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Full text of "História da prostituição, em todos os povos do mundo desde a mais remota antiguidade até aos nossos dias ... por Pedro Dufour, notavelmente ampliada e enriquecida com valiosos estudos por D. Amancio Peratoner e outros escriptores, e seguida de um importante trabalho sobre a Historia da prostituição em Portugal, desde os tempos mais obscuros da Lusitania até nossos dias"




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HISTORIA 



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A seducção 



HISTORIA 



DA 



PROSTITUIÇÃO 

EM TODOS OS POVOS DO MUNDO 

DESDE A MAIS REMOTA ANTIGUIDADE ATÉ AOS NOSSOS DIAS 



AOS MORALISTAS, 
DTIL AOS HOMENS DB SCIliElA B LBTTRAS E IMERESSANfB PARA TODAS AS CLASSES 

PPR 

:eKIiRO DUFOXJH 

MEMBRO DE DIVERSAS ACADEMUS E SOCIEDADES SCIENTIFICAS 



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E OUTROS ESCRIPTORES. E SEGUIDA DE UM IMPORTANH TRABALHO 

SOBRE A HISTORIA 



PROSTITUIÇÃO EM PORTU&ÂL 

i 

DESDE 03 TEMPOS MAIS OBSCUROS DA LUSITÂNIA 
ATÉ NOSSOS DIAS 

ILLUSTRADA COM Pf^IMOROSAS ORAVtJRAS 



JTDMO SEGUNUOC 



LXSBOA 

EMPREZÂ LITTERÂRIA LUSQ-BRAZILEIRÂ- EDITORA 

ESCRIPTDRIO E OFFICINA TVPOGRAPHICA 
6 — I^A-TEO E)0 A.L.J-UBE. J^ SÉ — 5 

1S8S 



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1968 



LISBOA 
TYP. DA EMPREZA LITTERARIA LDSO-BRAZILEIRA 

5 — PATEO no ALJfllE — 5 
1885 



HISTORIA DA PROSTITUIÇÃO 



SKaiffNDÀ paete; 



A. PROSTIXXJIÇ^VO E»I FRAT^ÇA 



CAPITULO I 



SUMMARIO 



Os gaulczes e os klmiis aotes Oa conriuista de Júlio César. — A prostituição entre estes não podia ter uma 
í^iistencia regular e permanente.— De que modo trata%-am os germanos as mulheres cpie se prostituíam.— O matri- 
monio entre os cellas.— Senado feminino.— Superioridade concedida pelos gaulezes ao sexo feniinino — Piova da 
paternidade duvidosa.— O Hlieno, juiz e vinírador do nialriínonio.— Vida particular das gaulezas.— Princípios regu- 
ladores do seu proi-eiler.— A virtuosa Cliiomara.— Tribunal de mulheres encarregailas de julgar as causas de hom^ao 
de pronunciar-se sohre os delictos de injuria.— Horror dos ganiezes e germanos para com as prostitutas. —Hospitali- 
dade entre os gaulezes. — Druidismo, sacerdotes e sacerdotizas druidas. — As divindades secutidarias dos ganiezes. — 
Theogonia gallica.— ,A deusa Ononava.— O ovo da serpente.— O deus (iourm.— A deusa do amor pliysico.- O deus Ma- 
rum.— Costumes dos deuses da Galha. —Os Gaurios.— Os Sylphos.- Os Thusos e os Drusios — Victoria da formosa Cara- 
ma.— Abnegai,-ão de Eponina para com seu marido Sabino.— Costumes dissolutos dos gaulezes.— Couipnsta da Uailia 
por JuIio César. — O paganismo nas Gallias. — A prostituição entre os gallos-ronianos.— Corrupção social das i'aças cél- 
ticas.— A coitezã Crispa.— Invasão dos francos.— Pureza dos costumes do povo franco.— .\ lei salica. 



/ 




nuAsi impo.ssivel por iniliicyões históricas estabelecer o cara- 
cter niíiral dos gaulezes c ilos kimris que povoaram a Gallia, 
quinze ou dezascis séculos antes da era christã; nem mesmo 
sabemos d'unia maneira positiva a origem d'esfes povos selva- 
gens, que os mais doutos investigadores suppõem mais oriundos 
do norte, do que do Oriente. Não podendo retroceder até á sua 
origem para descobrir-llies os instinctos e hábitos sob o ponto de vista social, 
mister é recorrer a hypotheses mais ou menos valiosas para encontrar em tão 
remotas épocas alguns vestígios indecisos da prostituição na vida particular 
dos gaulezes, anteriormente á conquista de Júlio César. 

Estudado o pequeno numero d'auctoridadcs gregas c latinas, conservailo- 
ras das tradivões dos primeiros habitantes da (lallia, não se pode deixar de af- 
firmar que entre ellcs não existiu a prostituição sob um estado legal, mas sup- 



6 HISTORIA 

pomos ter encontrado na religião druldica vesfigios evidentes da prostituição 
sagrada; em (juanto á pr(istiliii(,'ão iiospitaiar, parece não ter-se misturado com 
as ideias generosas e nidjres com que aquelles esforçados povos compreiíendiam 
a hospitalidade. Comtudo os costumes dos gaulezes estão mui longe de serem 
austeros e irrepreliensiveis. 

A ])roslituição propriamente dita poderia ter uma existência permanente 
cm uma nação, que tinha feito da mulher um ser privilegiado, uma espécie de 
divindade terrestre, um laço entre o terra e o ceu ? N'esta condição excepcio- 
nal, a mulher não tinha o direito de dar-se ou vender-se, soh pena de perder 
a sua aureola divina, e o homem que fora cúmplice d'esla espécie de attentado 
á dignidade feminina seria tido como um sacrílego. A prostituição era então ape- 
nas um facto isolado, mui raro e sempre rodeado d'uin mysterio, que a segu- 
rança dos cúmplices tornava impenetrável. 

Sem duvida, entre os gaulezes e os kimris houve mulheres viciosas por 
temperamento e houve tamhem homens ardentes e libertinos, para os quaes não 
eram sulfieientes o género de compensações sensuaes que os velhos e os novos 
sem rubor gosavam, deshonrando-se uns aos outros para respeitarem o sexo fe- 
minino ; mas os actos de prostituição consumavam-se, dentro da espessura dos 
bosques, acobertados pelas sombras. Nunca houve prostitutas de profissão que 
publicamente exercessem tão vergonhoso mister, ou que mostrassem exer- 
cel-o, porque com ignominia seria expulsa e tratada a mulher infamada a que 
assim^se despojasse do seu caracter divino, abandonando-se voluntariamente 
ao despreso publico. 

Os germanos, irmãos dos gaulezes, apesar dos seus ódios e guerras, de ou- 
tro modo não procediam para com as mulheres surprehendidas em flagrante de- 
licto de prostituição, ou convictas de a isso não serem estranhas: obrigavam-as 
a sahir da localidade que manchavam com a sua presença e toda a tribu as 
apedrejava. Ordinariamente deivavam fugir essas miseráveis, que não ousavam 
mais tornar a apparccer c que iam nas profundezas das matlas virgens esconder 
a sua vergonha ; mas ás vezes a infeliz, feiúila por uma pedra no momento de 
ser perseguida, cabia, e era alli, entre gritos de ódio e de escarneo, assassi- 
nada. Segundo os germanos, este castigo era igual ao delicto ; de modo que a 
corlezã, que tinha vivido das dadivas de todos, morria esmagada pela ira de 
todos, animados pelos gritos das mulheres ([ue liie não perdoavam o ter es- 
quecido os seus deveres. Os celtas tinham |)elas mulheres um respeito que 
excluia toda a ideia de prostituição. Na maior parte das suas tribus as donzel- 
las escoliiiam livremente os seus maridos. N'um festim dado aos mancebos 
em idade de casar, os pães da nubente apresentavam-a para que fizesse a sua 
escolha entre os pretendentes, que contavam as suas façanhas guerreiras, as 
suas virtudes domesticas e cantavam velhas canções nacionaes, bebendo cidra 
e hydromcl. Concluído o banquete, a nubente declarava o cs])oso que escolhera 
como mais bello e mais bravo, aeereando-se do escolhido com agua de lavar, 
para em|)regar a expressão que acavallaria usou para designar esta usança. Pro- 
vável c (|ue esta ablução manual, na linguagem íigui-ada dos celtas, significasse 
o esquecimento do passado e a jtureza da vida conjugal. 

A muliicr casada exercia uma espécie de sacerdócio na Irihu, o (jue não 
deve surprehender, pois que ao sexo feminino se altribuiam dons pruphetieos, 
esperando-se sempre encontrar na mais vulgar mulher uma deusa ; a opinião 
da mulher prevalecia nas assembleias (pie tratavam da guerra ou da paz ; in- 
terpunlia-se citmo medianeira |)ara acalmar a irrilação de ânimos e inimizades, 
despci-ladas no calor da (irgia. MCsle povo até chegou a haver um senado de 
mulheres, composto de sessenta, reprcscniando as sessenta tribus das (lallias e 
este senado, (|ue s(í julga remontar ao duodécimo século antes de Jesus Christo, 
governava soberanamente as confederações gaulezas. 



I)A PROSTITUIÇÃO 7 

Esfa superioriflade concodida ao sexo feminino c\clue a hypothese de uma 
prostituição organisada, tolerada, ou confessada o reconhecida. As mullieres as- 
sim respeitadas não podiam ser consideradas como instrumentos de prazeres ve- 
néreos, nem destinadas ás necessidades da liljertinagem. 

Comtudo o marido tinlia sobre a mulher e os filhos direito de vida e de 
morte, e deve suppòr-se que cm determinadas circumstancias delicadas fez cruel 
applicação d'cste supremo direito. Assim, quando concebia duvidas acerca da 
sua paternidade, agarrava no rccemnascido e collocando-o sobre um escudo aban- 
donava-o à corrente do rio próximo. Se a corrente levava o escudo com a creança 
á margem, em que a mãe lhe estendia os hraços, esta nada tinha a receiar, por- 
que o génio do rio provava assim a legitimidade do filho e a innocencia da mãe ; 
mas se, ao contrario, o filho se submergia, como se o rio não quizesse levar 
o fructo do adultério, a mãe devia também morrer, convicta de ter faltado á fc 
conjugal, e com efleito o marido ultrajado matava-a com as suas próprias mãos, 
ou submergia-a no seio das aguas, que tinham afogado o filho. 

Esta terrível prova da paternidade duvidosa faz crer que as gaulezas Ucão 
eram isemptas dos erros do coração, nem dos arrebatamentos, inconscientes e 
apaixonados dos sentidos. De todos os rios foi o Rheno o mais famoso, pela sua 
aversão á bastardia; por isso marido algum ousaria duvidar de sua mulher, de- 
pois da sentença absolutória dada por este rio sagrado, salvando uma creança. 

O imperador .luiiano, n'uma das suas cartas, narra esta velha superstição 
ligada ao Rheno, rio que os celtas tinham divinisado. 

«O Rheno, diz a Antologia, esse .no de impetuosa corrente provava entre 
os gaulezes a pureza do thalamo. Apenas nascia a creança, o marido apode- 
rava-se d'ella, deitava-a sobre um escudo e confiava-a ao capricho das aguas, 
porque não sentiria no seu peito pulsar o coração de pae, cmquanto que o rio, 
juiz e vingador do matrimonio, não tivesse preferido a sua fatal sentença.» 

Os adultérios deviam ter sido raros entre os gaulezes e germânicos : Se- 
vera illic matrimonia, diz Tácito; e o marido não tinha necessidade de recla- 
mar justiça perante os tribunacs, pois que elle era ao mesmo tempo o juiz e o 
algoz. 

Geralmente os gaulezes só tinham uma mulher; todavia, os chefes e os 
notáveis das tribus tinham muitas mulheres, não por libertinagem, mas por 
ostentação, como signal de grandeza {non Ubidine, sed nohilitate, diz Tácito.) 
Com etleito o clima da Gallia, coberta então de bosques e pântanos, era hú- 
mido e frio, e naturalmente o temperamento dos seus habitantes resentia-se 
d'aquella athmosphera ennevoada e só se aquecia com a intemperança das co- 
midas. As mulheres, além d'isso, viviam retiradas e oecultas, longe da vista 
dos homens; excepto nas cerenionias publicas, religiosas ou guerreiras, por 
que então deixavam os seus retiros de mães de família. 

Estas mulheres, preoceupadas com os seus deveres caseiros, não entreviam 
horisontes mais extensos do que a sua familia, e assim permaneciam fielmente 
agrilhoadas á obediência dos severos esposos. Aec ulla cogilatio ultra, diz Tá- 
cito, nec longior cupiditas. Tinham principalmente uma alma independente e 
nobre e teriam preferido a morte á vergonha. Comprehender-se-ha que foram 
boas depositarias, umas da sua virgindade, outras da honra conjugal, recor- 
dando esle principio que servia de base á sua moralidade: «A mulher que se 
entrega a um hnniem não pôde passar aos braços d'outro.» Em virtude d'este 
principio regulador do seu proceder, nem mesmo se julgavam auctorisadas a 
contrabir segundas núpcias. Todavia, a lei não lh'o prohibia, especialmente 
em certas tribus, em que o uso estava auctorisado por este provérbio : «.A mu- 
lher que conheceu dois homens é criminosa,- se os dois estão vivos.» 

A virtuosa Chiomara, citada por Plutarcho no seu Tratado de mulheres 
illustres, preferiu faltar ás disposições sagradas do direito das gentes, a deixar 



HISTORIA 



viver o auctor e testemunha da sua doslr>nra. Cliiomara era esposa de Ortia- 
gonfe, chefe dos gaulezos asiáticos, derrotados e suíjmcttidos pelos romanos no 
anno oGii. Plutarcho, sem nos dizer se Chiomara era formosa, diz-nos apenas 
que ella tinha sido violada pelo centurião romano, que a aprisionara. Ella teve 
de apparentar resignar-se com a atfronta, e quando os emhaixadores de seu 
marido vieram resgatal-a, Chiomara disse-lhes em lingua gauleza que tam- 
hem ella tinha um resgate a exigir. Com este propósito teve a liabilidade de 
attrahir a um ponto retirado da cidade ao centurião que a ultrajara, e alli lhe 
fez cortar a cabeia pelos seus súbditos, que a conduziram a Ortiagonte. Este, 
a quem Chiomara apresentou a cai)eça ensanguentada do centurião, indignou-se 
com o assassinio commettido em despreso da fé jurada. 

— «Sou, é verdade, perjura, exclamou Chiomara, mas não queria que so- 
bre a terra existisse vivo um outro homem que jactar se podesse de me ter 
possuído.» 

Se o adultério era quasi desconhecido entre os gaulezes, pôde crér-se que 
a prostituição ainda mais rara era; porque o adultério sii ultrajara o marido, 
emquanto que a prostituição estendia a sua infâmia a todas as mulheres, que 
se sentiam oITendidas igualmente com o mau proceder d'uma d'ellas. 

A lei dos druidas dava ás mulheres o direito de julgar as injurias. Du- 
elos que refere este facto n'uma memoria sobre os druidas, accrescenta que era 
um tratado concluído entre os gaulezes e os carthaginezes do tempo d'Annibal se 
estabelecia, que se um gaulez se queixasse de ser injuriado por um carthaginez 
a causa fosse derimida ante um magistrado de Carthago, mas que sendo o con- 
trario os juizes do processo seriam as mulheres gaulezas. Existia, portanto, um 
tribunal de mulheres, encarregado dejulgar as causas de honra e de pronunciar-se 
sobre delictos de injuria. Os povos bárbaros não eram menos meticulosos sobre 
este ponto, do que o eram os gregos e os romanos e de todas as injurias que 
se poderiam dirigir a uma mulher, a mais grave era chamar-lhe prostituta. 
Mais tarde vemos que Rotaris, rei dos lombardos, puniu esta injuria com forte 
multa, tanto maior quanto mais calumniosa. 

As gaulezas foram pois naturalmente os juizes de tudo o que tinha um 
caracter injurioso para as pessoas, e tiveram portanto de conhecer também dos 
factos de prostituição. Por exemplo, quando um gaulez, nobre ou plebeu, se 
casava consciente ou inconscientemente com uma mulher de má vida, as mu- 
lheres reuniam-se para tomar informações sobre o procedimento da esposa. 
Tácito observara entre os germanos estes escrúpulos, escrúpulos também tidos 
pelos gaulezes. (Mon solam senalorihus, diz elle, sed et phbeis hominibus me- 
retrices uxores dacendi jus deneijabalur cum cirgines soluin diici posse.) Sem 
duvida, as mulheres reunidas eram ás vezes chamadas a julgar sobre questões 
de galanteria e de sentimento, tribunaes que reappareceram na edadc média 
sob o nome de Cortes d'amor. 

A hospitalidade, como atraz o dissemos, estava entre os gaulezes melhor 
definida, que entre os demais povos, pois que tinham como um crime digno 
dos raios celestes o fechar a porta a um estrangeiro, ou fazer-lhe mal depois 
de ter recebido. O hospede era considerado como um irmão, como um amigo, 
como um deposito sagrado; mas o seu primeiro dever era respeitar o thalamo 
do que o recebia de boa vontade. O gaulez era em demasia zeloso da sua honra 
conjugal, para jamais se prestar ás indignas concessões da pi'ostiluiçào hospi- 
talar. 

.\ jiroslituição sagrada não tinha certamente logar na religião dos druidas, 
religião com|)letatnente metaphysica, que mantinha o.s dogmas mais elevados das 
religiões do Egypto e da índia, ci>lto mvsterioso que se rodeava de trevas e de 
terror, sem oíTerccer seducrões materiaes aos seus sacerdotes, nem aos fieis. 
Os druidas eram pliilosophos, a maior parle desilludidos pela idade, e retira- 



DA PROSTITUlÇAíO 9 

dos cm coinmunidadcs para o fundo de solidões impenetráveis; não communica- 
vam com os profanos, senão cm mui raras circumstancias, na época das festas 
solemnes, que nada tinham de attrahentes nem de voluptuosas, e que frequen- 
temente terminavam com sacrifícios humanos. 

Além d'isso, os druidas não eram unicamente os mwiistros do culto; a 
clles só pertencia a legislaí'ão, o governo, a educação publica; ensinavam as 
sciencias exactas e as sciencias sagradas ou philosophicas. A sua vida, assim como 
a sua doutrina, não podiam deixar de ser austera, e tinham o máximo cuidado em 
não desmerecer da veneração de que eram objecto, misturando a libertinagem 
ou i)razer com o culto religioso. Tinham também nos seus collegios de prophe- 
tizas, virgens, que quiçá não se limitavam a unicamente servir nas ceremonias 
religiosas. 

Estas sacerdotisas, que por aqui e ali se vêem passar atravez da historia 
gauleza, como sombrios phantasmas, occultavam-se nas grutas e nos troncos 
escavados de arvores seculares ; fugiam do convívio e da vista dos homens, e 
apenas davam os seus oráculos de noite, á luz dos relâmpagos, acompanhados 
pelos roncos cavos do trovão e pelo fragor sinistro da tempestade. 

Apesar do prestigio de que tinham rodeado a bella Valeda, pndc afTir- 
mar-se que estas racies eram ordinariamente velhas e feias, á similiiança das 
syhillas do paganismo romano. Segundo parece, tinham esquecido o seu sexo e 
todos os sentimentos de pudor, pois que em certas ceremonias druidicas se 
apresentavam completamente nuas, untadas com azeite e pintadas de preto para 
imitar a côr da pelie etliiopica (Tofa corpore oblitce, diz Plínio no livro xii da . 
historia natural, quibusdam in sacris et nudm incedunt elhiopum colorem imi- 
tantes.) Quando os romanos, depois da revolta dos icenios na Bretanha, quize- 
ram apoderar-se da ilha de Mona (Anglesey) um dos focos do druidismo, as 
mulheres da ilha, negras como fúrias, precipitaram-se nuas e de fachos incen- 
diados na mão entre os combatentes. Os romanos espantaram-se mais com esta 
apparição, do que com os gritos e desesperada resistência dos inimigos. 

Se a prostituição não tinha razão de ser no culto superior dos druidas, 
culto elevado, manifestando-se nas lições philosíjphicas e metaphysicas, ou pa- 
tcnteando-sc nos augúrios arrancados das entranhas palpitantes das victimas, 
P'5de suppôr-se com muitas probabilidades que de facto existia no culto inferior, 
isto é em volta dos altares rústicos de certas divindade* secundarias, que tinham 
sido creadas pelo superstição do povo, e que os druidas não julgavam hostis á 
sua religião transcendente. 

Posto que mais raros e menos cynicos do que em qualquer outro povo, 
sem duvrda entre os gaulezes havia também espíritos depravados, naturezas 
histéricas, instinctos sensuaes. Os que por excepção sentiam estes apettites, este 
vago desejo de libertinagem, inventaram deuses a quem o sacrifício da virgin- 
dade era uma ofíerenda agradável, e animavam os hábitos luxuriosos creando 
santuários e auctorisando-os a titulo de consagração divina. E' permittido sup- 
pòr que entre as vacies, que a tradição popular celebra sob o nome de fadas, 
havia algumas que, ao serem consultadas no fundo dos seus antros, exigiam uma 
prova de complacência, prova terrível altendendo á sua velhice, fealdade e ter- 
rível caracter. Todas as lendas da idade média attesfam estes singulares con- 
ti-atos, que as sacerdotizas druidas celebravam com ©s seus arrojados visila- 
dores. 

O que aquellas velhas e feias sybillas gaulezas faziam, certos sacerdotes, 
certas sacerdotizas e certos membros degenerados dos collegios druidicos fa- 
ziam-no em proveito próprio, c por deliberação unicamente sua se tornavam deu- 
.ses protectores de rios, de fontes, de bosques, de montanhas e de pedras. Es- 
tabeleciam residência nos mesmos togares em que tinham estabelecido o seu 
culto e impunham um tributo obsceno a todos os imprud'entes, homens ou mu- 

UuTOHiA DA PaesTiTuiçio Tomo ii— Folha 2. 



1 o . HISTORIA 

llicrcs, que atravessavam os seus domínios, ou (l'elles se approximavam. Guia- 
vam os viajantes perdidos nas planieies desertas, por entre os laliyrintos das 
montanlias, pelos desliladciros perigosos; tinham l)areos nos lagos mais som- 
brios o guardavam as pontes lançadas por de cima dos precipícios terríveis. 
Desgraçada da donzella, cuja má estrclla a guiava para junto d'aquellcs seres. 
As nossas historias de fadas ainda hoje nos dão ideia das violências commetli- 
das pelos gnomos e pelas ondinas e mais génios das solidões célticas. 

Todavia nada ha authentico n'estas antigas e singulares lendas da pros- 
tituição sagrada, que se teem conservado na memoria de todos depois de tantas 
gerações extinctas. Ha um vasto campo aberto ás hypotheses e conjecturas so- 
bre as fadas c gnomos, que certamente foram n'cssas remotissimas épocas os 
actores ou intermediários da prostituição sagrada. 

Sobre a Iheogonia gauleza ha unicamente noções incertas e por tanto dif- 
ficil é averiguar as attribuiçôes eróticas das divindades, que apenas conhecemos 
pelo nome. Todavia por alguns monumentos descobertos se píuie presumir que 
estas divindades não eram mais decentes nas suas imagens e altributos, do que 
o eram as da Itália e (Irccia. Assim, a deusa Ononava, que os archcologos do 
século xvii confundiram com a Mithra dos persas, era representada por uma 
cabeça de mulher com duas grandes azas abertas, com duas largas escamas no 
sitio das orelhas e com duas serpentes, que a coroavam com as suas enormes 
roscas. Esta imagem representava allegoricamcnte a voluptuosidade (|ue revolu- 
tea por aqui c alli, tendo sempre os olhos abertos c cerrados os ouvidos, c que 
por toda a parte serpéa a iim de devorar as suas presas. 

A's vezes também a voluptuosidade era representada por uma cabeça de 
mulher, sahindo de uma pedra bruta, sobre a qual se erguia uma cobra. A ser- 
pente emblemática tinha além d'isso uma significação muito importante na re- 
ligião dos druidas, e era também de bom agouro o achar-se um certo fóssil 
oval, de còr escura ou branca, que se chamava oro de serpente. Este ovo tinha 
a virtude supersliciosa de dar aos que o traziam um grande poder prolitico. 

O deus Gourm era representado nú, hermaphrodita e com cabeça de cão. 
A deusa do amor pbysico, cujo nome gaulez os romanos transformaram em 
Murcia, quando confundiram d seu culto cum o de Vénus, era apenas represen- 
tada por |)edras de granito talhadas em cuniia c collocadas nos caminhos. 

O deus Marunus, que os romanos também transformaram em Mercúrio, 
presidia ás viagens pelas montanhas, principalmente nos Alpes: tinha a tigura 
de um gaulez, com uma grosseii'a capa com uma espécie de capuz c sem man- 
gas. Era um idolo domestico, com os chamados mairs ou }wmes, que tinham 
por missão proteger o nascimento das crcanças e fadal-as no berço. 

Emquanto aos costumes dos deuses gaulezes, não .são bastante conheci- 
dos para se apreciar se estavam, ou não, impregnados de prostituição. Unica- 
mente se sabe que os gnurics, monstruosos gigantes, que de noite se encon- 
travam, principalmente na Bretanha, praticavam entre si execráveis deprava- 
ções. Sabe-se que os sylphos {sidri ou suliiJii) eram génios imberbes, de voz 
doce e jicrsuasiva, que de noite espreitavam os viajantes, para d'ellcs ])cla força 
ou pelo medo obter caricias vergonhosas. Sabe-se emlim que os dusios {dusH} 
vinham durante o somno visitar c roubar a virgindade das donzellas, ou offe- 
reecr a qualquer mancebo ardente as tentações de um sonho amoroso c tam- 
bém em|)rcgnr o seu corruptor podei- em vis animaes. 

«E' opinião geral, diz Santo Agostinho, na sua Cidade de Deus, (|ue cer- 
tos demónios pelos gaulezes chamados dusios praticam attentados com pessoas 
adormecidas (hanc assidue immundiam et tentare et ejjicere.)» 

Santo Agostinho acerescenta que tantas feslemunhns certificavam a exis- 
leneia (fesles demónios libertinos, ((ue não havia dir("ilo a pòl-a em duvida. 
Com clfeito a Egri'ja admilliu no nuMicro das obras do diabo as surprozas no- 



DA PROSTITUIÇÃO 1 I 

cturnas dos incubos c succubus, ((uc tinham uma origem inteiramente gallica. 
Provável é, que apesar da rigida virtude das gaulezas, os demónios da lu- 
xuria lhes armassem tentações, a que não escaparam aqueiias virtuosas ma- 
tronas. Assim Estrabão (livro iv) nos falia na sua paixão pelas jóias, paixão a 
que também não foram indiílerentes os homens, pois uns e outros se enfeita- 
vam com cadeias, collares, braceletes, anncis e cintos de ouro. Os de mais 
elevadas dignidades e de mais illustre estirpe usavam também diademas, co- 
roas c mitras de ouro cravejadas de pedrarias. Pôde dizer-se que em todos os 
tempos, como em todos paizes é o luxo uma das mais poderosas armas da pros- 
tituição. 

Pelo exemplo de Chiomara, se viu já que a fidelidade conjugal era uma 
das virtudes ordinárias das gaulezas. Plutarcho conta também a historia de 
uma outra gauleza, cliamada Cumma, uma das mais formosas mulheres da sua 
tribu. O gaulcz Sinoris enamoruu-se d'ella, e sabendo que nem por vontade 
nem por força a faria render-sc ao seu amor, emquanto o marido vivo fosse, 
matou o marido que era romano, e se chamava Sinato. Cumma rcfugiou-se no 
templo de Diana, onde foi perseguida ainda pelo amor de Sinoris, que elia re- 
peliiu com horror. Todavia violenlando-se tingiu consentir em casar com o as- 
sassino de Sinato ; mas no dia do matrimonio apresentou ao noivo a taça nu- 
pcial cheia de um liquido envenenado e bebeu de um trago o que elle deixara 
na taça. 

— Grande deusa! exclamou Camma voltada para o altar de Diana; bem 
sabeis o quanto senti a morte de Sinato e não ignorais que só o desejo de vin- 
gal-o me fez sobreviver-lhe. Agora morro contente. E tu, covarde, disse para 
Sinoris, não procures o thalamo, busca o tumulo!» 

.4 abnegação de Eponina para com o seu marido Sabino, é ainda mais 
sublime, do que o sacrifício de Camma, pois se prolongou por espaço de dez 
annos. 

E comtudo aquelles gaulezes, que inspiravam a suas mulheres um tal 
afíecto, um amor tão incorruptivel, não comprehendiam do mesmo modo a fi- 
delidade matrimonial. 

O grande historiador Michclel dcscreve-os, na sua Hi^itoria de Franca, 
como homens levianos, e revolvendo-se cegamente em prazeres infames. 

Com effeito, se os gaulezes respeitavam as suas mulheres, não se respei- 
tavam a si próprios, e á similhança d'alguns povos da Itália entregavam-se aos 
mais iiorriveis excessos, especialmente no iim dos festins, em que haviam feito 
uso imoderado das bebidas fermentadas. Estas desordens sensuaes não eram, 
como entre os romanos e os gregos, o producto d'uma civilisação exagerada c 
mais um vicio da imaginação do que dos sentidos; correspondiam á uma gros- 
seira necessidade de incontinência, despertada pela embriaguez e similhante a 
um aceesso de furiosa demência. O festim, prolongando-se por entre cânticos 
bachicos e obscenos, terminava em confusa orgia, em cuja treva reinava a igual- 
dade da prostituição. 

Diodoro da Sicilia aífirma que os gaulezes associavam as suas concubi- 
nas áquellas scenas escandalosas. E' esta a traducção latina do texto grego, que 
demonstra a aberração do sentido moral d'aqueiles bárbaros. 

«Ueminiv licet elcíjantos habebant, nlmium tamen illuruin consuetaitine 
a/ficiuntur, quin potius nefariis niasruloruDi strupis, et humi feraruin pelibns- 
incubanles, ab utruque lalere cum concubinis volutantur. Et quod omniuin 
in<U(jnissimum est, proprii decoris ralione proslliabita, corporis venuslalein 
aliis lecissime prostitiint, nec in vilio illud pronunt, sed potius unijuis obla- 
tinii ah Ipsis ijratiam nan acceperit, inhones-lum sibi id esse dicunt.» 

No dia seguinte, á luz do dia já ninguém se recordava do que .se h^ivia 
passado, e assim não se envergonhavam ao olhar uus para os outros. Mas nem 



12 ■ HISTORIA 

sempre a inimunda bestialidade se escondia á luz do sol, porque os celtas de 
pura raça (ingenui) amavam as suas oguas e as suas cadellas como compa- 
nheiras idolatradas da sua vida aventureira e guerreira. 

Tal era a situação moral da Gallia, quando Júlio César a subníetteu. Os gau- 
lezes de génio leviano e impressionavel tão depressa se amoldaram á domina- 
ção dos vencedores, que em breve vieram a ser romanos, conservando os seus 
vícios e virtudes n'aquella escravidão, .lá elics eram pela visinhança de Mar- 
selha alguma cousa gregos ; mas a iniluencia de Roma íez-se sentir até ao fundo 
da Gallia Bélgica, e todas as principaes cidades Lião, Antum, Bordeos, A'ienna, 
Lutecia em mui breve nada tiveram de gaulez, mui especialmente depois da 
destruição do druidismo e dos druidas. Todavia, por mais de dois séculos ainda 
se conservaram vestígios das instituições druidicas; ainda no fundo dos bos- 
ques se encontravam prophetisas ; os luinnes continuaram a dançar á luz da lua; 
mas a religião dos gregos e dos romanos tinha na Gallia mais fcrveroso culto 
do que em outra parte do grande império; a legislação seguiu de perto a reli- 
gião e todos os costumes gaulezes se foram modelando pelos dos gregos e ro- 
manos. 

Não temos dado algum especial sobre o estado da prostituição gallo-ro- 
mana, mas podemos presumir que este estado em nada diferia do que era em 
Roma e nas províncias asiáticas ; unicamente as gaulezas conservavam o res- 
peito por si próprias, essa nobre altivez que as caracterisa na historia, e por 
tanto poucos elementos subministrariam á libertinagem publica. 

Mas as estrangeiras não faltavam e os governadores, os magistrados e os 
chefes militares, que Roma enviava para as Gallias, traziam comsigo todos os 
requintes do luxo a que estavam acostumados. Como se privariam dos seus 
eunuchos, das suas bailarinas, das suas orchestras, de todo o seu pessoal de 
libertinagem? , Em seguida, ajudada pelo seu próprio gosto dos gaulezes, tanto 
na Gallia Toyata, como na Gallia Comata, houve uma recrudescência de luxo e 
os festins de Júlio Sabino em Langres nada tiveram que invejar aos de Lueulo 
em Roma. 

A metamorphose, que a occupação romana produzia na Gallia, foi sem du- 
vida menos sensível nos campos do que nas cidades ; mas os deuses de Roma 
em todas as partes foram acolhidos com o mesmo entbusiasmo religioso. Al- 
guns d'estes deuses, como mais sjmpathicos ao caracter dos habitantes e aos 
costumes do paiz, mereceram preferencias. Hercules, Baccho, Vénus, Isis, Pria- 
po, tinham templos e estatuas que atrahiam numerosas otlerendas. O gaulez 
inclinou-se para as divindades menos severas, e que mais lhe fatiaram aos sen- 
tixlos; estava cançado dos terríveis mysterios de Teutates e só queria diver- 
tir-se em honra dos novos deuses, que Roma lhe enviara. 

Para a prostituição legal foi esta época mui brilhante e, cymo todos os 
povos que de repente se iniciam nos gosos da civilisação, as raças célticas ra- 
pidamente attingiram os últimos graus de corrupção social. E' preciso ler as 
poesias d'Ausonio, venerável professor de Bordéus, mestre do imperador Gra- 
ciano, para conhecer a profunda desmoralisação que se apoderou da sociedade 
gaulcza. Ausonio de modo algum approva os lúbricos exemplos, que otíerecc 
á consideração do leitor, mas desereve-os como homem que entende bem do 
assumpto de que se trata. Mesmo a maneira como os condemna é mais obs- 
cena ainda, do que as mais enérgicas passagens de Juvenal e Horácio; alli, só 
se encontram sensualidades sórdidas e monstruosas, que ultrajam a natureza: 
tudo o que pôde inventar a preversão dos sentidos, tudo .se enumera em al- 
guns epigrammas do poeta gallo-romano, que dirigia preces em verso a Chrislo, 
a verdade da verdade, a luz da luz (ex vero verus, de lumine lúmen.) Depois 
de se lerem estas piedosas orações chrislãs, de admirar é que Ausonio não se te- 
nha enojado, descrevendo as lúbricas phantasias da famosa cortezã Cris,pa, 



DA PROSTITUIÇÃO 13 

Quando os sicambros se precipitaram da Germânia sobro a Gallia romana, 
quando os bárbaros do norte desceram até ás províncias mais florescentes do 
império, com os seus carros, conduzindo os seus deuses, suas mulberes e seus 
filhos, não se contaminaram com a civilisação que se espantava d'elies, e pare- 
cia exaurir-se á sua approximação, como um rio cujas nascentes tivessem se- 
cado. 

Estas numerosas hordas, renovando-sc sem cessar á medida que se alas- 
travam pela Gallia, ameaçavam exterminar a população gallo-romana. A trihu 
salisca foi a ultima a marchar, mas quiz fixar-se no solo já tão devastado por 
continuas invasões. Os saliscos, aquella terrível família dos francos, que tinha 
feito uma paragem junto das boccas do Isel, começaram a estabelecer-se na Gal- 
lia Bélgica por melados do século quinto e avançaram de cidade em cidade até 
Lutecia. Os saliscos eram formosos e nobres, de grande estatura, d'olhos azues 
e cabellos loiros e de expressão suave e intelligente. Comtudo, devastavam, 
destruíam, matavam ; mas não violavam. E isto era mais despreso do que com- 
paixão pela raça vencida. 

Os costumes dos francos conservaram-se intactos por algum tempo sob a 
salvaguarda da sua religião e das suas leis, pois que se envergoniiariam de se 
tornarem germanos ou gaulezes, e assim se perservaiam da mancha da prosti- 
tuição, que nunca havia penetrado nem nos seus templos de Irmcnsui, nem nas 
suas tendas hospitaleiras, nem nas suas praças foi'liíicadas. A lei salica não re- 
conhecia cortezãs no povo franco. 



CAPITULO II 



SUjMíMARIO 



Os francos As mulhures livros e as escravas.— Condirão das ingénuas ou mulheres livres dos francos.— 

A prostituição legal não existe entre os francos.— As concubinas.— Vida particular das mulberes livres —A pro.sti- 
tuição sagrada desconhecida entre os francos.— Licenciosidades relifiiosas do mez de fevereiro.— Origem da festa dos 
Loucos.— As strias ou feiticeiras,- A hospitalidade franca.— Condição da viuva.— Preço da virgindade d'unia hur- 
gonds livre.— As moedas do matrimonio.— Lei protectora do pudor das mulheres.— O código de Rotharis.— Os mo- 
chos fi as gralhas.— Os contractos libertinos e as violências impudicas.— O mercado da prostituição.— Kigor da lei 
dos ripuarios contra os auctores das violências impuras nas mulheres.— Os dois graus de supplicio daca.stração.— Leis 
dos bárbaros contra o adultério. — Lei do Slenvig sobre o incesto.- Jurisprudência dus bárbaros sobre a prostituição- 
—Decreto de Recaredo, rei dos visieodos. 




s FRANCOS, cujo notiic ciii linguagom liHilonica não siíínifica livres, 
mas sim, ailivo, indomável, como a palavra latina ferox, corres- 
pondendo a frek ou frenk, não tinham acccitado como os germa- 
nos e os gaulczes, seus antepassados, o domínio das muliíercs, 
nem concediam a este sexo, (juc clles reputavam inferior ao 
seu, supremacia alguma. 
A mulher entre aquelles bárbaros, ávidos de guerra e indilTerentcs á morte, 
não era, pois, rodeada pelo prestigio ou respeito religioso, que desde os mais 
remotos tempos lhe era attribuido ])elos gaulczes e germanos; a nuíTiíer IVanca 
linha a consciência da sua fraqueza e era estranha á gerência dos negócios pú- 
blicos, sempre sujeita ao poder do pae ou do marido. 

Portanto, a prostituição de qualquer classe não tinha razão de ser em uma 
sociedade regida por leis brutaes c cruéis, cheia de hábitos guerreiros, ignorante 
das artes corruptoras da civilisação, indidcrciitcs aos prazeres da inacção e des- 
denhosa de toda a concupiscência. I\lais adiante veremos que, se a prostituição 
alguma vez existiu, sempre se conservou occulta, sem se declarar a si mesma, 
por assim dizer. 

A raça franca dividia-se em duas cafhegorias de individiws: as pessoas li- 
vres, os infjenuí dos latinos, e os escravos ou servos, servi. Estes últimos des- 
cendiam d'uma população saxónica ou tculonica, que os sicambros ou salicos 
tinham reduzido á escravidão e se misturara depois de muitas gerações com os 
vencedores. 

Seja como fòr, a linha divisória entre mulheres livres e servas era muito 
aceentuada. Estas pertenciam aos senhores, aquellas só aos aos pães ou aos ma- 
ridos. Uma mulher, donzella, ca.sada ou viuva, nunca tinha o direito de dis- 
por da sua pessoa. Quando a mulher não tinha pae ou marido, toda a tribu lho 
podia pedir contas do seu proceder. 



1 6 HISTORIA 

Em tal estado de submissão permanente, as mulheres livres nunca ousa- 
riam prostituir-se, o que as teria feito descer á cathegoria d'escravas ; e estas, 
tendo cada uma seu senhor, não podiam tão pouco prostituir-se sem expôr-se 
a penas corporacs, e sem fazer recahir sobre os seus cúmplices a grave respon- 
sabilidade dos seus actos. 

Além d'isso, era todos os tempos e em todos os paizes, as mulheres não 
são mais do que os homens querem que ellas sejam ; e os francos, apesar da 
sua altivez, do seu ardor guerreiro e da sua vivacidade, não eram mui propen- 
sos por temperamento á satisfação dos sentidos. Os francos tinham uniões in- 
dissolúveis, cujo fim único era a procreação dos filhos varões. Comprehen- 
de-se que tendo em vista este fim, tivessem além das mulheres legitimas mui- 
tas concubinas ; estas barregãs, como diz o douto Bouquct (Historia dos Gau- 
[i'zes, tit. ir, pag. i22. Nota) ordinariamente eram escravas, que chegavam a ser 
honradas com o titulo de esposas, passando pelas nobres funo^'ões de mães de 
familia. 

As mulheres francas viviam mui retiradas, no interior das suas casas, 
amamentando, educando os seus numerosos filhos, fiando o linho ou lã, tecendo 
uu cosendo e fazendo a cama e as refeições de seus esposos, a quem não acom- 
panhavam á guerra, nem á caça, nem ás assembleias jurídicas, nem aos jogos 
equestres. Apenas se atreviam a entreabrir as suas tendas e descortinar a dis- 
tancia, atravez das palissadas que as defendiam, p resultado dos combates, 
das justas, ou das caçadas. A iviam entre si, obscrvando-se, e guardando-se 
mutuamente, de tal modo, que nem o pensamento da incontinência lhes atraves- 
sava o espirito. 

Cousa alguma também da religião dos francos favorecia a prostituição sa- 
grada. Esta religião era um grosseiro paganismo, que dera horríveis e monstruo- 
sas formas á representação dos elementos naturaes, a agua, o fogo, a terra, a 
fi-mpestade, a lua, o sol. Não adoravam outros deuses, e prestavam-lhes um 
culto extravagante, acompanhado de cantos, danças e momices. 

Não se sabe em que consistia este culto, que Gregório de Tours qualifica 
de insensato (fannlicis cultihus) e legou ao christianismo varias superstições. Por 
exemplo: n'iim iTportorio das praticas pagãs, feito no Synodo de Leptines em 
Hainaut, no anno 743, vèem-se certas ceremonias do mez de fevereiro (De. spur- 
ralihns in februario) em que se pode reconhecer a origem do carnaval. Lé-se 
lambem no mesmo reportório: De pagano ciirsti quem ijrias nominant. «Nas 
Iv.dendas de janeiro, diz o abbade Derroches, nas memorias d'Academia de Bru- 
xellas, os homens disfarçavam-se em mullieres e as mulheres em homens, ou- 
fn)S, cobrindo-se com peiles e adornando-se de cornos, disfarçavam-se em ani- 
mies; todos corriam pelas ruas, saltando, grilando e praticando mil loucuras. 
Tal foi o ponto de partida da famosa festa dos loucos, que subsistiu na egreja 
cliristã até ao século decimo oitavo. 

O Indiculus das superstições, que nos parecem mais francas, do que gau- 
ie/.as, falia das mullieres com poder na lua e que devoravam o coração dos ho- 
mens. Eram estas as bruxas ou feiticeiras, de quem os francos tanto se arre- 
cciavam de pactuar com os génios do mal. Em breve provaremos que estas 
fiitieeiras, graças ao medo que inspiravam, praticavam uma espécie de prosti- 
tuição que ellas tami)em se jactavam de fazer com os espíritos maléficos. 

Os francos não respeitavam a fé jurada ifnmiliare esl ridendo fidem fran- 
f/n-e, diz Flávio Yopisco) e todavia, segundo Salviano, respeitavam a hospitali- 
dade. Comtudo a hospitalidade de modo algum auctorisava o commercio do hos- 
|ii'de com a esposa ou concubina; estas, emquanto o hospedeiro e o hospede 
b'biam pelo mesmo copo, trocavam os seus punhaes e os seus braceletes, se 
CMlretinham jogando jogos d'azar e dormiam na mesma cama, evitavam appa- 
rccer. 



DA PROSTITUIÇÃO ^^ 

O viajante, que parava n'uma cidade ou campo salico, s6 desejava dcscan- 
çar, matar a fome ou a sede e estar disposto a continuar o caminlio no dia se- 
guinte. Este viajante, não tinlia pois necessidade de encontrar recreações sen- 
suaes, que lhe augmentariam a fadiga, e que tão pouco figuravam no programma 
da hospitalidade franca. Só queria evitar lodos os motivos de encontrar frente a 
frente como inimigo aquelle que generosamente o acolhia no seu lar. O franco 
não teria applaudido a prostituição de sua mulher, de sua filha, ou de sua es- 
crava em honra do hospede, a quem recehia como um irmão e amigo, pois que 
procurava tei-as afastadas c nem se quer permittia, com medo de lhes pertur- 
bar o pudor, o avistarem o estrangeiro. 

As leis dos bárbaros provam-nos que eram mui zelosos da virtude das 
suas mulheres c que não teriam soíTrido n'estc ponto a menor oITensa. O ma- 
rido, o pae, o senhor tinham direito de vida e de morte sobre a esposa, filha 
e escrava, e só os excessos d'esla auctoridadc eram puníveis. Por exemplo, 
um marido que matava a mulher para casar-se com outra incorria somente 
na pena de não trazer armas (armis depositis ;) matar uma mulher adultera era 
lei geral que não admiltia vacillação ou tardança; muitas vezes o marido não 
esperava pela consummação do acto, e vingava-se sem, ao certo, adquirir a cer- 
teza das suas desconfianças. A capitular conlentava-se em desarmar o franco, 
que matava sua mulher sem razão comprovada (sine causa.) 

Não c demais insistir no principal obstáculo ao exercício da prostituição. 
A mulher nunca era senhora de si, mesmo quando viuva; seja não tinha os 
pães, marido ou filhos a pedir-lhc responsabilidade, ficava de certo modo sub- 
mettida a uma servidão commum, sujeita á fiscalisação de todos, que tinham o 
direito de lhe vigiar os actos. 

Quando uma viuva queria casar-se cm segundas núpcias, tinha de pagar 
uma espécie de resgate ao parente mais próximo do defunto marido ou ao the- 
souro do príncipe, que reconhecia como senhor. Esla quantia era de três soldos 
de ouro. A lei dos burgondos diz que uma viuva que houver tido voluntaria- 
mente relações iilícitas com um homem (quod si mulier tidaa cuicumque se 
non inmta sed libidine victa sponte miscuerit,) não poderá reclamar índemnísa- 
ção alguma, nem obrigar o seu cúmplice a casar com ella, porque a prostitui- 
ção a tornou indigna de marido c de exigir indemnisação. 

A mesma lei concedia á filha de um burgondo livre, seduzida por um bár- 
baro ou por um romano, o direito de reclamar quinze soldos de ouro ao seu 
seductor, em pagamento do seu desíloramento, mas ficava infamada pela perda 
que sofTrera, (illa rero facinoris sui deshonestala flagitio ainissi pudoris susti- 
nebrit infamiam.) Estes quinze soldos de ouro, que o cúmplice era obrigado a 
entregar á sua victima, representavam o preço da prostituição, e a mulher que 
ousava reclamal-os ficava equiparada a uma cortezã. 

Todavia parece que a legislação dos bárbaros, sanccionando a escravidão 
do sexo feminino, reconhecia que a mulher, que não tivera conhecido homem, 
ficava interessada n'uma pequena parle, logo que era entregue ao seu marido, 
pois que este, segundo os antigos usos da lei salica, não contrahia matrimonio, 
senão depois de lhe ler dado a ella um soldo e um dinheiro, para pagar-lhc a 
virgindade, segundo a tarifa geral. 

Esta pratica nupcial tem-se conservado até aos nossos dias, embora á 
cerimonia das moedas, que o sacerdote abençoa nos anneis nupciaes, se tenha 
dado uma interpretação christã. Este soldo c o dinheiro, que a mulher recebia 
ao casar-se, constituíam o preço do único bem (prwmium) que podia reivindi- 
car como cousa própria, e de que podia dispor, segundo a sua vontade. Exce- 
ptuando isto, não tinha nem terras, nem rendas, nem direito de concessão. 
O dote que o marido dava á mulher era apenas a garantia de alimental-a, e 
este dote passava á familia da mulher, no caso da morte d'esta. 

HjsToaiA DA Prostituição. Tomo ii — Folha 3. 



1 8 HISTORIA 

Ordinariamente os presentes, que a familia acceitava do futuro marido, 
representavam uma espécie de venda, em que a noiva era uma mercadoria pas- 
siva. O código dos barL)aros protegia as mulheres em todos os casos, em que o 
pudor podia ser aggravado; mas as muilieres, para terem direito a esta protecção 
permanente, deviam nierecei-a pelo seu procedimento lionrado. Alguns motivos 
temos para suppòr que as feiticeiras e libertinas não gosavam do beneficio da 
lei protectora, nem tinham por titulo algum o respeito de quem quer que fora. 
Esta investigação sobre a moralidade das partes fazia com que muitas vezes 
se não promovesse um processo de injuria, como medo da devassa. 

Aqui apresentamos o texto da lei salica, em (|ue julgamos ver, que o de- 
lido de injurias com relação á mulher, estava subordinado á sua condição e cos- 
tumes, e de modo que esta podésse sempre justificar o seu comportamento. 

«Se alguém chamar meretriz a uma mulher de raça nobre, sem o poder 
provar {Siquis melieriím ingemmm striam clamavark aut meretricem et con- 
vincere non poterit) será condemnado a pagar 7:300 dinheiros, ou 187 soldos 
de ouro. 

E' claro, pelo theor dVste artigo, que quem era accusado de haver inju- 
riado uma mulher podia dcfender-se, allegando que essa mulher, como feiticeira 
ou meretriz, era indigna dos benefícios da lei, pois que uma mulher, exercendo 
um mister deshoncsto e criminoso, nunca podia ser ultrajada. lia a notar-se 
que as injurias mais graves que podiam fazer-se a uma mulher livre, eram cha- 
mar-lhe feiticeira ou cortezã. 

O grande valor da multa, paga pelo auctor do ultraje á mulher que o re- 
cebia, prova que os francos nada despresavam, tanto como as feiticeiras e as li- 
bertinas. 

Emquanto á maneira de fazer a prova, só podemos fundar as nossas hy- 
potheses nos usos jurídicos da raça franca, que admittia o juramento, o com- 
bate singular c as testemunhas, para restabelecer uma verdade deante de um 
magistrado. 

Ha muitas versões da lei salica, re^ligidas em diversas épocas e em dif- 
ferentes tribus. Em todas cilas o titulo De helnirgio (xxxiii,) que contém dis- 
posições severas sobre as maiores injurias (|ue a mulher pódc soifrer, tem va- 
riantes na quantidade da multa, (|ue parece ter diminuído, á maneira que a 
qualificação de feiticeira e cortezã ia inspirando menos horror. Assim, na lei sa- 
lica, modificada por Carlos Magno, a multa de 7:o00 dinheiros é reduzida a 800 
e mesmo a (>00 cm outro código d'csla mesma lei. Segundo antigos manuscri- 
pliis, a injuria cortezã dirigida a um homem ou a uma mulher livre, era pu- 
nida com uma multa, oseillando entre ío e 15 soldos de ouro. 

Todavia, por causa das variações continuas do valor da moeda, renun- 
ciamos a fazer uma apreciação exacta da importância d'esta multa. Tudo o que 
podemos fazer notar c que uma niulla de 7:-)00 dinheiros, equivalentes a 187 
escudos de ouro, era excessi\'a, pois que uma feiticeira convencida de ler co- 
mido carne humana (.s;' stria hominem comederil) só pagava 800 dinheiros, ou 
20 soldos de ouro. 

A lei salica só reconhecia para o homem duas injurias, que equivaliam 
ás injurias feitas ás mulheres; mas a píMia (Testas injuiias não era tão rigo- 
rosa, provavelmente em vii-tude da frcípiencia do delicio: a primeira, cherriíi- 
bnrijm, ou strioporlius, significava servente de feiticeira, e era punida com a 
multa de 230 dinheiros, ou fiS soldos e meio ; a segunda, que só encontramos 
na lei salica correcta por Carlos Magno, parece ser análoga ao nosso prejiiro, 
pois que fnlsnlor era a(|uelle que jurava cm vão. Tm artigo da lei salica carlo- 
vingia colloca f|uasi ao mesmo nivel a injuria de prejuro e meretriz, laxando 
a multa da primeira em (iOO dinheiros, ou quinze soldos de ouro : 5í quis al- 
tennn falsalorem, et mulier alteram meretricem clamaverit. 



DA PROSTITUIÇÃO 19 

O slrioporíius, que desempenhava um papel terrível nos mysterios da pros- 
tituição magica, não era só accusado de levar o caldeirão ás reuniões das feiti- 
ceiras, illum qui inium dicilur prosla.fsent strias cocinant, segundo uni texto 
da lei salica ; atlribuia-se-lhe também o poder de servir de besta áquellas in- 
fames, transportando-as ás suas assembleias atravez dos espaços. A feiticeira 
nem sempre cavalgava sobre os liombros do seu servidor; umas vezes ia a 
ellc abraçado, outras agarrava-se á cauda do personagem transloiniado em cão 
ou porco ; lambem se via ás vezes passar pelos ares, com a rapidez duma llexa, 
um enorme marcego, levando em cima duas e mesmo três feiticeiras. 

Estas diversas injirrias eram tão atrozes, que não foram collocadas na ca- 
tegoria dos demais insultos e foram comprchendidas á parte, sob o titulo de 
hebunjium, que queria dizer um verdadeiro envenenamento. 

Todos os legisladores bárbaros estavam de accordo sobre o caracter da inju- 
ria que se fazia a uma mulher livre, quando era infamada com o nome de cor- 
tezã ; mas todos reconheciam no ofíensor o direito de provar a verdade da ac- 
cusação. O texto da lei salica é muito conciso e obscuro; todavia sobre este 
ponto, para interpretal-o, dando-llie o desenvolvimento necessário, temos nas 
leis lombardas de Rotharis um capitulo, que com certeza contém toda a legis- 
lação (los francos, relativa ao hebunjium. 

Rolbaris, que publicou o seu código em 643, compilou-o das leis barba- 
ras e especialmente da lei salica, que frequentemente nada mais fez do que 
commenlal-a. Segumlo o código Rotharis, se alguém chamava em alta voz a 
uma donzclla, ou mulher livre, prostiíuta (fornicariam ant slrigani) devia pagar 
uma multa, ou provar a alíirinação. No primeiro caso, deaíite de doze testemu- 
nhas fiadores do juramento, jurava ter proferido tão horrível injuria (nefan- 
dum crimen) sob o dominio da paixão e sem intenção de o sustentar perante 
a jusliça, e para punir-se a si próprio pagava uma multa de 20 soldos de ouro, 
prometlendo nunca mais repetir a calumnia, mas, se o auctor do ultrage insis- 
tia na accusação offcrecendo prova, era então admiltido o juizo de Deus e devia 
combater com o campeão, que lhe oppunha a mulher ultrajada. 

Se o êxito do combate provava que a desgraçada era digna do nome de 
prostituta, era ella que pagava a multa dos vinte soldos de ouro. Se era o cam- 
peão da ultrajada o vencedor, o vencido, para resgatar a vida, pagava uma in- 
demnisação que variava, segundo o nascimento e condição da mulher calum- 
niada (V. Collection des lois des barbares, publicada por Paulo Camisani, tit. 
II, pag. 79;) na lei salica esta injuria (ineretrix) dirigida a uma mulher livre 
chamava-se em lingua rústica estrabo que se tem procurado traduzir em sa- 
xão por entroijas, mas que n'esta lingua não tem sentido. 

As demais injurias, que se podiam dirigir a uma mulher honrada e que 
não precisavam prova, não estão especificadas na lei salica; a de mocho ou 
coruja, única especificada, corresponde á injuria de feiticeira, porque estas só 
faziam de noite os seus malefícios. 

A lei salica não era tanto das injurias verbaes, como dos factos ultrajo- 
sos, que, no interesse do sexo feminino, se occupava. Estas injurias referem-se 
a três cathegorias principaes, que podem assim ser designadas: o allentado ca- 
pilar, contactos libertinos e violências impudicas. Sabido é que o cabello, tanto 
na mulher como no homem da raça franca, tinha um caracter sagrado e invio- 
lável. Era menos criminoso aquelle que com um ponta-pé ou murro matava 
uma mulher gravida, do que o que a despenteava. Com efleito, se uma mulher 
gravida morria em consequência d'alguma violência corporal n'ella exercida, o 
assassino era apenas condemnado na multa de 22 soldos de ouro, emquanto que 
se a despenteava, de forma que o cabello lhe cahisse pelas costas, o reu de 
tal delicio incorria na multa de trinta soldos; mas se o toucado era apenas 
lançado ao chão, então a multa era limitada apenas a 15 soldos. 



20 HISTORIA 

Os contactos libertinos eram punidos com pesadas multas. O homem li- 
vre, que apertava (instrinxerit) a mão ou os dedos a uma muliicr livre, incor- 
ria na multa de GOO dinheiros ou 15 soldos; se a agarrava por um braço (des- 
trin.rerit) em 1:200 dinheiros ou 30 soldos; se lhe apertava o antc-braço, em 
1:400 dinheiros ou 35 soldos; finalmente, se lhe locava no peito (mamilas 
capulareril) em 1:800 diniieiros ou 4o soldos de ouro. Era um capriciío, que 
custava duas vezes mais do que a morte d'uma mulher gravida; e (juem não 
tinha a somma exigida, pela alternativa da lei perdia o nariz, as orelhas ou ou- 
tra parte do seu corpo. 

Ha todavia taes differenças nas multas indicadas pelos textos da lei sa- 
lica, que é forçoso confessar a impossibilidade de salisfactoriamente as explicar. 
Assim, n'uma das redacções d'essa lei, que muito bem pôde ser a mais antiga, 
a moi'te d'uma mulher gravida, provocaria por maus tratas, é punida Cf)m 
a multa de 28:000 dinheiros, ou 700 soldos de ouro, e se era unicamente o feto 
o que perdia a vida, a multa descia a 8:000 dinheiros, ou 200 soldos de ouro. 

A violação deve ter-se dado mui raramente entre os povos tcutonieos, 
mui pouco susceptíveis de arrebatamentos. Mas nem por isso esse crime deixa 
de ser punido na legislação barbara. Se uma noivA (druthe, em saxão) indo em 
procura do noivo, se encontrava com um homem, que a violava, o auctor do 
attentado não podia fazer composição com a victima, a menos de liie pagar 8:000 
dinheiros ou 200 soldos. (Si quis puellain sponsatam ducenlem ad mariliun 
et eam in via aliquis adsalierit et cuni ipsa violenter ))i(eehalus fuerit). Esta 
composição em lingua barbara ciiamava-se chaniijehaldo, que quer dizer preço 
de prostituição. Mas, se se reconhecia que a noiva cedera ao homem pela sua 
vontade, perdia esta a sua condição de ingénua, se era da classe livre. 

A multa não era maior, quando um homem, viajando em companhia de 
uma mulher livre, attentava contra o seu pudor (adsalierit el vim ille inferre 
pnesumserit.) Desgraçado do criminoso, se não era de condição livre, porque, se 
era escravo ou liberto, era castrado ou morto! 

A lei dos Ripuarios é ainda mais rigorosa contra os auctores de violên- 
cias praticadas em mulheres, do que a lei salica. O rapto d'uma mulher livre 
pop um escravo não admittia composição pecuniária. O nobre, (jue praticasse 
um rapto pagava 200 soldos. Um escravo, que seduzisse uma serva e lhe cau- 
sasse a morte (a lei ripuaria não diz como) solTria a castração, ou resgatava a 
pena por 6 soldos de ouro; se a serva não morria em consequência da seducção, 
ou o escravo recebia 120 açoites, ou pagava os G soldos ao senhor da serva. 

O supplicio da castração, que com tanta frequência apparece nos códigos 
bárbaros, fazia-se de duas maneiras dilTcrentes, constituindo duas penalidades 
distinctas : ou eram apenas arrancados os testiculos, ou se sup|)rimiam comple- 
tamente os órgãos sexuaes. Esta cruel operação, que hoje produziria morle certa, 
não dava então logar a casos falaes, tal era a habilidade dos operadores e a 
robustez dos operados. 

O adultério era entre os bárbaros castigado com a máxima severidade; 
mas de tal não se conclua que esses povos tinham uma ideia justa d'este crime, 
sob o ponto de vista moral e social. O bárbaro, visigodo, ripuario ou franco, 
não via no adultério senão um roubo carnal, c um ataque á posse legitima- 
mente adquirida. O roubo de 40 dinheiros, segundo a lei salica, era punido 
com a i)ena de castração, ou com a multa de O soldos de ouro; o roubo duma 
mulher a seu marido, na lei dos ripuari(js, exigia uma composição de 120 sol- 
dos de ouro. Se unia mulher durante a ausência de seu marido, (|ue podésse sup- 
pòr morto, conlraiúa relações concubinarias com outro, o marido no seu re- 
gresso tinha o direito, segundo o código dos visigodos, de dispor á sua vontade 
da sua mulher e do successor, que esta lhe houvesse dado, podendo vcndel-os, 
matal-os, ou perdoar-lhes. 



DA PROSTITUIÇÃO 21 

A lei dos ripuarios, no titulo De forbattudo, traça um quadro espantoso 
da vingança que o marido podia exercer contra o seu rival, sul) o pretexto de 
legitima defeza. Se surprchendia a mulher cm llagrante delicto de adultério, e 
SC o cúmplice pretendia resistir-llic, o esposo ultrajado tinha o direito de matar 
o homem que lhe roubava a honra; depois do que, chamando Icslemunhas, 
arrastava o cadáver até á esquina de uma rua ou praça, e ahi se quedava ao 
lado da sua victima por espaço de quarenta dias, relatando aos que passavam 
as circumstaneias do facto c proclamando a justiça do seu proceder. No liin 
dos quarenta dias entregava o cadáver á familia e ia jurar perante o juiz que 
matara, defendendo-se, a um homem, que o assassinaria a elle, e que o insul- 
tara, quando devia cahir-lhc <aos pés, implorando perdão. 

O pae tinha igualmente o direito de morte sobre o homem, que surpre- 
hcndera deshonrando a filha. Se não o matava no acto, a lei salica chamava 
tlieodlidia á posse de uma iilha ingénua, sem o consentimento dos pães. O ho- 
mem, que se contentasse em obter o consentimento da Iilha, pagava aos pacs 
uma multa de 1:800 dinheiros ou 45 soldos de ouro. 

A lei, todavia, não diz se, paga a multa, o violador adquirira o direito de 
continuar as relações illegitimas com a Iilha, ou se era obrigado a casar-se com 
a victima. 

A lei dos burgondos parece esclarecer esta omissão da lei salica, dizendo 
que uma mulher, indo por livre vontade para a casa de um homem (dd viri 
cortem,) e voluntariamente cohabitando com elle, não o poderá deter contra von- 
tade d'clle n'csla espécie de adultério [is cui adulterii dicitur socielale pei-mi.v- 
ta), sendo o homem unicamente obrigado a pagar aos pães da concubina o 
imposto nupcial (nuptiale prelium,) licando livre para casar-se com quem queira, 
sem nada ter a receiar. 

Na lei salica não ha disposição alguma especial relativa á prostituição 
propriamente dita; mas, segundo a lei dos bárbaros, pôde alllrmar-se que em 
parte alguma, n'essas remotas épocas da historia, esse vicio social era tole- 
rado, tendo que fugir ou esconder-se, logo que um facto d'esses era conhe- 
cido, n'um campo ou povoação d'aquelles povos austeros e selvagens. No antigo 
direito de Ileswig, no qual parece ler-se conservado o dos francos sicanibrios 
e salicos, diz-se que o incesto não era punido por lei, quando commctlido com 
uma mulher libertina. A que não era infame e não havia vendido o seu corpo 
{qum prkis scorlum non fecerit, nec infamis fuerit,) pertencia á familia, e devia 
guardar intactos os laços de parentesco; ao contrario, a que a todos se tivesse 
abandonado, íicava por este facto fora da lei. 

O antigo direito dos godos, que também se refere cá lei salica, dispõe que 
a mulher, convencida de ter praticado. actos de prostituta, fosse expulsa da po- 
voação, como indigna de formar parle da ghilde e esta expulsão vergonhosa, (diz 
o commentador J. O. Sliernimok, no seu livro De jure Sueonum et (lathorum 
vetusto, '167i, pag. 321) era pena suíliciente para que a cortezã expiasse a tor- 
peza da sua profissão e a infâmia da sua vida. 

A lei dos ripuarios não impõe desterro á mulher ingénua, que se aban- 
done a muitos homens, mas o que com ella fosse surprehendido (si quis cuni 
ingénua puella mcechatus fuerit) pagava pelos outros, e não pagava menos de 
50 soldos de ouro; esta enorme multa ia de certo engrossar o thesouro do chefe 
da tribu ou do rei. 

A jurisprudência dos bárbaros em matéria de prostituição é rigorosa na 
lei dos visigodos: um decreto do rei Reearedo, que subiu ao throno em 580, 
prohibe-a absolutamente, impondo-lhe severas penas. 

Reearedo era catholico, e sem duvida os seus decretos foram submettidos 
á apreciação dos bispos, que ingeriam a jurisdição ecclesiastica em todos os po- 
deres tenjporaes, e que tinham sob sua lutella os soberanos que por elles eram 



22 HISTORIA 

convertidos; mas já vimos, pelos concilios, (|iic a egreja catliolica se conformava 
com a legislação romana em muilos pontos de moral,' e que especialmente, 
sobre a prostitui(,-ão publica, fechava os olhos. 

As leis dos bárbaros, ao contrario, não adniitliam esta tolerância corru- 
ptora e perseguiam de uma maneira implacável as mulheres de má vida, que 
deshonravam a povoação onde residiam e onde faziam estendal dos seus vergo- 
nhosos hábitos. 

O decreto de Recaredo é muito explicito: pôde considerar-se como o có- 
digo geral da prostituição entre os bárbaros, tanto eiilre os francos da Bélgica, 
como entre os visigodos da península hispânica. Se uma mulher de condição 
livre, exercendo publicamente a prostituição na cidade, era reconhecida como 
jiroslilula (meretrix agnoscatur) e frequentemente era surprehendida no crime 
d'a(iuiícrio; se esta desgraçada, sem pudor algum, mantinha relações illicitas 
com muitos homens, devia ser presa por ordem do conselho da cidade e ex- 
pulsa d'ella, em presença de todo o povo, depois de publicamente ter levado 
trezentos açoites. 

Se ousava reapparccer na cidade e voltar ao seu antigo modo de vida, 
o conselho condcmnava-a á mesma pena e escravisava-a, pondo-a sob o domí- 
nio de qualquer miserável, que com rigorosa vigilância a impedia de percorrer 
a cidade. 

Quando a mulher se dava á prostituição, com assentimento dos pães, es- 
tes pães infames, que viviam da deshonra da filha (pro hac iniqua conscientUi) 
recebiam cem açoites. 

Toda a escrava de costumes dissolutos recebia trezentos açoites, e depois 
de, por ordem do juiz, lhe ler sido cortado o cabello, eraenlregue ao senhor, que 
era obrigado a reliral-a da cidade, guardando-a em logar seguro, para que alli 
nunca mais voltasse. No caso, em que o senhor não quizesse vender a escrava 
e lhe pcrmillisse o regresso á cidade, era o senhor condemnado a trezentos açoi- 
tes; a escrava tornava-se então propriedade do rei, do juiz, ou do conde, (jue 
a dava a qualquer pobre, com a condição da escrava não poder apparecer no lo- 
gar d'onde fora expulsa. 

Se acontecia depois, que esta escrava se prostituía em proveito de seu 
amo, {adqnirens per fornicalionem pecuiiiam (loini)io ano) o senhor participava 
da vergonhosa pena da escrava, levando cUe lambem trezentos açoites. 

Com o mesmo rigor eram tratadas as mulheres presas nas povoações de 
menos importância, e rés de iguaes crimes. 

O juiz, (|ue por negligencia ou corrujição não applicasse o decreto de Re- 
caredo, incorria em rigorosa pena: depois de .ser demiltido, recebia por ordem 
do conselho da cidade cem açoites, c tinha de pagar ao seu successor 30 sol- 
dos. 



CAPITULO III 



SUMMARIO 



Os francos Tencedores dos paulezes não foram influenciados pela cornipçlo patlo-romanana. — Conversio do 
rei Clodovcu. — Formarão da sociedade franceza. — Estado da prostituição no reinado dos merovintrios. — Os pryne- 
ceus. — A prostituição concubinaria.— Retrato pliysico e moral dos francos.— Divindade-S prolificas dos francos. — 
Frea ou Frigia, mulher de Vovau. — Liher e Libera.— Estado moral dos francos depois da sua conversão ao cliristia- 
nismo. — Os nobres.— Os plebeus.- Esforços do clero gaulez para moralisar os francos.- Condição das mulheres 
francas. — Os matrimónios salicos. — O presente da manhã. — Humilhação voluntária das mulheres francas para com 
seus ma!"idos. — A roca e a espada. — Multiplicidade das relações concubinarias no reinado da primeira raça. — Tole- 
rância forçada da egreja para com as escravas concubinas. — Os differentes graus de associação conjugal. — O serai- 

matrímonio e o matrimonio da mão esquerda. — Estado da familia na França. — Os bastardos Descripção d'um gy- 

neceu franco. — Origem dos serralhos do mahometismo. — Os gyneceus dos romanos no império do Oriente. — Gy- 
neceus dos reis carlovingios.— Capitulares de Carlos Magno.— Diflerenles cjithegorias de gyneceus. 




s FRANCOS, quo (Icsile meiados do século quinto aA-ançavam passo 
] I a passo pelas Gallias, não se fundiram logo com os gallo-romanos 
]|que submettiam ; os francos conservaram os seus costumes, a 
sua religião e os seus usos, sem se deixarem corromper pelo con- 
tacto da brilhante e voluptuosa civiiisação, que encontravam nas 
Uj cidades conqiiistailas; despresavam tudo que não provinlia dos 
seus maiores e pretendiam guardar a sua individualidade' entre as differentes 
raças, as difTerentes religiões e os diversos estados políticos, que se haviam 
agglomerado no território das Gallias. Mas, ao mesmo tempo, procuravam não 
transformar o género de vida e caracter dos primitivos possuidores do solo; 
nem lhes impozeram a obrigação de os imitar, nem mesmo lhes faziam sollrcr 
a influencia da visinhança e dos exemplos. A separação entre os gallo-romanos 
c os bárbaros conservou-se tão distincta, em todos os paizes onde se estabele- 
ceu o dominio franco, que se puniiaem vigora lei sádica simultaneamente com o 
código theodosiano, que tanto tempo vigorou nas Gallias, assim como uds restos 
do império romano. As duas legislações, que tinham força de lei sobre os ven- 
cedores e os vencidos, formavam um código especial de leis mundanas {lex 
nnnulana,) na qual cada um encontrava o seu direito, segundo a sua origem. 
Mais tarde, o código de Theodosio foi substituído peio de Alarico ir, rei 
dos visigodos, e este em seguida peio do imperador Justiniano, para a juris- 
prudência romana. Emquanto á jurisprudência barbara, só foram accrcscenta- 
das á lei salica as leis dos allemães, dos bavaros e dos ripuarios. Esta união 
de duas jurisprudências tão diversas e oppostas suflicientemente demonstra que 
os francos não tinham pretendido sujeitar ao seu código nacional os povos 
com que evitavam misturar-se, e igualmente evidenceia que não acceitavani 



24 HISTORIA 

para a si auctoridade das leis dos povos que cscravisavam. Fica, pois, demons 
trado que a prostituiçião, tendo um regimen legal nas cidades gallo-romanas, con- 
tinuou existindo nas mesmas condições, depois da conquista dos francos, sem 
chegar a corromper a rude c altiva austeridade dos conquistadores. 

Os principaes chefes das trihus francas tinham sido chamados ás dallias 
pelos bispos catholicos, que preferiam conservar a sua auctoridade soh o domi- 
nio dos bárbaros a luclar contra as perseguições romanas. Estes chefes fran- 
cos nada mais fizeram do que conformar-sc com um tratado secreto, ajustado 
com os membros influentes do clero gauiez, respeitando as cgrejas, os mosteiros 
e o culto chrislão. Não occupavam com as suas hordas guerreiras o interior 
das cidades, que haviam tomado pela força, ou que lhe haviam aberto as por- 
tas; acampavam em volta d'ellas, nas aldeias, nas quintas, nos campos fortifi- 
cados entre os seus carros carregados do producto do saque. Estavam sempre 
promplus para entrar em campanha, c a eniprciíendcr uma nova guerra; viviam 
isolados, e evitavam todas as relações com os indígenas gaulezes e com os co- 
lonos romanos. 

A fusão das raças e dos costumes só foi determinada pela conversão de 
Clodoveu c pela dos sicambros ao christianismo. Então pensaram os francos em 
fivar-se em a iXcustria e na .\ustrasia; então a divisão das terras c dos servos 
cm proveito dos chefes da nação franca creou uma sociedade nova, que não 
tardou em absorver completamente a sociedade gailo-romana. 

Fazendo-se christãos, os francos fizeram-se também gallo-romanos, sem 
por isto perderem a sua individualidade barbara. Por espaço de mais de dois 
séculos, sob os auspícios das instituições merovingias, se desenvolveu aquella 
sociedade franceza, composta de tantos e tão diversos elementos e contendo em 
si os germens da civilisação christã. 

Desde Clodoveu até Carlos Magno, os bispos foram os verdadeiros legisla- 
dores, e o código ccclesiastico dominou o código de .lustiniano e as leis teuto- 
nicas. A prostituição, condemnada pela egreja, não estava sob o império da legis- 
lação, e por isso mesmo a luxuria campeava mais desaforadamente. Nas cida- 
des governadas pelos bispos, não havia cortezãs, prostitutas que exercessem este 
vergonhoso mister; mas em toda a parte, em cada feudo {feudum) em cada 
vivenda campestre (mansio) havia uma espécie de serralho, ou gyneccu, cm que 
mulheres livres ou escravas trabalhavam de agulha ou fiavam, e em que o se- 
nhor encontrava prazeres fáceis, e sempre muita sollicitude em dispensar-lhe 
amorosas caricias. .4. prostituição concubinaria substituiu a outra, até que o ma- 
trimonio se pôde libertar dos escândalos que o deshonravam. 

Os francos, já o dissemos, desconheciam a sensualidade, quando invadiram 
as Ciallias: unicamente exerciam os seus dii-eitos conjugaes para procirar; para 
elles um dever sagrado era dar muitos combatentes á tribu; pois que, segundo 
as palavras de Libanio, no seu discurso ao imperador Constantino «toda a sua- 
felicidade é a guerra, o seu verdadeiro elemento; o repouso c-lhes insuppor- 
tavel, e nunca os seus vi.'Tinhos os poderam resolver ou obrigar a viver soec- 
gados.» E assim não tinham tempo para pensar cm voluptuosas distracções, 
aquelles, cujos costumes, segundo diz Eusébio, {]'ida de Conslnntino, liv. i, 
cap. xxv) se assimilhavam a animaes ferozes. Sidónio não os pinta com mais 
risonhas cores. 

«O seu amor pela guerra, diz este auctor, nasce com elles. Se, esmaga- 
dos pelo numero ou peia desvantagem da posição, cedem á morte, nunca cedem 
ao medo. Mesmo na derrota, parecem invenciveis, e primeiro se lhes esvac a 
vida, (lo (|ue lhes foge o valor.» 

Não tiniiam pois propensão para os enervantes prazeres do amor «nem 
amavam, nem procuravam ser amados pelas esposas», diz Tácito, faltando dos 
germanos, que em nada dilleriam dos francos do século quinto ; só pensavam 



DA PROSTITUrÇÃO 25 

cm ser tcrrivcis cm parecerem altivos c dominadores aos seus inimigos. Para 
tal clTcilo produzirem, tingiam o cabello louro de vermelho, c cortavam-o atraz, 
puchando-o do alto da cabeça, cahindo-lhe na frente em fran(,'as, ou faziam dVllc 
um penacho, encimando o franco. (ísla abundância de cabello era um emblema 
da sua força pbysica e um jjrivilcgio de raça ; intiluiavam-se fiwrreiros ca- 
belluãos, e unicamente usavam bigodes, que muitas vezes lhes cabiam ate meio 
do peito. 

O seu trajar ordinário também se não prestava a uma vida voluptuosa c 
dcscançada ; estreitos vestuários de couro de veado apertavam os seus vigoro- 
sos membros, prestando-se a todos os movimentos e nexões; um amplo tala- 
barte suspendia uma espa<la curva, chamada scramasax e uma acha de dois 
cortes pcndia-lhes da cintura. Nunca abandonavam as suas armas, nem mesmo 
nos festins nocturnos; a cerveja transbordava dos seus copos de barro negro 
ou vermelho todas as vezes que repetiam uma copla ou um canto de guerra. Clie- 
gavam sempre ébrios aos leitos das suas esposas ou escravas e, como se tives- 
sem vergonha de ver um arinian (heere inan) um homem- de armas nos braços 
de uma mulher, muito antes de amanhecer levantavam-sc. 

Comtudo, os francos tinham uma divindade, que presidia aos matrimónios, 
ou antes cá geração, esta deusa era Frca ou Frigga, mulher de Wodan, o deus 
da guerra e da matança. Ella reparava os males causados pelo seu feroz es- 
poso ; dava a vida depois d'este ter dado a morte, distribuía pelos bravos o re- 
pouso e a voluptuosidade {pacem nolaplaleincjue lanjiens mortalibm-, diz Adam 
de Brema, na sua Historia eclesiástica.) 

Adam de Brema aecrescenta que os adoradores d'esta Vénus do Norte a 
representavam, dando-lhe o attributo mais caracteristico do deus Priapo (ciijm 
eliam simulacnnn inijenti Priapo :) mas nenhum outro testemunho pôde ser 
citado cm apoio d'csta singular tigura da deusa Frca e vèr-nos-hiamos muito 
embaraçados, para justficar com aucloridades antigas esta opini.ão de Adam de 
Brema. Seja como fòr, esta deusa não era o symbolo da libertinagem e das pai- 
xões obscenas, mas do acto divino da geração, representando a natureza crea- 
dora. 

Com mais visos de verdade se devem attribuir ao culto de Frca, do que 
ao de Priapo, a maior parte das tradições gallicas, que mui geralmente vogavam 
nos togares occupados pelos francos, e por esta razão, nos idolos, nos monu- 
mentos, nos troncos de arvore esculpido, se deve vèr antes a esta Vénus do 
norte do que a Priapo. Nas ruinas de muitos acampamentos de francos, nas 
margens de Rbeno, teem sido descobertas muitas ollcrendas de bronze c mar- 
fim, que deviam ter sido dons de mulheres á deusa Frca. 

Nos fins do quarto século, quando a deusa Frca, adorada pelos francos de 
Yessel, introduzira talvez uma nova A'enus no paganismo romano, ergueram-sc 
templos ás divindades, que acaso eram de origem franca e que Santo Agostinho, 
na sua Cidade de Deus, nos apresenta como concorrendo uma e outra para os 
actos mais secretos da geração. Uma e outra occupavam o mesmo templo, o ór- 
gão sexual do homem estava collocado junto do órgão sexual feminino, á ma- 
neira d'essas divindidades, que se chamavam Pae e Mãe. 

Santo Agostinho cita uma passagem de Varrão, a propósito das attribui- 
çõcs de Liber e Libera, cm que se não reconhece a Frca dos francos. 

«Uberum á Liberamcnta appelatum volnut, diz elle, quod mares in coeu.ndo, 
per ejus beneficium, emisis seminebus, liberentur. lloc idem in feminis aijere 
Liberam, quani etiam ]'enerem putant, qaod et ipsas perhibeant semina emit- 
tere, et ab hoc Libere eamãem virilem corporis partem in templo poni femineam 
LibercR.» 

Mas Clodoveu baptisado por S. Rcmigio destruiu os idolos que elle pró- 
prio adorara, e os francos seguindo-lhc o exemplo fizeram-sc baptisar e rcnun- 

Hjsioru da Pbmtituiçío Tomo ii— Folha 4. 



26 HISTORIA 

ciaram .los deuses dos seus maiores. O calholicismo d"estes barljaros fui por 
muilo tempo Ião grosseiro couio o fora a sua idolalria; nem eomprehendiam o 
dogma, nem a moral, nem a religião, que iiaviam abraçado e que para elles se 
limitava a cerlas praticas e cercmonias. • 

Os bispos empregaram com bom êxito a sua auctoridadc ecciesiasliea 
para corrigir os costumes dos sicami)ros: estiveram em constante lucta contra 
estes bárbaros, que unicamente reconlieciam como leis os seus instintos c pai- 
xões brutaes: empregaram a cxcommunlião, c\pondo-sc a injurias, maus tra- 
ctos. c mesmo á morte, ao reprimir os seus neopbytos, que se entregavam com 
ardor selvagem a todos os excessos, escarnecendo do sacramento do matrimo- 
nio. >"aquelle tempo os reis tinham um gi-ande numero de concubinas, succe- 
dendo-se umas ás outras, e ás vezes sinuillaneamenle. A egrcja, lundando-se 
nas decisões unanimes dos concílios, só permitlia a cada secular uma mulher, 
quer fosse esposa legitima, quer fosse concubina, segundo o uso da lei romana 
sobrevivente ao polvlhcismo. O clero gosava dos mesmos privilégios c era fre- 
quente ver um bispo com a sua esposa, e um sacerdote qualquer com a sua 
concubina. 

Mas os francos não se contentavam com a tolerância cbristã, que a cada 
um ])ermillia uma esposa ou concubina; (|uçriam não si) mudar de mulheres 
frequentemente, formando novas uniões legitimas ou auctorisadas, mas lambem 
ler junto da esposa legitima muitas concubinas, que lhe comparlilhasscm do 
leito. Os francos tinham no ponto mais relirado da sua habilarão um gyneccu 
de escravas, que lhes davam lilhos, comparliliiando alIeiMialivamenle do leito do 
senhor. Era o costume de todos os bárbaros, que manifestavam a sua nobreza c 
riqueza com o numero das suas mulheres, dos seus cavallos c dos seus cães. 

Na plebe, principilmentc entre os pobres, o matrimonio era monogamo, 
por falia de meios para sustentar muitas mulheiTs; mas a esposa ou concu- 
bina plelieia renovava-se frcfiuenlemenle, cedendo o logar a outra, visto que o 
divorcio não linha maiores formalidades do que o casamento. 

Comprehendc-se bem o grande trabalho do clero gaulcz em combater os 
costumes licenciosos d'aquclles bárbaros, (jue se revoltavam contra toda a con- 
trariedade e (|ue viam um acto de escravidão iiiloleravel cm cada prescrip(;ão d;i 
lei divina e humana. Os francos não permil(i;nii que o sacerdolc julgasse e con- 
demnasse o (pie se occullava no seu lar: conlribuiam voluiilariamenle para as 
dcspe/.as do culto; dislribuiam muitas e avultadas csuKdas, davam ouro aos 
punhados para a construc,í.'ão e adorno das egrejas, para os relicários e scpulchros 
dos santos; mas eram indóceis c i-eheldes, quando o seu proceder era objecto 
das censuras e analhemas dos bispos. 

Também se não eonforma\am como os preceitos do Evangelho, que pro- 
clamavam a igualdade da mulher ao homem; a mulher, segundo os bárbaros, 
era antes a sua escrava do que a sua companheira, c esta escrava não era eman- 
cipada pelo matrimonio, ficava por este facto sujeita a um jugo mais despó- 
tico. 

Todas as mulheres entre os francos haviam aeceitado esta condição de 
servidão e inferioridade, que lhes era dada pelo sexo, e nem sequer podiam agra- 
decer a protecção do christianismo, porque a cxcommunlião que feria os ma- 
ridos ou senhores as alcançava também a ellas, e\pondo-as a ódios muitas ve- 
zes sanguinários. Com cnVito, o franco que repudiasse sua esposa preferia ma- 
tal-a a aceeilal-a novamente, obedecendo ás intimações dos bispos e curvan- 
do-se sob os analhemas da egreja. 

Estes matrimónios ou concubinatos não eram todos consagrados pela ben- 
ção religiosa; mas sim auetorisados pela lei salica, mediante o soldo e o di- 
nheiro, que a mulher recebia, como .symbolo do contrato nupcial ; contraio 
feito deante de testemunhas, mas não escriplo, nem a.ssignado, se não no caso 



DA PROSTITUIÇÃO 27 

extraordinário, cm que o es|)oso no dia seguinte ao das núpcias confirmava o 
dote dado à esposa, dcitando-lhc um punhado de palha no seio e apertando-lhe 
o dedo niinimo da mão esíiucrda. O presevie da manhã (merijben ijabe) era 
quasi o único hiço da união conjugai, começado na véspera com a entrega d'um 
soldo de ouro e um dinlieiro de jirata, que o esposo depositava nas mãos da es- 
posa. Estas moedas parecem ter sido a tarifa (itramiion) geral e uniforme, que 
uma mulher, fosse qual fosse a sua classe, devia reclamar como preço da sua 
virgindade. 

Depois de ter acceitado estas moedas, a mulher considerava-se vendida 
á(|U(lle homem e não se pertencia, cmquanto o divorcio ou a morte não rom- 
pesse as cadeias d'essa escravidão. 

rode ajuizar-se da suhmissão de uma esposa a seu marido pelos termos 
que empregava, ao dirigir-líie a palavra. «Senhor e meu esposo, di/ia, cu tua 
humilde escrava.» (Doinini e iuijalis mei eijo ancilla tua). E' assim que, nas 
Formuliis de Marcolfi) (liv. ii, cap. 27,) falia a mulher a seu amo c senhor. 

S() havia uma circumslancia, em (]Lie uma mulher casada podia suhtra- 
hir-sc á escravidão c erguer-sc do seu ahalimento. Quando a filha de pacs li- 
vres associava a sua vida á d'um escravo, entregando-se-lhe por amor ou por 
imprudência, seguia a condição d'csle espo.so indigno d'ella e tornava-se es- 
crava como elle. Mas a lei (los ripu.irios facultava-lhc sempre, em honra da 
sua familia, os meios de rcc(>n(|MÍ.^Iar a liherdade. A instancias de um parente 
ou amigo, a esposa requeria para ser citada perante o rei ou conde, que inda- 
gavam do .seu matrimonio deshonroso ; ella confessava o facto c entregava-sc 
á justiça do conde ou do rei. Este fazia comparecer o marido c acareava-o com 
a mulher, a quem em silencio offerecia uma roca e uma espada. 

Sc a mulher oplava pela roca, ficava para sempre escrava e á mercê do 
homem, a quem amara o hastante para tudo lhe sacrificar; mas se escolhia a 
espada (içava novamente livre, matando o homem que a escravi.sara. I)'estc 
modo lavava a vergonha da sua prostituição com o sangue do culpado. 

A conucnla era o emhicma ou symholo da condição servil (|ue o matri- 
monio imjiunha ás mulheres. Eslas não mais appai'eciam em puhlico; não man- 
tinham relações com homens; S(í sahiam veladas c cohertas com amplos ves- 
tidos, que nem sequer deixavam ver as mãos e os pés, passavam a vida fiando 
linhos e lã, tingindo tecidos c criando os tilhos. Sempre que os historiadores 
dos tempos merovingios nos introduzem nos aposentos das mulheres, apresen- 
tam-as, mesmo rainhas que sejam, occupadas nos trahalhos domésticos, longe 
dos olhares curiosos e dos desejos pivifanos. 

