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Full text of "História da literatura portuguêsa desde as origens até á actualidade"

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MENDES DOS REMÉDIOS 



HISTORIA 



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DESDE AS ORIGENS ATÉ Á ACTUALIDADE 



« 
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QUARTA EDIÇÃO REFUNDIDA 



LVMEN 




COIMBRA 

F. FRANÇA AMADO — EDITOR 
1914 




r")í^. 






PREFÁCIO DA SEGDNDA EDIÇÃO 



Ao ter de escrever para esta segunda edição da 
minha Historia da Literatura Portuguesa algumas pala- 
vras explicativas do método e plano que adoptei, o que 
propositadamente na primeira edição não fiz, logo me 
ocorreu o que Brunetière, '^o, grande mestre da história 
da literatur/ de França, ha ' bem pbucos anos ainda, e 
em trabaU^ de idêntica esQ|^e, escrevia : « Um livro 
desta nattkeza,jó se toi^a tuc^o que pode ser á força de 
muito tempos Te %d, principalmente, com a indulgência e 
colaboração do^jmblico )f ^."^ 

O meu livro quase duplicou o número de páginas, 
não obstante eu querer manter-me invariavelmente na 
mais estrita e rigorosa concisão. 

Mas um tal ou qual desenvolvimento, dentro desses 
limites, era-rae, por assim dizer, imposto pelo conselho 
ilustrado daqueles que ou professam oficialmente o 
ensino da literatura pátria, ou a ela, por amor, consa- 
gram as suas canseiras intelectuaes. Na Escola Normal 
de S. Paulo dos Estados-Unidos do Brasil encontrou 



' Manuel de l'Hisloire de la Lilt. françai$e, Paris, i899, i vol, 
pag. VIII. 



VIII HISTÓRIA KA LTTRRATUBA POBTUGUKSA 

também este livro acolhida amistosa e benévola, sendo 
adoptado como cânon das prelecções. 

Para lá como para as escolas da metrópole, onde foi 
ou compêndio de aula ou somente guia didascálico, de 
conveniência era que ele saísse para fora dos limites 
avaros da primeira edição. Foi o que fiz, alongando o 
texto e dando considerável desenvolvimento aos « Do- 
cumentos » que o ilustram e esclarecem. Esses documentos 
constituem uma Antologia de prosa e poesia portuguesa, 
seleccionada no rico escrínio da nossa lingoa. Indicações 
biográficas e bibliográficas indispensáveis a todos os que 
trabalham no campo sáfaro das leiras, da história ou 
da crítica, escolha apropriada das individualidades que 
perpetuaram a sua memória por algum trabalho literário, 
importante, forcejei por não omitir, esquecer ou deturpar. 
E assim, se este meu livro não é ainda tudo o que eu 
quisera que ele fosse, é já alguma cousa do que era 
preciso que houvesse entre nós — uma síntese, tanto 
quanto possível exacta, do movimento evolutivo literário 
de Portugal, metodicamente exposto desde as suas origens 
até nossos dias. O estudo da história da literatura sofre, 
desde poucos anos, uma larga e profunda transformação 
em virtude das tentativas feitas para o sujeitar ao método 
evolucionista, de tam fecunda e vitoriosa aplicação em 
diferentes ramos das sciencias. A hipótese de Darwin e 
Haeckel vai, também nesta província de estudos, ganhando 
adeptos convictos. « Se é sempre bom, escreve o já 
citado Brunetíère, desconfiar um pouco das novidades e 
esperar, sobretudo para as fazer entrar no ensino, que 
elas tenham, consoante a palavra incisiva de Malebranche, 
barba no queixo, podemos estar certos de que, agora, 
passados vinte e cinco ou trinta anos, a doutrina da 
evolução deve ter tido em si o que quer que seja que 



PiiEFACIO DA SEGUNDA. EDIÇÃO IX 

justifique a sua fortuna. Concedo que amanhã, talvez, 
ela seja desapossada da sua popularidade de um momento 
por outra doutrina ou hipótese — posto que, no fundo, 
o esteja longe de acreditar. Entret.mlo, desde que ela 
reina não encontro vantagem em que se queira fingir 
que se ignora a sua existência e, pois que já sabemos o 
que a história natural geral, a história e a filosoiia com 
ela aproveitaram, quisera examinar se a história literária 
e a critica não poderiam também por sua vez utilizá-la ». 
Nos seus trabalhos: Uévolution des genres *; Uévolu- 
tion de la poésie lyriqiie en France au XIX^ siècle ^ ; Eludes 
critiques sur Vhisloire de la lilterature française ', tratou 
Brunetière de fazer a aplicação da sua teoria, que na 
Alemanha Adolphe Bartels acaba de seguir na sua Ge- 
schichte der deutschen Litteratur *. O mesmo processo vai 
pouco a pouco ganhando terreno na Rússia, na Inglaterra, 
na Itália e nos Eslados-Unidos da América do Norte. 
Assim se vai extendendo á Literatura o processo que já 
se começou a adoptar para a História geral e para a 
Geografia, donde foram desterradas as ladainhas de 
nomes, as definições empíricas, e se afastou tudo o que 
era arbitrário e artificial. Mas é certo que o método 
tem ainda uma aplicação restrita, sendo por isso que o 
sr. Th. de Wizewa, o crítico que mais tem vulgarizado 
em França o conhecimento das literaturas estranjeiras, 
se lamentava ainda ha pouco por a Alemanha não possuir 
uma história da literatura, que obedecesse á orientação 
de assinalar as épocas sucessivas da evolução dos diversos 



1 1 vol., Paris, 1898. 

2 2 voll., Paris, 1901. 

3 6 voll., Paris, 1896. 

4 2 voll., Leipzig. 1903. 



UISTÓUU DA UTERATUBA P0RTU0DE8A 



géneros, tomando ao mesmo tempo conla do caracter 
próprio de cada um desses géneros e da influência 
reciproca dos géneros entre si. Assim encarada a tarefa 
a realizar, se ela é difícil para países como a França ou 
como a Alemanha, a Itália ou a Inglaterra, onde os 
estudos e as monografias particularizadas já abundam ha 
muito, que diremos do nosso onde tam vasto é ainda o 
campo de exploração, que o viajante que por ele se aven- 
tura tantas vezes se encontra só ou quase desajudado? 



Efectivamente para nós, portugueses, um dos maiores 
obstáculos para o estudo das obras literárias daqueles 
que souberam crear-se e crear-nos nome imorredouro 
deriva da dificuldade, e ás vezes até, da impossibilidade 
de haver á mão essas obras. Para vergonha nossa não 
possuímos ainda hoje uma Biblioteca Portuguesa, vasto 
colectório que abrangesse todas as belas obras escritas 
na nossa lingoa, desde os seus inicios até a atualidade. 

As queixas já formuladas no século xvn por D. Fran- 
cisco Manoel de Melo poderam com rigorosa verdade 
ser repetidas ha sessenta e seis anos por António Feliciano 
de Castilho, e hoje ainda as podemos perfilhar. A pró- 
pria Espanha, que muitos portugueses tam erradamente 
avaliam, mas que tam superiormente se nos avantaja 
até no esforço para se salvar dos desalentos gravíssimos, 
de que tem sido vítima, como ainda ha meses apenas na 
reforma do seu ensino superior, tem ha muito a sua 
Biblioteca de Auctores Espafioles desde la formacion dei 
lenguaje hasta nuestros dias ', reproduzindo aí, precedidos 
de estudos, muitos de importante e esmerado labor, as 



Madrid, Rivadeoeyra, 1864-1898, 67 voU. 



PBEFACIO DÁ SEGUNDA EDIÇÃO XI 

melhores obras que desde a origem engrandeceram no 
campo das letras, honrando-o, o nome da pátria espa- 
nhola. Uma vez realizada uma empresa como esta de 
Rivadeneyra, o estudioso encontra nela, desde princípio, 
o ponto de partida e a base das suas próprias investi- 
gações. Um vasto campo fica depois a explorar e a 
percorrer — na autenticidade e rigor dos textos, no 
valor e alcance das suas afirmações, em mil pontos de 
minúcia, ás vezes importantes, como o logar da impressão 
ou a data do seu aparecimento — outros tantos problemas 
de quô se ocupará o bibliógrafo, o crítico ou o historia- 
dor. Mas nada se poderá fazer sem a leitura dos próprios 
livros daqueles que marcaram época ou fizeram sentir a 
iníluôncia da sua obra nas gerações que se lhe seguiram. 
E têmo-las, a essas obras, não direi vulgarizadas, como 
seria para desejar, mas dispostas ou acomodadas sequer 
a uma consulta fácil e expedita ? E' vergonha confessá-lo, 
mas é vergonha maior que tal confissão seja exacta. 
Onde estão os nossos cronicões ? Que fizemos ou tentámos 
fazer até hoje para os tornar manuseados? Que é feito 
da riqueza dos nossos Cancioneiros? Temos acaso uma 
edição metódica, geral e scientifica? Os nossos clássicos, 
um Vieira, um Barros, Góes, D. Francisco Manoel de 
Melo, e tantos outros estão acaso editorados de forma a 
poderem ser lidos e compulsados? * 



1 Quando teremos nós uma Biblioteca Portuguesa ? Dizia já no 
século xvii D. Francisco Manuel de Melo : « ... procurei por mim 
mesmo e depois persuadi a algumas pessoas doutas publicássemos uma 
Bibliolheca Lusitana de auctores moiiernos : novamente estimulado da 
falta que padecemos nesta parte. . . » ( Cartas, 'òtS ). E Ferdinand 
Denis : a ... M. de Stsmondi sVsí píaiut avec juste raison de la rareté 
des divers ouvrages porlugais » (Resume, ele, xxiu). Por quanto 
tempo coaiinuaremos nesta situação vergonhosa ? 



XII HlaTÓHlA DA LITKHATDMA POUTUUUKMA 

E não fosse a colaboração dalguns beneméritos estran- 
jeiros e mais pungente seria ainda a vergonha ! . . . E' vêr. 

Garcia de Resende esperou tresentus e trinta anos 
para ter uma edição legivei, na Uibliolhek des Lilera- 
rischen Vereins in Slullgarl. 

Deve-se ao italiano Mónaci a edição rigorosamente 
diplomática do Cancioneiro da Valicana ( 1 vol., 
Halle, i875). 

Foi o Dr. Lang quem nos deu a melhor edição das 
poesias de D. Denls no Das Liederbuch des Konigs Denis 
von Portugal. 

E' a Priebsch que devemos o prazer de lêr Pedro de 
Andrade Caminha numa belissima edição da Casa Max 
Niemayer, de Halle. 

E' á sr/ D. Carolina Michaèlis de Vasconcelos, essa 
fada benéfica que a Alemanha enviou a Portugal para 
ilustrar gloriosamente as letras peninsulares, como dela 
escreveu Menéndez y Pelayo, que nós devemos esses 
estudos duma tam vibrante erudição — Sá de Miranda 
(1 vol, Halle, 1885), D. Maria de Portugal (1 vol., 
Porto, 1901 ), Pedro de Andrade Caminlm ( 1 vol.. 
Paris, 1901 ), a Historia da literatura portuguesa no 
« Grundriss de Grõber », etc, etc. 



Eis aqui uma empresa verdadeiramente patriótica pela 
grandeza e pelo alcance a que visa, muito acima das 
alicantinas da politica em que vam sossobrando tantas 
vontades — a publicação duma Biblioteca Lusitana, dui'e 
ela vinte ou trinta anos, haja ela de durar um século. 
E' nessas numerosas obras imorredouras, que está a 
nossa grandeza descrita e exaltada. Lá se encontrara os 



PREFÁCIO Da segunda EDIÇÃO XIII 

nossos pergaminhos de nação autónoma e civilizada, lá 
as melhores pérolas do nosso erário. Tudo se desfez já 
nas ressacas do tempo — a nossa supremacia de con- 
quistadores e de viajantes esvaiu-se como ténue neblina 
ao dardejar do sol ; a nossa alma de marinheiros intré- 
pidos dessorou-se, alanceada nas agruras da pobreza ; a 
fama de reis da grandeza máscula dum João 2.^ da 
felicidade um pouco aventurosa dum D. Manuel d.°, ou até 
mesmo da riqueza deslumbrante dum João 5.°, é hoje, 
o quê? apenas um éco a repercutir-se entre saudades e 
recordações. Volver os olhos para o passado, não como 
contemplativos estéreis, mas como quem nesse relancear 
fosse descobrir a vis mysiica duma nova alma, tal o 
imperioso e mais nobre dever que se impõe aos dirigentes 
do nosso país. 

Não falo já numa empresa complementar desta — a 
de missões scientíficas que nas bibliotecas de Londres, 
Paris, Roma, Berlim, Rio de Janeiro, etc, inventariassem 
tudo quanto lá houvesse de importante relativamente á 
história política, religiosa e literária de Portugal, para 
depois ser dada á luz da publicidade. Abriu-se a Biblio- 
teca do Vaticano para tantos países da Europa, e só 
Portugal, que tam grandes e íntimas relações manteve 
com a Santa Sé em todos os tempos, pareceu desco- 
nhecer ou ignorar até hoje a existência dessa generosa 
e tolerante medida ditada pelo espírito lucidíssimo de 
Leão XIII ! Mas, eníim, que desprezemos os impor- 
tantes manuscritos que no British Museum, na Biblioteca 
Vaticana ou noutra parte possam existir, dificilmente se 
compreende, quando se pensa que o Estado não pôde 
impôr-se a missão do analfabeto ou de impenitente 
prevaricador em matéria de instrução, mas o que é 
inteiramente incompreensível é que se não pense em 



XIV HISTÓRIA DA LITKRATUEA PORTCGUKSA 



reabilitar a memória dos que foram e nos ajudaram a 
ser grandes, e nos crearam um nome honroso na esfera 
da mentalidade humana. O governo ou o menistro que 
compreender esta missão, a mais alta e a mais profícua 
que possa imaginar-se, prestará um serviço relevantís- 
simo á Pátria. 



O desconhecimento, senão o desprezo das obras dos 
que nos precederam entra na sua cota parte na decadên- 
cia literária, que ao presente atravessamos. Ignorando a 
riqueza que de portas a dentro possuímos, voltamo-nos 
para a miséria lantejoulada de fora. Tudo se abastardou 
numa galolatria pavorosamente ridícula — o jornal, a 
revista, o livro, as modas, a educação . . . Muito mais 
do que no tempo do galhofeiro Cruz e Silva pode-se 
atualmente dizer: 

Ao pé de cada canto, hoje sem pejo 

Se tratam de Monsieors os Portugueses. 

Vai lambem filiar-se em parte num desconhecimento 
do passado a importação última que fizemos em litera- 
tura, pretendendo em vão aclimatar uma escola esótica, 
sem ideal próprio, que deslumbrou talvez pelas logoma- 
quías de verdadeiros convulsionários lecsicográíicos — a 
escola simbolista ou decadente. Essa escola teve entre 
nós a mais efémera das durações. O seu primeiro e 
mais ilustre representante reconheceu bem depressa que 
o esoterismo poético, de que se fizera arauto, conduzindo 
necessariamente a uma obra artificial, só podia ser peri- 
gosa á glória dos que o adoptassem. Paul Verlaine, que 
os simbolistas tanto gostam de invocar como mestre, não 
encontrou o seu titulo incontestável de grande burilador 



PREFACIO DA SKGONDA EDIÇÃO XV 



do verso moderno francês no que se diz que ele pode 
ter de semelhante ou aproximado dessa escola. Quer 
isto dizer que em França, onde o simbolismo surgiu, 
mercê de influências diversas — desde a acção da obra 
do torturado Beaudelaire até ao deslumbramento produ- 
zido pela obra musical de Wagner e aos quadros dos 
prerafaelitas — e em Portugal, que tam depressa pro- 
curou fazer a sua adaptação, não tenha essa doutrina 
sectários realmente notáveis e de vigorosa personali- 
dade *? De modo algum; mas o que também se pode 
e deve dizer é que a glória de taes poetas não se estriba 
nos trabalhos que, quando alistados sob essa bandeira, 
eles publicaram por entre o pasmo do público incons- 
ciente. Gomo essa escola, pelo menos entre nós, não 
procurou o seu fundamento na natureza da arte poética, 
como demais não correspondia a uma necessidade, con- 
soante aconteceu com a tendência naturalista, que foi 
pouco a pouco desterrando o romantismo, a arte dos 
decadentes desapareceu arrastando na sua queda a revi- 
viscencia do gongorismo, donde derivou grande parte 
da sua fortuna, direi melhor, do escândalo que á volta 
de si produziu. Esses poetas voltaram á sua inspiração 
natural e própria e por ela se deixaram conduzir. 



1 Para o estudo dos poetas simbolistas será preciso consultar, além 
das suas revistas, como o Mercure de France, Ermitage, Revue Blanche, 
ele, Jules Tellier, Nos poetes, Paris, 1888 (Dupret); Charles Morice, 
La liter ature de tout á l'heure. Paris, 1889, ( Perrin ), Van Be ver et 
Paul Leautaud, Anthologie de poetes récents ( ed. do Mercure de France, 
1Í)00 ) ; a íãième leçon de F. Brunelière na Evolution de la poésie 
lyrique en France au dix-neuvième siècle, n, pag. 231 e seg. ; um artigo 
muito interessante de Camille Mauclair em La Révue, n.» 13 de 1 julho 
de 1902, pg. 69 ; Gustave Kahn, Symbolistes et Décadents, Paris, 1902 
( Yanier ). 



XVI HISTÓRIA DA LITERATURA POUTUOCTBSA 



Reconheceram que quando se quer sujeitar inflexivel- 
mente uma obra de imaginação ás regras duma escola 
se faz obra artificial, e por isso mesmo falsa. Só pelo 
estudo consciencioso das nossas riquezas tradicionaes e 
escritas, pela fecundidade da própria inspiração, pelo 
génio e pela fantasia individuaes, é que o verdadeiro 
poeta poderá elevar-se acima da craveira dos simples 
versejadores impertinentes, e nunca, seguramente, pela 
importação de qualquer escola, mais ou menos em 
moda, mas de efémera e pouca gloriosa duração em 
regra geral. 



PREFÁCIO DA TERCEIRA EDIÇÃO 



Este livro tam cheio de biografias tem também a 
sua, e não das menos instrutivas, nem das menos 
edificantes como lição a aproveitar e a meditar. Mas 
não será nesta hora de desalento moral, que eu hei-de 
deixar aqui traçada, na asa negra do meu pessimismo, 
essa desalentadora biografia. Eu direi aqui tam somente 
desta terceira edição, e dos propósitos com que nela 
trabalhei assiduamente durante meses. Tanasinha a 
anterior acabava de sair dos prelos, logo os reparos pró- 
prios e de pessoas amigas acudiam pressurosamente, 
fazendo notar aquilo que a minha insuficiência não 
poderá suprir, ou o que a natureza do trabalho, e o 
fim que eu me propusera de si próprios apresentavam. 

Aos que percorrerem o meu livro com alguma atenção 
deparar-se-lhes ha em breve quanto eu fui dócil aos 
conselhos que me deram e quanto ganhei com o estudo, 
a meditação, a leitura e a critica das obras daqueles de 
quem tinha de falar mais ou menos longamente. 

Quase não ha página em que, quer a consciência da 
exactidão e da verdade histórica, quer a clareza e o 
método dum livro que é, e eu quero que seja e se 
conserve, fundamentalmente didáctico, me não obrigas- 
sem a modificações, ás vezes bem fundas e extensas. 



XVIII HISTÓRIA DA LITIRATUBA POBTUGCSSA 



Foi necessário tomar conta até mesmo de pontos de 
minúcia * e sobretudo dos novos trabalhos publicados, 
uns dentro do pais, outros lá fóra, no estrangeiro, 
alguns dos quaes sam basilares na história literária 
portuguesa. 

Seja-me permittido notar entre todos essa obra 
simplesmente admirável de erudição, saber, clareza e 
documentação bio-bibliográfica, publicada pela Senhora 
D. Carolina Michaêlis de Vasconcelos com o titulo — 
O Cancioneiro da Ajuda, tantas vezes citado no primeiro 
capitulo do meu livro. 

E' sempre uma tortura querer condensar em algumas 
poucas páginas matéria que de si pede mais e sempre 
justificadas ensanchas. 

Desta pouquidão de espaço me vingo eu apelando 
para os trabalhos complementares desta síntese, a alguns 
dos quaes tenho aposto estudos que ainda assim não 
desdizem da sobriedade que sempre estimei. Refiro-me 
á colecção Subsídios para o estudo da Historia da 
Literatura Portuguesa, de que ha já publicados os 
seguintes volumes : 

I. — Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manoel de 
Melo (Exgotado). 

II. — Poesias inéditas de D. Tomás de Noronha, 
poeta satírico do século xvii. 

III. — Lusíadas (2.' ed. anotada, para as escolas). 



> Veja-se a pg. 135, [ 142 da atual ] nota 2 deste mea livro. 
E' agora preciso acrescentar que a opiniílo do sr. Gonçalo da Gama 
foi solidamente combalida pelo sr. Jordão de Freitas em artigos 
publicados no Portugal no n.* de 2 de janbo de 1907 e no de 8 de 
setembro lambem de 1907, transcritos em O Oriente Português no 
tomo do mesmo ano. 



PREFÁCIO DA TERCEIRA EDIÇiO 



IV. — Foguetario (poema heroi-comico ), de Pedro 
de Azevedo Tojal. 

V. — Vida do Grande D. Quixote de La Mancha 
e do gordo Sancho Pança (opera jocosa), de António 
José da Silva. 

VI. — Guerras do Alecrim e Mangerona ( opera 
joco-seria), de António José da Silva. 

VII. — Sentenças de D. Francisco de Portugal, 
i.° Conde de Vimioso, seguidas das suas poesias, 
publicadas no « Cancioneiro de Garcia de Rezende ». 

VIII. IX e X. — Consolaçam ás Tribulaçoens de 
Israel, por Samuel Usque. 

XI. — Obras de Gil Vicente (Tomo primeiro). 

Conhecem estes livros os professores de literatura dos 
nossos liceus, os dos seminários e institutos de ensino 
livre e sabem, bem como os que livremente se consa- 
gram aos estudos da história literária, o cuidado e 
esmero com que procedi nessas reproduções. 

Pobre e querida colecção ! 

Quando eu publiquei essa sentida obra de Samuel 
Usque, que, com bem raras excepções, era inteiramente 
desconhecida em Portugal, e na qual um sopro de 
justiça, ora de profeta, ora de réprobo, perpassa, como 
um avatar, como quer que o volume fosse parar á reda- 
cção dum jornal português, duas linhas tam somente 
assinalaram o aparecimento do livro e como? 

Nem eu quero dizê-lo ! 

* * * 

Alguns professores que no estranjeiro têem, a pro- 
pósito de lingoas e literaturas românicas, cujos cursos 
dirigem, de se ocupar da nossa própria lingoa e litera- 



XX HISTÓRIA DA LITEBATORA PORTUGUESA 

tura, . exprimiram-me a sua satisfação por verem num 
Manual compendiado o que de essencial lhes compeliria 
saber, servindo-lhes o meu livro de Test-Book ou 
Leitfaden seguro e cauteloso. Quantos que desejariam 
mais vasta e grada messe de trechos de autores 
portugueses ! Não pude satisfazer a todos. Persisti 
no propósito da anterior edição, de não dar trecho 
algum dos Lusíadas. Acumularia páginas dum livro 
que anda e deve andar nas mãos de todos os portu- 
gueses. Esse livro é uma bíblia de patriotismo. Em 
cada página, quase em cada verso, ha uma lição de 
civismo. O espaço que podesse dedicar-lhes ocupei-o 
com trechos de autores, que estranjeiros e nacionaes, 
mesmo, facilmente não encontrariam ao seu dispor, para 
um juizo ou para uma lição a dar, de momento. Se o 
sr. Paul Lafleur, professor da Universidade de MGill, 
em Montreal (Canada), ou o sr. Olmsted, da de Ithaca, 
Gornell University, ou o sr. Sarolea, da de Edinburgo, ■ 
de novo manusearem o meu livro atendam ás razões que 
aqui mesmo na Biblioteca da Universidade, onde tive o 
prazer e a honra de os conhecer e tratar, verbalmente 
lhes expus. Gomo poderia satisfazer aos desejos do 
sr. Sarolea, que preferiria ver os documentos da Anto- 
logia impressos num tipo que lhe poupasse um pouco 
mais a sua vista faminta e fatigada ? Alguns lembravam 
o desdobramento do livro em dons volumes. Com efeito, 
isso ^permitiria dar uma mais larga representação a 
autores que ou de todo se não memoram, ou têera, 
por ventura, palavras simples de mais a fixar-lhes a 
lembrança. Permitiria outrosim extractos mais vastos, 
mais copiosos, mais abundantes. 

E eis que quisera fazer-lhes verdadeira a lembrança 
amigável, mas eu não posso dizer-lhes toda a alicantina 



, PRFFÁCÍO D* TERCEIRA ELIÇÃO XXI 

da minha terra nem toda a carniçaria com que aqui sam 
estimados o trabalho e o valor individuaes. 

Útil me pareceu então sucrestar o mel das belas e 
formosas páginas, que aí brilham no nosso vasto campo 
literário, ainda e um pouco mais extensamente do que 
já o havia feito na anterior edição, o que, concordo, é 
pouco, e ainda parece mais pouco comparado com as 
opimas colmeias, que possuimos. 

E nem foi preciso andar ás rebatinhas ; o que foi 
preciso foi não perder as proporções do verdadeiro 
equilíbrio. Desde que avaramente exposição e crítica 
históricas eram cerceadas, como alargar as proporções 
da selecção? Fique o livro o que é, com os seus 
defeitos, que os tem, com as suas virtudes, se as tem. 
Eu direi como o bom velho Amador Arraez : 

« Todavia procurei eleger matérias graves, dar seu 
logar ás cousas, & poer concerto nas palavras, pêra 
que soando bem aos ouvidos, nam somente dissessem com 
clareza o que se trata, mas também com harmonia, 
& modo de dizer fizessem atento ao Leytor ; & satisfizessem 
não só ao gosto dos simples bus de contentar, mas alapar 
ao dos Letrados curiosos em o examinar. » (Do Prologo 
da 2.^ ed. dos Diálogos). 



Com o pensamento nos professores que no estran- 
jeiro precisam dum guia útil, seguro e de informação, 
alarguei, quanto o achei conveniente, as indicações 
bio-bibliográficas. E quis para nosso próprio uso pôr 
mais meticuloso cuidado nas nótulas resumidíssimas das 
literaturas estranjeiras. Quanto seria fácil e simultânea- 



XXII HI8TÓB1A DA LirsaATCRA PORTUainCSA 

mente agradável escrever sobre e a propósito dalgumas 
dessas belas figuras, que enchem o mundo com a sua 
fama, e a fama com a sua glória ! 

Quem quisesse empreender esse estudo não estacaria 
aos primeiros passos á falta de ensinamentos, como 
entre nós sucede desgraçadamente. Já mesmo aqui os 
nossos vezinhos de ao pè da porta., não contentes com a 
sua valiosa colecção Rivadeneyra, vam na vanguarda do 
movimento empreendendo outra, maior e melhormente 
ensaiada, sobre a direcção do incansável Menéndez y 
Pelayo, a Nueva Biblioteca de Autores Espafioks, que 
desde 1905 se publica era Madrid e compreende já 
sete volumes. 

A Gesellschaft fur romanische Literatur, estabelecida 
em Dresden desde 1903, fornece-nos igualmente textos 
duma erudição completa, facilitando o confronto filolo- 
gico-literário das literaturas congéneres e tornando-o 
também mais ameno e útil. 

Estimável é também a colecção de mais modestas 
proporções que em Strasburgo se iniciou ha pouco com 
o título de Bibliotheca Românica. Para que falar das 
Meyers Klassiher Ausgabe? das edições das casas edito- 
riaes inglesas, italianas e francesas? 

Ótimos estudos escritos sempre por verdadeiros pro- 
fissionaes, como os que colaboram na grande colecção 
de Grôber, ou os que na casa Golin, de Paris, vam 
redigindo a história das Literaturas dos diversos países, 
encaminham-nos com segurança nos nossos tentames 
de critica, apontando ora as belezas, ora os defeitos, 
obrigando-nos, em presença dos textos, a ver com mais 
inteligência e com mais apurado critério. 

Como aproveitamos nós esse fecundíssimo trabalho, 
honra e glória dos nossos tempos de critica e de análise? 



PREFÁCIO DA TERCEIRA EDIÇÃO XXIlI 

Pouco mais que mediocremente. 

Falta-nos por completo o ensino, quer oficial, quer 
livre e individual. Nos nossos liceus pouco mais pôde 
dar-se aos estudantes do que o rebate do gosto literário. 
Acordar-lhes a alma para as belezas dos grandes escri- 
tores, aguçar-lhes o apetite das obras-primas, fruto do 
génio e do talento, já é alguma cousa. Mas depois? 
Onde o estudo viril da euritmia literária? onde o 
exame reflectido, minucioso, scientificamente conduzido, 
das grandes obras, nossas ou dos povos alheios? 

Ai de nós ! A nossa decadência atual é de encher 
de pavor. Instrução deficientíssima, educação nula. 
Ensaiam-se métodos, estudam-se projectos, experimen- 
tam-se tentativas, avançarn-se hipóteses, tudo redunda 
em pura perda. Desoladoramente o confesso. Ao cabo 
de sete anos o aluno dos nossos liceus não traduz com 
inteligência uma fábula de Phedro, não compreende a 
beleza 'duma poesia de Hugo, não se comove com uma 
estância de' Byron ou de Goethe. A sua educação 
clássica é mesquinha, mas a sua educação moderna corre 
parelhas com ela. Parece que ha um vicio inibitório, 
que esteriliza todos os exforços. E' que em Portugal 
não se estuda por gosto, não se aprende com amor. 
O nosso ensino é formalista, insípido, inestético. As 
nossas aulas não têem conforto. As nossas escolas 
põem medo. A escola podia ser uma prisão. Foi um 
convento quase sempre. As paredes sam nuas. Quaes 
sam os liceus que têem uma Biblioteca ? O ambiente é 
frio. O estudante treme. O que ele quer é sair dali, 
é fugir dali. E é em semelhante meio que se pretende 
fazer a cultura intelectual? 



HISTÓRIA DA LITEBATOBA PORTUÚCLSA 



Nos cursos Superiores não se estuda a Literatura, 
a não ser no Curso Superior de Letras, que é pela 
sua organização atual, uma escola de habilitação ao 
magistério. 

Acreditar-se ha ? nós não temos na Universidade uma 
Faculdade de Letras. A única Universidade do país 
tem o seu quadro de estudos truncado e por mais que 
a alguns espíritos ousados a idéa da creação dessa 
Faculdade pareça sorrir, breve, deante do sceticismo, 
da indiferença, da resistência passiva, mas tenaz e per- 
sistente do maior número, essa idéa entra no domínio 
das quimeras, dos fantasmas. 

O que sucede é que o cultivo das belas-letras, das 
sciencias históricas, das filosóficas, é apanágio de auto- 
didactas, bem poucos para as necessidades que esses 
ramos da sciencia em Portugal estão exigindo, muitos, 
bastantes mesmo, para o galardão que os seus contem- 
porâneos lhes conferem. 

Assim, aí estão os nossos arquivos, Sam esfinges. 
Vivem no pó e no mistério. Quando homens como 
Theophilo Braga, Sousa Viterbo, Braancamp Freire, 
Brito Rebello, .Joaquim de Vasconcellos, José Caldas, 
e outros vGem á luz da publicidade com o fruto de 
pacientes investigações, logo nos ufanamos da riqueza 
dos nossos arquivos, lamentando que eles não tenham 
mais e dedicados cabouqueiros. 

Entretanto, o arquivo da Torre do Tombo, o da 
Universidade de Coimbra, o da Colegiada de Braga — 
nem visto sequer por Herculano — e tantos mais, uns 



PBEFÁCIO DA TERCEIllA EDIÇÃO IxV 

em Lisboa, outros nas províncias, uns oficiaes e públicos, 
outros particulares, todos aí continuam escondendo á 
nossa avara curiosidade muitos dos seus tesouros. 
E' natural. Não se estima senão o que se conhece. 
E o nossso grande, o nosso terrível vicio, é a ignorância, 
filha da preguiça. 

Ninguém quer trabalhar. A suprema aspiração do 
português é . . . não fazer nadá^ para o que consome 
cabedaes, exforços de talento e de trabalho e até a 
própria vida, se fôr preciso. Como corolário — o país 
que assim pensa e assim é educado deita ao despreso os 
que trabalham por o engrandecer, esquece aqueles por 
quem vive e lhe dam jus a viver no banquente das 
nações civilizadas. 

Já mesmo o precário ensino da lingoa e literatura 
portuguesa foi nos liceus reduzido. Aqueles dos alunos 
que prefiram o curso de sciencias, apenas na 4.^ e na 
5.* classes ouvirão uma ou outra vez falar dos nossos 
grandes escritores. E como? Eu tenho-os visto, os 
pobres estudantes ! E' na 4.** classe que começam os 
seus rudimentos de latim, é na mesma 4.^ classe que 
encetam a leitura da nossa Epopêa nacional. Imagine-se í 
A nossa epopêa do Renascimento é uma obra admirável 
encerrando uma lição imensa de factos e de idéas. Mas 
vam lá apontar-se as belezas dum retrato de Sargent 
ou dum torso de Rodin a um pastor dos Herminios I 
Faça-se um estudo adequado, proporcional ás edades e 
ás capacidades — direis. Sim, mas vá lutar-se contra 
os programas, os livros, as rotinas, e as sanções dadas 
pelos diplomas que é o que é preciso obter, custe o 
que custar. Daí o ensino fútil, inconsistente, descosido 
e falso, que nos enche de comiseração e de tristeza pelo 
Portugal de amanhã. 



XXVI mSTÓRU DA LITKKATUBA pOTtirCUlEÍA 

Talvez que este estado de cousas se modifique pelo 
exforço conjugado de homens de boa vontade, mas por 
enquanto só num horizonte muito longínquo é que 
assoma essa alvorada . . . 



Mais duma vez tenho sido interrogado sobre se tal ou 
tal obra de autor estranjeiro tem tradução portuguesa. 

Procurei satisfazer nesta edição essa curiosidade, 
indicando as traduções que, no meu entender o mereciam 
ser, faltando algumas que ou eu desconhecia, ou no 
momento não me occorreram. Mas não o fiz para todos 
os livros indistintamente. Não devia fazê-lo. Muitas das 
traduções que têem curso em Portugal sam obra de 
anónimos, produto de especulação comercial. Os nossos 
homens de letras traduzem pouco, ou porque se absorvem 
em obras originaes, ou porque não resistii*iam á avalan- 
cha dos aventureiros, que invadiram as letras como uma 
manada de búfalos, avassaladoramente. Muitas das obras 
primas dos escritores contemporâneos chegam-nos em 
traduções de traduções, que já de si não primam pelo 
gosto, nem pela correção. 

A lingoa portuguesa, tam bela, tam sonora, tam 
correcta, tam engalanada para os triumfos das alegrias, 
como maviosa para os trenos da piedade e da tristeza, 
cheia de harmonias variadíssimas, tendo cores para toda 
a escala de sentimentos, voz rítmica para todas as idéas, 
expressão para todos os símbolos, essa lingoa cheia de 
sol, de policromia e de beleza, que vive ainda hoje nas 
formosas páginas de Fialho de Almeida por exemplo, ou 
nos versos trabalhados como um vaso do Renascimento, de 
Eugénio de Castro, aparece-nos em taes livros desfigu- 



PREFACIO DÁ TERCEIRA EDIÇÃO XXVII 

rada, maltratada, sangrenta, digna do desprezo mais 
aviltante. 

Castilho pôde merecer censuras pela falta de exactidão 
com que trasladou o Fausto de Goethe. Mas era matéria 
de boa e lídima .lingoagem portuguesa ninguém lhe 
atirou jamais uma pedra, nem com justiça o poderia 
fazer. Seria para desejar que ao menos se procurasse 
zelar os interesses da lingoa portuguesa, que não sam 
incompatíveis com os do comércio, parece-nos . . . 

Mendes dos Remédios. 



PREFÁCIO DA PARTA EDIÇÃO 



De bem poucas palavras quero acompanhar a 
presente edição. Já disse o bastante sobre os 
intuitos e natureza deste trabalho nos prefácios das 
anteriores edições, que por isso vam reproduzidos 
tais quais saíram em seu logar e tempo. 

Os Profs. dos diversos institutos de ensino que 
dentro ou fora do país têem este livro como seu guia 
didascálico, bem como aqueles que, sem obrigação 
oficial, a ele recorrem para informação ou elucidação 
dum ou doutro ponto histórico-literário, poderão 
avaliar do cuidado que pús em bem os servir na 
forma concisa, mas clara, a que sempre me obriguei, 
dado o intuito fundamental deste livro. 

Alguns a'migos não voltarão mais a amparar-me 
com seus sábios conselhos, tais o bom e benemérito 
e saudoso Aníbal Fernandes Tomás, memorado 
sentidamente neste livro, no logar que de direito lhe 
pertence, o malogrado Prof. Carlos de Melo, que 
em longas cartas me dava mostras da sua grande, 
embora confusa erudição, e outros. . . 



XXX HISTÓRIA DA UTIRATURA P0RTVQUK8A 



Muitos, de longe, como o sr. Waldemar Reilz, de 
Saint-Petersburgo, folheiando, aqui ou acolá, uma 
página de preferencia, ham de ver que atendi no que 
pude e quanto pude aos seus desejos. 

Muito lucrei com as apreciaçõis benevolamente 
sensatas e repletas de utilidade que ao meu trabalho 
quiseram dedicar competências tam ilustradas como 
o sr. Prof. J. J. Nunes nos Romanischen lahrcsberi- 
chtes, de K. Vollmòller. 

Mercê do apoio de todos o livro irá satisfazendo 
mais e melhor a missão para que foi destinado — 
espalhar e difundir com amor e entusiasmo a lingoa e 
a literatura, que sam o melhor, mais brilhante e mais 
eloquente timbre de nossa autonomia nacional. 

Mendes dos Remédios. 



BIBLIOGRAFIA 



Academia — Catálogo dos andores..., que antecede o seu Dicc, 

i.° e único tomo, Lisboa, 1793. 
Azevedo ( Álvaro Rodrigues ) — Esboço Crilico-Litterario, Funchal, 

1866, 1 vol. E' uma critica muito erudita ao livro de Borges de 

Figueiredo, cit. abaixo ). 
Balbi — Essai Statislique sur le royaume de Portugal. . . sitivi d'un 

coup d'ofil sur l'état actuei des Sciences, des Letíres et des Beaux- 

Arts parmi les Portugais. . . Paris, 1822 ; 2 voU. 
Bellermann ( Dr. Christ. Fr. ) — Die alten Liederbiicher der Porlu- 

giesen, Berlin, 1840. 
Bouterwek ( Frederick ) History of Spanish and Portuguese Litera- 

ture, tr. by Th. Ross. 2 voll. 1823. 
Braga ( Dr. Theophilo ) — Todos os trabalhos do erudito professor 

sobre a nossa Historia Litteraria. 
Carvalho ( Francisco Freire ) — Primeiro Ensaio sobre a Historia 

Lideraria de Portugal, ele. i vol., Lisboa, 1845. 
Castilho ( António e J. Feliciano ) — Livraria clássica Portuguesa, 

dirigida por. . . 1815 47. 
Castro ( João Baptista de ) — Mappa de Portugal, parte iv, ( — . . . 

origem das lettras e universidades deste reino e os escriptores mais 

famosos que tem havido nelle em todo o género de Literatura). 
Denis ( Ferdinand ) fíésumé de VHàtoire Lilleraire du Portugal et 

du Brésil, l voi.. 1826, Paris. 
Figueiredo { A. Cardoso Borges ) — Bosquejo histórico da Litteratura 

clássica, grega, latina e portugue.sa. ( Sobre este livro vid. o 

artigo de Innocencio, Dicc. bibliogr., i, pg. 391 ; Azevedo, Esboço 

critico, cit. ). 



' lndk',0 aqui simplesmente as obras sobre generalidades da História da nossa 
Literatura. As outras, incluindo, é claro, as dos autores citados, vam nomeadas 
nos logares respectivos. 



BISTÓBIA Dá LITSRATURA PURTUQUKSA 



Ferreira ( José Maria Andrade ) — Curso de Litteralura Portuguesa, 
"1 voll. 1875. O 2.« vol. á de Camillo CaMpllo Branso. 

Lillerntwa, Musica e Bellas-Artfs, ^ vol., 1871. 

Garrett ( Almeida ) — Bosquejo da historia da Poesia e língua por- 
tuguesa publicado juntamente com o Retrato de Vénus. 

Gomes ( Francisco Dias ) — Obras Poéticas, ed. da Academia, Lisboa, 
1799. ( As notas ás suas poesias sani eruditíssimas e da maior 
utilidade para o estudioso ). 

Lang ( Henry R. ) — Das Liederbuch des KiJnigs Denis von Portugal, 
Halle, 1894; 1 vol. 

Loiseau (A.) — Histoire de la Litterature Portugaise, Paris, 1886; 
1 vol. 

Machado (Diogo Barbosa) Bibliotheca Lusitana, Lisboa, 1741-1739; 
4 voll. 

Mattos ( Ricardo Pinto de ) — Manual btbliogr aplaco portuguez de 
livros raros, clássicos e cunosos coordenados por..., rev. e prefa- 
ciado por Camillo Castello- Branco, Porto, 1878; 1 vol.' 

Memorias de Lilleratura Portuguesa publicadas pela Academia Real 
das Seiencias de Lisboa, 8 voll., 1792-1814 ; entre outras : 
I — Sobre o Ihealro português ( de Aragáo Morato ). 
II — Sobre a Arcádia { pelo mesmo ). 

III — Sobre as origens e progressos da poesia portuguesa ( por A. 

Ribeiro dos Santos ). 

IV — Sobre as origens da iypographia ( Id. ). 
V — Sobre a historia da mesma ( Id. ). 

Etc, Et^;. 
Mendonça ( A. P. Lopes ) — Memorias de Lilleratura Contemporânea, 

1 vol., 183.1 

Annaes das Sciencias e Leltras ( artigos sobre a Litteralura 

portuguesa nos sec. XVI e XVJl ; D. Francisco Alexandre Lobo ; 

Damião de Góes e a Inquisição ; J. Agostinho e a sua época J. 
Oliveira ( Cavalheiro de ) — Mémoires Historiques, Politiques, et Lit- 

téraires concernant le Portugal, etc, 2 voll, Haya, 1743. 
Ortiz ( D. António Romero) — La Litteralura Portuguesa en el siglo 

XIX, Madrid, 1869 
Panorama, diferentes volumes. 
Pinheiro ( J. C. Fernandes ) — fíesumo de Historia Litteraria, 

2 voll., 1873 ( o 2." é o que respeita á Lit. portuguesa ). 

Curso Elementar de LUt. Nacional, 1 vol., 1862. 

Reis (irancisco Sotero dos) — Curso d>' Ltlteratur.a Portuguesa e 
Brazileira professado por... no Instituto de Humanidades da 
província do Mâianhío, 3 voll., Maraahío, 1866-1873, 

Revista Contemporânea de Portugal e Brazil ( 5 voll., 1861-65). 



BIBLIOGRAPni XXXIII 



Ribeiro ( Silvestre ) — Primeiros Traços duma Resenha da Litteratura 

Portuguesa, Lisboa, 1853, 1 vol. 
Romero (Sylvio) Hist. da Litt. brazileira ( 1500 1877 ), Rio de 

Janeiro, 1888, 2 vols. 
Serra ( Corrêa da ) — Covp d'onl sur Vêlat des sciences ei des leltres 

parmi les Portvgais, publicado no Primeiro Ensaio, de Freire de 

Carvalho. 
Silva ( Costa e ) — Ensaio biographico-crilico, 10 voll. 
Silva ( Innocencio F. da ) — Dtccionario Bibliographico. 
Sismondi ( Simonde de ) De la lillerature du midi de rEurope, 2 

voll., 1829 ( E' o 2 o vol. que trata da Lit. portu|. ). 
Varnhagen (Francisco Adolpho de ) — Da litteratura dos livros de 

Cavallaria, Vienna, 1872, 1 vol. 
Vasconcellos (D. Carolina Michaèlis) — Geschichle der Porlugie- 

sischen Lilteralur in-Grundriss der Bom. Philologie, von G. Gróber. 

Slrasburg, Trtibner, 189Í-94. 
A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas ( Porto, 

1 vol. 1901 ). 
Cancioneiro da Ajuda. . ., vol. I. Texto. . . ; vol. II. Investi- 



gações bibliographicas, biographicas e historico-literarias. Halle, 
190i,2 vols. 
Viterbo ( Sousa ) — Varias monografias do laborioso investigador 
sobre Só de Miranda, Manoel de Sousa Coutinho, Damião de 
Góes, etc. 



HISTÓRIA^ 

LITEEATUKA PORTUGUESA 



INTRODUÇÃO 

Sumário: 1. História da literatura; seu âmbito : situação geográfica, 
raça e tradição. — 2. Sentido era que aqui se emprega. — 3. Anto- 
logia portuguesa. — 4. Divisão da história da literatura portuguesa. 
5. Critério desta divisão. — 6. Esquema geral. 

1. — História da literatura ; seu âmbito. Estudar a 
história da literatura dum país é estudar os documentos 
em prosa ou em verso apreciáveis pelo seu valor intrínseco 
ou pela sua forma; é conhecer a vida dos homens que os 
escreveram, especialmente na parte em que ela ajuda 
a entendê-los e interpretá-los. Neste sentido não é, no 
fundo, senão uma face e uma parte da história geral, 
mas é talvez aquela que melhor e mais completamente 
traduz o génio e os costumes duma nação, o espírito, o 
caracter e as tendências duma sociedade *. As literaturas, 
como as lingoas, que lhes servem de instrumento, sara 
verdadeiros organismos sujeitos a fases de origem, desen- 
volvimento e decadência. Como manifestação da vida 
dum povo acompanham este na sua actividade histórica. 
A formação embrionária dum país, a sua situação geográ- 
fica, o clima, a raça ou raças que entraram na sua constitui- 
ção, bem como as suas lutas e conquistas, o progresso 
ou retrocesso na marcha geral da sua existência, as glórias 
que o coroam, as amarguras que o contristam, numa 
palavra o palpitar âe toda a sua vida, vam reílectir-se na 
obra dos seus íilhos mais ilustres. Assim, estudando a 
situação geográfica do nosso pais, a sua extensa costa 



^ Petit de JuUeville, Hist. de la lit. franç., eh. i. 
1 



HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



marítima povoada de portos e em admirável posição para 
ser um entreposto universal, as suas múltiplas variedades 
de relevo e de terrenos, a sua rica fauna e flora, tudo isto 
dispondo-nos e encaminhando-uos para a vida marítima e 
colonial, tornando-nos ao mesmo tempo aptos, pela varie- 
dade de recursos, para o desenvolvimento duma bela 
civilização ♦ ; atendendo por outro lado ao nosso fundo 
étnico, que ê um misto do < cruzamento complicadíssimo 
de selvagens da época quaternária com iberos, ligures, 
fenícios, celtas, «cartagineses, romanos, suevos, godos e 
árabes predominando, ao que parece, os velhos troncos 
iberos modiflcados pelos elementos arianos » ^; tomando 
ainda em linha de conta a tradição que nos fornece uma 
grande quantidade de idéas e inspira muitos dos nossos 
costumes impondo-se-nos ás vezes despolicameute, embora 
quasi sem nós darmos por isso ', melhor compreenderemos 
as grandes fases literárias do nosso pais e as suas figuras 
mais representativas. 

í3- — Sentido em que aqui se emprega. Considerada 
sob o ponto de vista de que acabamos de falar a litera- 
tura é rigorosamente o que lhe chamou De Bonald — 
a expressão da sociedade. Mas não é sob este aspecto amplo 
e lato que nós aqui a estudamos ; equivaleria isso a termos 
de mencionar todas as manifestações do espírito, todos os 
conhecimentos humanos expressos pela palavra escrita. 

termo literatura, aqui, toma-se num sentido mais 
restrito, como sinónimo, quasi, de humanidades ou belas- 
letras, compreendendo sobretudo o estudo da poesia, da 
eloquência e da história. Uma história da literatura por- 
tuguesa deve, pois, registar, embora de fónna sucinta, 
todas aquelas individualidades que se tornaram notáveis 

1 Léon Poinsard, Le Portugal Inconnu. Paris, 1910, pg. 9. 

2 Sylvio Romero e J. Ribeiro, Compendio de historia da LU. Brasi- 
feira, Rio de Janeiro, 1909, pg. xxxvi. 

> L. Poio&ard, Ob. cif., pg. 16. 



INTRODUÇÃO 3 

pelos seus escritos, em prosa ou verso, sobre qualquer 
daquelas espécies ou nas suas congéneres — a crítica, a 
filologia, a arqueologia, o romance, etc, etc. Não com- 
pete a ura trabalho desta ordem mencionar tudo quanto 
em lingoa portuguesa foi escrito desde as origens até 
nossos dias. Essa função pertence antes ás Histórias lite- 
rárias e aos Dicionários bibliográficos. E' preciso conhe- 
cer aqueles que deixaram nome imorredouro na cultura 
literária de Portugal e que sob este aspecto são conside- 
rados seus filhos mais gloriosos, porque por eles se creou 
eterno e grande o nome da pátria querida. A história da 
literatura portuguesa apresentar-nos ha os nomes desses 
beneméritos, os fados principaes da sua vida e as suas 
obras mais importantes e mais dignas de serem conheci- 
das e imitadas. É um campo vastissimo dos mais curiosos 
e instrutivos. 

3- — Antologia portuguesa. Mas nós não podemos 
limitar-nos ao estudo bio-bibliográfico dos escritores portu- 
gueses. Ao lado desse conhecimento, que é indispensável. 
a lição colhida da própria leitura das obras que imortali- 
zaram seus autores é, antes de tudo, necessária e útil. 
Por isso damos no nosso trabalho larga parte aos documen- 
tos que constituem uma verdadeira Antologia de prosa e 
poesia desde as origens até á atualidade, e que sam tanto 
mais importantes quanto a raridade de muitos dos livros 
portugueses, bem como a sua reprodução cuidadosa e 
esmerada, torna ainda mais dificultosa a lição e aproveita- 
mento que deles pode e deve de tirar-se *. 



* Em todas as reproduções seguimos fielmente a ortografia dos 
respectivos autores. Não foi possível tornar mais extensas essas 
reproduções que, ainda assim, impressas aparte, dariam um grosso 
volume. Não damos nesta ediç5o, como já o fizemos na anterior, 
extractos dos Lusíadas. Essa epopeia anda, felizmente, nas máos dos 
nossos estudantes liceais desde a 4.* classe. A parte lírica de Camões 



HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



-4:» — Divisão da história da literatura portuguesa. 
A história da nossa literatura pôde coasiderar-se dividida 
em três grandes épocas, marcando três grandes correntes 
de idéas dominantes : 

I — Medieval abrangendo os séculos xii a xv ; 
II — Clássica compreendendo os séculos xvi a xix ; 
III — Romântica, que pcincipia em 1825. 
Nestas três épocas fica abrangida a vida literária do 
nosso pais: 

a) primeiro, uma fase de infância ou de iniciação; 
é o período das origens em que a lingoa sai pouco a 
pouco, através de formas múltiplas, do latim popular, do 
qual, como em outro logar vimos, ela com as suas congé- 
neres novi-latinas deriva *. A literatura ensaia também 
os seus primeiros voos ; os documentos literários que 
po6suimos deste periodo, a princípio irregulares e até 
mesmo, por vezes, ininteligíveis, gradual e sucessivamente 
se acentuam e caracterizam. Até 1245, reinado de D. San- 
cho II, ha o que pode chamar-se o período proto-histórico 
da literatura, em que se faz uso duma lingoa ainda na sua 
infância ; com D. Afonso III abre-se uma éra de pro- 
gresso, a lingoa começa a fixar-se, os pensamentos que 
ela é chamada a traduzir sara ingénuos, graciosos, cheios 
de vivacidade, embora a prosa seja ainda hesitante e a 
versificação muitas vezes dura e pouco regular. Neste 
período, jque denominamos medieval, predominam os tro- 
vadores, já influenciados pela corrente que provinha da 
Provença, já dominados pelo ascendente de Espanha. 



é porém enorme. Procuramos sempre de cada autor o que era lipico 
e melhor o caracterizava, embora, por vezes, se tratasse de trechos 
conhecidos. A linda écloga Chrisfal é reproduzida na integra. 

1 Cfr. a nossa Introdução á Historia da Literatura Portuguesa, 
3.* ed., Coimbra, 1911, 1 vol. 



INTRODUÇÃO 



b) Inicia-se em seguida o període a princípio de esplendor 
e virilidade e em que as obras clássicas dos gregos e 
latinos, impostas pelo renascimento, sam o modelo e o 
guia de todos os espíritos cultos. A lingoa entra aberta- 
mente numa fase histórica, definida e regular ; toma formas 
amplas e opulentas nas obras dos que chamamos os nossos 
clássicos dos séculos xvi e xvn, auxiliados ou secundados 
na fixação dessas formas pelos gramáticos, como João de 
Barros e Fernão de Oliveira. 

Uma tríplice corrente — italiana no século xvi, espa- 
nhola no século XVII e francesa no século xvni, atravessa 
sucessivamente esta época, á qual com propriedade compete 
a designação de clássica por durante ela se fazer sempre 
sentir o predomínio das literaturas grega e latina. A ener- 
gia e vigor de estilo que assinalam as obras de muitos dos 
escritores desta primeira fase, que bem pode chamar-se 
áurea, a louçania e pintoresco que tradu2em na sua lingoa- 
gem, vêem a decair na afectação e agudeza dos conceitos 
e no artifício dos sentimentos postos em jogo pelos escritores 
conceitistas e gongóristas do século xvn. Mas opera-se 
uma reação no século imediato. É a França que nos dá os 
cânones por onde se guiam os autores portugueses, entre 
os quaes alguns como Bocage, Filinto Ehsio e Tolentino 
sam os verdadeiros precursores da época imediata. 

c) Por último temos a terceira época — a romântica — em 
que se estabetece a fusão dos antigos elementos medievaes 
com os populares e tradicionaes. Assim, resumindo, temos: 

i — Época medieval abrangendo os séculos xu a xv e 
compreendendo as duas escolas — provençal desde 1200 
a 1385, e espanhola desde 1385 até 1521. 

2 — Época clássica desde o século xvi ao xvm e com- 
preendendo a escola italiana ou dos quinhentistas no 
século XVI, a gongórica, culteranista ou dos seiscentistas 
no século xvii, e a francesa ou dos académicos e árcades 
no século XVIII. 



HISTÓRIA OA LITBBATDRA PORTUGUESA 



3 — Época romântica, que principia era 1825 e se pro- 
longa até nossos dias mais ou menos alterada e modificada. 

55. — Critério desta divisão. A divisão que acabamos 
de fazer não é isenta de defeitos, parecendo antes — e 
nem sempre com rigor — mais adequada a uma divisão 
de história da poesia portuguesa do que a uma divisão da 
história geral da literatura. Por outro lado como que 
amezquinha a originalidade da nossa literatura pondo em 
relevo as correntes estranjeiras a que ela se subordinou 
ou pelas quais se deixou guiar. 

Mas além de que nenhuma classificação, em principio, é 
isenta de defeitos, deve ponderar-se que a que damos oferece 
vantagens didáticas — destinguindo e acentuando com 
nitidez as fases predominantes da evolução literária, deli- 
mitando épocas, cuja distinção é efectiva e real, e prestan- 
do-se, por isso, a uma melhor fixação da parte de quem 
a estuda. Por outro lado, quando nós falamos em correntes 
estranjeiras não queremos dizer que elas sejam o elemento 
principal e fundamental da nossa literatura. Em todos os 
países houve sempre na sua vida de espirito uma ou outra 
corrente de imitação. É um factor secundário, contingente, 
prestes a desaparecer deante doutro mais intenso. O que 
fica sempre, o que é primordial e basilar é o que deriva 
da própria natureza, do próprio organismo social. Esta- 
belecido assim o critério da nossa divisão não ha inconve- 
niente em aceitá-la. De mais, nós fazemos -tanto quanto 
possível uma exposição cronológica mantendo dentro dela 
a seriação dos géneros característicos, de forma a resaltar 
de tudo um quadro geral, uma síntese harmónica e perfei- 
tamente bem estabelecida da nossa evolução literária. 

C — Esquema geral. No quadro seguinte contêem-se 
e harmonizam-se entre si as classificações mais adoptadas 
pelos autores. 



INTRODUÇÃO 



QUADRO DA HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUf.UÈSA 



I 

Escola provençal 
(1200-1385) 



I — Época 

(XH-XV) 



II 

Escola espanhola 
(1385-1521) 



D. Afonso Henriques (1128-1185) 

D. Sancho I 

D. Afonso II 

D. Sancho II 

D. Afonso III 

D. Uenis 

D. Afonso IV 

D. Pedro I 

D. Fernando I (1367-1383) 

D. Jo5o I (1385-1433) 
I D. Duarte 

D. Afonso V 
I D. João II 
,D. Manoel (1495-1521) 



III 

Escola italiana ou 

quinhentista 

(xvi) 



IV 



11 — Época clássica. . ) escola gongórica 
(xvi-xvii.) ou seiscentista 

^ (XVIÍ) 



Escola francesa 

ou arcádica 

(xvin) 



III — Época romântica^ vi 

(xix) ^ Escola romântica 



i 



( D. Jo5o lll (1521-1557) 

]d. Sebastião 

/ D. Henrique (1578-1580) 

/ Filipe I (1580-1598) 
[ » II 
» III 
D. João IV 

ID. Afonso VI . 
D. Pedro II 
D. João V (1706-1750) 

(d. José I (1750-1773) 

■ D. Maria I 

/ D. João VI (1816-1826) 

D. Pedro IV (1826-1834) 
D. Maria II 
0. Pedro V 
l). Luís I 

Carlos I 

Manoel U (1908-1910) 



\U. Li 
[D. Cs 
\D. Ml 



I 

ÉPOCA MEDIEVAL 

(XIT-XV) 



Quadro sinótico do movimento político, 

social e literário 

correspondente á Escola Provençal 



I 

Monarcas portugueses 

D. Afonso Henriques 1128-1185 

D. Sancho 1 1185-1212 

D. Afonso II 1212-1223 

D. Sancho II 1223-1248 

D. Afonso III 1248-1279 

D. Denís 1279-1325 

D. Afonso IV 1325-1357 

D. Pedro 1 1357-1367 

D.Fernando 1367-1383 

II 
Sincronismo político e social 

1095 — Resolve-se a 1.* expedição das Cruzadas no Concilio de 
Clermont, a instâncias de Pedro o Eremita. 

1099 — Tomada de Jerusalém pelos cristSos sob o comando de Godo- 
fredo de Bulhões. 

1187 — Tomada de Jerusalém aos cristãos por Saladino. 

1205 — Franceses e venezianos tomam Constantinopla e fundam o 
chamado império latino do Oriente, que acaba era 1261. 

1300 — Descoberta da bússola por Flávio Gioio, de Amalfí. 

1312 — Abolição da Ordem dos Templários. 

1321 — Invenção da pólvora. 

1328 — Primeiras invasões dos turcos na Europa. 

1336 — Nascimento do Tamerlan. 

1362 — Os turcos criam a milieia dos janizaros. 



12 HISTÓRIA DK LITERATURA P0RTCGDS8A 



III 

Sincronismo literário 



Espanha 

Estabeleee-se o ciclo dos Poemas do Cid, creando-se em volta de 
Rodrigo Diaz Bivar (1040-1099), o Cid invulnerável, o afamado 
Campeador, personagem semi-lendária, toda a efervescência literária, 
que a França teve para Carlos Magno. Merecem citar-se : 

D. Afonso o Sábio ( 1220-1284) autor das Cantigas de Santa Maria 
publicadas, depois de seis séculos, pela H. Acad. Espafiola sob a 
direcção do Marquês de Valmar [ Madrid, 1889, 2 vols.]. São 420 com- 
posições escritas em honra da Virgem e constituem uma fonte riquís- 
sima para o estudo da poesia trovadoresca, sendo sob este aspecto 
como para o estudo da lingoa um subsídio importante a pór ao lado 
dos cancioneiros portugueses^ como eles escrito em galego e reflectindo 
as tendências da época. 

Pedbo Lópbz de Ayala ( 1332-1407 ), autor do celebrado poema 
Rimado de Palácio e 

JuAN Rciz (f 1351 ), mais conhecido pelo nome de Aràpreste de 
liita, cujas obras misturam orações á Virgem com sátiras á corte 
pontifícia, dissertações dogmáticas, batalhas alegóricas e graciosas 
fábulas que se podem ler no tomo lvii da Biblioteca de Rivadeneyra. 

NSo esqueçamos memorar a tragi-comédia de Calisto e Melibea, 
mais conhecida pelo nome de Celestina, em 21 actos, que teve grande 
influência na eclosSo do drama espanhol e em outros ramos literários. 

França 

A França tem neste período a primasia literária, creando a poesia 
provençal, que irradiou para toda a Europa. Estabelece-se a luta 
entre a lingoa de oU e a lingoa de oc ( segundo a maneira por que se 
exprimia a afirmação — oil no norte, oc no sul), com predomínio 
final daquela. Os poemas sam históricos ou cavalheirescos e a arte 
dramática inicia-se com os mistérios, o mais notável dos quaes é o de 
João Michbl. 

Itália 

Os ensaios e tentativas da lingoa italiana que nos aparecem em 
documentos interessantes como em / fioretti di saneio Francieseho são 
eclipsados pela obra prodigiosa de Dante Alighibri ( 1265-1321 ) de 
Florença, n. 3 annos depois do nosso D. Denís. Suas obras principaes : 
De monarchia (1311) acompanhada da Vila nitova, do Cancionero e 



CAPITDLO I — ESCOLA PROVENÇAL 13 



do Convito. Mas o seu trabalho capital é a Divina Comedia formada 
de Ires partes: Inferno (34 cantos), Purgatório (33 c. ) e Paraiso 
( 33 c. ) — 100 cantos, em tercetos endecasilabos, cuja inspiração ini- 
cial, pelo menos, se deve á sua paixão por Beatriz. [Em português : 
A. J. Viale — Inferno c. i-ii in — Mem. da Acad., i, p. 2." ; c. iii in — 
Inst., IX, p. 297-309; c. v in — Annaes das Sc. e Letras, cl. 2», t. 1.», 
p. 185eseg,, traduções depois reunidas na Misc.helenico-literaria ( 1868) 
e, de6nitivamente, nas Tentativas dantescas (1884); Domingues En- 
nes, O Inferno. . . ilustrado com as celebres gr av. de G. Dorê. . . acom- 
panhado do texto italiano, Lisboa, 1887, um vol. ; J. Pinto de Campos, 
Lisboa, 1886 — A Divina Comedia... Versão portug. commentada e 
annotadã]. 

Dante teve, sobretudo, dous sucessores ilustres : 

Petrarcha ( 1304-1374 ) que escreveu odes, sonetos e canções 
revestindo-as das mais ricas formas de dição e estilo. As suas Rime 
e os Trionfi inspirados em Laura, elevam o sentimento e a paixão 
erótica ao seu mais alto gráo. 

BoccAcio ( 1313-1375) colecionador do Decamerone, novelas licen- 
ciosas tanto ao gosto da época. O titulo é um helenismo composto 
« dez dias ». O autor imagina dez pessoas retiradas numa casa 
solitária para fugir da peste de Florença as quaes, para passar o 
tempo, narram contos, um por dia, e por pessoa, enlaçando-se lodos 
no entrecho e no enredo. 

Ingrlateirra 

Chaucer (1328-1400) considerado como o pai da poesia inglesa 
compôs vários poemas, o melhor dos quaes, embora incompleto, é 
Canterbury Tales, contendo vinte e três contos muito apreciáveis pela 
riqueza e colorido do estilo. 

Alemanha 

Este país sofre a influência da poesia provençal, sendo os seus. 
cantores designados pelo nome de Minnesingers ( cantores de amor ) 
e Meistersingers ( mestres cantores ), poetas liricos dos séculos xii e xin 
que nos seus lieds cantavam principalmente o amor elevado a um 
verdadeiro culto. 

Os Niebelungen, obra anónima, cheia de maravilhoso, são uma fonte 
inexgotavel de inspiração. Constituem as grandes epopéas populares, 
ao lado dos cantos liricos, da poesia amorosa dos Minnesingers. 



CAPITULO I 

Escola Provençal 

(1200-1385) 

Sumário : 7. Idade prolo-hislórica da lingoa portuguesa. — 8. Ori- 
gem da literatura portuguesa. — 9. Situação politica da Provença. 
10. Difusão da poesia provençal. Causas geraes. — 11. Causas 
da difusão era Portugal. — 12. Caracter da poesia provençal, 
13. Arte poética provençal. — 14. Trovadores, segreis e jograes. 
15. Antiguidade dos trovadores em Portugal. — 16. D. Denis. 
17. D. Pedro. — 18. D. Afonso Sanches. — 19. Outros trovadores 
e suas obras. — 20. Origem dos Cancioneiros. — 21. Cancioneiro da 
Ajuda. — 22. Cancioneiro da Vaticana. — 23. Cancioneiro Colocci- 
Braneuti. — 24. Importância dos cancioneiros. — 25. Primeiros 
ensaios históricos. — 26. Livro de Linhagens. — 27. Novelas de 
Cavalaria. — 28. Ciclo Carolingio. — 29. Ciclo BretSo. — 30. Ciclo 
Greco-Latino. — 31. Ciclo dos Amadises. — 32. Fábulas e lendas. 
33. Documentos apócrifos. 

POESIA 

7^. — Idade proto-histórica da lingoa portuguesa. Os 
primeiros documentos escritos em lingoa caracteristica- 
mente portuguesa sam dos princípios do século xiii. 
Anteriormente a esta data o que se nos depara nos 
documentos é uma mistura de formas latinas e portu- 
guesas. Considerando aparte certos termos, que mais 
tarde vieram a entrar no vocabulário da nossa lingoa, 
pode dizer-se que alguns encontramos já a contar do 
século IX em deante, como podemos vèr nos Portugaliae 
Monumenia Historie» publicados pela . Academia Real das 



16 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



Sciencias de Lisboa, no Elucidário de Fr. Joaquim de 
Santa Rosa de Viterbo, nas Dissertações chronologicas e 
criticas de João Pedro Ribeiro e em outros livros adstriclos 
à espécie *. Quanto mais nos afastamos do século xii, 
mais as formas portuguesas se tornam numerosas, próprias 
e definidas. Mas não é de taes documentos, que interessam 
em primeira linha ao gramático e ao filólogo, que aqui 
temos de ocupar-nos. O que nos importa conhecer sam 
os trabalhos literários, embora eles envolvam simultanea- 
mente um problema lingoistico, e é deles, sob esse aspecto 
considerados, que passamos já a tratar. 

S- — Origem da literatura portuguesa. Pode dizer-se 
que a literatura portuguesa nasceu na Provença. E' lá 
que é preciso ir procurar a origem dos nossos primeiros 
documentos literários, documentos em verso, como o 
sam, em geral, os da infância de todos os povos. De lá 
nos veiu com o caracter e feição especial dessa poesia, 
que tam notável influência exerceu na nossa vida lite- 
rária, a forma e o ritmo, que sam a essência da nossa 
arte poética. Transplantada da província meridional da 
França para o nosso pais, essa poesia amorosa, cheia de 
sentimento e de vida, recebeu em Portugal a centelha 
do entusiasmo, tornou-se querida de todos e por isso 
mesmo popular. 

O. — Situação politica da Provença. Mas o que era 
a Provença e como se tornou ela o foco da poesia a que 
indelevelmente ligou o seu nome ? 



1 Dr. Leite de Vasconcellos, Esquisse d'une Dialectologie Portugaise, 
thèse pour le doclorat de fUniversité de Paris, Aillaud, 1901, 1 vol., 
pg. 10 e seg. ; Id. — Textos archaicos para uso da aula de philologia 
portuguesa. . ., Porto, 1905, 1 folh, ; J. J. Nunes Chrestomalhia archaica, 
excerptos da literatura portuguesa desde o que de mais antigo se conhece 
até ao século XVI..., Lisboa, 1906. 



CAPITULO r — ESCOLA PROVENÇAL 17 

A Provença depois da desmembração do império de 
Carlos Magno foi elevada a reino (879), passando poste- 
riormente (943) a ter o simples titulo de condado. Sob 
o governo de Raimundo Beranguer e dos seus sucessores 
uma série feliz de circunstâncias políticas e sociaes 
trouxe um notável progresso material e moral á antiga 
província. As liberdades políticas e municipaes, o gosto 
da cavalaria, das artes e das letras, a apropriação da 
ciência dos árabes, tornáram-na esse foco de luz, que 
irradiou sobre toda a Europa inundações de poesia e 
de amor. 

O casamento de Raimundo Beranguer III, o Grande, 
conde de Barcelona, com D. Dulce, filha e herdeira de 
Gilberto, conde de Provença, causou a união, sob o 
mesmo cetro das duas províncias (1113) e preparou 
de longe a irradiação, que acontecimentos posteriores 
largamente tornaram conhecida *. 

IO. — Difusão da poesia provençal. Causas geraes. 
Como é que essa poesia transpôs as Astúrias e o reino de 
Lião e veiu engrandecer-se em Portugal ? « Foi dos países 
cis-pirenaicos da lingoa d'oc, sob a égide de soberanos 
ilustrados que governaram simultaneamente a Provença 
e o condado de Barcelona e cingiram posteriormente a 
coroa de Aragão que, na opinião dos romanistas, pro- 
veio o gosto e o interesse pela poesia palaciana, que se 
comunicaram primeiro a Navarra e Castela, depois a 
Lião, para finalmente atingirem á úlíima hora a nova 
monarquia portuguesa, desagregada do reino galego- 
lionès nos últimos anos do século xi » *. E assim é 



^ Andrade Ferreira, Curso dê lit. porlug., t. 1.°, pg. 89 e seg. 

2 Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, cit. na Bibliog., ir, 
689. Gaia-sciencia foi o nome posto á poesia dos trovadores pela 
célebre Academia de Tolosa. Os trovadores designavam-na pelos 
nomes de art de trobar ou saber de trêbar. 



18 HISTÓRIA DA LITBRATCRA P0RTUGUB8A 

que observamos que nos primeiros reinados da monar- 
quia já nós trovávamos á provençal e aí está a carta 
do Marquês de Santillana para fazer fé de que primeiro e 
melhor que ninguém o fizemos em todas as Espantias e 
de que na mesma corte de Castela o português era 
a lingoa da poesia culta *. 

A Itália e a Alemanha, a Inglaterra e a França, a 
Espanha e Portugal, todas aceitaram essa corrente poética 
iniciada pelos trovadores e por eles tornada conhecida e 
estimada. Para essa difusão concorreram : 

a) 08 guerreiros que nos séculos xi a xni partiram para 
as cruzadas ; 

b) os trovadores e jograes que visitavam as cortes 
estranjeiras ou os solares dos ricos-homens e assistiam 
às romarias célebres ; 

c) os casamentos dos príncipes, que levavam consigo o 
séquito dos seus menestréis ; 

d) a escolha de prelados francos, gauleses, anglo- 
normandos e flamengos para as catedraes das cidades 
reconquistadas aos Mouros ; 

e) a vinda de colonos para repovoação de terrenos 
devastados. Etc. 

11. — Causas da difusão em Portugal. Em Portugal, 
àlêm destas, outras causas actuaram no estabelecimento 
e difusão da poesia provençal. 



1 o célebre testemunho de Santillana ( 1398-1458 ) é o seguinte : 
n E despues fallaron esta arte que mayor se llama, e el arte comun, 
creo, en los reynos de Gallicia e Portugal, donde uon es de dubdar 
que el cxercicio destas sciencias mas que en ningunas olras regiones 
ni provincias de Espana se acoslumbró ; en tanto grado que non ha 
raucho que qualesquier decidores o trovadores destas partes ( agora 
fuesen Castellanos, Andaluces o de la Estremadura ) lodos sus obras 
componian en lengua gallega (o portuguesa). E aun destos es cierto 
rescebimos los nombres dei arte, asy como : maestria mayor e menor, 
encadenados, Icxapren e mansobre ». 



CAPITULO I — ESCOLA PHOVBNÇAL 19 

Sam conhecidas as circunstâncias politicas, que deram 
em resultado a constituição de Portugal como reino inde- 
pendente (H14). As lutas empenhadas nessa empresa 
e as regalias oferecidas aos que nela colaboravam atraíam 
os cantores guerreiros, que encontravam campo onde 
exercitar o seu génio poético e os seus instintos belicosos. 
Por outro lado armadas de cruzados, dirigindo-se à Terra- 
Santa, aportaram algumas vezes a Lisboa e muitos dos 
trovadores, que nelas vinham, ficaram residindo no nosso 
pais. O asilo que nas cortes dos reis e nos paços dos 
nobres encontravam esses trovadores não poderia também 
ser estranho a Portugal *. 

D. Afonso Henriques era 4i50 casou com D. Mafalda, 
filha de Amadeu II, conde de Sabóia. Ora a corte de 
Sabóia era vassala e vezinha da da Provença e por isso é 
de presumir que a princesa, qne esposava o monarca 
português, trouxesse consigo para a sua nova residência 
o gosto da poesia cavalheiresca dos trovadores. 

Foi na mesma corte da Provença que D. Sancho I 
procurou aquela que esposou em H78, D. Dulce, filha 
de Raimundo Beranguer IV, conde da Provença e rei de 
Aragão. A datar desta aliança, escreve Baret, as relações 
entre as cortes de Portugal e Aragão foram cada dia mais 
estreitas. A necessidade de conter em respeito os reis de 
Castela não era talvez estranha a estes sentimentos, mas 
também é certo que isso vinha a redundar em favor da 
influência em Portugal da poesia trovadoresca ^. 

Pacificadas as lutas tendentes a consolidar a nova 
monarquia autónoma, com D. Afonso III a poesia proven- 
çal adquire então o seu maior desenvolvimento. A idade- 
áurea dessa poesia deve fíxar-se entre 1245 a 1280. 



í Sr. Th. Braga, Canc. Portug. da Vaticana, introd. 

2 Les Troubadours et leur influence sur la literaiure du midi de 
VEurope, etc. Paris, 1867, pag. 193; Milá y Fontanals, Obras Com- 
pletas, II, De los trovadores en Espana, Barcelona, 1889. 



20 HI8TÓBIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

Segundo a Sr.' D. Carolina M. de Vasconcelos o quadro 
representativo da arte trovadoresca pode estabelecer-se 
assim : 

alvorejar — alé 1188: período pre-historico 
madrugada — até 1245: período proto-historíco 
meio dia — até 1280: idade áurea, afonsina 
tarde — até 1300 : período dionisíaco 

crepúsculo — até 1350 : tempo dos epígonos 
noite — de 1350 em deante : interregno poético 

ou tempo de transição para a 

época segunda. 

Desta forma, segundo a ilustre romanista, a idade mais 
fértil e mais brilhante da poesia trovadoresca é a afon- 
sina e não a dionisiaca. « Embora D. Denis seja de facto, 
individualmente, o mais fecundo entre todos os trovadores 
de amor. . . a plêiada de fidalgos que o circunda, incluindo 
os jograes que afluem à sua corte, é muito menos nume- 
rosa e nem de longe possue o brilho, a originalidade, o 
viço e fervor da que poetou em volta de Afonso III, e 
principalmente junto ao sábio de Castela » *. 

D. Afonso III vivera durante treze anos (1235-1248) 
em França e de lá com os numerosos fidalgos, que o 
acompanharam, trouxe o gosto de trovar, que durante 
mais de trinta anos de governo desenvolveu e fomentou. 

Por essa época começava a Universidade de Paris a 
tornar-se conhecida e admirada. Dela saia a luz que des- 
lumbrava e atraia todos os países do sul da Europa. 

O seu contacto, mantido durante tam longo tempo, não 
podia ser infructífero para D. Afonso III. 

Também é lá que ele vai procurar o mestre o educador 
de seu íilho e herdeiro — D. Denís que, como veremos, 
teve uma educação esmerada, tornando-se ele próprio um 
cultor apaixonado da poesia. 



Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, u, 600. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 21 

A estas circunstâncias que concorreram para o desen- 
volvimento da poesia provençal ha a juntar a nossa vezi- 
nhança com a Galiza, solar das antigas musas espanholas 
e estreitamente relacionada com a gente portuguesa. 

Nessa região não se cultivava com menos entusiasmo 
a poesia provençal. 

A esta proximidade geográfica junte-se também a afini- 
dade da lingoa, que se tornou tipica dos trovadores, a 
lingoa poética por excelência, aquela que era, na opinião 
de todos, a mais apta para exprimir as idéas galantes e 
cavalheirescas do tempo *. 

Não era o provençal, nem o castelhano ; era outra con- 
siderada então de superiores condições musicaes e por 
isso mesmo preferida para todas as poesias sagradas ou 
profanas que se destinavam ao canto. 

Esta Hngoa amoldou-se de tal sorte á imitação dos pro- 
vençaes, que adoptou grande parte do seu vocabulário, 
como a sua variedade e riqueza métricas ^. 

Poetas, fossem provençaes, galegos ou portugueses em- 
pregavam muitos termos comuns, como: sol (somente), 
pufíar (pugnar), mesura, afan, coyta (queixa, pesar), 
osmar (conjecturar), adubado (disposto, decidido), aquel, 
aqueste, as formas Ih (ill) e nh (gn), etc. ^ 

Esta lingoa que, como diz Raynouard, precedeu e pre- 
parou a formação das lingoas particulares a cada uma das 
nações da Europa meridional, não podia deixar de ser um 
laço poderoso ligando entre si todos os trovadores desta 
escola galaico-portuguêsa, tendo então, como tem hoje, 
tam intimas relações, e uma e outra tendo a mesma 



^ Amedée Pagès, Auzias March et ses predecesseurs. Essai sur la 
poésie amoureuse et philosophique en Gatalogne attx XIV' et XV siècles. 
Paris, 1912, pg. 123. 

2 Menendez y Pelayo, Antologia de Poetas líricos castelhanos, etc, 
Madrid, 1890, i, pg. lxxxiv. ^ 

' Baret, Les troubadours, etc, já cit,, pg. 190. 



22 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



comum origem como uma simples leitura comparativa o 
evidencia *. 

1)S. — Caracter da poesia provençal. Mas o que era 
essa poesia provençal, que foi a primeira inspiradora dos 
cantos portugueses? Era, segundo a expressão apro- 
priada de Yillemain, a liberdade de imprensa dos tempos 
feudaes '. Os apóstolos dessa liberdade foram os trova- 
dores. Eles se encarregaram de levar a toda a parte as 
idéas de egualdade e fraternidade, que os uniam. Reis, 
príncipes, grandes senhores, ou simples filhos do povo, 
desde que composessem trovas, todos eram admitidos na 
mesma confraternidade. O gosto de trovar era um sinal 
de distinção, que todo o bom cavaleiro timbrava de pos- 
suir. Trovar era cumprir uma missão civilizadora. De 
pais em pais, de castelo em castelo, o trovador era o 
pioneiro audaz, que, com o pensamento na sua dama, 
espalhava muitas idéas, que dulcificavam os costumes. 
A glória, a independência e o amor brotavam natural- 
mente dos seus cantos. A dignidade da molher foi por 
eles elevada a uma espécie de culto. 

13. — Arte poética provençal. Os trovadores tiveram 
uma arte poética variadíssima. A designação de verso 
(palavra) era aplicada a quaesquer composições metri- 
ficadas, que depois vieram a ter nomes próprios. Eis as 
principaes : 



1 A. Jeanroy, Les origines de la poésie lyrique en France, Paris, 1904, 
1 vol. Além dos textos originais já publicados de muitos trovadores, 
ba excelentes selectas para o estudo da lingoa provençal, como a de 
K. Bartsch, Chreslomatie provençale, 6.* ed. em i904, 1 vol. ; C. Appel, 
Provenzalische Chrestomalie, 1907, 1 vol. ; e outras que podem vér-se 
em Joseph Anglade, Les troubadours, leurs viés, leurs oeuvres, leur 
influente. Paris, 1908, 1 vol. 

* Y. Balaguer, Los trovadores, i, pg. 71, Madrid, 1882. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 23 

a) Canção (chamo), que era o mais nobre dos géneros, 
o próprio dos cavaleiros, por oposição a todas as espécies 
de composição em verso. Admitia versos e rimas varia- 
das e terminava por uma estrofe ou tornada; quando fácil 
e curta denominava-se cançoneta (chansonela); havia ainda 
a meia canção (mieg chansó). 

h) Sirvente, sirventes, sirventesca, era uma composição 
crítica e satírica, que derivou o seu nome ou do fim a 
que era destinada — engrandecer e louvar os senhores 
feudaes (Diez, Bartsch), ou da origem — canto de ser- 
vente ou soldado mercenário e aventureiro (Meyer). 
Como para a canção, havia a mieg-sirvente e a chansó 
sirvente ou chans mesclaiz. Era considerada em segundo 
plano pelos trovadores, mas tem para nós grande interesse 
por nos dar idéa dos costumes e cousas daquele tempo, 
ajudando a compreender muitas circunstâncias históricas. 

c) Descort, descordo, desacordo ou por ser ordinariamente 
escrito em diversas Hngoas, ou por causa da irregulari- 
dade da medida dos versos, era uma poesia amorosa em 
que o poeta lamentava alguma paixão não correspondida. 
O trovador Raimbaut de Vaquières escreveu um descort 
em cinco lingoas ou dialectos, uma por estrofe; a última 
é composta de dez versos, dous em cada lingoa *. 

d) Tensão, tense, contense, género muito usado pelos 
provençaes, consistia num diálogo ou controvérsia entre 
dois trovadores em que cada qual defendia e sustentava 
um tema e que costumava sujeitar-se á decisão dum árbitro. 
As rimas do que propunha a questão deviam ser conser- 
vadas pelo rival. Tomava o nome de jocx-partitz quando 
dois trovadores devidiam o assunto ; se entravam mais de 
dois dizia-se torneyamens, e se o assunto era amoroso 
jocxenamorats. Eis alguns assuntos destas discussões 
poéticas: í) quem se conduz melhor — o que não pode 



' Joseph Anglade, Les troiibadours, leurs viés, leur$ oeuvres, leur 
infltunee já cit., pag. 71. 



24 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



resislir á necessidade de falar na sua dama, ou o que, 
sem falar, pausa muito nela? 2) como se prova mais o 
amor duma dama? Gonfessando-o e publicando-o por 
todas as partes como timbre de glória, ou guardando-o 
no fundo da alma, como se oculta um tesouro? 3) ha dois 
maridos ciumentos. Um possue uma molher bela e cheia 
de mérito, o outro uma feia e grosseira : velam sobre elas 
com igual solicitude. Qual dos dois é menos censurável * ? 
e) Géneros mais simples, mais ligeiros, mas nem por isso 
despidos de menos graça e sentimento eram o planh, plang, 
espécie de lamentação ou elegia amorosa ; alba e serena, 
cantos da manhã e da tarde ; pastoreia, idílio ou écloga entre 
o poeta e uma pastora ou guardadora de gado; bailada 
ou bailia se se ocupava de bailes, barcarolas se tratava de 
assuntos marítimos, e cantigas de romaria, cujo nome 
indica claramente o objecto. Ligeiras, fáceis, graciosas, 
estas composições mostram quasi invariavelmente o amante 
dirigindo-se á mia senhor^ fremosa mia senhor — cantigas 
de amor, ou a namorada dirigindo-se em ternos queixumes 
ao seu amigo — cantigas de amigo. Ás vezes tomam íeição 
levemente satírica — cantigas de escdrneo e mal-dizer. Mas 
as duas primeiras espécies são indubitavelmente as mais 
mais formosas de quantas composições nos legou a lírica 
provençal. Estas qualidades notam-se sobretudo nas can- 
ções chamadas simplesmente paralelislicas, ou também 
bailadas paralelisticas ou bailadas encadeadas, em que a 
mesma idéa obedecendo a uma contextura rítmica de feição 
ingenuamente popular se repete jà pelas mesmas palavras; 
já por termos sinónimos, mas de sons diferentes ; já por 
palavras diversas mas adrede dispostas a dar maior varie- 
dade e graça á composição. Nascidas entre o povo as 
paralelisticas foram usadas pelos nossos melhores trova- 
dores, e vêmo-las representadas na obra do nosso grande 



Vid. Balaguer, Ij>s Trovadores, i, 3. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 25 

Gil Vicente * para se manterem através os séculos na poesia 
popular. 

Encontramos exemplos de todos estes géneros nos nos- 
sos cancioneiros medievais, como veremos acerca dos 
principaes nos documentos, que serão citados nos respe- 
ctivos togares da Antologia. 

14. — Trovadores, sagreis e jograis. Três classes 
de poetas. « Trovador era o que cultivava a poesia e a 
música creando ou inventando obras novas, como dilletante, 
isto é, com inteira independência, por gosto, sem idéa 
alguma de lucro. Sègrel era o que fazia da arte de trovar 
uma proOssão aceitando paga pelas suas composições. 
Jogral era aquele cujo oficio consistia em tanger vários 
instrumentos de música e em cantar versos alheios, tendo- 
Ihe este mister servido de ponto de partida para também 
inventar sons novos e lavrar cantigas novas. O trovador 
era homem de corte, filho d'algo. O jogral vilão de nas- 
cimento ; o segrel ou jogral da corte era, na maioria dos 
casos, um dos nobres desqualificados. Como trovar era 
o único termo técnico e simples, que caracterizava o tra- 
balho mental do poeta e compositor, e trova o nome gené- 
rico da criação poética, o titulo trovador competia em boa 
lógica, e por isso aplicava-se comummente a todos quantos, 
de facto trovavam, aceitassem ou não o prémio do seu 
saber, fossem de que nascimento fossem » ^. 

E assim é que vemos reis, príncipes, nobres e senhores 
ricos e orgulhosos, nivelarem-se com indivíduos saídos da 
humilde classe do povo. Guilherme, VII Conde de Poitou 
e IX duque de Aquitânia ^, o primeiro entre todos, e outros 
poderosos figuram ao lado de Bernard de Ventadour, filho 



» Cfr. J. J. Nunes, Chrestomathia, já cit., pg. clvii. Id., As cantigas 
paralelisticas em Gil Vicente, Lisboa, 1910. 

2 Sr.* D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, cit., ii, 629. 

' A. Jeanroy publicou as Poésies de Guillaume IX, Paris-Toulouse, 
1905. 



5!6 UISTÓRU DA LITBRATURA PORTUGUBSA 

dum forneiro do castelo *. Clérigos, monges fugidos do 
claustro, engrossam esta falange de cantores, que tam 
poderosamente influiu na civilização moderna ^. 

IS. — Antiguidade dos trovadores em Portugal. Os 
documentos que actualmente possuímos levam nos a admitir 
que os primeiros poetas portugueses remontam aos prin- 
cipios do século xm. Se são exactas as conjecturas da 
sr.' D. G. M. de Vasconcelos a poesia mais antiga que 
possuímos alcança o ano de 1189 e é obra do trovador 
Pai Soárez, de Taveiroos. Também é possível que o nosso 
D. Sancho I seja o autor duma linda cantiga feita sob a 
inspiração da célebre D. Maria Paes Ribeiro, a « Ribeiri- 
nha > como na nossa história é conhecida ^. 

Notícias de haver jograes na corte encontrâmo-las nós 
remontando a D. Sancho I, que em il93 fazia doações de 
umas terras a dois deles — um tal Bonamis e um Acom- 
paniado, prometendo eles em rohora ou como emolumento 
unú arremedillu, o que signiGca um entremês e a que se 
pode chamar a primeira peça teatral da nossa literatura 
dramática *. Á volta de 1250 D. Afonso III mandava 
admitir na corte somente três jograes, segundo lemos no 

1 J. Anglade, Les Troubadours, oh. cit. pg. 34. Este autor diz estar 
em preparação por C. Appel uma ed. de Ventadour, ob. cit , pg. 304. 

2 O tipo do Trovador é descrito nesta passagem célebre de Baena : 
ome que aia cursado cortes de Reyes e con grandes sefiores, y noble 
fidalgo, e gracioso, e cortês, e polido, e donoso, e que tenga miei, e 
azucar, e sal, e aire e donaire en su razonar, e outrosi que sea ama- 
dor, e que siempre se precie e se finga de ser enamorado ; porque es 
opinion de muchos sábios que todo ome que sea enamorado, conviene 
a saber, que ame a quien debe, e como dcbe e donde deba, alfirman e 
dieen que el tal de todas buenas doctrinas es dotado. 

> Veja-se Sr. Conde de Sabugosa, Donas de tempos idos, Lisboa, 
1912. O ilustre escritor dedicou o l." cap. do seu livro a D. Maria 
Paes, traçando-nos um retraio da encantadora feiticeira verdadeira- 
mente magistral. 

* Sr.' D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, ii, 758 ; Sr. Conde 
de Sabugosa, ob. cit., pg. 32. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 27 

Regimento da Casa Real: « El-Rei aia tres jograres em 
sa casa, e nom mais ; e o jogral que veer de cavalo doutra 
terra (ou segrel) de-lhe El-Rei ataa cem... (maravedis) 
ao que chus der, e non mais, se lho dar quiser t •. E o 
que é indubitável é què, como jà ponderamos atrás 
(n." 11), as poesias contidas no Canc. da Ajuda sam, na 
maioria, senão na totalidade, obra de trovadores afonsinos 
e pre-afonsinos. O nosso maior trovador é, porém, 
D. Denis destacando admiravelmente dessa plêiada, cujas 
biografias, tam laboriosamente organizadas, podem lêr-se 
na ed. monumental da sr.* D. G. M. de Vasconcelos, 
(II, 291-584). 

le. — D. DENÍS (1279-1325) merece ser citado em 
primeiro logar. Ele recebeu dos seus dois mestres — 
Ayméric d'Ebrard ( 4- 1295) e D. Domingos Jardo, ambos 
ilustres, uma educação literária tam completa, que se pode- 
contar como o mais sábio monarca do seu tempo. Ayméric 
era filho dum gentilhomem francês, natural de Cahors, na 
Aquitânia, chamado Guilherme d'Ebrard, senhor de S. Sul- 
picio, em Quercy, vezinho, por conseguinte, do célebre 
Guiraut de Bornelh, de quem conhecia os versos e cuja 
lingoa decerto falava ^. O monarca português fê lo bispo 
de Goimbra logo no primeiro ano do seu reinado. D. Do- 
mingos Jardo, bispo de Évora e mais tarde de Lisboa 
desde 1291, estudara na celebérrima universidade de Paris. 
Taes foram os homens a quem D. Denis deveu a cultura 
e o desenvolvimento dos seus dotes naturaes. Dessa cul- 
tura dão pleno testemunho muitos factos do seu reinado, 
como o mandar traduzir para português as leis das Sete 
Partidas, a Crónica geral ou História de Espanha, de 
Afonso o Sábio, e até do árabe a História e Geografia da 
Península do mouro Razis de Górdova, tradução que foi 



» Port. Mon. Hist. Leges, pg. 199. 
2 E. Baret^ Lei trouhadowt, já cit. 



28 HISTÓRIA DA LITBRATnRA PORTUGUESA 

feita pelo seu capelão Gil Pires *. Prova evidente dessa 
cultura é também a fundação dos Estudos geraes ou Uni- 
versidade promulgada por um diploma solene de 1 de 
março de 1290 «. 

A sua corte tornou-se o foco duma intensa vida literá- 
ria, vindo jograes e trovadores de Galiza, Lião e Castela, 
acoltier-se á sua sombra. A sua morte foi um rude golpe 
dado á poesia trovadoresca como o deixa perceber o planh, 
que o jogral Joham (de Leon) compôs a esse propósito: 

Os namorados que trobam d'amor 
todos deviam gram doo fazer, 
et nom tomar em si nenhum prazer 
porque perderon tam boo senhor 
Com'é el-rey D. Denis de Portugal. 



Os trobadores que pois ficaron 
• eno seu reino e no de Leon, 

no de Castelia, e no de Aragon, 
nunca pois de sa morte trobaron ' ! 

Sam de dois géneros as canções que D. Denís compôs : 
a) umas, de caracter profano eram trovas próprias para 
se cantarem á teorba e de que em 1894 foi feita edição 
completa pelo sr. Henry Lang professor da Harward- 
University de New-Haven, com o titulo — Das Liederbuch 
des Kônigs Denis von Portugal *; b) outras de caracter 
religioso formavam o cancioneiro « de louvores da Virgem 
N. S. » «. 



^ O original árabe é desconhecido ; a tradução andava na Livraria 
do Conde de Vimieiro. Cfr. Nic. António, Bibl. Hisp. Vetus, i, 1. vi, 
cxii, n." 80 e CoUecção dos Does. e Memorias da R. Acad. de Hist., 1724, 
n.' XVII, pg. 9 e n." xix, pg. 6. 

2 Dr. A. de Vasconcelos, Um documento precioso, in-Rev. da Univ. 
de Coimbra, i, 1912. pg. 373. 

' Canc. porlug. da Vaticana, ob cit., n.* 708. 

* Em Halle, na casa editora de Max Niemeyer, 1894. 

^ A existência deste cancioneiro ó atestada por uma afírmaçSo 
positiva e categórica de Duarte Nanes de LiSo na Crónica dot Reit 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL Í9 

.As composições de D. Denís (76) estão escritas em 
verso endecassílabo, em redondilha maior e menor e sam 
na sua maior parte cantares de amigo e cantigas de amor, 
algumas baladas e pastoreias. Imitando os provençaes, 
como ele próprio diz, 

Quer' eu em maneira de proençal 
fazer agora um cantar d'amor * 

régio trovador cantou principalmente os sentimentos e 
tristezas do coração, não se encontrando na colecção das 
suas rimas, nem sirventes, nem cantos guerreiros, como 
muitos dos contemporâneos nos deixaram, o que bem se 
explica pelo seu génio ilustrado e pacifico. 

Leiam-se as cantigas de amor, a pastoreia e as baladas 
transcritas na nossa Antologia, e ver-se ha ao lado da 
simplicidade da lingoagem, a graça dessas composições, 
que tornaram consagrado o nome do rei trovador, de 
quem Ferreira escreveu: honrou as musas, poetou e leo. 
Ao lado de D. Denís figuraram os seus dois filhos bastar- 
dos, D. Pedro e D. Afonso Sanches. 

ir. — D. PEDRO, Conde de Barcelos, (1289-1354), a 
quem foi atribuído como se só poesias dele contivesse 
o chamado Livro das Cantigas, que em testamento 
outorgado em Lalim a 30 de março de 1350 legou a 
Afonso XI de Castela, livro que era dele, sim, mas 
pelo facto da colecionação e da propriedade ^. Este 



de Portugal, parte i, tomo ii, pg. 77 : « Grande trovador, diz ele 
referindo-se a D. Denís, e quasi o primeiro que na lingoa portu- 
guesa screveo versos^ segundo vimos por hum Cancioneiro seu que 
em Roma se achou em tempo dei Rei D. João III et per outro que 
stá na Torre do Tombo de louvores da Virgem N. S. ». 

í Lang, cit., pg. 41. 

2 N5o está provado que esse livro de cantigas só contivesse produ- 
ções de D. Pedro. No testamento o conde diz : » mando o meu livro 
das cantigas a el Rey de Castella » e nSo o livro das mingas cantigas 
ou o livro que eu fiz. 



30 HISTÓRIA DA LITEBiTCRA PORTUGUESA 

cancioDeiro devia conter as poesias galaico-portugues^s 
recolhidas desde 1330 a 1350, em Portugal, Aragão, Lião, 
Galiza e Castela e deveria ser decerto uma colecção riquís- 
sima. Infelizmente perdeu-se, e tudo quanto possa dizer-se 
sobre o valor das poesias que encerrava, seus autores, 
época e região em que viveram, bem como sobre as 
relações dele com os outros cancioneiros, não passa de 
meras conjecturas, mais ou menos verosímeis. Podemos 
fazer idéa do talento poético de D. Pedro pelas onze 
canções, aliás medíocres, quatro de amor e sete de 
escàrneo, hoje recolhidas no Canc. da Valic. (210-243 
e 1037-1042). A sua glória é outra como prosador. 
O Livro de Linhagens ou Nobiliário que lhe tem sido 
atribuído, mas que dele não conserva senão uma parte 
demínuta, como adeante veremos, vincula, apesar de tudo, 
indelevelmente o seu nome. 

18. — D. AFONSO SANCHES (1286-1329), irmão 
mais velho do antecedente, prináogénito entre os nove 
bastardos de D. Denís, foi também trovador como se pode 
ver pelas canções, quer amorosas, quer satíricas, que exis- 
tem compiladas no Canc. da Vatic. (17-27 e 365-368). 

IO- — Outros Trovadores. A par do rei e dos 
príncipes, muitos nobres, que formavam a corte e 
pertenciam à sua casa militar ou eram funcionários e 
administravam a fazenda, como Pai Soàrez, de Taveiroos, 
Afonso López Baian, Nuno Fernández Torneol, Airas 
Corpancho, e muitos outros — ricos homens, privados, 
escudeiros, cavaleiros, etc. cultivavam também a poesia, 
concorrendo para avolumar esse número considerável de 
trovas que enchem os cancioneiros, que ainda hoje pos- 
suímos, e que de certo formavam outros muitos que se 
perderam. A maioria e melhoria dessas canções sam, 
como já dissemos, de caracter amoroso — Cantigas de 
amor, muitas de confidências a amigos — Cantigas de 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 31 

amigo, e muitas de feição satírica — Cantigas de escdrneo 
e maldizer. 

Se todas as poesias dos nossos trovadores existissem, 
elas, juntas ás que possuimos, formariam organizadas e 
dispostas um grande Cancioneiro geral galaico-português, 
que se podia tripartir em : 
I — Cancioneiro de Amor. 

11 — Livro de cantares de amigo ou Livro das Donas. 

III — Cancioneiro de Burlas. 

J30, — Origem dos Cancioneiros. As composições 
trovadorescas foram a principio recolhidas em grandes 
folhas de pergaminho e acompanhadas da respectiva nota- 
ção musical, aproveitando-se as maiúsculas para lindas e 
delicadas miniaturas. Com o tempo essas folhas reunidas 
formaram cadernos ; dai as coleçôes que modernamente 
se designaram por Cancioneiros abrangendo poesias de 
diferentes autores e várias épocas. Pena é que muitos 
deles se perdessem sabendo nós da sua existência, hoje, 
apenas por uma ou outra informação dada de passagem 
nos autores e por conjecturas mais ou menos funda- 
mentadas. 

Atualmente os cancioneiros galaico-portugueses que 
possuimos sam: o da Ajuda, o da Vaticana e o de 
Colocci-Brancuti *. 



1 Sobre o assunto merecem lêr-se : a introd. e notas de Varnhagen 
ás Trovas e cantares, adeante cit., e os alemSes : Bellermann, Die 
alten Liederbucher der Portugiesen oder Beitràge zur Gesch. der portu- 
giesiesischen Poesie vom 13 bis zum Anfang des 16 lahrhunderts, nebsi 
Proben aus Handschrifften und alten Drucken, Berlim. 1840, monografia 
que é, diz Kaussler C Canc. Geral, ed. de Stuttgard, Vorwort, i, vii ) 
fruto de investigações de muitos anos feitas em Portugal mesmo; 
F. Wolf, Zur Geschichte der portugiesischen Litteralur im Mittelaller 
nos Studien zur Gesch. der spanischen und portvg. Nationalliteratur, 
Berlim, 1859, estudo a que deu ocasião o trabalho cit. de Bellermann ; 
F. Diez Ueber die erste portug. Kunst-und Hofpoesie, Bonn, 1863. 
A todos esses trabalhos sobreleva, porém, a ed. monumental da 



32 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



31. — Cancioneiro da Ajuda. E' assim denomioado 
por se conservar na biblioteca da Ajuda, sendo também 
conhecido por « do Colégio dos Nobres » porque era na 
antiga livraria deste colégio, que se guardava, e ainda 
por « Livro das Cantigas do Conde de Barcelos » porque 
se julgou que todas as canções que continha eram de 
D. Pedro, um dos filhos bastardos de D. Denis e ele 
próprio trovador, como dissemos (n." 17). 

Foi publicado pela primeira vez pelo menistro inglês 
Carlos Stuart Rothesay, em 1823, numa edição de 25 
exemplares rigorosamente diplomática. Francisco Adolfo 
de Varnhagen, o erudito brasileiro, fez em Madrid, 
em 1849, uma nova edição com o título — Trovas e 
cantares de um códice do XIV século ou antes, mui prova- 
velmente, o livro das cantigas do Conde de Barcelíos ( 1 vol. 
370 pg.), julgando-o assim erroneamente do Conde 
D. Pedro por o encontrar encadernado num mesmo 
volume com o Nobiliário atribuído a esse autor. Mas 
nem as canções dessa colecção formam o cancioneiro do 
Conde de Barcelos, nem deve confundir-se o Cancioneiro 
da Ajuda com o Livro das Cantigas. Contém ele 286 can- 
ções completas e 27 fragmentos doutras, todas escritas 
em galego. 56 cantares estão repetidos no Cancioneiro da 
Valicana. 

E' o mais antigo dos nossos cancioneiros, ignorando-se 
inteiramente a sua história antes de ter sido descoberto no 
depósito do Colégio dos Nobres, mas devendo remontar 
aos fins do século xiii, á roda de 1275 a 1280. Está 
escrito em pergaminho. A letra inicial de cada canção 
é maiúscula e colorida ; mas não traz as notas musicaes 
nos primeiros versos de cada canção, o que é, em verdade, 



sr.* D. C. M. de Vasconcelos, tantas vezes citada. No vol. ii, 286-268 
desta obra encontra o leitor luminosas conjecturas sobre a origem e 
inter-dependéncia dos cancioneiros portugueses. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 33 

uma falta lamentável *. A sr.* D. Carolina Michaèlis 
supõe o códice actual truncado. Na sua opinião é um 
fragmento do Canc. de Amor, isto é, da parte primeira do 
Canc. geral galaicoportuguês. Contém canções de amor 
de trovadores afonsinos e pre-afonsinos, quer dizer, dos 
poetas mais antigos conhecidos. 

Os trabalhos da ilustre Senhora a propósito deste Can- 
cioneiro abrangem três volumes: o 1.°) contém *) o texto, 
^) a forma ou análise métrica da canção, •^) um resumo, 
em alemão, das idéas expendidas pelos trovadores e 
^) notas escritas nos sec. xv-xvi por leitores diversos 
nas margens do códice e traslado dalgumas traduções de 
Diez e de Storck ^; o vol. 2.°) compreende as investi- 
gações bibliográficas, biográficas e histórico-literárias 
relativas ao Cancioneiro; o vol. 3.°) (em elaboração) for- 
necerá notas relativas ás trovas e um glossário completo, 
bem como elucidações sobre o conteúdo e forma, metri- 
ficação e lingoagem das diversas poesias. Tal é o vasto 
estudo da destinlissima escritora, o mais luminoso, eru- 
dito e sólido que sobre lírica provençal até hoje apare- 
ceu entre nós. 

22, — Cancioneiro da Vaticana. Foi o alemão 
Fernando Wolf o primeiro que chamou a atenção dos 
bibliófilos para este Cancioneiro achado no reinado de 
D. João III em Roma, na biblioteca Vaticana, onde estava 
registado sob o n.** 4903 ^ e para onde foi, talvez 



* Fragm. d'um Canc. inédito, que se acha na livraria do real colégio 
dos Nobres de Lisboa. Impresso á custa de Carlos Stuart, Paris, 1823. 
A tiragem foi de 25 exemplares, dislribuidos por dádiva do autor. 
A outra ed. : Trovas e cantares de um códice do XIV século, ou antes, 
muito provavelmente o livro das cantigas do Conde de Barcelos, por 
F. A. Varnhagem, Madrid, 1849 ( i vol. 370 pag. ). 

2 Canc. da Ajuda, i, pag. xi-xii. 

' Na sua obra já cit., Sludien ztir Geschichte der spanischen und 
portugiesischen Naiionallitteratur, '^BerVim, 1869, 1 vol. 

3 



34 HISTÓRU DA LITERATURA PORTUGUESA 

oferecido por algum dos nossos monarcas ao papa, no 
tempo em que a poesia dos trovadores era tida em alta 
estima. O visconde da Carreira, nosso embaixador em 
Roma, fez extrair do precioso códice uma cópia e em 1847 
o brasileiro Caetano Lopes de Moura deu-o á estampa 
com o titulo — Cancioneiro (Vel-rei D. Dinis, pela primeira 
vez impresso sobre o manuscripto Vaticano, com algumas 
notas illustraíivas e uma prefação histórico- literária, Paris, 
1847. (1 vol. 196 pag.). 

Era tam somente uma parte das muitas canções contidas 
na vastíssima colecção. Em 1857, dez annos depois da 
edição de Moura, Francisco Adolfo de Varnhagen desco- 
briu em Madrid numa biblioteca particular um exemplar 
do Cancioneiro da Vaticana, do qual fez uma cópia, que 
depois, com o intuito de publicar, confrontou com o exis- 
tente em Roma. Circunstâncias diversas fizeram com que 
só em 1872, e também só em parte, o dedicado bibliófilo 
realizasse os seus desejos publicando em Viena de Áustria 
uma colecção escolhida dos cantares do grande Cancio- 
neiro de Roma á qual pôs o titulo — Cancioneirinho de 
trovas antigas. 

Foi em 1865 que a empresa da publicação foi levada a 
cabo por um estrangeiro - o sr. Max Niemeyer, um 
benemérito a quem a literatura portuguesa muito deve. 
Saiu o manuscrito publicado com este titulo : — II can- 
zoniere portoghese delia Biblioteca Vaticana, messo a stampa 
da Ernesto Mónaci con una prefazione, con fac simili e con 
altre illustrazioni. Halle, 1875. 

Pelo estudo de Mónaci ficou-se sabendo a história 
externa do códice, que era uma cópia remontando aos fins 
do século XV ou princípios do xvi feita por indústria do 
filólogo italiano Angelo Colocci (+ 1549). Tem 210 
folhas, faltando-lhe 42 que se conjectura que também 
faltassem no original. Aparecem nele 56 cantigas com- 
muns ao Cancioneiro da Ajuda. Como esta edição era 
rigorosamente diplomática, o sr. Dr. Th. Braga empreen- 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 38 

deu em 1878 uma nova edição que saiu em Lisboa 
com o titulo — Cancioneiro portuguez da Vaticana *. 

Das canções de D. Denis, incluídas no Cancioneiro da 
Vaticana, depois da canção 79, foi que o Dr. Lang fez na 
casa editora de Halle uma edição especial, que é um modelo 
de semelhantes trabalhos e que já atrás referimos. 

23» — Cancioneiro Colocci-Brancuti. Este cancio- 
neiro é um códice que nos princípios do sec. xvi mandou 
copiar de outro mais antigo o sábio filólogo italiano 
Angelo Colocci. Contém todas as poesias do Cancioneiro 
da Vaticana e mais 442. 190 encontraram-se no Cancio- 
neiro da Ajuda. Foi o professor Corvisieri quem, traba- 
lhando em Cagli na livraria do Coude Branculi, o descobrio 
e comunicou a Enrico Molteni, discípulo de Mónaci. Vem 
do primitivo possuidor Colocci e do actual Brancuti o 
nome por que hoje é conhecido. Mónaci publicouo em 
1880, mas só na parte que falta no Cancioneiro da Vati- 
cana. do qual é seu natural complemento : // canzionere 
Portoghese Colocci-Brancuti pubblicato nelle parti che com- 
pletano il códice vaíicano 4083 da E. Molteni con un fac- 
simili in eliotipia; Halle, MaxNiemeyer, 1880, 

24:» — Importância dos Cancioneiros. E' enorme o 
valor dos Cancioneiros não só como documentos da lingoa, 
mas ainda como documentos Uterários e históricos. As 
idéas e os sentimentos duma época, para nós tam inte- 
ressante, descobrem-se alravez das fantasias dos poetas. 
As tradições, as lendas, os costumes, o viver e as preo- 
cupações da sociedade têem neles grande parte. Quer 



1 Deve ler-se sobre esta ed. a critica do sr. Epiphanio da Silva 
Dias na Zeilschrift fiir romanische Philolcgie, herausg. von Grôber, xi, 
pag. 42-55. Lang no Das Liederbuch des Kónigs Denis também aprecia 
severamente esta ed. « que revela a maior arbitrariedade taolo em 
relação á lingoa^ como á medida e sentido ». 



36 lilSTÓRU DÀ LITERATURA PORTUGUESA 

dizer, os cancioneiros encerram uma fonte preciosa de 
indicações lingoísticas, históricas, e sociaes, ainda mal 
adiviníiadas, descobrindo-se tamt)èm por entre a aridez e 
monotonia, que enchem muitas das suas páginas, a ver- 
dadeira e legitima poesia. Assim sucede, diz um ilustre 
escritor do pais vezinho, com o que podemos chamar 
barcarolas, canções de amigo e outras delicadas e suavís- 
simas inspirações, primeira manifestação genuína do 
lirismo peninsular *. 

PROSA 

HISTÓRIA 

25. — Primeiros ensaios históricos A história de 
Portugal aparece e funda-se com os trabalhos daquele 
que por esse facto chamamos — o pai da história portu- 
guesa — Fernão Lopes, que é do período imediato. 

Ha, no entanto, alguns autores, como O. Nicolau de 
Santa Maria, que sustentaram que o oficio de cronista 
foi muito anterior a Fernão Lopes, sendo o primeiro 
cronista o prior de Santa Cruz, João Camelo, capelão de 
D. Afonso Henriques e por ele nomeado para aquele 
cargo -. João Camelo escreveu o Summário das Famílias 
e primeiros conquistadores d' estes reinos ^, que foi conti- 
nuado pelo seu sucessor no mesmo cargo de cronista, 
Pedro Alparde ou Alfarde, seguíndose a este os outros 
priores claustraes de Santa Cruz. Estas afirmações por 
falta de base sam hoje unanimemente contestadas *. 
O que nestes tempos antigos nos aparece numa ordem de 



1 Menendez y Pelayo, Ob. cit., pag. lxxxv, 

2 Chron. da Ord. dos Con. Reg., 1. ix, c. ix. 
' Brandão, Mon. Lusit., part. v, 1. xvii, c. v. 

* Fr. Manoel de Figueiredo, Di$s. hist. e crit... para apurar o 
catalogo dos chron. mores do reino e ultramar, Lisboa, 1789. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 37 

trabalhos que se liga com a história é, àlêm de vários 
documentos legislativos * e dalgumas narrações escritas 
em latim ^ e que estão fora do nosso quadro, o que se 
encontra publicado nos Poriugaliae Monumenta Histórica, 
no volume denominado Scripiores (I). Eis a sua enume- 
ração : 

\. — Crónica breve do Arquivo Nacional, memória 
dalguma centena de linhas, que chega somente ao reinado 
de D. Denis e parece ser o mais antigo fragmento de 
história, que possuimos (Log. cit., pg. 22-23). 

2. — Crónicas breves e memórias avulsas de Santa Cruz, 
que foram talvez compiladas pelos fins do sec. xv, fibid., 
pg. 23-32). 

3. — Os Livros de Linhagens, a que abaixo particular- 
mente nos referimos (Ibid., pg. 143-389). 

4. — Crónica da fundação do mosteiro de S. Vicente 
de Lisboa ou simplesmente Crónica dos Vicentes (Ibid., 
pg. 407-414, interessante e curiosa narrativa, que foi 
modernamente reimpressa ^. 

5. — Crónica da Conquista do Algarve já publicada nas 
Mem. de Lit. da Acad. i, 74-98 e agora no Port, Mon. 
Hist., pg. 415-420. 

Acrescentemos ainda a 

6. — Vida de S. Isabel impressa por Brandão na Mon. 
Lm., VI, pg. 495-534 ; e uma 

7. — Crónica General ou Esíoria de Espanha * escrita 
por Afonso o Sábio e mandada traduzir por D. Denis, 
continuada no reinado de D. Afonso V até 4455, e come- 



1 Port. Mon. Hist. : Diplomalae et Chartae. — Inquisitione$. Leges 
et Consuetudines. 

2 Port. Mon. Hist., no vol. i — Scriptores. 

3 No Porto, 1873. 

* Recentemente editada na Nueva Biblioteca de Autores Espanoles 
publicada por D. Ramon Menéndez Pidai, Madrid, 1906, 1 voi. 



38 BisTÓRU DA Literatura portdqdesa 



cada a publicar em Coimbra em 1863 pelo dr. António 
Nunes de Carvalho '. 

2G. — Livros de Linhagens. Dentre todas estas cró- 
nicas ou narrações merecem com justiça destacar-se os 
chamados Livros de Linhagens. Estes livros, que desde o 
século xvu começaram a ser conhecidos por Nobiliários ^, 
sam registos aristocráticos das famílias nobres de Portu- 
gal e constituem um repositório interessantíssimo dos 
feitos e das lendas que entretinham a imaginação popu- 
lar, sendo também um documento precioso para o estudo 
da lingoa nos seus primeiros desenvolvimentos. 

Supunha-se antigamente que D. Pedro, conde de Bar- 
celos, era* seu único e exclusivo autor, mas A. Herculano 
demonstrou que « o livro das linhagens, chamado do 
conde D. Pedro, é o livro não dum homem, mas sim de 
um povo, de uma época ; é uma espécie de registo aris- 
tocrático, cuja origem se vae perder nas trevas que cer- 
cam o berço da monarquia. . . e talvez que, no estado em 
que hoje o vemos, seja aquele a quem se atribue o que 
nele tenha mais deminnto quinhão ». Houve pois, primi- 
tivamente um registo aristocrático que com o tempo se 
foi transformando e aumentando, devido isso já ao desen- 
volvimento e multiphcação das gerações, já á influência 
de indevíduos e de famílias poderosas que buscariam, 
com razão ou sem ela, alterar as tradições da própria 
origem, quando isso servisse a interesses materiaes ou a 
emulações nobiliárias. 



1 Fr. Fortunato de S. Boaventura publicou em 1829 tres tomos 
com o título — CoUecção de inéditos portuguezes nos séculos XIV e XV 
que ou forão compostos originalmente, ou traduzidos de varias línguas, 
por monges ástercienses deste Reino, ordenada e copiada fielmetite dos 
manuscritos do mosteiro de Alcobaça. Coimhra, 1829. 

2 Foi João Baptista Lavanba quem em 16^0 ibes pós pela primeira 
vez este nome. 



CAPITULO I — ESCOtA PROVENÇAL 39 

Possuímos hoje dos Livros de Linhagens, anteriores ao 
século XVI, quatro redações que sam : 

1.* — O mais antigo chamado Livro Velho^ publicado no 
tomo i.° das Provas da Hist. Genealógica, pg. 145; 

2.* — O fragmento, proximamente da época do antece- 
dente, que se acha impresso depois daquele no mesmo 
volume das Provas e que o acompanha na mesma deno- 
minação de Livro Velho. 

2^ — Um fragmento de nobiliário ainda inédito, que 
anda desde o sec. xvi encadernado junto ao manuscrito 
do Cancioneiro da Ajuda. 

4.* — Aquele que foi atribuido ao Conde D. Pedro, 
chamado por isso « Nobiliário do Conde D. Pedro », e 
que se conserva manuscrito no Arquivo Nacional da Torre 
do Tombo *. 

Além das edições de Lavanha * e de Faria e Sousa ' pos- 
suimos a do Port. Man. Hist. que é cópia exata e com- 
pleta do apógrafo existente no arquivo da Torre do Tombo 
e que se julga ser do século xv *. 

Estes documentos têem sido fonte de trabalhos de 
grande valor, como o Canc. da Ajuda da Sr.'' D. Caro- 
lina M. de Vasconcelos, os Brazões da Sala de Cintra do 
Sr. Braacamp Freire e deram o fundo dalgumas narrati- 
vas de A. Herculano, do Ódio velho não cansa de Rebelo 
da Silva, das Telas antigas do Sr. Alberto Pimentel, de 
O que morreu de amor do Sr. Júlio Dantas. Basta isto 
para tornar benemérita a memória de D. Pedro como 



1 Mem. sobre os livros de linhagens nas Mem. da Acad. das se, i, 
nova série, classe 2.», pag. 35-47 e Port. Mon. Hist., i, Scriptores, 
pag. 133; 

2 Nobiliário de D. Pedro, conde de Barcdlos (sic) higo delrey 
D. Dionis de Portugal, etc, Roma, 1650. 

* Nobiliário de D. Pedro, conde de Barcellos, etc, tr. y illustr. por 
M. de Faria e Sousa, Madrid, 1646. 

* Yol. I, Scriptores, 230-390. 



40 UISTÕRU DA LITERATURA PORTUGUESA 

autor dessa iniciativa a que ficará iodelevelmeote ligado 
o seu Dome. 

NOVELAS 

ST'- — Novelas de Cavalaria. Na efervescência da 
vida literária, que esboçamos a largos traços, as novelas 
brevemente tomaram o seu logar. O espirito geral do 
maravilhoso domina ainda certas composições tam curiosas, 
tam cheias de graciosas lendas que se denominam novelas 
ou romances de Cavalaria. O assunto destas novelas 
gira no tríplice ciclo já indicado por Jean Bodel, poeta do 
século xin, nos dois versos 

« Ne sont que trois materes a nul home entendant, 
« De France, de Bretagne el de Reme la grant. » 

Podemos, pois, destinguir três matérias ou ciclos, isto é, 
três grupos de poemas ligados entre si pelo seu objecto 
e natureza — ciclo francês, ciclo bretão e ciclo antigo ou 
clássico. 

38- — Ciclo Carolíngio. A matéria de França 
forma o ciclo carolingio ou de Carlos Magno e seus 
companheiros de armas, e canta as proezas por eles 
operadas nas lutas em Espanha e Itália contra os Saxões. 
Foi sobretudo a estes poemas que se deu o nome de 
Canções de gestas, as quaes se filiam historicamente nas 
cantilenas dos germanos com que eles, nesses pequenos 
poemas inspirados, celebravam a coragem e a bravura dos 
seus chefes. Logo desde o século x se começou a formar 
a lenda em volta de Carlos Magno e dos seus paladinos. 
Dessa poesia anónima surgiram as primeiras gestas que 
circularam na Europa e que foram a Chanson de Roland, 
e a de Gérard de Roussillon, a de Ogier, a de fíaoul de 
Cambrai e a de Aliscamps, sendo a mais célebre de todas 
a de Rolando, sobre a derrota dos franceses nas gargan- 
tas dos Pirinéus (778). Houve até quem a comparasse 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 41 

á Ilíada mas, embora monumento de imaginação vigorosa 
é, todavia, da arte insuficiente *. 

O caracter deste ciclo é o entusiasmo guerreiro e a 
bravura militar. O heroísmo é a principal virtude que se 
celebra. Rolando, morrendo em Roncesvales, farto de 
pelejar, exangue e desfalecido, vivo ele só no campo de 
batalha coberto dos cadáveres de vinte mil franceses, der- 
rotados pelos quatrocentos mil sarracenos, é o protótipo 
da valentia, o tipo inexcedivel do cavaleiro medieval, a 
encarnação da pátria, da honra e do dever 2. 

A influência deste ciclo na literatura do nosso país 
foi grande, encoutrando-se numerosas alusões aos seus 
heróis e aos feitos lendários que praticaram. O verso 
alexandrino francês aparece em alguns romances popu- 
lares portugueses; a sanfonha, instrumento músico, a que 
eram acompanhadas as gestas, ainda se encontra entre o 
povo. Nomes próprios como Alda derivado de Aude, a 
amante de Rolaud (Roldão), Valdevinos ou Baldovinos, de 
Baudouin ou Baldouin, que até se tornou nome apelativo 
como sinónimo de vadio, vagabundo. Roldão que teve a 
mesma sorte — homem valentão, destemido, e os de Ferra- 
brás, Oliveiros, Turpin, Gaiferos, Montesinos, acham-se 
em documentos antigos e vulgarizados em cantares popu- 
lares, alguns dos quais ainda hoje subsistem. È na 
Chanson de Roland que foram inspirados os cantares 
populares relativos à derrota de Roncesvales, à perda do 
almirante Guarinos, ao desaparecimento de D. Beltrão, à 
morte de D. Alda, de que subsistem vestígios, deste 



1 Conhecida também pelo nome de Roman de Ronceval e Roman de 
Roland et Olivier. É anónima. O mais antigo texto remonta á segunda 
metade do século xi. Foi descoberto em Oxford e pela primeira vez 
publicado em 1837. Cfr. a ed. de Petit de Julleville, Paris. Le- 
merre, 1878. . 

2 Vid. Gaston Paris, Esquisse historique de la litterature française 
au moyen âge. Paris, 1907, pg. 71. 



42 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

Último até numa comédia de Gil Vicente •, entrando outros 
na literatura de cordel, como o de Valdevinos, em folheto 
de que é autor o cego Baltasar Dias — Tragedia do 
Marquez de Mantua e do Imperador Carloto (sic) Magno, 
a qual trata como o Marquez de Mdntua, andando perdido 
em caçada, achou a Valdevinos, ferido de morte; e da 
justiça que por sua morte foi feita a D. Carloto, filho do 
Imperador. Um dos romances populares mais contiecidos 
e mais cantados em Portugal é o doutra personagem do 
ciclo carolingio — o do Conde Claros de Montalban e 
dos seus amores com a Infanta Claraniiía, filha do Impe- 
rador. 

Enfim, a imaginação popular até criou uma singular 
personagem — Durandarte — personificação da espada 
de Roldão, o invencivel ^ I 

A influência do ciclo carolingio em Portugal evidencía-se 
ainda pela popularidade que entre nós teve a História de 
Carlos Magno e dos doze Pares de França, conhecida desde 
os principios do século xvi em ediçõis castelhanas, e em 
traduções portuguesas desde 1728, ano em que o médico 
Jerónimo Moreira de Carvalho publicou a primeira que 
apareceu ^. 

âQ. — Ciclo Bretão. A matéria de Bretanha forma 
o ciclo dos poemas que teem por assunto as façanhas 
épicas de Artus ou Artur, último rei dos Bretões. Este 
herói das guerras contra os anglo-saxões, viveu, segundo 
a lenda, no século vi. Fora um conquistador invencível, 



^ Na fíuhena. Cfr. a minha ed. das Obras.de Gil Vicente, Coimbra, 
1912, vol. II, pg. 33. 

* Vid, Sr.* D. C. M. de Vasconcelos — Estudos sobre o romanceiro 
peninsular, romnnr.es velhos em Portugal, Ma'irid, 1909, 1 vol. 

' Historia do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, 
trad. de Castelhano em Portuguez com mais elegância para a nossa lin- 
goa, etc. É o titulo da ed. de 1750, que conheço. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 43 

tendo expulsado os saxões de Inglaterra e levado as suas 
vitórias até Roma. Depois de inumeráveis conquistas, 
chamado pela revolta de seu sobrinho Mordred, dá a este 
usurpador e traidor uma terrivel batalha, em que o mata 
e ele flca ferido. As fadas levam-no então numa barca 
misteriosa para a ilha Avalon, « pais de eterna moci- 
dade », donde voltará para libertar os Bretões. Como no 
ciclo anterior um pequeno número de factos reaes des- 
aparece sob a poesia das lendas, que os transfiguram. 
Estas lendas, fruto de pura fantasia, sam : 

a) a da Távola Redonda, assembléa de doze pares, todos 
entre si eguaes, que se assentavam sem distinção em 
volta duma mesa redonda, isto contra o uso geral da 
idade-média, que só admitia as mesas rectangulares, em 
que os logares eram ocupados segundo a hierarquia dos 
convivas. Fora Artus quem estabelecera esta ordem da 
Távola Redonda na sua cidade de Gaèrleon. Da sua corte 
partem vários cavaleiros, como Perceval, Lancelot du 
Lac, Gouvain e outros em procura do Sanio Graal, 
operando em toda a parte prodígios, atravessando flores- 
tas em que a fada Viviana conserva prisioneiro o encan- 
tador Merlin, o que origina um grande número de lendas 
e de romances. Estes romances tiveram em Portugal 
grande voga. D. Denis cita no seu Cancioneiro os 
^poemas de Tristão e Yseult e os de Flores e Br anca flor ; 
seu filho D. Pedro admite no Nobiliário o Roman de 
Brut; no tempo de D. João I traduz-se a História dos 
cavaleiros da Mesa Redonda e da demanda do Santo Graal. 
Fernão Lopes cita as personagens da Távola Redonda — 
Lançarote, Dom Quea, Galaaz. D. Duarte tem na sua 
livraria os principaes poemas deste ciclo, como Merlin e 
Tristão. D. Nuno Álvares Pereira imita a virgindade de 
Galaaz. Os cavaleiros portugueses equipáram-se aos 
heróis do ciclo adoptando os nomes de Yseult, Artus, 
Lançarote, Tristão, Percival, Lisuarte, etc. Mas todos 



44 HISTÓRIA DA LITERATURA P0RTD0CB8A 

estes livros se perderam. Nem um só dos que formavam 
a biblioteca de D. Duarte chegou até nós. 

b) A leuda do Santo Graal. O graal era a taça miste- 
riosa por onde Jesus Cristo bebera na última ceia e na 
qual José de Arimatia recolhera o sangue derramado na 
cruz. Dizia a lenda que este vaso fôra guardado numa 
floresta de Nortumberland para escapar ás profanações dos 
saxões, esperando o momento em que cavaleiros eleitos 
de Deos o descobrissem, depois de terem obrado grandes 
feitos de armas. O primeiro e principal romance do Santo 
Graal é o do poeta Ghrestien de Troyes (1140) *. 

Tudo quanto nos resta cifra-se: 1) num Livro de Joseph 
ah Arimatia, ms. n." 643 da Torre do Tombo e cuja 
composição parece remontar ao ano 1314 ^\ 2) numa 
História de Vespasiano impressa em 1496 ' e 3) na His- 
tória do Santo- Graal, de que se conserva o manuscrito 
na Biblioteca palatina de Viena de Áustria e de que se 
acham publicados alguns fragmentos *. 



í Sâo dignos de mençáo, em verso, os romances : Perceval le Gallois, 
Chevalier au lion, Lancelot en la charrelle. Érec et Enide, e Cligès ; e 
em prosa : o Santo Graal, Merlin, Lancelot e sobretudo Tristan et 
Iseult, todos de Ghrestien de Troyes. 

2 Vid. Rev. Lusit., vi, 332. 

5 Apesar de impressa nos íins do século xv é talvez cópia dum 
texto mais antigo segundo a conjectura de F. M. Esteves Pereira 
que fez do raríssimo livrinho nova e esmerada ed., Lisboa, 1905. 

* Apontado aos bibliógrafos desde 1838 foi por Varnhagem des- 
crito no Cancioneirinho de trovas antigas, pg. 165 e 168 ( Vid. também 
do mesmo autor Liv7'os de cavalarias, pg. 19 e seg. ). 

A publicação, compreendendo as primeiras 75 fls. do ms., deve-se 
ao benemérito estranjeiro Cari von Reinhardstoettner ( f 1909) e dela 
se encontra na nossa Antologia um pequeno excerplo ; vid. A Historia 
dos Cavaleiros da Mesa redonda e da demanda do Santo Graal ; Han- 
dschrift Ti.» 2594 der K. K. Hofbibliolhek zu Wien, zum erslen mate 
veróffentlicht von Karl von Reinhardstoellner ; 1." vo!., Berlim, 1887, 
(Deste lusitanófilo pode ver-se o retrato e noticia bibliográfica em 
J. Leite de Vasconcelos — O Dr. Storck e a lit. portuguesa, Lisboa, 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 45 

Caracteriza-se o ciclo bretão pela doçura e graça das 
composições. Ê mais lírico, mais sentimental e subjectivo 
que o anterior. O ciclo francês é mais violento, este 
mais delicado. Predomina aqui um duplo misticismo, o 
cavaleiresco e o religioso. O ciclo francês deriva do 
espirito dos germanos, o bretão do dos celtas. Foram 
cantores ambulantes que pela Bretanha executavam na 
harpa « lais », isto é, curtos trechos de música acompa- 
nhados de cantos, que não podemos dizer hoje com rigor 
se seriam puramente líricos ou já narrativos, nem mesmo 
se eram em bretão, ou jà em francês. Os lais referiam-se a 
aventuras de amor ou a contos feéricos, cujos heróis per- 
tenciam á tradição clássica; os que os executavam junta- 
vam-lhe um comentário oral em que a aventura era con- 
tada *. Eram geralmente em versos de oito sílabas. Do 
celta foram traduzidos para francês e daí se espalharam 
para diversos países. 

30- — Ciclo Greco-Latino. Roma a grande forma 
o ciclo greco-latino, que versa sobre as personagens e 
factos da história antiga, revestidos dos costumes, crenças, 
e opiniões da idade-média. Tróia era um castelo, os filhos 
de Príamo boons cavaleiros. Helena uma fremosa dona, 
Eneas um ricomem ^. Os demais heróis da história clássica 
Alexandre, César, Heitor, revivem assim completamente 
transfigurados. 

Nas coplas do menestrel da idade-média, escreve Gar- 
rett, os donairosos sonhos da mitologia, assim como os 



1910, pg. 331 ). O Dr. O, Klobb. publicou na Rev. Lusit . vi, 332, Dois 

episódios ivéditos do Santo Graal. 

Tanto o Dr. O. Klobb, como o Dr. Wechssler, copiaram, com o 
intuito de a publicar, a obra inteira, mas até hoje, que eu saiba, nada 
saiu àlôm do que^fica apontado. 

1 Gaston Paris, Esqnisse historiqiie de la littérature française au 
moyen age, já cit., pg. 76. 

2 Sr. Tti. Braga, Curso, pg.;Hl. 



46 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

severos sonhos da crença, tomavam sempre os hábitos 
sociaes do seu tempo. Júpiter era Dom Júpiter, rei de 
coroa na cabeça e barbas até á cinta, rodeado de condes 
e de pagens, servido por nobres donzelas de espartilho e 
toucas altas: San Miguel e o próprio Lúcifer dois cava- 
leiros de lança em punho e escudo embraçado, justando 
em mui leal batalha nessas nuvens, com Legiões e Potes- 
tades por mantenedores do campo; o Olimpo era um 
castelo feudal e o Geo uma roca-forte. Em suma, sem 
princesas e cavaleiros não havia poesia para eles, nem a 
podia haver, porque essa era a vida que eles conheciam, 
o belo e sublime da vida que concebiam. Foi o Roman 
de Trote a fonte das peninsulares Histórias de Tróia, a 
mais velha das quaes talvez se elaborasse no tempo do 
Sábio antes de 1253 *. Mas o melhor romance deste 
ciclo é o Roman d'Âlexandre escrito no século xn em 
versos de doze silabas por Lambert de Tours e Alexandre 
de Bernay ou de Paris, de quem veio o nome de alexan- 
drinos dado a esta espécie de versos. 

Vê-se bem a influência deste ciclo em Portugal nas 
lendas ligadas á nossa história, por exemplo, na da fun- 
dação de Lisboa por Ulisses -. 

Na poesia popular também deixou vestigios, embora não 
tam numerosos como o ciclo carolingio. O conto Hero e 
Leandro, o cerco de Tróia, as crueldades de Nero foram 
mais ou menos longamente memorados, havendo lambem 
alusões a Dido e Eneas, Aquiles e Polixena, Paris e Helena, 
Orfeo e Euridice '. 



1 A. Garrett, Romanceiro e Cancioneiro Geral, t. I.', pg. i44, na ed. 
de Lisboa, 1843. 

2 Sr.* D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, ii, 718. Romances 
principaes deste ciclo sam : o Boman de Troie, de Benoit de Sainte- 
More, do século xii, composto de 30:000 versos. A este poeta se 
atribuem ainda o Roman d'Enéas.e o de Tlièbes. 

' Sr.* I). C. M. de Vasconcelos, Etludos sobre o Romanceiro, já cit., 
pg. 154. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 



17 



31. — Ciclo dos Amadises. Além destes ciclos deve- 
mos enumerar o dos Amadises, que, originário das gestas 
francesas, foi o que maior vulgarização teve nas litera- 
turas novi-latinas •. Quem foi o creador deste novo 
tipo de seres lendários, que tam grande simpatia adquiriu 
na Europa culta de então? qual a sua pátria? Em que 
lingoa foi escrito o primeiro Amadis? em português? 
em castelhano? em francês? Dificil e discutidíssimo pro- 
blema até hoje sem solução cabal. Os textos não nos 
autorizam a uma afirmativa categórica, escreve Menéndez 
y Pelayo, mas a tradição portuguesa é antiga e tem em 
seu abono poderosas razões. Todas estas efectivamente 
militam em favor do trovador português Vasco de Lobeira, 
contemporâneo del-rei D. Afonso IV. 

O facto de se ter perdido o original português de que, 
desgraçadamente, nem uma só cópia se conhece, deu 
origem a tantas discussões como as que a este propó- 
sito se levantaram ^, sustentando vários autores, desde 
Gayangos ', que já no princípio da segunda metade do 
século XIV, por 4359, se liam e estavam vulgarizados 
em Castela os três primeiros livros do Amadis, e que 
portanto a redacção primitiva foi castelhana, sendo devida 



« 1 A série destes romances principia nos do dome de Amadises, e 
continua nos de Sergas de Esplandian ( 15i0), Ftorismarte de Hircania, 
Galaaz, Florestam, o Palmeirim de Oliva, e o primeiro entre os de 
toda a série — o Palmeirim de Inglaterra de que adeante nos ocupa- 
mos, etc. Vid. A. Herculano, Panorama, t. iv, pg. 7-8. 

2 Vid. Sr. Th. Braga, Ob. cit., pg. 103 e seg. ; Innocencio da Silva, 
Dicc.lBibliogr., t. vn, verb. « Vasco de Lobeira ». Barbosa Machado, 
Bibl. Lusit., art. « Vasco Lobeira » diz que o original se conservava 
na livraria dos duques de Aveiro. 

3 Cf. Discurso preliminar nos Libros de Caballeria ( 1857 ), in 
Bibl. Rivadeneyra, vol. 40. Recentemente defendeu a mesma opiniSo o 
Dr. Gotlfried Baist, prof. em Freiburg, cujas opiniões e sua refutação 
podem lêr-se na Sr.*j,D. C. M. de Vasconcelos, Canc. da Ajuda, u, 
514 6 seg. 



48 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



a Garcia Ordónez de Montalvo. Sem podermos opor a 
estas pretensões um argumento decisivo como seria o do 
texto português, todavia poderosas conjecturas induzem 
a crer que a redacção primitiva deste romance foi obra do 
referido trovador português Vasco de Lobeira, cabendo- 
nos por isso a glória da prioridade da redacção em prosa 
do primeiro tipo da família dos Amadises *. Basta para 
o confirmar a análise do próprio romance, no qual se 
diz que um infante D. Afonso de Portugal indicou ao 
autor que modificasse o rigor com que tratava a heroína 
Briolanja. Este infante não podia ser outro senão o que 
depois foi rei D. Afonso IV, após o falecimento de 
D. Denís seu pae, em 1325. Esta atribuição do Amadis 
a Vasco de Lobeira é também feita em 1454 por Gomes 
Eanes de Zurara na sua Crónica do Conde D. Pedro de 
Menezes ^ que escreve : « ... livro ( no singular, note-se ) 
do Amadis feito a prazer de um homem que se chamava 
Vasco Lobeira, em tempo d'el rei D. Fernando, sendo Ioda- 
las cousas do dito livro fingidas do Autor ». O mesmo se 
confirma pelo testemunho do filho do poeta dr. António 
Ferreira, em 1598, quando se refere a dois sonetos, o 
primeiro dos quaes principia : 

Bom Vasco de Lobeira, do gran sen, 
De pran que vós havedes bem contado 
O feito d'Amadys, o namorado 



que ele, embora erradamente, atribuia a seu pae, mas 
onde diz : « estes dois sonetos fez meu pae na lingoagem 
que se costumava neste Reyno em tempo dei Rey D. Denis 
que he a mesma em que foi composta a historia de Amadis 



1 Vid. edsas razões melodieamente exposlas pela sr.* D. C. M. de 
Vasconcelos, Geschichte der portug. Lit. cit., pg. 216-225. 

2 Liv. i, cap. 63, pg. 422. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 49 

de Gaula, por Vasco de Lobeira, natural da cidade do Porlo, 
cujo original anda na casa de Aveiro ». 

Pouco importa a incerteza que reina àcêrca da vida 
do trovador português. Efectivamente Duarte Nunes de 
Lião *, Barbosa ^ e A. Herculano ^ supõem no contem- 
porâneo de D. João I, e Gomes Eanes de Zurara * de 
D. Fernando. Faria e Sousa, tendo-o indicado primeiro 
como desta época ^, escreve depois ser opinião dalguns 
ser ele do tempo de D. Afonso IV, embora se ache o 
seu nome em tempo de D. João I, mas, acrescenta judi- 
ciosamente : « . . . é verdade que podiam ser dois deste 
nome ^ ». » 

Aceitando como incontestável a data proposta por Gayan- 
gos — 1359 — Lobeira é evidentemente contemporâneo 
de D. Afonso IV. 

O romance Âmadis exerceu uma influência extraordinária 
sobre toda a literatura da Europa, sendo traduzido para 
espanhol, francês, italiano, alomão, holandês e inglês. 
Ao fim de meio século contavam-se já, pelo menos, doze 
Amadises '. 



» Chronica del-Bey D. João I, pag. 19S (ed. Í6i2). 

2 Bibliotheca Lusitana, arl. cit. 

3 Estudo sobre Novellas de cavallaria porlug. no Panorama de 1838, 
pag. 123, 139 e no de 1840, pg. 6. 

* Chronica do conde D. Pedro, t. i, cap. 63, pag. 422. 

5 Europa, iii, part. iv, cap. viii, pag 360. 

6 Id., ibid., pag. 372 « El primer libro de cavallerias que se escrivió 
en Europa fué el Amadis ; e su autor Vasco de Lobeira, que algunos 
dizen fue en tiempo dei Rey D. Afonso IV si bien este autor se halla en 
ttempo dei Rey D. Juan I que es mu^ho despuet. Pere pudieron ser dos 
deste nombre ». 

^ Eugène Baret, De l'Amadis de Gaule et de son influence sur let 
moeurs et la lilerature au XVI et au XVII siècle ( 1873 ) ; a curiosa 
monografia de Varnhagem — Da Literatura dos livros de Cavalarias, 
Viena, 1872 ; Sr. Th. Braga, Hist. das Novelas porlug. de Cavalleria, 
Porto, 1873. O assunto é largamente estudado no ponto de vista geral 
das novelas de cavalaria por Menéndez y Pelayo no seu livro Origenes 

4 



50 HISTÓRIA DA LITEBATUJRA P0RTUGDK8A 

O assunto désle ciclo versa sobre os amores de Ama- 
dis, cavaleiro bretão, com Oriana, filha de Lisuarte, rei da 
Gran-Bretanha. Ha ali prodígios incríveis, combates com 
gigantes e monstros, intervenções milagrosas, que consti- 
tuem o tecido dos episódios, até que a fidelidade é recom- 
pensada e Amadis é feliz. O barbeiro de Cervantes, ao 
classificar a obra como « el mejor de todos los libras 
que de este género se han compuesto », livrou-o do fogo e 
a posteridade confirmou a sua sentença: Amadis é a 
única novela cavaleiresca que convêm ler •. 

FABULAS E LENDAS 

Á série de documentos até aqui citados prende-se 
O Livro do Esopo publicado conforme um ms. do sec. X V 
existente na Bibl. palatina de Viena de Áustria pelo 
Dr. Leite de Vasconcelos (Lisboa, 1906). A lingoagem 
do Fabulàrio ou O Livro do Esopo, escreve o sr. Dr. Vas- 
concelos, é sensivelmente semelhante, embora talvez um 
pouco posterior, á dos textos contidos no God. Alcoba- 
cense n.° 266, publicados pelo sr. J. Gornu ', Vasconcelos 
Abreu ^, Otto Klob * e J. J. Nunes ''. Todos eles são do 



de la Novela, í, Madrid, 1905. O sr. Tomás Pires, distinto folk-iorisla, 
descubrio documentos que autenticam as individualidades de João 
Lobeira e Vasco de Lobeira, seu filho, e que publicou no opúsculo 
Estudos Elvenses — Vasco de Lobeira, Elvas, 1906. Sobre a importân- 
cia literária destes does. publicou o Sr. Th. Braga um artigo na Rev. 
lU. do Século de 27 de março de 1905, n.» 134. 

i Filzmaurice-Keily, Hist. de la LU. espaúola, 716. 

2 Andem lextes portugais. Paris, 1882 ( Extr. do t. xi da RomaniaJ. 

> Lenda dos Santos Barlaão e Josafate, Lisboa, 1898. O respectivo 
ms. é dos 6ns do sec. xiv ou começo do xv, mas a lingoa é certamente 
do sec. XIV. A. Hincker aprecia muito desfavoravelmente esta ed. no 
seu estudo critico da lenda de Santo Eloy. 

* A vida de saneio Amare, Paris, 1901 ( Extr. do t. xxx da RomaniaJ. 

^ Historia do cavalleiro Tuugulo in Rev. Lusit. viu, 249 e seg. 
Outra redacção deste trecho contida no Cod. Alcob. n." 244 foi publi- 
cada por F. M. Esteves Pereira na mesma Rev., iii, 101 e seg. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 51 

sec. XIV. O Fabnlário preenche uma lacuna na nossa lite- 
ratura dos sec. xiv-xv e relaciona neste sentido Portugal 
com as literaturas medievaes, visto que estas possuíam 
Isopetes e na portuguesa não se sabia da existência de 
nenhum *. 

Curiosa pela sua forma é também a Lenda de Santo Eloy, 
do sec. XIV, ano de 1491, pela primeira vez impressa 
em 1900 por Afonso Hincker, e de que damos na Antologia 
dous trechos -. 

DOCUMENTOS APÓCRIFOS 

3)3. — As chamadas relíquias da poesia portuguesa. 
Incluímos debaixo da designação de apócrifos as chamadas 
relíquias da poesia portuguesa, a que se assinalou grande 
antiguidade, mas arbitrariamente. O exame crítico delas 
conduz^nos a rejeitar essa suposta antiguidade e a marcar- 
Ihes o principio do século xvii como a data da sua redacção ^ 
J. Pedro Ribeiro (4- 1839) condenou em globo a genui- 
nidade destes documentos fundando-se nas seguintes 
razões : 1) falta de provas da sua antiguidade, sendo umas 
produzidas por Leitão no meio duma novela * em que até 
põe na boca das surs fabulosas personagens um soneto 
de Camões ; outros sam referidos por Brito ' cuja fé é 
nenhuma ; íá) porque as palavras que neles se empregam, 
todas de diversas idades da nossa lingoa, formando um 
todo afeitado, parecem ser mais obra de um artificio estu- 
dado; 3) porque as cartas de Egas Moniz Coelho, e a 

1 Sr. Dr. Leite de Vasconcelos, ob. cit., pg. 120 e 160. Além do 
texto O erudito escritor apresenta um vocabulário, considerações lin- 
goisticas, anotações e um estudo literário das fábulas. 

2 Instituto, XLVii, 118, onde o texto começou a ser publicado. 

* Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Geschichte der porlug. Litt., cit., 
pg. 161. 

* Miscelânea. 

* Monarch. Lusit., part. i. 



IIISTÓUIA DA LlTERATUnA POUTUGUESA 



caução de Gonçalo Hermiguez, tão vizinhos em tempo 
a outros documentos vulgares verdadeiros, contudo se 
distinguem tanto em L)arbaridade que até nisso mostram a 
sua afectação *. São os seguintes esses documentos : 
i) Canção de Gonçalo Hermiguez, o Traga- Mouros; ii) Poema 
da Cava ou da perda ou destruição da Espanha; m) e 
iv) duas Cartas de Egas Moniz Coelho a sua dama ( Vio- 
lante) ; v) Trovas dos Figueiredos. 

I. — Canção de Gonçalo Hermiguez, o Traga-Mouros. 
Consta de três estâncias de cinco versps cada uma aludindo 
ao rapto que Gonçalo Hermiguez fez de sua molher 
Ouroana aos mouros de Alcácer, caso narrado por Fr. Ber- 
nardo de Brito, (1569-4617) que nos dà esta canção, 
obra dum versejador de má fé, a por se ver, diz ele, os 
mais antigos termos da lingoa portuguesa » -, e que ainda 
encontrou o sr. Th. Braga para lhe defender a autentici- 
dade e a tradnzir sem introduzir palavras novas, e simples- 
mente submettendo os versos ás exigências da rima '. 

II. — Poema da Cava, também conhecido por da Perda da 
Espanha. Tal como se deixa ver pelo fragmento que resta, 
tratava da invasão sarracena e destruição da Espanha pelos 
árabes em 714. Faria e Sousa *, seguido por Boutterwerk 
e Sismondi, fazia remontar este poema aos principies do 
século ix. Ribeiro dos Santos fá-lo dos começos do sé- 



í Dissertações chronologicas, l. i, pj;. 181. 

2 Vai transcrita na nossa Antologia da Chronica de Cister, part. i, 
liv. VI, cap. I. 

^ Pode v(5r-se a lição de A. Ribeiro dos Santos no Jornal dos 
Amigos das Lettras, pg. 74-75. Garrett servindo-se da Ir. alemã do 
l)r. Bellerman no Die allen Liederbiicher, etc, pg. 5, fez a versáo que 
se IC na Rev. Univ. Lisboti., v, 1843, pg. 417; Dr. Th. Braga, Canc. 
Pop. 197. 

< Europa, m, liv. iv, c. 9. 



CAPITULO I — ESCOLA PROVENÇAL 53 



culo XIII *, O sr. Th. Braga julga-o dos 6ns do século xv. 
Mas a mais simples análise filológica demonstra que qual- 
quer opinião de alta antiguidade é de todo o ponto insub- 
sistente, sendo ainda J. Pedro Ribeiro quem tem razão em 
considerar um artificio este poema, que Leitão de An- 
drada ^ dezia ter tirado dum velbo códice que nunca, 
afinal, ninguém logrou ver e examinar. 

III e IV. — Cartas de Egas Moniz Coelho. Atribuem-se 
estas duas cartas a Egas Moniz Coelho, primo daquele 
Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, de quem o nosso 
épico disse que 

a troco da palavra mal cumprida 
determina de dar a doce vida 

uma delas escrita quando o poeta deixou a corte e vae 
para Coimbra, e a outra ao voltar e saber que havia sido 
perjura aquela que lhe prometera fidelidade eterna. 

Podem vêr-se em Miguel Leitão de Andrada ^ Faria e 
Sousa * e Almeida Garrett ^, que as suposeram do tempo 
de D. Afonso Henriques, dando este último uma linda 
versão delas, por certo muito mais bela que o original. 

V. — Trovas dos Figueiredos ou Canção do Figueiral. 
Refere-se ao tributo das cem donzelas, que os cristãos 
eram obrigados a pagar aos mouros de Espanha. Foi 
Fr. Bernardo de Brito quem primeiro a publicou ", atri- 



^ Mem. sobre as orig. da poesia portug. no t. viii, das Memorias de 
Litt. da Acad. O texto vera no Jornal dos Amigos das Leltras, cit., 
pg. 136-137. 

