VII 



Em tamanha apathia e esmorccimcnto foi correndo o 
tempo, até que um facto notável veiu arrancar o duque ao 
longo torpor, era que por tanto jazera. Chegou o anno de 
mil seiscentos e dezenove, e Filippe IH resolveu passar a 
Portugal, a fim de celebrar cortes em Lisboa, e jurar n'ellaB 
o príncipe herdeiro, seu filho. Despertado por esta nova no 
^ seu retiro do Villa Viçosa, D. Theodosio como que recobrou 
O antigo ardor e actividade. Lembrou-se de quem era, e 
procurou, visto que tinha de apparecer [ante o monarcha 
heapanhol na qualidade de súbdito, que fosse o primeiro 



44 



entre todos, e que, em vez de ornar o cortejo ao usurpador 
da coroa dos reis seus antepassados, competisse com ellc em 
esplendor c bizarria. Era preciso ver-se e aaber-se que a 
casa de Bragança, apesar da morte da duqueza D. Catha- 
rina, que fizera diminuir as attençSes com que Hespauha 
sempre a tratara durante a sua vida, e, apeaar das poucas 
mercês que recebera, ainda se achava com pujança para 
brilhar, como nos tempos mais venturosos ; e era também con- 
veniente conhecer-se que o duque D. Theodosio a julgava 
bastante rica e forte, e tinha a necessária cxempçao e orgulho 
para n2o pedir nem acceitar novos favores que mais a opu- 
lentassem. N'e8te ponto o duque differia completamente de 
sua mâe. Cada um encarava as coisas a seu modo. D. Ca- 
tharina julgava que, sendo a casa de Bragança a primeira 
da monarchia, devia receber e merecia mais altos benefícios 
do que todas as outras, e que, pedindo-os e obtendo-os, a 
tomava mais apta para resistir aos vaevens da fortuna, e 
ás malquerenças dos inimigos, dispondo-a ao mesmo passo 
para o brilhante ftitiu'o que lhe desejava, e que nunca 
deixou de enti^ever era sonhos, emquanto nSo foi descançar 
da fadigosa lucta no silencio do gélido sepulchro. O filho, 
pelo contrario, menos politico, porém mais rígido, suppunha 
desdoiro receber as graças dos soberanos hespanhoes, e a 
tudo preferia o que, no seu modo de vêr, era consentâneo 
á sua jerarchia e á situaçRo em que se achava colJocado, 
elle duque de Bragança, elle neto do D. Manuel o legitimo 
senhor do throno de Portugal, cm írontc do rei estrangeiro 
e do roubador dos seus direitos. D. Theodosio considera- 
va-se o guarda da dignidade da família, e costumava dizer 
a miúdo: os meus predecessores tiveram o cuidado de ajun- 
tar e exaltar a grandeza de minha casa; a mim só toca 
trabalhar por conservar a honra e estado que elles estabele- 
ceram. Nobre resposta e digno exemplo na epocha de cor- 
rupçlo em que vi\*ia! Eloquente protesto de uma alma livro, 
era seu nome, e porque não em nome da pátria, contra a sa- 



45 



jeiçSo estranha! Mal soube portanto a noticia da vinda de 
Filippe LUj convocou as pessoas que o deviam acompa- 
nhar e preparou-se para a jornada e entrevista cora el-rei. 
Deu que falJar a magnilicencia da corte ducal n*e8ta solemne 
occíisiao, e limito mais a maneira por que o povo recebeu 
fcm Elvafe c em Lisboa o representante da casa de Hragança, 
assim como o altivO; inteiro procedimento d'e8te com a corte 
licspanhola e com o seu monarcba. 

A onze de maio pai-tiu D. Theodosio de Villa Viçosa. O 
acompanhamento la na disposiçSo seguinte : dois eatriboiroa 
bem montados ; uma trombeta bastarda ; vinte e quatro moços 
ã» vinte e quatro moços da estrebaria; os moços 

da.' I içaa, que Heriam outros tantos; cem alabardeiros 

àa guarda; o duque vestido de seda preta, em um soberbo 
coroei com bellos jaezes, tendo seu tílho, o duque de Bar- 
eelloB; .4 rafio direita, e á esquerda D. Francisco de Mello, 
primo co*irraao do marquez de Ferreira e parente ainda 
próximo de D. Theodosio; vinte e quatro fidalgos com- 
jnendadores, seus creados, adornados de diversas galas e 
mui custosas; os demaia creados nobres e de fiJro, trajando 
lambem ricamente; os lacaios com boas librés; o uma com- 
panhia de cavalleiros e homens nobres a cavalio, pouco mais 
ou menos trezentos, dos quaes quarenta cavalleiros da or- 
dem de CUristo, luaidamonte vestidos ; com o que passavam 
de seiscentos as pessoas que seguiam o duque, afora outra 
muita gente de cavallo, cjue se lhe íiggregou pelo caminho 
até Elvas. 

Grande alegria e alvoroço houve nesta cidade com a vinda 
de D. Theodosio. Numerosos cavalleiros e nuraerosissimoa 
peões e todas as danças c mais festins, que se tinham pre- 
parado para celebrar a visita d'el-rei, sahiram a recebel-o 
e foram com ellc até ao convento dos frades da Piedade, 
onde ficou. 

No dia seguinte dirigiu-se o duque ás casas em que pol- 
eava Fibppe rn, indo precedido das mesmas danças e fo- 



46 

nas. O concurso de povo na estrada era immenso, e o cor- 
regedor da cidíide ia deante, a cavallo, descoberto, abrindo 
caminho com todas as justiças da terra. Ao entrar em EU 
vafi a multidão acclamou-o cora expansivo jubilo, as senhoras 
lançaram-Lhc flores das jauellas, e só faltou receberem-o 
debaixo do pallio, para em nada ceder a sua festa á do 
próprio soberano, com a diíferença que a doeste era oflS- 
cial e, como tal, encommendada, emquanto que a outra 
partia espontaneamente dos corações saudosos de seus reis 
natura CS. 

Acolheu Filippe III os duques de Bragançíi e Barcellos 
com aa maiores honras e deraonstraçSes de apreço. A pri- 
meira cortezia dos recemchegados, levantou-so da cadeira 
collocada sob o docel e, feita a do meio da ciísa^ tirou o 
chapéo, abaixando tanto a mão como nunca praticara com 
vassallo algura, e logo, dando quatro passos fora do docel, 
abraçou o duque D. Theodosio, não consentindo que lhe 
beijasse a mSo. Ao duque de Barcellos deu a mão a bei- 
jar e abraçou. Em seguida, seníando-sc cl -rei, scntou-se o- 
duque de Bragança n*uma cadeira rasa com almofada de 
velludo negro, e D. JoSo n' outra egual, roas verde ^ depois 
do que Filippe III conversou alegremente com D, Theo- 
dosio. 

Doesta maneira acabou a entrevista o poderoso vaaaallo 
com o seu soberano; e, visitado o principe real, a princezji 
D. Isabel, e a infanta D. Maria Anna, partiu de Elvas para 
Villa Viçosa, sem que fosse cumprimentar o primeiro mi- 
nistro, o duque de Useda, embora algumas pessoas lh'o 
lembrassem como conveniente. NSo pasmou despercebida esta 
offensa ao valido do Filippe III, antes, contribuiu bastante 
para azedar mais as relações entre elle o o altivo fidalgo 
portuguez. 

A partida de I>, Theodosio, os sinos de todas as egrejas, 
por ordem do bispo D. Sebastião de Mattos de Noronha, 
repicaram festivamente, e o povo teve occasiSo de mostrar 



47 

outr* rez as suas sympathiaa á caaa de Bragança com 
o« applanfios e festas (|ae então prodigalisou aos dois du- 
qaes. 

Nâo foi menor o contentamento dos habitantes de Lisboa, 
quando D, Theodosio e seu filho primogénito passaram a 
esta líidade, por causa das curtes que arjui se celebraram a 
qnatorze de julho do mesmo anno. Saliiram de Villa Vi- 
çosa em direcção a Aldeia Gallega, onde embarcaram n'uma 
rica e formosa galeota, que o duque de propósito mandara 
fabricar em Esposende, terra pertencente ao seu estado. 
Era este barco doirado, e tinha vinte e quatro remos pin- 
tados' de verde. As emprexas e figuras que o adornavam 
excitai-ara a attençilo de muitos, e varias pessoas julga- 
ram haver n'ellas alluaSes recônditas á siluaçilo do reino e 
dn casa de Bragança, e ás suas pretençCes ao throno. Na 
popa, debaixo das grades da varanda, da parte direita, via-se 
a fabula de Andromeda, exposta á urca marinha; e da es- 
querda Jonas, lançando-o os marinheiros ao mar, á baleia, 
que devia tragal-o. Sobre o leme a scena dos trea moços de 
Cabylonia na foraalha. Nas palas azues dos remos liam-se 
em lettras de oiro as palavras seguintes : Nou est uhhrevutta 
vianuji Domiini. Sobre a varanda catava S. Boaventura, car- 
deal, com este dístico: Sccretum meuni mífii*. 

Chegou U. Theodosio a Lisboa no dia treze de julho, 
mesmo na véspera do auto do juramento, com o que se li- 
vrou de assistir á entrada solemne de Filippe III, a que 
86 acharam presentes qiiasi todos os fidalgos portuguezea. 
Eata demora não foi motivada, que o saibamos, por causa 
alguma especial, e, conforme é de crer, seria íilha da sua 
mA vontade ao governo do rei intruso. Atravessou D. Tlieo- 
dosio o Tejo, no seu mysterioso barco por entre as galés 
de Hespanha e as muitas embarcaç3e8 que o povoavam, 
e, desembarcando na Madre de Deus, partiu para a cidade 



•Ajrch. Kac. da Torre do Tombo, L.»» mas. n.<» 2121. 



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á meia uoíte. A cavallo, assim como seu ti lho, acoiupo- 
nLado da maior parte da fidalguia c de duzentos caval- 
leiroB que trouxera comaigo, todos seus creados, e mui- 
tos d'eUes do habito de Christo, e seguido das bençSoa do 
povo, o duque de Bragança entrou, qual outro soberano, 
na antiga capital dos reis seus antepassados, e, percorrido 
todo o comprimento d'ella, foi apear-se A porta dos seus fa- 
mosos paços, sitos onde chamamos o Thosoiro Velho. 

A sua viagem e estada em Lisboa assignalaram-sc por 
acções de grandeza e generosidade, e pelo amor que o povo 
sempre lhe manifestou. Desde Villa Viçosa até Aldeia Cral- 
lega, vciu D. Tlieodosio a cavallo, distribuindo graças c 
mercês pelo caminho, juntamente com palavras do nobro 
benevolência, e, ao chegíir á cidade determinou que n'esse 
dia^ que era sexta feira, e no seguinte todos os pescadores 
e regateiras ficassem livres de pagar siza ou outro qualquer 
direito de pescado, renda das mais Importantes da casa de 
Bragança. íso outro dia, logo do manhS, teve audiência 
d'el-rei, e á tarrle foi com o duque de Barcellos ao jura- 
mento do príncipe. O seu trajo era excessivamente mo- 
desto; alguém julgaria que andou n'Í8to acinte para mostrar 
descontentamento e pouco caso. Vestia de sargeta preta 
muito simples, com manteo de festo muito pequeno e f)or 
engommar, as botas bastjinte usadas, e o chapeo bastante 
singelo, de copa portugueza, com uma trancinha ou vto tao 
delgado que quasi se nSto via. Assim andou sempre e assim 
MBÍstiu não só ao juramento, mas também ás cortes. O du- 
que de Barcellos trajava com riqueza. lia solemnidade do 
juramento, que diu-ou desde as quatro horas da tarde até 
ás dez da noite, D. João foi o primeiro a jurar, e seu pae 
o ultimo, na qualidade de condestavel do reino. 

Bem se pode imaginar quanto repugnaria a D. Theo- 



> Bib. Nac, Mss., B., IS, 17, Pêro Rodrigues Soares, Todúê 
dinOM de memoria acontecido» nesta . . . cidade de Liiòoa . 



J 



49 



dosio este acto, a que não lhe era dado esquivar-ee sem 
ronnjfesta demonstração de rebeldia; mas narra D. António 
Caetano do Sousa que elle cut2o e cm toda3 as mais cortes 
a qae assistiu reclamou o juramento prestado, como constava 
de dois protestos que se acharam depois da sua morto, por- 
que emquanto viveu não os fiou nem de seus filhos; e o ter- 
ceiro conde da Erictíira, no Portugal restauradoj refere que 
assim o ouvira muitas vezes ao próprio rei D. Jo5o IV, 
Quanto ao duque de Barcellos, escreve o mesmo D. An- 
tónio Caetano de Sousa, que D. Tlieodosio lhe dissera, 
pouco antes, que n^o tencionasse jurar (restricçiío mental 
ainda nSo condcmnada pela egrcja) e que nmica seria va- 
lido ura juramento extorquido e feito pelo medo, t que cahe 
no varão constante i>, <> que frequentemente annullara até os 
votos de profissão religiosa. Assim conservava D. Theodosio 
a crença do seu direito no intimo d'alma, já que o não po- 
dia converter em realidade, educando seus filhos com tSo 
digno procedimento, para o respeitarem e guardarem como 
eUe, 

Terminadas as cni-tes, demorou-se D. Theodosio ainda 
algum tempo em Lisboa, e a dezeseis de agosto partiu paru 
Villa Viçosa. Durante esse tempo fallou a el-rei em vários 
nogocios, não seus, mas respectivos ao bem do reino, e dis- 
tribuiu avultiidas esmolas a viuvas, pobres o conventos, dei- 
xando todos obrigados a rogarem pela sua vida. 

Assim procedia D. Theodosio, attrahindo sobrf si as at- 
tençòes dos portuguezes, que sempre o rodeavam de admi- 
ração e aflfecto. Pela sua parti-, Filippe Hl, estranho e te- 
meroso no meio dos seus súbditos, guardado do continuo 
|»or fidalgos hespanhoes, e evitando a companhia dos por- 
tuguezes, occulto no fundo dos .seus coches, porque rara- 
mente andou a cavallo, ou encoberto pela pompa armada 
e pelos festejos oppressoros da tyrannia, Filippe 111 ac- 
ceitava as honnis e signaes de respeito que lhe tribu- 
tavam, sem se approximar do povo de que era soberano, c 



M. I. D. D- — T. I. 



50 



sem ao menos se tornar agradável á nobreza do paiz, como 
praticara a astuta politica de seu pae. 

Ao passo que D. Theodosio realisou a viagem á sua custa, 
despendendo largas quantias com os gastos d' cila e com as 
mercês que concedeu pelo caminho, o senhor da poderosa 
roonarchia hespanhola pediu a Portugal grosso donativo em 
dinheiro para ajuda das despezas com a sua vinda a este 
remo, subindo só o da cidade de Lisboa a duzentos mil 
cruzados, e cuidou mais de folgar e gosar a recepção que 
Uie fizeram, do que de attender ás queixas e supplicas de 
seus vassallos. 

Ao passo que D. Theodosio entrava festejado pelo amor 
o bênçãos dos portuguezcs, Filippe 111, depois de as- 
sistir em Évora a nm auto de fr, chegava a Almada a 
dois de junho, e, receioso do povo de que era rei, e que 
visitava, corria a esconder-se no mosteiro de Belém, onde 
esteve um mez, segundo uns si espera de se concluírem os 
aprestos dos festejos, e, segimdo outros, com mais proba- 
bilidade de acerto, aguartlando que chegassem ao Tejo as 
galés de Hospanha para fazer a entrada. 

Foi calamitosa a honra que o filho de Fihppe II conce- 
deu a Portugal com a sua presença, porque nSio remediou 
nenhum doa males que o aggravavam, antes, peiorou a dif- 
ficil situaySo em que elle se achava; mas trouxe comsigo 
um resultado salutar e de que só mais tarde se havia de 
colher o abençoado fructo : o augraento de antipathia entre 
portuguezes e hespanlioes. A barreira que sempre exis- 
tira no meio dos dois povos, cimentada pelas lagiimas e 
pelo sangue de tantas víctimas, cresceu desmedidamente 
com as relações mais intimas dos vencidos e dos vencedores 
e com os ódios, desprezos c oppress3es que n^essa conjim- 
ctura 80 manifestaram. Aos donativos para a viagem d'el- 
rei e ao alojamento forçado das tropas hespanholas em Lis- 
boa, cora gravíssimo damno de seus moradores, que tíveram 
de abandonar as próprias casas, ou resgatal-as a dinheiro. 



51 



seguiu-se a profanação doa conventos, onde os filhos da 
nobre e eatholica Hespanha pagaram a generosa hospitali- 
dade dos religiosos, estragando, roubando e devassando o 
recato das habitaçSes sagradas. Mas nSo bastavam tJo tristes 
acontecimentos : ainda se deram outros mais extraordinários 
e mais dignos de consideração, attestados, bem como parte 
dos antecedentes, por pessoa contemporânea, e ás vezea 
testemunha presencial. Qual verdadeiro inimigo, o soberano 
liespanhol deixou na sua passagem pela terra portugucza 
rastos de sangue e destruição, e obrigou os seus súbditos 
a fiigirem d'elle, da mesma maneira que fugiriam de um 
exercito invasor. Desejou Filippe m ir á festa de Nossa 
Senhora da Luz; mas, chegando ahi encontrou os soldados 
hespanhoes e os nossos envoltos em rijo combate, que só 
acabou com a sua intervenção, depois de durar duas horas, 
e de ficarem sessenta feridos e quatro ou cinco mortos. 
Teve também vontade de ir gosar as delicias do Cintra, 
porém 08 habitantes, em vez de o receberem com festejos 
e demonstrações de alegria, julgaram mais prudente aban- 
donar a villa, atemorisados pelos exemplos de paternidade 
e brandura do monarcha intruso *. Que provas evidentes de 
união entre os dois paizes e de amor eátre o rei e os seus 
vassallos ! 

Não ficou exempto D. Theodosio de provaçSea e desfeitas 
por parte dos heapanhoes; nem era possível que o ficasse, 
visto o seu passivo, mas claro antagonismo á corte e ao 
governo de Filippe III, evidenciado cm tantos ensejos. 

Nas suas relaçSes com el-rei tanto em Elvas, como em 
Lisboa, o pae de D. Duarte maravilhou a todos pelo seu 
caracter austero e pelo desinteresse e abnegação que mos- 
trou sempre deante dos estrangeiros dominadores da sua 

* Bib. Nsc, Mfis., B., 18, 17, Pêro Kodrigues tíoarea : Todos os oa- 
tOê dino» de memoria acontecidos noia. . . cidade de Litboa.. . — Id., 
B., 9, 37, Carta que se mandou a hwn amigo acerca daafeata» dd Rey 
«m Litboa a 20 de outubro de 619. 

4« 



52 

pátria. Se Filippe IH em Elvas, aiite« de o ver, lhe man- 
dava perguntar como queria que o tratasse, respondia: «Bem 
sabe el-rei meu senlior como se recebem os duques de Bra- 
gança e Barcellos». Se mostrava pretender fazer-lhe mer- 
cês, obtinha d'elle por imica resposta: «Nossos avós deixa- 
ram a casa de Bragança tSo engrandecida, que mais se acha 
para exercitar, que para pedir benefícios. Do reino e sua 
nobreza espero que vossa magestade se lembre, porque eu 
somente me satisfaço com a permissão de casar o duque 
meu filho onde convenha». Todos, até os mais nobres e alti- 
vos, cortejavam submissos o duque de Useda, valido omni- 
potente, e o confessor d'el-rei, quasi tôo poderoso como 
aquelle, porque eram as duas portas por onde se entrava ao 
paço c os dois canaes únicos para obter os favores do mo- 
narcha; pois D. Theodosio, ao contrario de todos, o maior 
do que todos, nfto os visitou quando veiu ás cortes de Lis- 
boa *. Assegiu-a-se até geralmente que fallou ao duque de 
Uaeda por senhoria; mas este ponto parece desmentil-o a 
carta que D. Theodosio lhe escreveu quatorze ânuos antes, 
em dezeseis de julho de mil seiscentos e cinco, para ae nSo 
conceder excelleucia ao duque de Aveiro, em que lhe dá 
este tratamento e usa para com elle de linguagem respeitosa 
e amável*. 

Tornaram-sc tào notáveis estes lactos, que o duque d' Alba, 
escrevendo a D. Pedro de Toledo, que acompanhara Filippe 
m a Portugal, sentia nSo ter vindo também, só para vêr 
um duque que regeitava as graças d'el-rei, offerecendo-lh'as, 
e que assim tratava os dois validos. 

Semelhante comportamento, jú nobre, já demasiado so- 
branceiro, junto á sua elevadíssima posição e contrariedade 
a Hespanha, toniaram-o alvo de alguns dissabores e desat- 



' D. António Caetano de Sousa, Hiat. genealoffiea, 
2 Bib. Nac, Ms8., Livro de documentos acerca do conde de Castro 
Daire. 



53 

tcnçSes que nâo deixaram de mortifical-o, mas de que sahiu 
TÍctorioso sempre pela eua grandeza e prudência. 

Todos estes successos, em que não figura D. Duarte, quer 
pelos seus tenros annos, quer por então ae achar enfermo *, 
julgámos necessário summarial-os brevemente, para relevar 
A figura de D. Theodosio. Nem elles lhe foram inúteis; por- 
que, vendo-os ou ouviudo-os, aprendeu com seu virtuoso pae, 
a cujo próximo e sympathico influxo mal resistiria a sua alma 
juvenil, notabilissimos rasgos de hombridade e desinteresse. 

Quanto nilo deveria o amor com que depois se dedicou 
ao estudo ao saber de D. Theodosio; o culto que sempre 
professou á egreja á sua piedade religiosa; a liberalidade 
em âoucorrcr os pobres á sua nunca desmentida beneficên- 
cia; a grandeza com que procedia por habito á sua ma- 
gestade verdadeiramente real; e a inteireza no affrontar a 
desgraça «^ as peraeguiçSes dos inimigos á sua constância 
inquebrantável na adversidade! Todas estas virtudes, que 
tomaram singular a sua natureza, nSo foram talvez mais 
do que os fnictos amadurecidos pelo tempo da prolifica 
semente lançada no bom terreno do seu tenro espirito pela 
grande alma que animou o duque seu pae. 

Dois annos depois, era mil seiscentos e vinte e um, mor- 
reu Filippí' ITT, o succedeu-lhc no throno seu filho Filippe 
rV. Com esta alteração entrou no elevado cargo de minis- 
tro da gigante monarchia peninsular o conde-duque de OH- 
vares, D. Gaspar de Tilusmão, o qual resolveu contemporisar 
com tamanho vassallo, como era D. Theodosio, e corres- 
ponder-se melhor do que o seu antecessor com a casa de 
Bragança, ou por o julgar mais conveniente á sua politica, ou 
induzido por fins particulares a ellc, como veremos adeante, 
nâo só a respeito do casamento do duque de Bnrcellos, mas 
t também do que projectou para D. Duarte com sua filha. 



1 Arch. do Estado de MilSo, Processos de D. Duarte de Brogança, 
interrogatórios do mesmo. Mas. 



.-t 



LIVRO II 



Educação litteratia de D. Duarte. — Descuido provável de D. Theo- 
datkia n'e»te pouto. — Parte qa^ ii'isso teve a politica de Haspanha 
— Grandeza da casa de Bragança e receios coueebidoa do seu po- 
der pelo governo de Madrid. — Período fin»! da exiatenfia de D. 
Thcodosio. — Deaiotelligencia com aeu filho prímogruiito. — Pro- 
cura D. Thcodosio casal-o. — Oppòe-se-lhe Hcspanha. — Entra o du- 
que de Barcellos em negociações secretas com Oiivares, por este 
motivo, sendo meio D. Francisco de Mello. — Intenta Oiivares ca- 
sar sua filha com D. Duarte. — Doença de D. Theodosio. — Des- 
volam-se por cllc D. Duarte e seus irinilos. — Preparativos do du- 
que para o transe fatal. — Dcspedc-se dos filhos e recommendaD 
Duarlc ao duque de Barcellos. — Morre. — O seu sahimento. — As 
suas exéquias. — O seu retrato physico. — Nunca se esqueceu dos 
seus direitos ao throno. — Provas de afFecto c respeito dos portu- 
guezes por elle.— D. Theodosio sebastianista? — Obras que lhe 
foram dedicadas \ relações litterarias que teve e influencia d'estas 
em D. Duarte. — Escriptos pela sua morte. — O seu testamento. — 
Kecommenda n'elle novamente D. Duarte ao duque successor. — 
Deixa-lhe Villa do Conde e 20:00<) cruzados.— Porque se lembra 
tanto de D. Duarte? — Se este entrou na desintelligencia de D. 
Joilo com seu pae. — Occupaçòcs de D. Duarte. — Sua livraria. — 
Suas ca\ aliarias e «íaçadas com J^. Joào c com o velho duque. — E 
ferido. — Era o esmoler de D. Thcodosio e pedia para os pobres. — 
As festas na capella de Villa Viçosa e a parte que tomavam n'el- 
las D. Duarte e seus irmãos. — Como, de génio triste e apaixonado 
das musa», gostaria da solidão dos campos. — A sua gentileza e 
amores. — Mudanças no paço ducal e no governo da casa com o 
novo duque.— Se D. Duarte contribuiu para essas mudanças. — 
Deixado o casamento de D, Maria Anna de Toledo e Portugal, 



56 



sua Bobrinbfl, cuidasc no de D. Luiza de Gusmáo. — Contraria-o 
D. Duarte. — Francisco de Souaa Coutinho, contm vontade, idti- 
ma 08 ajustes d'elle. — Obras no paço ducal e preparativos para 
effoituar-se. — Últimos tempos do solteiro de D, João passados com 
6CU8 irmãos. 



I 



Quando falleceu a duqueza D. Catliarina, contava B. 
Duarte nove annos e meio, e devia ser por esse tempo que 
coraef-ou as suas fadigas litterarias, pois entilo não se ama- 
nhecia tào cedo para cilas, como hojo acontece. Desdo mil 
seiscentos e quatorzo ató mil seiscentos e vinte um, pe- 
ríodo em que estamos, isto é, desde os nove annos até aos 
dezeseis e nos iramediatamcnto seguintes completaria ello 
quasi a educação scientifica, que lho foi ministrada no lar 
paterno; por este motivo procuraremos dizer aqui em globo 
alguma coisa a tal respeito, já que não se torna possível 
lazel-o chronologicaraente o cora particularidatk, pela in- 
certeza das epochas e dos factos. 

Antolha-se-nos este um ponto difíicil. Sabemos que teve 
bastante instrucção D. Duarte; mas somos levado a snp- 
por que muita adqmiriu-a no gabinete, pelo seu génio ap- 
plicado, depois do homem, na pátria e nos paizes estran- 
geiros, onde permaneceu t3o longamente, D. António ( 'ae- 
tano de Sousa diz que foi versado nas bellas lettras e artes 
liberaes; que soube com perfeiçflo a língua latina; fallou 
a franccza com proprioda<lc, e tão polida como dclicnda- 
mente; e da mesma forma a italiana; e a hc^panhola tSo 
bem como a natural ; que depois, applicado á allemS, nSo 
se contentou de aprcndel-a; sem declarar todavia quando 
cursou estíis disciplinas e cora quem. Fr. Tiniotheo Ciabra 
Pimentel, que tauto v couheeeu no infurtuaio o antes d'elle, 
assevera geralmente que «os seus estudos menores e maio- 



57 



; fi>Z!Bj|l sempre o conhecimento das humanas e divinas let- 
tras, e qne se avantajou muito nas humanidades e natural 
philosophia'». 

Se acreditássemos o terceiro conde da Kriceira, D. Duarte 
chegaria a escrever perfeitamente o iiespanhol, e teria com- 
posto n'e8ta lingaa um tratado acerca da guerra dos Trinta 
Annos*; e, se fosse certo o que dizem os nossos bibliogra- 
phos, teria publicado, debaixo do nome de JoSo Baptista 
de Leão, ura volume de poesias suas na cidado de Milão ^. 
O que pela nossa parte acreditamos, ou por andar em 
documentos fidedignos, ou por ser razoável, •'•: que falou o 
latim, conforme o testemunho do doutor Navarro, na noti- 
cia que deu da sua prisSo^ que escreveu o italiano doa- 
aprimoradamente, do que restam provas n'ims versos de 
Bua composiyào, e n'uma carta; que conheceu o henpa- 
rhol, o qual, segundo elle mesmo confessa, apenas prati- 
cou depois de preso em Milão, e que escreveu com pouco 

. esmero; que, passado algum tempo de residência era Alle- 
manba, se familiarisou com a lingua do paiz, que utilisou 

' para ampliar a instrucçâo e para o trato continuado com os 
aeus habitantes; que foi affeiçoado á poesia; que dispunha 
de um certo pecúlio do historia e de theologia; que passou 
por sabedor na arte da guerra; que os seus conselhos eram 
muita vez attendidos com respeito; e que, tanto em Por- 
tugal, como f('»ra, manuseou frequentemente os livros, de 
que tinha uma rica e abundante coUecção em Villa Viçosa, 
e de que adquiriu j^rande quantidade nas terras eatrangei- 
raô onde viveu, como tudo melhor veremos no decurso 
d'03ta obra, o que prova a sua conslancia no estudo. Isto 
Babemos; porém de tudo isto parcoe-nos transluzir princi- 
palmente a intkiencia pessoal de D. Duarte, da sua Índole, 

* Pantgyrko funeral. 
' Portugal rcutívirado. 

' Uifrgo llitrlx>8a Machado, Bib. lueUana. — íiinocencio Francisco 
ria 8ilv», Dicc. Bibliographico. 



58 



da sua appIicaçSlo, dns suas viagens, e do commercio que 
sustentou com tantos homens eminentes e de tantas nacio- 
nalidades. 

N5o é de presumir que a sua educação litteraria fosso 
mais esmerada que a do duque de Barcellos, herdeiro da 
casa de Bragança, e que a do D. Alexandre, seu irmão 
mais novo. Demos porém de barato que D. Theodosio, pela 
predilecção que por elle teve, predilecção cabalmente cor- 
respondida, Jhe dedicasse especiaes cuidados, Interessando- 
se mais no seu ensino do que no dos outros filhos; ainda 
assim, nSo julgamos provável, que a somma de conheci- 
mentos variados, que patenteou nos annos viris, fosse pre- 
parada solidamente pelos estudos da adolescência em com- 
panhia de seus irmSos e debaixo da influencia de seu pae. 
E como esses estudos deviam ser simultâneos a todos, at- 
tcnta a pouca diftcrença de cdade entre os lilhns de D. Theo- 
dosio, e sobretudo entre D. Joào e D. Duarte, pois este só 
tinha ura auno mais do que aqucUe, vejamos qual a edu- 
cação que recebeu o primogénito, para d'ald tentarmos ti- 
rar alguma luz, ainda que duvidosu, a respeito do nosso 
protagonista. 

Diz o auctor do Tácito jtortiiguez no ponto sujeito: «Os 
mais austeros requeriam o mais constante progresso á crea- 
Çào dn duque de Barcellos; grandes razoes d'est.ado, uSo 
sei se firmes, Ih a solicitaram ommissa ou intercadente. Fi- 
zeram entender ao duque D. Theodosio que crear seu tilho 
com raagêstade era fazei o réo d'ella, e que &("> se conteu- 
tasso com logral-o qual lhe saliisse; pois pelo resplendor 
do carbúnculo perde a vida o animal de que é produzido» ; 
e accresc<"ínta: «Politica é esta maia diffieil que incerta. Per- 
suado-me que grandes íins obrigaram a que se faltasse n'este 
tempo ao culto de ura tão grande herdeirot- D. António 
Caetímo de Sousa transcrevo esta passagem, como outi-as 
muitas da obra de. D, Francisco ^Miuiuel de ^lollo, cora al- 
gumas alterações, porém conserva os mesmos pensamentos. 



59 

Parece portanto poder-se concluir dos logares adduzidos 
que o pouco cuidado de D. Theodosio e conselhos nimia- 
mente cauteloso» ou pérfidos obstaram a que o successor da 
casa de Bragança fosse educado como era devido; e que 
esses conselhos, segimdo toda a plausibilidade procederam 
da influencia de Hespanha, ou dos seus partidários, e n3o 
menos dos que temiam o seu poder. 

Com efFeito os governos d'e8te paiz olhavam com ciúme 
e receio a grandeza do poderosíssimo ducado, cujos senho- 
res ligava próximo ou remoto parentesco a tantas casas 
soberanas, e cujas terras e direitos absoi'viam uma notável 
porçfto das terras e direitos do reino de Portugal. Além 
d'isto, a justiça das suas pretençi5e8 ao throno de D. Af- 
fonso Henriques , despresada e calcada aos pés pelos exér- 
citos victorioaos de Fillippe D, e só de tal modo vencida, 
e o descontentiimento mal occulto dos portuguezes, faziam 
com que a corte de Hespanha procurasse sempre todos os 
meios de cortar as azas aos ambiciosos desejos dos seus 
maiores vassallos. 

Se ha quem duvide da authenticidade do voto de um mi- 
nistro hespanhol dado a Filippe H, quando a duqueza 1). 
Catharina, já perdida a esperança de cingir íi coroa dos reis 
BGUâ antepassados, lhe pediu diversas mercOs, voto que traz 
a Historia genecdogicaj e que um raanuacripto attribue ao 
feroz duque d' Alba *, nem por isso o espirito d'elle e a mar- 
cha ahi indicada deixou de seguir-se em parte, tanto quanto 
as circumstancias e o tempo o consentiram. Nilo se atreveu 
Hespanha, é verdade, a dividir o extenso e valioso estado 
entre os filhos dos duques, porque era exasperar a naçÂo, 
mas envidou todos os esforços para a fami!ia Bnigantina, 
vergontea e origem de monarchas, nào se alliar por affini- 
dade a famílias reinantes, preferindo casar os seus mem- 
bros na península com títulos inferiores em nobreza e pO' 



» Bib. Nao., Msfl, E, 5, 7. 



m 



der; e, tendo-lhe feito bastas e grandiosas promessas, qtum- 
do precisava d*ella, julgou depois conveniente cercear as 
gi-aças o mais possível, sacrificando a honra da palavra em- 
penhada ás suas conveniências politicas. 

E tinha razão para receiar-se, como demonsti'ou mil seis- 
centos e quarenta. Essa casa, unida pelos laços do sangue 
a tantas testas coroadas ; que se compunha de todos os offi- 
cios da real ; que se servia de fidalgos de qualidade e nas- 
cimento illustre, a qtie os duques liberalisavam pensSes e 
commendas até cinco mil cruzados; cujos familiares ex- 
cediam em numero oitocentos, rada um com distincçáo do 
foro que gosttva, como no paço dos soberanos; que dava 
quarenta commendas da ordem do Christo o dezoito alcai- 
darias-móres dos castellos de suas villas; que possuia um 
padroado composto de maís de cento e sessenta bcneticios, 
conezias e egi-ejas, das qimes duas eram as collegiadas do 
Barcellos e de Ourem, c a que também pertencera a cele- 
bre collegiada de Guimarães, entSo em litigio ; essa casa que 
provia mil e trezentos officios de justiça e fazenda e os pos- 
tos militares de sai-gentos-móres, capitães e outros officiaes 
de guerra; que tinha um tribunal de ministros togados, a 
quo cabia a decisão das suas causas; cujos senhores usa- 
vam as armas dos infantes, de quem desfi-uctavam as hon- 
ras e prerogativas, e a que se seguiam em cathegoria, além 
do privilegio de só entre todos os nobres usarem por lei 
do titulo de excellencia, (pelo menos até mil seiscentos e 
seis, em que ao duque d' Aveiro foi feita egual mercê) *, e 
de não serem empregados pelos reis senão nos principaes 
cargos, ao passo que a clles se recorria nas instantes ne- 
cessidades publicas, que sempre auxiliavam com prompti- 
dâo e generosidade; essa casa, a máxima de toda a penín- 
sula e, segundo alguém, de toda a Europa, devia ser res- 



i Bib. Xttc, Ma8,E, (í, 32, foi. 11 v,,alvani de 2(J de junho do dito 
atino. 



61 



peitada e temida sempre, e muito mais encravada na vas- 
tíssima monarehia hispano-portugiieza, como um reino den- 
tro de outro reino, como ameaça permanente de insurreiçilo, 
como alvo appetecido de um povo outr ora livre e entSo in 
soflfridamente sujeito, que via nVIla um simulacro dos seus 
verdadeiros soberanos e da líljcrdade da sua Je:íditosa pá- 
tria. 

Fluctiiando entre o temor de se malquistar com Portugal 
inteiro, se perseguisse o ducado de Brugança, e entre o de- 
sejo de o abater, desejo de que participava a nobreza bes- 
panhola, também ciosa da sua preponderância, o governo 
dos Filippes tentou por todas as maneiras attenuarlh'a dis- 
farçadamente, já pondo obstáculos aos casamentos vanta- 
josos dos duques e de seus filbos, como dissemos, j» recu- 
aando-lbe, quanto possivel, as mercês com que elle tentava 
augmentar-ae, sobretudo cmquanto durou a vida á duqueza 
D. Oatharina, que n^esse empenlio sempre se mostrou so- 
licita. Nâo ó porém de presumir que a curte de Madrid se 
contentasse unicamente com isso. Alcançavam mais longe 
as suas vistas, ou muito nos enganamos. Todos sabem como 
era complexo e paciente o aeu systema de corrupção, e que, 
para vergonha sua e nossa, o oiro e as promessas, cora que 
Filippe II subornou tantas consciências vis, tiveram mais 
peso talvez na obra da usurpaçSo da coroa portugueza, do 
que os seus próprios exércitos. K um quadro ignominioso, 
baatante sabido, e que nos repugna esboçar novamente. NSo 
devia portanto o paço de Villa Viçosa. tSo perigoso, deixar 
de ser vigiado de perto; tornava-se mesmo preciso que o 
fosse; e n3o fnltariam entre tantos .servidores algumas al- 
mas corrompidas o vcnaes, que pagassem com a negra moeda 
da ingratidílo os favores que lhes haviam prodigalisado. Era 
o mesmo facto que se dera em maior escala no reino, o 
quo se devia repetir, attendeudo a que os tempos nào cor- 
riam melhores, toda a vez que se empregassem idênticos 
meios criminosos para obtel-o. Alguns dos nomes d'esseâ Jn 



62 

das passaram até nós, apesar das reservas dos historiado- 
res; e Aflfonso de Lucena, secretario, desembargador e con- 
seDieiro da duqueza D. Catharina, de que tanto ella se ser- 
viu na epocha das que8t5e8 da successâo do reino, FemSo 
de Mattos, seu irmSlo, e Francisco de Lucena, filho do pri- 
meiro, attrahiram sobre si por aquelle motivo o anathema 
da posteridade. Ájffonso de Lucena era fama entre os crea- 
dos da casa, seus contemporâneos, que recebera de Filippe 
U pingnes beneficíoa á custa de seu amo, e que, pelos seus 
serviços ao monarcha hespanhol, fôra seu irmSo, Fernão de 
Mattos, egualmente desagradecido ao que devia á casa de 
Bragança, nomeado secretario de estado do conselho de 
Portugal em Madrid j e Francisco de Lucena, successor 
d' este no dito logar, depois mandado para o reino como 
secretario das mercês, e, posteriormente á acclamaçao de 
D. João IV, eleito seu secretíi.riod'estado,accn8aram'0 tanto 
de intelligencias criminosas com Ilespanha, que, convencido 
de traidor á naçSio e ao seu rei natural, soffreu ignomi- 
niosamente a pena de morte. Fora estes outi*03 haveria; e 
que muito, se até entre os próprios parentes dos duques 
vamos encontrar um D. Francisco de Mello, modelo de in- 
gratos, apóstata da santa religião da pátria, falso conselhei- 
ro, e finalmente inimigo declarado da casa da Bragança, e 
perseguidor acérrimo do desditoso D. Duarte! 

Projectou a corte de Madrid, como veremos, nos últi- 
mos annos do seu domínio em Portugal, confundir os se- 
nhores d'e8ta famiiia, em tudo singular, com os outros no- 
bres da monarcliia hispano-portugueza, empregando-os a 
seu bel-prazer; recusou aos filhos de D. Theodosio II o 
tratamento concedido aos grandes de Ilespanha e quasi to- 
das as mercês que lhe pediram * ; procurou até fazer sahir 
o duque D. João do reíno, com o pretexto de lhe dar o go- 



t Bib. de Évora, Mss., lOíl, 2, 11, foi. 228, Proteato do infante con- 
tra o «eu processo. 



63 



verno do estado de jMJlâo: quem nos diz pois que nlo en- 
trava também nos planos da politica hespanhola acanhar a 
educaçSo litteraria dos seus membros diminuindo-lhes, por 
esse modo, a aptidão e as ambiçi^es, e com ellas as proba- 
bilidades de um dia subirem ao throno doa reis portugue- 
zes? 

Teremos pouco adeante occasiSo de ver ôomo o elemento 
hespanUol influiu preponderantemente nas discórdias susci- 
tadas entre D. Theodoôio e o duque de Barcellos, e como 
se formaram, mesmo dentro dos paços de Villa Viçosa, dois 
partidos: o do pae, composto de grande numero dos seus 
mais affeiçoados, que adheriara, ou por as julgarem prefe- 
ríveis, ou por amisade ou dependência, ás idi'as rígidas o 
patrioticaa que o animavam; e o do filho, em que entrava, 
ali*m de outros, aquelle elemento, o qual, attrahido, enga- 
nado por elle, transigia, até certo ponto, com os oppressorea 
da naçSo e com os disfarçados inimigos da casa. 

Mas nSo foram só os conselhos dos timoratos e dos trai- 
dores, que induiram n'e8te procedimento do duque, tanto ao 
avesso dos actos de coragem, que illustram a sua historia; 
outra causa, e poderosissima, o levou a descurar a edu- 
caçilo dos filhos: o abatimento do seu espirito e o mysti- 
cismo e retiro a que de ha muito se havia condemnado. 

Recebera D. Theodosio do duque seu pae uma creaçSo 
nimiamente religiosa, e d' elle herdara o pendor em extremo 
espiritual da sua indolc e a sua natureza remissa. Ignora- 
mos se na juventude mostrou ou n3Lo signaes de terem fructi- 
ficado os exemplos que D. João I lhe dera, e se os infor- 
túnios próprios e da família, cora a perda da questão dos 
direitos d'ella ao throno portuguez, c oa da pátria com a 
ruina da siia liberdade, foram causa de se desenvolverem 
e patentearem livremente. Se tal aconteceu, o florir dos 
annos e a domestica feUcidade, que logrou ao lado da du- 
queza D. Anna, contiveram a corrente mystica do seu gé- 
nio nos canaes, de que por ventura ameaçava transbordar. 



f)4 

Fulminado porém dentro em breve, e quando menos o es- 
perava, pela morte da esposa querida, e cinco annos depois 
pela de sua mSc, D. Theodosio sossobrou em tamanha des- 
graça, e, fugindo do mimdo para o seio consolador da re- 
ligião, o melhor re^gio dos desditosos, procurou só abi, 
muita vez com detrimento seu, da casa e dos tilhos, o re- 
médio aos espinhos iusupportaveis que o flagellavam. «Nem 
no trajo de sua pessoa, nem no ornamento do seu palácio, 
nem nas camas de estado da sua camará, se viu mais outra 
coisa, até á hora da sua morte, que paredes nuas sem dó- 
ceis, nem tapeçarias, cadeiras negras, dormindo em uma 
camará, que parecia cella de um religioso, sem outras col- 
gaduras mais que as de uns lençoes de hollanda que pare- 
ciam mortalhas» . Eis como o descreve o padre Bartholomeu 
Guerreiro*, que conheceu D. Theodosio, desde a edade 
de vinte e dois annos até ao momento era que expirou, 
isto é, durante quarenta e um annos, e assistiu na sua cOrte 
sete annos inteiros, em vários tempos. Se em algumas oc- 
caaiSes o arrancou da sua vida retrahida e apatliica a voz 
solemne da pátria ou a honra e os interesses dos seus, foi 
só por pouco tempo, e unicamente para voltar á solidão 
com maior anciã e mais aborrecido da sociedade. 

Este retiro e desapego do mim do aggravava-o a exag- 
geração das praticas religiosas. Todos os dias ouvia missa 
D. Theodosio, e posto que de ordinário fosse cantada, fa- 
zia-o sempre com ambos os joelhos em terra, do principio 
ao fim, sem se servir de almofada, nem mesmo quando o 
abateu a edade ou o debilítí»ram as doenças. Resava tam- 
bém todos 08 dias o officio divino, os do Santíssimo Nomo 
de Jesus e de S. José e o psalterio de S. Boaventura, diri- 
gido á Virgem Nossa Senhora para impetrar a graça no ar- 
tigo da morte. O tempo que podia reservar dos negócios em- 



' *y'crfimo nas e.rc'iui<t<i ão anuo </»<?; ee fizeram ao jJrincijyc U. Thto- 
dono II, duque de Bragança i-m, VUta Viçosa, r^ÍBlK)a (1632). 4." 



65 



pregava-o na oração mental, em colloquios espirituaes e em 
repetidas confissões, ^ão contente com tantas provas de re 
ligifio, dizem, vaJha a verdade, que, para melhor merecer 
a graça de Deus, mortificava o corpo, c usava para o eflfeito 
de cilicioB de seda ou de cadeias de ferro. Quando chegava 
a quaresma, corria os passos da PaixSo, descalço, vestido 
de luto, ao modo d'aquelle tempo, com capuz e uma grande 
opa, e nos três últimos dias da Semana Santa jejuava a pão 
e agua, não se deitando em cama, nem sahindo da tríbumi 
da capella, desde que se depositava o Sacramento até ao 
dia de pasdioa. Estando desencerrado o Sacramento, assis- 
tiarlhe sempre de joelhos, sem se assentar, nem mesmo ao 
sermão. Gostava muitas vezes, abandonando a corte e a fa- 
mília, de se retirar ao convento dos religiosos da Piedade, 
qae edificara, não somente para rezar, mas também para 
os servir, quando comiam no refeitório, occupação que exer- 
citava a miúdo; e, quando comia com elles, não consentia 
que nenhum o servisse, fazendo-o um moço fidalgo, que 
para isso levava. Outras vezes juntava-se-lheâ com muita 
familiaiidade e travava com os doutos disputas curiosíis 
sobre a intelligencia de passagens da Sagrada Escriptura, 
em que era bastante versado, e de que costumava na con- 
versação adduzir diversos textos, para confirmar o qne 
avançava, ou lhes propunha casos de consciência na tbco- 
logia mystica e moraI| e, por ser dotado de muita me- 
moria, aconteceu haver algims em que na pergunta lhes 
apontava o logar e auctor que os resolvia. Como se porém 
ainda não bastassem os muros de um convento para o sepa» 
rarem da convivência mundana, fugia d'ella frequentemente 
recolhendo-66 na ermida de Santo Eustachio, erecta na ta- 
pada de Villa Viçosa, conforme sabemos, e ahi na solidão 
e no silencio empregava-ae todo em meditações e exercí- 
cios do amor de Deus. 

Além d' isto, 08 retiros campestres eram os seus enlevos 
e concorriam para lhe tomar grande parte do tempo, que 



H. I. D- l>. T. 1- 



66 



lovia aog cuidados domésticos. <0s logares apartíidos, mor- 
mente 08 saudosos d'€sta tnpada ...» diz o aiictor do Par- 
Ticwo de Vala Viçosaf descrevendo-a e referindo-se a D. 
Theodosio, «sabido é de quanto movnmcnto serão causa cm 
um coração contemplativo ou magoada, para quo assim no 
do nosso príncipe alevantem elles innumeraveis pensamentos, 
fva que seu juizo claro e grande entendimento se exercite e 
occupe, nào só era horas certas do dia, mas em todo elle, . . . 
achando-se ora á \nsta d 'alguma fonte, que entre arvores 
esteja como escondida, para em maior saudade ser desco- 
berta, ora mcttido na denaidSo dos bosques, aonde muitas 
vezes se verá, ora sobre algum monte que lhe esteja des- 
cobrindo o valle e o prado cheio de mil variedades de flo- 
res. . . Aqui, aonde o tempo, por meio de tfio profundas 
imaginaçSes, lhe poderil trazer algumas perigosas, toma elle 
o esquecimento por remédio, passando-se a outras, . . da 
lembrança das maguas vivas, que em seu coração alguma 
hora haveria. . . Assi a altura d'estes pensamentos o nSo 
deixa nem consente sahir do seu progresso, antes, lhe dá 
campo e lh'o faz maior para que . . . tão depressa se n&o 
possa despedir do seu comprimento. Porém como o príncipe, 
em qualquer interv^allo que faça, por largo que seja, ima 
pequeno ruido o desperta logo, bastaria para lhe mostra- 
rem as horas de se partir o queixoso brado do mocho e o 
alto apupo do bufo, que por cima das arvores, antes que 
cerre a noite, a andam annunciando, como as musicas ca- 
lhandras e outros passarinhos o fazem pela manhã, para 
que çom este aviso se saliia logo d'aqui, e a pouco andar 
se ache dentro em o seu terreiro, á vista dos seus paços, 
que com grandes luzes o esperam, fazendo signal de sua 
boa chegada, juntamente com as musicas charamellas, que 
« mais longe o dâo». 

Estes factos sSo eloquentíssimos, e pintam-nos melhor, 
do que outras considerações, o estado lastimável do pae de 
D. Duarte, deixando entrever quanto padeceria o governo 




67 



de sua casa e a edacaçSo de seus íílhos com tal modo de 
vida. Cedeu portanto D. Thcodosio ás insinuações de male- 
Toloa conselheiros, pelas condições especiaes do seu atribu- 
lado espirito, e é licito conjecturar que destes dois moti- 
vos proveíu sobretudo a pouca cultura intellectual do duque 
de HarcoIIos; para o que nSo concorreria também, em pe- 
quena escala, o muito mimo, que talvez teve, defeito quasi 
gerai nas íamilias dos principes, onde os herdeiros principiam, 
cedo de mais, a ser acatados como senhores. Cumpre ou- 
trosim nSo esquecer a corte de interessados, que, desde os 
tenros annofl, lho foi crescendo em roda, ajudado tudo pela 
Índole timidamente ambiciosa, com que a historia noa pinta 
o duque de Barcellos, e porque não, e^ualmente, pela sua 
rcluctancia em seguir os estudos, como vemos que lhe acon- 
teceu com a musica, a qual, segundo D. Theodosio no seu 
testamento, só aprendeu contra vontade. Isto pelo que diz 
respeito íl educação litteraria. Quanto á moral, D. Theodo- 
sio, se acreditai"mos o padre Bartholomeu Guerreiro, que 
tímto frequentou o seu paço, nâo desmentiu o nome de pae, 
porque d\z elle: «na creação de seua íilhos nSo quiz que 
^ouvesse outro aio, com cujas acções se formassem em 
randes costumes, scníío o exemplo que em tudo lhes dava, 
e a«sUn 08 creou com tanta sujei çSo e recolhimento, que 
mnis parecia vigiar Hlhas damas que filhos soldados e ca- 
valleiros^». 

O certo ó que D. João recebeu uma educação mesqui- 
nha e imprópria do seu estado. Além da lingua materna, a 
sciencia do irmão mais velho de D. Duarte, do primogénito 
do illuíitrc D. Theodosio, do neto da sabia D. Catharina, 
do hcj-deiro da primeira casa de Portugal, do que poderia 
vir a ser, e foi, soberano da sua naçàn, liniitou-se ao co- 
nhecimento do latim, mas nílo do latim cluf^sico, porque 



^ Sermão das exeqnia* do anno que st fisetam ao Ex.'^" prinape D. 
'^todoâio II, duque de i3r(Ufaru;(t, em Villa Vi\'o«a, Lisboa (l(j32).é,'' 

5# 



68 



sómonte delle se serviu para a religião e leitura dos livros 
sagrados, á equitação, á esgrima e ao cultivo da musica, 
na qual se tornou proficiente com o andar dos tempos, 
ainda que também não passou da musica sacra. Se nâo 
fosse o seu animo fragueiro e amigo da caça e dos exer- 
cícios equestres, julgar-sehia quasi que o educavam para 
servir alguma dignidade ccclcsiastica, e das pequenas, no- 
tando que nâo era porque lhe faltasse aptídSo, conforme de- 
pois mostrou» 

Sabemos que foram seus mestres Manuel do VaJle de 
Moura í o licenciado Jeronymo Soares, instruído no he- 
breu, grego, latira, italiano e hespanhol, o qual lhe ensinou 
íi grammatica latina; Francisco GalvSo, de quem recebeu 
algumas lições de equitação; e Diogo Dias, íifamado pro- 
fessor de esgrima, natural de Coimbra, que o instruiu n'esta 
arte. Quanto á musica, foram seus mestres Roberto Tornar, 
inglez, discípulo de Geri de Ghersem, que tomara liç?5os do 
Maestro Capitiío, ou Mathias Rosmarin, seu verdadeiro nome, 
o qual D. Theodosio chamou de fora de propósito para esse 
fim, e Jo3k> Soares Rebello *, mais conhecido pelo Rebelli- 
nho, afamado entre os músicos portuguezes daquella epo- 
cha, e de quem o seu régio discípulo mandou iraprimir ge- 
nerosamente parte das obras á sua própria custa na cidade J 
de Roma-. 

Pelo que acabamos de expender avalia-se, ainda que 
imperfeitamente, qual seria a educação litteraria que D. 
Duarte recebeu na juventude; pois devemos crer que apren- 
desse o que aprendeu D. João pouco mais ou menos. Quanto 
aos seus mestres, achamos com esse nomo os dois primei- 
ros, e não duvidamos de que o fossem os restantes, in- 
cluindo talvez o de musica, da qual tinha varias obras na 



1 Bib. Nac, Mb8,, Fr. Raphael de Je.Hus, Vida de D. Jono TV. 
^D. Antouio Caetano de 8ousa, Híst. gencalotjica, Provas, Ttíeta- 
mento de D. Joío IV. 



69 



sua bibliotheca, posto não se saiba ao certo se a aprendeu. 
Quanto ao seu aproveitamento nos exercícios militares, ve- 
natoríos e equestres, já era notável quando ainda contava 
poucos annos, pois, segimdo Fr. Raphael de Jesus aaos 
quatorze sabia jogar a espada com destreza, regor um ca- 
vallo com desgarro, despedir uma lança com pontaria, o 
empregar uma bala em qualquer alvo.» E n^ outro logar 
amplia o dito accreacentando : que ensaiava «no jovial da 
praça e no fragoso do monte os botes da lança e os cortes 
da espada, com que se vencem os conflictos militares da 
campanlia, e nas tretas do jogo e da caça a industria com 
que so rebatem os estratagemas da guerra*». 

De seu irmílo mais novo D. Alexandre, julgamos o mes- 
mo, e a fíwtoria genealoffica, aliás tSo pródiga de elogios 
aos reis e aos grandes, tratando d'elle, apenas nos diz va- 
gamente que foi ensinado pelos melhores mestres, e ao fal- 
lar de sua morte aó louva aa suas excellentes virtudes e gen- 
tileza. Entretanto, apesar de destinar-se á vida ecclesias- 
tica, n2o estudou thoologia*, o que desabona alguma coisa 
também a solicitude de D. Tbeodosio, e pode julgar-se pro- 
vindo das mesmas causas, que influiram na pouca cducaçSo 
do duque de Barcellos. Por ventura entrou n'isto ainda in- 
fluencia do governo de Madrid, o qual já meditaria com 
esta sensível falta cortar-lbe o passo ao arcebispado de 
Évora, que andava quasi vinculado á casa de Bragança^ 
como posteriormente aconteceu. 

Tnclinamo-nos pois a que D. Duarte não foi mais bom edu- 
cado litterariamcnte, do que o irmão, o duque de BarcelloB, 
pelos descuidos de seu pao e circumstancías do sua casa, 
e que o saber que depois n'elle admiraram proveiu do es- 
tudos que cm annos maiores as alternativas da sorte lhe 
permittiram fazer. 

í Bib. Nac, Mss., Vida de D. João IV. 

* Bib. da Ajuda, Mss., Corrcsp. de Luiz Pereira de Castro, vol. i, 
foi. 7, Notas do infante a Caramuel e Chumacero. 



70 



TI 



Estamos chegados ao período final na existência de D. 
Theodosio, decorrido de mil seiscentos e vinte o nm a mil 
seiscentos o trinta. Este período é para nós do máximo in- 
teresse^ por abranger o espaço que vae dos dezeseis aos 
vinte e cinco annos na vida de D. Duarte, e por nos re- 
velar algumas particularidades importantes que muito hon- 
ram o seu caracter. Infelizmente esse ultimo quartel da exis- 
tência do duque, devendo ser feliz e tranquillo, segundo o 
mereciam as suas apreciáveis virtudes, e o pedia o seu es- 
tado valetudinário, foi travado de desgostos Íntimos, que se 
deram mesmo no seio da família de Bragança, e lhe apres- 
saram talvez a morte já próxima. 

AfiSnna-se que alguns creados da casa, e entre elles dos 
maia favorecidos, deixaram o serviço de D. Theodosio, pre- 
textando a maneira por que este os tratava, e levaram a 
ousadia a ponto de se passarem para o do duque de Bar- 
cellos. Sentiu-se D. Theodosio de tão insólito procedimento, 
ao qual a sua costumada generosidade repugnou infligir a 
pena merecida, e que tinha auctoridade para lhes appli- 
car; mas pesou-lhc ainda mais ver que seu próprio filho se 
tomara como que o núcleo doesse partido do descontentes. 

No muito que já fica dito a respeito de D. Theodosio, 
aobresahe o seu patriotismo, magnificência, piedade, abne- 
gação e inteireza, e isso já bastaria para lhe tecer o mais 
justo e merecido elogio; mas a tão notáveis qualidades jun- 
tavam-se ainda outras, que n5o o tornavam menos digno 
de veneração e amisade: o amor da justiça; a reluctancia 
em castigar; a pureza dos costumes; a verdade do animo; 



71 



» egualdade e desvelo para com oa creados ; a protecção aos 
£lhos segundos e outros de grandes fidalgos, para Begiiirem 
o« estudos, e aos que peregrinavam por causa da fé em es- 
tranhos reinos ; o asylo que prestava aos afflictos e persegui 
dos, quer portuguezes, quer hespanhoes ; a paciência exem 
piar em ouvir as supplicas importunas dos pretendentes; e 
uma generosidade franca e nunca desmentida. 

Mas a tantas virtudes oppunham os seus inimigos defei- 
tos que as desluziani, ou porque o fossem na essência, ou 
porque se tornassem taes, não obstante serem qualidades 
apreciáveis, em consequência do seu abuso; ea verdade ( 
que n'algimiatí dVssas accusaçòes havia certa cor de jut?- 
tiça. 

A limitada confiança que depositava noa outros, e só nus 
melhores, o i-stes ainda depois de convenientemente ex- 
perimentados, fructo da sua prudência, feria muitas susct- 
ptibilidadcs, cnumcrando-se entre os queixosos, como pri- 
meiro de todos, •• próprio duque de Barcellos, o qual &v 
offendia por seu pae nS*» llie communicar os negócios e nSo 
lhe dar em todos a parte que desejava, e a que se julgava 
com direito. Taxavam-o de demasiadamente soberano, do 
conservar os mesmos tratamentos aos grandes o fidalgos, 
qoAudo os dos monarchas haviam subido até magestadc; de 

iser austerissimo no estylo de lhes escrever; do rigoroso nas 
saas usanças; <• cora razílo. A* coisas tinham-se mudad»» 
oom 08 tempos; geraçSes novas o diffcrentes da antiga, da 
contemporânea de D. Theodosio, tinham-se succedido, e, 
como ellas, os usos <* os costumas, emqiianto qu»^ «i velho 

idnquo vivia continuand<n a observar os usos e costumes da 
opocha; pelo que a etiqueta da sua cat»a era em com- 
ração mais eeremoniatica do que a da casa real. A ««xis- 

""tencia que levava, rotira<lo de quasi todos os parentes, o 
que attribuiam a soberba mal entendida, e resultava txdvez 
tmicamente das condições em que se achava, o as poucas 
pessoas que recebia á meza, deviam descontentar muitoí 



72 

cortezSlos, c obrÍgaI-o6 a aborrecer-se nas salas meio de- 
sertas dos paços oatr'ora esplendidos e concorridos de Villa 
Viçosa. A demora no despacho dos pretendentes, e n2o se- 
riam estes de certo em pequeno numero, ainda que pro- 
cedesse das incertezas do seu animo, ou das delongas inhe- 
rcnte» li complicação dos negócios, e nSo da raidade de 
augmentar com elles a sua corte, causava-lhes sensiveis 
damnos e fazia com que a quantidade dos offendidos cres- 
ctisse. A sua abnegação e inteireza, qualidades raras em to- 
dos, mormente nos opulentos ou de honras ou de dinheiro, 
insaciáveis por natureza, prejudicavam os seus vassallos, 
o» quaes d'este modo se viam privados dos favores e mercês 
que por sua intercessão lograriam alcançar do soberano. 
O seu vestuário modesto, á antíga, e sempre de luto; a soa 
estima pelas modsis portuguezas; o seu ódio pelas hespa- 
nholas, a ponto de quen^r que os outros o imitassem, indo 
assim conti'a o parecer da maioria, que trajava á castelha- 
na, e ato contra o uso seguido durante a vida daduqucza D. 
Oatharina, a qual por politica fizera mudar quasi totalmente 
o* trajos do paia aos seus, trocando-os pelos da corte de 
Filippe II, eram também para muitos motivos de desgosto, 
principalmente para os moços, para os que haviam já sido 
educados daqnelle modo, e para os lisongeiros da mages- 
tade e os ambiciosos do mando. As exageradas praticas re- 
ligiosas que, segundo já expendemos, a par dos negócios, 
lhe absorviam, por assim dizer, a existência, e o priva- 
vam em grande parte de conviver com os vassallos, e até 
com 08 filhos, davam ao seu palácio uma estranha apparen- 
cia, meio principesca e meio conventual, que nSo podia 
iigradar senão ás pesssas nimiamente piedosas e isoladas 
do mimdo, como elle. A sua mesma brandura ora tam- 
bém um defeito, porque o tomava muitas vezes omisso no 
manejo da fazenda, conforme experimentavam os que cor- 
riam com a sua administração, pelo que costumavam dizer 
úfl maÍB zelosos que a bondade do duque tomara muitos 



í 



73 

bons maus. Aggravavam todos estes motivos a BiijeíçSo 6 
recolhimento em que educava oa filhos, mais próprios de 
damas do que de cavalheiroB, como nan'a o padre Bartbo- 
lomeu Guerreiro, sujeição a que D. Duarte obedeceu amo- 
rosamente, porém que repugnava ao duque de Barcellos, 
levado do temperamento e dos ímpetos da mocidade, e nflo 
menos do espirito dos cortezilos, sempre fácil em variar de 
aâectos ao sabor das soas ambições, ob quaes, virando as 
costas ao sol próximo a afundar-se no occaso, já esten- 
diam 08 olhos ávidos para o que no horizonte vinha quaui 
despontando. 

A pintura das boas qualidades e defeitos de D. Theodo- 
aio, tirada dos nossos historiadores, daremos os últimos to- 
ques com as seguintes palavras de sua mie, que tanto ao 
vivo o retratam. Formam parte da carta que ella escreveu 
em onze de junho de mil quinhentos e noventa e cinco a 
Filippe II, instando pelo casamento de D. Theodosio com 
a fillia do archiduque Carlos, que o governo hespanhol im- 
pedia. «E homem honrado e muito sentido e sotírido, e 
verdadeiramente temo que este desgosto me custe a sua 
vida, de que pende toda a minha consolação ; porque, alóra 
de ser mSe, lhe devo o que nenhuma deve a seus tilhos. Fi- 
cou muito moço quando herdou a aua casa; governou-a como 
▼elho ; e tratou ató agora de seus irmãos sem nunca tratar 
de 8ÍJ> *. 

Eis D. Theodosio julgado por sua própria mSe^ quando 
sà contava vinte e sete annos, e antes de a perder e á du- 
queza sua esposa, que por momentos apenas devia feHci- 
tal-o. O que faria depois doestas sentidíssimas desgraças e 
com o dobro da edade? NSo ha maior elogio nem maior 
censura a D. Theodosio do que as palavras que tranacreve- 
mos: foi o melhor dos filhos; foi o melhor dos irmãos; nSo 



1 D. António Caetano de Sousa, Hiêl. genealógica^ Provas, vol. xv, 
K.453. 



74 



86 importou comsigo ; aendo moço governou a sua casa como 
BO fosse velho. 

Apesar dos motivos de descontentamento, que d'aqm se 
nos antolha poderem existir nas accusaçòes contra o velho 
duque de Bragança, nSo ha coisa nenhuma que, a nosso 
ver, desculpe ante a posteridade o acto de insubordinaçfio 
commottido por seu filho primogénito, e nlo seremos nó» 
que o absolvamos da culpa, como tentam, embora deficien- 
temente, o TacUo porfnrpiez, e, scguíndo-lhe as pisadas o os 
termos, a Historia genealógica, quando dizem: «Ao duque 
D. João, mancebo robusto, soberano e livre, mais é para 
se lhe agradecer os excessos que nío intentou, que para 
lhe estranhar as demasias que emprehondcu». 

Quebrado pelas disgençSes domesticas, fatigado pelos an- 
nos e desgostos, que augmcntava este novo e tio grave, D. 
Theodosio procurou remédio ao grande mal, e, cogitando, 
nenhum encontrou mais promettedor de bom resultado do 
que casar o duque de Barcellos, pois com decente objecto 
diminuiria o partido dos creados com o amor da mulher e 
dos filhos, alem do assegurar por tal meio o futiu-o da casa. 
Começou portanto a cuidar no consorcio do filho herdeiro 
em Allemanha e em Itália, onde foram bem admittidas as 
suas propostas, assentando ellas finalmente em D. Anna 
Garrafa, princeza de Stigliano, duqueza soberana de Sa- 
bioneta, filha de D. António Garrafa, duque de Mondra- 
gora e de D, Helena Aldobrandino, filha de JoElo Francisco 
Aldobrandino e de Oljmpia Aldobrandino, principes de Car- 
pineto, sobrinhos do papa Clemente VHI, e ella irmS do prín- 
cipe de Rossano e de Margarida, duqueza de Parma, pes- 
soa proporcionada ao duque de Barcellos por avós, quali- 
dade c grandeza de estado. Nao bastavam porém os desejos 
de D, Theodosio, nem a favorável disposiç3Lo da família da 
noiva para o casamento so levar a efifcito; as suas diligen- 
cias foram illudidas pelas intrigas secretas da corte de Ma- 
drid, empenhada constantemente, comr> sabemos, em aba- 



75 

a supremacia da casa de Bragança, e em nSo a ligar a 
Talíosas allian«;aà estrangeiras, que podesBcm no futuro ser- 
vir de estorvo á &ua politica a respeito de Portugal. 

Este novo accidente altcr<m do algum modo a constância 
que atc' alU soativera D. Tboodosio nos vários e calamito- 
sos ti"aQacs qut' passara, ou porque soífresse as consequcn- 
ei£8 d^elle em seguida ao ultimo, e por isso lhe fosse mais 
sensível, ou porqu»- os sous annos, gastos por uma vida 
melaneholica <■ rigorosa, lh'o tomassem mais severo; mas 
o que principalmente o consternou c abateu foi vir no co- 
nhecimento de que, além <las insidias de Hespanha para 
estorvar o consorcio de sou filho, havia na corte de VLlla 
Viçosa quem aconselhasse D. João a acolher-se ao amparo 
do valido, o coudo-duque do Ollvares, c de que alguns d*es- 
»C8 conselliciros se encontravam entre os próprios vassallos 
do duque de BurceUos. 

A alma do taes machinaçSes era D. Francisco de Mello, 
renegadtt portuguez, bem conhecido em nossa historia, por 
se tomar um dos mais poderosos e assanhados inimigos do 
»eu paiz, e na de Uespanha, graças aos cargos que. exerceu 
na politica e nas armas d'e8sa monarchia. D. Francisco de 
Mello, que infelizmente tanto ha de figurar no decurso do 
presente estudo, como perseguidor du D. Duarte, nasceu 
om Estremoz em mil quinlientoa o noventa e sete, sendo 
filho primogénito e herdeiro de D. Constantino de Bragança 
^e Mello c de sua segunda mulher D. Brites do Castro, fi- 
de D. Fernando de Castro, capitão de Chaul e de D. 
Isabel Pereira, e neto àv D. Fernando de ítlello, terceiro 
conde de Tentúgal, e segimdo marquez de Ferreira, casa 
que, de entre todas as parentas da de Bragança, de que 
i «ra segundo ramo por varonia, sempre lhe mereceu as maio- 
res attençÕes, gosando largamente D. Francisco de Mello 
d*e8te favor, pois foi um dos que cila mais admíttlu aos 
seus beneficios. 

Tâo chegado em sangue, nascido n'uma terra tSo pro- 



76 



xima de Villa Viçosa, D. Francisco frequentou muito os 
paços do duque D. Theodosio, acompanhou-o, como já vi- 
mos, em mil seiscentos e dezenove a Elvas á entrevista 
com Filippe III, e, posto mais velho sete annos do que D. 
João, oito do que D. Duarte, e dez do que D. Alexandre, 
sociaria com elles frequentemente nas excursões e folguedos 
próprios da mocidade, ato que a ambição, ou as dissençSes 
na casa de Bragança, em que entrou por ventura, o fizeram 
deixar a pátria ; se é que este facto não as precedeu. Igno- 
ramos qual a data em que D. Francisco sahiu de Portugal ; 
o certo é que algum tempo antes da morte de D. Theodo- 
sio o encontramos em Hespanha, aonde passara com a sua 
portecçSo, o onde á sua larga sombra obteve asaignaladag 
vantagens, começando assim a carreira afortunada, que 
depois o levou a tão altas dignidades c a tSio distinctas 
honras, muita vez pelos degraus da traição e da villania. 
Na epocha em que vamos já D. Francisco de Mello era 
muito attendido pelo poderoso ministro de Filippe IV, e nas 
desintelligencias do duque com D. Joílo seguia o partido 
d'este, apparentando zelo da justiça, mas na verdade por 
elle llie offerecer mais fundadas esperanças de captar por 
seu meio o animo e obter as mercês do conde-duque, ap- 
proximando D. JoSo da corte de Hespanha, o que lho era 
inteiramente impossível com D. Theodosio. 

Assentiu o duque de Barcellos ás suggestões insensatas 
dos que o incitavam; attendeu a lisonja dos ambiciosos 
que contavam medrar com seu auxilio j esqueceu-se doa 
exemplos de abnegação e patriotismo de seu pae, dos seus 
uteia e experimentados conselhos; e, induzido conjuncta- 
mente pela ambição, e continuando na senda criminosa, 
encetada ha\na pouco, cntabolou negociações secretas, por 
intermédio de D. Francisco de Mello, com e valido de Fi- 
lippe IV para o seu casamento. D. Theodosio ao sabel-o 
converteu a confiança que depositava no sou parente e pro- 
tegido primeiro em cautella, depois em temor, e ultimamente 



77 _ 

em queixa. Qiiâo diverso nJo foi o procedimento do nosso 
protogonidta do de seu irmSo mais velho ! Tinha o conde- 
duquc uma filha única, D. Maria de Gusman, e, valendo-se 
da íntervenyào do tio de D. Duarte, do mesmo nome, resi- 
dente, como sabemos, em Hespanha, mandaram offerecer a 
mão d ella a D. Theodoaio para seu filho segundo '. Quiçá 
íindava também mettido n'estc projecto D. Francisco de 
Mello, que tomava tanto a peito lisongear o valido, o qual, 
se já estimava o matrimonio do dnque de Barcellos na fa- 
mília de ModinaSidonia, por ner 8ua parenta, muito mais 
devia estimar o de D. Duarte na sua própria família. San- 
gue, nào havia melhor do que o do noivo. Fortima, elle 
lhe abriria o caminho para consegui l-a. Depois quem pe- 
netra oa cálculos políticos de Olivares ? Porque nSLo se rea- 
lisaria pelo fallecimento de D. Theodosio a aconselhada 
divisão do ducado de Bragança, vindo a caber uma grande 
pnrte dos seus domínios e haveres ao futuro genro? Nâo 
alcançava Olivares ao mesmo tempo desta maneira o en- 
fraquecimento do poderosíssimo estado, que tanto inquie- 
tava Ilespanha e os planos desmedidos de engrandecimento 
da sua casa? 8ao conjecturas, mas verosímeis. Fosse como 
fosse, a proposta fez so, quando, precisamente, nâo o sabe- 
mos, posto n3o devesse exceder o anno de vinte e sete, pois 
n*e8se anno mon*eu o irraSlo de D. Theodosio. Escusou-se o 
duque, sob qualquer pretexto, do acc<*ital-a, despresando 
DO intimo d*alma a uniSo por odiosa c indigna. D. Duarte, 
que aliás devia pensar do mesmo modo que seu pac, acatoti, 
ao revez de D. João, a sua vontade, como filho obediente, 
sem dar otividos aconselho» pérfidos, que não lhe faltariam, 
nem, o que é mais, á ambição de honras e do riquezas. 

OfFendeu a rejeiçSo o omnipotente ministro, e, se esto acon 
tecimenlo precedeu as tentativas de D. Theodosio para casar 



' Arch.ilo Estado de Milào. Processos de D. Duarte dp Bragança, 
«08 interrogatórios que lhe fizeram. M&a. 



78 



o duque de Barcellos, é de crer contribuíssem a estorvalas 
08 obstáculos que aquelle por isso adrede lhe levantaria, 
no que siinultanGamente ajudava as vistaí* politicas da corte 
de Madrid. Em todo o caso a negativa nào serviu senão 
para auguientar o seu ódio, embora disfarçado com falsas 
mostras de benevolência, contra o orgulhoso senhor da casa 
de Bragança o contra os membros d'e]la. Eram sementes 
que, alimentadas pela paixão, mais tarde deviam produ/.ir 
o seu fructo. 



Ill 



Em mil seiscentos e vinte e seto D. Duarte tivera a in- 
felicidade de perder seu tio do mesmo nome, o qual no 
testamento feito em ítladritl a viute e sete de maio dV'Hse 
anno, lhe deixou a posse de uma capitania no Brazil e de 
uma terra no limite de Santa Iria, termo de Lisboa, menos 
a parte que doara ao licenceado João Mendes. Ah! Quem 
lhe dissera, ao softrcr este golpe, que, três annos depois, outro 
muito maior lhe havia de rasgar o coração: o falíecimento 
do duque D. Theodosio, seu pae! Em vinte e oito fAra elle 
aeommettido de grave enfermidade que o poz duvidoso da 
vida; passados dois annos, correu novo e egual perigo, por 
effeito de um tumor no baço, qualificado de seirro *, e que 
nâo consta quando começou a fliigellal-o. Empregaram-se 
continuas e desveladas diligencias para o seu salvamento; 
esgotou a medicina todos os recursos; mas nada aproveitou, 
porque a hora suprema estava chegada. Supporton V. Theo- 
dosio as penalidades da terrível doença com a mesma eon- 



' D. Autonio Caetano de Sousa, Iliaf. gentalogica. 



79 



stancia com que supportára os combates do mundo, e sahiu 
d*ellas triumphante pelas suas crenças religiosas, como das 
procellas humanas o sahira pela sua prudência e valor. 

Por mais de quarenta dias e quarenta noites velou D. 
Duarte e oa irmàos junto do leito do pobre enfermo^ sem 
se despirem, nem cuidarem de coramodidades, qual reque- 
ria a conservação da vida e da saúde, com ternura de filhos, 
cumprindo assim zelosamente o triste dever que o sangue 
e a amizade lhes impunham. 

Prevendo breve o seu termo, desejou ainda D. Theodo- 
sio, sempre de animo generoso, beneãciar os servidores, 
e nomeou em algims fidalgos antigos da casa e moços da 
guarda-roupa quatorzc commendas, que seriam todas do 
lote de mais de oito mil cruzados, cujas apresentaçSes fica- 
ram para o duque de Barcellos assignar, por querer que & 
a elle se agradecessem as confirmações de taes mercês. 

Feito isto, preparou-se, como convinha, para a morte. A»- 
sistia-lhe Fr. Andrí' de S. Pedro do Sul, provincial que 
havia sido da província da Piedade, a quem elle rogara 
que o não desamparasse n'aquelia angustia, c que durante 
os últimos dezoito dias da mortal doença o acompanhou 
conBtantemente. Procurou o auctorísado religioso dispol-o 
com rodeios e consolaçCes para o desfecho tremendo, mas 
D. Theodosio, percebendo-o, respondeu-lhe resignado : «Pa- 
dre, eu bera sei que morro; porque desde a hora que cahi 
«'esta cama conheci que me nâo havia de levantar delia; 
e assim não ha para que fazer-me advertência de que se 
me acaba a vida, nem das preparaçCes que devo lazer 
para o fim d'ella, porque, como estou no conhecimento ji 
do pouco que me ha de durar, bem sei quando me convém 
apparelhar para dar conta a Nosso Senhor das oflfensaB que 
n'ella lho fiz; comtudo nSo deixarei do lhe dizer com S- 
Martinho: Si adliuc necessarius sum populo tuo non recuso 
laborem. » 

Estava quasi a soar para D. iJuarte o momento fatal em 



80 



qae devia perder seu pae, (^ue tanto amava, c por quem 
tanto ora amado. Quiz D. Thoodosio vol-o ainda iima vez 
e a seus irmSlosj pelo que os mandou chamar á sua presença. 
Entrados os trcs no quarto, chamado a Camarinha, onde 
agoniaava o duque, ao som das oraçSes dos religiosos que 
o ajudavam no trance final, fitou-os carinhosamente, e pro- 
rompeu: «Meus filhos, Nosso Senhor é servido do me levar 
para si; permitta elle deitar-vos a benção de Jacob, e eu 
vos lanço a minha. Peço-vos muito que sejaes muito seus 
tementes e muito amigos ; e que s<i n'elle façaes confiança, 
porque nos homens não ha hi nenhuma constância. Se eu 
até agora nSo apressei o estado de vossas vidas, é-me Deus 
testemunha que não foi por me descuidar d'isso, senão por 
entender que assim convinha mais a vosjsos adiantamentos, 
e d'Í880 vos peço perdão; porque n2o me pareceu que a 
minha se acabasse tSio depressa. E a vós, duque de Barcel- 
los, peço muito que favoreçaes a D. Duai'te, porque fica 
com pouco, e que trateis de seu estado, e vos lembreis que 
o tive eu sempre na minha alma, e de Alexandre que é 
muito bonito». E accrescentou: «Onde estiver sempre me 
lembrarei de vós e pedirei a Deus vos encaminhe, nílo por 
meus merecimentos, mas pelo que elle padeceu por nós, 
como vedes em aquella cruzj» ; e apontava para um cruci- 
fixo do marfim, que, posto em um altar, tinha deante. En- 
tão lançou a benção aos filhos^ e, chegando a vez a D. 
Duarte, levantou os braços e com ellcs a voz algiun tanto 
lacrimosa exclamando: «Meu Duarte, Nosso àSenhor te en- 
caminhe por onde andares» . Abençoados os filhos, D. Theo- 
dosio olhou para Fr. Bento de Villa Viçosa, guardião da 
Piedade, que estava junto do seu leito, e, erguendo as mSos 
ao céo, dirigiu-lhe estas palavras: «Padre guardiSo, peço- 
vos pelo amor de Deus que me queiraes dar um habito do 
noBSO padre S. Francisco, para meu corpo ser amortalhado 
n'eHe, com o que serei muito consolado». 

Estas palavras foram interrompidas pelo choro que occa- 



81 



eionaram e pela fraqueza do doente, o qual d'ahi a pouco 
perdeu a fala e quaai todos os sentidos, passando n*e8te 
triste estado o espaço de vinte c quatro horas, annuncio da 

^inorte que jA começava em tJo prolongado desfallecimento. 
Depois tomou a si, mas foi para se despedir por uma vez 
do mundo; que deixou no dia seguinte, sexta- feira, vinte o 
nove de novembro de mil seiscentos e trinta, entre as la- 

^ grimas de D. Duarte e de seus irmãos, que nunca o aban- 
donaram. 

D'este modo terminou a existência com sessenta e dois 

pannos e meio de edade este grande vaj-So, illustre entre os 
mais illustres da casa de Bragança, fadado, qual parecia, 
para melhor fortuna, mas cujo brilho resplandeceu ainda 
com luz mais intensa nas cerradas trevas que o rodearam, 
assim como á sua querida c desditosa pátria, em cincocnta 
annos de dominação estrangeira. Durante a enfermidade, 
que foi prolongada, tomou D. Theodosio duas vezes o sa- 
cramento da sagrada eucharistia, e ultimamente o viatico 
e a extrema tmcçào, acabando a 'vida com preces piedo- 

' fias que foi extinguindo gradualmente a falta de forças ati 
que findaram com cilas. Apenas expirou D. Theodosio, o 
duque de Barccllos, já de Bragança, D. Duarte e D. Ale- 
xandre beijarani-lhe a miio; e, depois de lhe resarem ura 

(responso o de2o o mais religiosos presentes, recolheram-se 
á camará, que para isso estava preparada na forma que em 
semelhantes occasiríes se praticava no paço de Villa Viçosa. 
O corpo de D. Theodosio foi amortalliado no habito de S. 
Franscisco, segimdo determinara, mas por cima vestiram- 
Ihe armas brancas cora espada e adaga doiradas com bai- 
nhas de velludo preto, calças largas prctiis e toneletes de 
dAmasco carmezim, guarnecidos de passamanes largos de 
oiro ; calçaram-lhe botas brancas com correias e esporas doi- 
radas de bico de pardal, e puzcram-lho o bastão de condes- 
tavel na miio direita, c na cabeça barrete vermelho de vel- 
ludo, forrado de arminhos, com uma coroa de prata, que 



H. I. ». D. T. I. 



8â 



meia se escondia na dobra do barrete e meia se divisava. 
Significava esta o privilegio de infante que os reis pasaados 
haviam concedido a seus ascendentes, assim como as armas 
e esporas o grau de cavalleiro, que recebera em Africa do 
mallogrado rei D. Sebastião, quando, ainda adolescente, o 
acompanliou na infausta joraada de Alcácer- Kibir*. 

Vestido aãiiim o corpo de D. Theodosio na Camarinha, 
entraram o duque de Bragança e seus irmSos D. Duarte 6 
D. Alexandre, e, depois de lhe beijarem a mão, recolhe- 
ram-se á camará. O duque de Bragança chamou entio Ma- 
nuel de Sousa de Brito, D. António de Mello, D. Luiz de 
Noronha, Ruy de Sousa Pereira, Fernão Rodrigues de Brito 
c Salvador de Brito Pereira, e ordenou-lhes que transpor- 
tassem seu pao para a camará grande, o que elles, beijando 
a mSo ao duque, fizeram, levando-o em trcs toalhas de ta- 
fetá preto pelas pontas, acompanhados de seis moros da 
guarda-roupa com tochas accesas. Foi posto o corpo debaixo 
de um doccl de tela roxa, em uma tarima alta, coberto 
com panno rico do tela da mesma côr, sobre seis almofadas 
da mesma tela, cercado com tocheiras. A casa estava al- 
catifada e ornada com quatro altares, em que desde a ma- 
drugada se começaram a dizer missas. Acabadas as véspe- 
ras na capella ducal, principiou o officio cantado pelos re- 
ligiosos da Piedade. O primeiro nocturno foi concluído com 
a oraç&o, e, lançando agua-benta e incensando o cadáver, 
cantaram a magnificai, officiando cora o pluvial o padre Fr. 
André de S. Pedro do Sul, comraissario geral; depois do 
que, sahiram os ditos religiosos» Em seguida entraram os de 
S. Paulo 6 cantaram o segundo nocturno. Capitulou com 



1 Bíb. NaCf 3fsB., E, 5, 7, Rdação breve da inv^adn morte t mm- 
ptuoso enterro e cerimonias d*elU do cr."* sr. D. TheodogiCf duqttt dé 
Bragança. 

Frei Manuel de Monforte, Chronica da Piedade. Lisboa, 1696. Foi. 

Frei Bartholomcu Guerreiro, Sermão nas exeqtnat do anno, rfo, 

D. António Crtetaiio tie Soaaa, Hiet. ffeneatotffca. 



83 

pluvial e dois assistentes o seu geral. Chegou a vez aos 
religiosos eremitas de Santo Agostinho, quo cantaram o ter- 
ceiro nocturno, e, resada a oração pelo seu prior, sahiram. 
Entrou depois o deão e os capellàes na capella ducal com 
a cruz arvorada, e, chegando o de^o onde estava o corpo 
do duque, e feita uma profunda inclinação, resou o seu res- 
ponso e foi tomar o seu logar; o mesmo lizeram os capel- 
làes, cada um por sua antiguidade; e começaram as lau- 
des. Conchiido o officio, veiu o duquo do Bragança e seua 
irmãos, e beijaram a mSio a seu pae e lhe lançaram agua 
benta, ordenando logo o duque ao deão que mandasse ir o 
corpo; para o que entraram seis fidalgos vestidos de grande 
loto com capuzes, ao modo do tempo, com a tumba coberta 
de tafotd preto e com um coixão do mesmo tafetá e o puze- 
ram uV'lla. 

Estava chegado o momento da ultima despedida, e os 
fíJhos de D. ^lieodosio acompanharam os restos paternos 
com o coraçUo transpassado de dôr até íl porta da escada 
da derradeira sala do paço, duas salas adeante da era que 
tinham estado, d'onde voltaram, despedindo-se antes para 
aemprc, com filial reverencia e soffreado pranto, d'aquelle 
que Ihea dera o ser, e que nunca mais tornariam a ver n'este 
mundo. 

Começou então o sahiracnto, cuja ordem era a seguinte: 
a bandeira da Misericórdia; os meninos orphâos com sua 
cruz; cem pobres com tochas de quatro pavios; a irman- 
dade do Santíssimo; a da Misericórdia; a communidade dos 
íradea da Piedade, em numero de quarenta e sete; os fra- 
dee paulistas, que eram quarenta e cinco, e os de Santo 
Agostinho, que seriam trinta; as cruzes das fir^^eziaa do 
Vilia Viçosa e de Borba com os clérigos do uma e outra 
parte, que eram quarenta e seis; a cruz da capella ducal 
com os capellães á direita, e á esquerda os clérigos da vil- 
ia» com o prior de Santa Maria, que era o ultimo d^elles, 
e no meio entre os capcllftee o os clérigos da villa o deZo, 

6* 



84 

e adeante entre a clerezia dois tenores da capella entoan- 
do e levantando as antiphonas, o que tambrm fazia cada 
conununidade por si. Ladeavam a tumba vinto moços da 
camará, enlutados, mas sem capas, com tochas accesas de 
quatro pavios. De^mte da tumba ia o provedor da Miseri- 
córdia e Manuel de Sousa de Brito, veador do duque. Em 
todo o préstito viam-se muitos fogareos accesos, que leva- 
vam pobres. 

Chegada a tumba ao cruzeiro da ogreja dos Paulistas, 
puzeram-a n*uma alcatifa que conduzia um reposteiro, e, 
feito o officio da encommendaçSo da alma pelo geral de 
S. Paulo, tomaram os fidalgos que a transportavam a le- 
vantal-a aos hombros, e, chegando com ella li ilharga di- 
reita da sepultura, tomaram-a a pôr sobre a alcatifa. Con- 
clnido o oflicio sepulchral, tirou-se o corpo, e metteu-se em 
nm caixílo de velludo preto, forrado de tafetA b1-anco, atra- 
vessado com cniz de tela ríca, branca, e Dl António do 
Mello, camareiro-m<5r do duque, tapou o corpo com uma 
toalha do tafetá branco, que lhe deu um moço da cama- 
rá, e esta com outra de tafetA negro. Depois o caixão, fe- 
chado á chave pelo veador Manuel de Sousa de Brito, foi 
mettido em outro de madeira, que estava dentro na sepul- 
tura, a qual se pregou e ladrilhou por cima, e sobretudo 
se coUocou um estrado pequeno forrado de velludo preto, 
atravessado com uma cruz de tela de prata, que ficava le- 
vantado a modo de degrau, pondo-se era cima do estrado 
umas grades, sobre que se formou um tumulo todo forrado 
de velludo preto com maçanetas correspondentes ás grades. 
Este tumulo era também atravessado todo de outra cniz de 
tela de prata. 

No dia um de dezembro, dez annos precisos antes da 
restauraçSo da pátria, e da elevação ao throno de seu filho, 
celebraram-ee os officios de defuntos por alma de D. Theo- 
dosio, a que assistiu o novo duque, assim como D. Duarte 
e D. Alexandre. Nâo quiz a sorte que elle visse a grande 



85 

Lora do resgate, e puzease na fronte a coroa dos reis por- 
tuguezes, o que bem merecia pela crença constante no trium- 
pho dos seus preteridos direitos, como se adivinhaase, como 
se já descobrisse de longe com os olhos do espirito, sequio- 
sos de liberdade, a esplendida alvorada de tâo formoso dia. 

Começaram as exéquias pelas três horas da tarde. Es- 
tava a egreja toda armada, e guarnecidos os altares com 
cruzes e castiçaes de prata, em que ardia muita cera. Le> 
vantou-se um mausoleo por modo de pyramide, em sete 
degraus com uma varanda, que allumiavam cento e se- 
tenta e oito tochas e cem velas. Viam-se as armas do du- 
que nas quatro faces da base, sobre que se erguia o tumu- 
lo, o qual se cobria com um panno de tela roixa, com cruz 
de tela branca, e aos pés sobre uma almofada da mesma 
tela a çorOa ducal. Da parte direita, arrimava- se ao tu- 
mulo um bastào, e da esquerda um estoque doirado, unidos 
e cruzados, que eram insiguia» de condestavel. Da parte 
da porta via-se um docel de tela, irmS, do panno do tumulo, 
do qual pendia sobre elle uma baudeii*a de tafetá negro, 
com as armas da casa de Bragança, mais levantada do 
lado do Evangelho, para onde tícava o ferro da hastea. 
Capitulou o deSo, e acharam-se presentes para psalmear 
trinta e três religiosos da Piedade, quarenta e seis de S. 
Paulo j de Santo Agostinho \'intc e quati*o, e da villa vinte 
G quatro clérigos, e quatro capellíies da capella. Oi'denou-3e 
o coro, das grades da capella até junto da porta principal, 
onde se poz o banco para o deão, o qual chamou para elle 
o geral de S. Paulo, o preposito da casa professa da Com- 
' panhia, o prior de Santo Agostinho, o guardiilo da Piedade 
e o reitor de Nossa Senhora do Amparo. Seguiam- se os ca- 
pellles da capo lia do lado direito, o os da villa do esquerdo, 
B assim os demais religiosos em ordem, O novo duque as- 
sistiu com D. Duarte e D. Alexandre, tendo cortina e si- 
tiai, como usualmente se praticava; e com esta formalidade 

r cantou o officio, e o duque foi lançar agim benta a seu 



86 



pae. No outro dia, posta cera nova em toda a egreja e tumu- 
lo, celebrou pontificial o bispo de Portalegre, que para isso 
se mandou offerecer, e sentou-se era cadeira de coiro preto, 
junto ao altar, sem sitiai, nem almofada. Coadjuvou o como 
preabytero assistente o deão do Portalegre; cantou o evan- 
gelho o arcediago, e a epistola um cónego da mesma sé. 
Acabada a missa, disseram-se cinco responsos: o primeiro 
disse-o o provincial de .Santo Agostinho; o segundo o pro- 
vinciíil do Carmo; o terceiro o geral de S. Paulo; o quarto 
o ministro da Piedade; e o ultimo o bispo; os quaes foram 
cantados pelos insignes músicos da capella ducal. Fez a 
oração fúnebre o padre Fr. Luiz da Silva, provincial do 
Carmo. O deão no tempo do officio e da missa esteve fora 
do cAro no logar costumado, assistindo com os ofBciaes da 
casa ao duque, o qual também antes de saliir da egreja 
lanyou agua benta a seu pae. Para estas exéquias compoz 
um Parca mihi a doze vozes o celebre musico portuguez 
Jo5o Soares Rebello, protegido, como já sabemos, de D. 
Theodosio, e mestre do duque de Barcellos, que ficou ma» 
nuscripto. Assim se depositou D. Theodosio no mosteiro 
de S. Paulo, e não no de Santo Agostinho, enterro da casa 
do liragiuiça, porque o estava reedificando quando morreu, 
e deixou recommendado a seu succcssor que desse fim 
á<[uelta obra. Nem se cifraram n'Í8to as honras fúnebres 
pelo velho duque: prolongaram-se ainda por trinta dias, 
pois durante todos elles as coniraunidades celebraram quo- 
tidianamente otficios por sua alma*. 



1 Diogo Barbosa Machado, Bihlioihcca Utsitcma, artigo a respeito 
de D. JoSo IV. 
D. AntoEÍo Caetano de Sousa, Hiat. gtnmlogica. 



87 



IV 



Foi o duque D. Theodosio ornado de gentil o magestosa 
proeença; tinha o aspecto senhoril e aprazivel, de modo 
que vêl-o infundia geralmente respeito e agrado. Os cabei- 
los eram loiros e brandos; os olhos azues e vivos; a tez 
branca com boa miMtura do encaniado. Em quanto moço 
em nada dessemelhava no semblante a sua mãe; quando jd 
homem, pareceu-ae muito cora seu bisavô, el rei D. Ma- 
nuol, não só no rosto, mas também na cOr e magcstade do 
cabello. A sua estatura era entre pequena o mediana, no 
qne sahia mais aos avós do que ao pae; o corpo airoso; as 
acções compostas cora cuidado; a fala suave; e todos os 
movimentos graves e cheios de grande repoiso. Amava a 
ca^a, para o que não contribuiria pouco o exemplo de seu 
pae, preferindo entre todas a montaria, e, ao principio dé- 
bil de natureza, o muito exercicio o tomou robusto e não 
pouco ágil. Montava com bizarria a cavallo e tinha muita 
fortaleza era uma e outra sella, sendo a gineta do seu maior 
Uíío. Em toda a vida só entrou em coche obrigado da doença. 
Fomm lhe agradabilissimos os manejos da cavallaria; gos- 
tava do vêr correr toiros; jogava as cannas i-epetidas ve- 
zes <'om destreza e graça; e sentia inclinaçilo pela mu- 
sica, assim como seu pae ; mas teve para ella mais affeição 
e génio do que sciencia. Além dos direitos que lhe cabiam 
á coroa de Portugal, também houve quem o julgasse legi- 
timo successor e herdeiro da de Inglaterra, pela morte da 
rainha Isabel, como descendente dos duques de Lancastre, 
ocDb^iderada a linha do primeiro matrimonio, e por ser o 
roais próximo parente do sangue real portuguez, segundo o 
escreveu Qaspar Pinto Correia, que viveu n'aquelle tempo. 



88 

Nenhum outro duque de Bragança mereceu tanto a es- 
tima do8 portuguezes como D. Theodosio, para o que con- 
tribuíram sem duvida alguma as suas grandes qualidades, 
e principalmente a orphandade da pátria. Privados de seus 
reie naturaes, vergando sob o dominio do estrangeiro, ja- 
mais esquecidos da liberdade e glorias pivssadas, era para 
D. Theodosio, descendente legitimo d'ello8, quo se dirigiam 
constantemente os seus olhos, sobretudo qiuindo mais lhes 
roxeavam os pulsos os grilhões do captiveiro. Esse amor 
nSo se limitava a sentimentos Íntimos; nío podia conter- 
se em tão acanhados limites ; transbordava dos coraçSes ; dif- 
fundia-se no pubUco; e até chegou a nós perpetuado na 
imprensa, do que é bom exemplo o doutor Manuel Bocarro, 
medico e mathematico insigne, nas oitavas que estampou 
em Roma c enviou a D. Theodosio no anno de mil seis- 
centos e vinte e oito. Finge ahi o poeta que a Honra en- 
trega ao duque um escudo, feito por Vulcano, em que está 
retratado Portugal, e nSo duvida dirígir-lhe os seguintes 
versos ; 



Ohrigtkção te nasce de amparares, 
SexenÍ8BÍmo duque, o império trUte, 
JJe seus principeu orphâo, e de olhares 
Que de todoa a gloria cm ti consiste : 
Em ti HM, que, illuetrando os pátrios lares, 
D'ondc de insignes reís o nome ouviste, 
Mostras dos reis passados na exceli encia 
Que o uome ae perdeu, mos alo a esseucia. 



A essência em ti, grão duque, a considero, 
Porque não se extinguiu, estando viva 
A casa de Bragança, que venero, 
Como a mesma dos reis, egual e altiva ; 
E se aquella faltou, comtudo espero, 
Que como d'ella a tua se deriva, 
Que n*ella se restaure e ae engrandeça. 
Que oa antiga grandeza inda âoreça. 



89 

Assim que, pois em ti recuperamo» 
Do primeiro JoSo a plauta cxtinctn, 
CouTÚm, pois i'a seu filho, ^ue a vejamos 
Com esta obrigação regrn distincta: 
Convêm, quando por tal te respeitamos, 
Que a falta nos vassallos se tmo sinta, 
Estando tu, grilo duque, ahí presente, 
Do consanguineo rei, sem morto, auBejito'- 

Ab manifestaçiJes de enthusiasmo, de que o povo rodeava 
D. Theodosio, todas as vezes que em publico apparecia, 
como tivemos occasiSo de observar na» suas viagens a El- 
vas e a Lisboa, pela vintla de Fillipe III a Portugal em 
mil seiscentos e dezenove, eram outras tantas provas da es- 
perança que n'ell© depositava, da saudade de antigos e 
meliiores tempos, despertada pela sua presença, e outros 
tJuitos desafogos na oppressão odiosa que o sujeitava. Nem 
D. Tlieodosio ficou insensível a ta,man!ios signaes de aíTe- 
cto, nem, posto o nâo mostrasse, pela miséria da epocha 
em que viveu, deixou de sentir dentro d'alma os meamos 
impulsos e os mesmos anheios que animavam o paiz in- 
teiro. Nâo, o duque de Bragança nâo se etjqueceu d'onde 
Tinha. O poder de Hespanha era porém desproporcionado ás 
nossas forças, e França, esquecida dos seus verdadeiros in- 
teresses e deixando medrar cada vez mais a importância da 
casa d'Áitstria, não se fortificava ainda, como depois fez, 
por meio de allianças cora os povos inimigos doesta, até lhe 
declarar abertamente guerra, com o que nSo queremos di- 
zer que a corte de Paris perdesse de vista a nossa causa, 
pois nunca, mais ou menos, deixou de favorecel-a, embora 
débil e inefficazmente. 

Desde que D. Theodosio succcdeu no ducado de Bra- 
gança, isto éf desde mil qtdnbentos e oitenta e dois até 



* Tirado da lie*tauraç&o de Portugal prodigioM de Grregorio de 
AlmeãdSf aliás padre João de Vasconcellos. 



90 



mil quinlientoB e noventa e dois, nenhum vestígio encon- 
tramos de tentativa para reivindicar os seus direitos ; n'e8te 
anno, porém; a quinze de outubro, escreveu ellc o conhe- 
cido protesto, em que reclamava a successâo do throno por- 
tuguez. Ora este facto coincide com os começos do rei- 
nado de Henrique TV, com a politica mais hostil á, Hespa- 
nha, em que o novo monarcha francez se lançou aventu- 
rosamente, e com a celebração de dois tratados entre Fran- 
ça e Inglaterra contra aquella potencia; d' onde se pode 
conjectm*ar haver ligação entre taes factos, e que o duque, 
induzido por eircumstancias mais favoráveis e pela influen- 
cia de França, preparou este documento que os successos 
ulteriores tomaram inútil. Com o protesto de D. Tbeodo- 
8Ío coincidem ainda as declarações de Henrique IV contra 
a usurpação que os hespanhoes tinham feito da coroa de Por- 
tugal. Assim raciocina o visconde de Santarém na introduc- 
çlío ao tomo quarto do seu Quadro elementar; mas, a nosso 
vêr, favorecendo, como ello diz, o soberano francez a causa 
do D. António, prior do Crato, parece que nâo podia favo- 
recer ao mesmo tempo a do duque do Bragança, e que, 
quando muito, este se preparava para fazer valer os seus 
melhores direitos. Em mil quinlientoa e noventa e cinco 
morreu B. António; a dozesete de maio do anno seguinte 
assignou*8e a hga offensiva e defensiva entre França e In- 
glaterra, a quíd estipulava que se convidariam todos os 
príncipes e estados inimigos de Hespanha a accederem a 
ella, o que parecia ser favorável ás pretençí5es da casa de 
Bragança; mas d*ahi a dois annos Henrique IV celebrou a 
paz de Vervins com Hespanha, e todas as esperanças se 
desvaneceram. Além d'e8tas dificuldades, nascidas das al- 
ternativas politicas da Europa e da divisão de partidistas 
do duque c de D. António, havia ainda o partido dos que 
acreditavam na existência de D. Sebastião, partido nume- 
roso e tão importante, que em mil seiscentos e três causou 
08 maiores receios ao governo hespanhol, o qual se viu obri- 



91 

gado, pelo moTJmento que se operava cm Lisboa e outras 
cidades, a publicar um livro sobre a morte do dito rei, e 
Bobre o direito do soberano hespanhol á successâo da coroa 
portugueza ♦ . 

Era mil seiscentos e dezesetc outros vestígios apparecem 
de que nem D. Theodosio nem os poríuguezes se olvidavam 
das suas aspIraçMes. Entrou n'esse anno em Lisboa a ar- 
mada do marquez de Montes Claros, ricíi dos theaoiros da 
America, c logo houve quem visse era tal acontecimento 
ensejo favorável para Portugal sacudir o jugo de Hespa- 
nba, acclamando com o seu auxilio D. Theodosio. Com 
esse intuito dirigiu-se a Villa Viçosa D. Nuno Mascarenhas ; 
mas o duque, pesando aquasi impossibilidade de bom êxito, 
respondeu-lhe que ainda nSo chegara o dia marcada pela 
providencia para a liberdade da pátria. 

Esta esquivança, e mesmo esta resposta, envolveriam um 
segundo sentido? Seria D. Theodosio, como pretendem al- 
guns documentos, sebastianista ? Aquelle rei mancebo, a 
cujo lado combatera nos campos de Alcacer-Kibir, e cuja 
desappariçào mysteriosa servia de alimento ás esperanças da 
nação opprimida, teria entào se vivesse, sessenta o trcs ân- 
uos, e na epocha da morte do duque, setenta e seis ; podia 
muito bem existir por consegniote; e, o que é mais, o povo, 
e com o povo muitos homens notáveis, entre os quacs pre- 
tendiam contar o senhor da casa de Bragança, acredita- 
vam o ou simulavam acredital-o. Daqui as lendas estranhas 
que, escriptas ou oralmente corriam o roino; os peregrinos 
vindos de longes terras; a forçada apropriação de certas 
passagens de livros santos e profanos, que se suppunha ou 
fingia suppor prophetisarem a volta do infeliz soberano; e 
a consulta de pessoas de virtude que, por ella c pelas suas 
oraçSes, se julgava estarem mais em communicaçilo com o 
céo. Do ultimo meio serviu-se, dizem, para avigorar a sua 



I Blb, de PariSj Cod. 228, citado pelo visconde de Santarém. 



92 



crença D, Theodosio, pedindo a Fr. Bernardiiio de Sena, 
geral da ordem do S. Francisco, que consultasse em Itália 
duas servas de Deus, costumadas a ter grandes revelações: 
a madre alaria de S. Francisco, moradora em Florença, e 
a madre Francisca de Santa Clara, moradora em MiUo, 
Executou Fr. Bernardino a ordem do duque, e tanto uma 
como outra religiosa responderam: que Deus guardava D. 
Sebastiílo debaixo da sua raSo, e que dentro de pouco tempo 
seria novamente rei*. 

Estes documentos, a serem verdadeiros, teriam muita 
aigniticaçSo ; mas nâo ousamos affirmal-o. Talvez os for- 
jassem para dar força ao partido sebastianista. A verdade 
aqui é difficil, quasi impossível discriminar-sc; e atv o caso 
maravilhoso, que nos pinta D. Theodosio uma noite fechado 
n'unia sala do seu palácio, de joelhos, aos pés do infeliz 
monarcha, nSo sabemos se é voz do povo, e por conseguinte 
prova de certa valia, nâo do apparecimento de D. Sebas- 
tião, porém da crença do duque, ou se o fabricou qual- 
quer escriptor com aquelle intuito. Noa versos de Hocarro, 
ha pouco trauscriptos, allude-se também a D. Sebastiào 
existir ainda; Bocarro era sebastianista acérrimo, e por os 
dirigir a D. TheodoBÍo (notc-se, dois annos antes da sua 
morte), alguém poderá conjecturar que o duque o seria 
egualraente. 

Retirado nos seus paços, fugindo o mais possivel da so- 
ciedade, entregue a uma existência de contemplação e tris- 
teza, contrariado pelas calamidades do tempo, D. Theo- 
dosio, como temos visto, nem por isso deixou de continuar 
a merecer o amor e a veneração dos portuguezes; antes, 
esse mesmo raysterio era que vivia, e a abstenção em que 
se manteve cora a cOrte do rei estrangeiro e com o seu go- 
verno, contribuu-am para redobrar o aÔecto popular que 
o aureolava de merecida auctoridade. Ahi o iam procurar, 



1 Bib. da Ajuda. Mse.;, Misc, vol. xx, foi 163. 



93 



por mais que se escondesse, as demonstrações de sjmpathiu 
c respeito dos nobres, dos ecclesiasticos e dos homens de 
lettras. Deixando os outros, faliaremo» de alguns d*este8 
.detidamente, porque os seus testemunhos perduráveis che- 
caram até hoje com toda a clareza, e porque, além de tudo, 
patenteiam a magnificência e o cultivo litterario de quem re- 
cebia tào significativos obséquios. 

O celebre calligrapho Manuel Barata, mestre de escripta 
do príncipe D. JoSo, filho de D. JoSo III, dedicoulhe os 
Excmplurea de diversas sortes de httrasj Belchior Estaco 
do Amaral o Tratado das batalhas t successos do gahão /S. 
Thiago com os hollandezes na ilha de Santa Edtna e da 
Chagas com os inyltz^s entre as ilhas dos Açores; Pêro 
^az Pereira^ celebre architecto e mathematico, a Fabrica 

Mão do radio latino; o conhecido poeta Francisco Rodri- 
gues Lobo o poema O condrstavd de Portugal; Gaspar di' 
Chaves Sentido Os siiccessos trágicos do reino de Portugal, 
j/rocedidos da {nftlicc jornada de el-rvi Jj, Sebastião a Africa 
6 dag alterações que siiccederam e entrada do exercito d'el'rei 
de fíesjxinha, FiUjrpe ÍIj, e sua successão; Manuel Correia 
Monteneg^'0 a Lusíada de Luiz de Camões, novamente redu- 
zida; Francisco Soares Toscano os Parallelos de príncipes 
e varZes (Ilustres antigos, a ijue muitos da no$sa nação por- 
tugueza se assevitlham ; Francisco Sai'aiva de Sousa o Ba- 
culo pastoral de Jlore» de exemplos, colhidos de varia c av- 
thentica historia espiritual sobre a doutrina christã; JoSo de 
Brito de Lemos o Abecedario viilitar do que o soldado deve 
Jaztr até chegar a ser capitão c sargcnto-mór ; João Alvares 
Frade a sua Egloga pastor ií, em que eram interlocutores 
Fradelio, Denio, e Laurena; André Aftonso Castello a Chro- 
nica de Santo António de Pádua; António da Fonseca Osó- 
rio o Peregrino oriental de varias coisas e successos da ín- 
dia; Pedro Tácito Solmarinho o Corteiào Fortunato, fi9 
qttal, d sombra de duas curiosas novdlas, se trata toda a his- 
toria dos hollandezes no estado do Brazil; Francisco 4© Mo- 



9i 



raea Sardinha o Parnaso de VUla ViçoBa, já de nós tSo cO' 
nhecido; Manuel Bocarro as oitavas que transcrevemos, e uma 
das suas Aimcèphnhose^s intitulada: Estado politico ^ onde re- 
lata 08 yarfles políticos que produziu Portugal; Manuel Se- 
verim de Faria a Arvore genvidofjica da casa de Bntfjança; 
Miguel Pinto de Sousa a Masn panegyrica in Theodosium 
que sahiu á luz em Braga no anno de mil seiscentos e vinte 
e quatro; Pedro Barbosa a obra juridica: Commeniarii ad 
rubricam et Icffem Codicis de prcescriptionibus f e de estran- 
geiros, pnr todos, Lope de Vega, que lhe dedicou o poema 
acerca da tíipada de Villa Viyosa, do qual extractámos al- 
gumas oitavas. 

Ao ler tantos signaes de respeito, tantas homenagens, 
tanta cortczania, parece, que o pae de D. Duarte era um 
rei protector das lettras, e não um duque de Bragança. 

Quanto devia influir este commercio litterarío de D. Theo- 
dosio, e o que teve com tantos homens sábios, seculares 
e religiosos, como o dito Bocarro, cuja celebridade de me- 
dico, mathematico e astrólogo 6 bem notória; Belchior Re- 
go de Andrade, auctor das Antiguidades de Villa Viçosa; 
Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, que, além de uma 
ode em louvor do afamado jurisconsulto Melchior Phebo, de- 
dicada ao duque, lhe enviou juntamente com oa Fastos dé 
D. João III, um panegyrico escripto, assim como ella, em 
latim; Pêro M«ndes que lhe offereceu outro na mesma lingua; 
António Correia da Costa, que era mil seiscentos e dezesete 
voltou a Villa Viçosa, depois de ter peregrinado por Itália 
e Flandres; o padre Bartholomeu Guerreiro, tâo familiar 
da casa; os padres Bento de Sequeira e António da Con- 
ceição, que o duque venerava tanto; e o grande Fr. Luia 
de Sousa, com quem frequentemente se correspondia*, e 
tantos outros religiosos com que folgava de conversar o 
discutir em matérias theologicas, extremando-se entre ellaa 

* Diogo Barbosa Machado, BibliotMca Ituitana. 




95 

FV. JoSo de JesaS; carmelita, chamado no eeculo, JoSo de 
Mello, filho legitimo de D. Constantino de Mello, terceiro 
genito do duque d© Bragança D. Jayme e de sua segunda 
mulher D. Brites de Menezes, e irmSo de D. Francisco de 
Mello, ao qual honrou muito, assim como seus filhos *, quanto 
nSo devia influir este coraraercio littorario no animo de D. 
Duarte, já por participar d'elle pessoalmente, já por conhe- 
cei o de tradicçilo, oral ou escripta, em D. Duarte, que dcsdo 
pequeno, ajudado pela índole própria e peloa exemplos pa- 
terno», se lhe foi affeiçoando, a ponto de deixar-se captivar 
de todo pelos seus agrados! 

Â8 provas de amor a D. Theodosio não cessaram com a 
fflft vida; e entre as obnvs impressas, ah^m dos serrares do 
padre Bartholomcu Guerreiro, pregado no primeiro anni- 
versario da sua morte, por ordem do duque D. JoSo, e do 
padre André Gomes, pregado no convento de Palmella, JoSo 
Dias de Carvalho compoz uma obra intitulada: Benção 
propkefica, divina t mysleriosa do geteníssimo princi/pe D. 
Theodi09Ío, que lançou aos príncipes setis jUhos, na ultima 
hora do seu transito, declarada espiritualmente^ Gaspar Pinto 
Correia escreveu: LacryrncÉ Itiêitanorum m ohitu serenissi- 
mi principis Theodosii, que veiu a publico em Lisboa em 
mil sei.scentoa e trinta e um; e o padi*e Francisco Freire 
uma egloga, em verso latino, ao mesmo acontecimento, qiie 
dedicou a D. Duarte, afora outras obras de vários aucto- 
res, cuja noticia chegou até nós, e outras que se perderam. 



' 1'V. JoJo do Sacramento, Chronioa do* CnrmttUa» ducaXêOf, Lis- 
b«i»l721. Pol. rol. t.°, p»g. 7M. 



96 



N&o se descuidara D. Tlieodosio de lazer as saas dispo- 
BÍç8eB testamentárias em tempo opportuno. O seu espirito 
religioso havia muito que o desprendera do mundo, e os 
dissabores e a edade, aggravada pelas doenças, deviam-lhe 
fazer desejar ás vezes o esquecimento e o repoiso do ul- 
timo aomno. Quasi dois annos antes de fallocer, a dois de 
janeiro de mil seiscentos e vinte e oito, ou a vinte e dois, 
segundo a Historia genealógica^ sendo accommettido da pe- 
rigosa enfermidade que dissemos, e sentindo os rebates da 
morte, mandou escrever o seu testamento por um antigo 
confidente, D. Agostinho Manuel de Vasconcelíos, professor 
de historia, escriptor c homem erudito. As largas conferen- 
cias que houve entre um e outro, para tal fim, excitaram 
as suspeitas do duque de Barcellos ; procurou este por con- 
seguinte informar-se com D. Ago&tinlio Manuel do myste- 
rio que encobriam, o que obteve, pois o confidente de sen 
pae, ingrata e imprudentemente, o poz ao facto de todo o 
negocio : traição já prenuncio da que, decorridos poucos 
annos, machinaria contra o próprio D. João, rei, e contra a 
sua pátria, quando conspirou em danmo de ambos e a fa- 
vor de Hespanha com o arcebispo de Braga e seus cúm- 
plices, pelo que padeceu o merecido castigo. Soube D. Theo- 
dosio da falta de segredo, e sem por isso mudar de testa- 
mento, esqueceu com animo generoso os motivos de queixa 
que tinha a seu respeito. 

É sobremodo notável este escripto e o codicillo que fez 
a doze de novembro de mil seiscentos e trinta, dezesete 
dias antes de fallecer, pelas declarações que contém relati- 



97 



vaa a D. Duarte, á capeJla ducal c aos creado». Copiaremos 
d'ello as verbas que mais nos interessam. 

Depois de instituir por herdeiros seus filhos, D. João, 
D. Duarte e D. Alexandre e de outras disposiçiles, conti- 
nua: «Ao duque de Barcellos oncommendo meus filhos e 
seus irmios, ainda que, como silo parentes e amigos, bem 
vejo ser pouco necessária esta recommendaçào, por serem 
iko conformes em tudo, mas, pelo muito amor que Duarte 
me tem mostrado, vos peço muito que tomeis com muitas 
veras á vossa conta o seu modo de estado e vida, e seja 
como senhor e filho d*esta casa; nem lhe consentireis toda- 
via tomar elle outro somenos d'Í8to: e que para isso sem- 
pi-o lhe estará melhor e mais honrado o estar comvosco. 
Porém, como vós haveis de casar, depois de conseguido, se 
n^ poder continuar aqui, o podereis pur em Souzcl, por 
ustar perto para vos poder ver e communicar com facili- 
dade; porém, sempre vos lembrarei que melhor eslaes uns 
com os outros qno apartados, o a villa mais auctorisada ê 
uossa casa e grandeza. Alexandre poderA viver em Mon- 
forte, quando nâo morar aqui comvosco, porque o viver no 
corte nio tenho por tào bom para cUcs, nem por tào hon 
roso para a c«sa. 

«Lembro a meu filho o duque que a melhor coisa que 
lhe deixo n*esta casa é a minha capella, e assim lhe peço 
ÉC nâo descuide nunca do ornato d'ella, assistindo emquanto 
poder aos officios divinos que se celebram n'ella, procm-ando 
que sejam com a perfeição e continuaçílo que até aqui, as- 
feim de capellàes, músicos e officiacs, como de todo o mais ser- 
viço, o que lho encarrego quanto posso. . . E outrosim lhe ad- 
virto que, para isto ser com mais facilidade, e eu me assegu- 
rar mais, o obriguei, contra sim vontade, aprendesse musica, 
i', omittindo-a algumas vezes, o fiz continuar n'este estudo. 

lA meus creados se pagarSo seus serviços, conforme as 

Íenaçi5es e costumes da minha casa. E demais d'est4i sa- 
tisfaçJlo, encommendo ao duque meu filho lhes faça toda 



JI. X. D. lí. — T. 1. 



98 



a mercê que ellee merecem, respeitando o amor, antigui- 
dade e bom serviço que sempre me fizeram, e n3o só a mim, 
senão a todos os senhores doesta casa, procedendo n'eâta 
matéria com a grandeza que deve a seu nascimento e ao 
agradecimento^ que c justo se tenha com creados tâo hon- 
rados. E a mesma recommendação lhe faço das creadas 
d'e8ta casa, com quem tenha particular vigilância no reme- 
dial-aa, e, em particular, a D. Luiza de Ledesma, D. Je- 
ronyma de Sande e D. Jeronyma de Gouveia». 

Até aqui o testamento; agora o codicillo. 

«E assim deixo Villa do Conde a meu âlho D. Duarte 
para viver n'ella, e, por sua morte, tomará logo á casa». 

«Os vinte (vinte mil cruzados dos cahidos das comraendas) 
que ficam quero que sejam para meu filho D. Duarte». 

N 'outra verba declara que deu a D. Alexandre uma certa 
quantia, também nos cahidos das commendas *. 

Sào do maior peso estes repetidos testcmunJios de D. 
Theodosio a favor do nosso biograpbado. Nas ultimas pa- 
lavras ditas a seua filhos, recommenda-o vivamente ao du- 
que de Barcellos, porque o teve sempre n'alma; á hora 
da morte, despede-se d'elle com mais efiFusSo do que doa 
outros; na verba testamentária que acabamos de transcre- 
ver, pede também ao seu succesaor que o proteja e ás suas 
coisas, pelo muito amor que este seu filho lhe tinha mos- 
trado. Nem D. Jo2o, nem D. Alexandre, apesar da ternura 
paternal com que os tratou na hora da despedida extrema, 
foram merecedores de especial mcnçUo. Nem uma única 
phrase que nos venha patentear enti'e estes e seu pae a es- 
treita convivência e affecto de duas almas que se entendem 
e correspondem. Pelo contrario, parece-nos ver nas expres- 
sões ao seu herdeiro uma tal ou qual dureza ou reserva, 
próprias de um animo reaentido. Só D. Duarte alcançoa 
tamanba fineza, porque só elle a merecia. Foi egualmente 



* D. ÂutOQÍo Caetano de Sousa, Hisl. genealógica. 



99 

para distingiiil-o entre os outroa filhos que D. Theodosío 
Uie fez presente de um habito de Chriato, precioso por[^ter 
»ido d'el-rei D. Sebastião*. De quanto dissemos conclue-se 
que D. Duarte ora o seu predilecto. Este mesmo o confes- 
aaya annos depois. A amizade de D. Duarte a D. Theodoaio 
procedeu^ quanto a nós, do modo por que se comportou com 
seu pae, e ainda mais da conformidade de índole entre am- 
bos. Fr. Timotheo Ciabra Pimentel, alliidindo a este ponto, 
escreve: Que muito parecido a D. Theodosio sahiu o fiUio 
saa virtudes e «que não só em as feiçSes corporaes e af- 
feiçSes do animo era imagem perfeita e o traslado maia 
próprio do seu original, senSo que brilhavam os raios do 
valor paterno em o filho, e a semelhança dos costumes, pelo 
espelho claro das suas acçSes*». 

D. Theodosio, talvez por conhecer em D. Djiarte, desde 
pequenino, estas qualidades em gérmen, pois desde a pri- 
meira edade ellas transluzem do espirito infantil, já de si 
diaphano, como vaso de finíssimo alabastro, afifeiçoou-se- 
Ihe mais do que aos outros; achou echo tSo legitimada af- 
feição; foi crescendo depois em ambos com o trato diário 
e com as mutuas provas de carinho c amor, cmquanto que 
a alma de D, Duarte, parecida com a do pae, se ia mol- 
dando e aperfeiçoando pelos seus sentimentos e pelos no- 
bres exemplos que muita vez este lhe dava. Podia-se dizer 
em verdade que era filho do seu corpo, do seu espirito e 
do seu pensamento, visto que de todos três participava tanto. 
E já que falamos em corpo, cumpre notar, com o mesmo 
Fr. Timotheo, que nSo só na tez branca e rosada, nos olhos 
claros, e no cabello loiro, havia parecença entro o pae e o 
filho, o que egualmente é applicavel a D, JoSo, mas tam- 
bém, e sobretudo, na gentileza e magestade da presença, 
que tanto os realçavam. 

• Axch. do Estado de Milito, Processos de D. Duarte de Bragan- 
ça, Doe de 10 de dúv. de 1G49. 

* Pantgi/riaj funeraL 

7# 



100 



VI 



Esta confíBsSo tuna e outra vez feita por D. Theodosío, 
e em occasides tão solemnes, ao passar as portas da vida 
para entrar aa da eternidade, parece abda provar quo D. 
Duarte nSo se maculou de raaneira alguma cum a nódoa 
de ingratidão e de falta de respeito, que assacam ao duque 
de Barcellos, nXo obstante a historia d'este noa certificar 
a grande reverencia c amizade que conaagi*ava a seu irmão 
immediato, cujos consellios gostava de ouvir nos negócios 
da sua casa, o que provavelmente se deve refeiir antes 
ao tempo decorrido entre a morte de D. Thcodosio e a 
sabida de D. Duarte dos paços ducaes de Villa Viçosa, por 
causa da desintclligencia que teve com sua cunhada, a du- 
queza D. Luiza de Gusmão, como veremos. De mais, filho 
segundo, nSo o cortejariam adidadores e ambiciosos como 
03 que impelliram o duque a lançar se no caminlio censu- 
rável que trilhou. 

Longe de se entregar a taes excessos, D. Duarte gas- 
taria as horas do dia, e ás vezes as da noite, no reth-o 
dos seus quartos, entregue á leitura, de que era muito af- 
feiçoado, e que fixava tomando apontamentos, conforme 
Be vê de ims originaes de sua lettra ainda hoje exiaten- 
tea a respeito de historia civil e ecclesiastica *. Corrobo- 
ram esta applicação o que já sabia quando partiu do reino 
e a grande bibliotheca por elle formada atú então, a qual, 
pela abundância c valor dataria de nâo poncos annos, abun- 
dância e valor que bem se evidenceiam dos seguintes versos 



1 Bib. da Ajuda, Mss., Misc, vol xxzvu. 



101 

de Manuel de Galbegos^ tiradoa da sua obra Templo da me^ 
moria, poema epithalamico nas feUcúsimas bodas do dwpie 
de fíraganqa e, de Barcellos, impressa em Lisboa, em mil 
seiscentos e trinta e cinco, e dedicada a D, Duarte. 

A Fama desejava qae HjTnineo 
VisBC quanto no paço illuatre havia; 
£ logo amboa com tácito paasêo 
Se vâo por onde seu desejo oa guia, 
Ató 4ue entram n'umu caea, onde 
A mellior livrariu :iii sul ír esconde. 

E rpgftlo oeta cubu sobcraua 

Do generoso príncipe Duarte: 

N'ella, como na sala Vatícana, 

8e honra o estudo, Be acredita a arte, 

E illuattea livros de oiro guarnecidos 

Em muitos orbes luxem divididos. 

Aqui em vários idiomas, e em diversos 

EstyloB R poesia insigne sôa: 

Doutos volumes de galhardos versos 

Cercam a casa a modo de coroa, 

E a maior parte de uma e de outra estante 

Honra da historia o numero elegante. 

Aqui gloriosa a astrologia impera, 
Aqui a musica reina, aqui jocunda 
Tem a pbiioaophia a sua esphera, 
E a aciencia sagrada alta e profunda ; 
Emíim tem n'e&ta casa illustre assento 
Tudo que objecto é do entendimento. 

Esta descripç!lo ó curiosa, c bastaria para mostrar a 
variedade de conhecimentos e o animo estudioso de D. 
Duarte, se outros testemunhos o não abonassem, e, entre 
elles, positivamente, o bastante claro de Jacinto Cordeiro, 
o qual na Segunda parte dê las comedias ^ dirigida ao mesmo, 
lho diz: que sabe muito bem avaliar a poesia «pela natu- 



102 

ral curiosidade com que de continuo exercita o seu fellce 
engenho na licçSo dos poetas de Itália, Franya e Hespa- 
nlia, e na intelligencia dos latinos, pelo ócio em que vive 
esse real coração, retrato verdadeiro de seus generosos 
antecessores». 

Por<í^m nSo só á leitora da poesia se dedicava D. Duarte, 
pois, conforme a asserçSo de uns versos anonymos do au- 
ctor contemporâneo, vê-se que também se ensaiava no seu 
cultivo •. Mais do que estes entretenimentos, o deviam dis- 
traKir o retiro e a solidão dos campos, amigos e confiden- 
tes costumados de uma alma, como a sua, melancliolica, de 
uma phantasia ardente, fecimdada pelas obras primas da 
litteratura antiga e moderna, e pela eterna e inexaurivel 
fonte da inspiração, o amor: que gentileza, mocidade, pban- 
tasia, ternura, posiçSo, tudo se juntava pai-a captivar e ser 
captivado no 

Generoso Duarte, a quem Liicina 

Por Eudimion mil doites requebrara, 

A quem, lá pela hora matutina, 

A Aurora por Cefalo roubara, 

E em quem (se a mâe de amor de amor morrera) 

Da tragedia de Âdouifl ee esquecera ; 

A cujo brio, a cuja mageatade, 
£ a cujo entendimeuto bem podia 
Entregar-ae do Pindo a potestade, 
E o governo do carro áureo do dia, 
Que, a ser do aol a galhardia tanta, 
Tivera o bosque menos uma planta, 

Por que Daphne em grandezas elevada, 
Ou morrera de amor, ou uito fugira, 
Nem fura por tyrauna castigada 



* Applautoê da Univtrsidade a El-Eei D. João rv. Coimbra, 1641, 
foi. 53. 



103 

Anaxerete, se eeta gala vira; 

Que a tal brio, a tal graça, a tal acéo 

Deve toda a belleza alto trophéo. 

Pinta Ovídio a Narciso tâo airú»o. 
Tão gentil, tào galhardo, tào gulante, 
De brio c condição l&o generoso, 
E tanto em varias artea elegante. 
Que ficção mythologica »e chama, 
E como fabula o t-elebra a Fama. 

NÍDgaem no mundo cH? que namorado 
De si mesmo morreu por si de auiores, 
Nem crê que agora, cortezào du prado, 
E, convertido em fli'>r, pompa das flores, 
Cuidando que tal rosto, tal grandeza 
É mais do que pudera a natureza. 

Moa já por v/i», excelso Duarte, agora 
Se vê que & natureza era factível 
Ser da belleza de Narciso auctora 
E emHm faxeie a fabula postíivel. 
O mundo já por vós se persuade, 
Que um ente de razSo falteis verdade '. 

Qiiantas vezes, ferido por uns bellos ollios^ nJio figiria 
ellc do bulício da corte para o escuso abrigo da sua ta- 
pada, que o vira outr'ora brincar nos barcos do lago, met- 
Ur-so por entre oa arvoredos, apanhar as rosas, alegre e 
descuidado, nos seus brincos da meninice junto com seus 
irmãos ! Quantas á sombra do seu copado bosque, ou perto 
das aguas que a atravessavam muimurando, ou escondido 
no 8e\i encantador Vergel, nSo deixaria pender sobre o peito 
a fronte pensativa, oppresso, nSo, como seu pae, que tanto 
frequentava aquelles logares, pelos cnieis desenganos da 
vida e tristezas da edade, mas pelos sôfregos anceios e es- 



í Manuel de Galbcgos, Templo da Memoria. . . Lisboa, 1635. 4.*> 



104 



peranças mal satisfeita», e duvidas, e sonhos, que noa fazem 
soâPrer e chorar, chorar lagrimas agro-doces, brilhantes como 
pérolas, porfiuc as illamina o sol d<i aiuor e da juventude! 
Quantas confiaria ao papel, sí-ntado nalgum tronco ou pe- 
dra, os, já loucos, jA temos, pensamentos, que o agitavam 
encontradanicnte, <? veria apparecer dentre a espessura das 
selvas as creayocs vagas do seu espirito, e julgaria escutar, 
com o iniido do vento nas folhas das arvores, a magica toada 
de alguma voz conhecida no mundo, ou que apenas ima- 
ginara! 