As relações concuhinarias, que convinham aos costumes dos francos, che- 
garam a multiplicar-se tanto soh o reinado da primeira raça, que era preciso 
(jue um franco fosse muito pohre para não ter em sua casa mais do que uma 
mulher e duas escravas. A egreja fechava os olhos a estas licenciosidades em 
quanto podia fingir ignoral-as e em quanto a ella se não recorria para as fa- 
zer ces.sar. Levava a sua c^indcsccncia e respeito pelos senhores do paiz até 
pcrmittir-lhes relações amorosas com as suas escravas, sem formalidade al- 
guma matrimonial. Silvano, que era gaulez, e escreveu cm melado do século 
quinto, diz-nos que a tolerância ecciesiaslica para com as concuhinas fora tão 
mal interprctrada, que a maior parte dos que viviam em concubinato se julga- 
vam legitimamente casados, e só tinham por esposas as escravas com quem 
cohahitavam maritalmente, (ad tantum res impnidentiam venit ut ancillas suas 
tDulti íixores putent, atque utinam sicut pxilantur esse quasi cônjuges ita sola 
haberenlur uã-ores.) 

Mr. Cordemoy, apoiando-se na auctoridadc de Cujas, não se lembrou que 
este douto jurisconsulto estudara mais o direito romano que o direito bárbaro. 
O concubinato entre os francos c os gallo-romanos, que não tardaram muito em 



28 HISTORIA 

imilar os seus dominadores, nem sempre tinlia o caracter de seiui-malrimonio, 
dado pela jurisprudência romana, separava-sc d'elle extraordinariamente, pois 
qup sem cessar se renovava e mesmo compreliendia um numero avultado de 
mulheres, vivendo sol) o re^-imcn concuiiinario. Verdade é que em certas cir- 
cumstancias, um rei, um magnate, um nobre casado com uma mulher de baixa 
condirão, não lhe outhorgava o titulo d'esposa, mas o de concubina que não 
implicava a celebração do matrimonio chrislào. Ordinarimente, a concubina era 
uma escrava, que dormia no leito do senhor e que podia fazer pi-evalecer uma 
espécie de legitimidade nupcial, emquanto que o senhor não escolhesse nova 
concubina. 

Os francos, principalmente os chefes, tomavam concubinas, casando se- 
gundo o ritual franco, dando o soldo e o dinheiro para não terem a impossibi- 
lidade de divorciar-se. A egreja nada tinha que ver com as uniões que ella não 
fizera, e se a seu pezar alguma vez intrevlnha, era quando um grande escân- 
dalo a obrigava a abandonar a sua neutralidade, mas fazia semj>rc isto com 
a maior prudência e tacto. 

Insistimos, portanto, era acreditar que, sob o reinado da primeira e ainda 
da segunda raça dos nossos reis, chamava-sc eiífosa á mulher casatia, segundo 
o ceremonial da egreja e concubina á mulher casada, segundo a lei salica : Se- 
cundam leyem salicam et aniiqiiain cunsuetuãinem, dizem as Formulas de Mar- 
colfo sobre o soldo e o diniiciro, que constituíam o matrimonio civil entre os 
francos. 

Sendo os concubinatos estranhos por sua natureza á sancção ecclcsias- 
tica, só dependia do capricho dos interessados fazel-os e desfazel-os sem som- 
bras de escrúpulo. Tal foi por espaço de três séculos, o estado da familia em 
França ; ao lado da mulher legitima, única reconhecida pela egreja, havia uma 
ou duas concubinas, a quem o dono da casa dava maior ou menor considera- 
ção, conforme o seu proceder o as suas sympathias. A's vezes estas concubi- 
nas eram tão numerosas sob o mesmo tecto que o homem, que as mantinha, se 
via obrigado a despedir algumas, para que todas não morressem de fome. 

O matrimonio salico só foi usado para com as mulheres de prigeni franca, 
que concubinariamcnte casavam com liomens da sua raça. Estas concubinas, 
em geral, reconheciam a inferioridade da sua posição para com a mulher legi- 
tima, casada christãmente, e esta satisfeita com a sua superioridade, deixava-as 
cumprir os seus deveres concubinarios sem ciúmes nem despeitos. 

Os filhos nascidos d'esle concutjiiiato não gosavam dos mesmos direitos 
auferidos pc los havidos de matrimónios legilimos ; mas comtudo tinham uma 
semi-legitimidade e a sua bastardia não lhe imijrimia nenhuma nódoa infa- 
mante, pois que com orgulho se intitulavam bastardos de casa. Viviam, sim, 
em estado de inferioridade e de respeitosa submissão para com seus irmãos, 
filhos da esposa legitima, os quaes exclusivamente represerilavam a linha here- 
dilaria e repartiam entre si os bens patrimoniacs. 

Ao que parece, as concubinas tinham unicamente o lim de supprir as in- 
sufliciencias ou impedimentos da esposa, quando esta se afastava do leito con- 
jugal por cau.sa do menstruo, de enfermidades ou da lactação. 

Havia muitas cathegorias ou graus de concubinas ; umas, de condição li- 
vre c da raça franca, julgavam-se tão bem casadas, como se a egreja ti- 
vesse santificado a sua união; outras, de condição servil e de origem estran- 
geira, nunca podiam ter a considei-ação da mulher legitima; a serva, que dor- 
mira com o seu senhor, apenas conservava uma certa auctoridade nas suas coni- 
])anheiras, que de bom grado lira acatavam ; esta auctoridade augmentava á me- 
dida (|ue o tempo lha ia consagrand(» e que o senhor (^(/o//ííkíí.s) lh'a t:onlirmava 
com a sua bencvcdcncia. 

Todas as mulheres, aggregadas a uma familia na qualidade de esposas, con- 



DA PROSTITUIÇÃO 



29 



cubinas e escravas, viviam juntas no interior cia casa, onde homem nenhum 
podia entrar sem licença do senhor. Este logar reservado para as mulheres era 
chamado gyneceu entre os francos e entre os gallo-romanos {(jineceuin.) A pa- 
lavra corrompeu-sc de dillerentes modos, segundo o dialecto dos bárbaros que 
a adi)plaram, e por isso se encontra escripto genecium, (/enicium, (jenecoeum e 
(jenizeum, nos auclores escriptores do latim vulgar. O gyneceu era mais ou me- 
nos espaçoso, conforme a capacidade da casa; compunha-se de muitos compar- 
timentos, ou corpos de edifício e ordinariamente continha muitas ollicinas, onde 
as mulheres se entregavam aos trabalhos domésticos. 

A dona da casa, a esposa ou concubina predilecta, tinha sob a sua di- 
reção os traballios do gyneceu, que mais particularmente diziam resjjcilo á in- 
dustria dos tecidos e á confecção de roupas. N'aiiuelle tempo, como em toda a 
antiguidade, os homens envergonhar-sc-hiam de pòr mãos em trabalhos feminis 
{muliere opuíi ;) só se applicavam a trabalhos de martello. 

Antigas chronicas estão de accordo n'este ponto: que os trabalhos cm lã per- 
tenciam especialmente ao gyneceu do norte ; e os trabalhos em seda ao gyne- 
ceu do meio dia. Papias diz que o gyneceu se chama lexlinuin «porque as mu- 
lheres, que n'elle se reúnem, trabalham em lã» {(juolibi conceiílius femiaaruin 
ad opas lanifici exercendum conveníal ;) e Pollux entende que ao gyneceu se 
poderia chamar sedaria, porque n'elle as mulheres se occupam nos trabalhos em 
seda. 

Estes gyneceus com destino análogo existiam entre os romanos do impé- 
rio do Oriente,; em maior escala estavam generalisados em Constantinopla, e 
não pôde duvidar-se, portanto, que delles se originaram os serralhos que 
o mahometismo tornou menos laboriosos, desíinando-os unicamente ao amor. 

Entre os romanos do Oriente havia gyneceus para os dois sexos, que 
n'elles trabalhavam separada, ou colleclivamcntc, segundo a vontade do senhor; 
mas n'esses gyneceus so eram admitlidos os escravos para sotlrereni castigo 
mais rigoroso. 

Os gyneceus dos imperadores, dos magistrados e dos oíTiciaes imperiaes 
eram ollicinas penitenciarias, para onde se mandavam pelo tempo |)rehxado na 
sentença condemnatoria os pobres e vagabundos, que haviam comeltido um de- 
licio e não podiam pagar a multa imi)osla. Lé-se na Pauão de S. Romão, que 
ao santo foi vestida uma camisa de lã c encerrado n'um gyneceu em signal de 
dcsprcso {ad injuriam.) Lactancio no seu livro ^J5a morle dos perseguidores 
■ — diz que as mães de familia e as patrícias, suspeitadas de chrislãs, eram ver- 
gonhosamente atiradas para os gyneceus {in yyiieceum rapiehantur.) 

Imitando os imperadores de Bysancio, os reis merovingios e carlovingios 
tiveram gyneceus nos seus palácios de campo, e estes gyneceus continham uma 
grande população feminina, na qual os reis escolhiam para cada noite aquella 
que mais lhe appetecia. A capitular de Villis enumera as differentes obras exe- 
cutadas n'aqucilas ollicinas, onde trabalhavam também escravos e eunuchos. 

«Oue em nossos gyneceus, diz Carlos Magno, haja tudo que é mister para 
trabalhar, isto é, linho, lã, cocheniliia, sabão, azeite, vasos e Iodas as coisas 
necessárias n'estes togares.» 

Em outra capitular do anno 813, acerescenta: 

«Que as mulheres empregadas em o nosso serviço (feminie noslrce qUiC 
ad opas nostrum servienles suul) tirem dos nossos armazéns a lã e o linho, 
com que façam capas e camisas.» 

Lé-se no livro dos milagres de S. Bertino que as creanças eram manda- 
das para os gyneceus, onde aprendiam a fiar, tecer, coser e fazer todos os tra- 
balhos feminis {in genecio ipsius, nendi, cusandi, texandi, oinnique artificio 
muliebris operis edocteses.) 

O dono de um d'estcs ealabelecimcnlos era em extremo solicito para com 



30 HISTORIA 

OS operários c a ninfjuem pormilfia a entrada no gyneceii, que pela legislação 
dos barharos era prolegido eomo um sanluai'io. 

«Se alguém, di/ a lei dos alleniães, eoliabilar eom uma jmen de um gy- 
neccu, que lhe não pertença e isto eonlra a vontade d'ella, (|iie pague seis sol- 
dos d'ouro (Si cum piiella de (jenecio priore conciibufrii aliquis contra colunta- 
tem f//t.v.)» 

O texto da lei dillerc nos dillerentes nianuseriplos, mas o sentido é quasi 
o mesmo. (>arlos Magno, n'uma nova redacção d'esla lei, cneor|)orada nas suas 
capitulares, lei ciu (|ue é castigada a violação consummada (s-i quis alterius 
puetlaiii de (jenecio violaverit) faz desappareeer a duvida sobre a espécie de vio- 
lência de que a mulher do gyiieceu podia ser victima contra sua vontnde. 

Verdade é que nem todos os gyneceus eram da mesma ordom, ou pelo me- 
nos tinham diirerentes eathegorias, onde os trabalhos mais duros ou desagradá- 
veis estavam convenientemente regulados. Os trabalhos mais pesados eraiu fei- 
tos pelíjs escravos de inferior catlicgoria ou nos gyneceus penitenciários. O que 
Ducange pretende demonstrar no seu (llossnrio, palavra Gijneceuin, (|ue a maior 
parte dos gyneceus eram uma espécie de lupanares, é, portanto, uma falsidade. 
O próprio texto da lei dos lombardos, em que Dueange assenta a sua alliiMua- 
tiva, prova o contrario. 

«lístabeleeemos (|ue, se uma mulher disfarçada por (|ual(|uer modo fòr 
surprehcndida em tlagi-aiite delicio de prostituição [si jendna, qn(C vsslfnt ha- 
bel mulatam, mcecha deprehen^a fnerit) não seja admittida no gyneeeu, como 
até aqui era costume, pois que, depois do se ter prostituído com um homem, 
não perderia a occasião de se pi'Oslituir com muitos.» 

Este texto prova pelo eonti^ario que a lei velava pela jiureza dos costu- 
mes nos gyneceus; todavia, os gyneceos, taescomo os dos reis, fre(|uenlemenle 
mereceram essa má i'eputação c ainda no decimo século o seu nome era syno- 
nimo de libertinagem. O proprietário do estabelecimento fazia um pacto con- 
cubinario com as operai-ias c estas disputavam entre si a honra de lhe perten- 
cer. «Se alguém, diz Ucginor) (De Eccks. disrip. liv. ii, cap. v) commcttcr adul- 
tério em sua propi-ia casa com as suas serventes ou gyneciarias.». . . Ksta pas- 
sagem parece indicar que r.os gyneceus, além das serventes, eram admitlidas 
pensionarias, ajustadas sub determinadas condições. 

A sustentação de um gyneeeu era, portanto, muito dispendiosa: o capitulo 
75 de um synodo de Meaux, citatlo por Ducange, falia de uns seculares, (|ue pos- 
suíam capellas e sob este pretexto cobravam dizimos gastos em sustentar cães 
e occorrer ás despezas dos seus gyneceus [inde de canes et (jijneciarias suax 
pascant.) 

Os gyneceus foram-se restringindo ás suas proporções, á medida que se 
foram estab(decendo manufactiuMs, cíjue o eommcrcio, disti'ibuindo os seus pro- 
(luctos por toda a |)arte, tornou inútil o fabiico em casa de grande numero de 
tecidos e outros objectos. O viver das mulheres continuou todavia a ser em 
comnuim, e apesar da emancipação oHerecida pela cavallaria cm certas circums- 
tancias, a vida das mulheres continuou a ser reclusa. Mas então já não havia 
concubinas n'aquelles santuários da família, onde a esposa legitima, rodeada 
dos seus lilhos e servas, lhes dava cxcmpl(»s de trabalho, de decência e de vir- 
tude. 



CAPITULO IV 



SUMMARIO 



Liccnsiosidadcs concubinarias dos reis francos.— Clolario i.— Iniíumlac AregimMa.— Incoulinoncia ailiiHorade 
Caribcrto, rei de Paris. — Marcovieva e MiToIlfda. — Caribcrto repudia sua mullier In^niliurga.— Tcudcdiilda.— Os irmãos 
de Cariborto.— Goiítran, rei dOrlcans e r>(irf.'ojiha.— Cliilporico, rei doSoisson.— Audovera.— Frudogoiida.— Galovind. 
— Dagdlicrlo i.— IVpino c a sua conculiina Alpais.— Assa.«;sinio de S. Lambei to piaticadu por Dodon, irmão dAlpais. — 
Costumes dissolutos de lierlcbrain, bi.^^po de Bordeos.—lJruncquilda.— Carlos Ma^'no.— Suas concubinas Maltfi:arda, 
(iersuinda Regina c Adalinda.— Suas lillia.s.— O carlulario daldjadia de Lor.sch.— lenda dos amores de Eginhard c de 
Imma, Tdba de Carlos .Magno.— Capitular de Carlos Magno relativa aos cúmplices da pro.-lituieão.— Investigações mf 
Duciosas ordenadas por Carlos Magno sobre a prostituirão.- Castigo importante .is mulbercs de má vida a seus cúm- 
plices.— Os judeus corretores da prostituição.- O pc do rei.— Estatura de Carlos Magiuj,— Os lioiuens nus.- Lenda de 
S. Lenngesilo. —O? successores de Carlos .Magno.- Luiz o benigno.— A prova da cruz.— A prova do rongre,';.';o.— A im- 
peratriz Judith.— Teubergn, mullicr de Lotliario, rei da Lorena, aceusada d'incesto.— O rampeão de Teuberga sabe 
triumpaute da prova da agua i|uente.— Jusiilicada Teubciga, comparece aute um consistório presulido por Lothario. 
- O concilio de Melz.— Excommunhão de LotUario.— O seu sacrilégio.— A sua morte. 




s REIS da primeira raça o^livcram tlc conlimio cm lucta com a 
('iiiTJa por causa ilas coiicui)iiias, <|iie tomavam c ccpclliam al- 
(crnalivamrnlc sem consullaros bispos, e estes, apesar das suas 
ameayas e analliemas, não eonst^iíuiam fazer respeitar a iiistitui- 
I ' vão religiosa do matrimonio |)elos francos, rccem-con verlidos, que 
eonliiiuavam seiulo pa<<ãos c sollViam violentados a doutrina do 
Evangellio. \ historia d'esscs reis é eiíeia de guerras, de crimes e excessos; 
mas os seus amores são principalmente a razão das suas grandes (]uci\as con- 
tra a cgreja, que lhes não deu paz nem tréguas, com o íim de lhes extirpar os 
maus exemplos da proslitui^-ão. 

.4pesar de tudo, essas lieenciosidades continuam a esconder-sc no fundo 
dos gyneeeus c apenas o rumor publico revela algumas ircllas. Otiando o celio 
(fcsscs abusos luxuriosos chegava aos ouvidos dos confessores, estes, armados 
com os raios da excommunhão, afastavam da cgreja o j)eccador, att'- que purifi- 
cado rompesse com as tentavões da carne. Não se chegam a comprehender bem 
os excessos concubinarios dos reis francos, senão lendo em S. (Iregorio de 
Tours a singela narrativa dos matrimónios do rei Clotario, ([ue teve sete mulhe- 
i'es ou concubinas publicas. 

«Clotario linha por esposa Ingunda e só a ella amava, quando esta lhe 
fez esta supplica: .Meu senhor fez de mim tudo o que quiz, tcndo-mc feito sua 
companheira no leito: agora para rematar os seus favores digne-se o meu se- 
nhor escutar o que esta sua serva lhe pede. feço-vos tenhaes a bondade de 
procurar para minlia irmã, vossa escrava, um homem capaz e rico que me 



32 HISTORIA 

eleve e não me rebaixe, c que meios tenha para mais dcdicadamenle vos ser- 
vir.» 

A estas palavras, Clotarío propenso á sensualidade, inflamina-se de amor 
por Aregunda, vae ao campo onde ella residia e com eila casa. Logo que cila 
se tornou sua, voltou para junto de Ingunda e disse-lhe: 

— Trabalhei para te satisfazer o supremo favor que me pediste e, procu- 
rando um homem prudente e rico, merecedor de unir-se a tua irmã, nenhum 
outro melhor do que eu encontrei. Fica sabendo, pois, que a tomei por esposa, 
esperando que isso não te seja desagradável. 

— O que bem parece aos olhos do meu senhor, respondeu Ingunda, por 
clle seja feito; mas que esta sua escrava viva sempre nas graças do rei. 

Este curioso quadro de costumes faz-nos apreciar como "se passavam as 
cousas nos gyneceus dos reis. 

Os íillios de Clotario i foram como seu pac polygamos e mais do que elle 
dados á incontinência adultera. O mais velho, Cariberlo, rei de Paris, era ca- 
sado com Ingobcrga, cuja estirpe a elevava acima das suas rivacs. Tinha a 
seu serviço duas jovens plcbcas; uma Mareovieva, freira; outra, Mcrofleda, fi- 
zera por ella apaixonar o rei. Ciumenta Ingobcrga, teve* um dia a infeliz lem- 
brança de deprimir as duas rivaes deanlc do rei, iançando-lhe em rosto a con- 
dição servil dos pães, que cardavam lã nas immcdiaçôes do palácio; mas o 
rei, irritado contra a esposa que o pretendera envergonhar, repudiou-a e tomou 
para esposa successivamente a Meroílcda e Mareovieva. Não se contentou com 
cilas todavia, c pouco depois abandonou-as por outra serva, Teudechilda, tilha 
de um pastor. 

Esta, posto que concubina de iiifinia espécie, apoderou-se do Ihesouro 
de f.ariberto, quando, sem deixar herdeiros, este príncipe se finou nos braços 
das três plebeias. 

Os irmãos de Cariberto tinham também o mesmo vicio da inconstância, 
("loutran, rei d'Orleans e de Borgonha, apesar de passar por devoto, mudou de 
mulher tantas vezes como Cariberto, e teve concubinas de infima classe, sem 
que os bispos, que lhe chamavam o biim (loutran, {lionu.s) lhe perturbassem os 
amores, (^bilperico, rei de Soissons, é o polygamo, a quem os ciironistas attri- 
buem maior numero de mulheres, com quem casou, segundo a lei dos francos, 
dando o annel, o soldo c o dinheiro, lima d'estas mulheres, chamada Ando- 
wera, tinha a seu serviço Fredcgonda, joven de origem frnnca, extremamente 
notável pela sua belleza e astúcia. Mal Clnlperico a viu, por ella se apaixonou; 
mas Fredcgonda era muito ambiciosa para se contentar em ser uma concubina 
subalterna. 

Tendo Andowcra dado á luz uma filha na ausência do esposo, Fredc- 
gonda, de accordo com um bispo, a (lucm comprara, abusou da ingenuidade 
da rainha, até persuadil-a de que devia ser madrinha da própria filha, e isso 
conseguiu. 

(juando Chilperico voltou da guerra, todas as jovens do seu palácio sa- 
hiram a esperal-o, cantando e arremcçando-lhe llores. Fredcgonda ia na 
frente. 

— Com quem doimirá esla noile o meu senhor? pergunlou-lhe descarada- 
mente {('nm (pia (lotniuii.s wpus rex dormiel hac noclc?) pois que a rainha, 
minha senhora, accrescentou, c agora sua comadre, visto que é a madrinha 
de sua filha. 

— Ainda bem, respondeu o rei jovialmente: se não posso dormir com 
ella, dormirei comligo. 

Andowcra, eliegcMi então c<im a tilha Uds braços. 

— Mulher, lhe disse o rei, eonimelleslc um crime por ignoi'ancia; és mi- 
nha comailrc, já níio [xldes ser minha esposa. 



DA PROSTITUIÇÃO 33 

Repiidiou-a, c fel-a professar n'um convento. Fredegoncla poucos mezes 
lhe occiípou o logar. ('hilperico, pediu em casamento (lalessonida, filha do 
rei (hjs godos, e para obter a mão d'esla prineeza, repudiou as esposas e des- 
pediu as amantes, incluindo Fredegonda, a quem todavia não deixara de amar. 
Pouco depois, para se juntar com a sua querida Fredegonda, mandou estran- 
gular a rainha, çmquanfo cila dormia. Fredegonda, com quem cm seguida se 
casou, envolv(Hi-o ii'uma rede de voluptuosos prazeres, que o reduziram a com- 
pleta escravidão. 

Tal é a historia de quasi todos os reis merovingios, que não se arreceia- 
vam de commctter crimes, oU de fazer guerras, para conseguirem os seus pro- 
pósitos amorosos. Viviam nos seus palácios reaes, longe da vista dos seus vas- 
sallos, que apenas chegavam a ouvir longínquos ruidos das orgias reaes, cm 
que os monarchas alternavam a luxuria com a embriaguez. 

A vida intima dos palácios reaes era apenas um lodaçal de prostitui(."ão, 
em que, mais c mais, se ia atolando a realeza fiança. Dagoberto i, que apesar 
de tudo, leve algumas qualidades de rei, não foi mais casto que os seus pre- 
decessores, e o seu ministro. Santo Eloy, parece fer-se prcoccupado pouco 
com os costumes da vida privada do príncipe, que edificava egrejas, fundava 
mosteiros e cobria d'ouro as reli(iuias e sepulciíros dos santos; mas que ao 
mesmo tempo, á imita(,'ão de Salomão, tinha uma grande quantidade de concu- 
binas (^lii.ruriiV siipra)ii<)dnm dedilm, liabebat in.siar Salomoni.s reginas et plu- 
rimas concubinas, diz Fredegonda na sua chronica.) «Os bispos, todavia, eram 
incansáveis em anathematisar as liccnciosidades dos reis e dos príncipes ; vo- 
luntariamente se expunham á cólera d'estes grandes libertinos, quasi sempre 
incorrigivcis; não se arreceiavam do martyrio da morte, quando .se tratava de 
defender a santidade do matrimonio christão, contra as licenças do concubinato 
pagão. Prtrstat, bispo de Ruão, foi por causa d'isto assassinado por um emis- 
sário de Fredegonda: Didier, bispo de Vienna, foi apedrejado por ordem de Bru- 
neguilda; S. Lamberto foi assassinado por um tal Doudou, que não lhe per- 
doava ter querido separar o príncipe Pepino da sua concubina Alpais. 

«S. Lamberto, conta-se nas cbronicas de S. Diniz, (em 708) reprebcndeu 
o príncipe Pepino, por estar amancei)ado com Alpais, em prejuízo de Plectonda, 
sua legitima esposa. O irmão da concubina, por nome Doudou, matou S. Lam- 
berto, por este ter censurado este peccado ao príncipe.» 

Os bispos e sacerdotes, que combatiam a prostituição, nem .sempre esta- 
vam isentos das censuras que faziam. (Ircgorio de Tours descreve-nos com as 
cores mais hediondas (liv. viii e ix) Bcrtchram, bispo de Bordéus, que se- 
duzia servas e mulheres casadas, e (jue até chegou a deshonrar o thalamo real. 
Quando S. Columbano, abbade de Luxeuil, foi á corte de Frederico ii, rei de 
Borgonha, para o reprehcndcr dos seus adultérios e aconselhar a que expul- 
sasse as concubinas, o papa dregorio i escrevia á rainha Bruneguilda, incitan- 
do-a a que castigasse os sacerdotes impudicos e preversos {sacerdotes impndici 
ac nequiter conversantes,) e fora justamente esta rainha que preverlera, a inno- 
cencia de .seu neto Theodorieo ii, rodeando-o de amazias, e dando cila própria 
os mais infames exemplos de libertinagem. 

As duas rainhas, Fredegonda e Bruneguilda, rivalisaram em crimes e ví- 
cios, mesmo na idade eni que a concupiscência se extingue; parecia que ao 
desafio queriam saber qual das duas teria mais amantes, qucin lhe correspon- 
deria com mais ardor, e quem mais farde síihiria das luctas amontsas. Brune- 
guilda foi a primeira a sahir, porque a morte a arrancou a esse lodaçal de ví- 
cios; morreu, atada k cauda d'um fogoso cavallo, arrastada e dilacerada por 
campos e fraguedos, depois de sobre um camello, durante três dias, ler sido o 
alvo dos ultrages e chascos dos soldados de ("Jotario ii, filho de Fredegonda. 
!Não acompanharemos os reis e as rainhas da primeira c segunda dynas- 

liísioHiA DA Prostituição. Tomo ii— Folha 5. 



34 HISTORIA 

tia, na larga e monótona nomenclalura dos seus adultérios e escândalos; mas, 
para mostrar qiianlo os vicios do concubinato haviam relaxado os vínculos con- 
jugaes, recordaremos (|ue Carlos Ma^mo, o prudente e f^lorioso monarcha, sus- 
tentáculo c honra da egreja, teve qualro mulheres legitimas c cinco ou seis 
concubinas, sem contar as iununv^ras mulheres que passageiramente foram vi- 
ctimas da sua luxuria. As suas concubinas, que Enginhard nos faz conhecer, 
não eram, como as suas mulheres Icgilimas, nobres dVjrigem ; Enginhard s(5 
enumera Mallegarda, Gcrsuinda, Regina c Adalinna, que lhe deram muitos fi- 
lhos, educados sob a sua vigilância, e caridosamente protegidos pelo impe- 
rador. 

^A.s suas filhas eram mui formosas, diz o citado auctor, e foram sempre 
muito estimadas pelo pae. Singular é que não as tivesse querido casar, nem 
com nacionaes, nem com estrangeiros. Até morrer, teve-as sempre junto de si, 
dizendo que d'ellas não se podia sejtarar. l'osto que fosse feliz, solíreu com as 
calumnias assacadas ás filhas. Dissimulou todavia os seus desgostos, como se 
contra ellas nunca tivesse sido levantada suspeiia alguma injuriosa.» 

Na verdade esta passagem, em que o historiador parece evidentemente 
cmbara(,'ado, não prova suiricienlemcnte que Carlos !\lagno tivesse tido relações 
incestuosas com as filhas, mas abre caminho a suspeitas nada favoráveis á mo- 
ralidade d'aqucile principe. 

Todavia, a tradição pretende que uma das filhas de Carlos Magno, de 
nome Ymma, casara com Enginhard, que não teria deixado de se lisongear e 
envaidecer, se houvera sido genro do seu terrível senhor. 

«Enginhard amava Ymma, (|ue tinha sido promcftida ao rei dos gregos, e 
era por ella amado com louca paixão. Uma noite, o amante bateu á porta do 
quarto de Ymma e esta abriu-Ih'a; c os dois, com os seus coUoquios e trans- 
portes amorosos esqueccram-se do tempo; (staline versa vice .soliis cnin sola 
secrelis nsus colloqiiiis et datis ampleribus cupito sati.ifecit amnre.) 

«Mas o dia vem rompendo: Enginhard arranca-sc dos braços da amante 
e ia partir, quando viu todas as relinulas coitadas; durante a noite havia ne- 
vado, as suas pegadas s(d)re a neve seriam uma suspeita desfavorável á honra 
da sua amada. 

«A joven, que o amor fizera tão audaz como ladina, imaginou um ex- 
pedienle, oITcrecendo-sc para levar ás costas o amante, até onde este linha o seu 
alojamento, e em seguida, por sobre as mesmas suas pegadas, voltaria para o seu 
quarto. 

«Carlos Magno, que não dormira durante a noite, levantou-se ao amanhe- 
cer e olhou para o pateo do palácio. De repente, viu sua filha, que com difficul-^ 
dade caminhava, levando aos hombros o pesado fardo, c que em seguida volta- 
va já ligeira para o seu (|iiarlo. Carlos Magno, sur|)rehciidido e ferido no seu 
coração, calou-se sobre o que linha visto. 

«Ymma recusava dar a sua mão ao rei dos gregos e Enginhard sollicitava 
do rei uma missão, que o afastasse da eòrte. Carlos Magno não pftde então 
contcr-se e levou-o perante o tribunal dos condes e barões, tendo todavia ten- 
ção de lhe perdoar. 

«Este meu servidor, disse elle, não será castigado, pois (|ue assim se 
augmentaria a deshonra de minha lilba. Creio digno de nós e mais conveniente 
á gloria do nosso-iin|)erio perdoar-lhes e unil-os pelo legitimo matrimonio, fi- 
cando assim sob um veu de honestidade a vergonha da falta commettida. 

«Enginhard então tremendo foi levado á presença do imperador. 

«Já é tempo, disse-lhe Carlos Magno, de reconhecer os vossos serviços 
passados e de recompensar a vossa abnegação para com a minha pessoa, com o 
dom mais (lc-;liiiiibianle. Dou-vos a mão de minha (ilha, \ossii inirtatlora (res- 
tram sciiictl, purlraincem,) que, arregaçando as saias, leve o prazer de vos ser- 



DA PROSTITUIÇÃO 



35 



vir de cavalgadura ((jule ipiandoque alie succinla vesíre subcectione satis se 
moriyeram exhibuit.)» 

Esta engraçada lenda, que se apoia n'uma tradição quasi contemporânea 
do facto (|iie perpcliia, parece-nos ter alguma analogia com a capitular, cm que 
llarlos Magno, desterrando <los seus dominios as nuillieres de má vida, commu- 
nica ao imprudente ou liherlino que lhes [)rcslasse auxilio que sofireria a ver- 
gonha de as levar ás costas até á praça do mercado, onde ella seria açoitada. 
Quando Carlos Magno dizia a Enginhard que se casasse com a sua portadora, 
parece relerir-se á pena em que incorria aquelle que dava asylo a uma pros- 
tituta. 

A aventura de Ymma e Enginhard, segundo a tradição, teve logar no ' 
palácio de Aix-la-Chapelle, e foi precisamente n'esta residência que Carlos Ma- 
gno decretou no anno 800 a capitular, em que impõe aos cúmplices da pros- 
tituição um castigo que traz à lembrança Vmma, levando ás costas Enginhard. 
Pião poderá suppòr-se que Carlos Magno fez esta capitular, depois de ter sido 
testemunha d'esse singular espectáculo da tempestuosa noite de neve, em que viu 
uma mulher levando ás costas um homem '! Não teria recordiecido os auctores d'este 
episodio amoroso? Seria provável não ter comprehendido os desígnios dos dois 
personagens mysteriosos, que lentamente caminliavam por sobre a neve? A nossa 
primeira conjectura é todavia licita, em vista de uma analogia histórica, suggc- 
lida pela capitular, dirigida aos olliciaes encarregados da guanla do palácio, ca- . 
pitular onde também se encontra a origem d'alguns funccionarios do palácio do 
rei. Carlos Magno ordena aos olliciaes palacianos (ininialerialis palatinun) que 
por meio dos seus agentes exercessem severa fiscalisação, para vèr se algum 
homem desconhecido ou mulher dissoluta se occultava entre os commensaes da 
casa. >'o caso em que se descobrisse uma mulher ou um homem d'esta classe, 
ser-lhes-hia impedida a fuga, e presos, até que o imperador fosse informado. O 
que fosse encontrado na companhia d'este homem ou mulher seria expulso do 
palácio, para não ser punido com pena mais affrontosa. O imperador dirige as 
mesmas recommendações aos officiaes ao serviço de sua amada esposa e de 
suas filhas. 

Esta capitular, em que se trata de um desconhecido e de uma prostituta, 
que habitam sem direito o palácio, deve ter sido occasionada por circumstan- 
cias especiaes, que coincidem com a historia de Ymma e Enginhard. O homem 
desconliecido é decerto elle, e a prostituta ella. 

O resto da capitular tem caracter mais geral, posto que também se refira 
a escrupulosas pe.squizas para conhecer o estado e posição dos habitantes do 
palácio imperial e da cidade de Aix-la-Cliapelle. Radberto, recebedor das rendas 
imperiaes, é encarregado de fazer minuciosas investigações nas casas dos ser- 
vos do imperador, tanto em Aix como nas quintas dependentes d'esta residên- 
cia. Pedro e (lunzo são encarregados de fazer igual visita nas casas e ciioças 
dos escravos; Ernaldo visitará também as lojas dos negociantes christãos e ju- 
deus, procurando para isso a occasião em que estes não estejam cm casa. 

Estas escrupulosas pesquizas no palácio d'Aix e em suas dependências 
tinham por fim descobrir um ou muitos criminosos, e para tal conseguir (Carlos 
Magno pndiibe a todos, que tenham cargo no paço, o acolher ou occultar qual- 
quer homem, que commettera roubo, homicídio, adultério ou qualquer outro 
crime. 

Quem ousasse contrariar a este respeito as ordens do imperador, devia, 
se fora homem livre, levar ás costas o reu até à praça do mercado, logar onde 
o paciente seria punido; mas se era um servo, este, como o nobre, levaria ás 
costas o reu e seria açoitado. 

«Igualmente, no que se refere aos libertinos c prostitutas, (de gadalibus 
et meretricibxm) accrcscenta a capitular, queremos que estas sejam pelos que 



36 HISTORIA 

llies tenham dado asylo afé á pra^'a do mercado levadas ás cosias, onde serão 
açoitadas. Se o culpado se recusar a levar a mulher de má vida, que lhe fòr 
encontrada em casa, ordenamos que, coiijunctamente com ella, seja açoitado no 
mesmo sitio.» 

Esta capitular, estahelecendo a policia no interior do palácio, demonstra 
a repugnância de Carlos Magno pelas mulheres de maus costumes, pois que não 
só as expulsa da sua residência e domínios, mas até da casa dos seus mais 
humildes servos e do domicilio dos judeus, tidos como intermediários na pros- 
tituição. 

Como já dissemos, Carlos Magno não era homem de uma moralidaiie exem- 
' piar c tinha necessidades sensuaes a satisfazer.- Consta que este imperador, a 
quem os Cantos de Gesta representam como um gigante, não tinha com c(- 
leito menos de sete pés d'altura; a sua força era proporcionada, e pelo pe tio 
rei se poderá ajuizar qual era o comprimento do seu, que se converteu em me- 
dida linear, posta de parte pelo syslema métrico; todavia é-nos iiiipossivel, a 
projiosilo d'esta medida, [pedale, meus ara pedis) entrar n'uma delicada discus- 
são, cujo fim seria encontrar a verdadeira origem do pé do rei. Limitar-nos- 
hemos a dizer que na idade média se procuravam as relações de proporção 
entre as diversas partes do corpo, e que desde a mais remota antiguidade o 
pé revelava virilidade no homem, emquanto que na mulher tiniia uma signifi- 
cação ainda mais indiscreta. Neste sentido, falia Horácio na sua primeira sa- 
tyra de um. grande pé feminino : Depygis, nasuta, breri latera ac pede longo 
est. Aos curiosos do que se disse da estatura de ('arlos Magno e dos seus ae- 
cessorios, recommendamos o livro de Marquard Frecher, reimpresso por Duclies- 
ne, Bou(|uet e Pertz. 

Esta monstruosa estatura justifica o que a tradição conta dos amores de 
Carlos Magno. Uma lenda muito original colhida por Petrarca em Aix-la-Cha- 
pelle, onde tudo está cheio de recordações do grande imperador, apresenta-nos 
este monarclia sujeito a tentações como Santo António e peccador pela malícia 
do demónio. 

Teii(lo-se Carlos Magno enamorado loucamente d'uma mulher, cujo nome 
não é citado por Petrarca, esqueceu junto delia os interesses do seu povo e a 
gloria do seu reinado; o .seu único cuidado era viver para a mulher amada. A 
amante morre repentinamente e o imperador entrega-se a um desespero in- 
consolável, que noite e dia o tinha preso aos restos morlaes da que tanto 
aniára, e á qual não queria deixar dar sepultura, posto que a decomposição cor- 
res.se adiantada já n'aquclle cadáver, que o imperador continuava estreitando 
nos braços. 

Nem o arcebispo de Colónia, venerável prelado em quem o imperador ti- 
nha cega confiança, pôde arrancar dos seUs braços aquella adorada morta, nem 
ao menos mitigar-lhe a sua dòr; mas fazendo uma oração revelou Deus ao sa- 
cerdole a causa mysteriosa de tão grande dòr de Carlos. Na bocca d'aquella 
mulher havia um annel, tendo encastoada uma jiedra amorosa, c este talisman 
ligava invencivelmenteo imperador ao corpo vivo ou morto que o possuísse. Ape- 
nas tiraram o annel da boccá do cadáver, sentiu Carlos Magno desappare- 
cer-lhe o seu amor, e perguntou por(|ue por tanto tempo tinham deixado sob 
os seus olhos aquclle cadáver corrupto. 

.Mas, de repente, sentiu-se invadido de uma ternura alguma coisa dilTe- 
rente pelo prelado (|ue tinha o talisman; não podia separar-se d'elle, nem con- 
sentia (|ue o sacerdote se afastasse. O arcebispo, <|ue conhecia a causa, atirou o 
talisman para um lago immediato a Aix-la-Clia|)elle; mas o annel, submergido 
no fundo do lago, conlinuou exercendo o seu poder allractivo, ins|)iraiulo a Car- 
los Magno a mesma jiaixão, uiiicamcnle dilíerentc no objecto. 

Carlos enamorou-sc então do lago, e não querendo mais separar-se d'ellc 



DA PROSTITUIÇÃO 



37 



fi\ou alli a sua residência e a capital do seu império, e em testamento ordenou 
(jue alli fosse enterrado, para que no tumulo ainda podésse ouvir o lago mur- 
murar amor aos eccos do seu nome glorioso. 

Carlos Magno estava em muito boas relações com a egreja para receiar 
as suas admoestações; evitava também com grande prudência o dar escândalo, 
e tudo que se referia aos seus amores era unicamente passado nos seus gyne- 
ceus. \ã(» tolerava entre os seus vassallos a relaxação dos costumes, que a au- 
ctoridade ecciesiaslica liie denunciava, declarando-se ellc impotente i)ara a cor- 
rigir. Para fortalecer a auctoridade eeclesiastica, em 80o fez uma capitular, pro- 
hibindo aos indivíduos d'um e d'outro sevo, sob pena de sacrilégio, o commet- 
lerem adultérios, sodomias, incestos e outros peccados contra o matrimonio. 

O imperador motivava as suas probibições na observação de (|ue os pai- 
zes, cuja população se entregava a sensualidades illicitas, aos adultérios, ás tor- 
pezas de Sodoma e ao commercio da prostituição (muliai reijiones, quo: jain 
dieta inlicila et adulteria tel sodomicam luxuriam oel commi.rlioiífm meretri- 
cem sectatiC) neiíi tinbam constância na fé, nem valor na guerra. 

Portanto, o reu d'aquelles excessos perderia a sua qualidade e direitos, 
sendo recídbido á prisão até ao dia da penitencia publica. 

Sobremaneira nos causa extranbesa o não encontrarmos nas capitulares de 
Carlos Magno medida alguma de precaução ou de rigor contra os angariado- 
res de mulberes, mister cbamado lenonia, e ainda sobrevivente ás perseguições 
dos códigos de Tbeodosio c Justiniano. Ha, todavia, uma capitular, cuja data 
não é conbccida, que parece referir-se á Icnunia, posto que este vergonhoso 
mister não seja especialmente recommendado á attenção dos magistrados. N'esta 
capitular, em que os sacerdotes, os diáconos e os outros membros do clero são 
probibidos de admittir nos seus domicílios mulberes extranhas, em que a clé- 
rigos e frades se probibe o entrar, comer e beber em estalagens, nota-se o se- 
guinte artigo : 

«/'í manfjones et cociones et nudi honiines, qui cum ferro vadunt, non 
sinantur va(jari et decopliones hominibus ayere.» 

Não sabemos o que são estes homens nus de espada, posto que nos in- 
clinemos a crer que ba alteração no texto, na palavra nudi, que não tem sen- 
tido, e que pôde ser substituída por mnndi. 

Esse artigo ficaria significando : 

«Oue os corretores e negociantes francos, que andam com armas, já não 
podem por aqui e alli andar enganando gente.» 

Seria fácil demonstrar com uma dissertação philologica que a baixa lali- 
nidade empregava a palavra mnntjones no sentido de corretores e não na de 
larápios, ou ladrões: maniji tinha succedido a leiw. Cociones, que devia tra- 
duzír-se litteralmente por negociantes, eram os corretores da mais intima es- 
pécie. Um escriptor do decimo século, citado por Ducange, diz que os ladrões 
só foram designados por inangones por aquella época. Ducange diz também que 
cociones é um svnonymo de revendedores, que corriam as feiras e que unica- 
mente se occupavam em negócios vergonhosos. 

Os lenones certamente existiam, mas occultavam-se sob nomes e oc- 
cupações diversas; pôde provar-se, por exemplo, que em toda a idade média 
os negociantes de cavallos, mulas e burros negociavam também lucrativamente 
com a prostituição. Mas é notável que as expressões lowciniuin e lenonia, 
leno e lenarius, lena e lennria raras vezes são usadas pelos escriptores catho- 
licos da França merovingia e carlovingia. Da ausência da palavra não se deve 
deduzir todavia a ausência do facto. Applicando a critica histórica a uma lenda 
do sétimo século, descobre-se um leno no numero dos santos, sob o nome de 
Lenogesilo. Parece-nos inquestionável que este nome seja composto de leno e 
Gesilus, que seria o nome do personagem, e leno a sua qualidade. Este Leno- 



38 HISTORIA 

(jesilo, que vivia iio tempo de Ciclario ii (610,) attraliiu á sua vivenda uma 
virgem chamada Agnelleda, e fel-a professar: um e outro viviam juntos e mi- 
litavam valorosaujente no exercito do Senlior {strenue Domino militanl.) O diabo 
teve inveja da felicidade d'este par, e segredou aos ouvidos do rei (|ue um tal 
Lenogesiio seduzira uma virgem, vivendo com ella na im|)iedade e libertinagem 
i^inodu le<jiliina conjuyia violanle^, inter se invicent, nefandis studiis comniis- 
centur.) 

Clotario mandou chamar os pretendidos cúmplices, mas por um milagre 
ficou convencido da innocencia de Lenogesiio. Este santo varão, ao chegar ao 
palácio do rei, que estava ausente, teve frio e mandou a sua companheira pe- 
dir algumas brazas a uns padeiros^, que alli perto a(|ueciam o Ibrno. Os tornei- 
ros, vendo (juc Agnelleda não tinha onde levasse as brazas, disseram-lhe mo- 
fando : «Leva-as no manto.» O que ella cHeclivamente fez, trazendo as brazas 
sem que o manto nem ao menos tivesse ficado chamuscado. 

As testemunhas d'este milagre contaram-n'o ao rei, o qual os encheu de 
presentes, deixando-os ir em paz. I)'este modo o leno Gesilo veio a ser S. Le- 
nogesiio na lenda conservada pelos BoUandistas. A sua companheira Agnelleda 
não leve a dita de ser canonisada. 

Os successores de Carlos Magno, provavelmente contra a prostituição, fi- 
zeram muitas capitulares, que nós não possuímos; pois que Dulillct, que tinha 
ao seu dispor o Tliesouro das lienes Cartas, e que redigiu a (lakria dos reis de 
França, baseand(j-se em doecunientos originaes, diz que o primeiro cuidado de 
Luiz o Benigno, depois da inoite de seu augustíj jiae «foi limpar e reformar a 
corte d'aquella iinmundicie, conhecendo que infectava commummente o impé- 
rio ou reino.» 

Uma capitular, que pbssuimos, accrescenia uma extravagante penalidade 
á dos crimes de libertinagem. Toda a mulher, conhecida por ter vida escanda- 
losa, era condeinnada a percorrer os campos, nua da cintura acima e com um 
letreiro na frente, declarando o crime. Todos tinham o direito de accusar uma 
mulher de prostituta ou adultera. O juiz recebia a denuncia e instruía o pro- 
cesso; mas o ser denunciante tinha certos inconvenientes, que embaraçavam 
os mais preversos no uso d'este género de vingança. 

O accusador tinha de provar o que denunciara por meio da prova judi- 
ciaria, com a cruz, com a agua a ferver, ou com o ferro em braza, ou em um 
combate. A mulher aceusada fazia-se representar n'eslas provas por um cam- 
peão, que i)agava condicionalmente. 

Este campeão, por mais certo (|ue estivesse na justiça da sua cliente, não 
se expunha sem inquietação ás provas, de que devia sahir absolvida ou con- 
demnada uma das partes. 

De todas estas provas, a da cruz era a menos perigosa, e dependia me- 
nos do acaso, do que da força physica dos pacientes. Aquelle dos adversários, 
que, encostado a uma cruz, mais tempo estivesse na posição de Jesus eruci- 
íicado, era o que ganhava o pleito; o outro, pagava uma multa, e além d'isso 
solíria a penalidade do crime. 

Frequentemente succedia, que, não encontrando a aceusada quem qui- 
zcsse expòr-se ás provas, era ella mesma obrigada a sollrel-as, sem contem- 
plações para com o seu sexo, e para com a sua fraqueza. Na prova da cruz, 
era a mulher, por mais fraca que fosse, quem tinha a vantagem. Por isso esta 
prova era a frcíinenteinente empr<'gada, (|uando um mai'ido, aceusado [)ela es- 
posa de impotente, tinha de provar que sabia cunqirir os seus deveres con- 
jugaes. 

A imperatriz Judilh, sendo aceusada de adultério com Bernardo, conde 
de Barbaeena, ollereceu justilicar-se, por meio do fogo ou pelo combate; mas 
OS seus inimigos, os lilhos de seu marido, Luiz o Benigno, recuaram deanle 



DA PROSTITUIÇÃO 39 

de qualquer justificação, e obrigaram seu pae e sua madrasta a retirar-se cada 
um para conventos dilTerentes. 

A maior parte das vezes, uma mulher, accusada de libertina, embora 
innocente, preferia sujeitar-se á penalidade do crime imputado, a cxpòr-sc ás 
terríveis provas do duello judiciário. 

Um dos exemplos mais notáveis d'estas provas em matéria de prostitui- 
ção teve logar por aquelle tempo (8-)S,) por occasião do divorcio de Lothario, 
rei de Lorena. Este príncipe, filho segundo do imperador Lothario, havia amado 
a joven Valdrada, creada no gyneceu de Aix-la-Chapellc, antes do seu ca- 
samento com Teulherga, Iliba do conde Bosou e não podia acosfumar-se a vi- 
ver separado da sua antiga amada. V(dtou, pois, pura junto d'ella, que estava ' 
n'um dos seus domínios na AIsacia, e quando Valdrada lhe deu um filho, re- 
solveu repudiar a legitima esposa. 

Apresenlaram-se testemunhas, que accusaram Teutberga de ter tido re- 
lações incestuosas com seu irmão Hucberto, de ter ficado gravida e de ler as- 
sassinado o fruclo d'esscs amores. Eslas testemunhas, evidentemente instiga- 
das por Lothario e Valdrada, aprcsentaram-se muito sabedoras das particulari- 
dades secretas do incesto, allribuindo a Hucberto as mais abomináveis devas- 
sidões. O venerável Hincmar narra assim as circumstancias do incesto (Opera 
Tit. I, pag. 568:) 

«.Fraler suas cnm ea masculino concubito inter feniora sicnt solenl 
masculi in tna.scidos furpiludinem operari, scelns fuerit operalum et inde ipsa 
conceperit. (Juapropter, ut celarelur flagilium, potnm hansit et partam abor- 
tricit. » 

Os annaes de S. Berlino confirmam este mesmo facto, sem explicar como 
um acto conlra-naturam dera fruclo: Fralrem suam sodomitico scelus sibi 
commi.rtum. 

A rainha Teutberga escolheu um defensor, que se submetteu por ella á 
prova da agua a ferver. O defensor ouviu missa, commungou, mudou de ves- 
tuário, envergando uma túnica de diácono, bebeu um trago de agua benta, e 
esperou que fervesse a agua na caldeira; cm seguida, atirou para dentro uma 
pedra e depois metteu o braço nu c tirou a pedra. O braço foi immediatamcnte 
ineltido n'um sacco sellado pelo juiz; no fim de fres dias abriu-se o sacco e 
acbando-se o braço sem lesão alguma, Teulberga justificada voltou ao tbalamo 
real. 

Mas Lothario e Valdrada queriam o divorcio de Tcutbepga, e portanio 
pozeram em duvida a validade da prova e reclamaram outra mais decisiva. E por 
fim, para evilar demoras, Lothario convocou em janeiro de 860 um consistó- 
rio solemne, composto de 70 homens seus afieiçoados, e elle mesmo presidiu 
no seu palácio de Aix-la-Chapelle. Teutberga compareceu ante esta assembleia, 
e confessou que seu irmão Hucberto havia efleetivamenlc abusado d'ella, vio- 
lentando-a (?io>i tamen sua sponte, sed violenter sibi iníalum, dizem as actas 
do concilio de Aix.) 

Noutro consistório, reunido no mez seguinte, e em que também compa- 
receu Teutberga, confirmou esla as declarações anteriores : 

«Confesso, disse, que meu irmão, o clérigo Hucberto me corrompeu na 
mais tenra infância e eommelteu em minha pessoa aclos impudicos contra a 
natureza (l'roflteor quia germanas meus Hucbertus, rlericus, me adolescentii- 
lam corrupit, et in meo corpore, contra naturalem usam fornicalionem. e.ver- 
cuit et perpertravit.) 

Teulberga foi condemnada a separar-se do marido e a fazer penitencia 
n'um mosteiro; mas pouco depois retratou as confissões feitas e dirigiu-se ao 
papa Nicolau i, protestando contra a sentença que injustamente a condemnára. 

O papa encarregou dois bispos de impedir que o rei apodrecesse na im- 



40 HISTORIA 

imindicic c luxuria (in luxuria .ilfrcorea putrifiere, diz a carta de Nicolau i) e 
que dirigiriam os trabalhos d'um concilio, que se reuniu em Metz para julgar 
do recurso em ultima instancia. 

O concilio confirmou a sentença do primeiro juiz, e o papa fulminou um 
anathema contra o rei Lotliario. 

«Se se pode, todavia, diz, chamar rei a quem, longe de domar os seus 
apetiltes por um regimen saudável, cede aos movimentos illicitos de uma lu- 
bricidade que o enerva.» 

O rei despresou a decisão do concilio de Metz, dizendo que era menos 
um concilio que um logar de proslituição, pois n'elle se tinha protegido o adul- 
tério, {tmnquam adultério facenlein prostibulum appellari deceniimus.) Des- 
presando também o anathema do papa, continuou vivendo com Valdrada; mas- 
|)apa recorreu a todos os soberanos e bispos para combater Lothario com as 
armas tcmporaes e espirituaes. 

«O senhor, que simultaneamente possue uma esposa e uma concubina está 
cxcommungado, escreviam Nicolau e os seus partidários cm circulares que com- 
moviam a chrislandadc. Não é licito repudiar a mulher legitima, para tomar 
outra ou substituil-a por uma concubina. Só é licito repudiar a esposa por 
crime de fornicarão.» 

A estas formulas de direito canónico, respondia Loihario (|ue sua mulher se 
liavia prostituído antes do matrimonio. Adon, arcebispo de Mcnna, e\|)licava: 
«Um marido não pôde pedir o divorcio, quando, depois de havcr-se casado com 
uma mulher desflorada, viveu com ella por muito tempo, sem fazer a menor 
reclamação.» 

Lothario persistia no seu propósito, vivendo com Aablrada; mas viu-se 
ameat>ado pelas armas dos seu visinhos, e aquelle Hucberto, a quem se tinham 
atlribuido tantas e Ião grandes infâmias, sahiu da sua abbadia de S. Maurício 
e S. Martinho, para pedir contas das atrozes calumnias arremessadas contra sua 
irmã e contra elle. Hucberto foi niorlo, no momento em que a vicloria se in- 
clinava a seu favor, e um enviado do papa veio intimar Loihario a que se re- 
conciliasse com a esposa e expulsasse a concubina. 

Lothario cedeu: mas, mal tinha sido recebida Tcufberga, teve esta de fu- 
gir para junto de Carlos o ("alvo, para pòr a sua vida em segurança. Nicolau 
excommungou então solemnemente Lothario, que fez o seu ultimo esforço de 
resislencia, accusando sua mulher de adultério, olFerecendo provar a accusação 
por meio de duello. I)'esla ullima prova não sahiu vencedor Loihario e teve 
de fazer entrar na abbadia de Remiremont a sua querida Valdrada. Nicolau 
chamára-o a Roma, para lhe levantara exeommunhãi»; Lothario obedeceu, mas 
soube no caminho (|ue Nicolau morrera, tendo-lhe succedido Adriano ii. 

Este novo papa não foi menos inflexivel do que o antecessor: esperou o 
rei Loihario no convento do Monte Casino, e antes de o admiltir á mesa da 
communhão, fcl-o jurar que não tinha tido commercio algum carnal, nem ne- 
nhum outro género de relações com a excommungada Valdrada. Lothario, 
posto que tivesse trcs filhos d'essa concubina, jurou descaradamente tudo quanto 
o papa quiz, e este, apresentando ao perjuro o pão c o vinho, accrescentou: 

«Se te reconheces inniic<'nte do crime de adultério, se tens a firme reso- 
lução de não mais cobabitar com a concubina Valdrada, vem conliadamenie 
receber, em remissão dos teus peccados, a tua salvação eterna; mas, se ainda 
tencionas voltar ao lodaçal da prostituição (íit ad mecha: wluntabrum rodeas, 
dizem os annaes de Metz) não recebas este sacramento, pois esta consolação 
da tua alma seria a lua condemnação eterna. 

Loibariíi consummou o .sacrilégio, e apressou-se cm voltar aos braços da 
adorada Valdrada. 

Mas não mais põdc vèl-a, pois foi surprchendido por morte repentina no 



DA PROSTITUIÇÃO 4'l 

caminlio, o que o impediu de recomeçar as licenciosidades da sua vida passada 
(G de agosto de 869.) 

O concubinato, auctorisado pela lei salica e pelos mais códigos bárbaros, 
havia resistido por mais de trcs séculos á disciplina da cgrcja catholica, e a 
igualdade da mulher para com o homem, proclamada pelo Evangelho, estava 
finalmente estabelecida na instituição do matrimonio chrislão. 

Estavam lançadas as bases duradoiras para a organisaçtão da familia e 
para a constituição d'uma nova sociedade. Embora, por muito tempo, os hábitos 
viciosos da velha sociedade barbara tivessem de rellectir-sc nos costumes da 
nova, embora, por vezes, as liberdades licenciosas do paganismo grosseiro obs- 
curecessem as sãs virtudes do cbristianismo, a mulher reconquistara n'estc pe- 
ríodo, direitos que a civilisação de continuo iria ampliando nas suas manifesta- 
ções mais nobres. 

A Egreja Catholica, pelas suas cathcchescs e com os seus rigores, arran- 
cara á selvageria dos bárbaros a nobilitação da mulher. Desde então a esposa 
deixou de ser a escrava que apenas produzia filhos para a tribu, para ser a 
companheira extremosa do marido c a mãe carinhosa dos seus filhos. 



Historia, da PaosiiTOiçÃo. Tomo ii — Folda 0. 



CAPITULO V 



SUALMARIO 



Carta do S. Hoiiific!o ao Papa Zar liarias, sobro o pslado moral dr.s conventos, nos tempos merovinírios.— Re- 
?ra lio S- Columliaiio.— Os bispos leiriiniiios.— Causa priiii'ipal dos excessos ria viila monástica.— Inlliuncia cios cos- 
lumos clericaes nos costumes i!os seoulaos.- O clero secular.- Os filhos de lloli,'illi.—Teslanii Oto ile Tiir|iiii, liispo 
dl! Limo^íes.— Os monges de Moyen-Moiilier e do Sen: nes.— O eininilio Nicelu:}.— M.ssrâ ilelicaila ilo aljliade Muni- 
lio.to.— A alma de liolmin, íúspo de Chalon?.— Eslbiços do Papa !Jri'gono vii, pa^a dÍ5ei|}lmar os co.slumes da e;;iuji 
franceza.— .\ sua caria aos bi.^pos.— As torpezas da vida cleriral são o llieraa lavoíilo de todos os aitislase litteralos 
d'aipiella epi ca.— l'epravaeão geral.— O anuo lOCO.— Opinião unaidiiie dos eseriptores de então sobre a ilepravação 
piiiliinda do estado social.— ,\ sodoaiia era o vicio mais commuin em todas as classi'S.— O anaelioieta alli^mão.— O 
n- Io de Roberto do l)i;d)o. — Os uoiniandos. — luDuencia dos seus costumes nos povos, (pie compnstavani.— (.orno 
Kninia, mulher ile Giiilliernic, duipie de Aquilauiae conde de Puiliers, se vingou da sua rival, a viscondessa de Thuars. 
— De que nujdo Kbles, lierileiro do conde d.; Coniborn se vingou de seu tio e tutor liei nardo. —Factos concernentes 
aos actos matiiuioiíiaes.— Factos relativos ao incesto, ao iulanlicidio c aos abortos.- Peccados ci.ntra a natureza.- 
Piocesso criminal.— Censuras do poeta AbLon, A França, pelos seus vicios.— C. nsuras ilo aljbade Celles a Paris pela 
sua conupção. 




PRECISO ciicí^ar ao reinado tlc Luiz viii, para cnconlrar uma 
oídonayão real, rt^Ialiva à prosliliiição; ma.s nfio deve deduzir-sc 
da íalía de regiiianicnlos cspeciacs, sohro a matéria, por espaço 
de Ires seeulos, que o eslado dos ensliimes lui'i>íiva imileis cs- 
(cs reguianieiiíos e qiic a proslitnieão pii!)liea desappareeera da 
Franea sob o influxo moralisador da cgreja. A' falia de monu- 
mentos da aiili;^'a jurisprudeneia, que talvez liajain existido, mas (pie não Scão 
encontrados nas collecçõcs dos documentos reaes, podemos provar com o tes- 
iemunli!) dos contemporâneos, que nunca os costumes estiveram mais corrom- 
pidos, nem precisaram mais tie reforma, de reprehensão e ememla. 

Durante aqtiellc periodtí de guerra, de invasties e revolução social, os tra- 
bailios tie legislação são tnui raros e distinguem-se peio caracter transitoi'io, 
que os impede de sobreviver ás circumslaucias, que os i)riginaram : não b a có- 
digo que revele a vontade de se organisar sociedade estável, como as capitula- 
res de f.arlos Magno e os Estatutos de S. Luiz. Os reis succedem-se muito ra- 
pidamente e sentem-se em extremo mal senladiís no tlirono, para pensarem na 
grande íd)ra de oigani.sar c moralisar os seus Estados: nem Icem tempo, nem 
cuidam de molillcar as instituições dos seus antecessores. 1'iJdo dizer-sc cmn 
certeza que, desde Carlos Magno até S. Luiz, a policia da prostituição pepina- 
neceu estacionaria, sem solTrer metamorjiliose alguma, em(|iianlo fjiK.' a prosti- 
tuição, alentada pela indilíerciíça dds magislradds, não cessou de esíendcr-sc 
c arreigar-sc no |)0V(). 



44 HISTORIA 

Não Icntarcmos clomonslrar a não cxisfcncia de precauções Icgaes, de me- 
didas cocrcilivas e de proliibiçõcs regulares em interesse dos costumes públi- 
cos; mas ser-nos-hia diiricil provar que os costumes não eram detestáveis, 
n'aquella época de barbaria, de ignorância e de embrutecimento. 

A mais vcrgonliosa corrupção penetrara nos conventos dos tempos nie- 
rovingios. Em 742, S. Bonifácio, bispo de Mayenna, escrevia ao papa Zacba- 
rias : «Os bispados são quasi sempre providos ení leigos ávidos de riquezas, 
ou em clérigos prevaricadores, que os gosam mundanamente. Tenho encon- 
trado nos que se iniiiuiam diáconos homens desde a infância habituados ao adul- 
tério e aos vicios mais infames; de noite, dormem com quatro, cinco concubinas 
e ás vezes mais (Inveni inter ilíosdiaconos qiios nominant, quia pueritia 
sua semperin stupris, semper in adulleriis et in omnihis semper spurutiis viam 
ducentes sub íali testimonis venerunt ad diaconaiuin ; et modo in diaconato 
concubinas quatuor, cel quinque, vel plures nocte in ledo habentes.») 

Os reformadores das ordens religiosas alalbaram apenas' o mal, sem o 
destruírem na origem. S. C(jlumbano, que por este tempo promulgou a sua re- 
gra, introduziu n'clla esta severa clausula: 

«O que familiarmente e em sitio isolado fallc com uma mulher estará 
dois dias a pão e agua, ou levará duzentos açoites.» 

As regras mais rigorosas relaxavam-se immcilialamente nas communida- 
des, onde constantemente se mantinha o fogo das paixões scnsuaes. O escân- 
dalo na vida monástica começava sempre pela incontinência. Nem os concílios 
podiam reprimir as paixões dos frades, paixões tanto mais irresistíveis quanto 
mais refreadas estavam : sabiam, como energicamente o diz S. Jeronymo, que 
o poder do diabo se occultava nos rins (diabolo ririus in lambo;) esforçavam-se 
por tirar a nuilher da vista e do pensamento do homem: comprehendiam que 
as mulheres legitimas dos bispos e sacerdotes acceites pela egreja primitiva 
eram apenas occasiões de peccado. 

«P(jde supportar-sc, exclamava Verano, bispo de Lyão em uma assem- 
bleia (em 585), póle soiTrer-se que o servidor do aliar, o homem chamado á honra 
de accrcar-se do Santo dos Santos se macule com as indignas delicias da car- 
ne, e que um clérigo, allegando direitos ao matrimonio, preencha simultanea- 
mente os deveres de sacerdote e de esposo?» 

Os bispos femininos (episcopce) foram pouco a pouco desapparecendo ; o 
celibato veio a ser condição indispensável para os ccclcsiaslicos e a entrada 
nos conventos de homens foi proliibida ás mulheres, assim como nos conven- 
tos d'estas foram prohibidas as dos homens. 

Mas isto não passava de lettra morta; a auctoriJade da egreja tinha po- 
der para legislar, mas faltava-Ihe força para se fazer obedecer. Os conventos, 
por consequência natural das paixões humanas, na sua maioria eram receptá- 
culos de impurezas e era preciso duas ou Irez vezes em cada século introdu- 
zir n'clles uma ref()rma jiarcial, se não eomplela. Tal é a hisluria de quasi to- 
dos os mosteiros, em que o escândalo muitas \'ezes se escondia, embora a com- 
nuinidade fosse libertina. Ordinariamente apenas por vagos rumores se sabia 
do que lá deniro nos mosteiros se passava. Quando o bispo julgava aproposi- 
tado inquirir do mal, as pcsquizas descobriam tacs horrores, que o pudor chris- 
tão das auetoridades da egreja julgava melhor cobrir misericordiosamente tão 
graves escanclalos. 

A eau.sa principal dos excessos da vida monástica era a visinhança e o 
frequentarem os dois sexos uns e outros mosteiros; aqui o abbade ou prior di- 
rijia as religiosas; acolá, pelo contrario, era a abbadessa ou prioreza que exer-. 
eia soberania sobre os frades. Eslas continuas relações dos dois sexos no re- 
cinto das abbadias originavam muitos abusos, que a aucloridade do bispo não 
podia re()r'mir. 



DA PROSTITUIÇÃO 45 

Os costumes do claustro tinham deplorável influencia cá fora no povo, 
que não pretendia ser mais virtuoso que os seus confessores, c o clero secular 
não dava melhores exemplos aos seus freguezes. Martiniano, monge de Rahais, 
no decimo século, dizia aos sacerdotes do seu tempo: 

«E' direito vosso ter mulher ou ter relações com mulheres? Polluis o 
vosso corpo com diversos géneros de luxuria, esse corpo creado para receber 
o alimento dos anjos !» 

Este Martiniano, no seu tratado maliciosamente intitulado De laude rno- 
nachorum, censura aos seus coliegas o «viverem como dissolutos em vez de 
se armarem com a espada incorruptível da castidade, e de santificarem as suas 
mãos com boas obras.» 

O padre Berlhollet, na sua grande historia do Luxemburgo, apesar de 
ser jesuita, é obrigado a confessar que o clero do século decimo havia esque- 
cido a santidade da profissão, e já se não recordava de que a continência fi- 
zera a gloria da egreja. Vivendo com os povos, julgavam não haver distineção 
alguma entre elles, e facilmente se persuadiram que deviam ter mulheres. 

Estes clérigos depravados eram os chamados tilhos de (loliath, {rleri ribaldi, 
qui vulíjo dicuntur de fainilia Golicv, nas Constituições de Gauthier de Lens, 
em 923.) 

A parle sã do clero magoava-se, vendo os progressos d'aquella gangrena 
moral, que nada podia conter. O piedoso bispo de Limoges, Turpio, morlo em 
944, fazia com amargura no seu testamento esta confissão; 

^<E nós mesmos, que devemos dar o exemplo, somos instrumentos da 
perda do próximo, c em vez de sermos pastores dos povos, parecemos lobos de- 
voradores.» 

Não é este o logar de evidenciar os grosseiros vicios da gente da egreja, 
que julgava tudo lhe ser permittido, por terem nas suas mãos o direito de per- 
doar peccados; não ousaremos peneirar nos archivos dos conventos c tomar 
nofa dos que foram reformados, excommungados e supprimidos, por causa das 
monstruosas licenciosidades dos que os habitavam; basta dizer que não se en- 
contrará uma abbadia celebre, em que os costumes claustraes muitas vezes 
não tenham soífrido o contagio da impudieieia. Tara citar alguns exemplos, em 
mil do mesmo género, basta lembrar que os monges de Moycn-Moutier e de Se- 
nones em Lorena viviam vida Ião escandalosa que foram expulsos por ordem 
do imperador da Allemanha; mas os successores ainda os excederam em liber- 
tinagem. 

Na chronica manuscripta de João de Bayon, possuída por Mr. Nocl, na 
sua bibliotheca em Nancy, vé-se que os monges de Moyen-Moulier se assus- 
taram com as theorias de um eunucho grego, por nome Nicetas, que em Cons- 
tantinopla aconselhava a castração de todos os noviços, destinados á vida mo- 
nástica. Estes monges corrompidos e corruptores, que mantinham relações in- 
fames ciim as raparigas das visinhanças e de noite as allrahiam ás suas cellas, 
imaginaram que a Iheoria de Nicetas teria como resultado o arrancar-se-lhes a 
fonte dos seus prazeres. O seu suslo fel-os encarregar o seu superior Hum- 
berto de ir a Constantinopla combater a heresia de iNicetas, e o abbade cum- 
priu a delicada commissão com satisfação de todos elles, pois salvou a virili- 
dade dos monges, derrolando o beresiarcha com o peso dos seus argumentos, 
n'um dialogo, em que o convenceu de querer transformar os servidores de 
Deus em sacerdotes de Cybele. 

A' volta, soube que a sua abbadia dera mais um passo no caminho da 
perdição, e julgou poder intimidar aquelles espíritos, ameaçando-os com as 
penas do inferno : 

«Quando atravessava os Alpes, contou-lhes elle, encontrei uma legião de 
demónios montados em cavalíos de fogo. Levavam a alma de Gobnin, bispo 



Í6 HISTORIA 

ilc Chalons, que acabava cie ser surprehcnilulo pela morte no próprio momento 
de commetter o peceado contra o sexto mandamento, com uma religiosa. Per- 
guntei ao chefe d'aque!lc exercito infernal, se possível seria resgatar aquelia 
alma com orações; mas o espirito maligno respondeu-me com uma gargalhada 
voliando-mc as cosias, e todos os demónios as voltaram também, fa7.endo ges- 
tos indecentes.» 

Os monges a quem isto era contado imitaram o descortez procedimento 
da legião infernal, mas agradeceram todavia ao prior o triumpho alcançado 
sobre iSicetas, dizendo: 

«Agora resta-nos provar que um bom monge \Mnc dispensar-se de ser 
um bom eunucho, e que um bom eunucho não poderia dar um bom monge.» 

Não queremos passear o leitor de convento em convento, iniciando-o na 
vida escandalosa que lá se passava dentro; basta dizcr-lbe que todos os claus- 
tros eram antros de prostituição (scorlationes fornices, diz um escriptor mo- 
nástico do século undécimo.) Gregório vir, que se esforçava em disciplinar os 
costumes da egreja franceza, escrevia em 1074 a todos os bispos: 

«Entre vós, toda a justiça é calcada. Tendes o costume de commetter im- 
punemente as acções mais vergonhosas, mais immundas, mais intoleráveis, que, 
á força de licença, se converteram em hábitos.») 

Explica-se a indignação d'este papa legislador, vendo um Mauger, arce- 
bispo de Ruão, commetter crimes, que exhalavam em volta, no dizer enérgico 
de (luilherme de Foiliers, um repugnante cheiro de vergonha; um Engucrrand, 
bispo de Laon, metter a ridículo a temperança c a pureza «com expressões, 
diz Guibert de Nogent, dignas d'uma prostituta;» um Manasses, arcebispo de 
Reims, que foi, segundo conta um contemporâneo «uma besta immunda, um 
monstro, cujos vicios não eram attenuados por qua!c(uer virtude;» um Hugo, 
bispo de Langres, maculado de adultérios e sodomias (sodomico elinm [laijitio • 
pollutam esse, lé-sc nas actas do Synodo de Reims, perante o qual foi levado 
cm julgamento.) 

Todos estes indignos prelados foram severamente castigados; mas estes 
exemplos fataes não eram menos seguidos, por grande numero de clérigos, que 
se indignavam das severas decretaes de Gregório vu. Tanto se linha apossado 
a libertinagem do clero, que a moralidade soílVia d'ellea mais teimosa opposição. 

«E' um herege e um insensato, exclamavam os da diocese de Mayença 
(Chronica de Lamberto Schaífin.) Ouer-obrigar os homens a viver como se- 
rias celestiaes, contrariando a natureza, dando redCa solta á crápula? .\ntes que- 
remos renunciar ao sacerdócio do que ao matrimonio.» 

Qiuisi todos eram casados ou tinham concubinas. Ives de Gharlres, nas 
suas carias, (Epist. 33), cila um prelado, que publicamente cohabilava com 
duas mulheres c que se preparava para adquirir uma terceira (qui publice sibi 
duo scorta copnlarit et teríiam pellkem jam .sibi prceparacit.) 

Apesai' dos decretos pontifícios, o chíro insistiu por muito tempo nas suas 
relações concubinarias, resit-tindo tenazmente á renuncia dos piwzeres (se pnl- 
licibue aã hoc nolunt. absiinere, nec pudicicice inhcersre,) diz Oderico Ailal. O 
mesmo historiador conta que, tendo o arcebispo de Ruão cxcommungado os 
que viviam na incontinência, foi por elles apedrejado. 

Os bastardos dos sacerdotes e dos frades, muHiplicavam-se iniinilamenie, 
e seus pães não se envergonhavam de dolal-ns, casal-os e enriquccel-os, á custa 
da egreja. iSão havia um cabido, cujos cónegos não estivessem abra:ados no fogo 
da luxuria, {(lall. Christ. til. i, appeud. pag. (>,) não havia diocese em que 
se contas.scni dez sacerdotes .sábios, castos, amigos da paz c da caridade, isen- 
tos de todo o crime, de toda a infâmia, de (|iialiiiier macula, {l-'iilp. Larnat. 
Episl. 17;) não havia convento onde a regra (ia (iidcm fosse escrupulosamenli- 
observatia, onde os homens vestidos de frades, lussem verdadeiros frades, {() 



DA 1'UOSTITUIÇÃO i7 

>iiiseri I Jizia o monge Marliniano, nós mo naciúali hábil u indiili, mdemur; 
monachi et non sumus I) 

O (lopravaclo proceder dos sacerdotes c frades era escandalosamente imi- 
tado pelas poi)ula(,'ões. O clero nem au menos pi'ocurava apparentar honestidade 
c era elle mesmo quem dava o assumpto dos seus vicios aos poetas, que o es- 
carneciam nos seus versos satyricos, aos pintores que faziam quadros c minia- 
turas, allusivas aos seus prazeres aphrodisiacos, aos estatuários que celejjra- 
vam estas orj^ias em obras de pedra, de madeira e marfim. Era este o (liema 
favorito da lilteralura e da arte; a intemperan(,'a dos frades, as suas sensuali- 
dades, o seu eynismo. Em parle alguma se Ic que os ccciesiastieos se olíen- 
dessem com a repruduc\'rio pela arte, das suas torpezas e infâmias. Elies próprios 
se divertiam com a descripção dos seus vergonhosos feitos, fazer.do reproduzir 
a epopeia escandalosa da sua vida, nas illuminuras dos missaes, nas esculptu- 
ras das egrejas, nos ornatos dos seus moveis. 

O talento dos csculptorcs, sem ccs.sar se applicava á perpetuação d'essas 
orgias e liceneiosidades, e por isso, existem tantas allegorias grosseiras, tan- 
tas caricaturas indecentes, tantos caprichos sórdidos, gravados nos capiteis, 
nos frisos, nos arabescos da arehilectura religiosa; ac|ui descobreni-se frades 
transformados em porcos, alli cães vestidos coni o habito; n'un!a parte o órgão 
gerador a|)pareec |)or baixo do habito d'um monge, n'outra freiras e diabos se 
entregavam a scenas pouco edificantes; e ainda n'oulra, mulheres nuas, são 
perseguidas por macacos, que lhes mordiscam as nádegas. O emblema da impu- 
reza é cop.imummente uma cabeça de Cliimcra, cobrindo os órgãos scxuacs mas- 
culinos ou femininos. Em todos estes grupos obscenos, o habito do frade ou da 
freira caracterisa a maligna intenção do a^ielor, que se diverte cm immortali- 
sar os vicios vergonhosos. 

Eram estes os primeiros que se riam d'aquella celebridade, e tanto assim 
era que deixaram subsistir tão escandalosas obras de arte, que na sua maior 
parte foram destruídas nos tempos modernos pelos exaggerados escrúpulos dos 
ccciesiastieos, a quem em vão pediram graça a originalidade de laes monumen- 
tos. E' essa a razão porque os mais extraordinários d'esscs capiteis, os que 
eram ornados com toda a sorte de obscenidades nos são conhecidos apenas pelo 
testemunho dos archeologos e dos sábios, que recolheram essas tradições. E 
por isso lambem julgamos que não se haja conservado o desenho d'uma escul- 
plura licenciosa, que se via cm Saint-Uermain-des-Prés, e que representava 
uma religio.sa, prostituindo-se ao mesmo tempo com um frade e um animal, 
que parecia lobo. Também cm Saint-Georgcs-de-Roche-ville, na Normandia, 
havia uma parte de columna, em que estava gravada uma horrível confusão 
de homens e macacos, competindo em incontinência e dcsavergonhamento. 

Em presença d'estes modelos de luxuria clerical, o povo não linha a pre- 
tensão de ser puro e virtuoso, chegaiido mesmo a ter uma espécie de emula- 
ção libidinosa, uma rivalidade libertina com os sacerdotes e frades. Os histo- 
riadores coevos, representam-os sob a forma de escorpiões e serpentes, com 
face humana {Ili.it. des comtes de Poitou, por .1. i5es!y, pag. 26i.) 

Assim comprehende-se bem c|uc tal existência lizesse crer no fim do 
mundo e no reinado do Aníe-Chrisío. Esta supersticiosa crença, fixada jielos 
prognósticos para o anno 1000, não era também de molde a melhorar os cos- 
tumes. Apezar dos terrores que o íim do mundo inspirava, todos se entrega- 
vam aos gosos, embriagando-se com os prazeres da carne (cnrnale ilkcebroe.) 
O mundo era cada vez pcioi', e por todos cim esperado o baptism ) d'um novo 
diluvio: (i-idebaíur sane mundus decliiiare ad vespsraiii, diz (iuilherme de Ty- 
ro, liv. I da sua Historia.) 

Os jioetas estavam de accordo com os pregadores, para annunciar que a, 
espécie humana tinha feito espantosos progressos na iniijuidade, c que a (Jeca=> 



48 HISTORIA 

dencia moral era cada vez maior. Um trovador do século decimo, citado por 
Raynouard (PocsiM orirj. des Trouv. tit. ii pag. 16) dizia n'um curto poema: 

Enfans en dies foren orne fallo. 
Mal home foren, aora siuit poior. 

Todos os escripforcs d'aquelle tempo são conformes sobre a profunda de- 
gradação do estado social, e todos dizem ser a causa principal o peccado da in- 
continência, que tomara proporções gigantescas. Alguns, fazendo doação dos 
seus bens ás egrcjas e aos mosteiros por temor do ,4nte-(]liristo, juslilica- 
vam-as com a crescente iniquidade dos homens ('niquilas quotidiana malicie 
incrementa siuiiii,) lè-se n'uina doação, feita á cgreja d'Anbely. Os doadores 
sentiam-se tão sobrecarregados de impureza, que se arruinavam para comprar 
a absolvição, que quasi sempre lhes era dada por um sacerdote, mais impuro 
e peccador do que clles. 

«Então viu-se, diz Raul Glaber na sua Chronica (liv. iv pag. 9.) reinar 
por toda a parle o menosprezo da justiça e das leis. Os homens deixavani-se 
arrastar pelas suas desenfreadas paixões. . . Justamente á nossa nação podem 
ser applicadas estas palavras do Apostolo: praticaes taes impurezas, que nunca 
se ouviu dizer que iguaes as commettessem os pagãos.» 

Oderico Vital, na sua Historia Ecclesiastica, (liv. vui, anno 1000,) accusa 
a geração contemporânea de deliciar-se com o que os mais honrados persona- 
gens dos tempos passados chamavam infame e vergonhoso. Ha a accrescentar 
que, não tendo apparecido o Anfe-Cliristo no anno 1000, os que sobreviveram 
áquella época fatal, julgaram-se auct )"isados a não receiar nenhuma vingança 
celeste, c mais se afundaram no tremedal dos seus vicios. 

Ha disseminadas algumas descripções d'estes vicios, ordinariamente dis- 
farçadas com vagas generalidades, e que, pelas lamentações que produzem na 
pouca gente séria daquelles séculos, não dillerem doutras obras do demónio. 

«Agora, exclama um poeta anonymo, n'um poema de versos, sobre a 
desventura do seu tempo, (7/í'.s^ des Gaulês, tit. xi, pag. 44o,) agora os ho- 
mens que levam vida escandalosa, libertinos e sodomitas, roubam, injuriam e 
despresam os homens honestos.» 

A asquerosa sodomia {moechi sodomit<e) era o vicio mais commum cm to- 
das as classes, tanto entre condes e barões, como entre humildes servos, tanto 
nas sombras da clausura, como nos salões luxuosos do abbade e do bispo. O 
diácono Pedro, cm nome do Papa Leão ix, pronunciou no concilio de lleims 
(1049) um discurso, em que os sacerdotes e seculai-es eram scvcramenle re- 
prebendidos pelos seus vergonhosos costumes. Estes haijitos haviam-sc de tal 
sorte inveterado em França, que o abbade Clairvaux, Henrique, escrevia ao 
papa Alexandre iii, em 1177. A antiga sodomia renasce das próprias cinzas. 
[Hist. de Paris, por Dulaire, edic. de 1837, tit. ii, pag. 40.) 

Oderico Vital, em muitos trechos da sua historia, faz notar o contagio do 
odioso vicio, que devia a sua recrudescência ao estabelecimento das raças nor- 
mandas, nas provindas galio-franeas. 

«Então, diz no livro viii, os etfeminados dominavam em todas as regiões, 
c sem freio se entregavam ás suas sórdidas licenciosidades: todos sem pudor 
abusavam das horriveis invenções de Sodoma {Tiinc e/feniinati passim in orbe 
diiminanbantur, indiciídinale dehacrhabanlur, sodomilicisque spnrtiis [cedi ca- 
lamiloe, flamis urendi lurpiler abutebanlur.y>) 

O mesmo historiador conta que um anachorcta famoso, consultado pela 
rainha Mathilde, mulher de Guilherme de Inglaterra, prophetisara esta invasão 
de Soiloma. O anacboiela |)rcdisse os males que ameaçavam a Normandia, sob 
o reinado de Roberto, lillio de Guilherme e neto de Roberto do Diabo. 



DA PROSTITUIÇÃO 49 

«Este príncipe, diz, similliante a um lascivo bode, en(regar-se-ha á sen- 
sualidade e ao roubo, apoderar-se-ha dos bens ecclesiasticos. Distribuil-os-ha 
pelos que Ibc prodií^jalisam os seus prazeres sensuaes, e pelos aduladores infa- 
mes (spurcisque lenonibus alii.sqiie lecatoribun di.stribuel.) A"o ducado de Ro- 
berto, os catainifas e os elleminados dominarão, e, sob este dominio, a preversi- 
dade e a miséria augmentarão terrivelmente.» 

E', pois, incontestável que a sodomia, que augmcntou com as crusadas, 
foi em França introduzida pelos normandos, que a deixaram como vestígios 
em todas as estações que fizeram, quer fosse para invernar, quer para esperar 
as suas bordas devastadoras. 

Abbon, no seu poema do cerco de Paris pelos normandos, imputa aos 
francezes o vicio ignominioso que queremos exclusivamente attribuir aos seus 
inimigos. Aquelles bomens do norte, como a maior parte dos bárbaros, não ti- 
nham escrúpulos nem vergonba em mutuamente se prestarem a esta abominá- 
vel prostituição: faziam um uso moderado das mulheres, que constantemente 
estavam gravidas ou aleitando os filhos, pois que a tribu, cuja força dependia 
do numero de homens, lhes pedia uma producção exhuberante, que os hábitos 
de relações voluptuosas entre marido e mulher não favorece. Tal foi de certo 
a origem e causa d'aquelles degradantes erros do sexo masculino. 

Os normandos não eram menos lascivos para com as mulheres, nem as 
violaram menos do que aos homens nas povoações por elles occupadas, pela 
força ou surpreza; unicamente respeitavam as creanças, isto é, matavam-as sem 
piedade. Os mancebos, esses, eram distribuídos e levados, depois de com elles pra- 
ticarem as maiores obscenidades, deante de suas esposas, que se não olTendiam 
com isso nem ousariam oppòr-se. 

O monge Richer, narrando uma expedição dos normandos que devasta- 
ram a Bretanha no século nove, diz que levavam os homens, as mulheres e 
as creanças : 

«Decapitam os velhos dos dois sexos, escravisam as creanças e violam 
as mulheres bonitas (feminas cero, quo' formosce cidebantur, prostlluunt.)» 

Pódc já fazcr-se ideia do terror inspirado pelo nome e fama dos norman- 
dos; despovoaram províncias inteiras; as cidades, florescentes antes da sua ap- 
parição, ficaram sem habitantes; depois de serem por elles abandonadas, as 
pittorescas margens dos rios, que elles tinham subido com os seus t)areos de 
fundo chato, convertiam-se em desertos; na passagem, deixaram impressos os 
seus hábitos infames, e, os vencidos, por muito tempo conservaram as infames 
tradições que os vencedores lhes tinham legado. 

Ao fixarcm-se no solo da Inglaterra, os normandos não trataram melhor 
a população indígena : não matavam os velhos, mas abusavam dos mancebos e 
ultrajavam as virgens, das quaes as mais nobres eram repasto da lascívia da 
immunda soldadesca (nobilis puella despicabiUnm ludibiio armifierorum pate- 
bant et ab immundis nebulonibus oppressoe dedecus suum deplorabant, diz Ode- 
rico Vital.) 

Deve presumir-se que os costumes normandos não haviam melhorado 
muito, depois de dois séculos, e que tão grandes libertinos continuavam a pas- 
sar bem sem suas mulheres, porque estas, durante a larga ausência dos seus 
maridos, sentiram-se abrazadas de tal concupiscência {soerá libidinis face ure- 
bantwr, diz o latim mais energicamente do que o descreveria a nossa língua) que 
tiveram de mandar aos ausentes mais d'uma mensagem em 1068, dízendo-ihes 
que tomariam outros maridos, se depressa não voltassem. 

O receio de ver do leito conjugal sahírem bastardos decidiu alguns nor- 
mandos a voltar para junto das impacientes esposas (/aò-c/ní.v (fomiua^ntí sui.<;,) 
mas o maior numero ficou em Inglaterra, onde encontravam com que distra- 
hir-se e consolar-se. Se as suas mulheres não se casaram todas, nem por isso 

HiSTOSU DA FSOSTITCICÃO. ToMO II— FOLHA 7. 



50 HISTORIA 

deixaram de lhes dar bastardos. Um poeta d'ac|uella época lastimava-se, vendo 
que «a lâmpada das virtudes se apaj^ára na ]\ormandia.» 

As demais províncias, que então compunham a França feudal, soh o ponto 
de vista dos costumes, não estavam então em mais satisfatória situação. Os 
senhores, sem pudor algum, faziam gala de todos os vícios. M. Emílio de la 
Bedoilière, na sua erudita Hisloire des tnceiírs et de. la vle privce des Fravçais, 
descreve episódios notáveis de selvagem impudor que caracterisa um e (tu- 
tro sexo, tanto nobres como servos. Em 990, corria o boato dç que (luilherme 
IV, duque de Aquitania e conde de Poitiers, tinha tido relações adulteras com a 
mulher do visconde de Thouars, em cujo palácio tinha recebido hospitalidade, 
e Emma, esposa de Guilherme, espreitava a oceasião de vingar-se da sua ri- 
val. 

Um dia viu-a passear a cavallo, indo quasi sem companhia, pelas visi- 
nhanças do eastello de Talmout e alcançando-a com um grande séquito de es- 
cudeiros, lança por terra a viscondessa, enche-a de ultrajes e entrega-a aos 
escudeiros. Estes apoderam-se d'ella, e, cada um por sua vez, durante uma noite 
inteira, a violaiam, obedecendo assim ás ordens de Emma, que os excita c con- 
templa {comilantes se qnatemis íihidinose nocte qvw iiiiminebal, lota e, a ahu- 
terentur, incitai.) 