2 Miscelânea, Lisboa, 1629. 

3 Miscelânea, diálogo xvl 
* Europa, loc. cit. 

^ Rev. Univ. Lisbon., vol. vi, série v. pg. 100. Veja-se lambera Ri- 
beiro dos Santos no Jornal dos Amigos das Leltras, cit., pg. 98-99. 
^ Monareh. Lusit., ii, pg. 296. 



54 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

buÍQdo-a a um tal Guesto Ansnr, que nunca existiu. 
Miguel Leitão de Andrada diz tê-la ouvido cantar « muito 
sentida a huma velha de muita idade, natural do Algar- 
ve » *. Ribeiro dos Santos ^ marca-lhe a época dos fins 
do século XII ou princípios do xin, opinião inteiramente 
gratuita e que nada tem em que se estribe. Quando 
muito poderia considerar-se do sécnio xv, falando em seu 
favor o sentímculo e o ritmo dum cunho acentuadamente 
popular. A dúvida sobre a autenticidade desse documento 
não pode, porém, estender-se aos outros denominados 
apócrifos em que a fraude é logo denunciada pelo estudo 
comparativo com os de caracter absolutamente incontro- 
verso '. 



> Uiscelanea, dial, i, pg. 25-26. 

' Ob. e loc. cit. 

J Sr.* D. Carolina Michaíilií", Gesch. des portug. litter. pg. 162. O sr. 
Dr. J. Ribeiro diz que desta canção « se encontram a!us($es até no 
folk-lore do Brasil ». Cír. a sua interessanle Selecta Clássica, Rio de 
Janeiro, 1905, pg. xxiv, uola. 



ANTOLOGIA 



SÉCULOS XII A XV 



POESIA 
Cantigas de amigo e de amor 

I 

Aí eu, coitada^ como vivo 
en gran cuidado por meu amigo 
que ei alongado ! muito me tarda 
o meu amigo na Guarda I 

Ai eu, coitada, como vivo 
en gran desejo por meu amigo 
que tarda e non vejo ! muito me tarda 
o meu amigo na Guarda ! 

El-rei D. Sancho I, Canc. B., n." 348. 

u 

Como morreu quen nunca ben 
ouve da ren que mais amou^ 
e quen viu quanto receou 
d'ela, e foi morto por en : 

Ay mia senhor^ assi moir'eQ ! 

Como morreu quen foi amar 
quen Ibe nunca quis ben fazer, 
e de quen lhe fez Ueus veer 
de que foi morto con pesar : 

Ay mia senhor, assi moir'eu I 



5tí ANTOr-OGIA — POESIA 



Com 'orne que ensandeceu, 
senhor, con gran pesar que viu, 
e non foi ledo nen dormiu 
depois, mia senhor, e morreu : 
Ay mia senhor, assi moir'eu ! 

Como morreu quen amou lai 
dona que llie nunca fez ben, 
e quen a viu levar a quen 
a non valia, nen a vai : 

Ay mia senhor, assi moir'eu ! 

Paay Soárez de Taveiroos, Catw. A., n." 35. 



iir 

o meu amigo que me dizia 
que nunca mais migo viveria, 
par Deos, donas, aqui é já ! 

Que muito m'el avia jurado 
que me non visse, mais, a Deos grado, 
par Deos, donas, aqui é já I 

O que jurava que non visse, 
por non seer lodo quanfel disse, 
par Deos, donas, aqui é já ! 

Melhor o fezo ca o non disse ; 
par Deos, donas, aqui é já ! 

Pai Soárez dfi Taveiroos, Canc. Vatic, ii.» 2;!!). 



IV 

Disseron-mi Qas novas de que m' é mui gran ben, 
cá chegou meii amigu'. e, se el ali ven, 
a Santa Maria das Leiras 
irei, velida, se i ven meu amigo. 

Disseron-mi Qas novas de que ei gran sabor, 
cá chegou meu amigu', e, se el ali fôr, 
a Santa Maria das Leiras 
irei, velida, se i ven meu amigo. 

Disseron-mi Qas novas de que ei gran prazer, 
cá chegou meu amigo, mais eu, polo veer, 
a Santa Maria das Leiras 
irei, velida, se i ven meu amigo. 

Nunca con taes novas tan leda foi niolhcr, 
com' eu sõo con estas, e se el i vêer, 
a Santa Maria das Leiras 
irei, velida, se i ven meu amigo. 

D. Affonsu I.ói)ez de Uaiaii, Canc. Vatic., u.° 342. 



SÉCULOS XII A XV • 57 



Ay Deus I que coita de soffrer 

por ver gran ben a querer 

a quen non ousarei dizer 

da mui gran coita 'n que me ten ! 
Non lh'ouso dizer nulha ren 
da mui gran coita 'n que me ten t 

Ja sempr' en coita viverei. 

Amo qual dona vus direi : 

a quen dizer non ousarei 

da mui gran coita 'n que me ten : 
Non lh'ouso dizer nulna ren 
da mui gran coita 'n que me ten I 

Se lhe d'al quiser' ementar, 

sol non lh'én crecerá pesar. 

Pêro non lh'ousarei falar 

da mui grán coita 'n que me ten : 
Non lh'ouso dizer nulha ren 
da mui gran coita 'n que me ten I 

Airas Corpancho, Carie. A., a." 60. 

VI 

Am'eu tan muito mia senhor, 
que sol non me sei conselhar t > 

E ela non se quer nembrar 
de min. . . e moiro-me d'amor ! 
E assi morrerei por quen 
nen quer meu mal, nen quer meu ben I 

E quando lb'eu quero dizer 
O muito mal que mi-amor faz, 
.sol non lhe pesa, nen lhe praz, 
nen quer en min mentes meter. 

E assi morrerei por quen 

nem quer meu mal, nen quer mea ben t 

Que ventura que me Deus deu, 
que me fez amar tal moiber 
que meu serviço non me quer I 
E moir', e non me ten por seu ! 

E assi morrerei por quen 

nem quer meu mal, nem quer meu ben ! 

E veede que cuita tal, 
que eu ja sempr' ei a servir 
molher que mi- o non quer gracir, 
nem mi-o ten por ben, nen por mal ! 

E assi morrerei por quen 

nemquer meu mal, nem quer meu ben! 

Nuao Fernandes Torneol, Canc. A., ." 71. 



38 ANTOLOGIA — P0K8IA 



VII 

Quer' eu a Deus rogar de coraçon, 
com'ome que é cuitado d'amor, 
que el me leixe veer mia senhor 
mui ced' ; e se m'el non quiser' oír, 
logo, lh'eu querrei outra ren pedir : 

que me non leixe mais eno mundo viver ! 

E se m'el á de fazer algan ben, 
oír-mi-á 'questo que lh'eu rogarei, 
6 mostrar-mi-á quanto ben no mundo' ei. 
E se mi-o el non quiser 'amostrar, 
logo. Ih' eu outra ren querrei rogar : 

que me non leixe mais eno mundo viver I 

E se m'el amostrar' a mia senhor, 

que am' eu mais ca o meu coraçon, 

vedes, o que lhe rogarei enton : 

que me dê seu ben, que m' é mui mester; 

e rogá-lh'-6i que, se o non fezer', 

que me non leixe roais eno mundo viver ! 

E rogá'-lh'-ei, se me ben á fazer, 
que el me leixe viver en logar 
u a veja e lhe possa falar, 
por quanta coita me por ela deu ; 
se non, vedes que lhe rogarei eu : 

que me non leixe mais eno mundo viver 

Nuno Fernandes Torneol, Canc. A., n.* 75. 

VIII 

Oi oj' eu cantar d'amor sempr' e por voss' andarei ; 

em um frcmoso virgeu. ca voss' amor me forçou 

unha fremosa pastor assi que por vosso vou, 

que ao parecer seu cujo sempr' eu ja serei. » 
jamais nunca Ihi par vi ; 

e porem dixi-lh' assi : Diz'ela : « Nom vos tem prol 

« Senhor, por vosso vou eu ». esso que dizedes, nem 

mi praz de o oir sol ; 

Tornou sanhuda entòm, anl* ei noj' e pesar em, 

quando m' est' oiu dizer ca meu coraçom nom é, 

e diss' : ■ Ide-vos, varom ! nem será, per bõa fe, 

quero vos foi aqui trajer se nom do que quero bem. » 
para m'irdes destorvar 

d' u dig' aqueste cantar, « Nem o meu », dixi-lh' eu ja, 

que fez quem sei bem querer? » « senhor, nom se partirá 

de vós, por cujo s'el tem. » 

o Pois que me mandades ir », «O meu », diss' ela, « será 

dixi-lh' eu, « Senhor, ir-m' ei ; u foi sempr' e u está, 

mais ja vos ei-de servir e.de vós nom curo rem. » 

U. Denís, apud U. Lang, Das iMderbuch.^cÀí., pg. GO. 



SÉCULOS XII A XV 



59 



IX 



Preguntar-vos quero por Deus, 
senhor fremosa, que vos fez 
mesurada e de bom prez, 
que pecados forom os meus 
que nunca tevestes por bem 
de nunca mi fazerdes bem. 

Pêro sempre vos sonb' amar 
des aquel dia que vos vi, 
mais que os meus olhos em mi, 



e assi o quis Deus guisar 
que nunca tevestes por bem 
de nunca mi fazerdes bem. 

Des que vos vi, sempr' o maior 
bem que vos podia querer, 
vos quiji a todo meu poder; 
e pêro quis nostro senhor 
que nunca tevestes por bem 
de nunca mi fazerdes bem. 



Mais, senhor, a vida com bem 
se cobraria bem por bem. 

D. Uenís, apud Lang, ibd., pgf. 44. 



Unha pastor se queixava 
muit' estando noutro dia, 
e sigo medes falava, 
e chorava e dizia, 
com amor que a forçava : 
par Deus, vi t*em grave dia, 
ai amor ! 

Ela s'estava queixando 
come raolher com gram coita, 
e que a pesar, des quando 
nacera, nom fora doita ; 

.' D. DeDÍs, apud Lang, ibid., pg. 28. 



porem dizia chorando : 
tu nom es se nom mia coita, 
ai amor I 

Coitas lhe davam amores 
que nom lh'eram se nom morte ; 
e deitou-s' antr' das flores 
e disse cora coita forte : 
mal ti venha per u fores, 
ca nom es se nom mia morte, 
ai, amor! 



XI 



Unha pastor bem talhada 
cuidava em seu amigo, 
e estava, bem vos digo, 
per quant, eu vi, mui coitada ; 
e diss' : oi mais nom é nad^ 
de fiar per namorado, 
nunca molber namorada, 
pois que mi-o meu a errado. 

Ela tragia na mSo 

um papagai mui fremoso, 

cantando mui. saboroso, 

ca entrava o verão : 

e diss' : « Amigo loução 

que faria per amores, 

pois m'errastes Iam em vâo ? « 

E caeu antr'unbas flores. 

D. Deuis, apud Laog, ibid., pg. 51-32. 



Unha gram peça do dia 

jouv'ali, que nom falava, 

e a vezes acordava 

e a vezes esmorecia ; 

e diss' : « Ai Santa Maria ! 

que será de mim agora ? » 

E o papagai dizia : 

« Bem, por quanfeu sei, senhora ». 

k Se me queres dar guarida » 
diss' a pastor, ■ di verdade, 
papagai, por caridade, 
ca morte m' é esta vida >. 
Diss' el : Senhora comprida 
de bem, e nom vos queixedes, 
ca o que vos a servida 
erged' olho e vee-lo-edes. 



60 



ANTOLOGIA — POKflIA 



XII 



Levantou-s' a velida^ 
levanlou-s' alva, 
e vai lavar camisas 
e-no alto. 
Vai-las lavar alva. 

Levantoa-s' a louçana, 
levantoa-s' alva, 
e vai lavar delgadas 
e-no alto. 
Vai-las lavar alva. 

E vai lavar camisas, 
levantou-s' alva ; 
o vento Ih' as desvia 
e-no alto. 
Vai-las lavar alva. 

D. Denís, apud Lang, ibid., pg. 76. 



E vai lavar delgadas, 
levanlou-s' alva ; 
o vento lh'as levava 
e-no al|o. 
Vai-las lavar alva. 

O vento Ih' as desvia, 
levantou-s' alva ; 
meteu-se alva em ira 
e-no alto. 
Vai-las lavar alva. 

O vento Ih' as levava, 
levantou-s' alva ; 
meteu-s' alva em sanha, 
e-no alto. 
Vai-las lavar alva. 



XIII 



Nom chegou, madr', o meu amigo, 
e oj' est o prazo saido, 
Ai madre, moiro d'amor I 

Nom chegou, madr', o meu amado, 
e oj est o prazo passado. 
Aí madre, moiro d'amor ! 

E oj' est o prazo saido, 
por que mentio o desmentido. 
Ai madre, moiro d'amor I 



E oj' est o prazo passado, 
por que mentio o perjurado. 
Ai madre, moiro d'amor ! 

Por que mentio o desmentido 
pesa-mi, pois per si é falido. 
Ai madre, moiro d'amor t 

Por que mentio o perjurado, 
pesa-mi, pois mentio a seu grado. 
Ai madre, moiro d'amor ! 



D. D«nís, apiid I.ang, ibid., 74. 



XIV 



Ai flores, ai flores do verde pino, 
se sabedes novas do meu amigo ! 
Ai Deus, e u é ? 

Ai flores, ai flores do verde ramo, 
se sabedes novas do meu amado ! 
Ai Deus, e u é ? 

Se sabedes novas do meu amigo, 
aquel que mentiu do que pos commigo ! 
Ai Deus, e u é ? 

Se sabedes novas do meu amado, 
aquel que mentiu do que mh á jurado I 
At Deus, e a é ? 



SECOLOS XII k XV 



61 



Vós preguntades polo voss' amigo ? 
E eu bera vos digo que é san' e vivo. 
Ai Deus, e u é ? 

Vós preguntades polo voss' amado ? 
E eu bera vos digo que é viv' e sano. 
Ai Deus, e u é ? 

E eu bem vos digo que é san' e vivo, 
E será vosc' ante' o prazo saído. 
Ai Deus, e u é ? 

E eu bem vos digo que é viv' e sano, 
e será vosc' ant' o prazo passado. 
Ai Deus, e u é ? 

D. Denís, apud Lang, ihid., pg. 75-76. 



XV 

Senhor, pois me nom queredes 
fazer bem, nem o teedes 

por guisado. 
Deus seja porem loado ; 

Mas pois vós mui bem sabedes 
O torto que mi fazedes, 

gram pecado 
avedes de mi, coitado. 

E pois que vos nom doedes 
de mim, e sol nom avedes 

em cuidado, 
em grave dia fui nado ; 

Mais por Deus, senhor, seeredes 
de mim pecador, ca vedes 

mui doado 
moir', e de vós nom ei grado. 

E pois mentes nom metedes 
no meu mal, nem corregedes 

o estado 
a que m'avedes chegado, 

De me matardes faredes 
meu bem, pois m'assi tragedes 

estranhado 
do bem que ei desejado. 

E senhor, sol nom pensedes 
que, pêro mi morte dedes, 

aguardo 
ond' eu seja mais pagado. 

D. Denís, apud Laog, ibid., pg. 46. 



62 



ANTOLOGIA 



POESIA 



XVI 



Amad' e meu amigo, 

valha Deus ! 
Vede-la frol do pinho 
e gaisade d'andar. 

Amigu' e meu amado, 
valha Deus ! 
Vede-la frol do ramo 
e guisade d'andar. 

Vede-la frol do pinho, 

Valha Deus I 
Selad' o baiosinho 
e guisade d'andar. 

D. Denís, apud Lang, ibid., 77. 



Vede-la frol do ramo, 

Valha Deus I 
Selad' o bel cavalo, 
e guisade d'andar. 

Selad' o baiosinho, 

Valha Deus I 
Treide-vos, ai amigo 
e guisade (l'aiuiar. 

Selad' o bel cavalo. 

Valha Deus ! 
Treide-vos, ai amado, 
e guisade d'andar. 



XVII 

Nom me poss'eu de morte defender 
poys vejo d'amor que me quer matar, 
por hfla senhor ; mays poys m'eu guardar 
nom posso já de por dona moirer 
catarey já das donas a melhor. 

D. Pedro, Canc. Valic, pg. 197. 



XVIII 



Dizia la fremosinha : 
ay deus, vai ! 
Com' estou d'amor ferida, 
ay deus, vai I 



Com' estou d'amor ferida 
ay deus, vai I 
non ven o bem que queria, 
ay deus, vai I 



Dizia la bem talhada : Com' estou d'amor coytada 

ay deus, vai I ay deus, vai ! 

com' estou d'amor coytada, non ven o que muit' amava 

ay deus, vai I ay deus, vai ! 

D. Aflbnso Saoclies, Canc. Valic., n.*3G8. 



XIX 

Quando, amiga, meu amigo veer 
em quanto lh'eu preguntar hu tardou 
faláde vós nas donçelas entom ; 
e no sembrant', amiga, que fezer 
veremos bem se tem no coraçom 
a donzela por que sempre trobou. 

D. AfTonso SancLes, ibid., n." 357. 



SÉCULOS XII A XV 



63 



XX 

Cantigas de escarneo e de maldizer 



Tant' é Melion pecador, 
e tant' é fazedor de mal, 
e tant' é ome infernal 
que eu sôo ben sabedor, 
quanto o mais posso seer, 
que nunca poderá veer 
a face de Nostro Senhor. 

Tantos som os pecados seus, 
e tam mnít' é de mal talan, 
que eu sõo certo, de pran, 
quanl' aquesfé, amigos meus, 

D. Oenís, apud Lang, ibid., pg. 101. 



que, por quanto mal en el á, 

que já mais nunca veerá 

em nenhum temp' a faz de Deos. 

El fez sempre mal e cuidou, 

e jamais nunca fezo ben ; 

e eu sõo certo por én 

d'el, que sempre en mal andou. 

que nunca ja, pois assi e, 

pode veer, per bõa fe, 

a face do que nus comprou. 



XXI 

Deus, com' ora perdeu Joam Simhom I 
Três bestas nom vi de maior cajom, 
nem perdudas nunca tam sem razom ; 
ca teendo-as sâas e vivas 
e bem sangradas com sazom, 
moirerom-lhi todas com olivas. 

Des aquel dia em que^ naci 
nunca bestas assi perdudas vi, 
ca as fez anfel sangrar ante si ; 
e ante que saíssem d'aquel mes, 
per com' eu a Joam Simhom oi, 
com olivas moirerom todas três. 

Bem as cuidara de morte guardar. 
Todas. três, quando as fez sangrar; 
mais avia-lh'as o dem' a levar, 
pois que se par tal cajom perderom. 
E Joam Simhom quer-s' ora matar , 
porque Ihi com olivas moirerom. 

D. Denís, apud Lang, ibid., pg. 106-107. 



XXII 

Alvar Roiz, monteyro mayor, 
sabe quem quVlhi el-rey desamor, 
porque lhe dizem que he mal feylor ; 
na ssa terra est'é cousa certa, 
ca diz que se quer hyr, el per hu for 
levará cabeça descuberta. 



64 ANTOLOGIA — PROSA 



El entende que faz ai rey pesar 
se lh'y na lerr' aqui mais morar, 
por en quer hir sa guarida buscar, 
com gram despeit' em terra deserta 
et diz que pode per hu for levar 
sempr' a cabeça bem descuberta. 
D. Pedro, Canc. Vatic., pg. 197. 



PROSA 

XXIII 
Lenda do rei Leír 

Quamdo foi morto rrey Balduc o voador rreynon seu filho que ouve 
nome Leyr. E este rrey Leyr nom ouve filho, mas ouve três filhas 
muy fermosas e amavaas muito. E huum dia ouve sas rrazões com 
ellas e disselhes que lhe dissessem verdade quall delias o amaua mais. 
Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como 
elle, e disse a outra que o amaua tanto como ssy meesma, e disse a 
terçeyra, que era a meor, que o amava tanto como deve d'amar filha 
a padre. E elle quislhe mall porem, e por esto nom lhe quis dar parte 
no rreyno. E casou a filha mayor com o duque de Cornoalha, e casou 
a outra com rrey de Tostia, e nom curou da meor. Mas ella por sa 
vemtuira casousse melhor que nenhuma das outras, ca se pagou delia 
elrrey de França e filhoua por molher. E depois seu padre delia em 
sa velhice filharomlhe seus gemrros a terra e foy malladamte, e ouue 
a tornar aa merçee delrrey de Framça e de sa filha a meor a que nom 
quis dar parte do rreyno. E ellesreçeheromno muy bem e deromlhe 
todas as cousas que lhe forom mester e homrraromno mentre foy vivo, 
e morreo em seu poder. E depois se combateo elrrey de Framça com 
ambos os cunhados de sua molher, e tolheolhes a terra. Morreo elrrey 
de Framça e nom leixou filho vivo. E os outros dous a que tolhera 
a terra ouverom senhos filhos e apoderarromsse da terra toda, e prem- 
deram aa tya, molher que fora delrrey de Framça, e meteromna em 
houm carçer, e alli a fezerom morrer. 

De « Os livros de linliageos », Portug. Man. Uitl., Scriptorcs, 1, pg. 238. 

XXIV 
Lenda da Dama Pé-de-Cabra 

. . . Dom Diego Lopez era mui boo monteyro, e estando huum dia 
em sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco, ouuyo cantar 
moyts alta voz huuma molher em çyma de huuma pena : e ei foy para 



SÉCULOS XII A XV 65 



lá e vioa seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorousse logo 
delia muy fortemente e preguntoulhe quem era : e ella lhe disse que 
era buuma molher de muito alto linhagem, e ell lhe disse que pois era 
molher d'alto linhagem que casaria com ella se ella quisesse^ ca elle 
era senhor daquella terra toda : e ella lhe disse que o faria se lhe 
prometesse que numca sse santificasse, e elle lho outorgou, e ella 
foisse logo com elle. E esta dona era muy fermosa e muy bem feita 
em todo seu corpo saluando que aula huum pee forcado como pee de 
cabra. E viuerom gram tempo e ouuerom dous filhos, e huum oune 
nome Enheguez Guerra, e a outra foy molher e ouue nome dona. . . 

E quando comiam de suum dom Diego Lopez e saa molher asseem- 
taua ell apar de ssy q filho, e ella asseemtaua apar de ssy a filha da 
outra parte. E huum dia foi elle a seu monte e matou hum porco 
muy gramde e trouxeo pêra sa casa, e poseo ante sy hu sia comemdo 
com ssa molher e com seus filhos : e lançarom huum osso da mesa e 
veerom a pellejar huum alaSo e huuma podemga sobrelle em tall 
maneyra que a podemga trauou ao alaão em a garganta e matouo. 
E dom Diego Lopez quarado este vyo teueo por millagre e synousse e 
disse o samta Maria vali, quem vio numca tall cousa ! » E ssa molher 
quamdo o vyo assy sinar lamçou maão na filha e no filho, e dom 
Diego Lopez trauou do filho e nom lho quis leixar filhar; e ella 
rrecudio com a filha por huuma freesta do paaço e foysse pêra as 
montanhas, em guisa que a nom virom mais nem a filha. 

De « Os livros de linhagens », Porltig. Mon. Hist. Seriplores, I, pg. 258-251. 



XXV 

Uma aTentora de D. Ramiro en Lenda de Gaia 



Este he o linhagem dos mui nobres e muy honrados ricos-homens, 
e filhos-dalgo da Maya, em como elles vem direitamente do muito alto 
e muy nobre rey D. Ramiro ; e este rey D. Ramiro se vê casado com 
huma rainha, e fege nella rey D. Ordonho ; e pois lha filhou rey 
AbencadAo que era mouro, e foilha filhar em Salvaterra no logo que 
chamão Myer ; entom era rey Ramiro nas Astúrias ; e quando Aben- 
cadâo tornou adusea para Gaya, que era seu castello, e quando veo 
rey Ramiro nSo achou a sa molher e pesou-lhe ende muito, e enviou 
por seu filho D. Ordonho e por seus vassallos, e fretou saas naves, e 
meteuce em ellas, e veyo aportar a Sanhoane da Furada ; e pois que 
a nave entrou pela foz cobrioa de panos verdes, em tal guiza que 
cuidassem que eram ramos, cá entonce Douro era cuberto de huma 
parte e da outra darvores ; e esse rey Ramiro vestiose em panos do 
veleto, e levou consigo sa espada, e seu corno, e falou com seu filho 
e com os seus vassalos que quando ouvissem o seu corno que todos 
lhe acorressem, e que todos jovecem pela ribeira per antre as arvores, 
fora poucos que ficassem na nave para mantela, e el foice estar a 
huma fonte que estava perto do castello ; e Abencadâo era fora do 
castello, e fora correr seu monte contra Alfão ; e huma donzella que 
servia a rainha levantouce pela menhS que lhe fosse pela agoa para 
as mSos; e aquella donzella havia nome Ortiga; e ella na fonte achou 



66 ANTOLOGIA — PROBA 



iazendo rey Ramiro, e nom o conheceo, e el pedio-Ihe dagoa pela 
aravia, e ella deulha por hum autre, e el meteo hum camafeo na boca, 
o qual camafeo havia partido com sa moiher a rainha pela meadade ; 
el deuse a beber, e deitou o anel no autre, e a donzella foice, e deo 
agoa á rainha, e cahio-lhe o anel na mão, e conheceoo eila logo : a 
rainha perguntou quem achara na fonte; ella respondeu que nâo era 
bi ninguém : ella dice que mentia, e que lhe non negace, ca lhe faria 
por ende bem, e mercê ; e a donzela lhe disse entom que achara hum 
mouro doente e lazarado, e que lhe pedira d'agoa que bebece, e ella 
que lha dera ; e entonce lhe disse a rainha que lhe fosse por el, e se 
hi o achasse que lho adusese. 

A donzela foi por el, e dicelhe ca lhe mandava dizer a rainha que 
fosse a ella; e entonces rey Ramiro foise com ella; e el entrando pela 
porta do paço conheceo-o a rainha, e dice-lhe 

— « Rey Ramiro quem te aduse aqui ? » 
E el lhe respondeu , 

— « ca o teu amor » 

e ella lhe dice que vinha a morrer, e elle lhe respondeu, ca pequena 
maravilha, e ella dice á donzella que o metese na camará, e que lhe 
não desse que comese nem que bebece ; e a donzela pensou dei sem 
mandado da rainha; e el jazendo na camará chegou Abencadão e 
deraolhe que jantace, e despois de jantar foise para a rainha; e desque 
fizerão seu plazer, disse a rainha 

— « se tu aqui tivesses rey Ramiro, que lhe farias ? » 

O mouro então respondeo — «o que el a mi faria : matalo. » 
Então a ramha chamou Ortiga que o adusese da camará, e ella 
assim o fez, e adoseo ante o mouro, e o mouro lhe disse 

— « es tu rey Ramiro ? », e elle respondeo 

— «eu sou », e o mouro lhe perguntou 

— «a que vieste aqui ? » elrey Ramiro lhe disse entom 

— « vim ver minha raolher que me filhastes a torto ; ca tu havias 
comigo tregoas, e nom me catava de ti : « e o mouro lhe disse 

— n vieste a morrer ; mas querote perguntar ; se me tiveces em 
Mier que morte me darias ? » 

Elrey Ramiro era muito faminto e respondeolhe assim 

— « eu te daria um capão assado e huma regueifa, e fariate tudo 
comer, e dartehia em cima em sa capa cheia de vinho que bebesses : 
em cima abrira portas do meu curral, e faria chamar todas as minhas 
gentes, que viessem ver como morrias, e fariate sobir a um padrão, 
e fariate tanger o corno, até que te hi sahice o fôlego. » 

Então respondeo Abencadão 

— « essa morte te quero eu dar. » 

E fez abrir os curraes, e fezeo sobir em li;;:n padrão que hi entom 
estava; e começou rey Ramiro entom seu t-oino tanger, e começou 
chamar sua gente pelo corno que lhe acorressem, cá agora havia 
tempo; e o filho como ouvio, acorreolhe com seus vassallos, e mete- 
rãose pela porta do castello, e el deceuse do padrom adonde estava, e 
veyo contra elles, e tirou sa espada da bainha, e descabeçando atá 
o menor mouro que havia em toda Gaya, andarão todos á espada, e 
nom ficou em essa villa de Gaya pedra sobre pedra, que tudo não 
fosse em terra ; e filhou rey Ramiro sa moiher com s.ts donzellas, e 
quanto haver ahi achou, e meteu na nave, e quando forão a foz d'An- 
cora amarrarão as barcas, e comerão hi e folgarão, e D. Hamyno 
deitouce a dormir no regaço da rainha, e a rainha filhouce a chorar, 



SÉCULOS XII A XV 67 



e as lagrimas d'ella caerSo a D, Ramiro pelo rostro, e el espertouce, e 
diselhe, porque chorava, e ella dise-lhe 

— « choro por o mui bom mouro que mataste ». 

e então o filho que andava hi na nave uuvio aquella palavra que sa 
madre dissera, e disse ao padre 

— n padre não levemos comnosco mais o demo. » 

Enlom rey Ramiro filhou uma mó que trazia na nave, e ligoulha 
na garganta, e anchorouha no mar, e dês aquella hora chamarSo hi 
Foz d'Ancora. Este Ramiro foice a Meyer e fez sa corte, e contoulhe 
tudo como lhe acaeeera, e entom baptisou Ortiga, e casou com ella, e 
louvoulho toda sa corte muito, e poslhe nome D. Aldara, e fege nella 
hum filho e quando nasceo poslhe o padre o nome Albozar, e disse 
entom o padre, que lhe punha este nome porque seria padre e senhor 
de muito boa fidalguia ; e morreo rey D. Ramiro. Deus lhe aya saúde 
a alma, requiescat in pace. 

De « Os livros de linhagens *, Ibid., pg. 180-181. 



XXVI 
Demanda do Santo Graal 



Véspera de pinticoste foy grande gente assunada em Camaalot, asi 
que poderá homem hi ueer muy gram gente, niujtos caualeyros. 
É mujtas donas muj bem guisadas. El rey, que era ende muj ledo^ 
honrrou os mujto e ffezeos mui bem seruir, E toda rem, que entendeo, 
por que aquella corte seeria mais uiçosa e mais leda, todo o fez fazer. 
Aquel dia que uos eu digo, direitamente quando querriam poer as 
messas, esto era ora de noa, Aueeo que htia donzela chegou hi, mui 
fremosa e muy bem uestida ; e entrou no paço a pee como manda- 
deira. Ella começou a catar de hQa parte e da outra pello paaço ; e 
perguntauamna, que demandaua. 

— « Eu demando, disse ella, por dom íançarot do lago; he aqui ? » 

— Si domzella, disse hQu caualleyro. Veede lio; sta aaquella freesta 
fallando com dom gualuam » ; ella foe logo para el e salouo. 

Elle tanto que a uio, recebeoa muy bem e abraçoua; ca aquella 
era htla das donzellas, que morauam na jnsoa da lediça, que a filha 
amida dei rei peites amaua mais que donzelia da sua companha. 

Como a donza disse a lançelot que fosse com ella . 

— « Ay donzelia », disse lançelot, que uentura uos adusse aqui, 
que bem sey que sem razom nom ueestes uos ? 

— Senhor, verdade he, mais rogo uos, se vos aprouguer, que uaades 
comigo aaquella foresta de camaalot ; e sabede, que manhãa ora de 
comer seeredes aqui. 

— Certas, donzelia, dise el, muito me praz; ca theudo soem de uos 
fazer seruiço em todalas cousas que eu poder. 

Entam pedio suas armas. E quando el rei uio, que se fazia armar, 
a tam gram coita foi a el co a raynha e dise lhe : como leixarnos 
queredes aatal festa, hu caualeyros de todo o mundo ueem aa coi^e, e 



68 ANTOLOGIA — PROSA 



muj mais ajnda por uos ueerem ca por ai — delles por uos ueerem e 
delles por auerem uosa conpanha. 

Senhor, dise el, nom uou senam a esta foresta com esta donzella, 
que me rrogou ; mais trás ora de terça seerei aqui. 

Hist. dos Cavaleiros da Mesa redonda . . . , ed. de Karl von Reinhardstoettner. 



XXVII 

Fabulas 

O gallo e a pedra preciosa 

Comta-se que húa vez hflu guallo, amdamdo em hOa caualariça 
escaruando por achar algQa cousa pêra comer, achou htta muy fremosa 
pedra preciosa; e maravilhou-se e disse : 

— O' gema preciosa e nobilisima, a quall jazes em aqueste vill 
luguar ; tu nom fazes a mym nhtíu proueyto ; mais se te a ty achasse 
outra perssoa que conhoçesse o leu nobre espiamdor, tu serias posta 
em algOu luguar arteficioso e nobre. Certo tu nom es compridoyra a 
mim, nem eu a ly. Eu seria mays ledo se achasse hOa pouca de bisca 
pêra comer, que achar ty. 



Per aquesta hestoria reprehende este auctor os samdeus e homées 
de pouco emtender, os quaes nom curam nem querem curar por a 
sciençia quamdo podem ; e quamdo achan algfla cousa que lhe seria 
proueytosa, ha despreçam e nom curam d'ella, e ao depois se Tepem- 
dem : assi que pello gualo se entende o sandeu, e pela pedra preciosa 
se emtende a graça da sapieroçia, a qual nom he conhoçida dos sam- 
deos, mas he conhoçida dos sabedores. 



XXVIII 
o cão e a posta de carne 

Comta-se que hOa vez hQu cam furtou hGa posta ile carne ; e 
fugindo con ela passaua per hda pomte, e memtres que passaua, 
guardou na augua, e vio a soomb^a da carne que leuaua na boca, a 
qual soombra parecia a elle que era duas tamta carne qu>> aqueila que 
elle leuaua na boca. E veemdo a soombra, deytou-so na augua, 
cuydamdo tomar a outra carne, e abrio a boca; e abrindo a boca pêra 
tomar a soombra que lhe semelhaua carne, cayo-lhe a carne que 
leuaua na boca : e assy perdeo hfia e a outra. 



Em aquesta hestoria ho douctor reprehemde ha aqueiles que leixam 
as cousas certas pelas jmçertas, e querem leixar as suas cousas por 
cobijça de cobrar as alheos, assy com fez este cam, que leixou perder 
a carne que leuaua na boca, por cobrar a soombra que lhe parecia 
mayor. 



SÉCULOS XII A XV 69 



XXIX 

o leão velho, o asno, o touro e o porco 

Comta-se que htlu leom erft tam velho que se nom podia mouer ; 
e emcomtrou com hQu asno e com hfiu touro e com htíu porco. Vêem do 
estes que o leom per velhice nom se podia mouer, diserom amtre sy : 

— Ora he tempo que filhemos vimguamça deste treedor, que matou 
nossos parentes e fez a muytos mal. 

E ho asno lhe deu dous couces, e o porco com os demtes e o tonro 
com os cornos. E o leom choraua e bradaua, dizemdo : 

— Tempo fuy que eu vemçia todas as alimalias t E ora todalas 
animalias vemçem a mym I E eu perdoey a muytos, e estes nom 
perdoam a mym 1 

Per esta guisa o leom ficou ehoramdo. 



Em aquesta hestoria o doctor diz que nas nossas bem auemturan- 
ças deuemos fazer muyto pêra avermos amiguos e nom ymijgos, ca 
os boos amiguos ajudam os homêes nas suas pressas, e os emiigos 
fazem todo polo contrayro. Ajmda diz que o homem nom deue fazer 
a outrem aquello que nom queria que fosse fecto a elle. 

De « O Livro do Esopo ». 



XXX 

Um milagre de Santo Eloy 

Em estes dias o piadoso e nobre Rey Lotario penssou em seu cora- 
çom como mandase fazer htía seeda ou cadeira real e honrradoira e 
bem pareçente, a qual fosse toda d'ouro fino e de pedras preciosas da 
qual se servise e usase honrrosamente é algdas principaaes festas e 
ajunctamentos de seus povoos por magnificência de deus e honrra e 
excellençia de seu estado. E falládo seu conçepto e desejo cõ algQas 
pessoas, nõ se achava nê huG oficial que se atrevesse a fifazer a dieta 
obra segundo que elaey desejava. E seendo pêra esta obra nequirido 
o meestre ou ourivez moor deirrey, ê cuja casa pousava Elligio, nõ se 
estrevêdo o dicto meestre fazer semelhante obra assy sotil e nobre 
qual se requiria, disse a elrrey : « Senhor, em minha casa he hud 
mancebo chamado Elligio, de muy maravilhoso engenho e subtileza e 
muyto comprido da arte do nosso officio e mester, o qual peenso que 
fará esta obra segundo vosso desejo e vontade. » E logo Ellisio foy 
chamado, e veo perante elney o qual, vendo sua perssoa e ouvido suas 
palavras as quaaes erã simplizes e humildes cõ hda graciosa e prazi- 
vel compisiçom foy elle muy paguado e prazente dei. Porem lhe 
disse : « Ellisio, farmeas tu hQa tal obra ? ». E o virtuoso mancebo 
Respondeo : « Senhor, eu me confiio é deus que m'ésignara em isso 
fazer todo vosso conçepto e desejo. » E seendo elrrey muy allegre e 
prazente da sua resposta, logo lhe mãdou dar grande quStidade douro 
segundo a obra que el quiria e elle pedisse, ho qual aequereo que lhe 



70 ANTOLOGIA — PROSA 



fosse dado per peso e loque. Finalmente Elligio começou aquella 
obra em nome de deus. A qual acabou em muy breve tempo ; e pesou 
a cadeira, e esguardou no ouro que sobejava, e consirou que joya 
faria a eirrey cõ que elle fosse mais prazête e penssou ê lhe fazer hQa 
sella real. Empero parecialhe que no abondaria aquei ouro que sobe- 
jara da cadeira pêra a sella que elle quiria fazer. Empero cõ a ajuda 
de deus a começou e acabou era sua perfeiçõ. É ffez cadeira e sella 
ambas de ygual peso d'ouro. Assi que cada hQa pesava tanto como 
el Recebera pêra a cadeira. A qual cousa sem duvida quis o senhor 
deus assy fazer por tal que se conheçese o ssea servo segundo a saa 
virtude. 

De Á Lenda de Sanlo Eloy, in Instttuto, vol. 47. 

XXXI 
Retrato moral e físico de Santo Eloj 

E veendo o piadoso e nobre aey tâta virtude ê o sancto barom, cõ 
prazer lhe dava muy avõdosa e larguamente de seus thesouros, conhe- 
cendo que elle era fiel dispenseiro e muy sages e caridoso esmoller. 
Oo se vir [t] as o sancto home muytas vezes sahir de sua casa, o qual 
assy aguardavam aa sua porta, e outrosy os luguares per hu sabiam 
que ell avia d'ir, como fazem os mininos aos que fazem alguQs jogos 
ou dam pam por deus a todos : assy o saneio barom, vendoos assy, 
se allegrava como sooe a fazer aquel que se alegra quando acha a 
cousa que muyto ama e avia perdida. E dessy dava a cada huG sua 
esmolla hordenadamente, assy como se sooe a dar bollos e fruyta ou 
outras viandas é os vodos hu se nõ negua o que he ordenado a todos. 
Muytas vezes eram tãtos que nõ os podiam abastar os dinheirros que 
o sancto de deus Eligio trazia ê seu bolso hordenadamSte, e nõ em 
pouca quantidade, e por tal que nem buQ se partise dei sem esmola c 
caridade, elle dava todas outras cousas de seu uso atee cinta. E assi 
virias o sancto de deus hir esbulhado sem saya e sem cinta cingido 
cõ huO pedaço de baraço ou de jQcos. E assy se hiia ao paaço, nõ 
esguardando como hiia; ca nê por isso ho niíam nè escarneciam os 
que o viam como se sooe a fazer aos que assy voom apparelhados 
como bragantes e tafuis ; antes eram todos provocados e amoestados 
por esto aa compaixom dos pobres e louvavam a deus em o sseu 
servo, conhecêdo a ssua grande virtude. E muytas vezes o ney e 
alguQs outros Senhores cõ gram prazer lhe davS logo suas vestiduras 
e dinheirros que destribuise cõ os pobres. 

E tanto crecia a ÍTama do sancto home que em muitas partes assy 
preto como longe faltavam da sua sanctidade. E porquanto a cSdea, 
segundo diz o senhor, se nõ pode scõder que nõ alomee os que som 
em a casa, poré começou o sancto de deus Elligio resplandecer per 
millagres, querendo o senhor deus em elle mostrar a sua virtude. 
E por se conhecer quejando era na alma, pos deus cm elle tanta fre- 
mosura e composiçom de fora que qug o visse, poderia julgar quê 
era. E esta era sua forma : d'estatura era comprido, a face fremo- 
sentada de hQa temperada ruyveza ou collor, os cabellos fremosos, as 
iQkftos hunestas e os dedos compridos, ho vulto angellico e a vista 



I 



SÉCULOS XII A XV 



7i 



simplez e honesta ; ho uso das suas vestiduras acustumadas era sempre 
tal que né era de preço, nê muy desprazivel, mas de huQ bõo modo 
téperado e honesto assy que a todos os que o viiam, era precioso 
exemplo de honestidade e temperança. 

Tanto era prazento e gracioso que assy os grandes como os meaíos 
e pequenos ho amavam muyto. E o piadoso ney sobre todos se dilei- 
tava e allegrava cõ el em tal guisa que muitas vezes, leyxando a 
companha dos grandes homês e dos prelados e grandes saybhos, apar- 
tavase soo cõ elie e fallava do bê e consollaçom da alma. 

De A Lenda de Santo Eloy, ibid. 



Quadro sinótico do movimento político, 

social e literário 

correspondente á escola Espanhola 



I 

Monarcas portugueses 

D. João I 1385-1433 

D. Duarte 1433-1438 

D. Afonso V 1438-1481 

U. Jo5o II 1481-1495 

D. Manoel 1495-1521 

n 

Sincronismo politico e social 

1400 — Origem da casa dos Medíeis em Florença. 

1414-1418 — Concílio de Constança aberto por Jo5o XXIII e encer- 
rado por Martinho V, no qual JoSo Huss e Jerónimo de 
Praga foram condemnados e entregues ao braço secular, 
que os mandou queimar (1414). 

1428-1431 — Aparecimento, façanhas e suplicio de Joana d'Arc. 

1436 — Invenção da imprensa. 

1453 — Tomada de Constantinopla pelos Turcos. 

1487 — Estabelecimento da Inquisição em Castela. 

1492 — Tomada de Granada pelos reis católicos Fernando e Isabel 
e expulsão definitiva dos árabes de Espanha. Descobri- 
mento do Novo-Mundo por Cristóvão Colombo. 

1513 — Princípio do pontificado de Lião X. 

1516 — Subida de Carlos V ao trono de Espanha. 

1517 — Primeiras pregações de Lutero. 

1519 — Fernão de Magalhães^o imortal navegante realiza a 1.* viagem 
de circumnavegação em volta do globo. [Vid. Simões 
Baião — Arch. Hist. Portug., ir, 321]. 



74 HISTÓRIA DA UTEIUTURA P0RTCQITE8A 



IH 

Sincronismo literário 

Espanha 

íiiiGO LóPEz DE Menoonza, Marqués de Sanlitlana (1398-1458); 
das suas obras interessa-nos conhecer sobretudo a carta intitulada 
Proémio, que versa sobre a poesia provençal e é dirigida a D. Pedro, 
Condestavel de Portugal e fílho do infante D. Pedro, Duque de 
Coimbra. 

Jdan de Mena (1411-1456) autor do poema alegórico Labirinto, 
que pela exuberância da sua imaginação^ beleza dos seus versos de 
arte maior e ardente patriotismo exerceu grande influência, entre 
outros, sobre o Condestavel D. Pedro, nas Coplas. 

Jorge Manrique (1440-1478) que escreveu poesias á maneira 
provençal merecendo aqui citar-se as quarenta e três estrofes que 
intitulou : Coplas de Jorge Manrique por la muerte de su padre, que 
bastariam a ganhar-lhe a imortalidade. 

Garcia Ordónez de Montalvo, que em 1452 traduziu, adaptando-o, 
o Amadis de Gaula do nosso Vasco de Lobeira. ( Vid. n.° 31 ). 

Como pertencente a esta época, que corresponde a D. João II 
(1419-1454), devemos ainda citar o Cancionero de Baena, que com- 
preende versos duns sessenta poetas do tempo daquele monarca 
espanhol. Â este grupo pertence o lendário Macias, El enamorado, 
morto ás mãos dum marido ciumento na ocasião em que cantava a 
sua platónica paixão. Macias é repetidas vezes lembrado na literatura 
peninsular. 

França 

ViLLON (1431-1484) poeta satírico, que deixou no Petit Testament 
e no Grand Testament um retrato fiel da época em que viveu. 

Froissart (1337-1410) funda o género histórico, já tentado por 
Villehardouin (f 1213) e Joinville (f 1317). Nas suas Crónicas de 
França, Inglaterra, Escócia, Espanha, Bretanha, Gasconha, Flandres 
e outros logares faz, sobretudo, menção das guerras entre a França e a 
Inglaterra. Froissart muitas vezes se compara com o nosso Fernão 
Lopes. 

Itália 

Lourenço de Medicis (1448-1492) o Magnifico, célebre ditador 
de Florença, a quem se deve uma parte importantíssima no despertar 
da poesia nacional, poeta lírico muito notável, imitador distinto de 
Petrarca, autor da Selve d'Amore, dos Potmeti e dos Canti Carnnva- 
leschi e Beoni. 



CAPITULO II — ESCOLA ESPANHOLA 75 



Angblo PoLiciANO (Í454-1494) preceptor dos filhos de Lourenço 
de Médicis e um dos espíritos mais brilhantes da sua corte, humanista 
muito citado, autor do drama Orpheu, de Epigramas e Epistolas, 
escritas em grego, e da Conjuração dos Pazzi, em latim. Foi admi- 
rador do nosso monarca D. João 11^ a quem dirigiu algumas cartas. 
[Foram trad. pelo ilustre filólogo Sr. Epiphanio da Silva Dias e 
publicadas pelo Sr. Th Braga, no vol Poetas Palacianos, Porto, 1871, 
pg. 299 e seg. ]. 

Inglaterra 

É dominada pelo ciclo de Artus^ comunicado a Portugal pelo 
casamento de D. Felipa de Lencastre com D. João L 

Alemanha 

Continuam os Meistersingers a cultivar a poesia popular, sendo o 
maior poeta desta época Brant ou Br-anot (1458-1521), autor do 
poema Barca dos Loucos. 



CAPITULO n 

Escola Espanhola 



( 1383-1521 ) 

Sumário : 33. Caraeteres geraes deste período. — 34. Invenção da 
imprensa ; seu início em Portagal. — 35. Estudo da poesia. — 
36. Garcia de Resende. — 37. Cancioneiro geral. — 38. Influência 
espanhola. — 39. Gondestavel D. Pedro. — 40. D. Duarte. — 
41. D. Pedro, Duque de Coimbra. — 42. Aparecimento da história. 
43. Fernío Lopes. — 44. Gomes Eanes de Zurara. — 45. Rui 
de Pina. — 46. Autores de biografias. 



33. — Caracteres geraes deste período. O empenho 
de consolidar a monarquia e de alargar os seus domínios, 
absorvendo a atenção dos primeiros monarcas portugueses, 
mal podia permitir que eles se entregassem ao cultivo da 
vida literária. Esta veio com a pacificação geral do pais 
e quem a inaugurou foi o justamente cognominado Rei 
trovador. 

O impulso dado ás letras por D. Denís derivou não só 
dos seus trabalhos pessoaes, mas ainda da fundação da 
Universidade. A data de 1290, ano dessa fundação, é 
memorável na história portuguesa. É o início duma insti- 
tuição gloriosa que tantos filhos ilustres veio a dar à 
pátria. Até aquele tempo os estudos, muito restritos, 
limitavam-se ás escolas creadas pelos bispos junto dos 
mosteiros. Sabese que durante a idade média foram 
estes institutos a única salvaguarda da sciéncia. Em 
Portugal sucedeu o mesmo que no resto da Europa. 
A primeira escola que houve em Coimbra foi instituída 



78 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

logo no reinado do Conde D. Henrique, pai do nosso 
primeiro monarca, pelo primeiro bispo daquela cidade 
D. Paterno *. Foram também os prelados, abades e rei- 
tores de vários mosteiros e igrejas que se encarregaram 
de dotar com os rendimentos e bens, que lhes pertenciam, 
o Estudo Geral, que D. Denis resolvera fundar em Lisboa 
pelo diploma régio de 1 de março de 1290, guarnecendo o 
com abundância de doutores em todas as artes e vigorizan- 
d0'0 com muitos previlegios ^, e logo nele se começou a 
ensinar o direito canónico, a medicina, a dialéctica e a 
gramática '. Este impulso não se perdeu. O última 
quartel do século xiv e o século xv representam um 
período de grande importância politica para Portugal e 
simultaneamente de grande desenvolvimento intelectual. 

Basta atentar na série dos monarcas deste período : 
— D. João I, cujo reinado marca talvez a época mais 
brilhante da história de Portugal, sem exceptuar a do 
próprio D. Manoel, e ele mesmo cultor das letras tendo 
escrito, segundo o testemunho de F. Lopes * e de seu 
filho D. Duarte *, alguns livros de piedade e o Livro da 
Montaria . . . tomado e ajuntado com acordo de muitos bõos 



1 Vid. Francisco Freire de Carvalho, Primeiro Ensaio sobre a historia 
literária de Portugal, pg. 35 e seg. 

2 Sr. Dr. António de Vasconcelos, Um documento precioso in-Rev. 
da Univ. de Coimbra, i, 363. 

' Sobre a história da Universidade de Coimbra consulle-se : Fran- 
cisco Leitão Ferreira, Noticias chron. da Universidade de Coimbra ; o 
Compendio histórico do estado da Universidade de Coimbra, 1772; 
Coelho da Rocha, Ensaio sobre a hist. do Gov. e da legisl. de Portug. ; 
Francisco Freire de Carvalho, Primeiro ensaio sobre a historia literária 
de Portugal; Sr. Th. Braga, Hist. da Univ. de Coimbra, i, 12891555; 
11, 15561699; iii, 1700-1800; iv, 1801-1872; Lisboa, 1892-1902, 
4 vols. 

* Chronica de D. João II, pg. 41. 

5 Leal Conselheiro, c 27, pg. 94. 



CAPITULO II — ESCOLA ESPANHOLA 79 

monieyros, ainda inédito *. D. Afonso V, que tam felizmente 
ampliou as conquistas dos portugueses e ao tempo de 
quem remonta o nosso mais antigo código administrativo, 
civil e penal — as Ordenações Afonsinas (1446) ^ foi um 
dos nossos monarcas mais afeiçoados ãs letras sendo, 
conforme escreve Rui de Pina, « o 'primeiro Rei/ destes 
Reynos que ajuntou boõs livros e fez livraria em seus 
paços » '. D. João II foi justamente cognominado o 
Príncipe Perfeito. D. Manoel mandou uma frota em 
demanda das terras do Oriente em momento tam feliz, 
que Vasco da Gama descobriu o novo caminho marítimo 
para a índia (1497-9) *. Que mais era preciso para uma 
efervescência literária despontar em pujantes promessas? 



1 Vid. Sr. Gama Barros, Historia da Administração Publica em Por- 
tugal, i, pg. 424 e 425, n. 8, onde faz a descrição do ms. único desta 
obra, hoje existente na Biblioteca Nacional de Lisboa. 

2 Foram concluídas e publicadas em 1446 em nome de D. Afonso V 
sendo regente o Infante D. Pedro. Cfr. Coelho da Rocha, Ensaio sobre 
a historia do governo e da legislação em Portugal, Coimbra, 1887, 
pg. 118. 

' Barbosa Machado na Bibl. Lusit. s. v. atribue-lhe um Tratado da 
melicia conforme o costume de batalhar dos antigos portugueses, e um 
Discurso em que se mostra que a constellação chamada leão celeste 
constava de vinte e nove estrellas e a menor de duas, que estão inteira- 
mente perdidos. 

* Foi D. João II quem em 1486 confiou a Bartolomeu Dias a 
empresa de colher informaçõis do misterioso Preste João. Uma tem- 
pestade arrojou-o para àlôm do Cabo Tormentoso. Vasco da Gama 
saio de Lisboa a 8 de julho de 1497 do sítio do Restelo, em Belém, 
comandando as três náos — S. Gabriel, S. Rafael e Bérrio, àlôm 
doutra com mantimentos. Transposto o Cabo e depois de tocar em 
Moçambique e Melinde viajou para o Oriente avistando a desejada 
terra a 17 de maio de 1498. Dias depois aportava a Calecut, na costa 
do Malabar. 

Em 1838 foi publicado o Roteiro da viagem, que em descobrimento 
da índia pelo Cabo da Boa Esperança fez D. Vasco da Gama em 1497. 
Segundo um ms. coetâneo existente na Bibl. Publica Portuense. Ed. diri- 
gida por Diogo Kopke (t 1844) e da qual em 1861 A. Herculano e 
António da Costa Paiva ( Barão do Castello de Paiva ) fizeram 2.' ed. 



80 HISTÓRIA DA LITEBATDBA P0RT0GUE8A 

O mestre de Aviz subindo ao trono pela força do povo 
firmou a independência da nação e preparou os portugue- 
ses para o cometimento de empresas épicas e gloriosas. 
O seu casamento com D. Felipa de Lencastre deu ao pais 
uma geração de heróis — D. Henriqae o Navegador, 
D. Duarte o Sábio, que lhe sucedeu, D. Fernando o Santo, 
que a morte surpreendeu no cativeiro de Fez, e D. Pedro, 
Duque de Coimbra, Regente do reino. O seu glorioso 
reinado preparou a vinda de escritores como Fernão Lopes, 
Zurara, Pina, etc. 

Desta ínclita geração D. Duarte foi um letrado insigne, 
e D. Henrique pelo seu espírito empreendedor deu alento 
ás conquistas e descobertas que tanto engrandeceram Por- 
tugal. A Universidade encontrou neste último um zeloso 
amigo e protector *. Ele lhe doou edifício próprio onde 
os estudos se foram realizando até o reinado de D. Manoel, 
bem como dotou com pensão certa a cadeira de prima de 
Teologia. 

Pode, pois, dizer-se que os quatro monarcas desta época 
são beneméritos da pátria e da civilização. 



melhorada. Também ha poucos anos o Sr. Brito Rebello publicou o 
Livro de Marinharia. . . de Joio de Lisboa (Lisboa, 1903). Este 
João de Lisboa foi, talvez, um dos companheiros do Gama na sua 
primeira viajem. O Roteiro da viagem que fizeram os portuguezes em 
1541 de Goa a Suez por D. João de Castro foi publicado em Paris em 
1833 por António Nunes de Carvalho com uma curiosa introduçSo e 
notas. Outro livro ainda referente a viajens dos portugueses é o 
Esmeraldo De situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira publicado em ed. 
critica pelo Sr. Epiphanio Dias ( Lisboa, 1905 ). 

' Num alv. de 29 de abril de 1441 chama-se lhe governador da 
Univ. ; na Prov. de 27 de fev. de 1479 dá-se lhe o titulo de protector, 
que aparece também no Livro dos Privilégios. Cír. o estudo do sr. 
Dr. J. M. Rodrigues, O Infante D. Henrique e a Univ. no Instituto, xu, 
485 e seg. De D. Henrique (1394-1460) ha dous escritos — uma 
Carta ao pais sobre o casamento do sucessor do trono escrita em 1428 
( impressa em Soares da Silva, Memorias, i, 92, pg. 410 e Sousa, 
Provas, I, 515 ) e unia noticia a que Barbosa Machado, Bibi, u, 436, 
chama Conselho sobre a guerra de Africa. 



lUPlTULO II — ESCOLA ESPANHOLA 81 



34. — Invenção da Imprensa. Seu inicio em Portugal. 
Quem foi o inventor da imprensa? Esse título caberá 
àquele que primeiramente se serviu de caracteres móveis 
e imaginou operar a tiragem do texto assim composto por 
meio duma prensa. Poderemos nós dizer quem foi? é 
impossível, hoje, responder com absoluta segurança. 
A discussão está circunscrita a João Gutemberg e a Lou- 
renço Coster. A obra impressa mais antiga parece ser o 
Speculum humanae salvationis, anterior a 1450, devida^ 
Coster, ao passo que ha quem afirme que essa primasia 
compete á chamada Bihlia Mazarine de Gutemberg, que é 
porém de 1456. Mas mesmo que se conceda á Holanda, 
propriamente á cidade de Harlem, onde teria aparecido o 
Speculum a honra de ter visto nascer o inventor dos cara- 
cteres móveis, convém reivindicar para Gutemberg a de ter 
descoberto a prensa e aperfeiçoado para o resto os pro- 
cessos anteriores, de modo que se ele não é o primeiro, é, 
porém, o verdadeiro inventor *. Seja como fôr, certo é que 
passados poucos anos esse poderoso propulsor da civilização 
entrava era Portugal, devido á iniciativa dos judeus. Até 
então a raridade dos livros era enorme, o seu custo fabu- 
loso. As livrarias possuidas unicamente pelos príncipes e 
reis representavam verdadeiros tesouros, como a do nosso 
D. Duarte, que a sorte dos tempos destruiu. Mas a arte 
da imprensa entrou em Portugal muito cedo e muito cedo 
também se propagou e desenvolveu. É ainda do sec. xv, 
— e a primeira que saiu da tipografia portuguesa em 
Lisboa ^ — a famosa e raríssima tradução do Livro de 
Uita Chrisli. Esta tradução da obra de Ludolfo da Saxónia 
foi mandada fazer pela rainha D. Isabel, molher de 



1 Grand Eneyd. du XIX siécle, na palavra Imprimerie, t. xx, pg. 618 
e seg. 

2 Antes de 1491 nSo ha livro algum impresso em Portugal e em 
lingoa portuguesa, apesar da tipografia já ter entrado no pais e nos 
ter dado obras em hebraico e latim. 



82 HISTÓRIA OÂ LITERATCBA PORTUGUESA 

D. Afonso V, ao monge cisterciense Fr. Bernardo de 
Alcobaça e saiu dos prelos em 1495 *. 

No ano imediato imprimio-se também em Lisboa a 
Estoria de muy nobre Vespesiano emperador de romã, 
documento preciosíssimo não só por ser o segundo livro 
impresso em lingoagem portuguesa, mas lambem de 
inestimável valor pelas numerosas estampas que ilus- 
tram as suas páginas, que revelam o adeantamento que a 
arte tipográfica e as do desenho e gravura tinham atin- 
gido em Portugal nos fins do sec. xv *. 

Primeiro que Roma, Veneza, Sabioneta, Mántua, Cre- 
mona, Verona, Bríxia, Ferrara e outras cidades de Itália, 
primeiro que Constantinopla e Tessalónica, muito antes 
da França, Inglaterra, Castela, Polónia, Holanda e a pró- 
pria Alemanha, podemos orgulhar-nos de termos nós 
tipografia ^ D. Afonso V, D. Manoel, D. Sebastião 
concederam diversos privilégios aos livreiros, como o da 
isenção de pagamento dos direitos de sisa pelos livros 
que importassem e vendessem em Portugal. Por isso 
vemos que já no século xvi eram numerosas as tendas 
dos livreiros em Lisboa *. Pode dizer-se, pois, que a 
introdução da imprensa em Portugal e os acontecimentos 
políticos em que sobresáem as navegações arrojadas sam 
um inicio feliz dessa edade que já se presentia — o 
Renascimento. 

1 Descrição desenvolvida nas Mem. de Lit. Poriug., viu, 55 e seg. 
e no Catalogo do bibliófilo J. M. Nepotnuceno, Lisboa, 1892, pg;. 138-142; 
reprodução da grav. que parece ter sido o p>'rinen do afamado quadro 
da misericórdia do Porto, o Fons Vitae, em A. Carvalho — Os incuná- 
bulos da Btbl. Publ. do Porto. Porto, mcmiv, 73. Damos dous pequenos 
trechos na Antologia. 

2 p_ M. Esteves Pereira, Hist. de Vespasiano,']h, cit. No mesmo ano 
de 1496 imprimio-se em Leiria o Almanach perjietuum motuum astro- 
nomi Zacuti. 

í Os Judeus em Portugal, c. v, pag. 257 e seg. 
♦ Sousa Viterbo, A livraria Real especialmente no reinado de D. 
Manoel, Lisboa, 1901, pag. 5. 



CAPITULO 11 — ESGOI.A ESPANHOLA 83 



POESIA 

3S. — Estudo da poesia. Os documentos por onde 
melhor podemos avaliar o estado das letras em Portugal 
no período que se denomina Escola Espanhola, têem como 
fonte principal o Cancioneiro organizado por Garcia de 
Resende, o qual fecha o ciclo dos cancioneiros medievais 
e que na história da nossa literatura é conhecido pelo 
nome de Cancioneiro Geral. 

3e. — GARCIA DE RESENDE, (por 1470-1536). 

É indispensável começar por traçar, embora de forma 
muito rápida, a biografla de Garcia de Resende *, para se 
compreender a forma como foi organizado o seu Cancio- 
neiro Geral. Resende era natural de Évora e foi Moço 
da escrevaninha ou secretário particular del-rei D. João II, 
cargo em que se houve de tal modo, que ganhou a estima 
e afeição do monarca, que depois D. Manoel também lhe 
consagrou. De quanto o estimava, folgava D. João II de 
dar testemunho sempre que se oferecia ocasião ou para 
isso aparecia pretexto. Assim « ao Moço da Escrevaninha 
competia ter sempre na mão, emquanto D. João II escre- 
via, uma penna molhada e pronta para substituir aquella 
de que ele se estava servindo; sucedia por tanto ver 
Resende tudo quanto seu amo assentava no papel. Um 
dia, estando El-rei a escrever a Fernando o Católico, per- 
cebeu Resende ser coisa de muita importância e discre- 
tamente virou o rosto para o lado ; D. João II deu por 
isso e disse-lhe: vira-te para cá, que, se não me fiasse 
de ti, não te mandaria estar aí; e porém isto não te dê 
presunção, senão vontade para melhor servir e ser me- 
lhor ensinado » ^. 



^ Com a mestria habitaal o sr. Braacamp Freire ocapou-se de Resende 
no vol. Critica e Historia, Lisboa, 1910, pg. 28-95. 
2 Sr. Braacamp Freire, CriUca e Historia, pag. 35. 



8Í HISTÓHIA DA UTBBATDRA POBTDGDESA 

E foi, decerto, a afeição que o monarca lhe consagrou, 
os incitamentos com que aplaudiu o seu gosto de trovar, 
que concorreram em muito para que ele podesse colecio- 
nar as numerosas trovas que formam o seu Cancioneiro. 
Além de poeta, Resende distinguiu-se também pela boa 
manha, como então se dizia, de debuxador e músico. 
Referindo-se a estas aptidões várias escrevia Gil Vicente : 

E Garcia de Resende, 
Feito peixe tamboril 
E inda que tudo intende, 
Irá dizendo por ende, 
Quem me dera um arrabil. 

E um outrp contemporâneo, o poeta D. Francisco de 

Biveiro : 

O redondo do Resende ' 

Bem m'intende 

Tange e canta muito bem ; 

E debuxará alguém 

Se com isto nSo se offende. 

D. Manoel lambem o estimou muito, nomeando-o secre- 
tário da magnidca embaixada que mandou a Roma por 
Tristão da Cunha, em 1514, quando era pontífice Leão X^. 

Como historiador temos de Resende a Vida e feitos de 
D. João II ' que Herculano * avaliava como mezqninha 
colecção de historietas, onde apenas avultam algumas 
páginas como o suplício dum nobre ^, o assassínio dou- 

1 Alusão á descomunal gordura do poeta que deu tema a tantos 
apodos dos seus contemporâneos. 

2 Vid. Salvatore de Ciutiis, Une ambastade portugaise ú Borne 
au AT/e siècle, Naples, 1899. 

3 Â 1.* ed., hoje raríssima, é de 1545. Ha uma ed. da Imp. da 
Univ. de Coimbra de 1798 cotn o titulo Chr. dos valerosos e tnsignet 
feitos d'el-rei D. João II, bastante errada, especialmente na Miscelânea. 

* Opúsculos, V, 27. 

^ D. Fernando, 3.° duque de Bragança, que subio ao cadafalso em 
Evera, em 1483. 



CAPITULO II — ESCOLA KSPANtiOLÁ 85 

tro * e O mistério dum rei que morre, ao que parece 
envenenado ^. 

Neste trabalho Resende copiou na maior parte a crónica 
do mesmo rei, de Rui de Pina, usando servilmente das 
mesmas concepções, idéas e pensamentos, e até das pró- 
prias palavras acrescentando, apenas, aqui e àlèm alguns 
factos próprios ^. Deve porém dizer-se, que a crónica 
está escrita com singelesa e oferece leitura a que não é 
estranho certo gosto e encanto, dando-nos noticia de 
« usos, costumes, trajos, cerimonias, trechos de conver- 
sações, noticias de relações sociaes e muitas outras infor- 
mações interessantes, incluindo as anedotas, que nos 
revelam em parte o modo de viver da gente portuguesa 
daqueles tempos » *. É também interessante a Miseela- 
ma e variedade de historias ^, espécie de crónica rimada 
dos factos mais notáveis da sua época. De maneira que 
não sendo insigne, diz a Sr.* D. Carolina Michaèlis, em 
nenhuma especialidade, a critica moderna fez justiça aos 
serviços importantes que prestou à pátria e ao seu espi- 
rito enciclopédico de musico, desenhador, poeta e histo- 
riador ^. Mas o principal merecimento de Resende resulta 
de ter sido o colecionador do 

ST'. — Cancioneiro Geral. Foi este cancioneiro publi- 
cado pela primeira vez em 4516 com o seguinte titulo: 
Cancioneiro geerall. . . ordenado e emendado por Garcia de 
Resende. . . Começouse em Almeyrim e acabouse na muito 
nobre e sempre leall cidade, ele. Lisboa. . . 1516. 



1 D. Diogo, duque de Viseu^ que foi assassinado pelo próprio rei 
D, João II. 

2 D. João II. 

2 Vid. Garcia de Resende, excerptos seguidos duma notiàa sobre sua 
vida e obras. É o vol. iii da Livraria Clássica dos Castitlios. 
* Sr. Braacamp Freire, Critica e Historia, pag. 30. 
^ Anda anexa á Chronica de D. João 11. 
^ Estudos sobre o romanceiro jieninsular, pag. 260. 



86 HISTÓRIA DA UTEBATURA PORTUGUESA 

Passaram-se mais de três séculos sem que o Cancioneiro 
Geral obtivesse nova edição, tornando-se pur isso a única 
que havia de 1516 verdadeira raridade bibliográfica *. 
Em 1846 a « Sociedade Literária de Stuttgard » deu em 
três volumes uma edição rigorosamente diplomática, que 
também já hoje é rara no mercado ^, e que foi feita 
sobre um exemplar emprestado por el-rei D. Fernando. 
Em 1904 fez-se na América, a expensas de sir Archer M. 
Huntington, uma edição de 200 exemplares em fac-simile, 
monumento de amor literário pela mão generosa dum 
estranjeiro a apontar-nos o caminho que deviamos seguir. 

Na imprensa da Universidade de Coimbra trabalha-se 
numa edição cuidadosa e esmerada ', 

É incontestável que o Cancioneiro de Resende é dum 
valor incalculável não tanto pelas poesias em si, como 
principalmente pela fonte abundante de conhecimentos 
que fornece sobre a sociedade portuguesa do século xv. 
Figuram na colecção de Resende trovas de perto de tre- 
sentos poetas, muitos dos quaes escreveram em espanhol. 
Resende reuniu essas trovas sem sistema nem plano 
determinado. Tudo o que ia adquirindo, fosse de poetas 
já falecidos, fosse dos que viviam na corte, escrito em 
espanhol ou em português, tudo ia colecionando com a 
idéa de enriquecer tanto quanto podesse o seu álbum 
formado, escreve ele no prólogo dirigido a D. Manoel, 
para desenfadamenlo do rei. A situação previiigiada que 



1 A Biblioteca da Universidade de Coimbra possue um exemplar 
desta raríssima edíçSo, ao qaal faltam àlétn da 1.* e última as lis. 56, 
61 e 183. 

2 Cancioneiro Geral. Allporíuguiesische Liedersammlung des Edeln 
Garcia de Resende. Neu herausgegeben von Dr. E. H. v. Kaussler, etc. ; 
1.0 vol. 1846, 2.» 1848 e 3.» 1853. Esla ed. é excelente e até mais 
correcta do que a original, emendando muitos erros de Resende cuja 
liçáo é indicada em nota. M^^recem registar-se pelos largos extratos 
que fazem do Cancioneiro os t. viii inteiramente ( 182 pag. ), e parte 
do IX (50 pag.) da ÍAvraria Clássica Portuguesa dos Castilbos. 

> Estão publicados três vols. 



CAPITULO II — SSCOLA ESPANHOLA 87 

ocupava no paço, o seu génio folgazão e zombeteiro, faci- 
litavara-lhe essa missão de colecionador. Mas que frivo- 
lidade na maior parte dos assuntos ! que secura em quasi 
todas aquelas páginas I 

Abre o Cancioneiro Geral por uma tensão, o celebrado 
processo do cuidar contra o suspirar, que gira em volta 
duma dama, D. Leonor da Silva, que por 1483 vivia na 
corte de D. João II e era galantemente cortejada por 
poetas portugueses e castelhanos. Tomam uns o partido 
do íidalgo-poéta Nuno da Silva, o do cuidar, defendem 
outros o suspirar com Jorge da Silveira à frente. Os dois 
poetas encontram-se num caminho, indo um abstrato e 
sonhador, o outro dando profundos suspiros : 

Vós, Senhor Nuno Pereira, 
Por quem hys assy cuydando ? 
— Por quem vós hys sospirando, 
Senhor Jorge da Silveira ? 

Principia o debate e nele tomam parte, usando já do 
espanhol, já do português, numerosos poetas, cujo ídolo 
troca, por 6m, as fantasias dos seus admiradores na 
maior parte, de resto, casados, pela realidade do casa- 
mento com um provinciano beirão. Acabado este debate 
palaciano que enche catorze folhas do Cancioneiro 
seguem-se poesias amorosas, satíricas, epigramáticas, 
roçando algumas por uma vivacidade de imageus atre- 
vidas e até grosseiras, o que explica que a inquisição no 
seu índice expurgatório de 16á4 as trancasse em muitos 
logares. 

« O que mais chama a atenção deste Cancioneiro, 
escreve Menendez y Pelayo, não é a diferença de lingoas, 
que é meramente acidental e não afecta o conteúdo 
poético, é sim a penúria de inspiração histórica, o 
divórcio em que estes trovadores cortesãos parecem 
viver de toda a grandiosa vida do seu povo, e em que 
alguns deles tomaram parte muito honrosa e distinta. 



88 HISTÓRU DA LITERATURA PORTUGDBSA 

Nem as empresas de África, nem as portentosas nave- 
gações do Oriente têem eco nesta retórica convencional e 
enfadonha. » E o grande Mestre Castilho: « substância 
poética... pouca se espreme do corpulento volume do 
Cancioneiro, quasi nenhuma fora expressão mais exacta. » 
Assim é. As excepções sam insignificantes. Aparte 
Álvaro de Brito e D. João Manoel que escreveram planhs 
á morte prematura do príncipe D. Afonso, filho de 
D. João II falecido em 1491, poucos dias depois do seu 
casamento, composições ainda assim frias e sem vislum- 
bre de sentimento, só o próprio colecionador protestou 
contra a frivolidade dos temas, cantando a morte de 
D. Inês de Castro em versos cheios de movimento e de 
bela elevação e que inspiraram depois as inimitáveis 
estrofes do nosso supremo cantor ^ Ha ainda, aqui e 
àlêm, algumas trovas que compensam bem a aridez do 
grande número, taes o Fingimento de amores t clara reve- 
lação de subido engenho e apurado gosto », obra de 
Diogo Brandão ^, algumas cantigas, e outras composições 
que damos na Antologia. 

A contextura das estrofes que aparecem no Cancio- 
neiro é muito variada : ha nele amostras muito dignas 
de adopção, por seu geito e graça peculiar. Para tal o 
apontamos, escrevia uma autoridade competente, aos pou- 
quíssimos engenhos excelentes que se têem empenhado 
em regenerar a nossa lirica, enriquecendo-a com a máxima 
variedade de períodos, com a máxima abundância e novi- 
dade de rimas; mas a metrificação é muito irregular e 
muito descuidada a rima, jogando por exemplo serras e 
quiseras, palavras e desejavas, etc. '. 



1 Seriam eslas Trovas de D. Inês inspiradas nalgum verso tradi- 
cional ? Assim o pensou Menendez y Pelayo. Cfr. Antologia, já cit., 
vol. IX, pg. 284-288. 

2 Traçou-lhe o perfil o sr. Braacamp Freire no Are llist. Port., 
VI, 298 e segg. 

» Caslilhos, Lio. Cloitica Portug., ob. cit., vol. x, pg. 13!. 



CAPITULO II — ESCOLA ESPANHOLA 89 

Olhado por outro lado o Canc. Geral é inestimável. 
« Ha ai miuúcias interessantes, que em balde se busca- 
riam nas ctiancelarias e nas crónicas, de usanças velhas, 
de trajos, de alfaias caseiras, de relações familiares do rei 
com a sua corte, de amizades e inimizades dos cortesãos 
entre si, do papel que as senhoras representavam na 
sociedade alta, das liberdades, hoje inadmissiveis, então 
moeda corrente, do pendor epigramático e faceto do 
espirito nacional, da bonhomia do viver antigo, das 
tendências eruditas de alguns versejadores, filhos da 
Renascença, para o culto dos clássicos romanos, das 
microscópicas maledicências em que se entretinham os 
cavaleiros, quando descansavam era Évora ou Almeirim 
das frágoas de Arzila ou Azamor ; e ha também embuçadas 
referências genealógicas e históricas que, observadas com 
critério, dão luz á historia geral *. 

3S. — Influência espanhola. O Cancioneiro Geral 
traduz a imitação da poesia espanhola, que caracteriza 
esta época. Entre portugueses e castelhanos ha relações 
amistosas, que não impedem o cobrirem-se de vez em 
quando de injúrias. Sem originalidade, portanto, as, 
pouco mais ou menos, mil poesias, que encerra o valioso 
trabalho de Resende, sam de caracter palaciano — fruto 
de artificio por vezes laborioso, inferior como documento 
poético, mas indispensável como subsidio histórico para 
o estudo do século xv. 

Entre ele e os cancioneiros, que o precederam, e que 
não sam provavelmente senão cópias dum original que se 
perdeu, ha uma notável diferença. 

Uma lingoa irregular servindo ou traduzindo rudes mas 
enérgicos pensamentos, certa naturaUdade, graça e viveza 



1 Do Prefácio ao índice do Canc. de Resende e das Obras de Gil 
Vtcente, Lisboa, 1900. Anónimo. [ Autores srs. Júlio de Castilho e 
Braaearop Freire J. 



90 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



nas mais antigas poesias, e já nas do reinado de D. Denís 
grande afectação e artificio, taes as qualidades das mani- 
festações poéticas características dos trovadores portu- 
gueses, que nos deixaram perto de mil cauções escritas, 
segundo Wolf, no periodo decorrido entre 1Í45 e 1357. 

39. — CONDESTAVEL D. PEDRO (1429-1466). Dentre 
os poetas do Cancioneiro * devemos destacar o Gondestavel 
D, Pedro, filho do infante D. Pedro, Duque de Coimbra, 
embora quasi tudo o que dele possuamos esteja escrito 
em espanhol e por isso o seu nome seja contado entre os 
que ilustram a literatura do pais vezinho, onde viveu 
durante sete anos. E' de D. Pedro a obra que intitulou 
Satyra de felice e infelice vida dedicada a sua irmã 
D. Isabel casada com D. Afonso V, cheia de copiosas 
notas marginaes que muito abonam a sua erudição, algu- 
mas das quaes sam de excepcional valor, como aquela 
que se refere à Rainha Santa de Portugal, a relativa 
ao enamorado Macias, etc. A Satyra, espécie de novela 
alegórica de género sentimental, foi escrita em português 
no meiado de 1448 e novamente redigida em castelhano 
depois de 1449, antes dos dezoito anos ^. O falecimento 
( 1455) de sua irmã D. Isabel inspirou-lhe outra obra, em 
prosa e verso, com o título : Tragedia de la insigne Reitía 
Dofia Isabel '. Mas a obra que dá a D. Pedro maior 



1 Canc. de Res., i, G7-69. 

2 Publicada por D. António Paz y Méiia no vol. xxix dos Bibliófilos 
Espaiioles, Madrid, 1892, e por Menéndez y Pelayo na Antologia dos 
Poetas lyricQS caslellanos, ii, 263. 

3 Foi publicada com eruditos esclarecimentos no livro Homenaje a 
Menéndez y Pelayo en el ano vigésimo de su profesorado, Madrid, 1899, 
1, pag. 687, pela Sr.* D. G. M. de Vaseoneellos, graças a um códice 
coetâneo da Livraria Fernando Palha. O texto ocupa na separata as 
pag. 53-96. De 1-52 vem uma introdução bibliogr. e hist. que dá 
alguns subsídios importantes para a biogrSfía tanto do Condestavel 
como de seu Pae e corrigindo varias asserções de O. Martins emitidas 
DOS Filhos de D. João I. 



CAPITULO II — ESCOLA B8PANB0LA 91 

renome e que um erro de Garcia de Resende atribuiu 
não a ele, mas a seu pae, erro em que cairam escritores 
contemporâneos como Innocencio da Silva e 0. Martins, é 
a conhecida pelo nome de Coplas dei comtempto dei mundo^ 
ou Poema dei menosprezo dei mundo, a melhor obra que 
no século XV foi escrita em espanhol por um trovador 
português *. 

Ao condestavel D. Pedro é que o Marquês de Santillana 
dirigiu entre 1445 e i458 o seu Proemio, de tão alto 
valor para o estudo das origens da poesia peninsular. 

PROSA 

4Ô. — D. DUARTE (n. 1391, gov. 1433-1438) tem 

um logar honroso entre os escritores deste período. 
O seu amor pelas letras levou-o a mandar fazer grande 
número de traduções ^, que com as muitas obras que 
adquiriu no estranjeiro por intermédio das Feitorias por- 
tuguesas constituíam a sua preciosa livraria ^ infelizmente 
perdida *. As obras mais notáveis que dele possuímos e 



1 Coplas hechas por el muy illustre Senor Infante Don Pedro de 
Portugal en las quales ay mil versos com sus glosas, contenientes dei 
menosprecio e contemplo de las cosas fermosas dei mundo, demonstrando 
la sua vana e feble beldad. ViJ. alguns extractos em Menéndez 
y Pelayo, Antologia, etc, ii, 263. Escreve a Sr." D. C. M. de 
Vasconcellos : « as datas 1464 ou 1465 não merecem discussão. 
A de 1478 estabelecida. . . por O. Martins provém de uma nota ma- 
nuscrita lançada á margem do Prólogo. O tipo gótico, o papel grosso 
e a falta de todas as datas tornam provável a hipótese dele pertencer 
ao sec. XV ». 

* « Na sua livraria prevaleciam os livros em lingoagem, por castel- 
lão, por português, por aragões ». Sr. Th. Braga, Hist. da Univ., i, 196. 

3 O catalogo apareceu nas Provas da Hist. Geneal, i, 544-546, e está 
comentado pelo Sr. Th. Braga, Hist., da Univ., i, 209 e seg. 

* « Dos livros qurt ajuntou D. Duarte apenas sabemos da existência 
do intitulado Corte Imperial e do fragmento do Reg. de Principes. Tudo 



93 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



que O assinalam àlêm de estilista como um cultor de sã 
filosofia moral foram publicadas pela primeira vez em 1842 
sam: Uai Conselheiro e Livro de Ensinança de bem caval- 
gar •. A lingoagem de D. Duarte é muito polida e sofre, 
por vezes, confronto lisongeiro com a do nosso primeiro 
cronista, F. Lopes. 

41. — O INFANTE D. PEDRO, Duque de Coimbra, 
(1392-1449), é outro príncipe que merece menção espe- 
cial. Tendo-se ilustrado em numerosas viajens que fize- 
ram entrar o seu nome na lenda e tradição popular ^ foi 

o mais quasi com certeza se poderia dizer que ou o tempo consumia, 
ou jaz sepultado por bibliolhecas estranjeiras como succede ás obras 
do mesmo monarcha ». Panorama, iv, 7. O Regimento de Príncipes 
de Gilles de Roma, escrito para a educaçSo de Felipe o Belo, é obra 
de rara cultura. ( Villemain, Cours de Litt. française, Bruxeles, 1840, 
pg. 123 ). A Corte Imperial essa foi recentemente publicada na Col- 
lecção de manuscriptos inéditos da Bibl. do Porto. E' o vol. « e saia 
em 1910. 

* Leal Conselheiro seguido da arte de bem cavalgar. Dado pela pri- 
meira vez á luz sobre o ms. original da bibliotheca real de Paris, com 
notas philologicas e um glossário das palavras antigas, por J. I. Roquette, 
Paris, 1842. Outra ed. — Leal Conselheiro e livro de ensinança de bem 
cavalgar toda sella, etc. Lisboa, 1843. Vid. O. Martins, Os Filhos de 
D. João 1, cap. vi; na nota de pg. 162 vêem enumeradas outras obras 
de D. Duarte. 

^ A lenda apossou-se com efeito do Infante fazendo-o percorrer as 
sete partidas do mundo com doze companheiros quando, naturalmente, 
ele nem chegou a sair da Europa. Ueve-se a Gomes de Santo Estevão, 
que seria um desses companheiros, a narrativa da viajem primitiva- 
mente escrita em espanhol e que foi publicada depois dos meiados do 
século XVI, traduzida a seguir para português, entrando mais tarde na 
chamada literatura de cordel e contando dezenas de edições. Sobre 
o Infante vid. a Tragedia. . . ed. da Sr.' D. C. M. de Vasconcellos cit. 
na nota (3) da pagina 90; Sousa Viterbo, O Infante D. Pedro, o 
das sete partidas, Lisboa, 1902 ; o Boletim de la R. S. Geográfica, de 
Madrid, xiv, 3.° trimestre, 1903, artigo de D. C. Fernández Duro, que 
reproduz o texto, em espanhol e português, duma versão das viajens, 
e as Cartas Bibíiographicas por F(ernandes) T(homá8), Coimbra, 1876, 
pgs. 33 a 43. 



CAPITULO II — ESCOLA BSrAMHOLA 93 

Regente do reino na menoridade de sen sobrinho D. 
Afonso V, desde 1438 até 1448. Dai a pouco deu-se o 
lamentável desastre de Alfarrobeira em que pareceu 
(1449). A sua obra capital é o livro intitulado Da Vir- 
tuosa Bemfeiíoria, em seis livros, sobre filosofia moral em 
que procurou seguir e imitar a Séneca * e que foi recen- 
temente publicado 2. Temos em poesia breves estâncias 
dirigidas a João de Mena, o poeta mais celebrado da corte 
de Castela, as quaes sairam no Cancioneiro Geral de 
Resende ^. O infante D. Pedro traduziu também para a 
nossa lingoa o tratado de Cícero De ofíiciis, que se con- 
serva manuscrito na Bibl. Nac. de Madrid ^ 



HISTORIA 

4:2m — Aparecimento da história. A história digna 
deste nome e elevada a um género independente e próprio 
só aparece entre nós com Fernão Lopes. « Os agiológios 
imaginados pelo fervor religioso e abraçados pela crença 
popular, as narrativas legendárias e as vidas dos santos, 
investigadas pela piedade dos monges, os livros dos foraes 
e constituições dos bispados coligidos e ordenados pelo 
andamento das necessidades da orgauização civil, tudo 
isto dispõe os primeiros passos, e ao mesmo tempo os 
primeiros elementos da nossa história » ^ O titulo de 



^ Sobre L. Anneu Séneca veja-se a nossa Introd. á hist. da lit. 
porlug., Coimbra, Í9H, pg. 187. , 

^ E' o vol. II da Collecção de Manuscriptos inéditos poblicada a 
expensas da Gamara Municipal do Porto. Com este titulo : O livro da 
Virtuosa Bemfeitoria do Infante Dom Pedro. Porto, 1910, 1 vol. 

3 Folhas 62-79 v. e J. Soares da Silva, Mem. para a história de 
Portugal, etc, iv, 463-506. 

* A resenha dos litulos dos capitules desta obra e a dedicatória ao 
infante, depois rei, D. Duarte, sam publicadas na introdução de J. 
Pereira de Sampaio (Bruno) que precede a ed. cit. na nota anterior. 

* Ferreira, Cur$o, ob. eit., pg. 286. 



94 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUSSA 

fundador da história cabe, pois, com justa razão a Fernão 
Lopes. Ele abre a série dos cronistas oficiaes estipen- 
diados pelos reis para desempenharem a missão de escre- 
verem a história nacional. Esta circunstância suscita no 
nosso espírito certas dúvidas sobre a absoluta sinceridade 
com que eles poderiam ler escrito. Autores de histórias 
oficiaes e subsidiadas poderiam ter o desassombro dos 
que escrevessem sem essa pressão ? A respeito de Fernão 
Lopes escreve um historiador contemporâneo nosso: 
devemos sempre desconfiar um pouco do velho cronista 
porque ele é visivelmente parcial a favor de D. João I e 
dos que o ajudaram a subir ao trono -. 

Rui de Pina recebeu várias tenças de D. Manoel. 
E' certo que, não obstante isto, nós vemos este cronista 
não ocultar na Cr. de D. João II as suspeitas de enve- 
nenamento, que iam atingir precisamente D. Manoel, o 
seu amigo e protetor, e vemos também Castanheda no 
liv. X da Hist. da índia censurar asperamente os fidalgos 
que se desonraram no segundo cerco de Dio. Mas tam- 
bém vemos que quando e onde apareceu a independência 
e o desassombro logo surgio a influência cortesã ou impe- 
dindo que a obra se imprimisse, ou obstando á sua divul- 
gação, ou procurando suprimir ou acrescentar nela o que 
era consoante os seus interesses — como sucedeu com 
Damião de Góes, com Gaspar Corrêa e Castanheda. O que 
isto significa, pois, é que os cronistas devem ser lidos 
com certas precauções, procurando se sempre que fór 
possivel contraprovar os seus dizeres com outros teste- 
'munhos ^, ou, o que é o ideal, recorrer aos próprios 
documentos originais emanados dos seus autores sem 
preocupações de passarem à posteridade. 



> Pinheiro Chagas, Hitt. de Port., ii, § 611, pg. 63. 

2 Sr. José Caldas, História dum Fogo-morto . . . Porto, 1903, 
pg. XXIV e seg. ; id.. Benigna verba, Coimhra, 1907 ; Sr. Braaeamp 
Freire, Amarrado ao pelonrinho, Lisboa, 1907. 



CAPITULO II — ESCOLA ESPANHOLA 95 



43. — FERNÃO LOPES ( 1380?-U50?). Foi por 
D João I nomeado guarda do Real Arquivo * depois Torre 
do Tombo, cargo que exerceu durante trinta e seis anos, 
sendo substituído, quando já fraco e velho, por Zurara. 
Quando D. Duarte subiu em 1434 ao trono encarregou o 
de « poer em caronyca as estarias dos reis, que antyga- 
mente em Portugal forom ; e esso meesmo os grandes feylos 
e altos do muy vertuoso, e de grandes vertudes, El rei seu 
senhor e padre » (D. João I). Em obediência a esse 
mandato escreveu: 1.°) a Chronica d'Elrei D. João I de 
boa memória ^ que contém àlêm das duas partes, obra de 
F. Lopes, uma terceira sobre a tomada de Seuta, escrita 
por Zurara ; 2.°) a Chronica do senhor rei D. Pedro I; 
3.") e a Chronica do senhor rei D. Fernando ^. Estas 
obras, únicas que restam com o seu nome, sendo plausível 
que outras escrevesse que servissem de base ás depois 
elaboradas por Zurara e Pina, sam notáveis pela fldelidade 
e clareza da exposição. « Nas chronícas de Fernão Lopes 
não ha só história, escreveu A. Herculano; ha poesia e 
drama ; ha a idade-média com sua fé, seu enthusíasrao, 
seu amor de gloria * ». Pôde dízer-se que as obras do 
grande historiador sam o que a idade-média nos legou de 
mais perfeito. Nada lhe falta — colorido, vida e entu- 



^ Sobre a história do R. Arquivo vid. José Pedro de Miranda 
Rebello, Extracto do R. A. da Torre do Tombo, Lisboa, 1904, 1 folh. ; 
Srs. P. A. de Azevedo e António Baião, O Archivo da Torre do Tombo, 
Lisboa, 1905. 

2 Lisboa, 1644. 2.* ed., 1897-98. O Sr. Braacamp Freire reproduzio 
no Archivo Hist. esta Crónica segundo um Ms. da Torre do Tombo, 
cópia mandada fazer por D. Manoel. « É portanto a mais autentica 
existente, diz o erudito escritor, e na falta do original a merecedora 
de maior confiança. Por ella se verá quanto erradas andam as ed. 
impressas, tanto a de 1644 como a de 1897-98.. . ». 

' As duas últimas crónicas foram pela primeira vez publicadas na 
Collecção de livros inéditos da Historia Portuguesa, iv, 1-20 e 121-525. 

*,Opttícuíos, V, 188i. 



96 HISTÓRIA i)A LITERATURA P0BTUGUK8A 

siasmo. Uma geração inteira com as suas ambições e as 
suas lulas surge nas páginas das suas crónicas. Se lhe 
fosse possivel conhecer a revolução científica que depois 
dele se operou não teríamos que invejar ás outras nações 
nenhum dos seus historiadores *. A descrição do cerco 
de Lisboa, a da batalha de Aljubarrota, na Cr. de 
D. João I, o retrato de D. Pedro I, na Gr. deste monarca, 
traçado a cores inolvidáveis como quando por suas mãos 
aplica justiça ao Bispo do Porto ou a manda executar 
sobre os assassinos de Inês de Castro, ainda na Cr. 
de D. Fernando o que ele escreve sobre a intrigante 
figura de Leonor Teles e seus amores com o rei, etc, 
sara quadros, que só o pincel dum grande artista poderia 
ter desenhado. 

Ferdinand Denís, que foi um cultor tam justo e tam 
conhecedor da nossa literatura, considerava Fernão Lopes 
como historiador superior ao seu século e aprovava a 
opinião de Dias Gomes quando este critico escrevia que 
fora ele o primeiro que mais dignamente escrevera a 
história na Europa ^. Nisto vai o seu melhor elogio. 

44. — GOMES EANNES DE ZURARA (4- 1474) 
sucedeu a Fernão Lopes nos cargos de cronista-mór do 
reino e no de guarda da Torre do Tombo. Escreveu: 
a) Chronica delrei D. João I ^ ( terceira parte, em que se 
contém a tomada de Seuta); b) Chr. do conde D. Pedro 
de Menezes * ; c) Chr. dos feitos de D. Duarte de Menezes ' ; 
d) Chr. do descobrimento e conquista da Guiné ^. 



' Herculano, ibid. 

2 Résumé de Vhist. lit. du Portugal, eh. v, pg. 30. 

* Lisboa, 1644. 

* Impressa na Colí. de liv. ined. da Hitt. Porlug., ii, precedida dom 
estudo do abade Corrêa da Serra. 

'•> Imp. na mesma ColL, t. ui. 

* Ed. feita em Paris na of. tip. de Faia & Thunot só em 1841 1 
Foi Ferdinand Dcnis quem primeiro descobriu o original desta crónica 



CAPITULO II — ESCOLA BSPANHOLÁ 97 

Zurara foi acusado por Damião de Góes de palavroso 
e inchado. iMas nioguem lhe contestou a sua fidelidade 
como historiador. O amor da verdade levou-o a empreen- 
der uma viagem a Africa a fim de estudar os Jogares e as 
circunstâncias dos factos, que tinha de referir. Na intu- 
mescência retórica tam afastada da lhaneza de dizer do 
seu antecessor, salva-o a sinceridade com que escreve. 

Lendo as diversas obras de Zurara, escreve um erudito 
contemporâneo, àlèm das afirmativas terminantes e reite- 
radas de que só procura interpretar a verdade, ha trechos 
que nos denunciam, apar dum espirito recto e esclare- 
cido, superior aos preconceitos do seu tempo, uma alma 
bondosa e internecida, que se compadece com o sofri- 
mento dos outros. E' sem dúvida lisougeiro e curva-se 
reverente e adulador deante da pessoa de D. Afonso V, 
mas também seria ingratidão se não se mostrasse reco- 
nhecido aos beneficios que a cornucópia real despejava de 
contínuo sobre a sua cabeça *. 

4S. — RUI DE PINA (Í440M521?) Foi o suces- 
sor imediato, não de Zurara, mas de Vasco Fernandes de 
Lucena, cujo nome não registamos aparte por dele não 
restar uma só página original em história. Todo entregue 



na Bibl. de Paris. A ed. foi feita por diligência. do visconde da Car- 
reira e nela colaboraram o visconde de Santarém e J. I. Roquelte. 
O Sr. Edgar Prestage verteu-a para inglês para a colecçSo Hakluyt 
Society. Nesta versão de pgs. xm a lxvii da Introdução ao t. !.•» vem 
um estudo do Sr. Prestage sobre a vida e escritos do Cronista. 
Sobre Zurara, vid. : — Ined. da Hist. Portttg.,ii cit. ; Sr. Gama Barros, 
Hist. da Administração, etc, ii, nota xiv; Ernesto do Canto, Boletim de 
Bibl. Port. ; Sonsa Viterbo, Rev. Portug. Colonial e Marítima, n." de 
20 de outubro de 1898 ( n." 18 do 2." ano ). Traz algumas cousas 
inéditas, fixa a data da morte do cronista, ete. Veja-se também deste 
último autor o artigo A cultura intelectual de D. Afonso V no Ard^. 
Hist., II ( 1904 ), 254 e seg. 

1 Sousa Viterbo, Rev. Portug. Colonial e Maritima, cU. na nota 
antecedente. 



HISTÓBIA DA LITERATURA P0RTD6UE8A 



à vida política no estranjeiro não pôde ocupar-se dos 
estudos históricos necessários para poder desempenliar 
as obrigações do seu cargo, de que desistiu a favor de 
Rui de Pina, em 1479 *. Este cronista também envol- 
vido em cargos diplomáticos, |)ois como secretário 
acompanhou a Castela D. João da Silveira, barão de 
Alvito, em 1482, no mesmo cargo for a Roma felicitar o 
Papa Inocêncio VIII e esteve de novo em Castela e Rarce- 
lona em várias missões, consagrou-se, por fim, aos traba- 
lhos oficiaes de historiador. Como tal é, decerto, superior 
a Zurara, mas de merecimento inferior ao antecessor dos 
dois. Gozou da estima de D. João II, que o nomeou 
cronista mór e guarda da Torre do Tombo, recebendo, 
tanto deste rei, como de D. Manoel, muitas mercês e 
honrarias. Viveu ainda alguns anos no tempo de D. João III 
e parece ter deixado apontamentos para uma crónica de 
D. Manoel, que Damião de Góes aproveitou. E' grande 
o número das crónicas, que lhe sam atribuidas: — de 
D. Sancho 1 2, D. Afonso II \ D. Sancho II *, D. Afonso III ^ 
D. Denís «, D. Afonso IV ^ D. Duarte », D. Afonso V ', 
e D. João 11 *^ mas a substância dalguma delas deve per- 
tencer a Fernão Lopes, cujos apontamentos ele utilizou 
não se podendo calcular em que medida, visto se terem 
completamente perdido, supondo A. Herculano que o cul- 
pado da desaparição foi o próprio Pina, « pobre corvo de 



* Herculano, Opúsculos, v, 17. 

2 Ed. por Miguel Lopes Ferreira, Lisboa, of. Ferreiriana, 1727. 

3 Ed. do mesmo e na mesma of., 1727. 

* là.,Ibid., 1728. 
5 Id., Jbid., 1728. 
Md., Ibid., 1729. 

' Ed. de Paulo Craesbeeck, na of. do mesmo, Lisboa, 1G53. 

* Inserta na Coll. de /ir. ined. da Hixt. Portug,, i, Lisboa, of. da 
Acad. real das se, 179(K 

> Id , Ibid. 
w Id., Ibid. 



CAPITULO II — ESCOLA ESPANHOLA 99 

João 2." que se quis adornar com as pennas de pavão do 
Homero de João J.° ». A sua alta situação na corte 
tornava-o temido, procurando até homens eminentes, como 
Afonso de Albuquerque, mendigar-lhe elogios a troco 
« de anéis de diamantes e rubis e de muitas e preciosas 
jóias » de maneira que « não se esquecesse dele quando 
escrevesse das coisas da índia » *. 

« Aquele cujo nome devera encher o mundo não teve 
a consciencii de que era o maior capitão do século e 
creu que a sua imortalidade dependia dum cronista obs- 
curo f Triste documento de que 03 génios mais porten- 
tosos estam, como os homens ordinários, sujeitos ás mais 
ridículas fraquezas f ». 

4a. — AUTORES DE BIOGRAFIAS. Merecem citar-se 
neste logar duas obras que, não obstante a sua designa- 
ção individual, interessam à história geral do país na 
época a que dizem respeito — a Chronica do Condestabre 
de Portugal D. Nuno Alvares Pereira, e a Chronica do 
Infaníe Santo D. Fernando, que são evidentemente do 
século XV, embora as edições que hoje consideramos 
primeiras tragam as datas respectivamente de 1526 e 
1527. E' indubitável que a Chr. do Condestabre foi com- 
pulsada por Fernão Lopes, que ás vezes a copia quase 
literalmente, segundo afirma 0. Martins. Esta Crónica 
é anónima, a do Infante Santo é devida ao seu capelão e 
companheiro de exílio Fr. João Alvares. Ambas são 
modelos de naturalidade e desafectação da lingoagem, de 



* O caso tornou-se conhecido por Barros (Ásia, I. vii, c. 1,0. 98 v. 
da 1.' ed., 1553 ) que o leu em cartas particulares enviadas pelo 
grande Albuquerque ao cronista. Vicl. Sousa Viterbo, At dadivas de 
Affonto d' Albuquerque no Arch. Hist., u, 4-7. O Compendio e summario 
das grandezas c cousas notáveis que ha entre Douro e Minho, e sua 
comarca, vistas pelo muito douto Buy de Pina é opúsculo raro, impresso 
em 1608, de Iti pg. somente. 



100 HISTÓRIA DA LITERATURA P0RTUGDB8A 



clareza e simplicidade, merecendo contar-se entre os mais 
formosos escritos da nossa literatura antiga *. 

Pelo pitoresco das noticias e subsídio que fornecem á 
crítica dos costumes da época merecem ainda conhecer-se 
as quatro Cartas que Lopo de Almeida escreveu em 1451 da 
Itália a D. Afonso V sobre a jornada, recepção e festas 
realizadas por ocasião do casamento de D. Leonor, irmã 
do rei, com Frederico III, imperador da Alemanha *. 



1 Ambas de duas foram reeditadas na minha colecção SUBSÍDIOS 
PARA O ESTUDO DA HISTORIA DA UTERATí RA PORTU- 
GUESA. Vol. XIII — Chronica do Infante Santo D. Fernando, ed. cri- 
tica da obra de D. Fr. João Alvarez segundo um códice Ms. do sec. XV, 
Coimbra, 19H, ^ vol. de xxiv -|- 183 pg. ; vol. xiv — Chronica do 
Condestabre de Portugal Dom Nuno Alvarez Pereira, com revisão, pre- 
facio e notas de M R., Coimbra, 19H, 1 vol. de xlvi -]- ;í3i pgs. 

2 Podem lér-se em António Caetano de Sousa, Provas da Ilist. 
Geneal. i, 633. 



ANTOLOGIA 



SÉCULO XV 



POESIA 



I 



Troaas q Garcia de Resende fez á morte de Dõa Ynes de Castro, 
qae eirrei Dõ Afunso o qaarto, de Portugal, matou e Coimbra, 
por o principe Dom Pedro, sen tillio, a ter como mulher, e, 
pelo bem q lhe queria, nam queria casar. 



ENDEREÇADAS HAS DAlf AS 



Senhoras, salguro senhor 
Vos quiser bem ou servir. 
Quem tomar tal servidor. 
Eu lhe quero descobrir 
O gualardam do amor. 
Por sua mercê saber 
O que deve de fazer. 
Vejo que fez esta dama 
Que dessy vos daraa fama, 
Sestas trovas quereis ler. 

Fala dona Ynes. 
Qual seraa o coraçam 
Tam cru e sem piadade. 
Que lhe nam cause paixam 
Hda tam gram crueldade, 
E morte tam sem rrezâo ! 
Triste de mym, ynocente. 
Que por ter muito fervente 
Lealdade, fee, amor, 
Ho principe, meo senhor, 
Me mataram cruamente. 



A mynha desaventura, 
Nam contente dacabar-me. 
Por me dar mayor tristura. 
Me foy pôr em tantaltura 
Para dalto derribar-me. 
Que se me matara alguém, 
Antes de ter tanto bem, 
Em tays chamas nam ardera : 
Pay, filhos nam conhecera. 
Nem me chorara ninguém. 

Eu era moça, menina, 
Per nome dona Ignôs 
De Crasto ; e de tal doutrina 
K vertudes, quera dina 
De meo mal ser ho rreves. 
Vivia sem me lembrar. 
Que paixam podia dar, 
Nem dala ninguém a mym. 
Foymo princepe olhar, 
Por seo nojo e mynha fym. 



102 



ANTOLOGIA 



Começou-ma desejar ; 
Trabalhou por me servir; 
Forluna foy ordenar 
Dou8 corações conformar 
A hfla vontade vyr. 
C.onheceo-me I conhecio-o f 
Quys-me bem ! e eu a elle I 
Perdeo-nie ! lambem perdi-o ! 
Nunca tee morte foy frio 
O bem que, triste, pus nele. 

Dey-lhe minha liberdade ; 
Nam genty perda de fama ; 
Pus nele minha verdade ; 
Quys fazer sua vontade. 
Sendo muy fremosa dama; 
Por mestas obras paguar, 
Nunca jamais quys casar ; 
Polo qual aconselhado 
Foy elrey, quera forçado, * 
Polo seu de me matar. 

Estava muy acatada ; 
Como princesa servida ; 
Em meos paços muy honrada : 
Ue tudo mui abastada ; 
De meo senhor muy querida. 
Estando muy devaguar, 
Bem fora de tal cuidar. 
Em Coymbra de seseguo 
Poios campos do Mondeguo 
Cavaleyros vy somar. 

Como as cousas, quS de ser, 
Loguo dam no coraçam 
Comecey entrestecer 
E comiíiiuo soo dizer : 

t Estes omeês d'onde yrSni ! 
tanto que preguntey, 
Soube loguo queera elrei. 
Quando o vy tam apressado, 
Meo coraçam trespassado 
Foi, que nunca mays faley. 

E quando vy que decia, 
Sahy ha porta da sala, 
Devmhando o que queria. 
Com gram choro e cortesya 
Lhe tiz hda triste fala. 
Meos filhos pus derredor 
De mym, cõ gram omiidade, 
Muy cortada de temor 
Lhe disse : « avey senhor, 
« Desta triste piadade ! » 



Não possa mais a paixam 
Que o que deveys fazer I 
Metey nisso bem a mam 
Que é de fraco coraçam 
Sem porque majar molher, 
Quanto mays a mym, q dam 
Culpa, nam sendo rrezam 
Por ser mây dos ynocentes, 
Quante vós estam presentes. 
Os quaes vossos netos sam. 

E tem Iam pouca ydade. 
Que senam forem criados 
De mym soo com saudade, 
E sua gram orphindade, 
Morreram desemparados. 
Olhe bem quanta crueza 
Faraa nisto vos.sallessa ; 
E também, senhor, olhay. 
Pois do princepe sois pay 
Nam lhe deis tanta tristeza. 

Lembre-vos o grande amor. 
Que me vosso filho tem, 
E que sentiraa gram dôr 
Morrer-lhe tal servidor. 
Por lhe querer grande bem ; 
Que salgQ erro fizera 
Fora bem que padecera, 
E questes filhos ficaram 
Orfaãos tristes, e buscaram 
Quê deles paixam ouvera. 

Mas poys eu nunca errey, 
E sempre merecy mais, 
Deveys. poderoso rrey, 
Nam quebrantar vossa ley, 
Que, se moyro, quebrantays. 
Usay mais de piadade 
Que de rrigor nem vontade I 
Avey doo senhor, de mim, 
Nam me deis tam triste fim, 
Pois q nunca fiz maldade. 

Elrrei, vendo como estava, 
Ouvo de mym compaixam 
E vyo, o que nam olhava. 
Que eu a ele nam errava. 
Nem fizera traiçam. 
E, vendo quam de verdade 
Tive amor e lealdade 
Hoo princepe, cuja sam 
Pôde mais a piadade 
Que a determinaçam. 



8Écm.o XV 



103 



Que semelle defendera, 
E a seu fítho não amasse,. 
E lhe eu nam obedecera, 
Entam com rrezam podéra 
Dar-má moorte, que ordenasse. 
Mas, vendo que nenhO ora 
Des que nacy atégora, 
Nunca nisso me falou, 
Quando se disto lembrou 
Foi-se pola porta fora, 

Com seu rosto lagrimoso, 
Co propósito mudado, 
Muyto triste, muy cuidoso, 
Como rrey muy piadoso, 
Muy eristam e esforçado. 
HQ daqueles que trazia 
Comsigo na companhya. 
Cavaleiro desalmado. 
Detrás dele, muy yrado, 
Estas palavras dezia : 

« Senhor vosa piadade 
« He dina de rreprender, 
« Pois que, sem nefcessidade, 
« Mudaram vossa vontade 
« Lagrymas dQa molher. 
« E quereys cabarreguado, 
« Com filhos, como casado, 
« Esto, senhor, vosso filho ? 
« De vós mais me- maravilho, 
« Que dele quee namorado. 



« Com sua morte escusareis 
« Muytas mortes, muytos danos ; 
« Vós, senhor, descanssarôis, 
^ E a vós e a nós dareis 
o Paz para duzentos annos. 
« O princepd casaraa 
« Filhos de hençam teraa 
« Seraa fora de pecado ; 
« Caguora seja anojado 
« .\manhâ lhe esqueceraa. » 

E ouvyndo seu dizer 
EIrrey ficou muy torvado. 
Por se em taes estremes ver, 
E que avya de fazer 
Ou hQ ou outro. . . forçado. 
Desejava dar- me a vida 
Por lhe nam ter merecida 
A morte nem nenhQ mal ; 
Senlya pena mortal 
Por íer feyto tal partida 

E vendo que se lhe dava 
A ele toda esta culpa, 
E que tanto o apertava. 
Disse aaquelle que bradava : 
— « Minha tençam me desculpa 
n Se o vós quereis fazpr, 
« Fazey-o sem mo dizer, 
« Queu nisso nam mando nada, 
« Nem vejo he essa coytada 
n Porque deva de morrer. » 



« Se a loguo nam matais, 
Nam sereis nunca temido, 
Nem faram_ o que mandays, 
Poys tam cedo vos-mudays 
Do conselho que era ávido. 
Olhay quam justa querela 
Tendes pois por amor dela ! 
Vosso filho quer estar 
Sem casar e nos quer dar 
Muita guerra com Castela. 

G. de Resende, Carie. Geral, 0. 221-222 



Dous cavaleyros yrosos. 
Que taes palavras Ihouvirâ 
Muy crus e nam piadosos, 
Perversos, desamorosos. 
Contra mym rijo se-vyram ! 
Com as espadas na raam 
Matravessam u coraçam ! 
A confissam me- tolheram I 
Este he o gualardam 
Que meos amores me deram. 



11 
Fingimento de amores. 



Eram da sombra da terra 
As nossas terras cubertas. 
Quando parecem ^leserlas 
As abi tacões sem guerra. 



Ao tempo que rrepousam 
Os corações descanssados, 
E os malfeytores ousam 
Cometer mores pecados. 



lOi 



ANTOLOGIA — POKSIA 



Os nove meses do ano 
Eram já casy passados 
Quando eram meos cuydados, 
Crecydos por mais meo dano : 
E assy com mall tâm forle 
Mays crecendo mynha fee 
Vy passar alôm do pee 
As guardas do nosso norte. 

Se dormia não sey cerlOj 
Se velava muyto menos : 
Com meos males nSo pequenos 
Nem durmo nem sam desperto ! 
Nam mestrevo de torvado 
Dizelo, nom sey se cale,. . . 
Daly me senly levado, 
E posto nQ fundo vale. 

ó divina sapiência ! 
De todos tam desejada, 
E de mym pouco gostada 
Por nom ter sufficieneia. 
Fazeme tam sabedor 
Que possa dizer aquy, 
Com favor de teu favor 
As grandes cousas que vy. 

Por este vai corria 
HuQa tam funda rribeyra. 
Que estando juncto da beira 
Escassamente se via ! 
Tanta tormenta soava 
Naquele lugar eterno 
Que se me rrepresentava 
Quando dizem do ynfTerno ! 



Nõ vy aves muy stiydosas, 
Que cantassem docemente ; 
Mas bradavam fortemente 
-Serpentes muy espantosas. 
Aly prazer nom senty. 
Antes descontentamento ; 
Toda cousa, qualy vy. 
Era para dar tormento ! 

Daly quisera salvarme, 
Do que via temeroso, 
E das armas do medroso 
Junctamente proveytarme ; 
Mas achar nao pude vya 
Pêra me poder salvar ; 
Em tam mostrey valentia 
Para mays me condenar, 

E sem fazer a vontade 
Nem esperar por saúde, 
Quys aly fazer vertude 
Da mynha necessidade : 
E também por ser sem faiba 
Esta verdade, que digo, 
Cos que fojem na batalha 
Passam sempre mór perygo. 

E como faz quem peleja, 
Vendo-se desesperado, 
Por honrra tomar forçado 
A morte que já deseja ; 
Assy me fuy juntamente 
Donde o fogo mais ardia, 
Por viver honrradamente, 
Ou morrer como devia. 



De muy escura neblyna 
Era o ar lodo cuberto ; 
Devia ser daly perto 
O luguar de Prosérpina. 
O fogo sem sapagar ; 
O mall sem eomparaçam 
Podiam bem demonstrar 
O dominyo de Plutam. 

Nd ?y camarás pintadas 
Com rricos patyns de fundo, 
Dos rricos daqueste mundo 
Por demasia buscadas. 
Nem vy ssuaves cantores 
Com vozes muy acordadas. 
Mas muy discordes clamores 
Das almas atormentadas. 



Assy de todo mudado 
Aly junto me cheguey 
E neste modo faley 
Assaz bem temorizado, 
O jentes atribuladas ! 
Porque rrazSo de vós dô, 
Dizey a causa porquê 
So6s assy atormentadas. 

Logo de todo cessaram 
Daqueles grandes tomultos; 
E com muy disformes vultos 
Para my todos olharam I 
E logo salevantou 
Dantre todas hGa delas, 
E sem culpar as estrelas 
Desta maneira falou ; 



SÉCUí.O XV 



105 



Este pranto tão durido, 
De tantas tribulações, 
Sam os justos galardões 
Dos sseeaçes de Cupido : 
Que por lhe sermos leaês 
Tantas mortes nos persseguem. 
Que nossas dores mortaês 
Som muy mays das q se segue. 

Penamos pelas folguãças 
Que vivendo procuramos ; 
Que é ympossivel q ajamos 
Duas bemaventuranças. 
Que seria gram destórea, 
E juízo muy profundo, 
Levar lá prazer no mundo, 
E nestoutro tam bem grorea ! 

Somos passados de fryo 
Em grandíssima quentura; 
A vida nam tem segura. 
Quem bebe daqueste rryo. 
Que neste fogo penados 
Sejamos sem esperança. 
Mata-nos mays a lembrança 
Dos prazeres já passados I 

Polo qual, se tu quiseres 
Ser livre de nosso mall. 
Trabalha quanto poderes 
Por fugir caminho tall. 
Sempre te guie rrazam, 
Governe como cabeça ; 
A vontade lh'obedeça, 
Sem outra contradíçam. 

E se quereys saber mays 
Porque des conta de my, 
Sam huQ dos que decendy 
Nos abysffios ynfernaés. 
E íuy lá com tall ventura 
Que quanto quys acabey, 
Mas depoys me condeney 
Por nom guardar a postura. 

E por mays certos signaés 
Dem Rudice foy marido. 
Por ela mesma perdido 
Nestas penas ymmortaes. 
Eu fuy aquelie couviste 
Que na música soube tanto, 
Que fyz com meu doce canto 
Nom penar as almas tristes. 



Aquessas outras cõpShas 
Que penam nestas cavernas 
Antiguas, tâbem modernas, 
Son de mil terras estranhas. 
Que jámays se passa dia 
Quaqui nam sejam trazidos. . 
He muy espaçosa via 
A que seguem nos perdidos. 

Ynda bem nom acabou 
De dizer estas rrazões, 
Quando com lamentações 
Longe de mym sapartou. 
Quisera ser enformado 
Daquela jente que vyra, 
Mas daly fuy rrelatado 
E posto donde partira. 

A manhaâ escrarecya 
Quando com cantos suaves 
Nossas domesticas aves 
Dam sinaes de craro dia. 
Polas causas qualy vy. 
De q nada fuy contente, 
O meo cuydado presente 
De deyxalo pormety. 

Mas fuy tal daly passando 
Como ornem q prometera 
Muy grandes mastros deeéra, 
Em fortuna navegando. 
Que vendosse daquela fora. 
Tornado jaa em bonança, 
Do q passou naquelora 
Non lhe fyca mays lerabrSça. 

E como faz o doente, 
A morte vendo diante 
Q promete dy avante 
Viver muito contynente ; 
Mas o medo já passado, 
He do q vyo esquecydo 
Assy me vejo perdido, 
Mays agora e namorado. 

E bem como tem o norte 
Fyrmeza. sem se-mover, 
Espero fyrme de ser 
Na vida, tam bem na morte. 
Assy como cay dyreyto 
O dado quando se lança, 
Assy minha mal andança 
Nam me muda doutro jeyto. 



106 



ANTOLOGIA — P0B8IA 



E bem coroagoa do mar 
Nam muda já mays a cor. 
Nem perde nuiioa sabor 
Por quanlas nele vam dar ; 
Assy eu, triste, nam posso, 
Com rayl males destes taes, 
Deyxar nQca de ser vosso, 
Em que sejam muytos mays, 

Diogo Brandão, Canc. Geral, 96. 



E pois, com tanta verdade 
Vos syrvo cõ fe, senhora, 
Avpy por Deos, algfl ora 
De meos males piadade ; 
Q se rte«te mal profundo, 
Eu nam sam rremedeado, 
Sam perdydo neste mQdo 
E no q vi condenado. 



Ill 

Cantigas. 



Que de meus olhos parlays 
Em qualquor parle questeis, 
Em meu coraçam fycays, 
E nele vos couverleys. 



Esle é o vosso luguar. 
Em que mays certa vos vejo. 
Porque nam quer meu desejo 
Que vos dy possays mudar I 



E por ysso que partays, 
Em qualquer parte questeys, 
Em meu coraçam fycays 
Poys nelle vos converteys. 

Rui Gonçalves de Castello-Branco, Cane. Geral, 108. 



Comiguo me desavym : 
Vejo mem grande periguo ! 
Nam posso vyver conryguo 
Nem posso fogir de mym I 



IV 

Antes queste mal tevesse 
•Da outra gente fugya : 
Aguora já fugyrya 
De mym, se de mym podésse I 



Que cabo espero, ou q fym 
Deste cuydado, que syguo 
Pois traguo a mym comiguo 
Tamanho imiguo de mym 1 

Francisco de Sá [de Miranda] Canc. Geral, 109 v. 



Coytado quem me-daraa 
Novas de mym, hondestou ; 
Pois dizeys que nam som laa 
E caa comigo nam vou ! 



Todeste tempo, senhora, 
Sempre por vós preguntei ; 
Mas que farey, que já aguora 
De vós, nem de mym nam ssey ? 



Olhe vossa merçô laa 
Se me tem ; se me-matou ; 
Porqueu vos juro que caa 
Morto, nem vyvo, nam vou ! 

Francisco de Sá [de Miranda] Canc. Geral, 109 v. 



SECDLO XV 



107 



Porq meu mal sy dobrase 
vos fez Deos fremosa tanto, 
que nam sey santo tarn santo, 
que pecar nam desejassi?. 



VI 

Polo qual sey, que me vejo 
de todo ponto perder, 
por nam ser em meu poder 
partir-me deste desojo. 



Mas quem meste malfadasse, 
e me traga dano tanto, 
praz-me; poys n5 sey tam santo 
que pecar nam desejasse. 

Anónima, Canc. Geral, 24. 



Poys minha triste vétura 
nê meu mal nS. faz mudança, 
quem me vir ter esperança, 
cuyde que á de mais tristura. 



VU 

E poys vejo que em morrer 
. levays ^roria nom pequena, 
antes nam quero vyuer, 
que vyaedes vos em pena. 



quero triste sepultura ; 
quero fym sem mais tardãça, 
poys nunca tyue esperança, 
què nam fosse de tristura. 

D. João de Meneses, Canc. Geral, 16 v. 



VIII 

Folguo muyto de vos ver, 
pesa-me quando vos vejo. 
(]omo pod'aquisto sser, 
que ver- vos he meu desejo? 

Isto nam sey que o faz, 
nem donde tali mall me vem; 
sey bem que vos quero bem, 
com quanto dano me traz. 
Mas ystee para descrer 
ter senhora tam gram pejo, 
morrer muyto por vos ver, 
pesa-me quando vos vejo. 

De Tristam Teyxeyra, Capitão de Machyco, Canc. Geral, Lxiv, v. 



Senhora, partem tâlristes 
meus olhos por vós, meu bé, 
que nQca tam tristes vistes 
Outros nenhds por ninguém ! 



IX 

tam tristes, tam saudosos, 
tam doentes da partyda, 
tam canssados, tS chorosos ; 
da morte mays desejosos 
cem myl vezes que da vida 1 



108 



ANTOLOGIA — POESIA 



partem tam tristes os tristes, 
tain fora desperar bem, 
que nQca tam trystes vistes 
outros nenhGs por ninguém I 

Joilo Rodrigues de Castello-Hraaco, Canc. Geral, 107 t. 



X 

Tro?as contra as molheres. 

Esforça meo coraçam 
nõ te mates, se quiseres 
lembrete que sam molheres I 



Lembrete que é por naçer 
nenhOa que nam errasse : 
lembrete que seu prazer, 
por bondade e merecer, 
nam vy quê dele gostasse. 

poys nam te des a payxáo 
toma prazer, se poderes ! 
lembrete que sam molheres I 

Descanssa, triste, descanssa, 
que seus males sam vingãças ; 
tuas lagrymas amanssa ; 
leyxas suas esperanças. 

ca poys naçem sem rrzâ, 
nunca por eiia Ihesperes, 
lembrete que sSo molheres I 

Tuas muy grades firmezas, 
tuas grandes perdições, 
suas desleays nações 
causaram tuas tristezas. 

pois nâ te mates em vão ; 
que quanto mays as quiseres, 
verás que sam as molheres I 

Jorge d' Aguiar, Canc. Geral, 64 v. 



Que te presta padecer ? 
que taproveyta chorar ? 
poys nuncoutras amde ser, 
nem sam nunca de mudar. 

deyxas com sua naçam ; 
seu bem nunca lho esperes ; 
lembrete que sam molheres I 

NSo te mates cruamente 
Por quê fez lâ grande errada, 
que quê de sy se nam sente 
Por ty nam lhe daraa nada. 

viue lançando preguam, 
por hu fores e vieres, 
que sam molheres, molheres ! 

Espanha foy já perdida 
por Lataba háa vez ' ; 

e a troya destroyda 
por males que lena fez. 

desabafa coraçam ! 
viue, nam te desesperes I 
caa que fez pecar adam, 
foy amaây destas molheres. 



> O orif!Ínal diz letabla. A emenda para Lataba foi proposta por 
D. Ramon Menendez Pidal. Cfr. [jgyendas dei ultimo Rei Godo. Madrid, 
1906, pg. 122 e segs. 



8BCDL0 XV 109 



PROSA 



XI 

Retrato de Jesus Cristo 

Lee- se dos livros ãnuaes qae ham os romaãos que Jesu Cristo que 
he chamado dos gentios Propheta da verdade foy de statura do corpo 
grande nom descompassada, mas meaã e vistosa e honrrosa e reve- 
rente. E a cara teve digna de honrra a qual poderiam amar e temer 
os que o vissem. Os seus cabellos erS de avellaS madura e cbegavS 
aas orelhas yguaes e chaãos e dally ao fundo quanto quer crispos e 
louros e cobria e avanavã sobre os ombros. E no meo da cabeça 
tijnha hQa spartadura segundo costume dos nazareos. A testa chãa 
e muy clara e a face sem'emverrugadura nem magoa : a qual afremo- 
sentava a vermelhidom temperada. Do nariz e da boca nom avia 
tacha nê reprehendimento alguQ. A barba era grossa ou farta de 
cabellos nom longa, mas na fim forçada. E sem esguardamento era 
simprez e sesudo ; os olhos de collores e claros ; em seu reprehender 
muy spãtoso ; em amoestar blSdo e amavioso ; alegre cõ pesso. 
AlgQas vezes chorou mas nQca rijo. Em a feitura do corpo bem fun- 
dado e direito. As maãos e braços muy bem pareçêtes ; em a falia 
pessado e de autoridade e bem arazoado de poucas pallavras e cer- 
tas. E porem com razom diz o Psalmista : fremoso he em sua feitura 
sobre todos os filhos dos homês. 

De A primeira parle do livro da Vita Christi, cit. iio texto ; Prohemio, foi. VI 
v.,2.» col. 



XII 
Jesos Cristo e a Samaritana 

Começa-se o livro segudo intitullado de vida de 
Cristo em lingoagem português . . . 

E foy-se outra vez Jesus a Gallilea. . . a cerca de Sichem cidade 
de Samaria onde stava a fonte que Jacob abrira. . e veyo huQa molher 
do regno de Samaria. . a tirar agua e demãdando-lhe o Senhor augoa 
por o trabalho e fadiga do caminho. E conhocêdo-o a molher em as 
faldras do mantom por judeu porque assy como os judeus erâ devisos 
deites em louvor e serviço de Deus em a circQçisom, assi tijnhS def- 
feréça nos vestidos. Disse-lhe a molher : 

— Os Judeos nõ husam nê conversa cõ os Samaritanos... Eu 
vejo 5 Propheta es tu. 

E Jesu respõdêdo disse : 

— Que tSpo vijnria em q o evangelho seria publicado. E entõ 
os homês nõ adoraria é Jherusalê nõ era aquelle raõte. . mas os ver- 
dadeiros adoradores adorarS o padre em spiritu e verdade. 



ilO ANTOLOGIA — PBOSA 



Nêguê pêro daquelles lhes disse q demSdas ou q falias cõ «^lla? 
porq sabiá q sua falia nom seria sem proveito segfldo se mostrou pela 
obra seguinte, porq tanta devoçom conçebco e ouve ella da pallavra 
de Cristo que leixou a agua necessária aa vida corporal por tal que 
sem detença fosse denOciar a Oisto. 

De A êegunda parte. . ■ íbid., foi. U. 



XIII 

Virtnosa bentíeitoría 

CAPITULO SEGCNDO 

Da prinàpall cousa de mouedor de sse compoer esta obra 

A culpa maleciosa en que a nossa natureza primeyrainente cayo 
ffoy aazo de nós encorrermos a inor-^ncia, e malleza por que as nossas 
obras carecem per uezes das uirtuozas períTeiçoões de que deuiam seer 
aconpanhadas : Este fallicimento consyraroin antigamente os sabe- 
dores : E portanto se trabalharom de dar enssinanças aos homeês 
con que lhes podessem acorrer. E antre os outros o grande philopho 
moral seneca sguardou os errores que em os auiUos dos benefícios 
erom acostumados, dos quaaes muitos usando, como nom deuem nora 
sabem fazer raerçees, nem recebellas, nem as agradecer, do que muy- 
tas filham e dam occasyom de seerem as beníTeyturias uiciosamente 
apouquentadas. E com grande deseio de poer alguú corregimento 
per guisa que tam nobre auclo, e tam perfleyto como é o bem fazer 
nom perecesse : Compôs em latim selo pequenos liuros, dando enssi- 
nança aos homeês que deslo rrazoadamenle quisessem usar; Dos 
quaaes a sentença e ordenança poríj he curta e muito scura, e do 
fallar que agora usamos desacostumada. Trabaltiey-me de a ensirir 
toda com outras cousas que a esto eram compridoyras, fazendo noua 
conpilaçom proueylosa a my e a lodollos outros que som obrigados 
de praticar o poder que teem para fazerem boas obras. E porquanto 
mais asinha he conhecido o ffalliciínento das nouidades, que louuado 
o seu douidoso proueyto rrogo a todos que soportem minha rudeza, 
onde algflas minguas forem achadas. E os que menos letrados forem 
do que eu som nom se anoiem dalgOas palauras latmadas, e termhos 
scuros que em taaes obras se nom podem scusar, mayormente que he 
cousa compridoyra de a persunçom, o a perguiça seer tirada ao enten- 
dimento, ao quall assi como aas uezes stramos o campo perque ande 
a seu prazer ; assi conuem que outra hora lhe presenteinos cousas 
scuras e fragosas, per as quaaes aynda que andar nom possa, rregesse, 
e faça com grande cuidado suas peegadas por sentir despois da traba- 
lhosa aspereza a doçura do fruyto com mayor sabor. E os que desta 
scuzaçom contentes nom forem, inaginem que minha lençom he de 
ifazer esta obra soómenle pêra m\, e pêra quaaesquer outros prínci- 
pes e senhores que teeinos meyo slado antre os puramentos auclivos, 
lie cuia conut*rsaçom nos alongamos. E os sotiis speculatiuos, dos 

Suaaes por per participaçom aprendemos muitas cousas que segundo 
iz o sabedor aos decimo oitauo Capilullos dos prouerbios : As 
palauras delles som auga profunda que por sua claridade mostra as 
cousas scoodidas e rryo que engrossa a terra do coraçom humanai 



SÉCULO XV iil 



pera fazer fruyto, e fonte que tira a sede de nosso entendimento com 
aagas de suas enssinanças. Nem persiima alguQ que eu st ii assaz 
ensinado, pois que uso sem enjparho psr palaura daquesta de .:ctrina, 
e que porem tomo encarrego de correger os outros ; Que eu a estes 
rrespondo o que diz seneca em húa caria que enuyaua a Luci io scre- 
puendo per estas palauras = Podes-me dizer Lucillo, tu que os outros 
castigas, ia ati meesmo castigaste : E por esto ás uagar de os outros 
correger : Eu nom soo tam neyçio que seendo doente cure dos 
outros, e nom de my ; mais porque conheço que iaço em aqueila door 
que os ouiros sentem, ffallo comtigo do mall cumufi, E os rremedios 
delle te serepuo : E tu assy me ouue como se eu faltasse comigo 
meesmo ; poendo-te no seo do meu consselho por testemunha dos 
meus segredos — E eu assy componho aqueslra obra nom como 
meestre, e enssinador, mas como discipuUo que screue o que ouuyo 
por nom escorregar de sua memoria o que a muytos pode aproueytar. 
E porem continuando aquesla douclrina fallarey geeralmente enten- 
dendo os outros comigo quando as perssoas forem nomeadas. 

Infante D. Pedro, O livro da virtuosa bemfeitoriu, ed. de 1910, pg. 7. 



XIV 

Da maneira qae íqí doente do bnnior menencoiiico 
e dei giiareci. 

Por quanto sey que muytos foram^ som, e ao diante seram tocados 
deste pecado de tristeza, que procede da voontade desconcertada, que 
ao presente chamam em os mais dos casos doença de humor manen- 
corico, do qual dizem os físicos que vem de muytas maneiras per 
fundamentos e sentidos desvairados; mais de três anos continuados 
fuy dei muyto sentido, e per speeial mereee de Nosso Senhor Deos 
ouve perfeita saúde; com a teençom que primeiro screvi dalguQs desta 
breve e symprez leitura filharem proveitosa ensynança e avisamento, 
prepus de vos screver o oomeço, pers^gnimento e cura que dei ouve, 
por tal que mynha speriencia a outros seja exemplo ; ca nom he 
pequeno conforto e remédio aos que som desto tocados saberem como 
08 outros seniirom o que elies padecem, e ouverom comprida saúde, 
porque hufl dos seus principaes sentymentos he pensarem que outrem 
jamais nnnca tal sentio que fosse tornado a seu boo stado em que 
antes era. 

E porem esta desesperança he hQa grande parte do seu sentimento, 
da qual por o que screvo razoadamente se devem tirar, e também 
filhar grande conforto, pensando que outros de grande stado, e que 
som theudos em razoada estima, forom desto sentidos^ porque nom se 
desprezam tanto assy medes por receberem tal pensamento com tanto 
padecimento de tristeza, quando pensam que taaes pessoas ja tal 
passarçm, porque este desprezo que cada huQ de sy ha he huQ grande 
aazo de. sua tristeza, o qual tirado, e havida qualquer parle de boa 
sperança, logo começa de aver saúde, e se faz muyto desposo pera 
receber per a graça do Senhor Deos perfeita cura. Quando eu era 
de xxij annos, EIRei meu senhor e padre, comprido de muyas vir- 
tudes, cuja alma Deos aja, despoendosse pera filhar a cidade rte Cepla 



112 ANTOLOGIA — PROSA 



roandoume que tevesse carrego do conselho, justiça e da fazenda, que 
em sua corte se trautava. . . e desi por grande voonlade que avia de 
se proceder per o dito feito, recebi sem outro reguardo todollos diclos 
carregos, aos quaaes me pus assy, fora de boa descliçom, que na 
primeira quareesma, que logo veeo fazia tal vyda. Os mais dos dias 
bem cedo era levantado, e, missas ouvidas, era na rollaçom ataa meo 
dia ou acerca, e vinha comer. E sobre mesa dava odiencias per boo 
spaço, e retraya-me aa camera, e logo aas duas oras pos meo dia os 
do conselho e veedores da fazenda erom com mygo, e aturava com 
filies ataa ix oras da noite, e desque partiom, com os oficiaaes dft minha 
casa estava ataa xi oras. Monte, caça, muy pouco husava ; e o paaço 
do dicto senhor vesitava poucas vezes, e aquellas por veer o que el 
fazia, e de mym lhe dar conta. 

I). Duarte, Leal Conselh., ed. cit., cap. \n, pg. 114. 



XV 

Em nome de Nosso Senhor Jhu \po, com sua graça, e de Virgem 
Maria sna muy sancta Madre Nossa Senhora, Começasse o livro 
da ensynança de bem cavalgar toda sella, que fez EIKey Dom 
Eduarle de Portugal e du Algarve, Senhor de Cepta, o qual 
começou seendo lílanle. 

Aos que dizem que esta manha [de bem cavalgar toda sella] sem 
livro se deprende, digo que he verdade ; mas entendo que a moor 
parte de todos acharam grande vantagem em leerem bem todo esto 
que screvo. E porque nom sey outro que sobrello geeralmente scre- 
vesse, me praz de poer esta sciencya primeiro em scripto, e antre- 
Hjely algQas cousas que perteecem a nossos costumes, ainda que tam 
a propósito nam venham, por fazer a alguOs proveito^ posto que a 
outros pareça sobejo. E conhecendo que o saber dos senhores, 
segundo razoro, em hOa soo manha, nom pode seer muyto avanta- 
jado, por cerio he que a virtude espalhada he mais fraca que se for 
ajuntada ; mas por averem conversassom com muytas pessoas desla- 
dos e saberes desvairados de mais cousas que outros, avendo entender 
natural, razoadamente devem saber. Porem a vontade me requere 
que algQas ouvy, e per mym entendo que screva por so delias a meu 
juyzo poderem lilhar boos avysamentos sem nenhQa perda. 

E os que esto quiserem bem aprender, leamno de começo, pouco, 
passo, e bem apontado, tornando algQas vezes ao que ja leerom pêra 
o saberem melhor; ca se o leerem ryjo, e muyto juntamente, como 
livro destorias, logo desprazerá, e sp. etifadarora dei, por o nom pode- 
rem também entender nem renembrar, porque regra geeral he, que 
desta guisa se devem leer todollos livros dalgóa sciencia ou ensynança. 

D. Duarte, Ihid., pg. 497. 



SÉCULO XV 113 



XVI 



De como dõ Nuno Alurez foy criado em casa de sen padre : e 
como em hydade de treze anos per sea padre foy dado a elrey 
dom Fernando por morador em sna casa. 

Sendo dom Niinalurpz criado a grS viço era casa de seu padre. 
E chegado a hydade de treze anos : e auendo elrey dom Fernãdo 
de Portugal guerra com elrey dõ Anrriq de Castella. Este rey dora 
Anrrique de Castella se trabalhou de vijr : e de feyto veo com seu 
poderio a cidade de Lixbõa. E a esta sazom estaua elrey dom 
FernSdo em Santarém, e com elle o prioll dom Aluaro Gõçaluez 
Pereyra com certos caualleyros da sua ordem e doutros. E outrosy 
estauam com elle alfiús dos seus filhos antre os quaes era dõ Nunal- 
urez, moço de treze annos q aynda nfica tomara armas. E porque as 
gentes delrey de Castella passauarn per acerca de Santarém pêra 
Lixboa bonde seu senhor estaua. O priol por ensayr dom Nunalarez 
seu filho. Pêro assy fosse moço lhe mandou que caualgasse. E esso 
mesmo mandou a outro seu filho que chamauã Diegalurez, que foy 
huQ boõ eaualleyro da ordem: que tãbem caualgasse. E mandou com 
elles outros caualleyros e escudeyros de sua cassa que fossem fora a 
descobrir terra pêra verem as gentes delrey de Castella que passauarn 
pêra Lisboa que gentes eram : e a maneyra que leuauâ. E logo 
Diegalurez e esso meesmo dora Nunaiurez porque fosse moço. E os 
outros que com elles mandarom fezeram o q lhes o prioll mandou e se 
foram fora da villa contra aquella parte per honde deziam que as 
gêtes delrey de Castella passauam : e porque nõ aeharom ; ng poderS 
veer nenhúa cousa tornaramse pêra a villa : e chegando asy aa villa 
ajunto com o castello honde por entom elrey dom Fernando e a 
raynba dona Lianor pousauam : os quaes a essa ora sijS comendo. 
Souberom como dom Nunaiurez : e Diegalurez seu jrmâo : e outros 
asy vinham de fora e mãdarom nos chamar honde asy sijâ comendo : 
e dom Nunaiurez e seu jrmão se deçeram logo das bestas e se foram 
honde elrey e a raynha estauam : e elles o reeeberom bem : e lhes 
fezeram pregunta donde vinham e pollo que foram : e que era o que 
lia aeharom y vijram. E dõ Nuno Alurez Pereyra respondeo q lhe 
parecia muyta gente mal acaudellada : e que pouca gente cõ boõ 
capitam bem acaudellada os poderia desbaratar. E em fallãdo estas 
pallauras a raynha como molher que era muyto paçaS e de boõa 
palaura : fallou contra elrey em sabor dizendo, que ella queria tomar 
Nuno Alurez por seu escudeyro : e elrey lhe respondeo que era bem 
feito : e que elle queria tomar por seu eaualleyro Diegalurez seu jrmaao. 
E ditas estas palauras per elrey e per a raynha : logo a raynha disse 
contra dõ Nuno Alurez que ella o queria armar de sua maão como 
seu escudeyro : e nõ queria que doutras maSos tomasse armas e dom 
Nuno Alurez assy como era moço : era muy vergonhosso e missurada. 
£ quâdo ouuio o q a raynha dezia respõdeo q lho tinha em grade 
merçee : e q pr.-^zena a Deos q ajnda lho seruiria : e beijoulhe por 
ello a mão. E auendo a raynha em võtade de poer era obra o que 
disera. Logo se trabalhou de mandar buscar arnês cõuinhauel pêra 
dom Nunaiurez : qual lhe corapria. E porque elle era pequeno de 



Hi ANTOLOGIA — PBOSA 



hydade de treze annos como ja encima faz mençam : nam lhe podiam 
achar arnês tam pequeno. É entom disseram a rrainha de como o 
Mestre dAuis, que entom era jrmaílo delrey dom Fernando, tinha huO 
arnês q ouuera em seendo assy moço pequeno. E íezerõlhe entender 
que seria boõ e bem cniiçertado pêra o dom Nunalurcz. E ella ho 
mandou logo pidir ao Mestre : e tanio que o Mestre sobre ello vyo 
recado da rraynha : logo lhe enuiou o ames com boõa võtade : 
e a rraynha o deu lopo a dom Nunalurez segundo lho aula pro- 
metido. E assy tomou dom Nunalurez as primeyras armas que forom 
do Mestre dAuis : e per maâos da rraynha dona Lyanor. E de 
hy em diante a rraynha o ouue sempre por seu escuiieyro. E desta 
vez fallou o prioll padre de dom Nunalurez a elrey dom Fernâdo 
e lhe pedio por merçe, que tomasse dom Nunalurez seu filho por 
morador em sua casa. E elrey prezaua inuyto e amaua o prioll : 
e por elle amaua muyto seus filhos : e toda sua linhagem : e foy muy 
ledo de lho tomar por morador. E per esta guisa ficou dom Nunal- 
urez por morador em casa delrey com huQ ayo que chamauam 
Martim Gonçalues do Carualhal que era huQ boõ escudeyro : e era 
jrmaílo da madre de Nunalurez : que depois foy huti muy honrrado 
caualleyro. E com boõa casa assy de houiés e bestas como das 
outras cousas q lhe erâ mester, como eompria a honra de seu padre e 
delle dõ Nunalurez sendo prezado e aiuado delrey e da rainha e 
assy de todos os de sua casa. 

Da Chronica do Conteslabre de Portugal Dom Nuno Alvarez Pereira, ed. 191 1 , 
pe. 3-6. 

xvn 

De como as Mouras doestavão o Infante com cantares deshones- 
tos ; e como adoecea o Infante, de dia em dia mais chegando 
sna morte, e da grande crueldade dos Hoaros contra elle. 

Asy acontecia que muy a meude as molhares do alcácer uijnnham 
ataas portas, donde o Ifante jazia, e aly caiilauom quaaesquer cousas 
e nouas, que lhes prazia, para as ele ouujr, ca o nom podiom veer ; e 
posto que o Ifante nom soubese falar araiija, entendia mujlas cousas, 
e recebya em esto mujta pena, ca mujtas uezes asacauom mujtas 
mentiras e vjnham-lhas dizer aly. 

HQua ora cantauom e tangiom dizendo : — « Ja agora os nosos 
mouros tomarora C-^pta I » 

Outra uez diziom : — « Agora malarom o Conde e trazem bera 
mil cristãos catiuos ! » 

Neste tenpo veeo hy recado de como se finara o Ifante dom Joham, 
e logo aqueilas mouras o ujerom dizer aquella porta; mas o Ifante 
CDJdou que o asacauam, como faziom outras mnytas mentiras, 
raoormente que diziom que era aqueile o Rey que vjera a Tanjer. 
E porque por uezes os mouros falando diziom : — « qno em Portugal 
nom aujam mayor, nem mais forte home, que aquele Rey, que a 
Tanjer vjera », cuidou o Ifante que, por lhe quererem mal, lhe 
asacauom que era morto. E os seus senpre lho encobrirom de 
tal gujsa, que nunca soube da morte do Ifante dom Joham. E asy 
como se chegou o mes de julho de iiij centos quarenta líj cbegoa-se 



SÉCULO XV lis 



a fim deste Senhor, quando seos padecimentos eram mayores e mais 
graues de soportar. E sábado primeiro dia do mes veeo o Ifante 
aadoeçer de fruxo de ventre com fastio, que nom pode comer 
nenhOua cousa, e noutro dia creçeo mais a doença, e ja mujto mais 
aa segundo feira, e ele enfraquecia mais cada uez. Quando o soube- 
rem os seus, três deles se trabalharom de hir ao alcácer mostrando, 
que lijnham la que fazer; e como chegarom a porta donde o Ifante 
jazia, ouujrom os jiimjdos, que daua, como home muyto desposado ; e 
quando forom em direylo da porta falaron-lhe dizendo-lhe : 

— « Senhor ! Deus uos dft bõoa saúde; dizee-nos como uos uay ? 
E ele preguntou — quem erom ? 

— E como ? !, diseron eles, tanto he o uoso mal, que ja nos nom 
eonheçees?! ataaquy nos conheçies nos soom dos ferros, agora por 
nosa desauenlura, nem nos ferros, nem na fala. ja nos nom eonheçees ! 

E entom os rognu que lhe perdoasem, porque sua doença era 
tamanha, que o tiraua fora de sy, mas dise-ll)es — que falasem a el 
Rey e a Rainha, que falasem por ele a Lazeraque, que o mandase 
tirar daquela e^scuridom, e que o posesem era lugar onde o eles pode- 
sem curar, e ajuda-lo, porque com gran pena se leuantaua ja a fazer 
suas neçesidades. 

E forom se enlom Iam tristes, como quem tijnha posta sua vida em 
tal risco de a perder. Falaron a el Rey e aa Rainha, e a irm5a dei 
Rey, que era a mayor molher de Lazeraque, de que nom ouuerom 
outra reposta, saluo : — « dizeelhe que se esforce a sy o melhor que 
poder, ca nos nom podemos em isso nenhllua cousa fazer, nem 
requerer. •> 

A quantos alcaides e hom§s honrados vijnham ao alcácer, eles 
faziom queyxume de tanta crueza, pedindo-lhes mjsericordia para 
aquele atribulado Senhor, que tanto auja mester; e com mujtas 
lagremas se leuantauom anteles em terra beijjando-lhes os pees e as 
mãaos ; e de todos nom aujom outra ajuda, senon que hQus diziom : 
— « quem cujdaaes que se atreua a falar nijsto ao Senhor ? » 

Outros dizioni : — « Deus sabe que mal nos parece o que lhes 
fazé, e nos pesa delo mujto, mas nom he em nosa mãao de outra 
cousa fazermos. » 

Outros se rijom fazendo deles escarnho, e diziam : « — daae nos 
Çepta, e logo uoso Rey au^ra mais fauorança. » E em esto chegaarom 
ao alcaide Laaçem, que era o mayor priuado de Lazeraque, e poserom 
suas prezes ante ele, recontando sua neçesidade. E des que os ouujo 
começou do se asanhar contra eles, dizendo-lhes : — « Cflaes, peros, 
.sem ley e sem bem, parece que nos honiês he de darem saúde ao uoso 
Rey ? ! hy-uos dhy asinha, ca se Deus qujser ele o matara, ou dará 
sãao ! » 

Com esta louca sentença os lançou dante sy muy desconsolados. 
E entom ouuerom com o alcayde da Çaqujfa, que deles tijnha a 
guarda, que notiticase a seu Senhor o perijgo da morte, em que 
o Ifante «'slaua ; o quall nom tanto por socoro do Ifante, como por sua 
guarda, lho foy dizer. Nom enbargando que outro remédio nom lhe 
posesem, nem lhe adesem alghQua cousa a ele da regra acostumada ; 
que auja soomente qn^ o físico esteuese com ele, e aIghGus outros 
cristãos que ouuesem mester. Des a terça feira ataa quarta segujnte 
estancou a eorença de todo. 

Da Chronica do Infante Santo D. Fernando, ed. 1911, pg. 99-102. 



il6 ANTOLOGIA — PROSA 



XVIII 

Morte do Conde de Andeiro. 

. . . balerom aa porta, e o Porteiro como emtrou o Meestre, quis 
çarrar a porta por norn eintrar nehuti dos spus, e disse que o pregum- 
laria aa Rainha, noni por delles aver nehuQa sosppila, mas porque a 
Rainha estava com doo, e nom era costume de néhuíl emtrar, salvo 
esses sennores, sem lho primeiro fazer saber. E o Meestre rrespoindeo 
ao Porteiro : Que as tu assi de dizer ? E em esto emtrou de guisa, 
que emtrarO os seus todos com elle ; e ell moveo passamento comtra 
homde estava a Rainha; e ella se levamtou, e todollos outros que 
eram presemtes. 

E depois que o Meestre fez rreveremça aa Rainha e mesura a 
todos, e elles a ell rreçebimento, disse a Rainha que sse asemtassem, 
6 fallou ao Meestre dizemdo : E pois, irmaão,.que [he] isto a que 
tornastes de vosso caminho ? 

Tornei, Senhora, disse elle, porque me pareçeo que nom hia desem- 
bargado como compria. Vos me hordenastes que tevesse carrego da 
comarca dAmtre Tejo e Odiana, se per vemluira elRey de Castella 
quisesse viinr ao rregno e quebrar os trautos damtre tos e elle ; c por- 
que aquella fromtaria he grossa de gentes e gramdes senhores, assi como 
do Meestre de Samtiago, e do Meestre dAlcãtara e doutros e hoõs fidall- 
gos ; e aquelles que vos assinastes pêra a guardarem comigo, me parecem 
poucos ; por emde tornei pêra me dardes mais vassallos, pêra vos eu 
poder servir, segundo compre a minha homrra e vosso serviço. 

A Rainha disse que era mui bem, e mamdou logo chamar Joham 
Gomçallvez seu Escprivam da Poridade, que visse o livro dos vassal- 
los daquella comarca, e que lhe desse quamtos e quaaes o Meestre 
rrequeresse, e que fosse logo desembargado de todo. Joham Gomçallvez 
foi chamado a pressa e foisse assemtar cora seus escprivaâes a proveer 
os livros pêra desembargar o Meestre. 

Em esto começarom de o comvidar os Comdes cada hufl per ssi ; e 
isso meesmo o Comde Joham Fprnamdez se aficava mais que comesse 
com elle que os outros. O Meestre nom quis tomar coinviíe de nehuQ, 
escusamdosse per suas pallavras, diz^rudo que ja tinha prestes de 
comer que mandara fazer ao seu Veedor ; porem dizem i|iie disse mui 
escusamente ao Comde de Rarçellos que o nom semtio nchufl : Conde, 
hiivos daqui, ca eu quero matar o Comde Joham Fèrnandiz. E que ell 
rrespondeo que sse nom hiria, mas estaria hl coro elle pfra o ajudar. 

Nom sejaaes, disse o Meestre, mas rrogovos todavia que vos vaades 
daqui, e me aguardees pêra o jamtar ; ca eu Deos queremdo tamto que 
isto for fetto, logo hirei comer com vosco. 

A vemtuira por-melhor aazar a morle do Comde Joham Fernandez, 
começou de lhe fazer rreçear a viimda do Meestre ; per lai guisa que 
lhe pos em voomtade, que mamdasse a todollos seus que sse fossem 
armar e se vehessem pêra elle ; e de quallquer geito que foi. parti- 
romsse os seus todos do Paaço, assi fidallgos que o a-õpanhavom 
como 08 outros, e foromsse armar pêra sse viimrem per eelle ; e esta 
foi a rrazora por que ell ficou soo de todos elles, e nenbuQ estava hi 
quamdo morreo. 