Um dos seus passeios mais favoritos, senào o preferido 
de todos, devia ser o do oiteiro do Ficalho, que se depa- 
rava logo ao transpor os limites da povoação. A maneira 
porque o auctor do Parnaso ãts Villa Vii^osa o descreve e 
as sensações que experimentou, e com alguma suavidade 
pinta, ajudar-nos-liSo a suppôr o que D. Duarte veria e 
«entiria n'elle. 

«Tem a villa muitas sabidas apraziveis, diis elle, mas 
luna o ê tanto mais que as outras, quanto mais de seu si- 
tio se descobrem os mais longínquos e apartados legares 
que do qualquer dos outros so pode ver e alcançar. Esta 
que digo é a sabida que se faz do castello pela porta do 
Sol fora até o oiteiro do Ficalho . . . ; nJlo é tào alevantado 
da parte d'onde o tomamos sahindo a elle direitos pela porta 
do Sol, como o fica sendo depois de chegarmos a um as- 
sento de penedos, que estilo no alto. .., que a natureza 
alli creou, como de industi-ia, para servirem de cadeira, a 
quem de cansado chegasse . . . , ou para d'ahi, cora grande 
repoiso, se estar recreando nâo só com a fartura da vista 
que d'aquelle logar recebe, mas juntamente com o cheiro 
das flores do mesmo oiteiro, que são varias e infinitas- . ., 
como também do que lhe vem das que ha nas hortas, por 
ficar o dito oiteiro sobranceiro a ellas, correndo umas de 
uma parte e outras da outra, e por meio d^ellas os ribeiro» 
que disse sahirem das fontes da villa, murmurando suas 



105 



aguas na queda que fazem dos açudes dos engenhos e aze- 
nhas, pur uma toada. . . sentida e saudosa. . . NS<> aú acham 
muito de que lançar mSo os que chegam a este logar mal- 
tratados do amor, avexados da fortuna, õu magoados da 
morte, paru do tio excelso porto se aproveitarem, discor- 
rendo por seus achaque» ou feridas, fazendo suas dores me- 
nos, pela occasião do remédio que d'a]li acham e d'alU des- 
<»brem em seus discursos, rans assim também se passam 
a pensamentos divino», trazendo-Ihe arrependimento das 
obras más que fizeram. . . . D*aquellc assento do penedos 
se está vendo logo de perto, ao pé do oiteiro, o convento 
da Piedade dos padres de S. Francisco, e uma ermida de 
S. Thiago á mão direita, o á esquerda, outra de S. Luiz, 
com um recebimento de um pequeno valle, que está A des- 
cida do oiteiro, como que a natureza o creíira alH para ser- 
vir de apparato e recebimento do convento e das ermidas, 
por detraz das quaes vSo as hortas e os ribeiros que acima 
disse. Depois d'ÍBto, se ve, maia ao largo, a formosa tapada, 
toda em claro, e d'ahi, estendendo a vista a quanto pode 
chegar, se está vendo a serra da cidade de Portalegre . . . 
e também. . . Villa Boim n'aquelle alto, e a villa de Oli- 
veira, c a serra de Olor, que além d'ella está, e o rio Gua- 
diana, quando vae cheio, e a villa de Jm-onienha, ao pé da 
qual vae correndo. Nào sò com estas boas vistas se contenta 
o logar e sitio do oiteiro do Ficalho, mas aos mais compri- 
dos liorizontes, que rFelle se descobrem, se estio vendo as 
serras da cidade de Merida, dezeseia léguas por dentro de 
Castella. E, posto que digam, que nossa vista não pode al- 
cançar mais que um grau, que sSo dezoito léguas por terra, 
d'aqui tambein aj)parece (como por uma saudade) o fastígio 
e altura da serra dos Fornachos, que sio d'aqui a ella vinte 
e oito léguas.» 

Que melhor sitio se encontraria para o nosso D. Duarte? 
Tudo n'elle o convidava á mcditaçSo : a terra com os seus 
encantos e perfumes na doçura do amor e nos prazeres da 



Í06 



vidaj o céo com os fundos mysterios da sua abobada inson* 
davel era Deus e na imnicnsidade ; as longíssimas serranias 
e 08 esfumados horizontes na largueza do mundo, na scien- 
cia e na gloria. Oh! foi esta, quasi, quasi o affirmamos, 
uma das suas distracçSes predilectas; foi doestas alturas que 
a sua alma voou njis azas do juvenil enthusiasmo apoz um 
ideal que nunca poude, nem se páde alcançar, apoz o ideal 
da mocidade e da poesia. 

Outro emprego tinha D. Duarte, que muito tempo lhe 
levaria, e que dep5e a favor do seu animo bom e caritativo 
sendo egualmente novo signal nâo s<5 da intelligencia amo- 
roBa entre o pae e o filho predilecto, mas também da mu- 
tua affinaçSto das suas grandes almas. O padre mestre Bento 
de Sequeira, escreve fallaiido acerca da liberalidade de que 
D. Duarte era dotado: tCostumava o infante... recolher 
as petiç(5es das mãos dos necessitados e pretendentes do povo 
para as apresentar nas do príncipe seu pae, e d'ella8 so- 
licitar o despacho desejado, e, como entre os irmãos elle era 
o menos rico. . ., pedia por nHo ter, e de todos recebia para 
despender com todos, e mui em particular do príncipe D. 
João, que Deus nos deu por senhor e hoje logramos rei '». 
Este traço da biographia de D. Duarte nSo desdiz dos elo 
gios que geralmente lhe teceram os contemporâneos. Era 
pois elle o intermediário da caridade de D. Theodosio e da 
pobreza e miséria dos desvalidos, e, nSto se contentando 
com esse tSo sympathico e piedoso oflRcio, ainda descia, an- 
tes, subia e muito, a solicitar do irmSío mais velho e de 
outros esmolas para os seus protegidos, visto que do seu 
não lh*aa podia dar como desejava. Semelhante qualidade, 
que nos abona com evidencia os quilates de lei do seu cora- 
ção meigo e condoído, veremos no decurso do presente es- 
cripto, que nlo a desmentiu era varias occasioes, nem mes- 
mo com os inimigos. 

^ Oração ftmeral em cu honrai do itifantç D. Duarte. . . , Lisboa, 
J650. 4." 



107 



A estes empregos cumpre ainda juntar o da religião, com- 
mmn a elle, ao primogénito e a D. Alexandre, no qual de- 
via ser muito zeloso, como depois sempre o foi, a imitação 
de seu pae, que acompanharia pelo menos em boa parte dos 
officios e exercicios religiosos e das pregações. De toda» as 
festividades em que figuravam D. Theodosio e D. Duarte 
e seus irmSos, só especificaremos trcs, ainda que seja uni- 
camente para mostra da iniiuencia que deviam ter na sua 
educação. 

Conservava-se na casa de Bragança com grande venera- 
ção, como já dissemos, um santo sudai*io, o qual a piedade 
crédula suppunha o próprio em que foi deposto o corpo do 
Redemptor. Na sexta-leira de Paixão o padre Jeronymo 
Dias, esmoler do duque ia-o tirar solemnemente de dois pre- 
ciosos cofres, em que se guardava n'um oratório, e em se- 
guida de uma das janellas do paço, que cahia sobre o ter- 
reiro da Porta do Nó, mostra va-o ao povo, que em baixo 
esperava para adoral-o. Pois D. Theodosio acompanhava 
toda esta cerimonia, desde o principio até ao fim, descalço, 
com uma tocha na mão, e, junto d'elle, seus filhos também 
com tochas accesas. No dia de paschoa assistia o duque á 
procissão da Resurreição, que se fazia na sua capella com 
grande pompa, pegando com seus filhos e algima fidalgos 
particulares da casa, ou creados d'elJa, nas varas do pallio 
cm que ia o Santíssimo. 

No dia de Santa Isabel, rainha de Portugal o sua ascen- 
dente, costumava o duque todos os annos dar um bom jan- 
tar a doze pobres e a uma menina de cinco annos, os quaes, 
sentados á meza com •» duque de Barcellos e seus irmãos, 
eram servidos por elle mesmo com religiosa humildade; c 
no fim da meza presenteava-os com vestidos novos e algum 
dinheiro, e mandava os para suas casas, acto na verdade 
edificativo, e da maior submissão e caridade. 

Também absorveriam bastante tempo a D. Duarte ob 
exercicioB venatorios, a que o incitava o exemplo de seu 



108 

próprio pae, apaixonadíssimo d'elle8 e o do duque de Bar- 
coHos, seu irmJlo, que o nSo era menos. D'estea dois sa- 
bemos por D. António Caetano de Sousa, que costumavam 
ser companheiros em taes fadigas, e até a esse respeito 
conta o mesmo auetor uma anecdota, que bem pinta o ódio 
de D. Theodosio ao jugo de Hespanha. Andando ambos 
uma vez A caça, ao passar de um ribeiro, com o salto do 
cavallo, perdeu D. Tfieodosio a carapuça, de que ordinaria- 
mente usava no campo, a qual era negra, alta, á antiga 
moda, a que chamavam gualteira. Vibrava o aol forte ; pelo 
que tirou o duque de Barcellos a sua e lh*a offoreceu, em- 
quanto tardavam a dar-lhe outra. Ficou o duque satisfeito, 
mas, reparando logo na forma da carapu^'a do filho, que 
era moderna, ou do rebuço, com singular desprezo a ar- 
rojou de si, dizendo: Tírae lá, isso foi invençSo de la- 
droes*. O padre Bnrtliolomeu Guerreiro, que tanto conhe- 
ceu a corte de Villa Viçosa, vae porém mais longe do que 
D. António Caetano de Sousa, poia nos pinta o duque D. 
Theodosio com seus fiíhos nas recreações da sua tapada 
e nas pescarias o caças dos seus bosques do Roncam e 
do Guadiana -. Nem era provável que D. Duarte se esqui- 
vasse a este ultimo divertimento, paixilo de quasi todos os 
senliores da sua farailin, por ser reputada nobre c digna de 
grandes e príncipes, como pallída imagem da guerra. Fr. 
Rapbael de Jesus, conforme vimos, segunda Guerreiro. Oa 
exercícios equestres e o jogo das cannas eram-lhe também 
do maior agrado, e de certo que muito os cursaria, 

N'alguma d'es8a8 caçadas ou exercícios, ou por outra 
causa, nílo acertamos a decidil-o, ficou uma voz ferido o 
nosso heroe; 



• Hisioria geneahgica. 

* Sermão das exequicu do anno ctc. 



i09 

Mas 08 medos do mal nâo se recebem 
No peito de Duarte que os dispensa, 
Nâo julgando a ferida perigosa. 

Magestade animosa 
Ostenta o neto emfím de Catharina; 

Diz uma poesia feita na própria occasiSo do triste acon- 
tecimento. 

A pena dos irmãos é que foi grande: 

O duque primogénito se altera 
Co'a8 terríveis sezões 5 e só padece 
O formoso Alexandre mentalmente; 
Que bem é que como anjo padecera. 

Não menor foi o sentimento de D. Theodosio: 

O pae sente do filho o duro caso *, 

Proaegue o poeta que nào acompanharemos por brevi- 
dade, e mesmo porque o transcripto basta ao intento. 

A esses exercidos venatorios de D. Duarte se referem 
três epigrammas latinos que conhecemos, dos quaes ficará 
aqui um para amostra. 

Herbida per valles cervus dum pascua carpit, 
Prmcipis invicta gaudet obire manu. 
Diana iu longos si vitam extenderet annos, 
Optasset fato non meliore mori 2. 

N'esta8 e n'outras occupações congéneres gastaria D. 
Duarte o principal do seu tempo; com o que não preten- 
demos que se eximisse de pagar á mocidade o costumado 
tributo, pois é natural vivesse como o pediam os seus annos; 

1 Bib. da Ajuda, Mss., Misc, vol. xxxvii, foi. 294. 
* Id., id., Movimento do orbe lusitano, tomo ii, foi. 230. 



no 

tiSo; D. Duarte foi rapaz, e ate restam vestígios, embora 
raros, de certos pecadilho» por elle então commettidos; mas, 
ainda em tal caso, procedia usando de todo o recato e cau- 
tella. Ha duas cartas escriptas a D. João e D. Alexaii' 
dre, por um Francisco, cujo appellido Tavares se cala fa- 
miliarmente na assignatura, intermediaiio e companheiro 
nas aventuras amorosas de ambos, d' onde se deduz a 
moderação do comportamento de D. Duarte, comparado 
com o dos irmJíos. N^essas cartas, sendo uma das pessoas 
a que se destinam D. Alexandre, o mais moço de todos, 
o signatário, de mistura com o assumpto immoral que trata, 
chama a D. Duarte, com o desdém de pessoa extravagante 
ou leviana, o Duartínho; isto é, depois de alludir a algu- 
mas verduras d'e8te, acha-as, raedindo-as pelos desregra- 
mentos a que estava costumado, de tao pouco valor ou tSo 
iimocentes, que lhe dá o tratamento próprio de um meni- 
no. Outra coisa se conclue das mesmas cartas, não menos 
favorável para o nosso biographado: o tal Francisco, falando 
com D. Jofio e D. Alexandre, menciona D. Theodosio, não 
pelo seu nome, ou o duque, ou vosso pae, como era na- 
tural, mas pelo pae de Duartinho. NSo nos estão mostrando 
taes palavras, ajudadas pelos factos que já conhecemos, a 
difteren^'a entre D. Duarte e os irmãos; o maior amor e 
obediência que este consagrava ao auctor de seus dias; a 
predilecção que pelo seu procedimento dcsfructava na alma 
do velho duque entre os outros filhos? As palavras men- 
cionadas íiugmentnm ainda muito de valor, ao considerar- 
mos o desrespeito com que o signatário das cartas se re- 
fere a D. Theodosio, mostrando estar aborrecido de atti- 
ral-o, talvez por não o deixar tanto á larga como desejava *, 
atre^nmento que nimca seus filhos deviam consentir; que D. 
Duarte julgamos não permittiria; e que parece indicar, da 
parte d'elles, uma culpável tolerância, nascida, 6 de suppor, 



1 Bíb. da Ajuda, Msb., Misc, vol. xixvn, foi. 257 e 258. 



111 

n2o tanto da falta de amiaade a seu pae, como da ligaç3o 
com Francisco Tavares e da necessidade c^ue teriam d'elle 
para slh suas aventuras amorosas. 



Vil 



Foi profundo o sentimento na casa de Bragança pela 
morte do duque D. Theodosio, nâo só de seus lilhos, e 
priucipaimente de D. Duarte, que tanto o amava, mas tam- 
bém do maior numero dos seus familiares. Se alguns dos 
defeitos que llie assacavam mereciam censura, ae por causa 
d^esses defeitos houve quem o abandonasse, levado do in- 
teresse, movei poderosisaimo sempre entre oa homens, tudo 
isso, que era baixo e pequeno, devia acabar com a vida do 
duque, para só resplandecer sobre o seu tumulo o grande, 
o puro, o acima do vulgar: as suas nobilissimas qualidades. 
Os lilhos perderam n'elle um pae, que poderia ter sido mais 
ciudadoso, mas que na verdade os estimava; os creados um 
amo cheio de bondade, que, sempre solicito por eUes, o mos- 
trou ser ainda mesmo na hora da morte; os pobres c es- 
tudiosos o asylo benéfico, a que tantos, famintos de pào e 
de sciencia, se acolhiam com proveito; os religiosos o seu 
amigo, o seu companheiro, e o seu liberalissimo protector. 

Satisfeitos por D. Duarte e seus irmSos oa oflBcios da 
egreja devidos ao corpo e á memoria do seu pae, enxutas 
as lagrimas da dôr, e passado o tempo necessário para ae 
dar largas «'is expansSes provindas de tSo fatal aconteci- 
mento, a Corte do Villa Viçosa despiu o luto e a tristeza e 
tomou, por assim dizer, novamente á existência; mas a 
uma existência diversa da anterior, porque foi completa a 
metamorphose que experimentou n'essa conjimctura. Aa 



112 



paredes do palácio ducal perderam o sombrio aspecto quo 
ae revestia; aquellas saljis e aposentoa soturnos e pesados, 
presididos pela pragmática severa e aíFeitos a ouvir as con- 
ferencias acerca dos negócios, ou as murmurantes preces 
da religião, aquelles corredores, por onde deslisava, melan* 
cholico e solitário, o vulto negro do velho duque, aquellas 
portas, que, nos últimos tempos, apenas de vez em quando 
cllo transpunha só ou acompanhado de seus filhos, para 
caçar na tapada ou pai-a se esconder mais do mundo na 
solidão de seus bosques, cederam o passo, depois do seu 
fallecimento, a ura trato menos constrangido, aos risos e con- 
versas da mocidade, ao frequente enti*ar e sahir do novo 
senhor e de seus irmãos, ou para os passeios campestres, 
ou para as fadigosas montarias ou para os outros passa- 
tempos, em quo se costimiam empregar os mancebos, so- 
bretudo 03 favorecidos da fortuna. A mocidade succedeu 
á velhice; a excessiva brandura á demasiada rigidez; os 
prazeres, os jogos, os projectos de amor, <l etiqueta e ás 
continuas praticas religiosas; o partido do duqut- de Bar- 
cellos ao de D. Theodosio; e as ídéas modernas, mais da 
moda e mais sympathicas e attractivas, ás idéas austeras e 
já de outro tempo, conservadas com heróica tenacidade 
pelo duque fallecido. 

O novo senhor do estado de Bragança via satisfeitos os 
seus desejos ambiciosos, se a ambição entrou nas desintel- 
ligoncias, de que se constitiuu chefe na casa paterna, e, to- 
mando conta do governo, um dos seus principaes cuidados 
foi, conforme acontece muita vez, quando occorre a sncceti- 
feào nos principados e nas grandes familias, nomear pessoas 
para os officios maiores, e até para algims dos menores, ti- 
rando-os a vários dos antigos servidores de D. Theodo- 
sio. Em D. António de Mello proveu o cargo de cama- 
reiro-mór ; em D. Luiz de Noronha o de copeIi'o-m<5r ; em 
Fernilo Rodrigues de Brito o de estribeíro-múr; cm Pedro 
de Mello de Castro o de vedor da sua caaa; em Fr. Dio- 



113 



ni&io das Anjos o de confessor; em Aiitonio Pues Viegae o 
de ôecretario; e em Francisco de Sousa Coutinho o de re- 
nder na cOrte de Madrid. Naturalmente o duque D. João, 
procedendo d'e8ta mimeira, procurou rodear-se dos seus par 
ciaes ou de quem lhe merecia confiança. Estava no seu di- 
reito, c nâo o censuramos por tíil de modo algum ; mas sem- 
pre notaremot} de ijassagem que foi muito diverso o proc< 
dimentu de D. Theodosio, pois conservou, quando tomou 
conta do governo da casa, todos os creadoa díi duqueza D, 
Catharina; o se nos objectarem que o fez, cedendo á prc- 
b5o por ella exercida no seu animo de mancebo, respondo 
remoB que nunca depois desmentiu ou annullon esse lou- 
vável acto. 

Outra medida que D. JoSo também adoptou, logo no prin- 
cápi^i; foi lev.'íntíir grossas tenyas com que o duque seu pae 
HOCcorria alguns fidalgos pobres c aclu-gados independentes 
da sua família, uns para se sustentarem nos estudos e ou- 
tros na curte onde viviam. Movcrara-o, allega so por parte 
dos seus delensorus, as representaçiHes dos novos ministros, 
06 quacs pensavam que era melhor desempenhar a casa, pa- 
gando o quo se devia, do que dar aquillo a quo nílo se era 
obrigadi», sobre o que pondera Judiciosamente D. Fran- 
cisco Manuel de ^lello no seu Tarifo portugut^z: «<Ao va- 
rSo justo assim pertence; mas ao soberano é tSo própria 
«magnificência, que talvez convêm preferil-a á inconveniên- 
cia. Estíi V0Z5 deve deter sempre os primeiros passos do go- 
verno, pob comcçal-o com acções do miserável é aggravo da 
soberania». Segimdo porém o mesmo auctor, os sentidos 
da reforma diziam que «o aperto da fazenda fora preceito e 
nwo causa, e que o motivo consistia em haver se descoberto 
que o duque D. JoSo amava antes a avareza do que a pni- 
dcncia». 

Nâo sabemos se os conselhos de D. Duarte concoiTerara 
para as medidas de fazenda ordenadas pelo novo duque, 
medidas que lhe mereceram de D. Francisco Manuel de 



II. 1. D. D. T. I. 



8 



114 

Mello t2o dura qualificação. O que é certo, como teremos 
occaaiao de notar largamente, é que o seu animo se incli- 
nava não para a mesquinhez, ou economia, porém antes 
para a extrema liberalidade. Referíndo-se a esta, escreve o 
padre Diogo de Areda as seguintes pala^Tas que fazem 
muito ao nosso propósito: «Não sahiu nunca ninguém da 
sua presença que nâo viesse contento pelo que recebeu; 
tanto, que já em Villa Viçosa, quando dizia alguém que fôra 
fallar com elle, logo se lhe perguntava: que vos deu?» * 
Chegou-se até a escrever que foi uma providencia nâo to- 
mar D. Duarte o commando do exercito portuguez, dopoia 
da restauração, nem adquirir por esse facto, e pelo seu che- 
gado parentesco com o rei, a influencia, que era natural, no 
governo do paiz, por ser grandioso nas suas coisas e ex- 
cessivo nos seus gastos. Esta virtude, ou, se quizerem, vi- 
cio, e o amor e generosidade para com todos os seus crea- 
doa, outros tantos pontos de semelhança entre elle e seu 
nobre pae, permittem-nos suspeitar que se conservou estra- 
nho ás providencias tomadas por sou irmSo, e que ate mes- 
mo talvez lhes foi opposto. 

A influencia de D. Duarte com o novo duque nâo de- 
via ser tamanha, como á primeira vista se imagina. Se o 
excedia na grandeza d'alma e na viveza e cultura da in- 
telligcncia, ficava-lhe por outro lado inferior na edade e na 
posição social que o constituía sou dependente. Dotara-o a, 
natureza de espíritos mais elevados; alargara-lhe o estudo, 
ajudado da aptidão natural, a esphera dos conhecimentos; 
mas era fiUio segundo, e com poucos meios em relaçSo 
á alta jerarcliia, habitava sob os tectos fríiternos e á som- 
bra d^elles, emquanto que a sorte fizera D. João o pri- 
mogénito, o senhor do ducado bragantino, sem que por isso 
se pudesse considerar sempre dono das suas acçSes, pela» 



' Sei^nulo. . . /(a.í /tontas. . , </ rr>ctn'>ria do in/anfe Z). Duarte, Lisbop, 
1650. 4." 



H5 

exigências politicas e pela rede de interesses e conveniên- 
cias que costumam embaraçar e torcer a vontade dos prín- 
cipes. 

Creados juntos, companheiros nos jogos e lirinquedos da 
puerícia, e depois na educaçSo litteraria, nos divertimentos 
o também naturalmente n'um ou noutro dos seus amores, 
D. JoSo e D. Duarte prendiam-se mutuamente, segundo 
SC affirraa e é provável, por laços de estreita amisade; e 
portanto, passando aquellc da vida descuidosa que levava 
uo oneroso encargo de reger a larga herança paterna, de- 
via, ainda que fosse muito intelligente e instruído, chamar 
para sócio nos novos trabalhos, a que de mais a mais nSo 
ustava atíeito, seu irmào, cuja capacidade bem conhecia; 
mas d aqui a abraçar todos os seus conselhos vae immensa 
distancia. Obstariam a isso muitas vezes, já a própria von- 
tade do duque, y\ a pressSo exercida nelle pelas circum- 
stancias. È com taes reservas que admittimos a preponde- 
rância do D. Duarte em D. .ToJo, sendo mesmo de crer 
que, ainda antes d este assumir o governo da casa de Bra- 
gança, ella fosse em muitas occasiScs limitada pela das pes- 
que consultava. 

«Sabida c a estima que ja cm os priíULiio- nunos fi^z a 
Ilcal Magestade do conselho c prudência do ii iuíIo sábio in- 
fante (que para mim sempre foi a mór qualiticação do seu 
raro entendimento), do zelo e promptidâo com que assistia 
A seu lado nas matérias de mais porte e negócios de mór 
peso, tilo pontual em uma e outra, que chegou a ser notada 
e ainda murmurada tão justa correspondência e agrado mais 
que devido ' » . Estas palavras do padre mestre Bento de 
Se»[ueira, reitor do collegio da Companhia de Jesus e do 
das Artes na Universidade de Coimbra, que se correspon- 
deu com D. Duarte, pelo menos depois de preso em Milão, 



4.» 



'• Oração funeral tm as honras do infanU D. I>Morí«. Lisboa, 1(>5(K 



«» 



H6 

e foi muito acceito a. D.Joilo JV, demonstram o que assen- 
támos, quanto á influencia que exercia no duque, c tíim- 
bem que havia quem o olhasse com olhos ciumentos e in- 
vejosoS) coisa naturalissima 

Proximamente por este tempo, celebron-se na capella du- 
cal, com sumptuosidade, uma das festas mais solemuos de 
entào, e em que D. Duarte e o duque deviam tomar parte 
importante: a investidura do habito da ordem de Christo a 
seu irmSo D. Alexandre, como commondador das commen- 
das de Santa Maria de Moreiras, Santa Maria da AlagOa, 
e S. ThJago de Monsaraz *, que posteriormente o mesmo D. 
Duarte possuiria, o das quaes as duas primeiras já tinham 
pertencido ao tio de ambos, D. Filippe. 

Outra festa de não menor pompa foi a entrada dos três 
irmãos na Ordem terceira do Carmo, ampliada pelo em- 
penlio de Fr. Pedro de Mello ou Fragoso, a qual teve lo- 
gai* nos principios de novembro de trinta o um, ou pouco 
antes. Convocara aquelle religioso as principaes pessoas da 
corte de Lisboa, de um c outro sexo, para se dedicarem 
ao obs-equio de Maria Santissima; constou isto ao duque de 
Bragança, e apressou-se a convidal-o para ir a Villa Viçosa 
lançar-lhe o habito, e a D. Duarte e D. Alexandre. Annuiu 
Fr. Pedro gostosamente, e, sendo recebido com toda a be- 
nevolência, eíFeituou-se a cerimonia na capella do paço, com 
o luzimento próprio do acto, assim como da grandeza da 
casa, depois de elle proferir uma oração adequada^. 

A esta festividade seguiram-se com pouco intervallo os 
officioa do anno por alma de D. Theodosio, nos quaes pre- 
gou a pedido do duque o padre Bartholomeu Gruerreiro. 



1 Arch. Nac. da Torre do Tombo, IlabilitaçòeB da ordem de Cliristo. 
Mss, 

* Diogo Barbosa Machado, Biblioíheca lusitana^ no artigo a respeito 
do mesmo religioso. 

Bib. de Paris, Mss. portuguezes, Carta de D. Duarte aoS religio- 
sos du Carmo, de 15 de novembro de 1G3I. 



117 



VIII 



o negocio do casamonto do duque, iniciado durante a 
existência de seu pae, nSo se terminara ainda, e continuava 
aoccuparas attençoes da corte ducal, principalmente as dos 
que lhe eram maia chegadoa em influencia e posição, oa 
quaes por tal meio queriam mostrar a sua diligencia, o al- 
guns, favorecendo pretençSes cstranhaa, favorecer as pró- 
prias. Entre elles D. Fernando de Castro, residente na 
cArte de Madrid, inculcava com instancia D. Maria Anna 
de Toledo e Portugal, filha de D. Fernando Alvares de To- 
ledo e Portugal, sexto conde de Oropeza, filho único da 
D. Duarte, irmSU) do duque D. Theodosio, que fora mar- 
quez de Flechila, e casara com a herdeira do conde de 
Oropeza, senhora de grande e illustre casa. Oppunha-se- 
ILe porém D. Francisco de Mello, e aconselhava como me- 
lhor o consorcio com a filha do duque de Medina-Sidonia^ 
D. Luiza de Gusmão, funilamentando o seu alvitre nas qua- 
lidades da futura noiva, na sua distincta nobreza, em ter 
o duque D. Jayme escolhido consorte na mesma familia, e 
no interesse que o vaUdo, o conde-duque de Olivares, mos- 
trava por este enlace. O ultimo predicado era por si bas- 
tante para o tornar egual aos de maior merecimento, lem- 
brava D. Francisco, porque traria á casa de Bragança a 
protecção do poderoso ministro de Filippe IV, de que ella 
buscara conservar-sc independente, e que lhe convinha ad- 
quirir, pois nenhum vaasallo podia permanecer sem a graça 
do favorecido do monarcha. aComtudo, ajunta com elegân- 
cia o auctor do Tácito 'portugiiez^ cuidava-se que D. Fran- 
cisco n' estas negocíaçSes entremettia seus augmentos tâo 



118 



subtilmente, como Pliidias o sen nomo entre as fímbrias da 
roupa de Minerva». 

Disposta por tal modo a teia da negociação, e confiado 
o conde- duque no seu bom êxito, procurou naa cartas a D. 
Jo2U> mostrar-lhe a mais viva amisade, «correspondendo 
assim na apparencia, diz ainda D. Francisco Manuel de 
Mello, ao titulo de pae que o mesmo Uie offereceraa, e ar- 
redar de si todas as suspeitas de que o movia o particular 
interesse; com o que obteve o seu intento, pois veiu a ser 
rogado pelo próprio D. JoSo, finalmente persuadido, com 
o seu mesmo desejo. 

Ha uma carta de D. Francisco do Mello ao duque de 
Bragança, a respeito do seu casamento, escripta n'esta epo- 
cha, notável por algumas particularidades que contém so- 
bre o assumpto, e que por isso damos na integra. 

«Senlior. Entendendo Sua ^lagestade, diz D. Francisco, 
a necessidade que vossa excellencia tinha de casar- se, e a 
conveniência d' essa casa, e como vossa excellencia se re- 
solvia, que, se lho dessem Guimarães, ou o que parecesse 
bem a vossa excellencia em seu logar, trataria da senhora 
D. Luiza, filha do duque de Medina-Sidonia, me mandou 
advertir pelo conde-duque que gostaria do que vossa excel- 
lencia eÔ*ectuas8e este casamento, por juntar de novo as 
maiores duas casas de Ilespanha, para que, unindo-se, pu- 
dessem tratar de seu serviço e de sua conservação ; e que, 
Caminhando o negocio, e estando vossa excellencia concer- 
tado com o duque de Medina-Sidonia, e pedindo-lhe ambos 
mercês para se efiectuar o casamento, lhes dará toda a sa- 
tisfação que deseja dar a vossa excellencia e ao duque de 
Medina-Sidonia, e que conformo a iseo seria o que vossa 
excellencia podia julgar. 

«Parece-me que se fará a vossa excellencia muita mercê, 
além do dote ; e eu por qualquer via estou confiado em que 
havemos de pescar GuimarSes, e tenho posto ponto n'elle, 
e em outras conveniências d'essa casa. 



119 



«Heepondi qae n^easa fórma iríamos caminhando, e quem 
queria que fallasse. Disse-me que elle era egualmente pa- 
rente de ambos, e mandava pedir commiasSo ao de Medina ; 
qac eu a tivesse de vossa excellencia, e iriamos dispondo 
e tratando da conclusão, dando-ae sempre conta a vossa ex- 
cellencia, de que espero recado para ir caminhando, como 
chegar a ordem do duque de Medina; e do que passar iiei 
fiando conta ao nosso patriai-cba, se parecer a vossa excel- 
lencia, como agora fiz da sua carta, que approvou muito. 

•O duque quer muchissimo a esta filha, e consta-me que 
deseja por extremo entregada a vossa excellencia. Tem de- 
zesete para dezoito annos de edade; sobre morena, formosa, 
olhos negros, grandes, e dizem-me que extremadas partes. 
Ando negociando o retrato, posto que se recatam muito 
antes de passar a matéria mais adeante. 

«Eu disse ao conde-duque que lhe nâo tinha medo, que 
haviamos de vender mui caros. Mostrou-se sentido de 
em por sombras se cuidar que nílo queria mais para vossa 
excellencia, do que para o de Medina-Sidonia. 

cCom o marquez de Vilhena estive um dia de vagar. 
DÍBse-me que o duque mandara em outubro uma carta para 
dar a sua magestade sobre o passado, e elle a n3o dera^ 
porque, parece, temeu a facção, e que escrevia a vossa ex- 
cellencia que lhe mandasse o que devia fazer d'eUa. Pare- 
ce-me que vossa excellencia lhe responda que a queime, sem 
»e vêr, e que nem vossa excellencia a quer vêr, nem lem- 
brar-se de maia, que das obrigações, que como filho deve a 
seu pae. 

«Disae-me mais o de Vilhena que o duque llie encom- 
mendára fizesse diligencia com o marquez de Estré sobre 
o de Modena, e que a fizera muito apertada, e achara que 
tudo foram chimeras, e nâo tinha ordem para nada; e em- 
fim, pontualmente o que eu dizia. 

«Pôde vossa excellencia mandar ver o que lhe será neces- 
sário para sua casa, fazer memorias e buscar- se a escri- 



ptura do contracto que ae fez em o casamento do duqae 
que DeuB tem, e raandar-mc a copia, e, inda, se houvesao 
noticia do do duque D. Theodosio, e do diiquo D. Jaraes com 
a filha do MedinaSidonia, nSo será máo enviarom-se-me 
as copias d'ellas, porque havemos de passar por todas, em 
tudo, se Deua fôr servido. 

«O senhor D. Duarte poderá trabalhar por estea papeis 
com a bOa ajuda de António Paes. Guarde Deus a vossa 
excellencia muitos annos. Madrid, quatro de janeiro de mil 
seiscentos e trinta e um. Dom Francisco de Mello*». 

A presente carta vem corroborar tudo quando avançamos 
acerca da intervenção de D. Francisco no casamento do 
novo duque de Bragança, da correspondência entre este e 
o ministro de Filippe IV para tal fim, de pedidos que se 
fizeram de uma parte, e de promessas que houve da outra, 
do interesse do mesmo ministro em que se realisasse aqnelle 
casamento, e, o que é maia, serve para nos mostrar que o 
marqucz de Vilhena, talvez por temor de imia facção, que 
desconhecemos, nao entregou ao rei uma carta que D. Theo- 
dosio lhe endereçara, pouco antes de fallecer, a respeito 
do negocio de seu filho. Por esta carta de D. Francisco fi- 
camos também sabendo que a propoata de consorcio na 
casa de Modena, (pie o dito marquez de Vilhena diz haver 
entabolado por ordem de D. Theodosio, não sortiu effeito 
algum, pode ser pelo mesmo motivo de contrariedades ur- 
didas na corte de Madrid. O estylo com que D. Francisco 
se exprime 6 para nós egualmente interessante, assim como 
a qualificação, applicada por elle ao conde-duque de Cli- 
vares, de nosso patriarcha. 

Quantas considerações nSo suggercra as palavras de D. 
Francisco Manuel do Mello e esta carta! O herdeiro da casa 
de Bragança a receber do valido de Filippe IV, o conde- 
duque de Clivares, o titulo de pae e a corresponder lhe ! O 

• Bib. Nac.» Mss,, E, 5, 7. 



.^síJ 



121 

filho de D. Theodosio a pedir, a regatear mercês do rei 
estrangeirOj oppresaor da aiia família e da sua pátria! Era 
assim quo elle imitava a austera exempção do que lhe dera 
o ser, o seu afastamento da corte de Hespanha, o desprezo 
peias suas graças! E servia de intermédio a semelhantes 
torpezas iim íidalgo poríuguez, um parente dos Braganças, 
um seu protegido! E valiam tanto as iiiti-igas no paço de 
Madrid que as queixas de D. Theodosio nem ao menos 
conseguiam chegar aos ouvidos do (soberano! 

Mas, se D. João procedia de maneira tão censurável, 
lá estava D. Duarte, espelho e herdeiro das virtudes pater- 
na*, para lhes seguir as pisadas o velar pela honra da famí- 
lia. Sim: a sua opinião foi contraria ao casamento do du- 
que de Bragança na casa de Medina Sidónia * ; toda^na, posto 
seu imiflo o attendesse muito, n'este ponto os enredos e as 
promessas da corte de Madrid venceram os seus conselhos. Do 
passo tSo nobre c desinteressado D. Duarte só colheria acar- 
retar contra si o ódio do potente vaíido de Filippe IV, ou 
antes augmental-o, pois ò crivei qtic elle datasse desde a 
recusa de casar com sua filha, dada por D. Theodosio, ao 
^uc D. Duarte nâo podia ser estranho, e do que soffreria 
as consequências, assim como o duque seu pae. Outro fnicto 
IKe resultou ainda provavelmente da contrariedade opposta 
ao casamento do senhor do estado de Bragança: Indispor-ae 
com sua canhada, como adeante veremos. Embora; fez 
quanto lhe mandava a consciência; é quanto basta. 

Achando-se n'e3taâ alturas o ajuste do matrimonio do 
duque, foi o seu principal negociador, D. Francisco de Mello, 
obrigado a desistir da suii continuação, por sor nomeado 
embaixador em Saboja^ cargo a que passou de veador ou 
mordomo da rainha, pelas traições e intrigas politicas, e 
d'onde depois subiu ainda até aos maiores logares da mo- 



1 Arch. do Estado do Milão, Proceasoa de D. Duarte de Bragança, 
aot ta terroga tórios a elle feitoB. Mas. 



12^ 

narchía liespanLola. Succedeu-lhe no emprego que deixava 
Francisco de Sousa Coutinho, o qual servia com desinte- 
resse a casa de Bragança desde o anno de mil seiscentos e 
vinte e três *, era que fora admittido n'ella, c que posterior- 
mente, proclamado D. JoSo rei, lhe havia de prestar e ao 
paiz assignaladissimos serviços como ministro em Dinamarca, 
Suécia, Hollanda, França e Roma. 

Pouca ou nenhuma responsabilidade cabe felizmente a 
homem tSo merecedor da pátria c tao bom portuguez n'es- 
tas negociaç5es, pois chegou a Madrid quando ellaa estavam 
n&B ultimas conferencias, e, louvando-nos nas palavras de 
D. Francisco Manuel de Mello, seguiu «mais justificado, 
quanto menos satisfeito, os accordSos do seu antecessor*». 

O duque de Bragança, entretanto, cheio de alvoroço com 
a lisorgeira perspectiva do seu novo estado, cuidava fer- 
vorosamente de todos 08 preparativos necessários para a 
grande mudança por que ia passar. Foram importantes as 
despezaa que fez por essa occasiao, não as limitando á« da 
sua pessoa e família, já de si avultadas, mas estendendo-as 
também á reedificaçao do Paço Velho, que, segundo sabe- 
mos, era uma parte do palácio, em cujas obras, ainda na 
epocha do seu casamento nSo terminadas, gastou valiosis- 
Bimas quantias, havendo semanas em que a feria dos offi- 
ciaes excedeu dois mil cruzados. 

Além d*e8ta obra, procedeu-se em diversas casas a al- 
guns reparos e aformoseamentos, uns definitivos, outros 
só para a occasiSo da festa. Por exemplo, nos quadros que 
ornavam o tecto da sala de entrada, os das nove musas e 
Apollo foram substituídos pelos retratos do condestavel D. 
Nuno Alvares Pereira e dos oito duques de Bragança, até 
D. João II. Ainda havia intento de representar nas paredes 
08 dos reis de Portugal, o que a brevidade do tempo nâo 



> Ac. das Se., Mas., Cartas do meamo a D. João IV. 
*Bib. Nac.j MsB., Taeito portugun, 



iâ3 

consentiu se acabasse, sendo por isso vestidaB com a bella 
armação dos Triíunphoa. O tecto da guarda- roupa do du- 
que, que se seguia a esta casa, foi afomioseado com as bein 
afiguradas efiSgics das Virtudes, e o da camará do mesmo 
com os doze mais famosos trabalhos do filho de Alcmena*. 
Entre estes aprestos e os cuidados domésticos levou D, 
JoSo os últimos mezes de solteiro, na amiga convivência 
de seus irmãos D. Duarte e D. Alexandre. A espera sempre 
da hora feliz em que realisaria os seus desejos e esperanças 
amorosas, parecer-lhe-hiam, como costumam parecer aos 
amantes, os dias monótonos, longos, intermináveis. Quantas 
vezes não seria D. Duarte, por mais intimo, discreto confi- 
dente dos seus sentimentos apaixonados! Quantas, depois 
de correrem atraz do bravo porco montez, do ligeiro veado, 
ou da fugitiva lebre, pai-a respirarem, o duque dos encargos 
do governo e dos seus entretenimentos mueicaes, o D. Duarte 
das fadigas do estudo, quantas vezes, repoisando &. sombra 
do arvoredo na extensa tapada de Villa Viçosa, ou n' al- 
guma das casas que a povoavam, nSo beberiam ambos, em 
convívio alegre e fraternal, á saúde das damas que lhes 
enchiam o pensamento I Assim dividido pelos negócios, fes- 
tas e amores, doslisarla pai'a os três irmãos suave e apres- 
sadamente o tempo que medeiou da morte do duque D. 
Theodosio ao casamento do duque seu successor. 



* Diogo Ferreira de Figueirôa, Epitomt dasfeêia» qiu nfiaeram «o 
cesamento dt D. João i7, duque de Bragança. Évora. 1633. 8.° 



LIVRO ITI 



O daqae, acompanhado de D. Duarte c de D. Alexandre, parte para 
a raia ao encontro de D. Luiza. — Vae D. Duarte aBadiyoz cun»- 
priujoulal-a. — Sahe esfa de Badiijoz com o duquo e D. Duarte eD- 
AJeioiídre, que se lhe juntaram na raia, e entra em Elvaa. — Ra- 
tifica-se o matrimonio. — Chegam a Villa Viçosa. — Como estava 
preparado o palácio. — Festas pelo casamento. — Exercicios eques* 
três de António Galvilo. — Encamiaada cm que figuram D. Duarte» 
e D. Alexandre. — Toirada.— Vao o duque cora seus irmsvos e o conde 
<le Niebla caçar iV tai)ada. — Jogo de cannas em que tomam parte 
D. Duarte c D. Alexandre. — Animação do paço com a vinda da 
duqueza. — Nascimento de D. Theodosio, — É D. Duarte seu padri- 
nho. — Quebra nas relações entre D. João e D. Duarte por causa 
da duqueza. — Motivos que a occaeionam. — Deixam D. Duarte e 
D. Alexandre a casa fraterna. — Fazem uma romaria a Nossa Se- 
nhora de Guaílelupe, om Hespanha. — Decide D. Duarte seguir a 
carreira das armas, para que fora educado. — Parte para Allema- 
oha. — Vida desregrada do duque, após a sua partida. — Sentimento 
de D. Alcxandro pela ausência do irmão. — Chega D. Duarte a Ma- 
drid. — Nào quer o conde-duquc rccebel-o, e porquô. — Mau estado 
das relações do duque de Bragança com a corte heepanhola. — Atra- 
vessa o resto de Hespanha. — Passa a Itatia. — Seu parentesco com 
OB duqnes de Saboya, Toscana, Mantua, Motlena e Parma, — ■ Cida- 
des que visitaria. — Demora-se em Milão. — Caminho que levaria 
nté luspruck, capital do Tyrol. — Como é recebido n'esta cidade. — 
Por onde seguiria até Vienna. — Questão movida pelos bespanhoes 
na curte imperial sobre o seu tratamento. — Manda o imperador qufi 
soja tratado como príncipe. — Entra em Vienna. — E acolhido cor- 
dealmcnte por Fernando II. — Carta que escreve ao duque» narran- 
do-o.— Parte para Stuttgart a cumprimentar o rei de Hungria, que 



126 

ahí estava acampado. — Estragos liorriveis que presenceia no ca> 
Diiuho causados i>ela peste e pela guerra. — Atravessa o campo de 
batalha de Nordlinguen. — Perigos que cone por passar perto dos 
inimigos. — Chega a Stuttgart. — É bem recebido pelo rei de Hun- 
gria. — Volta á OTte. — Terras que percorre e obséquios que re- 
cebe. — Chega a Yienna. 



Recebida a noticia de estar ajusitado o seu casamento 

com a fillia do duque de Medina-Sidonia, D. .ToSo, acom- 
punlmdo de D. Duarte e de D. Alexandre, participou-o aos 
fidalgos da corte, pelo que todos lhe beijaram a mSo. De- 
pois baixou com os irmãos á capella, onde já esperava o 
deão e dignidades, revestidos de capas ricas de tela e cha- 
paria do oiro, assim como todos os capellSes e cantores, e, 
levantado pelo deão o Te-Deum, foi proseguido pelos músi- 
cos c cantores a três coros. A noite, era aignal de slegria, 
esteve o palácio illuminado com duzentas tochas e toda a 
villa poz luminárias. Em virtude do contracto matrimonial, 
obrigou-se o duque de Medina-8Ídonia a dotar sua filha em 
cfuto e vinte mil ducados, e em vinte mil emjoiasemais 
coisas pertencentes ao seu enxoval; a pol-a á sua custa na 
raia portugueza, e a entregarem-se-llie por sua morte mais 
vinte e trcs mil ducados, augraento do dote, quando nSo 
quizesse entrar nas partilhas juntamente com o conde de 
ííiebla. A respeito das graças entào concedidas por Filippe 
IV ao duque de Bragança, diz a Ifistorki tjimeaJofjica, se- 
guindo D. Francisco Jlanuel de Mello no Tácito portugucz: 
«Era grande o dote que se promettia e maiores as promes- 
sas, que eram a restituição da posse do ducado de Guima- 
rães, alienado da casa por dote invalido do duque D. Theo- 
dosio I ao infante seu cunhado; a rateficaçao dos privilé- 
gios que tinham feito litigiosos os procuradores régios; o 
cumprimento de antigos alvitres; oa commodos decentisai- 



127 



mos a seus irmãos; as mercês aos creados ; e propicia a graça 
d'el-rei». 

Como a maior parte d'isto se cumpriu vel-o-hemos no de- 
curso da presente obra, por varies doctimentos, e entre el- 
les por ura da penna do próprio D. Duarte. 

Celebrada a escriptura dotal, enviou logo o duque de 
Medina-Sidonia um expresso de S. Lucar, com a noticia 
de que a duqueza D. Luiza partiria a três de janeiro (de 
trinta e tresj para Portugal. A seis o duque soube por ou- 
tro expresso que ella já estava a caminho, pelo que deter- 
minou ir buscal-a á raia; e a onze sahiii de Villa Viçosa 
em direcção a Elvas, na companhia de D. Duarte e de D. 
Alexandre e de numeroso séquito. Vestia o duque de campo, 
de côr parda, calçSes e roupeta de damasco frisado cor de 
amêndoa, alamares largos, bordados em ramos de oiro e 
fcrragoulo de chamaloto de aguas, com alamares da mesma 
forma, forrado de tafetá dobrado, bordado de laçarias de 
oiro, chapou negro, cintilho de diamantes, o, por jóia, um 
ramo de quasi meio palmo de diamantes, plumas pardas, 
espada, cinto e adaga doirados, com os talabartes de reca- 
mado bordado, meias, ligas e rosas pardas com pontilha de . 
oiro, collar grosso do peças de oiro, e as mangas do jubSo 
todas bordadas de oiro. D. Duarte c D. Alexandre vestiam 
também da mesma cÔr parda, calções e roupeta de damasco 
ondeado, golpeados sobre tela encarnada, fcrragoulo de cha- 
malote sem aguas, forrado de tela encarnada de flores, ala- 
mares de seis voltas de caracolilho de oiro, cintilho e jóias 
de diamantes, pliunas pardas, espadas, cintos e adagas doi- 
rados, meias, ligas e rosas com pontilha de oiro, col lares 
grossos de peças, e mangas bordadas. 

As&im preparados, desceram o duque e seus irmãos, com 
todos 08 officiaes, fidalgos e mais creados accrescentados 
da casa, e entraram os três n'imQ coche de velludo encar- 
nado e oiro, com pregaria de prata, cujas ferragens eram 
todas doiradas e que tiravam seis mullas. 



128 



Os coclieiros com vaqueiros de velludo verde d© qnatro 
mangas, e gorras do mesmo guarnecidas de passamanefe de 
prata, conduziam á m^o três cavalloa: um castanho para o 
duque com sella e porta-mantóo de tela encarnada com pas- 
samanes o laços de caracnlllho do oiro, teliz da própria tela, 
freio, OBtiibeiras e ferragens de prata, c as estribeiras tau- 
xiadas de oiro; outro para D. Duarte, ruço pombo, egiuJ 
ao do duque no arreio, só com a differença de ser a tela 
cor de rosa; e outro para D. Alexandre, melado, rodado 
de branco, com jaezes verdes e guarnições de laçaria de 
prata, teliz de velludo com franjas e borlas de prata e verde. 
Para a duquoza iam dois cavallos; um d'cllcs sobre giial- 
drapa de velludo negro levava um silhSo de oiro ao buril e 
meio relevo, com varias figuras, folhagens e outras obras 
feitas com toda a delicadeza o primor; a giuildrapa era 
toda de bordadura do oiro de diversos lavores, atravessados 
com cliaparia de oiro da mesma largura do laços travados, 
meios satyros e figuras ; as cabeçadas, que desciam cobrindo 
o pescoço desde o arçílo até aos copos do freio, eram em- 
buçadas da mesma chaparia com outra ordem de peças mais 
pequenas, como por guarnição, sobre os olhos, que mal se 
divisavam, tendo um quadro de quatro figtiras em circulus 
preso de um meio globo vasado como rede; as fivellas, fer- 
ragens e o estribo de voltai de oiro; cobria-se com um teliz 
de velludo negro, com borlas e franjas de oiro e negro. O 
outro cavallo levava um silbilo de prata com pouca diffe- 
rença no feitio, guarnições e chaparia egiialniente sobre 
gualdrapa de veludo negro. Ia também, para maior com» 
modidade da duqueza, uma cadeira de mSos e uma liteira 
de velludo cramezim com pregaria doirada sobre passama- 
nos de oiro, vestindo os cadeireiros vaqueiros de veIJudo 
encai-nado, guarnecidos de passamanes de oiro o os litoirei- 
ros da mesma forma. No dia antecedente já tinha partido 
para Elvas lun coche bello e rico feito em Roma, lavrado 
com grande primor, assim nas talhas como nos bronzes 



129 



doirados, com o tecto do velludo negro, forrado de razo 
encarnado, com seis ramalhetes de flores de oiro estofadas, 
cercado de muitas borlas de oiro e negro e cordoes com as 
lilmofadas e encostos de velludo encarnado bordados com 
laços e flores de oiro, e cortinas de damasco franjadas de 
olraj o qual era tirado por seis cavailos ruços rodados, com 
ÇuamiçSes de velludo negro, franjadas de oiro, e as ferra- 
gens de oiro de Milào esfumadas de oiro fino, com diversas 
formas, tendo em algumas partos as armas do duque, prin- 
cipalmente nas cabeçadas de que pendiam quatro borlas de 
oiro e seda. Os cavailos foram á milo até Elvas e o co- 
che foi levado até ilquolla cidade por muUas. Este cocbo 
chamava-se de Roma, por o ter enviado d'ani de presente 
D. Serapbina, irmu do duque I). Theodosio. 

Deante desta parte da comitiva ia um trombeta de libré 
egual á dos moços da estribeira, e logo os timbaleiros e 
trombetas montados em cavailos acobertados de verde, va- 
rias danças, duzentos soldados fardados de verde, com li- 
gas e bandas da mesma cor, meias c chapeos alconados, e 
plumas verdes e aleonadas. Seguiam-se os vinte e quatro 
moços da camará, vestidos de velludo verde, calções e rou- 
petas golpeadas sobre tafetá branco, sendo os golpes ro- 
matadoa cm moscas de prata, e as mangas de razo azul, 
largueadas de morenilho de prata, ferragoulos de panno 
tino de Segóvia com oito bandas de velludo acaircladas de 
prata, cUapóo e o mais como os moços da guarda- roupa, que 
eram oito, e vestiam calções e roupetas de velludo razo ver- 
de, golpeados sobre tela branca, botões de prata, calçSes 
com almenilhas, mangas de razo azid agaloadas a três ga- 
iSes de prata, e no espaço que havia entre uns e outros ga- 
li5es golpes sobre tela branca, chapéos negros com tranças 
pequenas, rosas azues encrespadas de pontilha de prata com 
muitas plumas brancas e azues, cintos, espadas e adagas pra- 
teadas, ferragoulos de raxa de Florença verde, forrados de 
espolim azul cora altos de flores brancas, meias ligas e ro- 

9 



K. X. I>. 1). — T. I. 



i30 



aaa azues cobertas de pontilhas de prata. Depois oito mo- 
^s fidalgos com vestidos de tabi de prata e verde com flo« 
les de oiro, roupetas guarnecidas de morenillio de prata 
sobre soguilhas de setim azul, calçt^es de seis partidos com 
almenilbas c botões de prata ate á liga, ferragoulos de 
oito, forrados de chamalotes de aguas azues com flores 
amarellas tostadas, sendo as mangas dos jubòes do mesmo 
cbamalotc era ondas bordadas corao de caracolilho de pra- 
ta, chapéos negros com cintilhos de oiro, c plumas verdes, 
brancas e azues, cintos prateados, meias, ligas e rosas 
azues cobertas de pontilha de prata. Os porteiros da ca- 
mará do duque e da duqueza vestiram-se com calções e 
roupetas de setim avelludado negro, chapéos, meias e li- 
gas negras, ferragoulos de panno vintadozeno negro. Vinte 
e quatro moços da estribeira acompanhavam o duqiie, ves- 
tidos de velludo verde, ferragoulos^ calçSes e roupetas com 
presilhas de prata, cintos, espadas e adagas prateadas, 
chapéos negros, tranças torcidas de tafetá branco e azul, 
ligas do mesmo, meias azues e plumas brancas e verde»; 
e Tnnte e quatro homens da sua guarda com calções e rou- 
petas atravessadas de faixas de velludo azul com vi voa 
brancos, mangas de velludo azul com morenilho e bot5es 
de prata, capas rodeadas de uma faixa do mesmo velludo 
com vivos, e os capellos d'el]a8 com duas faixas, chapéos 
negros, tranças torcidas de tafetá branco, plumas verdes e 
brancas, meias azues e brancas, e cintos, espadas e ada- 
gas doiradas. O seu tambor ia vestido de tafetá negro todo 
elle cheio de passamanes de prata, com ligas brancas, 
meias e chape o negro com trançiis e plumas brancas. O ca- 
pitão da guarda Francisco Serrão da Veiga, vestia capa, 
roupeta e calções de risso anogueirado, o ferragoulo forrado 
de tela de oiro encarnada com trinta alamares de oiro de 
seis laçadas e doze furtados atraz de carocolilho de oiro; 
a roupeta e calçSes com os mesmos alamares golpeados 
sobre a mesma tela de oiro encarnada, chapéo negro e jóia 



131 



de diamantes, plumas anogueiradas, meias, ligas e rosas 
de e^ual c6r com pontilhas de oiro, collar de peças, as 
mangas do jubSo de tela encarnada, qua«i occulta sob la- 
ços e caracoes de caracol ilho de oiro, cinto, espada e adaga 
doirados; ia montado em um cavallo com jaezes de verde 
e oiro. Tudo isto marchava em ordem, sendo o \iltimo o 
capitão da guarda que com ella cobria o coche em que iam 
o duque e aeus irmãos. No seu alcance seguiam quarenta 
£dalgos e commendadores da casa e seus creados, em co- 
ches e liteiras, e outros a cavallo, e mais de duzentos ho- 
mens, pessoas da sua familia, a cavallo. Esta comitiv^a foi 
sempre crescendo pelo caminho, do maneira que o duque, 
ao chegar a Elvaa, o que foi já tarde, levava comsigo maia 
de oitocentos cavalleiros, vassallos e obrigados seus. 

Pouco menos de uma légua antes da cidade, tendo o du- 
que, assim como l). Duarte e D. Alexandre, cavalgado, 
Tíitt o magistrado e justiças dVlla recebelos a grande 
distancia, com quasi trezentos cavalleiros, em que se con- 
tavam fidalgos e gente nobre, vestidos luzidamente com 
coches e cavallos á dextra, e um numero grande de dan- 
ças e outros festins, para celebrarem aquellas bodas, aos 
qoaes o duque tratou com o maior agrado, deixando todos 
satisfeitos. D'ahi a pouco chegou com seus sobrinhos o 
bispo D. Sebastião de Mattos de Noronha, que então go- 
vernava a egreja elvense, com formoso acompanhamento; 
e, feitos os cumprimentos de parte a parte, entraram todos 
na cidade, em cuja cathedral os noivos deviam receber as 
bcnçSos; para o que Elvaa estava bem situada pela sua 
posição a quasi egual distancia entre Villa Viçosa e Bada- 
joz, terra que serviria de entrada em Portugal á duqueza 
de Bragança. O duque aposentou-se no palácio do bispo, 
e, mal chegado, mandou por D. António de Jlello, seu es- 
tribeiro-raór, cumprimentar D. Luijsa e saber como havia 
passado na jornada. 

N'aquelle mesmo dia com três coches de creados, partiu 

9» 



132 



D. Duarte pela posta a fim de visitar a duqueza em Bada- 
joz, onde se detinha esperando que acabassem os aprestos 
para o seu recebimento. O condo de Niebla, herdeiro dos 
estados de Medina-Sidonia, que acompanhava sua irmã, sa- 
hiu fora da cidade em grande distancia a encontrar se com 
elle. A visita de D. Duarte duraria meia hora, e, acabada, 
recolheu-se a Eivas. 

No outro dia, doze de janeiro, deixou a duqueza Badajoz 
no coche de Koma, seguida de todos os fidalgos e nobres 
d'aquella cidade, e dos que de S. Lucar lhe vinham assis- 
tindo; os quaes, entre fidalgos, creados, e pessoas particu- 
lares, eram pouco menos de quatrocentos, lustrosamente tra- 
jados, e com tanta riqueza e bizama, que bem mostravam 
a grandeza do duque de Medina-Sidonia. Traaia seis coches 
de damas c fidalgos, sesãcnta e duas cargas com reposteiros 
e penachos e peitoraes de cascavéis, e dez que eram da sua 
recamara, com reposteiros de velludo encarnado, com b(^'- 
dados de cortado com rfis armas do duque seu pae ; as aze- 
mulas com peitoraes de iranja, cabeçadas de seda, os cas- 
eáveis, arrochos, ferragens, antolheiras, e laminas, com as 
armas, tudo de prata. 

Sabida a approximaçSo da noiva, o duque entrou no co- 
che, tinham dado nove horas, e, saliindo de Elvas com toda 
"a sua cOrtG, passou a ponte do Caia, c a pouco espayo en- 
controu a luzida comitiva hespaníiola. Entílo emparelhou 
com a carroagem da duqueza, passou-se a ella com seus 
irmUos, e, feitas aquellas cortczias, a ipie o respeito obri- 
gava, tomaram o assento de deante I>. Duarte e o conde 
de Niebla e a estribeira direita D. Alexandre. 

Era entre as três e quatro horas da tarde, quando che- 
garam a Elvas com grande chuva. Apearam-se no adro da 
Sé, onde a duqueza foi levada na cadeira, que se lhe pre- 
venira, por quatro moços da camará do duque, até á poiia 
principal, junto da qual o bispo estava esperando. Sahiu da 
cadeira a duqueza, em corpo, deixando o bohemej recebeu 



133 



a agnsi benta da mito do bispo, e entrou com o duque e os 
senhores, levando-a pelo braço D. Duarte, e pegando-lhe 
na cauda da cota a camareira-mór. Ao entrar tocaram oa 
orgJos, as charamelas e os outros instniraentos, até che- 
garem ao logar que sr lhes preparara, ríommungaram os 
duques da mio do deào da sua capcUa; o bispo ratificou 
o matrimonio e lançou-llies as bençAos, soando entretanto 
accordementc a musica. 

Ia o duque vestido de tabi anogueirado razo, guarnecido 
de passaraanes de oiro, bordados de gi-ande altura, dos quaes 
sabiam un» ramos largos, volteados, bordados de oiro e 
pérolas. Todo o raaiy campo do vestido era de enlaçados 
SS com pérolas nos meios e extremos; e no espaço que fi- 
cava de um a outro de ramos de flores de liz com chaparia 
de oiro. O ferragouio tinha o forro do mesmo tabi de flo- 
res. Adornavam o vestido cento e vinte botSes de oiro, em 
que se engastavam grossos rubis e diamantes, eutresachados 
um diamante e ura rubi, acompanhados todos de quatro 
pérolas, arrematando no extremo do meio com um S; as 
quaes chngavam ao numero de dezoito mil, em que havia 
mmtas de mais de vinte cruzados de valor, muitas de quin- 
ze, e nenhuma de menos de dois. As mangas do jubilo 
eram de um tilo apertado bordado <\ne parecia oiro de 
martello. A espada, cinto e adaga eram tauxiados de prata 
e oiro: e o collar, estimado em oitenta mil escudos de oiro, 
de grossas pérolas e rabis. Este collar deu el-rei D. Manuel 
ao duque D. Jayme, seu sobrinho, no dia cm que foi ju- 
rado príncipe herdeiro do reino de Portugal. Era o chapoo 
negro; o cintilho obra egual A do collar; a jóia uma pluma 
de quasi meio palmo de rubis, sahindo no reverso, a pouca 
ftistancia, diversa» plumas brancas; as meias, as liga» e 
as rosas brancas, cobertas de pontilha de oiro, e os sapatos 
negros. 

A duqueza vestia uma cota inteira de quatro mangas, 
as cabidas de pontas cortadas quasi a triangulo, aber- 



134 



tas e forradas de tabi de prata de flores, a logares toina- 
díi9 com uma jóia de diamantes. Era a cota vordo bordada 
de uma nova invenção de laços de flores e ramos de prata 
e oiro, ta© tecidos, qae apenas se deixava divisar a côr 
verde. Do pescoço pendia-lhe uma banda da mesma côr 
feita de oiro e prata, com uma frrandc jóia de diamantes 
de fiubido valor. Trazia volta e alçacuelo á castelhana; o» 
cal»ellos toucados de rosas Verdes com pontilhas de oiro e 
prata; ao homl>ro um bohemo como a cota; chapeo branco 
com largas pontas de renda de oiro,, o plumas brancas. 

D. Diuirte trajava de Ihama anogueirada, guarnecida de 
passamanes de oiro bordados, c por entro ellea Icutejoilas 
de prata, sendo o campo bordado de SS de oiro com cha- 
paria de prata. O ferragoulo era forrado de tabi do flores 
de oiro, anogueirado; a espada, o cinto, e a adaga, como 
o duque; as meias, as ligas c as rosas anogiieiradas com 
pontilha de prata; o chapeo negro com plumas anogueira- 
das ; a jóia o o cintilho de rubis ; e o collar de diamantes 
de grande valor. Este collar maiid/ira-o a princeza D. 
Joanna á duqueza D. Catharina, quando se eÔeítuaram as 
suas bodas com o duque D. Joào I. 

D. Alexandre ia vestido de risso verde, cora guarniçJLo 
de passamanes bordados de meia trança e briscada, com 
entremeios de casquilho, e meias pérolas de prata. O mais 
campo era de trocados SS bordados de prata o chaparia 
de prata; o ferragoulo, forrado de Ihama branca imprensa- 
da; as meias, as ligas e as rosas verdes com pontilhado 
prata; o chapeo negi'o; as plumas brancas; o cintilho e jóias 
de diamantes; o collar de oiro de peças, debaixo de outro 
em que trazia a venera da ordem de Cliristo guarnecida 
de diamantes; a espada, celebre por ter sido com cila ar- 
mado cavalleiro o infante D, Duarte, seu bis-avô, no dia em 
que recebeu a ordem da cavallaria de Christo, era de oiro, 
ornada de diamantes. Levava tambera um rico punhal. 

O conde de Niebla usou n'e8ta occasiSo e nos mais dias 



135 



que esteve era Villa Viçosa, de ricos vestidos, joías e col- 
lares, assim como seus creadoa e os do duque seu pae, cu- 
jas galas faziam na multidão e riqueza uma agradável o 
esplendida corte. 

Acabadas as cerimonias da egreja, recebidas as bençUos 
das mãos do prelado elvense, foram todos até ao paço epis- 
copal, seguindo os noivos, e congratulando-se mutuamente 
da felicidade d'aquelle dia. O duque levou a duquez«a pela 
mâo até íl cadeira, em que foi conduzida pelos mesmos 
que a tiraram do coche, e assistiu-lhe sempre junto á vi 
draça. Chegados ao paço, hospedou-os pomposamente T>, 
Sebastião de Mattos de Noronha, que era do animo altivo 
e generoso. Niío se detiveram os dmjues longo tempo á 
meza, posto haver muitas iguarias, e despodiram-se do 
bispn, (juc por sua indisposiçSo se dispensou de acom- 
panhai- os. líefere-se que este, ao receber os illustres noivos, 
se embaraçou em si mesmo e cahiu, no que muitos quize- 
ram vór um prognostico ou ameaço da desgraça qiio veiu 
a experimentar pelo crime de roboUião contra o próprio du- 
que, depois de acciamado e reconhecido rei. Quizeram ainda 
muitos achar n'e8ta visita a origem do ódio dn prelado a 
D. JoJo (so é que tal ódio existiu e nâo foi antes o movei 
do attentado unicamente o interesse e a falta de patriotismo, 
o que é mais provável) por ter o duque nâo só rejeitado a 
hospedagem que elle lho preparara com grande dispêndio 
e gosto, mas também por lha ter querido pagar com um 
coUar de summa valia, que alguns subiram a sessenta mil 
cnizados, o qual D. Sebastião n3o acceitou, dando-se por 
bem pago na ostentação da sua liberalidade e grandeza. 

Ao anoitecer subiram os duques ao coche e partiram 
de Elvas, cujo habitantes lhes fizeram taes festas como 
jamais se tinham visto. Aíarcharam na ordem em que per- 
mittia o tempo. As cargas e recamara da duqueza e muitos 
creados seus iam ims no alcance dos outros, e assim foram 
chegando a VilJa Viçosa^ onde os duques entraram ás duas 



136 

lioras depois da meia noite, com tempo nublado e escuro ; 
pelo que se prevenira um grande numero de tochas e vinte 
e quatro lanternSes grandes de campo, que rodeavam o 
coche e alUimiavam o caminho. Assim fizeram o seu in- 
gresso em Villa Viçosa, que e»tava toda ilbiminada, e guar- 
necida com dois mil arcabuzeiros das ordenanças da villa 
e de Borba, debaixo do mando dos capitflles António Ro- 
drigues Robles, Francisco Paes, e Bartholomeu Rodrigues, 
que haviam servido muitos annos em Flandres, por entre 
os repiques dos sinos, as salvas da artilheria do castello, 
as descargas da mosquetaria, a musica das trombetas, ata- 
bales, clarins e tambores, o os vivas do pnvo, que com dif- 
ferentes danças e festins alegrava o acto. As ruas por onde 
passaram achavam-se ornadas, e as damas lançavam das 
jaiiellas flores e aromas sobre os duques, os quaos, ao som 
das acclamações, chegaram au paço, em cuja frente ardiam 
duzentas toclias, o n'elle entraram, com toda a sua côrle 
e com os senhores que vieram á festJi, levando o duque 
a duqueza pela mao, de uma parte, e D. Duarle, da ou- 
tra, pt-lo braço. O bispo da Guarda, D, Frei Lopo de Se- 
queira, descendo cora sua mâe D. Isabel Pereira de Vas- 
concellos e com D. Filippa de Brito, beijaram a raSo á du- 
queza. Pegou-lhe D. Isahel na cauda da cota, c depois das 
devidas cortezias subiram. D. Alexandre abaÍ.Kava-se a cada 
degrau, tom:iuda a cota da duqueza, para que lhe não ser- 
^^sse de embaraço. A entrada da sala estava a craz metro- 
politana levantada, e o arceblapo de Évora, D. José de 
Mello, filho do marquez de Ferreira, o qual, depois dos 
cumprimentos que permittiara os seus muitos annos, e ca- 
biam na sua grande dignidade, os foi acompanhando até á 
camará da duqueza, d'onde, depois de breve visita a esta 
e ao duque, se retirou. Passado pouco tempo fizeram os se- 
nhores o mesmo '. 



1 D. António Caetano de Sousa, Hiêt. genealógica. 



137 



II 



Os payos de V^illa-\'lçosa tinliam-so ombollczado para 
receberem condignamonto a sua nova dona. A grande aala 
foi ornada com a annjiçSo doa Triumphoa, e a giiarda- 
roupa o a camará do diiqno com os rariseimos pannos de 
arras de oiro e seda, onde se representavam as victorias e 
feitos notáveis do condostavel D. Nuno Alvares Pereira. 
. Era ambas estas casas havia dóceis: na g-uarda-roupa 
por cima do aparador um de tela encarnada com entre- 
meios de brocado, c na camará outro de tela com ob altos 
cm laços avelludados, estes encarnados e a tela amarella, 
tendo debaixo «ima cadeira para o duque sobre unri alca- 
tifa, e defronte sobre outra um bufete, coberto com ura 
panno de velludo encarna<io com alamares em laços de oiro 
nos cantos, bordado muito artificiosamente. 

Immediato a ella, tez o duque de novo para a duqucza 
uma sala com lanços de quarenta palmos, cujo tecto, em 
branco, estava quasi todo tapado de uma industrioãissima 
laçaria de oiro, por entre varias carrancas, meias figuras 
de aatyros, njmphas, e pequenos quadros de arvoredos. 
Forravam as paredes doesta casa uns riquissiraos pannos 
de arráâ dr oiro e seda, qu«' chamavam dos Planetas, por 
08 terem afigurados. 

O grande estrado da duqueza, atapetado de finíssima al- 
catifa que semelhava ura prado matizado de boninas, tinha 
vinte e quatro almofadas sobre outras tantas de tabi branco, 
de flores varias, e quatro tamboretes de perfeitiaaima laça- 
ria de SS bordados de cortado, e um docel de brocado de 
três altos com as armas e extremos do mesmo bordado. 



138 



Eealçayam esta casa duas j ancilas do grades rasgadas 
sobre um largo tanque cheio de i\g}m com peixes, a qujií 
reluzia por entre as verdes sombras dos limoeiros que o 
cercavam; d'ellc estendia-se uma espaçosa rua, orlada de 
alegretes, tosada murta, e laranjeiras até rematar em ou- 
tro tanque, de cujo centro para varias partes, pelos olhos, 
boccn e orelhas, lançava agiiu do copiosos cjinos o feio trom- 
beta de Neptuno. 

A guarda-roupa da duqucza, ^\n^i se seguia a esta casa, 
e onde estavam, uma junto ú outra, a porta do quarto da» 
damas e a da camará que fora de D. Catlmrina, armava-se 
•com os pannos de arras de Annibal, e tinha sobre um apa- 
rador um docel de tela branca. O tecto representava pri- 
morosos grutescos e figuras; serviam-lhe de enfeite os finís- 
simos pannos de arras de Alexandre, e tinha para o duquo 
e para a dnqueza uma cama de oiro e arras com a com- 
prida historia de David e 8aul, de inestimável valor e arte. 

As casas da antiga residência do duque, quando o era aô 
de Barcellos, que olhavam para os jardina, bosques, lagos 
e arvoredo» das costas dos paços, e Hcavam perto da sala, 
cbamada de D. Henrique, estavam aderaçadas com os pan- 
nos de arras dos Mezes, Kei e Kainha velha; e, em apo- 
sentos particulares puzeram-so três camas de tela de oiro, 
quarteadas de velludo lavrado, cada uma d'ella8 de côr di- 
versa. 

No quarto que ficava para a outra parte, o chamado No- 
vo, a sala aformoseava-se com os pannos da Verdura. A 
guarda-roupa, que foi do duque, adornavam-a os pannos 
de arras de Júlio César, e a primeira camará tinha o tecto 
occupado pela fabula de Perseu, desde a victoria da mons- 
truosa tilba de Phorco, transformação de Atlante, e liber- 
dade de Andromeda, até á destruição dos Lapitas; o as 
paredes cobertas com outros pannos de César que chama" 
vam de Baixa Cahida. Uraa outra camará do duque ves- 
tia-BO com os pannos de llercides; no tecto viam-se as fa- 



i39 

canhas de David. N'esta camará havia uma bellissima ca- 
ma de brocado, quarteada do velludo azul. 

Ao aposento de D. Duarte couberam por adorno os pan- 
nos da historia da Rainha de 8abá. Havia ahi uma cama 
de estranha riqueza, irmã do docol, almofadas e tambo- 
retes do estrado da diiqueza, a quiil serviu ao conde de 
Niebla, eeu irmão. 

O quarto do D. Alexandre tinha outra riquíssima cama, 
e arm;iva-se cora os pannos de arras de Alexandria. 

Toda* as casas doeste quarto foram dispostas com ex 
traordinaria grandeza, sendo as suas armações do mais 
fino arras, e muitas d'ella8 de multo mais seda que 15 •. 

No dia seguinte ao da chegada, comeu o duque em pu- 
bh'co. Sahiu da sua ante-camara com D. Duarte e D. Ale- 
xandre, atravessou a sala, e foi buscar ao seu quarto o 
conde de Niehla, que logo veiu com elles; e dirigiram-se 
todos para a meza. £stAva esta posta em uma sala bem 
preparada, ao centro, sobre ura estrado grande de dois de- 
graus, forrado de excellente alcatifa, debaixo de um docel 
de velludo carraezim, e tinha quatro cadeiras; defronte ha- 
via dois dóceis de tela amarella, com as armas bordadas, 
OB quaes cobriam doin grandes aparadores, com seis de- 
graus forrados de velludo, em um dos quaes brilhavam 
cento e cincoenta peças de prata doirada, de excellente 
feitio o exquisito gosto; e no outro prata branca liza para 
o serviço, a que se juntavam em ambos muitas peças de 
prata grandes, bem obradas, que serviam somente de or- 
nato. Sentarara-se á meza; o duque na cadeira do meio; 
á sua mào direita o conde de Niebla, e logo D. Duarte; e 
á esquerda D. Alexandre, ficando todos quatro debaixo do 
docel. Depois de sentados, o bispo da Guarda sentou-se 
também do lado de D. Duarte, e D. Fernando de Mello 



* Diogo Ferreira de Figueiroa, Epitome daê fettoê que ee fiuram 
no casamento dt D. João II, duque de lira^ariça, Évora. 1633. S." 



i40 



do mesmo, porém na volta da mcza. Da parte direita fi- 
caram os fidalgos da casa do duque e os gentis-liomens 
que vieram com a duqueza, todos descobertos. Benzida a 
meza, segundo o costume, entraram os porteiros da canoa 
e 09 da maça, com ellas ao liombro; seguiam-se os arautos 
e passavantes com cotas de razo encarnado c branco, e 
n' estas os castellos e quinas de Portugal; e logo o veador 
do duque, e o mantieíro com o gomil e prato de bestiiles 
doirado; traziam mais dois pratos ura criado accrescentado 
da casa do duque e um moço da camará. Feitas as devi- 
das cortezias, o mantieíro, lançando agua no prato, bei- 
jou-o e entregou-o ao trinchante, ijue, com a mesma ceri- 
monia, o poz deante do duque, e Uie deu agua ás míios, e 
ao condo, a D. Duarte, e a D- Alexandre. Depois deu-a o 
creado accrescentado ao bispo, e o moço da camará a D. 
Fernando; e tirando o mantioiro a toalha, foram-so os de- 
mais, tardando pouco em voltar com as iguarias, que acom- 
panhavam 08 soldados da guarda do duque. Assim que ella» 
se apresentaram salvou o castello com toda a artilheria, e 
começaram a soar as trombetas, charamelas e atabales. 
Foram as iguarias muitas, mui delicadas, e com cxcellen- 
tes invcnç?)e8 de vários triumphos, figuras de animaes, aves, 
peixes e coroas, conformes ao uso daquelle tempo, em que 
n$o eram menos pomposas, que aprazíveis e vistosas aa 
mezas. Todos os dias que o conde de Niebla esteve na 
Curte o duque sempre comeu era publico com egual es- 
tado. 

N'e8te mesmo dia á tarde principiaram as festas: corre- 
ram-se toiros; á noite iíluminou-se tudo como os mais dias, 
e houve diversos jogos, danças e mascaras pelas ruas, e 
engenhosos artitícios de fogo que sahiram de duas peças 
do feitio de naus. 

No outro dia, que era uma scxta-feira, em que se con- 
tavam quatorzc de janeiro, mandnu o duque á duqueza lun 
presente de peças com rubia, diamantes e pérolas, de ad- 



141 



uiinivel arte e de grande valor. A diujueza ornou-se logo 
com algumas e foi ouvir missa á sua tribuna, levando uma 
cota de tabi anogueirado e flores de prata, assistida da 
camareira-mór e das suas damas. O duque fez o mesmo 
na sua tribuna com o conde de Niebla, D. Duarte, e D. 
Alexandre, o arcebispo dEvora, e o bispo da Guarda. Foi 
a missa rezada, e, emquanto se dizia, cantou a capella o 
hymno Te-Deum laudamus, e depois algims villancicos es- 
criptos á vinda da duqucza, o que ae continuou com ouíros 
diíTereutes ao mesmo intento, nos mais dias que duraram 
as festas. 

A tarde houve carreiras de cavallos, que correu Antó- 
nio Galvão de Andrade, um dos estribeiros do duque, o 
qual no mesmo emprego o serviu depois de rei, e foí fidalgo 
da sua cana, e commcndador de S. Tbiago de Ourem e de 
Nossa Senhora da Caridade, na ordem de Chrlsto. Era 
muito dextro na arte da cavallaria, de que compoz um tra 
tado, que imprimiu no anno de mil seiscentos e setenta o 
oito, onde repete em treze gravuras a buril os exercidos 
que entio tez^ os quaes, embora hoje muito conhecidos, ex 
cediam, para o tempo, tudo quanto se podia desejar. No 
primeiro, correndo com o pé no chSo, e tornando-se il sella 
com incrível velocidade, parou. No segundo, deixando ca- 
bir muitas vezes um lenço, apanhou-o outras tantas, indo 
sempre a toda a brida. No terceiro, depois de encetar a 
carreira, voltando- se na aella, poz-se com os pós era cima, 
e correu até ao meio, e, tomando-se com os pés aos estri- 
bos, em um instante findou a carreira. No quarto, correndo, 
foi assentando o pé muitas vezes no chão. No quinto, obri- 
gando o cuvallo, ao parar, a tocar com as ancas em terra, 
deante dos duques e de seus irmãos, acabou fazendo-lhes 
cortezia. 

Depois da admirável dextreza com que António GalvHo 
de Andrade, satisfez os mais diíTicultosos primores da arte 
da cavallaria, merecendo grande applauso dos duques e da 



142 



corte, representou- ae luna comedia publica em vistoso thea- 
tro, que para este fim ae levantou perto das janellas do 
paço, (jue presencearam os duques e seus irm2os. A noite 
houve luminartaB nSo aó no palácio o no terreiro, mas tam- 
bém em toda a villa. No campo estavam duzentos arca- 
buzeiros com o seu capitão, que segundavam as salvas do 
castello, fazendo exercício militar de descargas; ao mesmo 
tempo viam-ae e.m outra parte, alguns volatina, que entre- 
tinham e levavam atraz de sí os olhos do povo com sua 
extraordinária ligeireza. 

Da parte do S. João do Carrascal veiu uma encamizada 
que fez a sua entrada pela de Santo Agostinho. Trazia 
deante uma trombeta bastarda, e logo os atabaleiros em 
mulas, com coberturas verdes, bordadas de cortado ama- 
rello, quatro trombetas, um terno de charamelas, todos bom 
montados, n\n grande numero de danras e folias, e entre 
estas dois carros triumphaes, um de charamelas o outro de 
outra musica; depois vinte e quatro moços da estribeira e 
vinte e quatro moços da camará, descobertos com tochas 
acceaas, e dois oavallos á dextra, cora telizes de vclludo 
carmezim, bordados de cortado de flores de tela amarella, 
03 quaes iam no meio dos moços da e8tribeu'a. 

A isto seguia-se a primeira parelha composta de D. 
Duarte e de D. Alexandre, montados em soberbos cavai- 
los: o d'aquelle castanho claro, e o d' este, baio rodado 
de branco, com mochilas encarnadas bordadas de passama- 
nes de oiro, xairéis de oiro e seda enfeitados de varias co- 
res, estribos, bocaes, e enselladas de prata. Ambos ca ir- 
milos do duque vinham com tochas de quatro pavios, e os 
seus vestidos eram de velludo negro, golpeados sobre tela 
branca, os golpes com moscas de prata, as mangas do ju- 
bão de tela branca, mosqueadas de negro, as capas negras 
forradas da mesma tela, os chapeos negros com tranças de 
velilho de prata, e as rosas grandes, illustradas de tem- 
blantcs, e enfeites de oiro e prata, de que sabiam pia- 



143 



maâ brancAs. D. Oiiarte trazia atravessada uma liga do 
próprio vcUllio, G D. Alexandre, sobre a cadeia do habito, 
um talim de bordado recamado. Atraz d^elles vinham vinte 
e duas parelhas de singulares cavalleiros, com tochas ac- 
cesas, vestidos ricamente e com bom gosto de telas e tabia 
de cCres, plomas, jóias e collarcs, e os cavallos bem aja^ 
sadosy o que formava tndo unia o^^rjidavel e pomposa vista, 
A esta entrada correspondeu o castcllu com uma salva do 
toda a artilhcria. Os moços da camará e estribeira fica- 
ram, conforme a sim graduação, postos om ala at» pé das 
janellas dos duques, fazt-ndo o mesmo a guarda do D. Duarte 
e de D. Alexandre. Da outra parte ficou uma companhia 
dos arcabuzeiros, occnpando uns e outros o espaço das car- 
reiras. Acabadas estas, sahiu a comitiva com a mesma or- 
dem, e foi passear pelas ruas da villa, que oitava toda il- 
luminada. 

No dia quinze houve toirada, sendo os cavalleiros, D. 
Luiz do Noronha, caçador-mor do duque, Fernão Rodri- 
gues de Brito, seu camai'ciro-mór, Salvador de Brito seu 
trinchante, commendadores da ordem de Christo, e o seu 
estribeiro António Galvão de Andrade; os quaes mostraram 
toda a sciencia e arte, matando muitos toiros. 

O duque, querendo em tudo divertir o condo de Niobla, 
seu cunhado, determinou fossem uma tardo á sua famosa 
tapada. Sahiu o duque do paço com seus irmílos e o condo, 
e entraram n'um coche. Ao mesmo tempo salvou-os o caa- 
tello cora a artilhcria, soando as trombetas, atabales, cha- 
ramelas, pifanos o tambores. Marchavam deante dezesete 
coches e os cavallos da caça atraz. Gastou-se bem a tarde, 
poniue se mataram gamos e javalis, e voltaram ainda de 
dia para Villa Viçosa. Foi applaudida a sua entrada com 
outra salva da artilheria do castello, e continuaram na villa 
as festas, com diversas danças e divertimentos, a que ao- 
cudia muita gente, e ainda mais, porque das janellas do 
paço D. Duarte e D. Alexandre lançavam patacas e oa- 



144 



cudoB e outras moedas ao povo, o quo dou caiua a uma 
tumultuosa pendência. Na mesma noíte houve fogo do ar, 
que ardeu em uma magnílica torro uom vistosos urtifícios, 
e durou largo tempo. 

Contavam-8o dezesete de janeiro, dia que se destinou 
para um soberbo jogo de cannas reaes. Dividiu-se este em 
duas quadrilhas, cada uma de dezoito cavalleiros, sendo a 
primeira de D. Duarte com D. Luiz de Noronha, caçador- 
mór, e a segunda de D. Alexandre com FemSo Rodrigues 
de Brito, camareiro-mór do duque; as quaes, depois de se 
juntarem no campo do Carrasoal, sahimm, por Santa Luzia, 
á rua da Corredoura e entraram no Terreiro do Paço, na 
forma seguinte. Deante ia uma bastarda, e seis trombetas 
e quatro atabales, todos com vaqueiros guarnecidos de pas- 
Bamnnes de prata, montados em possantes raullas com gual- 
drapas de panno verde, bordadas de cortados de araarello ; 
logo as danças, e entre ellas, com divisão, trcs ternos de 
charamelas ô as do duque com aua libré; depois duiia 
azemalas cora cannas, tapadas de reposteiros de vellado 
verde, com as armas bordadas de oiro e prata, com cadi- 
lhos de varias cores, sendo as ferragens, arrochos, e tes- 
teiras das armas do prata; emfim oitenta cavallos á dex- 
tra, com jaezes de oiro e prata, quasi todos do duque; 
doze dos últimos pertenciam a D. Duarte e a D. Alexan- 
dre. Os seus jaezes eram de oiro, pérolas e aljofre ; os bo- 
caea e as ensclladas do mesmo, e as sellas cobertas de ri- 
cos telizes de varias cores. Vinham prezos pelos cordões das 
cabeçadas, que levavam homens vestidos com marlotas de 
tafetii azul e verde. Foram os padrinhos D. Christovâo Ma- 
nuel e D. António de ]\Icllo, eatrÍbeiro-mór do duque, que 
montavam em bellos cavallos. Seguia- se o meirinho da 
casa, doze moços da estribeira e doze da guarda, no meio 
dos quaes ia D. Duarte, e á sua estribeira doze moços da 
camará, um dos quaes conduzia a adarga com a sua em* 
preza, quo era um loireiro verde e quatro coroas do mes- 



145 



mo, suspendidas d'elle, com esta lettra: Xondum aruit;no 
estandarte da lança levava uma águia com os pés atados e 
a lettra que dizia: Semper e<tdem; palavras e emblemas pró- 
prios da ambiçJlo de gloria em que ardia a sua alma. As- 
sim os d'esta como os da outra quadrilha vestiam á mou- 
risca com marlotas e capei lares de velilho de oiro e azul^ 
franjados de oiro, forros de tafetá azul, barretes vermelbos, 
som plumas, e suas emprezus. A ditferenç4i de D. Duarte 
consistia em ter esporas o terçado de oiro e aljofres, e em 
ir o seu cavallo, que era baio, guaniecido com jóias, sendo 
O freio, ensellada e bocaes também de oiro e aljofres. Os 
da outra quadrilha vestiam marlotas e capellares de velilho 
de oipo o verde. D. Alexandre montava um cavallo casta- 
nho claro, no mais egual em tudo a seu irmão, com outro* 
tantos moços da camará, estribeira e guarda. Levava na 
ndarga por empreza um sol sahindo d'uma nuvem escura^ 
com esta lettra: P^vst tinrbrax spero Zt/cewi; e no estandarte 
da lança uma harpa com o seguinte: Quíd erit m cceloU' 
Ultimamente marchava um esquadrio de duzentos solda- 
dos com bandeira, tambor c pi fano, que governava o alferes- 
TOÓr do duque, soldado veterano das guerras de Flandres, 
todos com luzidos vestidos, bandas e plumas. 

Entraram desde Santo Agostinho pela parte do convento 
das Chagas, e, apenas chegaram ante a janella em que es- 
tavam os duques, tiraram com bizarria as lanças do hom- 
bro, e, abaixando-llies as pontas, fizeram as cortezias. D'ahi 
passaram a dar principio ás carreiras, e, no fim d*ella8, ás 
cannas, que correram com bizarria e desembaraço. Depois 
executaram uma vistosa escaramuça, e, acabando -final- 
mente com carreiras, despediram- se na forma em que ha- 
viam entrado, o que applaudlu o castello com uma salva 
de ai'tilheria. Tendo sabido do Terreiro do Paço, foram pas- 
seiar pelas ruas da villa. A noite houve comedia no palácio. 

A satisfação que o conde de Niebla teve da passada mon- 
taria obrigou-o a pedir ao duque voltassem ao campo, o que 

10 



B. J. V. O. — T. I. 



146 

k>go se poz era practica, sendo o dia ainda de maior gostn 
pelos muitos veados c javalis que mataram. Nesta mesma 
tarde houve comedia publica, e á noite outro magnifico fogo 
do ar, representado cm fontes e admiráveis invenções. Na 
quinta feira, vinte de janeiro, ao tempo que o conde de 
Kiebla estava mais divertido, em companhia dos duques, 
chegou-llie recado de seu pae, que o chamava, pelo que 
teve de partir, deixando em todos saudosas memorias da 
sua agradável companhia, as quaes eram mais vivas na du- 
queza sua irmã, que sentiu se ausentasse tilo depressa. O 
duque, cora D. Duarte e D. Alexandre, acompanhou -o atA 
junto da tapada. Um dia antes já se haviam despedido o ar- 
cebispo de Évora, o bispo da Guarda e outros senhores, re- 
tirdando-se alguns mais o marquez de Ferreira, em quem o 
parentesco era tSo chegado, como a estimaçlo no duque *. 



III 



Fora grande a mudança operada nos paços de Villa Vi- 
çosa com a morte de D. Theodosio^ entretanto elles deviam 
recordar-se cora pena das epochas brilhantes de outr'ora, 
quando os sorrisos das damas respondiam timidos aos re- 
quebros dos cavalleiros, quando o rugir das sedas e o tim- 
bre suave das vozes contrastavam com o tinir das espadas 
e com as palavi^as ruidosas^ quando resoavam as musicas 
cheias de harmonia, e as luzes de mil tochas faziam brilhar 
a um tempo o oiro, as pérolas, os rubis, os diamantes e os 
rostos formosos de mil nobres donzellas. Agora nKo ; agora, 
com a vinda da nova duqucza e da sua cGrte feminina, aca- 
baram essas saudades, porque, juntamente com ella volta- 



) D. Âutooio Caetano de Sousa, HUt. gmmlogica. 



147 



ram ao antigo solar a vida, o amor, a esperança e toda essa 
turba de sensações encontradas, já bellas, jA tristes, já ti-an- 
quillas, já inquietas, ora risos, ora lagrimas, porém mati- 
zadas, luminosas, febris e attrahentes, que reaaltam da con- 
vivência dos dois sexos, quando os indamma a intelligencia 
phantasíosa e o coraçSo ardente e sôfrego da quadra da ju- 
ventude. 

Deleitosos correram para D. João c D. Luiza os primei- 
ros tempos que se seguiram ao seu casamento, como é pró- 
prio de noivoa e principalmente na sua edade. Contava o 
duque de Bragança vinte e nove annos, e sua esposa vinte, 
pois nascera cm treze do outubro do mil seiscentos e treze. 
Era elle de estatura mediana, bera proporcionado de corpo, 
e até gentil de rosto; a côr claro-rosado, e o cabello loiro 
mas grosso; vigoroso e pouco esbelto; ella sobre morena, 
formosa, de cílios gi*andes e negros: nHo Ibeá faltavam por- 
tanto nem mocidade, nem dotes corporaes, não fallando na 
jcrarchia e riqueza que difficilmente encontrariam seme- 
Uiantes, só se fosse em casas soberanas. Todas estas cir- 
cumstancias e predicados podiam e&istir, e nilo se amarem, 
porque o seu casamento fora á maneira dos reaes, sem 
que primeiro se estimassem nem mesmo se conhecessem, a 
nHo ser talvez por meio de retratos, e esses quem sabe se 
fieis. Não succedeu comtudo assim. Nâo foi necessário de- 
correr muito tempo, antes que o trato mutuo e continuo os 
apertasse pelos fortes vinculos do amor, ou, ao menos, da 
amizade. Amaram-se ou estimaram-se desde que se uniram 
ou quasi; e a prova (^ a alteraçSio radical que, por esse mo- 
tivo, aconteceu nas relaçíJes do duque com seus irmãos, posto 
qae n'is80 também entrasse, a par de outras razt^es, a indole 
exempta e altiva da nobre duqueza. 

Até ahi D. Duarte e D. Alexandre, e mais o primeiro, 
haviam gosado sós da aífoição do duque de Bragança e ti- 
nham sido a sua principal companhia. Viviam vida de ir- 
mãos e de mancebos, e sempre sem quebra na harmonia 

10» 



<48 



que reinava entre todog. Veiu D. Loiza para Villa Viçosa, 
e as coisíis raudaram de figura, porque o araor de esposo, 
muito mais forte do que o amor fraternal, obrigou D. João, 
enlevado nos róseos sonhos, digamoa assim, da sua prima 
vera matrimonial, nao n desestimal-os, mas a conceder-lhes 
menos favor e atlençito do que llies concedera anteriormente, 
e do que elles julgavam consentâneo ao seu parentesco e 
amizade. Sentirara-o os dois, edoeu-se mormente D. Duarte, 
por mais melindroso e sensível e pela sua posição especial 
na familia. Conta-sc este como o começo e procedência da, 
desunião originada, pouco depois do casamento do duque, 
entre D. Liiiza e o cunhado; mas outro elemento, c do 
maior importância, devia contribuir para descontental-os, 
pois este nâo bastava, e era, até certo ponto, a consequên- 
cia natural do novo estado do senhor do casa. 

Ja notámtjs como, pela auperioridade de iotclligencia e 
educação, assim como por seu caracter serio e prudente, 
D. Duarte exercia no duque de Bragança deci<Lda prepon- 
derância, e como as suas opiniões eram por este consulta- 
das e attendidíis, toda a vez que as conveniências politicas, 
ou oa enredos da corte ducal nSo fallavam mais alto. Ora, 
D. Luiza de Gusmão nâo gostou d'esta interferência nos 
negócios domésticos. Pinta-nos a historia a esposa de D. 
JoSo, e futura rainha de Portogal, senhora de génio deci- 
dido e ambicioso, e chega até a attribuir-lhe na elevação 
da casa de Bragança ao thi'ono um papel transcendente» 
julgando que foi quem talvez mais contribuiu para resol- 
ver o animo indeciso e froixo de seu marido a acceitar a 
coroa das mãos dos conjurados. O mesmo D. Duarte, con- 
forme veremos, dá a entender que D. Luiza gostava de go- 
vernar, ao passo que nos mostra D. JoSo, remisso a esse 
encargo*. Enti-ando pois nos paços de Villa Viçosa, sup- 

* Bib. Nac, Mss., B, 2, 1 ; Augustin Navarro Burena, Rdadon 'pie 
hixe ai conde D. Francisco de Mello de lo que pasi tn la prision de D. 
Duarte para eml^r a Su Ma^eatad. 



i49 



poz-se com direito a ser amada pelo duque com exclasSo 
de tudo o mais^ e^ níío obstante os seus vinte annos, a ser 
por elle ouvida e consultada, ou pelo menos, nSo o sendo^ 
a nio consentir que alguém a aubstítuisae. Contrariavam-a 
porém, d'um lado^ a ingerência de D. Duarte nos negó- 
cios, e do outro, além do respeito que devia ao duque, se- 
nhor da casa, mais velho do que ella, e com que ha pouco 
vivia, o que tributava ao cunhado, que o mesmo attendia 
tanto, e cujas boas qualidades a duqueza nâo tivera ainda 
opportunidiide de avaliar devidamente. Sentia portanto d 
sejo do sahir d'o38a situação, cm que se achava mal e meio 
sujeita, e de tomar na família o logar desassombrado que 
lhe competia. 

Outro facto concorreu ainda para a desharmonia entre 
a duqueza e D. Duarte. Esse novo motivo, que aggravou 
oa antigos, procedeu, segundo D. Francisco Manuel de 
Mello e o geral dos auctores, que quasi todos o seguiram, 
de D. Duarte olhar reprehensivelmente uma creada menor 
da duqueza, e, segundo una documentos copiados por Fr. 
Vicente Salgado, e de que adeante mais de uma vez falare- 
mos, de amar D. Maria de Lara e Menezes, sua dama, 
presumida auctora das ^Satulnde^ de D. íf^nez de Cmtro, e 
ainda sua parenta, como neta do primeiro duque de Villa 
JReal, c sobrinha do duque de Caminha, tudo consoante aos 
ditos documentos e ao prologo das mesmas Saudades. Dos 
amores cora a creada do paço ducal nada sabemos, senJo 
o que trazem aquelles auctores. Dos outros, posto egual- 
mente mysteríosos, ha muito mais noticias, mas revestidas 
de particularidades que nos levam a rejeital-os, apesar do 
bello episodio com que onriqueceriam a nossa historia, 
pois nao faltam para os tornar attractivos e interessan- 
tes nem a mocidade, nem as perseguiçBes, nem a poesia, 
nem o infortúnio. Reservamos para elles um capítulo espe- 
cial, e então mostraremos o nenhum credito que merecem. 
Com outra mulher, segundo dois genealógicos, teve amo- 



150 

rea D. Duarte, ou então ou antes, havendo d'tílla uma fi- 
lha, que se chamou Catharina de LeSo, e veiu a c^sar com 
Luiz de Mendonça Corte-Real. Seria cstA, ou D. Maria de 
Lara, a quem também attribuem um filho de D. Duarte os 
ditos documentos e poucos genealógicos, a creada que men- 
ciona D. Francisco Manuel de ]MoIlo? Cadornega não ex- 
pressa o motivo da retirada de D. Duarte; diz apenas qtie 
deu este passo «talvez para se tirar de alguma occasião em 
que pudesse ter desgosto»*. 

Eia as causas geralmente apontadas á desintelligencia da 
duqueza com seu cunhado. NSo negamos que ellaa sejam 
ponderosas e bastantes para original-a; mas outra houve 
ainda, grande, grandisaima, e capaz só por si de pro- 
duzir egual effeito, quanta mais ajudada pelas que apon- 
tamos, ou por qualquer d'ella8: a opposiçSo de D. Duarte 
ao casamento do duque de Bragança com D. Luiza. Xilo 
era muito possível, quasi certo que esta o soubesse? E, sa- 
bendo-©, não devia nascer d'ahi, como consequência lógica, 
o desagrado contra quem se atrevera a dar este conselho, 
pondo era perigo o conseguimento da invejada fortuna de 
qiiinhoar o thalamo do primeiro e mais poderoso senhor de 
toda a monarchia, do descendente e parente de tantos reis, 
do que se julgava com direito a sel-o um dia, do que os 
portuguezes no seu captiveiro olhavam quasi como tnl? NSo 
ba nada mais provável. 

O que nos importa agora assentir li que as desiniel* 
ligeucías, dentro do paço de Villa Viçosa chegaram a tanto 
crescimento, que se tomou insupportavel a D. Duarte per- 
manecer mais tempo n'elle. Por maior apego que tivesse 
ao lar que lhe foi berço, ao nobre solar de seus antepas- 
sados, por mais caras que fossem as recordações e os la- 
ços que a este o prendiam, e nao deveram ser nem limi- 



* Ac. das Sc, Mfls., António de Oliveira Cadornega, Zícacnpçáo de 
mia pátria Villa Viçosa. 



i5i 

Uiàos nem fracos para uma alma tSo apaixonada e suavei 
D. Duarte considerou que nSo lhe cumpria continuar a re- 
sidir na casa fraterna, onde vivera, até ha pouco tempo, 
querido e respeitado. Tinha-lhe sido essa morada comO sua 
própria; fura o desejo do duque seu pae, manifestado á 
hora da morte, que íicasee na companhia de seus irmãos, 
por lhe ser a mais conveniente, e obcdecera-lhe ; poivm, 
essa morada toniara- se-lhe extranha; pessoa em que nao 
corria o seu sangue viera tomar pnrte no governo do es- 
tado de Bragança; essa pessoa, cm voz de amiga, acha- 
ra-a inimiga; julgava-o causador dos seus transtornos con- 
jugues; censurava o affecto e confiança que merecia a D. 
Joào; contrariava-lhe os amores; qucriíi-lhe mal; e era ne- 
cessário acabar com tantos motivos do descontentamento. 

Sahiu por conseguinte dos paços fraternos, seguindo-o 
D. Alexandre, que a duqueza parece também oíTendera, 
ou que talvez tomasse o partido do irmSo, por serem muito 
amigos, e foram residir com seus creados na Quinta dos Pei- 
xinhos, pertencente a Francisco de Lucena, e que o pae 
doeste, secretario da duqueza T>. < 'atharina, fizera cabeça 
de um morgado do mesmo nome. Era esta propriedade 
accommodada para hospedal-os, por ter casas capazes d'Í8- 
so, pela largueza das salas, e aposentos de boas pinturas, 
jardins, diversos pomares e hortas, e capella de Santo D- 
defonso *. Esta separação nSo importou ainda assim quebra 
de amizade entre os três irmSos; pelo contrario D. JoaLo 
vÍ8Ítou-08 na sua nova residência, dandolhes bastantes pro- 
vas de estima. 

Foi durante a estada ua dita quinta que D. Duarte e 
D. Alexíindre fizeram juntos uma romaria a Nossa Se- 
nliora de Guadelupe, em Hespanha, ou em curoprimeiíto 
de alguma promessa, ou por mera disti"acçâo, ou com fim 
occulto. N'es8a visita mostrou mais uma vez D. Duarte a 



I Af, das Sc, Msa., António de Oliveira Cadornega, DescripçãOf etc. 



152 

sua generosidade e devoçSo, offerecendo á casa da Senhora 
uma formosa lâmpada de oiro de subido preço. De volta 
da romaria estiveram em Villa Boim, onde D. Duarte ti- 
nha a maior parte das suas rendas, e foi ahi que se resol- 
veu a realizar a idéa de deixar a pátria', idéa que não Ba- 
bemos quando lhe brotou tio ispirito, e que havia dr <1"- 
cidir da sua sorte. 

Bem pouco durou a sua permanência na Quinta doe Pei- 
xinhos, e este apartamento para tilo próximo da corte de 
Villn Viçosa í»erviu, por njisim dizermos, como de ponto 
de transiçJlo para outro apartamento maior. NRo nos i^ pep- 
mittido todavia marcardho os liraitos de duração, e somente 
conjecturar que nâo passou de um recurso provisório, de um 
palliativo, euiquanto n/lo »e deeidia definitivamente. 

Fora diri^fida a educação de D. Duarte para a Cíirreíra 
das armas; affirma-o Fr. Kaphael de detius, e demonstram-o 
algims versos que elie^^aram até nós. 

Priucipe, que no reino hiaitano 

De ura duque filho sois, que era nossa edade 

£ ancora a qualquer afflieto humano, 

Escreve Manuel da Vei^^a Ta;2rarro ao dedicar -lhe a sua 
Jjatira de An/rim^ publicada cm Évora, em mil seiscentos 
« vinte sete, isto é, sete annos antes da epocha em que 
vamos, o ainda em vida de D. Theodosio, 

Vós sois de altas venturaa firmamento, 
Vóa de Bragança imagem verdadeira, 
V<'i8 lisonja de amor ao pensamento. 



Ide, tíor do alto ramo brigiuitino, 
Libertar a corrente venturosa, 
Que a carne lavou já do Rei divino. 

í Ac das Sc.jMsB., António de Oliveira Cadoruega, DattrípçãOf ele. 



153 

Aqadia sepultara milagrowi, 
Ponuida de torpes agarenos, 
Por vossa iii2o suspira valorosa. 

Vede, prindpe raro, estes acenoSf 
Com qae o vosso planeta vos provoea 
Para dardes do céo bens n2o pequenos. 

Esta empreza tâo árdua a vós só toca; 
Zelosa Lusitânia, i competência, 
Por capitio sublime vos invoca. 

E se, depois de ver as aguas puras, 

Contínua o poeta, incitando D. Duarte a vingar as mor- 
tes d'el-rei D. SebastiSo, e de D. Jayme de Bragança, 

Da perfeita justiça cumprimento, 
Onde as vozes soaram nas alturas, 

Quizerdes assellar o impio assento 
D'Alcaccre, movendo a grS ruina 
Até a mínima pedra e fundamento, 

Ide, nova esperança brigantina, 
Pelo meio dos cães fazendo roas, 
Movendo com dextreza a espada fina. 

Já voB estão temendo as meias luas \ 
Já com medo de vós se estSo quebrando, 
Novo leão de Hespanha, capadas nuas. 

De vosso rei e tio o campo infando. 
Que já sangue bebeu em fataes horas, 
Só por vossa vingança está bradando. 

Sangue do régio Abel, que inda hoje choras, 
O meu príncipe te ouve, e por vingar-te 
Ódios ao tempo tem que atraz demoras. 



Parece que retumba em toda a parte 
Dos martyres de Christo a voz chorosa. 
Que em euspiros envolta diz : Duarte. 

Nem é este o iiiiico escripto era que bo nos revelJa a edn- 
caç3o e propensão militar ( e nâo menos a litteraria) de D. 
Duarte, como bem se evidencia do epigrarama latino do 
mesmo auctor, que tem por titulo : Ad Principem Odoardmn 
Theodosii secundi Jilium culamum gladio ujisoctantenif «jue 
é o seguinte: 

Dum capis arma, pucr, elypeato horrenda lacerto, 

Praescia venturi jam modo terra tremit. 
Qaid fácies, cum te quondam mirabitur eetas? 

Et videant Solyroaj pergaroa saera ducem? 
Quid? Pompeus eris? vel eris cristatus AchyllesV 

Ar» til>i <iu;»; populi nomina eluni dabunt? 
Scipio LysÍMcus pottrns p».'r rcgnu vocari; 

Arma forent titulis officiosa tuis. 
At uunc cum caíarouni gladio, Puer auree, jungis. 

Te creat iii titulos iJocta Miuerva dovos. 
Ergo sinistra levem calamum sustentet acutum; 

Sustiucat gladiuui dextera; Csosar eris'. 

Nem sào menoH expressivos estes versos de auclor des- 
conhecido, pois nos mostram a sua educaySo militar, e 
também quanto era inclinado ao estudo, e ob seus dotes 
corporaes e amabilidade. 

Principe soberauo, 
Com quem pródiga foi Palias e Marte, 

N'e88e sujeito humano 

Formosos dons reparte, 
Senhor Duarte, e a linda Cytheré^a 
Com vós, com belto Adouia se recrêa. 



1 Bib. da Ajuda, Mas., Miac, vol. xxivii, foi. 227. 



i55 

A mesma natnreza 
Em produzir a voa, imagem pura. 

Mostrou maior grandeza, 

Que tão rara pintura 
É obra singular, nâo costumada, 
Por famoso prodígio ao mundo dada. 

Vossa real pessoa 
Será de polo a polo engrandecida; 

£ tanto a fama vôa, 

Que, lá no eéo subida, 
Tomará d^cssa corte crystallina, 
Se humana fania foi, fama divina. 

Vossa humilde grandeza 
Vos faz, príncipe, ser mais sublimado, 
Porque em tão grande alteza 
Mostrar-yos tão humanado 
É mais que grande ser, que o natural 
Da real geração, é ser real. 

Mostrac já o valor 
(^uc n^esse real peito está escondido, 

Fazendo- vos, senhor, 

Dos imigos temido. 
Que turcos e gentios e agarenos 
A vosso braço temam e os sarracenos. 

Tomae de Hector a lança, 
Do Âchilles grão Pereira a forte espada, 
E nâo temaes mudança, 
Que a linda Cypria armada 
l*elejará comvosco, e ao grão Mavorte 
Dareis no mareio jogo acerba morte; 

E a deusa gigantêa 
Levará vosso nome a todo o mundo, 

E a bella Nicêa 

Com seu canto facundo 
Lá no paterno reino de Neptuno 
A vós celebrará famoso alumno. 



156 



As donzellas aquáticas 
£ as filhas de Nereu tão graciosas, 

£ as nymphas selváticas, 

Por extremo formosas. 
Umas entre jasmins e outras flores 
Celebram, e outras no mar vossos amores. 

Com flores hyacinthinas 
£ odoriferas rosas rubicundas, 

Alegres cravelliuas, 

Violetas fecundas, 
Tece Flora com graça, engenho e arte 
A c'rôa para vós, senhor Duarte. 

No seu reino de argento 
A branda Thetis toda namorada 

Com suave instrumento, 

A vós afifeiçoada. 
Pede leveis remédio ao commum damno 
Do Grangetico mar ao Gaditano. 

£ as nymphas mais bellas 
Vos querem festejar, bello Narcizo, 

Umas com mil capellas, 

Outras com brando riso, 
Outras tecem cadeias de mil laços, 
£ outras cadeias fazem de seus braços ... * 

Ainda nos ajudam as seguintes palavras de Jacinto Cor- 
deiro, na Segunda parte de las Comedias, impressa em trinta 
e quatro, onde diz a D. Duarte «que o seu animo invencí- 
vel parecera melhor em Flandres, governando os exércitos 
de Hespanha contra as províncias rebeldes, que n'aquelle8 
estados pelejam pela fé», do que no ócio em que vivia. 

Educou pois D. Theodosio a D. Duarte para as armas, 

1 Bib. da Ajuda, Mss., Misc, vol. xxxvn, foi. 232. 



i57 



como a D. João para lhe siicceder no governo da casa, o 
a D. Alexandre para a egreja; mas, continuando no seu 
systema de exempçâo e isolamento da corte de Madrid^ 
nada lhe pediu para os dois iilUos mais moços, porque^ 
quanto ao primogénito, nenhum outro emprego ou honra 
lhe de&cjava, além da posee e administração do próprio 
ducado. 

Três annos depois da impressíío da Laura <!>' Anfrífio, 
morreu D. Theodosio, e inaugurou-so detínitivamcnte uma 
era de reconciliação entre a caea do Bragança e Filippe 
IV, reconciliaçào que, felizmente, nâo passou do começo. 
Foi entào qtie se ultimou o consorcio do novo duque, era 
cujas negociações, conta D. Francisco Manuel de Mello que 
entraram algumas promessíis a favor de D. Duarte e I>, 
Alexandre, das (puies nâo conh<^cemo3 a suhstanciaj e uni- 
camente que mio se cumpriram. D. António Caetano de 
Sousa tamhem alhide a promessas feitas pela mesma occa* 
siào a ambos, como já vimos. Pôde muito bem ser que es- 
tas, quanto ao primeiro, fossem a respeito da sua carreira 
militar. O caso é que o apartamento do paço ducal, se não 
suggcriu, como cremos, a idéa de deixar a pátria, apres- 
sou ao menos a sua execução. A ida a íiuadelupe nSo lica- 
ria, quem sabe, alheia aos soas planos; ligar-se-hia a al- 
guma tentativa cí»m o governo de Madrid para servir nos 
exércitos da monarchia; e só, depois de perdidas as espe- 
ranças por este lado, voltaria D. Duarte definitivamente as 
vistas ao império, para onde já tencionava partir no começo 
de trinta e quatro ou mesmo nos tins de trinta o três *, 

Vê-se portanto que D. Duarte não seguiu intcinimente 
^▼ontade paterna, quer o arrastasse a nova politica da casa 
de Bragança, quer a sua própria natureza, ou ambas estas 
coisua. Se nao tinha o animo inquebrantável de seu pae, 
tinha fé na restauniçSo da liberdade pátria, e, emquanto 



1 Manuel de Galhegos, Templo da Memoria. Na dedicatória. 



158 



nlo podia ajudal-a, procurou adextrar-se no serviço das ar- 
mas, nâo indo de enconti-o aos factos consuinmados, mas tran- 
sigindo o menos possível com elles; para o que lhe foi pre- 
ciso deixar o systema de abstenção em que D. Theodosio 
vivera, e em que parece pretendia quo o filho continuasse. 
Este procedimento nobre c razoável era o intermédio en- 
tre o do velho duque e o da duqueza D. Catharina, que 
nunca deixou de pugnar pelos direitos, attenç(5es e graças, 
devidas á sua casa. Demais, a larga intelligencia de que o 
dotara a sorte, oa variados estudos que cada dia lhe alar- 
gavam os horizontcfi espirituaes, e, com elles, a ambiçJlo 
de adquirir maiores conhecimentos, o desejo de ver mundo 
e de completar a educação moral e li iteraria na pratica dos 
homens lUustres e das naçôcíi, o sobretudo a sede ardente 
de renome, em que sentia inflammar-se, incitado pela sua 
grande alma e pelos exemplos dos antepassados, tudo isto 
seria já de si bastante para elle tomar estrada bem diversa 
da que seu pae lhe indicara, e trocar a vida retirada da 
corte ducal pela dos paizes mais cultos da Europa, e os ócios 
da paz pelas fadigas e triumphos bellicos. 

A guerra que n'esse tempo concentrava todas as atteu- 
ç3cs, e na máxima parte envolvia os estados europeus, era 
a guerra dos Trinta Annos, Ahi tinha D. Daarte o melhor 
theatro, ou antes a melhor escola para seguir as armas; 
ahi podia, elle que nâo mirava a mercês, arrancar da es- 
pada e arriscai* a vida desinteressadamente só para ganhar 
gloria em hii*go campo, onde se pugnava pela fé, já que 
nao lhe era dado <^sgriniil-a pela independência dos seus; 
ahi, descendente de reis, c irraâo de quem tinha direito ao 
throno de D. AíFouso Henriques, podia servir livre, nSo 
como vassallo entre vassallos, mas como príncipe entre 
príncipes. Era essa gaerra gigante que o fascinava. Decidiu 
pois tomar parte n'tílla a favor da casa de Áustria, e alis- 
tar-se nos • exércitos do império, escolha a que aliás o le- 
Tavam os laços de família e os da politica, assim como as 



159 

BIU18 crenças religiosas, porque esta lucta tremenda, em que 
Bo empenharam tantas naçíjes, embora muito protana, teve 
nn religiJio o seu principio. 



IV 



Tratada a matéria entre elle e o duque, mandou este pre- 
parar quanto era necessário A partida^^do irmão c á aucto- 
ridade da casa de Bragança, dando-lhe para o seu serviço 
e companhia creados de todos os foros, que alguns elevam 
ao crescido numero de sessenta, e Francisco de Sousa Cou- 
tinlio, 6eu aposentador-mór, de quem já falíamos, e ainda 
falaremos detidamente no decurso d'este estudo. Uma das 
pessoas que acompanharam D. Duarte, nesta occasiao, sup- 
pomos, pois podia ser n'c8ta ou na segunda passagem a Al- 
leraanlia, depois de vir ao reino em trinta e oito, foi Ma- 
nuel de Mello de Noronha, da nobre farailia dos Mellos de 
Évora, capitUo que militaraporalgum tempo na índia, como 
seu pae, Ruy de Jlello de Noronha, e como seu avô e bis- 
avô patenios, Martim AíFonso de Mello, e Ruy de Mello o 
Punho, capitão de Baçaim; outra foi Luiz Pereira da (^íosta 
ou de Sampaio, que esteve ao seujserviço até elle ir para 
Milão, e ainda alguns mezes depois de ahi preso. Dispoz 
também o duque de tal maneira as coisas, que nâo lhe fal- 
tassem nas terras estranhas que havia de percorrer os meios 
convenientes á sua ostentosa sustentação, para o que lhe 
abriu créditos em Amsterdam e Hamburgo, e em outras 
praças commerciaea de França, Itália e Allemanha *. 

1 D. Antanio Ca(?taiio de Sousa, HigL genealógica. 

Bib. lia Aju<Ia, Mss., Movimento tly orhe luailano, tom. 3.*, foi. 52, 
Helaçilo de Huet úeercji do infante. 

Arcli. do Estado de Milào, Processos de D, Duarte de Bragança, 
no processo de 1643. Mss. 

P.* José Perdigdo, Familioê da viUa de Alcácer do Sal. Mas. 



160 



K incerta a epocha da partida de D. Diuirte de Villa Vi- 
çosa. Os docuiTientos copiados por Fr. Vicente Salgado 
p3em-a a doze de janeiro de mil seiscentos e trinta e qua- 
tro, e o Tarifo jiortwjnez, e a fíwtorux genealógica antes do 
nascimento de D. TLeodosio, que teve logar a oito de tV 
vereiro do mesmo anno, sem mais expUoaçilo. JoSo Ba- 
ptista Domingues poním apresenta-nos D. Duarte em Villa 
Viçosa ainda n'e8ta. data, e at<i em vinte e sete de fevereiro, 
quando o soljrinlio se baptisou, JoSo Baptista Domingues 
é explicito a tal respeito, e dij^no do maior credito. cNo dia 
do BMSíMmento (de D. Tlieodosio) á uoite, escreve elle, houve 
luminárias na villa, <■ D. Duarte e D. Alexandre andaram 
como de ronda o serviram de guias a outros tantos esqua- 
drares com tochas accesas nas mSos, e montados em sober- 
bos e bem ajaezados ravallo«, até que, juntando-se na frente 
do paço, correram, dadas as mios, dcxtrisaimamente. . ,■ 
í Armaram-se ricamente a» ruas, prosegue elle, descreven- 
do o baptigado; precederam «quantidade fie danças, musi- 
cas e iustrumcntnp ; logo 08 porteiros com maças; e de- 
pois iam D. Luiz de Noronha, que levava a offerta, Vicente 
de Sousa de Tavom o sah^iro, Francisi-o Rodrigues do Bri- 
to o jarro, e António Correia ik- Lacerda a vclhi em xun 
grande prato; e, depois de outras pessoas nobres, se con- 
tinuavam de uma e outra parto os arrlieiroi*. Tam também 
vinte e (piatro moços da í-aTUíira com lirandSos acccsos, o 
depois o principe mu os braços do Ruy •!« Sousa; fecliava 
toda esta pompa o duque de Bragança, acompanhado com 
seus inii3.os D. Duarte e D. Alexandre, aos quaes seguiam 
muitos prcJailoa e pessoas notu-es. Chegaram finalmente á 
capella ducal, aonde, entre agradável consonância de instni- 
nientos e vozes, foi o principe baptisado pelo dcào da mes- 
ma, sendo seu padrinho si^u tio o infante D. Duarte. Con- 
tinuarani-se as festas de tarde; correram toiros; e ii noite 
houve luminárias e fogos de artiticio. Ao outro dia, mon- 
tados 08 ditos dmpie e infante em formosos e bem adereça- 



161 



dos cavallos, attraliirauí a si o» olhos de todos, porque oxtj- 
cutaram, com a maior dextreza, oa maiores primores íle 
cavallaria. Para os outros dias estavam preparados outros 
modoB de divertimento, aos ipiaes impediu a cíinva*». Ma- 
nuel LuiZy auotor do Theofhsíus hmtanm, confirma Baptista 
Domingues. Cadomega, noticiando aft mesmas festas, diz 
que: «Sahiu sna exeellencia a ellas, fazendo de pareília 
com o senhor D. Duarte, com as quadrilhas do festejo a 
cavallo, sendo ambos os quadrilheiros com cannas, aleanzias 
c caracoes, e tudo o mais que era dado á arte de cavai 
laria*í>. 

Mais valioso porém, do qur* o testeiuimho d'e8tes aucto- 
res, ó o do próprio D. Duarte, o qual assegura positivamen- 
te nas nota» ai» Portugal convenzida con la rafion, de D. 
Nicolau Fernandes de Castro: «Jleu imiao tinha um prín- 
cipe varão, quando eu sahi de Portuj^al a primeira vez, e 
estftva outro para nascer cm breve ^íb; o que nos confirma, 
e também mostra qu«^ a partida de D. Duarte foi aindu 
muito além de fevereiro. D. Anna, sej^mdo genito do du- 
que D. João, nasceu a vinte e um de janeiro de trinta o 
cinco, sendo portanto ^j^erada em maio ou em jullio do anno 
anterior, conforme fosse de novo ou de sete mezes. To' 
mando ao pé da lottra as palavras de D. Duarte, a data dn 
sna partida só se collocaria nos fins de tilinta e quatro, 
e elle a oito de setembro já se achava era Inspruck. Dan» 
dodhea porém n interpretação de que D. Luiza andava 
outra vez gravida, e de pouco, aventuraremos com probabi- 
lidade que D. Duarte deixou Portugal eiu junho ou julho, 
ficando-Die ainda para a viagem até luspruck dois ou trea 
mczes, tempo que nílo é demasiado, se attendermos a que se 
demorou em Madrid oito ou doze dias, a quanto é extenso 
o caminho e a que peregrinou por varias cidades de Itália. 

> Vida do príncipe D. Theodotlo. Líaboa, 1747, á.-* 

• Ac. das Sc, Mss., Dt/scrijpçno de sua pátria Villa Viçosa. 

J Bib. dEvora, Mbs., lOt;, 2, II, foi. 228, as ditus notas. 



«. I. D. D. T. I. 



11 



i62 



Quem sabe mesmo se a errada leitura de junlio ou jiiliio 
escripto em breve e mal, não transformou um d'este9 me- 
zea em janeiro, podendo por íonse^uinte presuiiiír-se como 
certa a data do ília que vem nos documentos copiados por 
Salgado? Mas nâo insistimos no ponto, pela nenhuma fó 
<[ue nos merecem tacs documentos, como veremos» O que 
admira é D. Francisco Manuel de Mello ignorar estas par- 
ticularidades, a ponto de eollocar a snliida de D. Duarte 
4I0 reino ímtes do nascimento do sobrinho c do seu baptismo 
c de nao lhe chegar á noticia que entrou de moflo tilo cons- 
pícuo em ambos estes aeontecimentos. 

Do que acabamofe de expor tirar-se-hia outra concIusSo, 
isto é, que a ruptura entre D. Duarte e a duqueza sua 
cmiliada foi depois d*este facto, tm, do contrario, nRo foi 
tamanha como geralmente se atíirraa, ou dimijiuiu tanto 
com o coiTcr do lenqx), e tão depressa, que cila o esco- 
llieu para padrinho do seu tilho primogénito. A opinião 
mais acceitavel é a primeira; Cadornega segue-a pondo a 
retirada de D. Duarte do paço diieal depois do nascimento 
de D. Themlosiu. 

Determinado tudo para a viagem e longa ausência quo 
tencionava fazer em terras esti-angeiras, disse D- Duarto 
iuleus á casa patenia, povoada de tantas memorias, aoa 
bitios queridos, onde florescera c se perfumara a sua infân- 
cia e mocidade, aos irmãos, a todos os seus, e, com a alma 
oppressa de amfirgura, partiu de Villu Viçosa, levando o 
caminho da fronteira de Hespanha. 

Estava pois removido o obstáculo á vontade da duqueza 
110 que respeitava á sua liberdade e soberania domesticas. 
Era D. Duarte a pedra de escândalo das suas perturbadas 
relaçCes com o duque, e, arredando-a do caminho, julgava 
ter destruído todas as causas de descontentamento. Com- 
pleto engano; o que logo ou pouco depois da sabida do 
cunhado, succedeu, e vamos narrar, nol-o mauifesbi A evi- 
dencia. 



163 

Como se foRBe D. Duarte o Jinjo ila guarda do seu ir- 
mão, ostn, partido ellc do Villa Viçosa, começou a pro- 
ceder de modo t2o irregular e censurável, que moveu aa 
maia acerbas queixas da eeposa, e, pela publiciJíiilc d'el- 
las, os reparos, e, mais ainda do que os reparo», as acre» 
cen&uras do publico em geral. Para tíòá nílo ò preciso raaís 
eloquente testemunho da benéfica e valioí^a influencia do 
D. Dtiarte no diupie de Bragança, e por isso nos demora- 
remos no así^umpto. 

Mandara D. Theodosio instruir na musica seu filho pri- 
mogénito, fazendo vir de propósito para esse fim Roberto 
Tomar, como já ditisemos. O intuito do piedoso duquo ora 
crcar nVlk* o go.-*to por esta arte tanto quanto fosse neces- 
tsario para se empenhar na conservaçJo e engrandecimento 
da expelia ducal, tomando parte pessoalmente naa suas 
fimc\;5e8 religiosas, cujo luzimento queria que nào esmo- 
recesse. Encontrou este desejo opposição no duque de Bar- 
cellos; entXo D. Theodosio, usando da auctoridade paterna, 
obrigou-o a recomeçar o estudo, e depois a seguil o, quando 
uma ou mais veze^ o interrompeu novamente. Passaram- 
8€ alguns annos, e D. João, vencida a repugnância ou pre 
gttiça, que o arn-dara ao principio de t&o amável arte, nSo 
somente se tornou ticu apaixonado, vann até veiu a snbel-a 
de maneira, quê lhe serviu de entretenimento constante em 
toda a existência, chegando a compola, do que r^ístam 
provas evidentes, «• a terçar lanças por ella, como mostra 
a obra que mais larde publicou com o titulo Defensa dé la 
musira, contra ht > rraih opínion thi oln$2yo Cyrillo Franco, 
Manteve mesmo rei;içí5es com alguns professores celebres, 
entre os quaes h«* c<mtava Matheo Homero, mais conhecido 
pelo Mestre Capitan, o qual esteve em Villa Viçosa poucos 
annos depois, e a <piem fez ató varias mercês de dinheiro *. 
Dedicou-se o du<pie em especial á musica sagrada, e o 



•í Bib. da Ajuda, M»»., Misc, toI. xmv, foi. 161 v. 



11* 



164 

intento de seu pae foi n'e8te ponto ciunprido, porque aa 
solemnklades da capplla de Villa Viçosa o viram, artista 
cntbusiasta, quinhoar oe trabalhos doB outroa artistas, des- 
cendo á complacência de ensaiar cora a devida antecipação 
aa peças que se n'ella haviam de cantar. Jlas da musica 
religiosa á profana, para quem «.^stava na força da vida, 
nâo mediava mais do que um passo, e D. JoSo deu-o 
facilmente, entregaiido-se tudo ai» gosto das comedias e 
cantos, e, o que era peor, ao das comediantes e canto- 
ras. Foi esta uma das paix3cs que o arnistanim após si, 
com justo escândalo da esposa e das pessoas sensatas, de- 
pois do apartamento de D. Duarte, ou pelo menos desde 
então com mais vehemeiícia, A predilecção pelas farças 
e comedias, algumas bem licenciosas, adquirira muita voga 
em Hespanha entre a mocidade, com grave ofFi-nsa dos 
costumes; levava até de vencida o animo de vários prin- 
cipes, que por ellas se esqueciam das próprias obriga- 
ções; c em Portugal D. João pagou-lhcs também grosso 
tributo*. 