No dia seguinte deixaram-na em liberdade, semi-nua e succumbindo de 
cançaço e vergonha. O visconde não pôde queixar-se nem tirar vingança c 
acceitou sua mulher deshonrada, emcjuanto (luilherme desterrava a sua para o 
eastello de (Ihinon. 

Em U)8(), vemos outra violação, menos repugnante nas suas circumstan- 
cias, mas consummada também em presença de testemunhas. Ebles, herdeiro 
do conde de Comboru, na A(|uitania, chegando á maioridade, reclamou do seu 
lio e tutor Bernardo o seu eastello e tei'ras. 

Este recusava allender a esta reclamação, e Ebles, reunindo gente de 
guerra, poz cerco ao eastello que em vão Bernardo procurava defendei'. Ebles, 
triuniphanle, entrou na praça, acabada de abandonar j)or seu tio; encontra 
Garcilla, sua tia, e sem se desarmar, em presença dos companheiros que o ap- 
plaudiam, saciou n'ella a mais repugnante e eynica lascívia (pnlnii morem 
coram mitllis Irrdavit. — Hisl. des marnrs de la ine prime des Fran., tit. n, 
pag. 343, e tit. iii, pag. 83.) 

JNão se estranham estes factos monstruosos e ainda se suspeitam outros 
mais espantosos, se é possível, (|uando se percorre com o pensamento por en- 
tre os antigos Peiiitenciaes: é alli onde ha a procurar os feitos occultos da 
prostituição na idade média; é alli onde se commette com toda a sua audácia 
o peccado da carne, que não se limitava a conjuncçõcs illicitas entre os dois 
sexos, mas cpie se comprazia com os caprichos e extravagâncias da mais e\e- 
cravel de|)ravação. Na verdade, como diz jM. de la Bedoilière, quizcra erér, 
para honra da humanidade, que os horrores descriplos nos Fenitenclae.s são 
puramente accidenlaes, e raras vezes achavam echo no tribunal da |)enilencia; 
masreapparccem a cada pagina nos 1'enilenriaes, que os classificam em dif- 
ferentes graus de malícia e castigo. E' certo, pois, que eram frei|nenles e (jue 
inoculavam, cada vez mais, uma corrupção latente por todo o corpo social. 

Não pofienios deixar de registrar estes horrores da prostituição; mas não 
os despojaremos do seu veu latino e procuraremos uma traducção prmlentementc 
allenii.ida dos 1'eiiileiiciaes modernos, que tiveram de respeitar a doutrina pc- 
nilenciaría da egreja. Temos (|nc dislinguír, n'csle código |irimilívo da conlissão, 
os factos que i-espeilam ao segredo do matrimonio, os (]ue se referem ao in- 
cesto, os relativos aos poccados contra a natureza e os que pertencem a crimes 
de bestialidade. 

Tudo quanto a egreja linha feito para proteger a pureza do matrimonio. 



UA 1'KOSTITUIÇÃO 51 

não ora mais que um testemiinlio evidente de tudo (|uanto se fazia no santuá- 
rio dos esposos, contra o objecto moral d'esta instituirão. Eram apenas pecca- 
dos vcniaes não consagrar a primeira noite de bodas, a praticas de devoção, 
(eadeni nocle pro revereacin ipsius beriediclionis in lirginitule [leniiitnednf, diz 
IU'.ííinnn, iiv. u ;) não se lavar o marido i|ue tinha usado do matrimonio, antes 
de entrar na of^reja {mariliis qni cum u.rore .sua dormieril, lavet se nnlequam 
intret in ecclesiam, Penitencial de Fieurv ;) entrar a mulher na egreja, no pe- 
ríodo da sua menstruação (wulierex menstruo tempore non inlrent ecclesiam ;) 
se, n'esta mesma época os dois esposos se tinham reunido iio leito conjugal 
(iíi tempore n^enslrui saníiuinis (jui tunc nupseril, HO dies pwniieal. Peniten- 
cial, de Angers;) se não tinham guardado uma continência absoluta aos domin- 
gos, nos dias de grandes festas, nos trez dias anteriores á communhão e du- 
rante as quatro semanas que precedem a Páscoa e o Natal. 

Porém, o peccado era já mais grave e a penitencia maior, (juando os es- 
posos se entregavam a phantasias obscenas, não desculpadas pelo privilegio da 
união dos sexos. (Si quis cum uxore sua retro nupserit, 40 dies jiwniteat; si 
in tergo três annos, quia sodomiticum seclus est. Penitencial de Angers.) 

As copulas carnaes, no matrimonio, não deviam ser senão uma obra casta 
e santa, com o único fim de procrear filhos e não com o de satisfazer os sen- 
tidiis. São estas as palavras de Jonas, bispo de Orleans, no seu instituto de 
seculares: «Oportet nt legitima carnis c(qnda causa sit prolis, non voluplatis, 
et carnis commi.rlio procreandorum liberorum sit gralia, non satisfactio vi- 
tioruin.y> 

O incesto multiplicava-se sob as formas mais horrorosas; o filho não res- 
peitava a mãe, a mãe não respeitava a innocencia do filho: o irmão seduzia a 
irmã: o |)ae corrompia a filha. Havia, porém, para estas abominações, peniten- 
cias de dez e quinze annos, durante os quaes o peccador se habituava ao jejum 
e á penitencia : 

nQui cum malre fornicaceril, /J annis., si cum filia et sorore, i2. 

«Si adolescens sororem, 5 annos, et si matrem 7 , et quandiu vixerit, 
nunqiian sine pa^nitentia, rei continentia. 

<iSi mater cum filio parindo fornicationem imitatur, si mater cum filio 
suo fornicnverit, tribus annis pa;niteat.» 

(Penilenciaes de Fleury e de Angers.) . 

Os infanticídios, os abortos não eram menos numerosos que entre os pa- 
gãos, que sempre os toleravam e ás vezes os approvavam. Ou se afogava a 
creança ao sahir do útero da mãe, ou a matavam, envenenando-a ou abrindo- 
Ihe uma veia. 

Havia homens e mulheres babeis, que vendiam drogas abortivas (/(«■;■- 
barii viri, mulieres inlerfectores infantum.) 

Outras drogas tornavam as mulheres estéreis e os homens impotentes. 
Para excitar o amor, ou antes o ardor sensual d"um homem por uma mulher, 
compunham-se poções ascjuerosas. 

«Interrogasti de illa femina quce menstruam sangidnem euum miscuit 
eivo vel potui et dedit viro suo ut comederet? et puoe sémen viri sui in potn 
bibit ? Tali sententia feriendos sunt sicul magi.» (Penitencial de Raban .Mauí-.) 

«Ília quív sémen viri sui in cibo niiscet, ut indi plus ejus amorem ac- 
cipiat, annos três pceniteat.y» (Penitencial de Fleury.) 

Os peccados contra a natureza tinham iiinumeraveis variedades aos olhos 
do confessor, que lhes applicava penitencias muito variadas também. 

A simples sodomia (s-í quis fornicarerit sicut sodjomitw, diz o Penitencial 
romano, tem quatro annos de penitencia ; porém a idade dos pcccadores esta- 
belecia muitas difierenças. A creança, o adolescente e o homem, não eram pe- 
nitenciados do mesmo modo, quando peccavam d'uma mesma maneira. Os pec- 



52 HISTORIA 

cados da juventude assimilhavam-se com frequência aos da velhice mais de- 
pravada: mas perdoavam-se mais facilmente e corrigiam-se com os annos. 

"Vueri sese inrlrew manihae inquinantes, ilies iO pnenileat. Si vero pueri 
sese inter femora sordidant, dies centum, mujores vero, trihus quadragessi- 
mus.» 

{Penitencial de Angers.) 

Os erros anti-pliysicos das mulheres eram penitenciados mais severamente 
do que os dos homens, como se a castidade fora mais necessária ao sexo que pos- 
sue o encanto irresistivol de attraliir o outro sexo. As mulheres religiosas entre- 
gavam-sc entre si a libertinagens, em que apparecia o fascinum romano e em 
que a arfe de gosar nada esquecia das licções impudicas da antiguidade. 

uMulier ctim altera fornicans, três annos. Sanctimonirlis femina mim 
sancíimoniali per mackinatum polluta, annos septem.» 

(Penitencial de Angers). 

«Mulier qualictimque molimine aut per ipsam anl cum altera fornicans.y> 

i<Si qtiis sémen in osmisenet, septem annos raaiteat.» 

(Penitencial de Fleury). 

A's vezes o incesto misturava-se com o peccado contra a natureza, e agra- 
vava a sua infâmia e penitencia: a sodomia entre irmãos, era um peccado que 
não podia ser expiado com menos de quinze annos de ahstinencia. 

«Qui cum fratre naturali fornicaverit per commi.rtionem carnis, ah 
ontni carne se ahstineat quindecim annis.y> 

(Penitencial de Fleury.) 

Todo o género de animalidade (apenas se pôde acreditar) figura nos Pe- 
nitenciaes, e apenas provoca uma penitencia temporária, embora a lei civil con- 
demnasse o criminoso a morrer com a besta, que tinha tido por cúmplice. To- 
das as bestas pareciam idóneas para esta aberração humana (cum jumento, cum 
quadrúpede, cum animalibus,) diz o Penitencial de Angers: (cum pecorhius, 
diz a eollec(.'ão de Reginon.) 

Nada mais commum na idade media que este crime, que se castigava 
com a morte, quando era evidente e confirmado por sentença do tribunal. Os 
registros do parlamento estão cheios de feitos d'esta espécie, pelos quaes os 
desgraçados culpados eram queimados com a sua cadella, com a sua cabra, 
com a sua vacca, com a sua porca, com a sua pata. No emtanto, só encon- 
tramos na carta de Uaban Maur a Uegimbold, arcebispo de Mayence, a dis- 
cussão canónica d'cstas enormidades, que então nada admiravam. 

«Pertia quceslio de co fuit, qui cani feminoe inrationabiliter se nuscuit, 
et quarta de illc, qui cum vaceis sa-pius fornicatus est? Qui cum jumento vel 
pecore coierit, morte moriatur. Mulier quae succulmerit ctdlibet jumento simul 
interfici.rlur eum eo.y> (Cap. de Baluze, til. Append. ("oi. 1378.) 

Nas capitulares de Ansegise, os bispos e sacerdotes são convidados a com- 
bater esta de|)ravação, que se considerava como um resto de paganismo e que 
se perpetuou por mais tempo no campo que nas cidades ; mas lodos os legis- 
ladores reconhecem que simiihantc crime, que rebaixa o homem até ao nivel 
da besta, mei-ccc a morte. E com melhor vontade se perdoaria á besta que ao 
homem: mas niatavam-na e lançavam a sua carne ao monturo, temendo que, 
por arte do demónio, se gerasse um producto monslruiiso do connuhio do ani- 
mal com o homem. 

Emlim, para dar uma ideia completa da persistência dos libertinos nos 
seus detestáveis hábitos, recorilaremos um processo-crime, que se refere a um 
peccado cimlra a natureza, (|ue se chamava forniratiu inter femora. 

Ducangc ('• quem nos cita este singular documento, tirado d'uma ordena- 
ção de Eduardo i, rei dlnglatcrra. Ksta ordenação tem, provavelmente, a data 
dos jirimeiros annos do decimo século. 



DA PROSTITUIÇÃO 53 

Um homem chamado Simão linha relações concubinarias com certa mu- 
lher, de nome Malhiide, com quem nunca tivera verdadeiras copulns. Foi sur- 
prelicndido um dia, em llagrante dclicto de iilicito commereio, pelos inimigos 
d'esla concubina, que se queriam vingar d'elle, obrigando-o a casar com ella. 

Maliiilde declarou, pois, perante a justiça, que tinha vivido muito tempo 
conjugalmente com Simão, mas que ainda não havia consummado o matrimo- 
nio. {Juralores dicunl quod proediclus Siinon semper tennit diriam Maiildam 
ut oxorem suam, et sicunt quod nunquam dictam Maiildam dfsjionsaiiit.) 

Simão teve que escolher entre estas três espécies de castigos ou repara- 
ção: casar com Mathilde, perder a vida, ou pagar a Matliilde a multa que um 
marido paga a sua mulher {rei ipsam Maiildam reiro osculare.) 

Simão cscollieu o que mais agradável lhe era, casou com Mathilde, mas 
não quiz ter com ella outras relações que não fossem as que tinha tido até alli 
{inter femora.) Ducange extrahiu esta curiosa anecdota do Diccionario de leis do 
Inglaterra (Nouvelex anqlicanas, por Thomaz Blount.) 

Na época de Eduardo i e de Carlos, o Ingénuo, seu genro, os costumes 
de França e de Inglaterra oITereciam uma triste analogia, c algum poeta da 
corte saxónica de Eduardo poderia dizer de Inglaterra o que o poeta Abbon di- 
zia então de França, no seu famoso poema sobre o Cerco de Paris. 

«Oh França! porque te escondes? Onde estão as luas antigas forças, que 
firmaram o teu triumpho sobre os teus inimigos mais poderosos? Tu espias 
três vicios principacs: o orgulho, as vergonhosas delicias de Aenus e o luxo. 
Não afastas ainda do teu leito as mulheres ca.sadas, nem as religiosas consa- 
gradas ao Senhor. Pelo contrario, tens mulheres até á saciedade e ultrajas a 
natureza.» 

Dois séculos depois, Pedro, abbade de Celles, nas suas cartas (Livro iv, 
epist. 10) dirigia á cidade de Paris as mesmas censuras que Abbon tinha diri- 
gido á França, e accusava-a de ter corrompido os costumes dos seus habi- 
tantes : 

«Oh Paris! exclamava. Quão bella e corrompida és! Quantos laços armam 
os teus próprios vicios á juventude imprudente! Quantos crimes fazes praticar!» 

A prostituição foi em todas as épocas a conselheira e instigadora dos ou- 
tros vicios, que não vivem sem ella e que se lhe prendem como os filhos ás 
glândulas mamarias da mãe. 



CAPITULO VI 



SUMMARIO 



Situação das mulheres de mi vida antes do reinado de Luiz viii.— Vocaljiilano da prostituirão no decimo pri- 
meiro século.— O putagitim.—i'utus e Puta.— Os poços commuus.— O pn^-o do amor.— A corte do amor ou cíirtc cc- 

este de Sjíssjus.— /"iiíiíiajem e Pulasscrit'.— Lciwine.—Maqxiercllagnim, maquerellus, e mwjuercUa.— On- 
gem da [laiavra m.iqusrcaií.—li irdc, bardei e Ottrdeau. —As mulheres de bordel. —As mulheres. —Garcioe. ij«?-- 

cia.—Ribaldo e ribalda.— Rufiões.— Clapiers. 




íf, a depravaç.^o dos costumes, n'csta época da idade media, ti- 
iiiia excedido a de épocas mais barbaras, tinha isso por causa 
a libertinagem c o crime: a prostituição legal, a que se exerce 
como industria e serve de salvaguarda ás muliíeres Iionradas, 
oITerecetido aos appetites senstiaes unia satisfação sempre lacil, 
esta prostituição regular c organisada, não existia aind;), pelo 
menos ao alcance da vista e da mão da policia feudal. Nem cm principio, ncni 
como direito era admittida; não podia exerccr-sc senão em segredo e por fraude, 
com risco e perigo das mulheres que a miséria levava a tão vil mister; cm 
parte alguma encontrava protecção ou apoio, nem na magistratura das cida- 
des constituídas em municípios, nem nas justiças senhoriaes. Não se julgava 
necessária nem sequer ulil, e considerava-se como um ultraje publico á hones- 
tidade de todos. 

No emtanto, era necessário toleral-a e fechar os olhos a um acto brutal 
que se praticava constaniemcnte em todas as partes, escondendo-se, ou antes 
(iisfarçando-sc, apesar das mais severas prohibições, e da mais rigorosa pena- 
lidade. Estamos convencidos que esta prostituição legal conquistou o seu ver- 
gonhoso posto na sociedade, com a perseverança em arrostar com as leis e 
castigos, com a habilidade e astúcia em tomar todas as mascaras e disfarces, 
com força e tenacidade, e com o seu caracter vivaz e invasor. Prtde compa- 
rar-se a situação das muUiercs de má vida, no meio d'aquella sociedade (]iie 
lhes- era hostil e que tijdavia não podia prescindir delias, que as perseguia cons- 
tantemente e que nunca chegava a extcrminal-as; pôde comparar-se, dizíamos, 
aquella situação anormal à dos judeus que tinham contra si a legislação civil e 
ccclesiastica, que se viam quasi sempre encarcerados, despojados, repellidos e 
comtudo voltavam ás suas tendas, aos seus contratos laboriosos, e aos seus 
lucros usurários. 

A prostituição não teve, no Estado, uma existência reconhecida ou au- 
ctorisada, antes do reinado de Luiz vii, e talvez de l'hili|ipc Augusto, porque o 
rei dos ribaklos (rex riboldorum) que evidentemente era o go\crnadoi: supremo 



36 



HISTORIA 



dos agentes de prostituição, foi creado, como logo veremos, por Pliilippe Au- 
gusto. 

E" muito diíTicil descol)rir o caracter e hábitos da prostituição mercená- 
ria d'aquelles tempos de corrupção gerai, que não permittiam, no emtanto, 
exercer livremente esta desprezível industria. O abbade, o bispo, o varão, o se- 
niior feudal, podiam ter em suas casas uma espécie de serralho ou lupanar, 
mantido a e\|)ensas de seus vassallos: segundo um escriptor drt decimo pri- 
meiro século, cada possuidor de feudo mantinha no seu gyneceu tantas ribal- 
das quantos eram os cães que tinha na sua matilha; mas o lupanar publico, 
aberto a toda a gente, debaixo da direcção de um homem ou de uma mulher, 
que exploravam este infame commercio, existia só n'um pequeno numero de 
localidades, em que a administração senhorial e municipal se afastava dos an- 
tigos costumes, e se fingia cega para se mostrar tolerante. 

Em Paris e n'alguns outros grandes cenlros de população, o estabeleci- 
mento de casas de libertinagem, nos arrabaldes e em certos bairros desi- 
gnados, não sofíria grandes obstáculos, até ao dia em que o escândalo provo- 
cava o rigor da lei e occasionava a suppressão, mais ou menos radicai, d'a(|ucl- 
Ics asylos de sensualidade publica. Havia também prostitutas, que não perten- 
ciam á exploração de um lupanar c que reservavam para si todos os lucros do 
seu trafico carnal, confundindo-se ordinariamente com a população honrada, e 
ainda que vivessem da sua prostituição, tinham cuidado em cohoneslar o seu 
procedimento, em dissimular a sua má vida, sob pena de serem desprezadas 
pelos seus visinhos e vérem-se obrigadas a desapparecer, fazendo justiça a si 
próprias. 

Comprehende-se, pois, que a vida intima dos lupanares e a vida parti- 
cular das muliíeres publicas não tivessem encontrado echo nos monumentos es- 
criptos d'aquellas épocas obscuras. A prostituição, desde o oitavo ao duodécimo 
século, não tem sc(|uer actos que a caracleriscin (fum modo notável, embora de- 
fira absolutamente da prostituição do Daixo Im|)erio. E' necessário, para a des- 
crever, contentarmo-nos com alguns factos isolados, que prendem entre si e 
que mostram a variedade dos usos locaes. E, todavia, estes factos (|ue nos 
subministram os registros municipaes e as ordenações da policia urbana, são 
muito raros |)ara se poder formar com ellcs um vasto quadro synthelico. Por 
isso se não podem descrever os costumes secretos da prostituição na França 
feudal. 

Mas a lingua popular do decimo primeiro século, a baixa latinidade, que 
creou a lingua franceza, sob o império dos dialectos do Norte e do Meio-dia, 
aquella lingua, applicando novas palavras a cousas e ideias novas, oITerece-nos, 
na formação d'estas mesmas palavras, uma infinidade de dados preciosos, nos 
qUacs encontraremos muitas noções relativas ao assumpto de que tratamos. 

A partir do nono século, o vocabulário da prostituição, muda de caracter, 
restringe-se notavelmente, mas compõe-sc de locuções completamente novas, 
que parecem antes sahir da bocca do povo, que da penna do escriptor: estas 
locuções que lécm caractciislicas gallo-francas e do idioma tudesco, são forma- 
das para ex|)rimir o que ciiamaremos o material da |)rosti(uição. Claro está que 
as palavras latinas não tinham sentido, applicadas a certas circunistancias e par- 
ticularidades, que não existiam no momento era que foram creadas; o povo 
não ([uiz, na sua linguagem, acceilar estas palavras, que sempre se empregavam 
na linguagem lillei-aria, mas (]ue nada representavam nos hábitos da vida; o 
povo, i'om o íí(Miio (jiie lhe é próprio, creou as expressões ([ue lhe faziam falta, 
imprimindo-lhcs a significação especial (jiie <le\iani ter. 

Assim, pois, vemos ap|)arecer no lalim vulgar a maior parte das pala- 
vras, que mais tarde sollrerarn uma transformação franceza e que depois se 
íócni conservado na lingua do povo, porque a jjroslituição não pode aspirar a 



DA pAstituição * '57 

ser admiltida na lingua nobre, a que as formulas grosseiras e impudentes do 
seu idioma se introduzam na linguagem lilteraria. 

Notemos de uma vez para sempre que os escriptores sérios, os poetas e 
historiadores continuam servindo-se dos termos geraes, que o latim clássico 
lliei? offerccia para "designar os actos e os indivíduos dedicados á proslKuição; 
mas nos documentos sabidos de uma pcnna não litlcrata, ou destinados ao co- 
nhecimento do povo, só se empregavam termos precisos e tcchnicos, (|ue esta- 
vam ao alcance de todos, e que não exigiam para sua intelligencia a menor no- 
ção da antiguidade clássica. 

Esta lingua da prostituição é sem duvida sórdida c digna das cousas que 
qualifica; mas não deve esqucccr-se que na idade média todas as palavras da 
lingua usual tinbam direito a igual estimação e se empregavam sem reserva, 
tanto nos cscriptos, como nos discursos. No cmtanlo, não se julgavam infames 
certas expressões, que se referem a objectos infames, nem se dava importân- 
cia á modéstia da linguagem faltada ou escripta. 

E' por isto que o francez antigo é tão rico em palavras engenhosas ou 
picantes, que formam o vocabulário da prostituição, e que desde o século de 
Luiz XIV foram tiradas da linguagem das pessoas de bem, como se dizia n'outro 
tempo. 

A prostituição, a que as pessoas illustradas chamavam serapçe meretricium, 
de que os innovadorcs tinham feito mereiricatio e merelricatus, chamava-se, 
pois, entre o povo e na linguagem vulgar putagium e outras vezes puteum e 
'pularia. Esta palavra parcce-nos de origem mo(Jerr)a, e apesar da aucloridade 
do douto Scaliger, em uma das suas notas a Virgílio (Çalaíecta) não cremos 
que puíafiium se deva derivar da palavra latina putas, que se encontra nos 
auclores da alta latinidade, no sentido de pequeno. Entre os antigos, no emtanfo, 
putus sobre tudo, era empregado como nome de carinho, como qualificação ca- 
rinhosa dirigida a um joven: o amo não chamava de outra maneira ao seu 
creado favorito. Quando em egual sentido se faltava de uma joven, dizia-se pula. 

Os diminuitivos putillus e putilla formaram-se naturalmente, e Plauto 
na sua Asinaria (Act. iii, scen. 3) usa meu pequeno, puliílus, na significação 
de meu pombo, meu pombinho, e outras expressões carinhosas na linguagens 
amorosa. No cmtanto, também se usavam, como o faz Horácio (Sat. i, liv. ii, 
3) pusus e pusa, com os seus diminuitivos pusillus e pusilla. 

Comtudo, nós derivaremos pulagium de pulem, poço, porque esta ety- 
mologia abrange e justifica igualmente o sentido restricto e o figurado. Se, por 
um lado, a prostituição publica pckle comparar-se a um poço commum, onde 
cada qual é livre de ir tirar agua, por outro, em cada cidade, bairro ou dis- 
tricto, o poço commum ou senhorial era o ponto de reunião de todas as mu- 
lheres, que procuravam aventuras. Havia sempre um poço nos logares ^frequen- 
tados pelas prostitutas, nas Cortes dos milagres, em que ellas viviam nas en- 
cruzilhadas, que lhes serviam de campo de operações ou de feira. Devem estar 
lembrados que Jesus-Cbristo encontrou a MagdaLena junto d'um poço. 

Estes poços, cujo uso pertencia a todos os habitantes da localidade, reu- 
niam todas as tardes á sua beira numeroso concurso de mulheres, que fatiavam 
dos seus amores, e que alli se demoravam, sob o pretexto de se proverem 
de agua. Já se sabia o que era ir ao poço; era juntar-se com os amantes sob 
um pretexto irreprehensivel. Ohl aquelles poços eram testemunhas de muitas 
lagrimas e suspiros! 

Piganiol, faltando do Poro do amor, que deu o nome a uma rua de Pa- 
ris, situada perto da rua da Truanderie, em que a prostituição tinha a sua sede 
principal, diz que este famoso poço devia o seu nome a uma razão commum a 
todos os poços que havia nas povoações, e que serviam de reunião a todos os 
criados e criadas que, com o pretexto de irem á agua, iam namorar-se alli. 

Historia da Pbostituição Tomo ii— Folha 8. 



58 " HiSTq^A 

Esíe poço, que c\isliu aíé ao fim do decimo sétimo século, em que sec- 
cou, tinha visto dcscnrolar-se mais de um drama amoroso; e a tradição con- 
tava de diversas formas a iiisloria de uma nobre menina da famiiia Hallebic, 
que se afogou alli, no tompi) de riiiiippe Augusto. Citavam-se ainda muitos 
amantes que se tinliam atirado ao mesmo poço, por despeito ou ciúmes, sen» te- 
rem encontrado n'clle a morte que desejavam. Outros amantes reconiiecidos 
attribuiram ao i*ofo do Amor parte da sua felicidade: e assim, um renovava 
os cântaros, outro a corda, outro pagava uma grade de ferro e outro punha- 
ilie um boca! novo, no qual se lia em leftras golliicas: 

,l//íOii/' m'a refait en .72J iGut-à-fait. 

(O amor me renovou em 52o completamente.) 

Podiam fazcr-se curiosas investigações sobre todos os poços, que figuram 
na historia da prostituição c encontrar-se-hia um em cada cida(le para de- 
monstrar que o palagium, na idade media, era quasi inseparável dos poços com- 
nuins, que na maior parte já desappareceram. Sem diíliculdade se provaria que 
esta classe de poços existiram cm Paris nas ruas, ou perto d'aquellas cm que 
viviam as mulheres de má vida. 

Lunitar-nos- hemos a referir que as ribalâas de Soissons, que tiveram 
fama proverbial no decimo segundo século (Dictons populaires, publicadas 
por Crapelet, pag. 6i) tinham as suas reuniões em roda de um poço, que so- 
breviveu á ribiílderia de Soissons. 

«O Pateo de Amor ou Pateo Celeste de Soissons, dizem M.M. P. Lacroiv 
e Henrique Martin na sua Historia de Soissons, está situado á entrada da 
rua da Ponte (Pont): é um pateo estreito, cercado de edificios pouco elevados, 
para onde se sobe por uma escada de pedra exterior. Este pateo, em que se pe- 
netra por um corredor escuro, descia cm outro tempo até ao rio; no meio ha um 
poço de uma construcção singular, cuja bocca quadrada protege o orificio redondo 
e estreito, encimado por uma abobada cónica.» 

Não procuraremos outros argumentos para demonstrar que putngiuw,, 
puíeum e pularia implicavam a acção de ir pela tarde ao Poço do Amor. Pu- 
laria usava-se com pi-cfcrcncia nas provincias meridionaes. 

Lé-se nos Estatutos da cidade de Asti (Collac. 1.3 cap. 7). Si ii.ror ali- 
cujus civis Aslensis olim aiifujjil pro pularia cum aliquo. Puteum mais usado 
em linguagem poética, tomando a causa pelo efTeito, fazia de puteum synonymo 
de putagium. 

Emquanto a esta palavra, que deve ser a primeira cm antiguidade, ti- 
nha-se consagrado, introduzindo-a na lingua legal. Por isso se encontra com 
frequência empregada pelos jurisconsultos e figura cm mais ile uma ordenação 
dos nossos reis da terceira dynastia. fkista citar uma das ordenações, cm que 
se diz que o putagium da mãe, não tira ao filho os seus direitos de herdeiro, 
attendendo a que o filho, nascido no estado de matrimonio, é sempre legitimo. 

«Quod generaliter dici solet, rjuod putagium hariditatem uon adimiti, in- 
telligitur de pulagio malris.» 

X palavra putagium só dizia respeito á prostituição de uma mulher. 

Assim, a lingua franccza teve de mudaralgumas palavras, quando transfor- 
mou putagium em putage, pula em pule c patena em putain. Estas duas ul- 
timas palavras são coulemporaneas, pois a Chronica de Oderico Vital faz men- 
ção no livro MI, da fuiida(;ão de uma cidade, que foi chamada Mataputcna {id 
est devincens meretricen) com irrisão da condessa Hedwige. 

Putage encontra-se frequentemente no sentido de putagium na lingua 
franccza, sobretudo nos romances e cantares dos trovadores. 

O lenoriniuu), o fiel e inseparável companheiro do merelricium, teve 
mais diíliculdade cm mudar de nome; como era ordinariamente exercido por 
mulheres, transfoi'mou-se logo cm lenonia, que passou á linguagem do século 



DA PROSTITUIÇÃO 59 

decimo segundo, afrancezando-se em lenoine. Mas o povo que, como soberano, 
reina na estructura da lingua, inventou iinniediatamente outra palavra, que 
tirou dos próprios iiabitos dos corretores da prostituição. Esta palavra foi 
maquerellaf/ium, de que o francez antigo fez iiiaquerellage, que subsiste na 
linguagem das praças publicas e que tem além d'isso logar no Diccionario da 
Academia. 

Antes de maquerellagiiimha\ieL-se creado maqiierellus e maquerella, ma- 
quereau e maquerelle. 

Os mais doutos etymologistas tcem tentado em vão o encontrar a origem 
d'estas palavras, que não tinham do latim mais que a terminação. NicoteMenage, 
procurando as analogias que podiam aprcsenlar-se entre o pgixe chamado maque- 
reau (congro) e o homem ou mulher que especulam com a prostituição, sou- 
beram que maquereau tinha sido formado de /«acií/fp, porque o peixe é mosíiueado 
com manchas transversaes escuras e azues, e entre os antigos o vestuário d'cs- 
ses corretores era também de mui variadas cores. 

Tripaut, recordando-se que o aquariolus, ou aguadeiro romano, tinha em 
Roma o privilegio do corretor da prostituição, pensou que a simples addição 
d'uma lettra inicial, formada pela pronuncia guttural dos francezes tinham pro- 
duzido maquariolus, que se approximava bastante de maquerellus. 

Outros, emfim, com mais simplicidade, propozeram-lhe o verbo hebreu 
machar, que significava vender e que não deixa de convir ao oificio de vende- 
dor de carne humana. Estes últimos etymologistas, em apoio do seu systema, 
deveriam ter feito valer esta indução que lhes fornecia certos documentos da 
idade média, e nos quaes se attribue aos judeus a corretagem dos cavallos e 
das mulheres. 

Causa-nos admiração que se tenham occupado com a etymologia da pa- 
lavra applicada ao homem, antes de ter encontrado a que convém ao peixe ; 
porque é muito natural que o peixe se chamasse no principio maquerellus 
e que o homem por qualquer similhança se tenha visto qualificado com o nome 
do peixe. Qual é a primeira etymologia que se nos ofierece sem esforço de ima- 
ginação nem de linguistica? A pesca do maquereau era mais abundante n'ou- 
tro tempo nas costas do Oceano do que o é actualmente : este congro chegava 
em perseguição dos arenques e soffria a mesma sorte, depois de ter vivido a 
expensas d"elles. 

O seu nome dinamarquez ou normando, que se tem conservado na lin- 
gua hollandcza, faz-nos remontar á época em que foi alatinado : maekereel é com 
certeza muito anterior a maquerellus e a makarellus. Os sábios pouco satisfei- 
tos com a consonância barbara d'esta palavra, tiveram de corrompel-a para 
a tornar menos áspera ao ouvido : não se explica d'outra maneira a forma- 
ção de magarellus que apparece em muitas ordenações dos reis de Inglaterra. 
Nas costas do Norte dizia-se inakevus, ou antes makerus, a não suppòr um 
erro em Ducange. 

Emquanto a dar o nome do peixe á espccie humana que imitava os seus 
costumes, foi a principio um jogo de palavras, um epigramma que entrou pro- 
fundamente no espirito da lingua popular e que pouco a pouco perdeu o sen- 
tido figurado. 

E' fácil, no emtanto, perceber que o corretor andando em volta das mu- 
lheres, para d'ellas tirar lucro, e lançal-as nos braços do seductor, desempe- 
nha um mister análogo ao do maquereau, que acompanha os arenques e d'elles 
se nutrç. 

Seja como fôr, esta expressão figurada, designando os alcoviteiros de um 
e outro sexo, era admittida em todos os estylos e encontrava-se nas ordenações 
dos reis de França. Adquiriu logo um estigma deshonroso, mas chegou a in- 
velerar-se na lingua enérgica do povo. E', no emtanto, o nome d'um peixe 



60 HISTORIA 

que se serve em todas as mczas, e que em oufro fempo pagava qualro dinhei- 
ros por mil ao bispo ou ao conde, conforme a zona em que era pescado. 

Se este peixe não tivesse receiíido o seu nome dos povos do Norte, não 
resistiriamos muilo a acceilar uma elymoiogia mais engeniiosa que plausivel: 
de moechari moecharellus, para qualificar o instigador da libertinagem {moechi 
conciliator.) 

Assim como o lenoeiniuin e o mcretririum, o lupanar não tinha sido na- 
turalisado, a não ser na lingua dos escriptores: a lingua vulgar repcUia-o, como 
uma tradição gallo-romana, que não tinha razão de ser. Nada se assimilhava 
menos aos lupanares de Roma que os albergues da prostituição nas cidades de 
França. Estes infaroes asylos tomaram sem distincção os nomes de borda e 
bordfllum, de que se derivaram bordel, borde e bordeau, no novo dialecto fran- 
cez do duodecimii século. 

A palavra latina não é mais que a voz saxónica bord alatinada, e a voz 
saxónica tanto dizia como a franceza que é completamente idêntica. E' imagi- 
nar uma etymologia sem fundamento ver em bordel as palavras bord e el, por- 
que* os togares de libertinagem, diz-se, estavam então situados nas margens da 
agua. A posição d'estes togares não era necessariamente immediata ao rio, o 
que nada teria de moral nem de sanitário, nem se explicaria de modo satisfacto- 
rio, ainda que em muitas circumstancias a prostituição se estabelecia ás mar- 
gens da agua, especialmente quando a navegação do rio trazia grande numero 
de commerciantes, passageiros e navegantes que conslituiam a clientela das 
mulheres de b(jrdel [bordellières, bordellariw.) 

Chamava-se mais especialmenie burda a uma cabana, collocada á beira 
d'um caniinho ou fora da povoação, n'um subúrbio, ou em campo largo. A 
borda {borde) era distincta da casa, como se vé n'esle verso de Auberg: 

«Ne trouvissiez ni borde ni maison.» 

e n'este do romance de Garin : 

«JVt à maison ne borde ne me.oiií.» 

Geralmente, esta borda eneontrava-se junto a um pequeno recinto ou 
campo, pois que n'um contrato do anuo I 29á, que Ducange cita no Glosario, 
diz-se que a %bbadia c o convento eram obrigados a conceder nos seus domínios 
um pedaço de terra a qualquer habitante da cidade que n'elle quiaesse cons- 
truir uma borda (ad faciendam ibi bordam.) 

A prostituição, expulsa das cidades, refugiou-se n'eslas bordas, que esta- 
vam longe de vista da policia urbana e d'onde o escândalo não transpirava. 
Estas residências ruracs S(') eram habitadas |)or seus proprietários ou colonos 
em certas estações e certos dias; mas a prostituição tinha sempre n'ellas um 
asylo seguro : e por isso as mulheres publicas arrendavam as bordas em que 
residiam ou onde iam ao anoitecer passar algumas horas. 

Os libertinos que iam a estes togares de prazer, sabiam da cidade com 
o pretexto (rum passeio e chegavam ao encontro vergoniioso por caminhos 
pOuco IV('i|nciitados. 

A burda transformou-se d'csta forma em bordel {bordel) seu diminuitivo, 
que insensivelmente se tornou o nome genérico de todos os asylos da pros- 
tituição, quer estivessem no cam|)o, (|uer no interior das cidades. Devem attri- 
buir-se a variações de dialecto as dillVrentt^s formas |)or(|ue passou este nome, 
proiiunciamlo-se bordel e que degenerou em burdiau e bordeau, bordelel e bor- 
deliau. 

Emquanto que os bordeis estiveram fora das cidades, a prostituição er- 



DA PROSTITUIÇÃO 61 

rante contou no seu exercito secreto uma multidão de pobres recrutas, que 
nem sequer podiam arrendar uma borda e que, á imitação das lobas da cidade 
de Roma, detiniiam os transeuntes no meio dos caminiios, das viniias e dos 
trigos, por cuja raztão se lhes eliamava mulheres dos arredores, mulheres dos 
caminhos, mulheres do campo (V. Charpenlier no supplemcnto a Ducaiigc, nas 
palavras BORDA CHEMINUS.) 

As que não sabiam dos albergues, armando as suas ciladas das janellas, 
chamavaNise claustrieres claustrariít (V. Charpenlier na palavra CLAUSU- 
R.E.) 

Os seus claustros, claustra, foram sem duvida os berdeiros dos lustra 
da antiguidade, tanto mais que aquelles clàuslra montium só se estabeleceram 
em logarcs afastados, no futulo dos bosques e nas gargantas das montanhas. 

As mulheres perdidas que habitavam nas bordas ou burdeles foram desi- 
gnadas com o nome de bordaleiras (bordeliéres ou bourdeiiéres.) Mas não foi 
esta a sua única denominação; vimos mais acima que se lhes chamava pules 
ou putains, em signal de despreso; os nomes injuriosos não se regateavam, 
mas não se distinguiam como na antiguidade por qualificações que revelavam 
os seus hábitos impudicos, o seu género de vida, ou a sua origem e vestuário. 
Desde o fim do duodécimo século applicava-se-lhes em mau sVntido o nome 
genérico de garzia ou gartia, em francez garoe ou garse (garza) que se con- 
servou até aos nossos dias no vocabulário da gente do campo para designar 
qualquer virgem. 

Nas provas da Hisloria de Brescia, por Guichenon, pag. 203, lé-se o se- 
guinte: Si leno cel meretrix, si garlio velgarli alicuia burgensii concitium di- 
xerit; e no titulo dos privilégios da cidade de Seissel em 1825: Si garlia di- 
cat aliquid probo homini et muliei-i. Esla expressão que reapparece em cada 
pagina da prosa e do verso dos séculos xiii ao xvii, não se afasta, senão por 
excepção, do seu sentido primitivo, nem é injuriosa a não ser no caso de ser 
acompanhada de um epitheto malsoante. 

Além d'isso, segundo o extracto de Guichenon, citado anteriormente, 
vé-se que a qualificação de garce (gartia) ainda que empregada em mau sen- 
tido, dilferia da de prostituta (meretrix,) pois que melhor era applicada a uma 
mulher vagabunda, ou uma serva. 

E. Guichard que pretendia provar que todas as linguas se derivam do 
hebreu, imaginou approximar a palavra garza do verbo hebraico de consonân- 
cia análoga e significando prostituir-se ; sem duvida não se lembrou que as pa- 
lavras garce e garcia são muito mais antigas que a significação obscena que 
se lhes chegou a dar. Assim, no processo verbal da vida e milagres de S. Ives 
no século xiii, emprega-se garcia no sentido de serva, ancila (V. os Bolían- 
distas, Sanei, maii, tit. iv, 553.) Mas simples é dizer que garce é o feminino 
de gars, que, apesar das melhores elymologias, parece ser uma palavra galai- 
ca, vnars, e ter significado ao principio um joven guerreiro, um varão nuhil. 
De gars se fez em latim bárbaro garsio e garzio, que se applicaram aos ser- 
vos, aos ladrões, aos libertinos, e a toda a classe de homens de mau viver. 

Não pode demonstrar-se melhor, como uma palavra originariamente ho- 
nesta e decente se perverteu gradualmente até tomar na lingua uma significa- 
ção vergonhosa, do que lembrando uma pbrase em que Montaigne a emprega 
na sua accepção primitiva: «Ha uma nação em que se prostituíam as garces 
às portas dos templos para saciar a concuspicencia.» 

Não era esla a única expressão injuriosa que esteve em uso na idade mé- 
dia para designar as prostitutas ; também se lhes chamava fornicaria; e forni- 
catrices, prostibulariw, proslanies, gyneciarice, lupanarice e genearice em baixa 
latinidade. Estes três últimos termos eram svnonimos e indicavam os logares 
em que habitavam as mulheres de má vida ; ganea, lupanar, gynecium. As 

t 



62 HISTORIA 

prostantes vendiam-se (iJo verbo prostave,) as prostihulariíp prostituiam-se, as 
fornicaria' cxeculavain a acção d'este verbo, e as fornicalerices faziain-a execu- 
tar. 

Estes diflerentes termos não passaram á lingua franceza, mas entraram 
n'ella os que tinham uma forma menos latina : taes como rihaude, mescbine, 
fenune folie, fenime do rie. La femme de cie (femina ril(v) não parece, apesar 
do seu disfarce latino, ter como raiz uma obscenidade galaica. A femme folie 
ou folieuse (mulier follis ou falua) devia o seu nome áqueila espiencHda besta 
dos Loucos, que descreveremos n'outro bjgar, como o ultimo relievo dos mys- 
terios da prostitui(,-ão antiga. A meschine era ao principio uma servente, uma 
serva ; a rihaude uma companheira do exercito, uma filha de soldado, uma 
mulher mundana (ribalda.) 

N'oulro capitulo diremos o que eram os.ribaads de Philippc Augusto, es- 
tabelecendo a verdadeira origem do seu rei. iNão citaremos as numerosas ety- 
mologias que se accumularam doutamente para encontrar a raiz da palavra ri- 
baud. 

Estamos muito dispostos a encontrar essa raiz na palavra galaica baux 
ou baud, que significava jovial, e que deixou na nossa antiga lingua, que Bo- 
rcl chamava gííllica, o substantivo baude, alegria e o verbo ebaudir, regosijar-se. 
O nome de baux ou joviaes, que a tradição languedociana fazia remontar ao sé- 
culo sexto, daria uma idade muito respeitável á céltica baux ovi baud. Esta pa- 
lavra mudou de significação sem mudar de forma, passando á lingua ingleza, 
onde baud é synonimo de alcoviteiro. 

A palavra baldo em italiano não foi tão alterada, por ser derivada de 
baux e tomar-se por audaz ou imprudente. Kebaldus foi a tradição latina, com- 
posta da preposição emphatica re e da palavra radical baux, baud ou bauld. 
Ribaud e ribaldos alatinaram-se e afrancezaram-se ao mesmo tempo. 

Estas palavras empregavam-se em bom sentido antes do reinado de Plii- 
l|ippe Augusto, em que cahiram em despreso, em consequência dos exces.sos de 
certa gente que quiz ser os ribaldos por evceilencia. Anteriormente áqueila 
época significava a força physica e a constituição robusta do homem bem dis- 
posto e constituído. Depois era a designação especial dos herejes e dos liberti- 
nos. 

Todas as linguas adoptaram por sua vez a designação especial dos ribaux 
e de seus compostos. Ribaudie em francez veio a ser synonimo de prostituição, o 
mesmo que ribaldaijUa cjue Villani emprega n'este sentido (Cliron. liv. iv, cap. 
91.) Uibaud produziu então ribaude, ribalda, que nunca teve significação ho- 
nesta. Segundo a Coulunte de Hcrgcrac, era grande insulto, quando se dirigia 
a pessoa de nascimento ou condirão nobre ; mas não tinha tanta importância, 
quando se applicava a uma mulher de classe humilde, não acompanhando esta 
expressão com outra injuria de facto. Esta singular passagen) do foulume de 
Bergerac, inserida alli pelos benedictino.s continuadores de Ducange. Ribaud, 
de que naturalmente se tiram ribuudaille e ribauderie, continua qualificando 
com energia toda a mulher de costumes desregrados ou perversos. 

A palavra meschine, que usualmente se applicou ás mulheres vaidosas de 
seu corpo (folies de leur corps) tinha ordinariamente uni caracter mais bené- 
volo que injurioso : meschine não esteve em uso, senão depois de mexchin. Esta 
palavra, essencialmente galaica ou franca, que a nos.sa lingua conserva ainda 
em mesquin, cujo .sentido não se afastou muito da raiz, queria dizer ao princi- 
pio joven servidor ou escravo. Meschinus e mischinus encontram-se desde o 
decimo século nos cartórios monásticos, como Ducange dá disso muitas pro- 
vas ; significam servos jovens e no sentido lato serventes. Este ultimo sentido é 
o que a palavra mesrhin aííecta mais particularmente na lingua do duodécimo 
século ; mas então não se tomava em mau sentido e equivalia a jovensinho ou 

f 



DA PROSTITUIÇÃO 



63 



mocinho. No romance de Garin cncontra-se eom muita frequeneia e sempre 
honestamente, como n'cste verso : 

(íVous estes jones jovenciaux et mesohins.» 

O feminino meschine, me:(iHÍna, não teve a principio sentido dcshonesto, 
como n'csse exemplo, do mesmo romance de Garin : 

«Ait tnatin lievent meschines et jntcelles.^ 

Mas, no decimo terceiro século, as meschines tinham dccahido muito da 
sua boa fama, porque Guilherme Guiart, na sua Branche de royaux lignages 
apresenta-as d'um modo pouco lisonjeiro. 

Desde então, meschine, tanto na linguagem usual, como na poesia, designa 
apenas uma servente. Ducange cita um antigo poeta, em face de um manus- 
cripto da bibliotlieca de ('oislin, para provar que se contrapunha, sem dillicul- 
dade, dame a meschine : este mesmo poeta, n'outro logar, descreve assim o 
oflicio da meschine : 

«En la chambre ot une meschine 
Qui moult est de gentille ofí/ie.» 

N'uma ordenação, relativa ao abhade de Bonnc-Esperance, concede-se a 
este abbade uma somma de vinte libras para seu governo, para uma servente 
e uma meschine. A palavra meschine emprega-se, simullancamenie, em duas ac- 
cepções muito dislinctas : umas vezes c uma simples servente, exercendo os de- 
veres do seu cargo, e como diz Luiz xi nas suas Cent nouvelles nouvelles «era 
meschine, fazendo os arranjos da casa, como os leitos, o pão e outros servi- 
ços ;» outras, uma mulher libertina, que se põe ao serviço do primeiro que ve- 
nha e .se vende ao desbarato. 

Comprchende-se que o meschinage seja synonimo do sei'viço, que suc- 
cessivamente fosse adoptado para especificar um trabalho deshonesto. 

Além d'isto, o meschinage das tavernas e dos bordeis tinha-sc como in- 
fame tanto nos Estatutos do rei S. Luiz, como na lei romana. No emtanto S. 
Luiz quer que a mulher louca (folie) que vac á meschinage ou a outro sitio, 
para se alugar, seja admittida por direito, assim como os irmãos, a participar 
da herança paterna. (Liv. i, cap. 138.) 

Completemos esta nomenclatura franco-latina da prostituição na idade 
média, com o exame d'um termo muito usado que se diz de origem italiana e ter 
sido importado para França, pelos trovadoi^es, no undécimo seeulo. A consonân- 
cia da palavra rnjjlnn indica logo, mais uma origem meridional, do que barbara. 
Menage deriva-a do nome d'um famoso alcoviteiro italiano, chamado liufo, sem 
notar que este Rufo é, certamente, muito posterior ao uso da palavra a que se 
refere. 

Outros etymologistas, não ,se contentando com o Rufo problemático, en- 
contraram em Terêncio um Ibifus, que exercia o mesmo oíiicio. Por um abuso 
de erudição, ha quem tenha approximado esta palavra a fornicator, tirando-a 
do allemão ruef, que significa abobada e que daria assim a traducção de forni.r. 

Mas Ducange approxima-se mais da verdade, fazendo notar que as pros- 
titutas romanas, trazendo cabelleiras loiras ou ruivas (ronsses,) eram chamadas 
ru/fm, segundo considefttções de Francisco Pithon e Wovereno acerca de Petro- 
nio. 

Vamos completar a douta obsjy^vação de Ducange, dizendo que, sem du- 
vida alguma, a palavra ru/fianns foWormada nos primeiros séculos, de rufi e 



64 HISTORIA 

de anm, duas palavras reunidas n'uma, sem nenhuma ellipse, ou de rufia e 
anus, duas palavras igualmente reunidas por meio dellipse. Emquanto a en- 
contrar anologia entre nijpan e fixn, ftrnum, ou fimuin (lameiro,) é necessário 
ignorar que não pôde subinetter-se a syllaba ?-u/à interpretação ctymologica, 
inventada por não sei que sonhador, que vé era ruffian um moço de estabulo 
(quod eruit fim um.) 

A juncção de rufi e de anus, ou de rufia e anus conviria muito melhor 
ao verdadeiro sentido da palavra ru/fians, ru/fianus, que não é somente um 
angariador de mulheres, um alcoviteiro, mas também um libertino, um fre- 
quentador de lupanar, um amante de mulheres. 

ISós como, Menage e sobretudo como Duchat, não temos a audácia ou a 
ingenuidade da etymologia : não procuraremos demonstrar, porque rufia signi- 
ficava uma pelle curtida, e anuí uma velha ; significando também anus o anno, 
e rufus roxo ou vermelho, estas palavras conduzem-nos directamente á pro- 
fissão de rufian, a qual se estendia á rufiana. 

Seja como fòr, os vocábulos ru/fianus e rujfiana não figuravam na ida- 
de media, a não ser nos escriptores italianos que nos apresentam em todas as 
parles os rufianes, em amor e companhia com as prostitutas (ruffiani et me- 
retrices.) 

Ducange e Carpeniier citam muitas e interessantes passflgens d'aquelles 
escriptores : n'um d'elles, se diz expressamente que ruffian é synonimo de alco- 
viteiro (quilibet et qucelibet leno, qui et qum vulqarilur ru/Jini dicuntur.) 

Ruffian não parece ter-se introduzido em França antes do século xiii, 
e ainda assim não esteve em voga senão nos fins do século xv, quando o ita- 
lianismo invadiu por toda a parte o idioma galaico. Esta palavra, que se em- 
pregava com diversos matizes de applicação nunca entrou na linguagem orató- 
ria, nem se levantou da sua abjecção. 

Mencionemos, emfim, uma palavra que esquecemos no seu logar e que 
prova os hábitos mysteriosos da prostituição. Os albergues da libertinagem, os 
bordeis chamavam-se em sentido figurado chpiers claperit (tocas de coelhos) 
porque as meretrizes se occultavam nVllas como coelhos (ciíh/cíí/í,) em francez 
antigo cunins. Clapier, segundo Menage, deriva-se de lepus, transformando em 
lapus e lapinus, que chegou a pronunciar-se clapinus : e d'aqui lapiarium e 
clapiarium. 

Segundo Ducange, o laço para apanhar coelhos chamava-se clapa, e como 
se collocava á entrada das covas, estas tiveram de usurpar-lhe e nome que re- 
presentava, sem duvida por onomatopeia, o clappement ou ruido da machina, no 
momento em que o coelho cabia no laço. 

Segundo outros sábios, clapier derivava-se da raiz grega, que significa oc- 
cultar-se; do latim lápis, porque as covas dos coelhos são regularmente mon- 
tões de pedras ou terrenos pedregosos. 

A etymologia pouco nos importa; digamos no emtanto, com muita re- 
serva, a similhança obscena que o bom bumor francez descobriu nas palavras 
cunnus e cunniculus ou cuniculus, cujo equivoco indecente .Marcial não suspei- 
tou. E' certo que os nossos antigos truôes encontraram uma imagem lúbrica, 
na comparação de um albergue de prostitutas c uma toca de cocliios. 



CAPITULO VII 



SUMMARIO 



Os costumes piihlicos nos rcin.iilos anteriores ao de Luiz ix.— Grandes progressos da sodomia.— Quadro dos 
costumes de Paris, no Um du século xii.— Os collegiaes.— As Ihermas de .luliano.— O eeniiterio dos Santos Innocentes. 
—Os libertinos e as prostiiutas da Croix-Senoiste.— As primeiras religiosas da abbadia de Santo António dos Cam- 
pos.— A padroeira das mulheres piililicas.— Os eslalutos da corporação das namoradas.— O osculo de paz da prosti- 
tuta real —A eapella da riia de.Iiissiènno.— Ksfcirfos de S. Luiz para combater e diminuir a proslituição —A casa das 
Fdl.-s-Uieu.— Como S. Luiz caslit'ou um cavallijiro, surprehendido n'uma casa dii prostitutas.— Suppressão destei 
ustabelecimentos e desterro das mulberes de má yida. 




|a collecção das ordenações dos reis de França, da Icrcoira dy- 
nastia, não se encontra nenhuma, antes de S. Luiz, relativa á 
proslituição; mas não deve crcr-se, por similliante falta, (jue a 
|)ro.slituição tinha dcsapparecido cm França, ou que a auctori- 
dade legal a deixara absolutamente livre nos seus actos, sema 
3j cercar d'uma vigilância preventiva e repressiva. Acreditamos pelo 
contrario, que a desordem nos costumes não tinha feito mais do que aggravar-sc 
acalentada pelas guerras feudaes, que tinham assolado o paize retardado a marcha 
da eivilisação. Cremos tamhcm que a antiga legislação, com respeito ás prosti- 
tutas e aos seus escândalos, não tinha cessado de estar cm vigor ; mas, no meio 
das agitações permanentes que perturbavam a sociedade, havia-se descurado 
muito o cumprimento das leis da policia, occupando-se antes em assegurar a 
deleza das praças, expostas continuamente a cercos c a todas as consequências 
d'uma invasão armada. 

Uma espécie de tolerância indulgente tinha, pois, permittido á prostitui- 
ção o desenvolvcr-sc nas cidades, sobretudo em Paris, onde se tinha organi- 
sado, como os outros corpos de estado, com estatutos que a regiam, assim como 
a administração municipal approvara esta espécie de confraria impura, ou fe- 
chava os oliios sobre a sua existência organisada. 

Não nos seria diílicil provar, que, sob os reinados anteriores ao de Luiz 
IX, os costumes públicos eram mais depravados que no nosso século, e que 
esta corrupção, mais do que nunca, tinha um caracter odioso; apresentaremos 
tami)ein mais que uma teslemunlia contemporânea, que prova o quanto se ti- 
nha multiplicado e acclimatado, para assim dizer, nos hábitos da população pa- 
rizicnse o exercício da prostiTuição regular. 

Esta prostituição, é preciso confessal-o, tinha então uma favorável in- 
fluencia .sobre os costumes, porque desde que os homens do Norte se mistura- 
ram, de boa ou má vontade, com os indígenas francos ou gallo-romanos, o vi- 

UlSTOHIA DA PROSTITtnC.iO. ToMO 11 — FoLHA 9. 



66 HISTORIA 

cio contra nalnram dcscnvolvia-sc, como contagio devorador, cm todas as clas- 
ses da sociedade, sem excluir as ordens religiosas e as famílias reacs. Gui- 
lherme de Naugis, contando na sua chronica a morte trágica dos dois filhos e 
uma filha de Henrique i, rei de Inglaterra, mortos no mar com uma multidão 
de inglczes cmharcados no mesmo navio, apresenta este naufrágio como um 
castigo do ceu e não receia dizer que as victimas eram quasi todas sodomitas 
(omnes fere xodomilica lahe direbenlur et erani irreiili.) 

Esta horrivel degradação mural, como já o deixamos dito, encontrava-sc 
por toda a parte, principalmente entre os frades; c a egreja, altlicta por taes ex- 
cessos, que se exforçava em occultar, não podia deixar de fulminar com seus 
anathemas estes seus memhros indignos. 

Veremos depois que a condemnação dos Templários não f(ji da parte de 
Bonifácio vm e de Philippe, o ForíiKiso, mais que uma medida severa de jus- 
tiça contra a sodomia, disfarçada com o hahilo da ordem do Templo. 

k sodomia era igualmente o laço de diflerenles seitas heréticas que que- 
ri.mi cstabelecer-se, fazendo propaganda rápida, com a ajuda das suas impure- 
zas e que dcsappareceram pela altitude severa e firme do alto clero, que o 
poder temporal secundou com os carrascos e supplicios. 

Este detestável vicio tinha-se inveterado por tal forma no povo, que as 
tentativas dos manicheos, que se succederam com diiterentes nomes no século 
XIV, lhe deveram o seu êxito momentâneo e ao mesmo tempo a sua implacá- 
vel repressão. Em presença dns espantosos progressos de similhante praga, 
comprehende-se que a prostituição natural podia considerar-se com um remé- 
dio para es!e mal, como um dlíjue a taes loucuras. 

Santiago de Vitry na sua Histoire accidentale (cap. vm) registra este fa- 
cto curioso e significativo: que as mulheres publicas detinham descaradamente 
na rua os (^eclesiásticos, chamando-lhes sodomitas, quando estes se recusavam 
a seguir estas perigosas sereias. 

«Este vicio vergonhoso e detestável, accrescenta, encontra-se muito gene- 
ralisado n'esta cidade; este veneno, esta peste, é tão incurável, que aquelle que 
fem uma, ou mais concubinas, é lido como homem de costumes exemplares.» 

Santiago de Aitry, que nos dá esta preciosa observação sobre os costumes 
de Paris no fim do século xii, parece querer descrever mais particularmente a 
prostituição que se apoderou do bairro da Universidade, onde reinava como 
soberana. 

«^'a mesma casa, diz, ha escolas nos andares superiores e asylos de li- 
bertinagem nos inferiores; no primeiro andar leccionam os professores; por 
baixo, as mulheres libertinas exercem o seu vergonhoso mister; e emquanio 
que, por um lado, cilas disputam entre si ou com os amantes, por outro, ou- 
vem-se as sabias discussões e a argumentação dos> estudantes.» 

O bairro dos collcgios e das escolas era povoado, n'aquella época, apenas 
pelos mestres de artes e pelos estudantes: estes, com a idade de vinte a vinte 
e cinco annos e pertencentes a Iodas as nações, formavam um exercito indiscipli- 
nado de l.)():()()l) indivíduos (|ue escarneciam da policia, sem permillir ao pre- 
bostc de Paris o intervir nos seus negócios; protegiam, é verdade, as mulheres 
de vida alegre, moradoras no seu bairro e cohriam-nas com um veu de impu- 
nidade, emquanto (|ue não sabiam dos limites marcados. 

O reitor e dependentes da Universidade, sabendo que a juventude neces- 
sita gastar a exuberância do seu ardor e de suas forças sensuaes, não lhes im- 
punha a obrigação de viver como anachorelas. Assim se explica o quadro que 
Santiago de Vilry copiou do natural e que nos representa fielmente o estado de 
prostituição na visinhança das escolas da rua de Fouarre. E' provável, todavia, 
que esta proslituição no domicilio, não fosse a única que existia sob a salva- 
guarda dos estudantes: a prostituição errante, que correspondia ás ideias e aos 



DA PHOSTITUIÇÃO 67 

inslinctos d'aquellc (empo, havia do ter como campo de feira o Prc-aux-Clercs, 
a(iiu'lie [lasseio agresle dos íillios pródigos da Universidade, vasta planicie sul- 
cada de arroios, sombreada por grandes arvores e cortada por vaiiailos enormes. 

Era af|iiolle, naturalmente, o (xuito de reunião das jovens alegres que se 
chamavam de campo e eèrca e (|ue nada tinham a lemer, ii"a(]uelle fresco asylo, 
da justiça abacial de Sainl-derniain des l'rés. A Universidade fazia respeitar 
os seus privilégios e igualmente as suas companheiras de lihertinagetn. 

O Vré-cmx-Clercs não era o único refugio da proslitui(,'ão vagabunda, pois 
finha outro não menos inviolável e mais comniodo na estaí,'ão fria e chuvosa. 
O palácio das Tiíermas de Juliano, (jue os reis da primeira dynaslia habitavam, 
estava desoccupado havia séculos e as ruinas d'este grande edilicio galo-romano 
cercadas de vinhas e jardins, ollereciam, segundo a expressão d'um poeta con- 
temporâneo, «uma iniinidadc de rcd-uctos sinuosos, sempre favoráveis aos actos 
secretos, mysteriosos esconderijos, cúmplices do crime, occultavam a vergo- 
nha dos (pie os commctiiam.» 

João de Hauleville, que nos dá a conhecer o uso obsceno do antigo pa- 
lácio das Thermas, sob os reinados de Luiz vn c Philippc Augusto, expõe o 
que cUe próprio viu : 

«Alli, diz com menos imlignaçâo que piedade, a espessura do arvoredo, 
usurpando a escuridão á noite, protege constantemente os amores furtivos c 
occulta, com frequência, á severa vigilância, os últimos symptomas do |>udor que 
se esvae, pois quem quer praticar uma má acção, procura as trevas, e a sua 
vergonha sente-sc melhor nos logares escuros, gosta de envolver-sc no véu da 
noite.» 

Philippe Augusto em 1218, fez doação (Uesfas ruinas romanas ao seu ca- 
marista Henritiuc, provavelmente com o encargo de as murar e d'ellas ex- 
pulsar a prostituição. Tal toi a intenção de Philippe, quando fez cercar por bons 
muros o cemitério dos Santos Innocentes, no qual a prostituição nocturna 
SC expandia, sem respeito pelos mortos a quem faziam testemunhas. Gui- 
lherme, o Bretão, fallando (Feste cemitério no poema épico da Philippida, in- 
digna-sc com profanação tão insolente: {«El (juod pejus eral iiifrelricabnlur in 
illo.y> Liv. I, verso 441). 

O mesmo succedia cm todos os logares próximos da muralha do recinto: 
a prostituição vinha também ahi estabelecer o seu campo desde o anoitecer, c 
as vis creatiiras, que a exerciam ás escondidas, collocavam-se nas ininiediações 
dos sitios mais freciuenlados, para esperar a sua presa. Lè-se nas (Irandes Chro- 
niijues de Saint-Denis, esta particulariílade (]ue se refere ao reinado de Philippe 
Augusto : 

«E também as mulheres adoidejadas {folies femnies) (|ue se collocavam 
nos arredores c. encruzilhadas das estradas e se entregavam por preços iníimos 
a todos, sem terem vergonha.» 

E' a única passagcn\ d'uni escriptor do século decimo terceiro, em que 
se falia do preço da prostituição, c ainda que esse preço de meretriz vadia, 
não se tenha aqui lixado, não pode duvidar-se (pie, em virtude da muita con- 
corrência, era muito baixo. 

A prostituição linha ainda owlro Ihealro de avenliii-as, fíira da cidade, no 
caminho de Vinccnnes, num sitio |)ittorcsco, para diante da poria de Santo 
António. iKibrcuI rcfci'e nas suas Ax.íiquitcs de l'iiris, que este sitio era o Ihea- 
lro ordinário dos attentados ao pudor, praticados pelos estudantes nas mulhe- 
res, filhas e serventes dos plebeus de Paris. A meio d'estc bosípie de má fama, 
teve de erigir-se uma cruz de pedra chamada Crnix-nenoisl ; mas este santo 
remédio, serviu apenas para attrahir maior numero de homens e mulheres, 
que se entregavam á libertinagem na mais escandalosa promiscuidade. 

Um pregador, famoso pelas conversíies que tinha feito, Foulqucs de 



68 HISTORIA 

Noiíilly, cura de Saint-Denis, appaivceii lic repente no meio cFaquella confusão 
de lilierlinos e jjrosliiulas: em pé, sobre a base da Cruix-lienoist, e\l\orlou-os 
a renunciar aos seus iiai)ilos detestáveis e a fazer penitencia, consagrando-se 
a Deus. As mulheres que o escutavam e que pertenciam á escoria do povo, 
senliram-sc commovidas de arrependimento, abandonaram a sua profissão 
infame, cortaram o cabelio e vieram a ser as primeiras religiosas da Abbadia 
de Santo António dos (^aiiipos, que recrutou a sua comnuinidade em todas as 
classes da |)rostitui(,'ão. 

As desgraçadas que a Cruz Bemdita linha visto abandonar-se por um 
preço vil, cá deshonra do corpo e da alma, fizeram procissões em redor do 
santo, descalças e em camisa : algumas casaram honradamente, outras consa- 
graram-se á vida mystica. Mas, na origem, em 1190, este estranho convento 
reunia debaixo do mesmo tecto tanto os homens como as mulh.eres, e pôde 
suppor-se que, apesar das eloquentes prédicas de Foulqiies de Neuilly, e do 
seu successor Pedro de Boiny, esta mistura dos dois sexos não era para inspirar 
virtudes a antigas prostitutas c a libertinos convertidos. O illustre bispo de 
Paris, Maurício do Sully foi quem, em I 196, afastou d'alli os homens e reteve 
as mulheres sob a regra de Cister, com ordem de expulsar a todas que se não 
emendassem. Além d'estas miseráveis vagabundas, que exploravam os arredores 
da cidade e que à noite cabiam, como aves de rapina, s )bre os viajantes retarda- 
tários, havia em alguns bairros e ruas, bordeis e antros (des bordeaux et des cla- 
píVc.s) que recebiam numerosas visitas, antes da hora de recidher, e pagavam ao 
(isco um imposto similliantc ao vectigal r(miano. 

Escasseiam as provas d'estes factos n'aquel!a época, mas como as encon- 
traremos mais tarde em abundância, devemos crer que dcsappareecram nos rei- 
nados anteriores ao de S. Luiz. A tradição, que nunca deve despresar-se, so- 
bretudo se se refere a circumstancias que não foram mencionadas por eseripto, 
no tempo em ([ue occorrem, a tradição recolhida por Sauval no século xvii (/íe- 
clier. et antiq. de Paris, tit !i, pag. Gl]!S) diz-nos c|ue, niuilo antes de Luiz ix, 
«as mulheres escandalosas, tinham estatutos, trajo particular afim de serem re- 
conhecidas c também juizes privativos.» 

Esta tradição tinha-sc perpetuado entre as mulheres de má vida, que 
pretendiam, ainda no tempo de Sauval, que o dia da Magdalena tinha sido fes- 
tejado pelas suas adeptas c sequazes, na época em que formavam corporação e 
tinham ruas e usos, c ainda antes de S. Luiz as obrigaram a trazer certo trajo 
para dislinguil-as das mulheres honradas. 

Infelizmente, os detalhes, que Sauval promettia sobre este singular assum- 
pto, não tiguiam na sua obra impressa, e talvez fossem arrancados com o cele- 
hre trrdado dos Bordeis de ]'aris, por pudor de seus editores; mas é incrível 
(|ue Sauval não tivesse á vista a prova da existência d'estes estatutos da pros- 
tituição, senão os próprios estatutos, que deviam ter força de lei anteriormente 
á redacção do Livre des Méliers, de Estevão lioileau. 

Esse homem pudico teve vergonha de adiiiillir na collecção dos privilé- 
gios e usos das artes c oílicios, no qua\ evidenceia tanto o ódio á prostituição, 
um capitulo especial destinado a regular o exercido de um escândalo publico, 
(jue linha tenção de fazer desapparecer, não lhe dando logar na juris|irudencia 
municipal. listes estatutos do meretricio, que ainda se encontram aqui e alli 
na historia dos costumes, foram inevitavelmente restabelecidos c conservados 
pcdo uso, mas não ajiprovados nem confirmados pelos reis. ("rémo-nos auclo- 
risados a julgar (jiu', se, n'um tempo em (|ue todos os oílicios e industi'ias ti- 
nham um código especial, a prostituição tolerada não tivesse tido o seu, as mu- 
lheres bordelarias não teriam formado uma corporação especial, como a forma- 
vam, s(d) a juri.sdição do Rei dos rihaldos. O titulo de rei. dado ao chefe ou mes- 
tre de uma corporação, era sempre inseparável dos estatutos dVsVa corporação; 



DA PROSTITUIÇÃO 69 

a ribaldia Cmlia um rei de ribaldo.i, como a mercerie seu rei de merciers c a 
meneslraudie seu rei de menetriers. Todas as corporações d'ar(es e oilicios ti- 
nliam enlão os seus chefes. 

Veremos depois como nada faltava ás corfezãs de Paris, evceplo os esta- 
tutos, para mostrar que tinham sido desde muito tempo agrupadas em corpo de 
proíissão. Nãí» podia supprir-se a perda d'estes estatutos, no (]uc diz respeito ao 
uso ou modo de recepção no corpo ou communidade, aos graus de aprendiza- 
gem, á tarifa dos preços, aos títulos do fisco, ás esmolas e multas, n'oma pa- 
lavra .1 toda a organisação interior do ollicio ; porém temos dados precisos com 
relação ás ruas e habitações da população, designadas para a libertinagem com 
a marca dislincliva das mulheres dedicadas a esta vergonhosa industri;i, ás ho- 
ras marcadas para este trabalho e ás leis sumptuárias respectivas a esta classe 
de mulheres. 

Uma anedocta, relativa á prostituição, parcce-nos muito importante sob 
este ponto de vista, tanto mais que ainda não foi bem comprehendida por aquel- 
Ics que a tiraram da Chronica de (íeofray, prior de Yirgeois. (Nova hihlioth. 
manusc. de P. Labbe, tit. i, pag. .309.) 

«Estando na missa a rainha Margarida, emquanto os devotos davam os 
ósculos de paz, viu uma dama enfeilada com um trajo magnifico c, julgando-a 
casada, deu-lbe um osculo de paz. Esta dama era uma rihalda da còrle {iiiTe- 
tricein rrtiiam). Advertida a princeza do seu erro, teve de quei\ar-se ao rei, 
que prohibiu ás mulheres publicas o trazerem, em Paris, a capa {clamyde seu 
cappa uti) para se distinguirem, assim, das que eram legitimamente casadas.» 

Esta curiosa anedocta, que figura na Chronica do fim do anno de I 184, 
não podia de forma alguma referir-se ao reinado de S. Luiz e cnlender-se com 
a rainha .Maigarida, muilser d'cstc rei, porque o auctor da Chronica linha mor- 
rido sessenta annos antes do matrimonio de S. Luiz com .Margarida de Pro- 
vença. O que o prior de Vigeois tinha ouvido referir no fundo do seu mosteiro 
lemosino tem uma data incontestável, a de 1 172, quando a princeza Margarida, 
filha de Luiz vii e da rainha Constância, foi desposada por Henri(|ue (Courl- 
manlel) e coroada pelo arcebispo de Ruão. Pode, coniiudo, deixar-se a este facto 
a data de 1158 que lhe assigna o chronista, suppondoque na sua Chronica, es- 
cripta depois de ri72, chamou rainha a Margarida, queainda não era coroada 
e que tinha apenas seis annos, na época em que devia ter recebido o osculo de 
uma prostituta. 

E' extraordinário que o facto em questão somente se encontre na C.liro- 
nica do Pri(U- de Yirgeois, que muitos historiadores confundiam com (leolíroy 
de Bcaulieu por datar do reinado de Luiz ix, uma particularidade que per- 
tence seguramente ao reinado de Luiz vii e que prova que este rei fez, contra 
as mulheres de má vida, uma ordenação que não se conservou. 

Para o nosso fim, jiódc, d'este facto, firar-se mais d'uma inducção interes- 
sante. Portanto, aquella prostituta que o chronista chama real, fazia parle das 
mulheres de vida alegre e de corte, que encontramos até ao reinado de Fran- 
cisco I, com esta mesma qualificação, ou então era somente uma das súbditas 
ordinárias do Rei dos ribaldos, uma das mulheres da sua corporação reali' 

Além d'isso, é certo que Luiz vii, submettendo o olficio das mulheres pu- 
blicas a certas condições de trajo, reconhecia imiilicitamenie a sua existência 
legal e auctorisava-as a exercer o seu culpável commercio no recinto de Paris. 

Finalmente o sobrenome do esposo da princeza Margarida, Henrique Court- 
manlel, não terá alguma relação ou analogia indirecta com a aventura de sua 
mulher, (]ue foi causa de que as cortezãs não levassem capa ou manto grande? 
Ha tanihem a notar a curiosidade com que, desde enlão, as prostitutas de Paris 
fonnand') parle da corporação das ribaldas, se vestiram de curto, como as. me- 
retrizes de Roma, vestidas de toga, e não de estola. 



70 HISTORIA 

A corporaçcão das mulheres enamoradas (amoureiíses) chegou, no tempo 
de Luiz vii, a um estado de prosperidade que se revelava muito no luxo das 
suas lilircs ou trajo di) ollirio. Sauval n'outra passagem da sua preciosa eom- 
pila(,\u) (tom. II, pag. ioO,) declara, expressamcnie, que os estatutos d'esta cor- 
poração deslionesta regeram o seu occulto grémio até nos estados de Oriéans, 
em iotiO. l'or falta d'estes estatutos não temos podido descobrir as provas da 
Confraria da Magdalena, que Sauval aílirma ter existido, sem dizer a que 
freguezia eslava adjunta, nem quacs eram os seus privilégios, indulgências e 
festas. Recorrendo a uma conjectura, bastante acccitavel, poderemos dar por 
matriz, á(|iiclla impura confraria, uma pe([uena egreja da Magdalena, que existia 
sob esta invocação desde o século undécimo, e que depois se chamou S. !Ni- 
colau. O logar occupado por aquella antiga egreja, que a revolução de 89 fez 
dcsappareeer, tem agora edilicios particulares. Não sustentaremos que fosse 
aquelle o logar da occorrencia do osculo de paz dado por uma prineeza a uma 
cortezã. O cura d'csla freguezia tinha o titulo de arcipreste e, apesar da pouca 
importância da freguezia e da egreja, não deixava de se orgulhar com o seu 
titulo, por causa da confraria de Nolre-Dain?. aax Ihurgeois que, segundo pa- 
rece, succedeu á da Magdalena, quando S. Luiz intentou extirpar radicalmente 
a prostituição. 

A esta circumslancia temos de juntar a troca do nome da egreja, a qual, 
ainda que consagrada sempre á Magilalena, teve de purificar-se, digamol-o as- 
sim, ciiamando-se agora S. Nicolau. Tíxlavia a imagem da grande penitente es- 
tava ainda no aliar mór c as suas reliquias expostas n'uma caixa de prata dou- 
rada. 

Õuasi todos (IS historiadores, incluindo Duhreul, (|ue fallaram d'essa an- 
tiga egreja da cidade, prelendeni (jue S. Nicolau foi o Patrono primitivo: Hu- 
breul e Sauval dizem ter sido n"uma das capellas que se construiu a expensas de 
uma judiaria, confiscada na expulsão dos judeus por Piíilippe Augusto, a Con- 
fraria dos pescadores e barqueiros, a quem não importava sem duvida a visi- 
nhança da Confraria das rilnildas. lista egreja era a única que possuía reliquias 
da santa, que se veneravam alli, e não se deve acreditar, como parece peree- 
ber-se numa passagem obscura de Duhreul, que estas reliquias não foram de- 
positadas alli senão em 1491 por Luiz de Beaumont, bispo de Paris. Este bispo 
não fez mais que trocar o relicário. As reliquias eram, não s() os cabellos de 
Magdalena, mas também alguma porção de coiro caheliudo da mesma cabeça, ti- 
rado do silii) que Nosso Senhor lalcou ao dizcr-lhc: «Não me toques.» 

Todas as mulhei^es dissolulas estavam de accordo em adorar Magdalena 
como sua padroeira, sem demorar-se cm fazer eleição entre as diderenlcs san- 
tas que a lenda lhes ofterecia sob este nome. Parece que também prestavam 
culto a santa Maria Egypsiaca, (|ue antes da sua conversão era uma celebre 
priisliluia. l'ma tradição (juasi contemporânea [lermille-nos certificar (|(ie a ca- 
|)ella deilicada a csla santa na rua que se chamou d(>pois ,lHs.sicn)if, em vez de 
Jujiiptienne ou Gifípcieiíni', era a freguezia inlilulaila das mulheres publicas 
desde a sua fundação no século duodécimo. Elias frequentavam esla capella, 
olfereeiam missas, coliocavam luzes e deixavam em ollerla o dizimo tie seus 
vergiinhiisos lucros: a esla i'apclla iam «'m devola peregrinação de lodos os |)on- 
tos da ciilade, e naila mais eslranlui que as suas |)romessas e ramos arlilieiaes 
collocados cm roda da imagem da sua padroeira. 

O cura de Sainl-ilfrinuin l'.iu.rerroi.s que linha na sua dependência esla 
capella, mandou aqui pòr um quadro que alli se via havia três séculos, com ver- 
dadeiro cscanilalo das pessoas |)icd(isas. Ksle (]uadro rcpresenlava a santa a bordo 
irum barco em alliludc de l(M'anlar as saias para pagai' ao barijueiío, e com 
esla inscripção, .sem duvida em linguagem do lempo: 

«Como a sanla otlerece o seu corpo ao barciueiro pela sua passagem.» 



UA PROSTITUIÇÃO 7'! 

Bem se vé por esta ancdocta a razão por que os barqueiros do Sena (i- 
nliain adoptado a mesma padroeira que as prostitutas. 

E' provável que a Confraria das ribaklas fosse transferida da e^'reja da 
Magdalena para a eapeila de Sania Maria Egypsiaea, quando a grande eonfra- 
ria da Virgem Maria [yolre-Dame\ foi estabelecida em 1 KifS n"csla egreja, por 
occasião d'uiu ultraje feito por uma cortezã a uma nobre donzella, dando-ibes 
ou recebendo, o osculo de paz. O rei e a rainba eram membros fundadorc, 
d'esta confraria de .\otre-Dame. (|ue com surprcza se via sob os auspícios de 
Magdalena. Ouanto á capella de Santa .Maria Egypsiaea, foi erecta extra-mu- 
ros, nos arredores do cemitério dos Santos Innocentes, um dos centros peior afa- 
mados da proslilui(.'ão errante. 

Quarvdo Luiz ix subiu ao throno, o seu primeiro pensamento não foi pro- 
liibir absolutamente no seu reinado a prostituição legal que era tolerada, senão 
permittida, mas pouco a pouco combatel-a, diminuil-a com as armas da reli- 
gião e com os recursos da caridade. 

«Jamais, diz Sauval, jamais tinba havido tantas mulheres de má vida 
no reino, como no principio do século decimo terceiro, e todavia nunca ellas 
foram castigadas com mais rigor.» 

(iuilherme de Seligiiy, bispo de Paris, chamou á sua presença as da corte 
e fel-as envergonhar da sua infame profissão: umas abandonaram-a para ter 
vida honrada e casar-se : outras, para expiar as culpas, recolheram-se a con- 
ventos. Guilherme apresentou-se ao joven monarcha que acabava de succeder 
a seu pae Luiz viii e que tinha a alma cbeia dos piedosos sentimentos que a 
rainha Branca abi fizera brotar. O príncipe maravilhou-se das conversões fei- 
tas pelo prelado, e, para não deixar perder tão grande fructo, apressou-se a fun- 
dar uma ca.sa de refugio para as peccadoras arrependidas. 

\o principio resolvera edificar este recolhimento n'uma cerca situada na 
rua Saint-Jacfjues, pertencente ao seu confessor e capellão, Roberto Sorbon a 
quem queria dará gerência daquella communidade penitente; mas depois, me- 
lhor inspirado, còmprehendendo que as escolas da rua Fouarre dariam má visi- 
nhança às recem-convertidas, mudou de resolução. Com aldeia pois de as acau- 
telar d'este ou d'outro perigo, resolveu definitivamente coUocal-as a distancia 
das escolas, no campo, no outro extremo da cidade, e com etíeito concedeu-lhes 
um vasto terreno, onde mandou construir uma egreja, claustros, dormitórios, e 
vários edificios cercados por bons muros. 

Este mosteiro, mais tarde hospital, oecupava todo o espaço em que de- 
pois da revolução foi construído o quartel do Cairo. .4quella espécie de forta- 
leza, onde havia jardins, terrenos cultivados com hortaliça, chamava-se, segundo 
diz Joinville, a Maison des Chratriers. iSão se sabe a origem do nome Filles- 
de-Dieu que depois tomou, mas deve suppor-se que a ironia do povo baptisou 
assim aquellas religiosas que o demónio submettera a uma aprendisagem pouco 
edilicante. Seja como fòr, este nome de Fillea-de-Dieu, que ao principio apenas 
fora um epigramma, foi depois tomado a sério, mesmo pelas ([ue o tinham. 

Um poeta satyrico d'aquelle tempo, Rutebeuf, mofa das Filhas de Deus; 
mas dos seguintes versos de ■Rutebeuf se piule concluir que as |ienitenciadas 
de (Iuilherme de Seligny, anteriormente tinham sido chamadas FemiiK-í de 
Dieu. 

Dicx a non de fdles acoir 
Mes je ne puy oncques savoir 
que Diex eust (ame en sa vie. 

Rutebeuf comprehende sob a dominação de descendência de Maria, sub- 
entendendo-se Magdalena, todo o pessoal de prostituição cm que S. Luiz en- 
contrara as Filhas de Deus. 

«E, conta Joinville, metteu na casa um grande numero de mulheres, 



72 



HISTORIA 



que viviam no pecoado da luxiina c dcu-ilies quatrocentas libras de renda 
para que se suslenlassem.» 

Esta doarão de (|iia(rocentos escudos de renda era eonsideravel, alíen- 
dendo ao valor enorme do dinlieiro, e lodo o mundo se admirou que as Filles- 
de-Dieu fossem mais contempladas que as Qmnze-Vimjts, que apenas tinham 
trezentas libras. Nos eomeros as Fille.-i-de-Dieu eram apenas duzentas, mas re- 
coibiam Imias as muiberes perdidas (]ue o arrependimento arrancava á liberti- 
nagem. Este mosteiro iinba por director um sacerdote, a quem o bispo de Paris 
cbamava seu rnuilo amado em Jesus Christo e a quem as religiosas appellida- 
vam pae em Deus. Não foi esta a única fundação do mesmo género que o rei 
favoreceu com conselhos e dinheiro. 

<'E creou, diz ainda Joinville, em muitas terras do seu reino, muitas ca- 
sas de arrependidas e deu-lbes rendimentos para a sua sustentação e ordenou 
que n'aquelles recolhimentos se recebessem todas as mulheres que quizessem 
guardar continência e viver castamente.» 

Por mais que Luiz ix quizcsse assim diminuir a torrente da prostituição, 
não lograva reformar os costumes que as cruzadas mais haviam piTverlido, 
porque os cruzados imitavam os costumes musulmanos sustentando verdaijei- 
ros haréns, ciíeios de escravas, compradas nos bazares da Ásia. «Le commum 
peuple se prist aux foles fémmes:» a maioria do povo entregou-sc ás mulheres 
publicas, diz Joinville, confessando assim a principal causa dos desastres da 
cruzada, em que o rei foi feito prisioneiro pelos infiéis. Este prudente jirineipc 
sabia a que altribuir os seus desastres; e, por isso, ao recuperara liberdade, des- 
pediu muitos empregados da sua casa, por saber que estes libertinos tinham os 
seus haréns á distancia de uma pedrada da sua tenda. Em vão se esforçou o rei 
por limpar o seu campo da prostituição c pilhagem; as suas mais severas ordens 
só serviram para manifestar mais a impotência dos seus castos esforços contra 
os desregramentos da luxuria. 

Estando cm Cesaria teve de julgar, segundo as leis do paiz, um cava- 
lheiro que fora surprebendido n'um bordel. O culpado tinha que optar entre 
duas condcmnações igualmente deshonrosas : ou devia ser levado por todo o campo 
ás costas da prostituía; com quem fora encontrado, indo esta em camisa e le- 
vando uma coi-da presa da cinta, ou tinha de abandonar cavallo e armadura ao 
rei, consideraudo-se expulso do exercito. O cavalleiro optou por esta ultima. 
Apesar de tudo quanto Luiz ix fez para inspirar a seus súbditos o nobre 
sentimento do dever, o bom rei entrislecia-se, presenceando os espantosos pro- 
gressos da desmoralisação social. 

Por fim, d("jiois do seu regresso da Palestina, para tributar uma home- 
nagem solemne á boa memoria de sua casta mãe, cuja uiorle ainda chorava, 
propoz-se extirpar radicalmente a prostituição do seu reino, tanto nas provín- 
cias do Norte, como nas do Meio-dia {Lampiedoc e LarKjuedoil.) 

N'uma ordenação de 1254 introduz este memorável artigo, que com ou- 
tros, se oppnnba d(í uma maneira definiliva e concludente á existência das ca- 
sas de lii)('rlÍMagem, condemnando taml)em a desterro as muiberes de má vida. 
«Item, sejam expulsas as proslilulas, tanto dos campos como das cida- 
des; e, feitas as admoestações ou probibições, os bens d'ellas sejam tomados 
pelos julgadores dos legares ou pelas suas auctoridades, c de tudo sejam despo- 
jadas. E quem alugue casa á proslilula ou a reeel)a em sua casa, será obrigatlo a 
pagar ao prciíosle ou ao julgador, lanio como o aluguer de um anno inteiro.» 
!\Ias S. Luiz ccdii reconluveu lamixMii (|ue a prostituição era uni mal ne- 
pessario para impedir maiores males na ordem social. 