9ÉC0L0 XV 117 



A Rainha isso meesmo pos fememça nos do Meestre ; e veemdoos 
assi todos armados, nõ lhe prouge era seu coraçom, e disse fallarado 
eomtra todos : 

Samta Maria vali ! como os Ingresses ham mui boom costume, que 
qiiamdo som no tempo da paz, nom tragem armas, nem curam damdar 
armados, mas boas rroupas e luvas nas maãos como domzellas ; e 
quamdo ssom na guerra, emlom costumam as armas e husom delias 
como todo o mundo sabe. 

Senhora, disse o Meestre, he mui gram verdade. Mas isso fazem elles 
porque ham mui a meude guerras, e poucas vezes paz, e podemno mui 
bem fazer; mas a )ios he poUo comlrairo, ca avemos mui a meude paz e 
poucas vezes guerra ; e sse no tempo da paz nom husarmos as armas, 
quamdo vehesse a guerra nom as poderíamos soportar. E fallamdo em 
isto e em outras cousas, chegavomsse as horas do comer, e espediosse 
o Comde de Barçellos, e desi os outros, ea os mais delles dava a voora- 
tade aqueilo que sso depois fez. 

Fiearado assi o Corada Joham Fernandez, gastavasse lhe o csora- 
çom, e tornou a dizer ao Meestre ; Senhor, vos todavia comerees 
comigo. 

Nom comerei, disse o Meestre, ca tenho feito de comer. 

Si comerees, disse elle, e em quamto vos fallaaes, hirei eu mandar 
fazer prestes. 

Nõ vaades, disse o Meestre, ca vos ei de foliar huua cousa amte que 
me vaa, e logo que me quero ir, ca ja he horas de comer. 

Emtom se espedio da Rainha, e tomou o Gorade pella maão e sahi- 
rom ambos da camará a huíia gramde casa que era adeante, e os do 
Meestre todos com eile, e Rui Pereira e Lourenço Martliz mais acerca. 
E chegamdose o Meestre cora o Comde acerca dhuila freesta, semti- 
rom os seus que o Meestre lhe começava de fallar passo, e esteverora 
todos quedos. E as paliavras forom amtreiles tam poucas e tara baixo 
ditas, que nehufl por estomçe emtemdeo quegeradas eram ; porem 
afirmam que forom desta guisa. 

Comde, eu me maravilho muito de vos seerdes homem a que eu bem 
queria, e trabalhardesvos de minha desomrra e morte. 

Eu, senhor ! disse elle, quem vos tall cousa disse, memtivos mui 
gramde memtira. 

O Meestre que mais voomtade tiinha de o matar que destar eom 
elle em rrazoões, tirou logo huQ cuitello comprido, e emvioulhe hufl 
gollpe aa cabeça; porem nom foi a ferida tamanha que delia morrera, 
se mais nom ouvera. Os outros que estavom darredor, quamdo virom 
esto, lamçarom logo as espadas fora pêra lhe dar, e ell movemdo pêra 
sse colher aa camará da Rainha com aquella ferida, e Rui Pereira que 
era mais acerca, meteo huCl estoque darmas per elle de que logo cahiu 
em terra morto. 

Os outros quiseromlhe dar mais feridas, e o Meestre disse que este- 
vessem quedos, e nehuQ foi ousado de lhe mais dar ; e mandou logo 
FernamdAlvarez e Louremço Martliz que fossem çarrar as portas que 
nom entrasse nehuQ, e dissessem ao seu Page que fosse a pressa pella 
villa braadamdo que matavom o Meestre, e elles fezeromno assi. 

E era o Meestre quamdo matou ho Comde, em hidade de viimte e 
çimquo anos e amdava em viimte e seis; e foi morto seis dias de 
dezembro, era ja escprita de quatro çemtos e viimte e huQ. 

V. Lopes, Cr. de D. João l, ed. do Arch. Hht., cit., pg. 17. 



il8 ANTOLOGIA 



XIX 
o conde D. Pedro faz talar os campos de Seala. 

Couio disse aquelle graiidi; Islorial Homaiio, a que chaiuáraõ Tito 
Livio : u Que muitas mais vezes dam as cousas consellio aos homens, 
do que os homens dam conselho ás cousas. » E porem o trabalho 
daquelia sahida naC soomente fez honra ao conde^ e aaqueties, que o 
seguirão, mas ainda proveito ; porque aprendeo pêra ao diante se 
avisar melhor dos enganos de seus imigos, especialmente das cil- 
ladas ; e porque sentio, que sua hida sempre seria perigosa em 
quanto aquelles vallados, e arvoredos alli estevessem, ouve conselho 
com aquelles Fidal;i;os, e acháraõ, que era necessário tallarem as 
arvores, e derribarem os vallados ; e estando sobre esta determinação 
começarom de vir cavallos de Caslella porque os Fidalgos mandarão, 
em tanto que eraõ na Cidade até quutorze ; e assy com elles, como 
com toda a outra gente sahio o conde da Cidade, e pôs suas guardas, 
que sostevessem algum perigo se sobreviesse d'Aljizira, ou d'outra 
parte, e a gente de pee mandou, que cortassem naquellas arvores, em 
quanto lhes o dia durasse, e des y pedreiros, e homens, que sabiam 
daquelle mester, que derribassem as cerraduras e paredes das Ortas, e 
Fumares, e assy os vallados, de guisa que em breve foi todo achSado, 
nom sem grande trabalho daquelles, que o fazi5o. O' quem iiom averia 
piadade de vt5r a destruição de tanta nobreza ; porque alli cahião 
Torres forradas d'oliveÍ8 pintados, e craslas ladrilhadas de mármores, 
e ladrilhos vidrados, em que havia diversos lavores; tantas arvores 
frutíferas, e odorosas, que aquelles mesmos, que as corta vaõ vinha 
piadade; ora que fanam os Mouros, que estavaõ nos muros, e Torres 
d'Aljazira, os quaes chorando per suas barbas, gemiaõ aquella perda. 

Xurar*, Ckr. do Conde D. Ptdrn de. Meneses, ed. da Acad., cit., u, cap. xvi, 
pg. 260. 

XX 

Assassinato do Duque de Viseu. 



E seendo ElRey em Alcácer do Sal, sabendo o Duque, e os da 
conjuraçam, que avia de tornar per mar ; detriminaram esperallo na 

Èraya, e ali ao sair dos batees ho matarem. Do qual perygo ordenado, 
lIRey foy per Dom Vasco logo avisado ; pello qnal mudou por isso a 
vynda do mar, e fez o caminho da Landeira per terra, bem acompa- 
nnado de boa gente de sua guarda, que por isso, e sem algfl alvoroço, 
fíngiudo outro achaque, a mandou perceber; porque despois da morte 
do Duque de Bragança, sempre Elliey trou.xe guarda da Camará, e dos 
Ginetes, de que era Capita Fernani Martyns Mazcarenhas, que nestes 
fectos, em que a vida, e saúde d'EIHey e do Hegno pendiam, sempre 
sérvio bem, continoada, e muy lealmente, e de quem ElRey entani 
mais confiava. Chegou ElRey a Setuvel sesta feira vinte e sele dias 



SáCDLO XV 119 



d'Agoslo de mil quatrocentos oylenta e quatro ; e ao outro dia sábado 
mandou vyr ho Duque de Viseu de Palmella onde pousava, e em se 
çarrando a nocte ho chamou a sua guardarroupa, que era nas casas 
que foram de Nuno da Cunha, em que entam EIRei pousava ; onde ho 
Duque entrou da todo desacompanhado, e sem muitas palavras que 
precedessem, EIRei ho matou per sy as punheladas. . . 

R. de Pina, Ckr. de D. João n, «d. da Acad., cit., n, cap. rrni, pg. 59. 



XXI 

Jastiça qae el-rei D. João TI mandoa fazer 
na eslalaa do marqaès de Moule-Mór. 

Estado elRei em Abrãtes, por ser certificado que o marqs de 
Monte-Mór estado em Castela nâo deixava de seguir sua má vontade 
cõtra elle, com os do seu cõselho, e leterados, ordenou, e quis em sua 
ausêcia mandar fazer justiça e justiçar sua estatua nesta maneira. 
Na praça da dita villa se fez hQ cadafalso de madeira, grande e alto, 
todo euberto de panos de dó, e nelle assentos pêra corregedores, 
desembargadores e juizes ; e ahi em pé meirinhos, alcaides e officiaes 
da justiça. E pubricamente foi alli trazida hQa estatua do marqs, 
natural como viva, que se parecia cõ elle, e vinha armado de todas 
armas, e ê cima deHas sua cota darmas, e na mão dereita hQa 
espada alta, e na esquerda hfla bandeira quadrada de suas armas ; e 
ali poios juizes lhe fora lidas em alta voz suas culpas, e logo 
per todolos juizes e desembargadores sentenceado, que morresse per 
justiça morte natural, e pubricamente fosse degolado. E acabada 
de ler a sentença, veo hú Rei darmas, e em voz alta dizia : 
— Porquanto vós, cõdestabie, por vosso tSo grande oficio éreis 
obrigado a ter muita lealdade ao vosso rei, e servillo e ajudar a 
defender seus reinos, e vós nSo no fizestes, antes trabalhastes e pro- 
curaste por lhe offender, e lhe fostes desleal, nâo mereceis ter tal 
espada. — E logo lhe foi tirada da mSo, e tornou logo a dizer : — 
Porquanto vós- marquês, por vossa grande dignidade vos /oi dada 
bandeira quadrada como a principe e por esta honra e dignidade 
que recebestes éreis obrigado guardar a honra e estado d'elRei vosso 
senhor e servillo e acataío como natural e verdadeiro rei e senhor 
e vós tudo isto fizestes ao contrayro tal bandeira nâo deveis ter 
porque a nâo mereceis : — e lh'a tomaram logo da mâo e pola mesma 
maneira e ceremonia lhe tiraram a cota d'armas e armadura da 
cabeça e todas as outras peças d'armas até ficar desarmado em calças 
e em gibão. E enlão veo hu pregoeiro e hum algoz e com pregão de 
justiça em que declarava suas culpas lhe cortaram a cabeça de que 
sahiu sangue artificial que parecia de homem vivo. E acabada esta 
grande ceremonia de justiça que durou muito se desceram todos do 
cadafalso e logo foi posto fogo nelle e estatua e o cadafalso todo 
assi como estava foi queimado cousa que pareceo espantosa. E o 
marques sendo d'isto sabedor foi mui enojado e triste e d'ahi a 
pouco tempo se finou em Castella onde elle estava. 

6. de Be8«ade, Chr. de João II, cap. uvia. 



1)0 ANTOLOQIA — PROSA 



xxir 

Do qae el-rei disse a hú home, que bebia vinho 
mais do necessário. 

Um hoinê honrado, que se não nomea, folgava de beber vinho; 
e porq o el-rei nSo bebia, havia-se por lacha, e todas em geral tra- 
balhava por seguir as obras e condição delrei. E este home ás 
vezes lhe fazia o vinho dano, de que elrei tinha desprazer. E hQ dia 
o mádou chamar, e elle, por não cheirar a vinho, comeo folhas 
de loureiro, a q muito cheirava; e el-rei lhe disse : 

Fo5o, debaixo desse louro, a como vai a canada ? De q o homS 
ficou envergonhado e trabalhou de se emendar. 

tí. de Resende, ibid., cap. clii. 

XXIII 

Do que el-rei disse ao Conde de Borba 
em um conselho. 



O Cõde de Borba dõ Vasco Coutinho de sua condição falava 
sempre muito alto, e ás vezes, quando se queria frautar, falava muito 
baixo. E hQ &i&, estado elRei em hum conselho, quando veiu o 
Cõde a dizer seu parecer, falava tão baixo, q se não ouvia ; e elRei 
lhe disse : 

Cõde ! 08 vossos baixos são tão baixos, que vos não ouve 
ninguém ; e os altos são tão altos, que se não ouve ninguém 
comvosco. 

G do heseode, ibid-, cap. cxcv. 

XXIV 
Morte de D. João II 

Mandou saber em que ponto estava a maré, e dando-lhe a reposta 
disse : Daqui duas horas me finarey; e assi foy. E estado assi cd 
muita pena tirando cõ grandes e mortaes saluços, q lhe acudia de 
quando em quando disse : Tenho tamanho amargor na boca, que se 
não pode sofrer. Disse lhe o Bispo de ('oimbra: Senhor, lébre-uos o 
vinagre e azedo, que derSo a beber a Nosso Senhor lESV Christo 
estando na Cruz, e não vos amargará a boca. E el Rey lhe respondeo : 
O' Bispo, quãlo vos agradeço isso, porq esse passo soo me esquecia da 

f»aixã. E estando assi veyo lhe hu muito grande accidente antes de 
he sayr a alma, que o trespassou ; e cuidando todos, que era finado, 
o Bispo de Tangere lhe fechou os olhos e a boca ; e elle o sentio « 
tornou a si, e disse : Bispo, ainda naõ vg a hora. E falando sempre 
palaaras «antas, e encomendando a todos, q não chorassem entaõ por 



SáCDLO XV i21 



lhe n5o fazerê toruaçao, beijando muitas vezes o vulto de Nosso 
Senhor e a Cruz, cõ os olhos postos nelle, e a cãdea na mão, cõ todo 
seu perfeito saber e os sentidos mui espertos, e a vista toda inteira 
sem fazer geito nenhum, rezando sempre cõ os Bispos verso por verso, 
e na derradeira cõ o nome de lESU na boca com grandíssima deuação 
dizendo : Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere mei, lhe sahio a 
alma da carne domingo era se querêdo pôr o sol, vinte e cinco dias 
Doutubro do anno de Nosso Senhor lESV Christo de mil e quatro- 
célos e nouêta e cinco, era idade de corêta annos e seis meses, dos 
quaes foy casado cõ a Raynha dona Lianor sua molher vinte e cinco 
e reynou quatorze annos e deus meses. 

G. Resende, ibid., cap. ccxi. 



II 

EPOOA CLÁSSICA 

(XVI XVIII) 



Quadro sinótico do movimento político, 

social e literário 

correspondente à escola Italiana 



I 
Monarcas portugueses 

D. JoSo III 1521-1557 

D. Sebastião 1557-1578 

D. Henrique 1578-1580 



II 

Sincronismo politico e social 

1531 — Estrondoso terramoto em todo o reino, que destroe povoaçõis 
inteiras. 

1535 — Introdução do calvinismo em França. 

1536 — Estabelece-se em Portugal o sanguisedento tribunal da Inqui- 

sição. 
1545 — Paulo III abre o Concilio de Trento. 
1547 — Morte de Francisco I de França e de Henrique VIII de 

Inglaterra. 
1552 — Naufrágio de Sepúlveda. 
1556 — Abdicação de Carlos V. 
1564-1569 — Aceitação indistinta do cânones do Concilio de Trento, 

em Portugal. 

1571 — Batalha naval no golfo de Lepanto ganha por D. João de 

Áustria aos Otomanos. 

1572 — ■ Matança de S. Bartolomeu em que morreram milhares de 

Huguenotes. 
1578 — A 4 de agosto dá-se o terrível desastre de AIcacer-Qebir, 



126 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTDODESA 



III 

Siúcronismo literário 
Espanha 

Inigo López de Mendonza, marquês de Santillana, um dos homens 
mais notáveis do seu tempo, e Jorge Manrique, autor das celebradas 
Coplas já nomeadas anteriormente fazem como que a transiçSo para 
a edade áurea da literatura espanhola, que se abre neste período 
dominada pela influência de Itália. O caudilho deste renascimento é 
BoscAN ( 1490-1542 ) que naturalizou o soneto, o terceto, a canção, a 
oitava rima, tomando como modelos, sobretudo, Petrarcha e San- 
nazzaro. Sobresairam : 

G^RciLASO DE LA Vega ( lS03-lo36 ), autor de trinta e oito sone- 
tos, ao gosto de Petrarcha, cinco canções, duas elegias, uma epistola 
em verso solto e três éclogas, obra pequena [morreu aos 33 anos] 
em quantidade, mas que não tem igual em vaior na literatura caste- 
lhana, conforme o juízo de Fitzmaurice-Keliy. 

DiEGO HaRTADO DE Mendonza (1504-1575), poéla, historiador e 
romancista, autor da História da guerra contra os Mouros de Granada. 
A conhecida novela Lazarillo de Tormes foi-lhe por muito tempo atri- 
buída, mas sem razão, como o demonstrou o hispanótilo Morel-Fatio. 
Não se pode determinar neni o autor, nem o ano, nem o logar da 
publicação. As três ed. mais antigas conhecidas saíram em 1554. 

Fernando de Herrera (1534-1597), cognominado o « divino » 
pela elevação das suas produções, entre as quaes ha uma elgia a 
propósito do desastre de Alcacer-Qebir. 

Santa Teresa de Jesus (1515-1582), a célebre mística, denomi- 
nada n Vidente de Ávila », milagre de génio, a maior raolher, talvez, 
de quantas até hoje manejaram a pena, a única do seu sexo que pode 
ombrear com os mais insignes mestres do mundo. [Filzmaurice- 
Kelly, ob. cil.. 266]. 

JuAN UE Mariana (1537-1624), o Tito-Livio espanhol, autor da 
História Geral de Espanha, que vai até á morte de Fernando o 
Católico. 

Jorge de Montemor ou Montemaior (1523-1561) um dos poetas 
portugueses que maior renome alcançou na literatura peninsular. 
A sua Diana divulgou-se rapidamente, sendo trad. em inglês, alemão, 
holandês e francês, onde conta, pelo menos, 12 ed. Ele seria o 
iniciador do género pastoril se Sanazarro antes dele não tivesse 
publicado a sua Arcádia. Mas introdutor desse género na literatura 
peninsular cabe-lhe a glória de ter creado vários discípulos — Fernão 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 127 



Álvares do Oriente cora a sua Lusitânia transformada, F. Rodrigues 
Lobo com o Pastor peregrino e Jo5o Nunes Freire com os Campos 
FAisios, além de outros. Pena é que iMontemór escrevesse tam pouco 
em português, que apenas se possa contar dele na nossa lingoa um 
trecho em prosa e algumas quadras da sua Diana [ Vid. S. Viterbo, 
no Arch. de Hist., i, 249]. 

Miguel de Cervantes Saavedra (loi7-i616), o imortal autor 
do D. Quixote de la Mancha, da novela pastoril Galatea, da tragédia 
Numáncia, do poema alegórico Viajs ai Parnaso ( revista dos poetas 
do seu tempo) e de várias nutras obras. Entre todas avulta o D. Qui- 
xote, que creou ao seu autor fama universal. 

[ Em português : D. Quixote. . . tr. de Ricardo Augusto P. Guima- 
rães, ( Visconde de Benalcanfor ) efectuada de colaboração com 
D. Luís Bréton y Vedra, Lisboa, 1877, 2 vols. ; outra tr. do Visconde 
de Castilho ( continuada pelo Visconde de Azevedo e concluída por 
Manuel Pinheiro Chagas ), 2 vols., com as ilustrações de G. Doré. Ha 
também uma tr. saída na Tip. Rollandiana, 1794, 6 vols., in-8.°, outra 
de 185.3. Em 1906 saiu uma, era Lisboa, 3 vols. De Cervantes tra- 
duziu Bocage Galatea, tr. elaborada sobre a interpretação francesa 
de Florian, e José Pedro Francisco de Paula Campos El zeloso eslremefio 
com o titulo : O velho e a menina ou o casamento desigual. . . Lisboa, 
1818, 80 pg.]. 

Patrocinados pelo cardeal Ximenes (-J- 1517) os estudos de filo- 
logia desenvolvera-se e António de Nebrija ( 1444-1552 ), o maior dos 
humanistas espanhoes, publica os primeiros trabalhos sobre a lingoa 
espanhola. 

França 

Em França, onde também se acentua a influência de Itália, raere- 
rem citar-se : 

Rabellais (1495-1553), autor dos dois romances satíricos Gar- 
gántua e Pantagruel. 

Marot ( 1497-1544 ), que aperfeiçoou a forma da poesia ligeira nos 
epigramas é nos fabliaux; sobresaíu num género de que é o creador, 
o Epistolar. 

RoNSABD ( lo24-t585), chefe da Plêiada, a célebre escola poética 
fundada para elevar o nivel da lingoa e da literatura francesa, da qual 
cm 1549 Du Bellay re^ligira o programa. 

Montaigne ( 1533-1692), notável moralista, autor dos Ensaios. 

Itália 

Entre os homens que ilustraram a Itália neste período contam-se : 

Sannazzaro ( 1459-1530), cuja Arcádia, publicada em 1504, fundou 

a novela pastoril que cm Portugal encontrou uni exímio cultor em 



128 HISTÓRIA DA LITEBATURÂ PORTCQUCSA 



Bernardim Ribeiro, passando depois a Espanha com Jorge de Mon- 
temor. 

Tríssino (1478-1550), autor da tragédia Sophonisbe (1515) 
escrita á imitação do teatro clássico, e do poema Itália Libertada. 

Abiosto ( IÍ74-1533), o maior poeta italiano do sec. xvi de quem, 
além de poesias liricas, ha o Orlando furioso, poema em oitava rima. 
[Em português : José Manoel d'Almeida e Araújo Corroa de Lacerda, 
Orlando Ftirioso, tr. em versos portugueses. . ., Lisboa. 1850 ( só saiu o 
vol. 1."]; Xavier da Cunha, Orlando furioso..., Lisboa, s. a., com 
gravs. de G. Doré; J. M. da Costa e Silva, O deliria de Orlando, 
c. XXII in-Ramalhele, n." lil de 20 de março de 18i0, pg. 81 ; o 
escritor brasil. Luis da Silva Alves de Azambuja tr. em prosa o 
Orlando, 4 vols., Rio de Janeiro, 1833]. 

ToRCATO Tasso (1544-1595), que escreveu o drama pastoril 
Aminta, que foi muito imitado, e o poema Jerusalém libertada, que o 
consagrou entre os grandes génios da humanidade. [ Em português : 
Pedro de Azevedo Tojal, Godofredo ou Jerusalém libertada, Lis- 
boa, 1633, 1 vol.; André Rodrigues de Matos, Godofredo ou Hierusa- 
lem libertada, poema heróico. . ., Lisboa, 1682, xxxii-659 pg., outra ed., 
Coimbra, 1859; João Félix Pereira, A Jerusalém libertada, ibid., 1877, 
496 pg. ; J. Ramos Coelho, Jerusalém libertada, Lisboa, 1864 ; nova 
ed., ibid., 1905]. 

Como eruditos merecem citar-se os nomes de Machiavklli ( 1469- 
1527), GuicciABDiNi (1842-1540), dos cardeaes Bembo (1470-1547) 
e Sadoleto (1477-1548) do filólogo Pcmponio (1425-1497) e dos 
dois ScALiGERos, O JoLio ( 1484-1558 ) e seu filho José ( 1540-1609 ). 

Inglaterra 

A literatura inglesa tem neste período o seu escritor mais notável : 
WiLLiAM Shakspeare (1564-1616), cujas tragédias principaes sam 
o Romeo e Julieta, Olhello, Hamlet, Macbeth e Rei Lear. As melhores 
comédias : Mercador de Veneza, Sonho d'uma noute de S. João, Muito 
ruido para nada. As alegres esposas ds Windsor ; dramas históricos : 
— Júlio César, António e Cleópatra, Ricardo II, Ricardo III, etc. 
W. Shakspeare é um profundo pensador tendo traduzido todos os 
caracteres e exprimido os maiores sentimentos da natureza humana. 
[ Em português : Castilho, Sonho d'uma noute de S. João, Porto, 1874, 
D. Luis I, Hamlet, Lisboa, 1887 ( sobre esta tr. Silva Pinto, Combates 
e Criticas, 2.» ed., Lisboa, 1907 ), O Mercador de Veneza, ibid., 1879, 
Ricardo III, ibid., 1880, Olhello, o mouro de Veneza, ibid., só esta Ir. é 
que traz o nome do tradutor; Luis A. Uebello da Silva, Olhello, 
ibid:, 1856 ; Bulhão Pato, Hamlet, ibid., 1879 ; Mercador de Veneza, 
ibid., 1881 ; José António de Freitas, Olhello, ibid., 1882 ; sr. Júlio 



CAPITULO III — ESGOLà ITALIANA Or QUINHENTISTA 129 



Dantas^ Rei Lear, adaptação da trag. de Shakespeare, Lisboa, 1905, 
i vol. ; sr. dr. Domingos Ramos, Rei Lear, Porto, 1905, Hamlet, Olhelo, 
Romeu e Julieta, todos no Porto e de 1911, e Mercador de Veneza, 
i6id., 1912J. 

Como figuras secundárias ao grande trágico ha nesta época : 

John Lyly (1554-1603) autor do Euphues que pôs em moda o 
estilo afectado dos gongoristas de Espanha e Portugal ; e os liricos 

Wyatt ( 1503-1541 ) e 

Henry HowARD (1515-1547). 

Alemanha 

Ebasmo ( 1467-1536 ), humanista célebre, do qual é mais conhecida 
a sátira intitulada Elogio da loucura. 

LuTHERo (1483-1546), o extraordinário agitador politico e religioso 
do sec. XVI, figura complexa, cuja acção se fez sentir profundamente 
no seu e nos séculos imediatos. A sua tradução da Biblia ficou 
clássica na lingoa alemS; os seus Cantos de Igreja dâo-lhe logar 
entre os primeiros poetas inspirados pela fé. 

Hans Sachs ( 1494-1576 ), um dos Meistersingers mais distintos da 
Alemanha, ainda hoje muito lido e admirado. Foi cordoeiro em 
Nuremberg, sua terra natal. Partidário da Reforma dedicou uma 
poesia a Luthero que ele intitulou o Rouxinol de Witcmberg. Publi- 
cou 16 vols. de versos. Goethe consagrou-o numa poesia célebre ç 
Wagner nos Mestres- Cantores. 



CAPITULO III 



Escola Italiana ou Quinhentista 

( Século XVI ) 

Sumário : 47. O Renascimento; sua difusão. — 48. O Renascimento 
em Portugal. — 49. Os promotores do Renascimento em Portugal. 
50. Senhoras portuguesas ilustres. — 51. Poesia épica. — Luís de 
Camões. — 52. Sua biografia. — 53. Camões escritor, — 54. Jeró- 
nimo Corte-Real. — 55. Luís Pereira Brandão. — 56. Francisco 
de Andrade. — 57. Poesia libica. — Bernardim Ribeiro. 58. 
Cristóvão Falcão. — 59. Francisco de Sá de Miranda. — 60. 
António Ferreira. — 61. Pedro de Andrade Caminha. — 62. Diogo 
Bernardes. — 63. Fr. Agostinho da Cruz. — 64. poesia dramática. 
Origem do teatro. — 65 Gil Vicente. — 66. Escola de Gil Vicente. 
67. Afonso Álvares. — 68. António Ribeiro Chiado. — 69. Balta- 
sar Dias. — 70. António Prestes. — 71. Simão Machado. — 72. 
Escola clássica. — 73. A história no século xvi ; suas caracterís- 
ticas. — 74. D. Jerónimo Osório. — 75. João de Barros. — 76. 
Diogo do Couto. — 77. Damião de Góes. — 78. Fernão Lopes de 
Castanheda. — 79. António Galvão. — 80. Outros historiadores 
deste século. — 81. Samuel Usque. — 82. Narrativas de viajens ; 
seus autores. — 83. Fernão Mendes Pinto. — 84. A história tra- 
gico-marítiraa. — 85. Eloquência sagrada. — 86. D. Frei Barto- 
lomeu dos Mártires. — 87. Fr. Luís de Granada. — 88. Fr. Miguel 
dos Santos — 89. Diogo de Paiva de Andrade. ~ 90. Dr. Francisco 
Fernandes Galvão. — 91. Moralistas. 92. — Romances deste pe- 
ríodo. — 93. Fernão Alvares do Oriente. — 94. Obras poéticas 
escritas em latim. — 95. Trabalhos filológicos. — 96. Obras de 
erudição. 



^rT'. — o Renascimento ; sua difusão. E' um erro, 
escreve um autor contemporâneo, acreditar que o amor 
das artes e das letras antigas so extinguiu totalmente no 
decurso da idadc-média. 



132 HtSTÓRIA DA LITKRATURA TOHTUtiUKSA 

Com um pouco de atenção vê-se em todas as épocas 
esta chama imortal fazerse luz aqui e àlcm, atravéz das 
minas dos séculos. A prosperidade crescente dos povos, 
a liberdade de que gozavam as grandes cidades acabaram, 
enflm, por crear, ao lado da cultura eclesiástica, uma cul- 
tura secular *. Factos múltiplos preparam o movimento 
característico dessa época memorável chamada lienasci- 
mento. Constantinopla tomada pelos turcos viu brilhar 
no alto dos seus minaretes o crescente muçulmano (U53), 
e isso obrigou os sábios, ali residentes, a refugiar-se em 
Itália onde abriram os tesouros da sua erudição. A im- 
prensa, a nova faculdade, na frase de Lamartine, começava 
de produzir os seus fecundos resultados. Descobrira-se 
a pólvora, que mudou a politica das nações, a bússola de 
marear, que abrio um caminho atravéz dos mares tenebro- 
sos. Vasco da Gama descobrindo o caminho marítimo 
para a índia e Gristovam Colombo a América revelaram 
ao velho mundo mundos novos. 

A era moderna foi aberta na Itália por Dante, Petrarcha 
e Boccacio, entrando primeiramente era Florença onde 
teve a poderosa proteção dos Médicis, ganhando depois 
Roma, onde depressa triunfou graças aos auxílios do Papa 
Leão X, que era daquela famiha. Da Itália o movimento 
humanista comunicou-se à Alemanha e ai encontrou uma 
falange entusiasta de adeptos, dentre os quaes sobresae 
Erasmo, o sábio mais querido da Europa inteira nos prin- 
cípios do século XVI. O movimento generalizou-se depois 
a todas as nações da Europa. 

4$. — O Renascimento em Portugal. A literatura 
portuguesa tem neste século a sua idade de ouro. Foi 
este período de curta duração, é certo, mas durante ele 
viveu a plêiada de escritores mais numerosa e mais bri- 
lhante, que temos tido. Portugal acompanhava a febre de 



i Fr.-X. KrausK, Hiit. de l'Eglise, ui, oh. i. 



CAPITLO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 133 

progresso, que aquecia toda a Europa culta. Embora por 
pouco tempo gozou duma felicidade material e moral, que 
os demais países invejavam. 

Abundava o dinheiro. Por vezes sucedeu na casa da 
contratação da índia, em Lisboa, quererem os mercadores 
pagar em certo dia e não o poderem fazer por não haver 
tempo de contar o dinheiro *. Do Oriente chegavam-nos 
a cada momento náos carregadas de pedras preciosas e 
de objectos de valor. 

D. Manoel, no reinado de quem estes factos sucederam, 
não soube ou não quis aproveitar as circunstâncias felizes 
que o haviam elevado ao trono. Mas esta riqueza que se 
perdeu e nos ajudou até a levar á ruína, foi compensada 
por outra riqueza maior, e essa imperecível, constituída 
pelas obras dos que ilustraram o reinado daquele monarca 
e dos seus sucessores. Bastaria só que contássemos en- 
tre os nossos escritores um épico como Gamões, um dra- 
maturgo como Gil Vicente, um historiador como Góes para 
dessa época restar com que nos lisongearmos. 

4Q. — Os promotores do Renascimento em Portugal. 
Foram muitas as causas que trouxeram a Portugal a cor- 
rente humanista. A Espanha era para nós uma instigação 
e um exemplo. O Cardeal Francisco Ximenes, o gramá- 
tico António de Nebrija e outros caminhavam na vanguarda 
do movimento que em breve se comunicou ao nosso país. 

Com a Itália mantinhamos nós relações literárias desde 
muito cedo. D. Afonso V, de quem fora mestre Mateus 
de Pisano ^ chegou a mandar vir de Itália frei Justo Bal- 



1 Damião de Góes, Chron. de D. Manoel. 

^ De Pisano apenas resta o Livro da guerra de Seuta, em latim, 
publicada, depois de séculos, em 1790 pela Aead. B. das Sc. de Lisboa 
no vol. I dos Inéditos da Hist. Portuguesa. Zurara (Chr. de D. Pedro 
de Meneses, pag. 215 do vol. ii destes Inéditos) chama-lhe « poeta lau- 
reado », filósofo 6 orador, mas nada, ^lém da apontada narração latina, 
resta dele. 



i;{4 HISTÓniA n\ LITERATURA PORTUODRSA 

dino, sábio domíDicaDO e doutor em ambos os direitos, 
para escrever em latim as histórias do reioo *. Em Roma 
o bispo de Évora D. Garcia de Meneses ^ causava pela sua 
eloquência e erudição latina a admiração dos espíritos mais 
cultos como Júlio Pompónio e o cardeal Sadoleto. 

Da Itália nos veio também o afamado latinista CATALDO 
AQUILA SÍCULO, poeta e orador, mestre de D. Jorge, fi- 
lho natural de D. João II, cujas obras foram publicadas 
em Lisboa em 1500 ^ 

No reinado de D. João 2.°, Portugal assombrava o 
mundo inteiro com as suas descobertas e conquistas. 
Angelo Policiano escrevia-lhe, feliz por se dirigir a tam 
grande rei *. Demais no curto mas brilhante período 
do nosso renascimento tivemos espíritos superiores que 
compreenderam muito bem essa renovação e concorre- 
ram inteligentemente para a introduzir ou estabelecer 
em Portugal, taes foram: — Clenardo, Vaseu, André 
de Resende, Jerónimo Cardoso, Francisco de Holanda, 
Gil Vicente, Damião de Góes, Sá de Miranda e outros. 
NICOLAU CLENARDO ou CLEYNARTS (1493-4542), que 
veio para Portugal na qualidade de mestre do Cardeal 
infante D. Henrique, foi um apaixonado cultor do latim, 



1 A mesma tarefa fôra incumbida a Pisano mas nada existe destes 
trabalhos. Baldino morreu em 1463 de peste em Seuta. 

2 Freire de (Carvalho, Primeiro Ensaio, já cit., pg. 59 e nota 37. 

3 As obras latinas entre as quaes avulta o poema Arcitinga foram 
reimpressas em Sousa, Provas da Hist. Gen., vol. VI. A ed. princeps 
é rarissima. A Bibl. da Univ. de Coimbra possue um ex. que foi de 
Ferdinand Denis, a quem o comprou o insigne bibliófilo A. F. Tomás. 
Alguns dados sobre a biogr. de Clenardo em S. Viterbo, A cultura 
intelectual de D. Afonso V, no Arch. llist., u, 260, e A. Carvalho, Os 
incunabulos da Bibl. P. do Porto, Porto, 1904, 34. 

* Angeli Politiani operum tomus primus: epistolarum lib. XII, etc, 
vid. ( ed. 1528 ) uma carta de A. Policiano a D. Jo5o II, na pg. 584; 
uma carta deste a A. P. a pg. 290 e ainda uma carta de A, P. a João 
Teixeira a pg. 291. Policiano foi um dos espíritos mais brilhantes da 
carte de Lourenço de Médicis, como dissemos no cap. anterior. 



CAPITDLO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 13S 

grego e árabe, e pode considerar-se como o « grande 
reorganizador das lingoas mortas em Portugal ». Ensi- 
nou o latim em Braga, Évora e por ventura também em 
Coimbra. As suas Cartas, escritas em latim, são alta- 
mente interessantes para o estudo da sociedade portuguesa 
no século XVI *. VASEU {-{• 1562), insigne latinista, 
flamengo, natural de Bruges, veio com o anterior para 
Portugal onde residiu doze anos e dirigio em Braga uma 
escola de latim 2. ANDRÉ DE RESENDE ' (c. i500) o 



1 iVtc, Clenardi epist. libri duo, Anluerpiac, 1561. Vid. Sr. Joaquim 
de Vasconcelos, As Cartas Latinas de Damião de Góes, no Instituto, 
XLViii, S8 ; Lopes de Mendonça, Annaes das Sciencias e Letras, i 
( 1857 ), 121 e seg. O sr. Joaquim de Vasconcelos tem estudos 
críticos sobre a vida de Clenardo e as suas cartas feitos de ha muito, 
sendo bastante para sentir que nSo estejam publicados. Sobre Cle- 
nardo pôde ver-se especialmente : Cbauvin et Roersch, Elude sur la 
vie et les travaux de Nicolas Clénard, Bruxelles, 1900, 1 vol. 

2 « . . . Saí de Braga deixando lançados os fundamentos duma 
escola, que ficou dirigindo o meu companheiro de viajem, Vaseu. . . » 
Carta 4.», pg. 25, ed. infra. E em outro logar «... Vaseu, que foi 
companheiro da minha primeira viajem, voltou depois dalguns meses 
com toda a família para Braga, e lá está dirigindo a nova escola, com 
o ordenado anual de cem mil dinheiros ou sejam 300 ducados. N5o 
se pôde dizer que eu o tenha feito infeliz nas Espanhas... » Nic. 
Clenardi epist., ob. cit., pg. 59. ( É a carta 13.* ). Vaseu publicou em 
Salamanca em 1552 uma Chr. de Espanha. Arch. Hist. Portug , viii, 342, 
nota (91). 

' Os estudiosos encontrarão subsídios importantes para a biogr. 
deste famoso antiquário no Arch. Hist., iii ( 1905 ) art. do sr. A. F. 
Barata, André de Resende e não Lúcio André de Resende ( pg. 43 ) e 
Sr." D. C. M. de Vasconcelos, Lúcio Andreas Resendius Lusitanus 
(ihid., 161), e ainda o mesmo sr. Barata, Ultima verba, André de 
Resende Lúcio f Resposta e additamento a um artigo da sr.' D. C. M. 
de Vasconcellos. Évora, 1905. Revista Litleraria, iii ( Porto, 1839 ), 
340 e seg. e iv, 495. No Arch. Hist. Port., vii e viii foram publicadas 
duas recensôis da Vida de A. de Resende escritas por Francisco LeitSo 
Ferreira (1735) com eruditas anotaçôis do sr. Braacamp Freire. 
Veja-se também sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Notas Vicentinas na 
Rev. da Univ. de Coimbra, i ( 1912), pg. 243 e segs. 



136 UISTÓKIA PA LITERATURA P0BTDGUK8A 

erudito antiquário que foi o mensageiro enviado a Salamanca 
para trazer consigo Cleuardo, autor da De Antiquitatibus 
Lusitaniae *, da História da antiguidade da cidade de 
Évora ^ e da Vida do Infante D. Duarte ', foi um espi- 
rito duma alta cultura, merecendo ser escolhido para 
fazer o elogio da Universidade em 1551. JERÓNIMO 
CARDOSO (4- 1569), como os precedentes também insi- 
gne humanista, autor dum Dicionário Latino Lusitânico 
e de várias obras, todas escritas na famosa lingoa do 
Làcio *. FRANCISCO DE HOLANDA (1518-1584) ilumi 
uador, pintor, arquiteto e escritor, até ha pouco conhecido 
das pessoas doutas pelo extrato, aliás infiel, que de parte 
da sua obra deu em tradução o conde Raczinskí no seu 
livro Les Arts en Portugal (pg. 5-73) e agora, feliz- 
mente, posto ao alcance de todos pela edição das suas 
obras ^ Francisco de Holanda era filho de António de 
Holanda, iluminador, c o primeiro que fez e achou em 
Portugal o fazer suave de preto em branco, muito melhor 
que em outra parte do mundo » e a quem se atribue o 
trabalho do livro de Horais da rainha D. Leonor, raolher 
de D. João II, maravilha de gôslo e de delicada execução 
artística, hoje existente ua Biblioteca Nacional *. Francisco 
de Holanda recebeu de seu pae o talento artístico. Gomo 
escritor, diz o crítico que melhor até hoje o tem estudado. 



*■ !.• ed., foi., de 1593, reimpressa na Collecção dat obras de Aucto- 
res Clatticos, da imp. da Univ. de Coimbra, 1790, 2 voli. 

2 !.• ed., 1576; depois reimpressa na Collecção das Antiguidades de 
Évora, de Bento José de Sousa Farinha. 

3 Mandada publicar pela Acad. H. das Sc. de Lisboa, 1789. 

* O sr. Joaquim de Vasconcelos prepara uma ed. das cartas latinas 
de Cardoso, segundo se lé no art. cit. do Instituto. 

* Devida ao sr. J. de Vasconcelos que em 1879 publicou : Da 
fabrica que fallece á cidade de Lisboa e Da sciencia do desetúo ; e 
em 1896 o tratado Quatro Diálogos da Pintura antiga. 

<• Vid. Arte Portuguesa, revista illustrada de Archeologia e Arte 
moderna, n." 1, art. do sr. José Pessanha — As * Horas » da rainha 
D. Leonor. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QD1NHKNTI8TA 137 

c acha a expressão do seu pensameuto ás vezes com 
dí&culdade, mas mesmo nos casos em que o dizer não é 
genuinamente português devemos admirar o exforço e 
louvar a originalidade da forma, a dição expontânea. 
Fala por imagens, como se talhasse ideias plasticamente, 
e apesar de poeta e artista, cônscio do seu valor e 
vaidoso, por vezes, parece-nos sincero e verídico no que 
diz de si e dos outros » *. 

SO» — Senhoras portuguesas ilustres. No movi- 
mento do renascimento português do século xvi desempe- 
nha um papel brilhante o grupo de senhoras duma fina 
distinção intelectual, que tinha como centro e mentora a 
infanta D. Maria, filha do rei D. Manoel e de sua terceira 
molher, D. Leonor, irmã do imperador Carlos V. Faziam 
parte desse grupo, entre outras, as duas irmãs Luisa 
Sigêa e Angela Sigêa, Joana Vaz, e Paula Vicente, e, 
embora não fosse desta roda de cortesãs, adquiriu como 
elas renome e glórias imortais — Públia Hortênsia de 
Castro 2. O conhecimento das lingoas, e em especial da 
latina, o estudo da teologia e da filosofia, o amor da 
poesia constituiara a erudição do século em que essas 
damas viveram e esse é o domínio em que se imortali- 
zaram. A INFANTA D. MARIA ^ escrevia a sua mãi em 



^ Sr. J. de Vasconcelos, Quatro Diálogos» ob. cit., pg. x. 

2 Públia Hortênsia de Castro foi moça da câmara da Infanta 
D. Maria, de quem recebia 6.000 reaes anuaes, sendo contemplada 
com eguai quantia no testamento. Cfr. Arch. Hist,, v, li8, art. do sr. 
Gomes de Brito — As tenças testamentárias da Infanta D. Maria. 

2 Sobre a Infanta D. Maria e a sua Corte veja-se o formoso livro 
da Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, A Infanta D. Maria de Portugal 
( 1521-1517 ) e as stias Damas, Porto, 1902; sr. Conde de Sabugosa, 
O Paço de Cintra, desenhos de S. M. a Rainha a Senhora D. Amélia, 
apontamentos hist. e arch. do. .., Lisboa, 1903, pg. 106 ; Sr. Joaquim 
de Araújo, A Infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manoel I de Portugat. 
Génova, 1909. 



138 HISTÓKU DA UTKRATURA P0BTUG0K8A 

latim ; em latim, grego, hebraico, siriaco e árabe se dirigia 
LUÍSA SIGÊA ( -I- 1560) ao PontíQce Paulo III e em latim 
escrevia o seu poemeto Syntra • ; JOANA VAZ era egual- 
meote conhecedora emérita da lingoa latina e mereceu os 
encómios do célebre Cienardo que a chama « distinta- 
mente ilustrada » ^. 

PAULA VICENTE, a filha de Gil Vicente ajudou seu pae 
na composição e representação das peças teatraes ^ e fi- 
gura como tangedora no livro das moradias da casa da 
rainha D. Catarina *; PUBLIA HORTÊNSIA DE CASTRO 
cursou humanidades, filosofia e teologia, defendendo teses 
em Évora, em 1565, quando apenas contava dezasete anos. 

Constituiam estas e outras senhoras o que ás vezes se 
chama impropriamente Academia feminina portuguesa. 

Do que não resta dúvida é de que essas damas de es- 
pirito culto e erudito que abrilhantavam os serões da casa 



* José Silvestre Ribeiro, Luisa Sigêa, breves apontamentos hislorico- 
literários, memória apresentada à Acad. H. das Sc. de Lisboa, 1880. 
NSo obstante o seu titulo, a interessante monografia dá noticia das 
outras damas ilustres contemporâneas de Sigéa. Ai encontra também 
o leitor a bibliografia do assunto, que aqui julgo escusado repetir. 
O poema Syntra vem publicado na íntegra no Apêndice, e também, 
com a traduçSo ao lado, no livro O Paço de Cintra do sr. Conde de 
Sabugosa, cit., pg. 255. 

2 O testemunho de Cienardo vera numa carta a Joaquim Polites e 
diz o seguinte : « . . . etiam apud puellas me in hac fúria [ vem falando 
(lo seu entusiasmo pelas composições em verso ] venditavi, ut uterque 
Clenardum sexus nihili putet esse Poelani. . . . Esl hic inter aulicas 
atteclas virgo eleganter literis culta, adeo mUu nota, ut vix nomen 
tenuerim, nisi subvenisset Resendius : eam quoque aã exéquias Erasmicas 
mire venusto carmine cohortalus sum. . . . Est enim virgini nomen 
Joannae Vasiae cujus abhinc bienniil epistolam vidi, cujus nec te pude- 
ret... » (Nic. Clenardi epistolarum libriduo... Antuerpiae, 1361, 
pg. 79). 

3 Ensaio sobre a vida e escritos de Gil Vicente no tomo i das 
Obras de Gil Vicente da ed. de Hamburgo, 1834. 

* Obrat de ímís de Camões, i, ed. de Juromenba. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 139 

de D. Maria sara uma prova do explendor que em Portu- 
gal teve a eclosão e deseavolvimenlo das letras. 

Vejamos, agora, quaes foram os escritores mais notá- 
veis que Portugal teve neste período. Já dissemos que foi 
brilhante, embora fugaz, a época do nosso Renascimento. 

De facto ela só começa depois da Reforma, que se ini- 
ciou com as primeiras pregações de Lutero em 1517; 
ora já em 1539 estava estabelecida a Inquisição em Por- 
tugal, e em 1545 os Jesuítas dominavam como soberanos. 
Os sintomas da decadência moral eram já apontados em 
1534 em várias passagens das célebres Cartas de Nicolau 
Clenardo *, como nas obras de muitos escritores da época. 

Não obstante isso, porém, a galeria dos nossos escritores 
é vastíssima, como passamos a vêr. 

POESIA ÉPICA 

SI. — LUÍS DE CAMÕES. Gamões vale por si só uma 
literatura inteira, escreveu Schlegel ^. A frase do notá- 
vel critico alemão é perfeitamente exacta. Irmão, pelo 
génio, de Homero e de Vergílio, Camões simboliza as 
aspirações, a glória e o valor do país, que o viu nascer. '^ 
A literatura portuguesa gira em volta do seu nome. 
Mas ha mais : o Renascimento encontrou nele o poeta, 
que melhor o soube traduzir e cantar em versos imortaes. 



* « . . . soube que meu irmáo não gostava natia de Portugal, o que 
me nSo contrista, não somente porque ele é uma creança que teria 
de lidar com uma mocidade inteiramente perdida — que assim vive a 
mocidade de Espanha, ou melhor, a multidSo de mancebos que do 
nosso país para aqui veio, sobretudo em Lisboa, onde tinha de viver 
6 onde ha uma sociedade de verdadeira libertinagem, mas também 
por causa do nome de que usa, que o meu próprio é, o que me 
valeria, decerto, algumas vezes, a aguentar os desvarios fraternos. . . » 
( Carta 1.*, pg. 5, ed. cit. ). Veja-se também a carta 2.*, tr. de Lopes 
de Mendonça, loc. cit. 

2 Hifit. da lit. antiga e moderna, u, 15, 



110 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



Dá O Qoaie a um povo. Diz-se a pátria de Camões, como 
se diz a pátria de Homero. Dá o nome a uma época. 
Diz-se — o Renascimento produziu Gamões. Isto explica 
que comecemos por ele o estudo deste período. 

^3. — Biografia de Luís de Camões (1524-1580), 
oriundo duma família galíciana, nascido em Lisboa *, fez 
os seus primeiros estudos em Coimbra e começou muito 
cedo a frequentar a corte de D. João III, onde se inicia a 
sua Yida aventurosa e cortada de desgostos, que não mais 
cessaram de o perseguir. Diz-se que foram os amores 
com a dama do paço D. Catarina de Âtaide, que o poeta 
imortalizou sob o anagrama de Natércia, o pretexto para 
o afastar da corte, pretexto facilmente justificado pelo seu 
génio altivo e independente. Em 1547 tendo-se espalhado 
a noticia do cerco de Mazagão, embarcou para Africa 
alistado como soldado, e lá durante dois anos, deu asas 
ao seu temperamento belicoso, perdendo numa refrega 
com os árabes o olho direito. Tendo voltado a Lisboa e 
cumprido a pena de um ano de prisão no Tronco da 
cidade, embarcou para a índia. Era em 1553. Esta 
viajem é decisiva na vida de Camões, cujo cérebro alimen- 
tava já a idéa de cantar 

« o peilo íliustre lusitano 

« a quem Neptuno e Marte oiiedecerani •. 



1 E' a opinião do Bispo de Viseu D. F. Alexandre Lobo, o qual 
escreve porém : « . . . que as três rivaes — Lisboa, Coimbra, Santa- 
rém, continuem embora a disputar entre si o berço do grande poeta : 
a quarta — Alenquer — , nSo tem decerto direito nem fundamento 
algum para entrar na liça ». Vid. Memoria hist. e critica acerca de 
L. de Camões, nas Obras, i. As dúvidas aumentaram depois dos doe. 
produzidos pelo benemérito Sr. Brito Aranha, no Dicc. bibl. Portug., 
XIV, 15 e seg., mas o Sr. Dr. Th. Braga, Camões, Época e Vida, Porto, 
1907, 166 e seg. demonstra cabalmente ser J^ísboa a terra natal do glo- 
rioso Épico. 



CAPITULO III — E9C0LA ITALIANA OU QUINHENTISTA 14i 

E' pouco crivei a tradição que diz que ele durante a 
sua estada ua priscío léra a í.* Década de Barros, que 
aparecera em março de 1552 e que, sugestionado por 
esse poema em prosa da nossa história da índia, lá compo- 
sera nada menos que os primeiros seis cantos dos Lusíadas. 
Qualquer que fosse a idéa geratriz do poema, é certo que 
ele não podia ser composto dum jacto, ininterruptamente. 
Durante vinte e cinco anos, de 1544 ou 1545 a 1570 
trabalhou o Poeta na sua obra prima. « Principiada com 
Ímpeto juvenil, quando tudo parecia sorrir ao apaixonado 
e genial fídalgo-cavaleiro e quando o sol da pátria estava 
perto do seu apogeo, a epopea foi adiantada de vagar, 
após graves estudos e duras experiências e só saiu à luz 
quando a velhice batia á porta e as provas de decadência 
do país se haviam multiplicado *. A viajem á índia tinha 
ainda a vantagem de lhe mostrar os logares, que queria 
descrever. Que melhor resolução poderia pois tomar? 
Em 1553 chegava a Gôa, tendo então mais ocasiões de 
empunhar a espada do que a pena. Foi aqui que ele 
suportou o martírio dum pesado cruzeiro 

« junto de um sfico, duro, estéril monte 
« inútil e despido, calvo e informe » 



(CanfSo X) 



Em 1558 partiu para Macau a exercer o cargo de Provedor 
niór de defuntos e ausentes, a quem compelia arrecadar as 
heranças. Enquanto desempenhava este cargo compôs, 
segundo refere a tradição, ^ na gruta ainda hoje conhe- 



1 Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Bibl Românica, vol. x, « 0$ Lu- 
síadas ». 

2 Numa das suas notáveis Carias de Londres Gonçalo da Gama, 
pseudónimo dum distinto português que viveu sempre no estrangeiro 
[JoSo Frick. 1839-1909] combateu a velha tradiçín procurando 
demonstrar que Camões nunca esteve em Macau, que nem mesmo 
Macau, ao tempo, ainda existia, nSo passando entfto dum covil de 



IÍ2 HISTÓRIA Vk LITEBATUnA POHTUGOUSA 



cida pelo seu nome, a maior parte dos Lusíadas, chegando 
ao canto vn. Chamado a Gôa, o navio, em que embar- 
cara, naufragou na costa de Cambodja, na foz do rio 
Mecon, e a custo ele se salvou e á obra, que tam preciosa 
era. De Gôa saiu para Moçambique em 1567 e dai é 
que partiu para o reino na companhia de Diogo do Couto, 
que o encontrara ( 1568) tam pobre que comia de amigos. 
(Dec. vn, c. 28). Depois de dezaseis anos de desterro 
entrava o poeta na capital do seu pais, agora devastada 
pela peste. Morrera a molher que fora a inspiradora dos 
seus versos, a sua Natércia. Restava-lhe sua mãi, a quem 
jubilosamente, decerto, mostraria a obra que era seu 
orgulho e seu enlevo. Os Lusíadas foram concluidos 
depois da sua chegada a Lisboa, a 7 de abril de 1570, 
sendo o alvará do previlégio para a impressão datado de 
23 de setembro de 1571. Por este tempo foi-lhe roubada 
uma colecção de poesias, que ele intitulara Parnaso. Os 
Lusíadas foram dedicados a D. Sebastião, que galardoou 
o seu autor com a parca pensão anual de quinze mil 
réis *. Gamões viveu ainda oito anos após o aparecimento 



piratas. O mesmo autor aventou a hipótese do poeta ter ido morrer 
« com a espada na mâo, ao lado do seu rei nos campos de Alc.icer- 
Qebir >•. Esta carta tem o título Tradição não é história e foi publi- 
cada no Portugal, n.° 2, de 1907 e transcrita no Oriente Portuguez 
(Nova Goa) n." de abril de 1907. Mas um escritor tam ponderado 
como o Bispo Lobo ( ob. ciL, i, 59 ) exara : «... a demora do Poéla 
em Macau nSo pode pôr-se em duvida sem contrariar, e com pouco 
ou nenhum fundamento, a tradiçSo... ». Quanto era judicioso este 
asserto demonstrou-o o Sr. Jordão de Freitas, Camões em Macau, 
Lisboa, 1911. Que Camões aí viveu durante algum tempo « di-lo 
a tradição constante, repetem-no os mais antigos biográphos camo- 
neanos e conQrma-o um antigo titulo dos bens de raiz do collegio de 
Macau. . . » pag. 7. 

' Poderia corresponder a noventa mil réis da nossa moeda atual e 
foi-lhe3paga pontualmente segundo prova o Visconde de Juromenha, 
mas é bom não esquecer que outros indivíduos de menos méritos 
recebiam mais avultadas somas, sendo por isso para desejar que se 



(^APIUDLO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 143 

da sua obra e teve por isso ocasião de assistir às lutas e 
ás intrigas mesquinhas, levantadas poios seus amigos. 
Mas alguma cousa o abalou mais que essas lutas que o 
seu enorme talento despertava. O desastre de Alcacer- 
Qebir acabava de dar-se, e a dominação de Castela 
batia ás portas de Portugal. Ao seu amigo D. Francisco 
de Almeida, que em Lamego preparava meios de resis- 
tência contra o invasor, Gamões escrevia : enfm, acabarei 
a vida e verão todos que fui tam afeiçoado á minha 
pátria, que não me contentei de morrer nela, mas com 
ela. A 10 de junho de 1580 expirava o maior cantor das 
glórias pátrias. * 

S3. — Camões escritor. Falemos agora do escritor. 
Trcs géneros de poesia, cultivou Camões — o épico, em 
(lue foi inimitável, o lírico, em que pôde dizer-se que ó o 
primeiro do seu tempo e o dramático, em que sobresaiu 
notavelmente. Vejamos por esta ordem as suas obras: 

o) Os Lusiadas sam a nossa epopêa nacional, uma das 
quatro ou cinco grandes epopèas do mundo. O assunto 
indica-o o poeta dizendo que canta as armas e os barões 
assinalados, ou o peilo ilustre lusitano. A descoberta do 
caminho para a índia pelos portugueses deu-lhe motivo de 
expor a história nacional, os feitos heróicos dos portugue- 
ses. Não é, pois, essa descoberta o objecto do seu poema ; 
não é Vasco da Gama o seu herói. O que ele vê na sua 
frente é um povo glorioso, heróico, audaz e uma série 
extraordinária de factos operados por ele, tanto por terra 
como por mar. Dai a idéa da sua obra, a que pôs justis- 
simamente o nome de Lusiadas aproveitando a palavra 



« usasse com ele liberalidade mais generosa do (jue a que inculca a 
tença anual de quinze mil reis », como escreve o Bispo Lobo. 
[ Obras, cit., i, 92 ]. 

í Ou 1579, como sustenta o Sr, Jordão de Freitas ? Vid. Diário rfc 
Noticias de 10 de junho de 1913. 



1/ 



(44 HISTÓRIA DA LITKn ATURA PORTDC.DKSA 

inventada pelo antiquário Resende *. Vasco da Gama 
encarna a alma dum povo; a sua navegação, que o Poeta 
encontrava descrita no Roteiro de Vasco da Gama, na Ásia 
de Barros e no Descobrimento e Conquista da índia de 
Castanheda, forma o nó do excurso histórico do Poema, 
que está dividido em 10 cantos e cada canto em estâncias 
de 8 versos. Contêm ao todo 1,102 oitavas ou 8.816 
endecassilabos. A narração, sempre interessante, é cor- 
tada de descrições e de episódios magistraes, entre os 
quaes avultam o do Adamastor (v, 37-59), o de Inês de. 
Castro (ni, 109-135) o do aparecimento do Indo e Ganges 
a D. Manoel (iv, 68-74), o dos doze de Inglaterra (vi, 
43-67), o da ilha dos Amores (ix, 54-79) etc. etc. 

Porque muito viu e observou nas suas longas viajens, 
o nosso épico sobresai na pintura dos costumes e dos 
factos. O mar encontrou nele um pintor inimitável, como 
se pôde ver na descrição da tromba marítima (v, 18-22), 
e na da tempestade (vi, 70-80). O seu pincel não é menos 
tiel ao descrever os lances duma guerra ; veja-se, por 
exemplo, o formosíssimo quadro da batalha de Aljubarrota 
(iv, 28-44), o da de Ourique (iii, 44-54). Que viveza, e 
fjue colorido não resumbram da pintura dos costumes da 
índia no canto vii ! Que acentos apaixonados ao referir u 
caso de Sepúlveda nas três oitavas (46-48) do canto v! 



i O Sr. t)r. J. Maria Rodrigues nos seus notáveis estudos sobre as 
Fontes dos Lux. (Instituto, li, 734 ) supôs que fora Jorge Coelho, rival 
e amigo de Resende, quem primeiro empregara a palavra Lusíadas em 
obra impressa, embora este a tivesse já usado no Vincentius Levita et 
Martyr ii, v. 195, então inédito. A sr.» D. Carolina Michaelis mostrou 
que a passagem de Resende se achava reproduzida na Oratio pro ros- 
tris, pronunciada na Univ. de Lisboa em 1 de outubro de 1534, o que 
matava a questão. Mas a descoberta recente dum exemplar do raris- 
sirao opúsculo de Resende Cármen eiuditum et elegans... impresso 
fm 1531 reforça singularmente a opiniSo da preclara romanista pois 
pvidencia que o vocábulo Lusíadas já de.sde 1531 corria mundo, 
segundo a frase do sr. A. Rraacamp na comnnicaçílo í Acad. das Sc. 
dt Lisboa de 14 de março do corrente ano de 1913. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA 00 QUINHENTISTA 145 

Que formosíssimos retratos, ás vezes limitados a peque- 
nas pinceladas, os de Viriato (iii, 22 e viii, 6), Serlório, 
(viii, 6 e seg.), D. Fuás Roupinlio (viii, 16 e seg.), Mem 
Moniz (viii, 20), Egas Moniz (iii, 37 e seg., e viii, 13), 
Geraldo sem Pavor (vm, 21), Magriço (vi, 53 e seg.). o 
de D. Maria solicitando de seu pai auxílio para seu marido 
D. Afonso de Castela (m, 102 e seg.), o do Condeslavel 
D. Nuno Alvares Pereira (iv, 14 e seg., e vni, 28 e seg.), 
o de Veloso, no encantador episódio dos Cafres na 
Angra de Santa Helena (v, 30 e seg.)l E* esta galaria 
famosa de valentes e de heróis que numerosas vezes 
llie detêm a pena para romper em hino& patrióticos. 
E' sempre com enternecimento que ele fala do amor da 
pátria, não movido de premio vil (i, 10), do seu ninho 
paterno (Ibid.J, da pátria amada (iii, 21 e 24), da pátria 
chara (ix, 17), da amada terra (v, 3), da nossa terra 
(vi, 42), da ditosa pátria (vm, 32), enfim, da pequena 
casa lusitana (vii, 14). 

Algumas censuras foram feitas aos Lusiadas, como, e é 
a principal, a mistura do maravilhoso pagão com o do 
cristianismo, mas essa censura só deriva do desconheci- 
mento do século em que Camões viveu. Tasso e Milton e 
os outros artistas do Renascimento não procederam dife- 
rentemente. Essa fusão, olhadas as circunstâncias, pôde 
apontar-se até como uma superioridade. 

A ela deveu Camões o interesse e a vida que dão ver- 
dadeiro encanto á leitura da sua obra decorridos mais 
de três séculos. O concílio dos deuses no Olimpo 
(i, 20-41 ), o episódio das Nereidas encostando o peito ás 
nàos para evitar que os Portugueses entrem em Mombaça, 
onde seriam aniquilados (n, 18-14), a descrição de Vénus 
a caminho do Olimpo a suplicar favor para os Portugueses 
(ii, 33-41), a descrição do palácio de Neptuno e a do 
Concilio dos deuses equóreos (vi, 16-34), a descrição da 
Ilha dos Amores (ix, 54-63) enfim, o banquete dado por 
Tétis a Vasco da Gama em que uma ninfa canta os 



146 HISTÓRIA DA LITKRATTTRA PORTUOVXSA 

louvores dos Portugueses (x, 1-73) e tantos outros, são 
uma fonte inexaurível de graça, de variedade, de brilho e 
de encanto *. 

1/ 6) Camões distinguiu-se também no género lírico, 
escrevendo sonetos, elegias, cançôis, eglogas, odes, etc. *. 
O seu lirismo é repassado de grande naturalidade. O cora- 
ção humano, em toda a complexa gama de sentimentos, 
— a ternura, o entusiasmo, o desespero, — toda a paixão, 
toda a vida, sam ás vezes retratados por Camões num 
simples verso. Foram-lhe escola a amarga experiência 
6 a 

« vida 

« mais desgraçada que jamais se viu. » 

(Soneto). 

Nesta obra lírica devemos colocar em primeiro logar 
os sonetos. Conquanto, escreve um crítico eminente, não 
cheguem a trinta os que entre todos se avezinbam da 
perfeição ' e que ainda nesses ache em que topar o 



1 A ed. princeps dos Lusíadas é de 1572 com este Utuio : Os Lusía- 
das de Luís de Camões. Com privilegio real. Impressos em Lisboa, com 
licença da Santa Inquisição, & do Ordinário. Em casa de Antotiio 
Gõçalvez impressor 1572, 4.° Sobre esta ed. devemos notar o seguinte : 
1.») Ha duas impressõis do mesmo ano de 1572, aparentemente 
iguais, mas vê-se que numa o pelicano, que vem gravado no frontes- 
pício, tem o bico voltado para a direita do leitor, e na outra tem-no 
voltado para a esquerda. Parece ser aquela, de facto, a 1.», reim- 
pressa, entre outras, na ed. do Morgado de Mateus ; 2.") Ao contrário 
do que se tem afirmado a censura nesta 1.* ed. foi tolerante e bené- 
vola, nSo sacrificando em nada a integridade do texto, como aconteceu 
na ed. de 1584, por exemplo. 

2 A ed. princeps das líricas foi publicada com este titulo : fíythmas 
de Lvis de Camoens divididas em cinco partes. . . Anno de MDLXXXXV, 
Á custa de Estevão Lopes, mercador de livros. 

» Quinze do género erótico — 14, 24, 30, 34, 35, 40, 41, 53, 70, 78, 
81, 84, 147, 185, 186 ; doze de géneros diversos ~ 6, 59, 88, 96, 100, 
108, 173, 228, 237, 238, 239, 254. 



CAPITDLO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 147 

reparo de um jniz escrupuloso é certo que uenhum dos 
mais merece iuteiro desprezo, mas antes em quase lodos, 
seja nos pensamentos, seja nos afectos, seja na expressSo 
e na melodia, só encontra motivo de louvor e aparece o 
grande talento de Gamões *. 

Que poderemos afirmar àcêrca da interpretação da lírica 
camoneana modernamente estabelecida e que a filia na sua 
paixão pela Infanta D. Maria ? Teremos de abandonar a 
tradição que dizia ter sido Catarina de Ataíde a dama que 
mais lhe prendeu o coração, e que ele cantou sob o ana- 
grama de Natércia ? Terá esta de passar para um segundo 
plano, uma das várias damas cantadas pelo namorador 
incorrigível, que foi Gamões, para se dar o logar que ela 
até hoje ocupava á Infanta D. Maria, a formosíssima filha 
de D. Manoel, a ilustrada e altiva figura intelectual e moral 
mais distinta do seu tempo ? É inquestionável que muitas 
das circunstâncias da vida do Poeta e da Infanta se har- 
monizam perfeitamente com as líricas camoneanas, que 
estas parecem ser vistas a nova luz quando se supõem 
traduzir esse sentimento apaixonado do Poeta, ao qual, é 
certo, a Infanta não correspondeu, não o tendo talvez 
mesmo sequer presentido. Mas estas aproximaçõis feitas 
por um juizo cauteloso e erudito, como o possue o autor 
desta interpretação, podem parecer meras coincidências, 
opiniõis subjectivas, ainda dependentes de factores igno- 
rados de novos e mais decisivas investigaçõis ^. 

c) Para o teatro escreveu Gamões três autos — 
Amfitriões, moldado pela comédia do mesmo nome de 
Plauto ', versando um assunto mitológico — Amfitrião, 



^ D. Fr. Alex. Lobo, Mem. . . acerca de Camões, já cit., 118. 

2 Sr, Dr. J. Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Coim- 
bra, 1910, 1 vol. 

' Sobre Plauto vid. a nossa Introd. á Bist. da Lit. poriug., 3.* 
ed., 1911, 154. 



148 HISTÓRIA DA LITBBATUHA PORTDGDESA 



casado com ÁlcmeDa, parte para a guerra. Júpiter dis- 
farça se e consegue passar junto da esposa como seu 
verdadeiro marido. Mas este regressa e a scena compli- 
ca-se perante os dois Amfitriões, até que Júpiter declara 
quem é e explica que o seu intuito foi honrar a descen- 
dência de Amfltrião fazendo com que de Alcmena nascesse 
o invencivel Hércules. Esta comédia foi escrita, parte em 
casteltiano, parte em português, diz-se, quando ainda fre- 
quentava a Universidade e representada pelos estudantes, 
conforme o costume do tempo. Elrei Seleuco sobre um 
facto muito tratado na antiga tiistória de Roma, — Antíoco, 
filho do rei Seleuco apaixona-se por Estratónica, sua 
madrasta. Impossibilitado de confessar a sua paixão 
adoece e definha dia a dia. Mas o médico chamado para 
o tratar descobre o motivo da doença e leva o rei a 
ceder-lhe por esposa a bela Estratónica — intriga em 
que se quis ver uma alusão aos amores de D. .loão III, 
ainda principe, com sua madrasta a rainha D. Leonor *; 
a terceira e última — Filodemo escrita para as festas da 
investidura no cargo de governador de Gôa de Francisco 
Barreto. Dos amores dum fidalgo português nascem duas 
crianças — Filodemo e Florimena que, ficando órfãos de 
pai e mãe, sam recolhidos e creados por um pastor. Com 
o tempo Filodemo vem a entrar ao serviço de D. Lisu- 
dardo, seu tio, que tem um filho e uma filha. Ninguém 
suspeita do parentesco. Os primos namoram-se e acabam 
por casar desvendando-se então o mistério desse paren- 
tesco. Não deslustram estas obras o alto conceito que 
possamos formar do maior dos nossos poetas *. Nelas, 



» Sr. Th. Braga, Eschola de Gil Vicente, Porto, 1898, pg. 204 e seg. 

2 Os autos Filodemo e Amfitriões saíram pela primeira vez, 
em 1587, publicados juntos aos de António Prestes : Primeira parte 
dos Autos e Comedias portuguesas, por António Prestes e por Luís de 
Camões, etc, por André Lobato, impressor de livros, 1587, 4.* de 
179 pg. Vid. a ed. popular — Comedias de L. de Camões, Lisboa, 1880. 



CAPITOT-0 III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 149 

afastando-se bastante da inspiração clássica, ligou-se Camões 
antes á escola popular de Gil Vicente, de quena adeaute 
falaremos *. 

^4. — JERÓNIMO CORTE-REAL (1533-15 nnv. 1588) * 
figura com destinçâo entre os que, depois de Gamões, 
cultivaram o género épico. Da sua vida, muito pouco 
conhecida, apura-se que fora muito novo militar na índia 
e em Africa, tendo-se encontrado no posto de capitão a 
pelejar em Tanger no dia em que foi morto o famoso 
fronteiro D. Pedro de Meneses em 18 de maio de 1553. 
Conta Faria e Sousa que ele se oferecera a D. Sebastião 
para o acompanhar á jornada de Africa, mas. que o 
monarca o dispensara, como a outros, por a sua avan- 
çada idade não lhe permitir sofrer os rigores inevitáveis 
da guerra. A sua velhice deveria tê-la passado em Vale 
de Palma, junto a Évora, consagrada, talvez inteiramente, 
á composição das obras poéticas que nos legou e sam : 

a) Segundo Cerco de Diu, poema em 21 cantos, em 
endecassilabos soltos ^, muito elogiado por Francisco 



^ Para a biografia de Camões vid. : Sr. Th. Braga^ Hist. de Gamões, 
3 voll, ; O. Martins, Camões, os Lusíadas e a Renascença, l vol., 1891, 
e sobretudo, Wilhelm Storck, Vida e Obras de Luis de Camões, i, 
Lisboa, 1898, tr. da Sr.* D. C. M. de Vasconcelos ; Bispo de Viseu, 
Memoria já cit., etc. Para a bibliogr. vid. : Sr. Th. Braga, Bibliogr. 
Camoniana, Lisboa, 1880; Sr. Joaquim de Vasconcelos, Bibliogr. 
Camoniana, Porto, 1880 ; Sr. Brito Aranha, ob. cit., etc. O Sr. Xavier 
da Cunha publicou ha pouco Uma carta inédita de Camões, Apographo 
existente na Bibl. Nac. de Lisboa, Coimbra, 190i. O Sr. Dr. J. Maria 
Rodrigues anda publicando no Instituto interessantíssimos artigos 
sobre as Fontes dos Lusiadas. 

2 Datas conjecturais fintadas por A. F. Barata no estudo Subtidios 
para a biogr. do poeta J. Corte-Real, etc, folh. de 25 pg. impresso em 
Évora, 1899 ; id., Eoora e seíis arredores, 1 vol., Évora, s. a. [ 1904 ] ; 
S. Viterbo, Trabalhos Náuticos, u, 182, Qxa a data do falecimento 
em 1588. 

' 1." ed. de Lisboa, Ant. Gonçalves, 1574 ; outra ed. de 1783. 



i50 HISTÓRIA DA LITERATOUA PORTOGOKSA 

de Andrade, Andrade Caminha, AdIóqío Ferreira e Diogo 
Bernardes. 

b) Naufrágio de Sepúlveda, em 17 cantos, verso solto, 
sobre o mesmo assunto das Ires estâncias dos Lusíadas 
acima mencionadas *, publicado quatro anos depois da 
sua morte por um dos herdeiros *. 

c) Austriada, sobre a batalha de Lepanto ganha por 
D. João de Áustria, oferecido a Filipe 11 de Castela, 
escrito em espanhol, em endecassílabos soltos, com 15 
cantos ', também muito elogiado por Caminha e Ber- 
nardes. 

d) Auto dos quatro novíssimos do homem, poemeto em 
versos soltos, de 23 pg. apenas, só publicado em 1768. 

Muitos dos seus admiradores chegaram a colocá-lo 
acima de Gamões referindo-se também, com hiperbólicos 
exageros, ao seu talento como pintor. Parece que ele 
ilustrou as suas próprias obras e dele serão, talvez, 
dons quadros, um das Almas, e outro da Mocidade e 
Velhice, aquele ainda hoje existente na igreja de Santo 
Antão de Évora, e este de que se sabe a existência por 
uma poesia sua, inédita, a que se refere Rackzinski *. 

A todos estes elogios deu a critica imparcial o respe- 
ctivo desconto. Como poeta Corte-Real tem nas suas 
obras alguns episódios de muito merecimento e descri- 
çõis traduzidas com grande vigor e colorido. Como 
pintor o seu valor é medíocre °. 

O que se deduz do pouco que os documentos nos 
deixam adevinhar é que Corte-Real, fldalgo, soldado, 
poeta e pintor, passou uma existência adulada e satisfeita, 



* l.« ed. de Simão Lopes, 159i ; outras ed. de 1783 e 1840. 

* A descriçSo pormenorizada desle naufrágio pôde lêr-se em Inácio 
da Costa Quintela, Anaes da Marinha Portuguesa, pg. 432 e seg. do 
1.» vol. 

» 1.» ed. de Lisboa, Ant. Ribeiro, 1578. 

* Lei artt en Portugal, 218. 

^ Cfr. C. Rackzinski, Dicl. hitt. et art. du Portugal, 56. 



CAPITCLO III — ESCOLA ITALIANA OU QC.NHENTISTA 151 

rodeado da consideração dos seus coDlemporâDeos, sem 
as amarguras que Irituravam a alma do imortal épico, 
que os invejosos colocavam em plano inferior. 

S55. — LUÍS PEREIRA BRANDÃO ( 1540?-?), do Porto, 
é autor do poema Elegiada * sobre o desastre de Alcácer 
a que assistiu, lendo acompanhado D. Sebastião á África. 
Ficou prisioneiro em Alcácer, conseguindo só tarde o 
resgate. Foi sobre essa pavorosa catástrofe que escre- 
veu o seu poema, em 18 cantos e oitava rima. Francisco 
Dias Gomes, o erudito e consciencioso critico julgava a 
Elegiada como a obra mais infeliz que apareceu em Por- 
tugal no século de quinhentos, a qual mais desonra a 
nação do que a acredita. Seu autor, continua ele, fez 
no estilo muitas e indiscretas inovaçôis, que o inundam 
dos mais enormes vícios de locução ^. Garrett não foi tão 
rigoroso na apreciação da obra de Luís Pereira Brandão. 
Tem, escreveu, excelentes oitavas, algumas descriçõis 
felizes, grandissima riqueza de lingoagem, mas pouco 
mais ^. 

se. — FRANCISCO DE ANDRADE ( 1540?-1614), de 
Lisboa, é mais historiador que poeta. Como historiador 
escreveu a Chrónica de D. João III, mais notável pela 
lingoagem, que pelo critério com que foi redigida *. Gomo 
poeta, àlèm da tradução dum pequeno poemeto lírico — 
Philomena de S. Boaventura, ^ deixou-nos o Primeiro cerco 



1 1.» ed. de Lisboa, por Manoel de Lyra, 1588, 8." de iv-286 folhas, 
reimpresso por Bento José de Sousa Farinha em 1785. 

2 Obras de F. Dias, 41. 

5 Parnaso Lusitano, i, xxvii. 

* Lisboa, JoSo Rodrigues, 1613. Outra da Imp. da Univ, de 
Coimbra, 1796. 

^ Reimprimi-o segundo cópia manuscrita, tendo-se perdido o 
único exemplar impresso conhecido, no Árchivo Bibl. da Bibl. da Univ. 
de Coimbra, d.<" 5-7 de 1907, de que se fez separata. Francisco de 



152 HISTÓRIA DA LITERATURA POBTUQUESA 

de Diu, poema em 20 cantos e oitava rima * escrito na 
lingoagem castigada dos autores do seu século, bem 
versificado, mas sem interesse artístico, pondo em relevo 
a figura heróica de D. João de Castro. 

POESIA LÍRICA 

55r. — BERNARDIM RIBEIRO (1482-1552), da vila 
do Torrão, no Alentejo, era filho de Damião Ribeiro e 
de Joana Dias Zagalo. Implicado na conspiração contra 
D. João II, Damião Ribeiro fugiu para Castela não conse- 
guindo ainda assim evitar a cólera do monarca, por 
ordem do qual foi assassinado. Bernardim Ribeiro, 
então de dois anos, juntamente com sua mãi e uma 
irmã refugiou-se em Sintra em casa de seus primos 
Zagalos, que habitavam a Quinta dos Lobos -, a protecção 
dos quaes o amparou até se bacharelar em leis ( 1511 ) na 
Universidade, que então estava em Lisboa. Contava a este 
tempo 32 anos. D. Manoel e mais tarde D. João III 
nomeáram-no escrivão da câmara. A paixão por sua 
prima D. Joana Tavares Zagalo foi funesta para ele e 
para esta, que se viu forçada por interesses de familia a 
casar com um tal Pêro Gato. D. Joana morreu, prova- 
velmente doida, no convento de Santa Clara de Estremoz. 



Andrade ainda fez mais duas trad. que sSo : — Chronica do valeroso 
e invencível capilão Jorge Castrioto . . . escrita em latim por Marco 
Balercio Scutarino... Lisboa, 1367; e Instituição de El-rei, escripta 
em latim por Diogo de Teive ou Epodos que contem sentenças úteis.. . 
trad. em verso solto, Lisboa, 1786. Outra ed., 1803. 

1 Coimbra, 1389, 4." ; 2.« ed. 1852. 

2 A topografia desta Quinta foi estudada cou muito cuidado pelo 
professor Sr. A. Maria de Freitas (Nicolau Florentino). « Fica no 
concelho de Sintra, côrca de um kilomelro a leste da estrada de Mafra, 
com a qual está ligada por meio dum ramal ». Vid. a carta do referido 
escritor em Th. Hraga, Bernardim Ribeiro e o Bjculismo, Porto, 1897^ 
pg. 23, nota. 



CAPITULO III — ESCOLà ITALIANA OD QUINHENTISTA 153 

Bernardim Ribeiro morreu também doido no Hospital de 
Todos os Santos, era Lisboa, em 1552. Em escritor 
nenhum talvez é tam necessário o conhecimento dos 
dados biográficos. Eles é que nos ajudam a compreen- 
der as suas obras e constituem o seu melhor comentário. 
O entrêcho da Menina e Moça * notável pela simplicidade, 
pela candura e pela saudade, « cujo poeta foi e cujos 
suaves tormentos tam longo padeceu e tam bem pintou » ^ 
tinha ficado inexplicável até ha poucos anos, porque por 
muito tempo se supôs que a famosa novela descrevia a 
paixão que o autor ousara ter pela infanta D. Beatriz, 
filha de D. Manoel, depois casada com Carlos III, duque 
de Sabóia '. 

Confiando-se nessa tradição avigorada pela prohibição 
inquisitorial da novela — posta no Index em 1581 só de lá 
foi retirada em 1640 — dizia-se que o poeta quando a 
infanta partira para Itália a desposar o duque Carlos, 
se fora até lá em trajo de mendigo, tendo de voltar á 
pátria desiludido e pobre *. Este lado romântico da 



* A primeira ed. é de Ferrara, 1354, saindo com este título, 
Hystoria de Menina e Moça... agora de 7iovo estampada e con suma 
deligencia emendada e assi alguas eglogas suas. . . A mais antiga ed. 
que se conhece é de 1557 : Primeira e segunda parte do livro chamado 
« -áí saudades de Bernardim Ribeiro » com todas as obras. Trasladado 
do seu próprio original. Novamente impresso 1557. No fim : « impri- 
miose estas obras. . . na muito nobre e sempre leal cidade de Évora 
em casa de André de Burgos ». Em 1891 apareceu uma ed. da 
Menina e Moça, prefaciada e revista pelo Sr. D. José de Pessanha e 
em 1905 outra dirigida pelo Sr. Delphim Guimarães. Sobre B. Ribeiro, 
vid. : Costa e Silva, Ensaio cit., r, 102 e seg. : D. C. M. de Vascon- 
cellos, Poesias de Sá de Miranda, 767, id., Geschichte cit., 291 ; 
Sr. Th. Braga, B. Ribeiro ; acima cit. ; Mt>néndez y Pelayo, Origenes 
de la Novela, Madrid, 190o. 

* Garrett, Parnaso Lusitano, já cit. 

3 Vid. S. Viterbo, O dote de D. Beatriz de Portugal Duqueza de 
Saboya, Lisboa, 1908. 

i Faria e Sousa, Europa Portuguesa, ii, Lisboa ( 1679 ), p. iv, 
c. 1.», 549. Garrett idealizou sobre a vida romântica de B. Ribeiro 



154b UISTÓBU DA LITBRATDBA POHTUâOESA 

vida de Bernardim Ribeiro desapareceu á luz de inves- 
tigaçõis modernas. Foi o Visconde de Sanches de 
Baèna * quem lançou inteira luz sobre a vida do poeta, 
e como consequência, sobre a Menina e Moça. Abre 
a novela pelo monólogo duma donzela, a Menina e Moça, 
seguido de um diálogo com certa dama ; vem depois 
a história de Lamentor e Bimnarder, novela de cava- 
laria, com alguns versos, contada pela mencionada dama, 
terminando por várias églogas e poesias, alheias no 
fundo á novela, embora com tal ou qual relação, ao 
parecer, com os amores nela comemorados ^. Para se 
compreender é ainda preciso tomar conta em que as 
personagens sam designadas por meio de auagramas. 
O romance passase em Sintra. Bimnarder (B. Ribeiro) 
apaixona-se por Âonia (D. Joana Tavares), que tem uma 
irmã chamada Belisa (D. Isabel), filhas uma e outra de 
Enis (D. Inês Álvares Zagalo). Aonia casa forçadamente 
e depois de breve resistência com Fileno ( Pêro Gato ). Ao 
ver passar o cortejo Bimnarder a foi-se e não no viram 
mais » ^ 



o sea formoso drama Um auto de Gil Vicente, que embelezou com 
muitos pontos da sua fantasia, como a entrega do anel á nova duquesa 
de Sabóia durante a representação das Górtes de Júpiter [ Auto de G. 
Vicente que dá^ afinal, sem grande motivo, o título ao drama de 
Garrett] á qual, disfarçado de moura encantada B Ribeiro consegue 
assistir, e o finai do 3.° acto a bordo do galeão S. Catarina. Prestes 
a ser surpreendido por D. Manoel o poeta arroja-se ao mar entre as 
sombras da noute. Cfr. Menéndez y Pelayo, Origenes de la Novela» 
Madrid, 1906, pg. coxuii. 

^ Bernardim Ribeiro, Lisboa, 1895. 

2 Varnhagem, Da Literatura dos livros de cavalaria, ob. cit., 
pg. Ii3. 

3 Recentemente foi apresentada nova interpretaçSo das figuras da 
novela pelo Sr. Patrocínio Ribeiro, de Beja, em comunicação à Aead. 
das Sc. de Portugal, sessão de 31 de Julho de 1912 e num art. publi- 
cado no Diário de Noticias, n.» de 6 de agosto do mesmo ano, segundo 
a qual a bem-amada de Bernardim seria uma obscura poetisa, D. Leo- 
nor Mascarenhas ( 1503-1584). 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 155 

Tal a história que é narrada em xxxi capítulos e a 
que B. Ribeiro não deveria, decerto, ter posto o nome 
de Menina e Moça, pois não é a história da Menina a que 
se conta no livro ; ela é que conta histórias alheias. Trinta 
e um capítulos tem o livro na 1.* ed. de Ferrara ( 1554 ), 
raríssima. Todas as demais ed. trazem uma continuação 
que a maioria dos críticos tem como não escrita por B. 
Ribeiro, embora alguns trechos possam, de facto, ser dele. 
Esta Segunda parte ... a qual é declaração da primeira vem 
já na ed. de Évora de 1557, que serviu de tipo ás poste- 
riores... A diferença de carácter, imaginação e estilo 
entre as duas partes é evidente. A primeira é uma novela 
subjectiva, uma análise de paixão ; a segunda uma novela 
inteiramente externa e de aventuras, que não sai do tipo 
geral das da sua classe. As personagens são novas em 
grande parte. Bimnarder e Aonia passam a segundo plano 
e só em metade da obra se fala deles. O herói é Avalor 
(Álvaro) enamorado de Arima (Maria). Talvez o con- 
tinuador aproveitasse alguns fragmentos que deixasse 
B. Ribeiro para os primeiros capítulos, que são melhores 
que os restantes. Na história de Arima e Avalor ha cou- 
sas, o cap. XI, por exemplo, que têem toques delicados 
podendo bem ser de B. Ribeiro *. 

Como obras poéticas temos de Bernardim Ribeiro, àlêm 
doutras poesias menores, cinco eglogas notáveis pela 
naturalidade e que constituem também um comentário 
precioso â sua vida acidentada ^. São estas obras poé- 
ticas que lhe dão direito a que o consideremos como o ^ 
fundador da poesia bucólica em Portugal, género em que ^ 
foi seguido por Gamões, Falcão, Bernardes e tantos 



1 Menendez y Pelayo, ob. cit. 

2 Egloga I : Pérsio e Fauno ; u : Jano e Franco ; iii : Silvettre e 
Amador; iv : Jano; v : Ribeiro e Agrestes. Para a interpretação destas 
eglogas vid. Bernardim Ribeiro, do Sr. Th. Braga, cit., pg. 70 e seg. 



i56 HJSTÓaiA DA UTERATiraA P0RTC6US8A 

outros que produziram verdadeiras obras de mérito, sem 
todavia o excederem. 

Pelo sentimento e suavidade dos afectos, doçura do 
estilo, vernacuUdade da lingoagem, sempre portuguesa, 
não tendo escrito, como Ferreira, uma só linha em 
espanhol, B. Ribeiro constitue um alto modelo a citar. 
Ensaiando as suas extraordinárias faculdades em poesias 
miúdas * é com as églogas de beleza incomparável, e com 
a prosa igualmente artística e bela das Saudades, onde se 
lêem as três lindas poesias Romance de Avalor, Ao longo 
de uma ribeira, e Pensando-vos estou, filho, - todas impre- 
gnadas do mesmo mistério, do mesmo sonho, da mesma 
profunda tristeza, que B. Ribeiro cria o género bocólico 
em Portugal ocupando o alto logar iudisputado, que 
deixamos dito. 

^8. — CRISTÓVÃO DE SOUSA FALCÃO ( 1510?-1553 ) 
foi natural, como o antecedente, seu contemporâneo e amigo, 
do Alentejo, de Portalegre, onde nasceu por 1510 ^ sendo 
seus pais João Vaz de Almeida Falcão, capitão da Mina, 
e D. Beatriz Pereira. Não se conhecem, com precisão, as 
datas do seu nascimento e morte, mas pode dizer-se, dum 
modo geral, que a sua vida coincidiu quase com o reinado 
de D. João III (1521-1557). Este monarca consagrou-lhe 
muita estima, como o prova o facto de o mandar numa 



* Canc. geral, ed. de Sluttgard, vol. m, 389 e 539- 5i4. 

2 O romance de Avalor vem intercalado no Livro ii e já saiu impresso 
Da ed. de Ferrara; Ao longo de uma ribeira foi incluido por Garrett 
no seu Romanceiro, m, 135-182; o Pensando-vos... encontra-se no 
cap. 21 da Parte i. 

Vid. Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Estudos sobre o romanceiro penin- 
sular, já cit., pag. 262-264. 

* Ha grande flutuação nas datas relativas a este poeta, dada a 
escassés de indicações biográficas. As que damos sio da Sr.* D. C. M. 
de Vasconcelos, nos Estudos, cit. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA i57 

espinhosa missão diplomática a Roma, em 1542. A ins- 
piradora dos seus versos foi D, Maria Brandão por causa 
de quem, a instigação dos parentes desta, esteve preso 
durante cinco anos e com quem havia contraído casamento 
clandestino, mas que os pais encerraram no mosteiro 
cisterciense de Lorvão para não sancionarem uma união 
que, sob o ponto de vista dos interesses materiais, eslava 
longe de ser vantajosa. A isto alude o Poeta quando 
escreve : 



EnquerirSo o que teria 
e do amor nSo caidarSo 



EntSo descontentes d'isto 
levárSo-na a longas terras 
esconderáo-na entre serras 
onde o sol n5o era visto. 



Passados anos D. Maria abandonava a clausura mas 
para esposar um tal Luis da Silva, que foi capitão de 
Tanger. Dizia-se até há pouco que o Poeta ralado de 
desgostos, se fora até à índia, a combater. Afinal apu- 
rou-se recentemente que ele preferiu a aventuras proble- 
máticas o remanso conjugal, matrimoniando-se por sua 
vez com uma tal D. Isabel Caldeira, senhora de Alter do 
Chão, que faleceu em 1553. O Poeta sobreviveu-lhe, 
vindo talvez a morrer em 1558 e deixando um filho natu- 
ral de nome Cristóvão Falcão de Sousa *. O prosaismo 
dos factos sucedendo à romântica lenda em nada afecta 
a maravilhosa beleza da pequenina obra prima, que é o 
Crisfal, onde ele conta a história dos seus amores, forne- 



1 Cfr. a CristovSo FalcSo, ainda algans subsídios para a sua 
biografia » por António Sardinha na Rev. lit. se, e artist. do Século, 
n.» de li de dez. de 1905. 



158 HISTÓRIA DA LITERATUItA PORTUGUESA 

cendo para isso vários dados autobiográficos e qne anda 
precedida duma Carta, que principia 

Os presos contSo os dias 
mil anos por cada dia ; 

escrita sob a mesma sentida impressão passional. Mas é 
a egloga Crisfal ( assim chamada das primeiras sílabas do 
nome do autor), (900 versos) * já muito admirada no seu 
tempo e que muito se destingue por aquela suavidade e 
tiarmonia de sentimento, que se notam nas obras de 
Bernardim Ribeiro, que lhe marca logar imorredouro na 
história das letras portuguesas. 

Procurou-se recentemente dar a autoria desta égloga 
ao mavioso Poeta das Saudades ^. O criplónimo Crisfal 
não está a indicar o nome de Gris(tóvão) Fal(cão), mas 
formou-se de crisfma) fal(so), nada tendo, portanto, com 
o nome daquele indivíduo, que não passaria dum simples 
fidalgo, por sinal, de apoucados recursos intelectuais, 
como o deixa ver uma sua carta repleta de erros ortográ- 
ficos. Todavia nenhum argumento concreto, nenhum 
testemunho positivo, nenhuma informação directa e obje- 
ctiva conseguiram firmar a nova hipótese e abalar a 



» Vid. (X)ras de Gbr. Falcão, ed. do Sr. Th. Braga, Porto, 187i, e 
sobretudo a ed. do Sr. Epjphanio da Silva Dias, Obras de Chr. Falcão, 
ed. critica anotada, Porto, 1893; o Sr. Delfim GuimarSes fez também 
uma ed. sob o titulo Trovas de Crisfal, Lisboa, 1908, atribuindo-as 
segundo a sua convicção, a Bernardim Ribeiro. 

2 Esta opinião foi sustentada com raro brilho pelo ilustre publicista 
Sr. Delfim Guimarães no vol. Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal) — 
subsidios para a história da literatura portuguesa, Lisboa, 1908; Id. — 
Theophilo Braga e a lenda dn Crisfal, Lisboa, 1909. Perfiihou-a um 
escritor brasileiro de talento — Silvio (FAImeida, A mascara do Poeta, 
Lisboa, 1913. Mas a doutrina clássica «ncontrou um defensor de 
raras aptidõis que desfez com clareza as miragens — Raul Soares, 
O Poeta Crisfal, subsidias para o estudo de um problema histórico- 
literário. Campina, 1909. 



CAPITULO m — ESCOLA ITALIANA OU QUIITHENTISTA 159 

tradição antiga, que se funda em testemunhos indestru- 
tíveis como os das ediçõis de Ferrara — 1554, Colónia 
— 1559, de Diogo do Couto (1542-1576) e Faria e 
Sousa (1590-1649), para não citar todos os outros já 
mais tardios. Se Bernardim é positivamente o autor das 
Saudades porque não será Cristóvão Falcão o autor do 
Crisfal? Porque na sua carta não ha gramática nem 
ortografia? Mas diremos que Camões não escreveu os 
Lusíadas porque igualmente numa carta sua, certamente 
autentica, ha, como escreveu o editor dela, « incorrecções 
não somente numerosas, mas até mesmo escandalosas ? » * 
Deve, portanto, subsistir a longa tradição indisputada, até 
prova em contrário ^. 

SO. — SÁ DE MIRANDA (por 1485-1658), ^ de Coim- 
bra, filho de Gonçalo Mendes de Sá, fez os seus estudos 
na Universidade começando a usar o título de Doutor 
(em leis) desde 151G. Vivendo na corte de D. Manoel 
desde tenros anos, o poeta não se deixou absorver pela 
insânia dos prazeres, geral no tempo daquele monarca. 
O seu espirito reflexivo e meditabundo, o seu amor ao 
estudo e á solidão não se casavam com a vida buliçosa 
da corte do rei venturoso. Devia ser, pois, sem custo e 
até com prazer que ele em 1520 abandonava o seu país, 
dirigindo-se a Itália, cuja literatura brilhava então com os 
nomes de Ariosto ( 1474-1533) e Sannazzaro (1458-1530). 
Pôde supor-se o que o ânimo perspicaz e investigador 
de Sá de Miranda não faria num meio tam diferente 



1 Compare-se a Carla de Falcão em Delfim Guimarães, Bernardim 
Ribeiro, ob. cit, pag. 158 com a de Camões no Boi. das Bibl. e Ârch. 
Nac. Coimbra, 1904, pag. 28. 

2 «I Por ora não-convertida continuarei a diferençá-los » diz a Sr." 
D. C. M. de Vasconcelos nos Estudos sobre o Romanceiro, pag. 292, 
nota (3). 

' Datas fornecidas por Sousa Viterbo, Estudos S(^bre Sa de Uiranda^ 
Coimbra, 18. 



160 HISTÓRIA OK LITKBATCRA PORTUSURSA 

daquele que, cheio de tédio, abandonava. Cinco ou 
seis anos o poeta esteve por lá visitando Turim, Roma, 
Florença, Veneza, Nápoles, pondo-se em contato com os 
espíritos mais eminentes, que então ilustravam a Itália. 
Ao voltar á pátria em 1526, começou a renovação literá- 
ria, que imortaliza o seu nome — reavivando os antigos 
metros nacionais, com os vilancetes, cantigas, esparsas, 
glosas, sátiras, etc, introduzindo a inovação do ende- 
cassílabo italiano, ensinando a estrutura do soneto * e 
da canção como usava Petrarcha, os tercetos á maneira 
de Dante, ou enlaçados em elegias e capítulos á maneira 
de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccacio, e Ariosto, 
e as eglogas de Sannazzaro com os seus versos enca- 
deados, abrindo assim uma nova era que havia de atingir 
em i572 o ponto culminante com a publicação dos Lu- 
síadas -. Gompete-lhe, pois, bem o título de reformador 
não só da forma, mas também e sobretudo de novos 
ideais e mais vastas inspiraçõis. Ao lado do renas- 
cimento clássico bebido em Vergilio, Horácio, Flauto e 
Terêncio vinham os modernos, os príncipes da poesia — 
Dante, Petrarcha, Ariosto, etc. A celeuma que levantou 
a sua empresa, junta aos desgostos que a vida da corte, 
em que novamente se achara envolvido, lhe provocaram, 
fizeram certamente com que de todo se afastasse para o 
remanso da solidão, declarando então que 

Homem d'um só parecer, 
D'um só rosto e díía fe, 
D'ante8 quebrar que torcer, 
Outra cousa pôde ser, 
Mas de corte homem não é. > 



1 Sobre a origem desla forma poética veja-se René Doumic — 
Une histoire de Sonnet na Rev. de Deux-Mondes, 190i, n, ikk. Em 
Portugal, Sr. Dr. J. Jeite de Vasconcelos. O Doutor Storck e a Litera- 
tura Portugueta, Lisboa, 1910, pag. 71 c 154 nota. 

2 Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Poesias de Fr. de S. de Miranda, 
ed. cit. na nota seguinte. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OD QUINHENTISTA 161 

O seu retiro voluntário foi a Quinta da Tapada, no 
Minho, e data de 1536, ano em que se realizou tanabêm 
o seu casamento com D. Brioianja de Azevedo, a fiel e boa 
companheira que, pelo seu falecimento em 1555, fez com 
que o poéla começasse a morrer logo também para todas as 
cousas do seu gosto. A sua morte deu-se a 15 de março 
de 1558. 

As obras de Sá de Miranda compreendendo cartas, ele- 
gias, canções, sonetos, etc, e duas comédias, em prosa, 
Estranjeiros e Vilhalpandos, sairam à luz pela primeira 
vez em 1595 em edição feita á vista dum apógrafo tirado 
directamente dum vol. de mão e letra do próprio Miranda. 

Recentemente duas novidades literárias alargaram o 
âmbito dos nossos conhecimentos acerca de Miranda e 
permitiram uma análise mais profunda e mais intima da 
sua individualidade. Foi uma delas o aparecimento dum 
caderno com poesias autografas que nos mostram o autor 
no acto psicológico da sua elaboração, na sua maneira dev 
escrever e de corrigir e emendar o que escrevia. Por uma 
nota aposta a uma das poesias incluidas nesse caderno 
ficamos sabendo também que Miranda escreveu uma 
tragédia, ao gosto clássico, hoje inteiramente desconhe- 
cida, e a que dera o titulo de Cleópatra e que seria 
importantíssima para determinar o logar que nesse género 
conviria dar ao seu aulòr *. 

A outra novidade de assunto mirandino foi a pubHcação 
do poemeto Vida de Santa Maria Egipciaca, escrito em 
redondilhas, dado a lume só recentemente pelos cuidados 
do Sr. T. Braga, o qual. o supõe redigido nos últimos 
dois anos da vida de Sá de Miranda ^ 



^ Vid. Sr.* D. C. M. de Vasconcelos, Novos estudos sobre Sá de 
Miranda, Lisboa, 1911, 1 vol. 

2 Cfr. A Egipciaca Santa" Maria pela primeira vez publicado por 
Th. Braga, Porto, 1913. O assunto foi tratado também por Leonel da 
Costa, i4 conversão miracttlosa de felice Egípcia penitente Santa Maria, 
sua vida e morte, Lisboa, 1627. 



16S HISTÓHIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

Entretanto o principal título de glória de Sá de Miranda 
consiste nas cartas cheias duma sã filosofia e escritas com 
admirável simplicidade, o que fez dizer a Garrett que Sá de 
Miranda filosofou com as musas e poetizou com a filosofia *. 

eo. — ANTÓNIO FERREIRA (1527-1569), de Lisboa, 
preparou-se com uma forte erudição na Universidade, que, 
tinha ele nove anos, fora definitivamente transferida para 
Coimbra. Nela cursou os estudos e se doutorou em 
Direito Canónico, dizendo-sè que aí ficara lécionando. 
É, porém, certo que dois anos depois já se achava em 
Lisboa, sendo possível que voltasse, continuando a sua 
convivência com propugnadores do renascimento como Sá 
de Miranda, Diogo de Teive, Manoel de Sampaio, António 
de Castilho e Jorge Buchanan e aprendendo a conhecer a 
fundo os autores clássicos, em que depois tam superior- 
mente se inspirou. Em 14 de outubro de 1567 foi despa- 
chado desembargador da Casa do Cível, vindo a falecer 
na robustez da vida e do talento, em novembro de 1569, 
quando a peste naquele ano invadiu Lisboa. Amigo de 
Sá de Miranda é, como ele, um campeão do classicismo. 
A sua obra imortal é a Castro, escrita ao gôslo clássico 
entre 1553 e 1567, segundo se crè, e pela primeira vez 
representada em Coimbra. Tratando um assunto tam pro- 
fundamente nacional — e na língoa nacional — note-se — , 
Ferreira avantaja-se ao seu predecessor Trissino (1478- 
1550), que embora usasse a língoa literária da Itaha 



1 As poesias de Sá de Miranda foram reunidas nnma ed. monu- 
mental peia Sr.* D. C. M. de Vasconcelos : — Poesias de Fr. de S. de 
Miranda, ed. feita sobre cinco mss. ined. e todas as ed. impr., etc, Halle, 
Max. Niemeyer, 1885. Uas comédias temos as ed. dos Vilhalpandos, 
Coimbra, 1560, 12.% e dos Estranjeiros, Coimbra, 1569, 8.», Encon- 
tram-se ainda nas ed. das restantes obras do poeta e impressas com 
as do Dr. António Ferreira. O Sr. Oetlim Guimarães no intuito lou- 
vável de vulgarizar a obra do Poeta publicou uma cuidadosa ed. sob 
o titulo Versos Portugueses, Lisboa, 1909, 1 vol. 



CAPITULO III — KshoLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 163 

escolheu, porém, um assunto da antiguidade para a sua 
Sophonisba. A obra do nosso poeta pela originalidade, 
peia escolha do assunto Iam sublime e patético como 
outro não oferecia a história nacional, pelo entrecho e 
disposição das scenas, pelo movimento e jogo dos coros, 
que Garrett reputava superiores a todos os exemplares 
da antiguidade, pela lingoagem castiça e portuguesa de lei, 
sempre acomodada à grandeza do objecto, ocupa logar 
primacial na nossa literatura. Também a sua influência 
foi notável. O dominicano espanhol frei Jerónimo Bermú- 
dez em 4577 publicava, dez anos antes que fosse publi- 
cada em português, mas oito anos depois da morte de 
Ferreira, a Nise Lacrimosa seguida pouco depois da Nise 
Laureada, imitando Ferreira tam servilmente na dispo- 
sição das scenas, no entrecho, no estilo, no movimento 
dos diálogos, na formação dos coros, que a sua obra 
ê um plágio completo da do nosso autor *. O escritor 
francês Lamothe-Houdard imitou também António Fer- 
reira *. Àlêm da Castro temos, escritas para o teatro, as 
duas comédias — Brisio e Cioso, imitaçõis ou talvez tra- 
daçôis do italiano ^, esta superior àquela, mas ambas 
muito inferiores em mérito á Castro. No género lírico 
deixou-nos Ferreira grande número de sonetos inspirados 
em Maria Pimentel, que depois foi sua molher ; de odes e 
epistolas, que lhe mereceram o cognome de Horácio por- 
tuguês ; de églogas. onde se encontram algumas belezas ; 
e de várias poesias meudas, todas publicadas sob o título 
de Poemas Lusitanos *. 



* Sobre a quesUo tana debatida, e para alguns ainda nSo de todo jul- 
gada, da prioridade da Castro, vid. Inocêncio, Dicc. Bihl, i, 140-141 
e VIII, 143. O que se afirma no texto resolve, paréce-nos, a questão. 
Vid. também Theatralia, n.« 1 (fev.»-1913) artigo do Sr. A. Coelho. 

2 Loiseau, Hist. de la litt. port.. Paris, 1886, pg. 153. 

' Sr. Th. Braga, Hist. do theatro port. nos sec. XVI e XII, t. iii,c. iv. 

* Bibl. : Obras completas. Quarta ed. annot. e precedida dum estudo, 
sobre a vida e obras do poeta, pelo cónego dr. J. C. Fernandes Pinheiro 



164 HISTÓHIA DA LITKRATURA POBTUGUESA 



António Ferreira não escreveu um só verso em lingoa 
espanhola *, excepção notável no seu tempo, muilo para 
admirar e louvar e que fez dizer dele ao seu discípulo e 
amigo Diogo Bernardes : 

— Que dando á Pátria tantos versos seus 
Um só nunca lhe deu em lingoa alheia, 

ei- — PÊRO DE ANDRADE CAMINHA ( 1520 1589), do 
Porto, inimigo de Camões, contra quem escreveu vários 
epigramas ', e de Damião de Góes, cuja situação agravou 
com o depoimento que contra ele fez no tribunal da 
inquisição em 20 de abril de 1571 ', deve o melhor 



Paris, Ad. Lainé e J. Havard, 1865 ; Livraria Olassica, voll. xi-xiii ; 
Sr. Tti. Braga, Hist. dos Quinh., pg. 180-2 14. 

No Archivo Histórico Português, (i, n." 5, maio 1903) foram publi- 
cadas duas cartas autografas, uma do Dr. António Ferreira, e outra 
de Diogo Bernardes, com vários comentários do ilustre investigador 
sr. Brito Rebelo. 

i As suas obras foram publicadas vinte e oito anos depois da sua 
morte por diligência de seu íilho Miguel Leite Ferreira. Durante este 
prazo de tempo foram copiadas muitas obras do poeta, que se encon- 
tram em cancioneiros contemporâneos e posteriores, como o que 
publicou em 1903 A. F. Barata, onde aparece a Carta dirigida 
a D. Sebastião, que ali vem anónima, mas ({ue desde 1598 anda 
impressa em todas as ed. das obras de Ferreira, facto aliás desconhe- 
cido pelo Sr. Th. Braga que no prefácio a este cancioneiro a atribuo 
a CamOes t 

2 Este por exemplo : aludindo ao verso : 

• dae-me huma fúria grande e sonorosa » 

(Ltu., I, est. h) 
Caminha escreve : 

« Dizes que o bom Poeta á de ter fúria ; 
Se non á de ter mais és bom Poeta. 
Mas se o Poeta á de ter mais que furta 
Tu non tem mais que fúria de Poeta ! » 

lEpigr.fCiLy) 

^ Cfr. este depoimento no processo, hoje publicado na integra pelo 
sr. Guilherme J. C. Henriques, Inedttos Goesianos, vol. 2.% pg. 44-45. 



CAPITULO III — E3C0LA ITALIANA OU QUINHENTISTA 166 

do seu nome ao empeQho que foi toda a preocupação da 
sua vida literária — imitar António Ferreira. Num tempo 
em que Gamões morria de fome, diz um escritor, gozava 
Caminha de todas as delicias duma invejável posição. 
Privado do infante D. Duarte (+1540), rico, adulado, 
benquisto, a amizade de homens como Ferreira, Sá de 
Miranda, Bernardes e outros cobria-lhe um pouco a medio- 
cridade. As suas poesias, inéditas durante mais de duzen- 
tos anos, foram publicadas nos fins do século XVIII pela 
Academia Real das Sciencias de Lisboa com o seguinte 
título: Poesias de Pêro de Andrade Caminha, mandadas 
publicar pela Acad. real das se. de Lisboa * e compreendem 
numerosos epigramas, muitas epistolas, elegias e odes, 
epitáfios, églogas, sonetos, cançõis, etc. 

Em 1898 o Dr. Josef Priebsch fez em Halle na casa 
editora Max Niemeyer uma edição em que apareciam 
quatrocentos e cincoenta e duas composiçõis inéditas, 
cento e trinta e duas das quaes em espanhol, o que 
demonstra a predilecção do poeta por esta lingoa ^. Isso 
lhe valeu acre censura do Dr. António Ferreira ', que 
escreve : 

Floreça, fale, cante, ouça-se e viva 
A portuguesa lingua, e já onde for 
Senhora vá de si soberba e altiva. _ 



Um ano antes, isto é, em 3 de julho de 1570 tinha o mesmo Poéla 
subido as escadas dos Estáos, onde estava estabelecida a inquisição, 
para denunciar um pobre emigrado de Portugal por motivos religio- 
sos. O facto era inédito e desconhecido até á data da comanicaçSo 
feita á Acad. das Sc. de Lisboa em 14 de março de 1913 pelo sr. A. 
BaiSo. 

» Lisboa, 1791, de xi-427 pg. 

2 Poesias inéditas de P. Andrade Caminha, Halle, 1 vol., de xuv-572 
pg., da casa ed. Max Niemeyer. A propósito desta ed. publicou 
a Sr.» D. Carolina Michaelis valiosos esclarecimentos sobre a vida e 
as obras do Poeta na Rév. Hispanique, t. viii; em separata, Paris, 1901, 
1 vol. de 117 pg. 

J Epitt. Ill 



106 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



&2 DIOGO BERNARDES (1520-1605) natural de 

Ponte da Barca ', discípulo, como o anterior, de Sá de 
Miranda e Ferreira, fez parte da malograda eipedição a 
Alcácer como cantor oficial, que devia ser, das glórias do 
novo rei Artus. Regressando á pátria depois de cinco 
anos de cativeiro passou a sua vida na solidão escrevendo 
muitas poesias, algumas delas repassadas de verdadeiro 
sentimento. Eis as suas obras : 

a) Varias Rimas ao Bom-Jesus, de caracter espiritual e 
mistico *. 

b) Flores do Lima ^. Sam na maior parte sonetos e 
cantigas, com algumas cançõis, elegias, etc, de caracter 
profano. 

c) O Lima, contendo vinte églogas e trinta e três car- 
tas *, que formam as suas obras mais extensas. 

Faria e Sousa, e com ele muitos outros críticos, acusa 
Bernardes de ter roubado a Camões o poema Santa 
Úrsula, cinco églogas e outras poesias. Nunca se provou 
esta acusação. O mavioso e delicado cantor do Lima 
revela-se até como um dos cultores mais felizes do género 
bucólico. E' inquestionavelmente grande poeta e para 
resgatar o seu nome e o tornar credor da nossa admi- 



< Oulros dizem de Ponte do Lima. A questão está bem elucidada 
pelo Sr. JoSo Gomes de Abreu, Diogo Bernardes (a sua naturalidade). 
Ponte do Lima, 1907, 1 folh. e mais recentemente ainda peio Sr, Fle- 
meterio Arantes, Frei Agostinho da Gruz, Lisboa, 1909, 1 folh. 
Concisa, a demonstração é convincente. 

2 Varias rimas ao Bom-Jesus e á Vtrgem gloriosa sua Mãe e a vários 
Sanctos particulares. Com outras mais de honesta e proveitosa lição. 
Lisboa, SimSo Lopes, 1594, 4.°. E' a 1.» ed. ; outras, 1601, 1608, 
1616, 1622, 1770. 

3 Rimas varias, Flores do Lima, Lisboa, Manuel de Lyra, 1596, 8.° ; 
outras, 1633, 1770. 

♦ A 1.* ed. é de Lisboa, por SimSo Lopes, 1596, 4.' de iv-173; 
outras, 1761, 1860. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 167 

ração bastará lêr algumas das composiçõis insertas nO 
Lima •• 

03- — FR. AGOSTINHO DA CRUZ (1540-1619). 

E' irmão do precedente pelo sangne e pelo talento poético. 
Tinha no século o nome de Fr. Agostinho Pimenta, 
entrando depois na vida monástica cora o nome de Fr. 
Agostinho da Cruz, por que é conhecido. A colecção das 
suas odes, sonetos e églogas foi publicada em 1771. Esta 
colecção é deficientíssima e só compreende as poesias pos- 
teriores á iniciação do seu autor na vida monástica. Ele 
mesmo confessa que as que escrevera antes desse período 
as queimara. 

Os versos, que cantei imporlunado 

Da mocidade cega a quem seguia 

Queimei 2 

Na Biblioteca da Universidade de Coimbra apareceu 
um apógrafo contendo grande número de poesias do 
famoso poeta místico que foram por nós recentemente 
publicadas '. 



* A acusaç5o de plagiário é perfeitamente gratuita. O Sr. Th. 
Braga em sessão da Acad. das Sciencias de 13 de janeiro de 1898 
comunicou ter descoberto num ms. o índice dum célebre cancioneiro 
também ras., do sec. xvi, onde se encontram primeiro poesias de 
Bernardes e depois poesias de Camões. Sendo coligido ainda era vida 
dos poetas, encontra-se ai já atribuída a Bernardes a maioria das 
poesias, que se diz ter ele roubado a Camões ; outras aparecem simul- 
taneamente como de um e outro ; algumas que lêem andado sempre 
como de Camões, vêem ali com o nome de Bernardes. Cfr. Boi. da 
Segunda C/., i ( 1903 ), pg. 2. O facto de indevidas atribuiçõis é 
vulgar e sem propósito malévolo. 

2 Cfr. Varias Poesias, Lisboa, 1771, 12° de xxxiii-163 pg. Torna 
a repetir o mesmo no soneto xxvi, que publicamos adeante na Anto- 
logia. 

' No Archico Bibliographico da Bibliolheca da Universidade de 
Coimbra ( publicação mensal, i, n.« 3 e seguintes ). Vid. Sr. Heme- 
tério Arantes, Frei Agostinho da Cruz, notas á margem duma Hist. dos 
Quinhentistas, cit. 



168 HISTÓUIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



POESIA DRAMÁTICA 

04r- — Origem do teatro. A poesia dramática Dão 
teve forma regular antes de Gil Vicente, que por isso é, 
com justa razão, apelidado de fundador do nosso teatro. 
As representaçõis scénicas sempre foram queridas dos 
povos. Atravéz o longo período da idade-média o ele- 
mento dramático conservou-se vivo e persistente. Entre 
nós cliegou a ter tal desenvolvimento que os bispos nas 
Gonstituiçõis diocesanas se viram forçados a proibir as 
representaçõis nas igrejas, certamente pelo abuso que as 
tinha manchado. Nas Gonstituiçõis do Bispado de Évora 
(1534) lè-se: < defendemos a todas as pessoas ecclesias- 
ticas e seculares, de qualquer estado e condição que 
sejam que não comam nas igrejas, nem bebam com mesas 
nem sem mesas, nem se façam nas ditas igrejas ou adros 
d'ellas jogos alguns, posto que sejam de vigilia de santos 
ou de alguma festa ; nem representações, ainda que sejam 
da paixão de Nosso Senhor Jesus Ghristo ou de sua 
resurreição, ou nascença, de dia, nem de noite, sem nossa 
especial licença, porque de taes actos se seguem muitos 
inconvenientes... » ( Const. \0, tit. 15). 

Igualmente nas Const. do bispado do Porto aparece a 
mesma proibição : « e porque não é decente interromper 
o santo sacriGcio da missa, e deixar de cantar o que a 
igreja nella tem indicado se cante para íntrometter nella 
chansonetas ou vilancicos, e ainda que sejam pios e devo- 
tos. . . prohibimos que se cantem chansonetas e vilancicos, 
nem motetes, antiphonas e hymnos, que não pertençam ao 
sacriflcio que se celebra, nem enquanto se disser alguma 
missa se consinta cantar cantigas profanas, nem festas, nem 
danças, autos, colloquios, posto que sejam sagrados, nem 
clamores, petitorias de esmolas. E outro sim mandamos, 
sob as ditas penas (excomunhão maior) que nenhuma 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 1G9 

pessoa nas ditas igrejas, ermidas ou seus adros, façam 
comedias, represem ações, enlremeses ou allegorias profa- 
nas... nem se façam danças, bailes, folias, suetos, ou 
cousas semelhantes, nem cantigas deshonestas » (1. iii, 
tit. 2.°, const. 7, pg. 173, e ibid., 1. iv, tit. 9, constit. 6, 
pg. 427). 

Àlêm deste teatro de caracter religioso, tirando o seu 
assunto das scenas da vida da igreja, da dos santos, das 
lendas cristãs, etc, havia outro de caracter profano, 
cultivado nos paços reaes, onde a aristocracia se deliciava 
com as mímicas, momos e entremezes, que nunca deixava 
de haver nas grandes solemnidades e festas. Aproveitar 
estes vestígios de tradição inteiramente popular e impri- 
rair-lhes o cunho duma poderosa individualidade, tal foi o 
trabalho de Gil Vicente. 

055.- GIL VICENTE ( 1470?-4540?), justamente cogno- 
minado o Plauto Português, desde que pela primeira vez 
mestre André de Resende assim o apelidou, nasceu talvez 
em Guimarães donde, passados os primeiros anos da 
infância, saio para Lisboa começando o estudo da juris- 
prudência na Universidade, que todavia não chegou a 
concluir. Tem-se afirmado com pouca verosimilhança que 
por 1493 seria ele o mestre de retórica do duque de Beja, 
depois rei D. Manoel, circunstância esta que lhe daria, 
com a amizade do monarca, a entrada no paço. É certo 
que na corte desempenhou qualquer oficio, pois disso 
recebia tença, como era costume *. O talento poético de 
Gil Vicente revelou-se por ocasião do primeiro parto da 
rainha D. Maria, esposa do rei D. Manoel. Dois dias 
depois deste parto a 6 de junho de 1302 na própria 
câmara da rainha e deante da corte ai reunida, Gil Vicente 
recitou o seu Monólogo da Visitação ou do Vaqueiro escrito 



• O doe, foi encontrado e publicado pelo Sr. Brito Uebelo : cfr. o 
•eu vol. Gú Vicente, Lisboa, 1912, pg. 11. 



170 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

em espanhol para melhor ser enleodido pela rainha, filha, 
como se sabe, dos reis católicos Fernando e Isabel, e ainda 
porque a lingoa castelhana era então a preferida pela corte 
portuguesa *. 

O monólogo desempenhado pelo próprio Gil Vicente 
que, como Shakspeare e Molière, era ao mesmo tempo 
autor e actor, agradou tanto que a rainha quis que o 
repetisse para as festas do Natal, com o que ele se não 
contentou compondo para a circunstância novo auto — 
Pastoril castelhano. Estava achado o veio riquíssimo deste 
génio. Durante mais de trinta anos a corte de D. Manoel 
e a seguir a de D. João 3,°, iam admirar as produçõis 
deste homem extraordinário, que é uma das figuras salien- 
tes do humanismo do século xvi, verdadeiro discípulo de 
Erasmo pela liberdade com que criticava os abusos dao 
classes dominantes — nobres e clero — dominados pels 
egoísmo, eivados de vícios e de paixõís sensuais, esque- 
cidos uns e outros das virtudes que tinham distinguido os 
seus ascendentes doutras épocas ^. 

A obra de Gil Vicente é vastíssima e complexa pois se 
compõe de 44 peças nas quais se encontra o verdadeiro 
retrato da época. Sob o ponto de vista da lingoa em que 
foram escritas podem dislribuir-se em 3 grupos : 

1) só em PORTUGUÊS — Auto de Mofina Mendes, Pastoril 
Português, Feira, Alma, Barca do Inferno, Barca do Pur- 
gatório, Historia de Deos, Resurreição, Cananéa, Exhor ta- 
cão da guerra. Cortes de Júpiter, Serra da Estreita, 
Romagem de Aggravados, Velho da Horta, Almocreves e 
Clérigo da Beira. 



1 Este monólogo foi adaptado pelo ilustre poeta Afonso Lopes 
Vieira ( Lisboa, I9il ), como o foi também a Barca do Inferno, 
(Lisboa, 1911). 

2 O que pôde até hoje aparar-se da obscura biogr. de Gil Vicente 
resumidamente se encontra na nbr. já cit. do Sr. Brito Rebelo, em 
especial, pg. 127 e segs. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHBNTISTA 17! 

2) SÓ em ESPANHOL : Visitação, Pastoril Castelhano, Reis 
Magos, Sibila Cassandra, Quatro tempos, Barca da Gloria, 
S. Martinho, Comedia do Viuvo, D. Duardos, Âmadis de 
Gaula, Farça das Ciganas. 

3) BILINGUES : Auto da fé. Auto da Festa *, Rubena, 
Coimbra, Floresta de Enganos, Náo d'amores, Fragoa 
d'amor, Exhortação da guerra, Templo d'Apollo, Triumpho 
d'inverno, Romagem d'aggravados, Quem tem farellos?, 
índia. Fama, Fadas, Inês Pereira, Juiz da Beira, Lusi- 
tânia e Fisicos. 

Sob o ponto de vista da idéa que presidiu á idealização 
desta vasta obra podem ainda fazer-se três grupos: 

a) obras do caracter hierático, em que aproveitou as 
tíadiçõis e costumes religiosos. Entram neste grupo o 
Monólogo do Vaqueiro ou da Visitação acima referido, o 
Auto pastoril castelhano. Reis Magos, Sibila Cassandra, 
Auto da Fé, Aulo dos Quatro tempos, Pastoril Português, 
Feira, Mofina Mendes, Alma, Historia de Deos, Resurreição, 
S. Martinho, a trilogia Barca do Inferno, Barca do Pur- 
gatório e da Gloria, e o último desta série que é a 
Cananéa. 

b) O segundo grupo do teatro vicentino compreende as 
obras aristocráticas, para cuja composição ele natural- 
mente era levado pelo contacto com a corte em que viveu 
— Auto da Fama, Exhortação da guerra, Cortes de Júpiter, 
Fragoa d'amor. Templo d^Apollo, Coimbra, Náo d'amores, 
Lusitânia, Amadis de Gaula, D. Duardos. 

c) Temos, enfim, o teatro popular, em que habilmente 
Gil Vicente pôs em jogo os costumes e as festas em que 
o povo era principal protagonista, creando verdadeiros 
tipos de género, como o Ratinho, o Fidalgo pobre, o Frade 
ievasso, o Judeu explorado, o Galante namorado. Neste 
género foi escrita a farça Quem tem farelos ? nome que, 



1 Auto da Festa, obra desconhecida com uma explicação previa pelo 
conde de Sabugosa, Lisboa, 1906, 1 vol. 



172 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUaOESA 

segundo ele próprio diz, foi posto à sua obra pelo público ; 
Almocreves, índia. Velho da Horla, Viuvo, Fadas, Physicos, 
Ciganas, Inês Pereira, Juiz da Beira, Romagem d'Âggra- 
vados. Floresta de enganos. Os autos Jubileu de amores 
representado em Bruxelas no palácio do embaixador por- 
tuguês D. Pedro de Mascarenhas em 21 de dezembro de 
de 1531 para comemorar o nascimento do príncipe 
D. Manoel, filho de João lil, e de D. Catarina, Aderência 
do Paço e Vida do Paço perderam-se inteiramente talvez 
devido á condenação muito especial que por parte da 
Inquisição sobre eles recaiu, sendo provavelmente o pró- 
prio dramaturgo quem já os não incluiu na Compilação 
das suas obras que preparou e que seus filhos Paula e 
Luís vieram publicar em 1562 *. 

Todas estas obras foram compostas durante 34 anos, 
devendo ter sido conhecidas do público, á medida que 
iam sendo representadas, em folhas avulsas. Gil Vicente 
coligio as publicadas por esta forma e as inéditas e 
dividio-as nos três grupos apontados : hierático ( obras de 
devoção), aristocrático (tragicomédias), e popwíar ( comé- 
dias e farças), auxiliado nesta faina por sua filha Paula. 
O poeta morreu porém em 1540 e só em 1562 é que 
elas apareceram a público sob os cuidados do filho Luís 
Vicente, mas já revistas pela Censura eclesiástica. 

Não obstante grande parte do teatro de Gil Vicente 
ser, como vimos, em espanhol, o que perfeitamente se 
explica por o público, em que havia rainhas e cortesãos 
espanhoes, estar inteiramente eivado do gosto castelhano, 
todas as obras do nosso Molière sam eminentemente 
nacionais pelo génio que as inspira, pela sua contestura 
e assuntos. Não sofrem peias nem pela lingoagem, 
nem pelo local a que eram destinadas. Mordaz e cáustica, 



' Estes factos fôram postos em evidência nas Notas Vicentinas da 
Sr.* D. C. M. de Vasconcelos, Rev. da Univ. de Coimbra, i ( 19ií ), 
205. 



CAPITOLO lU — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 173 

a sua veia cómica retalha, como um escalpelo, as podri- 
dõis e os vícios dos seus contemporâoeus, qualquer que 
fosse a situação em que se achassem. Poutifices, reis, 
aristocratas, clero, bem como o povo, a arraia-meuda, 
defrontam-se cortados a golpes de sátira, desassombra- 
damente. Semelhante liberdade não podia deixar de crear 
embaraços a quem se mostrava iam pouco tolerante com 
os vícios, que corroíam as diferentes classes da socie- 
dade, em especial, a dos nobres e a clerizia. Por isso as 
intrigas não o pouparam e entre outras uma parece tê-lo 
maguado profundamente — a de que as suas composiçõis 
não eram obras originais, mas sim plagiatos. Diziam isto 
certos homens de bom saber, sublinha ele ironicamente. 
Por isso num serão do paço pediu que lhe dessem um 
tema. Deram-lho : — « mais quero asno que me leve, que 
cavalo que me derrube ». O poeta desquitou-se triunfan- 
temente escrevendo a sua melhor obra, uma comédia de 
caracleres, a Inês Pereira. Além desta merecem ainda 
citar-se Rubena, Almocreves, Floresta de Enganos, Três 
Barcas, etc. *. Semeiados por esta vasta obra dramática 
ha, aqui e além, trechos líricos dum encanto e suavidade 
extraordinários, demonstrando o multiforme talento do 
Poeta. A sua lira deixa de ter os acentos da sátira rude, 
feroz e cruel para ser cândida, simples, maviosa. Obteve 
Gil Vicente tal renome com as suas obras que se chegou 
a dizer ter Erasmo aprendido o português de propósito 
para o apreciar. Conquanto nada haja que abone esta 
tradição, serve ela para demonstrar a fama de que gozara, 
entre os seus contemporâneos, o nosso ilustre dramaturgo. 
Mas pode crer-se que o, grande humanista alemão conhe- 



' A !.• ed. traz o titato : Copilaçam de todala$ obras de Gil Vicente, 
a qual se reparte em cinco livros. O primeyro he de todas suas cousas de 
deuoçam. O segundo as comedias, o teixeyro as tragicomedias. No quarto 
as forças. No quinto as obras meudas. . . Anno m.d.lxu. São rarís- 
simos os exemplares desla ed. 



174 HISTÓBU DA LITBHATUBA P0RTUGUB8A 

cesse efectivamente o maior artista dramático da Europa 
do seu tempo, talvez por intermédio do seu amigo Damião 
de Góes e de mestre André de Resende. Tal é o que de 
melhor se pôde apurar sobre a biografia do grande escri- 
tor do Renascimento português. Se ele foi ou não o autor 
da maravilhosa custódia de Belém é ponto que não está 
ainda resolvido, parecendo mais segura a opinião que 
atribúe á mesma personalidade os autos e essa famigerada 
obra de ourivezaria. Pelo menos um doe. de 1513 recen- 
temente encontrado e publicado por Brito Rebelo men- 
ciona Gil Vicente como ourives da rainha D. Leonor e 
mestre da balança, a que alguém lançou esta cota 
marginal t Gil V. trovador », doe, portanto, senão defi- 
nitivo, pelo menos eloquente em favor da identidade *. 



ESCOLA DE GIL VICENTE 

06. — o impulso dado ao teatro português pelo 
génio assombroso de Gil Vicente não se perdeu. Em 
Lisboa, Évora, Santarém e Coimbra, onde as composiçõis 
vicentinas foram por vezes ouvidas, o gosto do teatro 
creou discípulos e imitadores do grande mestre. 

Neste século, àlêm de Camões que se aproxima de Gil 
Vicente nos seus três Autos, temos a mencionar como 
adeptos mais ilustres do teatro popular : 

OT. — AFONSO ALVARES, mulato, creado do bispo 
de Évora D. Afonso de Portugal, acerbamente satirizado 
por Chiado, autor dos autos Santa Barbara, Santo António, 



' Vid. para maiores desenvolvimentos na minha colecção Subsídios 
para o estudo da Historia da Literatura Portuguesa, o vol. xi, 1." das 
Obras de Gil Vicente. Coimbra, 1907. Este vol. contam todas as obras 
portuguesas do famigerado dramaturgo. O 2." vol Coimbra, 1912, 
contém as obras bilingues. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 175 

S. Tiago Apóstolo e S. Vicente Mártir, estes dois últimos 
hoje perdidos *. 

es ANTÓNIO RIBEIRO CHIADO, memorado no 

Auto d'El-Rei Seleuco ^ do nosso imortal épico, e na 
Aulegraphia, ' de Jorge Ferreira de Vasconcelos, frade 
professo no convento de S. Francisco da cidade de Évora, 
onde tinha o nome de Fr. António do Espirito Santo, 
sendo, só depois que despio o hábito, conhecido por 
António o Chiado, alcunha que o público lhe pôs e da 
qual derivou depois o nome para a rua de Lisboa, hoje 
oficialmente rua Garrett, mas ainda vulgarmente desi- 
gnada o Chiado. 

Diante de D. João III representou o seu Auto da natural 
invenção e escreveu mais a Prática de oito figuras, o 
Auto das Regateiras e a Prática de compradores *. 

eO- — BALTHASAR DIAS é de todos os poetas 
dramáticos portugueses o mais conhecido e ainda hoje 
amado pelo povo. Era da ilha da Madeira e cego, escre- 
veu sempre em português e possuia o dom de saber falar 
e ser compreendido pela alma ingénua da multidão, como 
dotado, que era, dum talento incontestável. Tornou-se 
popular, pelas suas trovas metrificando tradiçõis medie- 



1 Para as ed. destes autos como dos autores que seguem pôde 
ver-se Innoc, no Dicc. Bibl., e Ricardo Pinto de Mattos, Manual biblio- 
graphico português de livros raros clássicos e curiosos. . ., Porto, 1878. 

2 No Prologo. 

3 Act. IV, SC. 2.«. 

* Impressos pelo Sr. Alberto Pimentel a expensas do Sr. JoSo 
Eduardo Gomes de Barros com este titulo : Obras do Poeta Chiado, 
colligidas, amoladas e prefaciadas por. . ., Lisboa, 1 vol., 1899. Sobre 
esta ed. escreveu o Sr. Epiphanio Dias um artigo critico na Zeitschrift 
f. rom. Pkilologie, xv ( 1891 ), pg. 550-358, Vid. ainda do mesmo 
Sr. Alberto Pimentel, O Poeta Chiado (novas investigações sobre a iua 
vida e escriptosj, Lisboa, 1901. 



i76 HISTORIA DA UTERATURA POBTCOtTESA 

vais, intercalando na sua obra numerosos versos de 
cantilenas jogralescas * e pelos seus autos pondo em scena 
lendas hieráticas ; competia com Gil Vicente não na corte, 
mas entre o povo, cujo filho era e de quem recebia os parcos 
réis pela venda das suas composiçôis ^, que já eram 
divulgadas antes de 1537. Dele possuímos autos sacros 
como o de Santo Aleixo, Santa Caterina, Nascimento de 
Christo, Salomão, Paixão, e a narrativa de cordel, ainda 
hoje reproduzida. Historia da imperatriz Porcina mulher 
do imperador Ludovinio de Roma, e outras de menus 
nomeada. Homem pobre, sem outra indústria para viver 
senão a venda das suas obras, como ele próprio escreveu, 
que nos teria dado o talento deste jogral do povo se tivesse 
vivido noutras condiçõis? 

•ro. — ANTÓNIO PRESTES, de Torres Novas, escreveu 
diferentes autos que, como muitos dos dos seus contem- 
porâneos, foram primeiro publicados em folhas volantes 
ou pliegos sueltos, e de que em 1587 um tal Afonso Lopes, 
moço da capela real, fez uma colecção com o título — 
Primeira parte dos Autos e comedias portuguezas feitas por 
António Prestes e por Luiz de Camões. . . ^ Nesta colecção 
compreendera-se os seguintes autos : Avé-Maria, Ciosa, 
Procurador, Desembargador, Dons Irmãos, Mouro encan- 
tado, e Cantar inhos *. 

'T'!. — SIMÃO MACHADO, patrício do anterior, ^ e 
talvez o discípulo mais ilustre de Gil Vicente. E até no 



1 Sr.» D. C. M. de Vasconcelos, Estudos sobre o romanceiro peninsu- 
lar, já cit., pK- 112. 

2 Dr. Th. Braga, Eschola de Gil Vicente e desenvolvimento do iheatro 
naci(mal. Porto, 1898, 

» 1 vol.. 4.% 179 pg. 

* Ha uma ed. das obras de Prestes feita por Tito de Noronha, 
Porto, 1871. 



CAPITULO ni — ESCOL! ITALIANA OU QUINHENTISTA 177 



dizer de Gosta e Silva *, as suas duas comédias Cerco 
de Diu e Pastora Alfêa sam pela variedade de lances, 
desenho e desempenho dos caracteres superiores aos 
autos do próprio Gil Vicente. Pena é que a maior parte 
dessas comédias esteja escrita em espanhol, lingoa que, 
bem como o mais, começava a invadir a classe culta e a 
desterrar do uso o portugaês, mais tarde quase somente 
falado pelo povo. E' o que ele próprio diz querendo 
desculpar-se do emprego da lingoa estranjeira : 

Se um estranho á terra vem, 
Dizeis todos em geral, 
Nunca aqui chegou ninguém, 
E do vosso natural 
Nada vos parece bem. 



Vendo quam mal acceitais 
As dores dos naturaes, 
Fiz esta em Hngoa estranjeira. 
Por ver se desta maneira 
Como a elles nos tratais 
Fiome no Castelhano 
Fiome em ser novidade, 
Se nfia, & noutra me engano. 
Vós Portugal, eu o pano 
Cortay á vossa vontade 2. 



As duas comédias de Simão Machado sairam em 1706 
juntas com doits entremeses, um dos quais de D. Francisco 
de Quevedo e mais quatro loas famosas de Lope de 
Vega '. Os trechos mais formosos sam indubitavelmente 
aqueles era que a influência de Camões se faz sentir. 



* Ensaio biogr.-crit. sobre os melhores poetas portug., vi, 106-153. 
2 Pg. 143. 

' Comedias Portuguesas feitas pelo exce. lente poeta Simão Machado. 
Lisboa, 1631, outra ed. 1706. 

12 



178 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTCODESA 

Transcrevêmo-los na Antologia. Só por si, esses trechos 
revelariam o grande poéla que foi Simão Machado *. 

ESCOLA CLÍSSICA 

T^S. — Chamou-se com grande propriedade á corrente 
iniciada pelo fundador do teatro português, toda ela inspi- 
rada nas tradiçõis nacionais, escola popular, em oposi- 
ção á de Sá de Miranda e António Ferreira, que, como 
vimos, seguiram os modelos eruditos e clássicos. Filía-se 
nesta escola clássica JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS 
(?-— -f 1567?), autor das três comédias Eufrosina 2, 
Ulysipo ^ e Aiilegraphia *, todas acolhidas com grande 
entusiasmo pelos contemporâneos e que na realidade reve- 
lam muita aptidão dramática. Pena é que estas comédias 
sejam hoje tão raras, que a sna leitura só é permitida a 
algum feliz bibliófilo. E dizemos que é pena, porque, na 



* Há nas duas comédias de Sim5o Machado expresseis e formas de 
dizer que muito interessam ao (;ramático. Na « Dio » .- Que num 
madeiro chantado ( p. 4, c. !.• ) ; Numa cidade chantado ( p. 4, c. 2.* ) ; 
Chantai-vos bem para aqui ( p. 5, c. 1.» ) ; enguUipado ( p. 4, c. 1.* ) ; 
Hom'acha ( p. 4, c. 1.» ) ; marpuz ( p. 4, c. !.• ) ; bofas ( p 4, c. 2.« ; 
5 — a.-; 31 — !.•; 41 — 2.*; 63 — 2.*); bem é que Waqueça assi ( p. 6, 
c. 1."); Dinha mãi ( p. 6, c. l.«; 14— 2.«); inho ( p. HO, c. 2.»; 
m — !.• ; Trouge { p. 58 c. 2.» ) ; Mó ora ( p. 58, c. 2.» ) ; Aramá 
(ibid.) ; cachopo ( p. 59, c. 1.' ), etc, etc. 

Na a Alfêa »: emposilgado (p. 109, c. 2."; seja espido (p. 110, 
c. !.• ) ; samicas ( p. 110, c. 1.* ) ; Fato ( p. 133, c. 2.» ; 170 — 2.» ) ; 
resai passinho ( p. 136, c. !.• ) ; Sejo ( p. 158, c. 1.» ; 164 — 2.' ; 165 
1.» ) ; 171 — 1.» ; Cachopina { p. 170, c. 2.* ). Etc, etc. 

2 1.* ed. Évora, 1561; outra, Lisboa, 1616, revista e emendada por 
F. Rodrigues Lobo e n5o dele como alguns autores suposeram ; 3.% 
1786, reimpressa por Bento José de Sousa Farinha. 

3 2.» ed. Lisboa, 1618. A i.' é desconhecida. 3.» Lisboa, 1787 
lambem reimp. por Farinha. 

♦ 1.» ed. Lisboa, 1619. 



CAPITDLO ni — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 179 

opinão de Dias Gomes *, crítico tam insuspeito como 
perspicaz, Jorge Ferreira leva decidida vantagem a Sá de 
Miranda e Ferreira, tendo scenas inimitáveis, especial- 
mente na comédia em prosa Eufrosina, que constituindo 
as primícias do seu talento ^ é, como as outras duas, 
fonte inexhaurivel de verdadeiro estilo cómico. Jorge 
Ferreira deixou também o Sagramor ou 3íemorial das 
proesas da Segunda Távola redonda (I.* parte) ', novela 
de cavalaria. Na Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado 
também lhe é atribuída a obra Triumphos de Sagramor *, 
que muitos supõem ser uma segunda parte do Memorial 
e Inocêncio a primeira edição dele, aliás desconhecida. 
É possível não se tratar senão duma confusão derivada 
daquelas palavras do Prologo « ...não me desculpo dos 
erros e atrevimentos de que nesta trasladação do triumpho 
dei Rey Sagramor posso ser reprendido... ». 



OS PROSADORES 

•ys. — A história no sec. XVI ; suas características. 
A forma principal da prosa no século xvi é a história. 
Uma plêiada numerosa e destiuta de escritores empreende 
a narração das conquistas e descobertas dos portugueses, 
as quais estavam, na realidade, pela sua importância e 
pelo seu número, reclamando cronistas que as transmi- 



í Obras. 292. 

2 Como se conclue do Proemio ao Príncipe D. JoSo (1537-1553), o 
primogénito de D. JoSo III, casado com a filha de Carlos V, D. Joana, 
que deixou grávida quando prematuramente faleceu em 1553 com 
dezasseis anos incompletos. Moço da câmara do malogrado Príncipe 
a ele dedicou todas as suas obras, menos a Eufrosina, oferecendo-as 
depois de sua morte ao filho póstumo el-rei D. Sebastião, 

3 Évora, 1567 ; 2.« ed., muito incorrecta Lisboa, 1867, 1 vol. 
* Coimbra, 1554. 



180 mSTÓRIà DA LITERATURA PORTUGUsáA 

tissem à posteridade. E' claro que os trabalhos históricos 
deste período, em geral, não sam, nem podiam ser, 
moldados em bases criticas, de cunho scientífico e impar- 
cial. Faltava aos seus autores a educação precisa para 
isso; a sua época não possuia ainda para semelhante 
efeito a disciplina filosófica indispensável. O que temos 
sam narraçõis ditadas por um critério simples e ingénuo, 
sam factos contados com a consciência de inteligências 
que se deixam deslumbrar pelo que contam. Muitos dos 
seus autores viram o que escreveram ; apaixonaram-se 
pelo assunto, não lhes faltava pois a sciencia dos factos, 
mas a serenidade para os apreciar e o critério para os 
dissecar. Desta forma algumas vezes escreveram narra- 
çõis enfáticas, aduladoras e exageradas *. 

•r^. — D. JERÓNIMO OSÓRIO (1506-1580) é dos 
historiadores mais imparciais e mais desassombrados 
deste período. Homem muito destinto e erudito, formou 
a sua educação nas universidades de Salamanca, Paris e 
Bolonha, vindo a falecer com 74 anos bispo de Silves ^ 
Escreveu quase todas as suas obras em latim ^ com tanto 
gosto e perfeição que mereceu por isso o título de Cícero 
português. A sua obra capital é a crónica de D. Manoel : 
— De rebus Emmanuelis gestis *, traduzida por Francisco 
Manoel do Nascimento ( Filinto Elysio ) ^ O facto de ser 
esta obra escrita em latim, tornou-a e ao seu autor muito 
conhecidos na Europa ^. Cíta-se com muito louvor a 
passagem em que ele censura D. Manoel pelo expediente 



1 J. Silvestre Ribeiro, Estudo moral e politico sobre os Lusíadas 
Lisboa, 1853, pg. 72. 

2 Vid. Bispo de Viseu, Obras, i, 293-301. 
, í Vid. Bibl. Lusit., II, 514 e 516. 

* Impressa em 1586. 

5 Da vida e feitos dei Rey D. Manoel, 1804. 

« F. Denis, Resume de l'hist. Htt. du Portwjal. Paris, 1826. pg. 225. 



CAPITULO UI — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 181 

iníquo e injusto da expulsão dos judeus de Portugal *. 
Das suas nove Cartas, escritas em português, é mais 
conhecida aquela em que o ilustre prelado tenta dissuadir 
D. Sebastião da jornada de Africa, cousa bem rara em 
negócio em que, como é sabido, o próprio Camões tanto 
empenhara o desgraçado monarca. 

rS- — JOÃO DE BARROS (1496-1570), de Viseu, 
denominado o Livio português, sobresai entre os escritores 
deste século pela beleza do estilo e pelo vigor e proprie- 
dade da lingoagem, que lhe dam jus a ser coutado como 
um dos nossos primeiros clássicos. 

De família nobre começou muito cedo a frequentar a 
corte de D. Manoel, cujas graças profusamente mereceu, 
bem como as de D. João III, que o cumulou de todos os 
benefícios. Assim nomeou-o Capitão da fortaleza e con- 
quista de S. Jorge da Mina, Tesoureiro da Casa da índia 
6 Mina e depois Feitor da mesma Casa e, porque ele 
renunciou estes cargos, aliás rendosos, deu-lhe, com 
outras mercês, a tença de 400?^000 réis. Foi este mesmo 
monarca quem o encarregou de escrever a história da 
índia, incumbida a seu tio Lourenço de Cáceres que a 
morte surpreendeu antes de realizado o mandato. João 
de Barros revelou as suas aptidõis de escritor na Crónica 
da imperador Clarimundo ^, romance cavalheiresco escrito 
pouco depois dos vinte anos. Do modo como se desem- 



» Vid. vol. 1, 1. 1, pg. 45 e seg. na ed. de Coimbra, 1791. A cole- 
cção das obras de Osório, em 4 tomos, foi feita em Roma, em 1592, 
por diligência dum sobrinho do prelado, também do nome de J. Osório. 
Das Cartas saia uma ed. em Paris, por Veríssimo Alvares da Silva, 
1859. 

2 Chronica do Emperador Clarimundo, donde os Reys de Portugal 
descendem, tirada da linguagem ungara em a nossa portuguesa, dirigida 
ao esclarecido príncipe D. João, filho do mui poderoso rey D. Manuel, 
Coimbra, 1520. Outras ed. : 1550, 1553, 1601, 1742, 1791, 1843. 



182 HCSTÓIOA DA LlTBRATtTBA POBTUtí0KSA 



penhou daquele encargo ai estam as quatro Décadas da 
Ásia a atestà-lo ^. A primeira delas, aparecida um auo 
antes da partida de Camões para a lodia ( 1533 ) provocou, 
na opinião de muitos escritores, ao nosso épico a conce- 
pção dos Lusíadas. Só por isso mereciam elas ser regis- 
tadas com amor na memória de todos os portugueses. 
Mas a Ásia de Barros é, aparte a pureza e louçania da 
lingoagem, um repositório excelente de notícias etnográ- 
ficas da índia. Os feitos dos portugueses tiveram, por 
outro lado, em João de Barros ura verdadeiro cantor e 
apologista. Pôde talvez ser acusado por este lado, mas, 
como escreveu Sismondi, « chega-se mais vezes a con- 
nhecer a verdade pelos escritores parciais da sua pátria, 
do que por aqueles que nada sentem ; pelo menos os 
primeiros têem uma coisa verdadeira — o sentimento » *. 

Entre as outras obras de Barros citam-se como dignas 
de melhor nota : 

— • Rhopica pnefma ^ ou Mercadoria espiritual, colóquio 
em que sam interlocutores o Tempo, o lutendimento, a 
Ventura e a Razão ; Cartinha para aprender a ler ' ; 
Gramática da lingua portuguesa * ; Dialogo da viciosa 
vergonha '; Dialogo. . . com dous filhos seus, sobre preceitos 
moraes em modo de jogo ^. 

2 A 1.» impressa em 1552, a 2.* em 1553, a 3.* em 1563 e a 4.', 
já reformada, acresc. e ilustr. por JoSo Baptista Gavanha, em 1015. 
Depois as três 1.»' — 1628 e todas as quatro em 1777-78 em 8 vols. 
e mais 1 com índice e biogr. A Dec. !.• saio terceira vez em 1752. 

* Cit. por F. Denis, ohr. cii., pg. 235. 

2 Lisboa, 1532 ; reimpressa em 1869 juntamente com o Dialogo 
com doux filhos seus. . sob o titulo Compilação de varias obras do 
insigne Joam de Barros... serve de sfíjunia parte à compilnçáo dos 
monges da Cnriucha de Évora, Porto. 1869, 1 vol. 

J Lihboa, 1539. 

< Ibid.. 1540. 

5 Ibid., 15'iO 

6 Ibid., 1563. 

Sobre J. de Barros, vid. P. Chagas, Novos Ensaios Criticot, 177-199 
e Dicc. Popular, iii, 163-166. 



CAPITULO m — ESCOLA ITALLANÀ OU QUINHENTISTA i83 

Os Panegíricos do grande Joam de Barros feitos um á 
infanta D. Maria e ouífo a el-rei D. João III saíram pela 
primeira vez impressos nas Noticias de Portugal de Manoel 
Severim de Faria, sendo como as outras obras do mesmo 
autor modelos acabados de boa iingoagem *. As primeiras 
ediçõis daigumas obras de Barros sam hoje raríssimas ; 
felizmente os monges da Cartuxa de Évora deram da 
Cartinha, da Gramática, e do Diálogo da viciosa vergonha 
uma edição em 1783, com o que prestaram um ótimo 
serviço ás letras pátrias ^. Da Rhopica e do Diálogo saiu 
também por diligência do Visconde de Azevedo nova 
edição em 1869* 

re DIOGO DO COUTO (1542-1616), de Lisboa, 

é o digno continuador de Barros a quem, se não eguala 
pelo estilo vence como narrador e apreciador dos factos ^. 
Tendo partido aos dezasete anos para a índia lá teve 
ocasião de observar os sucessos que descreveu. Foi 
amigo pessoal de Camões a quem acompanhou para a 
metrópole em 1470. Regressando depois à índia, morreu 
em Gôa com 74 anos. Encarregado de continuar as 
Décadas de Barros fé-lo com superior critério e com 
muita independência. A estas qualidades deve atribuir-se 
certamente o roubo que lhe Ozeram das Décadas originais 
8.* e 9.^ das quais temos apenas para as suprir meros 
epílogos feitos por ele próprio *. Sobre a decadência dos 



1 Ed. de i655 e 1740. Ha ed. independente de 1791. 

2 Compilação de varias obras do insigne português Joam de Barros . . . , 
Lisboa, 1 vol., 1785. 

5 Para a biogr. : Severim de Faria nos Discursos Vários e 1.° vol. 
das snas Décadas, ed. de 1736. 

* A 1." dec. de Diogo do Couto saiu com este titulo : « Década 
quarta da Ásia ». Lisboa, 1602. Tomou a numeração de 4.» por ser 
continuação feita sobre a 3.*, que Joáo de Barros deixara ainda im- 
pressa em sua vida. Passados anos porém veiu a imprimir-se a 
Década 4.» do mesmo Barros^ que por morte deste ficara manuscrita 



1^ HISTORIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



portugueses na lodia escreveu: — Ohsei-vações sobre as 
principaes causas da decadência do^ portugueses na Ásia, 
escriptas em forma de dialogo com o titulo de Soldado 
pratico *; e uma biografia curiosa e bem escrita com o 
titulo de : — Vida de D. Paulo de Lima Pereira ^. Tem 
ainda outras obras de somenos valor. Couto é um estilista 
claro e correcto. 