A outra paixão do duque de Bragança era a caça, com 
que se educou desde pequeno, e que lhe propoi-cionara tan- 
tas horas do alcgi'ia ao espirito o tanta saúde e robustez aa 
corpo. U que porém, ató á partida de I). Duarte, foi exer- 
cício nobre e salutar, converteuse, depois d'clla, em pe- 
rigo, em rebaixamento e em vicio. Quasi todos os dias 
monteava o duque a veação mais brava, arriscando muitas 
vezes temerária e inutilmente a vida em lances atrevidos, 
6çm que o impedissem no seu fragueiro arrebatamento nem 
as chuvas e neves do inverno, nem as ardentes calmas do 
estio, por mais abrazadoras que fosseai. Diz se mesmo que 
uma das suas distracções venatorias era crear toiros bra- 
víssimos e alanceal-OB no campo, ou buscar os porcos mon- 
tezes mais ferozes e apanhai -os vivosi, ou esperalos de noite 



1 Bib. Nac, MsB., D. Francisco Manue] de Melio^ Tácito portuffutm 




nos ccvadoíroB e matal-os^ NSo se cifravam unicamente 
oa ausência prolongada do lar domestico e no« riscos a que 
86 expunlia os maios resultantes da sua cegeira pela caça; 
outros havia ainda, e muito prejudiciaes, sobretudo para 
uma pessoa de t2o elevada jerarchí a: a continua convivência 
com 03 homens de grosseira condicçâo, que pela força e 
ousadia se lhe tomavam precisos n'e«ses rudes trabalhos, 
convivência d'onde certamente se derivou usar ainda muito 
posteriormente na conversa, embora discreta, de palavras 
pouco polidas ', A tapada de Villa Viçosa era um dos thea- 
troa de taes gentilezas c de outras bastante oifenaivas para 
D. Luiza, cijmo esposa, pois, segimdo se murmurava, as 
largas demoras que ai li fazia o duque provinham ás vezes 
de motivo bem diverso e de outras caçadas ainda mais es- 
candalosas. Eis a vida que levou o irraJlo de D. Duarte, 
desde que este o deixou entregue a si próprio. Devemos 
entretanto lembrar que nSo seria unicamente a falta do 
ínofto a causa de D. João ae esquecer tanto dos seus dc- 
Terea de marido; existia outra, é de suppor, bem clara e 
manifesta: passara-se o primeiro anno depois do seu ca- 
samento, e esse amor pela duqueza tSo exclusivo ou tSo 
sujeito, que entibion muito o que até entSto consagrava aos 
irmios, cedeu o logar, enfraquecendo-se, aos divertimentos 
« ás paixões licenciosa». Não queremos portanto annullar 
ama intiuencia tâo poderosa em favor da de D. Duarte, 
por maior que a supponhamos. Reconbecemol-a e reconhe- 
mos também que a presença d'e8te, assim como a de D. Ale- 
xandre, o qual, segundo parece, ainda estava fora do paço^. 
poriam barreira ás inclinaçSes viciosas do duque de Bra- 
gança; que, acompanhando-o nas caçadas, evitariam ambos 
hAo BÓmente que ellas se tomassem ferozes, mas também, 

1 Bib. Nac, Mbs., Frei Raphael de Jesus, Vida d^d-rei D. João IV. 
-^ Diogo Barbosa Mft<?hado, BibL lusitana, artigo sobre D. JoSo IV. 
' D. António Caetano de Sousa, nist.genealogica^ Carta de D. Duarte 
a seu irmSo, logo qae chegou a Vieniia. 



166 



« por conseguinte, que seu irmão se rodeiasse de pessoas 
baixas c indignas, e que, com os seus prudcntps cimselhos 
c com divcriííícs honestas, o desviariam das que lhe 6cavam 
mal e tanto o prejudicavam. 

O que nos importa 6 que os excessos aeontceesaem de- 
pois da partida de D. Duarte, e assim o deelanim de modo 
preciso os auctores do Tácito portwjnez e da lIi»forifi ge- 
nealofiicu, ambos pelas seguinte palavras: «O duque e a 
duqueza de Bragançft entenderam pnr ventura vivrr em 
grande conformidade, abaente 1>. Duarte, q»ie, aos olhos 
da emulação, foi reputado pedida do familiar escândalo de 
suas vontades. D. Duarte se apartou e se descobriram logo 
entre os duques novas causas de descontentamento». D'uhi 
ficguem naiTando essas causas, que sSío as apontadas. Coni- 
tudo estes escriptores dSo por motivo da revocação do dti- 
que aos deveres c(mjugaes o nascimento do filho primoge- 
nitOj o n'e8BC caso os escândalos ser-lhe hiam anteriores, e 
contemparancos da estada do irmtlo em Vílla Viçosa, pois 
já provamos que D. Duaiie só deixou a pátria depois do 
dito nascimento. Mas quem nos assevera que, asaim como 
aquelies auctores se enganaram n'e8te ultimo ponto, nSo se 
illudiram também, assignando á reconciliação dos dois es- 
posos uma causa que, posto verosimil, nào é a verdadeira? 
Não resultaria antes a emenda do duque do cansaço dos pra- 
zeres, do medo de maior censura, do conselho dos amigos 
ou de outra causa qualquer escondida ao no.sso conheci- 
mento? Nem se imagine que D. Francisco Manuel de Mello 
se refere nas palavras que transcrevemos á sabida de D. 
Duarte do paço ducal para a Quinta dos Peixinhos, porque 
não diz nada a tal respeito, e só da outra para fora do 
reino. D António Caetano de Sousa parece alludir confusa- 
mente á primeira, e p5c as palavras de D. Francisco, pois 
d^elle as copiou, depois da segunda. Ainda porém tpie o 
auctor do Tácito puHmjnez se referisse geralmente á au- 
sência de D, Duarte e aos seus effeitoa, sem especificar 



1G7 

qual (l'ellas era^ e que o auctor da Hixtnvia gint-alogicn fosse 
n'e8te, como n'outros pontos, ás ecgns, atraz do seu il lus- 
tre giiía, nem por isso colhia menos o argumento da in- 
fluencia do nosso biographado em seu irmílo. Que D. Duarte 
nSo entrou em Uies demasias, ainda a serem do seu tempo, 
o que negamos, indicam-o, além de tudo, o seu caraeter e 
OB seuft actos de toda a vida. Nem, se entrasse, deixaria 
tâo condemnavel cumplicidade de excitar, mais do que já 
estava, o animo de D. Luiza contra seu cunhado, e de ser 
por ella mencionada, o que nSo acontece, pois, segundo 
08 mesmos escriptores e outros, D. João, n*estc ponto, ser- 
viu unicamente de alvo tis suas legitimadas queixji^. 

Se a falta de D. Duarte foi sensível ao duí^ne de Bra- 
gança, não nH?no8 o foi, e com duplicada razão, a D- Ale- 
xandre. A maior convivência entre estes dois irmãos, as 
leituras e cstiulos que fariam juntos, porque o ultimo ti- 
Ilio de D. Theodosio, pela sua natureza deljil, e pela vida 
ecclesiastiea a que se destinava, devia fre(iuentfll-os mais, 
e menos os exercicios equestres e venatoríos, o exilio do 
paço ducal, em que ambos foram eomprehendidos, e talvez 
um por causa do outro, a residência na Quinta doa Peixi- 
nhos, a viagem a Guadelupe, a maior comiiiunidadc ou se- 
melhança de affectos e de idéas, tudo ua toraava muito ami- 
gos, tudo Ifwou D. Alexandre a sentir muito o apartamento 
de D. Duarte, e com tanta demonstraçilo, que o duque de 
Bragança, passado algmn tempo, o elinmou de novo para 
o paço, onde residiu até á morte, com estado e serviço íi 
parte, mas reinando a maior harmonia entre os dois*. 



> Ac. dae Sc, Msa-, António de Oliveira Cadoniega, Dcscrípçãn de 
miQ pátria Villa Vi^ota. 



168 



Pouco dista Villa Viçosa àn fronteira, e, portanto, den- 
tio de breve tempo, viu D. Duarte desappareeerem aos 
seus olhos as ultimas teiTa-s da pátria^ momento angustioso 
e solemne que jamais esquece o que tem i-oraçâo! Vol- 
vendo os ainda uma vez ao horizonte vaporoso, que pare- 
cia levantaj--8e, como um veu de tristeza, entre ellas e a sua 
alma, dirigiu-llics o adeus derradeiro, o, entregue a mil pen- 
samentos, jil de magoa, já de incerteza, já de esperança, 
segiuu o seu caminho, atravessando o largo tracto, rude, 
monótono e meio deserto, que se estendia e estende desde 
o nosso paiz até Madrid. 

Dizem que D. Duarte se conservou ahi apenas oito ou 
doze dias c incógnito ; mas a sua chegada não podia deixar 
de attrahir a attençSo da corte e dos portuguezes que re- 
sidiam n'c]la, muitos dos quacs aproveitariam esta nova oc- 
casiSo de mostrar mais imia vez o respeito e o amor que 
professavam á casa de Bragauça, emboi'a disfarçadamente, 
com medo de excitarem os ciúmes dos nossos inimigos, e 
sobretudo de Olivares, cujo animo deviam conhecer á ma- 
ravilha. Nem só receberia D. Duarte os cimiprimentos dos 
portuguezes, mas também os de variou fidalgos e homens 
notáveis hespanhoes, que ou eram parentes dos duques, ou 
lhes deviam favores, ou com elles tinham tido ou tinham 
correspondência, que muitos attrahia As relaçiSes cora tão 
grandes senhores a posição de Viila Viçosa, próxima da 
fronteira, e quasi no caminho de Lisboa, e, mais do que 
Í880, a sua franqueza e magnificência bem notórias. 



i69 

Com o conde de Niebla e com a condessa de Oropesa 
conviveu D. Diiai'te nos poucoa dias quo se demorou em 
Madrid, onde esta âdalga o aposentou no seu palácio '. O 
conde de Níebla era cunhado do duque de Bragança, como 
irmão da duqueza D. Luiza. D'e!ie já temos conhecimento 
de quando acompanhou a irmãi a Portugal, e, hospedado 
principescamente nos paços de Villa Viçosa, figurou em 
todas as íestas do seu casamento. A condessa de Orope- 
sa era mulher de Fernando Alvares de Toledo e Portu- 
gal, neto de D. Duarte, tio do nosso biograpbado. Paasara 
«ste ultimo em mil quinhentos e noventa e dois a Ilcspanha, 
e ahi casara com D. Brites de Toledo, marqueza de Ja- 
randilhas, presumptiva herdeira da casa de Oropesa, e alii 
vivera honrado por Filippe ÍI, que lhe deu a villa de Fle- 
chilla e Villa Raniiel, no diístricto do adeantndo de Cas- 
tella, pelo que o creara raarquez de FlechíUa, cora quatro 
mil cruzados de juro e renda perpetua para elle e seus her- 
deiros. Foi timbem D. Duarte grande de llespanha de pri- 
meira ordem, commendador de Castilnuovo, alferes maior 
da ordem de Alcântara, gentil-homem da camará de Fi- 
lippe III, com as entradas livres, sem obrigação de as- 
sistência, do conselho de estado e guerra, e, pelo seu se- 
gundo casamento com D. Guiomar Pardo e Tavcna, mar- 
quez de Malagon. Como já se leu, D. Duarte fallecera 
em mil seiscentos e vinte sete. Sou neto, na epocha em 
que vamos, era o senhor da casa. Vivia ainda ent^o, nSo 
sabemos se em Madrid, a filha de D. Duarte, D. Marianna 
Engracia de Toledo e Portugal, marqueza de los Velez, 
que se desposara com D. Pedro Fajardo do Zuniga e lle- 
quesens, quinto marquez de loa Velez e de Molina, adean- 
tado maior do reino de Murcia e vice-rei de Aragão, Na- 
varra, Catalunha, e Sicilia. Outros parentes ainda tinha o 



* Fr. Bernardo de Braga : Sentimentos puhlicoa de Pernambuco nd 
morte do injimte D. Duarte. Lisboa 1651. 4." 



170 



nosso D. Duarte em Ilespanha na corte ou fóra d^eUa; e, 
om grau maia clierjado, por parte de sua mSe, a duqueza 
D. ^Vnna de Velaisco, os senliores da casa de Haro. 

Apenas em Madrid, procurou D. Duarte alcançar au- 
diência de Olivares, porta indispensável pam ir á presença 
de el-rei, que se deixava inteiramente governar pela von- 
tade do valido. Os fins que levava em vista erara cum- 
primentar Fillppe IV e alcançar o seu favor para transfe- 
rir-se a AUemanlia, favor que elle julgava merecer por seus 
antepassados, e esperava ter seguro, conforme as promessas 
feitas no casamento de seu Irmão. Foi talvez este um dos 
motivos porque o duque enviou com elle FrancÍBco de Sousa 
Coutinho, pratico niis coisas da corte hespanhola, e que já 
alii residira, para lhe abrir o passo e guial-o com os sens 
ajuizados conselhos. 

Mandou pois D. Duarte pedir audiência ao conde-duque; 
prometteu-lh'a este, mas no dia marcado, aprazou-a para 
outro, adiamento que repetiu quatro vezes. Tâo extranha 
desconsideração ofi*endeu profundamente o animo do irmão 
do duque de Bragança, e encheu de pa«mo a condessa de 
Oropesa e o conde de Niebk, o qual, para se desenganar 
por si mesmo, qniz saber a verdadeira tençilo do orgidhoso 
valido. Das suas pesquizas resultou o desengano de que 
este nao queria recebel-o*. 

Que razSes levaram Clivares a proceder assim desabri- 
damente com tilo nobre fidalgo, com o primo do seu pró- 
prio soberano y Três encontrava D. Duarte, recapitulando, 
decorridos alguns annos, na memoria estes successos: a re- 
cusa do duque D. Theodosio de acceitar para elle a mSo 
de sua filha única, D. Maria de Gusman; o ter sido de pa- 
recer contrario ao casamento de seu irmão com a fiilha do 
duque de Medina-Sidonia, ainda parente do valido, e que 



» Arch. do Estado de Milão, Processog do D. Duarte de Bragança^ 
nos loterrogtiiorios ao mesmo. Msa. 



171 



este levava tanto a bem; e o cartear-se familiarmente coi» 
J), Luiz de Haro, seu inimigo, e, que, depois da ana que- 
da, lhe havia de sncceder no difficil cargo de governar a 
monarchia, do que lhe constara ter-se queixado Olivaree*. 

A estes motivos pessoaes juntavam-so ainda pelo mesmo 
tempo outrotj poli ricos e particuLiree contra a casa de Bra- 
gança, sobre o que é significativa a carta do duque D. JoSo 
ao seu agente em Madrid, de dezenove de março d'e(»te 
meara*! nnno, que passamos a transcrever. 

«Resumo os pontos da vossa carta a dizerdca-me que, 
lendo a minha a Diogo Soares, e querendo elle dar satis- 
fiiçâú ás muitas dilaç5es que comigo se usaram em todas 
tLS matérias que me tocavam, disse que a causa d'ell{ís 
foi ir accumulando coisas para me obrigar a vir no que se 
propuzesse. E, considerando eu o muito tempo que ha que 
se tem comigo aquelle ewtyln, e que ainda entiUo nem el- 
rei de Frauda a rojava, nem em MiUo havia neceBsidades, 
venho a inferir qiie o intento que n'esta matéria se tem é 
mais antigo que as causas que iigora se me propõem o qun 
nSo procede d'ellas. E como isto me persuade que ellas di- 
vem ser ontraí», e nâo se mo declaram, com razão me es- 
cuso eu, porqufí nJo é bem entrar ás cegas era matérias de 
tanto poso. Tenho dado satisfação ao que se me propoz, tal, 
que a juizo de quem bem pesar as coisas, é ajustada com 
a razSo, e nâo a vi depois tal contra elle cpie mo obrigasse 
A mudar; por onde acho que n'aquelle negocio nào me fica 
a mim mais que fazer; porque como eu o nSo propuz, e 
tenho respondido, nâo me toca scguilo. O» outros meus 
vejo agora em estado que me parece terão pouco fructo as 
lembranças, c assim será bera recolherdes -vos sem esperar 
outra carta minha. Deus voa guarde. VUIa Viçosa, dezenove 
de março de mil seiscentos e trinta e quatro*». 

' Arcb. do Estado de Milio, Processo» de D. Duarte do Bragança^ 
nos icterrogatorioa ao mesmo. Mas. 

* Bib. da Ajada, Mse., Misc, vol. jcxxyii, foi. 67. 



172 



Mostra esta carta o mau estado das relaçSes entre a casa 
de Bragança e a corte de Madrid na epocha de que fala- 
mos, e parece, outrosim, dar margem a concluir-se qne 
as tentativas para arredar de Portugal o duque, incumbiu- 
do-lhe o governo de Milão, se a isto, como julgamos, ella 
se refere, e os esforços empregados pelo mesmo para se 
esquivar a essa honra, de que lhe resultaria evidente pe- 
rigo, começaram antes de trinta e quatro, nSo obstante a 
opinião de todos os historiadores, que as collocam era trinta 
e oito para trinta e nove. 

Se assim é, podemos recuar talvez semelhantes tentati- 
vas até ás proximidades do seu casamento com D. Luiza 
de Gusmão, etíeituado quatorze mezes antes. Nos últimos 
tempos da vida de D. Theodosio, quando a doença e os 
desgostos, mais do que a edade, o haviam tornado deca- 
dente, começaram, confonin^ escrevemos, os manejos polí- 
ticos de D. Francisco de Mello, mancommunado com o 
conde-duque de Clivares, contra o estado de Bragança. 
Morto o velho duque, proseguiram com mais fers'or. Era 
janeiro de trinta e três ultimou-se o consorcio de D. Joio; 
e, porventura, n'e88e tempo, ou talvez ainda anteriormen- 
te, tratou-se de o nomear para o cargo alludido. Era fe- 
vereiro vagou, pela morte de D. Josó de Mello, o arce- 
bispado d'Evora. Pediuo D. JoZLo, confiado ainda nas pro- 
messas do governo hespanhol por occasiHo do seu casa- 
mento, para seu irmão D. Alexandre, que attingira oa 
vinte e seis amios; mas recusjiram lh'o, respondendo, de- 
pois tle dois annos de espera, com a futil e apparente escusa 
de elle nâo ser doutorado, quando, poneo antes, se conce- 
dera o bispado de Vizeu ao filho do archiducjiue Leopoldo 
que apenas contava três annos de edade. Aqui o ódio ca- 
minhava de raios dadas com a politica. A verdadeira causa 
da recusa era muito diversa, e até certo ponto razoável aos 
olhos do governo usurpador: nSo augraentar a influencia da 
casa de Bragança, empossando um dos seus membros de tão 



173 



importante diocese, que de miiis a mais ha tanto tempo lhe 
andava como que enfeudada. Com relação a D. Duarte 
conjecturamos que algum pedido fez o duque, e que tam- 
bém foi recusado. Em trinta e quatro occorreram 08 ar- 
mamentos de França e a.s necessidades de Milão, e instou- 
8e com D. Joílo para que acceitasso, se^indo parece, o 
governo d'aquelle estado. Apresentou elle as smis escn- 
safi; e juntamente, conhecendo pelo que Diogo Soares dis- 
sera HO seu agente, que as muitas dilaçòes que se usavam 
em todos os »eus negocjos eram calculadas para o obriga- 
rem por este meio a acceder ao que se lhe propuzesse, es- 
tratagema havia muito empregado, e ainda mesmo antes 
dos ditos amiamentos e necessidades, concluiu que Uespa- 
nha nutria a seu respeito projectos occultos mais antigos, 
diffcrentes dos allegados, e, cm vista do pouco fructo que 
esperava do» seus outros negócios, mandou ao agente que 
ae retirasse da curto de Madrid. Note-ee, a nomeação do 
duque para governador de Milão nSLo a aftirmamos. A 
carta c omissa n"este ponto j sâo apenas conjecturas, mas 
verosímeis. O que c certo e nos importa sâo os motivos 
de queixa que elle teve da corte, e o excesso em que rom- 
peu por csbOs motivos. 

Três ou quatro mezes depois d'e8ta cartíi do duque, D. 
Duarte atravessava Hospanha. Os factos que a precederaiu 
e motivaram já existiam portanto, e, ainda que njlo hou* 
vesee outras causas pessoaes, as «Iludidas eram de si bas- 
tantes para promover a desconíiança e a má vontade de 
parte a parte entre elle e o governo hespanhol. Mas D. 
Francisco Manuel de Mello e D. António Caet^mo de Sonsa 
dizem qiic as houve, e o próprio D. Duarte, além das es- 
peciaes que apontiimos, queixa-se geralmente de que Filippe 
IV nunca llie concedera mercê de género algum ; que nao 
quizera jiimais utiliaar-se da sua pessoa, tendo-se offerecitlo 
ao seu serviço, e tendo feito para isso grandes instancias, 
sem requerer postos, porém só que o deixassem militar 



174 

com um pique; e que se lhe negara o logar que occupa- 
ram U»dos 08 filhos da casa de Bragança, o qual se lhe de- 
via pelo Bangue que lhe girava nas veia«, e pelas preemi- 
nências da sua fiimilia, provindo tudo do ódio que lhe vo- 
tava o conde-duque *. Níío anseveramo* que estas queíjfaa 
se referem a mil seiscentos e trinta e quatro, e só que pre- 
cedem a sua volta a Allemanha em trinta e oito, mas è li- 
cito, e muito licito, suppol-o. O q<ie vimos de citar oor- 
roborar-se-hia ainda com o que elle tan»bem escreveu, re- 
futando um dos pontos do livro de D. Nicolau Fernandes 
de Castro, Portugal convenzitla con la razon, posto que 
fale em sentido geral: tiue não serviu a Filippc IV, por- 
que nunca d elle se <juiz servir, o que dilÍg<'nciou muito 
obter, sem pedir títulos, governos, ou rendas, mas aó 
o que tiveram todos os filhos da casa de Bragança, o que 
poderia confirmar D. Francisco de Mello, se ([uizesae dizer 
a verdade, e Fr. João de Santo Agostinho, e do que se- 
riam provas muitas cartas originaes, fáceis de apresentara. 
Em abono das nossas asserções vem finalmente o mesmo D. 
Duarte^ quando, nos apontamentos contra Caramuel e Chu- 
macero, accusa os reis catholicos de em tudo procurarem en- 
vilecer e desprezar os príncipes da casa do Bragança, an- 
tepondo lhes qualquer pot^soa que fosse grande de Hespa- 
nha, sem respeitar a ditíbrcnça entre estes e aquelles, des- 
cendentes de reis, e parentes em terceiro, quarto e quinto 
grau dos maiores monarchas da Europa*. 

D. Francisco Manuel de Mello e D. António Caetano de 
Sousa contara as coisas de diversa maneira, e attribuera a 
D. Duarte alguma culpa de níto ser recebido por Filippe FV 
c pelo conde-duque. Segundo elles, B. Duarte pretendia 



1 Bib. de EvoíH, Mss., l(>lj, 2, 11, foi 228- Prott-sto do infante con- 
tra o seu proceaao. 

' Id., Notas do iufaute ú dita obra. 

3 Bib. da Ajuda, M.ss., Corresp. de \aúz Pereira de Castro, vol. f, 
foi. 7, os ditos apontamentos. 



175 



que el-rei llie mandasse declarar, antes de o receber, o ti'afa- 
mento e mercês com que o esperava; e el-rei e o yalido 
aguardavam que eJle lhos pedisse o pretendesse as mercês 
e tratamento. Era uma lucta entre dois poderes, da qiial 
D. Duarte sahiu talvez prejudicado, porém nilo vencido. 
FiJippe IV e o sou ministro desejavam que elle se humilhas- 
se; mas o fíUio de D. Theodosio, seguindo o exemplo de seu 
pae, preferiu perdemos interesses a dobnír-se aos dictames 
do mando. Muitos lhe censuraram o procedimento, e com 
mostra» de rasgão, posto f|ue o seu brilho, maior do quo 
toda a censura, devia obrij^ar, até mesmo os ipio o depri- 
miram, a reconhecer as nobres qualidades donde provinlia. 
No comportamento de D. Duarte com o governo hespa- 
nhol transiparece, a nosso ver, uma certa reluctancia e ani- 
mo adverso debaixo de simuladas apparenciaa de fideli- 
dade. Ou muito nos enganamos, ou o seu desejo nunca foi 
uUstar-se nos exércitos de Filippe TV, o oppressor da sua pá- 
tria, nem viver em FEespanha, egualado aos grandes do 
reino, elle que se liies julgav^a superior, e o era de certo. 
Empregou, 6 verdade*, algumas diligencias n'es8e sentido, 
porque se tornaria suspeito e odioso ao soberano que então 
regia os destinos de Portugal, se o nâo fizesse; mas o seu 
alvo era militar em outros paizes, entre príncipes e ho- 
mens illustres^ exposto ás vistas do mundo, em grandioso 
theatro, onde adquirisse perfeito conliocimeuto da arte a 
que se dedicara e fama gloriosa. Nenhuma outra guerra 
estava mais no caso do que a dos Trinta Annos, nem 
outra nenhuma havia, tora doa dominios de Filippe, a que 
um fidalgo portuguez como D. Duarte, catholico extrt-me, 
c tenaz respeitador dos princípios monarchicos, julgasse li- 
cito offerecer a sua espada. De mais, servindo o imperador 
de AUemanha e a casa d* Áustria, conservava-se n'am meio 
termo, que talvez lhe fosse proveitoso, porque nlío que- 
brava de todo com o governo de Madrid, em cuja ani- 
mosidade e desconsiderações encontraria aliás motivos de 



176 



defeza, se alguma vez, porventura, o acciísasaem. Isto coa- 
tluna-se mais com o que devemos esperar do filho predilecto 
do durpie D, Theodosio, e com a sua ultima vontade. A 
nossa presumpçio reealta dos factos que expendemos, e tem 
ainda a seu favor o testemunho de dnis uui-tores: um por- 
tiiguez e outro hespanhol: Luiz Marinho de Azevedo nas 
Eocclamaciones jHÀUicas, e D. Nicolau Fernandes de Castro 
na sua obra ha pouco citada. 



VI 



Abadonando Madrid, continuou 1 ». Duarte camniho de 
Allomanha, n2.o sabemos so com toda a numerosa família 
que levou do reino ; Francisco de Sousa Coutinho, pelo me- 
nos, então nu algum tempo depois, voltou a elle, visto que, 
passados mezes, o encontramos em Eiva*, cumprimentando, 
por onlem do duque de BrajL,'ançfi, a duqueza de Mantua, 
ao entrar era Portugal. Sofítindo todas as probabilidades, 
não passou da capital de Het^panha. 

Muito pouco se conliece da via^^era de D. Duarte, e por 
isso fomos obrigado a de^crevel-a tao succiutamente na 
parte que abrange de Villa Viçosa a ^ladrid. Pouco maio- 
res subsídios ha para delinearmos o resto. Seremos por- 
tanto breve, procurando supprir com probabilidades o que 
falta de certeza. D. iViitonio Caetano de Sousa, único au- 
ctor que escreve da matéria, segundo aflfirma, por uma re- 
lação que teve presente, é dcficientissimo, pois sò nos diz 
que D. Duarte, sahindo da curte ducal, se encaminhou á 
hespanhola; que d ahi se dirigiu a Itália, onde viu algumas 
cidades, .e entre ellas Milão; e que, entrando no Tyrol, 



177 



eateve em Inspruck, se^niindo da mesma cidade directa- 
mente a Vienna, sí^m particularisar nenhum outro dos lo- 
gares por onde passou, nem mesmo dos em que se de- 
morou mais tempo. 

B\. J^eniardo de Braga, diz a respeito da sua viagem 
por Het*panl»a o so;jjuinte: «(^hcgando a fastella, íez noite 
na real casa do Oropesa, e porque as cerimonias do conde- 
duque (tra1>uí'4\dor de estados e de eminenciasl o dcsagra^ 
daram, por nâo tropeçar em alijam dissabor manifesto com 
el-rei Filippe IV, seu primo, se sahíu occulto a todas as 
diligencias, que as postas apressadai? souliernra baldar, o 
chegou a Navarra, ondo o vicc-rei lhe fez o recebimento 
e passagem devida á grandeza de um infante»*. O transito 
de D. Duarte por Navarra inclina- nos a suppor que tomas- 
se o caminho de Françti, supposiçílo que aliás, parecem con- 
firmar, á primeira viata, os créditos que seu irmílo lhe man- 
dou abrir n'e3to paiz. 

A nío ir por Navarra, D. I >narto scgniria por Alcalá do 
Honares, Uuadalajara, Algora, ^íarachon e Tortuera, l)\ihi 
ontraria no Aragilo, continuando por Mainar, Muel, Sara- 
goça, Osera, Bruxalaras o Fraga, o entranhar-eo-hia na Ca- 
talunha, passando por Lerida, Cervora, Igualada e Mar- 
torll, até parar em líarcelona. Este caminho, que abrangia 
noventa Icguas^ podia percorreb<t em quín/.e dias, em jor- 
nadas. Pela posta seria muito menos, •• D. Duarte, moço, 
forte e impaciente de sahir de Hespanha e de chegar ao 
seu destino, servir- se-hia dn segimda maneira. 

Em todo o caso, o que ò geralmente acceito r que D. 
Duarte apenas atravessou este paiz, e qmvsi geralmente que 
so demorou em Madrid só oito ou doze dias. 

Fr. Haphael de Jesus vae ainda mais longe, pois asse- 
gura erradamente que nem entrou nqui. 

Com eífeilo bastante vontade sentiria o nobre viajante 

* Stnttruaito pvhlíco de Pernambuco na morte do in/ante D. Duarít, 
Lisboa 16Õ1, 4." 



H. t. D. D. — T. I. 



12 



178 



de deixar as terras de Filippe, de quem fSra tâo desatten- 
dido, e pelas quaea nunca mais transitou, nem quando veiu 
a Portugal algims annos depois, nem quando toraou para 
AUemanha. Como veremos, preferiu a atravessai as uven- 
turar-se no inverno, e nas suas proximidades, ás longuras, 
incertezas e perigos dos procellosos mares do Xorte e da 
Biscava, e ao terrível encontro dos piratus argelinos, que 
ôntao infestavam as nossas costas, assim como as de outros 
paizes, e de que uma das vezes ia sendo victima. 

Se foi por França, D. Duarte seguiria o caminho de 
Marsellia e o da costa dô mar, e por Niza entraria na 
Itália; se não, embarcaria na capital da Catai imha, cruzaria 
o golfo de Lyíío, e desembarcaria em Génova. 

Quaes foram as cidades que viu em Itália, além de MílSo^ 
é para nós completo mjsterio, mas deviam ser as principaes, 
exceptuando talvez Nápoles e as de Sicilia; nem é do crer 
que deixasse perder este favorável ensejo para admirar uma 
terra tào digna da analyse do viajante, e da contemplação 
do historiador e do philosoplio. O seu espirito fino e culti- 
vado pela leitura dos livros antigos e modernos, a sede em 
que arderia, com esse preparo intellectual, de aprender e Íl- 
lustrar com o exame dos logares celebres e dos monumentos 
perduiavels o livTO jd tao cheio de instrucçSo da sua me- 
moria, a anciã e fervor da mocidade, o seu espirito eminen- 
temente catholico, o seu amor pelo bello e pelo bom, tudo 
o levaria a prescrutar com animo embevecido e transbor- 
dando de enthusiasmo esse torrão abençoado que a fé, a 
historia, a litteratura e ae artes, tornam um dos primeiros 
entre todos os do mundo» 

Outra razão, e não menos valiosa, apoia o que avança- 
mos ; as hgaçSes de parentesco mais ou menos remoto, que 
tinha o nosso príncipe com vários dos soberanos d'aquella 
peninsida, como os duques de Saboya, Toscana, Mantufl, 
Modena e Parma, o que o induziria a vÍBÍtal-oâ e ás suas 
terras. Vejamos qual era esse parentesco. 



179 



Descendiam os duques de Saboya da casa de Bragança 
pela seguinte linha; primeiro — D. Affonao I, duque de 
Bragíinça; segundo — D. Isabel, que casou com o inlante 
D. João; terceiro — D. Brites, que casou com o infante D. 
Fernando, filho d'el-rei D. Duarte; quarto— D. Manuel, 
rei de l*ortugal; quinto — a infanta D. Beatriz, que casou 
com Carlos TTT, duque de Saboya, intitulado rei de Chy- 
pre; sexto ^ — Manuel Felisberto, duque de Siiboya; sétimo 
— Carlos Manuel, duque de Saboya; oitavo— Victor Ama» 
deu, duque de Saboya. 

Polo que respeita á Toscana: primeii'o — D. Aflbuso f, du- 
que de Br:ig;mça; segundo — D. Isabel, que rasou com o 
infante do Portiigíil D. Joãlo; terceiro — D. Isabel, rainha 
de Castella, mulher de D. JoSo 11; quarto — a rainha D. 
Isabel de Castella, que casou com D. Fernaniio V, rei de 
ArragSo; quinto — -a rainha proprietária de Castella, D. 
«Toanna, que casou com o archiduqiie Filippe, o Formoso, 
e foi rei de Castella, primeiro do nome; sexto — a infanta 
iP. Isabel, que casou com Christiano II, rei di' Dinamarca; 

timo — a princeza Christina de Dinamarca, que casou so- 
gimda vez com Francisco, duque de Lorena; oitavo — Car- 
los in, duque de Lorena; nono — a princeza Christina de 
Lorena, que casou com Fernando 1, grUo-duque de Tos- 
cana; decimo — Cosme II, gr^lo-duque de Toscana; undé- 
cimo — Fernando II, gr^o-duquc de Toscana, seu tilho. 

Quanto a Parma: D. .Tayme, primeiro do nome e quarto 
duque de Bragançii; D. Isabel, que casou com o infante D, 
Duarte, filho d*el-rei D. Manuel; D. Maria, qua casou com 
Alexandi'e Farnese, terceiro duque de Parma e Placencia; 
Ra^Tiuncio I, duque de Parma ; e Duarte I, duque de Parma *, 

Quanto a Mantua e a Modena, os seus duques descendiam, 
como 08 de Saboya e Toscana, do duque de Bragança D. 
Aftbnso I, 



1 D. António Caetano de Sousa, Hiat, genealógica. 



13« 



B^eiitre ectan fiunítUs, deseendenU^d da casa de Bragança^ 
como grande parte da^ reinantes da Europa, deria merecer 
maiore» attençSeâ a D. Doorte, por mais próxima, a fiuniBa 
daoal de Parma, de cujo chefe era primo segundo, porqae 
O pae d*este, Kaynuncio I, era primo co irmào do daqae D. 
Theodoeio, viiçto qae RajDuncio ora fílho de D. 3[aria, da- 
qocza de Parma, um doe pretendente» ao throno de Por- 
tugal, por morte do cardeal-rei, e irmà da daqueaa D. Ca» 
tharína. A» relaçSes qne mantiveram os reprtrsentanl*^ ^. 
Bragança e de Parma, e sobretudo as duas ínnà«, í- 
grandes, chegando o próprio Raynuncio a vir visitar soa 
tia e aeu primo á corte de Yilla Vi^*osa, em mil seiscentos 
e um, onde foi recebido, como já apontamos, com a maior 
grandeza e cordialidade. Raynuncio moiTera em miJ soía- 
oentoe e vinte e dois, e succedera-lhe no governo do du- 
cado seu fílho Duarte I, nome que tomara em honra do 
infante D. Duarte, seu bisavô. 

Depois doesta família, seguia se a de Saboya, onde rei- 
nava Victor Amadeu, filho de Carlos Manuel, a quem suc- 
cedera em mil scisceutoô e trinta, bisneto da infanta D. Bea- 
triz, filha d'el-rei D. Manuel, e portanto terceiro primo de 
D. Duarte. As rclaçòes entre as casas de Bragança e Saboya 
também haviam sido intimas. Além de outras provas de cor- 
respondência, em mil quinhentos e sessenta e dois o duque 
Carlos Manuel mandara visitar o duque D. Theodoaio I por 
nm seu gentil -horaGra, e em mil quinhentos e setenta e oito 
o duque D. .loâo í e sua mulher a duquoza D. Cathariua 
receberam egual prova de consideraçSo e amizade. 

Afigura-se-nos por isto que D. Duarte, entrando em Itá- 
lia pela fronteira de França ou por (íenova, se encami- 
nharia ás coites de Saboya e de Parma, onde faria maior 
permanência, e d'e8ta8 cidades a Florença, Siena, ^lodena, 
etc. 

Outra cidade n3o deixaria D. Duarte de vêr, por modo 
algum; queremos falar de Roma. A sua importância antiga 



181 



€ moderna, como capital do grande unperio e como capital 
da egrejft; as suas minas grandiosas, oa seus inimitáveis 
monumentos, attrabem para ella, antes de todas, as atten- 
çí5e8 do viajante, seja qual fôr o povo a que pertença ou a 
religiílo que professe. Quanto a n2o desejaria pois admirar 
D. Duarte, que tanto lhe conhecia a historia e a littcratura 
pelos escriptores latinos, que apaixonadaraento manuseara, 
elle, o fillio piedoso de D. Theodosio e d' essa illustro famí- 
lia que tamanhas graças alcançara dos summos pontilicos, e 
que tanto as merecia pelo seu zelo constante nas coisas da 
fé, em todos os tempos I Beijar o pé ao vigário de Christo, 
com o respeito e amor só próprios de crenças profundas, 
como as suas, proatrar-sc por terra n'es8e templo mageatoso, 
o máximo do mundo, memorado e santificado por tantos 
factos e recordações, extasiar-se deante das obras primas 
dos gigantes das artes, chamados Raphael e ^liguei Angelo, 
embronhar-se nas ruinaa e no viver d'e8sa Bociedado de 
outr^ora, cuja lingua, costumes, crenças, poesia c historia, o 
cercavam por toda a parte, como nos cercam ainda mesmo 
hoje, devia ser para D. Duarte a satisfaçíío de um anhelo ha 
muito concebido com ardor, e a realisaçSo de um dos seu» 
sonhos mais amados. 

Se acreditarmos Fr. Francisco Xavier dos Seraphins Pi- 
tarra, no Sup-phmento aos Di<ãõ<jos de Ptdro </^ Maríz, a 
Dossa presnmpçSo converte-se quasi em certeza. «Vene- 
rava (D. João) com rendido e aflfectuoso obsequio, diz elle, 
O admirando mysterío do altar, e, sentindo que não tivesse 
offeito a diligencia com que seus clarissimoa ascendentes pro- 
curavam que estivesse o Senhor no sacrário de sua capella 
de Villa Viçosa, ainda sendo duque, cora intonsa piedade, 
entre as saudades e abraços com que se despedia de seu 
irmão, o senhor infante D. Duarte, partindo-se para Alle- 
manha, lhe fez uma e muitas instancias lhe conseguisse de 
Sua Santidade esta graça, gloriosa palma da casa de Bra- 
gança, e, conseguindo-a^ Ibe mandou logo fazer um sacrário 



<82 

de prata». O breve d'e8ta faculdade pontifícia é de vinto 
de fevereiro de trínta e seis. 

Depois de Roma restava ainda Veneza, tâo importante 
n'aqwelles tempos, nossa antecessora no commercio da Asiaj 
por nós vencida, e que um princepe não devia esquecer 
nas suas digressões pela peninsula italiana, quanto mais 
um príncipe portuguez e instniido. 

Será necessário por conseguinte accrescentar estas duas 
cidades, pelo menos, ás mencionadas. Jlilâo foi provavel- 
mente a idtima das principaes que visitou em Itália, pois 
parece que se dirigiu d'ella ao império d'Alleraanlia. Em 
MilSo pabemos que residiu algiun tempo, satisfazendo a sua 
louvável curiosidade nas bellezaa e obras de valor que já 
a adornavam; posto a foase encontrar muito decaliida do> 
antigo brilho, por causa da terrível peste que cinco annos 
antes a tinha flagellado, privaiidoa de mais de metade dos 
habitantes. Ah! quem lhe dissera então no meio das dis- 
tracçSes e dos prazeres que alli seria o logar do seu mar- 
tyrio e da sua morte! Imprescrutaveia mysterios do des- 
tino, ainda bem que nElo vos conhece o homem. Saber o 
futuro equivaleria a nlo gosar um momento de felicidade. 
Viver enganado, é, muitas vezes, a suprema ventura deste 
inundo. 



vri 



De Milão, d'onde sahiu a vinte e oito de agosto, dirigir- 
se-hia D. Duarte a Victoria, Malegnano, Lodi, e Tormo; 
entraria no estado de Veneza, e passaria por Crema, Son- 
sin, cidade do marquez do mesmo nome, Brescia, cidade 
boa e bem murada, com um castello no alto de um monte. 



183 



Pescliiera, villa formosíssima, com sete baluartes, junto do 
lago do Garda e do rio Mincio, e Volarni; atravessaria o» 
Alpes e as ribeiras do Adige ; deixaria Lacliiusa, logar for- 
tificado, qae defendia o passo d'este rio; entranhar-se-hia 
no Tarentino, onde veria Alia, S. Marco, Kovcreith, Ma- 
daretto, e Trento, tâo conhecida peh» seu concilio; e continua- 
ria, já no condado do T>to1, por Salomo e Bolsano, na 
confluência do Tilfer e do Aisach comoAdígc; atravessaria 
o Aisacb, e, deixando-o A direita, iria aempre junto d'elle, 
transpondo os altissimos montes AJpe-s, que se estendem 
até Inspnick, onde chegou finalmente a nove de setembro, 
depois de lhe terem ficado atraz (Janova, Clausen, Brixen, 
8Ítio era que a estrada se apartíiva da margem do Aisach, se- 
guindo para o norte, e Milback, Stertzingcn, Lueg, Stcinach, 
e Malrai. De Milílo a Inapruck eram, por este caminho, 
dnzontas e quarenta e cinco milha», ou cento e quinze le- 
guaa, e gastava-se na viagem treze dias, pouco mais ou 
menos; em jornadas, ontende-se. 

Sahindo de I^Iítdrid, também podia D. Duai'te ir direito 
a Como; atravessar o lago do mesmo nome; seguir pela 
Valfelina e paiz dos Grisões; entrar no condado do Tyrol 
por Vai de Veuoala, e, continuando até Brixen, tomar 
d'alli para o norte, como acima dissemos, até Inspruck. 
Do primeiro caminho serviu-se o conde de Castro Daire, 
quando foi por embaixador extraordinário de Filippe IV a 
Vienna, poucos annos antes. Peln segundo conduziram D. 
Duarte, preso, para MilSo, evittmdo o outro a fim de não 
b-ansitar pelo estado de Veneza, onde se arriscava a sua 
segurança, como veremos. Atigura-se-noa que aquelle, me- 
lhor e de mais frequência de viajantes, seria o preferido. 
Era o de menos montes, porque acompanhava em grande 
parte oa cursos do Adige e do Aisach, e aó tinha de trans- 
por 08 Alpes Rheticoa para chegar á capital do Tyrol, o 
é este, por isso, com pouca differença, o traçado da via 
férrea que hoje liga mais directamente MilSo com Vienna 



Í84 

por aqiK^lle lado. Se, porém, D. Duarte, em vez de partir 
de MilSo, partiu de Veneza, cm tal caso, seguiria d'e3ta ci- 
dade por Ba»sano a Trento, e d*alii a Brixen e Tnspnick, 
como na primeira hypothese. 

Antes de entrar na capital do Tyrol, D. Duarte escre- 
veu á archiduqueza ílaadta de Medi eis, viuva do archidu- 
que Leopoldo, irmUo do imperador, havia pouco fallecido, 
governadora do estado na menoridade de 6Cu filho, o ar- 
chiduque Fernando, de .sete annos de edude, a qual, com 
a maior cortezia, lhe respondeu do seguinte modo: 

«Illuatrissimo, excellentissimo senhor. Estimo, como de- 
vo, a dcmonstrat;&o que vossa exccllencia usa comigo, no 
caminho que faz pelos estados de minha casa, e, assim como 
me nâo s&o novos os respeitos que a isto me persuadem, as- 
sim deve vossa excellcncia estar certo que, podendo passar 
por esta ca^a sem descompor notavelmente seus desígnios, 
me dará mui grande contentamento, pelo desejo que tenho 
de signíficar-lhe mais efficazmente a estimação que faço 
de sua pessoa e casa, pedindo a Deus guarde largos annoa 
a pessoa de vossa excGllencia. Do Inspruck, oito de se- 
temhro de mil seiscentos e trinta e quatro. Âffeiçoadissima 
— Claudia»*. 

Recebida esta delicada resposta, chegou D. Duarte no 
dia seguinte á cidade de Inspruck. Espera va-o fora d'olla 
mn gentiJ-homem do archidiique, mandado por sua mSe, 
com um coche tirado a seis cavallos brancos, em que D. 
Duarte fez a sua entrada, indo-se logo apeiar ao paço, 
grandioso ediíicio, commLmicado por passadiços com qua- 
tro conventos e com a parochia. Uma hora, pouco maift 
ou menos depois de haver chegado, visitou a archidu- 
queza, a qual o recebeu á porta do aposento onde esta- 
va, acompanliada da sua camareira-mór e de nove damas, 
e, passada a visita em demonstraçSes reciprocas do affe- 



1 D. António Caetano de Sousa, Hut. genealoffiaa. 



185 

cto c de urbanidade, foi D. Duarte hospedado com magni- 
ficência verdadeiramente real por sua alteza, acndo sorvido 
á mesa pelos seus mesmos pagens e croados. Nào contente 
com isso, quil-o sua alteza obsequiar no momento da par- 
tida, presenteando-o com uma caixa de bálsamos e quin- 
tas essências, objectos reputados do muita estimação, por 
naquelle tempo unicamente se prepararem na sua casa*. 

Não deixaria D. Duarte de ver n'e8ta cidade o que ha- 
via de mais notável e, antes do tudo, o seu castello, ador- 
nado de uma grande o bellu armaria, que lhe lembraria a 
do ca^itello de Villa Viçosa, á qual ficava próxima uma boa 
biblioihcca, c outras curiosidades raras e do preyo; nem lhe 
esqueceria visitar no convento de S. Francisco o tumulo do 
imperador ^laximiliano I, admira vol monumento de már- 
more, onde a mílo do halMl artista esculpiu ao redor 83 
diversas batalhas por elle ganhas*. 

Depois de breve demora, despediu-se D. Duarte da ar- 
chiducjueza, grato a tantos obséquios que recebera d'ella, 
e continuou a viagem. 

Saliindo de Inspruck, o seu itinerário seria o seguinte: 
Hall, cidade boa na ribeira do rio In, Puldres, Voldens, 
e Esbol, villas todas ao longo do mesmo rÍo, a cidade 
de Ratembcrg, Kundl, Kirchpiebl, e KutFstein, ultimo le- 
gar do condado do Tyrol, munido de um castello fortíssimo, 
pelo sitio, quG era uma montanha sobranceira á povoação. 
Aqui passaria o rio por uma ponte, o entraria no ducado de 
Baviera. N'elle veria Aurdorf, e Falkenstein, villas acastella- 
das, e, deixando de caminhar por montes, pois ahi se acabam, 
Rethenfeld © Uosenliaim, onde entra o Mangfeld no In. EntSo, 



* D. Antouio Caetano de Sousa, HUt. gcncaloyica. 

*Bib. da Ajuda, Msa., Embaixada do conde de Castro Datre, por 
Damião Bibeiro, offi^ial-maior dos papeis d'eeta embaixada, e secretario 
particular do diU» gt^nkor conde embaixador. 

Bib. Nac, Mss., B, 14, 8õ, id., sem uome de auctor e com o titulo 
de Jornada. 



186 



embarcando- 8c, seguiria o curso d'e8te rio, absorto nos vá- 
rios e imprevistos panoramas, que, a cada instante, lhe 
iam passando deante dos olhos : as scenas da natureza, tâo 
ditlerentes das nossas, as construcçoos religiosas, as forta- 
lezas, as cidades com a sua casaria caracteristica, as villas 
e os logares, já mirando se á borda das aguas, já cercados 
de mxu-alhas ou de verdura; veria a activa Wasnerburgo; a 
villa e convento de Gars da jurisdicçâo do bispo <h* SaJz- 
purgo; Craibiirgo, com o seu castello; Muldorf, do mesmo 
bispo; a boa cidade de Otting: Markel, sita próximo d' onde 
o rio Altza se mettia no In; Braunaw, cidade murada e 
forte; a acastellada Kring; Obernperg, já pertencente ao 
bispo de Passaw; Sclierdiug; Neubnrgo, condado livre do 
império encravado nas terras da Baviera, com um castello 
o uma aldeia do outro lado do rio; o mosteiro de S. Ni- 
colau, termo, por esta parte, do ducado de Baviera; Pas- 
saw, onde ainda iria curtir as amarguras do cjiptiveiro ; 
e, na margem próxima Instadt, que se juntava a Passaw 
por uma ponte, ambas da jurisdicçao do bispo do mesmo 
titulo, o ambas, posto que com differentes denominações, 
conhecidas pela da primeira. Depois, entrando, com as 
aguas do In, no Danúbio, veria o castello de Kremspels- 
tain ; e Hasnerzel, também do senhorio do mesmo prelado, 
onde, pouco mais abaixo, se laut^ava no Danúbio um rio 
pequeno, que dividia por aquella parte o estado de Baviera 
da Áustria superior. Contiuuaudo a navegar, já nas aguas 
d*este estado, veria as villas de Kngernzcl e de Kelgelleiten; 
a cidade de Efferding; e a de Lintz, com o seu formoso 
palácio e grande praça; os castellos e villas de Steyreck 
e Ebersberg; a cidade do Ens, perto do rio do mesmo no- 
me, e apartada do Danúbio três milhas; Matliauaen, com 
o seu castello, Junto da qual entrava aquelle rio nV-ste; as 
villas acastelladas de Walse e Greyn, uma á direita e ou- 
tra á esquerda, e as de Strudel e Syrmyngstein, nao longe 
d'ondc o Ips se misturava com o Danúbio, dividindo a Aus- 



187 



tria superior da interior. Chegando a e&ta altura da sua 
navegação, ir-Ibe-Uam ficando á popa a antiga cidade de 
Ips; ^Marpach; Altenbechling; o castello de Waytneck; a 
villa e o mosteiro do Me!k; o castollo de Achstein e o de 
S. Miguel; as villas de Wieakyrch e Leubn; as cidndos de 
Sten e Maut^rn, urna ú, direita e outra á e^quorda do rio, 
unidas por uma ponto; c as do Krems, Taln o Closter- 
neuburgõ, com seu íormoso mosteiro de fradi^s bentos, e 
Konieuburoh; até íjue df^embarcou finalmente era Nus- 
sdorf, distante cinco milhas de Vienna, a dezoito do mes- 
mo mejs de setombro, depoi.s de oito dias, pouco mais ou 
menos, de viagem, que tanto levaria desde Inspruck. 

Esta pariigem de D. Duarte em Nussdorf, cidade na 
borda do Danúbio, e longe da estrada, que do occidente 
conduzia a Vicnnn, niostra-nos que clle se serviu da via flu- 
vial, conforme conjecturamos, t'iindando-nos na Embaixa- 
da do conde de Castro Daira 6 em bons mappas da epo- 
cha. E aquellc facto é positivo, porque o narra D. Antó- 
nio Caetano de Sousa, que teve presente uma relação de 
credito. Quando D. Duarte, depois de saber a noticia da 
restauraçílo portugueza, foi do seu quartel de Lciphcn para 
Ratisbona, também se utilisou do curso do Danúbio, como 
veremos. Quando de Ivatisboiía o levaram preso para Passaw^ 
os seus guardas fizeram o mesmo, por se despender doeste mo- 
do metade do tempo e menos dinheiro. A brevidadL', a eco- 
nomia, o exemplo do conde de Castro Daire, que apro- 
veitou o mesmo caminho, e o de outros, aconselhavam-lhe 
que preferisse o que descrevemos. Ainda porém havia para 
isso estas razoes que sâo de peso: a commodidade, pois 
diíFerente era andar tantas léguas embarcado ou a cavallo; 
o poder mais facilmente levar comsigo toda a sua numero- 
sisaima familia e grande bagagem; e a bclleza de rios tSo 
importantes^ como o In e o Danúbio, de margens tâo po- 
voadas, e que elle nunca vira. 

De Nussdorf mandou D. Duarte a Fernando IT um g&n- 



188 



til-h ornem com uma carta, em que lhe participava ter che- 
gado, assim como os intentos que o moviam a passar ao 
império J'AlJeraanha, e em que pedia licença para lhe bei- 
jar a mão, confiando que sua magestade o trataria como 
era próprio da grandeza cesárea, o da pessoa d'elle D. 
Duarte. Ao mesmo tempo que dirigiu esta carta ao impe- 
rador, endereçou ontra a D. Inigo Vellez Ladrou dp Oue- 
vara, condo de Ofiate, embaixador extraordinário d'el-rei 
catholico, pondo-o ao facto da sua chegada c do que es- 
crevera ao soberano allemSo. Aqui principiou logo, oa, 
antes, continuou a manifestar-se a malcvolencia do go- 
verno hespanhol contra D. Duarte. Denti-o em breve res- 
pondeu-lbe o conde, dizendo, entre outras coisas: que sua 
magestade cesárea daria a sua exccUencia o tratamento 
dos grandes de Hespanha, como recentemente succedera 
com o príncipe de Venosa. D. Duarte que julgava baixo 
este tratamento, replicou-lhe que só receberia o que se 
costumava dar aos príncipes livres do império, e que re- 
jeitava outro qualquer, por dcsegual à qualidade c san- 
gue do casa de Bragança, o que desenvolveu com di- 
versas razões, em abono da justiça da sua pretençRo. N3o 
contente com esta resposta, declarou ao imperador o que 
occorrera entro elle e o conde de Ofiate, protestando que 
nSo acceitaria decisão alguma que fosse contraria ás rega- 
lias com que nascera. Procuraram os hespanhoes oppor-se 
aos desejos de D. Duarte, e nJlo foram poucos os obstá- 
culos que para tal fira urdiram, por varias vezes, com as 
suas negociações e intrigas junto da corte, insistindo no pen- 
samento do que elle nSo devia ser mais considerado do que 
os grandes de Hespanha, que se cobriam na presença do 
imperador. NSLo se deixou Fernando II levar pelos maus 
conselhos dos nossos inimigos, e, para resolver a questão, 
convocou o seu conselho privado, o qual,vcntilando-a larga- 
mente, foi de pareeyr que se tratasse D.Duarte como os 
príncipes livres que serviam o império, e que, por irmão 



i89 

do duque de Bragança, fosse egualado ao irmão do duquo 
de Florença*. 

Conta D. António Caetano de Sousa a este respeito, que, 
estando o imperador a comer em publico, um dos ministros 
do conselho privado lhe quiz referir, naturalmente em abono 
da reeolufJio tomada, a grandeza da casa de Bragança, o 
que sua mageatade atalhou com estas palavras : aNAo tendes 
necessidade de me dizer quem é D, Duarte, porque minha 
mSe esteve para casar com seu avO, e sei muito bem qual 
é a representação d'es8a farailia». A isto pudera juntar Fer- 
nando II, que bem a conhecia, porque d'ella vinha, como 
claramente se manifesta da procedência da seguinte linha 
genealógica: D. AfFonao I, duque de Bragança; D. Isabel, 
que casou com o infante de Portugal, D. João; D. Isabel, 
rainha de Castella, mulher de D. João II ; a rainha D. 
Isabel de Castella, que casou com D. Fernando V, rei 
d'Arag3o; a rainha D. Joanna, herdeira de Castella, que 
casou cora o archiduque Filippe, o Formoso, que por sua 
mulher, foi rei de Castella e primeiro d e^te nome; Fcrnamio 
í, imperador; o archiduque Carlos; e Fernando IP. 

Um doa validos de sua magestade, o bispo de Vicnua, man- 
dou aviso a D. Duarte do que se resolvera. Recebeu -o tam- 
bém o conde de Oftate, e sentiu o, assim como, em geral, os 
hespanhoes; mas tiveram por esta vez de sujeitar-se, posto 
difficilmcnte dissimulassem a repugnância com <iue o fize- 
ram. 

O embaixador do Hespanha, sendo-lhe communicado o 
aviso da rcsoluçJlo imperial, enviou a D. Duarte, que es- 
perava fora de Vieuna, três coches e seu filho D, Filippe 
de Í.J nevara, depois conde de Escalante, para o conduzir, 



• D. António Caetano de Souea, Hígt. geiícMoyka. 

D. Fr. Friínetacu Brandáo, Contdhn f voto da *r.« D. Fitippa, Ji 
lha do infantt D, Pedro, sobre as terçariam e guerraa de Caatdla. Lia* 
boa, 1643. 4:,'* 

* D. António Caetano de Sousa, Hisl. genealógica. 



J90 



acompanhado de alguns getitis-homens. Com tal apparato 
realisou o recem-cliegado o seu ingresso na curte cesárea 
a um de outubro, depois de estar doze dias em NiiBsdorf, 
indo em direitura para o palácio do conde de OilatCy no 
qual, por então, se aposentou. Este palácio pertencia ao 
governo hespanhol e servia de residência aos spíis embai- 
xadores. Era muito formoso; compimha-se de três grandes 
«diíicios, separados uns dos outros ; e tinlia capaciílade bas- 
tante pnra ollea e todos os geiís creados. 

Passados quatro dias, foi D. Duarte recebido em audiên- 
cia pelo imperador e pela imperatriz qne o acolheram com 
manifestas provas de affecto, e com todas as preeminên- 
cias que no império d'Allcmanha cabiam aos príncipes li- 
^Tes. Entrou D. Duarte no aposento em que sua mages- 
tade estava, e este, mal o vin, tirou o chapeo, correspon- 
dendo com 08 passos ás suas cortezias, e abaixando a ca- 
beça ás suas eontini^ncias, nílo se cobrindo, até que D, 
Duarte levantou o chapeo para se cobrir, de sorte quo am- 
bos o fizeram ao mesmo tempo. O que passou com Fernando 
H vel-o-hcmos pela seg^iinte carta que escreveu ao duque 
aeu irmão logo depois, muito embora D. António Caetano 
de Sousa, que a traz na Historia jenealot/úu, lhe attribua 
data posterior, julgando, por um engano injustificável, que 
cila se refere á audiência que D. Duarte obteve do mesmo 
soberano, depois de ir visitar o rei de Hungria no paiz de 
Wurtemberg. 

9 Senhor. Chego agora de beijar a mâo ao imperador e 
imperatriz. Pui recebido com muita demonstração. O impe- 
rador me perguntou por vossa excellencia, e esteve um bom 
pedaço falando comigo : disse-me que era necessário tes- 
temunlms para saber que era portugucz, porque parecia 
que era allemao. Fez grande festa de lhe falar em itahano. 
Denti*o de seis ou oito dias parto para o exercito, para o que 
me tico dispondo. Agora não sou mais largo porque espera 
•o correio. Diese-me o imperador que teria morto por sua 



i9i 

lo; n est»?8 trtís mezes passados, quinhentos e vinte e trea 
veados; e em doze dias que havia começado a matar porcos 
montczes passante do duzentos. Um dia d'ostcs matou um 
vےido que pesou seiscentas e sessenta libras de dezescis 
ouça*; o que pesam ordinariamente são quatrocentas ou qui- 
nhentas libras. Pasmara vossa excellencia de vêr os campos 
cobertos de milhões d'el!e8. l^fatam-og com redes; hSo cor- 
nos, d^elles dt? oito f)almos, e de seis ati^ sete ò o ordinário, 
e tio grossos quí" parecem azinheiras. Temos postos em 
cabeças de pAu pintadas, e está todo o palácio cheio. Dis- 
se-me o imperador que esto invomo passado matara sei? 
centos e tantos porcos, e que um dia d'estes, antes que xm 
partísse, me havia de levar á caça. Deus guarde a vossa 
excellencia como pode e é mister. Beijo a mão a vossa ex- 
cellencia. Seu irmào, maior servidor e amigo, que mais lhe 
quer, D. Duarte. Mande vossa excellencia mostrar esta 
carta ao senhor D. Alexandre *s>. 

Depois da audiência do imperador, visitou D. Duarte o 
archiduque Leopoldo, tilho segundo de sua magestade, o 
qual, da vida. ecclesiastica, que primeiro seguiu, passara 
á militar, e foi genercal das armas cesáreas. Sahiu esto a 
rtíccbel-o ao segundo aposento da casa em que se achava; 
tratou- o com muitas cortezias e cerimonias, falando-llio pelo 
termo de dilecção, e na despedida acompanhou- o muito 
mais além do (pie fizera quando o recebeu. Nào foi no mes- 
mo dia visitar a rainha de Hungria, D. Mai'ia de Áustria, 
infanta de Hespanha, porém st')mcnte no dia nove, por ella 
se achar incommodada, 

N^este come^nos arranjara-se-lhe casa própria junto de 
Vienna, naturalmente por nílo se julgar a capital do império 
ainda de todo livre da peste que a affligira, o que lla\^a 
obrigado a corto a retirar-ee para Ebrestorf, d' onde veiu 
pouco antes da chegada de D. Duarte, para tornar a sahir. 



I D. Autonio Caetano de Sousa, Hút. Genealógica. 



192 



Prompta e adereçada a sua nova habitação, transferiu-se a 
cila, depois de ter residido quinze dias, pouco mais ou me- 
nos, na do embaixador hespanhol. 

Faltava-lho visitar o príncipe imperial, rei de Hungria; 
mas esse estava ausente na guerra, no paiz inimigo de Wur- 
temberg, em que ficara victorioso, e cm que tencionava 
invernar. Embora tão distante, pareceu-lhc mal nSo o ir 
vôr, G determinou fazei- o pela posta, logo pouco depois 
de haver chegado, segundo parece, pois na carta ao du- 
qxie de Bragança, que transcrevemos, já allude ao projecto 
de partir para o exercito dentro de seis ou oito dias. Não 
querendo decidir-se unicamente por si, coramunicou a id«''a 
a alguns senhores; dissuadiram-o quasi todos, e as raz5es 
que apresentavam eram convincentes e envolviam graves 
riscos para a sua liberdade e vida, porque tinha de percor- 
rer terras inimigas e logarcs atacados da peste. Preferiu D. 
Duarte ser tachado do temerário a incorrer em censura por 
acceitar o conselho dos prudentes. Foi uma prova do ar- 
rojo, que lhe podia custar cnra, se d'elle fosse victimn, 
merecendo, n^csse caso, a accusação de insensato; mas sor- 
riu-Ihe a fortuna, e portanto esse feito com que estrciou a 
sua vida na Allemanha, qualificou-o vantajosamente na opi- 
nião geral, e manifestou as partes de valor, afToiteza e brio 
que pttsteriormente o distinguiram na guerra e nunca o des- 
ampararam. 



VIII 



Estava o rei de Hungria, como dissemos, muito di4 
tantede Vienna, em Stuttgart, no paiz de Wurtemberg. Er 
lhe pois necessário passar toda a Áustria e Baviera e chc 
gar mui perto do Rheno c dos limites da França, do sorft 



193 



que tjuhn qnasi de atravessar, por aqiielJa part^?, tofla n Al- 
lemanha. Nao trepidou D. Duarte nem com a distancia, 
nem com oa perigos, e, assente a viagem, tbi-se dee])edir 
do imperador no castello de Hort, a cinco léguas de Vienna, 
o qual n'eftsa oceaaiilo lhe deu um passaporte pnra njlo lhe 
impedirem o caminho o o favorecerem. Koi-so também des- 
pedir da rainlia de Hungria, e d'ella recebeu uma carta 
para seu marido. 

Cumpridas estas formalidades, e arranjado quanto con- 
vinha, partiu D. Duarte de Vienna a vinte e trcs de outu- 
bro, indo pela posta, unicamente com cinco creados. A pri- 
meira povoação que encontramos nomeada no eeu itinerá- 
rio t'T a cidade de Halzburgo. Desta dirigiu-»e a Munich, 
cfirte do eleitor de Baviera, na qual nSo entrou por amor da 
peste, qup a invadira, assim como muitos logares dos seus 
arredores. Tinha esto flagello, outr'oi*a terrível e frequente 
companheiro da guerra, causado oa peiorea estragos em 
grande porção do império, e, segundo fica dito, nem mes- 
mo a sua capital ebcapwa ao contagio, posto na epocha em 
qne vamos, jii elle estivesse em manifesta declinação. A 
Baviera fíjra um dos paizes mais atacados, e, quando D. 
Duarte passou por ella, ainda ardia na maior força do mal. 
£nti\o depararam os seus olhos a mais triste scena de af- 
flicçào e miséria ! Aqui, era um campo em que jaziam en- 
terradas para cima de trinta mil pessoas, victimas da fatal 
epidemia; alli, as casas ao desamparo e sem portas, e os 
moveis espalhados pelaa ruas, havendo até um terreno mu- 
rado, onde se tinha posto todo o género d*elle8, mistura- 
dos, exi-ostos ao tempo e sem dono; e, emfim, a cada 
passo, pelo caminíio, as povoações grandes e pequenas, 
qoasi em numero de quarenta, desertas completamente de 

IS habitantes. 

Deixados atraz tamanhos horrores, que lhe contristaram o 
coração, continuou D. Duarte a viagem, ató que em trinta e 
um de outubro checou & cidade de Donawerth, da qual scgiuu 



n. I. D. i». — T. I. 



13 



194 



jfjgBra Nordlingen, em quo não entrou por já eatar tocada da 
I)este. Um quarto do légua distante d ella, esperava-o outra 
acena, de certo nâo menos horrível do que a antecedente. 

Dera-se ahi, havia pouco, no dia sete de aetembro, a ce* 
lebre batalha conhecida pelo nome da próxima localidade, 
e as sua» funetítaa consequências eram evidentort. Na ci- 
dade as ruínas causadas pela artilheria dos inimigos pa- 
tenteavam um espectáculo lastimoso, emquanto no campo, 
onde fora a lacta sanguinolenta, se viam muitos cadáveres 
mal gastos do tempo^ e na falda da collina gi-anrle nu- 
mero de cavallos e homens mortos. Demorou-se D. Duarte 
por algum tempo a observar o memorável e triste sitio, me- 
ditando silencioso nos rastos de sangue e destruição que dei- 
xara após 8Í o infernal açoite da guerra. Mas nao se limi- 
tava áquelle campo o quadro medonho; e ainda por três 
legixas foi encontrando corpos mortos dos que se dizia te- 
rem succumbido na perseguição dos croatas. 

Atravez de todas estas scenas, e, muitaâ vezes, com emi- 
nente risco de aer aprisionado ou de perder a vida, proso- 
guiu D. Duarte a sua viagem, como se qaizesse provar 
assim o animo e acostumar-se ás contingências e horro- 
res das armas, que cedo atlVontaria tâo brava e galhar- 
damente. Houve occasiooa em que o sou valor tocou as 
raias da temeridade, e em que lhe poderia facilmente suc- 
ceder alguma desgraça, por dosprosar as informaçiles qao 
se tomavam, porque em muitas partes por onde passava, 
ás vezes a menos de meia Icgua, andavam forças da Sué- 
cia. Um dia, perto da fortaleza de Jarandor, onconti*ou 
dois homens correndo a cavallo, e pergimtando-liies o mo- 
tivo porque iam com tanta pressa ; responderam f jue fugiam 
do inimigo, o qual escaramuçava detraz de um monte que 
indicaram, e d onde D» Daarte ouvira tiros, E a tudo isto 
se afoitava só com vinte mosqueteiros e com os cavallos 
cançados. Foi a sua felicidade nâo ser visto. 

Finalmente chegou ao termo da viagem, a Stuttgart, corte 



i95 



do rei de Hungria; raas, antes de entrar na cidade, fea 
dto em Eslingen, distante uma legua, e d'ahi despachou 
um creado com uma carta para o raarquez de Castaileda, 
embaixador ordinário de Filippe IV, que em toda a cam- 
panha passada Imvia assistido ao filho do imperador. N*e88a 
carta doclarava-lhe ter chegado, e pedia-Ihe qu© solicitasse 
d'el-roi licença para lhe beijar a rnSo. Voltou logo no mes- 
mo dia o creado com resposta de que el-rei estimava muito 
a sua vinda, e que podia entrar. Partiu portanto D. Duarte 
de Eâlingen, mas quasi no meio do caminho encontrou o 
marquez embaixador, que o ia buscar com três carroa- 
gens. Cumpriraentaram-se; passou D. Duarte para a car- 
roagem do marquez; e, assim fez a. sua entrada, apeian- 
do-se era casa d'este. Á noite mandou el-rei viaital-o e dar- 
Ihe as boas vindas pelo conde de Popoli. No tercoiro dia 
depois da chegada, obteve D. Duarte audiência d'el-rei, e, 
indo aô paço, o foi esperar por ordem sua o conde Thum, 
que exercia o officio de mordonio-mór, entre o qual e o mar- 
quez de Oastaficda, chegou á presença de sua magestade, 
que o tratou cora a raesma formalidade que o imperador. 
Emquanto so domorou era Stuttgai"t, isto é, de cinco ate 
vinte e três de novembro, empregou o tempo vendo, na 
companhia do raarqufiz de Castafieda, o» jartlius, oa pa- 
lácios e 08 divertimentos sumptuosos que ornavam a cidade, 
cntUo jdõjamento do rei de Hungria, depois que o duque 
de WiirlcinlitTsí, perdirla a batjilliii ([>- Orttineon. ir.ilii se 
retirar; ( 

Cf>mo el-rui dcchirasse a vinte e três de novembro, que 
deixava Stuttgart no dia seguinte, resolveu D. Duarte fazer 
também viagem nesse dia, de volta a Vienna, o que eíFci- 
tuou á tarde, pela posta, apenas com alguns cavallos li- 
geiros de guarda. Tendo andado quatro legiias, chegou íI 
cidade de Qneppingen, onde pernoitou. No outro dia seguiu 
até Hainhaim; porém, estando ella ferida da peste, antes 
quiz ficar fora, e incumbiu um creado de prociu-ar uma 

13 # 



196 

casa ainda liberta do contagio. Soabe o goveniador Vi- 
ctorio Galaran, pelo seu tenente, destíi diligencia, o para 
quem era, e mandou immediatamente, e da melhor vontade, 
abrir ao recem-chegado as porcas do castello, onde o alojou, 
assim como aos seus, com grandes demonstrações de cor- 
tezia, e lhe otíereceu uma ceia, a qual durou d«»de as aeia 
Loraa até d meia noite, usando-sc n'ella de todas as ceri- 
monias, que se costumam cm Allcmauha com os grande» 
príncipes. Comeram com D. Duarte, além do governador, 
um general de artilheria, e um sargento-mór do rei da Sué- 
cia, prisioneiros na ultima batalha. Detevo-se D. Duarte 
até ao outro dia, em que o divertiram com builes e um ma- 
gnifico jantar. Era o castello forte e armado de oitenta e 
tree peças; por isso, quando os hespanhoes o ganharam, tbi 
abundante o despojo de jóias e dinheiro, pois muitos haviam 
confiado os bens ás suas grossas e defendidas muralhas. 
No dia seguinte despediu-se D. Duarte do governador, que 
lhe deu uma guarda de soldados, lhe fez presente de um 
cavallo da Moravia, de estimação, e o acompanhou até á 
distancia de meia légua da fortaleza, salvando esta à sua 
sabida com dez tiros. No mesmo dia foi dormir á cidade 
de Liutzgow, pertencente ao ducado de Baviera, na mar- 
gem do Danúbio. O governador d'plla, que era milanez e 
cavalleiro de Malta, eetava avisado da sua vinda, e por isso 
mandara esperar á porta da cidade um creíido para lhe 
pedir que se apeiasse em sua casa. Acceitou D. Duarte o 
convite, o recebeu ahi tâo magnifico tratamento, que, sendo 
o dia de peixe, lhe apresentaram trinta pratos. 

Lisongeado por tiuitos obséquios, dignos da sua pessoa 
e alta jerarchia, sahiu de Lintzgow e seguiu ate Ncuburgo, 
corte do duque do mesmo nome, onde se aposentou na casa 
que 08 padres jcsuitas possuíam n'osta cidade, cujo pro- 
vincial tomou a seu cargo servir-lhe sempre de guia em 
todas as partes a que teve de ir, e obscquial-o com boa 
mosica* 



-— -^ 



197 

D'alli eral»arcou para Ingolstadt, cidade do daqiie de 
Baviera, tilo bnni fortificada, que resistiu ao sitio que. lhe 
poz o rei da Suécia, o qual desesperado de rendel-a, por a 
julgar inconquistavel. o levantou. Não podendo entrar n'tim 
pequeno Inflar onde se tcnriinava a jornada, receioso da 
peate que n'olIc havia, teve de dormir na barca, sem cama 
nem eommodo algum, e exposto a um frio intolerável. 

D*aqui passou a Ratisbona, quo o rei de Hungria ga- 
nhara por ooneerto, depois de n'ella ter perdido nove mi! 
homens j e de Kafisbona a Passaw; o de Passaw a Lintz; 
'd'onde reraetten por um croado as cartas que levava do 
dito rei para o imperador seu pae, o para a rainha sua es- 
posa, os quaes ainda liabitKivara íòrn de Vienna, por eausa 
da peste que nfto cessara de todo. 

Sahido de Lintz, ehegou finalmente ji capital do império 
a 80te de dezembro, tendo gasto portanto quarenta e cinco 
dias em toda a viagem, o sendo tHo (eliz n*ella, que nSlo aó 
gOBou sempre saúde perfeita, apesar dos incommodos que 
experimentou, e de tantas povoações ataciulas d*» contagio 
que pertorreu, mas até mesmo conseguiu escapar aos pe- 
rigos a que o seu animo atrevido e corajoso o expoz muitas 
vezca *. 

Hovia ser cordeal a maneira porque o recebei*am o im- 
perador, a imperatriz, e a rainha de Hungria. Tomarar 
se elle merecedor dos maiores obséquios e elogios, prati- 
cando esse acto, ao mesmo tempo de delicadeza e arrojo, 
e de tilo boa vontade, e tilo resolutamente, para ^^sitar o 
aen filho e marido, atravez de tamanhos riscos, e em paia 
tio distnnte. Ê pois natural que a syrapathia que alcan- 
çara da família imperial, desde o começo, pelas suas cati- 
xnaveÍ8 qualidades e instrucçSo, ganhasse muito com este 
acontecimento, que relevou o seu valor e ousadia aos olhos 
de t0(U a corte. Além d 'isso, est^i como revista de parte 



I D. António Caetano de SouBa, Hút. genealógica. 



198 



do theatro da guerra, podia-se considerar, por assim dizer, 
um preparo e amiimcio para entrar n'ella, e devia merecer 
o agrado do exercito imperial, de que viria a ser notável 
ornamento. 



LIVRO IV 



Torna-ae I). Duarte estimável em Vienna pelas suus qimlídftdee. — 
De como particípiu-iíi do» bantiuctea, caçadas e feBtns religio- 
808 da corte. — Seu respeito e admiração pelo imperador. — Esboço 
du guerra dos Trinta Annoa, em que ia militar.— Parte para a guer- 
ra com o rei de Hungria, — Despetle-se do imperador.— Como vae 
e seu eatadi», — Legares por onde traneita. — Prjiga e as memorias 
de Wftldatein.-- Outros sitioa que percorre. — Param em Heilbron, 
distante doze léguas d'oudtí eslava o exercito.— Noticias que ahi 
se recebem deste e do inimigo.— Obséquios a D. Duarte na via- 
gem. — Trifito sorte dos povos por oude passara. — Compaixão e 
bondade de D. Duarte para com elles. — Cartas que escreve ao 
dtiquc— Relação das campanhas de 1635, 1G36, 1637 e 1638, t* 
parte que teve trellae. — E nomeado em 1636 sargeuto-gener&I de 
t>atalha. — Dieeaborca e intrigas que acompanham as suas gtorias, 
a que nâo é extraubo o governo boepanhol. — Pede licença ao im- 
perador para vir a Portugal.— Motivos da sua viagem.— Embarca 
em Hollanda para Lisboa.— Combate com dois corsários perto da 
foz do Tejo, e vence-os. — O que acontecera em Portugal depois da 
Bua partida para Allemanhi). — Revolta de Évora. — Mal chega a 
Lisboa, dirige-sc a Villa Viçosa. — Alvoroço com que é recebido. 
— Qual seria alii a sua vida.— Parte para Lisboa, com tenção de 
embarcar logo. — Porque foge em Lisboa de vieitaB e de intromet- 
ter-sc em negócios. — Temores que excita a sua vinda ao governo 
hespanhol. — Inquietam-se os sebastianistas.— É tentado para aju- 
dar a libertar a pátria, e acceitar a coroa, nào a querendo seu ir- 
mão. — DcBculpa-se o seu procedimento n'eeta occasiâo. — Parte 
para Inglaterra. — Desembarca, segundo parece, em Dover, e d'ahi 
passa a Allemauha. — Continua as suas campanhas. — A de 1639. 
—Toma iK>8se de um regimento de eavallaria, de que é feito co- 
ronel. — Campanha de 1640. 



200 



Chegou pois D. Duarto a ncte do dezembro a Vicnna, da 
visita ao rei de Huugria. Durante oa cinco mezes seguintes, 
ÍBto ó^ desde então ató treze de mato de trinta e cinco, em 
que partiu para o exercito, junto cora o mesmo rei, per- 
maneceu naturalmente na cOrte imperial, fazendo as dis- 
posições e aprestos necessários ú vida nova que ia encetar, e 
gastando o resto do tempo na alegre convivência dos príncipes 
e grandes, qao a frequentavam. Já vimos como o imperador 
o recel>oti franco e benévolo, e quaes as honras que lhe 
prodigalizou, mau gi*ado á opposição de inimigos o invejo- 
sos, para o que nilo concorreriam pouco aa recommendaçoes 
do duque de Bragança. Depois, dia a dia, as mostras de 
deferência e amizade de Fernando II e das pessoas, com 
quem mantinha ti^acto mais ou menos intimo, deviam cres^ 
cer, íi proporção que as suas boas qualidades se patentea- 
vam; ató que de todo, e de todos conhecidas, ae tomou 
alvo do maior respeito e credor das mais subidas distinc- 
çSes. 

A regia estirpe e á grandeza de sua casa, predicados bas- 
tantes para lhe franquearem praça em qualquer das primeiras 
capitães da Europa, e Víenna entrava n'e38e numero, pois 
nenhuma se lhe approximava n*aquella epocha, nem na im- 
portância politica, nem na concorrência do principes e il- 
Ittstraçoos de toda a ordem, a nSo ser a corte de Roma ou 
a de Paris, D, Duarte unia, em surarao grau, a raagestade 
do porte, que subjugava, a lhaneza das maneiras, que at- 
trahia, o saber esmaltado pela modéstia, o arrojo sem im- 
prudência, o sorriso e a alma abertos sempre, e nílo me- 



201 



nos aberta a mão, com que, á larga, repartia por ^-andea 
e pequenos os thcsoiros da sua generosidade. Cul locado 
n'aqaoIla illustre acena do mundo, o nosso príncipe, longe 
de se eclipsar em tantos esplendores, brilhou n^cHes com 
brilho próprio, c com o herdado, mas principalmente com 
o próprio, que eram extremes a» suas virturlea. 

Entre os obséquios que Fernando II dispensou a D. 
Duarte, contar-so-hia a partida de caça que Ih'* promottera, 
seguida de outras muitas, porque o raonarcha alletnJo era 
apaixonado c acérrimo caçador, como bem provou logo na 
primeira entrevista cora elle, e costumara frequentemento 
retirar-se para a bella vivenda imperial do Luxunibnrgo, 
próximo de Vienna, onde se entregava aos seus fadígoaoa 
exercícios. 

Toi-navam-sé essas caçadas sobrcmaiK^ira agradáveis o 

iuctoras, pela raagnificcncia que apreâentavam e pela 
amabilidade do imperador cora 03 smia companheiros, o que 
nâo se estranhava, pois ou no campo ou na cidade, o sea 
modo de viver n?lo tinlia a ostenUiçilo habitual dos sobe- 
ranos, e sabia com tamanha singeleza, que até os cocheiros 
do seu coche iam cobertos, coisa n'aquolle8 tempos insólita, 
e parava até para falar a um o a outro ^ Ah! quantas ve- 
aes ao cerrado arvoredo das mattas imperiar-s, acompa- 
nhando Fernando II, nao sentiria D. Duarte confrangor-se 
o coração oppre.^so de tristeza, ao recordar- se da sua terra, 
da sua querida tapada de Villa Viçosa, c de tantas caçadas 
e de tantoa passeios que fizera u'ella cora seu pac e com 
seufi irmítoa! 

NJlo lembrariam menos a D, Duarte i-m Virima as fes- 
tas da e.apella ducal. Eminentemente piedoso, o seu espi- 
rito cspanejou-se á vontade n'aquolla atmosphora impre- 
gnada de catliolicisrao; e as solcmnidadea da egreja, ceie- 



1 Bib. da Ajuda, Mss., DamiSo Ribeiro, Embaixada dn conde de 
Castro Dairt^ utc. 



202 

bradas com pompa na do paço imperial por Fernando 11 
e pela sim família, a que D. Diiarto assistiu decerto, om- 
quanto esteve na corte, se deviam contentar o seu zelo, de- 
viam, ao mesmo tempo, encber-lhc a alma de saudades, a 
transportal-a pressurosa aos sítios da sua infância e juven- 
tude, sítios tào queridos, tSo distantes, e que rocoiava nimca 
mais tornar a vêr, porque, além das incertezas inherente» 
á inconstância e fragilidade daa coisas humanas, ia aveutii- 
rar-sc a perigos continuos, onde, a cada passo, teria de en- 
carar a morte. 

Era Fernando II muitíssimo religioso. «O imperador, 
escrevia D. Duarte ao duqui^ seu iiTuJo, ouve todos os dias 
duas missas, e sempre do joelhos; oa de festa três; depois 
entra em conselho até ás onze horas; coroo dâo, vae a ama 
ladainha, que se canta na capella, depois do comer; se ó 
de santo, ouvo dois pares; á noite ae canta outra ladainha; 
a imperatriz, reis e todos oa príncipes assistem a ella. Isto 
é lei invariável. N2o se faz procissão que nílio acompanhe. 
Na das Ladainhas de Maio estava n<'vando, e jamais o im- 
perador se cobriu. IMÍstas cantadas e tudo ouvi- sonipre de 
joelhos 'i>. 

Damião Ribeiro, auctor da EinhaiuMidu do nosso compa- 
triota, o conde de Castro Daire, embaixador extraordinário 
de Hespanha ao império em mil seiscentos n vinte e oito 
e vinte e nove (já citada mais de uma vez) que formava 
parto da comitiva do conde, como seu secretario particular, 
e portanto foi testemunha de vista dos acontecimentos que 
narra, não encarece menos o animo piedoso de Fernando 
II e da sua família, quando nos conta que todas as sextas 
feiras da Quaresma ia a pé a uma devoção que cm Vienna 
86 fazia todos os aimos, semelhante á nossa em Lisboa de 
correr os Passos, com miiito recolhimento, levando comsigo 
as archiduquezas suas litlrns c as suas damas, sem mais 



* Bib. da Ajuda, Mbs., Míbc, vol. zztu, foi. 417 v. 



20 3 

séquito que os seus mordomos c creados, uma companhia 
de infan teria c a sua guarda. 

A devoção de D. Duarte e a sua frequência nos officios o 
f»3stas religiosas contribuiriam muito para lhe alcançar as 
sympatliias de Fernando II, aasim como da família impe- 
rial o da corte, que se moldariam á imagem do soberano, 
quando a isso os nâo levasse o habito ou a inclinação. 
Pelo seu lado, D. Duarte nílo só se deixou c^ptivar nos 
laços do agradecimento e do afFecto, mas também se sentiu 
tomado de respeitosa admiração por aquella alta magestade, 
que U08 tituloa de sacra e de cesárea consubstanciava em 
si a alliança da realeza com a divindade e com a secular 
grandeza do império de Roma, alliança que aos seus olhos 
despia a parte mundana, purificando-se no chrysol do zelo 

^ da humildade christã, que tanto a propósito se ajustam 

feom a religião do Cruciticado. A admiração de D. Duarte 
por Fernando IF resumil-a-hemos na seguinte phnise, ainda 
da mesma carta: «O que esto homem é não so p<Vle con- 
ceber, sem se vêrl» Nem julgava bastante admiral-o; res- 
peitava-©, reverenciava- o como um predestinado, cuja mis- 
na terra era defender a fó contra os herejes, o ampa- 

*Yar a egreja na guerra de morte quo então se combatia. 
Segundo as suas crenças, o céo inlluia-o n*essc empenho 
pela voz do próprio filho do Deus. «E coisa certíssima, 
accrcscentava D. Duarte, roferíndo-so ao imperador, quo o 
agosto passado, estando deantc de um Christo, chorando, 
este lhe falou, dizendo: Ferdinande, incepistij progredere; 
nunquara te desero*.» 

Reinava a melhor convivência na cnrte imperial entre os 
grandes; e nos domingos e dias de festa davam se banquetes, 
ficando logo convidados todos de uns para os outros. En- 
ti*avam n'elles sempre os embaixadores, excepto o do turco, 

pois não tinha com os mesmos correspondência, e até vivia 



>Bib. da Ajuda, Mes., Misc, vol. xzrn, foi. 417 v. 



204 



fóra da cidade, á qxml nâo podia ir sem licença do impe 
rador. Muitas vezes encontravam- so juntos á raeza, a par 
dos representantes de varias nayStts, príncipes, cardeaes, 
prelados, generaea e nobres de todas as clasíies ; como acon- 
tecera no banquete do mencionado conde de Castro Dai- 
re, realizado poucos annos antes, por occasiSo do nasci- 
mento do príncipe de Hespanha, e cuja magnificência ficou 
memorável. Nem infrinfjjiria D. Duarte esse louvíivcl cos- 
tumo; nem a stia auctoridadc o largueza lhe penuittiriara 
o contrario; nil<»; lionrar-ae-hiam de o ter por cíimraonsal 
08 paços irapcriaos e os doa senhores e potentados, o ello, 
correspondendo generosamente ás finezas recebidas, como 
fiJho de quem era, convidal-os-hia também a banquetea- 
ram*se no seu palácio. N'esta8 diversões, ou era passeios 
campestres, no cumprimento dos seus deveres religiosos, 
que nuncn lhe esqueciam, na leitnrn, habito inveterado da 
sua natureza, no estudo do aliemSo, de quo tanto precisava 
para a communicaçíto com a gente da terra, já na cOrtc, já 
sobretudo no exercito, no manejo das armas, em que nSo 
deixaria de aperfeiçoar -se, na caça e na equitação, costu- 
mes seus desde oa tenros annos, passaria D. Duarte os 
xnezes decorridos desde que chegou de visitar o rei de 
Himgria at»!^ partir para a campanha. 



II 



Antes do continuarmos com a nossa narraçSto, urge dizer 
alguma coisa acerca da guerra, era que D. Duarle ia pe- 
lejar tilo briosa e desinteressadamente, honrando-sc, e hon- 
rando o nomo portuguez, para, depois do tamanhos servi- 



205 



Ç08, receber em paga d'elle8 a mais dura das recompensas, 
a mgratiílAo. 

A giierra dos Triuta Aunos, essa guerra gigante, meio 
política o meio religiosa, que envolveu no seu manto de 
sangue tantas nayõea da Europa, o teve por theatro prin- 
cipal a Allemauhu, foi devida, como todos sabem^ ao dcâ- 
contcntainento das seitas proteatautes deete paiz, que a 
celebre paz de Augsburgo exacerbara, e á ambição da casa 
d^Auâtria^ sempre prompta para lan^-ar mSo de tudos os 
meios de engrandecimento. 

Começou nos fins do reinado do imperador Matinas, e 
uma das suas causas immediatas foi a succeseSo aoa ducados 
de Juiiers, Cleves, e Berg, e aos condados de Mark, Ra- 
vcíUiiborg, t? Ravcnatein, vagos em mil seiscentos e nove 
pela morte de JoSo Guilherme, ultimo descendente da li- 
nha que os posauia. Julgavara-se com direito a estes esta- 
dos o eleitor de .Saxonia^ o eleitor de Brandeburgo, o condo 
palatino das Duas Pontes, e o miirgrave de Burgau, e ca- 
bia decidir a contenda ao império e ao couseHn) aulico; 
maa taes árbitros n3to convinham a alguns dos pretendentes, 
e oa interesses políticos, tomando por escudo o alavanca, 
Q sontimento que mais excitava os ânimos, converteram 
esta questão n'ania questão religiosa. A isto respondeu a 
Áustria apodcrando-se por precaução dos estados em litigio, 
medida que po7< alerta contra ella todas as nayries, que po- 
diam temer a sua prcp(tnderancia, e esteve íi ponto de fa- 
zer sahir a campo a França, ao que obstou a morte de 
Henrique IV. D'aqui nasceu formar-se, por parte dos pro- 
testantes, a união evangélica, e, por parte dos catholicos, 
a liga catholica, as quacs, depois de se ameaçarem arma- 
das durante alguns annos, romperam linalmcnte as liostili^ 
dades. Eram diversas aa causas que moviam os beliige- 
rantoâ, «O imperador, diz Cautu, queria estabelecer o sou 
direito supremo á sombra da dupla corOa politica o reli- 
giosa; os eleitoreB lutberanos invocavam a independência 



206 



do império e da fó; os eleitores catholicos ligavam-se á uni- 
dade da relígiílo, ao mesmo tempo que se separavam d'ella 
quanto ao direito politico; os estados sujeitos pela Áustria 
esperavam sacudir o jugo; os que se tinham subtrabido ao 
seu domínio consolidar a sua liberdade; e a Europa jiber- 
tar-se da supremacia que esta casa ameaçava adquirir». 

N'istQ succedea no tbrono de Allemauha Fornando II, 
mais enérgico do que o seu antecessor, e foi elle que ver- 
dadeiramente principiou a guerra, de quo se consideram 
prelimiuaros os successos que apontiimos. 

Os bohemios, cujos privilégios Fernando II violara, in- 
surgiram-se e nomearam rei o eleitor palatino Frederico 
V, calvinista; mas este nSo soube siisteutir na fronte a 
coroa que lhe haviam cingido, e pouco tempo depois fugia 
covardemente deante das torças da liga catholica, a que a 
Hesp/inba e o papa forneciam liomens e dinh<'iro, ao passo 
qúe a pouca harmonia da uniSo evangélica lhe tirava as 
forças e facilitava os progressos de Fernando II. 

Embriagado pela fortuna, o imperador nSlo parou na sua 
carreira ambiciosa. Por sua ordem foram exilados dilferentea 
príncipes, e, entre ellos, o eleitor palatino; depois Tillj to- 
mou Heidelberg; dopois Waldstein venceu Gtibor, procla- 
mado rei de Hungria, que de novo empunhara as armas; o 
a união evangélica foi dissolvida. Então Viemia e Madrid, 
ligadas pelos laços de sangue que prendiam as suas fami- 
iias reinantes, e por interesses até certo ponto communs, 
deram-se as mios para opprimirem a Alleraanha e a Hol- 
landa. Aqui termina o primeiro periodo da guerra, o pala- 
tino. 

Christiano IV, rei da Dinamarca, e parente do eleitor 
desapossado, temendo que as vietorias da Áustria preju- 
dicassem o seu reino, decidiu-se a entrar em campanha e 
oecupou o paiz entre o Elba e o Weser em mil seiscentos 
e vinte e cinco; porém batido por Tilly em Luter, amea- 
çado por Waldstein, que levantara um poderoso exercito, 



207 



de que era chefe nbsolnto, e rendo os iniperiaes senliorcB 
OAB margens do líaltico, recollieu-so aos setis estados, e as- 
«ignou a puz fie Lulicck em mil seiscentos e vinte e nove. 
Enlâo a Allemanha do norte, despojada pelo edicto de res- 
tituiçilo, G oppressa por cem inil homens armados, nâo teve 
reiucdio «tmSo ourvar-sc ao poder austríaco. Felizmente di- 
rigia os negócios da França o astuto Uichelieu, o qual, por 
antever o futuro, ergueu obstaculoB aos desejos immoderados 
do vincedor, nao, declarando-Ihe guerra, mas incitando oa 
prineipes por meio de emiai^arios secretos, obtendo quo a 
dieta de Ratisbona tirasse o commando a Waldatein, o le- 
vando o bravo Gustavo Adolp]>o, rei da Suécia, a abrayar 
o partido contra o império e a invadibo. K este o fim do 
segundo período, o dínamarquez. 

Gustavo AdolplíO, receioso da infliíeucia da Auslria no 
Báltico, desembarcou em mil seiscentos e trinta «as costas 
da Pomerania, onm forças aguerridas e disciplinada!», e con- 
quistou n. Em seguida penetrou na Saxonia, onde derrotou 
Tilly na batalha de Leipiíig, em mil seiscentos c trinta e 
um; Icvou deante de «i as guarnições da Fraueouia, Sua* 
bia, Alto Rheno, e Palatinado; separou os iraperiaes dos 
hcspanhoefij entrou na Baviera; e forçou a passagem do 
Leach, onde morreu Tilly. Aterrado o imperador por ta- 
manha serie de victorias, desceu á baixeza de chamar nova- 
mente Waldstein, que offcndera e demiltira do commando. 
Aceedeu este a assumir a direcção da guerra, e desde 
logo mudou lhe a má fortuna, lançando-se na Suabia e 
obrigando Gustavo Adolpho a ir defendei -a. A batalha de 
Lntjsen, era mil seiscentos e trinta e dois, foi a idtima que 
pelejou o valoroso rei da Suécia, o qual morreu uella, sem 
ver o triumpho que alcançaram as suas armas. NJo ob- 
stante a morte de tâo assignalado capitiUo, os suecos prose- 
guirara a guerra com êxito feliz commandados por Baner 
e Bernardo de Weimar, e dirigidos pela politica do chan- 
celler Oxenstiem, principalmente quando Fernando II, as- 



208 



Bustaílo ílrt ambição e dos projectos traidores àe Waldsteiu, 
fez com que ellc fosse assnsãínado em vinte e qviatro de 
fevereiro de mil seiscentoa e trinta e quatro. 

A Waldstein succedeu no cargo àe çeneralisBÍroo do 
exercito imporial o filho do imperador, o arcUiducjiie Fer- 
nando; rei de Ilungria, mas só no titulo, porque realmente 
o era o conde Galasso. Ab suas primeiras acções consistiram 
no cerco e tomada de Uatisbona, e de Donawert, que ob 
auecoa cm vHo defenderam; assim como no de Nordlin- 
gen, uma das principaes fortalezas da Suabia. Correu o 
daqne Bernardo de Weimar em soccorro d'ella, e, con- 
fiando demasiadamente na sua boa estrella, combateu com 
o inimigo, apezar da inferioridade de forças, e dos conse- 
lhos em contrario do general ITorn, e foi derrotado. Per- 
deram 08 suecos n'este formidável desastre doze mil lio- 
men^* mortos, oitenta peças, quatro earros, e trczenUia bati- 
deiraíH o estandartes. D. Duarte ainda viu os resultados do 
tão ôanguinolenta batalha, quando atravessou o campo onde 
ellasuccedera, indo visitar o rei de Hungria, vencedor, como 
fica dito. As consequências da derrota do Nordlinj^cn foram 
o enfraquecimento da Suécia; a desconfiança e terror que 
se apoderou dos seus alliados, conhecendo que a abajido- 
nara a victoria, tEo constante em lhe seguir os passos; 
a confiança que cobrou o partido catholico, levantado do 
seu abatimento ; e a invasílo e saque da Suabia e do 
Wurteniberfc pelo exercito victorinso. Os príncipes protes- 
tantes recorreram em tal extremidade a O.Kcnstiern, o qual, 
tendo o exercito destruido ou disperso, e faltando-lhe di- 
nheiro para organisar outro e pagar o que ainda se drvia, 
lhes pedin novos sacrifícios, porém debalde. Entilo o chan- 
celler sueco, deixado por todos os alliados de Allemanha, 
obteve aoccorros da França, que decidiu entrar abertamente 
na guerra, pnndo a mira em alargar o seu território até 
ao Rlieno. ]SL'indou Iliçhelieu para as margens d'este rio 
um exercito As ordens do cardeal de La Valette, o qual 



909 

ae uniu ao do duque Bernardo de "Weimar, a fim de atacar 
08 imperiaeS; e outros três para entreter as forças de Hcis- 
Binha, que tinham passado á espada a guarni\;ão de Treve», 
ftber: um para o Milanez, outro para a Vallelina, e outro 
para Flandres. Aqui começou o periodo franccz, que só 
terminou em mil seiscentos e quarenta e oito com a paz 
do Munster. Eis, em resumo, o que fôra a guerra doa Trinta 
Annos ató ao tempo em que D. Duarte começou a figurar 
no seu sanguinolento e glorioso theatro. 



III 



Quando D. Duarte visitou o rei de Hungria, achava-se 
elle, como vimos, acampado nos seus quartéis de inverno, 
gosando ainda os Iructos da victoria obtida cm Nordlingen. 
D*alii tornou Fernando a Vienna, onde permaneceria com 
seu pae, u imperador, até que, entnula a primavera, se 
decidiu u partir de novo para o exercito, levando com- 
sigo o irmào do duque de Bragança, que ia estreiar-se no 
duro mister das armas. 

Chegado o dia da jiartida, sexta feira, treze de maio, 
sahiu D. Duai*te do seu palácio, vestido á moda, mui ga- 
lante, com uni rico vestido agaloado todo de passamanea 
de oiro, e montado n'iun soberbo ginete. Acompauhavam-o 
todos ca seus creados, egualniente em bí-m adereçados ca- 
vallos, cada um com um par de pistolas, tmjadoa á mili- 
tar, com colletes e mangas de anta e calçdes de panno bor- 
dados de oiro pelos lados. D'esta míineira so dirigiu aos 
paços imperiaes. Estava Fernando II no seu quarto com o 
rei de Hungria, e D. Duarte foi-lhe ahi fazer as despedi- 
das. A entrevista entre um e outro correu affectuosissima, 



B. I. D. D. T. I. 



U 



e, segundo a própria phrase do príncipe portug^nez, o quo o 
imperador entSo lhe disse e fez nâo é possível exprimír-se 
com palavras. Pedíu-llie D. Duarte a m3o para lh'a beijar; 
esquivou-ae Fernando II a essa prova de reverencia devida 
á magestade, e abriu-Lhe com verdadeira eflPusSo de amigo 
08 braços; D. Duarte, commovido, abraçou-o e beijou-Uje 
a mão. 

N'este meio tempo, acabara o rei de Hungria de despe- 
dir-se de seu pae, e, recebidos os cumprimentos dos caval- 
leiros e de todos que Ih os deviam fazer, metteu-se n'mii 
coche de campanha, e partiu acompanhado de alguns per- 
sonagens importantes, e dos embaixadores de Hespanha, 
todos em carroagens. D. Duarte, como mais soldado, diz 
Miguei de Ruías na sua relação, de que vamos extrahindo 
estas noticias*, seguiu-o a cavallo ate um convento, que 
ficava nos arredores da cidade, e onde costumavam ou- 
vir missa as pessoas da famiha imperial, quando iam para 
alguma guerra. Ahi, deixando sua magestade no dito con- 
vento, tornou ao seu palácio, e, entrando n'imia carroagem, 
poz-se-lbe logo no alcance. Pouco depois sahiu o seu trem, 
o qual constava de quatro carros cobertos e de um caleche 
ou cai'ro pequeno; atraz dos can*08 viam-se quatro cavai- 
los folgados com mantas da cor da libré dos lacaios, e era 
cada manta um escudo com as ai-maa do seu dono. Cada 
um d'este8 cavallos era conduzido por um moço, egualmente 
a cavallo. 

A primeira cidade em que entraram foi a de Hom, mu- 
nida de um muito bom castello. Tendo dormido n'eata ci- 
dade, continuaram ató Witingau, logar fortíssimo da Bohe- 
mia, rodeiado de grandes lagoas, as maiores de AUemanha, 
e em cuja visinhança começavam as extensíssimas íiores- 

* Bib, da Ajuda, Mss., Misc, voL xxvn, foi. 416, Edadon de lajot' 
nada quê S. Ex.* hito en compaTtia dtl êeíior rey de Hungria y Bohe- 
mia desde Vienna de Ânttria hasta seis legoaa dei Rin en busca de la 
armada. 



211 



taa, que, alongando-se por vasta porçSo do reino, como que 
o abraçavam. 

De Witingau dirigiram-se á cidade de BudweisB, de- 
fensável por um cinto de aguas. Ao approximar-se sua ma- 
gestade, veiu toda a clerezia d'ella, em procissão, a bus- 
cal-o sob o pallio, e, posto que chovesse muito, sua ma- 
gestade apeiou-se do coche, e levaram-o á egreja, onde se 
cantou um solemne Te-Deum. 

Depois de ae demorar oito dias n*esta cidade, ajustando 
pazes cora o hitherano duque de Saxonia, partiu el-rei com 
a Bua comitiva, e foi comer a Framberg, logar e casteilo 
de D. Balthazar Marradas, cavalleiro do habito de S. João, 
natural de Valência, e general do exercito cesáreo na Bo- 
hemia. Cercavam este castello espaçosas lagunas, onde 
havia abundância de salmões e outras qualidades de pes- 
cado. Recebeu D. Balthazar sua magestade á entrada do 
logar, á porta de um jardim sito antes d'elle. Apeiados doa 
«eus cochos, andaram pelo jardim tanto elrei como D, 
Duarte, admirando-lhe detidamente a formosura, e, em- 
quanto o faziam, sulcava uma das lagunas uma barca re- 
mada por oito homens, com um tambor que ia tocando, na 
qual se queimou um bejlo fogo de artificio. Ao mesmo tem- 
po salvou o castello com os seus canhões, e a mosquetaria, 
que era muita. Dadas estas salvas, montaram a cavallo el- 
rei e D. Duarte, e subiram ao castello, edificado no cume 
de um monte, onde os banqueteou delicadamente D. Baltha- 
zar com grande profusão de iguarias e de vinhos, assim 
como aos cavalleiros do séquito. Depois correram o cafl- 
tello, examinando as suas curiosidades, numerosas e dignas 
de apreço, e assistiram ás habilidades que executavam com 
muita arte quatro alentados m*808, do que havia fartura no 
largo fosso, em roda das fortificaçSes, e nos boaques visi- 
nhos; dois maiores, e dois mais pequenos, vestidos os maio- 
res mui graciosamente. 

Tendo recebido estes obséquios, montaram a cavallo el- 

14 « 



2^2 



rei e D. Duarte, e foram dormir n'aqiiellft noite á forto ci- 
dade de Tabor. No dia seguinte, véspera da fosta do Corpo 
de Deus, pernoitaram n'um castello bera fortificado, onde o 
seu dono oftereceu um lauto banquete a toda a companhia; 
e, ao amanhecer, dirigiram-se a Praga, capital do reino da 
Bohemia, a cuja entrada, do mesmo modo que nos dcmaia 
legares, estavam quatro deputados para darem os emboras 
a Bua mageslade o lhe entregarem as chaves da cidade. 
Parou o coche onde ia el-rei; fez-se a cerimonia; trocaram- 
se 08 cumprimentos; e seguiu o préstito com os quatro de- 
putados até ao palácio, no que se gastaram duas horas e 
meia. 

Fraga, atravessada pelo rio ílolda, era uma das mais 
fomiosas e aprazíveis cidades n'esse tempo, e, conforme 
algxms, na extensão nâo cederia a Lisboa. Nâo se podia 
considerar como um lognr forte, porque a Í8s«o obstava a 
sua grandeza, e a maior defensão que tinha era o palácio 
erguido na parte mais alta, a um lado da muralha. Junto ao 
palácio ficava a cathedral, com imia óptima tribuna d'onde 
ouviam missa as pessoas da familia imperial. Tinha tam- 
bém esta egi-eja um notável sepulcluro, em que estavam en- 
terrados muitos imperadores e reis. No ♦palácio havia um 
thezoiro de objectais riquisBimos, e sua magestade mandou 
convidar D. Duarte para que fosse vel-o. 

Uma das celebridades de Praga consistia em haver sido 
residência de Waldstein, duque de FriedJand, commandante 
das anuas imperiaes, e rival feliz do rei da Suécia, Gustavo 
Adolpho. Já dií-semoa alguma coisa d'estc pei^sontigem, da 
influencia que exerceu nos destinos da guerra que então 86 
degladiava, do seu girando poder e aspirações á realeza, e 
de como pretendeu rebellar-se contra Fernando II, e foi 
morto. Muito pouco decorrera depois do ultimo facto, e a 
Allcmanha estava ainda cheia da sua memoria, sobretudo 
Praga, quo durante algum tempo lhe serviu de corte e tes- 
temunhou o seu fausto, verdadeiramente real. A imaginação 



213 



de D. Duarte, imaginação portugueza, e, por conseguinte, 
fácil de impresaionar-sc, abalada jA de antemão pela notícia 
dos acontecimentos, sentiria agora no meio de tantas recor- 
dações do homem celebre, intonso desejo de contemplar oa 
sitioa que elle habitara, e iria visitar o seu palácio. Era elle 
mngnitico; na opinlilo de Miguel de Ruias, que ia com D. 
Duarte, o melhor de todos quo vira era Hespanlia, ItaUa, e 
no resto de AUemaiiha; e encerrava dentro de si ura bello 
jardim de mais de quinhfntos mil passos quadrados, com 
formosissiraas fontes de cobre, que o duque mandara fabricar 
a Ang^burgo. A cavallariça, e por ella se poderá avaliar a 
magnirtcencia do mai*, <pie Miguel de Ruias nâo descreve, 
toda de jaspe e mármore precioso, dividia-se em trinta e 
seis rcpartinu^ntoa egualmeute de mármore, do feitio de 
conchas, adornados de bem esculpidas íiguras. Scparan- 
do-os, levantavam-se grossas columnas também de már- 
more, e cada repartimento tinha amiexa uma casa de agua. 
Aqui costumavam estar trinta e seis cavallos do duque, 
em que só cllf.' montava. Ao lado do jardim abriam-se umas 
grutas debaixo da terra, formadas de penhascos, por sobre 
08 quaes, da parte de fora corria agua, tudo feito com tanta 
perfeição, que imitava a natm'eza. N'e3tas sombras fugindo 
A intensidade da calma do estio, se acoitou c comeu muitas 
vezes o duqun. Ah ! que profunda sensaçSo nSo experimen- 
taria D. Duarte ao devassar tJlo recôndito e delicioso abrigo! 
De quantos projectos de guerra, de ambíçào e de gloria, 
nâo foram testemunhas aquellas pedras! Quantos sonhos de 
triumpho e de conquista nâo sonhou Waldstein, acalantado 
pelo som d'aque]]as cascatas! 

A dezoito de junlio sahiu a comitiva de Praga, e atra- 
vessou um montf^, chamado o Monte Branco, onde se deu 
a conhecida batalha de Praga contra o conde palatino, quando 
se acelamou rei da Bohemia: novo espectáculo para a alma 
enthusiasta e scismadora de D. Duarte. Ainda mostrava o 
sitio da pugna signaes evidentes da carnificina d'es8e dia 



214 



tremendo nos osso» dos qiie n'ella pereceram, BÍgnaes que 
por tantas outras partes se eocoDtravam junto com as nri- 
nas das povoaçSes e das hej*dadea desertas e descultivadas, 
porque a Allemanlia formava então quasi toda um grande 
campo de batalha, açoitado pelos dois maiores flagellos da 
humanidade, a guerra e a peste. 

Contemplando, por um pouco, este theatro das glorias im- 
periaes, e da miséria e furor dos homens, seguiram avante 
até á cidade de Pilsen, onde sua magestade foi recebido 
com muitíi auctoridade e com salvas de artilheria. Aqui 
ainda os acompanhou a memoria do duque de Friedland; 
e por quantos e quantos logares lhes aconteceria o mesmo, 
tamanha era ella, tâo recentes os feitos da sua brilhante 
carreira militar, e com tantas raizes andavam impressos 
na imaginação de todos 1 Entretanto a recordação que evo- 
cava Pilsen vinha envolvida com idéas desagradáveis e re- 
pugnantes, principalmente aos olhos dos partidários da casa 
d' Áustria. Aqui reuniu Waldstein todos os cabos do exer- 
cito para oa persuadir á traição que machinava contra o 
seu soberano, Fernando II, traiçSLo que lhe custou a vida; 
e d'aqui fugiriam hoiTOrisados a vista e o pensamento de 
D. Duarte, amigo do imperador, de quem acabava de re- 
ceber tantos obséquios, e seguidor, ao menos em parte, da 
soa politica. 

Deixando Pilsen, encaminharam 7 se a Vemburgo, primeira 
cidade do Palatinado-Inferior, d'antea forte, mas então des- 
tniida, assim como as outras do mesmo estado pelos eíFei- 
tos da guerra, de tal maneira, que solSreram necessidades 
na sua subsistência, e que, achando-se ahi no dia vinte e 
oito de junho, vigilia de S- Pedro, foram obrigados a co- 
mer carne, menos D. Duarte, que não quiz infringir o pre- 
ceito do jejum. Aos que iam com o trem, e ficaram atraz, 
chegou a urgência a ponto de nSo terem para sustentar-se 
mais do que um pouco de p3lo negro, e umas hervaB co- 
BÍdas. 



215 



D'ali continuaram ate Neumarckt, distante quatro léguas 
de Nui-eniberg. Esta cidade formava uma republica e esti- 
vera em rebeJliâo contra o imperador, mas pelas pazes de 
Saxonia, bavía pouco celebradas, tomara á sua obediência, 
para o que mandou a el-rei quatro embaixadores com o fim 
de tratarem doa concertos. Os habitantes eram lierejes, as- 
sim como os de todo o Palatinado-Inferior. 

De Neumarckt passaram a Jierg, onde estava grande 
parte da gente e muita artilberia de campanha do duque de 
Baviera. Aqui terminava o Palatinado-Inferior, que per- 
tencia ao dito duque. De Berg passaram a Ingilspil, cidade 
imperial bem fortificada, onde receberam sua magestade 
com grande pompa debaixo do pallio; de Ingilspil a Er- 
miguen, também habitada por lutheranos, e d'aqni a Heil- 
bron, cidade já pertencente ao ducado de VVurtemberg, 
cujos moradores eram todos egualmente lutheranos, e na 
qual permaneceram algum tempo. Faziam tenção do partir 
doesta cidade a nove de julho, para atravessarem o Rhe- 
no, distante d'ella sete léguas, onde se dizia que estava o 
exercito imperial. De Heilbron ao exercito haveria doze lé- 
guas, e dentro de oito dias esperavam alcançançal-o. 

As noticias que receberam das forças imperiaes eram as 
seguintes : tinham tomado aos inimigos uma cidade próxima 
do Bheno, chamada Worms; proseguia o cerco da cidade 
de Ulma, e esperava-se que capitulasse com a vinda d'el- 
rei, o que seria muito conveniente, por segurar aos im- 
periaes a rectaguarda; o duque de Lorena achava-se com 
o seu exercito, que, segundo diziam, constava de dezoito 
mil homens, nos limites do seu estado, e recebera recen- 
temente um reforço de trinta e sois peças de artilberia; 
Picolomini passara o Rheno com oito mil cavallos e dez- 
oito mil infantes, para soccorrer o infante Carlos, que aper- 
tavam vinte mil francezes e outros tantos hollandezes. 
Quanto aos projectos do exercito cesáreo, corria como certo 
que, apenas sua magestade chegasse, marcharia na volta 



216 



de França, porque nSo havia forças que lh'o impedissem, 
a nâo serem sete mil homens, commandadoB pelo duque de 
Weimar, e, n' esses mesmos já oa croatas tinham causado 
grande mortandade. 

Os obséquios e attençSes prodigalisados na viagem a 
D. Duarte foram os que elle merecia pelo seu sangue e pe- 
las distinctas qualidades que o auctorlsavam. Em todos as 
partes o occasioes occupava o primeiro logar logo abaixo 
d'el-rei; todos os cavalleiros e nobres o acatavam com o 
maior respeito, o que- nâo excluia, de muitos, provas sin- 
gulares de cordealidade e aÔecto; e o grào-mestre da or- 
dem teutonica, príncipe livre do império, de summa Impor- 
tância, a que todos davam alteza, falava-lhe de egual para 
egual. 

N'estes prelúdios militares teve D. Duarte logo ensejo 
de manifestar mais de uma vez a generosidade do seu ani- 
mo, o zelo religioso que o inflamniava, e os resultados be- 
néficos de um coração compadecido. Eram grandes os sof- 
frimontos doa povos com a passagem dos exércitos, c tam- 
bém o foram não muito menores com a da numerosa corte 
do rei de Hungria, composta de tantos s<*nhorcs, a que 
em muitas povoações, e ainda nas importantes, se tornava 
muita voz diffieillimo prover do morada e de subsistência, at- 
tento o miserável estado a qiio se via reduzido o paiz pelas 
correrias c devastiiçrjes de amigos e inimigos, e pelos es- 
tragos da peste. Coraparavcis á poste eram poróm, na pró- 
pria phrase de Miguel de Riiias, as violências de toda a 
ordem que padeceram os luthcranos (ponjue a esses mais 
opprimiam) das terras por onde transitou, ou onde se alo- 
jou a corte do filho do imperador, no que se patenteava 
bem claro, af/»ra a dureza da epocha, o antagonismo reli- 
gioso. Trata vam-os os senhores do séquito retil pi^ior do 
que 08 turcos aos seus escravos, accresconta o meamo, e 
08 seus pídzes, como se acabassem do conquistai -os. Com- 
padocia-se D. Duarte de tamanlia opprcssão e miséria, e. 



217 

posto devesse sentir por elles uma tal ou qual auiniosidade, 
proveniente do zelo da fé, e das idéas exciíisivas de então, 
visto que nínguem se pode eriínir de todo á influencia do 
tempo om que vive, n5o só reprovava tacH rigores, ma» 
ainda, impellido pelo seu natural, procurava abrandal-os 
quanto possível. Aboletavam se as pessoas da comitiva do 
rei de Himgria nas cxmas dos particulares, e considerava-se 
feliz a que tinlia a honra do acolher D. Duarte; porque, 
ao passo que os outros senhores di=.puuliam d'ellas como 
suas, ou peior, e se serviam de tudo que haviam mister, 
sem pagar coisa alguma, o irmão do duque de Bragança, 
apenas entrava na que lhe fora destinada, doído da sorte 
dos seus donos, se nSo das suas queixas e lagrimas, e le- 
vado da própria índole, de si compassiva e magnifica, man- 
dava logo ao& que o acompanhavam que em nada tocas- 
sem, e que tudo fosse pago com dinheiro. O único mal que 
lhes fazia era queimar-lhes as biblias, no que julgava servir 
a Deus, se por acaso a* encontrava il m5o. 

Além da relayjlo de Miguel de Kuias, escripta ao du- 
que D. João, de Heilbron a sete de julho, ainda em viagem, 
como se vê do seu conteúdo, o próprio D. Duarte escre- 
veu-lhe egualmente do caminlio, da cidade de Budweiss, 
na Bohcmia, em trinta e um de maio, dando -lhe conta da 
partida de Vienna, e dizendo -lhe que ia de saúde; que 
dentro de quinze dias chegaria ao exercito dos suecos, os 
quaes tinham occupado a Silesia e a Pomcrania; eque havia 
muito que trabalhar; mas que esperava que Deus acudisse 
com a sua misericórdia. Não coniiecemos desta carta senão 
iim fragmento*. 

Da mesma cidade de neifbron dirigiu ainda D. Duarte 
a seu irmão outra carta era trinta de julho, da qual infe- 
lizmente só também resta uma parte. 

«Todo este tempo havemos estado n^esta cidade, diz oUe, 



1 Bíbr da Ajuda, Mss., Miseel., vol. xxvn, foi. 417 v. 



2Í8 

em que sua magestade esteve dispondo algiimas coisas de 
importância, o, não se tendo ajuntado todo o exercito, se 
resolveu elrei a ficar aqui mais dias. Agora veiu nova como 
o Weimar, juntamente com os francezes, vinham com gran- 
de fúria e resolução de darem batalha. Eu pedi licença a 
el-rei para me ir achar n'esta occasiSo, para onde partirei 
amanhã, e serSo trea dias de caminho. O nosso exercito 
está junto a Mogimcia, praça principal doa inimigos. Den- 
tro de oito dias se dará a batalha, e, se succede como es- 
peramos, logo se porá cerco a Moguncia. A gente que aqui 
temos serão quarenta mil homens, e Galasse, como tenen- 
te-general d'el rei, a governa. Grandemente começa aqui a 
picar a peste x*. 

Por estas linhas se vê qual era o ardor bellicoso de D. 
Duarte, e como anciava achar-se nos combates, pois, nâo 
lhe soffrondo a impaciência demoras, queria deixar por ellea 
a companhia d*el-rei e oa regalos da corte. 

Executou D. Duarte o seu louvável propósito, e a tre» 
de setembro já o encontramos no exercito, d'onde escreveu 
a Beu irmão o seguinte; 

«Junto á cidade de Worma estivemos alojados algims 
dias, nos qtiaes se vieram sempre chegando os inimigos. 
Dia de S. Bartholomeu tomaram atraz, c passaram o Rhe- 
DO por MogTimcia, aoa vinte e sete; e, chegando esta nova, 
mandou o general Galasso que no mesmo dia, á meia noite, 
marchasse todo o exercito e tomasse a passar o Rheno, 
como se fez tm pouco mais de vinte e quatro horas, em que cu 
sempre acompanhei o general. Estivemos sem comer todo 
esto tempo., até que um coronel soccorreu ao general, de 
que todos nós parti cipii mos. Marchámos os dois dias se- 
guintes de vinte e nove e trinta, em que fizemos alto; os 
inimigos vieram marchando junto ao rio Meno. No primeiro 
de setembro tomámos a marchar, em forma de bataJha, 



' Bib. da Ajudfl, Mbb., Miecel., vol. xz, foi. 165. 



219 



com a cavallaria deante e artílheria de uma e outra par- 
te. Alojámos n'esta campanha defronte da cidade de Ope- 
nheim, que está da outra parte do Rheno, e ó cidade pe- 
quena, mas tem uma cidadella boa. A mSo direita está a 
cidade de Darmstadt, cujo landgrave é nosso amigo; aqui 
parámos; e os inimigos fizeram o mesmo, lançando uma 
ponte Bobre o Meno, como vossa exceUencia verá n'e88e 
papel. Em ambos os campos ba fome, ainda que até agora 
ae acha algum pão. A peste nos logares é grande, e já me 
entrou cm casa, levaudo-me brevemente uma lavandeira^ 
e ao príncipe de Poloníh quatro creados em uma noite. 
Eu Q fui visitar, e elle me veia esperar fora do quarto on.de 
estava, dando-me a mio direita e as portas, e na sua ca- 
mará me deu a cadeira que estava na alcatifa, arrimada 
á parede, pondo a sua de fora. Depois me acompanhou até 
uma varanda junto á escada. Depois de chegarmos a este 
quartel, me veiu a visitar; falou-me por exceUencia, e eu 
a elle por alteza, ainda que nílo era preciso dizer isto. 

«Aqui se queimou um dia doestes um quartel, em que se 
perderam quarenta carros, quantidade de cavallos, e me- 
ninos de soldados nSo se sabe, até agora, oa que faltam. 

«A noite passada se accendeu outro fogo no quartel do 
príncipe de Florença, junto d' este em que estou, em que 
houve grande rumor, O Eslevain, em camisa, fiigiu; o de 
Polónia foi, do mesmo modo, e sem cbapco, nem botas, 
dar em outro quartel bem longe, em que lhe emprestaram 
um vestido, com que voltou. Eu também salii na mesma 
forma, e tomei um cavallo e o capote, com que esperei ató 
ver o que passava. Tirando-se toda a roupa, carros, e ca- 
vallos, e sendo meia noite e grande o numero de gente, 
nào perdi mais que uma libro e uma banda. Ao de Florença 
ae lhe queimaram sellas, guarniçííes de carros, e alguns ca- 
vallos; e outros, a que, com a pressa, se cortaram os ca- 
brestos, nlo apparecem; como também lhe falta prata, e 
ao de Polónia o chapeo. Galaaso accudiu; e, como n!to ha- 



220 

via vento, tudo se remediou, e só dois moços se queima- 
ram. 

«Escreva vossa excelleecia ao imperador o parabém do 
casamento da filha, a archídiíqueza Marianna, com o duque 
de Baviera, e, quando nomear o duque, diga: Serenissimus 
Elector Bavieraj. 

«Tanto que cheguei ao exercito, me mandou Galasso 
dar dezeseis mosqueteiros, que me fazem guarda de dia, 
como se faz a todos os grandes príncipes, era quanto nao 
teem poáto *». 

Esta carta é datada de Openheim a trea de setembro. 

No dia sete do mesmo mez escreveu de novo D. Duarte 
ao duque de Bragança. 

«Hontera ás três horas do dia, diz oUe, deram três rail 
cavallos dos inimigos em os quartéis de Ansfelt, e mataram 
alguma gente, rompendo três regimentos nossos, e prende- 
ram algumas pessoas de importância, ficando outros muitos 
feridos, e, entre elies, Lamboi, tenente de mariscai de cam- 
po, e pessoa de respeito. Nó.h míirclmremos amanlia para os 
inimigos. A fome ó grande, e nilo ha cavallo que escape; 
e morre muita gente, e a mais está enferma; e nSo ha quem 
pare com fedor dos mortos, de que estào estes campos 
cheios, sem haver quom os enterre, por amor da peste; e 
OB mais morrem de camarás. Os suecos fizeram paz com 
Polónia, e marcham para Silesia cora o exercito que tinham 
em Prússia contra o de Polónia, e ajimtarara-se com o exer- 
cito de Panier, que está em Fomerania. Todas as armas 
suecas governa Oxenstiem, cancellario maior de Suécia'». 

O que acabamos de tnmácrever, são apenas também fra- 
gmentos. Tanto estas duas ultimas cartas, como a primeira, 
chegaram jantas a Villa Viçosa, pelo correio de seis de de- 
zembro, no que o duque nâo teria pequeno contentamento, 



> Bíb, íia Ajuda, Mss., Misc, vol. xjt, foi. 166. 
^ Bíb. da Ajuda, Mss., Misc, vol. xx, foi. 160. 



m 

por vêr como D. Duarte se continuava a lembrar (l'ellG, c 
o ardor e enthuaiasmo com que encetava a sua vida de sol- 
dado, promcttendo honrar, á vista de tSo auspiciosos prin- 
cípios, o nome já illustrissimo da familia de Bragança. 



IV 



A relação do Miguel de Unias acerca da viagem de D. 
Duarte para o exercito, e os fragmentos de cartas que apre- 
sentámos, além de algumas noticias vagas ou diminutas, 
colhida» aqui e alH, constituem os escassoa subsídios de 
que dispomos para traçar a liistoria militar do nosso he- 
roe. Aftiruia o terceiro conde da Ericeira, no Portugal res- 
taurado, que D. Duarte escreveu uma relação das suaa 
campanhas, digna dos maiores elogios^ mas infelizmente nSo 
constai quo ella exista em parte alguma, e é provável que 
se perdesse. Era o titulo d'essa obra: RcMauracion dei im- 
jjcrw y relacion abreviada de tudo lo aucedido en los fixer- 
cãos cejgar€08, en que peraonnlmcnte ha asistido d conde 
Mnthias Galeazzo, después que gobama las armas de eu ma- 
gmtad cesárea; e conservava-se autographa, no seu tempo, 
na livraria de D, Luiz de Sousa, filho segundo do conde de 
Miranda, capellao-mór do príncipe D. Pedro, e arcebispo 
de Lisboa. O segundo conde da Ericeira, D. Fernando de 
Menezes, na obra HiHforitnnim hofltanorum, chama a este 
escripto: Annaes de Alhnianha. D. António Caetano de 
Sousa entra em duvida se as noticias da guerra, dirigidas 
por D. Duarte ao duque de Bragança, que traz Marinho 
de Azevedo nas Exdamaciones polUicaSf e que elle trans- 
creve, formariam parte da dita relação; mas a duvida é in- 
teiramente infundada. Essas noticias nâo sSo mais do que 



222 



um fragmento de um dos fragraentos das cartas que aca- 
bamos de ler. A obra de D. Duarte, além da importância 
que lhe vinha de ser por elle composta, outra haveria ainda 
maior, a de nos pôr ao facto de quasi toda a sua vida mi- 
litar, e dizemos quasi toda, porque, à vista do titulo, o mais 
a que podia chegar era até aos fias de trinta e nove, em 
que o general Galaaso deixou o commando do exercito im- 
perial, vindo a faltar, por consequência, o tempo em que 
D. Duarte militou com Picolomini, isto é o anno de qua- 
renta e janeiro de quarenta e um. Na carência do tSo va- 
lioBO auxilio, de que nSo enconti-ámos rasto algum, preen- 
cheremos esta lacuna, embora mal, compendiando os mo- 
vimentos dos exércitos dos dois generaes, com que sabe- 
mos ter elle servido. Vejamos pois, em primeiro logar, chro- 
Dologicamente, quaes foram as campanhas de G-alasso, es- 
pecializando, á medida que o fizermos, as acções em que 
consta haver entrado D. Duarte, 

Ko anno de trinta e cinco, emquanto o arcldduque Fer- 
nando, rei de Hungria, generalissimo do exercito, se demo- 
rava em Heilbron, por causa da reducçâo de certas cidades, 
mediante ajuste, determinou a Galasso que se posease em 
marcha com o exercito, e procurasse commetter alguma 
empreza notável; o que este logo executou. Transpoz por 
conseguinte o Rlieno em Filisburgo, e, conhecendo que a 
conquista de Worms, praça situada perto do dito rio, e 
vizinha das de Mogimcia e Frankendal, era importante 
para apressar a occupação d'estas, sitiou-a, assestou con- 
tra ella a artilheria, investiu-a e tomou-a dentro de pouco 
tempo. O presidio sueco, que a guarnecia, não constava de 
mais de noventa homens, diminuta guarnição para uma 
cerca de muros tão extensa, e por isso, conhecendo que 
seria inútil continuar a defender-se, tanto maia que descon- 
fiava da boa vontade dos habitantes, resolveu capitular, e 
sahiu da cidade, retirando-ae para Moguncia. A tomada de 
Worms referem-se as noticias recebidas pelo rei de Hun- 



223 



gria, NSo a presenciou portanto D. Duarte, mas sim uni- 
camente a passagem do Rlieno, que lhe foi posterior, como 
se vê da sua carta de três de setembro - 

Três vezea encontramos mencionado o nome de Galasso 
nas campanhas de trinta e seis. Na primeira apodorou-ae 
de Moguncia, junto do Rheno, depois de alguns dias de 
cerco, e, marchando d'ahi, chegou sem obstáculo á vista 
do Sarbruck, noa limites da Allemanha com a Lorena, a 
qual se lhe entregou, nâo sem resistência. Marchou depois 
contra a cidade das Duas Pontes, que dava o nome a um 
tracto de terreno, pegado á Lorena e ao Palatinado-Inferior, 
cliamado ducado daa Duas Pontes, assente nas margens do 
Blies, e ahi fez alto, receiando encontrar-se com o exercito 
francez, que, unido ao do duque de Weímar, estava em 
grande força junto do Metz^ cidade principal, cercada de 
bons e fortes muros, e banhada pelo rio Meuae, onde oa 
fi*aucezes se tinham aquartelado. N5o se podendo conservar 
n'ea8e logar, por falta de viveres, e pelo muito que os sol- 
dados soffriam, resolveu Galasso retirar-se e invernar na 
Franconia, no Wiutemberg e na Alsacia; mas antes, para 
que nâo ficasse livre a cidade de Daistem, presidiada por 
francezes, postou contra elia duas baterias, entrou-a á viva 
força, e passou a guarnição ao fio da espada. 

Na segunda sahiu Galasso de Spira, onde observava os 
movimentos dos francezes, com o intento de obstar aos seus 
progressos, e, temeroso de que os suecos, enfunados pela vi- 
ctoria de Minden, causassem maior damno na Veteravia ou 
no Palatinado, atravessou o Rheno com uma parte do exer- 
cito em Worms, e, juntando-se a Lamboi, decidiu dar-lhes 
batalha; porém nâo os achou, porque se haviam retirado, 
á noticia de que oa imperiaes, levantados do cerco de Osna- 
bruck, lhe iam ao encontro. 

Na terceira marchou Galasso daa proximidades de Spi- 
ra» onde se acampara, em soccorro de Savema, na Alsacia, 
sitiada pelos francezes; intento que nSo effeituou com te- 



224 



mor do doscontentaitiento e deserção dos soldados. Viu pois 
cahir Saverna era poder do inimigo, depois de supportar 
seis assaltos, e recebeu no aen exercito a guarnição ven- 
cida. 