CAPITULO VIII 



SU.MMARIO 



n R(.'i dos ribaUlos. — Inv(.'Sti^ai;ões sohro as p"L'ro,íalivas, catlii^po-ia e cargo d'fsto funccionario da casa 
real.— l'cliiiirão das snas att-iibiiifucs. — Analníria dos Minislfrinles pnlalini do (^arlos-Maçno com o Rei dos rihal- 
dos.— Filijipi; .\iiL'USlo orfranisa os ribaldos em corpo do tropa nifreena: ia.— Provas di; bravura o intrepidez d'cstas 
hufdas liceDcio.-as.— O Rei 'ios Riiialdus —Vantagens lioiioiiílcas u lucrativas d'e.^tc cargo. — Nu como um rilialdo.— 
Decadência successiva do iviuado dos ribaldos. — A rdiaideria.- Apreciação do cargo de lui dos ribaldos no inIci'ior 
dos palácios reaes— Investigações sobre os einolunientos do rei dos ribaldos.— Grasse Jue, rei dos ribaldos de Fi- 
lippe, o Largo.— Soio Guerim, rei dos ribaldos do duque de Normandia e de .Aquitania, filho de Carlos v.— Direito de 
execução e exacção do rei dos nbaldos sobre certos criminosos.- João lioulart e Peinette de la Basmette.— O rei dos 
ribaldos devia .ser um fiel e inconuptivel defensor da pessoa do rei.— Uoi|U'let. — Provas de abnegação de João Tal- 
lerau, rei dos ribaldos de Francisco i.— Gabella semanal dos vassallus do rei dos ribaldos.— Ultima transformação 
d» ollic.o do rci dos ri baldes na côrtede França.— As corbzãs e suas damas.— Oliva Santa.— Cecília Viefville.- Cubn 
Boule, rei dos ribaldos de Filippe, o Bom, duque de Borgoaba.— O parocho de Xotre-Dame de Abbeville, rei dos ri- 
baldos.— Balderico, rei dos ribaldos de Henrique a, rei de Inglaterra, duque de Normandia.- Altribuições do rei dos 
libaldos nas cidades da província.— António de Sagiav, commissarío do rei dos ribaldos de Màcon e Coletlo, mulher 
de Pedro Talon. 




lEMos A(;(iRA de aprcstMilar atiui um peisoii.igcm, (|iic a liis(oiia 
nos aponta como existindo no reinado de Filippe Augusto, e que 
Item pôde ter sido contemporâneo de Carlos Magno. O Rei dos 
ribnlilos (Ik.r rilialdoruni) foi evidentemente, desde a sua ori- 
gem, o juiz da proslituiyrio na corte dos reis de França. (Irandc 
numero de sábios, desde João Dutillet até (louye de Longuemare, 
se tem dedicado a eruditas investigações e feito engenhosas dissertações, para 
precisar quaes fossem as prerogativas, a cathegoria e cargo d'este funcciona- 
rio dd casa real: citam textos de ordenações, apresentam factos novos, fazem 
fallar o Thesouro ou Archivo dos tiíulos e procuram a verdade por entre uni 
grande numero de provas contraditórias; mas, á força de querer systematica- 
menlc exaltar ou deprimir funcções tão complexas, como largas, tão singula- 
res, como ten-iveis, não são concordes no verdadeiro mister d'estc notável per- 



Depois de tantos tralvillios de erudição c de critica, feitos sobre o o!)scuro 
assumplo do oíFicio do rei dos ribaldos, a quem consideramos como precursor 
solemne dos commissarios de policia da nossa ordem civil, vamos nós também 
occuparmo-nos d'essc mysterioso cargo. 

Cremos poder dar um grande desenvolvimento histórico á investigação 
d'cste antigo olficio da corte, intimamente enlaçado com a historia da prostitui- 
ção em França. 

Quasi todos os auctorcs, fullando do rei dos ribaldos, teem procurado de- 
finir ou determinar as suas atlribuições, enganando-se mais ou menos nas con- 
clusões por considerarem uma única phase deste personagem e do seu cargo. 

IliSTOBiA DA Prostituição Tomo ii— Folha 10. 



74 HISTORIA 

Assim João Boutillicr, (lue escreveu a sua Somme rurale, ahi por I 'i-60, apre- 
senta o rei dos ribaUlos como um executor das sentenças e' ordens dos prcbos- 
tes no séquito do rei; João Ferron indica-o como o primeiro dependente dos 
mordomos do palácio real; f.orondas dii-o commissario do prcbostc do palá- 
cio; Eclleforest chama-o prehoste do palácio do rei; Ragueau dcciara-o super- 
intendente das mulheres publicas; Estevão Pasquier aponta-o como bailio dos 
ribaldos. Cada um dá ao rei dos ribaldos um caracter especial, um poder mais 
ou menos reslricto, uma dignidade mais ou menos considerável, sem attender 
ás transformações suecessivas que o tempo fez na instituição, que tinha deve- 
res tão diversos como múltiplos. 

A reunião por ordem chronologica de todas as opiniões dos historiado- 
res e jurisconsultos, a respeito do mysterioso cargo do rei dos ribaldos, prova- 
ria que nenhuma d'ellas explicava as funcções que desempenhava este official 
de palácio na época da sua creação, nem a decadência sollVida pelo emprego, á 
maneira que os outros funccionarios da casa real lhe iam usurpando direitos e 
privilégios. O rei dos ribaldos deixou de existir, quando a sua qualificação se 
tornou vergonhosa, quando a sua antiga auctoridade passou a muitas mãos, 
quando os seus competidores repartiram a gerência do cargo. 

O ultimo rei dos ribaldos, depois de ter visto os mais beilos florões da 
sua coroa, disputados e arrancados por outros funccionarios de nomeação mais 
recente, teve o supremo desgosto de, no reinado de Francisco i, vér o resto da 
sua antiga supremacia, a que exercia sobre a prostituição da corte, passar ás 
mãos de uma dama de profissão. Assim lhe foi arrebatado o sceptro. 

Dissemos, citando uma capitular de Carlos Magno sobre a policia interna 
dos domínios do rei, que os empregados do palácio (Ministeriales palatini,) en- 
carregados da vigilância e guarda d'estes domínios, tinham grande analogia -com 
os reis dos ribaldos, que encontramos quatro séculos depois exercendo a mesma 
vigilância no palácio real. Com elTeito, estes Minisleriales palaliiii, dos (juacs 
provieram os grandes dignatarios da coroa, deviam ter especial cuidado em ex- 
pulsar das residências reaes todo o individuo suspeito, que n'ellas houvesse 
penetrado, fosse qual fosse o sexo a que pertencesse; os vagabundos principal- 
mente (fiadaks) e as meretrizes eram as que mais temiam a jurisdição do Mi- 
nisterial palatino, que julgava soberanamente estas causas e mandava açoitar 
os delinquentes. E' esta a origem do rei dos ribaldos e pode dízer-se com toda 
a razão, que, se assim não foi chamado até ao reinado de Fílíppe Augusto, já 
desempenhava as funcções no tempo de Carlos Magno. 

E' mui natural (|ue este cargo tivesse sido creado logo n'aquellas quintas 
(cillce) ou centros de exploração agrícola e manufactureira, que os reis francos 
possuíam em vários pontos do reino, e cujos rendimentos eram a principal ri- 
queza do thesouro real. Os servos de ambos os sexos, submettidos a certas leis 
de polícia e de administração, não eram senhores nem dos seus corpos, nem 
do seu tempo; tinha-se o maior cuidado em afastar d'elles toda a íntluencía de 
ociosidade e prostituição, e o seu trabalho, a saúde e os seus costumes eram 
protegidos com previsões paternacs. Era, pois, muito importante que nos 
gyneceus e dormitórios se não introduzissem desconhecidos; a regularidade da 
vida commum muito teria sotlrido com o contacto das mulheres de má vida, 
e bastaria a presença de um leproso, de um libertino, de um ladrão, ou de um 
mendigo, pai-a contagiar physica ou moralmente a pacifica povoação d'aquelles 
recolhimentos, em ([ue milhares de servos de um e de outro sexo estavam reu- 
nidos. O funccionario, a quem especialmente pertencia o prohibir o accesso aos 
intrusos n'uma quinta real, parece ter sido o concierge, e as suas funcções eram 
idênticas á do camarciro-mór. Bastou mudar-lhc o nome para apparecer o rei 
dos ribaldos. 

Os reis merovingios c carlovingios, acompanhados de numeroso séquito 



HA PROSTITUIÇÃO 10 

(le empregados c servidores, iam, de quando cm quando, residir n'eslc ou 
n'aquclle palácio, e o grande numero de pessoas que os acompanliava augmen- 
tava-se inevitavelmcnie com grande numero de mulheres cstranlias, allralii- 
das pelo lucro dos prazeres sensuaes. Era, pois, mister uma auctoridade per- 
manente c especial para manter a ordem entre aquclla massa de gente, e para 
dar ordens que CNÍgiam prompta exccuçcão. D'aqui proveio a creaçcão de um 
funccionario com diicito de vida e morte sobre todo aquelle que causasse per- 
turbação na casa real. 

Aimoin (liv. v, cap. 10) conta que Luiz, o Benigno, expulsou do seu 
palácio um grande numero de mulheres, que se diziam agregadas ao serviço da 
rainha c das princezas irmãs do rei [nmnen cwtiiin fcemineuni, qiii permaxi- 
mus eral, palácio e.rcUuU indicarit,) c só se exceptuou d'esta medida um pe- 
queno numero d'ellas, que se julgaram indispensáveis ao serviço real. 

Mas é fora de duvida que toda essa allluencia de mulheres não tardou 
muito em reapparecer na corte dos reis, das rainhas c dos príncipes, o engodo 
de todas as ambições, de todos os vícios interesseiros e todas as baixezas do- 
mesticas. Concebe-se facilmente que a justiça expcditiva do rei dos ribaldos es- 
tivesse em |)leno vigor, antes que o seu nome tivesse caracterisado as suas at- 
tribuições ordinárias, e indicado a classe de gente que mais directamente de- 
pendia do seu tribunal supremo, ou sem appellação. Este nome qualificativo 
parece não ser anterior ao reinado de Filippe Augusto. 

]N"cste reinado, a palavra ribaldus ou rihaud, cuja et^ymologia estuda- 
mos, fez a sua apparição na língua vulgar e n'clla figurou logo em má parte. 
Eríim assim designadas ao principio as pessoas de um e de outro sexo, sem 
oíTicio nem beneficio, que andavam em volta da corte, ganhando a vida como 
podiam, pela esmola, pelo jogo, pelo roubo, pela prostituição. Esta infame 
multidão cresceu prodigiosamente com as cruzadas, e n'um exercito o numero 
d'esles vagabundos era muitas vezes superior ao dos combatentes. 

Entre estes parasitas, sempre promptos para a pilhagem, havia muitas 
mulheres que se entregavam á impudicicia. Filippe Augusto imaginou aprovei- 
tar este mal necessário e, em vez de com ameaças e castigos tentar livrar-se 
d'esta vagabundagem, o que inutilmente tentaria, organisou com a(|uellas hor- 
das de parasitas, menos prejudiciacs ao inimigo do que ao exercito, que seguiam 
como nuvem de assoladores gafanhotos, um corpo de tropa assoldada. 

Os historiadores não faliam no modo como era alistada e disciplinada 
aquella chusma de insubordinados ; mas pôde suppòr-se que lhes deixaram em 
parte continuar nos seus hábitos de libertinagem, fechando os olhos aos excessos 
6 dando-lhes a liberdade de levar para a guerra quantas mulheres queriam. 

Seja como lor, aquella phalange de ribaldos, composta da relê d'uma sol- 
dadesca vagabunda e desenfreada, distinguiu-se em taes feitos de armas, com- 
metteu tão extraordinárias façanhas, tão brilhantes provas de intrepidez deu 
que Filippe Augusto fez d'ella um corpo d'clite, encarregando-o do serviço es- 
pecial de guardar a sua real pessoa. 

Os chronistas referem que o rei tinha a acautclar-sc dos punbaes dos as- 
sassinos, que o Velho da Montanha enviava continuadamente uns após outros 
a arrojar-se sobre as espadas nuas dos ribaldos do rei chrislianissimo. Estes ri- 
baldos acompanhavam o rei por toda a parte e cm todas as guerras, sem pou- 
par o sangue, animados como eram pelo incentivo do saque, riuilberme, o Hre- 
tão, que descreve as proezas d'a(|uellcs soldados, apresenta-os nasua Piíilippi- 
da, como heroes indomáveis, nunca voltando as costas a perigo algum, nem 
mesmo resguardando o peito com qualquer armadura : 

/Ti ribnldorum nihil hominus agmcn inerme 
(Jui nuinquaiii dubilanl in quwris ire perícia. 



70 HisToniA 

A'(iiilr.) lof;ai- o mesmo poela descrcvo-os carregados com o saque : 

Nec nniniii artniíjeri, ribalilorumque manipli, 
Dilali spuliis, et rebtis, equisciue subibant. 

Oiiando Filippe Augusto foi siliar Tours, depois de ter submetlido Poilou, 
cscoliíeu um capilào ribaldo {diice vibaldo) para procurar um vau no rio Loire, 
e encoiilrado por este capitão, quasi por milagre, (quasi per miracula) o exer- 
cito passou o rio e os ribaidos do rei (ribaldi /'Cí/ís, di/ Rigord,) que <'ram os 
primeiros a cornar ao assalto (qni primos impetus in ej-intunandiu niuni/iuni- 
hus [acere consueterunt) prccipilaram-se para as escadas, e a pra(,-a não espe- 
rou para ser tomada de assalto e abriu as portas ao rei. 

Em virtude d'esles feitos e de outros do mesmo género, é certo que os 
ribaidos de Filippe Augusto formavam uma melicia íemivel, mas pouco disci- 
plinada e cajiaz de todas as violências. O rei, em attenção aos seus servi^-os, 
ião pouco exigia d'cllcs a mesma disciplina e deveres impostos aos outros cor- 
pos do exercito ; todavia como não era possível, sem maus exemplos, deixar 
impunes todos os dclictos d'aquella tropa desenfreada, que apenas reconhecia 
a aucloridade dos seus chefes, e, que quando não se batiam, unicamente se oc- 
cupavam na libertinagem, o rei teve de coníiar o commando supremo d'estes 
indomáveis ribaidos a um dos officiacs mais graduados da sua casa, ao que es- 
tava encarregido da p.dicia interna do palácio, e que tradicionalmenic e\eicia 
uma iemiiia aucloridade sobre os rcus de dclictos de to<la a ciasse, commciti- 
dos no domínio da sua jurisdic(,-ão. 

Kstc funccionai'io palaciano linha lambem um aniigo prestigio de respeito 
e terror, pois era scm|)re acompanhado pelo carrasco. l'ara ellc não havia in- 
teivallo eritre a ccmdemnação e a execução, sentenciando a pena ultima com a 
mesma facilidade com (pie impunha uma ligeira pena, sempre acompanhada 
d''uma !iuiila em proveito j)roprio. 

O lugar de rei dos ribaidos veio a ser muito lucralivo, tanto pelo (|ue 
rendiam as muitas criminaes, como pelas contribuições impostas ás j)rostilu- 
tas, talierneiriís, cie. 

Tinha taiiil)em parle no saque feito pelos ribaidos nas suas expedii;ões e 
ainda, como se tal lhe fizesse falta, arrogava-se o direito sobre os prisioneiros 
de guerra. 

Lè-se na lista dos cavallciros feitos prisioneiros na b.italiia de Bouvincs 
em i 2 1 4 ; 

Hntjerus df Wajalia. Hunc habuit lUx Itibalduriim, quia dicebal se esse 
servienlem. ' 

Este fragmento, citado por Ducange, prova que o rei dos ribaidos tinha 
em tempo de guerra a qualidade de primeiro capitão das guardas do rei; mas 
não nos cvidenceia, se este oiiicial da coiòa de França exercia funcção activa nas 
batalhas ou se combatia á frente do seu bando como os demais capitães. As- 
sim se piide suppòr, acreditando n'uma licção do jiumaince de la Huse, com- 
posto no século decimo terceiro por Guilherme de Lorris, que faz do rei dos 
ribaidos um capitão, ([uando o Deus do amor reúne o seu exercito para liber- 
tar da ijrisão Uel-acneil ; mas a maneira como se dirige a Faux-semblaul, pe- 
tiindo-lhe (|ue conduza os ribaidos ao assalto, demonstra suilícienlemente que 
a má r<'pulavão dos soklados se rclkctia no chefe. 

São os seguintes os versos do Rumaince de la Rose, em que o deus do 
amor se dirige a l-aa.v-semblant, dizendo o que deve fazer : 

Fãux-sciiiblant, par lei convenant, 
Tu serás a moy maintenant 



DA PROSTITUIÇÃO / / 

Et ii nos timiá aidcrus. 
Et poiíH tu ne Irs graveras, 
Àins penseras les enlever, 
Et tDiis nos enneiiiis grecer 
Tien soie le poucoir et le batix 
Car le roy serás des ribaux. 

(Fnux-semblant, cm troca (risto perlencer-ine-has c aos meus amigos 
.ijiularás sem que os aiíraves; protegc-os e molesta os inimigos. Será tcii o po- 
der c a lioiira, |)orijiie és o rei dos ribaldos.) 

E' claro (juc n'csla citação, como o observa Pasquier, o rei dos ribaldos 
é apresentado como capitão de armas, c não como magistrado. Ha também ra- 
zão para siippòr que exercesse os dois poderes, quando se pensa no que foram 
os ribaldos de Filippe Augusto, ainda mesmo depois de terem sido orgaoisados 
como guardas de corpo do rei. Um cliefe que não tivera a aucloridade de um 
juiz nunca teria podido disciplinar aciucUa borda de miseráveis, a quem ape- 
nas o terror podia contei' em respeito. Todos os bistoriadores d'aquella época 
fizeram terríveis descripções, que nos iniciam na dilFicil e perigosa missão do 
rei dos ribaldos. 

Escutemos Guillierme de Neubrige (liv. v, cap. 2) «Certos desavergo- 
nhados da estofa dos homens chamados ribaldos.» 

Ouçamos Matbieu Paris: «Ladrões, bandidos, fugitivos, cxcommungados 
que a França agremia sob o nome de ribaldos.» 

Mas em parte alguma está melhor deseripto o género de vida dos ribal- 
dos, do que na ehronica do Longpont, em que o prior da abbadia pergunta 
a João de Montmirel o que aspirava a ser no mundo. 

— Quero ser ribaldo, responde altivamente o mancebo, que mais tarde 
devia ser canonisado. 

— Deveras! exclama estupefacto o prior. Aspiras a fazer parte d'essa 
gentalha, tão desprezível ante Deus como perante os homens I Por ventura, 
])ara acompanhar esses facínoras não será necessário jurar e perjurar constan- 
temente, jogar os dados, levar bilhetes {t.abellam co)nportare,) ter concubinas 
(pellicein circuimhicere) e viver sempre na crápula?» 

Compreliende-se sem diliiculdade que as rixas e homicídios eram mais 
frequentes entre aquelles bandidos, e que o rei dos ribaldos deveria muitas 
vezes intervir para as apaziguar, pois que os ribaldos eram sempre acompa- 
nhados das ribaldas, mulheres ávidas, tão turbulentas e incorrigíveis como 
elles. E' provável que a. milícia dos ribaldos do rei tivesse sido licenciada, de- 
pois da morte de Eilippe Augusto, talvez por causa de qualquer revolta; pois 
que, se os ribaldos ainda continuam figurando em todas as cruzadas, em todas 
as guerras e em todas as cavalgalas, iam, mal armadus e peior vestidos, de tal 
modo, que o provérbio nu como um ribaldo, tornou-se vulgar desde I5IJ0, se- 
gundo o relata uma antiga ehronica manuscripla, de que Ducange transcreveu 
alguns versos. 

Guilherme Guiart, que no seu poema histórico os Hoíjauj: lignages, 
mette cm scena os ribaldos, pinta-os com as mais miseráveis cores : 

'Uruient soudoiers et rihaus 
Qíii de toiít pei-die sont si baiix , 

Itibaux, qui volcntiers oidivent, 
Par cosluiite d'antiquité, 
ijueurent aux tnurs de ia cite. 

Ribaux, qui dei ost se departent 
Par les chitnts ra et la s'espardent 
Si utis nue pilete porte, 
I.' lulva, croc on luassue torte. 



/» HISTdRIA 

Por fim, já não são tropas regulares nem assoldadadas, mas sim bandos 
que se entregam á pilhagem que devoram o paiz, e que rccrulando-se em todas 
as parles, formam essas terríveis hordas d'aventureiros, que a Fran^'a assombrada 
viu mulli|ilicar-sc em todos os seus excessos, até ao reinado de (Carlos v. 

«Tal gente, diz uma velha ehronica inédita, citada por Ducange, são 
bandidos, ratoneiros, ladrões e são gente infame, dissoluta e excominungada.» 

O rei dos ribaldos muito tinha que fazer com tal gente, principalmente 
quando o exercito do rei estava acampado; administrava justiça expeditiva e 
algumas vezes presidia ás execuções, para lhes dar um caracter mais solemne 
e inspirar mais terror aos seus incorregiveis súbditos. Mas a sua auctoridade 
foi pirdendo a importância, á medida que a dos marcehaes ia augmentando ; 
pois que o rei dos ribaldos, sendo um cargo unicamente destinado á casa real, 
não tinha alçada senão nos estabelecimentos dependentes da casa do rei. Fora 
d'esle caso, nas expedições militares, nos acampamentos, o conhecimento de 
todos os crimes e delictos compelia de direito nos prebostes dos marcehaes, 
que, pouco a pouco, se foram apoderando da auctoridade dos reis dos ribaldos. 

Este oliicial foi lambem supplantado pelo grão preboste dos marcehaes na 
hoste ou séquito real, ahi por fins do decimo quarto século, pois que João 
Boutillier diz que o rei dos ribaldos era encarregado de cumprir as ordens da- 
das pelo preboste dos marcehaes. 

«E se acontece, accrescenta, que algum facto criminoso suceeda, o preboste 
é de direito senhor do ouro e prata que esteja no cinto do malfeitor, e aos mare- 
chaes peilenee o cavalio, os arnezes e mais pertences, se os ha, ficando as 
roupas, sejam ellas quaes forem, para o rei dos ribaldos, que tiver assistido á 
execução. 

Na época em que Boutillier escrevia a Somme ruralc, o rei dos ribaldos 
já não era senão uma pallida sombra do que tinha sido: o próprio titulo era 
desprezado e os seus rendimentos não eram tão pouco para engrandecel-o. 

«O rei dos ribaldos, accrescenla Boutillier, tem de direito conhecimento 
de todos os jogos de dados e quaesquer outros que se joguem no séquito do rei. 
liem, pelos alojamentos dos bordeis e das mulhees bordaleiras, receberá dois 
soldos por semana.» 

E não é tudo: o poder do rei dos ri!)aldos da casa real estava eii'cums- 
cripto aos limites da sua jurisdição, fora da qual funccionavam, cada um na 
sua zona, um grande numero de rei dos ribaldos, encarregados da policia dos 
costumes c nomeados pelos senhores, ou pelas cidades ou pelos súbditos de 
similhantes reis, isto é, pela gente perdida dos dois sexos. Onde liouvesse uma 
ribalderia, naluraimenie havia um rei dos ribaldos. 

Esta qualificação de rei pertencia consuetudinariamente ao chefe ou su- 
perior d'uma corporação, principalmente as que governavam muitas communi- 
dades distinctas, ou que Unham sob a sua auctoridade um grande numero de 
profissões diversas, for isso não se chamavam reis os chefes dos [lelleiros, dos 
tendciros, dos padeiros e mais grémios que tinham meslres ajuramenlados, 
porque só compreliendiam olficios e trabalhos da mesma espécie ; mas havia 
um rei de grémio. O reinado dos poetas reunia n'uma só corporação os géne- 
ros e talentos mais variados; os poetas formavam uma grande confraria, em 
que abrigavam não só os poetas, mas os músicos, os bailarinos c os mimieos. 
Os alabardeiros agrupavam-se iiRlilTerenlcmcnte a quabjuer oulra classe e no- 
meavam um rei escolhido pela còrtc ou designado como o mais destro ati- 
rador. 

A ribaldeiia, igualmente composta de individuos de Iodas as classes, como 
prostitutas, rufiões, libertinos, jogadores, vadios e outra gente da mesma quali- 
dade, era digna de ler o seu rei. O rei dos ribaldos da eòrle segiiramenlc, pelo me- 
nos em certas occasiões, exercia certa supremacia sobre as demais ribalderias. 



DA PROSTITUIÇÃO 79 

Cláudio Faiiclief, no seu primeiro livro das Difpiitrs et maf/istrnfs de la 
France, faz uma apreeia(,'ão bastante exacta do cargo do rei dos ribaldos, no 
interior do palácio real : 

«Aquelle, diz, que se chamava rei dos ribaldns, não exercia, como al- 
guns querem, as funcções de preboste da casa do rei ; assim era, que iinlia au- 
ctoridade para expulsar da casa do rei os que n'ella não deviam comer nem 
dormir ; porque em tempos passados, os que tinliam bocca na cóiHe, quando 
tocava a campainha accudiam ao refeitório c os demais eram obrigados a deixar 
o palácio ; e, fechada a porta, as chaves eram depositadas sobre a meza do mor- 
domo-mór, porque aos que não tinham as esposas no palácio era-llies probibido 
dormir na casa do rei e também para ver se alguns estranhos se tinham es- 
condido ou alguns tinham levado tjarzas ou mulheres de má nota, o rei dos 
ribaldos, com um archote na nu"io, esquadrinava por todos os recantos do palá- 
cio a vèr se encontrava ladrões ou gente suspeita.» 

Fauchet, quasi contemporâneo do ultimo rei dos ribaldos, representa-o 
no exercício das suas func(>ões, como o vira ainda na eòrlc; mas não o consi- 
dera em todas as suas phases, nem o descreve em todas as épocas do seu es- 
plendor e decadência. 

Estevão Pasquier transcreve este capitulo do memorial do Tribunal de 
contas em 1823 : 

«Item: O rei dos ribaldos tem uma rat^-ão, um criado, e sessenta soldos 
por anno.» 

Como anteriormente a este artigo, os porteiros do parlamento, quando o 
rei não está, estão descriptos como tendo dois soldos, deduz-se que o rei dos 
ribaldos, ganhando menos, tinha inferior cathegoria ; mas no caso do extracto 
ser errado, o que é evidente, é não ser a sua remuneração grande. 

N'uma conta da casa real do anno de 1812, o criado do rei dos ribaldos 
é chamado o seu preboste: l^rwpositus reijis ribnldorum, (/ííí duxit iv cale- 
los qni vulnucerant, ete. Este preboste evidentemente eommandava uma forca de 
archeiros, pois levou presos ([uatro servos aceusados de ter ferido um homem. 

Woutra eonfa da casa do rei Pbilippe, o Largo, em 1371, vc-se apparecer 
novamente o rei dos ribaldos, na qualidade de chefe supremo da policia do |)alacio. 

Depois de enumerados alguns servidores, taes como porteiros, Ic-se o se- 
guinte : 

«Item: Crusse Joe, rei dos ribaldos, não comerá na corte nem entrará na 
sala; mas terá seis dinheiros tornezes de pão, uma ração de carne e uma gal- 
linha, e uma ração de aveia e treze dinheiros de soldo, e tirará cavalgadura 
das rcaes cavallariças, c deve estar sempre tora da porta e tomar sentido que 
não entre senão aquelle que direito tiver.» 

Um outro capitulo da mesma conta apresenta-nos o rei dos ribaldos em 
exereicio, ás horas da comida, e este capitulo está conforme com o que Fau- 
chet diz sobre as attribuiçôes d'este ollicial no interior do palácio. 

«item: Deve saber-se que os guardas da sala, logo que se grite liu' Gueux 
(a comer) farão sahir da sala todos, exceptuando os que tenham de comer, e 
os devem entregar aos escudeiros da porta e estes aos porteiros, e os porteiros 
ao rei dos ribaldos, e o rei dos ribaldos deve ter o maior cuidado em que nin- 
guém entre, e o que commetter alguma falta será castigado pelo mordomo de 
serviço.» 

Assim, no reinado de l'hilippe o Largo, o rei dos ribaldos tinha decahido 
de seus antigos privilégios, até não ter bocca na corte, e estar subordinado aos 
mordomos do palácio. 

Esta supremacia dos mordomos reaes apparece principalmente n'um de- 
creto do parlamento, de 16 de março de I40i, em que se diz terem os mordo- 
mos real jurisdição sobre os dependentes do rei dos ribaldos. 



80 HISTORIA 

A docadeiicia progressiva do rei dos riiialdos loi'na-se ainda mais evi- 
dente pela diminuieão dos seus honorários. Wiinia conta da casa real, fi\am-se, 
em 1324 esses iionorarios em 20 soldos: em I3o0, em virtude de uma orde- 
nação de riiilippe de Valois, esse ordenado é reduzido a o soldos diários; cm 
1386, diz uma ordenação de Carlos vii: «O rei dos ribaldos receberá quatro 
soldos por dia, quando esteja na corte.» 

Apesar da sua decadência, este oílicio da coroa conservou uma certa con- 
sideração, até ser definitivamente supprimido nos princípios do século xvi. Du- 
tillet diz : 

«Foi desempenhado por gcntis-homens de boas famílias, cuja auctoridade 
era grande nas famílias dos príncipes, senhores e mais pessoas da comitiva real.» 

Todavia a iiistoria menciona um rei dos ribaldos, posto com o seu 
preboste no pelourinho, sem duvida por não ter cumprido o seu dever. 
Uma conta da casa do duque de Normandia e d'Aquilania, (ilho de Carlos v, 
em I3S3, relata n'estcs termos tão notável facto: 

"João Ciuerin, rei d(js ribaldos, pela dcspeza d'elle e mais Ires, indo de 
Corbeil c Scdane conduzir Guillet, que foi rei dos ribaldos, e a Picardin seu pre- 
boste, para os cxpôr no pelourinho.» - 

Deve suppôr-se que o rei dos ribaldos, a quem d'este modo se expunha 
ao desprezo publico, não tivesse desempenhado as suas funcções no palácio 
real, mas sim em qualquer cidade de|)endentc da jurisdição do rei dos ribal- 
dos da corte. Este tinha direito de execução e de evaeção sobre certos crimino- 
sos, que lhe eram entregues por sentença dos tribunaes ordinários da casa real, 
como é mencionado no registro do Tribunal de Contas em 1330: 

«Impõe-se silencio perpetuo a duas mulheres que reclamaram contra o de- 
creto do tribunal, (|uc as condemnou a ser eniregues ao rei dos ribaldos para 
serem castigadas como infames.» 

N'uma conta da casa real de 1396 vèem-se descriptos ses.senta e oito sol- 
dos pagos pela mão do rei dos ribaldos ao executor que tinha enforcado o mal- 
feitor João Bouhirt, e enterrada viva uma mulher chamada 1'crnelte la Bas- 
melte, pelo roubo de um objecto da corte no caslcllo de C>ompiègnc. 

O rei dos ribaldos, quando queria ser exemplar no cumprimento dos seus 
deveres, tinha muito que fazer no palácio real; naturalmente não assistia em 
pessoa ás execuções, que lhe eram confiadas, sendo substituído pelo seu pre- 
boste; mas era elle quem pagava ao carrasco e era responsável pelo trabalho 
dos seus subordinados. Estes, exactamente como o seu chefe, tíidiam na es- 
pada certas insígnias, diz Dutillet, para recordar que o rei dos ribaldos n'oulros 
tempos exercera justiça criminal em casa do rei. 

Este personagem devia ser um dedicado servidor, um fiel e incorruptível 
defensor da pessoa do rei, pois lhe eram confiadas a guarda das portas e a po- 
licia interior do |)alacio, durante as refeições e depois da sobremeza. Por isso 
não c para estranhar o vèr-se um rei dos ribaldos morrer repenlinanieiite de 
commoção na sagração de Carlos vi, em 1380. Aquelle que se reputa ter 
gido o ultimo titular d'este cargo, João Talleran, senhor de (Irígnaux, deu uma 
prova de abnegação á coroa, aconselhando o joven duque d'Angoulème, a (luem 
via muito enamorado de .Maria d'lnglalerra, a (|uc não desse um herdeiro ao, 
velho Luiz XII ; fii este conselho, de uma grande previsão politica, acceite pelo 
joven pi-incipe, depois Francisco i, que lhe fez refrear c extinguir o seu impru- 
dente amor. 

O rei dos ribaldos não exorbitava das suas attribuições, quando dava este 
consídho ao seu liiluro s(d)crano, pois que o seu cargo não era estranho aos 
adultérios. Segundo muitos eiudilos, o rei dos ribaldos exigia cinco soldns de 
toda a mulher casada, (jue tivesse relações amorosas com homcrn (|ue não (òra 
seu marido. .Mas é provável que o rei dos ribaldos da, corte não tivesse os pri- 



DA PROSTITUIÇÃO 81 

vilef!Ío,s locaes dos domais reis da rihalderia. Não é, por exemplo, dillicil o ap- 
pliear-iiie o que, da multa de eiiico soldos lançada a toda a mulliei' adulte- 
ra, diz o auetor anonymo da Ifisforia das fnani/nraròes (Bevy) : «Se a mulher 
recusava pat,'ar, liulia direito de se apropriar da sua cadeira,» provavelmente 
a sua cadeira de honra, a que hahitualinente occupava. 

Que as mulheres de má nota do séquito real lhe pagassem um imposto, 
é uma circumstaneia em nada contraria aos usos e costumes do direito feudal, 
que ohrigavam todo o feudalario a pagar um trihuto a seu senhor. O ti'ibulo 
semanal das vassallas do rei dns ribaldos deve ter sido de dois soldos d'ouro, a 
dar credito a Boutillier e á Ragueau. 

João Ferrou, que descreve este funceionario guardando a camará do rei, 
não hesita em infamal-o, alRrmando que tinha casa sua, onde negociava com 
as mulheres publicas. Esta nova attribuição, com que se enriqueceram estes 
reis da gentíí de má nota dos palácios rcaes, não é destituido de verosimilhança, 
quando depois se viu sobre as ruinas d'aquelie cargo supprimido ergucr-se o de 
Dama das cortezãs, cargo análogo cm pleno exercício durante a maior parle 
do século decimo sexto. 

Finalmente, Dutillet aecrcscenta aos emolumentos do rei dos ribaldos um 
serviço especial das mulheres publicas, que tinham a obrigação de fazer-lhc a 
cama (faire son Ul) durante todo o mez de maio. 

Depois da morte do senhor (irignaux, quebrado o sceptro do rei dos ri- 
baldos «a policia das cortezãs, foi encarregada a uma dama e ás vezes a uma 
dama d'alta linhagem, diz .Mr. Rabutaux.» Em lo3o chamava-se essa dama 
Oliva Santa e recebia de Francico i uma pensão de noventa libras «para aju- 
dar a ella e ás referidas cortezãs a viver e a occorrer ás despezas que tinham 
a fazer segundo a corte.» (V. o Glossaire de Ducange e Carpenticr, na palavra 

MERETRICALIS VESTIS. 

Muitas outras ordenações do mesmo género, feitas ahi pelos annos de 
1539 a 'loi6, foram conservadas, e provam estas que lodos os annos no mez 
de maio todas as cortezãs, ofliciacs por assim dizer-se, tinham a honra de apre- 
sentar o ramo de romanzeira, que annunciava o começo da primavera e dos 
prazeres do amor. 

Em 30 de junho de loiO, Francisco i ordena a João de Vai, thesoureiro 
da casa real: 

«Que pague á vista a f^ccilia de Viefville, Dama das jorens alegres da 
comitiva da córie, a somnia de io libras, com o valor de 29 escudos de oiro cada 
uma, o que lhe manda dar a ella e ás outras mulheres da sua profissão para que 
entre si o repartam, e isto por direito do ultimo me/, de maio, como é uso desde a 
mais remota antiguidade fazer-se.» 

Não somos da opinião de Babutaux, que confunde Cecília de Viefville 
com uma duqueza da antiga casa de Vieuviile, que só possuia marquezes no 
tempo de Henrique, e duques no reinado de Luiz xiv. M. Champollion-Figeae, 
publicando esta notável ordenação nas suas Mclatujes liistoriqiies (tit. iv., pag. 
479) julgou vèr na nobre esposa de um duque e par de França a herdeira col- 
lateral do rei dos rii)aldos da casa real. 

Este vergonhoso cargo ainda existia em iooS, pois Gove de Longuemarc 
descobriu uma ordenação de Henrique ii, com data de 13 de julho d'aquelle 
anno, que reforma os abusos da instituição: 

«E' expressamente ordenado a todas as mulheres publicas que não este- 
jam no registro da cilada dama das cortezãs, que, immcdiatamente depois da 
publicação d'esla, saiam da corte, com prohibição das que estiverem n'csse re- 
gistro de atravessar as povoações, e aos carreiros c mais gente (|ue as levem ou 
alojem, nem que jurem ou blaspheraem contra o nome de Deus, sub pena de 
açoites, e outrosim se ordena ás mesmas cortezãs que obedeçam e sigamaci- 

HlSTORlA DA PbOSTITUIÇÃO. ToMO II— FoLHA 11. 



82 HISTORIA 

lada dama codk^ coslume é, sendo, sob puna do açoites, pi'oliibido o injii- 
i-ial-a.>* 

Tal foi a ultima Iransformaeão do cargo do rei dos ribaldos na corte de 
França. 

Em quanto aos demais reis de ribaldcria, dependentes do da còrtc, eni- 
eontram-se por toda a parte na bistoria municipal das cidades c na historia 
particular das principaes famílias. Havia também na corte de Borgonha um rei 
dos ribaldos, cujas funcções eram as mesmas (]ue as do seu collcga da corte de 
França. Colin-Boule exercia esse cargo no reinado de riiilipjje, o líom, c esto 
nome não revela um alto personagem. Em 142:5 o titulo de rei dos ribaldos 
havia, c verdade, perdido muito do seu antigo esplendor e o paroeho de Aolre- 
Dmne de Abbeville n.ão devia sentir-se muito orgulhoso com o seu titulo de ri- 
babiia, porque os súbditos, chamados ribaldos, lhe prestavam homenagem e ser- 
viços. Comprebende-se que o titulo não fosse o mais conveniente para inpirar 
respeito, aos que conheciam os excessos dos ribaldos, a quem só co::i muito 
rigor o seu rei podia governar. 

Este funccionario na sua origem tinha sido muito mais respeitável c po- 
deroso, pois que a ribalderia ainda o não tiniia ennodoado com o seu nome. 
N'um tratado (i'Henri(iue ii, rei de Inglaterra, o duque de Normandia, reinante 
em II oi- (v. Ducange na palavra I•A^AGATOR,) evidentemente se trata dos 
rei dos ribaldos c o que desempenhava essas funcções, Bclderico, filho de Gil- 
berto, honrado com o favor do seu senhor, foi investido do cargo de grande 
|irebosle dos marecbacs na província da Normandia, e chamado «guardador das 
mulheres publicas, que se |)rostilucm no lupanar de Ruão {Custos mereiricum 
publice venalium in lujianar de Rolh.) 

Nas cidades da província o rei dos ribaldos era não só juiz, mas executor 
da justiça criminal da ribalderia. Um antigo registro do município de Bordéus 
refere que todo o condemnado era «entregue ao rei dos ribaldos, para o fazer 
percorrer a cidade, castigando-o com boas varas.» 

Metz tinha igualmente o seu rei dos ribaldos, que também não era um 
elevado personagem. 

O cci da ribalderia de Laon nem sempre vivia em boa intelligencia com 
o bailio do Vermandois : em 1270, o .seu prebosfe, de nome Poinsard (l^oinçar- 
dus, prfjpposiliis rlhaldnnnii) foi accusado perante o tribunal do bailio por ha- 
ver commettido, de sociedade com os chamados C-roselon e Wiet Lipois, actos de 
violência contra a abbadia de S. Martinho de í.aon, e contra o seu abbade 
(v. os Oliin, publicados pelo conde Bengnot, tit. i, pag. 813.) 

Este facto, sem duvida, motivou a suppressão do cargo de rei dos ribal- 
dos em Laon, pois que Filippe n, em uma ordenação de 1283, determina ao 
i)ailio de Vermandois ([ue, sob pretexto algum, consinta tal cargo, quer fosse 
publico ou secreto (quod ciam rcl palam sub aUqun .simulato colore non per- 
millat regon rilialdorum in cilla Laadunensi.) 

.4 supressão d'este cargo, não se estendeu a todas as localidades, pois 
(|ue em t'/83 a cidade de Saint-.iinand linha um rei das mulheres publicas, 
chamado Jacob (ioduncsme. 

O algoz de Tobisa lomou tam!)em o titulo de rei dos ribaldos, como se para 
desacreditar a ennodoada causa da ribalderia ainda lhe faltasse mais esta in- 
fâmia 

Finalmente la Coutume de Cambray definiu sem reticencias os privilé- 
gios do seu rei dos rii)aIdos. 

«O dito rei, deve receber por (|ual(|uer mulher ipie com homem se junte 
carnalmente... cinco soldos |)or uma s(i vez. — item, por todas as mulheres 
que venham da cidade e que estejam sob a sua alçada, dois .soldos lornezes 
pela primeira \CL. — ltem, por cada mulher da dita ordenação, que mude de 



DA PUOSTITUICAl) 



83 



casa, ou que saia da cidade, por uma noite, doze dinlieiros. — Jli'm, deve ter 
uma mesa e um Í)ra'laH(i aparte, para eile em um dos feudos do palácio, ou no 
logar que liie fòr designado jielo bailio.» 

Estes artigos fazem-nos conliecer, d'uma maneira precisa, o imposto que 
o rei dos ribaldos d'csla cidade exigia, não s(i ás muliíeres publicas, com re- 
sidência fixa, mas também ás (pie passavam pelos seus domínios. 

Estes impostos nem sempre se recebiam sem difficuldades, e os agentes 
do rei dos ribaldos, as mais das vezes para os perceberem, encontravam grande 
opposição e resistência. Um certo António de Sagiac, que se dizia commissa- 
rio do rei dos ribaldos de Macon, morreu n'uma desordem bavida na povoação 
de Beaujeu quando ia realisar a exácção de cinco soldos de multa, imposta a 
uma mulber casada, aecusada de adultério. Pedro Talou, marido desta muiber, 
cbamada Colasa e seu irmão Estevão, intervieram na desordem para defender 
a aecusada. 

António de Sagiac, era um ribaldo da peior espécie, frequentador de ta- 
bernas, vivendo á custa das desgraçadas, a quem para extorquir dinbeiro im- 
punha multas sob os pretextos mais indignos. Mas d'esta vez sabiu-se mal ; 
Colasa, tirando forças da sua bonradez, sustentou ser mulber honesta, allegando 
não conhecer outro homem (jue não fosse o seu marido; este allirmou também 
a honra da esposa, e, como o ribaldo a quizesse prender para a levar para Ma- 
con, Pedro Talon e seu irmão mataram-o alli mesmo. 

O bailio de Macon instaurou processo contra os homicidas e contra Co- 
las^, causa do crime ; mas o processo evidenciou, que o indigno funccionario 
havia accusado injustamente Colasa (contra veriíaiem imponens quod ipsa cuin 
alio quam viro occubuerat) e que o ribaldo (se ijerens pro ribaldo et se dicens 
de ordine seu de estala tialiardoram seu bulfi)nH)it) passava vida escandalosa 
por tabernas e bordeis, abusando da ingenuidade das mulheres mais honestas, 
a quem exigia o imposto meretrício em nome do rei dos ribaldos. 

Por isso obtiveram-se cartas de perdão para os processados, que nunca 
mais tornaram a ser ineommodados por causa da morte de Sagiac. 

Mas n'aqueilas cartas de perdão que justificavam Colasa, não se dizia d'um 
modo cathegorico que o rei dos ribaldos de Macon não tivesse direito de co- 
brar cinco soldos de cada mulher convencida de iu]n[icv\o{superqualibel muliere 
tixorata adulterante, sibi compeiere et posse exigere quincjue sólidos el pro 
eisdem dictam talem viulierem de suo tripede pignorare.) 

Pelo contrario, o rei de França parecia implicitamente reconhecer este 
vecligal, ou tributo da prostituição [Ik talique et alio viíi qacesta) que a ri- 
baldia de Macon lançava. 



' CAPITULO IX 



SUMMARIO 



Estado da prostituição depois da ordenação de t'254.— Instituição da policia dos costumes.— Equipaiação 
das tabernas aos bordeis.— Orjíanisação das raullieres publicas por Luiz xi.— Os judeus.— Ordenações sumptuárias 
relativas ãs inulberes publicis.— Estatutos dos barbeiros.— Banbeiros de estufas.— Estatutos dos carniceiíos.— Morte 
de S. Luiz.— Filippe, o Cornyoso.— OrdenaçJo de 1272.— As agulhetas e cintos dourados.— Correr o guitledou —As 
Ires amantes de Kilippe, o Formoso.— \ torre de Nesle.— 1'ilippj e Gautier de Launay.— João Buridan.— O burro de 
Buridan.— Estado dos costumes depois das cruzadas.- í/jc et /toe.- Os templários. 




uiz IX (Jemonstrou a sua candura e virtude, pretendendo sup- 
primir a proslitui(,'ão no reino de França. \ ordenaçãi) de 1254, 
em que era decretado o desterro das mulheres de má vida, não 
foi nunca rigorosamente executada, portjue não podia sel-o. 
I Para se subtraliirem às severas prescripções da lei, aquellas 
à desgraçadas mulheres sO cm segredo exerciam a sua vergonhosa 
industria, acobertando-se com todos os disfarces, recorrendo a todos os ardis 
para não serem presas em flagrante. 

Sem duvida, o numero das infelizes diminuiu, e os libertinos encontra- 
ram grandes obstáculos para satisfazerem os seus desejos sensuaes ; mas a 
prostituição não deixou de continuar a sua obra, logrando quasi sempre illu- 
dir a vigilância dos perseguidores ofBciacs. Já não existia, é verdade, em esta- 
belecimentos públicos, vigiada pelos regulamentos policiaes ; mas estava em 
toda a parte e existia, sob apparencias honestas e respeitáveis, no centro das ci- 
dades e no interior das casas particulares. 

As cortezãs que teimavam em desobedecer á ordenação do rei, eram e 
deviam ser as mais viciosas, as mais corrompidas. A necessidade de dissimu- 
lar a sua depravação abrigava-as, por assim dizer, a preverterem-se mais, fa- 
zendo-se hypocritas e mentirosas: não podiam fugir a suspeitas, sem apparen- 
tar de honestas, vestindo e tendo os hábitos das mulheres virtuosas : frequenta- 
vam as egrejas e só appareciam era publico trazendo um veu sobre o rosto e 
um rosário na mão. E algumas d'ellas, privadas do seu commercio, entraram 
em conimunidades religiosas, sob o pretexto de penitenciarem-se, mas que deu 
como resultado o peiorarem os costumes dos conventos. 

Bem depi'essa se reconheceu que a prostituição legal tinha menos incon- 
venientes, do que a prostituição occulta e illicita; convenceram-se também de 
que não seria possível destruil-a e que obrigal-a a esconder-se, era dar-lhc no- 
vas forças, mais provocadoras ainda. Os libertinos de profissão sabiam sempre 
onde encontrar os meios de satisfazer os seus hábitos vícídsos ; conheciam os 
logares onde se escondiam as suas cúmplices, que impunemente procuravam 



86 



DA PROSTITUIÇÃO 



sempre que queriam, e nem mesmo lhes era necessário distinguir entre mui- 
tas muiiíeres as que os satislizessem, e até muitas vezes fingiam enganar-sc 
e (Jirigiam-se a muliíeres honestas, que fugiam envergonhadas dos uitrages re- 
cebidos. 

Os libertinos, ainda em começo da sua vida desregrada, enganavam-se ef- 
fecti vãmente com as mulheres encontradas sós e perseguiam-as com galanteios 
licenciosos. 

«Então, e por este motivo, diz Delamare no seu Tratado da Policia, teve 
de mudar-se de procedimento sobre este ponto disciplinar. Resolveu-se, pois, que 
as mulheres de má vida fossem toleradas, mas que também fossem designa- 
das ao publico. Marcaram-se-lhes ruas, casas de habitação, o vestuário que de- 
veriam usar e as horas de recolher. 

Esta passagem do Tratado da Policia é muito notável, pois fixa data á 
instituição da policia dos costumes, data que não está estabelecida por testemunha 
alguma contemporânea, nem por qualquer ordenação real, nem municipal ; mas 
o douto Delamare tinha estudado os antigos monumentos da nossa jurisprudên- 
cia, os registros do parlamento, os do Chalelet, os do prebostado de Paris, e 
não teria asseverado um facto d'esta natureza, não tendo visto a prova, a qual, 
naturalmente, foi deduzida dos estatutos da corporação das mulheres alegres 
(folies;) estatutos que Sauval cita expressamente, e que foram redigidos na 
época em que cada profissão cuidadosamente recuperava os seus antigos privi- 
légios e os fazia registrar nos archivos do prebcste de 1'aris. 

Temos pois a ordenação de I í")6 (e não de I2oi, como diz Delamare,) 
restabelecendo o exercício da prostituição legal; mas esta ordenação não trata, 
de modo algum, das ruas, nem dos logares designados para habitação de mu- 
lheres publicas, nem dos seus vestuários, nem das suas horas de recolher. To- 
davia, como nas ordenações anteriores, estes differentes detalhes de policia ti- 
nham com muita precaução sido regulados, é mui natural attribuir a S. Luiz 
ou antes a Estevão Boileau esta regulamentação muito similhante á dos ofiicios 
de Paris. 

Estevão Boileau não pertenceu ao prebostado até 1258, mas gosava, já 
muito antes, da estima do r-ei, que frequentemente reclamava os seus conse- 
lhos, e que, tendo-o escolhiilo para reconstituir o prebostado, ia algumas vezes 
sentar-se a seu lado, quando Boileau administrava justiça no Chatclet. 

«Aquelle prudente preboste, diz Delamare, foi quem reuniu todos os 
commercianles e artistas em corporações ou communidades, sob o titulo de 
C(jnfrarias ou grémios, segundo o commeriio ou ai'te de cada um dos grupos; 
foi eile quem deu a estes commcrciantcs os primeiros estatutos para seu governo 
e regimen.» 

Não seria muito natural o comprehender as mulheres publicas n'esta vasta 
organisação de otficios, em que o legislador quiz proteger os direitos de cada 
um, e claramente definir as profissões, segundo os seus usos tradicionacs? 

Luiz IX, consentiu, pois, em modificar a sua ordenação de \2"}í e, accres- 
cenlando-liie algumas palavras (|ue não lhc-<illeraram muito o texto, dcu-lhe um 
sentido totalmente diverso : foi uma maneii-a indirecta de tolerar a pi^sliluição. 

E' este o artigo que annulla a ordenação de li'.')'i-: 

«.[tem: que todas as mullieres publicas e ribaldas communs sejam expul- 
sas d(! todas as nossas boas cidades e villas; especialnientc sejam expulsas das 
ruas das ditas boas cidades, para fiira dos muros e para longe de todos os lo- 
gares sagrados, como egrejas e cemiferios, c que (luem alugue casa nas ditas 
cidades e boas villas a mulheres communs, ou as receba em sua casa, pagará 
aos fiscaes da lei o aluguer d'um anno.» 

Em virtude d'esla ordenação jiiiblicada em Paris, a prostituição, legal que 
havia desapparecido por espaço de dois annos, recomeçou regularmente sob a 



HISTORIA 87 

prolecção dos funccionarios roacs, c todas as ordenações an(criormcM)(o pii!)li- 
cadas a respeito da prostiluição, fimdarani-:-e na de S. Luiz que, se não iiavia 
creado, iiavia pelo menos reformado a policia dos costumes. 

Os artigos que precedem, na ordenação de I 2o6, o que acabamos de re- 
produzir, não são conipletanientc estranl\os ao assumpto, pois qualificam na 
classe dos libertinos aos jogadores de dados e aos blasphcmos, eijuiparando as- 
sim o jogo e a blasphemia á prostituição. 

Ò santo rei pr^diibc jiois aos senescaes, bailios e outros funcrionarios e 
serriçaeò- de qualquer calhegoria, o proferir qualquer palavra ollcnsiva a Deus, 
á Virgem ou aos santos. «E acautellem-sc, accresccnta, do jugo dos dados, 
dos bordeis e das tabernas.» 

Em seguida probibe, em iodo o seu reino, o fabrico dos dados e delermina 
que qualquer bomem, encontrado a jogar os dados, seja tido como infaiiic e não 
possa testemunhar em juizo. 

Estes artigos da lei provam que, n'aquelle reinado, as tabernas não ti- 
nham nicibor lama que os bordeis, e pjr isío se apreciará a espécie de ho- 
mens e mulheres, que se reuniam n'aquelles antros de libertinagem, onde não 
se entrava sem desbonra. 

Era isto uma recordação da lei romana, que os jurisconsultos começavam 
a estudar, e que tinha em má conta as tabernas onde se bebia e se comia e 
lambem onde se jogava c dormia. Comiudo pela mesma occasião em que uma 
ordenação do rei declarava infame áquelle que frequentasse estes immundos to- 
gares, o preboste de Paris publicava os estatutos dos taberneiros, nos quaes, to- 
davia, unicamente se oecupa da venda de vinho a pregão; mas como (jualquer 
podia ser taberneiro, comtanto que tivesse meios para pagar o imposto ao rei 
c á cidade, a corporação que por isso se com|)unba de toda a classe de gente, 
não podia aspirar á consideração da gente honrada. 

Estes taberneiros eram unicamente obrigados a vender o vinho por me- 
dida legal, e podiam além d'isso fazer outras especulações dcsbonestas, abrindo 
as suas portas ás ribaldas e ribaldos, ([ue passavam alli os dias jogando os dados, 
blasphemando e commettendo as acções mais culposas. No curto espaço do 
tempo em que a prostituição foi obrigada a oceultar-se, as tabernas substituí- 
ram os bordeis e estes transformavam-se em tabernas, quando aquelles, por 
uma ordenação do mesmo rei que os havia mandado fechar antes de comprc- 
hender a sua utilidade, foram restabelecidos. 

Delamare pretende que, durante a prohibição da prostituição legal, na 
nossa lingua as mulheres publicas começaram a ser qualificadas com nomes 
particulares e odiosos, designadores da ignominia do seu oílicio. E' de erèr 
que estes nomes tivessem sido expressamente inventados para inspirar mais 
horror e desprezo pelas mulheres que por ventura mereciam taes qualificativos. 
«Sem duvida julgou-se, diz, que fazendo-as assim conhecer, o pudor na- 
tural ao sexo coadjuvaria as leis, e que os próprios homens se envergonhariam 
de ser recebidos em logares e por pessoas tão infamadas.» 

Estamos reduzidos a conjecturas a respeito da organisação das mulheres 
publicas, no reinado de Luiz ix ; mas é incontestável que esta organisação exis- 
tiu e que se perpetuou pelos reinados seguintes sem ser radicalmente modifi- 
cada e que são sempre as ordenações de S. Luiz as que os reis, seus successo- 
res, invocam para regulamentar a prostituição legal. Noutro capitulo oceu- 
par-nos-hemos das ruas bordelarias n'aquella época. Não encontramos nenhum 
texto histórico provando que as mulheres de má vida fossem então marcadas ou 
com distinctivo infamante como os judeus, ou com um trajo de <'òr caracterís- 
tica. Todavia, motivos hi para erèr que Luiz ix, não tendo querido que os ju- 
deus se confundissem com os cbristãos, tivesse tomado as mesmas precauções 
com as prostitutas e as obrigasse a usar um distinctivo análogo. 



88 



DA PROSTITUIÇÃO 



Em 1269 os judeus, cuja pormanencia não era tnlcrarla em França senão 
em coniliçôes tão honorosas como humilhantes, foram ohrigados, soh pena de 
prisão e de multa arbitraria, a porem na sua túnica, adiante e atraz, «uma ro- 
dclla de feltro ou de panno amarello com um palmo de diâmetro e quatro de 
circumferencia» chamada em francez rnuelle. e cm ialim rota ou roíella. Mais 
tarde este si^Mal foi perdendo gradualmente a sua forma e as suas dimensões 
e tornou-sc triangular, sendo então chamado billelle ; quando foi supprimido, 
já não era maior que um escudo; mas os judeus ricos verteram grossas som- 
mas no thcsouro de Fillippe, o Gordo, para se libertarem desta marca infa- 
mante que os pobres conservaram unicamente até ao tempo do rei João, em 
que a rouelle, metade roxa e metade branca e do tamanho d'um sello real, foi res- 
tabelecida. Não será presumível que as mulheres publicas fossem também obriga- 
das a usar uma marca similhante? Provaremos que esta marca foi usada em 
muitas províncias da França: com mais probabilidade, todavia, afTirmarenios 
que, por aquelle tempo, as ordenações sumptuárias prohibiam ás mulheres dis- 
solutas o uso de certos tecidos, adornos e jóias. 

A primeira ordenação conhecida, em (|ue se trata d'um regulamento d'estc 
género, data do anno 1460 e encontra-se no antigo livro verde do Chatelet, 
que contém as actas do prebostado de Paris. Nesta ordenação, apenas sem du- 
vida a confirmação d'outra mais antiga, o prebostc de Paris prohibe «ás mu- 
lheres de má vida, i|ac fazem peccado com o seu corpo, o terem a audácia de 
usar nos seus vestidos bordados, botões de prata, brancos ou dourados, péro- 
las, c capas forradas de pelle, sob pena de confisco.» F'-lhes ordenado que 
abandonem estes enfeites n'um prazo de oito dias, passado o qual, a policia do 
Chatelet, enconlrando-as em desobediência, poderá prendel-as, exceptuando 
nos togares consagrados ao serviço de Deus, e despojal-as dos ditos enfeites, 
exigindo cinco soldos por cada desobediência. 

O prebosle do Paris, Estevão Boileau, confidente das virtuosas intenções 
de S. Luiz, sem duvida se encarregou de as executar e de reprimir todos os ex- 
cessos da prostituição na capital do reino. O seu Livro dos Ojficios, no qual 
particularmente se occupa da constituição industrial de cada corpo do estado, 
não nos apresenta, é verdade, passagem alguma cm que elle figure como refor- 
mador dos costumes; mas, como os estatutos das corporações de artes e oflicios 
se referem ájuella época, embora não tivessem sido confirmados pelos reis 
de França, senão em datas muito posteriores, em que a poli(!Ía dos costumes 
foi objecto de attenção do prebostc cie Paris que, n'esse tempo, deu a sua sanc- 
ção oliícial a estas leis de familia, que os reis mais tarde approvaram e reco- 
nheceram por cartas patentes, não é portanio imprudente o acreditar (|ue Este- 
vão Boileau na repressão dos excessos das prostitutas tivesse uma grande parte. 

Nos estatutos dos barbeiros, confirmados em 1371, probibe-se aos mes- 
tres de olíicio o ter mulheres de má vida em sua casa e favorecer o commercio 
infame das infelizes, sob pena de serem privados do seu oHicio, perdendo lam- 
bem todos os seus utensílios, taes como : cadeiras, bacias, navalhas, e mais coisas 
pertencentes á profissão, o que tudo seria vendido em proveito do rei do grémio. 

Os bai'l)cii-os, ao mesmo tempo banheiros d'estufa, nem sempre respeita- 
vam a pnjhibição, e os lucros, que lhes dava a prostituição e a alcoviticc, inci- 
tava-os a arrostar com as penas pecuniárias que constantemente era preciso 
renovar por meio de novas ordenações. 

Nos estatutos dos carniceiros de Paris, confirmados cm l:fcSl, probibe-se 
aos aprendizes do grémio o casarem com muiiíer (juc tivesse sido publica ou 
que ainda o fosse. 

«y/em: se algum casar com mulher communi, dilTamada, sem licença do 
mestre, para senipre será privado da llrú Cuniireria, c não poderá cortar nem 
fazer cortar, nem por si nem por outrem, sem perder as carnes, ele.» 



DA PROSTITUIÇÃO 89 

Nem todos os esforços de S. Luiz e de seus ministros, para impor á pros- 
fifuieão um salutar Ireio, tiveram o êxito que se esperava ; pois que o piedoso 
ivi, até ao lim da sua vida, se arrependeu de ler deixado existir o vieio sob 
a protecção das leis e volveu ao seu primeiro projecto de eliminar completa- 
mente, nos seus eslados, os maus costumes. Quando se dispunha a embarcar 
para a segunda cruzada, em (|ue iiioi'reu, o horror, (|ue tinha á impureza, inspi- 
rou-lhe o desejo d'' executar esse grande projecto de relorma. 

A 2ú de junho de I 2(59 escreveu clle d'Aigucs-Mortcs, a iMalheus, ab- 
bade de S. Denis e ao conde Simão de iNcsle : 

«Também ordenámos (jue se destruíssem t'omplelamente as iKjlorias e 
manifestas prostituições {noloria el mani/esla proslihula) que maculam com 
a sua infâmia o nosso liei [)ovo e que tantas vicliinas arrastam pai"i a perdição; 
ordenámos que estes escândalos íossem pei'seguidos nos camp(is e nas cidades 
e desapparecessem completamente do nosso reino {lerrani noislram pleniut e.v- 
ptirgari) todos os homens libertinos e todos os malfeitores (llafjitiosis boiíiiiii- 
bas ac malefacloribm publicix.)» 

Esta carta continha uma ordem positiva, que a morte do rei não pcrmil- 
(iu que se executasse. As mulheres dissolutas e .seu infame corlcjo continuaram 
exercendo o seu ollicio, confiadas na lettra das ordenações anteriores e não ti- 
veram consequências as intenções do virtuoso Luiz ix, que mais uma vez em 
balde teria querido depurar completamente os coslumes públicos. Transformar 
uma sociedade rudimentar n'uma sociedade virtuosa, era n'aquelle momento 
impossível. 

Pôde todavia acredilar-se que legou a seus filhos o cuidado dintcntar 
essa reforma, que elle não teve tempo de executar, pois que a isso parece alu- 
dir nos Documentos ou conselhos que pela sua mão deixou escriptos a Inlippe, 
seu filho mais velho e suecessor. 

«Nunca faças coisa desagradável a Deus, isto é, não commellas pcccado 
mortal,» recommendava-lbe no seu testamento. «Mantém sempre os bons costu- 
mes no teu reino e aniquila os maus. . .Foge das más companhias. . . Ama o 
próximo e odeia os maus. Que ninguém ouse, na tua presença, pronunciar pala- 
vra que attraia ou provoque peceado.» 

Filippe, o Animoso, aeceitou os conselhos de seu glorioso pae. 

No parlamento da Ascenção, em 1272, fez este rei uma ordenação prohibi- 
liva contra os blasfemos, contra os logares de prostituição e contra os jogos de 
dados que, na sua reprovação, S. Luiz equiparava. Nós apenas conhecemos a 
carta dirigida a todos os bailios «para que nos territórios da sua jurisdicção e 
nas terras dos barões façam respeitar a citada ordenação, prohibindo os jura- 
mentos falsos, os bordeis e os jogos de dados ; a pena de dinheiro, diz o rei, 
poderá ser trocada por pena corporal, conforme a qualidade da pessoa e a gra- 
vidade do delicto.» 

Essa pena da ordenação, que esta carta annuncia, segundo nossa opinião 
prova que nunca foi cumprida e que foi esquecida antes mesmo de Filippe o 
Formoso, succeder a Filippe, o Animoso. 

O completo extermínio dos bordeis era coisa impossível e perigosa e teve 
de manter-se a tolerância tacita, que até então estivera em vigor, unicamente 
oppondo obstaculosao seu ímmoderado desenvolvimento. De suppôr é, que, n'a- 
quelles tempos, os poderes públicos se limitaram a submetter a prostituição ás 
regras severas de uma policia vigilante, assegurando assim o respeito e conside- 
ração pelas mulheres honestas. 

Temos, todavia, de referir ao reinado de Filippe, o Animoso, os usos des- 
criptos por Pasquier no seu livro Ikcherches de In, France, sem data lixa é 
verdade, mas que devem ler-se dado nas proximidades do reinado de S. Luiz. 
Foi verosimilmente n'aquella época que se proliibiu ás mulheres publicas o usa- 

HisToRU DA Prostituição Tojio ii— Foi.oa I ;. 



90 HISTORIA 

rem cintos dourados e aprcsentarem-sc em publico sem unia agulheta no hom- 
1)1-0. Esla agulliela era de difíerentes cores, conforme as cidades em que a pros- 
tituta finlia direito de exercício c permanência. 

Já veremos, ao faliar dos uso.'^ e costumes da prostituição nas diíTercntcs 
cidades da França, que as mulheres publicas de Tolosa, cm vez d'aguUieta no 
hombro, traziam uma jarreteira ou liga no braço, sendo sempre de differente 
còr da do vestido, para que, distinguindo-se melhor, mais claramente indicasse 
a condiçcio da pessoa que a trazia. 

«Os que succederam áquelle sábio rei (Luiz ix,) diz Pasquier no capitulo 
XXXV do seu livro viii, não consentiram por lei os bordeis, mas toleraram-os 
por conveniência, julgando que de dois males era prudente escolher o menor c 
que melhor era tolerar mulheres j)u!)iicas, do que dar occasião aos libertinos de 
perseguirem as mulheres casadas, que devem fazer da castidade a sua gloria. 
Orío é que quizeram que as ditas más mulheres, (|ue em logares públicos se 
abandonam a qualquer, não só fossem reputadas infames, mas também trajas- 
sem de modo difierentc d'aquelle que vestiam as mulheres honestas; que 
era esta a razão porque antigamente em França não lhes era perraittido usar 
cintos dourados, e pelo mesmo motivo foi ordenado que usassem um distinctivo 
que as estremasse da gente honrada, e assim lhes era obrigatório trazerem uma 
agullieta no hombro. 

A estes dois uzos, pois, refere Pasquier dois provérbios que se tinham po- 
pularisado desde o século xiii, e que não envelheceram tanto que deixem de 
empregar-se com frequência no nosso. 

Dizia-sc então, e ainda hoje se diz, correr a agnlheta, e vale mais boa 
fama que cinto dourado. Com ctteito sob o reinado de Filippe, o Animoso e de 
Filippe, o Formoso, introduziu-se como moda em França o costume oriental 
dos cintos de couro dourado, ou de tecido de ouro, quí as ordenações sum- 
ptuárias prohibiam ás mulheres de condição humilde e por conseguinte ás ri- 
baldas f|ue, como as meretrizes de Rnma, não podiam usar ouro ou prata. 

A prohibição d'um objecto de adorno devia parecer tyrannica ás mu- 
llicrcs do povo que, pela sua condição humilde, se viam comparadas ás mulhe- 
res publicas, e tiveram de vingar-se do edito, oppondo a sua boa fama ao luxo 
das damas da corte, que nem sempre tinham vida irreprehcnsivel. 

Houve, todavia, frequentes infi'acções da ordenação sumptuária, pois mui- 
tas mulheres se enfeitaram com cintos dourados que não tinham direito de 
usar. O preboste de Paris ameaçava-as com multas c confiscações, mas ellas 
persistiam no seu empenho, afírontando as chufas a troco de parecerem damas 
de cinto dourado. .\s ribaldas não eram as menos ousadas em infringir a pra- 
gmática, cingindo o dourado adorno com o risco de prisão e açoites. 

>'ão temos necessidade de refutar os eseriptorcs que aíTirmam, sem fun- 
damento, que o cinto doui'ado linha sido imposto como signal distinctivo das 
mulheres publicas, e que as mulheres honradas, que não ousavam confundir-se 
com cilas usando este adorno, se consolavam da sua falta fazendo valer as vanta- 
gens da sua boa reputação. 

Emquanto á níjulheln, não figurou por muito tempo no hombro das ri- 
baldas de Paris ainda que, Pasquier tinha visto com os próprios olhos, nos 
fins do século xvi, este costume em Tolosa entre as pensionistas do Chatel- 
Vert. Correr a agulheta, segundo Pasquier, significava «prostituir a mulher o 
seu corpp, entregando-sc a qualquer.» 

E' provável que se comprchendesse, ao principio, coíbo para se designar 
as mulheres que corriam as ruas com a agulhefa no homi)ro. Depois esla ex- 
pressão pittorcsca fransfurmou-sc, ignorando-se o facto (]ue a tinha originado: 
o povo corrompcu-a, sem o saber e sem mudar o seu sentido primitivo, quando 
se acostumou a dizer : Courir h gidlledou (vadiar.) 



>-)' 



DA i'nusiiTUif:Ãu - y| 

iNão Icnlaromos mostrar u erro (l'alguiis philuluf^os que írcia cjucrído 
demonstrar que as ribaldas, correndo a aguliicía, se dirigiam sobretudo aos cal- 
ções das pessoas que alcançavam, cm atfenção a que estes calções eram atados 
e sustentados no seu logar por um laço ou agulhela. Estes philologos commet- 
teram um anachronismo na areheologia dos calções e onganaram-se pela con- 
fusão que fizeram das duas agullias. 

Seja como 1'òr, sob os reinados dos successores de S. Luiz, a prostkuição 
por bem regulada que estivesse, tinha estendido tão imprudentemente o seu do- 
mínio e os costumes tinham-se relaxado tanto, que as ires noras de Filippe, 
oFonnosn, Margarida, rainha de Navarra, Joanna, condessa de Poitierse Branca, 
condessa de .Marclse, foram acusadas de adullerio ao mesmo tempo e encerra- 
das por ordem do rei na mesma prisão, no Chateau-Gaillard. O processo foi- 
Ihe instaurado- á poria fechada e nada transpirou, a não ser as vergonhosas li- 
cenciosidades que se lhes imputavam. Somente uma d'ellas, Joanna de Borgonha, 
mulher de Filippe, conde de Poiiiers, foi mudada para o caslello de Doiírdan, 
onde seu marido lhe foi dar a liberdade. Margarida, ainda que menos culpada 
que as irmãs, morreu estrangulada na prisão e Branca só sahiu para vèr-se re- 
pudiada e ser conduzida ao convento de Maubiiisson. 

A voz publica attribuia a estas três irmãs uma monstruosa cumplicidade de 
libertinagem e crimes : dizia-se que se haviam alojadij de propósito no palácio 
de Nesle, situado fora de Paris, na margem do Sena, logar occupado hoje pelo 
instituto de França, e que aitrahiam a esta bella residência, pertencente a 
Joanna, condessa de Poiiiers, os jovens estudantes de que se enamoravam, es- 
colhendo entre os (]ue concorriam ao Pré-aux-Clercs. 

Estes estudantes, depois de satisfazerem a lubiicidade das Ires piin- 
cezas, eram envenenados ou mortos a punhaladas e lançados logo ao rio que 
sepultava as tristes victimas da torre de Nesle. 

«Segundo esta tradição errónea, diz Roberto Gaguin no seu Coiapendiain 
da historia de França, a rainha Joanna de Navarra iinlia-se entregado a mui- 
tos estudantes (aliquot scolnslicorum concubitu usam) e para occuítar os seus 
ci'imes, lançava-os pela janellado seu quarto ao rio, depois de os mandar ma- 
tar. Um só d'estes estudantes, João Buridan, pôde escapar casualmente a este 
'perigo pelo que publicou este enigma: Reginam inter jictre nolite: timere bo- 
nuin est.» 

Este enigma celebre, que pôde comprehender-se e explicar-se de mui- 
tas formas, é mui pouco digno do notável João Buridan, a quem a universi- 
de Paris contou honrosamente entre os seus professores de philosophia no sé- 
culo decimo quarto. Buridan que foi reitor da Universidade em 1320, (Vid. 
Bibl. de Valério André, pag. i7l) não poderia ter sido simples estudante, seis 
ou sete annos antes. 

Emquanto ao enigma de que seria o auctor, cremos podel-o interpretar, 
dando-lhe o verdadeiro sentido, escrevendo-o d'esta forma: Rejjinam interfodere 
nolite; timere boniun est. Ponhamos em logar de interfícere, que nada quer di- 
zer n'este caso, interfodere, interjerire, interferre, ou qualquer outro verbo de 
significação erótica e traduziremos então com a possível honestidade : «Não cor- 
tejeis a rainha que é perigosa esta honra.» 

A tradição relativa á lorre de Nesle, que existiu até ao fim do século de- 
cimo sétimo, estava tão popularisada em Paris, que Brantome faz d'ella men- 
ção nas Dames galantes. 

«Esta rainha, diz, estava no palácio de Nesle, em Paris, espreitando os 
transeuntes, e mandava-os chamar, e approximarem-se d'ella, aquelles que mais 
lhe agradavam, de qualquer classe que fossem; c depois de obter d'elles o que 
desejava, mandava-os precipitar do alto da torre, á agua, afogando-os. Não 
quero dizer que isto seja verdadeiro, mas o vulgo, pelo menos a maioria de 



'.)2 _ . HISTORIA 

Paris, aírirnia-o: e não !ia nenluiin, que moslramlo-lhe a turre c pcrguiitan- 
ilo-liro, não o iliga cxponfancamente.» 

.Xnh's lio Brantiiini', Villon tinha lembrarlo esta trágica liistoria, dizendo 
na sua lialuda ilas dumas: 

Sfinhlabement ou eat la reine 
Qui iiimmanda que Buridan 
Fut jplé en unsar au Seine. 

(S^mcll) inlinioiifo nnde esía a rainha, que mandou lançar ao Sena Bu- 
ridan, ilciilrn (l'iiMi saeo.) 

Mas ,1 lenda iiislorica appareeia singularmente attenuada, e em Ingar 
de Ires princezas libertinas, disputando e iepartindo entre si as caricias dos 
bellos e robustos estudantes, que se renovavam todas as noites, nas narrações 
do vulgo ap|iarceia apenas uma rainha namorada de Ruridan. Violemos ainda 
que este Buridan tinha [lodido fazei' alliisão á sua aventura da torre de Nesle, 
inventando uma allegoria que se tornou proverbial e que se chamava, o burro 
de Buridan : tinha apresentado um burro faminto e morrendo de fome, entre 
dois cestos de aveia, sem se decidir por um ou por outro. Este burro, não será 
o próprio Buridan, entre duas ou trez princezas, igualmente bellas, igualmente 
desejosas de prazer? Além d'isso, se as mulheres e as princezas se mostravam 
tão sollicitas e afadigadas em correr atraz dos homens, era talvez, porque os 
homens pouco caso faziam das mulheres. Uma terrível libertinagem se linha 
iníiltiado em todas as clas.ses da sociedade desde as cruzadas, e o vicio con- 
tra naturam, que a expedição dos francezes :i Palestina tinha trazido e accli- 
malado em França, ameaçava ainda, apezar da cavallaria, infectar os costumes 
e corromper a população inteira. 

Citamos n'outro logar uma passagem da llistoire nccUlenlale, de Santiago 
de VitiT, que íiiz um espantoso quadro da perversão dos seus contemporâneos. 
Outro poeta franccz da mesma época, (lauticr de Coincy, ainda que prior da 
abbailia de S. Mcdardo de Soissons, descreve a vida do claustro, com os ne- 
gros traços dos seus costumes vers^inhosns. no spu roíinoi- ■ 'l- '*■>•'••' f.^i-n-iw. 



ii.: f íe.jh.:.\ 
-. i CO II in i •<ein''le, 
'juaidi iiu' cL u '• joijnenC eiiseiiiliii\ 
.)/(//»• Iiii- et liic clit).-ie e.-il perdue 
AVíiire en ext to.-tl esperdue. . . 

(A grammalica hic a liic ajunla, mas a natureza maldiz simillianle ajun 
lamento. A morte perpetua engendra ai|uelle (|ue ama o género masculino mais 
que o feminino, c Deus o apaga do seu livro A natureza parcce-me que sorri 
quando hic c lioc se juntam e indigna-se ao ver juntos kic e liic.) 

Este detestável vicio tinha-.se generalisado tanto, que a prostituição le- 
gal merecia ser implantada como um remédio, ou ao menos como um pallia- 
tivo de similhante torpeza. A própria existência da sociedade, parecia ameaçada, 
cjuando Eilip|)c, o lorninso, que não carecia de resolução e de energia, se pro- 
poz atalhar os progressos da sodomia, enchendo de terror os que davam o exein- 
])lo d'csta criminosa aberração dos sentidos : tal foi a causa principal do processo 
dos 'i'cinplaiios. A detiila leitura das peças authenticas creste pr.icess), |)rova- 
nos que Filippc, o fonnono, não perseguiu iresta ordem religiosa e militar se 



DA PROSTITUIÇÃO 93 

não o sacrilégio e a libertinagem, levados ao ultimo grau de audácia e escân- 
dalo. Seja qtial (òr a opinião que se adopte sobi'e a regra dos Templários e a 
innoceneia primitiva da ordem (diz o illustre historiador Michelet, admirado 
dos importantes testemunhos quíí pela primeira vez publicava, e (]ne todos con- 
lirinam o nosso parecer) não é dilliril formar juizo acerca das desordens dos 
seus últimos tempos, desordens iinalogas ás das ordens religiosas.» 

.\ publicação d'estes documentos originaes ()rova de forma irrecusável, 
que a ordem do Templo estava infe.stida totalmente pela depravação mais exe- 
cravel. Filippe, o Funnoso, de accordo com o papa Bonifácio viu, teve cora- 
gem de atacar o mal no seu f()co, e quiz ani(]uilal-o sob as minas da ordem 
do Templo (|ue o linlia propagado, acob>rlando-o sob o seu manto branco. 

Não .sab-mos qual é a clironica, que imputa à vingança de uma mulher 
a accusação infamante, que se levantou contra os Templários etn 1307 e que 
logo accendeu as suas fogueií^as por t(jda a Europa. O interntgatorio que o Grão- 
.Mestre c duzentos e trinta e um cavalleiros ou irmãos soffreram em Paris na 
presença dos eommissarios pontifícios «foi feito lentamente, diz .Michelet, e 
com muito tacto e doçura,» por altos dignatarios ecclesiasticos, e apesar das 
negativas systematieas dos accusados, provou-se que a maior parte das accusa- 
çõcs relativas aos costumes deshonestos da ordem, eram fundadas e justas. A 
própria natureza do castigo applicado aos condemnados prova suflicientemente a 
espécie de crimes que a voz publica lhes altribuia, muito tempo antes que uma 
averiguação escrupulosa tivesse evidenciado a grande ignominia. 

Os templários estavam universalmente desacreditados: tinliam-se tornado 
proverbiaes os seus principaes vicios, o seu orgulho, a sua avareza, a sua am- 
bição, a sua embriaguez e a sua maldade; ainda que se dizia vulgarmente, be- 
ber ou jurar, ou diverlir-se comn um templário: ainda que os poetas satyricos 
se compraziam em enumerar os vicios d'aquclles monges soldados, não se co- 
nheciam ainda as monstruosas infâmias que se praticavam no seio da ordem 
do Templo, que chegou a ser uma seita odiosa, dedicando-se cá prostituição mais 
ignóbil. 

Em virtude das deposições das primeiras testemunhas que se apresenta- 
ram esponlancíimeiíle a accusar os Templários, fornuil.»u-se uma serie de per- 
guntas, prl;>s (piacs foraoi interrogados separadamente todos os accusados, 
: - II- i-.'-pi>las. mais m mcnis cv.isiviís, se pôde deduzir com toda a 
nu ecrniiina di i-cccpçà i liis irin.l is. o qui' era recebido e o que 
.1. .;.., ti ,j . > ir,i-s • in ilu iin iile na b icra, no umbigo oi n i veiilri", no anus 
ou n;i évliTiui lade da espinha dorsal e ás vezes no membro viril, {aliquaiido 
in vinja cirili;) que o neophilo era ordinai'iainenle o siibmettido unicamente a 
esta cerimonia de beijos impuros, depois de renegar Jesus (".hristo e cuspir na 
cruz; que o seu padrinho lhe prohibia ter ciuninercio carnal com as mullieres, 
mas auctorisava-o a entregar-se com os seus companheiros aos mais horríveis 
excessos de obscenidade. 

Um grande numero de Templários, fieis aos seus juramentos recíprocos, 
fizeram um orgulhoso protesto, contra o que chamavam ridículas calumnias; 
muitos, intimidados ou enganados, fizeram confissões detalhadas e os restantes 
contentaram-se em declarar que não tinham tomado parte em acto algum re- 
prehensivel, mas contavam as obscenidades da recepção, segundo os estatutos 
da ordem. De resto, estes estatutos não foram explicados por nenhum d'elles, 
nem sequer para justificar as suas extranhas e mysteriosas disposições. 

Huguet de Baris contou que, durante a cerimonia da sua recepção, quando 
se achou apenas em camisa, o irmão encarregado de o receber, ajudou-oa ves- 
tir-se com a túnica e manto da ordem, e levantando-lh'os por deante e por de 
traz {frater /'. levaoit ipsí te.-ili nexles ante et retro) beijou-o precipitadamente 
na bocca, no umbigo e na parte posterior. 



y4 HISTORIA 

Mathieu do Tilley diz, pelo contrario, que o irmão que o íiniia recebi- 
do, depois de o ter feito renegar Jesus Cliristo e cuspir na cruz, lhe ordenou 
que o beijasse na carne nua, e descobi'iu as nádegas, onde o iieopiíito applicou os 
lábios (prcecepit quod oscularetur enin in carne nuda, et discoperuit ae circa 
fémur el ipse juiL osculalus eum in anca circa illuin.) Depois o irmão introdu- 
ctor acrescentou, levantando a túnica: E aqui na frente ? o que fez suppòr ao 
neophito que devia prestar-se a uma odiosa pratica (quod deberet eum oscu- 
lari ante circa femoralia;) mas não foi por deaníe a cerimonia. 

João de Saint-Just, intimado a beijar no anus o irmão que o recebia, 
(prcecepit ei quod escularetur eum in ano) respondeu com indignayão, que nunca 
se submctteria a similhante vileza. 

Muitos templários confessaram que depois da sua recepção tinham sido 
convidados e auctorisados a prostituir-se com seus irmãos de religião ; mas to- 
dos sustentaram que não tiniiam feito uso de tal auctorisação, acrescentando que 
julgavam tão rara a sodomia na ordem do Templo como nas outras ordens reli- 
giosas. ; 

Eis aqui a deposição de Saint-Just: 

«Deinde dixit ei quod poterat carnaliter commisceri eum fratribus ordi- 
nis et pati quod ip.ri commiscerentur cuni eo ; hoc tamen non jecit nec fuit re- 
qnisitus, nec scit, nec audivit quod fratres ordinis commiterent pecatuin prw- 
dictum.» 

O depoimento de Rodoipho de Taverne é todavia mais explicito, pois qije, 
exigindo-lho o voto de castidade com respeito ás mulheres, o aconselharam a 
extinguir por outra forma o fogo natural dos seus alTectos sensuaes. 

«Deinde dixi ei quod, ex quo cocerat castitatem, debebat abstinere á mu- 
lieribus, ne ordo infamareíur; veruntamen, secundum dieta puncta, si habc- 
ret calorem naiuralem, poterat refritjerare, et carnaliter commisceri eum fra- 
tribus ordinis, et ipsi eum eo ; hoc tamen non fecit, nec credit quod in ordine 
fieret.» 

O depoimento de Gerard de Causse não foi menos circumstanciado, ainda 
que ofTerecia uma contradicção evidente. Assim, segundo elle, todo o cavalieiro 
do Templo c[ue se tornava culpado de sodomia {si essent conmcti de crimine so- 
domitico) era condemnado a prisão perpetua e os irmãos, temendo por esta causa 
a tentação do demónio, mantinham a luz accesa toda a noite nos seus dormi- 
tórios (et quod tenerent lúmen de nocte in loco in quo jacemií, ne hostis ini- 
micas darei eis occasionem delinquendi.) Todavia, quando (jei^ardo de Causse 
foi recebido na ordem, um dos irmãos assessores disse-lhe, que se não podesse 
resistir aos Ímpetos dos desejos carnaes, procederia melhor, para honra da ordem, 
se peccando com os seus companheiros do que approximaudo-se das mulheres. 
«Dixit eis quod si haberent calorem et motus carnales, polerant ad incicem 
carnaliter commisceri, si volebanl, quia melius erant quod hoc facerent inter 
se, ne ordo vituperaretur, quam si accederent ad mulieres.» 

Este templário protestou, como os outros, que não tinha visto nem sa- 
bido nunca que este infame preceito fosse seguido por algum de seus compa- 
nheiros. 

As consequências d'este processo foram terríveis: um gi\inde numero de 
templários pereceram nos supplicios. A Ordem do Templo abolida e anatiiemati- 
sada, não desappareceu completaroente e perpetuou-se a occultas com os mesmos 
costumes, se nos é licito acreditar algumas testemunhas que não teem todo o 
valor d'uma prova histórica. 

Mas depois de ter lido c comparado as peças d'este processo memorável, 
que revela uma seita de impios e sochjinilas, cobertos com o habito religioso, 
entregando-se ante os altares a execráveis desvarios, vcmo-nos obrigados a 
procurar as causas da corrupção d'uma ordem, que se tinha feito respeitar por 



DA PROSTITUIÇÃO 95 

muito tempo pelos seus costumes regulares e pelas suas virturles. Estas causas 
cncontram-sc na prolongada permanência dos Templários no Oriente, onde o 
vicio contra a natureza era qiiasi endémico e onde o Icmor da lepra e outras 
affecções cutâneas ou orgânicas Scão inhcrcntes ao commercio sensual com as 
mulheres. 

Os Templários, pois, para evitarem este contagio, mancharam o seu corpo 
c alma, acceitando a mais vergonhosa de Iodas as prostituições, que, como já 
dissemos cm face de inconlcsíaveis provas, e do testemunhos autiienticos, exer- 
ciam sempre, emhora a occultas, praticando os mais execráveis excessos entre 
si, no insaciável desvairamenlo d'uina desenfreada sodomia. 



CAPITULO X 



SLWIMARIU 



Ijò luijaiei da (iKi^tituK-Àu uii] l'aiij.— ijuadiu lia piustiluiviu liaiisieiise na idadu luedia.- A rua úl' haliièic. 
— A ma de Fuon.— A rua de C^udeles.— O beco de Saiut Sevriu.— A rua do Hospital.— A lua de í^aiut Sipboiiei].— A 
rua de Cliavaterie. — A rua de Sainl Hiluire.— O larjro Buiniau — X rua de Neyer.— A jua de Iiuu-fu|ts.— A ruailt> 
'Kcole.— A rua de Cocal.rix.— A me de Cliaroui.— A rua de Sainte-llruis.— A rua Gervese-Laureus.— A rua de Mai- 
mousct.— A rua Clievez.— O Valle damor.— A rua Saiut Uenis de la Gliatre.— A rua de Lavaodiõres.— \ prai;a des 
1'eurceaui.— A rua [totliiív. -A ruíi d Arbre-i^cc— A rua de Mailre lluiv.— A rua de tíiaulii.iurc,utt. 




l;Mu^ juiro poucos dados subi'C ;i historia dos locares mui afama- 
dos de Caris, o apenas podemos eslabelecer d uma forma positiva 
a sua siluaeào local cm certas épocas anteriores ao século xvt. 
Todavia, desde o século decimo terceiro os eiiconlra.mos indi- 
cados nas actas (in.slruinfiita) puMicas d^i prebostado, nos arclii- 
vos das treguezias e conventos, nos livros e nas contas das dille- 
renles juridieçõcs c ainda nas antigas poesias. Podemos, pois, eom a ajuda des- 
las auctoi'idades, descrever, para assim dizer, a (opographia da i.irostiluição pa- 
risiense na idade média. 

Por fatalidade, ao fazermos este mappa das ruas de má fama da ca|)ilal, 
\('mo-nos na impossibilidade de dar delallies particulares, pittorescos e cu- 
riosos, que viriam muito a propósito para distraliir o leitor, no meio d'uma dis- 
serta(,-ão arclicologica, monótona e árida. Fallam-nos absolutamente esses deta- 
lhes e particularidades, e se conhecemos as ruas (jue então tinham o triste des- 
liiio (|ue muitas teem conservado até nossos dias, não sabemos qual era o as- 
pecto exterior (festes logares de libertinagem, i[uaes os seus nomes e signaes, 
pelo menos na fnaior parte, (|ual o systema ordinário da sua impudica organi- 
sacào, qual, emlim, a sua forma inferior. Todo este capitulo pertence ao don)i- 
nio da imaginação, (jue procurará conitiido em Habelais e ainda em Regnicr 
as cores apropriadas á |tiiitura dos bordeis de nossos antepassados. 

Mas ainda que não lenhamos senau noi;õcs muito vagas e imperfeitas so- 
l.ire os myslerios de similhante assumpto, julgamos útil e interessante fazer o 
inventario arelieologico d'estes albergues; que veremos irem-se afastando gra- 
dualmente do centro da cidade e que parecem ter sido feudos de Vénus e de 
seu tilho (,u|iido, a quem a idade média franceza não envolvia de reminiscên- 
cias mythologicas. 