A sua vasta obra — as nove décadas compreendiam no- 
venta livros — é um repositório interessante, em que o 
autor trabalhou com um amor de verdade e de sinceri- 
dade verdadeiramente notáveis ^. 

'TT. — DAMIÃO DE GÓES (1501-1574), de Alenquer, 
ocupa um logar destintissimo entre os nossos clássicos 
e está acima deles pelo seu espirito livre e enciclo- 
pédico. Deveu isso talvez à sua educação. Começando 
cedo a frequentar a corte de D. Manuel, em breve 
empreendeu o giro das suas viajens, não para a África 
ou para a índia, como a maioria dos seus conterrâneos, 
mas para a Europa, para os centros mais destintos pelas 
afirmaçõis literárias e scientificas. Encarregado de várias 
missôis diplomáticas nas principais cortes da Europa, o 
desempenho desse cargo oficial ofereceu-lhe o ensejo de 



e informe. Temos pois duas Décadas quartas, cada uma de seu autor. 
A S.' e 6.» — 1612 ; 7.* — 1610 ; 8.« 1673. A última ed. é de Lisboa, 
1778-1788, 14 vols. Innoc, Dicc. BibL, ii, 153. 

» Lisboa, 1790. 

2 Publicada em 1763. 

5 O sucessor de Couto foi António Bocarro, que escreveu a Década 
13* da Historia da Índia, a ed. dirigida por Lima Felner e publicada 
em 1876 com prefácio doutro académico, o falecido Poeta Bulhão 
Pato. Ha entre as Décadas dos dois autores uma lacuna de 12 anos. 
A obra de B' ca-ro abrang« somente o período de 5 anos, 1612 a 1617. 
Vid. Iiioc, Dic. I e viu; o dito Prefácio de B. Pato e Boi. da Seg. 
Classe da Acad. das Sc. de Lisboa, iv, 1911, pg. 424, comunicação do 
Sr. Pedro de Azevedo. 



CAPITULO ni — KSCOLA ITALIANA OU QUINHBNTI8TA 185 

se relacionar com as primeiras individualidades da época. 
Lutero e Melanchthon, o cardeal Bembo, o historiador 
Olau Magno eram seus amigos. Tratou com Erasmo *, o 
demolidor temível do Elogio da loucura^ que também foi 
seu mestre e amigo dedicado. Albrect Diirer, o famoso 
pintor alemão, tirou-lhe o retrato. Educado nesta forte 
escola, com a inteligência da sua têmpera, estava prepa- 
rado para ser mais do que um cronista crédulo e simples. 
Foi-o na realidade e isso o perdeu. De volta á pátria, 
encarregado em 1558 pelo cardeal D. Henrique, escreveu 
a Chronica de D. Manuel ^ a que já se haviam escusado 
Rui de Pina, J. de Barros e outros. 

Esse trabalho levou-lhe nove anos e fez com que 
escrevesse também a Chronica do Príncipe D. João ^ como 
\ntrodução ao reinado de D. Manoel. O desassombro e 
altiva coragem com que foram redigidas as páginas da 
crónica do rei venturoso podem calcular-se pela guerra 
movida ao seu autor, guerra que teve o seu epilogo na 
prisão de Góes a 4 de abril de 1571. O nobre velho 
contava então 70 anos. À inquisição, que por duas 



* « . . . prudentíssimo e gravíssimo Erasmo Rolerodarao . . . prín- 
cipe de toda a doetrina e eloquência,. . . por espaço de cinco meses com 
elle em Friburgo de Brisgoia pousei... ». Do Prologo á trad. do 
Catão Maior ou da Velhice. Cfr. Noticè sur les rapports (TÉrasme avec 
Damien de Goés, artigo publicado no Annuaire de TUniv. calh. de 
Louvain, 18o3, pg. 273, republicado recentemente pelo benemérito 
Sr. Eugénio do Canto, Lisboa, 1912, folh. 

2 Chronica. .. dividida em quatro partes. Lisboa: As duas primei- 
ras partes sam de 1366, as outras de lo67 ; 2.» ed., Lisboa, 1619 ; 3.», 
1749; 4/, 1790. 

3 Chr. do Príncipe Dom Joam, Rey que foi destes reynos segundo do 
nome, em que summariamente se tratam as cousas sustanciaes que nelles 
aconteceram do dia do seu nascimento aiè o em que el Rei dom Affonso 
seu pai faleceu. Lisboa, 1567. Outras ed. : {Tlk, 1790, 1905. Esta 
última iniciou a colecção Jóias literárias da Imp. da Univ. de Coimbra 
proficientemente dirigida pelo Sr. Dr. Gonçálvez Guimarâis. 



186 mSTÓRIÁ DÁ LITB&ATiraÁ POBTUS0K8Á 



vezes vira fugir a sua presa *, cevou-se na pobre vítima 
durante mais de ano e meio ao Gm dos quais, quase 
sem forças e « cheio de usagre e sarna por todo o corpo, 
que rae falta pouco para me julgarem leproso », agra- 
vado ainda o debil organismo por outras doenças graves, 
o mandaram em penitência para o mosteiro da Batalha 
16 de dezembro de 1572). Achava-se em sna casa e 
vivendo com os seus quando lhe sobreveiu a morte, acon- 
tecida em circunstâncias ainda não de todo elucidadas. 
Uma versão do meiado do século xvii diz: « que sendo 
velho e estando ao fogo, recolhida sua familia, caiu nele 
com um acidente, e ao outro dia o acharam morto e 
meio queimado >. Ou seria assassinado pelos fâmulos da 
inquisição, como outra versão diz ? Invesligaçõis futuras 
aclararão decerto este ponto. Foi enterrado na igreja de 
Nossa Senhora da Várzea, em Alenquer -. 

Além das duas crónicas mencionadas, ha de Damião de 
Góes o Livro de Marco Tiillio Ciceram, chamado Catão 
mayor, ou da Velhice ^ e em latim a Embaixada do Prestes 
João ; a Fé, Religião e Costumes, dos Etíopes ; Descrição de 



^ Inéditos Goesianos, coligidos e anotados por Guilherme J. C. 
Henriques, vol. i — Documentos ( 1896 ) ; ii — O processo na Inqui- 
sição ( 1899). Góes foi denunciado primeiramente á inquisição de 
Évora em 15^5 e uma segunda vez á de Lisboa em 1550. [Sobre estes 
trabalhos ver Sr. J. de Vasconcelos, Archeologo Porl., iv ]. 

2 Ninguém estudou a biografia deste ilustre português com mais 
carinhoso afecto do que o erudito escritor sr, J. de Vasconcelos. 
Veja-se o seu último trabalho — Damião de Góes, Porto 1897 ; vid. 
ainda do mesmo autor — Músicos Portuij. ; S. Viterbo, Inst., vol. xlii ; 
Menendez y Pelayo, Hist. de los Heler. E$panoles, \i, 129-143 ; Sr. Th. 
Braga, Hist. da Univ. cit., i. Vid. nos Serões, n.° de 14 de agosto 
de 1906, art. do Sr. A. Baião — A Inquisição, Damião de Góes t Fer- 
não de Oliveira julgados por ella. O Arch. Hist. Porlug., i, n." 11, 
pg. 379 traz um fac-simile da assinatura de DamiSo de Góes ; Guilherme 
J. C. Henriques, A bibliogr. Goesiana, ( separata do « Boi. da Soe. de 
Bibl. Barb. Machado », Lisboa, 1911 ). 

1 Veneza, 1534 e Lisboa, 1845. 



CAPITULO m — KSGOLA ITAUANA OU QUINHBNTISTA i87 

Lisboa, etc. *. A justa fama, porêm, de que goza provêm- 
Ihe principalmente da Crónica de D. Manoel, tam fiel e 
imparcial como bem escrita, e tam bem escrita que alguns 
críticos o colocaram no número dos clássicos logo a 
seguir a João de Barros, ocupando este o primeiro logar. 

r 8. — FERNÃO LOPES DE CASTANHEDA {-l- 4539), 
de Santarém, emparceira louvavelmente com os cronistas 
já mencionados. Tendo sido seu pai nomeado para exercer 
o cargo de ouvidor de Gôa acompanhou-o e lá trabalhou 
« por alcançar saber muito particularmente o que até 
àquele tempo fizerão os portugueses no descobrimento e 
conquista da índia, e isto não de pessoas quaesquer senão 
de Capitães e Fidalgos, que o sabião muito bem por serem 
presentes nos conselhos das causas e na execução delas 
e por cartas e summarios. . . ». Nestas pesquisas gastou 
Castanheda vinte anos — o melhor tempo da sua idade, 
declara-o ele próprio. Foi toda a riqueza que trouxe da 
índia. Tam desprotegido e tam falto de meios se viu, 
que para poder manter-se teve de aceitar em Cpímbra o 
logar de bedel do Colégio das Artes e guarda do cartório 
da Universidade. A sua obra, de correcta e elegante 
lingoagem, tem o titulo — Historia do descobrimento e 
conquista da índia pelos portugueses *. 

"TQ. — ANTÓNIO GALVÃO (1446-1557), é uma per- 
sonahdade extraordinária do século xyi, parecendo a sua 



i Reimpressos na Colecção das Obras de autores clássicos partugue- 
zes da Iinpr. da Univ. de Coimbra com o titulo: Góes (Damiani): 
Opiiscula, quae in Hispânia illustrata conlinentur, 1791, 1 vol. 

* A obra foi devidida em 10 !., mas o 9.» e o 10.» nunca fóram 
impressos. O 1° livro saiu em lool. Foi depois reímpreso em 1554; 
o i* 1 apareceu em 1552 ; 3.», 4.» e o 5."» — 1557 ; 6.» e 7.» — 1554 ; 
o 8." — 1561. Sáo raríssimos. Do 1.° 1. ha nova ed. em Lisboa, 1791 
e de toda a obra, ibid., 1833, 8 vols. 



188 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUQUKSA 

vida mais imaginária que real. Nascido na Índia, foi 
nomeado governador de Moluco, tornaudo-se notável no 
desempenho deste cargo pela sua rectidão e justiça. Tal 
prestígio alcançou como magistrado que lhe foi oferecido 
o trono de Ternate * 1 Voltando ao reino debalde sohcitou 
qualquer mercê, que lhe garantisse a subsistência. Durante 
dezasete anos viveu de esmolas de amigos tendo por 
último de recolher ao hospital de Lisboa onde faleceu a 
11 de março de 1557! Â publicação póstuma da sua 
obra tem o título : 

— Tratado dos diversos e desvairados caminhos por onde 
nos tempos passados a pimenta e especiaria veyo da índia 
ás nossas partes, e assim de todos os descobrimentos antigos 
e modernos que são feitos em a era de 1550 ^. 

E' aos cuidados e diligências do seu amigo e testa- 
menteiro Sousa Tavares, que devemos a publicação de 
tam curioso trabalho, notável pela singeleza e brevidade 
aliados a uma certa elegância de dizer muito pecuUar 
deste autor. 

SO. — Outros Historiadores deste século. Avultado 
número de escritores ilustra ainda este século, mas deles 
impossível é dar aqui desenvolvida notícia. Nomeemos : 
GASPAR CORRÊA ( -J- 1583?) que viveu largos anos na 
índia, cujos usos, costumes e superstiçõis conheceu muito 
bem, deixando-nos de tudo uma descrição muito pitoresca 
e interessante nas suas Lendas da índia, que abraçam os 
sucessos passados na índia desde 1497 até 1550 3, e que 
se sam « inferiores pela forma ás décadas de Barros e 



' Pequena ilha pertencente ao arquipélago das Molucas. 

2 Lisboa, 1563, 80 fls. ; reimpressa em Lisboa, 1731. Foi trad. para 
inglês na colecção Hakluyt Society, 18G2, 8.» gr. de xii-242 pgs. 

3 Publicadas depois de mais de três séculos pela Acad. R. das Sc. 
de Lisboa, sob a direcção de Rodrigo José de Lima Felner, em 4 tomos, 
cada um devidido em parte !.• e 2.», 1858-1864. 



CAPITDLO ni — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA i89 

até se quiserem á rude historia de Castanheda, são quanto 
á substancia muito superiores aquelas e ainda à humilde, 
mas evidentemente sincera narrativa de Castanheda 
« ...Em relação à viagem do descobrimento como em 
relação a tantos outros pontos da nossa historia da índia, 
as Lendas levam decidida vantagem ao que escreveram 
Barros e Castanheda » *. Na disposição das scenas, 
escreveu Bulhão Pato, vivêsa das cores, pitoresco dos 
painéis. . . leva vantagem a todos os nossos escritores do 
Oriente ^. 

BRÁS DE ALBUQUERQUE (1500-1380) filho natural do 
grande Afonso de Albuquerque, cuja biografia traçou nos 
seus Comentários de Afonso de Albuquerque, ' em estilo 
simples que João de Barros caraterizava como de nua e 
chã pintura e onde esta grande figura do nosso império 
colonial se retrata tam bem como nas suas próprias Cartas 
por mais de três séculos inéditas *. 

Citemos ainda, omitindo outros menos importantes: 
FR. BERNARDO DA CRUZ (1530?) que, tendo acompa- 
nhado como capelão a expedição a Alcacer-Qêbir, escreveu 
por 1386 a Chrónica de D. Sebastião, que só foi publicada 
em 1837 por A. Herculano e o Dr. A. C. Paiva ^ DUARTE 



1 A. Herculano e Castelo de Paiva, Roteiro da viagem de Vatco da 
Gama, Lisboa, 1861, pg. ix. 

2 No prefácio á Década i5.* de A. Bocarra, ix. 
5 Lisboa, 1537, outras ed. : 1576, 1774. 

* Cartas de Af. de Albuquerque seguidas de doe. que as elucidam 
publicadas de ordem. . . da Acad. R. das Sc. de Lisboa sob a direcção de 
R. A. de Bulhão Pato, 4 vols.; 1." 1884; 2.» 1898; 3.» 1903; 4.o 1910. 
Sobre o grande vulto Af. de Albuquerque vid. — Boi. da Seg. Cl. da 
Acad. das Sc. de Lisboa, iv, (1911), pg. 49 e seg. Vid. também Areh. 
Hist., I, n.° 12 ( 1903 ), 410, art. de S. Viterbo. 

5 Nesta Crónica se baseia em grande parte a Chr. do Cardeal 
Rei D. Henrique e vida de Miguel de Mowa, anónima, publicada pela 
« Soe. propagadora dos conhecimentos úteis » em 1840. 



190 BISTÓRIA DA LITHRATURA POBTUaVBSA 

NUNES DE LIÃO (+ 1608) que, àlêm das obras grama- 
ticais, adeante citadas, escreveu uma Descrição do reino 
de Portugal *, e a Primeira parte das Chronicas dos reis 
de Portugal reformadas -. 

Ao mesmo autor se deve o ter coligido por ordem de 
D. Sebastião as Leis Extravagantes de Portugal '. Mere- 
cem citar-se também DUARTE GALVÃO ( 1446-1517 ) autor 
da narrativa Chronica de D. Afonso Henriques *, e MIGUEL 
LEITÃO DE ANDRADA ( 1553-1632) de Pedrógão, bispado 
de Coimbra, oão porque escrevesse uma obra rigosa- 
mente hisíórica, e com são critério — ao lado de formo- 
síssimas líricas de Camões pôs algumas das relíquias 
apócrifas — mas porque a sua Miscelânea contém nume- 
rosos dados interessantes sobre história e tradiçõis, usos 
e costumes populares, e até sobre muitos factos de que 
ele foi testemunha ocular, como os que se referem á 
batalha de Alcacer-Qébir, á qual assistiu e depois da 
qual ficou prisioneiro, libertando-se ao fim de algum 
tempo, para ir cair sob as garras de Felipe II, que o 
mandou prender por ele seguir o partido do Prior do 
Crato 5. 



1 Lisboa, 1610; 2.* — 1785. Mencionemos como subsídios para os 
estudos arqueológicos de Portugal as Varias antiguidades de Portugal, 
Lisboa, I62o [ 2.» ed. 1754 ], de Gaspar Estaco ; irmão de Baltliazar 
Estaco, autor do livro Sonetos, canções éclogas e outras rimas, Coim- 
bra, 1604. 

2 Lisboa, 1600; e 1677, 1774. 

J Lisboa, 1569, e Coimbra. 1796. 

* Lisboa, 1726; 1727? Anda quase sempre encadernada com as 
dos cinco reis seguintes de Rui de Pina. 

* Miscellanea do sitio de Nossa Senhora da Luz do Pedrógão Grande, 
apparecimento da sua santa imagem, fundação do seu convento, e da See 
de Lisboa, expugnação d'ella, perda de elrei Sebastiãon. E que seja 
nobreza. Senhor, Senhoria, Vassalo delRei, Rico homem, Infanção, 
Corte, Cortezia, Mizura, Reverencia e Tirar o chapeo, e prodígios... 
Lisboa, 1629, 1 vol. ; outra ed. — 1867. O Sr. Brito Kebelo publicou 
no Arch. Hist., i, 12 e seg. uma biografia muito completa do simpá- 
tico e aventuroso prisioneiro de Alcacer-Qôbir. 



CAPITULO III — ESCOLA itall;:ía ou quinhentista 191 



SI. — SAMUEL USQDE, judeu português, nascido 
eia Lisboa, talvez dos princípios do século xvi, deixou- 
nos uma obra que merece logar aparte, a que pôs o 
titulo de Consolaçam ás tribulações de Israel. (Ferrara, 
1532). O livpo é uma exposição dialogada das persegui- 
çôis sofridas pelos judeus em todas as edades alé ao 
tempo do autor. A 1.* ed. é raríssima, constituindo ver- 
dadeira preciosidade bibliográfica. 

A Consolaçam foi por mim editada ha pouco e bem 
merecia sê lo atendendo á elogancia e pureza com que 
está escrita e a certos dados históricos que ministra com 
proficiência, pois que de muitos deles foi testemunha 
presencial o seu autor *. 



VIAJENS 

8S. — Narrativas de viajens ; seus autores. E' muito 
fecunda a literatura deste período em narraçõis de viajens. 
Os portugueses levados a ignotas regiõis, sulcando mares 
nunca dantes navegados, deviam sentir a necessidade de 
transmitir aos vindouros a notícia dos estranhos sucessos 
de que eram autores ou testemunhas. Foi o que originou 
essa curiosa série de nvros de viajens, que ocupa logar 
tam proeminente na nossa história literária. Citemos 
ANTÓNIO TENREIRO autor do Itinerário em que se contem 
como da índia veo por terra a.. . Portugal ^; FRANCISCO 
ALVARES, que escreveu a Verdadeira informação das 
terras do Preste João '; FR. PANTALEÃO DE AVEIRO 



1 Vid. na minha colecção Subsídios para o estudo da Historia da 
Literatura portuguesa, os n."' vni, ix e x onde se publicou a obra 
completa de Samuel Usque. 

2 Ed. de i560^ 1563, 1829 e juntamente com "as Pei'egrinações de 
F. Mendes Pinto -= 1725 e 1762. 

» 1640. 



192 HISTÓRIA DA LITKRATURA PORTUGUESA 



aator do Itinerário da Terra Santa * ; JOÃO DE LUCENA 
( 1549-1600), que nos deixou a Historia da vida do Padre 
Francisco Xavier com muitas curiosidades da Ásia, obra 
que mereceu ser traduzida em várias lingoas e que mere- 
cia também ser mais lida do que o é entre nós porque 
está escrita num estilo correcto e puro, podendo afouta- 
tamente colocar-se o seu autor entre os melhores clássicos 
da lingoa ^ (4- 1591); GASPAR FRUCTUOSO, autor das 
Saudades da Terra ^• FR. JOÃO DOS SANTOS, autor da 
Elhiopia Oriental *; GASPAR BARREIROS, sobrinho de 
João de Barros, que na sua Corographia descreve os 
logares por onde passou quando foi enviado por D. Hen- 
rique, em 1546, a agradecer ao Pontifice Paulo III a 
elevação ao cardinalato ^; FERNÃO CARDIM autor da 
Narrativa epistolar de uma viajem e missão jesuitica pela 
Bahia, Ilheos, Porto- Seguro, Pernambuco Espirito Santo ^; 
FR. GASPAR DA CUNHA, que deixou notícias preciosas 
no seu Tratado das cousas da China e de Ormuz ^, etc. 
A todos estes livros sobresae, porém, a obra de 

83 FERNÃO MENDES PINTO (por 1514-1583). 

Natural de Montemór-o-Velho, este escritor é pela sua 
vida aventurosa uma das figuras mais extraordinárias 
deste século. Filho de pais modestíssimos, o seu espírito 
aventureiro levou-o cedo a deixar Portugal. Viajou 



1 Ed. de 1593, 1596, 1600, 1685, 1721, 1732. 

2 1600; 1788 em 4 vols. 

í Saudades da terra, historia genealógica de Sam Miguel, de que só 
se conhecia o descrição do vale das Furnas [na Viajem de B. J. de Sena 
Freitas, 97-105], mas agora na integra, devido aos Srs. Francisco 
Maria Supico e José Pedro Cardoso — Ponta Delgada, 1876, 1 vol. 

* Évora, l(i09. 

^ 1561, impressa em Coimbra, com vários opúsculos, por seu irmSo 
Lopo de Barros. 

6 Lisboa, 1817, publicado por diligências de Yarnhagen. 

' Évora, 1570; reimpresso coma Perigrinação de F. Mendes Pinto 
em 1829. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA 00 QUINHENTISTA 193 

durante vinte anos pela Etiópia, Arábia, China, Tartária 
e pela maior parte do arquipélago oriental. As desgraças 
que lhe sucederam conta-as ele com extrema simplicidade. 
Treze vezes foi cativo, dezasete vendido. Teve ocasião 
de observar as religiõis e os costumes de numerosos 
povos primeiro que qualquer outro viajante europeu. Foi 
do que viu e ouviu que compôs a sua notabilíssima 
Peregrinação « um dos livros de mais popular e aprazi- 
vel lição que jamais se escreveram em idioma algum » *. 
A riqueza do vocabulário, a propriedade das expresseis, 
a justa medida do estilo, a singeleza unida ao vigor, o 
colorido e a vida que irrompem espontâneos das suas 
narraçõis fazem de Fernão Mendes Pinto um dos vultos 
mais simpáticos da nossa literatura e da sua Peregrina- 
ção um dos livros mais dignos de ser consultado por 
todos aqueles que tenham amor pela nossa bela lingoa. 
A acusação de noveleiro ^ e « descarado mentiroso » como 
o apoda o inglês Donald Fergusson ' caiu por terra 
sendo hoje unânimes os críticos, dentro e fora de Portu- 
gal *, em o considerarem como autor fidedigno e original. 

* Livraria Clássica Portug., t. xvi, parte 2.% onde vem a pg. 6-19 a 
noticia da vida e obra de F. M. Pinto escrita por J. Castilho ; Sr. Cris- 
tóvão Ayres, F. Mendes Pinto — subsídios para a sua biographia e pai a 
o estudo da sua obra. Memoria apresentada á Acad. R. das Sc. de 
Lisboa, Lisboa, 1905; Sr. JordSo A. de Freitas, Subsídios para a 
biblíographia portuguesa relativa ao estudo da lingoa japoneza e para a 
biogr. de F. Mendes Pinto. . . Coimbra, 1905. 

2 Teve-se até o máu gosto de inventar este trocadilho : Fernão, 
Mentes ? Minto. 

' Nas Letters from Portuguese Captives in Canion written in 1536 
and 1536. 

^ O último historiador qae se ocupa do JapSo, sua descoberta, 
introdução do cristianismo, etc. julga que se Mendes Pinto em parti- 
cularidades usou das galas e enfeites duma rica fantasia, manteve a 
narraçSo, em geral, como viva e fiel imajem da vida e costumes dos 
povos da Ásia Oriental, Cfr. Hans Haas, Geschichte des Christentums 
in Japan, c. in. Este cap. foi trad. pelo falecido escritor Sousa Mon- 
teiro e publicado no Boi, da Segunda Classe n (1910) pg. 84. 
13 



19& HISTÓRIA DA LITERÀTinU I>0RTCGVX8à 

Pôde e hade haver, escreve ura dos seus melhores bió- 
grafos, alguma cousa de exagerado ou menos exacto nas 
suas narrativas, mas o facto é que fontes de diversa 
natureza o estão hoje justificando como informador geral- 
mente verdadeiro e original *. As suas Peregrinações 
foram traduzidas para alemão, inglês, francês e espanhol 
e contam hoje numerosas ediçõis no nosso país ^. Bem 
o merecem: — riqueza e variedade de lingoagem, pri- 
mores de estilo, propriedade nas locuçõis dam á obra de 
Mendes Pinto logar eminente entre os melhores escritos 
da nossa lingoa ^. 

S4- — Não queremos deixar de mencionar no número 
das narraçôis que atraem a atenção do estudioso, as que 
formam a compilação da Historia íragico-maritima em que 
se escrevem cronologicamente os naufrágios que tiveram as 
naus de Portugal, depois que se poz em exercido a nave- 
gação da índia *. 

Esta colecção de relaçõis dos naufrágios, que sofreram 
os navegadores portugueses, empreendida por Bernardo 



* Sr. Christ. Ayres, 06. cit., e log. cit., pg. 33. Idêntico é o juiro 
do último biógrafo de Mendes Pinto, o Sr. Brito Rebelo, na Notiãa 
que precede a ed. que dirigiu em 1908, pg. xxiii. Antes do apareci- 
mento desta ed. a de 1829 em 4 vols. era considerada a melhor por 
seguir exactamente a !.• e conter n)uitas adiçõis e correçõis. 

2 A !.• é de 1614, a última, que é a 8.', saiu em 1908, em 4 vols. 
sob a direçSo do Sr. Brito Rebelo. 

' Sobre a parte que no trabalho de F. Mendes teria tido o editor 
da 1,« ed., o cronista F. de Andrade, veja-se o estudo de Castilho, cit. 
na pg. anterior, e Sr. Christ. Aires, 06. cit., pg. 52 d. Ambos impugnam 
a opinião do Conde da Ericeira D. Fr. Xavier de Meneses, segundo o 
qual Andrade preparara e dirigira a ed., servindo-se dm memoriai que 
Mendes Pinto deixara. Diz cora inteira justiça o Sr. Brito Rebelo : 
« quem conhece a palidez de estilo dé^e cronista, tanto em pro.sa, 
coroo em verso, reconhece prontamente no fulgor da prosa de F. Men- 
des, a sua grande inteligência e o vigor de um estilo que prende e 
domina... u. Lo^. rà., pg. xxxii. 

•í Em 2 tomos, o i." de 1735, o 2.* de 1736. 



CAPITULO ni — ESCOLA ITALIANA OU QUINHKin-TSTA 195 



Gomes de Brito (1688), é um modelo de lingoagem sim- 
ples, espontânea e verdadeiramente popular. Sam doze 
essas relaçõis: 1.* — do naufrágio do Galeão grande 
S. João na Terra do Natal ( 4552), que deu o assunto do 
poema de J. Corte-Real — Naufrágio de Sepúlveda e das 
estâncias de Camões (v, 46 48), pois é do naufrágio de 
Manoel de Sousa de Sepúlveda, que essa narração se 
ocupa ; 2.* — da Ndo S. Bento no Cabo da Boa-Esperança 
( 1554) ; 3/ — da Mo Conceição nos Baixos de Pêro dos 
Banhos (1535); 4.* — das Náos Águia e Garça ( 1559); 
5.* — da Ndo Santa Maria da Barca (1559); 6.* — da 
Ndo S. Paulo na ilha de Sumatra ( 1561 ) ; 7.* — da Ndo 
Jorge de Albuquerque Coelho (1365); 8.* — da Ndo San- 
tiago (1585); 9.» — da Ndo S. Tomé (1589); 10.* — 
da Ndo Santo Alberto (1589); 11.* — da Ndo S. Fran- 
cisco (1596); 12.* — do Galeão Santiago (1604) *. 



ELOQUÊNCIA 

S^. — Eloquência sagrada. Sam defícientissimos os 
documentos para o estudo da eloquência neste período, 
reduzida por enquanto á forma religiosa do púlpito. 
Alguns oradores sabemos terem existido tam somente 
pelas referências dos historiadores, como Fernão Lopes 
qne cita o dominicano Fr. Rodrigo * e os franciscanos 
Fr. Pedro ', Fr. João Xira ♦ e Fr. Rodrigo de Sintra de 
quem o velho cronista diz que era « notável e grande 



1 A alguns exemplares da Historia Trágico- Maritima anda anexo 
um 3.» vol. formado de várias Relações avidsas ( Cfr. Innoc, Dic. Bibl, 
I, 378 ). 

2 Chronica de D. João 1, p. iii, c.*ii. 
^^Ibid., p. 11, c. XLvni. 

* i6id.,.p. ui,^c.^u e xcv. 



i96 BtSTÓRIà DA LITBRÁTimi PORTUaiTISA 

pregador mui letrado e teólogo » *, os quais todos 
viveram no tempo de D. João I. 

No século XV adquiriram fama de notáveis pregadores 
o dominicano Fr. Vicente de Lisboa, que publicou exce- 
lentes instruçõis para os que se entregavam ao ministé- 
rio do púlpito ^, e o carmelita Fr. João Sobrinho, que foi 
pregador de Afonso V. O que careteriza os trabalhos 
oratórios destes, como de todos os oradores anteriores ao 
século XVI, é, segundo Cenáculo, a familiaridade no dizer, 
a simplicidade do estilo em harmonia com a pouca instru- 
ção do auditório, as referências frequentes á Sagrada 
Escritura e aos Santos Padres. Mas a sciência teológica 
tomou grande impulso com o Concilio de Trento (1545- 
1563) e disso se resentiu a eloquência do púlpito, como 
não podia deixar de ser desde que Portugal tomou parle 
e muito notável nessa grande reunião das forças católicas. 
Como se sabe, o Concílio Tridentino compreende três 
períodos destintos. 

A ele assistiram como delegados do nosso pais no 
tempo da primeira abertura (1545-1547) três grandes 
teólogos dominicanos — Fr. Jerónimo da Azambuja ou 
Oleaster; Fr. Jorge de Santiago e Fr. Gaspar dos Reis, e 
o bispo do Porto D. Fr. Baltazar Limpo. 

Na segunda abertura (1547-1559) estiveram como 
embaixadores de D. João III — Diogo da Silva. Diogo 
de Gouvêa, João Pais e Diogo Mendes de Vasconcelos, 
assistindo também o bispo de Silves D. João de Melo 
e D. Estevão de Almeida, que tinha a sua diocese em 
Espanha. 

Na terceira e última abertura (1561-1563), entre os 
muitos portugueses que assistiram destinguiram-se o arce- 
bispo de Braga D. Fr. Bartolomeu dos Mártires, o bispo 
de Coimbra D. Fr. João Soares, o doutor Diogo de Paiva 



1 Ibid., p. 1, c. CLi. 

2 Cenáculo, Mem. hi$t. do minitterio do púlpito. 



CAPITULO m — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 197 



de Andrade, Fr. Francisco Foreiro, da ordem dos Prega- 
dores e D. Gaspar do Casal, bispo de Leiria. 

Estes e outros teólogos portugueses alcançaram justifi- 
cada fama pelo conhecimento profundo da Sagrada Escri- 
tura e dos Padres da Igreja *, sendo alguns apontados 
como notáveis pregadores, D. Fr. João Soares, por ex., 
venerado pelos seus contemporâneos como um segundo 
Demóstenes, diz Fr. Luís de Sousa 2. No último quartel 
do século XVI citam-se alguns escritores, que foram 
egualmenle modelos de boa eloquência como Fr. Pedro 
Calvo, Fr. António Feio, o padre Luís Alvares, o bispo 
de Miranda e Leiria D. António Pinheiro ^ e outros. 
Falaremos aqui tam somente dos mais ilustres. 

se. — D. FR. BARTOLOMEU DOS MÁRTIRES (1514- 
1590), o célebre arcebispo de Braga, cuja mitra renun- 
ciou em troca da paz do convento de Viana, que 
fundara, além das obras latinas * deixou um Catecismo 
da Doutrina Cristã ' em estilo correcto e simples. Como 
orador, segundo o dizer do seu biógrafo, linha um estilo 
de pregar « muy differente do que usava na Corte... 
deixou flores de rhetorica, explicações agudas, e conceitos 
levantados, que serviam lá pêra orelhas deUcadas, e enten- 
dimentos mimosos pêra os penetrar, e fazer effeito a 
doutrina medicinal a modo de bom guisado e entregou-se 
todo a termos chãos e doutrina clara, que servisse pêra 
todos ... » 6. 



* P. António Pereira de Figueiredo, Portugueses nos Concílios Geraet, 
1 vol., 1787. 

2 Vida do Are, i, ii, c. 17. 

' As suas obras foram publicadas em 2 vol., 1784: e 1785 por Bento 
José de Sousa Farinha. 

* Vid. Barbosa Machado, Bibl. Lusit. 

» Imp. em Braga, lõ6i. Outras ed. : 1574, 1594, 1603, 1617, 1628, 
1656, 1566, 1674, 1684, 1765, 1785. 

6 Fr. Luís de Sousa, i, c 3uv ( ed. 1857 ). 



198 U8TÓBU DÁ UTBRATCaA POBTnanKSÀ 



sr. — FR. LUÍS DE GRANADA (1504-1588), embora 
espanhol, pois nasceu na cidade do seu apelido, viveu, 
ensinou, pregou e morreu em Portugal. Temos dele um 
Compendio de doutrina cristã * de lingoagem simples, mas 
apurada. A este Compendio andam anexos os seus Sermões, 
pelos quais foi celebrado como orador de fama. Veio 
para Portugal a pedido do cardeal D. Henrique, de quem 
foi confessor e conselheiro e de quem escreveu uma bio- 
grafia, que se conserva ainda inédita, como várias cartas 
ultimamente descobertas. Considerado clássico entre nós, 
Fr. Luis de Granada é no pais vezinho tido como um dos 
creadores da prosa espanhola ^. 

8©. ■— FR. MIGUEL DOS SANTOS (4- 1595) é con- 
tado no número dos mais abalisados oradores do seu tempo. 
Dos sermõís o mais notável e o único hoje conhecido 
é o pregado nas exéquias de D. Sebastião celebradas nos 
Jerónimos, em Belém, a 19 de setembro de 1578 ^ 

80. -—DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE (1528-1575), 
um dos representantes de Portugal no Concílio de Trento, 
onde foi enviado por D. Sebastião, quando apenas coutava 
trinta e três anos, irmão do cronista Francisco de Andrade, 
foi também um orador notável, como se pôde ajuizar 
pelos 181 sermõis, que nos restam *. O auditório deante 
do qual se fazia ouvir era sempre do mais selecto. Os 
seus sermõís sam, no dizer de Cenáculo, juntamente com 



» Lisboa, i559; outras: 1780, 1789. 

» Cfr. Boi. da S* Cl. da Acad. R. das Sc. de Lisboa, i, ( 1903 ). 228. 

* Ha duas ed., uma de Camilo Casleio Branco nas Virtudes Antigas, 
e oDlra no semanário de Braga a Cruz, 3.» ano, n* 9 19. 

* Distribuídos em 3 vols., contendo o 1.° ( iGU3 ) os sermõis do 
Advento e Festas do Natal ; o 2.<* ( 1604 ) de N. Senhora e dos Santos 
e o 3.* ( 161B) de Quaresma, fúnebres e outros. 



CAPITULO III — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 199 

OS de Fr. João de Ceita, Fr. Felipe da Luz, Francisco 
Fernandes Galvão e Fr. Tonnás da Veiga, os mais seguros 
exemplares onde o orador português pôde estudar o génio 
da iingoa, pureza de dição, e mais qualidades no que diz 
respeito ao exercício concinatório. 

90. — FR. FRANCISCO FERNANDES GALVÃO (1554- 
1610) destinguiu se muito cedo no púlpito. Indo a Roma. 
em 1578 o Papa admirou-o tanto que Ibe deu uma conezia 
em Coimbra e os Cardeais chamavam-lhe o doutor portu- 
guês. Os seus sermõis póstumos formam três volumes *, 
escritos em lingoagem pura e muito familiar. 

MORALISTAS 

Ql. — Vários escritores cultivam neste século uma 
literatura filosóQco-moral. Já falamos do historiador Barros. 
Um outro Barros — o Dr. João de Barros — (n. depois 
de 1533) publicou o Espelho de casados '; Martim Afonso 
de Miranda deixou no Tempo de agora, em forma dialogai, 
conselhos e sentenças morais ^ D. Joana da Gama 
(Hh 1586) professa ou, pelo menos, recolhida dum con- 
vento de Évora, escreveu os Ditos da Freira. . . nos quaes 
se contem sentenças mui notáveis e avisos necessários *; 
D. Francisco de Portugal, deixou também Sentenças morais 



1 Sermõis de Quaresma (i611);2.» Festas dos Santos (1613); 
3.« Festas de Jesus Cristo { 161(i ). 

2 1.* ed., raríssima, 1540 ; 2.» ed. por Tito de Noronha e António 
Cabral, Porto, 1874. 

' 1 ■ p. 1622, 2.* p. 1624, reimpressos por Farinha, em 1783. 

* Tem junto — Trovas, vilancetes e sonetos, cantigas e romances agora 
novamente feitos pelo mesmo autor, l." ed. raríssima, Évora, 1533, 
reimp. por Tito de Noronha no Porto, 1872. Vid. também Inoc, 
Dice., X, 140. 



200 HISTÓRIA DA UTSaATURA PORTUGUESA 



e criteriosas ♦. Mas ha, sobretudo, três escritores que 
aqui merecem menção honrosíssima. Todos três são 
considerados mestres da lingoa, que muito opulentaram 
de termos novos e adquados. A pureza, o gôslo, a 
suavidade, sam qualidades que adornam a lingoagem 
de que usaram: Sam HEITOR PINTO (-Í- 1584), da 
Covilhã, lente da cadeira de Escritura na Universidade 
de Coimbra, autor da Imagem da vida chrislã -, obra 
de grande erudição sagrada e profana escrita em estilo 
cheio de correcção e altamente instrutivo. Quem quiser 
ver a verdadeira imagem da eloquência do divino Platão 
e do eloquentíssimo Cicero, escreve Dias Gomes ', lea os 
Diálogos deste autor. Àlêm da mais pura e santa moral 
cristã, que constitue o fundo especial dos ditos diálogos, 
neles admirará, quem os ler, em grau superior todas as 
graças do estilo, o mais puro e correcto. AMADOR 
ARRÁEZ (+ i600) de Beja, celebrado bispo de Portale- 
gre, autor dos Dialogas * muito estimados pela proveitosa 
doutrina que encerram ; e FR. TOMÉ DE JESUS ( -J- 1382 ), 
irmão do teólogo Diogo de Paiva de Andrade e do cronista 
Francisco de Andrade, que já nomeamos. Escreveu os 
Trabalhos de Jesus ^ obra elogiada por nacionais e estran- 
jeiros, muitas vezes trad. em várias lingoas ^ e que, na 
opinião do bispo de Viseu, « na parte do atrevimento e- 
belleza das metaphoras vence indispensavelmente todos os 



* Vid. na minha colecção Siibsidios para o estudo da historia da 
Literatura portuguesa, o vol. vn — Sentenças de D. Francisco de Por- 
tugal, Coimbra, 1905, 1 vol. 

^Imagem... ordenada por dialogas. [Sam 11 diálogos], ele. 
Coimbra, l.« parte, 1563, 1565, 1567, 1580. 1591, 1592, 1603. A 2.» 
parle saiu em 1572, 1575, 1580, 1585, 1591, 1592, 1593, 1681, 1813. 

' Obras Poéticas, pg. 29. 

* Ed. de Coimbra, 1589, 1604, 1846. 

^ Parte i, Lisboa, 1602 ; Parte ii, 1609. As duas partes na ed. de 
1662, num vol.; 3." ed. 173^; 4.», 1781, 5.', 1865. 

* Sr. E. Prestage, Boi. da Seg. Cl. [da Acad. das Sc. de Lisboa] 
IV, fase. 1.», out de 1910, pg. 13. 



CAPITULO ni — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 201 

J 

nossos escriptores de prosa. Se em Fr. Luís de Sousa, 
continua o abalisado critico, o gosto se satisfaz mais, o 
estudo não aproveita tanto ; e se Vieira não é menos abun- 
dante, e é mais regular, na audácia metaphorica fica 
inteiramente a perder de vista. E quem, no que toca á 
prosa portuguesa, sobresai a Vieira e a Sousa, mais nin- 
guém lhe resta entre os nossos de que possa ganhar 
victória > *. 

ROMANCES DESTE PERÍODO 

9â. — Entre os romances deste século, ao lado da 
Menina e moça, da Crónica do imperador Clarimundo, e 
do Memorial dos cavaleiros da segunda Távola redonda, já 
citados, merece mencionar-se em primeiro logar o Palmei- 
rim de Inglaterra de FRANCISCO DE MORAES (4- 1572) 
que alguns escritores, como Gayangos, têem atribuído 
ao espanhol Luis Hurtado, romance que obteve grande 
voga, sendo traduzido para francês e italiano, e do qual 
Cervantes no D. Quixote dizia, pela boca duma das suas 
personagens, que merecia ser conservado com tantos 
cuidados como as obras de Homero. 

A circunstância que motivou os debates sobre a origi- 
nalidade do Palmeirim foi o ter aparecido publicado o 
texto português em 1567, ao passo que o espanhol apare- 
ceu em 1548, quase vinte anos antes. Mas está provado 
que Francisco de Moraes escreveu o Palmeirim em 1544 
dedicando-o á infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manoel 
e da rainha D. Leonor e irmã de D. João IIL Àlêm deste 
argumento deduzido da dedicatória do romance, a simpatia 
nele manifestada em vários togares por Portugal e seus 
heróis, a exactidão das referências locais e topográficas, 
a adjectivação apropriada que lhes dedica, a concordância 
dalgumas passagens com o critério que deveria ter Moraes 

» Obras, i, 292. 



202 HISTÓRIA DA LITKaATVaA POaTUSUISA 



conforme se colhe da sua biografia, por ex., o episódio 
tam conhecido das quatro damas francesas, que se ajusta 
perfeitamente a Moraes e fica inexplicável quando supo- 
séssemos o livro da autoria de Hurtado, o cotejo dos textos 
recaindo sobre « omissõis, adiçõis e mudanças », tudo 
esclarece e resolve a questão em favor do autor português *. 
O Palmeirim teve dois continuadores : DIOGO FERNANDES, 
que escreveu a 3.* e 4.* parles com o título: D. Duardos 
(1587), e BALTASAR GONÇALVES LOBATO, autor da 5.* 
e 6.* partes com o título D. Clarisel da Bretanha (160á). 

Q3. — FERNÃO ALVARES DO ORIENTE ( 1540-1595), 
de Goa, escreveu á imitação da Arcádia de Sannazaro a 
sua novela pastoril Lusitânia transformada, obra em prosa 
e verso, onde figuram sob forma alegórica o próprio 
autor e muitos escritores dos fins do século xvi ^. Men- 
cionemos, enfim, GONÇALO FERNANDES TRANCOSO, que 
sob o título Contos e historias de proveito e exemplo compôs 
trinta e nuve contos, alguns da tradição popular, muitos 
imitados de Boccacio e outros autores e que sam, no 
dizer de Faria e Sousa ^ o primeiro livro de novelas que 
saiu á luz em Espanha. 

* Sobre este ponto vid. M. Odorico Mendes, Of>usculo acerca do Pal- 
meirim de Inglaterra, etc, Lisboa, 1860 ; D. C. M. de Vasconcellos, 
Versuch iiber den Palmeirim, Halle, 1883 ; Inoc, Dicc. Bihl., iii, 14, 
e IX, 349 e F. Pinheiro, Curso, etc, pg. 18 c Resumo, pg. 99 e sobre- 
tudo William Edward Purser, Palmeirim of England, some remarks on 
this Romance and on the controverse concerning ils authorship, London, 
1904, 1 vol., que prova a prioridade portuguesa do afamado romance, 
e de que se encontra a súmula dos principais argumentos no Boi. da 
Seg. Cl. da Acad. R. das Sc, ii, Lisboa, 1910, 281-299, num lúcido 
relatório de Sousa Monteiro. 

2 1.* ed. 1595. E mais duas — 1607 e 1787. 

í Europa Portuguesa, iir, p. iv, c. 8.*, n.* 67. Os primeiros contos 
de Trancoso saíram em 1585 com o titulo Contos Proveitosos, em 
duas partes ; já depois da morte do autor, em 1596, é que apareceram 
em três partes e com o titulo que damos no texto. Outras ed. 1633, 
1646^ 1681, 1710. A ed. mais vulgar, mas ainda assim rara, é de 1772. 



CAPITULO III — ESCOLá ITALIANA OU QUINHENTISTA 203 



d4;. — Obras poéticas escritas em latim. Já em 
outro logar (cfr. n.*" 49 e 50) mencionamos alguns 
escritores que composeram todas ou algumas das suas 
obras na liogoa latina, á semelhança do que na mesma 
época fizeram os escritores de outras nacionalidades. 
Glenardo, Vaseu, Damião de Góes, D. Jerónimo Osório, 
André de Resende, e as poetisas Sigeas e Joana Vaz 
pertencem a este número. A afinidade entre a lingoa 
portuguesa e a latina explica muito bem a existência 
desta ordem de trab.ilhus, como nos dá egualmente a 
razão da cultura da lingoa grega em Portugal, que teve 
o seu apogeu no reinado de D. João III *. Estas obras 
não sam propriamente do domínio da literatura e por isso 
nos limitamos a registar aquelas individualidades, que na 
sua maioria viveram no século xvi e escreveram o latim 
com rara elegância. Andam as suas obras reunidas no 
Corpus illustrium poetarum lusitanorum, qui latine scri- 
pserunt, dado á luz pelo Padre António dos Reis e 
aumentado com a vida dos poetas pelo Padre Manoel 
Monteiro ^. Enconlram-se nesta obra reunidas as pro- 
duçõis latinas dos seguintes poetas : 

vol. i: Pedro Sanches, Hermigio Caiado, Manoel da 
Gosta, Diogo Mendes de Vasconcelos, Miguel de Quevedo 
e António de Quevedo ; 

vol. II : João de Melo de Sousa ; 

vol. 111 : Diogo de Paiva de Andrade ' ; 

* Fr. Fortanato de S. Boaventura, Memoria do começo, progresso e 
decadência de litt. grega em Portugal, etc, in-Mem. da Acad. R. das Sc. 
de Lisboa, vm, p. 1." e sr. dr. A. J. Gonçálvez Guimarâis, O grego em 
Portugal, Coimbra, 1894. 

» Lisboa, 1743-48, 8 voll. 

3 Filho do cronista Francisco de Andrade e sobrinho do Dr. Diogo 
de Paiva de Andrade, orador notável, mencionado no texto como autor 
do poema Chauleidos, sobre o cêrco de Chaul em 1370. Escreveu ainda 
o Casamento Perfeito ( 1.» ed., 1630; 2.% I7á6; 3.» s. a. [ 1905] ), e o 
Exame de Antiguidades. 



204 HISTÓRIA DA LITERATUBA POBTUQUESA 

vol. IV : Lopo Serrão, Fr. Francisco de Barcelos ; 

vol. v: Fr. Tomé de Faria, bispo de Targa, e António 
Figueira Durão ; 

vol. vi: Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo; 

vol. VII : Fr. Francisco de Macedo, Jorge Coelho e Antó- 
nio de Gouvêa ; 

vol. VIII : Editor P.* António dos Reis. 

Antes das produçõis poéticas de cada autor, epigra- 
mas, sonetos, cartas, etc, ha primeiramente a sua 
biografia ( Vita), e a seguir, a transcrição dos elogios 
que lhe foram dirigidos por outros colegas (testimonia 
authorum). Destaquemos dentre essas produçõis: a 
intitulada Chaulãdos sobre o cerco de Ghaul, muito 
admirada entre os estranjeiros, a de Fr. Tomé de Faria 
no vol. V que é a tradução para latim dos Lusíadas, e 
« que mais parece romance púnico que romano », conforme 
escreveu D. Francisco Manoel de Melo no Hospital das 
Letras; e no vol. vi, as de Fr. Francisco de S. Agostinho 
de Macedo, aquele polígrafo afamado que em Veneza, 
em 1637, defendeu teses que acusam uma erudição ver- 
dadeiramente extraordinária *, autor das tragicomédias 
Orpheu e Jacob compostas para a corte de Luís xiv e nela 
representadas ^. 



TRABALHOS FILOLÓGICOS 

GS» — Gramáticos portugueses. Devemos assinalar 
nesta época o aparecimento das primeiras gramáticas 
portuguesas. Portugal antecedeu neste género as outras 
naçõis civilizadas da Europa, pois que Fernão de Oliveira, 
o autor da Fabrica das Nãos, publicou a sua Gramática 



* Vid. a sua enumeração em J. S. Ribeiro, Primeiros traços, etc, 
já cit, pg. 24. 

2 Ferdinand Oeais, Resume, ob. cit., pg. 220. 



CAPITULO in — ESCOLA ITALIANA OU QUINHENTISTA 20S 

da linguagem portuguesa em 4536 *, seguindo-se-Ihe João 
de Barros que publicou a sua Cartinha para aprender a 
lér em 1539 e a sua Gramática em 1540. 

Do bispo D. Fr. João Soares é também uma Cartinha 
sobre regras de gramática, tendo aparecido várias outras 
por estes mesmos tempos. Duvidou-se mesmo da priori- 
dade que sobre D. João Soares teria João de Barros, 
questão, por ventura insolúvel, versando sobre « tam 
miúdos volumes, tam distantes de nós e que a discuriosi- 
dade que lhes sobreveio ainda hoje encrua as esperanças 
de se acharem ». O que é certo é ter-se publicado a 
Gramática de Oliveira em 1536 e três anos depois a de 
J. de Barros. Antes de 1540 coloca o erudito Cenáculo 
outra Cartinha para ensinar a lêr. . . ^. 

Ora os primeiros esforços para constituir uma gra- 
mática francesa datam de Meigret que publicou o Tretté 
de la grammère françoèze em 1550, de Estienne que 
em 1557 deu á estampa o Traicté de la gr. françoise e de 
Ramus, cuja Grammère é do ano de 1562 '. Ao lado dos 
trabalhos que procuravam estabelecer as leis gramaticais 
portuguesas pelo seu confronto cora as regras latinas, os 
estudos similares difundem-se. PÊRO DE MAGALHÃES DE 
GANDAVO publica em 1574 as Regras de escrever a Ortho- 
graphia da lingoa portuguesa com um dialogo em defensão 
da mesma; DUARTE NUNES DE LIÃO em 1576 escreve 
a Orthographia da lingiia portuguesa e em 1606 a Origem 
da lingua portuguesa *; enflm JERÓNIMO CARDOSO dá-nos 
em 1570 o seu Diccionario latino-lusitanico e lusiianico- 
latino. 



* Reimpressa no Porto, 1871. A Inquisição, Damião de Góes e 
Fernão d'Oliveira julgados por ella — Serões n.» 14, agosto 1906, 
já cit. 

2 Memorias históricas, ii, 65. 

* Nyrop, Gr. hisL de la lajigue frança ise, 1899, pg. 54. 

* Num só vol. com o título : Origem e Orthogr. da lingoa porlug. . . 
Lisboa, 1784. Outra ed. : 1866. 



206 HI8T0BIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



OO- — Scientistas. Sob esta categoria devemos men- 
cionar alguns escritores, que crearam nome imorredouro 
pelos seus trabalhos, como PEDRO NUNES (1492-1544), 
célebre cosmógrafo e geómetra, inventor do nónio e cujas 
obras o colocam na vanguarda dos sábios da sua época • ; 
GARCIA DA ORTA, médico e botânico destintissimo que 
com o muito que estudou na índia, onde residiu durante 
trinta anos, escreveu os CoUoquios dos simplices e drogas, 
ainda hoje estimado e devidamente considerado *, sábio a 
quem o nosso Épico dedicou a ode que começa 

Aquelle único exemplo 

De pobreza heróica e ousadia ' 



e que primeiro do que ninguém fez conhecer a cólera- 
morbo numa descripção tam viva como exacta *. 

Mencionemos ainda ANTÓNIO LUÍS, que na Universi- 
dade explicava Aristóteles e Galeno na própria língoa 
grega e que parece ter entrevisto a lei da atração universal 
enunciada por Newton *. 



* Vid. relaçSo dessas obras em Freire de Carvalho, ob. cit., nota (5i), 
pg. 312. Cfr. também òíem. da Acad. real das se. de Lisboa, A. da 
Litt, VII, 250 83; e os artigos do sr. Rodolpho GuimarSes na revista 
de Coimbra, Instituto, 1901, pg. 396; sr. J. Bensaude, L' Aslronomie 
nautique au Portugal à 1'époque des grandes découvertes. Berne, 1912 e 
sr. Prof. Luciano P. da Silva na Rev. da Unio. de Coimbra, ii ( 1913 ) 
pg. 127 e 246. 

' Os CoUoquios. . . foram trad. para latim, francês, italiano e espa- 
nhol. O conde de Ficalho deu em 1891 uma bela ed. ( Lisboa, 
2 vols. ). A !.■ ed. é de Gôa, 1563. Com o titulo Garcia da Horta 
e o seu tempo, Lisboa, 1886, publicou o mesmo ilustre escritor os 
seus estudos sobre o grande botânico. Vid. também A. Tomás Pires, 
Estudos e notas elvenses, vni — Garcia da Horta, Elvas, 1905, 1 folh. 

3 Vid. ed. de Juromenha, Obras, ii, 275. 

* Apud — Gazela medica do Porto, setembro de 1901, p. 437. 

* Freire, .06. át., pg. 116. 



CAPITULO m — ESCOLA ITALIANA OIT QUINHENTISTA 207 

Ao lado destes autores outros ha que se tornaram 
notáveis no domínio filosófico, pela exposição das suas 
próprias teorias, ou pelos comentários das de autores 
estranhos. Era sobretudo Aristóteles quem reinava nas 
escolas, foi também esse aulôr grego quem esgotou o 
melhor dos esforços dos filósofos portugueses *. 

Entre todos estes muito se destinguiu o célebre FRAN- 
CISCO SANCHES (1562-1632), médico e filósofo, que 
ensinou sobretudo no estranjeiro e que defendeu o sceti- 
cismo scientífico na mais conhecida das suas obras, a 
que pôs o título de De multum nobili, et prima universali 
scientia — quod nihil scittir ^. 



* A evolução das doutrinas filosóficas em Portugal não encontrou 
ainda o seu historiador. O trabalho do Sr. Dr. Lopes Praça — 
Historia da Philosophia em Portugal nas suas relações com o movimento 
geral da Philosophia ( Coimbra, 1868) é apenas um esboço e, demais, 
incompleto. No entretanto é esse o único trabalho de valor, que pode 
dar-nos uma idéa do grande movimento filosófico português durante 
o seu curto, mas glorioso reinado. 

2 E. Senchet no seu trabalho Essai sur la méthode de Francisco 
de Sanches, prof. de philosnphie et de medicine n l'Univ. de Toulouse, 
Lavai, 1904, 1 vol., afirma que Sanches não é português, mas espanhol, 
nascido em Tui. O estudo de Senchet traz o retrato de Sanches. 



ANTOLOGIA 

SÉCULO XVI 



POESIA 

I 

Sooeto. 

Busque Amor novas artes, novo engenho 
Para matar-me^ e novas esquivanças ; 
Que não pôde tirar-me as esperanças. 
Pois mal me tirará o que eu não tenho. 

Olhai de que esperanças me mantenho ! 
Vede que perigosas seguranças 1 
Pois não temo contrastes nem mudanças. 
Andando em bravo mar, perdido o lenho. 

Mas com quanto não pôde haver desgosto 
Onde esperança falta, lá me esconde 
Amor hum mal, que mata e não se vô. 

Que dias ha que na alma me tée posto 
Hum não sei que, que nasce não sei onde ; 
Vem não sei como; e doe não sei porque. 

Camões, Obras (ed. Juromenlia), ii, son. xv. 

II 

Ontro. 

Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no Ceo eternamente, 
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento Ethereo, onde subiste. 
Memoria desta vida se consente. 
Não te esqueças de aquelle amor ardente 
Que ja nos olhos meus tão puro viste. 

14 



JIO ANTOLOGIA — POESIA 



E se vires que pôde merecer-le 
AlgOa cousa a dór que me ficou 
Da mágoa, sem remédio, de perder-le ; 

Roga a Oeos que teus annos encurtou, 
Que tâo cedo de cá me leve a vêr-te, 
QuSo cedo de meus olhos te levou. 

Id., Md,, son. xiz. 

III 

Onlro. 

Sete annos de pastor Jacob servia 
Labao, pai de Rachel, serrana bella, 
Mas nSo servia ao pai, servia a ella. 
Que a ella só por premio pertendia. 

Os dias na esperança de um só dia 
Passava, contentando-se com vê-la : 
Porém o pai, usando de cautela, 
Em logar de Rachel lhe deu a Lia. 

Vendo o triste pastor que com enganos 
Assi lhe era negada a sua pastora. 
Como se a nSo tivera merecida ; 

Começou a servir outros sete annos. 
Dizendo : Mais servira, se nSo fora 
Para tSo longo amor tSo curta a vida. 

Id. Und., son. xxix. 

IV 

Ontro. 

Horas breves de meu contentamento. 
Nunca me pareceu quando vos tinha, 
Que vos visse mudadas tâo asinha 
Em táo compridos annos de tormento. 

As altas torres, que fundei no vento, 
Levou, em fim, o vento que as sostinha ; 
Do mal que me ficou a culpa é minha, 
Pois sobre cousas vãas fiz fundamento. 

Amor com brandas mostras apparece ; 
Tudo possível faz, tudo assegura ; 
Mas logo no melhor desapparece. 

Estranho mal ! Estranha desventura ! 
Por um pequeno bem, quH dcsfallece. 
Um b(^i^ .^y^nturar, que sempre dura I 

Id , tôtd., son. cLXxx;j]ár/ cruq oSl -iU^m »omu «u. 



8ÉC0L0 XVI 



211 



V 
Voltas. 



MOTIVO ALHEO 



Vós, Senhora, tudo tendes, 
SenSo que tendes os olhos verdes. 



Dotou em vós natureza 
O sumrao da perfeição : 
Que o que em vós é senão, 
E' em outras gentileza : 
O verde não se despreza, 
Que, agora que vós o tendes, 
Sâo bellos os olhos verdes. 

Camões, ObrasJ Ed. Juromonha 



VOLTAS 

Ouro e azul é a melhor 
Côr, por que a gente se perde ; 
Mas a graça d'esse verde 
Tira a graça a toda cór. 
Fica agora sendo a flor 
A côr, que nos olhos tendes, 
Porque sâo vossos e verdes. 

, IV, 64. 



VI 



MOTE 



Descalça vai para a fonte 
Leonor pela verdura ; 
Vai formosa, e nSo segura. 



VOLTAS 



Leva na cabeça o pote, 
O testo nas mSos de prata. 
Cinta de fina escarlata, 
Sainho de chamalote : 
Traz a vasquinha de cote. 
Mais branca que a neve pura ; 
Vai formosa, e não segura. 

Id., ibid., 97. 



Descobre a touca a garganta, 
Cabellos de ouro entrançado. 
Fita de eôr d'encarnado, 
Tão linda que o mundo espanta 
Chove nella graça tanta, 
Que dá graça á formosura ; 
Vai formosa, c não segara. 

VII 



Endechas a Barbara escrava. 



Aquella captiva, 
Que me tem captivo, 
Porque nella vivo. 
Já não quer que viva. 
Eu nunca vi rosa 
Em suaves molhos, 
Qtfe para meus olhos 
Fosse roais formosa. 

Nem no campo flores, 
Nem no Ceo estrellas, 
Me parecem bellas, 
Como os meus amores. 
Rosto singular, 
Olhos socegados, 



Prelos e cansados. 
Mas nSo de matar. 

Uma graça viva. 
Que nelles lhe mora, 
Para ser Senhora 
De quem é captiva. 
Pretos os cabellos, 
Onde o povo váo, 
Perde opinião. 
Que os louros são bellos. 

Pretidão de amor, 
Tão doce a figura 
Que a neve lhe jura 
Qu9; trocara a cor. 



212 



ANTOLOGIA 



POESIA 



Leda mansidão, 
Que o siso acompanha : 
Bem parece estranha, 
Mas barbara não. 

Presença serena, 
Que a tormenta amansa : 

Id., iWd., 118. 



Nella emfim descansa 
Toda minha pena. 
Esta é a captiva, 
Que me Icm captivo ; 
E pois nella vivo, 
E' força que viva. 



VIII 
RedoDdilhas. 



Sôbolos rios que vâo 
Por Babylonia, me achei, 
Onde sentado chorei 
As lembranças de Sião, 
E quanto nella passei. 
Alli o rio corrente 
De meus olhos foi manado ; 
E tudo bem comparado, 
Babylonia ao mal presente, 
Sião ao tempo passado. 

Alli lembranças contentes. 
Na alma se representaram ; 
E n)inhas cousas ausentes 
Se fizeram tão presentes, 
Como se nunca passaram. 
Alli, despois de acordado, 
Co'o rosto banhado em agoa, 
D'este sonho imaginado. 
Vi que todo o bem passado. 
Não é gosto, mas é mágoa. 

E vi, que todos os damnos 
Se causavam das mudanças, 
E as mudanças dos annos ; 
Onde vi quantos enganos 
Faz o tempo às esperanças. 
Alli vi o maior bem, 
Quão pouco espaço que dura, 
O mal quão depressa vem, 
E quão triste estado tem, 
Quem se fia da ventura. 

Vi aquillo que mais vai, 
Que então se entende melhor. 
Quando mais perdido for : 
Vi ao bem succeder mal, 
E ao mal muito peor. 
E vi com muito trabalho 
Comprar arrependimento : 
Vi nenhum contentamento, 
E vejo-me a mi, que espalho 
Tristes palavras ao vento. 



Bem são rios estas agoas, 
Com que banho 9ste papel : 
Bem parece ser crnel 
Variedade de mágoas, 
E confusão de Babel, 
(jomo homem, que por exemplo 
Dos trances, em que se achou, 
Despois que a guerra deixou, 
Pelas paredes do templo 
Suas armas pendurou : 

Assi, despois qu'assentei. 
Que tudo o tempo gastava, 
Da tristeza que tomei, 
Nos salgueiros pendurei 
Os órgãos com que cantava. 
Aquelle instrumento ledo, 
Deixei da vida passada ; 
Dizendo: Musica amada, 
Deixo-vos neste arvoredo 
A' memoria consagrada. 

Frauta minha, que tangendo 
Os montes fazieis vir 
Par'onde estáveis, correndo ; 
E as agoas, que iam descendo, 
Tornavam logo a subir ; 
Jamais vos nSo ouvirão 
Os tigres que s'amansavam, 
E as ovelhas, que pastavam, 
Das hervas se fartarão. 
Que por vos ouvir deixavam. 

Já não fareis docemente 
Em rosas tornar abrolhos, 
Na ribeira florecente ; 
Nem poreis freio á corrente, 
E mais se for dos meus olhos. 
Não movereis a espessura. 
Nem podereis já trazer 
Atraz vós a fonte pura, 
Pois não pudestes mover 
Desconcertos da ventura. 



SÉCULO XVI 



213 



Ficareis offerecida 
Á fama, que sempre vela, 
Frauta de mi l5o querida ; 
Porque mudando-se a vida, 
Se mudam os gostos d'ella, 
Acha a tenra mocidade 
Prazeres accommodados; 
E logo a maior idade 
Já sente por pouquidade 
Áquelles gostos passados. 

Um gosto, que hoje s' alcança, 
Amanhã já o não vejo : 
Assi nos traz a mudança 
De esperança em esperança, 
E de desejo em desejo. 
Mas em vida tão escassa, 
Que esperança será forte ? 
Fraqueza de humana sorte. 
Que quanto da vida passa, 
Está recitando a morte. 

Mas deixar nesta espessura 
O canto da mocidade, 
Não cuide a gente futura. 
Que será obra da idade 
O que é força da ventura. 
Qu'idade, tempo, e espanto. 
De ver quão ligeiro passe. 
Nunca em mi puderam tanto, 
Que postoqne deixo o canto, 
A causa d'elle deixasse. 

Mas em tristezas e nojos, 
Em gosto, e contentamento, 
Por o sol, por neve, por vento, 
Tendrè presente a los ojos 
Por quien miiero tan contenlo. 
Orgâos, e frauta deixava. 
Despojo meu tão querido. 
No salgueiro, que alli 'stava. 
Que para tropheo ficava 
De quem me tinha vencido. 

Mas lembranças da affeiçSo, 
Que aili captivo me tinha, 
Me perguntaram então, 
Qu'era da musica minha. 
Que eu cantava em Sião : 
Que foi d'aquelle cantar, 
Das gentes ião celebrado, 
Porque o deixava de usar, 
Pois sempre ajuda a passar 
Qualquer trabalho passado. 



Canta o caminhante ledo, 
No caminho trabalhoso. 
Por entre o espesso arvoredo ; 
E de noite o temeroso 
Cantando refrêa o medo. 
Canta o preso docemente. 
Os duros grilhões tocando ; 
Canta o segador contente ; 
E o trabalhador cantando, 
O trabalho menos sente. 

Eu qu'estas cousas senti 
N'alraa, de mágoas tão cheia. 
Como dirá, respondi, 
Quem alheio está de si. 
Doce canto em terra alheia ? 
Como poderá cantar 
Quem em choro banha o peito ? 
Porque, se quem trabalhar, 
Canta por menos cansar. 
Eu só descansos engeito. 

Que não parece razão, 
Nem seria cousa idonia, 
Por abrandar a paixão 
Que cantasse em Babylonia 
As cantigas de Sião. 
Que quando a muita graveza 
De saudade quebrante 
Esta vital fortaleza. 
Antes morra de tristeza, 
Que por abrandá-la cante. 

Que se o fino pensamento 
Só na tristeza consiste. 
Não tenho medo ao tormento : 
Que morrer de puro triste. 
Que maior contentamento ? 
Nem na frauta cantarei 
O que passo, e passei já. 
Nem menos o escreverei ; 
Porque a penna cansará, 
E eu não descansarei. 

Que se vida tão pequena 
S'accrescenta em terra estranha; 
E se amor assi o ordena, 
Razão é que canse a penna 
De escrever pena tamanha. 
Porém, se para assentar 
O que sente o coração^ 
A penna já me cansar, 
Não canse para voar 
 memoria em Sião. 



214 



ANTOLOGIA — POESIA 



Terra bemaven lurada, 
Se por algum movimento 
D'alma me fores tirada, 
Minha penna seja dada 
A perpetuo esquecimento. 
A pena d'e8te desterro, 
Qu'eu mais desejo esculpida 
Em pedra, ou em duro ferro. 
Essa nunca seja ouvida. 
Em castigo de meu erro. 

Ejse eu cantar quiser 
Em Babylonia sujeito, 
Hierusalem, sem te ver, 
A voz, quando a mover, 
Se me congele no peito; 
A minha lingua se apegue 
Ás fauces, pois te perdi, 
S'em quanto viver assi 
Houver tempo, em que te negue, 
Ou que m'e8queça de ti. 

Mas ó tu, terra de gloria, 
S'eu nunca vi tua essência, 
Como me lembras na ausência. 
Não me lembras na memoria, 
SenSo na reminiscência ? 
Que a alma é táboa rasa, 
Que com a escripta doutrina 
Celeste tanto imagina. 
Que vda da própria casa, 
E sobe á pátria divina. 

NSo é logo a saudade 
Das terrac onde nasceu 
A carne, mas é do Ceo, 
D'aquella santa Cidade, 
IVonde esfaima descendeu. 
E aquella humana figura. 
Que cá me pôde alterar, 
PiSo é quem se ha de buscar ; 
E' raio da formosura, 
Que só se deve d'amar. 

Que 08 olhos, e a luz que ateia 
O fogo que cá sujeita, 
Não do Sol, nem da candeia, 
E' sombra d'aquella ideia, 
Qu'em Deos está mais perfeita. 
E 08 que cá me captivaram, 
São poderosos aíTeitos 
Qu*os corações téem sujeitos ; 
Sophistas, que me ensinaram 
Máos caminhos por direitos. 



U'estes o mando tyranno 
M'obriga com desatino 
A cantar ao som do damno 
imantares d'amor profano, 
Por versos d'amor divino. 
Mas eu, lustrado co'o santo 
Raio na terra de dor, 
De confusões, e d'e8panto, 
Como hei de cantar o canto, 
Que só se deve ao Senhor ? 

Tanto pôde o beneficio 
Da graça que dá saúde. 
Que ordena que a vida mude 
E o qu'eu tomei por vicio, 
Me faz grão para a virtude ; 
E faz qu'este natural 
Amor, que tanto se preza, 
Suba da sombra ao real, 
Da particular belleza 
Para a belleza geral. 

Fique logo pendurada 
A frauta com que tangi, 
O' Hierusalem sagrada, 
E tome a lyra dourada 
Para só cantar de ti. 
Nâo captivo e ferrolhado 
Na Babylonia infernal. 
Mas dos vicios desatado, 
E cá desta a ti levado, 
Pátria minha uatural. 

E s'eu mais der a cerviz 
A mundanos accidentes. 
Duros, tyrannos e urgentes, 
Hisque-se quanto já fiz 
Do grSo livro dos viventes. 
E tomando já na mão 
A lyra santa, e capaz 
D'outra mais alta invenção, 
Cale-se esta confusão, 
Cante-se a visão de paz. 

Ouça- me o Pastor e o Rei, 
Retumbe este accento santo, 
Mova-se no mundo espanto; 
Que do que já mal cantei 
A palinodia já canto. 
A vós 8Ó me quero ir, 
Senhor e grão (Capitão 
Da alta torre de Sião, 
A' qual não posso subir. 
Se me vós não dais a mão. 



SÉCULO XVI 



215 



No grSo dia singular, 
Que na lyra era douto som 
Hierusalem celebrar, 
Lembrae-vos de castigar 
Os ruins filhos de Edom. 
Aquelles que tintos vâo 
No pobre sangue innocente, 
Soberbos co'o poder vâo, 
Arraza-los igualmente : 
Conheçam que humanos s3o. 



Quem com disciplina crua 
Se fere mais que uma vez ; 
Cuja alma, de vícios nua, 
Faz nodas na carne sua, 
Que já a carne n'alma fez. 
E beato quem tomar 
Seus pensamentos recentes, 
E em nascendo os afogar. 
Por nâo virem a parar 
Em vicios graves e urgentes : 



E aquelle poder tSo duro 
Dos affectos com que venho, 
Qu'incendem alma e engenho ; 
Que já m'entraram o muro 
Do livre arbítrio que tenho ; 
Estes, que tão furiosos 
Gritando vém a escalar-me, 
Máos espíritos damnosos, 
Que querem como forçosos 
Do alicerce derribar-me ; 



Quem com alies logo der 
Na pedra do furor santo, 
E batendo os desfizer 
Na Pedra, que veio a ser 
Emfim cabeça do canto : 
Quem logo, quando imagina 
Nos vicios da carne má. 
Os pensamentos declina 
Áquella Carne divina. 
Que na Cruz esteve já. 



Derribae-os, fiquem sós, 
De forças fracos, imbelles ; 
Porque nâo podemos nós, 
Nem com elles ir a vós. 
Nem sem vós tirar-nos d'elles. 
NSo basta minha fraqueza 
Para me dar defensão. 
Se vós, santo CapitSo, 
Nesta minha Fortaleza 
Não puserdes guarnição. 



Quem do vil contentamento 
Cá d'este mundo visibil. 
Quanto ao homem for possibil, 
Passar logo entendimento 
Para o mundo intelligibil ; 
Alli achará alegria 
Em tudo perfeita, e cheia 
De tâo suave harmonia, 
Que nem por pouca recreia, 
Nem por sobeja enfastia. 



E tu, ó carne, qu'encantas. 
Filha de Babel tSo feia. 
Toda a miséria cheia. 
Que mil vezes te levantas 
Contra quem te senhoreia ; 
Beato só pôde ser 
Quem co'a ajuda celeste 
Contra ti prevalecer, 
E te vier a fazer 
O mal que lhe ta fizeste : 



Alli verá tão profundo 
Mysterio na summa Alteza, 
Que, vencida a natureza. 
Os mores faustos do mundo 
Julgue por maior baixeza. 
O' tu, divino aposento. 
Minha pátria singular. 
Se só com te imaginar. 
Tanto sobe o entendimento. 
Que fará se em ti se achar ? 



Ditoso quem se partir 
Para li, terra excellente, 
Tâo justo, e tâo penitente. 
Que despois de a ti subir, 
Lá descanse eternamente I 



CamÕds, Okras, {Hd. Juromeuha), iv, 1-17. 



216 ANTOLOGIA — POBSIA 



IX 

No cmzeiro da costa da Arábia. 



Junto d'hum sêcco, duro, estéril monte, 
Inútil e despido, calvo e informo, 
Da natureza em tudo aburreeido ; 
Onde nem ave vôa, ou fera dorme, 
Nem corre claro rio, ou ferve fonte. 
Nem verde ramo faz doce ruido ; 
Cujo nome, do vulgo introduzido, 
He Feliz, por antiptirasi infelice; 

O qual a natureza 

Situou junto á parle, 
Aonde hum braço d'alto mar reparte 
A Abassia da Arábica aspereza, 
Em que fundada já foi Berenice, 

Ficando á parte, donde 
O sol, que nella ferve, se lh'esconde ; 

O cabo se descobre, com que a costa 
Africana, que do Austro vem correndo. 
Limite faz, Arómata chamado : 
Arómata outro tempo ; que volvendo 
A roda, a ruda língua mal composta 
Dos próprios outro nome lhe têe dado. 
Aqui, no mar, que quer apressurado 
Entrar por a garganta deste braço. 

Me trouxe um tempo e teve 

Minha fera ventura. 
Aqui nesta remota, áspera e dura 
Parte do mundo, quis que a vida breve 
Também de si deixasse hum breve espaço ; 

Porque ficasse a vida 
Por o mundo em pedaços repartida. 

Aqui me achei gastando huns tristes dias. 
Tristes, forçados, máos e solitários, 
De trabalho, de dôr e d'ira cheios : 
Não tendo láo somente por contrários 
A vida, o sol ardente, as águas fria.s. 
Os ares grossos, férvidos e feios. 
Mas os meus pensamentos, que são meios 
Para enganar a própria natureza, 

Também vi contra mi ; 

Trazendo-me á memoria 
Alguma já passada e breve floria, 
Ou'eu já no mundo vi, quando vivi ; 
Por me dobrar dos males a a.spereza. 

Por mostrar-me que havia 
No mundo muitas horas d'alegria. 



SÉCULO XVI 



217 



Aqui 'stive eu com estes pensamentos 
Gastando tempo e vida ; os qnaes tão alto 
Me subião nas asas, que cahia 
( Oh ! vede se seria leve o salto ! ) 
De sonhados e vãos contentamentos 
'Em desesperação de vêr hum dia. 
O imaginar aqui se convertia 
Em improvisos choros e em suspiros, 

Que rompião os ares. 

Aqui a alma captiva, 
Chagada toda, estava em carne viva, 
De dores rodeada e de pezares, 
Desamparada e descoberta aos tiros 

Da soberba Fortuna ; 
Soberba, inexorável e importuna. 

Não tinha parte donde se deitasse. 
Nem esperança alguma, onde a cabeça 
Hum pouco reclinasse, por descanso : 
Tudo dôr lhe era e causa que padeça, 
Mas que pareça não ; porque passasse 
O que quis o destino nunca manso. 
Oh qu'e6te irado mar gemendo amanso ! 
Estes ventos, da voz importunados, 

Parece que se enfreião : 

Somente o Ceu severo, 
As estrellas e o fado sempre fero, 
Cora meu perpétuo damno se recreião; 
Mostrando-se potentes e indignados 

Contra hum corpo terreno, 
Bicho da terra vil e tão pequeno. 

Se de tantos trabalhos só tirasse 
Saber inda por certo que algunia'hora 
Lembrava a huns claros olhos que já vi ; 
E s'esta triste voz, rompendo fora 
As orelhas angélicas tocasse 
Daquella em cuja visia já vivi ; 
A qual, tornando hum pouco sobre si, 
Revolvendo na mente pressurosa 

Os tempos já passados 

Dos meus doces errores, 
De meus suaves males e furores, 
Por ella padecidos e buscados, 
E ( posto que já tarde ) piedosa, 

Hum pouco lhe pezasse, 
E lá entre si por dura se julgasse : 

4sto só que soubesse me seria 
Descanso para a vida que me liça ; 
Com isto aíTagaria o soflfri mento. 
Ah Senhora I Ah Senhora ! E que tão rica l 
Estaes, que cá tão longe d'alegria 
Me sustentais com doce fingimento 1 



218 ANTOLOGIA — POESIA 



Logo que vos figura o pensamento, 
Foge todo o trabalho e toda a pena. 

Só com vossas lembranças 

Me acho seguro e forte 
Contra o rosto feroz da fera morte ; 
E logo se me juntão esperanças 
Com que, a fronte tornada mais serena, 

Torno os tormentos graves 
Em saudades brandas e suaves. 

Aqui com ellas íleo perguntando 
Aos ventos amorosos, que respirSo 
Da parte donde estais, por vós Senhora ; 
Ás aves qu'alii voão se vos virão. 
Que fazíeis, qu' estáveis praticando ; 
Onde, como, com quen), que dia e que hora 
AUi a vida cansada se melhora, 
Toma espíritos novos com que vença 
A fortuna e trabalho, 
Só por tornar a vêr-vos, 
Só por ir a servir-vos e querer-vos. 
Diz-me o tempo que a tudo dará talho : 
Mas o desejo ardente, que detença 

Nunca sofTreo, sem lento 
Me abre as chagas de novo ao sofifrimento. 

Assi vivo ; e s'alguem te perguntasse. 

Canção, porque nâo mouro ; 

Podes-lbe responder ; que porque mouro. 

Cam&68. Obras, (Eú. Juroiueiiha], ii, 206. 



Morte de D. Leonor 

(Canto iTii) 

No canto atras passado ( se vos lemlira ) 

Vistes o Capitão ouvir mil gritos, 

E o coraçáo presago, a dura morte 

Da sua Lianor lhe descubria. 

Com trabalho se apressa, por achar-se 

Presente ao mal, que teme & já vê certo: 

E da penosa dor afadigado, 

Quasi arrastando vay os lassos membros. 

Hum difficil hanélíto lhe seca 

A boca já mortal ; & os tristes olhos 

Sumidos da fraquesa em vivas fontes 

De lagrimas piedosas se convertem. 

(^hega a donde Lianor ao passo forte 

E termo táo timido estava entregue ; 

Ve que a turvada vista rodeando^ 



SÉCULO XVI 219 



A elle so demanda, a elle so busca ; 
E vendo que he chegado, esforça huna pouco 
O animo, & procura despedir-se. 
Levanta com trabalho os mortaes olhos. 
Quer-lhe fallar, a morte a língua impide. 
Firraa-os cada vez mais no triste rosto 
Daquelle único amigo, que já deixa : 
Trabalha agasalhá-lo, & não podendo 
Com dor mortal na terra se reclina. 

Entregâo-se a morrer aquelles olhos 
Que mil mortes já tinhâo dado a muitos ; 
Huma mortal angústia lhe rodea 
Aquelle alegre e angélico sembrante ; 
Já de todo lhe foge a côr de rosa 
Do rosto tão fermoso ; já s'esfria. 
Já íica a branca mão sem movimento ; 
O peito ebúrneo fica sem sentido. 

Qual da Casta Diana a belta image 

Se vio per mão de Phidias esculpida. 

Que o soberbo edifício ennobrecendo, 

Sentio do tempo avaro a força «St a ira : 

Entre antiguas ruinas jaz a illustre 

Admirável figura despojada; 

E ainda que perdeo estado e glória, 

Dissenho lhe ficou valor & estima : 

Alli mostra hum perfil medido e justo, 

Nos membros proporção perfeita & rara, 

Mostra fermosos olhos, mostra graça, 

Mostra tudo fermoso, mas sem vida. 

Tal na deserta Praia fica o corpo 

Mais que mármore ou branca neve, branco, 

De crespas febras d'ouro soccorrido. 

Que com intento casto alli defendem. 

Alça-se um alarido até as estrellas. 

Das criadas que em torno d'ella estavão ; 

Ferem com duros punhos rosto & peitos. 

Fazendo um triste som, que rompe as nuves. 

Dos gritos 6c. lamento outra vez torna 

O concavo rochedo huma voz escura, 

E correndo por baixo do arvoredo 

Miseráveis assentos vay formando : 

Quantas vezes o nome amado chamSo 

Com palavras do choro interrompidas, 

Tantas Eco chorosa lhe responde 

Co'a mesma dor, c'o mesmo sentimento. 

O varão infelice trespassado 

De huma terribil dor já sem remédio. 

Tremendo as fracas pernas, não podendo 

Soffrer a grave carga & poso triste 

Junto do amado corpo se reclina. 

Com sembrante afdigido, os tristes olhoa 



ÍIO ANTOLOGIA — POESIA 



Com intrínseca pena os tinha promptos 
Naquelia ja defunta fermosura. 



Cuida no duro termo a que seus gostos 

E a que todos seus bens se reduzirão. 

Cuida em contentamentos já passados 

Que agora muito mais o entresteciSo. 

Alli (para mais dor) se lhe apresenta 

O vário proceder de seus amores, 

O principio alterado, & o successo 

T3o próspero, jucundo & Ião felice. 

Cuida como passou em sombra o tempo 

Ligeiro, & Ião amigo de mudanças : 

E quando imaginava estar mais alto 

Vio da mudável roda a volta dura. 

Despois que hum grande espaço está pasmado, 

Opprimido de dor o peito enfermo, 

Alevanta-se, & vay mudo òe. choroso 

Onde a praia se vô mais opportuna. 

Apartando co'as mãos a branca área, 

Abre nella huma estreita sepultura, 

Torna-se atras, alçando nos cansados 

Braços aquelle corpo lasso &. frio, 

Ajuclão as criadas as funestas 

Derradeiras exéquias com mil grilos. 

« Ai duro tempo ! ( dizem ) como apartas 

Para sempre de nós tal fermosura I » 



Na perpétua morada tenebrosa 

A deixâo, levantando alto alarido ; 

Com salgado liquor banhando a terra, 

Aquelle último vale 1 todas dizem. 

Não fica so Lianor na casa infausta, 

Que de um tenro filhinho se acompanha, 

Que a luz vital gozou quatro perfeitos 

Annos, ficando o quinto interrompido. 

Alli co'a morta mãi o filho morto, 

Ambos com morto amor em terra jazem. 

Ella lhe nega o branco amado peito, 

E elle o doce, materno, amado gosto : 

Ambos na solitária praia ficão 

Junto das grossas ondas sepultados. 

Deixando ao mundo hum triste, raro exemplo 

De perversa, cruel, impia fortuna. 

O misero Sepúlveda rodea 

Os olhos, com effeito de saudade ; 

Em lagrimas desfaz o bulcão turvo 

De que assombrado tinha o triste spríto. 

Com voz do triste choro embaraçada 

Palavras diz de lástima & piadosas. 

Noí braços toma hum filho que alli tinha 

De tenra idade, & vista miserável ! 



SÉCULO XVI 221 



Por estreita vereda entra no mato 
Dos bravos leões e tigres povoado; 
A morte vai buscando : elles doídos 
J)e seu mal lh'a darSo em breve espaço. 

.1. Corte-Real, Naufrágio de Sepúlveda, ed. de 1783, pg. 399 e seg 



XI 
El-Rei D. Sebastião em Sintra. 



Ve bem no cume uma maravilha, 

Que náo cuido que fosse igual contada. : 

So cem passos de terra o moço trilba 

Em cima que não fosse alcantilada; 

Os quaes oceupa um templo que se invoca 

A senhora da Pena ou da alta Roca. 

Aqui viu claras fontes crystallinas, 

Que em duras pedras tinham nascimento, 

Edificadas altas officinas 

D'um consagrado e pudico convento : 

Um peregrino alli de peregrinas 

Pedras com jamais visto intendimento 

Um retabolo fez, que parecia 

De rica e subtil marceneria. 

De Pario alabastro marchetava 
O Corynthio porphydo enxerindo 
O jaspe em luso mármore ; que estava 
Suspenso o rei, pintar-se presumindo. 
Brutescos e cordões dependurava 
( Tudo de pedra ) que se estará rindo ; 
Quem não viu esta obra desusada, 
De muitos que a viram celebrada. 

Nâo so no altar sancto se embebia 
O moço rei ; que está rapto e enlevado 
Ouvindo tam suave melodia 
Que lhe parece estar beatificado. 
Mas como para o mundo emíim pendia, 
Sai-se do templo a ver o mar inchado. 
Descobrindo d'alli do Olympio monte 
Do meio orbe terreno o horisonte. 

Tendo sempre presente na memoria 
O que lhe o seu esforço promettia, 
Dos seus passados á superna glória, 
Que n'elle o tempo assim escurecia, 
A prolongada empresa, e obrigatória 



221 



ANTOLOGIA — POESIA 



A quem a lei de Christo pretendia 
Estender até o ultimo terreno 
Contra a força do bárbaro Agareno. 

Mágoa com que ao mar o rosto vira 
Por lhe n5o renovar tristes lembranças ! 
E caminhando assim triste suspira 
( EÉfeito de compridas esperanças ) 
Do monte desce emfim onde subira 
A ver o que é sugeito de mudanças, 
E fonte de perigos não cuidados 
So para cubiçosos ordenados. 

Ve que as nuvens abaixo errando andavam 
Cubrindo os valles que altas serras fendem ; 
Desce até que per cima lhe ficavam. 
Que em fria sombra pelo ár se estendem 
Bosques de férteis plantas se mostravam, 
De cujos ramos vários fructos pendem ; 
Umas e outras sempre florecendo, 
Como que sempre fosse amanhecendo. 

Ouvindo as rotas lymphas que cahindo 
Por entre lisas pedras murmurando 
Parece certo alli que vém sentindo, 
O que no peito o moço está traçando : 
Onde Flora de Zephyro fugindo 
As esquecidas folhas meneando 
Do bosque bem parece que dizia 
Porque tam cruelmente lhe fugia. 

Sendo néctar e ambrósia alli o rocio 
Que em matutinas flores lento e grave 
Cahindo la do ceo, coalhado e frio 
Da astuta abelha era manjar suave : 
Debaixo de um castanho alto e sombrio 
Se assenta o Luso porque mais o aggrave 
Seu mal ouvindo au som de claras aguas 
Passarinhos cantarem ternas mágoas. 

Alli pois divertindo o vagamundo 
Pensamento, mil cousas considera 
Por applacar o peito furibundo, 
Que com nenhum repouso se modera : 
Alli ve que o que foi senhor do mundo 
Que mais, depois de se-lo, não quisera 
Que lograr o repouso desejado 
Em doce companhia congregado. 

.Mas nada o satisfaz, porque faltando 
Ao apetite aquillo que deseja, 
( O peior muitas vezes desejando ) 
Nada o queira emfim, por mais que veja ; 
E assim lodo o repouso desprezando 



sÉcoLO XVI 283 



Abraça uma interna e van peleja : 
n'onde turbado e triste se levanta 
Depois que de confuso se quebranta. 

Por entre os lisos troncos corvados 
O passo move onde escritas crescem 
Várias tenções de peitos namorados, 
Que em perpetua memoria permanecem 
Estão do tempo alli dos reis passados, 
Que os cortezãos d'agora já aborrecem 
A pureza d'amor, porque chorando 
Não andem as pobres arvores riscando. 

Cintra se chama esta deleitosa 
Parte, onde repouso o moço engeila. 

L. P. Brandão, Elegiada. 



XII 
A habitação dos ventos. 



. . . n'hua profunda cova escura. 
Os inquietos ventos encerrados, 
Júpiter pôs, e com bem forte e dura 
PrisSo a todos têe presos, e atados : 
E para que inda possa mais segura 
Mente alli seus furorçs ser domados, 
Lhe pós também um grande monte em cima, 
E hum Rey lhes deu q os mande e q os reprima. 

Elles com grão ruido e estrondo horrendo 
Sempre em torno da porta estão bramando, 
Eolo, a quem o padre alto, e tremendo 
Deu 8obr'eIles o sceptro, deu o mando, 
Os está d'hfla torre alta regendo. 
Seus Ímpetos, e fúrias temperando, 
E de tal sorte o temem, e venerão, 
Que por elle s'enfreião, ou se alterão. 



Logo do real sceptro a ponta volta 
Ao cavo monte, que em si os ventos cerra, 
Empucha-o para hum lado, e a prisão solta, 
Âquelles com que faz a sua guerra : 
Sahe a turba feroz, com grãa revolta. 
Subverter desejando o mar, e a terra. 
Mas vendo do seu Rei a veneranda 
Presença, párão, vendo o que elle manda. 



224 ANTOLOGrA — POESIA 



Elle lhes manda enlSo que ao companheiro 
Zéfiro dêem favor no que pretende, 
Já Zéfiro d'alli parte ligeiro, 
E ajudado do amor que dentro o acende, 
Em breve terapo chega onde o primeiro 
Raio da luz dourado Apollo estende, 
Contente assaz de vér-se já tSo perto 
Do seu bem, que ser seu ja, têe por certo. 

Os furiosos ventos, que seguirão 
() companheiro sempre que os guiava, 
Tanto que da prisSo soltos se virão 
Mostrão a sua antiga fúria brava : 
Os mansos mares tanto que sentiráo 
Aquella fúria, que antes presa estava, 
De tal sorte se vão embravecendo, 
Qu'até ás nuvens perece ir-se erguendo. 

As grossas alias ondas escumosas, 
Dos furiosos ventos constrangidas, 
VSo quebrar seu furor nas alterosas 
Rochas, ou lá nas praias estendidas : 
Retumbão as montanhas cavernosas, 
Vôem-se do mar as nuvens combatidas, 
Qu'a força com que encontra a rocha dura 
Lhe faz com que entSo suba a tanta altura. 

O claro ar e sereno s'escurece, 
Qu'a grossa e negra nuvem lhe succede, 
O resplendor do Sol desapparece, 
Qu'esta nuvem também mesma lh'o impede : 
No mar ao meio dia hoje* anoitece, 
Horrisonos trovões de si despede 
O Ceo, e apoz estrondos espantosos 
Solta de si mil raios luminosos. 

ChegSo entretanto Euto, Africo c Noto 
Onde 08 navios v5o, que os lá levarão, 
E co'o seu costumado terremoto. 
Em tudo grão temor então causarão, 
Eis já com ai ta- voz grita o Piloto, 
Os marinheiros não se descuidarão. 
Saltão de cá e de lá com grande pressa, 
Hum á corda, outro ao remo se arremessa. 

Mas por mais que ande esperto e diligente. 
De se poder salvar ja desconfia. 
Porque cada momento mais presente. 
Crescendo a tempestade, a morte via. 
Zéfiro receioso e descontente 
Do perigo cm que vé por quem morria, 
Roga aos ventos, que em si qneirão pôr freio. 
Nem lhe dêem tanto bem com tal receio. 



SECDLO XVI 



225 



Porém elles, que mal entSo podiSo 
Refrear o que lée por natureza, 
Cada momento mais então cresciâo, 
Em Ímpeto, furor, ira e braveza : 
Ora por entre as ondas descobriâo 
Dos mares a areosa profundeza, 
Ora fazem que o mar tâo alto saia 
Que lá nas nuvens quer fazer a praia. 

Nas náos attribuladas isto espalha 
Grande espanto, temor, desconfiança, 
Mas a gente que nellas se agasalha 
Faz, quanto de viver lhe dá esperança : 
Com revezada força se trabalha 
Na longa bomba, e o mar ao mar se lança, 
Ora se encolhe a escota, ora se solta. 
Cresce a voltas do medo, a grãa revolta. 

F. de Andrade, Primeiro Cerco de Diu, ed. 1852, canto rr, est. ix-xvi. 



XIII 
Romance. 



Pensando-vos estou, filha ; 
vossa mãe m' está lembrando ; 
enchen-se-me os olhos d'agua, 
nella vos estou lavando. 

Nascestes, filha, antre magua ; 
pêra bem inda vos seja ! 
pois em vosso nascimento 
Fortuna vos houve inveja. 

Morto era o contentamento, 
nenhuma alegria ouvistes ; 
vossa mãe era finada, 
nós outros éramos tristes. 

Nada em dor, em dor creada, 
não sei onde isto ha de ir ter ; 
vejo-vos, filha fermosa 
com olhos verdes crecer. 

Não era esta graça vossa 
pêra nacer em desterro. 
Mal haja a desaventura 
que poz mais nisto que o erro ! 

Tinha aqui sua sepultura 
vossa mãe, e magua a nós ; 
não éreis vós, filha, não, 
pêra morrerem por vós. 

15 



Não ouvem fados rezão, 
nem se consentem rogar ; 
de vosso pae hei mór dó, 
que de si se ha de queixar. 

Eu vos ouvi a vós só, 
primeiro que outrem ninguém ; 
não fôreis vós, se eu não fora ; 
não sei se fiz mal, se bem. 

Mas não pôde ser, senhora, 
pêra mal nenhum nascerdes, 
com esse riso gracioso 
que tendes sob olhos verdes. 

Conforto, mas duvidoso, 
me é este que tomo assi ; 
Deus vos dé melhor ventura 
do que tiveste té 'qui. 

A Dita, e a Fermosura, 
dizem patranhas antigas, 
que pelejaram um dia, 
sendo d'antes muito amigas. 

Muitos hão que é phantesia; 
eu, que vi tempos e annos, 
nenhuma cousa duvido 
como ella é azo de damnos. 



226 



ANTOLOGIA 



POESIA 



Mas nenhum mal nSo é crido ; 
o bem só é esperado : 
e na crença, e na esperança, 
em ambas ha 'hi cuidado, 
em ambas ha 'hi mudança. 
Bernardim Ribeiro, ed. Pessanha, 173-176. 

XIV 

Oatro romance. 



Ao longo de uma ribeira, 
Que vai polo pé da serra, 
Onde me a mim fez a guerra 
Muito tempo o grande amor, 
Me levou a minha dôr ; 
Já era tarde do dia, 
E a agoa delia corria 
Por antre um alto arvoredo, 
Onde ás vezes ia quedo 
O rio, e ás vezes n5o. 
Entrada era do verSo, 
Quando começam as aves, 
Com seus cantares suaves 
Fazer tudo gracioso ; 
Ao rugido saudoso 
Das agoas cantavam ellas, 
Todalas minhas queréllas 
Se me pozeram diante ; 
Alli morrer quizera ante, 
Que vôr por onde passei ; 
Mas eu que digo ? passei I 
Antes inda hei de passar 
Em quanto hi houver pezar, 
Que sempre o hi ha de haver. 
As agoas, <que do correr 
Não cessavam um momento, 
Me trouxeram ao pensamento, 
Que assim eram minhas magoas ; 
Donde sempre correm agoas 
Por estes olhos mesquinhos, 
Que tem abertos caminhos, 
Polo meio do meu rosto : 
E já náo tenho outro gosto 
Na grande desdita minha, 
O que eu cuidava que tinha 
Foi-se-me assim nâo sei como ; 
Donde eu certa crença tomo, 
Que pêra me leixar veio. 
Mas tendo-me assim alheio, 
IJe mim o que alli cuidava; 
Da banda donde a agoa estava, 
Vi um homem todo cáa 
Que lhe dava polo chá, 



A barba e o cabello : 
Ficando eu pasmado dello. 
Olhando elle pêra mim, 
Fallou-me, e disse-me assim : 
Tão bem vai esta agoa ao Tejo. 
Nisto olhei, vi meu desejo 
Estar de traz triste só, 
Todo cuberto de dó 
Chorando, sem dizer nada, 
A cara em sangue levada, 
Na boca posta uma mão, 
Como que a grande paixSo 
Sua falia lhe tolhia. 
E o velho que tudo via, 
Vendo-me também chorar, 
Começou assim fallar : 
Eu mesmo sou teu cuidado, 
Que n*outra terra criado, 
Nesta primeiro nasci : 
E est'outro me está aqui 
E' o leu desejo tri.ste, 
Que má hora o tu viste, 
Pois nunca te esquecerá ; 
A terra, e már passará 
Transpassando a magoa a ti. 
Quando lhe eu aquisto ouvi, 
Soltei suspiros ao choro, 
Alli claramente o foro 
Meus olhos tristes passaram ; 
De um bem só qu'eiles olharam. 
Que outro nunca mais tiveram, 
Nem o tive ; nem mo deram ; 
Nem o esperei somente ; 
De só ver fui tão contente ; 
Que pêra mais esperar 
Nunca me deram lugar. 
E naquisto triste eslando, 
Cnm os olhos tristes olhando 
Daquellas bandas dálem, 
Olhei, e não vi ninguém. 
Dei então a caminhar 
Rio abaixo até chegar 
Acerca de Monte mór, 



SÉCULO XVI 



227 



Com meus malles derredor. 
Da banda do meio dia 
A\li minha fantesia 
Dantre uns medrosos penedos, 
Ond'aves que fazem medos 
De noite os dias vão ter. 
Me sahiu a receber 
Com uma mulher polo braço, 
Que, ao parecer, de cansaço 
Não podia ter-se em si, 
Dizendo : Vês, triste, aqui 
A triste lembrança tua. 
Minha vista então na sua 
Puz ; delia todo me enchi, 
A primeira cousa que vi, 
E a derradeira também, 
Que no mundo vão, e vem : 
Seus olhos verdes rasgados. 
De lagrimas carregados 
Logo em vendo os pareciam, 
Que de lagrimas enchiam 
Contino as suas faces. 
Que eram gram tempo pazes 
Antre mim, e meus cuidados; 
Louros cabellos ondados, 
Que um negro manto cobria, 
Na tristeza parecia 
Que lhe convinha morrer. 



Os seus olhos de me ver 
Como furtados, tirou ; 
Depois em cheio me olhou ; 
Seus alvos peitos rasgando, 
Em voz alta se aqueixando, 
Disse assim mui só sentida ; 
Pois que mór dôr na vida. 
Pêra que houve ahi morrer ? 
Calou-se sem mais dizer, 
E de mim gemidos dando, 
Fui-me pêra ella chorando 
Pêra a haver de consolar. 
Nisto poz-se o Sol ao ár, 
E fez- se noite escura, 
E disse mal á ventura, 
E á vida, que não morri. 
E muito longe d'alli 
Ouvi de um alto outeiro 
Chamar Bernardim Ribeiro, 
E dizer : Olha onde estás. 
Olhei diante, e detrás, 
E vi tudo escuridão. 
Cerrei meus olhos então, 
E nunca mais os abri. 
Que depois que os perdi 
Nunca vi tão grande bem, 
Porem inda mal porem. 



Bernardim Ribeiro, Obras, ed. 1852, 351-356. 

XV 

Egioga II. 



Interlocutores — Jano, e Franco 



Dizem que hazia um pastor 
Antre Tejo, e Odiana, 
Que era perdido de amor 
Por uma moça Joana : 
Joana patas guardava 
Pola ribeira do Tejo ; 
Seu pai acerca morava, 
E o pastor, de Alentejo 
Era, e Jano se chamava. 

Quando as fomes grandes foram. 
Que Alentejo foi perdido. 
Da aldeã que chamam Torrão 
Foi este pastor fogido : 
Levava am pouco de gado, ^' *; 



Que lhe ficou de outro mundo 
Que lhe morreo de cansado ; 
Que Alentejo era enxuto 
D'agoa, e mui seco de prado. 



Toda a terra foi perdida : 
No campo do Tejo só 
Achava o gado guarida ; 
Vôr Alentejo era um dó ; 
E Jano pêra salvar 
O gado que lhe ficou. 
Foi esta terra buscar ; 
E se um cuidado levou. 
Outro foi elle lá achar. 



328 



ANTOLOGIA 



POESIA 



O dia que alli chegou 
Com seu gado, e com seu fato, 
Com tudo se agasalhou 
Em uma bicada de um mato, 
E levando-o a pascer, 
O outro dia, á ribeira ; 
Joana acertou de hi vêr, 
Que se andava pola ribeira 
Do Tejo a flores colher. 

Vestido branco trazia ; 

Um pouco afrontada andava ; 

Fermosa bem parecia 

Aos olhos de quem na olhava. 

Jano em vendo-a foi pasmado ; 

Mas por vêr que ella fazia, 

Escondeo-se entre um prado. 

Joana flores colhia, 

Jano colhia cuidado. 

Depois que ella teve as flores 
Já colhidas, e escolhidas 
As desvairadas cores 
Com rosas entremetidas, 
Fez delias uma capella, 
E soltou os seus cabellos 
Que eram tão longos como ella, 
E de cada um a Jano em vellos 
Lhe nacia uma querella. 

E em quanto aquesto fazia 
Joana, o seu gado andava 
Por dentro da agoa fria 
Todo após quem o guiava. 
Um pato grande era guia, 
E todo junto em carreira. 
Hora rio acima ia. 
Hora na mesma maneira, 
O rio abaixo decia. 

Joana como assentou 
A capella, foi com a mSo 
A' cabeça, e atentou 
Se estava em boa feição : 
Não ficando satisfeita 
Do que da n)ão presumia, 
Partio-se dalli direita 
Pêra onde o rio fazia 
D'agoa uma manca colheita. 

Chegando á beira do rio 
As patas logo vieram 



Todas uma, e uma, em 6o, 
Que toda a agoa moveram : 
De quando ella já folgou 
Com aquestes gasalhados 
Tanto entonces lhe pesou, 
E com pedras, e com brados 
D'alli longe as enxotou. 

Depois que ellas foram idas 
E que a agoa assossegou, 
Joana as abas erguidas 
Entrar poKagoa ordenou ; 
E assentando-se, então 
As çapatas descalçou, 
E pondo-as sobre o chão 
Por dentro d'agoa entrou, 
E a Jano polo coração. 

Em quanto com passos quedos 

Joana pola agoa ia, 

Antre uns desejos e medos 

Jano, onde estava, ardia ; 

Não .sabia se falassB) 

Se sahisse, se estivesse, 

Que o amor mandava que ousasse, 

E porque a não perdesse 

Fazia que arreceasse. 

Dizem que naquesto meio 
Se esteve Joana olhando, 
E descobrindo o seu seio, 
Olhou-se, e disse, um ai dando : 
Eu guardo patas, coitada. 
Não sei onde isto ha d'ir ter, 
Mais era eu pêra guardada. 
Que concerto foi este ser 
Fermosa e mal empregada 1 

Em aquisto Jano ouvindo. 
Não se pôde em si sofrer. 
Que d'antre as ervas sahindo 
Se não lançasse a correr : 
Joana, quando sentiu 
Os estrompidos de Jano, 
E que se virou, e o viu. 
Temor do presente damno 
Lhe deu pés com que fugiu. 

Mui perto eslava o casal 
Onde vivia o pai delia, 
Que fez ir mais longe o mal, 
Que Jano teve de vôl-a : 



SÉCULO XVI 



229 



Mas o medo que causoa, 
Joana partir-se assi, 
Tanto as máos lhe embaraçou. 
Que a çapata esquerda, alli, 
Com a pressa lhe ficou. 

Jano quando viu, e olhou 
Que nenhum remédio havia 
Pêra o logar se tornou 
Aonde ella n'agoa se via ; 
E vendo a çapata estar 
No areal, á beira d'agoa. 
Foi correndo a abraçar. 
Tomando-a, cresceu-lhe a magoa 
E começou de chorar. 

Toda, a çapatar os peitos. 
Em lagrimas se banharam. 
Muitos foram os respeitos 
Que tanto choro causaram. 
Encostado ao seu cajado, 
 çapata na outra mão, 
Depois de um longo cuidado. 
De dentro do coração 
Começou falar, cansado : 



Jano 

Despojo da mais fermosa 
Cousa, que viram meus olhos. 
Pêra elles sois uma rosa, 
E pêra o coração abrolhos : 
Çapata, deixada aqui. 
Pêra mal de outro môr mal, 
Quem te leixou, leva a mi ; 
Que troca tão desigual 
Mas pois assim é, seja assi. 



Que alguns cuidados tivesse 
Não me matavam cuidando : 
Agora por meus peccados, 
E segundo em mim vou vendo, 
Não podem ser outros fados ; 
Meus cuidados não entendo, 
Morro-me assim de cuidados. 



Dentro de meu piensamento 
Ha tanta contrariedade, 
Que sento contra o que sento 
Vontade, e contra vontade ; 
Estou em tanto desvairo. 
Que não me entendo comigo. 
Donde esperarei repairo ? 
Que vejo grande o perigo, 
E muito mór o contrairo. 



Quem me trouxe a esta terra 
Alheia, onde guardada 
Me estava camanha guerra, 
E a esperança levada ? 
Comigo me estou espantado 
Como em tão pouco me dei. 
Mas cuidando n'isto estando 
Os olhos com que outrem olhei 
De mim se estavam vingando. 

E por meu mal ser mór inda 
De mim tenho o agravo mór. 
Que da minha magoa infinda 
Eu fui parte, e causador ; 
Que se me não levantara 
D'antre as ervas onde estava. 
Mais dos meus olhos gosara, 
E já que assim se ordenava 
Isto ao menos me ficara. 



Agora hei vinte e um annos, 

E nunca inda té agora 

Me acorda de sentir damnos, 

Os deste meu gado em fora ; 

Hoje, por caso estranho. 

Não sei em que hora aqui vim. 

Cobrei cuidado camanho. 

Que aos outros todos pôz fim ; 

Eu mesmo a mim mesmo estranho. 



Desastres, cuidava eu já 
Quando eu ontem aqui cheguei, 
Que a vós, e á ventura má. 
Ambos acabava ; e errei : 
Triste que me parecia. 
Que o meu gado remediado 
Comigo bem me haveria, 
E estava- me ordenado 
Esfoutro mal que inda havia. 



Antes que este mal viesse, 
Que me tantos vai mostrando, 



O mal. Dão vos sabe a vós 
Quem me vós a mim causou, 



230 



ANTOLOGIA — POESU 



Tristes dos meus olhos sós, 
Que trouxeram, aonde estou, 
Olhos a certo lofjar. 

Ribeira, mór das ribeiras 

Que levam as agoas ao mar, 

Bernardim Ribeiro, Obras, ed. 1852, 280-287 



Vós me sereis verdadeiras 
Testimunhas de pezar. 



XVI 
Egioga Crísfal 



AUTOR 



Ântre Sintra, a mui prezada, 
e serra de Riba-Tejo 
que Arrábida he chamada, 
perto d'onde o rio Tejo 
se mette nagoa salgada, 
ouve hum pastor e pastora, 
que com tanto amor se amarão, 
como males lhe causarão 
d'e8te bem, que nunca fora, 
pois foi o que não cuidarão. 

A ella chamavão Maria, 
e ao pastor Crisfal, 
ao qual de dia em dia 
o bem se tornou em mal, 
que elle tão mal merecia. 
Sendo de pouca idade, 
não se ver tanto sentião, 
que o dia, que não se vião, 
se via na saudade 
o que ambos se querião. 

Algílas horas falavão 

andando o gado pacendo, 

e então apacentavão 

08 olhos, que, em se vendo, 

mais famintos lhe ficavão. 

E com quanto era Maria 

piquena, tinha cuidado 

de guardar milhor. que o gado, 

o que lhe Crisfal dezia ; 

mas em 6m foi mal guardado. 

Que depois de assi viver 
nesta vida e neste amor, 
depois de alcançado ter 
maior bem pêra mor dor, 
em fim se ouve de saber 
por Joana, outra pastora, 
qae a Crisfal queria bem. 



— Mas o bem, que a tal vem, 
não ser bem maior bem fora, 
por não ser mal a ninguém. — 

A qual logo aquelle dia 
que soube de seus amores, 
aos parentes de Maria 
fez certos e sabedores 
de tudo quanto sabia. 
Crisfal não era então 
dos bêes do mundo abastado 
tanto como do cuidado, 
que por curar da paixão 
não curava du seu gado. 

E como em a baixeza 
do sangue e pensamento 
he certa esta certeza 
cuidar que o merecimento 
está só em ler riqueza, 
enquerirão que teria 
e do amor não curarão, 
em que bem se descontarão 
riquezas que falecião 
por males que sobejarão. 

Então descontentes d'isto 
levárão-na a longes terras, 
escondérão-na antre serras 
onde o sol não era visto, 
e a Crisfal deixarão guerras. 
Além da dor principal, 
pêra mor pena lhe dar 
puserão-no em lugar 
mao pêra dizer seu mal, 
mas bõo pêra o chorar. 



sécnto XVI 



231 



FALLA CBISFAL 

Companheiras do meu mal, 
agoas que d'alto correis, 
onde caís desigual, 
parece que me dizeis : 
Porque nâo choras, Crisfal ? 
Contar-vos quero, amigas, 
o que esta noute sonhei, 
com o qual tal dor tomei, 
que minhas muitas fadigas 
em mais fadigas dobrei. 

Despois de ontem deixar 
de vos contar os n:eus males 
fui-me cá baixo deitar 
no mais baixo d'estes valles 
antre pesar e pesar. 
Onde despois que aos ventos 
descobri minhas paixões, 
gastadas muitas rezões, 
mudei os meus pensamentos 
em minhas contemplações. 

Contente de descontente, 
a noute sendo calada, 
como he certo em quem sente, 
não ficou cousa passada 
que me nSo fosse presente. 
Vindo-me á memoria dar, 
quando andava com o gado 
ter com Maria sonhado, 
fez-me o dormir dessejar 
de mim pouco dessejado. 

E crendo que aproveitasse 
pêra meu contentamento 
se eu com ella sonhasse, 
deu-me lugar meu tormento 
que algum pouco repousasse. 
É como cansado estava 
do que no dia passei, 
a dormir pouco tardei, 
e adormecido sonhava 
o que vos ora direi. 

Sonho 

Sonhava, em meu sonhar, 
onde dormindo estava 
alli velando estar, 
quando da parle do mar 
grSo vento se alevantava; 



o qual com tal sobresalto 
chegava onde eu jazia, 
que da terra me erguia 
em tanto estremo alto, 
que a vista me fallecia. 

Vendo-me em lugar tal, 
baixei os olhos á terra ; 
vi craro dia, não ai, 
e os valles e a serra 
tudo julguei por igual ; 
mas, como aborrecido 
tanto da vida andasse, 
que meu mal já dessejasse, 
temor tâo pouco temido 
n5o creio eu que se achasse. 

Depois de me ser mostrado 
este perigo de morte, 
á terra mais abaixado 
contra a parte do norte 
sonhava que era levado. 
Antre o Tejo e Odiana 
era o meu caminhar, 
donde poderei contar, 
se o que notei nom me engana, 
cousas bem pêra notar. 

Porque vi muitos pastores 
andar guardando seus gados, 
vestidos d'alegres cores, 
bem fora dos meus cuidados, 
mas não dos de seus amores, 
não querendo mais averes, 
nem querendo mais riqueza, 
por que amor tudo despreza ; 
mas todos os seus prazeres 
forão pêra mim tristeza. 

Em hnm valle descontente 

estar Natonio vi, 

d'estes assaz diferente, 

que casi o não conheci 

sendo bem meu conhecente, 

— aqueste he o pastor 

que já veio aqui buscar-me 

nom mais que por consolar-me, - 

e vi-o com tanta dor, 

que dor me dá o lembrar-me. 

Chorando lagrimas mil 
estava comsigo só. 
ao modo pastoril 
de dó bem pêra aver dó 
tinto o ábito vil. 



232 



ANTOLOGIA 



POESIA 



Em hOa frauta tangendo 

ao pé de hu'arvore estava ; 
desque da boca a tirava, 
de dentro d'alma gemendo 
em vez de cantar chorava. 

Quisera-o eu consolar, 
mas em cujo poder ia 
não me deu a mais lugar 
que ouvir-lhe que dezia 
« O' Guiomar, Guiomar, 
em vós pus minha esperança ; 
e quanto ella encobre 
agora em dor se descobre ; 
perigos de confiança 
fizerão do rico pobre ». 

Assi, por d!e passando, 
o Natonio tenhas prazer » 
lhe dixe grão brado dando, 
té o da vista perder 
os olhos nelle deixando. 
Deos lhe dê contentamento, 
pois que nos fez a ventura 
companheiros na tristura; 
em que seu e meu tormento 
cada vez tem menos cura. 

D'aqui fomos descorrendo 
até o Tejo passar, 
a agoa de quem eu vendo 
me foi dor sobre dor dar 
indo já dor padecendo. 
Chorando a lembrança d'ella. 
virada foi minha face 
pêra onde o gado pace 
da grande .serra da Estrella 
da qual o Zezare nace. 

Posto no seu alto cume 
deixarom-me alli estar, 
e meu coração presume 
que foi por me magoar, 
como tinhâo por costume. 
D'alli os pies semeados 
ver a meus olhos deixarom, 
que por nSo grados julgarom, 
mas, posto que for5o grados, 
eu sei que não me agradarom. 

Já o sol se encobria 
a este tempo e mais 
ficando a terra sombria, 
e o gado aos currais 
já então se recolhia. 



Ouvi cães longe ladrar 
e os chocalhos do gado 
com hum tõo tâo concertado, 
que me fizerom lembrar 
de quanto tinha passado. 

Por mais minhas queixas vSas 
vi berrar o gado moucho 
cuberto de finas lãas 
e assoviar o moucho 
com o triste cantar das rãas 
Já as serranas ao abrigo 
se ião, os prados deixando, 
as mais d'ellas sospirando ; 
hQa dezia « Ai, Rodrigo ! », 
outra dezia « Ai, Fernando ! » 

Húa ciúmes temia 
outra de si tem receo ; 
hfla ouvi que dezia 
« Quão asinha a noute veo I » 
outra « Já tarda o dia ». 
E por este esperimento 
foi amor de mira julgado 
por nom menos oceupado 
do que he o pensamento, 
que nunca está descansado. 

Antre estas, só, saudosa 

vi antre duas ribeiras 

hQa serrana queixosa 

cercando hQas cordeiras, 

— sendo cordeira fermosa — 

como alli tem por uso 

em hQa roca fiando ; 

mas, como que ia cuidando, 

eahia-se-lhe o fuso 

da mão de quando em quando. 

Tendo parecer devino, 
pêra que milhor lhe quadre, 
cantar cantou d'elle dino : 
« Yo me yua, la mi madre, 
a sancta Maria dei pino » 
O vestido lhe oulhei, 
e vi que era hum brial 
de seda e não de saial, 
a qual eu afigurei 
a Menga, la dei boscal. 

Depois d'acabar seu canto 
dezia : « Ninguém me crea 
por me ver alegre tanto ; 
visto-me á vontade alhea, 
e o meu cantar he pranto ; 



SÉCULO XVI 



233 



anda a dor dessimulada, 
mas ella dará seu fruito ; 
a minha aima traz o luito; 
de pouco são esposada, 
mas descontente de muito. 

Troquei amor por riqueza 
porque mo trocar fizerom ; 
mas bem pago esta crueza, 
que, em que cem contos me derom, 
descontáráo-se em tristeza : 
meu esposo aborreço, 
quando me a lembrança vem 
do primeiro querer bem 
ninguém venda amor por preço^ 
pois elle preço nâo tem. 

Não tenho que lhe falar, 
se nSo são cousas passadas ; 
se lhe estas quero contar, 
vSo ser todas namoradas 
pêra o pouco namorar. 
Fora elie o meu amor, 
e vivera eu pobremente ! 
Que grande engano de gente I 
Que pobreza ha i maior 
que a vida descontente ! 

Quando com elle me assento 
mil vezes caio em mingoa, 
porque, por esquecimento, 
falando descobre a lingoa 
o que está no pensamento. 
Faz-nos isto então ficar, 
eu muda, elle mudado ; 
ama-me como he amado ; 
pêra me d'isto guardar, 
por bem ei o guardar gado. 

Maria perdi, mesquinha ; 
logo, em sermos apartadas, 
do meu mal fui adevinha. 
Milhor sejão suas fadas 
do que foi a fada minha. 
Deos a dê ao seu Crisfal 
por ambos contentes ser ; 
e mais não lhe quero ver, 
mas já sei pello meu mal 
o bem d'outrem escolher. » 

Quando a eu assi ouvi 
doer-se de minha pena, 
com novos olhos a vi, 
e então que era Elena, 
minha amiga^ conheci. 



Esta pastora e dama 
certo qne milhor lhe ia, 
quando a cantar ouvia 
dando fé que em sua cama 
o velho nâo dormiria. 

Pena me deu de não crer 
vel-la em tal tristeza posta ; 
quisera-lhe eu responder, 
mas trespôs hfla tresposta, 
pelo qual não pode ser. 
Depois de ver-me sem vel-la 
os meus olhos me chorarão ; 
quantas cousas lhe lembrarão 
que antre mi, Maria, e ella 
em outros tempos passarão ! 

Desque aqui com meu cuidado 
me estive fazendo guerra, 
sendo o dia já passado 
vi -me levado da terra 
contra as nuvês alçado. 
Então, como ave voante, 
de quem me alli trouxera 
sonhei que levado era 
contra onde a tarde ante 
o sol vi que se posera. 

Indo nam com menos dor, 
em que já com mais sossego, 
os ventos me forão por 
depois de passar Mondego 
sobre as serras de Lor. 
Vão ali grandes montanhas 
de alguns valles abertas, 
todas de soutos cubertas, 
aos naturais estranhas 
mas á saudade certas. 

Junto de hfla fonte era 
o lugar onde fui posto, 
onde se-lo não quisera, 
sendo bem lugar de gosto 
pêra quem gosto tivera ; 
mas a mim nem o passado 
nem o que me era presente 
nada me não fez contente, 
que nisto o magoado 
he como o muito doente. 

Cuberta era a fonte 
de tão fresco arvoredo, 
que não sei como o conte, 
mui quieto e mui quedo, 
por ser antre monte e monte ; 



234 



ANTOLOGIA — POESIA 



a noite de ventos muda^ 
como saudade escolha, 
e. porque mais prazer colha, 
chovia agoa meuda 
por cima da verde folha. 

Depois que alli chegava, 
ou depois que alli cheguei, 
sonhava que acordava, 
e do que atrás passei 
de ser sonho me lembrava. 
O que então me era mostrado 
tendo só por verdadeiro, 
ao pé de hum castanheiro 
me pus triste assentado 
ouvindo o tõo de hum ribeiro. 

Meus olhos e eu passámos 
alli a noule em clamores 
até que ao tempo chegámos 
a que nós outros pastores 
o dilúculo chamamos. 
Naqueste tempo corrompe 
a ave que chamâo real 
o silencio de seu mal, 
que he quando a alva rompe 
e ó dia faz sinal. 

EntSo porque tudo fale 
contando as mais paixões, 
que rezão he que não cale, 
ouvi gritar huns pavões 
lá no mais baixo do vaile ; 
trás isto, pouco tardando, 
hum doce cantar ouvia, 
que na minha alma cahia, 
o qual eu bem escutando 
entendi que assi dezia. 

Cantiga 

NSo sei pêra que vos quero, 
— pois me d'olhos não servis, 
olhos, a quem eu tanto quis I 

Voltas 

Pêra ver me fostes dados ; 
vós só a chorar vos destes, 
e, se eu tenho cuidados, 
meus olhos, vós m'os fizestes; 
desque nelles me pusestes, 
do descanso me fogis, 
olhos, a quem eo tanto quis ! 



Meus olhos, por muitas vias 
usais comigo cruezas ; 
tomais as minhas tristezas 
pêra vossas alegrias ; 
entrão noites, entrão dias, 
olhos, nunca me dormis, 
olhos, a quem eu tanto quis I 

Quando vós primeiro vistes, 
que não me era bõo sabíeis ; 
mas, por gozar do que vieis, 
em meu dano consentistes ; 
o que então me encobristes 
agora m'o descobris, 
olhos, a quem eu tanto quis ! 

Ando-vos a vós buscando 
cousas que vos dem prazer, 
e vós, quanto podeis ver, 
tristezas me andais tornando ; 
agora vou-vos cantando, 
vós a mim chorando me is, 
olhos, a quem eu tanto quis t 

Fim 

Quem o que digo cantava, 
desque o cantado teve, 
não sei o que o causava, 
mas espaço se deteve, 
assi como que cuidava; 
depois de cuidado ter, 
a voz de novo alçou 
e este cantar começou, 
o qual devia de ser 
aquillo em que cuidou. 



Cantiga 

Como dormirão meus olhos I 
Não sei como dormirão, 
pois que vela o coração. 



Voltas 

Toda esta noite passada, 
que eu passei em sentir, 
nunca a pude dormir, 
de ser muito acordada ; 
dos meus olhos foi velada ; 
mas como não velarão, 
pois que vela o coração ? 



SÉCULO XVI 



235 



As horas d'ella cuidei 
dormi-las ; forão veladas ; 
pois tão bem as empreguei, 
dou-as por bem empregadas. 
Todas as noutes passadas 
neste pensamento vão, 
pois que vela o coração. 

Passares, que namorados 
pareceis no que cantais, 
não ameis, que, se amais, 
de vós sereis desamados. 
Em meus olhos agravados 
vereis se lenho rezão, 
pois que veia o coração. 

Fim 

Como a cantiga mostrava, 
femenil, a meu cuidar, 
era a voz de quem cantava, 
que, por mais de bem cantar, 
eu ouvir me contentava ; 
porque, de quem ser podia, 
então sospeita me deu, 
que todo o cantar seu 
era o da minha Maria 
ou a do dessejo meu. 

Com hum temeroso prazer 
que soe ter quem desseja, 
dessejava eu de ver 
a quem eu ainda veja 
antes da vida perder. 
Neste dessejo, de cima 
estando-a eu ouvindo, 
a Deos ser ella pedindo, 
vi-a vir o vale acima 
em seu cantar prosiguindo. 

Muito a vi eu mudada, 
mas com tudo conheci 
ser a minha dessejada 
a quem, assi vendo, vi, 
a vista no chão pregada, 
com o seu cantar penoso 
e passadas esquecidas 
ao tõo d'elle medidas, 
vestida vir de arenoso, 
as mãos nas mangas metidas. 

HtLa coisa não lavrada, 
antes sem nenhum lavor, 
e em cima, por mais dor. 



hQa talhinha pedrada 
ou hum pedrado atanor. 
Quisera-a ir receber 
vendo-a ante mim presente, 
mas não pude de contente, 
que indo pêra me erguer, 
de prazer me achei doente. 

Vendo então que me forçava 
o prazer fazer demora, 
olhei o que mais passava 
e vi que aquella hora 
comigo emparelhava ; 
dando huns mui doces brados 
saidos do coração, 
á cantiga vinha então 
« Em meus olhos agravados 
vereis se tenho rezão ». 

Ao que eu responder 
me lembra : « São agravados ? 
Podem logo os meus dizer 
que são bemaventurados, 
pois que vos poderão ver ». 
Como ella em me ouvir 
grão sobresalto sentisse, 
quis fogir ; mas quem lhe disse 
que se posesse em fogir, 
lhe fez com que não fogisse. 

Nas molheres o temor 
tanto o poder empede, 
quanto o medo maior for, 
e contra donde procede, 
os olhos costumão pôr. 
Ella, fazendo assim, 
vendo-me ficou mudada ; 
depois, já em si tornada, 
se chegou mais pêra mim 
a ser bem certificada. 

Depois de me visto ter, 

e já que me conhecia, 

lagrimas lhe vi correr 

dos olhos, que não movia 

de mim, sem nada dizer. 

Eu lhe disse : « Meu desejo » 

— vendo-a tal com assaz dor — 

« dessejo do meu amor, 

crerei eu ao que vejo 

ou crerei ao meu temor ? » 

A isto, bem sem prazer, 
me tornou então assim 



236 



ANTOLOGIA — POESIA 



com VOZ de pouco poder : 
« Crisfal, que ves tu em mim, 
que não seja pêra crer ? 
Eu lhe respondi : « Perder-vos 
de vos ver por tanto anno 
faz-me assim temer meu dano, 
que vejo meus olhos ver-vos 
e temo que me engano ». 

« Pois cré certo que esta são » 
— deu a isto por resposta, 
ainda que alegre não — 
« e quem era tal dor he posta, 
o que d'ella nâo crerão ! 
Bem he de crer o meu choro 
a que tu causa me deste : 
n5o fespante o que fizeste, 
que quem me pôs neste foro 
ta es o que me poseste. 

Por li vim eu desterrada 
a estas estranhas terras 
de onde eu fui criada, 
e por ti antre estas serras 
em vida são sepultada, 
onde a se me perderem 
a frol dos annos se vão ; 
ora julga se he rezão 
das minhas lagrimas serem 
menos d'aqaestas que são ». 

Despois que isto falou, 
como quem em si respeita, 
as mãos ambas ajuntou 
e postas na face direita 
dizer assi começou : 
« Sobre o muito que perdi, 
nenhOa cousa duvido 
em ter o saber perdido, 
pois tão mal me defendi 
do que me era defendido >. 

Eu lhe perguntei a-hora 
mui triste de assi a ver : 
« Quem teve tanto poder, 
que tenha poder, senhora, 
de nada vos defender ? 
Respondeo por antre dentes, 
como fala quem se peja : 
■ Dir-t'o-ei, em que erro seja : 
defendem-me meus parentes 
que te não fale nem veja. 

E, Crisfal, he-me forçado 
fazer a vontade sua. 



porque lh'o tenho jurado 
e também porque da tua 
o certo me tem mostrado ; 
que me dão certa certeza 
porque fazem conhecer-me, 
o que eu ei por grão crueza, 
o amor que mostras ter-me 
ser só por minha riqueza ». 

Ouvir-lhe eu isto me era 
passar o trago mortal, 
que não ha cousa tão fera 
como he achar-se o mal 
onde o bem achar-se espera. 
Vendo já que estava posta 
em o que eu não esperei, 
com minha dor trabalhei 
por lhe dar esta resposta 
que me lembra que lhe dei. 

« O' Maria, ó Maria, 
brando achara meu mal, 
se, pêra minha alegria, 
vos vira a vontade tal 
como me ella ser devia 
Mas não he nova usança, 
quem grande bem esperou 
não ver o que dessejou. 
Multo pode a mudança, 
pois que vos tanto mudou I 

Quem poderia sospeitar 

que no amor e na fé 

me avieis de faltar ! 

Mas pois isto assi he, 

tudo he pêra cuidar. 

Pois, por mais mal que se guarde, 

sempre será meu amor 

como a sombra, emquanto eu for : 

quanto vai sendo mais tarde, 

tanto vai sendo maior. 

Quando vos dei a vontade, 
inda vós éreis menina 
e eu de pouca idade; 
mas cahio minha niotina 
sobre a minha verdade. 
Muito vos quis bem primeiro 
que de riquezas soubesse ; 
pois meu amor verdadeiro, 
de quem só sois interesse, 
quem me faz interesseiro. 

Sobre a terra anda o gado, 
6 sobre ella ouro e riqueza ; 



SÉCULO XVI 



237 



mas pêra que he dessejado ? 
que em fim nSo tira tristeza 
e acrescenta cuidado. 
NSo sei em que se encerra 
ser esquecida e estranha 
esta verdade tamanha, 
cá fica o aver na terra, 
o amor a alma acompanha. 

Nuus neste mundo nacemos 

e nous sairemos d'elle ; 

neste meio que vivemos 

só o rico he aquelle 

que ser contente sabemos. 

E que grandes bêes vos dessem 

aquelles que vo-los derSo, 

eu sei bem que nuus necerão, 

e antes que os tivessem 

he certo que nâo tiverão. 

Pois se isto he assi 
e o eu também conheço, 
como se crerá de mim 
que soffrer o que padeço 
pode ser a este fim ? 
Cuidar que cuidado tinha 
das vossas riquezas grossas ! 
Nas cousas passadas nossas 
vereis ser riqueza minha 
vós, que nSo riquezas vossas. 

Mas que fosse assi e mais, 
que remédio vos dão, 
com quem conselho tomais, 
á grande obrigação 
em que a Deos me estais? 
que não são casos pequenos 
pêra que a alma não doa ». 
Respondeo : « Essa he boa ! 
Dizem quá isso he o menos, 
que Deos que tudo perdoa. 

E dizem que eu moça era 
ao tempo que isso foi ser ; 
como tempo de crecer 
tinha, que assi justo me era 
te-lo de me arrepender. 
Isto e mais se me diz, 
— crê que te faio verdade, — 
que não tinha liberdade, 
pêra fazer o que fiz, 
por minha pouca idade. 

Então me mandão que meça 
amor com quão longe estamos, 



pêra que mais não me empeça, 
e, se prazeres passamos, 
os dessemule e esqueça ; 
e que então me buscarão 
hum mui grande casamento, 
tão de meu contentamento 
quanto meus olhos verão, 
e que o mais crea que he vento. 

E eu de mui esquecida 
vou-lhe fazer o contrairo I 
A ser tal culpa sabida 
sei certo que este desvairo 
pagarei com minha vida. 
E em isto ser assi 
assaz de rezão seria, 
pois tão mal naqueste dia 
o seu mandado compri 
como o que me a mim compria. 

Não te veja aqui ninguém ; 
vai-te, Crisfal, d'e8ta terra; 
não quero teu querer-bem, 
porque me não dê mais guerra 
da que já dado me tem ». 
Em lhe isto eu ouvindo 
fui pêra lhe responder, 
mas, depois de o dizer, 
contra d'onde tinha vindo 
se me tornou a volver. 

Dei húa voz mui dorida : 
« Porque me negais conforto, 
alma desagradecida ? » 
Então cah) como morto ; 
oxalá perdera a vida ! 
Não sei eu o que passou 
em quanto isto passei, 
mas junto comigo achei 
quem me este mal causou, 
depois já que em mim tornei. 

E dizendo : « O' mezquinha I 
como pude ser tão crua ! » 
bem abraçado me tinha, 
a minha boca na sua 
e a sua face na minha. 
Lagrimas tinha choradas, 
que com a boca gostei, 
mas, com quanto certo sei 
que as lagrimas são salgadas, 
aquellas doces achei. 

Soltei as minhas então 
com muitas palavras tristes, 



238 



AirrOLOOlA — PORSIA 



e tomei por concrusSo : 
• Alma, porque nSo partistes ? 
que bem tiuheis de rez5o ». 
Então eila assi chorosa 
de tao choroso me ver, 
já pêra me socorrer 
com hOa voz piadosa 
começou-me assi dizer : 

« Amor de minha vontade, 
ora nom-mais, Crisfal manso, 
bem sei tua lealdade : 
Jesu, que grande descanso 
he falar com a verdade I 
Eu sei bem que n5o me mentes, 
— que o mentir he diferente ; 
nâo fala d'alma quem mente ; — 
Crisfal, nâo te descontentes, 
se me queres ver contente. 

Quando contigo falei 
aquella ultima vez, 
o choro que enlâo chorei, 
que o teu chorar me fez^ 
nunca o eu esquecerei. 
Foi esta a vez derradeira, 
mas começo da paixão 
passando-me eu entSo 
para o Casal da Figueira 
do Vai de Pantaliâo. 

Minha fé te he verdadeira : 
no mal que te fiz o vi, 
porque em fim á derradeira 
não quero mal contra ti 
que o meu coraçSo queira. 
Por me ver livre de dor 
deixara eu de te querer, 
se o poderá fazer ; 
mas poder e mais amor 
não podem estar num poder ». 

Neste passo acordei eu ; 
e o meu contentamento, 
que eu cuidava que era meu, 
deu-me depois tal tormento, 
qual nunca cousa me deu. 
Nao sei eu que a Deos custava, 
porque não me outorgara 
que nesta gloria ficara, 
ou, pois já que acordava, 
que d'isto não me acordara. 



Assi como nos lugares, 
em morte e enterramento, 
os sinos dobrão a pares, 
morreo meu contentamento 
dobrárão-se meus pesares. 
Por quão grão dita tivera, 
se por dar fim á tristura 
eu n'este tempo morrera ! 
Sabe Deus que eu bem quisera, 
mas não quis minha ventura. 

Não vos posso mais contar, 
agoas minhas, minhas agoas, 
que não me deixa o pesar. 
Ora chorai minhas raaguas, 
que bem são pêra chorar ; 
que em que cem olhos tivera, 
como teve Argos pastor, 
da vaca Io guardador, 
mais olhos mister ouvera 
pêra chorar minha dor. 

Por me isto alembrar, 

não vos pareça estoria, 

que as cousas de muita gloria, 

como as de muito pesar, 

recebe bem a memoria. 

Por sonho ante vós ponho 

o que eu velando vi ; 

por meu mal foi lodo assi ; 

mas seja para vos sonho, 

pois sonho foi pêra mim ». 

Isto que Crisfal dezia, 
assi como o contava. 
hOa ninfa o escrevia, 
num alemo que alli estava, 
que ainda então crecia. 
Dizem que foi seu intento 
de escrevé-lo em tal lugar 
pêra por tempo se alçar 
onde baixo pensamento 
lhe não podesse chegar. 

Eu o treladei d'alli, 
donde mais estava escrito 
que aqui não escrevi, 
porque mal tão infinito 
não se lhe pode dar fim. 
O que se fez de Cri.sfal 
não sabe certo ninguém : 
muitos por morto o tem, 
mas quem vive em tanto mal 
nunca vé tamanho bem. 



Cristóvão FalcSo, Obras, ed. Epiphanio, cit. no texto. 



SECFLO XVI 



239 



XVII 

Carta a António Pereira, Senhor de Basto, 
quando se partio para a Corte. 



Como eu vi correr pardaos 
Por Cabeceiras de Basto, 
Crecer em cercas e em gasto, 
Vi por caminhos tam mãos 
Tal trilha, tamanho rasto. 
Nesta ora os olhos ergui 
A' casa antiga e á torre 
Dizendo comigo assi : 
Se nos deus não vai aqui, 
Perigoso imigo corre ! 



Penedos sobre penedos 

De que as serras cá sSo cheas, 

Vistas se vos fazem feas. 

Direis dos vinhos azedos 

O que ja disse Cineas 

A quem, nos convites dado 

A provar se lhe aprouvesse, 

Despois, nos olmos mostrado, 

Ntmca vi (disse ) enforcado 

Quem a forca assi merecesse. 



NSo me temo de Castela 
Donde guerra inda não soa, 
Mas temo me de Lisboa, 
Que ó cheiro d'esta canela 
O reino nos despovoa, 
E que algum embique ou caia ! 
O' longe va, mao agouro 
Falar por aquella praia 
Na riqueza de Cambaia, 
Narsinga das torres de ouro. 



A's vozeiras montarias 
Derribar aves que vão 
(>antando inverno e verão, 
Que ai é se não remir dias 
Do enfadamento aldeão ? 
Que trabalhosos concertos 
Os de vilãos mal criados, 
Os de vilãos mal cubertos. 
Os de vilãos pouco certos, 
Maito desarrezoados, 



Ouves, Viriato, o estrago 
Que ca vai dos teus costumes 
Os leitos, mesas, os lumes, 
Tudo cheira : eu olios trago, 
Vêm outros, trazem perfumes. 
E aos bons trajos de pastores 
Em que sa-stes ás pelejas 
Vencendo tais vencedores, 
São trocados os louvores, 
São mudadas as invejas 1 



Direis, e não vo-lo nego ; 
Porem quereis que vo-lo diga ? 
Este mundo é armado em briga, 
Não achais nele asossego 
Nem naquela ermida antiga. 
Mas porem ha diferenças 
Antre o de ca e de la : 
Ca nas mais das desavenças 
Vos éreis o das sentenças, 
La embaixo outrem as dá. 



E' entrada poios portos 
No reino crara peçonha 
Sem que remédio se ponha. 
Ums doentes, outros mortos. 
Outro polas ruas sonha. 
Fez nos a ousada avareza 
Vencer o vento e o mar, 
Vencer caje a natureza. 
Medo hei de novo a riqueza 
Qae nos torne a cativar. 



Em troca tereis manjares, 
Çoniposiçõis delicadas, 
Uas sobre outras grosadas, 
Por perigos, por pesares 
Primeiramente compradas. 
Convites de quem convida ! 
Amoslrão vos suas tendas. 
Quanta cousa é i perdida I 
Ceas imigas da vida, 
Imigas mâs das fazendas. 



240 



ANTOLOGIA — POESIA 



De isto o cheiro, de isto a cor 
Que n5o tem preço igual. 
Milagres de Portugal I 
Cousas de tanto sabor, 
Todas a saberem mal, 
Onde se ha de lançar tanto ? 
Aquilo é pagar o pato I 
Em fim, quando me levanto. 
Ou hei de morrer d'espanto, 
Ou se nSo me espanto, mato. 

Que contas v5o tam erradas ! 

Enfastia o que sobeja 1 

Quem come o que nSo deseja ? 

Soi5o ser as convidadas 

Vontades, agora é inveja. 

Entra comnosco a manhã, 

E' ja dia, e pedis velas. 

A tal cea cortesá 

Quanta inguaria vS 

A fora a das escudelas. . 

Os bons convites antigos. 
Antes de se tudo alçar, 
Erâo pêra conversar 
Os parentes e os amigos. 
Que não pêra arrenbentar, 
E de viver juntamente 
Houverão convites nome, 
Soltos ós olhos da gente 
Que vissem quam santamente 
Ali se matava a fome. 

Aquela ufana rainha, 
Irmâ do vil Plolemeu, 
Que o rico pedente deu 
Prodigamente á cozinha 
De um grande banquete seu. 
Vendo tudo ir se a perder 
Todavia convidava, 
Já porem não de viver, 
Mas de assi juntos morrer 
0'8 tais convites chamava ! 

A' vossa fonte tam fria 
Da Barroca em julho e agosto 
( Inda me é presente o gosto ) 
Quam bem que nos i sabia 
Quanto na mesa era posto I 
Ali não mordia a graça, 
Erão iguais os juizes, 
Não vinha nada da praça, 
Ali da vossa cachaça, 
Ali das vossas perdizes ! 



Ali das fruitas da terra, 
( Que dá cada tempo a sua ) 
Colhida á mão cada Qa I 
Nunca o sabor a vista erra. 
Cheirosa, formosa, e nua. 
Oh ceas do paraiso 
Que nunca o tempo vos vença, 
Sem fala da nossa ou riso. 
Nem carregadas do siso. 
Nem danadas da licença ! 

Des i, o gosto chamando 
A outros mores sabores, 
Liamos pelos amores 
Do bravo e furioso Orlando, 
E da Arcádia os bons pastores. 
Se eu isto estimado agora 
Vira como d'antes era. 
Por meu conto avante fora, 
Mas não diz ora com ora ; 
Vão 86 como ó fogo a cera ! 

Que troca ver la Pasquinos 
Portugueses cento a cento 
( Quem o ve sem sentimento ? ) 
Tratar os livros divinos, 
Com tal desacatamento ! 
E o que não podem ousar 
De ler se em giolhos não, 
( Que graças pêra chorar ! ) 
Torcem fazendo falar 
O' som da sua paixão. 

Esauecidos do conselho. 
Pudera dizer mandado, 
Sendo por quem foi vedado 
No santíssimo evangelho : 
Ós cais não deis o sagrado. 
Almas que ós sonhos andais, 
O muito não o troqueis 
Por nadas, como o trocais ; 
As perlas orientais 
0's porcos as não lanceis. 

Mal sem emenda é o jogo 
Antre os seus males maiores. 
Um rei de grandes louvores 
Mandou que pusessem fogo 
A' casa e ós jugadores. 
Das santas leis jogo imigo, 
Desprezador das modernas. 
Continuador do perigo, 
Penas sempre assi consigo, 
Vai caminho das eternas. 



SÉCULO XVI 



241 



Deixemos mil outros jogos 
Que la vão, mil outros tratos, 
Fozer, desfazer contratos, 
Salamandras nos seus fogos 
De Horodes pêra Pilatos. 
E aquele grande alvaroço 
De atambor que á guerra chama, 
Leva o velho, leva o moço ; 
Primeiro entra em destroço 
Que perca de vista Alfama. 

Ah vida dos lavradores, 
Se eles aconhecessem bem 
As avantagens que têm 
Aqueles santos suores 
Que santamente os mantêm, 
Tratando coa madre antiga 
Que de quanto em si recebe 
( Não entre engano ou ma liga) 
Por seu custume se obriga 
A tornar mais do que deve. 

Vedes como aqueles nossos 

Antigos padres primeiros 

Erâo no começo inteiros, 

Erâo santamente grossos, 

Rem mal como os seus cordeiros. 

Regidos da natureza ; 

Não tanto papel escrito 

De que um reza e outro reza 

Té cansarem sem certeza 

Donde jáz somente o fito. 

Foi sem malicia e mao erro 
A boa idade dourada. 
Seguiu logo a prateada ; 
Não tardou nada a de ferro 
Que tudo trouve i espada. 
Quanta sombra aqui aparece ! 
Tapai me a boca com as mãos I 
Ora atras, que não me esquece. 
Também por ca adoece. 
Vão porem ares mais sãos. 

Por isso a gentilidade 
Com sua filosofia 
A deus da saúde erguia 
Templo fora da cidade 
Onde os seus votos lhe ouvia. 
E aquele Virbio a quem 
Tornara a vida, ja ás festas 
Nem ás cidades não vem,. 
Sempre sô por fora o vêm 
Caçando polas florestas. 

16 



I que encontre um lobo cão, 
Um usso que se erga em pe, 
Isso menos mal nSo é, 
Que onde eles tão bastos são 
Que anlre eles se dorme e sé, 
Da cousa má claramente 
Logo quem a ve, se vela. 
Chega se á que branda sente ; 
Por isso á antiga serpente 
PintSo rosto de donzela. 

Nossos maiores se alguém 
Louvavão, não de senhor, 
Não de rico era o louvor, 
Chamavão lhe homem de bem, 
E ainda bom lavrador. 
A nossa gente que quis 
Arremedar nos louvores 
Que agora parecem vis. 
Aos bons reis Sancho e Dinis 
Chamavão lhe lavradores. 

Os valorosos romanos 

Antes que o tino perdessem. 

Donde cuidais que escolhessem 

Cincinatos e os Serranos 

Que ante si em campo pusessem? 

E aquela sua grandeza 

Que o tempo não quer que moura. 

Vemos que a mais da nobreza 

Sobrenomes de riqueza 

NSo pôs, se não da lavoura. 

Inda hoje vemos que em França 
Vivem nisto mais á antiga; 
Na vila o vilão se abriga 
Onde tem nome e herança, 
Vive i da sua fadiga. 
Acende a fragoa o ferreiro 
O' tempo que o galo canta ; 
Morde o couro o çapateiro, 
Brada co moço ronceiro 
Que saia de baixo da manta. 

Vive a nobreza por fora 
Segura, despovoados 
Corre cos loubos ousados, 
Por d'arredor donde mora 
Mantém livre o campo aos gados. 
Da má gente aventureira 
Que ás escuras traz seu trato 
Que possa livre quem queira 
Cantando ir de noite á feira 
Ou dormindo no mulato. 



242 



ANTOLOGIA — POESIA 



Bom tempo quando segura 
A cabeza se encostava, 
Onde o sono a convidava, 
Contente de cobertura 
Que lhe o fermoso ceo dava ! 
BebiSo da agua côas mãos 
Nas fontes inda em velhice, 
Milhor que por vasos vãos. 
Lavava a agua os peitos sãos 
Antes da gargantoice. 

Natureza nos posera 
( Como os olhos nos abriu ) 
Diante tudo o que viu 
Que necessário nos era ; 
Do mais todo se sorriu. 
Como ? Qa ave ja verada 
A toda delicadeza 
E' milhor ajuizada? 
Foje a gaiola dourada, 
Vai buscar a natureza. 

Jacob fugindo ao irmão 
Que o mal tinha ameaçado, 
Que andava assi antre o gado^ 
Passou o rio Jurdão 
Na ajuda do bom cajado. 
Como o sol no mar deceu. 
Levaria o seu fardel, 
Da agua no rio bebeu, 
Sobre pedra adormeceu, 
Pôs nome ó lugar Betei. 

Ua disposição má, 
Longa enfermidade e dôr 
Que de mal vai em pior, 
Onde remédio achará 
Se á natureza não fôr ? 
Leda da minha fadiga 
Que em vão tantas rezõis gasta. 
Que fazeis ? que vos obriga ? 
Deixais esta madre antiga. 
Is vos após a madrasta. 

Por toda esta grande Espanha 
Froais que soião chamar, 
Fez em Pereiras mudar 
Não do rei mouro a patranha 
Mas vosso antigo solar. 



Do qual não ha muitos anos 
Um que aqui Braga regeu. 
Pondo aparte os longos panos, 
O passo dos castelhanos 
A* espada o defendeu. 

Ao reino cumpre em todo ele 
Ter a quem o seu mal doa. 
Não passar tudo a Lisboa, 
Que é grande o peso, e com ele 
Mete o barco na agua a proa. 
E mais is vos muito ao ponto 
Pêra qualquer apetito. 
Então ja PU ouvi um conto : 
A quem espreita e está pronto, 
Não vades mudar o fito. 

Tereis la conversaçõis. 
Tereis graças delicadas. 
Do ar do paço ajudadas ; 
Passarão derivaçõis 
Se ja a todos são passadas. 
Transposerão os amores, 
Deixarão o paço ás cegas, 
Sapm atravez mantedores, 
Rousinois asoviadores 
Polas hortas d'Enxobregas. 

Vereis barcos ir a vela 
Ums que vão, outros que vém 
Como que se desavem 
C'Qa viração singela ; 
Tanta força a arte tem. 
Os marinheiros vadios 
Que vilmente a vida apreçâo, 
Nas enxárcias dos navios 
Volteão como bogios 
Inda que vos ai pareçam. 

Não hei por perda esta leve. 
Que sejão palavras ludo 
Mas ó coração acudo. 
Se não, dizei quem se atreve 
A dor espera-la mudo. 
São elas porem ja muitas, 
Fe-las ir crecendo a magoa. 
Lembro vos as vossas fruitas ! 
Lpmbro vos as nossas truitas ! 
Quo andão ja por vossas na agua. 



Sá de Miranda, ed. da Sr.* D. C. M. de Vasconcelloa, 237 a 250. 



SÉCULO XVI 



2^3 



XVIII 
Egloga Basto. 

Basto — representador 
Pastores da Egloga : Bieito ) contendores. 

(jIL S 



Basto. 

Como corre e como atura 
Quem vai após o seu gosto, 
Quer por frio, quer quentura 
E no suor do seu rosto ! 
Busca ás vezes da má ventura, 
Sem guia e sem esconjuro 
Cos medos se desafia, 
Só vai afouto e seguro 
De noite polo escuro, 
Por montes ermos de dia. 

Este apetito que digo 
Quem o desse a má maleita. 
Que traz mil artes consigo 1 
Guar-te d'ele, que te espreita 
Por dar d'avesso contigo 
Rosto ó si e rosto ó não, 
A fortuna é feita assi ; 
Mal a conhece o vilSo. 
Cuidas que a tens na mâo : 
Está se rindo de ti. 