Na quarta Galasso, influído, assim como geralmente os 
imperiaes, por ter Conde levantado o sitio de Dole, e pas- 
sado o Saone, repassou o Rheno, por nSo logi-ar sustentar 
o exercito na Alsacia, pela falta de forragens e viveres, 
e transpoz novamente aqiielle rio em Briaacli, esperando, 
com uma diversão, que ao mesmo tempo se operava na Pi- 
cardia, intentar por esta parte alguma empreza no oriente 
da França. Então correu com o exercito tia terras da Bor- 
gonha, aJóm do Saone, occupou Mert^baul, castello pouco 
dibtimte das margens do Ain, e dirigiu-se a S. JoSo de 
Laulne, terra perto daquelle rio; mas o cardeal de La 
Valette e o duque do Wcimar, mandaram contra elle o sar- 
gento general de bataliia Ranxan, que soccorreu a praça, 
pelo que se retirou Gatasao, julgando a empreza de pouca 
importaucia. 

Ne^to anno, diz nos Simão Noé, n'uns apontamentos 
para a vida de D. Duarte, de quem era creado, que este 
acompanhou o exercito, sem especificar com que posto *. 

Luiz Marinho de Azovedo, nas Exdamaciones politicas, 
e D. António CaetJino de Sousa, na Historia geiíealogicaj 
escrevem que elle teve parte na tomada de Savema. Como 
vimos, o general do império não tomou Saverna; quiz soe- 
correi -a, c nem isso mesímo conseguiu. Se portanto D. Duarte 
fez alguns serviços n'e8ta occasiâo, devemos entender que 
foi nas operaçfícs do exercito, para ir aiixiJiar os sitiados 
contra os francezes e suecos. 

A nove de setembro d*este anno Fernando 11 nomeou D. 
Duâirte sargento general de batalha*, corgo que já exerceu 

1 Bih. de Evorii, Mss., lOG, 2, 11, foi. 224. 

2 JJib. Nai-, de Paris, Mss. Portiiguezea, 26, F. 3õ2. A pateute ori- 
ginal. 



225 



na campanba de Borgonha; e, na retirada do exercito im- 
perial d'este paiz, faltando cavallos á artilheria, deu os seus 
próprios da bagagem para salval-a*. 

O posto de sargento general de batallia, cujas preemi- 
nências nas ordenanças militai'es do império eram as de 
maior estimação, fora creado por Waldstein, e tinha o com- 
mando sobre todos os coronéis, e o cargo de ordenar o exer- 
cito nos casos de combate*. 

Dizem ainda D. António Caetano de Sousa e Luiz Ma- 
rinho de Azevedo, nas mesmas obras, e Fr. Timotheo Cia- 
bra Pimentel, no sermão das exéquias de D. Duarte, que 
este entrou na batalha de Bistoch, a qual julgamos ser a de 
Wittok, com o nome desíigurado, por não depararmos ou- 
tro píirecido com elle, e por constar claríunente de Pimen- 
tel que foi pelejada entre os imperiaes e Baner. NSo acha- 
mos noticia de ter commandado Galasso tão renhida acção, 
mas sim o general austríaco Hatzfeld; é entretanto muito 
possível que no seu corpo de tropas fosse D. Duarte. Por 
se prender á sua vida, falaremos pois alguma coisa acerca 
d'es6e feito d'arma8, e dos seus antecedentes. 

Influídos com os soccorros da França, e reforçados com a 
gente que a tregoa da Polónia lhes permittira arredar d'elía, 
08 suecos de novo marchaivim á victoria sob o mando do 
arrojado Baner, que não só livrou a cidade de Demnitz, 
mas também venceu completamente o general saxonio Bau- 
dissen, sem que os imperiaes, oocupados nas margens do 
Rheno e na Westphalia pelo duque de Woimar e pelo land- 
grave de Hesse-Cassel, o pudessem auxiliar. O exercito 
sueco assolou a Saxonia, furioso de ter o eleitor ajustado 



^Bib. de Évora, Mss., 106, 2, 11, foi. 224,Kelaváo de Noé acerca 
do infante. 

2 Coufc Galeazzo Gualdo Priorato, HUtoria dtílc gurrre di Ferdi- 
mmdo lie Ferdinando JII imperatori e dd rb Filippo JV di Spagna 
contro Gogtavu Adolfo rt diò'uecia e LixigiXllI rcdi Frattcia. Veue- 
cia, 16iU. 4.*' 

U. 1. D. D. — T. I. 16 



226 



paz com o império, e as tropas do eleitor juntas com as do 
general austríaco Hatzfeld, depois de alcançarem algumas 
vantagens contra o inimigo, viram-se atacadas subitamente, 
e derrotadas por Baner, perto de Wittok, a vinte e quatro 
de setembro. Mais de cinco mil austríacos e saxonios ca- 
híram no campo de batalha, alem dos que morreram na 
fuga ás mSos dos contrários, que os perseguiam, e dos cam- 
ponezes irritados contra eljes pelas suas violências. Foram 
feitos dois mil prisioneiros, e tomadas cento e cincoenta ban- 
deiras e estandartes, vinte e três peças, todas as muniçSea 
e as bagagens do exercito. Nilo se contentou Baner com 
este assignalado triurapho, e correu no encalço dos inipe- 
riaea vencidos atravez da Thuringia, e do paiz de Hcsse, 
até á Westphalia, d'onde voltou a estabelecer os quartéis 
de inverno no território saxonio. 

No anno de mil seiscentos o trinta e sete, o rei de França, 
inquietado pela invasão na Borgonha, enviou a La Valette 
e a Weimar seis mil homens de soccorro, commandados 
pelo duque de Longiievilie, para a limparem das incursões 
inimigas. Por isto, e por se lhe tornar diffiellimo sustentar 
mais tempo tanta gente n'uma terra chuçada e gasta dos 
eífeitos da guerra, poz Galasso de parte os seus intentos, 
e retirou-se para a Alsacia, na qual não poude também con- 
servar-ae por falta de viveres» Passou pois ao Wurtemberg, 
e, aquartelado alii o exercito, partiu para Ratisbona, onde 
estava o imperador, a fiin de assistir aos conselhos, que 
n'es8a cidade deviam celcbrar-se, e receber ordens para a 
futura campanha. Esta é a primeira vez que encontramos 
Galasso figurando nas operações militares de trinta e sete. 

Via o eleitor de Saxonia o seu paiz cada vez mais infes- 
tado pelas armas dos suecos, tâo seus inimigos, quanto já 
tinham sido amigos, e, nâo dispondo de meios sufficientea 
para lhes resistir, pediu auxilio ao imperador, allegando não 
só este motivo, mas egualmente a conveniência geral do im- 
pério. Em attençâo ao pedido, ordenou-se a Galasso que, 



227 



providos os logares de maior importância no Wiirtemberg, 
dirigisse d'alU com o resto do exercito, pouco mais oii 

Pmenoa dez mil homens, para a Saxonia, juntando-se com 
Hatzfeld, que já fòra soccorrer o eleitor, e que protegesse 
o catado d'este, e outroaim recuperasse algumas das pra- 
ças cabidas nas mãos dos contrários. Tratou Qalasso de exe- 
cutar as ordens recebidas, e foi ao encontro de Baner, que 
se achava próximo de Torgau. Defendeu-se, com o costu- 
Dado valor e constância, o general sueco, roas, sondo as 
forças inferiores em numero, depois de algumas per- 
B, conseguiu recoUjer-se á protecçSo da artilheria de Tor- 

"gau- Abi, reunido conselho, resolveu-se que Baner, j»ela im- 
possibilidade de sustentar-se sem grandes reforços n'aquel- 
les legares, devastasse todo o paiz, e se retirasse para as 
fortalezas da Pomerania, onde com menos custo se defen- 
deria, porque, além de fortissimas, podiam receber auxí- 
lios da Suécia pela costa marítima, ao passo que o exer- 
cito imperial, alongando-se cada vez mais, e nílo gosando 
d'esta vantagem, não se poderia manter n'um território des- 
provido de tudo, onde o esperava a fome, o talvez morte in- 
glória. Destruida portanto a ponte de Torgau, e deixados 
n'esta praça tros mil soldados dos mais valentes, o muni- 
ções para seis mezes, encaminhou-se Baner para Lands- 
berg. Seguiu-o Galasso, desejoso de travar com cUo bata- 
lha; mas o general inimigo, que alliava á maior energia a 
maior prudência, n3o se julgando para isso bastante forte, 
c persistindo no seu plano de só se defender nas fortale- 
eaa, e deixar o campo aos imperiaes, sahíu de Landsberg, 
e, depois do uma escaramuça, retlrou-so para Stottin, com 
tençSo de ahi ficar, e de mandar d'ahi aoccorro ás praças 
que, investidas pelos austríacos, o precisassem. Galasso 
entfto cbegou-se aos muros de Landsberg, assestou contra 
08 mesmos a artilheria, abriu as trincheiras, e mandou dar 
o assalto, que foi bravamente repellido peba suecos. Orde- 
nou o general outro mais \'igoroso, e os defensores intimi- 

15* 



228 



dados rogaram ao governador que se rendesse; este porém, 
resolvido a comprar a honra com a vida, resistiu até á ul- 
tima, entrando finalmente os imperiaes na cidade, e matando 
e fazendo prisioneira a sua briosa guarnição. A conquista 
de Landsberg animou os austríacos e levou-os a atacar a 
Pomerania. Aqui, contra a sua esperança, foi-lhes a fortuna 
menos favorável, Galasso occiípou, é verdade, Ríbnitz e 
Damgortem, praças de pouca consideraçílo, mas nâo con- 
seguiu tomar Anelam, fortaleza muitissimo importante, si- 
tuada no coração d'aquella provincia, á borda do rio Pene, 
entre Volgast e Stettin, com cuja acquifiiçSio nâo somente 
asseguraria a permanência do seu exercito na Pomerania, 
mas também conservaria em continuo sobresalto todas as 
terras que demoravam entre Stmlsunt e Stetíin, e tomaria 
penoso aos suecos sustentarem-se n'ella unicamente com as 
provisões recebidas pela via do mar. Começou Galasso a 
bombardear Anelam; ao que lhe responderam os seus de- 
fensores com foilissima e bem sustentada opposição; além 
d'Í8so, Baner, com o grosso do exercito, reforçado pelo 
desembarque em Wolgaat de numerosas forças suecas, es- 
tava próximo de Grypesuald, e sem cessar incommodava 
o campo dos imperiaes com atrevidas surpresas. Galasso, 
vendo por um lado crescer as difliculdadea em tomo de si, 
e o grande numero dos contrários, e pelo outro faltarem-lbe 
viveres e o dinheiro que de Vienna esperava para pagar 
as tropas, o que ia causando amiudadas deserções, deter- 
minou aquartclar-se na Marca Nova, e esperar ahi os meios 
de satisfazer os soldos, sem o que nem poderia mover o 
exercito, nem obstar á fuga dos soldados. E>;ta8 foram aa 
segundas operações de Galasso no anno de trinta e sete. 
O eleitor de Saxonia, intimidado pelas victorias dos sue- 
cos, pediu novamente ao imperador que o soccorresse. Co- 
nheceu o conselho imperial a necessidade de attender as 
suas representaçSes, por serem os estados do eleitor ante- 
muraes da Bohemia, e ficar esta, nSo tendo elles auxilio^ 



229 



exposta immediatamente aos ataques do inimigo. Arranja- 
ram-se portanto trczontos mil tlinlers, quo forneceu Hospa- 
nha, pois o erário estava vazio, e enviarain-se a Galasso, 
com ordem de se oppor aos Buecos. Marchou Galasso doa 
seus quartéis no Brunswícl», com parte do exercito contra 
ler; mas o general sueco, nSo se reputando em circum- 
tancias de resistir ás ti'opas reunidas do imperador e da Sa- 
xonia, deixou Verben, e parou entro Damitz e Stettin, com 
o propósito de incommodar, como da outra vez, os contrá- 
rios, fazendo-os voltar aos seus alojamentos e vencendo-os 
assim mais pela fome do que pelo ferro. Os saxonios que 
tinham permanecido junto de Verben, tomaram -a dentro em 
breve, e Galasso, avançando até perto de Dcmmin, tentou 
conquistar esta fortaleza, mas debalde. Ent^o determinou 
ir assentar os quartéis no Brandemburgo, o que effeituou, 
nSo sem ser perseguido pelos suecos, que recebiam fre- 
quentes reforços do seu paiz. 

O que sabemos acerca de D. Duarte n'e8te anno, é, 
segundo a relação do já citado Noé, que invernou com 
o exercito de Galasso no Wurtembergj que, passando por 
alii D. Francisco de Mello, em direcção ao estado de Flan- 
dres, foi a Filipeburgo visitul-o; que o acompanhou pelo 
Rheno, até além de Wermatin; que, ao voltar, o tratou ma- 
gnificamente n'este logar o príncipe Mathtas de Florença; 
que seguiu para a cidade de Praga, onde o marquez de 
Castello Rodrigo o foi buscar para sua casa, e onde foi 
muito bem recebido por sua magestade cesárea, por vários 
principes, e sobretudo pelo grJto-mestre duque de Stadien; 
que, depois disso, partiu com o príncipe Matiiias para o 
exercito de Saxonia, atravessando Dresde incógnito, para 
nãLo assistir aos desregrados banquetes do eleitor, ao qual 
mandou, já fora da cidade, um gentil-homem a cumprimen- 
tai -o em seu nome, do que elle muito se resentiu; e que 
exerceu o seu posto com grande vigilância, coragem e va- 
lor, atacando nas occasiSes opportimaa o inimigo, do que 



230 



deu provas bastantes nos combates de Anelam e Treblesse, 
no meio do fogo, conservando, além d'isBo, a melhor disci- 
plina nas tropas. 

D. António Caetano de Sousa diz ainda o seguinte: tO 
seu valor e talento llie conseguiram glorioso nome, como 
se viu na cidade de Anelam, na Pomerania, que á sua custa 
experimentou os damnos que do príncipe de Florença nâo 
temeu, o que o infante tanto lhe fez sentir, tomando os fos- 
sos, e reductos, com tamanha actividade e perigo tSlo evi- 
dente, que lhe mataram o cavallo em que pelejava, do que 
foi testemunha Galasso*». 

Em mil seiscentos e trinta e oito as operaçfles do gene- 
ral do império reduzem-se a muito pouco. Falto de dinheiro 
e de viveres, com o exercito diminuído por auccessivas de- 
8erçi5e8, n'um paiz completamente destruído, e tendo de 
combater os suecos reforçados pelos aoccorroa que desem- 
barcavam na Pomorania, Galasso eonservou-se noa seus 
quartéis no Brunswich, sem poder tentar enipreza alguma; 
viu, sem se mover, Baner, com tropas recentes, assaltar e 
tomar Volgast e Demmin, e, depois de varias escaramuças 
com o inimigo, que o foi atacar, retirou-sc para Volberg. 

Isto é o que diz Gualdo', de que principalmente noa temos 
servido e serviremos na exposição d'eata8 campanhas. Noé 
por<!'m assevera que D. Duarte estava nos quartéis de in- 
verno, no ducado de Mecklemburgo, em Neustel, na pri- 
meira metade de trinta o oito. Foi d'ahi, segundo o mesmo, 
que elle partiu para Portugal, era vinte e novo de junho, 
obtida licença a quartoze de março do imperador, já então 
Fernando III, e de Galasso^. Não tiveram portanto nenhum 

1 Hist. genecUoffica. 

* Conte Galeazzo Gualdo Priorato, Hiêtoria delU guerre di Ferdi- 
vando II. etc. 

Id. Euíoria univerMal delle guerre dalVanno 1630 tino cUanno 1640. 
Génova. 1648. 8.» 

^ Bib, de Évora, Mbb., 10^, 2, 11, foi. 224, Relação do mesmo acerca 
do infante. 



valor as operações d'e8te anno, e, em todo o caso, D. Ehiarte 
BÓ aesistiu a parte d ellas, isto é, até á epocha da sua par- 
tida. 



A gloria e as honras qne D. Duarte lograra nas guerras 
do iraperio, nSo deixaram de ser acompanliadas de alguns 
dissabores. Parece que lhes deram causa certas censuras 
que fez ao baldado soccorro de Savema, e á marcha dos 
negócios militares, comraunicadas nSo sabemos a quem, e, 
por imprudenciaj» divulgadas, e algumas murmurações acerca 
dos embaixadores hespanhoes, qne elle julgava poderem 
compromettel-o. Isto se deprehende de uma carta, incom- 
pleta no fim, e portanto sem data e assignatura, que lho 
foi dirigida a tal respeito, e que aqui apresentamos quaei 
toda, vertida do castelhano, por a suppormos elucidativa. 

«Faltei, é verdade, á prudência, diz o auctor d'ella, mas 
ntto á minha obrigação de servidor e amigo de vossa ex- 
cellencia, em lhe ter communicado o que soubera de suas 
coisas com tanta nobreza de animo ; porém como as maiores 
mentiras costumara alcançar muito credito, e como na du- 
ração das noticias se tornam mais inaveriguavels, qiiiz 
advertir a vossa excellencia de tudo, e de que pudera tel-o 
feito muitos mezes antes, e o deixara de fazer por esperar 
a vinda do senhor D. Francisco de Mello, a quem, como 
mais domestico de vossa excellencia, tencionava partici- 
pai-©, para que procedesse do modo que julgasse mais con- 
veniente. Vendo entretanto que com a mintia partida não nos 
podiamos encontrar, resolvi-me a cumprir com a obrigaçlo 
de amigo. Tudo que referi a vossa excellencia foi por maior ^ 



232 



e sempre temi raiiito que estes contos chegassem de qual- 
quer modo a Hespanlia. Nâo sei de quem vossa excellencia 
suspeita que os referisse; mas posso assegurar com toda a 
verdade que pessoas de muita consideração e grandes postos 
d'esse exercito falaram d'isto na corte do sereníssimo rei 
de Hungria, d'onde eu sube o mais; no que observei o si- 
lencio correspondente a tudo o que a vossa excellencia se 
deve. Pela minha parte, asseguro-lhe que procederei cora a 
mesma intenção, {josto supplico a voasa excellencia que não 
estime em pouco estas coisas, porque (- grande a sua pes- 
soa, e o seu sangue o que se sabe, para se ver obrigado 
a desculpal-as. 

cKo tocante á carta que vossa excellencia me escreveu 
este verSo do exercito e que me pede lhe remetta, para sa- 
tisfazer com ella a quem disse que não falava bem do que 
alli se passava, basta eu responder que vossa excellencia 
me escreveu que folgaria muito de praticar comigo, visto 
que por cartas o nXo podia como convinha, para me dar 
conta de tudo quanto no exercito occorria; que nílo fazia 
pouco quem procedia n'elle como llie mandavam; e que to- 
dos me desejavam com approvaçâo do meu parecer nos ne- 
gócios. D'e8ta carta nílo vejo que se possa inferir nada 
contra vossa excellencia; e ter eu mostrado este capitulo 
ao senhor conde de Trautsraandorf (era o valido do impe- 
rador), e sua excellencia a sua magestade foi por me haver 
dito o conde que o senhor tenente-general se lhe queixara 
muito de eu ter falado mal com vossa excellencia do seu 
governo, quanto ao soccorro de Saverna, e dizer que vossa 
excellencia lh'o dissera em Sorlach; pelo que me vi obri- 
gado a mostrar ao conde a carta de vossa excellencia, para 
que se conhecesse que o ter eu falado a vossa excellencia 
na matéria procedera do mesmo que vossa excellencia me 
escrevia que tinha que falar-me n'ella, e que afirmava que 
o meu discurso consistia em parecer-me que se podia ter 
fioccorrido a cidade, e em temer muito que, pois o nào fi- 



233 

zeram, menos se soecorresse Dole. Isto (t o que se passou 
exactamente; e maravilho-me que vossa excellencia o es- 
tranhe agora^ teiido-lh'o eu referido em Brisach; o para 
dizer a voesa excellencia a verdade estas matérias aSo 
muito impróprias de pessoas como vossa excellencia e como 
euj e 86 vossa excellencia sabe alguma coisa que se mur- 
mure doa embaixadores, como me diz, contcnto-me de o nilo 
perguntar, porque nada faço que saia da obrigação do meu 
officio; julgue cada um o que quizer; comtanto que vossa 
excellencia esteja certo de que nada me ha de obrigar a 
nâo o servir mui dnveras, tudo o mais o desculparei *». 

Esta carta parece do seu conteúdo que foi oscripta em 
trinta e seis, depois do verão. 

Ha mais cartas que provam andar D. Duarte desgosto- 
Bo, e pretender deixar o serviço; ao que nâo eram extra- 
nhas as intrigas dos ministros hespanhoes era Allemanha. 
A primeira e a segunda sSo-lhe escriptas por Galasso, em 
italiano, e datadas de Pragii, uma a vinte e oito c nutra a 
trinta e um de maio de trinta e sete, e a terceira, na mesma 
lingua, dirige-lh'a JoSo Luiz, marquez Palavicino, com data 
da mesma cidade de quatorze de jtmbo do dito anno. 

A primeira contém, em resumo o seguinte. O imperador 
só chegou a Praga a vinte e seis, diz Galasso, e ainda nSo 
llie pude falar no negocio de vossa excellencia; mas conse- 
gui fazel-o ao conde de Trautamandorf; o qual mo declarou 
que de modo algum se pensava em ter desgostado vossa 
excellencia; que, se vossa excellencia quizesse continuar, 
sua magestade cesárea o levaria a bem; que falaria a sua 
mageatade para assim o communicar a elle Galasso, e que 
entretanto o escrevesse a vossa excellencia. Agradeci-lh'o, 
e respondi que, á vista do zelo e vigilância do vossa ex- 
cellencia, ignorava que motivo de desgosto pudesse ter da- 
do. Tornou-me que nada d' isso &abia; mas que se sentia 



*Bib. da Ajuda, Msb., Misc, vol. xxrvn, foi. 182. 



^34 

qne vossa excellencia partisse, sem antes baver tomado li« 
cença do seu rei; que a casa de vossa excellencia já tinha 
tido pretençSes ao throno, e que vossa excellencia se cha- 
mava príncipe de Portugal. Repliquei-lhe que nada me con- 
stava quanto ao primeiro ponto, e, quanto ao segundo^ que 
ge fazia injusti^^a a vossa excellencia*. 

Na carta de trinta e um de maio diz Galasso a D. Duarte 
que, se fôr do seu gosto continuar a servir effectivamente 
o imperador, poderá dirigir-se ao Elba, onde. está o exer- 
cito de sua magestade cesárea, que elle eommanda, ou fi- 
car no exercito de Picolomini, se o preferir*. 

Na de quatorze de junho escrevelho o marquez Palavi- 
cino, qtic partiu ima gentil-homem levando-lhe o parecer do 
tenente-gfineral, e que vao tSo bem informado do que toca 
a elle D. Duarte, que lhe quer poupar o tédio de o repe- 
tir. Entretanto accrescenta: «Todas as razões obrigam vossa 
excellencia a vir aqui, para se justificar com sua magestade 
6 lhe dar os seus agradecimentos, desenganando ao mesmo 
tempo a opinião publica sinistramente impressionada. A de- 
monstraçílo de partir no principio da campanha prejudicaria 
a decIaraçSo tâo largamente feita pelo imperador a favor 
de vossa excellencia. Nem ha outro remédio para sarar as 
cicatrizes abertas na reputação de vossa excellencia, contra 
a mente de sua magestade, que nâo pode desejar-se mais 
propicia. Se pois vossa excellencia quizer partir, ficará 
maia livre de fazel-o, pondo se superior .•is accusaçSes. Deci- 
dindo entrar n'esta campanha, confiindirá a inveja e cor- 
responderá com prudente gratidão aos bons ofBcios com 
que o senhor Galasso se empenhou, sem reserva e em abo- 
no de vossa excellencia na presença do sua magestade e 
dos senhores ministros. Falou tâo claramente o senhor te- 
nente-general do animo e valor de vossa excellencia que 



' Bib. da Ajuda, Msa-, vol. íxxvu, foi. IM. 
»Id.,foL 144. 



235 

nSo merece ser desacreditado; até para vencer todas as 
difficuldades se offerece por fiador de qualquer empréstimo 
que se encontre, e n*e8te sentido deu particularmente al- 
gims passos. O Perurolli procura um bom partido em Nu- 
remberg á lettra que vossa excellencia tem para Flandres ; 
e o senhor tenente-general assegura todo o auxilio, quando 
vossa excellencia esteja no campo, onde me dizem que 
«e adiará maior commodidade para a bagagem, do que aqui 
ou n'outra parte. Remetto-me ao que de viva voz disser a 
vossa excellencia esse gentil-homem. Reverenceio vossa ex- 
cellencia e rogo ao céo que lhe dê feliz viagem*». 

É pouca a luz que transparece doestes documentos; en- 
tretanto basta para provar, com evidencia, que D. Duarte 
andava desgostoso do serviço; que tencionava retirar-se 
nâo sabemos para onde; que as intrigas dos ministros hea- 
panhoes continuavam a existir; que a inveja pretendia man- 
chai -o com a baba venenosa; e, o que é lisongoiro para a 
sua reputação militar, que tanto o imperador, como o ge- 
neral Galasse, e o auctor da ultima carta, estimavam o seu 
valor e boas qualidades. Tratar-se-hia de deixar de todo o 
serviço e o império, ou apenas de passar do exercito de 
Galasso para o de Picolomini, conforme se poderá julgar 
pela carta de trinta e um do maio? Em tal caso D. Duar- 
te iria talvez servir em Flandres (e a Flandres se allude 
na carta ultima), pois n'este mesmo anno de trinta e sete, 
o governo imperial ordenara a Picolomini, por instancia dos 
ministros hespanhoes em Vienna, que, abandonasse a posição 
do circulo do Rheno, onde com oito mil homens observava 
se as forças dos francezes e de Weimar tentavam lançar-se 
na Franconia, e corresse em auxilio dos hespanhoes n'aquelle 
estado. Haverá ainda ligação entre estes factos e o que se 
narra no fragmento da carta, atraz copiado, acerca da cen- 
sura de D. Duarte á marcha doa negócios militares na cam- 



> Bib. da Ajuda, Mss., Misc, vol. xxivii, foi, 157. 



236 

panha do anno antecedente ? Apesar das probabilidadef* em 
pró da affimativa, dediizidus da matéria, das datas, e da 
collocaçlto doB documentos, nSo nos é possível decidil-o, e 
só o apresentamos como conjectura- 

Nota se também aqui uma coincidência attendi vel ; a morto 
de Fernando 11, acontecida n'este anno, e pouco antes das 
cartAS em questão. Já vimos, historiando a ciiegada de D. 
Duarte a AUemanha, como os representantes de Filippe FV 
envidaram todos os esfon^O!* junto do imperador para que 
elle fosse recebido pela corte de Vienna com menos aucto- 
ridade do que lhe competia, e como ficaram vencidos nas 
suas maléficas diligencias. Ora, emquanto Fernando II 
existiu, D. Duarte parece que sempre obteve o melhor 
acolhimento, pelo menos não achamos indício de desintel- 
ligencia entre elle e o governo imperial. Morre porcra o 
mouarclia allemSo, e logo em seguida complicara-se as coi- 
Bii8, surgem motivos de desgosto, augmentam-se as intrigas, 
pois nunca deixaram de existir, e apparecem as suspeitas 
dos ministros he^^panhoes, porque a casa de Bragança ja ti- 
nha tido pretençSes ao throno, e porque D. Duarte se cha- 
mava príncipe de Portugal. Bem advertimos que tâo pou- 
cos documentos nSo constituem prova, e que outros existirão 
ou existiriam contrários ás nossas presumpçí^es. Ajuizámos 
do que conhecemos; e só notamos a coincidência na ver- 
dade frisante ; mais nada. Entretanto os acontecimentos pos- 
teriores justificaram-a, inlelizmeute. 

Nilo será fora de propósito, antes ligado com o assumpto, 
apresentar aqui o retrato que Schiller nos deixou do falle- 
cido imperador, a quem tanto deveu D. Duarte, e que por 
isso, máo gi'ado aos seus defeitos, merece a estima dos 
portnguezes. 

«Fernando II, diz elle na sua Historia tia tjiwrra dos 
Trinta Anno.% morreu em t^evereiro do mil seiscentos e trinta 
e sete, com cincoenta e nove annos de edade. Durante todo 
o seu reinado nunca depoz a espada, e em dezoito annos 



237 



de luctad e combates nSo teve um bó dia de paz. Comtiido 
era dotado em parte das qualidades necessárias a iim gran- 
de monarclia, e de quasi todas as virtudes que felicitam 
08 povos; porém as suas idcas falsas a respeito dos verda- 
deiros deveres, couverteram-o em instrumento e victima das 
paixSes que se lhe agitavam em torno; e, posto que de 
natureza humano e moigo, tornou-se o oppressor da Alle- 
manha, o inimigo da sua paz, e o flagello da sua epocha. 
Amável nas relações da vida privada, justo e clemente no 
que respeitava á administração dos seus estados, fraco, par- 
cial c apaixonado, como homem politico, reuniu sobre a sua 
cabeça as bençàos dos seus súbditos catliolicos, e as mal- 
^ç5e8 dos seus súbditos protestantes. A historia pinta-noa 
déspotas mais odiosos do que Fernando 11, pnrt-m nenhum 
d'elie3 ateou uma guerra de trinta annos. Para produzir 
este resultado cumpria que a cegueira e a ambição de ura 
8Ó homem estivessem em contacto com os antecedentes fu- 
nestos, e com 08 germens de discórdia que o passado lhe 
legara. Em epochas tranquillas, os defeitos d'este impera- 
dor annullar-se-hiam por falta de alimento; o socego dos 
povos e a uniformidade da» crenças nao teriam occupado a 
sua ambiçlo e funatitimo; porém as faíscas doestas duas 
paixões terríveis, cahindo n'um grande acervo de matérias 
inflammaveis, por força produziriam o incêndio que se es- 
tendeu a toda a Europa». 



238 



VI 



Como eacrevemos^ D. Duarte deixou o exercito a vinte 
e nove de junho de trinta e oito» com permissão do impe- 
rador Fernando III. Essa licença, de data muito anterior, 
tradiizidíi do latim, é do tlieor seguinte: 

Ao illnsti-iasimo sinceramente de nós amado D. Duarte 
de Portugal, nosso parente, capitão supremo das nossas guar- 
das, e coronel. Illuatrissimo amado parente. Muito estimei 
saber pela sua caiia a boa vontade com que determina ser- 
vir, e empregar o seu valor militar no meu serA^iço impe- 
rial, no do sereníssimo rei de Hespanha, e no de toda a 
augustissima casa; e pela digna e bem merecida estimação 
em que o tenlio tido, ninguém pôde duvidar de que me 
tem sido e é muito agradável este serviço j e, havendo res- 
peito a elle, coucedo-lhe livremente a licença de três mezes 
que me pede, para que, acabados os seus negócios em Por- 
tugal, possa voltar era tempo conveniente ao meu exercito 
imperial, certiíicando-o do meu costumado affecto e graçA 
imperial. Dado na nossa imperial cidade do Passaw, a qua- 
torze de março de mil seiscentos e trinta e oito. Fernan- 
do*.. 

Da presente carta conclue-se que D. Duarte confessara 
querer empregar-se no serviço do imperador, do rei de Hes- 
panha e de toda a casa d' Áustria, e que sua magostade 
cesárea declara que o seu sen^iço lhe tinha sido e era muito 
agradável. Taes offerecimentos e confissões de parte a parte 
são como que uma satisfação» mutua, e ligam-se, quanto a 



1 D. António Caetano de Sousa, Hiat. genealógica. 



23U 

nóS; ás dcsíntelligciictaa do anuo anterior. Â redacção, além 
das idéas, assim o persuade. 

Que causas influíram om D. Duarte para vir ao reino ? 
5e estivermos pelo seu depoimento, no processo que lhe in- 
stauraram algum tempo depois de prezo, a sua viagem foi 
motivada por negócios particulares de fazenda, e por causa 
de umas commendas que tinham vagado. 

Para explicarmos esta ultima razão, precisamos recuar 
um pouco a nossa narrativa. Em trinta e seis fallocera em 
Villa Viçosa, no paço ducal, a que voltara, partido o irmSo, 
como fica dito, na prometledora edade de vinte e nove au- 
noB, e em resultado de uma apostema, D. Alexandre, cuja 
amizade o companhia D. Duarte apreciara tanto no trato 
.familiar, e tão longamente, e que a ausência nunca lhe apa- 
ara da memoria. 

Kâo é estaa epocha geralmente assignada á sua morte, que 
BC pôe um anno depois, era dezoito de maio ; porém a conta 
do luto, que o thesoireiro do duque, João de Mello Carri- 
lho, escripturou em vinte c dois de jimho de trinta e seis*, 
obriga-nos a collocal-a n'este anno, o antes d*cste dia, ao 
passo que um recibo assignado por D. Alexandre, em treze 
de março do mesmo anno, de quatro mil cruzados, para 
eerem remettidos a D. Duarte, mostra claramente quo a 
data do seu óbito deve ç^hir entre a de um e de outro do- 
cumento, e quasi com certeza pouco antes da do primeiro. 
Erraram portanto, ao menos quanto ao anno, D. António 
rCaetano de Sousa, e quasi todos os auctores; e dizemos 
r quasi todos, porque nos lembra de algum que traz este suc- 
ceaso também em trinta e seis, além do Noó na sua rclaçSo 
já citada'. 

Fora D. Alexandre bastante débil desde a infância, e 
muitas vezes tremeu pela sua saúde a alma de D. Theodo- 



* Bib. da Ajudii, Mss., Misc, vol. xxxvti, foi. 120 v. 
»Bib. de Évora, Mas., 106, 2, 11, foi. 224. 



240 

sio, o qual, talvez por isso, o destinou á vida ecclesiastica, 
e pára ati eDcaminhou a sua educação. Já o relatamos, 
assim como a mallogi*ada tentativa de elle ser arcebispo de 
Évora, pela morte de D. José de Mello. 

Tinlia-o D. Duarte deixado como seu procurador j e D. 
Alexandre, á liora da morte, em signal da estima que lhe 
consagrava, nomeou-o por herdíiiro. Com o seu falleeimento 
vagaram as commendas de Sajxta Maria de Moreiras, S. 
Thingo de Monsaraz, e Santa Maria da Alagôa, todas da 
ordem de Clirísto, de que fôra provido por cartas de dezoito 
de janeiro de trinta e quatro*, e em que foi apresentíido 
D. Duarte pelo duque seu irmão, mandando se-lhe, em vinte 
e nove de outubro de trinta e sete, tirar as prnvanças em 
Lisboa e Viila Viçosa, e devendo-lhe ser lançado o habito, 
na parte em que servisse em Állemanha, pelos cavalleiroa 
que alii residissem, sem embargo do disposto nos novos de- 
finitorios^. Ignoramos se se fez assim, ou se D. Duarte só 
o tomou dois annos depois, quer fosse em Villa Viçosa, 
quer em Thomar, quando veiu ao reino, como veremos em 
breve ^. Das commendas de Santa Maria de Moreiras, e de 
Santa alaria da Alagôa encontramos cartas de conllrmaçào 
a D. Duarte, de vinte c um de maio de trinta e oito; nâo 
acontece o mesmo a respeito da de S. Thiago de Monsaraz; 
entretanto, consta que ella lhe pertenceu egualmente*. E a 
estas commendas que se refere o depoimento citado, e foram 
ellas portanto, confoiTue o próprio D. Duarte, uma das razSes 
que o obrigaram á sua viagem. As outras deviam ser a^ 
saudades da pátria e dos seus, cujo amor a distancia lhe 
teria engrandecido, e tomar posse da herança que D. Ale- 
xandre lhe deixara, pois D. Francisco Manuel de Mello diz 



1 D. António Caetano de Sousa, HhL íjenealogica. 
^ Arch. Nac. da Torre do Tombo, Habilitiiv'''t!s da ordem de ChrUto. 
3 Bib, de Evoru, Mss., lOS, 2, 11, foi. 228, Protesto do infante con- 
tra o seu processo. 
* Bib. dii Ajudii, Mss., Misc, Yol. iliv, foi. 5. 



241 

precisamente que da dita herança procedeu a sua desgraça*; 
d'onde se conclue quo julga foi ella .i causa ou uma das 
causas de D. Duarte vir a Portugal, visto que d'este facto 
derivou depois a sua principal criminalidade. Para os hes- 
panhoes a sua viagem nasceu de muito differente motivo. 
Segundo D. Nicolau Fernandes de Castro, D. Duarte, in- 
formado da revolta d'Evora, veiu ao reino para tomar parte 
n*ella, sendo falsas as allegaçSes das commendas que ti- 
nham vagado, e do arranjo dos negócios da sua fazenda, 
porque bastava para ísbo uma carta, sem se arriscar a tSLo 
perigosa viagem, e á perda do soldo*. .D*e8tas affirmativas a 
primeira é manifestamente insustentável. Quando D. Duarte 
saliiu de AUemanha, havia tempo mais que sufficiente de 
ahi se conhecer o infeliz resultado das alterações populares 
do Alemtejo, que os hespanhoes, por ser desastroso para 
nós, se apres8ai*iam em divulgar; nem é crivei que D. Duarte, 
em vista da attitude do duque seu írrallo, opposta a ellas, 
qnizesse trilhar caminJio diverso. Nâo diremos o mesmo 
quanto á segunda. Parece-noa também que bastaria uma 
procuração; talvez porém nSo fosse inútil a sua presença 
em Portugal. Quanto á perda do soldo, todos sabem que 
D. Duarte o não recebia. Fr. António Seyner assevera na 
8Ua obra, Historia dtl Icvantamiínfu de Portugal^ publicada 
em Saragoça no anno de mil seiscentos e quarenta e qua- 
tro, que o duque de Bragança mandou vir de AUemanha 
D. Duarte, com pretexto de tomar o habito de Christo, mas, 
conforme os alterados, para lhe communicar os seus proje- 
ctos, e que correu voltara ao império por disfarce. Outros 
avançaram que D. Duarte aproveitara a sua viagem, se é 
que a nSo emprehendera de propósito, para em Hamburgo, 
nas demais cidades hanseaticas, e em Inglaterra negociar 
armamentos e coisas relativas a preparativos da revolução. 



' Tácito português. 

2 Portugal eonvemida con ta razon. 



H. I. D. D. — T. I. 



16 



Meros boatos UDÍcamente. É verdade que D. Duarte esteve 
em Hamburgo, ou na vinda, ou na ida, ou mesmo n*outra 
occaaiâo; é verdade que, entro as epochaa em que deixou 
o exercito, vinte e nove de junho, e em que cbegou a Lis- 
boa, vinte de íjutubrd, lia um inter\'alIo de quasi quatro 
mezes, que cumpre preenelier, ou suppoudo u sua partida 
de Allemanha muito posterior á primeira data, ou qu6 
occupou bastante d'este tempo, quer em viagens, quer de- 
morado, por circumataneias prevnsjtas ou imprevistas, ean 
algum ou algimB logarea do caminho, antes de embarcar; 
é verdade que, á volta para Allemanha, foi a Inglaterra, 
mas, cremos, por simples acaso e de passagem ^, o que tam- 
bém se applica á sua viagem a Hamburgo e ás outras cida- 
des hanseaticas, se, porventura', as visitou. A quasi coinci- 
dência dos acontecimentos, o seu parentesco próximo com o 
duque, as suspeitas, o ódio dos inimigos de Portugal, a con- 
fusão de datas em factos ha muito passados, mais fácil de 
occorrer do que geralmente se cuida, ainda mesmo que a 
malicia lhe seja estranha, tudo isto, ou alguma coisa d'isto, 
deu vulto a circumstaucias que nSo o tinham realmente, e 
levou a acreditar que D. Duarte participara mais ou menos 
da revolução portugucza, embora houvesse muitas provas 
em contrario. 

Nem somente os nossos inimigos julgaram ver na sua 
viagem ao reino um fim occulto. Cadornega também as- 
sim o suppue, mas negando apenas que fosse para a 2>os8e 
daa commendas, sem se fazer cargo de outras quaesquer 
causas^. 

Conservava D. Duarte gravados bem fundo na memo- 
ria oa desgostos que experimentara em Madrid, quando 
por alli transitou para o império, a animosidade do conde- 
duque, os obstáculos levantados pelos ministros hespanhoes 



«Bib. da Ajuda, Msa., Miec, vol. xiivu, foi. 168 e 174. 
2 Ac. da« Sc, Mas., Desoríjpção dt Muapairia ViUa Virosa, 



243 



^m Vieima ao seu recebiraento na corte imperial com as 
bonras de príncipe, que íhe cabiam, e os outros quo, con- 
forme notámos, os mesmos parece terem-lhe movido, al- 
gum tempo depois de servir com gloria e desinteresse o 
monarcha allemão. Por todos esses motivos, e talvez por 
alguns de nós ignorados, entre os quaes se contaria o desejo 
de ver novas terras, nSo quiz D. Duarte voltar a Portugal 
pelo mesmo caminbo, nem entrar na peninsula pela via de 
França ; preferiu aventurar-se aos perigos o incertezas de uma 
viagem do mar, e aos riscos que entUo lhe eram inheren- 
tes, a atravessar os dominios de Fílippe. Com tal propó- 
sito, tomou a posta ató Holknda, e ahi fretou um navio 
que o conduzisse a Lisboa. 

Esta viagem tomou-se notável, nílo por tempestades e 
ventos contrários, que não sabemos se os teve, mau pelo 
encontro de dois navios de corsíu-ios moiros, praga que 
n'aqueUes tempos, e ainda nSo muito longe dos nossos, 
infestíiva atrevidamente as costas occidentnes e meridio- 
naes da Europa, com vergonha e prejuízo notável das na- 
ç8es que as habitavam. Mal os dois corsários avistaram a 
«mbarc^içâo de D, Duarte, viraram para ella o rumo, e in- 
veetiram-a com ousadia e presteza. Preparara D. Duarte 
tudo para a peleja, e, costumado ás fúrias da guerra, op- 
poz-lhes tanto valor e tSo bem combinada resistência, que 
OB moiros, perdida a esperança com que vinham seguros, 
julgaram melhor retirar-se, emquanto n3L0 expcrimeintavam 
maia considerável destroço. Da familía de D. Duarte fi- 
caram algumas pessoas mortas e outras feridas. Foi uma 
doestas o seu copeiro, que muito estimava por ser habilía- 
8Ímo no olíicio. Achava-se elle junto do amo, e, vendo-o 
tfio exposto, nao só pelo logar que occupava, mas também 
pela farda escarlate que vestia, pediu-lbe que se retirasse 
para fugir ao alvo, que para alli faziam os inimigos. Nâo 
o attendeu D. Duarte, e protegeu-lhe a fortuna o atrevi- 
mento j nâo assim ao pobre rapaz, pois foi colhido, dentro 

16* 




2*4 



em pouco, por uma bala que llie levou uma das pernas*. 
As acertadas disposições de D. Duarte e ao aeu grande 
esforço se deveu tSo feliz victoria, distinguindo -se eg^al- 
mente no combate Francisco do Mello, fidalgo de Évora, . 
o melbor executor das suas ordens. Este acontecimento pas*^| 
80u-se perto da barra de Lisboa. Dispoz o destino que elle^^ 
entrelaçasse ás gloriosas e viridentcs palmas, ganhas na 
guerra d'Alleuianlia, outros lauréis, e que, duas vezes triain» 
pbantCj fundeasse nas aguas do Tejo, era frente da capital 
doB reis seus antepassados. 



VII 



Qual era o estado em que D. Duarte vinlia encontrar 
nosso paiz, depois de quatro annos de ausência? 

A quatorze de dezembro de mil seiscentos e trinta e 
quatro, isto é, precisamente quando elle acabava de chegar 
á corte de Vienna, da visita que fizera ao rei de Hungria 
em Stuttgart, entrou em Portugal D. Margarida de Saboya, 
duqucza de Mautua, viuva do duque Francisco Gonzaga, 
destinada por Filippe IV para govemal-o, nomeaçílo que 
8Ó se realisara pela morte do infante D. Carlos, irmSo 
d'el-rei, primeiramente escolhido para tão alto cargo'. Se- 
guiam-a o marquez de La Pucbla e outros fidalgos hes- 
panhoes. Chegando a Elvas, o duque de Bragança man- 
dou cumprimental-a pelo seu apoaentador-mór, Francisco 
de Sousa Coutinho, com tenção de depois a cumprimen- 

íAc. daa Sc, Msa., António de Oliveira Cadomega, DeecrípçSode 
tua pátria Vilta Viçosa. 
í Bib. da Ajuda, Mas., Regimentoij etc. 



4 



^45 



tar pessoalmente, o que nSo executou, porque a duqueza, 
pela altivez com que vinlia, e por se escandalisar de ©lie 
mesmo a nio ir ver^ tratou o sea enviado pouco agradavel- 
mente. Em janeiro do anno seguinte, Miguel de Vascon- 
cellos^ o portuguez renegado e oppressor da sua patría, to- 
mou posse do logar de secretario de estado. 

A duqueza vice-rainha era prima-coirmâ de Filippe IV, 
por 8cr filha da infanta D. Cathanna, filha de Filippe II, 
a qual casou com Carlos Manuel, duque de Saboya, e por 
nSo se ligar ao soberano, no grau de parentesco exigido naa 
Cortes de Thomar c ser mulher, a sua nomeação contraria- 
"va as. Além d^isso, os fidalgos hespanhoes que a acompa- 
nhavam sentaram-se nos nossos tribunaes com violação dos 
foros do reino, e Miguel de Vasconcellos, geralmente odia- 
do, attrahiu logo sobre si o escarneo e a cólera dos nobres, 

cao que respondeu aconselhando á corte de Madrid as medi- 
das mais vexatórias contra elles. Vieram portanto estes trea 
novos motivos de descontentamento aggregar-se aos antigos 
« augraentíir, de modo considerável, o fermento de uma 
revolução, que existia em todos os ânimos e que nSLo podia 
tardar. 

E essa revoluçSo era procurada e desejada pelo próprio 
governo hespanhoL O seu propósito consistia em exasperar 
de tal maneira o povo portuguez, por meio de oppressSes 
continuas, que o forçasse a um levantamento contra os seus 
tyrannos, com o que lhe daria occasiâo de adoptar medidas 
enérgicas e repressivas, e de acabar por uma vez com a au- 
tonomia do paiz. lucorainodava-o ainda essa fraca sombra 
de independência, e convinha extinguil-a. Portugal deixava 
de ser um reino unido á llespanlia, o baixava á classe in- 
ferior das varias provincias da monarchia. Para tâo infame 
projecto onde se encontrariam intermediários mais idóneos 

' do que Diogo Soares, secretario de estado de I*ortugal em 
Madrid, e o secretario de estado junto da duqueza de Man- 
tua, Miguel de Vaaconcelloa? 



24ÍÍ 



O primeiro expediente que adoptou o governo usurpador 
foi carregar a nação de tributos, ainda mais do que já es- 
tava, sem que o fructo de tio pesadas exacçoes se empre- 
gasse em obras de utilidade publica para o reino ou na de- 
feza das colónias, o que produziu geraes e frequentes quei- 
xas. Ficai-am sardos a estas vozes os oppressores, e os po- 
vos, de accordo oom os magistrados, ou se negaram ao pa- 
gamento, 011 o protrahiram fom disfarces. Sem se assus- 
tarem de tal npposiçao, nem hesitarem no caminho que 
haviam encetado, crearam no>*os recursos para ob\'iar aos 
inconvenientes que surgiam, e, um dVlles, u do registo 
dos pescadorcH, suscitou um^ timiulto violento da parte 
dos opprimidos contra D. Francisco de Toledo, comman- 
dante dos presidios liespaulioes, e encarregíido de o pôr 
em execução. A experiência ia sortindo bom oíTelto, por- 
que aos vexames respondia a resistência popular, e as- 
sim se preparava o modo de subjugar os mais ferrenhos 
adversários do?i projectos imificadorn» do conde-du([ue do 
Clivares. Deu se portanto outro passo, e maia decisivo: 
8ubftt.ituiu-sc a todos os tributos novos: sal, real d' agua, 
augnionto de sizas, um uiiíco representado pela eomma 
de quinhentos mil cruzados, que as camarás, entenden- 
do -se com os corregedores das comarcas lançariam e co- 
brariam como o julgassem [melhor. Dobravam-se as con- 
tribuiçSes que o mísero povo já pagava, as quaes ascen- 
diam a egual somma, e subiriam por esta medida inqua- 
liticavel a um milhão de cruzados, oom maior vantagem 
do governo hespanhol, porque os tributos novos, por mais 
carregados que fossem, nunca chegariam á quantia do res- 
gate. A execução do tão odioso projecto fez rebentar a 
revolta de Évora. Hcapanífa estava satisfeita; mas como 
a ambiçSo e a fortuna cegain os tyramioa! Essa explosão 
popular nâo era mais do que o preludio de mil seiscentos 
e quarenta, ou a aurora da emancipação da pátria. 

A escusa da camará de Évora, e a attitude enérgica do 



247 



juiz do povo, Sessinando Rodrigues, principiaram a insor- 
reiçfto. Tanto este como aqiicUa recusaram acceitar as or- 
dens do governi); e as ameaças do seu representante, 
o corregedor André de Moraes Sarmento, contra o juiz, 
acabaram por sublevar o povo, que invadiu timiultuosa- 
mente a eusa do magistrado, arrombando âs pctrtas, e obri- 
gando-o a fiigir, bem contente de escapar com vida, ao 
mesmo tempo (que lovava em triumpho Sezinando Rodri- 
gues e o seu escrivão. A turba vencedora e desordenada, 
dominando a cidade, porque as justiças haviam também 
fugido, saqueou os eartorio» publicofi, soltou os presos, e 
commetteu outros excessos, como em todos its tempos cos- 
timia, em casos idênticos. Debalde tentaram os nobres apa- 
ziguar a revolta, nãn por falta de ódio ao domínio •♦stran- 
geiro, mas por ella nâo ter sido preparada, nem ter chefe, 
nem plano, nem probabilidade de êxito favorável, antes, 
de perseguição por parte de Hespanha, o que seria uma 
verdadeira desgraça, que viria aggravnr as já, existentes. 
NSo pensavam d'o8ta maneira os populares; confiavam nas 
suas forças, 4>u, melhor, nio calculavam o futuro, cegos 
pela paíxUo que os arrastava. Seria inútil, por conseguinte, 
incutir 111 es moderação, e muito mais os fidalgos, pois os 
julgavam suspeitos. Os precedentes de mil quinhentos e 
oitenta prejudicavam -os, e mesmo o papel de pacificado- 
res e medianeiros entre os levantados o o governo, que 
tomaram sobre si, para reprimir as represálias da corte 
d© Madrid, lhes attrahia as desconfianças. Em vez, por- 
tanto, de 81? aquietar com as sensatas palavras da no- 
breza, o povo injuriou-a, e, crescendo o tijmulto com o 
cahir da noite, assaltou as casaa doa magistrados e dos 
vereadores, quebrou os vidros do paço do arcebispo, e for- 
çou o próprio palácio do conde de Basto. De Évora, a 
insiirreiç&o propagou-se a parte do paiz, lavrando por todo 
o Alemtejo, com excepçSo de Elvas e Moura, e o Algar- 
ve, o Porto, Santarém, Abrantes, Vianna, e Tancos maai- 



248 

feataram-se mais ou menoa ous&íla o abertamente contra 
os tributos. Os ânimos et^tavam mais dispostos do que se 
penaava para um levantamento geral, e só esperavam oc- 
casiâo opportima e iim clicfe, que, obedecendo a plano de 
antemão assentado, apiuveltasse e reunisse tantos ele- 
mentos dispersos. Villa Viçosa, c lia quem diga que tam- 
bém outros logare«, chegou a acclamar o duque D. João 
rei; e até se afliinna que D. António Mascarenhas foi á ca- 
pital do iUemtejo do propósito para aconselhar aos insur- 
gidos que nâo desistiasein do seu intento, e que para d'elle 
conseguirem bom reaidtado pedis.^em amparo á casa de 
Bragança*. Se assim foi^ nâo sortiram effeito algum cg 
seus conselhos. 

Gom<i nau agradassem ao duque estas pravas do enthu- 
siasmo popular, procurou annullal-as; e em Villa Viçosa, 
mandou íjahir e percorrer os sítios principaes seu filho 
primogénito, D. Theodosio, então de três annos apenas, o 
que nâo tez em pessoa por so achar enfermo, se e que o 
nSo fingiu, jtara nâo exeitar maia o povo com a sua pre- 
sença. O negocio, porém, era muito serio, e não bastava 
ao governo bespanliol, já doaoontiado c agora posto em so- 
bresalto coiu tamaiiiha novidado, esta fraca demonstração 
dô obediência; apressuu-se por conseguinte o duque em 
lhe dar outra melhor e mais convincente; e, como nâo 
estivesse u'es3e tempo em Madrid nem D. Francisco de 
Mello, occupado no grave posto ãv plenipotenciário na 
junta da paz universal em Colónia, que costumava acudir 
aos seus negócios, ou por si mesmo, uu com a sua aucto- 
ridade, nem o seu residente Francisco de Sousa Coutinho, 
que viera a Villa Viçosa por motivos particulares, antes, 
eó o agente António Pereira da Cunha, depois secretario 
de guerra, escolheu o duque ao nosso celebre escriptor D. 



^ Nicolau da Maia de Azevedo, Rdação de tudo o que passou na . . . 
acokmação do,., rei D. João IV. . . Liaboa. (1641). 



249 

Francisco Manuel de Mello, que residia em Hespanha, com 
grandes créditos na milicía e nas lettras, para tratar d'esta 
matéria, de interesse capital á sua casa, cuja sorte ficaria 
L<íompromettida, se elle nSa fosse jidgado li\Te de qual- 
quer interferência nas alterações d' Évora. E tomavam-se 
necessárias tantas cautellas, pois, segundo o mesmo D. 
Francisco Manuel de Mello, a era este o maior negocio em 
que a dita casa se vira depois da allieiação do reino, por- 
que justificar-se com Ftlipp(í IV vinha a ser n'aquelIo 
tempo a coisa mais importante, e porque nâo faltavam a 
D. JoZlo na corte de Madrid muitos emulos, muitos fiscaes 
e muitos olheiros para suas acçi5es»*. Foi importante o ser- 
viço que n'eata occasião D. Francisco Manuel de Mello 
prestou ao duque c a PortujL,''al , porque, diz elle, com arte 
e destreza, jarretou «a indignaçílo e a malícia de tEo bra- 
vos monstros, como os ministros castelhanos, quando recua- 
vam i>ara remetter mais furioso» contra a real casa de Bra- 
gança e contra o reino»*. 

A revolta de Évora ao principio nSo inquietou o con- 
de-duque; a propagação do contagio e os meios baldados 
para o debellarem fizeram, porém, com que elle abrisse os 
olhos e considerasse a gravidade da situaçilo ; nSo obstan- 
te, confiado no seu poder, sorriu-se com a esperjmça de 
lograr doesta vez a completa sujeição do reino. Mandou a 
Évora diversos emissários, sempre inutilmente, o o ul- 
timo, o conde de Linhares, em cuja companhia veiu o 
mesmo D. Francisco Manuel de Mello, provocou com a sua 
presença um novo motim, a ponto de ser obrigado pela 
multidão, que lhe cercou a casa, a sahitr para Lisboa. 

Entretanto o valido de FiHppe IV, temeroso de tSo es- 
tranhos e prejudiciaes successos, determinara que se appro- 
ximassem as tropas hespanholas da fronteira. Pelo lado do 



1 Bib. Nac., Mm., Memorial a D. Jaão IV, do mesmo. 



250 

Alemtejo entrou o exercito da Ciuitabna, commandado pelo 
duque de Bejar, e os coiraceiroe, arcabuzeiros e drag3e« 
de Badajoz, ás ordens do duque de Nochera, e do lado do 
Algarve a gente de pé e de cavullo tia Andaluzia, capita- 
neada pelo duque de Medina Sidónia, e pelo marquez d© 
Val-Paraizo. Ordenou ao mesmo tempo o governo de Ma- 
drid que se guarnecessem os eastellos do reino, e que a 
nobreza de Portugal, da Mancha e da Estremadura, com 
a cavallaria daí ordens militares e os terços de Guipuscoa^ 
e a infanteria, artilheria e cavallaria da« praçaa da raia 
pegassem em armas. Também receberam aviso para 99 
aperceberem o capitSo-general de Castella a Velha, o du- 
que de Bragança, o governador da C<»nmha, e o vice-rei 
da Galliza. Tamimbos preparativos bellicos eram uma amea- 
ça á nação inteira. A sombra de tSo imjjonentes forças aa 
justiças fizeram o seu officin, e o fogo da revolução apa- 
gou-se eora o sangue d'algimias victimas, verdadeiros mar- 
tyres dn pátria. Além dos infelizes que subiram ao cada- 
falso, muitos gemeram amarrados aos ivmos das galés; nem 
parou aqui a vingança dos dominadores: as terras occupa- 
das foram tratadas como paiz inimigo, e as tropas hespa- 
nholas reeolheram-se carregadas de despojos, depois de 
terem praticado as maiores ^ntdencias c licenciosidadee; 
bastando ponderar que somente no Algarve se metteram 
seis mil moldados. Évora ficou obrigada á restituiçlo do» 
impostos c a pagar as despezas da alçada que por causa 
dos tumultos ^e nomeara, e as juntas executivas creada» em 
Badajoz e Ayamonte para vigiarem os acontecimentos coo- 
tinuaram a funccionar, posto que pacificado o reino. 

AnniqtiiladoB assim os revoltosos, tratou o governo hes- 
panhol de ver se annlquilava também o paiz, a fim de con- 
seguir a unificação da monarchia, como adeante diremos. 

Tal era a situação em que D. Duarte vinha encontrar 
Portugal ao tomar de Allemanha. 



251 



VIII 



egado D. Duart^^ a Lisboa, no meemo dia, que foi 
"vinte de outubro, dia de Santa Iria, paasoii a Aldeia Gal- 
dirigiu-se a ViUa Viçosa n'iima liteira, acMjmpanbado 
de Bcus creadoa. 

Com que alvoroço nSo pizaria fA\e novamente o solo da 
pátria! Com que alegina, misturada de docês lagrimas, nãt» 
tomaria a ver aquello» sitíos tão seus conliecidos desde a 
infância, ainda mesmo, apesar do CBpesso véo de trovaB que 
08 cobriam, porqu*:, quando entrou cm Villa Viçosa, já 
eram dez horas da noite ! Ao avistar o palácio ducal como 
lhe pidajiria agitado o coração dentro do peito! Mas chega, 
e acha as portas fechadas. Manda bater rijamente ; acodem 
uns moços que dormiam junto dVdla», uns vãos aonde fi- 
cavam as copas, e que, de manhã, varriam as salas e apo- 
B de fora*, e, sem abrir, extranham quo a taes ho- 
e de tal modo, 8w perturbe o socego de tâo nobre 
morada. Nisto, entre a« vozes, D. Duarte descobre uma 
quo lhe era familiar, a do preto Niwdau de Bragança, e 
chama-o pelo seu nt^me, e pede que não bc enfadem c abram, 
que é cUc. Rccouhecem-lhe a fala; franqueiam as portas; 
cercani-o; e acolhera a sua chegada com palavi-as de ale- 
gria. Ao ruído correm outroB ereados; e cresce o riunor de 
maneira, que o duque o ouve e pergunta qual o motivo. 
Quão grande nSo seria o seu contentíimentu ao saber que 
era D, Duarte! Escutal-o; levantar- se da cama e correr ao 

1 Ac daa Sc, Msb., António dOlíveira Cadornega, Deõcripção de 
tua pairia VUla Viçota. 



252 

'vjiea eneoDtro, coberto com uma capa, foi um só instante. 
Já se divulga com a maiur rapidez por tod^ n paço a faus- 
ta novidade, e a duqueza, e toda a família, apressam -se 
a festejal-o; já se cgp.illui do paço pela villa, e, posto fosse 
adeantada a hora, acodem ob fidalgos, e mais gente nobre 
e principal, para o cumprimentarem, até que, d meia noite, 
D. Duarte se recolhe ao seu antigo quarto a descançar. 

No meio de tantos regosijos, a falta de seu irmão D. 
Alexandre vinha entenebrecer a alma do recém chegado 
de tristes lembranças, porque fora muito amigo d'elle. 
Surprendidít pela noticia da sua morte, nos trabalhos da 
guerriíj D. Duarte pagara-lhe entSo <» devido tributo de 
dí3r fraterna *; entretanto agora os logares, onde tinham vi- 
vido juntos na maior convivência e amizade, reabriram.- 
Ihe de certo a chaga profunda, que o tempo ainda nâo con- 
seguira fechar de todo. Mas a alegria com que o recebe- 
ram, e a que teve de rever os pátrios lares, afugentaram 
em breve essa nuvem de tristeza para aubstituil-a por 
outros pensamentos, já suaves, já cheios de melancholia 
e de saudade, A larga e querida tapada tomou a admirar, 
mais galhardo do que outr'ora, o seu nobre cavalleiro e o 
seu bravo monteador; os cuidados jardins, onde tantas ve- 
zes passeiara, sem flores, e com as arvores meio despidas 
de folhas, por ser no outono, posto que, ainda assim mes- 
mo, formosos e ridentes, viram-o passeiar triste e pensa- 
tivo, recordando os seus amores e sonhos da juventude; e 
os túmidos de seus pães, onde ajoelliou contricto, absorto 
nos pensauientos do Deus, no pó da vida, e nas memorias 
do passado, ouviram-llie, entremeiadas de 8olu«,^os, as ora- 
çSes próprias de uma alma tSo amoravel e religiosa. 

Nem de certo lhe esqueceu a formosa capella dos paços du- 
caes, que Lhe evocaria tantas e tantas recordações; e como? 



• Bib. de Évora, Msb., lOG, 2, 11, fot. 224, Relação de Noé acerca 
do infante. 



253 



ae até nos distantes paizcs de Allcmanlia, e a braços com 
o fedigoso lidar das armas, se lembrou d'ella? Militando 
nos confins da França, pelo lado da Lorena, deu-se o caso 
de alguns soldados do exercito imperial entrarem n'uiiia 
egreja e quebrarem o caixão onde estava o martyr S. Gan- 
dulfo, de que o povo da terra era muito devoto, espalhando- 
Ihe irreverentemente os ossos pelo chão. Não poude soffrer 
o animo de D. Duarte sacrilégio tamanho; juntou-os; reco- 
ihcu-os; e, postos n'uma preciosa Ciiixa, trouxe-os cornsigo^ 
e depoaitou-os na capclla*: rico despojo das suas campa- 
nhas; presente digno da sua piedade! 

Assim gastaria elle entre recordações e festas os poucos 
diaB que residiu na corte dos duques de Bragança; pelo 
menos assim o imaginamos; porém no que mais st^ entre- 
teve, foi sem duvida em responder, a cada instiuite, ás mil 
perguntaa de D. Jo5o, de D. Luiza, e dos parentes, ami- 
gos, e conhecidos, que lho pediriam novas de suas longin- 
qxuis viagens por tantos paizes estrangeiros, dos homens 
notáveis otm que tratara, dos perigos a que se expusera, e 
das campaulms em que tínlta pelejado, passatempo sempro 
agradável, sobretudo quand<j a narrativa sahe de lábios 
que so estimam e é ouvida com os ouvidos c o c<>ração. D. 
Duarte, pelo seu lado, nSo se cançaria de indagar tudo 
quanto occorrera na «na ausência, qtier na corte ducal, 
quer no reino. Devia vir sequioso de noticias verdadeiras 
e circurnstanciadas do que mal soubera por cartas, ou por 
boatos deturpados adrede pelos nossos inimigos: das alte- 
raçfles de Évora, do papel quo D. Joiío n'ellas represen- 
tara, das consequências quo d'aln adviriam á CAsa, do es- 
tado em que se achava o paiz, das esperanças que havia 
de sacudir o jugo estranho, que o aviltava, e da probabi- 
lidade maia ou menos distante de serem reconhecidos em- 
fim 08 direitos da sua famitia ao throno de Portugal. 

iBib. de Évora, Mss., lOfi, 2, 11, foi. 224, Relação do P-« Storr 
icerca do infante. 



254 

Concluídos 08 negócios da sua fazenda, e tendo ido a 
Thomar, onde o encontramos poucas dias depois de che- 
gado, ainda no mez de outubro *, segundo é de crer, por 
causa do nc^gocio das conamendas, teve D. Duarte que dei- 
xar Vílla Viçosa, e no dia vinte e três de novembro disse 
adeus á casa fraterna o a todos quantos n'ella estimava, 
dirigindo- se a Lisboa, com tenção de alcançar ainda n^este 
porto o navio em que viera, que estava para partir, e dô 
embarcar iraniediatamcnte. E com tanta pressa o tez que 
nem esperou o nascimento de sua sobrinha D. Cathanna, 
(futura rainha de Inglaterra pelo casamento com Carlos II), 
íacto succedido d*ahi a dois dias, e que o duque parti<â- 
pou logo no começo de dezembro ao uinão *, que ainda 
esperava em Lisboa a sabida de navio, porque^ em con- 
sequência do descuido de ura seu cn-ado, já nào encontrara 
o outro. Conta Cadoniega, ti*ntand(> da partida de D. Dufirte 
de Vílla Viçosa, que deixou aos cuidados do duque o seu 
copeiro, já salvn da peloirada, e que levou comsigo um 
bom barbeiro, para nãn «e sangrar com balestilha, como 
costumavam em Allemaiiba, por assim se praticar cm Por- 
tugal cura os quadrúpedes^. 

O propósito de D. Duarte, claro se colhe do que fica 
dito, era fugir a corte e as communicaçSes, em geral. Ao 
chegar, seguiu no mesmo dia para Vi lia Viçosa, ignora- 
mos se diníctnmente da (^*mbarcaç{lo quo o trouxera, ou 
se depois do entrar na cidade, podendo bem ser que se 
realisasse a primeira hypothese. Ao tomar a Allcmanha, 
calculou o tempo da partida, e só abandonou Villa Vi- 
çosa, quando o navio estava quasi a dar á vela, tudo le- 
vado do desejo de níio se demorar em terra, onde só per- 
maneceu o menos possivel e casualmente, O estado do rei- 



iBib. lia Ajuda, Mas-, Miac, vol. xliv, foi, 157. 

2 Id., foi. 159. 

^ Ac. dae Sc, Mas., Deacripção de »na pátria Vílla Viçosa. 



255 



I 

■ 

I 

■ 
I 



que esboçámos, levou o a adoptar esto procedimento. A 
aobertmia da duqueza de Mantua, cujo trato já o duque 
evitara quando ella passou por Elvas, entrando em Portu- 
gal; o ódio do conde-duquf à família de Bragança, e mes- 
mo á sua pessoa, manifestado por tantos modos; a amizade 
de Miguel de Vaaconccllos, ministro omnipotente nas nos- 
sas coisas, que D. Joíío desejava conservar, como amparo, 
contra esse ódio ♦■m tempos tâo calamitosos; o descontenta- 
mento de muitos nobres contra o mesmo ministro ; aa espe- 
ranças que a sua presença podia despertar entre elles e 
entre o povo; as suspeitas que d'ahi conceberiam o gover- 
no de Lisboa e o de Madrid; todos estes motivos obriga- 
vam-o a nâo se demorar na capital, e a esquivar quaes- 
quer entrevistas ou compromissos. Nâo queria vèr ninguém, 
nem mesmo a duqueza Margarida, disse elle ao irmão em 
Villa Viçosa; mas este advertiu-ltie que Miguel de Vascon- 
ccllos se mostrava miuto affeí coado e muito amigo d'ellc 
duque, por saber que, instado para se queixar du sua ad- 
ministração a Filippe IV, se escusara, pelo que se o procu- 
rasse, não devia deixjir de recebel-o *. 

Os temores de D. Duarte nSd efu*eciíim Je fundamento. 
A sua vinda, assevera Fr. Rapkat4 de Jesus, p»»ii alerta o 
valido do Filippi' l\^] i\ seita dos sebastianistas, expres- 
são eloqiiunte da Kauda<le de melhores tempos, o anceio de 
recuperar a independência, a qual engrossava ciula vez mais 
com os descontentes, e ainda então era razoável, porque 
ainda podia existir, conforme a bú da natureza, o objecto 
da sua crença, a seita dos sebastianistas, que, vendo pró- 
ximo o termo fatal, imposto por essa lei, procui*ava, para 
muitos, encamar-se n' outra personalidade viva, aproveitou 
o ensejo, e declarou á bocca ebeia, que D. Duarte fôra en- 
viado expressamente pelo Encoberto, sob cujo nome alguém 

> Bib. de Évora, Msa., 106, 2, 11, foi. 228, Proteeto do infante con- 
tra o seu processo. 
2 Bib. Nac, Mas., Vida d'el-rei D. João IV. 



256 

começava a divisar o duque de Bragança; porque cuin* 
pre saber-se que por esse tempo, ou pouco depois, os com- 
mentadores das propbecías de Bandarra, julgavam achar 
allusSo a D. Duarte nos seguintes versos do oráculo popu- 
lar: 

Este rei tem um irmíLo 
Bom cupitão; 



e no outro: 



N2o se sabe sua írraandAde; 



o que, no seu entender, significava que eram tSo amigos 
o duque c elle, quo não havia pala%Ta3 para exprimil-o 
perfeitamente; emrim a poesia, o desafogo dos grandes 
sentimentos nacionaes, soltou a voz congratulando-se da 
sua vinda e pedindo lhe que ficasse no reino, como se moe- 
tra d' estas significativas estrophes: 

Âppareceis na pátria, saudosa, 
Depois de quasi um lustro, escondido, 
Como entre nuvens sol, que, apparecido, 
Faz a manha mais fresca e mais formosa. 



Das gentes sois agora o desejado, 
Bom grado ao vator vosso e á vossa fama, 
Que, publicada ao mundo, elle vos chama, 
Para vos dar os bens que tem negado. 

Da pátria foi rogado 
Camillo, e, para vir do aeu desterro, 
Com honras confessar lhe fez seu erro. 

A vossa, a seu esemplo, 
Como cila throno deu, vos daiá templo. 

Olhae, príncipe meu, que a crueldade 
Que avezou beber sangue, e assim se cria, 
Chega a por-se em altar por tyrannia. 



257 

Só 08 Bceptroa de amor aâo de vordade. 

Se isto V08 persuade. 
No reino portuguez tendes empreza, 
Na casa em que uasceelea grande alteza'. 



Niio toi esta poesia a unic^i compiiÈ^ição feita ao nosso bio 
grapLado, c|Uando cntEo esteve em Portugal; de outra sí»- 
bemgs, escripta por D. Franciscu Manuel de Mello, inedítn 
assim como a precedonte, e que se intittdava: Elogio ao se- 
nhor infante D. Duarte, quando segunda vez st^ praiyarava 
para a jornada de Alhmanha. Íí'e8ta obra o illiiBtre escri- 
ptor levou em viata imitar o pauegyrico de JoSo dn Bar- 
ros á inf;mta D. Maria*. Se n'ella se eucoutrava alguma nl- 
lusâo a ficar D. Duarte no reino, é o que nSo podemos di 
zer; nunca a vimos. 

A mais subiram poróni as manifestaçSes de amor e en« 
thueiasmo a favor do iniiãí> d*t duque de Bragjmçu; houve 
até quem em nome da salvação publica lhe offereceese a 
coroa, se T). Jftilo a não qiuzeese. 

«Km novembro de mil aeisceutos e trinta e oito, escreve 
Nicolau da Maia de Azevedo, veiu D. Duarte de Allema- 
nba a Lisboa, e foi aposentado por D. Francisco de Faro 
na quinta de seu 80gi*o, Fninciísco Soares; e, como se oc- 
cultou ás vistas, nenhum fidalg*» houve que lhe pudesse fa- 
lar. Porém D. António Míujcarenbas, tanto que soube da 
mia cbegada, levado do grande amor, com que venerava a 
casa de Bragança, e do zelo da pátria, em que, desde os 
primeiros annos, procurou sempre imitar a seu pae, D. Nuno 
Mascarenhas, fez muitas diligencias pelo ver, e, alcançada 
licença, lhe deu conta das iusotfinveis calíimidadee que este 
reino padecia; procurou persiiadil-o a que nSo se fosse para 

1 Arch. Nac. da Torre do Tomk), Mss., uum. 2121, Livro com o 
titulo : DUcurto» cpapà* vários polilico» impressos e mamucriploay que 
parece foi de D. Francisco Manuel de Mello. 

^ Innocencio Francisco da Silva, Diccionario bihliograjphico, 

B. I. D. D. — T. I. 17 



258 



que, 
coi^H 



Allemanha, era tempo que o seu valor devia emprej 
em oonsef^ir a liberdade da pátria, e restitiur ao duque, 
seu ímiào, o seeptro, que por tantos títulos llie era devidi 
Assegurou lhe que a nobreza de Portugal estava descoí 
tente, c nomeou-lhc alguns fidalgos que, de todo o corai 
como verdadeiros portuguezes, sh haviam deliberado a sa- 
cudir o jugo de Castella, fimdando a esperança de tão he 
mica cmpreza no amparo da excelsa casa de Bragança, 
Lembrou-lhe que este amor e este zelo herdara de si 
maiores; pois já seu pae, D. Nuno Mascarenhas, fora 
ViUa Viç<j5a, no anno de mil seiscentos e dezesete, em qi 
ao porto de Lisboa veia a frota das índias, s6 com 
de persuadir ao duque D. Theodosio, a que se lembraa 
do mortal aggravo que cl -rei de Castella lhe fazia em Ihi 
UbUi'par o reino, de que elle era legitimo successor; e qm 
a isto respondera que iiSo era ainda chegada a hora da rci 
tauraçâtj de Portugal. Lembrou lhe tíimbem que o ajuor 
o zelo da pátria o inquietavam de tal maneira, que, no anui 
de mil seiscentos e trinta e sete, quando foi a alteração 
Aicmteiu, fora a Évora, a admoestar aos cabeças d^aquelli 
parcialidade que nsai desistissem do começado, e que, p< 
que a empreza tivesse bom sucecaso, pedissem iuupaix) 
Ciwa de Bragançji. Emíim discorreu sobre a matéria com 
tal atifecto, que fez grandissimo abalo no coracSo d'e8to prin 
cipe. E D. Francisco de Faro, encontrando a Jorge de Mello, 
llie rogou que fosse visitar ao seulior D. Duarte, o que ell 
fez logo, e, tanto que chegou a ver-se em sua presença, Ui 
disse: Senhor, onde se vae vossa excellencia, quando o r 
está lutando com as ondas de um pego de continuas vexa: 
ç3c8, e quando el-rci de Castella, em vingança do desgost 
que lhe deu a aiteraçào de Évora, noa quer aniquilar o' 
reduzir á mesma infelicidade de Galliza? O duque é o le- 
gitimo rei de Portugal; «e elle nSo quizer ncceitíir o si 
ptro, accelte-o vossa excellcncia, que nós saberemos síicri- 
ficar a vida cm sua defeza. Á isto respondeu o senhor D. 





259 






Diuirtc, que Deus ordenaria as coisas como melhor nos ca- 
tlvCBse a todoft, e que, offereccndo-ae occasiâo, viria de oude 
quer que se achasse, e nJlo nos faltaria com aeu amparo» *. 

D. Frfincisco Manuel de Mello, o terceiro conde da Eri- 
ceira, D. António Caetano de Sousa c oa nossos modernos 
historiadores, abimdam nas mesmas idéas do padre Nicolau 
da Maia de Azevedo, ou porque n'etle as bebessem, o que 
é mais provável^ ou porque tivessem outro fundamento para 
isso. 

D. Duarte, porém, conta os factos de mui diversa ma- 
neira. Segun«lo cllc, pouco depois de chegado a Lisboa, vi- 
eitou-o o jesuíta Barthnlomeu Guerreiro, velho amigo seu 
e da c^aa de Bragançii, como já vimu^, Participoulhe o 
padro que o fôra procurar um corto fidalgo, chamado D. 
Jofio ou D. Antimiu Tcllr», o qual I!ie podira para lhe re- 
presentar que nào píu*tispe de Portugal, poi-quo todow o es- 
timavam muito; que, se ficasse, podoria prestar aesigna- 
lado serviço ao reino, intcrcedend*» a sou favor com el-rei, 
porque eram grandes as maldades dn Diogo Soares e de 
Miguel de Vasconeellos, que ninguém se atrevia a accusar, 
com medo de ner lesado noa seus interesses, caso que nSo 
8e dava cm D. Duarte, pois nada tinha que perder; e 
que lhe pertencia promover o bem de Portugal, como des- 
cendente dos souíí róis, e de uma familia t3to obrigada 
Á cíirôa, já que seu iiTnSo a isso se recusava. Respondeu 
D. Duarte que nào lhe tocjiva metter-sc em taes coisas, 
nem o queria, pois tornar-se accueador d'aquel]e8 poten- 
tes ministros, que de tudo dispimhíim, e do ultimo dos 
quaes o duque, por essa razão, diligenciava grangear a 
ajnizado, seria concorrer para a ruina do estado de Era- 

iça; e que vinha a embarcar-se, e nâo a tratar de 
'inegocios políticos. Approvon f> padre a sua resposta, di- 



1 Selação de tudo o que poMou na. . . acdamaçâo do. . , rei Z>. João 
IV,.. 

17# 





zendo-llie que tudo isso ponderara ao dito fidalgo, e ainda 
mais ; que uâo tinlia cabimeuto implicar-sc elle em quéatões 
do governo; e que era umá loucura pruporem-lli<' aquillo, 
e da sua parte escutar semelliaiites propostas. Nâo se con- 
venceu o fidalgo com a repulsa do padre, e tentou vêr por 
força D. Duarte; mas D. Francisco de Faro livrou o seu 
hospede de tal importunação, eacusando-A.» de nSo o receber, 
por ser Tello inimigo de Vasconcellos, que nSU) convinba 
descontentar de maneira alguma^ e por suppor que o seu 
fim era tomar o tempo a D. Duarte com doidices acerca 
de D. Sebastião. A causa de D. Duarte se negar a rece- 
ber Tellõ foi níio só o Ljivel-o feito aos outi'os geralmente, 
mas também porque eoubeceu que ia com intençíjes de lhe 
falar contra pessoas a que u3lo desejava desgostar, e por- 
que, sendo D, Francisco de Faro amigo de Vasconcellos, 
nao queria ouvir dizer mal d' elle em parte alguma, quanto 
mais em sua casa, onde morava. 

Levado do desejo de fugir a estas e outras tentativaa, 
firmou-se D. Duarte ainda mais na idóa do nao ver nin- 
guém ; Vasconcellos porém, sabedor da sua estada em Lis- 
boa, visitou-o em coche cerrado, para nSo se allegar que 
abria com elle, recebendo-o, uma excepção. Aconselhara 
D. João a D- Duarte que não lhe recusasse a visita, como 
vimos, e pedira-lbe que, n'e86a occasião, o certificasse da ' 
boa vontade d'elle duque a seu respeito, e por isso teve 
talvez mais felicidade do que os outros. Foi cordeal a en- 
trevista : tentou Yasconcelloa persuadil-o com varias raz5es 
a que não se retirasse da pátria, declarando -lhe que dese- 
java ter poder para prendel-o ; que já assim o escrevera ao 
conde-duquc; que era muito bem visto e estimado de to- 
dos ; que por esse motivo se lembrara o seu nome para ge- 
neral da armada que havia de ir ao Brazil, no que se espe- 
rava d'elle grande serviço ; e que, a resolver permanecer em 
Portugal, escreveria logo para Madrid a tal respeito, e egual- 
mente a duqueza de Mantua. Não accedeu D. Duarte ao 



H convite do ministro. Então este rogou ao seu amigo D. Fran- 

B cisco de Faro que o convenceese, e ao bispo de Targa que 

o ajudaase a reduzir um e outro. Mas a tudo ficou D. 

Duarte inabalável, pelas offensas que tinha de Filippe IV 

^ nunca lhe haver concedido mercê alguma, nem querer ac- 

Bceitar oa seus serviços, nem o tratar conforme se costumava 

aos filhos da casa de Bragança, alóra da resolução em qu« 

já estava de ir viver t*jii Allemanlia, tugindo ás intrigas e 

ás dcHinquietaçSes dos negócios de Portugal. 

^a Conservott-se portanto D. Duarte, por assim dizer, re- 

Wcluso, e qnasi incommnnienvel durante a sua estada em Líb- 

Hboa, saliindo unioamente duas vezes em coche cerrado, para 

^■Têr a cidade, n'uma das quaes esteve em S. Vicente de 

Fora. Chegado o tempo da partida, foi Vasconcellos des- 

pedir-se d'elle, occulto, como da outra vez. Foi-lhe também 

fazer os seus cumprimentos o padre Bartholomeu Guer- 

Hreiro, e por essa occasiSo lhe disse que ouvira terem re- 

^ solvido n'uma roda de fidalgos nSo o deixar voltar a AI- 

klemanha. A opinião d'esteH fidalgos, que ora a de muitas 
pessoas, chegando até algumas a censurar o duque por nflo 
o impedir de satisfazer a sua vontade, o a alteração entre 
08 sebastianistas, cujas esperanças, conforme vimos, se avi- 
varam com a sua presença, contrariaramo bastante, e de tal 
modo, que se emharcou sem mais demora a treze de de- 
zembro, com pesiíimo tempo, tendo que esperar a bordo dois 
dias para seguir viagem. 
K Eis a maneira porque D. Duarte narra o que lho acon- 
' teceu em Lisboa, em trinta e oito, nas reclamações que 
redigiu para siia defesa particular, a que já nos referimos, 
e a que nos referiremos ainda maia de uma vez *, e no de- 
poimento do processo que ILe formaram depois de preso, 
.0 anno de quarenta e sois*; e, quando dizemos o depoi- 

i Bib. de Évora, Ms8.,106, 2, 11, foi. 228, Protesto do infante con- 
I tra o Bcu processo. 

* Arch. do Estado de MUSo, Proccsaos de D. Duarte de Bragança. Mss. 



^62 



mento do procosso, entenda-se n&o o primeiro que vem 
n'elle, que foi o qne servia par«i a accusaçâo, porque esse 
desfignirou-o o senador D. JoSo Árias Maldonado, em pro- 
veito da mesma, segundo affirma o próprio D. Duarte, do que 
o seu advogado, o raanjuez Carlos Gallarati, uào vae longe, 
porém o que aquelle fez^ rectifieando-o, no dia seguinte. 

Este testemunlio de D. Duarte tem grande valor, e é aa- 
sellado cora os juramentos mais solemnes; mas, pelas di- 
versas posiçíScs em que se achavam, elle e o padre Nicolau 
da Maia, damos maia credito á narrativa do ultimo. Um, 
bavia cinco annos e meio que penava nas durezas do cár- 
cere, longe da pátria e dos seus, inútil para a gloria das 
armas, separado do mimdo, ancíoso dr liberdade, e com 
interesse portíinto em disfarçar, ou mesmo falsear os acon- 
teciraentoB, na parte que Itie pudesse ser favorável; o ou- 
tro, livre em todo o sentido, nâo precisava citar este facto, 
em nada importante á sua obra, e por conseguinte nada 
ganhava em desfigural-o, nSo devendo nós suppor que o fi- 
zesse levado da ignorância, em vista do seu caracter illua- 
trado, e de eer um dos principaes auctores da restauração. 
Nom é este o único depoimento em que o infeliz preso, 
obrigado pela sua lamentável e triste situação, f<tge á ver- 
dade, como veremos melhor noK logares competentes. De- 
mais, quanto .iios juramentos com que corrobora o seu tes- 
temunho, cuja gravidade o solemnidade obrigam a hesitar, 
e muito, qualquer animo desprevenido, lembraremos que 
nfio faltariam Sorbonas que o absolvessem d*elle8, como diz 
o padre António Vieira, referindo-se aos nào menos solem- 
nes, que D. Duarte esteve para prestar, nos quaes se com- 
prometteria a n^o auxiliar a causa portugueza, sendo- lhe 
concedida a liberdade, opíni3.o que não era ao do celebre 
jesuíta, mas também d'elle D. Duarte, e de António de 
Sousa de Macedo, do marquez de Niza, do cardeal Maza- 
rini, e de outros. Cumpre ainda considerar a grandeza do 
fim e do personagem, e os exemplos repetidos que nos 



263 



mostram que os direitos civil e eccIesiaRtico n?to duvidíiriam 
de modo algum annnllar jnríiraentos diotfldos p««r rào cri- 
ticas circumstancias. 

A maior prova da falsidade desses juranientos dcpre- 
hendtí se, porém, do seguinte. Negou terminantemente D. 
Duarte, respondendo no seu processo A pergunta dos jui- 
zes, haver tomado pnrte na revolaçílo de Portugal, ou ter 
sabido alguma coisa d'ella, caminho natural e unieo jísra 
fíigir ás terríveis consequências que lhe rcíiultariítm de de- 
por o contrnrio: a perda da libi-rdfíde. por vtnttíra para 
sempre^ e quem sabe se a perda da vida. N'isto procedeu 
razoável e ooherentcmonte com os seus actos e palavras, 
que eram em geral de fidelidade ao governo de Filíppe IV; 
mas, logo depois d'e8ta confissílo. sem ningnera lhe pergun- 
tar Dada, contou a historia das visitas do padre Bnríholo- 
meu Ouerreiro, e o mais que se lhe seguiu, dando mar- 
gem íi malevolencia e a novas inquiri ^-íjeM que o prejudicas- 
sem. E porque? Que motivo o levou :i um passo tSo im- 
prudente? Nenhum encontramos, a níto ser o desejo de pre- 
venir, explicar, ou desvanecer qualquer boato que houvesse 
ou receiasse haver, a respeito do que acontecera verdadeira- 
mente, do que narra o padre Nicolau da Maia de Azevedo; 
BÓ este; e, em tal caso, a sua confissão voluntária, em vez 
de innocencia, denimcia culpabilidade. 

Muitos talvez cenEnirera com vehemencia D. Duarte por 
nSo adherir iraracdiatamento tis instancias de quem o pro- 
curou; talvez mesmo o taxem do indiffcronça pela sorte 
da pátria. Dirão: fataram-lhe na liberdade da terra natal, 
nas tyrannias que a sujeitavam, nos direitos da sua familia 
ao throno; convidaram-o para ajudar seu irmílo a subir-lhe 
08 vacillantes degraus; a substituil-o, se elle o rejeitasse; 
e ficou surdo a todas as propostas, a todas as persuasSes, 
a todos os rogos. Concedendo que tudo isso é verdade, 
também devemos conceder que, pelo breve tempo que es- 
teve em Portugal, D. Duarte nHo alcançaria perfeito co- 



264 



nhecimento doa projectoá que so machinavara ; que eram 
estes abraçados aiada por muito poucos; que D. Joio dJIo 
somente se não resolvera, nem resolveu, senão muito pos- 
teriormente, mas até não ousara, nem ousou longo tempo, 
abrir-se com a nobreza, uom u nobreza com elle, «porque, 
diz António Paes Viegas, no seu Manifesto, de parte a parte 
se receiava a primeira declaração, nato se assegurando cada 
uma do que acharia na outra, e passava isto tanto adeante, 
que, nSo parando em receios, chegavam a brotar descon- 
fianças». Devemos outrosim lembrar que, a par de muitos 
portuguezes fieis e amantes do seu paiz, alguns que o nâo 
eram, sob falsai apparencias de amizade, serviriam de es- 
pias e delatores; que o governo hespanhoí nutina o mais ar- 
dente desejo de encontrar pretexto para, com visos de jus- 
tiça, perseguir e castigar o reino, reduzindo-o a uma sim- 
ples província; que um dos moios de o fazer seria compro- 
metter-se a casa de Bragança, que tanto anceiava destruir, 
n' alguma tentativa de revolta contra o sou domínio; que 
nunca esta lhe movera mais suspeitas do que depois do le- 
vantamento de Évora ; que a severidade, promptidSo e crue- 
za, com que o mesmo, havia oito mezea apenas, fora oxtin- 
cto, se tinham exasperado, também tinham aterrado os âni- 
mos, deixando prever com quanto maior rigor se reprimi- 
ria outro projecto de emancipação; e, por ultimo, que o es- 
tado de Uespatiha e o da Europa contrariavam qualquer 
movimento no reino. 

D. Duarte desejava que a pátria despedaçasse as alge- 
mas insupportaveis que a prendiam; mas, a exemplo do du- 
que D. Theodosio, seu pae, acreditava, e cora nxzlío, que 
nâo soara ainda a hora opportuna; nem cntao podia pre- 
ver os acontecimentos que, dentro c! Wra do paiz, occor- 
reram, passado alguui tempo, acoutcciínentos que a torna- 
ram exequivel, e apressaram maia do que era de imaginar. 
Além d'isto, D. Duarte tinha vivido annos em Allemanha, 
onde a politica hespauhola influía poderosissimamente, o 



265 

que nfio conti-ihuiria pouco para Uie exagerar as difficul- 
dades de um comraettimonto contra a sua despótica sobe- 
rania. Ah! de quão diverso modo procedera elle, se, em 
legar de vir a Portugal nos fins de trinta e oito, viesse anno 
e meio mais tarde, isto é, nos meiados de quarenta, quan- 
do a exasperação da nobreza e do povo os congraçara re- 
ciprociímente, e quando, crescido o bando doa conjurados 
em numero e importiincia, adquiria cada momento novas 
forças a idéa da liberdade, uniea estrada para sahir com 
bonra de tanto opprobrio e aniquilamento, porque, inspi- 
rados aquelles grandes portuguezes pelo influxo occulto e 
Bobrenattiral que leva os beroea a executar feitos quasi 
impossíveis, tinham fé na sua estrella, e estavam decidi- 
dos a ir avante, embora os nSo quizesse proteger o duque 
de Bragança. Oh! entSo, estamos certo, elle escutaria a voz 
da pátria, que lhe bradava pela bocca de tSo amantes fi- 
lhos, e com elles, e como elles, desembainharia a espada 
gloriosa para defendeba. Nâo permittiu, ainda mal, a sua 
e a nossa d*e8veDtura que assim acontecesse! 



IX 



Depois de uma espera de dezesete dias, D. Duarte em- 
barcou emfinii a treze de dezembro, nSo directamente para 
AUemanha, para onde julgamos não encontrou navio, mas 
para Inglaterra, com tenção de seguir dalli ao seu destino, 
Bendo o tempo tão borrascoso, que dois dias, como dissemos, 
aguardou no Tejo que elle amainasse para sahir a barra. 
Aconipanhar.im-o dez creados, e tomou, para si e para a 
família, uma coberta. A idéa do seguir n'este navio parece 
que foi adoptada subitamente, para talvez fugir mais de- 



266 

pressa a responsabilidades, e mesmo talvez sem o ter par- 
ticipado a D. Juào; pois, se o fizera, ou se nào fosse o 
embarque tão repentino, de certo não acceitaria o« offo- 
recimentos de um negociante inglez, chamado Roberto 
Lloyde, que foi a bordo, de o recomraendar a algumas pes- 
soas com que mantinha rolaçSes n'aquello paiz, porque nSo 
lhe faltariam aá rccommendaçfíes do duque de Bragança 
ou outr.-iB de grande valia, isto admittindo que pretendesse 
guardar o incógnito, porque, do contrario, bastaria a au- 
ctoridade própria para ser bem recebido em toda a parte. 
O negociante desempenhou-se do seu compromisso, escre- 
vendo a Heu irnulo, e a Guilherme Fisher, ambos moradores 
em Londres, c a JoSo Jacobs, morador em Dover, áquelle 
a qimtorze de dezembro, isto ó, no dia seguinte ao do em- 
barque de D. Duarte, e a este ou em egual data, ou na 
véspera. Depois de lhes noticiar que o recommendado era 
o irmilo do duque de Bragança, senhor da maior casa de 
toda a península, e, exceptuando o duque, o primeiro ho- 
mem de Portugal, Roberto Lloyde encarecia as suas qua- 
lidades, apresentando-o como um príncipe excellente, que 
excedia a grandeza do sangue pela sua heróica e mages- 
tatica presença, unindo a isso ser muito lhano e cortez com 
todos, louvores em harmonia com outros enunciados em cir- 
cumstancias e por pessoas mais dignas de consideração. 
Ao primeiro e segundo pedia que lho prestassem todo o 
auxilio em Londres e lh'a mostrassem ; ao terceiro que, ou 
fosse ou nSo a esta cidade, o servisse em tudo quanto elle 
preten desse. O tratamento que lhe deviam dar era o de ex- 
cellencia. Aa cartas originaes de Lloyde a seu irnirio e a 
Guilherme Fisher conhecemol-as * ; e a sua existência pro- 
va, ou que D. Duarte as nSlo entregou, ou que nâo foi á 
capital de Inglaterra, hypothese mais aeceitavel; emquanto 
que a falta da outra dirigida a João Jacobs pode levar- 



> Bib. da Ajuda, Mas., Miec, vol. xxxvii, foi. 168 e 174. 



267 

nos á preBunipçiiD do que tocou em Dov».>r, d ondr tuiimria 
passagem para o continente, entrando n'elle ou pur algum 
dos portos da Flollanda, ou por Lubeek ou Hamburgo, ci- 
dade era (|ue, eutSLo, ou autea^ ou depois, esteve hosprdado 
na casa de Duarte Nunes da Costa, que foi seu corres- 
pondente, o mcsrao quo tanto havia de figurar na sua liis- 
toria, e que seria uma das pessoas para que o duque de 
Bragança lhe deu créditos, quando a primeira vez sahiu do 
reino. 

No dia quinze abandonou D, Duarte o porto de Lisboa, 
sem haver mister passaporte para as fortalezas, que cor- 
responderam com salvas á do seu navio, na passagem *. 
A Bua demora em Portugal foi, por consequência, de me- 
nos de dois mezes, pois tanto vae desde vinte de outubro, 
em que chegou, até á data da ijartida. 

Contempla pela ultima vez^ ó nobre príncipe, esse Tejo 
que te leva ao oceano; farta os teus olhos na formosura 
d^essa cidade, que se banha c se mira nas suas aguas, d'es8a 
cidade descobridora e conquistadora de grande parte do 
mundo, e hoje agrilhoada ao poste da ignominia pela mSío 
tyranna e sempre odiada do estrangeiro. Contempla-a bem, 
que nmica mais a verás! Breve raiará para ella o sol da 
liberdade, alhiiniando os seus templos e palácios, e acor- 
dando os seus lilhoâ do longo somno da escravidão ; tornará 
a viver feliz o senhora, posto nSlo cinja de novo na fronte 
predestinada a coroa de rainha dos mares; será a corte, como 
já foi, de reis portuguezes, e sabidos da tua familia; e tu, 
embora esperes voltar As suas praias, ajuda! -a com a pru- 
dência dos teus conselhos e com o valor lio teu braço, vel-a 
rainha em vez de serva, e morrer, e ser sepultado na terra 
de teus pães, nunca, nunca mais tornarás a pizar as suas 
areias, e só de longe, do fundo de uma prisão, em paiz es- 



1 Ac. das Sc, Mss., António de Oliveira Gadornega, DesmpçÕo de 
na pátria Villa Viçosa. 



268 

tranlio, entregue aos SQns e teus inimigos, sentirás o influxo 
dos raios da sua independência, sem os poderes gosar, sem 
a poderes servir, e cxhalarás o ultimo suspiro, lembrando^te 
d'ella, no tumulo em que te hão de sepultar vivo, e que ser- 
virá de abrigo aos teus restos! 

N2o foi pequeno o sentimento do duque de Bragança ao 
vêr apartar-se do reino seu irm^o, com quem manteve cor- 
respondência nos poucos dias que se demorou em Lisboa, 
e nSo somente o acompanhou com a lembrança e com as 
orações, mas também fez com que na capella ducal se dis- 
sessem algimias missas, encommcndando-o a Dons, para 
que o livrasse dos riscos e trabalhos a que ia expor-se no 
mar e na terra*. 



X 



Tomado a AUemanha, D. Duarte continuou ao serviço 
do imperador, no exercício do seu posto de sargento ge- 
neral de batalha. 

Vejamos quaes foram desde então as campanhas do exer- 
cito em que elle militava, e quaes as acçSes em que sabemos 
tomou parte, como fizemos anteriormente. 

Retirara-so Galasso noa fins de trinta e oito até Volberg, 
nSto logrando conservar as suas posições por falta de vive- 
res c dinheiro, c pela insubordinaçSía das tropas, eiiiquanto 
que tinha de combater Baner, cujo exercito fora reforçado 
por novos contingentes; e por isao não ponde impedir a 
tomada de Volgast. Ufano com a victoria, o general sueco 
levantou o campi) das Duas Marcas e do Brunswich, onde 



' Bib. dtt Ajuda, Mas., Miscel., vol. xuv, foL 157. 



269 



inveruara, e com vinte e seis mil homens encaminhou-se 
á ThuriDgia. O' eleitor da Saxonia e a Bohemia, a quem 
tâo má visinliança prejudicava, requereram auxílios ao im- 
perador, que também não se inquietava menos com o mo- 
vimento, e Hatzfeld, que ainda estava na We«tphalia, ob- 
servando o que faria. Ohing e o irmão do Palatino, rece- 
beu ordem do se dirigir a Fulda, e prescrutar os intentos 
dos suecos. Chamaram-se egualmente outras forças para se 
reunirem a Galaaao; mas este por enfermo, e, ainda mais, 
por ciúmes da fortima de Hatzfeld, que declarava publica- 
mente n3.o Uie querer obedecer, pediu licença ao imperador 
para deÍ3car o serviço, o que não Ibe foi concedido, e apenas 
descansar na Bobemia, até ficar de todo curado, dando-se-lhe 
as satisfações necessárias. Substituiu-o provisoriamente no 
commando o conde Slich, e o imperador, para se achar 
mais próximo e ordenar o que fosse conveniente, passou a 
Praga. Todas estas diligencias se baldaram. Baner, com 
incrível rapidez, occupou Torgau, Neuburgo e outros lo- 
gares do eleitor de Saxonia, e, sem opposiçao, senhoreou 
a vÍ8ÍiLhança de Leipzig, e a fronteira da Bobemia, destro- 
çando parte do exercito imperial, que se lhe quiz oppor. 
Os suecos, animados pela entrega de Fulda, procuraram 
tomar Freibcrg, com parte da sua gente, para lhe ficar aberta 
a entrada da Saxonia; mas, por ser praça de muita impor- 
tância, o eleitor d'este estado uniu- se cora as forças impe- 
riaes de Mancini, e Baner viu-se obrigado, depois de imi 
pequeno ataque, em que soffreu algumas perdas, a retirar, 
sendo elle mesmo ferido. Esta perda resarciu-a o valente 
general pela tomada de Demmin, que poucos mczes antes 
havia cercado, oom o que oa suecos se apoderaram de 
toda a Pomerania. Depois da tomada de Demmin, Ba- 
ner recolheu- se a Aldemburgo, para ahi esperar a juncção 
das guamiçSes de certos presídios, que levantara, e, sendo 
perseguido por Mancini, entrincheirou- se perto do rio Scop, 
cujas aguas correm entre Chemnitz e Freiberg, ao passo 



â70 



■4ffíe Manctni acampou n%o distante, para aguardar também 
reforços, que marchavam da Bohemia em sua ajuda. 

Estando a8 coisas nVste estado, Galasso, por se achar 
já bom, e lh'o pedirem, retomou o commando do exercito, 
ficando incumbido de guardar a Bnhí^mia, quo os suecos 
tanto ameaçavam; c mandarara-se, com grande pressa le- 
va» de gente para a fronteira. 

Viu lianer que os imperiaes se reforçavam como dantes, 
e, não lhe chegando aa tropas que esperava, dicidiu pas- 
sar o Elba, a íim de se assegurar mais contra as hostili- 
dades do inimigo, e aguardar por ellas na Silesia. Ten- 
tou-U/o impedir Manei ní, mas foi colhido n'uma emboscada 
e destroyado cora muita perda. 

Taes acontecimentos apressaram a ida de Hatzfeld para 
aBohi'inÍM; enviaram-se dois mil húngaros para este reino ; 
o imperador adiou a sua partida para Fraga; e juntaram-se 
na fronrnira todas as forças da Muravia, Áustria, e outras 
provim-ias visinhas, temendo-se alguma emproza atrevida 
de Baner. 

Entretanto este, n3o querendo deixar na retaguarda Frei- 
berg, atiicou-a, posto sem resultado, porque, prolongan- 
do-se a resistência, marchou sobre a Bohemia, e, tomadas 
Melnich e Leihneritz, estabeleceu aqui os seus quartéis, com 
o propósito de formar no mesmo logar ura grande armazém 
para a exercito, e conter em suspeita a liohemia e a Sa- 
xonia, obrigando os imperiaes e os saxonios a correr em 
Boccorro das suas fronteiras, operação que facilitaria aos de- 
mais chefes suecos o progresso na Silesia e n'outra8 partes. 
Assim s« desvaneceu o seu projecto de apoderar-se de Praga, 
e também por estar n*ella toda a gente austriaca, e Galasso 
acampado no Monte Branco, com dez mil infantes e quatro 
mil cavntloa, e boas trincheiras. 

Tomou egualmente o general sueco Brandeiss, também 
junto do Elba, sitio opportimo para atacar com mais faci- 
lidade Praga, e penetrar no coração do reino, apesar da 



271 



forte opposiçâo do Ofichirchen, um dos principaes capitães 
do duque de Saxonia, que a soccorrera e foi derrotado. 

Produziram estas victorias grau de eoufiisâo noa imperiaes, 
e o exercito esteve em risco de perder-se. Salvaram-o o 
conde Slich e Galasso cora a sua muita prudência e com 
tanto maior difficuldade, quanto os soldados, por falta de 
paga, se insubordinfivam, e queriam passar ao exercito ini- 
migo. 

Baner conhecedor da constância dos imperiaes, c de que 
nào lhe aproveitaria entranhar- se na Bohemia, por carecer 
de viveres e por causa das suas numerosas forças, ás quaes 
a chegada de Hatzfeld a Egra, com seis mil combatentes, 
havia dado animo, fez alto em Brandciss, e começou ahi 
a fortíficar-ae, com tenção do entretel-as por este lado de 
tal maneira, que as operaçííes dos suecos na SilcHÍa tives- 
sem bt.un êxito. Porém, tanto junto de Praga como de Brand- 
eÍ88, havia repetidas e fortes escaramuças entre elles e os 
ifaiperiaes, porque a cavallaria d'e8te3 alongando-se a for- 
ragear, encontrava-se muitas vozes com o inimigo, que tam- 
bém sabia para o mesmo efleito, e combatiam bravamente. 

D. Duarte chegou a Allemaiiha, de volta de Portugal, 
com toda a probabilidade, no principio d'eate anno ; e em 
maio achamoi-o em Praga, tomaudo posse de um regimento 
de cavallaria, de que foi nomeado coronel, por morte de 
D. Balthazar Marradas *, posto que já anteriormente go- 
sava, effcctiva ou honorariameute, como se vê da licença 
de Fernando III em trinta e oito, que transcrevemos. Chu- 
mava-se eate regimento o da Banda Negra ^. Ignoramos 
em que acções entrou com o exercito imperial, já coraman- 
dado provisoriamente por Slich, já por Ualasso; mas, a 
crermos Noé, na occaaiao em que o inimigo appareceu 

' Fr. Francisco Brandão, Comelho e voio da senhora D. Fitippaf fi- 
lha da infante D. Pedro, sobre ob terçarias e guerras de Castella. Lia- 
boa. 1(J43. 4." 

* D. António Caetano de Sousa, Hist. genealógica. 



272 



junto de Praga, teve D. Duarte ás suas ordens boa parte 
da cavallaria e infantería. Referem-Be estas palavras a quan- 
do Bancr se approximou a uma légua d'aquella cidade, e 
86 contentou com lhe fazer algum mal, retrocedendo ante 
as forças de Galasso, fortificado no Monte Branco, ou a al- 
gum dos rijos encontros que houve entre suecos e allemâes 
saLiudo a forragcar? E o que n3o sabemos decidir. 

Nos fins de trinta e nove o imperador concedera licença 
a Galasso para deixar o exercito, e nomeara-o seu conse- 
lheiro d'e8tado. Substituiu-o no commando o arclúduque 
Leopoldo, tendo por tenente-general Picolomini, e com el- 
lea continuou a servir D. Duarte, o qual, logo no prin- 
cipio d'esta campanha, se distinguiu illustremente. Leopol- 
do, que nos quartéis d'invenio, se preparava para entrar 
em operações, marchou de Praga contra Chemnitz, e obri- 
gou-a u entregar-se; mas, por causa das muitas chuvas 
e da carência de viveres, nSo tentou mais nada contra Ba- 
ner, o qual se retirou para Erfurt, onde se entrincheirou á 
espera daa forças que lhe deviam chegar do Rheno. Ora, 
esta tomada de Chemnitz foi commettida e levada a efifeito 
por D. Duarte. Assim é aflSrmado geralmente, c com par- 
ticularídado pelo citado Noé, que diz, formaes palavras: 
«Em ml! sciscontos e quarenta sua alteza esteve com o ar- 
chiduque, e, murchando com a armada em Saxonia, o man- 
daram com mil homens ao aquesto (tomada) da cidade de 
Chemnitz, presidiada do ura regimento de cavallaria ini- 
miga. Veiu sua alteza com grande silencio, tomou os pos- 
tos, tirou a agua aos assediados, e queimou os moinhos, com 
que, em poucos dias, ficou senhor da dita cidade á discri- 
ção, o a tomou, com muito louvor, ao eleitor da Saxonia, 
cujo era*». 

Reforçado Baner a dezoito de maio pelo duque de Lon- 

iBib. de Évora, Mas., 106, 2, 11, foi. 224. Relação acerca do in- 
fante. 



273 

giieville, que lhe trouxe oito mil homen», e três dias depois 
por outros oito mil, conduzidos por Milander e Chiffinge, 
marchou a vinte e sete do mesmo mez sobre Soafelt, quar- 
tel general do exercito cesáreo, com intento de dar bata- 
lha; mas o archiduque, apesar de ter recebido numerosas 
tropas, nSio a acccitou; pelo que Baner, achando-se sem 
viveres, se encaminhou para Fidda, que recentemente ca- 
hira no poder dos sueco», sendo seguido pela cavallaria ce- 
sárea, que lhe infligiu algumas perdas. D*alii dirigiu- se para 
Muthusen, nas margens do Unstnitt, nos confins do land- 
graviado de Hesse, do lado da Thuringia. O arehiduque, 
vendo que nUo podia ir mais avante, pela grande quantidade 
dos inimigos e pela fome, aíojou-se na Franconia, na di- 
recção de Suveinfurt, d'onde se transferiu a Neustadt, na 
margem do mesmo rio, em virtude da mudança dos suecos, 
a fim de os observar. 

Estando acampados os austríacos nos seus alojamentOB 
da Franconia, Baner passou a Munden, praça situada na 
confluência do Werra com o Fulda, e enviou o coronel Pfiil 
com algumas forças de cavallaria para Westphulia, e para 
o bispado de Faderbom; mas este, depois de correr boa 
porç2o do paiz, encontrou-se com a cavallaria imperial do 
comroando de Hatzfeld, e foi por ella destroçado. A res- 
peito d'este acontecimento, lemos n'uma carta de D. Duar- 
te, com data de dezesete de outubro do mesmo anno, o se- 
guinte: «De dez dias a esta parte, temos perdido mais de 
eeis mil homens, e hontem rompeu o conde Asfelt mil e 
duzentos cavallos do inimigo, junto a Paderbom, e se faz 
uma terribilissima guerra. O conde Galasso é chamado com 
grandes instancias para tomar outra vez as armas, e se es- 
cusa grandemente*». 

Ganha essa victoria, marcharam os imperiaes, reforça- 



^Bib. da Ajuda, Mss.^ Miac, vol. zxzTn, foi. 13õ, Carta a Ântonío 
PacB Viegas. 



B. I. D. D. T. I. 



18 



274 



dos por gente do exercito da Baviera para Bmghem, e, ven- 
cida esta, bem como Bacarach, atacaram Kreutzenacb, a 
qaal, sendo socconída pelo exercito de Weimar e pelo 
do Longiievitle, lhes resistiu com vantagem^ retírando*8e 
03 imperiaes para Fritzlar, uo Ilesse, junto do rio Eder> 
onde então acampava <> grosso do exercito cesáreo, em 
observação dos desígnios dos suecos, que a pouco se redu- 
ziram. Aagmentado, poir^m, com as tropas vindas da Sué- 
cia, Mecklemburgo, Pomerania, e outras procedências, Ba- 
ner atacou de repente o acampamento austriaco, julgando-o 
desprevenido, o que não succedeu, sendo derrotado, e obri- 
gado a acolher-se ao abrigo dos canhScs da infanteria; e, se 
Uito soífreu maia desíroyo, deveu-o á má posiyilo dos inimi- 
gos. 

A necessidade de sustentar o exercito, cada vez mais 
crescido, fez com que os imperiaes mudassem o acampa- 
mento de Fritzlar para Wolffííhagen, próximo de Cassei, a 
fim de veiarem na conservação das suas praças sobre o We- 
ser, ameaçadas pelos suecos. Baner, vcndo-o, abandonou 
também os seus quartéis, e transferiu-ee a Mundcn. Alóm 
d'Í6to, 08 suecos conquistaram Calcar, ficando-lhos livres as 
incursões nos paizes de Clevcs e Juliers, e apoderaram-se 
de Hocliein. 

O archiduque, deixando os seus alojamentos, dirigiu-se 
a Hexster, que rendeu depois de quatro assaltos, D'ahi pas- 
sou o Weser com parte do exercito ; occupou diversas ter- 
ras; incendiou muitas aldeias; percorreu e sujeitou quasi 
todo o estado do landgrave ; tomou Ilanover, praça nos con- 
fins do ducado de linuiswich, na margem do rio Inders; e 
venceu o general Baner n'uma escaramuça que teve cora 
elJe. Entretanto começava o inverno, engrossava o exercito 
austriaco, e os suecos, enfraquecidos pela retirada do du- 
que de Longueville para o Rheno, e pela de outras forças, 
recoUieram-se a invernar, em direcçSo ao mesmo rio, ado- 
ptando depois Baner o expediente de se alojar nos ducados 




I 

I 

IP 



le Luneburgo e Rninswich, cora cujos duques ajustou es- 
tabelecer ahi os quartéis durante três mezes. O arcliiduque, 
tendo corrido boa parte do paiz, o ganho, por accordo, o 
condado de Amnburgo, vendo também chegar o inverno, 
mandou o exercito para as terras dos landgraviados de 
Darmstadt e de Hesse, e aquartelou-se em Kirchain, logar 
pouco distante de Marburgo, onde teve diversas eBcaramu- 
ças, algumas d'elJa8 notáveis, com as forças suecas do co- 
ronel Rosan'. A cavallaria do commando de D. Duarte alo- 
jou-ae no principio de dezembro no território de Ulma, ci- 
dade livre, e a elle coube por quartel Leyphen, logar a duas 
léguas da mesma*. 

Assim terminaram os movimentos do exercito imperial 
n^este anno de quarenta, e com elle podemos dar verda- 
deiramente por acabada a carreira militar de D. Duarte, 
que dos factos expostos, se conclue foi árdua e honrosa. No 
livro seguinte ainda teremos que dizer alguma coisa a este 
respeito, e então veremos qual í^ paga que recebeu de tan- 
tas fadigas. 



I Coute Galcazzo Gualdo Priorato, Obras citadas. 
* Loiz Pereira de Sampaio, Bda^ão d<x pruão injusta do. . . infaaie 
D. Duarte. . . Msa, 

18* 



LIVRO V 



Prelúdios da rcstauraçSo. — É nomeado o duque de Bragança gover- 
nador das armaa do reino. — Declara Filippo IV que D. Duarte 
virá Bervir com elle.— Visita do duque á vice-rainlia. — Enthu- 
siaamo de Lisboa ao vel-o. — Alguns conjurados, attenta a aua. 
frieza, querem mandar chamar D. Duarte para eer rei. — Rebenta 
a revolução. — Nao se avisa logo o infante D. Duarte. — ^A frouxidão 
de el-rei causa a perda de seu irmào. — Nào manda logo ordem 
o governo bespauhol para o prenderem. — Ministros de Hespanha 
no império. — Preponderância n'elle da politica hespanhola. — Em- 
quanto se trata da prisão do infante, corre este a defender o im- 
perador, cercado em Ratisbona. — Persuadem os heapanhoes Fer- 
nando III a que o prenda. — Nào acredita o infante os primeiros 
rumores da restauração. — Parte do seu quartel para Eatisbona 
pelo Danúbio. — Encontra D. Luiz Gonzaga que ia prondel-o.— 
Chega a Ratisbona, onde fica preso. — Poem-lbe guarda á ena mo- 
rada. — Teuta-o Navarro com o interesse em prejuízo de sea ir- 
mão. — Creadosque lhe deixam. — Escreve a FilippelV. — Ordena 
o que toca ao seu regimento. — Pretende reiíuncial-o. — Visita-o D. 
LuLe Gonzaga da parte do imperador. — Exanúna-lbe Navarro os 
papeis. — Os seus temores e esperanças. — Pouco ao facto da im- 
portância da revolução portuguesa, amesquiuha-a e desculpa seu 
irmáo. — Defeza do infante por pensar d'eBta maneira. — Offerece-se 
para vir a Portugal compor as coisas, ainda por ignorar o estado 
d*ella8. — Parte para Pasgaw, pelo Danúbio. — Queixa-se dos rigo- 
res que soffre.— Chega a Paasaw. — Aioju-ae na hospedaria da 
Águia Negra,^ Att^nções com que o arcíiiduque Leopoldo mandou 
que o tratassem. — Providencias que se tomam para a aua segu- 
rança. — É visitado pelo duque de Saiouia e por outros. — Queixa- 
se de lhe porem grades nas jonellas doa quartos para onde ha de 
ir. — Esereve4he D. Francisco de Mello.— Passa da hospedaria 



278 

para o palácio. — Outras medidas para a sua segurança. — Parte 
Navarro paru Ratisboua. — Considerações favoráveis doeste a seu 
respeito — Complemento das noticias militarea do infante. — Misé- 
ria da Âllemanha.— Âs suas virtudes brilliam u'este negro quadro. 
— À sua grandeza e generosidade. — Quaes os seus recursos. — 
I^ostos quG teve. — Poesias is suas façanhas. — Como mostrou lem- 
bror-se da pátria e dos seus. 



Emquàuto estâa coisas aaccediam na Allemanlia; os acon- 
tecimentos que deviam produzir a emancipação da pátria 
encaminLavam-ae para o seu termo fatal e glorioso. 

O descontentamento que, de longa data, lavrava, com in- 
tenso vigor, no coração de todos oa portiiguczes, sempre 
inquietos, sempre irreconciliáveis, sempre anciosos de liber- 
dade, sob o nefasto dominio do estrangeiro, fôra-se accumu- 
lando cada vez mais, e exacerbando, dia a dia, pelos con- 
tiniios vexames e ordens tyrannas, com que se tentava 
aniquilar uma nação inteira, destinada a readquirir o seu 
logar na assembléa doa povos da Europa, e a desempenhar 
o bonroso papel, que o destino Ibe marcara entre ellea. 

Já sabemos qual o resultado das alteraçiSes de Évora; 
como o governo bespanliol as esmagou, povoando os cada- 
falsos de victimas, e fazendo occupar pelas suas tropas as 
terras sublevadas. N2lo pararam n'Í8to as medidas violentas 
dos oppressores, antes, receiosos por essa forte explosão 
de odioB, ba tanto abafados, julgaram, mais do que nimca, 
necessário apressar a obra de ruína, a que haviam condem- 
nado Portugal, o qual também, pela sua parte, começou a 
pensar mais seriamente, do que até ahi, em se livrar de 
jugo tao pesado e opprobrioso. 



279 

A animosidade, ao rancor que animava os dois povos 
peninsulareá, o dominador e o dominado, auccedeu a guer- 
ra de tramas encobertos, em que cada um camioliava di- 
reitamente ao seu fira: aqiielle para de todo espedaçar a 
presa que tinha nas garras ; este para reconquistar a liber- 
dade; guerra, a que se seguiria outra, onde, com a espada 
na mão e á. luz do sol das batalhas, os tyrannos âcariam 
vencidos e os opprimidos vencedores. 

Para realisar as barbaras idéas do condo-duque de Cli- 
vares tornava-ae preciso esgotar o reino de homens e de 
dinheiro, com o que mais facilmente se lhe entregaria ma- 
nietado e enfraquecido. Arredar d'elle as pessoas de mais 
influencia equivalia a privai o rle outros tantos protectores, 
e, por conseguinte, de outros tantos recursos para resistir 
aos seus intentos. O alvo principal era o duque de Bra- 
I gança, mais poderoso e mais estimado do que todos pelo 
povo, e em que este punha os olhos nas horas calamitosafi 
e nos casos desesperados; mas estava muito alto, e sd 
lá se chegaria depois de longos e calculados rodeios. Co- 
meçou pois chamando outros fidalgos e pessoas de nome d 
corte de Madrid^ por turmas, com vários pretextos, e, entro 
elles: o arcebispo de Fkaga, D. Sebastiilo de Mattos de No- 
ronha; o arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha; o 
arcebispo de Évora, D. Joilo Coutinho; o bispo do Porto, 
D. Gaspar do Rego da Fonseca; o conde de Santa Cruz, 
D. Martinlio de Mascarenhas, conselheiro de Estado e pre-i" 
BÍdente do Desembargo do Paço; o conde de Miranda, Diogo 
Lopes de Sousa, presidente do conselho da Fazenda, e con- 
selheiro de Estado; o conde de Sabugal, D. Francisco de 
Castello Branco, meirinho-mór; o conde de Portalegre, D. 
Diogo da Silva; o commendador-mór de Aviz, D. Francisco 
Luiz de Lancastre; o desembargador dos aggravos, Fran- 
cisco Leitão; e três jesuítas de Évora: Sebastião do Canto, 
Gaspar Correia, e Álvaro Pires Pacheco, 

O outro meio consistia em tirar de Portugal o maior nu- 



280 



mero de soldados nacionaes. Mandou-so ao marquez de 
Porto Segiiro, D. AffoQSo de Laucastre^ que levantasse 
toda a cavallaria que pudesse, e que nas illias dos Açores 
e da Madeira se recrutassem alguns terços para a Catalu- 
nha, infracção, além das já commettidas, dos privilegio!* 
outorgados por Filippe II nas cortes de Thomar. Determi- 
nou-se egualmentc que se formassem quatro regimentos de 
infanteria, que se reuniriam em Coimbra, Guimarães, Ou- 
rique e Castello Branco, e marchariam para Hespanha; que 
o duque de Bragança enviasse mil homens armados, ás or- 
dens de D. António Tello; e que o almirante hespanhol, 
D. Thomaz Chamburu, se apoderasse dos navios portu- 
guezes. 

Quanto a enfraquecer o reino com podidos do dinheiro e 
novas impo8Íç3es de tributos, poz também o conde-duque 
em pratica este meio, carregando-o com um empréstimo 
forçado de cento e cincoenta mil ducados de prata, e com 
um subsidio de quatrocentos e quarenta contos de réis, ne- 
gociados com uma casa bancaria, cuja primeira prestação 
devia ser paga a esta pelo primeiro quartel vencido de juros 
e tenças dos ecclesiasticos, e com o quinto dos rendimentos 
das casas de Bragança, Villa Real e Aveiro, confiscado 
pelo thesoiro, sob promessa de lhes ser satisfeito, com os 
reditos que se cobrassem. As taxas lançadas sobre o sal e 
o assucar, e os direitos de mercê ou meia annata, esten- 
dendo-se a todos os cargos, que vieram aggravar a situa- 
ção, já lastimável, do commercío, e os interesses dos parti- 
culares, opprimiram e alvoroçiiram, como era de prever, o 
paiz inteiro. 

O governo hespanhol concitava desta maneira contra si 
todos oa ânimos, o que entrava no seu plano, plano insen- 
sato, que não lhe serviu para realisar o sonho constante 
que o embalava, antes, nos ajudou a quebrar os laços de 
ferro que a elle nos prendiam. 

Ás queixas geraes, provenientes de medidas tào cruéis, 



281 



casavam-se as particulares da nobreza, por causa da ordem 
para apresentar os títulos dos bens que possuía da coroa, 
pelo atraso do pagamento das tenças, pelo desprezo com 
que 08 ministros hespanliotís tratavam os seus membros^ 
toda a vez que nâo se lhes curvassem humildes e respei- 
tosos, principalmente depois que Diogo Soares e Miguel 
de Vasconcellos preponderavam no animo despótico do con- 
de-duque, pela data de muitos dos cargos públicos de Por- 
tugal a bespanlioes, pela venda dos hábitos e commendas 
das ordens militares, out'ora prémios honrosos e rendosos 
de serviços prestados á pátria, e, torpeza e tyrannia incrí- 
veis I pela infâmia empregada para arruinar muitos dos fi- 
dalgos, calumniando-os e deshonrando-lhes as irraâs e as 
filhas! 

As queixas do clero também eram grandes. O resgate do 
antigo subsidio, pago por elle com cento e noventa mil 
crujsados, nSo o eximira das oppressôea dos exactores; com 
o desvio que o governo bespanbol lizera dos rendimentos 
da alfandega de Lisboa, perdera-se a garantia única do 
pagamento das rendas de muitos clérigos, abbadias, mos- 
teiros e estabelecimentos pios; e os repetidos subsídios da 
cruzada, e outros gravames, instigavam os ecclesiasticos, so- 
bretudo 08 Jesuitas, contra o domínio dos oppressores. 

A tudo isto vicra-se ainda juntar um novo motivo de 
conflagração: as desintelligencias entre a corte de Madrid 
e o núncio Castracani, por causa das leis de desamortisaçSo, 
desintelligencias que forçaram Hespanha a prender o repre- 
sentante da Santa Sé, e este a dardejar os raios da egreja 
sobre o reino, pondo-se o povo, incitado polo amor da pá- 
tria e pelo sentimento religioso, da parte do núncio. 

Faltava attingir o ponto mais importante: dar um golpe 
decisivo na influencia do duque de BnigançA. Um dos al- 
vitres para o conseguir foi noraeal-o více-rei da Lombardia, 
apartal-o por conseguinte dos seus estados e do reino, con- 
fundil-o com oa outros fidalgos de Hespanha, entre os quaes, 



asaim como entre os de Portugal, a casa de Bragança oc- 
cupara sempre um logar separado, e obrigai- o a prestar 
vaasallagem. Conheceu D. João que, debaixo d'essa8 ap- 
parencias de honra e estima, se oecultava a perdição do 
seu 8okr, e o damno do reino, e eximiu-se de acceitar o 
encargo, o que lhe admittiram, nao sem reluctancia. Este 
projecto parece que procurava realisal-o o conde-duque, 
talvez desde antes de tj"inta e quatro. Já o vimos, e que 
as suas diligencias ficaram então frustradas. Ignoramos so 
as negociações pararam, sendo assim, e foram depois re- 
novadas, ou se nasceram na epocha em que estamos. 

O outro alvitre cifi*ava-ae em encarregar o duque do go- 
verno geral das armas do reino. Semelhante escolha e oa 
aprestos militares então feitos cnconti-aram opportuno mo- 
tivo na armada franceza do arcebispo de Bordeos, que se 
temia atacasse as nossas costas. A carta de Filippe IV, 
participando ao duque a nomeação, e a patente sâo datadas 
de vinte c oito de janeiro de trinta e nove, e n'aquella de- 
clarava-se que D. Duarte viria servir junto de seu irmSo'. 
Escuaou-se o duque, allegaudo vários pretextos; mas el-rei 
nâo lh'o8 attendeu e enviou-lhe as instrucçòes para exercer 
o seu importante cargo, as quaes foram lavradas a vinte e 
cinco de março do mesmo anno '. N'ellas se detei*minava a D. 
JoSo que assiatisáe em Montem ór-o-Novo, por ser o ponto 
mais adequado para a boa organisaçlLo dos apercebimentos 
militares, e por oile asbim o haver pedido ; que entrasse em 
Lisboa incógnito; e que, da mesma maneira, visitasse as 
fortalezas. 

Muitos se admiraram de assim pôr a corte de Madrid a 
direcção de todas as forças mUitarea do reino nas m^oa do 
senhor natural d'elle, e portanto do maior contrario do seu 
contestado domínio. Ou, cega pela soberba, e illudida pelo 



1 Bib. Nac, Mss., E, 5, 7. 



283 



apparente socego dos ânimos, nâo fazia idéa do estado de 
coniLustâo em que ellea se achavam, ou, conliecendo-o, com- 
mettia uma gi*ande temcxndade, ou tamanha confiança nSo 
era senão pretexto para efFeituar violoatoa e traidores pro- 
jectos, que ftílizraente não chegaram a realisar-se. De tal 
modo pensavam os amigos o os inimigos da corte de Ma- 
rlrid. 

O severo e fácil castigo da revolta de Évora, o» protestos 
de lealdade, apresentados u'e98a occasiâo pelo duque de 
Bragança a Filippe IV, • a attitude passiva e indolente da 
nobreza, no meio da efiFervescencia dos tumultos populares, 
o abatimento era que jazia o paiz, cada vez mais cntraque- 
cido, e a insana presumpçâo de o destruir dentro cm breve 
totalmente com o seu intolerável systema de extorsríes, tudo 
isto contribuiu para enganar o conde-duque a respeito do 
verdadeiro estado das coisas. 

O povo, esmorecido por tamanha desgraça, recorria ao 
sonho do sebastianismo, cadeia mysteriosa que ligava a glo- 
ria do passado á independência do futuro; mas qiio impor- 
tava o povo ignorante e visionário ao potente valido de Fi- 
lippe IV? Noa púlpitos sagrados e nas conversações soa- 
vam palavras mysteríosas, allu8Í5es perdidas, que deixa- 
vam presentir o desejo c a crenya de melhores eras; porém 
esse desejo e essa crença acabariam de todo com os últimos 
clarões da liberdade portugueza. Abundavam em toda a 
parte os descontentes, e havia-os credores da maior consi- 
deração; mas uns, gente rude, pouco valiam, e quanto aos 
outros, arrancados de entre os seus, servindo nos exércitos 
hespanhoes, ou retidos na corte, vêr-sc-hiam obrigados, em 
que lhes pesasse, a calar o sen descontentamento. E nâo 
sabia Het^panha que a nobreza e o clero se abraçavam com 
o povo n'uma única aspiração, a liberdade; que o Encu- 
berto, por que este aguardava, já nSo era o cavalleiro de 
AIcacer-Kibir, o heroe poético e lendário, que havia de vir 
sentar-se novamente no seu throno, e expulsar d'elle os reis 



284 



estrangeiros, mas o descendente dos monarchas portiigiiezes, 
o duque de Bragançu, porque tanto os fidalgos como 08 re- 
ligiosos, aproveitínndo o sentimento popular, tinham encar- 
nado a sua saudade, o seu sonho, a eua esperança, no úni- 
co homem que os podia salvar a todos, e salvar a pátria, 
realisando também assim as longas e queridas aspiraçi^es 
d^elles? 