Naquelles tempos de privilégios e tradições, cada grémio possuía conm 
propriedade pi'opria certos (luarteirões e ruas ás (|uaes dava o seu nome : alli cs- 
iMvam os seus albergues, alli sónientc concentravam a sua induslria <• lommci- 
cio. A prostituição que se regia como IjmIos onlnK ollicios on indosdi.is, ti;'io se 



UlSTMBlA D.K PriiSTITUIÇ.Io. 



T11.MU a— l'liLH\ 1.1 



98 HISTORIA 

liiilia iMKlido limilar um único bairro, nem ofcupar unicamente algumas ruas. 
contíguas, porque estava no seu interesse e ainda na sua essência dividir as 
suas forças e ieval-as a todos os bairros d'uma vez, para por oslc modo estar 
em posição de estender as suas redes por toda a parte c fazer, por conseguinte, 
maior nuuiei-o de victimas. 

,V politica que a regulava oppunba-se seuiprc a esta diífusão de liberti- 
nagem sobre lodos os pontos da cidade e trabalhou constantemente para res- 
tringir o impuro domínio que concedia ás mullieres communs. 

Tal c a lucta que nos apresenta, por espaço de muitos séculos, a prosti- 
(uição que allernalivamenle faz frente á auclorídaOc do bispo de l'aris, á do 
prcbosle, á do parlamento e ainda á do rei. As suas usui-pações. obslinanies, au- 
dácias, resísiiam ás ordenações, aos decretos e ainda aos subordinados da auclo- 
ridade ; somente á vi\a força cedia o terreno (|ue liie agradava e que a tradição 
lhe attribuia : a ella volta sem cessar depois do ter sido expulsa ; não é escru- 
pulosa tambcni na escolha dos logares em que se fixa, pois faz Justiça a si mesma 
preferindo as ruas mais sombrias, mais estreitas, mais sujas, mais infectas, cos- 
tume que coiiser\a como se não ousasse sahir da sua guarida, cmno se o ar (|ue 
respiía a gente honrada fora ponco saudável jiara (dia. Do mesmo modo que os 
judeus, (jue não tinham direito de pór pé fora da judiaria e que se viam encerra- 
dos toda a noite como os lepro.sos nos seus lazaretos, as ribaldas e seu infame 
séquito não podiam ultrapassar os limites da sua residência, sob pena de se e\- 
jiorem ao açoite, á prisão ou á multa. 

Mas logo que a sua existência legal foi regulada pelas pragmáticas de S. 
Luiz, não tivera necessidade de oceultar-sc para exercer a sua proíissão impu- 
dica, cora a condição de se conformar com as prescri()(;òes e estatutos da ribal- 
dcria. 

O niais antigo documento, cm (|uc encontramos uma nomenclatura dos 
logares mal afamados de l'ai'is, é um poema ou monologo de versos compostos 
no século xiu por Guillot, que só nos é conhecido pelo seu Dit áes Unes de Pa- 
ris:. Este poema f(ji publicado pela primeira vez em 1 7o4 pelo abbade I,c- 
beuf, (|ue linha descoberto em Dijon o manuseriplo e o depositou na biblio- 
ílicca do abbade Fleurv, cónego de yolre-Dame. 

Desde então fem-se reimprimido nniitas vezes a (d)ra de (luilloí c serviu 
especialmente para fixar a topographia parisiense no século xni, pois que pódc 
dalar-se de 1270 este catalogo rimado em que o auetor falia de Úom Sequence 
chantre de Saint Merry, como de um contemporâneo, e este personagem vivia 
ainda em I 283. 

Os críticos que citaram o J)i/ iks líue.s, a (jue (luillot deu a forma dum 
ilínerario, que C(mieçava na rua de Huclietle. no quarteirão do Iniversidade, não 
irpararam que o poeta, ou antes o rimador, accumulando nomes de ruas e becos 
que procurou rimar com a maior indiflerença do mundo, não le\e, ao (]ue pa- 
rece, outra preoccupação senão in\estigar e indicai- os logares consagrados á li- 
bertinagem. .>'ãn ipu^rcmos dizer que eslc bom Guiilol, que viu j)assar talvez o 
seu nome á posleridade com o alcunha de Snnhador, se occupasse da investi- 
gação dum objecto vergonhoso : comludo é notável que n'estas trezentas rimas 
nomenclativas das principaes digressões do poeta sejam relativas á prostituição : 
sobre este |)onto ao menos se afasia da aridez do seu catalogo libertino e acres- 
centa, com certa complacência, algumas imagens que não são de melhor gosto. 
Todas as vezes que (luillot encontra no seu caminho um daquelles an- 
tros, que a policia urbana rodeava de mysteriosa tolerância, queria parar alli 
ainda que só fosse para marcar o logar e fazer notar a sua existência. Como 
designa mais de vinte ruas suspeitas nas Ires grandes divi.sõcs de Paris coni- 
prchendidas sob as denominações de Inirer-sidode. I.n Cile e os arrabaldes, de- 
\e-se suppór (|ui' foi chamado linillot. o sonhador, j)elas mulheres bordaleiras. 



DA iMtnSTTTUIÇÃO 00 

que mal llie ((ucriain por ler aponlailo bordeis tjiie só exisilain iia sua imagi- 
nação. 

O primeiro que aponta a partir do Petit-Pont, subindo ao bairro ou 
distrieto da Universidade, existia na rua de Platricre, que parece ser a que 
depois SC chamou rua Botloir : 

L(t'main une damf Imidière 

(Jiii maint clinpH ii fnit rir (fuille. 

O abbade Lebeuf, a quem sem duvida o pudor aeoiíarda, evpiiea a palavra 
loudiére por cliapelleira, mas na antiga liuf^ua IVanecza lomlirre, sifínificando 
cobertor em sentido restricto, equivalia em sentido figurado a prostituta. Esta /o/í- 
diére que Guillot não qualificou assim ao acaso, podia muito bem no tempo 
livre que lhe deixava a sua vil profissão de ribalda, occupar-se em fazer cho- 
pe.ns de flniy.i- ou de rerditra que os confrades das corporações traziam nas fes- 
tas da padroeira, nas procissões e n'outras occasiôes soiemnes. .\ão estamos longe 
de acreditar que estes chapeis ou chapéus, cujo fabrico era uma industria 
muito importante em Paris, figuravam na cabeça das noivas, das esposas e dos 
namorados nas testas de família. 

Ciuillol não se delem muito tempo na rua de Plntrinv, (|uat'S(|uer (|ue 
fossem os encantos da dama, e continua o seu caminho pela rua l'aon, que ellc 
rhnma Puon. 

Je descendi loul xellejiient 
Droil u la rue des Cordeles: 
■ - Dante ia: le descord d'elles 

Xi' eoudroie ucoir niuítemenl. 

Esta rua dex Cordeles c agora a de Cordeliers, que deve o seu nome ao 
convento dos lírands-forileliers que a revolução destruiu. 

E' provável que (luillul transformasse Cordeliers em CordeUs pelas neces- 
sidades da rima e também por allusão aos assumptos de coração que n'esta nui 
se tratavam. As damas, que aqui viviam, não eram muito laceis ou amáveis, 
pois o poeta não receia cousa alguma tanto como o ter com dias disputas {des- 
cord.) isto prova (]ue em toilo o tempo as mulheres publicas foram sempre mui- 
tas promplas em armar rixas e muito arrebatadas nos seus Ímpetos de cólera. 

Para encontrar outras mulhes da mesma espécie, Guillot vè-se obrigado 
a ir até á rua de Prélres-Saint-Sexrin, que elle chama o beco de Saint-Sevriu 
onde. 

Mainte meschinete, 

S'y louent souvent et menu. 

Es font batre le trmi velu 

Des fesseriaux, que nus ne die. 

Nãointentamostirardesoboveu da antiga linguagem o escandaloso officio 
das mesquinetes, a quem Ciuillot põe em seena com muita indulgência; mas se- 
guil-o-hemos á rua de rOspital, que se chamou depois de Saint-Jean de Le- 
iran, em memoria dos hospitaleiros de .feru.salem que tinham alli uma casa. 
Guillot cae no meio d'uma desordem de mulheres, que .se injuriavam com pala- 
vras e obras, ao ar livre, apesar da visinhança dos padres hospiíalciros : o texto 
está aqui menos obscuro que corrompido : 

fne ffintne i d'espiUil 
Lne auire femme folcnieni 
De sa parole nionlt cilnienl 



1 00 HISTORIA 

Guillot fugiu sem esperar o íim da contenda e tanto temia vèr-se met- 
lido n'ella que não fez mais que atravessar a rua de Salnt-S>iphnrien. Iiojc 
de Cholfls, onde conhecia uma chamada Maria, que devia ser ao mi^snid tcni|)n 
c^^pcia (cxplicailor.i de lioroscoposi e louilinr ou chapeiieira. 

/.o nie (Ic Cliaceterie (aclualmeiíte fharlierr 
Trnnbay. N'allay pa$ chez.Mari'^ 
F.n la ruc Saint-Syphorien 
Ou maignent li logiptien. 

Passando peia rua de Saint-Hiiaire, que conserva o nome, recorda que 
uma (hiinii accessivcl n'ella vive, mas não tem tempo de se demorar em casa 
desta dama de boa vontade, a que chama Ijietfdas, alcunha cm que seria fá- 
cil descobrir um sentido obsceno. 

Eil-o, pois, no pateo lininpati(ltruniau) onde se fizeram muitos hruUnn.r 
(fogueiras,) diz ; mas por bruliatix não entendia cerfamente os heiegcs quealli se 
queimaram. A cerca Itninean estava no centro das escolas e os estudantes que 
no tempo de Rahelais iam alli satisfazer as suas necessidades, iam anlerior- 
mente ao mesmo logar diverfir-sc com as suas meschines. Guillot diz pois 
com razão, que se fez grande fogueira n'aquelle logar sombrio e infecto. .Nós 
dizemos no mesmo sentido roíir le haloi (queimar a vassoura.) 1'erto havia a 
rua de .Yo//p?-.í (Nogueiras) onde havia tantas mulheres de má vida como si> cn- 
conlram hoje em lodo o districlo : 

Et puis hl rue de Noijer. 

Ou plusieurs daiiieít, por louler 

Fonl, souvent bntler léus carliers. 

tiuiildl na rua de Boa-Puits (Bom l'o(,>o) que devia o seu nome a uma 
allusão luimoiislica, não se esquece de registrar os altos feitos d'uma parteira, 
mulher d'um carpinteiro, n(davel pelo numero de homens (|uc mandou da sua 
(•aniii para o cemitério, segundo uma inlcrpreta(;ào arriscada destes dois ver- 
sos : 

/,(/ mninl la femme u un ehnpuis 
Qni de maint lioiunie à fail ses ylais. 

Leduchal ou Lenglel Dufresnoy, explicando o segundo verso, viu sem du- 
vida nVlle uma figura erótica, perturbado com o dohre dos sinos que locam 
devagar para fazer o sigual de morte. 

(iuillol que conhece todos os hons lotjares, como se dizia na linguagem 
liimiliar do ultimo século, dá um suspiro ao atravessar a rua de l'Ecole (Hs- 
lolal onde vive Madame Nicolasa. Nesta rua, que veio a ser a que boje é cha- 
mada de Fonarre, por causa da palha que n'eHa estava espalhada para amorte- 
cer o riiido do transito, acliavam-se comprcliendidas as grandes esiolas da Ini- 
versidade, e ao mesmo tempo mais d'uma e.scola de prostituição. l'or isto diz 
(Iuillol com malícia : 

Eu celle ruc, se lue semble 
Vcnt-oul í'l faiií cl fcurrc cuscuiblc. 

(iuillol, quf nada tem a aprender irestas escolas, passa pela rua de Ne» 
■lalien-le-Paurre (S. .Julião o pobre) e invoca este santo, ijhc nns ijunrdti ihs 
iimiis liiijares. S. Julião era o proleclor dos \iaianli>s, a quem livrava dos maus 
passos e eneoniros. (Iuillol entra são o salvo na Cite c ;i primeira rua cm (|U(" 
senie os ;iHimcIÍ\os dn coiicupiscciícia é na ih' ('.oc;ilri\. 



DA PROSTITUIÇÃO 101 

Ou, l'on boil soucent de bons vins 
Uont maiiU linmx xonrctit se varie. 

N'af|iieIIa época iiãu havia uma labei'na (lue não fosse um lofíar do pros- 
liluição. (luillot menciona comtudo uma boa taberna na rua de Ciiaroni que 
se, estendia desde a entrada do claustro í\otre-Uame até ás ruas das Trois Canet- 
/í.v. Estas tabernas e suas dependências eram frequentadas provavelmente pelos 
cantores da cathedral. Guillot passa de larg), sem duvida, e esperamos pela sua 
honra que também só passe pelo beco de Saini-Croix (Santa (Iruz,) onde se 
(juebram frequentemente as pernas e pela rua Ciervais-ÍMiumi (|ue elle chama 
lierrese f.aarens. 

Ou maintes dames ignorent 

Y mesnent, 'juis de levr guiterne. 

iNão cremos que os habitantes d'esta rua mal afamada allrahissem inno- 
cenles ao som da guitarra (i/niienie ;) pelo contrario, attribuimos a esta pala- 
vra ijuiterne um sentido figurado que o pudor nos impede profundar. 

Não nos demoraremos n'um extranho encontro que (luillot leve na i na 
de \[armov.<<ei (bonifrale.) onde alguém llie fez uma proposta infame. 

Touoay hotnme qui iu'eute fel 
Une musecume belourde. 

Na rua de ChaKet-Saint-Landrij , Guillot só encontra mulheres libertinas, 
cuja profissão define dum modo pouco comprehensivel : 

Femnies qui vont tout le checez 
Maignet en In me de Chevez. 

Ciuillot peneira ainda mais no dominio hereditário da prostituição e vc 
logo em pleno liluiiijnii, que se chamava o Vai d'amour: (Valle do amor) 

En bout de la rue descent 
De Glateigny ou honne gent 
Maignent et dames au cors gent 
Qui aux hommes, si eom inoy seinblenl 
Volontiers charnelmente assemblent. 

Por acaso escapa ao perigo da tentação e mette-se na rua de Haiti-Moa- 
liii (Moinho alto) que se chamava rua de Saint-Denis de la Charire, da egreja 
(jue n'ella havia e que foi demolida na época da revolução. O mau logar que 
Guillot mostra n'esta rua devia ser um dos mais consideráveis de Paris e as 
mulheres que encerrava não sahiam nunca d'aquella lúbrica communidade. 

Ou plusieur dames em grant chartre 
Oiti mainl v. . .en leur c. . -tenu, 
Comment qui Hz y soient contenu. 

Esta e outras muitas passagens provam que o Dit des rues podia ler-se 
itililulado mais opportunamente Dit de Bordeaux de Paris (Nome dos bordeis 
de Paris.) Guillot concluiu com os dois da Cite, e, atravessando o Grand-Potd 
ou o l'on(-au-Chan(je, continuou o seu itinerário pornographico. 

iSa rua de Lavadières, «onde ha muitas lavandeiras,» dá-nos a entender que 
estas muljieres não se limitavam unicamente a lavar a roupa no rio. Em lodos os 
tempos as lavandeiras tiveram a ínesma reputação, e a rainha, que ellas elegiam 



102 HISTORIA 

todos os annos, tinha poderes análogos aos do rei dos ribaldos, mas s(í nos seus 
Estados e sobre suas súbditas. Tiuillot não se deixou prender por estas alegres 
ribaldas e proseguiu no seu eaniinbo atravez das ruas sujas do i)airro das 
Halles (Mercado.) Para refrescar, enfra um momento n'unia taberna da prat;a 
(nt.T Ponrceau.T, (dos Porcos,) que foi depois a praça nn.r rhats (dos gatos) c ainda 
depois a cova «íí.í- c/ííVjí.s' (dos cães,) porque se amontoavam alli todas as iminun- 
dicies ; é a encru/.illiada que formam as ruas de Sniiil-Hnnon', íierliarijevrs: e 
l.intjerie. 

(luilíot, (|ue se queixa aqui de não ser feliz, diz comtudo que encon- 
trou no seu caminho, ou antes n'aqnelle que procurava a pista d'alguma bella 
rihalda, uma com quem bebeu um copo de vinho. 

]S'a rua de Kf/hisif não se adniii'ou de encontrar um homem que l';dia\a 
com uma ribalda sem se envergonliar dos transeuntes. 

I'n home Irouvai en ribitiidez : 
lui la riir de DfUihy 
Enlré : iie fus pas etliÍ!^i. 

Guillot não se cncommodava por tão pouco. Chegou á rua de rArhre-Sfc 
(Arvore Secca) e não se esqueceu (rum beco sem sabida que ainda existe i'om 
o nome de Coiir-llntui) e (|ue tinha em outro tempo o malsoanle de Vnul-de- 
líaron. }^"e.sta denominação local não se deve attribuir á palavra liacon o sen- 
tido de toucinho, nem procurar n'clla uma imagem mais ou menos approxi- 
mada d'este sentido primitivo : era um pateo de rihalderia com o seu poço, em 
volta do qual se reuniam as mulheres do ollicio. (luillof não tem escrúpulo em 
dizer : 

Trocai et piiiti Col de bacon 
Ou l'on a trafairié iiiaini r. . . 

Sol)re este verso podia fazer-se uma curiosa dissertação philosophica (|uc 
recommendamos ú sombra de Lednchate e que permiltiria restabelecera verda- 
deira accepção do antigo verbo í/yí/c/ívíV/ ou Irafarcer. (|uc o complemento do Dii'- 
cionario da Academia fi-anceza, muito mal traduz por irdcfrser (atravessar. I 

Guillot .segue a margem do rio e chega á entrada d'unia grande rua (|uc 
conduz á porta do Louvre : a visinhança do rio caracteriza bastante as dainas 
que encontra o que vendiam o seu género por um preço muito elevado para a 
sua bolsa. 

Dames i a gentes et bonnes ; 

De leiírs danres sont Irovp (7uV/ií's riclie.-^. 

Não perde tempo em regatear o que não pôde comprar, e dirige-se á 
rua de Saint-lIono)r (S. Honorato). Depois d"uma rua de Mailrc-llnn', cuja 
situação não é possível determinar, embora fos.se iminediata á das Poulies 
(Polidas) teve sem duvida de alegrar-se com a amabilidade de certas damas 
que o comprimentaram: 

l.a rue trotirai-je maialre lliirê 
l.e: liii Keant daniex polie.i. 

Fazendo do maestro llnré um personagem vivo em logar do nome de uma 
i'ua, era necessário accusal-o d'um ollicio odioso que servia as damas poli- 
das de- que parece rodeado, (luillot nada observa relativo á prostituição nas 
duas ruas da '1'nuindcrii' (Bambochata ) onde não deixa de inosirar-nos o nnl;ncl 
/'o/V) l/o \iiiiir. 



DA PROSTITUIÇÃO 103 

Une (Jaiiie ri sur mu seil 
Qui inoult se pnrloit iiubleiíienl : 
Je la saluai xiinpleiíiPiil, 
EUc a moy par Sun Loif. 

Os cosluincs (l'osta dama não dilToriani dos das suas simillianles a (jurm 
\ (Miios, nas incsinas ruas, exercer o mesmo ollieio que em outro tempo ; es|)eiar 
(• espreitar a sua presa ao limiar das portas, á entrada das sombrias avenidas, 
rlianiando ou convidando os transeuntes, (luillol (jue jura por S. Luiz ao res- 
ponder a esta excitação libidinosa, teria feito bem em lembrar á ribalda as pra- 
,i;matieas do santo rei. Ouando esteve na rua de Saint-Martin, ouviu cantar o 
olticio em Nossa Senbora de Saiiil-Marlin des Chainp.s e armou-se de conti- 
nência para terminar, sem obstáculo, a sua via.ucm em procura fie lo^'ares im- 
puros. Alra\cssou rapidamente a rua de lieaubonrij que lhe ollereccu com que 
satisíazer todos os f;eneros de libertinagem. 

Alai droitenient en Uiaii bniirc. 
Ne chassoie chièvre ne bouc. 

Da rua de Limes (Esluías) avenlurou-se á de Uiujarière, que não po- 
dia ser outra senão a de Manliii!\ um dos feudos mais antigos da prostituição. 

La ou leva inainle plaslricre 
l>'airhal mise en triii:rc pour coir 
Vlu^ieurx (jcns pour Icur cie arnir. 

\qucllas [icssoas que punham grades de arame para olhar para a rua 
eram sem du\ida os hospedes onlinaiios da rua d • Vunlsnr. i'm (juc havia tan- 
tos antros cnmo casas, tantas muliíeres e homens diss(dutos como habitantes. 
As ruas immedialas resentiam-se desta m'i visinhança. Ciuiliot contenta-se em 
enumerar a rua de (Juincainiioi.T, a de Aul>nj-le-lloucher c a Cõnrecrie de que 

pudor do século xv fez Co:roierip e que agora está transformada na rua de 
l'iii<]-Diannmix (Cinco diamantes^ allusão á sua impudica origem, (luillot 
receia que lhe succeda alguma desgraça ao appro\imar-se da rua de Trousse- 

1 inlie, que tirou o seu nome infame dos costumes mais infames ainda dos .seus 
habitantes. 

/.(/ rue Aniaunj de Rousl 

Encontre Trousse rache chiei. 

Que Dieu garde qu'il ne nous nieschiel. 

iiuillot estava quasi no termo das suas peregrinações, mas estava tão can- 
çado qm; teve do sentar-se na rua d"Arcis para repousar alguns instantes, po- 
n-m ivcomeçou logo no seu caminhar e desprezou sem duvida enumerar certas 
ruas especialmente destinadas á prostituição. Assim, ao passar pela rua do Ijtilile 
(In ('li)i\irc, (juc outra não pôde ser senão a de Cloilre Sainl iíerrij, surpreheií- 
de-se de nVIla não encontrar mulheres bordaleiras, como n"outra época l)a- 
via visto e aflirma que esta rua é agora honesta (honestoble'), mas quando passa 
de Sainl Mn-ji para [killeliof, onde encontrou muita infâmia, essa tal rua de Beil- 
lehoe, cujo nome era apenas um feio epitheto (jue mais tarde se transformou cm 
Urise-miche, não lhe dá remiiiiscencia alguma de libertinagem e afasta-se d'ella 
sem a ter qualificado como merecia. Logo adiante repara no Marais e deita olha- 
res para a rua do Plalre. 

Ou mainles duines leur cinpluslre 
.í'niainl cumpagnon ont fail ballre, 
Ce me semble pour eux esballre. 



lOi HISTORIA 

fiuillol ó inc\gij(a\cl em encontrar periphrascs, mai.s livres (|iic singelas, 
caraclerisando os logares que procura. Sn encruzilhada Giiilhri, cujo iioiiie 
equivale ao que mais tarde lhe foi dado, Jea» de l.'Epine, e que o douto Aul- 
naye não teria deixado de evidenciar com toda a obscenidade que este nome 
tem, Guillot não sabe a quem dar fé: 

/,/ Míi dii ho! 1'uAitre haril 

.liilgaaios (|ue acreditou em duas prostituías, das quaes cada uma o quiz 
levar para seu lado: mas, resistindo, desembocou na rua de Gentkn, Jiqjc Co- 
<luiUes. onde vivia um bom escudeiro, «lue ixirvenfura lhe inspirou uni culposo 
pensamento. 

C.onlinuou sem arriscar-se a entrar na rua da lísciderie, que era o beco 
sem sabida Sainl-raron. e que não tinha entre os seus habitantes um único 
homem honrado. 

Passou ra|)idamenle pela rua 1'luinírun ou dos Mauiais-Gan^ons perto de 
Sa iai-Jea a-de-Grè res- . 

Oii muinle duine en charlre out 

Fenu mninl r. pour se norier {nourir\. 

K a segunda vez que Guillot nos apresenta em reclusão as desprezadas 
prostitutas, (llaro é (jue a sua reclusão não era voluntária e que exclusiva- 
mente dependia dos regulamentos da policia. Na rua do Roi-dc-SicHr, lem- 
brou-se (luillol d'uma tal chamada Sedile, que vivia na rua fleneaut-Lefccre, 
"ude vendia <pijsaiiles c babas, diz a linguagem ligurada a (jue elle rccorn- para 
exprin)ir os mysterios da impudicia. 

Não sem precaui;ào entra depois na rua futeimn^xe, cujo nome muito 
significativo não permitte duvidas sobre seu destino. Esta rua destinada á pros- 
lilui(,ào, que o. povo linha baptisado, conservou sempre tradicionalmente este 
nome obsceno, embora se tivesse intentado modilicai-o com o de fetit-Mmc e 
lr<ical-o pelo de Cbir.hf-ferche, que ainda tem no seu letreiro. \ virtude de 
Guillot havia escapado a muitos perigos quando entrou na rua de Tijruii. onde 
foi visitar .Madame Lucie. 

Y eiil rui dana la iixúnun de Lucie 
Qui maint en la rue Tijron : 
Oc.< dainert hiiiniie!< voux dironl. 

.>ão julgamos como o abbadc Lebeuf, que se trate a(|ui dos cânticos reli- 
giosos (|ue podiam elevar-se de um convento de mulheres penitentes. A cam 
dr Lacta tem todas as apparencias d'um logar de prostituição, e os hyninos que 
nella se entoavam dirigiam-se evidentemente a Vénus. Tal é a abbadia galante 
que insistimos tíxistir n'csta rua, onde os archeologos imaginaram collocar um 
idilicio pertencente á abbadia de Tyron. (iuiilol, no fini da sua excursão, olha as 
cousas com socego, e na rua Percee, uma das cinco ((ne tinham então este nome, 
indicando um antigo beco sem sabida transformado em rua. rejiousa c refresca : 

I nc fciiime i:i deslrccic 
Pour soi pignicr, qui me donitu 
De bun vin ■ . ■ 

Esla mulher (|uc se penteia ou se arranja, servindo vinho a Guillot, não 
pcjdc ser senão uma ribalda. .Mas Guillot é incansável e vae logo da rua de 

l'iiiilie.\ -Saial-finil ;\ de l-naroiDiiiTf. 

Ou lun triture hieii, jiur deiiierx 
Pour «on ror.s nnlaeier. 



DA PROSTITUIÇÃO 105 

Não nos diz se ollc fez uso da receita que dá aos leitores. Depois, na rua 
Commanderesses (Commendadoras,) que actualmente é a de Cutelkrie (Cutela- 
ria,) di/, como para si : 

Ou il ã mainlcs trnchere.ies ('querclleusesj 

Qui ont tiuiint Iwmiiie prís aii hrai , f( lu pipie.) 

A tarefa de (lUillot está por fim eoncluida: recolheu a lama de todas as 
ruas de Paris, orgullia-se com o seu Dit rimado em h^iivor (relias, dedicando 
sem sombra de escrúpulo esta ohra cheia de impurezas «ao doce Senhor do 
firmamentcr c á sua dulcíssima mãe: {au doux Seiíjnienr dn firmament et á sa 
très-douce chiera mère.)» 

Apesar d'esla dedicatória que níío cohoneslava com as licenciosas rimas 
de Guillot, ouiro poeta anonymo, que viveu no fim do século decimo-quarlo, 
teve a ideia de apropriar-se do Dit (ks Uues, tirando-lhe o cunho de leviandade 
e renovando o csljlo do poema, no qual já não se conheciam as ruas que mu- 
daram de nome. Este poeta foi Henrique deraud, que publicou este novo Dit 
copiado d'um manuscripto dos Archivos Nacionaes, como continuação, da Taille 
(contribuição) imposta aos liabilantes de Paris em 1292 na sua obra intitulada 
Daris no reinado de Filippe o Delia. 

Não receiamos que a este propósito o registro da Taille não contenha al- 
gum dado particular que se refira á prostituição, o que prova que as mulheres 
publicas não estavam comprehendidas, pelo menos sob esta designação, nas Tail- 
les extraordinárias, e\ccptuando-as de pagar um direito proporcional á sua 
mesma indignidade. 

O poeta (|ue quiz dar nova forma ao poema de Guillot e (jue não fez 
mais que reproduzil-o, abrcviando-o, consagroii-sc especialmente a tirar-lhe 
o seu caracter obsceno e sórdido, e este anonymo, em logar de apiesenlar Guil- 
lot andando de rua em rua á descoberta de maus togares, teve de inventar uma 
fabula bastante divertida. Põc-se elle mesmo cm scena; ha pouco chegado a 
l'aiis onde nunea tinha estado e vem a esta capital procurar por loilas as ruas 
a sua mulher, a quem tinha perdido perto de Notre-Dauie. Nada pôde dislra- 
hil-o d'estas pes(|uizas ijue são iiifructuosas, c nenhuma das mulheres que en- 
contra a cada passo pode fazel-o esquecer a sua: d'esta forma percorre UIO 
ruas, que tem o cuidado de enumerar e exclama depois: 

Tanl iay quise, que j'en sw-is las. 
Or la quiere qui la voudrà: 
Jamais mon corps ne la querra. 

N'esla nomenclatura de ruas, não falia senão de mulheres que se alu- 
gavam na rua de Larandieres e na rua das Commanderesses : mas cita por ou- 
tro lado as ruas mais mal afamadas, sem fazer allusão á natureza da sua má 
fama. 

Desde o Dit des Dnes de Guillot, até á primeira ordenação do preboste 
de Paris que lixa os togares cm que a prostituição podia excrcer-se sem se ex- 
por a penalidade alguma, ha um intervallo de mais de um século. Esta orde- 
nação que Delamare insere, data de 18 de setembro de 1307. Já se pressente 
a iiillueneia moralisadora do reinado de Carlos v. N'esta ordenação mandou o 
|»rebostc, que todas as mulheres de vida dissoluta fossem habitar os bordeis 
c lugares públicos que lhes estavam destinados, a saber: «no Ahreuimir Ma- 
con, na Uucherie, na rua de rroidniantel, perto da cerca Dnineau, no Glati- 
ípiij, na Cour-HoberI, em Baillehoé, em Tijron, na rua de Chapou, no Champ- 
IJeury. 

São, pois, os mesmos logares pouco mais ou menos, que Guillot tinha 
designado no Dii des Rucs, mas o seu numero é muito mais rcstricto e deve 

UlSTOHlA DA Phostituição Tomo u— Folha U. 



1 06 HISTORIA 

deduzir-so qiic ;i |'()|icia prebosfal se csfoirava em diminuir os deploráveis ef- 
eitos (la iii)er(inaíícni, disputando-liie o ierreno cm que estava auclorisada a 
prodiizir-se. 

O prebostc de l'aris além d'isso proliihe a todas as pessoas honradas o alu- 
garem casas ás mulheres puhlicas em qualquer outro logar, soh pena de per- 
da do aluguer estipulado; tamhcm prohihe a cslas mulheres comprar casas tora 
dos togares marcados para o excrcicio da sua vil profissão, soh pena de perder 
as mesmas casas. As riiialdas que se encontravam exercendo em outros toga- 
res além dos designados podiam ser presas e levadas para a prisão do Cliatelet 
por denuncia dos visinhos. Com a prova do facto, expulsavam-sc da capital, 
exigindo-iiies previamente sobre os seus bens oito soldos a cada uma para pa- 
gar aos agentes da auctoridade. Segundo as apparencias, a medida da policia 
era executada com todo o rigor. 

Os asylos de tolerância que o pndjosle de Paris concedia á pros'ituiç.'ão, 
eram grupos de casas c não ruas inteiras. Depois vemos abrirem-se do mesmo 
modo as chamadas Cortes dos Milagres, que ei'am habitadas pelos bobos, men- 
digos, ladrões c outros malfeitores, como as (]òrtes das ribaldas reuniam as mu- 
lheres publicas e os homens dissolutos, seus cúmplices ignóbeis. 

O Bebedouro Macon (Ahreui-nir) era. no século xiv, um grupo de edifícios 
que rodeavam um beco immundo que descia até ao rio perto da ponte de S. 
Miguel, ao voltar da rua de Huchette. Este Bebedouro, que os títulos de 1272 
chamam Aqmitorium Matisronensis e Adaquatoriuiii comitis Matisconensis li- 
rava o seu nome da visinhança do palácio dos condes de Macon, situado na 
rua ([ue lem ainda este nome. Este mau logar que chegou aos nossos dias ti- 
nha então uma írisle celebridade e os libei-linos faziam-lhe honra com impuras 
analogias do .seu nome, que obstinavam cm pronunciar d'um modo deshones- 
lo. Por causa d'este grosseiro equivoco mudou-se o nome de Bebedouro Maco- 
ncnse em Bebedouro do Cagnart, isto por servir de albergue nocturno aos coí/- 
nardifvs, salteadoirs de rio, ou talvez antes porque os habitantes ribeirinhos 
creavam alli patos. Seja como lor, havia n'este logar muitos cagnardiers, va- 
gabundos perigosos ijue assim se chamavam, segundo Pasquier, pelo seu gé- 
nero de vida, pois á similhan^a dos patos tinham a sua casa na agua. Borcl, 
ao contrario, pretende que cagnardier se deriva de canis, significando gente que 
vive como os cães. 

E' difíicil designar o logar que o prehoste chama Boucíicrie (Açougue) 
sem outra designação; mas, ainda que muitos houvesse estabelecidos nos dif- 
ferentes dislrictos da capital, presumimos que se tratava da Grande Doucherie 
do matadouro de Paris, que existia desde o século decimo em frente do Cha- 
telet e que tinha ido augmenlando progressivamente até formar uma espécie 
de |)ovoação no meio da cidade. Matavam-se e dividiam-se alli as rezes cuja 
carne se distribuía logo por toda Paris. 

Comprehcnde-se que o prebostado auclorisassc a existência dos ribaldos 
no meio de uma povoação de ribaldos, como os carniceiros e demais gente d'esta 
laia. Em lodos os tempos e em todos os paizes houve um estigma de infâmia 
sobre estas profissões que respiram o cheiro de sangue ; no emtanto exigiam-se 
certas condições di" moi-alidadc n'aipi('llas que cortavam a carne nas mezas da 
Grande líoucherie. 

A cerca Bruneau, cuja reputação (luillot já linha descfipto, comprchendia 
ainda no .século decimo-(|uinto um grande espaço de hortas e jardins, posto que 
as ruas de Sa.ini-.lean-de-líeauvais e de Saint-llilaire, livesseui sido abertas 
110 terreno d'esta cerca. Os bordeis (ui antros das mulheres de má \'ida linliam-se 
es|)alliado ha muito tempo pidas immediações da (Jrrra Itrunel e i|ueni salie mesmo 
SC mesiuo denti'o d'(dla, ili'nlni tios recinlus e cnlre o vinhedo. 

A rua de Froidinaulrí, (|uc r.e chamou allcrnalivamente i'reincntci, Fres- 



DA PROSTITUIÇÃO 107 

mantel, Fremanteau, clc, cm\iú\m Frirjidum mantelluin (Manto frio) c foi de- 
pois a rua de Froinanlel, com desjirczo da sua etymologia, tloveu com certeza 
o seu nome a uma cómica ailusãn ás praLímalicas de S. Luiz, que tiravam o 
manto e pelliea ás mulheres cduviclas de prostituição: as que haliitavam n"esta 
rua de prostitutas, eram naturalmente despojadas do seu manto : d'aqui a al- 
cunha de damas de Froidmantel. 

O feudo de Glalií/ny, que pertencia em 1241 a Roberto c a Guilherme 
de filatigny, deu o seu nome a um lahyrintho de ruas estreitas e sujas que a 
prostituição oceuj)ava por privilegio e de que tinha feito o famoso Vai d'Amoitr 
(valle de amor.) O destino impudico de Glatigny existiu até ao século xvii cm 
que as ruas adjacentes foram reedificadas e melhor occupadas. 

>'em Sauval, nem os seus continuadores nos dizem em que quarteirão es- 
tava situada a Cnurl Roberto de Paris e o nome sob que é designada, não nos 
ajudaria também a encontrar a sua situação na TaiUr de i27i se nos tirasse 
da incerteza. Esta Corte, que havia de ser muito peijuena, pois o registro da 
Taille só conta n'ella treze pessoas de importância, communicava com a rua 
de Baillehoé, que lhe servia de corollario e que reunia a mesma classe de ha- 
bitantes. Henri([ue Geraud pri>tende que a rua de Renard-Saini-ilerr]] atra- 
vessou o solar da Corte Roberto de l'aris. 

A rua de Cliapon, que não mudou de nome, fomou-o no setfulo xiii de um 
de seus habitantes, chamado Roberto lleynon ou ikgon, ou Capon, que suppomos 
ter sido rei dos Truões, porque hegon ou begnon parece derivado de &fí/!/í?ms, 
que quer dizer originariamente uíendigo, em inglez hegging : cajion que vem de 
capus, falcão, era synonymo de begnon, não cremos (jue por anii-phrasc se ti- 
vesse dado o nome chapem a uma rua especialmente destinada á prostituição. 

Finalmente a rua de Champs-Fleurg, que sob o nome da rua da Biblio- 
theca, conservou sempre as suas tradições bordelarias, abriu-se depois d'alguns 
annos no logar occupado pelo parcjue do Louvrc. 

Na Taille de 1292 esta rua S() figura com quatro contribuintes. 

Esta rua de Cluunps-Flenrg compunha-sc apenas d'alguinas casilas no 
meio duma pequena cerca e assombreadas por arvores, onde a prostituição nada 
tinha a receiar dos olhares curiosos dos transeuntes que só alli iam procurar 
os que sabiam alli estar. 



CAPITULO XI 



SUMMARIO 



A taberna do «Cano douiailo».— A rua Glatigny.— A rua do Fumifr.— A rua do Inferno.— A rua Fcrry.— A casa 
Cocatrix.— As alioliadas da C.alandiia i: do Mercado Palu.— A illia Oourdaine. -O Forrain ou a MoUo anx Papelards. 
—Os arrabaldes.— O Campo (i.iillanl.- As (|uatro tabernas Meritórias.— I) Cbatuau de Paille.— A taberna da Mula.— 
Os lupanares da Universidade.— O campo d'Albiac.— A rua Craciosa.— Os campos do Matadonro.-A rua d'Aronde.— 
A rua de Git le-Cucur. -A rua de Sac-à-lic— A rua [iordit.— As Cortes dos Milagres, etc, etc. 




oNTiNUEMos a nossa viagem pornographica pelo vellio Paris, de- 
(lifando-nos a enumerar as ruas que não foram meneii)iiadas no 
|)oema de (luiilot nem nas ordenações do Chateiel. O aniigo nome 
d'estas ruas c quasi sempre o distinelivo do seu earaeter particular. 
.4pesar do uso geral que afastava do eenlro das cidades as mu- 
lheres de má vida, para as levar extramuros, e, por assim di- 
zer, para tora da vidacommum, a prostituição tinlia-se mantido ao principio em 
muitas ruas da cidade, em volta de Saint-Denis-de-la-Chatre, qiie já existia 
quando se formou a primeira confraria da Magdalena, como o dissemos pelas 
tradições recolhidas por Dubreul e Sauval, de onde se vè que o Vai d'amo%ir e 
Glatigny foram invadidos de preferencia pelos rihaldos que alli iam commeller 
o peccado, segundo os termos dos antigos oííicios. 

Pode pois allirmar-se que a maior parte dos detestáveis becos que de- 
sappareceram ha poucos annos com os trabalhos executados atravez da antiga 
cidade luleciana formavam na idade média o theatro permanente da prostituição, 
ainda que os regulamentos da policia municipal procurassem eircumscrevel-a 
ao seu asylo de (llatigny. As ruas de Marmousets, Cocatrix, Enfer, Pcrpignan 
e outras que formavam um labyrintho de casas, agrupadas umas sobre outras, 
privadas de luz e de ar, convinham maravilhosamente aos costumes bordclarios. 
Sabemos, por exemplo, que a rua de Pcrpignan se chamava rua Charoiii, por 
causa de uma taberna do Carro dourado {De carro aurico.) (luiilot fallou d'esta 
taberna : 

En Charoui-bonne Uiverne achiez ovri 

Qualquer taberna tornava-se, em caso necessário, n'um logar de prostitui- 
ção. Esta taberna de Charoui devia ter um jardim plantado de ro.seiras, pois 
que a ma, tomou successivamente os nomes significativos de Champrousiers, 
de Chatiiji[leury e de Cliainiirosij. Não seria acaso este campo de rosas, tuna 
testemunha do prazer que se ia buscar a esta taberna, que foi substituída por 
um jogo de bola, e de que a rua t(jmou o seu ultimo nome de 1'anpiijnoin ou 
Perpiynan. 

O nome de ]'al d'amour applicava-sc mais particularmente á entrada 
muito estreita da rua de Glatigny que descia até ao rio e conduzia ao porlo 



I 10 HISTORIA 

Saint Landnj. No cacs crcsfe porto, ondo vinham parar alguns barcos carrega- 
dos de lenha c de Irigo, corria uma linlia de casas, presas umas ás outras e 
sustendo-se junlo da agua que lhe banliava os seus carcomidos alicerces : estas 
casas pertenciam de direito á mais abjecta prostituição, que cm toda a parte ve- 
mos refugiar-se nas margens dos rios. A rua húmida e escura f|ue aquellas ca- 
sas formavam por deti'az, chamava-se l'ort-Saint-Landrtj-sur-l'eau ou rua do 
Fumier. 

A familia dos Ursinos não recciou alli edificar um palácio, onde viveu um 
dos seus mais illustres membros, Juvenal, preboste dos commerciantes, e chan- 
celler de França, no reinado de Carlos vi. 

A presença d'estc grande personagem n'uma rua tão mal afamada serviu 
para fazel-a mudar de nome: e com elleito se chamou desde então rua dos Ur- 
sinos; mas a extremidade inferior (cia inferior,) chamou-sc rua do Enjer (do 
inferno,) allusão á má vida que tinham os seus habitantes. 

Já arriscamos uma conjectura, talvez temerária, sobre a rua de Marmou- 
sels, que Guillot parece apresentar-nos como frequentada pelos ribaldos, ainda 
mais do ([ue pelas ribaldas, todavia n'uma lista das ruas de Paris que o abbade 
Lebeuf julga feita em I ioO, se registra esta rua sob o nome de Marnwuzí-- 
te^. Sabemos também que um grande edifício, chamado Casa de Mannousets 
{Domas Marmosetaram) para a qual se subia por escadas exteriores, existiu 
n'ella até ao século xvi. Este edifício seria um bordel? 

Perto d'elle, havia um logar d'esta classe, chamado a Còrie de Fe>-rtj, 
que deu o seu nome á rua de Trois-Canettes. 

Ha ainda a citar um covil análogo na casa de Cocatrix (<lomus Coqua- 
tricis,) contigua á de Marmouseís, e que tirava o nome da casa em que estava 
situado. Esta rua que os archeologos de Paris pretendem ter tido o nome de 
um dos seus habitantes no século xui, podia ollerecer também, por causa do 
seu vil nome, campo pai'a investigações curiosas da ctymologia. Cocalre na nossa 
antiga lingua significa um castrado; cocatri.r é em sentido restricto um verme 
que se gera nos poços e cisternas, e em sentido figurado uma mulher publica. 
Na Verba erótica da edição de Rabelais, o erudito Aulnaye define a palavra 
Cocatrix, por prostituta. Em apoio d'esta definição e para não deixar duvida 
alguma sobre as antigas franquias da rua Cocatrix os auctorcs da grande His- 
toria de Paris, Felibien e Lobineau tiraram dos registros do parian.ienio as pri- 
meiras linhas de um decreto que começa assim : 

«Na tcrça-feira 15 de junho de l;JG7, entre Joanna, a 1'eliiere, appcllan- 
te, de uma parte e o mestre João d'Aliy e os restantes habitantes da rua de 
Marmousets, de outra. . . A appellanle disse que vive na rua de Cocatrix, 
onde tem tido bordel ha muito tem|)o, sem memoria do contrario.» etc. 

Esta passagem bem prova, que as ruas em que havia l)iii-dci eram con- 
sideradas estranhas ao regimen e ao direito conimum. 

Em opposição dos logares mal afamados, de Glatigny, encontravam-sc, 
todavia, no centro da cidade outros asylos de prostituição, conhecidos somente 
pelos mais vis vagabundos; eram estes o Caignnrd e os antros da Calandria e 
do .Mercado fala. Ainda (jue o as|)eclo iTcstes logares seja actualmente Ião 
triste como repugnante, íormar-se-hia dillicilmente uma ideia do cjue eram no 
século XIII e xiv, quando serviam de asylo nocturno á mais immunda e as(|ue- 
rosa libertinagem. A rua da Calandria, nome tirado de uma avesinha palra- 
dora, caracterisava as reuniões de mulheres, (|ue havia n'ella desde pela ma- 
nliã até á noite, e que nada mais faziam do ([uc pairar eilis|nilar, quando não 
faziam outra cousa |ieior. Cheia de lama e inunundicies csla rua (icscmbo- 
eava no Mcicado l*alii, cuio nome indica um taníjue ou lagoa (palas,) mas 
(|ue não era mais (|ue uma cloaca, um tnyu panais, como si; dizia n'aquelle 
tempo. 



1>A PROSTITUIÇÃO 1 I I 

Mas tinld islo craiii msas, cuniiiarado cdtn os becos que a(|ui eonduiain 
e '|ue nãu fdiain let-hados até ao século xvii. Tin (l'es(es becos, que no tempo 
lie Sauval existia aiiiiia em |iarle, entre as primeiras casas do Petil-Ponl, 
(i'()nte pequena) e algumas outras do .t/rirc/ití-AVíí/" (Mercado novo) cbaniava-se 
o Caiijnaril por causa, diz Sauval (tit. i pag. 174,) de servir Je passagem aos 
liomens c mulheres de má vida, que passavam a noite nas casas do Pelit-Pont 
em (lebodiada eiin\iveiicia. 

Eiiilim a prosliluicão erraiile linba ainda no rentro da cidade ilois campos 
(lc leira noclurna; um sob o arvoredo de uma pequena ilha, que, chamada a 
ilha (h\ Gnnrílaine no século decimo quinto e a ilha Aiu-Vache.s (das Vaccas) Ires 
séculos antes, formou depois a porta occidental da ilha da Cilé; c o outro n'um 
outeiro que se elevava na evtiemidade oriental e se chamou sempre o Terrein 
(Terreno.) Esta pequena proeminência que os escombros provenientes da re- 
construccão de .\ossa Senhora linliain levantado no leito do rio, de que o cabido 
da calitedral se tinlia apropriado sem d"elle tirar partido, era todas as noi- 
|i's o ponio de reunião dos libertinos e das suas despresiveis instigadoras, 
sendo por isso chamado desde I2.')8, a .Uitl/e au.r l'apelardí> (Motto Papeíar- 
(lorum.) 

Uma cita(,'ão lirada de um serm;"io de Roberto de Sorbon, sobre a consciên- 
cia, nos íará comprebender o sentido equivoco em que o povo empregava aqui 
a palavi-a Papelanls, para significar os vergonhosos perseguidores das mulhe- 
res perdidas: !itw prnpter hoc dicuntur pnpelardi qnia frecueníant confessio- 
nea. E' para notar que o sermão de Roberto de Sorbon, de onde Ducange tirou 
esta singular cilacão, é quasi contemporâneo do baptismo do iogar cm que os 
papelard>> encontravam coui quem conversar. 

Emquanto á ilha de Uourdaine, que tinha sido a ilha aux Vaches, segundo 
antigos títulos que os archeologos não intentaram explicar, o seu nome tem 
analogias ou similhanças com (joudlne, gourijandiíif e gordane que eram syno- 
iiymos de ()i'0stiluta. Esta ilha, onde foram queimados os templários em tempo 
de Eilippe, o Furitioso, parece ter sido um Iogar de supplicio consagrado par- 
ticularmente ao castigo dos crimes obscenos, pois que se queria afastar do povo 
os culpados que se mancharam com esta espécie de crimes, e que podia ser um 
objecto de escândalo nos seus últimos momentos. 

No quarteirão ou districto da 1'nivcrsiilade, que comprchendia tantas ruas 
desertas, tantas cercas de campos desbal)it:idas, tantos bordeis e tabernas, a 
prosliluiç,-ão linha uma grande quauntidade d'- asylos que os agentes da aucto- 
ridade não ousavam violar, e onde allluia a mocidade estudiosa. A descripção, 
que faz da vida dos arrabaldes uma ordenat-ão de Henri(|ue ii, em 1348, pôde 
applicar-se ao estado d'estes mesmos legares, dois ou três séculos antes. 

«Muitas casas dos ditos arrabaldes são apenas guaridas de gente mal- 
vada, tabernas, jogo c bordeis, e a ruina de um grande numero de jovens, que 
attraliidos pela ociosidade, consomem e perdem alli |irofusamcnte a sua juven- 
tude.» 

Fácil é imaginar as necessidades de libertinagem que dominavam 
aíjuclla povoação universitai'ia, composta de robustos jovens, pervertidos na sua 
maioria. As ordenações de S. Luiz, s(3 auctorisavam dois asylos de ribaldas, o 
Abreuvoir-Mucon e Froidinanlel, perlo da cerca liruneau, na Universidade; 
mas Guiiioí indica-nos seis ou sete ruas, onde se exercia claramente a pros- 
tituição. Os escriptores do mesmo tempo, e Santiago de \ itry principalmente, 
dizem-nos que cada casa do quarteirão das Escolas linha pelo menos um 
bordel. 

Alain de llle, o Ihalor niiirersal, dizia dos estudantes do seu tempo : 
que eram mais alfeiçoados a contemplar as bellezas das mulheres, que as de 
Cicero. E Santiago de Vitry, apresenta os llamengos, como os mais corrompidos. 



112 HISTORIA 

«São pródigos, diz, amam o luxo, os prazeres da meza c a libertinagem, 
fendo uns costumes cm extremo relaxados.» 

Era, pois, necessária uma grande quantidade de mulheres fáceis para 
satisfazer as paixões d'esta mocidade indisciplinada que ia em magotes tanto 
para os bordeis como para as aulas. Rabeiais, no seu Pankujrud, referi ndo- 
nos as proezas de Panuríje, diz-nos que a policia municipal não tiniia ainda 
acção no século decimo sexto, sobre as franíjuias da Universidade, e (juc a som- 
bra de um estudante, |iunlia em fuga os agentes da vigilância. 

D'aqui resulta que as mulheres dissolutas se encontravam sol) a protec- 
ção dos estudantes que as tinham fora do alcance dos regulamentos do t"dia- 
lelct. Além das ruas Platrirre, Cordeliers, Bnn-Pait.s, Maijers, Prrlres-Saiiit- 
Seoerin, em que o auctor Dif des- Pnes <le l'aris, confessa ler encontrado mui- 
tas ribaldas (mninle ineschinele) admiramos que não tivesse ainda encontrado 
mais no Champ d'.llbiac. O Clianip liaill.ard era uma praça, ou antes um 
campo, ladeado pelos muros que fechavam o recinto Filippe Augusto, que se 
estendia desde a porta Saint-Victor até á de Sainl-Marcel; a rua aberta n'estc 
terreno, no século decitno terceiro, chamava-se rua dcs Murs (dos muros) por 
causa da su.i situação; pouco depois, chamava-se d'Arras, tomando o nome de 
um collegio que em i;J32 alli se fundou; mas o povo que lhe deu o qualifi- 
cativo Champ-Gaillard, para assim exprimir o seu destino nocturno, não subs- 
tituiu este nome que ao mesmo tempo era justificado pela existência d'uma ri- 
balderia frequentada principalmente por estudantes. 

Este logar, tinha ainda no decimo sexto século a celebridade sutlicicnte, 
para que Uabelais, que d'elle não falia unicamente de ouvido, o cilassi" com 
mais outros três para caracterisar as desordens promovidas pelos estudantes de 
Paris. No capitulo vi do livro ii é onde Lemosin, que mal escrevia o francez, 
narra os feitos dos seus collegas. 

nCerlaines diecules, nous inoisons le.s bipnnaire.s de Chainp-llaiUard, de 
Malsan, de cid-de-sac de líourlioii, de Huelea et en cestes ecslase veneireique 
incidcnm nos verelres es penetissimes recesses de pudendes de ces merefricules 
aviicahilissimes.y> 

A obscena linguagem do estuJantc que, estropiando o latim, julgava es- 
crever clássico, é felizmente bastante intelligivcl para se produzir como um 
monumento de grammafica erótica da rniversidade. 

No mesmo capitulo de Rabeiais também se trata de quatro tabernas que 
deviam ter tão má fama como os bordeis, pois de muitas ordenações do pre- 
bostado consta que a maior parte das tabernas eram servidas por mulheres 
publicas ou pelos seus rufiões ou corretores. 

«Depois, diz o estudante de Pantagruel, iamos ás tabernas meritórias de 
Pomme de Pin, de Caslcl, da Madeleinc e da Mule.» 

Aqui nos appareccm as laberiue meritória;, dos historiadores romanos, es- 
pecialmente de Suetonio, o que nos prova que a palavra merilrix deriva do 
verbo mereri c do substantivo meriíitin. Não cmprebenderenios por meio de 
uma dissertação archeologica o lixar a situação d'a(iuellas tabernas merilorins, 
e limitar-nos-hemos a fazer observar (|uc os seus nomes parecem concordar 
com os das ruas onde sem duvida estavam situadas; assim a rua Madeleinc e 
a de Pomme tornaram-se depois no decimo quarto século nas ruas de la Li- 
corne c na de Trais Canettes, conservando as suas tabernas com o nome de 
Madeleine e Pumme-de-Pin; a rua do Chatel ou fhaleaii compuiiha-se d'uma 
|)arte da rua Ferroneric terminando na de Arlire-scr, c uma casa chamada 
Chatenii-Felu, ou (Jhateaa-de-pnilíe durou ainda por muito tempo entre a cgreja 
de Sainl-ÍMndry c O rio. Não era este um sitio bem escolhido para estabelecer 
uma taberna e o mais? 

Em (]uanfo á taberna Mnle, o seu nome tira-o da rua do Pa.fdr-la-Diule, 



riA i'iii.srirtn;ui I lli 

aiitif^u iKiiiic que prevaleceu solirc o (l( //'"- /i''///<í/í' (|ur llic i|ui/:('f;iiii [iòi(|u;iii(|ii 
se abriu a praea Real. 

>'ão receiainos porlanlo o coinpreheiulcr entre ds lo<;ares mal afamados 
de l'aris estas quatro famosas tabernas, fre(|ueiiteniente mencionadas pelos 
jjoetas e historiadores do secubi dezeseis. 

Esta digressão a respeito das tabernas, distaniiou-niis um pnuco dos lupa- 
nares dá universidade, de que vamos continuar a fallar sem todavia lera pre- 
tensão de todos conhecermos. A rua llrariosa, ao principio idiamada Alhiac, foi 
aberta n'um terreno chamado Cha)n}i dWlbiar e que (lesde tempos immemo- 
riaes era dedicado á prostituição : as habitavões que o vicio alli occupára por 
direito hereditário, como veremos logo, só foram destruídos em lo^io. Os ety- 
mologistas encontraram nas contas de Paris o appcilido úo ema familia llbinc 
e d'uma outra (irario-sii (|ue dão como padrinhos (Kcsta rua Ião mal habitada 
em todos os tempos: mas, arriscando uma hyixitbesc mais vcrosimil, prelc- 
rimos reconhecer no appellido Alhiac uma allusão aos Albigenses {Albiaci c 
Alliige)i.ii.<t) que eram hereges não S(í em religião, como lambem em amor, se- 
gundo a opinião popular que confunilia sob a denominação de l/Aú/^.s/s e (/'!/- 
liKir a todos os liiierfÍH(js cheios de vícios e maculados poi' impurezas. 

O Clifiiiij) irMhiiir devia pois ser o campo de leira d"estas impurezas e a 
rua (|ue se abriu n"esíe logar h\] cbamatla (Irdciusa. ou por ironia ou por an- 
tinomia. 

Outros campos havia cm (pie as ribaldás tinham os seus bordeis (bouii- 
cles (Ui pechr) como o Chainji de la Houcherie. perto da rua Miiiirai.s Garro 1 1 s : 
II ('limnii l'eiir, junio da rua Bolloir: o Cbamp de f lllueiie, ele. A palavra 
ChíiDiii designou ordinariameíile um silio em que se comprava c vendia. Tra- 
tando das ruas c travessas habitadas pela prostituição não devemos csquci-er a 
Aronde ou Ilirondelle immcdiata ao Abrenroir ][arnn que Rabclais, pouco dado 
a clvmologias obscenas, chama Maicrm. 

Esta rua de VWrundelle, escura e inununda, (jiie se cncoiilra por de traz 
das casas do cães S. Miguel, tinha tirado o nome da tabolela d"uma ca.sa de 
pro.slituição. IVrto (ralli, seria lacil descobrir-se equivoco muito signiticativo no 
nome da rua (lii-le-Cwiu-, que altcrnatlvamenle, por corrupção maliciosa ou 
invídunlaria, se chamou \"dlequeu.r, r,HÍIle(iuenr, liHles-Dueur. llui-le- conte, 
etc., etc. 

A pequena distancia d"esta rua havia também a rua fafée, a que so es- 
crupulosos chamavam rua Parée d'Andouilles. As ruas immcdiafas, cuja in- 
duslria nos c recordada pelos seus antigos nomes, estiveram igualmente infes- 
tadas de mulheres de má vida; a rua Sac-á-I.ic, alcunha que se dava a estas 
mulheres, veio a ser de Zacarias; a rua E(>eroii. chamava-se (lainjai {Gnuf- 
ijinj, prazer alegre) e assim inculcava o género de divci-fimcnto que alli se en- 
contrava. 

Finalmente, n'este dédalo de travessas e becos, (|ue tinham substituído 
as vinhas de Laas ou Liaas, onde a prostituição errante passeava os seus amo- 
res : entie a rua líurepoi.r e /(/ Ponpée é onde mis pielciulfmõs localisar o lu- 
panar do bccco sem sabida de Bourbon, que os c(jmmcnt;ulores de Rabelais 
collocam perlo do Louvre. Numa palavra, o districto da Universidade era mais 
abundante em logares de ))rostituição que os mais districtos de Paris, ou pelo 
menos, n'elle havia muito mais prostitutas; e isto não é necessário provai-o, 
se se considerarem os costumes licenciosos dos estudantes que não sabiam dos 
limites dos seus domínios, ipic n"elles tinham prazeres de sobra para que os 
fossem buscar a outra parte. 

Mas os eruditos, que teem escripío sobre as ruas de Paris, dedicaram-se 
a descobrir-lhes os seus antigos nomes e velhas tradições pornographicas sem 
ler em conia (pie esses nomes das ruas, adtpiiridos na sua grande parle em vir- 

HisToau DA Prostituição. Tomo u— Folha IJ. 



1 I i- IIIMIIKIA 

IiuIl' de ooi-orrciR'ias popiilaces, linliaiii |)assa(l() a liiiineiis, e nàn im-.iiii us lio- 
inciis que (la\'am <t nome ás ruas. Assim quando querem esludar a oiifiem cly- 
molo^iea da rua Bordet, que parte da ronie (Je San1(i-lh'iioteni, e sobe alé á rua 
Moulfelunl, no mesmo sitio em que era a porta Bordelle que lhe deu o nome, 
dizem que um tal l'edro de Bordeiles (Wo/y/sÍíí) viveu n'esta rua no século 
duodécimo e que lhe legou um nome que não podia ter uma interprefafão li- 
cenciosa. 

«£' um erro |)opular, di/.ern os auctores do Dicllounaire hisloriqae de la 
tille de Paris, julgar que em virtude da similhan(,'a do nome, esta rua, n'oulro 
tempo, tivesse sido consagrada á prosliluiçào.»' 

Todavia, certo c, que Pedro Bordeiles assim foi designado nas actas, por- 
(jue possuía uma casa chamada Bordeiles, Bourdelle e Bordel, por causa do seu 
primitivo uso e dns numerosos bordeis (|uc Paris continha. A rua Bourdelle, 
(|ue conduzia á porta do mesmo nome, nada fez para desmentir este nome des- 
honroso, mais confirmado ainda pela visinhança de um Cliamp-Gaillard, que se 
Iransfíjrmou em Cheniin-Gaillard, quando se abriu uma nova rua, agora clia- 
rnada Clopin, nome moderno, em que ainda .se reflecte a tradição dos maus 
costumes de Iodas estas ruas próximas dos muros e das portas da cidade. 

Só nos resta (iesere\er a situação |)ornograpiii(a de ceilos centros de ri- 
baldeha chamados Còrles duf: Milagres, poi-que os misei-aveis que alli se reu- 
niam e aparentavam as mais lastimo.sas enfermidades para excitar a commiseração 
publica, sabiam d"esfes antros. Coxos, mancos, cegos, leprosos, cobertos áv. 
chagas e á noite voltavam sãos, alegres r. di.spostos para as orgias e libertina- 
gem. 

Estas Vorie.s dm; Milaijre.s eram ])ovoadas por ladrões, mendigos, vaga- 
bundos, ratoneiros e ereaturas abjectas, que de mulheres so tinham o nom<' 
que infamavam. O mais antigo d'cstes covis de infâmia era a Cirande. Truande- 
rie, ([uc colonisou todos os districtos de Paris, em que a policia do prebosle 
lhe consentiu abrir delegações. As duas grandes snccursaes da Traanderie fo- 
ram as do Teiiiple on das ÁHinnnes na rua Fraiirs-lioitríjeoif; e a Curte, dos Mi- 
lagres por exeellcncia junto de FiU.es-Dieii, entre as ruas Sniiil-Denis e Mon- 
torgaeil. 

Além d'estas havia mais de \ inte cortes da mesma espécie, onde se levava 
a mesma vida iorpe; mas b;'.slará citar a Coar de la .lussienne na rua Mont- 
ata!re, ao lado dó oratório das prostitutas, dedicado a Santa Maria Egypciaea; 
a Cnar Gentiens na rua de Coquille::; a Coar Urissel na rua MirtHkrie ; a 
Cour de Haiiera na rua Bordei ; a Cour de Sainte Cataline e a Coar dn rui 
François na rua Poacena ; a Cour de Bacon na rua l'Arhre-Sec, ete., etc. 

Sauval, fallando dos perigosos habitantes da rua Francs-Bourgeois, diz: 
«a todas as horas a rua e as casas eram theaíro de prostituição c de crimes,» 
mas S«uva! ainda faz um quadro mais hi>rrendo da principal Corte dos Mila- 
gres, que elle poude vèr em todo o seu esplendor, ([uando servia de refugio a 
tudo quanto havia de criminoso e infame em Paris. Alli, á sombra da impuni- 
dade, .chegava a prostituição ao ultimo grau do vicio. 

Esta Córie dos Milagres tinha lido noutros tempos uma extensão consi- 
derável, mas, pouco a pouco, se viu apertada eiitre a rua de Montorgaeil, o 
convento das Fiííes-Dieu e a rua Saial-Saaveur, coinpondo-se então unii'amrnle 
d'uma praça irregular (> d'um beceo sem sabida, sujo e ma! cheiroso. 

«Para alli ir, diz Sauval, extravia-sc qualquer frequentemente nas tra- 
vessas asipierosas, peslilentes ; para entrar é preciso descer um comprido de- 
clive tortuoso c desigual. Vi uma ea.sa ostentando velhice e porcaria: não li- 
niia quatro toezas em (piadrailo e todavia alli \i\ ia uma multidão di' eieafiças, 
iilhos legítimos, natnraes e espúrios.» 

Sauval, que Ião curãosos dados sobi^e os liabilanies (Pesias Ciirieí^ de Mi- 




A corte doi mila 



grcs 



[>A nidSIIILK.ÃO I li) 

Uiijrrs iTcollicii, ii;h) mis di/, iiir('li/nR'iilc iiiida .'icci<a i!;is iiiirlh'jii's ijiic o /•(•>- 
)íado arijulico registrava sob o governu do j^rão Cocsre. Mais notável é aiiKJa 
não possuir o retrato physico e moral das vassallas d'cste rei dos miseráveis, 
sabendo uma extravagante pailieiílaridade do seu infame oflicio. 

<'As menos feias das mulheres, diz Sauval, prosliluiain-se por dois iianh. 
as outras por um ilobir. a maior parle por cousa alguma. Muitas delias costu- 
nia\am dar dinheiro aos que faziam filhos nas suas companheiras, com o fim 
de se apoderarem d'elles para ter com <|uc ganhar a vida, excitando a compai- 
xão publica, arrancando assim esmolas.» 

O preço das prostitutas da Grã Côrie i!o.\ Mila(jve>i eia sem duxida o 
mais baixo (jue poilia dar-se a uma niulher em troca das suas vergonhosas 
complacências; no tempo de Snuval dois liirrds xaliam cerca de dois soldos da 
nossa moeda e o doble, dinheiro tornez, equivalia a dois terços d'um liard, islo 
é, Ires soldos da actual moeda. Duvidamos que o preço da prostituição algunin 
vez tivesse descido mais, nem que por niais vil preço uma mulher entreg;)sse 
o seu corpo. 

Esta espécie de prostituição eslava compli'lamcnte fora da acção da j)n- 
licia do (Jiatelet. .\s desgraçadas que a exerciam, protegidas pelos privilégios 
das Cortes dos Milagres, pertenciam á raça cosmopolita dos vadios c dos ladroes 
(juc povoavam estes asylos do crime. Andavam cobertas de farrapos; uma 
grande |)arlc d'cllas tinham segui-amentc nas veias sangue cigano, distinguin- 
(lo-se pela sua repugnante fealdade, pela to: acobreada, pelo cabello encarapi- 
nhado: as brancas e de (Uibello loiro eram as formosas e por isso serviam pai'a 
altrahir para aquelles antros os oncaulos que, pordcndo-se. ao escurecer se en- 
contravam nas cercanias d'uma Còrtt dos niilagres. 

\ bella excitava os desejos da viclima que espreitava ás esquinas d;i> 
ruas; umas vezes mos!iMva-sc lavada em lagrimas, inventando uma fabula c;i- 
paz de commovei' ((uabjuer; outras sahia ao encontro do itoprudentc que a cila 
SC olíereeia e com mil pretextos o arrastava atraz de si; e ainda outras injuria- 
vam o viandante, provocandoo com insolências a Icrctni ella iniia pendência que 
lhe desse motivos para gritar por soccorro. Knfão os cunq)lices, tingidos pães, ir- 
mãos, amigos, acudindo aos gritos atacavam o homem, rouhavam-o, niallriiÍ!!- 
vani-o e, se procurava defender-se, assassinavam-o. 

A mesma sorte esperava o desgraçadí), (juando se deixava scduzii- por 
estas sereias das encruzilhadas e se arriscava a seguil-as ale ao seu antro; um 
pue. mil marido, um irmão, apparecia sempre pedindo-lhe contas de uma seduc- 
ção, ipie lhe nãn davam tempo de consummar, c, pnr vontade ou isor fon;a, tinii.M 
de pagar uma iudemnisação que comprchcndia tudo (]uanlo levava comsigo, 
.sem excepção da própria roupa. K graças tinha a dar, se com a camisa podia 
salvar o corpo. 

Escusado é dizer que estes artifícios e ciladas eram ensinados pelos j)aes 
aos tilhos, pelos maridos ás mulheres, pelos irmãos ás irmãs. Desde a mais 
tenra idade, as creanças eram abandonadas á mais hedionda corrupção; fa/:iam 
do corpo a mais vil das mercancias, vendido, sacrificado á sórdida e immora! 
avareza dos pães ou dos amos; não tinham noção alguma do bem ou do mal, 
principalmente no que era relativo ao pudor; homem ou mulher, os seus pri- 
ineiíos (lassos na vida eram dados para a prostituição e uma vez entrados no 
caminho da infâmia nunca mais de lá sabiam. 

.\'cstes antros viviam as prostitutas (Fondc sabiam cm busca de for- 
tuna e para onde voltavam quando tinham envelhecido no olficio. (lontinuavum 
ainda a vil preço a vergonhosa industria e se não encontravam (piem lhes com- 
prasse o corpo mudavam de mister, len<lo a hnfnn-ilicha, fazemlo licores amo- 
i'osos, tillros, aimiletiis, vendendo gordura e cíiiirllo irenfi>rcado jiara m;ilelicins 
e mais operações de bruxaria. 



1 1 6 HISTORIA 

Os propriclarios das casus ilc uma rua doslinada á prostiluiriíu luiblica 
DUiica SC p"ek'iu!('raiii lilieilar- ila veriiuiilinsa imlustria para que concoiiiaui. 
alugando ôs prédios que lhes produziam avultadas rendas. Vemos, pelo eoiilra- 
rio, ii'um processo renovado frequenlemcnte e relativo á rua Bnillehoe. que o 
ilestino d'estas ruas constituía um privilej^io mui vantajoso em favor dos pro- 
prietários nu inquilinos, que sempre se mostraram stdicilos em derendcj-d c 
conserval-o. 

Este processo, de que enconlramus vestígios dispersos nos registros do 
parlaiiKíiito, durou mais d'um século, renovando-se sob todas as formas entre 
os interessados, que por uma parle eram os proprietários das coisas d'esía rua 
infame e que ])oi' outra eram o cni^a e concisos de Scini-^lerrij. O prebasfe di" 
Paris e o rei alternativamente iíílcriinham na questão que mais enredavam com 
éditos c ordenações eontradilorias. O parlamento, por seu turno, tomando eo- 
nliecimento do assumpto, contentava uns e outros, sem força para aniquilar 
direitos, fundados na legislação de S. Luiz e robustecidos por um uso cnn- 
liimado. 

l"in decreto de ií de janeiro de l;í88, inserto nas |u-o\as da llisioiretlr 
Pari>' de Felibien e Lobiiieau (til. iv, pag. •>3f<."'i dá-nos a conbecer o estado da 
questão e as pretensões reciprocas das duas parles litigantes. O cura e os có- 
negos linliam obtido ordens reaes, que supprimiam delinitivamenle a prostitui- 
ção na rua BaUleliue e uma ordem do preboste de Paris, João de Folleville, 
determinou que as mulliercs publicas, babitantes d'esta rua, immediatamente 
a desalojassem: como estas infelizes se vissem apoiadas pelos proprietários dos 
prédios que oceupavani, não se apressaram em obedecer á ordem do pre- 
boste, e este enviou archeiros, (|ue á força as fizessem sahir e artistas (jue nni- 
lassem as entradas das casas. 

l'rejadicados nos seus interesses. e indignados com este abuso da aucto- 
ridade, (is príqn-ietarios levaram a demanda perante o parlamento, quei\ando-se- 
do cura e dos cónegos de S;únt-Merr\ , a quem accusavam de haver abusado 
da boa fé do rei e do preisosfe. Estes honrados proprietários deram amplos po- 
deres de representação a Ires dos seus companheiros ([ue eram : Santiago de 
Rraux. Filippe (Tibier e (iuilherme de >"evers. 

Hcsuniamos agora os argumentos com (juc cada uma das parles defendia 
a sua causa, que com grande çm|)enho lõi discutida cm audiência solcmnc pelos 
nicllinies advogados do foro de Paris. 

Por parle da egreja dizia-se que o rei S. Luiz ordenara que as ribaldas 
não vivessem em lo(jares e mais Iwnesta-^í: o preboste de Paris decidiu (|uc a 
ma Baillehoe csta\a nas condições de boneslidades prescriplas pela ordenação 
do rei c da rua, e expulsou as ribaldas, condemnando os i)riq)rietarios das ca- 
sas alugadas áquellas mulheres dissolutas no quádruplo do nlugurr. 

«A rua, dizem mais os defensores dos cónegos, é immediala ás maiores 
e melhores da capital, onde vivem muitas famílias honradas, além dos cónegos 
<• capellàes da egreja. Além disso grandes inconvenientes podem resultar, pois 
(|ue se uma ribalda matar um homem, pode ella acolher-sc á egreja: que esta 
rua Uca em caminho de Sainl-Merrv, para ir cresta á rua deViderie e emtaes ruas 
não deve haver más mulheres. Item, que a rua está próxima da egirja, c pci-to 
d"clla não deve haver faes mulheres, pois é o caminho que os cónegos e ea- 
pellàes, seguem para ir á egreja.» 
A oulra parte dizia: 

«Que bom era que taes mulheres vivessem próximo das ruas princijiaes. 
onde menos mal fazem do (|ue nas ruas escuias c nos arrabaldes ; que a dita 
rua só serviria i)ara o ollicio d'ellas e que se alguém praticasse algum delicio, 
s() poderia fugir pela rua principal, onde mais facilmente seria preso do que se 
o didiclo fosse coMimcllido distanie da grande artéria : ipu; as taes mulheres sem- 



DA PROSTITUIÇÃO 1 I 7 

|nr (inliaiii vivido na ilila i'ua, (iiie aiifigamontt' tinlia liilo uma poi'(a,-a ijiial, 
|iiir iiiii inconvciiionlo qualijuei-, foi tirada.» 

\ este |)roposi((), i-ccordava-se que, su!) o reinado de r,;irlos v, ílugues 
Uibriol, pi-cljoste de Paris, lendo visitado os bordeis, supiirimiu muitos d"eílcs, 
deixando subsistir os de Bailleboe, justificando a permissão, dizendo que os 
cnvergonliadiís melhor oii.siiridm firíjiienlar este do (jue os outros. Também se 
prciendia, que a egreja de Saint-Merrv tinlia interesse em (|ue outro destino 
náo tivesse á rua «pelo rendimento (]ue d'abi se auferia e ponjue ln'rironi))) 
hnnentorant dominibm aa-pe lupniiarin exercniUir , eíe., e graças a Deus, nunca 
liial algum foi praticado cm Bailleboe.» 

Argumentava-se com as ordenações de S. Luiz, que determinou que. 
como em Glnlignii e na Còrle-Roheno de faris, houvesse bordeis em Bailleboe, 
r que, tendo elles desapparecido agora da Carte Roberto, era conveniente que os 
i)ou\esse nesta rua. 

Os proprietários objectavam também que a rua em questão não era o ca- 
minho natural para a egreja, sendo-o mais directo pela rua Sainl-Merry, c que 
se |)0(lia |)rescindir de por alli levar o vialico aos enferiuos, embora não hou- 
vesse escrúpulos de o levar pela rua Tiron que não era mais honesta. 

«E é conveniente, conciuia esta parte, (jue o bordel esteja próximo da 
egi'eja, pois que se taes mulheres peccam não estão condemnadas e bom é que 
alguma vez vão á egreja, o que mais facilmente larãff se d'ella estiverem perto 
do (juese a grande distancia habitarem. Item. não é inconveniente que perto das 
egrejas haja bordeis, jiois que Glaiignij com os seus está junto de SoÁul- 
Denis-de-la-Chnrtre, uma das mais devotas egrejas da cidade, e o mesmo suc- 
cede com a de Saiiit-Landry.» 

Os defensores na replica evitaram tocar a espinhosa questão da conveniência 
de approximaros bordeis das egrejas, limitando-sc a dizer que a leífra da pragmá- 
tica dl' S. Luiz, se oppunha a (]uc as mulheres de má vida vivessem perlo das 
egrejas; em apoio d'este argumento citaram o levto da lei romana Deterivs 
ext quod penes i-acrosanctas mies morentur. 

E se por direito natural o mais intimo da cidade pode i^equerer que es- 
las mulheres sejam postas tora da sua visinhança, com mais forte razão o pôde 
fazer um parodio que, tendo de amiudadamentc ir á egreja, tem de seguir a dita 
rua como caminho mais curto para a egreja Saint-Merrij. 

Não sabemos ao certo quando terminou esta demanda, mas deve Icr-sc 
como um dos seus últimos episódios a pragmática de Henrique vi, rei de In- 
glaterra e França, que em 15-25 se declarou pelo parodio e cabido de Saiiit- 
Merrij. E' provável todavia que, apesar de todas as ordenações reaes e de to- 
das as ordens dos pi'ebostes, a prostituição não abandonasse uma rua de ([uc 
(\stava de posse por tal e tanto tempo que não lia memoria do contrario. 

Mas o parocbo de Saint-Merrij castigou a um dos proprietários da refe- 
rida rua, a quem tivera como adversário na questão das tendas do peccado. 
iiindemnando-o a jusliíicar-se n'um domingo á purta da egreja de haver co- 
mido carne á sexta-fcira. 

O cabido, tendo triumpbado, mudou o. nome da rua, que tomou o da im- 
mediata Brisemiche, perdendo assim o seu antigo caracter ignominioso, pois que 
pronunciando-se Bailleboe fazia o povo uma mimica obscena que não tinha ra- 
zão de ser a respeito da rua Taillepain ou Brisemiche. 

Todas estas ctymologias de Baillehoe eram igualmente significativas, 
que, se escrevesse Ba illeliore ou Bailbbore ou Baiilchort, quer se prefira ado- 
ptar a antiga orthographia Baillehoe íiaíllehoche , porque o verbo haille variava 
de significação segundo a palavra que lhe i^ junta e esta palavra tinha sem- 
pre iim sentido obsceno; houe é um instrumento de trabalho; horec uma mu- 
lher publica: //os/ um choque violento; hoehe mosca. !\"uma palavra, havia 



I 18 HISKIRIA 

sempre iiin seiílido obsceno nos dillerciiíes noini^s desta rua iju", imtiIimkIo os 
seus nomes indecentes, não se tornou mais honesta, pois ainda no ultimo sé- 
culo as mulheres de Brisemiche tinham uma celebridade proverbial. 

O documento que analysamos ao fallar do litigio entre a egreja (]e Saint- 
Merry c os proprietários de BaiU^hoe permitte-nos fixar alguns pontos de ar- 
chiologia pornographica. Quasi podemos com certeza atfirmar que as ruas de- 
signadas para a prostituição haviam sido n'outro tempo, de noite, fechadas com 
portas; que estas ruas frequentadas pelos ribaldos e mais gente perdida eram 
frequentemente tbeatro de rixas e assassinatos; que apesar (Kisso o aluguer 
das casas, era alli mais elevado, produzindo avultados rendimentos aos pro- 
prietários : que as mulheres publicas linhara entrada franca nas <'grejas, onde 
iam menos para orar, dn (jue em busca de aventuras: e, finalmente, que a 
visinhanya d'uni bi>rdel era vantajosa á egreja, por eauvsa das esmolas que as 
suas paroehianas davam ao padre e para a fabrica do culto. Além d"isso, con- 
clue-se lambem, que, desde então, uma razão de dií'eito consuetudinário sub- 
sistente até aos nossos dias auctorisava a todos e a cada um dos visinbos ho- 
nestos a apresentai' queixa contra toda a mulher de ma vida, que quizesse fa- 
zer expulsar da sua visinhanya pelos agentes do Chatelet encarregados da poli- 
cia das mulheres publicas e dos logares da prostituição. 



CAPITULO XII 



SUAiAlARlO 



o livrn da Taille de Pjiís.— O rei dos ribaldos da rainha Maria.— Isabel Epineta.— Joaona, a Normanda.— 
Edclina, a Raivosa.— Aaliz, a Berna. — Aaliz.a Mourisca.— ,4 Bailesa c .K»\izSans-ari)ent.—\s7nfíz, a.\lunrlra.— Joanna, 
a lifbil.— Margarid?., a Gala.— Genoveva, a Festejada. — .luanna, a Grande.— I.sabel, a Cluita.— Mahent, a Lomtiania. — 
Margarida, a Brava.— Isabel, a Co.\a.— Isnez, a Serviçal.— Julieta, a Intriguista.— Joanna, a Ilorsontieza. — Maheut, a 
Normandia.- Gila a (2o.\a.— Mahi), a Escosseza.- Ignez, a Branca de mãos.— .loanninlia, a Brincalhona.— .\melina, a 
Pe.juena.— .imflin;!, a Gorda. -Maria, a .Nei;ra.— Ignez, a Grossa.— Joanna, a Sabia, etc. 




ibsEMOs QUE O livi'o /(( Tailk tlc Paris, do auno do 1202, não 
(•(intinlia facto algiiin relativo á prostituição; mas, dcpoi.s do no- 
vamente ter examinado este li vi o tão preeioso para a historia 
de Paris n'aquella época, julgamos dever modificar a nossa 
primeira opinião que, posto que verdadeira ao primeiro relan- 
i [iBi„.........,„.....,niaaag a|j ^,^^^^. ^j^ ollios, não devc ser acceite sem certas reservas ; pois 

se, com elieito, cm parte alguma nos as.sentos do la Taille .se encontra a de- 
signação precisa das mulheres que exerciam a profis.sào de prostitutas, aqui e 
alli julgamos, pelas alcunhas e appeilidos que as caracterisavam, reconliecer al- 
gumas. 

Certo ó, que estas mulheres não pagavam impostos na qualidade de pros- 
titutas ; mas pagavam-os na qualidade de inquilinas das casas que habitavam 
na capital, que não eram os bordeis onde davam largas aos seus vicios e de- 
pravação (boa! telex au feche.) 

Infelizmente nada sabemos das condições d )s impostos c não é fácil com- 
prehender, por exemplo, a razão porque Paris, no tempo de Fiiippe, o Bello, 
contendo uma população de 400 mil almas, apenas tinha 15:200 contribuintes, 
scguntio os cálculos do sábio Henrique Gerardo, pagando ao todo 12:218 libra.'? 
e dez soldos. Estes contribuintes não eram os habitantes mais ricos, pois es- 
tes eram exceptuados da Taille pelos .seus privilégios campestres : nem tão pouco 
eram os mais pobres, como o vemos pelas diflerenças de fortunas menciona- 
das nas variações da Taille. Não merecem confiança as hypotheses de Dulaure 
que pridende que o numero das Tailles indique o de fogos. Se isto assim fosse o 
registro da Taille não mencionaria em quadro especiai, os filhos, os servos, 
os artistas, convivendo na companhia das pessoas sobre quem recahia o imposto. 

Vamos também apresentar uma hypothe.se que se não funda em provas 
escriptas: emquanto a nós a Taille comprehendia unicamente os habitantes de 
rez do chão com portas para a rua. Esta conjectura, que nenhum documento con- 
tradiz, tem a vantagem de explicar naturalmente a notável desproporção que 
existe entre o numero de habitantes e dos contribuintes, entre os quaes as 
imilheres não chegam a ser a decima parte. 



lâU 



IIIS lliKIA 



A Tíulle tle I á92 jwrniiítir-nos-lia assigiialar um lado conliriiuulo por 
muitas ordenações posteriores do preI)osíado de Paris :, as ruas destinadas á li- 
bertinagem publica S(5 recebiam as mullieres de má vida nos bordeis a certas 
boras do dia. Veremos que ellas não babitavara de noite n'eslas mesmas ruas, 
como se o legislador tivesse querido que respirassem o arda vida lioncsta, ar- 
rancando-as momentaneamente á atmosphera da sua infâmia. Só as encon- 
traremos pois nas ruas immediatas, mas não nos será diíTicil o reconheeel-as 
pelos appellidos e alcunbas e pela uniformidade do imposto. 

Antes de proceder á procura d'epsas muliíeres nas parocbias em que es- 
condiam a sua existência, ás vezes cbristã e lioncsta na apparencia, pois muitas 
d'e!las eram casadas, e tinham família, devemos tirar do livro da Tailk uma 
particularidade que o editor deixou passar desapercebida e que se refere á 
histor a da prostituição. Nos assentos da arraia miúda, que residia no 
bairro Sainl-Ciermain-rAuxerroise em quem incidiu o imposto de um soldo c doze 
dinlieiros por cabeça, e\tranba-se o encontrar o rei dos rihaldos da rainha 
Maria (V. p. o do lib. (/" la 'lailíe.) Quem c este rei dos ribaldos morador na 
rua Osteriche, actualmente rua do Oratório, em frente do Louvre ? Seguramente 
não se traia de oíficial da casa do rei de França e a intima quota que lhe impo- 
seram suUicienlcmcnte prova a inferioridade da sua condição. Não era decerlo o 
rei dos ribaldos da corte de Fi'an(;a quem pagava ao fisco a mesma ([uantia que 
Adão, o sapateiro, João, o aiendiíjo e uulros da mesma laia. 

Como já dissemos em cada centro de ribaldia havia um rei de ribaldos c 
esta espécie de mordomo encarregado de manter a ordem no antro era apenas 
uma grutesca caricatura do rei dos ril)aldos da casa real. O da rua Osteriche 
jicrlencia a mais inferior ribaldcria da cidade e o seu pomposo filulo não im- 
pede que tivesse sido um paiife da peior espécie. 

Emquanto a essa rainha Maria de ijuem se declarava olíicial e ministro, 
não podia ser senão uma ribalda ou alguma velha que tinha subido ao throno da 
devassidão pelas acclamações das suas companheiras. Não pôde concluir-se ou- 
tra cousa (Fesse titulo dado a unia mullier ciiamada Maria, tendo um rei de 
ribaldos taxado com \i dinheiros; e inútil é demonstrar que este vil rei dos 
ribaldos não podia pertencer á rainha Maria de Barbante, viuva de Filippe o Co- 
rajoso, que n'essa época ainda era viva. 

Podemos atfirmar com fundamento, e só por este singelo raciocínio, que 
pelo menos cm certas ribalderias as mulheres publicas elegiam uma rainha, 
como outras co!'porações de mulheres, especialmente as lavadeiras e vendedo- 
ras de peixe, ele. Esta rainha linha naturalmente um rei de ribaldos encarre- 
gado da policia interna do estabelecimento em que reinava esta impudica so- 
berana, se era o nome de rainha o que davam á gerente da ribalderia. Já vi- 
mos no séquito dos reis de França no século xvi uma gerente d'csia ordem, 
a quem as ordenações de Frauciseo i e de Henrique ii não concedem as'hon- 
ras d'um obsceno reinado. 

Geralmente dando-se aos bordeis o titulo irónico de alihadia na linguagem 
pittoresca do povo, a directora de tal abbadia chama va-se abhadessa ou prio- 
resa. Pôde comtudo suppor-se que a rainha .Maria tinha sido elcila por uma das 
associações de libertinos, larápios e jogadores (|uc siniulavani uma còrle com 
uma burlesca imitação dos oíiiciaes e dignafarios da coroa. 

Tratemos agora das mulheres sem profissão que a Taille de 1 2d2 nos aponta 
como habitando as ruas suspeitas nas immediaçõcs das destinadas á profissão. 
Primeiro encontramos entre a nenie niiuda da cilada parochia de Sainl-Ger- 
inain com o imposto de \2 dinheiros a 1'lerida da, Hoscaije, do Bosque, (jue 
vivia f(Jra da porta Saiiit-Honorc e por conscguinie fora do fosso da cidade ; 
Isabel VEpiaeíe na rua de froiílaiantel, que acaba de desapparecer com os seus 
antigos aniros de i)rostiluição ; Joanna, a formanda na rua lUauroir, que 



DA PROSTITUIÇÃO I 2f 

ainda ha quarcnla annos existia com o nome de Beauvais; Edelina VEnragiée 
na rua Riche-Bourc, iinje ciiamada Cod-Saint-Honoré ; Aali: la fíernre á es- 
quina da rua dos Poaiies ; Aali: la Morelle na rua Jeham Etront, de que não 
ha vestígios ; a BaiUie e Perronelk-aux-chiem na rua l'aulins ; Leloys, filha 
de Anlh-sans-nriifnl na rua Areron, liojc a de UaiUeul. 

E' para notar que as ruas sombrias e mal cheirosas, onde residiam essas 
mulheres, cuja profissão bem indicada c pelos seus alcunhas, nunca deixaram 
de ser habitadas pela escoria da população. 