Onde quer cho demo jaz I 

Pêra haver d'embicar nele, 

Topei c'ura lobo rapaz, 

Dei me cos meus cães trás ele. 

Tive da fadiga assaz 1 

Eis que traspõi, e eis que assoma 

Desfazia me correndo : 

Toma aqui, cão, ali toma. 

Cego da perfia em soma 

Fui me traspondo e perdendo. 

Isto a quem nSo acontece ? 
Seja porem na má ora ! 
Que ha de vir e nSo se eslrece. 
EstSo se rindo os de fora, 
A nos Dão no-lo parece. 
A correr e a dar á choca. 
Este desafia mil ; 
Vende aquele, compra e troca ; 
Outro traz graças na boca, 
Faz falar seu arrabil. 



Cuida que as namora todas, 
Não sei quem che, por fermoso. 
Vai se ás festas, vai se ás bodas ; 
Tenho me eu co dadivoso : 
Que unta o carro, andão as rodas. 
Grandes cousas, capa em colo 
Conta, ( se elas são assi ) 
Que me dão volta ao miolo ; 
Deve me de ter por tolo, 
Eu a ele outro que si. 

Como lontra jaz no rio 
Um que o seu gado mal passa, 
Ele pesca, ora co fio 
Ora cana, ora com naça ; 
Outra anda sempre em cio, 
( E não sei como se chama ), 
Parte e deixa a molher nova 
Dando voltas pola cama, 
Ele por neve e por lama 
Corre cos seus cães a prova. 

Vai assi ja muitos dias 
Que não torna atras ninguém ; 
Bebemos das bemquerias 
Que cada um comsigo tem, 
Damos d'es8as rezões frias. 
O bom Gil sendo mais moço 
Muita da terra correra, 
Vem um, vem outro alvoroço : 
Co seu fardel ó pescoço 
A ser pastor se acolhera. 

Ora ele assi pastor sendo, 
Se primeiro andara mal, 
Foi apalpando, foi vendo 
Anlre nos que era outro igual. 
Também se foi delambendo ! 
Uma vez lama, outra poo, 
Sempre homem anda achacado I 
Fez inda mais outro voo : 
Por milhor houve andar soo 
Que assi mal acompanhado. 

Era grande amigo seu 
Bieito, e vendo a tal mania, 



244 



ANTOLOGIA — POESIA 



Consingo acinte la deu. 
Tiverão grande porfia, 
Um rezõis deu, outro deu : 
Nío ha quem se não defenda 
A pareceres alheos. 
Antes dez quedas que emenda ! 
Contar vos hei da contenda 
Sem meter verbas aos meos : 

BlElTO. 

Que é isto, Gil, que assi triste 
Te nos fez este ano abril ? 
N5o sei que demo tu viste. 
Que tu nSo pareces Gil. 
Di me e u te nos sumiste ? 
U-lo aquele grande amigo 
U-lo dos bofei lavados 
D'aqueles do tempo antigo ? 
Que o siguro e o perigo 
Não mos trazia encubados. 

Assi tâo soo te vieste ? 
Tomaste forte borrío ! 
Tantos amigos vendeste, 
Por nâo sei que nem que nâo, 
Que nem a mi o disseste. 
Ora di me, se te praz, 
Depois de tanto sol posto, 
Tal inchaço inda em ti jaz ? 
Arrenega o mal, que traz 
Sempre consigo mao rosto. 

Tu olhas me de traves ? 
Parece que a mal o tomas, 
Mas se tu inda este es, 
Náo hei medo que me comas 
Por mais mudado que estes, 
Que inda que certo hajas feito, 
tfa tamanha mudança. 
Que te tem como desfeito, 
D*este nome de Bieito 
Sequer has de ter lembrança. 

Muitas vezes eynagino, 
Gil amigo, em ti cuidando, 
Na brandura e bom ensino 
Que departias estando 
Duas oras c'um menino ; 
Olha bera, olha o que fais. 
Tinhas tantos de bons modos 
Cos iguais e nâo iguais. 
Dás que era li falem os mais 
Quando estavas bem com todos. 



Que se fez do teu cantar ? 
Ninguém nâo cantava assi. 
Mas, para que é preguntar 
Se nâo que se fez de ti ? 
Onde te iremos buscar ? 
Nâo ha ora um tanto espaço 
Quando Ginebra casou 
Com Gregório teu colaço, 
Quem teve rosto ós do paço ? 
Quem tangeu e quem cantou ? 

Morreu do gado miúdo ? 
Foi ura andaço geral ! 
Nâo se pode lograr tudo, 
Virá bem após o mal. 
Sofre, que sofre o sesudo. 
Arrenega dos assanhos, 
Ja os devias ter provados ; 
Nâo sâo os males tamanhos I 
Se nâo foi o inverno de anhos 
Outros virão melhorados. 



Gil. 

Seja, amigo meu Bieito, 
Esta vinda, em hora boa. 
Eu digo amigo escolheito 
Como quem o leito coa 
Que deça limpo ó seu peito, 
E, respondendo ó que dizes : 
Ves me fardel e cajado ; 
Não vou armando a buizes ; 
Bem sei que ha muitos juizes, 
Ando trás este meu gado. 

E espreito andando o que quer. 
Parece que folga mais 
Por agora de pacer 
Por estes andurriais. 
Faça como lhe aprouver. 
Que por certo homem dirá 
Nas cousas que nâo sâo certas. 
Eis nos ca e eis nos la. 
Ás vezes no pior se da, 
Ás vezes também acertas. 

Do mais que pesa e vai 
( Ca a nos parece nos muito ) 
Diz Toribio, diz Pascual 
Palavras vans e sem fruito, 
E ás vezes ainda sem sal. 
Quando a bibora no ar morde. 
Por mais peçonha que traga, 



SÉCULO XVI 



245 



NSo temas que inche e que engorde, 
Nâo hajas medo que acorde 
Bradando pola triaga. 

Ves tu cousa que está queda ? 
Ora é noite, ora amanhece, 
Ora corre Qa moeda, 
Ora outra ; tudo envelhece, 
Tudo tem no cabo a queda. 
Nas vilas um bailo dançSo 
Em que todos ó som andSo, 
Ums ca, outros la se lanção ; 
Como ó tanger não alcançSo 
Mais pés nem braços não mandão. 

Do leite e sangue empolado 

O bezerrinho viçoso 

Corre e salta polo prado, 

Despois lavra perguiçoso. 

Tira o seu carro cansado. 

Cos dias e co trabalho 

O brincar d'antes lhe esquece, 

Não é ja o que era almaiho, 

Venda se pêra o talho 

Que este boi velho enfraquece 1 

No começo os erros têm 
Bom remédio, ao diante 
Tém o mao ; se não vas bem. 
Pior irás mais avante, 
Torna atras que te convém. 
Não o tenhas por amigo 
Quem te anda sempre a vontade 
Dissimulando contigo. 
Olha aquele dito antigo : 
Que enfada muito a verdade. 

Mal vai quem sempre empiora ! 
E que lingua a dos pastores I 
Um olho ri, outro chora, 
Este diz que são amores, 
Outro mais que é mal de fora. 
Um se torce, o outro diz : 
( E' mao jogo este das lingnas ) 
Ou tal fíz ou tal não fíz. 
A cada canto um juiz I 
Entre tanto á praça as minguas. 

O moço que entra em terreiro 
E não toca o chão de leve. 
Polo ar voa o pandeiro, 
E a toda a festa se atreve 
Ele só com seu parceiro. 
Este tal baile, este cante, 



Este seus jogos ordene, 
Corra, va, pase adiante. 
Este voltee, este espante, 
Este dê penas e pene 1 

Mas quem ja se vém das pontas, 
Não acha o que soía em si. 
Começa entrar noutras contas : 
Ouvi ja milhor e vi. 
Suar e passar afrontas. 
Vai se o tempo, tudo foge. 
Corre o dia após o dia ; 
Queres que homem não se anoje ? 
Que me não conheci hoje 
NQa fonte em que bebia. 

E porque ora te conte 
De como te aconteceu : 
Quando me eu taí vi de fronte, 
Dos olhos agua correu 
Mais que corria da fonte. 
Passou se me a sede em fim 
Que me aquela agua mostrara, 
E a tal desacordo vim, 
Quando já tornei em mim, 
Grande espaço o sol andara. 

BlEITO. 

Come de toda a vianda, 
Não andes nesses entejos. 
Vai te por onde o carro anda. 
Tem te ás voltas com desejos. 
Passa o mal cedo ou abranda. 
Ves como os mundos são feitos ? 
Somos muitos, tu só es. 
Poucos são os satisfeitos. 
Um esquerdo, outros direitos. 
Parece que anda ao revés. 

Dia de maio choveu : 
 quantos a agua alcançou, 
A tantos endoudeceu. 
Houve ura só que se salvou, 
Assi então lhe pareceu. 
Dera vista ás sameadas, 
Essas que tinha mais perto. 
Viu armar as trevoadas. 
Alongou mais as passadas, 
Foi-se acolhendo ao cuberto. 

Ao outro dia um lhe dava 

Paparotes no nariz ; 

Vinha outro que o escornava ; 



246 



ANTULOQIA — POKSIA 



I também era o juiz 
Que de riso se tíiiava ; 
Bradava ele : homens, olhai : 
Ião lhe CO dedo ao olho. 
Disse então : e assi che vai 7 
Nâo creo logo em meu pai 
Se me d'esta agua não molho. 

Apaixonado qual vinha 
Achou num charco que farte. 
O conselho havido o tinha, 
Molhou se de toda parte, 
Tomou a como mezinha. 
Como o virão ta correrão. 
Um que salta, outro que trota, 
Quantas graças que i fizérão. 
Logo todos se entenderão : 
Eis los, vão nfia chacota. 

Gil. 

Tu sabes que eu me abrigara 
A esta vida de pastor : 
Vinha mui corrido á vara. 
Cuidei que era ela milhor 
Como quem a não provara. 
Determinava de já 
Andar trás estas ovelhas. 
A conta saiu me má. 
Más fadas vão ca e la 
Que bem cbo dizem as velhas. 

Um vento após outro vem : 
Andara muitos lugares. 
Vira ja muito, e porem 
O que não eisprimentares, 
Não cuides que o sabes bem ! 
Quando, Bieito, ja cuidamos 
Que algOa cousa entendemos, 
A' cabra cega jugamos. 
Achei vos ca fortes amos, 
Querem que os adoremos. 

Para cousas que acontecem, 
Quando os buscas, ora o sono. 
Ora achaques mil te empeçam. 
Ao trosquiar achas dono, 
A'8 pressas não le conhecem. 
Tudo lhes o demo deu ! 
Quantos suspiros em vão i 
Quando te hão mister, es seu. 
Quando os has mister, es teu. 
Que não tens amos então. 



Essa vez que saem á rua. 
Estremece toda a aldeã, 
Eles bebem, homem sua ; 
Doi lhes pouco a dor alhea ; 
Querem que nos doa a sua. 
Inda que o dano é em grosso, 
Poderá o dissimular, 
Isto, parceiro, não posso : 
O entendimento que é nosso. 
Não no-lo querem deixar. 

Polo qual CO meu fardel 

Fugi das vossas aldeãs ; 

Não trago nos beiços mel. 

Que não são cresta colmeas. 

Nem posso ser ministrei. 

A suidade não se estrece. 

Porem sofra o coração, 

( Que este é o que mais me empece ), 

Se outro senhor não conhece 

Salvo justiça e rezão. 

Então queixo me te logo. 
Que em casos que acontecerão, 
Vi me por eles no fogo. 
Bradei, e não me valerão 
Nem 08 brados nem o rogo. 
Ali me sai meu quedo 
A quedo, e fará um dia 
O que outro não fez, e hei medo 
De ver môr vingança cedo 
Do que ja 'gora queria. 

Bieito. 

Trouxeste me ora á lembrança 
Aquele amigo fuão 
Que, ó tempo d'essa mudança 
Tua, foi te assi á mão 
Como quem os dados lança. 
E lembra me ora bera tudo, 
( Que era eu i no tal ensejo 
Inda que então me Gz mudo ) 
Falou te como sesudo ; 
Parece me ora que o vejo. 

Disse : muito em ora boa, 
Mas êu anlre este meu gado 
Dizem, de vespora a noa, 
Cada ora me acho enganado. 
Não é tudo como soa, 
Dir te hei o que me acontece 
Quando n'este vale estou. 



SÉCULO XVI 



217 



Qualquer outro que aparece 
Muito milhor me parece, 
Não é assi quando la vou. 

Agora, Gil. o que eu digo : 

A la fe, que hei mui bom medo, 

Quando debates contigo, 

Que te estém mostrando ao dedo 

Pedro, Giraldo e Rodrigo. 

NSo queiras ir muito ao fundo 

Inda que ora tanto entendas, 

NSo has de emendar o mundo. 

Nesta só rezão me fundo 

Por mais que d'elas despendas. 

Perigosa é a dianteira ! 
Deixa ir diante os mais velhos 1 
Com a paixão tençoeira 
Nunca hajas os teus conselhos, 
Sempre foi má conselheira. 
Quem consigo traz rancor 
E em espreita anda do mal, 
Nunca lhe falece dor, 
Mas se o bem igual nâo for, 
Seja o coração igual. 

Gil. 

Se cos teus olhos não vejo 
Nem ouço cos teus ouvidos, 
Todo o debate é sobejo ; 
Reges te por teus sentidos. 
Também poios meus me rejo ; 
Comes tubaras da terra, 
Eu não as posso comer : 
Para que é sobre isto guerra ? 
Nem um, nem outro não erra. 
Come o que te bem souber. 

Não porque cada um faça 
Quanto lhe á vontade vem, 
( Que essa seria má graça ) 
Mas entendo o saber bem 
Do que se vende na praça. 
Porque o tempo fez abalo. 
E somos em forte ensejo 
Inda alevanto outro valo 
Que nos doentes não falo 
A que mata o seu desejo. 

Bem vejo que a verdade era 
Ir polo fio da gente ; 
Cos outros te respondera, 
E o amigo e o parente 



Que murmurar não tivera 
Porem assi só não minto, 
Não finjo, não lisonjeo, 
Som farto ou que som faminto. 
Que mal é o meu distinto 
Antes seguir que o alheo ? 

Vou fugindo ás armadilhas 
Que via armar e tecer ; 
Não quero ouvir maravilhas 
A's vezes mui más de crer. 
E contão d'elas em pilhas 1 
Querem que homem ouça e crea ; 
Não ja eu ! crea o nosso Jane, 
Crea o baboso d'aldea. 
Que traz sempre a boca chea 
Das filhas de dom Beltrane 1 

Olha se a rezão concrude : 
Es doente, teu pai não ? 
Digo outro tal da virtude : 
Pola ventura es tu são 
Porque teu pai tem saúde ? 
Não, que cumpre outra mezinha. 
Olhe cada um por si ! 
O bem não é como a tinha. 
Não se apega tam azinha, 
O mal pode ser que si ! 

Lê me primeiro outra lenda : 
Deixarão te os teus passados 
Do gado e vinhas de renda. 
Olha que vão misturados 
Encargos coa fazenda. 
Cumpre a cada um que arrive 
Por si se deseja a honra ; 
Não dizer : boms donos tive ; 
Que quem como elles não vive, 
Antes lhe sai em deshonra. 

BlBITO. 

Pois contigo a rezão vai. 

Vejamos quem mais conjunta. 

Olha que todo animal. 

Forte ou fraco, aos seus se ajunta 

Por distinto natural. 

Voão as pombas em bandas. 

Altos vão os grous em haz. 

Não querem de nos viandas 

Altas andurinhas brandas. 

Querem companhia e paz. 

Toma esemplo no teu fato 
Que o trazes junto em rebanho» 



848 



ANTOLOGIA — P0K8IÀ 



Nâo rez e rez polo mato ; 
Té o carneiro tamanho 
Se atras fica, é lambiato. 
Mas inda hão mister mastins, 
Inda funda e cajado hão, 
Que a estes lobos ruins 
Que decera dos montesins 
Te ajudem sentar a mão. 

Eu vi ja sobre isto apostas. 

Conta se do alifante 

O que traz torres ás costas 

Que ha mister quem o levante 

Se dá consigo de costas. 

Se não fosse esta prestança 

Da fala e rezão do homem, 

Per forças ele que alcança ? 

Mister ha fazer liança 

Se não mãos bichos o comem. 

£m esta liança tal 
Que digo, ainda não meto 
Salvanle a do meu igual, 
Dos outros não me antremeto, 
Digo falando em geral. 
Como no mundo apontamos, 
Tanto que em terra caimos. 
Dos choros nos ajudamos ; 
Antão para que prestamos ? 
Socorro e ajuda pedimos. 

Fui ura dia a vila, Gil, 
E logo, ó sair da casa, 
Mais verde que um perrexil 
Cuidei que matava a brasa 
De galante e de gentil. 
Bem passei cos viandantes 
Mas despois la, quando cheas 
Vi ruas de outros galantes, 
Se eu viera ufano de antes, 
NSo tornei tal ás aldeãs. 

Dezia um vendo me assi : 
Bom vai o do barretinho ! 
Outros dar os olhos vi. 
Outros chamar me ratinho. 
Tanto té que me escondi. 
Finalmente por acerto 
Vi alguns nossos de ca. 
Deixei os chegar mais perto. 
Meti me antre eles por certo. 
Que Urde me acolhem la I 

Um bacarote orgulhoso 
Deu vista ó gado ovelbum. 



De quexiquer e.spantoso 
Trombejava ele um e um, 
Andava todo bravoso. 
Vem o lobo um dia e apanha 
Pelo pescoço o doudete, 
Abrandou lhe aquela sanha, 
Brada ai dcs meus ; em tamanha 
Pressa ninguém arremete. 

Vinhão os porcos da aldeã 
Mais alras gruuhir ouvirão ; 
Cada um d'eles esbravea, 
Estes si que lhe acudirão : 
Perde o lobo a sua cea. 
Ele .solto, viu que o gado 
De lã branca estava olhando 
De longe, ainda amedrontado. 
Antes, disse, ser mandado. 
Que a tal perigo tal mando. 

Gil. 

Falas me nos animais 

A que nós brutos chamamos 

Que guardão leis naturais. 

Nós outros nâo-nas guardamos, 

A isso obrigados mais. 

Estes homens com quem tratão, 

Piores que liõis bravos. 

Por força tudo reraatão ; 

Os liõis não se resgatão, 

Não se prendem por escravos. 

Pêra que mandem nem rejão. 
Não vão ás aguas tengidas 
Do seu sangue ; se peíejâo. 
Não alçam forcas erguidas 
Onde as aves manjar sejão ; 
Nâo têm repartida a terra 
Por marcos tam desiguais 
Onde por possança perra 
Um tenha de serra a serra, 
Outro nada ou dous tojais. 

É cousa pêra espantar 

Da irmandade das gralhas 

Que vendo a Qa queixar 

Decem gritando em batalhas 

Matão se pola salvar. 

O que te digo, é assi : 

Quem diz o que viu, não mente; 

Guar te de embicar aqui. 

Que verás passar por ti 

O amigo e o parente : 



SÉCULO XVI 



249 



Que nunca ouvi um rifão 
Mais corrente, mais usado 
Que darem todos de mão 
Se jaz o carro e7itornado. 
Quantos vêm e quantos vão. 
Falo porem em geral 
Que a alma, dizendo isto, atfronta ; 
Nâo quero que cuideis ai; 
Amigos do meu sinal 
Não vão eles nesta conta. 

Andando assi não me empecem 
Mãos olhos nem más palavras, 
Nem me empecem se engafecem 
Por outros fatos as cabras ; 
Curo as quando adoecem. 
Porque tudo diga em soma, 
Não me temo que o cabrito 
Me esconda o vizinho e coma. 
Aqui se a paixão me toma, 
Posso cantar voz em grito. 

Que me não ouça ninguém, 
Somente as aves ( que tais 
Duas aventagens tem 
D'esses outros animais, 
Voar e cantar também ), 
Ou o som da augua que cai 
Rompendo poios penedos, 
Dece ao fundo, e ó alto sai, 
Parte, e a grande pressa vai : 
Eles por sempre ah quedos I 

Ves tu a minha cabana ? 
Sa o tempo se muda, assi 
A mudo eu. Guiomar nem Ana 
Não dão volta por aqui, 
Cantando se a muiiana 
Com dos outros seus solaos. 
Que me facão merecer 
Muitas d'estas varapaos 
Com seus olhos vaganaos, 
Bous de dar, bons de tolher. 

Deixa me ver este seo, 
E o sol em que vai tal lume 
Que a vista nunca soffreu. 
Aquillo é uso e costume, 
Que tantos tempos correu ! 
Que claridade tamanha. 
Que fogo nele aparece . 
Quanto raio o acompanha ! 
Dize se que o mar d'Espanha 
Ferve quando nele dece. 



Des i cobre se d'e8trelas 
Tudo quanto arriba vemos. 
Põem se d'elas, nacem d'elas, 
Té que d'outra parte as vemos, 
E a iúa fermosa antre elas 
Que se renova e reveza, 
Ora um fio, ora crecente. 
Ora em sua redondeza. 
Cada mes com que certeza I 
Semelha a da nossa gente. 

Do mais dezia Pascual : 
Sabeis que é o que nos come ? 
São mimos, que não são ai ; 
Onde quer se mata a fome, 
Matão se apetitos mal. 
Pola calma e pola neve 
Natureza, a grande madre. 
Que em fim também no-lo deve, 
A tudo acudir se atreve 
Por mais que este ventre ladre. 

Aqui por estes abrigos 
í Os mais debates deixemos ) 
Vir me hão ver os meus amigos, 
O' sol nos estenderemos 
Falando em tempos antigos. 
E despois dos meses mil 
Quiçais inda dirá alguém 
Olhando este meu covil : 
Por aqui cantava Gil 
Sem queixia de ninguém. 

Quando tudo era falante, 
Pacia o cervo um bom prado, 
E veu um cavalo andante, 
Quis comer algum bocado; 
Pos se lhe o cervo diante, 
Não que o prado fosse seu, 
(Que erão pacigos gerais) 
Mas tinha pontas e deu. 
Este quero e posso me eu 
Tanto ha ja que nos fez tais. 

Vendo tam pouca prestança 
O cavalo de antes forro, 
Com desejo de vingança, 
Pediu ao homem soccorro ; 
Por terra aos seus pés se lança. 
Não pode á justa querela 
Negar-se, ( é caso tam feo ), 
Mas foi necessária a sela ; 
Põi lha e faz se forte nela, 
Toma a rédea, e prova o freo. 



250 



ANTOLOOIA — POESIA 



Âssi dão volta ó ímigo 
O qual, como ao homem viu, 
Entendfo o seu perigo, 
Deixou o campo e fugiu, 
Foi buscar outro pacigo. 
O cavallo vencedor 
Corre o verde, corre o seco. 
Fora, fora o contendor 1 
Ficou lhe porem senhor, 
NSo foi tanto o outro enxeco. 

Tu olhas como o sol anda ; 
Folga ora, amigo, esta tarde, 
Este se á parte a demanda. 
Que se co ella o peito arde, 
A cea fará mais branda. 
Com dous peixinhos passarás 
Do rio, nâo d'almocreves, 
Que as villas fazem tam caras. 
Beberás nas fontes claras. 
Sonharás sonhos mais leves. 

BlEITO. 

Volves me as cousas do invés ; 
Bem ou mal^ quês que te crea 
O que tu quicas não crés. 
O coração é na aldeã, 
La me hão de levar os pés. 
E tu dize o que quiseres. 
Torce ca e torce la ; 
Defende teus pareceres, 

Sá de Miranda, t&td., pg. 156 a 183. 



Mas onde i nSo ha molheres. 
Sabe que i vida não ha ! 

Aquella graciosa idade, 
O parecer que nos furta 
Com tanta força a vontade. 
Com tanta o juizo encurta, 
Não é de todo vaidade. 
Suspiraste ! ora eu te intendo ; 
Nós falaremos despois. 
Por ora a Deus te encommendo. 

Gil. 
Não te quero estar detendo. 

BlEITO. 

Vou me (que é tarde ) ós meus bois. 

Basto. 

Contou se isto pola terra 
Em as juntas dos pastores 
Eiâ que logo um outro aferra 
Sobre quais rezõis milhores 
São, quem acerta, e quem erra. 
Porem todo o calendário 
Lido e contas recolheitas, 
Fica assi posto em sumario : 
De Gil : que é um voluntário, 
Homem Bieito ás direitas. 



XIX 



Soneto. 

Aquelas esperanças que eu, metido 
A tormento, lancei fora por vãs. 
Que fazem ainda aqui com aquelas sãs 
Contas, feito em pó já tudo bebido? 

E será Amor tam cego e sem sentido, 
Será tam bravo, que não veja as chãs 
E rezõis craras ? não veja estas cãs ? 
Tempo lançado a longe e não vivido I 

Esta alma tantas vezes enganada 
Não hav'rá de si dó, não fará conta 
Co sol, coa despesa, coa jornada ? 



SÉCULO XVI 251 



Mas ai I qae eo vi ja algaem que, em quanto conta 
Que nadando escapou ao mar sem nada 
Põi se Qa e outra vez á mesma afronta ! 



Si de Miranda, ibid., pg. 69. 



XX 

Oatro. 

N2o sei que em vós mais vejo e nSo sei que 
Mais ouço e sinto ao rir vosso e falar ; 
Não sei que vejo mais té no calar 
Nem, quando vos n5o vejo, a alma que ve ? 

Que lhe aparece, onde quer que ela eslé, 
Que olhe o ceo, que a terra, o vento, o mar ? 
E triste aquele vosso sospirar 
Em quanto mais vai, que direi que é ? 

Certamente nSo sei : nem isto que anda 
Antre nos, se é ele ar como parece, 
Se fogo d'outra sorte e d'outra lei. 

Em que ando ? de que vivo ? e nunca abranda 
Por ventura se á vista resprandece ? 
Ora o que eu sei tam mal, como direi ? 

Sá de Miranda, ibid., pg. 75. 



XXI 

Ontro. 

Este retrato vosso é o sinal 
Ao longe do quo sois, por desemparo 
D'este8 olhos de ca, porque um tam claro 
Lume nâo pode ver vista mortal. 

Quem tirou nunca o sol por natural ? 
Nem viu se nuvens n5o fazem reparo. 
Em noite escura ao longe aceso um faro ? 
Agora se não ve, ora ve mal. 

Para ums tais olhos, que ninguém espera 
De face a face, gram remédio fora 
Acertar o pintor ver vos dormindo. 

Mas inda assi não sei que ele fizera. 
Que a graça em vos nâo dorme em nenhfla ora. 
Falando que fará ? que fará rindo ? 
Sá de Miranda, ibid., pg. 451. 



282 AKTOLOGIA — ?OESU 



XXII 

Elegia a António Ferreira em resposta a ontra sna. 

Esta branda Elegia, esta tam vossa, 
Quero dizer de tanto preço e tal 
Que vai fugindo ante ela a névoa grossa, 

Bem vejo que era a empresa principal 
Esta a que vinha, mas a dor recente 
Tempo esperava, cura mais geral. 

Quanto que àquela vea assi corrente 
Se deve I àquele engenho pronto e raro 
Que assi sente, assi diz tudo o que sente ! 

E mais em tal sazSo, tal tempo, avaro 
De louvores alheos, em gram dano 
Dos engenhos que se aehSo sem amparo. 

Vem um dando á cabeza e conta ufano 
Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas 
Polas que fez : todo ai lhe é claro engano. 

ÁndSo se ás razões frias polas ramas 
Um vilancete brando, ou seja um chiste, 
Letras ás invençõís, motes ás damas, 

Ua pregunta escura, esparsa triste I 
Tudo nem ! quem o nega ? mas porque, 
Se alguém descobre mais, se Ihé resiste ? 

E como, esta era a ajuda ? esta a roercé ? 
( Deixemos ja as mercês ) este o bom rosto ? 
De menos custa em hm que este tal é ? 

E logo aqui tam perto, com que gosto 
De todos Bosc5o, Lasso, erguerão bando, 
FizerSo dia, ja quasi sol posto ! 

Ah que nSo tornSo mais ! vão se cantando 
De vale em vale de ar mais luminoso 
E por outras ribeiras passeando. 

Tornemos ao desastre a nós choroso I 
Furtando m'ia á dor que inda ameaça 
Como um parto ao fugir mais perigoso. 

Náo ouso inda a falar tanto de praça, 
Falo comvosco como em puridade, 
Incerto do que diga e do que faça. 



8ÍCUL0 XVI 253 



Quando mandei mea 61ho em tal idade 
A morrer pola fe, se assim cumprisse, 
( Que esta era a verdadeira sua verdade ) : 

— To vas pelo caminho agro ( lhe disse ) 
Que tu mesmo tomaste á tua conta f 
Sem perigos quem se acha que subisse ? 

De tempo que assi foge^ que te monta 
Vinte anos, trinta mais ? que montão cento ? 
Ergueu a vista a mim alegre e pronta, 

Sospirando por ser la num momento, 
Se ser pudesse I tam de pressa os fados 
Corriam J nomes vãos, sem fundamento I 

Então o encarreguei d'estes cuidados ; 
Deus e logo honra, logo o capitão. 
Quam prestes a cumprir foi tais mandados ! 

Parece que os levou no coração. 
Não soltos por defora nos ouvidos, 
( Como outros fazem, que perdendo os vão. ) 

Do corpo aqueles espertos sentidos. 
Mais inda os da alma tam limpa e tam pura. 
Ja agora os bons desejos são cumpridos. 

Viu onde a deixaria em paz segura, 
De pressa á occasião arremeteu, 
Não quis mais esperar outra ventura. 

No dia do começo a conta encheu, 
Seguro viu a morte, espanto antigo. 
Nós sonhamos aqui, tu vas te ao ceu. 

Ditoso aquele mestre dom Rodrigo 
Manrique, a quem em seu tempo louvou 
O fílho e deu ao corpo em morte abrigo. 

Era ela conta igual que quem entrou 
Antes á vida, saisse primeiro ? 
Eu sou que devera ir 1 quem nos trocou ? 

Cordeiro, ante o trono alto do cordeiro. 
Lavado irás no teu sangue sem magua. 
Oh quem como era pai, fora parceiro ! 

A Paulo, da fe nossa ardente magua, 
Que pêra o filho o pai ponha em tesouro, 
Parece natural um correr d'agua. 



254 ANTOLOGIA — POKSIA 



Não assi ao contrario, abaixo o Douro 
Aqui perto ao gram mar se lança escuro 
Mondego e Tejo das áreas d'ouro. 

Quanto mais certo contra o imigo duro 
Podes que outrem dizer : vim, vi, venci, 
Cerrando e abrindo a mSo posto em seguro. 

Nâo se vejío mais lagrimas aqui. 
Salvo se por nos forem que em tais trevas 
£ tam cega prisão deixaste assi. 

Vai te a boa ora ; não tens de que devas 
Temer ; la tudo é paz, tudo assossego \ 
Quem leva um tal seguro qual tu levas ? 

Ditoso, que não viste de dor cego 
Por senhor um imigo da tua lei ! 
A tanta pressa fora um certo emprego. 

Quantas graças, meu Deus, quantas te dei 
Sabendo da alma que era libre e viva; 
Sem ela ao corpo de que temerei ? 

Sabia a sua condição altiva 
( Nesta só parte, no mais branda, humana, ) ; 
Era para morrer, não ser cativa. 

A sepultura que os olhos engana 
E' levissima perda ; assi também 
E' lodo, é terra, é pó, terra africana. 

Que tam estreito mar antre si tem 
Abila e Galpe, foi tempo um somente, 
Dous agora, um d'aquem, outro d'alem, 

Nos quais duas columnas pos de fronte 
Hercules, que ali entrada ao gram mar deu. 
Falece antes quem crea que quem conte. 

Os Gregos no que escrevem põem de seu 
A's vezes muito e ha ouem diz que chamadas 
Ja forão as columnas ao Briareu. 

Acabemos nas bemavenluradas 
Almas subidas para sempre á luz 
Sem trevas, rindo la dos nossos nadas : 

Um só, que em sangue aberta traz a cruz 
Branca por armas, deu Peus á cidade, 
Milagre que em sinais claros reluz. 

Rotas as armas, rota a humanidade 
Por muitas partes, mouros a milhares. 
Morde se a inveja as mãos, ri se a verdade. 



8ECUL0 XVI 



255 



Para as festas divinas que lugares 
Tam claros i ganhastes polas lanças. 
Correndo ledos á tal gloria a pares, 
Sem fím, sem sobresaltos, sem mudanças. 

Sá de Miranda, ibid., pag. 461-465. 

XXIII 



Cantiga em diálogo. 



A este caotar das moças 
ao adufe : 

N' aquela serra 
Quero ir a morar ; 
Quem me bem quiser, 
La me irá buscar. 

N'estes povoados 
Tudo sáo requestas ; 
Deixai me os cuidados. 
Que eu vos deixo as festas. 
D'aquelas florestas 
Verei longe o mar : 
Pôr me hei a cuidar. 



Responde-lhe outra companheira 
d'outra opinião: 

Sombras e auguas frias, 
Cantar de aves bem ! 
Quando as tardes vêm 
Por ca bradarias. 
Ves que pressa os dias 
LevSo sem cansar ? 
Nunca hão de tornar. 

Sá de Miranda, ibid., pg. 42. 



A primeira : 
Não julgue ninguém 
Nunca outrem por si ! 
Mais d'um bem que vi 
A vida não tem. 
Não deixa este bem 
Onde se ele achar 
Mais que desejar. 

A outra : 
Deixa as vaidades. 
Que da mão á boca 
O sabor se troca ; 
Trocão se as vontades. 
São essas suidades 
Armadas no ar : 
Não podem durar. 

A primeira : 
N'aquela espessura 
Me hei de ir esconder : 
Venha o que vier. 
Achar me ha segura. 
Se tal bem não dura 
Ao seu passar 
Tudo ha de acabar. 



XXIV 
Tragédia Castro. 

ACTO II 

ElRey D. Affonso IV. Pêro Coelho. Diogo Lopes Pacheco. Conselheiros. 



Cons. Senhor, pêra que he mais f moura esta dama 
Rey. Que moura todavia ? Pach. Senhor moura 
Por salvação do povo. Bey. Não he crueza 
Matar quem não tem culpa ? Cons. Muitos podes 
Mandar matar sem culpa, mas com causa. 



236 ANTOLOGIA — POESIA 



Rpy. Cora que cor, com que causa esta matamos ? 
Pach. Não basta que em sua morte só se atalham 

Os males, que sua vida nos promelte ? 
Rey. Ella que culpa tem ? Pach. Dá occasiâo. 
Rey. Oh que ella n5o a dá, o Iffante a toma. 

Que ley ha, que a condene, ou que justiça ? 
Cons. O bem commum, Senhor, tem taes larguezas 

Com que justitica obras duvidosas. 
Rey. Assi que assentaes nisto ? Cons. Nisto : moura. 
Pach. Moura. Rey. IlQa innocente ? Cons. Que nos mata I 
Rey. Não averá outro meo ? Pach. Náo o temos. 
Rey. Metê-la-ey num Mosteiro. Cons. Ey-lo queimado. 
Rey. Mandá-la-ey deste Reyno. Cons. O amor voa. 

Este fogo, Senhor não morre logo. 

Quanto lhe mais resistes, mais s'acende. 

Contra Amor que lugar darás seguro ? 
Rey. Matá-la he cruel meo, e riguroso. 
Pach. Não vês, não ouves quantas vezes morrem 

Muitos, que o não merecem ? Deos o quer 

Polo bem, que se segue. Rey. Deos o faça, 

Cuja vontade he ley, e a minha não. 
Pach. Essa licença tem também os Reys, 

Que em seu lugar estão. Rey. Antes não tem 

Licença pêra mais, que quanto pede 

A razão, e justiça : a mais licença 

He barbara crueza de infleis. 
Pach. Pois que dirás daqueiles, que a seus próprios 

Filhos, e a seu amor não perdoaram 

Polo exemplo commum, e bem do povo ? 
Rey. Aos que o bem fizeram, hey inveja. 

Os outros nem os louvo, nem os sigo. 
Cons. Inda quo houvesse excessos, todavia 

Mais males atalharam, dos que deram. 
Rey. Não se ha de fazer mal por quantos bens 

Se possam dahi seguir. Cons. Nem bem nenhum. 

De que se sigam males. Rey. Mal parece 

Matar hfla innocente. Pach. Não he mal : 

Que a causa o justifica. Rey. Antes Deos quer 

Que se perdoe hum máo, que um bom padeça. 
Cons. O bem geral quer Deos que mais 8'estime, 

Que o bem particular. Nas circunstancias 

Se salvam, ou se perdem as obras todas. 
Rey. Enganão-se os juizos muitas vezes. 
Cons. Os dos Reys bem fundados Deos inspira. 
Rey. Ey medo de deixar nome de injusto. 
Cons. De justo o deixarás, pois te conselhas 

Cos juizos dos teus leaes prudentes. 
Pach. Vês, poderoso Rey, vês cos teus olhos 

A peçonha cruel, que vay lavrando 

Gerada deste amor cego : vês quanto 

A soberba, e desprezo destes homSs 

Contra ti, e contra todos vay crescendo. 

S'em tua vida nos tememos tanto, 

Que faremos depois de tua morte ? 



SÉCULO XVI 257 



Por dar saúde ao corpo, qualquer membro 
Que apodrece, se corta, e pelo sSo, 
Porque o s5o não corrompa. Este teo corpo, 
De que tu és cabeça, está em perigo 
Por esta mulher só : eorta-lh'a vida, 
Atalha esta peçonha, té-lo-ás salvo. 
Medico, Senhor, és desta Republica. 
O poder, que tem o Medico num corpo, 
Tens tu sobre nós todos : usa delle. 
Se te parece em parte isto crueza. 
Não he crueza aquella, mas justiça. 
Quando de cruel animo não nasce. 
Tua tenção não pecca, em si se salva. 
A aspereza desfobra he medicina. 
Com que s'atalham as mortes, que adiante 
Muitos he que por força te mereçam. 
A clemência por certo he grã virtude, 
E digna mais dos Reys, que outras virtudes, 
Polo perigo grande, que ha na ira, 
Em quem tam livremente assi a executa : 
Mas com esta o rigor é necessário. 
Por não vir em desprezo tal virtude. 
Este he o que se chamou severidade, 
De que tantos exemplos nos deixaram 
Os famosos Romaõs em paz, e guerra. 
Estas columnas ambas são tam fortes, 
Que bemaventurado este teu Reyno, 
Que nellas por ti só está tam fundado. 
De tal modo, Senhor, ás de usar d'ellas. 
Que híla vá sempre d'outra acompanhada. 
Exemplos tens mostrado de clemência, 
Mostra agora, que he bem, severidade. 
Rey. A parte, que me cabe deste feito, 

Eu a ponho em vós toda, como aquelles, 
Que sem ódio, e temor sois obrigados 
Aquillo eonseíhar-me, que he só justo. 
Mais serviço de Deos, e bem do povo. 
Vós-outros sois meus olhos, que eu não vejo. 
Vós sois minhas orelhas, que eu não ouço. 
Minha tenção me leve, ella me salve. 
O engano &\'. he vosso, em vós só caya. 
Pach. Sobre nós descarrega esse teu p^so. 
Cons. Eu tomo minha parle, ou tomo todo. 
Almas, e honras temos : estas ambas 
A ti, Senhor, se devem, a ti as damos. 
Estas sós te conselham, que bem vês 
Quam grande mal he nosso, o que fazemos. 
Aventuramos vidas, e fazendas. 
Que em ódio de teu filho ficam sempre, 
Sob cujos pés ficamos, e em cuja ira. 
Mas percamo-nos nós, percamos vidas ; 
Soframos cruéis mortes; nossos filhos 
Fiquem órfãos de nós, e desherdados ; 
A fúria de teu filho nos persiga, 



258 ANTOLOGIA — POESIA 



Antes que esse tal medo em nós mais possa^ 
Que o que a virtude manda, e te devemos. 
Rey. Ivos apparelhar, que em vós me salvo. 

Senhor, que estás nos Ceos, e vés as almas. 
Que cuidam, que propõem, que determinam ; 
Alumia minb'alma, nSo se cegue 
No perigo, em que está : nâo sey que siga. 
Entre medo, e conselho fico agora : 
Matar injustamente he grã crueza. 
Soccorrer a mal publico he piedade. 
D'hQa parte receo, mas d'outra ouso. 
Oh filho meu que queres destruir-me ! 
Ha dó desta velhice tam cansada : 
Muda essa pertinácia em bom conselho. 
NSo dês occasiâo para que eu fiaue 
Julgado mal na terra, e condenado 
Anfaquelle grã Juiz, que está nos Ceos. 
O vida felicíssima, a que vive 
O pobre lavrador só no seu campo. 
Seguro da fortuna, e descansado, 
Livre destes desastres, que cá reynam f 
Ninguém menos é Rey, que quem tem Reyno. 
Ah que não he isto estado, he cativeiro 
De muitos desejado, mas mal crido. 
Huma servidão pomposa, hum grã trabalho 
Escondido sob nome de descanso. 
Aquelle he Rey somente, que assi vive 
(Inda que cá seu nome nunca s'ouça) 
Que de medo, e desejo, e d'esperança 
Livre passa seus dias. ó bons dias ! 
Com que eu todos meus annos tam cansados 
Trocara alegremente. Temo os homês, 
Com outros dissimulo : outros não posso 
Castigar, ou não ouso. Hum Rey não ousa. 
Também teme seu povo : também sofre. 
Também suspira, e geme, e dissimula. 
Não sou Rey, sou cativo : e tam cativo 
Como quem nunca tem vontade livre. 
Salvo-me no conselho dos que creo, 
Que me serão leaes : isto me salve. 
Senhor, contigo ; ou tu me mostra cedo 
Remédio mais seguro, com que viva 
Conforme a este alto estado, que me deste. 
E me livra algum tempo antes que moura, 
De tanta obrigaçam, pêra que possa 
Conhecer-me melhor, e a ti voar 
Com mais ligeiras asas do que pôde 
HQa alma carregada de tal peso. 



SÉCULO XVI 259 



Choro. Castro. Ama. 

Tristes novas, cruéis, 

Novas mortaes te trago, Dona Inês. 

Ah coitada de ti, ah triste, triste I 

Que não mereces tu a cruel morte. 

Que assi te vera buscar. Am. Que dizes ? fala. 

Ch. Não posso. Choro. Cast. De que choras ? Vejo 
Esse rosto, esses olhos, essa. . . Cast. Triste 
De mim, triste ! que mal? que mal tamanho 
He esse, que me trazes ? Ch. He tua morte. 

Cast. He morto o meu Senhor ? o meu Infante ? 

Ch. Ambos morrereis cedo. Cast. Ó novas tristes ! 
Matam-me o men amor ? porque mo matam ? 

Ch. Porque te mataram : por ti só vive. 

Por ti morrerá logo. Am. Deos não queira. 
Tal mal, tal desventura. Ch. Vem muy perto. 
Nam te tardará muito, poem-te em salvo. 
Fuge coitada, fuge, que já soam. 
As duras ferraduras, que te trazem 
Correndo a morte triste. Gente armada 
(^-orrendo vem. Senhora, em busca tua. 
EIRey te vem buscar determinado 
D'em ti vingar sua fúria. Vé se podes 
Salvar tamben: teus filhos, não IbVnipeça 
Parte de teus máos fados. Cast. O coitada 
Só, triste, perseguida ! hay meu senhor 
Onde estás, que não vens? elRey me busca? 

Ch. EIRey. Cast. Porque me mata ? Ch. Rey cruel ! 
Cruéis os que o moveram a tal crueza I 
Por ti vem perguntando. Ess^s teus peitos 
Vem só buscar, pêra com duro ferro 
Serem furiosamente traspassados. 

Am. Cumpriram-se teus sonhos Cast. Sonhos tristes ! 
Sonhos cruéis ! porque tam verdadeiros 
Me quizestes sayr ? ó sprito meu? 
Como não creste mais o mal tamanho 
Que crias, e sabias ? Ama, fuge. 
Fuge desta ira grande, que nos busca. 
Eu fico, fico só, mas innocente. 
Não quero mais ajudas, venha a morte : 
Moura eu, mas innocente. Vós meus filhos 
Vivireis cá por mim : meus tam pequenos 
Que cruelmente vem tirar de mim. 
Soccorra me só Deos, e soccorrei me 
Vós moças de Coimbra. Homês, que vedes 
Esta innoceíicia minha, soccorrei me. 
Meus filhos não chorais : eu por vós choro. 
Logray-vos desta mãy, desta mãy triste, 
Em quanto a tendes viva. E vós amigas 



260 ANTOLOeU — POESIA 



Cercay-me em roda todas, e podendo, 
Defendey-me da morte, que me busca. 



ACTO IV 

Pacheco. ElRey. Choro. Castro. Coelho. 

Coelh. Por mágoa dessas lagrimas te rogo 

Que este tempo, que tens, inda que estreito, 
Tomes pêra remédio da tu'alma. 
O que elRey em ti faz, faz com justiça. 
Nós o trazemos cá, n5o com tençSo 
De sermos em ti crus : mas de salvarmos 
Este Reyno, que pede esta tua morte. 
Que nunca, ó Deos quisera que tal meo 
iVos fora necessário. A elRey perdoa, 
Que crueza nâo faz : se a nós fazemos 
Por ti ante o grâ Deos será pedida 
Vingança justa, se te não parece 
Que perdão merecemos nas tenções. 
Com que elRei conselhamos. Ó ditosa, 
Dona Inês, tua morte ! pois só nella 
Se ganha hGa geral vida a todo Reyno. 
Bem vês por tua causa como estava. 
Além desse peccado, em que te tinha 
O Iffante forçada ( que assim o cremos ) 
Mas pois pêra remédio he necessário 
A morte sua, ou tua, he necessário 
Que tu sofras a tua com paciência, 
Qne isso te ficará por mayor gloria 
Que aquella, que esperavas cá do Mundo. 
E quanto mais injusta te parece, 
Tanto mais justa gloria lá terás, 
Onde tudo se paga por medida. 
Nós, que a teu parecer mal te matamos ; 
Não viveremos muito : lá nos tens 
Antes de muito tempo ant'esse trono 
Do grã Juiz, onde daremos conta 
Do mal. que te fazemos. Não ouviste 
Já das Romãs, e Gregas com que esforço 
Morreram muitas só por gloria sua ? 
Morre pois, Castro, morre de vontade. 
Pois não pôde deixar de ser tua morte. 

Cast. Triste pratica, triste I crii conselho 

Me dás. Quem o ouvira ? mas pois já mouro, 

Ouve-me Rey senhor : ouve primeiro 

A derradeira voz dest'alma triste. 

Co estes teus pés me abraço, que não fujo. 

Aqu»i me tens segura. Rey. Que me queres ! 

Ctut. Que te posso querer, que lu não vejas I 
Pergunta-te a ti mesmo o que me fazes. 
A causa, que te move a tal rigor. 



SÉCULO XVI 261 



Dou tua consciência em minha prova. 

S'os olhos de teu filho s'enganáram 

Com o que virara em mim, que culpa tenho ? 

Paguei-lhe aquelle amor com outro amor, 

Fraqueza costumada em todo estado. 

Se contra Deos pequei, contra ti nSo. 

NSo soube defender-me, dei-me toda. 

NSo a imigos teus, nâo a traidores, 

A que alguns teus segredos descubrisse 

Confiados a mim, mas a teu filho 

Príncipe d'este Reyno. Vê que forças 

Podia eu ter contra tamanhas forças. 

NSo cuidava, senhor, que foffendia. 

Defenderas-me tu, e obedecera, 

Inda que o grand'amor nunca se força : 

Igualmente foy sempre entre nós ambos : 

Igualmente trocámos nossas almas. 

Esta que te hora fala, he de teu filho. 

Em mim matas a elle : elle pede 

Vida par'estes filhos concebidos 

Em tanto amor. Nâo vês como parecera 

Aquelle filho teu ? Senhor meu, matas 

Todos, a mim matando : todos morrem. 

iNâo sinto já, nem choro minha morte, 

Inda que injustamente assi me busca, 

Inda que estes meus dias assi corta 

Na sua flor indigna de tal golpe : 

Mas sinto aquella morte triste, e dura 

Pêra ti, e pêra o Reyno, que tara certa 

Vejo naquelle amor, que esta me causa. 

Nâo vivirá teu filho, dá lhe vida 

Senhor, dando-ma a mim : que eu me irey logo 

Onde nunca appareça ; mas levando 

Estes penhores seus, que n5o conhecem 

Outros mimos, e tetas senão estas, 

Que cortar-lh'ora queres ; hay meus filhos 

Choray, pedi justiça aos altos Geos. 

Pedi misericórdia a vosso avô 

Contra vós tam cruel, meus innocentes. 

Ficareis cá sem mim, sem vosso pay. 

Que nSo poderá ver-vos, sem me ver. 

Abraçay-me, meus filhos, abraçay-rae. 

Despedi-vos dos peitos, que mamastes. 

Estes sós foram sempre : já vos deixam. 

Ah já vos desempara esta mãy vossa, 

Que achará vosso pay, quando vier ? 

Achar-vos-á tam sós, sem vossa máy : 

NSo verá quem buscava : verá cheas 

As casas, e paredes de meu sangue, 

Ah vejo-te morrer, senhor, por mim. 

Meu senhor, já que eu mouro, vive tu. 

Isto te peço, e rogo : vive, vive. 

Empara estes teus filhos, que tanfamas. 

E pague minha morte seus desastres^ 



262 ANTOLOGIA — P0B8IA 



Se alguns os esperavam. Bey senhor 
Pois podes soccorrer a tanlos males, 
Soccorre-me, perdoa-me Nâo posso 
Falar mais. N3o me mates, nSo me mates. 
Senhor não to mereço. Rey Ó mulher fone ! 
Venceste-me, abrandaste-me. Eu te deixo. 
Vive, em quanto Deos quer Ch. Rey piadoso 
Vive tu, pois perdoas : moura aquele, 
Que sua dura tenção leva a diante. 

Dr. A. Ferreira, Poemas Lusitanos, ed. 1598. 

XXV 
Carta a Joam López Leítam, na índia. 

Do antigo Portugal, da grã Lisboa, 
Por novos mares, novos ceos, e climas 
Ao novo Portugal, á clara (ioa. 

Te vay saudar. Joam López, s'inda estimas, 
SMnda as nove Irmãs honras, minha Musa, 
Dem lugar duros Troes ás brandas Rimas. 

Ou teu armado braço este no que usa. 
Com Marte contendendo em fortaleza 
Sem ao Rume aceitar ouro, ou escusa, 

Ou rompendo com fúria, e cora braveza 
As escumosas ondas, vás levando 
Socorro á quasi entrada Fortaleza. 

Não deixes de ir cos olhos só passando 
Estes versos, verás quanto ás trombetas 
Mais animoso som estaram dando. 

Antes que com forte animo comettas 
A feroz multidão, e com honroso 
Despojo, humilde o imigo a ti somettas. 

Ou do triste sucesso temeroso 

( Como a fortuna quer ) com arte, e rogo 
Tornes o teu soldado furioso, 

As Musas ouve sempre, acendem fogo 
Nos altos corações, e o mór perigo 
Te fazem parecer prazer, e jogo. 

Tanto mais forte irás contra o imigo 
Co sprito aceso em doce som de gloria 
Quanto das Musas mais fores amigo. 

Ao som da alta trombeta, que a memoria 
De Achilles fero ao mundo renovada, 
Encheo o grã Macedónio su'alta historia. 

Quantas vezes gemia, e suspirava 
Com generosa inveja do alto canto. 
Que a nova gloria, e fama o levantava I 

Aquelle sprito aceso, aqueile santo 
Furor do Rey Profeta, ao som da lira 
Hora era fogo todo, hora era pranto. 



sécuLO XVI 263 



Sobre si posto ja mais que homem aspira 
Aos ceos, e altos segredos, que lá via, 
Deos chama, de Deos canta, a Deos suspira. 

Já aqaelle fogo claro, que assi ardia 
Antigamente ntis spritos raros 
Torna inflammar a nossa idade fria. 

Já os dias nascer vemos mais claros. 
O mundo mais fermoso ; e já das nove 
Musas os nomes mais ao mundo charos. 

Também algfla esse teu peito move, 
E todo a honra, e gloria tu levanta, 
Por mais que em ti o Amor suas frechas prove. 

Mas tu com Marte farma, com Amor canta. 
Inda juntos verás Vénus, e Marte, 
Juntos Apollo, e Palias em paz santa. 

Ah quanto ceu, quanta agoa, João, nos parte ! 
Os spritos porém de lá se chamam. 
Lá de mim tens, amigo, a melhor parte. 

Não são os olhos, nSo os corpos, que amam. 
Outra força secreta nos convida ; 
Naturalmente hQs s'amam, hQs se desamam. 

Pôde hQa voz, hOa fama ao longe ouvida 
Juntar duas almas em amor igual. 
Fazendo em dous hQa vontade e vida. 

Esta é a sancta amizade, esta a que vai. 
Dos corpos, e olhos são baixos amores, 
Que ao bem se chegam, apartam se co mal. 

Dous em bom amor juntos sSo senhores 
De duas almas : nisto, João, vencemos 
Mil grandes Reys, e mil Emperadores. 

Elles tem seus Impérios : mas nós temos 
Nossas vontades, boa segurança. 
Reynem temidos lá, nòs nos amemos. 

A estrada cham da bemaventurança, 
Que desta vida á eterna vay sobindo. 
Que he, se não deste amor sam confiança ? 

Em qunto tu teu braço estás tingindo 
Nesse bárbaro sangue, e das honrosas 
Folhas essa tua fronte vás cingindo, 

E inda ás armas antigas, e fermosas 
Nova, e mór fermosura vão ganhando 
Teu forte peito, e mãos victoriosas. 

Eu estou tua doce vista desejando 
Gora toda est'alma, com toda a vontade, 
Ah vive, e vem, João, de cá gritando. 

Devemos este amor ao nosso Andrade, 
De nosso amor seguro fundamento. 
Amigo tens em mim, tens sam verdade : 

Que servidor nome he de comprimento. 

Dr. A. Ferreira, Poemas Lusitanos, 1598, pg. 183. 



26i ANTOLOGIA — P0R8IA 



XXVI 

Soneto. 

Quando eu vejo sair a menham clara 
Nos olhos dia, as faces neve, e rosas, 
Afugentando a sombra, qu'as fermosas 
Cores do campo, e ceo d' antes roubara ; 

E quando a branca Delia a noite aclara, 
E traz nos brancos cornos as lumiosas 
Estrellas, serenando as tempestosas 
Nuvês, qu'o grosso humor nos ceos juntara 

Tal he, digo comigo, a clara estrelia, 

Que minh'alma me encheo doutra luz nova, 

E meus olhos abrio ao que não viam. 

Assi me leva a vida, e ma renova, 
Assi as v5s sombras, que antes m'escondiam 
O claro ceo, fugindo vão ante ella. 
Dr. A. Ferreira, Poemas, cit. pg. 10 v. 



XXVII 
Oalro. 

Ó Alma pura, em quanto cá vivias. 
Alma lá onde vives já mais pura, 
1'orque me desprezaste ? quem Iam dura 
Te tornou ao amor, que me devias ? 

Isto era, o que mil vezes promeltias. 
Em que minh*alma estava tam segura. 
Que ambos juntos liQa hora desta escura 
Noite nos subiria aos claros dias ? 

Como em tam triste carcer me deixaste ? 
Como pode eu sem mim deixar partir-le ? 
Como vive este corpo sem sua alma ? 

Ah que o caminho tu bem mo mostraste. 
Porque correste a gloriosa palma ! 
Triste de quem nSo mereceo seguir-te. 

Dr. A. Ferreira, ibid., pg. 16. 



SÉCULO XVI 265 

XXVIII 
Outro. 



Despojo triste, corpo mal nascido. 
Escara prisão minha, e peso grave, 
Quando rola a cadéa e volta a chave 
Me verey de ti solto, e bem remido ? 

Quando co sprito pronto, aos ceos erguido, 
( Despois que est'alma em lagrymas bem lave ) 
Batendo as asas, como ligeira ave, 
Irei aos ceos buscar meu bem perdido ? 

Triste sombra mortal e vam figura 
Do que já fui hQs dias só sostida 
Daquelle sprito, por quem cá vivia. 

Quem te delem nesta prisão iam dura ? 
Não viste a clara luz, a saneia guia 
Que te lá chama á verdadeira vida ? 



Ur. k. Ferreira, ibid., pg. 16 t. 



XXIX 

Ootre. 



Aquelle claro Sol, que me mostrava 
O caminho do ceo mais chaõ, mais certo, 
E com seu novo rayo ao longe, e ao perto 
Toda a sombra mortal m'afugentava ; 

Deyxou a prisão triste, em que cá estava. 
Eu fiquey cego, e só co passo incerto, 
Perdido peregrino no deserto, 
A que faltou a guia, que o levava. 

Assi CO sprito triste, o juizo escuro, 
Suas saneias pisadas vou buscando. 
Por valles, e por campos, e por montes. 

Em toda parte a vejo, e a figuro. 
Ella me toma a maõ, e vay guiando. 
E meus olhos a seguem feitos fontes. 
Dr. A. Ferreira, ibid., pg. 17. 



266 ANTOLOGIA — POBSIA 



XXX 

Onlro. 

Aquella nunca vista fermosura, 
Aquella viva graça, e doce riso, 
Humilde gravidade, alto aviso, 
Mais divina, qu'humana real brandura, 

Aquella alma innocente, e sabia, e pura, 
Qu'entre nós cá fazia hum parayso, 
Ante os olhos a trago, e lá a deviso 
No ceo triumphar da morte, e sepultura. 

Pois por quem choro, triste ? por quem chamo 
Sobre esta pedra dura a meus gemidos, 
Que nem me pôde ouvir, nem me responde? 

Meus suspiros nos ceos sejam ouvidos ; 
E em quanto a clara vista se m'esconde, 
Seu despojo amarey, amey, e amo. 
Dr. A. Ferreira, ibid., pg. 17. 



XXXI 
Elegia IV. 

( A Diogo Bernardes em resposta d'outra sua, 
á morte do doutor António Ferreira ) 

Um silencio, Bernardes, me rompeste 
Já quasi a nSo fallar determinado 
Na dor, que hora de novo em mim moveste. 

Igualmente á dor minha ser chorado 
Náo podia em meu verso o meu Ferreira, 
Nem ser de mim seu sprilo bem cantado. 

Entendia de mim que á verdadeira 
Fama do que elle em tudo merecia, 
Naõ chegaria a minha voz inteira. 

Calava, e a fallar nelie m'escondia, 
Por naõ offender morto um bom amigo 
Que me quiz tanto quando cá vivia. 

Fizesteme chorar ora comtigo 
Com nova magoa, nova saudade, 
A dor que eu cá chorava só comigo. 

Move8tem'Alraa a nova piedade, 
A nova pena, e novo sentimento 
D'aquella grande perda d'esia idade. 

Aquella grande perda que dum momento, 
Despois de tanto mal acontecido, 
NaC deixei de trazer no pensamento. 



SÉCULO XVI 267 



Mas eu naõ choro ver d'efitre nós ido 

Este retrato só da idade antiga, 

Do Ceo á nossa liníioa concedida : 
Mas faltarme um ingenho a que o meu siga, 

E uma voz que ouça, e esprito de que apprenda; 

E os segredos das Musas m'abra, e diga. 
E quem o meu máo verso me reprenda, 

E o meaõ me concerte, e mo levante 

Com douto aviso, e com segura emenda. 
Sinto faltar, Bernardes, quem ra'espante 

Com seu bom canto, com seu bom escrito, 

Com cuja imitação possa ir avante. 
Aquelle claro, aquelle puro esprito 

De saõ conselho cheo, e de prudência, 

Sempre será de mim cantado e escrito. 
Agora em sua triste e longa ausência 

Quem acharei que a dor me desaggrave ? 

E me mostre o remédio na paciência ? 
Faziame a tristeza menos grave, 

Mais branda a dura pena, a dor mais leve, 

Faziam'a alegria mais suave. 
Se teve ( magoa nossa I ) a vida breve 

Largo nome terá, larga memoria 

Que a toda a parte, e tempo a fama leve 
Já do tempo terá certa victoria. 

Quem s'ouve assi na triste e mortal vida, 

Qu'aspirou sempre á clara e immortal gloria. 
Nella da mortal carne despedida, 

Esquecida de tudo, nos amores 

Divinos estará toda eoibebida. 
A voz levantará a outros louvores 

Mais devidos, mais puros, e mais santos 

Arrebatada d'immortais fervores. 
Mil versos, e mil inos, e mil cantos 

Cantará sempre á eterna Fermosura, 

Mais dinos de memoria, mais d'espantos. 
Será nelles guiado de mais pura. 

De mais íermosa, de mais rica Musa, 

Mais ornada de copia, e da brandura. 
Amará, e será amado, assi lá se usa; 

Cantará, e será ouvido d'a quem canta. 

Que quem lá se ama, d'amar nSo «'escusa. 
O Sol que sobre o mundo se levanta. 

Que com sua luz clara, e tam fermosa 

ISos vence a vista, e o esprito nos espanta : 
Em conta nSo terá, que outra gloriosa 

Luz, que dá luz ó Sol, e ás Almas lume, 

Lhe terá mais que o Sol Alma lustrosa. 
Um tempo eterno, um immortal costume 

Seguirá sempre, tempo alegre e puro, 

Primavera que nunca se consume. 
Lá naõ verá Inverno triste e escuro, 

Naõ ventos, naõ tormentos, naõ mudanças ; 

Mas tudo quieto em Deus^ tudo seguro. 



AirrOLOGIA — K>B8IA 



Livrouse das incertas esperanças 
Que nos desassossegam, e desbaratam ; 
E das leves e falsas confianças. 

Naõ vês, Bernardes, como nos maltratam 
Os movimentos vaõs, e os vaõs receos 
Que as Almas inquietam, as vidas matam ? 

Quem pode defenderse a mil enleos ? 
Quem se pode valer em mil perigos 
D'oulros muitos perigos sempre eheos ? 

E' perigo naõ ter, e ter amigos : 
Mal se pode viver nesta estreiteza, 
Se m'cy de velar d'elles como imigos. 

O nosso António está em outra largueza, 
Ninguém teme, ninguém d'elle se teme; 
Em tudo vê pureza, e tem pureza. 

E cá, Bernardes nosso, quem nâo treme ? 
Quem não deve de si mesmo temerse? 
Quem â que contra tempo em vaõ naõ reme? 

Quem vé cousa de que possa valerse ? 
Olhos no Ceo, e no divino Norte, 
Pôde guiar tod'Alma a nao perderse. 

NSo chores já do nosso António a sorte, 
A minha sorte chora, e a sorte tua, 
Pois nolo tem roubado a dura morte. 

A nós dura, a nós áspera, a nós crua 
Que nos levou o nosso amigo brando, 
E a doce e branda conversação sua. 

Por elle rindo, por mim vou chorando, 
E por elle contente, e por mim triste 
Sem elle a vida irei toda passando 

Tú que a nossa amizade clara viste. 
Claro verás que á dor da perda grande 
D'um claro amigo, bom, mal se resiste. 

Nunca tal perda, amigo, o Ceo te mande; 
Dor 6 que nunca a vida perde um'ora : 
Remédio pôde aver com que se abrande, 

Naõ que de todo a vença, e deite fora. 

P. d' Andrade Caminha, Obras, Ed. da Academia, pg. 127. 



XXXII 
Elegia. 

(Sobre o desattre da jornada de Africa) 



« Ai triste Lusitânia, tri.ste chora, 
« Que nunca para choro eterno e triste, 
« Tanta causa tiveste como agora. 

n Aquelle que com lagrimas pediste, 
« Quando tam duramente a tenra vkla 
« Do Príncipe seo Pay cortada viste. 



SÉCULO XVI 269 



« Agora nesta sua despedida 
« De lagrimas te quis deixar herdeira, 
« Ou inda a pior mal offerecida. 

a Mas a Ceo o permitia de maneira 
« Que do teu rico ceptro Soberano 
«r Se conserve a potencia sempre inteira. 

« Ah jornada infolice I ah cego engano ? 
« Deixar tam rica terra, ir a desterros 
« Por livrar d'um Tyrano outro Tyrano. 

« Ambos imigos nossos, ambos Perros 
« Ambos despresadores da Cruz Santa. 
« Ambos tinham hum culto, ambos mil erros. 

« Quem põem os olhos nisto nâo s'espanta, 
« De permittir o Ceo castigo tanto 
« A descuido tamanho, a culpa tanta. 

« Dia eheo de dôr, cheo d'espanto, 
« Em quanto o sol der luz, verdura os prados 
« Celebrado serás com triste pranto. 

« Morrestes, Cavalleiros esforçados, 
« Daquella multidão de bruta gente 
« Vencidos não, mas de vencer cansados. 

Diogo Bernardes, Varias Rimas, ed. 1594, pg. 85 v. 



XXXIII 

Ontra. 

(Estando captivoj 

Eu, que livre cantei ao som das agoas 
Do saudoso, brando, e claro Lima, 
Ora gostos d'amor, outr'ora magoas. 

Agora ao som do ferro, que lastima 
O descuberto pe, choro cativo 
Onde choro não vai, ou amor s'estima. 

Cuido que me deixou a morte vivo 
Vendo que não chegava seu tormento 
A tormento tamanho, e tam esquivo. 

Acabando eo'a vida o sentimento 
Ficarás escondido, oh dia triste. 
Nas turvas aguas do esquecimento. 

Oh Sol, como tua luz não encobriste 
Quando do Real sangue Lusitano, 
As ervas, que secaste, húmidas viste ? 

Que Libico Leão, que Tigre Hircano 
Negara desusada piedade, 
A lastima tamanha, a tanto dano ? 

Não te valeo, oh Rey, a tenra edade. 
Não te valeo esforço, nem destreza, 
Não te valeo suprema Magestade. 



270 ANTOLOGIA — POBSIA 



Das armas a provada fortaleza 
Poderosa nSo foi pêra guardar-te 
Da mão de fogo armada e de crueza. 

Conjurou contra ti o fero Marte, 
Vendo que sua fama escurecias. 
Si vencedor ficavas desta parte. 



Diogo Bernardes, ibid., pg. 81. 



XXXIV 

Soneto. 
(A quem ler) 

Os Versos, que cantei importunado 
Da mocidade cega a quem seguia. 
Queimei ( cumo vergonha me pedia ) 
Chorado, por haver taõ mal catado. 

Se nestes naõ ficar taõ desculpado 
Quanto o mais alto estilo requeria, 
Naõ me podem ne;^ar a melhoria 
Da mudança, q fiz d'hum n'outro estado. 

Que vai que sejaõ bem, ou mal aceitos T 

Pois os naõ escrevi para louvores 
Humanos, pelo menos perigosos, 

Senaõ para plantar em frios peitos 
Desejos de colher divinas flores 
A' força de suspiros saudosos ? 

Fr. Agostinho da Cruz, Variat Pocsiat, ed. cit., pg. 1. 



XXXV 
Ontro. 

(A sev irmão Diogo Bernardes) 

Do Lyma, donde vim já despedido, 
Cavar cá nesta Serra a sepultura, 
Naõ sinto que louvar possa brandura, 
Sem me sentir turbar do meu sentido 



8ÉCCL0 XVI 271 



A laS de que vem andar vestido, 
Torcendo em varias partes a costura, 
Os pés que nús se daõ á pedra dura, 
Nem me deixaõ ouvir, nem ser ouvido : 

O povo cujo applauso recebeste, 
Vendo teu brando Lyma dedicado 
A Principe Real, claro, excellente, 

Louvará muito mais quando escreveste : 
De mim, meu caro irmaõ, menos louvado, 
Louva comigo a Deos eternamente. 

Fr. Agostinho da Crnz, ibid., pg. 15. 



XXXVI 
Ontro. 

Puz em tamanha altura o pensamento, 
Que o perde já de vista a confiança : 
Cansado de o seguir minha esperança 
Parou em descobrir meu atrevimento. 

Por elle mouro em áspero tormento. 
Mas não cansará a fé, como nâo cansa, 
Inda que o tempo faça outra mudança. 
De que eu deva ter mór sentimento. 

Bem pode Amor cruel, se ha quem o mande, 
Esta sombra da vida desfazerme, 
Seguindo seu costume deshumano 

Só nunca poderá, por mais que ande, 
Fazer que me arrependa de perder-me 
Com pena, espanto, dor, força, ou engano. 

Fr. Agostinho da Cruz, apud Arcfúvo Bibliogr. da Bibl. da Universidade de 
Coimbra, i, 47. 



XXXVII 
Ontro. 

Á duqueza d' Aveiro 

Quando na verde planta, ou pedra dnra 
Me mandava escrever minha tristeza, 
Nunca me pareceo, alta Princeza, 
Que podessem meus versos ter ventura 



272 ANTOLOGIA — P0B8U 



Pêra caídar que houvesse ereatura, 
A quem taes partes desse a natureza, 
Que podesse mover minha dureza 
A não lhes dar no fogo sepultura. 

Como já fiz de quantos tinha feito 
Na ribeira do Lima em tenra idade, 
Por dar algum remédio a meu defeito. 

Mas pois Vossa Excelleneia tem vontade 
De lhos dar, eu me dou por satisfeito, 
Que tudo pôde em fim pura amizade. 

Fr. Agostinho da Cruz, ihid., pag. 144. 



XXXVIII 
Auto da Mofina Mendes. 



Pessival 

Achaste a tua burra, Andrel ? 
And. Bofa não. Pks. Não pode ser. 
Busca bem, leixa o fardel ; 
Que a burra não era mel, 
Que a havião de comer. 

André 

Saltarião pegas nella, 

Por caso da matadura ? 
Pes. Pardeos ! essa seri' ella ! 

E que pega seria aquella, 

Que lhe tirasse a albardura ? 
Pay. Mas cré que andou per hi 

Mofina Mendes, rapaz ; 

Que, segundo as cousas faz. 

Se isto não for assi, 

Que não seja eu Payo Vaz. 
Ora chama tu por ella. 

E aposto-te a carapuça, 

Que a negra burra ruça 

Mofina Mendes deu nella. 
And. Mofina Mendes ! ah Mofina Men f 
MoF. Que queres, André ? que has ? ( de longe j 
And. Vem tu ca, e vé-lo-has ; 

E se has de vir, logo vero, 

E acharás aqui também 

A teu amo Payo Vaz. 



sÉcnLo x\i 273 



Entra Mofina Mendes, e diz 

Pato Vaz. 

Onde deixas a boiada, 
E as vacas, Mofina Mendes 

MoF. Mas que cuidado vós tendes 
De me pagar a soldada, 
Que ha tanto que me retendes? 

Pay. Mofina dá-me conta tu 
Onde fica o gado meu. 

MoF. A boiada não vi eu, 
Anda lá não sei per hu. 
Nem sei que pascigo he o seu. 

Nem as cabras não nas vi, 
Samicas c'os arvoredos ; 
Mas não sei a quem ouvi 
Que andavão ellas per hi 
Saltando pelos penedos 

Pay. Dá-me conta rez e rez. 
Pois pedes todo teu frete. 

MoF. Das vacas morrerão sete, 
E dos bois morrerão três. 



Payo Vaz. 

Que conta de negregnra ! 
Que taes andão os meus porcos ? 

MoF. Dos porcos os mais são mortos 
De magreira e ma aventura. 

Pay. E as minhas trinta vitellas 

Das vacas, que te entregarão ? 

MoF. Creio que hi ficarão delias, 
Porque os lobos dezimárão, 
E deu olho mao por ellas, 
Que mui poucas escaparão. 



Payo Vaz. 

Dize-me, e dos cabritinhos 
Que recado me dás tu ? 
MoF. Erão tenros e gordinhos, 
E a zorra tinha filhinhos, 
E levou-os hum e hum. 



Pato Vaz. 

Essa zorra, essa maiina. 
Se lhe correras trigosa, 
Não fizera essa chacina ; 
Porque mais corre a Mofina 
Vinte vezes qu'a raposa. 



18 



Í74 ANTOLOGIA — P0K8IA 



MoF.;Meu'amo, ja tenho dada 
A confa do vosso gado 
Muito bem, com bom recado ; 
Pagae-me minha soldada. 
Como temos concertado. 



Payo Vaz, 

Os carneiros que íicárSo, 
E as cabras, que se fizerSo ? 

MoF. As ovelhas reganhárSo, 
As cabras engafecérão, 
Os carneiros se afogarão, 
E 08 rafeiros morrerão. 

Pes. Payo Vaz, se queres gado, 
Dá ó demo essa pastora : 
Paga-lh'o seu, va-se embora 
Ou ma-ora, 
E põe o teu em recado. 



Payo Vaz. 

Pois Deos quer que pague e peite 
Tão daninha pegureira, 
Em pago desta canseira 
Toma este pote de azeite, 
E vae-o vender á feira ; 
E quiçaes medrarás tu, 
O que eu comligo não posso. 
MoF. Vou-me á feira de Trancoso 
Logo, nome de Jesu, 
E farei dinheiro prosso. 

Do que este azeite render 
Comprarei ovos de pata. 
Que he a cousa mais barata 
(Ju'eu de lá posso trazer. 
E estes ovos chocarão ; 
Cada ovo dará hum pato, 
E cada pato um tostão, 
Que passará de hum milhão 
E meio, a vender barato. 

Casarei rica e honrada 
Per estes ovos de pala, 
E o dia que for casada 
Sahirei ataviada 
Com hum brial d'escarlata, 
E diante o desposado. 
Que me estará namorando : 
Virei de dentro bailando 
Assi dcst'arte bailado, 
Esta cantiga cantando. 



SÉCULO XVI 275 



Estas cousas diz Moflna Mendes com o pote de azeite á cabeça, 
e andando enlevada no bailo, cai-lhe, e diz 

Payo Vaz. 

Agora posso eu dizer, 
E jurar e apostar, 
Qu'es MoOna Mendes toda. 
Pes. E s'ella baila na voda, 
Qu'e8tá ainda por sonhar, 
E 08 patos por nascer, 
E o azeite por vender, 
E o noivo por achar, 
E a Mofina a bailar; 
Que menos podia ser ? 
» Vai-se Mofina Mendes, cantando. 

Mofina Mendes. 

« Por mais que a dita m'engeite, 
« Pastores, nSo me deis guerra; 
«f Que todo o humano deleite, 
« Como o meu pote d'azeite, 
« Ha de dar comsigo em terra ». 

Entrão outros pastores, cujos nomes são Braz Carrasco, Barba Triste e 
Tibaldinho; e diz 

Braz Carrasco. 

O Pessival meu vezinho I 
Pes. Braz Carrasco, dize, viste 

A burra desse outeirinho? 
Bra. Pergunta tu a Tibaldinho, 

Ou pergunta a Barba triste, 

Òu pergunta a Jo5o Calveiro. 
TiB. O fato trago eu aqui, 

E a burra eu a metti 

Na corte do Babileiro. 

Nós deitemo-nos per hi. 
Andamos todos cansados, 

O gado seguro está : 

E nós aqui abrigados 

Dormaraos senhos bocados. 

Que a meia noite vem ja. 
Gil Vicente, Obi-as, Coimbra (51907 ), pg. 11-14. 

XXXIX 
Anto da Feira. 

Mercúrio. 

Eu sam Mercúrio, senhor. 
De muitas sabedorias, 
E das moedas reitor, 
E deos das mercadorias : 
Nestas tenho meu vigor. 
Todos tractos e contractos, 



276 ANTOLOGIA — POESIA 



Valias, preços, avenças, 
Carestias e baratos, 
Ministro suas prelenças, 
Até as compras dos çapatos. 

E porquanto nunca vi 
Na corte de Portugal 
Feira em dia de Natal, 
Ordeno hfla feira aqui 
Pêra todos em geral. 
Faço mercador-mor 
Ao Tempo, que aqui vem ; 
E assi o hei por bem. 
E n5o falte comprador. 
Porque o tempo tudo tem. 

Entra o Tempo, e arma húa tenda com muila$ cousas, e diz : 

Tempo. 

Em nome daquelle que rege nas praças 
D'Anvers e Medina as feiras que tem, 
Começa-se a feira chamada das Graças, 
Á honra da Virgem parida em Belém. 
Quem quiser feirar, 

Venha trocar, qu'eu nSo hei de vender : 
Todas virtudes qu'houverem mister, 
Nesta minha tenda as podem achar, 
A troco de cousas que h5o de trazer. 

Todos remédios especialmente 
Contra fortunas ou adversidades 
Aqui se vendem na tenda presente, 
Conselhos maduros de sans calidades 
Aqui se acharão. 
As mercadorias damos e rezSo, 
Justiça e verdade, a paz desejada. 
Porque a Christandade he toda gastada 
So em serviço da opinião. 
Aqui achareis o temor de Deos, 
Que he ja perdido em todos Estados ; 

Aqui achareis as chaves dos Ceos, 
Mui bem guarnidas em cordões dourados : 
E mais achareis 

Somma de contas, todas de contar 
Quão poucos e poucas haveis de lograr 
As feiras mundanas; e mais contareis 
As contas sem conto qu'estão per contar. 

E porque as virtudes. Senhor Deos, que digo, 
Se forão perdendo de dias em dias. 
Com a vontade que deste ó Messias 
Memoria o teu anjo que ande comigo. 
Senhor, porque temo 
Ser esta feira de mãos compradores. 
Porque agora os mais sabedores 
Fazem as compras na feira do Demo, 
£ os mesmos diabos sáo seus corretores. 



SÉCULO XVI 277 

Entra hum Seraphim enviado per Deus a petição do Tempo, e diz : 
Sebaphim. 

Á feira, á feira, igrejas, mosteiros, 
Pastores das almas, Papas adorroidos; 
Comprae aqui pannos, madae os vestidos, 
Buscae as çamarras dos outros primeiros 
Os antecessores. 

Feirae o carão que trazeis dourado ; 
Ó presidentes do crucificado, 
Lembrae-vos da vida dos sanctos pastores 
Do, tempo passado. 

O Príncipes altos, império facundo, 
Guardae-vos da ira do Senhor dos Geos ; 
Comprae grande somma de temor de Deos 
Na feira da Virgem, Senhora de mundo. 
Exemplo de paz. 

Pastora dos anjos, luz das estrellas. 
Á feira da Virgem, donas e donzellas, 
Porque este mercador sabei que aqui traz 
As cousas mais bellas. 

Entra hum Diabo com húa tendinha diante de si, co^no bufarinheiro, e diz: 

Diabo, 

Eu bem me posso gabar, 

E cada vez que quiser, 

Que na feira onde eu entrar 

Sempre tenho que vender, 

E acho quem me comprar. 

E mais vendo muito bem. 

Porque sei bem o que entendo ; 

E de tudo quanto vendo 

Não pago sisa a ninguém 

Por tracto que ande fazendo. 
Quero-me fazer á vela 

Nesta sancta feira nova. 

Verei os que vem a ella, 

E mais verei quem m'estrova 

De ser eu o maior delia. 
Tem. Es tu também mercador, 

Que a tal feira fofifereces ? 
Dia. Eu não sei se me conheces. 
Tem. Paliando com salvanor. 

Ta diabo me pareces. 

Diabo. 

Paliando com salvos rabos, 
Inda que me tens por vil, 
Acharás homens cem mil 
Honrados, que são diabos. 
Que eu não tenho nem ceitil. 



178 ANTOLOGIA — POESIA 



E bem honrados te digo, 
E homens de muita renda, 
Que tem divedo comigo. 
Pois nSo me tolhas a venda, 
Que não bei nada comtigo. 

Tempo (ao Seraphim). 

Senhor, em toda maneira 
Acudi a este ladrão, 
Que me ha de danar a feira. 

Dia. Ladrão ? Pois haj'eu perdSo, 
Se vos metter em canceira. 
Olhae ca, anjo de bem, 
Eu, como cousa perdida, 
Nunca me tolhe ninguém 
Que não ganhe minha vida, 
Como quem vida não tem. 
Vendo dessa marmelada, 
E ás vezes grãos torrados. 
Isto não releva nada; 
E em todolos mercados 
Entra a minha quintalada. 

Sbr. Muito bem sabemos nós 
Que vendes tu cousas vis. 

Dia. Hí ha de homens rdis 

Mais mil vezes que não bós, 
Como vós mui bem sentis. 
E estes hão de comprar 
Disto que trago a vender. 
Que são artes de enganar, 
E cousas para esquecer 
O que devião lembrar : 
Que o sages mercador 
Ha de levar ao mercado 
O que lhe comprão melhor ; 
Porque a ruim comprador 
Levar-lhtí ruim borcado. 

E mais as boas pessoas 
São todas pobres a eito ; 
E eu por este respeito 
Nunca tracto em cousas boas. 
Porque não trazem proveito. 
Toda a glória de viver 
Das gentes he ter dinheiro, 
E quem muito quiser ter 
Cumpre-lhe de ser primeiro 
O mais ruim que puder. 

E pois são desta maneira 
Os contractos dos mortaes, 
Não me lanceis vós da feira 
Onde eu hei de vender mais 
Que todos á derradeira. 

Sift. Venderás muito perigo, 



SKCOLO XVI 279 



Que tens nas trevas escuras. 

Dia. Eu vendo perfumaduras, 
Que, pondo-as no embigo. 
Se salvão as criaturas. 

Ás vezes vendo virotes, 
E trago d'AndaIuziã 
Naipes com que os sacerdotes 
Arreneguem cada dia, 
E joguem té os pellotes. 

Ser. NSo venderás tu aqui isso, 
Que esta feira he dos eeos : 
Vae lá vender ao abisso 
Logo, da parte de Deos. 

Dia. Senlior, apello eu disso. 

S'eu fosse tão mao rapaz, 
Que fizesse força a alguém, 
Era isso muito bem ; 
Mas cada hum veja o que faz, 
Porque eu náo forço ninguém. 
Se me vem comprar qualquer 
Clérigo, leigo ou frade 
Falsas manhas de viver, 
Muito por sua vontade ; 
Senhor, que lh'hei de fazer? 

E se o que quer bispar 
Ha mister hypocrisia, 
E com ella quer caçar ; 
Tendo eu tanta em porfia, 
Porque lh'a hei de negar ? 
E íe húa doce freira 
Vem á feira 

Por comprar hum inguento. 
Com que voe do convento ; 
Senhor, inda que eu nâo queira, 
L'hei de dar aviamento. 

Mercdrio. 

Alto, Tempo, apparelhar. 
Porque Roma vem á feira. 
Dia. Quero-me eu concertar. 
Porque lhe sei a maneira 
De seu vender e comprar. 

Entra Roma, cantando. 



Roma. 

a Sobre mi armavSo guerra; 
o Ver quero eu quem a mi leva. 

« Três amigos que eu havia, 
« Sobre mi armSo porfia ; 
« Ver quero eu quem a mi leva 



280 ANTOLOGIA — POESIA 



Vejamos se nesta feira, 
Que Mercúrio aqui faz, 
Acharei a vender paz, 
Que me livre da canceira 
Em que a fortuna me traz. 
Se os meus me desbaratâo, 
O meu soccorro onde está ? 
Se 08 ChristSos mesmo me malSo, 
A vida quem m'a dará. 
Que todos me desacatáo ? 

Pois s'eu aqui n3o achar 
A paz firme e de verdade 
Na sancta feira a comprar, 
Cant'a mi dá-me a vontade 
Que mourisco hei de fallar. 

Dia. Senhora, se vos prouver, 
Eu vos darei bom recado. 

RoM. NSo pareces tu azado 
Pêra trazer a vender 
O que eu trago no cuidado. 

Diabo. 

Nâo julgueis vós pola côr, 
Porque em ai vai o engano ; 
Ca dizem que sob mao panno 
Está o bom bebedor : 
Nem TÕs digais mal do anno. 

Roma. 

Eu venho á feira direita 
Comprar paz, verdade e fé. 
Dia. a verdade pêra que ? 
Cousa que n5o aproveita, 
E aborrece, pêra que he ? 
Nio trazeis bôs fundamentos 
Pêra o que haveis mister ; 
E a segundo s5o os tempos, 
Assi hSo de ser os tentos. 
Pêra saberdes viver. 

E pois agora á verdade 
Cbamáo Maria peçonha, 
E parvoíce á vergonha, 
E aviso á ruindade ; 
Peitae a quem vo-la ponha, 
A ruindade digo eu : 
E aconselho-vos mui bem. 
Porque quem bondade tem 
Nunca o mundo será seu, 
E mil canceiras lhe vem. 

Vender-vos-hei nesta feira 
Mentiras vinte três mil, 
Todas de nova maneira, 



sÉcoLo xvr 281 



Cada hfla tSo sublil, 

Que não vivais em eanceira : 

Mentiras pêra senhores, 

Mentiras pêra senhoras, 

Mentiras pêra os amores, 

Mentiras, que a todas horas 

Vos nasção delias favores. 
E como formos avindos 

Nos preços disto que digo, 

Vender-vos-hei como amigo 

Maitos enganos infindos, 

Que aqui trago comigo. 
RoM. Tudo isso tu vendias, 

E tudo isso feirei 

Tanto, que inda venderei, 

E outras sujas mercancias, 

Que por meu mal te comprei. 
Porque a troco do amor 

De Deos, te comprei mentira, 

E a troco do temor 

Que tinha da sua ira. 

Me deste o seu desamor : 

E a troco da fama minha 

E sanctas prosperidades, 

Me deste mil torpidades ; 

E quantas virtudes tinha - 

Te troquei polas maldades. 
E pois ja sei o teu geito. 

Quero ir ver que vai ca. 
Dia. As cousas que vendem lá 

SSo de bem pouco proveito 

A quemquer que as comprará. 

Vai-se Roma ao Tempo e Mercúrio, e diz ; 

Roma. 

Tão honrados mercadores 
Náo podem leixar de ter 
Cousas de grandes primores ; 
E quanfeu houver mister 
Deveis vós de ter, senhores. 
Ser. Sinal he de boa feira 

Virem a ella donas taes ; 
E pois vós sois a primeira, 
Queremos ver que feiraes 
Segundo vossa maneira. 

Ca, se vós a paz quereis. 
Senhora, sereis servida, 
E logo a levareis 
A troco de sancta vida ; 
Mas nSo sei se o trazeis. 
Porque, Senhora, eu me fundo 
Que quem tem guerra com Deos, 



282 ANTOLOGIA — POESIA 



Náo pôde ter par c'o mundo ; 
Porque tudo vem dos ceos, 
Daquelle poder profundo. 



Roma. 

 troco das estações 
Não fareis algum partido, 
E a troco de perdões, 
Que he thesouro concedido 
Para quaesquer remissões ? 
Oh ! vendei-me a paz dos ceos, 
Pois tenho o poder na terra. 

Seb. Senhora, a quem Deus dá guerra. 
Grande guerra faz a Deos, 
Que he certo que Deos nSo erra. 

Vôde vós que the fazeis. 
Vede como o estimais. 
Vede bem se o temeis ; 
Attentae com quem lutais, 
Que temo que cahireis. 

RoM. Assi que a paz não se dá 
A troco de jubileus ? 

Mer. o Roma, sempre vi lá 
Que matas peccados cá, 
E leixas viver os teus. 

E não te corras de mi : 
Mas com teu poder fecundo 
Assolves a todo o mundo, 
E não te lembras de ti, 
Nem véá que te vas ao fundo. 

RoM. Ó Mercúrio, valei-me ora. 
Que vejo mãos apparelhos. 

Mer. Dá-lhe, Tempo, a essa Senhora 
O cofre dos meus conselhos : 
E podes-te ir muito embora. 

Hum espelho hi acharás. 
Que foi da Virgem sagrada, 
Co'elle te toucarás. 
Porque vives mal toucada, 
E não sintes como estás : 
E acharás a maneira 
Como emendes a vida : 
E não digas mal da feira ; 
Porque tu serás perdida. 
Se não mudas a carreira. 

Não culpes aos reis do mondo, 
Que tudo te vem de cima. 
Polo que fazes ca em fundo ; 
Que, offendendo a causa prima, 
Se resulta o mal segundo. 
E também o digo a vós, 
E a qualquer meu amigo, 



SÉCULO XVI 283 



Qne nSo quer guerra comsigo 
Tenha sempre paz com Deos, 
E não temerá perigo. 

Diabo. 

Preposito Frei Soeiro, 
Diz lá o exemplo velho, 
Dá-me to a mim dinheiro, 
E dá ao demo o conselho. 

Gil Vicente, Obras, Coimbra ( 1907), pag. 47-55. 



XL 
Farça dos Almocreves. 

o fundamento desta farça he, que hum fidalgo de muito pouca renda usava muito 
estado, e tinha capèllSo seu e ourives seu, e outros officiaes, aos quaes nunca 
pagava : e vcndo-se o seu capellão esfarrapado o sem uada de seu, entra 
dizendo : 

CiPELLÃO. 

Pois qne nâo posso rezar. 
Por me ver tão esquipado, 
Por aqui por este arnado 
Quero hum pouco passear 
Por espaçar meu cuidado. 
E grosarei o romance 
De Yo me e&taba en Coimbra, 
Pois Coimbra assim nos cimbra 
Que não ha quem preto alcance. 

Grosa. 

Yo me estaba em Coimbra, 
Cidade bem assentada ; 
Pelos campos de Mondego 
Não vi palha nem cevada. 
Quando aquillo vi mesquinho, 
Entendi que era cilada 
Contra os cavallos da corte 
E minha mula pellada. 
Logo tive a mao sinal 
Tanta milhan apanhada, 
E a peso de dinheiro 
O mula desemparada. 
Vi vir ao longo do rio 
Hda batalha ordenada, 
Não de gente, mas de mus. 
Com muita raiva pisada. 
Á carne está em Bretanha, 
£ as couves em Biscaia. 



284 ANTOLOGIA — POESIA 



Sani capellão d'hum fidalgo 
Que nSo tem renda nem nada ; 
Quer ter muitos apparatos, 
E a casa anda esfaimada ; 
Toma ratinhos por pagens, 
Anda ja a cousa damnada. 
Quero-lhe pedir licença, 
Pague-me minha soldada. 

Chega o Capellão a cata do Fidalgo e faltando com, clle, diz : 



Capellão. 

Senhor, ja será rezSo. . . 

FiD. Avante, padre, fallae. 

Gap. Digo que em três annos vai 
Que sara vosso capellão. 

FiD. He grande verdade : avante. 

Cap. Eu fora ja do Iffante, 

E pudera ser que d'ElRei. 

FiD. A' bofe, padre, nSo sei. 

Cap. Si, senhor, qu'eu sou d'estante, 
Aindaque ca m'empreguei. 

Ora pois veja, senhor. 
Que he o que m'ha de dar. 
Porque alem do altar 
Servia de comprador. 

FiD. Não vo-lo hei de negar : 
Fazei-me hQa petição 
De tudo quanto requereis. 

Cap. Senhor, náo me prolongueis, 
Qu'i880 não traz concrusSo, 
Nem vejo que a quereis. 

Porque me fiz polo vosso 
Clericus et negociatores. 

FiD. Assi vos dei eu favores, 
E disso pouco qu'eu posso 
Vos fiz mais que outros senhores 
Ora hum clérigo que mais quer 
De renda nem d'outro bem, 
Que dar- lhe homem de comer, 
Que he cada dia hum vintém, 
E mais muito a seu prazer ? 

Ora a honra que se monta — 
He capellão de fuão t 

Cap. E do vestir não fazeis conta ? 
E esse comer com paixão, 
E dormir com tanta aíTronta, 
Que a coroa jaz no chão, 
Sem cabeçal, e á hQa hora 
E missa sempre de caça ? 
E por vos cair em graça 
Servia-vo8 também de fora. 
Té comprar sibas na praça. 



SÉCULO XVI 285 



E outros cárregosinhos 
Deshonestos pera mi, 
Isto, senhor, he assi. 
E azemel nesses caminhos, 
Arre aqui e arre alli, 
E ter carrego dos gatos, 
E dos negros da cozinha, 
E alimpar-vo-los çapatos, 
E outras cousas qu'eu fazia 

Fidalgo. 

Assi fiei eu de vós 
Toda a minha esmolaria, 
E dáveis polo amor de Deos, 
Sem vos tomar conta hum dia. 

Cap. Dos três annos qu'eu allego 
Da-la-hei logo sem.pendenças : 
Mandastes dar a hum cego 
Hum real por endoenças. 

FiD. Eu isso não vo-lo nego. 

Câpellão. 

E logo dahi a hum anno, 
Pera ajuda de casar 
HQa orfan, mandastes dar 
Meio covado de panno 
b'Alcobaça por tosar. 
E nos dous annos primeiros 
Repartistes três pescadas 
Por todos esses mosteiros, 
Na pederneira compradas 
Daquestes mesmos dinheiros. 

Ora eu recebi cem reaes 
Em três annos, contae bem, 
Tenho aqui meio vintém. 

FiD. Padre, boa conta dais. 
Ponde tudo n'hum item, 
E fallae ao meu Doutor, 
Que elle me fallará nisso. 

Cap. Deixe Vossa Mercê isso 
Pera ElRei nosso senhor, 
E vós fallae-me de siso, 

Que como, senhor, me ficastes 
( Isto dentro em Santarém ) 
De me pagardes mui bem . . . 

FiD. Em quantas missas m'acbastes ? 
Das vossas digo eu porém. 

Cap. Que culpa vos tem Çamora? 
Por vós estáo ellas nos ceos. 

FiD. Mas tomae-as para vós, 
E guardae-as muifembora. 
Então pague-vo-las Deos : 



286 



ANTOLOGIA — P0B8U 



Qae eu nSo gasto meus dinheiros 
Em missas atabalhoadas. 
Cap. E vós fazeis foliadas 

E não pagais ó gaitero ? 
Isso s3o balcarriadas. 
Se vossas mercês náo hSo 
Cordel pêra tantos nó*, 
Vivei vós áquem de vós, 
E nSo compreis gavião. 
Pois que nSo tendes pios. 

Trazeis seis moços de pé 
E acrecentai-los a capa, 
Coma rei, e por mercê, 
Náo tendo as terras do Papa, 
Nem os tratos da Guiné, 
Antes vossa renda encurta 
Coma panno d'Aleobaça. 
FiD. Todo o fidalgo de raça. 
Emque a renda seja curta, 
He por força qu'isso faça. 

Padre, mui bem vos entendo : 
Foi sempre a vontade minha 
Dar-vos a ElRei ou á Rainha. 
Cap. Isso me vai parecendo 
Bom trigo, se der farinha. 
Senhor, se m'isso fizer, 
Grande mercê me fará. 
FiD. Eu vos direi que será : 

Dizei agora um profaceo, a ver 
Que voz tendes pêra lá. 
Cap. Folgarei eu de o dizer; 

Mas quem me responderá ? 
FiD, Eu. 

Capellão. 

Per omnia secula seculorum. 
FiD. Amen. Cap. Dominus vobiscum. 
FiD. Avante. Cap. Sursum corda. 
FiD. Tendes essa voz tâo gorda. 

Que pareceis alifante 

Depois de farto d'açorda. 

Capsllâo. 

Peor voz tem SirnSo Vaz, 
Thesoureiro e capeliao 
E peor o Adaião, 
Que canta como alcatraz. 
E outros que por hi estio. 
Quereis que acabe a cantiga, 
E vereis onde vou ter. 
FiD. Padre, eu hei de ter fadiga, 
Mas d'EIRei haveis de ser: 
Escusada he mais briga. 



SÉCtTLO XV 287 



Capellâo. 



Sabeis em qae está a contenda ? 

Direis : He meu capellSo : 

E ElRei sabe a vossa renda, 

E rir-se-ha se vem á mão, 

E remetter-m'ha á Fazenda. 
FiD. Se vós fôreis entoado. 
Cap. Que bem posso eu cantar 

Onde dão sempre pescado, 

E de dous annos salgado, 

O peor que ha no mar ? 

Vem wn Pagem do Fidalgo, e Diz . 
Pagem. 

Senhor, o orives s'he alli. 
FiD. Entre. Quererá dinheiro. 

Venhais embora cavalleiro : 

Cobri a cabeça, cobri. 

Tendes grande amigo em mi, 

E mais vosso pregoeiro. 

Gabei-vos hontem a ElRei. 

Quanto se pôde gabar, 

E sei que vos ha de occupar, 

E eu vos ajudarei 

Cada vez que m'hi achar. 
Porque ás vezes estas ajudas 

São melhores que cristeis. 

Porque so a fama que haveis, 

E outras cousas meudas 

O que valem já sabeis. 
OuR. Senhor, eu o servirei 

E não quero outro senhor. 
FiD. Sabeis que tendes melhor? 

( Eu o dixe logo a ElRei, 

E faz em vosso louvor : ) 
Não vos dá mais que vos paguem, 

Que vos deixem de pagar. 

Nunca vi tal esperar, 

Nunca vi tal avantagem, 

Nem tal modo de agradar. 
OoR. Nossa conta he tão pequena, 

E ha tanto que he devida, 

Que morre de promettida, 

E peço-a ja com tanta pena. 

Que depenno a minha vida. 

Fidalgo. 

Ora olhae esse fallar 
Como vai bem martelado ! 
Folgo não vos ter pagado, 
Por vos ouvir martelar 
Marteladas de avisado. 



288 



ANTOLOGIA — POESIA 



OoH. Senhor, beijo-vo-las mãos, 

Mas o meu queria eu na mSo. 
FiD. Também isso he cortezao : 

« Senhor, beijo-vo-las mãos, 

O meu queria eu na mão ». 

Que bastiães tão louçãos ! 
Quanto pesava o saleiro ? 
OuR. Dous marcos bem, ouro e fio. 
FiD. Essa he a prata : e o feitio ? 
Odr. Assaz de pouco dinheiro. 
FiD, Que vai com feitio e prata ? 
Odr. Justos nove mil reaes. 

E não posso esperar mais. 

Que o vosso esperar me mata. 
Fm. Rijamente m'apertais. 

E fazeis-me mentiroso, 

Qn'eu gabei-vos d'oulro geito ; 

E 8'eu tornar ao defeito, 

Não será proveito vosso. 
OoR. Assi que o meu saleiro peito ? 
FiD. Elle he dos mais mãos saleiros. 

Que em minha vida comprei. 
Odr. Ainda o eu tomarei 

A cabo de três janeiros 

Que ha que vo-lo eu fiei. 

Fidalgo. 

J'agora não he rezão ; 

Eu não quero que vós percais. 
Odr. Pois porque me não pagais ? 

Que eu mesmo comprei carvão 

Com que me encarvoiçais. 
FiD. Moço, vae-me ver o que faz EIRei, 

Se parecem Damas lá : 

Este dia não se va 

Em pagarás, não pagarei. 

E vós tornae outro dia ca. 
Se não achardes a mi, 

Fallae c*o meu Camareiro, 

Porque elle tem o dinheiro. 

Que cada anno vem aqui 

Ua renda do meu celeiro ; 

E delle recebereis 

O mais certo pagamento. 
OoB. E pagai8-me ahi co'o vento. 

Ou com as outras mercês ? 
FiD. Tomae-lhe vós lá o tento. 

Indo-se o Capellão, vai dizendo . 

Capellío. 

Estes hão d'ir ao paraiso ? 
NSo creio eu logo nelle. 



SÉGCLO XVI 289 



Eu lhes mudarei a peite : 
Daqui avante siso, siso. 
Juro a Deos que in'abroquele. 

Vem o Pagem com recado e diz : 

Pagem. 

Senhor, in-Rei s'he no Paço. 
FiD. Em que casa ? Pag. Isto abasta. 
FiD. O recado qu'elle dá ! 

Ratinho es de ma casta. 
Pag. Abonda, bem sei eu o qu'eu faço. 
FiD. Abonda I olhae o villão. 

Damas parecem per hi ? 
Pag. Si, senhor, damas vi, 

Andavão pelo balcSo. 

Fidalgo. 

E quem erão ? Pag. Damas mesmas. 
FiD. Como as chamSo ? Pag. Nâo as chamava ninguém. 
FiD. Ratinhos são abantesmas, 

E quem por pagens os tem. 

Eu hei de fazer por haver 

Hum pagem de boa casta. 
Pag. Ainda eu hei de crescer : 

Castiço sam eu que basta, 

Se me Deos deixa viver. 
Pois o mais o deprenderei. 

Como outros como eu per hi. 
FiD. Pois faze-o tu assi, 

Porque has de ser d'ElRei, 

Moço da Camará ainda. 
Pag. Boa foi logo ca a vinda. 

Assi que até os pastores, 

HSo de ser d'elRei samica ! 

Por isso esta terra he rica 

De pão, porque os lavradores 

Fazem os filhos paçâos. 
Cedo não ha de haver villãos : 

Todos d'ElRei, todos d'ElRei. 
FiD. E tu zombas ? Pag. Não, mas antes sei 

Que também alguns christãos 

Hão de deixar a costura. 



Toma o Capellão. 



Capellâo. 



Vossa Mercê por ventura 
Fallou ja a ElRei em mi ? 

FiD. Ainda geito não vi. 

Cap. Não seja tão longa a cura 
Como o tempo que servi. 



t90 ANTOLOaiA — POESIA 



FiD. Anda EIRei tSo occopado 

Co'este Turco, co'este Papa, 

Co'esla França, co'e8ta trapa, 

Que n5o acho vao azado, 

Forque tudo anda solapa. 
Eu entro sempre ao vestir ; 

Porém pêra arrecadar 

Ha mister grande vagar. 

Podeis-me em tanto servir, 

Até qu'eu veja logar. 
Cap. Senhor, queria concrusSo. 
FiD. Concrusão quereis ? Bem, bem, 

ConcrusSo ha em alguém. 
Cap. Concrusão quer concrusão, 

E não ha concrusão em nada. 

Senhor, eu tenho gastada 

HQa capa e hum mantão ; 

Pagae-me a minha soldada. 
FiD. Se vós podesseis achar 

A altura de Leste e Oeste, 

Pois não tendes voz que preste, 

Peraqui era o medrar. 
Cap. E vós pagais-me co'o ar? 

Mao caminho vejo eu este. (vai-se. ) 

Pagem. 

Deve-o EIRei de tomar. 
Que lucta coroa damnado. 
Elle he do nosso logar ; 
De moço guardava gado. 
Agora veio a bispar. 

Mas não sinto capellão 
Que lhe chante hum par de quedas, 
E chama-se o Labaredas. 
FiD. E ca chama-se Colão, 

Mais fidalgo que os Azedas. 
Satisfação me pedia, 
Que he peor de fazer 
Que queimar toda Turquia ; 
Porque do satisfazer 
Nasceo a melancholía. 

Vem PeroVaz, almocreve, que traz um pouco de falo do Fidalgo, evem tangendo 
a càocalhada e cantando : 

Pbbo Vaz. 

« A serra he alta, fria e nevosa, 
« Vi venir serrana gentil, graciosa. » 

Arre, mulo namorado. 
Que custaste no mercado 
Sete mil e novecentos 
E hum traque pêra o siseiro. 
Apre, ruço, acrecentado 



sécuLo XVI 291 



A moradia de quinhentos, 
Paga per Nauo Ribeiro. 
Dix, pêra a paga e pêra li. 
Arre, arre, arre embora, 
Que ja as tardes são d'amigo. 
Apre, besta do ruim. 
Uxtix f o atafal vai por fora 
E a cilha no erabigo. 
Sâo diabos pêra os ratos 
Estes vinhos da Gandosa. 

n A serra he alta fria e nevosa, 
« Vi venir serrana, gentil, graciosa. » 

Apre ca ieramá, 
Que te vas todo torcendo, 
Como jogador de bola. 
Uxtix, uxte xulo ca, 
Que t'eu dou irás gemendo 
E resoprando sob a cola. 
Ao corpo de mi Tareja, 
Descobris-vos vós na cama. 
Parece ? Dix, pêra vossa ama : 
Nâo criarás tu hi vareja. 

« Vi venir serrana, gentil, graciosa, 
« Cheguei-me per'ella com gran cortezia. » 

Mando-vos eu suspirar 
Pola padeira d'Aveiro, 
Que haveis de chegar á venda, 
E então alli desalbardar, 
E albardar o vendeiro, 
Se não tiver que vos venda 
Vinho a seis, cabra a três. 
Pão de calo, filhos de manteiga. 
Moça formosa, lençoes de veludo. 
Casa juncada, noite longa, 
Chuva com pedra, telhado novo, 
A candea morta, gaita á porta. 
Apre, zambro, empeçarás. 
Olha tu não te ponha eu 
Óculos na rabadilha, 
E verás per onde vás. 
Demo que t'eu dou por seu, 
E andarás lá de cilha. 

« Cheguei-me a ella de gran curtezia, 
« Disse-lhe : Senhora, quereis companhia? » 



Pagem. 

Senhor, o almocreve he aquelle. 
Que os chocalhos ouço eu : 
Este he o fato, senhor. 

Fm. Ponde todos cobro nelle. 

Per. Uxtix, mulo do judeu ! — 



292 ANTOLOGIA — POESIA 



O falo hu s'ha de pôr ? 

Pag Venhais embora, Pero Vaz. 

Per. Mantenha Deos vossa mercê. 

Pag. Viestes polas Folgosas ? 

Per. Ahi estive eu hoje faz 
Oito dias pé por pé. 
Em casa d'h(las tias vossas. 

Pagem. 

Ora meu pae que fazia ? 
Pbr. Cavando andava bacelo, 

Bem cansado e bem suado. 
Pag. E minha m3e ? Per. Levava o gado 

Lá pêra Vai de Cabelo, 

Mal roupada qu'elia ia. 

Uxtix, que mao larabaz I — 

E vossa mercê que faz ? 
Pag. Estou loução como que. 
Per. E á bofe creceis assaz. 

Saúde que vos Deos dê. 

Pagem. 

Eu sam pagem de meu senhor, 
Se Deos quiser pagem da lança. 

Per. E hum fidalgo tanto alcança ? 
Isso he d'Imperador. 
Ora prenda ElRei de França. 

Pag. Ainda eu hei de chegar 
A cavalleiro fidalgo. 

Per. Pardeos, JoSo Crespo Penalvo, 
Que isso seria esperar 
De mao rafeiro ser galgo. 

Mais fermoso está ao villSo 
Mao burel, que mao frisado, 
E romper matos maninhos ; 
E ao fidalgo de naçSo 
Ter quatro homens de recado, 
E leixar lavrar ratinhos. 
Qu'em Frandes e Alemanha, 
Em toda França e Veneza, 
Que vivem por siso e manha, 
Por não viver em tristeza, 
Não he como nesta terra ; 
Porque o filho do lavrador 
Casa lá com lavradora, 
E nunca sabem mais nada ; 
E o filho do broslador 
Casa com a brosladora : 
Isto per lei ordenada. 
E os fidalgos da casta 
Servem os reis e altos senhores, 
De tudo sem presumpção, 



SÉCULO XVI 29J 



Tão chãos, que pouco lhes basta. 
Pêra todos lavrão pão. 

Pagbm. 

Quero ir dizer de vós. 
Per. Ora ide dizer de mi : 

Que se grave he Deos dos ceos, 
Mais graves deoses ha aqui. 

( ao Fidalgo. ) 

Pag. Senhor, alli vém o fato, 

E está á porta o almocreve : 
Vede quem lhe ha de pagar 
Isso tal que se lhe deve. 

Fidalgo. 

Isto he com que m'eu mato 
Quem te manda procurar ? 
Attenta tu polo meu, 
E arrecada- o muito bem, 
E Hão cures de ninguém. 
Pag. Elie he d'apar de Viseu, 
E homem que me pertem ; 
Pois a porta lhe abri eu. 

Entra dentro o almocreve e diz : 



Pêro vaz. 

Senhor, trouxe a frasearia 

De vossa mercê aqui. 

Hi estão os mus albardados. 
FiD. Essa he a mais nova arábia 

L)'almocreve que eu vi : 

Dou-te vinte mil cruzados. 
Pbb. Mas pague-me vossa mercê 

O meu aluguer, nó mais, 

Que me quero logo ir. 
FiD. O aluguer quanto he ? 
Pkr. Mil e seis centos reaes, 

E isto por vos servir. 

Fidalgo. 

Fallae c'o meu azemel, 
Porque he doutor das bestas 
E astrólogo dos mus, 
Que assente em hum papel 
Per avaliações honestas 
O que se monta : ora sus. 
Porque esta he a ordenança 
E estilo de minha casa ; 



2^4 ANTOLOGIA — POESIA 



E se O azemel for fora, 

Como cuido que he em França, 

Dareis outra volta à massa, 

E ir-vos-heis por agora. 
Vossa pagã he nas mãos. 
Per. Já a eu quisera nos pés, 

O' pesar de minha mãe. 
FiD. E tens tu pae e irmão ? 
Pkr. Pagae, senhor, não zombeis, 

Que sou d'alem do sertão, 

E não posso ca tornar. 
FiD. Se ca vieres á c<5rte, 

Pousarís aqui co'os meus. 
Per. Nunca mais hei de fiar 

Em fidalgo desta sorte. 

Emque o mande San Matheus. 

Fidalgo. 

Faze por teres amigos, 
E mais tal homem com'eu, 
Porque dinheiro he hum vento. 
Per. Dou eu ja ó demo os amigos 
Que me a mi levão o meu. 

Vairse o almocreve, e vem outro Fidalgo, e diz o 
Fidalgo 1.» 

Oh que grande saber vir, 

E que gran saber-me à vontade ! 
F. 2.» Pois, senhor, que vos parece ? 

Desejo de vos servir, 

E não quero que venha á cidade 

Hum quem não parece esquece. 
F. !.• Paguei soma de dinheiro 

A hum ourives agora, 

De prata que me lavrou, 

E paguei a um recoveiro. 

Que he a dar dinheiros fora 

A quem não sei como os ganhou. 

Fidalgo 2.» 

Ganhão-no8 tão mal ganhados, 
Que vos roubâo as orelhas. 
F. 1." Pola hóstia consagrada 
E polo Deos consagrado. 
Que os lobos nas ovelhas 
Não dão tão crua pancada. 
Poios sanctos avangelhos, 
E polo omnium sanctorum, 
Que até o meu capellão. 
Por mezinhas de coelhos 
E bCia secula seculorunit 



SÉCULO XVI 295 



Lhe dou por missa um tostSo. 
*Nâo ha ja homem em Portugal 

Tão sujeito em pagar, 

Nem tão forro pêra mulheres. 
F. 2.* Guardae vós esse bem tal, 

Que a mi hão-me de matar 

Bem me queres mal me queres. 
F. !.• Por quantas damas Deos tem 

Não daria nem migalha. 

Olhae que descubro isto. 
F. 2.» Sam tâo fino em querer bem, 

Que de fino tomo a palha, 

Pola fé de Jesu Christo. 
Quem quereis que veja olhinhos, 

Que se nSo perca por elles, 

Lá per huns geitinhos lindos, 

Que vos mettem em caminhos, 

E nSo ha caminhos nelles. 

Senão espinhos infindos ? 
F. !.• Eu ja não hei de penar 

Por amores de ninguém ; 

Mas dama de bom morgado^ 

Aqui vai o remirar, 

Aqui vai o querer bem, 

E tudo bem empregado. 
Que porque dance mui bem, 

Nem bailar com muita graça, 

Seja discreta, avisada, 

Fermosa quanto Deos tem — 

Senhor, boa prol lhe faça, 

Se seu pae não tiver nada. 

Não sejais vós tão Maneias, 

Que isso passa ja d'amor, 

E cousas desesperadas. 
F. 2.* Porém lá' por vossas vias 

Vou-vos esperar, senhor, 

A rendeiro das jugadas. 
Porque galante caseiro 

He pêra pôr em historia. 
F. 1.° Mas zombae, senhor, zombae. 
F. 2.» Senhor, o homem inteiro 

Não lh'ha de vir á memoria 

Co'a dama o de seu pae ; 

Nem ha mais de desejar 

Nem querer outra alegria, 

Que so Los tus cabellos miia. 

Não ha hi mais que esperar. 

Onde he esta cantiguinha. 

E, Todo o mal he de quem no tem 

E, Se o disserem digão — Alma minha. 

Quem vos anojou, meu bem : 

Hei os todos de grosar, 
Ainda que sejão velhos. 
F. !•• Vós, senhor, vindes tão bravo, 



S96 ARTOLOOIA — POESIA 



Qae eu hei-vos medo ja. 
Poios sanctos evangelhos 
Qae levais tudo ao cabo, 
Lá onde cabo nSo ha. 

F. 2.0 Zombais e dais a entender 
Zombando, que m'entendei8. 
Pois de vós mui alto estou, 
Porque deveis de saber 
Que se d*amor não sabeis, 
Não podeis ir onde eu vou. 
Quando fordes namorado. 
Vireis a ser mais profundo, 
Mais discreto e mais subtil, 
Porque o mundo namorado 
He lá, senhor, outro mundo, 
Que está alem do Brasil. 
Oh meu mundo verdadeiro 1 
Oh minha justa batalha ! 
Mundo do meu doce engano I 

F. !.• Oh palha do meu palheiro. 

Que tenho hum mundo de palha. 
Palha ainda d'ora a hum anno; 
E tenho hum mundo de trigo 
Pêra vender a essa gente. 
Boa cabeça tem Morale. 
Não quero d'amor, amigo, ' 
Andar gemente e flente 
'In hac lacrymarum valle. 

Fidalgo 2." 

Vou-me ; vós não sois sentido, 
Sois mui duro do pescoço ; 
Não vale isso nem migalha : 
Pesa-me de ver perdido 
Hum homem fidalgo ensonço^ 
Pois tem a vida na palha. 

Gil Vicente, Obras { Coimbra), 1907, pg. 220-337. 



XLI 
Farca de inez Pereira. 

FiDge-se que Inez Pereira, filha de bfla mulher de baixa 8orte, muito fantasiosa, 
está laTraodo em casa, e sua mãe he a ouvir missa, e ella diz : 

í^^z- E que raiva e que tormento. 

Renego deste lavrar Que cegueira e que canceira I 

E do primeiro que o usou; Eu hei de buscar maneira 

O' diabo qu'eu o dou, D'aigum outro aviamento. 
Que .tão mao he de aturar. Coitada, assi hei de estar 

Oh Jesu i que enfadamento, Encerrada nesta casa 



SÉCULO XVt 



297 



Como panela sem aza, 
Que sempre está n'um lugar ? 
E assi hão de ser logrados 
Dous dias amargurados 
Que eu posso durar viva ? 
E assi hei d'estar captiva 
Em poder de desfiados ? 

Commendo-me eu logo ó Demo 
S'eu mais lavro nem pontada ; 
Ja tenho a vida cansada 
De jazer sempre d'hum cabo. 
Todas folgâo, e eu nSo, 
Todas vem e todas vão 
Onde querem, senão eu. 
Hui I e que peccado he o meu. 
Ou que dor de coração ? 

Esta vida he mais que morta. 
Sam eu coruja ou corujo, 
Ou sam algum caramujo, 
Que não sae senão á porta ? 
E quando me dão algum dia 
Licença, como a bugia. 
Que possa estar á janella, 
He ja mais que a Madaneila, 
Quando achou a alleluia. 

Vem a Mãe, e diz : 

Mãe. 
Logo eu adivinhei 
Lá na missa onde eu estava, 
Como a minha Inez lavrava 
A tarefa que lh'eu dei. 
Acaba esse travesseiro. 
E naceo-te algum unheiro ; 
Ou cuidas que he dia sancto ? 



Inbz. 
Mas eu, mãe, sam aguçosa, 
E vos dae-vos de vagar. 

Mãe. 
Ora espera assi, vejamos. 

Inez. 
Quem ja visse esse prazer. 

Mãe. 

Car-te que poderá ser, 
Qu'ante a páscoa vem os Ramos. 
Não fapresses tu, Inez, 
Maior he o anho que o mez. 
Quando te não precatares 
Virão maridos a pares, 
E filhos de três em três. 

Inez. 

Quero-m*ora alevantar ; 
Folgo mais de fallar nisso, 
Assi me dê Deos o paraiso, 
Mil vezes que não lavrar : 
Isto não sei que me faz. 

Mãe. 
Aqui vem Lianor Vaz. 

Inez. 
E ella vem-se benzendo. 



Lbonor. 



Inez. Eu venho 

Praza a Deos que algum quebranto ^^^ grande amor que vos tenho, 



Me tire do captiveiro. 

Mãe. 

Toda tu estás aquella I 
Chórão-te os filhos por pão ? 

Inez. 



Porque diz o exemplo antigo 
Que a amiga e o amigo 
Mais aquenta que bom lenho. 
Inez Pereira he concertada 
Pêra casar com alguém ? 

Mãe. 



Prouvesse a Deos; que já he razão Atégora com ninguém 
De eu não estar tão singela. ^^o "^ ella embaraçada. 



Mãe. 

Olhade alli o mao pezar I 
Como queres tu casar 
Com fama de preguiçosa ? 



Leonor. 

Eu vos trago hum casamento, 
Em nome do Anjo bento : 
Filha, não sei se vos praz. 



298 



ANTOLOGIA — POSSIA 



Ikez. 
E quando, Lianor Vaz ? 

Leonor. 
Eu vos trago aviamento. 

Inez. 
Porém não hei de casar 
SenSo com home' avisado ; 
Ainda que pobre pellado, 
Seja discreto em fallar. 

Leonor. 
Eu vos trago hum bom marido, 
Rico, honrado, conhecido : 
Diz que em camiza vos quer. 

Inez. 
Primeiro eu hei de saber 
Se he parvo, se sabido. 



Leonor. 
Nesta carta que aqui vem 
Pêra vós, filha d 'a mores, 
Veredes, minhas flores, 
A descrição que eile tem. 

Inez. 
Mostrae-m'a ca, quero ver. 

Leonor. 
Tomae : e sabedes vós ler ? 

MiE. 

Hai I e ella sabe latim, 
E gramateca e alfaqui, 
E tudo quanto ella quer. 

Inez (1ô a carta.) 
Senhora amiga Inez P'reira. 
Pêro Marques vosso amigo. 
Que ora estou na nossa aldeã, 
Mesmo na vossa mercea 
M'encommendo, e mais digo, 
Digo que henza-vos Deos, 
Que vos fez de tão bom geito : 
Bom prazer e bom proveito 
Veja vossa mãe de vós. 
Ainda que eu vos vi 
EsCoulro dia de folgar, 
E não quiseste bailar. 



Nem cantar diante mt. . . 
Na voda de seu avô. 
Ou onde me vio ora elle ? 
Lianor Vaz, este he elle ? 

Leonor. 
Lede a carta sem dó, 
Qu*inda eu sam contente delle? 

Inez ( prosegue na leitura. ) 
Nem cantar presente mi, 
Pois Deos sabe a rebentinha 
Que me fizestes então. 
Ora, Inez, que hajais benção 
De vosso pae e a minha. 
Que venha isto a concrusão. 
Viste tSo parvo villâo ? 
Eu nunca tal cousa vi 
Nem tanto fora de mão. 

Leunok. 

Quereis casar a prazer 
No tempo d'agora, Inez ? 
Antes casa, emque te péz, 
Que não he tempo d'e8Colher. 
Sempre eu ouvi dizer, 
Ou seja sapo ou sapinho, 
Ou marido ou maridinho. 
Tenha o que houver mister, 
Este he o certo caminho. 

Mãe. 

Pardeos, amiga, essa he ella; 
Mata o cavallo de sella, 
E bô he o asno que me leva. 

Leonor. 

Filha, no chão do Couse, 
Quem não puder andar choute. 
Mais quero eu quem m'adore. 
Que quem faça com que chore. 
Chamâ-lo-hei, Inez ? Ine. Si, 
Venha e veja-me a mi, 
Quero ver, quando me vir, 
Se perderá o presumir 
Logo em chegando aqui, 
Pêra me fartar de rir. 

Mãe. 

Touca-te, se ca vier, 
Pois que pêra casar anda. 



SÉCULO XV 



299 



Inez. 

Essa he boa demanda I 
Ceremonias ha mister 
Homem que ta! carta manda ? 
Eu o estou ca pintando : 
Sabeis, mâe, que eu adivinha ? 
Deve ser hum villâosinho. . . 
Ei-lo se vem penteando : 
Será com algum ancinho ? 

Vem Pêro Marques, e diz : 

Pero. 

Homem que vai donde eu vou 
Nâo se deve de correr ; 
Ria embora quem quiser, 
Que eu em meu siso estou. 
Não sei onde mora aqui : 
Olhae que m'esquece a mi I 
Eu creio que nesta rua, 
E esta parreira he sua : 
Ja conheço que he aqui. 

( Chega a casa de Inez Pereira. ) 

Digo que esteis muito embora. 
Folguei ora de vir ca 
Eu vos escrevi de lá 
HQa cartinha, senhora : 
E assi que de maneira. . . 

Mãe. 

Tomae aquella cadeira. 

Pero. 
E que vale aqai hGa destas ? 

Inez. 

( Oh Jesu ! que Jam das bestas ! 
Olhae aquella canseira. ) 



Que fora bem escusado ) 
E ficamos dous hereos, 
Porém- meu he o morgado. 

Mãe. 

De morgado he vosso estado ? 
Isso viria dos ceos. 

Pero. 

Mais gado tenho eu ja quanto, 
E o maior de todo o gado, 
Digo maior algum tanto. 
E desejo ser casado, 
Prouguesse ao Spirito Sancto, 
Com Inez ; que eu me espanto 
Quem me fez seu namorado. 
Parece moça de bem, 
E eu de bem er também. 
Ora vós er ide vendo. 
Se lhe vem melhor alguém, 
A segundo o qu'eu entendo. 

Cuido que lhe trago aqui 
Peras da minha pereira : 
Hâo de estar na derradeira. 
Tende ora, Inez per hi. 

Inez. 
E isso hei de ter mão ? 

Pero. 
Deitae as peas no chSo. 

Inez. 

As perlas pêra enfiar, 
Três chocalhos e hum novelo, 
E as peas no capello : — 
E as peras onde estáo ? 



( AssoDtou-se com as costas para ellas, 
e diz : ) 

Pero. 
Eu cuido que não 'stou bem. 

Mãe. 
Como vos chamais, amigo ? 

Pero. 

Eu Pero Marques me digo, 
Como meu pae que Deos tem. 
Falleceo ( perdoe-lhe Deos, 



Pkro. 

Nunca tal m'acconteceo : 
Algum rapaz m'as comeo ; 
Que as metti no capello, 
E ficou aqui o novelo, 
E o pentem não se perdeo : 
Pois trazi'-as de boamente. 

Inez. 

Fresco vinha ahi o presente 
Com folhinas borrifadas. 



300 



ANTOLOGIA — P0B8IÁ 



Pero. 

Não qa'ella8 vinhao chenladas 
Ca em fundo no mais quente. 

Vossa mae foi-se ? Ora bem, 
Sos nos leixou ella assi 7 
Canfeu quero-m'ir daqui, 
Nâo diga algum demo alguém. . 

Inbz. 

Vós que m'havieis de fazer, 
Nem ninguém que ha de dizer ? 
O gallante despejado I 

Pero. 
Se eu fora ja casado, 
U'oulra arte havia de ser. 
Como homem de bom peccado. 

Inez (4 parte.) 
QqSo desviado este está ! 
Todos andâo por caçar 
Suas damas sem casar, 
E este, tomade-o lá I 

Pero. 
Vossa mâe he lá no muro 1 

Inez. 
Minha mSe e vós seguro 
Que ella venha ca dormir. 

Pero. 
Pois, senhora, eu quero-me ir 
Antes que venha o escuro. 

Inez. 
E dSo cureis mais de vir. 

Pero. 
Virá ca Lianor Vaz, 
Veremos que lhe dizeis. 

Inez. 
Homem, não aporfieis, 
Que nSo quero, nem me praz. 
Ide casar a Cascaes. 

Pero. 
Náo vos anojarei mais, 
Aindaque saiba estalar ; 
E promelto não casar 



Até que vós nSo queirais. 

Estas vos são ellas a vós ; 
Anda home a gastar calçado, 
E quando cuida que he aviado, 
Escarnefuchão de vós. 
Creio que lá fica a pea : 
Pardeos ! bó ia eu á aldeã. 
Senhora, ca fica o fato. 

Inez. 
Olhae se o levou o gato. 

■ Pero. 

Inda não tendes candea ? 

Ponho per cajo que alguém 
Vem como eu vim agora, 
E vós a escuras a tal hora : 
Parece-vos que será bem ? 
Ficae-vos ora com Deos : 
Cerrae a porta sobre vós 
Com vossa candeiasinha ; 
E siquaes sereis vós minha, 
Entonces veremos nós. (yai-se.) 

Inez. 

Pessoa conheço eu 
Que levará outro caminho. 
Casae lá c'hum villãosinho, 
Mais covarde que hum judeu I 
Se fora outro homem agora, 
E me topara a tal hora, 
Estando comigo ás escuras, 
Dissera-me mil doçuras, 
Ainda que mais não fora. 

Mãe. 
Pero Marques foi-se ja ? 

Inez. 
E pêra que era elle aqui ? 

Mãe. 
E não fagrada elle a ti ? 

Inez. 

Va-se muitieramá; 

Que sempre disse e direi, 

Mãe, eu me não casarei 



SKCULO XVI 



301 



Senão com homem discreto, 
E assi vo-lo prometto, 
Ou antes o leixarei. 

Que seja homem mal feito, 
Feio, pobre, sem feiçSo, 
Como tiver descrição, 

Gil Ticente, Obras { ed. Hamburgo ] 



Nâo lhe quero mais proveito. 
E saiba tanger viola, 
E coma eu pão e cebola. 
Siquer hda cantiguinha. 
Discreto, feito em farinha. 
Porque ista me degola. 

lu, 122 a 124, e 127 a 135. 



XLH 

Comédia Alfea. 

Fala de Silvio a Célia 



Conheço 

Que dais mais do que mereço, 
Pois por preço em q mais ganho ; 
Me dais o que naõ tem preço. 

A maõ vos dou de ser vosso, 
E dado que a maõ naõ dera, 
Naõ ser vosso mal poderá. 
Porque querendo o que posso. 
Só o ser vosso quisera. 

Vós ribeiras caudalosas 
Celebrareis este dia, 



Roxos lirios, brancas rosas, 
Boninas, flores cheirosas, 
Celebray minha alegria. 
Arvoredos que cubris 
Com fresca sombra os pastores. 
Porque vos naõ revestis 
Doutras cores, frutos, flores, 
Pois minha gloria sentis ? 

Dai-me minha Célia agora 
O que peço como esposa. 



Simão Machado, Comedias Porttiffuesas^ pg. i08, 2.* col. 

XLIII 
Comédia Alfea. 



Silvio 

Dizei-me fermosas flores. 
Que sabeis de Célia bella ? 
Doei-vos de minhas dores, 
Que essa fermosura, & cores, 
Me dizem que sabeis delia. 

Como não ha fermosura 
Onde Célia está ausente, 
A que tendes me assegura. 
Que em vós a tenho presente, 
Mas escondem a ventura. 
Ay que alè o engano meu 
Me persegue, & me faz guerra. 
Se Célia quer dizer Ceo, 
E a terra a não mereceo, 
Como a busco ea ca na terra ? 



Desse lugar onde estais, 
Querida Célia vos peço, 
Qual he mayor me digais, 
Se a pena que eu ca padeço. 
Se a gloria que la gozais ? 
E se foy de vos perder, 
A causa não merecer-vos. 
Vós me façais merecer 
Ir- vos lá tão cedo a ver, 
Quam cedo deixey de ver-vos. 

Alfea pois me roubaste 
A vida com que vivia. 
Porque vivo me deixaste. 
Para morrer cada dia, 
Ausente de quem levaste ? 



302 Aim>LOOIA — PROSA 



Pascoal As cruéis feras, & nellas 
Verey achando piedade, 

A lugar despovoado, Quanto es lu mais cruel quellas. 
Apartado de alegria, Alli com tristes lamentos 

Irey sem levar meu gado, Espalharey pelos ventos 

Nem mais outra companhia, Palavras que formem crua, 

Que só a de meu cuidado. Ajudandome com a sua 

Alli em a soidade O Ecco nos iinaes assentos. 
Moverão minhas querellas 

Id. /i«i., pag. 1 18-11 9 e 129. 



PROSA 



XLIV 

Sobre a pintora em Flandres e em Itália ; 
apologia desta arte. 

(Diálogo em que sam interlocutores : — a Marquem de Pescara, Vittoria 
Collonna — Messer Lattanzio Tolomei — Francisco de HoUanda 
— Frate Ambrogio di Siena — Miguel Angelo.) 



Dixe M. Angelo : — Mas peça-me v. ex.* cousa que se a ella possa 
dar, e será sua. 

E ella, sorrindo-se : — Muito desejo de saber, pois stamos nesta 
matéria, que cousa é o pintar de Frandes, e a quem satisfaz, porque 
me parece mais devoto que o modo italiano. 

— A pintura de Frandes, respondeu devagar o pintor, satisfará. 
Senhora, geralmente a qualquer devoto, mais que nenhuma de Itália, 
que lhe nunca fará chorar uma só lagrima, e a de Frandes muitas ; 
isto nSo polo vigor e bondade d'aquela pintura, mas pola bondade 
d'aquele tal devoto. A molheres parecerá bem, principalmente ás 
muito velhas, ou ás muito moças, e assi mesmo a frades e a freiras, e 
a alguns fidalgos desmusicos da verdadeira harmonia. Pintam em 
Frandes propriamente pêra enganar a vista exterior, ou cousas que 
vos alegrem ou de que náo possaes dizer mal, assi como santos e 
profetas. O seu pintar é trapos, maçonerias, verduras de campos, 
sombras d'arvores, e rios e pontes, a que chamam paisagens, e muitas 
figuras para ca e muitas para acolá; e tudo isto, inda que pareça 
bem a alguns olhos, na verdade é feito sem razáo nem arte, sem 
symetria, nem proporção, sem advertência d'e8colher nem despejo, e 
finalmente sem nenhuma sustancia nem nervo ; e comtudo noutra 
parte se pinta pior que em Frandes. Nem digo tanto mal da 
framenga pintura porque seja toda má, mas porque quer fazer tanta 
cousa bem (cada uma das quaes só bastava por mui grande) que 
Dão faz nenhuma bem. 



SÉCULO XVI 303 



Somente as obras que se fazem em Itália podemos chamar quasi 
verdadeira pintura, e por isso a boa chamamos italiana, que quando, 
noutra terra se assim fizesse, d'aquella terra ou província lhe dariamos 
o nome. E a boa d'esta não ha cousa mais nobre nem devota, porque 
a devoção, nos discretos, nenhuma cousa a faz mais lembrar nem 
erguer que a deficuldade da perfeição que se vai unir e ajuntar a 
Deos ; porque a boa pintura não é outra cousa senão um terlado das 
perfeições de Deos e uma lembrança do seu pintar, finalmente uma 
musica e uma melodia que somente o inteleito pôde sentir, a grande 
deficuldade. E por isto é esta pintura tão rara que a não sabe ninguém 
fazer nem alcançar. E mais digo ( o que quem o notar, terá em muito ) 
que de quantos climas ou terras alumia o sol e a lua, em nenhuma 
outra se pôde bem pintar senão era o reino da Itália ; e é cousa 
quasi impossível fazer-se bem senão aqui, ainda que bem nas outras 
províncias houvesse melhores engenhos, se os pôde haver, e isto polas 
razões que vos diremos. Tomai um grande homem d'outro reino, e 
dizei-lhe que pinte o que elle quiser e melhor souber fazer, e faça-o ; 
e tomai um mau discipolo italiano e mandai-lhe dar um traço, ou 
que pinte o que vôs quiserdes, e faça-o ; achareis, se o bem entendeis, 
que o traço d'aquelíe aprediz, quanto á arte, tem mais sustancia 
que o d'aqueloutro mestre, e vale mais o que elle queria fazer que 
tudo o que aqueloutro fez. Mandai a um grande mestre, que não seja 
italiano, inda que bem fosse Alberto, homem delicado na sua maneira, 
que para me enganar a mi ou a Francisco d'011anda, queira contrafazer 
e arremedar uma obra que pareça de Itália, e se não poder ser da 
muito boa, que seja da arrezoada, ou da má pintura, que eu vos 
certifico que logo a tal obra se conheça não ser feita em Itália, nem 
por mão de italiano. Assim affirmo que nenhuma nação nem gente 
( deixo estar um ou dous spanhoes ), pôde perfeitamente fartar nem 
emitar o modo do pintar da Itália ( que é o grego antigo ), que logo 
não seja conhecido facilmente por alheo, por mais que se nisso esforce 
e trabalhe. E se por algum grande milagre algum vier a pintar bem, 
então, inda que o não fizesse por arremedar Itália, se poderá dizer 
que o somente pintou como italiano. Assi que não se chama pintura 
de Itália qualquer pintura feita em Itália, mas qualquer que fôr boa 
e certa, que, porque nella se fazem as obras da pintura illustre mais 
mestriosas e gravemente que em nenhuma outra parte, chamamos á 
boa pintura italiana, a qual, inda que se fezesse em Fraudes ou em 
Spanha ( que mais se aproxima comnosco ), se boa fôr, pintura será 
de Itália, porque esta nobelissima sciencia não é de neuhuma terra, 
que do ceo veio ; porém do antigo inda ficou em a nossa Itália mais 
que em outro reino do mundo, e nella cuido eu que acabará. 

Assim dizia elle. Vendo eu que Micael stava callado, por este 
modo o tornei a provocar : 

— Assi, mestre Micael Angelo, que vós affirmaes que somente aos 
italianos concedeis entre todo o outro mundo a pintura? 

Nem que milagre 6 ser isso assi ? Sabereis que em Itália pinta-se 
bem por muitas razões, e fora de Itália pinta-se mal por muitas razões. 
Primeiramente a natureza dos italianos é estudiosíssima em stremo, e 
os de engenho já trazem do seu próprio, quando nascem, trabalho, 
gosto e amor áquillo que são inclinados, e que lhes pede o seu génio ; 
e se algum determina de fazer profissão, e seguir alguma arte ou 
sciencia liberal, não se contenta elle com o que lhe basta para ser 
por aquella rico e do numero dos officiaes, mas por ser único e 



30& ANTOLOGIA — PROSA 



stremado vegia e trabalha continuamente^ e só traz ante dos olhos 
este tamanho interesse de ser monstro de perfeição ( fallo onde sei 
que sou crido ) e não arrezoado naqueila arte ou sciencia. E isto 
porque Itália não stima este nome de arrezoado, que tem por baixissima 
cousa nesta parte o remédio ; e somente d'aquelles falia e até o ceo 
alevanta a que chamam águias, como sobrepujadores dos outros todos 
e como penetradores das nuvens e da luz do sol. Depois naceis na 
provincia ( vede se é isto vantagem ) que é mSe e conservadora de 
todas as sciencias e desceplinas^ entre tantas relíquias dos vossos 
antigos, que em nenhuma outra parle se acham, que já de mininos, a 
qualquer cousa que a vossa inclinação ou génio emclina, topaes ante 
os olhos polas ruas muita parte d'aquellas, e costumados sois de 
pequenos a terdes vistas aquellas cousas que os velhos nunca viram 
noutros reinos. Depois crescendo, inda que bem fosseis rudos e 
grosseiros, trazeis já do costume os olhos tão cheios da noticia e 
vista de muitas cousas antigas nomeadas, que não podeis deixar de 
vos chegar a imitar d'ellas ; quanto mais que com isso se ajuntam 
engenhos ( como digo ) stremados, e studo e gosto incansável. Tendes 
mestres que imitar singulares, e as suas obras, e das cousas modernas 
cheas as cidades de todas as galantarias e novidades que se cada dia 
descobrem e acham. E se todas estas cousas não bastam, que eu por 
mui suficiente stimaria pêra a perfeição de qualquer sciencia, ao 
menos esta é mui bastante : que nós outros, os Portugueses, inda que 
alguns naçamos de gentis engenhos e spritos, como nacem muitos, 
todavia temos por desprezo e galantaria fazer pouca conta das artes ; 
e quasi nos enjuriamos de saber muito d'ella8, onde sempre as 
deixamos imperfeitas e sem acabar. A vós os italianos ( não digo já 
allèmães nem franceses ) a mór honra, a mór nobreza e o ser pêra 
mais, somente pondes em um [ homem ] ser terribel pintor, ou 
terribel em qualquer faculdade ; e aquelle só dos fídalgos, dos capitães, 
dos discretos, dos praguentos, dos príncipes, dos cardeaes e dos 
papas é tido em muito e quasi d'alguns exalçado, que alcança fama 
de consumado e raro na sua profissão. E não stimando em Itália 
grandes príncipes, nem tendo nome, somente a um pintor vão chamar 
o divino : Micael Angelo, como em cartas que vos escreveu Aretino, 
praguejador de todos os senhoros christâos, achareis. Ora as pragas e 
os preços, que em Itália se dão pola pintura, também me parecem 
muita parte de em nenhum outro logar se poder pintor, senão dentro 
nella, porque muitas vezes por uma cabeça ou rosto tirado do natural 
se pagam mil cruzados; e outras muitas obras se pagam, como, 
senhores, melhor sabeis, mui deferentes do que pagam poios outros 
reinos, posto que o meu é dos magníficos e largos. Ora veja a Exellencia 
Vossa se são estas deferentes casiões e ajudas. 

— Parece-me, respondeu a senhora Marquesa, que per cima d'es8es 
desazos tendes vós engenho e saber não de tramontano, mas de bom 
italiano ; emfim, por toda a parte é uma mesma a virtude, e um 
mesmo bom, e um mesmo máo, inda que não tenham outras policias 
das nossas. 

— Se isso ( respondi ea ) ouvissem na minha pátria, bem, senhora, 
se spantariam assi de me v. ex» louvar e por essa maneira, como por 
fazer essa deferença dos homens italianos aos outros, que lhe chamaes 
tramontanos, ou de tra-los-montes : 

yon obluta iideo geslamut pectora Pcnni, 

Nee Iam aducrtos equot, Lysia, sol iungi ab urbe. 



SÉCULO XVI 303 



Temos, senhora, em Portugal cidades boas e antigas, principalmente 
a minha pátria Lisboa ; temos costumes bons e bons cortesãos e valentes 
cavalleiros e vaierosos principes, assi na guerra como na paz, e 
sobretudo temos um rei mui poderoso e claro, que em grande assocego 
nos tempera e rege, e manda províncias mui apartadas de gentes 
barbaras, que á fé converteu ; e é temido de todo o oriente e de 
toda Mauritânia, e favorecedor das boas artes, tanto que por se 
enganar com o meu engenho, que de moço algum fruto promettia, me 
mandou ver Itália e suas policias, e mestre Micael Angelo, que aqui 
vejo estar. E' bem verdade que náo temos outras policias dos edifícios, 
nem de pinturas como cá tendes, mas todavia já se começam e váo 
pouco a pouco perdendo a superfluidade barbara, que os godos e 
mauritanos semearam por as Spanhas. Também spero que, chegando 
a Portugal e indo de cá, que eu ajude ou na elegância do edificar, ou 
na nobreza da pintura a podermos competir coravosco. A qual sciencia 
de todo está quasi perdida e sem resplandor nem nome naquelles 
reinos, e náo por culpa d'outrem, senão do logar e do descostume, 
tanto que muitos poucos a stimam nem entendera, sen5o é o nosso 
serenissimo rei, por sostentar toda virtude e a favorecer; e assi 
mesmo o serenissimo infante D. Luis, seu irmSo, príncipe mui 
valeroso e sábio, que tem nella muito gentis advertências e descrição, 
como até em -todas as outras cousas liberaes. Todos os outros não 
entendem nem se prezam da Pintura. 

— Fazem bem, dixe M. Angelo. 

Mas Messer Lactando Tolomei, que havia um pedaço que não 
fallava, d'esta feição proseguio : 

— Essa vantagem temos mui grande, nós, os italianos, a todas as 
outras nações d'este grão mundo, em o conhecimento e honor de todas 
as artes e sciencias illustres e digníssimas. Porém faço-vos saber, M. 
Francisco d'Hollanda, que quem não entender ou stimar a nobelissima 
pintura, que o faz por seu defeito, e não da arte, que é mui fidalga e 
clara; e que é bárbaro e sem juizo, e que não tem uma mui honrada 
parte de ser homem. E isto por muitos exemplos dos antigos e 
novos emperadores e reis muito poderosos ; poios dos filósofos e 
discretos, que tudo alcançaram, que tanto stimaram e se prezaram do 
conhecimento da pintura, e de fallar nella com tão altos louvores e 
exemplos, e de a usar e pagar tão liberal e manificamente ; e 
finalmente pela muita honra que lhe faz a Madre Igreja, com os 
santos pontífices, cardeaes e grandes principes e prelados. E pois 
achareis em todos os passados segres e todas as passadas valerosas 
gentes e povos que esta arte sempre trouxeram em tanto que nenhuma 
cousa tinham por mayor admiração, nem milagre. E pois vemos 
Alexandre o Manho, Demétrio e Tolomen, reis famosos, com outros 
muitos princepes, se vangloriarem prontamente de a saber entender; 
e entre os Césares Augustos o divo César, Ottaviano Augusto, M. 
Agrippa, Cláudio, e Calígula e Nero, só em isto vertuosos ; assi 
Vespasiano e Tito, como se mostrou nos retavolos famosos do 
templo da Paz, o qual edificou despois que desfez os judeus e o seu 
Jerusalém. Que direi do grande emperador Trajano ? que de Hélio 
Hadriano ? o qual pola sua própria mão pintava muito singularmente, 
segundo screve na sua vida Dion grego, e Spartiano, pois o divino 
Marco Aurélio Antonino, diz Júlio Capitolino como aprendeu a 
pintar, sendo seu mestre Diogenilo; e mesmo conta Hélio Lampridio 
que o emperador Severo Alexandre, o qual foi um fortíssimo princepe, 

20 



306 ANTOLOGIA — PB08A 



f tintou elle mesmo a sua genolosia por mostrar que descendia da 
ínhagem dos Metelos. Do grande Pompeo diz Piutarcho que na 
cidade de Mitilene deb' xou com stylo a planta e forma do theatro, 
para o despois mandar fazer em Roma, assi como o fez. 

E inda que pelos seus grandes effeitos e primores a nobre pintura 
mereça toda veneração sem buscar alegações d'outros senSo próprios 
d'ella quis todavia mostrar aqui, ante quem o sabe, de que caiidades 
de homens ella foi stimada. E se se achar por ventura, em algum 
tempo ou lugar, algum que de elevado e grande nâo queira prezar 
esta arte, saiba que outros já mores se prezaram muito d'ella ; e 
quem pôde elle ser que se igoale com Alexandre o grego, ou o 
romano? quem será que exceda a proeza de César? quem de mór 
gloria que Pompeo ? quem mais princepe que Trajano ? Pois estes 
Alexandres e Césares nâo somente amaram a divina pintura caramente, 
e a pagaram por grandes preços, mas polas suas mesmas mãos a 
trataram e sentiram. Nem quem será que por braveza e presumpção 
a engeitar, que até â severa e grave face da pintura não fique muito 
humilde e para muito menos que ella ? — 

— Além d'essas cousas, que s5o grandes, qual cousa ha que 
mães ennobreça ou faça alguma outra cousa fermosa que a pintura, 
assi nas armas, como nos templos, como nos paços ou fortalezas, ou 
qualquer outra parte em que caiba fremosura e ordem ? E assim 
affirmam os grandes engenhos que nenhuma cousa pôde o homem 
achar contra a sua mortalidade, nem contra enveja do tempo, que a 
pintura. Nem se arredou muito d'e8ta tenção Pithagoras, quando 
dezia que sós em três cousas se pareciam os homens com Deus 
immortal : na sciencia e na pintura e na musica. — 

Aqui dixe mestre Micael : 

— Eu seguro, que se no vosso Portugal, M. Francisco, vissem a 
fremosura da pintura que está por algumas casas d'esta Itália, que 
não poderiam ser tão desmusicos lá que a não stimassem em muito e 
a desejassem de alcançar ; mas não é muito não conhecerem nem 
prezarem o que nunca viram, e o que não tem. 

F. de Hollaada, Qvatro Diálogos da Pintvra Antigva, Wien, 1899, pg. 28. 



XLV 
Menina e Moça on Sandades de Bernardim Ribeiro. 

CAPXTDLO I 

Menina e moça me levaram de casa de meu pae pêra longes 
terras. 

Qual fosse então a causa d'aquela minha levada, — era pequena, 
— não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então 
paresce havia de ser o que depois foi. 

Vivi aili tanto tempo, quanto foi necessário pêra não poder viver 
em outra parte. 

Muito contente fui eu naquella terra; mas, — coitada de mim I — 
que em breve espaço se mudou tudo aquello que em longo tempo se 
buscou, e pêra longo tempo se buscava. 



sácuLO XVI 307 



Gran desaventura foi a qae me fez ser triste, ou a que, pola ven- 
tura, me fez ser leda. Mas, depois que eu vi tantas cousas trocadas 
per outras, e o prazer feifo mágua maior, — a tanta paixão vim, que 
mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. 

Escolhi, pêra meu contentamento ( se antre tristezas e saudades ha 
algum ), vir-me viver a este monte, onde o logar, e míngua da con- 
versação da gente fosse como pêra meu cuidado compria, — porque, 
grande erro fora, depois de tantos nojos, quantos eu com estes meus 
olhos vi, aventurar-me ainda esperar do mundo o descanso que elle 
nunca deu a ninguém, — estando eu aqui só, tão longe de toda a outra 
gente, e de mim ainda mais longe ; d'onde não vejo senSo serras, de 
um cabo. que se nSo mudam nnnca, e, do outro, aguas do mar, que 
nunca est5o quedas ; onde cuidava eu já que esquecia á desaventura, 
— porque ella, e depois eu, a todo poder que ambas podemos, nSo 
leixámos em mim nada em que podesse nova mágua ter logar { antes 
havia muito tempo que tudo é povoado de tristezas), — e com rezSo. 

Mas paresce que, em desaventuras, ha mudanças pêra outras des- 
aventuras ; porque, do bem, nâo na havia pêra outro bem. 

E foi assi, que, por caso extranho, fui levada em parte, onde me 
foram ante os meus olhos apresentadas, em cousas alhoas, todas minhas 
angustias ; e o meu sentido d'ouvir nITo ficou sem sua parte da dor. 

Alli vi, entSo, na piedade que houve d'outrem, camanha a divéra 
ter dp mim, se não fora tSo demasiadamente mais amiga de minha 
dor, do que paresce que foi de mim quem me é a causa dVlIa ; mas, 
tamanha é a rezão porque são triste, que nunca me veio mal nenhum, 
que eu não andasse em busca d'e!le. 

D'aqui me vem a mim a parecer que esta mudança, em que me eu 
vi, já então começava a buscar, quando me esta terra, onde me ella 
aconteceu, aprouve mais que outra nenhuma, pêra vir aqui acabar os 
poucos dias de vida, que eu cuidei que me sobjavam. Mas nisto, 
como em outras cousas muitas, me enganei eu. 

Agora, ha já dous annos que estou aqui, e não sei ainda tão 
.«ómente detreminar pêra quando m'aguarda a derradeira hora. Não 
pôde já vir longe. 