Outra causa do segurança existia para a corte de Ma- 
drid, e que muito contribuiu a enganai -a: o caracter do 
próprio duque. Se o animasse o espirito varonil de D. Ca- 
tharina, ou o animo austero, exempto e inquebrantável do 
D. Theodosio II, os tyrannos de Portugal nao andariam 
tâo desprevenidos e imprudentes, sobretudo após as revol- 
tas de Évora, e achando -se Hespanha a braços com tama- 
nha guerra, como a doa Trinta Annos, e com tSo bellicoso 
viainho^ como a França. Mas o duque D. Jo^o nSo trilhou 
o caminho nem da avó nem do pae nas retaçSes com os 
usurpadores; transigiu ató certo ponto com elles, e, levado 
da Índole froixa, e talvez do desanimo que o tempo e os 
acontecimentos trouxessem comsigo, se nãU) se esqueceu 
dos seus direitos, pareceu ao menos conformar-se com a sua 
sorte. Entregou-se portanto ao governo do ducado, á. vida 
de familia^ ás excursíles renatorias na sua famosa tapada, 
e a compor e ensaiar musicas para a capella ducal, sem 
mostrar em coisa alguma contrariedade ao governo estabe- 
lecido, ou ambição de um dia supplantal-o; antes, ftigiu a 
todas as occasiSes de comprometter a sua casa, ainda que 
precisasse abafar os Ímpetos de um coração portuguez sob 
falsos protestos de obediência, como em trinta e sete, ou 
€sconder-se ás provas de sympatliia popular que a sua pre- 
sença despertava sempre. 

Apesar d'isto, houve liespanhoes, e amigos ou parciaes 
d^elles, que taxaram de temeridade a noraeaçUo do duque 
de Bragança para governador das armas do reino, accusa- 
ção que diminue muito de importância, ao considerarmos 



285 



que Hespanba o rodeiava de officiaes seus, ou por nasci- 
mento, ou vendidos ao seu oiro, e que lhe sujeitava os 
actos á decisão de uma junta de defesa. Demais, quem pe- 
netra 08 intentos do feroz condc-duque, ajudado dos con- 
eelbos perversos de um Diogo Soares e de um Miguel do 
VasconcelloB ? Se acreditarmos o que entào se disse e anda 
eacripto, o senhor da casa d© Bragança devia ser preso 
traiçoeiramente, quando, pela obrigação do cargo, visitasse 
as fortalezas ou a esquadra hespanhola na sua vinda ao 
Tejo: acto feio, inqualificável, posto digno de tal ministro 
e de taes conselheiros. Assim o aifirmam os escriptores 
nacionaes e alguns estrangeiros, contando-se entre estes, o 
próprio auctor da Historia general de Espana, Modesto La- 
fiiente. N3lo permittiu a Providencia, tastas vezes, então e 
depois, favorável á nossa justa causa, que tSo negro crime 
se levasse a effeito, porque reservava D. Jo^o para o glo- 
rioso papel de restaurador da liberdade portugueza, e es- 
capou ás violências tramadas contra a sua pessoa, ou por 
se prevenir, acompanluiudo-se, nos lances perigosos, de 
amigos leaes e decididos, como pretendem, ou por algum 
d'e8sc8 acasos admiráveis, que muitas vezes acontecem, e 
que nSo explica a intelligencia himiana. 

Para D. João conseguir este fim, e para o bom desem- 
penho das suas obrigaçijea militares, não contribui ram pouco 
as instrucções que lhe deu D. Francisco Manuel de Mello. 
fFoi vossa magestade encarregado, diz elle, do governo 
das armas d'este reino, posto, ao que então se poude ob- 
servar, solicitado pelos inimigos de vossa magestade, em 
cujo exercicio, a este respeito, convinha haver grande vi- 
gilância; e porque aqueUas matérias não eram muito pre- 
sentes a vossa magestade, quiz vossa magestade que eu lhe 
apontasse o modo por que se devia haver na dírecçSLo daa 
armas; e, sem embargo de estar ausente, enviei a vossa 
magestade um papel, pelo qual offerecia a vossa magestade 
todas as advertências, não só competentes ao posto, mas á 



286 

conservação da auctoridade da sua real pessoa, que tam- 
bém 86 loo^roii depois*». 

Declaruva, como já dissemos, Filippe IV, que D. Duarte 
viria de Allemanha para assistir ao duque. A nosso vêr isto 
fora quasi iiupossivel. Verdadeira loucura seria trazer o go- 
verno h espanhol para Portugal mais um elemento de reac- 
çfto, e tào forte, mais uni pretendente á coroa usurpada, e 
collooar, na qualidade de adjunto, perto do >icnhor do es- 
tado de líragant,\a, o nobre príncipe portugiioz, o valente 
general do imperador, aureolado pela tríplice coroa da soa 
regia pros-apia, da sua illuíitraçilo e virtudes, e doa servi- 
ços, que o liaviam tornado notável na guerra que entío at- 
trahia todas as attençHes, e quasi todos os esforços da Eu- 
ropa. Se nSo era um simples engodo armado a D. JoSlo, 
para asBegural-o e captivar-lhc a vontade, conjecturamos, 
parece-DOs, menos mal, que os hespanhoes só punbam a 
mira era apoderar-so de D. Duarte, como do duque, para 
O que haveria as mesmas causas, ou maiores. Nenhum outro 
vestígio encontramos d'este facto, ao passo que o contra- 
riam as queixas de D. Duarte, a que já nos referimos, pois 
ficamos sabendo por ellas, que Fílíppe TV nunca acceitou 
os seus serviços, tendo- lh'os oflPerccido ello e seu irmSo, 
conforme succedeu em trinta e oito e trinta e novo, che- 
gando, n'eBta ultima vez, Olívares a replicar a D. João que 
nJlo conhecia em D. Duarte sufficiencia para occupar posto 
algum. Como se ajusta affirmativa tão explicita com a da 
carta de Filippe TV ao duque? NRo fni jamais a noticia 
íla nomeaçiln ao conhecimento de D. DuartCj ou, n?lo tendo 
etfeito, considerou-a este como se não existisse y 

Entretanto o duque, por maiores que fossem as caute- 
las, e por mais que o rodeiassem de partidários da corte e 
de officiaes e ministros liespanhoes, punha-se em contacto 
com as guamiçíSes das praças e cora outros muitos dos fu- 



i Bib. Nftc, Mss., Memorial a D. João TF, do mesmo. 



287 

turos súbditos, a quem a sua presença alentava. Quando 
chegou a Almada, onde, a exemplo dos seus, ficou, antes 
de passar a Lisboa, vi si taram- o todos os grandes e senho- 
res, que n'ellf punham a esperança, ousando algims fidal- 
gos até insinuar-liie, juntamente com os queiximies do es- 
tado miserável em que se achava o reino, os seus desejos 
de que acceitasse a corGa, e os ajudasse a libertar a patrin. 
Escutou-os o duque, mas temendo comprometter a sua casa 
e a causa geral, nem os desenganou, nem os esperançou, 
oomo pretendiam. 

Grande enthusiaf^-xio sentiram os portuguezes pela -sHnda 
de D. JoEo a Lisboa, apesar de mal entrar na cidade, pois, 
otedecondo As ordens ciumentas do governo hespanhol *. que 
se affrontava com esse enthiisiasmo, apenas saltou em terra 
para ir ao palácio real, situado, como sabemos, á margeni 
do rio. 

No primeiro de julho á tai*de, embarcou o duque, abai- 
xo de Cacilhas, num bergantim feito de novo para esta 
occasiâo, com seis remos por banda, toldado de rica tela 
com franja de oiro, arvorado o guiSo real, e os remeiroa 
vestidos de vermelho, levando comsigo unicamente duas ou 
ires pessoas. A comitiva do duque accommodou-sc em ou- 
tras embarcações tambcm toldadas ricamente. A este tem- 
po já o rio estava povoado de hartos de toda a sorte, os mais 
d'elleã com os seus toldos e as velas desfraldadas, soltando 
todos ao vento bandeiras e galhardetes de diversas cores, 
em que vinha grande numero dos principaes fidalgos, e 
muitas pessoas nobres, e muito povo; e cem frades pouco 
mais ou menos. Precedia tâo lustroso e verdadeiraraento 
régio acompanhamento, em outro barco, a sua trombeta 
bastarda, e toda a sua musica, alvoroçando e alegrando os 
ânimos. Sobresahia no cortejo marítimo um formoso na- 
vio de Lubeck, chegado recentemente, e que trouxera car- 



' Bib. da Ajuda, Msa., Míbc, vol. xx, foi. 389. 



288 



tas de D. Duarte para o duque, o qual, largando todo o 
panno, seguiu sempre o seu bergantim, amiudando tiros de 
grOBsa artilheria no decurso da viagem, e dando no prin- 
cipio e no fim d'ella duas calvas geraes, no que foi segun- 
dado por todos 08 navios, tanto de poríuguezes, como de 
estrangeiros, surtos no Tejo, os quaes, garbosamente em- 
pavesadoB com bandeiras e galhardetes de mil cores, sal- 
varam o duque á passagem. 

Desembarcou este, com as pessoas do seu séquito na 
ponte junto da casa da índia, onde aguardava a demíiis fi- 
dalguia e nobreza, que, ou não ponde ir para o acompa- 
nhar pelo rio, ou de propósito não o fez para o receber 
em terra, todos os ministros e officiaes d'el-rei e uma ini- 
meniíidade de gente tSo espessa, que o duque, segundo a 
sua própria confissão, nunca mais poz o pé em terra até 
ao palácio; «e não é muito, diz o documento d' onde vamos 
tirando estas noticias, que os fidalgos e nobreza levas- 
sem nos braços e hombros ao duque, quando elle com sua 
extraordinária benevolência e af!*abilidade, com que a todos 
captivava, parecia que os levava todos nalma». 

Entrou pela porta da casa da índia, onde o esperava 
o capitão da guarda, com a da vice- rainha, parando abi 
a que o seguira. Era também dentro do paço avultadis- 
sima a conconencia, e por isso o duque, antes de chegai* 
á sala, onde o aguardava a princeza, gastou bastante tem- 
po ^ foi mesmo preciso que a guarda apartasse a multidfto, 
para lhe abrir [logar e a D. Margarida, pois mal podiam 
mover-se. Esta, apenas viu approximar-se D. JoSo, desceu 
três passos do estrado, em que estava, debaixo do docel, 
e recebeu-o debaixo d^elle, depois de grandes cortezias de 
parte a parte. Chegou a cadeira a sua alteza o seu mor- 
domo-mór; queria fazer o mesmo á do duque nm official 
de sua alteza, mas nSo o consentiram D. Luiz de Noro- 
nha e Thomé de Sousa, que, á porfia, lh'a chegaram am- 
bos. Á visita durou um quarto de hora, e falaram todo o 



289 

tempo em voz tào baixa, que ninguém llies ouviu nada; ao 
que accrescentavam alguns que nem elles se ouviram, attri- 
buindo este dito engraçado ao próprio duque. Os que as- 
sistiram na sala á entrevista conservaram-se, durante ella, 
de pé, e, menos os grandes, descobertos. Acabada, despe- 
diu-se o duque com as mesmas cortezias, e embai*cou logo 
com o mesmo acompanhamento ou triumpho naval, deixan- 
do em todos os portuguezes muitas saudades e muitos de- 
sejos de o tornarem a ver, c no^ heepanhoes o maior en- 
fado e resentimento de tão espontânea e luzida recepção ao 
representante, ao descendente dus reis portuguezes, \[\ie 
tanto odiavam. Só o castcUo de Libboa, como orgSo da 
malquerença do governo intruso, ficou silencioso no meio 
^de tamanha festa. NEo serviu este acontecimento senão para 
mais irritar o animo dos portuguezes, que se espraiaram 
em commentarlos, pondo em parallelo a esplendida entra- 
da do duque em Lisboa com a pouco concorrida da vioe- 
rainha^ e a maneira por que um e outro foium acolhidos 
do povo, sendo o meirinho obrigad*» a íazelu descobrir, 
quando eIJa passava, ao passo que, mal viam o duque, se 
desbarretavam todos por sua própria vontade, conservan- 
dose assim emquanto o avistavam*. 

É também curiosa a noticia que traz da entrevista Fr. 
António Seyner, na HUstwia dei Itvantanitento de Portugal. 
O auctor, e também o da relação precedente, foi testemunha 
dos factos, e, como hespanhol, torna-se insuspeito nos seus 
encarecimentos favoráveis ao duque. N2o a transcrevemos 
por brevidade; basta dizer «jue coníírma o principal, e 
que contribue para provar a popidarídade do irmão de D. 
Duarte. 

O receio do governo hespanhol de algum acommetti- 
mento da armada franceza, principalmente no Algarve e 



' Bib. da Ajuda, Mes., Miacel., vol. i, foi. 85, Carta do padre Ma- 
nuel Luiz a? de 6 do junho de 1639. 

n. I. D. D. — ■». 1. 19 



290 

em Lisboa, desvaneceu-se porém, porque o arcebispo de 
Bordeos n5o demandoti as costas de Portugal, e, depois do 
tentar lançar fogo aos navios que se armavam na Corunha, 
navegou no rimio de Biscaya. Com isto parte das forças 
navaea e terrestres, que estavam no reino, foram chama- 
das em auxilio de Hespanha. 



II 



Extinctoa os medos de um ataque da esquadra iranceza, 
o duí^ue aproveitou o ensejo, para se furtar ao peso doa 
negócios, e recolheu -se novamente aos seus paços de Villa 
Viçosa, empregando-se todo, como outr'ora, nos pacifico» 
entretenimentos da vida particular. 

A ausência de D. João, e a cautela de que usou em Al- 
mada, quando desviou e desattendeu as praticas que se en* 
caminhavam acoroal-o, lovai-am os conspiradores, que viam 
correr o tempo inutilmente, e aggravar-se, cada vess mais, 
a situação do reino e a sua, a volver os olhos a D. Duarte. 
Decidiram pois mandal-o chamar de Allenianha, para o 
que chegou a ser eleito o padre Nicolau da Maia de Aze- 
vedo, de quem fiavam oa maiores segredosf mas, como nSo 
estavam de todo deaeí*perançados, e porque o perigo de- 
mandava remédio prompto, resolveram por mais conve- 
niente^ aguardar, e amiudar as instancias com D. João. 
lato succedia nos fins de trinta e nove c princípios de qua- 
renta. 

N'e8te meio tempo novas, felizes circumstanciaa concor- 
riam para alentar os conjurados. A grande armada hespa- 
nhola, cuja presença o conde -duque de Clivares esperava 
no Tejo, a fim de vibrai* o golpe decisivo na autonomia por- 
tugueza, foi dcstruida no Canal por Tromp, o celebre ai- 



291 



mirante hollandez; a monarchia do Filíppe TV via se ata- 
cada seriamente pelos oxorcitoa da França, já era Flandres, 
já na Itália, já na fronteira; e a Catalunha, exasperada 
pela quebra dos seus foros, pelas cruéis oppreasBea do 
governo de Madrid, c agitada pela influencia politica de 
Richelieu, contorcia-se febril, rugindo os prelúdios da te- 
merosa tempestade que n^o tardava muito a desencadear-se. 
Nào desconhecia Hespanha as dpffictildadrifi que recres- 
ciam, embora se illudisse talvez quanto á sua importância 
verdadeira. O estado a que tinha reduzido Portugal, com 
tautíts medidas deshumaiias e ímpoliticas, nílo podia conti- 
nuar a existir; era a opinião do próprio Miguel de Vas- 
concellos. Parar seria perder-se; consentir o reino descon- 
tente, insoffrido, n'um dos lados da península, com o mar 
aberto ao auxilio das esquadras francezas, auxílio prová- 
vel, se a Cílrte de Paris seguisse o caminho sensato, em 
que dera alguns passos, e ir combater no outro lado o novo 
inimigo que so armava, fora de corto um erro fatal; vol- 
tar atraz era tarde; e para que, se os portuguezes, por 
maiores regalias que lhes concedessem, nRo ficíiriam satis- 
feitos som a liberdade completa? Restava, portanto, unica- 
mente uni meio: proseguir no systema que, havia muito, 
encetara; acabar do opprimir o reino com tributos; dcspo- 
voal-o de gente com as continuas levas de soldados que 
marchavam a combater c morrer em terras estrangeiras, 
deixando inciUtos os seus campos, e immovois as suas of- 
fidnas; arrancar á força do seio do povo os fidalgos e os 
homens influentes capazes de capitaneal-o ou de lhe servir 
de amparo; tirar-lhe sobretudo o duque de Bragança, que 
já debalde quizera desprestigiar, ainda quo para isso com- 
mettesse a maior violência; reduzil-o a um simple^ vassallo; 
e cerceAr-lhe, ou mesmo, se fosse necessário, destruir-lhe 
o poder. Qualquer d'e8tas sendas levaria o paiz a eman- 
cipar-se n'uma opocha mais ou menos próxima. Hespanha 
escolheu a ultima; era a mais consentânea ao seu feroz sys- 

19« 



292 



tema de administração: tacto meílior para uôs, porque nos 
impelliu com a soberba e a imprudência dos seus actos a 
espedaçar, dentro em breve, os ferros que pretendia tornar 
mais pesados. 

Portugal também não desconhecia o destino que lhe re- 
servavam. Se ii3o bastassem tantas insolências, tantas per- 
seguições, tantos roubos, a pala\Ta dos soberanos mil vezes 
quebrada, a violação de todas as leis, o deseonliocLmento 
de todos os principioíi, o reino sem dinlieiro e sem braços, 
as conquistas perdidas era grande parte, ou quasi a per- 
der-so, os mares, que eram nossos, avassnJIados por outras 
naç3es, as nossas esquadras destruídas pelo mau governo 
e má vontade doa usurpadores, ou pelos seus caprichos, 
fructos inevitáveis de tão Lybrida e forçada união; se não 
bastasse tudo isto, faiaria por tudo, e mais alto do que 
tudo, a voz do conde-duque de Clivares, quando aos fi- 
dalgos portuiguezes, reunidos em Madrid, propoz a con- 
veniência de acabar com a autonomia de Portugal. 

Critica era egualmente a situação do duque do Bragan- 
ça, que uSo ignorava os perigos que se amontoavam no 
horizonte para a sua pessoa e casa. Além d'i.sso, como por- 
tugucz e senhor duma porção considerável do reino, sen- 
tia profundamente a desgraça o o mal de todo elle. Arre- 
pendido de SC bavLT approximado da politica de Hespa- 
nlia, pouco antes da morte de D. Tlieodosiio, e pouco de- 
pois, D. João bem depressa reconheceu a sua cidpa, ou 
com 08 desenganos, ou por melhor considerar o quo devia 
a si, ou porque amigos verdadeiros o desviassem do ver- 
gonhoso caminho, e rccolheu-sie á vida privada. Mas de- 
balde procurou viver quasi neutral no meio da guerra, 
chamada paz e união, dos opprimidos e oppressores; de- 
balde: por mais que se retirasse, viam-o sempre ims e 
outros, como se fora presente. Para aquelles era a única 
esperança e o libertador da pátria escravisada; para estes 
o maior e o mais terrível inimigo; para ambos o descen- 



293 

dente dos reis porhiguezes. Cedo se patenteou a animo- 
sidade do governo hespanhol nas desconsideraçSes ao du- 
que, e a seus dois irmãos; e o desgosto de D. João sa» 
biu de ponto com estas mostras hostis; entretanto conti- 
nuou obsen^aiido passivo e distante a marcha doe aconte- 
cimentos. Rebentou a revolta de Évora, e houve quem dis- 
sesse então que, se esta cidade estivesse mais longe do du- 
que, tnão se mostrara tilo briosa contra a conveniência 
real». São palavras formaes de D. Francisco Manuel de 
Mello, que, na companliia do conde de Linhares, veiu de 
Madrid pura apaaiguar os levantados, como vimos, e que 
por essa causa cx>nfercnciou com D. João. Semelhante idéa 
e a acciamaçâo d'este como rei de Portugal, em Vilta Vi- 
çosa, avultaram a sua figura, e, apesar dos protestos de 
fidelidade que fez ao throno de Filippe IV, com o fim de 
desvanecer quaesquer suspeitas, a desconfiança augraen- 
tou muito contra elle, e tanto, que, desde essa epocha, foi 
decretada necessariamente a aua expatriaçSo e mina. A 
sua auctorídade, que contribuiu para conter a revolução, 
trouxe novo motivo de ciurac, pois conheceram mais uma 
vez quanto ella valia. Quizeram-o rebaixar aos olJios dos 
seus, nonieando-o governador das armas do reino, e a no- 
breza e o povo, longe de o considerarem menos, acerca- 
ram-se-lhe respeitosos e cheios de entlmsiasmo, como se 
fora o seu monarcha. Era necessário, por consequência, ti- 
ral-o a todo o custo d*entre os portuguezes, e para a exe- 
cução d'e.sta medida nSo poderia apresentar-se mais favo- 
rável ensejo do que a revolução da Catalunha. Era neces- 
sário que se mostrasse praticamente acreditar a pérfida 
sentençA de Diogo Soares, o qual se atrevera a dizer que 
Filippe IV nunca seria senhor de Portugal, emquanto a 
praça de Vi lia Viçosa nSo se tornasse ura prado sempre 
verde '. 



> Bib. Nac, Ms8., D, Francisco Manuel de Mello, Tacita portuguez. 



294 



Principiaram os catalães as suas alterações em fevereiro 
de quarenta, o em junho estavam completamente revolta- 
dos. Empreg^ou o governo de Madrid remédios enérgicos, maa 
o incêndio lavrou com maior força e rapidez. Não formanda 
verdadeira idéa da Bua intensidade, esperou abafal-o facil- 
mente com o i)eso das armas, e, ao mesmo tempo, servin- 
do- se d'eBte pretexto, extirpar, d'uma vez para sempre, do 
Bolo da nossa pátria as raízes de liberdade que, durante 
sessenta annos de captiveiro, nunca arrancara; e cumpria 
dispor as coisas com promptidSo, antes que os movimentos 
do oriente da península agitassem maia os espirites em Por- 
tugal, já, de si meemos, dispostos a imital-os. 

Em vinte e quatro de agosto chegou a Lisboa a ordcin, 
completamente imprevista, para toda a nobreza, sem exce- 
pç5o, acompanhar Filippe FV ás curtes aragonezas. Man- 
davam-se também fazer grandes levas de tropas que deviam 
marchar para a Catalunha, á custa do paiz, fora outra gente 
que se alistou em todas as provincias. Estas medidas con- 
stituiam para os fidalgos uma violação doa seus privilégios, 
e quasi a sua destruição; para o reino, já empobrecido por 
vexatórios tributos, e pela sahida de tantos de seus filhos, 
o golpe mais tremendo, o que o lançaria no tumulo, ou, por 
um supremo esforço, o restituiria á sua antiga existência. 
Tinha pois o duque de Bragança que deixar a pátria e os 
seus estados e passar, de emiUo do soberano, a encorporar- 
se, como qualquer nobre, oo seu numeroso e esplendido sé- 
quito. O perigo ameaçava-o a elle, a toda a nobreza, á 
nação inteira. 

Já antes d'estas ordens, os fios da conspiração, nunca 
partidos, se haviam tornado a seguir com mais ardor, sug- 
gerindo-80 novas propostas ao duque ; mas os receios pren- 
diam-o de tal modo, que, n2o obstante a gravidade das cir- 
cumstançias, o seu espirito ainda vacillava na incerteza. Ao 
contrario, os conjurados, cujo numero crescera considera- 
vehnente, estavam tSo resohitos, que no mez de agosto ou no 



295 

de setembro queriam pôr, a todo o custo, o seu plano em 
effeito, recorrendo a D. Duarte, se seu irm2o teimasse em 
nâo acceitar a coroa, ou, em ultimo caso, proclamando a 
republica. Com taes disposic^-ôea a noticia da rebelliao for- 
mal da Catalunha, e as ordens inBupportíiveis do governo, 
acabaram de atear a labareda. O monteiro-mór, o marquez 
de Ferreira e o conde de Vimioso, instarfim uma e outra 
Tez com o duque; Jorge de Mello, mestre de campo de um 
do8 terços recrutados na provincia da Beira, D. Miguel de 
Almeida, D. Pedro de Mendonça, D. AntSo de Almada, 
D. António Mascarenhas e outros fidalgos, que cada dia se 
aggregavam aos primeiros, formaram uma junta, a fim de 
assentar o que convinha, e Nicolau da Maia de Azevedo 
dispoz 08 juizes do povo. Finalmente resolveram a timidea 
ou nimia prudência que cmbaray-ava o duque, já ent^Lo para 
muitos censurável, JoSo Pinto Ribeiro, seu procurador em 
Lisboa; o seu secretario, António Paes Viegas; e a duqueza 
D. Luiza. Coratudo, desconfiavam tanto os conjurados da 
sua pouca firmeza, que, tendo marcado para principiar a 
re8taura<;ilo do reino o dia primeiro de dezembro, deter- 
minaram logo que o aviso competente sahisse de Lisboa a 
tempo, que por nenhum modo viesse outra ordem de Villa 
Viçosa*. 

Estas hesitayfles e 'retrahimento do duque teem movido 
varias exprobraçSes, algumas d'eílas excessivamente acri- 
moniosas. Nao seremos nós que absolutamente o desculpe- 
mos ; toda\na o parallelo que alguém estabelece do seu pro- 
cedimento e do do mestre de Aviz parece-nos assentar em 
bases falsas. Na cpocha do mestre Portugal achava-ae no 
período da sua mocidade e vigor; contava em si quem se- 
guisse a voz do rei eatraDgeiro, mas nSo era dominado por 
clle, e tinha de combater só com o reino de Castella; na 



* P.« Nicolau da Maia de Azevedo, Belação de iudo o que pauoti. 
I. . . acclam(u;ão da. . . rei D. João IV. . . Ijisboa. (1641). 4." 



296 



do duque estava decadente e desaiiimado; gemera, e pelo 
espaço de sessenta annos, debaixo do governo de ferro dos 
usurpadores^ que a pouco e pouco lhe íiaviam exliausto as 
forças e a vitalidade j tinha de medir- se, não com ura pe- 
queno reino^ mas com a vasta monarchia, formada por Car- 
los V e Filippe II, com a senhora de Flandres e do grande 
parte de Itália, com a alliada do império de AUemanha, 
com a possuidora dos paizen e thczoiros de tamanha por- 
çfto da America, embora já nSo brilhasse em todo o seu es- 
plendor, embora a debilitassem ns erros dos seus governan- 
tes e as guerras que sustentava era diversas regiões do seu 
extensíssimo dominio. Nem unicamente o duque temia as 
fataes consequências de passo tSo arriscado. Todos sabe- 
mos como D. Joílo da Costa, homem de valor e lealdade 
incontestáveis^ receiava, quasi nas vésperas da restauração, 
o bom êxito da empreza, e as forças de Hespanha, a que 
havíamos de resistir sós, e não, como os catalães, escuda- 
dos pela França. Ainda em abono do duque ha o seu offe- 
recimento de se levantar com os povos do Alemtejo, se- 
gundo uns, quando rebentasse a revoluçilo em Li&boa, e, 
segundo outros, no caso d'ella falhar, o que não se levou 
a erteito por suspeitas que chegaram aos ouvidos de D. 
Joio, e que nSo houve tempo de dissipar. Ah! se a re- 
volução se mallograsse, talvez a historia, tantas vezes in- 
justa, e que tantas vezes apenas avalia os factos pelas con- 
sequências, o acoimasse, não de fraco, mas de impioidente 
e de temerário! Em todo o caso, a tibieza do seu cara- 
cter, ou a sua prudência, redimdou em felicidade nossa, 
porque a abstenção era o melhor caminho para elle, mor- 
mente depois da revolta de Évora. 

A situação politica da Europa, c as complicaçfJes em 
que Hespanha, de ha muito, se achava envolvida, promet- 
tiam offerecer algum ensejo favorável. Desde que França 
entrou abertamente na guerra dos Trinta Annos, podia-se 
alimentar melhor essa esperança, tanto mais, que, logo em 



297 



mil eeiacentos e trinta e quatro, ella mandou sondar a dis- 
posição do duque, e, em mil seiscentos e trinta e oito, en- 
viou, primeiro um fnide de S. Francisco, e depois Saint-Pé, 
a fim de observar o estado das coisas em Portugal, e de, 
com promessas* incitar oa descontentes, negociação nuUa 
nos seus resultados, ou por falta de perseverança e habi- 
lidade dos emmissarios, ou, como c mais crivei, porque 
nSf> ajudava qualquer movimento a politica da Europa, 
e principalmente a de Heapanha, e nào estava sufficien- 
tcmente preparado o animo dos portuguezes. Quando, nílo 
satisfeito com os exércitos que fizera marcliar contra a 
Valtelina, o Milanez e Flandres, Richelieu approximou 
as tropas francezas dos Pyrineus, era fácil prever que o 
vulcSo nâo tardaria a inflammar-se áquem d'elles. Todos 
estes acontecimentos, o deaespero causado pelas medidas 
violentas de Clivares, c a perspectiva de soccorro dada 
pelo hábil ministro de Luiz treze em trinta e oito, que de- 
pois ee reduziu a tio pouco, deviam trazer necessaria- 
mente a revolução de Portugal, e o seu triumpho. Mas, 
para nSo se baldarem as tentativas, convinha o maior se- 
gredo e cautela, e sobretudo que o duque de Bragançaj 
representante dos reis uaturaea, senhor da grande casa que 
podemos considerar entSw» como arca de salvamento da li- 
berdade pátria, alvo principal das attençSes do governo 
hespanliol, n2o excitasse a menor suspeita. Assim aconte- 
ceu; e tanto, que o próprio iliguel de Vasconcellos, cons- 
tando-lhe que algima fidalgos se reuniam, julgoxi ser por 
causa da ordem de acompanharem o rei ás fronteiras ara- 
gonezas. Ponsjiriu Vasconcellos da mesma maneira, se o 
duque tomasse parte activa n'e88as coníerencias? De certo 
que nâlo. Portugal havia de libertar-se ; mas tSo rápida, elfi- 
caz e incruenlamente, só d*este modo. Tudo foi providen- 
cial no gi-ande feito, e mais do que tudo, o caracter de D. 
JoSo. Para o catado em que vegetava o paiz, fraco, desa- 
nimado, e sem auxilio estranho, dir-ae-hia este príncipe 



298 

talhado de molde. Se foi pois a natureza que bó lhe dirigia 
08 passos, digamos com Dunlop: «a melhor politica nâo o 
levaria a proceder mais sabiamente do que o levou a Bua 
Índole» *; se, como acreditamoe, influíram n'elle, por om 
lado a natureza, e pelo outro a politica, temos razílo, não 
somente de nos congratular por isso, mas também de lhe 
tributar os noaSíis louvores. 

Raií>u finalmente o dia primeiro de dezembro, e, contra 
os loucos e infames calciiloa do governo hespanhol, e contra 
as duvidas de algims timnratoe, viu-ae que a nação portu- 
gueza, maltratada, empobrecida, condemnada á morte peloB 
seus tyrannos, estava ainda viva, tinha ainda foroas bas- 
tantes para se levantar de imi ímpeto do sopulchral abati- 
mento em que jazia, e para expulsar ãv terreno sagrado 
da pátria o abutre que lhe roía as entranhas, dilaceradas 
por tantas feridas. E que durante esses sessenta annos, 
longos, tristes, insupportaveit*, o povo nuncA perdeu o sen- 
timento da sua liberdade, nunca foi vencido, nunca deixou 
de confiar na sua victoria, assim como Hespanha nunca 
poz de parte o seu projecto de aniquilar-nos, tirando-nos os 
elementos vitaes, porque eó de tal modo julgou que noa 
poderia domar. A guerra entre os opprimidos e os opprea- 
sores durou dei^de o primeiro até ao ultimo momento do 
captiveiro. A desunido da nobreza e do povo adiou a hora 
da emancipação ; mas chegou um dia em que a nobreza co- 
nheceu o seu erro, em que se conftmdiu com elle, e, em 
que juntos venceram, porque uma naçSo, quando pugna 
pela Bua justiça, e quer, sempre vence, ou mais tarde ou 
mais cedo. Sem um rei valoroso para capitaneal-o, sem ar- 
mas estrangeiras que o ajudassem na diflicil empreza, Por- • 
tugal luctou e sahiu triumphante da lucta que se estendeu 
por maÍB de um quarto de século. 

Surgiu finalmente o dia primeiro de dezembro, e o boI 



í Spain durinsf tht rtfffn of Fhilip IV and Charkê 11. 1834. 



299 

doesse dia nao cahiu no occaso sem ficar liberta a capital 
do reino. Seto diaa depois, todo o paiz, unanime, reconhe- 
cia a auctoridado do seu legitimo soberano. A seis, en- 
trava D. João em Lisboa, victoriado por todo o povo, que 
nâo ae fartava de o vèr e acclamar, e sentava-se, no meio' 
de homenij livres, no throno dos seus antepassados. D*ahi 
a seis mezes, as conquistíis da Ásia, da Africa e da Ame- 
rica, seguiriam espontaneamente o exemplo da metrópole. 



III 



Deixámos D. Duarte, nos fina de quarenta, nos seus 
quartéis de inverno na Suevia, descansando das fadigas 
da guerra, para, em tempo favorável, reentrar em campa- 
nha, e prestar novos serviços ao império. Ali! mal sabia 
elle 08 graves acontecimentos que entílo occorriam em Por- 
tugal, e as dêsgrayas que por essa razão o amea^-avam! 

Tem-sc culpailo D. Jo5o IV, tornando-o responsável do 
infortúnio de D. Duarte, porque o nlo preveniu a tempo, 
como devia; tem-so-lhe chamado, por isso, egoísta e mau 
iimâoj tem-ae-lhe até lançado em rosto que o fez de pro- 
pósito, com medo, com ciúme do seu talento e da sua expe- 
riência. Vejamos o que ha do verdade em tâo gi-avee cri- 
minardes. 

£m mil seiscentos e quarenta e três, alguns membros 
das cortes reunidas em Lisboa accusaram Francisco de 
Lucena, secretario de Estado, de manter correspondência 
com o governo hespanhol em damno da pátria, e nos ca- 
pítulos que 08 Três Estados apresentaram contra elle a el- 
reij lê-ae um, cujo theor é o seguinte: tMostra-sc maia que 



300 

y dito Franciaco de Lucena procurou por todos ob meios, 
que lhe foram possíveis, encontrar a vinda do senhor in- 
fante D. Duarte, dando a entender este seu intento em pa- 
lavras que 86 lhe ouviam, e com as obras que aSo notórias, 
tudo a fim de sua damnada tenção, como é publico e no- 
tório era este reino.» E na sentença proferida contra elle 
lê-se também: «Mostra-so, por preaumpçíjes muito eviden- 
tes, que o róo tinha a seu cargo avisar ao senhor infante 
do estado das coisas d'estc reino, para se poder pôr cm 
aalvo e sahir d'aquelle império, c que o dito róu se hou- 
ve, de propósito, tJo remissamente no aviso, que por esta 
razJo passaram dias bastantoei para de Castella se dar aviso 
para prenderem ao dito senhor infante, sendo o réo infa- 
mado de havei -o feito pelo ódio que lhe tinha, de que tes- 
tificam pessoas de grande credito»*. 

O terceiro conde da Ericeira escreve no Portwf(d res- 
taurmlo: «l'ubhcou-8o era Lisboa que Francisco de Lucena 
havia sido origem d' este desacerto, por antigas disaençSes, 
mal affecto ao infante; porém, o descuido del-rei padeceu 
no juizo dos homens a maior conderanaçâo, julgando que 
matérias d'e8ta qualidade não se deviam fiar de outra di- 
ligencia, sendo preciso avisar a seu irmão pela pessoa mais 
confidente, a tempo que elle se pudesse saliir do império, 
sem perigo dos ministros de Castella, que era certo have- 
rem de romper na sua pessoa todos os impulsos da ira 
de verem separado o reino de Portugal d'aquella monar- 
chia». 

Os Annaes de Portugal restituído a reis nafuraes dizem 
que BÓ a vinte e oito de dezembro é que partiu de Lis- 
boa um navio com o avião, e ajuntam terminantemente: 
«que D. Duarte nSo fora preso, se seu irmão se não des- 
cuidara tanto do que mais se devia lembrar», e também: 



« Bib. Nac, Mafl., B. 18, 35, foi, 152, e B, 16, 1, foi. 124 e 125, e 
Deposito, num. 1102. 



301 



«que a causa (Veste descuido nfto convém trazel-a á luz, por 
nio culpar a muitos»'. 

O segundo conde da Ericeira, D. Fernando do Menezes, 
vae mais longe do que estes auctores, e é muito mais expli- 
cito do que todos. Segundo :i sua opinião, os motivos da 
demora em avisar o infante foram divorsoa. Primeiro, o 
duque de Braganya, duvidoso d«t resultado da revolução, 
nSo quiz aventural-o mo perigo, |.ara, no caso de mallogro, 
olle restaurar ou consei-var a sua Cíisa; depois, temeu nSo 
o poder consultar ou prevenir com a promptidã.o necessária 
para nSo ser descoberto o negocio j depois, já senhor do 
tlirono, hesitou na escolha do caminho, pois o terrestre fe- 
cbava-o Hespanha, e o marítimo difficultava-o o inverno. 
De reato, havia quem nSo desejasse a volta de D. Duarte. 
A rainha, ávida de mando, temia vel-o adquirir no animo 
d'el-rei tamanha grnea, que a privasse da que desfructava. 
Nem esquecia a antiga inimizade ao cmihado que o obri- 
gara a partir para Allemanha, pelo que, todas as vezes 
que se falava d'elle, difficilmento escondia os maus senti- 
mentos a seu respeito. O secretario Lucena era também 
inimigo velho do infante, tanto í|ue, depois, entre oa crimes 
que lhe assacaram, foi um ser negligente na expedição das 
cartas do aviso para elle. Outros, que gosavam oa favores 
d'el-rei, temiam o seu engenho e perícia, e até houve quem, 
fingindo querer abrandar a dôr do sua magestiido, lhe dis- 
sesse que, fosse qual fosse o estado das coisas, ora conve- 
niente estar D. Duarte longe do reiíio. «Péssima gente, 
concluo D. Fernand*», que só mede as felicidades e as iu- 
fehcidades pelos teus interesses. El-rei, que amava seu ir- 
mão, pensava de outro modo, e para extinguir a primeira 
opinião de descuidado, mandou aos aeus embaixadores, 
principalmente ao conde da Vidigueira, que fizesse soltiir 
D. Duarte por qualquer preço»'. 

* Bib. Nac, Mflfl., Supplemento, 60G. 

* Hiêt<>ríanmLusiiananimabannoí64ÕadJ€S7.\]lyiBÍ]fonei. 1784. i." 



302 



O padre Nicolau da Maia de Azevedo cxprime-se por 
maneira que desculpa D. João. Diz este auctor, e j.i o 
declarámos, que os conspiradores, receiando mudasse o 
duqu© do favorável propósito em que ficara de acceitar 
a coroa, resolveram participar-llie ser sabbado, um de de- 
zembro, o dia destinado para a empreza, só pouco antes 
do facto, Í8to é, a tempo que nâo pudesse vir resposta 
em contrario de Villa Viçosa. Sendo assim, nada se lhe 
coramuuiearia antes de vinte e oito de novembro, pelo 
menos. E continua: «Chegou o aviso; e, n'e88e mesmo 
momento, sahiram de Villa Viçosa nove próprios, uns tráa 
outros, por diversas vias, com cartas em que el-rei nosso 
senhor dava conta ao senhor D. Duarte, e lhe mandava 
que SC sahisse logo das terras do imperador, e so \ies8e 
para Portugal ; e, se até este ponto se nSo havia feito esta 
diligencia, não foi porque nSLo conhecessem todos a grande 
necessidade que, para a occasilto, havia da pessoa do se- 
nhor D. Duarte; se nílo porque chamal-o antes de el-rei 
nosso senhor se resolver seria nào somente fazer um mui 
grande dispêndio^ a risco de nSo aproveitar, ma« também 
dar motivo para que os que no conselho de Castella anda- 
vam já desconfiados e com receios presumissem algimia 
coisa; e, em tal caso, a menor suspeita bastaria para a 
perdição geral de tudo; e a razSo de estado pedia que não 
Be abalasse de Allemanha este princípe senão depois de 
estar a empreza em acto próximo, de modo que não se 
pudesse dar caso que viesse sem ella ter efteito; além de 
que, 110 instante era que se soube da resolução d'elrei nosso 
senhor, lançaram logo mão da occasião, e não quizcram es- 
perar todo o tempo que era necessário para ir a Allema- 
nha e virí*. 

Mercure français, no tomo vinte e três, amio de mil 
seiscentos e trinta c nove a mil seiscentos e quarenta, no- 

1 Nicolau da Maia de Azevedo, Bdação de tvào oqut pa$íiou na, . . 
acclamação do. . . rei D. João IV. . . liaboa. (1641). 4.'» 



303 



ticiando a revoIuç2o de Portugal, concorda com Nicolau 
da Maia de Azevedo, que nao sabemos se copiou; o que é 
possível, por lhe ser posterior, pois a Relato de tudo o que 
se passou na feliz acdamaçSoj etc, foi impressa em mil 
seiscentos e quarenta c um, e o jornal a que alludimoa em 
mil seiscentos e quarenta e seis. 

D. Francisco Manuel de Mello escreve as se^intea pala- 
vras sobre o mesmo assimipto: «O primeiro negocio foi 
avisar D. Duarte, entSo ao serviço do imperador, e at- 
tento ao governo do seu regimento, aquartelado no paiz 
da Franconia, distante da corte imperial, e, pôr essa causa, 
do commercio das Qermanias. Com ser este o primeiro 
negocio, mostrou a experiência se lhe tardara na resolu- 
ç2o, on erráru no modo, nome e cartas soltas que se des- 
pacliaram, e todas perdidas por Flandres, Hollanda, Ham- 
burgo, e Veneza, devendo-se reduzir as cartas a menos 
enviados, que pudessem calar ou dizer o successo, segundo 
a occasião o pedisse. Acaso o alvoroço, mais que a ma- 
lícia, foi o culpado d'esta inadvertencin»*. 

A obra intitulada: Novas extraordinárias que contienen 
lo vtal tracte t/ue hm ftt log imperiais id (jermu dd rey de 
JPortiif/al que tenian jjros, publicada em Barcelona em qua- 
renta e dois, diz que, no fira de quarenta, D. João IV en- 
viou um correio ou espia a AUemanha, para o infante vol- 
tar ao reino, mas que os hespanhoes lhe tomaram a carta, 
e por isso o prenderam. 

O padre Sebastião Gonzalez, escrevendf> de Madrid ao 
padre Raphael Pereira, ambos da Companhia do Jesus, 
em trinta e um de dezembro do mesmo anuo de qua- 
renta, entre outras novas da restauraçaio, conta-lhe que no 
próprio dia d'ella se despacharam duas caravellíia: uma a 
Catíiliinha para que não se compuzesse com Filippe FV, 
8 outra a D. Duarte para que tornasse a Portugal*. 

í Taâto portugua. 

^Memorial histórico upariol. Madrid. 1851. Tom. xvi, pag. 109. 



304 



Do que acabamos de vercouclue-se que, anSo serem eates 
doÍ8 últimos testemímhos, que 6 licito considerar como me- 
ras noticias sem fundamento, só Nicolau da Maia de Aze- 
vedo e o Mercttre f rançais sâo tavoraveis a el-rei, ao que 
advertiremos ainda que o ultimo ou o seguiu, ou limitado 
credito merece, como estrangeiro residente fora do reino, 
e portanto pouco sabedor dos acontecimentos. 

A opinião de Nicolau da Maia de Azevedo figura-se, á 
primeira vista, valer mais do que todas, ponjiie assistiu á, 
restauração, iàgurou n'ella, o a exp3e especialmente. En- 
tretanto as suas palavras, além de encontrarem as dos es» 
criptores que vimos de citar, movem-nos alguns reparos. 
O duque do Bragança, logo depois de saber o dia da re- 
volução, enviou nove mensageiros por diversas partes. Mas 
por onde? Por terra? Tinham de atravessar Hcspanlia; 
seria uma temeridade, e nuiiea Portugal se serviu n'es8e8 
tempos senào da via marítima para communicar com 08 
outros paizcs da Europa, ainda mesmo arriscando-so a 
grandes delongas e sérios perigfts, quanto mais u'aqueUa 
occasiao. Por mar? Estavam promptos a sahir. logo que 
o duque o desejou, todos os navios necessários para o ef- 
feito? Ê possivel tSo extranha o feliz coincidência? Con- 
cedamos porém que, n^o tendo ainda rebentado a revo- 
lução, e contando com a ignorância de Hespaidia, o du- 
que se atreveu a mandar por terra nove pessoas de con- 
fiança d'elle e de seu irmilo, ou munidas de qualquer carta, 
ou signal, que os acreditasse, tomadas as precauções devi- 
das, a fim de tnmsporem incólumes oa dominios de Filippe ; 
concedamos que, por um acaso notável, se encontraram 
logo 08 navios convenientes. O que foi feito de tantos men- 
sageiros? Qual o seu destino? Perderam-se? Como? Aon- 
de? Nâo se salvaram, ao menos, alguns vestígios d'elles, 
ainda que raros? Nem sequer os seua nomes? Demais, 
como calou o auctor dos Annaes, aliás tão abundante em 
particidaridades, e contemporâneo, esta de ai tão recom- 



305 



mendavel, eraqiiaato que accusa o descuido d'el'rei, e marca 
a data do avisu qiio posteriormente se expediu ao iiilanto? 
Coma é que D. Francisco Manuel de Mello, que, do mesmo 
modo, escreveu n'aqucllo tempo, embora eBtivesse longe 
da pátria, quando succedeu a revolução, fala unicamente 
em cartai^ que, por mal dirigidas uu tardias, nSo produzi- 
ram resultado? Como é que o terceiro conde da Ericeira, 
cuja obra foi composta á vista de tantos documentos, e 
de tantas informações de pessoas que presencearam os fa- 
ctos, nâo se faz cargo da aBserçSo do Nicolau da Maia de 
Azevedo, e rompe até na franqueza de censurar tao acre- 
mente D. Joílo IV? Como é enifim qiie o segundo conde 
da Ericeira, D. P^emaudo, também coevo do que Uíirra, 
poio tinLa então vinte e seis onnos, entrando em tanta» 
miudezas e em accusaç^os tm formaes, nao diz nem uma 
iinica palavra que, sequer de leve^ corroboro Nicolau da 
Maia de Azevedo, ape«ar de mostrar tanta vontade de de- 
fender el-rei? Ainda accresce outra razão, e esta para nós 
é uma das prineipacs ou a principal de todas. Se partinim 
08 avisos dõ duque de Bragauçu, apenas marcado <i tlía da 
rcToluçào, e nas vésperas d'ella, os de Lucena, eleito b€- 
cretario d'e8tado, mal foi constituído o governo do reino, 
8Ó teriam por fira segnudal-os; e por conseguinte nunca 
este fimccionario poderia ser criminado de originar com o 
seu descuido ou animosidade a desgraça do infante. 

De tudo que levamos dito parece coneluir-se que nílo 
houve 08 avisos a que alludem Nicolau da Maia de Aze- 
iredo, e o Àfercure françtusj que as cartas mencionadas 
por D. Francisco Manuel de ilcllo ou constituem uma va- 
riante da mesma versSo, ou talvez antes se referem á com- 
municaçSo de Lucena; que foi esta a imica enviada, e na- 
turalmente pelo navio saindo d© Lisboa a vinte e oito de 
dezembro, conforme os Armaesj que a asserçEo de Nico- 
lau da Maia de Azevedo proviria do desejo de esconder 
ou attenuar a culpabilidade de D. JoSo IV, ao ver as fataes 

20 



H. I. D. D. — T. I. 



306 



consequências que derivaram d'ella; quç a do periodi 
frnacez soria a sua reproducçSlo ; e que a perda do infante 
foi causada pela indesculpável frouxidão d'el-rei, c pela má 
vontade que lhe tinham a rainha^ Lucena e outros inimigos 
da sua influencia e talento. Para reforçarmos esta presum- 
pçílo temos aiuda contra o secretario d' estado o testemu- 
nho do próprio infante, quando mostra d'elle as maiores 
desconfianças, como veremos. De D. Lmza é bem notorii 
a indisposição com o cunhado, motivo principal d'este dei- 
xar a casa fraterna e o reino; o seu animo imperioso 
ciumento de mando, favorecido pela indifferença do esposo, 
que lhe abandonava a administração domestica; quanto con- 
tribuiu para leval-o a acceitar a coroa, e quanto influiu u: 
coisas do governo, durante a sua vida e posteriormen 
No geral, a respeito de pessoas contrarias á volta do in- 
fante a Portugal, alguns rastos iremos encontrando no àe 
curso da presente historia, bastantes para tomar mais qui 
razoável o que fica dito. O que porém julgamos inadmissl 
vel é quí^ D. João rV, de propósito, faltasse aos seus de-' 
veres de parentesco e de amisade, t-antas vezes antes © de- 
pois provada, o que n2o lhe tira, mas só lhe diminue a rea. 
ponsabil idade. 

Que elle desejava seu irmão era Portugal parece p; 
val-o a escolha que d'este fez o governo deJSIadrid, 6 di 
crer, a seu pedido, ou, ao menos, com a sua annuenci; 
para servir junto d'elle, quando em janeiro de trinta e nov( 
foi nomeado governador das armas do reino ; e talvez tam- 
bém as suas instancias, n'e8se anno, e no anterior, par 
D. Duarte militar nos exércitos de Filippe IV, se por aqui 
se entendia militar em Portugal, ou sequer na penfusula, 
onde estaria mais perto para o ver e consultar, ou ainda em . ^ 
Flandres, d' onde poderia passar ao reino mais facilmentej^H 
pela proximidade de Hollanda e do mar. Além d'isto, ha^^ 
indícios de que ou o chamou, ou approvou a sua vinda a 
Portugal, poucos mezes antes da restauração, como se co- 



i 




307 



ILe d'iima carta autographa do mesmo D. Duarte, eacripta 
io secretario do duque, o liceacoado António Paes Viegas, 
da qual transcreveremos a parte que nos interessa. 

«Recebi a vossa carta de onze de maio, cora que me 
alegrei muito, e voa agradeço tudo o que n*ella me dizeis: 
com o parecer que me daes sobre minha partida me con- 
formo; porém estou em aperto tSto miserável, qu^» não sei 
que partido tomar, e fôra a morte mui barata em troco do 
nSo me vêr como estou, qtie nSo ó para escrever, Tinha- 
V08 dito que vendêsseis parto do meu juro, para tne soc- 
correr, e agora vos digo que, se nSo Houver outro remédio 
que dal-o todo, que o faeiis, como eu poasa sor soccorrido 
com trea mil cruzados pnlo m^nos, c que se encatninliem 
com toda a brevidade a Duarte Nunes da Costa. Chegado 
este dinheiro, partirei a tomar licença do iraperatl^r, e de- 
pois me irei embarcar a Hamburgo. Com que não tenho 
mais que vos dizer. Deus vos guarde. De Fur teoibem, 
dezeacte de outubro de mil seiscentos e quarentíi»*. 

Que fim tinha esta viàgom de D. Duarte a Portutí il, pois 
de Portugal parece que se traía? Envolvia algum i idéa po- 
litica? Desejava seu irm5o ajudar-se d'elle; tel-o comsigo 
para qualquer eventualidade, e chamara-o, ou er ■ clie que 
tencionava, de moto próprio, voltar á pátria? O i",paço do 
cinco mezes, que corre entre as datas da carta r !0.íbida e 
da resposta, indica, a primeira vista, nEo ser o U'ííJ)CÍo de 
urgência, on, sendo-o, que D. Duarte nSo o sabi i; porém 
o mais plausivel é, que a carta, por grandes tr lUornos, 
BÓ Ibe chegasse á m2Lo tardo e muito tarde, o que i aquelle 
tempo acontecia frequentemente, como veremos, p "r exem- 
plo, algumas vezes, nos o!Hcio5 do governo de M lo para 
a curte de Madrid, que levavam dois e três m í 'S*, de- 
mora mais factível, estando D. Dairte em cam rinha, e 

iBib. da Ajuda, Mes., Miac, vol. xxxvii, foi. 135. 
* Arch. de SimaucaSf Ma^o 235G. Curta de 19 do abril ; 1642; e 
CoiiBtilta do Conselho de Estado di? 18 de novembro id.; niiço 3357» 

20# 



308 



portanto cm logar incerto. Em todo o caso, ella é para nós 
de subida importância, porque mostra que o duque dese- 
java, ou nSo temia a presença de D. Duarte, pois nâo ad- 
mittimos que o seu secretario escrevesse em negocio do' 
tanta magnitude, sem participação do amo. E quando? Seis 
mezes depois de haver sido tentado pelos fidalgos em Al- 
mada para cingir a coroa, depois de se renovarem as ne- 
gociações para esse intento, com esperanças de bom êxito, 
depois de rebentarem os movnmentos da Catalunha, que 
principiaram em fevereiro, isto é, quando as circumstan- 
cias aplanavam ao futuro rei a difficil subida do throno, quo 
já via levantar- se próximo. 

Se o fim da carta era politico, os acontecimentos preci- 
pitaram-se. D'ahi a quarenta e quatro dias estalou a re- 
volução, e provavelmente não houve tempo de ir a resposta 
a D. Duarte. 

Quanto ao aviso ou avisos que se lhe enviaram, quiz a 
sna infelicidade que nSo os recebesse, Confessa-o elle e con- 
fessa-o cl-rei D. JoSo IV *. Apenas veiu ao seu conheci- 
mento, bastante tempo depois de estar encarcerado em Itá- 
lia, que um mensageiro, ido de Portugal em sua procura, 
fôra preso em Vienna, sem saber se lhe tinham tomado 
cartas ou n^o. N'e3sa mesma data, pedia o infante que o 
informassem das outras pessoas que haviam sido mandadas 
para o mesmo fim *. Eram estes, ou este mensageiro, os quô 
seguiriam no navio sabido a vinte e oito de dezembro, saj 
algum íbi entito, ou outros partidos posteriormente? NSOi 
atinamos a decidil-o. 

Cartu de 8 de abril de l&4d ; e maço 3360, Consulta do CouBclho d^Q 
Estudo de 14 de outubro de 1645. Msa. 

iBib. de Évora, Mas., 106. 2, 11, Carta de Taqnet ao conde da "' 
digueira de 19 de agosto de 1645. Id., id., 105, 1. 8, foL 100 v., Jn*\ 
Btrucçào ao mesmo conde, já marquez de Niza, para a seganda em- 
baixada de França. 

íBib. de Évora, Mse., 106, 2, 11, foi. 502, Carta do infante aT*. 
Ç[uet de 2 de dezemliro de 1643. 



309 



IV 



Cm sete á<^ clezenibro, chegou a Madrid a primeira no- 
ticia da revolu<;ílo de Portugal. Conseguiu o conde-duque 
de OH vares esconder por pouco tempo a Filippe IV tSo 
calamitoso e inesporaho successo, mas, recciando, se algiiem 
Ih'o ijarticipasse antes, perder immediatamente a sua gra- 
ça, resolveu-se a fazel-o elle mesmo. Todos conhecem a 
maneira singular por que o pôz em pratica. Meu senhor, 
-dÍBse-Ihe o valido, dou os parabéns a vossa magestade, por- 
que acaba do ganltar um ducado e doze milhões; e depois 
accreacontou, explicando o aeu dito a Filippe TV, que o nffo 
percebia e olhava admirado: o duque de Bragan<;a com- 
xnetteu a loucura de se acclamar rei de Portugal, e o con- 
fisco dos sena bens vae encher os cofres de vossa mages- 
tade. 

Ouviu-o o monarcha hespanbol com pasmo e sobresalto, 
proporcionados au temeroso golpe que acabava de ferir a 
$aa coroa, não achando a propósito o gracejo, mas encobriu 
a impro-isSo que recebera sob as compostas apparencias da 
attctor idade. 

Foi tmia verdadeira siirpreza para Filippe IV esta trans- 
fonnaçito do duque de Bragança, que no seu retiro de Villa 
Viçosa, o ajudado só por alguns portuguezes, illudiu os fins 
da politica hcspanliola, e zombou das vistas dos seus mi- 
nistros! Quem !h'o dissera, quando, algum tempn antes, 
ouvia e applaudia na capella real de Madrid, deantc de 
numerosa corte, a musica sagrada do seu nobre primo ! *. 



1 Bib. da Ajuda, Mas., Misc, vol. xzxtxi. 



310 



Também nSo fôra menor a surpreza do ministro. Ao es- 
panto do rei e de Olivares segiiiu-se porém logo a neces- 
sidade de adoptar algumas medidas; e este, receioso de 
que o povo e os nobres clamassem mais contra a sua ad- 
ministraçííoj incitados por tno grave facto, novo golpe na 
sitnayfio de Hespanba, já por elle tSlo comprometiida, come- 
çou, nâo obstante o animo desassombrado que apparentava, 
a dispor as coifas, no interesse geral e no seu próprio, para 
combater a suLlevaçílo dos portuguozes. Entre essas me- 
didas conta-se que foi uma das principaes fazer éom que 
prendessem D. Duarte em Allemanlia, privando assim o 
reino do auxilio da sua pessoa, e que portanto expedia, 
sem perda de tempo, ordens n'este sentido para Vienna, aa 
quaes infelizmente chegaram primeiro do que os avisos 
mandados de Portugal. 

Ha aqui um erro que cumpre n^o deixar p.issar por 
maia tempo desapercebido. Nem o governo de Madrid teve, 
como se assegura, tanta pressa em mandar ordens para 
prender o infante, nem, o que c mais, o infante foi preso 
em virtude d'ellas, mas sim a pedido do embaixa«lõr D. 
Francisco de Mello, como se vê claramente da participação 
de D. Diogo de Snavedra Fajardo a Filippe IV, em que louva 
D. Francisco por esse facto *. So fosse preciso adduzir 
outras provas tel-as-biamos em Fr. Timotheo Ciabra Pi- 
mentel, doutor theologo na dieta de Ratisbona, pregadoras 
magestades cesáreas, e procurador geral de toda a ordem 
do Carmo na ciiria imperial, que entSo morava com o dito 
D. Francisco, e que se pode reputar quasi testemunha de 
vista, o qual afiirraa, que a sua prisão foi requerida pelos 
ministros hespanhoes no império, independentemente de 
determinação do ^eu governo^; tel-as-hiamos no testemunho 
da infante que attribue também a culpa a estes, sem men- 

í Arch- de Síaiaiifas, maço 2342, foi. 3G. Mss. 
* Panegy^rieo funeral. 




3il 



cionar a corte de Madrid*; tel-íiíi-liÍamo8 no offerecimento 
feito por Navarro ao infante, em n©me de D. Francisco de 
Mello, logo depois de preso, para ser provido do necessaiúo, 
emquanto não chegavam ordens de Ilespanha a seu res- 
peito, o que pai'cce dar a entender que as nSo havia, ou 
que só as havia, sem olhar a estes e outros caso g, o que se 
torna improvável*; tel-as-hiamos finalmente no testemunho 
de D. Francisco Manuel de Mello. 

Sc dermos credito ao auctor do Tácito portuguA^^ D. 
Francisco de Mello hesitou por algum tempo, antes de pro- 
ceder contra o infante, e só depois de vinte e seis dias de 
constarem em Vienna oa successos de Portugal, é que, 
para escapar ao reparo de seus inimigos, se viu obrigado 
a pedir ao imperador, apesar de lhe foltarem instrucçBes 
de Madrid, que o retivesse. «lO silencio de D, BVaneisco 
n'este caso, escreve o mesmo auctor, culpavam os caste- 
lhanos, recorrendo íls razi5es de parentesco e confidencia 
que entre D, Duarte e D. Francisco de Mello oLserva- 
vam; mas elle, aendo avisado da fulmina çílo dos êmuloa, 
ou porque esperasse do imperador tomasse algum receio 
mais cxempto, ou que D. Duarte houvesse tomado outro 
mais seguro, propoz ao césar, que seria justo segural-o 
até aviso d'el-rei de Hespanha; n'esta diligencia fundaram 
depois todas as queixas publicas e secretas dos portugue- 
zes contra D. Francisco, pelas quaes se arruinou em Por- 
tugal sua casa e memoriai». 

Em abono d'esta opinião temos ainda outrji obra, n»ra- 
posta, segundo se diz, por um creado do infimte, quo a 
tudo se achou presente, o qual vae mais longe do que o 
auctor do Tácito portuguez , pois dá a entender que D. Fran- 
cisco de Mello nSo só foi alvo da murmuração dos con- 

1 Bib. da Ajuda, Mãe., Corresp. de Luiz Pereira de Caatro, vol. ia, 
foi. 20, Forma da prisão do infante. 

* Bib. Nac, MsB. Reladon qve hize ai conde D. Frandato d< Meílo 
de lo que pato eu la privion de D. Duarte. . . 



312 



trarios, mas também osteve para ser victima cl'elle8. Esta 
obra assigna um dos papeis principaes no trama ao doutor 
Agostinho Navarro Burena, a que já nos referimos, e qne 
tanto ha de figurar na nossa historia. Foi este um doB que 
em Ratisbona suggoriu a idé^i da prisão de D. FrancUco 
de Mello, yu instou para que se executassp, com appro- 
vaçSo do marquez de La Fuente, o que o astuto D. Fran- 
cisco evitoUj ganhando Navarro, e empregando-o na prisSo 
do infante*. 

Esta opinião de D. Duarte ser preso sem ordem do go- 
verno de ]^Iadridj posto destoe da que tem vogado duriinte 
dois séculos e meio, além de verdadiíira, parece mais ve- 
roeimil do que a recebida por qiiasi todos, incluindo íité 
D. António Caetano de Sousa, que, embora tanto conlieça o 
Tácito portufjucz, e o siga geralmente, nâo o seguiu n'e3ta 
parte. Com efreito, prender o infante depois de frustradas 
as tentativas de contra-revoluç3[o, de que era centro a du- 
queza de Mautna^ oljjeeto para o governo hespanhol de 
tjinianhas esperuuçaH, e depois de rotas definitivamente as 
hostiliíL-ides entre os dois paizes, seria razoável; nSo assim 
quando elle procurava, com meios brandos e pela intriga, 
alienar do novo rei os ânimos dos portiiguezes, sem os des- 
contentar e sem lhes mover guerra, fazendo-Ihes crer que 
nSo deviam seguir os revoltosos, como nos chamava, e 
adeante melhor explicaremos, ao tratar dos sentimentos do 
infante^ resitectiv:iinentc ao que succedera em Portugal. É 
o que aconteceu em relação a outros portugiiezos de impor- 
tância, que serviam Ilespanha, os quaes ou nâo foram 
presos, ou o foram, e logo soltos, e alguns até honrados e 
escolhidos para altos cargos, do que temos exemplo no 
mesmo D. Francisco Manuel de Mello, que chega a asse- 
verar no seu celebre Mtnioríal a D. JoJlo IV, que mais 

> Bib. da Ajuda, Õ8õ, D., 17, Rdationt dclli mali tratamenti /atli 
daila Maeslà Cesárea e da minútri apagnuoli aWinfatUt D. Odoardo da 
itn âervitore di 8. A. cke a tutto *»' trovo pretente. 



313 

lhe custou (lerípri-nder-se das mercôs do qne das cadeia» 
de Hespanha. Ora, todos veera que prender um príncipe 
Iimocente, ou cuja culpabilidade era muito duvidosa, seria 
maIquÍ8tar-8e com este, em vez de lhe captar a boa von- 
tade, podendo-so adduzir em abono d'esta nossa opiniS5> as 
palavras de D. Jeronjmo de Leon, em imia relação diri- 
gida ao cardeal Spinola, acerca das coisas que sabia de 
Portugal, quando diz que sentiu muito a prisílo de D. 
Duarte, por fuudar Hespauha na sua Holicituile grandes 
egperanças *. Com isto não queremos assentar que o governo 
de Madrid dotiapprovuu o prúcodimento dos símis ministros, 
mas só que nâo partiu d'clle a iniciativa, que uào houve a 
pressa que se affirma, antes hesitação proveniente do que 
apontíimos, hesitação que entSío se deu com outros por causas 
semelliantes. Nem Olivares tinha motivos para desconfiar 
do zelo dos ministros hespanhocs no império, a respeito de 
Portugal, pelo contrario os maiores para descançar n'elles, 
assim como na dependência da corte do Fernando III, e 
portanto para esporar que uào deixariam escapar- so o prín- 
cipe portuguez. 
^ Já pintámos D. Francisco de Mello como dedicado de 
rpo e alma ao governo de ^ludrid, e como um dos pro- 
tegidos e aduladores do conde-duque, servindo em tal ca- 
racter de medianeiro entre este e D. João, para os pre- 
liminares e contracto do seu casamento com a filha do se- 
nhor da casa de Medina-Sidonia. Esquecido da terra em 
que nascera, do nobre sangue que lhe pulsava nas velas, 
dos favores e protecção que devia aos duques de Bragança, 
seus parentes e da própria honra, sem pundonor nem cons- 
ciência, D. Francisco de Mello subiu, primeiro á sombra 
de D. Theodosio que se enganara com clle, e depois graças 
ás suas quíilidades vis, mas necessárias, e também ao seu 
talento, aos mais cubicados postos da monarcliia. NSo co- 



I Arch. de Simancas, Maço 7041, Mas. 



314 

nhecemos qneLra nas suas relaçSes com a família Bragan- 
tina, a nSo ser a que talvez procedesse entre elle e o ve- 
lho duque, da sua interesseira ingerência no casamento de 
D. JoSo; antes, D. Francisco contmuou a manejar os ne- 
gócios da casa cm Madi'id, pelo menos títí ás proximidades 
da revolta de Évora, em qu«P não o fez por estar ausente *. 
Inclinarao-nos por conseguinte a crer que o feio papel que 
representou na perseguição de D. Duarte nSo procedeu 
de qualquer oílensa pítrticidar, porém das funcyues do seu 
cargo, do desejo de se tornar agradável a Hespanha, so- 
bretudo ao condoduque, cuja animosidade contra o infante 
devia conlicccr perfeitamente, e talvez de certas mii^as am- 
biciosas ílccrca do estado de Bragança. Outro motivo ainda 
existia para o seu comportamento : o ódio que votara a tudo 
quanto era nosso, ódio de rent-gado, o peior de todos, por- 
que precisa sempre manifestar-se, temeroso a cada instante 
de incorrer no desagrado dos filhos da sua pátria adoptiva. 
Aos olhoa dos hespanhoes nunca elle deixara de ser por- 
tuguez; convinba-Ibe pois mostrar pelos factos, e quanto 
mais estrondosos melhor, que era hespanbol de alma, quan- 
do só o era de ambiçSo, em que consistia o movei das soas 
acv<5es. Proporcionou-lhe a sorte na perseguição do infante 
um novo meio de servir o seu poderoso protector, e, em- 
bora ao principio hesitasse, aproveitou-o depois com anciã, 
esperando obter em recompensa outras honras e mercês. O 
mais tinha-o por indifferentc. Que fosse culpado ou inno- 
cente, amigo ou inimigo, parente ou estranho, nada lhe im- 
portava. 

Se porém D. Francisco de Mello era o principal de todos 
os ministros de Hespanha, residentes na curte de Fernando 
ni, tí se, por tomar nessa qualidade maior parte na prisão 
do infante,' ser portuguez, aparentado como a casa de Bra- 



^ Bib. Nac, MfiB-, D. Froncieco Manuel de MeHo, Memorial a D. 
João IV. 



315 

ganoa, e d*ella outr'ora protegido, acarretou com a máxima 
por^ào de censura da posteridade^ é de justiya lembrarmos 
que havia então na mesma corte um embaixador ordinário, 
o marquex de Ca&tafíeda, além do marquez de La Fuente, 
que de Veneza acudira ali a varias occurencias do seu offi- 
cio, e que os outros personagens importantes^ heepanhoes, 
ou da parcialidade hcspanhola, pesariam também pela sua 
influencia nos actos d'aqueUe ministroj comn ba pouco vi- 
mos, na tentativa que bouve de o prender a elle próprio, 
o nas palavras de D. Francisco Manuel de Mello. NSo 
88 pense que o pretendemos illíbar da gi'avp culpa que lho 
toca; falta- nos base para fazel-o, e as presiunpçoes o as 
provas levam ao convencimento do contrario. D. Francisco 
e o marquez de Castaieda teem ainda contra si o mesmo 
infante, que os accusa de serem seus gi-andes inimigos*. 

No quu respeita á família e corte imperiaes, as circum- 
stancias nào favoreciam menos a perseguição do infante. 
Os laços que pri^ndiam os interesses do império á Ilespa- 
nha eram apertados e indissolúveis. O parentesco de Fer- 
nando III com o soberano hespanbol estreitara-se muito, 
em mil seiscentos o trinta e quatro, por meio do seu casa- 
mento com a infanta D. Maria, irmã d*elle. As pessoas que 
esta comsigo levara tinham ido augmentar os numerosos 
partidários da politica do g.ibinete de Mafb-Jd. Entre esses 
partidários, contavam se na primeira plana o doutor Agos- 
tinho Navarro Burena, secretario da imperatriz e advogado 
da embaixada bespanhola, e o padre Fr. Diogo de Quiro- 
ga, confessor da mesma senhora, que de soldado passara 
a religioso, e por actos pouco decorosos ao estado que pro- 
fessava, chegara a obter tSo honroso emprego, além da mercê 



1 Areh. Nac. da Torre do Tombo, Caea O, Caixa 17, Tomo iv, B., 
pag. 609, Carta do infaate a Duarte Nunee da Costa de 10 de julho 
de 1642. Msa. 

Bib. de Évora, Mas., 106, 2, 11, foL 342, Carta de Taquet ao conde 
da Vidigueira de 19 de agosto de 1645. 



316 

de conselheiro aulico, homem de temanho poder qae, pas- 
Budos aunos, ouaou arcar com o valido do imperador, o conde 
de Traiitsmandorf, tramando contra ellé uma terrível con- 
Bpiraçílo, como veremos. Nas pessoaíi preponderantes do im- 
pério tinha egualmonte Hespanha vários sequazes, que com- 
prara a troco de pensões e benefícios mais ou menos escan- 
dalosos. A todas estas causas de imiJLo entre os doiB gover- 
nos juntava se a solidariedade politica qne os ligava, como 
dois ramos que eram da potente e ambiciosa casa d' Áustria. 
As armas de ura ajudavam as armas do outro ; as operações 
militares de ambos dispunham-se como n*um plano geral, 
e estendiimi-se desde os Pjrineus pela França, Hollanda, 
Flandres, a maior parte do que hoje forma a Alleraanha e a 
Áustria, e o norte da Itália; entretanto a influencia de Hes- 
panha preponderava, e, até mesmo, apesar das queixas dos 
allemàes, a que jti se tornava pesada a espécie de jugo em 
quo viviam. Por estas e outras rozSes, a imperatriz o os 
ministros hespanhnes mandavam tudo na corte de Vienna*. 
Apresentaremos um exemplo d' essa influencia e desconten- 
tamento. 

Em mil seiscentos e trinta e nove, sendo ameaçada a 
Bohemia pelas victorias dos suecos, e tratando-se de lhe 
enviar promptos soccorros, ficou irresoluto o consrlho im- 
perial em Vienna, porque o prendia a necessidade dos au- 
xílios pecuniários do governo de Madrid, que em troca 
exigia âoccorros de gente. Doiam-sc os allemães, diz um 
auctor contemporâneo*, de haverem chegado A situaçSo d© 
depender da vontade dos ministros hespanhoes e accusa- 
vam-os de ter dado occasiSo á perda de Brisach, nSo só 
retendo em Flandres Picoloraini e Laniboi, quando deviam 



» Bib. de Évora, Mpb., 106, 2, 11, foi. 228. Notas .in infante ao Por- 
tugcU convetisidn cou la rasrm, tle D. Nicolau Fernandes de Castro. 

'Coute Galeazzo Gualdo Priorato, Húlorla universal ddlc guer- 
re siicccsae ndVEuropa daWanno ÍG30 sino alVanno 1640. Geuova. 
1648. 8." 



317 



Boccorrer esta praça, juntamente com Ghetz, mas tnrabem 
não accedendo a enviar tropas da Itália para a Al»acia, a 
fim de se valer a fortaleza tào importante, e qae era a chave 
do império. Nilo obstante essas queixa» e as deaiutelligen- 
ciaa do parte a parte, os hcspanhoes e os allemXes dissimu- 
lavam, pela prcoisSo que tinham uns dos outros, aquel- 
les das tropas de Allemanha, e estes do dinheiro de Hes- 
panha, poia os seus cofres achavam-se vaeios. Admira- 
vam-se muito os alIemSes de que os hespanhoes, que tanto 
estimavam a grandeza imperial, com que também sustenta- 
vam a sua, tirando do exercito cesáreo os melhores solda- 
dos, olhaHi^eiu unicamente aos seus interesses, e aos provi- 
mentos de Flandres e da Itália, e só se procurassem defen- 
der da França, que mais temiam. Oulros julgavam que os 
hespanhoe» deviam attendor ás suas coisas, do preferencia 
áe germânicas; que o damno que os snecos podiam causar 
ao império nSLo era tamanho como vulgarmente se imagina- 
va, porque, antes de chegarem ao coração do paírimomo 
imperial, haviam de guerrear os estados de Brandeburgo, 
Saxonia e outros protestantes, alliados com o imperador, 
os quaes primeiro soílVeriam todos os prejuizos; quo d*aqm 
resultaria um bem para os austríacos, pois, sendo a guerra 
no8 paizes dos heréticos, estes se enfraqueceriam, ao passo 
que cobraria força a grandeza cesárea; pelo que, quando 
houvessem com as armas defendido Flandres e a Itália dos 
francezes, e feito a pau com estes, ou quando rebentassem 
em França algimias alterações, voltariam os imperiaes to- 
das as forças contra os pobres príncipes allemííes enfraque- 
cidos, e facilmente os reduziriam á obediência, cumprindo- 
86 d'e&te modo os vastos e bárbaros iutentos dos ministros 
de Hespanha. NSo sabendo o conselho imperial, no meio 
d'e8tas idéas politicas, se o que estes diziam e promettiam 
era a vontade do seu rei, e até suspeitando o contrario, man- 
dou-se ura embaixador para representar a Filippe IV o es- 
tado da Allemanha, a importante perda de Briaach, e a 



318 

necessidade de grande soccorro para reciiperal-a, e impe- 
dir maiores progressos a Weiínar e a Baner. 

Nâo nos pinta o que acabamos de escrever a depen- 
dência de Allemanha do governo hespanhol, e a illimitâda 
preponderância d' este na corte de Vienna? Pois toda essa 
preponderância, nascida de tantas causas, qual d'eUa8 mais 
forte, armava-se contra a lealdade, a innocencia, e a jus- 
tiça, para encarcerar e perseguir o nosso infante, sorrindo 
de antemão, porque esperava sabir facilmente vencedor» 
da lucta. 



Quando procella tSo medonba [ameaçava o infante, cor- 
ria este com o seu regimento era defeza do monarcha al- 
lemao, cei-cado pelos suecos em Ratisbona*. Ábrira-ae a 
treze de outubro de mil seiscentos c quarenta, n'c3ta ci- 
dade, a {lieta imperial, com o fim de discutir os urgentes 
negócios do estado, e Fernando III dirigira-se para alli no 
intuito de vigiar de perto os seus trabalbos. Tinliam co- 
meçado aa discussSes da paz, cmquanto nos campos de ba- 
talha ee debatia a causa da Europa com as armas na mSío ; 
porém a força da quadra invemosa obrigara os combatentes 
a retirar-se ao abrigo doa seus alojamentos. A ferocidade 
dos homens havia cedido á da natureza; a lucta d'elle8 á 
das tempestades; o solo regado de tanto sangue cobrira-se, 
como para o disfarçar, com o seu veu de branca neve; e 
os riort, em vez de franquearem passagem aos exércitos e 
de volverem nas suas aguas os corpos mortos ou agoni- 



iFr. Tiuiotheo Cíabra Pimentel, Panegryrico funeral . , 



319 



tttea, corriam silencioBOs e pacíficos por debaixo de den- 
camadas de gelo. Tudo parecia couvidar ao repoiso. 
De repente, no meio de tamanha quietação, os área ani- 
mam -se de bellicos rumores; o tropel dos soldados, o re- 
linchar dos ginetes, as vozes do commando, o rodar da ar- 
tilheria, casam-so ao rugido dos ventos; é que, a despeito de 
todas «ô intempéries, de todas as contrariedades da guerra 
desenfreada do còo e da terra, Baner, cuja intrepidez nâo 
conhece perigos nem obstáculos, sabe com o seu exercito 
do acampamento de Luneburgo, e dirige-se para onde só 
elle sabe, pois a ninguém confiara os seus projectos. A es- 
pessa neve que acoberta os caminhos facilita-llie o modo ' 
^e transportar as tropas com extrema ligeireza, e o grosso 
gelo qtio obsta á nav^gaç^o dos rios, permitto-lhe trans- 
pol-os sem pontes nem barcos. Levando comsigo o general 
francez Guebriant, Baner atravessa, com a rapidez do raio 
* Thuringia e o Voigtland, e apparece em frente de Ratis- 
bona, antes de se aperceberem que partira do Luneburgo. 
ííSo ha palavras para descrever cabalmente a consternação 
da dieta. Os representantes das potencias estrangeiras fu- 
giram; todos os soberanos allemíes dispunham-se a imitar 
este exemplo; só o imperador teve a coragem de declarar 
que nâo deixaria a cidade, qualqner que fosse o destino 
que lhe estava reservado; e a sua firmeza animou os timi- 
■dos. O desgelo do Danúbio, e as forças, que correram pres- 
tes em auxilio de Ratiabona, livraram-a e a Fernando Ilide 
tilo grande perigo, vcndo-se obrigado o general sueco a 
deixal-a, depois de lho lançar muitas bombas. AV^ra d'estas 
forçivs, outras se puzerara em marcha para acudir tam- 
bém ao soberano allemSo, e entre ellas conta-se o regi- 
mento do nosso infante, que nSo passou de Ulma, por lhe 
chegar a noticia da retirada de Baner. 

Nào menos profundo para a dieta foi porém o golpe que 
recebeu com a noticia do levantamento de Portugal ; chega 
mesmo a assegurar o conde Galeazzo que lhe causou maior 



320 

perturbação do que a viainliança dos suecos, pois coiiliecia 
que, convindo ao rei catholico empregar o seu dinheiro na 
defeza do próprio reino e no castigo doa levantados, »e âí- 
minuiriam os soccorros que Ilespanlia costumava dar lar- 
gamente ao imperador e ao imj>erio. 



VI 



Quatro fins principaes aconselhavam a prisão do infante 
á corte de Jfadrid : privar Portugal da sua presença e dos 
seus conhecimentos militares, que lhe seriam do mais ins- 
tante proveito e causariam o maior damno a ílespanha, 
pela pratica adquirida no exercito cesáreo, e pela grande 
aura popdnr que no reino gosava; livrar-se de mais este 
successor ao íhrono, quando o novo rei si) tinha três filhos 
e de pouca edade; intimidar porventura, com esta medida 
de rigor, D. Jnilo IV e o paia; e também esperar valer-se 
da sua influencia para oppol-a á de hcu irmão, e a^sim con- 
seguir sujeitar novamente os portuguezes, do que nHo per- 
dia, nem perdeu por muito tempo a idéa. 

Trabalhou pois D. Francisco de Mello, ajudado pelos 
seus 8e€[uazes, era dispor os ânimos de quem o podia auxi- 
liar, © em encarecer ao imperador, com varias razSes, a 
necessidade de prender o infante, no que manifestaria a b\\& 
amizade pelo rei seu cunhado. Ponderou-lhe que, tendo sua 
magestade cesárea eate príncipe em seu poder, facilmente 
se extinguiria a revolta de Portugal, e que, se, ao contra- 
rio, elle se escapasse dos seus domínios, iria soccorrer o ir- 
mão cora a longa experiência, alcançada na guerra, cora 
o alento que pessoalmente prestaria aos portuguezes, le- 
vando-os a arraar-se e a resistir ao rei catholico, e pro- 



321 



movendo aâsím uma grandíssima diversão por aqiiella parte 
ás operaçíJea militares, em que, tanto Hespanha como Al- 
lemanha) andavam empenhadas, o qae acarretaria conse- 
qnencias gravisaimas para ambas. 

Sentiu-se Fernando III da proposta, e não poude escon- 
der quanto lhe desagradava, dizendo que nSo havia motivo 
algimi que o obrigasse a faltar á fé jurada e ás leis da hos- 
pitalidade; que D. Duarte estava em Allemanha, e nSo ti- 
nha culpa dos successos de Portugal; e que os serviços que 
prestara ao império não mereciam que se violasse a seu 
respeito a immunidade e liberdade germânicas para inju- 
rÍAl-0. 

O axcliiduque Leopoldo, ii-mSo do imperador, a que este 
commuoícou a matéria, repelliu também, com indignação, 
a proposta de D. Francisco de Mello, Conhecedor das no- 
bres qualidades do infante e dos seus serviços, Leopoldo 
foi ainda mais longe: fez com vehemencia o elogio d'ellaa 
e d'elle8; lembrou quanto se lhe devia; mostrou como se- 
ria a maior inBdel idade, a mais detestável ingratidão, tra- 
tar assim um tal príncipe, que descançava na fé publica, 
que elle mesmo lhe havia certificado, e protestou, que con- 
sentir se na sua prisão, equivalia a quebrar as franquezas 
do império, o que censurariam todas as nações. 

Não fraquejou D. Francisco de Mello no Intento, nem 
se assustou com a má vontade do imperador ou com a do 
archiduque, e procurou interessar em seu favor o valido, 
conde de Trautsmandorf, e outros ministros obrigados ás 
pensões que recebiam de Hespanha, promettendo-lhes por 
isso consideráveis sommas; porém alguns d'elles, surdos á 
voz da cubica, desprezaram as offertas, sustentando que 
aquella proposta contra D. Duarte era injusta. 

N^este comenos, outras traças, urdidas habilmente por D. 
Francisco e pelos eeus, tinham produzido certo effeito, 
e a constância do imperador, minada por ellas, começava 
a vacillar. Os ministros imperiaee, vendidos a Hespanha, 



H. 1. D. D. — T. I. 



21 



322 



coaheceraiB-o com prazer, e aconselharam-lhe que, para se li- 
vrar de escrúpulos, coiiâultasse o confessor da imperatriz, o 
padre Fr. Diogo Quiroga, de cujo caracter faUmo3 ha pouco, 
lieâpaniiúl, já disposto pelo astuto diplomata, e, adslin como 
AgoBtinlio Navarro Burena, dos principaea da conspiração . 

Continuava a lucta; multipHcavam-se os ataques; os obrei- 
ros do mal nâo descansavam. Tentou-se o animo da pro» 
pria mulher de Fernando III, e esta cedeu facilmente. Era 
um auxilio immenso. Moatrara-se ao principio compadecida 
da sorte do infante, ou simulada ou verdadeiramente; le- 
vada pelas BUggestSea de maus conselheiros, endureceu o 
coração, seja não estava endurecido; mudou de sentimento 
ou antes de apparencia, e, depois de ajustar com Quiroga 
o modo de reduzir seu esposo a prendel-o, levou o esposo 
a buscar nos conselhos do mesmo QuitTOga remédio ás du- 
vidas que o assaltavam. Bem se vê que era irmJ de Fi- 
lippe IV. 

Satisfez -lhe a vontade Fernando, mas não se convenceu 
com as palavras do padre. Todavia tornava-ae-lhe impos- 
sível resistir por muito tempo. A mulher, os ministros, e, 
entre elles, o conde de Trautsmandorf, outr'ora amigo do 
infante, a religiSlo, embora representada por tâo indigno sa- 
cerdote, como Quiroga, a politica intransigente, como sem- 
pre, o parentesco, tudo, tudo instava para que assentisse 
ao pedido feito em nome do aoberano hespanhol, e ás re- 
presentações multiplicadas dos que esposavam a sua causa. 
Oa defensores do infante iam visivelmente perdendo terre- 
no; pelo contrario, os seus perseguidores augmentavam em 
numero e estratagemas; e tantos foram estes, que o impe- 
rador convenceu-se finalmente, ou, levado da necessidade, 
fingiu convencer-se, de que o obrigava a prender o príncipe 
portuguez, não a intriga e a perfídia, mas a razão do es- 
tado, palavra que n'aquelle tempo servia para velar o des- 
culpar, muito mais do que hoje, qualquer violência, por 
maior que fosae.^ 



I- 



323 



^ 



Decidiu-se pois a uorte do infante; e, apenas obtida a 
annuencia de Fernando 111, recebeu D. Luiz Gonzaga, ir- 
mão do duque de Mantua, em cujas veias ainda girava o san- 
gue da família de Bragança, e seu companheiro no exer- 
cito, o encargo de ir ao quartel de Leyphen, e de o cha- 
XD&r da sua parte a Ratisbona. Ao mesmo tempo dlvutga- 
ymm-se vários boatos a seu respeito, espalhadoi sobretudo 
pelo ódio dos bespanlioes: que a sua ida a Portugal em 
trinta e oito fora por causa da revoluyào; que, de cami- 
nho, passara por Inglaterra, e por Hamburgo e outras cida 
dfis hanseaticas, para diligenciar armamentos; e que, ape- 
nas soubera dos successos de Portugal, fugira. 

Induzidos por taes boatos, ou talvez antes para legiti- 
mal-08, 08 ministros de Hespanba puzeram talba de oito 
mil húngaros á sua cabeça, e expediram ordens a Itália o 
a outras partes, para o prenderem. Diz-ae ainda que, n^o 
iulg:indo bastante D. Luiz Gonzaga para si^tisfazer a com- 
miasílo, como desejavam, persuivdiram Picolominl, general 
do exercito, o mesmo sob cujas ordeus o infante servia, e 
que se achava então na corte, a mandal-o segurar em Ley- 
pben, para o que este enviou o coronel D. Jacinto de 
Vera, com a seguinte escripto: Ordeno ao coronel D. Ja- 
cinto de Vera, que vá ao quartel de Leyphen, a prender 
o príncipe de Bragança; que, não o podendo conseguir, o 
mate; e que, vivo ou morto, me traga o seu corpo. 

Entretanto D. Duarte partira do acampamento para lia- 
tísbona, a íim, segundo se dizia, de tratar alguns negocio» 
dos seus soldados, e, seguindo o caminho do Danúbio, es- 
capou de ser morto pelos que o buscavam em terra, com 
o engodo do premio ofiferecido. 

£8tes factos repetidos por todos que escreveram do pe- 
ríodo da historia portugueza em que iigura o infante, ou 
d'elle em particular, foram bebidos, quer directa, quer in- 
directamente, na Historia ddU rivolazioni di PoHogallOf de 
o&o Baptista Birago; e dizemos indirectamente, porque D. 

ai* 



António Caetano de Sousa e o terceiro conde da Ericeira, 
reprodiizindo-OB na Historia geíiealo^ca, e no Portuga 
re^tauradoj fizeram com que os aproveitasse a maioria dos^ 
auctores. Â crueza das medidas» e a qualidade de estran- 
geiro que se dá em Birago, pois estrangeiros, com rarís- 
simas excepçSes, pouco sabem de nós, dispíjem-nos á da-.j 
vida; porém, quanto a este, essa duvida desapparece, ao aa*^ 
bermos ser o verdadeiro auctor da obra que Uie ú attribuida 
Fr. Fernando de la Iloue, da ordem de S, Domingos, de-J 
pois bispo eleito de Tanger e do Funchal, mandado ex- 
pressamente por D. JoSo IV para cuidar da liberdade de 
seu irmão, que o serviu muitos annos, com grande amor o 
fidelidade, e que escreveu pelos proprioa apontamentos que 
ilie deu o infante *. Quanto á dureza das medidas, tomam-as^^ 
críveis a epocha, e a barbaridade dos hespanboes, emborSi 
á primeira vista, &e affigurem exaggerações. Não coobo- 
cem todos a maneira selvagem e escandalosa por que, em\ 
plena Roma, o embaixador de Filippe IV atacou, pouco 
tempo depois, e pretendeu prender ou matar o bispo de 
Lamego, embaixador de Portugal? NSo se tentou nova- 
mente dar- lhe a morte, quando já ia caminho de Liorne? 
Kão o haviam procurado assassinar antes, ao entrai' na ca- 
pital do orbe eatholico? N5o correu o maior risco a vida 
do mesmo Fr. Fernando de la Houe, em Veneza, por ma- 
chinaçr)e8 do embaixador hespanhol alli residente, só por 
estar encarregado dos negócios do infante, ou dos de Por- 
tugal? ííâo cxjrreu Fr. Fernando egual perigo em Roma 
por idêntico motivo? Isho usaram também da mais censu- 
rável violência os hespanboes em Génova, contra o pa- 
dre Ignncio Mascarenhas, nosso embaixador á Catalunha? 
Contra Pantaleâo Rodrigues Pacheco e Hicoíau Monteiro, 
egualmente por tratarem dos negócios de Portugal na ci- 



1 Bib. da Ajuda, Mbb., Correep. de Luiz Pereira de Castro, VoL xu, 
foi. 20, Fónna da prisão do infante. 



325 

^ade eterna? Contra Fr. Francisco de Santo Agostinho de 
IMacedo por escrever a nosso respeito? Contra Luiz Pereira 
^e Castro, nosso plenipotenciário em Munster, quando, á 
mSo armada, lhe invadiram a residência? Nío fez Hes- 
panha tudo isto, como tudo iremos vendo no decurso da 
presente obra? 

Parecem pois merecedores de credito os factos mencio- 
nados, fixcepto a ordem de Picolomini a D. Jacinto de 
Vera, embora a traga o livro de Bira^o e os que o segui- 
ram, pela razão de a não incluir o infante nos ditos apon- 
tamentos. 



VII 



Vejamos agora como se effeituou a sua prisão. Servir- 
fnos-ha principalmente de guia um dociumento precioso inti- 
tulado : Relacion que hize ai conde D. Francisco de Mello d 
docfor Augustin Navarro Burena de lo que pasó en la prí- 
8Íon de D. Duarte para embiar a su magesfad *^ o qual vao 
de quatro a vinte e três de fevereiro de quarenta e um, 
isto é, desde que o infante desembarcou em Ratisbona, até 
que Navarro partiu de Passaw, depois d'aquelle para ahi 
ser transferido, e contém dia a dia o que entào occorreu. 
Noticia também alguns precedentes. Diverge muito do ge- 
ralmente conhecido, e, n' outras partes, amplia-o. Tudo 
.quanto encerra é interessante, e aproveitámos tudo, por 
8B0, e pela verdade que das suas palavras transpira. O tes- 
temunho do infante* e o de Luiz Pereira da Costa, ou de 

»Bib. Nac, Mfls., B. 2, 1. 
Bib. de Madrid. Mas. 

* Arch. do Estado de Milão, Procesaca de D. Duarte de Bragança, 
QOi ioterrogatorioB ao meamo. Mas. 



326 

Sampaio * corroboram e completam a narração do Navarro, 
e serviram-nos de miiito- 

CoBtinnava D. Duarte no seu quartel de Leyphen, quando 
inesperadamente recebeu a noticia (enviada por imi dos 
gazeteiros que pngava, sobretudo em Niiremberg, para o 
trazerem ao corrente dos acontecimento políticos) de que 
Portugal se havia sublevado. No correio ordinário seguinte 
recebeu outro aviso, accreecentando que o duque de Bra- 
gança fora proclamado rei. Ficou o infante incrédulo e 
confuso; e dizia: isto nSo pode ser; isto é maldade; o 
duque apaziguou o tumulto de Évora, ha poucos annos; 
será outro egual; mas o aviso repetiu-se quatro ou cinco 
vezes, e até alguns seus creados )h'o levaram de Ulma. Estes . 
factos, segundo o seu testemunho, succederam pelos Keis^ 
de quarenta e um. O seu creado Noé, que o acompanhava 
e meiecé todo o credito, diz que pelo Natal, o que vem a 
dar no mesmo. Passaram-se dias, e, meiado o mez, estando 
no refeitório do convento dos Capuchinhos de Kinsprug, 
pouco distante do seu quartel, onde fôra confessar-se, e 
dispondo-se para comer com ellcs, chegou de Rati.sbona o 
tenente-coronel De Redoan, o qual lhe contou, deante de 
D. Camillo Gonzaga, o que vogava a respeito de Portugal, 
e mais que o ouvira em casa de D. Francisco de Mello, e 
que um dos plenipotenciários do duque de Mccklcmburgo 
lhe participara terem-o mandado prender como cúmplice 
na acclamaçSo de seu irmão. Estas novas foram confirma- 
das no dia seguinte por cartas que recebeu de Augsburgo. 

Posto suspendesse o seu juizo até aviso certo, o infante 
começou logo a meditar no que seria melhor em t^o criticas 
circumstancias : se pôr-se em seguro, se ir a Ratisbona, 
para onde já tencionava partir, por causa de negócios do 

* Luiz Pereira de Sampayo, Belação da prisão injusta do. . . »n- 
fante. . . D. Duarte. . , Mbh. 

Arcli. do Estado de Milào, Processofl de D. Duarte de Bragança, 
<1643). MsB. 



327 



B€n regimento, sobre o qne escrevera, algiim tempo antes, 
a D. Francisco de Mello. O modo de se pôr em segiiro era, 
(a crermos o que depois disse a Navarro) passar em duaa 
jornadas a Rtra&burgo ou á Suissa; d'alii, escrever ao rei 
de Hespanha ou ao imperador, explicando o motivo de se 
liaver retirado, e, offerecendo-se ao seu serviço, ficar n'um 
d'aquellf8 paizes livres, até vir resposta de Filippe IV. Pa- 
receu-lhe este o meio de maior segurança, porem nâo o de 
maior reputação, e por isso escolheu o de mais perigo e de 
mais honra: dirigir-se a Rati^bona, onde se achava a côrte 
imperial e D. Francisco de Mello, confiando na justiça d*elJe 
e d'ella, que nâo lhe fariam damno '. 

O que acabamos de expor é insustentável. Se o infante 
julgasse que devia fugir, e fugisse, nSo se aventuraria a 
tanto para ficar em Strashui*go ou na Smissa, â espera da 
decisão d*aquelles soberanos; antes, temos coroo quasi certo 
que de Leyphen segiuria immediatamente para França, que 
lhe demorava próxima, onde se veria f(Sra de todos os ris* 
cos, por ser paiz inimigo de Hespanha e da casa d' Áustria, 
e, portanto, nosso alliado natural, e d'onde se transportaria 
com facilidade a Lisboa. 

Fr. Timothoo Ciabra Pimentel, vae mais além na inve- 
posimilhança, quando escreve: «Com os avisos que alli che- 
garam (a Ulma) da restauração, esteve o infante tHo longe 
e alheio de faltar ainda á obrigação que nSo tinha, que foi 
ter com o imperador, para de sua ordem e conselho, fazer 
volta e jornada a este reino; mas o imperador o mandou 
prender, chegando a Ratisbona *i> . Esta opinião parece egual- 
mente inadmissível, e é de certo confusSo com o pedido 
que o infante depois apresentou a D. Francisco de Mello, 

í Bib. Nac, Mes., B., 2, l,Iieiacian etc. 

Arch. do Estado de Milito, Proceseos de D. Duarte de Bragança, in* 
terrogatorios do mesmo. Mas. 
Id. InterrogatorioB Ue Luiz Pereira de Sampaio. (1643). 
' Panegyrico funeral . . . 



328 



para o governo hespanhol o deixar vir a Portugal debelUr 
a revolução, como dentro em pouco veremos, pedido que 
tanabem faria a sua mageatade cesárea. 

Em vez de acreditarmos aa escusas do infante, pergun- 
tamos : nSo fugiria elle se soubesse o verdadeiro estado das 
coisas, se avaliasse bem a importância da revolução, que 
collocara no throno o duque de Bragança? Levou-o ao passo 
tSo contigente de se ir entregar nas mãos do imperador, só, 
como elle quer persuadir, :i idéa de nâo ter culpa, que com 
effeito julgamos não tinba, quanto a tomar parte na obra 
activa da restauração portugueza, ou também, e mais do 
que tudo, essa ignorância? 

ResponderSo por nós o próprio infante e D. João IV. 
Nlo pode baver melbores depoimentos. Referindo-se ás ac- 
cusaçSes contra a sua pessoa por haver conspirado para a 
liberdade da pátria, escreveu o primeiro, passados alguns 
annos: «Saibam que os ministros de Caatella me impõem 
mil falsos testemunhos para desculpar a minha prisão, sendo 
que fui t3o infeliz, que não se me deu parte da restituiçSo 
d'el-rei, nem houve quem se lembrasse de me advertir que 
me puzesse em seguro*». O segundo, nas instrucçSes ao 
marquez de Niza, quando em quarenta e seis o tomou a 
enviar por embaixador a França, diz: a O rei de Castella 
quer imputar culpa ao infante, depois de quasi seis annos 
de preso, da resolução que eu e o reino tomámos de me res- 
tituir a esta coroa, sem nenhuma noticia do infante, pois, 
se a tivera, se não havia de ficar em poder de seus inimi- 
gos, antes, livrando-se d'elles, havia de procurar vir de- 
fender o reino em que nasceu, e servir-me na guerra, des- 
embaraçando -se de outras em que não lhe ia nada'». 

Se portanto o infante houvesse recebido aviso certo e fide- 
digno dos successos de Portugal, no tempo conveniente, 

>Bib. de Erora, Mbb., 106, 2, 11, foi. 342, Carta de Taquet ao ooa> 
de da Vidigueira de 19 de agosto de 1645. 
*Id., id., 105, 1, 8, foi. 100 T, as ditas instrucçoes. 



329 

r-se-hia posto em salvo, e a causa da independência con- 
tal-o hia entre os seus mais estrénuos defensores. Mas, em 
iogar d'Í880, apenas, nos princípios de janeiro de quarenta 
e um, soube vagamente o que acontecera e tanto que nem 
o acreditou; e, quando pelo tenente-coronel De Redoan, e 
por carta datada de Augsburgo, lhe veiu a confirmaçlo 
do caso, mas aínda confuso e deturpado pelos inimigos, foi- 
Ihe participado juntamente pelo mesmo tenente-coronel, e 
deante do Camilío Gonzaga, que o tinham mandado pren- 
der. Posto n'e8ta triste situação, vendo nos dois talvez dois 
espiaa, julgando que outros o saberiam, que outros o guar- 
dariam, que por toda a parte o procuravam, que partido 
lhe reatava tomar? Ou fugir, arriacando-se a apanharem-o 
e a comprometter-se deveras, sem saber se a causa era 
d'ÍBso merecedora, e se com a fuga beneficiava ou prejudi- 
cava o seu paiz e o seu irmão, ou confiar na generosidade 
de Fernando III, que aliás avaliava por bastante duvidosa, 
pois, Begundo as suas expressões, o soberano allemSo e oa 
BeuB ministros tomavam muito a peito os interesses de Hes- 
panba, e tanto perigo era para elle estar em Vienna como 
em Madrid, porque a imperatriz e os ministros liespanhoes 
mandavam tudo'. 

Fosse qual fosse o motivo, o facto é que o infante nâo 
mudou a tenção, que formara, e, deixando o seu quartel, 
partiu para Ratisbona, pelo Danúbio, por ser a viagem mais 
breve, nos últimos dias de janeiro, obtida licença do general 
Picolommi, com data de dezenove do dito mez; tocando 
porém em Donawerth, cidade posta na ribeira do mesmo rio, 
a doze legoas de Leyphen, onde findou a primeira joruada, 
recebeu uma carta de D. Luiz Gonzaga, na qual lhe mos- 
trava desejos de assentar com elle alguns pontos relativos 
á sua tropa, então aquartelada; pelo que o esperou maia 



l Bib. de Évora, Mbs., 106, 2, 11, foi. 228, Notas do infante ao Por- 
titgal convenzida con la rosou, de D. Nicolau Fernandes de Castro. 



330 



de um dia, tendo como certo, que, por liaver de marcliar 
o exercito, e querer D. Luia ir para Flandres, o chama- 
vam em seu logar. Aportou D. Luiz a Donawérth; per- 
guntou lhe apenas se se dirigia a Ratisbona, e foram na- 
vegando durante todo o dia, som se occuparem de negocio 
algum. A noite, em terra, ceiaram juntos, e despediram-ee 
um do outro, retirando>se D. Luiz. Algum tempo depois, 
pareceu a D. Duarte ouvir-lhe a voz na rua; cliegou á ja- 
nella, e viuo, passeiaudo e falando, emquanto que o conde 
do Glisiguieri entrava muitas vezes no seu quarto, Bahindo 
logo sem motivo, nem dizex coisa de importância; do que 
inferiu, por conhecer os rumores de Portugal, e os intentos 
contra a sua pessoa, que o tinham debaixo de prisSo. Na 
manliíl seguinte perguntou a D. Luiz qual a causa do que 
acontecera a noite anterior, e se o levavam preso; ao que 
elle respondeu intimando-lhe a ordem de sua magestado ce- 
sárea. Continuaram na viagem pelo Danúbio; anoiteceu; 
desembarcaram ; e o infante para forrar a D. Luiz o incom- 
modo de lhe flear de guarda na rua, obrigou-o com rogos 
a dormir no seu quarto. Ia D. Luiz acompanhado por ura 
só creado, ao passo que os do infante eram trinta. Soube- 
ram estes ou suspeitaram o perigo que corria o amo, e ai- 
gtins d'elle8 aconselharam-Uie que o lançasse ao rio, con- 
selho a que o generoso príncipe portuguez não deu n«n 
podia dar ouvidos. No dia seguinte, quatro de fevereiro, 
fundearam em Ratisbona. 

Chegou o infante ao cães ás três horas da tarde, em com- 
panhia de D. Luiz Gonzaga, e logo Navarro que o aguar- 
dava alii, deade pouco depois do meio dia, por ordem de 
D. Francisco de Mello, entrou no barco, cumprimentou-o 
da sua parte, e diase-lhe: que, nâo podendo elle ir ao seu 
encontro por algims motivos de força, o mandara em seu 
logar; o que o infante agradeceu, posto friamente. 

Desembarcados todos, subiram aos coches que D. Fran- 
cisco enviara, assim como o conde Glisiguieri, que parecfe 



j 



331 



f acompanhara D. Luiz Gonzaga, e o capitão Miguel dcl 
Zerro, e, conversando o infante em coigae ordinárias, foram 
apear-ae á liospedaria chamada o Chapéu da Província ou 
08 TrcB Morriôes, onde os forrieis do imperador lhe haviam 
preparado para alojnmento um quarto muito pequeno e 
rpouco decente. 

Entraram e permaneceram todos mudos, durante algum 
tempo; até que o infante rompem o silencio, dizendo: que 
julgava ia apear-se a caBa de D. Francisco de Mello, e que 
aquella habitação era extremamente incommoda e limitada. 
Em seguida ordenou a um ereado que fizesse esperar oa 
coches, porque pretendia visital-o. 

Ent2o Navarro, conhecendo a impoBsibilidade de continuar 
calado como até alli, pois n'eàte caso teria de resistir á rea- 
lisaçSo do seu intento, pediu-Ihe para se retirarem a um 
dos lados do quarto, e communicou-lhe em particular, con- 
forme D. Francisco de Mello determinara, que o motivo de 
elle o nSo ter esperado á chegada, nem o ter alojado em 
sua casa, era a resolução do imperador de se assegurar da 
BUa pessoa, por haver seu irmSo, o duquo de Bragança, 
tomado armas contra o rei de Ilegpanha, acchimando-se rei 
de Portugal, consentindo que lhe beijassem a mão, o despa- 
chando embaixadores a alguns soberanos ; e que o impera- 
dor adoptava esta medida por temer que entre elle e o novo 
rei pudesse existir alguma communicaçSo a respeito da re- 
volta, o que n3o era difiicil de presumir, em vista do seu 
estreito parentesco. Dito isto, aconselhou-o a que sup- 
portasse semelhante lance com animo c pnidencia, como 
d'ene se devia esperar, porque, vendo-se que não tinha 
ctdpa, como era provável, ganharia, e não perderia, em 
credito e commodidades. Aqui parece haver um erro de 
Navarro, quando, já n'aquel]a data, fala em Allemanha de 
terem sido nomeados embaixadores por D. João IV ás na- 

BB estrangeiras; mas nSo é assim; porque, com efFeito, 
logo a doze de dezembro o foram para Roma, França, In- 



332 



glaterra, Hollanda e Catalimka, embora só partíasem maís 
tarde. 

Ouviu o infante com attençao a Navarro, e, suspirando, 
reapondeu, que Deus conhecia o fundo da sua alma e o8 
aeus pensamentos; que nunca suppozera que seu irmlo 
commettesse tal erro, tanto que, noticiando-se-lhe, havia 
quinze dias, o acontecido, respondeu que o nSo acreditava, 
mas que, a ser verdade, estava certa a perdi çSo da sua 
casa; e que, tendo resolvido ir a Ratisbona, sobre o que es- 
crevera a D. Francisco de Mello, apressou a viagem para 
se aconselhar com elle acerca do seu modo de proceder, 
depois de tâo inesperado accidente, do qual esperava sahír 
illibado, graças a Deus e á sua consciência. 

Acabadas estas palavras, despediu-se Navarro, dando o 
infante, por delicadeza, alguns passos fora do aposento para 
o acompanhar, e tomando logo a elle, por Navarro lh'o rogar 
muito. 

Escrevera D. Luiz Gonzaga n*e8se dia ao imperador, 
quando ainda navegava pelo Danúbio, partic.ipaudo-lhe que 
chegaria a Ratisbona ás duas horas da tarde, e pedindo- 
Ihe que lhe mandasse ao cães as suas ordens, antes de 
desembarcar. Chegou e não encontrou ordem alguma. Re» 
resolveu portanto requerel-as pessoalmente a sua magea- 
tade cesare^n, para saber o que lhe cumpria fazer, e, a esse 
effeito, despediu-se do infante, juntamente com o doutor 
Navarro; mas o cauteloso secretario da imperatriz julgou 
mais prudente que elle nâo perdesse de vista o preso, e 
que referisse por outrem a sua magestade o que de viva voí 
desejava referir-Ihe. Amiuiu D. Luiz Gonzaga, e voltou ao 
aposento de D. Duarte, a que foi posta guarda de um al- 
feres e algtms soldados. Pelo que toca a Navarro partiu 
para casa de D. Francisco de Mello, a contar-lhe tudo 
quanto occorrera. 

D'esta conferencia resultou approvar o ministro de Fi- 
lippe rV o procedimento do seu emissário, e encarregar- lhe 



333 



le procuraBBe maneira de D. Duarte melhorar de aloja- 
mento, ou na mesma casa ou n'outra, o que Navarro exe- 
cutou, pasaando-o para dois quartos grandes, na dita hos- 
pedaria, onde se cjonservou emquanto esteve em Ratisbona. 
As janellas d'c88e8 dois quartos nâo eram muito seguras, 
e houve logo quem avisasse por escripto do perigo a D. 
Diogo de Saavedra Fajardo, embaixador na dieta do Ratis- 
bona pelo circulo e Ciísa de Borgonha, escriptor liespanhol 
bem conhecido, outro espia e outro persegiudor do infante, 
o qual se apressou a communicar o bilhete que recebera a 
D. Francisco de Mello. Em resultado da denuncia, Navarro 
foi incumbido de adoptar as providencias necessárias, e, 
tendo o preso de ficar muito pouco tempo naquelle logar, 
julgou-se bastante pôr guardas na rua, além da aentinella 
que tinha á porta. 

No dia seguinte, cinco, relatou Navarro ao Infante o quo 
D. Francisco ordenara para o melhorar de habitação, e dia- 
se-lhe, que devia saber como o marquez de FeiTeira era o 
que alimentava mais ardentemente a conspiração do duque, 
levantando tropas em nome doeste, e chamando-se capitSo 
general das suas armas; que, para nSo se perder tudo de 
uma vez, sua magestade cesárea julgara conveniente re- 
tel-o; que D. Francisco de Mello, immediato successor de 
um e de outro, desejaria a conservação do cabeça da sua 
casa, e que, se D. Duarte não tinha culpa, conforme era 
presumível, devia considerar que os reis t^o grandes, como 
sua magestade, nSo despojavam as familiaa inteiras de suas 
fazendas, ainda mesmo em crimes tão execráveis, qual se 
considerava o de conspiração; que se lembrasse do que 
acontecera com a casa de Saxonia, no tempo do imperador 
Carlos V, e esporasse da grandeza e justiç» do sua mages- 
tade egual liberalidade; que, se estava comprehendido no 
desacerto de seu iimão^ bem conhecia que ninguém o podia 
auxiliar; e, por ultimo, que D. Francisco de MeUo lhe as- 
sistiria com o que 'houvesse mister para o sustento da sua 



334 



pessoa^ emquanto nâo chegavam ordena de Hespanha a seu 
respeito. 

Como se vê, tentava-se o infante, approximando a soa 
situação e a do novo rei de Portugal das de JoSo Frederico, 
eleitor de Saxonia e de seu primo Mauricio, o primeiro dos 
quaes, por seguir o partido protestante contra Carlos V, 
perdeu o estado, que passou ao segundo, em recompensa 
de haver combatido a favor do imperador. Que projectos se 
esconderiam debaixo d'esta8 alluai5eâ '? Julgavam talvez fácil 
arrancar-lhe informaçSes importantes acerca da revolução, 
como se tentou, maa inutilmente, com o auctor do Tácito 
p»rtugueZf quando, tendo cumprido a sua misslo por causa 
dos tumidtos de Évora, informou de tudo ao conde -duque; 
o que bem se expressa naa seguintes palavras dirigidas pelo 
mesmo auctor a el-rei D. João IV, no seu já citado ilf^K^- 
rial: «Por ventura o galardão que podia esperar de com<- 
prazer áquelle ministro (o conde duque), os signaes que elle 
nSo dissimulava de desejar lhe revelasse alguns segredos 
dos que passavam n*este reino, foram bastantes para me 
metter nos bicos outras razSes que aquellas que me dictava 
a obrigação e a amor que tinha, e guardei sempre, á real 
pessoa de vossa magestade, e a seu estadop. Quereriam pois 
obrigal-o a algimias revelaçSes, dando -lhe a entender que 
alcançaria como premio os estados de seu irmão? Ou en- 
travam n'Í8to as ambições de D. Francisco de Mello, que 
pretendia ser duque em Portugal, como veremos, e, tentaria 
interessar o infante no jogo, e sel-o de imia parte da casa 
de Bragança, da qual já considerava chefe o mesmo infante, 
e a cuja posse, na falta d'e8te, se julgava com direito, como 
se colhe das expressSes de Navarro? 

O infante, a cuja nobre alma de portuguez repugnavam 
intrigas e conluios odiosos^ limitou -se a responder, em tor- 
mos geraes, ao zeloso confidente, agradecendo ao ministro, 
e queixando-se do seu infortúnio, como causa única de o 
tratarem de modo tão diverso de quanto era de esperar, 




I 



I 



335 

pelo desejo de o perseguirem, sem lhe valer estar tSo 
longe de Portugal; mas^ proseguiu, deixava a Deus o conhe- 
cimento de tudo ; se podiam tirar-lhe a honra e a liberdade, 
nunca lhe tirariam a paciência; que soíFressem a pena me- 
recida os auctores da culpa; e depois, em tom de gracejo, 
e para alliviar a dôr: «se me prendem por ter irmãos em 
Portugal, prendam também D. Leonor Pimentel, que alli 
tem um». 

Neste dia escolheu Navarro os familiares que haviam 
de ficar em seu serviço, e, por ordem de D. Francisco de 
Mello, deixou lho Araldo de Tret, seu capcUâo, natural de 

ÍLilla, homem de conhecida virtude; Luiz Pereira da Costa 
oa de Sampaio, seu camarista; Graspar de Magalhães, seu 
mordomo; dois pagens; dois moços da camará; um cosi- 

knheiro; e um reposteiro. 
Desejou D. Duarte escrever a Filippe IV, e pediu a Na- 
varro que para isso obtivesse licença de D. Francisco de 
Mello. Obtida ella, entregou a carta a Navarro, aberta, 
como lhe íura determinado, para que se lesse, cntregan- 

Ido-a este logo ao ministro hespanhol. 
Como o infante nSLo devia demorar-se em Ratisbona se- 
não pouco tempo, decidiu assentar quanto respeitava ao seu 
regimento, e solicitou consentimento de D. Francisco para 
fazel-o na presença de Navarro. A esse fira mandou cha- 

Imar o seu secretario, que era allemâo, e somente conhecia 
a língua própria e a latina, o com elle falou n'e8ta por mais 
de mela hora, nAo sem elegância, dispondo dos seus ca- 
vallos e alfaias a favor dos seus creados, permittindo a al- 
guns que se fossem, e gratificando -os, conforme os legares 
que occupavam e os serviços que haviam prestado. 
^ Acabadas as disposições que julgou necessárias, e a con- 
r ferencia com o secretario, voltou-se para Navarro, e disse: 
«Era opinião de meu pae que se dêem aos amigos, e nSo 
^e vendam, os cavallos de que nos servimos, para que os nSo 
l maltratem; se nSo achaes n'Í8so inconveniente, receberei por- 



336 



tanto grande gosto em acceitardes um dos meus, que es- 
timo muito». E, vendo que Navarro nâo annuia ao seu of- 
ferecimento, posto se enternecesse algpima coisa, por ser 
n'aquena occasiSo, continuou: «Não sabia até hoje que fosse 
delicio receber um presente que ee faz como legado testa- 
mentario, mas, visto que assim o entendeis, conformo-me 
com a vossa vontade, embora muito o sinta». 

No dia seguinte, seis, disse o infante a Navarro que re- 
solvera renunciar o seu regimento, e que D. Francisco de 
Mello dispuzesse d'elle do modo que julgasse próprio, pois, 
segundo o determinado, via que passava ao serviyo de Fi- 
lippe IV. Resptindeu-Uie Navarro que nfto lhe parecia acer- 
tada a renuucia, porque era começar-se a castigar pelas 
suas mãos, antes do conhecimento da causa; e apresentou- 
lhe, a propósito, a fim de o persuadir, alguns exemplos 
que sabia de príncipes do império, os quaes, apesar de 
accusados, haviam conservado oa seus postos e regimentos; 
ao que o infante replicou: «Se Deus houver por bem li- 
vrar-me de tâo ímmerecida oppressâo, a espada, que, du- 
rante o espaço de sete annos, serviu a augustissima casa 
d'Au8tna e n'ella a el-rei, mostrará que nSo se cansou em 
tSo pouco tempo, ainda que me seja preciso derramar o 
sangue, e perder a vida em seu real serviço j e então, re- 
conhecida a minha fidelidade e zelo, não deixará eUe de 
me dar regimentos que commande»). Todavia, insistindo Na- 
varro nas» suas razíSes, concordou no outro dia com ellas, 
6 nomeou para o posto de tenente- coronel do mesmo re- 
gimento, vago recentemente pela morte de quem o occupa- 
va, D. Pedro de la Cueva, hespanhol, bom soldado, qne 
era sargento-mór, e servia no mesmo havia muitos annos, 
ordenando que, para remontar a sna companhia, se tiras- 
sem dois tiros dos seus cavallos, pois nâo oa precisava. 
Segundo quer Birago, o infante mandou offerecer a re- 
nuncia do seu regimento ao imperador pelo conde Slich. 
Não a acceitou Fernando III, mas pouco tempo depois ti- 



rou-lh'o, sem o ouvir, por suggestSes doe beepanhoes. Ne- 
nhum outro documento ou auctor dos que compulsámos 
corrobora esta asserção. 

Foi n'eBte dia D. Luiz Gonzaga visitar o infante, cm nome 
do imperador, e dihse-lhe da Bua parte que estivesse des- 
cansado, e que, se nâo tivesse culpa, sua magestada cesá- 
rea lhe offerecia a sua protecção. Agradeceu-lh'o o infante 
com toda a reverencia; mas, voltando-se para Navarro, ex- 
clamou: «Conceda-me Deus a sua, que a do imperador jA 
vejo quanto me 8ei*ve». 

Parecia diligencia eícusada examinar os papeis do in- 
fante; se houvesse alguns que o comprem ettessem, tinha 
tido tempo maia que suffieíente para os inutiliiíar, desde 
que soube do levantamento de Portugal, antes de ser preso 
por D. Luiz Gonzaga, e mesmo depois, porque os poderia 
ter lançado com a maior facilidade no Danúbio. Citmtudo 
Navarro, embora pensasse d*e8te modo, nào deixou de o 
fozer, já para cumprir com todas aa formalidades, em taes 
actos costumadas, já sobretudo porque D. Francisco de 
Mello aesim lli'o ordenara, por causa de D. Diogo de Saa- 
Tcdra Fajardo haver interceptado um maço de cartas diri- 
gidas ao infante, entre as quaes havia uma de seu irmão, 
em branco, e outra com algumas linhas em cifra, escripta 
pelo padre D. Damazo Cardoso, que assistia em Veneza. 

Hecebida a ordem de D. Francisco, apressou Navarro a 
diligencia, a que já tencionava proceder, e apresentou-se 
para esse tim a D. Duai'te, o qual determinou logo que lhe 
franqueassem os bahiw e uma escrevaninha em que guar- 
dava papeis. Também lhe pediu NavaiTO, que, se tivosso 
alguma cifra, lh'a entregasse, ao que elle respondeu imme- 
diatamente que uma tinha com o padre D. Damazo, e man- 
dou-lh'a dar por Luiz Pereira de Sampaio, seu camarista. 

Do exame de todos os papeis apresentados, que se con- 
tisham em quatro maços, conheceu-se serem contas e car- 
tas de correspondência com varias peBaoas, durante o pe- 



B. 1, B. D.— T. I. 



22 




338 



riodo de sete annos, naa quaes, pa^to que algumas fossem 
um tanto frescas, nâo havia nada em seu prejutzo, e mai- 
las ordens, cm allemão, para o seu regimento, e recebidas 
de seus generaes. Eitas deixou Navarro em poder de Luiz 
Pereira; todos os outros papeis restituiu-os ao infante, co- 
mo determinara D. Francisco de IMello. Quanto á carta em 
cifra de D. Damazo, levou-a a este ministro, o qual a fez 
decifrar por elle e por D. Diogo de Saavedra. Tratava acerca 
de uma pessoa religiosa, de que falava com bera pouca de- 
cência, aconselhando ao intante que a nSo visitasse, sem 
ella o fazer primeiro. A este acto achou-se tarabcra pre- 
sente o marquez de la Fuente. A cifra e a carta iicaram 
nati mãos de D. Francisco. 

N'este meio tempo, um novo acoidente perturbou o ani- 
mo do preso, e de ta! maneira, que logo o deu a conhecer 
a Navarro, quando este o foi ver no dia dnz, recebendo-0 
com modo serio e com pouco agrado, fora do seu coli- 
me e da sua natureza, que era modesta e branda. Suspei- 
tou Navarro que seria falta de saúde, c perguntou-lhe como 
passara a noite, a Como quereis que passe um homem, tSo 
desditoso, que nâo ha ninguém que nào se lhe atreva!» rea- 
poadeu elle; e, proseguindo, contou que chegara um capi- 
tSío do seu regimento, pelo qual soubera como o conde Pi- 
colomini tinha determinado a todos os offieiaes do mesmo 
que nSo lhe obedecessem, nem o reconhecessem por coro- 
nel. Esta resoluçJto do seu general causou-lbe o maior sen- 
timento; n3lo acreditava que partisse d'elle, e sim de ea- 
phera superior; e bradava, e protestava a sua fidelidade, 
assegurando que um golpe tXo sensível tííIo tinha remédio^ 
visto ser publico a todo o exercito. 

Procurou Navarro moderar-lhe a magua, dizendo que es- 
tava persuadido que o conde Picolomini procedera por bÍ, 
pois, sendo este regimento um dos designados para passarem 
ao serviço do rei de Hespanha, não mandaria o imperador 
ordena áquelle general sobre suspender-Ihe ou tirar-lhe o 



4 



339 



coronel; que sabia muito bem que D. Francisco de Mello 
era contra o parecer de começar o julgamento pelo castigo, 
e que ia immodiatamoQte dar-lhc conta do succedido, a fim 
de reracdiar-se o mal. Com eíFeito, Navarro foi ter cora D. 
Francisco, e pôl-o ao facto de tudo. Admirou-se este de o 
conde Picolomini haver tomado tão súbita resolução, e in- 
cumbiu-o de tornar logo a D, Duarte, e de lhe affirmar 
que a tudo se providenciaria, declarando, além d'isao, que 
na noite antecedente o imperador lhe participara a sua 
tenção de o conservar nos postos de sargento general de 
batalba e de coronel de cavallaria. Estas palavras abran- 
daram o sentimento do infante. Foi ainda Navarro ter com 
o conde Slicli, em nomo de D. Francisco, e roferiu-lheo que 
Buccedera. D'aqui resultou falar o conde a sua magestade 
cesárea, e ordenar-ae a Picolomini que nSo innovasse coisa 
alguma quanto aos postos de D. Duarte, porque a vontade 
do imperador era que elle fosso conservada em todas as 
soas honras. 



VÍII 



Desde que o infante soube com certeza que o queriam 
prender, apoderou-se do sou espirito uma grande inquieta- 
ção, e o somno fugiu de seus olhos, durante muitiis noites, 
e a alegria voou da sua alma, se b'3ra, ás vezes, o nio dei- 
xassem transparecer a delicadeza e constância de que era 
dotado. Suspeito de cumplicidade com sou irmão, confiou 
ainda, posto conhecesse perfeitamente a solidariedade de 
principioa e interesses do imperador e do rei do Heapanha, 
que demonstraria a sua innocencia, apresentando -se, de pro- 

22* 




_z^ 




pria vontade, a Fernando III e a D. Francisco de Mello^ 
e que os seus desinteresBados e importantes serviços, o seu 
comportamento, a sua qualidade de príncipe, o privilegio 
de cidade livre de que Ratisbona gosava, estar ahi reunida 
a dieta e a fé publica qucí o próprio archiduque Leopoldo, 
irmão do imperador, lhe garantira, o eacudai-iam de quaea- 
qucr perseguições- Preso antes de chegar ao seu destino, 
viu desvanecer-se parte das suas esperanças; todavia, con- 
tinuou acreditando que, dentro em breve, se conheceria a 
verdade, e sahiria illeeo da culpa que llie imputavam. Pro- 
curava portanto provar o mais poesivel o seu zelo e fideli- 
dade ao governo hespanliol, e no que se acaba de ler estSo 
bem patentes os esforços empregados para conseguil-o. 

«Muitas vezes me fala o senhor D. Duarte, diz Navarro, 
da temeridade de seu irm^o, dando-llie o nome de loucura, 
desatino e ignorancia; e insiste no parecer de |que não foi 
uma acçSo premeditada, porém uma revolução repentina 
do povo, embebido nas crenças sebastianistas, porque o du- 
que não c homem para emprezas, nem para govemar coi- 
sas grandes^ nunca lhe conheceu ambição; e nem mesmo 
Be embaraçava com o governo da sua casa. De sua mulher 
nSo asseguraria outro tanto, e accreacentava: mulier quam 
dedisti mihi*. 

No dia oito de fevereiro, indo Navarro aos aposentos do 
infante, encontrou com elle D. Carlos Quasco, general de 
artilheria do exercito hespanhol, que era seu amigo, e, es- 
tando em Ratisbona, obtivera licença de D. Francisco de 
Mello para viaital-o. Conversou-se nas alterações de Portu- 
gal ; e o infante persistiu na sua opiniSo afiançando que 
o tempo mostraria como o duque fora obrigado pelo povo, 
em revolta, a commetter aquelle desacerto; que os minis- 
tros com as suas demasias o sublevaram talvez; mas que 
nfio havia causa imaginável que desculpasse a traiçSo ao 
seu senhor natural. A quanto força a necessidade I Refe- 
riu-se depois ao mau procedimento de alguns ministros; 



341 



accuaou liliguel de Vasconcellos, sobre cuja ascendência 
se alongou, e Diogo Soares, de tyranniaarem o reino e aba- 
terem íi nobreza; e alludiu áa intrigas do ultimo com o fim 
de inimisar o marquez de la Puehla e a princeza Marga- 
rida, para governar tudo, dividindo-os. 

Outra vez discorrendo Navarro com o infante sobre a 
mesma matéria, e sobre o damno que resultaria a Heapa- 
nha da guerra entre olla e oa portuguezes, por aer dentro 
da península, respondeu-lhe D, Duarte que nunca vira Por- 
tugal tanto, como quando lá foi, havia dois annos; que es- 
tava perdido j com limitado numero de gente, esta mesma 
pobre e falta de tudo ; e que o seu mal provinha principal- 
mente dos portuguezes, por serem poucos e de baixa classe 
os que governavam, e se achavam de posse dos cargos 
e prelazias; com o que, a maior parte da nobreza vivia 
desgostosa; que a recuperação do reino nSo a tinha por 
mui difficil; que era tal a desunião entre os nobres, que 
nem um dia se encobriria qualquer projecto de sublevação, 
quanto mais dois annos, conforme constava; e que, de todo 
o coração^ sacrificaria a vida,'como fiel vassallo -^e Fillippe 
IV, a troíjp de receber novas de Portugal estar aocegado. 

Uma das coisas que extremamente o inquietava era a 
índia e o Brazil; e tanto que, indo Navarro um dia visi- 
tal-o, o infante lhe disse, com as lagrimas nos olhos, ao 
acabar de ouvir missa no seu quarto: «Sabeis no que estava 
pensando ? Na perda da índia e do Brazil, onde a religiSLo 
catholica, plantada com o sangue de tantos martyres, pade- 
cerá a ultima ruina, por causa do terrível desatino do du- 
que; o os paizes, que, com iimanho valor dos cavalleiros 
portuguezes, e excessivos gastos, foram conquistados, cahi- 
rSo indubitavelmente nas rnSos dos nossos maiores inimi- 
gos, pois a índia nSo se pode sustentar sem o soccorro or- 
dinário; e os que lá se acham pactuarão com elles; e quem 
fôr fiel moiTcrá gloriosamente.» 

Nâo contente o iníante com estas mostras de devoção ao 



342 



governo de Fillippe FV, chegava até a asseverar que lia- 
via a melLor coiTespondencia entre seu irmSo e o conde-du- 
que, o que vae de eucontro ao por elle mesmo confessado 
ii'outra parte. 

São falsas algumas d*e6ta8 asserções, e é claro o seu in- 
tuito; mas noutras conliece-BC a verdade que respiram. 

Custa-noa a crer que o infante pensasse de uma maneira 
tSo desfavorável acerca da restauração da sua pátria, con- 
fundindo-a com uma simples revolta popular, desordenada, 
e fácil de extinguir. Ponliamo-nos porém na sua situação, 
no meio da atmosphera politica em que vivia, atmosphera 
agitada pelos grandes interesses da Europa, e viciada pro- 
fundamente pela influencia hespanliola, e de certo o nosso 
juizo mudará immediatamente. 

Paitiu o infante, de Portugal, desanimado pelo que vira, 
para o que tinha razões de sobra. Continuou occupaudo-se 
nas suas campanhas, longe do tracto dos portuguezes, ao 
menos, dos portuguezes não affectos a Hespanha, emquanto 
que no reino crescia o descontentamento contra o domínio 
estrangeiro, e se preparavam surda, dispersamente os ele- 
mentos da revolução. Á superficie do corpo social reinava 
uma calma enganadora, que os mais previdentes supporiam 
nuncia de procclla, mas de que só o povo, nas suas con- 
stantes e quasi loucas aspiraçSes de liberdade, imaginaria 
que tinha de sahir resplendente a aurora da emancipação 
da pátria. 

Já dissemos quanto basta, e n'e8te mesmo livro, para 
pintar o estado de Portugal n'e8sa terrível épocha, e por isso 
nos dispensamos de o escrever de novo. Os débeis passos 
da França, para tentar os ânimos dos portuguezes, ficaram 
talvez occultos ao infante, ou tiveram tão pouca importân- 
cia, e foram tão secretos, que passaram para elle, como 
para o commum, desapercebidos ou quasi. Quanto á suble- 
vação da Catalunha, qual seria o portuguez que não estre- 
mecesse de jubilo com tão fausta novidade? Qual o que 





bKo nutrisse desejos de ver a pátria imitar trio profícuo 
exemplo? Qual nSo sonhou entaa, por roais desalentado c 
descrente, com a emancipação nacional? E conservar-ee- 
hia D. Duarte insensível a tJto nobres sentimentos? Nin- 
guém ousará affirmal-o. 