Entre a ralé do bairro Saint-Du-ilache encontramos Perone.Ue do Serenes 
ou Sirenes, Igne: VAlelleie, Joanna la Maigrct, Margarida la (ialaise, Geno- 
oeia la Bien-feteè, .loaniia la Grand, etc. Estes nomes tecm-se conservado 
tradicionalmente entre a gente dada á baixa prostitui^'ão. 

Nos mesmos bairros e nas mesmas ruas, a Taille de 1*92 menciona ainda 
com alcunhas análogos outras mulheres que viviam também do seu corpo, mas 
que d'ellc tiravrtm mais lucro, pois que no imposto figuram com 3, ."{ c mesmo 
•) soldos: taes ci'am fiira de portas de Sainl-Honorr, Isabel a Ch.aAa e Maheul 
a Lombarda na rua Froidinantel ; Margarida a Braça, [sabei a Curuja e 
Jgiie:: a Sercinil na rua Biamoir; Jnliela a íntrigaista, Joanna a llourgoin- 
que, Mahenli a Nornw.nda e Gila a Coxa na rua Jtiegebòurg. 

[)cvc-se observar que estas ruas pobres e mal afamadas eram lambem 
occupadas por artistas da mais infima classe, pescadores, sapateiros, ferros-ve- 
Ihos, etc. 

Nas ruas de mais passagem e melhor habitadas são mui poucas as mu- 
iliercs de reputação ccjuivoca. Só se encontram nas immediações das ruas des- 
tinadas á prostituição, mas onde não viviam, como adeante pro\aremos. Assim 
na rua Glaligny, em que a prostituição campeava Ibrtemente, cnconlram-se : 
Margarida la Crispininr, .Inuo le Pasteur, Eloisa la Chandaliere, Samtiago 
le cordomier. 

Mas, encontrando no numero dos inquilinos d'esta rua infame um certo 
Jeharra:, pagando 22 soldos de contribuição, um Guiberlo o Bontano com 2o 
soldos de imposto, a mulher de Nicolau e suas duas filhas, pagando 38 soldos 
e Gil Marescot que paga 30, inclinamos-nos a tomar estes individuos, como do- 
nos de bordel, cuja clicntella iam procurar ás ruas próximas. 

N'clla encontramos Mabil 1'Eseote, Perronelles la Grmenle, l.orencela, 
Ignez-Mains-Blanches, Jeanetle la Papine e outras que reconhecemos como mu- 
lheres de virtude fácil. N'um centro de prostituição não menos activo, do que 
o Vai d'unioiir, em Baillehoe e na Corte de Roberto de Paris, apenas contamos 
quatro mulheres sem profissão entre 38 contribuintes, dos quaes o mais sobre- 
carregado não paga mais do que •') soldos, e estes são : Anielina Baleasse:., 
Amelina la Pelitle, Inês la liogoítona e Mahenf la Mornianda, com 2 soldos 
de imposto cada uma; a creada de Maheut figura com o mesmo imposto da 
ama, de cujos trabalhos c beneficios, aparentemente pelo menos, participava. 

Mas nas ruas adjacentes ha mulheres, reconhecidas pelas alcunhas, sem 
duvida pertencentes á ribalderia de Baillehue, embora tivessem o seu domici- 
lio naqucllas honestas habitações. Inicamcntc citaremos Gbristina e sua irmã 
Maria na nova rua de Saint-Merrg ; Juliana c Ignez na mesma rua; Ainelina 
a Gorda no claustro : Maria a Negra, Maria a Ricarda e [gnez a Sabia na rua 
Simon-le-Franc, etc. 

O pessoa! da prostituição n'estes bairros populosos não era decerto só 
este, mas comprehende-se o motivo, porque na Taille figuram algumas prosti- 
tutas e não todas. 

Dcve-se ter lambem em conta que nem todas as mulheres de fácil vir- 
tude se entregavam exclusivamente á prostituição e que a maior parte d'cllas 
estavam comprchendidas na calhegoria de diversos ollicios. Do espirito das Or- 

UlSIORIA DA PnOSTITUIcio. TOMOII— FoLHA 16, 



122 HISKIIUA 

Henai/õcs Je S. Ijiiz, que regiam a proslidiirSo, pareee deduzir-se, qiio tiida a 
inullicr era livre do seu corpo c com cUe á vontade podia negociar, comfanto 
(jue se não entregasse ao peccado senão nos antigos bordeis c ruas destinadas a 
este mister desde tempos remotos. Segundo os termos de muitos decretos do 
parlamento, Delamarc, que tinha á vista todos os monumentos da legislação do 
Cliatelct, d'oulro modo não apreciou as mulheres que, entregando-se á prosti- 
tuição, só eram tidas como tal no exercício d'essas funcções. 

Resulta d"esla disíincção numa e n'outra phase do seu género de vida 
que a authoridade municipal não devia intervir nas licenciosidades secretas das 
mulheres, que escrupulosamente obedeciam ás ordenações c que só eram ribal- 
das communs, quando frc(|uentavam os logarcs destinados á prostituição. A mu- 
lher que se prosliluia n'um desses silios ficava, ])or assim dizer, rehabilitada 
logo que d'elle sahia. Assim se explica uma sentença di« magistrados de Bor- 
déus que condemnaram um homem a presidio por ter violado uma mulher pu- 
blica. Angelo Stcfano Garoni transcreve esta memorável sentença no seu tra- 
tado de jurispi'udencia intitulado: foiíimpoinriti in tiiulam ile inerelririlrus et 
Ifnonibiis Consiiíul Medial. 

«Os logares infames da prostituição, diz Dchimarc no seu Tratuda da po- 
liria., eram communs a muitas destas mulheres publicas e as suas vivendas 
estavam d'elles distantes. Eram pontos de reunião, onde tinham liberdade 
para o seu commerciar impudico e que se lhes marcavam para as tornar mais 
conhecidas e obrigai' a afastar as (jue ainda eram susceptíveis de algum pudor. 
Ei'a-lhcs prohibido (segundo o /('r,''o verch' antigo do Chatelet, foi. I'j9,) com- 
nietter o peccado em qualquer outra parle, sob as penas estabelecidas nos re- 
gulamentos. Mas ellas illudiram estas sabias precauções, indo aos logares pú- 
blicos tão tarde, que não eram conhecidas, nem eram vistas entrar.» 

Desde então, marcaram-se-lbe as horas d'entrada e sabida nos bordeis, 
que não se abriam antes de amanhecer e ei'am fechados ao pôr do sol. Todavia, 
não consta que as rameiras esíivcssem sujeitas a qualquer inscripção; mas, 
pódc-se afoitamente dizer que eram obrigadas a pagar um imposto lixo, des- 
cripto nos rendimentos da cidade, ou formando parte dos rendimentos do rei 
dos ribaldos da casa real. O preboste de l'aris, a 17 de março de 1374-, pu- 
blicou uma ordem, rezando assim: 

«Todas as mulheres que se reúnem nas ruas de tV.atiíjiijj. \lin'aroir Ma- 
con, Kaillehoe, Court-Hohert, e n'outros bordeis, são obrigadas a sabir ao dar 
das dez da noite, sob pena de vinte soldos de multa.» 

A multa, que equivalia a vinte francos da nossa moeda, prova, a nosso 
ver, que o jircço dum dia de peccado não lhe era inferior; metade d"esta 
multa pei'lcncia aos agentes do ("hatelel. Mais tarde esta penalidade teve de 
dei\ai'-se ao arbítrio do juiz, elevando ao dol)i'o e mesmo quatripulo, o que dá 
logar a suppòr (|ue mulhei'es de mais elevada classe ás vezes não temiam ar- 
riscar-se nestes infames logares e que pouco se importavam com a multa, com 
lauto que a troco d'ella gosassem da im|>unida(le e alcançassem o segredo para 
a sua vida dissoluta. 

A 'M) de junho de 130o, o preboste de l'aris |irohibiu a loilas as nuilhc- 
r'es |)ublicas o pcrmanei-erem nos bordeis depois de dadas as sele da noute, 
sob pena de prisão e multa arbitraria. Uelamare, que cxtrahe esta disposição do 
livro roxo antigo do í.hatelet, accrescenia uma particularidade confrontada com 
os registros do prcbostado. 

"As ordens, diz, são rennva<las duas vezes poi' anno e esia rt'tirada cra- 
Ihc marcada ás seis d'inverno e ás sete de verão, horas a que havia o toque 
das almas.» 

Tal era a força do uso, tal era o império do costume n'aquellcs antigos 
lcni|)iis, (|ue loram necessários muitos séculos para desalojar a j)rosliluição de 



II V riiii'^ 1 1 1 ( II, AH 



I->:| 



miia lias iiias i|uc i.uiz i.\ liu' lia\ia tlihliiiailo. Oiiaijilo miia ur(lciiai;ã<) do |)rL'- 
liosle do Paris, datada de 18 de selembro de 1307, eonlirmoii o deslino d'eslas 
ruas, o l)i?po de Maeim dirigiu represou taeõcs a Carlos v, para eonse54UÍr que 
(la rua Ciiaj)"!) fosso retirado tão verjioiílioso inisler. Os bispfis, condes de CÍia- 
ioiis, desde remotos tempos possuíam um grande palaeio na rua Transnonaiii, 
então eliamado Trou-saenunain, entre as ruas Cltapou e Vaun-á-Vilain, hoje 
Montinerencij. As mulheres de má vida tinham-se apoderado de todas estas 
ruas; reuniam-se totlos os dias no seu usjilo da rua C.hapon e alli os seus can- 
tares, as gargalhadas, os ralhos e obscenidades continuamente perturbavam a 
consciência dos piedosos habitantes do palácio dos condes de Chalons. 

O bispo, inembi'o do conselho privado do rei, teve de empregar lodn n 
seu valimento, para eonseguir afastar para longe do seu palaeio e ao niesnn» 
tempo do cemitério de S. .Nicolau, esta visinhanea que insultava não so os vi- 
vos, mas também os mortos. Carlos v publicou a ;$ de fevereiro de UHi7, uma 
ordenação, em que era reslalieleeido o edilo de S. I.uiz contra a |)ioslitui(:ão 
em geral. l'ara cliegar, não á completa execução do edito, mas para unicamente 
o appliear á rua Chapon, as conclusões que tirava da ordenação de láoi, não 
eram nem justas nem lógicas. Depois de recordar a antiga ordenação (|ue ex- 
pulsava da cidade (de rilhi) as mulheres |)ublicas {iinhUcw iiieretrlce.s) conlis- 
cando-lhe todos os seus bens e até o vestido e as pelicas (u.síitws ad íanicdiii 
cel pdliceain,) ordenava aos proprietários da rua Chapon, (]ue tivessem alugado 
casas ás meretrizes, as despedissem immediafamenie sem que pai'a o futuro as 
pudessem tornar a ter como inquilinas, sob pena da multa de um anno da 
renda, a fim de que essas vis creaturas, dizia o edito, não continuem a viver 
na citada rua, nem iiYdla tenham as suas reuniões {qaod ibidem mui, Uipanaria 
II lie ri us de eelern iton leneanl.) isto em honra do bispo e no interesse das pes- 
soas honeslas que viviam nas visinhanças ou na própria rua, por onde já nem 
mesmo passar ousavam. A ordenação parece que quer altribuir ao nome da rua 
uma origem que documentos mais antigos desmentem {.saltem melu pene dirlus 
cicus.) 

Sauval attirma que as meretrizes resistiram ás ordens do rei, fuhdando-se 
nos privilégios confirmados por S. Luiz e provando que a rua Chapon lhe tinha 
sido concedida com um logar d'asv!o, por Filippe Augusto, antes que esta rua 
tivesse sido comprehcndida dentro dos muros da cidade. Os bispos de t^balons 
insistiram na queixa, auctorisando-.se com a ordenação de CaHos v para se ve- 
rem livres da inconmioda visiniiança; mas não o puderam conseguir: tanta au- 
ctoridade conservava a legislação de S. Luiz e tanto era o poder do costume 
na administração municipal. 

<,<As ribaldas mantiveram-se firmes, diz Sauval, e não sahiram da rua 
Chapon até lo6o, quando os asylos das mulheres publicas totalmente desap- 
pareceram de Paris.» 

As ordenações dos reis não eram também melhor executadas, quando se 
tratava de -impedir a prostituição nas ruas, em que o direito antigo e consuetu- 
dinário não podia ser invocado. Estabelecidas uma vez as meretrizes n'uma rua 
ou bairro, ahi se fixavam de tal modo, (|ue era impossível desalojal-as, apesar 
de todas as ameaças de multa e prisão. Tinham, já se vè, uma repugnância in- 
vencível em ir residir para os lugares que lho estavam designados, e (|ue indu- 
bitavelmenie lhes infiingia uma notoriedade infamante, e, portanto, preteriam 
expòr-se aos rigores da lei, e exercer occultamente a profissão nas ruas em 
(jue a policia nem sempre tinha sobre ellas os olhos bem abertos. 

F.m 1:581, Cailos \i exigiu a execução das ordenações de S. Luiz, contra 
os que alugavam casas ás mulheres de má vida nas ruas não coinprehendidas no 
numero dos seus logares iVasiihi. Carlos a '.\ de agosto dirigiu uma ordem ao pre- 
boste de Paris impondo-lhe a sua execução : sem razão apoiava-se nas antigas 

# • 



■ISi IIISTOUIA 

nrdoiiações do rei sanio que c\piils,ivani da eidade c dos eainpos (tam de campis 
(imun lie cilli.s) ás mulheres de vida dissoluta e proliibia sem exeepyão a pros- 
filuição : mas não exigiu apenas que aquella legislação fosse applieada ás me- 
retrizes (|ue habitavam as ruas de Beanbourfj, Geolfroi-V-Aiufetiii, Jongleurs, 
Simon-le-Fraiic, assim como nas immediac;ões de SuiM-Denis-de-ia-Chartre e 
da fonte Manlxir. Como no edito de Carlos v, os proprietários (Cestas ruas, a 
quem se pretendia libertar de tão ineommodos hospedes, eram avisados jiara 
não alugarem casa alguma a mulheres suspeitas, sob pena de pagar de multa 
um anno do mesmo aluguer ao bailio ou ao juiz do ('hatelet. 

Ha dados para crer que o preboste de Paris fez immedialamente diligen- 
cias para que as ordens do rei fossem cumpridas; houve proprietários multa- 
dos, mulheres ])resas c expulsas: mas ap(>sar de tudo isso a prostituição man- 
teve-se no domínio conquistado. 

Todas estas ruas, excepto o claustro de Saini-Denis-dc-la-Charlre, ti- 
nham feito parle da aldeia Ikauliouru (jue Filippe Augusto reuniu á cidade : este 
Ileaabuurii, pois, estava naturalmente occupado pelas rameiras que, de geração 
em geração, lhe perpetuavam il infâmia. A fonte Maubuf', cercada de vivendas 
pobiTS, era o centro d'essa ribalderia possuidora do mesmo nome da fonte (Mau- 
bui, porco, sujo.) 

O estabelecimento das meretrizes nas circumvisinhanças da égrejaSamí- 
Bfiúa de-la-Cliartre na cidade, remontava ainda a maior antiguidade, pois, 
como já provamos, a confraria da Magdalena tinha tido principio n'esta paro- 
ehia; coisa natural era, que as alegres comadres, que formavam e.ssa confraria, 
se agrupassem em volta da egreja da sua padroeira e considerassem este bairro 
como um antigo feudo da corporação. 

O preboste de Paris, ao publicar as rcaes ordens de 3 de agosto com o 
fim de proteger a honestidade de umas certas ruas, julgou também dever re- 
cordar que outras ruas havia parlicularmcntc destinadas á prostituição; mas, 
receando põr-se em contradição com alguma ordenação real, como acontecera 
com a que fora expedida para a reabilitar a rua Chapou, teve o cuidado de não 
designar quacs fossem essas ruas. Prohibiu ás mulheres publicas o «ter bor- 
deis, exercer a sua vergonhosa industria e morar nas ruas boas de Paris ; mas 
que se desalojem e saiam com seus bens das ditas boas ruas e vão viver 
para os bordeis, togares c ruas destinadas para isso; sob pena de desteri'o.» 
Este edito, que Ducange transcreveu do noto litro verde do Chalelet, não de- 
signava os logares (|ue o prebostado marcava para o commercio da prostitui- 
ção, c as meretrizes aproveitando esta lacuna dis])crsaram-se por todos os baii'- 
ros de Paris, onde estabeleceram um .sem numero de bordeis. 

Teve pois o preboste de explicar esta amphibioiogia com outro edilo 
mais explicito, que Ducange transcreve no seu (llosario (palavra Hijinurniii) 
com a data de I39.J e como tirado do licru negro de Chatelel. 

«Item, ordena-se a todas as mulheres publicas e de vida dissoluta, que, 
actualmente vivam nas ruas honestas de Paris. . . que d'ellas saiam immedia- 
lamente depois d'este pregão e se retirem e fixem as suas moradas nos bordeis 
e logares públicos antigamente designados e que são : ruas do [bri'iuuir de 
}Iascon, de (jlatigtig, de Tirou, de Coiirl Hoíieri, lluillelioe, rua CliajKin. rua 
I'aU'e, sob pena de prisão e multa voluntária.» 

Este pregão feito ao som de trombetas nos becos de Paiis tem a origi- 
nalidade de ter feilo esi]uecer a ordenação do ivi relativa á rua Cliajioa ; talvez 
que um dfcreto do parlamento houves.se suspendido os eHeilos d'esta onlena- 
ção. Entre as ruas tidas como infames não é citada a rua Cliamp-Fleurg, mas 
vc-se (pie foi substituída pela rua PahV, que .se chamou de S. Julião e mais 
tarde da l'oierne ou ruusse-l^iiifrne, por pouco distar da cisterna di' Sainl-.Ni- 
colas-Huidchjii. 



DA ritosfiTUiijÃo I i'3 

Esla rua, liojo chamada do Mouro, tiiilia um centra de pi"oslituii,-ão, cha- 
mada a ('urlf do Houro, (lcnomina(.'ão tirada talvez d'alg;umas increlrizes que 
deviam ser mouriscas ou sarracenas. Aqui havia um dos principaes asylos da 
prostituição, ainda que não pretendamos encontrar esta rua Palée na do Petit- 
llurkur, onde (ieraud, Jaiilot e Lcbeuf julf^aram dever iocalisal-a. A grande 
rua Palée, duas houve d'este nome segundo cremos, era o logar dasylo das 
mulheres publicas íla rua Heauhourg e ruas próximas. 

Também havia em Paris um grande numero de logares de prostituição 
não auctorisados, mas a (|ue o prehostado fechou os olhos até I5G'), em que 
Carlos IX os eomprehendeu n'uma medida geral prohibiliva. Uma ordenação de 
Carlos VI de 14 de setembro de 1420, durante aoccupaçãode Paris pelos inglezes, 
renovou as antigas prohibições ás mulheres de má vida de morarem em outros 
sitios que não tossem o -I/í/yímoíív, Mucon, lilatnjau, Tiron, Cour-ítuhert, Ihiilie- 
lioe, e rua Paire, sob pena de prisão. (Delamare leu rua /'rtccV no registro 
negro do Chatelet, d'onde copiou este documento.) 

Mas quatro annos depois, morto Carlos vi, Henrique vi, rei d'lnglaterra 
e também do França, deu ouvidos ás queixas dos contribuintes e parochianos 
da egreja de Saint-Merry, que pediam a suppressão das vergonhosas franquias 
de Baillehoe «em cujo logar de Baillehoe, dizem os reaes despachos de Hen- 
rique VI datados d'abril de 1424 e entregues em Paris ao conselho do rei, resi- 
dem e estão continuamente mulheres de vida dissoluta, chamadas bordelarias, que 
alli teem um bordel publico ; coisa mal vista e não conveniente ao preito que 
deve prestar-se á egreja c a todo o bom catholico; de mau exemplo, vil c abo- 
minável também para a gente honesta e de bons costumes.» 

Para satisfazer aos desejos dos queixosos, que se escandalisavam com o 
espectáculo d'aquella libertinagem, o rei inglez prohibia «que d'ani em deante 
houvesse qualquer prostituta na rua Baillehoe, ou nas immediaçôes da egreja de 
Saint-Merrti, attendendo a que na cidade havia muitos outros logares destina- 
dos ás meretrizes e mesmo mui distante d'esse tal, como o que se chama Cor- 
te-Roberlo e em outras partes mais distantes da egreja.» 

Ordenava-se ao preboste de Paris que fizesse executar este edito irre- 
ro(/arel, expulsando immediatamente da rua Baillehoe as mulheres publicas. 
Provável é que esta ordenação tivesse o etleito das antecedentes, pois a rua 
Baillehoe continua a ser consagrada ao vicio. Notamos nas ordens de Henrique 
VI que os logares destinados ao vicio estavam ermos, não occu[i(tdos, emquanto 
que o pregão do preboste de Paris, soleinnemente apregoado em 1393, ordena 
ás mulheres publicas que façam as suas iiabitações nos mesmos sitios que desde 
antigos tempos lhe tinham sido designados. 

Concluiremos d'estes documentos (|uasi contemporâneos que a legislação 
relativa ás mulheres de má vida se transformara n'este ponto ; que eram obri- 
gados a residir no theatro da sua libertinagem e já não tinham a faculdade de 
occultar o seu domicilio em todos os bairros, embora vivessem honradamente. 
Resulta, além d'isso, da ordenação de Henrique vi que apesar da penalidade 
as mulheres dissolutas recusavam juntarem-se nos bordeis que continuavam de- 
sertos e abandonados. 

l'm decreto do parlamento citado por Sauval, prova a teimosia com (jue 
esta classe de mulheres se afastava das ruas destinados á sua infame indus- 
tria para se dissiininarem pelas ruas honestas que ellas manchavam com as 
suas torpezas. N'estc decreto ordena-se ás meretrizes que abandonem a rua 
Cannels e outras immediatas, intimando-as a que vão habitar os antigos bor- 
deis {Antiquiws de Paris, tit. iii, pag. 9o2.) 

Kão pode duvidar-se, segundo os termos d'este decreto, que o preboste 
de Paris reconheceu a necessidade de que a morada, e o logar onde as prosti- 
tutas i)raticavam os actos deshonestos, fosse a mesma, nem que as ihuis decen- 



]2Ct IJÍSTdlílA 

tes eram peniiaiicnteinoiííe liabiladas por estas uuill)eres, (juo priínilivaini^nlc 
só lá iam a t^ertas lioras do dia e nunca de noite. 

Tem de procurar-se na lopographia de Paris antiga as ruas percorridas 
pela prosílluição errante e que as ordenações dos reis, os decretos do parla- 
mento e as ordens do preÉDStado não designam nominalmente. Estas ruas em 
que fartivameníc se exercia, a prostiiuiccio eram baslanlo numerosas e ordina- 
riamente o alcujiha obsceno que llie punha o po[)uhiciio, designava-as á i'epro- 
vação da gente honrada o;ue prudciítemente delias se afastava. Alem das cor- 
tes de milagres, onde se conlandia.m ladrões e meretrizes da ultima espécie, 
podiam contar-se umas vinte casas tão mal afamadas, como as que S. Luiz de- 
signara para a libertinagem publica. Já aeima'íizemos observar que estas ruas 
ficavam sempre proxiiiias (le qualquer centro de prostituição. Assim a rua 
Fransnonain eslava por assim dizer dependente da rua í.hapon.; a rua íknirg-l- 
Abbé da rua Hueleu, a de Coeatris da de Glatigny. 

Desde o principio que as ribaldas tiveram de escolher residência próximo 
do logar das suas reuniões paia a!li poderem ir a Iodas as horas sem se expo- 
rem aos. insultos e arruaya do populacho. A rua Bouvíj-l-Abbé que foi aberta 
tora do recinto de Fiiippe Augusto, no termo d'abbadia^Sítíítí-.U(íí7iíi-í/e-s-C'((n/i/>s'. 
participava da má reputação da rua ou antes do beco .sem sabida chamado 
Hueleit, entrada da actual rua de nome Grand-Hiiiieur. (Sauval, t. i, pag. 
120) apresenta uma locução proverbial que nos faz conhecer quaes eram os prin- 
cipaes habitantes d'cssa rua. São da rua Bour<j-l-Abbé, os que não querem mais 
do que amor e simplicidade (^nimplesss.) 

Em quanto á'rua Hueleu, exclusivamente destinada, desde a origem até 
hoje, á prostituição, não devia o nome, como o diz o abbade Lebeuf, a um ca- 
cavalheiro chainado ílàgo Lúpus (eai francez antigo Ihie-ku,) que viveu no 
século XII e fez inuiías doações á egreja de Saint-Magloire ; senão aos gritos [hiices) 
que se davam á gente honesta que o acaso levava a este logar infame. Esta 
ctymologia está coníirmada pelo nome dado á dos ínnocentes que esta rua teve 
pela mesma cpoclia. Depois tomou o de Grand-lluelea para a distinguir da 
Petit-Hueleu, sua immediata, ao principio beco Palée e mais tarde comparada á 
de Hueleu pelo vergonhoso destino que tomara. 

«Quando se via entrar um iiomem n'uma d'estas ruas, dizem os auctores 
do .Dicíionaire íiltiloriqas de. la cille ds Paris, facilmente se adi\ inhava o ijue alli 
o levava e dizia-se aos garotos : !íue-le, isto é, grita atraz d'elle, Faz-lhe Irura.y* 
Seja como fôr, de todos os eeiUros de prostituição de Paris, o de líuelen 
foi o que mais terrível fama leve e foi elie que determinou as severas medi- 
das de repressão que Carlos ix estendeu a todos os logares impudicos da ca- 
pital. Pode com boas auctoridades susteiitar-se que os garotos tinham costume 
de grilar ao lobo {im loup) e por corrupção honloulou, quando um homem na 
rua fallava com uma meretriz, ou quando uma d'ellas tinha a imprudência de 
apresentar-se em publico com os dislinctivos da sua vergonhosa industria. 

As ruas que eouununicavam com a rua Chapon niio eram habitadas por 
melhor gente do que cila. Por muito tempo a rua Triuisnonaiii serviu para 
trocadilhos mais ou menos obscenos do populacho que lhe chamou Tro)isse-.\o- 
nain ou Tasse-i\onain e Trolte-Piilain. X rua Ferpillon cm cujo nome se julga 
encontrar o d'um, dos seus primeiros habitantes, foi ao principio chauuula Ser- 
pillon, palavra antiquada, que corresponde a torcbun (rodilha, trapo velho para 
limpar.) 

A rua Monlmoréney, onde os fidalgos d'este. titulo em outro Icmpo tive- 
ram um sumptuoso palácio, era unicamente conhecida pelo nome Coar aa I (7- 
lain (Còrle do villão) por causa de uma espécie de (]òrtc de .Milagres que nella 
havia. A nsaior parle das ruas, tora dos muros, ou para além do recinto das 
muralhas, construído por Fillippe Augusto, linham-se dedicado á prostituição 



DA ritOSTITUIÇAIi 



127 



livre, que alli nfnínlava socegadamcnte as ordens do prcboslado c ns agentes 
da policia do (^iialelet. Assim as ruas das De)i,rzPorl!'s (Duas porias,) a de 
Ikanrepaire (Bom asyln,) c da Itenarã (da Rapnza) a de Lion-Saint-Snuvet' 
(Leão de S. Salvador) de direito perlenciam ás prostitutas de intima espécie. 
A rua Deu.r-1'oiies que tirou o nome das porias que tinha, e que á noite 
eram ieeiíadas, l'oi induvitavelmente um lo;.;ar de prosíituiç,'ão, o que suilicien- 
tcmente está demonstrado polo alcunlia obsceno, conservado até ao século xv. 
Com este nome obsceno está designada n'uma das listas das ruas de Paris, publi- 
cada por Lebeuf, conlbrme um nianuscripto da abbadia de Santa Genoveva 
{Hi.tt. rle In villr et du diocese de l>aris\ tit. iii, nag, 603.) Na conta do Domínio 
de Paris, do anno de líil (Sauval, tit. iii, pag. 273,) o cobrador da cidade 
declara haver recebido de .íoão Jumauli as rendas de uma casa, curral c es- 
tabulo em Paris, rua llvatec... próximo dfí Tíre\^... marcada com o Escudo 
de Borgonha pertencente ao censo real. 

A rua Tiver . . . de que n'csia conta se trata conservou a sua infame de- 
nominação ate ao século xvr, em que a rainha Maria Sluarí, muUier de Fran- 
cisco II, passando alli uma vez, perguntou pelo nome da rua ás pessoas que a 
acompanhavam, dando por isso logar a que lhe fosse mudado o nome primi- 
iivo. Seja como fòr, esta anedocta, que Saint-Foix assegura ter colhido da tra- 
dição local, deu logar a que em 1809 se lesse o nome de Maria Stuart no le- 
treiro da rua Tirebondin. 

Os nomes das ruas, inventados e corrompidos pelo povo, que gosava com 
os trocadilhos mais deshonestos, quasi bastariam para dar $> conhecer os covis 
da prostituição publica e particular na antiga Paris. Sem sahir dos novos bair- 
ros que compunham a Cidade e que se ramificavam para o norte e para a mar- 
gem direita do Sena, além e áquem do recinto de Filippe Augusto, encontramos 
nos antigos inventários, as ruas Truanderie, Pmls-d'Ãiiwur, de Poilec...., de 
Merdevel, de Putiç/neuse, de PiiJe-y-mm-sc, etc. 

Estes nomes só por si dizem o que eram as ruas que os tinham. A rua 
da Truanderie, única que atravez seis séculos conservou o seu nome, dava não 
só asylo as prostitutas vagabundas, mas também a mendigos, a ladrões, a vadios, 
n'uma palavra, aos truões. A rua Puils-d'Amour, agora Pelite-Truanderie, 
tinha um poço celebre de que já falíamos e que as namoradas conheciam per- 
feitamente. Este poço, cuja recordação se relaciona com a de muitas chronicas 
d"amor, estava no centro da pequena praça Ariana, cujo nome primitivo pa- 
rece ter sido praça da Rainha, provavelmente por causa d'alguma rainha de 
ribaldos ou d'amor sagrada com a agoa d'aquelle poço. 

A rua Poilec... pode ainda ser reconhecida peio seu moderno nome 
l'elicon, que um indiscreto pudor crismou em Pwíjh', (Purgada) no principio 
da Revolução ; esta rua nunca variou d'habitantes e n'elia ainda .se encontram 
os seus maus costumes. A rua Merderel ou Merderet ou Merderiau limpou-sc 
um pouco com os nomes posteriores de Verderet e Verdereíe, mas em parle 
manteve os seus antigos usos e a prostituição passeia alii agora como n'outros 
tempos. 

A lua PatiíjnenM no bairro de Santo António é actualmente (leofjroij- 
l.asnier. .i i'ua Puíentj-Musse tomou um nome mais honesto, transformando-se 
em Petil-Musc. Guillot no seu iíenerario indica outra rua do mesmo nome que 
Lebeuf julga reconhecer na de Cloche-Perce ou da Cloche-Percce. 

Não é preciso dizcr-se que estas ruas e vielas, frequentadas pelas mere- 
trizes e seus infames saleliíes, eram notáveis pela sua porcaria e mau cheiro 
e ainda n'este estado nos appareeem no século xvii, quando os commissarios das 
vias publicas fizeram uma visita sanitária á capital. Este exame evidenciciu ((ue a 
maior parte dos burdcis eram cloacas infectas que perigosamente infeciunavam 
o ambiente. 



CAPITULO XIII 



SUMMARIO 



Ord'--uaçâo iumptuaiia de Filippe Augusto— Leg^lslação dos reis de França contra a diisoIuçSo e superflui- 
dade dus vestuários.— As rainbas da rihaldia.— ProliibifSes do6 prebostes da Paris e decretos do parlamento.— De- 
■•reto de 2G de junho de 1 ili).— Pragmática do rei Ueurique vi d'Inglaterra.— Decreto do parlamento de 17 d'abril 
de 1429, proUibindo os enfeites das doazellas.— Uainlias e priucezas d'amor.— Ordinário de Paris.— Joaninha, viuva 
de Pedro Mi:.'ijel, Joaaninlia Xeufville e Joauninha Florida.— Os cintos de prata.— Inventários dus despojos de Marga- 
rida, mulher de Pedro Rains e de Louren^a Villeis.— Joanua a Paillarde e Ignez a Peiíuena.— OrdeuajSo d'Henrique 
II— Joanninha Ruisson— Dos e das que viviam da alcovitiee em bordeis, alui'a\ am quartos para o peccaJo e regiam 
casas de meretrizes.- O mercado dos Porceaux. 




v VIMOS que o preboste de Paris pur uma ordenação de 1360. 
sob pena de conlisco c de mulla, prohibira que as nuiiheres 
publicas trouxcsscisi nos vestidos ou nos ciiapeus botões de prata 
ou dourados c usassem pérolas e capas torradas de pelles. Esta 
ordenação, a mais antiga que conbeceinus relativa á policia 
sumptuária das prostitutas, foi certamente precedida de outras 
que não Ibrain conservadas nos archivos do (Ihatelet de Paris. Filippe .4ugusto, 
foi o primeiro rei que iiuiz corrigir o luxo no vestuário, ou para melbor dizer, 
foi o primeiro que, st^b o j)rcte\to de reformar o vcstuarin para interesse pu- 
blico, o fez servir para designar a hierarcliia social, segundo o nascimento e 
fortuna. Prtde pois suppòr-se que desde os primeiros regulamentos de Filippe 
Augusto, relativos ao luxo, as prostitutas de profissão não poderam tornar-se 
a vestir como damaí e castaUãs, mas d'esla legislação de Filippe Augusto ape- 
nas ficaram ircordações. 

A legislação, sobre o mesmo assumpto, de Filippe. o Formoso, que sem 
duvida nada mais era do (jue a confirmação do antecedente, não leve a mesma 
surte, podciu!o-sc datar de láíli a legislação dos reis de França, contra a dis- 
solueão (■ auperjluiilade dos vestuários. Na ordenação de iiOi não se trata das 
rnulberes publicas, nem do vestuário que lhes pertencia ; mas deve crèr-se não 
tereiu sido mais privilegiadas que toda a mais gente de baixa condição, que 
não devia usar nem cair, nem arminíio, nem ouro, nem pedras preciosas, e 
que eram obrigadas, dentro do praso de um anuo, a desfazer-se d'esscs artigos 
probibidos, adquiridos anteriormente á ordenação. 

A execução de similhanle ordem não era cousa fácil e enire as desobe- 
diências mais teimosas encontram-sc as das rainhas de ribaldia que sustenta- 
ram, que um edito relativo ás mulheres vulgares não .se podia entender com ei- 
las e que o rei de França não podia querer desbonral-as até obrigal-as a usar 
vestidos de 12 soldos a vara. 

A ordenação de Filii)pc, o Foriaoso, só foi o ponto de jiartida de todas as 
ordenações do mesmo género, que só fivcnim por hni ieno\ai-a c completal-a. 

HisroniA nx l'uusTiTUir..to Tomo ii—Koliu 17. 



I 'V) HISTOKIA 

ndilicionaiitlo-llic piTscri|j(;ões t|iii.' variavam cdm as iiiiidas o nsns. Muitas dVs- 
las oi-deiiae6t>s d('\em tor sido publicadas antes da de \'.Wi, (jue, unicamente 
dirigida aos habitantes de Monipeilier, especialmente ás mulheres, está cheia 
de minuciosidades sobre a f(5rma dos vestidos e qualidade das fazendas. E' dif- 
ticil de aerediiar-se que muitos regulamentos sumptuários, pelo menos tão 
igualmente minuciosos, não tivessem sido applicados ás mulheres de Pai'is no 
largo espaço de lemp',' que medeia entre o primeii-o edilo, lií'i, e o de 1367. 
o qual apenas tinha força de lei em Monipeilier. Apenas se encf)ntra o edito do 
preboste de l'aris, datado de 1360, |)or nós a<'ima citado e que.ajienas se re- 
feria ás mulheres communs. Ceríamente houve outros éditos análogos, sem con- 
tar com o que exclusivamente tratava dos cintos dourados, que a ti'adição trouxe 
até nós, embora o texto original tenha desapparecido ; o texto também era uni- 
camente uma paraphrase de um artigo da ordenação de Filippe. o l-ornwso. 
Mas motivos ha para crer (}ue as meretrizes de Paris se nifstraram pouco dó- 
ceis ás ordens do prebostado e que se pozeram ena aberta hostilidade com os 
agentes encarregados de fazer executar a lei, pois que no decurso do século xv 
vemos muitas vezes i"i'apparecer, '■ sempre com augmenio de severidade, as 
prohibições (jue o preboste diiMgia ás suas humildes súbditas e que os decretos 
lio parlamento não cessavam de corroborar. 

Por uma ordenai-ão de 8 de janeiro de I il'i, unicamente relativa á pros- 
tituição, o preboste prohibiu, sob pena de confiscação e multa arbitraria, tanto 
em Paris como em outra parte, tjue as mulheres dissolutas tivessem a ousadia 
de usar eideites d'ouro ou prata nos seus \eslidos e chapéus, botões de praia 
ou doui-ados, pendas, cintos de ouro (ju dourados, capas forradas de pellí'>, c 
tivelas de prata nos sapatos. Oeu-se-tlies o praso de oito dias para abandonar 
esses enfeites e d'elles se desfazerem, passado o qual praso os agentes do 
prebostado poderiam prender as desobedientes em qualquer logar em que fos- 
sem encontradas, exceptuando nas egrejas, send" levadas ao (".batelet onde lhe 
seriam tirados os vestidos e castigadas como merecessem. 

Esta ordenação foi renovada e apregoada ao som de trombetas nas ruas 
e esquinas de Paris em I ilíl, o que prova n.ão ter sido muito observada pelas 
interessadas e que a sua persistência em não obedecer' linha desanimado o /elo 
dos agentes do prebostado. 

O parlamento, apesar da guerra civil, da pesle e da fome que então de- 
\aslava a capital e muitas províncias do reino, considerou bastante importante 
a questão sumptuai'ia relativa ás prostitutas, e a 26 de junho de 1130 evjie- 
diu imi decreto no qual a essas infelizes era prohibido o usarem vestidos de 
«auda e toda a espécie de pell<'s de quahjuer valor que fossem, cintos doura- 
dos, botões nos chapéus, sob pena de prisão, conliscação e multa arbitraria 
passado um praso de oito dias depois i!a publicação do decreto. 

O decreto do parlamento tião foi melhor obedecido, de que o lora o edito 
do |)reboste de Paris; e foi mister que cinco annos depois este magistrado repe- 
tisse as suas ordens, sem que todavia ainda desta vezcolhesse melhor resultado. 

\s prostitutas não queriam renunciar aos enfeitos e constantemente illu- 
diau) o cumprimento das ordens, (juer modiCcando alguma cousa nas inven- 
<;ôes da moda, quer imitando o luxo das mulheres honestas. 

Parece que o producto da apprehensão dos vestidos c jóias prohibidas 
dava n'aquclle tempo um resultado avultado, pois o preboste de Paris dVlle se 
apropriava como um dos rendimentos do seu cargo; mas IIenri(|ue vi, rei de 
Inglaterra, que em 14 de maio de Ií2l era senhor de Paris, não quiz i'on- 
senlir que esla infame fonte de rt'ceila se desviasse do seu erário e un)a or- 
denação d'a(iuelle anno reeommendava ao preboste, que (Palli em dcanfe não 
tornasse a apropriar-se dos cintos, jóias, vestidos e enfeites prohibidos das mu- 
lheres dissohilas ( r. irnhr df Drilfii. ilns rfis iln V." Ht/iins-tiiiA 



'JiHsri 11 II A(i 



l;íl 



Liii iKivi) (lecrelo lio parlaineiilo ile. 17 ile abril ilf I lili (iiidiiliiu <mi;- 
(•rifi'ites usados pelas meivlri/A's» os veslidos tie cauda, Iodas as fM>llt>s, (|ui-r 
fossem usadas em eollaiinlios, piínlMs, dei)i-iiaiid(i ou com iiuaiquer outra ap- 
plieação. O mesmo decretn tambero prohibe \iboloes nos i liapeiis, cintos de 
seda, de ouro ou de prata» que são cnleites para niulliercs lioriradas. 

A repetição d'eslcs decretos prova a teimosia das prostitutas em des- 
obedecer ás ordenações; não podiam convencei--se de que iiaviam de estar su- 
jeitas, como a gente de íuimiide condição, á legislação sum|itiiaiia, que á inedidu 
que o luxo augmenlava em todas as classes sociaes, se lurnava mais rigíirosa. 
Durante os séculos \\ e xvi, em que os reis de França davam n triste 
exemplo da prodigalidade no luxo, eram elles os próprios todavia que sob as 
mais severas penas prohihiam tudo aquillo que podesse concorrer para a dis- 
■iolu(;ãú dos vestuários; nem sequer permitliam ás suas damas de honor e gen- 
tis-bomens que usassem certos tecidos reservados para os principes e prinee- 
zas : prohibiam a toda a classe de gente o us(j de certos bordados e passaman- 
taria <le ouro, de prata, ou de seda; mas as mulheres publicas, que se intitula- 
vam rninlia.s e princesas dr nmor, nao faziam caso dos éditos, e nas ruas que 
lhes eram destinadas continuavam passeando essas surperíluidades proliibidas. 
Deve suppor-se que assim vestidas não se aventuravam a percorrer as ruas 
Iwiic.stjs, pois que, despertando a attenção, teriam contra ellas concitado o odií. 
dos transeuntes iionrados. .lá dissemos qui' as meretrizes não eram s_vmp;iihi- 
cas ao povo, que frequentemente as injuriava, lhe atirava lama e muitas ve- 
zes pretendia espancal-as. 

De vez em quando era necessaiio dar satisfação á \ingança popular, cas- 
tiganilõ uma dessas mulheres descaradas que voluntariamente contrariavam as 
leis; e para isso prendiam-se na rua algumas dessas desgraçadas, a (juem a 
voz publica accusava como meretrizes e que estavam adornadas com enfeites 
probibidos. Estes castigos nunca alcançavam as mais culpadas, ([Ue, sendo as 
menos p<dires, traziam sempre no bolso com que cegar a \igilancia dos agen- 
tes ilii preboslado, ainda que fiisseni encontradas com toda a .sua innnpii, como 
então era uso dizer-se. Havia muitas até que mensal, Oii semanalmente, paga- 
Tam a esses agentes uma certa quantia paia nunca ser inquietadas no pacilico 
goso do luxo prohibido. 

As que eram levadas para a prisão, geralmente só tinham no corpo al- 
guns farrapos, despojos insufíicienles para pagar os emolumentos á policia. As- 
sim Sauval e Delamare copiaram das contas do dominio de faris verbas curio- 
sas, que demonstram a pobreza das victimas vulgares do Cbatelel. O extracto 
do Ordinário de Paris, no capitulo Forfaiturfs, Lspace^i ti Áubaines, do anno 
de 1438 merece ser conhecido, como Sauval o reproduz nas Provas das suas 
Antiguidades de Paris: 

«Pela venda de uma capa, com que Joaiininlia, NÍu\a de Pedro Miguel, 
mulher de amores, eslava coberta e apertada com um cinto de seda preta, com 
fivela e oito botões de prata, com o pezo total de duas onças e meia, em cujo 
estado foi encontrada passeando pela cidade, desobedecendo ás ordenações, c 
pelo que foi presa, sendo a dita peça de vestuário e enfeites confiscados |»ara o 
rei e vendidos em hasta publica a 10 de julho de i427, a saber: as pecas de 
vestuário pelo preço de sete libras, doze soldos, cuja quarta parte pertence aos 
agentes que a prenderam. >• 

«Pelo valor de um cinto velho de seda preta em que havia uma chapa, 
oito botões de prata e uma fivela de ferro branco, encontrado a Joaiiiiinha 
Neufville, presa |)or isto.» 

Não se detinhanr, não se prendiam senão as mulheres que se encontra- 
vam na via publica com vestidos que não deviam trazer; d'onde resulta que 
eram livres de se vestirem a seu gosto no interior de suas casas e ainda no 

* 



lo? . iiisior.u 

recinto dos logares próprios para o evercifio da sua escandalosa profissão. As 
inuiliercs d'amores, (jue não eram obrigadas a ncnluinia declaração prévia nos re- 
gistros do (Ihatelet e que se suhtrahiam d'csta forma á ignominia da sua con- 
dit'ão, podiam pelo seu nascimento e pelo seu estado civil, conservar uma appa- 
rencia dMionrailcz, occultamio a sua verdadeira profissão, até que [>or um acaso 
fatal se descobrisse o segredo da sua existência vergonliosa. .\ssim, Joan- 
ninba, viuva de Pedro Miguel, não tinba alcuniia onde se rellectisse o escân- 
dalo da sua eonducta; Joanninha iN'eufville tinba um bom appellido entre agente 
honrada: emcjuanto que .loanninba, a Fleurie, ou Poissonière, tinba dois em to- 
gar d'um, e o uiíinio parece indicar que se dedicava alternaiivam(>nte á pros- 
tituição e á venda de peixe. 

Além d'isso, já dissemos n'um capitulo anterior que o actual bairro atra- 
vessado pelas ruas Poissonière e Moniorguiel era inteiramente occupado pelos 
habitantes das Cortes dos Milagres e pela clientela da prostituição. Aecrescen- 
taremos agora que os vendedores de peixe, tendo necessidad'' de estar próximo 
do logar oiid(> o peixe desembarcava, alojaram-se ao principio no sitio cha- 
mado Vollarroiíeu.r. que mais tarde veio a ser a rua dos pescadores. Facilmenti' 
se adivinham os motivos que contribuíram para dar a alcunha de Pescadora » 
uma mulher fácil, que frequentava os mercados de peixe, ou que andava rodeada 
de pescadores. O nome de Joanninha não era commum e genérico para designar 
todaS as miilhercs publicas, como o cn'' Rabnlaux. Não devemos esquecer no- 
tar ainda que os objectos contrários á ordenação encontrados em poder das mu- 
lheres de má vida, eram equiparados aos objectos perdidos na via publica, os 
quaes, não sendo reclamados em tempo opporluno, pertenciam ao fisco. Depois 
d'um praso de 50 dias, uns c outros eram vendidos em hasla publica, e o pro- 
ducto da venda, (jue era iníinio, distribnia-se pelo rei, pela cidade c pelos em- 
pregados da policia. 

Sauval não ana!\ sou todas as vendas d'esta espécie deseriptas nas con- 
tas do Ordinário de Paris, mas tomou nota d'elias e d'ahi .se conciue que eram 
mui raras, pois menciona muitos annos em que não encontrou nenhuma, pelo 
menos nos registros do prebostado. A conta de I i'i-7 contem este artigo : 

'(\'enda tie um cinturão com fivela e quatro bolões de prata eneonti'ado 
em poder de Gmjomie la Uroijitre, mulher de ribaldia, pertencente ao rei por 
confiscação. . .» 

.Vos cintos de prata ou com cila adornados faziam os agentes de policia 
especial guerra, provavelmente para assim justificar o provérbio. .4s multas, a 
que o uso illegal dos ciiitos dava logar, estão registradas nas coiitas dos an- 
nos ISoi, 1457, 1 'itiO, 1 Í-6J e 1464. Desde esta ultima epocha as persegui- 
ções são menos frequentes, o que leva a crer eslarem os cintos já fora de moda. 
O extracto do capitulo das Forlailnres íie 1 íõ7, csiá concebido n'estcs termos: 

v<Muitos cintos para uso de mulheres, com fivela e botões de prata per- 
tencentes ao rei por ferem sido confiscados a nuillicres de má vida. que os 
usavam nas ruas de Paris confra as ordenações rí'guIadoras do assumpto. »> 

Na conta de I i.'j9 i-nconíra-se » inventario da roupa de duas mulheres 
de vida fácil, de apjiellidos nobres, poslo que vesti.ssem com grande ditierença. 
A primeira pelo vestuário miserável, revelava o triste estado a que o vicio a 
havia reduzido, sem que os encantos lhe tivessem dado meios para levantar-se 
da sua abjí-eção : sem dusida para ser presa com tal vestuário devia ser velha 
f feia : 

••i'm vesti<lo eurto de~|'anno cinzenio coiii enfeites de seda branca, e tudo 
isto no fio, umas velhas calças de panno violeta remendadas, e um gibão de 
fusfão como o f|iie Margarida, mullxT de Pedro Piains, eslava vestida, foram 
declarados pert(Micentes ao rei, etc.» 

K' singular encontrar-se uma mulher puldica com gibão e calças comn 



IH IMUISI I ll« V(J 



I3:{ 



SC, |)(ir iH'cossi(l;ule, tivesse (luerido (iisl'art.'íir-se em hoiiieiii. A se^undii ré, que 
sem duvida Ibi presa por aecusayàn do povo ao sahir da e^-^eja, di-n mais lu- 
ero aos agentes t|ue a levaram ao ('lialeie(: 

«Um cinto com fivela e botòcs de prata dourada de peso de duas ouças c 
meia, com um cinturão mais largo pòr baixo, também guarnecido de prata dou- 
rada; um rosário de coral, um li/nit.v Dei de praia com fechos de jtrata ilou- 
rada e uma capa de vcllii lo forrada de vair, declarados perleneentes ao rei 
nosso senhor, em virtude de eontiscaçãõ feita a l.durenea de Vilieis. mulher de 
má vida, presa por uso d 'estas prendas, etc.» 

Era esta uma mulher ?iol)re, qualilícada de prostituta, obrigada a aban 
donar ao rei os objectos de luxo que nem mesmo por devoção tinha direito 
de trazer. Esta Lourença de Villers sabia \òr, pois que ia á egreja com o 
seu Ágnus Dei. ou livro de missa, o que decerto era uma excepção entre as 
mulheres de má vida. 

Na conta 1460 as multas por usar vestidos e cintos proliihidos pare- 
cem dever ter sido numerosas, mas não d'uma grande utilidade para os que 
as lançavam : a «.Joanninlta a Bnllariíe, prostituta, foi apprchendido um vestido 
de panno cinzento com forros Itrancos, pois loilo o género de forros eram tam- 
bém prohibidos ; a líjacz a Peqiifwi, mulher casada, mas de' vida dissoluta, 
e como tal pi'esa muitas vezes por igual razão, foi apprehemlido um cinto em 
mau usT. E assim com raras excepções a todas as demais. 

l.síe ultimo artigo, como já atiirmamos, prova que muitas vezes mulheres, 
casadas exerciam a profissão dé prostitutas. Sendo o uso dos cintos n'aquella 
época objecto de espcciaes perseguições, cremos que uma ordenação particular 
teria motivado as que em maior grau solTieram as ribaldas, contrariando-as. 

Estas mulheres eram incorregiveis, quando se tratava dos seus adornos ; 
Iodas tinham mais ou menos paixão pelas jóias e não temiam e\põr-se á pri- 
são e ás multas para ter o goso de se enfeitarem com adornos douro, ou de prata, 
ou mesmo até de estanho prateado. ISão era isto porque quizessem disfarçar a 
sua profissão deshonrosa e pretendessem confundirera-se com as mulheres ho- 
nestas. Elias nã» se revollavam contra o espirito das ordenações com que se 
pretendia remediar a confusão das classes sociaes entre homens e mulheres de 
lodos os estados, os quaes, diz uma ordenação de Henrique ii, p07' esle meio, 
não podem dislinguir-se uns dos outros. As ribaldas de profissão, pelo contra- 
rio, não pretendiam apparentar o que não eram, mas gostavam de adornar-se 
para chamar a attençào e para rivalisar entre si cm luxo. 

t]omo os coitares, braceletes c anneis eram prohibidos, illudiani esta pro- 
liibição, u.sando jóias devotas: rosários, nominas, cruzes e anneis bentos; cm- 
Ijora os agentes policiaes não tV)ssem todos bastante devotos para fechar os olhos 
a estas piedosas contravenções e não deixassem de esperar as culpadas ás por- 
tas das egrejas para as levar ao Chntelel ng meio da gritaria do populacho. 

Parece que Luiz xi, fazendo elle próprio um grande abuso de nominas íí 
amuletos, de rosários c 'Agnus Dei, providenciou severamente contra as mu- 
ilicres de má vida que usassem objectos similhantes que não só lhes eram confis- 
cadas em proveito do rei as jóias, que nem o seu caracter de devoção podia 
pòr fora do alcance da lei, mas eram também condemnadas em multa as mulhe- 
res que as usavam. Em 1403 Joanninha Ruisson foi condcmnada a quinze 
soldos, quatro dinheiros parisii (uns vinte e cinco francos) pelo uso illcgal de 
dois rosários de coral. Luiz xi mandou também castigar rigorosamente todas 
as ribaldas que fossem encontradas vestidas de homem nas ruas de Paris. 

No capitulo de crimes e delirtos do Ordinário de Paris em 1491, lè-se o 
seguinte : 

«Pela vcn<la d'um fato preto de homem e d"um chapéu, tudo velho, com 
que Joanna a ribalda eslava vestida e que n'esse estailo foi levada presa para 



\'\í ' HISTORIA 

O (.'-liatflct lit' Paris, a il <li' maio ultimo, declaiados clu rei por lontisfação.» 
Não ousamos cmillir opinião acerca do disfarce masculino, que parece ter 
lid(» muitas vezes um fim deslionesto nos actos da prostituição. Junto das ribal- 
das havia sempre alcoviteiros ou auxiliares da libertinagem, que, apesar das ter- 
ríveis penas das leis, mui tranquillamente se entregavam ao seu infame eorn- 
mercio : só mui raras vcices eram perseguidos e mais raramente ainda julgados 
e Cí.ndemnados. Ordinariamente quando as queixas dos visinlios ou das victi- 
mas obrigavam a justiça a fazer demonstração de publica severidade, eram 
pres(is CS accusados, mas tudo terminava por uma composição em dinheiro, 
por un)a confiscação dos immoveis e pelo desterro. Muitas vezes o culpado era 
absolvido em virtude do que pagava, mas do que mui rapidamente se indem- 
nisava com o protiucio do seu negocio. 

Aqueiles ou aqueilas que tinham bordeis, alugavam tenda.'' para u peea- 
(Jú, administravam um eslabelecimenlo de niuilieres publií^as, emprestavam di- 
nheiro cism usura, moveis ou roupa, aqueiles que, n'uma palavra, viviam á 
custa da prostituição legal, eram tolerados, senão protegidos, e na sua infame 
intervenção se reconhecia uma influencia salutar na libertinagem. 

As mulheres que se <>mpregavam n'esta infâmia era preciso serem vigia- 
das por uma auetoridade que lhe regulasse o seu procedimento e que constan- 
temente as vigiasse: era-llie portanto facultado o terem um ribaldo ou uma ri- 
balda como regente. Estes chefes de ribalderia disfarçavam-se geralmente com 
um nome honesto e decente: umas vezes tomavam o de porteira, de ciiinarci- 
ra, de estalajadeira, ou de negociante; mas sempre, homem ou mulher era 
pessoa de idade madura, de velhice apparentemente respeitável, de altitude 
austera, de palavra sisuda e grave, de ares solemnes, o que não impedia que 
o digno personagem constantemente estivesse evposlo ás desgraças da prisão, 
dos açoutes, do desterro, ele, segundo a leltra da lei romana. 

A lei franceza prescrevia a pena de morte para os intermediários convi- 
ilos d'esla industria ; mas esta penalidade, posto que permanecesse como es- 
pantalho no Código penal, quasi nunca era applicada. Emquanfo ao re.sto, a opi- 
tiião dos jurisconsultos não tem variado com relação a um crime, que sob o 
ponto de vista moral e o da applieação da lei não encontrava a mesma tolerân- 
cia. 

Alcoviteiros e alcoviteiras, diz o celebre José Damhoudere na sua Pratica 
farense de causas criminaes, que servia de formulário a todos os jurisconsul- 
tos, do século .\.vi, alcoviteiros e alcoviteiras que levavam as mulheres a pec- 
car eram por direito, castigadas corporalmente, e por costume, para o desterro 
ou outra pena arbitraria, segundo os paizes ou cidades.».' 

Os antigos criminalistas faliam muito sobre este ponto r ronc<K'dam em 
(]ur a pena foi deixada na lei como útil precaução, para atalhar os excessos da 
libertinagem, oppi>ndi» ás mais atrevidas auxiliares uma barreira legal. 

O douto João Durei, no seu Traiíé .de pelnes et nmendes. (ediç. de Lvon, 
1583, i1. IO.'),) é tão explicito a este respeito címio J-. de Dainhoiidcre: 

"*)s (jue alugavam ou emprestavam casas para exercer o lenocinio, diz, 
perdem o seu direito de propriedade e são condemnados a mais dez libras cm 
ouro de multa. De fado (ts nossos práticos, segundo as penas ordenadas por 
direito, castigavam-as corporalmente ou com a morte. >> 

í'odem citar-.se mais d'um exemplo de pena capital, dada a culpados de 
ambos os sexos, segundo as circumstancias especiaes do seu crime. Assim, 
Duret, cita este paragrapbo, em (jue ikis dá a conhecer os casos em que se re- 
queria a pena de morte contra os in.stigadon's da libertinagem. 

«(,>ue se o pae, a mãe, o irmão, a irmã, o tio, a tia, o tutor ou curador 
é quem entrega assim a (ilha, parente ou menor, ou que a alcovilice seja para 
induzir ao adultério, só a morl(> é pena siinicienle.» 



fíA PROSTITUIÇÃO 135 

Outro jurisconsulto da tnesnia época, Cláudio Lebruii de la Rochette, 
no seu tratado pratico, intitulado Les Procès ciril et crimineis, icdiç;. de It)l7,) 
emprega um capitulo inteiro para estabelecer os dilTerentes graus d'alcovitice, 
concluindo que a impudicicia, filha da ociosidade e da mesma alcovitice pro- 
duz a íornicavào, o adultério, o rapto, o incesto e a sodomia. 

«Seja, diz elle, que os execráveis verdugos das consciências tenham a^^ 
mulheres, de que são correctores, nas suas casas, seja que com boos palavras, 
promessas e artiticios as attrahiam, ou que levem junto delias os homens liber- 
tinos, em nada diOerem dos ijue próprio corpore cpiaefsinm fnciunt, como disse 
I/lpano na lei Pulam. (Pár. f.enorinium, ff'. />.' rim ni/pr. I. Arhletns. Par. i, 
//'. /?'' his qui nor. úi/a»)!.)» 

Cláudio Lebrun de la Rochette, faz notar em seguida a indulgência 
dos tribunaes francezes sobre o facto do lenocínio : 

«E ainda eram castigados antigamente, diz, com o ultimo supplieio, pro- 
vando-se que o alcoviteiro costumasse sub^^rnar as jovens que arrasl-tva a per- 
dição, que as seduzisse com presentes ou palavras persuasivas, c (jue por esta 
forma as obrigasse contra sua vontade á prostituição a que as queria expor, 
para tirar lucro de similliante torpeza. . . Porém os tribunaes soberanos dos 
parlameíitos d'eslc reino e os inferiores castigavani-os mais levemente, iiini- 
tando-se a substituir o desterro peia fustigacão. ilcnfro ila cidiíde, ondf exer- 
ciam o seu olliciu ou onde fosseni presos.» 

Cremos que a tolerância com os terceiros, não se comprehendia com 
aquelles que trabalhavam em corromper a juventude e a innocencia, mas só 
com os que geriam lupanares ou seus donos. Fazia-se disfinceão entre estes e 
os vis e detestáveis tentadores que corronipiani a innocencia, eonspií-amlo sem 
cos.sar contra a honra do sexo feminino. 

«Que se evitavam aqui o castigo humano, dizia d'estes corruptores o 
honrado Lebrun de la Rochette, não evitariam o divino, que sempre dá ao mau 
com usura o castigo da sua maldade.» 

Emquanto aos proprietários c gerentes dos bordeis, por toda a parte lhes 
era dada uma protecção tacita e a elles se recorria, como intermediários officiosos, 
para a execução dos regulamentos da policia. Auclorisavam-se de preferencia as 
velhas para dirigiros estabelecimentos de prostituição, e chamavam-se maqnerel- 
les publiqws. Oucange cita um documento, datado em I.3'j0, que confirma esta 
qualificação: ín domo rupmiinm iiviqufrellw publirO' in \'ill.a ]'aleniianis. E' 
quasi certo que a matiucrelln publica existia e praticava o seu oificio sob a to- 
lerância da lei munifipal. 

Todavia, as ordenações dos reis, os decretos do parlamento e ós edictos 
do preboste de Paris tinham reprovado, prohibido e eondemnado muitas vezes 
o mnquerellaiie em geral, sem fazer reserva alguma, nem adiiiiltir nenhuma 
i-irwunistancia attenuante. Numa ordenação de ÍMH7, anai\sada por ÍRdamare. 
o preboste de Paris prohibe «a todas as pessoas dum e outro .sexo o adminis- 
trarem mulheres para fazer peccado do seu corpo, sob pena de serem expostas 
no pelourinho e queimadas (quer dizer marcadas com ferro camlentei e expul- 
sas logo da cidade. 

Esta ordenação, como se vé, comprehendia indistiiictamente as pes- 
soas que administravam uma ribaldia de mulheres publicas. Todas as ordena- 
ções relativas ao aluguer das casas tocavam indirectamente a questão de nia- 
qu^rellage, e os indignos auctores d'esta vileza, não podiam pratical-a sob a 
qualidade de proprietários ouinquilinos principaes. O ediclo prebostal de 8 de 
janeiro de Itlo, reproduzido textualmente cm Iil9. occupando-sc de prohibir 
ás mulheres libertinas de se inslallarem nas ruas honestas, prohibe também a 
qual(|uer pessoa procurar mulheres p.lra fa:i'r pecrmio <h vc» rorpo, sob pfn.i 



1 36 HISTORIA 

de serem postas uo peiourinlio, marcadas com ferro em biai;a e expulsas da ci- 
dade. 

Tal é o castigo mais frequente que se lhes infligia, quando estes instru- 
mentos de Safanaz, como lhes chamava Lehrun de la Rochetle, tiniiain ajudado 
a algum escândalo publico. A's vezes condemnavam-se á fustigacáo ou a cor- 
tarem-se-lhes as orelhas; pai-ece também que algumas maqmrellas foram en- 
terradas vivas. 

Estas penas traziam comsigo muitas vezes a confiscavão, a suppressão c 
demolição da casa que tinha sido Iheafro do crime. Pelo menos é isto o que 
nos permitte suppòr uma passagem das Contas do Ordinário de Paris durant<= 
o anno de 1428 : 

«De Mcolau Landemer e de Isabel, sua mulher, pela venda de um terreno 
cm que houve casas, quatro bordeis e ediOcios hoje destruídos, sitos cm Parií-j 
na Cite, em Glatignij, pegando com outra por uma parte... e por outra foi- 
mando a esquina de uvn bei-o pelo (]ual se desce para o Sena.» 

Sabemos que, segundo um cosfiime que dafa da mais remota antiguidade, 
se deslruia uma casa que tinha sido maculada com um crime e se deixava o ter- 
reno vasio por um tempo determinado na sentença, como para purificar o logar 
inaldifo." Cremos, além d'isso. que uma casa cm que ti\essc ha\ido por muiln 
tempo bordel, não era occupada por gente honrada sem previamente ser reedi- 
ficada. 

iN'o capitulo seguinte, consagrado a factos dispersos da prostituição em dif- 
ferentes cidades, vér-se-ha que o castigo infligido aos alcoviteiros sotlria algumas 
variantes .segundo os paizes. Entre as execuções que tiveram logar em Paris 
não encontramos uma única em que o pacienie fosse um maqvtreau ( rufião i 
mas em troca as maguerellas abundavam. Sau\al diz-nos (t. ii, pag. o90} que 
uma ixnquerella que jurara escandaloòtunente, em 130!, foi exposta no pelou- 
rinho ou patíbulo de Santa denoveva. Em Paris havia vinte (m vinte e cinco 
justiças particulares com patíbulo, onde os rnoqutrellcs f as inaquerdlas-, \n<diíw.\ 
ser açoutados. 

U mesmo bispo de Paris tinha um pafibul(j ile justiça no a.frio de Nossa 
Senhora, e as sentenças do funccionario, que fazia as vezes de bailio do bis- 
pado, recahiam com frequência em mulheres dissolutas; o que prova que a 
prostituição não esla\a de todo foi'a do alçada da justiça episcopal. Em 1399. 
esfe funccionario para castigar uma mulher convicta de lenocínio, condcmnou-a 
a ser posta no pelouriniio com (j cabello queimado, desterrada da ferra do bispo 
e confiscação de bens. (\. o Glossaire de Ducange e tiarpentiei' na palavra Cn- 

Outra execução do mesmo género fe\e logar anteriormente. 

( uia, chamada Izabel, que tinha vendido uma joven a um cónego da 
'•alliedral, foi exposta sol)re o patíbulo c n"ellc atortnentada e chamuscada com 
uma tocha, depois do que, foi desferrada perpetuamente. Mas, em 1357, izabel 
obteve carta de remissão do i'ei, provavelmente por mediação do cónego, que 
parece não ter sido perseguido pelo liraço secular. A tocha (|ue figura no stip- 
j)lício d'esta mulher, servia para chamuscar, queimando tudo quanto tivesse 
pelo eor|)o. Estas execuções affrahiam mais gente que todas as outras. 

iNa conta do Ordinário de 1416, {Provas das Antir)., de Paris, tit. ii!,j 
!é-se que os empregados do Chatelet compraram uma dúzia de varas de álamo 
verde, para conter o povo que assistia á justiça das waqufnrUaò-. que foram 
conduzidas pelas ruas de Paris, avergasfadas, chamuscadas e expostas no pe- 
louriídio. ,\as mesmas contas se encontram muitas outras d"esfas mulheres, 
levadas ao pcioininho com o mcsnio cerimonial c cmii o mesma distribuiv^to de 
paniNula aus espectadores. 

O jtehjniiiiho i'm (pie MrilÍM.iri;nM''nle cr.iin p\])'l^l:l>< as prostituliís. i'iit o 



DA PROSTITUIÇÃO 



137 



Has Hall.es, que foi constriiido na mesma praça onde existia o poço Lori. Antes, 
nii no próprio momento das execuções, punha-se em cima d'esle poço um ta- 
blado em que se collocava uma espécie de jaula giratória, por cujas aberturas 
as pacienics mostravam a cabeça e as mãos, ficando assim exposlas á vista do 
publico durante um dia de mercado. O carrasco, que presidia ao supplicio, de- 
via successivamcnte virar para os quati'o pontos cardeaes os criminosos, de- 
pois de ler cumprido as prescripções da sentença, coriando-lhes as orelhas, íla- 
geilaiidu-os, etc. Em geral, as prostitutas, que sofTriam esta pena infamante, 
eram escarnecidas pela multidão, (jue lhes atirava insultos e lama. 

Nem todos os pelourinhos eram moveis, como o das Halles de Paris: or- 
dinariamente só tinham uma escada sobre um tablado: o paciente, atado e col- 
locado na parte superior, em posição muito incommoda, noticiava á multidão 
por meio de um letreiro que lhe estava fixo no peito, nos hombros ou na ca- 
beça, o crime commeltido. Dubreuil diz ler visto no átrio de Nossa Senhora, 
pertencente á justiça do iispo, um sacerdote que tinha nos hombros o letreiro: 
Propter fornicationis. 

O chibatar-se e eN.por-sc as proxenetas foi sempre coisa para alegrar o 
povo de Paris, que se agglomcrava no caminho da victima e a acompanhava 
até ao logar do supplicio. Todas as mulheres publicas e todos os libertinos se 
deliciavam em presenciar o castigo d'aquellas infames mulheres, que en- 
riqueciam á sua custa. Esíe género de execuções, sempre acompanhadas da 
mesma atlluencia e da mesma alegria, poucas vezes se reproduzia, em vir- 
tude do escândalo a que dava causa. 

Comtudo podem citar-se alguns exemplares no século xvii. Lebrun de la 
Kochelte, no Procés Criminei, falia d'uma celebre alcoviteira de Paris, chamada 
Dumouiin, que por este modo foi castigada no reinado de Luiz xiii, e embora 
salvasse as orelhas, foi perpetuamente desterrada do reino. 

Nos registros do parlamento pôde descobrir-se um grande numero de 
decretos e execuções do mesmo género : algumas d'estas execuções foram to- 
davia espectáculo mais trágico. Nas contas do prebostado de Paris, em 1440, 
encontra-se um facto, citado por Sauval, e vor nós altribuido a um crime de 
alcovitice com a aggravante de roubo. Eil-o aqui : 

«Pela venda dos bens moveis das defuntas Joanninba fíonne-Vallet e 
Maricas Bonne-Cosle, enterradas vivas jtela justiça de Paris, pelos seus cri- 
mes, ele, cujos bens foram arrestados, mas depois entregues muitos d'elles a 
certas pessoas a quem pertenciam, por serem mal adquiridos pelas referidas 
mulheres.» 

Na feira dos porcos em Saint-Roch, tinham logar os supplicios das mu- 
lheres condem nadas a serem enterradas vivas, castigo muito usado antes de 
serem enforcadas, como se fazia aos homens. 

A primeira que foi enforcada em Paris era uma miserável, que exercia to- 
dos os ofTicios inherentes á prostituição. 

Em 1440, segundo os historiadores de Carlos vii, foram enforcados três 
infames, réus convictos de todo o género de crimes: um d'elles foi executado 
na poria Saint-Jacques: o outro com sua mulher na f orla. Saint-Denis: «Posto 

HI8T0BIA DA PROSTITDIÇÃO. TOMO H — FoLHA fS. 



138 HISTORIA 

que fossem marido e mnllier, diz Sauval, viviam juntos como se nào fossem 
casados;* o que prova prostituir o marido a mulher, e ser esta igualmente 
eiimplice das torpezas e infâmias do marido. 

Sauval circumstancía miudamente esta historia patibular: 

«Como em França, diz eile, ainda se não linha visto enforear uma mulIuT. 
Paris inteiro correu ao logar do supplieio. A ré ia desgrenhada, vestida com 
larga túnica atada na cintura. Cus diziam que ella havia pedido para ir assim, 
por ser este o uso da sua terra natal; outros aliirmavam ser ordem dos juizes, 
para que as mulheres por mais tempo se lembrassem da execução.» 

Este supplieio todavia não foi excepcional, pois Sauval cita mais dois 
casos tirados das Contas do preboslado em 1457. 

«A chamada Herminia Volcuciann. condemnada a ser cnleriada \iva sob 
o patíbulo de Paris, (isto é, em Montfaucon) pelos seus crimes, etc.» 

«A chamada Luiza, mulher de Hugo Ghausier, enterrada no mesum lo- 
gar, para o que se fez uma cova de sete pés de comprido.» 

A pena de morte applicava-se de muitas maneiras, segundo a vontade 
do juiz, que umas vezes ordenava a expiação do crime por meio do fogo, e ou- 
tras por meio da agua. Entre as mulheres enterradas vivas em Paris, ou lan- 
çadas á agua e afogadas na Pont-au-Change, pódc-se aflirmar sem receio de 
errar que muitas haviam praticado actos horríveis, (jue a jurisprudência da 
Edade Média contava como peccados contra a natureza. 

«Emquanto ás mulheres que se corrompiam umas ás outras, chamadas 
pelos antigos (ribades, diz o austero auctor do Procès CrÍDiixel, não peide du- 
vidar-sc que entre si commellem uma espécie de sodomia... E é digno da 
pena de morte este crime, como bem o observa nas suas Resoluções M. Boyer.» 

Não recorremos ao b^slemunho de Niddau Bover, auctor das Resoluções^ 
hurdigalenses, para mostrar que os parlamentos dos tribunaes inferiores eram 
sempre intransigentes com respeito ás mulheres de má vida, que anli- e)l»^s 
compareciam sob o peso d'uma accusação criminosa. 

Daremos a razão dVsta severidade, citando a passagem do livro de Le- 
brun de la Rochette, que consigna n'estes lermos a opinião unanime dos ho- 
mens da lei, acerca dos infames auxiliares da prostituição: 

«Emquanto aos alcoviteiros e alcoviteiras (maquereaux el maquereUet; ' 
são absolutamente insupportaveis como inimigos da honestidade, traidores do 
pudor conjugal e virginal, as.sassinos da santa sociedade humana, dilTamadores 
da legitima successão dos herdeiros, tições do inferno e verdadeiros instru- 
mentos do espirito immundo, que nunca foram tolerados em nenhuma repu- 
blica bem constituída, por não mostrarem senão paganismo e alheismo, como 
se pôde vèr nas Consliluições de Justiniano, novell. 14."» 

Todavia, um dos primeiros códigos escríptos em franccz, o l ihrt- de jos- 
tice el de piei, que contem os usos de França misturados com uma traducçã" 
litteral do Digesto, só impõe a pena de desterro e confiscaçãi» de Iumis aos au- 
xiliares da prostituição : 

«.4quellc que faz maus ajuiilainenlos de boribdaria deve perder a cida'le, 
e seus bens são para o rei. (Livro xviii, eap. 24).» 



DA PROSTITUIÇÍO . 4 39 

Este artigo coinpietava-se com o seguinte, que prescreve a fustigaçào 
antes do desterro : 

«O alcoviteiro de mulheres deve ser fustigado e expulso da cidade, e os 
seus bens silo do rei.» 

Temos seguido passo a passo os vestigios da legislação contra a prosti- 
tuição e seus immundos auxiliares, nos códigos e usos da Edade-Média. A lei, 
como temos visto, era quasi sempre implacável contra os réos d'esta deplorá- 
vel aberração, embora não houvesse nas suas disposições titulos especiaes para 
estes crimes. 

Outros capítulos da nossa obra serão ainda empregados no mesmo as- 
sumpto. Poderíamos adduzir milhares de citações, comprovativas do qi\e vamos 
asseverando, á custa de longo e paciente trabalho de investigação. Resolvemos, 
porém, ser de ora avante o mais sóbrios possivel na transcripção de textos an- 
tigos, para não fatigarmos a paciência dos leitores. 



CAPITULO XIV 



SUMMARIO 



Estadu da pjustltuifâio legai uai províncias da antiga França.— Cosfumi s de Beauvoísís.— A piOítitulijSu uo 
ducado de Oiieans.— O Livre de jostice et de plct.— .^s pro'v\aÚ3s rio Norto.— Organização da libcrlinageai pdilica 
em Tolosa, Montpellier, Narb'jnna. otc— Costumes de Bayonna, de Marselha, Montfoil, Kodez, Nimes, ete.— As multie- 
res do costumes livres 'ie liagnolles e de S. Saturnino.— Bordéus. — Supplicio, deDOminado da accal/ussadc- Mars-.- 
Iha, Sisteron, .\viul)3u, Lyon. «to.— Costumes diversos.— Os lombardos e as prostitutas — Troyes, AnieDS. LaoD. 
Meaux. etc— Ruas sem aucloridade local, destinadas á prostitiii^-So. 




uRDENAç.\o de Luiz IX, relativa á prostituição, c sempre a única 
base da jurisprudência sobre esta matéria que os outros reis de 
França apenas ousavam tocar, depois do santo rei, tjue não rc- 
ceiou pòr-liie a mão, para a fecliar em prudentes limites; mas 
os juristas e os magislrados, sem deixarem de acceilar a ordena- 
ção de \2'ái, ou anies a de l2oG, alteraram ás vezes o texto e interpreiaraiii-no 
também de difterentes modos, segundo as necessidades: juntaram-llie ainda, 
como corollarios indispensáveis, certas disposições da lei romana que estava 
em vigor nos íribunaes, e que se confundiam, mais ou menos, com as fradicções 
consuetudinárias, ultimits vestígios dos usos e dos códigos bárbaros. 

Estes usos mudaram completamente o estado da prostituição legal em 
cada província e ainda em cada cidade. Era necessário con.'^ultar n liisloria 
particular d'estas cidades e províncias, e .sobre tudo fazer um exame delido da 
legislação local, para mostrar as extravagâncias annexas á tolerância da pros- 
tituição, e especialmente á penalidade que soíTria em certos casos. Nós apenas 
podemos esboçar ligeiramente um assumpto tão abundante e complexo, cujos 
niateriaes se achariam dispersos em muitos volumes, que não lemos paciência 
para consultar, e que não nos otíereceriam, talvez, mais do que numerosas repe- 
tições inúteis. Julgar-se-ba, noemtanto. por um rápido extracto dos nossos 
apontamentos, se seria possível fazer, cidade por cidade, e ainda villa por 
vilia, uma verdadeira pornographia da França antiga, apoiada em textos au- 
thenticos. 

Notemos de uma vez para sempre que a prostituição nunca lem titulo es- 
pecial nos corpos de leis, de ordenações ou de usos ; encontra-se misturada em 
varies outros títulos, onde figura entre trechos heterogéneos, que não teem re- 
lação com ella e que lhe são completamente estranhos. Ha usos geraes onde 
não se encontra, como se o pudor do jurisconsulto a tivesse eliminado de pro- 



1 lá HISTORIA 

posilo. Assim, iu»s celebres Coulumes de. Beaucoisis, (|iie foram a fonte prin- 
cipal do direito francez por espaço de quatro séculos, inutilmente se procura 
uma decisão, que se refira á libertinagem publica. O caracter pessoal do juris- 
consulto, a austeridade de seus costumes e a modéstia da sua linguagem, op- 
punbam-se sera duvida a que admittissc no formulário dos costumes do seu 
paiz o escandaloso capitulo da prostituição. 

O auctor anonyrao do Lirre dejostice ei de plet, redigido ao mesmo tempo 
nas escolas de direito de Orleans, não se mostra tão reservado nas cousas nem 
nas palavras. Começa por paraphrasear a ordenação de S. Luiz sobre a reforma 
dos costumes, e traduz no seu dialecto orleanez o artigo concernente á prosti- 
tuição : 

«As mulheres publicas dos campos e das cidades sejam expulsas, e en- 
Ifm (1 juiz llips confiscará os bens. Item, todo aquelle que alugar casa a mu- 
llier de má vida, ou liver bordel na sua casa, fica obrigado a pagar ao bailio 
ou ao preboste, ou ao juiz, tanto quanto valha o aluguer da i'asa n'um anno.» 
Vé-se, pois, que a escola de direito de Orleans mantinha em vigor com 
força de lei a primeira ordenação de S. Luiz, que tinha abolido a prostituição, 
e não a segunda, que dois annos depois a auctorisava sob uii. regimen de to- 
lerância. 

Km virtude d'este principio fundamental, registrado no Livre de jostice et 
de piei, vimos no capitulo precedente as penas com ((uc eram castigados o ma- 
qiierel de íiiulheres, e o (jue /«^ maus ajunlamenlos de bordelaria. Este não 
era mais que um industrial, que fazia bordeis em sua casa, tirando d'elles um 
lucro infame: o outro procurava corromper em .seu proveito as mulheres que 
arrastava ao vicio. Este ultimo alcoviteiro, mais culpável que o simples bor- 
delciro, pois como tal estava na cathegoria de ladrão, era considerado infame, 
sob a denominação de maurenomex. 

Entre os alcoviteiros da peor espécie, o Licre de josllre designa, todavia^ 
fundando-se na Lei romana que incessantemente cita, a ignominia dos taber- 
neiros e taberneiras, que geralmente não se limitavam a dar de beber aos seus 
freguezes, mas também lhes offereciam uni pedaço de carne, para nos servir- 
mos da expressão consagrada em taes logares. 

A ordenação de S. Luiz, que precede o Licre de jostice, contem unica- 
m<'nlc este artigo, (|ue a Irailuci-ãn do auctor an(jn_vmo não deixa muito clara: 

"Ninguém seja admillido a vi\cr numa taberna, se não fòr pessoa seria, 
ou se não morar no mesmo edilicio da taberna.)^ 

O final d'cste paragrapho pôde entendcr-se de diversas maneiras: pode 
julgar-.se que a taberna nunca podia transformar-se em hospedaria, e que uni- 
camente se compunha d'uma loja sem domicilio annexo c sem andares supe- 
riores destinados a dormidas. 

Uma passagem da velha traducção do Digesto confirma a má opinião, 
cm (jue eram tidos os laix-rneirus e pi-incipalmcnle as tabernas, tanto em França 
como entre os i\omanos : 

«Se uma mulher é taberneira e tem na sua lahcrna mulher leviana, que 
prostitue i)ara ganhar com ella, deve ser tida como alcoviteira.» 



DA PROSTITUIÇÃO H3 

O antigo direito francez ditlere radicalmente do direito romano em todos 
os pontos em que o cliristianismo o niodilieou; assim, posto que aquelle que 
possuía um bordel era qualificado como rnaurenontex, a mulher de má vida 
não participava d'esta nota infamante, e isto por uma rasão de caridade evangé- 
lica, que dava sempre á mulher tempo para arrepender-se e voltar á vida ho- 
nesta. Não era então raro vér, para resgatar uma alma, um hom ehristão pro- 
curar esposa n'um logar de prostituição. Fundando-se, pois, niima decretai de 
Clemente iii, o auctor do Licre de jostice et de piei, pôde dizer: 

«Estabelece-se que todos os que esposarem mulheres de bordel o façam 
em remissão de seus peccados, Note-se bem que é obra de caridade chamar 
ao caminho da virtude os que andam no da perdição.» 

(> mesmo livro propõe, no emlanln, um caso de consciência sobre o ma- 
trimonio d"cste género, e para resolvel-o, in\oca nma decretai de liinocencio 
m, intitulada Significasti : 

«Houve um homem que trouxe para a sua coinjianiúa nina prostituta, 
tendo abandonado sua mulher e sendo por isso excominuugado : quando a mu- 
lher d'esse homem morreu, tornou elle a tomar a prostituta para a sua compa- 
nhia. Pergunta-se: Podem viver juntos? Responde-se : se tentaram o assassínio 
da mulher, ou se o homem não deu pala\ra de casamento á prostituta sendo 
viva a mulher, o homem deve ser absolvido, se o requerer.» 

O Livre de jostice et de plet, no qual se trata do matrimonio com um tal 
impudor de expressões (|ue não ousamos reproduzir, não é todavia indulgente 
para com as mulheres que se prostituem, nem para com os homens que as favo- 
recem na |)rostituição. Não tinham estes o direito de testai', nem podiam obter 
juizes : 

«Testemunhada a má fama, o rei pôde fazer justiça nos ([uc tem bordeis.» 

As que exerciam o mesmo oHieio, ou tinham tai)ernas, eram egualmente 
incapazes para com a justiça: 

«Prohibe-se que a mulher seja taberneira ou proprietária di' bordeis, c 
se o fòr. ou os tiver, está fora do direito commum.» 

Estas duas passagens, que parecem contradizer as que já aiílcriormenie 
citámos, provam a existência permittida ou tolerada de certos bonleis adminis- 
trados por homens e mulheres, que como os judeus consentiam cm viver s/ib 
o constante rigor da lei, rigor (|ue muitas vezes altenuavam |ior meio de c(ni- 
tribuições secretas. 

Apesar d'esta tolerância necessária á vida publica das grandes cidades, 
a policia dos costumes era sempre regulada por leis austeras reprimidoras dos 
excessos e escândalos. Assim, a fornicação, ordinariamente impune, tinha um 
artigo penal no código consuetudinário : 

«Os que se entregam á fornicação devem moderadamente ser castigados 
com pena corporal.» 

Mas só em circumsfancias excepcionaes o castigo era applicado aos (|ue 
fornicavam. Todavia a mulher, que se separava do marido para eommetter 
egual delicto, perdia os seus direitos conjugaes. Mas o rapto, a violação, o 
adultério, a .sodomia eram rigorosamente castigados pelo direito commum. 



i 44 HISTORIA 

«A lei que o imperador Justiniano fez sobre o adullerio é de direito com- 
mum, e por esta mesma lei é castigado o delicto, quando easualmente alguém 
tom relações com uma virgem ou viuva.» 

Os sodomitas de ambos os sexos não eram toda\ ia condemnados á morte, 
senão dcpi ; ■ de terem sotlrido duas penas corporaes pelo mesmo acto: 

«O que fôr provadamcnte sodomita deve perder os testículos. E se é pela 
segunda vez condemnado, deve perder o membro viril. E se o é pela terceira 
vez, deve morrer. Uma mulher sodomita deve perder um membro de cada vez, 
e á terceira, deve morrer. E todos os seus bens pertencem ao rei.» 

Taes eram as penas relativas á policia dos costumes no ducado de Or- 
leans. 

V penalidade que o código de Justiniano tinha intrudiizidn na legislação 
franceza encontrava-se em todas as partes infinitamente modificada, conforme o 
caracter dos habitantes. As provincias do norte a este respeito eram mais in- 
dulgentes que as do meio-dia: n'aqucllas, a prostituição reinava sem receios, e 
o regimen dos costumes, abandonados a si próprios, mantinha-se nos limites 
bastante dilatados (l'uma fácil tolerância. Tolosa, Montpellier, Narhonna, e ou- 
tras cidades do Languedoc, tinham a libertinagem publica sob uma organisação 
mais regular do que aquella que por esse tempo existia em Paris. 

Todavia Carlos d'.Anjou, conde de Provença e rei das duas Sicilias, a 
exemplo de seu irnicão Luiz ix, esforçou-se por expulsar dos seus Estados a 
prostituição legal, sem conseguir, porém, alcançar melhores resultados do seu 
esforço, mais piedoso do que politico, e teve de renunciar á guerra contra as 
ribaldas, que pouco se importavam com as suas ordenações. Dirigiu então a sua 
attenção contra as mediadoras da prostituição, que com razão considerava o ele- 
mento mais perigoso do vicio, e até então subtrahido a todas as medidas de rigor. 

Ojnformc os usos de Provença, ordenou que todos que especulavam, cor- 
rompendo ou prostituindo mulheres, fossem expulsos do território ducal, sem 
forma alguma de processo; que se, passados dez dias depois da publicação da 
sua ordenação, fosse encontrado algum miserável exercendo esta impia indus- 
liia, a justiça |U'oce(lcsse, e o culpado, além da confiscação dos seus bens e do 
desterro, fosse castigado com penas corporaes. 

Carlos d'Anjou probibia também a todos os seus empregados dar asylo 
em suas casas a alguma nuilber de má vida, sob pena de privação do emprego 
e de uma multa de cem libras. 

O i,anguedoc, no emtanto, não cuida\a da reforma, a exemplo das pro- 
víncias limitrophes, onde a prostituição eslava re|)rimida por leis e costumes, 
que tendiam a deslruil-a completamente. 

O Coulunie de (íayonna, feito sem duvida sob a influencia das Constitui- 
ções hespanholas, impunha a pena de açoutes e desterro ás alcoviteiras; mas 
em caso de reincidência, eondemnava-as á morte. 

O Couíime de Marselha não era menos terrível com respeito ás alcovitei- 
ras, ainda (|ue as ribaldas communs fossem toleradas cm certas ruas d'esta ci- 
dade, onde ;i pi-escnça de tantos forasteiros e gente de mar tornava indispcn- 
sav<'is os íjordeis. Apezar d'isto, as rib.ildas que existiam no porto (l(> Marselha 



DA PROSTITUIÇÃO J4o 

deviam abster-se de trazer vestidos ou adornos de còr vermeiiia, sob pena de 
multa, e em caso de reincidência incorriam na de tustigação. No capitulo se- 
guinte, faremos a bistoria das ahhadias obscenas de Tolosa, de Montpeliier e 
de Avinbão. 

Procuremos agora os vestigios da prostituição n'algumas outras cidades 
do Languedoc. Em Narbonna, ainda que arcebispado, os cônsules da cidade pos- 
suíam o privilegio de ter na jurisdicção do visconde uma rua denominada 
quente, onde os fuiiccionarios d'este titular não tinham direito algum de jus- 
tiça, e as muliíeres communs, que habitavam n'esta rua sob os auspícios da au- 
ctoridade consular, tinham a liberdade de exercer o seu impuro commercio em 
todo o viscondado, sem serem admoestadas por isso. 