Isto me pos em dúvida de começar a escrever as cousas que vi e 
ouvi. Mas, depois, cuidando commigo, disse eu, que arrecear de não 
acabar d'escrever o que vi, não era causa pêra o leixar de fazer; pois 
não havia d'escrever pêra ninguém, senão pêra mim só. Quanto mais, 
que, em cousas não acabadas, não havia de ser nova : que quando vi 
eu prazer acabado, ou mal que tivesse fim ? Antes me pareceu que 
este tempo, que hei d'estar aqui neste ermo < como a meu mal aprouve ) 
não o podia empregar em cousa que mais de minha vontade fosse, — 
pois Deus quis que assi minha vontade seja. 

Se em algum tempo se achar este livrinho de pessoas alegres, não 
o leam : que, porventura, parescendo-lhe que seus casos serão mudá- 
veis, como os aqui contados, o seu prazer lhe será menos prazer. Isto, 
onde eu estivesse, me doeria ; porque assaz bastava eu nacer pêra 
minhas máguas, e não ainda peras as d'outrem. 

Os tristes o poderão ler : mas ahi não os houve mais, homens, 
depois que nas mulheres houve piedade. Mulheres, si ; porque sempre 
nos homens houve desamor. Mas pêra ellas não no faço eu ; que pois 
o seu mal he tamanho, que se não pode confortar com outro nenhum, 
pêra as mais entristecer sem-rezão seria querer pu que o lessem ellas ; 
mas antes lhes peço muito que fujam d'elle, e de todas las cousas de 



ANTOLOGIA — PROSA 



tristeza ; que, ainda com isto, poucos serSo os dias que hSo de poder 
ser ledas ; porque assi está ordenado pela desaventura com que ellas 
nacem. 

Pêra uma só pessoa podia elle ser ; mas, d'e8ta, não soube eu mais 
parte, depois que as suas desditas, e as minhas, o levaram pêra longes 
terras extranhas, onde bem sei eu, que, vivo ou morto, o possue a 
terra sem prazer nenhum. 

Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tao longe? Que vós 
commigo, e eu comvosco, sós, solamos a passar nossos nojos grandes, 
( e tSo pequenos pêra os de depois). A vós contava eu todo. Como 
vós vos fostes, tudo se tornou tristeza ; nem parece ainda, senSo que 
estava espreitando já que vos fosseis. 

E por que tudo mais me maguasse, tão somente me náo foi deixado, 
em vossa partida, o conforto de saber pêra que parte da terra ieis ; 
ca descansaram os meus olhos era levarem pêra lá a vista. 

Tudo me foi tirado ; no meu mal, remédio nem conforto nenhum 
houve ahi. Pêra morrer, asinha me podéra isto aproveitar ; mas, pêra 
isso, nSo me aproveitou. 

Ainda comvosco, usou a vossa desaventura algum modo de piedade 
( das que não acostuma fazer com nenhuma pessoa ), em vos alongar 
da vista d'e8ta terra ; cá, pois pêra não sentirdes máguas não havia 
remédio, pêra as não ouvirdes vol-o deu. 

Coitada de mim, que estou falando, e não vejo eu ora que leva o 
vento as minhas palavras, e que me não pode ouvir a quem eu falo I 

Bem sei eu que não era pêra isto a que m'eu ora quero pôr ; que 
o escrever alguma cousa pede muito repouso ; e, a mim, as minhas 
máguas ora me levam pêra um cabo, ora pêra outro. Trazem-me assi, 
que me é forçado tomar as palavras que me ellas dão ; porque não 
são tão constrangida a servir o engenho, como a minha dor. 

D'estas culpas me acharão muitas neste livrinho ; mas da minha 
ventura foram ellas. Ainda que, quem me manda a mim olhar por 
culpas, nem por desculpas ? O livro ha de ser do que vai escripto 
nelle. 

Das tristezas, não se pôde contar nada ordenadamente, porque 
desordenadamente acontescem ellas. 

Também, per outra parte, não me dá nada que o não lea ninguém; 
que eu não no faço senão pêra um só, ou pêra nenhum ; pois dVlle, 
como disse, não sei parte, tanto ha. Mas, se ainda me está guardado, 
pêra me ser em algum tempo outorgado, que este pequeno penhor de 
meus longos suspiros vá ante os seus olhos. 

Maitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz. 



CAPITULO u 

Em que a donzella vai proseguindo sua historia 



... a cabo do penedo, tornava a agua a juntar-se, e ir seu caminho 
sem estorvo algum, mas antes parescia que corria alli mais depressa 
que pola outra parte. E dezía eu, que seria aquello por se apartar 
mais asinha d'aquelle penedo, imigo de seu curso natural, que, como 
por força, alli estava. 

Não tardou muito que, estando eu assi cuidando, sobre um verde 
ramo que por cima da agua se extendia, se veo pousar um roussinol ; 



SÉCULO XVI 309 



e começou a cantar tSo docemente, que de todo me levou após si o 
meu sentido d'ouvir. 

E elle cada vez crecia mais em seus queixumes, que parescia que, 
como cansado, queria acabar, senSo quando tornava como que come- 
çava então. 

Triste da avesinha, que, estando-se assi queixando, náo sei como 
se cahiu morta sobre aquella agua. Cahindo por antre as ramas, 
muitas folhas cahiram também com ella. 

Pareceu aqueilo signal de pesar, naquelle arvoredo, de caso tSo 
desastrado, Levava-a após si a agua, e as folhas após ella, e quisera-a 
eu ir tomar ; mas pola corrente que alli fazia, e pelo matto que d'alli 
pêra baixo acerca do rio logo estava, prestesmente se alongou da 
vista. 

O coração me doeu tanto então em ver tão asinha morto quem, 
d'antes, tão pouco havia, que vira estar cantando, que não pude ter 
as lagrimas. 

Certamente que por cousa do mundo, depois que perdi outra cousa, 
me não pareceu a mim que assi chorasse de vontade ; mas, em parte, 
este meu cuidado não foi em vão ; porque, inda que a desaventura 
d'aquella avesinha fosse causa de minhas lagrimas, lá ao sahir d'ellas, 
foram juntas outras muitas lembranças tristes. 

Grande pedaço de tempo estive assi embargada dos meus olhos, 
antre os cuidados que muito havia que me tinham já então, e ainda 
terão, té que venha o tempo que alguma pessoa extranha, de dó de 
mira, com as suas mãos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos 
de me mostrarem máguas de si. 

E estando assi olhando pêra onde corria a agua, ouvi bolir o 
arvoredo. 

Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo ; mas, olhando pêra 
alli, vi que vinha uma mulher ; e pondo nella bem os olhos, vi que 
era de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo 
antigo. Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneos seguros 
do corpo e do rosto e do oulhar, parescia d'acatamento. Vinha só 
Na semelhança, tão cuidosa, que não apartava os ramos de si, senão 
quando lhe empediam o caminho, ou lhe feriam o rosto. Os seus pés 
trazia per antre as frescas ervas, e parte do vestido extendido por ellas. 
E antre uns vagarosos passos que ella dava, de quando em quando 
colhia um cansado fôlego, como que lhe queria fallecer alma. 

Sendo acerca de mim, e me viu, ajuntando as mãos ( a maneira de 
medo de mulher) um pouco como que vira cousa desacostumada 
ficou ; e eu também assi estava. Não do medo, — que a sua boa 
sombra logo m'o não consentiu; mas da novidade d'aquello, que ainda 
alli não vira, havendo muito que, por meu mal, tinha continuado 
aquelle logar e toda aquella ribeira. 

Mas não esteve ella muito, que, paresce, conhecendo também como 
estava, com uma boa sombra começou a dizer, vindo contra mim : 

— « Maravilha é ver donzella em ermo. Depois que a minha 
grande desaventura levou a todo o mundo o meu. . . » — 

E d'ahi a grande pedaço, misturado já com lagrimas, disse : 

— «... filho. . . » — 

Depois, tirando um lenço, começou a limpar o seu rosto, e chegar-se 
pêra onde eu estava. 

Âlevantei-me eu então, fazendo-lhe aquella cortesia, qoe me ella 
com a sua, e comsigo mesma, obrigava. 



310 ANTOLOGIA — PROSA 



E ella : 

— «O descostume grande, — me disse, — ( que ha muito tempo 
que vivo neste ermo, sem ver pessoa alguma ), me íaz, senhora, dese- 
jar saber quem sois, e que fazeis aqui, ou que viestes a fazer, fermosa 
e só ». — 

Eu, que um pouco tardava cm lhe responder, pola dúvida em que 
estava do que lhe diria, paresce-me que entendendo-me ella : 

— «A mim podereis dizer tudo, — me tornou, — que eu são 
mulher como vôs, e, segundo vossa presença, vos devo ainda ser 
muito conforme; porque me paresce (agora que vos olho de mais 
perto ) que deveis ser triste ; que vossos olhos teem vossa fermosura 
desfeita, e, ao longe, nâo se enxergava ». — 

— « Paresceis vós logo ao longe, — respondi eu, — o que sois ao 
perto ; e nâo vos saberia negar cousa em que de mi vos servísseis, 
que os vossos trajos, e tudo o que vos eu olho, é cheio de tristeza, — 
cousa a que eu sáo ha muito tempo conforme : e porque posso mal 
encobrir o senhorio que eu mesma, ás longas máguas, sobre mi tenho 
dado, nâo me quero rogar, mas antes vos devia ainda de agradescer 
quererdes saber de mim o que quereis, para ser, ao menos, meu mal 
escuitado algum'hora ». — 

— a Pois dizei-m'o, — me tornou ella, — que ficardes-me devendo 
ouvir-vos eu, nova maneira é também de me obrigardes ; mas assi me 
pareceis vós, que de vos ser obrigada folgo muito ainda ». — 

Satisfazendo- lhe eu então, disse : 

— « Fui uma donzella que, neste monte da vanda d'alem d'este 
ribeiro, pouco ha que vivo, e nâo posso viver muito. Noutra terra 
uaci ; noutra de muita gente me creei, d'onde vim fugindo pêra esta, 
despovoada de tudo, senão de só as máguas que eu trouxe commigo. 
Este valle, per onde correm estas aguas claras, que vedes; os altos 
arvoredos de espessas sombras sobre o verde ; erva e flores, que por 
aqui apparescem, e a seu prazer se extendem ; ribeiras d'esta agua 
fria ; doces moradas e pousos das sós deleitosas aves, — sâo tâo con- 
forme a meus cuidados, que o mais do tempo que o sol assegura a 
terra, passo aqui, que, em que me vejais só, acompanhada estou. 
Muito ha que tenho andado este caminho. Nunca vi senão agora a 
vós. A grande saudade d'este valle, e de toda esta terra por aqui 
derredor, me faz ousar vir assi, mulher ( fermosa, bem vedes já que 
nâo ). E pois nâo tenho armas pêra offender, pêra me defender já pêra 
que me seriam necessárias ? A toda parte posso já ir, segura de tudo, 
senão só de meu cuidado, que nâo vou a nenhum cabo, que elle nâo 
vá após mim. Agora d'antes, estava eu aqui só, olhando pêra aquelle 
penedo, ( mostrando-lh'o eu então, d'alli ) como estava anojando aquella 
agua, que queria ir seu caminho. Ante os meus olhos, sobre aquelle 
ramo que a cobre, se veo pôr um roussinol, docemente cantando. De 
quando em quando, paroscia que lhe respondia outro, lá de muito 
longe. Estando elle assi, no melhor do canto cahiu morto sobre 
aquella agua, que o levava tâo asinha, que o nâo pude eu ir tomar. 
Tamanha mágua me creceu d'isto, que me accordei d'outras minhas, 
de que também grandes desastres causa foram, e levavam-me onde me 
eu também nâo podia ir tomar ». — 

As estas palavras se me arrasaram os olhos d'agua, e fui com as 
mãos a elles. 

— « Isto, senhora, fazia quando vós apparecesles, e o faço as mais 
das vezes ; porque sempre ou choro, ou estou pêra chorar ». — 



8ÉCDL0 XVI 3il 



Eu, que lhe tinha já respondido, detive- me um pouco, cuidando 
como lhe perguntaria outro tanto d'ella, — maiormente da causa que 
foi das suas lagrimas^ quando não poude, senão muito tarde, dizer : 
— <t filho ». 

Ella, cuidando que, pela ventura, eu não queria dizer mais, disse : 

— « Bem se vô nisso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco 
que estais nesta ; pois dos desastres que neste ribeiro acontecem vos 
espantais. Cá uma historia, muito falada n'esta terra por aqui darre- 
dor, muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia 
já então contar a meu pae, por historia. Agora, inda folgo de cuidar 
nella, pelos grandes acontecimentos e desaventuras que nella houve. 
E ainda que nenhum mal alheo possa confortar o próprio de cada um, 
parte de ajuda me é saber, pêra o soífrimento, que antigo é fazerem-se 
as cousas sem razão, e contra razão. De boa vontade, — pois parece 
inda que a não ouvistes, — vol-a contarei ; que, segundo entendo, 
devem-vos d'aprazer as cousas tristes, como me vós a mim dizeis ». — 

— «O sol, — lhe respondi eu, — vai alto; e eu folgaria muito de 
a ouvir, pola ouvir a vós, e, depois, por saber como não busquei 
embalde esta terra pêra minhas tristezas, pois tanto ha que se costu- 
mam nella. Outra cousa, senhora, vos quisera eu agora perguntar; 
mas fique pêra depois, que pêra tudo haverá tempo, ainda que pois a 
historia dizeis que é de tristezas, não poderá durar tão pouco como 
o dia ». — 

— «Os dias são agora grandes, — me tornou ella, — e não pode- 
ram elles nunca ser tão pequenos, que vos eu, a todo meu poder, não 
fizesse a vontade nelles. Âssi são, senhora, pagada de vós. Mas olhae 
o que quereis antes ». — 

— « Porque é cousa em que vós folgais ainda agora de cuidar, — 
lhe respondi eu, — não pôde ser pouco pêra desejar d'ouvir. Fique 
o que eu d'antes quisera para depois, ou pêra sempre ; que só de o eu 
querer lhe deve vir isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de 
ouvir a historia ; porque esto podéra ser, se não fora de tristezas, pêra 
qu'eu vou achando, já agora, o tempo curto, — tanto folgo co'ella8. 
Por isso, contae-a, senhora, contae-a, pois é de tristezas. Gastare- 
mos o tempo naquello pêra que parece que noro deram, a vós e a 
mim ». — 

Ed. Pessanha, 3-31. 



XLVI 
Carta. 

Aos vereadores, e senado de Lisboa, querendo a Rainha Dona Calharina 
ir-se para CasteÚa no anno de 1751. 

Senhores. — He tão prejudicial ao Serviço de El-Rei Nosso Senhor, 
e á Reputação de Sua Rea! Pessoa, e ao Bem Commum de Seus Súbdi- 
tos, e Vassallos, a ida da Rainha Nossa Senhora para fora destes Reinos, 
que he de crer que em tudo o que sisudamente, com o devido acata- 
mento, se fizer para a impedir, e conservar, o amor, e quietação entre 
Suas Altezas, se haverá El-Rei Nosso Senhor por mui bem servido; e 
pelo pouco que Vossas Mercês nisto tem feito, e fazem, e pelo modo 



312 ANTOLOeU — PROSA 



3ue o guião, entendemos, que ou não estSo cabidos na importância 
este Negocio, ou n5o querem, por alguns respeitos, cumprir com a 
Obrigação que tem ao Serviço de El-Rei Nosso Senhor, e ao lugar, em 
que estão postos ; por onde nos pareceo a alguns que nos ajuntámos 
para tratar desta matéria, que vos deviamos lembrar por esta Carta 
quantas cousas pendem desta sua ida, como o porque lha deveis ata- 
lhar; se querem Vossas Mercês cumprir com a lealdade, e amor que 
devem ao seu Uei, e natural Senhor, e eximir-se da culpa, que Sua 
Alteza, e seus Povos, ao diante com razão vos poderão dar. 

Bem sabem Vossas Mercês, que ha perto de cincoenta annos, que a 
Rainha Nossa Senhora he natural, e digna Companheira do Senhor Rei 
D. João, que com tanta prudência, e paternal amor governarão, amarão, 
e estimarão seus Povos, e que de seus Povos com tanta razão forão 
sempre também providos, e amados, e também, Senhores, vos deve 
ser presente o grande valor, e discrição, com que esta valorosa Prin- 
ceza Nossa Senhora, na força da paixão, e immensa dôr, que teria da 
perda de tal Marido, lançou mão do governo de seus Reinos, e da 
Tutela, e criação de seu Neto, Rei, e Senhor Nosso, e com quanta 
sufiBciencia na sua Meninice lhe administrou seu Estado, e o cuidado 
que leve de sua criação, com que nollo deo tal Príncipe em Saber, 
Virtude, e Valor de Sua Pessoa, que a todos os do seu tempo, pôde 
fazer injuria ; cumprindo finalmente tudo esta valorosa Senhora Nossa 
tão heroicamente, que em nada se sentio a falta do Catholieo Rei seu 
Marido, salvo na saudade, que por sua Real Clemência, e Paternal 
amor de seus Povos, com tanta razão deixou a seus Vassallos. E sendo 
estes tão grandes merecimentos, tão notórios a todos os Príncipes do 
Mundo, e a todas as Nações estranhas ; vendo agora ( o que Deos não 
permitta ) que tal Princeza, sem nenhum desmerecimento seu, se aparte 
de El-Rei seu Neto, que Ella creou com mais amor que de Mai ; sabe 
de seus Reinos, em que tanto a devem respeitar ; e que deixando sua 
natureza, e Senhorio de tantos annos, alongando-se dos ossos de seu 
Marido, e Filhos que tanto amou, vai a Reino alheio buscar Sepul- 
tura, bem entenderão os qne isto virem, não pôde ser tamanho abalo, 
senão com muito maior força de escândalo, de que resultará no con- 
ceito dos outros Reis, e Principes, e Povos extranhos, grande nódoa á 
honra de El-Rei Nosso Senhor, sendo elle, por suas Reaes Qualidades, 
merecedor de uão ter nenhuma ; e a seus Povos ficará perpetua Infâ- 
mia de Ingratidão, commettida contra a sua Real Senhora, deixando-a 
tão desapegadamente apartar de si. Também he de considerar nos 
Reinos, para onde Sua Alteza, se quer ir, o grande escândalo que 
ficará nos corações dos Reis, e Principes seus Parentes, que com tanto 
amor a hão de receber; e a Ella também, que quanto mais disto achar 
na casa alheia, tanto se lhe accrescenlará mais a magoa que levar da 
sua ; e de menos occasiões que estas se começarão em outros tempos, 
dissenções entre outros Reis, que liverão trabalhosos fins, de que o 
maior damno carrega sempre sobre seus Povos. 

Sendo estas cousas de tanto pezo, bem nos pareceo não tratar por 
ora de outros muitos damnos, que desta triste ida se poderão seguir ; 
porque não devem vir em consideração a respeito destes, os quaes, 
pôde ser, que não considerão algumas pessoas, que agora tão bom 
juízo tem; e por este respeito não he El-Rei Nosso Senhor avisado, 
como deve, do que convém á sua honra, e socego. 



Obra* inéditas de D. Uieronimo Osório, ed. 1818, p«g. 58. 



SÉCULO XV 313 

XLVII 
GhristOTão Colombo apreseota-se a ei-rei de Portugal. 

« Chegado Colom ante elRey, però que o reeebeo eõ gasalhado, ficou 
mui triste quando vio a gente da terra que com elle vinha não ser 
negra de cabello revolto & do vulto como a de Guiné, mas conforme em 
aspecto cor, & cabello como lhe diziâo ser a da índia, sobre que elle 
tanto trabalhava. E porque Colom falava maiores grandezas & cousas 
da terra do que nella avia, & isto com hCía soltura de palavras, accusando 
& reprehendendo a elRey em não acceptar sua offerta : indignou tanto 
esta maneira de falar a algQs fidalgos, que ajuntando este avorrecimento 
de sua soltura, com a magoa q vião ter a elRey de perder aquella 
empreza, offerecerão se delles que o queriâo matar, & com isto se eui- 
taria ir este homem a Castella. Câ verdadeiramente lhe parecia que a 
vinda delle auia de prejudicar a este Reyno, & causar algum desasso- 
sego a sua alteza, por razão da cõquista que lhe era concedida pelos 
summos Pontífices : da qual conquista parecia que este Colom trazia 
aquella gente. As quaes offertas eIRey não acceptou, anle as reprehen- 
deo como príncipe catholico, posto que deste feito de si mesmo teuesse 
escândalo : «St em lugar disso fez mercê a Colom & mandou dar de 
vestir de graã aos homens que trazia d'aquelle nouo descobriméto, & 
com isto o espedio. E porque a vinda & descobrimento deste Chris- 
touão Colom ( como então algfls pronosti';arão ) causou logo entre estes 
dous Reys, & depois a seus successores algQas paixões & cõtendas, com 
que de hum reyno a outro ouue embaixadas, assentos, & pactos, tudo 
sobre o negocio da índia que he a matéria desta nossa scriptura : não 
parecerá estranho delia tractar do princípio deste descobrimento & do 
que delle ao diante succedeo. Segundo todos affirmão, Christouâo 
Colom era Genoes de nação, homem esperto, eloquente, & bom latino, 
& mui glorioso em seus negócios. E como naquelle tempo bfia das 
potêcias de Itália que mães nauegava por razão de suas mercadorias 
& commercios, era a nação Genoes : este seguindo o vso de sua pátria 
& mães sua própria inclinação, andou nauegando per o mar de leuanle 
tanto tempo, te que veo a estas partes de Hespanha, «Sc deu se â naue- 
gação do mar Oceano seguindo a ordem de vida que ante tinha. 
E uendo elle que elRey dom João ordinariamente mandaua descobrir 
a costa de Africa com intenção de per ella ir ter à índia, como era 
homem latino & curioso em as cousas da geographia, «St lia per Marco 
Paulo que falava moderadamente das cousas orientaes do reyno Cathayo, 
«St assi da grande ilha Cypango : veo a fantesiar que per este mar. 
Oceano occidental se podia nauegar tanto, te que fossem dar nesta 
ilha Cypango, & em outras terras incógnitas Porque como em o lêpo 
do Infante dõ Henrique se descobrirão as ilhas terceiras, «Sc tanta parte 
de terra de Africa nunca sabida nem cuidada dos Hespanhoes : assi 
poderia mães ao ponente aver outras ilhas & terras, porque a natureza 
não avia de ser tão desordenada na composição do orbe vniuersal, que 
quisesse darlhe mães parte do elemento da agoa que da terra descu- 
berta, pêra vida «Sc criação dos animaes. (]om as quaes imaginações 
que lhe deu a continuação de nauegar, «Sc pratica dos homens desta 
profiçâo que avia neste reyno mui espertos com os descobrimentos 
passados : veo requerer a elrey dõ João que lhe desse algGs nauios 
pêra ir descobrir a ilha Cypango por este mar occidental Não confiado 
tanto em o que tinha sabido ( ou por milhor dizer sonhado ) d'algtlas 



314 ANTOLOGIA — PROSA 



ilhas occidentaes, como querem dizer algfls escriptores de Castella: 
quanto na experiência que tinha em estes negócios serem mui acredi- 
tados 08 estrangeiros. Assi como António de Noile seu natural, o qual 
tinha descuberto a ilha de Santiago de qu<i seus successores tinhâo 
parle da capitania : & hum João Baptista Francês de nação, tinha a 
ilha de Mayo, & los Dutra Framengo, outra do Fayal. E per esta 
maneira, ainda que mães n5o achasse que algQa ilha herma, segundo 
logo eráo mandadas pouoar : ella bastava pêra satisfazer a despesa 
que com elle fizessem. Esta he mães certa causa de sua empresa que 
algflas fiçõtís ( q como dissemos ) dizem escriptore.s de Castella, 6c assi 
Hyeronimo Cardano Medico Milanês, barão certo, doclo, & ingenioso : 
mas em este negocio mal informado. Porque escreue em o liuro que 
compôs de sapiência, que a causa de Coiom tomar esta empressa foi 
d'âquelle dito de Aristóteles, q no mar Oceano alem de Africa, auia 
terra pêra àqual nauegauão Os Cartaginenses : & por decreto publico 
foi defeso que ninguém navegasse para ella, porque com abastança, & 
mollicias delia senão apartassem das cousas do exercido de guerra. 
ElRey porque via ser este Chrislouâo Coiom homem falador & glorioso 
em mostrar suas habilidades, & niaes fantástico & de imagmações cõ 
sua ilha Cypâgo, que certo no q dizia : daualhe pouco credito. C<5 
tudo â força de suas importunações, mandou q estivesse com dom 
Diogo Ortiz Bispo de Çepta, & com mestre Rodrigo & mestre losepe, 
a quem elle cometia estas cousas da cosmographia & seus descobri- 
mentos: & lodos ouuerão por vaidade as palauras de Christouão 
Coiom, por tudo ser fundado em imaginações & cousas da ilha Cypâgo 
de Marco Paulo, & não em o que Hyeronimo Cardano diz. E cõ este 
desengano espedido elle delRey se foi pêra Castella, onde também 
andou ladrando este requerimento em a corte delRey dom Fernando, 
sem o querer ouuir : té que per meio do Arcebispo de Toledo dom 
Pêro Gõçaiues de Médoça eIRey o ouuio. » 

Jo5o de Barros, Década Primeira, 1. iii, c. xi. 



XLVIII 
D. Henrique faz passar o cabo Bojador. 

. . .Mâdou armar hfla barcha a capitania da ql deu a huQ Gilianes 
seu criado natural da villa de Lagos, q ja o anno passado fora a 
este descobrimento : &. por lhe os lépos nam terçarem bem, se foi as 
Canáreas, &. em alguGs saltos que fez tomou certos catiuos com que se 
tornou pêra o reyno. E porque o Infante se mostrou mal seruido delle 
por este feito, ficou tam descontente de sy : que nesta segunda viagem 
determinou de olTerecer a vida a todolos pirigos, & nam vir ante o 
Infante sem mais certo recado do que trouxera o afio passado. E a 
este seu propósito se ajuntou a boa fortuna, ou por milhor dizer a ora 
em q deos tinha limitado o curso de tâto receo como todos tinham de 
passar aquelle. cabo Bojador : o qual nome lhe elle entam apôs pelas 
razões que atrás dissemos, nâ tendo té aquelle tempo alguQ acerca de 
nós, segundo a sua situaçam podemos dizer ser aquelle o cabo a que 
Ptholomeu chama Ganaria promontório. E posto que a obra desta 
passágê não foy grande em sy ( quâto agora ) entam lhe foy contada 



SÉCULO XVI 315 



por huQ grande feito, & ouuéram que era igual a liutl dos trabalhos de 
Hercules ; porque com esta passagem desfez a vãa opiniam q toda 
Espanha tiiiha^ & deu animo áquelles que riam ousáuam seguir este 
descobrimêlo. Tornado Gileannes ao reyno com esta noua : foy 
recebido do Infante com aquelle prazer que se tem das cousas tam 
desejadas & per tanto tempo, & trabalho requeridas como eram aquellas, 
&. agalardoou sua pessoa & assy os da sua companhia com honrra, & 
mercê. E o que mais animou o Infante a esta impresa, foi cõtar-lhe 
Giliânes como saíra em a terra sem achar géte, ou pouoaçom algGa, 
& que lhe parecera muy fresca & graciosa : & que em sinal de nam ser 
tam esterele como as gêtes diziam, trazia aly a sua mercê em huCL 
barril cheo de terra, hQas heruas que se pareciam cõ outras q cá no 
reyno tem hQas flores a que chama rosas de sancta Maria. As quaes 
sendo trazidas ante o Infante elle as cheiraua, & tãto se gloriaua de 
as ver, como se fora alguQ fructo & mostra da terra de promissan, 
dando muitos louuores a deos : & pedia a nossa senhora cujo nome 
aquellas heruas tinha, que encaminhasse as cousas daquelle descobri- 
mêlo pêra louuor & glória de deos e accrecentamêto de sua sancta fee. 
E nâ somente o Infante cuja era esta impresa, mas ainda elrei dom 
Duarte seu irmão que entam reinaua, flcou muy conlête deste feito 
tãto pella honra do Infante por saber as murmurações q andauão 
no reyno desta sua impresa : como por o proueito que elle & os seus 
naturaes nisso podiam ter. O qual logo publicamente quis mostrar 
este contentamento, porque estando em a villa de Sintra onde lhe foy 
dada pelo Infante esta noua : elle fez doaçam de todo o espiritual das 
ilhas da Madeira, Porto Santo, & Deserta ao mestrado de Christo, de 
que elle Infante era gouernador, &. disso lhe passou carta a vinte seys 
de Octubro da era de mil quatro cêtos trinta & três annos, pedinuo 
nella ao papa que o cõQrmasse. E no mesmo tempo lhe fez mercê a 
elle Infante, das ditas ylhas em dias de sua vida : cõ toda jurdiçam 
de ciuel & crime segundo em a doaçam se contem. 

J. de Barros, Década Primeira da Ásia, ed. 1552, cap. lu, fl. 10, 1.' col. 

XLIX 

De moitas cousas notaueis qae ha nestas ilhas de Maluco, 
& dos fogos que algúas lanção. 

Estas cinco ilhas, aque propriamente chamamos de Maluco, sSo todas 
de hQa feição, & grãdeza, porque nenhila d'ellas passa de seis legoas 
em circuito. São redondas, & querem imitar hum chapeo coscuzeiro, 
cujas abas são aquellas chans que todas tem em que nacem os cra- 
ueiros, & que são povoadas de suas cidades & villas. E do meyo de 
todas se alevantaõ huns montes muito altos. Saõ todas muilo alcanti- 
ladas, & redondas, pello que carecem de bons portos pêra ambas as 
monções, Noroeste, & Sul, só Ternate tem o porto de Talangame, hfla 
legoa da fortaleza, onde os nossos Galeões inuernão. Tem outro hQa 
legoa d'este, chamado o toloco, em que podem as nãos estar com pran- 
cha em t^rra. E quando elRey mandou, que se fizesse fortaleza naquella 
ilha, não se fez em algum d'estes portos, por Gear longe da cidade onde 
o Rey viue. Tem ambos estes portos o rosto a Leste. Ha por todas estas 
ilhas alguns arrecifez que seus moradores abrirão, pêra entrarem suas 
embarcações. E a ilha de Ternate tem hum defronte da nossa fortaleza, 



316 ANT0L08IA — PROSA 



O que tem antre a terra, & elle hum poço onde podem entrar Caraue- 
las de preá mar, d'agoas viuas descarregadas, & no poço estarem surtas 
a sua vontade. Todos estes arrecifez principalm<?nte este, sSo de pedra 
que se gera do coral, que depois de velho induresse, ét com ter muitos 
ramos se ajunlaõ & conuertem em pedra de que se faz muito boa cal. 
Está este arrecife posto por tal ordem que quem vai do mar deman- 
dàlo, parece que ve fermosos edifícios feitos ali pêra defensão daquelle 
Porto. Este monte de Ternate, que se aleuanta do meyo da ilha, será 
de altura de duas legoas, he todo cheio de aruoredo, & palmares : . . . 
... La embaixo arrebenta hGa fermosa fonte que corre pêra hOa parte, 
cuja agoa ninguém chegou aprouar, nê se sabe se he doce se salgada. 
Este chão que embaixo aparece ( que como dissemos he de pedra & 
terra mouidiça, como hum entulho. ) ferue de contino, com a força do 
fogo que tem por baixo, & lança pêra cima muitas vezes hum tão es- 
peco, & fedorento fumo, que parece cousa que se pode palpar, & fede 
a enxofre : & parece que por debaixo he este monte oco, por que n'este 
tempo vai sumido aquelle entulho ( que decima se enxerga. ) pêra baixo 
como faz o trigo na Iremonha da atafona, & muitas vezes acontece, 
quando lança aquelle especo fumo fazer tamanhos terremotos & trouoês, 
que parece aos que estão em cima, que cae todo o monle, & a voltas 
d'elle8 lança hQa grande quantidade de pedras vermelhas como fogo, 
que se espalhão pelos ares, como se saissem de bocas de furiosas bom- 
bardas, & espalhandose por toda a ilha com grandes terremotos, caem 
sobre a nossa fortaleza, &. sobre a cidade : & algQas vezes se achou 
irem dar nas ilhas dos Meãos, & dos Cafures, dezoito vinte legoas de 
Ternate. O fumo que lança he de muitas cores, & esta he a rezão porque 
esta ilha he mais doentia que todas, por causa dos mãos vapores, &. 
corrupção do ar, & das agoas, porque muitas vezes caem aquellas pedras 

nas fontes de que bebem, que parece que as corrompe No Moro 

ha outra coua em outro monte que taõbem lança fogo, & fumo. N'estas 
ilhas todas não ha verão nem inuerno, & a chuua não tem lêpo certo, 
mas he mais geral cõ o Noroeste que com o Sul. . . 

Diogo do Couto, Década Quarla da Ásia, ed. 1002, i. 7.", cap. x. 

De i|uoino elUei maadou laçar hos Moaros, & ludeus 
fora de seus Keynos, k senhorios. 

Depois que hos Keis de Castella lançarão hos lodeus fora de seus 
regnos, & senorios, . . . elRei dom Emanuel requerido per cartas 
dos mesmos Heis determinou de fazer ho mesmo, mas quomo ho 
negocio fosse de qualidade pêra se delle não tomar resolução, sem bO 
cõselho, houue sobrisso vários pareceres, porq hQs dizião q pois ho 
Papa cõsentia esta gête é todalas terras da Egreja, permitindolhes 
viueré em sua lei, & q o mesmo fazião todolos Príncipes, & repu- 
blicas de Itália, & HQgria, Bohemia, cV Polónia, o q se podia cuidar, 
q não fazião sé causa, a cuja imitação é toda a AHemanha, & outros 
regnos, & prouincias de Christãos os deixauão tãbé viuer, q causa 
haueria pêra os lãçaré do regno, q não repugnasse cõ ha razão ques- 
toutras nações tinhão pêra o consenlirê, & q alfi disto poios lan- 
çaré da terra, nê por isso lhes dauã azo de nas alheas se tornarem 
Christãos, mas antes se se fosse pêra ha dos mouros, se perdia de todo 



SÉCULO XVI 317 



ha esperança de nenhll se cõuerter, o q muitos delles viuêdo entre 
nos, mouidos de nossa religião, & do bõ vso delia se podia sperar q 
fezessem, & q hauia ainda nisto outros incõuenientes, porq ale dos 
seruiços, & tributos q elRei perdia, ficaua obrigado a satisfazer às 
pessoas a q elle, & os Reis passados delles fezerSo mercê. & q n5o tão 
somente leuauão cõsigo da terra muitos haueres, & riquezas, mas ainda 
o q era mais de estimar, louauSo, sotis, & dilicados spiritos com q 
saberia dar aos mouros auisos, q lhes necessários fosse cõtra nós, &. 
sobre tudo lhes insinariâo seus officios mecânicos, em q erão muitos 
destros, principalmête no fazer das armas, do q se poderia seguir muito 
dano, trabalhos, & perdas, assi de gête, como de bês a toda ha Chris- 
tandade. Este foi ho parecer, & opinião dalgQs do conselho, a 5 outros 
repugnaram dizêdo, q bê era verdade o q diziâo. mas q os Reis de 
França, Inglaterra, Escócia, Dinamarca, Noroega, & Suécia, com mui- 
tas outras prouincias vizinhas a estas, & todo o Estado de Flãdes, &. 
Borgonha não lançarão os ludeus détre si muitos annos hauia sem 
pêra o fazeré terê boas causas, & de receber, & q o mesmo se deuia 
cuidar dos Reis de Castella, o q abastaria pêra auerê de laçar esta 
nação fora do regno, quãto mais q não parecia bõ cõselho estado estes 
regnos cercados dos de Castella, & hos de Castella dos de Frãça. per- 
mitirése nelles ludeus, sendo laçados das terras de taes vizinhos & tão 
poderosos, hos quaes poderião tomar a mal parecemos, que tínhamos 
railhor cõselho em deixar viuer esta gente entre nos, do q elles tiuerão 
em os lãçarê de si, o qual degosto por vêtura tirião secreto, pêra 
quãdo vissem lêpo oportuno abriré has asas à tyrannia, & debaixo de 
cor de catholicos, & christianissimos nos fazerê o mal, & dano q 
podessem, & que sobre tudo, o bõ cõselho era perder ha saudade, a 
todolos proueitos, & tributos q se desta gête tirauam, & por o inlêto 
em sô Deos, & na sua Sancta Fé, porq elle dobraria cõ suas mercês o 
q se nisto perdesse, & q pois este negocio per sua võlade viera a se 
por a determinação de conselho, q ha resoluta conclusam delle fosse 
lançarê logo do regno aquelles q não quisesse receber ha agoa do 
baptismo, & crer ho q cre ha Egreja Gatholica Christãa. Na qual 
opinião, & parecer foi elR^i, sem ter cota cõ ho que se nisso perdia, 
nem com has satisfações, q ficaua obrigado fazer, quomo depois por 
inteiro fez. E logo se assinou tempo certo para ha notificaçam deste 
negocio, ho qual foi declarado, & publicado, estando elRei ainda em 
Muja, no mes de Dezêbro de M. cecexcvj, em híia pregaçam q se sobre 
isso fez, &. nam tam somente se assentou no cõselho q os ludeus se 
fossem do regno cõ suas molheres, & filhos & bês, mas tambê hos mouros 
pelo mesmo modo, pêra ho q lhes eIRey limitou logo a todos têpo certo, 
& nomeou portos seus de seus regnos para suas embarcações. 
Damião de Góes, Chron. de D. Manoel, ed. 1619 ; parte- 1, cap. xxin. 



LI 

De como Vasco da Gama com ootros capitães 
foy descobrir a Índia. 

E como quer que el Rey dom Manuel assi como sucedeo nos reynos 
a el Rei D. João, assi também lhe sucedeo nos desejos que tinha de 
descohrir a índia : logo aos dous annos de seu reynado entendeo no 



318 ANTOLOGIA — PROSA 



sen descobrimento, pêra que lhe aproueilou muyto as instruções que 
lhe ficarío dei Rpy dom JoSo, e seus regimentos para esta navegação : 
e mandou fazer dous nauios de madeira que el Rey dom Jo5o mandara 
cortar. E hum que era de cento e vinte toneladas ouue nome sam 
Gabriel : e outro de cento sam Rafael : e comprou pêra ir cnesles 
nauios hfla carauela de cinco toneladas a hum piloto chamado Birrio 
de que a caravela tomou ho nome. E estes três nauios auia de mandar 
a este descobrimento e com capitania niór deles cometeo hum Paulo 
da gama caualeyro de sua casa filho que fora DesleuSo da gama 
alcayde mór na vila de Sinis no campo dourique, em que linha grande 
confiança por ele ser pêra isso. Do que se ele escusou por híla doença 
que tinha com que nSo poderia sofrer os trabalhos de capitáo mór, 
pedindo a el Rey que fizesse mercê daquelle cargo a hum seu irmSo 
mais moço chamado Vasco da gama que ho saberia muy bem seruir, e 
que ele iria também na armada por capitSo pêra o aconselhar e ajudar. 
Ho que el Rey foy contente por .saber que era assi, e que era Vasco 
da gama espr^mentado nas cousas do mar em que tinha feylo muylo 
seruiço a el Rey dom JoSo : p que era homem de grandes spiritos : e 
muyto próprio pêra dar fim a este descobrimento, e assi lho disse 
quando lhe deu este cargo, encoraendandolhe muylo que satisfizesse 
ao credito que tinha nelp, porque se assi ho fizesse lhe faria por isso 
muyto grandes mercês, que lhe logo começou de fazer de hOa comenda, 
e de dinheiro pêra o apercebimento de sua viagem. E pêra irem coele 
despachou lambem a Paulo da gama e a um Niculao coelho ambos 
criados dei Rey e homens pêra qualquer grande feylo. E por quanto 
nos nauios da armada não podiSo ir mantimentos que abastassem á 
genie dela até Ires annos, comprou el Rey hOa nao a hum Ayres correa 
de Lisboa que era de duzentos toneis, pêra que fosse carregada de 
raanlimenfos até a agoada de sam Brás, e ali se despejaria e a quey- 
mariâo. Despachado Vasco da gama em monte mór ho nouo onde el 
Rpy eslaua. partiose com seus capilSes pêra Lisboa : onde feyta sua 
armada embarcouse a gente dela, que forSo cento e corenla e oylo 
pessoas : em Rfslelo, que será hQa legoa de Lisboa, hum sábado oylo 
dias de Julho do anno de mil ccccxcvij. E ao embarcar sayrão lodos 
em procissam de nossa senhora de Belém : que he agora um mosteyro 
da ordem de sam Hieronimo, e y5o em pelote e cirios acasos nas m5os, 
e 08 fradfls rezando : e ya coeles a maior parle da gente de Lisboa, e 
a mais dela choraua com piedade dos que se yíJo embarcar crendo que 
auiâo todos de morrer. Embarcados todos e Vasco da gama com os 
outros capitães, logo derSo ás velas e se partirSo de foz em fora. 

P. L. de Castanheda, Historia do descobrimento, e conquista da índia, ed. 1797, 
1. 1, cap. II, 11. 8. 



LII 

Descobrimento das Antilhas, e índias 
pollos Espanhoes feitas. 

. . .No anno de 539, mandou Fernaó Cortez Ires navios a Francisco 
Guilhoa pêra dpscobrir a Costa de Culuacaõ pêra cima. Partirão de 
Capuleo. tocaroõ Santiago de Boa Esperança, entrarão no Estreito que 
Cortez descobrira : chegarão por elle acima atè trinta e dous grãos 



sáCTTLO XVI 319 



daltnra, que he a fim da agua, pozeraõlhe nome Ancon de Sanio André, 
por ser em seu dia. Tornarão pêra fora ao longo da Costa da outra 
banda, dobrarão a ponta de Califórnia, e meteraõse por antre as Ilhas, 
e a terra : foraõ ao longo delia atè se poerem em trinta e dous grãos, 
donde arribarão por vento contrairo, havendo hum anno que là andavão : 
dizem que gastou Fernaõ Cortez nestas Armadas, o descobrimentos du- 
zentos mil cruzados, e que desta ponta do Engano haverá à outra do 
Liampo da China mil, ou mil e duzfíntas legoas de rota abatida, e que 
o que descobrio, e conquistou Fernaõ Cortez, e seus Capitães, he de 
doze grãos atè trinta e dous de Leste-oeste, em que haverá setecentas 
legoas pelia terra dentro, que he mais quente que fria, ainda que ha hi 
serras que dura a neve, e geada quasi todo o anno. 

Ha na Nova Espanha muito arvoredo de flor^s^e frutos, diversos, e 
proveitosos pêra muitas cousas, e a mais principal delia se chama arvore 
metei, naõ he muy grande, nem grossa : prantaõna, podaõna, concertaôna 
como vinha : diz que tem quarenta folhas de feiçaõ de telhas, e servem 
disso, e quando saõ tenras fazem conservas delia, papel, fiaõ nas como 
linho, fazem delias mantas, alpargatas, esteiras, cintas, xaquemas : tem 
estas arvores humas espinhas taõ duras, e agudas que cozera com ellas 
como com sovellas, e o tronco dà bom lume, e cinza pêra decoada : 
escavaóna ao pè e a agua que estiila, he como arroba, se a cozem fica 
mel, se a purificaõ, açuquere, se lhe deitaõ patalim, vinho, se a destem- 
peraõ. vinagre, as pencas assadas, e exprimidas sobre chagas, ou feridas, 
sara, e encoura ; o sumo das espigas, e raizes emburilhadas com sumo 
de encenso, he bom contra a peçonha, e mordedura da bibora, assi que 
he a mais proveitosa arvore que se là sabe 

Ha là huns passarinhos, que se chamaõ Vicincilin, saõ pequenos, o 
bico delgado, e comprido, manterase do rocio, mel, licor de flores, e rosa, 
tem as pennas meudas, e de diversas cores, prezaõnas muito pêra lavrar 
ouro, morre, ou adormece cada anno : no mez Doutubro posto em hum 
raminho em lugar abrigado resuscila, ou acorda no mez Dabril, depois 
que ha flores, pello que lhe chamaõ o resujícitailo. Ha cobras que sao 
como cascavéis quando andaõ : ha outras que emprenhaõ pella boca, 
como dizem da bibora : ha porcos com embigos no espinhaço, que 
matando-os se lho naõ cortaõ fede logo : ha peixes, que guinchaõ como 
porcos, e roncaõ, por onde lhe chamaõ roncadores. . . 

A Galvão, Tratado dos descobrimentos antigos e modernos, ed. 1731, pg. 86. 



LIU 
A Vida pastoril. 

Falia Jacob com os Prophetas Nahum e Zacharias : 

Sabereis, yrmSos, que eu sam aqnelle antiquíssimo pastor que com 
pescoço e mãos vellosas, pêra soceder na bençSo seu pae enganou ; e 
pelos amores dhtJa fermosa pastora sete e sete annos nos viçosos pas- 
tos de mesopotâmia apascentei ; dali partindo com hum rico e fermoso 
rabanho de cabras e ouelhas de diuersas e manchadas cores vim a 
heredar os espaçosos campos e felice terra de Quenaã bés de meus 
padres: recebi da diuina mão doze filhos, robustos uarões;*e com 



3Í0 ANTOLOGIA — PROSA 



tantas e tam viçosas riquezas, entre elles alegre me gosaua ; e hums 
mais deleitando-se da guarda das simpres e graciosas ouelhes, em 
rompendo a alua da manhSa, antes qne no oriente o sereno ceo de 
sanguínea côr se manchase, sahyam com seu rabanho ; e com vagaroso 
passo pisando as orualhadas emas. e ouuindo o doce chilrar dos pas- 
sarinhos pacifica e sossegadamente o guiauâ contra algum fresco e 
deleitoso prado ; onde arribados que eram sentando-se sobe la ver- 
dura dalgum pequeno outeiro, pêra melhor comtemplarem na manada, 
viam as ouelhifias, hOas em prado eham as verdes e miúdas ernas 
suauemente pascendo ; outras, sobindo em logares ásperos se depen- 
durauam a rroer algum novo aruoresinho que enlani tenro se leuantaua 
da terra : outra se empinaua pêra alcançar hum ramo de figueira qual 
mordendo os tenrros gomos das parreirinhas brauas, qual tascando a 
penca do saluatico cardo; ali os pequenos e tenrros cordeiros de 
poucos dias antes nascidos arremettiam ás cheas tetas das piadosas 
madres, apresurosamente mamado cõ aquelle gosto e sabor que quasi 
parecia lhe quererem as longas mamas arramquar ; muitas outras já 
contentes do pasto, bebendo nos claros ribeiros se alegrauam verem- 
se no fundo como viuas ; e algíis carneiros ayrando-se, arremetiam de 
quando em quando a sua figura, e achando-se depois escarnecidos 
ficauam com a cabeça molhada como atónitos. 

Ora assi viçosamente passando a fresca manhSa, quando jáa o sol, 
e sua seca calma embebido auia nas verdes eruas o orvalho se aba- 
lauSo e punham en caminho com o rebanho de suas mSsas ou^lhas, a 
busquar as deleitosas sombras onde a fresca e temporada viraçiío os 
recrease ; e láa ao cabo de hum alegre vale hum fermoso e muy basto 
aruoredo os rpcebia, regado, e viçoso côas doces agoas dhOa font« que 
ao pée dhum altíssimo acipreste a borbolhões, e con alegria rebpntaua ; 
junto da qual, ( vinda a ora de comer ) ordenadamente se sentauam ; 
e abrindo seus vellosos surrões, que ao esquerdo lado do ppseoço lhe 
pendiam ( qual feito da branca pele do tenrro cordeiro que o cruel 
lobo arrebatou, qual da ruiua pele do movido bezerro ) tirana pêra a 
alegre mesa cada hO de suas viãdas gostosas e naluraes. e juntando-as 
com o mel, que neste hõ tempo estaua das arvores grossos fios esti- 
lando ; e cC o branco l«ite, que ás gordas ouelhas, das mamas sobe las 
eruas, pascendo, lhe gotejaua, saborosamente comiSo, e jáa que era da 
fome despedidos, sentis hum fresco aar, que com suaue roido o cume 
dos altos alemos, e dos viçosos e grandes freixos andaua mouendo, e 
docemête as mais altas ramadas brandindo, com hum descanso, e tam 
mauioso compasso, que parecia darem-se humas a outras paz secreta- 
mente ; e neste meo as palreiras melroas, os namorados e músicos 
rusinoes, cõ muitos outros graciosos passarinhos, que á sombra se 
vinham acolhendo da áspera calma, lodo aquelle logar, ( respondendo- 
se hums a outros com diuersas vozes, ajudando-lhe o murmúrio da 
viva fCnte ) enchiam darmonia : e d'elles tangendo, hQs docemSte com 
suas frautas, e vilanescos instromeotos ; outros ao som contra as 
namoradas pastoras, amorosamente cantauam : quaes com rústicas 
manhas, e pees lutando ; e quaes os fortes, e ousados carneiros, huns 
contra outros atiçando, estauam vendo duramente marrar : e alguns, 
vencidos do sono, coa cabeça junto do roido da clara fonte, de viçosos, 
se dormiam. 

Jáa neste tempo o Sol, feita sua obra, na fértil terra d'aquelle seu 
particular hemisperio, se auia escõdido dpbaixo das agoas do ponente, 
e variando o céo de inflamadas nuues, hQas louras da côr do puro 



íácTJLO XVI 321 



ouro de Ophir, outras sanguíneas, qual a fina escarlata, e preciosos 
robis ; entre-negras algflas como longuos rayos ; muitas como mon- 
tanhas de neue, ou branca iSa escarmeada, sobre verdoengas agoas 
do mar ; e á maneira de longas serras ; algfias cinzentas, bordadas 
douro com frescos ares, e quietas sombras deixaua os altos montes, e 
verdes campos nCa deleitosa temperança ; e recolhendo as vagabundas 
ouelhas, que por entre aquelle aruoredo espalhadas andauam pascendo, 
e saydos por outra parte do bosque e hQa verde, e fermosa varzia, que 
sem trillhado caminho tée ás choupanas, direita, se estendia, e toda 
aquella alegre companhia, vagarosamente com seus cajados guiando, 
tornaua em suas malhadas a descansar; e renouando nouos jogos de 
passo em passo hiam tirando côas fundas a algum aluo ; e quem mais 
perto com o duro seixo lhe chegaua, todos os outros com bater de 
palmas, e alegre grita, o leuauam ás costas té hum sinal ; e deixando 
este jogo, ora saltando, ora tirado á barra, e lutando, ao vencedor 
coroauam com capellas de verde louro, tangendo-ihe com suas gaitas, 
e rebecas, em sinal de vitoria : e assi pouco a pouco ás choças alegre- 
mente se hiam chegando : até que jáa fartos de tanto viço do dia, 
( quando nos charcos, cuberlos de meuda eruinha, as raâs com rouca 
voz gritando e com hQ continuo, e penoso soom os grilos, escondidos 
nas couas a hQa e outra parte do caminho, chirrando, e toda a cam- 
pina retenindo ) contentes arribavam : e depois dagasalhado, e recolhido 
em seus curraes o veloso rebanho, deixando os surrões e cajados, 
saparelhavam pêra o desejada côea, ao portal de suas ramosas chou- 
panas, fundadas á beira do claro rio yurdâo, onde ordenadamente se 
sentauam a comer á claridade da lua, que aquela ora, reuerberando 
nas agoas, hums rayos como de cristal aos olhos formaua, e acabando 
com grandíssimo deleite, depois de muytos jogos, sendo gran pedaço 
da noite pasada ao sereno do céo cuberto destrelas huns fora sobe las 
eruas, e outros dentro nas choças, aqui e aly ( como emborrachados ) 
dormindo se cabiam. 

S. TJsque, Consolaçam, etc. Dial. i, ed. 1906, pag. iii v. a v v. 



LIV 

A Inquisição. 

. . . Fizeram vir de Roma um fero Monstro de forma tam estranha 
e tam espantosa catadura que soo de sua fama toda a Europa treme, 
seu corpo he de áspero ferro cõ mortífero veneno amasado, oom bfla 
duríssima concha cuberta de bastas escamas de aço fabricada, mil 
asas de penas negras e peçonhentas o leuantam da terra, e mil pees 
danosos e estragadores o move, sua figura daquella do temeroso líão 
toma parte e parle da terribel catadura das serpes dos desertos de 
Africa : a grandeza de seus dentes aquelles dos mais poderosos Ele- 
fantes arremedam : e o siluo ou voz, com moor presteza que o venenoso 
Basalisco mata : Dos olhos e boca contínuas chamas e labaredas de 
cõsumidor foguo lhe saem, o pasto de que se ceua he outra com corpos 
humanos amasado, precede a Águia na ligeireza do seu voar, mas por 
onde passa faz com a tristonha sombra çerraçam, por mais claro que 
o Sol naquelle dia se mostre, finalmente seu rrasto no que atras fica 
deixa hQa teaebra como aquella que foi aos Egípcios dada por bOa 



322 ANTOLOGIA — PROSA 



das plagas, e depois qae onde seu voo encaminhou arriba, a verdura 
que pisa, ou aruore viçoso sobre que põe os pee% seca estragua e a 
raurcheçe, e sobre ysso de rraiz com o destruidor bico o arranca e 
de tal sorte com sua peçonha todo aquelle circuito que comprende o 
deixa assolado que como os desertos e areaes da Siria onde planta 
nam prende nem erua nasce o conuerie : Esta tal alimária em todo o 
pouoado de meus filhos ( que em habito de christãdade estauam des- 
conhecidos ) meteo, e com o foguo dos olhos hum grandissimo numero 
abrasou semeando a terra de enfinitos orfâos e viuvas : com a boca e 
poderosos dêtes suas riquezas e ouro lhes englutio, e destrinçou : 
com os pesados e peçonhentos pccs suas famas e grandezas lhe pizou 
e destruyo e com a temerosa e disforme catadura, a outros seus coora- 
dos rrostos lhe desfigurou e suuiio e seus corações e almas com seu 
voo escureçeo, e estes mesmos efeitos vay aynda agora naquella rregiáo 
continuado nos mêbros que de meu corpo ficaram destroncados na 
Espanha... 

S. Usque, Con$olaçam, etc, Dial. m, ed. 1906, pag. xivi e ixvi v. 



LV 

Variedade do gentio da índia, especialmente 
no qae toca á religião. 

. . . E postoque servira pêra melhor se entender esta parte da his- 
toria tractar aqui hum pouco mais largamente da natureza, sortes, 
calidades, & costumes do gentio da índia, eu deixando a outros tudo 
o mais. farei caso somente do que tem respeito á religiam. Das cousas 
do céo, & eternas, ha entre elles muy pouca, ou nenhfla noticia : nas 
temporais, «Sc da terra, sam espertos, & tam entendidos, que nam dam 
ventagem nas sutilezas dos tratos & contratos aos mercadores de 
Europa. Estimam só esta vida. & os pontos em que põem a honra : 
que, como anda com a vaidade, & inconstância da opiniam dos homês. 
sam lá muy differentes dos de cá ; viciosos tanto em cabo, & tam 
desobrigados á fé, & verdade humana, que parece perdeo com elles a 
própria conciencia, ou o officio de remorder, ou de todo a autoridade, 
át força de conuencer, & persuadir; sendo na mechanica das artes 
estremados ; das sciencias tem somente algOa medicina ; & da Astro- 
logia, o que basta pêra tirarem os ecciypses do sol, & da lua, tanto 
dantemam, «Sc aponto como nós. Escreuem com penas de ferro, «Sc 
seruem lhes de papel ( como de mil outras cousas ) as folhas das suas 
palmeiras, de que fazem grSdes liuros das historias dos tempos, «Sc de 
outras muytas matérias, assi em prosa, como em rima, da qual, «Sc de 
toda a sorte de poesia sam por estremo curiosos, & tam enleuados, 
que para o Demónio per seus ministros lhes fazer crer as mais fabu- 
losas patranhas contrarias a suas próprias leys, e rezam natural, basta 
poremlhas, <Sc cantaremlhas em verso ; que postoque no numero das 
syllabas seja muy differente do nosso, «Sc do latino ( por que em cada 
um ha dauer setenta «Sc duas ) nam df ixa de ter sua graça, «Sc magestade. 

Nestes versos esta escrita em hOa linjína particular chamada Gero- 
dam, a sua Filosofia, & Theologia, que os Brámenes estudam, & lem 
em universidades per todo a índia. Consta esta doctrina de quatro 
partes, cada hQa das quais se divide primeiramente em seis a que 



sãcuLO XVI 323 



chamam Corpos, & depois em dezoito, cora nome de Membros, & final- 
mente em vinte e oito intituladas Artículos. E tratase na primeira das 
quatro partes da causa, & principio do universo, da primeira matéria, 
dos Anjos, das almas, do premio do bem, do castigo do mal, dos 
elementos, da geraçam, &. corrupçam das criaturas, que cousa seja 
peccado, como se deva remir, e quem pôde delle absolver. Sam o 
argumento da segunda os Espíritos, que elles intitulam Regentes dos 
ceos, & dos elementos, & a que dam o governo de todas as cousas 
criadas. A terceira parte toda he moral, de bõs preceitos, & conse- 
lhos, assi pêra a vida politica, como pêra a contemplativa, de que 
fazem particular profissam. A quarta contem as cerimonias dos pago- 
des, os sacrifícios, as festas, & á volta disso muytas feitiçarias, encan- 
tamentos, & grande parte da arte magica. 

Na distinçam das gerações, & famílias, fazem ventagem a toda a 
outra gente do mundo. He nada em sua comparaçam quanto nesta 
parte ouve entre as casas, & tribus do povo dTsrael. Porque em 
muytas famílias do Indostam, • nam somente nam podem casar as 
pessoas dhGa com as da outra, mas nem comer á mesma mesa, nem 
entrar na mesma casa, nem estar, nem passar juntamente pela mesma 
rua. Assi tem repartidos os offieios de serviço da Republica, fazendo 
os de menos sorte os mechanicos, com tal ordem porem, que cada 
família usa o seu, sem poder jamais entrar no da outra. Os nobres 
ou sam Naires, que seguem somente a guerra, ou Brámenes, a quem 
pertence o falso culto dos pagodes, & meneo de suas superstições. 
Estes fazem a todos os outros grandes ventagens; porque alem do 
falso sacerdócio, tem o poder, & autoridade real, que anda na sua 
família já de muytos annos ; com cujo favor ella he a mais respeitada, 
e dilatada na índia, & em outros muytos reynos orientais. Professam 
geralmente grande abstinência ; porque de mais de muytos jejtis, que 
tem, nenhum, postoque seja Rey, pode per nenhum caso beber vinho, 
nem comer alpúa sorte de carne, ou pescado, nem cousa emfim, que 
tevesse vida. Mas ainda entre elles ha muita diversidade. HQs vivem 
com suas molheres & filhos nas villas, & cidades, tratando a mercancia, 
como toda a outra gente. Outros, a que chamam logues, & os Gregos 
antigamente chamaram Gymnosophistas, vendense por homês castos, 
nâo se obrigando nunca ao matrimonio; dos quaes muytos tomam 
por vida peregrinar per todo o Urií'iile, pregando á gente cega os 
sonhos de sua superstiçam, que acreditam, & persuadem com a grande 
aspereza com que se tratam assi no vtstir, como no comer. Alglls 
entrando pelos desertos, & meyos enterrados nas lapas, & covas das 
feras, passam com increível soferímento quanto se pode imaginar de 
dureza, & trabalho, em fomes, sedes, frios, calmas, nudeza, contínuas 
vigias, fugindo, como se lhe teveram ódio, a tudo o que pode ser de 
gosto, & alento á natureza. Mas feito o noviciado, & curso deste 
tempo, & elles agraduados á ordem, que entre si tem, com nome de 
Abdutos, & pola qual dissimularam com tam forte vida, ficam em 
premio da falsa penitencia, & por gloria da mais falsa religiam com 
publica licença para se engolfarem em toda a sorte de vicios, por 
abomináveis que sejam, sem alguém se poder, nem escandalisar, quando 
os \ê, nem aggravar quando lhe toca ; avendo que até das leis da 
rezam, «Sc da vergonha os fez, nam sómentá isentos mas senhores 
aquelle seu deserto, & surpersticiosa aspereza. Que quando he reli- 
giosa, como o foy, a dos santos hermitSos da ley da graça, tem por 



324 ANTOLOGIA — PB08A 



fim a perfeita imitaçam da pureza dos Anjos nas almas, & nos corpos, 
e nam vay parar naquelles monturos de torpeza, com que o Imigo de 
longe faz negaça aos infiéis cegos, &. tanto mais carnais quanto mais 
sofrem pola carne. 

Joio de Lucena, Vida do P. Francisco Xavier, I. n, c. xi, ed. 1600. 



LVI 
Peregrinação. 

Do que passei em minha mocidade neste Beyno, 
até que me embarquey para a Índia. 

Quando ás vezes ponho diante dos olhos os nuilos, e grandes 
trabalhos, e infortúnios, q por mim passarão, começados no principio 
da minha primeira idade, e contmuados pela maior parle, e melhor 
tempo da minha vida, acho que com muita razaõ me posso queixar 
da ventura, que parece q tomou por particular lençaõ, e empreza sua 
perseguir-me, e mallratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria 
de grande nome, e de grande gloria : porque vejo que naõ contente 
de me pôr na minha pátria, logo no começo da minha mocidade, em 
tal estado que nella vivi sempre em misérias, e em pobreza e naõ sem 
alguns sobresaltos, e perigos da vida, me quiz também levar ás parles 
da Índia, onde, em lugar do remédio, que eu hia buscar a ellas, me 
foraõ crescendo com a idade os trabalhos, e os perigos. Mas por outra 
parle, quando vejo que do meio de todos estes perigos, e trabalhos me 
quiz Deos tirar sempre em salvo, e pôr-me em seguro, acho qne naõ 
tenho tanta razaõ de me queixar por todos os males passados, quanta 
de lhe dar graças por este só bera presente ; pois me quiz conservar a 
vida, para que eu pudesse fazer esta tosca, e rude escritura, que por 
herança deixo a meus filhos, ( porque só para elles he minha tençaõ 
escrevella ) para que elles vejaõ nella estes meus trabalhos, e perigos 
da vida, que passey no discurso de vinte e hum annos, em que fuy 
treze vezes cativo, e dezasete vendido nas partes da índia, Elhiopia, 
Arábia Feliz, China, Tartaria, Macassar, Samatra, e outras muitas Pro- 
víncias daquelle Oriental Archipélago dos confins da Ásia, a que os 
Escritores Chins. Siamês, Gueos, Eiequios nomeaõ nas suas Geografias 
por Pestana do Mundo, como ao diante espero tratar muito particular, 
6 muito diffusamente ; e daqui por huma parte tomem os homens 
motivo de se naõ desanimarem com os trabalhos da vida, para deixa- 
rem de fazer o que devem ; porque naõ ha nenhuns, por grandes que 
sejaõ, com que naõ possa a natureza humana, ajudada do favor Divino : 
e por outra me ajudem a dar graças ao Senhor Omnipotente, por usar 
comigo de sua infinita Misericórdia, a pezar de todos meus peccados ; 
porque eu entendo, e confesso, que delles me naceraõ todos os males, 
que por mim passarão, e delia as forças, e o animo para os poder 
passar, e escapar delles com vida. 

De algua pequena informação desta cidade de Pequim, 
aonde o Rey da China reside de assento. 

. . . Esta Cidade que nós chamamos Paquim, a q os seus naturais 
chamaõ Pequim, por ser este o seu primeyro nome, está situada em 



SÉCULO XV 325 



altura de quarenta e hum gráos da banda do Norte : tem os seus muros 
de circuito, segundo os Chins nos affirraaraõ, e eu depois vi num livri- 
nho, que trata das grandezas delia, que se chama Aquesendoo, que eu 
trouxe a este Reyno, trinta legoas, dez de comprido, e cinco de largo ; 
e outros affirmaõ que tem cincoenta, dezassete de comprido, e oito 
de largo. E já que os que trataõ delia variam nisto tanto, como 
he dizerem huns trinta, outros cinquenta legoas, quero eu declarar a 
causa desta duvida conforme ao que vi por meus olhos. Quanto ao 
como ella agora está povoada de casaria muito nobre, terá de circuito 
as trinta legoas que dizem, e está cercada toda de duas ordens de 
muros muito fortes, com infinidade de torres, e baluartes ao nosso 
modo; mas por fora desta cerca, que he a da própria cidade, vay 
outra de muito maior comprimento, e largura, que os Chins affirmaõ 
que antigamente fora toda povoada, o que agora naõ he, mas tem 
somente muitas aldêas, e povoações divididas htías das outras, com 
muita quantidade de quintas ao redor muito nobres, em que entraõ 
mil e seicenlas, que tem muita ventagem de todas as outras; as quaes 
saõ aposentos dos Procuradores das mil e seiscentas cidades, e villas 
notáveis dos trinta e dous Reynos desta Monarchia, que quando cha- 
raaõ a Cortes, se ajuntaõ nesta cidade cada três annos sobre o governo 
do proveito comum, como adiante se dará relação. Por fora desta 
grande cerca, a qual, como digo, corre por fora de toda a cidade, 
estaõ em distancia de três legoas de largo, e sete de comprido vinte e 
quatro mil jazigos de Mandarins, que saõ hOas capellas pequenas cozi- 
das todas em ouro, as quais tem todas adros fechados em roda com 
grades de ferro, e de lataõ feitas ao torno, e as entradas, que tem, saõ 
huns arcos de muito custo, e riqueza. Junto a estas capellas tem apo- 
sentos muito grandes com jardins, e bosques espessos de grande arvo- 
redo, e muitas invenções de tanques, fontes, e bicas de agoa. E as 
paredes das cercas saõ forradas por dentro de azulejos de porcelana 
muito fina, e por cima pelos espigões com muitos leões com bandeiras 
douradas, e nos cantos das quadras curuchéos muito altos de diversas 
pinturas. Tem mais quinhentos aposentos muito grandes, que se cha- 
maõ Casas do filho do Sol, onde se recolhem todos, os que aleijarão 
na guerra em serviço delRey; e a fora estes, outros muitos, que por 
serem velhos, ou doentes, deixarão também a guerra, e se aposentarão. 
E a cada um de todos estes se dá um tanto por cada mes para seu 
mantimento, os quais segundo os Chins nos affirmaraõ chegavaõ á 
conta de cem mil : porque em cada hum destes aposentos diziaõ elles 
q havia duzentos homens. Vimos mais hfia rua de casas térreas muito 
comprida, aonde pousavaõ vinte e quatro mil remeiros, que s5o os das 
panouras delRey. Vimos outra rua do mesmo modo de mais de hlia 
grande legoa de comprimento, aonde pousavaõ quatorze mil tavernei- 
ros, que são os da Corte ; e outra rua pela mesma maneira, onde 
havia infinidade de molheres solteiras, privilegiadas do tributo, que 
pagam as da cidade, por serem também da Corte ; muitas das quais 
fugirão a seus maridos, por andarem nesta desaventura, e se elles por 
isso lhes fizerem algum mal, tem muito grande pena ; porque ellas tem 
alli seguro do Tutão da Corte, que he o supremo em todas as cousas, 
que tócaõ á Casa do Rey. Vivem também nesta cerca todos os mamatos, 
que lavaõ roupa a toda a cidade, que segundo nos affirmaraõ, passaõ 
de cem mil, por haver aqui grandes rios, e ribeiras de agoa, com infi- 
nidade de tanques muito fundos, e largos, fechados todos de cercas de 
cantaria muito forte, e de lágeas muito primas, e bem lavradas. Tem 



326 ANTOLOGU — PROSA 



mais o vaõ desta grande cerca, segando conta este Aquesendoo, mil e 
trezentas casas nobres, e officinas de muito custo de raolheres, e de 
homens religiosos, que professaõ as quatro leys principaes do numero 
das trinta e duas, que tia neste Império da Ctiina ; das quaes casas 
dizem que algQas tem das portas a dentro passante de mil pessoas, a 
fora dos servidores, que ministraõ de fora o necessário para sustentação 
delias. Vimos mais outra grande quantidade de casas, que tem edifí- 
cios muito grandes, e nobres com grandes cercas, em que ha jardins, 
e bosques espessos, onde se acha toda a maneyra de montaria, e caça 
quanta se pôde desejar, as quaes ca.sas nobres saõ como estalagens, 
aonde concorre de contino muita infinda genta assim a comer, como 
a ver Autos, farças, jogos, touros, lutas, e banquetes esplendidos. . . 

Comos fomos remettidos á cidade de Pequim 

. . . Um dia antes que nós partissemos, estando já embarcados na 
lanteaa, e presos de três em três por umas cadêas muito compridas, que 
á maneira de corrente vinham fechar nos elos que tínhamos nos pés, 
chegaram estes dous procuradores dos pobres, e provendo primeiro 
que tudo os mais necessitados com mantimento, e vestidos, conforme 
á necessidade que em cada um viam, nos perguntaram se havíamos 
mister alguma cousa para nossa viagem, a que respondemos, que de 
tudo Íamos tão faltos quanto Deus sabia ; mas que se até então lhe 
não tínhamos dito as muitas miseria8,que padecíamos, não fora senão 
a fim de lhes pedirmos, que a esmola que nos haviam de fazer fosse 
darem-nos uma carta para os tanigores d'aquella santa irmandade, em 
que lhe pedissem, que nos quisessem lá favorecer, porque éramos, 
como elles sabiam, tão desemparados, que ninguém na terra nos sabia 
o nome ; a que elles ambos responderam : — Não digaes isso, que é 
grande peccado, inda que vossa ignorância vos desculpa com Deus; 
porque sabei, que quanto mais abatidos fordes por serdes pobres no 
mundo, tanto mais altos sereis diante dos seus olhos, se com paciência 
soíTrerdes a pena, que a suberba carne sempre enjeita, porque assim 
como o pássaro não vóa sem asas, assim também a alma não merece 
sem obras. E quanto á carta, qupi pedis, vos daremos de muito boa 
vontade, visto quão necessária vos ha de ser, para que o favor dos bons 
vos não falte no tempo que o houverdes mister. — Então nos deram 
um sacco de arroz, e quatro taeís em prata, e uma colcha para nos 
cubrirmos; e nos encommendaram muito ao chífuu, que era o alcaide 
a quem íamos entregues, e se despediram de nós com muito boas pala- 
vras, e se tornaram a visitar a enfermaria da prisão que atras disse, 
onde então havia passante de trezentos enfermos : « como ao outro dia 
foi manhan clara, nos mandaram a carta, que lhe tínhamos pedido, 
mutrada com três sinetes de lacre verde . . . 

Como partimos para a cidade do Pequim e das grandezas 
da cidade de Nanquim. 

Sendo-nos dada esta carta, nos partimos ao outro dia ante-manhan 
presos da maneira que tenho contado; e continuando nossa viagem 
por jornadas incertas, por causa da impetuosa corrente, e grande força 
da agua, que n'aquelie tempo trazia o rio, fomos já quasi sol posto 
surgir a uma aidéa pequena, que se chamava Minhacutem, d'onde era 
natural o mesmo cbifuu, ou alcaide, que nos levava^ e ahí casado com 



sÉcoLO XVI 327 



mulher e filhos, na qual esteve três dias aviando algumas cousas. £ 
embarcando elle sua mulher, com toda a sua casa, e família, seguimos 
nossa derrota, em companhia de oulras muitas embarcações, que por 
aquelle rio iam para diversas partes dos anchaciiados e senhorios 
d'aquel!e império. E ainda que iamos presos ao banco da lanteaa, 
onde remávamos, nSo deixavam os olhos de vér cousas muito gran- 
diosas nas cidades, villas, e logares, que ao longo d'este grande rio 
estavam situadas, das quaes brevemente direi alguma cousa d'e8se 
pouco que vimos, e começarei logo por esta cidade de Nankim d'onde 
partimos Esta está em altura -de trinta e nove graus e um terço 
debaixo do norte, lançada ao longo d'este rio, por nome Batampina, 
que na nossa lingua quer dizer, frol do peixe ; o qual rio, segundo 
então nos disseram, e eu depois vi, sáe da Tartaria, de um lago por 
nome Fàostir, nove legoas da cidade de Lançame, onde o Taborlão, 
rei dos tártaros, reside o mais do tempo. D'este lago, que é de vinte 
e outo léguas de comprido, e doze de largo, e de grandíssimo fundo, 
saem os mais poderosos cinco rios, caudaes, que ha em todo o descu- 
berto . . . Esta cidade do Nankim está, como já disse, situada ao longo 
d'este rio da Batampina, em um teso de boa altura, por onde fica a 
cavalleiro das campinas, que estão em torno d'ella ; cujo clima é algum 
tanto frio, porém muito sadio. Tem outo léguas de cerca por todas as 
parles, a saber : três léguas de largo, e uma de comprido por cada parte ; 
a casaria commua é de um só, até dous sobrados, porem as casas dos 
mandarins são todas térreas, e cercadas de muro, e cava, em que ha 
pontes de boa cantaria, que dão serventia para as portas, as quaes todas 
tem arcos de muito custo, e riqueza ; com muitas diversidadees de inven- 
ções nos curuchéos dos telhados, o qual edifício visto todo por junto, 
representa aos olhos uma grande magestade. As casas dos chães e 
anchacys, e aytaus, e tutões, e chumbys, que são senhores, que governa- 
ram províncias, e reinos, tem torres muito altas, de seis e sete sobrados, 
com curuchéos cozidos em ouro, onde tem seus almazens d'arma8, 
suas recamaras, seus thesòuros, e seu movei de seda, e de peças muito 
ricas, com infinidade de porcellanas muito finas, que entre elles é 
pedraria ; a qual porcellana d'esta sorte não sae fora do reino, assim 
porque entre elles vale muito mais que entre nós, como por ser defeso 
com pena de morte vender-se a nenhum estrangeiro, salvo aos persas 
do Xatamaas, a que chamam Sofio, os quaes com licença que tem para 
isso, compram algumas peças por muito grande preço. ÂfiSrmaram- 
nos os chins, que tem esta cidade outocentos mil vezinhos, e vinte e 
quatro mil casas de mandarins, e sessenta e duas praças muito grandes, 
e cento e trinta casas de açougues de outenta talhos cada uma, e outo 
mil ruas ; de que as seiscentas, que são as mais nobres, tem todas ao 
comprido de uma banda, e de outra grades de latão muito grossas 
feitas ao torno. Aífirmaram-nos mais, que tem duas mil e trezentas 
casas de seus pagodes, de que as mil são mosteiros de gente professa, 
e são edifícios muito ricos, com torres de sessenta, e setenta sinos de 
metal, e de ferro coado muito grandes, que é cousa horrenda ouvillos 
, tanger. Tem mais esta cidade trinta prisões muito grandes, e fortes, 
em cada uma das quaes ha dous, e Ires mil presos, e a cada uma 
d'esta8 prisões responde uma casa como de misericórdia, que prevê 
toda a gente pobre, com seus procuradores ordinários em todos o» 
tribunaes de civil, e crime, e onde se fazem grandes esmolas. Todas 
estas ruas nobres tem arcos nas enteadas, com suas porta^,^ue se 
fecham de noute, e as mais d'eUas tem chafarizes d'agua muitODoa, e 



318 AIfTOLOGIA — PROSA 



sSú em si muito ricas, e de muito grande tracto. Tem todas as luas 
novas, e chéas, feiras geraes, onde concorre infinidade de gente de 
diversas partes, e ha n'ellas grandissima adundancia de mantimentos, 
quantos se podem imaginar, assim de fructas, como de carnes. O 
pescado d'esie no é tanto em tanta quantidade, principalmente de 
tainhas, e linguados, que parece impossivel dizer-se, o qual se vende 
todo vivo, com juncos mettidos pelos narizes, por onde vem depen- 
durados ; e afora este pescado fresco, o secco e salgado, que vem do 
mar, é também infinito. AfiBrmaram-nos mais os chins, que tinha dez 
mil teares de seda, porque d'aqui vai para todo o reino. A cidade em 
si é cercada de muro muito forte, e de boa cantaria, onde tem cento 
e trinta portas, para serventia da gente, as quaes todas tem pontes por 
cima das cavas. A cada porta d'e8tas eslava um porteiro com dous 
alabardeiros, para darem razão de tudo o que entra; e sae. Tem doze 
fortalezas roqueiras, quasi ao nosso modo, com baluartes, e torres 
muito altas, mas nâo tem artilharia nenhuma. Também nos aífirma- 
ram, que rendia esta cidade a el-rei todos os dias dois mil taeis de 
prata, que sâo três mil cruzados, como já disse muitas vezes. Dos 
paços reaes não direi nada, porque os nâo vimos senSo de fora, nem 
d'elles soubemos mais que o que os chins nos disseram, o qual é tanto 
que é muito para arreceiar contallo, e por isso nâo tractarei por agora 
d'elles, porque tenho por d'avante contar o que vimos nós da cidade 
do Pekim ; dos quais confesso que estou já agora arreceando haver de 
vir a contar ainda esse pouco que d'elles vimos ; nSo porque isso 
possa parecer estranho a quem viu as outras grandezas d'este reino 
da China, senão porque temo que os que quiseram medir o muito que 
ha pelas terras, que elles n5o viram, co pouco que vem nas terras 
em que se crearam, queiram pôr duvida, ou por ventura negar de 
todo o credito a aquellas cousas, que se não conformam com o seu 
entendimento, e com a sua pouca experiência. 

F. Mendes Pinto, Peregrinação, ed. 1604, c. cv, nxxvii, e lxixvui. 



LVII 

Da excellencía da vista sobre os outros sentidos, 
k do descobrimento da verdade. 

Indo praticando pelos censeyraes de Coimbra, ao longo do Mon- 
dego dous amigos, que sahiraõ da Cidade, hum delles daao muito ao 
estudo da humanidade, que presumia excessivamente de discreto, & 
grade Philosofo, & queria antes parecelo, que selo í da condição do» 
que escolhem antes latão lustroso, que prata sem lustro ) outro menos 
humanista, mas mais humano, encontrarão com hum Ermitão homem 
Religioso, & Leirado, de que tinhaõ conheciméto d'outro tempo, em que 
todos n'aquella Vniversidade estudarão, íc conversarão. E depois de 
saudados, &. passarem entre si algtlas amorosas palavras, perguntou o 
Philosofo ao Ermitão como estava, & que annos tinha de idade, por- 
que lhe parecia mais velho do que elle cuidava q era. Eu, respondeo 
o Ermitão, naõ estou, nem tenho hum .só anno de idade, & o mesmo- 
podem com verdade dizer de si todos os homés. Nova opinião, disse 
o Philosofo, he essa. Antes, tornou o Ermitão, naõ he nova, nem opi- 
nião, senaõ antiga, & manifesta verdade. Que se fora nova, começara 



SÉCULO XVI 329 



pouco ha, & ella he sentença dos sábios antigos, que de si deixarão 
gloriosa memoria : & se fora opinião, fora de cousas contingentes, & 
)ncertas, & ella he necessária, & certíssima. E eu, disse o Philosofo, 
tenhoa por falsíssima. E o he taõ sem duvida, que a naõ terá nisso, 
senaõ quem, segundo o costume dos Académicos, quiser em tudo duvi- 
dar. Ha verdades, disse o companheiro, que a nós naõ o parecem, naõ 
peio naõ serem, mas por naõ entendermos a diversidade do estilo em 
que saõ ditas. Digo isto, porque o Padre como se desnaturalizou do 
mundo, para que quanto delle estivesse mais apartado, tanto estivesse 
cõ Deos mais unido, &. quanto mais longe estivesse da terra & de si 
ainda mais longe, tanto mais perto estivesse do Ceo, tem outro estilo 
tam diíferente do nosso que havemos de entender, que se naõ enten- 
demos he, porque passa elle além das balisas de nosso entendimento, 
mas naõ porque em suas palavras haja erro nem falsidade. Naõ sei, 
disse o Philosofo, para que saõ razões para escusar hQa sem razaõ : 
pois de querer escusar húa nascem muitas. Assi como lançando hõa 
pedra em hum grande poço se faz hum circulo na agoa, & delle 
procede outro mayor, & este mayor faz outro mais estendido, apoz o 
qual vem outro, &. outros cada vez mayores quasi em infinito, assi de 
hum erro nasce outro, & este traz outro consigo mayor, apoz o qual 
vem outros muitos cada vez mayores quasi em iníinito se lhe naõ 
atalhaõ logo no principio. Fácil cousa seria atalhar logo no principio 
a hum rio, entupindolhe a fonte donde nasce, ou lançandolha por 
outra banda ; mas despois que nelle entraõ outro, & outros ribeiros, & 
com a entrada de muitos nos se faz poderoso, & fundo, naõ ha quem 
lhe possa resistir. Isto he o que diz Aristóteles, que piqueno erro no 
principio, se faz grande no fim, & que dado hum inconveniente se 
seguem muitos : & às vezes de naõ apagar hQa palha, se vem a atear 
o fogo em hfla e outra, atè que se vem a queimar toda hGa casa, & de 
piquena faisca se faz grande incêndio. Eu, disse o companheiro, naõ 
me determino logo taõ depressa como isso, a cõdenar o que naõ acabo 
de entender; & sempre tive para mim que as cousas se haviaõ de julgar 
com deliberação. Que, como diz Bias o Philosofo, segundo refere Laér- 
cio, nenhlla cousa be mais contraria a deliberar, que a ira, & a pressa. 
E naõ vos pareça que reprehendo a diligencia nas obras, antes tenho 
para mim, que naõ ha cousa que ella naõ vença. Porque assi como a 
negligencia be madrasta das virtudes, assi a diligencia he mSy de todas 
ellas. Ella he hfia mina de bês, & a negligencia hum pego sem fundo em 
que todos se afogaõ; mas a diligencia ha de ser pesada, & levantando 
nos pès as esporas da ligeireza, & velocidade, ha de levar na maõ as 
rédeas da razaõ, & do conselho : de maneira, que na deliberação ha 
de" hauer tardança, & na execução da boa obra pressa. Donde veyo 
aquelle taõ antigo, como famoso Provérbio : Apressate de vagar. . . 

Heitor PíqLo, Imagem da vida chrislã, ed. 1671, parte i, cap. i. 



LYIII 

Comparações. 

Assi como as ervas se crião com agoa mas sendo ella muita e dema- 
siada afogâo, assi os engenhos reverdecem e se aviventam com o tra- 
balho, mas sendo elle sobejo os abate e destrue. 



330 ANTOLOGIA — PROSA 



Assi como o feio sinal da ferida peior parece e mais disformidade 
faz no rosio que nas outras partes do corpo, assi o vicio mais detes- 
tável é no Príncipe que é a imagem em que lodos põem os olhos, que 
no vassalo pêra que menos se altenta. 

Assi como a terra amollece com a agoa assi o homem nobre abranda 
com boas palavras. 

Assi como as verdes canas quando crecem de quando em quando 
vSo fazendo uns nós como descansos, em que parece que a natureza 
descansa, não pêra ficar alli, mas pêra com maior força tornar a subir, 
assi os homens disciplinados no trabalho, vão ás vezes interpondo 
descanso a suas moléstias como nós em que descansem, não pêra 
tomar o corporal ócio por fim, mas por meio, para com maior esforço 
poder soifrer os importunos trabalhos e lançar mão dos honrosos 
exercícios. 

Assi como a faca por quererem com ella cortar ferro, fica bota 
pêra cortar, o pêra que foi feita ; assi o entendimento que quer pene- 
trar o que lhe não convém, fica inhabil pêra o que lhe convém. 

Assi como as espigas quanto mais gradas e carregadas estão tanto 
mais se abaixam e inclinam, e pelo contrario quanto mais leves e 
vazias estão tanto mais se endireitam e levantam pêra cima ; assi 
quanto mais cheios estão os homens dé virtude e bom saber tanto 
mais se humilham e abatem, e quanto mais vazias disto estão tanto 
mais se levantam e ensoberbecem. 

Assi corpo seccando-se a fonte se secca o ribeiro : assi seecando-se 
o interesse se secca também a amizade nascida não da virtude, mas 
da cobiça. 

Quem lava copos de vidro não hade carregar tanto a mão que os 
quebre, e quem reprehende ao amigo não hade assentar tanto a mão 
que magoe. 

Assi como não conhecemos a fineza do alambre senão se o esfre- 
gamos : assi não conhecemos a lealdade do amigo salvo se o experi- 
mentamos. 

Ueitor Pinto, ibid. 

LIX 

Qne as TÍctorias dos Porlugneses, em as partes das índias oriea- 
laes, se não hão de atribair a forças humanas : e porqne nas 
guerras dos Chrislãos ha infelizes sucessos. 

Cousa certa he, que não foz Deos menos mimos, e fauores ao pouo 
Christâo, que ao Hebreo, en cujo logar o substituio. E ainda q disto 
d6 testemunho as victorias de Theodosio, Constantino. Carolo magno. 
Cario quinto máximo ( quá assi o nomeou o Papa Paulo terceiro ) padre 
de elRey nosso Senhor, estamos os Portugueses tam ricos de exemplos 



sécuLO XVI 331 



próprios, qne bem podemos escusar a relaçío dos alheos. En nossas 
guerras, nunqua faltarão mostras de Deos as fauorecer, quomo suas : 
e porque nas partes remotíssimas do Oriente, conuinha mais enxer- 
garse este fauor, lá ouue por bem de mostrar muitas vezes, quam 
propicio era a nossas armas, e quanto tomaua á sua conta a honra 
delias. Sabemos, que en algfias batalhas, das q na índia aos nossos se 
derão, depois de muitos encontros, e recontros, se vio receberem os 
Portugueses os pelouros de ferro, no meo de seus corpos, sen o golpe 
lhes imprimir mais, que h<ia piquena nódoa. E o que he mais de 
admirar, que voltando delles quebrauSo os mesmos pelouros grandes 
escudos, e quanto achauâo ante si espedaçauSo. Taes sinaes, e visões 
do ceo se virão en guerras trauadas cos nossos, que fezerâo confessar 
aos bárbaros, que pelejara Deos por nos contra elles ; quomo antigua- 
mente confessarão os Egípcios, que Deos era da parte dos Hebreos. 
E esta confissão lhes seruia de desculpa do damno, que das armas dos 
nossos, en mui desigual numero, recebião. Os que isto não crem, 
roubão sua gloria a Deos, e ignorão, quantas forças tem a vera religião 
daquelles, que fundão, e esteão suas esperanças no emparo, e presidio 
de Deos, e por sua honra tratão armas pias, e justas. Porque Dauid 
pos en Deos sua confiança, por isso venceo, com hOa funda, o grande 
gigante Golias, que en suas forças vinha mui confiado ; e Gedeon, com 
panelas de barro, desbaratou os Madianitas. Quãto mais cada hfi, me- 
dindo se por seu spirito, cuida que tem bastante animo, para vencer 
quaisquer imigos, tanto mais lhe conuem poer a confiança no Senhor, 
e encomendarlhe a sua causa. Este foi o norte, que guiou o grande 
Duarte Pacheco, triumphador do Çamorim de Galicut, soldado, e Capi- 
tão felicíssimo, que tantas vezes, pola gloria de Christo, e dignidade 
delRey Dom Manoel, oífereceo a extremos perigos seu peito, indómito, 
e incansauel : a cujas victorias não se podem comparar as de qualquer 
outro Capitão, inda que seja o Africano, porque foram miraculosas. 

Amador Arráez, Diálogos, ed. 1589, dial. ni, C. xxi, pag. 109. 



LX 

Dureza da gente ladaíca. 

Grandes forão os trabalhos q o Senhor sofreo os annos que andou 
peregrinando pellas Cidades de Israel, & ludea, que o cansauão, &. 
affiigíão muyto mais que a própria peregrinação. Entres elles hum 
muyto principal foy a dureza da gele ludaica, q não só não queria 
receber, mas encontraua toda sua doutrina, & diuinas obras : & delia 
como de fonte nacerâo todos os trabalhos, que a Christo nosso Senhor 
derão, & sua ^ própria perdição. Antiquíssimo vicio he na nação 
ludaica a dureza de coração, & de que está a diuinaEscripluracheya. 
Tanto que sendo entre todas as nações do mundo escolhida pêra pouo 
de Deus, apartado de todas as gêtes pêra o seruir, & adorar, & espan- 
tando Deos o mundo com marauilhas que por elle fazia, nunca o pode 
dobrar a seu seruiço, & obediência. Feios descendentes de troncos de 
Patriarchas santos, sempre os trouxe nas palmas das maõs, cheyos 
de mimos, & riquíssimas mercês : a elles fez todas as promessas do 
Messias, &. de todos os bêa da terra, Se. do Ceo : esteue no monte Syna 



332 ANTOLOGIA 



à fala com elles, mandandolhes muytos Prophetas : deuUies em seus 
pecados espantosos castigos : perdoaualhes depois com admiraueis 
fauores : liurauaos de todos seus inimigos, prouiaos larguissinjamente, 
& por vias desacostumadas em todas suas necessidades : & cõ nenhQa 
cousa os pode ntlca ter sujeitos, sempre lhe forâo rebeldes, sempre 
mãos de contentar, sempre talsos nas promessas que faziâo de o seruir. 
A Moyses no deserto quiserâo apedrejar. A vista de Deos q estava 
no monte Synai todo inflamado, falando cõ elle tlzerão hQ bezerro de 
ouro, &. com festa o adorarão. Ora lhe matauão seus prefetas, ora 
punhâo ídolos pêra tirar o pouo de adorar a Ueos no seu Templo, ora 
adoravSo os deoses das outras gentes : em tim que sempre andauâo ao 
reues da vontade de Deos. E he tanto desta nação de juro, & herdade, 
dureza de coração, que ainda hoje em dia a experiência nestas partes 
de Berbéria ( onde ha grandes pouoações delles ) nos mostra que não 
só saõ tão duros que nem conuencidos pelias diuinas Escripturas em 
seus erros, & chegados a de todo não saberem contradizer a verdade 
manifesta, por nenhum caso se querem render, mas antes se prezão de 
dura seruiz, &. tomão por honra o que Deos contra sua dureza diz na 
sagrada Escnptura, como gente q se não rende facilmente, senão às 
cousas q forê muyto palpaueis, & vistas a olho. E sendo na vida, & 
na malícia a pior, mais mal inclinada gente que na natureza, & mundo 
pode auer, assi se tem hoje por povo mimoso, <5t escolhido de Deos & 
pella melhor, & mais aceita gente a elle, como se pudera ter o próprio 
santo Abrahâo, de quem descendera. E claro se ve nelles o q diz a 
diuina Escriplura, que saõ vendidos pêra fazer mal. Porque assi o 
tem por vida, «Sc officio, que tirando-lhes Deos todos os bês temporaes 
que concede a todas as outras erradas nações, so lhes ficou a mentira, 
óc engano de q viuessem, só delia se manlem : & isto com trazerem 
sempre o nome de Deus na boca. . . 

Fr. Tomé de Jesus, Traòallios de /cus, ed. 1602, trab. xix, pag. 327 t. 



LXI 

Do qve passoa Palmeirim de Inglaterra cm companhia 
da donzella qae o leaaoa cõsigo. 

Palmeirim de Inglaterra seguio trás a dõzella ao mayor passo de seu 
cauallo, porq a sua pressa não consentia nenhO repouso. E posto q 
muitas vezes quis saber delia onde o leuaua, nQca cõ choro lho pode 
dizer. Assi passarão todo aquelle dia & noite sem repouso nenhtt, le- 
aãdo ja as caualgaduras lã casadas q não se podião bulir, ao outro dia 
pela manhaã quando a alua rompia, passarão pello pee de hum castello 
que se velaua. A dõzella se desuiou da estrada, rogando a Palmeirim 
que a esperasse, & chegando ao castello failou com um dos valladores 
algQas palauras que não ouvio, & dalli tornando se para elle seguiram 
seu caminho com mayor pressa q de antes, & cõ ella andarão tee horas 
de meyo dia q chegarão a hQ vaile grade & gracioso q estaua ao logo 
da faldra de hQa pequena villa, que era no Ducado de Rossilhõ. Alli 
lhe disse q se decesse em quanto ella hia ter ao lugar & logo tornaria 
a elle. Palmeirim a q o afrontamento do caminho fez desejar algQ 
repouso, apeouse do cauallo, òt desenlaçou o elmo para melhor poder 



SÉCULO XVI 333 



desabafar do trabalho. A dõzella como quem nâo sofria nenhd vagar 
em suas cousas, porque a necesidade delias requeria muita pressa, 
foy à villa e fez volta tâo prestes como se o seu palafrem andara em 
toda sua força, & chegando a Palmeirim vendoo sem elmo, tão moço 
& gentil homem nam ficou contente, crendo que para sua afronta 
achara fraco remédio, dizêdo mal à sua vêtura se queixaua mais q de 
antes. Palmeirim mouido de piedade, nâo sabêdo a razão porq se assi 
mataua rogoulhe que sem pejo lha dissesse. 

— Que quereis que vos diga senhor eaualleiro, disse a dõzella, senam 
que sou a mais mal auenturada molher do mundo, que indo buscar 
algum eaualleiro famoso para hQa necessidade grande, reuolui a corte 
de França, & dando conta aos melhores delia nenhum quis aceitar o 
que lhe pedi, que lhe pareceo graue de acabar, & vindo quasi deses- 
perada acerley de chegar ao valle onde Floreada estaua, para lhe pedir 
que mandasse comigo algum dos seus goardadores em que mais con- 
fiasse, & porque vos vi em companhia de outro eaualleiro que os 
estaua derribando todos, cuidey que fosseis assim como elle, & pedivos 
que me seguísseis sem vos querer dar conta do caso, que temi que 
sabido não quisésseis vir comigo. Agora que estaua, ao pee da obra 
vejo vos tam menino & moço, «Sc de tam poucas forças ao parecer que 
perdi algCía esperança se a em vos trazia. 

— Senhora, disse Palmeirim, a razão & justiça queria que tiuesseis 
de vossa parte que no mais eu farey o que poder & por ventura será 
mais do que julgais pola idade, por isso peçovos que sem nenhum 
receo me digais ao que vim, que no que vos de mim comprir auentu- 
rarey a vida a qualquer perigo. 

— Ay senhor que boas paiauras, disse a donzella, se a obra dissesse 
com ellas. Sabey que nesta villa que vedes estam presas três donzellas 
filhas de hum gram senhor que auia nesta terra, & porque seu pay 
nam quis casalas com o Duque de Rosilhom & outros dous seus irmãos, 
tiuerão maneira como por treição o mataram, e elles a ellas trouxerão 
a esta fortaleza por força, & porq nflca quiserão cõceder seu desejo, 
derãolhe espaço te oje, q he o derradeiro dia, para que buscassem algQ 
eaualleiro q por força as tirasse de seu poder, & auiase de combater 
desta maneira. Primeiramente à entrada da fortaleza cõ Bramarim 
primo do Duque, temido e nomeado em todo este Reyno, & veneendoo 
ase de combater com outros dous caualleiros jQtamSle tambê seus 
parétes & mais esforçados, a que chamão Olistar & Aifarim, & sahindo 
desta batalha vencedor, combaterse com o Duque & seus dous irmãos, 
q cada um por si he tam especial eaualleiro q basta para o melhor 
desta terra, & por que oje he o derradeiro dia do prazo, no qual ellas 
ham de ser degoladas, nam dando eaualleiro que por si faça estas 
batalhas, dey a pressa que vistes em vossa vinda. Agora fuy ter à 
villa para lhe fazer saber que trazia comigo um eaualleiro que se com 
elles combatesse segundo estaua ordenado, de que o Duque esta muy 
aluoroçado & contente eremdo que irá com seu propósito auante, pola 
muita confiança que em si & nos outros caualleiros de sua casa tem. 

— Por certo, senhora donzella, disse o muy esforçado Palmeirim de 
Inglaterra, agora nam me espanto, nem menos ey por muito recearem 
alguns caualleiros vir a tão incerta &. duuidosa demanda como essa 
he, & pareeeme muy mal de el Rey consentir que em seu senhorio se 
faça hQa tamanha sem razão como essa, alem de ser agrauo feito a 
molheres, cousa que antre os homés de grade preço se nã devia cõsen- 
tir : & pois o mais do dia he gastado, & para tãtas batalhas fica pouco 



334 ANTOLOGIA — PROSA 



espaço, partamos logo, que eu espero em Deos q a maldade desse seja 
causa de seu vencimento. 

E sem mais dizer, enlaçou o elmo, menencorio de cousa tam mal 
feita. A donzella q punha os olhos nelle, quando o vio com tam bom 
desejo & pouco temor, cobrou mais algum esforço do que lhe ficara 
depois que o vira, & ambos juntamente entraram pola villa, ét foram 
à fortaleza que eslaua bem assentada & forte Cousa que aos mãos 
quando sam poderosos se nam auia de consentir, porq muitas vezes a 
confiança destas forças he causa de muitos erros. 

Fr. de Moraes, Palmeirim de Inglaterra, ed. 1592, p. ii, caji. lxviii, pg. 73. 



Quadro sinótico do movimento político, 

social e literário 

correspondente à escola Gong-órica 

ou Seiscentista 



I 

Monarcas portugueses 

Felipe 1 1880-1598 

Felipe II 1598-1621 

Felipe III 1621-16Í0 

D. Jo5o IV 1640-1656 

D. Afonso VI 1656-1668 

D. Pedro II ( regente ) 1668-1680 

D. Pedro II 1683-1706 



n 

Sincronismo politico e social 

1584 — Assassínio do Príncipe de Orange, 

1587 — Execução da rainha da Escócia Maria Stuart. 

1594 — Henrique IV sobe ao trono de França. 

1603 — Morle de Isabel, rainha de Inglaterra. 

1609 — Expulsão dos Moiros de Espanha. 

1618-1648 — Duração da guerra dos Trinta annos, que termina com 

o tratado de Vestfália. 
1624-1642 — Governo de Richelieu. 
1630 — Vitórias de Gustavo-Adolfo. 
1632 — Morte dôste herói. 
1640 — Sublevação da Catalunha. 
1643 — Principia a reinar Luis XIV. 



336 ANTOLOOIA — PROSA 



III 

Sincronismo literário 

Espanha 

E' um período brilhantíssimo para a literatura espanhola o prin- 
cipio do sec. XVII. Citemos entre os poetas : 

LopE DE Vega-Cakpio ( 1562-1635 ), fecundissimo poeta, fundador 
do teatro em Espanha, para o qual escreveu centenas de composiçõis 
que podem classificar-se em l." comédias de capa e espada ou de enredo ; 
2." dramas históricos ; 3." comédias familiares ; e 4." Autos. Atribuem- 
se-lhe 1.800 comédias em três actos [21 milhõis de versos!] e 400 
autos; escreveu 5 dramas em quinze dias. 

Leis Velez de Guevara (1570-1643 ), deixou, entre muitas outras 
comédias, a intitulada Reinar despvés de morir sobre D. Inês de Castro, 
e a novela salirica El diablo cojuelo ( diabo coxo ), que Lesage imitou 
no Diable boiteux. 

Tirso de Molina ( 1585-1648), pseudónimo de Gabriel Télez, àlôm 
de comédias e autos escreveu El burlador de Sevilla, onde descreveu 
com grande energia o tipo de D. Juan, que depois se universalizou. 

Pedro Calderon de la Barca ( 1600-1681 ) rival de Lope de Vega, 
ã quem é superior no estudo das personagens que pôs em scena nos 
seus numerosos Autos sacramentaes. 

Luís de Góngora (1561-1627) escreveu no género lírico e narra- 
tivo muitas composiçõis em estilo, a que ele chamava Culto e que é 
também conhecido por Gongorico. NSo obstante a acusação, aliás 
verdadeira, de ser esse estilo um tecido de metáforas obscuras e 
ridículas, Gongora conseguiu impô-lo com as suas obras Soledades, 
Polifemo, Pyrame y Thisbe. 

Francisco de Qoevedo (1580-1645), dotado de grande talento 
critico e satírico, autor de composiçõis em prosa e verso muito esti- 
madas, como La historia dei grande tacaiio e Los suenos. 

Como historiadores : 

António de Solis ( 1610-1686 ) que além de obras poéticas, escre- 
veu a Historia da conquista no México, no género de Quinto Cúrcio, 
muitas vezes reimpressa. 

NicoLAD António, autor da Biblioteca Hispana, obra de paciente 
investigação bio-bibliográfiea. 

França 

Vigorou em França nesta época o chamado Preciosismo que foi 
importado daíltália. 



CAPITULO IV — KSCOLl GONGORICA OU SEISCENTISTA 337 



A literatura do Palácio de Rambouillet corresponde no gosto e no 
estilo ao gongorismo da Península. O Hotel de Rambouillet bem como 
os salõis de M."' de Scudéry criam o pedantismo e a afectação, o que 
não impede que apareçam alguns grandes escritores, como passamos 
a ver. 

Malherbe ( 1555-1628 ) consegue libertar-se desta desastrada 
influência, sendo correcto e natural. Boileau aplicou-lhe o famoso 
verso : Enfin, Malherbe vint ... E' considerado om reformador da 
lingoa. 

La Fontaine (1621-1695) o afamado fabulista inegualavel no 
género. [ Tr. portug. : Curvo Semedo, Trad. livre das melhores fabulas 
de Laf., Lisboa, 1820; Filinto Elysio, Obras, vi, ed. de Londres, 1813, 
2 vols. ; Vicente Pedro Nolasco da Cunha, O homem singular in — 
O Investigador português; António Vicente de Carvalho e Sousa, Duas 
Desposadas, Lisboa, 1829, 4 vols.]. 

MoLiÈRE ( 1622-1691 ), talento genial, cujas obras primas sam 
conhecidas em todos os povos civilizados. [ Em portug. : Manoel de 
Figueiredo, Theatro, vii ; Manoel de Sousa, Tartufo ou o hypocrita, 
Lisboa, 1768; id. O peão fidalgo, ibid., 1769; João Augusto Novaes 
Vieira, Código do amor. Porto, 1856 ; Castilho, Tartufo, Avarento, 
Medico á força, Sabichonas, Misantropo ; Coelho de Carvalho, Escola 
de mulheres, comedia em 5 actos em verso, versão libérrima, Lis- 
boa, 1907 ]. 

BoiLKAU (1636-1711 ) autor do poema heroi-cómico Lutrin ( Estante 
do coro ), imitado pelo nosso Cruz e Silva no Hyssope, e da Arte 
Poética, além de Sátiras e de Cartas. [ Em portug. : Pedro José da 
Fonseca, Sátira do Homem, Lisboa, 1800; António Lobo ... GirSo, 
Trad. livre ou imitação da Sátira do Homem, Lisboa^ 1827; Id., Trad. 
livre ou imitação do Lutrin ou Estante do coro, Lisboa, 1834; António 
José de Lima Leitão, A estante do coro. . . Lisboa, 1834; D. Fr. Xavier 
de Meneses, Arte Poética, 1818]. 

CoRNEiLLE ( 1606-1684 ), que deixou as obras primas da tragédia 
francesa Cid, Horace, dedicada a Richelieu, Cinna, o Polyeucte. [ Em 
porlug. : António José de Paula, O Cid, em verso...; Manuel de 
Figueiredo, O Cid in Theatro, viii; Id., Cinna, ibid.; Anónimo, O Cid, 
versSo em verso ( Innoc, vii, 298 ) ]. 

Racine ( 1639-1699 ) outro génio da scena francesa de quem temos, 
para somente nomear as principais, as tragédias Andromaque, Britan- 
nicus, Mithridate, Iphigénie, e sobretudo Eslher e Athalie. [Em portug.: 
Francisco José Freire, Alhalia, Lisboa, 1762 ; Sebastião Francisco 
Mendo Trigoso, Fedra, Lisboa, 1813; Manoel Joaquim da Silva Porto, 
Phedra, Rio de Janeiro, 1816; A. J. da Silva Leitão, Ifigenia, Rio de 
Janeiro, 1816, Id., Andrómaca, ibid., 18I7J. 

22 



338 HISTÓRIA DA UTEBATOHA P0BTUGUB8A 



A eloquência sagrada conta os seus melhores representantes neste 
século : 

BossuBT (1627-1704) imortalizado pelas Oraçõis fúnebres, pelo 
Discours sur Vhistoire universelle e pela Hist. des variations des Egliset 
protestantes. [ Em portug. : A. Soares Barbosa, Elevação o Deos tohre 
os mistérios da religião ]. 

BocRDALOUE ( 1632-1704 ), Flechier ( 1632-1710 ). [ Em porlug. : 
José Manoel Ribeiro Pereira, Compendio das oraçõis fúnebres, Lisboa, 
1764; Manoel de Sousa, Vida de Teodósio o grande, Lisboa, 178...], 
Fénélon ( 1651-1715 ). [Em portug. : Manoel de Sousa, O Telemaco, 
Lisboa, 1776, 2 vols. ; José Manoel Ribeiro Pereira, Aventuras de 
Telemaco. 1780, 2 vols ; Aventuras de Telemaco, tr. de Manoel de Sousa 
e de Fr. Manoel do Nascimento, retocada e correcta por José da Fonseca, 
Paris, 1855, 1 vol. ] e Massilon ( 1663-1742). [ Em portug. : António 
José Viale, Conferencias ecclesiasticas de. . . trad. em portug. e a e.Tpen- 
$as de S. M. a Rainha D. Estephania, Lisboa, 1859 ; Fr. José do 
Espirito Santo Monte, Pensamentos sublimes, . . . Lisboa, 1786] embora 
inferiores a Bossuet, sam modelos do género e perfeitos cultores da 
lingoa. 

Entre os filósofos podemos nomear principalmente : 

Descartes ( 1596-1650 ), cuja obra capital é o Discurso sobre o 
método. 

Pascal ( 1623-1662) que não só nos seus Pensées, mas ainda nas 
Lettres Provinciales deu provas de extraordinário vigor de lingoagem 
aliado a uma grande beleza e concisão. 

Mallebranche (1638-1715) imprime á filosofia cartesiana uma 
feíçío religiosa reflectindo a um tempo PiatSo e S. Agostinho. 

La Rochefoucaold ( 1613-1680| ). [ Em portug. : Caetano Lopes 
de Moura, Máximas e sentenças moraes pelo Duque de Rochefoucauld, 
Paris, 1840 J e La Bruvère (1645-1695) sam dois pensadores des- 
tintos, sobresaíndo no talento de observação como o revelam as 
Máximas do primeiro, e os Caracteres do segundo. 

Na história : 

Cardeal de Retzb ( 1614-1679 ), homem politico que nas suas 
interessantes Memórias, se revela escritor vigoroso e correcto. 

Saint-Real ( 1639-1692 ), cuja obra principal é a Conjuração de 
Veneza. 

Vbrtot (1665-1735) que, se outros tilulos não tivera, merecia 
aqui menção condigna por se ter ocupado da nossa história nas 
suas Revolutions de Portugal ( 1689 ). 

Fledrt ( 1640-1723 ) é autor duma estimada História Eclesiástica. 
[ Em portug. : João Rosado de Vila-Lobos e Vasconcelos, Os costu- 
mes dos israelitas, Lisboa, 1778]. 



CAPITULO rvr — bscola gongorica ou seiscentista 339 



No género epistolar : 

Madame de Sévigné (1626-1696), cujas Cartas dirigidas a sua 
iiltia manifestam finíssimas qualidades de observadora, e que ficaram 
como monumento de estilo familiar. 

Itália 

Bastariam os nomes de Galileo (1544-1642) e de Tobricelli 
( 1608-1647 ) para imortalizar este período. Mas a literatura atra'- 
vessou uma fase de decadência por caasa do máo gosto que dominou 
e que foi devido á influência de 

Marini ( 1569-1623 ), que pelas suas composiçõis se tornou o chefe 
da plêiada conhecida pelo nome de Marinistas. Foi o grande corru- 
tor do gosto italiano pelo abuso que cometeu dos concetti e das antí- 
teses. A sua obra prima Adónis levantou renhidas polémicas. Tendo 
vivido em França e ganhado as simpatias de Maria de Medíeis, esta 
deu-lhe uma pensão de dous mil escudos. Marini consagrou-lhe um 
poema — O Templo — que é uma série de metáforas. 

Tassoni (1565-1635) é conhecido sobretudo pelo seu poema 
heroi-cómico La secchia rapita ( o balde roubado ). 

GuARiNi ( 1537-1622 ) adquiriu imerecida reputação com o drama 
pastoril Pastor Fido. 

Sarpi ( 1552-1623) deixou a célebre História do Concilio de Trento, 
á qual respondeu 

Pallavicini ( 1607-1667 ), não conseguindo igualá-lo na singeleza 
e animação do estilo. 

Inglaterra 

Á Inglaterra sofre da mesma decadência e do mesmo máo gosto 
das outras naçõis no que respeita á extravagância da lingoagem e 
dos assuntos literários. Ghamou-se a essa corrente Eufuismo do 
romance de 

John Lyly (1553-1606) intitulado Euphues e que teve grande voga 
no seu tempo. Escrito em lingoagem especial, diferente da forma 
ordinária, o Eufuismo, assim chamado pelo próprio Lyly, devia ser a 
regra e o modelo de todos os escritores. A literatura inglesa conta, 
porém, neste período o seu grande poeta 

Milton ( 1608-1674 ) cujo Paraiso Perdido ele, pobre, esquecido e 
cego ditou a sua molher e aos seus dous filhos. Em doze cantos e em 
verso branco o The Paradis Lost, sobre ser um monumento da poesia 
inglesa, é uma obra-prima do espírito humano. [Em portug. : José 
Amaro da Silva, Paraiso Perdido . . . Lisboa, 1780, 2 vol. ; Francisco 
Bento Maria Tarj^ini ( Foi Visconde de S. Lourenço ), O Paraiso Per- 
dido ...em verso ..., Paris, 1823, 2 vols. ; António José de Lima 
Leitão, O Paraiso Perdido . . . em verso . . . , Lisboa, 1840, 2 voU., 



340 HISTÓRIA DA LITERATUBA PORTUGUESA 



reimpresso em 1908, Lisboa]. JoSo Félix Pereira, trad. em verso 
solto hendecassilabo, in A Nação, 28 nov. 1868 a 21 set. 1869. Do 
mesmo trad. em prosa no mesmo jornal, 30 set. 1869 a 20 nov. 1870. 

Merecem ainda apontar-se : 

Dryden ( 1631-1701 ) o maior poeta inglô», depois de Milton, cultor 
de vários géneros literários em prosa e verso. [ Em portug. : António 
de Araújo de Azevedo, Ode de Dryden para o dia de Santa Cecília, 
s. a. n. I. ]. 

John Bunyan ( 1628-1688 ) escreveu a Viagem do Peregrino (Pil- 
grim's progressj muito estimável. 

A fílósofia é representada por três nomes notáveis : Bacon 
( 15til-1626), restaurador do método e iniciador dum grande movi- 
mento filosófico ; HoBBKS ( 1588-1679 ) e Locke ( 1632-1704 ). [ Em 
portug. : João de Oliveira de Carvalho, Ensaio sobre a verdadeira 
origem, extensão e fim do governo civil, Lisboa, 1834], aquele autor 
do Levialhan em que se encontram expostos os princípios do autor 
em psicologia, moral e politica ; este que tem, além doutras obras, 
o Ensaio sobre o entendimento humano em que seguiu a escola sensua- 
lista, que explicava todas as idéas como oriundas dos sentidos. 

Alemanha 

A Alemanha ilustrada neste século pelos filósofos Leibmz ( 1646- 
1718) e WoLFF (1679-1754), teve um grande escritor em Opitz, 
(1597-1639) que foi poeta e dramaturgo, deixando aos seus discí- 
pulos regras de metrifieaçáo no seu Pequeno tratado de poesia alemã. 

HoFFMANN ( 1618-1679 ) e Lohenstein ( 1683-1683 ) agravaram os 
defeitos que já se revelavam em Opitz tomando como modelos Marini 
e Gongora. 



CAPITULO IV 



Escola Gongórica ou Seiscentista 

( Sec. XVII ) 

Sumário : 97, Decadência literária, seus factores. — 98. Censura e 
índices expurgatórios. — 99. Universidade de Évora. — 100. Escola 
Gongórica, caracteres. — 101. Academias literárias. — 102 Acade- 
mias literárias portuguesas : a) A. dos generosos; b) A. dos singulares. 
103. Representantes do lirismo no século xvii. — 104. Francisco 
Rodrigues Lobo. — 105. D. Francisco Manoel de Melo. — 106. 
Outros líricos deste período. — 107. Representantes do género 
satírico. — 108. D. Tomás de Noronha. — 109. António SerrSo de 
Castro. — 110. Diogo de Sousa ou Camacho. — 111. Poesia épica, 
seu caracter. — 112. Gabriel Pereira de Castro. — 113. Francisco de 
Sá de Meneses. — 114. Vasco Mousinho. — 115. António de Sousa 
de Macedo. — 116, Brás Garcia de Mascarenhas. — 117. O teatro 
no século XVII. — 118. Caracter da História. — 119. Fr. Bernardo de 
Brito e seus continuadores. — 120. Fr, Luís de Sousa, — 121. Faria 
e Sousa. — 122. Jacinto Freire. — 123. Historiadores menos impor- 
tantes. — 124. Viajens. — 125. Eloquência : seus representantes. 
126. António Vieira. — 127. Manoel Bernardes. — 128. Trabalhos 
filológicos no século xvii. — 129, O jornalismo. — 130, Episto- 
lografia. Cartas da Religiosa Portuguesa. 



ÔT. — Decadência literária; seus factores. A qua- 
dra literária do século xvn representa para Portugal um 
periodo de grande decadência. Os prenúncios deste aba- 
timento geral, que não só literário, vinham já do reinado 
de D. João III, aumentaram nos anos da menoridade 
de D. Sebastião, e nos dias do Cardeal rei D. Henrique 



3\2 HISTÓRIA DA LltKRiTURA POBTUGPKSA. 

(1578-1580) acabaram de caraclerizar-se com mais 
vigor *. 

D. João III julgou obstar à invasão da reforma luterana, 
que lavrava como violento incêndio por toda a Europa, 
solicitando de Roma o estabelecimento da inquisição. 
Gastando rios de dinheiro e empenhando nessa empresa a 
boa vontade e energia dos nossos melhores diplomatas, 
pôde enfim, vencida a relutância de Roma, obter a bula 
de 23 de maio de 1537 que definitivamente fundava em 
Portugal o terrivel instituto. 

Com a inquisição vieram os jesuítas. Ainda antes de 
confirmada, já de Roma em 1540 vinham para Portugal 
membros da afamada Companhia e por tal forma se con- 
duziam e impunham ao ânimo de D. João III, qne entre 
1552 e 1555 o ensino tinha caldo nas suas mãos *. Uma 
provisão de 10 de dezembro deste último ano expedida 
a Diogo de Teive, mandava entregar ao Provincial da 
Companhia nestes reinos, que era Diogo Miram, o Colégio 
das Artes para que os Padres dirigissem e lessem as Artes 
e tudo o mais que lessem os mestres franceses. Já por um 
alvará anterior — 2 de janeiro de 1552 — os professores 
deste Colégio haviam sido egualados em honras e previlé- 
gios aos da Universidade. 

Em breve foram despedidos dos seus logares muitos 
professores, alguns de reputação europeia, como Buchanan, 
Vinet, Fabrício, Nicolau de Gruchy, Resende, Teive, Costa 
e quantos, diz Cenáculo, em Coimbra e outras partes diri- 
giam o Colégio das Artes e os estudos das humanidades. 
Para cohonestar tal procedimento deram se a alguns destes 
professores logares que parecia de justiça : a Diogo de 
Teive um canonicato em Miranda, a João da Costa a 
igreja de S. Miguei em Aveiro ; ficaram outros ensinando 



' Rebello da Silva, Hist. de Port. no$ sec. xvil e XVIII, t. v. 
* Coelho da Rocha^ Ensaio sobre a hist. do gov. e legisl. de Portugal. 
pg. 158. 



CAPITDLO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 343 



como particulares, outros saíram do reino ou para retiro 
dentro dele *. 

Q8- — Censura e índices expurgatórios. Com os 
jesuítas e a inquisição entraram em pouco tempo em Por- 
tugal estes dous grandes obstáculos à cultura literária do 
nosso país. Quando João de Barros em 1539 imprimia a 
sna Cartinha já foi necessária a licença do Santo- Oficio. 

Dous anos depois em 1541 o Cardeal-rei proibia que 
se vendesse em Portugal ,o livro de Damião de Góes 
impresso em Paris com o titulo Fides, religio, moresque 
Aetiopum. Em 1551 foi pela primeira vez publicado um 
índice expurgatório ou de livros proibidos — Rol dos 
livros defesos por o Cardeal Iffante, inquisidor geral nestes 
reynos de Portugal ^, logo seguido de outros mais perfei- 
tos e completos. 

E era assim que, para se publicar um livro, se torna- 
vam indispensáveis três licenças — a do Desembargo do 
Paço, a do Ordinário e a do Santo-Ofício. Os livros que 
do estranjeiro vinham para Portugal eram primeiramente 
entregues a um Comissário da Inquisição ^. 

O original dos Lusíadas do nosso grande épico teve a 
censura, embora muito benévola, de Fr. Bartolomeu Fer- 
reira e assim passou quasi incólume para a ed. de 1572, 
sendo já essa censura exagerada na ed. de 1584 *. As 
obras de Gil Vicente, pela primeira vez publicadas juntas 
em 1562, sofreram egualmente censura. Pode julgar-se 



1 Mem. Hisl. do superior provincial ...da ordem terceira ( Cená- 
culo ), Lisboa, 1794, \i, 71. Obra muito erudita e interessante. 

2 lunoc, Dic. BM., x, 387. 

' Abade Corrêa da Serra, Mem. ou vista rápida sobre o estado das 
sciencias e Bellas-Lettras em Portugal durante a ultima metade do sec. 
passado (o 18.°)... trad. e publicado no Primeiro Ensaio de Freire 
de Carvalho, já cit., pg. 401-403. 

* S. Viterbo, Fr. Bariholomeu Ferreira o primeiro censor dos Lusia- 
das, etc, Lisboa, 1891. 



344 HISTÓRIA DA LITKRATtTRA PORTOODKSA 

se, sob semelhante regimen, a literatura deveria ou não 
de sofrer necessariamente rudes e certeiros golpes *. 

Para agravar este deplorável estado de coisas, vem a 
empresa mal concebida e peior executada de D. Sebastião, 
que sepultou a flor do exército português nos areais de 
Alcacer-Qêbir ; segue-se depois a regência desgraçada- 
mente imbecil do Cardeal-rei e, a coroar este sudário, o 
domínio de Castela. O resto de vigor que ainda susten- 
tava a nação extinguiu-se. Uma só das causas que apon- 
tamos seria bastante para dolorosamente se fazer sentir 
na expansão da vida nacional. E elas eram tais e tantas! 

G&. — Universidade de Évora. Em i55i o Cardeal 
D. Henrique fundava em Évora o chamado Colégio em 
que se estudava somente Teologia Moral e Humanidades ; 
ao cabo de muitos esforços conseguiu ele que esse Colégio 
fosse elevado á categoria de Universidade por Bula de 
Paulo IV de i8 de setembro de 1558 com a cláusula de 
nela se não ensinar o Direito Civil, o Canónico no foro 
contencioso, nem a Medicina. 

Um alvará de 4 de abril de 4562 de D. Sebastião 
concedia á nova Universidade os mesmos previlégios, 
direitos, isençõis e prerogalivas que tinha a de Coimbra. 
Aí se cursavam três cadeiras de Teologia Escolástica, uma 
de Positiva, duas de Moral, quatro de Filosofia, duas de 
Retórica e duas de Humanidades. Foram naturalmente os 
jesuítas os encarregados da administração e ensino da 
nova escola e por aí se pode imaginar a direcção que 
imprimiram aos estudos. Até o próprio André de Resende, 
o famoso humanista, tam « estimado de Sua Alteza que 
por lhe fazer honra o ia ouvir algumas vezes, auctorizando 



Vide o Breve estudo sobre a historia da censura literária em 
Portugal posto pelo Sr. Th. Braga, à frente do vol. Obras inéditas de 
José Agostinho de Macedo, Censuras, etc. Lisboa^ 1901. 



CAPITULO IV — ESCOLA 60NG0RICA OU SEISCENTISTA 345 

com sua real presença a escola de tam insigne Mestre » 
até esse foi proibido de ensinar latim na cidade de Évora M 
E o cronista da Companhia lá diz que não « havia negocio 
de importância e de confiança pertencente ao serviço de 
Deus, que [o Cardeal D. Henrique] não fiasse e entre- 
gasse á Companhia 1 » *. 

lOO. — Escola Gongórica; caracteres. A Espanha 
exerceu sobre nós a perniciosa influência do mão gosto 
literário, de que ela própria também enfermava. Não 
foram os seus e nossos reis os culpados. Está hoje 
provado, que os Felipes longe de procurarem proposita- 
damente o embrutecimento do povo para apagarem quais- 
quer idéas de independência e de liberdade, antes se 
esforçaram por concorrer para o desenvolvimento da 
cultura geral. No seu tempo o número dos mestres e dos 
alumnos augmentou consideravelmente ^. Se em Portugal 
era má a situação literária, o mesmo sucedia em Espanha 
e nas outras naçõis da Europa, como afirma Ticknor * e 
os factos o comprovam. São os conceitos à Marini em 
Itália ; é o Euphuismo em Inglaterra, é o pedantismo do 
Hotel de Rambouillet em França,, doenças perfeitamente 
correspondentes à da península. A evolução política con- 
correu apenas para que mais se estreitassem os laços 



i Chron. da Companhia pelo jesuíta Telles, p. ii, I. v, c. xiv, § 9. 
Sobre a universidade de Evora podem consultar-se : Évora Gloriosa, 
pg. 416, n." 723 ; Mem. dei rei, D. Sebaslião, Machado, p. 1, 1. 1, c. 9 ; 
Bibl. Lusil., verb. D. Henrique, e Collegio de Evora ; Fr. de Carvalho, 
Primeiro Ensaio, cit., pg. 122 e 123 ; e vários Documentos coligidos 
pelo Dr. António José Teixeira, lente de Matemática na Universidade 
de Coimbra, e impressos na Imprensa da mesma Universidade. 

2 Id., ibid., p. II, 1. V, c. XXXI, pg. 395 e seg. 

' Vid. as provas no Curso de Litt. Portug., de Andrade Ferreira, ii, 
21 e seg. 

* Hist. da Litt. espanhola, iii, cap. xxix. Vide também Lucien 
Paul Thomas, Gongora et le Gongorisme consideres dans leurs rapports 
avec le Marinisme, Paris, 1911, 1 vol. 



3Í6 HISTÓBIA DA UTBRATUBA PORTUGUESA 

que, sob o ponto de vista literário, já mantinhamos com 
Espanlia. Os trovadores do Caucioneiro de Resende, e 
Bernardim Ribeiro, Gil Vicente, Camões, Sá de Miranda 
usaram simultaneamente das duas língoas. Seguem-lhes 
o exemplo Sá de Meneses, Quevedo, Faria e Sousa, 
D. Francisco Manoel de Melo e tantos outros *. Á invasão 
na língoa sucede a invasão no gosto literário, que se 
abastarda num excessivo culto da palavra, donde o 
chamar-se á escola por ele formada cultisla. Denomina-se 
também gongórica, por ser Luís de Góngora quem exerce 
o predomínio literário. Garacteriza-se o culiismo pela 
novidade das palavras e suas aplicaçõis, pelas inversõis 
forçadas, pela ousadia das hipérboles e profusão de figu- 
ras, que tornaram a língoa quasi ininteligível ^. 

Os altos quilates do estilo culto eram, diz C. C. Branco ^, 
os equívocos, os trocadilhos, o marinismo, os concetti, 
hipérboles rabelaiseanas, o estilo pompadour, consonâncias 
de cláusulas, homonímias, jogo de vocábulos, hipotiposes, 
enfim o gongorismo que se havia, com uma doçura insi- 
diosa, infiltrado nos mais primorosos engenhos, sem exce- 
pção do padre António Vieira e de Jacinto Freire. 

Esta deletéria influência estuda-se muito bem no Posti- 
lhão de Apolo * e sobre tudo nos cinco tomos da Fénix 
Renascida ou Obras poéticas dos melhores engenhos portu- 
gueses, onde figuram muitos escritores da época, como 



' Vêr S. Viterbo, A civilisação portug. e a civilisação espanhola, 
Porlo, 1892 ; id., Poetias de auclores portug. em livros de escriptores 
hespanhoes, Coimbra, 1892. 

^ Bouterweck, Hisl. of. Spanish, etc, já cit., i, 533 e seg. ; B. San- 
visenti, Leit. Spagnuola, Milano, 1.907, pg. 82, 83, 102 ; Costa e Silva, 
Ensaio biog.- critico, etc, x, 1. xxv, c. v. 

5 Os Ratos da Inquisição, Porto, 1883, pg. 95. 

* Eccos que o clarim da Fama dá : Postilhão de Apollo montado no 
Pégaso, girando o Universo pura divulgar ao orbe literaiio as peregrinai 
flores da poesia portuguesa, etc, etc, publicado por Joseph Maregalo 
de Osan, 2 vols., 1761-1762, Lisboa. O nome do coleccionador é ana- 
grama de D. José Angelo de Moraes. Vej. Innoc, Dic. BibL, n, 219. 



CAPITULO IV — ESCOLA 60NG0RICA OU SEISCBNnSTA 3Í7 

Diogo de Sousa ou Camacho, Fr. Jeróoimo Vahia, D. Tomás 
de Noronha e outros. Basta ler o título das poesias para 
se vêr a série de bagatelas e de futilidades com que em 
geral se entretinham os melhores espíritos do tempo : 
« A um desmaio », a « umas saudades », a um « pintasilgo 
cantando », a « uma boca ferida », a « F. picando-se com 
uma rosa », « ás barbas do regimento do conde de Rebat », 
a « uma dama sangrada », etc. *. 

Nas conferências das Academias propunham-se assuntos 
desta ordem: « Uma dama a quem pedindo Fábio uma 
prenda, soltou o cabelo e lhe deu com a mão uma figa » ; 
outro : « A' convalescença de Amarilis » ; outro : « A uma 
dama que expelindo da boca uma folha de rosa, que nela 
tinha, se lhe pôs em sua face ». Os títulos dos livros sam: 
Desmaios de Maio em sombras do Mondego ^; Crystaes da 
alma, phrases do coração, rhetorica do sentimento e amantes 
desalinhos '; Historia do predestinado peregrino e de seu 
irmão precito *. Mais ainda: Fluxo breve, desengano 
perenne, que o Pégaso da Morte abrio no monte da contem- 
plação em nove olhos de agua para refrescar a alma das 
securas do espirito. . . Ou então: Chrysol seraphico. Tuba 
cominatória, Symtagma comparistica, etc. *. 



i Fénix. . . ou obras poéticas dos melhores engenhos fortugttêses. 
Publicada por Matias Pereira da Silva, 5 tomos, 1715-1728. A respeito 
desta colecção escreve o Cavalheiro de Oliveira: « M. P. da Silva, 
Livreyro que conheci na rua nova de Lisboa, era o director desta 
curiosidade. . . Ouvindo que elle ja nâo he Livreyro, e sabendo como 
nós dizemos, que está muito afidalgado, creyo,. . . que se n5o continua 
a obra, porque mendigar sempre he dezaire ainda que seja mendigar 
versos, e como elle os não tinha que das esmollas dos curiosos, julgo 
que será contra a gravidade dar-se presentemente a essa pedintaria ». 
Cfr. Mémoires histor , politiq., et litter., etc. Haya, 1743, ii, 377. 

2 De Diogo Ferreira Figueiroa. 

3 De Gerardo de Escobar. 

* Alexandre de Gusmão. 

* Vejam-se mais exs. : em Manoel Inácio da Silva Alvarenga, 
O Desertor, poema heroi-comico em cinco cantos, Coimbra. Eram ou 



348 HISTÓRIA DÁ LITERATURA PORTOOnESA 

Não quer isto dizer que tudo fosse absolutamente máo 
nessa escola, uada se salvando das produçõis literárias 
que ela abrange. Apesar de tantas extravagâncias, encon- 
tra-se certa originalidade nas expressõis, uma tal ou qual 
independência nas frases, ha muitas vezes no meio de 
semsaborías sem nome, por entre ridicularias e ninharias 
simplesmente fastidiosas, scentelhas de espírito e de talento, 
relâmpagos de imaginação que são muito para apreciar. 
Claro é que os melhores talentos da época viram bem a 
atmosfera de preversão de gosto que respiravam. 

Na própria Fénix Renascida aparecem os protestos con- 
tra os atentados literários que de todos os lados surgiam. 

Grande cousa é ser culto 

Fingir chimeras e fallar a vulto I 

Mas sempre ouvi dizer d'esla poesia 

Que vestido de imagem parecia; 

Pois quando vemos o que dentro encobre 

Quatro paus carunchosos nos descobre '. 

Mas ninguém viu estes defeitos tam bem nem os apontou 
com mais desassombro do que FR. LUCAS DE SANTA 
CATARINA (1660-1740) já na transição para o século 
imediato. Pela sua crítica irreverente e iconoclasta faz-nos 
lembrar Verney. Vítima em certa cota parte dos vícios 
que condemna, resgáta-se pelo vigor da frase, pela segu- 
rança da crítica. E' ver o seu Serão politico, onde os 
Cultos são apodados de herejes do vocábulo, de obstinados 
apóstatas das suas lingoas maternas, de meninos órfãos do 
Parnaso, etc. '. 



romances insípidos escritos sob a influência da Diana de Montemor, 
ou requintados misticismos expostos sem sciéncia nem arte e através 
dum vocabulário metafórico por vezes inteiramente enigmático. 

1 Fénix Renascida, v, 54. 

2 Seram politico.. . Lisboa, 1723. Esta obra foi publicada sob o 
pseudónimo de Félix da Castanheira Turacem. 



CAPITULO IV — ESCOLA 60NG0RICA OU SEISCENTISTA 349 



lOl- — Academias literárias. A' semelhança da 
França, da Alemanha, da Itália, etc, crearam-se em 
Portugal numerosas sociedades, umas com o propósito de 
aperfeiçoar a lingoa e a literatura, outras visando o engran- 
decimento das sciências. Essas sociedades, algumas das 
quaes tiveram efémera duração e somenos importância, 
existiram no nosso país, primeiro do que em várias nações 
da Europa. A Academia francesa creada pelo cardeal 
Richelieu é de 1635; a Academia real das inscrições e 
belas-letras de 1663, e a Academia real das sciências de 
Paris de 1666 ; de 1700 é a Academia real das sciências e 
belas-letras da Prússia ; o decreto que aprovou a Socie- 
dade Real de Londres é de 1660 ; a Academia Real Espanhola 
é de 1714 e a Academia Real de S. Petersbiirgo de 1726 *. 
Ora desde o século xvii teve Portugal sociedades literárias 
e scientíficas, algumas das quaes podem por muitos dos 
seus trabalhos flgurar ao lado das congéneres do estran- 
jeiro. Taes sam as Academias do século xvni, de que no 
seu logar falaremos, mas que foram precedidas neste 
século XVII por outras, que não merecem total esqueci- 
mento. Estas não podiam dar todo o fruto que era de 
esperar de associações que se propunham altos fins scien- 
tíficos e pedagógicos. Nem a educação unilateral e ten- 
denciosa dos jesuítas, nem o pavor dos tribunais da 
Inquisição com as suas masmorras e os seus autos-de-fé, 
nem a carência das Hberdades politicas eram atmosfera 
adquada a trabalhos de espirito scientificos ou literários. 

lOS- — Academias Literárias Portuguesas. Deixando 
aqui uma simples referência á Academia dos Anónimos 
composta de muitos membros, alguns dos quaes passaram 
depois dela extinta para a Academia real da história 
portuguesa, e na qual se havia versistas, como dizia o 



f^ *^Freire de Carvalho, Primeiro Ensaio,'oh. cit, 177. 



350 BISTÓBIÀ DA LITERATURA PORTUGUESA 

Cavalheiro de Oliveira, também havia poetas *; mencio- 
nando a Academia Instantânea eslabelecida no Porto pelo 
Bispo D. Fernando Corrêa de Lícerda; a dos Solitários 
instituida em Santarém em 1664; a dos Ilustrados, Ocul- 
tos. Insignes, Obsequiosos, ete., importa conhecer melhor a 
Academia dos Generosos e a dos Singulares, como as que 
mais importantes foram e deixaram, no meio da extrava- 
gância de assuntos e de estilo, bastantes cousas dignas 
de registo e aproveitamento. 

A) Â Academia dos Generosos, a miiis notável de todas, 
foi fundada pelo trinchante-mór de D. João IV, D. António 
Álvares da Cunha ( 1626-1690) em 1647, durando até 1668, 
em que deixou de funcionar para reaparecer em 85 e 86 e 
vindo a transformar-se em 96 com o titulo de Conferencias 
discretas e eruditas sendo instituida no palácio do 4.° Conde 
da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses. Usava desta 
empresa — uma vela acesa, e tinha por mote « Non extin- 
guetur ». Dela fizeram parte muitos homens ilustres 
pelos seus conhecimentos ou pela sua posição social, como 
D. Francisco Manoel de Melo, António de Melo e Castro, 
Luis Serrão Pimentel, Conde da Ericeira (D. Luis), conde 
de Tarouca, ete. 

B) Academia dos Singulares. Dando a razão desta 
denominação no prólogo do livro Academia dos Singula- 
res, dizia D. Francisco Manoel de Melo: « com epítetos 
particulares se apelidarão todos os Académicos do mundo; 
Confiados se chamarão os de Pavia ; Declarados os de 
Sena ; Elevados os de Ferrara ; Inflamados os de Pádua ; 
Unidos os de Veneza ; à imitação destas Academias se 
nomearão os sujeitos deste livro Singulares, não porque 



í Mémoire» hist , polil. et lilt. já cit. ; Progressos académicos dos 
Anónimos de Lisboa, 1 vol., 1718. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 351 

presumão de únicos nos talentos, mas porque são singu- 
lares na occupação ». 

Esta acadenaia celebrou a sua primeira Conferência em 
4 de outubro de i663 e perdurou até 24 de fevereiro 
de 1664 ; recomeçou depois em 9 de outubro deste último 
ano concluindo em 19 de fevereiro de 1663. Emblema 
— uma pirâmide na qual desde a base estavam inscritos 
os nomes de Homero, Aristóteles, Vergilio, Ovídio, Horá- 
cio, Camões, Garcilasso, Gôngora e Lope, com a seguinte 
letra : « Sotaque non possunt hcBc monumenía mori •». Para 
dar idéa do teor das conferências basta ler os temas que 
discutiam, alguns dos quaes ficam já apontados atrás. 
(n.° 100) *. Mas não se avaliem só por isso os trabalhos 
desta Academia, que podem lêr-se nos dois volumes das 
suas Conferencias, porque nem tudo revelava igual extra- 
vagância. E tanto assim que os autores do Dicionário da 
Academia entenderam que podiam aproveitar os trabalhos 
dos Singulares por « serem estes os engenhos mais céle- 
bres da sua idade e pela abundância de vozes e frases 
familiares que se encontram nos mesmos escritos ; sendo 
diíicil que se nos deparem taes locuções fora do estilo 
jocosério, que é o predominante naquelas locuções » *. 



* Acad. dos Singulares de Lisboa, dedicados a Apolo. Primeira e 
segunda parte. Lisboa, 1665-68, 2 vols. Outra ed. 1692-98, 2 vols. 
Vid também D. Fr. Manoel de Melo, Obras métricas, ii, 156-165, 257- 
284 e III, 265. 

2 Vid. José Silvestre Ribeiro, Primeiros traços, etc, já cit., 145 ; 
id., Hist. dos estabelecimentos scientificos, etc, i, 158; Dic. da Acad. 
no Catalogo dos autores; etc; Curso de Lit. Portug. de Andrade 
Ferreira, ii, 131. 



352 HISTÓRU DA LITERATURA PORTUGUESA 



POETAS líricos 

103- — Representantes do lirismo no século XVII. 
Enfermada dos defeitos que deixamos assinalados, a 
poesia lírica conta, ainda assim, neste período um repre- 
sentante da escola de Bernardim Ribeiro e Cristóvão 
Falcão, mavioso cantor, por qnem o bucolismo foi levado 
à maior altura e que é, por ventura, o primeiro dos escri- 
tores portugueses neste género — Francisco Rodrigues 
Lobo. Um polígrafo distinto figura lambem como poeta 
lirico — D. Francisco Manoel de Melo. Outros sam de 
valor secundário, que nomearemos adeante em um só 
parágrafo, mas aqueles dons nomes resgatam uma época 
e enchem um período. 

104. — FRANCISCO RODRIGUES LOBO ( 15S6M625) 
de Leiria, pela suavidade das suas églogas mereceu o 
cognome de Teócrito português. 

Tendo-se matriculado na Universidade em 1593 bache- 
relou-se em leis em 21 de maio de 1602, como consta 
dos registos de matrícula e dos livros dos actos e gráos. 
Pouco mais sabemos da sua vida e estes mesmos elemen- 
tos só recentemente são conhecidos *. 

Parece ter sido um contemplativo, retirado do bulício 
da sociedade e todo entregue à administração dos seus 
bens. Díz-se que, indo de Santarém para Lisboa, mor- 
rera afogado no Tejo entre 1623 e 1627. O bispo do 
Grão-Pará, D. João de S. José Queiroz, atribue-lhe uns 
amores com certa aia do palácio do Duque de Caminha 
em Leiria, se não foram mais altos seus pensamentos. 



1 A pedido do meu ilustre amigo Prof. Ricardo Jorge, que na fíev. 
da Univ. de Coimbra anda publicando um interessantissimo estudo 
sobre o delicadíssimo bucólico, procedi a averiguações pacientes no 
Arquivo da Univ. que deram o mais feliz resultado, como desse estado 
constará. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU 8ETSCKNTWTA 3S3 

Escreve ele : « Queira Deus que tivesse naquelas correntes 
a de lagrimas para chorar quanto tinha cantado nas 
ribeiras de Lis e Lena nos loucos amores da aya ou 
dama do palácio do duque de Caminha em Leiria, se não 
foram mais altos seus pensamentos que, enfim se não 
foram de ícaro pareceram de Phaetonte no sitio da sepul- 
tura » * . . . Foi fecunda a penna de Rodrigues Lobo 
deixando-nos obras em prosa e verso. Em prosa temos 
a Corte na Aldeã ^, em forma dialogada, obra curiosa e 
de proveitosa lição. Em verso, àlêm do Condestabre '; 
poema épico em oitava rima e vinte cantos, tendo por herói 
D. Nuno Álvares Pereira e que mais parece minuciosa 
biografia com todos os incidentes da vida do biografado, 
as melhores composiçõis, que resgataram o seu autor àq 
olvido em que ficaria sepultado com aquele só volume, 
sam: Primavera, título geral das três novelas pastoris 
Primavera *, Pastor peregrino ^ e Desenganado *, as 
Eglogas ' e os Romances *. Rodrigues Lobo possuia um 
fino gosto bucólico e tanto que Garrett o coloca na 
primeira fila dos escritores desse género. A harmonia 
dos seus versos, a elegância da sua prosa, o colorido e 
a vivacidade do seu estilo, sam as qualidades primaciais 
que o destinguem. Exceptuando Camões, Sá de Miranda 
e Ferreira, diz também Gosta e Silva ^, Rodrigues Lobo 



1 Bispo do Grão- Pará, Memorias, Porlo, 1868, pg. 124. Comenta 
C. Castello Branco: « eis aqui uma novidade biographica. . . Com 
estas inducções pôde ser que um agradável estudo nas poesias de Lobo 
colha algumas inferências. . . » Ibid. 

2 Corte. . . e noutes de inverno. Lisboa, 1619, 1630, 1670, 1722. 

3 Lisboa, 1610, 1627. 

* Lisboa, 1601, 1619, 1633, 1635, 1650, 1670. 

5 Lisboa, 1608, 1618, 1651, 1670, 1721. 

6 Lisboa, 1614, 1670, 1721. 
■^ Lisboa, 1605. 

' Coimbra, 1596, 1654. Excepto dous, todos os mais sam em 
espanhol. 

• Ensaio biogr.-critico, ob. cit., v, -112. 

23 



354 BISTÓBIA DA LITK»ATDRA PORTDOCBSA 

é talvez o escritor que mais importantes e valiosos serviços 
prestou à lingoa e literatura portuguesa. E Camilo 
Castelo Branco, elugiando-lhe a pureza da frase, escreveu 
que ele « nas pinturas dos quadros da natureza distribue 
colorido admirável, aformoseado por uns toques de sau- 
dade e tristezas do ermo em que nentium poeta português 
se lhe avantaja, nem em Sannazarro, seu mestre, os ha 
mais encantadores » *. 

lOS. — D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO, de Lis- 
boa, (16H-1666) é um escritor destinlíssimo, tendo 
ensaiado a sua penna em vários géneros e merecendo 
por isso a denominação de « polígrafo ». A maior parte 
das suas obras foi escrita em espanhol, e com tal perfei- 
ção, que é contado como clássico nessa lingoa. Na nossa 
escreveu o suficiente para não desmerecer dos elogios, 
que naquella lhe fazem. A sua vida é cortada de aven- 
turas, mal se compreendendo como pôde consagrar-se ás 
letras pela forma por que o atestam as suas numerosas 
obras. Soldado do exército espanhol, onde chegou a 
obter o posto de Mestre de Campo, D. Francisco Manoel 
aliou sempre em todas as situações da vida a fidalguia 
do sangue á nobreza e porte das acções. Destinguiu-se 
nas lutas de Flandres e da Catalunha e em 1637 foi 
encarregado de pacificar os motins de Évora levantados 
por causa do imposto de 500:000 cruzados com que 
foram sobrecarregados os habitantes daquela cidade. 

Quando rebentou a revolução de 1640 abandonou ime- 
diatamente as fileiras do exército espanhol e recolheu a 
Portugal, começando a desempenhar um papel preponde- 
rante na direcção dos negócios públicos ou pelo seu pare- 



1 Qaase todas as obras de Rodri^^ues Lobo saíram num só vol. com 
o Ululo Obras politicas, movaes e métricas do insigne Portuguez . . . 
Lisboa, 1723 ; ha depois Obras politicas e pastoris de. . ., Lisboa, 1774, 
4 Yols. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORTCA OU SEISCENTISTA 3 53 

cer directo ou por conferência com os que os dirigiam. 
Neste tempo foi acusado do assassinato dum tal Francisco 
Cardoso e por esse motivo encerrado nas prisões da 
Torre de Belém durante nove anos *. A inocência de 
D. Manoel tentada por numerosas testemunhas contestes, 
os pedidos feitos pelas maiores personagens da época, 
como por Ana de Áustria, mãi de Luis XII, se é que 
as instâncias não foram feitas pelo próprio Luis XIV, de 
nada valeram ao valoroso soldado e fidalgo. 

Tudo quanto lhe fizeram foi trocar a prisão pelo desterro 
para o Brasil, para onde partiu moral e fisicamente aba- 
tido, sem bens, pois que lhe foram confiscados, e onde 
esteve durante seis anos. A' vista da intransigência de 
D. João IV em aceder aos rogos de tantos lados endere- 
çados em favor do ilustre escritor, muitos biógrafos 
referem como motivo plausível da sua desgraça a aventura 
noturna que ele teve nos jardins do palácio da condessa 
de Vila Nova e Figueiró com o próprio monarca, aven- 
tura em que, desembainhadas as espadas e lutando, 
D. Francisco levara a melhor. Cumprindo o seu desterro, 
veio a falecer em Lisboa aos 54 anos, em 1666. 

D. Francisco Manoel é um polígrafo de alto valor; 
escreveu a prosa e o verso com egual facilidade, cultivou os 
.géneros histórico, didáctico, epistolar, político, moral, etc. 

A primeira obra escrita em português e separadamente 
publicada pelo seu autor é a Carla de guia de casados, 
obra de filosofia moral, notável de graça e simplicidade *. 
Temos mais: Epanaphoras de varia historia portuguesa '; 



* A aventura galante que originou a prisão de D. Francisco, pôde 
lêr-se no prefácio ík ed. da Carta. . . por C. C Branco citada na nota 
imediata. 

2 Carta . . . para que pelo caminho da Prudência se acerte com a cata 
do Descanço. . . 1651. Ha numerosas ed., a última com prefácio enri- 
quecido de does. inéditos por C. C. Branco, Porto, 1873. 

í Lisboa, 1660, 1676. 



356 HISTÓRIA DA LITERATURA P0RTDGUK8A 

Cartas familiares *; a Feira de Anexins ' e Apologos Dia- 
logaes contendo os seguintes diálogos : a) Relógios fallantes; 
b) Escripíorio avarento; c) Visita das Fontes e d) Hospital 
das Lettras '. 

Podemos ajuizar do valor do seu estro poético, que é o 
dum lirico de muito merecimento, pelos sonetos (100), 
églogas (3) e cartas (14), que, com outros poemetos, 
formam as Segundas três musas do Melodíno *. No género 
dramático escreveu o Auto do Fidalgo Aprendiz ^ devidido 
em jornadas á moda de Lope de Vega, escrito em 
redondilhas, e uma reminescência do teatro popular, 
cuja tradição se perdera com os últimos ecos de Gil 
Vicente. Esta comédia é pela sua contestura, pela natu- 
ralidade do entrecho e do diálogo, pela fluência do verso, 
lingoagem rica e apropriada, um dos documentos mais 
curiosos da literatura dramática portuguesa. Das obras 
em espanhol é a melhor a Historia de los movimientos y 
separacion de Catalufla ', notável tanto pela elegância da 
frase e profundidade do conceito, como pela sua agudeza 
e descrição. Rebelo da Silva que muito se aproveitou duma 
obra manuscrita e ainda agora inédita de D. Francisco 
Manoel — o Tácito Português — que ele deixou incom- 



1 Primeira Parle das... escritas a varias pessoas sobre assumtos 
diversos. Recolhidas, e publicadas em cinco centúrias, Roma, 1664. 
A última carta da 5.* cent. parece ter sido mandada arrancar pelo 
S. Oficio. Por esse oa outro motivo é raríssimo que apareça nesta 
rara ed. Ha 2.» ed. de 1752. A referida caria, aqui, é substituída 
por outra. 

2 Ed. de Inoc. da Silva, Lisboa, 1875. 

3 Lisboa, 1721. 

* Fazem parte das Obras Métricas. 1665 — a !.• e a 3.» p. das Obras 
Métricas sam em castelhano. 

* Lisboa, 1676. Saiu primeiro na 2.» parte das Obr. Melr., cit. na 
nota anterior. Publiquei-o na minha Colecção — Subsídios para o 
estudo da historia da lit. portug., Coimbra, 1898, 1 vol. 

B Lisboa, 1645. Das demais ed. citaremos a da Bibl. Clássica^ 
Madrid, 1883 precedida dum estudo biogr. 