Mas o silencio q^ue reinava em tomo de Portugal, seme" 
lliante ao que acompanlm 08 últimos momentos do enfermo, 
continuou como até alli, e nada levou o infante a pensar 
que a occidente da penint-ula se levantaria, galvanizado, do 
Beu longo torpor. Emfim um dia chega-lhe a noticia, in- 
certa, confusa, e depois evidente, de que elle proclamara 
a Bua independência, escolhendo para rei seu irmSo. 

Predisposto contra o acoutecimento, sem aviso algum do 
que occorrera, não acreditou os primeiros nimores-, e, for- 
çado a prebtar-lhes fé pela sua contirmavãvj e pela própria 
prieSo, julgou que fora um tumulto popular, egiud ao de 
Évora, ou pouco mais, e que em breve se extinguiria, por- 
que lhe apporeciam os factos atravez das iuformarões dos 
inimigos, e da própria ignorância. A falta de participação 
do duque levava-o sobretudo a duvidar da importância da 
revolução portugueza, e de elle haver acceitado a coroa por 
vontade, porquanto, do contrario, como nào lh'o communi- 
caria, deixando-o entregue ás maiores perseguições, e como 
o esqueceria a ponto de não o convidar para tomar parte 
nos riscos e na gloria de tamanho feito? E os conjurados? 
Tinham-o procurado quando viera a Portugal em trinta e 
oito; tinham meemo chegado a ofiertar-lhe o throno, caso 
seu irmSo o não quizesse; fugira ao convite, promettendo 
todavia auxiliar a emancipação da terra natal, correndo a 
ajudal-a, d'onde quer que estivesse^ e chegava esee mo- 
mento tâo anciado, © nem ao menos o avisavam de coisa 
alguma ! Como havia de acreditar tamanho amor e tanta so- 
licitude de mn lado, e tanta indiferença e tanto descuido 
do outro? 

Nem admira que o infante duvidasse da restauração, 



344 

quando, ao princípio, isso aconteceu geralmente fora de 
Portugal, e guando, até n'elle, os que a %nram ficaram es- 
tupefactos c quasi incrédulos: tão repentina, tão inespe- 
rada, tSo assombrosa foi ella! 

Fr. António Sejner, jA por nós citado, escreve o se- 
guinte, que vem confirmar-nos : «Foi tal o succeaso de 
Portuga! que, depois de realisado, a custo se acredita. NJLo 
se poude temer, nem conjecturar, e por isso nSo adniira 
a incredulidade. A prevcoçâo dos sediciosos, a presteza da 
execução, e finalmente o modo com que tudo se assentou 
nlo parecem obra de homens, porém sim que Deus o per- 
mittiu em castigo dos açus e dos nossos peccados'.» 

E, SC assim pensava o religioso Lespanhol, testemunlia 
presencial dos acontecimentos, o que faria D. Duarte, longe 
de Portugal, e que só d'elles conbecia um rumor incerto, 
adrede amesquinhado pelo nossos inimigos ? 

Nao significa pois o seu procedimento carência de amor 
pátrio; e, se nSo correu, como tantos, era soccorro doa 
seus conterrâneos, foi porque^ pela sua auctoridade e pa- 
rentesco com o novo rei, o imperador de Allemanlia, que 
tato bem servira, o entregou ingrata e traiçoeiramente á 
Hespanha, antes que o certificassem da verdade doa suc- 
cessos. 

Ab! pobre infante, se oa soubesses com certeza, bem 
diversos foram os teus sentimentos, posto os nilo pudesses 
exprimir pela triste dependência em que te achavas! Sup- 
punhas teu irmào comproraettido, como o estivera quasi na 
epocha das alterações de Évora, e temias, julgando incon- 
sistente o movimento que o levantara ao throno, jaara elle 
e para o teu paiz, as terriveis consequências das represá- 
lias de Heapanha. Duvidavas, temias, como é próprio de 
quem ama, que tamanha empreza, commettida com forças 
tao deseguaes, se mantivesse contra os seus exércitos; que 



1 Historia dei tevantamienio de Portugal. 




345 



vastas regiSea de al«m-mar, conquistadas para o reino, 
para a civilisaçâo, e para a humanidaíle, pela cruz do mis- 
sionário, e pela espada do guerreiro, á custa de tanto san- 
gue espargido nos potros do raartyrio ou no» campos de 
batalha, com os olhos era Deus e na gloria da terra natal, 
se perdessem totalmente. Receiavas que esse império, es- 
tendido pelas nossas armadas atravez dos perigos e tempes- 
tades do oceano, desde a Europa ás quatro restantes par- 
tes do mundo, já tâo diminuído principalmente pelas in~ 
curs5es da Inglaterra e da Hol landa, depois da desgraçada 
juncção de Portugal á Hespanha, se esboroasse de todo, 
desprotegido da força e do prestigio d'e8ta, e abalado no8 
fundamentos pela repentina sepaniçilo dos dois povos pe- 
ninsulares. Eram pois sinceras n'este e n'outro3 pontoa as 
tuas palavras; entretanto quanta vontade nEo terias de que 
mudassem as circumstancias e pudesses pensar como te 
mandava o coração! 

Mas não se limitava o infante a protestar o seu zelo ao 
governo de Madrid; offerecia-se até para vir a Pi^rtugal 
combater a revolução, que de certo desejaria ajudar, se nâo 
houvesse aa causas que apontámos, isto é, se a julgasse es- 
tável e digna de confiança. 

Pouco depois da sua chegada a Ratisbona, pediu D. 
Duarte a Navarro, deante do raarquez de Grana, que o 
fora visitar, com licença do raouarcha allcmílo c de D. Fran- 
cisco de Mello, para representar a este o seguinte: que 
considerasse bem qual seria maior, se o damno que Cíiusa- 
ria a Filippe IV, indo a Portugal, ou se o proveito que lhe 
resultaria de e!Ie procurar reduzir o duque ao seu servi- 
ço, e apartal-o do terrível erro que commettera. Pela sua 
parte, parecia-lhe, consultando-o com a sua innocencia © 
sinceridade, que o prejuízo seria nenhum, e conhecida a 
utilidade da jornada, cujo perigo se acautelava, prestando 
antes preito e homenagem ao imperador de voltar ao sitio 
que se lhe determinasse, o que tudo deixava á prudente 



346 



consideração de D, Francisco de Mc41o. Egual offerecimento 
fez, ii'eâsa ou n'outra occasiâo, deante do conde de Quineni- 
ler*. Prometteu Navarro comprazer-lhe, ponderando com- 
tudo que jidgava impraticável o caso, porque o imperador 
nâo o Boltaria sem annuencia do rei de Hespanlia, e, além 
d'Í9ao, porque, se fosse a Portugal, e nSo seguisse a facçio 
do duque, o metteriam sem duvida preso n' algum castello, 
até que mudasse de parecer, ou o matariam para nào o te- 
rem por mimígo. Tudo quanto dissera, escreveu o infante, 
pouco depois, a D. Francisco; mas este respondeu-llie por 
Kavarro, que a sua prisão poderia trazer-llie augmeDto e 
Bocegft, e que se prevenisse para ser levado á fortaleza que 
o imperador detenuinasse. 

N'e8te offerecimento, que nos parece estranho e censu- 
rável, o infante conformava-se com o proceder dos outros 
portuguezes, que ent2o serviam Hespanha, ou estavam 
n*ella. E juigaes que eram poucos ou de pouca monta? 
Nilo: residiam n'aquelle paiz grande parte da nobreza 
e alguns dos principaes membros do clero do reino, bas- 
tando citar d'eDtre os setenta e tantos nomes, que trazem 
08 Annaes de Portugal, os seguintes: D. AfFonso de Lan- 
castre, marquez de Porto Seguro, eommendador-mór de S. 
Thiago, íillio segundo do duque d' Aveiro; Félix Machado, 
marquez de Monte Bello; os condes de Villa Nova; de 
Santa Cruz; de Sabugal; do Prado; de Miranda; de Li- 
nhares; de Castra Daire; de Basto; de Figiieirit; de S. 
JoSo; de Santo António; de Villa-Flor; e da ilha do Prin- 
cipe; D. Francisco de Lancastre, commendador-mór de 
Aviz; António de Magalhães, senhor da Ponte da Barca; 
D. Fradique da Camará, irmão do conde do Villa Franca; 
D. Francisco de Noronha e D. Jeronyrao de Noronha, filhos 
do conde de Linhares; Francisco 5Ioniz, senlior de Angeja; 



: 



1 Arch. do Estado de Milão, Processos de D< Duarte de Bragaoç»i 

nos ioteiTogatorios &o mesmo. Mas. 




347 



Henrique de Sousa, fillio do conde de Miranda; Luiz de 
Sousa^ Beu innao; D. José de Sousa, sobrinho do conde 
do Prado; D. JoSo de Castello Branco, filho do conde do 
LSabugal; António de Mello, filho de Martim Affonso de 
Mello; D. JoSío de Menezes, condo de Castro Forte, e se- 
nhor de Alconchel ; o celebre D. Francíí>co Manuel de Mel- 
lo; o arcebiapo de Évora; Francisco Pereira Pinto, do con- 
selho de Portugal, bispo eleito do Porío; D. Bernardo de 
Atbavde, filho de D. António de Atlinvde, conde da Casta- 
nheira, bispo eleito de Portalegre; Affonso Furtado de 
Mendonça, deSo da sê de Lisboa; e D. Diogo Lobo, prior- 
mór de Palmella. 

Pois, ao correr a noticia da revolução do primeiro de de- 
zembro, todo3, ou quaei todos esses portuguezes apresen- 
taram 08 seus protestos de adhesâo ao governo de Filippe 
rV", e offereceram-lhe os seus serviços, tendo aliás o maior 
desejo de passarem a Portugal, em ajuda da causa da in- 
dependência, como bem depressa quasi todos fizeram, ape- 
nas lhe tbi permittido, o apenas ficaram sei entes da ma- 
gnitude da empreza, que, ao principio, mal informados, nSo 
avaliariím devidamente. 

Devemos imaginar portanto que o offerecimento do in- 
fante era de boa fé, o originado da situação em que se via; 
e que só tentava compor tudo de modo favorável ao bem 
da sua pátria e de seu irraSo c família, tanto mais, que já 
talvez acreditasse, como algum tempo depois, que o deti- 
nham para conseguirem por seu meio a reducçao de Por- 
tugal á antiga obediência, conforme adcante veremos. Ad- 
mittida a ignorância do verdadeiro valor da revolução por- 
tugueza, não custará egualmente a admittir que o infante 
quizesse representar o papel de medianeiro entre o duque 
e o seu paizj de um lado, e o governo de Madrid, do ou- 
tro. N^o representou o próprio D. João IV, e a fidalguia de 
Portugal esse mesmo papel por occasiSo dos tumultos de 
Évora? Dava o infante por garantia de voltar ao império 



348 

a sua palavra, e julgamos que era com tençio fde cum- 
pril-a, isto é, se as coisas estivessem no estado em 
pensava, pois, se nlo, o bem da pátria, razão suprema, 
o desculparia, como desculpou a outros; mas Navarro e D. 
Francisco de Mello nao o creram assim, e, previdentes e 
mais bem informados, viram os perigos da resolução, pe- 
rigos com effeito verdadeiros, que o infante nào fugiria, e 
que até devia estimar. 



IX 



N'este comenos preparava-se tudo para o infante ser 
transferido de Ratisbona a Passaw, logar mais seguro, por 
ficar era nma eminência, forte pela natureza e pela arte. 
Logo dois ou trea dias depois da sua chegada, mandou D. 
Francisco de Mello a Navarro, que fosse pedir aa ordene 
necessárias ao conde de Trautsmandorf, e este diri»iu-o ao 
conde Slich, presidente de guerra, o qual perguntou a Na- 
varro, se havia de levar D. Duarte como rêo do crime de 
lesa-mageatade, ou como cavalheiro. O que se pretende, 
respondeu- lhe Navarro, é que vá com muito boa guarda; 
sua magestade cesárea, pelo simples facto de prendel-o^ 
nâo o declarou réo d'aquelle delicto; os accusados não se 
privam das suas honras, antes de serem convencidos da 
culpa; e portanto 6 justo que seja levado como cavalheiro. 
Concordou o conde, e promettew dar-lhe as ordens no dia 
seguinte. Pasaou-se isto a seis ou sete de fevereiro. 

A nove tomou Navarro ao conde Slich para buscal-as. 
Disse-lhe este que a jornada se realiaaria dentro de dois ou 
três dias ; que se destinara o coronel Schench para o effeito ; 
e que Voregart, a cujo cargo estava a companhia da guar- 



I 



I 
I 




349 



da do archiduque, faria a escolta com trinta cavallos. Mas 
a partida adiou-se para d'ahi a três dias, porque o archi- 
duque fora a PasBaw, e nâo queria encontrar-se lá com o 
infante. Parece que se resolvera, ao principio, encerral-o 
no castello de fora da cidade; depois o imperador (ou o ar- 
chiduque, segundo Luiz Pereira de Sampaio) * determinou 
que, por elle ser de maus ares, o alojassem no palácio ar- 
chiducal, preparando-lhe trea casas com grades, para maior 
cautela. 

No dia doze ventilou-se a questão do modo da viagem, 
se por terra, se pelo rio, e opinou-se a favor do ultimo, 
por se gastar metade do tempo, ser menos perigoso, e de 
menos dispêndio. Approvou-o D. Francisco do Mello, e in- 
cumbiu Navarro de communical-o ao marquez de la Fuente 
, e a D. Diogo de Saavedra Fajardo, os quaes também o ap- 
provaram. Cuidou-se pois de pedir barcos ao imperador. A 
treze fixou-se a partida para o dia seguinte de manhS. 

Foi Navarro participar a noticia ao infante, o qual, ou- 
vindo-a, replicou triste e resignadamente: «Façam o que 
quizerem, que já nâo sou dono de mim. Em verdade, se 
visse entrar|pôr esta janella a morte, dar-lliehia as boas 
vindas. Já nâo teem que tirar-me, pois me levam a uma 
prisão com tílo pouca justiya. Resta-me apenas um consolo: 
nEo me podem fazer damno á alma; interficere quidem 
possunt; ledere autem non pos&imt. Que Deus augmente a 
minba paciência, e venham os [trabalhos» . 

A quatorze partiu finalmente D. Duarte, depois de ha- 
ver estado dez dias incompletos em Ratiabona. Durante 
todo este tempo D. Francisco de Mello não o viu nem lhe 
escreveu. «Sinto muito, dizia o infante a NavaiTO, nHo ter 
visto sua excellencia, nem ter, ao menos, recebido um es- 
cripto seu; e, posto conheça que faz bem de evitar toda a 
espécie de communicaçâo commigo, isso não diminue a mi- 

> Rdação da prisão injusta do. . . infante D, Duarte . . . Mas. 



350 

nlia áoTf pois sei, consultando-o com o meu coraçãlo, que 
el-rei não tem neiíUum vassallo maÍ3 fiel do que eu; e, 
ainda que o duque ae deixou levar de tio terrível desatino, 
filius oon portabit iniquitatem patris; quanto mais, traC&a- 
do-se de imi irtUc^o, de que, ha muitos dias, não tenho car- 
tas, e nem meâmo os auxilies pecuniários que me costuma 
mandar». 

De outra coisa se queixou também o infante: soubera 
D. FrancUco de Mello oa acontecimentos de Portugal; es- 
crevera-lhe, e nKo o avisara d'elles, para se dirigir, aem 
mais demora, a Ratisbona, e se entregar em suas milos. 
A iato objectou Navarro que não lhe achava razão; por- 
que, como constara ao mesmo tempo a acclamaçSo do du- 
que d© Bragança e a suspeita de que elle tivera parte no 
facto, commetteria grande erro D. Francisco, em lh'o par- 
ticipar, visto que, se fosse cúmplice na revolução, procu- 
raria pôr-se a salvo o melhor que pudesse; e que, em 
caso de duvida, não devia D, Frauciaco faltar a si mesmo 
e ao cargo que occupava, cm ura negocio do tanta monta, 
no qual se precisava prevenir o minimo inconveniente. 

Em compensaçílo, as ordens de D. Francisco de MoIIo 
a Navarro acerca do infante nJo eram barbaras. A sua 
pessoa devia guardar-se com muito cuidado o diligencia por 
diversos respeitos, mas cumpria não o desgostar de modo 
que o obrigassem a tentar extremidades, pois, jA que vo- 
luntariamente ae lhos entregara, JnSío convinha dar-lhe mo- 
tivos para buscar fugir. Estas ordens cumpriram-se, como 
vimoa na resposta de Navarro ao conde Slich, na occasiSo 
de se assentar a sua transferencia para Passaw . Tam- 
bém D. Francisco lho oÉFereceu, por vezes, dinheiro, que 
elle rejeitou, e da segunda vez com estas palavras: «Que 
agradecia a sua excellencia, mas que o tinha bastante para 
dois ou tros mezos; e que, até esse tempo, acreditava se 
viria no conhecimento do seu zelo e fidelidade» j e, como 
Navarro insistisse com elle para acceitar, respondeu-lhe ma- 




351 



goado: «Se me quereis bem, nao me aconselheis tal; 
quando houver passado esta borrasca, e me julgarem ca- 
paz do serviço d'el-rei , receberei a mercê que clle me 
queira fazer; até eutâo nào quero nada; se me faltar com 
que coma, irei rendendo hoje um prato, ámanhâ outro, em- 
quanto durar a mttiha pouca prata, que valerá seiscentos 
escudo sv. 

Durante a sua permanência na cidade de Ratisbona, vi- 
sitaram o o marquez de Grana, e o general D. Carlos Guas- 
co, e Fernando IO encarregou D, Luiz Gonzaga de o cum- 
primentar, e de lho prometter a protecção imperial, no caso 
de estar innocente, como tudo já escrevemos. O marquez 
de la Fuente incumbiu também Navarro de o visitar da 
8ua parte, e de Ibe offerecer os seus serviços. A sua guarda 
cm Ratisbona era de vinte e quatro soldados. 

Sabiu o infante a qtiatorze de fevereiro d'esta cidade 
para Passaw, doscendo o curso do Danúbio cm dois bar- 
cos, n'um dos quaes ia elle, o coronel Si^hencli e Navarro, 
com 08 creados de todos ; no outro vinte soldados, para se- 
gurança da viagem; e, na entrada de ambos os barcos, 
quatro mosqueteiros. O infante levava toda a sua casa, 
prata, cavallos, e objectos de luxo. 

As três horas da tarde, estando Navarro fora da coberta, 
á proa, viu alguma infanteria na margem, a qual nSo lhe 
deu cuidado por sor da parte de Baviera. Seguiram nave- 
gando pelo meio do rio, o, ao emparelhar com cila, ouvi- 
ram gritar que abordassem, e, como nEo obedecessem logo, 
foram recebidos com uma descarga de raosquetaria. Mandou 
entào Navarro ao coronel que respondesse com a dos seus 
soldados; mas este julgou melhor nSlo o fazer, e approxi- 
mou-se da margem. D'abi falou ao comraandante d'aquella 
força, que o conheceu, c se escusou com a ordem que ti- 
nha para examinar todos oa barcos na passagem. Poste- 
riormente soube-se que, julgando serem barcos de commer- 
cio, queriam roubal-os. N'e33e dia chegaram, posto que 



352 



tarde, a E&traubinghen, onde desembarcaram, a ilm de dor- 
mirem a noite em terra e em legar fecliado. 

A quinze partiram de Estraubínglien, e saltaram, na tar- 
de do mesmo dia, era Filsofen, também logar fechado. Em- 
quanto alii se demoraram, recíJiiii mna vez a conversa a 
respeito dos negócios de Portugal, e o infante disse qne 
sentia muito liaver-se espalhado no império, por noticias 
vindas de Hespanba, n'uma gazeta, que, havia dois anuo», 
se machinava no reino a sublevação, e que era n'ella com- 
prebendido; affirmou que tal nSo podia ser por causa da 
desunião da nobreza, qoe nSo permittiria guardar-se se- 
gredo, nem sequer um dia; no tocante á sua pessoa, cala- 
va-se; mas Deus nSo deixaria oppressa a sua innocencia 
com o que, injustamente, lhe imputavam. Respondeu-lhe 
Navarro que todos folgariam de elle nâo se achar impli- 
cado n'aquclla conspiração, mas que, emquanto a ver- 
dade não se aclarava, qualquer suspeita bastaria para o 
reter preso, e que ninguém, que bem pensasse, a nSo ser 
o prejudicado, teria por mil a medida que se tomara. Repli- 
cou-lhe o infante que em SIadrid nSo o tratariam tSo rigo- 
rosamente, no que Kavarro discordoxi, procurando auimal-o 
com a esperança de que Deus o livraria, para muita glo- 
ria sua, d'aquelle8 trabalhos, e que el-rei o nSo faria pa- 
decer, nSo tendo crime. «Podeis crer a meu respeito o que 
quizerdef, tornou-lhe D. Duarte; quanto a mim, acredito 
firmemente que, se a razSio do estado Ih'o persuadir, hSo 
de atropelar a minha innocencia, e deixar-me moiTer aqui 
como um perro, ficando eu na opinião de todos havido por 
criminoso, embora nunca lhes possa constar que commetti 
culpa alguma». 

N'aquel]e dia podiam terminar a viagem, mas nSo o fi- 
zeram, porque nSo navegaram de noite, visto lhes ser im- 
poBsivel tão tarde, pôr o infante na habitação que se líie des- 
tinara. Ficaram portanto em Feltizen. A dezeseis chega- 
ram, antes das três horas, a Passaw. 



353 



Enviou logo Navarro um recado ao coronel Rubi en der, 
governador militar da cidade, para lhe vir um coche em 
qne entrasse D. Duarte- Passada meia hora, parava um 
junto da margem do rio, trazendo o barSo de Rumestalj 
conselheiro do archiduque Leopoldo, o qual, tendo cumpri- 
mentado D. Duarte, lhe disse em italiano, com muita cor- 
tezia, que summamente lhe pesava ter de ger\'il-o em se- 
melhante oceaaião, mas que sua excellcncia conheceria a 
boa vontade de aua alteza, na maneira por que havia de 
ser tratado. Agradeceu-lh'o o infante, e juntamente com o 
barão, o coronel Schench e Navarro, entrou no coche, in- 
do-se apelar à hospedaria da Águia Negra, por nSo esta- 
rem ainda arranjados os seus aposentos. 

Apenas Navarro deixou o infante na hospedaria, enca- 
minhou-se para casa do stathalter, ou vigário, que era có- 
nego da sé de Passaw, o exercia também o governo poli- 
tico do bispado. Pelas suas informações soube que o archi- 
daque Leopoldo dera as ordens necessárias para a guai*- 
da do preso, e determinara que fosse tratado como prín- 
cipe, com toda a gentileza e urbanidade, e também que 
pelo passadiço pudesse ir ouvir missa á cathedral. Depois 
o vigário mandou mostrar a Navarro os quartos do infante, 
que o mesmo arehiduque escolhera. Eram quatro grandes; 
dois tinham sido divididos e arranjados muito decente- 
mente para o seu serviço; nos outros dois alojar se-hiam 
OB seus creados. As janellas d'e8tes quartos davam sobre 
uma espaçosa praça, e o vigário resolvera que se lhe pn- 
zessem grades em toda a altura, o que já anteriormente 
£6ra assentado, como vimos; e já haviam sido postas em 
cinco. No mesmo dia, visitou o vigário o infante, indo 
á usança do paiz, e enviou-Ihe diversos presentes. Aqui 
moveu-se duvida quanto á sua guarda. Navarro, segun- 
do a ordem do coronel Schench, devia entregal-o ao coro- 
nel Rublender, que já sabia a forma por que se regularia; 
Bublender dizia que d 3o recebera ordem alguma, e que 



B. I. D. D. — T. t. 



23 



354 



isto tocava ao vigário, o qual âllegava que os soldados 
de que dispunha eram burguezes e impróprios para o ef- 
feito. Por tal motivo, despachou o vigário um correio, no 
dia dezosete, ao archiduquo, a fím de sabQr a sua vontade. 
Entretanto Navarro incumbiu os mosqueteiros, que levara 
de Ratiabona, de guardarem o infante. 

A dezoito, estiindo Navarro conversando com elle das 
coisas de Portugal, inquiriu-o a respeito da seguinte pro- 
phecia que lera, feita a D. Affonso Henriques: et dura- 
bit regniim tuum usque ad decimam sextam generationem, 
et attenuabitur proles, camque sic attenuatam jwstea res^ 
piciam et videbo; o que lhe explicou o infante como uma 
tradição de pães a filhos, que tinha sido achada em cara- 
cteres mui antigos, e que depois se verificara no rei D. 
Henrique, decimo sexto na linha dos reis de Portugal; e 
accrescentou: «Prouvera a Deus que os nossos portuguezcs 
não fossem tSlo dados a estas impertinentes prophecias, pois 
geralmente asseveravam que no atino de mil seiscentos e 
quarenta se havia de manifestar o Encoberto, do que a gente 
de bom senso zombava, julgando que falavam do rei D. 
Sebastião». 

Na noite do mesmo dia, achando-se com o infante o co- 
ronel Schencli, e estando Navarro fora do seu quarto, foi 
visital-o o duque Francisco Alberto de Saxonia, alojado na 
dita hospedaria, de caminho para Dresde. Era já hora de 
ceia, e demorou-se por algum tempo, assim como o barSo 
de Zizoiídorf, o coronel Cacrei, e o capitão Henin, cama- 
radas do infante. A dezenove, passeiando um seu creado 
pela cidade^ viu que punham grades no quarto do amo, e 
participou-lh'o. Senti u-se este de tal medida do prevençSo 
e estranhou o a Navarro, dizendo-lhe: Que, pois se tinha 
vindo entregar, não seria para fugir, e que as maiores e 
mais fortes cadeias consistiam nas da sua fidelidade; que 
o Palatino, rebelde ao império e prisioneiro de guerra, an- 
dava pelas ruas de Liutz, e que a elle o opprlmiam com 



355 



de o matarem de sentimento e melancholia. Respon- 
4eu-llie Navarro ser verdade o relativo ás grades; mas que, 
no tocante ao Palatino, haviam -o tido com miúto mais ri- 
^or do que a sua pessoa; que as prisSes no começo eram 
aempre mais apertadas; que nutria esperanrade o ver, den- 
tro de pouco tempo, livre; e que, além de ter por encerro 
O palácio do arcliiduque, este determinara que elle fosso 
bem trat^ido, e com todos os respeitos que se lhe deviam. 
Sstas ponderaçcíes calaram lhe no animo, e abrandaram al^ 
goma coisa a sua mag^a. 

No dia vinte chegou a ordem que se requerera ao archi- 
duque para Rublender mandar fazer a guarda do infiinte 
com os seus dragSes, pelo que, se retiraram os soldados que 
Bchench empregara até então n'esse serviço. 

A vinte e um visitou-o o barSo de Rumestal da parte do 
archiduque, offerecendo-lhe n'c3aaoccasiao, era nome d'elle, 
tudo quanto fosse neceaaario ao seu bem estAr. No mesmo 
dia entrogou-Ihe Navarro uma carta do D. Francisco de 
Mello, cujas palavras o consolaram um pouco. 

Tendo-se acabado de pôr as grades nas janellas dos seua 
aposentos, e tendo -se feita tudo quanto a occ^asião requisi- 
wii, foi o barSo de Rumestal, a vinte e dois, bu^cal-o á 
Ppedaría n'nm coche. Perguntou-lhe o infante se eram 
oras de passar á sua casa nova, e responrlendo-Ihe aquelle : 
como vossa cxcellrecia for servido, cingru a espada, que 
sempre se lhe consentiu trouxesse, conforme se praticava 
com 08 homens da sua qualidade, subiu ao coche e depois 
d'ene o barão e Navarro, e dirigiuse ao palácio do archi- 
duque. Ao entrar no quarto em que devia morar, cobriu- 
Be-lhe o rosto de profunda tristeza. N'e93e dia visitou-o o 
barão de Offquigcn, cónego da sé de Paasaw. 

A guarda do infante ficou encarregada, como vimos, ao 
coronel Rublender, que apartou para isso doze dragí^es do 
seu regimento, sob o commando do capitão Nicolau Gapelli, 
jÇor cuja conta devia correr a sustentação do proeo. A porta 

23* 



356 



do seu aposento seria postado um mosque^teiro, com oi-iiem 
de 8Ó deixar entrar as pessoas, que o coronel quizesse. 
A paga doesta gente era feita pelo governo de HespanKa, 
e montaria cada mez a cento e quarenta thalers. Pagou-se 
um mez adiantado, entregando-se o dinheiro a Rublender. 

Além d'e5tas medidas, Navarro, na véspera de partir, 
fez conhecidos do coronel e do capitão os creados do infante, 
para que soubessem quem podia ir ao seu quarto ; preven- 
ção até ahi escusada, pela vigilância que Navarro exercera 
no preso, que acompanhava durante a maior parte do dia. 

O coronel deu ordem para que na porta da cidade o avi- 
sassem de todas ae pessoas quo entrassem, assim como dos 
seus nomes, e das casas em que se hospedavam, a iim de 
se averiguar se levavam alguma incumbência a respeito do 
infante. 

Devia o mesmo coronel, segundo as instrucçSea do ar- 
chiduquc, acompanhal-o todos os dias á missa pelos corre- 
dores até íí callicdral, juntamente com o capitão Nicolau Ca- 
pelli, e alguns soldados de guarda, mas com toda a cortezia 
€ respeito. 

Pouco antes de retirar-se de Passaw, Navarro ofi*ereceu 
outra vez dinheiro uo infante, para o seu gasto e sustento, 
por assim lh'o incumbir D. Francisco de Mello. Respon- 
deu-lLe o infante que escreveria a este, e entregou-lhe ou- 
tra carta para Filippe IV, aberta como a primeira. 

A noite, despediu-se d'elle Navarro, e no dia seguinte, 
vinte e três, partiu para Ratisbona, onde chegou a vinte e 
cinco com bonissima viagem. 

E apreciável a noticia dada por Navarro a D. Francisco 
de Mello, na relaçSo de que nos temos servido, acerca daa 
guas impressões de quando conviveu com o infante. 

«Nâo posso deixar de dizer a vossa excellencia, sSo as 
suas palavras, em que vi occupar o tempo aquelle cava^ 
Iheiro nos dias que lhe assisti. Desde que se levanta empre- 
ga-se na oraç2o e lição de livros devotos ou de historia. 



357 



e também de algims políticos, dos antigos; ouve missa e 
depois come do que se libe serve, sem jamais pedir coiaa 
particular. A tarde tem a mesma occupaçâo, a qual se lhe 
conhece no discurso, porque a sua conversação, além de 
«er aprazivel, è naturalmente varia, erudita e sentencioaa. 
Nos costumes é muito modesto, honesto e retirado; nSo 
mostra ter ódio a ninguém, excepto aos maus ministros, ou 
naus creados de el-rei nosso senhor, ou de sua magestade 
^cesárea. Seu aspecto é sempre jovial e festivo com todos; 
nem jura, nem encarece muito o que diz; é homem soce- 
gado e um tanto âeugmatico; posto saiba muito do mundo, 
nSo é malicioso; se se achar innocente no desacerto de seu 
irmão, crerei que Deus lho quiz experimentar a grande pa- 
mencia, de que julgo o dotou com muita vantagem». 

Ao terminar a exposição de Navarro, vera a pello al- 
gumas consideraçi5c8 sobro o caracter doeste personagem 
da noasa obra, descripto pelos historiadores, cujo teste- 
munho, á falta de melhor, Áa vezes aproveitamos, con«> 
homem de baixa condição e insolente. Seguimos a sua re- 
lação passo a passo, raesmo de propósito, para mostrar, 
quanto possivel, os sentimentos que o animavam, e habili- 
tar os leitores a julgarem seguramente. Pois bem, cumpre 
dizel-o, e de certo elies nos applaudirâo n'cste parecer, 
porque a verdade cstd acima de tudo, e o nosso único de- 
sejo é acertar, e fazer justiçii imparcial, nada achámos no 
longo documento que nos serviu de minucioso guia, que 
legitime estas accuaaçiíes; pelo contrario, era todo ellc res- 
piram, a par da firmeza na execuçEo das ordens que rece- 
bera, no meio das precauçíles que teve de adoptar, as ma- 
neiras mais delicadas e attenciosas da sua parte. Com ef- 
feito, nílo ha uma palavra que traia as más qualidades que 
lhe assacam; e note-se que este documento era dirigido a 
D. Francisco de Mello, ao próprio quo solicitou a prisSto ào 
infante, e para ser reraettido ao governo hespanhol. Se Na- 
▼arro, pela sua posiçUo especial, attrahiu sobre ai o ódio 



358 

dos portugiiezes, e até a cenetira do infante, conformo ve- 
remos, culpa seria maia d'clla do que d'elle; pelo menos, 
assim o concluimoô relativamente ao ponto que acabamos 
de historiar : n'esta occasiSo, o seu comportamento foi bom^ 
e mui diverso do que pediriam aquellaa más qualidades. 



X 



Antes de passarmos a outro livro, diremos ainda al- 
guma coisa acerca da vida militar do infante, para com- 
pletar, tanto quanto possivel, o que deixámos escripto no 
livro antecedente. Seriam maia bem cabidae, sabemol-o per- 
feitamente, estas noticias, logo que andou a carreira glo^ 
riosa, com que se illustrou e á pátria, nas guen-aa do im- 
pério; mas operou-se tão rápida e tão bruscamente a aua 
passagem da liberdade para o captiveiro, e dos campos do 
batnlba para a solidão do cárcere, e, tão unida e travada ; 
ordiram os acontecimentos a teia da nossa historia, que só 
agora lhe podemos entretecer algumas palavras que ponham 
mais em relevo as qualidades apreciáveis do seu caracter, 
no largo theatro onde representou, durante annos, papel 
honroso e importante. 

Dois lados, bem distinctos ambos, teve, como todas, a 
guerra dos Trinta Annos : o bom e o mau ; o brilhante e o 
tenebroso; o magnifico e o miserável; porém tudo em sum- 
mo grau, porque foi uma guerra gigante; e, em ambos el- 
ies, aobresaliiu o infante, já pelo valor, já pelas virtudes. 
Se foi ubérrima a colheita de gloria n'e36e campo, em que 
Be degladiaram tantas nações e tantos interesses, os seus 
fructos brotaram da terra ensopada em sangue, e cresceram 



359 



entre a ruína e a devastação, debaixo de um ceo turvo pelo 
fíimo das povoaçSe* incendiadas, e ao som das blasphemias 
edo8 gemidos das victimas; se coube ao nosso infante avan- 
tajado quinhSlo nas victorias e nos perigos marciaes, e se 
n'elles mostrou os seus dotes de guerreiro, não menos bri- 
lliarum os seus dotes de coração na incrivel miséria que 
entSo opprimia a Allemanha. 

Tratando da visita de D. Duarte ao rei da Hungria, 
acampado no Wurtemberg, pouco depois de chegar a Vien- 
na, da sua viagem com o mesmo rei para se ir juntar ao 
exercito, e da preponderância que exercia n^esta corte a 
politica bespanhola, já dissemos incidentemente algumas 
palavras a re&peito do lastimoso estado a que cliegara o 
império. Schillcr completará agora a de9cripç5o do qua- 
dro. 

«A situação da Allemanha, escreve o celebre poeta, na 
anã Hisioría da guerra doa Trinta Ânnos, era tão cruel, 
que todos os dias milhares de vozes pediam ao céo lhes con- 
cedesse a paz, julgada beneficio, ainda que viesse com as 
condiçSes mais duras e humilhantes. Os paizes, onde ou- 
tr'ora enxameavam populaçí^es numerosas, tinham-se con- 
Tertido em áridos desertos, c, se ás vezes, no meio de tSo 
triste scena se destacava algum verde prado, ou alguma 
ceara loirejantc, a passagem súbita de força amiga ou ini- 
miga destniia, em poucos instantes, o fnicío de ura anno 
de trabalho, e a ultima esperança de lum povo faminto. Só 
se descobriam por toda a parte, como outros tantos pre- 
goeiros das calamidades publicas, castellos arruinados e 
aldeias em cinzas, cujos habitantes, baldos de todo o re- 
curso, tinham ido engrossar as fileiras dos auctores dos seus 
males, e que infligiam, por seu turno, aos seus concidadãos, 
ainda felizes por pospuírem asylo, todas as violências de 
que haviam sido victimas. É que n'e88e tempo unicamente 
se conliecia um modo de escapar á oppressSo: tomar-se 
oppresaor. As cidades gemiam sob o jugo de ferro das guar- 



360 



niçSes, que se julgavam com o direito de dispor da li- 
berdade, da honra e da vida doa cidadãos. Se o transito 
doa exércitos, os quartéis d' inverno, e as contribuições de 
guerra devastavam e empobreciam os campos, o trabalho 
e a fertilidade do solo podiam remediar estes desastre»; 
mas não havia esperança alguma para os habitantes das ci- 
dades, cujos muros serviam de refugio a guarniç5es per- 
manentes. Para ellas uma victoria era tão funesta como uma 
derrota, porque o vencedor vinha tomar o logar do vencido, 
e 08 amigos eram, ás vezes, tão ferozes, e sempre tão exi- 
gentes, como os inimigos. O abandono da cultura, e a des- 
truição das cearas elevara os productos da terra a preços 
exorbitantes, e a falta de viveres originara doenças conta- 
giosas, que faziam mais estragos do que o ferro e o fogo 
dos combatentes. No meio dos infortúnios públicos, e do» 
soffrlmentos indivíduaes, tlnham-se afrouxado os laços da 
vida sociaL A obediência ás leis, a moral, a boa fé, a hu- 
manidade, e a confiança na palavra dada ou recebida ha- 
viam cedido o logar ao direito do mais forte; os vicioa e 
OB crimes grassavam á sombra da desgraça, c cresciam sob 
a égide da anarchia; final menie, os povos tinham-se tor- 
nado incultos e selvagens como o seu paiz. Para pintar de 
um só traço todas as misérias d' esta epocha, basta dízer 
que o soldado reinava como senhor, o soldado, cujo despo- 
tismo excede em brutalidade e exigências todos os despo- 
tismos possíveis. O commandante de um pequeno corpo de 
exercito julgava-se muito superior ao soburauo, cujo estado 
occupava; e, com eileito, era-o pelo poder e pela força; & 
a Allemanha inteira estava á mercê d' estes tyrannetes, que 
espalhavam o terror tanto nas províncias que defendiam, 
como nas que atacavam t. 

N'e8te fundo escuro e terrivel a nobre figura do infante 
apparece-nos como uma luz benéfica e suave, que refrigera 
6 consola a alma, oppressa de tamanha degradação, e de 
tamanhos infortúnios. A aua fé religiosa levanta -nos a Deus, 



36i 



qae a terra parece renegar pelos seus crimes nefandos; o 
aeu animo generoso faz-nos crer nos homens, apesar de toda 
a sua maldade, porque n*eUe fructifica o bem, incólume do 
bafo contaminado, que o rodeia. 

Para governar convenientemente os outros, principiava 
o nosso infante por si fciesmo, offerecendo o exemplo, a <im 
do que o imitassem: procedimento justo, mas que nem to- 
dos abraçam, pelas árduas difficuldades que encerra. Para 
elle nâo era isso mais do que seguir os seus hábitos, e a 
propensão ingenita da sua n.^itureza, A primeira coisa que 
«ttrahia e continha o soldado era aquelle ar de magcstade, 
que lhe sorria composto na bocca e nos oUioa, e lhe com- 
passava os movimentos da alta, esbelta e grave figura. Mo- 
derado sem fraqueza, desculpava as faltas alheias mais 
do que as próprias, tanto quanto o permittia o decoro e a 
disciplina, e esquecia com facilidade, enlevado em mais 
altos pensamentos, as offensas que lhe eram feitas; bravo 
sem ostentação, arrostava os perigos e supportava os tra- 
balhos denodada e pacientemente, deixando aos outros o 
cuidado de o louvarem, toda a vez que os encómios não 
degenerassem cm lisonja, porque para ella n^o tinha ou- 
vidos; liberal sem publicidiído, n&o sabia a sua mão es- 
querda, como preceitua o Evangelho, o que dava a direita; 
religioso de fé sincera, procurava andar sempre bem com 
Deus, para quo o andasso egualmente com os homens. 
Nunca jurava; as suas palavras eram» como também esta- 
belece o livro santo, unicamente sim, sim, não, não. Tinha 
por timbre a honestidade e o comedi mento no falar. Na 
comida e na bebida, poacos serinra mais sóbrios. Todaa 
estas qualidades, em que estamos vendo a sua boa Índole, 
e OB fructos da oducaçSo moral que lhe deu o duque sou 
pae, e como que o espelho de muitas das virtudes de tão 
nobre exemplar, iaftuiam directamente nos hábitos da sua 
numerosa família, e ainda iam, por modo indirecto, a que 
dava prestigio a auctoridade do elevado posto que exer- 



362 



citava, repercutir-se nos hábitos e nas acções das tropas 
do seu commando. NSo queremos dizer com isto, que 08 
seus soldados fossem verdadeiros modelos; falamos só em 
relação ao desenfreamento geral, e á conducta licenciosa 
e tyrannamente oppressora doa exércitos do império. Isto, 
quanto ao seu regimento. No que toca a forças maiores, 
que uma ou outra vez commandava, D. Duarte nâo obrava 
milagres, posto que já o fosse moderar o ímpeto e a bar- 
baridade d'e88a8 torrentes humanas, mais devastadoras na 
sua passagem do quo as da natureza. As tropas imperiaes, 
como outras entSo de outros paizes, formadas, na maior 
pane, do aventureiros, de varias procedências e nacionali- 
dades, que se assemelhavam, frequentemente, mais a saltea- 
dores do que a soldados, mal pagas, e nem sempre bem 
disciplinadas, compostas com elementos tâo heterogéneos, 
estavam muito longe do que hoje chamamos um exercito, 
e o saque formava um doa seus direitos. Este direito o in- 
fante nHo lh'o podia tirar; mas, na impossibilidade de fa- 
zel-o, tentava abrandar-lhe a crueldade, ou, ao menos, re- 
medíar-lhe os effeitos, como aconteceu, aehando-ac nos con* 
fins da França, pelo lado da Lorena, com os ossos do mar- 
tyr S. Gandulfo, que salvou das mãos sacrílegas dos sol- 
dados e ti*ouxe para Portugal em trinta e oito, como já die- 
semoB. 

Estas e outras tyrannias e profanações excitavam a maior 
indígnaçSto no infante; nem podia deixar de ser, visto que 
destoavam tanto da sua condtçílo humana e dos seus senti- 
mentos religioBoa. Annos depois, contando algims d'e88es 
factos escandalosos, o seu eoraçlo, ferido de vel-os ou de 
ouviI-08, parecia ainda verter sangue, com se a chaga fosse 
recentíssima. 

«No anno de trinta e cinco, entraram em Lorena as 
armas imperiaes, escreve elle, e n2o perdoaram a coisa 
alguma sagrada. A cidade de S. Nicolau, que estava a seu 
favor foi, apesar d'Í8so, invadida e saqueada. Nem escapou 



363 

ao sen furor o celebre templo da invocação do dito santo, 
porque o queimarani, profanando os mais altos mjBterios 
da religião catholica; nem o mosteiro de monjas, que ahi 
bavia, porque o devassaram sacrilegamente, violando as re- 
clusas, e distribuindo-as, conforme o gosto c a sensualidade 
dos soldados. 

«No anno seguinte entraram os imperiaes no ducado de 
Borgonha, em Franya, cedendo ás instancias de Hesipanha, 
e quasi em todos os logares que pisaram os templos foram 
queimados e destiniidos. O mesmo aconteceu na cidade de 
Mirabeau. Os frades da insigne abbadia de Sixto, da ordem 
de S. Domingos, feita junto de Dijon, sú porque preten- 
deram ficar no mosteiro, foram tratados com a maior atro- 
cidade, e as reliquias e imagens despedaçadas, embriagan- 
do-se os soldados no próprio templo, e servindo-lhes de 
copoB 08 cálices e os vasos santos. Nem procedeu mellior 
o exercito com que, no mesmo anno, penetrou na Picardia 
o cardeal infante*». 

Nào comprcLendia a bondade do D. Duarte unicamente 
08 soldados; estendia-se também ás povoaçSes em que era 
obrigado a peimanecer. Deviam estas contribuir para o 
sustento das forças militares que, por infelicidade, ficavam 
no seu território; mas elle prescindia de t2o vexatória 
contribuição, mandando que tudo quanto fosse preciso se 
pagasse, com o que aligeirava ao pobre povo o já insup- 
portavel peso da guerra. Além d'iato, evitava todos os maus 
tratos que lhes podia causar a soldadesca, e esmolava os 
necessitados, ainda que fossem inimigos. Quantos actos ge- 
nerosos nâo jazem na sombra do esquecimento, praticados 
n'es8a8 occasiões pelo nosso infante, posto assim de repente 
em contacto com a pobreza e com a desventura! 

A piedade, que desde a juventude o inspirara, nunca o 



1 Bib. da Ajuda, Mbb., Correap. de Luiz Pereira de Castro, vol. i, 
foi. 7, Apontamentos do infante refutando Caramuel e Chomacero. 



364 



desamparou entre as fadigas das armas, e era esse mais 
um motivo de respeito para os seus subordinados. Cita- 
remos alguns traços característicos para exemplificar o 
nosso dito. Em campanha ouvia o santo sacrifício da mis- 
sa todas as vezes que lhe era possível, c, quando as mar- 
chas lh'o n^o consentiam, dizia o oflBcio de Nossa Senhora 
e as suas orações quotidianas. Em trinta e seis, estando 
com o exercito na Borgonha, foi a Besançon, para vene- 
rar as muitas relíquias que ahi se conservavam. No anno 
seguinte, passando o inverno no ducado de Wurtemberg, 
fez vir de longe sacerdotes catholicos, por ser o paiz pro- 
testíinte, para celebrar a paschoa, e se confessarem e com- 
mungarem os seus crcados; e nos dias da Semana Santa, 
n2o podendo executar nas egrejas, por serem do rito re- 
formado, as cerimonias que então usa a nossa roligi3k>, man- 
dou que se fízcssem em sua casa, e assistiu a cilas com a 
sua familia. 

Tambera as armas o nSo apartavam das lettras. A msdor 
parte do tempo, que os cuidados da guerra e os exercícios 
piedosos lhe deixavam livre, empregava-o na leitura, por- 
que 08 livros eram para elle uma verdadeira necessidade, 
e entravam sempre na sua bagagem militar; nem foi pe- 
queno o numero dos que adquiriu nas operações do exer- 
cito, já nos saques das cidades, já por compra, sendo uma 
das pessoas, que Ih'os enviavam, Leonardo Peppo, cónego 
de Constança*. 

A tantos dotes, attestados pelas relações de Huet, e de 
Storr, que attrahiam sobre elle a bençlo dos habitantes do 
paiz, de que se tomava protector em vez de oppressor, a dos 
seus creados, de que se podia chamar amigo, e a dos sol- 
dados, de que era títo bom companheiro, que Pae dos Sol- 
dados o appellidavam, a todos estes dotes cumpre juntar 
outros predicados, que não menos o abonavam e engran- 

^ Bib. da Ajuda, Ms8., Miec, vo!. xxxvii. 




365 

cleciam aos olhos de natiiraes e de estranhos, e eram: a 
'influencia que ILe provinha de ser irmão do duque de Bra- 
gança, o parente de tantos reis; a sua qualidade de prin- 
rflipe ; o desinteresse com que seguia a vida das armas, que 
BÓ considerava carreira de sciencia e de honra, pois nem 
recebia soldo, nem abusava do direito do mais forte, para 
se locupletar á custa dos vencidos; a sua afabilidade com 
todos, e a mSo generosa e verdadeiramente real, com que 
despendia os largos rendimentos próprios e os auxílios pe- 
cuniários que Ibo mandava seu irmão. 

NSo nos 6 licito avaliar, nem mesmo approxímadamente, 
quaes fossem esses rendimentos; porém já vimos como D. 
Duarte, sendo, ao principio, o menos favorecido da fortuna 
atre os seus irmãos, augmentou auccesFi vãmente os have- 
es com os vinte mil cruzados dos cabidos das commendas e 
a posse de Villa do Conde, para a gosar durante a sua vi- 
da, que lhe deixou D. Tbcodosio, com a herança de D. Ale- 
xandre, o qual, segundo D. Francisco Manuel de Mello, era 
muito rico, e com as commendas de Santa Maria do Morei- 
as, S. Thiago do Monsaraz e Santa Maria da Alagõa, ava- 
^iiadas era um conto e seiscentos ou um conto e setecentos 
ail réis *, que a ellc passaram pela morte do dito seu irmão, 
não falando no que herdou de seu tio T>. Duarte : imia ca- 
pitania no Brasil, e uma terra no limite de Santa Iria, ter- 
r jno de Lisboa, do cuja posse nada nos consta. 

Algims dos bens que possuía cedeu-os, a crermos as suas 
palavras, a D. João, quando veiu a Portugal, ficando-lhe 
ainda ass-im bastantes para se manter com grandeza. En- 
tretanto, por vezes, a sua situação financeira nlo foi das 
pnelhores. Nos fins de trinta e seis, por exemplo, Marcos 
Putz, instava com elle para lhe mandar pagar, pelo padre 
•■D. Dâmaso, os cento e quarenta e seis thalers que lhe de- 



' Bib. da Ajuda, Mes., Misc, vol. xuv, foi. 5. 
Bib. Nac, Mb8., E, 5, 7, foi. 66 v. 




366 



via dos interesses de cinco mil c trezentos, que empreB- 
tára a sua excellencia, havia anuo e meio *. Esta situação 
tomou-ae mesmo desesperadora, como elle próprio confessa 
na carta ao licenceado António Paea Viegas, de dezesete 
de outubro de quarenta, já transcripta. Nasceriam taes em- 
baraços por ventura da sua liberalidade e desinteresse, das 
consideráveis despezas a que o obrigava o sustento da saa 
numerosissiraa família, pois d« Villa Viçosa pftrtira, como 
saberaoa, com sessenta creados, e na occasiào de ser pre« 
80 por D. Luiz Gonzaga, de caminho para a cidade de 
Ratisbona, ainda era acompanhado de trinta; das despe- 
zas a que o levavam as relaçSes com os goneraes e prin- 
cipea que militavam no exercito cesáreo, ou com os altos 
personagens que, por amizade ou outras causas, vilitava 
ou o visitavam, do que temos testemunho, além dos jM men- 
cionados, quanto ao general Gral? -«30, quanto a um dos mem-^í 
bros da família do duque de Saxonia, sargento-general de^^H 
batalha do imperador*, e sobretudo quanto ao príncipe Ca-^^ 
simiro do Polónia, e aos de sua comitiva, os quaes, se lho 
mostravam muito agradecidos pelo bom tratamento que d* elle 
haviam recebido'; e, bão menos, das digreásSes e viagens 
em Alleraanhíi e n'outras partes, quer antes, quer df po^s de 
seguir as aniiii», e dos atrazos nas remessas do dinheiro, 
que nSo deviam faltar. Quanto aos auxílios pecuniários que 
o irmílo lh<? enviava, ignoramos o seu valor, posto alguns 
affirmem que era grande. Isto no que respeita á epocha 
anterior á sua prisíto. Da posterior diremos alguma coisa, 
em tempo próprio. 

Os postos que o infante occnpou foram, já fica escripto, 
o de sargento-general da batalha, e o de coronel de um 
regimento de cavallaria, chamado da Banda Negra, com o 



*Bib. da Ajuda, Mba.,, Míbc, vol. xiivu, foi. 153. 
^Arclu do Estado de Milão, Procesaos de D. Duarte de Bragança, 
(1643). Maa. 
' Bib. da Ajuda, Mbb., Miacol., vol. xxxrn, foi. 174. 



I 

4 




367 



niLo so julgava bem recompensado dos serviços feitos 
ao imperador, durante tantos annos, serviços de que era 
testemunha, accrescentava elle, toda a Allemanha, baven- 
do outroH muitos, de muito inferior qualidade, e com me- 
nos tempo, chegado ás mesmas graduações e a maiores *. 
A este respeito divergem todos os auctores da nossa opi- 
niSo, que é a verdadeira, pois se funda na relação de Na- 
varro, que La pouco aproveitámos, e atú no testemunho do 
infante. Além d'isto, quanto ao primeiro posto, existe a pró- 
pria patente, original e authentica*. O terceiro conde da Eri- 
ceira, no Portuyal restaurado, D. António Caetano de Sou- 
sa, na Historia í/mealogíca, Rebello da Silva, c o sr. Pinheiro 
Chagas, nas suas Historias de Portugal, o sr. Silvestre Ri- 
beiro, no Esboço biograpkicQ do infante Z). Duarte, e Domin- 
gos de Mendonça, na traducçâo e continuação da Histo- 
ria de Portugal de Schoeffer, apresentim-o como coronel 
e general de artilheria. As duas traducçSes ampliadas de 
Manuel Fernandes Villa Real da obra Innocentis et libari 
priticijiis venditio, dizem que D. Duarte foi general de arti- 
lheria e major do império j as Exdamaciotus j^oUticas de 
Marinho de Azevedo, e os Annaes de Portugal sargento 
maior de batalha e general de artilheria; a Historia aus- 
triaca de Krones, dádh© também este ultimo posto. Labo- 
ram todos em erro. Krones accrescenta que o infante es- 
tava ao soldo do imperador; escreveu-o também D. Nicolau 
Fernandes de Castro, no Portugal convenzida con la ra- 
zon; mas isto é inteiramente inexacto. D. Duarte u3o pre- 
cisava de ser pago nem o queria. A sua ambição o o seu 
intento não se prendiam a tSo mesquinhos laços. Mirava 
a outro fim, ao maior, ao que era digno de um filho e ir- 
mão dos duques de Bragança. Será elle que fale por nós 



IBib. da Ajuda, Mas. Correap. de Luiz Pereira de Castro, vol. i, 
foi. 7, ÂpontatQcntos do iofante rofatando Caramuet c Chumaccro. 
* Bib. Nac. de Parie, Mas. Portuguezes, 26, P. 352. 



368 

com as palavras com que se defendeu das accusaç5es doeste 
auctor. Segui a guerra, diz a porque estimara mais o nome 
e a gloria que podia adquirir, do que todos os maia inte 
reascB^ imitando muitoa reis e grandes priucipes, que, sei 
do, nSo segundos, porém os únicos possuidores de grande 
reinos e principadoB, o sem successores, nSo repararam ei 
coiaa alg^ima^ pela gloria de vestirem a coiraça, e appare 
cerem como leSes no nieio dos exércitos, como vimos pra- 
ticar, em nossos tempos, ao rei D. Sebastião, ao rei da 
Suécia, Gustavo Adolpho, e a Luiz XIII, rei do França; e, 
se quizermos recuar aos tempos remotos, acharemos 
santo e invicto rei D. Affonso Henriques, que nRo casoi 
nem tomou estado, senSo depois de ter vencido e debellado" 
todos os seus inimigos; e quanto á ponderação de ter dei- I 
xado 08 regalos e delicias, respondo-lhc que antes quiz . 
imitar a Constantino Magno do que a Sardanapalo *. ^H 

Imbuido na leitura dos livros antigos, e principalmente^ 
na historia romana, que podia ler, graças ao seu conheci^ 
mento do latim, nos próprios originaes, nílo menos versa 
na historia pátria, mâiis fértil ainda do que a do povo 
Lacio em maravilhotios rasgos de heroísmo, com a alm« 
cheia de euthusiasmo, e a imaginação povoada de nobres 
fionlios, D. Duarte alístou-se no exercito cesáreo, e militou 
n'elle, já sob o commando de Galasso, já sob o de Picolo- 
mini, supportaudo a dureza das marchas e as necessidades ', 
6 riscos das campanhas, nos sitios das cidades, nas gran- 
des batalhas nas calamitofe^as retiradas, só com o fito do 
corresponder ao nome dos seus e ao do seu paiz, e do honi-^j 
brear com os primeiros no arrojo e valentia. ~^H 

Foi uma bella escola; e quasi seis annos em tSo famosa " 
guerra, como a que entSo se pelejava, com inimigos tão 
aguerridos e poderosos, quaes os suecos e os francezee, tor- , 



» Bib. de Évora, Mea., 106, 2, 11, foi. 228, Notas do infante sobre o 
mesmo. 



369 

naram-o experiente e instruído na arte militar, e estimado 
dos seus camaradas, aupcriorey, eguaes, e interiores, nSo 
só por essas qualidades, maa também pelas outras que o 
recommendavara. Porem nada lhe valeu; antes, foram pre- 
cisamente essas qualidades c experiência que reforçaram os 
motivos de desconfiança e ódio j.i existentes contra elle, 
porque o fizeram ainda mats perigoso A politica de Hespa- 
nha. 



XI 



As glorias militares do infante nSo ficaram, nem podiam 
ficar, sem eclio cm Portugal. A poesia, de que apresentá- 
mos fragmentos, convidando-o a nílo deixar o reino, quando 
a elle velu em trinta e oito, é tima prova d*isso; outra o 
elogio de D. Francisco Manuel de Mello na mesma occa- 
siSo, e que tambeui já citílmos; outra uma oraçSo panegy- 
rica escriptii em seu louvor por Braz de Menezes, e lida 
por este na presença do duque D. JoSo e de seu irm2o D. 
Alexandre*; e outra um soneto qne aqui damos fielmente 
copiado. 



Quem surá um mauccbo de grande arto, 
D'e8triiiiljii formosura e gentileza, 
QuVrr» Allemaahíi vejo na braveza, 
Esfor^^n r coração vencer a Martí"? 

Que grande estrago ía.£ por toda a parte, 
Fulminando co'a íiiiit,a, e com destreza 
A espada empunhando? E a purtugueza 
Gloria e honra-, ú o príncipe Duarte. 



í Bilj. da Ajuda, Msa., Papeis Varies. 

H. 1. D. D.— T, I. 



24 



370 

Porque, como no reino paternal 
A Alexandre Magno o coração 
N3o coube, por ser muito generoso. 

Asai ao grào Duarte em Portugal 
O foraçSo uão coube, por razio 
De ser tào esforçado e tào brioso K 

São ainda tíadores do que avançamos cinco epigrammas 
latinos, dos quaes reproduzimoa três pela sua brevidade, 
sem Ifies mndar coisa alguma, despregando os outros por 
terem o mesmo argumento, e serem como vanantes de doia 
d'elle8. 

Tem o primeiro por titulo: Rustem fugai ad Alhimfiu- 
vium. 



Instantis fugíena Odoardi tela, nianusque, 

Hostie praecipiti fertur in arva fuga. 
Nec juin tuta satis cauipis loca fugit in undas. 

Immonsis Âlbiâ epuiueus ibat aquis. 
Tutari oppositis se fliictibus audet, opemque 

(Eidicula híDc res est) hostis ab hoste petit. 
At fiuctus Odoardus agens jam, jam imminet armis. 

Vulnera perquc undas sanguinolenta tulit. 
Auxilium frustra sperasti incautus ab undis, 

Iiífelii letbo sed graviore cadis. 
In mediia posses melius procumbere eampis ; 

Soeva nimis mors est, qu® tibi venit aquis*. 

Odoardus princeps PortttgaUiae dux Brigantiae, 
lis prctefectus vigiliarum^ coronelv^ equitum caesareus, in 
dias evadit, diz o titulo do segundo, que é como segue: 

Dum procul a castris, et nuUo milite septua 
Forte viam accelerans dux Odoardus agit, 

Nox ruit: íUp gravis sorano, fesausque viarum, 
Hospitio ignotus tecta parata subit. 

Proditur (heu nullis fas quemquatn iidere tectis) 

t Bíb. da Ajuda, Mbs., Mlac, vol. xxxvu, foi. 239. 
' Id., id.f Movimento do orbe lusitano, vol. u, foL 248. 



371 

• . 

Oinserat liostilis próxima quasquo phalanx. 
Nec mora : per ooctem, somiio dura caneta silebant, 

Pervigil insídias hostis^ et arma parat. 
Improviflus adest, et circumfuiiditur urbi, 

Armatus muroi», tectaque inilea habet 
IiTUUjpunt, flammisquf. toros et liQiiiia luatranti 

Cessorat; et thalanii strata rclicta vident. 
Uode dolos potait Priuceps fuginae paratoe? 

Praifectus vigilum eíst, evigilare aolet^. 

O terceiro finalmente é feito já depois da prisSo do in- 
fentee intitula- se: In sercnisnmnm Infanteni Odoardum Ger- 
manicte et CastcUae odium cum invídia. 



Yectus equn, et rwtílis fulgeus Odoardus in armis, 

Dnctor agit turmas, sievaqiie bella gerit. 
lufeiisum impcrii procul ille a íinibus hostem 

Submuvet, et totis agmina stcrnit agris. 
Quin otiaia Imperiique Aquilas, victrieiaque arma 

Per gentis victur barbara regna tulit. 
Inde gravia spoliis, et victo Marte superbus, 

Nota iterum ad regni moínia flectit iter. 
Obvia cum gaudeiiB irct Germânia palmis, 

Victorem festis excipcrctqu*.' ehoris ; 
QaÍB pudor heu! Quo te iuiperiía Fwnaiide furentem 

Iflvidia in praecepa? teque Philippu tulit? 
Pro lauro et partia, post tot fera bella, triíimphÍB, 

Ferre dolo, insidias, vinda, uecem<jue juvat? 
Virtutem ineritis non vob eoluisae, pudendiun est; 

At vexaasti odiis, iuvidiaque nefas. 
Tiupe odium ! at faetis hiiie maior gloria surgit: 

Invídia viiici non potuiase datiiin eet. 
Invidia, ot Martía laus certant. Gloria ab armis 

Par Odoarde tibi, par tibi ab invidia* 

Feita depois da priáFto conhecemos ainda uma poesia la- 

1 Bib. da Ajuda, Msa., MovinmUo do orht Imitano^ vol u, foi. 247. 
í Id., foi. 230. 

24« 



372 

tina de Manuel de Andrada, jesuíta, intitulada: Odoardo 
vincto <í". que come^*a: 

LyBÍn milita loquur? BÍstamve in vocibus infans'. 

De poesias a D. Duarte, ou antes de aahir do reino ou 
depois de estar em Allemanha (nSo logramos distinguil-o) 
raaa antes de presf», ainda conhecemos duas: uma do pa« 
dre Francisco de Macedo, que principia: 

Mitjor ambrosils Jmlithii cxultat in armía, 

e outra sem nome de auctor, cujo primeiro verso é: 

I Contalit optatos princepa Eduardus honores. 

De obras que llie fossem dedicadas, depois de servir em 
Allemanha, nJlo sabemos de nenhuma; entretanto é natu- 
ral que nlo faltassem a quem as teve antes de abando- 
nar a pátria e de empunhar as armas, como foram: o Teni- 
j)lo da Mcmorift de ^lanuel de Galhegos; a Laura de An- 
frho de Manuel da Vt^iga Tagarro ; a Srgunda parte de las 
comedím do alferes Jacinto Cordeiro; e a poesia á morte 
do duque D. Theodosio do padre Francisco Freire, de que 
já falamos. Ou n'este tempo, ou posteriormente, Diogo Al- 
vares Correia, que por vinte e três annos militou em Flan- 
dres, Itália e Africa, já como alferes Já como sargento-mór, 
dedicou-lhe a sua obra intitulada: Inatr-ucção c ordenança 
de ifent^i de guerra. 

Se porém os portuguezes nSo se esqueciam do infante, 
este, pela sua parte, conservava também vivos, no fundo d'al- 
ma, o amor da pátria e dos parentes; nem Ibe tinham sa- 



> Bib. du Ajuda^ Mâs., Corresp. áa Chnãtovâo Soares de Abreo, 
Toaio y, foi. Í3S. 



• 373 

memoria os seus familiares^ com aígana dos quaes 
( tsôtrespondia. Isto nos cei-tificam, além das referencias 
ersas por muitos documentos, as cartas ao duque e a 
António Paes Viegas, de que já nos servimos, ao cónego 
Tliomé Álvares Vellio^ a D. Rodrigo de Mello, parente does- 
te *, ao seu confessor no reino, que era um frade de Santo 
Agostinlio, a um sobrinko do marquez de Ferreira, que se 
chamava, parece, D. Fernando', e outras que felizmente es- 
caparam á destruição do tempo, d'entre as muitas que se 
perderiam, ou que jazerão por alii nos archivos, quasi per- 
didas pelos descuidos ou pela cegueira da ignorância. O 
mesmo so pode dizer das que lhe foram escriptas, posto 
que 08 trabalhos e as perseguições que o infante padeceu, 
tâo loDge do Portugal, tornem plausivel o seu desappareci- 
mento. Mandou também D. Duarte alguns presentes para 
o reino; e dois entre todos eertíimente de bastante signi- 
ficação, pelos objectos em si e pelas pessoas a que foram 
destinados. Consistia o primeiro n'um cinto feito da pelle 
de um cavallo, de cuja carne se sustentara durante os aper- 
tos de um cerco, cora que niimoseou seu Irmào'; e o se- 
gundo n'umas peçuainhas de bronze, para seu joven so- 
brinho e afil liado D, Theodosio, entSo duque de Barcelloe, 
e depois principe real*. Outro, muito mais valioso, trouxe 
elle em trinta e oito para Portugal, e jA o conhecemos: o 
corpo do martyr S. Gandulfo. Estes bons sentimentos de 
D. Duarte, acompanharam-o posteriormente sempre na des- 
graça, como veremos no decurso da presente obra. Os doa 
seus parentes e amigos, se tiveram algumas intermittencias, 



•Bib. da Ajuda, Mss., jriac, vol. xxzriz. 

* Arch. do Eatado de Milão, Processos de D. Duarte de Bnigança. 
(1643). Mss. 

'Ac. das Sc, Mas., António de Oliveira Cadornega, Deacripçãode 
êua patría Vil/a Viçoita. 

* JoSo Baptista Dúmitigues, Vida do príncipe D. Tfieodosio. Lis- 
boa. 17á7. 




nem por isso se desmentiram; e os d'elles, e, em geral, 
os do reino pateníearam-se muitas vezes eloquentemente 
durante os tempos maia calamitosos da sua vida, e sobre- 
tudo na sua morte. 

Para a sua correspondência com Portugal, sabemos que 
se servia, alem de Duarte Nunes da Costa, e do padre D. 
Dâmaso Cardoso, de Alexandre Tasca e de Jo^o Paulo Vid- 
man, negociantes de Veneza, e de Gerardo Vronta, e Gar- 
cia Posadas *. 

Aqui viria de molde um capitulo acerca dos seus amo- 
res no império; que de certo nilo lhe faltaram elles; porém 
a ausência completa de notícias, veda-nns entrar no assum- 
pto. As pessoas que melhor aa podiam prestar: Cláudio 
Huet, 8CU camareiro, Simão Noé, seu creado particular, e 
o padre Matheus Storr, seu confessor, acharam preferível 
calar-se, e apresental-o á posteridade mais como um simto 
do que como um homem. Navarro na sua relação nao vae 
tâo longe : attesta de ouvida a sua pureza de costumes ; po- 
rém diz n'outra parte que, entre a sua correspondência, 
se encontraram algumas cartas frescas. Isto é crivei n'um 
fidalgo mo^ío, poeta, militar, e rico, além de ser conforme 
a certos vestígio» da sua juventude, e a outros, que adeante 
veremos. Do que ninguém se persuadirá é que D. Duarte 
fugisse a companhia das damas da corte de Vienna d' Áus- 
tria, como quer aquelle religioso, e respondesse a quem lb*o 
estranhava, que níío se importava com cilas, e só de fazer 
reverencia á imperatriz. 



1 Bib. da Ajuda, Mss., Miec, vol. xxx-vu. 



LIVRO VI 



Estada do infante pth Paasaw. — É visttfido por vários generae* fr 
pelo archiihique Leopoldo. — Tirara-llio os orçados e iuquirem-od. 

— Kecorre o infante á protecçtlo de Fr. Timotheo Ciabra Pimeií- 
teL — Tenta esto liheitul-o. — Descobre-si* o projecto e Fr, Timo- 
theo é inandndo para um convento^ d'onde foge. — Mudam o infante 
para Gratz.— E bern tratado pelo gov*^rnadord'eBta cidude. — Nio 
deúram os hespaiihops dí» molestal-o. — Kr^preeeula o infante ao im- 
perador contra as violências que sotíre. — Carta apocrypba exage- 
rando estas violências.— Resposta de Filippc IV lí que o mfante 
lhe escreveu de Eatisboua. — O que acontecera entretanto ein Por- 
tugal. — Nomeam-ee embaixadores para França, Inglaterra, Hol- 
landa e Cataliuiba. — Entva em Barcelona o nosso embai-xador, e 
anima os catalães eom a noticia da reptauraçiio. — Passa a Genovat 
e oa hespanbocs tentam matal-o por um sicário que se finge com- 
panheiro d'armaa do infante. — Embaixada do montciro-niór e de 
António Coelho de Carvalho a França- — Primeiros passos que dào 
para obter novas do infante e favorecel-o. — Memorial quo enviam» 
a seu respeito, lí, dieta de Ilutiabona. — Embaixadas a Itiglaterra 
e Hollanda e o que fazem a sei; favor, — Embaixada á Suécia. — - 
Manifesto de Francisco de Sousa Coutinho >l dieta, contra a sua 
prisão. — Kecommenda a libeitlade do infante ao governo de Sto- 
ckolmo. — Embaixada a Roma. — Contrariedades que lhe movftm 
08 beapatihoes. — Manifestações na Allcmaiiha em pró do infante. 

— Missiio ao império c a Roma de Fr. Fernando de la Houe para 
tratar da sua liberdade. — Procura o infante novas de Portugal. 

— Aclara-so a verdade doa acontecimentos. — Sua alegria por 
essa causa e receio de que d*ahi peioreaeua eitnaçào. — Sua cor- 
respondência com Fr. Timotheo, Duarte Nunes da Costa e Fer- 
nando Braiidào. — Isoticias acerca dVste. — Quando começou a sua 
correapondeucia com o infante. — Primeiros passos de Brandilo a 



376 

« - 

seu favor. — Sahe a duqiu-za de Mantau de Portugal por conapirAr 
contra o reino. — Perde-se tíilvez cora a sua liberdade a do infan- 
te. — Ao chegar a duquoza a Badajoz denuncia uma tentativa de 
libertal-o.— Conspiraçào contra D. João IV. — Rompem-BC defini- 
tivamente as hostilidades cora Ilcspanba. — Influencia presumível 
d'eBtea factos no maior aperto com que tratam o infante. 



Posto O iiifíinte na sua nova prieSo, e ordenado tudo para 
o guardarem cora a maior segurança, partiu Navarro da ci- 
dade de Passaw no dia vinte e três de fevereiro, e a vinte 
e cinco chegou a Ratiâl)ona, onde deu conta a D. Fran- 
cisco de Mullo de quanto se passara. Esta conta forma a 
relaçSo, de que tanto nos aproveitámos no livro antece- 
dente. 

Durou a prisão do infante em Passaw quatro mezcs, 
desde dezeseis de fevereiro até vinte e três de junho. A 
maneira do seu tratamento foi tolerável todo esse terapo, 
ao menos, era comparação do seguido posteriormente. Já 
vimos como a sua guarda ficou a cargo do coronel Rublen- 
der, que para ella destinou doze dragí5o8, sob o commando 
do capitão Nicolau Capelli. Nào bastava porém isto, nem 
todas as medidas preventivas que se tomaram; e, em sub- 
stituição do doutor Navarro, foi da corte de Vienna um 
hespanhol, chamado D. JoSo de Avilez, o qual felizmente 
era bom homem, muito civil, e n3o motivou nenhuma quei- 
xa do infante. D. Francisco de Mello, pela sua parte, en- 
carregou de espial-o um fiilano de tal And«ada. Encon- 
tramos também um capitão, chamado Valderrabano, que ti- 



1 



377 

iilia a mesma incumbência por estes tempos'. Nunca sahía 
o infante do seu aposento, senílo para ir á missa, á cathc- 
dral, que íícava pegada ao palácio do arcbiduquc. A com- 
municaçâo era interior, e assistia aos officios divinos, em 
logar que ninguém o via de fora. N*es8as occasiôes, acom- 
panhavam-o ati-! á egreja o conselheiro do archiduqiie^ ba- 
r3o de Rumestal, o coronel Riiblender, e o capitão Capelli 
com algiiiia soldados. Oa seut* aposentos constavam de 
uma sala, onde passelava multo á vontade, e de ura quar- 
to. Nos outros dois moravam os creados, cujo tratamento 
nfio era mau. Jantavam com o infante muitas vezes o barão 
de Rumestal e D. João de Avilez. Quanto a Andrada jan- 
tava quasi sempre com oscreados. Durante a sua estada em 
Pasaaw, visitaram-o muitas pessoas de iraportancia, umas de 
propósito, e outras de passagem; entre as quaes, alèra das 
já mcucionadas, o conde Ilatzfeld, o conde Brias, e Engel- 
fort, todos generaes, que mostraram sentir bastante o que lhe 
acontecera. Visitou-o egualraente o archiduque Leopoldo, 
e, conversando sobre a sua prisSo, disse-lhe que falara 
n'ella ao imperador, seu irmão, e lhe declarara que n!lo 
queria ser sabedor do que elle fazia, porque de tudo la- 
vava as mãos. Em. geral era estimado e lastimado, nâo só 
dos que militaram com elle, mas também dos habitantes 
da cidade, o que bem se demonstrou depois, quando par- 
tiu para Gratz*. 

Affiima Birago que em Passaw lhe tiraram todos os crea- 
dos portuguezes, incluindo o próprio cosinheiro, e os man- 
daram a Ratisbona, onde os inquiriram apertadamente acerca 
de seu amo. Nem é eata a primeira vez que Birago aecusa 
tâo grande violência; porque lemos na sua obra o seguinte: 



' Arch. de Simancas, Maço 2343, foi. 19, Consulta do Conaelho de 
Estado feita om Madri*! a r> de abril de 1642, motivada por cartas do 
marquez de Caâtello-Hodrigo. Mss. 

2Bib. de Évora, Msb., 106, 2, 11, foi. 224, Relação de Huet acerca 
do infante. 



378 



cFoTiLxn presos, no mesmo dia (da prisSo em Ratísbona) 
todo3 03 creados do infante, com tanta biilha e apparato, 
como se todos merecessem a morte; mas soltaram-os no 
meamo dia; com o que se conheceu quão precipitadas tor- 
na as aeçf5í's humanas o impulso de uma paix«1o infrene». 
A lielationc delli m<di tratamenti fattl . , . alVinfante. » ., Já 
por nós citada, confirma o dito de Birago; mas a semelhança 
ciltre ella e a obra d*este, no estylo e nas idêas, leva nos a 
consideral-as uma só. Entretanto accrescenta que, de todos 
os creados, apenas lhe deixaram cinco para o seu serviço. 
TTiiet n'uraa das suas relações diz três; e Luiz Pereira de 
Sampaio na sua que elle foi preso logo depois de seu amo, cora 
quem ficou unicamente um pagem alleraão e mettido n'ou- 
tra estalagem, com sentinella á porta, sendo-lhe rcstituido, 
passados dois dia?. Quanto a Passaw, a Rdationc confirma 
Birago e contém mais quo quizeram pOr os creados a tor- 
mento, c que só tomaram ao serviço do infante, ao menos 
por então, o cozinheiro e Luiz Pereira de Sampaio, Huet 
cala o facto, para elle de tamanha importância, por lho to- 
car particularmente, a ser, como julgamos, um dos que fi- 
caram, e até assevera que o tratamento dos mesmos em 
Passaw foi bom. 

A relaçc^o de Navarro, que refere dia a dia tudo quanto 
succedeu ao infante, desde que chegou a Ríitisbona, não 
apresenta vcstigio algum a tal respeito, nem na parte re- 
lativa a esta cidade, nem na relativa a Passaw. Limita-se 
a dizer que no dia cinco, por ordem de D. Francisco de 
Mello, 80 reduziu o numero das pessoas do seu serviço 
a nove, convém a saber: Araldo de Tret, seu capellSo ; Luia 
Pereira de Sampaio, seu camarista; Gaspar de MagalhEes, 
seu mordomo; dois pagens; dois moçoa da camará; um 
cosinbeiro; e um reposteiro; e que o infante deu licença a 
alguns creados para se irem, gi-atíficando-os, conforme as 
cathegorias e serviços, o que tudo já vimos. 

O testemunho de Birago é portanto maia ou menos abo- 




nado, quanto a Ratisbona, embora com algiima diversidatl'^, 
pelos de Luiz Pereira de Sampaio e de Huct. Além d'Í8to 
o facto 6 natural. Na verdade, se o infante se reputava um 
preso de tamanha importância, se havia motivos para sus- 
peitar a sua cumplicidade na revolução do Portugal; se por 
isso forçaram o imperador a esquecer-se das leis do irape- 
río e da gratidão^ encarcerando o; se nSo desprezaram as 
mais insignificantes precauções para a guarda da sua pet*- 
Boa; 80, para o esclarecimento das suspeitas concebidas, nâo 
hesitaram em violar o segredo da sua correspondência par- 
ticular, poíèto o julgassem desnecessário, pelas occasiSos que 
tivera de destruir os papeis que o compromettessem; so es- 
tas coisas íse fizeram, porque nâo se empregariam também 
todos os meios para obrigar os seus croados a confessarem 
algumas particularidades que ajudassem o conhecimento da 
verdade? Lsto quanto a Riitisbona. Quanto a Passaw, o si- 
lencio de Luiz Pereira de Sampaio, de Huet o do Navarro 
6 contra Rirago. 

Nilo se podiam consolar os amigos do infante com a sua 
desgraça, c principiaram logo a cogitar no modo de conse- 
gair-lhe a liberdade. Foi durante a sua permanência em 
Passaw que oecorreu a primeira tentativa, promovida ou 
auxiliada por Fr. Timothco Ciabra Pimentel. Nasceu este 
religioso na cidade de Lisboa, sendo filho de Pedro Ciabra 
e de Maria de Serpa. Na adolescência reccbou a roupeta 
(Ia companhia de Jesus, e, seis annos depois, em mil seis- 
centos e treze, deixou-a para vestir o habito do Carmo, Dis- 
correu por Itália e Hcspanha, assim como pela Africa e 
America^ alcançando sempre fama de bom prógador^ que 
foi em Roma do papa Urbano VIII j ensinou a grammafica 
latina no convento de Évora, a Sagrada Escriptura em Lis- 
boa, e a tlieologia na universidade de Alcalá, c, passando 
a Allemanha, pouco antes da epocha em quo vamos, com 
D. Francisco de Mello, foi nomeado pregador de sua ma- 
gestade cesárea e thcologo á dieta de Ratisbona, cidade 



380 



onde estava morando, na casa de D. Francisco, ao tempo 
da prisão do infante. 

Desprotegido e accusado lançou os olhos o infeliz prín- 
cipe em torno de si, no meio da sua afiiiçâo, e o liomem que 
acliou mais proximt) e mais a propósito para o soccorrer, 
ou pela amisade que lhe tinha ou pela convivência com D. 
Francisco de Mello, foi elle; pelo menos, não encontramos 
menção de outro algum. Escreveu-lhe pois acerca da sua 
prisão, invocando como os titulos de mais fnrça para o obri- 
gar a serviho n'aquellf infortúnio o ser irmão da ordem do 
Carmo, e o amor da casa de Bragança á mesma ordem. 

Que se colbeu do appello do infante ao illustre religioso? 
Ignoramol-o; e também se se limitaram as diligencias a 
coisa de pouca monta, ou se chegaram a protestos, protes- 
tos inúteis, que apenas serviriam para engrossar o clamor 
soltado contra tamanha arbitrariedade. De mais, a demora 
do infante em Ratisbona limitou-se a dez dias, e, em tSo 
curto praso, o que faria Fr. Timotheo, cuja influencia nSo 
nos parece fosse considerável e em proporção das diffieul- 
dades que tinha de combater? 

Transferido dahi a pouco á sua nova morada, logrou o 
infante, a despeito dos seus carcereiros, continuar a coires- 
pondencia com o carmelita; por signal que n'uma carta que 
lhe escreveu, depois de contar o que passara, terminava: 
fTudo me poderão tirar os que aqui me perseguem, mas a 
paciência nSlo; com a qual estou annado a padecer estes e 
maiores traballios»'. 

Vamos porem á tentativa de libertar o infante, planeada 
por Fr. Timotheo e por D. Pedru de la Cueva, resultado 
talvez d'csta correspondência. 

Começaria o projecto a urdir-sc, estando o infante ain- 
da em Ratisbona, e seria descoberto a D. Francisco de 
Mello logo pouco depois da sua transferencia para Passaw, 



* Panfgyrioo fumrol. . . 



381 



isto ó, talvez na primeira metade do mez de março, pouco 
mais ou menos. D. Fedro de la Cueva, tenente coronel do 
regimento do infante, posto a que este o promovera, como 
sabemos, estando já proso, era um dos principnes fautores 
da conspiração. A qualidade de bespanhol, e as communi- 
caçõea que tinha tido e continuaria a ter com o seu com- 
raandnnte, ou com os seus familiares, amigos e conhecidos 
levaram D. Francisco de Mello a querer empregai o em 
vigiar-lho o procedimento. Fingiu D. Pedro que cedia aos 
desejos do embaixador; mas, em vez de occupar-se no baixo 
mister que lhe assignavam, uniu-se com Fr. Timotheo o 
oom outros, e tentou dar a liberdade ao príncipe portuguez; 
ao que o deviam mover, afora qualquer interesse, os nobres 
aentimentos de camaradagem, e quem sabe se de gratidiín, 
que a elJe o prenderiam. 

Este projecto anda todo envolvido nas nuvens da incer- 
teza, como outros muitos, e o primeiro ponto duvidoso con- 
siste em precisar-se qual o seu chefe; pois, ao passo que 
geralmente se attribue esta qualidjtde a Fr. Timotheo noa 
vestígios impressos, raros e deficioutes, que nos restam, a 
correspondência de D. Francisco de Mello com os gover- 
nas, do Madrid e de MilSio, também pouco explicita, accusa 
D. Pedro de ser o verdadeiro director do trama. Entravara 
ainda n'cllo iim sargento-maior e um clérigo, italianos, o ul- 
timo dos quaes havia de fazer uma agiMi para envenenar o 
embaixador, porque se pretendia nada menos do que isto. Fr. 
Timotheo, como domestico de D, Francisco, e portanto mais 
próximo e maia sciente das suas coisas, tentou, para os fins 
da conspiraçiio, imitar-ihe a íirma, e tomar-lhc o scllo, mas, 
convidando algumas pessoas de casa a entrarem no plano, 
perdeu-ae, pois d'ahi proveiu a denuncia, e prenderem- o. 
Quasi tros mezes duroua aua prlsSto, conjecturamos, era Ra- 
tisbona ; entretanto, considerando D. Francisco, que as pro- 
vas colhidas de culpabilidade nSo bastavam, e que, procc- 
dendo-se a mais severo castigo, talvez se indispuzess o 



382 



governo de Madrid com o núncio de sua santidade, resol- 
veu, de accordo cora este, retel-o no convento de Cremona, 
emquanto durasse a revolta dos portuguezes, cuja causa Fr. 
Timotheo mostrava aliás favorecer. Escreveu portanto ao 
grâo-chanceller de Milílo, por imaginar o governador do 
estado, o conde de Sirucla, ausente na campanha contra os 
francezes. dizendo-lhe como mandava o padre entregue aos 
cuidados de D. Carlos Laudriano, seu capellílo, o qual le- 
vava a obediência do seu gcralj e a competente ordem do 
nunciOj e pcdiíidolhe que o fizesse conduzir com boa guarda 
por pessoas de sua coníiança, desde Milão até Cremona, fi- 
cando ontSo livre do encargo D. Carlos, que poderia vol- 
tar a Katisbona, e que advertisse o prior do convento de 
Cremona, para nunca u deixar saliir, e o guardar com o 
maior cuidado, de maneira que nào se escapasse. Ultima- 
mente, encommcndava o embaixador ao gi*So-chanceller que 
o informasse do modo por que oa seus desejos eram satis- 
feitos, declarando, outrosim que o seu único propósito con- 
sistia em ter seguro Fr. Timotheo, durante as alterações 
de Portugal, c em que aqueJla prisio servisse para cas- 
tigo do mal que cumprira as suas obrigações um homem de 
tantas lettras e partes, qual o padre mestre, e ora tSo inai- 
gnc pregador, conforme bem o demonstrara na quaresma 
d'aquelle anno, na capclla de sua magestade cesárea. Esta 
carta tinha a data de Ratisbona, dezesetc de jimho de qua- 
renta c um. Pelo mesmo tempo, D. Francisco escreveu ao 
conde de Sirucla, em idêntico sentido. Repararam nas or- 
dens do embaixador, tanto este como o grSo-chanceller, 
e hesitaram era observai as. Julgavam mais seguro encer- 
rar o criminoso n'um castello, e pensaram até em pol-o no 
de Milão, emquanto se resolvia o ponto com o provincial, 
que estivesse em Cremona. Todavia, ponderando o que di- 
zia D. Francisco da falta de provas de culpabilidade, a 
confiança com que o mandara só com um capelllo, sem 
elle tentar fugir, e as largas com que determinava que es- 



383 



Svease retido, nao ousaram prendfl-o mim rígorosament^ 
e liraitaram-se a recommendnr ao padro jirior do Nossa Se- 
nhora do Caruio de Milão, a que fjra confiado, que tivesse 
a maior vig-ilancia na sua guarda. 

É isto o que resulta da correspoodencia de D. Francisco 
dcjMcllo. Entretanto de outros documentos conclue-ae que o 
podestá de Cremona escreveu ao conde sobre o quo tratara 
com o provincial, quanto á conveniência de ser o preso raet- 
tido no castello daquella cidade, e nâono convento, por nSo 
haver aqui cárcere seguro. Assim, no caso de fu^r, n2o 
incorreriam os frades na pecha de terem ajudado a tuga; 
além de que devia attender-se ao perigo a que sempre es- 
tava expottta a dita casa religiosa, cheia de sicários, visinha 
de miútos potentados, alguns pouco aôecto» a sua magesta- 
decatholica (' aparentados ainda com o duque de Bragança. 
CoDclue-se também que cm egaal data o provincial reque- 
reu ao conde no mesmo sentido ; c que, a oito de julho, o con- 
de, attcndendo ás razoes expendidas, ordenou ao governador 
do castello de Cremona que n'clle tivesse preso Fr. Timo- 
theo, em nomo do provincial e da sua religiílo. Esta ordem 
nào chegou a executar-se. Os receios do conde e do grâo- 
chanceller viu-se dentro era breve quanto eram razoáveis; 
porque, no dia seguinte ao da chegada a MilHo, Fr. Timo- 
theo desappareceu do convento, segundo se pensou, com 
auxilio de outro frade, e talvez com elte. Mal o conde o sou- 
be, expediu aviso a todos os podestás cora os signaes de 
Fr. Timotheo, para o procurarem e prenderem. Procederam 
estes conforme as instrucçSes, mas as suas pesquizas foram 
inúteis, posto se chegasse a oíTerecer um premio a quem o 
descobrisse. Não podendo a fuga ser executada sem cúm- 
plices, o conde encarregou o podestá de Milão de proceder 
a rigoroso inquérito no convento com os religiosos o com 
a família do marquez Palavícino, que ahi residia. O imico 
resultado a que se chegou foi á certeza de que Fr. Timo- 
theo fugira para Génova e estava escondido n'uma casa 




doesta cidade. De tudo inferiu o conde a sua maior culpft- 
bilidade no attentado que lhe imputavam, e, posto conside- 
rasse que no território genovez seria difficil colhel-o nova- 
mente ás mãos, empregou logo todas as diligencias para o 
conseguir; o que incumbiu a duas pessoas, que deputou es- 
pecialmente. O que mais consta d' esta tentativa, é que, in- 
terrogado, o infante negou a sua connivencia no trama, sã- 
legando nao saber coisa alguma; e que o clérigo, indigitado 
como um dos cúmplices, foi preso, e preso estava ainda em 
quinze de março do anno seguinte, resolvendo-se, n'esta 
data, em conselho d'estado em Madrid, á vista do officio 
de vinte de novembro do embaixador era Allemanha, o 
marquez de Castello-Rodrigo, successor de D. Francisco de 
Mello, a respeito doa interrogatórios do ró o, o do uma ro- 
laçílo do doutor Navarro, que ae fosse procedendo com elle 
como de direito, apesar do pouco fundamento que os jui- 
zes tinliiim achadu iiaa accusaçoes. De D. Pedro de la Cueva 
nada mais dizem os documentos que temos presentes. 

Na allusSLo que lia pouco vimos á familia do marquez Pa- 
lavicino como podendo ser implicada na fuga de Fr. Timo- 
theo notaremos uma coincidência, e é que os marquezes 
Palavicinu parece que foram posteriormente suspeitos de 
quererem libertar o infante, como veremos. Luiz, marquez 
Palavícino, suppomos que militava no tempo d'clle no im- 
pério, e escreveu-Ihe a carta que já conhecemos acerca doa 
seus desgostos no exercito. Silo outros tantos factos que dJo 
peso ús suspeitas dos hespanlioes. 

A carência de provas noa culpados, e a brandura de D. 
Francisco de Mello com Fr. Timotheo, depois de uma con- 
spiração tão seria, c deacripta por elle com tilo feias cores, 
tornam licito duvidar das suas palavras o reduzil-a a muito 
menores proporções, attribuindo o encarecimento ao propó- 
sito no embaixador do allegar serviços, e de se pintar vi- 
ctima de perigos que, ou n3o existiram ou existiram em 
parte, só para alcançar meroês. Isto mais claramente se pa- 




rece depreliender, ao advertirmos que, no mefrao officio em 
que fala da conspiração contra a sua vida, o faz também 
das diligencias que empregou n'outra6 matérias interessan- 
tes á monarchia hespanhola, na prisàf) do infante, e na mar- 
cha de tropas de Allemanha a Flandres, para substituircm 
as que d'alJi passavam a Het^ponlia, objecto que o des- 
velava muito; e que se queixa de lhe terem os portu- 
guezes confiscado os bens, por servir Filippe IV. O que 
avançamos adquire maior grau de probabilidade, sabendo-se 
que D. Francisco pediu e obteve recompensa, e outros tam- 
bém, como dentro de pouco veremos, por cansa da men- 
cionada prisão, recompensa a que a consulta do conse- 
lho d'estado, fundada no seu officio, se inclina quasi por 
voto geral, e que o decreto que se originou d'ella, promette 
para o futuro. 

A conjuração de Fr. Timotheo nSo produziu portanto ne- 
nhum bom resultado, antes, prejudicaria o infante, pois, 
conhecido este primeiro projecto de o libertarem, devia au- 
gmeníar o rigor e a vigilância dos hespanhocs a seu res- 
peito, para o que houve votos na mesma occasião, no con- 
selho *. Foi de certo esta uma das causas de o transferirem 
de Passaw a Gratz. 

Ao facto alludem ainda dois documentos, que nBo esque- 
ceremos, embora o deixem na mesma escuridade. Um é a 
carta de Gaspar Fernandes de Leão a Christovao Soares 
do Abreu, secretario dos primeiros embaixadores de D. 
João IV a França, com data de dezesete de julbo de qua- 
renta e um, onde lhe diz: aDe Ratisbona me escrevem que 
mudaram a prisSo do infante D. Duarte, o o mandaram a 



• Arch. lie Smmneas.j Maço 3355, Consulta do Conselho de Efetado 
feita em Madrid a 30 de março de 1642. Mbs. 

Id., Maço 2343. foi. 60, id. a 15 id., id. Mbb- 

Id., Maço 2342, M. 39, id. a 5 de julho, id., id. Mbs. 

Arch. do Estado de Milào, Dominio Spagiiuolo, Filippe IV, 1641 
Maços 546 e 549. Mbs- 

H. I. D. D.^T. I. 25 




Gratz por maior seguridade; e ao padre descalço (carme- 
lita descalço, visivelmente Fr. Timotheo) que estava com 
elle, a seu convento a Crcmona, em o estado de Mil3o: al- 
gema coisa haviam de haver descoberto'*. O segundo é o 
mesmo Fr. Timotheo nas seguintes palavi-as do seu Pane- 
gyrico funôntl: <tE eu, a quem mais individua e altamente 
fere este golpe o pesar (o da morte do infante) por haver 
merecido acompanhal-o em suas prisões, e não haver acer- 
tado a ser instrumento em sua liberdade» . . . 

Outra versXo. Contam os Annaes dt Portugal ter-se es- 
palhado fama de que D, Pedro de la Cueva, e o padre Fr. 
Timotheo Ciabra Pimentel tentavam dar fuga a D. Duarte; 
que isto bastou para ambos serem presos, encontrando-se 
pouco depois D. Pedro morto na prisilo, ou porque se sui- 
cidasse, a estarmos pelo dito dos liespanhoes, ou porque o 
assassinassem, e que o padre conseguiu, passados alguns 
mezes, fugir para Portugal, quando era mandado a Itália. 

O conde Galeazzo também narra o mesmo, com a diffo- 
rença de dizer que Fr. Timotheo foi mandado para Milão, 
que ahi fugiu do cárcere, e que ainda outra coisa tinham 
em vista os bespnnhoea com a retenção dos dois amigos do 
infante: aclarar, applicando-lhes a tortura, algumas suspeitas 
que nutriam de este se haver informado na sua viagem a 
Portugal, em trinta e oito (assim o criam ou fingiam crer) 
em Inglaterra, Hamburgo, e outras cidades hanseaticas, 
acerca de matérias concernentes á guerra, para favorecer 
a revolução*. 

Iluet e Noé sâo omissos a tal respeito. Birago apresenta 
o facto de modo bem diverso. Conforme o seu testemunho 
fica tudo reduzido a muito menos. Um hespanhol do re- 
gimento do infante reprovou em publico as perseguições 
e rigores que os seus compatriotas exerciam contra este; 

1 Bib. da Ajuda, Correap. de ChrUtovâo Soares de Abreu, Vol. tu, 
foi. 228. MsB. 

2 Obraa d"eBte auctor jA citadas. 



jj 



387 



tomou-se-lhes por isso suspeito ; indagaram quaes eram aa 
Buas relações, e, vendo que conhecia um padre carmelita 
portiiguez, que pregara um 8erm2o, onde se allndia occul- 
tamente á prisão de D. Duarte, e ae criminavam oa que 
paríi cila concorreram, tiraram d'ahi a conclusão de que o 
dito hespanliol conspirava com o frade para o libertarem, 
e estrangiilaram-o. 

D, António Caetano de Sousa, na Historia genealógica, 
ainda traz outra variante, por talvez entender mal Birago, 
d'onde tomaria esta passagem. «Refere-se, diz elle, que um 
official lieapanliol que servia no regimento do infante^ dando 
esta noticia (do mal que o tratavam) a imi religioso carme- 
lita poi-tuguez, condemnou este (sic) iniqiio procedimento 
em um sermílo que pregara (de) deante do imperador, do 
que sendo informado o marquez de Caatello Rodrigo, fez 
prender o official- ê poucos dias depois o acharam morto 
na sua' cama, com uma ferida na garganta, por onde se 
veiu a entender fora por ordem do marquez». 

Luiz Pereira de Sampaio na sua relação confirma o as- 
sassínio de D. Pedro de la Cueva, e a fuga de Fr. Timo- 
theo. 



II 



f Effeituou-se a transferencia do infante á cidade de Gratz 

f no dia vinte e cinco de junho, ou porque os hespanhoes 

julgassem pouco rigoroso e seguro o seu encerro, e receias- 

(sem outro esforço para libertal-o, ou porque o quizessem ir 
alongando cada vez mais de Ratishona, onde contava ami- 
gos e protectores, e também, e principalmente, pol-o a co- 
berto das incursífes e conquistas dos suecos nos territórios 

2õ« 




388 



do império; pelo que eáçolheram aquella cidade, sita na 
margem esquerda do Mulir, confluente do Drave, na Styria, 
diatante cento e cincoenta. kilouietros proximamente de 
Vienna, para sudoeste. 

Deixou o infante Passaw com grande sentimento do povo, 
que se apiedava da sua desgraça, sendo acompanhado pelo8 
mesmos soldados que o guardavam, e seis archeiros a ca- 
vallo, pelo capitão Capelli, pelo doutor Navarro, que pa- 
rece veiu de propósito para isso, e por D. Jo3o de Avilez, 
e Andrada. Nâo se sahe qual o caminlio que seguiu; maa 
é de presumir fosse o do Danuhio, até Vienna, e d'alii a 
estrada que, tomando para o sul, passava por Gratz, onde 
chegou a quatro de julho, sem novidade, depois de oito 
dias de caminho. Dois dias esteve o infanto n'uma estala- 
gem, chamada a Águia Negra, á espera que se preparasse 
o castello, sito n'um logar alto e forte, para onde foi levado 
a 8CI8. Então rccebeu-o o goveraador d'elle, o conde de 
Atristain, e deu-se-lhe um aposento desprovido de tudo, 
onde nSo havia nem uma cadeira para se sentar, nem cama 
para os creados, o que durou trcs ou quatro dias. Esta 
severidade e estreiteza abrandiíram-se em breve, por co- 
nhecer o castellão as boas qualidades do preso, emquanto 
este, da sua parte, affeiyoando-sc-lbe pelo continuo tracto, 
e a sua mulher e filhos os presenteava como podia. O re- 
sultado foi depositar o conde de Atristain tamanha confiança 
no infante, que o deixava ser visitado por alguns homens 
e senhoras e ir por toda a fortaleza só com uma sentinella, 
a qual Iluet affiança com juramento muitas vezes nem 
sabia d'elle; de modo que, ee quizesse fogir, scr-lhe-hia 
muito facil. Embora; guardavam -o a honra e a gratidSo 
para com o seu bemfeitor*. 

I Bib. de Évora, Mss., 106, 2, 11, foi. 224, Relação de Huet, ácercn 
do infaiite,| 

Luiz Pereira de Sampaio, Selarão da pritão if^»ta do, . , w- 
faníe. . . D. Duarte. . . Mbs. 



389 

Nío duvidunos completamente d'este rasgo de cavalhei- 
rismo attestado por Huet; mas nBLo acreditamos que o in- 
fante houvesse tanta facilidade de escapar-se, posto elle o 
dê também a entender, á vista das reiteradas ordens do go- 
verno de Madrid para que fosse cuidadosamente vigiado, 
ordens que os ministros hespanboes deviam cumprir A 
risca, e até antecipar, pela grave responsabilidade que 
lhes caberia da fuga do tal preso. Sim; se por uma parte 
era bem tratado, pela outra tinha contra si os satelhtes e 
espiões de lle&panlia, que lhe seguiam os passos, e nJo 
se descuidavam de o molestar. Conheceram estes & ma- 
dança favorável que se operara em seu beneficio, e procu- 
raram estorval-a; d'ahi resultou a ida de Navarro para 
Gratz, o qual, vendo que o governador nSo queria rece- 
l>iBr as suaa ordens, queixou-se a Fernando II í. Era conse- 
quência da queixa, o conde de Airistain foi reprebondido, 
e proliibiu-se íls pessoas da cidade que visitassem o infan- 
te, ou tratassem com elle, e que seus creados sahissem do 
castello. Contra estas duras medidas representou o infante a 
sua magestade cesárea. Uma das privaçSes que maia o mar 
goava era nSo ter missa quotidiana, e foi este um dos obje- 
ctos da sua representação. Também lhe escaceiavara os 
meios convenientes ao sustento, e pediu-lhe egualmente qu© 
lhe consentisse vender alguns dos bens próprios, a fim de 
occorrer ás suas necessidades. Tudo isto o marquez de 
Castello Rodrigo participou ao governo hespanhol em dez- 
oito de dezembro *. Não saboraos se a dependência, melhor, 
a subserviência, consentiu a Fernando III ouvir as reclar 
maçSes do infante. Ainda assim, se acredltarmoa aa nar- 
raçSes de Huet e de Noé, este seu encarceramento foi bom 
(comparado com o posterior de Milão) tanto pelo que lhe 
dizia respeito, como pelo que tocava aos creados, os quaes 

« Arch. de Simancas, Maço 2343, foi. 19, Consulta do CouBelho de 
Estado feita em Madrid a 5 de abril de 1642. Mse. 




390 



tinliam todo o castello ao seu dispor; d'onde se vê que o 
imperador nâo attendeu um dos pedidos do infante, isto é, 
a saliida dos creados. Os Annaes de Portugal suggerem 
que um doa meios de que se ser\'iram oa hespanlioes para 
peiorarem a sitiiaçSo do infante foi inventar que galanteava 
as filhas do governador. 

Nada mais encontramos acerca d'e8te3 amores; outros 
porém teve D. Duarte em Gratz com a baroneza de Gui- 
lerin, Petronilha Paula Jaconorin, rica viuva d'aquella ci- 
dade, que depois foi suspeita de entrar n'uma tentativa de 
libertal-o, estando já em Millo, e que muito tempo se cor- 
respondeu com elle por escripto, como tudo veremos. 

Torna Birago a dizer, rcferindo-se á estada aqui do 
infante, que o privaram do serviço de alguns creados portu- 
guezes, e os prenderam, do que se concluiria, sendo ver- 
dade, ou que oâ primeiros tinham sido readmittidos, ou 
que ae tinham tomado outros, pois, segundo o mesmo au- 
ctor, em Passaw lhe tiraram todos. As relações de Huet, 
Noé e Luiz Pereira de Sampaio nada trazem, o que pre- 
judica Birago, assim como passar este pela circtunstancia 
do bom tratamento que deu ao preso o conde de Atristain, 
certificado por Huet e Luiz Pereira, e confirmado pelos An- 
naes de Portugal f pelo conde Galeazzo, e até pelo infante. 

Pediu o infante hcença ao imperador para vender alguns 
dos bens próprios, natiu-almente a prata, com que já con- 
tava para as suas urgências; n'is80 concordamos com Bi- 
rago; mas não com elle dizer que o fazia, por só lhe dei- 
xarem receber de quem o provia o estrictameote neces- 
Bario ao seu sustento, e com tanta mesquinhez, que apenas 
chegaria para o minimo dos seus creados. 

Já vimos, pela sua carta ao secretario do duque de Bra- 
gança, António Paes Viegas, como em outubro de quarenta 
eram apertados oa seus recursos ; como elle declarou, quando 
foi preso, que havia muito que seu innSo lhe faltava com 
os auxílios pecuniários costumados; como Navarro lhe ofTe- 




39i 

receti uma e outra vez dinheiro da parte de D. FrancUco de 
Mello, o qual recusou, respondendo que para dois ou três 
mezes, que por ventura duraria a sua prisão^ ainda tinha, 
faltfiBdo-lhe meios, alguma pouca prata no valor de seis- 
centos escudos, que iria vendendo a pouco e pouco, á me- 
dida das necessidades. 

Eram pois ii'este tempo bastante méa as suas finanças, 
e muito peiores seriam d'alii, pelo menos, a quatro mezes. 
SabemoB também que o seu correspondente em Hamburgo, 
Duarte Nunes da Costa, o suppria de dinheiro, por via do 
conselho cesáreo de Gratz*; e suspeitnmos que outra pes- 
soa o proveu do algumas sommas, posto ignoremos quando, 
e por quanto tempo, dizendo-se geralmente que foi, estando 
o infante em Allemnnha^ o que também se deduz do que 
ha pouco citamos de Birago. Por outro lado^ os documen- 
tos do seu processo affirmam, quo elle era mantido pelo 
governo hespanhol no império, sem especificar se em Pas- 
saw, ou em Gratz, e até que este lhe tinha nssignado qua- 
trocentos reaes de oito por mez. 

Estabelecido isto, parece-nos possível que o infante, ou 
por niio serem os ditos provimentos constantes, ou pela sua 
escassez, ou falta temporária, ou por outra causa, se visse 
reduzido a precisar vender alguma prata; mas custa-nos 
admittir que o fizesse por lhe defenderem os ministros hes- 
panhoes receber o que era seu, e lhe forneciam os peus 
correspondentes, quer fosse para sustcntar-se, quer para 
outros gastos. Seria um requinte de maldade, sem expli- 
cação razoável. 

A accusação de Birago de que o obrigaram a mudar de 
confessor, destinando-lhe outro, para elle gravemente sus- 
peito, é Cacto que nSo achamos mencionado em documento 
algum, nom atinamos a explicar. Deve ser confusílo com a 



1 Arcb. do Estado de Milão, Processos de D. Duarte do Bi-stgaBça 
(1643). Mbb. 



392 



ordem de Navarro, n'e5te sentido, dada naa proximidades 
da partida do infante para MJâo^ como veremos, podendo 
também haver ecjuivoco no que diz o mesmo auctor da des- 
pedida dos creados com os dois que ent^o lhe tiraram e pren- 
deram. Dôixamoa de responder a outras divergências entre 
Biríigo e o que fica expendido, pela sua pouca importân- 
cia e por brevidade. 

As accusaçSes contra os rigores, que Birago assegura 
ter stjffrido o infante na sua residência em Grratz, sâo pin- 
tadas ainda com mais negras cores n*uraa carta apocrypha 
do doutor Navarro a D. Francisco de Mello, datada de Ra- 
tisbona, nove de outubro de mil seiscentos e quarenta e um, 
e, segundo se diz, impressa no anno seguinte. Serve tanto 
este documento para denunciar a origem de certas falsi- 
dades, que depois tomaram corpo, assim como para de- 
monstrar, mais uma vez, como anda escripta a historia do 
infante, e as exaggeraçSes e mentiras que n'e88e tempo se 
publicaram entre nós (no que Hespanha nos levou assi- 
gnalada vantagem), e vogaram tanto as suas asserções, que 
o vamos transcrever na integra da grande obra de D. 
António Caetano de Sousa, que teve, como outros, a in- 
genuidade de acreditar n'elie, e, o que é mais, applicando 
tudo que ahi se contem, uTm obstante a data, nào ao tempo 
em que o infante esteve em Gratz, mas em Milão, para 
onde 8Ú partiu a dezesete de julho do anno seguinte. 

Eii-o 110 original, que nSo traduzimos, de propósito, por- 
que as suas mesmas incorreçôea de linguagem servirão para 
augmentar as razoes que o condemnam. 

dRespondiendo a esta ultima de vuestra exceli encia de 
veinte de eetiembre: el marques de Gastei- Rodrigo és ver- 
daderamente hijo de gigante, y lo prueba bien en todas sus 
accionee, que son de caballero leal en el ser vicio de Sua 
Magestades Cesárea y Catliolicaj el abono de vuestra ex- 
cellencia en este particular és de todos conocido, como de 
qaien és, como lo mas que vuestra excellencia advertió, 




3â3 



pués como de oráculo se sigue j pontualmente se executa. 
De laá ordenes de vuestra excellencia ni faltará *un punto 
el marques, ansi lo tengo entendido. 

« Se estreclió, como vuestra excellencia ordena, !a reclu- 
siou de D. Dtiarte de Bragança, el qual yaze (verdadera- 
mente yaze) a buen recaudo, y sus vanas fantasias mas 
huniilladas que su prcsuncion jamás pens<S. 

«Le dimo3 confessor espano!, quitandole cl sujo, Lien 
que Io rchusój y lo iicchara a paios, ú pudiera, aborainan- 
dole, como si le dieramos um latherano o calvinista, dizien- 
do: quiero antes morir sin confession; quiçá juzgara los 
castellanoa iuUabJles para oir de penitencia a los portugue- 
ses: note el ódio vuestra excellencia y que se puede espe- 
rar d'esta accioní 

«Por muclias razoncs me parece bucno el pensaraiento 
de impedir que D. Duarte vaya a Portugal mostrar su va- 
lor, y llevar a su Hermano Ia felicidad con que mundo las 
armaa en estes paeses, sicndo abora tan facil (por las in- 
teligências do este reyno) la extlnsion de las esperanças de 
sucessores d'esta família , supuosto (como vuestra excel- 
lencia dize) haver en los fidalgos portugueses la sobervia 
de no ceder uno a otro, tenicndo-se cada uno por bijo dei 
8oL 

Tambien Ia consideracion de la tierna edad dei duque de 
Avero, y la poça aficion que aquel reyno muestra a esta 
casa, en que sea tan próxima a la real^ tio ós para des- 
preciar, puesto que ai el duque de Bragança tuviere seao, 
con \m& hija puede destruir esta seguridad, reuniendo la 
misma sangre, multiplicando mas pretendientcs áquel reyno j 
y por aqui, quando non bagan por el de Avero los portu- 
gueses, lo haran por ser unido a la casa de Bragança de 
que se muestrau íieramente apassionados. 

íSuponga vuestra excellencia cartuxo D. Duarte; ni Be 
canso en recomendarlo ; que está aun más recoleto; la ca- 
dena se lo ofreció para la nocbe, cchada por la ventana de 



394 

la giiardia secreta, a la mano, ó ai pié; a 8U elecion es- 
cogió la mano; todo en el son desvauecimientos. 

«Los vestidos se le quitaron, pêro no de tal modo, que 
tenga frio, porqi;e de resto le desamos dos, qiiitandole tam- 
bien la supei-fliiidad de eu ropa y colgadiiras, porque se 
deseiigane que és un pobre prigionero, y no infante, como 
el piensa. 

«El cozinero a su pezar le fiic quitado, porque para la 
vaca que le está ordenada menos destreza basta, j esta se 
baila en otro qualquiera, que lo bará ai gusto de otroa bien, 
quando no sea ai suyo. 

«Poço temor causnrian las correspondências de que vues- 
tra excellencia avisa, quando las pudicra haver; con todo 
por no salir de lo que vuestra excellencia manda, se le 
dará el comer por la ventana, cessíirá el dinero, ni se le 
dará mas, ni tendrá mas audiência de sus criados (que ya 
estan en prision) ni. de otra persona que no sea el decre- 
tado confessor que baze diestramente su papel. 

a Lo mas para Ia otra estafeta. Guarde Dios a vuestra 
excellencia, Eatisbona nueve de octubre mil seiscientos qua- 
renta y unoí». 

Esta carta c uma ediçSo mais correcta e augmentada de 
outra que sídiiu em catalão, com o titulo seguinte: Carta 
escrita de Ratkhona per Io dcctor Navarro^ secretari de la 
reyna de Uiigrin a D, Francisco de Mdlo, a qual differe 
em muitos pontos da que traz a Historia gtnudogica. NSo 
tem data, posto que do titulo geral : Novas extraordinárias 
qne contiinen Io mal tracfe que han fet los imperiais ai ger- 
má dei rej/ de Portugal, que ieniun prés, impressa cm Bar- 
celona em mil seiscentos e quarenta e dois, se 'veja que 
nílo é posterior a este anno *. 

Birago bebeu alguns doa factos que narra n'e8ta carta. 
A mais do que Birago, tem ella ainda o seguinte: que D. 

íBib. Nac, 2.* Eepartiçlo, I. 10, 4. 




395 



Duarte ficava de noite preso por uma das mSos a uma ca- 
deia, lançada da janella da guarda secreta; que súmentc 
llie deixaram dois vestuários; que lhe diminuiraia a roupa 
e as coberturas ao indispensável; e que se llie daria o co- 
mer pela jancllaí D. António Caetano de Sousa aprovei- 
tou-a quasi toda, já o declarámos, porém mudou por engano 
o tempo aos acontecimentos, applicando-os a Milão. Luiz 
Marinho de Azevedo, nas Exclamaciones politicas^ foi ain- 
da mais longe do que elle, scguindo-a, e apropriando tudt> 
quanto na mesma se diz, á estada do infante em Ratisbona, 
onde, note-se, o dá preso no castello, sendo a sua perma- 
nência n'c8ta cidade só de dez dias, do quatro a quatorzo 
de fevereiro de quarenta o um, e sendo a carta datada de 
nove de outubro doeste anno, tempo em que já estava em 
Gratz. Os manifestos escriptos a favor do infante aprovei- 
tam -a também quasi toda. Emíim as suas mentiras che- 
garam até Portugal e consternaram o animo de D. JoSo IV, 
o qual as relata n'imia das instrucç^es dadas ao conde da 
Vidigueira, embaixador a França, em vinte e sete de março 
do anno de quarenta e dois, como veremos. 

Precauções e rigores tJSo apertados, c algims desneces- 
sários e até ridiculos, nunca o infante os experimentou; 
nem mesmo na epocha mais calamitosa da sua desgraça; 
nem quando foi mais perseguido e vexado no castello de 
Milão. Bem sabemos que estas e outras falsidades, c entre 
ellas, sobretudo, a de ser preso com caldeias, as adoptaram 
todos os nossos escriptores, contemporâneos e nSo contem- 
porâneos dos factos, alguns de nome, e que d*elles passa- 
ram a correr mundo, como coisa averiguada e indubitável. 
Teremos occaaiâo de tocar varias vezes no ponto; mas des- 
de jA o deixamos decidido, negando absolutamente as pro- 
posições da dita carta e, mais do que todas, a de ter es- 
tado em ferros o infante, que nSo encontramos em docu- 
mento algum digno de credito, assim como as outras, e 
que 8Ó uma '^nsideraçâo basta para deitar por terra: ac- 




cusar D. Nicolau Fernandes de Castro os eacriptores por- 
tuguezes d'esta falsidade, e nào o refutar o infante, nas 
notas que compoz contra elle, o que aliás não deixaria de 
fazer se o ca-jo fosse verdadeiro. Demais, quem nâo vê na 
carta era questão uma pia fraude, um fructo da paixSo par- 
tidária, ou antes patriótica? Se porém não fosse bastante 
para proval-o esta consideração geral e o mais que ex- 
pendemos, proval-o-hiam, a nosso ver, de sobra, as suas 
mesmas exaggeraçdes, a sua linguagem, o seu estylo baixo, 
fora de todas as praxes officiaes e até da etiqueta e res- 
peito com que ura advogado do embaixada devia falar a 
um ministro plenipotenciário, a um conde, a um amigo do 
poderoso valido de Filíppe IV, a maneira differente, pró- 
pria de noticia politica, por que foi impressa em catalão; 
provat-o-hia priocipalmente a grandissima distancia que vae 
d'ella á outra que já conhecemos do mesmo Navarro, tam- 
bém a D. Francisco de Mello, escripta anno e meio antes, 
acerca da prisão do D. Duarte, como se pode julgar pelo 
fragmento atraz copiado, o qual, e egual coisa dizemos, e 
já dissemos, de todo o documento, longe de respirar ódio 
e incivilidade, é concebido em termos delicados e ás vezes 
até compassivos. O officio de Navarro ao coude-duqiie, rela- 
tando a mudança, e viagem do infante de Gratz para Mi- 
lão, de que adeanto nos serviremos, acabará de evidenciar 
o nenbum valor da carta de nove de outubro de quarenta 
e um. 

Tão infeliz, ou mais ainda, foi o infante com o recurso 
a Filippe rV, do que fOra com relação a sua raagestade 
cesárea; e assim era de esperar. Escrevera-llie, como sa- 
bemos, logo depois de preso, para o que pedira licença a 
D. Francisco de Mello. N'e88a carta justificava a sua inno- 
cencia a respeito da revolução de Portugal, e acreditava 
que o rei catholico velaria pela sua honra e o ampararia. Con- 
fiança inútil! Fillippe IV mandou-lhe responder, pelo seu 
embaixador em AUemanha, que lhe não faria injustiça, e 



397 



que sentina se foeee achado culpado. Ao meamo tempo, 
recoromcndava o maior rigor com a sua prisSo*. A ree- 
poBta do rei de Hespanha recebel-a-liia o iafante estando 
já em Gratz. 



Ill 



Ao tempo que estas coisaa se passavam em Allemanha, 
a restauração de Portugal seguia o seu caminho e procu- 
rava cnnso!idar-so. Cliogado el-rei a Lisboa eaeclamado com 
o maiorjubilo no continente do reino, celebrou-se d'ahi adias 
a cerimonia da coroação, que teve logar a quinze de de- 
aembro no Terreiro do Paçn, e adoptaram- se varias medi- 
das tendentes á organisaçSo do gnverno civil e militar. A 
vinte e seis entrou na capita], juntamente com seus filbos, 
D. Theodosio, D. Joanna e D. Catbarina, a rainha D. Luiza, 
a que o povo, apesar de hespanhola^ fez o mais enthusias- 
tico recebimento, por saber de quão boa vontade abraçara 
a causa da independência nacional. A vinte de janeiro reuni- 
rara-se as cortes, e a vinte e oito do mesmo mcz teve logar 
o jm^amciito a el-rei e ao principe herdeiro, tratando-se em 
seguida dos negócios mais urgentes, 

O grito soltado pela pátria ao recuperar a sua liberdade 
não parou nas fronteiras; transpol-as rápido, e foi acordar 
nos paizes estrangeiros, sobretudo em Hespanha, os cora- 
çCes dos seus nobres filhos, que n'elles serviam ou peregri- 
navam. Fidalgos, ecflesiasticos, dignidades, estudantes, ofii- 
ciaes, soldados, todos acudiram pressurosos, apenas lhes 



' Arch. de Simancas, Maço 2342, f*jl. 4T), Coueulta do Coueelho de 
Efetado feita om Madrid a 15 de junho de 1641. Mss. 



398 



foi possível, ao resurgir da terra natal; e podemos dizer 
todos, porque o limitado numero dos que a renegaram in- 
famemente constitue apenas uma odiosa excepção, que em 
nada invalida a generalidade. Echoou a noticia do gran- 
de acontecimento, e começou logo a torrente de impatriaçio 
que nos trouxe o havia de trazer t3ío estrénuos defensores. 
Só dos exércitos hespanhoes calcula-se em mais de dois 
mil 08 que vieram prestar, com o correr do tempo, a causa 
tão sacrosanta o auxilio do seu braço e da sua experiência, 
auxilio da máxima importância no estado de fraqueza a 
que chegara o reino, graças ás medidas destruidoras da 
ce>rte de Madrid. Pois foi precisamente uma d'e83as medi- 
das que se converteu, quem o diria aos tyrannos? em tim 
dos maiores instrumentos da nossa defesa! Arrancaram a 
Portugal, com o Hm de o anniqnilarem, os seus mancebos 
mais validos c prestimosos; levaram-os a servir longe na 
guerra, a pelejar por uma bandeira que nSo era a sua, e, sem 
o quererem, som o pensarem, forneceram- lho armas, scien- 
cia e disciplina para resistir aos intentos do reconquista do 
próprio solo! Levaram-llio homens, e deram-lhe soldados, 
soldados das campanhas de Flandres, da Itália, e da Ca- 
talunha I Nem todos volveram, é certo; muitos dizimou o 
ferro inimigo durante tantos annoa; porém os sobrevivos 
lograram centuplicado o galardão das suas fadigas e sof- 
frimentos, podendo, como bons filhos, defender com as es- 
padas valentes e atfeitas aos combates a mâe de todos, a 
pátria, que tanto d'olle3 precisava. ■ 

Não ha para nós revolução mais admirável do que a do 
primeiro de dezembro de mil sciscontos o quarenta, no atre- 
vimento do plano, na inviolabilidade do segredo, na exe- 
cução veloz e incruenta, no modo espontâneo por que a 
receberam o continente, ilhas c conquistas da Ásia, Africa, 
America e Oceania, e, não menos do que isso, na teme- 
rária confiança, com que esses tantos portuguezes, conhe- 
cida devidamente a grande nova, deixaram logares, hon- 



3*J9 



ras, interesses, para seguirem a causa nacional^ na hora 
do maior perigo, e quaudo ella ainda vacl liava, não no tri- 
bunal da justiça, mas no da força, que despoticamente obri- 
ga e a vaaaalla os corações, ou antes as vontades! 

S<j tu, 6 nobre, ó desinteressado infante, só tu, descen- 
dente dos nossos reis, e irmão do que acabava de escolher 
para presidir aos sem destinos a nação inteira, ficaste longe 
da pátria, que te desejava e que tu desejavas. Ah ! se pudes- 
ses voar em seu soccorro, se nào te prendessem em duro 
cárcere os nossos inimigos, ninguém, ninguém te excede- 
ria, estamos certo, nem no amor com que a amavas, nem 
no valor com que a defenderias l 

Para os governos, tanto civil como militar, lançou-se 
mão das pessoas que eram mais adequadas a clle», ex- 
cluindo-so apenas as mauifeâtameute partidárias de Hes- 
panha; do que resultou conservarem muitos os mesmos lo- 
gares que exerciam no tempo da usurpação. Este caminLo, 
que, á primeira viata, se afigura arriscado, e que o seria 
na verdade, se a adJiesão dos portuguezes a Ileapanha não 
fosse toda apparente, era sensato, e o único a seguir nas 
drcimiatanciad excepcionaes em que Portugal se achava; 
o contrario fora crear dois bandos, de fieis e de duvido- 
sos, e mover descontentamentos e intrigas inconvonientiB- 
aimas. 

O maÍ3 difficil de prover de todos os cargos, o de secre- 
tario de õátado, á falta de homens habilitados na pratica 
dos negócios, recahiu em Francisco de Lucena, que ser- 
vira durante certo tempo com Miguel de Vasconcellos. Já 
dissemos alguma coisa acerca do apego d'elle e de seu pae, 
Affonso de Lucena, á corte de Madrid; das accusaçues que 
pesavam n'oste, de se ter engrandecido e aos aeus, atrai- 
çoando D. Catharina, com as revelações que fez; e doa 
officios que ambos occuparam em Hespanha o Portugal. 
Não devia portanto ser agradável e exempta de suspeitas a 
D. João IV, e a muitos, a nomeação de Franciaco de Lu- 



400 



cena para tão elevado posto; mas a necessidade venceu 
tudo. Entre os que desconfiavam do novo Becretario conta- 
va-se o infante; e foi o seu chamamento de Allemanlia um 
dos primeiros negócios em que poz a mâo. O modo por 
que n'Í8to procedeu, e os tristes resultados doesse seu erro^ 
ou, se quizerem, maldade, não só contribuíram para con- 
firmar as íipprebensSes existentes contra elle, mas forma- 
ram também, como vimos, um dos capítulos do processo 
que posteriormente se lhe instaurou. 

Carecia Portugal de organisar-se e aiinar-çe contra Hes- 
panha, e também de estabelecer allianças com vários pai- 
zes, sobretudo com os que guerreavam esta potencia; por 
isso, logo a doze de dezembro, segundo uma carta do pa- 
dre Sebastião Gonzalez, escripta de Lisboa, se nomearam 
para a miss-âo de Koma o bispo de Lamego, para a de 
França D. Francisco de Mello, para a de Inglaterra D. 
Antão de Almada, para a de llollaiida Tristão de Men- 
donça, e para a de Catalunha Jorge de Mello *. Foi a em- 
baixada de Catalunha a primeira de que se cuidou, já por 
mais próxima, e já por mais necessária na occasiâo do que 
todas, pelas muitas tropas bespanholas que alli militavam 
contra os levantados e contra os francezes, tropas que, en- 
tretidas convenientemente, deixariam de marchar para as 
nostas fronteiras. 

Por causa d" esta urgência, e por se demorar ainda al- 
guns dias a partida do ministro especial, mandou o go- 
verno a Barcelona um barco, no intuito de alentar os re- 
voltosos do oriente da península, dando-lhes a boa nova da 
separação de Portugal. Era o capitão d' elle, em vez de 
catalão, como inculcava, castelhano; levava no animo trai- 
çoeiro propósito de entregar os portuguezes que lhe tinham 
sido confiados, e, sob o pretexto do metter agiía, condu- 
zi u-os a Cádis, a um logar em que dizia poder fazel-o, sem 



1 Memorial hiêlorico cspanolf vol, xvi, pag. 112. 



401 

perigo de Bcr descoberto, dispondo as coisas de maneira 
que todos foram presos e retidos em íleapanha, onde fica- 
ram até quarenta e quatro, anno em que, indo para as ga- 
lés, se libertaram no caminho, incitados pelo portnguez 
António da Silvai Seria este barco por acaso a caravella 
que o padre SebastiSío Gonzalez participa ter sabido no dia 

l-um de dezembro*, e que, na verdade, só depois de alguns 

'dias 8ahÍ89e?Em compensação, o padre Ignacio Maacare- 
nbas^ o embaixador definitivamente nomeado, obteve pros- 
pero successo. 

A sete de janeiro embarcou Mascarenhas no porto de 
Lisboa, com o seu companheiro Paulo da Costa, jesuíta 
como elle, e, tendo esperado tempo favorável, partiu a 
quatorze para o seu destino, levando carta de crença de 

, dezenove de dezembro. A entrada do embaixador em Bar- 

l^lona, onde chegou a vinte e quatro do mesmo mez, pro- 
duziu immenso enthusiasmo nos catalães, aos quaes a no- 
ticia da restauraçSo de Portugal, que oa hespanhoes, nâo 
conseguindo abafar, tinham transformado cm uma simples 
evolta, influiu novo alento na extremidade em que se acha- 
de ver çahir no poder do inimigo a capital do prin- 
cipado. As consequências appareceram breve traduzidas 
factos na derrota infligida ás tropas reaes em Mon- 
luich, apesar da desproporção dr» numero. Esta brilliante 

^ictoria fr>ra porém como um milagre, e o governo da Ca- 
talunha receiava outro ataque, e desconfiava da repetiçXo 
ie tanta ventura. Precisava pois, sem demora, soccorros de 
Trança e navio que os requisitasse, porque o inimigo lhe 

lembargava procural-os pelo lado da terra. Faltando, em tal 
ftperto, embarcações, o nosso religioso offereceu-se para o 

leffeito, e, poucos dias depois de haver chegado, seguiu 



* Bib. Nac, Mss., Supplemento, u." 606, Annau de Portugal resti- 
ittido a reis naturae». 

' Memorial histórico Espafiol, vol. xvi, pag- 109. 

H. I. D. D, T. I. 96 



402 

em demanda da costa de França, a qual não lhe deixou to- 
car a força do tempo, que o atirou á Itália. Resolveu on- 
tSo dirigir-s6 a Génova, e de lá eôcrever para Marselha, 
como feZ; obtendo assim prompto e valioso auxilio os ca- 
talães, que se virara livres do risco imminente que oa ha- 
via intimidado. 

A beis de fevereiro desembarcou o padre em Génova, 
e, escondendo a sua qualidade de enviado de D. João IV, 
começou a espalhar a noticia da separação de Portugal 
e do estado cm que iicava o reino, o que ninguém que- 
ria acreditaTj porque os hespanhoes, como em Barcelona, 
tinham reduzido tão grande feito ás pequenas proporções 
de um simples levantamento. Foi quanto bastou para alte- 
rar os ânimos dos súbditos de Filippe IV e doa que seguiam 
os seuB interesses u aquella cidade, e para ser olhado ran- 
oorosamentc o jesuíta. A isto accresceu conhecerem o alto 
cai'go que desempenhava, talvez por um seu creado, que 
depois se entendeu atraiçoal-o, e crerem que com o mesmo 
posto ia a Roma, jíresumpção donde nasceu logo o infame 
projecto de o matíU"em e de se apoderarem dos seus papeis, 
por meio do seguinte ardil. Procurou-o um dia um joven 
milanez, de boa apparencia e bem vestido; inculcava ter 
servido em Allemanha no exei'cÍto imperial cora D. Duarte, 
e mostrava des«jt>s de servir também em Portugal, aonde 
D. Duarte, calculava elle, já devia ter passado; receiava 
comtudo executar eate plauo, por causa dos hesp&nhoes, 
e recorria portanto á protecção do padi-e. Isto fazia simu- 
ladamente com o fim de o assassinar; mas o embaixador 
estava acompanhado, e, por então, frustrou-se o crime. Ten- 
tou-õ segunda vez; mas teve idêntico resultado. Foi uma 
providencia; porque entretanto um allemSo, que se dizia 
creado dos encommendadores do assassínio, delatou o pbo- 
jecto do mílanez ao jesuíta, e que era sempre seguido por 
vigias. Temeroso de tão grande perigo, conseguiu Masca- 
reiíhas fugir disfarçado, juntamente com o seu companheiro, 



403 



da estalagem em que morava, e acolher-se a outro tecto 
e andou tâo cantamente, que illudiu os seus perseguidores, 
a ponto do o snpporein já no mar, caminho de Roma, e de 
enviarem um navio para o perseguir, ao golfo de Spezzia, o 
qual teve a infeliz sorte de naufragar, perdendo-se quarenta 
homens que levava. 