Em Pamiers, residência de um bispo, as mulheres publicas não habita- 
vam no interior da cidade: segundo os usos do condado de Montforl, confirma- 
dos em 1212, estas peccadoras não podiam abrir os seus bordeis, senão extra- 
muros e a certa distancia das portas. 

Em Rodez, que também tinha o seu bispado, a prostituição existia todavia, 
como parece, dentro do recinto da cidade, porque o bispo, que se chamava Pe- 
dro de Pleine-Chassaigne, prohibiu em 1307 aos habitantes receber nas suas 
ctsas mulheres publicas, cujo vestuário ordena também que não defira do trajo 
das mulheres honradas. Prohibe, pois, ás rameiras trazer capa, mantos, véus 
e vestidos de cauda, determinando que estes não devem passar dos íorno- 
zellos. 

Em INímes, onde o bispo era também senhor temporal, a prostituição foi 
confiada a uma meò-rva de ribaldas, que arrendava este commercio impudico, 
recebendo plenos poderes dos cônsules, a quem ia cumprimentar em certas epo- 
chas, levando-lhes um presente de investidura, chamado osculo. 

Bcaucaire, que ao menos não tinha bispado, mas que attrahia ás suas 
feiras celebres uma grande quantidade de commerciantes, não podia passar sem 
um bordel privilegiado, que se abria ao mesmo tempo que a feira de Santa Ma- 
gdalena, e se fechava quando ella. Este bordel estava sob a auetoridade d'ou- 
tra mestra ou directora, que se chamava abadessa, e ([ue não obtinha este cargo 
lucrativo senão sob certas condições. Não lhe era permiltido, por exemplo, dar 
hospitalidade por mais d'uma noite aos passageiros que queriam alojar-se no 
seu estabelecimento. Em 1411, uma abadessa, chamada Margarida, hospedou 
na sua casa um tal .inequim, ficando tão satisfeita com elle. que ampliou a 
hospedagem por seis noites mais. .4.ccusada d'esta contravenção, foi condem- 
nada a pagar uma multa de 10 libras tornezas ao castellão de Beaucaire. Mr. Re- 
buteau consigna este facto curioso na sua memoria sobre a Prostituição na Eu- 
ropa, mas esquece-se de dizer-nos a fonte d'onde o tirou. 

As rendas que a prostituição dava ás cidades de Nimes e Beaucaire foram 
consideráveis, no tempo em que a feira d'esta ultima cidade er^a mais frequen- 
tada; mas no século xvi, quando as guerras de Francisco i e Carlos v impedi- 
ram a concorrência de commerciantes a esta celebre feira, as ahhadias do amor, 
tão alegres e prosperas n'outro tempo, estavam quasi descrias ; pois nas contas 
da recebedoria ordinária de lo39. António Baireau, contador da Thesouraria de 

Historia da. PRosTiimç.io. Tomo ii— Folha 19. 



) Í(j HISTMllIA 

.Ninifs (• Beaucaire, (n/. apenas constar uma soinma do quinze soklos de direitos, 
recebidos durante trez annos das abbadias da localidade. 

Além d'estas hospedarias-bordeis mal afamadas, arrendadas a Luiz Cln- 
ches, havia outra que não dava rendimento á cidade de Beaucaire, por estar 
quasi sempre desoccupada. 

Não havia uma povoação no i.anguedoc que não tivesse, se nàoabbadia. 
pelo menos algumas prostitutas. 

As de Baguoles não podiam Irazer. sem se exporem a castigos, chapéus 
com tlores, véus, pelles de arminho, capuzes abertos adornados cora botões,, etc. 
As de S. Saturnino não podiam receber nos dias de festa, nas ([uatro têm- 
poras e nas vigílias. Em 1414, Izabel, cognominada a Padeira, foi condemnada 
a uma multa de dez soldos, por ter recebido no dia de Pasclioa um chamado 
Jorge, que era todavia seu amante certo. 

Estes costumes do i.anguedoc. que a heresia dos albigenses tinha rela- 
xado bastante, espalharamse pelas províncias limiírophes. Todavia a cidade 
de Bordéus, que se distinguiu entre Iodas pela .severidade da sua policia de 
costumes, parece ler afogado algumas vezes as ribaldas e os incorrigíveis alco- 
viteiros, aiirando-os ao mar. 

Ducange, na palavra Accalins.sore, diz-nos que este supplicio estava em 
uso em Bordéus, onde a gente de baixa classe pronunciava sem duvida a sen- 
tença e dirigia a execução. O paciente era fechado numa gaiola de ferro, que 
se submergia no mar, e que .só se retirava quando a asphyxia era completa. 
Ducange diz expressamente que as victimas d'este supplicio eram afogadas. 

.\ccrescenta que a mesma penalidade era applicada aos blasphemos em 
.Marselha, quando não tinham 12 dinheiros para se livrarem do mergulho na 
agua salgada, da qual bebiam mais do que seria para desejar, por entre os gri- 
tos e canções da canalha, que se divertia com os seus esgares alllictivos. 

Um castigo análogo se impunha também em Tolosa aos blasphemos, aos 
rufiões e ás vezes, diz l.afaille, ás mulheres publicas, que transgrediam os 
regulamentos de policia, .lousse, no seu Traclado da Justiça criminal de França, 
publicado em 1771, descreve o mergulho tal como se praticava ainda no .seu 
tempo com grande divertimento dos amadores d'este género de supplicio. 

(londuzia-se á casa da cidade a infeliz que linha sido condemnada por 
qualquer delido da prostituição; o executor ligava-lhe as mãos. punha-lhe um 
barrete feito de pão d'assucar e enfeitado com plumas, e prendia-lbe no hom- 
bro um cartão com um rotulo, que dizia a classe do delicio. 
Este rotulo era ordinariamente a palavra Proxeneta. 
Uma multidão, tão curiosa como sarcástica, acompanhava a ?-é, diante da 
qual se lia a senlença, e eonduziani-n"a assim proccssionalmente até á ponte 
que atravessa o Garonna: uma barca recebia-a com o verdugo e seus ajudan- 
tes, e levavam-n'a para um rochedo situado no meio do rio, onde a faziam en- 
trar na gaiola de ferro, feita de propósito, que se submergia três vezes na agua. 
'(Conservam-n'a dentro delia algum tempo, diz .lousse, de forma que não 
possa sulfocar-se, o que produz um espectáculo que excila a curiosidade de Ioda 
a povoação. 




Castigo de uma adultera em Tolosa 



DA PROSTlTlirÃn 147 

Depois leNavaiii a polue iiuillu-r meio afogada ao hospital Ja casa tie cor- 
recção, oiidc havia de passar o resto de seus dias, a não ser que obtivesse per- 
dão e tornasse ao seu pi-inieiro oíílcio. 

Lembramo-iios de ter lido que se impunha igual castigo ás mulheres 
publicas, accusadas e convictas de terem communicado o virus venéreo a al- 
guns libertinos, que davam parte civil, e reclamavam a visila medica do seu 
contagio ; mas não podemos dizer qual (j logur e a épocha em que se lazia sol- 
frer esta submersão infamante a estas perigosas inimigas da saúde publica. 

Apezar das ordenações de Carlos de Anjou contra a prostituição, em ge- 
ral, a Provença nunca chegou a vèr-se livre da praga, que o temperamento 
ardente de seus habitantes devia naturalmente propagar, e que impedia as 
desordens das paixões sensuaes. Comprchende-se facilmente que a prostitui- 
ção legal não podia íer um curso regular c patente num paiz, onde a cavaila- 
ria e a poesia tinham idcalisado as relações Jus clois sexos, onde o culto da 
mulher se tinha subtrahido de certa forma a toda a mancha material, e onde 
as Córles (/c Amor, elivollas nas abstracções do sentimento, pareciam ter tomado 
a empreza de malar o homem pelo homem, de aniquillar o corpo em proveito da 
alma. 

Vimos, todavia, anteriormente que a prostituição existia ás claras em 
Marselha para uso dos marinheiros e forasteiros, que necessitam de encontrar 
n'um porto de mar meios de se distraireni do aborrecimento de uma longa 
\ iagem . 

Havia mulheres de prazer ua maior parle das grandes cidades; mas dis- 
simulavam a sua profissão vergonhosa sob nomes c apparencias honestas. 
.Não eram, por essa razão, menos perseguidas pela policia municipal e eccle- 
siastica, \end(i-sc multadas ou presas pelo mais frivolo prele\lo. l!,m Sisler- 
non, por exemplo, o preboste da cidade encarcerava por um odioso abuso de 
poder as mulheres estranhas, que iam fixar a sua residência na cidade episco- 
pal com seus amantes favoritos. O mesmo funccionario accusava de libertinagem 
estas mulheres sem protecção, obrigava-as a pagar uma contribuição para recu- 
perarem a sua liberdade e para viverem em paz. 

Os habitantes queixaram-se d'estas iniqiias exacções, e por decreto de 20 
de abril de 1380, Foulques d'Agonst, senescal dos condes de Provença e de For- 
calquier, prohibiu que alguém incommodasse as forasteiras que queriam resi- 
dir na cidade com seus amigos, com a condição de viver honradamente. 

Eduafdo de Laplane, que menciona estes lados, diz-nos qne os magistra- 
dos da cidade de Sislernon, para obstar sem duvida aos intoleráveis abusos que 
a permanência de laes mulheres causava na povoação, resolveram adquirir por 
conta do município um edifício destinado a receber as mulheres communs, e 
albergal-as somente de passagem. 

Esta decisão foi tomada em 139i, mas dez annos mais tarde ainda se 
não tinha feito a acquisição. Ate I i24 as mulheres de má vida encontraram em 
Sisternon um refugio, onde não eram vexadas com multas e prisões. 

.\sque, todavia, chegavam pela passagem de Peipin era-lhes lançado, como 
aos judeus, um impostn de o soldos, em beneficio das freiras de Santa Clara. 



148 HISTORIA 

Estas religiosas deviam sem duvida expiar com suas rezas os peccados que a 
prostituição errante atlraliia aos muros de Sisternon, om pelo menos ao seu 
território, porque a casa de refugio das ribaldas não estava na cidade. 

O estabeiccinicnto d"esta casa em Sisternon parece-nos confirmar tudo 
que a tradicção diz de um estabelecimento análogo na cidade de Avinhão. Mas 
trataremos depois esta questão de archeologia histórica, que merece ser exami- 
nada sem ideias preconcebidas. 

E' incontestável que os costumes italianos se acclimaram com os papas 
no condado de Aviníião, e pode sustentar-se que a cidade papal não mudou os 
hábitos das mcrcíri/.es r()manas, a quem o chapéu vermelho fios cardeaes não 
intimidava. 

f)e Avinhão a Laon, a prostituição teve apenas que passar o Rhodano, e 
esta grande cidade tinha muitos habitantes para que a policia não fosse tole- 
rante com os costumes. Guilherme Paradin, nas suas Memorias da historia de 
Lyon, menciona um regulamento municipal de 1475, que recorda as ordena- 
ções do preboste sobre o mesmo assumpto. Ordenava-se 4i'este documento ás 
mulheres publicas de Lyon, que deixassem as boas e honestas ruas, e se reti- 
rassem a duas casas de asylo, onde podiam exercer o seu miserável officio sob 
a vigilância dos cônsules. Cada uma d'estas casas tinha uma única porta, a 
íim de que as ribaldas (]ue commettiam algum delicto n'esles logares de liber- 
tinagem não podessem fugir no momento da captura. Determinava-se além d'isso 
que o trajo particular das mulheres dissolutas, a quem sob pena de contiscação 
se proliibia empregar nos seus enfeites cintos guarnecidos de praia, pelles caras 
e alé a pelle negra ou hranca df carneiro, excepto unicamente os chapéus de 
mulher honrada, eram obrigadas a trazer sob pena de prisão e sessenta S(ddos 
de multa «conlinuamenle cada uma no braço esquerdo sobre a manga do vt's- 
tido, Irez dedos abaixo tio hombro, uma divisa vermelha pendente nuMO pé ao 
lado do biaço.» Signaes distinclivos das mulheres publicas não se viam senão 
nas cidades cm que se tolerava ou reconhecia a prostituição. 

Apesar d'estas condescendências da lei em favor do vicio, o len-ie.inio não 
participava dos bcneíicios da tolerância, e aquelles que o exerciam ficavam sem-, 
prc fora do direito commum. Prendiam-se, açoitavam-se, c\pulsavam-se da 
cidade, confiscando-se-lhes os seus bens. 

«Ás vezes a proxeneta, diz Sluyart de Yougians, era montada num burro, 
às avessas, quer dizer com a cara para a cauda, levando um chapéu de palha 
e um rotulo.» 

Passeiavam-tra assim [n-hx cidade, entre os escarneos e ultrages do povo, 
e depois de ser açoitada pelo verdugo era expulsa do paiz ou encerrada n'uma 
casa de correcção. 

Era o que suecedia em Lyon e n'i»nlras cidades, onde o culpado, «mi- 
trado, açoutado publicamente, desterrado para sempre, sob pena de perder a 
vida,» segundo o auclor do Trnité des fieines el amendes, arrastava no seu cas- 
tigo o cúmplice que se lhe tinha associado ao delicto, alugando ou emprestando 
a sua casa. Além da conliscação da casa, o cúmplice pagava uma multa de dez 
libras em ouro. Durct, (jueixando-se da indulgência de tal legislação, dá-nos a 



DA 1'ROSTITUIÇÃO \ í-9 

entender qii(> a pena de morte era ainda appjicada em certos easos no seu 
tempo. 

As cidades, que não tinham ribaldas em estabelecimento, contentavam-se 
com as que o acaso liics trazia, as quaes corriam o paiz procurando fortuna, 
apesar de não poderem permanecer mais de vinte e quatro iioras nos jogares 
iiabifados, onde se demoravam com os seus rufiões. Geralmente hospedavam-se 
nos arrabaldes n"um bordel isolado, ou n'uin logar de refugio reservado para 
ellas, quando não ao ar livre, sob as arvores, ou no meio do trigo. 

Por um decreto, feito em lo 1.3, em consequência d'uma disputa entre o 
titular do logar e os habitantes do Roche de Glun e de Alençon, prohibiu-se a 
estes habitantes hospedar nas suas casas por mais d'uma noite as ribaldas pu- 
blicas e os seus rufiões, que atravessavam o paiz. 

Muitas citações poderíamos adduzir, em testemunho da existência das 
prostitutas errantes, que andavam de povoação em povoação mercadejando com 
o seu corpo, em companhia de ribaldos favoritos, a quem sustentavam com o 
producto do seu ignóbil trafico. 

Os ribaldos não eram inúteis ás vezes ás suas damas ou queridas; pro- 
fegiam-n'as contra as violências a que as desgraçadas estavam expostas cons- 
tantemente, pela impunidade de taes ultrages. As leis, todavia, eram previden- 
tes a este respeito, c a violência feita a uma mulher publica era equipara<la 
pelos jurisconsultos á violação d'uma mulher honesta. 

Assim, nos privilégios que o senhor 'de Chaudieu outorgou em 1389 aos 
visinhos de Eyrien, perto de Valence, privilégios confirmados no mesmo anno 
por Carlos vi, diz-se que todo aquelle que violar uma mulher dissoluta, ou qual- 
quer outra pertencente a um logar de prostituição, pagará 100 soldos de multa. 
Uma parte d'esta multa pertencia de direito á mulher que solTrèra o damno, 
que a lei considerava, não como ultrage, mas como um roubo feito com amea- 
ças e violências. 

Se o legislador se apresentava ás vezes como protector das mulheres pu- 
blicas, cuja deshonra não as entregava á mercê de quantos as queriam ultrajar, 
igualmente protegia aquelles que tinham de precaver-se contra as inystificações 
de mulheres tão astutas e de seus depravados auxiliares. L'ma das especulações 
mais lucrativas e fáceis era accusar de violência um homent que nada mais 
tinha feito do que comprar um género de commercio, que voluntaiiamenle se 
lhe ofTerccia. Os ricos banqueiros judeus, lombardos ou italianos, em cujas mãos 
se concentrava todo o commercio de dinheiro, viam-se sem cessar expostos a 
accusações d"este género. Uma mulher introduzia-se nas suas casas a titulo de 
criada ou de qualquer outra espécie de serviço, e depois fazia a sua queixa á 
justiça, pretendendo ter sido violentada. Exigido o juramento da lei a esta li- 
bertina, não vacillava ella em prestal-o sobre o Evangelho, e o innocente ban- 
queiro só podia vèr-se livre da justiça, pagando uma grande multa, de que a 
accusadora e seus cúmplices obtinham a maior parte. 

Esta maneira de explorar a fortuna e a posição delicada dos lombardos tor- 
nara-se Ião f.-equenie no século xiv, que elles já não queriam estabelecer banca em 
nenhuma cidade de França, sem que a sua honra e bolsa estivessem ao abrigo 



(las ciladas da prostituição. Em consequência d'isto, l'ez-se esta clausula quasi 
idêntica nos despachos dos reis Carlos v e Carlos vi, concedendo ás associações 
dos lombardos o privilegio de abrir banca e emprestar dinheiro nas cidades de 
Troyes, Paris, Aniiens, Ninies, Laon e .Meaux : 

«Item, se alguma mulher com fama de má vida estiver nas casas dos 
ditos commerciantes, e quizer dizer por astúcia e preversidade ter sido forçada 
pelos ditos commerciantes, ou por algum d'elles, não seja recebida a querella 
d'essãs más mulheres, nem os ditos commerciantes, on algum d'elles, soffrani 
por isso cm suas pessoas ou em seus bens.» 

Graças a este paragrapho dos seus privilégios, os lombardos já não ti- 
niiam que temer da malicia das mulheres, que entravam nas suas casas, sem 
outro tim que não fosse o de fazerem papel de victimas. Esta clausula de pre- 
caução dá-nos também a entender que os lombardos se achavam, como es- 
trangeiros, dispensados de guardar as ordenações civis c eccicsiasticas, que 
prohibiam ás pessoas honestas hospedar na sua casa uma mulher libertina por 
inaisd"uma noite. A permanência da prostituta em casa d"elles não trazia conse- 
quência alguma desfavorável, pois nem incorriam na pena, nem sequer no 
vitupério da lei. 

Todas as disposições relativas ás bancas ou casas de desconto de Paris, 
de Troyes, de Amiens, de Laon, de .Meaux, etc, provam a presença frequente 
ou habitual das rihaldas n'estas ditferenles cidades e as tentativas de seducção 
que renovavam sem cessar contra os lombardos e italianos. Estes podiam por 
sua parte pcrmittir-se todas as desordens moraes que a lei castigava na con- 
liucta dos nacionaes, súbditos do rei. O sábio e virtuoso Carlos v disse-o cla- 
ramente, nos privilégios que concedeu em 1366 aos commerciantes italianos, 
estabelecidos em iNimes: estes commerciantes não podiam .ser inquietados nem 
castigados por motivo de simples fornicação, a não ser quando convictos de 
rapto ou adultério. 

E', pois, de presumir que a licença dos costumes d'cstes estrangeiros 
iníluisse no estado moral da população que os rodeava, e que se corrompia com 
o .seu exemplo e contacto, visto que tinham junto de si um cortejo de mulhe- 
res dissjilutas e de homens libertinos, que passavam vida alegre e se corron^- 
piam mutuamente. 

Todavia, não attribuiremos á sua installaçãu na cidade de Troyes, em 
1389, o estabelecimento das tendas (bouticles) que as mulheres communs, em 
collegio (cloiístières) tinham desde muito em vários pontos da cidade, segundo 
podemos fazer^ constar pelo seguinte artigo d'um documento anterior, citado 
pelos continuadores de Ducange na |)ala\ ra íUiuisurw, e que prova a antiguiilade 
de similhantes estabelecimentos: 

filiem, que Iodas as mulheres de vida cloinlicre, ou mulheres communs 
dlllamadas, tenham e façam as suas tendas nos legares designados desde muito 
para isso na cidade.» 

As cidades próximas de l'aris, situadas, pur assim dizei', dentro da orbita 
da corte do rei, tinham como dever serem as primeiras a obedecer ás ordena- 
ções reaes, e imitarem escrupulosamente a organisação da policia parisiense, 



DA PnoSTITlIÍÇÃO 151 

nomo pgiiíilmonlc iinil;nnni os costmiies. as mod;is, os ii<o,« o .-it^ o modo t\r 
fallar da gente da còi"le. 

A imitação não exceptuava as casas libertinas, mas ati^ahi se \ia com 
preferencia, e para a este respeito citar um caso extravagante, é tradi^-iio que 
um libertino da província, tendo estado em Paris, e tendo frequentado as ruas 
de denominações desbonestas, foi o padrinbo da rua Pou\:se-Pe)iil. cm Issoudun, 
e da Retrousse-Pcnil , em Blojs, como de Iodas as outras ruas destinadas á 
prostituição legal. 

Não precisamos dí' Iradu/.ir a obscena denominaçào, para os lellorcs po- 
derem avaliar a rude franqueza d'csfes qualificativos. Em quosi todas as cida- 
des da França se encontram vestígios destes títulos imimindos, dados ás ruas 
parliiularmente consagradas ao exercício d'esle in\eterado cancro social. 

A mercadoria immunda linba d'este modo bem publicamente exposta a 
•íUM obscena labolela. 



CAPITULO XV 



SUMMARIO 



PioTinr-ias centrites da França.— Champagne.—Touraiue.—Berry.—Poitou—Orli-ans.— As mulheres casadas 
de Montluson ei|iiipaiadai as prostitutas.— Reconhecimeato de Breull. — Costumes burlescos e ridiculus. —A calçada 
''n terreno pantanoso de Siiloire.— O senhor de Pnizav e as mulheres fareis. — O rei de França e as prostitutas de. 
Vemeuil.— As prostitutas de Proyines. 




|;S puovK\ciAS cciitracs (Ia França eram as que oppunham menos 
obstáculos á prostiluivão, que alli encontrava iim meio perfei- 
tamente prctpicio. .\ prostituição era n'es?as provincias permit- 
tida, com tanto que se submettesse aos usos e costumes locaes, 
>■ se mantivesse sem causar perturbações : só o escanrlalo ora 
castigado. 

Deve notar-se que n'estas províncias a civilisação adoçara mais os cos- 
tumes do que nas outras: se a libertinagem publica vivia em boa paz com a 
auctoridade dos senhores e dos municijtios, a doçura do caracter de seus habi- 
tantes isentava-a naturalmente do cortejo de crimes e violcncias, que a liber- 
tinagem arrasta atraz de si. 

i prostituição achava-se, portanto, naturalisada cm todas as povoações 
da Champagne, da Touraine, de Berry, de Poitou e de Orleans, devendo unica- 
mente pagar em cada um d'estes pontos por onde passava, ou onde se fixava, 
.segundo o que mais lhe convinha, o tributo feudal, e acceitar os usos e costu- 
mes, que ás vezes não eram escripfos, mas sim guardados de século para sé- 
culo pela tradicção do paiz. 

Entre estes tributos havia alguns tão singulares, que hoje não se coni- 
prehende como poderam ser justificados por qualquer razão. Sauval extrahiu 
dos .\rchivos do Tribunal de contas, um documento do anuo de I i98, men- 
1'ionando que o Coutume de Jlontiuson equiparava as mulheres casadas, que 
batiam em seus maridos, ás prostitutas; todavia umas e outras não prestavam 
homenagem igual ao castellão de Montluson. Ouali|ucr mulher que batia em 
seu marido era obrigada a dar ao castellão ou á castellã, ou um escabcUo ou um 
pau. Qualquer ribalda, que chegava áquella povoação para n'clla exercer o seu 
vil officio, devia por uma só vez pagar quatro dinheiros, e além d'isso, em re- 
conhecimento de vassallagem, ir publicamente á ponte do castcllo, e pondo-se 
BisToau DA. PaoETiimçÃo. Tomo n — Folba 20. 



154 HISTORIA 

n'e!la de cócoras, expellir ventosidades . . . que não devia abafar debaixo das 
saias. 

O texlo latino do reconhecimento da terra de Breiíil, feito pela mui alta, 
mui nobre e mui poderosa senhora de Montluson, em 27 de setembro de 1498, 
é o seguinte, que damos textualmente, graças ao veu d'aquella lingua morta: 

Item in et super qualibet, uxore marium suum verberante, unum tripodem. 

Item in et super filia comimuii, sexus videlicet viriles quoscumque co- 
gnoscente, de novo in villa Montislucii eceniente, qualuor denarios seniel, aut 
unum, bumbum, sim vulga/riíer Pet, super pontem, de castro Montislucii sol- 
■oendum.i) 

Os commentadores que não evitam estas passagens escabrosas Utão deixa- 
ram de mostrar o seu engenho na descripção d'este sujo emblema. Dizem uns 
que as mulheres de má vida não podiam dar ao senhor de Monlluson mais do 
que valiam, e a este propósito citam um provérbio empregado n'outro tempo a 
respeito das prostitutas: a mulher de vida airada não vale w»! crepito de 
ventre. Outros archeologos a este respeito lembraram uma passagem não expli- 
cada de Pantagruel, em que Rabelais nos diz como d'estes sons nascem os ho- 
mens, e das ventosidades surdas os huniunculos, o que deu logar ao rifão: — 
A ventosidade estrepitosa é nobre e leal, a surda é vergonhosa e traidora. 

Fácil seria compilar um grande volume sobre estes arroios sub-intesti- 
naes dos ribaldas de Moníluson, mas preferimos encerrar a discussão d'este 
delicado assumj)ío, recordando que em virtude dos usos do direito feudal a 
homenagem e a lealdade dependiam do género de serviço que o vassallo prestava 
ao senhor e aos seus logares-tenentes. Â historia dos feudos está cheia de ser- 
vidões burlescas e ridículas, entre as quaes as impostas á prostituição não 
eram as mais extraordinárias. 

Nos censos feitos em 1376 e outros annos pelos senhores dos condados 
d'Ange, Souloire, e Betisy, na Normandia, o senhor de Belhisy declara á sua 
soberana. Branca de França, viuva do duque d'Orlcans, que as mulheres pu- 
blicas, que cheguem a Bethisy ou em Bethisy vivam, lhe devem pagar quatro 
dinheiros, e que este imposto que outr'ora lhe dava desenove soldos annuaes 
(o que suppunha a chegada de trinta ribaldas por anno) já não rendia mais que 
cinco soldos, em virtude de não accudirem tantas ribaldas áquella terra, diz 
Sauvel. 

O senhor de Souluire também declara que todas as mulheres, ao passa- 
rem pela calçada do pântano de Souloire, deixem ao juiz a manga do braço di- 
reito, ou quatro dinheiros, ou outra cousa. Para comprehender o que seja esta oit- 
tra cousa, é mister a!)rir a pagina 110 les Réponses de J. Boissel, Bordier e 
José Conslant, sobre dilTerentes perguntas relativas aos Usos do Poitou. O se- 
nhor de Poizay, na parochia de Verruge, reservava para si em 1469 o direito 
de impor tributo a cada mulher publica chegada á parochia, ou de lhe confis- 
car os seus pertences, fisando em quatro dinheiros o valor (festes objectos. 

Parece também que em todos os feudos o senhor tinha direito a este im- 
posto uniforme de quatro dinheiros, por cada mulher de má vida que entrava 
no território do seu respectivo feudo, com intenção de n'elle exeicer a sua in- 



DA PROSTITUIÇÃO 155 

dustria. Mas ordinariainenie o senhor envergonhava-se de receber o imposto da 
prostituição, e substituia-o por qualquer costume ridículo, que lhe mantivesse os 
seus privilégios leudaes. 

O rei de França era menos escrupuloso relativamente á origem dos im- 
postos que lhe entravam no erário; pois que, em 1283, segundo um docu- 
mento inserto no Glos-taire de Dueange (palavra Piaagium, ultima edição,) re- 
cebia ainda o tributo das ribaldas de Yerneuil, a 4 dinheiros por cabeça. 

A prostituição, n'este paiz da lingua d'oil, não tinha o sello de infâmia 
que imprimia ás pessoas que viviam á sua custa nas provindas da lingua d'oc. 
Os romances dos trovadores normandos, champagnezes e outros, estão, como 
se pôde vèr, cheios de particularidades tiradas da vida amorosa das mulheres 
communs e libertinas. Os poetas, que sem duvida as frequentavam e que cos- 
tumavam percorrer com ellas o paiz, não sentiam repugnância alguma em fa- 
zer figurar nos seus versos estas alegres companheiras da sua existência vaga- 
bunda. M. Bourquelot, na sua Histoire de Provins (pag. 273) diz-nos que as 
mulheres communs eram notáveis pelos seus encantos e voluptuosidade. 

Habitavam estas em muitas ruas, cujos nomes impudicos revelam a sua 
;intiguidade, estando noutro tempo calçadas de ribaldas, segundo a expressão 
local que se conservou, e que a rua Pavée d'AndouiUes de Paris recorda. 

Estas ruas, destinadas especialmente ao domicilio de mulheres de má 
vida, provam a existência de uma demarcação que separava do resto da popu- 
lação as mulheres publicas, impedindo que se confundissem com as honestas. 
Estas não possuíam nem a belleza nem a seducção das impudicas, mas acha- 
vam-se tão satisfeitas com a sua boa fama, que não julgavam encontrar pena 
bastante severa para castigar a maledicência ou calumnia que tocasse na sua 
reputação. Com este receio obtiveram dos condes de Champagne appoio e pro- 
tecção para o caso cm que qualquer d'ellas fosse injuriada por outra, e tractada 
como prostituta em presença de testemunhas. 

A que irrogava similhante injuria, sem razão nem provas, devia pagar 5 
soldos de multa e seguir a procissão em camisa como as penitentes, levando 
uma pedra que se chamava de escândalo, emquanto que a injuriada ia atraz 
d'ella, picando-a nas nádegas com um alfinete. 

E' evidente que as mulheres publicas eram as que ordinariamente se tor- 
navam culpadas n'esta classe dinjurias ás mulheres honestas, e a lei tomava a 
dcfeza das insultadas, que não saberiam responder na mesma linguagem a 
essas mulheres desbragadas. A Coutume do Champagne occupa-se especialmente 
d'este dclicto de injuria. 

O homem ou mulher, que ultrajasse assim uma mulher de bem, devia-lhe 
além d'isso a multa de o soldos, e, «se acontece, accrescenta a lei, no artigo 45, 
que a mulher a quem se diz a injuria tenha marido, esta multa subirá, á von- 
tade do senhor, até sessenta soldos.» 

Os Usos de Cerny e de Fere, outorgados por Philippe Augusto, auctorisa- 
vam qualquer homem de bem, que ouvisse ser injuriada uma mulher honesta, 
por outra de má vida, a fazer-se advogado ex-olficio e a vingar a insultada, ap- 
plicando á insultante duas ou três boas bofetadas, de forma que o defensor não 



156 HISTORIA 

tivesse nenhum ódio antigo contra a mulher, maltratando-a assim por sua pró- 
pria satisfação em nome da honestidade publica. 

O uso de Beauvoisis não particiilarisa as injurias e tillania.s, que valiam 
o soldos de multa para um villão c 10 para um nobre, dizendo unicamente que 
o facto peior, depois d'um caso de morte, é dizer em presença d'um marido 
que se gozou sua mulher, e por isso Philippe de Bcaumanoir refere que, 
sob o reinado de Philippe Augusto, tendo um homem dito a outro : «És um ma- 
rido ludibriado, e cu mesmo assim te fiz,» o injuriado tirou um punhal e fe- 
riu-o. Preso e submettido a juizo, foi absolvido pelo rei e seu conselho, consi- 
derando que tinha procedido no uso de legitima defesa. 

.4s mulheres de má vida, tanto antigamente, como agora e como sempre, 
eram propensas á injuria e capazes dos mais indignos meios para intimidarem 
as pessoas honestas que as temiam. Uns dos meios mais communs consistia no 
odioso uso que faziam da condiçãii de mulheres casadas, ameaçando com uma 
querella (radullerio ao imprudente que as frequentava, e que se via obrigado a 
comprar-lhes o silencio. Para praticar estes indignos manejos e explorar em seu 
proveito os remorsos da libertinagem, occultavam cuidadosamente a sua condi- 
ção de casadas, revelando-a só no caso de terem commettido adultério interes- 
sado. A lei familiar não admitlia a excusa de ignorância em similhante crime, 
e foi preciso que o direito consuetudinário adoçasse n'este caso excepcional o ri' 
gor do direito commum. D'aqui provêm o artigo das Franquias de Perusa 
em Berry, que datam do anno de 1260, e emanam da justiça senhorial. O 
artigo é o seguinte : 

«Se uma mulher casada chegar a Perusa com o fim de exercer a prostituição, 
sem homem próprio que a acompanhe, a nada é obrigada para com o senhor.» 

As mulheres, que mercadejavam com o seu corpo e que não tinham de 
apresentar um marido para as salvar do crime de adultério, exerciam frequen- 
temente uma especulação análoga, mas inversa: ameaçavam com denuncia os 
homens casados que queriam fazer cabir nos seus ardis. A lei feudal castigava 
este adultério com a mesma pena imposta ao outro: um homem casado, que 
tivesse relações com uma mulher publica, podia ser accusado e condcmnado. 
Evitava-se sempre applicar esta rigorosa jurisprudência, fechando os olhos a 
este género de delidos, mas, quando havia denuncia ou queixa, o juiz perse- 
guia o delinquente, que por feliz se dava em unicamente pagar uma multa, pois 
que a penalidade mais frequente eram os açoites, applicados aos dois cúmplices, 
que nús percorriam a cidade, recebendo o castigo das próprias mãos dos espe- 
ctadores, que extraordinariamente se divertiam n'estas occasiões. 

NVsle antigo uso, pelo menos no principio, eslabelecido em toda a França 
na edade media, encontramos uma tradicção da Roma atiliga, a respeito dos 
adultérios das cortezãs e dos libertinos. 

Os [sos d'.41ais, redigidos no século xiii, e pela primeira vez publicados 
em continuação dos Olim, formulam nVstes termos a penalidade do adultério: 

ditem estabelecemos, que se algum homem ou mulher casados forem 
apanhados em flagrante crime de adultério, os dois cúmplices percorram a 
cidade, sejam chibatados, e a mais não sejam condemnados.» 



DA PROSTITUIÇÃO - 157 

Os dois percorriam, pois, junfos a cidade, mas a mulher ia na frente, para 
que elia fosse a primeira a ser chibatada. A mesma compilação dos Olim ci- 
ta-nos muitas applicações d'esta penalidade. Em 1273, o prior da ahhadia de 
Charlieu fez correr ou fustigar pela cidade a muitas pessoas surprchendidas em 
adultério dentro do território d'ahbadia. Os habitantes da cidade fizeram queixa 
ao bailio de Mâcon, sustentando que o prior se revestira d'uma auetoridade que 
não possuia na dita cidade, e o bailio reivindicou esse direito em nome do rei. 
Mas o prior, fundando-se também cm antigos privilégios da abbadia, conti- 
nuou no exercicio do mesmo direito, fazendo chibatar de igual miuio a todos 
quantos eram surprehendidos em adultério, sempre nos limití's da sua juris- 
dicção. 

As justiças senhoriaes, desavindas umas com as outras constantemente, 
disputavam o terreno da sua jurisdieção, principalmente em questões de policia 
moral. Em 1261, em Amiens, o bispo sustentava que tinha direito de justiça 
sobre os sodomitas, que viviam na cidade ; os outros habitantes sustentavam o 
contrario: que este direito de justiça lhes pertencia desde a creação do muni- 
cípio. O conflicto foi submettido ao Conselho Real, e Luiz ix o resolveu, orde- 
nando que a cidade fosse mantida no seu direito de fazer justiça e castigar cor- 
poralmente os sodomitas. 

Em Saint-Quentin os frades, por uma parte, e as auctoridades municipaes, 
pela outra, disputavam em 1304 o direito de baixa justiça nos arrabaldes da 
cidade. Os frades queriam prender e expulsar as mulheres ligeiras, que haviam 
invadido as visinhanças do convento; as auctoridades municipaes queriam que 
estas mulheres vivessem em paz nos terrenos do convento. O conselho do rei, 
ao qual a questão foi submellida, resolveu que os frades podiam desembara- 
çar-se da visinhança licenciosa, mas que as auctoridades municipaes podiam 
fazer justiça e castigar as prostitutas cm todo o território municipal. 

Sem duvida entre as duas partes fez-se uma transacção, que regulamen- 
tasse nos arrabaldes de Amiens o exercicio da prostituição. 

Estes regulamentos eram, com pequenas diílerenças, os mesmos em Ioda a 
parte: determinavam perseguir os alcoviteiros, coníinar a libertinagem em cer- 
tas ruas e logares, impedir que as prostitutas se podessem confundir com as 
mulheres honestas. 

João de Borgonha, conde de Nevers, na ordenação de o de março de 1481, 
intimou todas as mulheres libertinas a que usassem na manga direita um dis- 
tinctivo roxo, sendo-Ihes outrosim prohibido o aprcscntarem-sc em publico sem 
este signal infamante, sob pena de prisão, e habiiar em outra parle que não 
fosse entre as fontes, antiga moradia d'ellas, como também frequentar os ba- 
nhos da cidade. 

As desobediências aos regulamentos eram castigadas de muitos modos. 
.4bbeville tinha um pelourinho especial, expressamente feilo para as mulheres 
publicas apanhadas em flagrante. Era este instrumento de supplicio um caval- 
lete de madeira, collocado na praça de S. Pedro. Depois de serem açoitadas 
violentamente eram postas em cima do cavallete, que não tinha espaço, onde 
se sentassem. Eram depois expulsas ao som de campainha, c se alguma d'ellas 



138 HISTORIA 

voltasse á cidade, para exerctT a sua industria vergonliosa, era-lhe então cor- 
tado um membro, ou novamente expulsa com grande soleranidade. 

Os alcoviteiros convictos do seu infame commercio eram n'esta mesma 
cidade mais severamente castigados, que em qualquer outra parte. Eram pas- 
seados pelas ruas até chegarem ao logar do supplieio, onde o carrasco lhes cor- 
tava e queimava o cabelio, sendo em seguida perpetuamente expulsos, e avisa- 
dos de que seriam queimados vivos, se na cidade tornassem a ser presos. 

«Em 1478, Bclul Canline d'.4bheviIlo, por ler querido convencer Joanni- 
nba, (ilha de Vitace de Qucme, a que fosso com um chamado Franqueviile, ho- 
mem d'armas da guarnição da dita cidade, foi conduzido n'um carro pelas ruas 
da cidade, e os cabellos foram-lbe queimados no pelourinho, sendo para sem- 
pre desterrado sob pena de fogo.» 

Além d'isso, a pena capitai, como já dissemos, estava também inscripta 
na lei, embora só em casos de reincidência, revestidos de circumstancias ag- 
gravantes, fosse applicada 

«O castigo dos alcoviteiros, segundo os privilégios da cidade de Gand, 
diz J. de Damhondere, era o desterro, e o das alcoviteiras, o corfar-se-lhes o 
nariz, e também o desterro, o pelourinlio, a escada e o cadafalso.» 

O erudito auctor da Pratica forense das causas criminaes, a respeito da 
jurisprudência da cidade de Brugj^s, sobre o mesmo assumpo accresccnia : 

«Eu, que ha muitos annos hz parle do conselho da cidade de Bruges, 
nunca vi castigar com a morte os alcoviteiros ou alcoviteiras, ou adulteras, se- 
não com o desterro; e dentro da cidade ou do paiz, com o pelourinho, com a 
fustigaçào, ou penas similhantes.» 

Esta jurisprudência, que era a do parlamento de Paris, adoptou-se con- 
secutivamente em todos os tribunaes da França; mas o costume local enearre- 
gou-se quasi sempre de modificar a legislação. 

N'umas partes, por exemplo, a multa era considerável, como no districto 
da tribunal de Ronnes, que castigava na multa de mil libras a venda de mu- 
lheres ou creanças; n'outras, confiscavam-se os bens moveis ou immoveis aos 
condemnados; n'umas partes ajuslava-se á cabeça da alcoviteira uma mitra có- 
nica de papel amarello ou verde; n'outras, um chapéu de palha, indicando que 
o seu corpo esperava sempre um comprador; n'outras ainda eram marcadas com 
a lettra M. ou /'. no braço ou nas nádegas. Passeiava-se a condemnada sobre 
um burro lazarento, sobre um carro, sobre uma carreia, ou sobre uma zorra; 
era açoutada com vai-as, com correias, ou com cordas que tivessem nós. Este 
supplieio era sempre uma festa para o povo, que n'elle tomava parte, gritando, 
c escarnecendo da infeliz, que lhe era abandonada como um instrumento das 
suas diversões.» 

«Na repressão d'esla classe de dclictos, diz Sabateu na sua Historia da 
legislação sobre as mulheres publicas e togares d? prostituição, desenvolveram 
nossos pacs um rigor extraordinário em castigos, cuja forma offendia a huma- 
nidade e a decência, que elles .se propunhan) desaggravar.» 

Mas o povo era sempre ávido de presenoear esles escândalos, e de per- 
seguir os culpados com os seus dichotes e impropérios, e ás vezes prescindia 




Castigo infligido a uma proxeneta na idade média 



DA PROSTITUIÇÃO 159 

da sentença do juiz e fazia correr nús aquelles que surprehendia em flagrante, 
como facto privativo da sua jurisdicção. Assim, na maior parte dos privilégios 
que os municípios obtiniiam dos senliores, iiavia quasi sempre o cuidado de 
fazer conlirmar o direito que se attriijuiam de castigar os adultérios, e foi 
necessário que os senliores e os próprios reis de França restringissem este di- 
reito a certos casos particulares, perinittindo sempre aos delinquentes o pode- 
rem substituir a pena por multa. 

Nos privilégios da cidade de Aiguesmortes, reconhecidos em 1350 pelo 
rei João, a corrida das adulteras foi em principio admiftida, mas as rés po- 
diam a ella eximir-se, pagando uma multa fixada pelo magistrado. Se a corrida 
tinha logar, os cúmplices não eram açoutados e a mulher7 embora núa como o 
homem, devia cobrir os seus órgãos sexuaes. 

O rei, pelo mesmo sentimento de pudor, prolti!)ia que os homens e mu- 
lheres estivessem na mesma prisão. 

Acontecia frequentemente que o populacho d'uma cidade, impaciente por 
vêr o espectáculo d'uma corrida tão pouco decente, accusava de adultério in- 
divíduos que encontrava isolados, delatando como flagrante delicto uma sim- 
ples conversação amorosa. Era, pois, necessário que a lei explicasse claramente 
o que era o flagrante delicto, sobre que pesava a pena do adultério. 

Não podia haver duvida, em virtude das minuciosas circumstancias que 
sobre o assumpto explanava o código dos costumes, liberdades e franquias, ou- 
torgadas pelos condes de Tolõsa aos habitantes de Moncuc, e formalmente con- 
firmado por Luiz XI, nas suas reaes ordens de 30 de novembro de li63. 

.\ Normandia em Iodas as épochas esteve Ião adiantada como Paris, no que 
respeita á prostituição. Falíamos já d'aquclle logar de libertinagem que havia 
na cidade de Rouen, na segunda metade do século xii, e que o duque da Nor- 
mandia, Henrique ii, rei de Inglaterra, pozera sob a vigilamla especial '!o em- 
pregado chamado Bakleric. Este personagem tinha o titulo de guarda de todas 
as mulheres publicas, exercendo a sua industria em Rouen, e accumuhiva este 
extravagante titulo com o de marechal do rei-duque, e com as funcções de 
guarda da porta da prisão do caslello, sendo-lbe retribuídos tão variados servi- 
ços com a percepção do direito de 2 soldos diários, sobre todos os ([uc fossem 
encontrados á caça nos bosques immediatos. 

O logar de libertinagem que havia em Rouen, desde o tempo dos primei- 
ros duques da Normandia, e que sem duvida alcançou os seus privilégios no 
tempo de Guilherme, o conquistador, foi provavelmente o Iheaíro das prédicas 
de Roberto de Arbrissel. Consta que o piedoso fundador da ordem de Fonte- 
vrault caminhava descalço pelas ruas e praças publicas, para chamar ao arre- 
pendimento e penitencia as pcccadoras. 

«Um dia que veio a Rouen, conta a chronica, entrou no lupanar, e sen- 
tou-se ao lume para aquecer os pés. As cortezãs rodcaram-n'o, julgando que 
elle havia alli entrado para peccar; mas elle diz-lhes palavras de salvação, of- 
ferecendo-lhes a misericórdia de Christo. Então a ribalda, que governava nas ou- 
tras, disse-lhe: 

— «Quem és tu, que d'esse modo falias? Vinte annos ha já que entrei 



460 HISTORIA 

n'esta casa para servir o diabo, e a ninguém ouvi fallar de Deus ou da sua mi- 
sericórdia. Se essas cousas que dizes fossem verdadeiras. . .y> 

«N'esse mesmo instanie fel-as sahir da cidade e, radiante d'alegria, ás 
levou para a solidão do deserto, onde lhes fez chorar lagrimas de penitencia, 
e onde as fez passar do poder do demónio para o poder de Christo.» 

A abbadia de Fontevrault, que o piedoso Roberto havia fundado para de 
preferencia acolher as mulheres perdidas, nem esteve ao abrigo das tentações 
do diabo, nem das calumnias do século. Segundo parece, o fundador teve de 
submeíter-se a extraordinárias provas para vencer a carne, aquella carne, que 
era o seu tormento c o prendia ás vaidades, do mundo. Era accusado de com- 
partilhar o leito d'estas religiosas, e estimular a carne cm contactos sensuaes, 
para depois ter a gloria de domar as suas paixões. O abbade de Mendome, 
Geoffroy, escreveu-lhe uma carta ccnsurando-o por este facto. 

Roberto gabava-se de nunca haver succumbido n'este novo género de 
marlyrio; mas n'uma carta de Marboch, bispo de Rennes, publicada por J. 
Mainferme no seu Clipeus ordinis mascenlis forterbaldensis expressamente se 
diz que a maior parte das religiosas ficaram gravidas do .seu director espiri- 
tual. 

N'esía curiosa citação se vê que o recolhimento do bemaventurado Ro- 
berto se distinguia dos togares de libertinagem publica, apenas pela escanda- 
losa fecundidade das recolhidas. 

Cada cidade da Normandia tinha o seu lupanar, e pôde dizer-se com ap- 
parencia de rasão, que os alcoviteiros e alcoviteiras que figuram nos antigos 
Usos normandos, adquiriram esta designação nas costas da Mandia. Comtudo, 
não vemos que os duques da Normandia fossem tão favoráveis á prostituição 
legal como Guilherme ix, duque da Aquitania e conde de Poiliers, que esta- 
beleceu ou quiz estabelecer em Niort um lupanar, pelo systema dos mosteiros 
de mulheres. Guilherme de Malmesbury cita este facto singular na sua chro- 
nica, e accrescenta que, construído o editicio, destinado a este lúbrico mostei- 
ro, o duque determinara confiar a sua administração ás mais formosas prosti- 
tutas dos seus estados. 

Este duque de Aquitania, que foi um galante trovador e um desenfreado 
libertino, havia resolvido, em virtude de razões policiaes, di? M. Weiss, na 
fíiographia Unicersal, crear um tal estabelecimento, depois imitado em mui- 
tas cidades da França, da Itália e da Hespanha. Não sabemos se esta foi a cau- 
.sa pela qual o papa Calixto ii citou Guilherme perante o concilio de Reims em 
1329. Seja como fòr, o duque não se corrigiu, e continuou cantando o amor, 
(' dando a seus vassnllos exemplos de uma vida licenciosa. 

As ribaldas normandas, poitevinas, e angevinas, muito tinham feito sem 
duvida para merecer a fama de que gosavain ; as de Angers eram de todas as 
mais afamadas, como o prova este provérbio corrente no século xv: «Angers, 
cidade baixa e de altos campanários, de ricas ribaldas e pobres estudantes.» 

A visinliança de Anjou c Poitou não conseguiu perverter a casta Breta- 
nha, onde a prostituição sempre teve uma existência occulta e timida, que só 
por acaso era descoberta pelos ingénuos bretões. Ahi pelos fins do século xv, 



DA PROSTITUIÇÃO • 161 

nas informações colhidas para canonisar Carlos tle Blois, uma fesfenmnha, cha- 
mada João de Fournet, homem d'armas da parochia de S. José, diocese de Dol. 
attestou perante os commissario? ecclesiasticos o modo como o santo duque ha- 
via convertido uma peccadora, que pertencia, de mais a mais, à intima espécie 
d'estas desgraçadas. 

Na sexta-feira santa de l3o7, indo Carlos de Blois da cidade de Dinan 
para o castello de Léon, acompanhado pir Alain de Tenou, seu thesoureiro, 
por Ctodofredo de Poiíhlanch, seu mordomo, pelo cavalleiro Bardy, c por outros 
homens d'armas, viu uma mulher sentada á beira do caminho. O duque per- 
guntou-lhe o que fazia alli, e ella, levanfando-se, respondeu-lhe que ganhava o 
pão com o suor do seu corpo. O duque chamou de parte o seu thesoureiro, e 
ordenou-lhe que se approximasse da mulher, e a interrogasse sobre o género 
de vida que exercia, pois que não havia compreliendido a rcsposia da pobre 
creatura; a qual confessou tristemente ser uma prostituta, a quem a miséria 
obrigava a exercer tão vergonhosa industria. 

Ouvido isto, o duque disse á infeliz que ao menos se deveria abster de 
peccar durante a semana santa. E ella replicou-lhe que, se tivesse vinte soldos, 
se absteria até ao tim do niez. Carlos pegou na sua bolsa, que não estava muito 
recheada, e d'ella tirou quarenta soldos que entregou á infeliz. Ao recebel-os, 
prometteu esta não peccar durante vinte dias. 

Godofredo de Ponblanch quiz que ella jurasse o que promettia; mas o 
duque não consentiu que a mulher se expozessc a perjurar, e continuou o seu 
caminho, aconselhando-lhe que perseverasse nas suas boas intenções. 

Esta meretriz, chamada Joanna Dupont, cumpriu a sua palavra, e jamais 
esqueceu os bons conselhos de Carlos de Blois; renunciou para sempre á vida 
dissoluta, e com os quarenta soldos de que fez um pequeno dote. casou-se com 
um rapaz da sua terra, filho de .Matheus Rouce, de Pludiilian, sem que tornasse 
a peccar contra a castidade. 

Pôde deduzir-se d'esta aventura que Joanna Duponi, como mulher dos 
campos e bosques, não ganhava mais que um ou dois soldos diários, esperando 
os passageiros á beira dos caminhos, como as estrangeiras da Judéa, citadas 
pelas velhas Escripturas. 

As províncias occidentaes, onde ós costumes francos se tinham conser- 
vado em toda a sua impureza, foram sem|>re Ihcatro de todas as depravações 
da prostituição. Na Lorena e na AIsacia, como n'outros tosares, havia usos e 
ordenações que castigavam os excessos da libertinagem, sobretudo quando se 
tractava do clero, que se lhe entregava com o maior escândalo; mas em cada 
cidade a impudicicia publica encontrou instituições protectoras, se é licito em- 
pregar esta expressão, para caracferisar a organisação do vicio sob o ponto de 
vista da policia edilitaria. 

M. Rabuteau,. depois de descrever o estado da prostituição nas regiões 
do meio dia «onde vemos sem espanto, diz elle, paixões fogosas, produzindo 
as suas naturaes consequências,» admira-sc de não encontrar costumes mais 
severos nos paizes do norte. 

«Sc olhamos, accrescenta, pai-a os paizes em que o clima menos ardente 
HtSToniA DA Pbostitoicão. Tomo ii— Folha 21. 



i62 mSTORTA 

parece dispor para costumes mais puros, encontramos os mesmos excessos, ou 
talvez ainda mais grosseiros.» 

Este facln, segundo o nosso modo de vêr, tem uma causa histórica, e é 
filho de condições cconomico-polilicas. Os povos ausírasianos tinham conser- 
vado os seus hahilos de uma luxuria feroz, e a legislação nacional nada tentara 
para modificar os instinctns hrutacs, que o abuso das bebidas fermentadas, faes 
como a cerveja, o hydromcl e os vinhos do llhcno, exaltavam até ao delirio. 
A. prostituição era, pois, admittida como uma lei de necessidade, para garantir 
a honra das mulheres casadas, que, ainda assim, nem sempre se preservavam 
dos ullrages c allcntados da sensualidade masculina. O legislador não condem- 
na mais factos do que os que resultam d'esla fonte impura. A alcovitice é cas- 
tigada mais severamente que a violação, mas a mulher conserva o direito de 
vender-se, sujeitando-se ás formalidades da policia municipal. A lei srt era se- 
vera com ella, quando se entregava á gente da Egreja. 

Carlos ni, duque de Lorena, resume a antiga jurisprudência na sua or- 
denação de 12 de janeiro de 1583, que eondemna a ser cliibatadas as «mulhe- 
res notoriamente infames, que frequentam as casas dos ecclcsiasticos.» Os re- 
gulamentos da prostituição legal, posto que mais amplos e menos austeros do 
que esses, que rasões d'ulilidade, de moralidade c prudência haviam feito 
adoptar nas grandes cidades do meio dia, pouco dilTeriam entre si. 

As mulheres de má vida estavam como que separadas da sociedade; ha- 
bitavam bairros e ruas infames; não podiam exercer a sua industria em ou- 
tra parte; usavam um trajo especial, ou um signal distinctivo como os judeus; 
pagavam um imposto ao (isco, e governavam-sc independentemente, conforme, 
os estatutos de uma associação regular, análoga á dos grémios. 

Em Strasburgn, as ordenações municipaes de 1409 e 1430 dizem-nos 
que as mulheres publicas estavam confinadas nas ruas Bieckergass, Klapper- 
gass, Greibcngass, e por traz dos muros da cidade, onde estas mulheres haviam 
habitado sempre, dizem as ordenações muitas vezes renovadas no decurso do 
século XV. 

Com elTcito, conservam-se nos archivos d'csta cidade os regulamcntus e 
estatutos, concedidos cm 24 de março de 1435, pelo magistrado de Strasbur- 
go, á communidade das mulheres públicas, estabelecidas na rua e casa cha- 
mada Picken-gass. Eslcs regulamentos, compostos de três artigos, comprehen- 
dem as medidas policiaes a que estavam sujeitas as casas de libertinagem. Es- 
tas casas chegaram a multipliear-se de tal modo, que, pelos fins do século xv, 
os funccionarios públicos, encarregados de as vigiar e de arrecadar o imposto 
que n'ellas incidia, contaram mais de cincoenta e sete em seis ruas dilTerenles; 
unui só rua, a de llndnujass, tmha nada menos que dezenovc d'estes esta- 
belecimentos; havia tanibcm um grande numero na viella fronteira ao Ktlte- 
ner, e não poucas ao lado da casa chamada Sehnahelburg. Kock viu o regis- 
tro da policia, onde constava que a prostituição legal tinha uma centena de 
bordeis na cidade episcopal de Strasburgo. 

Os especuladores d'estes haréns, abertos á lubricidade publica, enviavam 
os seus agentes e angariadores mesmo aos paizes estrangeiros em procura de 



DA PROSTITUIÇÃO < 63 

mulheres, que por contracto alugavam o seu corpo, e que uma vez presas nos 
Klapper, ou bordeis de Slrasburgo, se viam reduzidas a condiç^fio mais detestá- 
vel que a da escravidão. 

Finalmente em principies do século xvi, as casas publicas já não basta- 
vam para conter as prostituías, que de toda a parte aflluiam, c que não encon- 
trando onde se albergassem, invadiam o campanário da cathedral e das outras 
eg rejas. 

«No que respeita ás andorinhas ou ribaldas da cathedral, diz uma orde- 
nação de lo2l, permiltir-se-lhes-ha o demorarcm-sc por ahi mais quinze dias; 
passados os quaes, jurai"ão abandonar a cathedral e outras egrejas ou togares 
santos. As que quizcrem persistir na libertinagem serão intimadas a retirar-se 
para Riebery (extra-muros, perto da porta dos Carniceiros) e para outros sí- 
tios que lhes serão designados.» 

Quinze annos mais tarde, graças ao protestantismo, que segundo a notá- 
vel phrasc de que se serve Mr. Rabutcau «deu certa dignidade á vida particu- 
lar,» só havia cm Slrasburgo duas casas de prostituição. N'esta ultima épocha, 
as mulheres publicas ainda usavam o signal distinctivo, que o magistrado de 
Slrasburgo lhes impozcra em 1384. Esle signal era um gorro cónico c alto, ne- 
gro e branco, que se usava por cima du véu. A' excepção da còr, este chapéu 
foi o que Izabel de Baviera, com grande escândalo das mulheres honestas, in- 
troduziu na corte de França. 

A prostituição não era menos intensa nas terras de Messin, do que na 
Alsacia, em Wetz do que em Slrasburgo, compartilhando das suas lubricidadcs 
o clero secular c regular. N'um atoar, ou ordenação dos magistrados do anno 
de 1332, prohibe-se á gente da Egrcja o «ir de noite e de dia ás casas com- 
muns, e a outros logarcs que .se não devem referir.» Este atoar faz constar «a 
grande dissolução que existia entre os monges de Santo Arnaldo, S. Clemente 
e S. Martinho,» que percorriam de noite as ruas, arrombando as portas das ca- 
sas, frequentando as tabernas c logarcs infames. 

Tal estado de cousas peorou ainda pelos fins do século xvi, e o chronista 
Philippe de Vigneulles attribue tão monstruosos excessos á aflluencia da gente 
de guerra que a cidade havia tomado a soldo. «Pelas ruas apenas se via ribal- 
deria, diz, e por isso, tudo estava dillamado.» Publicaram-se severos edictos a 
respeito da Pedra Bordelaria na presença dos Treze (magistrados da cidade.) 
Esta Pedra Bordelaria devia ser o pelourinho, onde se justiçavam os condem- 
nados cm Metz. 

Um dos edictos publicados com data de 6 de julho de 1493 encontra-se 
na Chronica inédita de Philippe de Vigneulles: 

«Que todas as mulheres casadas, que deshonram seus maridos, c as jo- 
vens entregues ao vicio, se não querem viver como mulheres de bem, vão 
para os bordeis de Anglemure (beco sem salda, perto dos muros). E que ne- 
nhum habitante as receba, ou lhes alugue casa cm boas ruas, sob pena de qua- 
renta soldos de multa. E que as ditas mulheres não se encontrem em festas 
da cidade, e que ninguém as leve a danças, sob pena de dez soldos de multa.» 

Metz tinha muitas ruas destinadas á habitação e trafico das mulheres 



i64 HISTORIA 

dissolutas, e as que não desappareceram cora a cidade velha, ainda conservam 
o seu primitivo uso. Perto do beco sem saida de Anglemure, que era o foco prin- 
cipal da libertinagem urbana, existia a rua de Bordaus, ou Bordeis, que acabava 
na muralha de circumvallação, parailela á rua de Stancul, mas que já foi fechada. 
Esta ultima, que sobe pela vertente oriental da collina de Sainte-Croix, onde 
estava situado o palácio dos reis da Austrasia, é estreita, sombria, fétida, como 
todas as ruas da sua espécie. 

.4s mulheres de má vida compromcttiam-se, mediante uma quantia fixada 
n'um contracto, a servir corporalmente nas casas de tolerância, que algumas 
ribaldas tinham arrendadas, sob a vigilância dos magistrados. Assim, qualquer 
mulher solteira, que causava escândalo com os seus maus costumes, era con- 
duzida vergonhosamente ao bordel, e entregue ás ribaldas, que traficavam com 
o seu corpo, se antecipadamente não lhes dava um bom resgate, sempre superior 
ao que a nova mercadoria lhes poderia produzir. 

Philippe de Vigneulles conta a este propósito, uma interessante historia, 
que data de 1401. Uma garse (mulher alegre,! indo para a cathedral n'um do- 
mingo de Ramos encontrou o seu amante, que a levou para casa, em vez de a 
acompanhar à missa. Isto foi sabido pelos magistrados, que citaram o auctor 
do escândalo perante o tribunal, e que apenas o condemnaram a pagar qua- 
renta soldos de multa; mas a joven, que foi julgada mui viciosa (de malvaise 
voulente, ) (oi mettida n'uma casa de prostitutas. O amante, porém, diz o chro- 
nista, resgatou-a das mãos das ribaldas, pagando quinze soldos, levou-a outra 
vez para sua casa, vendeu todos os seus bens, e foi viver para longe com ella. 

Outro chronisfa, o deão de Sainl Thiebaut, refere-nos um facto que indica 
o preço da prostituição, verdade seja que n'um tempo em que a abundância das 
mulheres publicas estava em desproporção com a do trigo. Em 1420, obtinham-se 
quatro mulheres por um ovo, diz Emilio Begin, appoiando-se na auctoridade do 
chronista, pois que um ovo custava um gros, e uma mulher quatro dinheiros, 
e ás vezes ainda mais baratas se encontravam. 

A alcovitice, todavia, não deixava de ser um commercio lucrativo, e ape- 
sar dos perigos que corria, não obstante o exemplo dos castigos applicados ás 
alcoviteiras, abundavam as mulheres infames, que viviam de traficar, até com 
as suas próprias filhas. 

«A uma mulher foram cortadas as orelhas, diz Philippe de Vigneulles, 
por ter praticado muitos crimes, e ter levado uma moça, que era sua filha, para 
o bordel, onde foi deshonrada.» 

Um século mais tarde, pelo mesmo facto, ter-lhc-hia sido applicada a 
pena capital. 

A historia especial de todas as cidades da Lorena e da AIsacia está re- 
cheada de muitos factos análogos, (|ue demonstram a unidade da jurisprudên- 
cia em matéria do prosliliiição. rnicamenie consignaremos aqui dois casos es- 
peciaes, relativos ás cidades de Saint-Dié e Montbeliard. N'esta ultima, um ri- 
baldo que percorria as ruas vestido de mulher (ni39) foi preso e entregue ao 
carrasco, que o expôz no pelourinho, o açoitou, e finalmente o expulsou das 
terras do senhor de .Montbeliard. E' provável que este ribaldo fuesse do seu 



OA PROSTITUIÇÃO 165 

disfarce feminino lun uso abominável. Vimos também já que em Paris as ri- 
baidas, disfarçadas em irajos de homem, eram egualmcnte presas, embora ordi- 
nariamente se Mies impozesse a pena de confiscação no trajo que nílo perten- 
cia ao seu sexo. 

Em Saint-[)ié, as mulheres de má vida, que habitavam nas ruas Noze- 
vilh- I' Destord, podiam gabar-se do .seu temperamento prolitico, pois que as 
quatro aldeias próximas, Pierpont, Saint-Helène, Buli e Padoux, chamadas as 
quatro aldeias viris, tinham sido povoadas com os seus filhos varões, os quaes se 
casaram e se tornaram súbditos do capitulo cathedral de Saint-Dié, o que tam- 
bém acontecia aos habitantes de maus costumes dos bairros immundos de Des- 
tord e Nozeville. 



CAPITULO XVI 



SUMMARIO 



Influencia dos costumes e dos usos da Itália, na Pruveuça e no LaDi'Ucdoc, na Edade- Media. — A grand© ab- 
hadla da rua de Comeuge, em Tolosa.— Distinctivo das mulheres da grande abbadla.— O bairro de Groses.— A casa 
do Ccuteilo- Verde.— Vicissitudes da prostitui.jSo legal em Tolosa ate fins do século xvi.— Hospício da prostituição 
lesai em Montpellier.— Os especuladores do bordel de Montpellier. - Ijlara Panais.— Guilherme de la Croix e as duai. 
Olhas de Clara Panais.— A caba de Dandrea.— U bordel privileg^lad<i .ic .Avinháo.— Kstatutos de Joanna de Napolos — 
A pnxtitulçíio em .AvinhSo antes dos estatutos de 1347. 



REZ cidades lia em Franea, em cada uma das quaes a prostitui- 
rão legal teve um asylo estabelecido por um real privilegio e 

j arrendado em beneficio da communa. Estas trcz cidades são 
.\vinhi3o, Tolosa e Montpellier, onde por causa dos bons cos- 
tumes havia a instituição de uma abbadia obscena, que a au- 




ctoridade municipal administrava, como um estabelecimento de utilidade publica. 

Julgamos dever fazer a historia d'estes trez estabelecimentos no mesmo 
capitulo, approximando-os assim, para fazer comprehender a influenciados usos 
e costumes da Itália, na Provença e no Languedoc, na Edade-Media. 

«Desde os mais remotos tempos, diz uma ordenação de Luiz xi, já por 
DÓS citada, é costume n'este paiz do Languedoc, e especialmente nas boas ci- 
dades do dito paiz, haver uma casa fora das ditas cidades para habitação t^ n- 
sidencia das mulheres communs.» 

Com elTeifo, em Tolosa e no tempo dos seus primeiros condes, foi aber- 
ta uma casa de prostituição a expensas da cidade, dando a esta crescido ren- 
dimento, e assegurando a tranquillidade das mulheres honradas. Este lupanar 
estava situado na rua de Comenge. 

A heresia dos Albigenses, que não podiam ter contacto carnal com mulher 
alguma, provavelmente contribuiu para a decadência momentânea da prostitui- 
ção em Tolosa, e para empregar a formosa expressão, de que se serve Mignet. 
analysando a doutrina d'aquellc austeros hereges, o deus da matéria que do- 
minava nas regiões tenebrosas dos corpos polluidos foi impotente para lhe de- 
fender o templo. Uma ordenação doannode 1201 rehabilitou a rua Comenge, tras- 
ladando para o arrabalde de S. Cypriano o estabelecimento impudico, que a des- 
honrava. Todavia- julgaram-no ainda mui próximo do coração da cidade, e foi 
mudado para extra-muros, cerca da porta e no bairro de Croses. 



1 fiS HISTORIA 

Se se tivessem fechado as porias d'esta casa publica, que chamavam a 
grande abbadia, e que não só albergava as ribaldas da cidade, mas também as 
que eram attraidas a Tolosa, os estudantes da Universidade c os libertinos ter- 
se-hiam sublevado para manter o que elles chamavam os seus antigos privilé- 
gios. 

A cidade e a Universidade, perfeitamente d'accordo, haviam feito as des- 
pezas para a insfallaçào das mulheres communs, e compartiam, boné jure et 
justo titulo, como com-proprietarios, os benefícios d'esta explorarão infame. 

As prostitutas, que viviam ou estavam de passagem na grande abbadia, 
eram obrigadas a usar um chapéu branco, com cordões da mesma côr, insígnia 
da profissão e libré da casa. Não era sem violência e rcpugnanciaque cilas obede- 
ciam a esta prescripção do regulamento sumptuário, que as impedia de se ves- 
tirem e adornarem a seu gosto e capricho, pois que a côr branca do chapéu não 
ia bem com as outras cores da moda, e era detestada pela impura communi- 
dade da grande abbadia. Todavia os magistrados mostravam-se inflexíveis ob- 
servadores das antigas ordenações, e rigorosamente castigavam toda a contraven- 
ção da lei. 

Em dezembro de 1389, o rei Carlos vi, visitando as principaes cidades do 
seu reino, fez uma entrada triumphal na capital do Languedoc, onde foi rece- 
bido com grande pompa, e onde alguns dias se demorou. Toda a população to- 
mou parte nas festas da recepção, e as hospedas da grande abbadia sahiram 
a receber o rei com doces, vinhos e dores, a fim de lhe supplicarem uma gra- 
ça, (^om effeito, em commemoraçào da sua feliz chegada, pediram-lhe que as 
livrasse das injurias e vitupérios, a que a branca insígnia a que eram obri- 
gadas por uma antiga ordenação sujeitava a collegíada. Parece que ogríto — 0//ia 
o chapéu branco! — dado nas ruas de Tolosa, fazia sahir das casas e das lojas 
um grande numero de rapazes, que perseguiam o vistoso toucado, alirando- 
Ibe pedras e lama. As prostitutas queixaram-se, allegando que as ordenações 
relativas ao seu vestuário tinham sido feitas sem auclorisação do rei, a quem 
supplicavdm as emancipasse d'aquolla escravidão. 

O assumpto foi levado a conselho de Estado e discutido em presença do 
bispo de Noyon, do visconde de Melun e de messires Enguerrand, Dcudín e 
.íoào Estouteville. Carlos vi, que ainda não estava demente, recebeu com pa- 
ternal interesse a supplica das jo\ens da grande abbadia, e segundo os termos 
da ordenação expedida por tal motivo, «desejando dispensar graças e favores a 
lodos, e assegurar a liberdade aos habitantes do seu reino», outorgou ás sup- 
plícanlcs c suas successoras na dita abbadia, que podessem trazer no braço uma 
braçadeira de cor diíTerente da do vestido que usassem, sem que por tal facto 
incorressem em multa, embora ordenações houvesse em contrario. 

O Sencscal de Tolosa e todos os funccionarios públicos foram, portanto, 
encarregados d'ahi em diante de proteger as habitantes da abbadia, e de paci- 
fica e perpetuamente fazer-lhes gosar os beneficios desta real graça, sem as 
molestarem, ou permittírem (|ue fossem molestadas, pelo trajo que usassem. 
A collegíada da grande nbbadia bem depressa se arrependeu de, por graça 
especial do rei, se ter libertado do uso da antiga insígnia. A população de To- 



DA PROSTITUIÇÃO 169 

losa revoltou-se contra esta liberdade auctorisada pela real ordenarão, e como 
obedecendo a uma deliberação geral, maltratava todas as que encontrava na rua 
sem chapéu nem cordões brancos. O Senescal de Tolosa, e assim os mais func- 
cionarios públicos, recusaram ouvir as queixas que diariamente lhes eram apre- 
sentadas pelas maltratadas; e não podendo estas obter justiça nem protecção, 
em vez de renunciarem ao beneficio da real ordenação, que as libertava d'um 
distinctivo infamante, preteriram conservar-se reclusas no seu asylo. Mas nem 
por isso os seus perseguidores as esqueceram, c á própria abbadia as foram in- 
sultar. 

Estas perseguições foram pouco a pouco afastando os clientes da casa, que 
dava á cidade um rendimento considerável, empregado em despezas de utilidade 
publica. A. renda foi continuamente baixando, e o thesoureiro do Capitulo, que 
a recebia annualrnente das mulheres communs e dos seus arrendatários, teve 
de dar conta do deficit, causando má impressão nos capitulares, que viam de- 
sapparecer um rendimento tão fácil como seguro. Por causa d'isto, fez-se uma 
syndicancia, d'onde se concluiu que as moradoras da abbadia já alli não viviam 
em segurança; que grande numero de libertinos e de homens maus de noite 
e de dia iam áquelle estabelecimento, onde praticavam actos inauditos; que es- 
tes perversos, sem temor de Deus nem da justiça, inspirados peio espirito mau, 
arrombavam as portas, penetravam no interior da casa c |)ara se apoderarem 
das desgraçadas, que se entrincheiravam nos seus aposentos, demoliam as pa- 
redes, ou abriam grandes buracos nos tectos; que finalmente feriara c ultraja- 
vam do modo mais atroz as pobres victimas da sua feroz e cruel lubricidade. 
Estas, para se subtrahirem a taes violências e ultrajes, fugiam da Grande Ab- 
badia, que já nada mais era do que uma ruina abandonadar 

Os capitulares inutilmente procuraram remediar o mal e attrahir as fugi- 
tivas ao estabelecimento, promettendo-lhes apoio e {)rotccção: o habito tinha-sc 
inveterado, c apesar das disposições e esforços da guarda urbana, os assaltos 
á abbadia repetiam-se frequentemente, sempre com a reproducção dos mesmos 
escândalos e torpezas. 

Convencidos da inutilidade dos meios de que dispunham, os capitulares 
dirigiram-se ao rei, supplicando-lhe viesse protegel-os; Carlos vii, que então só 
reinava n'algumas províncias do seu reino, dirigia-se a esse tempo ao Langue- 
doc, para exaltar o zelo dos seus partidários, e sem diíFicuklade foi a Tolosa: 
alli examinou o assumpto em conselho, recordou que seu pae havia outorgado 
uma graça, alegremente recebida, ás ribaldas de Tolosa, e por um real decreto de 
13 de fevereiro de 1423 ameaçou com toda a sua cólera os auctorcs dos exces- 
sos que muitas vezes se haviam reproduzido na Grande Abbadia; recommen- 
dou aos seus agentes que protegessem o estabelecimento, que desde então fi- 
cava sob a sua especial guarda, e mandou diante da porta collocar dois postes, 
pintados com flores de liz, em signal da protecção real. 

As armas da França pouco respeito impozeram aos desordeiros, que de vez 
em quando repetiam os seus ataques nocturnos contra a Grande Abbadia, dando a 
desculpa de não terem visto as flores de liz, com a escuridão da noite; mas as 
pobres peccadoras, por mais que tocassem o sino d'alarme, pedindo soccorro e 

BuTORU djl PaosniDiçio. Tomo n— Folha. 22. 



no - HISTORIA 

auxilio, por muito felizes se ciavam em salvar a vida. Por fim tiveram que. aban- 
donar, o estabelecimento, que sem defesa as entregava aos seus verdugos, e 
voltaram para o bairro de Groses, onde menos evpostas estavam ás violências 
d'aquelles ferozes libertinos. 

Os capitulares viram então elevar-se a cifra dos rendimentos impudicos 
da cidade, e esta grave considera^"ão obrigou-os a fecbar os olhos á invasão da 
libertinagem publica, no interior de Tolosa. As prostitutas permaneceram cerca 
de um século nos becos immediatos á porta de Groses, d'onde só sahiram em 
1525, quando a Universidade se apoderou das casas que ellas occupavam, e alli 
construiu edifícios para seu uso. 

Então foram novamente relegadas da cidade, e para ellas á custa do mu- 
nicípio se adquiriu uma grande casa, situada extra-muros, n'um sitio chamado 
Pré-Moulardi, pertencente a M. de Saint-Pol. 

Esta casa de prostituirão chamada Chateau-Vert, ou Chatel-Vert (Cas- 
tello Verde) já não tinha que receiar dos assaltos dos estróinas, e offerecia 
um retiro pacifico áquellas pobres mulheres, que por conta da cidade continua- 
vam trabalhando na sua infame industria: mas o estabelecimento do Chateau- 
Vert era n'aquolla épocha regido por alguns regulamentos severos. 

Em 1557, tendo apparecido a peste em Tolosa, ordenou-seás mulheres 
publicas que permanecessem encerradas no seu castello, e que n'elle ninguém 
admittissem, até que o flagello cessasse: algumas desobedeceram a tão justa 
ordem e foram açoitadas na praça do mercado ; outras fugiram para cidades on- 
de a peste não reinava. 

Só reappareeeram em Tolosa em 1560, quando as condições da salubri- 
dade publica tinham melhorado, a ponto de lhes serem reabertas as portas do 
ChateaU-Vert. O seu regresso foi alegremente celebrado, mas os capitulares, 
envergonhados com os epigrammas, que lhes dirigiam a propósito da direcção 
suprema que tinham n'este bordel municipal, c também sabendo que eram ac- 
cusados de comprar as vestimentas com o imposto do Chateau-Vert, fizeram 
d'este imposto cedência aos hospitaes da cidade. Os hospitaes apenas o perce- 
beram seis annos, passados os quaes á cidade devolveram tão oneroso privile- 
gio: os rendimentos da exploração do Chateau-Vert eram absorvidos e até 
excedidos pelos encargos correspondentes a esía impudica propriedade, pois que 
os hospitaes eram obrigados a receber e a tractar gratuitamente as enfermas 
que sabiam do Chateau-Vert. JXecessario é, todavia, lembrar que n'este período 
de seis annos os doentes tinham sido mais numerosos do que nunca, e que o 
trataraciitu da s^j/iiiUs era então caríssimo. 

Para tratar d'es1a questão, que n'esse tempo preoccupava todos os ma- 
gistrados do reino, reuniu-sc um conselho solemne no Gapitulo. A questão era 
simplesmente esta : a radical abolição da prostituição. Os notáveis da cidade as- 
sistiram a esta reunião, e na maior parte opinaram pela suppressão do Chateau- 
Vert; mas prevaleceu o parecer do abbade Casedicu, que de accordo com o pri- 
meiro presidente opinou que a suppressão fosse addiada para momento mais 
opportuno. 

Com eCícito, cidade alguma havia onde a prostituição legal fosse mais 



DA PROSTITUIçiO 471 

necessária do que em Tolosa ; os costumes eslavam relaxados, e as paixões, sob 
a influencia do clima, tiniiam necessidades imperiosas que era necessário sa- 
tisfazer dentro de certos limites. Dois factos recentes provavam que a auctori- 
ridade dos magistrados da cidade não podia exercer grande vigilância sobre as 
mulheres publicas, que tão pouco o Chateaii-Yert convenientemente vigiava. 
Em 1590, quatro d"estas desgraçadas haviam sido encontradas no convento dos 
Grandes Agostinhos; haviam alli entrado com o habito monástico, e satisfa- 
ziam toda a communidade nos seus desejos sensuaes. Trez d'estes monges dis- 
farçados foram enforcados nas Ires portas do convento, e um verdadeiro frade, 
o cúmplice principal, foi levado com ferros aos pés perante o bispo. 

Em I06G, outras trez mulheres d'esta classe, que também se disfarçaram 
para entrar no convento de Beguines, foram egualmente enforcadas sem forma 
de processo. 

Comtudo o Chateau-Vert conservou as suas altribuições e franquias até 
1587. N'esle anno, pozeram-se cm vigor em Tolosa as medidas que a epidemia 
reclamava. O Chalenu-Vert foi fecbndo e seiladas as portas; mas as prostitu- 
tas, ao sahirem d'alli, não mudaram de vida e, apezar da peste, que não as 
amedrontava, exerciam ás escancaras a sua infame industria. 

Um dos capitulares, a quem o medo da epidemia obrigou a fugir do seu 
posto e a refugiar-se no campo, foi testemunha involuntária das licenciosida- 
desque se praticavam em torno da cidade. Quando a peste terminou, e este capi- 
íoul voltou ao exercício das suas funcções, referiu em conselho o que havia 
visto de vergonhoso nas vinhas e nos campos, que por então substituíam o 
Chateau-Vert. Em virtude d'isto, não mais se pensou em reabrir aquelle bordei, 
e deu-se caça a todas as ribaldas que tinham levado vida desordenada durante 
a epidemia. Foram encerradas na prisão da cidade, e puchavam ás carroças da 
limpeza das ruas. Taes foram as vicissitudes da proslituição legal em Tolosa, até 
aos fins do século xvi. 

A historia dos asylos bordelarios de Montpellier não remonta a épocha-tào 
antiga, ou, pelo menos, os documentos authenticos que a descrevem não são 
anteriores ao século xv; mas era Montpellier, como em Tolosa, vemos que, se- 
gundo o uso estabelecido desde remota antiguidade nas principaes cidades do 
Languedoc, a prostituição legal tinha extra-muros um hospício sob a vigilân- 
cia dos magistrados, que percebiam um imposto das mulheres communs e dos 
arrendatários privilegiados. Nos princípios do século xv, este infame privilegio 
pertencia a um tal chamado Panais, que estabelecera o seu negocio n'uma casa 
situada oxtra-muros, n'um sitio vulgarmenlc chamado o Bordel. 

Alli, diz o real despacho de Carlos viu, que confirma o artigo privilegio 
de Panais, alli é onde as mulheres publicas e communs téem a sua morada e 
existência de dia e de noutc.» 

Panais gosava pacificamenle do seu privilegio, e enriquecia-se, pagando 
enormes direitos á sociedade. Tinha dois filhos, Alberto c Guilherme, a quem 
procurava dar uma educação esmerada, mas, tendo morrido o pac, os dois ra- 
pazes herdaram o privilegio annexoá casa do Bordel. 

Como este privilegio dava muilo lucro, os novos proprietários não pen- 



172 HISTORIA 

saram em deixal-o, mas tiveram de associar-lhes Guilherme de la Ooix, 
pertencente á nobreza de Montpellier, e contando entre os seus avós o celebre 
patrono dos empestados, S. Roque. Desde então a propriedade indivisa do 
Bordel permaneceu nas mãos de la Croix e dos irmãos Panais, que, sem dei- 
xarem de explorar o negocio da prostituição legal em Montpellier, chegaram a 
ser banqueiros. 

O maior numero dos magistrados que compunham o conselho quizeram 
oppôr-se a que as mulheres de má vida, ainda mesmo com o distinctivo do of- 
ficio, entrassem na cidade, e para lhes tirar de todo o pretexto de frequentar 
os banhos públicos, onde secretamente exerciam a sua infame profissão, intima- 
ram os arrendatários do Bordel, a que n'elles contruissem estufas e banhos. 
Os irmãos Panais e o seu associado Guilherme de la Croix consentiram em fa-' 
zer estas grandes e sumptuosas despezas, que tinham por único fim tornar com- 
pletamente sedentárias as habitantes do Bordel; mas aproveitaram tão bôa oc- 
casião para que lhes fosse renovado e confirmado o antigo privilegio d'esta casa 
de toleradas, em virtude do qual, e mediante a somma de cinco libras torne- 
zas, pagas annualmente ao rei ou ao seu logar tenente, «desde agora em diante 
pessoa alguma, seja qual fòr o seu estado ou condição, poderá na parte antiga 
de Montpellier estabelecer bordel, taberna ou hospedaria para as mulheres pu- 
blicas, sob pena de confiscação das ditas casas, bordeis, tabernas ou banhos.» 

conselho da cidade, a quem foi presente um instrumento publico, passado e 
assignado pelas partes interessadas, rectificou as clausulas do contracto, e 
augmentou as vantagens dos arrendatários do Bordel. 

Mas estes em breve trecho foram perturbados no gozo do privilegio : um 
dos associados, Alberto Panais, tendo cedido a sua parte a sua filha Jacobina, 
que a levou em dote a Estevam Bucelly, com quem contrahiu matrimonio em 

1 i-65, um tal chamado Paulo Dandn^a, que habitava na mesma cidade, julgou-se 
auctorisado a especular com a mesma industria, dando por caducado o privi- 
legio de Panais. Obrava assim por inveja ou por outro móbil, e era protegido 
pelo reitor ou bailio da velha cidade. E para isto começou a recolher dentro 
d'unia casa, sita no centro da cidade, a todas as mulheres publicas. Mas a exis- 
tência d'uma casa de libertinagem no centro da população honrada era uma 
infracção de todos antigos usos do Languedoc, e os habitantes das circumvisi- 
nhanças, sacerdotes e seculares, queixaram-se ás auctoridades, e protestaram 
contra o audaz emprehendimento de Paulo Dandrca, pois que viam «ser a 
causa um grande vitupério e deshonra, e máu exemplo para as mulheres ca- 
sadas, suas filhas e servas, e também pelo escândalo e outros inconvenientes 
que podia produzir.» 

■ Dandréa, com o apoio secreto de certos libertinos que desejavam a crea- 
ção d'um bordel central, sustentou os seus pretendidos direitos, e manteve aberta 
a porta do seu alcouce. Mas Guilherme de la Croix e Guilherme Panais eram 
ricos e poderosos, principalmente o primeiro, e enipenbaram-se para que fosse 
fechada a casa de Dandrca, aberta em contravenção das ordenações dos reis e 
dii privilegio de Panais, e ao levar perante o rei a sua demanda, não se enver- 
gonharam de se declararem proprietários e emprczarios do Bordel. 



DA' PROSTITUIÇÃO 173 

Justamente por esse tempo Carlos tii enviara aos estados do Languedoc, 
como seus representantes, messires de Monlaigu, Hebert e Hallc, conselheiros 
reaes que foram a Monipellier, onde em 1438 se reuniram ao estados. Estes 
Irez personagens tomaram conhecimento do assumpto, em virtude das queixas 
que riuilherme de la Croix e seus consócios dirigiram aos estados, que não des- 
denharam occupar-se da questão. 

Os representantes do rei fizeram comparecer ante elles os interessados, 
e depois de na presença do procurador da cidade os terem ouvido, prohibiram 
a Dandréa, sob pena de multa de dez marcos de prata, o alojar ou receber em 
sua casa qualquer mulher publica. O procurador da cidade e o sencscal de 
Beaucaire foram, conforme os antigos usos de Montpellier, os encarregados da 
execução do decreto. Os herdeiros e successores de Panais foram, mediante a 
renda annual de cinco soldds fornezes para o rei, confirmados no gozo do seu 
privilegio, «sem que ninguém d'ahi para o futuro podesse construir ou estabe- 
lecer outra casa para as ditas mulheres publicas.» 

Não contentes com isto, os consócios em 1 469 sollicitaram do rei a con- 
firmação do decreto, que lhes foi outorgada mediante fiança. 

Vinte annos depois, Guilherme de la Croix, já conselheiro do rei e the- 
soureiro das suas guerras, não renunciara por isso á empreza do Bordel de 
Montpellier. Como hahiluolmenfe não residia n'esta cidade, e Guilherme Panais 
já se não occupava muito n'este negocio, receiando vèr irromper a concorrên- 
cia que n'outro tempo lhe havia feito Dandréa, sollicitoii de Carlos viu a con- 
firmação do real privilegio que obtivera de I>uiz xi. 

Carlos VIII appressou-se a publicar, em favor do seu amado e leal conse- 
lheiro e em bem e inleresse da causa publica, a ordenação que lhe garantia os 
direitos sobre a prostituição de Montpellier, e egualmente os dos seus consó- 
cios Guilherme Panais e Jacobina, mullier de Estevam Buccelii, todos honra- 
dos habitantes da dita cidade. 

Como em Montpellier, em Tolosa e nas principaes cidades do Langue- 
doc e da Provença, em Avinhão havia também um bordel privilegiado, estabe- 
lecido em virtude de ordenações reaes e municipaes: e este grande estabeleci- 
mento, o mais celebre de todos os da França pelos estatutos que o regiam, pa- 
rece ter sido organisado, tendo por modelo as casas publicas de Itália. A au- 
Ihenticidade d'esles estatutos, que o sábio medico Aslruc pela primeira vez 
publicou em 1736, na primeira edição do seu tratado De morbis mnereis, pa- 
rece-nos incontestável, apezar da longa refutação que M. Júlio Courtet pu- 
blicou em a Rcvue Archeologique (anno 2.°, fasciculo 3."). Segundo Júlio Cour- 
tet, Astruc foi victima d'uma mystificação, e os estatutos apocriphos, attri- 
buidos á rainha Joanna de Nápoles, seriam obra de M. Garcin e dos seus 
amigos. 

Em uma nota anonyma, escripta á mão n'uni exemplar da Cacomunade 
de Linquet, narra-se a historia d'esta mystificação, em que como cúmplice en- 
trou um filho de Avinhão, M. Commin, que nasceu dez annos depois do ap- 
parecimento do livro de Astruc. Por todos é sabido o que vale em geral uma 
nota de calligraphia feita n'um livro, e muito nos surprehende que a critica 



1 74 HISTORU 

haja fundado em similhante nota a contestação d'um facto histórico, que atra- 
vessou o século XVIII, spíMiio séptico e cynico, sem ser desmentido, nem sequer 
posto em duvida. 