CAPITULO IV — BSCOLA G0N6ORICA OU SEISCENTISTA 357 

pleta, relativa a D. João IV, * considerava-o como um dos 
primeiros eruditos do seu tempo, e talvez o prosador mais 
substancioso e conciso da lingoa portuguesa '. Parece-nos 
que não ha exagero neste juizo ', desde que um erudito 
espanhol, como Menendez y Pelayo escreveu ser ele 
« o homem de mais engenho que produziu a Peninsula 
no sec. XVII à excepção de Quevedo *. 

lOC — Outros líricos deste período. Dos demais 
líricos deste tempo somente importa fazer aqui rápida 
menção, visto que eles ou se afundaram totalmente no 
vício do gongorismo, ou não conseguiram libertar-se 
doutro — o de preferirem á sua própria a lingoa caste- 
lhana, por forma a terem o direito de que os seus nomes 
Ogurem numa história de Literatura espanhola. Muitos 
deles foram mesmo em tudo — excepto na origem — caste- 
lhanos, pela falta do sentimento patriótico, pda lingoa que 
preferiram e pelo gosto com que escreveram. Citemos : 
SOROR VIOLANTE DO CÉO ( 16021693) natural de Lisboa, 
mística exaltada, a quem os seus admiradores denomina- 
ram a décima musa portuguesa e que nas Rythmas varias ' 



1 Sobre este e outros inéditos de D. Francisco veja-se o artigo 
« Obras autografas e inéditas » do Sr, Edgar Prestage no Arch. Hist. 
Portug., VII, pg. i78. 

2 Hist. de Portug., iv, 198. 

' Sobre D. Fr. M. de Mello vid. o prefácio de C. C. Branco 
na ed. da Carta de guia, cit. atrás; este prefácio foi publicado na 
integra na Bohemia do Espirito, Porto, 1886. Numa Nota correctiva 

C. C. Branco modifica o seu juízo sobre as responsabilidades de 

D. Joio IV. Vid. também a ed. da Feira por Inoc. cit., e o estudo de 
Herculano no Panorama, de 1840, pg. 173 e 294 ; e ainda a biografia 
posta á frente da ed. cit. na n. 1. O destincto lusófilo Sr. Edgar 
Prestage tem estudado com amoravel solicitude tudo o que diz respeito 
á biografia de D. Francisco. Os seus trabalhos foram publicados no 
Arch. Hist. Portug., vol. vii, e outros aparecerão brevemente. 

^ Hist. de las ideas estéticas en Espana, ii, 416. 
^ Ruan, 1648. Quase todas as composições das Rythmas foram 
reproduzidas na 2.* ed. da Fénix Renascida. 



358 mSTÒMlA UA LITiiltATDHA POaTCaCKSA 

e no Parnaso lusitano de divinos e humanos versos *, 
escrevendo jà em português e já — e quase sempre — em 
espanhol se revela discípula fervorosa de Góngora ^ ; outra 
poetisa, BERNARDA FERREIRA DE LACERDA (1590-1644), 
do Porto, egualmente elogiada pelos seus contemporâ- 
neos ', autora das Soledades de Buçaco * e da Hespnfia 
libertada ° duas obras ambas em espanhol, o que fez dizer 
a Lope de Vega que Bernarda de Lacerda se era pelo 
coração portuguesa, pela lingoa era castelhana ; MANOEL 
DA VEIGA TAGARRO, de Évora, licenciado em teologia, 
falecido talvez antes de 1640, que escreveu a Laura de 
Anfriso ^ colecção de poesias amorosas, onde a inspira- 
ção é fundida em moldes nem sempre para desprezar; 
MANOEL DE FARIA E SOUSA, mais historiador que poeta, 
e por isso adeante nomeado, publicou a Fuenle de Aganipe 
y rimas varias ', cuja raridade é notável, apesar das 
quatro edições que conta, raridade, em todo o caso, pouco 
para lamentar, porque o livro não vale os encómios que 
lhe teceram os seus contemporâneos ; FR. BERNARDO DE 
BRITO, como Faria e Sousa,' maior historiador que poeta 
e também adeante citado, escreveu em verso a obra Sylvia 
de Lisardo * muito saboreada pelos contemporâneos, con- 



« Lisboa, 1733, 2 vols. 

2 O nome de Violante do Céo lembra o de dous outros talentos 
femininos inspirados na mesma corrente mística : Maria do Céo 
(1658-1753) e Maria Madalena Eufemia da Glória ( 1672). Reuni 
algumas das melhores composições dás três no vol. xiv da rainha cole- 
cção — Subsídios para o estudo da historia da Literatura Portuguesa. 

* O famoso Lope de Vega dedicou-lhe a sua égioga Phyllis. Era 
natural do Porto. Vid. Chr. de Carmelitas Descalços, iii, pg. 5'i2 e 
seg. ; Arch. Hist. Portug., viii, { 1910 ) pg. 248. 

* Lisboa, 1634. Em portug. apenas as poesias a fl. 93, 94, 95, 112, 
119, 120 e 121. Na obra ha algumas poesias em latim e italiano. 

* Parte 1.* 1618; 2.* 1673. 
« 1627 e 1788. 

^ Madrid, 7 vols. 

* Lisboa, 1597; outras ed. : 1626, 1632, 1668 e 1785. 



CAPITULO IV — BSCOLA GOTíGORfCA OU SEISCENTISTA 359 

tando várias edições, chegando Faria e Sousa a escrever 
que as suas composições líricas eram superiores ás de 
Diogo Bernardes I A verdade, porém, é que Brito está 
hoje justamente esquecido ao passo que Bernardes será 
lido emquanto houver gosto literário ; ANTÓNIO DA FON- 
SECA SOARES ( -{- 1682), mais conhecido por Fr, António 
das Chagas, nome que adoptou quando, depois duma 
vida aventurosa, na qual se inclue um assassinato que 
cometera no Brasil, se decidiu a entrar no claustro, 
deixou uo Postilhão de Apollo * e na Fénix Renascida ^ 
parte das suas poesias, maculadas do defeito gongórico. 
Mais para louvar e estimar é como autor das Cartas 
Espirituaes, em que ha uma vaga aspiração sentimental 
de parceria com certa lhaneza de dizer muito agra- 
dável. Pena é que, como o seu antecessor nesta corrente 
ascética Fr. Agostinho da Cruz, tivesse queimado ao 
entrar no Convento do Varatojo, que fundou, as poesias 
em que o seu estro juvenil ensaiara temas de amor 
e de vida. Outros poetas de tendências ascéticas sam: 
FR. JERÓNIMO VAHIA, fervoroso gongorista de quem 
aparecem numerosas composições na Fénix Renascida ^ ; 
D. FRANCISCO DE PORTUGAL (1.585) autor dos Divinos 
e humanos versos * e enfim FRANCISCO ROLIM DE MOURA 
(1572-1640) que revelou bem as tendências místicas nos 
Novíssimos, em quatro cantos '. 



1 Em 1,281; ii, 2H. 

2 Em IV, 356-372 e v, 72-136 ( anónimas ). Sobre a vida aventu- 
rosa deste escritor publicou o Sr. Alberto Pimentel — Vida mundana 
d'um frade virtuoso, Lisboa, 1890. 

3 Em I, 215-376 ; ii, 290-383 ; m, 1-219 e iv, 34-150. 

* Lisboa, 1652. As 52 últimas pags. intitulam-se : Prisoens e soltu- 
ras de uma alma. D. Francisco é também autor da Arte de galanteria, 
Lisboa, 1682, obra como a antecedente quase toda era espanhol. 

5 Lisboa, 1623, e i6id., 1853. 



3tíO HI8TÓB1A DA LITERATURA PORTOQDBSA 



POETAS satíricos 

lOT'. — Representantes do género. A poesia satírica 
encontrou em dois poetas deste período os precursores 
legítimos do mestre incontestado dôste género, que é 
Nicolau Tolentino, do século imediato, e a seguir de 
Faustino Xavier de Novaes. Sam eles — D. Tomás de 
Noronha e António Serrão de Castro, um e outro evocados 
á nossa história literária em edições recentes das suas 
obras. Ao lado dos dois pode mencionar-se Camacho. 

108. — D. TOMÁS DE NORONHA ( -^ por 1651) 
figura com deslinção entre os insulsos colaboradores da 
Fénix Renascida [v, 218 a 257]. Era natural de Alenquer 
e porque cedo se revelou pela sua veia cómica logo o 
chamaram o Marcial de Alenquer. 

Devia ter falecido por 1651 depois duma vida dissipada 
nos prazeres e a braços com a miséria. Da mais fina 
linhagem portuguesa, os pergaminhos para pouco mais 
lhe serviram do que para lhe desagorentar a inspiração. 
As suas composições poéticas, aparte aquelas em que o 
decoro sossobra, foram por nós publicadas em 1899 com 
o título de Poesias inéditas de D. Tomás de Noronha '. 
Inspiração fácil e abundante, lingoagem despida dos paro- 
xismos em que tanto divertiram a sua actividade os 
colaboradores da Fénix, fazem de D. Tomás um poeta de 
leitura amena e apreciável. E' de crer que haja muitas 
poesias dêsle escritor inéditas, recolhidas nas nume- 
rosas colecções feitas no seu tempo, ainda hoje existen- 
tes nas Bibliotecas Publicas do pais ou em poder de 
particulares. 



i Na minha colecção — Sub$idio$ para o estudo da historia da Litera- 
tura portuguesa. E' o vol. ii, Coimbra, 1899. 



CAPITDLO IV — ESCOLA GONGORIGA OU SEISCENTISTA 361 



lOQ. — ANTÓNIO SERRÃO DE CASTRO (1610-1684), 
foi exumado dum quase total esquecimento pela edição 
que em 1883 G. G. Branco fez d' Os Ratos da Inquisição, 
poema de 2.090 versos octosílabos, tam facetos, diz o 
seu ilustre editor, que as delongas lhes não exaurem a 
veia zombeteira. Serrão de Gastro foi denunciado ao tri- 
bunal inquisitorial por judaizante, compondo os versos 
d'Os Ratos certamente para iludir as torturas das mas- 
morras, onde o encerraram, mas escondendo-os cuidado- 
samente das vistas dos seus perseguidores. No t. iv(151 
a 251) da Fénix estão mais versos seus, mas como os 
escrevia com a espada de Damocles sobre a cabeça, não 
resumam a graça dos escritos em horas de amargura, 
quando a inspiração corria livres voos. Ha também dele 
muitas composições em prosa e verso nos dois vols. da 
Academia dos Singulares, já atrás mencionados. 

lio. — DIOGO DE SOUSA ou CAMACHO, de quem se 
ignora toda a biografia, sabendo-se apenas que era da vila 
de Pereira, perto de Goimbra, e que se licenciou em direito, 
e exerceu a advocacia. Lê-se com agrado a sua Jornada 
ás cortes do Parnaso, publicada postumamente na Fénix, 
[v, 1 a 37], alusiva em grande parte á monomania gon- 
gorista e marinista da época e com referências a perso- 
nagens contemporâneas, num desassombro de crítica e 
mordacidade, que lhe dá em grande parte o interesse com 
que se lê. O verso é fácil, em vários metros, podendo 
admira r-se o chiste e a agudeza que lhe não são estra- 
nhos. 



* Vid. art. muito interessante do Sr. António Bai5o — A Inquisição. 
O poeta Serrão de Castro — A perseguição feroz a uma familia — com 
documentos inéditos estraidos do processo e várias rectificações á 
biografia feita por C. C. Branco, nos Serões, n.° 35^ Maio de 1908. 



362 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTCOCKSA 



POETAS ÉPICOS 

111. — Poesia épica, seu caracter. E' vasta a galaria 
dos épicos deste período, mas vê-se bem através das suas 
obras, a maior parte de ha muito votada ao esquecimento, 
que distância os não separa de Gamões. 

Na obra do nosso grande épico transparece a alma dum 
povo traduzida em formas épicas e grandiosas. Ele criou 
só por si a epopéa e ao Olimpo em que ele se entro- 
nizou não permitiram os deuses que, irreverentes, outros 
subissem para quinhoar glória egual. Ha nos épicos do 
século xvu erudição vasta, segura e profunda. A tradição 
clássica conhecia-se, os recursos da arte poética eram 
numerosos e bem aproveitados. Mas, em primeiro logar, 
Portugal tinha já a sua epopéa. Aí estava a sua história, 
entre o nimbo do mito e o da realidade. Visões do 
passado cristalizaram em estrofes inimitáveis nos Lusía- 
das. Uma grande alma de poeta, encarnando um povo, 
aproveitara o elemento nacional. Ora, demonstra-o a 
história, desde que a epopéa dum povo se formou, essa 
epopéa será única. Que restava, pois, aos continuadores 
de Camões? perder-se num ritualismo subtil, cuidar da 
urdidura dos seus poemas, metrificar mais ou menos 
sabiamente. No século xvii muitos dos poemas épicos 
sam, quando conseguem sé-lo para honra de seus autores, 
crónicas rimadas, quando não sam unicamente vastos 
repositórios de empoladas hipérboles, a desafiarem a mais 
acendrada paciência. Neste caso estão os dous poemas de 
Manoel Tomás (1585-1665) a que ele pôs os títulos de 
Insulana * e O Phenix da Lusitânia ^; o Virginidos de 



i Anvers, 1635. A Insulana trata do descobrimento da ilha da 
Madeira e tem 10 liv. ou cantos. 

2 O Phenix. . . ou acclamação de. . . D. João IV, Ruan, 1649. Ambos 
os poemas de M. Tomás obedecem ao estilo campanudo e hiperbólico 
do Gongorismo, mas a Insulana tem trechos aproveitáveis. 



CAPITDLO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 363 

Manuel Mendes de Barbuda e Vasconcelos *; o Macabeu 
de Miguel da Silveira ^ (4- 1639?); a Destruição de Espa- 
nha, Restauração Summaria da mesma ^ de André da Silva 
Mascarenhas e várias obras. Embora não isentos de defei- 
tos sam doutro valor os escritores que em seguida enu- 
meramos, mas o sentimento popular e nacional sabia bem 
fazer a destrinça entre a obra imortal de Gamões e a dos 
seus émulos e continuadores. Durante a dominação cas- 
telbana os Lusíadas foram reimpressos trinta e seis vezes ! 

113. — GABRIEL PEREIRA DE CASTRO ( 1571-1632), 

de Braga, doutor em cânones, àlêm das obras jurídicas ♦, 
que lhe dam um logar muito honroso entre os juriscon- 
sultos, escreveu a Ulysséa ou Lisboa edificada ^ poema 
em dez cantos e oitava rima, tendo por argumento o fabu- 
loso conto da fundação de Lisboa por Ulisses. Garrett 
chamoua quixótica e sesquipedal *, epítetos que bem 
quadram a um poema sem vislumbre de originalidade, 
monótono e sem interesse de acção, aonde afloram afo- 
gadas em mitologia, apenas de vez em quando, algumas 
descriçõis magistrais. Ha ainda a notar a abundância 
das locuçõis, a harmonia, o número e a sinonímia, qua- 
lidades em que prevalece ao próprio Gamões, no dizer 
de G. G. Branco, conseguindo dar ás formas pesadas 
da oitava rima macieza e flexibilidade, o que lhe deve ser 



1 Virginidos ou vida da Virgem Senhora nossa. . . Lisboa, 1667. 

2 Nápoles, 1638 e 1731 em Madrid. Sobre este poeta publicou 
S. Viterbo um curioso estudo. Poesias avulsas do Dr. Miguel da Silveira, 
Coimbra, 1906. 

* Lisboa, 1671. 

* De Mana Regia, etc. Lisboa, 1622-2o, 2 vols. ; Monomachia sobre 
as concordias que fizerão os reis com os prelados de Portugal nas duvidas 
da jurisdicção ecclesiastica e temporal. . ., Lisboa, 1738. 

» Lisboa, 1636; outra ed., s. 1. n. a. ; e 1745, 1826, e duas em 1827 
uma da Tip. Rolaadiana e outra da Imp. Régia. 

^ Cfr. o Bosquejo da hist. da poesia e lirigua portug., que antecede 
o Parnaso Lusitano, i, cit. 



364 mSTÓRU DA LITERATURA P0RTD0DE8A 

levado em conta nas máculas do cultismo e nos plagíatos 
dos episódios *. 

113- — FRANCISCO DE SÁ DE MENESES, do Porto, 
(+ 1664) é o autor da — Malaca conquistada *, cujo 
herói é Afonso de Albuquerque sendo a acção passada 
na metrópole indiana, que deu o nome á obra. O prota- 
gonista, bem como as personagens secundárias, sam bem 
desenhadas ; o maravilhoso, ao arrepio do uso vulgar, é 
deduzido das crenças cristãs; destinguem-se, pelo decoro, 
as pinturas eróticas ; avultam as descriçõis de usos e 
costumes dos povos orientais. Mas estas qualidades 
aparecem infelizmente afogadas numa grande tibieza de 
estilo, chegando até ao prosaismo, numa lingoagem eivada 
de epítetos, metáforas e trocadilhos, que bem deixam 
vêr a perniciosa inQuência do tempo. Garrett afirma que 
a Malaca é f um dos derradeiros títulos de glória da 
literatura portuguesa » ' não obstante ser hiperbórea e 
campanuda, juízo em que não é tam rigoroso como Dias 
Gomes para quem eia não passava da « mais inferior das 
nossas epopeias regulares ». O grande desgosto que lhe 
causou a morte da esposa fez com que tomasse o hábito 
e professasse no mosteiro de Benfica, da Ordem dos Pre- 
gadores, adoptando aí o nome de Francisco de Jesus. 
Gosta e Silva dá-o como falecido em 21 de maio de 1661 
e Barbosa Machado em 27 do mesmo mês de 1664. 

114- — VASCO MOUSINHO DE QUEVEDO E CASTELLO 
BRANCO, de cuja biografia pouco ou nada se sabe, dei- 



* C. C. Branco, Curso, cit., pg. 31. 

2 Malaca conquistada por o grande A. de Albuquerque. Poema heróico. 
Offerecido a Filippe III de Portugal. Lisboa, 1634. Oulras ed. 1658 
e 1779. 

* Bo$(ju^o, cit., ibid. 



CAPITCLO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 365 

xou-nos o Afonso Africano * cantando os feitos valorosos 
de D. Afonso V na tomada Arzila e Tanger, duma urdi- 
dura alegórica, que afasta inteiramente o interesse da 
leitura. Quase todo o poema se passa na luta entre os 
Sete pecados mortaes e as virtudes opostas, sendo aqueles 
representados pelos filhos do Governador de Arzila e 
estas por sete guerreiros cristãos, que os desbaratam e 
os subjugam ! 

lis. — ANTÓNIO DE SOUSA DE MACEDO (1606- 
1682) natural do Porto, doutor em direito civil, e secre- 
tário de estado de D. Afonso VI, foi tentado a rimar o 
assunto banal já escolhido por Gabriel Pereira de Castro 
— a fundação de Lisboa por Ulisses — fábula a que 
Gamões aludira nos Lusíadas *, mas fê-lo, mais atilada- 
mente que aquele, no seu poema Utíssipo em treze cantos 
e oitava rima '. Das obras em prosa as mais estimadas 
sam: as Flores de EspaM, Excellencias de Portugal *. 
obra escrita em espanhol, e Eva e Ave ou Maria trium- 
phante ^ em português puro e muito correcto. As obras 
de António de Sousa Macedo revelam uma erudição pouco 
vulgar ^ Na Ulissipo excedeu Gabriel P. de Castro, não 



* Affonso Africano : poema heróico da presa de Arzilla e Tanger. 
Dirigido e D. Álvaro de Sousa, Capitão da guarda alemã de Sua 
Majestade, etc. Lisboa, 1611 ; outras ed. : 1786 e 1844. 

2 Cant. VIII, est. 4.» e 5.*. 

3 Lisboa, 1640 ; outra ed. 1848. 

* Flores. .. en que brevemente se trata lo mejor de sus historias y de 
todas las dei mundo, desde su principio hasta nuestros tiempos, y se 
descubren muchas cosas tiueuas de prouecho, y curiosidad. Lisboa, 1631 ; 
2.» ed. 1737. 

5 Eva... Theatro da erudição e philosophia christã. Em que se 
representão os dous estados do mundo : cahido em Eva, e levantado em 
Ave. í.' e 2." parte. Lisboa, 1676. Outras ed. : 1700, 1711, 1716, 
1720, 1734 e 1766. 

6 Outras obras em Matos, Manual, 539 e Innoc, Dic Vid. taoibôra 
Archivo Pitoresco, 1861-1863, pg. 364-368, 



366 HISTÓRIA DA LITEBATUBA PORTUaUBSA 

no estilo que é menos brilhante, mas na originalidade dos 
episódios e no gosto mais ilaliano que espanhol, mais á 
Marini que á Góngora, como diz Gosta e Silva. 

116 BRÁS GARCIA DE MASCARENHAS (1596- 

4656) *; natural da vila de Avô, junto ás margens do 
Alva, na comarca de Arganil. Obrigado a expatriar-se 
viajou por Espanha, França, Itália, Flandres e Brasil, 
voltando passados anos a Portugal. De génio belicoso 
e cavalheiresco organizou e dirigiu por ocasião da revo- 
lução de iCiO um batalhão de voluntários conhecido 
por Companhia dos liões, e tomou conta da praça de 
Alfaiates no concelho de Sabugal. Preso e encarcerado 
por D. Sancho Manoel, general-comandante da Beira e 
por este acusado de traidor á pátria, o desgraçado poeta 
obteve a liberdade conseguindo fazer chegar ás mãos de 
D. João IV um memorial em verso, feito com as letras 
arrancadas a um Fios Sanctorum. e coladas a uma 
página em branco do mesmo livro. Escreveu, àlêm 
doutras obras perdidas, o Viriato Trágico só publicado 
quarenta e três anos depois da sua morte, poema em vinte 
cantos e oitava rima, que Costa e Silva considera como a 
nossa primeira epopéa de segunda ordem, notável ainda 
pelo pintoresco dalgumas descriçõis, sobretudo das de 
assuntos militares '. Brás Garcia soube afastar se pru- 



* A data do nascimento do poeta — 3 de fev. 1596 — foi fixada 
pelo Sr. Dr. A. G. Ribeiro de Vasconcelos no seu trabalho de tam 
longa e penosa investigação primeiramente publicado na Revista da 
Univ. de Coimbra i ( 1912 ) e seg. 

2 Cfr. O Passeio, ed. 1845, notas, pg. 9. Eis as palavras dôsle 
autor: «... esta Epopeia [Viriato Trágico], hoje absolutamente 
desconhecida era digna de melhor fado. Mas por desgraça foi envol- 
vida na proscripção geral, fulminada contra os Seiscentistas pelos 
Árcades, Restauradores da poesia e do bom gosto entre nós... 
E comludo entre os escriplores do século de seiscentos havia muitos 
poetas de grande talento... e nas suas obras apresentam grande 



CAPITDLO IV — ESCOLA GONGORIGA OU SEISCENTISTA 367 

dentemente da influência espanhola. A sua obra foi 
plagiada vergonhosamente por André da Silva Mascarenhas 
no poema Destruição de Espanha (1671), bem longe de 
pensar o plagiário que, passados vinte e oito anos, com 
a impressão do Viriato semelhante vileza ficaria posta 
a nú *. 



POESIA DRAMÁTICA 

IIT. — Teatro no século XVII. O teatro portu- 
guês no século XVII acusa uma deplorável decadência 
originada na perda do elemento tradicional, que tinha 
feito a glória das composiçõis vicentinas e a dos seus 
imitadores. A influência espanhola exerce-se soberana- 
mente. Os portugueses tomam gosto pelas comédias 
castelhanas e desnaturalizam o teatro. Lope de Vega, 
Galderon de la Barca, Tyrso de Molina, forneciam as 
diversas scenas da Europa. Não era, pois, de estranhar 
que entrássemos nesse número, nós, que tam íntimas 
relaçõis políticas e sociais mantínhamos com a nossa 
vezinha Espanha. 

A Lisboa, onde já não havia a corte, concorriam os 
comediantes espanhoes atraídos pelos vizo-reis do seu 
país e representavam naturalmente os dramas dos seus 
compatriotas. 



numero de bellezas, que podem bem resgatar os defeitos do tempo. 
Neste numero conto eu o Viriato Trágico, que tenho peia nossa pri- 
meira Epopeia de segunda ordem. . . » 

1 Ed. de 1696, em Coimbra, oficina de António Simões, impressor 
da Universidade, 2.» ed., 1846, Lisboa. 

Para a biografia do poeta o estudo do sr. Visconde de Sanches 
de Frias — O Poeta Garcia, drama histórico, Lisboa, 1901, mas a obra 
definitiva fundada em dados críticos incontroversos é a cit. do Prof. 
Dr. Ribeiro de Vasconcelos. 



368 HISTÓKIÀ DA LlTSaATUaA PORTUGUESA 

Escreveram unicamente em castelhano muitos portugue- 
ses notáveis como Matos Fragoso, António Henriquez 
Gómez e Manuel Freire de Andrade. As comédias eram 
devididas em jornadas, e os Páteos, que assim se denomina- 
vam os logares onde se representava, encliiam-se de povo, 
ávido do espectáculo. O primeiro teatro regular de que 
tia noticia foi o Páteo das Comédias, a que se seguiu depois 
o das Fangas da Farinha e o da Bitesga ou da Mouraria *. 
Assim se perdera toda a tradição nacional. E quando não 
era o teatro em espanhol, era o teatro em latim. Os 
jesuítas julgaram dever intervir, como processo educativo, 
nas representaçõis dramáticas. Como exercício escolar, 
passatempo e modo de adquirirem fama para as suas 
escolas, faziam representar pelos alumnos dos seus Colé- 
gios graves e pesadas tragi-comédias, que levavam dois e 
três dias a representar no meio dum aparato scénico 
verdadeiramente espantoso. Pode avaliar-se da obra dra- 
mática jesuítica pelo vol. denominado Tragicae, comicae 
quae actiones à regia artium collegio societatis Jesu datae 
Conimbricae in publicum theatrum ^. E' seu autor Luís 
da Cruz (4- 1604) e nele se encontram as cinco tra- 
gédias ' Prodigus (1-213), Vila Humana (217-441); 
Sedecias ( 445-634 ) ; Manasses ( 637-828 ) e Josephus ( 831- 
1050). A Sedecias foi representada por ocasião da visita 
a Coimbra de D. Sebastião quando o monarca veio a esta 
cidade acompanhado do cardeal D. Henrique, em 1570. 
Quiseram então os jesuítas afastar dos ouvidos do infeliz 
rei e dos dos áulicos que lhe formavam o séquito as liber- 
dades da comédia plautina representada por ocasião dou- 



1 Aragão Morato, Mem. sobre o Theatro Português lida em 24 de 
julho de 1817, v, 42; Freire de Oliveira, Elementos para a hist. do 
Município de Lisboa, iir, 40, n. 1 ; sr. Júlio de Castilho, Lisboa Antiga, 
11, 136 [ da 2.* ed., 1904 ]. 

2 Ludguni, apud. Iloracium Cardon, 1605, 1 vol. 

í E n5o quatro como diz Barbosa Machado, Bibl Lusit., verb. 
Luís da Cruz. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 369 



tra visita régia à Lusa Atenas — a de D. João III, 
liberdades essas ridículas e sem gosto como as apodavam 
homens graves e conspícuos em letras *. 

Os jesuítas João da Roclia, Domingos Teixeira e Pedro 
de Vasconcelos, composeram também trabalhos dramáti- 
cos, que foram desempenhados na scena pública. É do 
primeiro a tragédia intitulada Daniel, do segundo a égloga 
intitulada Pastor David representada em 1618, e do 
último a peça que ele intitulou Dares e Entellus que subiu 
á scena em 1629, todas ainda inéditas. Tais sensaborias 
estavam longe de substituir as comédias de Gil Vicente, 
Afonso Alvares, Baltasar Dias, António Ribeiro Chiado 
e de outros, lançadas no Index expurgàtôrio de 1624. 
Debaixo de tais influências, como poderia desenvolver-se 
o teatro nacional ? É por isso, que, tirando o Fidalgo 
Aprendiz de D. Francisco Manoel de Melo nada de belo 
nem que enobreça a época pode apontar-se no teatro do 
século presente. 



HISTORIADORES 

lis. — Caracter da história neste período. Não fal- 
tam os historiadores neste período, alguns deles, princi- 
palmente os que viveram nos primeiros anos do século, 
dignos sucessores de João de Barros e Damião de Góes. 
Uma qualidade geral os caracteriza — a falta de simplici- 
dade suprida pela afectação retórica e pelo cuidado 
excessivo dado à forma, o que os recomenda mais como 
estilistas, do que como historiadores. 

Como vimos, alguns dos cronistas do século precedente 
foram grandes investigadores, viajantes audazes que se 
não pouparam a fadigas para autenticarem o que escre- 
veram. Daí a paixão, a vida e o calor que animam as 



^ Vid. O Prefácio às citadas Tragicae. . . adiones. 
24 



370 HISTÓRIA DA LITERATURA P0RTDGUB8A 

suas narraçõis. Os historiadores do século xvii sam, 
priDcipalmenle, frades que, alheios à luta das sociedades 
onde se desenrolam os acontecimentos, burilam friamente, 
serenamente, no silêncio das suas celas, as frases elegan- 
tes, os períodos sonoros, as rendilhadas expressõis que 
traduzem os factos que outros lhes fornecem. A situação 
histórica também os não favorecia. A desastrada expedi- 
ção de Alcacer-Qébir lançou-nos numa atonia profunda. 
A glória de muitas batalhas e conquistas como que se 
eclipsara nos areais de África. Era preciso, escreve Fer- 
dinand Denis, que empregassem cores mais vivas para 
fazer compreender aos homens do século as impressõis 
que tinham devido resentir seus antepassados *. 

IIO- — Fr. Bernardo de Brito e seus continuadores. 
FR. BERNARDO DE BRITO ( 1569-1617) chamado, antes de 
professar no mosteiro de Alcobaça, Baltasar de Brito e 
Andrade, àlêm de poeta, como dissemos, foi historiador, 
tendo escrito a Chronica de Cister ^ e os Elogios dos Reis 
de Portugal ^. Como cronista mór do reino que foi, escre- 
veu a 1.* e a 2.* parte da Monnrchia Lusitana * depois 
continuada por ANTÓNIO BRANDÃO (3." e 4.* parte) ^ 
FRANCISCO BRANDÃO (5.» e 6.*) «, RAPHAEL DE JESUS 
(+ 1693) (T.*») 7 e MANOEL DOS SANTOS (8.') ». 



1 Résumé de Vhist. litl. du Portugal, eit., pg. 304. 

2 Primeira Parte e única publicada, Lisboa, 1602 ; outra 1720, t6td, 

3 1603, 1726, 1761, 1786. 

* 1.* p. Alcobaça, 1597 ; 2.* ed. 1690 e reimpressa na Col. dos 
principaes hislor. porlug., Lisboa, 1806, 5 vols. ; 2.* p., Lisboa, 1609 ; 
i.' ed., 1690 e reimpressa na mesma CoL, Lisboa, 1806-1809, 7 vols. 

5 3.' p. Lisboa, 1632, 1690 e 1806; 4» p. 1632 e 1725. 

6 5.' p. Lisboa, 1650, 1752 ; 6 • p., 1672 e 1751. 

'' Lisboa, 1683. É também autor do Castrioto Lusitano, Lisboa, 
1679, sobre a guerra entre o Brasil e a Holanda, de somenos valor, 
como tudo o que deixou. 

8 Lisboa, 1727. Fr. Manoel dos Santos é mencionado no sec. 
imediato. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU 8EISCKNTISTA 371 

Tantos arquitectos era volta do grandioso monumento 
conseguiram tam somente debuxar-llie os alicerces. E 
como não seria assim se o iniciador, como Garibay que 
começou a história de Espanha com o dilúvio universal, 
deu princípio à de Portugal com a criação do mundo ?t 
O trabalho de Fr. Bernardo de Brito termina com a vinda 
à península do Conde D. Henrique, quer dizer, termina, 
pouco mais ou menos, onde devera começar. Não há, 
porém, razão de lamentar o esforço dispendido por Brito, 
dada a falta de critério histórico que se revela em toda a 
sua obra e que o levou a fazer-se eco de quantas lendas a 
imaginação ou a fantasia haviam sugerido. Nove anos 
depois da impressão da 2.* parte da Monarchia Lusitana 
publicava Diogo de Paiva de Andrade, filho de Francisco 
de Andrade, cronista-mór do reino, um livro intitulado 
Exame de Antiguidades (1616), apontando a falta de ver- 
dade histórica da citada Monarchia *. Embora despeitado 
por não haver sucedido, como esperava, ao pai, é certo 
que a crítica posterior deu razão a Andrade, acabando 
Alexandre Herculano por colocar Bernardo de Brito fora 
das autoridades em matéria histórica. A personalidade 
de Brito salva-se somente como estilista. A lingoagem é 
geralmente correcta, sam belas as suas descriçõis e belo 
é também o vigor com que desenha os caracteres das 
suas personagens. Mas é tudo e isto não é ainda sem 
reservas, porque a lingoagem dele não escapa à pecha do 
cultismo e fica geralmente fria e sem interesse. 

Dos continuadores de Brito é de justiça destacar o 
vulto de ANTÓNIO BRANDÃO ( 1584-1637). A consciência 
e exactidão dos factos que se encontram na 3.* e 4.' parte 
da Monarchia, obra sua, fizeram dizer a Herculano ser 



' A Diogo de Paiva de Andrade respondeu o eolega da mesma 
ordem Fr. Bernardino da Silva nos dois volumes Defensão da Monarchia 
Lusitana publicados em 1620 e 1627, que não levantaram a obra ao 
conceito que ele se propunha. 



372 HISTÓBIÀ DA LITERATCRA PORTUGUESA 

ele uma das mais nobres inteligências que Portugal tem 
gerado e um ilustre restaurador da historia pátria. Con- 
ceito semelhante na penna de tann judicioso esmeriiador da 
nossa primitiva história dá a medida do valor de António 
Brandão. O período que ele descreveu e que vai desde 
D. Afonso Henriques até D. Afonso III, põe-nos em pre- 
sença dum espírito de vasta erudição, fazendo uso duma 
sciência histórica e dum método crítico verdadeiramente 
superiores e dignos de elogio. 

ISO. — FR. LUÍS DE SOUSA (1553-1632), de Santa- 
rém, é um dos mais delicados estilistas que conta a liugoa 
portuguesa. Antes da sua profissão religiosa chamavase 
Manoel de Sousa Coutinho. Militou na religião de Malta, 
esteve prisioneiro dos Mouros e foi levado cativo para 
Argel. Barbosa Machado afirmou, sem fundamento algum, 
que neste cativeiro tivera o nosso primoroso escritor 
estreita amizade com Cervantes. A lenda, a uma análise 
criteriosa, desfez-se depressa. Readquirida a liberdade 
ao fim de quase um ano voltou ao reino e casou com 
D. Madalena de Vilhena, viuva de D. João de Portugal, 
morto na batalha de Alcacer-Qêbir. Era governador da 
praça de Almada quando, para não hospedar os governa- 
dores espanhoes que fugiam da peste que grassava em 
Lisboa, lançou fogo ao próprio palácio. Expatriou-se para 
fugir á vindicta dos inimigos e, regressando à sua casa 
de Almada, aí, no remanso do lar, em companhia da 
esposa e da filha única se entregou aos cuidados lite- 
rários. O falecimento desta filha levou os pais a pro- 
curarem no claustro um bálsamo aos corações alanceados. 
De comum acordo vestiram o hábito dominicano : Couti- 
nho no convento de Benfica e D. Madalena no mosteiro do 
Sacramento. Tudo quanto se refere ao aparecimento de 
D. João de Portugal é pura lenda, que só teve o mérito 
de inspirar Garrett no primeiro dos seus dramas. Foi em 
1641 que Coutinho iniciou a sua vida^claustral, adoptando 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 373 

desde logo o nome de Fr. Luis de Sousa. Aí no isola- 
mento da cella e era obediência é que ele poliu e aperfei- 
çoou os materiais, que Fr. Luís de Cácegas reuniu 
durante mais de vinte anos de pacientes investigaçôis 
sobre a história do seu convento e a vida do arcebispo de 
Braga. Não eram incontroversos os dados que Cácegas 
juntara ; também Fr. Luís de Sousa ocupado na super- 
ficialidade do estilo não tratou de os depurar no cadinho 
da veracidade. A obra resente-se por isso do descuido 
dos dois. A Fr. Luís cabe a glória de ter revestido 
os informes materiais do seu investigador com as roupa- 
gens dum estilo elegante, fecundo e cheio de naturali- 
dade. As suas obras capitais sam : 

— Vida de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires *. 

— História de S. Domingos ^. 

— Ânaes del-rei D. João III ^. 

As duas primeiras revelam o assombroso e finíssimo 
burilador de frase que foi este escritor, que é um orgulho 
das nossas letras, mas não assim a última em que o 
assunto já tratado por J. de Barros nas Décadas e por 
F. de Andrade na Crónica do mesmo rei, se arrasta por 
vezes numa t série de apontamentos », como disse A. Her- 
culano, só se alteiando e sendo « digno de si mesmo » 
quando a matéria acordava dentro dele a memória do 



1 Vida de. . . da ordè dos Pregadores, Arcebispo & Senhor de Braga, 
primas das Espanhas. Repartida em seis livros com a solenidade de sua 
trasladação . . . Por Fr. Luis de Cácegas, ele. Reformada em estylo e ordè 
e ampleada em successos & particularidades de novo achadas por..., 
etc. Viana, 1619. Outras ed. : 1760, 1763, 1785, 1818, 1830 e 1857. 

* Primeira Parte da Historia de S Domingos. . ., etc, 1623 ; Segunda 
Parte..., 166á; Terceira Parte..., 1678. Estas ires partes, de Fr. 
Luis de Sousa, com uma 4 * de Fr. Lucas de Santa Catarina, andam 
impressas numa ed. de 1767, 4 tomos; outra ed.: 1866, 6 vols. 

' Publicados por A. Herculano em 1844, 1 vol. 

A Vida do beato Henrique Suso... nSo é de Fr. Luís de Sousa, 
mas do dominicano Fr. Pedro de MagalhSes, como se pode ver no 
Catálogo dos autores, que precede o Dic. da Acad., pg. cxlv. 



374 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

soldado, fidalgo e cavaleiro que fora antes de envergar a 
estamenha de monje. 

131. — MANOEL DE FARIA E SOUSA (1590-1649) 
escritor fecundíssimo, de quem se conta que escrevia 
diariamente doze folhas de papel contendo trinta linhas 
cada uma ; quase todas as suas obras sam em espanhol, 
interessando-nos por isso unicamente pelas informaçõis 
que sobre cousas e pessoas de Portugal deixou. 

Essas obras sam: os sete vols. em verso Fuente de 
Aganipe y rimas varias, que não eram melhores que 
as dos confrades e seriam talvez peiores pelo consumo 
que tiveram * ; as históricas Epilome de las historias por- 
tuguesas ; Europa, Ásia, e Africa portuguesas ; e os traba- 
lhos de análise Lusíadas . . . commentadas, e Rimas varias 
de Luís de Camões commentadas. 

Bandeado com Castela viveu na esperança mal recom- 
pensada dos favores de Felipe II, que incensou, bem 
como a Cristóvão de Moura. Operada a restauração 
de 1640 deixou-se ficar em Espanha ao serviço de 
D. João IV. Começando por ser renegado acabou por 
ser espião, epítetos justos que infamam a sua memória. 

Ferdinand Denis escreveu que ele sjb desdenhou a lin- 
goa nacional, permaneceu português de coração ^ ; mas a 
uma crítica imparcial custa subscrever este juízo, embora 
o veja elogiando a valentia dos portugueses em Aljubar- 
rota (Europa, ii, p. 3, c. i, pg. 277-282 ), ou exaltando a 
nobreza de caracter de D. João I e do Condestavel fibid., 
pg. 269] e explicando mesmo a razão da escolha do 
castelhano para a elaboração dos seus livros [ No Prólogo 
da Europa]. A sua simpatia pela política dos usurpa- 
dores tornam-no-lo naturalmente suspeito. De modo que 
pela lingoagem, pelo estilo culteranista que adoptou, pelo 



1 C. C. Branco, Curto, 43. 

2 06. cit., pg. 367. 



CAPITULO IV — ESCOLK GONGORICA OU SEISCENTISTA 375 

meio histórico em que viveu e a que se subordinou, a 
fertilidade deste autor redunda em quase pura perda para 
nós e não pouco menoscabo para a glória própria dele. 

13S. — JACINTO FREIRE DE ANDRADE ( 1597-1657) 
é um dos escritores que figura na Fénix Renascida * e se 
medíocre é o seu valor como poeta, não é doutro mere- 
cimento como prosador, segundo se vê da Vida de D. João 
de Castro ', excurso biográfico em que o rigor histórico 
nem sempre é a norma, correndo parelhas cora a lingoa- 
gem artificiosa, cheia de trocadilhos de máo gosto e falsa 
no desenho das personagens, a principiar no do protago- 
nista mais bera caracterizado por qualquer das cartas que 
ele própio escreveu ^ do que pela longa e monótona expo- 
sição que o seu apologista nos legou. 

1^3. — Historiadores menos importantes. Cite- 
mos neste número, entre outros, FR. ANTÓNIO DA 
ENCARNAÇÃO ( + 1665) a quem devemos as Adições á 
Historia de S. Domingos de Fr. Luís de Sousa e a Vida de 
Fr. Luís de Sousa *; MANOEL SEVERIM DE FARIA ( 1583- 



í T. III, 274-384. 

2 Ed. 1651. Das muitas ed. é mais estimada a da Acad.^ de 1835, 
de que foi encarregado o cardeal patriarca D. Francisco de S. Luís, 
que lhe ajuntou muitas notas e vários inéditos. 

^ Algumas publicadas pelo próprio Andrade na Vida de D. João de 
Castro, outras por S. Luís na ed. cit. da Acad., outras no Instit., vol. ii, 
etc. Vid. Inoc, Dic. Bibl., iii, 345. D. João de Castro bem merecia 
esta apologia. Quam diferente ele foi dos vizo-reis cruéis e traficantes 
que lá andaram pela índia I Além dos trabalhos que sobre a índia já 
citamos, de Barros, Couto, Corroa, registe-se o livro de Francisco Rodri- 
gues Silveira, Memorias de um soldado da índia compiladas de um Ms. 
porluguez do Museu Britânico por A. de S. S. Costa Lobo, Lisboa, 1877. 
Silveira esteve na índia desde 1585 a 1598. 

* As Addições sSo na p. 2.* de fl. 96 v. a 106 v. e a Vida abre a 
mesma p. 2.*. 



376 HISTÓRIA DA LITKBATURA POBTUâUESA 

1655) que nos Discursos vários políticos * traçou cuida- 
dosamente as biografias de Gamões, de João de Barros e 
de Diogo do Couto, e nas Noticias de Portugal ', forneceu 
interessantes informações políticas, e outras relativas a 
familias nobres, a moedas que tiveram curso em Portugal, 
biografias, etc. ; D. FERNANDO DE MENESES 2." conde 
da Ericeira, (4- 1699), que escreveu a Historia de Tan- 
ger ^ e di Vida e acções d'el-rei D. João / * ; D. LUÍS DE 
MENESES 3." conde da Ericeira, (1632-1690) aulôr da 
Historia de Portugal restaurado ^ que fornece preciosas 
informações, embora nem sempre incontroversas, sobre o 
período da nossa história de 1640 a 1688; D. RODRIGO 
DA CUNHA ( 1577-1643), arcebispo de Braga e de Lisboa 
e antes bispo de Portalegre e do Porto, autor da Hist. Eccl. 
da Igreja de Lisboa ^, da Hist. Eccl. de Braga ', e do 
Catalogo dos Bispos do Porto ® aquelas escritas com mais 
correcta exactidão que este, mas todas três com aquele 
primor de lingoagem que fazem dele um mestre ; JORGE 
CARDOSO (4- 1623) que deixou o Agiológio lusitano ', 
no período seguinte continuado por D. António Caetano 
de Sousa e em que abundam no meio de prolixidades 
várias eruditas informações relativas a pessoas e cousas 
de Portugal. 



1 Evora, 1624; 2.» ed. Lisboa, 1791. 
» Lisboa, 1655, 1740 e 1791. 
J Lisboa, 1677. 

* Lisboa, 1732. 

5 I, 1679 e 1710; ii, 1698. As duas partes em 4 vols 1751 e 1759. 

• Dos 2 vols., anunciados no frontespicio do 1.», só este saiu 
em 1642. 

7 2 vols., Braga, 1634 e 1635. 

8 1623 e 1742. 

9 4 vols. sendo o 4." do seu continuador. O plano era abranger 
08 doze meses do ano, mas só chega a Agosto. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 377 



VIAJENS 

134. — Viajens. As obras mais importantes a citar 
neste capítulo referem-se á história da Etiópia nos séculos 
XVI e xvu e só recentemente são conhecidas graças à 
publicação dos respectivos inéditos, até agora senão total- 
mente ignorados, pelo menos imperfeitamente conhecidos. 
Mais uma vez beneméritos estranjeiros prestaram um alto 
serviço ao nome português. Com o titulo Rerum Aethiopi- 
carum scriptores occidentales inediti a saeculo XVI ad XIX 
fundou-se em Roma uma empresa sob a direcção de 
Camilo Beccari, em 1903. O plano da obra, seus intuitos 
e alcance deduzem-se claramente da Notizia e saggi di 
opere e documenti inediti riguardanli la storia di Etiópia 
durante i seculi XVI, XVII e Xr/// (Roma, 1903, 1 vol.). 
A colecção abrangerá dezaseis volumes sendo indubitavel- 
mente os mais importantes os já<publicados e que passamos 
a nomear. 

Temos em primeiro logar a citar PEDRO PAES [ 1564- 
1622] que, embora espanhol, escreveu em português a 
sua História da Etiópia, em 4 liv. Sabia-se que o manu- 
scrito, depois da morte do autor, fora enviado para Roma 
em 1622 ao Geral da Companhia de Jesus e supunha-se 
que havia fragmentos dele na Hist. geral da Etiópia a 
alta ou Preste João de Baltasar Teles, publicada em 
Coimbra em 1660; afirmavam outros que ele fora inse- 
rido na Hist. da Etiópia de Manuel de Almeida, enquanto 
outros asseguravam que ele estava perdido. Com o rea- 
parecimento desse manuscrito quase todo do próprio punho 
de Pedro Paes, todas as conjecturas cessaram. A Hist. da 
Etiópia, fruto de vinte anos de viajens pelas regiõis que 
descreve, ê sobretudo um subsídio de valor para as 
scièncias geográfico-históricas *. 



> Roma, 1905-1906, 2 vols. 



378 HISTÓRIA DA LITKRATURA PORTUGCKSA 

MANUEL BARRADAS, [n. 1572], de Monforte, é o 
segundo historia dor- viajante a quem se deve a obra em 
três tratados: Do estado da santa fé romana na Etiópia 
quando se lançou o pregão contra ela (I) ; Do reino de 
Tigre e seus mandos em Etiópia (II), e Da cidade de 
Adem (III) *. 

O terceiro e último escritor é MANUEL DE ALMEIDA 
[1580-1646] de Viseu, que intitulou o seu trabalho Hist. 
de Etiópia a alta ou Abássia império do Abexim, cujo Rei 
vulgarmente é chamado Preste Joam. É devidido em 
dez liv., conservando-se o original autógrafo no Museu 
Britânico. Um crítico insuspeito classifica este escritor 
de sensato, verdadeiro e sóbrio *. 

Todos estes trabalhos estavam, como dizemos, inéditos, 
sendo possivel que deles se aproveitasse BALTASAR 
TELES [1595-1675] que, âlêm da Chr. da Companhia 
de Jesus ^ em que se revela escritor aprimorado, deixou- 
também a mencionada Hist. Geral da Etiópia a alta *. 

Escreveram taníbêm narrativas de viajens FR. GASPAR 
DE S. BERNARDINO, autor do Itinerário da índia por 
terra até á ilha de Chipre; MANOEL GODINHO ( + 7112), 
natural de Montalvão, distrito de Portalegre, que escreveu, 
àlêm da biografia de Fr. António das Chagas, o celebrado 
mistico fundador do seminário das missõis do Varatojo, a 
Relação do novo caminho através da Arábia e Siria que fez 
por terra e mar vindo da índia para Portugal em 1663; 
e JERÓNIMO DE MENDONÇA de quem temos a Jornada de 
Africa ' interessante como subsidio para o conhecimento 
do desastre calamitoso de Alcacer-Qêbir, onde o autor 



» Roma, 1906, 1 vol. 

2 Compreenderá na Colecção os vols. v, vi e vii. 

I É em duas partes : i.*, Lisboa, 1645 e 2.*, ihid., 1647. 

« Coimbra, 1660. 

5 Lisboa, 1607 ; e ibid., 1785. 



CAPIíaLO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENtlSTA 379 



esteve e ficou prisioneiro *. Tem o valor duma testemunha 
preseocial e está escrita com grande simplicidade. 



ELOQUÊNCIA 

Í3S- — Eloquência; seus representantes. Sofre a 
eloquência neste período a sorte dos demais géneros 
literários. O cultismo desnaturaliza-a e, assim como os 
poetas faziam longos poemas sobre equívocos, sobre 
pequenos nadas, com trocadilhos e arrebiques de lin- 
goagem insuportáveis, assim os oradores dissertavam 
sobre futilidades, que tornavam absolutamente improfícuo 
o ensino do púlpito. O pregar tornou-se « efeminado, 
delicioso e de galantaria. Este método proveio de fre- 
quentarem os homens a lição e a representação das comé- 
dias de mào gosto. Os eruditos conhecem a locução 
destas peças do teatro espanhol... Os homens habi- 
tuados a verem e ouvirem as pessoas conferentes naquele 
jogo da comédia e aos assuntos e expressõis pueris, de 
que abundavam as mesmas composiçõis teatrais,... pro- 
duziram um costume de se explicarem apaixonado, mole 
e delicioso... Muitos pregadores ou por condescendên- 
cia ou por ditame nada menos eram que uns maneiristas 
daquela face do teatro » ^. 



^ Ê curiosa pelas informaçõis que ministra nSo somente sobre 
a capital, mas ainda sobre um ou outro ponto do pais, a obra de 
Fr. Nicolau de Oliveira (por 1566-1634), Livro das grandezas de 
Lisboa [ Vid. Arch. Hist. Port. ii ( i90i), art. do Sr. Brito Rebelo com 
o titulo : « Frei Nicolau de Oliveira e a InquisiçSo » ]. Também nâo 
queremos passar em silêncio o nome dum esmerado cultor da forma 
homem de estudo e largo saber, Duarte Ribeiro de Macedo ( 1618-1680 ), 
cujas Obras ( Lisboa, 1743, 2 vols., e 1767 e 1817 ) o revelam fraco 
poéla, mas correctíssimo prosador. Parece ter entrevisto a verdadeira 
lei dos trabalhos históricos quando escreveu: ■ averiguemos a ver- 
dade pelo exame dos monumentos dos edifícios e das mesmas ruínas ». 

2 Cenáculo, Mem. hist. do Min. do ptdpito, 159. 



380 HISTÓRU DA LITEBÀTUBA PORTUOTTESA 



Dentre os muitos oradores deste tempo, tais como 
Fr. Baltasar Paes (4- 1638), Francisco de Mendonça 
(+ 1620), Fr. João de Ceita (►!- 1633), Felipe da 
Luz {-^ 1633), Tomás da Veiga (+ 1638), Francisco 
do Amaral (+ 1647), António de Sá {-h 1678), Cris- 
tóvão de Almeida {-{• 1679), Bartolomeu do Quental 
(4- 1698), o fundador da Congregação do Oratório em 
Portugal, e Luís Alvares (Hr 1709), sobresairam a ecli- 
psar totalmente o nome de todos os mais o orador prima- 
cial que foi António Vieira e Manoel Bernardes. 

^ 13e. — ANTÓNIO VIEIRA (1608-1697) é o orador 
previlegiado deste século e um dos melhores clássicos da 
nossa lingoa. Nascido em Lisboa a 6 de fevereiro de 1608 
recebeu a sua primeira educação no Brasil, para onde fora 
com seus pais desde a edade dos oitos anos, num colégio 
que os jesuitas possuiam na Bala. Aos quinze anos 
entrou no noviciado da Ordem e dois anos depois, em 
1625, pronunciava os seus votos solemnes de religião. De 
tal forma se destinguiu nos seus primeiros ensaios, que os 
seus superiores o encarregaram logo de reger a cadeira 
de retórica e, passado tempo, o curso de dogmática. 

Muito cedo se notabilizou como orador. Quando rebentou 
a revolução em Portugal que, acabando com o dominio 
castelhano, colocou no trono D. João IV, o Brasil aderiu 
ao movimento da metrópole e, para saudar o novo rei, 
enviou expressamente a Portugal D. Fernando de Masca- 
renhas acompanhado de António Vieira *. E' de 1640 o 
sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra 
as de Holanda, que Raynal declarava ser o discurso mais 
extraordinário, que por ventura linha soado em púlpitos 
portugueses. D. João IV precisava de alguém que reunisse 



' Na embaixada veia tambéoa SimSo de Vasconcelos, autor da 
Ghronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil. .., Lisboa, 1663 ; 
2.* ed., 186o. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 381 

á finura dum diplomata a energia intransigente dum patriota 
para sustentar a causa portuguesa junto dos gabinetes da 
Europa *. Vieira foi escolliido para essa delicada missão, 
sendo ao mesmo tempo nomeado pregador da corte. 
De então por diante a sua personalidade desempenha um 
largo papel nos negócios polílicos do pais e pode dizerse 
que é desde esse tempo que começa a sua laboriosa vida 
de diplomata, à qual consagrou dez anos, e de missionário 
e escritor a que dedicou todas as suas forças até ao 
último alento. Foi um apóstolo incansável da liberdade 
dos povos do Brasil, à qual por mais duma vez pouco 
faltou para sacrificar a vida, como sucedeu com a lei 
de 1609 em favor dos indígenas, que nele encontrou um 
fervoroso, defensor, e nos colonos e funcionários a mais 
enérgica oposição. Com a morte de D. João IV fecha-se 
o período de grande influência exercida por Vieira. Logo 
nos primeiros anos do reinado de D. Afonso VI o grande 
orador foi exilado para o Porto e pouco depois para 
Coimbra. Foi em seguida acusado à inquisição. Este 
grande génio supersticiosamente acreditara nas profecias 
de Bandarra, sobre a vinda dum príncipe que inauguraria 
uma época de prosperidade e de ventura para a Igreja 
e para Portugal, e no Clavis Prophetarum pretendera 
fundar esses sonhos em razões deduzidas da S. Escritura ! 
O tribunal de Santo Oficio de Coimbra encerrou o pois 
nas suas prisões e aí o reteve desde 2 de outubro 
de 1665 até 24 de dezembro de 1667 2. Deposto, pelos 
factos que todos conhecem, D. Afonso VI, subiu ao trono 
D. Pedro II e Vieira readquiriu o seu prestígio voltando 
a pregar na corte na quaresma de 1669. Neste mesmo 
ano partiu para Roma como promotor da causa da beali- 



1 Pinheiro Chagas, Hist. de Portugal, vi. 

2 Sobre o proiiesso inquisilorial de Vieira leia-se Serões, n.° de 
abril de 1907, pg. 289, art. do Sr. A. Baião fundado sobre o processo 
inédito, que se guarda no arquivo da Torre do Tombo. 



382 BISTÓBU DA LITIRATCHA PORTUGUISA 

ficação do P. Inácio de Azevedo que com trinta e nove 
companheiros havia sido martirizado pelos Calvinistas de 
Rochelie, em 15 de julho de 4570. Durante os seis anos 
que viveu na capital do mundo católico, o ilustre orador 
obteve, sem dúvida, os seus maiores triunfos, sendo este 
o período mais brilhante da sua eloquência. Aí advogou 
junto do Papa Clemente X a causa dos Judeus de Portu- 
gal, injusta, tirânica e barbaramente perseguidos pela 
inquisição *. 

Pregando por várias vezes na presença da rainha 
Cristina da Suécia, que então se achava em Roma, esta 
o nomeou seu confessor e pregador. Mas estas grandezas 
não deslumbravam o espírito de Vieira que em 27 de 
janeiro de 1681 embarcava para o Brasil. Tinha 71 anos. 
Entretanto, em Coimbra, ao ter-se notícia de que o tribunal 
da Inquisição ia novamente abrir-se, numa manifestação de 
entusiasmo, o retrato do velho batalhador era queimado 
publicamente no pátio da Universidade, isto ao mesmo 
tempo que lhe prestava a homenagem do seu respeito e 
admiração a Universidade do México f 

Ainda experimentado nos últimos anos pela falsa acusa- 
ção de cooperação num assassínio e pelas intrigas dos 
seus próprios confrades da Ordem, Vieira veio a sucum- 
bir, depois de lenta agonia, aos 90 anos, no dia 18 
de julho de 1697. 

Considerando agora Vieira como escritor é nos seus 
numerosos sermões e nas suas interessantes cartas que se 
encontra a melhor lição, que se pôde procurar em tam 
grande mestre. As obras de Vieira sam mina inexaurível 
onde o filão do oiro se não quebra nem exgota. Abundam 
as pinturas vivas, as descriçõis coloridas e movimentadas. 
A propriedade dos termos, a riqueza e variedade dos 



1 Vid. Inéditos de Vieira publicados no Archico Bibliographico da 
Bibliotheca da Universidade de Coimbra, 1.° ano, pg. 77 e seg. 



CAPITULO lY — BSCOLA GONGOBIGA On SEISCENTISTA 383 

epítetos sucedem-se umas às outras, com profusa abun- 
dância. Gomo orador Vieira deixou-se inquinar pelo 
mau gosto da época : reconhecia ele esses defeitos, mas 
adoptou-os, donde se não pôde propor como modelo 
incondicional. Como epistológrafo as suas Cartas nem 
sempre têem a naturalidade do estilo familiar, simples 
e corrente. Mas em tudo o que ele escreveu há graça, 
há abundância. Subscrevemos inteiramente à opinião 
dum seu biógrafo: « nenhum povo po&suiu jamais nas 
obras de um só homem tam rico e tam escolhido tesoiro 
da lingoa própria, como nós possuímos nas deste notável 
jesuíta D. A colecção das obras de Vieira, comummente 
havida por completa compreende 26 volumes encerrando 
pouco mais ou menos 200 sermões, mais de õOO cartas, 
grande número de informaçõis politicas, curiosas notícias 
sobre a inquisição, estudos políticos e literários, etc. Está 
esta edição longe de ser completa. No British Museum de 
Londres, na Biblioteca Nacional de Paris, há manuscritos 
inéditos como o Clavis Prophetarum, que muito impor- 
taria conhecer *. 

A. Arte de furtar, que apareceu pela primeira vez 
em 1744 atribuída a Vieira, certamente não saiu da sua 
penna, de mais tersa língoagem e mais acendrado lavor ^. 
Pensaram muitos que fosse do jurisconsulto Tomé Pinheiro 
da Veiga (-J- 1656), o autor da Fastigimia recentemente 
publicada ^ outros de João Pinto Ribeiro, outros ainda 



1 Para a bibliografia de Vieira consulte-se Sommervogel, Biblio- 
théque de la Compagnie de Jesus, vm, verb. Vieira. 

2 C. C. Branco, Curso, cit., ii, 120 e seg. 

' A Fastigimia fornece interessantes subsídios para a documenta- 
ção de usos e costumes da vida portuguesa e espanhola de grande 
parte do sec. xvii, tempo dos Felipes. E o vol. iii da Collecção de Mís. 
inéditos, Porto, 1911, publicada a expensas da Gamara Municipal 
daquela cidade. Veja-se o Prefácio do ilustre Director dessa publica- 
ção, José de Sampaio ( Bruno ), onde desfaz muitas asserções que 
a respeito do huraoristico autor tem sido feitas. 



384 HISTÓRIA DA LITKRATORA PORTUGUESA 

de Duarte Ribeiro Macedo, mas o caso conslitue ainda hoje 
um problema bibliográfico *. 

12'r MANOEL BERNARDES (1644-1710), natural 

de Lisboa, oratoriano, pela harmonia do sen estilo e pela 
suavidade da dição é superior ainda a Vieira e nisto, 
cremos, fica feito o seu maior elogio. Se quiséssemos 
comparar Vieira a Bossuet, diríamos que Bernardes 
irmana com Fénélon. Distanciàram-se na prédica, como 
oa vida. Vieira foi um lutador; a sua vida prende-se 
por mais dum laço á história politica de Portugal; 
Bernardes viveu o melhor e maior tempo da sua vida 
— 36 anos — entregue à meditação e à redacção dos 
seus livros na pobre cela da congregação do Oratório 
Lendo-se com atenção, escreve Castilho, sente-se que 
Vieira, ainda falando do céo, tinha os olhos nos seus 
ouvintes ; Bernardes ainda falando das creaturas, estava 
absorto no Greador. Vieira vivia para fora, para a cidade, 
para a corte, para o mundo ; Bernardes para a cela, para 
si, para o seu coração. Vieira estudava galas e louçainhas 
de estilo. Bernardes era como estas formosas de seu 
natural, que se não cansam com alindamentos, a quem 
tudo fica bem, que brilham mais com uma flor apanhada 
ao acaso, do que outras com pedrarias de grande custo. 



1 Era impossível traçar aqui a larga biografia do famoso jesaita. 
Para amplo conhecimento ver principalmente : P. André de Barros, 
Vida do P, Vieira, Lisboa, 1746 ; Bispo Alex. Lobo, Obras, n, 173-356; 
João Fr. Lisboa ( Timon Maranhense ) Obras completas, iv, Mara- 
nhão, 1865; E. Carel, Vieira, sa vie, et ses oeuvres, Paris; a noticia 
biogr. que precede os Trechos Selectos, publicaçSo comemorativa do 
bicentenário da sua morte, Lisboa, 1897 ; Luiz Cabral, Vteira, biogr. 
caractere, éloquence. Paris, 1900; Id., Vieira Pregador, Porto, 1901, 
2 vols., 6 J. Lúcio de Azevedo, Os Jesuítas no Grão-Pará, suas missões 
e a colonização, bosquejo histórico, etc, 1 vol., Lisboa, 1901. 

As obras todas foram reimpressas em Lisboa, 1854-58, em 27 vols. : 
Sermões, 15 vols. ; Cartas 4; Ob. ined. 3 ; Varias 2; Arte de furtar 1 ; 
Hist. do fui. 1 ; Vida . . . , por André de Barros 1 ; 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 385 

Todos OS livros de Bernardes sam uma mina feracíssima 
para o estudioso. Ha a certeza iniludível de que se 
encontrará minério abundante e precioso. Basta lêr a 
Nova Floresta. Não sei, escreveu José Agostinho, que 
haja melhor livro, nem escritor mais eminentemente 
português. Ali está a lingoa portuguesa na sua pureza, 
na sua harmonia, na sua majestade, na sua opulência ; e 
a ninguém devemos mais, quando se trata da lingoa por- 
tuguesa. A cada página se acham frases e palavras 
não vistas nem sabidas pelos nossos mais laboriosos 
dicionaristas *. 

A colecção das obras de Bernardes ^ compreende deza- 
nove volumes, entre os quaes se contam os seus Sermões 
e práticas, os Exercidos espirituaes e meditações da via 
purgativa, os Ultimas fins do homem, os Tratados vários 
em cujo 2." tomo entra o Pão partido em pequeninos, 
alguns opúsculos e as suas melhores obras, aquelas que 
fazem dele um mestre incontestado da formosa lingoa 
portuguesa, em que as belezas do estilo se casam com 
o mais puro aticismo, a — Luz e Calor ' e a Nova 
Floresta *. 

138. — Trabalhos filológicos de século XVII. Ha 
numerosos trabalhos lingoislicos neste período, todos 
porém, de valor secundário. O que predominava no uso 
era a lingoa espanhola ; por ela pretenderam, pois, dife- 



1 No opúsculo Os Frades, pg. 71. 
^ * Vid. a indicação bibl. completa em Inoc, Dic. Bibl, xvi e no ix 
do Supl. Os melhores estudos sobre Bernardes encontram-se na Livr. 
Clássica, de António e J. F. Castilho, Lisboa, 1845, 7 tomos, e na do 
Rio de Janeiro, impressa em Paris, com o titulo Excerptos seguidos d» 
uma noticia sobre sua vida e obras, por A. F. Castilho, 1865, 2 vols. 

' Luz .... obra espiritual para os que tratam do exei-cicio das virtudes 
e caminho de perfeição, etc, Lisboa, 1696. A 4.» e última ed. 1871. 

* Nova Floresta, ou Sylva de vários apophtegmas e ditos seiítenciosos, 
espirituaes e moraes, etc, 5 tomos, 1706-1728. A 4.* e última ed. é 
de 1759-1760. 

25 



386 HISTORIA DA LITERATUBA POBTUOnESA 

rentes autores explicar as alterações que, obedecendo a 
uma lei fatal, se produzinm no português. Tais foram 
ÁLVARO FERREIRA DE VERA que em 1631 publicou a sua 
Ortographia ou modo para escrever certo na lingoa portu- 
guesa * e JOÃO FRANCO BARRETO com a sua Ortographia 
da lingoa portuguesa, que saiu em 1671 ^. BENTO PEREIRA 
publicou em 1634 a sua Prosódia, de que sairam dife- 
rentes ediçõis e na qual aparecem numerosas frases e 
adágios portugueses com os seus correspondentes latinos 
e em 1645 o Thesouro da lingoa portuguesa. Dentre todos 
os autores, porém, deste século sobrasai AMARO DE 
ROBOREDO, secretário do arcebispo de Évora D. Diogo de 
Sousa, que pode chamar-se para o seu tempo gramático 
destintissimo, como o atestara as suas obras: Verdadeira 
grammatica latina ( 1615 ) ; Raizes da lingoa latina ( 1621 ) 
em latim e português; Porta de lingoas (1623); Methodo 
grammalical para todas as lingoas (1619). Roboredo já 
presente a importância da gramática comparada, pugnando 
pela creação de uma cadeira de lingoa materna, ao menos 
nas Cortes e nas Universidades, e pela mudança de método 
no ensino da lingoa latina, de tanta necessidade para o 
conhecimento da lingoa materna ; mas as reflexõis do 
gramático português, diz um critico, foram tam atendidas 
como os vaticínios de Cassandra '. 

liSQ. — Jornalismo. Aparece neste século o pri- 
meiro jornal português, facto que não podemos deixar de 

* Lisboa, 1631, qoase sempre se encontra encadernado com o tra- 
balho do mesmo autor Origem da nobreza... Lisboa, 1631; oatra 
ed., 1791. 

2 Barreto traduziu a Eneida, Lisboa, 1664-70, 2 vols. E ainda 1763 
6 1808. Tendo ido como secretário da embaixada a França mandada 
por D. JoSo IV escreveu a Relação, da viagem que a França fizeram 
Francisco de Mello. . . e o Dr. António Coelho de Carvalho. . . a 
Luís XIII. . , Lisboa, 1642. Tem ainda alguns opúsculos. 

' J. V. Gomes de Moura, Noticia succinta dos monumentos da lingoa 
latina, etc, Coimbra^ 1823, pg. 354. 



CAPITULO IV — BÍCOLA GONGORTCA OU SEISCENTISTA 387 

registar, dado o desenvolvimento extraordinário que pos- 
teriormente deveria tomar o que agora nos não aparece 
senão como um pequeno e insígniflcante esboço. 

Em 1625 publicava Manoel Severim de Faria em Lisboa 
a Relação universal do que sticcedeo em Portugal e mais 
provindas do Occidente e Oriente, de março 625 até todo o 
setembro de 626, e em Braga outra até agosto de 1627. 
Várias publicaçõis com título egual ou equivalente, como 
papeis volantes, noticias avulsas, etc, foram certamente os 
precursores da Gazeta, em que se relatam as novas todas 
que ouve nesta corte e que vieram de varias partes, cujo 
1." número apareceu em novembro de 1641, com seis 
páginas em quarto e mensal. Em janeiro de 1663 apa- 
receu o Mercúrio Português, que durou até 1667 e que 
era redigido pelo secretário de Estado António de Sousa 
Macedo. No reinado de D. João V reapareceram as Ga- 
zetas de Lisboa redigidas por José Freire de Monterroyo 
Mascarenhas desde 1715 a 1760. Mas para se avaliar 
o que eram tais jornaes basta dizer-se que a espantosa 
catástrofe do terramoto de Lisboa em 1755 é contada 
em seis linhas apenas, assim: « Lisboa, 6 de novembro 
de 1755. O dia primeiro do corrente flcarà memorável a 
todos os séculos, pelos terramotos e incêndios que arrui- 
naram uma grande parte desta cidade; mas tem havido a 
felicidade de se acharem nas ruinas os cofres da fazenda 
real e da maior parte dos particulares ». E a 13 do 
mesmo mês outras oito linhas, e nada mais 1 

Só com as idéas liberaes, depois de 1820, é que o 
jornalismo se propaga e engrandece, abusando por vezes 
da sua imensa força *. 



*.Vid. um artigo muito interessante de Silva Túlio, no Brinde aos 
senhores nssignanles do Diário de Noticias, relativo a 1866, pg. i-xxii e 
Sr. Alberto Bessa, O jornalismo, esboço hist. da sua origem e desenvolvi- 
mento até nossos dias. . . Lisboa, 1904, 1 voi. 



388 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 



130- — Epistológrafos. Cartas da Religiosa Por- 
tuguesa. Temos a registar no génerp epistolar vários 
documentos de valor literário. António Vieira é, em 
epistolografia, geralmente mestre e exemplar correcto e 
clássico. D. Francisco Manoel de Mello deixou esparsas 
nas suas Cartas Familiares muita daquela compungida 
tristeza que lhe amargurou a existência, aqui e àlêm 
indicaçõis literárias, políticas e sociaes de valor a apro- 
veitar para quem empreender o estudo da época e do 
século em que ele viveu ; FR. ANTÓNIO DAS CHAGAS nos 
dois tomos das Cartas Espirituaes *, já citadas (n.° 106), 
soube arrancar-se ao lodaçal gongorista em que se afun- 
daram as suas composições poéticas. Mas no percurso 
deste período da nossa história literária ha cinco cartas 
dum cunho inteiramente original e típico, que imortali- 
zaram o nome da sua autora, a celebrada MARIANA 
ALCOFORADO, de Beja, onde nasceu a 22 de abril de 1640. 
Mariana professara num convento da sua cidade natal, 
quando conheceu um oficial francês por quem concebeu 
uma ardente paixão, o conde de Ghamilly, que serviu em 
Portugal às ordens de Schomberg, com o título de conde 
de Saint-Léger. A este oficial dirigiu a apaixonada freira 
cinco cartas, que sam um verdadeiro monumento de senti- 
mento e de candura e que, apesar da sua extraordinária 
simplicidade, e talvez por isso mesmo, podem apontar-se 
como uma obra de arte, bela pela intensa verdade que 
delasj resalta. Estas cartas apareceram pela primeira 
vez em tradução francesa em 1669. Perdido o original 
português, o que restava era surpreender a alma que as 
escrevera, e tanto quanto possível localizá-las na sua época 
e no seu meio. 



> l.« p. 1684, 2.» 1687. Outras ed. : 1736 e 1762. Vid. outras 
obras em Inoc, Dic. Bibi, i, e Matos, ManHul, 155. 



CAPITULO IV — ESCOLA GONGORICA OU SEISCENTISTA 389 

•Foi O que procuraram fazer: 1.**) Filinto Elísio, cujo 
trabalho pode lêr-se nas Obras completas, x, 430 a 494 ; 
2.°) D. José Maria de Sousa, o benemérito Morgado de 
Mateus, numa ed. de Paris, ano de 1838; 3.°) Lopes 
de Mendonça, cuja tradução incompleta, pois é só de 
quatro cartas, se encontra na Semana, jornal literário 
de Lisboa, ano de 1882, vol. 2.*; 4.°) Domingos José 
Enes numa ed. de Lisboa, de 1872 ; 5.") Luciano Cor- 
deiro no seu belo livro Soror Marianna publicado em 
Lisboa em 1888. É este último um trabalho que exaure 
o assunto, estudando a simpática figura da Heloisa por- 
tuguesa à luz duma crítica histórica verdadeiramente 
impecável. De pgs. 253 a 302 aí se encontram essas 
preciosas cartas que ficarão na história literária do 
século xvn como o mais verdadeiro e o mais sentido 
documento, que uma alma feminina poderia legar à 
posteridade ^ 



í Este juízo não é partilhado por todos os críticos. Leiam-se as 
páginas tam espirituosamente belas que ao assunto consagrou Barbey 
d'Aurevilly, Femmes et Moralistes, Paris, 1906, pg. 41. 



ANTOLOGIA 

sÉcxjLO xvn 



POESIA 



Cantiga. 

Descalça vai para a foDte, 
Leanor pella verdura. 
Vai fermosa de nSo segara. 



 talha leaa pedrada, 
PucarJnho de feiçSo, 
Saia de cor de limSo, 
Beatilha soqueixada, 
Cantando de madrugada, 
Pisa as flores na verdura. 
Vai fermosa & nâo segura. 

Leua na mSo a rodilha. 
Feita da sua toalha. 
Com hfia sustenta a talha. 
Ergue com outra a fraldilha, 
Mostra os pés por marauilba, 
Que a neue deixSo escura. 
Vai fermosa, & nSo segura. 

F. Rodrigues Lobo, As Eglogas, ed. 



As flores por onde passa. 
Se o pé lhe acerta de pôr, 
Ficâo de inueja sem côr, 
E de vergonha com graça. 
Qualquer pegada que faça, 
Faz florescer a verdura, 
Vai fermosa & nâo segura. 

Nao na ver o sol lhe vai. 
Por nSo ter nouo inimigo, 
Mas ella corre perigo. 
Se na fonte se ve tal, 
Descuidada deste mal. 
Se vae ver na fonte pura, 
Vai fermosa ôt não segura. 
1605, egioga X, fl. 110. 



U 

Cantiga. 

Antes que o sol se leuante 
Vai Vilante a ver o gado. 
Mas nSo ve sol leuantado, 
Quem ve primeiro a Vilante. 



392 



ANTOLOOIA — POESIA 



He tanta a graça que tem. 
Com hOa touca mal enuolta, 
Manga de camisa solta. 
Faixa pregada ao desdém, 
Que se o sol a vir diante, 
Quando vai mungir o gado, 
Ficara como enleado, 
Ante os olhos de Vilante. 

Descalça as vezes se atreue, 
Hir em mangas de camisa, 
Se entre as heruas neue pisa. 
Não se julga qual he neue, 

F. Rodrigues Lobo, ibid., fl. 113 t. 



Duuida o que está diante, 
Quando a ve mungir o gado, 
Se he tudo leite amassado, 
Se tudo as mSos de Vilante. 

Se acaso o braço leuanta. 
Porque a beatilha encolhe. 
De qualquer pastor que a olhe, 
Leua a alma na garganta, 
E ainda que o sol se aleuante, 
A dar graça & luz ao prado, 
Ja Vilante lha tem dado, 
Que o sol tomou de Vilante. 



UI 

A. F. qoe morreo do ar. 

Com ar madruga a flor mais engraçada, 
Pavão de Abril pomposo, e matizado ; 
Mas para o sen alinho ser prostrado, 
Basla-lhe o mesmo ar da madrugada. 

Nasce ayrosa a vergontea delicada. 
Pluma do bosque, pavelhão do prado. 
Mas de hum zéfiro o sopro arrebatado, 
Entre as plantas a deixa sepultada. 

Assim foy, Fábio, Felis soberana. 
Delicada vergontea, e flor luzida. 
Hum ar a corta, se outro ar a abala : 

Frágil morreo, se madrugava ufana. 
Porque em fim toda a popa d'esta vida 
Apenas brilha, quando em ar acaba. 

Anónimo, Eecos que o clarim da fama dá...,t, 269. 



IV 

A hnm desengano. 

Será brando o rigor, firme a mudança, 
Humilde a presumpção, varia a firmeza. 
Fraco o valor, cobarde a fortaleza, 
Triste o prazer, discreta a confiança. 

Terá a ingratidão firme lembrança, 
Será rude o saber, sábia a rudeza 
Lhana a ficção, sofistica a lhaneza. 
Áspero o amor, benigna a esquivança. 



sicuLO xvii 393 



Será merecimento a indignidade, 
Defeito a perfeição, culpa a defensa, 
Intrépido o temor, dura a piedade, 

Delicto a obrigação, favor a o£feosa. 
Verdadeira a traiçío, falsa a verdade, 
Antes que vosso amor meu peito vença. 

Anónimo, tí)id., ii, 335. 



SilTa ao P^ António Vieira por hO sermão que fez na rosa 
do nascimento de Nossa Senhora. 

Aspirar a louuar o incomprehensiuel, 
he fundar o dezejo no impossiuei, 
redusir a palauras os espantos, 
detrimento será de excessos tantos : 
diser do muito, pouco, 
dar o juiso a créditos de loaco : 
querer encareceruos, 
eleger os caminhos de ofendemos : 
louuar diminuindo 
subir louuando, e abaixar subindo 

Deixar tambê couarde de louuaruos 
será mui claro indicio de ignoramos 
faser a tanto impulso resistência, 
pôr o conhecimento em contingência : 
delirar por louuar o mais perfeito 
achar a perfeiçáo no que he defeito, 
emprender aplaudir tal sutilesa, 
liurar todo o valor na mesma empresa : 
errar exagerando 

ganhar perdendo, e acertar errando : 
siga pois o milhor indigna Musa, 
e deponha os excessos de confusa, 
que para acreditarse 
basta, basta o valor de auenturarse : 
e para vos liarar de detrimento, 
ser vossa a obra, e meu o pensamento : 
pois não 6ca o valor aniquillado 
sendo meu o louuor, vos o louuado : 
porque somos os dous no intelligiuel 
eu ignorante, e vos incomprehensiuel. 

Com tanta descrição, tal excelência, 
spirito, valor, graça, eloquência, 
doçura, e energia, 
o natal celebrastes de Maria, 
que passando vos praça de Portento 
fizestes mais feliz tal nacimento : 
pois ser de tal discurso exagerado 



39i 



AITTOLO0IA — POESIA 



O feliee deixou mais duplicado : 
porque se bem nasceu tam beila rosa 
para tantos excessos de ditosa, 
se bem nasceu para louuores de Anjos, 
Cherubis, Sarafins, Sanctos, e Arcanjos : 
nascer para o louuor tam grande engenho 
foi tamb§ da ventura hum desempenho, 
pois sendo tudo aplausos soberanos 
compitem c'os diuínos os humanos, 
louuando, em fim, quanto Maria encerra 
as Deidades no Ceo, e vos na terra. 

Hé vosso entendimento 
feliee suspensão do pensamento : 
vossa doce elegância 
cifra da mais perfeita consonância ; 
vossa graça excessiua 
a pedra do ceuar mais atractiua : 
vosso saber profundo 
portentoso exemplar de todo o Mundo : 
vossa agudesa rara 
dilicia do discurso, altiua, e clara : 
vosso estillo famoso 
agradauel motiuo do enuejoso, 
e em fim vosso juiso soberano 
credito do diuino, honra do humano. 

O' viuey para assombro das idades, 
gosto das magestades, 
extasis dos sentidos, 
prodigio dos nascidos, 
excesso dos passados : 
viuey para moiiuo dos agrados, 

objecto de louuores, i 

archiuo de fauores, ' 

compendio de excellencias. 
Vivei para modelo de eloquências 

thesouro de elegâncias, ■ 

e se minhas grosseiras ignorâncias 

tem sido dillatadas • 

deixayas castigadas, j 

mas confesay doctissimo Vieira \ 

que se ignorante sou, sou verdadeira. j 

Violante do Ceo, Rimas Varias, ed. 1646, 74. ! 



VI 
Romance. 



A Democrita do Ceo Filosofa no desprezo 

Ou a Heraclita do Polo, De pérolas hum thesouro 

Que se desfaz toda em riso Derramava sobre a terra, 

Que se desfaz toda em choro; Bem que as trazia dos olhos. 



SÉCULO XVU 



393 



Quando acordey, doce aQ)igo, 
Ao som de meus próprios roncos : 
Era o tal sono cobarde, 
Ronqueilhe, e fugio o sono. 

Vestime, e o rosto lavey, 
Porque se naõ lavo o rosto, 
Por meyos de deslavado 
Se mete a ser vergonhoso. 

Almocey hum frangainho, 
De peras cobertas oito ; 
Seis foraõ, mas conto mais, 
Porque me vem mais a conto. 

Os consoantes pedirão 
As duas, que de mais ponho, 
Que por amigos de doce 
Querem campar de bom gosto. 

Indã que as tiro da boca, 
O que me pedem, lhe outorgo. 
Que como saõ taõ meus amos, 
Com elles peras naõ jogo. 

Montay, meu Sousa, no macho. 
Bem que nelle nada monto, 
Pois da minha authoridade 
He inimigo nos ossos. 

Por esses trigos me vou, 
Porém no campo espaçoso, 
Bem que me vou por esses trigos, 
Do caminho naõ me longo. 

Na Golegá descavalgo, 
Ou desmacho, que he mais próprio, 
E se desasnára fora 
Muy mais elegante modo. 

Estalajem á mão direita, 
N'um aposento taõ roto. 
Que por seus velhos remendos 
Se viaõ seus entreforros. 

A miséria lhe notey. 
Mas a soberba mais noto,- 
Porque tendo poucas partes. 
Acho naõ tem fumos poucos. 

Poeta me pareceo, 
Mas naõ Poeta ostentoso. 
Porque com ter varias rimas, 
Mostra nada ter composto. 

Hum instrumento de boca 
Temperou nossa ama logo, 
E eu vendo que ella tempera. 
Minha garganta disponho. 



Mas nisto chegou nossa ama 
Com um prato muy fermoso, 
Porque tinha huns olhos verdes, 
A pedir de boca os olhos. 

Eraõ muy tenros, muy doces. 
Mas sou eu de taõ máo gosto 
Que com serem taes, os trouxe 
Entre meus dentes bum pouco. 

Depois dos olhos de cove 
Huma forçurinha como, 
E comi bem por mindo, 
Bem que o digo muy por grosso. 

Huma franga vem sem pena 
No cadafalso goloso, 
Por ser christâ nova hum tanto, 
Sahio condenada ao fogo. 

Mais fino do que hum amante, 
E mais que hum Cid forçoso 
Mais puro do que huma Vestal 
Mais rubicundo, que ApoUo. 

Era o vinho, que bebi, 
Taõ delgado, taõ gostoso, 
Que muitos furos abaixo 
Lhe fica o Falerno tosco. 

Era em fim tal, que melhor, 
Que a Freira de melhor rosto. 
Obrigaria aos amantes 
Naõ se apartarem do torno. 

Regaleyme como hum Padre, 
E farteyme como hum tolo, 
Ceveime como espingarda, 
E fiz-me como hum pelouro. 

Comi finalmente hum doce. 
Mas por ser muy torpe poço 
O desta Villa, não quis. 
Que fosse aguado o meu gosto. 

Pus-me logo a caminhar. 
E já depois do Sol posto, 
Qual engenhosa abelhinha, 
N'huma cortiça me ponho 

Referirvos eu a cea 
Fora processo enfadoso, 
Bem que por estar muy quente, 
A despachey n'hum assopro. 

Comer, e callar me agrada, 
Darey pois na boca hum ponto, 
Porque de mim se naõ diga 
Que bem como, e que mal coso. 



J. Vahia, A Fénix Renascida, Jornada w, ed. 1746, 266-270. 



396 ANTOLOGIA — POESIA 

VII 

Cm episódio dos c Virginídos » 

. . . deixando os sólios respirantes, 
Se leuantaõ em pé Crauos & Rosas, 
Para hir render as purpuras fragrantes 
A a Flor de lerichó. Flor das fermosas : 
Logo os Crauos tomando, como amantes, 
As Rosas pella mão, gentis esposas, 
Vão pisando dos Prados os verdores, 
Qaaes Reys, acompanhados das mais flores. 



Acháraô emballando ao sacro Arminho 
Três Donzelias, que tem gentil presença, 
E a mais velha, que veste honesto alinho, 
Era gentil, mas cega de nascença : 
Para ser mais fermosa, foi caminho, 
Ter nos olhos das mais a differença, 
Que as mais, se em olhos ter, tem mais belleza, 
EUa, em naõ tellos, tem mais gentileza. 

A do meio de verde está vestida, 
Com que mais de fermosa se quilata, 
E assistindo entre as flores, a pulida 
Gala, hum campo florido se retrata : 
A mais noua das galas guarnecida, 
Com que o Sol vai decendo á lenta prata, 
Trajada ricamente se offerece, 
Que de purpura fina se guarnece. 

Despois d'hGas, is. outras conuersarem. 
Com grauidade, graça, & subtileza, 
E sommissoens alegres tributarem 
A a Graça, a que o Sol rende a gentileza : 
A Minina do Ceu por arrularem. 
Que he Minina dos olhos da belleza, 
A mais noua das três, que o berço emballa, 
Assim canta, & o mais coro em tanto calla : 

Minina celestial, Aue diuina. 
Rosa de lerichó, Pheniz sagrada, 
Que sendo alua, qual a Alua cristallina, 
Qual a Aurora, também sois encarnada : 
Se de sahir, qual Rosa matutina, 
Do Materno botaõ, estais cançada, 
Durmi ao canto meu hum pouco agora,^ 
E occultai esses Astros, como Aurora. 



SéCTTLO XVII 397 



Se Aue, &. Mar sois, em nome, & em graça vfana. 
Sem cuidado durmi, Minina bella, 
Que está o Mar leite, em quâto o tomais d'Ana, 
Que em quanto vos creaes, náo ha procella : 
He Anna Aue Alcyonèa soberana. 
Que a virtude, ao crear desta Aue, assella, 
Que era quanto a Aue do Ceo no ninho cria, 
laz o Mar, dorme o Vento, & o Ceo vigia. 

Aqui tendes mil Damas circunstantes, 
Creadas, para ser vossas criadas. 
Que em galas, & belleza estão brilhantes, 
E em festiuos aplausos occupadas : 
Pois, cerrai essas luzes rutilantes, 
Fechai essas janellas engraçadas, 
E as Mininas gentis, que assistem nellas, 
As vidraças fechar vos deixem bellas. 

Aqui tendes mil guardas peregrinas, 

( Para em quanto durmirdes vos guardarem ) 
Durmi sacro Portento, & as luzes finas 
Ao losué do sono hum pouco parem : 
Nesses berços do Sol. essas Mininas, 
Em quanto vós durmis, & descançarem, 
Falta vos n5o faraó, para guardamos, 
Porque as Mininas mil vejo cercamos. 

Mais fieis guardas tendes, que o fingido 
Deos teue para a Dama, que occultaua, 
Quâdo ó Pastor, q em Aue he conuertido, 
Cem olhos deu, que em sonos alternaua : 
N5o vos haõ de furtar : ay ! que duuido. 
Porque Garçotes mil com áurea aljaua. 
Vejo sobre estes tectos peregrinos, 
Sulcar com azas d'ouro os ares finos 1 

Mas jà sei, que vos vem fazer regallos, 
Festas, bailes, &. musicas traçando, 
Que se elles Anjos saõ, vossos vassallos 
Do Ceo para Argos vossos vem voando : 
Pois, por nos agradar, ée. agradallos, 
Durmi, para vos vermos, que só quando 
Fechardes essas luzes peregrinas. 
Veremos, sem cegar, feiçoens taõ finas. 

Os Cupidos celestes, que estes ares 
Coalhando vem com musicas, & amores, 
Fazendose mil tiros singulares, 
lunquilhos frechas saõ, farpões sSo flores : 
Co estas armas do Ceo decem milhares, 
A guardar festiuaes vossos primores, 
E assi podeis durmir. Virgem galharda, 
Pois tantos Anjos mil tendes de guarda. 



398 ANTOLOGIA — POEIRA 



Acabou de cantar a Dama graue, 
('uja mágica voz, &. doce accenlo 
Era encanto das vidas, por siiaue, 
Extasis d'alma, & suspensão do vento 



Barbuda e Vasconcelos, Virginidot, ed. 1667, 74-78. 

VIII 

Helena despois da destraição de Troia 

Arde a Neptunia Troya já rendida 
Ao cavallo fatal e jjrega espada, 
Em cinza, em fumo, em sombra convertida, 
Que a glória humana é fumo, é sombra, é nada 
Já tratavam os Gregos da partida, 
Carregando o despojo a grande armada : 
E entre tão rica e soberana preza 
Era a fermosa Helena a mor riqueza. 

Já co'a causa e desculpa do troyano 
Excidio, que na cinza inda fumava, 
Soltando a rédea ás naus; o soberano 
Agamenon as ânchoras levava : 
Da negra antena despregando o panno. 
Que indo prenhe do vento que soprava, 
O porto deixa, o alto mar cortando ; 
Vão-se as prayas e os montes affastando. 

O destroço fatal de Troya viam 
Das naus que o Hellesponto atravessavam 
Os Gregos, quando a vista suspendiam 
Nas terras que já apenas divisavam. 
So nas partes mais altas pareciam 
Uns vestígios das torres que ficavam, 
Adonde a vista o mais que determina 
E' medir a grandeza co'a ruina. 

Amphíteatros, máchinas e muros 
Pyramides, colossos levantados, 
Óoeliscos que mostram estar seguros 
Contra a força dos tempos e dos fados, 
Jazem sem fama em cinza vil, escuros. 
Das idades por fabula prostrados ; 
Que o tempo os bronzes e as colunas parle, 
E os poderes da morte iguala Marte. 

De bandeiras e flâmulas ornaram 
A victoriosa armada que partia; 
E as proas para Tenedo inclinaram. 
Que um bosque sobre as ondas parecia : 



SÉCULO XVII 399 



Que alli vSo despedir-se concertaram, 
Onde a ánchora pesada o sal feria ; 
Sobre ella. quando o fere, se dilata 
O mar azul em círculos de prata. 

Ambos de Atreu os filhos valerosos 

( Antes que um va a Esparta, outro a Missena ) 

Queriam despedir-se, desejosos 

Que alli possa alegrar-se a bella Helena : 

Com elles sai do campo e os seus fermosos 

Olhos, de que reparte glória e pena 

Amor que assaltear delíes aprende. 

Pelo flórido campo e praya estende. 

De ve-la o mesmo ceo se namorava, 
E o ar no do seu rosto se acendia, 
O mar, quando ella as conchas lhe furtava. 
Parece que a beijar-lhe os pés corria. 
Quem as divinas graças que mostrava, 
Contar quiser, mais fácil lhe seria 
Contar as flores do lascivo mayo, 
E do sol os cabellos raio a raio. 

Pela testa sem ordem desparzido 
Solto o cabello voa livremente. 
Onde sai a aqueixar-se de opprimido 
De uma cinta de pedras refulgente. 
No hombro soa o arco do brunido 
Martil ; no lado a aljava está pendente : 
Com menos graça ao bosque entrar costuma 
A bella deusa que nasceu da escuma. 

G. Pereira de Castro, Ulyssea, ed. ICSB, c. ii. 



IX 

Glanra proenrando no campo de batalha o corpo de Batrão 
sen esposo. 

Entre os mortos, da morte e ceo queixosa 

O cadáver amado infelizmente 

Busca a que foi de BatrSo amada esposa ! . . . 

Mas entre a multidão da morta gente 

E confusão da noite tenebrosa, * 

O cuidado amoroso ivâo ficara 

Se a bella face Cynlhia nSo mostrara. 

Com ância que a dôr causa, levantando 
As chorosas estrellas ás estrellas, 
Rogos e vãos queixumes misturando, 
Assi roga, e assi aos eeos manda querellas : 



400 ANTOLOeiA — POBSU 



11 Eternas luzes que passaes brilhando 
Per celestes caminhos, margens bellas t 
Males de amor e morte já sentistes. . . 
Mostrae quem morto adoro aos olhos tristes t 

Dae-me morto o que vivo me tirastes, 
E piedosas de mim sereis chamadas ! . . . 
Bastem os males já que me causastes. 
Tanto tempo em meu dano conjuradas ! 
Assi no claro assento que occupastes 
Nunca sejaes de nuvens eclipsadas ! 
Deixae que chegue a dar-lhe sepultura, 
E o golpe em mim execute a Parca dura I . . . 

E tu que com três rostos resplandeces 
No ceo, na terra, e la no escuro Averno I 
Tu que as plantas animas e enriqueces 
O mar profundo com vigor interno ; 
Os rayos com que as cousas favoreces, 
Comunicando teu valor eterno, 
Estende, e mostra-me entre tantos, onde 
A escura sombra o morto bem me esconde ! . 

Acaso, qual se rogos a obrigaram, 
A face Delia descobriu serena. . . 
Primeiro os altos montes se mostraram, 
Logo a cidade envolta em sangue e pena 
Entre os que valorosos acabaram, 
Como daquelle império a sorte ordena, 
Conhece Glaura o ja perdido esposo, 
Exemplo de valor pouco ditoso ! 

No amado peito a setta vai cravada. . . 
Desmaia o coraçSo á dôr rendido : 
Cae mais morta emfim que desmaiada 
Sobre o que tanto amou, morto marido. 
Quasi da alma fugaz desemparada, 
A falta lha deteve do sentido, 
Tendo suspensa a dôr ; e do accidente " 
Mortal torna, respira, attenta e sente. 



Fere o grito no tecto cristallino . . . 
Um soldado ignorante ao vulto tira, 
Que, por ordem secreta do Destino, 
O lastimoso grito descobrira ! 
A setta fere o peito alabastrino 
Que para tanto mal amor ferira. . . 
Ais a infelice ao ceo manda queixosos, 
Bemque se ja mortaes^ inda amorosos. 



sécuLo XVII 4f01 



E como pôde, a débil voz levanta, 
Dizendo — « Oh I vencedora gente forte ! 
Ja comigo piedosa. . . E ja, com tanta 
Ira, causa crael de minha morte : 
Se entre marcial furor piedade santa 
Tem logar, e permilte minha sorte. 
Pois me nega o poder a morte dura, 
Ao SiSo e BetrSo dae sepultura I . . . 



Albuquerque as estancias visitando, 
Áquella parle chega ao ponto que ella 
A lastima as eslrellas provocando. 
Da que seu mal causara se querella. 
Elle do lamentar débil e brando 
Se compadece, e manda recolhê-la : 
Abrem do estreito alojamento a porta, 
E a triste acham entre viva e morta. 

Faltando o sangue que ja tem perdido. 
Inclinava a cabeça á dôr penosa, 
Qual no ramo do tronco dividido 
Languida e triste pende murcha rosa ! 
Etol, a quem mais doe o succedido, 
O primeiro alevanta ; a rigorosa 
F^^rida inquire com piedoso intento. . . 
Ella o sábio conhece e toma alento. 

Esforçando a voz fraca : — « Differente 
Successo ja me promettesles 1 «... ( disse ) : 
■ — « Feliz tu, se a piedade omnipotente 
Hoje obrar ( lhe responde ) o que eu predisse I 
Oh ! se estivesse na divina mente 
Que o rayo do divino amor ferisse, 
E desse luz a essa alma que hoje cega, 
Ja quasi a ponto de perder-se chega ! 

Oh Glaura ! emendará? erros passados, 

Confessando um so Deus, imenso, eterno. 

Que de nada nos fez, e os adornados 

Ceos de estrellas, mar, terra. . . e horrendo inferno: 

Este nos redimiu, que desherdados 

Nos fez do homem primeiro o mau governo ! 

E por ser justo e pio, a offensa dura 

Pagou, sendo creador, pela creatura. 

Pola perdida ovelha suspirava, 
E de a trazer aos hombros se deleita : 
Na vinha, paga igual a todos dava. 
Que também ao que chega tarde, acceita. 
Pede agua que da culpa as almas lava, 
E prescita serás, ó alma eleita : 
Pede I confía I crê ! . . . serás ditosa, 
Serás do^Eterno Esposo eterna esposa. » 



26 



402 ANTOLOOIA — POESIA 



Assi dizendo em fe lhe accende o peito : 
O que não ve ja cré. . . tantos lhe inspira 
O ceo auxilies; e c'um pio aífeito, 
Pola agua que é de vida, ja suspira. 
Levam-na em braços, e lhe ordenam leito 
Conforme ao sitio que instrumentos de Ira 
Occupam ; e applicar hervas começa 
Elicio, que de ApoUo a arte professa. 

Ella ja da esperança e da fe cheia, 

Que o ceo lhe infunde, disse : — « Antes que aggrave 

A morte que é mortal, esta alma feia 

Purifique a agua sancta, e a culpa lave !. . . 

Ja n'este tempo a vista se encandea, 

E o rosto cobre um pallido suave. . . 

Cos sacros ritos e agua, o sacerdote 

Lhe dáj de Christo esposa, o eterno dote. 

Elicio em tanto la das hervas prova 
A occulta força, ja arrancar procura 
Co'a douta mão o ferro. . . e a dôr renova 
Sempre que arrancar prova a setta dura, 
Em quanto ervas applica, ervas reprova, 
E quantos ha .segredos na arte apura. . . 
Dos membros beilos bella alma espedida. . . 
Elle arte e tempo perde. . . ella acha a vida. 

Contempla triste o capitSo valente 

A trasladada ao ceo morta belleza ; 

E, bemque grave, compassivo sente, í 

O acerbo caso, mas a sorte preza. \ 

Manda que guardem em logar decente t 

O corpo frio que honras já despreza, j 

Até com pompa fúnebre e piedosa í 

Dar ao nobre cadáver tumba honrosa. » i 

í 
F. Sá de Meneses, Malaca Conquistada, ed. 1658, liv. x. a 

X 

o Oceano festejando a armada portagnésa. 

Sentiu la no profundo e vitreo estrado 
Onde com Thetys passa alegre sesta. 
Oceano, este abato desusado 
Da fabricada súbita floresta ; 
E com tal novidade perturbado 
Deixa de parte o regosijo e festa, 
E per TritSo os deuses convocando, 
As agoas para cima foi cortando. 



SÉCULO XVII 403 



Em calma neste tempo o mar estava, 

E como rio manso parecia, 

O vento em seu descanso repousava^ 

Nenhuma tábua concava surdia : 

Oceano, que a frota divisava. 

De Lusitanos ser reconhecia, 

E por se lhes mostrar ledo e contente 

Co'ésta voz faz attenta a húmida gente. 

« O bellissimars nymphas, ó marinhos 
Habitadores do cristal salgado, 
A esta armada agora abri caminhos. 
Que em calma a tem o vento socegado : 
E' justo festejemos taes vizinhos 
Que tanto teem meu nome acreditado 
Por elles sou famoso, e todo o humano 
A grandeza celebra do Oceano. 

Cesse já do Erithreu a glória antiga 
E seus trophens magníficos suspenda. 
Nem do Ponlico mar louvor se diga, 
Que meu direito e preeminência offenda. 
Outras crescentes, outros Estos siga 
Esse Mediterrâneo se pretenda 
Igualar-se commigo ; enfree o brio 
O Mauritano, o Caspio, o Euxino frio. 

Nenhum cerúleo reino se navega 
De gente em paz e em guerra tam famosa. 
Nenhum com tal corrente cerca e rega 
Costa em viages tam maravilhosa ; 
Nenhum seus braços tam ufano entrega 
A cidade tam nobre e populosa ; 
Que, se Ulysses lhe deu o fundamento 
E' ja glória de Ulysses e ornamento. 

Isto dizendo, os braços vai lançando 
Com seu compaço igual pela agua fria 
E a nau real c'os hombros inclinando 
Escumas levantava e dividia ; 
Logo vai cadaqual outra aferrando. 
Por nSo ficar detrás sem companhia : 
O curso era tam destro e diligente. 
Que iam surdindo todos igualmente. 

O navio do príncipe tirava 
Com graça estranha a linda Galatea, 
Que por descuido a vezes se mostrava 
Mais alva que o cristal da própria vea ; 
Os olhos após si todos levava 
E corações trás elles senhores ; 
Quantos a culpam de ligeira e leve. 
Pois tal vista lhes faz assim mais breve I 
Vasco Mousinho Q. e Gastello BraHco, Ãff»nto Africano, ed. 17S8, n, 33. 



404 ANTOLOSIA — POESIA 



XI 
Ulisses dispõe-se a fondar Lisboa. 

Naõ se descuida o sábio peregrino 
Nos jogos com q o Rey o festejava 
De obedecer ao Ceo, & a seu destino 
Na fundação que o fado lhe ordenava. 
Com peito alegre, & cõ sébrante dino 
De quem tam alto bem participava, 
Junta no largo campo a forte gente, 
Uesta maneira diz, grave, & eloqu6le : 

Ulustres companheiros, cuja sorte, 
Cujo valor o mesmo fado admira, 
Elle, que pio nos livrou da morte, 
A empreza maior comnosco adspira. 
Quanto se oppoz a vosso peito forte 
Fora trabalho vaõ se o referira, 
Pois o sofrestes, só lembrarvos quero 
Para o que intento o mais que cõsidero. 

Sabeis como as Siréas, celebrando 
Exéquias a seu fim com nossa historia^ 
HQa nova cidade eternizando, 
Nos prometerão, nella a maior gloria ; 
Occultas professias declarando, 
De polo a polo ficará notória 
( Deziam ) quando a terra que Ig nome 
D'hQa de nós os largos mares dome. 

HQa destas irmSs Lígia se chama. 
Lysia, diz outra voz, se vSa n5o erra ; 
Por Lusitânia, ou Lysia o mQdo aclama 
Esta a que o Ceo nos trouxe feliz terra, 
Aqui pois nos espera eterna fama. 
Aqui o fado nossa gloria encerra, 
E no principio jà do bem que temos 
O vaticínio das Siréas vemos. 

NS vos deve esquecer, que o claro auspicio 
Daquella águia fermosa q admiramos. 
Cidade illustre nos mostrou propicio, 
Se a famosos sinaes credito damos. 
A gram Minerva com piedoso ofiBcio, 
Em cujo nome o templo fabricamos, 
Me animou a fundar nobre cidade, 
Que o fado consagrava à eternidade. 

Bem lembrados estais, que a penha dura 
Que procurou naufrágio a nossa vida, 
Em cidade glorio8a'alta ventura 
Nos descobrio do fado promettida. 



SÉCULO xvu 405 



o mesmo ( ò edpanheiros ) me assegura 
( Fosse verdade, ou já visaõ Sngida 
Entre sonhos da força de um desejo) 
O que no seio vi do claro Tejo. 

A. S. de Macedo, Ulytsipo, ed. 1640, c. xm. 



XII 
Episodio de SerralTO. 

Sem eessar a mortífera batalha 
Se embravecia cada véz mais fera, 
Que de todos os lados se trabalha; 
A gente que da vida desespera. 
Dos peitos, e paveses faz maralha 
Circular, e a pé quedo a morte espera, 
Só o bárbaro Serralvo se desvia 
Do perigo, em que as outras nações via. 

Era Serralvo moço gigantado, 
Pequenos olhos tinha, e rosto feio, 
Mui calejada mSo, e pé gretado. 
Largo de espadoas, e de peitos cheio, 
Cabello crespo, e nunca penteado. 
Barba inculta, vestido sem asseio, 
Ás mãos vilosas, largas as munhecas. 
Grossas as pernas, e as queixadas secas. 

Este, que em muitas guerras pouco obrara, 
Cobarde entre a bagagem se escondia 
TSo vilmente, que nem volvia a cara 
Âonda tSo cara a vida se vendia. 
Viriato, que umas mangas retirara, 
E sobre todos tinha grâ vigia. 
Vendo aquelle corpaço alarpadado. 
Mais severo o reprehende que indignado. 

Deseulpa-se tremendo, que não tinha 
Arma, e por tanto ali se recolhera. 
Viriato lhe diz — toma esta minha 
Arma, e com ella faze o que eu fizera ; 
Para sempre t'a dou, alto caminha, 
Que traz ti vou, e adverte que te espera 
Grande castigo, ou premio : disse e parte 
O bisonho discípulo de Marte. 

Entra na escola sem conhecer letra, 
Mas tão bem a lição do mestre aprende 
Que do primeiro golpe, que soletra 
Da testa aos peitos um centurio fende ; 
Multiplicando os vai, ossos penetra. 
Que arma nenhuma d'elle se deffende : 
A mais dobre, e fortíssima armadura 
Rompe, qual branda cera, a maça dura. 



406 ANTOLOGIA — PORgIA 



Um dardo, que lhe fora arremeçado 
O ferio levemente na cabeça, 
Do que impaciente o bárbaro, indignado, 
Em meio dos contrários se arremeça, 
Despedaçando os vai a cada lado, 
Que de matar, e de bramir nao cessa, 
Parecendo-Ihe poucos, quantos via 
Para esfriar a cólera, em que ardia. 



Dez mil, ou mais romanos acabaram 
Neste conflicto horrendo, e memorando, 
E depois que os despojos saquearam, 
A Tribula se foram retirando ; 
Ali tudo igualmente sortearam, 
Entre grande e pequeno, não levando 
Viriato dos despojos conquistados. 
Mais parte que qualquer de seus soldados. 

Vantagens aos de mais merecimentos 
Repartiu, para que outros murmurassem, 
Que murmurações, jogo e juramentos 
Não houve guerra na qual nSo se achassem. 
Murmurando os de máos procedimentos 
De que Serralvo aos mais avantajassem, 
Um travesso, que bem o conhecia, 
E que a seu lado estava, lhe dizia : 

Pouco fizestes ; quem de vós tal crera ? 
Sós cem Romanos pondes no terreiro ? 
Se me deram tal maça eu me atrevera 
Com ella a derrubar mais de um milheiro. 
Responde muito simples : se os colhera 
Também eu os matara, companheiros ; 
Mas eram já tão poucos os que achava 
Que só de quando em quando os alcançava. 

Todos me pareciam pigméositos 
Cernindo ao largo, como cães de caça, 
Pois fugiam de mim como mosquitos 
Do fumo, e me deixavam só na praça ; 
Mas se eu torno a encontrar estes malditos 
Esta fará. . . e aqui erguendo a maça 
Cabeceando se foi mui descontente 
De em vez de a mil, matar a cem somente. 



Brás Garcia de Mascarenhas, Viriato Trágico, ed. 1699, pag. 6. 



8BCUL0 XVII 



407 



PROSA 

XIII 
o oaro. 

Se as causas saõ pollos eíTeitos conhecidas, & elles testemnnhSo a 
excelléeia, ou maldade delias, qual o foy de mayores males, & danos 
na redondeza, & meteo aos homens em mais perigosos trabalhos que 
o ouro, a quê cõ muita razão podiaõ todos chamar peste do mundo; 
& posto que os nolaueis exemplos das destruições & rumas que nelle 
fez, podião tomar mais tempo do q agora tenho para tratar delle; 
quero começar primeiro do seu nacimento, para que mostrem os seus 
arriscados princípios, os desastrados successos para que a malicia 
humana o descobrio. E não desprezando o que diz Plinio taõ douta- 
mente, q não contentes os homês com o que a superfície da terra 
produzia para sua recreação, & mStimêto, a fermosura das aruores, a 
diuersidade dos fruitos, a belleza &. cheiro das flores, a verdura das 
beruas, o esmalte das boninas, a abundância dos legumes, quiserSo 
desentranhar do centro delia os segredos que a benigna natureza nos 
escondia. 

Nace o oaro nas entranhas dos montes, & nas artérias occultas 
dos penedos ; & sobindo como aruore da profunda raiz donde começa 
vay espalhando os ramos em desigual medida, conuertendo o sol 
com seus poderes aquella matéria disposta & propinqua, até que 
chega a ser ouro, & se demostra por duuidosos smais na face da 
terra; que logo daquella emprenhidão se mostra triste, dando por 
indicios da riqueza que encerra ; herua descorada, delgada, sutil, & 
sequinhosa ; área «St barro leue, seco, & sem proueito, & ate as agoas 
que por entre as veas decem, saem cruas, & com sabor pezado. 
Espreitando estes sinais a industria humana, entra fazendo guerra 
ao profundo caminhando por debaixo dos montes sustentados em 
columnas da mesma terra deixando a vista do sol, & das estrellas, 
pondo as vidas ao risco das roinosas machmas que mil vezes os 
oprimem, que tanto a nossa sede fez cruel a benigna terra, que parece 
menor temeridade tirar do fundo do mar perlas, & aljôfar, que do seu 
seyo, o inimigo ouro, que ainda então o nSo he mais que nas espe- 
ranças. Depois' de tirado com tam custosas diligencias, saido como 
parto de venenosa bibora, rompendo as maternas entranhas, com o 
fogo se aparta, apura, & aperfeiçoa, fícando menos apto para o seruiço 
dos homens, na cultíuaçSo dos campos, & aruoredos, & mais apa- 
relhado para sua destruição, & roina ; porque ou se laura para 
ostentações, & demasias da vaidade, ou se bate, & cunha em moeda, 
cujo preço tiranisa os poderes, & graças da natureza. Tirou o ouro 
a valia a todas ellas, & fez em si estanque de todos os comércios do 
mundo, no qual antes que elle apparecesse, se trocauão as cousas hGas 
por outras, com hGa composição, & trato mais conforme, <5t obrigado 
a necessidade, & cómodos da vida, que aos roubos da cobiça, maldades 
da auaresa, 6c. sobegidoens da vaidade ; & apoderouse tanto de tudo o 
que na terra auia, que veyo a ser preço até da liberdade dos homens 
contra o direito natural, em que viuiam. Forão crescendo seus atreai- 



408 ÀNTOLOau — PR08A 



mento», & se antes de sair do centro da terra começou a matar homens, 
saindo delia se leuantou contra o ceo, fazendo guerra de rosto a rosto 
a todas as virtudes : tirou logo a vara das mãos á justiça, & deitado 
em sua balança peruerteo o fíei de sua igualdade. 

F. Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia, ed. 161&*, dial. sétimo, 63. 



XIV 

A. graça da toz, & as propriedades delia. 

O espirito, & vioesa dos oibos para o fallar. 

O ar das sobrancelhas. 

Gõpostara do pescoço, cabeça, boca. 

... O primeiro instrumento da pratica he a voz, & para essa ser 
engraçada no fallar ha de ter estas propriedades. Ser clara, branda, 
cbea, &. compassada, porque a voz esi;ura confunde as paíauras, a 
áspera, & seca, tiralhe a suauidade, a muito delgada óc feminina faz 
imprópria a acção do que falia, a muito apressada empeça e reuolue 
as razões que per si podem ser muito boas ; não trato nas que a natu- 
reza inhabilitou para esta perfeição, como ha a voz do gago, do cisioso, 
(Sc do rústico grosseiro ; mas na do cortesão tomara eu estes atributos, 
porque ha algQs que fallão com a voz tam metida por dentro, que 
deixão as paíauras para sy, &. os ouuintes as escuras, que lhes he 
necessário estar espreitando o que lhes querem dizer. E outros que 
pronuncião com tanta aspereza, que espinhSo as orelhas dos que escu- 
tão; & outros que faliam tão apressadamente, que parece que leuão 
esporas na lingua. . . 

Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões, porque 
como elles são as janelas d'alma, por elles se communica vida ás 
paíauras : & assim hão de ser claros, alegres, & mouiueis, porque 
08 muyto instensos, & estendidos, entristecem : os muito apertados &. 
franzidos, mouem a despreso ; os muito abertos, pasmados, 6t saidos 
para fora, fazem temor, & posto que os olhos por risonhos, nunca 

Eerdem graça, parece que nas praticas, graues, & de importância, não 
ão-de ser muito chucaiheiros. .. 
Também a acçam do fallar toma muito [ das sobrancelhas ] porque 
franzidas fazem carranca, & mostrão que falia dum homem com 
manencoria : baixas, representão tristeza, ou vergonha : muito arquea- 
das, significão espanto : & leuantadas, alegria ; & não menos conuem 
a composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconãança, 
ou perfia ; & posta no ár, vangloria : & o pescoço, que nem se ha de 
ter tam leuantado que faça soberba nas paíauras, nem tão baixo, que 
pareça que não pode com a cabaça; a qual não ha de estar tão firme 
que pareça que a espectarão nelle, nem se ha de quebrar para todas 
as partes como grimpa. 

Da mesma maneira a boca ha de ser quieta quando falia, sem estar 
mordendo os beiços, nem torcendose, nem inchando com as paíauras, 
nem com o riso se ha de mostrar tão descuidada que as entorne pollos 
cantos, nem taõ apertada, que offenda a boa pronunciação & graça 
delias no que vay mais á lingua portuguesa q a outras muitas. . . 

F. Rodrigaes Lobo, Ibid., diaL oitaro, 72. 



SÉCULO XVII 409 

XV 

Visita das Fontes. 

Fonte Velha — Os homens principaes por ham de dous caminhos 
se lançaõ a buscar fortuna, ou pela rua das armas, ou pela rua das 
letras ; a rua das armas he muyto comprida, &. tem muytas travessas; 
a das letras he mais curta, porém muyto mais larga, & mais direyta ; 
pelas armas, be verdade, que se acha mayor fortuna, mas tarde : pelas 
letras, ainda que menor mais em breve, & muyto mais certa ; os erros 
das armas saõ como os da Cirurgia, os das letras como os da Mede- 
cina ; aquelles logo se notaõ nos accidétes exteriores ; os outros com 
a terra se cobrem, & se dissimulaõ; por onde sucede, que se hum 
Capitão errou, o castigaõ de cotado & tê o perigo no mesmo erro ; 
mas se errou o Letrado naõ he a letra vista, &. sobejamente mofino 
será aquelle, q com dous annos mais de paciência, que o outro, lhe 
naõ atalhe diante, ou sayba, ou naõ sayba; porque seu competente 
saber, he saber fazer isto. 

Apollo — A quantos delles conheço eu I 

Fonte Velha — A esta causa, & como elles no alheio se examinaõ, 
basta que hum homem falle confiado, tenha as barbas rocegantes, como 
opa de Cortes ; que dos óculos se naõ dispa já mais ; que donde o naõ 
entenderem falle latim; dezenrole Digestos, Textos, glosas, & expo- 
ziçoens ; com seus números, & parágrafos, mas que nunca tal digaõ ; 
porque ao correr da conversação, se naõ enxerga se vaõ, ou naõ em 
seus lugares, para que o que tal fizer seja tido por Oráculo. 

Soldado — Por isso disse o nosso rifaõ : por fora páo, & viola, 
át por dentro paõ bolorento. 

Fonte Nova — Grande conceyto fiz eu já deste modo de homens, 
mas confessovos, os naõ conhecia tanto, como depois, que a frequência 
de meus trabalhos mos fez familiares. 

Fonte Velha — Pois agora como entendeis delles ? 

Fonte Nova — Entendo que o naõ entendo. 

Apollo — He cousa triste viver com todos, & julgar os que vos 
h5o-de julgar; sendo certo, como antigo, aquelle costume, ou ditado, 
que a justiça todos a querem ; em sua casa ninguém, & menos em si 
mesmo. Confesso os commodos desta profissão, mas naõ ignoro os 
incómodos, que quando outros naõ tivesse, se naõ aquelle máo cos- 
tume de ler sempre por ruim letra, naõ era pensaõ fácil : por outra 
parte também considero ser esta huma vida segura, onde a vida poucas 
vezes naufraga. 

Fonte Velha — Se Apollo bem soubera a observação, que tenho feyto 
em prova deste discurso, que mais se affirmara nelle. 

Fonte Nova — Communicai-no-lo. 

Fonte Velha — Vós sabeis, que trazendo nosso novo Reynado mil 
novidades ao mundo, salpicarão os inconvenientes delias, naõ sem 
perigo, a toda a sorte de homens da Rt-publica. Pelo Estado Eccle- 
siastico Arcebispos, Bispos, Religiozos, & Prelados ; pela ordem da 
nobreza Duques, Marquezes, Condes, Ministros, Fidalgos, & Desembar- 
gadores : pelo estado comum tratantes. Mercadores Officiaes & ple- 
beos ; vimos logo, que para lodos estes géneros de gente se estendeo 
a vara do castigo, ou do ferro, ou do cordel, ou da recluzaõ, ou do 
exilio, mas naõ vimos, que sendo a tormenta taõ levantada, que as 



410 ANTOLOGIA — PB08A 



ondas apagarSo as Estrellas, molhasse alguma destas ondas a esfera 
dos Letrados, sendo que mostra a rezaõ, naõ podiaõ ser todos os 
sospeytozos innocentes, como o naõ foraõ todos os mais criminados de 
diversas profíssoens. 

Apollo — Largo, mas verdadeyro discurso. Assim foy pontual- 
mente. 

Fonte Nova — Bem dissestes dos Jurisconsultos, sois bem informada 
de tudo, & dahi vem, que de tudo podeis informarme. 

Fonte Velha — Naõ fia Coimbra, Salamanca, nem Pariz como os 
muytos annos, se os cultiva o juizo. 

Fonte Nova — Pela conta também conhecereis aquelle Clerifro pom- 
pozo, que por acolá atravessa, taõ seguido, ou taõ perseguido? 

Fonte Velha — Naõ vos digo quanto pudera, & tmha para vos contar, 
por naõ levar tudo ao cabo, que já neste mundo huma pessoa de alta 
discrição, desgabava huma prezumida de muyto discreta, com dizer, 
que Deos a livrasse da pratica de fulano, porq era homem prezado de 
ter resposta para tudo. 

Fonte Nova — Antes he indicio de grande engenho, & lanço de 
estremado Cortezaõ. 

Fonte Velha — Eu vos direy ; assim he isso, como sentis nos termos 
ordinários, mas se lançarmos o contra ponto sobre este ponto, naõ 
hade ser a conversação dos entendidos, como aquelle Adagio, que 
dizem da panella, & da pedra. Dá a panella, na pedra, mal pela 
panella ! Deos vos livre de homens rhetoricos, que sempre querem 
ser a pedra, & fazer de vós a panella ; sempre vos querem quebrar o 
verbo na boca, & que a sua valha : eis aqui o que chamamos discnçSo 
impertinente, & se mais apertares indiscrição. 

Apollo — Fallou a prepozito esta fontainha como se fora mulher de 
arte, ou homem denche maõ a lodos vo lo declaro, o que naõ for 
comedido, naõ pôde ser entendido : tal vez se realça mais a sabidoria, 
parecêdo ignorada ; se hfl discreto falia com hO Príncipe, com hum 
Senhor, & em fim com um mayor, que elle, ou seu igual ( & melhor 
se mais pequeno ), he modéstia prudentíssima naõ querer afogar logo 
as alheias rezoens com outras melhores, posto que naõ faltem; porém 
aqui naõ chega a mera politica sem a prudência própria ; sendo a 
rezaõ, porque os homens mais facilmente se apartaõ, do que gozaõ, 
que do que concebem : com tudo naõ he deyxar de acertar, mostrar 
embora, que as cousas se naõ acertaõ. 

Fonte Nova — De esses seria aquelle grande cortezaõ dos Porlu- 
guezes, que disse ao filho, vindo do Paço : filho vamo-nos de Portugal, 
porque ElRey já sabe, sey eu mais que elle. 

Apollo — Devagar o dizeis porque naõ só he ufania, mas perigo, 
querer sempre ter a melhor opinião. 

Soldado — Folgo de ouvir o colóquio & a velha honrada naõ vay 
fora de caminho, pelo que logo direy : eu tinha no meu tempo, quando 
era espadachim, huma rodella de cortiça muyto molle, & hum borquel 
de aço muyto duro & como a cortiça fosse muyto brada, & se deixasse 
penetrar das cõtrarias espadas me defêdia melhor, ficando sempre 
salvo ; o que naõ fazia o demónio do borquel, que a cada briga me 
estalava, deyxandome convidado do resto da mão dobre. 

Fonte Nova — Estranhíssima volta foy esta : dos breviários, it foli- 
nhas de hum Clérigo viemos ás espadas, it borqueis deste rufiaõ. Bem 
disse aquelle, que chamou arvores às conversaçoens ; pela copia, & 
variedade de ramos, & de esgalhos, que laaçaõ a cada palavra. 



SÉCULO XVII 41! 



Fonte Velha — Emenday os desconcertos fazendo eonta, que ainda 
agora me perguntastes por aquelle escoUar. 

Fonte Nova — Sobre emendar depressa desmanchos vagarozos, havia 
assas que dizer; mas he ir dar em outros. 

Fonte Velha — Aquelle Clérigo, que passou, por quem perguntastes 
he homem de melhor sangue, que juizo ; &. como se o despozorio da 
Mitra foraõ bodas temporaes, pertende pelo seu sangue a melhor espoza 
das Igrejas do Reyno : alcatruzou o pobre { ante tempo ) como se na 
capacidade dos hombros estivesse a capacidade ! Barbou no berço, 
como se ao modo das forças de Samsaõ consistisse no cabelo a virtude ; 
ha por isso quem affirme tem tantos unguentos para cayar as barbas, 
como algum velho verde para envernizar as cayaduras do tempo. Reza 
dezentoado, para ser ouvido; esquecemlhe os cilicios, & disciplinas 
por cima dos bofetes na casa das vizitas ; & se EiRey vay a alguma 
Igreja, esquecese elle no altar duas horas : finalmente tendo a ambição, 
vaidade, & cobiça de portas a dentro do animo, naõ ha diligencia 
oculta, que por illicita engeyte, a iroco de se ver colocado entre os 
Ântistetes da nossa terra. 

Fonte Nova — Olhay cá, ainda podèra ser peyor : eu creyo, que o 
mundo naõ está de todo depravado, em quanto vejo durar a hypocrezia; 
esse fingimento de virtude ainda nos dà algum sinal de que ella pôde 
valer alguma cou^' a. Guardenos Deos de homens ( & mais deste estado ! ) 
soltos & despejados dos devidos respeytos I 

D. Francisco Manoel de Mello, Apologos. . . ed. 1721, 156 a 164. 



XVI 

Preparativos para o descobrimento da Ilha da Madeira. 

Vendose o nosso Rey Dom Joaõ Primeiro, de boa memoria, ja 
desoccupado das guerras de Castela, naõ quis, como varSo constan- 
tíssimo, esperdiçar a serenidade de sua Republica em o repouso, com 
que licitamente pudera gozalla, despois do largo trabalho de sua 
recuperação & defensa. Armou nobre exercito ; cõ o qual passando 
o mar, antes q algum Príncipe de Espanha, conquistou aos Mouros, 
a ilustre Cidade de Ceita, & antigo povo de Africa, a quem deu 
memorável nome a perda de Espanha, que por suas portas teve 
principio. Alcançou Dom Jo5o este triunfo pellos annos de 1415, 
ajudado n5o só dos Vassallos, como filhos, mas dos filhos, como 
Vassallos, servindolhe de Capitíes de suas hostes o Príncipe & os 
Infantes ; entre os quaes se sinalou, em valor, & disciplina, seu 
terceiro filho Dom Henrique, Mestre insigne de toda a arte militar, & 
de nossa milicia de Christo ; por ser mais rico, & afeiçoado ventajo- 
samente, a emprezas dificultosas ; cujos intentos, crecendo em a 
virtuosa emulação do que via conseguir a elRey seu pay, em si 
mesmo se estava cada hora ensayando para mayores efeitos. 

Havia o Infante estudado, entre as matérias Mathematicas, com 
mais aifeiçáo, a Cosmographia ; & como em Africa praticasse acerca 
delia cõ muytos Judeos, & Mouros, noticiosos das Províncias remotas, 
& das costas, &. mares, que as cercão, instantemente se inflamava seu 
coraçSo, em o desejo de descobrilas, & ganhalas ; nSo para acrecentar 



ki% ANTOLOGIA — PROSA 



05 domínios temporaes, mas para dilatar a Fè Catholiea, & reverencia 
do nome de Christo ; de cujo divino oráculo, he fama, foi animado à 
tal empreza. 

Resoluto, em fim, a fazer a Deos este serviço, & este beneficio ao 
mundo todo ; para melhor executar seus propósitos, recolhSdose da 

Í 'ornada de Ceita, se ficou no Algarve ; donde em a Angra de Sagres 
iQa legoa apartada do antigo Promontório, que Sacro disserSo os 
Romanos ( &. dahi Sagro, a Sagres, a quem chamamos hoje Cabo de 
Sam Vicente ) fundou hQa villa em ordem à sua assistência, & mayor 
cómodo das navegacoens que intentava... que despois em mais 
Portuguez, & grato modo, foi dita : ViUa do Infante. 

Por este tempo, & desde este lugar, começou D Henrique novas 
conquistas, & descobrimentos : revolvendo cada dia suas embarca- 
çoens 08 mares do Atlântico, & Occidental. . . 

Entre as pessoas, que o Infante D. Henrique ocupava nestes desco- 
brimentos, foi principal ( pello menos, naõ se sabe de outra mayor ) 
hum nobre Cavalleiro de sua casa, que disseraõ : loão Gonçalves Zarco. 
Duvidase, se por alcunha, apelido, ou façanha. Fora criado no Paço 

6 disciplina delRey Dõ loaõ o Primeiro, & por elle dado em grande 
estimação ao Infante. NSo havia ainda neste tempo os livros dos 
Filhamétos, dõde permanece escrita a Nobreza civil cuja invêçaõ, ou 
forma, se achou no Reynado de D. Afonso Qumto. Por esta razão, naõ 
por falta de callidade, que em loaô Gonçalves houvesse ( pois segQdo 
afQrmaõ os que delle escrevem, era sobeja & adiantada â de seus 
cõpanheiros, como se lê em loaõ de Barros ) & se achava nelle menos, 
o titulo de Fidalgo, da casa do Infante ; a quê servia nos postos de 
mayor confiança & autoridade : qual o mando que lhe encarregou 
com suas armas, em que de força , havia de concorrer a m5o delRei; 
cujo Capitam mór do mar, algQs dizem que era ; & este o mayor titulo, 
que nossos Reys davaõ aos Cabos de seus exércitos, no mar, ou no 
campo. He também de advertir, que nas armas do Infante, se incluyaõ 
as da Religião de Christo; de cujas rendas Dom Henrique fornecia 
seus navios ; o que sendo, como he, sem duvida, resulta em mayor 
honra da pessoa de loaõ Gonçalves, & preminencia do grande lugar, 
que logo em seus princípios ocupou neste Reyno ; o qual se lhe con- 
ferio por sangue. &. merecimentos; havendo sido um dos Capitães, que 
eIRey Dom loaõ o Primeiro armou cavalleiros, o dia do assalto de 
Ceita ; & que despois em todas as emprezas de Africa, acõpanhou a 
elRey seu senhor, & o Infate seu amo, cõ I5ta singularidade, que se 
diz delle : Foi o primeiro Capitão, que introduzio em os navios o uso 
da artelharia. 

Nesta forma governando sua Armada, discorreo loaõ Gonçalves, 
pello estreito de Gibraltar, a fim de passarse á costa de Africa, nos 
princípios do anno de 1420 havêdo jà em o anno atras passado de 
1418, como acaso, descuberto a Ilha do Porto Santo; vindo arribado 
por razSo de grandes tormentas da viagem, que aquelle verão fizera, 
em demanda do Cabo Bojador. Naõ estavSo ainda as contendas de 
Portugal & Castella, por este tempo tam acabadas, que entre os 
súbditos, não houvesse algQas ocasioens de discórdia donde procedia, 
que Portuguezes, ^ Castelhanos, costumavaõ prenderse, quando no 
mar se achavaõ, sem outro pretexto, que julgarse o agressor mais 
poderoso. 

Falecera em Castella, a 5 de Março de 1416, o Mestre de Calatrava 
D. Sancho^ filho ultimo delRey D. Fernando de Aragaõ; o qual Mestre 



i 



SÉCULO XVII 413 



deixara em sea testamento hum rico legado por saa alma ; para qae 
de Marrocos, fossem resgatados muytos cativos Castelhanos ; & entre 
estes foi hum dos que receberão primeiro liberdade ( pello resgate do 
Mestre de Calatrava) o Piloto loaõ de Morales, de. quem havemos 
feito particular mençaõ, & correrá igual por todo este tratado. Nave- 
gara aquelles dias, de Africa, a Tarifa, em hlla fusta^ q cõduzia a 
Espanha, a mayor parte ; dos resgatados Castelhanos, quSdo sendo 
descuberta, da Armada de loaõ Gonçalves, & perseguida dos navios 
mais ligeiros, veyo, sem algúa defensa, a seu poder ; mas o Capitão 
atentando a miséria dos rendidos, como tam certo da clemência do 
Infante Dom Henrique, lhes deu logo liberdade, reservando só para 
si, a loaõ de Morales, que como pessoa mais prática, &. de longo 
cativeiro, quis apresentar ao Infante ; entendendo poderia alcançar 
delle algdas das noticias, que buscava ; do qual propósito, sendo 
certificado loaõ de Morales, tam pouco refusou a nova prisaõ q como 
homem astuto, se ofereeeo voluntariamente, para servir com bQa 
grande oferta, à curiosidade do Infante Dom Henrique praticando desde 
logo a loaõ Gonçalves, parte do segredo da nova terra, que esperava 
inculcarlhe, & corroborando as noticias, que delia tinha, com a historia 
do Ingrez Roberto, segundo de seus companheiros a havia entendido. 
Mais rico desta esperança, que de outra alguma presa, se voltou 
logo loaõ Gonçalves ao porto de Terça Nabal ; donde fazendo relação 
de sua breve viagem & fácil encontro, apresentou ao Infante a pessoa 
de loaõ de Morales ; a quem deu conta de sua arte & segredos. O que 
tudo sendo do Infante, ouvido. & examinado, ja naõ sabia a hora, em 
que havia de começar tam grande empreza, & tanto a seu génio 
acomodada : porque sobre ser cousa sabida, que os Princepes fazem 
ventagem aos mais homês, na sutileza de seus espíritos, em nada se 
mostra mais expressamente, que no apetite, a diferença, ou melhora, 
que ha entre seus, & nossos afectos. 

D. Francisco Manoel de Mello, Epanaphoras, ed. 1676, 309 a 315. 



xvn 

Carta a bam amigo acompanbando um livro 
de versos seus. 

Bem auiados estauaõ os pequenos, se fora ley do agradecimento, o 
ser igual ao beneficio ! Entaõ só foraõ agradecidos os poderosos, e 
esses pode ser que o naõ fossem. Quis Deus que esta miséria nos 
escapasse, ou nós a ella : porque senaõ prezasse muito a Fortuna, de 
que, sobre nos deixar miseraueis, nos deixaua também infames. De 
outra sorte a grandeza seria contrato ; pois dar para receber mercácia 
parece, e naõ generosidade. Mas que conta dera eu de my, se houuesse 
de pagar a V. M. quanto lhe deuo ? Ou se para lhe pagar necessitasse 
de outro metal que a memoria das diuidas ? Inuençaõ foy do Amor, 
que ou desprezou, ou naõ alcançou outros lezouros, que acunhar 
ânimos, e bater vontades, com que satisfazer a todos seus acreedores. 
là reparei em que, naõ sem mistério, chamamos : Cifra a qualquer 
figura, que. encerra algum segredo, e Cifra, áquella figura de Arisme- 
tica, que nSo montando nada, dá valor a todas. Digo eu que deoe 



414 ANTOLOGIA — PROSA 



ser este, o geroglifíco da gratidão; porqae sendo em sy naO mais 
de ham humilde afeito, realça todas as obras, a que se ajunta Ora 
Senhor, á conta destes nadas, receba V. M. estn nada que lhe offereço, 
Queixese embora o Filosofo, de que a amizade faça do nada alguS 
cousa. No cabo de tanto deuer, começo a deuer mais, obrigando, a 
que aceite V. M. culpas por satisfações. Em Sm saõ obras minhas, 
que só agora acertarão, em buscar a V. M Mas este caminho dias ha 
que o sabem os meus errores. V. M. he taO Português, e taõ bom 
Português, que naõ engeitará a conuersaçaõ destes consoantes ; os 
quaes, ainda que meus, postos com pouco artificio, e pesados em breue 
consideração, ( naõ sey eu, se se parecem com aquelles a que imitaõ ) 
mas lá se tem, sequer, hum gram desejo de se lhe parecerem Rico 
he o mar das mais soberbas aguas, e alé o nosso riozinho de Alcântara 
corre para elle. Outros seraõ Tejos, e Douros ; este he pequeno regato, 
mas leua o que tem á presença de V. M e quem dá quanto tem, dizem 
por cá que naõ he mais obrigado. Também as nossas velhas sâo 
Ariostos. Nosso Senhor &c. Torre em 28 de Outubro 1648. 



Id., Cartas Familiares, ed. 1664, Primeira parte, 159. 



XVIII 



Carta a bom Ministro satisfazendo algumas faltas 
de correspondência. 

Qve correspondência se pode esperar de hua alma despadaçada ? 
Eu me chamara ditoso, se só o fosse da violência a pessoa, com que 
ao espirto se perdoasse. Lá chegaõ as lanças da sem razaõ, lá fere a 
dor, lá mata a melancolia. Ainda mal por que os meus desprimores 
tem taõ grande disculpa ! Ando fora de my ha muitos tempos ; e agora 
ando sem my ; porque nâo bastou que me destruíssem estes que me 
perseguem, sem que também me enganassem Tenho obseruado vay o 
meu negocio acima taõ perdido em fim, como meu. E supposto que 
da Altura muito pudera confiar, a minha fortuna me faz temer nSo 
menos. Grande escudo he por certo aquelle, de quem V. M. me auisa 
houue por bem cubrir, e amparar com sua sombra minhas desgraças. 
Já pellos D. N, hauia sabido a singular mercê que a Senhora N. fazia 
ao meu nome : bem mais deuida he esta obra ao seu sígue, que ao meu 
merecimento, de todo indigno de tal auxilio. Se esta Princesa quis 
mostrar seu poder, e bondade em me valer ; naõ acertara com outro 
sogeito, em que tudo mais se luzisse ; porque taõ grande desgraça, de 
tamanho fauor necessitaua. Mais naõ ha em my. Mas também fora 
ingratidão faltar eu com o material para esta obra. V. M. pode oíTe- 
recer-me a sens pés deuotissimo, e perpetuamente obrigado, e neces- 
sitado da honra e mercê que N. comigo exercita : nesta vitima affli- 
çaõ mais necessária, que em nenhuã das passadas. Estou certíssimo 
que tanto neste rogo e ofTt-rta, como em tudo mais, que me tocar, naõ 
faltará V. M. em me fazer mercê, conforme tenho visto, e espero ver 
em quanta viua, e também merecer. A consulta parece naõ tardará 
muito em vir á secretaria. Queira Deus seja de tal sorte, que tenha 
V. M. o primeiro contentamento de bom successo : e guarde a V. M. 
muitos anos, como desejo. Torre em 2 de Setembro de 1594. 

Id., ibid., 507. 



SÉCULO XVII 415 



XIX 

De algãas memorias qne ha atè o Gm do Império 
de Octaviano Aagosto . . . 

Com a paz uuiuersal que veo ao mundo, nacendo o Âuthor delia, a 
tiuerâo todas as Prouincias do Império : & cõ ellas nosso Reyno de 
Lusytania, cansados já seus naturaes de lâo continuas guerras, como 
trouxerão cos Romanos, em deffensão de sua liberdade ; vendo quSlo 
menor inconueniénte era gozar húa sogeyçSo liure pêra todo o mais 
que não fosse Reynar, que sustentar liberdade sogeyta a tantos con- 
trastes, como traz consigo a guerra. Pêra demonstração deste repouso 
(poucas vezes visto dos Romanos) mandou Octauiano cerrar a vitima 
vez as portas do Templo de lanno, de três que ( como quer Paulo 
Orosio ) as cerrou durando o tempo de seu Império, sendo antigo 
costume tellas abertas em quSto auia nouas Conquistas, ou Prouincias 
rebelladas, o qual teue seu principio ( conforme aponta Macrobio ) na 
guerra dos Sabinos, viuendo ainda Rómulo : porque estando a porta 
do Têplo de lano, junto a outra do Muro da Cidade, q algfls soldados 
Romanos deiyxarão desêparada, cõ medo dos immigos, e indo ja os 
Sabinos pêra entrar por ella, sayo de dentro do Templo hum golpe de 
agoa táo copioso e quête, que bastou a impedir a entrada aos contrá- 
rios, & segurar a ruyna & destruyçâo dos Romanos, & por reconheci- 
mento deste beneficio, em quanto auia guerras contra Roma estauSo 
as portas deste templo abertas : dando nisto a entender a confiança 
que tinhSo em quem tão bem os ajudara. E deste tempo tão antigo, 
ate o de Octauiano, só as virão cerradas, reynando Numa Pompilio, & 
acabada a primeira guerra de Carthago, sedo cônsul Tito Manlio, mas 
o que os antigos alcançarão tão raramente em tanto discurso de annos, 
se vio três vezes, nos cincoenta & seis que durou o Império de 
Octauiano Augusto a primeira das quais foy acabada a guerra ciuil com 
Lépido, Cleópatra, & Marco António : A segunda, domada Espanha, & 
a vitima, desbaratados os Alemães & gentes do lUirico. E desta em 
diante teue o mundo grande repouso, naeido mais da presença do seu 
Criador que nelle viuia já humanado, que do temor das armas, & 
potencia do império Romano : & Octauiano gozou o que lhe restaua da 
vida, cõ grande felicidade, & fora mayor, se lhe não faltara nos 
descendentes, porque de quatro mulheres com que foi casado, ouve só 
hfia filha chamada lulia, menos continente do que sua nobreza requeria. 
& sendo ja viuva de dous maridos, chamados Marcello & Agrippa, a 
casou vitima vez com Tibério seu enteado, filho de sua mulher Liuia 
Drusila, & de Tibério Nero, com quem fora casada, & a quem Octauiano 
a tomou pêra se casar com ella. O dote que deu ao enteado, foy tomalo 
por filho adoptiuo, & habilitalo pêra a successão do império. Do que 
neste têpo succedia em Portugal ha muy pouca noticia, porque como 
cesíarão as guerras, & viuião todos sogeitos aos Legados & Pretores 
Romanos, não auia cousas dignas de ponderação, que os Authores 
deixassem em lembrãça. . . 

Fr. Bernardo de Brito, Monarchia Lusitana, parte n, fl. 1. 



416 ANTOLOGIA — PB08A 



XX 

Gonçalo Hermígnez o Traga-Moaros. 



Tratou Gonçalo Hermiguez com algQs caualeiros amigos seus de 
fazerem hfla entrada em terra de Mouros, & correram a villa de 
Alcacere do Sal, que por estar muito adêtro em terra de imigos 
nâo temia ser cometida senSo por exercito formado. Goardouse esta 
determinação em segredo, por nSo vir à noticia dos Mouros, ate a 
entrada do mes de lunho, em que se forão a Lisboa poucos & poucos 
por caminhos diversos, pêra assim encubrirem mais o caso, & aos 
dezanoue do próprio mes, tomando algflas barcas se meterão a 
metade pello rio, & a outra se passou ao castelo de Almada, leuando 
todos concertado de acometerem os Mouros na madrugada de S. loSo 
Baptista, hQs por mar, outros por terra, de modo que se achassem 
todos juntos na empresa. Fauoreceuos a ventura por chegarem 
vespora de S. loSo a noite, hOs pello rio, & outros por terra à vista 
da villa onde os Mouros descudados de semelhante rebate, andauão 
ocupados nas festas & jogos, que costumaõ fazer em tal dia, & na 
madrugada do seguinte antes de rõper a menham, tendo o campo 
( a seu parecer ) seguro, & o rio desocupado de vellas contrarias, 
abrindo as portas da villa se sahirão ao campo Mouros & Mouras, 
& outros metidos em bateis se alargarão pello rio, cantando mil 
romances &. trouas ao Mourisco. & fazendo grandes algazaras, & as 
Mouras nobres espalhadas hftas pellas ortas com capellas de flores 
nas cabeças, outras ao longo da praya com ramos verdes nas maõs, 
acCpanhadas de Mouros illustres, hião gozando das musicas dos 
barcos, & da frescura da menham, agoardando que esclarecesse mais 
o dia pêra verem hOa gentil escaramuça de caualo, que se havia de 
fazer, & quando se dauão por mais seguros, & o contentamento 
andaua mais em seu ponto sayo Gonçalo Hermiguez da emboscada, 
& postos os seus em concerto mandou tocar as trombetas, & gritando 
por Santiago, derão nos Mouros desarmados & vestidos de festa, & 
os barcos do rio remando com toda fúria pêra os contrários poserão 
tudo em grande confusão, sem auer Mouro que tiuesse acordo pêra 
reparar tão supita desgraça, & se o gosto de matar & catiuar não 
ocupara o entendimento dos nossos, sem duuida puderão ganhar a 
villa & ficar senhores delia. . . 

Aconteceo ver Gonçalo Hermiguez entre outras Mouras catiuas 
hQa cuja estranha fermosura pode no meo de tanta confusão & 
ruido de armas mouerlhe o coração a se cõpadecer das lagrimas que 
lhe via sair dos olhos, & como neste meo têpo acudisse da villa 
muita gente de cauallo, assim dos que escaparão fugindo como dos 
que não sairaõ fora, & começassem a jugar as lançadas cõ os nossos, 
o capitão deu pressa a se recolherem os despojos nas barcas pêra 
se alargarem de terra. & vendo que se não podia recolher tudo sem 
perigo, deixando algQs catiuos na praya, mandou leuar ancora, & 
seguir sua derrota, por não perderem muitas pessoas a troco das 
poucas q ficauão em terra, entre as quais ficou a Moura fermosa que 
o capitão trazia de olho, & quando os quis por nella vio que hum 
Mouro de caualo a tomaua pêra se recolher com ella, <.^ a por em 
saluo, pello que largando tudo o mais, & pondo as pernas ao ginete 



sácuLO XVII 417 



se lançou trás o Mouro com tanta velocidade como hfl rayo, sem 
bastarem ao deter muitos que lhe sahiaõ ao encontro, & dado que 
com a lança de arremesso lhe pudera fazer dano, deixou de lhe atirar 
por não offender a Moura que leuaua eõsigo, pello que apertou tanto 
o caualo que ouue de chegar ao Mouro, a quem ferio de hOa cruel 
lançada^ & cobrou a Moura com a qual se tornou á escaramuça^ & 
vendo que os seus andauão muy embaraçados nella, temeroso de 
sobreuir maior numero de Mouros & lhe tomarem os, passos, fez tocar 
a retirar, & como gentil ordem se forSo despidindo dos imigos a quem 
foy por muytos annos assaz lamentauel aquelle dia, porque nelle per- 
derão entre morta & catiua a flor & nobreza de sua villa. & assim as 
deixaremos em seu pranto por seguirmos o valeroso capitão Gonçalo 
Hermiguez que alegre da vitoria em que matara tantos, & muito mais 
de cobrar a Moura, hia com ella, suslStada no braço esquerdo empa- 
randoa com adarga, & com a lança na direita rebatendo algQas 
arremetidas, que os imigos vinhaõ fazendo na retagoarda, ate que 
desconfiados de cobrarem o pedido, deixarão caminhar os nossos 
a seu saluo ate Almada, que então era hGa pouoaçaõ muito piquena, 
onde estiuerão aguardando ate chegarem as barcas pello Tejo acima, 
nas quais se foraõ ate Sãtarem onde estaua el Rey Dom Afonso, a 
quem foy muy alegre a noua de taõ bom successo. E vindo a repartir 
os despojos, escolheo Gonçalo Hermiguez pêra si a Moura que ganhara 
por sua lança sem querer nenhfla outra cousa, com a qual acabou em 
breue tempo, que renunciada a ley de Mafoma se conuertesse á 
de lesu Christo pêra se poder casar com ella, & no baptismo mudou o 
nome de Fátima em Oriana Hermiguez, como lhe chama a memoria de 
que vou tirando toda esta historia. Taõ estranho foy o amor que 
ambos se tiuerão, que por marauilha se falaua nelle em Portugal, & o 
mostraõ bem aigús versos que lhe fazia de que porey algíís, que tem 
lugar em qualquer obra, por se ver nelles os mais antigos termos da 
lingoa Portugueza. 



Tinherabos, nom tinherabos, 
Tal a tal ca monta I 
Tinheradesme, nom iinheradesmej 
De la vinherades, de ca filharades. 
Ca andabia tudo em soma. 

Per mil goiuos trebelhando, 
Oy oy, bos lombreqo 
Algorem sè cada folgança 
Asmei eu : per que do terrenho 
Nom ahi tal perchego. 

Ouroana Ouroana, oy tem por certo 
Que inha bida do biber 
Se aluidrou per teu aluidro perque em cabo 
O que eu ei de la chebone sem referia. 
Mas não ha perque se ver. 

Bernardo de Brito, Chr. de Cister, ed. 1C02, liv. 6.», cap. i, 370. 



27 



418 ANTOLOGIA — PROSA 



XXI 

Habitantes de Viana ; a cidade. 

Os homSs ou sigSo as armas, ou as letras, ou se dem à mercancia 
& navegação em tuflo provão bem, em nèral agudos de engenhos, 
duros no trabalho, capazes, sizudos, amigos do bem comQ, & da 
conservação delle, moderados na vida, & gasto ordinário, mas nas 
occasiões de honra mais q liberaes : esforçados & animosos nos 
perigos : briosos em todo o tempo, & amigos de se fazer respeitar & 
conhecer por taes ; nas armas, e nas ciências tem lançado homSs 
de tanto valor, & tantos em numero que se fazem agravo no que tem 
por honra, que he naõ buscarem escritores que os façílo no mundo 
celebrados. 

Todos os nobres exercilaõ a mercancia a vso de Veneza & Génova 
contra o costume das mais terras de Portugal, que os louvão & 
naõ os segue, invejão a felicidade & bõs sucessos do trato, & não 
sabS imitar a industria. As molheres naõ vive em ociosidade, 
mas sSo daquelle humor q a Escritura gaba na q chama forte, 
aplicadas ao governo de sua casa, & a grangear com trabalho & 
industria das portas a dentro, como os homSs fora de casa. E onde 
ista ha não fallaõ as mais virtudes de honestidade, & cõcerto de vida. 
Assi ha matronas de muyto preço, & bom exemplo, & tão inclinadas 
a encaminhar as filhas a serem molheres de casa, & governo : que 
assi como em outras terras he ordinário na tenra idade mandallas a 
casa das mestras com almofada, & agulhas : assi nesta as vemos ir às 
escollas com papel, & tinta. & aprender a ler, & escrever, & contar. 
Como a gente he tal a terra he bem governada, barata, limpa, bem 
provida, cheya de fontes trazidas com arte a lugares diíTerentes pêra 
comodidade dos visinhos, & fabricadas rusto.samente. 

Ha muytos edifícios nobres, se bem saõ de arquitectura ordinária. 
Nas mais das casas portaes, & janellas de pedraria com suas rexas de 
ferro, & seus brasões, & divisas sobre as entradas: dentro concerto, & 
policia em atavios, & trajos, & alfayas: os templos como as casas, não 
tem excellencias de arquitectura, mas riqueza de retábulos dourados, 
& abundância de prata. & ornamétos, & bom serviço, especialmente a 
Matriz que he acompanhada de grande numero de clérigos, & autori- 
zada com suas dignidades de Arcipreste, & ccmegos. Nf> edificio tem 
grandeza : & nos oíficios divinos grande solenidade & cõcurso de 
todos 08 estados de gente, argumento de devação & bom espirito. 
Ha dons mosteiros de freiras de grande observância, que cada hum 
passa de cem religiosas, & outro recolhimento de molheres honradas 
pobres : mas não avia ao tempo que o nosso Arcebispo ali foy mais 
qum sò Convento de frades, & esse fora da villa hO bõ espaço. & de 
religiosos entregues mais à vida contemplativa, que aos cuydados & 
trabalhos da activa. He a Ordem de S. Francisco, a Província de 
S. António. 