N*e8te meio tempo, chegou a Génova o marquez de Le- 
lee, vindo de Mil3o, onde fora governador, e, com a aua 

ígada, augraentaram a» diligencias para se desfazerem 
da pessoa do jesuíta, subindo o zelo do marquez até exigir 
do senado a sua entrega, como embaixador do rebelde duque 
de Bragança, o que aquella corporação repelliu com nobre 
firmeza- Frustrada a prelenção, prometteram os hespanhoes 
quinhentos dobrões pela sua cabeça; mas n^o conseguiram 
ainda os negregados pUinoa, porque Mascarenhas, depois 
de mudar outra vez de casa, temendo cahir nas mãos de 
eeus encarniçados inimigos, queixou-se ao senado da vio- 
lência que intentavam contra elle, e obteve & sua efficaz 
protecção, e guardas, que o defenderam, até embarcar em 
vinte e um de março para França. De França passou logo 
a Barcelona, e d'ahi outra vez a França, onde, tomando o 
porto da Rochella, voltou a Lisboa, com o tratado que ce- 
lebrara entre Portugal e Catalunha, c alc^^m d^isso com cin- 
coenta officiaes e soldados portuguezes, que para elle de- 
sertaram do exercito hespanhol, seguindo-se-lhe pouco de- 
pois seu companheiro com mais de duzentos da mesma pro- 
cedência. Assim escapou o sagaz, o intrépido jesuita a to- 
das as ciladas; assim executou felizmente a sua raissSlo, so- 
bejando-lhe ainda animo e vagar para induzir vários nego- 
ciantes a remetterem para Portugal consideráveis partidas 
de armamento, de que tanto careciamos. 

Alongámo-nos mais na descripçílo d' esta embaixada, por 
ser ella revestida de algumas particularidades que pintam 
vivo a influencia da Hespanha na Itália, a maneira por- 
que ella desfigurava quanto noa dizia respeito, a persegni- 

26* 



404 

ç2o odienta e acrimoniosa que movia a quanto era portu- 
guez, e ainda pela especialidade de ser invocado o nome do 
infante, para um vil sicário, comprado pelo seu oiro, assas- 
sinar o nosso embaixador. Auxiliados por estes factos, que 
sao descriptos pelo próprio Ignacio Mascarenbas*, compre- 
lienderemos mellior alguns pontos da presente liistoria, que, 
sem parallelos tão frieantes, pareceriam inverosímeis e at 
incriveia. 



IV 



A ímtaixcda da Catalunlia segTiiram-se as de Fran< 
Inglaterra e Ilollandn. Para a primeira foram nomoadoí 
embaixadores Francisco de Mello, monteiro-mór do reino © 
do conselho de sua magestade, e o doutor António Coelho 
de Carvalho, do mesmo conselho e desembargador do Paço 
e secretario Christovào Soares de Abreu. Iam também co: 
o monteiro-mór o celtberrimo Fr. Francisco de Santo Agos-i 
tinho de Macedo, então jesuíta, que fora seu mestre, o qual, 
tendo fugido de unja das casas da Companhia em Lisboa, 
onde estava preso, embarcou escondidamente, e João Franco 
Barreto, secretario do dito monteiro-mór, assaz conhecido 
pela sua traducçâo em verso da Eneida de Virgiho. Para 
segunda embaixada escolheu o governo por embaixadoí 
D. Antão de Almada e Francisco de Andrade Leitão, des- 
embargador do Paço ; e como secretario António de Sousa 
de Macedo, benemérito da nossa litteratura. Para a terceira 
como embaixador TristSo de Mendonça, e como seci-etario 
António de Sousa Tavares. 



í Belaçõo do gucceuo que teve com a jornada qite fet a Catalunha, 
Lisboa 1641. 4.« 



405 

LevaTitaram ferro o monteiro-mór e os seus companhei- 
ros a quatro de fevereiro, precisaraente no dia em t^ue o 
infante foi preso em Ratisbona, a bordo de um navio inglez, 
por nome Maria Joio, guarnecido de vinte e seis peças; 
mas BÓ a oito puderam saliir a barra, por causa do tempo 
contrario, o que também succedeu aos embaixadores de In- 
glaterra e Hoílanda, que tinham dado á vela na mesma oo- 
ca8Í3o em outros dois navios inglezea. A um de março che- 
garam á Rocliella, depois de experimentarem forte» tempo- 
raeS; sendo alii recebidos cordialmente pelo governador da 
cidade, Amador de la Porte, grão prior de França, e em- 
baixador da ordem de S. João de Jerusalém, e a vinte e 
um estavam em Paria. Feita a entrada solemne na capital 
do reino, e apresentadas a Luiz XIII, á rainha, e ao car- 
ieal de Ricbelieu, que lhes fizeram o melhor acolhimento, 
^as cartas que levavam de D. JoãLo IV e de sua esposa, co- 
meçanim a negociar o tratado de alHança, de que iam in- 
cumbidos, e que se assignou em um de junho. Alguns dias 
depois foram-sG os embaixadores despedir de auas magesta- 
des a Abbeville, e voltaram a Paris, d'onde sahiram em 
vinte e quatro do mesmo mez para a Rochella. Aqui embar- 
açando na esquadra franceza do com mando do marquez de 
Jrezé, que Luiz XIII mandava, para, conforme o tratado, 
86 reunir á portugueza contra Hespanha, navegaram em 
direcção a Portugal a vinte e dois de julho, e surgiram fe- 
lizmente, depois de vinte e um dias de viagem, na bahia 
de Cascaes, a sete do mez de agosto *. 

Antes de chegarem a Paris, sobresaltou os embaixado- 
res a noticia da prisão do infante. A vinte e três de marçx> 
já Gaspar Fernandes de Leíío, negociante pnrtuguez, ou 
de origem portugueza, residente em França, tornava a ea- 



* João Franno Barreto, Relação da viagem que a França fizeram 
Francisco de Mdlo e António Codho de Carcalho ifido por emòaixa- 
dores, . . do rei . . D. João IV,, ^ Lisboa. 1642. 4." 



406 



crever ao secretario da embaixada, Clirifitovão Soares de 
Abreu^ pois já. o fizera no correio anterior, prometteudo di- 
rigir-se a pessoas de consideração, moradoras em Katisbona, 
a fim do obterem infonnaçSes certas de D. Duarte e de lhe 
prestarem os serviços que fosse possível. A vinte e sete es- 
crevia o mesmo novamejite ao secretario que ainda Eb© níto 
viera a resposta, e que tinha coniiança de que os seus ami- 
gos lli'a enviariam breve. A triílta communicava-lhe que es- 
crevia para liatiabona» Viemia e Colónia o que haviam as- 
sentado úcerea dus negócios do ínlante. N^este comenoa, re- 
cebia Gaspar Fernandes de LeSo carta de António Lamego^ 
datada de Ruão, vinte e dois do dito mez, na qual lhe dizia 
que seu cunhado Lopo Ramiro (irmão de Duarte Nunes da 
Costa) ficava muito sentido da desgraça de sua alteza; quo 
o imperador o mandara de Katisbona para um ca^tello cha- 
mado Neustadt, na Aufctria; que esperava cada dia cai-ta do 
infante e dos seusj e que por varias pai-tes escrevera a D. 
Joio IV, informando-o do quanto se passara*. Além d'Í8ao, 
a vinte c nove do mei^ma mez, os embaixadores receberam 
cartas de jVmsterdani, com data de dezoito, em que se afir- 
mava já ter sido o infante levado ao dito castello. Estas car- 
tas talvez fossem ou também de Lopo Ramiro, ou de Jero- 
nymo Kunes da Costa, residente n'esta cidade, filho de 
Duarte Nimes da Costa, e que ent2o se empregou em ser- 
vir Portugal, assim como seu pae, assistente em Hamburgo. 
Do ultimo tiveram os embaixadores muitas*, e n'alguma ou 
algumas trataria da prisiío do infante, pois era seu corres- 
pondente. 

Constava porttmto em França, pelo menos desde meiados 
de março, a prisão do D. Duarte, mas, segundo acabamos 
de ver, de um modo inexacto; e os embaixadores não se 
descuidaram de procurar novas mais claras, logo nos pri- 

> Bib. da Aiu(3a, Mbs., Miac, vol. xi, foi. 62, 61, 70 e 69. 
* Bib. Nae., Mss, comprados ultimamente ao sr. conde da Vidi- 
gueira. 




407 

meiroa tempos da sua estada em Paris, e de prestar-lhe, 
ou procurar prestar-lhe auxilio, posto ignoremos qual. 

N5o contentes com isto, o monteiro-mór e António Coe- 
lho de Carvallio, a oito de junho, endereçaram á dieta de 
Ratisbona um memorial a favor do príncipe portuguez, no 
qual exprimiam grande admiraçSo pelo facto, sem verda- 
deiramente o censurarem, e pediam, assustados pelo boato 
da sua transferencia da Áustria a Hespanba, que nSo con- 
sentisse que ello fosse entregue aos hespanhoes, e tam- 
bém que o fizesse soltar, attendendo assim ao direito das 
gentes, á auctoridado do sacro romano império, e á do pró- 
prio congresso. Os embaixadores portuguezes andavam com 
toda a precaução. Aconselhavam o as circumstancias, e tal- 
vez o gabinete de Paris n3o fosso esti*anho A confecçJlo d'e8te 
documento, que aliás chegaria A dieta pelo intermédio dos 
Beo8 ministros'. Emfim a treze do mesmo mez, participando 
a Richelieu o reconhecimento da independência nacional pelo 
Brazil, e pelos Açores e Madeira, patentearam-lhe os em- 
baixadores a dor de ebrei, por seu irmSo estai* preso, e de- 
clararam que sua magestade lhes encommendara empregas- 
sem todas as diligencias para o libertar, tendo sua mages- 
tade por certo que, com o auxilio do rei christianissimo ha- 
via de lograr essa ventura'. Dias depois partiram para a 
Bochella. 

D. Ant5o de Almada e Francisco de Andrade LeitSo 
aportaram a Falmoutb a cinco de marco, e na primeira au- 
diência publica, a oito de abril, entregaram ao rei o á rai- 
nha de Inglaterra as cartas quo para ellrs levavam do rei 
e da rainha de Portugal. A de D. Jo3o IV dirigida ao par- 
lamento níLo a deram, pela desintelligencia que já entSo ha- 
via entre elle e o eeu soberano'. 



1 Bib. da Ajuda, Mbb., Míbc, toI. xxxi, foi. IGO. 

« Gazette de France, 1641, n." 76, pag. 389. 

3 Bib. da Ajuda, Mse., Corresp. de Frnn€Í8co de Andrade Leitão, 

TOl. II. 



408 

Quanto a Tristão de Mendonça, entrou na Haya só a 
nove de abril. 

Aquelles, pouco depois da Bua chegada, deviam saber a 
lamentável noticia pelas rela^'3es commerciaes da Allema- 
nha, Hollanda e cidades hanseaticas eom Inglaterra, e es- 
pecialmente pelos avisos de Duarte Nunes da Costa e de 
seu fillio e irmão. TriatSlo de lleudonça, mais próximo d'e8- 
tes, c chegando mais tarde, seria, logo que entrou na liaya, 
ou antes, posto ao facto de tudo quanto succedera. No que 
toca ao procedimento de uns e do outro, no particular que 
noa respeita, sabemos pelos Annaes e pelo manifesto de An- 
tónio de Sousa Tavares, a favor do infante, de que em breve 
falaremos, digno em tal caao do maior credito, que repre- 
Bentaram á dieta de Ratisbona, pugnando pela sua Uber- 
dade, e requerendo-a. 



Depois das embaixadas de França, Inglaterra e Hollan- 
da, segue-se na ordem chronologica a de Dinamarca e Sué- 
cia, de que foi encarregado Francisco de Sousa Coutinho. 
Partiu o embaixador a dezoito de março, em um navio qne 
estava surto no Tejo, com um almirante do rei de Dina- 
marca, e a doze de abril chegou a Copenhague. Nào lhe 
faltaram obséquios c attençòcs da parte de Christiano TV, 
que entdo reinava; mas o resultado politico da sua missSo 
foi nenhum, por temer este soberano malquistar-se com o 
imperador de Alleraanha, se fizesse o contrario; pois sabia 
muito bem que offender Hespanha era oflFendel-o. A tal 
baixeza descera o velho chefe da liga dos protestantes, o 
rival, outr'ora feliz, da casa d* Áustria, e tão desastrosas ti- 



409 



nliam sido para o seu paiz as consequências da derrota de 
Lutter e do tratado de Lubeck! Entrando em Copenhague 
sem honras publicas, Francisco de Sousa Coutinho solici- 
tou debalde uma audiência solemne, até que desenganado, 
depois de vários subterfúgios e desculpas, do verdadeiro es- 
tado das coisas, determinou partir para a Suécia. Nào o 
poudc todavia fazer tâo depressa como desejava, porque o 
rei, querendo disfarçar o mau effeito de recusar recebel-o 
na qualidade do embaixador de D. João IV, deu-lhe as 
maiores provas de benevolência e iiffecto, que Francisco 
de Sousa Coutinho acceitou o agrad<'ccu como particular. 
Uma d'ellas consistiu em convidal-o para ir ao castello de 
Fredesborg, residência magiiiíica, distante cinco léguas da 
Copenhague, onde Christiano IV o recebeu com grande af- 
fabihdade, sentando-o corasigo á meza, o até brindando á 
eaude do monarcha portuguez. 

N'estas tentativas e obséquios correu o tempo desde doze 
de abril, cpocha da chegada, até dezenove de maio, em que 
Francisco de Sousa Coutinho partiu para Stockoímo. Aqui 
acolheram-o amigável, estrondosa, magnificamente; assim o 
aconselhavam as conveniências politicas. Governava entSo 
o reino, na menoridade de Chriatina, íiiha de Gustavo Adol- 
pho, o cliancelier Oxenatiern, um doa tutores da joven so- 
berana. Inimiga acérrima da casa d'Au8tria, alliada da 
França, que o n3[o era menos, a Suécia abriu francamente 
os brayos ao embaixador portuguez, e applaudiu com entliu- 
siasmo a separação de Portugal da raonarchia hespanhola, 
pois via n'es8e íacto um dos meios mais efficazes para com- 
bater o potente alliado do Império. Nâo sú foi recebido com 
grandeza Francisco de Sousa Ctuitinho, nas terras por onde 
passou, até chegar a Stockolrao, mas também entrou n*esta 
cidade com a maior honra c luzimento, mandando-se-lhe 
para isso muitos coches, e sendo acompanhado por um se- 
nador do reino, pelo mordomo-mór do palácio, e por nume- 
roso cortejo de fidalgos, vestidos de gala. Alojado na capi- 



410 

tal á custa da corua, servido com todas as attençoes devi- 
das ao seu alto cargo e ao paiz que representava, visitado 
pelo embaixador de França c pela nobreza, obteve audiên- 
cia solemne da rainlia a dez de jiinlio, e, cuidando em se- 
guida dos negócios a que era mandado, concluiu em vinte 
e nove do julbo o tratado entre Portugal e Suécia. Cum- 
prido o fim da sua misaao, deixou o embaixador a cidade 
de Stockolmo a trinta do mesmo mez, e a dez de outubro 
deu á vela para o reino, com três navios de guerra freta- 
dos, cbeios de annamento, os quaes passaram o Sund sem 
visita, outra prova de sympatliia do rei da Dinamarca á 
causa portugueza*. 

Não conhecemos as inatracç3es que levou Francisco de 
Sousa Coutinho; mas conjecturamos que nenhuma d'ella3 
era acerca do negocio do infante, e que só posteriormente 
este lhe foi incumbido. O intervallo de mez e meio, entre 
a prÍBÍio e a partida do embaixador, bastava para receber- 
ão a noticia em Portugal, nílo havendo tardança na remessa, 
e sendo a viagem regular, sobretudo se alguém, por exem- 
plo, um dos creados do infante despedidos do seu serviço, no 
dia cinco de fevereiro, a certificasse á cOrte do Lisboa, de 
maneira que ella pudesse tomar uma resolução firme. Não é 
iato o que nos move duvida, poríl^m a data do manifesto do 
embaixador, vinte e quatro de julho; pois custa a crer, que, 
levando elle instrueç<"!c8 para a liberdade do infante, e ten- 
do-ae demorado em chegar a Stockolmo mais de dois me- 
zes, só o escrevesse mez e meio depois de estar n*esta ci- 
dade. Entretanto quem sabe se, anteriormente á confecção 
do manifesto, se empregou n*outras diligencias. 

Confiado nos avisos expedidos ao infante, esperava o go- 
verno portuguez que este voltasse ao reino, quando teve 



1 António Moniz de Carvalho, Memoria da jornada e wcctMO» quê 
houvt nas dvaa embaixada» qut S. M, mandou ao» reinos de Suécia e 
Dinamarca. Lisboa. 1642. !.*> 



411 



a triste nova da sua prisão, o que seria, segundo a maior 
probabilidade, nos princípios ou meiados de abril, quer por 
algum dos ditos creados, quer pelas cartas que Lopo Ra- 
miro escrevesse a el-rei, quer pelas doa ministros portugue- 
zes, que uSo deixariam de participar com urgência um tal 
acontecimento. Só então, acreditamolo, determinaria o go- 
verno portuguez que se representasse á dieta de Ratisbona; 
e d' isto nasceriam o protesto dos embaixadores em França, 
de oito de junbo, os doa embaixadores em Inglaterra e 
Hollanda, cujas datas desconhecemos, e o de Francisco de 
Sousa CúutinLo. Prescrevialbe D. João IV que, para esse 
fim, passasse a Allemanha; mas considerando o embaixa- 
dor 08 obstáculos e os perigos da missElo, consultou com 
Duarte Nunes da Costa o que mais lhe conviria. D'aqui 
provciu nilo seguir n'esta parte as determinações do sua 
magestade ', e, em vez de ir defender pessoalmente a causa 
do príncipe portuguez na grande assembléa, dirigir-lhe de 
Stockolmo um manifesto, naturalmente servindo se para 
isso da interferência dos ministros suecos. Esta hesitação 
e nâo ser logo recebido em audiência ajudam a explicar, 
mas nSo escusam, a dilação que notíimos. 

O manifesto de Francisco do Sousa Coutinho foi com- 
posto em latim, e pouco depois traduzido em portuguez. 
O principal d'elle (tirado dVssa traducçSo) ii o seguinte: 

aKotorio é, ò padi-es do sacro império romano, gmvisai- 
moB e dignissimos de todos os titules, que o príncipe D. 
Duarte de Bragança, tendo servido fielmente ao império, 
está hoje retido violentamente n'elle, negando- se-lhe a li- 
berdade d© ir para Portugal, sua pátria, fazcndo-se reten- 
ç2o e represália de sua pessoa, e de seus creados e fami- 
liares, de certo coisa nova e tanto mais para admirar, quanto 



1 Arch. Nac da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B, pag. 
649, Carta de Duarte Nunea da Coata ao conde da Vidigueira de 17 
de agosto de 1643. Msb. 



i 



412 



a exceli entis si ma congregação de Ratisbona 6 a mais justa 
e egual, e quanto jamais costumou fazerae coisa semelhante 
a príncipes livres, senSo por inimigo declarado. 

ttSabido é de todos que aquelle seronissirao príncipe, dei- 
xando sua pátria, deixando seu irmSo, a esse tempo prín- 
cipe e duque de Bragança, e hoje rei de Portiigal, meu se- 
nhor, deixando ae guerríis e exercites de outros reis e prín- 
cipes visinlios, se veiu ao sacro romano império a otferecer 
sua pessoa, seus serviços, trabalhos e despezas. Ninguém 
negará o que até os próprios inimigos, os poderosíssimos 
suecos e francezes protestam publicam ente, o que os mes- 
mos émulos nâo deixara de coofeásar, o que toda a AUe- 
manha sabe, que clle se portou sempre valoroso o excel- 
lento guerreiro e capitàn, em todos os logares e cargos do 
império, quo se lhe encomraendarara, e que desprezou a 
vida e perigos, em muitas e quotidianas occasiSes que se 
offerecoram, assim no sitiar das cidades, como em as livrar 
do cerco, e que, por muitas vezos, sahiu vencedor em campo 
descoberto, ou em arraiaes assentados, pelejando sempre 
pelo império gloriosamente, e que isto praticou por sua li- 
vre vontade, por tempo de sete annos, uSo á custa e des- 
pezas do império, mas ás suas próprias. 

«Eis agora eate sincero capitSo e príncipe, servidor uni- 
camente do império, e nio de outrem, depois de se livrar 
dos inimigos, captivo dos amigos; ondo busc<m a liberdade 
achou o captiveiro, onde esperava prémios soffro represá- 
lias e retençSo, prohibindo-se-lhe nâo só toda a coramuni- 
caç^o humana, mas negando-se também poder e faculdade 
para lhe ser dado o necessário á sua siistí^ntaçâo e raan- 
tença. Que faria mais um inimigo, se o captívasse? Menos 
em verdade, porque hoje estivera livre. 

«Q,ue segurança se dará aos príncipes em toda a Etiropa? 
Quaes se lhe poderio offerecer e servil-o livremente? Com quaj 
exf^mpln se mover2o os ânimos, quando considerarem aquelle 
exemplar de merecimentos, exemplo de captiveiro? Aonde 



413 



está a observância do direito das gentes e da fé puLIica, de- 
baixo da qual elle tinha militado? Aonde está aquella liberda- 
de sacra e imperial ou germânica que até se concede aos que 
vem afugentados de outros reinos, e aos criminosos, se se 
nega a um príncipe tâo benemérito do império, innocente 
e inculpável? Aonde está o favor dos peregrinos e estran- 
geiros? Aonde estão os prémios dos que os bem merecem? 
Assim 86 paga o sangue derramado do excellente soldado 
e capitão? Assim se estima o trabalho incansável de sete 
annos? Assim a eleição do serviyo do sacro império ro- 
mano? Se oíTendeu em alguma coisa ao império, no tocante 
aos seus cargos e obrigações, dé-se libello dos crimes, 
seja convencido e castigado legitimamente; mas, se não que- 
brou a paz do império, nem a publica, nem contra cila ma- 
chinava coisa alguma, antes, com todas suas forças, pele- 
java por a defender, que culpa, que crime lhe ficam? a 
não ser que os serviços e benefícios sejam tidos por inju- 
rias e que seja o mesmo defender e oflcnder. 

«Sé SC oppozer á instancia de el-rci de Caatella, e por 
ventura por ministros que da casa de Bragança alcança- 
ram sustento e honra, que o aerenist-imo rei D. JoSo de 
Portugal, inniio do príncipe D. Duarte, accedendo á ac- 
clamaçào de todos os nobres e povo do seu reino, se apm 
tou injustiimente de Castclla e se rebcllou contra o vi 
d'ella, diremos que nSo é venlade, porque a restituição 
nSo é rebclliâo, nem o rebater a -^-iolcncia se poderá cha- 
mar injustiça. A todos é notório que o rei catholico Filip- 
pe II, entrando por armas cm Portugal, o occupou com 
grande força, não como herdeiro, mas como inimigo; nem 
podia a screnissima senhora D. Catliarina resistir, porque 
esta, be as leis então valessem, já reinaria. . .» 

Aqui trata dos direitos da duqueza á coroa de Portugal, 
e continua: 

«Por estes e outros fundamentos que, melhor e mais lar- 
gamente, já n*aquelle tempo mostraram todos os professo- 



414 



res do jurisprudência, por livros impressos^ na celeberrima 
universidade de Coimbra, e era outras, sabia bem do seu 
direito o serenissimo príncipe de Bragança; porem, cercado 
pelas forças do Castella, ainda que confiava no amor dos 
portugiiezes , comtudo nilo lhe constava descobertamente 
da vontade d^elles, e assim nada pretendia. Mas Deus todo 
poderoso, por quem reinam os reis e os legisladores decre- 
tam coisas justas, tomou a tjrannia dos ministros do Caa- 
tella por instrimiento da liberdade e justiça; porque che- 
garam a tanto as tyrannlas o injustiças de dois ministr 
poderosos, genro e 80gi'o, Diogo Soares e Miguel de 
conoellos, secretários do estado real de Portugal em Ma- 
drid e Lisboa, assim como os tributos intoleráveis, arbi- 
trados por elles, o desprcso e extirpação da nobreza, 
venda das honras, dos logares da justiça e da guerra, 
das commcndas das ordens militares, feita quasi em almoe- 
da publiCii, que só faltava, o que já tratavam, reduzir-ee 
o antiquíssimo reino de Portugal a mísera província, que- 
brados seus foraes e leis. Incitados por estas coisas, e por 
outras muitas, todos os prelados ecclcsias ticos, toda a no- 
breza e todo o povo, sem discrepância alguma, acclaraa- 
ram, restituíram, e juraram por seu rei a D. JoSo IV", fto 
qual, em breve espaço de tempo, obedeceram tod w as for- 
talezas o presidies em que estavam terços castelhanos, e 
Be entregaram todas as rcgiSes e ilhas de Portugal, sem 
golpe de espada nem estrondo de armas. 

«Eis aqui como o meu sârenissimo rei D. JoSo o IV go- 
verna e reina para defender o seu direito, c defender a li- 
berdade de seus vassalloa ; nem á defensão e restituição do 
seu direito se lhe poderá attribuir culpa: ainda que o rei 
catholico, contrariado, appelle para o direito das armas com 
que tomou Portugal, o que também faz por el rei meu se- 
nhor, porque ó licito recuperar por armas o reino que elle 
tomou por armas, e assim um e outro, entre si, resolvam 
08 direitos e as armas. 



415 



«Porém dado, e nunca concedido, que o sereníssimo rei 
de Portugal commettesse alguma injustiça e hostilidade con- 
tra el-rei catholico de Castolla, que culpa, que engano, que 
inacliinação se pode considerar no imiocente príncipe D. 
Duarte? O filho fica livre das obrigaçSes do pae, se nâo é 
herdeiro; a multer nSo está obrigada ás dividas do mari- 
do, ae n2o fôr pelos vinculos da succeaslo; clamam os ju- 
risconsultos que o crime ou pena do pae nSo pode causar 
affronta alguma ao filho, porque cada um fica sujeito á 
sorte por sua culpa, e nSo se cnastitue successor do crime 
alheio, e, em outra parte, que melhor é deixar sem castigo 
a maldade do culpxido que condcranar o innocente. Como 
se ha de pois obrigar o irmSo innocente pela culpa do ou- 
f.tro? Porventura foi D. Duarte participante da alteração 
fde Portugal e da de seu irmílo? Responde a verdade: de 
nenhum modo; porque se o soubera, ou n'ella concorrera 
com sciencia ou ajuda, perto estava de cidades Ii\Te8, para 
onde se pudera ir, e onde podia recolher-se ; mas nenhuma 
coisa soube, fiado na sua consciência, nSo temeu nada, e a 
^segurança exterior mostrou bem a interior. 

íMas, indo mais avante, permittida c nunca concedida 
qualquer presumpçSo, conforme a qual se julgasse que lhe 
agradaram as alterações de Portugal, e que consentiu n*el- 
las, e se quiz sahir do império (o que se nega), que se se- 
gue d'aqui contra o império? O príncipe D. Duarte servia 
a este, e nSo a Castella, e, segundo aa diversidades, senho- 
rios e possessões doa reinos, nenhuma coisa teem de com- 
mum o império e Allemanha com Castella, nenhuma coisa 
com Portugal. E ainda que pelas offcnsas do império se 
pudesse reter um innocente, D, Duarte nSo devo nada com 
respeito ao império, nem o sereníssimo rei D. JoíIo, seu 
irmão, coutrahiu divida alguma com o império, nem tomou 
coisa alguma a Allemanha. Se quebrantou a paz de Cas- 
tella, nílo quebrantou a paz de Allemanha; e se ainda, em 
contrario, se repetir aquella antiquissima allegaçâo dos ac- 



416 



cusadores, que todo o que se faz rei contradiz a César, 
n^o tem cila logar em um ou outro irmão, nem deve at- 
tender-se ou valer ante a sacra catholica © cesárea mages- 
tade. 

«Instruído com estas memorias de direito, justiça e ra- 
zSo, desejava comparecer ante vossas altezas, illustrissimas 
e senhorias, e ante a mesma sacra e cesárea magcstade, 
para pedir a todos humildemente justiça; mas já se me 
nâo concede a passagem; e que segurança se me guardará 
pelo direito das gentes, se se quehra na pessoa de tâo gran- 
de príncipe? Que liberdade se dará a mim, seu creado, se 
até ao mesmo senhor se nega? 

aPortanto peço com justiça, por estas presentes lettras, 
a vossas altezas, illustrissimas e senhorias, em nome do 
sereníssimo rei D. JoíIo IV, meu senhor, que se solte o 
príncipe D. Duarte, seu irmão, innocente, e se restitua á 
sua antiga e devida liberdade, e, para melhor promoção 
do seu effeito, se proponha pela muito sublimada congre- 
gação a sua sacra cesárea magestade a justiça do innocente 
capitão e principCj para que por suas próprias leis se obri- 
gue e dê satisfação a um acto, em que tem posto os olhos 
todos os outros reis e príncipes, e de que todos elles se 
espantam, de sorte que, na causa do excellentissimo capi- 
tSo e príncipe D. Duarte, se defira á justiça e nSo ao san- 
gue, e nSo aconteça que d'onde nasce o direito nasçam as 
injurias. Assim confio e espero muito firmemente que hei 
de conseguir de tSo excellcnte congregaçílo, na qual a to- 
dos geralmente, e em particular a cada um dos senhores 
congregados, offereço humildemente tanto o agradecimento 
d'el-rei, meu senhor, como os meus serviços. Stockolmo, 
vinte e quatro de julho de mil seiscentos e quarenta e umv*. 

1 Manifesto e proÍMtação feita por Franoisco de Sousa Coutinho^ . . . 
enviado á dieta de Batisbana sobre a injusta retenção e liberdade que 
reqiier do eereniseimo ipfante D. Duarte. Liaboa. 1641. 4.'» Id., em la- 
tim nas provRB da Hitt. genealógica. 



417 



Este manifesto, em que se pugna pela liberdade de D. 
Duarte, é ao mesmo tempo um manifesto politico a favor 
de Portugal, e, só contando com muitas e fortes adhesSes 
na dieta, seria de utilidade ao fim principal, do contrario, a 
mistura da injusti^^a da prisão do infante com a justiça da 
cauí*a portugueza unicamente serviria para llie trazer dam- 
no. Faltam de todo documentos e memorias que nos elu- 
cidem acerca da apresentação e consequências de tSo im- 
portante escripto; nem sabemos quem tomou a sua defeza. 
Quanto ao seu resultado favorável foi nenhum; ao passo 
que a sua apresentação, feita algum tempo depois de já 
estar o infante era Gratz, coincidindo com o peior trata- 
mento d*este, e com a maior vigilância dos seus guardas 
hespanhoes, parecerá a alguém baver preparado essas al- 
terações; d'oude se inferiria que até lhe foi prejudicial. 

Posto nSo levemos intuito determinado de censurar os 
erros dos nossos antecessores que escreveram expressa ou 
incidentemente da prisan e destino fatal de D. Duarte, mas 
só o de aproveitar d'ell»78 o que julgarmos bom, á falta de 
documentos dignos de fé, nosso principal fiindamento, con- 
tinuaremos entretanto, como até aqui, visto nSío podermos 
prescindir do seu auxilio, a notar alguns dos descuidos em 
que elles incorreram. Agora tocaremos n'um ponto em que 
Birago, ou antes Fr. Fernando de la Iloue, e portanto o 
terceiro conde da Ericeira, D. António Caetano de Sousa, 
Rebello da Silva, e os outros auctores que os seguiram, con- 
fundem as datas e os factos de modo incrível. 

«Estava n'aquelle tempo, diz Bírago, relatando a prí- 
b3ío do infante em Ratisbona, e antes da sua mudança para 
Passaw, como embaixador extraordinário do rei de Portu- 
gal nas partes septentrionaes, Francisco de Sousa Couti- 
nho, o qual, pela obrigação do seu cargo, antigos serviços 
á casa de Bragança, e entranhado amor a sua alteza, ape- 
nas soube a grande desgraça que lhe acontecera, apresen- 
tou na dieta de Ratisbona, em nome do seu rei, um escripto 

27 



H. I. D, T>, T. I. 



4!8 



na língua latina, que jalguei conveniente deixar aqui» ; e 
transcreve o manifesto. 

É claro o erro. O infante esteve preso em Ratisbona dez 
dias, desde quatro até quatorze de fevereiro; e é n'este8 
dez diaa que Birago coUoca a apresentação do manifesto 
de Sousa Coutiulio. Impossível, completamente impossível. 
Este embaixador saliiu de Lisboa d'ahi a mais de um mez, 
c só cinco mezes depois escreveu o documento alludido ; 
mas, ainda que não existisse tal razão, bastaria a da falta 
de tempo. £m dez dias não se podia receber em Stockolmo 
a noticia da prisão, preparar e escrever o manifesto, e vol- 
tar d'e8ta áquella cidade. 

Nem é Birago o único auctor que errou quanto á dura- 
ção dii permanoncia do infante em Ratisbona. Luiz Marinho 
de Azevedo estende-a, pelo menos, até outubro, tempo em 
que elle, havia muito, já se achava em Gratz'j c o padre 
Francisco de Santa Maria a dezoito mezes, chegando por- 
tanto íl epocha da sua partida para Milão *; e, o que é mais, 
supprimindo por conseguinte a sua estada em Passaw e em 
Gratz. Diogo Barbosa Machado incorre no mesmo erro^, 

Nào se limitou Francisco de Sousa Coutinho a este ma- 
nifesto. Propoz egualmente ao governo da Suécia que, se 
entre elle e o imperador se celebrasse algum tratado do paz, 
no que já então se cuidava, puzesse no mesmo, como con- 
dirão, a liberdade do infante. Respondeu-lhe o gabinete de 
Stockolmo que desejava com todas as veras que sua alteza 
fosse solto, e, ainda mais, pela sua intervenção; mas que 
preNia duros embaraços, ensinado pela experiência de ca- 
sos comparativamente muito mais fáceis; pois, se custava 
tanto conseguir a libei'dade de qualquer general prisio- 
neiro, o que não seria com respeito á do irmão de um rei 

t ExeUxmaeionu poUticcu. . . en la injusta prision dd infante D. 
Duarte, Lisboa, 1645. 8." 

2 Anno histórico. . . Lisboa, 1744. Foi. 

3 Bib. lAOsitana, 



419 

inimigo; que, nSo obstante, se alguma coisa se pudesse 
coiiBegiiir no tratado de paz com o imperador, ficasse certo 
el-rei de Ptirtugal que, da sua parte não se deixariam de 
empregar todas as diligencias*. A resposta do governo 
sueco tom a data de trinta de julho. 



VI 



Foi a embaixada de Roma a ultima de todas; não por 
menos importante do que as outras, pois convinha muito 
a D. Joíío IV o reconhecimento da sua realeza peio chofe su- 
premo da egreja, sem o que se julgaria imperfeitamente le- 
gitimado aos olhos dos catholicoa, nSo falando nas vanta- 
gens politicas que d*ahi derivariam; mas porque as urgên- 
cias do estado eram muita», e o dinheiro pouco, era relaçXo 
a ellas. 

Escolhou-se para este difficil cargo o bispo de Lamego, 
B. Miguel de Portugal, irmSio do conde de Vimioso, e pri- 
meiro marquez de Aguiar, prelado de boa vida, lottras, e 
talento, e nâo menos valoroso, o que para a empreza era 
necessário, pela opposiçao que se esperava dos ministros 
de Heapanha. 

Levou o bispo em sua companhia, como secretario, o 
doutor Rt)dngo Rodrigues de Lemos, a quem sua mages- 
tade fez merc« do habito de Christo, e.do dtí!*embargo da 
casa do Porto, para o servir n'o8ta occasi3o; e, coino agente 
de negócios, junto da cúria, PantaleSto Rodrigues Pacheco, 
membro do conselho geral do Santo OflScio, o cónego dou- 



^ Bib. da Ajuda, Mss., Corresp. de Luiz Pereira de Castro, voL i, 
foL 130. 

S7# 



420 



toral da sé de Lisboa. Partiu o embaixador das aguas do 
Tejo a nove ou a doze de abriJ, e a trinta deu fundo no 
porto da Kochella, onde o grSo-prior de França lhe fez o 
melhor recebimento, e onde se demorou dez dias; depois 
dos quaes, se dirigiu a Paris, para conaultai* com o mon- 
teiro-mór i- António Coelho de Carvallio, que ainda alli es- 
tavam, a nmneira de passar a Itália. 

Seguira tste caminho a embaixada de Roma por ser o 
mais seguri», e para obter o auxilio francez, a fim de con- 
trabalançar na capital dos estados pontifícios a grande in- 
fluencia àr irespanha. Com effeito, a protecção da corte de 
Paria tornax cse da primeira necessidade, como bem demon- 
straram Oh t CO ntecim entoa posteriores. Nfio se descuidara o 
conde-duquc de Clivares das prevençSes adequadas; bem 
avaliava o alcance moral e material do reconhecimento da 
independeiu-ia do reino e da recepção do seu embaixa- 
dor, e a trinta de dezembro commmiicara a noticia da re- 
volução de Ptirtugal aos embaixadores hespanboes alli resi- 
dentes, o luarquez de Castello-Rodrigo e D. JoSo Chimia- 
cero e Caril lo, ordenando-lhes que pedissem a Urbano VIII 
para vibrar us raios da excommunhSo contra os portugue- 
zes, por 8t' ídliarem com as naçSes protestantes, para obri- 
gar 03 prídados a cumprirem o juramento que haviam prés* 
tado naa curtes de mil seiscentos e dezenove a Filippe III, 
e para nâo receber qualquer ministro que D. João IV Ibe 
enviasse, pois do contrario offenderia gravemente o rei ca- 
tholico. Alt" ia d'esta attitude decididamente hostil contra 
nós em Hoiua, temia-se ainda alguma violência ou crime 
contra o I»i;;j>o, como, pouco antes, acontecera, quando o 
marquez de Castello-Rodrigo fez prender n'esta cidade o 
príncipe de S^ins, e conduzil-o a Nápoles, onde o decapita- 
ram, violem.' ia, que por ficar impune, promettia outras no- 
vas. 

Consider.-tlas estas raz5es, foi o embaixador portuguez 
primeiro a I rança, para Luiz XIXI favorecer a sua mis são » 



421 

nlo BÓ recommendando-o ao grao-duque de Toscana e ao 
doge da republica de Génova, mas também mandando-o 
acompanhar até Civittà-Vecchia por alguns navios de gaer- 
Ta, e incumbindo o embaxaídor francez em Roma e o car- 
deal Barberino, protector da coroa de França, de o ajuda- 
rem eíRcazmente- o que tudo el-rei encommendou aos seua 
embaixadores alcançassem da corte de Paris, por carta de 
oito de fevereiro*. 

As instrucçSes ao bispo, datadas de sete de abri], nada 
dizem acerca do infante, ou porque a enviatura tivesse uni- 
► camente por fim os negócios de Roma, ou porque ainda se 
nSo soubesse da sua prisão, ou porque n'e8sa data fossem ou 
estivesíiem para ser enviadas as instnicçíJes aos demais em- 
baixadores a tal respeito, e estas tomassem escusado re- 
commendar-Ihe a diligencia. Pode também ser que ella for- 
masse o objecto de alguma instrucçEo particular que des- 
conheçamos. 



VII 



Tinham-se porém cifrado no protesto e na recommendaçfio 
do embaixador portuguez na Suécia, e nos raemoriaes dog 
outros embaixadores as manifestações a favor do infante? 
De certo que nSo. O procedimento desleal, ingrato e ser- 
vil do imperador attrahiu, desde o principio, sobre elle 
censuras e accusaçSea graves, entre os seua próprios súb- 
ditos, dos quaes havia muitos, como já vimos, que aliás 
aborreciam a preponderância illimitada, que a corte de 
Madrid exercia na politica germânica. A prepotência con- 



1 Arch. Nac, da Torre do Tombo, Collecçlo de^S. Vicente, vol. xrr , 
foi. 17. Mia. 



422 



tra o infante era mais uma infracção da liberdade do im- 
pério, tantas vezes despresada pela autocracia da casa 
d'Au8tria, a qual, com um pc na Allemanha e outro na 
Heepanlia, pretendia dominar a Europa, embora mentissem 
ambas estas potencias devastar-lhes o seio o cnncro voraz 
que as ia corroendo. É pois evidente que todos os inimi- 
gos d^aquella casa, e também muitos dos seus amigos^ 
descontentes do mau estado dos negócios, ou mais sensatos, 
ou mais boBradoB, tomariam a deíeza de D. Duarte. Ac- 
cresce que om motivos de recriminação contra ella, já de lia 
muito existentes, no animo de tantos, e que tantos cbamara 
ás armas, tinham encontrado um divulgador famoso por 
aquelles tempos. Filippe de Cliemnitz, pomeranio ao 8er>'iço 
da Suécia, na sua obra, De. rationc status in império roma- 
no gcmianico, publicada pouco antes, demonstrara que os 
priDcipes de Allemanha n?ío formavam na rtalidnde um im- 
pério, mas uma republica aristocrática, cuja soberania per- 
tencia aos estados e nSo ao imperador, pelo que, se de- 
viam um'r todos contra a casa do tyranno, flagello do im- 
pério e da liberdade; asserções, que, espalliadas rapidamen- 
te, exerceram a maior influencia nos espiritos preparados 
de longa data para as receberem. Esta obra, examinando os 
meios de reintegrar a liberdade nacional, chegava a propor 
entre elles a extirpaçlto da casa d'Au9tria, e a eleição de 
um novo imperador, ao qual seria imposta uma capitulação 
de género novo. 

O partido dos descontentes era, por conseguinte, forte, 
e muitos seriam os que tacita ou abertamente increpassem 
o feio acto commettido pelo monarclia allcmâo. Além d'Í8to, 
o infante contava camaradas que o estimavam, e alguns 
amigos poderosos, como, por exemplo, o príncipe Casimiro 
de Polónia*, e numerosas pessoas que obsequiara e bene- 

» Arcb. Nac. da Torre do Tombo, L." 108 do Santo OfEcio, Carta 
de Froneiaco de Souea Coutinho a el-rei de 21 de juiiho do 1648. 

MSB. 



423 



ficiara com as suas gentis maneiras e larguezas de prín- 
cipe; e nem todos ficariam mndos. Dos relfgioeos, de que 
elle 86 mostrou Bempre tâo devoto, jjl em Villa Viçosa, já 
na Állemanlia, e n'eata nâo só emquanto livre, ruas tam- 
bém nas amarguras do captiveiro, dos religiosos, e sobre- 
tudo dos jesuítas, que muito lhe deviam e il sua casa, e 
que depois representaram t^o bello pnpel em seu favor, 
quando foi entregue aos hespanlioes, é provável que al- 
gims entfío levantassem a voz por elle, e ufassem dos recur- 
sos ao seu alcance, para o tirarem da. má situaçEo em que 
86 achava. 

Que o infante Jencontrou no império defensores da sua 
causa dil'0 n'e8ta epocha o ousado procedimento de Fr. 
Timotheo Ciabra Pimentel; dii-o Birngo; dilo elle próprio. 
Escreve o primeiro, referindo-se á pessoa do imperador: 
f Pregando -lhe cm sua capei Ia do palácio em Kíitibbona, no 
anno de mil seiscentos e quarenta e um, em a noite da 
PaixSo de Christo, preso jd o senhor D. Duarte de poucos 
mezes e dias antes, não sem este cuidado e receios do que 
agora vemos, ponderei, de maneira que todos os embaixa- 
dores e circiunstantes entenderam: que três géneros de pe- 
nas sentira Christo mais em particular em sua morte c pai- 
xão, quaes foram: uma bofetada deantc do pontífice, a co- 
roa de espinhos, e a lançada que lhe deram em seu corpo 
defunto, por serem todas estas originadas e dadas pelos 
miniâtros de sua prisSo e morte, sem ter ordem para isso, 
nem mandado de seus maiores (como ató áquelle tempo nJo 
o havia de Castella para que o senhor D. Duarte fosse pre- 
so), senSo inventadas por elles e executadas com todo o 
rigor, em contemplação e lisonja de seus inimigos, por ca- 
rear sua graça e adeantar-se em seu valimento..., maa 
que eu n5o achava que houvesse em a vido coisa mais feia 
e nefanda em um homem mui ordinário, quanto mais em 
um príncipe soberano, que fazer seu negocio e sua fortuna 
com o sangue de um justo, congratulando-se com seus amí- 



424 



gos e parciaea de haver-lhe cabido em as redes, de o ter 
preso, e poderem dispor d'elle á sua vontade»*. 

O testemunho de Birago nSLo é menos concludente. «Os 
congregados na dieta d'aquella cidade, diz elle, posto al- 
guns nâo falassem, com raedo de prejudicar os seus interes- 
ses ou 08 doa seus constituintes, commoveram-se de tal sorte, 
que protestaram que o império estava reduzido á escravi- 
daio, a liberdade perdida, violadas as leis, infamada a fé 
germânica com as acçSes da maior infidelidade; e que bem 
se conhecia que o fim da casa d' Áustria era sujeitar o im- 
pério, e despojal-o da sua antiga independência, na qual 
nâo queria que ninguém vivesse, nem que nenhum prín- 
cipe estivesse seguro». 

E mais abaixo: 

aííiiQ faltaram príncipes allemles que procurassem in- 
terceder com o imperador a favor de sua alteza, mas nada 
aproveitaram as diligencias, porque deram por desculpa 
que, quando aa resoUiçfles dos príncipes silo publicas, con- 
vém, pelo credito d'elle8, sustentai -as durante algum tem- 
po». 

Finalmente D. Duarte, em confirmação de Birago, e este 
é o melhor testemunho, nlio somente se refere mais de uma 
vez ao que Portugal devia á AUemanha por o defender, 
mas também affirma que alguns deputados da dieta repre- 
sentaram n'ella contra a sua prisSo, como aggravante das 
liberdades e leis do império*. 



* Panegyriety funeral. 

^Bib. da Ajuda, Msa., Corresp. de Luiz Pereira de Castro, toI. la^ 
foi. 20, Forma da pritão do infantt. 



425 



VIII 



Com a partida dos embaixadores das cortes de Paris e de 
Stockolmo coincidiu, pouco maia ou menos, a miseSlo de 
Fr. Fernando de la Houe a Allemanha e a Roma, pois é 
n'e3te tempo, meiados de quarenta e um, que se nos afi- 
gura ter tido logar. Era este um religioso flamengo, da 
ordem de S. Domingos, presentodo em theologia, que es- 
tivera na índia, o que, em quatorze de jtmlio d'este mes- 
mo anno, fijra nomeado por el-rei confessor da guarda al- 
lemã^ Sentimos nSo nos ser possível colligir mais traços 
da sua biograpliia, porque merecera, como ninguém, aqui, 
menção individual e especialíssima, pelos assignalados ser- 
viços prestados ao infante, desde a primeira vez que pas- 
sou a Allemanha, para tratar das suas coisas, e principal- 
mente da sua liberdade, até á morte do desgraçado prín- 
cipe no castello de MiUo. Táo lamentável falta será po- 
rém vantajosamente compensada pelo muito que d*elle nos 
occuparemoa, no decurso da nossa historia. 

Ignoramos quando Fr. Fernando sahiu de Portugal ; quan- 
do chegou a Allemanha j se visitou outros paizes antes d'ella, 
e quaes; e quando voltou ao reino. Sabe-se apenas, com 
certeza, que foi a Vienna c a Gratz ; que estava n'e8ta ci- 
dade na epocha da conspiração do arcebispo de Braga e 
dos seus companheiros contra el-rei D. João IV, isto é, 
pelo mez de julho de quarenta e um*; que n'e8te tempo, 

* Arch. Nac. da Torre do Tombo, Chaneellariade D. Jo5o IV, Li* 
vro XI, foi. 205. Mas. 

2 Bib. de Évora, Mas., 106, 2, 11, foi. 462^ Carta de Taquet aò con - 
de da Vidigueira de 16 ãc abril de 1644. 



426 



ou proximamente, morou ii'um convento em Salzsburgo, 
com um religioso de auctoríclade *, que talvez geja, visto 
o interesse que mostra pelo infante n'uma carta, D- Dâmaso 
Cardoso, tanto do seu conbecimento e seu servidor, posto 
nSo nos conste qnc ello residisse n'aquena cidade, mas sim 
em Vienna. Nem ha nada mais próprio do caracter da sua 
missão do que Fr. Fernando de la Houe corresponder-se 
com as pessoas a que principalmente interessavam os ne- 
gocio» do régio preso, como era este, que tomava n'elle8 
tíimanhíi parte, e Duarte Nunes da Costa, o qual, pela qua- 
lidade particular de seu correspondente, e pela gi*ande de- 
pendência que havia d'elle para o adiantamento e remes- 
sa de dinheiros, de certo procuraria, ou de propósito, ou 
casualmente, sobretudo s-e entrou no império por Ham- 
burgo ou por Hollanda. Também ignoramos se Fr. Fer- 
nando de la Hou© d'esta primeira vez usou do seu nome 
ou de outro ou outros suppostos, como na segunda, em 
que adoptou o de FrancÍ&eo Taquet, e, n'algumas occa- 
siCes, 08 de Pedro Smith e Andrea Eenfort; o que parece 
mais natural é que não usasse o de Taquet, porque, a fa- 
zel-o, depois nao lhe serviria de disfarce, por já ser conhe- 
cido. Da ida de Fr. Fernando de la Houe a Roma algumas 
noticias mais nos restam. Presumimos que tivesse logar 
posteriormente á viagem de Allemanha, por ser era Alie-' 
manha que se achava a infante, e pela necessidade de bus- 
car ahi informaçSes certas, já de Duarte Nunes da Costa, 
já de outras pessoas mais ou menos ligadas com sua alteza. 
Desembarcaria portanto Fr. Feniando em qualquer porto de 
Hollanda ou das cidades hanseatieas, ou quem sabe mesmo 
ae do norte da França, entraria no império, e, cumprida a 
missão de que el-rei o encarregara, passaria a Itália. 



1 Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, tom. 4 B, pag. 
621, Carta de (D. Dâmaso?) a Duarte Nuues da Costa de 24 de ju- 
nho de lt>42. Mbb. 



427 

Souberam os ministroa de Hespanba da presença do 
emispario j^ortug^iez na capital do catholicismo, e, levados 
pelo rancor de qtie abafavam^ e conliecendo a necessidade 
de annullar os seus esforços a favor dos rebeldes, assim 
nos cbamavam, ou do infante, se aabiam que se tratava da 
sua pessoa, o que nos parece menos natural, tentaram, 
avetadoa a violências, arruncar o mal pela raiz, prenden- 
do-o, talvez com o propósito de lhe tirarem a vida. Em tal 
extremidade porém vnleu-lhe a protecção que encontrou em 
Pemando Brandão, bomcm de notáveis recursos, pelas mui- 
tas e valiosas relações que tinha em Roma, e nosso agente 
ahi, o qual o recolLcu em sua caí»a, amparou e poz em vialvo 
da perseguição dos hespanlioea*. 

Quaes foram as diligencias que Fr. Fernando de !a Houe 
empregou, tanto n'eBta cidade (se, conforme crcmop, os ne- 
gócios graves, de que el-rei n^ella o incumbira, verfeavam 
sobre o infante), como era Alleraanlia, nSo nos é licito di- 
zel-o ao certo; mas deve-se presumir que se dirigissem no 
império a promover a fuga do illustre preso, e principal- 
mente a esforçar os que o defendiam, para conseguirem 
do imperador a sua liberdade, e em Roma a tacilital-a ou 
por meio do pontiíice, ou por outro de grande inHuencia. 



IX 



O infante, logo que foi preso, sentiu-ae acommettido dos 
maiores temores e incertezas. Encarcerado, exposto A raiva 
doa seus inimigos, ignorante do destino da pátria o do do 

1 Arch. Nac. da Torr? do Tombo, L.°* Mse., n." 1109, foi 122, Car- 
ta de Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo, de 8 de abril de 
164Õ. 



428 



irmao, cuja pessoa e casa julgava compromettidos, o seu 
pensamento tumultuaria afflicto; umas vezes desejaria que 
se apaziguasse a revolta, se com effeito o era, e tSo infun- 
dada como suppunha, para d'ahi nSLo resultarem graves 
damnos á terra natal, á sua família, e a si próprio j ou- 
tras phantasiaria uma revoluçSo gloriosa, sem saber que 
pensava a verdade, ancioso de ver Portugal livre e forte 
como d'ante8, porque dentro do seu peito batia um coraçSo 
leal e generoso; outras estremeceria alegre, só com ima- 
ginar os direitos da casa de Bragança finalmente reconhe- 
cidos. Mas de que servia toda esta lucta interior, a oUe 
preso, isolado de quantos amava, se nSlo podia desembai- 
nhar a espada, em defeza dos seus e da liberdade, a es- 
pada gloriosa que o destino feroz lhe quebrava nas mSos 
impacientes? 

Assim se debatia sem aoeego, entre receios e esperanças, 
a sua alma, onde, de quando em quando, raiava, no ne- 
gror das trevas mais espessas, um clarão incerto de melhor 
futuro. 

Saber noticias exactas de Portugal era e devia ser por- 
tanto um dos seus principaes desejos. Ao principio, esse 
desejo fruatrara-o a obscuridade dos acontecimentos, que a 
corte de Madrid fomentava adrede com as suas mentiras; 
e 80 isto era em geral para o publico, muito peior seria 
para o infante, collocado em situaçflo tSo critica. O mys- 
terio porém não podia deixar de aclarar-se em breve, mau 
grado a todos os embaraços que lhe puzessem, pelas rela- 
çSes commerciaes entre Portugal e os paizes do norte, 
principalmente Hollanda e Hamburgo, e sobretudo pelas 
noticias ofSciaes que espalhara na Catalunha, França, e Itá- 
lia, o padre Ignacio Mascarenhas. A vinte e quatro de ja- 
neiro de quarenta e um desembarcou o embaixador portu- 
guez em Barcelona, e a seis de fevereiro chegou a Génova, 
d'onde escreveu para França. A nova da restauração levada 
pelo padre devia conaeguintemente penetrar em Allemanha 




429 



nâo 8Ó por este paiz, mas tainbcm por Itália, c divulgar-se 
no começo de fevereiro, pouco depois de mudado o infante 
de Ratisbona para Passaw. 

A missEn do padre Ignacio Mascarenhas foi poia o pri- 
meiro testemunho ofiicial e authentico, dado á Europa, 
doB acontecimentos de Portugal; e tanto Hespanha reco- 
nheceu a sua importância e o mal que d'alii lhe adviria, 
que tentou pôr obstáculo aos seus resultados, prepai*ando 
em Génova o assaíssinio do embaixador. Descuncertados por 
se frustrar o seu plano, e vendo notório o que desejavam 
esconder a todo o cuato, os hespanhoes araeaquinharam a 
embaixada portugueza, dizendo que ia occulta sob o habito 
de um religioso, que era de revoltosos a revoltosos, que em 
Portugal e na Cittalunha nâo havia foryas capazes de resis- 
tir ás de Filíppe IV, e que em breve seriam tanto esta como 
aquelle punidos; mas o resultado que colheram com os em 
bufitee ou foi nullo ou durou pouco tempo. No primeiro de 
março aportava á Rochella o navio que conduzia o mon- 
teiro-múr Francisco de Mello, e o desembargador António 
Coelho de Carvalho, embaixadores de rei a rei, e a uma 
nação com que Hespanha ardia em porfiada guerra. Foi 
quanto bastou para fuzer cahir a venda de todos os olhos, 
e espalhar d'ahi para toda a parte, midosa, claramente, que 
Portugal nào só se declarava livre, mas tamhcm estava de- 
cidido a arcar, braço a braço, com a monarchia hespanhola, 
para o que se alliava aos inimigos declarados do seu po- 
der. Quasi pelo mesmo tempo, aa embaixadas a Inglaten^a 
e Hollanda acabaram de tornar manisfesto á Europa o ver- 
dadeiro estado da* coisas. 

Sabida a verdade, ainda que mais tarde, pelo apartamento 
em que o conservavam do mundo, o infante exultou de enthu- 
siasmo, ao ver com efFeito solta do jugo odioso do estrangeiro 
a terra natid, e o irmào sentado no throno dos reis portugue- 
zes, d'onde só arredara a família de Bragança o oiro, a per- 
fídia, e a força de Fihppe 11. Correr em soccorro de seus 



430 



compatriotas^ que com tanto denodo haviam reauscitado do 
marasmo em que jaziam, unlr-se-lheá e combíiter com elles 
para amparar a coroa de um soberano seu parente, comba- 
tendo, ao mesmo tempo, a favor dos próprios interesses, 
e nâo em pró de estranhos, e estranhos ingratos, foi desde 
então a sua mai» ardente vontade. Mas a luz que raiara no 
meio das trevas, ao mostrar-lhe em todo o britho os raios 
vivificantes do astro da liberdade pátria, e ao arrebatar para 
longe do que era real a sua alma, por elles enthusiasmada, 
mostrou-lhe lambem, melhor do que até ahi, a negra vo- 
ragem, a cuja borda fora arremeçado, obrigando-o a te- 
mer, como nunca, a sua situaçilo, porque bem devia pre- 
sumir, attento o caracter do governo hespanhol e as graves 
circamstancias que se davam, que elle procuraria tornar o 
seu encarceramento tanto mais duradoiro e tanto mais cruel, 
quanto maiores e mais estáveis fossem as probabilidiides de 
se sustentar e fundamentar a causa portugucza. 

Em verdade a conlirmaeSo do glorioso acontecimento do 
primeiro de dezembro; a energia com que Portugal o an* 
nunciava ao mundo o se aprestava para a guerra; o esmo- 
recimcnto das esperanças nutridas pelo governo de Madrid 
de o chamar á antiga sujeiçUo; a attitude nobremente resi- 
gnada do infante, que baldava todas as tentativas para o 
fazerem declarar cúmplice da revolução, ou para o obriga- 
rem a revelar qualquer segredo que a comproraettesse, tudo 
isto devia exasperar o animo dos seus inimigos, e lirmaI-03 
cada vez mais na idéa de o perseguirem. 

Como chegariam a Passaw ás mãos do infante noticias 
íidedigníie de Portugal e de seu irm^o? Seria pela carta 
que Fr. Timotheo Ciabra Pimentel para ahi lhe escrevera? 
Por Duarte Nunes da Costa que se communicou tanto com 
08 embaixadores Iportuguezes em França, provavelmente 
acerca do negocio da sua prisão, como já dissemos, e da 
compra de navios o armamentos para o reino, no que de- 
pois muito o empregaram? Ou por Francisco Brandão? 



431 

A correspondência do infante cora os seus amigoB, ou com 
pessoas que lhe poderiam valer, começou logo depois de 
ser preso era Ratisbona, pois já n'e88e tempo escreveu a 
Fr. Timotheo. Duarte Nunes da Costa e seu filho Jeronymo 
Nunes da Costa, ambos empregados no serviço de Portu- 
gal, e o primeiro também no do infante, com quem se car- 
teou quando esteve em Allemanha*, necessariamente conhe- 
ceriam a sua i)risílo, poucos dias depois d'ella se eflfeituar, 
ou directamente, ou por Lopo Ramiro, ou por outras pos- 
oas com que estivessem em relações, ou pelos creados que 
Navarro despediu, ou pelos que despediu o mesmo infante, 
dos qiiaea alguns, por escripto ou de viva voz, lhe commu- 
nicariam tào importante nova. Lopo Ramiro já vimos que 
não só teve d'elía noticia, pouco depois de acontecer, mas 
que também esperava carta de D- Duarte e doa seus, e que 
participou tudo a cl-rei. D. Dâmaso Cardoso, residindo em 
Vienna, ainda a teria mais depressa. O padre Joílo de Mat- 
tos, assistente dos jesuítas em Roma, o Fernando Brandão, 
morador na mesma cidade, é natural que logo o soubessem, 
pela facilidade e frequência das communícaçSes entre Alle- 
manha c Itália, por tratarem ambos doa nossos negócios, 
e pelas relaçScs dos religiosos da companhia daquellas duas 
nações, alguns dos quaes tanto se interessaram na sorte do 
infante, e talvez mesmo pelos irmilos do dito Fernando, Si- 
míHo e Virginío, que tinham sido seus camaradas no exer- 
cito imperial. De todos porém, n'oste tempo, só conhecemos 
a correspondência de Fernando Brandão, e por isso, o pelo 
papel que representa n'esta primeira epocha da prisílo do 
infante, d'clte nos occuparemos mais de espaço. 

Nasceu Fermindo Brandlo em Roma, segundo presu- 
mimos, de família portugueza ahi talvez estabelecida de 



1 Arch. Nac, da Torre do Tombo, Casa O-, Cmxa 17, vol. 4 B., pag. 
667, Carta de Duarte Nunea da Costa ao conde da Vidigueira, de 3 
de outubro de 1642, Msb. 



432 



longa data, poís já seu bisavô António Lopes Brandão, rei- 
nando D. Manuel, serviu de agente de Portugal na corte 
pontifícia, e com tal titulo estava sepultado na egreja da 
Santíssima Trindade do Monte, egreja de francezes, dos 
Minimos. Além d'esta origem portugueza, tinha no reino 
irmãos, cunhado e sobrinhos. Fr. Francisco de Santo Agos- 
tinho de Macedo, o famigerado escriptor e sabio^ espanto 
de Roma e Veneza, que o conheceu períeitamente n^esse 
tempo, deixou-nos d'elle algumas noticias, as quacs apro- 
veitaremos agora e mais adeante. 

Era Fernando BrandSo homem entendido^ de notável 
juizo e subtileza, de bom ar, agradável, geralmente bem- 
quisto em Koma, activissimo no meneio dos negócios, dando 
expedição simultânea a vários de importância, e muito suf- 
licientc por estudo e experiência cm todas as matérias 
de estado, ao que o ajudavam o tracto quo mantinha com 
08 homens públicos, e a larga correspondência que susten- 
tava em muitos paizes da Europa. Concorria com estas apre- 
ciáveis qualidades a da nobreza, pois, nào sendo de muita 
edade, já fora dims vezes cônsul em Roma, dignidade que 
seu pae também gosara. Liberal de natiu-eza, senhor de 
uma casa honrada e rica, despendia largas sommas em ser- 
vir e regalar os seus amigos, recebendo a jantar até car- 
deaes e secretários de estado do papa, e outros ministros 
de tribuoaes, com mesa franca e porta aberta para elles e 
seus creados. Por todos estes motivos c pela arte especial de 
se insinuar, servindo-se já de cumprimentos, já de dadivas, 
eram grandes a sua valia e a estima que lhe consagravam, 
e, quando entrava no palácio papal, custava a crer o agasa- 
lho que lhe faziam, a gente que o seguia, e os pretenden- 
tes que o rodeiavam ; emfim, aquilatavam-o em Roma como 
um dos homens maia intelligentea e práticos da Itália, da 
Itália, onde, pelo muito concurso de capacidades nacionaes % 
estrangeiras, diíHcilmente se reconhecia esta vantagem. 

Apesar de nascido na cidade eterna, Fernando Brandão, 




433 

pelos seus antepassados, pelos seus parentes no reino, e tal- 
vez por outras causas, mostrou-se sempre inclinarlo a elle, 
e serviu-o bem: haja vista, por exemplo, como alcançou 
que se expedisse a bulia da cruzada, que tanto se desejava, 
com tal desinteresse, que engeitou o dinheiro que de Por- 
tugal lhe mandavam para a expediçSo, e como obteve, aju- 
dado pelo padre João de Mattos, para o bispo de Targa a 
conezia de Eugénio Caldeira, n?lo obstante já estac conce- 
dida a um cortezSn portugucz, benemérito da cúria, e muito 
estimado n'clla. Além dVstes, outros serviços nos fez ante- 
rior e posteriormente á separação de Hespanba K 

Que motivo decidiria o infante a recurrer a Fernando 
Brandão? Ignorar a estada era Franya d<> uionteiro-mór e 
de António Coelho de Carvalho ? Ter maior difficuldade de 
se corresponder cnm estes? Confiar mais no italiano por tra- 
tar na cúria dos negócios de Portugal ? O conhecimento quo 
o infante já teria da sua pessoa, cora quem talvez se car- 
teaase? A amisade que prendia BrandSo a D. Vicente No- 
gueira, conhecido do infante, assim como ao residente da 
companhia de Jesus, o padre João de Mattos, e as ligaçiles 
do infante em Altemanba com n mencionada companhia? 
A assistência de Fernando Brandão na capital do orbe ca- 
tholico, centro n'e88a epocha dos maioi^es negock)s, e echo 
de todos os acontecimentos da Europa? Fosse qual fosse 
o motivo, D. Duarte parece que o preferiu a outro qual- 
quer, o íhe escreveu logo nos primeiros tempos da sua pri- 
sSo. D'es8a fé, n^elle depositada, se gaba mais de uma vez, 
e com desvanecimento, Brandaio, confessando-se-lhe agra- 
decido. 

Nito sabemos mesmo se o infante o conhecia pessoalmente. 
A estir em Roma algum tempo, na sua passagem para Al- 
lemanha, em trinta e quatro, conforme conjecturámos, po- 



» Areh. Nac. da Torre do Tombo, L,*« msa., n.*» 1100, foi. 122, Carta 
de Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo de 8 de abril de 1645. 

H. I. D. D. — T. I. 28 



434 

dia dar-se o caso, que iiào tinlia nada de estranho, e até 
era natural, attenta a origem portugueza de Brandão, os 
serviços que prestara ao reino, e a qualidade do viajante. 
Se porèm D. Duarte não esteve n'aquella capital, nem se 
carteava com elle, conhecel-o-hia ao menos de nome, e so- 
bretudo por seus irmàoíi, que llie foram camaradas nos exér- 
citos do império, como já dissemos, que muitas vezes poz 
Á sua mesa, e que lhe deviam alguns favores ' . Levado por 
esse conhecimento ou fama, pela cai-encia de outras pes- 
soas que o soccoiTessem na desgraça, de que se tomara 
inesperadamente victima, ou por quaesquer circumstancias 
que escapam ás nossas conjecturas, «o infante voltou os olhos 
para elle, e procurou valer se da sua influencia. 

Começou o infante a corresponder- se com Fernando Bran- 
dão ainda em Passaw ? Julgamos que aim. Km carta ao conde 
da Vidigueira, conta o mesmo que escreveu para Lishoa 
e outras partes, e para Duarte Nunes da Costa, com data 
de vinte e oito de setembro de quarenta e um, aconselhando 
que o bispo de Lamego uilo passasse a Roma, poréra ficasse 
em França, com pretexto de falta de saúde, e que enviou 
copia d' esta carta ao infante, que se achava em Passaw'. 
Aqui Fernando BrandUo parece incorrer n'um erro, porque 
o infante n'e3sa elatii já fura mudado para Gratz, para onde 
partiu em vinte e cinco de junho; mas o erro proviria ou 
de lapso de pena, ou por não lhe constar a transferencia. 
O que c certo ó que o simples facto de Feruando Brandão 
lhe enviar copia de uma carta, rfobre matéria politica, in- 
teressante a Portugal, nos leva a suppor que não foi essa 
carta a primeira, nem talvez das primeiras, porém que a 
precederam outras, nas quaes se estabeleceria o carteio 
entre ambos e se trataria do negocio principal: a liber- 



* Bib-Nuc.,MsB., O, 5, 1&, Cartade Fernando Brandlo ao conde da 
Vidigueií-a, de 30 de Bctembro de ltí42. 
' Idem, Carta do mesmo ao mesmo, de 31 de dezembro, idem. 




435 

dade do preso, o que levaria o começo da correspondên- 
cia a Passaw. O fim d'e8ta conaiatia, como dissemos, em 
proporcionar todos os allívios possíveis ao infante, em dis- 
por o modo de o fazer soltar, e em dar-lhe noticias da pa- 
h'ia. Para conseguil-o, Fernando Brandão estabeleceu com- 
municaçílo por escripto com aa pessoas qite costumavam 
fornecei- o, maxime com Duarte Nunes da Costa; pez por 
ordem do mesmo infante, como seu coitc a pendente, em 
Veneza, Luiz Ramiro, e outros sujeitos em outras partes, 
na mesma qualidade; pretendia mandar-lhe um para Mi- 
iJo; remetteu-lhe papeis, gazetas e cartas de Roma*, para 
o informar de quanto occorria, tanto «itre nós, como nos 
demais paizes da Europa; e ainda se occupou c<>m elle 
acerca de alguns particulares do reino. Quanto a libertal-o, 
nada encontramos no principio; mas em setembro jd Fer- 
nando BrandSo approva um conselho de Duarte Nunes da 
Costa a tal respeito, e promette dizer tiido ao bispo de La- 
mego, logo que chegue á cúria'. 



X 



No tempo em que, pouco mais ou menos, se terminam 
08 acontecimentos, que acabamos de narrar, e já alguma 
coisa antes, a situação do infante peiorara sensivelmente. 
O ódio de Hespanha recrudescera contra nós, e portanto 
contra elle, e o que no começo podia ter sido prevenção, 
tomava-ae agora em vingança, consequência fatal do estado 



*Bib. Nac, Mas., O, 5, 19, Cartas de Fernando Brandão ao conde 
da Vidigueira, de 7 de setembro e 14 de outubro de 1642. Mas. 
* Id., a dita carta. 

38* 



436 




do reino. lam-se acabando para a corte de Madrid os plian- 
tasticos projectos a respeito da sua sujeição pela intriga e 
villania, e não tardava muito que cf^meçasae verdadeira- 
mente a guerra entre as duas naçòes, e que o sangue de 
seus iilboB corresse abundantemente, para ausiliar u am- 
biçSo do» antigos oppressores, e para sustentar a indepen- 
dência de Portugal. 

Nâo será ocioso, antes de proseguirmos, voltar um pouco 
atraz, e esboçar ao de leve, os successos da politica portu- 
gueza desde o ponto em que os deixámos, visto interessa- 
rem á urdiduj-a da presente historia, posto já. disséssemos 
d*elleB, no tocante && embaixadas, quanto convinha. 

Coroado o rei, reimidas as cOrtes, prestado o juramenta 
ao monarcba e ao priucipe herdeiro, organisado o governo 
civil e militar, providos os mais urgentes negócios, nomea- 
dos os primeiroa embaixadores, cuidou-ac nos preparativos 
da guerra: em fortihcar Lisboa; levantar tropas; construir 
fortalezas ; escoUier cabos j guarnecer fronteiras, sobretudo 
as do Alemtejo, província maia exposta, c por onde prova- 
velmente romperiam as hoátilidades ; defender com obraa 
d*arte a costa marítima ; e aprestar naNnos para formar uma 
esquadra, que guardasse os nossos mares e protegesse aa 
colónias ; nao sendo de menos importância do que estas me- 
didas, as de admioitítraçâo, fazenda e justiça, com que oa 
três braços das cortes, clero, nobreza, e povo, dotaram o 
reino exhausto, e que tanto carecia de efficazes remédios. 
Porém, emquanto á poríia a representação nacional, o 
rei, e os particulares, contribuíam poderosamente para as« 
sentar em bases solidas a obra do primeiro de dezembro, 
alguns espíritos vis, e indignos do nome de portuguezes, e 
do nome de homens, conjuravam na sombra contra a terra 
do seu berço, o maior, o mais abominável de todos os cri- 
mes. Oxalá, que os dias gloriosos do resgate os nSo tivesse 
mancliadu eaaa nódoa indelével, e que a mais incruenta das 
revoluções nilo precisasse do sangue d'esses miseráveis, para 



437 



bracejar «aos ares da liberdade os ramos verdejantes e car^ 
regar-se de fnictoa opimoa ! 

Sim; no meio d'este nobre povo, quando elle acabava 
de dar um tâo grande exemplo de beroisrao e de valor ao 
inundo inteiro, e f^uando tanto precisava de união, houvo 
quem deecresse da caitsa da pátria, e, ainda mais, quem 
covardemente a atraiçoasse ! Olivares, costumado a merca- 
dejar com as consciências, e a especular com a baixeza das 
paix3es humanas, contava estes elementos entre os mais 
preciosos doa seus cálculos políticos. O considerável nu- 
mero de fidalgos e prelados portuguezes que retinba em 
Hespanha, e de cuja correspondência ao servia para tentar 
08 ânimos dos seus parentes no reino, ou pelo medo, ou 
pelo interesse; as rivalidades provenientes de ambiçSe» nSo 
satisfeitas, cancro voraz de almas pequenas e orgulhosas; 
as mutims desconfianças que a corte hespanbola excitava 
por todos os modos ; a timidez insensata dos fracos e sem 
fé; tudo isto eram as principaes armas com que o vaidoso 
conde-duque esperava subjugar outra voz Portugal, 

Foram victimas dos sentimentos indignos que 08 anima- 
vam, e também d'e8tes enredos do valido de Filippe IV, 
D. Pedro e D. Jeronjmo Mascarenhas, filhos do marquez 
do Montalvão, residentes no reino, que lançaram com pas- 
so tao censurável, algumas duvidas, embora passageiras, 
sobre o caracter de seu honrado pae, ao mesmo tempo que 
este acclamava D. João IV nas nossas vastas colónias ame- 
ricanas; o conde do Tarouca, D. Duarte de Menezes, no- 
meado para fazer reconhecer o novo rei na praça de Tan- 
■ger; D. JoSo Soares de AlarcaU), alcaide-mór de Torres 
Vedras, que para egiial fim era mandado a Ceuta; D. 
Lopo da Cunha, e seu filho D. Pedro Luiz da Silva; e 
os filhos do conde de Tarouca, D. Luiz e D- Estevão. 
Todos estes pas»iram a Hespanha, onde, marcados polo 
ferrete ignominioso dos traidores, foram abandonados den- 
tro em breve, como instrumentos abjectos e inúteis, posto 



438 

OB festejassem no começo, cuidando que iructificaria t3o 
mau exemplo. 

Estas deserçSes excitaram as desconfianças d'el-rei e do 
governo ; e as iras do povo cresceram contra os fidalgos 
tSo furiosas, que a muito custo se aplacaram. Investigou- 
86 a origem do mal, e descobriu- se que havia em Madrid 
uma junta chamada da Intelligencia Secreta, que estava 
em relação com Lisboa, e que n'estas machinaçSes entra- 
vam, como cúmplices, os companheiro» da duqueza de Man- 
tua, principalmente o marque» de la Puebla, e o frade Sey- 
ner, em consequência do que, ambos foram presos, e a du- 
queza transportada á fronteira. Esta medida censuraram-a 
alguns, por se perder com D. Margarida o maior penhor 
da liberdade do infante, pois, diz o terceiro conde da Eri- 
ceira: «Filippe IV, quando nâo fosse mais que pela repu- 
tação, como constava de varias cartas do meamo infante 
eacriptae a el-rei (pela nossa parte, nXo as conhecemos, 
nem referencia a ellas), convinha-lhe procurar ver livre 
da prisão, que padecia por seu respeito, uma pessoa em 
que concorriam todas as prerogativas da grandeza» *. An- 
tónio de Sousa do Macedo assevera que os parentes da 
duqueza chegaram a diligenciar a troca, n que D. João 
IV, por generosidade, rejeitou'. O próprio infante julgou 
que esta resolução lhe fôra prejudicialiasima, como vere- 
mos, embora não diga nada que abone as affirmativas dos 
dois auctores. Siri no seu Mercúrio também suppc!e que ella 
podia servir de penhor para a dita liberdade. Não pensa- 
ram do mesmo modo muitos dos homens influentes, ou de 
mais prudência do reino, ou pensaram, mas prevaleceu 
o bem geral. Com effeito, n'outra8 circumstancias menos 
perigosas, a retenção da duqueza de Mantua fôra talvez o 




* Porhtgat restaurado, 

* Prodamatio de injustUia ffermaniea. . . Na HisL genealogia, Pro- 
vnB, voL 4, pag. 650. 



439 

mellior caminho de libertar o infante. A conveniência pu- 
blica decidiu o contrario, talvez para nSo exacerbar dema- 
BÍadamente a cólera de Ilespanha, e nSo conservar no reino 
eate fermento de inquietações e revoltas contra a ordem de 
coisas estabelecida. Siri attribue a resolução de se solter a 
ex-vice-rainha ás instancias do marquez de Brezé, com- 
mandante da esquadra que Luiz XI U mandou a Lisboa, 
em resultado do convénio entre as duas nações. Mariídio 
de Azevedo n.^o vae longe d'isto, quando escreve que D. 
João IV a deixou voltar a Hespanha livremente, atten- 
dondo ao seu parentesco com a família real de França *. O 
infelijs príncipe foÍ por conseguinte sacrificado. Quem sabe 
porém se esperanças de sua liberdade^ ent3o havidas como 
quasi certas, e depois frustradas, nSo tiveram grande parte 
no abandono d'este meio de procural-a? 

Por esta occasiao aconteceu um facto que liga ainda maia 
a sabida da duqueza de Mantua íl historia do príncipe por- 
tuguez. Apenas ella chegou a Badajoz, um dos seus pri- 
meiros cuidados foi commuuicar ao conde de Monterrey, go- 
vernador das armas da Estremadura hespanbola, que, al- 
guns dias antes de deixar Lisboa, partira d' esta cidade para 
Allomanlia o padre Fr. Diniz Mascarenhas, da ordem de 
S. Domingos, irmão do conde de Óbidos, em habito re- 
galar, levando em sua companhia um barbeiro d'ella du- 
queza, chamado Lourenço Gastaldo, que se fora sem sua 
licença, e fingia dirigir-se a Itália. Tinham ambos embar- 
cado em Setúbal, e tencionavam, segundo se dízia, pro- 
porcionar a fuga a D. Duarte do casteUo onde se achava 
preso, o que participava para que sua magestade catholica 
desse ordem, a fim de ser guardado o mesmo D. Duarte 
no império cora muito cuidado. Os signaes do frade eram: 
alto, boa figura, barba e cabello pretos, e alguma coisa 
gordo. Outro aignal indicava ainda D. Margarída para o 



* Eaxladonea Poiitiau. 



440 



conhecerem: talvez em AUemauha se apresentasse como 
seu creado á imperatriz e á marqueza de Grana. Esto avião 

commimicou-o o conde de Montcrrey^ em vinte e seis de 
agosto {de quarentii e um), ao governo liespaníiol, o qual 
logo principiou a tomar providencias para baldar os ínten* 
toa de Fr. Diniz Mascarenhas e de Lourenço Gtistaldo *. 

A partida da duqueza de Mantua nâo acabara porén 
com a contra-revohiçílo, o que nâo tardou a patentear em 
toda a sua hediondez a denuncia de um trama secreto para 
unir Portugal novamente a Hespanha, Era chefe da con- 
spiraçâo o arcebispo de Braga, D. Sebastião de Mattos de 
Noronha, já noaso conhecida desde o casamento de D. Jdão 
IV com D. Luiza, que fora ministro de D. Margarida, ho- 
mem gerahnente odiado dos portuguezes ; e principaes cons- 
piradores: D. Luiz de Menezes, marquez de Villa Real; 
o duque de Caminha, D. Miguel de Noronha; o conde de 
Armamar, Ruy de Mattos de Noronha; o inquisidor geral^ 
D. Francisco de Castro; D. Agostinho Manuel do Vascon- 
cellos, o mesmo que teve parte na feitura do testamento 
do duque D. Theodoaio, como vimos; Diogo de Brito Nabo; 
Belchior Correia da França; Pedro de Baeça; e Manuel 
Valente. 

Tamanho perigo exigia punição condigna, que o povo 
pretendeu exercer por suaa próprias mSos, logo que soube 
a traiçJlo, contra culpados e innocentes. Precisava- se mos- 
trar a Portugal, á Hcspanhaj á Europa, que D. JoSo IV 
era e queria ser rei, e que tinha bastante arrojo, bastante 
poderj porque estava do seu lado a naçSo inteira, para cas- 
tigar esses poucos membros corrompidos que a deshonravam 
e pretendiam immolar nas aras de seus mesquinhos inte- 
resses. Prenderam-se os réos; caminhou breve o processo; 
e, no dia oito de agosto de quarenta e um, o marquez de 
Villa Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar e 

1 Areh. de Simaiicas, Maço 2342, foi. 38, a carta do conde. Mas. 




441 

D. Agostinho Manuel de Vasconcellos, subiram os degraus 
do cadalalao, onde as suas cabeças rolaram decepadas pelo 
cutello da algoz, ao som das maldições do povo, e dos vi- 
vas a D. JoSo IV 6 á liberdade. Ao aupplicio dos nobres 
seguia-se o dos plebeus: Diogo de Brito, Correia da Fran- 
ça, Pedro de Baeça, e Manuel Valente, que foram arras- 
tados, cínforcados e esquartejados. O arcebispo de Braga 
morreu algum tempo depois no cárcere. 

Este acto de justiça e energia salvou entSo, ou contri- 
buiu para salvar, a pátria da horrível tormenta que a amea- 
çava. O povo fiel e arreigado sempre á terra que lhe deu 
o ser, porque vive mais em contacto com ella, e mais das 
suas entranhas, applaudiu-o unanimemente, e quiz iité sub- 
stituir o aigoz no castigo dos culpados ; o clero e a nobreza, 
tâo ciosos dos seus privilégios e immunidades, curvaram a 
cabeça com respeito, beijando a mâo que soubera livrar a 
todos, e sacrificando as suas prerogativaa e amizades á ra- 
zão do estado, muito superior a ellasj em geral, a naçSo 
inteira, sobresaltada pelos perigos internos e externos, 
aceroou-se do throno do soberano, prompta a defendel-o; 
e Filippe IV, conta-se que exclamou, cbt?io de assombro 
por castigo tâo expedito e rigoroso: t Agora sim, agora é 
que o duque de Bragança se fez reií. 

Foi também por estes tempos que começou verdadeira- 
mente a guerra, cujas primeiras operações tiveram logar 
no dia nove de junho, e foi pouco depois que o general 
hespanhol, conde de Monterrey, marchou com um exercito 
de oito mil homens a tomar Olivença, o que não conse- 
guiu. Foi egualmente por estes tempos, singular coincidên- 
cia, com relaçilo a um príncipe, cujo destino andava tSo 
ligado ao da sua pátria, que os perseguidores do infante o 
conduziram, para melhor executarem os seus pérfidos in- 
tentos, de Paasaw a Gratz, onde o deixámos e voltaremos 
a encontrar. 



LIVRO VII 



Cresce o rigor contra o infante em Gratz, com a iria de Navarro. — 
O marquez de Castello Rodrigo gueeede como embtiiiador a D* 
Francisco de Mello, nomeado g">vernador dos PaizcB- Baixos. — Se 
a uomeaçSo d'eete foi premio da prisno do infante- — Confiscam- 
Be-lhe em Portugal oa bens, e ao niarquez de Castello Rodrigo. 
— Continuam os heapanhoca n proeurar a mudança do infante 
para alguma das suas fortalezas. — As victoriaa dos suecos apres- 
sam-a, — Duviíias ijuanto ao logar para onde. — Sabe-o o infante e 
escreve ao làipo de Lamego, para que o papa interceda por elle 
com o imperador. — Vende-o Fernando III a Hcspaiiha, faltando 
á sua palavra. — Carta do infante ao imperador para nilo sabirde 
Allemanha, e resposta desfavora%'el d'este. — E também infeliz 
com o recurso a Roma- — Mallogro da embaixada portugaezia a 
Urbano Vil 1,^- Maia noticias acerca de Fernando Brandão»— A 
inimizade entre elle e o bispo embaixador desfavorece a liberdade 
do infante. — Recebe o prelado segunda carta d' este. — Correspon- 
dência entre ambos por meio do um jesuita morador em Roma. — 
•Avisa o infante o bigpo da sua venda e pede que o livre. — DA este 
a incumbência a um fidalgo italiano, ma^ dcscobrem-o oa hespa- 
nhoes.— Manda a Veneza Fr. LuLz Coutinho para tratar do mes- 
mo com Picim", mas debalde. — Passa a França, como embaixador, 
o conde da Vidigueira. — Motivos que retardam a sua primeira au- 
diência. — Apesar d'Í680, cuida logo da liberdade do infante. — De- 
termina a António Moniz de Carvalho que coraponba um manifesto 
e promove a feitura d^outros. — Sabendo da venda e passagem do 
infante a Itália, procura que os bandidos ou os grisôes o libertem 
no caminho. — Demoras que houve em tratar daa coisas do infante, 
— O infante paga os descuidos do governo portuguez dando-lhe 



444 



conselhos. — Manda ao imperador o padre Sinabel pedindo que o 
nâo entregue aoa hespuaboes. — Continua o marquez de Castello- 
Rodrigo a persegiiil-o e aos seui- — Tratos cruéis que faz dar a 
um seu servidor para obter revelaçiea. — Temorea por bso de um 
religioso, amigo do infaute.— Providencias do marquez para o 
transito do infante pelo paia dos gi-isòes e pelo Tjrol. — Não é me- 
nos solicito Navarro em guardal-o em Gratz. — Exaggeraçào de 
António de Sousa d& Macedo, a reapeito doa rigores que entSo sof- 
freií. — Desconlia Navarro do seu confessor e de dois creados, e 
tira-lh'o8.— Preparativoa doa heapanhoes para o conduzirem a Mi- 
lão. — Cartas do infante das vésperas da partida noticiando-a, e 
pocUudo qup lhe valham. — Parte para Milito, c como. — Caminho 
que segue. — Precauções que toma Navarro, perto do estado de 
Veneza. — Chegam ao Tyrol. — Demora na viagem, e porque. — 
Carta que se diz que o infante escreveu eiitào a um valido do im- 
pcmdor.— A tropa allemá que o conduz insuWnlitia-se. — Navarro 
temeroso cede ás suas exigências. — Novas complicações.— Che- 
ga a força de Mililo e toma conta do infante. — Occaéiâo que se 
perdeu de Ubertal-o.—; Ordem que tinham de o matar n'e8te caso. 
— Passa o infante os Alpes. — Fala com um dos soldados que o 
levam, que o conhecera pequeno. — Chfga a Mortujçno. — Um mi- 
nistro dos grisòes tenta ariui a sua liberdade. — E descoberta a 
tentativa. — Põeui-lbe guardas dentro do quarto. — Diligenaias dos 
hcspanhoes por isto c queixas do infante. — Atravessa o lago de 
Como e chega & cidade do mesmo nome. — Cuidado cora que o in- 
fante foi levado por AUemanha e o era por Itália. — Quercm-o 
livrar uns bandidos. — Subem-o os hespauhoes e evitam o peri- 
go.— Chega o infante a Miíào. 



Já vimos como os ministros hespanlioes recorreram a 
Fernando III, por cauaa do bom tratamento que o gover- 
nador do castello de Gratz dava ao seu preso, receiosoB d© 
que Lhes pudesse escapar, graças á liberdade que elle e 




445 

seus créados gosavam- e como conseguiram facilmente quo 
se tomassem as enérgicas providencias mencionadas no li- 
vro anterior. Também já referimos as queixas do infante 
contra as prepotências que soíFria, e a representação que 
dirigiu ao imperador para o deixarem ouvir missa quoti- 
diana, vender alguns bens, ser visitado pelas pessoas da 
terra, e para se permittir a seus crcados andarem pela ci- 
dade. Cremos que o resultado das supplicas foi nenhum, 
ao menos quanto aos dois últimos pontos, e que a perse- 
guição nilo diminuiu, antes, augmentou com a ida de Na- 
varro para Gratz, no mez de fevereiro de quarenta e dois, 
em execuçUo do mandado de sua magestade catholica*. 
Este passo do governo de Madrid era a continuaçâio da mar- 
cha que seguira desde o começo: vigiar por todos os meios, 

por todos 08 seus ministros no império o infante, era- 
quanto alli estivesse, e instar apertadamente com o monar- 
cha allcmao para a sua entrega, politica indicada pelo con- 
de-duque, mais de maia vez, e pelos outros membros do 
conselho de estado, seus coUegas, que nâo se mostravam 
menos desvelados na guarda e perseguiçSo do príncipe por- 
tuguez*. 

Dos docimaentOB que temos á vista infere-se qu© o se- 
cretario da imperatriz, só desde entSo, esteve effectivamente 
com o infante em Gratz, o nSo sempre, como se parece de- 
prehender das relações de Huet e Luiz Pereira de Sam- 
paio, embora, conforme estes pretendem, o acompanhaaso 
mudança de Passaw á cidade styria. 

Passara OBtretantn D. Francisco de Mello, pela morte 
do infante D. Fernando d'Au8tria, ao cargo do governador 
dos Paizes Baixos, cargo para que foi nomeado por pa- 



í Bib. de Madrid., Mss., Códice H, 74, Carta de Navarro ao conde- 
duque de 26 de agosto de ltí42. 

> Axch. de Simancas, Maço 2342, foi. 39, Coasulta do Conaelho de 
Estado feita em Madrid a 5 de jiilho de 1641. Mbs. 



446 

tente de vinte de janeiro de quarenta e dois *^ e que já exer- 
cia em vinte de abril*; e o marquez de Castello -Rodrigo, 
renegado portuguez, como elle, deixando a missSo diplo- 
mática que exercia em Roma, fora mandado residir no im- 
pério como embaixador, sogimdo já vimos. 

Escreven-se que esta mercê concedida a D. Francisco si- 
gnificava premio da prisJlo do infante; sobre o que, o terceiro 
conde da Ericeira advertiu, defeodendo-o, que, por outras 
acções mais decorosas e verdadeiramente grandes, elle ha- 
via merecido & el-rei catholico maiores logares. Tem razSo, 
pelo menos apparentemente, o auctor do Portugal restau- 
rado. Não deparámos documento onde se confirme aquella 
asserção; mas, nem por isso se entenda que este serviço 
e os outros contra os seus, de que elle se gaba tilo desta- 
cadamente, como vamos ler, deixassem de influir sensivel- 
mente na concessão de tamanho posto. 

Aproveitado o ensejo, digamos aqui de uma vez quanto 
chegou ao nosso conhecimento a respeito do galardão d'es- 
se e d'e8ses vergonhosos serviços, com o que evitíiremos 
repetições escusadas. 

Com effeito, D. Francisco pediu a Filippe IV recom- 
pensa da sua negregada acçSo, e ohteve-a, mas foi diver- 
sa. Mostra-o o seu officio de aeis de maio de quarenta e 
um, resposta ao despacho do governo de Síadrid de vinto 
e nove de março, concernente ao infante^, e o Memorial, 
rtlacion de jyapeles, citpías de cartas^y razones sobre d cum- 
plimiento de las mercedes honoí^Jícas kechas als^or D. Fran- 
cisco de Mdlo^j que este, por mil seiscentos e cincoenta. 



1 Bib. de Paris, Mss. Heapanhoea, n.»* 142 a 144, tom. u^ foi. 139, 
a patente. 

^Memorial histórico espáhol. 

^Ãrch. de Simancaâ, Maço 2342, foi. 39, Consulta do Conaelbo do 
Estudo feita em Madrid a 5 de julbo de 1641. Msa. 

^ Bib. dã, Ãjuda^ Mss., Do governo de Hespanha, tom. xu, Beque- 
rimeutoa e preteuções doa grandtis e ministroa. Impresso. 



447 



dirigiu ao mesmo soberano, e que aproveitaremos na parte 
para nós interessante. 

N'aquelle documento, D. Francisco discorre acerca do lo- 
gar dos estados hespanhoes a que con\'inlia levar D. Duarte, 
para assegurar a sua prisão, aconselhando de preferencia 
a cidade de Nápoles ; conta, afeiando-a, a conspiraç-âo tra- 
mada contra a sua vida, com o fim de libertar o preso, por 
Fr. Timotheo Ciabra Pimentel, D. Pedro de la Cueva, e 
outros, cujo pouco valor já conliecemos; apparentando zelo 
fervoroso, mostra-se offendido de ter o infante D. Fernan- 
do encarregado a D. Miguel de Salamanca que pedisse ao 
imperador enviasse o infante para Flandres, sem o deixar 
ao arbitrio d'elle D. Francisco, e sem consultal-o; e alar- 
deia pomposamente o que fez quanto á conducçSo de tro- 
pas de Áilemaulia a este estado, em substituirão das que 
marchavam d'elle a Hespanha, suggerindo que ficava pen- 
sando n'outros meios melhores para se dobcllarcm as su- 
blevaçScs na península, que tanto careciam do remédio de 
exércitos estrangeifts. Attendendo a esta exposição, o con- 
selho de estado, composto do conde-duque, cardeal Borja, 
conde do Ofiate, confessor inquisidor geral, marquez de 
Santa Cruz, marquez de Mirabel, conde de Castrillo, du- 
que de Villa-Hermosa, cardeal Spinola, e marquez de Caa- 
trofaerfce, votou unanimemente, em consulta de cinco de 
julho, que se deviam galardoar os assignalados serviços d© 
D. Francisco de Mello, nào no presente, porque o mar- 
quez de Castello Rodrigo, e outros nobres portuguezes, que 
tinham ficado em Hespanha, se considerariam offendidos, 
mas no futuro, com larga mercê em fazenda e honra, do 
que se lavrou decreto. 

<íD. Francisco de Mello, quando se rebelloti Portugal, 
diz elle mesmo, falando de si no aUudido Memorial^ era 
vice-rei da Sicília, embaixador o ministro plenipotenciário 
em AUemanha, e general do exercito de vossa magestade ; 
e, pela forma porque procedeu, prendendo D. Duarte, seu 



448 



Bobrinho, irmão do duque de Bragança, mantendo o exer- 
cito com a pouca assistência que aquelles tempos permit- 
tiam, conservando-o, e mudando-o inteiramente a Flandres, 
lho fez vossa mageatade mercê... de uma casa grande, 
quando se recuperasse Portugal, ou em Hespanha, eguaJ 
ás maiores de qualquer outix* vassallo». 

D 'esta mercê, concedida por carta de vinte e seis de ou- 
tubro do mesmo anuo de quarenta e um, e em que julga- 
mos ver o resultado da consulta de cinco de julho, o go- 
verno hespanliol, já perdido o medo de escandalizar o mar- 
quez de Castello Rodrigo, e outros portuguezeís. traidores, 
passou a declarar as graças que fazia a D. Francisco, e 
foram elias, segmido o Afemorial: a grandeza de Hespa- 
nha, em sua vida, e na de seu filho mais velho, algumas 
cidades, e a de Tordelaguna, ou outras em seu logar, e 
algumas rendas, o titulo de conde ou de marquez para a 
grandeza de Hespanha, e para a de Portugal o titulo que 
D. Francisco escolhesse n'este reino, e, mais tarde, a gran- 
deza de Hespanha perpetua na sua casa, mas sem poder 
cobrir-se, declarando-se-lhe ao mesmo tempo, que, a nâo 
se julgar bem recompensado, pedisse outras gi-aças. 

Agora, antecipando um pouco os factos, vejamos como 
o governo de Madrid satiafez as suas promessas. Volveram 
alguns annos, e no de cmcoenta, pouco mais ou menos, 
D* Francisco pediu a Filippe IV (no dito Mejnorial) que 
se cumprissem inteiramente as mercês outorgadas. Das ho- 
norificas, dizia D. Francisco, únicas de que tratava, por 
nSo h,aver n'Í8so inconveniente á fazenda e estado de sua 
magestade catLolica, só so realisára, para a grandeza do 
Hespanha a do marquezado, no titulo de marquez de Vil- 
lescas. Uma das que faltavam era o titulo em Portugal, para • 
a grandeza d' este reino, e D. Francisco escolhia o de du- 
que de uma das suas villas n'ello,- nSo entrando, accrea- 
centava, n'outraB maiores pretençi5es de que tinha falado; 
quem sabe se relativas a algims projectos ambiciosos que 



449 



nutrisse, dentro da alma dumnada, a respeito da casa de 
Bragança. 

A lim de esforçar a realísação da mercê não cumprida, 
o renegado expunha o seguinte, cm que alardeava torpe- 
mente as 8ua8 perseguições contra a pátria e contra a illiís- 
tre família a f|uo o prendiam os laços do sangue, e a que o 
deviam prender os da gratidão. 

«Emqiianto ao titulo de Portugal, depois que aquelle 
reino se rebellou, deu vossa magestade titulos de conde a 
dez ou doze cavalheiros que o nSo tinham, a alguns so- 
mente porque serviam a vustta magfstade na corte, e a ou- 
tros por se haverem apartado da obediência dos rebeldes ; e 
por outras razões, e algumas mais particulares, quatro tí- 
tulos de mnrquezes; e assim, se D. Francisco de Mello, 
achando-se, na occasiSo da rebelliíto do reino, conde de As- 
sumar, membro do conselho d'estadõ, e do supremo de 
Portugal, continuasse na corte e persistisse no serviço de 
vossa magestade, sem todos os serviços quv representa, e 
covi as qualidades da varonia da casa real de Portugal, e 
de ser o mais próximo parente dos reis que ficou na ohtdien- 
cia de vossa magestadi\, e o que tem emj/regudo contra os re- 
heldcs da mia mesnia casa maiores dtvxonstraçoes do que ne- 
nhum outro vassallof parece que n'es6e caso nSo se lhe po- 
dia deixar de fazer a mercê do titulo de duque, sem no- 
tório aggravofl, quanto maia tendo os outros serviços que 
allegava. 

A respeito de cobrir-se na presença d'el-rei, D. Francisco 
representava a Filippe TV que, além das qualidades reu- 
nidas na sua pessoa, elle possuia cinco villas em Ca^^tella, 
três villas consideráveis em Portugal, e mais de quinze mil 
ducados de renda n'este reino (in nomine, já se sabe); que 
portanto nada podia impedir o despacho a seu favor, tendo 
sangue tão illustre (que elle deslustrava), tantos serviços 
e tantas graças alcançadas S(5 pelo merecimento, pelo valor 
(falta dizer pela intriga e baixeza), e pelos trabalhos in- 



U. I- D. ©. T. I. 



29 



450 

fatigaveih ile vinte annos, em occaaiSes de tanta ciroimi- 
staneia, senão considerar-se que as ditas mercês lhe tinham 
sido feitas no tempo em que o conde-duque aconselhava 
sua magestade, e em que podiam ter tido parte as relaçSes 
entre ambos (algumas contra Portugal e contra a casa de 
Bragança), mas que sua magestade, depois da retirada do 
dito ministro, lhe declarara por carta que elle D. Francisco 
era feitura sua e não d'este. 

Como é signiiicativa esta exposição de D. Francisco de 
Mello, e como nos patenteia bem as suas intrigas, desleal- 
dades, e immoderada ambição, que se elevava talvez até á 
posse do nobre solar do seu generoso bemfeitor o duque 
D. Theodosio, ou de parto d 'elle! E nâo concorreria essa 
ambição para a retenção do infante? Nâo poderia este, con- 
forme o modo de entender de seu indigno tio, estorval-o 
no conseguimento dos torpes projectos? 

Mostrou-se o marquez de Castello Rodrigo, quanto a per- 
seguir o infante e o paiz que renegara, digno successor de 
D. Francisco de Mello, e tanto, que o seu procedimento le- 
vou D. Jo2o IV a decretar, no dia quinze de março do mesmo 
íinno de quarenta c dois, a confiscação de todos os seus bens, 
por andar era Alleraanha em prejuizo do Portugal*. En- 
tre elles contavam-se a casa e a quint ade Queluz, hoje 
da coroa, e o palácio do Corte Real, próximo outr'ora ao 
Corpo Santo, depois concedidos, por decreto do dez de 
agosto de mil seiscentos e quarenta e quatro, ao infante D. 
Pedro, mais tarde D. Pedro II, sobrinho do nosso biogra- 
pbado^. Entravam também nos ditos bens dezoito mil cru- 
zados de cí>ramendas. Aos que eram de morgado oppoz-se 
o conde de Vimioso, primeiro marquez de Aguiar, casado 
com uma irmSL do marquez de Castello Rodrigo; mas nada 
conseguiu, por se jidgar que, eraquanto o confiscado vivesse, 



1 Bib. Nac, MsB., F. 2, 30, foi. 111, o decreto. 
* Id., foi. 112, o decreto. 



451 

pertenciam d corOa. Além do marquez, foram eequestra^Ios 
«gaalmente D. Francisco de Mello, o conde de Villa Her- 
mosa, e o conde de Linhares, também por andarem ao ser* 
viço do rei de Hespanha*. 

Estas medidas de rigor, aliás justas, e que até o infante, 
nos seus momentos de cólera, aconselharia, deviam ser-lhe 
entretanto prejudicíaes, por excitarem contra elle o ódio 
particular dos seus dois já figadaea inimigos. 

Apenas D. Francisco de Mello soube, por aviso» de Itá- 
lia, que o tinham declarado, em Portugal, inimigo da pá- 
tria e rebelde, e que lhe haviam tomado os bens, com ou- 
tras demonstraçtSes iníquas (segundo o seu juizo), sem que 
precedesse termo algum, nem lhe escrevessem, nem fizes- 
sem caso d' elle, como acontecera com todos os homens de 
conta portuguezes, que andavam fora do reino (palavras 
textuaes, dignas do maior reparo e admiraçlo, inconcebí- 
veis até, depois de tantos dea serviços á sua pátria, e sobre- 
tudo depois da prisílo do infante!), apoiías D, Francisco 
teve conhecimento de tamanha novidade, communicou-a 
logo ao governo hespanhol, e enviou-lho um escripto, que 
por este motivo compuzera, intitulado : Própria defensa, 
com o fim de publicar-se; ao que annuiu o conselho d'es- 
tado, sendo porém datada a impressão de Atlemauha, e 
sendo feita com todo o segredo, de maneira que nao se 
julgasse intervir n*Í380 ordem ou sciencia de sua magea- 
tade catholica. O conde-duque votou pela publicação, note- 
se, por nâo haver inconveniente em que o rebelde de Por- 
tugal (D. JoSo IV) conhecesse que D. Francisco se lhe 
atrevia, como a qualquer particular, ou em que se irritasse 
mais contra elle*. 



í Bib. Nac, Ms8., Supplemeuto, n." 606, Annaes de Portugal rtati- 
Uâdo a reiê naturats. 

2 Axch. de Simancas, Maço 2342, foL 39. Consulta do Canselho de 
Estado feita em Madrid a 5 de julho de 1641. Msa. 

29« 



452 



II 



Desde que o infante foi preso, entrou no pensamento e 
noa projectos do govenio liespanliol inudal-o do imporio 
para alguma das suas fortalezas; e não o perdia de vista, 
como, La pouco, noa mostrou o officio de D. Francisco, 
porque alii o teria inteiramente sujeito, e ficaria despre- 
occupado de que o imperador o soltasse, ou levado de um 
reato de honra e piedade, ou de valiosas influencias exter- 
nas, ou de complicações internas, a que os estados de Fer> 
nando ITI, convulsionados pela guerra que, liavia tanto, os 
flagellava, e sobretudo pelos exércitos victoriosos da Sué- 
cia, que lhe rasgavam as entranhas, e divididos de idéas e 
interesses, viviam continuamente expostos. 

Na verdade a situação da Allemanha era gravissiraa, e 
credora de sérios cuidados, principalmente no tocante aos 
inimigos exteriores. O arrojado movimento de Baner con- 
tra Ratisbona, onde estava o imperador e a dieta, que nar- 
rámoc) pouco antes de ee realisar a piisào do infante, foi, 
por assim dizer, a ultima acçSo do grande general. Obri- 
gado a retirar-so deante das forças imperiaes, que correram 
açodadamento de toda a parte, em auxilio de Fernando III, 
combatido pela natureza, que o constrangeu a deixar aquella 
cidade, primeiro que o Danúbio, deggelando, lhe embargasse 
o passo com a barreira de suas agiuis, abandonado pelo ma- 
rechal francez Guebriant, retirou atravez da Saxonia e da 
Eohemia, conseguindo, a muito custo, escapar ao exercito 
de Picolomini, e recolheu- se a Halberstadt, onde morreu na 



453 



mez de maio do mesmo anno, em consequência de uma 
constante vida de desregramento, que era o reverso das 
qualidades verdadeiramente extraordinárias doesse illustre 
liomem de guerra. 

Com a sua morte respiraram os ímperiaes, e o exercito 
sueco esteve quaei a destruir-se pela indisciplina; mas Tor- 
tenaolin tomou o seu commando, c, dentro era pouco tempo, 
mostrou-se digno de succeder a Baner e a Gustavo Adol- 
pho, suu mestre. Até ahi, os estados austriacoa tinliam res- 
pirado livre» da devastação que desde tanto arruinava a AI- 
lemanlia; Tortensohn fez com que lhes chegasse a sua vez. 
Reunindo todos os gcneraes, preparou as coisas com tal mya- 
terio c celeridade, que atravessou os estados de Brande- 
burgo, apesar da neutralidade armada do sou novo eleitor; 
appareceu na Siloaia, ;mtes do inimigo saber em que direc- 
ção marchava; tomou Glogau á espada; e conquistou com 
rapidez prodigiosa a cidade de Schweidnitz, o todas as pro- 
víncias ao sul do Oder. Em seguida entrou na Moravia, 
e apoderoU'Se de Olmutz^ reputada inconquistavel. Estas 
victorias encheram de terror a capital austriaca; e o archi- 
duquc Leopoldo, e o general Picolomini, juntando iis for- 
ças, obrigaram o conquistador sueco a deixar a Moravia, 
e logo depois a Silesia. Tortensohn porém não desanimou, 
e, chamado o general Wrangel com o seu corpo de exer- 
cito, tomou a oífen.iiva, recuperou quasi todas as cidades 
perdidas, tentou debalde fazer sahir a campo os imperiaes, 
e penetrar na Bohemia, e, nSlo o conseguindo, invadiu a 
Lusacia, tomou Zittau, continuou a marcha atravcz da Mis- 
nia, paááou o Elba perto de Torgau, poz o cerco a Leipzig, 
derrotou em batalha campal, no mesmo logar em que Gus- 
tavo Adolpho alcançara uma brilhante victoria, baso do po- 
der da Suécia, ao archiduque e a Picolomini, que tinham 
corrido em aoccorro d'ella, fazendo-Ihes cinco mil mortos, 
outros tantos prisioneiros, tomando quarenta e seis peças 
de artdhcrta, quasi toda a bagagem, a secretaria, e toda a 



454 



prata do archidiique, e, d'ahi a trea semanas, obrigou a en- 
tregar-Be a própria Leipzig. 

Nos fiDa de quarenta e um, Tortensohn poz cerco a 
Freiberg, que não poude render pela constância dos cer- 
cados em defender-se e pela approximação de Picoloraini. 
Entretanto alcançou a grande vantagem de levar os impe- 
ríaes a deixarem oe seus quartéis de inverno, c a se com- 
promettereni em operações que lhes custaram acima de três 
mil câvallos. Para os cançar ainda mais, dirigiu-se Torten- 
Bohn ao Oder, onde se reforçou com as gtiamiçSes da Si- 
lesia e da Pomerania, e imprevistamente appareceu nas 
fironteiraa da Eohemia, atravessou este reino com assom- 
brosa velocidade, entrou pela segunda vez na Moravia, li- 
bertou Olmutz, que estava quasi a render-se aos imperiaes, 
acampou a duas léguas da fortaleza, impoz contribuições 
de guerra exorbitantes, e fez bater o campo por tropas li- 
geiras, que levaram as suas correrias até aos postos avan- 
çados, a que fora incumbida a guarda das pontes de Vienna. 
Temeroso de perigo tamanho e tão próximo, o imperador 
chamou em seu auxilio a nobreza húngara, porém ella nXo 
lhe obedeceu, allegando os seus privilégios, que a exera pia- 
vam de combater pelo soberano fora do território da Hun- 
gria. Emquanto isto se passava, Tortensohn tomava-se se- 
nhor de toda a Moravia, ao passo que as tropas da Hesse, 
da França e de Weimar, commandadas pelo general d'Eber- 
Btein e pelo marechal Guebriant, entravam no arcebispado 
de Colónia, onde estabeleciam os quartéis de inverno, e 
venciam perto de Kcmpen, em janeiro de quarenta e dois, 
o general austriaeo Hatzfeld e o general Lamboi, que os 
pretendiam desalojar, matando- lhes mais de dois mil ho- 
mens, e aprisionando mais do dobro, victoria que tornou 
os alliados inteiramente senhores de todo o rico eleitorado 
de Colónia, onde invemaram, remontaram a cavallaria, e 
levantaram tropas. Emfim, Tortensohn invadiu a Styria, 
tomou diversas cidades, e em junho corria que ia cercar 



455 



Gratz*, o que eníSo nSo aconteceu, mas passado algum 
'tempo, vindo a apoderar-se d'ella pouco depois da sahida 
do infante para Mil ao. 

Estes movimentos militares fazem-nos wmprehender, 
afora outras razSes, o empenho doa hespanhoea em mudar 
o infante do império, explicam-nos, melhor do que até aqui, 
r a eua transferencia de Passaw para Gratz, pela maior se- 
gurança do preso nesta cidade, logar mais forte, mais apar- 
tado do theatro da guerra, no meio de paizes ainda nâo 
devassados pelo inimigo, perto doa confins da Hungria, e 
I coberto por Vienna, de que distava vinte e oito léguas, o 
' que o punha aliás longe dos que lhe podiam melhor valer, 
motivos dignos de attençilo, e que tomam também plansi- 
vel, depois da entrada dos inimigos na Styria, a mudança 
do infante da cidade de Gratz. 

Com effeito, considerando nós que a Suécia era alliada de 
Portugal, que acolhera, com grande enthusiasmo e favor, 
a embaixada portugueza, que em Stockolmo escrevera Fran- 
cisco de Sousa Coutinho o seu manifesto acerca da prisílo 
do infante, o qual naturalmente foi apresentado A dieta re- 
L unida em Ratisbona por influencia dos seus ministros, e que 
ro dito embaixador, pouco antes de retirar- se para Lisboa, 
recommendara ao governo da rainha procurasse obter a sua 
liberdade, considerando tudo isto, é-nos licito suppor que 
I os generaes suecos receberiam ordem para libertal-o, se as 
f operações militares os levassem ao sitio onde estava, e que, 
ainda que a nilo tivessem recebido, bastaria ser o preso ir- 
mSo do rei de Portugal, para. elles o emprehenderem, da- 
das as ditas eventualidades. É o que posteriormente se ten- 
tou praticar com respeito a MilSo, depois de ahi se achar 
o infante, quando aa armas francezaa corriam victorioaas 
, esse estado, fazendo tremer pela sua sorte Filippe IV, e 
F exultar de esperança oa corações portuguezes. 

» Bib. Nac, Mes., I, 2, 5, foi. 1 v., Carta de D. Antào de Almada 
ao conde da Vidigueira, de 17 de julho de 1642. 



456 



Hespanha e os seus diligentes ministros nâo repatavam, 
portanto, ainda seguro o infante em Gratz; e tinham raz2U). 
Nem estaa mudanças de um a outro logar da Allemanha 
8Ígni6cavam para ella mais do que palliativos, porque a 
projectada a alguma das suas fortalezas estava, de ha 
muito, planeada e decidida. Continuaram, pois, vigiando o 
infante, o que o governo do Madrid nâo se descuidava do 
recommendar, e multiplicando as instancias com o impera- 
dor para a sua entrega, ao mesmo tempo que, já contando 
com a satisfação dos negregados intentos, iam dando va- 
rias providencias para a viagem*. 

Divldiam-se os pareceres quanto A futura residência do 
infante. Opinavam uns por Hespanha, outros por Nápoles, 
e outros por MiUo. Reunia o primeiro alvitre contra si 
grandes inconvenientes: a difficuldade de transporte, que, 
nilo podendo ser pela França, teria só o caminho do mar, 
onde as forças de Filippo IV se sujeitavam ao encontro das 
de Luiz XIII, alliado de Portugal ; o auxilio que estas acaso 
Ilie preatariam, se se soubesse com antecedência da viagem, 
ou por não se efftííLuar logo, ou pelas demoras inherentes á 
navegação; por um lado, a guerra aberta que havia entre 
as duas naçSca peninsulares, cujaa alternativas náo era li- 
cito prever; pelo outro lado, as contingências que resulta- 
riam do estado da Catalunha, iosurreccionada e sujeita á 
influencia das armas francezas, a falta de fortalezas bem 
seguras, e os portuguezes de importância residentes em 
Hespanha, algims d^ellea com grandes cargos, e em cuja 
tidelidade nílo se confiava inteiramente. 

O segundo alvitro tinha também alguns contras: a in- 
fluencia que o poder marítimo da França, a que talvez se 

1 Arch. de Simancas, Maço 2342, foi. 45, Consulta do Conaellio de 
Efltado, feita em Madrid a 15 de Junho de ICll, Mss. 

Id.j foL 39, id., de f> de julho, id. Mbs. 

Id., Maço 2356, Carta do conde de Siruela, governador de MilSo, 
a Filippe IV, de 19 de abril de 1642. Mss. 



457 



juntasse o de Portugal, poderia exercer nos mares do sul 
da Itália, o a facilidade de se realizar um desembarque em 
tSU) extensa costa^ assim como os embaraços que, apesar 
da preponderância da Hespanha na peuinsula, ella encon- 
traria porventura n'algum dos seus estados, quando se pre- 
tendesse dar por ahi passagem ao infante, e quem sabe se 

Itambem a pouca segurança das prisSes. 

O terceiro alvitre é o que reunia melhores conveniências. 
Milão, próxima do Tyrol e da Orisonia, offcrecia, so 08 
francezea a ameaçassem, maneira de evitar que o preso 
fosse por elles livre, fazendo-o retirar para um ou outi*o ter- 
ritório, emquanto que, embora esse momento nSo chegasse, 
a sua posição na parte mais larga e mais ao norte da Itália, 
no meio de estados vizinhos, ou amigos da Ilcspanha, ott 
contidos em respeito pelas suas forças, lhe dava decidida 
vantagem aos outros logares, accrescendo ainda a fortaleza 

kdo seu celebre castcUo, de certo uma das considerações de 
maior peso, e a facilidade de transporte, pois, sem depen- 
derem de transitar pelas ttírras de qualquer principo inimigo 
ou suspeito, o conduziriam os licspanhoes directamente de 
AUemanha ao Tyrol, e d'a!ii ao ^Milanez. 

Estas, pouco mais ou menos, deviam ser as duvidas do 
governo do Hespanha na mudança do infante para os seua 
estadosj e estas são as que trazem Birago e outros aucto- 
res; entenda-se, no começo, porque na consulta do conse- 
lho doestado de cinco de julho de quarenta e ura, atraz ci- 
tada, jil se dá por assento a preferencia a Nápoles. A ida 
para Mihlu foi só como escala para o encerro que lhe ti- 
nbaiu determinado, e que nâo voiu a aproveitnr-se, ou por 
algumas das vantagens que recommendavam o castello d' esta 
cidade, ou por jd prever ou presentir o gabinete de Madrid 
as revoltas dos napolitanos, e os projectos de França a seu 
respeito. A escolba de Nápoles foi indicada por D. Fran- 
cisco de Mello, conforme, ha pouco, tivemos occasi&o de 

"^ver, e talvez resolvida ou ajudada a resolver por essa in- 



458 



dicaçSo. A mudança do preso de AUemanha para Flandres, 
lembrada pelo infante D. Fcmando, nSo teve consequên- 
cia*. 



III 



Estas machiuaríjes nSo ficaram occultas ao infante, o 
quaí, consternado pelas noticias que vogavam, escreveu ao 
bispo de Lamego, que desde vinte de novembro do anno 
anterior residia em Roma, a seguinte carta, respondendo a 
outra Bua, cujo conteúdo ignoramos. 

«Com granditísimo gosto recebi a carta de vossa senho- 
ria, de vinte c cinco de janeiro; e bem necessário era este 
allivio em tào continuadas penas, como as minhas, que 
cada hora se multiplicam ; e me acho cm estado que invejo 
a fortuna dos que vivem nas masmorras dos turcos; e so- 
bretudo se tem por infallivel que o imperador me entrega 
aob ministros de ITespanha para me passarem a Itália, e 
vingarem em mim o ódio da pátria em que níisci ; e já aqui 
fica o doutor Navarro, que é a pessoa que os ministros por- 
tuguezes, que se tem achado nVstas partes, escolheram 
para estas execuções, por monos cliristão e mais cru que 
os mais que ha n'eBta8 partes. Peço a vossa senhoria se 
faça alguma grande e apertada diligencia com o papa, para 
que escreva ao imperador, e mui apertadamente ao duque 
de Baviera, e ao arcebispo de Salzspurg, porque isto é uma 

1 Anh. de Simancas, Maço 2342, foi. 39, Consulta do Conselho de 
Estado, feitii em Madrid a 5 de julho de 1641. Mss. 

Id,, Maço 23Õ6, Curta do conde de Siruela, goveraador do estado 
de Miluo, u Filippe IV, de Id de abril de 1642, e parecer do Conse- 
lho de Estado a teu respeito. Msa. 



459 

execução contra o direito das gentes, e bem publico, e a 
mais escandalosa que se pôde dizer. É necessário muita 
brevidade a diligencia, e que o geral da companhia escreva 
ao confessor do imperador e duque de Baviera^ com muita 
estreiteza; e porque sei que vossa senhoria nillo faltará ás 
obrigaçíJes do sangue, nem ás mais que agora nSo refiro, 
deixo de me alargar n'e8to particular, desejando minlia vida 
e liberdade para dar muito claro testemunbo da catimaçâo 
que laço da casa e pessoa de vossa senhoria. Tenho os mi- 
nutos contados, e por isso deixo de responder a D. Vicente 
Nogueira; para outra hora; e vossa senhoria me desculpe 
por agora. Doesta prisão, em doze de março de mil seis- 
centos e quarenta e dois. 

«Bem sei que nâo é necessário lembrar a vos^a senho- 
ria o que vae no segredo e cautela d' esta correspondência, 
ainda com os mais Íntimos ; e avisarei por que via se pude 
continuar^ e todas a» diligencias, que se fizerem com os prín- 
cipes e ministros de Allemanha, bXo necessárias, sem se 
perder tempo. D. Duarte» *. 

A verdade surgia terrível deante do pobre preso ! O im- 
perador machiuava entregal-o a seus inimigost, que n*olle 
queriam dessafogar o ódio á terra em que nascera; fugia-lhe 
a ténue luz que o allumiava ainda nas trevas do infortúnio. 
Na Allemanha contava amigos e afteiçoadoti que, pugnando 
por ellc, pugnavam também pela honra do império e pelo 
bom nome do seu paiz ; tinha sete annos de serviços des- 
interessados á casa d"Austria, que, embora até ahi lhe hou- 
vessem desconliecido ou mal pago, poderiam ainda ser lan- 
çados na balança da justiça, e fazei- a pender para o seu 
lado; na Allemanha havia mais probabilidade de ficar livre, 
já pela influencia dos que o estimavam ou tumavam o seu 
partido, irritados da baixeza do governo, compadecidos da 



i Bib. Nac, Mbb., Supplemento, n." 606, Annaeê de Portugal resti- 
íuido a reis naturaes. 



460 

ti'Í8te sorto de tão grande príncipe, ou movidos do interesse, 
já pelo poder da coroa de Suécia, com as suas armas ven- 
cedoras das imperiaes, e senlioras, em parte, do território 
germânico; e, se a sua liberdade se não obtivesse, ao me- 
nos, na AlJcmanha poderia mitigar-se-lhe a dureza da pri- 
são, e nSLo ser tilo infeliz. Todas essas probabilidades aca- 
bavam, porém, com a sua entrega á Hespanha, que nâo 86 
demoveria nem pela compaixão, nem por outro qualquer 
sentimento Inuuanitario, .porque na sua alma egoísta e cruel 
BÓ dominava a sede da vingança. 

E essa entrega decidiu -se, com eífeito, c, o movei prin- 
cipal d'elhi foi o dinlieiro ! O imperador de Allemanha ven- 
deu o infante D. Duarte ao rei de Hcspnnba por quarenta 
mil escudos. Assim se diz geralmente, o asnim o escreveu, 
com mais particularidade, o livro latino, que, sob o titulo: 
Innocentis et iLbvripnnctpis venditto, viu a luz publica n'csse 
anno, devido á pena de António Moniz de Carvalho, e de- 
pois no seguinte, era hespanhol, traduzido e augmentado 
por Manuel Fernandes Viila Roal, com o de: El prindpe 
vendido, c, depois ainda, em francez vertido pelo mesmo, e 
também í\mpli»ido. D. Nicolau Feranndes de Castro, refu- 
tando as accusaçõcs de injustiça da prisílo do infante, pa- 
rece negara venda*; mas, em geral, os nossos escriptores 
da epocha, e os que esposaram a nossa causa confirmara-a. 
Krones, na sua Hwtoria austríaca^ cond^mua o facto, som 
lhe dar o nome de venda. «A diplomacia hespanhola, dia 
elle, fez cora que o imperador faltasse á sua promessa de 
nSo o entregar (D, Duarte) á Hespanha, e pelo ajuste de 
vinte e cinco de junbo alcançou, raediírte o sorama de 
quarenta mil escudos, manifestamente como penhor, que 
fosse transferido ao logar que Filippe IV indicasse. Em se- 
guida a isto, enviaram D. Duarte para Jlilíío. . . Julga-se 
que o imperador foi enganado pela cOrte de Madrid. Seja 



1 Portugal tonvtnzida con la razon. . . Milan, 1G43. 4.o 



46 i 

como for, eUe tícou mal visto por semelliante acto^ tanto 
que, já n'esae tempo appareceram alguns escriptos da par- 
cialidade que lhe era adversa, que o accusam concorde- 
mente de ingratidão e de perjúrio com as mais negras co- 
res* *. Em apoio d'esta asserção, podemos adduzir ainda as 
palavras de Taquet: «Negam in solidum tel-o vendido por 
quarenta mil cruzados, dando outro titido a esta quantia». 
Na Hintoria ddle rivolutioni dei regno di Portotjallo, affirma 
Birago, ou o mesmo Taquet, a venda e o preço, e chega a 
avançar que os trinta mil escudos receltidos cm dinlieiro, 
pois os dex mil restantes foram em lettras, tiveram (emprego 
immGdiato no levantamento de tropas, pelo quo, alguém 
disse que aquella somma nâo se guardou, quia pretinm san- 
guinis erat. O infante assegura a venda; e ainda Tnqu*^t n'ou- 
tra parte especitica que o dinheiro se pagou em Veneza*. 

Aqui move-se a questão se o imperador entregou o infante 
allespanha, sem reservar para si nenhum direito sobre elle, 
ou 80 o fez soL condiç2Lo de rehavel-a quando quizessc. 

Os auctores que escrevem do infante declarara-se quasi 
todos pela primeira hypotliese, com excepção de Krones e 
de Gualda. Krones inclina- se, como já vlmoÉ-, a quo Fer- 
nando III recebeu os quarenta mil ducados, nâo pi»r preço 
da venda, mas cm penhor do deposito, o que deixa mar- 
gem para suppor-se alguma obrigação, embora nJLo se diga 
se é a de o restituir. Gualdo, na obra: Hhtoria dclle guerre 
di Ferdinanão secondo e Ferdinando terzo, naUí fala na ven- 
da, mas diz que o imperador entregou o infante aos hes- 
panhoes, com a clausula de não se fazer coisa alguma con- 
ti'a elle sem sua participação c consentimento, e de sem- 



íVol. S.^pag. 547. 

2 Arch. Nac. d« Torre do Tombo, Cosa O, Caixa 17, tora. 4 B, pag. 
609, Curta do infante a Duarte Nunea da Costa de 10 de julho de 
1642. Ms8. 

Bib. de Évora, Msa., 106, 2, 11, foi. 257, Carta de Taquet ao conde 
da Vidigueira de 14 de março de 1643» 



46^ 

pre se entender que era seu prisioneiro. Em confirmaçSo 
da segunda hypothese vêem também alguns documentos, e 
eão ellea : a carta do conde da Vidigueii*a de vinte e dois 
de outubro de quarenta e quatro ao plenipotenciário de Por- 
tugal no congresso de Munster, Luiz Pereira de Castro *, a 
de oito de julho de quarenta e cinco a JoSto de Guimarães 
nosso residente na Suécia *, a de Fr. Fernando de la Houe, 
ou Taquet, ao mesmo conde, de vinte e sete de maio de 
quarenta e seis 3, e a do infante ao dito Taquet, de vinte 
e quatro do julho d'c8te anuo*. Tratava-se nas mencionadas 
cartas de obter a liberdade do infante por occasiSo da paz, 
que entào se discutia no congresso, fazendo Suécia com que 
o imperador o pedisse a Hespanha; e declara-se n'ellas que 
o mesmo tiidia tal direito, visto ser seu prisioneiro, e havel-o 
cedido sob condição, mediante uma cscriptura, na qual o 
governo d'csto paiz se obrigava a entregar-Ih'o, toda a vez 
que o requisiLisse. O infante accrescenta que essa escii- 
ptura foi ftnta muito em segredo, porque o imperador que- 
ria desciilpar-ae de nSo o libertar, allegando que já nSLo ti- 
nha poder n^elle. O conde da Vidigueira na sua carta de 
oito de julho vae ainda mais longe, pois avança que Wol- 
kmar, ura dos plenipotenciários do imperador no congresso, 
confessara ahi a existência do documento. A ser tudo ver- 
dade, e principalmente a confissão de Wolkmar, o acto de 
Fernando III nSo seria uma venda; mas poder-se-hia re- 
putar como tal, c como um simples disfarce o nome quo 
lhe assignaram, pelo abandono completo do soberano alle- 
mlo quanto aos seus direitos, e pela improficuidade das con- 
diçSes no mesmo acto estipuladas- Todas estas affirmati- 
vaa, e até a de Wolkmar, por mais valiosas que pareçam, 
havemol-as por improváveis, porque as contradiz positiva- 

iBib. Nac, I. 2, 9, foi. 131. Msa. 
»Id., I, 2, 8, foi. 107. Msa. 
3Bib. de Evora, 106, 2, 11, foi. 270. Mss. 
« Id., id., foi. 403. Maa. 



463 



mente uma das respostas doa plenipotenciários imperiaes 
no próprio congresso, na qual declararam que D. Duarte 
nSLo era prisioneiro de sua magestade cesárea. Se existisse 
o dito tratado, esta resposta seria n'oatros termos. O mais 
acceitavel é que tudo fossem meros boatos, apenas inven- 
tados para desculpar a má acção do imperador. Quanto a 
considerar-se ou nJo a entrega do infante como venda, 
n!lo passa de uma questSLo de nome. Os apertos do thesoiro 
imperial eram frequentes; Elespanlia valeu-lhe muitas ve- 
zes com o seu dinheiro; qniz vencer as opposiçoes que en- 
contrava na cedência do infante; empregou o suborno; e, 
aproveitando alguma conjunctura mais critica do gabinete 
de Vienna, conseguia-o. Quer dizer, se o imperador nSo 
vendeu D. Diuirte, vendeu-se. O preço, ou pequeno ou 
grande, pouco importa. 