O rio dece acompanhado de htla, & outra margem de quintas 
frescas, & casaes rendosos, & lava os muros da villa da banda 
do Sul Não traz muyta força de agoas, que he causa de abrir pouco 
em foz, & ser a barra estreyta, & de pouco fundo : cõ tudo he 
a melhor, & mais segura, & limpa de toda a costa, desdo Minho 
ao Tejo : & não a gabamos muyto, porq nesta distãcia avédo muytos 
rios, & algds bê poderosos de agoas, nS ha porto bõ, nS barra sfi 



SÉCULO XVII 4i9 



perigo. Para estarê seguros dos temporaes os navios q entráo, 4 
aver juntamente comodidade na carga, k descarga deiies corre ao 
longo do rio hQ grade, & estendido cães de grossa cataria, altamente 
fundado & terraplenado, com suas decidas de escadas e lingoetas 
para serviço de toda hora : obra de muito custo, & de grande 
importância, & nobreza pêra a villa : & vay continuando rio abayxo 
atè despegar dos muros : & despois de acompanhar hum espaço a 
povoação de fora alarga contra o rio, & logo recolhe outra vez para a 
terra, de maneira que faz encima htia boa praça : & da esquina 
donde começa a recolher, lança hum molde de forte muro, que c irre 
agoa abayxo hum bom espaço, arqueado como um braço : & assi 
fica fazêdo hum reducto capaz de grande numero de navios, estancia 
seguríssima de todos os vetos que aqui fazem dano, porque alem 
de poderem ficar dêtro os navios em seco & cõ as proas em terra, ou 
metidos na vasa, ficâo emparados dos ventos travessias que entrSo 
por cima da barra, com outro muro q abaixo em distancia competente 
sae da villa cõtra o rio, & faz frõtaria com a praça que dizemos 
assim. Guarda a bocca do rio hQa Força feita à moderna com cinio 
grades baluartes providos de boa artilharia, & guarnição de soldados 
competente. Mas melhor a guardão os moradores da villa, sempre 
espertos, & sempre prestes a tornarem por sy. A villa he cabeça Je 
Comarca, & Correyção com muytas villas, & Conselhos sogeitos à 
jurdição do Corrtgedor delia: & tem mais dous ministros Reaes 
letrados : hum que he Provedor da Comarca, & outro Juiz de fora 
que administra justiça na villa & termo, & preside no governo da 
(Gamara. A um tal lugar parece que faltava sò para inteyra nobr -za 
hQa companhia de Pregadores, que como soldados, & juntamSte 
mercadores do Ceo esforçassem a devação, fizessem guerra aos vícios, 
& abrissem logea de mercadoria, & trato celestial, onde tanto havia 
da terra. 

Frei Luís de Sousa, Vida de Dom Frei Berlolamev dos Marlyres, ed. 1619,'JiT.r, 
cap. xxTi, 47. 

XXII 

Discurso do Arcebispo de Braga D. Fr. Bartoloniea dos Mártires, 
ao PontíGce. 

...Mas, Santíssimo Padre (acrescentou o arcebispo), huma obra 
tão santa e de tanta justiça não tem inda sua perfeição. Que 
V. Santidade tirou e não consente que os bispos que assistem a 
sua mesa estejão em pé e descubertos, como em tempo atrás se 
sofTria ; que mais razão ha para estarem da mesma forma nas juntas 
e congregações que se tem diante de V. S., como notei nesta ultima, 
que durou três ou quatro horas, e todos estiveram em pé quantos 
bispos forão presentes, e com os barretes na mão ? Juntando-se outra 
desigualdade que pêra o meu entendimento faz o caso mais indigno, 
a qual foi ver no mesmo tempo os cardeais bem assentados e suas 
cabt-ças cubertas. Se os bispos em quanto bispos são superiores aos 
cardeaes em quanto somente cardeaes ( porque já deixamos declarado 
no concilio que os bispos tem o primeiro lugar da Igreja ) em que 
justiça caberá que os cardeaes, que he huma dignidade instituída 
somente por authoridade e conselho humano, sejão avantajados diante 



420 ANTOLOGIA — PROSA 



de V. S. nas honras do barrete, e assento, aos bispos que forâo 
creados por aulhoridade divina peio mesmo ('hristo, Ser)hor nosso, e 
succederáo no lugar dos sanlos apóstolos ? Que razão pode aprovar 
que onde os cardeaes eslâo com tanta honra, fiquem os bispos 
humilhados, e abatidos, e afrontados ? Beatissimo Padre, os bispos 
em quanto bispos sâo vossos irmáos, e como taes devem ser 
tratados. 

Id., Vida do Arcebispo, ed. 1763, pag. 180. 

XXIII 
Doença e morte de Fr. Bartolomen de S. Domingos. 

Sendo velho, foyselhe corrompendo a chaga da perna, & era 
intolerauel o tormento, que lhe causauaõ as dores, & juntamente o 
asco, & mao cheiro da corrupção. Mas acudialhe o Senhor com hQa 
paciência tãto mayor, que o trabalho, que jà nam parecia paciência, 
senam alegria, & triumpho ; chegauaõ os religiosos a consollalo com 
lástima; tays respostas lhes daua. que tornauaõ compungidos, & 
confusos. Dores sâo, dizia, do Inferno, as que me cerc5o ; mas eu 
tomara ter muitos corpos, & em cada hum muitos mais membros dos 
ordinários & em cada membro outra tal chaga, & muito mayores 
dores das que padeço neste : porque tudo fora ganho para mim, & 
rat^rce de meu Senhor lesu Christo, para lhe satisfazer, por meus 
grandes peccados, & algfla parte do muito, que elle fez por mim : 
eraõ desejos de coraçSo. Parece que foraõ ouuidos no Ceo. Nam se 
pôde crer a tempf'stade de males, que vieraõ de nouo sobre elle, que 
a longa idade fazia mais pesados. Veyo a ficar tolhido de todos os 
membros, & sem mouimento natural em nenhum mais, que na lingoa, 
& olhos. Mas neste estado a lingoa, como a de outro lob, pregoaua 
louuores de Deos, e os olhos pregados em hum Crucifixo, dauaõ 
testemunho com abundância de lagrimas, que tudo hauia por pouco, 
para que se sentia obrigado a padecer por tam bom Senhor. Saõ 
Inferno nouo para Satanás semelhantes espíritos ; rayuaua de ira, 
abrasauase de inueja, pello que via em Frey Berlholameu He a terra 
de Aueiro. por muito húmida, & cercada de esteiros do mar, que a 
retalhaõ, & penetraõ por muitas partes, sujeita a hum género de 
bicho tam nojento, que atè o nomeallo causa asco ( chamaõlhe 
persobejo ) bicho tam natural, & familiar em todas as casas da Villa, 
que por mais diligencias, & curiosidade que haja, nam ha nenhQa, 
que baste a desterrallo, & vencello. Parece que o mesmo Ar o cria, 
& com tal importunação, que tirado, & desbaratado à noite : quando 
vem pella manham, jà as paredes, os sobrados, os forros das casas, & 
qualquer taboa o brotaõ, & chouem : porque por sy se cria, & nasce 
8em,hauer mister semête, como os outros animays ; & sobre bellicoso, 
& bebedor do sangue humano, tem outras partes, que o fazem sobre 
maneira asqueroso, & aborrecido. He a primeira hum cheiro 
pestilencial, segunda amar, & buscar os leytos, & conuersaçSo 
humana, fazendo guerra sem remédio ao sono. & a limpeza, porque 
tem muitos pés para correr, & dentes para morder; sendo tal para 
os seculares, que tem, & sabem procurar suas commodidades, 



sácuLO xvii 421 



entendido fica qual será para os pobres frades, onde cada hum se 
serue a sy; & pellas muitas occupações de que viuem cercados, dia, 
& noite, escassamente tem hora sua : & se isto he em todos, faça 
agora juizo quem isto ler, qual seria para hum entreuado, corpo 
viuo, & cora valor para criar, & alimentar o bicho, defuncto para se 
defender. Parece, que espertarão a praga os ministros do Inferno ; 
porque eraõ infinitos sobre elle, & acrescentauaõ o martyrio das 
outras dores, com as picadas, ou dentadas, cora o nojo, oc com o 
mao cheiro, afferrados na carne, que nam resistia, & bebendo como 
sanguesugas sem cessar, aquelíe sangue sancto, & pacientissimo. 
Muitos annos dizem, que lhe deu o Senhor de vida, & merecimento 
neste estado, que soffria alegre sempre, & bem assombrado. 

Mas sendo tanto os géneros de pena; sô o do bicho mostraua sentir 
sobre todas : porque se notou algQas vezes, que fallando com D-^os, sem 
pedir para sy mais, que paciência, pedialhe sempre com efficacia, que 
iiurasse a seus irmãos de tam cruel inimigo; chegou emfim o termo 
dos trabalhos, & a hora do premio, entendendo, que o tinha perto, 
nam era em sua mão dissimular o aluoroço com que a esperaua. 
Notarão a nouidade os Religiosos; & elle fazendo escrúpulo, se por 
ventura a attribuiriaõ a gosto do fim da guerra, & limite de seus 
tormentos, declarouse com elles, affirmando, que nam era a causa de 
seu contentamento acharse no cabo de tantos, & tara importunos, 
& prolongados males, que esses tiuera sempre por necessários, para 
pagar, & merecer : se nam ver jà os princípios dos bês da gloria, cujos 
• horizontes começaua a descubrir, com a vista beatíssima do bom lesu, 
que sobre tudo desejaua. Assi acabou, & acabou na mesma hora, & 
juntamente com elle a praga dos persobejos no Conuento : de sorte, 
que senam viraõ raais nelle : 6c. se acontecia vir roupa de fora com 
algQs, entrando das portas para dentro, morriaõ logo. Semelhante 
fauor he, o que alcançou Sancta Theresa para as suas Descalças cõtra 
os piolhos. Mas sendo assi, que conhecemos Padres, & nam dos mais 
velhos, que alcSçaraõ o Mosteiro limpo desta miséria. He cousa certa, 
que de algCis annos a esta parte tem cessado nelle a marauilha; & 
continuaõ como de antes da morte do bom velho. Bom auiso para 
que trabalhemos de conformar nossas vidas com a sua : & que 
temamos se nos falta o milagre por sobejarem defeitos nellas. 

Deu o Ceo segundo testemunho em honra do Sancto aos quinze annos 
despois de seu bemdito transito. Abriose a coua para outro defuncto 
( estiuera atè então respeitada por quem nella jazia ) eis que apparece 
estranha marauilha : topaõ os coueiros debaixo da terra com capa 
preta, & hábitos brancos, tam saõs, & puros, como se daquella hora 
foraõ alli lançados. Passarão adiante : achaõ o corpo inteiro, & tam 
longe de corrupção para mais espantar, que alegraua, recreava, & 
consolaua hum hálito, que daquella terra fria espiraua : terra tam 
poderosa, em virtude do Senhor a quem seruira, que bastou a com- 
municar sua incorrupçSo, & fragancia, até a Iam dos animais, de 
que era composto o vestido. Digníssimo caso para se illustrar com 
mais, que escriptura ordinária: se nos nam fizera pusillanimes em 
todo tempo, recearmos, que nos lance cores ao rosto, celebrar cousas, 
que por serem de nossos irmãos, ficaõ em lugar de próprias. HQa, & 
outra ficou a beneficio de tradição, & memoria dos successores ; mas 
sabidas com tanta certeza, que naõ ha nenhOa na Prouincia mais 
aueriguada. 

Fr. Luís de Sousa, Vida de S. Domingos, ed. 1662, parte ii, cap. v, 127. 



4S2 ANTOLOGIA — PBOSA 



XXIV 
unimos momentos de D. João de Castro. 

Achava-se D. João de Castro gastado menos dos annos, que dos 
trabalhos de ISo continuas guerras, em que veio a cair rendido ao 
peso de tSo graves cuidados. Enfermou gravemente e descobrio a 
doença em poucos dias indicios de mortal, o que elle conhecendo 
pola moléstia de repetidos aecidentes se aliviou do cargo do governo. 
Chamou o bispo L). João d'Albuquerque, D. Diogo d'Almeida Freire, 
ao Doutor Francisco Toscano, chanceller-mór do Estado, a Sebastião 
Lopes Lobato, seu ouvidor-geral e a Rodrigo Gonçalves Caminha, 
vedor da fazenda, aos quaes entregou o Estado com a paz dos prin- 
cipes vezinhos assegurada sobre tantas victorias. Mandou vir a si o 
governo popular da cidade, ao vigarío-geral da índia, ao guardião 
de S. Francisco, a Fr. António do Casal, a S. Francisco Xavier, e aos 
officiaes da fazenda d'el-rei, a quem fez esta falia : 

— NSo terei, senhores, pejo de vos dizer que ao vizo-rei da índia 
faltSo nesta doença as commodidades que acha nos hospitaes o mais 
pobre soldado. Vim a servir, nâo vim a commerciar ao Oriente; a vós 
mesmos quis empenhar os ossos de meu filho, e empenhei os cabellos 
da barba, porque para vos assegurar, nâo tinha outras tapeçarias, nem 
baixellas. Hoje nSo houve nesta casa dinheiro com que se me com- 
prasse huma gallinha ; porque nas armadas que íiz primeiro comiSo 
os soldados os salários do governador, que os soldos de seu rei : e 
nâo é de espantar que esteja pobre um pay de tantos filhos. Peço- vos 
que em quanto durar esta doença me ordeneis da fazenda real uma 
honesta despesa e pessoa por vós determinada, que com modesta 
taixa me alimente. 

E logo pedindo hum missal fez juramento sobre os Evangelhos que 
até a hora presente não era devedor á fazenda real hum so cruzado, 
nem havia recebido cousa alguma de christâo, judeo, mouro, ou gentio ; 
nem para a authoridade do cargo, ou da pessoa tinha outras alfaias 
que as que de Portugal trouxera ; e que ainda a prata que no reino 
hzera, havia já gastado, nem tivera jamais possibilidade para comprar 
outra cokha, que a que na cama viao ; so a seu lilho D. Álvaro fizera 
huma espada guarnecida de algumas pedras de pouca estima para passar 
ao reino. Que disto lhes pedia que mandassem fazer hum termo, para 
que se alguma hora se achasse outra cousa, el-rei, como a perjuro, o 
castigasse. Esta pratica se escreveo nos livros da cidade, a qual se 
podéra ler como instrucçáo aos que lhe succedérSo; nos quaes, creo, 
ficou a memoria mais viva que o exemplo. 

Jacintho Freire de Andrade, Vida de D. João de Castro, ed. 1651. 



XXV 
o amor menino. 

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, 
tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a 
coraçoens de cera I SSo as aíTeiçoens como as vidas, que não ha mais 



SÉCULO XVII 423 



certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. 
SSo como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que 
quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos 
sabiamente pintarão o amor menino; porque não ha amor tão robusto 
que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou 
a natureza, o desarma o tempo. Afroxa-lhe o arco, com que já nSo 
atira; embota-lhe as settas, com que já nSo fere; abre-lhe os olhos, 
com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que \ôa e 
foge. A razão natural de toda esta differença he porque o tempo tira 
a novidade ás coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e 
basta que sejão usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro 
com o uso, quanto mais o amor ? ! O mesmo amar he causa de não 
amar e o ter amado muito^ de amar menos. 

A. Vieira, Sermão do Mandato, pregado em Lisboa no Hospital Real em 1643. 



XXVI 
A gnerra. 

He a guerra aquelle monstro que se sustenta das fazendas, do 
sangue, das vidas^ e quanto mais come e consome, tanto menos 
se farta. He a guerra aquella tempestade terrestre, que leva os 
campos, as casas, as villas, os casteilos, as cidades, e talvez em hum 
momento sorve os reinos e monarehias inteiras. He a guerra aquella 
calamidade composta de todas as calamidades, em que não ha mal 
algum que, ou se não padeça, ou se não tema; nem bem que seja 
próprio e seguro. O pae não tem seguro o filho, o rico não tem segura 
a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem 
segura a honra, o ecclesiastico não tem segura a immunidade, o 
religioso não tem segura a sua cella ; e até Deus nos templos e nos 
sacrários não está seguro. 

A. Vieira, Sermão... nos annos da Rainha D. Maria Francisca Isabel de 
Saboya pregado em Lisboa em 1668. 



XX VH 
Preceitos da Oratória Sagrada. 

... Ha de tomar o pregador uma só matéria, ha de deSni-la para 
que se conheça, ha de dividi-la para que se distinga, ha de prová-la 
com a Escriptura, ha de declará-la com a razão, ha de confirmá-la com 
o exemplo, ha de amplificá-la com as causas, com os efTeitos, com as 
circunstancias, com as conveniências que se hão de seguir, com 
08 inconvenientes que se devem evitar; ha de responder ás duvidas, 
ha de satisfazer ás diflQculdades, ha de impugnar e refutar cora toda a 
força da eloquência os argumentos contrários, e depois disto ha de 
colher, ha de apertar, ha de concluir, ha de persuadir, ha de acabar. 
Isto he sermão, isto he pregar e o que não he isto^ he fatiar de mais 



424i ANTOLOOIA — PROSA 



alto. NSo nego nem quero dizer que o sermSo nSo haja de ter 
variedade de discursos^ mas esses hão de nacer todos da mesma 
matéria, e continuar e acabar nella. Quereis vér tudo isto com os 
olhos ? Ora vede. Huma arvore tem raízes, tem troncos, tem ramos, 
tem folhas, tem varas, tem flores, tem fruclos. Assi ha de ser o 
sermSo : ha de ter raizes fones e solidas, porque ha de ser fundado 
no Evangelho; ha de ter hum tronco, porque ha de ter hum só 
assumpto e tratar huma só matéria. Deste tronco hão de nacer 
diversos ramos, que são diversos discursos, mas nacidos da mesma 
matéria, e continuados nella. Estes ramos nSo hâo de ser seccos, 
senão cubertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos 
e ornados de palavras. Ha de ter esta arvore varas, que são a 
reprehensão dos vicios ; ha de ter flores, que são as sentenças, e por 
remate de tudo ha de ter fructos, que é o fructo e o fim a que se 
ha de ordenar o sermão. Ue maneira que ha de haver fructos, ha de 
haver flores, ha de haver varas, ha de haver folhas, ha de haver ramos, 
mas tudo nacido e fundado em hum só tronco, que é huma só matéria. 
Se tudo são troncos, não he sermão he madeira. Se tudo são ramos 
não he sermão são maravalhas. Se tudo são folhas, não he sermão são 
varas. Se tudo são varas, não he sermão he feixe. Se tudo são flores, 
não he sermão he ramalhete. Serem tudo fructos, não pôde ser ; 
porque não ha fructos sem arvore. Assi que nesta arvore, a que 
podemos chamar arvore da vida, ha de haver o proveitoso do fructo, 
o formoso das flore.s, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o 
estendido dos ramos, mas tudo isto nacido e formado de hum só 
tronco, e esse não levantado no ar, senão fundado nas raizes do 
Evangelho : Seminare sémen. Eis aqui como hão de ser os sermões, 
eis aqui como não são. E assim não he muito que se não faça fructo 
com eiies. . . 

. . . Fabula tem duas significaçoens : quer dizer fingimento, e quer 
dizer comedia; e tudo são muitas prégaçoens deste tempo. São fingi- 
mento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos sem fundamento 
de verdade; são comedia, porque os ouvintes vem á pregação como á 
comedia ; e ha pregadores que vem ao púlpito como comediantes. 
Huma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era 
acabarem-se as comedias em Portugal ; mas não foi assi. Não se 
acabarão, mudárão-se; passárão-se do theatro ao púlpito. Não cuideis 
que encareço em chamar comedia a muitas pregações das que hoje se 
usâo. Tomara ter aqui as comedias de Planto, de Terêncio, de Séneca, 
e veríeis se não acháveis nellas muitos desenganos da vida e vaidade 
do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros 
e muito mais sólidos do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande 
miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos 
versos de um poeta profano e gentio, que nas pregações de hum orador 
christâo, e muitas vezes, sobre christão, religioso I 

Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comedia, porque muitos 
sermões ha, que não são comedia, são farça. Sobe talvez ao púlpito 
hum pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou 
amortalhado em hum habito de penitencia (que todos, mais ou menos 
ásperos, são de penitencia ; e todos desde o dia que os professamos, 
mortalhas ) : a vista he de horror, o nome de reverencia, a matéria de 
compunção, a dignidade de oráculo, o logar e a expectação de silencio; 
e quando este se rompeu, que é o que se ouve ? Se neste auditório 



SÉCULO xvii 425 



estivesse um estranjeiro que nos nSo conhecesse e visse entrar este 
homem a fallar em publico naquelles trajos, e em tal logar cuidaria que 
havia de ouvir huma trombeta do Céu ; que cada palavra sua havia de 
ser hum raio para os coraçoens, que havia d& pregar com o zelo e cora 
o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as acçoens 
havia de fazer em pó e em cinza os vicios. Isto havia de cuidar o estran- 
jeiro. E nós, que he o que vemos? Vemos sahir da boca daquelle homem 
assi naquelles trajos, huma voz muito aíTectada e muito polida, e logo 
começar com muito desgarro, a quê? A motivar dasvelos, a acreditar 
empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, 
e derreter crystaes, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras 
mil indignidades destas. Não he isto farça a mais digna de riso, se n5o 
fora tanto para chorar? Na comedia o rei veste como rei e falia como 
rei, o lacaio veste como lacaio e falia como lacaio, o rústico veste 
como rústico e falia como ru«tico ; mas um pregador, vestir como 
religioso e fallar como.. . nâo o quero dizer por reverencia do logar. 
Já que o púlpito he theatro, e o sermSo comedia, sequer, nâo faremos 
bem a figura? Nao dirão as palavras com o vestido e com o officio? 
Assi pregava S. Paulo, assi pregavam aquelles patriarchas que se 
vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admira- 
mos o seu pregar ? Não nos prezamos de seus filhos ? Pois porque 
os não imitamos ? Porque não pregamos como elles pregavam ? Neste 
mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pre- 
gou S. Francisco de Borja, e eu que tenho o mesmo habito, porque 
não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espirito. . . 

A. Vieira, Sermão na Sexagésima pregado na real Capeia em 1655. 



XXVIII 
Descrição do poho. 

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delias 
temos lá o irmão polvo, contra o qual tem suas queixas e grandes, 
não menos que S. Basilio e S. Ambrósio. O polvo com aquelle seu 
capello na cabeça parece um monge ; com aquelles seus raios esten- 
didos parece uma estrella ; com aquelle não ter osso, nem espinha, 
parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E dabaixo desta appa- 
rencia tão modesta, ou desta hypocrisia tão santa testemunhão contes- 
temente os dois grandes doutores dà Igreja latina e grega que o dito 
polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo pri- 
meiramente em se vestir, ou pintar das mesmas cores de todas aquellas 
cores a que está pegado. As cores que no camalião são gala no polvo 
são malicía : as figuras que em Proteo são fabula, no polvo são verdade 
e artificio. Se está nos limos faz-se verde ; se está na areia faz se 
branco ; se está no lodo faz-se pardo ; se está em alguma pedra, como 
mais ordinariamente costuma esiar, faz-se da côr da mesma pedra. 
E daqui que succede ? Succede que outro peixe innocente da traição 
vai passando desacautelado, e o salteador que está de emboscada den- 
tro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fa-lo 
prizioneiro. Fizera mais Judas ? Não fizera mais, porque nem fez 
tanto. Judas abraçou a Christo, mas outros o prenderão ; o polvo he 
o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal. 



416 ANTOLOaU — PROSA 



e o polvo dos próprios braços fez as cordas. Judas he verdade que foi 
traidor, mas com lanternas diante ; traçou a traiçSo ás escuras, mas 
execulou-a muito ás claras. O polvo escurccendo-se a si tira a vista 
aos outros, e a primeira traição e roubo, que faz, he à luz para que 
nSo distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual he a tua maldade, 
pois Judas em tua comparação já he menos traidor. 

A. Vieira, Sermão de S. António pregado no MaranhSo em 1654. 



XXIX 

o Estatuário. 

Arranca o Estatuário huma pedra dessas montanhas tosca, bruta, 
dura, informe, & depois que desbastou o mais grosso, toma o maço, ôt 
o cinzel na mão, & começa a formar hum homem, primeiro membro a 
membro, e depois feiçSo por feição até a mais miúda : ondea-lhe os 
cabellos, aliza-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afíla-iheo nariz, abre- lhe 
a boca, avulta-lhe as faces, tornea-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, 
espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos : aqui 
desprega, alli arruga, acolá recama : &. fica um homem perfeito, & 
talvez hum Santo, que se pôde pôr no altar. 

A. Vieira, Sermõet, ui, 419-420. 



XXX 

A fortuna. 

Variamente pintaram os antigos a que elles chamaram a fortuna. 
Uns lhe poseram na mão o mundo, outros uma cornucopia, outros um 
leme; uns a formam de oiro, outros de vidro ; e todos a fizeram cega, 
todos em figura de mulher, todos com asas nos pés, e os pés sobre uma 
roda. Em muitas coisas erraram como gentios, em outras acertaram 
como experimentados e prudentes. Erraram no nome de fortuna, que 
significa caso ou fado ; erraram nas insígnias, erraram na cegueira 
dos olhos e poderes das mãos : porque o governo do mundo, signifi- 
cado no leme, e a distribuição de todas as coisas, significadas na 
cornucopia, pertence somente á providencia divina, a qual não cega- 
mente, ou com os olhos tapados, mas com a perspicácia de sua sabe- 
doria, e com a balança da -sua justiça na mão, é a que reparte a cada 
um e a todos o que para os fins da mesma providencia com altíssimo 
conselho tem ordenado e disposto. 

Acertaram porém os mesmos gentios na figura, que lhe deram, de 
mulher, pela inconstância ; nas asas dos pés, pela velocidade com que 
se muda ; e sobretudo em lh'os porem sobre uma roda ; porque nem no 
prospero, nem no adverso, e muito menos no prospero, teve jamais 
firmeza. Dos que a fizeram de oiro, diremos depois ; o que agora 
somente me parece dizer, é, que os que a fingiram de vidro pela fragi- 
lidade, fingiram e encareceram pouco ; porque, ainda que a formassem 
de bronze, nunca lhe podiam segurar a inconstância da roda. 

A. Vieira, ibid., xi, 4. 



SKCULQ-XVII 427 



XXXI 
A formosara. 

A formosara é um bem frágil, e quanto mais se vae chegando aos 
annos, tanto mais vae diminuindo e desfazendo em si, e fazendo-se 
menor. Seja exemplo d'esla lastimosa fragilidade Helena, aquella 
famosa e formosa grega, Glha de Tyndaro, rei de Laconia, por cujo 
roubo foi destruída Troya. Durou a guerra dez annos ; e ao passo 
que ia durando e crescendo a guerra, se ia juntamente com os annos 
diminuindo a causa d'ella. Era a causa a formosura de Helena, flor 
emfim da terra, e cada anno cortada com o arado do tempo. Estava 
já tâo marcha, e a mesma Helena tâo outra, que, vendo-se ao espelho, 
pelos olhos, que já não tinham a antiga viveza, lhe corriam as lagrimas ; 
e, não achando a causa por que duas vezes fora roubada, ao mesmo 
espelho e a si perguntava por ella. 

A. Vieira, ibid., u, 319. 

XXXII 

Premio das aeções honradas. 

Os reis podem dar títulos, rendas, estados ; mas animo^ valor, for- 
taleza, constância, desprezo da vida e as outras virtudes, de que se 
compõe a verdadeira honra, não podem. Se Deus vos fez estas mercês, 
fazei pouco caso das outras, que nenhuma vale o que custa. Sobre 
tudo lembre-se o capitão e soldado famoso, de quantos companheiros 
perdeu, e morreram nas mesmas batalhas, e não se queixem. Os que 
morreram fizeram a maior fineza, porque deram a vida por quem lh'a 
não pode dar. E quem por mercê de Deus ficou victorioso e vivo, 
como se queixará de mal despachado ? Se não beijastes a mão real 
pelas mercês que vos não fez, beijae a mão da vossa espada, que vos 
fez digno d'ellas. Olhe o rei para vós como para um perpetuo acredor, 
e gloriae-vos de que se não possa negar de devedor vosso o que é 
senhor de tudo. Se tivestes animo para dar o sangue e arriscar a vida, 
mostrae, que também vos não falta para o soffrimento. Então bata- 
lhastes com os inimigos, agora é tempo de vos vencer a vós. Se o 
soldado se vê despido, folgue de descobrir as feridas, e de envergonhar 
• com ellas a pátria, por quem as recebeu. 

Se depois de tantas cavaltarias se vê a pé, tenha essa pela mais 
illustre carroça de seus triumphos. E se emfim se vê morrer á fome, 
deixe-se morrer e vingue-se. 

A. Vieira, ibid., i, 299. 

xxxni 

Carta ao conde da Castanheira. 

Meu senhor : — He coisa tão natural o responder, que até os penhas- 
cos duros respondem, e para as vozes teem eccos. Pelo contrario he tão 
grande violência não responder, que aos que oaseôrSo mudos, fez a 



418 ANTOLOGIA — PROSA 



natureza também surdos, porque se ouvissem, e nSo podessem respon- 
der, rebentariam de ddr. Esta he a obrigação e a pena em que a carta 
que recebi nesta frota de vossa excellencia me tem posto, devendo eu 
só esperar reciprocamente que a resposta do meu silencio fosse tão 
muda como elle : mas quis a benignidade de vossa excellencia que 
neste excesso de favor se verificasse o pensamento dos que dizem, que 
para se conhecerem os amigos, haviam os homens de morrer primetro, 
e dahí a algum tempo ( sem ser necessário muito ) resuscitar. E porque 
eu em não escrever fui mudo, como morto, agora com o espaço de hum 
anno e meio, he força que falle como resuscitado. O que só posso dizer 
a vossa excellencia he que ainda vivo, crendo, com fé muito íirme, não 
será desagradável a vossa excellencia esta certidão. Não posso comtudo 
caliar que no mesmo dia de seis de fevereiro em que entrei nos oitenta 
6 sete annos, foi tão critico para a minha pouca saúde este seteno, que 
apenas por mão alheia me permute dictar estas regras, as quaes só 
multipUcadas em copias, sendo as mesmas, podem satisfazer a tantas 
obrigaçoens, quantas devo á pátria na sua mais illustre nobreza. Sendo 
porém tão singular e não usada esta indulgência, ainda reconheço por 
maior a que de novo peço a todos, e he que a pena de não responder 
ás cartas se me commute na graça de as não receber daqui por diante, 
assim como he graça e piedade da natureza não ouvir quem não pôde 
fallar. E para que o despacho deste forçado memorial não pareça 
género de ingratidão da minha parte senão contracto útil de ambas, e 
muito digno de acceitação, sirva-se vossa excellencia de considerar, 
que se me falta uma mão para escrever, me ficam duas mais livres para 
as levantar ao céo, e encommendar a Deus os mesmos a quem não 
escrevo, com muito maior correspondência do meu agradecimento, 
porque uma carta em cada frota, he memoria de uma vez cada anno ; 
e as da oração de todas as horas, são lembranças de muitas vezes cada 
dia. Estas oífereço a vossa excellencia sem nome de despedida, e posto 
que em carta circular e commum, nem por isso esquecido das obriga- 
ções tão particulares que a vossa excellencia devo, e me ficam impressas 
no coração Deus guarde a vossa excellencia muitos annos, como desejo, 
com todas as felicidades desta vida, e muito mais da que não tem fim. 
Bahia, dia de Santo Ignacio, 31 de julho de 1694. 

A. Vieira, Cartas, Lisboa, 1735, ii, 464. 



XXXIV 

Carta a el-rei. 

Senhor : — O governador D. Pedro de Mello, segundo as instancias 
com que tem pedido licença a vossa magestade para se recolher ao 
reino, espera fazello na monção d'este inverno, em quanto parto ao 
rio das Amazonas a assentar uma missão nas nações dos mimgaibas, 
e outra na dos tapuyas, que são vizinhas de muitas outras, em que se 
espera grande conversão de almas, serviço de vossa magestade, e 
augmento de todo o estado, que só por esta via pôde vir a ser o que 
promette a largueza de suas terras e mares : da importância da paz 
dos inimgaibas, e quanto ao commercio que teem as nações d'aquellas 
partes com os hollanderes, já dei conta a vossa magestade, e de como 



sécDLO XVII 439 



também ficam reduzidos á obediência de vossa magestade toda a serra 
de Tibiapava. e franqueado o caminho por terra alé Pernambuco, que 
sSo mais de 300 léguas por costas infestadas até agora de nações ini- 
migas e barbaras ; agora levo também a meu cargo as ordens d'um 
notável descobrimento, de que se esperam ainda maiores consequências 
pela commodidade dos rios, que multidão e bondade de gente, e pela 
necessidade que teem d'ella estas capitanias, da parte do Maranhão ; e 
as mais do estado, estSo mui faltas de índios, e por isso menos defen- 
didas, e expostas á invasão dos inimigos, com os quaes se experi- 
menta já o valor e fidelidade d'esta nação, porque alguns d'elles que 
entre nós havia, foram os que maior guerra fizeram aos hollandezes, 
quando occupararo esta cidade, até os lançaram fora d'ella. 

Tudo isto, senhor, represento a vossa magestade. para que quando o 
governador D. Pedro parta antes de eu chegar d'estas missões, seja pre- 
sente a vossa magestade o muito que a vossa magestade tem servido 
n'este estado, em menos de dois annos e meio de seu governo, porque 
tudo o que se obrou se deve principalmente ao seu zelo. cuidado, dispo- 
sição e execução, que é grande, e sem a qual se não poderá conseguir 
coisa de consideração, e muito menos tantas e tão diffii'ultosas, em tão 
breve tempo. A Deus e a vossa magestade pedimos todos os religiosos 
d'estas missões, lhe mande vossa magestade suíceder, quando vossa ma- 
gestade assim o tenha ordenado, pessoa de tal talento e christandade, que 
leve por diante o que «lie tem começado, que vossa magestade por sua 
grandeza, deve mandar agradecer e premiar como serviços tão signala- 
dos merecem, para que conheçam todos que vossa magestade estima 
os d'esta qualidade, pois são verdadeiramente os maiores, e de que 
mais depende a conservação do reino, fundado só no mundo por Deus 
para dilatar a f é : e posto que vossa magestade chama a D. Pedro de 
Mello para mais perto da real pessoa de vossa magestade, por concor- 
rerem n'este fidalgo as qualidades mais necessárias para o tempo 
presente, como n'elle tenho conhecido em todo o tempo que o tratei, 
intendo, e assim o peço a vossa magestade que na mesma pessoa de 
D. Pedro, pôde vossa magestade, continuar a real protecção, com que 
vossa magestade foi servido crear e augmentar esta conquista de 
Christo, servindo-se vossa magestade do seu conselho e das suas noti- 
cias, que são muitas ; e na das partes ultramarinas como em todas as 
mais experimentará vossa magestade quanto christão e bem inten- 
cionado é o seu zelo, e quão acertado o seu voto. 

Guarde Deus a real pessoa de vossa magestade. como a christandade 
e os vassallos de vossa magestade havemos mister. Maranhão, 4 de 
dezembro de 1660. 

A Vieira, ibid., i, 113. 



XXXV 

Carta a D. Rodrigo de Meneses. 

Senhor : — Algum privilegio se ha de tomar á conta da saúde de 
sua alteza, de que a vossa senhoria são devidos os primeiros parabéns, 
como tão interessado, e mais que todos, no desejo e estimação d'ella. 
Confesso a vossa senhoria, que depois de três vezes morto, e três vezes 
resuscitado n'este anno, foi tanta a minha desconfiança da vida como 



430 ANTOLOGIA — PROSA 



nos dias d'este grande cuidado. Bemdita seja a divina bondade que 
lâo inteiramente nos livrou d'eile, e a vossa senhoria do extremo sen- 
timento em que acompanhei e considerei sempre a vossa senhoria, 
como quem tâo lembrado está do affecto com que vossa senhoria amava 
e adorava a sua alteza, no tempo em que eu podia ser testimunha 
d'elle, que nilo considero hoje diminuído, senão mui crescido sempre, 
como o pede a razão. 

Eu, senhor, como tenho dito a vossa senhoria, três vezes cheguei ás 
portas da morte n'esta minha doença, de que tornei a arribar, fora de 
toda a esperança, por mercê de Deus. Sirva-se sua divina Magestade 
que seja para o saber servir, ainda que pouco posso, mal convalecido, 
e com receios de recair, porque nao pôde a minha fraqueza com 
a intemperança d'estes ares, e com os rigores d'e8te segundo cárcere 
de Coimbra para onde me mandaram, n5o sei por que culpas. Esta ha 
sido também a causa do meu diuturno silencio, e de não procurar novas 
de vossa senhoria por caria, como ainda agora o n5o fizera, se o padre 
reitor de Santo Anláo que também me nâo escreve ha mais de um anno, 
por terceira pessoa me nío avisara que vossa senhoria o determinava 
fazer, com que supponho não haverá de presente o perigo que experi- 
mentei com a ultima de vossa senhoria, que recebi no Porto, que, como 
alheia de todo o mysterio, não duvidei mostrar a algum amigo, o qual 
na interpretação delia dpvia de não guardar a sinceridade que este 
honrado nome significa. Emfim, aqui estou e aqui estive tantas vezes 
para morrer ; e intendendo os médicos que só a mudança dos ares me 
podia dar saúde, não me quis conceder esse favor aquella pátria por 
quem eu tantas vezes arrisquei a vida. 

Sobre tudo estimo que vossa senhoria, e o senhor marquês ( de 
quem sempre procuro novas por todas as vias que me é possível) hajam 
passado sempre com a vida e saúde que a sua excellencia e a vossa 
senhoria desejo, acompanhando em todas as fortunas d'este anno, já 
com o gosto, já com o sentimento, a differença que n'ellas experi- 
mentou a casa de vossa senhoria ; e rogando sempre a Deus a conserve 
e augmente com as felicidades que vossa senhoria e o senhor marquês 
merecem a todo este reino, como tão principaes columnas d'elle. 
O mesmo Senhor guarde a vossa senhoria, e dé a vossa senhoria tão 
alegres festas como a vossa senhoria desejo. Coimbra^ 17 de dezembro 
de 1663. 

A. Vieira, ibid., 128. 

XXXVI 
Ontra carta a D. Rodrigo de Meneses. 

Senhor : — Vão estas regras, pois vossa senhoria lh'o consente, 
acompanhar a vossa senhoria na peregrinação de Salvaterra, e testificar 
o maior gosto com que o fizera, se lhe fora permittido quem as escreve ; 
e bem pôde vossa senhoria dar-me credito, que é este o termo mais 
encarecido com que o meu coração poderá declarar o extremo com que 
ama, e se reconhece obrigado á pessoa de vossa senhoria, pois não 
haveria outra força nem respeito humano que o obrigasse a tornar a 
vér o mundo depois de estar tão desenganado e aborrecido d'elle. Mas 
como em vossa senhoria se quebraram todas as leis do mesmo mundo, 



SÉCULO XVII 431 



razío era que se quebrassem também todas, para de mais perto servir, 
venerar, e lograr a presença de vossa senhoria. Bem sei que pelo bordo 
de vossa senhoria não faz a náo agua; e este conhecimento só me 
basta, ainda que tudo o mais me perdera, para que a minha satisfação 
6 gosto niío possa jamais fazer naufrágio. Tudo o mais pertence 
ao exterior, e eu só quisera viver dos bens da alma, em que nâo tem 
poder o tempo, nem jurisdicçSo a fortuna. A de sua majestade, que 
Deus guarde, ainda é maior do qup provaram os successos do anno 
passado, e em mim posto que seja particular instituto o conhecel-a, n5o 
é merecimento o desejal-a, porque sobre as obrigações de vassalo, tenho 
as que herdei dos mortos, e as que devo aos vivos, e as que espero 
dever á pessoa de sua magestade, quando, assim na verdade do meu 
affecto, como nas minhas interpretações, reconhecer um menor Daniel, 
e lograr uma maior monarehia. E que seria, senhor meu, se o prin- 
cipio d'esta felicidade estivesse guardado para o snr. marquês, como 
principal instrumento d'ella? Eu nSo acho n'aquelle nosso prophefa 
mais que um só encontro com os castelhanos, que estaria ainda por 
cumprir, mas esse de tanta felicidade, que haja de assombrar o mundo. 
Se esta ultima sentença hade ter alguma interlocutoria, não me consta, 
só poderei affirmar que não faz menção d'ella alguma o mesmo auctor. 
Esta é uma das razões, por que seriam de grande importância apres- 
sarem-se os meios da successão a nossos príncipes. Nenhum senti- 
mento tenho de que o casamento de França nSo esteja concluído. 
Poderá ser que tenha Deus determinado outra união mais vizinha, ede 
maior grandeza e conveniência. Entretanto, estimo a peregrinação 
de vossa senhoria sobre tão repetidas assistências do (]orpo Santo, e me 
alegra summamente que a alma d'elte tenha tão bom gosto. Emfim, 
senhor, não é tempo de o tomar a vossa senhoria. Aquelle papel 
se vae fazendo, quanto o p^-rmitte a frieza do tempo, e a fraqueza da 
saúde, mas não o verá o mundo sem que vossa senhoria o veja e o 
emende primeiro. Aquelles documentos em que fallei na carta passada, 
não dêem cuidado a vossa senhoria, porque ainda depois do entrudo 
virão a tempo. A obra ha de ser larga, e já o começa a ser, e ainda 
não é obra. Que o senhor marquês me tenha em sua graça, estimo 
quanto devo, e posto que em todos os meus sacrifícios tenho particular 
cuidado, de os ofiferecer a Deus pela vida, estado, e felicidade de sua 
excellencia, d'aqui por diante o farei com o maior aíTecto e instancia 
que pede a occasião. Deus guarde a vossa senhoria muitos annos^ 
como desejo e havemos mister. Coimbra, 28 de janeiro de 1664. 

A. Vieira, ibid., i, 131. 



XXXVII 
Vaidades reminis. 

Tenho reparado em que os latinos a este ornato e adereços da mulher 
chamarão mundo ; e quer parecer-me que este nome não só quadra ao 
seu significado, emquanto quer dizer limpeza, senão emquanto quer 
também dizer o mesmo mundo ; porque de todo o mundo leva esta 
náo géneros, e todo o mundo he necessário concorrer para ornar uma 
mulher. Por onde, se S. Gregório achou, com verdade, que a creatura 
humana era todo o mundo, porquanto com humas creaturas convém 



431 ANTOLOGIA — PROSA 



no ser, com outras no crescer, com outras no sc^ntir, e com outras no 
entender, participando também o ornato de huma mulher de cada 
refíiSo do mundo alguma cousa, com razáo e verdade se chama esse 
ornato, mundo. Vejamo-lo mais em particular. 

Dos reinos do l)ec5o e Bisnagar, e de Golocondá, na índia Oriental, 
leva esta diamantes; da Bactria, Scythia e Epypto. esmeraldas: dos 
reinos de Pegii e da cidade de Calecut, e da ilha de Ceilão, safiras ; 
do Seio Pérsico entre Ormuz e o Bassorá, da Samatra, ou Taprobana, da 
ilha Borneo, e em Europa, de Escócia, Silezia, e Bohemia, leva pérolas ; 
do porto de Julfar na Pérsia, leva aljôfar ( que d'alli se derivou este 
nome ) ; da cidade de Syeno no Egypto superior, e do mar Thyrreno, 
leva coraes, que se se desterrarão já dos rosários e braceletes, ainda 
se admittem em brinquinhos e verónicas ; dos campos de Piza e dos 
montes Alpes, leva eristaes ; do mar da Suevia, e de Lubeca, leva 
alambres, que sío as fabulosas lagrimas da irmã de Phaetonte choradas 
sobmnemente cada anno pela sua degraça ; dos reinos de Monomotapa 
e Zofala na Cafraria, e da região de S. Paulo na nossa America, leva 
ouro ; do Serro do Potosi nas conquistas d'el-rei Catholico, leva prata ; 
de Allemanha, os camafêos ; de Moscovia, as zebellinas e martas, e do 
Palatinado as mais aperfeiçoadas ; de Helvécia, regiSo dos Suizaros, os 
arminhos do Brasil as saguins para manguitos, e os coquilhos para 
contas ; da cidade de Tyro em Fenicia, a purpura : da serra d'Arrabida, 
grS ; de Portugal e Castella, a côr ; de Veneza e Hollanda, os espelhos ; 
de Provença e de Roma, as pomadas para fazer as mãos macias e 
cheirosas ; de Córdova e Hungria, ao menos as receitas para as aguas 
odoríferas destes nomes ; das índias de Castella, a almeya, e óleo delia 
para as mãos ; de Tonquem. o almíscar ; do Maranhão e Seara o âmbar ; 
de Angola, Guiné e Cabo-Verde, a algalia ; das nossas índias, o calan- 
bunco e aguila, os canequins e panninhos de coco, e os toribios ; da 
Africa, as pennos dos avestruzes, para os cocares de plumas ; da China, 
os lós, os leques e as chitas ; de Granada, os tafetás ; de Flandres, as 
rendas ; da cidade de Cambrai, as téas fínissimss e candidíssimas que 
tém este nome ; de Guimarães, as linhas ; de Leão de França, as pri- 
maveras ; de Modaba, na Pérsia, e de Itália, as telas ; da mesma Itália, 
os damascos ; de Florença, Génova e Nápoles, os chamelotes ; de 
França, as luvas, os signaes pêra o rosto, e também os leques, huns 
maiores para o verão, outros mais pequenos para o lar no tempo de 
inverno ; de Inglaterra, as meias, fitas e reíoginhos de algibeira ; 
da Arábia, a gomma, que também serve officio neste mundo ; da 
Batalha, os azeviches, para dar figas aos máos olhos. 

Que mais ? He necessário que concorra também o mar, não só 
com as ostras, que se esbulhem das pérolas, senão também com 
tartarugas, que desarmem as costas para pentes e cofrinhos, e com as 
baléas, que empenhem as barbas para sahir hum justilho, ou prepõem 
bem desarrugado ; são necessários de varias partes vários materiaes 
para bocetas, escritorinhos, bauys, guardaroupas, para recolher nos 
camarins e escaparates, este mundo abreviado : são necessários vidri- 
nhos, e garrafinhas, e rodomas, e bocetas, curiosa e ricamente forradas, 
para toda a pharmacopolía de ingredientes líquidos e seccos, simples 
e confeccionados, que servem de entender o dia da formosura, quando 
já vém cahindo maiores as sombras dos altos montes daannosidade, 
e de dizer na cara ao desengano, que mente. 

Que mais ? São necessárias até as nuvens do céo, para a primeira 
agua de Maio, que opinarão fazia o carão lustroso; são necessários 



SÉCULO xvir 433 



até os mortos, para as cabelleiras, se as não quiser o luxo antes tira- 
das das entranhas dos bichos, fazendo-as de seda. Estava para dizer 
que são necessários até os demónios : porque assim como a mão de 
Deus ajudou ( como o diz o Texto Sagrado ) a fermosura de Juditb, 
porque se ordenava a intento santo e de sua gloria, assim tenho para 
mim que, sem a mSo do demónio, não poderá o appetite humano 
inventar, e dispor, e applicar tanta vaidade e curiosidade. 

Manoel Bernardes, Nova Floresta, ed. 1706, i, i78 e seg. 



XXXVIII 
Degeneração de Portugal. 

Âs espadas largas degenerarão em cotos, e os capacetes se trocarão 
em perucas ; já o pente em vez de se fincar na barba ensanguentada, 
se finca publicamente na cabeileira, alvejando com polvilhos. Cheirão 
os homens a mulheres ; não a Marte, mas a Vénus. Quem havia de 
imitar ao grande Albuquerque, prendendo a barba no cinto, se já não 
ha novas, de cintos, nem de barbas ? Quem haveria de sair aos leões 
em Africa, se é mais gostoso estar no camarote em Lisboa, gracejando 
com as farçanles, e atirando-lhes já com chistes, já com dobrões ? Ou 
como se havião adestrar em ambas as sellas, andando pelas ruas 
bamboleando nas seges? Amolleceu-nos a infusão dos costumes estran- 
geiros, que veneramos, devendo aborrecê-los ; e nòs, que estamos no 
fim da terra, ficamos no meio do mar de suas depravações. 

Manoel Bernardes, ibid., n, 314. 



XXXIX 
Celas de freiras leviauas. 

Ver uma cella de freiras é ver huma casa de estrado de huma 
noiva. Laminas, oratórios, cortinas, sanefas, rodapés, tomados a tre- 
chos com rosas de maravalhas, banquinhas de damasco, franjadas de 
seda ou de ouro, pias de cristal, guarda-roupas de Hollanda, caçoulas, 
espelhos, craveiros, mangericões ou naturaes ou contrafeitos, passa- 
rinhos, cachorrinhos de manga, que, se adoecem de puro mimo, te 
chama o mais perito na arte de os curar; jarras, ramalhetes, perçolanas, 
brinquinhos de sangria, figuras de alabastro ou de gesso, frutas 
escolhidas para coroar as molduras da alcofa ou dos contadores, per- 
fumes, aianr biques, todo o género de arame para a fabrica dos doces, 
almarios para os recolher, criadas para o ministério da casa, tecto da 
cella com taes paisagens, relevos e pinturas, que passão para as mãos 
dos ofSciaes as bolsas dos parentes e devotos mais ricos. 

M. Bernardes, ibid., t, 31. 



434 ANTOLOGIA — PROSA 



XL 

Quem qaer vai, qnem não quer manda. 

A este ponto faz o apologo, que se conta das cotovias, qae tinham 
seos ninhos entre as searas. Dissera o dono do campo a seos criados, 
que tratassem de mptter a fouce, se vissem estar os pães já sazonados ; 
e ouvindo este recado uma d'elias, foi pelos ares avisar as outras, que 
mudassem sitio, porque vinham logo os segadores; porém outra mais 
velha as aquietou do susto, dizendo : Deixemo-nos estar, que de man- 
dar elle os criados, e fazer-se a obra, vai ainda muito tempo. D'alli a 
alguns dias, ouviram que o amo se agastava com os criados, porque 
não tmham feito o que lhes incommendára, e que mandava cellar a 
égua para elle mesmo ir ver o que convinha. Agora sim ( disse então 
aquella cotovia astuta ) agora sim, irmãs, levantemos o vôo, e mudemos 
a casa, que vem quem lhe doe a fazenda. 

M. Bernardos, ibid., i, 70. 



XLI 
Afonso de Albnqaerqne. 

O nosso grande Aflfonso de Albuquerque tanta fama ganhou de con- 
quistador valoroso, que a cidade de Gda não queria largar seos ossos 
para se trasladarem á de Lisboa : como se lhe parecesse, que n'elles, 
ainda que sêccos, e frios, conservava ura certo género de presidio 
contra as barbaras invasões de seos inimigos, e vinculado um como 
prazo de vencé-los. Mas dizem, que, obrigada por censuras, os deixou 
levar, e descansam no convento de N. Senhora da Graça. Não teve na 
terra premio competente a suas acções heróicas. A causa parece que 
se colhe suíficientemente de um dicto seo em occasião que acabava de 
lêr certa carta del-rei dom Manoel. 

Fulano, e fulano ( disse elle para alguns circumstantes ) que eu 
enviei para o reino presos por grav«s culpas, tornam cá, um por capitão 
de Cochim, outro por secretario ? I Eis-aqui fico eu mal com el-rei 
por amor dos homens, e mal com os homens por amor d'el-rei. Velho, 
acolhe-te á igreja ; já é tempo de morrer, pois assim importa á tua 
honra : e eu sei que não deixarás tu de fazer, o que á lua honra 
importa. 

M. Bernardes, ibid., i, 334. 



XLIF 
L«nda dos bailarins. 

No anno da salvação humana 1012, imperando Henrique I(, succedeu 
em Saxonia, que um sacerdote por nome Ruperto, presbylero da igreja 
de S. Magno Martyr, havendo começado a celebrar a primeira missa da 
noite de Natal, não podia proseguir, por se achar distrahido com os 
estrondos de um baile, que alli perto se fazia. E era, que um homem 



SÉCULO xvn 435 



plebeo, por nome Otherio, com outros quinze companheiros, e três 
mulheres, dançando, e cantando todos junctos no cemeterio, faziam 
notável ruido. Mandou-lhe pois o sacerdote dizer, pelo sachristSo, 
que se quisessem aquietar ; porque nSo era aquelle o modo agradável 
a Deus de festejar noite tão sancta ; e zombando elles do recado com 
risadas, e dichotes, como gente de pouco intendimento, e menos temor 
de Deus, o sacerdote, accendendo se em zelo da honra divina, e do 
decoro, que a seo ministro sacerdotal se devia, disse : 

— Praza a Deus, que um anno inteiro bailem, sem parar ! 

Caso estupendo, ainda somente ouvido, quanto mais visto ! A bôcca 
do sacerdote o disse, e a mSo do omnipotente assim o executou. 
Amanheceu, e anoiteceu o seguinte dia, e elles a bailar ! Introu a 
roda de novo anno, e elles sem sahirem da mesma roda da sua dança I 
Passou um mes, e outro mes ; accudia a gente attonita com tSo raro 
espectáculo : dançando os achava, e dançando os deixava I Pergunta- 
vam-lhes uns uma cousa, e outros outra : a nada respondiam, nem 
attendiam : o seo destino, a sua tarefa, que continuavam com incessante 
diligencia, era só andar á roda, uns atrás dos outros, seguindo aos 
que os guiavam, e todos instigados do aguilhâo d'aquella praga do 
sacerdote. 

Não comiam, não bebiam, não mostravam cançasso, nSo se lhes 
gastou o calçado, nem se lhes rompeu o vestido, nem cahiu sobre elles 
chuva. Da continua pista, ou calcadura, sumiram-se pela terra até 
mais acima dos joelhos : a si mesmos parece, que intentavam sepul- 
tar-se vivos, ou abrir caminho, por onde descessem a dançar ao inferno 
Quis certo mancebo tirar da roda a uma das três mulheres, que era 
sua irm5. E pegando-lhe do braço com violência, este lhe veiu na 
mâo, desmembrado do corpo, como se de uma pedra de linho separasse 
fora alguma estriga ; ou mettendo a mSo na massa leveda, trouxesse 
algum pouco no punho. E ella, como se o )braço fosse alheio, nada 
disse, nem gemeu, e foi proseguindo a dança do seo fado, sem da ferida 
manar sangue I 

Finalmente ao cumprir-se o anno, pelo natal de 4013, veiu áquelle 
logar S. Heriberto, arcebispo de Colónia, e os absolveu da maldicçSo ; 
e introduzidos na igreja, os reconciliou com Deus. As três mulheres, 
como sexo mais fraco, espiraram lopo; pouco também duraram alguns 
dos homens, dos quaes se diz, que, depois de mortos, obrou Deus por 
elles alguns milagres ; como significando o perdão de seos peccados, 
que por meio de tão custosa penitencia tinham alcançado. Os mais 
que sobreviveram, sempre com o tremor de membros, e espanto dos 
olhos, mostravam bem o terrivel caso, que por elles havia passado. 
E cada um d'elles era uma estatua do escarmento, erigida para protes- 
tação da reverencia, que se deve aos mysterios, aos ministros, e aos 
logares sagrados. 

H. Bernardes, ibid., ii, 15. 

XLIII 
Repentes. 

Ha ingenhos felizes nos repentes, o que lhe concilia particular 
graça aos seos conceitos; que parecem flores, não cultivadas, mas 
apparecidas, como por incauto. Juncto das saudosas águas do Mondego 



436 ANtOLOGIA — PROSA 



estavam uns estudantes em dia de sueto ; e vendo vir pelo rio uma 
cabaça, a tomaram por assumpto dos seus versos. Depois que os 
outros disseram^ disse um por remate do certame : 

Zombou de tantas cabeças 
Uma cabaça vasia, 
Cheia como zombaria ! 

Dom Thomás de Noronha^ fidalgo de discrição mui celebrada neste 
reino, vendo falar uma pessoa de sua família com certa mulher suspei- 
tosa, perguntou o que era. E foi-lhe respondido, que era uma adella, 
a quem se procurava uns coraes. Disse então de repente : 

A ãdélla com quem falais, 
Boas novas nSo ha d'ella : 
E o que vós falais com ella, 
Co'os coraes não o corais. 

Conhecemos aqui em Lisboa um homem que glosava motes ( por 
difficuitosos, e paradoxos que fossem ), sem deter-se mais^ do que em 
quanto corria a mão pelo bigode, torcendo-o na ponta. Uma vez 
lhe propôs o marquês de Fronteira o seguinte mote 

A mais formosa que Deus. 

E elle, levantando os olhos pensativos, e fazendo a acçSo costumada, 
sahiu logo com a seguinte glosa : 

Com duas donzellas vim 
Hontem de uma romaria : 
Uma feia parecia ; 
Outra era um seraphim. 
E vendo-as eu assim 
Sós, sem os amantes seos, 
Perguntei-lhes : anjos meus. 
Quem vos pôs em tal estado ? 
Disse a feia, que o peccado 1 
A mais formosa, que Deus I 

M. Beruardes, ibid., nr, 47. 



XLIV 
Grandioso presente. 

O nosso ínclito rei D. Manoel, de feliz recordação, quando se viu 
dominador dos reinos do oriente, de sorte que podiamos dizer, que as 
asas do sol se mediam com o seo império, e que aquelles povos infiéis 
se não confederavam contra a potencia de suas armas, mais que para 
ser d'ellas triumpho, e ouvir os annuncios da palavra evangélica, então 
folgou de submetter toda esta grandpsa aos pés do summo pontífice 
Leão X, por seos embaixadores particulares, tributando-lhe juncta- 
mente as primícias das riquesas do oriente. 

O principal d'elles, era Tristão da Cunha, a quem faziam lados 
outros.doQS, a saber, Diogo Pacheco, e João de Faria, desembargadoras, 



SÉCDLO XVII 437 



e outros cincoenta cavalleiros. E era em todos tanta a riquesa, e 
lustre, que até havia cellas, freios, peitoraes, e estribos de ouro de 
marteílo, com pedraria fina, e pérolas a montes. 

Todos os embaixadores dos príncipes chrislãos, que se achavam em 
Roma, 6 o governador da mesma cidade, e muitos bispos, e famílias 
dos cardeaes, e outra innumeravel nobresa, deram nobres augmentos 
a esta pompa, e o mesmo papa quiz lograr o vistoso d'ésta intrada^ 
desde o castello de sancto Angelo. 

Levavam- lhe um presente com um grande, e preciosíssimo cofre, 
coberto com pano de ouro, e nelle debuxadas as reaes quinas, posto 
sobre um elefante, o qual, tanto que avistou o summo pontífice, 
ajoelhou três vezes, ensinado pelo Nayra, que de cima o governava, e 
logn, mettendo a tromba em um grande vaso de água que alli estava 
prevenido, borrifou os cardeaes, e outras pessoas, que estavam pelas 
janellas, e o mesmo signal de festa usou com o mais povo, que estava 
apinhado pelas ruas. 

Em outro dia, foi recebida a embaixada, orando elegantemente o 
Pacheco em consistório ; e no fim da oração, o papa exaltou com 
excessivos louvores as prendas de el-rei U Manoel, e o calholico 
zelo, com que naquelle novo mundo sollicitava propagar o império 
de Chnsto, e glória de sua sanla igreja. Os pontos pnnfípaes da 
embaixada eram três : o primeiro, que sua sanctidade emprehendesse 
guerra contra o turco : segundo, que se tractasse mui deveras da 
reforma da igreja : terceiro, que a este fim se proseguisse, e concluísse 
o sagrado ecuménico concilio de Trento. 

Em outro dia se abriu o cofre, tornando a ajoelhar o elefante 
diante de sua sanctidade. 

Encerrava um ornamento pontifical inteiro, nâo só para a pessoa 
do papa, mas para todos os seos ministros ; era todo t\e chaparia, e 
figuras de ouro, e pedraria preciosa, e a trechos umas romãs á»' rubins 
escachadas; e sendo a material tal, ainda dos primores da arte era 
vencida; iam junctamente outras riquíssimas jóias, e ducalões de 
500 escudos de ouro, como para entulho. Avaliaram alguns o presente 
em um milhão, o qual veiu a ser dos que saquearam Roma. 

Finalmente AlbfTto de Carpe, escrevendo ao imperador Maximiliano, 
como seo embaixador que então era. diz na sua carta este capitulo : 

— Todo o povo universal de Roma concorreu por ver esta novi- 
dade ; e não é maravilha, porque poucas veses ou nunca succedeu 
enviarem príncipes Christãos a Roma, tão magnifico apparato. 

M. Bernardes, ibid. v, 93. 



XLV 
O Frade de ti-eseulos anos. 

Estando um monge em matinas, com os outros religiosos do seo 
mosteiro, quando chegaram áquillo do psalmo, onde se diz que : Mil 
annos á vista de Deus são como o dia de hontem, que já passou, 
admirou-se grandemente, e começou a imaginar como aquill» podia 
ser. Acabadas as matinas, ficou em oração, como tinha de costume, e 
pediu affectuosamente a nosso Senhor se servisse de lhe dar intelli- 
gencia d'aquelle verso. Appareceu-lhe allí no coro um passarinho, 



438 ANTOLOGIA — PROSA 



que, cantando suavissimamente, andava diante d'elle dando voltas de 
uma para a outra parte, e d'este modo o foi levando pouco a pouco 
até um bosque, que estava juncto do mosteiro, e alli fez seo assento 
sobre uma arvore, e o servo de Deus se pôs debaixo d'eila a ouvir. 
D'alli a um breve intervalto { conforme o monge julgava ) tomou o 
vôo, e desappareceu com grande má^ua do servo de Deus, o qual dezia 
mui sentido : 

— O' passarinho da minha alma, para onde te foste táo depressa ? 
Esperou ; como viu que não tornava, recolheu-se para o mosteiro, 

parecendo-lhe que aquella mesma madrugada depois de matinas tinha 
sabido d'elie. Chegaudo ao convento, achou tapada a porta, que de 
antes costumava servir, e aberta outra de novo em outra parle. Per- 
guntou-lhe o porteiro quem era, e a quem buscava ? respondeu-ihe : 

— Eu sou o sachristão, que poucas horas ha sahi de casa, e agora 
torno, e tudo acho mudado I 

Perguntando também pelos nomes do abbade, e do prior, e pro- 
curador, elle lh'os nomeou, admirando-se muito de que o não deixasse 
entrar no convento, e de que mostrava não se lembrar d'aquelles 
nomes. Disse-lhe que o levasse ao abbade ; e posto em sua presença, 
não se conheceram um a outro, nem o bom monge sabia que dissesse, 
ou fizesse mais, que estar confuso, e maravilhado de tão grande novi- 
dade. O abbade, então allumiado por Deus, mandou vir os annais, e 
histórias da ordem, onde buscando, e achando os nomes, que o monge 
apontava, se veiu a averiguar com toda a claresa, que eram passados 
mais de tresentos annos. desde que o monge sahíra do mosteiro até 
que tornara para elle. Então este contou o que lhe havia succedido, 
e os religiosos o acceitaram como a Irmão seo do mesmo hábito. 
E elle, considerando na grandesa dos bens eternos, e louvando a Deus 
por tão grande maravilha, pediu os sacramentos, e brevemente passou 
d'esta vida com grande paz em o Senhor. 

M. Bernardes, ibid., ii, 3. 



XLVI 

Freiras loocas. 

De má origem procede a altivez de espirito, e loucura de phantasia, 
e a hypocrisia, com que a tal religiosa todas suas cousas estima, todas 
as dos outros desdenha ; enche-se de mehndre, impertinência, e affe- 
ctação na voz, nos passos, no riso, no comer, beber, e vestir ; finge 
accidentes, e desmaios, para merecer compaixões, e ostentar delica- 
desas ; toma sangrias, não para inteirar a saúde, senão para quebrar 
a côr, ou para dar occasião aos estremecimentos de quem a ama, e 
aos brincos, e regalos de quem a presenlea ; injoa-lhe a pobresa, 
e achaques das outras, despresa-se dos ministérios baixos, qualquer 
falta de asseio lhe revolve o estômago, ao mesmo tempo que traz 
corrupta a alma, manando bichos de mil defeitos, e peccados. Emfim 
vai-se convertendo em idolo de si própria, só propicio a quem 
concorrer com adorações, e o incensar com perennes lisonjas, que 
todas cré, e admitte, por exorbitantes, e ridiculas que sejam. 

M. Kernardes, ibid., u, 465. 



SÉCULO xvii 439 



XLVII 
Uma carta da a Religiosa Porlugaèsa ». 

Escrevo-lhe pela ultima vez e espero fazer-lhe perceber na diífe- 
rença dos termos e na maneira d'esta carta, que logrou convencer-me, 
finalmente, de que não me amava já, e que assim, também, devo 
deixar de o amar. 

Enviar-lhe-hei, pois, pelo primeiro portador que haja^ quanto de 
si me resta. 

Não receie que lhe torne a escrever. 

NSo serei eu quem escreva o seu nome na encommenda. 

Encarreguei de tudo D. Brites. 

A bem differentes confídencias a habituara eu. . . 

Os cuidados d'ella ser-me-hão menos suspeitos do que os meus. 

Ella tomará as precauções necessárias para que eu 6qne certa de 
que o senhor recebeu o retrato e as pulseiras que me dera 

Quero porém que saiba que me sinto ha dias perfeitamente disposta 
a queimar e a despedaçar todos os penhores do seu amor, que tSo 
queridos me eram. 

Tenho-lhe revelado tanta fraqueza que naturalmente não acreditara 
que eu podesse tornar- me capaz d'es>.e extremo, nâo é verdade ? 

Prefiro pois gostar toda a pena que tive em separar-me d'elles, e 
fazer-lhe sentir, ao menos, este pequeno despeito. 

Confesso-lhe, para vergonha minha e sua, que me achei mais presa, 
do que quero contar-lhe, a estas batratellas, e que senti que me eram 
novamente precisas todas as minhas reflexões para me separar de 
cada objecto, quando mesmo, me comprazia de não me importar já 
comsigo. 

Mas, em summa, com lâo boas razões como as que lhe devo, conse- 
gue-se sempre chegar ao cabo do que se quer. . . 

Pus tudo nas mãos de Dona Brites. Quantas lagrimas me custou 
isto f . . . 

Depois de mil penas e mil contradições, que não imagina e de que 
certamente não lhe darei conta, exorei d'esta que não me falasse mais 
naquelles objectos, que m'os não tornasse a dar, ainda que eu lhe 
pedisse para os contemplar outra vez, e que, emfim lh'os enviasse sem 
me prevenir sequer. 

Não conheci bem o excesso do meu amor senão quando quis em- 
pregar todas as diligencias para me curar d'elle. e creio que nem 
ousaria tentá-lo se tivesse podido prever tantas difficuldades e tama- 
nha violência. 

Estuu convencida que sentiria moções menos penosas, amando-o, 
ingrato como é, do que deixando-o para sempre. 

Vi que me era menos caro do que a minha paixão, e tive magoas 
desconformes em combaté-la, depois ainda que os ruins procedimentos 
do senhor o tornaram para mim odioso. 

O orgulho natural do meu sexo não me ajudou a tomar quaesquer 
resoluções contra si. 

Triste de mim ! 

Soffri os seus desesperos ; houvera supportado a sua aversão ; 
devorara commigo o ciume que me tivesse inspirado a sua aífeiçSo 
por outra. 



440 ANTOLOGIA — PKOSA 



Ao menos, senlír-me-hia afíronlada por um sentimento vivo 1. . . 

Mas a sua indifTerença é-me insupportavel. 

Os seus impertinentes protestos da amizade, e as ridiculas finezas 
da sua ultima carta, fízeram-me ver que o senhor recebera todas as 
que lhe escrevi e que nenhuma impressão lhe causaram. 

E... Leu-as... 

Ingrato I 

Muito doida sou em amofinar-me ainda por não poder regosijar-me 
de que nSo lhes tivessem chegado ás mãos ; de que não lh'as tivessem 
entregue ! 

Abomino a sua fraqueza. 

Pedi-lhe porventura que me dissesse sinceramente a verdade ? 

Porque não havia de deixar-me ainda paixão ? f 

Bastava que me não escrevesse. 

Não me era sufficiente a desgraça de não ter podido obrigal-o a ter 
algum trabalho em enganar-me,. . . e de já não poder desculpá-lo ?. . . 

Saiba que me convenço de que é indigno de todos os meus senti- 
mentos, e que agora conheço todas as suas ruins qualidades. 

Mas se quanto íiz pelo senhor pode mereeer-lhe que tenha alguma 
consideração pelos favores que lhe peça, imploro-lhe que não torne 
a escrever-me, e que me ajude a esquecô-lo inteiramente. 

Se mostrasse, frouxamente que fosse, que tivera algum pesar em 
ler esta carta,. . . poderia talvez acreditá-lo I . . . 

Talvez lambem a sua confissão e o seu contricto abalo me fizessem 
pena e me incitassem,. . . e tudo poderia inílammar-me de novo. 

Por piedade lhe peço que não se importe com a minha vida. Des- 
truiria, sem duvida, todos os meus projectos, de qualquer forma que 
quisesse intrometter-se nella. 

Não quero saber o resultado d'esla carta. Não perturbe o estado 
que me preparo. 

Parece- me que pode dar-se por satisfeito com os males que me 
causou, fosse qual fosse o intento que formara de me desgraçar. 

Não me arranque á minha incerteza. Espero fazer d'ella, com o 
tempo, alguma coisa parecida com a paz do coração. 

Prometto-lhe não o odear. Desconfio muito de sentimentos violen- 
tos para que me aventure a esse. 

Não duvido de que encontrasse nesta terra um amado mais fiel,. . . 
mas quem poderá fazer-me amar? ! 

Poderá acaso enlevar-me a paixão de outro homem? Qae pdde 
no senhor a minha?. . . 

Não experimentei já que um coração amante nunca pode esquecer 
o que primeiro lhe revelou os transportes de que era susceptível e 

Sue não conhecia ? — que todas as suas intimas moções ficam enlea- 
a> no Ídolo que para si creou ? — que as suas primeiras idéas e que 
*as suas primeiras feridas não podem curar-se e esquecer? — que 
todas as paixões que se offereçam em seu soccorro e que forcejem 
por enchê-lo e reanimá-lo, lhe prometlem vãmente uma sensibilidade 
que elle não pode rehaver mais ? — que todas as deleitações que 
busca, sem nenhum desfjo de as encontrar, servem apenas para fazer- 
Ihe sentir profundamente que nada é tão caro como a lembrança das 
suas penas ? t 

Porque me fez conhecer a imperfeição e os amargores de um aíTecto 
que não deve durar eternamente, e os tormentos que acompanham um 
amor violento quando não é reciproco ? 



SÉCULO XVII 441 



£ porque é que uma inciinaçSo cega e om destino cruel se afervo- 
ram de ordinário em determinar-nos por aquelies que só a outras 
seriam sensíveis ? 

Quando mesmo podesse esperar qualquer recreação em novas 
relações, e que encontrasse um coração leal que me quisesse, tenho 
tanto dó de mim própria que sentiria grandes escrúpulos em lançar o 
homem mais intimo no estado a que o senhor me reduziu. . . 

E embora nâo tenha que lhe aguardar respeitos, não poderia resol- 
ver-me a uma desforra ião crua, quando mesmo ella dependesse de 
mim, por uma mudança que nãu prevejo. 

Procuro neste momento desculpá-lo, e comprebendo bem que uma 
freira não é nada amável, de ordinário. 

Parece-me comtudo que se os homens podessem ter mão na razão 
quando escolhem os seus amores mais se inclinariam a ellas do que 
ás outras mulheres. 

Nada as impede de pensar incessantemente na sua paixão ; não 
as distrahem mil coisas que no século absorvem e consomem os 
corações. 

Quer-me parecer que não será muito agradável ver as amadas, 
sempre distrahidas por mil frivolidades, e é preciso ter bem pouca 
delicadeza de alma para soffrer sem raiva que ellas não falem senão 
de reuniões, de atavios, de passeios. 

Estâ-se, sem cessar, exposto a novos ciúmes, porque, emfím, ellas 
são obrigadas a altenções, a complacências, a conversas com todos. 

Quem pode assegurar que não sintam prazer algum em todos esses 
lances, ou que soíTram 'sempre desgostosas e de má vontade os 
maridos ? ! . . . 

Ah ! como ellas devem também desconfiar de um amante que não 
lhes toma conta rigorosa de tudo, e que acredita, facilm«>nte e sem 
inquietação, o que lhes dizem ; — que tranquilla e confiadamente as 
vê sujeitas a todos aquelies deveres da sociedade f 

Mas não intento provar- lhe com boas razões que deveria amar-me. 
Péssimos meios são, e bem melhores empreguei eu que não me 
aproveitaram I . . . 

Conheço muito bem o meu destino para diligenciar vencê-lo. 

Serei infeliz toda a minha vida. 

Não o era já quando todos os dias o via ? 

Morria de susto de que não me fosse fiel. 

Queria vê lo, todos os momentos, e não era possível. 

Atribulava-me o perigo que o senhor corrria entrando no convento. 

Não vivia quando estava na guerra. 

Desesperava-me por não ser mais formosa e mais digna do senhor. 

Murmurava da modéstia da minha condição, 

Receiava muitas vezes que a aifeição que parecia ter por mim 
podesse de algum modo prejudicá-lo. 

Parecia-me que o não amava bastante. 

Atemorisava-me, por si, a cólera dos meus parentes. 

E»tava, emfim, num estado tão lamentoso como aquelle em que 
hoje VIVO. 

Se me tivesse dado algumas provas da sua paixão depois que se foi 
de Portugal, leria eu feito todos os esforços por sahir d'aqui. 

Ter-me-hia disfarçado para ir ter com o senhor. 

Ai, que leria sido de mim se não se tivesse importado commigo 
quando eu chegasse a França ! . . . 



442 ANTOLOGIA — PROSA 



Que escândalo ! que desatino ! que cumulo de vergonha para a 
minha família, que me é tão cara depois que o não amo, ao senhor t 

Já vé que a sangue fno conheço como era possível ser ainda mais 
desgraçada do que me fez I 

Falo-lhe razoavelmente ; ao menos, uma vez na vida. 

Como deve agradar lhe esta moderação I . . 

Como deve agora ticar contente commigo ! . . . 

Não quero sabê-lo. 

Pedi-lhe já que não me escreva, e peço-lh*o outra vez. 

Nunca consideraria, um pouco, na maneira por que me tratou ?. . . 

Não pensaria, nunca, em que me deve mais obrigações do que a 
ninguém no mnndo? I 

Amei-o, doidamente. 

Como despresei tudo ! . . . 

O seu procedimento não é de um homem de bpm. 

É preciso que tivesse por mim uma aversão natural para que não 
me amasse perdidamente. 

DeiXHi-me fascinar por bem somenas qualidades. 

Que fizera o senhor que devesse encanlar-me ? 

Que sacrifícios praticou por mim ? 

Não procurava mil outros prazeres? 

Renunciou, acaso, ao jogo e á caça? 

Não era o primeiro h partir para a guerra e não era o ultimo a 
voltar d'ella? 

Expunha- se loucamente, por mais que eu lhe tivesse pedido qne 
por auior de mim se poupas.se. 

Não procurou os meios de ficar em Porlugal, onde era estimado. 

Unia caria de seu irmão fê-lo parlir, sem hesitar um momento. 

E não sube eu que durante a viajem conservou a melhor disposição 
do mundo ? 

É forçoso confessar que devia odiá-lo mortalmente. 

Ai, fui eu, bem sei, que sobre mim attrahi todas estas desgraças I . . 

Costumei-o logo a uma grande paixão, com excessiva ingenuidade, 
e é necessário artifício para nos fazermos amar I 

E necessário procurar com geito os meios de inflammar : — o 
amor, por si, apenas, não gera o amor. 

O senhor fez melhor : — queria que eu o amassa, e como formara 
este desígnio nada haveria que não fizesse por consegui-lo. 

Ter-se-hia até resolvido a amar-me se tivesse precisado dMsso I. . . 

Mas reconheceu bem que podia vencer esta empreza, sem paixão, e 
que não tinha necessidade d'ella. 

Que pertidia ? 

Julgou então que havia de impunemente enganar-me? I 

Pois se algum acaso o trouxer de novo a esta terra, declaro-lhe que 
o entregarei á vingança dos meu parentes. 

*Vivi longamente num abandono e numa idolatria que me faz horror, 
e 08 meus remorsos perseguem-me com um furor insupporlavel. 

Sinto vivamente a vergonha dos delidos que o senhor me fez com- 
metter, e não tenho, ai de mim I a paixão que me impedia de conbe- 
cer-lhes a enormidade t 

Quando será que o meu coração deixará de ser dilacerado 7 

Quando será que me verei livrei d'e!ile tormento cruel ? 

E comtudo, creia que não lhe uesejo mal, ao senhor, e que me 
resolveria a consentir que fosse feliz. 



SÉCULO XVII 443 



Mas se tem uma alma bem formada, como o poderá ser ? 

Quero escrever-Ihe outra carta para lhe mostrar que estarei talvez 
mais tranquilla dnntro em pouco. 

Como hei de regalar-me cva poder lançar-lhe em rosto o seu proce- 
dimento injusto, quaniio elle me não mortificar já tão vivamente; em 
lhe mostrar que o despreso ; que falo com profunda indifferença da 
sua traição ; que esqueci todos os meus prazeres e todas as minhas 
dores, e que não me lembro do senhor, senão... quando quero lem- 
brar-me I 

Reconheço que me leva grandes vantagens, e qoe me fez uma pai- 
xão que me enlouqueceu ; — mas também, pouco deve envaidecer-se 
por isso. 

Eu era moça, era crédula, tinham-me encerrado desde creança 
neste convento ; não vira senão gente desagradável ; nunca ouvira as 
lisonjas que o senhor constantemente me dizia ; parecia-me dever-lbe 
os attractivos e a belleza que me achava, e em que me fazia reparar ; 
ouvia dizer bem de si ; toda a gente me falava em seu abono,. . . e o 
senhor tudo fazia para me despertar amor. 

Mas, emfim, tornei a mim d'este encantamento ; grandes auxílios 
me deu para isso, e confesso-lhe que tinha d'elles uma extrema neces- 
sidade. 

Oevolvendo-lhe as suas cartas, conservarei cuidadosamente as duas 
ultimas que me escreveu, e hei de relé-las mais ainda do que li as 
primeiras para não tornar a recahir nas minhas fraquezas. Ái, como 
estas me custaram caras, e como eu seria feliz se o senhor tivesse 
consentido em que continuasse a amá-lo ! 

Sei, certo, que me occupo demais ainda com as minhas queixas e 
com a sua infidelidade ; lembre-se, porém, que a mim própria prometti 
um estado mais tranquilio, e que hei de consegui-lo, ou tomarei contra 
mim uma resolução desesperada que poderá saber sem grande pe- 
zar ! . . . 

Mas nada mais quero do senhor. 

Sou uma doida em repetir as mesmas coisas tantas vezes. 

É mister que o deixe e que não pense mais em si. 

Creio até que não tornarei a escrever-lbe. 

Tenho alguma obrigação de lhe dar conta da minha vida ? 

Soror Marianna, ed. Luciano Cordeiro, Carta t, pag. 288 e seg. 



Quadro sinótico do movimento político, 

social e literário 

correspondente à escola Francesa 

ou Arcádica 



I 

Monarcas portngnêses 

D. JoSo V 1706-1750 

D. José I 1750-1777 

D. Maria 1 1777-1816 

D. João VI 1816-1826 



II 
Sincronismo politico e social 

1715 — Tratado de Utrecbt ; morte de Luís XIV. 

1740-1786 — Governo de Frederico o Grande da Prússia. 

1756 — Guerra dos Sete Ano8> 

1774 — Sobe ao trono Luís XVI. 

1783 — Proclamam-se independentes os Estados-Unides. 

1785 — Máquina a vapor de Watt. 

1789 — Principio da Revolução francesa. 

1792 — Proclamação da República em França. 

1793 — Execução de Luís XVI e de Maria Antonieta. Época do Terror. 
1796-1821 — Napoleão. 

1807-1810 — Invasões francesas em Portugal. 
1820 — Revoluções liberaes na Europa. 



446 HISTÓRIA DA LITERATURA P0RTUSUB8* 



III 

Sincronismo literário 

Espanha 

Neste pais começou a vigorar no século xviii a influência do gosto 
francês, desenhando-se, ao terminar dela, a reacção que levou ao 
romantismo. Sobresaem : 

Inácio de Luzan (1702-1754) autor duma Poética impondo os 
métodos franceses ; José Francisco d'Isl* ( 1703-1781 ) que na His- 
toria dei famoso Predicador fray Gerúndio de Campazas fez a critica 
dos pregadores do seu tempo ; Ibiartk ( 1750 1791 ) ; Ramó.v de la 
Cruz ( 1731-1794 ) ; Meléndez ( 1754-1817 ) ; Ciknfubgos ( 1764-1809) 
e Jove-Llands ( 1744-1811 ), que se tornaram notáveis pelas suas 
composições poéticas; Flores (1701-1773) e Conde (1765-Í820) 
pelos seus trabalhos históricos. 

França 

A França do século xviii cria pelos seus filósofos o movimento 
de reacção religiosa e politica que se infiltrou, como um fermento, em 
toda a sociedade européa. Uma plêiada destinta iniciou esse movi- 
mento : Voltaire, Didkrot, d'Alkmbkrt, o barão d'Holbach, Condillac, 
Helvkcío, no campo da filosofia; Monte8Q"ieu e Rousseau no da 
politica social; Mirabeau, na eloquência; Lb.haõr, Prkvost, Bkrnardin 
DE Saint-Pierre e Florian, no romance ; La Harpe, na critica lite- 
rária ; FoNTENELLE, na vulgarização scientífica, e muitos outros. Acima 
de todos se eleva, porém, Voltaire (François Marie Arouet ) 169Í-1778, 
génio múltiplo e fecundo de quem Goethe fez este juizo : « génio, 
imaginação, profundidade, extensão, razAo, gosto, filosofia, elevação, 
originalidade, . . . elejfância, alegria, zombaria, ... eis Voltaire ». 
O poema épico Henriada, as tragédias Bruio, Morte de César, Alzira, 
Merope, Tancredo, Mahomet, Semiramis e Zaira ; as poesias filosó- 
ficas Discurso sobre o homem, Lei Natural ; a História de Carlos XII, 
Século de Luis XIV, Ensaio sobre os costumes e espirito das nações, os 
seus romances, cartas, as criticas históricas, politicas e literárias, 
demonstram a extraordinária adaptação do talento de Voltaire a todos 
08 assuntos. Por isso ele domina, facilmente, o seu tempo e a sua 
época. 

Em portug. : Manoel Monteiro : Hist. de Carlos XII. . . Lisboa, 1739, 
2 vols. ; Albino de Sousa Coelho e Alm<>ida, Os Srythas, tr. em verso, 
Lisboa, 1781, 117 pgs. ; Pedro António Pereira, Znira, Lisboa, 1783, 
39 pgs. ; outra tr. de Manoel F. de S. da Motta e Silva, Lisboa, 1815, 



CAPITULO V — ESCALA FRANCESA OU ARCADICA 447 



145 pgs. ; Antoíjio José de Paula, Mafoma, Lisboa, 1785. ( Nâo é de 
José Anasiasio da Cunha como se supôs — Inoc, Dic, xii, 215); 
José Caetano de Figueiredo, Alzira, 1785, 79 pgs. ; Tomás de Aquino 
B. e Freitas, Henriada, Porto, 1789, 264 pgs. ; *#* ( José de Vasconcelos 
e Sousa), Henrique IV, poema épico. Lisboa, 1807 ; João Félix Pereira, 
A Henriqueida, Lisboa, 1878, 179 pgs ; José P. de A. Sousa da 
Camará, Orestes, Lisboa, 1790, 130 pgs.; Id., Marianne. ibid., 1790, 
103 pgs. ; íd., Snphonisba. ibid.. 1790; Id., Bruto. 2." ed. ibid., 1822; 
José L. Pinto, Semiramis, Porto, 1793; José T. Cabral. Zadig ou o 
Destino..., Lisboa, 1807; outra tr. de Filinto Elysio in Obras, ix ; 
José A. de A. Velloso, Leis de Minos in Trad. Dram., Lisboa, 1816 ; 
José Th da S. Teixeira. Eryphile, Porto, 1822 ; Tiburcio A. Craveiro, 
Merope., Londres, 1826; outra tr. de Manoel O. Mendes, Rio de 
Janeiro, 1831 ; António da G. Paiva, Romances de Voltaire, Porto, 1836 ; 
Filinto Elysio, Virginidos ou a Donzella. ( É a tr. da PucelleJ in 
Obras, IX ; Manoel O Mendes, Tancredo, Rio de Janeiro, 1839 ; 
Anónimo, Alzira, ( Innoc. Dic, vii, 298 ) ; Anónimo, Memnon ou a 
sabedoria humana, 1 folh. s. a. n. d. ; Fernandes Costa, Cândido ou o 
Optimismo e a Princeza de Babylonia na « Bibl. univ. ant. e mod. », de 
Lisboa. 

Como se vê foram numerosas as trad. do fecundo escritor — e 
não estão, decerto, indicadas todas — ; mas o gosto pela literatura 
francesa não se revelou somente na difusão das obras de Voltaire. 
Temos mais, embora algumas sejam de época muito posterior : De 
DiDEROT : O Pae de fa milia ( Innoc. Dic, vir, 298 ) ; de Condillac 
J. L. Freire de Carvalho, Arte de pensar, Coimbra, 1794. A 2.* parte 
por Rodrigo F. da Costa e A. de Castro, Obras elementares de phil. 
racional. . . i (Lógica) Lisboa, 1801. ( Foi atribuída a Joaquim Annes 
de Carvalho ) ; de Montesqiied, António V. de C. e Sousa, Arsace e 
Ismenia, novella.. Lisboa, 1827; Rodrigo F. da Costa, O templo de 
Gnido, Paris, 1828 ; de J. J. Rousseau, João Baptista Gastão, O con- 
tracto social..., Lisboa, 1821; Bento L. Vieira, Contracto social. 
Paris, 1821 ; de Lesage, Bocage, Hist. de Gil Braz de Santilhana, 
Paris, 1836 [De Bocage, só o vol. i e ii até pg. 116, daí por deante 
e os vols. Ill e iv de Luís Caetano de Campos ] ; outra tr. de Júlio 
César Machado, ed. ilustr. com 400 grav. e 30 oleogr., Lisboa, 1885, 
2 vols., foi. ; Carlos J. da Cunha, O bacharel de Salamanca ou as 
aventuras de D. Cherubim de la Ronda, Lisboa, 1802, 6 vols. ; 
outra tr. de Fernandes Costa, 1888, 2 vols. in « Bibl. univ. ant. c 
mod. », de Pbévost, António M. P. Carrilho, Manon Lescaut. outra tr.. 
Porto, 1897, 1 vol. ( s. nome de tr. ) ; de Florian, Manoel R. da S. 
Abreu, Eltezer ou a ternura fraternal, poema.... Braga, 1839; de 
FoNTSNELLK, D. Fraucísca de P. P. da Costa, Conversações sobre a 



448 BISTÓRIA DA LITBRATOBA POBTDODUA 



pluralidade dos mundos. . . Lisboa, 1841 ; oQtra tr. de D. Christina H. 
H. de Carvalho, 1882, 2 vol. in « Bibl. univ. anl. e mod. » ; de La 
Harpe^ Filinto, Coriolano in Obras, xr, ( só dons actos ) de B. dr 
Saim-Pierre, António P. de Paiva e Pona, Paulo e Virgínia... 
Porto, 1883 ; outra tr. de Alfredo Alves e BalhSo Pato, Lisboa, 1898. 

Itália 

A Itália do século xviii conta os seguintes homens notáveis : 

Mktastasio ( 1699-1782 ) que em 1724 publicou a tragédia lírica 
Dido abandonada, obtendo o favor de Carlos VI que lhe deu o título 
de Poeta Cesáreo e a pensão de 3 000 florins. Compôs 63 tragédias. 
[Em Portug. : Caetano J. da S. Souto-Maior, Operas de .... Lisboa, 
1740; Fernando L. Alvim, Semiramis reconhecida, Lisboa, 1755; Id., 
Temistocles, ibid. ; Francisco L Ameno, Achilles em Saro, Lisboa, 1755 ; 
Id., Alexandre na Índia, Zenobia em Arménia, A clemência de Tito, 
Demofoonte em Thracta e Antignno em Thessnlonica, todas de Lisboa 
e 1755; Filinto, Antigono em Thessalonica, 1768; José de M. Fal' ão, 
A valerosa Judith. .., Lisboa, 1773 ; José B d* Gama, A liberdade do 
sr. Pedro . . . poeta cesáreo, com a tr. fr. de Rousseau, de Genebra, e a 
portug. de Termindo, poeta árcade, Lisboa, 1773 ; JusÉ V. Barreto 
Feio, Themistocles, Lisboa, 1818 ; da Opera Achilles em Sciro ha outra 
tr. por Manoel P. da Costa, Lisboa, 1755]. 

Goldoni ( 1707-1793 ), que mereceu o cognome de Molière italiano. 

Alfieri (1749-1803), que deixou nas suas 14 tragédias e em 
muitas obras em prosa e verso provas sobejas do seu talento e gosto 
literário. [ Em portug. : José V. B. Frio, Orestes, Lisboa, 1819 ; Id., 
O tratado do Principe e das letras. . ., Paris, 1832 ; Id., O tratado da 
tyrannia, ibid., 1832 ; António P. Zagalo, Conspiração dos Pazzis, 
Porto, 1838 ]. 

Na história sobresaiu : Vico ( 1668-1744 ) creador da filosofia 
da história com a obra, que é o seu título á imortalidade — Principi 
di una nova scienza intomo alia natura delle Nazione, 1725, 2 vols., 
que mereceram a Michelet a honra duma traduçSo. 

Infirlaterra 
E' de esplendor o século xviii ; bastará mencionar na poesia Yodno 
( 1681-1765) conhecido pelas suas Noites ou Pensamentos nocturnos. 
[Em portug.: Jose M. R. Pereira, Noites selectas, Lisboa, 1781; 
Vicente C. de Oliveira, Noites... a que se ajuntam muitas notas 
importantes e vários opúsculos de Young, Lisboa, 1785, 2 vols. ; outra 
ed., 1804, 2 vols ; Id., Nova tragedia intitulada a • Vingança » do 
dr. . . ., Lisboa, 1788 ; Id., Busiris no vol. anterior] ; Popb, ( 1688- 
1744), que desenvolveu o seu génio no poema cómico Roubo d' uma 
madeixa. [ Em portug. : António Teixeira, Eiuaio sobre o Homtm. . ., 



CAPITULO V — BSCOLA FRANCESA. OU ARCADICA 449 



Lisboa, 1769; José N. de Massoelos Pinto, Epistola de Heloísa a 
Âbailard..., Londres, 1801; Conde de Aguiah, D. Fernando J. de 
Portugal, Ensaio sobre a critica. . ., Rio de Janeiro, 1810 ; Id., Ensaios 
moraes. . . com as notas de José Warton e do tr., ibid, 1811 ; Francisco 
B. M. Targini, Ensaio sobre o Homem, tr. verso por verso por. . . barão 
de São Lourenço. . . dado á luz por uma sociedade literária da Grão- 
Bretanha, Londres, 1819, 3 vols. ; Henrique E. de Almeida Coutinho, 
Epistola de Heloisa a Âbailard..., Porto, 1835; José M. Osório 
Cabral, O inverno ou Daphne, in- Jornal de Coimbra, ii, p. 2.», pg. 211 ; 
António Luís Gentil, O roubo do annel de cabellos... in- Ramalhete, 
joi-nal de instr. e recreio, i, 1837, pg. 22 e seg. ; Francisco J. P. 
Magalhães, O roubo da Madeixa, \n-Minerva Brasiltense, i, 1843 ] ; 
Thompson (1700-1748) imortalizado pelas Estações. [Em portug. : 
Marquesa de Alorna, Estações, in- Obras, iii ], poema descritivo. A elo- 
quência parlamentar tem neste século alguns dos seus melhores repre- 
sentantes ; Lord Chatam ( 1708-1778 ) ; Edmund Burk ( 1730-1797 ) ; 
Fox ( 1748-1806 ) e William Pitt ( 1759-1806 ). 

Sam insignes na história David Home ( 1711-1776), também filó- 
sofo célebre, Robertsqn ( 1721-1793 ) [Em portug. : João B. da S. 
Lopes, Hist. de Carlos V, tr. do i." vol. J e Gibbon ( 1737-1794 ), cuja 
obra Historia da decadência e queda do império romano ficou clássica. 

Na novela merecem registar-se os nomes de Daniel de Foé 
( 1661-1731 ), Jonatham Swift ( 1667-1745) o conhecido autor das 
Viagens de Gulliver ; Richardson (1689-1761 ), [Em portug. : D. Félix 
Moreno de M. y Ros, Pamella Andrews ou a virtude recompensada, 
novella... Lisboa, 179.., 2 vols.], Goldsmith (1728-1774) [Em 
portug.: D. Maria B. G. Martins, Hist. da Grécia..., Lisboa, 1865 
Anon., Hist. secreta do Gabinete de Napoleão. . ., Lisboa, 1811; Alex. 
Aragon. Hist. de Ingi, Lisboa, 1842-44, 4 vols] e Radcliff ( 1764-1823). 

Alemanha 

O século XVIII é para a Alemanha a época áurea da sua literatura. 
Haller ( 1708-1777 ) ; Klopstock ( 1724-1803 ), Gessner ( 1730-1787 ) 
[Em portug. : Obras. Porto, 1791, 2 vols] e Wielland ( 1733-1813 ) 
[Em portug.: Filinto, Oberon, in-Obras, ii ; Marquesa de Alorna, 
in-Obras, iii ( os 1.°' 6 cantos ) J deixaram obras que tornaram imor- 
redourosos seus nomes. Na história sobresairam Herder ( 1744-1803) 
e Múller (1752-1809); na crítica literária Lessing (1728-1781), 
[ Em portug. : JoSo F. Pereira, Fabulas, Lisboa, 1853 ], os irmSos 
Schlkgel, Augusto Guilherme (1767-1845) e Carlos Guilherme 
Frederico (1772-1829); na filosofia Wolf (1679-1754), Kant 
(1724-1804) e Ficrt (1762-1814). Mas a Alemanha é principal- 
mente orgulhosa dos seus dois grandes poetas Goethe e Schuxer. 

29 



450 HISTÓRIA DA UTERATOBA PORTUGTTXIA 



Goethe ( JoSo Wolfgang ) ( 1749-1832 ) escreveu numerosas obras, 
tendo-as iniciado com o drama Goetz de Berlichingen. Quando em 1774 
publicou 08 Sofrimentos do joven Werther, o seu nome tomou-se 
conhecido em toda a Alemanha. As suas baladas e canções, como 
Rei de Tule, Canto do Conde prisioneiro, o seu idílio épico Hermann 
e Dorothea, as suas tragédias Torquato Tasso e sobretudo Iphigenia em 
Taurida, e Conde d'Egmont, que passa pela melhor, e tantas obras 
admiráveis, d5o-lhe logar a ser considerado como um dos maiores 
poetas do mundo. Em 1790 apareciam as primeiras scenas da obra que 
foi a grande preocupação de toda a sua vida — o Fausto, que saiu 
completa em 1832. Goethe morreu em Weimar em 1835, cheio de amor 
e de glória, soltando, na agonia, aquelas célebres palavras que também 
um génio português repetiu : Luz I ainda mais luz ! [Em portug. : Lino 
Augusto de Macedo e Mello, Herman e Dorothea \n-Liz e em separata, 
Leiria, 1856, 8.% 79 pgs. ; outra tr. do dr. Fernandes Costa, 1889, 
in-6í6/. univ. ant. e mod. ; Agostinho de Ornellas. Fausto. . ., Lisboa, 
1867, 276 pgs. (incompleta) ; Visconde de Castilho, Fausto. . ., Lis- 
boa, 1872; Joaquim de Vasconcellos, O Fausto de Goethe, Porto, 1872; 
Eugénio de Castro, Poesias de Goethe, Lisboa, 1909, 1 vol. ]. 

De trad. avulsas é mais conhecida a da lindíssima Canção do Rei 
de Tule, que em português foi traduzida por Latino Coelho, Eça de 
Queiroz [ incompleta ], Gonçalves Crespo, Anthkro do Quental, 
Castilho e Joaquim de Vasconcellos. Ultimamente ainda a Canção 
foi mais uma vez trad. pelo sr. Alexandre Fontes, in-Occidente, 
vol. XXX ( 1907 ), pg. 130 e com mais duas de Goethe e cinco de 
ScHiLLER e outras \n-Lyra germânica, Lisboa 1907. 

ScHiLLER ( JoSo Cristóvão Frederico de ) ( 1759-1805 ). Se Goethe 
é o homem de génio, como se diz na Alemanha, Schiller é o homem 
de coração. 

Pode admirar-se a suavidade da poesia de Schiller nas baladas 
como as Palavras de fé, Palavras de illusão, Artistas, O Sino, O Ideal 
e a vida ou o reino dai sombras ; nas odes corno A alegria, na elegia 
Resignação, Deuses da Greda, etc. Em todas estas composições ha 
uma nobre pureza e um superior estilo. Nas tragédias Maria Stuart 
( 1800), Pucelle d'Orleans ( 1801 ), Desposada de Messines { 1803 ) e 
sobretudo no Guilherme Tell ( 1804 ), o génio de Schille» subiu a toda 
a elevação épica. A Alemanha chorou a sua morte como uma perda 
nacional. [ Em portug. : JoÃo Fblix Pereira, O visionário, romance. . . 
ir. do alemão, Lisboa, 1852, 8.°, 225 pgs. E poesias avulsas como 
essa diticil Die Glock que o sr. Fontes tr. nò livro cit. na nota ant. ; 
em J. Gomes Monteiro, Ecos da lyra teutonica . . . , Porto, 18i8, 
eneontram-se também algumas poesias de Schiller, bem como de 
Goethe, Lessing, Uhland. . . ]. 



CAPITULO V 

Escola Francesa ou Arcadica 

(Século XVIII) 

« 

A POESIA 

Sumário: 131. O século xvni, caracteres gerais. — 132. Reacção 
literária. — 133. O verdadeiro método de Verney. — 134. Acade- 
mias literárias : 1) Academia Reaí da História Portuguesa; 2) Arcá- 
dia Ulissiponense; 3) Academia Real das Sciencias; 4) Nova 
Arcádia — 135. Géneros literários : principais representantes. 
136. Pedro António Correia Garç5o. — 137. Domingos dos R<?is 
Quita — 138, António Dinis da Cruz e Silva. — 139. Manoel 
Maria Barbosa du Bocage — 140. José Agostinho de Macedo. 
141. Francisco Manoel do Nascimento. — 142. Nicolau Tolentino 
de Almeida. — 143. Duas poetisas. — 144. O teatro no século xvnr. 
145. António José da Silva. — 146. Nicolau Luís. — 147. Manoel 
de Figueiredo. — 148. A poesia e/jfrn no século xviii. — 149. José 
Basilio da Gama. — loO. José de Santa Rita DurSo. — 151. Os 
Líricos. — 152. Thomás António Gonzaga. — 153. António Pereira 
de Sousa Caldas. 

131. O século XVIII, caracteres gerais. — A primeira 
metade do século xvm pouca diferença tem do último 
período do precedente século. A afectação e o mau gosto 
agraváram-se. Muitos escritores deixàram-se desvairar 
pelo grande engenho de Vieira copiando-ltie o máu e 
despresando o que nele havia de bom. Usavam aquelas 
excrecencias de estilo, escreve Rebello da Silva, como os 
sinais, os donaires e os riçados altos se trajavam nos 
atavios cortesãos, desfigurando a fisionomia e as mais 
esbeltas proporções. O que não tinha resaibos de artifício, 



4S2 HISTÓRIA Da LITKRATDBA pobtdoussa 

uma tinta violenta e afogueada, desprezavase como infe- 
rior à fama do escritor; e por isso naquele século, pro- 
penso às agudezas e argúcias de teses e argumentos 
nubelosos, intrincados e sofistas, ninguém se eximiu 
inteiramente ao contágio *. 

Por outro lado « o povo arrastava-se no seio da miséria, 
do embrutecimento e do fanatismo, segundo escreve Pinheiro 
Chagas, uma côrle frívola, devassa e beata insultava a 
miséria popular com a sua sumptuosidade, a instrucção 
pública estava paralizada nas mãos dos jesuitas, os cristãos- 
novos, qne constituiam a parte mais esclarecida talvez da 
nação, fugiam para o estranjeiro com medo do santo 
ofício, no reino decadente e pobre havia uma grande som- 
bra, cortada pela chamma dos autos de fé ». 

13S. Reacção literária. — Mas se a fisionomia da 
primeira metade do século é como a acabamos de tracejar, 
a última metade já apresenta todos os sintomas duma 
revolução, que viria a dar o florescente período da renas- 
cença romântica. Muvtos escritores portugueses haviam 
fugido à intolerância política e religiosa do pais, indo 
habitar a França, que desde Luís XIV alcançara em lite- 
ratura um prestígio enorme. Ao calor dos ideaes de 
liberdade é que aqueceram os seus espíritos homens como 
Luis António Verney, Alexandre de Gusmão, o Cavalheiro 
de Oliveira, António Nunes Ribeiro Sanches, Corrêa da 
Serra, Brotero, Francisco Manoel do Nascimento e outros. 
Aos exforços destes grandes homens se deve a reacção 
em favor da lingoa, da poesia e da história ; são verdadei- 
ramente os « Precursores da reforma ». Verney com o 
seu AJélodo afugentava a velha rotina literária e lingoistica ; 
Ribeiro Sanches apontava ao Marquês de Pombal as traus- 



1 Annaes da» Sc. e Letras, i, 1858, Lisboa. O aspecto histórico- 
social desla época é bem desenhado na Hist. de Portugal nos secs. XVU 
e XVIII, Lisboa, 1860, 5 vols.; de Rebelo da Silva. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ARCADICA 453 

formações a realizar no ensino para o erguer do abati- 
mento em que jazia; todos pelas suas obras prepararam 
o romantismo. Neste movimento de reacção importa 
destacar, pela sua importância, alguns factores. Nomeemos 
especialmente o Estabelecimento da Aula de Comércio fun- 
dado em Lisboa em 1759 que, melhorado e desenvolvido, 
poderia de ha muito ternos dado uma escola superior de 
comércio ; a instituição do Real Colégio dos Nobres creado 
em 1761 onde se estudavam as lingoas clássicas e as 
modernas, a história, a filosofia, etc. que era para o seu 
tempo um instituto de que só modernamente temos similar 
nas Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa, * e 
enfim e sobretudo, a reforma da Universidade de Coimbra 
estudada pela Junta de « Providência Literária » criada 
por carta régia de 23 de dezembro de 1770. Esta Junta 
composta de nove membros de que eram inspectores o 
Cardeal da Cunha e o próprio Marquês de Pombal, e de 
que faziam parte, entre outros, o Bispo de Beja, José 
Seabra da Silva e D. Francisco de Lemos, passados oito 
meses apresentava o Compêndio histórico do estado da 
Univ. de Coimbra, donde talvez a cores um pouco exage- 
radas sobresaía nitidamente a decadência e esterilidade 
do ensino universitário da época. A mesma Junta elaborou 
um plano de estudos, modelar para aquele tempo, como 
consta dos Estatutos Novos que crearara as Faculdades de 
Matemática e Filosofia, com o Observatório Astronómico, o 
Museu de História Natural, o Gabinete de Física, o Labo- 
ratório de Química e o Jardim Botânico, perenes testemu- 
nhos a gloriosamente atestarem a orientação pedagógica 
e o largo e profundo saber de quem os redigiu '. 



1 Criadas pelo Decr. com força de lei de 19 de abril de 1911. 
Sobre o estudo das letras em Portugal vid. Dr. A. de Vasconcelos, 
Fac. de Leiras, lição inaugural do ano lectivo de 1912-1918 na sessão 
solene de abertura da Univ. de Coimbra a 15 de outubro. Coimbra, 1912. 

2 Para a história da Univ. neste período deve ler-se a Memoria. . . 
de D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, publicada pelo 



454 UISTÓBIA. DA LITKKATUHA VOBTDâUKSA 



133. o « Verdadeiro Método » de Verney. — A 
decadência literária e scieuliQca de Portugal foi apontada 
com muita justeza num livro que apareceu em 1746 sob 
forma epistolar e assinado por um Frade Barbadinho. 
Tal era o pseudónimo dum individuo de rara ilustração, 
de vasta e segura cultura e de desassombrado critério 
« por ventura o maior sábio português do século xvm » 
como àcêrca dele escreveu Fr. Fortunato de S. Boaven- 
tura — LUÍS ANTÓNIO VERNEY (1713-1792) *. Já atrás 
o citamos como um dos cooperadores da reforma das letras 
no sec. xvm: merece o seu nome neste campo ser dentre 
todos singularizado. Verney fez a sua educação em Itália 
e de lá veio pôr ao serviço da sua causa uma erudição e 
tenacidade diflcilmente superáveis. 

Quando apareceu o seu Verdadeiro Método de estudar ^ 
travou-se uma renhida polémica em volta dele e do autor. 
Verney não era, decerto, um escritor modelar; a frase 
saia-lhe incorrecta, a critica desabrida e por vezes 



sr. dr. Th. Braga, sob o titulo — Dom Francisco de Lemos e a Reforma 
da Univ. de Coimbra, eli;., Lisboa, 1894. Também sobre estes e os 
Estatutos que precederam pôde ler-se o arl. do Sr. Dr. A. de Vascoa- 
celo» m-Anuàrio da Univ. de 1901-Oá com o titulo — Univ. de 
Lisboa- Coimbra, Súmula histórica ( 1288-1900). O nome de D. Fran- 
cisco de Lemos está estreitamente ligado à reforma do ensino público 
em Portugal. Em 1770 Reitor da Univ., em 1772 Reformador, em 1773 
eleito coadjutor e futuro sucessor do bispo de Coimbra, l). Miguel da 
Anunciação, vindo a falecer em 1822, o bispo Lemos exerceu uma 
acção pedagógica larga e profunda, que sem a sua poderosa iniciativa 
seria inteiramente estéril. O governo universitário do bispo Lemos 
suscitou-lhe muilOi inimigos. Cfr. Francisco A. Martins de Carvalho, 
Algumas horas na minha Livraria, Coimbra, 1910, pg. 193. 

^ Vid. a biogr. do benemérito pedagogo nos Retratos e elogios de 
varões e donas pelo P. José de Figueiredo. 

2 Valença, 1746, 2 vol.; e ibid., 1747, 2 vols. Innoc. na biogr. 
[Dic., V, 221 e VII, 257] enumera as publicações pró e contra esta 
obra. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OD ARCADICA 455 

injusta. Mas isso mesmo constituiu uma das razoes da 
salutar agitação operada em favor das boas letras. Os 
jesuitas eram os principalmente atingidos pela agudeza 
da crítica de Verney e por todas as formas procuraram 
inutilizar-lhe o exforço. Mas ao lado do implacável dema- 
gogo do velho e sediço ritualismo literário estavam a 
apoiá-lo homens como Cenáculo e Francisco José Freire. 
Nem ao próprio Camões Verney poupou os seus reparos 
e à chusma dos poetas atirava dardos desta ordem : 
entendem que o compor bem consiste em dizer subtilezas e 
inventar cousas que a ninguém ocorressem: com esta idéa 
produzem partos verdadeiramente monstruosos e que eles 
mesmos, quando os examinam sem calor, desaprovam. 

ACADEMIAS 

1341. Academias literárias. — Para operar a reforma 
literária fundaram-se no presente século várias Academias, 
à semelhança do que se havia feito no século anterior 
(cfr. n.° 102). Vamos mencionar as mais importantes e 
pelos traços, embora em escorço desenhados, vêr-se ha o 
que valeram estas tentativas de revolução no campo das 
letras *. Se todo esse esforço tivesse sido norteiado noutro 
sentido, que riqueza e abundância em obras literárias nós 
não contariamos I Mas assim, quase tudo são futilidades, 
bagatelas, pequenos nadas. 



1 Tivemos : Academia dos Anónimos ou dos Ocultos, a dos Aplicados, 
a Problemálica de Setúbal, a dos Solitários de Santarém, a Problemática 
de Guimarães, a dos Ilustrados, a dos Insignes, a dos Laureados, a dos 
Obsequiosos, a dos Unidos, a Latina e Portuguesa, a Mariana ; e no 
Brasil — a Academia brasílica dos Esquecidos, a dos Felizes, a dos 
Selectos, a dos Rmascidos e a Literária. E mais. Vid. J. Silvestre 
Ribeiro, Hist. dos eslabetecimentos scientif., e também nos Primeiros 
traços, pg. 144-150. 



456 HISTÓRIA DA LITBRATUBA PORTITOUEIA 

1) Academia Real da História Portuguesa. — Esta 
sociedade foi iostituida por decreto de D. João V de 8 de 
dezembro de 1720 com o fim de — « purificar da menor 
sombra de falsidades a narração dos sucessos perten- 
centes a uma e outra História (Eclesiástica e Secular), 
e investigar aqueles que a negligência tem sepultado nos 
arquivos. » — Usava como selo o escudo das armas reais, 
por baixo a figura do Tempo preso com cadeias, e em 
volta o dístico: « Sigillum Regtae Academiae Historiae 
Lusitanae » ; a empresa era a figura da Verdade com a 
letra — « Restituet omnia ». 

Os académicos principais dentre os cincoenla com que 
abriu, foram D. António Caetano de Sousa; Diogo Barbosa 
Machado; Francisco Leitão Ferreira ; José Soares da Silva ; 
D. Rafael Bluteau, etc. 

Os trabalhos desta Academia estam reunidos na Colecção 
dos Documentos e Memorias *. Para se avaliar dos serviços 
por ela prestados às letras pátrias basta lêr a Memoria 
inserta na mesma Gollecção feita em 1734 pelo 4.° Conde 
da Ericeira, D. Francisco Xavier de Meneses onde se 
encontra a resenha do conteúdo de toda a colecção da 
Academia, a saber : mais de 1500 Noticias do que se passou 
nas conferências ; Contas dos estudos dos académicos ; 
Panegíricos; Orações ; Elogios; Declarações dos Directores ; 
Dissertações; Catálogos históricos; Extractos críticos de 
livros raros manuscritos e impressos ; Documentos extraí- 
dos dos melhores arquivos ou noticias deles ; Explicação 
de medalhas, inscrições e epitáfios ; àlêm de diplomas régios, 
estatutos, ele, relativos à Academia. Dentre as Memórias 
ha muitas de subido valor como : as Mem. para a hist. de 
El-Rei D. João I de J. Soares da Silva ; as Mem. de D. Sebas- 



* Colecção do$ Documentos e Memorias da Academia Real da Histo- 
ria portuguesa — 1721 a 1736 — , 15 vols. Vid. lambô.T3 Manoel 
Teles (la Silva, Marquês de Alegrete, Hist. da Acad. R. Portug., Lis- 
boa, 1727; J. Silvestre Ribeiro, Primeirot traços... pg. 132 e seg. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ARCADICA 457 

tião de Barbosa Machado, as Mem. de D. Duarte de 
Martinho de Mendonça de Pina e Proença; as Mem, 
Eclesiásticas de Braga por D. Jerónimo Contador de 
Argote, as da Guarda por Manuel Pereira da Silva 
Leal, etc. 

2) Arcádia Ulissiponense ^ — Foi fundada esta acade- 
mia em 1756 por António Dinis da Cruz e Silva e Manoel 
Nicolau Esteves Negrão para « formar uma escola de bons 
ditames e de bons exemplos em matéria de eloquência e 
de poesia, que servisse de modelo aos mancebos e estu- 
diosos e difundisse por toda a nação o ardor de restaurar 
a antiga beleza destas esquecidas Artes ». 

Sem o conhecimento dos modelos antigos era impossível, 
segundo julgavam, enriquecer as suas composições das 
infinitas belezas poéticas, que descobre a cada passo quem 
frequenta a lição dos gregos e latinos. Sófocles, Vergíllo, 
Horácio, Terêncio, passaram a ser os ídolos dos seus 
estudos ^. O nome Arcádia tomou-o duma das mais 
célebres províncias da antiga Grécia, que as lendas con- 
sideravam a sede da poesia e da música ; o local, onde se 
reunia, era designado por Monte Ménalo; cada sócio, na 
qualidade de Árcade, era obrigado a adoptar o nome e o 
sobrenome dum dos muitos pastores celebrados pelas 
musas gregas e latinas ; a empresa era < meio braço 
pegando em um podão » com esta epígrafe — « inutilia 
truncai. » A sociedade tinha uma sessão particular por 



1 Vid. nas Mem. da Acad., vi, 2.* p., 62 e 141 a Mem. sohre a Arcá- 
dia, ( 18i0 ) de Francisco Manoel Trigoso de AragSo Morato, e os 
artigos de Rebelo da Silva sobre a Arcádia Portuguesa nos Annaes das 
Sc. e Leiras, i, ( 1857) pg. 75, 147 e 109; J. Silvestre Ribeiro, Pri- 
meiros traços. . . cit., pg. 141 e Hist. dos Estabelecimentos Scientificos . . ., 
vol. I, pg. 266-27Í. 

' Sam as próprias expressões de GarçSo no discurso recitado 
em 1758, 3." ano da fundação da Arcádia; cfr. C C. Branco, Cursa, 
já cit, pg. 170. 



458 HI8TÓBIA DA LtTBRÂTUaA PORTUGUESA 

més e duas públicas por aoo. Os sócios mais Dotáveis 
fôram : 

Corrêa Ga^rçãiO (Corydon Erymanieo); Reis Quita (Alcino 
Micenio); Cruz e Silva ( Elpino Nonacriense ) ; Manoel de 
Figueiredo (Lycidas Cyniio); Francisco José Freire (Cân- 
dido Lusitano); Manoel Nicolau Esteves Negrão ( Almeno 
Sincero ). 

3) Academia Real das Sciências. — Deve a sua fundação 
a D. João de Bragança, 2.° duque de Lafões, tio da rainha 
D. Maria I, em 1780, quatro anos depois de ter terminado 
a antecedente. " Foi poderosamente auxiliado no seu propó- 
sito por José Francisco Corrêa da Serra, o Abade Corrêa 
da Serra ( 1750-1750 ), como era e ficou conhecido, homem 
de vasta ilustração botânica, que estudou em Filadélfia *, 
onde regeu um curso daquela sciência, e o melhor pre- 
parado para compreender a renovação scientífica que se 
propunha a Academia. Das obras empreendidas pelos 
membros da Academia Real das Sciências devemos men- 
cionar em primeiro logar o Dicionário da lingoa portu- 
guesa, devido aos incansávdis exforços de Pedro José da 
Fonseca (1737-1816), professor de retórica no Colégio 
dos Nobres e aulôr do Dicionário latino-portugués e 
português- la tino, e aos dos seus colaboradores Agostinho 
José da Costa de Macedo e Bartolomeu Inácio Jorge. 
O Dicionário que ficou na letra « A » tem abundante cópia 
de autoridades e exigiu tal somma de trabalho que Pedro 
da Fonseca se inutilizou de doença por toda a vida e os 
sens colaboradores cegaram. 



* Natural de Serpa, educado em Roma, para onde foi com sens 
pais aos seis anos, e donde voltou aos vinte e sete. Em 1786 
expatriou-se com receio do Santo-Ofício. Depois duma vida agitada 
regressou a Portugal, vivendo aqui pouco mais dum ano, falecendo 
em 1823. Vid. Innoc, Dic. Bibl., iv, 339-241, Teixeira de Vasconcelos, 
Glorias Portuguesas^ Lisboa; sr. José de Arriaga, Hisl. da revolução 
portug. de 1820. 



CAPITDLO V — ESCOLA FRANCESA 00 ARCADICA 459 

Deram também renome à Academia as suas Memorias 
em que operossíssimos escritores trabalharam devotada- 
mente concorrendo pelas investigações feitas nos arquivos 
dos conventos, das câmaras e das catedrais para que se 
juntassem preciosos elementos sobre a história de Portu- 
gal *. Estes trabalhos foram empreendidos entre 1788 e 
1795 e neles sobresaíram: 

Fr. Manoel do Cenáculo Villas Boas ; D. António Caetano 
do Amaral ; João Pedro Ribeiro ; Fr. Joaquim de Santa Rosa 
de Viterbo ; D. Francisco Alexandre Lobo ; Fr. Francisco 
de S. Luís; Fr. Fortunato de S. Boaventura e outros. 

4) Nova Arcádia. — Esta sociedade é também conhe- 
cida pelo nome de Academia das belas-letras de Lisboa e 
foi instituida em 1790 pelo conde de Pombeiro, José de 
Vasconcelos e Sousa, e dela fizeram parte muitos poetas 
destintos, dentre os quais se tornaram mais notáveis : 

Bocage (Elmano Sadino); 

José Agostinho de Macedo (Elmiro Tagideu); 

Curvo Semedo (Belmiro Translagano ) ; 

Pato Moniz (Olino). 

13^. Géneros literários : principaes representantes. 
— Vejamos agora quais foram os escritores mais notáveis 
do nosso país durante o sec. xvni. Bastantes podería- 
mos mencionar, mas muitos sam do domínio da história 
literária e não do da história da literatura, que esboçamos. 
Alguns dos citados e que até registamos sob rubrica 
especial sam da colónia brasileira. Dos da metrópole, 
sam da Arcádia Ulissiponense : Garção, Quita, e Cruz e 
Silva; sam da Nova Arcádia, CURVO SEMEDO'^ (1766-1838) 

1 As foiíles para o estudo da hislória desta corporação scientifica 
vSem sumariamente indicadas em J. Silvestre Ribeiro, Primeiros tra- 
ços. ..,ii cit., pg. 139. 

2 Belchior Manoel Curvo Semedo Torres de Sequeira, de Montemor 
o Novo. As Comp. poet. saíram o i e ii vols. em Lisboa, 1803 ; o m, 



460 HISTORIA DA. LITERATURA PORTUOCSBA 

conhecido por Belmiro Transtagano, que escreveu Compo- 
sições poéticas onde sobresaem os apólogos e os ditirambos; 
PATO MONIZ (1681-1772), Olino na Arcádia, autor de 
talento que exgotou grande parte da sua veia literária 
numa luta sem trégoas contra Josó Agostinho de Macedo, 
a quem, para ridicularizar consagrou o poema Agosti- 
nheida *; PIMENTEL MALDONADO ' (1773-1838) notável 
pelos Apólogos; outros ainda que não chegam à craveira 
dos apontados, e o príncipe de todos Bocage, que abaixo 
mencionamos. 

Sam dissidentes, isto é, não fizeram parle de nenhuma 
academia ou arcádia: JOSÉ ANASTASIO DA CUNHA 
(4- 1787), lente de geometria na Universidade, vítima 
ilustre da inquisição, e poeta em quem aparecem vislum- 
bres de romantismo ^; Filinto e Tolentino, a quem mais 
especificadamente nos referimos adeante. Na história e 
na epistolografia, que não somente na poesia, tivemos 
verdadeiras celebridades, como passamos a ver. 



POESIA 

136. —PEDRO ANTÓNIO CORRÊA GARÇÃO (1724- 
1772) de Lisboa, é o lírico mais influente da Arcádia, 
onde foi designado pelo nome de Corydon Erymantheo. 
As suas epistolas e odes revelam-no como verdadeiro 
cultor apaixonado e sincero da beleza clássica de que se 



ihid., 1817 e o iv ihid., 1835. Tem lambem Trad. das melhorei fabulas 
de Lafontaine, Lisboa, 1820 ; 2.' ed., ibid.. 1843. 

* Nuno Alvares Pereira Pato Moniz. A Agostinheida, poema heroi- 
eomico em nove cantos saiu em Londres, 1817 e em Lisboa, 1834. 
Deve ler-se Innoc. Dic, vi, 304. 

' Joáo Vicente Pimentel Maldonado, Apólogos, Lisboa, 1820. 

5 Para a biogr. do ilustre perseguido ver Innoc, Dic, vi, 221-231; 
Bruno, O Porto culto, obra para servir de remate e conclusão á dos 
Portuenses ilustres, i, Porto, 1912, pg. 145 e segs. 



CAPITULO V — ESCOL'. FBANCÊ8A OD ARCADICA 461 



' tinha impregnado sobretudo nas leituras de Horácio. 
Por motivos que se ignoram mandou o Marquês de 
Pombal encerrá-lo numa das cadêas da capital em 1771, 
onde a morte o foi libertar passados oito meses de tortu- 
ras físicas e morais. Nesse mesmo dia — 10 de novembro 
de 1772 ~- chegava a ordem para o porem em liberdade! 
Houve quem atribuísse a prisão a ter o poeta recitado 
na Academia dos Ocultos um poemeto intitulado Ao infante 
D. Pedro não consentindo que se levantasse uma estatua, 
em que Pombal teria visto uma alusão epigramática por 
ter mandado colocar o seu medalhão no monumento de 
D. José I. Outros atribuiram-na a uma aventura amorosa 
com a filha dum tal Macbean, escossês ao serviço de 
Portugal. A primeira hipótese é desfeita totalmente por 
esta simples questão de datas: a prisão deu-se em 1771 e 
a estátua de D. José só foi erigida em 1775. Resta a 
segunda, porventura ainda sujeita a desaparecer ou, pelo 
menos, a ser modificada. 

Garção escreveu duas comédias que ainda hoje se lêem 
com agrado: Theatro Novo e Assemblêa ou Partida * e 
muitas poesias em vários géneros, entre as quais avultam 
as suas Odes : a mais encomiada das suas produções é a 
Cantata de Dido, que faz parte da Assemblêa, e que Garrett 
considerava « como uma das mais sublimes concepções do 
engenho humano, uma das mais perfeitas obras executadas 
da mão do homem « ^. Como restaurador da poesia e 
do bom gosto Garção ocupa entre os seus contemporâneos 
logar muito destinto. Garção redigiu também, desde 
julho de 1760 até que foi suspensa em junho de 1762, a 
Gazeta de Lisboa. 



* Obras Poéticas, Lisboa, 1778, 1 vol. ; outras ed. Rio de Janeiro, 
1812, 2 vols. ; Lisboa, 1825, 2 vols. A todas sobreleva pelos inéditos 
que publica, riqueza e esmero com que foi elaborada a Ed. Completa, 
dirigida por J. A. de Azevedo Castro. Roma, 1888, 

2 Bosquejo, etc, já cit. 



462 BISTÓBIA DA LITKRATCBA PORTUOUISA 



ISr. — DOMINGOS DOS REIS QUITA (Í728-1770), 
O Alcino Mycenio da Arcádia, natural de Lisboa; c o nosso 
primeiro bucólico segundo Garrett, o legítimo continuador 
de Rodrigues Lobo, segundo o sr. Th. Braga. Gomo 
Garção, aprendeu na própria infelicidade toda a maviosi- 
dade dos seus versos. Quita era filho dum comerciante 
que, falindo, lhe deixou o pesado encargo da própria e da 
subsistência da mãe e de seus irmãos. Na arte de cabe- 
leireiro que aprendeu e seguiu encontrou os recursos de 
que necessitava. Isto explica os vagos tons de sentimen- 
talidade esparsos em toda a sua obra. 

Os idílios, odes, sonetos, canções, epístolas, etc, o 
drama pastoril Licore revelam uma leitura proveitosa dos 
que, como ele, fizeram soar a fraula pastoril. Das suas 
tragediassem verso Astarte, Mégara, Hermione e Inês de 
Castro reputam os críticos como melhores as duas últimas. 
A Castro foi imitada por João Baptista Gomes na Nova 
Castro *. 

138 ANTÓNIO DINÍS DA CRUZ E SILVA (1731- 

1799) na Arcádia Elpino Nonacriense, natural de Lisboa, 
seguiu a magistratura sendo despachado pelo Marquês de 
Pombal para Desembargador da Relação do Rio de Janeiro, 
depois que o conheceu como autor do Hyssope pela queixa 
que lhe fez o bispo de Elvas D. Lourenço de Lencastre 
ao ver-se ridicularizado pelo poeta na contenda com o Deão 
Carlos de Lara. António Dinis é muito inferior, como 
lírico, aos precedentes. As suas Odes Pindaricas, inspi- 
radas em reminiscências clássicas, têem às vezes rasgos 
sublimes, mas no geral, sam monótonas e sem inspiração. 



1 A 2.* ed. das suas Obras Poeticat... Lisboa, 1781, considera-a 
Innoc. ( Dic, u, 196) como a mais acurada e completa. A I.* edição 
é de 1766. A 3.* é Roliandiana como a 2.», 1831. A Nova Castro de 
Gomes teve trad. alemã, Leipzig, 1841. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ABCADICA 463 

O poema heroi-cómico Hyssope, inspirado no Lutrin de 
Boileau, é uma interessante sátira de costumes escrita 
com certa graça, posto que a frouxidão dos versos a torne 
de leitura fatigante. Das poesias meúdas podem apontar- 
se como dignas de menção as Odes anacreonticas *. 

13Ô. — MANOEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE 

(1765-1805) de Setúbal, na Arcádia conliecido pelo nome 
pastoril de Elmano Sadino, tam falsamente avaliado por 
aqueles que só de nome o conhecem, foi um esbanjador, 
um perdulário do seu grande talento. Tendo embarcado 
para a índia como guarda-marinha, e sendo mandado 
servir em Damão, desertou, fugindo para Macau e daqui 
para Lisboa, onde chegou em 1790. A vida libertina, 
que durante sete anos levou na capital, foi coroada tris- 
temente com a publicação do poemeto Pavorosa ilusão da 
eternidade, que o levou ao Limoeiro, onde esteve três 
meses, dai ao cárcere do Santo Ofício, onde permaneceu 
quatro, e daí ao mosteiro de S. Bento da Saúde, e por 
último ainda á congregação de S. Felipe Néry. Neste 
asilo, ilustrado por espíritos superiores como Bernardes, 
Teodoro de Almeida, e outros, empreendeu a tradução do 
1.° livro das Metamorphoses de Ovídio, de fragmentos de 
outros e da 5.* Bucólica de Vergilio. Readquirida a 
liberdade, seguiu nesse empenho salutar, ganhando a 
subsistência para si e para uma sua irmã, com quem 
passou a viver. Durante dois anos Bocage verteu os 



i Poesias. . . em 6 tomos, ed. de 1807-1817. Do Hyssope sam várias 
as ed. ; a mais estimada é de 1879, ilustrada e comentada pelo sr. 
Ramos Coelho. Pela crítica feita ao ensino nos princípios do século xix 
é curioso de lêr-se outro poema heroi-cómicn, o Reino da Estupidez 
publicado anonimamente em 1819 de Francisco de Mello Franco 
( 1757-1823 ). Ambos de dois, com algumas sátiras de Tolentino, 
foram publicados em esplendida ed. do Rio de Janeiro em 1910 com 
introd. critica e anotações do ilustre filólogo Sr. Dr. JoSo Ribeiro. 



464 BISTÓBIA DA LITBBATURA PORTUODBSA 

Jardins de DeUlle, as Plantas de Gastei, o Consórcio das 
Flores de Lacroix, a Galathea de Floriau, e muitas obras, 
algumas delas bem pouco dignas do exercido de tam 
grande talento. 

Acusado por último, mas sem consequências, à Inquisi- 
ção, o poeta veiu a falecer em edade que a experiência 
dolorosa da vida tornaria mais frutuosa, se fosse pro- 
longada. 

Ha na vida de Bocage uma circunstância que muito 
concorreu para que o seu lirismo fosse tam verdadeiro 
e tam sincero. Foi o amor puro e leal que consagrou a 
Maria Vicência, fliha de António Marçal Leite, de quem 
foi hóspede. Quando fora preso no Limoeiro pela acusa- 
ção de revolucionário e ateu não foi diflcil convencer a 
mãe dessa senhora de que não devia perníitir o casamento 
com o apaixonado poeta. À hora da morte a mãi fez 
jurar sua Olha que nunca realisaria esse casamento. 
Este amor contrariado inspirou a lira do Bocage duma 
forma superior. O poeta também cantou a decadência do 
nosso domínio no Oriente. Este lado por que deve ser 
apreciado o poeta setubalense é, sem dúvida, bem superior 
ao que sobreviveu na tradição — o popular, que fez de 
Bocage um boémio incorrigível, aventureiro e vagabundo. 
Pelo alto sentimento que traduz nos seus versos, pela 
onda revolta de protesto contra a decadência moral e 
politica do seu tempo, tomando ora a forma do ridículo, 
da sátira, do doesto, ora a da invectiva desassombrada e 
eloquente, Bocage brilha na galaria dos nossos poetas 
como estrela de primeira grandeza. 

O talento de Bocage manifestou-se no dom da improvi- 
zação, em que não conheceu rival, na sátira, que ele 
brandia vigorosamente retalhando a largos vergões os 
adversários, que se lhe atravessavam no caminho, como 
José Agostinho, contra quem escreveu essa soberba após- 
trofe — Pena de Talião, e nos sonetos, duma perfeição e 
dum brilhantismo, que ombreiam com o melhor de Camões 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ARCADICA 465 

nesse género *. Os discípulos e imitadores de Bocage 
sana designados pelo nome de Elmanistas. 

140. — JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO ( 1761-1831 ) 

o inimigo roaz de Bocage está, apesar da sua inteligên- 
cia fecunda e operosissima e da sua vasta erudição, posto 
que superficial, muito abaixo do seu competidor. A rela- 
xação dos seus costumes levou os frades Gracianos, em 
cuja agremiação entrou, a expulsá-lo solemnemente, 
fazendo-lhe largar o hábito na presença de toda a comu- 
nidade. Duma vaidade ridícula quis suplantar Gamões 
e com esse propósito retomou o assunto dos Lusíadas e 
confeccionou sem paixão, sem vida, sem poesia, o Gama ^ 
que depois denominou Oriente ^ e que no intuito de 
tornar mais perfeito chegou a refundir quatro vezes. 
Vêem depois, no género didascálico, os poemas Natureza ♦, 



í Sam várias as ed. das obras de Bocage. Veja-se em Innoc. a 
enumeração. Da anliga ed. era 7 vols., Lisboa, 1791-1842 alguns vols. 
foram várias vezes reimpressos. Os vols. 17 a 25 da « Livr. clássica 
Portug. • Lisboa, 1845-47 compreendem excertos da obra de Bocage 
por Castilhos ( António e José ), que no Rio de Janeiro se reimprimi- 
ram em 3 vols. Vid. principalmente a ed. anotada por Innoc. e pre- 
cedida dum estado biográfico e literário por L. A. Rebelo da Silva, 
6 vols., Lisboa, 1853 ; e a ed. Obr. poéticas, 8 vols., Porto, 1875-76 ; o 
último trás a biografia de Bocage pelo sr. Th. Braga. Dôste mesmo 
autor — Bocage, sua vida e época literária; Eloy do Amaral, Bocage, 
fragmentos de um estudo aulo-biographico, Figueira da Foz, 1913. 
A cidade de Setúbal festejou o primeiro centenário do grande poeta, 
que faleceu em Lisboa no dia 21 de dezembro de 1805, no dia corres- 
pondente de 1905. Vér sobretudo Diário de Noticias de quinta feira, 
21 de dezembro de 1904; Illustração do Século, n.° 111. Vid. também 
Serões, n.° de dez. de 1906, pg. 510, — Bocage e a inquisição ( acom- 
panhado de muitas gravuras ). 

2 Gama : poema narrativo, Lisboa, 1811. 

3 Lisboa, 1814, 2 vols. ; ibid., 1827 e Porto, 1754. O Sr. J. Ramos 
Coelho no estudo Camões e Macedo, analise do Discurso Preliminar 
com que este prefaciou o « Oriente », ( Lisboa, 1911 ) demonstrou que 
o rancoroso inimigo do grande Épico foi « além de injusto, falsario »• 

* A Natureza, poema em 6 cantos, Lisboa, 1846 ; Porto, 1854. 

80 



466 HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA 

Newton *, Meditação ^, Viagem extactica ao templo da 
sabedoria ', reveladores da sua facilidade em amontoar 
versos sobre versos, e pouco mais. 

Do seu génio atrabiliário e caracter virulento sam 
prova incontroversa os Burrjs * monstruosidade moral e 
literária contra os seus colegas na Arcádia, e os jornaes 
que o seu ódio ferrenho de miguelista envenenava A tripa 
virada. Tripa por uma vez, A besta esfolada, etc. O pro- 
cedimento que teve com Bocage nos últimos anos da vida 
do desditoso Elmano, e que Pato Moniz nos revelou, 
tornam tam odioso o seu caracter, como é superficial e 
i:ecco o seu talento. E' talvez nas obras ligeiras, cartas, 
iáliras, opúsculos de critica, etc. que melhor se evidencia 
íi maleabilidade do seu talento. Ao muito que dele já se 
(onhecia ha agora a juntar as obras póstumas publicadas 
por Theophilo Braga — as Cartas e opúsculos '^ e as Cen- 
suras a diversas obras, composições lyricas, didácticas e dra- 
vmticns ^ que, com as Memorias para a vida intima de Joxé 
Agostinho de Macedo ^ escritas por Innocencio Francisco da 
Silva, fornecem a completa documentação para o estudo 
bio-bibliográfico de tam fecundo e poderoso escritor ^ 



1 Lisboa. 1813 ; 2.» ed., ibid , 1815 e Porlo, 1854. 

2 Meditação, poema philosophico em 4 cantos, Lisboa, 1813; ibid., 
1818 ; Porto, 1854 ; Pernambuco, 1837. 

* Viagem... poema em acantos, Lisboa, 1830; Pernambuco 1836; 
P. rio. 1854. 

* Os Burros ou o reinado da sandice, poema eroico-satyrico em 6 
cantos. Paris, 1827 ; tbid.. 1835, Lisboa, 1837. 

» 1 vol , Lisboa, 1900. 

6 1 vol., Lisboa, 1901. 

1 1 vol., Lisboa, 1899. 

8 Vid. além das ob. cit. no texto : Curso, de C. C. Branco, já cit., 
Pj'. 26'í-265. Sobre a biografia : R. Orliz, La Literatura Portuguesa 
tf»' el siglo XIX, Madrid, 1869 ; Annnea das Sc. e Letras, ii, 1849, arti- 
giis de Lopes de Mendonça sob o titulo J. Agostinho e a sua época ^ 
Carreira de Mello, Macedo, biographia e catalogo de obras, Porto, 1854; 
Iiinoc, Die. Btbi. iv, 183-215. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ABCADICA 467 



141. — FRANCISCO MANOEL DO NASCIMENTO 
(1734-1819) é mais conhecido pelo nome poético Niceno 
6 melhor pelo de Filinto Elysio, que lhe pôs a primeira 
Marquesa de Alorna. Tendo escapado milagrosamente da 
perseguição do Santo Ofício, fugiu para Paris (1778), 
onde viveu a maior parte da sua vida — 41 anos — e 
onde morreu quase na miséria, em 25 de fev. de 1819, 
com 85 anos de idade, não lhe faltando, porém, na terra 
de « exilio, de pobreza, de amarguras e de saudades » 
nos dias de doença os socorros materiais e na hora 
estrema os espirituais, mercê da gentileza do embaixador 
português Marquês de Marialva *. Apesar de estar em 
contacto com uma sociedade, centro de cultura universal, 
as idéas novas não abriram brecha no seu amor exage- 
rado a Horácio. Cantado por Lamartine em uma ode que 
ficou célebre, sequestrado da pátria e dos amigos, vivendo 
pobrissimamente rodeado de infortúnios, não pôde largar 
voos amplos à fantasia e criar obras origioaes. Trabalhou 
muito para viver; os seus livros têem acentuado cunho 
didáctico ; talvez por isso ha uma afectação exagerada em 
tudo o que saio da sua penna, que é muito, e que cons- 
titue um serviço enorme feito ao idioma pátrio. A versi- 
ficação é pouco suave mas altamente variada e rica. Das 
suas obras * destacam-se as traduções do De rebus Emma- 
mielis gestis de Osório, da Púnica de Sílio Itálico, dos 
Mártires de Chateaubriand, do Oberon de Wieland, das 



^ O funeral também foi feito a expensas do nosso embaixador. 
Passados 23 anos, em 18i2, foram os ossos trasladados para Lisboa, 
e em 19 de julho de 1856 colocados em túmulo especial no cimilério 
do Alfo de S. JoSo. Vid. o estudo do brasileiro Pereira da Silva — 
Filinto Elysio e a sua época, Rio de Janeiro, lS91. Pormenores inédi- 
tos interessantes na comunicação á Academia das Sc. de Lisboa de 
Sousa Monteiro Cfr. Boi da Seg. Cl., i, ( 1903 ), 151-168. 

2 Ha duas ed. geralmente tidas como completas, a de Paris, 1817- 
1819, 11 vols.,'e a de Lisboa, 1836-1840, 22 vols. 



468 HISTÓBÍA DA UTERATUBA POBTU60BSA 

Fábulas de La Fontaioe. Dentre os trabalhos originaes, 
as odes e epistolas sam os melhor conceituados. Entre 
estas ha uma dirigida « Ao amigo Brito » sobre poesia e 
língoa portuguesa, que é digna de lèr-se pela proveitosa 
lição que encerra. 

143 NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA ( 1741- 

1811), durante catorze ou quinze anos professor de 
retórica em Lisboa e mais tarde oficial da secretaria de 
estado dos negócios do reino, é, com o anterior, o mais 
notável dissidente de qualquer tertúlia ou arcádia. O seu 
génio poético tomou a feição satírica e daí lhe derivou o 
maior titulo da sua glória. Mas como é que um poeta 
que se confessa dependente de toda a gente, em lástimas 
que não tinham 6m, podia fazer vibrar nos seus versos a 
sentida e verdadeira indignação da sátira? E' por isso 
que a sua musa não tem a coragem da de Juvenal ; é 
cortesã, respeitosa, engraçada, como disse Garrett. Sabe 
ter cores variadas e exactas para pintar os ridículos do 
seu tempo ; distribue-as bem, com fluência e vernaculidade 
de frase. Essas qualidades revelam-se sobretudo nas 
sátiras seguintes, que sam tidas pelas melhores: Bilhar, 
Passeio, Função e Guerra, que sam bem portuguesas 
pela lingoagem castiça, pela elegância e pela côr *. 

143- — Duas Poetisas. Entre os cultores da poesia 
que brilharam neste século e ainda em parte do imediato 
figuram duas senhoras não menos insignes que muitos 
dos seus contemporâneos — a VISCONDESSA DE BAL- 



' Obras completas... com alguns inéditos e um ensaio biogr.- critico 
por José de Toires. Illuslradas por Nogueira da Stlva. . . Lisboa, 1861. 
E' a ed. mais completa e estimada. A !.• biogr. do Poéla é de Joáo 
Augusto do Amaral Frazão e saiu em Lisboa, I8i3, com o titulo Vida 
do Poeta Nicolau T. de Almeida, di pgs. 



CAPITOLO V — ESCOLA. FRANCESA OU ARCADICA 469 

SEMÃO * cuja obra está quase inteiramente inédita, mas 
que bem merecia a consagração da publicidade e a 
MARQUESA DE ALORNA 2, a decantada Alcippe, cujas 
Obras Poéticas revelam um finíssimo espirito, de uma 
esmerada cultura, como a podiam ter as mais viris inte- 
ligências do Renascimento, tanto nas belas-letras, como 
nas sciências. Mais, porém, do que pelos seis volumes 
das suas poesias, o talento da Marquesa de Âlorna tor- 
nou-se destincto e influiu largamente no nosso meio pelos 
seus salões que reuniam todas quantas pessoas em Lisboa 
primavam pelo seu saber e pelo seu amor às letras e às 
sciências. 

O TEATRO 

l-^-4.. — O teatro no sec. XVIII. Não tivemos tea- 
tro no século anterior, pôde dizer-se. O Fidalgo Aprendiz 
é caso esporádico, tam singular ele é. A decadência 
continua neste período. O teatro espanhol durou longo 
tempo entre nós. Em 1709 imprimia-se em Lisboa a 
Musa jocosa de vários entremeses portugueses e castelhanos, 
confessando o coleccionador que se resolvera a isso por 
ser a Musa entretenida de vários entremeses, publicada por 
Manoel Coelho Rebelo em 1658, obra rara, e que, por o 
ser, se lhe fizera segunda edição em 1695. D. João V 
quis transplantar para Portugal a ópera italiajia ; isso 
fez nascer um novo género — as Operas Portuguesas 
representadas nos teatros públicos do Bairro Alto e da 
Mouraria desde 1733 a 1741. Não sam estimáveis estas 



1 D. Catarina Micaela de Sousa Cesar de Lencastre [ 1749-1824], 
cuja biogr. se pode lôr na Ilíustração, jornal univ., i, 1845, pg. 127 
e seg. 

2 Marquesa de Alorna, Condessa do Assumar e Oeynhausen — 
D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre [1730-1839]. 
Vid. Panorama, 1844, pag. 403 ; Teixeira de Vasconcelos, Olorias 
Portuguesas, Lisboa, 1869, pg. 115-159 e o vol. i das Obras. 



470 HISTÓRIA UA LITKRATCRA P0RTUGCK8A 

peças, diz Aragão Morato, nem pela invenção, nem pelo 
enredo, nem pelo estilo e lingoagem, mas lêem muita 
graça cómica e uma certa originalidade que debalde se 
procura em todos os nossos dramáticos do século ante- 
cedente *. 

A Arcádia, fundada em 1756, como vimos, tentou a 
restauração do teatro, mas não o conseguiu, pois foi 
arrancà-lo à influência castelhana para o lançar sob outra 
influência estranjeira — a francesa e a italiana. Obras de 
Voltaire, Racine, Moliòre, e de Metastasio, Goldoni, Maffei, 
acomodadas com melhores intenções do que feliz efeito 
ao chamado gosto português inundaram simultaneamente 
o nosso teatro. Entre esta sujeição ao jugo estranjeiro e 
a influência decisiva do gôslo clássico, querendo muitos- 
sujeitar toda a literatura às leis traçadas por Aristóteles' 
na sua Arle Poética, que Francisco José Freire desde 
1748 traduzira, se vai arrastando o teatro até esperar a 
hora em que o pulso de Garrett o arrancará ao seu torpor. 
Pondo de parte individuos de nome quase ignorado, 
como" ANTÓNIO XAVIER FERREIRA DE AZEVEDO ( 1784- 
1814) autor da farça Manuel Mendes; JOSÉ CAETANO 
DE FIGUEIREDO ( + 1818) da Brites papagaia; MANOEL 
RODRIGUES DA MAIA (-|- 1804) do Doutor Sovina e Gal- 
lego lorpa; ALEXANDRE ANTÓNIO DE LIMA (1C09-1760) 
dos Novos encantos do amor, etc, os melhores represen- 
tantes do teatro português do sec. xvin sam, àlêm de 
Garção e Quita, já citados, os que em seguida apontamos. 

1455. — ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA ( 1705-1739) .é o 
representante legítimo desse teatro nacional e popular 
inaugurado por Gil Vicente, que as comédias espanholas 
haviam desterrado da scena e do gosto popular. Embora 
nascido no Brasil, (8 de maio de 1705), António José, 
conhecido pela designação de Judeu, por ter nascido 



1 Arag&o MoralO) Jtfem. loòre o Iheatro português, Jà cit , pg. 74. 



CAPITULO V — ESCOLA FRANCESA OU ARCADICA 471 

duma família de cristãos-novos — o pai, o advogado 
João Mendes da Silva e a mãi Lourença Coutiniio foram 
remetidos para Lisboa, esta acusada de cristãnova — é 
verdadeiramente um escritor nacional, que nas suas obras 
soube castigar os ridículos da sociedade, em que viveu 
desde os oito anos até aos trinta e quatro, em que 
expirou como vítima da inquisição, sendo degolado no 
auto-de-fé realizado a 18 de outubro de 1739. A Vida de 
Esopo era um bote jogado ás teses escolásticas ; o Labi- 
rintho de Creta visava a mitologia considerada indispen- 
sável na fabulação poética ; as Guerras do Alecrim e da 
Mangerona retratavam dois grupos de peralvilhos inúteis ; 
o Amphitrião tinha scenas alusivas ao terrível tribunal, 
que o não poupou. O público apreciava as « Operas » 
do Judeu como se via pela concorrência ao teatro do 
Bairro Alto e pelas gargalhadas com que lhe sublinhava 
os dizeres. 

As comédias de António José sam : Vida de D. Quixote 
de la Mancha; Esopaida ; Encantos de Medea; Amphitrião; 
Lahirintho de Creta; Guerras do Alecrim e da Mangerona; 
Variedades de Protheo; Precipicio de Phaetonte *. 

146. — NICOLAU LUÍS era mestre escola e foi ensaia- 
dor no teatro do Bairro Alto quando começou a traduzir 
comédias do espanhol, do francês e do italiano. Foi o 
criador dessas comédias que se chamaram « de cordel » 
e que alimentaram durante anos os teatros de Lisboa. 
Muitas delas tornaram-se popularíssimas aparecendo sem 
nome de autor e sem a mínima pretensão literária. Atri- 



^ Consulle-se a lUustração Luso-Brazileira de 1856, i, 190; Var- 
nhagen, Florilégio' da Poesia brazil. ; Pereira da Silva, Varões ilustres 
do Brazil. As oito comédias de António José apareceram em dous 
vols. — Theatro cómico porluguês, 1774. Na minha colecção Subsídios 
para o estudo da historia da Literatura Portuguesa, vols. v-vi, publi- 
quei a Vida de D. Quixote e as Guerras do Alecrim, etc, com intro- 
dução bio-bibliográ&ca no 1.* desses volumes. 



472 HISTORIA DA LITERATURA PORTOOUSSA 

buem-se a Nicolau Luís os Maridos peraltas, a tragédia 
D. Inês de Castro, o Belisario, Amores e obrigação, etc. *. 

14r. — MANOEL DE FIGUEIREDO (1725-1801), o 
Lycidas Cynthio, pretendeu ser um reformador do nosso 
teatro, mas ele próprio confessava a inanidade dos seus 
exforços. Traduziu de Euripedes a Andromaca e a Ifigé- 
nia, de Corneille o Cid e o Cinna, de Addison o Catão, 
etc, e compôs algumas comédias que Garrett julgava 
aproveitáveis com « um diálogo mais vivo, e um estilo 
mais animado ». 

A falta de qualidades essenciaes a quem escreve para 
o teatro, a ruim metrificação, o estilo didàtico, a frieza 
da acção, a pouca graça, tudo isso tornou o teatro de 
Figueiredo velho ainda para os seus contemporâneos, 
que nem lhe compreenderam os intuitos louváveis, nem o 
favoreceram e estimaram, deixando-o perecer no quase 
completo despreso da sua obra *. 



OS ÉPICOS 

[colónia brasileira] 

148. — A poesia épica no século XVIII. Dos 
numerosos poetas épicos do presente século, aparte 
José Agostinho de Macedo que já estudamos, os restan- 
tes pertencem á colónia brasileira. Pertencem ainda á 
metrópole os seguintes de que bastará fazer menção : 
D. FRANCISCO XAVIER DE MENESES (1673-1743), 



* Cfr. o Dic. Bibl. de Innoc, vi, 275 e seg. 

2 Vid. a ed. completa : Theatro de . . . , Lisboa, 14 tomos, 1804-13. 
Foi um irmão do autor quem lhe publicou as Obras, bem como as que 
saíram com o titulo Obra$ PosUiumas, liisboa, 1804, 1 vol. No vol. 14 
e último ha numerosas e interessantíssimas referências a pessoas e 
factos do sec. xviu feitas pelo