O procedimento de Fernando III, sejam quaes forem as 
desculpas que se adduzara em seu favor, mereceu e me- 
recerá sempre dos homens imparciacs a maior e mais justa 
exprobraçJlo. Admitte-se que a razão do estado o induzisse 
a prender o infante, apesar de todos os seus serviços ; e 
alguns, n'csse tempo, o defenderam. Era uma ingratidíto 
com certa desculpa aos olhos de muitos, pela estreita allian- 
çade interesses que existia entre os dois poderosos ramos 
da casa d'Austria, a Allemanha o a Hespanha, e pela im- 
portância do irmão do rei de Portugal. A brandura com 
que o guardariam, o que nSLo excluía a segurança, as at- 
tenç3es de que nâo deixaria de ser alvo, pois nSo o man- 
chava nenhum crime, serviriam p.ira attenuar os dissabo- 
res da reclusão a que se via forçado pelos imprevistos acon- 
tecimentos do reino, embora n^elles nlto tivesse tomado 
parte. Assim Fernando lEI pagava com a prisco a quem 
o servia tSo fiel e generosamente; violava a liberdade do 
império; lançava, humilde, aos pés do governo hespanhol 
a honra e os sentimentos de humanidade e independ encia 
da naçSlo germânica; mas, ao menos, nJo abandonava, nSo 



464 



sacrificava completamente o infeliz príncipe aos seas cruéis 
inimigos, fechando o coração a todas as vozes do brío e da 
piedade. 

Infelizmente cedeu tudo ante a politica enredadeira e 
ante os mais raesfiuinhos interesses ; e o imperador de Alie- 
manlia, o glorioso chefe da casa d* Áustria, a primeira testa 
coroada da Europa, o que se julgava continuador dos cé- 
sares romanos, e acima dos restantes monarchas, entregou 
o seu parente, o seu hospede, o seu amigo, o seu generoso 
servidor, desamparando-o quando mais carecia de amparo, 
e, para cumulo de opprobrio, com quebra da honra e da 
própria palavra! 

Segundo Birago, Fernando III, estando o infante ainda 
em Bati&bona, comprometteu-se solemnemente a não o en- 
tregar aos hespanhoes. 

Tudo quanto aconteceu entílo a D. Duarte já o vimos 
miudamente pela narração de Navarro, que o guardou, 
desde sor preso ate chegar a Passaw, com assiduidade o 
vigilância, e nada ahi encontramos a respeito de elle re- 
correr ao imperador, ou da promessa alludida^ pelo con- 
trario, escandalisado da aleivosia e ingratidão do Fernando 
m, o príncipe portuguez ineidcou ua,o querer deite nada no 
começo da sua prisco, e unicamente no raonarcha hespanhol* 
parecia depositar, ou fingir depositar toda a esperança, diri- 
gindo-lhc duas cartas, e procurando descaiTegar-se de qual- 
quer suspeita ante seus ministros com reiterados protestos 
de adhesao e respeito. Entretanto deve admittir-se que, in- 
stado pela triste situaçJío que o opprimia, elle recorreu ao 
imperador, apesar de só se demorar em Ratisbona dez dias, 
e conseguiu fazer-lhe chegar as suas representaçSea, a oo- 
cultas de Navarro, como conseguiu escrever a Fr, Timo- 
theo Ciabra Pimentel, também, segundo parece, sem Na- 
varro o saber, porque Luiz Pereira de Sampaio que estava 
com elle, o aíBrma pelos termos seguintes: «N'este tempo 
mandou sua alteza dizer ao imperador que, já que o pren- 



465 



diâ sem culpa «il^ma, lhe pedia que pelo menos o quizessc 
ter em soa protecção, e o nío entregasse a seus inimigos, 
prevendo logo o que depois veiu a succeder. O imperador 
lhe enviou o conde Slich, conselheiro de guerra, o qual da 
parte do sua magestade cesárea deu a mão a gua alteza 
que estivesse sem receio, que o nSo havia de entregar, e 
que sempre o havia de ter debaixo da sua protecção»*. 

Conta- 80 que houve certa reluctancia em Fernando ITT 
para consentir na prisão do infante. Houve-a do mesmo 
modo, e Navarro pjircce confesaal-o, para o deixar sahir 
do império*. Mais fraco talvez do que perverso, repugnou- 
Ihe o encarceramento e a entrega do seu nobre general, e 
dentro d'alma luctaram-lhe durante muito com aa suggestCtes 
dos maus conselheiros sentimentos bons e generosos. Por- 
que nJto admittiremos pois, no espaço intermédio a estes 
dois factos, a existência, a lucta d'e88e8 mesmos sentimen- 
tos, e 09 esforços do infante para aproveital-os ? Demais, 
ora tSo critica a sua posição, que até se estranharia, se ntlo 
tentasse todos os caminhos para sahir d'ella o mais breve 
possível. As suas palavras de censura ao comportamento 
do imperador, e de nenhuma fé na sua assistência, que vi- 
mos na narração de Navarro, pouco depois de ser preso, 
exprimiam n'e8sa occasiSo o estado do seu espirito, mas 
dentro em pouco, reflectindo, viria a necessidade mostrar- 
Ihe que precisava de tilo poderoso auxiliar, porque estava 
na Bua mZLo livral-o, como o prendera. É pois admissível, 
e até rasoavel, que o infante conseguisse por meio de seus 
amigos, um dos quaes era o próprio valido do imperador, 
o conde de Trautsmandorf, posto se contasse entre os que 
mais concorreram para a sua perda, ou de pessoas que lhe 
fossem affectas, representar a Fernando III, n'e8ta epocha, 
a justiça da sua causa. 

^Selação da prisão injusta do. . . infante. . . D. Duarte. . . Mes. 
* Bib. de Madrid, Mbs., H-74, Carta de Navarro ao conde-duquei 
de 26 de agoBto de 1642. 

B. J. D. D. — T. I. 30 



466 



Em Paasaw, escreve ainda Birago que o infante req^ue- 
reu a sua magestade ce&area para que nilo o entregasse aos 
hespanhoes, o que elle lhe assegurou, debaixo da palavra 
imperial. Nenhum documento abona esta asserção. 

Em Gratz as mesmas razões que apresentámos ha pouco, 
e ainda com maia força, pela urgência das circumstancias, 
deviam levar, e levaram o infante a recorrer ao imperador. 
Aqui ha certeza. Prova-o Navarro, quando dÍ2 ao conde- 
duque que: «D. Duarte procurou eatorval-o (a sua sabida 
de Allemanha), representando a sua magestade cesárea al- 
gmnas conveniências do seu serviço, e dando a entender que 
assim lho tinha oflerecido o conde Slich»; e prova-o a mis- 
bUo do padre Sínabel, de que em breve falaremos, se nSo 
é o mesmo facto a que Navarro se refere. Quanto ao em- 
penho, n'e5te tempo, da palavra do monarcba allemilo, para 
o niio entregar aos hcspanhoes, aasevera-o o mesmo infante, 
pois declara que o conde de Trautsmandorf Ih"© prometteu 
em seu nome, estando na dita cidade, já verbalmente, já 
por escripto '. Além d'Í8to, nas instrucçSes ao padre Sina- 
bel, afiança em geral D. Duarte que Fernando UI lhe as- 
segurou por varias maneiras que nunca o largaria de seu 
poder*. O marquez de Niza attesta que o imperador deu 
quatro vezes a sua palavra de não entregar o infante a Hea- 
pauha'. 

Aterrado com o grande e imminente perigo que o ameiv* 
cava, procurou recorrer o príncipe portuguez a quanto pu- 
desse evital-o; escreveu ao bispo do Lamego, conforme aa* 
bemos; amiudou, o mais possível, a correspondência com 
Fernando Brandão * ; directamente, ou por mediação de ou- 

í Bib. da Ajuda, Msb., Coiresp. de Luiz Pereira de Castro, vol. ni, 
foi. 1Í3, Carta de Taquet ao mesmo, de 6 de janeiro de 1646. 

2 Bib. do Évora, Mbs., 106, 2, 9, foi. 102. 

3 Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B, 
foi. G15, Carta do coode da Vidigueira a Duarte Nuaes da Gosto, de 
16 de agoBto de 1642. 

* Bib. Nac., Mas., O, 5, 19. 



467 



treni; pediu a António de Sotisa de Macedo, Becretario doa 
nossos embaixadores em Inglaterra, que ahi ficara como re- 
sidente depois de assignar-se o tratado, que compusesse um 
manifesto em sua deleza*; representou ao imperador, fun- 
dado nos offerecimentos que lhe fizera pelo conde Slich, se- 
gando dissemos ; e mandou a esse monarcha uma carta, e ou- 
tra a^o conde de Trautsmandorf, contra o abandono da sua 
pessoa á Hespanha, e para nío ser levado a MilSo, como 
constava. Também, estando em Gratz, mas não sabemos se 
n'e8ta conjunctura, escreveu a D. Francisco de Mello, e ao 
marquez de Caatello-Rodrigo. Aqui notaremos que todas as 
cartas que lhe eram dirigidas iam primeiro lis mjlos do con- 
sellio cesáreo da dita cidade, que as abria e lia, antes do 
lli'as entregarem*. 

«Muitas vezes tenho manifestado a vossa magestade ce- 
I Barea, dizia elle a Fernando III na dita carta, a grande in- 
Ijustiça e aggravo que se me faz^ quando eu, por haver dei- 
xado a pátria e a commodidíule da minha casa, o havendo 
servido oito annos a vossa magestade com tanta satisfação, 
como sabe todo o mundo, esperava receber grandes favo- 
res. Agora entendo que o marquez de Castello-Rodrigo, 
continuando o raeerao que já havia intentado D. Francisco 
de Mello, procura conduzir me a MilSo, para que eu sirva 
de zombaria c sacrificlo ao o<Uo e indignação d'esto e ou- 
tros ministros ; poróm espero da grandeza de vossa mages- 
tade que n^o queira romper cm mim as leis da justiça, o 
aquclle direito, no qual me constituiram a hospitalidade e 
fé publica, inviolável entre a^ mais barbaras naç3es. Pelo 
que espero que vossa magestade terá consideraçSlo á minha 
justiça e innocencia, deixando uma e outra nas suas impe- 
riaes mãos, até que vossa magestade me franqueie o direito 

í Bib. de Évora, Mss., 106, 2, 8, Carta de António de Sousa de Ma- 
cedo ao conde da Vidigneira, de 28 de agosto de 1642i 

* Ârch. do Estado de MiUo, Procoesoa de D. Duarte de Bragan^ 
(1643). Msa. 

80* 



468 

das gentes com a mesma liberdade do império^ nSo permit- 
tindo que se execute em mim novidade que sirva de exem- 
plo tâo prejudicial á fé publica; representando juntamente 
a vossa majestade o grande amor, trabalho c dcspeza com 
que tenho servido a vossa magestaJe, expondo a vida ii 
muitos perigos, como agora fizera com o mesmo animo e 
fidelidade, se vossa mageatade m'o permittira. Guarde Deu» 
a imperial pessoa de vossa magestade cesárea. De Gratz, 
dezeseis de março de mil seiscentos e quarenta e dois» *. 

PasBon-se imi mez, e o conde de Trautsmandorf respon- 
deu ao infante, em nome do impei-ador, n'estes termos: 

a Dei a sua magestade cesárea a carta de vossa excel- 
lencia, o lhe referi tudo o que vossa excellencia me escre- 
veu em dezeseis do passado. Sua magestade cesárea me res- 
pondeu muito benignamente, declarando n2o querer aggra- 
var a vossa excellencia na sua afilicçAo, mas allivial-o muito 
depressa, e, em sendo tempo, fazer-lhe todo o favor j o que 
se mu oíFerece referir a vossa excellencia, beijtindo-lhe as 
mãos. Vienna, cinco de abril de mil seiscentos o quarenta 
e dois»'. 



IV' 



Infeliz foi também o infante com o recurso á cGrte do 
Roma, para que appellara na carta ao bispo de Lamego. 
Náo era a primeira vez que se pensava em interessar o 
pontífice na sua desgraça. Já em meiados do anno anterior 
Fr. Fernando de la Houe se dirigira áquella cidade, pro- 



* Birago, Historia delle rivolutioni dd regno di PortogdUo, 
D. António Caetano de Sovua, Hist. genealógica. 
» Id., id. 



460 



vavelmente para o mesmo fim. Já em setembro do dito amio 
Duarte Nunes da Costa escrevia a Fernando Brandíío n'este 
sentido, e Brandão lhe respondia approvando o alvitre, como 
tudo sabemos. Pode até ser que a ultima negociação se 
prendesse á de Fr. Fernando, ou que exprimisse a vontade 
do illnstre preso, o qual também, no meio das suaa tribu- 
iaçSes, recorria ao chefe da egreja, para que lhe valesse. 
Mas o mallogro da embaixada portugueza a Urbano VIII 
preveniu ou inutilisou todoa os esforços. 

Tendo conferenciado com os nossos ministros em Paris, 
snhiu D. Miguel de Portugal d'esta cidade, e, depois de 
longa demora, fez-sc á vela no dia vinte de outiibro de qua- 
renta e um, de Toulon para Itália, n'um galeSo do rei de 
França, aportando, passados alguns dias, a Civittà-Vecchia, 
De Civittíi-Vecchia despachou Diogo de Barcellos, seu es- 
tribeiro, com o fim do avisar o marquez de Fontanes, em- 
baixador do França, da sua chegada. Mandoulhe o mar- 
quez iramediatamente o seu coche, com o secretario da em- 
baixada, Boíird, e muitos francozes a cavallo, armados de 
clavinas, para o escoltarem, pois sua santidade lhe permit- 
tiu que desembarcasse o entrasse na corte, o que nilo se 
alcançou sem gi'ande opposiçSo dos hespanhoos e dos do 
sen partido. 

Alvoroçou a noticia os portugiiezes residentes em Roma, 
s trinta d'e]les foram-o buscar, montados em cavallos ligeiros, 
\ com armas de fogo para a sua defeza. Nem deixavam taes 
precauçSes de ser necessárias, porque o príncipe de Gali- 
cano s«í ofierecera ao embaixador hospanhol, D. JoSo Chu- 
raacero. para no caminho assaltar o bispo, insulto que nâo 
teve efteito em virtude d'elias, e de trinta soldados que 
enviou o cardeal Barberino, sobrinho do papa, avisado do 
criminoso intento. NSo foi só este o perigo a que, por entUo, 
escapou o nosso ministro : esteve egualraente para ser morto 
pelo capitUo dos ditos soldados que a isto se promptificava. 

Com esta companhia chegou o bispo de Lamego a Roma, 



470 



em vinte de novembro. Ahi hospedou*se na casa do em- 
baixador de França, havendo-o por bem sua santidade, 
que lhe determinou dSo sahisse em publico, e só pelo agente 
Pantaleão Rodrigues Pacheco representasse o que preten- 
desse na congregação de propósito formada. Foi o agente 
ouvido n'ella com benevolência; entretanto o cardeal Bar- 
berino disse-Ihe logo que folgaria de ver escriptas as razoes 
de direito por que o reino de Portugal justificava uma acçSo 
tão extraordinária, como a da sua revolução, tendo jurado 
duas vezes em curtes obediência aos reis catholicos, e tendo 
estado estes na sna posse por mais de sessenta annos. Rea- 
pondeu-lhe PantaleSo Rodrigues Pacheco que não se recor- 
ria a sua santidade para alcançar contii-maçào nas matérias 
temporaes, e só para lhe prestar obediência como a chefe 
do catholicismo. NSo obstante isto, que o dispensava de 
annuir á exigência do cardeal, preferiu o agente satisfa- 
zel-o, mesmo porque assim tomava manifesta na corte 
de Roma a justiça de el-rei D. Jo5o IV. Mas nem com 
a sua condescendência a nossa causa ficou em melhor ter- 
reno. Depois de algumas congregações, o cardeal Barbe- 
rino respondeu da parto de sua santidade, que a obediên- 
cia de D. João ÍY era muito contraria ás obras, nas quaes 
mostrava estar em desobediência á santa sé apostólica, poia 
continuava retendo as capellas que em Portugal se haviam 
nBorpado á egreja, com violaçlo da immunidade ecclesias- 
tica; Bubslstia o pernicioso exemplo da expulsão do bispo 
de Nicastro, collector apostólico, occasionada d'e8ta reten- 
ç5o; e tinha de novo gravemente escandalisado toda a re- 
publica christâ com a prisão do arcebispo de Braga, D. Se- 
bastião de Mattos de Noronlia; que, portanto, anteá de ou- 
tro qualquer requerimento, devia o novo rei dai' satisfação 
á egreja, restituindo -lho os seus bens e soltando o bispo, ou, 
ao menos, mandando-o com custodia honesta á presença de 
sua santidade. Representou o agente, por escripto, ao car- 
deal que a commissSo do embaixador não se estendia a 



47i 



tanto, mas que, sem embargo, fiado na devoção que reco- 
nhecia em sua magestade para com a egreja romana, o em- 
baixador se ofFerecia, cm nome do mesmo senhor, a satis- 
fazer aquelles dois pontos na fórma seguinte. 

No tocante ás capellas, obrigava-so a que sua magestade 
chegasse ao accordo mais favorável á cúria, enviando sua 
santidade a Portugal um nimcio apostólico, a fira de cele- 
brar uma outra concordata, como tinham feito, em casos 
idênticos, os summos pontífices João XXI e Xistf» IV, em 
tempo dos reis D. Affonso V e D. JoSo 11, porque as coi- 
sas estavam títo embaraçadas que não se poderiam resol- 
ver de diverso modo, visto que o collector, uíío contente de 
proceder contra os possuidores das capellas, chegara a vio- 
'lentar a lei do reino. 

No que respeitava á prísSo do arcebispo de Braga, de- 
TÍa presuppor-se que el-rei nSo ultrapassaria o determinado 
no direito canónico, o qual nSo só a permittia no crime de 
lesa-magestade, em que o mesmo arcebispo íora culpado, 
mas até livrava de ficar incurso na pena de excommunhao 
quem houvesse morto qualquer ecclesiastico perturbador da 
tranquillidade publica, como se colhia de muitos casos lem- 
brados pelii historia; que, todavia, apesar de o favorecer o 
direito, sua magestade nSLo se intrometteria em castigar o 
seu delicto; mandaria logo enti*egar os autos, que se hou- 
vessem processado, aos ministros por sua santidade depu- 
tados para o conhecimento da causa, e sujeitar-se*hia em 
tudo ao que elles deíenninassem. Á ida do arcebispo não 
a consentia, pela razão de poder na viagem tomar algum 
porto dos estados de el-rei catholico, o por não lhe ser pos- 
sível formar em Roma culpa de lesa-magestade, emquanto 
não estava n'ella reconhecida a mesma magestade. 

Aquietou-se o cardeal Barberino, quanto á prisão do ar- 
cebispo, mas continuou a instar pela restituição plena das 
capellas. Julgando entretanto mais útil outro meio para 
atalhar os requerimentos do agente, que pedia com inatan- 



472 

cta o recebimento da embaixada, e * acceitaçla da obe- 
diência, começou a moatrar que se cançara com elios, e a 
dilatar a reaposta sob vários pretextos, tixDas Teses oegan- 
d0'Ibe as audiências, outras ouvindo-o contrafeito, chegando 
em uma a voltar-lbe as costas, contra o seu natural beni- 
gno e agradável para com todos, e dizendo lhe por fim que 
o nâo mettesse entre portuguejcea e bespanhoes, porque, 
sendo sobrinho de sua santidade, recoiava anoitecer-lbe em 
Roma e amanhecer-lbe em Napoleã ^ 

Tanto Talcram com a cúria as intrigas e as c^xigencias 
da corte de Madrid! E note-se que Urbano VIII, desde que 
subira á cadeira pontifícia, fôra inimigo constante da casa 
d'Au8tria, e por conseguinte de Fílippc IV; que tivera ne- 
gociações contra ambos com o cardeal de Richclieu; qae 
a6* festejara os triumpbos dos protestantes e de Gustavo 
AdoJpho; e, quanto a Portugal, que recebera com applaueo 
a primeira noticia da restauração, sentimento em que o 
acompanharam muitos dos cardeaes, e quasi todos os ita- 
lianOH. Foi isso o que de certo enganou ao principio tanto 
o governo de D. JoUo IV, como o de Luiz XtU; pon;in 
mudaram-lhe o animo a visinhança das armas bespanbo- 
Ias; as muitas nuuciaturas e emolumentos dos vario* rei- 
nos do rei catholico, os quaes se perderiam, inimisando-se 
com cUe; o estar n'aquel]a occasillo em guerra com o du- 
que de Parma, a quem tomara no verSo antecedente o es- 
tado de Castro, e condemnara por sentença ao perdimento 
do estado de Parma e de Placencia, sentença que preten- 
dia, armado, executar a todo o custo ; e a insubsistência do 
estado de Portugal, principalmente como lh'o pintavam os 
bespanhoes. 

Porém, se o bispo de Lamego nada podia obter da cúria, 
c se, portanto, eram inúteis, ou antes impossiveis, os seua 



* Bib. Nac, Mjj8., Supplcmento, n." 606, Ãnnau de Portugal retti- 
tikio a rnt naíuraes. 



473 



eeforçQs doeste lado, cumpria-lhe ao menos, como nosso re- 
presentante, e como parente da casa real, ser cuidadoso pelo 
bem estar do infeliz príncipe, buscando, mediante o governo 
francez, ou por outros modos ao seu dispor, soccorrel-o e 
amparal-o. Ora foi isso o que elle fez deficientemente, prin- 
cipiando por nílo aproveitar os serviços e influencia de Fer- 
nando Brandílo, do que resultou, a nosso ver, o mais grave 
prejuízo. 

Já d'e8te personagem dissemos algiima coisa: da corres- 
pondência que raantinha com o infante, desde a sua prisSo 
na cidade de Passaw: do altivio que lhe deu com as suas 
cartas; e das gazetas que lhe remettia, pondo-o assim ao cor- 
rente das noticias de Portugal. Já sabemos também que lhe 
estabeleceu em Veneza Luiz Ramiro, com o cargo de seu 
correspondente^ e outras pessoas n' outras partes com essa 
qualidade, tudo por ordem do mesmo infante. Vimos ou- 
trosim alguns exemplos de como servira Portugal, antes 
da separação de Ilespanha, e que, proclamada a indepen- 
dência, 08 serviços nâo cessaram. Movido, segundo é de 
presumir, por estas causas, D. João IV cncarregou-o dos 
negócios de Portugal na corte de Roma logo nos começos 
do seu reinado, ciirgo que já exerceria na epocha em que 
vamos. 

Tantas qualidades boas e tantos merecimentos oram 
todavia, no conceito de alguns, damnificados pelas des- 
confianças acerca da sua fidelidade, as quaes o bispo de 
Lamego quinlioou largamente, o que, se acreditarmos o 
mesmo Brandão, e quem o defendia, prejudicava muito 
08 ditos negócios, sendo o do nosso infante um dos pre- 
judicados. Estas desconfianças acham- se, porém, em con- 
tradicçSo com o serviço que, pouco antes, elle nos pres- 
tara, protegendo em Roma Fr. Fernando de la Houe, do 
que já falámos sufficientemente, e com outro serviço re- 
levantiasimo que nos fez pouco depois, e que consistiu 
em defender Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo 



474 

da faria dos hespanhoes. Passara este reb'gioso, como dis- 
semos, a França, escondido, em companhia do monteiro- 
mór. Lançado em negro cárcere na casa professa dos je- 
suítas, onde residia em Lisboa, pela influencia maléfica de 
Diogo Soares e de Miguel de Vasconcellos, a cujo governo 
tyranno se tomara odioso e merecedor de perseguição, ila- 
cedo jazeu ahi durante dois annos, sem saber verdadeira- 
mente porque, c sera poder defender-se. Debalde ordenou 
o geral da companljia, em oito de janeiro de quarenta, ao 
provincial que o soltasse; valeu mais a vontade dos pode- 
rosos ministros seus inimigos, e obteve apenas ser-lbe re- 
laxada a prifiiHo. Perdida esta esperança, e vendo fecha- 
das todas as portas da liberdade que tanto anceiava, Ma- 
cedo fugiu do seu encerro no dia trinta de julho, sob grave 
perigo de vida, com tençSo de recorrer ao geral, para o 
que o provincial lhe denegara licença. Correram mezes, re- 
bentou a gloriosa revoluçSo do primeiro de dezembro, no- 
mearam-se os embaixadores, e Macedo, aproveitando a pas- 
sagem a França do monteiro-mór, que fôra seu discipulo, em- 
barcou occulto no navio em que elle ia, e com elle en- 
trou em Paris, onde endereçou nm conceituoso memorial 
ao cardeal de Riohelieu, composto na lingua latina, expon- 
do-Ihe as circumstancias em que se adiava, e pedindo-lhe 
que escrevesse ao geral da companhia de Jesus, Mucio Vi- 
telleschi, para lhe conceder transferencia á ordem francis- 
cana, e província de Santo António dos Capuchos *, o que 
veiu a realisar-se no anno seguinte de quarenta e dois. 
Alcançada a recommendaçSo do ministro de Luiz XUT, 
partiu para Roma com o embaixador á cúria, o bispo de 
Lamego. Souberam os hespanhoes da sua chegada, da sua 
importância scicntifica e litteraria, do seu amor á terra na- 
tal, dos escriptoa em quo pugnara por cila, e, temendo o 
mal que podia causar-lhes com outros, determinaram pren- 



t Arch. Nac., Mesa CeDsoria. Impresso. 



475 

del-o, o que teriam conseguido, conforme a própria con- 
fissão de Macedo, se Fernando Brandão o não livrasse das 
suas garras^ e depois de o ter escondido em casa, o nílo fi- 
zesse sahir disfarçado de Roma, acompanhando -o até Lior- 
ne, d'onde cora créditos seus, seguiu para Gcnova e Mar- 
selha *. 

Semelhantes factos acontecidos, este antes da mudança 
do infante a Itália, c aquello nas suas proximidades, sSo 
corroborados pelos serviços que posteriormente nos prestou 
BrandJo, entre os quaes sobresahe outi*o, nao menos rele- 
vante, e que até liie mereceu recompensa do próprio go- 
verno ptjrtugUGz: tomar parte com seu irmão, Manuel da 
Costa Brandão, un encontro entre o bispo de Lamego e o 
embaixador hespanhol, o marquez de los Velez, quando, 
nas mas da cidade eterna, o ousado ministro, por instruc- 
çíSes da sua corte, pretendeu prender ou assassinar D. Mi- 
guel, com affronta da auctoridade da santa sé, do caracter 
duplamente respeitav^el de prelado e de embaixador, da pró- 
pria dignidade, e da justiça, serviço por que a Feniando 
Brandão forara dados os foros e privilegio de cavalleiro fi- 
dalgo, e a Manticl o habito de S. Thiago e tença, com o 
foro de cavalleiro fidalgo, tudo a instancias do bispo de La- 
mego. Pois, apesar d'Í8to, e de fazer publicar em italiano 
as noticias de. Portugal, com o que muito se expunha á 
sanha dos hespanhoes, a nomeaçilo do doutor Nicolau Mon- 
teiro para nosso agente junto da santa sé, em setembro de 
quarenta e quatro, e ainda as desconfianças do seu cara- 
cter, levaram o governo a desencarregal-o e tambora ao pa- 
dre João de Mattos do logar idêntico que ahi occupavam '. 

Já que pelo fio da nossa narrativa alterámos a sua or- 



t Arch. Nac. da Torre do Tombo, L."* Mss., n.» 110«, foi 122, Car- 
ta de Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo a. . . 

» Arch. Nac, da Torre do Tombo, L.«' Mas., u.^ 456, foi. 167 v., Carta 
ã'el-rei ao coude da Vidigueira de 17 de setembro de 1644. 



470 



dem chronologica, digamos alguma coisa mais do que nos 
tempos seguintes aconteceu a Fernando Brandão, com o que 
acabaremos de moãtrar a sua importância, e tentaremos 
illibar o seu caracter. 

A favor do exonerado sahiu entilo Fr. Francisco de Santo 
Agostinlio da ^lacedo, não só defendendo-o das imputações 
com que o oneravam, mas ató recommendando-o como ne- 
cessário ao andamento da nossa politica na corte papal. 

Em carta, ao que parece, escripta a alguém influente com 
o governo portuguez, em oito de abril de quarenta e cinco, 
Macedo lembra os serviços de BrandSo, que relatámos» pe- 
los quaes este perdera os interesses de Hespanba, e arris- 
cara 03 de seu irmào Alexandre; a fó que merecia ao pa- 
dre João de Mattos, religioso de conhecida virtude, lettras, 
lealdade e zelo; e o penhor que havia da sua fidelidade 
por ter no reino irmãos, cunhado, e sobrinhos, a quem es- 
timava muito, e em quera desejava fazer casa. Confessa 
que Brandão anda^ a descontente de Portugal, por corres- 
ponder mal áquelles serviços; que o tinham aggravado, 
pondo-os de parte; que os seus accusadores eram pessoas 
offendidas por elle nos interesses, ou que abafavam de am- 
bição e inveja, vendo-o tRo bem medrado; citii mesmo o 
nome de alguns d'e38os detractores, e, logo era seguida, 
outros respeitáveis que podiam attestar a confiança que 
elle merecia; e termina aconselhando que sua magestade 
o empregue, por ser ura dos homens mais adequados para 
negociar com o papa no meio dos nossos numerosos inimi- 
gos em Roma, nSlo como agente, visto estar ministro de sua 
santidade (fora em quarenta e quatro nomeado prefeito da 
Compoocnda, cargo de estima e de seis mi! cruzados cada 
anno) e tSo entranhado na privança do pontífice, que alcau- 
çava muitos favores e audií^ncias secretas, e dentro em 
pouco alcançaria a prclatura, mas como superintendente 
dos negócios de Portugal, para que os ajudasse, pois d'elle 
dependia, em grande parte, o meneio e provimento da Da» 




477 

taria, pagando o seu trabalho com alguma comroenda a seu 
irmão Francisco, e a elle dando-lhe apenas alguns mimos, 
pois tinha muito *. 

Taquet e Duarte Nunes da Costa eram também favorá- 
veis a Brandílo, e no mesmo caso estava o conde da Vidi- 
gaeira, ao menos nos primeiros annos. Nos meiados portam 
de quarenta e cinco, a boa opinião que os dois últimos 
d^elle faziam mudara, pela suspeita de haver denimciado 
aos he«panhoes a assistência do Taquet em Veneza, para 
tratar das coieas de Portugal, denuncia de que egualmente 
foi accusado Picini, conforme contaremos adeante*. 

Mas com eflfeito descobriu Fernando Brandão o fim da 
permanência de Taquet em Veneza, ou levantaram-lhe este 
falso testemunho os seus inimigos, como n'outra occasiâo 
aconteceu? Contemos o caso. Foi om quarenta e nove. Ma- 
nuel Alvares Carrilho, então agente portuguez em Roma, 
culpou-o de mostrar, na ante-cíiniara do papa, umas cartas 
que affinnava ter-lhe escripto o raarquez de Niza conti-a o 
cardeal Mazarini, e de dar traslados d'ella8, que se man- 
daram a França, o que o indispoz com •» marquez. A este 
respeití) escreveu D. Vicente Nogueira, expondo o succe- 
dido : « Ainda que quem conhece o saber de Ferníindo Bran- 
dão, e o primor com que guarda a fé humana, se ri muito 
de calumnia tio grossa, e eu o disse ainda peor ao agente, 
comtudo quiz por sua bocca que elle mo dissesse o que 
n'ÍBto passa, e me disse que de vossa senhoria (o marquez 
de Niza) nunca teve carta em que lhe falasse om Mazaríni, 
e que, se as houvera tido, as sepultara, pela grande ami- 
zade e creaySo que tinha com elle, quando nem o respeito 
de vossa senhoria o detivesse; mas que isto é o menos que, 



» Areh. Nac. da Torre do Tombo, L,-^' Mss., n." llOít, tbl. 122, Carta 
de Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo, a . . 

* Bib. de Évora, Mas., 106, 2, 11, foi, .336, Carta de Taquet ao conde 
da Vidigueira de 26 de agosto de 1G45. 



para prejudicar-llie, dirão e farSo, do qne a ellc se lhe dá 
pouquíssimo, a.^sim por saber sua innoccncia, como por ter 
muito segura sua verdade e procedimento ante o papa e 
sua cunhada» *. 

Este testemunho de D. Vicente Nogueira, pela sua aueto- 
ridade, e pelo muito que tívcti com Fernando BrandSo, me- 
rece todo o credito, ao mesmo tempo que concorre para 
duvidarmos da accusaçJo do conde da Vidigueira e de Ta- 
quet contra elle. Na verdade, se BrandSo tivesse atraiçoa- 
do os interesses do reino e do infante d'aquelle modo, como 
é que D. Vicente Nogueira o ignoraria? E, nSo o igno- 
rando, como se atreveria a attestar a sua fidelidade ao pró- 
prio conde, já eutSo marqaez de Niza, com tanto encareci- 
mento? Demais, njio souberam em Hespanha da ida de 
Taquet em quarenta e dois? Em maio de quarenta e trea 
não temia já Duarte Nunes da Costa que lhe fizessem al- 
gum mal, por o trazerem ha muito de olho*? Nao conhe- 
ceram a sua estada em Veneza no meiado do mesmo anno 
de quarenta e cinco, pela denuncia de Francisco Valdea 
de la Fuente, que negociou com elle um fingido projecto 
de librrtar o infanto^ como tudo veremos opportunamente? 
Por ultimo, se Brandão era tSo infiel e tào suspeito ao go- 
verno portuguez, como é que o conde da Vidigueira, ao 
partir para o reino, mandou em vinte de íibril de quarenta 
e sois, ao residente António Moniz de Carvalho, nas in- 
strucçSes que Ibe deixou, que acerca dos negócios de Roma 
se correspondesse e entendesse com elle'? 

Quanto aos sentimentos dos Brand»"5cs, ora geral, allega- 
remos ainda um testemunho valioso, o de Theodoro Amey- 



1 Bib. Nac, Mbs., Correap.do marquez de Niza, Carta de 29 de no- 
vembro de 1649. 

* Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O., Caixa 1 7, tom. 4 B., pag, 
569, CartA de Duarte Nunes da Costa ao conde da Vidigueira, de 12 
de maio de 1G43. Mss. 

3 Bib. da Ajuda, Mes., Mísc, vol. xiz, foL 89. 



479 

den, agente de Filippe IV na cúria, celebre pela violência 
das Buas idéas contra a causa de Portugal. Este, no Beii 
importantissimo Diário ddla città h corte, di Roma, refe- 
rindo-se aos preliminares da chegada do bispo de Lamego, 
eâcreve: «Os portiiguezea estlio o mais que é posei vel in- 
solentes, e nSo ha nada que nâo digam; defronte da mi- 
nha casa moram uns cerlos Brandões, que servem de agen- 
tes do rebelde (D. JoSo IV), pelo que vejo das minhas ja- 
nellas um concurso extraordinário d'e6ta raça durante todo 
o dia»*. Também cremos que nos ajuda o alvará concedido 
em sete de abril de quarenta e cinco por el-rei a Manuel 
e a Fernando Brandão para seus filhos nascidos em Roma 
gosarem do privilegio de portuguezes, naturalmente em paga 
de serviços prestados*. 

Parecc-nos pois Fernando Brandão o sujeito mais capaz 
de valer ao infante, e de procurar, com bom êxito, a sua 
liberdade, antes de o transferirem a Jililào^ se com mercês 
e dinheiro o contentassem, e se depositassem n'elle maior 
confiança, porque era pessoa que saberia servir muito, e 
desservir muito, e que niío convinha desobrigar nunca, di- 
zia ainda D. Vicente Nogueira 2. Uma parte das sommas, 
que se gastaram em enviaturas e projectos de resultado du- 
vidoso ou nullo, bastaria para reter no serviço de Portugal 
e do infante o astuto e interesseiro itaUano, o qual, devida- 
mente vigiado, seria talvez de grande proveito. Isto em- 
quanto D. Duarte residiu no império, ou no caminho para 
Itália, porquo, fechadas sobre elle as portas do castello de 
Milào, as diíficiildades cresciam e superavam ou quasi as suas 
forças. Que em Grratz, pelo menos anteriormente á chegada 



1 Alesaandro Aderaollú, La questione delia independcnza portoghesB 
a Roma, Firenze. 1878. Pag. 22. 

*Arch. Nac. da Torre do Tombo, Chanc. de D. Joílo TV, L.» xiy, 
foi. 378 v. 

5 Bib. Nac. Mas., Corresp. do marquez de Niza, Carta de D. Viceute 
Nogueira ao marqucz, de 29 de novembro do 1649. 



480 

de Navarro, era rnuis realisavel a fiiga, prova-o a narrarilo 
de Haot, prora-o o próprio infante no protesto qne inscre- 
veu contra o seu processo, quando contam as largas qiie o 
conde de Atristnin dava ao seu preso. A cidade stj-ria dIo 
estava no caso dn capital do Mílanez, nem o seu castdlo 
no da terrível fortaleza de Porta Giovia, nem o seu terri- 
tório pertencia ao domínio de Ilespímha. No cjuninho pam 
Itália, a liberflade do infante nâo era outrosim invíiligavel, 
como nol-o mostrará, dentro em breve, a mirraçSo de Na- 
varro, a cuja guarda foi entregue. 

O damno que a fultA de Brandão causou fio infante ava- 
Ua-se pelo do reino. A este respeito, escrevia em quinze 
de janeiro de quarenta e seis Gregório Martins Ferreb*a a 
Cliristovâo Soares de Abreu: «Fernando Brandão já nSo 
fala de Portugal, porque lá não estimam coisa que nSo seja 
vernácula. Eu, que conlieço o seu valor, chorei a perda 
que fizemos, e lá a sentirSo os que cuidavam que melho- 
ravam muito as coisas com mandar aqui o doutor Nicolau 
Monteiro. Lembre-se vossa mercê do que euth> lhe es- 
crevi» '. 

Mas, nlío 8Ó o governo portuguez deixou de valer-se da 
habilid;ide, conhecimentos, e influencia de que Brandío dis- 
punlia a favor do infante, mas até foi um dos seus embai- 
xadores, o bispo de Lamego, o maior estorvo a que o seu 
préstimo se aproveitasse, pois, chegado a Roma, elle c Bran- 
dao, 08 dois homens que podiam ser dois elementos impor- 
tantes da salvação do infeliz príncipe, em logar do se au- 
xiliarem, combateram-se, e a desconfiança, com todos o» 
seus péssimos resultados, mettendo-se-lhes de permeio, ina- 
tilisou-lhes as diligencias, que, unidas, talvez seriam van- 
tajosas. 

A acreditarmos Brandão o infante escreveu-ilie continoa- 



iBib. da Ajuda, Mes., Corresp. de Christov2o Soarea de Abreu, 
vol. m, foL 366. 



48i 

àsB c&rtad; e, se nSo se realisou eutSo a sua liberdade, foi 
porquo o biapo as nSo attendeu, como devia. Mandou- lhe 
mesmo um correio com a noticia da sua paasagem a Milão, 
do que o italiano deu parte a D. Miguel, o qual entrou em 
tA.1 perplexidade, que o padre João de íklattos, ccimo parti- 
cipante do segredo, chegou a dizer- lhe, notando as duvidat^ 
em quo fluctuava: «E, se a nova fòr verdadeira, ficaremos 
Bem adoptar as providencias convenientes?» Veiu depois 
outro correio do infante, com o que Brandão acreditou que 
o embaixador daria algiun paaao, posto fora de tempo e sem 
fnicto. Por e&te e outros motivoa, conhecendo quilo pouco 
prestava tratar dos negócios d'el-rei, e que o bispo o obri- 
gAva a abâter-se de enfastiai- o, desistiu de intrometter-ae 
n^elles «. 

D'onde proviria a animosidade do bispo de Lamego? 
Saberia, acaeo, que Brandão julgara prejudicial a sua en- 
viatura a Roma, e que melhor fora tratar de Portugal, par- 
tietilarmente^? Semelhante opinião, que muitos julgarão fi- 
lha do interesse, era também a de outro religioso portuguez, 
entAo residente em Roma', e o mau resultado da embai 
xada de D. Miguel confirmou-a. Vicquefort, na sua obra: 
L'atiibasítadenr et sen fonctúrns, impressa na cidade de Cch 
lo&ta, em mil seiscentos e noventa, diz que o cardeal Bichí, 
comprotector de França, embora desejasse a admissão do 
prelado portuguez, não disfarçava que o govomo de D. 
João rV andara imprudentemente, enviando ao papa uma 
embaixada, antes de sondar se ella lhe seria agradável, o 
que reforça o parecer de Brandão. Este, pela sua parte, 
attribuia a malquerença do bispo a ter representado contra 
o caminho erróneo que levavam na cúria os nossos negocioe, 



i Bib. Nac, Mfls., O, 5, lí^, Carta de Fernando Brandão ao conde da 
Vidiguehra, de 30 de sftembro de 1B42. 

2 Bib. Nac.^ Mea., 0, 5, 19, Carta de Fernando Brandão ao conde àsà, 
Vidigueira, de 31 de deieinbro de 1642. 

> Arch. Nac, Me«a Cenaoria. Mss. 

S. X. o. D. T. I- 31 



e contra o pouco cuidado de D. Miguel respectivamente â 
liberdade do infante. Em "vinte e nove de junho de quarenta 
e dois, anno em que vamos, ainda poróm Brand&o dizia ao 
conde da Vidigueira que fazia muitas diligencias a favor 
do illustre preso '. Posteriormente, outras encontraremos 
que mostrarão mais de uma vez o cuidado que elle lhe me> 
recia. 



Mas ficava o bispo completamente inactivo nas vésperas 
de tamanha calamidade, e recusava insensato prestar fé á 
lamentável noticia que se ia divulgando? Mostraria nSo se 
importar com as cartas de D. Duarte a Fernando Brandlo, 
para o desviar de introduzir- se em assumpto tão melindroso, 
visto não confiar na sua fidelidade? Ou só se demoveu da 
condemnavel apathia ao ser directamente informado pelo 
infante? 

Entrou D. Miguel de Portugal na cidade de Roma a 
vinte de novembro de quarenta e um, e, d'ahi a dois 
mezes, endereçou a primeira carta ao infante, a que serve 
de resposta a d'este de doze de maio do anno seguinte, ha 
pouco trauscripta. Depois, teve segunda carta soa, na qual 
lhe apontava modo de se communicarem, e lhe participava 
que, sendo mudado para Hespanha, lh'o faria saber por 
certa pessoa^. Ha ainda vestígio de outra carta do bispo 
ao infante. 



» Bib. Nac, Mss., O, 5, 19. 

Id. id.. Carta rle Fernando BrandSo ao conde da VidigTieira, de 30 
de dezembro de 1643. 

2 Bib. Nac, Mbs., I, 2, 5^ foi. 74 e 75, Carta do bispo de Lam^o 
ao coode da Vidigueira, de 10 de agosto de 1&42. 



483 



Esta correspondência, nSo correndo por Fernando Bran- 
dio, segundo cremos, correria por Luiz Ramiro, poato cm 
Veneza para cuidar dos interesses do infante, poatcrinr- 
nente á sua mudan«;a a Gratz, como vimos, ou pelo fidalgo 
italiano, de que se falará em breve, ou por outro meio, 
que vamos explicar. Ilavia entSo em Roma um jesuita 
que estivera na índia, onde parece missionara, e fôra pri- 
sioneiro dos Iiollandezes, o qual, resgatado, já depois da 
restauração, pelo governo portuguez, voltara ao reino, e 
paasára d'ahi á capital do orbe catholíco. Este religioso con- 
seguiu corresponder-se com o infante, para o que tinham 
cifra particular, entre ambos concertada, e tão mysteriosa, 
que ninguém seria capaz de entendel-a. O portador das 
cartas era uma pessoa muito confidente, cuja lingua só o 
dito religioso percebia, de todos oa portuguezes fieis mo- 
radores n'aquella cidade, por a ter aprendido quasi com 
gottas de sangue (sSo as auaa próprias expresaSes), po- 
dendo d'aqui inferir se que seria algum oriental das ter- 
ras onde o jesuita padecera pela fé, que o acompanhasse 
á Europa, e que não sabendo nada ou quasi nada dos seus 
idiomas, se julgou menos sujeito a quebrar o segredo do 
que outro qualquer, ou em conversas casuaes, ou movidas 
adrede. «Quando esta pessoa vinha, estando aqui o bispo 
de Lamego, escreve o jesuita a D. JoSo IV, a este res- 
peito, eu fazia todo o negocio e expedia o homem ; e da 
ultima vez com tão bom successo, que uma carta bom larga 
minha lhe foi á mio, a qual, diz elle (o infante), lhe ser- 
viu de grandi»8ima consolação e atlivio, porque d'e!la soube 
ao certo todas as prosperidades de Portugal, da saúde de 
vossa magestade, e casa real. . ., e já tive resposta; e quando 
a pessoa d'aqui partiu a ultima vez, ttnha chegado no mes- 
mo dia carta de vossa magestade para o dito senhor, e eu 
andei toda a noite pelas estalagens buscando o homem, e, 
depois que o achei, não quiz o embaixador, que m'o fez 
buscar, que lh'a dessem, sendo que dizia o portador, que 

31* 



484 

segarisâimamente sem nenhum risco IK^a daria na mâo, e 
que o risco da vida era seu, ma& que o não havia; com tudo 
nSo se lhe deu, e o senhor infante o sentiu muito, porque 
QU o avizei de como aqui estava carta de vossa mageatade» 
e o porque nSLo fura.» Esta carta do jesuíta, ainda mal, é 
apenaã um fragmento e sem data, mas vô-so que foi esorí* 
pta depois da sahida do bispo de Lamego de Roma, o qae> 
teve logar a dezoito de dezembro do quarenta e dois, em- 
bora os factos a que allude sejam do tempo em que o in- 
fante estava em Gratz. Entretanto parece quo a correspon- 
dência já tinha acabado, provavelmente com a sua trans- 
ferencia a Milílo, onde o religioso, illudido por crédulas es- 
perauçaB, cria poder vel-o, pois talvez por alli passasse em 
companhia de um grande fidalgo italiano, seu confessado^ 
de caminho para Allemanha, ao qual julgava natural que 
mostrasfciem o caatello, e mesmo ató o preso '. 

Aqui não deixaremos de aventurar uma eupposiçSo, potto. 
muito gratuita. Nâo seria este jesuita o padre 3Ianuel dô 
lima, que em mil seiscentos o trinta partiu paru a índia 
como missionário, quo, passados alguns annos, veiu a Roma 
por terra, e a que o padre Matheus Storr, também da com* 
panhia, confessor do infante, o que o foi á hora da aua 
morto, se remette na carta que escreveu a cl-roi, partici- 
pando-lh'a, como pessoa de quem sua magestade saberia 
muitas particularidades acerca do triste acontecimento, ou. 
porque a» presenciasse, ou porque d'ellas houvesse noticia? 

No principio de julho recebeu D. Miguel de Portugal 
um aviso do infante, por via de quem estava encarregado 
em Veneza de ser intermediário da correspondência (Luiz 
Ramiro, suppomos), contando-lhe que o imperador o ven- 
dera ao marquez de Castello-Rodrigo ; que o mandavam para 
o estado de Milão, com guarda de cincoenta mosqueteiros 



1 Arclh. Nac. da Torre do Tombo, Collecçfio de 8. Vicente, voLzn, 
foL 163. MsB. 



485 

e cincoenta cav&Uos, e que havia de transitar pela Valt©- 
lina. Dentro em pouco, chegou-lhe segundo recado do in- 
fante, ratificando o primeiro com um escripto em cifra, da 
sua mSio, para que se tentasse livral-o na passagem. 

Inteirado d' estes ansos, despachou o bispo de Lamego 
um correio a um fidalgo italiano, conhecido do itifante, de 
quando servira no exercito cesáreo, o qnal se offerecer» 
para o tirar aos guardas, no caminho, ou para lhe dar 
fuga do castello de Gratz, cidade onde, parece, já í3ra, 
pois por elle escreveu o bispo duas vezes a D. Duarte; e, 
além de lhe despachar esse correio com os avisos, manflou- 
Ihe o dinheiro que poude obter, e que julgou bastante para 
a em preza *. 

Este fidalgo, que era vassallo de sua santidade, chegou 
a Veneza em vinte e quatro de julho, já depois de haver 
partido o infante de Gratz para MilSo, levando tetras de 
quatro mil escudos, que se (lhe haviam de entregar por 
ordem do bispo de Lamego, pelo menos, assim o partici- 
pou dois dias depois a Pedro de Arce, secretario doestado 
do governo de Madrid, Francisco Ugarte, encarregado dos 
negócios de Hespanha na republica, emquanto nílo che- 
gava jilli, para tomar o exercício das suas funcçBes, o em- 
baixador, marquez de la Fuente. A isto accrescentava o 
solicito ministro que nâo pudera alcançar o intento do re* 
ceraichcgado; e só que devia passar a Aílemanha; d'onde 
concluía, visto já se haver, por meio de Veneza^ tentado 
a liberdade de D. Duarte, que elle visava ao mesmo fim, 
se acaso se tinha sabido que o levavam do castello de Gratz 
para outro. Desperto por tal suspeita, ficava procedendo a 
indagaçSes, e do que soubesse daria conta ao duque de Me- 
dina do las Torres, ao embaixador no império, o marquez de 
Caatello-Rodrigo, e ao governador de MilHo, o conde de Si- 



^ Bib. Nac. Mbs., I, 2, 5, foi. 74 e 75, Carta do bispo de Lamego ao 
conde da Vidigueira, de 10 de agosto de 1642. 



486 

ruela *. A tentativa de livrar o infante, a que se refere Fran* 
cisco Ugarte, como tendo-se negociado em Veneza, seria 
porventura a do duque de Parma, que se planeou naquelle 
tempo, ficando em nada', pela mudança do infante a Itá- 
lia, ou a de um italiano, chamado Picini, que vamos refe- 
rir, se é que n^o se devem applicar as palavras do docu- 
mento unicamente a qualquer noticia que Louvcsse chegado 
ao ministro hespanhol da correspondência com D. Duarte, 
e a seu respeito, por meio de Luiz Ramiro. 

A tentativa de Picini foi a seguinte. Apenas o bispo de 
Lamego entrou em Roma, escreveu- lhe este de Veneza, 
onde morava, diversas cartas, pedindo em todas, com mui- 
tos encarecimentos, quizesse mandar alli um homem, com 
quem tratasse algumas matérias relativas á conservação de 
Portugal, modo encoberto de expresaar-se, que o bispo in- 
terpretou pela liberdade do infante, ou por algum grande 
favor que a republica desejava prestar ao reino. Obrigado 
pelas suas instancias, satisfez-lhe D. Aliguel a vontade; con- 
ferenciou o mensageiro com Picini, o soube que versavam 
ftB suas oHertas acerca da dita liberdade, que elle diligen- 
ciaria, dando- se-lhe quatrocentas a quinhentas mil patacas, 
e duzenta« e cincoenta mil para gastos e serviço do infante, 
porém sem que apontasse como se propunha alcançar ta- 
manho resultado. N'cBte ponto, veiu o a>Í80 ao embaixador 
portuguez de já ter sido levado para Mililo o infante, e logo 
mn pedido de reembolso de cinco ou seis mil cruzados da 
parte de Picini, que affirmava tel-os dispendido em prepa^ 
rativos, sendo verdade, segundo o bispo depois escrevia, 
que não fizera diligencia alguma, por exigir previamente o 
recebimento d'aqueila quantia. Em julho, enviando D. Mi- 
guel a Veneza Fr. Luiz Coutinho, agostiniano, por causa 



1 Arch» de SimancaB, Maço 3356. Mes. 

* Bil). de Évora, Msa., 106, 2, 11, foi. 367, Carta de Taquet ao 
conde da Vidigueira, de 24 de junho de 1645. 



487 



do infante, e ainda talvez do o6Ferecimento do fidalgo ita- 
liano, aproveitou a occasião para se informar acerca de Pi- 
cini, e soube que n&o era mercador, mas notário, com al- 
guns filhos e pouqaÍ88tma fazenda, e espia dos embaixa- 
dores *. Mais adeante, e em logar próprio, falaremos nova- 
mente de Picini, ao relatar outras suas propostas. Basta 
saber-se por ora que esta nem mesmo chegou a pôr-se em 
pratica, ou, se o acreditarmos, que apenas ficou em prepa- 
rativos. 

Assim utilisou o prelado portiiguez no serviço do in- 
fante oa oito mezes que até então haviam decorrido, desde 
que chegara a Roma, nSo mettendo em linha de conta os 
aeis que esteve em França; devendo-nos ainda lembrar, 
como circumstancia aggravante, que a sua opiniSo era que, 
uma vez entrado D. Duarte no castello de Milao, se bal- 
dariam todos 08 projectos para lhe conseguir a Uberdade. 
Pois, apesar d'is80, e de saber com antecedência bastante 
que os he«panhoes o tentavam levar áquella cidade, por- 
tou-se com frouxidilo e incúria tilo censuráveis e prejudi- 
eiaes, no que talvez entrasse também a prudência, fundada 
ou infundada, desenvolvendo só no fim uma solicitude tar- 
dia e inútil. 



VI 



Mais activas, mas pouco mais proveitosas, do que as ào 
bispo de Lamego, foram as diligencias, a favor de D. Duarte, 
do novo representante, que o governo portuguez mandou 



1 Bib. Nac, Mas., I, 2, 5, foi. 31, Carta do bispo de Lamego ao 
conde da Vidigueira, de 20 de abril de 1643. 



488 

residir junto a Luiz XUI. A nove de abril d^ quarenta e 
dois partiu de Lisboa o conde da Vidigueira, D. Vasco 
Luiz da Gama, depois primeiro marquez de Niza, para 
âcar em França como embaixador, levando por secretario 
António Moniz de Carvalho, que já acompanhara com o 
mesmo cargo, Francisco de Sousa Coutinho, na iiiíasÍIo de 
Dinamarca e Suécia. 

As suas instrucçoes teem a data de vmte e sete de março 
do mesmo anno, e n'ellas se trata muito especialmente do 
infante *, como veremos. Além d'Glla8, ha outras de caracter 
particular, feitas para o conde por Christovâo Soares de 
Abreu, secretario, que fora, da embaixada do monteíro-mòr. 
Diz-se ahi que o objecto que mais ha de levar toda a atten- 
çAo do conde é a liberdade do infante, porque se dará com 
isso um grande mate aos hespanhoes; que nâo é elle fá- 
cil, visto já 08 mesmos estarem prevenidos; mas que os 
ânimos grandes e generosos cumpre empregarem-se no mais 
difficil, maiormente quando resultará tanta gloria da em- 
preza; e que escreva logo ao embaixador que está na Sué- 
cia, a quem tocam mais estes officioa e negociações, pela in- 
fluencia que exercem na Allemanha os exércitos victoriosoa 
d'aquella monarchia. Notaremos, de passagem, antes de pro- 
seguirmos, que, ao tempo em que estas advertências se po- 
dem julgar eacriptas, nSo havia embaixador portug\iez na 
Suécia, pois Francisco de Sousa Coutinho partira a dez de 
outubro do anno antecedente para o reino, e Rodrigo Bo- 
telho, que lhe auccedeu, ainda allí não estava; podendo-se 
d*aqui inferir que ás ditas instrucçoes cabe data anterior, 
ou muito pouco posterior á partida de Francisco de Sousa, 
e que a enviatui"a do conde da Vidigueira estava desde en- 
tSo assente. 

A quatro de maio desembarcou o conde na Rochella, 
onde o grâo-prior de França o recebeu muito bem; e, sa- 



' Bib. da Ajuda, Mss., Misc, vol. xixx, no priíicipio. 



489 



b^do d'elle que o rei chrÍBtianissImo marchara a sitiar 
Perpinhâo, seguia em busca da corte, atravessou graade 
parte do reino, e parou em Narbona, próximo da qual se 
acLâVA doente Riclielieu, de uma enfermidade que trouxera 
do exercito. D'e8ta cidade foi com Luiz XIII, que também 
viera doente do exercito, e com o cardeal para AvinhSo, e 
d'aqui para Paris; morrendo, porém, entretanto, a rainha 
mâe, e, detendo-se o rei alguns dias cm Fontainebleau, aó 
depois de sim mageetade voltar á capital, é que o conde 
alcíinçou a primeira audiência, o que teve effeito a dezesete 
de agosto, isto é, depois do ir o infante em viagem para 
Milão. 

Áa contrariedades, que experimentou na sua embaixada 
o conde da Vidigueira, foram de consequências fatalissimaa 
para D. Duarte. Apesar d' isto, nâo ficou n'ea8e inter vallo 
ocioso, antes, se poz em activa coramunicaçlo com as pes- 
soas que mais interessavam na causa do pobre príncipe, e 
com alguns ministros de Portugal nos paizes estrangeiros, 
entre os quaes se contam, logo pouco depois da sua che- 
gada, o bispo de Lamego, que estava em Roma, D. AntSo 
de Almada, em Inglaterra, Francisco de Andrade Leitão, 
em IloUanda, e Duarte Nunes da Costa, em Hamburgo. 
Mas, emquanto se occupava n'eBta correspondência, sem 
poder ser recebido soleranemente pelo rei de França, che- 
gou-lhe a triste noticia de que o imperador entregara D, 
Duarte aos hespanhoes, vendendo a aua honra e a do paiz 
por quarenta mil escudos. Indignado e instigado por tanta 
villania e barbaridade, cujas funestas consequências não dei- 
xaria de prever, ao menos em parte, o conde desenvolveu 
ainda maior actividade do que até então, e procurou por 
todos 09 modos annullal-as. Um dos recursos que tentou 
foi appellar para a opinião publica da grave injuria que sof- 
íria o irmSo do rei de Portugal, imaginando que a voz 
da justiça sobrelevaria a tumultuaria e desenfreada grita 
dos interesses poiiticos. Determinou portanto a António Mo- 



490 



niz de Carralho que compozeBse um manifesto em lAtun. 
n'e88e sentido, e da maneira que o infante apontara; e 
escreveu, com o mesmo propósito, aos embaixadores em 
Hollanda e em Roma. Quanto ao residente em Ingla- 
terra, António de Sousa de Macedo, já estava cuidando 
do mesmo objecto, a pedido do infante; mas também d'elle 
se nSo esqueceu o conde da Vidigueira. Ao passo que to- 
mava taes providencias, punha espias em logares conve- 
nientes; escrevia a Francisco de Andrade LeitSo, a Duarte 
Kunes da Costa, e a Jcronymo Nunes da fosta, seu filho, 
sobre um projecto que ignoramos qual fosse; procurava 
informaçcíea do mencionado Duarte Nunes da Costa, so- 
bre os meios de tirar o infante do captiveiro, para o que 
este lhe lembrava dois: peitas, e troca de prisioneiros; para 
o primeiro dos quaes serviria perfeitamente Fernando Braa- 
dSo, se o conduzissem a Nápoles, como entSo se suppunha, 
e, para o segundo, a influencia do governo francez*; tra- 
tava com o ministro dos suíssos em Paris para conseguir 
do que estava em Veneza, quo fizesse, mediante dadivaa 
e promessas, com que os banidos o tirassem das mEos dos 
guardas, no caminho; e pedia ao mesmo governo cartas^ 
ft fim de que o seu representante no paiz dos grisSes, por 
onde elle devia passar, tentasse egual cmpreza. Mas tudo 
era inútil ou tardio: a sorte do infante estava irremedia- 
velmente decidida! 



* Bib. de Évora, Msa., 106, 2, 2, foi. 136, Apontamentos com a data 
de 23 de agOBto de 1S42. 



491 



VII 



Meditando em quanto havemos escripto acerca d "este pri- 
meiro período das desgraças de D. Duarte, que abrange 
todo o tempo que esteve preso em Allemanha, ou o espaço 
de dezeseis mezes, experimenta-se uma sensação descon- 
seladora, uma frialdade n'almaj ao imaginar o quasi aban- 
dono, a que parece foi votada a sua causa, tão digna de 
interesse para todos os homens de coração, e sobretudo 
para os portuguezes. 

Que segurança illimitada, ou que descuido inqualiticavel 
atava os braços á corte de Lisboa, e aos seus representan- 
tes, emquanto Hespanha minava e trabalhava incessante- 
mente até chegar ao êxito desejado? Poderia acaso igno- 
ral-o, ou, sabendo-o, conservar-ae impassivel? E porque 
havia da parte do infante a mesma ou quasi a mesma apa- 
thia? O que esperava elle? Porque nâo se queixava, por- 
que nSo pedia, porque nSo protestava, como fez nos últi- 
mos tempos, quando conheceu que fora completamente sa- 
crificado por Fernando Hl ao rei catholico? Porque só en- 
tfio despertou, como aconteceu ao governo de Portugal e 
aOB seus embaixadores? Por depositarem, e, a nosso ver^ 
esse foi o grave erro de um e outro, por depositarem de- 
masiada confiança nas promessas do monarcha allemão, e 
no partido e pessoas que sustentavam no império a nossa 
causa e a do irmão de D. João IV j sendo provável que a 
enviatura de Fr. Fernando de la Houe tivesse por um dos 
fins, talvez o maior, em AUemanha, já o dissemos, aprovei- 
tar esses partidários. Mas a desgraça do infante nSo pro- 
Teia unicamente da boa fé; procedeu sobretudo do desleixo 



492 



do gabinete de Lisboa, e, qaem sabe^ se dâ contrarie- 
dade de alguém que n'elle influia, talvez mesmo da rai- 
nha, a qual, segundo já vimos, pelo testemunho do segando 
conde da Ericeira, D. Fernando de Menezes, temia a In- 
fluencia que o infante podia exercer junto de D. JoAo IV, 
se voltasse ao reino, e não disfarçava a sua má vontade to- 
das as vezes que se falava n^elle'. Com effeito, se o go- 
verno, logo depois do monteiro-mòr voltar ao reino, en- 
viasse para França o conde da Vidigueira, como parece 
tencionou faiser, talvez que as suas negociações conse- 
guissem o que se pretendia; porque no conde e em Fer- 
nando Brandão vemos os dois homens mais próprios para 
o intento. Mas^ em vez dHsso^ deixou ao desamparo a em* 
baixada de França, a mais importante de todas, durante ô 
longo espaço que vae de jimho de quarenta e run até muo 
do anno seguinte, a dahi a dois mezes o infante partia 
para Milílo; mas, em vez d'isso deixou abandonada a mis- 
bXo diplomática de Suécia, desde dez de outubro de qua- 
renta e um, e, aá pouco antes da sua transferencia a Itália^ 
esteve para mandar residir em Stockolmo António de Sousa 
Tavares, do que desistiu por ella se realizar*. A de Ingla* 
terra ficou, desde o principio de quarenta e dois, entregue 
aos cuidados do residente António de Sousa de Macedo^ 
capaz de interessar-se pelo infante, porém muito longe do 
theatro dos seus infortúnios, e em corte pouco influente n'el- 
les. A de TIollanda, também no raeemo caso, passou, de- 
pois de partir Tristiio de Mendonça, o que occorreu em 
egual epocha, a ser occupada por Francisco de Andrade 
LeitJo. De maneira que o único representinte portnguez, 
mais ao facto dos acontecimentos, e mais próprio para llies 
acudir com remédio, foi, durante muitos mezes, até de- 

^HUtoriaruin Lutitanarum ab anno Í640 ad 1651. Ulysaipone. 
1737. 4.». 

* Bib. da Ajuda, Msa., Correep. de ChristOTao Soares de Abreu, 
Tomo m, foi. 263. 




493 

zembro de quarenta e dois, iato ó, até pouco depois da paa- 
sagem de D. Duarte a Itália, o bispo de Lamego, e este já 
sabemos como empregou bem o seu tempo. 

Só uma coisa diminuiria a culpa do governo português, 
e explicaria imperfeitamente a inércia do illustre encarce- 
rado, e a ímprofícuidade da missão de Fr. Fernando de 
la Houe: a vontade do infante. «E quanto a imputar-me, 
escreve elle, defendendo-se de certas arguiyoes com que 
o gravaram no seu processo, que eu quiz fugir da prisão, 
digo que é falsíssimo. Pudera-o mui bem fazer em AHe- 
manha, onde. . . foi de tal forma, que a fuga estava na 
minha mão; porém, fiado na minha innocencia e na jus- 
tiça que acreditava se mo fizes&e, esperava serem estes os 
meios da minha liberdade, e esta esperança foi a maior ca- 
deia da minha prisão. É verdade que, se pudera antever 
ou pensar o que tenho padecido, eu houvera tomado outra 
resolução, porque fugir as perseguiçííes é doutrina do Evan- 
gelho» *. Se absim é, se o infante esperava tanto da sua 
justiça, e se D. Jo5o IV ordenou a Fr. Fernando de la 
Houe que se conformasse em tudo com a sua vontade, para 
05 passos que tinha de dar, como depois succedeu da se- 
gunda vez que o enviou de Portugal, a tratar dii sua li- 
berdade, certo que menos responsabilidade cabe a el-rei e 
á corte de Lisboa, e melhor ae entende o nenhum fructo 
da misaSo do religioso dominico. 



1 Bib. de Évora, Maa., 106, 2, 11, foi. 228, Protesto do infante con- 
tra o seu professo. 



494 



YIII 



A tamanho descuido da patri.i, ou antes do governo, res- 
pondia o infante com o maior aflfecto, pagando o mal com 
o bem, porque o amor não sabe contar as oflTensas. 

Existem umas lembranças a respeito do que era conve- 
niente a Portugal, para resistir a Hespanha e conservar-se, 
feitas, segundo se diz no documento, por D. Duarte. Da 
sua leitura mostra-se que nSo foram escriptas logo depois 
da restauração. A inteireza e patriotismo que respiram nâo 
desdizem dos nobres sentimentos do illustre preso, cujo 
coraçSo nunca deixou de palpitar enthusiasta pelo seu 
paiz, ao qual veremos, no decurso d'esta historia, pres- 
tar o soccorro da sua experiência, com muitos conselhos 
aproveitáveis, NSo seria portanto extranho que lhe ofFere- 
cesse mais estes. Inclinamo-nos mesmo a este lado, e a que 
sSo do período da sua prisSo em AUemanha, posto nSo sai- 
bamos especialisar-lhe a data: por isso os pomos aqui em re- 
sumo, primeiro que olle diga adeus para sempre ao impé- 
rio. Se porém estas lembranças nSo lhe pertencem, ainda 
provarão uma coisa digna de considerar-se: a influencia do 
nome do infante em Portugal, tamanha, que o auctor d'el- 
las o invocou para auctorizar o seu escripto. 

Em todo o caso aproveitemol-as. 

Sente o infante n2o ter podido passar ao reino, apenas 
se efFeituou a restaraçSo, porque alentaria com a presença 
e experiência oa soldados, além de que se evitaria assim 
alguma novidade, por causa da occupaçao do posto supre- 
mo. Aconselha a el-rei que proceda com muita cautela no 
provimento dos officíos, distribuição dos favores, e admi- 




I 



I 
I 



nistraçAo da justiça, porque n'eates primeiros acertos ou 
ae ganha ou se perde tudo; que mande lhe assista, sem 
nome de privado (por ser abominável) o marquez de Fer- 
reira; que, quando a obrigação acompanha o merecimento^ 
fica sendo premio do zelo e divida do talento. Pondera 
que o conselho d'e8tado, de que os mais teem dependência, 
por natureza compete aos melhores do reino, e também, 
por accidcntc, aos que com a casa de Bragança teem al- 
guma razão de parentesco; e que o conselho de guerra 
pertence aos que militaram. E de parecer que os capitães 
de cavallos sejam os que serviram em Flandres, e, nSk) os 
havendo, os que serviram em Africa, pois, ainda que n'e8ta 
parte se peleje com differentes armas, é circumstímcia que 
com pouca disciplina se ha de supprir; que os capitíles de 
infanteria sejam dos que serviram no Brasil, porque, ha- 
vendo arrostado as forças de tío grande inimigo, como o 
hollandez, e seus ardis, darão d'elles noticia, e do valor 
com que lh'os impugnaram; que, se se proverem u'al- 
gumas fronteiras os cargos de capiUSes-móres em pessoas , 
cujo sangue e fidelidade mereçam confiança, se lhes po- 
nham por adjuntos, no caso do n^o serem experientes na 
guerra, soldados práticos, prudentes e animosos, que, a seu 
exemplo, terSto, em breve, quem, nas emboscadas e acom- 
mettimentos, os acompanhe; que o começar ha de ser com 
o maior poder, e o resistir com o que houver; que a gente 
de guerra antes seja pouca e bem paga, que muita e mal 
contente. Lembra (jue Hespanha, apesar de ter muitas for- 
ças, tem também muitos postos cm que as empregue, e, 
dos muros a dentro, novos e poderosos inimigos, polo que, 
privada dos soccorros de Portugal, contra o qual hu do pre- 
venir novas tropas, e egualmente contra o principado de 
Catalunha, e para a conservação de Navarra, devem os 
portuguezes promotter-se feliz successo; além de que, os 
campos de Andaluzia, cultivados até agora com os vassallos 
do reino, o as minas de prata com os negros de Angola, 



496 



ãe que carecem, ou lhe hâo do entreter gente, ou faltar-lhe 
com OB interesses, e, sem estes, e com aquolles empenhoB, 
nSo pode concluir jamais a guerra de Flandres, que hoje 
eetá pedindo a mesma assistência; que, suppoato de tâo 
briosa naç5o, como a porttigiieza, ae nío espere acçHo pre- 
judicial A Bua lealdade, deve-ee ter cuidado em serem os 
officiaes de guerra, auperiores e inferiores, pessoa* fieis, e 
cm prohibir com muita cautela a communicaçSo de Heêpa- 
nha, porque el-rei Filippe recompensa mais os alvitres que 
o valor, e nSo lho hSo de faltar intelligenciae, com que pre- 
tenda inquietar os ânimos; nem será esta a primeira vez 
que o demónio offerece o que nâo 6 seu pela adoraçRo que 
lhe não cabe; do que é bom exemplo, aprendido á nossa 
custa, Filippe 11, quando premeditou a sua entrancia em Por- 
tugal com itó coíimiendas, que os reis portuguezes baviam 
instituído para differentes eÔeitos^ grangeando a investi- 
dura d'elle, sendo alheio. Aconselha a el-Toi que saiba o 
nome dos fidalgos e nobres para ser d'ellos amado como 
pae, e obedecido como soberano, informando-se de pessoas, 
sem suspeita, dos que sem ella o podem servir, e man- 
dando apparecer ante si os que commodamente o possam 
fazer, para que o exame acredite a informação, fiem se des- 
cuidar doa que, no posto mais arriscado, o estSo aen^ndo, 
e recommendando a todos a obediência dos superiores ; que 
não consinta Impedirem aos queixosos que o vejam, por- 
que ha enfermidades que se curam com a vista do medico, 
e o oflScio dos reis, que também é oíficio, 6 ouvir a todos, 
despachar aos que o merecem, e desenganar a algims; que 
ao soldado, que notoriamente se adoantar aos mais rio ser- 
viço, nSo lhe seja necessário pedir a remimeraç^o d'elle ; 
que o premio caminhe tanto como o valor, e que se ante- 
cipe o despacho ao requerimento, pois com isto se auxi- 
liam os ânimos para as acções mais diâiceis; que, se lhe 
disserem que convém á auctoridade real ser visto poucas 
vezes, nâo o creia, porque DAis, emquanto Deus, assim o 



407 



fez, mas, logo que se tomou homem, buscou homene com 
que se communícãsse ; que uSo se satisfaça de ser amado 
por fé, mas logre os applaufloa da sua yenturosa acclama- 
çSo da bocca de seus vassallos, porque a meiga acceitaçllo 
de tSo leaes vontades nSo ofFende o acatamento A regia so- 
berania, e, assim escusará imposiçÍjeB, que os officiaes da 
sua casa procurarão pur sobro as entradas d'ella; que só 
exigia dos pobres o (jue elles quizerem, e dos ricos menos 
do que puderem, emquanto o património real, e os bens da 
coroa, e da casa de Bragança, com seus erários e depósitos 
bastarem para a fomentaçSlo da guerra, porque tudo isto se 
ha de gastar primeiro que o dos particulares; que, se al- 
guns ministros pretenderem, a titulo de lealdade e zelo, im- 
por tributos e fintas, se pode presumir que é intelligenciade 
inimigos para cora a violência da cobrança dividir os âni- 
mos, que se achara tâo conformes na feliz restaiiraçíío da 
oorôa portugueza; que, se nâo bastar o donativo voluntá- 
rio, patenteio a necessidade aos seus vassallos, e fie de 
quem lhe restituiu o throno que lh*o saberá conservar, 
porque maior difficuldade se venceu na sua venturosa 
acclaraaçâo, do que se vencerá na resistência aos contrá- 
rios; que 08 castellos se reedifiquem por conta dos alcai- 
des-móres, conforme a ordenação do reino, e nílo pela fa- 
zenda real, poÍ8 n3o tem d'onde sem prcjuizo doa pobres. 
Diz que ha poucas armas, porém que essa falta já estará 
remediada, porque na officiaes do reino nito devem fazer 
outra coisa sen3o trabalhar no seu fabrico^ e os mercado- 
res devem ser obrigados a trazel-as de fora com os seus 
interesses; e que, se nílo houver dinheiro se lhes satis- 
faça em prcstaç(5cs. Lembra a el-rei que arme seu exer- 
cito, com o que díu*á que recciar e nSlo que cubicar ao ini- 
migo, porque, tendo-o luzido e desarmado, lhe despertará 
o animo com o interesse; que cumpre manter as frontei- 
ras de Hespanha só com gente paga, porque as continuas 
vigilias e rebates, e a promptidSo que a guerra requer, 

82 



K< I. D. O. — T. I. 



498 

nSo consentirão que os pobres traballiem em seus oflScios, 
com o que padecerão grandes necessidades; que as proveja 
de infanteria, para os logares, e de cavalloB, para a segu- 
rança dos campos, visto que, sem elles, n£o se conservarão 
08 logares dois annos ; c que faça muita mercê aos que ser- 
virem a cavallo nas fronteiras á sua custa, por ser posto 
muito arriscado ^ 



IX 



Vendo augmontar-se, cada vez mais, o perigo, o infante 
nào se limitava a procurar o auxilio dos extranhos ; tentava 
egualmente, por si mesmo, vencel-o. Já nol-o disse Na- 
varro. Ignoramos, porém, se a representação de que elle 
fala na carta ao conde^duque, oomo apresentada ao impe- 
rador, em nome de D. Duarte, pelo conde Slich, é a mesma 
qu© D. Duarte incumbiu então, ou proximamente, ao pa- 
dre Sinabel. Nas instrucçõcs que deu a este recommenda- 
Ihe o infante, que, apenas cliegue a Viemia, peça audiên- 
cia a sua magestade cesárea, e, em seu nome, Ibe exponha 
o seguinte : Que deixou Portugal unicamente com o intuito 
de o servir, o que fez durante sete annos; que, sabida a 
revolução portugueza, nSo se recolheu a logar seguro, como 
poderia, antes se deixou ficar sob a protecção de sua ma- 
gestade; que, sendo preso, lhe prometteu sua magestado, 
por varias maneiras, nao o entregar a outrem; que lhe 
constava queria proceder de modo contrario, o que nSo 
merecia a sua innocencia, nem era de esperar de sua ma- 



1 ÁTch. Nac. da Toire do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo i B, pag 
609. Ms8. 




499 

gestade, depois de ter empenhado a sua palavra; que, ainda 
que fosse seu inimigo, sua magestade o devia proteger, 
quanto mais tendo-o servido tanto; que d'aqai nSo resul- 
tava bom algum á questão de Portugal, antes, se augmen- 
tava o incêndio com semelhante procedimento; que sua ma- 
gestade nSlo devia ser parte na causa em que talvez ainda 
fosse arbitro, com grande utilidade para toda a casa d*Au8- 
tria, e para si ; que, tendo-o sob o seu domínio, o poderia 
entregar, quando fosse da sua vontade, ao passo que, en- 
tregue, nâo o poderia conservar n*olíe; que, se era para a 
recuperação do roino, o seu auxilio seria melhor do que ou- 
tro qualquer, e, se não era, o que nâo acreditava, nSo ha- 
via conveniência alguma em o tratar d'e3te modo, mas sim 
em ser bem tratado, principalmente nXo se offerecendo pre* 
texto, que, sem offensa da coroa, obrigasse sua mageatade 
a largal-o das suas mâoa ; que n2o recusava ficar preso sob 
o poder de sua magestade; que renunciava qualquer via 
de liberdade, se de sua magestade nSo viesse directamente ; 
e que, por estas raz3es, pelo bem publico, e pelo da casa 
d'Austria, o devia consei-var como estava*. 

Sinabel ha de ser o jesuíta, de quem o infante diz a Duarte 
Nunes da Costa, participando-lhe a sua venda aos hespa- 
nhoes, que foi a Vienna, e lançou em rosto ao imperador, 
com feias cores, a sua vergonhosa acção, pondo-lh'a a cargo 
da consciência. António de Sousa de Macedo assevera-o cla- 
ramente, na Lusitânia Uherata^ pelos seguintes termos : «Um 
entre os outros (jesuítas) Seriahel, ardendo no zelo da jus- 
tiça, compareceu ante o rei de Hiingria, e, ante'elle, attestou 
Deus, pela sua ofifensa, attestou os homens, pelo seu escân- 
dalo, attestou a Alleraanha, pela sua quebrada liberdade.» 
António Moniz de Carvalho, na Innocentis et Uhcri principie 
vendltioj refere o facto, e pelas mesmas palavras. Birago 
não o relata, e só allude a elle, na carta de seis de agosto 



l Bib. de Évora, Mae. lOtí, 2, 9, foi. 102. 



32* 



&00 



de quarenta e doiSj que traz na sua obra, como escripta pelo 
infante a um ministro do imperador, indo já em caminho 
para Míluo, carta cuja procedência em breve analisaremos. 
Também nâo Mstoría oa serviços e assistência dos mem- 
bros da companhia, que o próprio infante confessa, e a que 
se mostra agradecido. Talvez para alguém esta oraissiio »e 
explicasse pelo antagonismo, tantas vezes manifesto, entre 
08 jesuítas e a ordem de S, Domingos, a que pertencia o 
verdadeiro auctor da Storia dí Portogcdlo, Fr. Ferníoido de 
la Houe. Não nos atrevemos A afirmativa, posto nos pareça 
impoasivcl que, por descuido ou ignorância, se commettesae 
esta falta. 

Movcr-uos-hia alguma duvida, quanto á data das instruc- 
çSes a Sinabel, allegar o infante que o seu braço e a soa 
influencia poderiam ser empregados em vencer a revolução 
de Portugal j mas isto nâo é razão aufficicnte para recuar 
a mesma data até á epocha em que, mal informado dos 
successos, elle julgava um bem, pai-a a pátria e para o ir- 
mão, reduzir as coisas ao antigo estado, como acontece 
acerca dos outros offerecimentos que fez em egual senti- 
do, logo depois de preso em Ratisbona. Estes offerecimen- 
tos, que, ao principio, resultaram do seu falso modo do 
pensar, originado da ignorância, e da triste situação em que 
se via, continuou a repeíil-os depois, como repetiu varias 
vezes as mostras da sua fidelidade ao governo de Filippe 
IV, nâo por convicçSlo, mas por conveniência, embora lhe 
repugnasse profundamente, para o que havia um motivo 
muito grandej afora outros: não se desdizer do procedi- 
mento anterior, levantando contra si graviasimas suspeitas. 

A esta enviatura juntou ainda o infante outra diligencia, 
mais cUicaz e valiosa, para ficar no império : offereceu a um 
doa ministros allemâos, se o conseguisse, trezentos mil flo- 
rins*. Mas tudo foi baldado. 

1 Bib. de Madrid, Msa., Códice H, 74, Carta de Navarro ao conde- 
duque ... de 26 de agosto de 1642. 




501 



X 



Emquaato se preparavam estes meios tardios e pouco se- 
guros de livrar o infante, ou de, ao menos, o reter em Al- 
lemanha, o marquez d© Castello-Rodrigo caminhava a pas- 
sos firmes no caminho que encettira para a sua perdição, 
eIo poupando expediente [algum, por bárbaro que fosse. 
As suspeitas de ser connivente D. Duarte na restauração 
de Portugal apoderarara-se do seu espirito, e offereciamdhe 
pretexto para o perseguir, e ás pessoas que, mais ou menos 
proximamente, estavam em relaçSo com elle. A um pobre 
.homem, ou creado seu, ou seu affeiçoado apenas, roas cuja 
profissSo era ou tinha sido dentista (o seu barbeiro talvez, 
o que vimos levara do reino em trinta e oito), lançou-o 
n'uma prisSo escura, evidentemente para obter revelações 
que compromettessera o príncipe portuguez. Da prisílo con- 
duziram~o para casa do algoz, onde ainda se achava nos fins 
de julho, pouco depois da partida do infante para Milão. 
Atormentaram-o duas vezes, com tamanha barbaridade, que 
ficou aleijado de ambas as mSos, a ponto de as não poder 
levar á bocca; e para lhe arrancarem a confissão que de- 
sejavam, prometteram deixar-lhe a vida e recompensal-o, 
se dissesse quanto sabia, no que e!le condescendeu, vencido 
naturalmente dos tratos c do medo, promptificando-se a fa- 
zel-o ao confessor da imperatriz, o padre Quiroga, um doa 
mais desalmados perseguidores do infante, como vimos *. O 
marquez de Castello-Rodrigo, em officio de dezeseis de ju- 

í Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B., 
pag. 62T, Carta (de D. Dâmaso?) a Duarte Nunes da Costa, de 24 
de julho de 1642. Mas. 



502 



lho de quarenta e dois, ao seu governo, fala n'uin velho 
que mandara prender por causa de D. Duarte, e que ainda 
não fora posto a tormento; e n'outro, de dez de setembro, 
dá OB signaes do mesmo vellio, que a esse tempo já tinha 
sido desterrado doa domínios de ambas as magestades, ce- 
sárea e catholiea, para que o conhecessem, e devidamento 
ee castigasse, no caso de voltar a elles*. Seria o mesmo j 
dentista, ou barbeiro, ou seria outro? 

Taea perseguições amedrontavam os amigos do infante, 
mesmo os que, pelo seu caracter ou posição, se criam 
mais a coberto de experimental-as, e, entre elles, um re- 
hgioso que entrava nos seus negócios, e muito o estima- 
va. Já a elle nos referimos, ao historiar a missão de Fr. 
Fernando de Ia Houe, como sendo D. Dâmaso Cardoso. 
Correapondia-ae com D. JoSo IV e com Duarte Nunes da 
Costa, de quem recebia dinheiros, que empregava no ser- 
viço do infante. Depois da prisSo d' este, foi eleito procura- 
dor geral da sua província em Roma, porém, querendo 
ficar em Allemanha, o ajudal-o, apenas teve noticia da , 
eleiçSo, apressou-se a renunciar o cargo, chegando, levado 
da mesma causa, a pedir por mercê ao geral da ordem, 
quando alli esteve, que nâo contasse com elle para coisa 
nenhuma, que o obrigasse a sahir d'onde se acbava, fi- 
neza que D. Duarte agradeceu muito, rogando-lhe, por 
amor de Deus, que o não abandonasse. Este religioso, ape- 
Bar da qualidade da sua pessoa, julgava-sc pouco seguro, 
em Allemanha, e com fimdamento, vendo praticar tantas 
crueldades ao imperador, movido pelas machinaçues do mar- 
quez de Castello-Rodrigo j e, por isso, desejava partir do 
império e livrar-se da presença de tão duros e odiados ini- 
mgoa*. 

í Arch. de Simancas, Maço 2343, foi. 5 e 43, Consultas do Conselho 
de Estado, feita» em Madrid, a 18 de novembro e 11 de dezembro de 
1642. MfiB. 

* Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, tom. 4 B, pag. 



503 



ÍT5o se esquecia pois o marquez de Castello-Rodrigo da 
sua pobro victima, porém, as suas diligencias principaes 
consistiam em fazel-o deixar Allemanha. Já pelo mez de 
dezembro de quarenta e um, tratava de dispor a sua mu- 
dança para os estados de Filíppe IV, escrevendo para isso 
ao duque de Medina de las Torres^ e ao conde de la Roca*. 
Em fevereiro do anno seguinte, continuava no mesmo in- 
tento, e a ida de Navarro para Gratz níío lhe foi indiffe- 
rente*. EntSo, ou pouco depois, de ordem do governo hes- 
panhol, que IJie transmittira o marquez, o conde de Si- 
mela, governador e capitUo general de Mílílo, escrevia ao 
conde Francisco Casate, ministro de Hespanha no paiz dos 
grisíSes, para negociar com elles a passagem do infante 
por alli, debaixo de toda a segurança, e a faculdade de 
estar nos logares, onde se precisasse fazer alto, uma com- 
panhia de cavallos de guarda. Concedida a passagem, o 
conde de Siruela nSo se contentou com isso, e mandou, de 
propósito» uma pessoa para assental-a com todas as cau- 
telas, de modo que ninguém se atrevesse a favorecer a 
liberdade do preso, e até lembrou, como mais convenien- 
te, que elle fosse escoltado por mil cavallos, que haviam 
de transitar pelo estado de MilSo, e que tinha promptos o 
marquez de Medina de las Torres* mas porque a arcliidu- 
queza Claudia talvez nSo quizesse permittir o transito d'e8ta 
gente polo Tyrol, escreveu ao marquez de Castello-Rodri- 
go, que a ordem de sua magestade catholica presuppunha 
enviar o imperador a D, Duarte até Inspinick, e, no caso 
de negar a archiduqueza o passo aos mil cavallos, que o 
daria ao menos para uma boa escolta, que o acompanhasse 



621, Carta de (D, Dâmaso?) a Duarte Nunes da Co8ta,de 24 de ju- 
lho de 1642. Mes. 

1 Arch. de SimancaB, Maço 2343, foi. 19, OouBuIta do ConaelLo de 
Estado de 5 de abril de 1642. Mbb. 

' Bib. de Madrid, Msb., Codiee H, 74, Carta de Navarro ao coude- 
duque, de 26 de agOBto de 1642. Msb. 



504 

pelo sea estado, até ao primeiro logar dos grisSes, d'onde 
seria fácil conduzil-o a Milão. Estas diligencias approvou 
o governo de Madrid, recommendando ao marquez que, a 
nâo ser com toda a segurança, nâo se transferisse o preso, 
pelo damno que resultaria da sua fugida*. 

N' estes e n'outros preparativos se foi gastando o tempo, 
assim como em desfazer as negociações do infante contra 
a snft entrega, e a opposiçSo de muitas pessoas, no impé- 
rio, a um acto tâo vergonlioso, opposiçSo em que se tor- 
naram salientes os membros da companhia de Jesus, cujo 
empenho para estorval-o, ou sequer retardal-o, se tomou 
digno de memoria*. Nâo houve porém forças que demo- 
vessem Fernando III. Faltou-lhe constância para defender 
o innocente, confiado na sua palavra e protecção; mas» te- 
ve-a, ate ao fim, para permanecer fiel no crime e no per- 
júrio. O marquez de Caatclio-Rodrigo conseguiu afinal os 
seus desejos! 

líSo era menos zeloso, do que os ministros de Hcspa- 
nha, o doutor Navarro em guardar o infante na cidade de 
Gratz, onde já vimos como poorou a sua situação. Aqui 
rehovam-se as exaggeraçi5es de que atraz falámos. D'e8ta 
vez, é António de Sousa de Macedo, na Lusitânia liherata, 
que se encarrega de transtornar os factos já de si bas- 
tantemente feios e censuráveis. E de quo maneira? Di- 
zendo quo o infante, logo depois de vendido, o levaram 
preso com cadeias pai'a casa de Navarro, sendo entreguo 
á mulher d'elle, que oxalá fosse como a de Pilatos, e su- 
jeitando-© ás grosserias de seua creados, que tinham ordem 
para o insultar, quando os chamasse. O auctor da LuaUania 



1 Âreh. de Simancas^ Maço 235G, Ciirta do conde de Struela & Fí- 
lippe IV, de 19 de abril de 1642, e Consulta do Conselho de Estado 
Hobre ella, de 12 de aetembro de 1G42. Msa. 

2 Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, tom. 4 B., pag. 
609, Carta do infante a Duarte Nunes da Costa, de 10 de julho de 
1642. Mes. 



505 

lihtraia chega até a fazer, n*esta obra, uma espécie de pa- 
rallelo do nosso personagem com Christo, seguindo os pas- 
sos da sua paixão, aB perseguições, a venda, etc., e o ponto 
que citjitnos obedece a esse plano. O meamo parallelo faz, 
em parte, Birago, referindo-se também a este tempo. Pro- 
vemol-o com as suas palavras: «De tal maneira enganado, 
o infanfc! jazia na sua prisão, na qual consolando-se com o 
exemplo de Cbristo, Nosso Senhor, procurava alliviar os 
seus soffrimentos, considerando que em muitas cnisae se 
dignava sua Divina Magcstade querel-o por seu imitador: pa- 
decia innocentemente j erravam todos os seus; fura vendido, 
senào por trinta dinheiros, ao menos por trinta mil de con- 
tado, que têem analogia com os trinta; recebia dos minis* 
tros da justiça e da vil canalha injurias e offensas grandís- 
simas» . 

A verdade, porém, é que o infante sahiu directamente 
lo castello de Gratz para Mil3ío, e que Navarro assistiu 
•io mesmo castello, ou na cidade, para assegurar a sua 
guarda, desde fevereiro, em quo chegou, até á hora da 
partida'. É mais uma das falsidades que, então e depois, 
se commetteram, para excitar maior piedade a favor do 
infante, e a que talvez mesmo elle niio fosse ás vezes 
alheio, como se parece colher, entre outros logares, da sua 
carta ao bispo de Lamego, de doze de março d*este anno, 
onde oa rigores que sofFria sâo engrandecidos, ou pelo ex- 
cesso da paixão, ou para se tornar mais credor de hvstima. 
Que Navarro estreitou a sua prisSo, © foi mandado para 
Gratz com o fim de vigial-a, n'Í3so concordam os documentos ; 
e ii crivei; mas que tratíissem o infante, na cidade styria, 
peor do que os que viviam no fundo das masmorras dos 
turcos, segimdo este diz n*aquella carta, suppomol-o insus- 
tentável, e um requinte de barbaridade inútil. O que as- 



1 Bib. de Madrid, Mas., Codico H, 74, Carta de Xavarro ao conde- 
duque, de 26 de agosto de 1G42. 



506 



severa Macedo ó mais do que insustentável, é impoasivel, 
é ridículo, NavarrOj querendo guardar melhor D. Duarte, 
tirava-o do forte castello de Gratz, e punha-o em sua casa, 
hSlo sabemos se unicamente para ter o gosto de o ver insul- 
tar por 8ua mulher e servos! 

Repetimos, o infante não sahiu d'onde eetava; e, tanto 
continuou sob a auctoridade do conde de Atristain, e nlo 
se mudou á de Navarro, embora este velasse pela sua maior 
segurança, que foi o conde quem o entregou ao commis- 
aario do imperador, o barSo de Stubemberg, o qual o con- 
duziu, como veremos, ató aos limites do império. O go- 
verno de Vienna é que representou, pelo menos ostensiva- 
mente, o primeiro papel, na prisão e perseguição do in- 
fante, emquanto residiu em Állemanha, posto saibamos 
perfeitamente que os bespanhoes dominavam, de um modo 
quasi absoluto, na corte de Fernando Hl, e que sempre 
o vigiaram muito de perto, influindo poderosamente nas 
medidas tomadas contra elle. NSo encobrimos que Bi- 
rago escreve: «pelo que, desonerado da sua guarda o go- 
vernador de Gratz, foi confiado ao doutor Navarro»; mas 
aqui, como em outros pontos, julgamos que alterou os fa- 
ctos com o mesmo intuito de Macedo. Birago attribue 
ainda a culpa de tudo quanto padecia D. Duarte ao con- 
fessor da imperatriz, o padre Quiroga, o que era opiniSo 
corrente entre os mesmos bespanhoes, diz elle,* posto n&o 
se soubesse explicar essa animosidade ao príncipe portu- 
guez, a nfio ser por nffo o adorar, como faziam os outros. 
Faltam motivos para negar a parte de Quiroga nas desgra- 
ças do infante ; nao o carregamos, entretanto, com a respon- 
sabilidade de todas, nem outro qualquer dos seus perse- 
guidores, porque, se nas providencias contra elle podiam 
mostrar-se mais ou menos rigorosos, é necessário advertir 
que, na maioria dos casos, essas ordens não provinham da 
sua iniciativa, mas sim do governo de Madrid. 

O infante era um preso da masdma importância, e cmn» 





pria guardal-o com toda a precaução. A sua influencia pes- 
soal, a dos seus amigos e partidários, a do rei seu irmSo, 
a dos alijados de Portugal, os vários meios que a seu fa- 
vor ae poriam em pratica, o desejo que havia de libertal-o, 
do que já se tinham dado algumas demonstrações, a cholera 
de Hespanha contra a casa de Bragança, que lhe tirara mn 
reino tamanho e tSío valioso, e o ódio que o conde-duque 
votara à dita casa, e, em particular, ao preso, tudo iato, 
afora o interesse de alguém, eram outras tantas razões para 
que Navarro, e as pessoas encarregadas da sua custodia 
ae nSo descuidassem de velar com a maior solicitude por 
tSo precioso thesoiro, nâo falando nas recommendaçoes da 
corte de Madrid, que, já de si, eram aufficicntes. Domais, 
para atormentar um homem de alma tSo delicada, como 
D. Duarte, bastavam, além doa males provenientes da 
Bua qualidade de preso, as precauções e desconfianças de 
que se via alvo, as sentinellaa que o vigiavam, a estrei- 
teza do cárcere, as suspeitas concebidas a seu respeito, 
OB testemunhos que lhe levantavam, as palavras contra a 
aeu paiz, o o que era, ou elle julgava, desconsideração, 
principiando pela escolha de Navarro, pessoa, a seu ver, 
de baixa esphera para guardal-o. N'isto consistiam, acre- 
ditamos, muitos dos seus verdadeiros tormentos e as suas 
cadeias. 

Uma d'essas providencias, que faziam brotar os maio- 
res queixumes da alma ão infante, foi a que se deu, mes- 
mo quasi nas vésperas de partir para Milão. Acreditou 
ííavarro que havia, entre os seus familiares, quem lhe 
servisse para algumas correspondências, e, como remédio 
apropriado, ordenou que o padre Taifol, jesuita, seu con- 
fessor, não o acompanhaase; que Arthur Peres, um dos 
seus creados, que era cavalleiro e queria ir servir no exer- 
cito, sahisse de Grratz; e que João Paulo Seraphim, natu- 
ral, conforme se cria, de Nuremberg, seu secretario, fi- 
casse detido no castello, durante três semanas, depois da 




partida*. Imagine-se qual a sensação produzida por tXo 
ásperas determinações no infante, e quaes as suas queixas^ 
Tcndo-ee privado do consolo espiritual, em que tanto se 
aprazia e retemperava na desdita, e de dois servos, um 
d'elles tâo intimo! 

Vencida a batalha, o marquez de Castello -Rodrigo, tendo 
arranjado com diíBculdade, por causa das urgências da fa- 
zenda, os dezcseis mil tlialers, que sua magestade catbolica 
destinara á viagem do infante, determinou a Navarro que 
fizesse uma relação de quanto era necessário para ella se 
executar seguramente, e enviou-lhe o que pedira, assim 
como instrucçoes da maneira porque havia de proceder, 
pois a Navarro se incumbira acompanhar sua alteza. Che- 
gou tudo, e cgiialmcnte as competentes ordens de sua ma- 
gestade cesárea, a Gratz, a dez de julho. 

Navarro emtanto n2o se descuidava nem perdia tempo. 
Requisitou da Croácia a gente que devia escoltar D. Duarte, 
e o conde de Warcemburgo, vice-rei d'aquelle paiz, for- 
neceu-lhe uma companhia de cavalloa, e vinte e cinco in- 
fantes, que, juntamente com os quinze, que se destacaram do 
castello de Gratz, perfizeram o numero de quarenta, deter- 
minado por sua magestade. Pediu, outrosim, que se lhe en- 
viasse um commissario imperial, para que nos paizes he- 
reditários obtivesse todo o auxilio preciso, e se 
gasae da cuatodia de D. Duarte. O imperador nomeou, 
para tal fim, ao barSo de Stubemberg, cavalheiro da Sly- 
ria, e o mais rico d'e8ta província*. 



i 



* Bib. de Madrid, Mas., Códice H, 74, Carta de Navarro ao eonde- 
duque de 26 de agosto de 1642. 

' ArcTi. de SimtmcaB, Maço 2343, foi. 5, Consulta do Conselho de 
Eatatio feita cm Maiirid a 18 de novembro dn 1642. Msa. 

Bib. de Madrid., Mss., Códice H, 74, Carta de Navarro ao conde- 
duque de 26 de agosto de 1642. 



509 



XI 



Conhecedor o infeliz príncipe da quebra de palavra de 
Fernando III, e de que, em breve, sería levado a Itália, 
escreveu, aíflicto e consternado, em dez de julho, ao seu 
correspodente, Duarte Nunes da Costa, participando-lbe a 
triste noticia, e pedindo-Ihe protecção. 

«Esta servirá, dizia elle, para advertir de como o impe- 
rador vendeu ao príncipe de Bragança aos castelhanos, 
poi' quarenta mil tbalers, e logo o embaixador deu trinta 
mO. Partirá para IVIillo a quinze d' este, e o levam com 
um tratamento, como costumam fazer aos salteadores do 
caminbos e facinorosos ladroes ; e as estatuas de D. Fran- 
cisco de Mello e embaixador se olvidam de queimar em 
Portugal ! 

«O imperador níío quiz ouvir razào alguma, nem deixar 
80 fizesse justiça. Todo o império vè isto muito mal, e é 
a coisa mais infame e injusta que jamais se fez no mundo; 
e aasim convém fazel-o publicar, e que em Portugal se faça 
um manisfesto em latim, e que se bote por todo o mimdo, 
e que corra por toda Allemanha, para que se veja que tal 
caso se não tem visto no mundo. Os padres da compa- 
nhia fizeram infinito entreter isto d' esto príncipe, e com 
muita liberdade dissenim o que havia, e se oppuzeram aoa 
embaixadores, e n3o deixaram este príncipe até á ultima 
hora ; e peço a um o escreva assim a meu pae (quer dizer 
irm^Lo), para que muito lh'o agradeça, porque se lhe tem mui- 
ta obrigação; e de tudo avisae aos embaixadores; e ad- 
virto que me nào escrevaes até ter aviso; e as cartas que 
vêem de Vienna trazem cruel perigo. 




aOs livros das cidades espero sempre, e que os encami- 
nhem a qualquer parte d^onde estiver, escrevendo a alguma 
pessoa que os entregue ; e muito estimara uma ou duas pe- 
dras bazaa-es commigOj por amor do veneno. E ad\Trto a 
vossa mercê nlo querem que d'aqui a deante tome mais 
dinlieiro; e não sei como hei de viver; e tudo é bom avi- 
sar por toda a parte; e, se vossa mercê me poder mandar 
alguma coisa de unicórnio, eatimal-o-hei muito; e já sabe 
que tudo se visita. A toda a casa mando muitos recados; 
e vossa mercê me lembre muito a el-rei* A dez de julho. 
a O reverendo n3o está preso, e foi engano (talvez o re- 
ligioso a que ha pouco nos referimos, julgando ser D. Da- 
m.a80 Cardoso); e adverti a el-rei que os inimigos sâo avi- 
sados de muitos particulares, e que D. Francisco de Mello, 
e embaixador, sâo infames inimigos r *. 

Quatro dias depois D. Duarte, julgando-se na véspera 
da partida, dirigia ao mesmo a seguinte carta: 

«Esta serve para vos avisar como este tyranno me entre- 
gou a Hespanha, c me vendeu, e amanha me levam para Mi- 
lão, com cera soldados de guarda. Um padre da Companhia 
(Sinabel, naturalmente) foi a Vienna pela posta, e falou ter- 
rivelmente ao imperador, e lh'o pôz em consciência, e fez o 
que se nâo pode crer; mas nada montou; e teve grandes da- 
res e tomares com os embaixadores; e será bom avisar a Por- 
tugíil^ para que o agradeçam lá aos padres. Tiraram-rae o 
confessor e creados, e nRo sei como hei de viver; e d'aqui até 
lá dizem que serei bem tratado. Avisae a Portugal como de 
lá avisaram a Caatella, que Francisco Taquet vinha aqui; 
e se fizeram grandes diligencias; e lá nâo ha segredo ne- 
nhum; e, se averiguarem pessoa que veia aqui, pode-me 
custar a vida ; e o melhor ó que me nHo escrevam, pelo pe- 
rigo em que me p5em; e chegam a dizer que me hSo de 



1 Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B, 
pag. 609. Mire. 





I 
I 



I 



dar tratos por isto, e fal-o-hSo; a adverti iato com grande 
cautela; e dizei que 8e lembrem de mim, e aqui que tanto 
me desampararam, e se descuidaram de mim, o que eu lhes 
nâo merecia. 

«Eu buscarei caminiio de vos escrever, e nSo me escre- 
vais até vos avisar. Eu não sei como bei de viver, pois nâo 
posso tomar mais dinheiro. Os livros encamínbae lá, sem 
pordes o titulo de infante, porque me matam com isso; e 
vede que tal estarei em poder de taes inimigos. A toda 
vossa casa dae muitos recados. Deus vos guarde, e me dê 
tempo para vos pagar tantas obrigações. A quatorze de 
julho. 

«Avisae tudo aos embaixadores. 
l^«Tomo a abrir esta para vos dizer como me avisaram 
que ha ordem do imperador, pai'a, se me qidzerem tirar no 
caminho, que os que me levam me matem, e vou com bem 
grande perigo da vida, e alfira me matarão d. Aqui estam 
umas palavras inintelligiveis, d' onde se parece dcprebcnder 
temia que o obrigassem a escrever alguma coisa a el-rei, 
e adverte, para prevenll-o, que, se a carta levasse duas 
cruzes em cima, nào a acreditassem, ainda que fosse sua 
lettra. 

«Deram licença que, d'aqui a algum tempo, possa ter o 
meu confessor; e as palavras sâo como as obras; c as in- 
fauiias que dizem d'el-rci o de todo o Portugal não s2o 
para escrever; e o imperador, com dizer publicamente que 
ninguém o serviu melhor que eu, me vendeu e tratou como 
se vê, aem me dar uma boa palavra; e Portugal tem muita 
obrígaç2o a toda Allemanha que fez muito por mim ; mas 
o imperador e seus ministros sXo inimigos da liberdade do 
império, porque todos tiram ao dinheiro da Hespanlia, que 
o deseja metter em captiveiro da casa d* Áustria, e des- 
truir a todos os príncipes e cidades livres; e tudo, assim 
como digo, avisae a todos os embaixadores, e a França, 
HoUanda, Sueda, e & Portugal; e é bom fazer um mani- 




512 

festo, queixando-se a todo o império e príncipes do mundo; 
e seja em latim ; e dizer como fui preso na dieta, com tanto 
prejuízo do império a que servia» •• 

No mesmo dia participou a Duarte Nunes da Costa que 
tomara ires mil florins para pagar as auas dividas, e que 
era o ultimo dinheiro que lhe consentiam recebesse*. 

Estas cartas, eacriptas á pressa e incorrecta», s^o mais 
eloquentes do que as mais eloquentes palavras. Como nos 
passam rápidos por dcante do espirito os sentimentos que 
dilaceravam o desgraçado príncipe! Como o exacerba a 
cholera! Como o offcnde a ingratidSo! Como se commoves 
com 08 serviços que lhe prestaram! Como se queixa bran- 
damente e quasi a medo da patría, que elle julgava es- 
quecel-o! Como se afflige na sua piedade, ao ver-se prí- 
Tado do confessor que estimava! Como se sente desampa- 
rado por lho tirarem os creados! Emfim, como dos desa- 
bafos c queixumes passa a segurar-se ainda a uma espe- 
rança, e roga aos embaixadores que protestem do que se 
praticiíra com elle! Mas receia ao mesmo tempo que vá 
alguém do reino para se interessar pela sua liberdade; que 
por isso o torturem; que o matera; e pede que nilo o no- 
meiem infante ; que nao vá lá ninguém ; que não lhe escre- 
vam; que n3o o creiam, porque podem obrigal-o a dizer o 
que não deseja! Considerae se ha quadro mais lastimável 
do que este! 



1 Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo -í B, 
pag. i}10. Mes. 
» Id., pag. 609. Mas. 



Õ13 



XII 



Chogou íinalmeDte o dia dezesete de julho destinado á 
partida, que o infante esperava fosse a quinze, e tudo se 
aprestou para a viagem. Amanheceu e conservou-se escum 
esse diii, como 'se vestisse lucto pela sua triste sorte; e n 
chuva cahiu em torrentes; mas, nâo obstante, a multidão 
era tSo densa que difficílraente se conseguia atravessal-a. 
l^Iovidos de compaixão, pela desventiura de tSo grande prín- 
cipe, ou levados pelo conliecimento ou fama das suas boa» 
qualidades e maneiras, todos os habitantes da cidade, fidal- 
gos e plebeus, correram a vSl-o, e deram-lhe inequívocos 
signaes de sympathia. Birago, e com elle a Htsíorta ge- 
nealógica, nan';im que o infante, confiado nos juramentos 
mais solemnes feitos por Navarro, acreditava nSo ir para 
Milão, e que só no fim o soube com certeza, quando na 
occasiSo da partida, lhe entrou na prisSo o secretario da 
imperatriz, com a gente armada, para o conduzir ao sou 
destino. Contra esta opiniUo protesta o próprio infante na 
sua cxjrta datad.'» ii dez de julho, sete dias antes de partir, 
pois d'olla se conclue que sabia para onde o intentavam le- 
var, e na de quatorze do mesmo mez, na qual até especifica 
o numero de soldados que o acomp anilariam. 

Contam os mesmos auctores que o infante, ao entrar Na- 
varro na prisão com os guardas, exclamara: «Seja louvado 
o Senhor! Exierunt cum gladiis et fustibus^ tanquam ad la- 
tronem» ; o que é uma variante do dito de Christo aos snl- 

83 



H. I. D. ti. — T. I. 



5<4 

.dados que o prenderam: «Quasi ad latronem, existis cum 
gladiis ot fustibusp K Foram reae3 estas palavras, ou apre- 
sentam-nos somente um novo traço do parallelo do infante 
com o Divino Mestre? Se é uma invenção, cumpre confes- 
sar que o nào parece, pois, como o duque D. Theodosio, 
seu pae, ellc, ou escrevendo, ou falando, gostava de apoiar 
as idéaa com textos da escriptura sagrada, que lia muito, 
e já d'Í8S0 notilmoa alguns exemplos. 

O préstito ia na ordem seguinte. Primeiro, alguns bate- 
dores, com os forrieis e os carros, para descobrirem o ca- 
minlio, devendo, no caso de se encontrar novidade, tomar 
atraz um d'aquellGS a annuncial-a. Esta primeira parte da 
comitiva sahiu com meia hora de antecipação. Passada ella, 
seguiram-se-lhe vinte e cinco cavallos; lo^o, o infante em 
liteira, cercado de quarenta mosqueteiros, gente escolhida, 
com os morròes accesos; depois o barão de Stubemberg, 
o capitão Valderabano e NavaiTO, todoa montados, estes 
dois atraz do barão; depois um coche, para quando o in- 
fante quizesse servir-se delle; o capitão com o rosto da 
companhia; e os creados em dois carros á moda do paiz, 
desarmados, e com quatro soldados de guarda. 

Nâo aponta Navarro, na relação dirigida ao conde-du- 
quc, acerca da viagem do infante, do que vamos extra- 
ctando o principal d' esta narrativa, qual o numero de 
soldados que o escoltavam; mas o infante, na sua carta 
de quatorze de julho, três dias antes da partida, que já 
transcrevemos, esperava fossem cem, e Huet, nas suas 
noticias, confirma o numero, especificando que cincoenta 
eram de pé, e cincoenta de cavallo. O mesmo disse a Fer- 
nando Brandão, em Roma, um dos creados de D. Duarte 
que ia com elle^. Entre os creados contavamse Luiz Pe- 



1 Evangelho de S. Luca«, Cap. xm, vereiciilo 52. 
*Bib.Nac.,Ms8., O, 5, 1£), Carta àe Fernando Brandão ao conde da 
Vidigueira, de 7 de setembro de 1642. 



515 



rcira da Costa ou de Sampaio, um chamado Martinho, e 
um camareiro ou pagem allemlo, cuja mâe parece qu« era 
de Hamhurgo, e a que o infante cingira a espada, havia seis 
mezes, o qual o acompanhou, posto eeu bondoso amo o 
dispensasse de servil-o, conferindo -lhe um atteatado muito 
honroso, conforme elle merecia. Este creado chamava-ae 
Henrique Peres de Magdeburgo; despedi u-o o infante do 
caminho, dando-lhe um vestido seu, rico, e um seu retrato, 
e encaminhou-o a Luiz Ramiro, em Veneza, para este o 
fazer passar d'ahi a Portugal; mas faltando commodidade 
de o embarcar cm Veneza, mandou-o Luiz Ramiro a Roma, 
onde esteve com Fernando Brandão, e d' onde e provável 
Beguisse viagem para o reino, pois levava intuito de entrai 
ao serviço de D. João IV. Segundo o testemunho d'este 
creado, que é do maior valor, iam também com D. Duarte, 
além do pagem Luiz Pereira de Sampaio, e d'elle, João 
Pau, Manuel da Costa, camareiro, o Jo!ío Gonçalves. O seu 
aecretario (João Paulo Seraphim) despediu-o também o in- 
fante por lhe ter Navarro prohibido partir para Slililo, como 
escrevemos. 

Percaclío, que levara ao infante um aviso do religioso 
seu amigo, ultimamente citado, poz-se em logar onde o des- 
cobrisse na passagem, e, ao descobril-o, arrasaram-se-lhe 
08 olhos dc lagrimas. Este Percacho fora companheiro de 
Fr. Fernando de la Houe; fora visto diversas vezes pelo 
secretario do infante com Luiz Pereira de Sampaio, quando 
todos 08 seus creados podiam sahir do castello de Gratz; 
e por isso, temendo o infante que o prejudicasse, por o 
mesmo secretario ficar retido n'csta cidade para averigua- 
ç5es, entregou-lhe um escripto em cifra, com trea linhaa 
ómente, no qual rogava ao dito religioso que o }>ersuadÍ88e 
i deixar o pcaiz, o que este executou, pois em breve partiu 
Percacho com dinheiro seu para Gratz, a juntar-ae ao pa- 
gem, se ainda alU estivesse, devendo, no caso contrario, en- 
contral-o em Veneza, onde procurariam embareaçílo para o 

33* 



516 



reino *. O pagem seria o de que ha pouco falámos: Henririae 
Peres de Magdeburgo. 

O itinerário do infante descripto por Navarro em pouco 
se resume. Por algumas indicíiçÕes, porém, completal-o- 
hemoa, se não verdadeiramente, ao menos com alguma 
verosimilliança, na parto em que a sua rclaçSo nos nilo 
ajuda. 

Saliido D. Duarte de Gratz, seguiria a estrada que se 
alongava para o sul, ao lado esquerdo do Muhr, e que, 
junto á confluência doeste rio com o Kairack-Boden, pas- 
sava á sua direita, próximo de Wiltliau ate Marhburgo, na 
margem direita do Drave, por onde o caminho se dirigia 
para oeste, sempre pela dita margem, e onde se encon- 
travam as povoações chamadas Zetitz e Mantheu. Então, 
deixando o ducado da Styria, pelo qual, até alli, haveria 
caminluido, e entrando no da CarlQthia, continuaria pela 
mesma estrada, vendo Laramund, ou Lavant, Volkenmark, 
e Clagenfurt; e costearia o norte do lago conhecido pelo 
nome de mar de Verlen, ficando-lhe atraz Velden e Villach, 
onde a estrada atravessava o rio para o lado direito, pai'a, 
em breve, tomar ao esquerdo. Aqui, a proximidade do es- 
tado de Veneza infundiu sérios receios, sobretudo pela ra- 
zão muito plausível de se ter publicado a viagem bastante 
tempo antes. Por isso adoptou Navarro algumas precau- 
ções que suppoz mais urgentes, e, entre ellas, guardar os 
alojamentos, em que poisavam, com infanteria e cavallaria, 
e estabelecel-oa, a maior parte das vezes, em logai*es fecha- 
dos. Depois veria o infante Spilhal, Psarniz, Saxemburgo, 
Greifemberg e Draabm*go, onde, terminado o condado de 
Caiínthia, entraria nas terras que eram domínio do bis- 



í Arch. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B, 
piig. 621, Carta de (D. D&maso?) a Duarte Nunes da Costa, de 24 de 
julho de 1»;42, 

Bib. Nac, Mbs., O» 5, 19, Carta de Fernando Brandão ao conde da 
Vid%ueira, de 7 de setembro de 1642. 



517 



pado de Brixen, encontrando logo Lienz, sitnada nSo milito 
distante da nascença do Drave, e Doblack, Braunegen, e 
Brixen. Por estas terras Navarro caminhou também com 
temor e cuidado, como lhe acontecera na Carinthia, visto 
aer o limite do dito bispado ao sul egualmente o território 
de Veneza, do qual o e4iminho pouco distava pelo que 
empregou as mesmas cautelas. EntSo, em vez de tomar 
a estrada que, á direita, conduzia ao Tyrol, e á sua ca- 
pital, Inspruck, proseguiu o comboio para oeste, e pene- 
trou n'este condado por Botzen, Merau, e Vai de VenoslA, 
por onde a archiduqueza Claudia mandara ao baríío Curtz, 
seu conimissarín para acompanhar o infante, que o intro- 
duzisse nos seus estados. Aqui, apartando-se a estrada dos 
domínios de Veneza, diminuirara os medos de Navarro, e 
com elles as providencias. 

Logo nos começos da viagem, o pagem do infante, Luiz 
Pereira de Sampaio cahiu doente, o que o obrigou a vol- 
tar a firatz, onde, depois de estar alguns dias, se restabe- 
leceu. Disse-lhe então o governador, o conde de Atristain, 
que podia ou ir reunir-se a D. Duarte, ou tornar á sua 
terra, conforme lhe aprouvesse. Agradeceu Luiz Pereira 
de Sampaio a liberdade que lhe dava, e, como servo fiel, res- 
pondeu-lhe que nSo sahira do reino de Portugal com o in- 
tento de acompanhar seu amo só nos tempos felizes, mas 
também nos adversos, além de que, fSra deshonra sua dei- 
xal-o em lances tão penosos, nobre resolução, que o condo 
de Atristain elogiou muito, encarecendo como grande fi- 
neza estiir uma pessoa livre, e de própria vontade metter-se 
na prisão por causa de outrem. No dia onze de agosto Luiz 
Pereira de Sampaio projectava partir com o confessor do 
infante, o padre Taifol (o que lhe fora tirado poucos diaa 
antes da viagem) que lhe queriam restituir, do que o in- 
fante jil tinha promessa, a qual nunca se effeltuou. Par- 
tindo n'este dia, Luiz Pereira esperava encontrar seu amo 
ainda em Inspruck, por onde erradamente conjecturava que 



5i8 



elle passaria, pois a comitiva, pelas informaçiHefl que re- 
cebera, marchava com grandes vagares *. 

Com eíFeito houve algmis, e houve até quem attribuisse 
a sua causa a doença do infante. Correu mesmo esse boato, 
e Duarte Nunes da Costa soube-o, e partícipou-o a Gaspar 
Fernandes de Leão, que o communicou ao conde da Vi- 
digueira. Segundo os termos da participação, deprobcnde-sc 
que o pobre príncipe já andava enfermo antes do saliir do 
Gratz, porque &e conta na mesma que os hespanhoes ten- 
tavam diafurçar a sua tyrannia, allegando que os medicoa 
lhe aconselhavam a mudança de ares'. Da carta de "Sar 
varro ao conde-duque não consta coisa alguma a seme- 
lhante respeito. Julgamos, por conseguinte, ou que o boato 
foi falso, ou que, se o infante esteve doente, foi ainda em 
Gratz, ou que, se foi posteriormente, o secretario da impe- 
ratriz, pela sua insignificância, não se fez cargo de noticial-o, 
não diremos por aíFeição, mas ao menos para escusar a tar- 
dança com o valido de Fílippe IV. 

Outra causa da demora aponta-a Navarro, e bem diver- 
sa. Escrevera Navarro a Luiz de Paniza, governador do 
forte hespanhol de Fuentes, que ficava situado mesmo nos 
confins do Milanez, pela parte da Valtelina, avisando-o da 
sua marchíi, o de como a dez de agosto se achai'ia no li- 
mite d'este estado e do Tyrol, para que o dito official, em 
virtude das ordens recebidas do governador de Milão, o 
conde de Siruela, abi o esperasse com a sua gente, e to- 
masse conta do preso. Respondeu-lhe Luiz de Paniza, que 
não poderia chegar ao sitio marcado senão a quatorze; 
que se lhe tornava forçoso torcer o caminho, passando pela 
Enguetliva, e que iria até Ponte Martin, onde, no meio do 
campo, se faria a entrega de D. Duarte. Recebendo Na- 

í Arcli. Nac. da Torre do Tombo, Casa O, Caixa 17, Tomo 4 B., pag. 
619, Carta ãf. Luiz Pereira ao padre V, de 10 de agosto de 1624. Mass. 

2 Bik de Évora, Msa., 106, 2, 1, Carta do conde da Vidigueira a 
Gaspar Femondea de Leão de 20 de setembro de 1642. 



510 



varro esta commiinicaçao, foi entretendo o terapo com jor- 
nadas curtas, para nâo esperar na raia da Griaonia, e a 
doze entrou em Nauderich, donde despachou iim correio ao 
encontro de Luiz de Paniza, pedindo-lhe que se apressas- 
se. Tomou o correio sem noticia doeste, mas trazendo-lhe 
uma carta do conde Francisco Casate, embaixador de Fi- 
llppo IV, no mesmo paiz, em que lhe participava que Pa- 
niza 6<ímente chegaria á raia a vinte. 

Durante a viagem, talvez n'esta conjunctura, pois é a 
que oftcrpce mais azo para iaso, pela paragem de três dias que 
o comboio teve em Nauderich, o infante escreveu, asse- 
vera- se, a um ministro do imperador, a carta que traz 
Birago e D, António Caetano de Sousa, datada de seis de 
agosto, o a que Jd nos referimos, a respeito dos seus servi- 
ços e da Bua prisHo. Na correspondenciji do nosso ministro 
no congresso de Munster, Luiz Pereira do Castro, vem uma 
copia d'ella, da lettra df Taquet, que este lhe enviou, 
dizendo-llie que era do infante e originalmente em italiano. 
Apezar d'Í8to, não a acreditamos da penna do príncipe 
portuguoz. Tornam-o improvável, se nâo impossivel, o as- 
sente do estylo, differente de todas as outras suas que 
conhecemos, a placidez de pliraze e raciocínio que a dis- 
tinguem, precisamente quando o seu animo luctava com 
tantos temores, incertezas e perigos, e a sua muita ex- 
tensão (sete paginas e meia da obra de Birago), ao que 
se deve juntar ser escripta n'aquella língua, e de tal mo- 
do, pelo menos na dita obra, que pouco ou nada se dif- 
ferença do resto d'ella; e tudo isto na situação em que o 
infante se achava, guardado de perto, visto a raiudo pelos 
eeuB perseguidores, e quiçá mesmo sem &b commodidades 
materiaes para escrever tâo longo documento. Quando mui- 
to, esta carta será amptiaçSo de outra, breve, que entSo 
elle fizesse, e aperfeiçoasse depois, ellc, ou mais natu- 
ralmente Taquet, ou Birago, dando-lhe a fónua de quasí 
um manifesto, para servir na assemblea de Munster, que 



520 

para isso f<tt enviada por Taquet, o qaal lhe aaaigxui a 
mesma qualificação. D. Nicolau Fernandes d« Castro njk> 
acredita que seja do infante '. 

Os traastomos qae a TÍagem de D. Duarte experimentara, 
tinliam sido grandes, e iam acarretando comsigo {Jataes 
consequências. A cavallaria, impaciente pela demora, oo> 
mevou a mostrar signaes de desagrado; o oommisaario Im- 
perial, longe de procurar aquietar os soldados, conservou- 
6e inactivo, e estes atreveram-se até a pedir mais soldo; 
uo que Navarro acquiesceu^ temendo-se amotinassem, caso 
tanto mais serio, por constar a força de gente de varia» 
nacionalidades, valdchos, húngaros, croatas, etc O temor 
de Navarro augmentoa-se, quando elles imaginaram que 
os queriam ohrigar a passar á Itália, ao que de nenhuma 
maneira annuiriam; e, ainda mais, ao saber ter se espa- 
Ihado uma voz de se pagarem duzentos mil ducados pela 
liberdade do in£ante. Qne origem teria semelhante boato? 
Do intento do conde da Vidigueira para corromper os que 
o ;íiiardavam? Nào nos atrevemos a avançal-o, porque só 
a nUtorta genealógica affirma esta tentativa. Nasceria por- 
ventura de algum dito vago de qualquer dos creados do 
infante? Ou seria apenas um estratagema da sokladesc» 
para obter maior soldo? 

Aqui ainda surgiram novas complicações. O bário Curtz, 
commissario da archiduqueza Claudia, dirigiu-se a Naude- 
ricb, e, procurando Navarro» disse-Ihe que sua alteza re- 
solvera mandar com a comitiva, até Pontalto, oito léguas 
dentro da Enguediva, um capitão dVsto paiz, que a con- 
duziria em nome de sua alteza, para evitar o prejuizo, que, 
sem tal precaução, pudera provir á jurisdicçSo litigiosa, pre- 
tendida pelo Tyrol até áquelle logar. Chegou o capitlo a 
Nauderich, e Navarro nào lhe quiz falar, nem mesmo vel-o, 
para, nem de leve, imaginarem os gris^es, que, havendo- 



I Portugaí (xmveiKida con la tazon . . . 



521 



t 



lhes pedido passagem pelo seu território o imperador e 
sua magestade cathoHca, pretendiam arvorar-se em juizes 
arbitrários daa pendências que tinham com os povos seus 
vizinbos. A lim de prevenir taes supposiçScs, o o seu raal, 
discorreu largamente Navarro com Curtz, acerca da pouca 
conveniência da missão^ ao que este respondeu que o of- 
ficial dolla encarregado nSlo procederia a nenhum acto, a 
nio ser que alguma pessoa publica dos grisHes lhe per- 
gimtasse o motivo da sua ida. ITeste caso protestaria por 
escripto; mas, nâo encontrando inconveniente, voltaria ao 
sitio d'onde partira, enviando uma relação a sua alteza de 
haver acompanhado D. Duarte e a sua comitiva até Pon- 
talto. 

A isto acudiu Navarro, ponderando-lhe que os creados 
de Bua magestade catholica de certo nSo desejavam pre- 
judicar os direitos de sua alteza, antes, procurariam es- 
tender o seu dominio ; que disputar n'aquella occasiSo acerca 
dos limites d'e8te, seria obrigar os grisSes a negarem a pas- 
sagem concedida e a fazerem volver atraz a comitiva, com 
considerável gasto, e grande perigo da guarda de D. Duarte; 
que podia mesmo resultar daqui algum levantamento, e 
que o povo do paiz lhe tirasse das mãos o proso, que leva- 
ram com tanta responsabilidade e cuidado; que sua alteza 
concedera o passo livre pelos seus estados a pedido de suas 
roagcstades cesárea e catholica, o que aquella no%'idade al- 
terava completamente ; e que se devia considerar o socego 
com que o comboio havia transitado pelo Tyrol, causan- 
do-lhc na sua marcha utilidade em vez de damno. Esgo- 
tadas estas razões, Navarro accrescentou, com alguma cho- 
lera, que não acreditava, considerando o expendido, senão 
que algum ministro mal affecto intentava perdel-o, e per- 
der a todoB que o acompanhavam; que nâo podia persua- 
dir -se, em vista das rectas intenç5es de sua alteza, que in- 
tentasse mandar executar um acto em que n2k) se conse- 
guiria proveito nenhum, antes, se correria immenso risco, 



I 

4 



522 



se os grisSes penetrassem o tim da commissâo; e que, se 
apenas se tratava de um protesto, que, não se pondo impedi* 
mento ao capitSo, seria mental, elle Navarro ou algum dos 
seus companheiros, o faria por escripto, em nome de sua al- 
teza, e lh'o enviaria authenticado, com o que se acaute- 
lava o que aua alteza queria, e se cumpria o seu intento; 
que Luiz de Faniza passaria ao Tyrol com a sua gente, 
conforme se insinuara da parte de sua alteza, e tomarÍA 
conta da pessoa de D. Duarte em Nauderich; e que, nio 
sendo gris3es os que comboiavam a este, nem sendo coisa 
que Ihea tocasse, nâo tinliam elles que allegar como acto 
poBsessorio a passagem, pelo contrario, era a mesma em fa- 
vor dos direitos de sua alteza. Ainda houve entre ambos 
algumas duvidas, concluindo finalmente o barJlo de Cariz 
que não deixaria ^e cumprir as ordens que recebera. Des- 
pachou então Navarro, a toda a pressa, um correio ao se- 
cretario João de Castillo, que D. Fradique Henriques dei- 
xara em Inspruck, para que representasse a sua alteza o 
pouco fructo da sua determinação, e a revocasse. Todaa 
estas novidades originaram serias apprehensSes em Na- 
varro, mas o negocio resolveu-se, nHo sabemos como, an- 
tes de vir a resposta da archiduqueza. 

A quinze, ás duas hpras da manha, chegou a Nauderich 
o ajudante Francisco de Robles, com carta de Luiz de Fa- 
niza, em que avisava que ia marchando na volta da Val- 
telina, mudado do propósito de passar pela Enguediva, por 
causa de alguma intelligencia da parte dos portuguezes, ou 
dos seus aíFei coados, para Hbertar D. Duarte, com a casa 
de Platas, numerosa e hereje, e que a dezesete estaria em 
Maltz, limite do TjtoI por aquelle lado. 

Sabido isto, e concordada a partida entre Navarro e o 
coramissario imperial, o barSo de Stubemberg, deixou a 
comitiva Nauderich no dia seguinte, dirigindo-se ao logar ' 
que se aprazara, e onde se devia fazer a entrega do in- 
fante, para o que foi preciso retroceder três léguas. Final- 




I 

I 

■ 

I 



523 



mente no outro dia, dezesete, ao romper da raanhE, de»- 
cobriu-sc ao longe, na campina, Luiz de Paniza, com cento 
6 sessenta Infanto», gente escolhida, e vinte e cinco cavai- 
los, e com os capilSes Olva e Medina, mandados pelo go- 
vernador do estado milanez, o conde de Simela, expressa- 
mente para servirem n^esta occasiâo. Correu Kavan'o ao 
Beu encontro, e elles dois e o barão do Stubemberg conven- 
cionaram o modo de entrar em Maltz o comboio bespanbol, 
e de Babii* o allcmâo, o que se ajustou fosse ao mesmo tem- 
po. Entrou o bespanhol, entregou-se o preso a Paniza, poz- 
Ihe este guardas ; mas o commissario imperial, apezar d'Í8to 
e do que se assentara, n3io partiu. Convencionou ainda Na- 
varro que sahÍHse primeiro com a sua gente o commis- 
sario imp