Indubitável é que, se os mystiricadores de Avinhão se tivesssem diver- 
tido á custa de um sábio tão illustre como Astruc, em toda a Europa haveria 
repercutido uma immensa gargalhada, e o tratado De morbis venereis, em que 
o documento citado foi impresso pela primeira vez, não haveria escapado ás 
consequências de tal myslificação, isto é, aos commenlarios satyricos, resultado 
inevitável de qualquer myslificação. Em todo o caso, o gracejo de M. Garein e 
dos seus amigos, haveria pelo menos transpirado cm Avinhão, e Astruc não re- 
editaria os estatutos apocryphos na segunda edição da obra, corrigida e augmen- 
tada em 1740. 

Além d'isso, esta obra, traduzida cm frar.ccz e também em outras mui- 
tas linguas, teria encontrado quem refutasse o seu famoso capitulo sobre o Bor- 
del de Avinhão ; e, pelo contrario, se demonstrou que a tradicção local a res- 
peito d'esía casa de prostituição era constante e vulgar, quando Astruc escre- 
veu a um individuo de Avinhão (ahi por 172o ou 1730; a fim de obter, se pos- 
sível fosse, uma copia do original dos estatutos de 1347. 

M. JuIio Courtet diz que a copia foi tirada d"um supposto original, que 
uns indignos falsarios intercallaram n'um magnifico manuscripto do século xiii 
ou XVI, intitulado Slattila el pricileíjia reipublicae Avenionensis. Este manus- 
cripto, que faz parte da magnifica bibliotheca do marquez de Cambis Velleron, 
passou em seguida para o Museu Calvet, onde Júlio Courtet o examinou. Os 
Staluln prostiliuli cifi latis Acenionis, que M. Couríct julga «uma imitação 
pouco hábil não só do cstylo mas também da maneira escrever do século xvi» 
estão transcriplos n"uma folha de pergaminho «a segunda das quaes tem a co- 
pia d'uma bulia do Papa Gregório, cailigraphia do século xvi.» 

Basta esta circumstaní ia para provar que se não quiz enganar ninguém, 
c que o antigo possuidor do manuscripto, no século xvi sem duvida tentou 
complctal-o, accrescentando-lhe uma copia, feita por oiiira mais nu menos de- 
feituosa que podo cnccmtrar. 

O marquez de Cambis, que era de Avinhão, e que por isso vivia na fonte 
de todas as noticias concernentes ao assumpto, não teria deixado de fazer desa- 
pparecer as folhas que deshonravam o seu manuscripto, em vez de mencionar 
no seu catalogo os singulares estatutos, «que estão (diz a pag. 46-j) em lingua 
provençal, como então se fallava, e que pouco diflere da de hoje.» 

E' provável que o original existisse ou tivesse existido nos archivos do 
palácio dos papas, ou nos dos condes de Provença, e que algum curioso o trans- 
crevesse a seu modo, alterando e modernizando o texto provençal, ou mesmo 
traduzindo-o para esla lingua do texto lalino. O que parece certo é que a exis- 
tência d estes estatutos nunca foi tida por duvidosa, e que a sua aulhenlicidade 
é além d'isso confirmada por tudo que sabemos a respeito da prostituição da 
Provença na Edade Média. 

As considerações moraes, feitas para demonstrar a inverosimilhança d'estes 
estatutos, auctorisados por uma rainha joven, não lêem valor para quem estuda 



DA PROSTITUIÇÃO 175 

a policia dos postumes n'aquella épocha. Joanna de Nápoles, condessa de 
Provença, nada innovava n'cste assumpto: não fez mais de que com a sua 
auctoridade suprema saiiccionar as regras da administração urbana, que os ma- 
gistrados d'Avintião iiaviam feito no interesae da causa publica, baseando nas 
razões que impelliram Carlos vii a publicar ordenações sobre assumpto aná- 
logo. 

A dissertação de Júlio Courtel ajudar-nos-ha a demonstrar que, anterior- 
mente aos estatutos de 1347, já a prostituição se bavia installaJo á moda italiana 
na cidade papal d'Avinlião. No concilio de Vienna, celebrado em 1311-131 2, 
o piedoso e sábio bispo de Mende, Guilberme Durandi, pediu a severa repres- 
são dos excessos da liberlintigem; indignava-so de que o niarecbal da corte 
rle Avinlião tivesse por tributarias as mulheres communs e os seus escandalosos 
cúmplices: pretendia que aquella peste publica, que se expunha em almoeda á 
porta das egrejas, diante das casas dos prelados, e mesmo sob os muros do palá- 
cio dos papas, fosse desterrada para os bairros menos frequentados; reclamava 
lambem que o marechal renunciasse aos infames reditos da prostituição. (V. 
Vitce pap. Aren. publie. por Raluce, t. i, f.'" 810). 

Todos os padres do concilio concordaram cora as queixas do bispo de 
Mende, mas não se arriscaram a um projecto de reforma, que haveria |)reju- 
dicado muitos interesses particulares, c o marechal da corte do papa continuou 
percebendo os impuros impostos. As ribaldíis muiíiplicavam-se c espalhavam-sc 
por toda a cidade. «Não havia, diz Courtet, logar, por sagrado que fosse, que 
e.stivesse ao abrigo da sua inacreditável audácia.» 

Petrarca, que n'esta cidade residia em 1326, assombra-se da desordem 
dos costumes, que a mudança da Santa Sé parecia haver favorecido, como se 
o papa e os cardeaes de Roma houvessem trazido atraz de si um cortejo de 
homens e mulheres depravadas. 

«Kiu Roma, a grande, diz Petrarca, não havia mais que dois ruíióes; 
lia pequena .Vvinhão havia onze. Cum iii niapia Roma duo fueriui knones, 
in parva Avennio sunt undecim. (Obras latinas de Petrarca, edição de Bale, 
íl. 1:184). 

Bem se comprehende que a prostituição, a si própria entregue, necessi- 
tava de um regulamento similhanfe áquelle que nas demais cidades da Provença 
d'ella fazia uma instituição de utilidade publica. A rainha Joanna, ameaçada 
no seu reino de Nápoles pelo exercito de seu cunhado Luiz da Hungria, acabava 
de depor a coroa, tincta no sangue do seu esposo; havia-se refugiado em 
terras de França, c, dejiois de ter casado em segundas núpcias com seu primo 
e amante Luiz de Tarento, dispunha-se a vender ao papa o condado d'Avi- 
nhão, para assim comprar a absolvição do seu crime e o apoio do papado. 

Em virtude, pois, d'estes graves acontecimentos, a rainha Joanna, que 
vivia em Aix, redigiu ou antes sanccionou os estatutos da prostituição legal em 
Avinhão, como Carlos vii e Luiz xi haviam sanccionado outros do mesmo gé- 
nero para as cidades de Tolosa e Montpellier. 

Estes estatutos (e o seu primeiro artigo affirma-o) foram formulados pe- 
los cônsules ou governadores da cidade, na forma ordinária de todos os privi- 



1 76 HISTORIA 

legios concedidos a lupanares, e a joven rainha nada mais fez do que assignar 
sem ler, sob a responsabilidade do seu chanceller, que os havia approvado. 

Pôde affirmar-se com certeza que o primeiro a quem í" concedeu a ex- 
ploração d'estes privilégios, estando muito interessado em obtel-os, não olharia 
a despezas para pssim assegurar a approvaçào da ruiiiha e para fazer reconhe- 
cer os seus direitos, antes da cedência do condado á Santa Sé. 

Eiii uuunu do que «iUrmanios, poderíamos reproduzir o texto provençal dos 
estatutos, tal como Astruco reproduziu, e sentimos que Júlio Courlcl não acompa- 
nhasse o manuseripto do museu Calvet, cheio de raspaduras e emendas, d'este 
texto. Basto este ficto p;;ra excluir du todo a ideia de fraude da parte do co- 
pista ou do traduetor do texto original. 

Vamos dar uma fraducçào do velho texto provençal, mais litteral do que 
aquella que se vê no livro d'Astrue, inopportunamente reproduzida com os seus 
erros e desbotadas periphrases : 

I 

No anno de mil trezentos c quarenta e sete, aos oito do mez d'agosto, a 
nossa boa rainha Joanna permittiu o bordel em Avinhão. Quer que as mulhe- 
res licenciosas não vivam na cidade, mas que estejam encerradas no bordel, e 
que para serem reconhecidas usem uma insígnia ou laço vermelho no hombro 
esquerdo. 

II 

Se uma joven commettcr uma falta e quizer continuar no vicio, o guar- 
da-chaves da cidade ou o capitão da policia conduzil-a-ha, ao som do tambor c 
com o laço vermelho no braço, pelo meio da cidade, e alojal-a-ha com as demais 
no bordel, e prohibir-lhe-ba o sair para fora da cidade, sob pena de uma multa 
[lela pi'imeira vez, e de ser açoutada e desterrada pela segunda. 

III 

A nossa boa rainha ordena que o bordel seja situado na rua de Pont- 
Traucal, perto dos frades Agostinhos, nas immediações dA porta Peirc; outro 
sim ordena que haja uma porta ao lado, por onde lodos entrem, mas que es- 
teja fechada á chave, a fim de que qualquer homem não possa vér as mulhe- 
res sem licença da governanta, que todos os annos será nomeada pelos cônsu- 
les. A governanta guardará a chave e advertirá aos frequentadores que não ar- 
mem tumultos nem maltratem as infelizes. No caso contrario, havendo a menor 
queixa contra qualquer que provoque desordem, os desordeiros serão presos. 

IV 

A rainha determina que todos os sabbados a abbadessa e um barbeiro, 
nomeado pelos coneules, inspeccionem todas as mullieres do bordel, e se n'al- 



DA PUOSTITUIÇÃo 177 

guma encontrarem enfermidade venérea, que seja separada das oulras c isolada, 
de modo que ninguém com ella esteja, a fim de evitar que contagie a juventude. 



Item. Se acontecer que no bordel alguma mulher conceba, a directora 
providenciará de modo que ao frucfo mal não succeda, e prevenirá os cônsu- 
les para que ministrem o necessário ao nascimento d'esta creança. 

VI 

Item. A abbadessa não permittirá que homem algum entre no bordel na 
sexta-feira santa, no sabbado d'Alleluia e no dia de Paschoa, sob pena de ser 
expulsa e açoutada. 

VII 

Item. A rainha quer que todas as libertinas do bordel vivam como irmãs. 
Quando houver alguma queixa, a directora deve reconcilial-as, e cada qual sub- 
metter-se ao que esta decidir. 

VIII- 

Se alguma roubar, a directora deve convencel-a a restituir o objecto rou- 
bado, e se a ladra resistir a esta ordem, deverá ser fustigada dentro de um 
quarto, por um agente de policia: e, no caso de reincidência, será açoutada pelo 
verdugo da cidade. 

IX 

Item. Que a directora não consinta a entrada no bordel a nenhum judeu, 
mas, se acontecer que algum alli entre ardilosamente c tenha relações com al- 
guma mulher, seja preso e açoutado. 

Astruc, publicando estes estatutos, diz que foram copiados dos registros de 
M. Tamarin, notário e tabellião apostólico, em 139:?: mas não pôde alcançar 
esclarecimento algum d'este Tamarin, nem do seu manuscripto, á excepção d'um 
extracto dos mesmos registros, d'onde consta que um judeu de (larpentras, cha- 
mado Doupedo, publicamente foi açoutado em Avinlião, em 1408, por haver 
entrado furtivamente no bordel e ter tido cópula com uma das reclusas. 

Um facto análogo é referido no Appendix Marcm Hispaniae, em que o 
sábio Pedro de Marca cita um documento do anno 1024, onde se diz que um 
judeu chamado Isaac foi corporalmente castigado e os seus bens confiscados, 
por ter commettido adultério com uma christã. 

Astruc, que descobriu este precioso facto de costumes (Traiié des ma- 
ladies vener. tit. i, pag. 21 0,) acrescenta algumas reflexões aos estatutos da rai- 
nha Joãnna. 

Historia da PBOSTiTmcÃo. Tomo ii— Foi.ha ZS. 



Í78 HISTORIA 

Júlio Courtet diz que o artigo que se refere aos contágios venéreos, o qual 
faz duvidar o serio Merlin da aulhcnlicidade dos estatutos, bastaria aos olhos 
de muitos para invalidar o supposto original. Já veremos, ao fazer a historia 
da prostituição cm Inglaterra, como os estatutos dos lupanares de Londres 
prohibiam em 1430 a existência nos lupanares de mulheres infestadas d'esta 
enfermidade. 

Em resumo, e depois d'um serio exame da questão, concluímos que, se 
não possuímos o texto original dos estatutos do bordel de Avinhão, temos pelo 
menos os regulamentos que parecem conforraar-se com os que a tolerância mu- 
nicipal havia posto em vigor nas cidades do meio dia. 

Náo esqueçamos citar n'este momento o antigo rifão popular: 

Sur lepontd'Avignon 
tout le monde y passe, 

todo o mundo pas^a pela ponte, de. Aúnhão, que prtde muito bem ser uma engra- 
çada ironia, com referencia á má fama da rua chamada Pont-Traucatou-Troué. 

Esta rua tinha uns estabelecimentos tão mal afamados, que n'um synodo 
celebrado em Avinhão a 19 d'()ulubro de 1441 foi prohibido aos ecciesiasticos e 
homens casados o frequentarem estes logares da prostituição. Os que ousavam 
contrariar esta prohibição e que incorriam nas excommunhão do synodo, eram 
obrigidos a pagar cm beneficio do bispo dez marcos de prata, se fossem sur- 
prehcnilidos sahindo de dia dos lupanares, e vinte marcos, se fosse de noite. 
O veguer de Avinhão, João Blanchier, foi o encarregado de fazer executar estes 
estatutos synodaes, e de vigiar a policia interior dos lupanares públicos. 

Poucos annos depois, em 1437, o conselho da cidade oecupou-se também 
das lupanares da Servelerie, que nada mais eram do que albergues da pros- 
tituição, como as Sluphae Pontis-Trouati. 

Todavia Courtet cila uma medida de policia relativa ás mulheres disso- 
lutas de Avinhão, fccto extrabido dos archivos municipacs d'esta cidade. O ve- 
guer mandou apregoar ao som de trombetas, pelas esquinas, que nenhuma 
d'estas desgraçadas trouxesse em publico manto ou véu, nem rosário de âm- 
bar, nem aunei de ouro, sob pena de mulla e confiscação d'estes objectos. 

Pelo mesmo tempo, também pela voz do pregoeiro se declarava que as 
mulheres publicas de Paris se deviam conformar com as leis sumptuárias, e suf- 
ficientemente isto prova que não podiam esconder o seu caracter infame, feita 
uma vez a profissão em qualquer alihadln publica. Opporiunamenie encontra- 
remos nos usos e costumes da prostituição napolitana a origem tradiccional do 
Bordel de Avinhão, essa estranha fundação de uma rainha joven, bella e galan- 
teadora. 

Além d'i.sso, se as ahhadias impuras eram estabelecimentos de fundação 
real ou municipal, na maior parte das cidades da Provença as mulheres per- 
didas, que se entregavam á prostituição, não tinham auclorisação para exercer 
a sua vergonhosa industria, fora do asylo que lhes estava designado. Era sem- 
pre considerada como infracção dos regulamentos de policia a sua presença nas 



UA FKoblTrUI^ÀO 1 79 

ruas com trajos de mulheres honestas. Um artigo dos estatutos de Aries, feitos 
em 1454, prova-nos que estes regulamentos de policia, vigentes n'esta cidade, 
não dilíeriam dos que enconlramos estabelecidos em Avinhão pela mesma épo- 
cha. Eis o artigo dos estatutos, que Millin cila, no seu Ensaio sohre a língua e 
lilteratura provençal : 

«Qualquer mulher publica, reconhecida ou disfar\-ada na rua das mulhe- 
res honestas, que leve manlellelc, véu na cabeça c anncl de ouro ou praia, ou 
qual(|ucr outra jóia, serácondemnada por cada objecto em 50 soldos, e na perda 
d'esscs objectos.» 

Esta passngem da legislação arlesiana parece distinguir as mulheres de 
mà vida das noctívagas e libertinas, que viviam em ruas honestas. Os objectos 
que não lhes era perniillido usar, eram os mesmos que os filhos abandonados 
e as mulheres perdidas de Avinliào não podiam trazer. 

INão enconlramos documento que nos permitia calcular o preço corrente 
do Bordel da rainha Joanna, mas devia ter sido módico n'uma província em 
que, segundo um provérbio popular, a melhor mulher não valia lo soldos. Na 
verdade os provérbios são env Iodeis os paizes Ião hoslis ás mulheres, que deve 
suppòr-se -o não collaborarem ellas n'clles. — A sombra do homem vale cinco 
mulheres, dizia-se tanto em Aries como em Avinhão. 



CAPITULO XVII 



SUMMARIO 



A prostituição legal e a piostituiçuo livre. - Influencia da cavallaria na huuesliJade publica — O pagem de 
Imiira (la dama de Belles-Cousines.-- O verdadeiro cavalleiro destruiddor da porrupção. — A camisa de Covey.— O 
c-astelIJo Coiicy e a dama de Fayel.— Principalia amoris prcecepta, de mestre AaJrés, capellão de Luiz vii.— 
Aa Cortes do amor.— A jurisprudência amorosa.— Decretos do amor.— O maireúo Bois-vert.— O bailio de Joye, 
ij reguei- dos amores, etc. 




sTUDANDo OS iiioialistas o poetas da Edatle-Media, observamos 
que a prostituição legal era tão antipathica ao povo, como á no- 
breza, que a consideravam como uma macula da sociedade, e 
que de commum accordo tentavam impedir que ella produzisse 
escândalos, queincommodassemos olbares, os ouvidos c os pen- 
samentos da gente bonrada. Todavia a prostituição não estava menos solida- 
mente estabelecida n'essa classe infame, que vivia fora da decência publica e 
era composta de ribaldos e libertinos de todas as cathegorias. 

Preciso era que cada cidade tivesse um asylo de libertinagem para esta popu- 
lação fluctuante, que sem cessar se renovava, e constantemente se subtrabia á 
acção regular da policia municipal. Era esta uma garantia permanente contra 
as emprezas d'aquelles perdidos, enfants perdus, como em toda a parle eram 
cbamados, temidos pelas mulheres honestas e pelos seus maridos, mas feliz- 
mente desviados dos seus maus intentos de rapto e de violência, quando lhes 
era permitlido frequentar mulheres publicas e achar com cilas distracções. 

Andavam, pois, muitas d'eslas mulheres percorrendo o paiz acompanhadas 
dos seus amantes, que viviam á grande, á custa do obsceno trafico feito á sua 
vista; mas pôde allirmar-se que estas infâmias não eram sabidas cá fora, e que 
o bordel porvençal e o lupanar normando em nada corrompiam os costumes da 
familia e da cidade. 

Estes costumes as mais das vezes não eram muito exemplares, mas, por 
mais relaxados que fossem, não tinham relação alguma com os actos da prosti- 
tuição legal, pois que as mulheres communs, fazendo da prostituição modo de 
vida, só tinham relação com homens de vil estofa; ribaldas c ribaldos forma- 
vam uma conectividade infame, isolada no meio da sociedade. 

Embora a sociedade não tivesse contacto com a prostituição, nem por isso 
tinha uma grande continência: a fornicação e o adultério em toda a parte en- 
travam, e em todas as casas eram bem recebidos. 



i m HISTOKLA 

No seu castello, o senhor tinha um serralho de servas e pagens; no con- 
vento, o frade occultava as mais criminosas acções; na loja, o negociante de- 
sejava a mulher do seu colicga e visinho; e mesmo o iuimilde arlisfa não se 
privava dos prazeres que nada lhe custavam. Em parle alguma, naquelle trans- 
bordar de immoraiidade, a prostituição propriamente dita exerceu influencia 
perniciosa ou influiu na corrupção geral, antes teria atlrahido a si elementos 
impuros da vida social, se comsigo não tivesse o eslygma infamante, se as mu- 
lheres que d'ella faziam profissão tivessem conservado algum prestigio aos olhos 
da sociedade, se a opinião publica não tivesse infligido o mesmo desprezo e 
deshonra aos homens que ousavam penetrar nos lupanares. 

Constituída assim a prostituição, errava ella o seu fim fundamental, pois 
não servia para depurar os costumes, deixando subsistir outra prostituição li- 
vre mais activa, mais audaz e mais contagiosa. Pôde dizer-se, repetiu ol-o, que 
por espaço de muitos séculos, em França, estas duas classes de prostituição não 
estiveram ligadas entre si por laço algum, nem similhança alguma houve nos 
seus actos e pessoas. .4 auctoridade civil só d'uma d'estas prostituições se oc- 
cupava; a outra, que não tinha nem trajo próprio, nem casas especiaes, nem 
regulamentos de policia, innoculava-se em todas as classes sociaes, e espalhava 
a corrupção por entre as genercsas e brilhantes instituições da cavallaria. 

Para reformar os costumes, principalmente para lhes pôr um freio .salu- 
tar, para encaminhal-os para a honra e para a virtude, um sábio legislador, 
um phiiosopho desconhecido, um grande polilito, creou a cavallaria, que a pro- 
pósito nasceu no meio d'uma sociedade corrompida e gangrenada, fazendo im- 
perar o espirito sobre a matéria, defendendo, por assim dizer, a sociedade de 
todas as prostituições da alma e do corpo. A cavallaria foi apenas uma forma 
altrahente, dada á pbilosophia, á moral eá religião: protegeu e salvou a hones- 
tidade publica, apesar dos inevitáveis excessos dos cruzados e das influencias 
desmoralisadoras da poesia. 

Cremos que a cavallaria não foi ainda apreciada sob este ponto de vista, 
como sendo a inimiga implacável de toda a espécie de prostituição, como sendo 
a salvaguarda dos costumes : oppoz ás grosseiras c degradantes fyrannias do 
amor material, as nobres e puras inspirações do amor metapliysico: instituiu 
as Cortes do amor, aquelles graciosos tribunaes de galanteria, para abolir as 
cortes dos ribaldos; domou e pacificou as paixões dos sentidos; cimentou a vir- 
tude no respeito pelo similhanle, e por assim dizer, ergueu um pedestal de 
amorosa admiração e um tlinuio de honra, onde sentou a mulher. É este, evi- 
dentemente, o principio da cavallaria, a emancipação d'um sexo que a prosti- 
tuição tinha submetlido á mais degradante das escravidões. Ao principio, a mu- 
lher era escrava e via-se humilhada pela sua indigna condição; depois, era já 
rainha, e a sua soberania apoiava-se no amor; mas já não era o amor carnal, 
cujos gosos criminosos sullbcam o inslincto do bem e predispõem o coração 
para lodos os vicios; era o amor perfeito, o amor heróico, que nasce dos mais 
bellos sentimentos, exallando-sc pela imaginação, e desprendendo-se dos laços 
da natureza physica. 

As primeiras lições que recebia um pagem, escudeiro ou donzel, que se 



OÁ. PROSTITUrçIO I8S 

destinava á profiss.lrt da cavallaria, consistiam unicamenlp no amor a Dpus r 
ás damas, isto é, segundo Laciirno di' S.mla Polaya, a religião e a galanteria. 
Eram ordinariamente as próprias damas que se encarregavam de ensinar a es- 
tes jovens o ealheeismo c a arte do amor. 

«Parece, diz o sábio aiietor das Memoria'} da antiiia cai-allaria, parece 
que n'aquelles séculos ignorantes c grosseiros, não se podia representar aos ho- 
mens a religião sob unia fornia haslaole material, para que estivesse ao seu al- 
cance, nem siniultaneainenie dar-llies uma idéa do amor bastante pura, bas- 
tanlf" melapli}>ir:i, para prevenir os excessos de que «^ra capaz uma nação, que 
era tudo conservava o caracter impetuoso que mostrava na guerra.» 

Lacurne de Santa Peiaya não fez mais do que entrever as causas pbiloso- 
phicas da instituição da cavallaria, que na sua origem apenas foi uma barreira 
moral e religiosa, opposta ao allieismo e à prostituição. 

Para bem comprchender o espirito da cavallaria, é preciso ler na Histoi- 
re fit plaluant' chroniqw, da flit Jehui ds Siintré os conselhos que lhe dá 
a dama de Belles Cominas, quanto este na qualidade de pagem entra ao ser- 
viço d'esla princcza. A dama, que falia latim como um Padre da Egreja, com- 
menta-lhe edificantemente uns certos peccados mortaes. Vejamos em que ter- 
mos o aconselha a evitar o peccado da luxuria. «Na verdade, meu amigo, diz-lhe 
ella, este peccado tem de ser estranho ao coração do verdadeiro amante, pois 
mui -grande deve ser o seu receio de que a dama adivinhe esse pensamento 
deshonesto, e d'elle se enoje. Assim, continua ella, citando-lhe as palavras de 
Santo Agostinho : 

tLururiam fugias, ne cili noniine fias; carni non credas, ne Christwn 
iiomine cedas. 

«Isto é: iMeu amigo, foge da luxuria para que não tenhas mau nome; 
não confies na tua carne, para que peccando não oííendas a Chrislo. E a este 
respeito na sua primeira epistola diz S. Pedro apostolo: 

tiOsecro cos, tanquam advpnas et peregrinos, abstinere ws a carnalibus 
desideriis, qui niilitant adcesus animam. 

«Quer dizer, meu amigo, que vos rogo que vos abstenhaes dos desejos 
carnaes, que dia e noite batalham contra a alma. E a este respeito diz ainda o 
philosopho : 

«Sex perdu))t rere homines in miiUere: Ingenium, mores, animam, vim-, 
l.umina, cocem. 

«Isto é, meu amigo, que o homem apaixonado por más mulheres perde 
seis coisas: a primeira a alma, a segunda a intelligencia, a terceira os bons 
costumes, a quarta a força, a quinta a vista c a sexta a voz. E por isto, meu 
amigo, livra-te sempre d'este peccado.» 

A dama de BelUs Cousines termina os seus conselhos com esta citação 
de Boecio: 

«Luxuria est ardor in tmione, fmdor in recessu, brecis delectaíio corporis 
et animae destine li o. ■«> 

«Isto é, meu amigo, a luxuria é uma chamnia quando dois corpos .se 
unem, uma cousa repugnante quando se separam, breve deleite do corpo e per- 



I8'í HISTORIA 

dição da alma.» António de Salle, escrevendo a historia do Joãosiniio de Saintré', 
para prazer e recreio da còrle de Carlos vii, tirou o assumpto da sua obra de 
uma chronica da corte do rei João, e exlrahiu de um livro de. cavallaria muito 
mais antigo os documentos moraes da dama de Belles Cousines. 

As ceremonias do acto de armar cavallciros provam, todavia, melhor que 
a cavallaria foi instituída para corrigir os costumes e extirpar a prostituição. O 
noviço preparava-se para entrar na ordem da cavallaria com practicas d'auste- 
ridade e devoção, que o tornavam digno d'uma ordem monástica: jejuns rigoro- 
sos, noites d'oração n'uma egrt'ja, sermões dogmáticos sobre os principaes ar- 
tigos da fé e da moral chrislã, banhos e abluçõcs, que indicavam a pureza 
necessária no estado da cavallaria, hábitos brancos, que eram o symbolo d'es- 
sa mesma pureza. Eis aqui a preparação: uma promessa solemni- ao pé do al- 
tar de ter vida honesta ante Deus e ante os homens. 

«O que quizer entrar n'uma ordem, seja em religião, ou em matrimonio, 
ou em cavallaria, ou em outro qualquer estado, diz um dos personagens do ro- 
mance de Perceforest, deve primeiro que tudo limpar e expurgar o coração e 
a consciência de qualquer vicio, e adornal-o com toda a virtude.» 

Os numerosos escriptos em verso e prosa, que tractam dos costumes da 
cavallaria, repetem sem cessar que um bom cavalleiro deve ser o destruidur da 
corrupção. Era pois a cavallaria uma espécie de sacerdócio, que pregava com 
o exemplo para melhorar o povo, para fazel-o virtuoso, para manter a bôa or- 
dem na sociedade, e para d'ella expulsar todos os vicios. 

«Ninguém deve ser investido cavalleiro, diz o respeitável fidalgo de la 
Tour, no seu Guidon des guerres, se não deseja o bem do reino e de todos, e se 
não sabe ser valoroso na arte da guerra, e se não quer, obedecendo ás ordens 
do príncipe, apaziguar as desordens do povo e combater tudo que prejudica o 
bem coram um.» 

A prostituição nunca foi favorecida pela cavallaria, que intentava des- 
truil-a. E apesar de tudo a cavallaria, só empregava como meio eíBcaz o amor das 
damas para excitar os nobres, que desde a sua tenra edade se iam educando 
na arte da galanteria, a propugnarem pelo bem da sociedade. 

«Os preceitos do amor, diz Lacurne, cercavam as damas de considera- 
ções e respeitosas deferências, o que sempre :J caracter distinctivo da nação 
franceza. As lições que os jovens recebiam relativamente á decência, aos cos- 
tumes e á virtude foram sempre exemplificadas pelas damas e cavallciros a 
quem serviam. 

«O primeiro acto da cavallaria era a escolha d'uma dama ou donzella para 
amal-a e servil-a: assim começava o pagem da donzella os seus deveres de 
cortezia, e a esta dama dos seus pensamentos oíTerecia então todas as suas em- 
prezas e feitos d'armas. Para por cila ser amado, e merecer-lhe distincções, 
mostrava-se esforçado e valente, honesto e cortez, leal e virtuoso. O nome e as 
cores da sua dama serviam-lhe de talisman nas circumstancias mais dilficeis 
da sua vida; como santa da sua devoção a invocava na ferocidade dos comba- 
les, e se ferido cabia, cxhalava o seu ultimo suspiro n'elhi pensando c lion- 
rando-a.» 



I>\ CltiiSTirillJÀn IS) 

Nada menos se assimilliava ao amor matéria ilo (|iii- esla profunda e amo- 
rosa dcdicaçào jtor uma dama, (|iu' ordinariamcnli' não rL'eom|)ensav;i um sen- 
timento tào exaltado e Ião profundo senão eom um rasto bi-ijo: mas esle sen- 
timento cada vez mais ardente e puro era uma forea invencivel, que ineessan- 
teniente se auginciitava pela ideia fixa e peio êxtase: como uma sombra seguia 
a mullier que o inspirava, e que nem sempre lhe correspondia, e atravez do 
tempo c do espaço sem esfriar nem desistir continuava amando, a nâo ser que 
a amada, d'essc alTecío se tivesse tornado indigna. «Quanto mais amor me pri- 
veis, mais fiel e amoroso me torpareis,» dizia á sua dama Alberto de Gapen- 
sac, cavalleiro e trovador. 

Na linguagem da cavallaria nota-se uma espécie de cumprimento, que con- 
sistia em mutuamente desejar, entre escudeiros e cavalleiros, as graças ou fa- 
vores das suas damas. Estes favores limitavam-se ordinariamente a um sorriso, 
a um doce olhar, a um simples beijo, á dadiva de um cinto, ao presente (fuma 
camisa. Olivier de la .Marche termina com o cumi)rimento do estylo a carta 
que escreve ao mordomo do duque da Bretanha. (Liv. ii das suas memorias.) 
No mesmo sentido diz a rainha a João de Saintré «Deus vos dè a alegria do 
que me desejaes.» O que João de Saintré desejava, era viver junto de sua 
aiiKida : 

«Alli foram tantos os beijos dados e reccbibos, que contados não podiam 
ser, e. perguntas e respostas todas as que o amor queria e ordenava. 

«E n'esfa suavíssima alegria estiveram até que força foi partir.» 

Apezar destes beijos dados e recebidos, apezar d'estes largos colloquios 
de amor, jamais João de Saintré nem a sua dama foram além dos limites da 
verdadeira cortezia. Dizia -se que os amantes se compraziam em excitar a sen- 
sualidade, afim de provar quanto podiam combatel-a e vencel-a; mas, procu- 
rando o perigo e expondo-se a elle com orgulho, é de crer que alguma vez 
succumbissem. Este amor quasi mystico ao qual tudo era permitlido, excepto a 
ultima expressão dos seus mais ardentes desejos, não temia satisfazer com cerl;i 
medida os seus appetites sensuaes: frequentemente crcr-se-hia ver aquellcs 
terríveis assaltos que o demónio da carne dava aos santos d;!S lendas, e a])enas 
serviam para, depois de novos esforços, escudados com o pensamenio do Re- 
demptor e de sua divina Mãe, firmar uma nova vietoria. 

Cavalleiros e damas não fugiam da tentação, com|)raziani se até em d"ella 
Iriumphar, e todas as vezes que não iam além do amor decente e virtuoso, 
não davam recusa a algumas compensações de sensualidade melaphysica. 
Por isso o famoso castellão de Couey, que partira para as cruzadas, enviou 
uma camisa que para lá levara vestida, a uma dama de Fayel, que amava com 
puro amor de cavalleiro, embora ella estivesse em poder de marido e não ti- 
vesse intenção de ser adultera de facto, posto que de intenção o fora. .\ 
dama, quando o amor a impedia de dormir, vestia de noite esta camisa, ima- 
ginando que o contacto do panno na sua carne macia eram os beijos ardentes 
fio seu amante. São estas as jjroprias palavras da dama de Fayel, nos cantares 
do castellão Covey. 

Tudo era amor e só amor na cavallaria: mas amor leal e discreto, cujo 

UísTOHU DÀ 1'aosTiTuiçÃo. ToMO II— Folha H. 



1 86 HISTORIA 

código foi redigido pelo Mestre Andrés, capellão de Luiz vii, sob o titulo di- 
Prvicipalia amurin praecepfa. Nem uma só lei ha n'este código, que não ti- 
vesse sido escripta sob a inspiração dos mais nobres sentimentos c da mais 
respeitável moral. Disso se pode ajuizar pelas seguintes máximas: 

«Não te apoderes de favores que te recusem (in amores exercendo sola- 
liutii, coluntntis non e.ccedas amantis). 

«Ainda nos mais vivos transportes do amor, nunca percas o pudor (z» 
amoris praestando solalium et recipiendo, omnis debet verecundia rubor adesse.)» 

Quanto está distante similhante doutrina da Arte de amar de Ovidio! 

O Mestre Andrés, apesar de capellão, não era noviço era amor, mas a de- 
finição que do amor dá, tal como deve ser honestamente practicadn, não pa- 
rece ir de accoi-do com os costumes do digno clérigo : 

«O amor paro, diz, c aquelle que absolutamente une com os laços d'uma 
ternura intima o coração de dois amantes; mas este amor consiste na contem- 
plação espiritual e na paixão ardente. Pode chegar até ao beijo, até ao abraço, 
até ao contacto da carne núa, esquivando-se sempre ao ultimo estremecimento 
do amor.» 

Esta legislação do amor não era lettra morta. A cavallaria tinha estabe- 
lecido em cada província, e especialmente nas do meio-dia. Cortes do amor e 
Tribunaes da galanteria, areópagos femininos, onde se discutiam todas as cau- 
sas do amor. Estas sessões eram celebradas de tarde, á sombra d'um olmeiro 
secular; o tribunal era presidido por um cavalleiro distincto, chamado Prin- 
cipe do amor ou da mocidade, eleito pelas damas de que se compunha a corte, 
e que tinha por accessores grandes personagens da nobreza e do clero. 

A forma dos julgamentos era a mesma que nos tribunaes de justiça real 
e senhorial, todavia as sentenças tinham sempre um caracter metaphysico e 
não applicavam aos réus nenhum castigo corporal ou pecuniário: era unica- 
mente a censura o castigo dos culpados. 

Estes Tribunaes do amor, de que faziam parte as mais nobres e honradas 
damas, eompriam missão mais delicada ainda, quando doutoralmente resolviam 
as questões do amor que lhes eram propostas. 

«Emfim, diz Papon, na sua Historia da Provença, a galanteria era de 
tal modo o espirito dominante d'aquelle século de ignorância, que em tudo se 
misturava, sendo o thema, o logar obrigado, de todas as conversações. .4s da- 
mas, os cavalleiros, e os trovadores exercitavam-se discutindo seriamente so- 
bre esta importante n)aleria ; nenhum sentimento do coração escapava á sua 
sagacidade; todos os casos eram previstos e resolvidos.» 

Attribuição foi sempre das Cortes do amor o pronunciar sentenças n'esta 
questões diíliceis c minuciosas, que os advogados de ambas as partes discu- 
tiam com grande exaggero de eloquência c sciencia amorosa. 

Deve comprehenJer-se bem o influxo que similhante jurisprudência teve 
na prostituição; nas sentenças de amor que até nós chegaram não se notam cir- 
cumstancias graves accusadoras da conducta licenciosa d'uma ou outra das par- 
les litigantes. Não se encontra um acto de libertinagem otíensor da moralidade 
dos juizes: em nenhumas d'ellas se encontra o amor, a causa de todos estes 



s 



DA rit(isirriiiçÃo 187 

litígios, acompanhado de manifestações obscenas. Todas eslas causas são pec- 
cadilhos d'amanfes, ligeiras bagafellas de cxaggerada galanteria; nn, se o pro- 
cesso era mais grave, a corte do amor transformava-se em tribnnal de honra. 

Um secretario, enviado junto d'uma dama, esquece os seus deveres de 
intermediário e confidente, e supplanla aquelle que o enviara, requestando 
por sua conta a dama que -foutro era. A condessa de Flandres, assistida de ses- 
senta damas, condemna os culpados, declarando-os excluídos da companhia das 
damas e dos conselhos plenários dos cavalleiros. 

Mestre Andrés cita outro exemplo de jurisprudência amorosa. Um amante 
para tomar outra abandonou a sua amada, mas em breve cansado da segunda 
requestou de novo a primeira. Esta desprezou-o, mas além d'is.so denunciou o 
seu procedimento á viscondessa de Narbonna. O tribunal do amor presidido pe- 
la viscondessa resolveu que o volúvel amante ao mesmo tempo perdesse o af- 
fecto d'uma e d'outra das requestadas, por não ser digno de possuir o coração 
d'uma mulher honrada (mdlas probce (emince debtdt ulteriíis amore gaudere.) 

Condemnar com tanto rigor a inconstância d'um amante não era decerto 
ser indulgente com a prostituição. 

Mas com maior rigor era castigada a infidelidade da mulher, pois que 
uma dama cujo amante desde aniios fazia a guerra na Palestina foi accusada 
perante o tribunal da condesa de Champagne de ter acceitado as declarações 
d'um outro. A dama allegou em sua defeza que se havia conformado com as 
leis do amor, que ordenavam prantear por dois annos o amante que se finara, 
e que o amante que não dá noticias suas pôde, sem que aggravado seja, assi- 
milhar-se a um morto. Mas a condessa de Champagne resolveu cm these que 
a mulher nunca deve abandonar o seu amante por causa de prolongada ausên- 
cia. 

Os tribunaes das damas eram inexoráveis para com tudo quanto se assimi- 
Ihasse á prostituição do corpo, ou do coração. Um cavalleiro que encheu de 
presentes uma dama a quem amava e de quem em recompensa não recebeu fa- 
vor algum queixou-se á rainha Leonor de Goyena, mulher de Luiz vii, e esta 
bella princeza tão competente na matcríra proferiu esta memorável sentença: 

«A mulher deve repellir todas as dadivas que com intenção amorosa se 
lhe façam, ou se as recebe deve pagal-as entregando o seu corpo; mas em tal 
caso colloca-se na cathegoria das cortczãs.» {Ilist. des mceurs ei de la vie 
prhée des [rançais, por E. de la Bcdollíère, t. iii, pag. 324 e seg.) 

Roberto de Blois, no seu poema Chastoimenl des dames, reproduz esta 
máxima fundamental do direito de amar, a respeito da questão de uma mulher 
receber joías do homem que a requesta. 

Os Decretos do amor (Ar reis d'amoiir) que Marcial d'Auvergne eolligiu 
e redigiu nos fins do século xv, e (jue um' chistoso jurisconsulto commentou 
em estylo palaciano, não são d'uma moralidade muito severa e alguns parecem 
d"uma galanteria algum tanto devassa. Cremos, pois, não emanarem das anti- 
gas Cortes do amor da Provença, mas serem leitos no tempo de Marcial d'Auver- 
gnc n'alguma corporação de damas e cavalleiros, formando tribunal á similhança 
dos grana jours de Pierrefeu, de Signes e Romanin. Já não é esta a doutrina 



i SN HISTORIA 

siiiiplus c austera da cavallaria piimiliva, ijiie não tomava o amor como tli\ci- 
timento: é uma galanloria refinada, mas maliciosa e libertina; senle-se que o 
amor se materialisa c vè-so passar com frequência e sem grande escrúpulo aos 
prazeres mais sensuaes. Este tribunal também differe das verdadeiras Cortes 
do amoi' em impor muitas às vezes consideráveis e penas corporaes aos delinquen- 
tes, que têem como perspectiva o látego, embora brandido por mão de damas. 

As questões são julgadas por juizes de dilTerentes instancias ou reeui-s.is, 
como o mniri'- dos ho-sques virdes, o bailio da alegria, o cetjuer dos amores, etc. 
Os títulos d'esíes magistrados fazeni-nos suspeitar que a sua jurisdicção era 
apenas uma brincadeira. D'entre os extraordinários pleitos que Marcial d'Au- 
vergne coUigiu, escolheremos dois por onde se avaliará o que os outros va- 
liam. No século \i, ha uma dama que apresenta uma queixa contra o .seu amado, 
perante o juiz dos bosques e das aguas sobre (actos de amor, aceusando-o de 
a ter feito cahir ao rio para lhe apalpar as nevadas pomas (pnur Ini mettre la 
main sur les tetins;) e \ioy tal a offendida requer que o audaz amante seja 
severamente punido coi» castigo publico. 

O amante contesta que tendo com ella cabido á agua não era aquella a 
occasião mais própria para apalpai' fosse o que fosse. 

Todavia o procurador dos amores nas aguas e nos bosques responde ser 
proiíibida pelas oi'<lenaeões a caça ardilosa, caça em que taes peças (as pomas) 
jiódem cabir, e termina, pedindo para o caçador uma pezada multa. 

O amante replica que, se lançou as mãos ao peito da dama, foi isso uma 
consequência da queda, sendo então natural agarrar-,se ao que mais próximo 
lho ficara. 

O tribunal considerou este argumento, todavia resolveu que o amante 
desse á amada como indemnisação de lhe ter molhado o vestuário, um vestido 
novo de còr verde. 

No quarto pleito uma dama também é a queixosa. Accusa o amante de 
lhe ler beijado o vestido tão bruscamente que lhe rompeu o corpele, de modo 
(|ue se chegou a ver alguma cousa da camisa. Pede, pois, que a tão violento 
enamorailo seja prohibido o tornar a tocar-lhe sem sua licença. Este pedido da 
dama foi completamente deferido, e por mais que o amante protestasse, foi a 
sentença em ultimo recurso confirmada pelo maire dos bosques verdes. 

As sentenças dos tribunaes do amor não eram as únicas a condemnar as 
más acções dos que pertenciam á jurisdicção cavalheiresca; a opinião <lava tam- 
bém as suas sentenças e não perdoava, quando recabiam sobre acções vergonhosas 
e reprehensiveis, nem ao nascimento, nem á jerarcbia, nem á riqueza. O ser 
bem conceituado era condição tão essencial para os homens, como para as mu- 
lheres, que por honestas queriam passar, nem os mais poderosos senhores e nem 
as mais illustres damas p-uliam sublraliir-se ao vitupério da gente humilde. 

«As damas que, respeitando-sc a si próprias, respeitadas queriam ser, diz 
l.acurne de Santa Pelava, bem certas estavam (jue ninguen» lhes faltava á con- 
sideraçàíj devida: mas se pela sua cj)nducta, pelo seu procedimento, davam lo- 
gar a legitimas censuras, deviam rcceiar encontrar cavalleiros dispostos a fa- 
zer-liies essas censuras.» 



iiA piiiisrnuiçÃd 189 

O cavalleiro do la Tour toiítava em 1371 a suas filhas que o modelo do 
cavaliaria messiir .lontViov se tinha consagrado á repressão do mau procedimento 
das damas. 

«Quando cavalgava pelos campos e via um castello habitado por alguma 
dama, perguntava sempre a (|uein pertencia. Se a dama proprietária era accu- 
sada de algum facto deshonesto, ainda que tivesse de torcer meia légua não dei- 
xava de ir até junto da porta do castello, onde com um lápis fazia um signal 
na porta para que fosse escarnecida. Ao contrario, quando passava em frente de 
um castello de dama ou donzella bem afamada, se não tinha muita pressa vi- 
sitava-a e dizia-lhe: «Minha boa amiga peço a Deus quen'essa situação ho- 
nesta vos conserve, para que sejaes honrada e adorada.» — E por este meio as 
honestas cuidavam em cousa alguma fazer que lhes prejudicasse a sua honrosa 
fama.» 

Não se sabe qual fosse o signal feito pelo cavalleiro JeoíTroy nas portas 
das damas mal afamadas, signal que provocava o desprezo dos que passavam, 
o que a gente do povo não deixava de fazer, quando encontrava alguma mulher 
de má vida. 

Apezar de tudo, se a moralidade publica, graças á cavaliaria, fazia pro- 
gressos (liariíjs em todas as classes da sociedade, e se difliindia até ás mais Ín- 
fimas, a prostituição dos seus antros infamados continuava deshonestando a 
linguag(>m usual e as poesias dos romanceiros. Estes poetas da lingua d'oil não 
eram como os trovadores, cavalleiros ou escudeiros, creados nas Cortes d'amnr 
e desde cedo educados pelas lições da galanteria. 

Os romanceiros, geralmente <le origem popular, conservavam nas suas 
obras a macula original, e applicavam a composições de grande estro, de grande 
amenidade e malícia, a crua e gros.seira linguagem apprendida com seus pães ; 
chamavam a todas as cousas pelo seu nome e com preferencia empregavam a 
expressão mais popular, e que sempre era a mais pittoresca. Os seus primeiros 
ouvintes eram sempre os villões, e se este publico tinha grande competência 
no que era jovial e burlesco, não era em demasia rigoroso para as obscenida- 
des das descripções e das palavras. 

E não pára aqui tudo. Os romanceiros que abandonavam o arado para 
fazer romances e canções abraçavam uma vida vagabunda e desordenada, e to- 
dos se faziam libertinos vivendo com os. histriões que com razão passavam por 
serem os homens mais depravados. Estes histriões compunham ordinariamente 
versos que cantavam ou recitavam mais ou menos intelligcnlemente, acompa- 
nhando-os de pantomimas, danças e gestos. E' certo que algumas vezos o actor 
era conjunctamente o romanceiro e o histrião, mas isto .só acontecia excepcio- 
nalmente, pois que os romanceiros não eram tão desprezailos como os histriões. 

Com effeito estes últimos mereciam bem o desprezo com que por todos 
eram tratados. Dados a lodos os vícios, e especialmente aos mais infames, ne- 
nhuma lei social reconheciam e vagabundeavam d( povo para povo, de cas- 
tello para castello, arrastando atraz de si grande multidão de mulheres fáceis 
e de crianças: tinham pois escola de prostituição. Não eram todavia ricos; mui- 
tas vezes eram encontrados semi-nús, como os descreve um poeta do século 



I9U HISTORIA 

xui, suns sorliiii ei sans colelle, i(mi oh sapatos rolos o coltorlos úa lombas. 
Estes miseráveis linham sido lodos rdiicados e creados nas Cartes dos Milaçires, 
segundo é de crer : os seus coslnmes e linguagem d"isso linham sempre vesli- 
gios, e eram elles os que percorrendo o paiz, corromfjiam a lingua e os costumes. 

Ao principio, appareceram nas reuniões lioneslas, nos festins de gala, nas 
lestas cavalleirescas, e alii recitavam canções de gestas, as epopeias phantas- 
licas da Tavola Redonda e de Carlos Magno; ent.ão excitavam o enthusiasmo 
do auditório, composto de senhores e damas, que se não cançavam de ouvir 
recitar feitos de armas e de amor. Appareciam, no emíanto, dessiminadas por 
aquelles velhos romances scenas bastante livres e lermos licenciosos, mas a in- 
tenção do poeta era sempre correcta e o histrião nada accrescentava á indecen- 
lia do quadro. Então eram elles generosamente pagos; davam-se-ihes vestidos 
novos, e .'.ustento para elles, para seus auxiliares e animaes, pois que ensina- 
vam lambem macacos, cães c pássaros habilidosos em diversos exercícios; 
dava-se-lhes pousada no castelli) c quando, com os alforges bem recheados, 
partiam, eram convidados a voltar. 

Mas este paraizo no reinado de S. Luiz transformou-se n'um inferno: os 
romanceiros ainda faziam canções de gesta de doze a vinte mil versos; mas os 
histriões já não as decoravam e tão pouco as recitavam : notável transforma- 
ção se havia feito no gosto; já se não desejava ouvir á mcza os feitos maravi- 
lhosos do rei Arthur, ou .Vrturo, e do imperador Carlos Magno; preferia-se me- 
ditar estes assumptos no retiro dos gabinetes. Os histriões de boa vontade se 
prestaram a este capricho da moda determinado pela influencia das cruzadas ; 
aligeiraram pois o .seu reportório, e só contavam contos amorosos e devotos. 
Os romanceiros, pelo menos aquelles que se inspiravam na consciência popu- 
lar, corresponderam ao favor com que eram recebidos os seus contos, e inven- 
taram um grande numero d'clles mais alegres uns que os outros, que se divul- 
garam ao som da role, por toda a parte onde o riso honesto ainda tinha eeco. 

Mas o abuso não tardou muito a fazer condemnar este género de di- 
versões: os romanceiros excediam os limites da decência nas suas composições, 
c os histriões ainda mais exaggeravam a obscenidade; luis r outro's foram con- 
siderados como instrumentos do demónio e se lhes imputou, com justiça tal- 
vez, um novo desenvolvimento na prostituição. 

O piedoso Luiz ix protegia todavia a musica, por isso que depois de comer 
c antes de dar graças recebia os tangedorcs que diante dVIle t()cavam; mas 
esta benevolência i-eferia-se unicamente á musica e não á Icttra, pois que, se- 
gundo um te\lo antigo, adoptado em muitas edições dtí Joinville, expulsou do 
seu reino a todos os charlatães, «os quaes no seu povo muitas sensualidades 
introduziam». Estas sensualidades não desagradavam comtudo a certos nobres, 
que apezar das castas lições da cavallaria moslravara-se apaixonados parli<la- 
rios da gaia seiencia, e nunca fechavam a porta aos mais libertinos histriões : 
mas em geral os pobres tangedorcs eram como os leprosos afugentados dos cas- 
tellos, e os seus instrumentos, aniuinciando a sua presença á beira dos fossos 
d'uma residência senhorial, nblinham o mesmo resultado que os cães ladrando 
á lua. 



DA PRUSTITUigÀII 191 

Segundo um apologo salyrico, cscripto om laliui por a(iuolla ópoca (Fa- 
hliaux de Legran d'Aussy, t. iv, pají. 3')7), Deus ao crear o tnumio, n'(>llt' ool- 
locou três espécies de homens : os nobres, os clérigos e os villócs. Aos primei- 
ros deu as terras, aos segundos os diziínos o as esmolas, c aos Icrceiros o Ira- 
ballio e a miséria; mas feita assim a divisão, os tangedores e ribaldos reclama- 
ram pei-ante Deus para que lhes fosse fixada a sua sorte e lhes fosse dada al- 
guma cousa com que viver. 

«O Senhor, diz o auctor do Apologo, ordenou aos nobres que alimentas- 
sen) os tangedores, e aos sacerdotes que soccorressem os ribaldos. Estes obede- 
ceram a Deus e por isso se poderão salvar; mas aquelles, os nobres que em ne- 
nhuma conta tem tido as ordens de Deus, não devem esperar salvação.» 

Os histriões, não sendo já recebidos nos castellos, completamente esque- 
ceram os cantares de gestas e a poesia honesta; tinham encontrado um publico 
mais fácil de contentar-se, menos escrupuloso sobre a natureza dos seus pra- 
zeres ; batiam á porta do popular e do mercador, e ao sentar-se nas tabernas 
c na casa dos bons plebeus que os recebiam com jubilo, tinham a certeza de 
fazer escancaradamente rir o auditório com os seus contos licenciosos, que con- 
tavam depois de ter bebido. 

Estes contos, preciosos monumentos da imaginação e jovialidade dos nos- 
sos antepassados, formam uma notável collecção, somente publicada em parte 
por Barbazan c traduzida por Legrand de Aussy. D'este rico reportório, Boc- 
cacio, Ariosto, l.a Fontaine e outros muitos poetas extrahiram assumptos e ideias 
cómicas a que só nova forma deram. 

«A collecção dos romances, diz Emilio de tíedollière, abunda em inven- 
ções chistosas e c-m traços de communicativa jovialidade, mas também às ve- 
zes contém repugnantes obscenidades: as mais sujas palavras da língua fran- 
ceza são alli prodigamente empregadas; as funcções mais vulgares do corpo hu- 
mano são assumpto para grosseiras chocãrrices; as partes mais secretas do 
corpo são alli descriptas com (ermos que fariam corar as prostitutas de hoje.» 

E em appoio d'esta apreciação geral dos romances do século xiu e xiv. o 
notável auctor iki Historia dos costumes e da vida particular dos Irancezes cita 
alguns títulos escolhidos na edição de Barbazan ; mas que nós omittiremos por 
decência. 

Para ler uma ideia d'esta litteratura é preciso ler os contos mais livres 
de La Fontaine que se deleitava na leitura dos romanceiros, mas, nem mesmo 
assim serão comprehcndidas as monstruosas liberdades d'aquelles poetas, que ti- 
nham o seu Tarnaso iium bordel, se se não compararem as suas obras com as 
de rirevourt, Piron e Robbé, desavergonhados romanceiros do século xviii. 

«E' evidente (diz ainda Bedollière, t. iii da obra citada, pagina 3íl), que 
os nossos antepassados pronunciavam, sem espanto nem pudor palavras que 
nós proscrevemos; mas ainda assim, não eram alheios á delicadeza, e os con- 
tos escandalosos inspiravam justa i-epugnancia ás pessoas honestas.^) 

Com elíeilo, no Jeu de Rohin et Marion. comedia lyrica re|)resentada no 
século XIII, e cujo auctor. Adam de Hale, ei-a um dos romanceiros mais esti- 
mados do seu tempo, um dos personagens da peça, chamado Gauthier, sob pre- 



192 . HISTORIA 

(exto (Je recitar uma sirventa, (\\z uma sórdida poesia. Robin interrompe-o, 
censurando-o: — «Basta, basla, (lautliier, não quero ouvir essa canção!» 

Os tocadores ambulantes tiniiam concorrido para a propagação da linguagem 
obscena, recitando e cantando as poesias dos trovadores, e estes cuja reputa- 
ção litteraria recommendava convi modelo na arte de versificar e de bem dizer, 
exerciam uma funesta iniluencia, tanto na linguagem escripta, como na lingua- 
gem fallada; pois que qualquer que em prosa ou verso- escrevia, com este exem- 
plo se auctorisava para usar das palavras mais indecentes, e para descrever as 
imagens mais impudicas. 

Os trovadores nas compoáições de generu íikiís rle\;ulo não se corrigiam 
do mau costume de misturar com a linguagem poética a linguagem. dos bordeis 
c labcruas. 

O auctor do celebre romance Partenoplex de Blois faz uma descripção em 
cores tão vivas e indecentes, que nos limitamos a dar a seguinte amostra : 
«Abriu-Hie as pernas, e quando n'ellas introduziu as suas, roubou-lbe a flor da 
virgindade.» 

O auctor do romance de (Varin não põe na bocca dos seus personagens 
linguagem mais decente. 

.\'s vezes o trovador Ir.iíaxa de um assunsplo serio, sem por isso niu^lar de 
vocabulário. Nos Milagres de ISossa Senhora, o pnefa traductor, a (juem o assum- 
pto edificante não bavia purificado, comprazi;i-se em descrever os episódios de 
uma noite ri' noivado, em que graças á immaculada Virgem o noivo desempe- 
nhou um bem triste papel, contando-se alli em termos desbragados as infructi- 
feras tentativas do pobre esposo para consummar o matrimonio n'aquena noite. 

Os poetas e escriptores que não tinham bocca na corte, isto é, que não co- 
miam á meza dos reis ou dos príncipes, não sabiam liem distinguir entre a lin- 
guagem honesta e a deshonesta: ignoravam o valor real das palavras e nem se- 
(|uer suspeitavam que a lingua tivesse diversos termos, rada ijiial apriiiiriado ao 
seu assumpto. O sentimento da delicadeza litterari;\ tão pour" lhes fazi:i |)revèr 
que, |)assan''io d um assumpto profano para um assumpto sagrado, deviam mudar 
de linguagem. 

l,'m (fesies escriptores foi encarregado, paia uso de um príncipe de França, 
de verter em francez a santa Bíblia. O traductnr fez o seu trabalho com toda 
a consciência de que era capaz, e não teve escrúpulo de introduzir na sua ver- 
são lilleral um grande numero de palavras, (|ue («mbora empregadas por Moy- 
sés em hebreu, não podiam ser admittidas nas Santas Escripliiras transplan- 
tadas pai'a o francez. 

Todavia, esta traducção foi copiada por um serilia em [lergamiMliii, or- 
nada de miniaturas e formosamente encadernada. Assim chegou ás mãos dos 
reis de França que, por espaço de muitas gerações, leram a Bíblia n'aquelle 
bello inanuscripto, sem se escandalisarem por em cada pagina encontrarem coi- 
sas semelhantes ás seguintes, que Paulin Paris transcreve no seu excellente 
Catalofiue dn inanuscrit-t [rançais di' la Uihíiolhéque da lloi : 

«E n'aqui'lle tempo disse Deus a Abraháo : toilos o^ vossos vaióes siMáo 
circumcisados e eireumcisareis a carne da vossa |i • . , i'm signa! da ;ilhaiiea 



DA PROSTITUIÇÃO 193 

entre mim e vós. Então Abrahão tomou seu filho Ismael c todos os varões de 
sua casa e circumcisou a carne das suas p. . . (Et autres foijs dist Dieii à 
ibraham: Chacun masle de vous será circumsis et wus circumsirez la char 
de wtre v- . ., que ce soit en signe de lien entre may et vous. Lors mena Abra- 
h/tm Ismael son fils et tous les fraiikes mesmes de la maison et tons les males 
«t tous les louvriers de sa maison et il circumsisa la char de leur c. . .» — 
Cap. 17, versic. iO e 23.)- 

«Nosso Senhor certamente se lembrou de Rachel, e abriu-lhe a sua. . ., 
que concebeu, e pariu um filho. (Notre Seigneur d de certes se rememora de 
Rachel et overi son c. . ., laquelle conceust et enfanta un fils.» — Cap. 39-22.) 

«Irritaram-se pela desfloração de sua irmã e responderam : Abusaram de 
noss.a irmã como d'uma p. . . — lis se courroucèrent pur le despucelage de leur 
sorour... et ils respondirent : Dussent-il avoir usé nostre sorour pour putage. 
— Cap. 34, i3 e 31). 

Esta Biblia franceza conserva-se, sob o numero 6701, entre os manus- 
criptos da Bibliotheca Nacional, e só causa admiração que, em vez de ser des- 
tinada ao uso dos Reis Christianissimos, não tivesse sido traduzida para uso 
(íns bordeis de Glatigny, de Tyron e Brisemiche 

De resto, os moralistas e pregadores que se dirigiam ao povo e lhe fal- 
lavam na sua linguagem não eram mais circumspectos na escolha dos termos 
que levantavam da lama para misturar com as cousas santas. S. Bernardo jul- 
gava ainda pregar em latim, quando n'um dos seus sermões energicamente 
dizia : Vieille femme, menant pute vie de corps, esl putain. 

Outro pregador do mesmo tempo tomou para texto do seu discurso estas 
palavras do Propheta-rei : Laus mea sordet eo quod sit in ore meo, que inter- 
pretou com toda a energia do seguinte modo: O meu louvor não 6 mais do 
que trampa e porcaria. 

A linguagem da prostituição tudo invadiu, até a própria Egreja, que te- 
ve a prudência de prohibir aos fieis a leitura dos livros santos, indignamente 
traduzidos para estylo vulgar. 



li»T<J»u OA PEOSTnmcû. Tono ii — FolhI 25. 



CAPÍTULO XVíll 



SUMMARIO 



CustumHS públicos e particulares Jesdc. o swulo xj.— João Flora, bispy de OrleaQS.— U Golias da prosUtui- 
vlo.— Excentricidades licenciosas do duque de Aquitania.— As cruzadas e os cruzados — As trezintas mulheres fran 
oas.— AS concubinas da hoste do rei.— A rcctaguarda dos exércitos em campanha. -As mil prostitutas do capitão 
(iarnier.— Joanna d'Aic, em Sancrre.— Ordenação d'esta heroinn contra as ribaldas da milícia.— Como a cavallaria 
comprehendia a hospitalidade.— Decadência dos costumes cavalheirescos.— AbnminaçSes do reinado de Carlos vi.— 
ámia Pledeleu.— Indulgência de Ambrósio de Lore, preboste de Paris, para com as prostitutas. 




INCONTESTÁVEL quc a cavallaría soube reprimir os excessos da 
prostituição, sem que lograsse extirpal-a dns costumes públi- 
cos. 

A partir do século xii, notou-se um movimento favorável 
nos costumes públicos e particulares, apezar da acção sempre 
corruplura da poesia popular, que finalmente devia acabar por substituir a poe- 
sia heróica ; sem duvida ha ainda uma grande dissolução de costumes entre os 
nobres e o povo; mas ainda assim os primeiros já não dão o exemplo da mais 
abominável perversidade. Embora os costumes do Oriente se tivessem introdu- 
zido nos costumes dos cruzados, o peccado contra a natureza já não era tão 
frequente, como na corte da Normandia em 1120. 

Segundo Guilherme de Nangis, um prelado já não ousa apresentar descara- 
damente as suas torpezas, como o fez aquellc bispo d'Orleans, chamado João, 
que em 1092 pelos seus mancebos (concuhii) se fazia appellidar Flora, e que 
ouvia os infames adolescentes dados á libertinagem, que cantavam de noite pe- 
las esquinas as canções impudicas, compostas em honra sua: Quidam enim sui 
concubii, diz o venerando Ives de Chartres, n'uma caria dirigida ao papa Urba- 
no II, appelleant eiim Floram, multas rhythmicas cantilenas de eo composue- 
runt, quw fcedis adolescentihus, sicul no.ttris miseriam terre illius, per urbes 
Francice, in plateis et compitis, cantitantur. 

Estes eseriptores satyricos não perdoam, é certo, aos vicios da sua époeba, 
uccusam a avareza, o orgulha, a crueldade e a gula dos seus senhores ; mas 
não lhes pôde ser censurado, como aos historiadores do século xi, o viverem 
nos antros da sensualidade (impudici latis barathriim.) Odorico Vital afQictiva- 
mente exclamava, que a licenciosidade já não conhecia limites, e que já se não 
seguiam os exemplos dos iieroi's, mas sim os passos da mais desenfreada pros- 
tituição: não se cançava de amaldiçoar os iniquidades do seu tempo (seviíia 



190 HISTORIA 

iiúqui (emporis, diz, no livro in da sua chronica;) todavia, no meio das espan- 
tosas licenciosidades do século xi, a Egreja activamente trabalhava na reforma 
das ordens monásticas, e a cavallaria, cuja instituição se attribue a um velho 
ermita, descidr. d'uni throno(lradicção symbolica, provavelmente,) começava a 
regenerar a nobreza, corrigindo-lhe os seus maus costumes. 

Só á salutar influencia da cavallaria se piíde attribuir a conversão do 
maior peccador que o século xi produziu. Entre tantos filhos do diabo, como 
então eram chamados, (iuilherme, nono do nome, duque da Aquitania e conde 
de Poitiers, foi, para nos servirmos de uma figura biblica, o Golias da prosti- 
tuição, qualificado por Emilio de la Bedolière como o Desaiergonhado do un- 
Jeclmo século. E segundo o juizo d'um trovador contemporâneo (Choix de poé- 
sies orig. des Trouhadours, t. v, pag. Hoj o maior libertino e seductor de 
mulheres, cuja fama percorreu o mundo. (Si fo uns deis maiors trichadors de 
dompnas et anet lonc teinps per lo mon per enganar las donnas). Todos os pro- 
cessos eram bons para elle, comtanto que lhe facilitassem as suas conqui.sta.s 
amorosas: não desdenhava as suas humildes vassallas, e tinha especial ten- 
dência para as religiosas, a quem ia seduzir nos próprios conventos. 

Já mencionamos o seu projecto de bordel, feito pelo modelo das abbadias, 
e destinado a receber uma communidade de mulheres publicas, sob a direcção 
das mulheres mais desavergonhadas do Poitou. Não se sabe a causa porque, de- 
pois de estar construído o edifício, não se pòz em practica o seu projecto. Ena- 
morou-se da bella condessa de Chatellerault, chamada Malborgiana, e vivia com 
eila em concubinato, tendo abandonado a mulher legitima. 

Mandou pintar no seu escudo o retrato da sua amante, dizendo que a 
queria levar aos combates, como ella o levava para o leito (dictitans se illam^ 
velle ferre in prctlio, sicut illa portabat eum in íriclinio). 

Guilherme de Malmesbury, que conta na sua chronica as excentricidades 
licenciosas do duque da Aquitania, deixa perceber que esfe grande libertino, 
embora ama.sse a condessa com grande paixão, não lhe era todavia fiel. 

Uma noite de sabbado d'Alleluia estava o duque n'nnia egreja, onde se 
pregava a respeito da resurrcição de Jesus-Christo. 

— Que fabulai Que mentira! exclamou elle, desatando ás gargalhadas. 

— Se é essa a vossa opinião, disse-lhe com vivacidade o pregador, para 
que permaneceis aqui? 

— Vim aqui, respondeu o impio, para vér as galantes raparigas que assis- 
tem á festa. 

Uma outra vez, estando enfermo, e como o frade que lhe assistia á ca- 
beceira o julgasse em perigo de vida, dizendo-lhe : 

— Irmão meu, preparae-vos para uma santa morte: 

— O que tu querias, respondeu-lhe o moribundo, era que eu deixasse os 
meus bens aos parasitas, isto é a vos.sês ; mas juro-fe que não vos deixarei 
nem um obulo. Pelo que respeita á minha libertinagem, nem me arrependo 
nem me emendarei, se d'esta escapo: pois que homens mais sabedores do que 
tu me teem aflirmado (]ue as mulheres são um bem commum, e que entregar-se 
qualquer ás suas caricias é apenas um peceado venial. 



ti\ PRiiSTITlIÇÃO 197 

Comtudo nã(t morreu iia inipenitencia final, porque innuenciado pelas 
regras da cavallaria, repenfinamente passou do culto da matéria á contempla- 
1^0 espiritual, dn incredulidade á té, do escândalo da sua vida immunda, ás 
praeticas edificantes do ascetismo, ('om etíeito, tendo-se feito soldado de Chris- 
to, expiou os seus peccados com exemplar arrepenflimento. Já então era velho 
e não podia continuar com os seus amores, como no tempo da juventude, ainda 
que se soccorresso das excitações fictícias, que o charlatanismo medico oflerecia 
aos velhos lihertinos, e cujas receitas foram compiladas pelo douto Arnaldo de 
Villeneuve sob o titulo : Ad virgam erigendam. 

Guilherme de Aquilania nos seus bons tempos levou muito longe as suas 
investigações sensuaes, e a fama honra-o com algumas receitas eróticas de sua 
invenção, que também se encontram nas obras de Arnaldo de Villeneuve, que 
por pudor as traduziu em latim: íí desiderium et dulcedo in coilu augmenMi- 
tur. — Lt mulier haheat dulcedinem in coilu. 

As cruzadas foram o mais bello monumento da cavallaria, e todavia nào 
pôde negar-se que aquella prodigiosa multidão de homens de todas as edades, 
de todas as classes e paizes, alentaram no seu seio os germens corruptores da 
prostituição. O abbade Fleury, fallando d'aque]les exércitos innumeraveis, que 
cahiam sobre o Oriente, diz com razão que eram peiores que os exércitos ordi- 
nários : 

«Imperavam nVsses exércitos todos os vicios; os que os perigrinos ha- 
viam trazido dos seus respectivos paizes, e os que haviam adquirido nos pai- 
zes estrangeiros.» 

Já mencionamos, sob a auctoridade de Joinville, que na primeira cru- 
zada de S. Luiz os barões tinham os bordeis em volta da tenda real. Maior 
devia ter sido o escândalo nas cruzadas precedentes, principalmente na pri- 
meira, que revolveu a Europa antes de transformar o Oriente. 

«Os cruzados, diz Alberto de Aix, portaram-se como gente grosseira, in- 
sensata e indomável, emquantn o amor carnal n'elles abafou a chamma do 
amor divino. Traziam comsigo um grande numero de mulheres vestidas de ho- 
mem, e na sua companhia viajavam sem distincçào de sexo. entregando-se á 
sensualidade, (*) {Hixt. des Gauks, t. xix, pag. 684). 

Alberto d'Aix accrescenta alguns pormenores que nos permittem advinhar 
outros mais escandalosos : 

«Os perigrinos não se abstiveram das reuniões illicitas, nem dos praze- 
res da carne; incessantemente se entregavam a todos os excessos da meza, di- 
vertindo-se com mulheres casadas e solteiras, que só abandonavam para com 
outras se entregarem ás mesmas loucuras e vaidades.» 

Para explicar as vaidades a que o chronista se refere, é preciso lembrar- 
luo-nos dos innumeros vagabundos e fanáticos que violavam as virgens, des- 



(') O auclor do livro De Gesta Urbani II liiuita-se a iiieueiouar o facto: 
Innumerabiles feminas secum habere non timuerant. qiiae naturalem habitum m«t- 
rileni nefarie niHtaverunt. rum quibus fornicaverunt. 



1 98 HISTORIA 

lnmrando a hospitalidade que se lhes dava iia Hungria. (Puellis eripiebatur, 
oiolentia ablata, virginitas: desknneslabantur conjugio.) Não foi sem causa 
que a mão de Deus se estendeu sobre aquelles miseráveis, «que haviam pec- 
i'ado na sua presença, revolvendo-se no lodo dos prazeres carnae'*.» Nem a 
terça parte d'aquelles bandidas chegaram á Palestina. 

.\s Cortes dos Milagres e os Jogares da prostituição tinham dado largo 
contingente ao exercito dos cruzados. Era n"esfe exercito que os ribaldos, os 
/)ic'i mi, os truões e os vagabundos, formavam phalanges terríveis, augmentadas 
com as mulheres perdidas, que iam em companhia dos seus amantes resgatar 
a Cruz! 

Mas além d'isso todos os exercites da Edade-Média eram sempre segui- 
dos de um grande nuniero de gente de ribaldia, que acompanhava a bagagem 
e a saqufava em caso de derrota. Os soldados não podiam passar sem este cor- 
tejo embaraçoso e incommodo, servindo-se das mulheres para recreio, e dt)s 
homens para os ajudarem n'algumas fadigas e principalmente para aniquila- 
rem a região por onde passavam. 

Os cruzados não renunciaram aos costumes guerreiros, ao dedicarem-se 
à conquista do Santo Sepulchro, e quando as mulheres lhes faltaram na Pales- 
tina, onde a religião mahometana se oppunha a todo o contacto illicifo com os 
christãos, mandaram vir da Europa um reforço de prostitutas, que também a 
seu modo concorreram para o triumpho geral das cruzadas. 

Um historiador árabe, Ben-ad-Eddin, conta, que durante o cerco de S. 
João d'Arce, em 1189, «trezentas mulheres francas, recolhidas nas ilhas, che- 
garam n'um -barco para consolação dos soldados francos, a quem inteirameute 
se entregaram, pois que estes soldados não entram em combate se de mulhe- 
res os privam.» 

O mesmo his(oriad.)r, citado por Hammer na sua Historia do império 
Otlomano, accresccnta que o exemplo dos francos foi contagioso para os ini- 
migos, que também quizeram mulheres para o seu exercito, onde nunca ha- 
viam sido toleradas. Aquella multidão de mulheres acompanhou sempre a re- 
ctaguarda dos exércitos francezes, até aos fins do século xvi. deofíroy, monge 
de Vigeois, calcula em mil e quinhentas o numero das concubinas que seguiam 
as hostes do rei em 1180, e os adornos para estas reaes cortezãs (meretrices 
regice) custaram sommas enormes (quarum ornamenta inestimabili thesaiiro 
comparata suni). Este chronista sem duvida allude ás mullieres directamente 
dependentes do rei dos ribaldos, as quaes não exerciam a sua vil industria 
sem pagarem um tanto a este empregado palaciano. 

Emquanto ás ribaldas livres e nío auclorisadas, o seu numero devia ser 
vinte vezes maior, principalmente nos exércitos irregulares, como os das cru- 
zadas, e como aquellas Grandes Companhias, que se punluiin a soldo-d"aquelle 
que mclliur lhes lhes pagava e maior saque liies promettia. 

O monge de Vigeois enumera as dilTerentes espécies de soldados (sodoyers) 
que nos tins do século xu, como pragas de gafanhotos, assolavam as re- 
giões por onde passavam: Primo liasculi ; post modum Tlieutlwnici ; Flandren- 
xes ; et, ut rusticè loquar, BrminK-os. Hatmuyers, Asperes. Pailler. !\adar. 



DA PROSTITUIÇÃO 499 

Turlan, Vales, Roma, Cotarei, Catalan, Aragonês, quorum dentes et arma 
omnem Aq)iiíaniam croroserunl. Cada um d'estes corpos de milícia devasta- 
dora levava alraz de si um grande numero de prostitutas, que incessantemente 
augmentavam, i' que tomavam parte no saque das cidades conquistadas pelo 
fogo c peio sangue. 

Por Ioda a parte, na historia militar da França e das demais nações da 
Europa, se encontra essa influencia das mulheres libertinas, nos exércitos em 
campanha: a recfnííuarda compunha-se sempre d'essas mulheres e dos seus 
companheiros, rlbaldo-; e truôes, para quem, segundo uma expressão já consa- 
grada, nada era fatigante nem pesado quando se tratava do saque. Esta recta- 
guarda incommoda era ordinariamente tão numerosa como o resto do exercito. 
Na Chronica de Modena, escripta por João de Bazans (V. a grande coUccção de 
Muratori, t. xvi, pag. 600) lé-se que um capitão allemão chamado Ganiier, 
que á frente de hez mil e quinhentas lanças invadiu o território de Modena, 
de Régio c de Manlua. em priíicipios do anno de 1342, levava na rectaguarda 
das suas tropas mil prostitutas, mancebos e ribaldos (mille merelrices, regalii 
et ribaldi.) 

Os caudilhos da guerra, por mais honestos que fossem, nada podiam con- 
tra esta prostituição; teriam visto sublevar as suas tropas e abandonar uma 
bandeira que n.ii> protegia as mulheres destinadas au passatempo do sol- 
dado. 

Só Joanna d'Arc, que linha um grande horror pelas mulheres deshones- 
tas, finboraos inglezes lhe chamassem Putain des Armignats (Hist. de França, 
pop Michelet, t, v, pag. 73), conseguiu tirar da sua missão divina bastante au- 
toridade para expulsar do exercito do rei todas aquellas impudicas ribaldas. 
Primeiro que íudo, ordenou que os soldados se confessassem <.<e fez-lhes aban- 
donar as suas mulheres,» diz n auctor anonymo das Memorias concernentes a 
esta casta heroina. 

«E' dé saber, diz João Chartrier, na sua historia de Carlos vii, que de- 
pois da batalha de Patoisy, adita Joanna mandou apregoar que homem algum 
do seu exercito tivesse em sua companhia mulher infame ou concubina.» 

Todavia foi mais forte o costume que esta ordem, e algumas d'aquellas 
mulheres, que se viam appoiadas pelos amantes, atlrontavam as ordens da don- 
zella. Esta, n'uma revista que Carlos vu fez em Sancerrc, antes de partir de 
Rennes, viu «muitas mulheres libertinas, que impediam alguns soldados de cum- 
prir os deveres do serviço,» e desembainhando a sua espada de Fierbois, correu 
para aquellas miseráveis, ferindo-as por tal forma que a lamina se despedaçou. 

Carlos sentiu muito este acontecimento, e disse á heroina que melhor 
fora ter pegado n'um pau, para não ter perdido assim a espada que possuia 
por milagre. 

A donzella comprehendeu que a presença de uma mulher prejudicava a 
disciplina do exercito, e para não excitar a sensualidade nos seus companhei- 
ros de armas vestiu-se de homem. «Parece-me, dizia, que d'esta forma con- 
servarei melhor a minha virgindade de corpo e alma.» Com efíeilo a sua vir- 
gindade nenhuma otTensa recebeu, apesar de «muitos grandes senhores quere- 



200 HISTORIA 

rem saber se seriam adrnittidos na sua companhia carnal : mas qnando a viam 
tão galhardaiiienle vestida, lodos os maus desejos lhes passavam. 

A ordenação de Joanna d'Air confra as ribaldas ila milicia não lhe so- 
breviveu, sendo apenas um parenthese de honostidade na vida dos homens de 
guerra, que não se separaram das ssuis mulheres. E' possivel que aquella mul- 
tidão de mulheres dissoluta;*, aggregadas ao serviço permanente de um exer- 
cito, tivesse ás vezes influencia favorável nas consequências ordinárias da to- 
mada de uma cidade, porquf o soldado, tendo a sua amada entre as mulheres 
publicas do exercito, mostrava-se menos propenso ao ultrage e violação das 
prisioneiras. 

Seja como íòr, o numero das mulheres communs, filiadas, para assim di- 
zer, sob a bandeira de um cabo de guerra, diminuía ou augmentava, conforme o 
bom ou mau êxito da expedição. N'aquelle tempo em que o saque era condi- 
ção inevitável da guerra estas mulheres, apoderavam-se da melhor parte da 
presa. 

Quanto mais provido e melhor pago era um exercito, tanto mais aflluia 
de toda a parte a prostituição. Assim, o exercito que Carlos, o Temerário, duque 
de Borgonha, levou ao paiz dos suissos, em 1 476, estava amplamenf'" pro- 
vido de pt^ssoal feminino, e depois da derrota de Granson, os vencedores en- 
contraram no campo do duque, refere Filippe de Commines «grande multidão 
de serventes, mercadores e prostitutas;» mas os suissos ligaram pequena im- 
|)ortancia a esta espécie de prisioneiros, e pelo que respeita ás prostitutas, sol- 
faram-nas, e deixaram-nas vaguear á vontade pelos campos, julgando que tal 
mercadoria não traria grande proveito para os seus concidadãos. 

Apezar d'esta indifferença para com as cortezãs flamengas e borgonhezas, 
os suissos não tinham sob as suas bandeiras vida mais austera que o seu ini- 
migo; pois que, em tempo de paz, mantinha-se nas povoações á custa do es- 
tado um certo numero de mulheres publicas, que em tempo de guerra se in- 
corporavam nas companhias de cada cantão. ÍRec. d'édits et d'ordon. roy. por 
(Neron e Girard, 1720, tit. i, pag. 643.) 

Voltemos á cavallaria, que fnem sempre dava exemplos de castidade e 
continência. Os cavalleiros que entretinham amores platónicos com as damas 
e donzellas de alta gerarchia, sem d'ellas obterem mais do que favores hones- 
tos, ás ; vezes um beijo, indemnisavani-se d'estas privações com as creadas e 
camponezas. 

Fornecer de mulher o leito de um cavalleiro que pedia asylo n'um cas- 
tello, era um uso de hospitalidade. L. de Santa Pelava, a propósito d'este uso cor- 
tez, cita uma passagem muito curiosa de um romance, em que um dama que 
deu hospitalidade a um cavalleiro, não se quiz deitar sem lhe mandar uma com- 
panheira de cama. 

A castellã também não era muito escrupulosa: talvez a leitura da Arte 
do amor, composta pelo trovador Guiart, o poeta das immoraes lições galantes, 
tivesse alTeiçoado esta dama a similhante género de prazeres. E' de crer 
que nem em todos os castellos houvesse similhantes costumes. Um poeta do 
século XIII Iranquillisa-nos a este respeito, e pelo modo como ataca a prostitui- 



DA PllOSTITUlÇÃO 201 

yão nas cidades, deduzimos que havia uma grande superioridade moral nos 
costumes e liabitos da cavallaria d'esse tempo. 

As leis munieipaes pozeram um freio á prostituição, como já dissemos, 
e a nobreza geralmente corrigida pela cavallaria, distinguiu-se do povo por cos- 
tumes mais regulares e pelo menos mais honestos na apparemúa. Mas o povo 
poi' sua vez se corrigiu, emquanto que a cavallaria entrava cm decadência, c 
os nobres se entregavam a lodos os excessos, (|ue ate enttão tinham evitado; 
gahavam-se, todavia, de serem t.ão bons cavalleiros como os seus antecessores. 
Esta decadência dos costumes cavalheirescos começou sob o reinado de Car- 
los VI. 

«Melhor tempo foi o antigo», diz E. Deschamps, um poeta d'esfe reinado, 
lamentando-se, e são muito justas as suas queixas em presença das orgias da 
corte, em que Carlos vi c seu irmão, o duque d'Orleans, que se jactava de 
manter a verdadeira cavallaria, tinham esquecido, como parece, os seus virtuo- 
sos preceitos. Os torneios celebrados em 1389 em Saint-Dcnis em honra do rei 
de Sicilia e de seu irmão, que foram armados cavalleiros, acabaram n'uma hor- 
rível saturnal, de que foi theatro a ahbadia. O religioso de S. Dyonisio, na sua 
chronica de Carlos vi, julgou não deixar passar cm silencio as desordens da 
quarta noite. 

«Os senhores, diz elle, fazendo da noite dia e entregando-se a todos os 
excessos da meza, chegaram pela embriaguez a taes desordens, que sem respeito 
pela presença do rei, muitos dclles mancharam a santidade da casa religiosa 
c cntregaram-se á libertinagem c ao RáuUevio (adinconcessam venerem el adiil- 
leria nefanda prolapsi sunt). 

As casas religiosas n'aquella época tinham costumes tão relaxados como 
a corte do rei e dos príncipes; a Egreja tinha caiiido no mesmo grau de deca- 
dência que a cavallaria, e a sociedade inteira parecia caminhar para a dissolu- 
ção. Não queremos penetrar nos conventos senão para levantar o véu que co- 
bria os vicios dos frades c freiras. A prostituição tinha-se apoderado da casa 
do Senhor, como da casa dos grandes da terra.. Os pregadores n'aquelle tempo 
repetiam com frequência estas palavras do Anjo do Apocalypse : 

«Vinde, mostrar-vos-hei a condemnação da opulenta prostituta que está 
.sentada sobre as grandes aguas, com a qual se corrom|)crani os reis da terra, c 
(jue embriagou com o vinho da prostituição os habitantes do orbe.» 

Com etfeito, nada pôde expressar bem as abominações do reinado dy Car- 
los VI, em que ó clero, a nobreza e o povo competiam em torpeza e preversão. 
Como seria a vida da corte, quando .a vida do claustro era tão-dcploravcl como 
nol-a descreve Nicolau de Clemenges, arcediago de Bayeux, no seu tratado De 
corrupio stala ecdesiw ? 

«A propósito das virgens consagradas ao Senhor, diz este philosoiilio 
christão, seria preciso expor todas as infâmias dos logares do prostituição, Io- 
das as manhas e desavergonhamcntos dascortezãs, todas as obras execráveis da 
fornicação e do incesto; .senão, diz-me, que são hoje em dia (em 1400) os 
mosteiros de mulheres, senão sanctuarios consagrados, não ao culto do ver- 
dadeiro Deus, mas ao de Vénus? senão impuros receptáculos, onde a juvcn- 

BiSTOBiA DA Pbostitoição. Tomo II — Folha 26. 



203 HISTORIA 

tude desenfreada se entrega a todas as desordens da luxuria? O mesmo é vestir 
o veu a uma joven que expôi-a pu!)licamente n'um logar de abominação.» 

Nicolau de Ciemenges leva até á hyperbole a critica dos costumes mo- 
násticos, mas a desmoralisação dos ccclcsiaslicos era muito escandalosa, e não 
podia dizer-se se era a Egrcja quem desmoraiisava a cavallaria, se a cavallaria 
quem desmoraiisava a Egreja. Dulaure, cujo testemunho é geralmente suspeito, 
appoia-sc cm auctoridadcs respeitáveis para esboçar este quadro dos costumes 
clericaes e cavalbeircscos : 

«Os prelados e sacerdotes subalternos andavam ordinariamente vestidos 
com trajo secular, cingiam espada, entravam nos torneios, frequentavam as 
tabernas, mantinham concubinas. Os sacerdotes e os curas occupavam-se em 
empregos judiciaes, emprestavam dinheiro a juros e enlregavam-se aos exces- 
sos da meza e da sensualidade. iValgumas dioceses, os grandes vigários obti- 
nham licença para commctler adultério por espaço de um anno; n'outras, podia 
comprar-se o direito de fornicar impunemente por toda a vida: o comprador 
d'este privilegio impudico não tinha mais que pagar certa quantidade de vinho 
annualmentc, e este encargo tornava-se vilalicio, ainda que a edade inhabili- 
tasse o privilegiado de fazer uso da sua extranha licença.» 

Nas decretaes dos papas, encontra-se a auctorisação d'estes abusos : o câ- 
none De dilectissimis eshorta os christãos á pratica d'este axioma : Tudo é com- 
raum entre amigos; até as mulheres, accrescenta. Para obíer licença de com- 
metter o peccado infame durante os mezes caniculares, houve quem tivesse a 
audácia de recorrer com instancia ao papa Xixto iv. Sua santidade despachou 
n'este sentido, palavras textuaes: Como se pede. (Hist. de França, pelo abbadc 
Villy, tit. V, pag. 10 e seguintes.) 

E' verdadeiramente notável que as ordenações reaes e municipaes contra 
a prostituição nunca fossem tão frequentes nem tão severas como durante aquelle 
periodo de desmorali-sação. Com as mulheres publicas não se tinha piedade, 
quando a decência e o pudor pareciam desterrados dos costumes, quando só es- 
tavam em moda os vestidos dissolutos, apezar dos edictos sumptuários. 

Havia resuscitado a moda dos sapatos de polaina, e d'aquelles adornos 
obscenos que os enfeitavam no século xii, segundo Odorico Vital, mas agora 
mais lubricamente caracterisados. 

Verdade é que as mulheres não ousaram adoptar os accessorios de seme- 
lhante calçado, mas em troca usavam vestidos abertos, ou arregaçados que dei- 
xavam A'cr a perna quasi toda núa. Emquanto ao seio lraziam-n'o descoberto 
até ao mamillo. O auctor do Chastoienunt des dames, Roberto de Hlois, censura 
estas modas impudicas, n'uns versos, cujo sentido é o seguinte : 

«Nenhuma encobre o peito, para que se veja a alvura da carne. Algumas 
ha que deixam apparecer as costas e as pernas. O homem honesto não louva 
estes desaforos.» 

As ccremonias da Egreja, sobretudo as procissões, participavam também 
d'esta indecencia de trajos, por(|ue em muitas d'ellas tomavam parte homens e 
mulheres completomente nús. 

A este respeito Ic-se na ílisloria de Paris, de Dulaure : 




Castigo do uma adultera no Berry, no século XV 



DA PROSTITUIÇÃO á03 

«Entre os penitentes, uns levavam pedias atadas ás camisas; outros eom- 
pletamente nús eram ílagellados, e outras vezes picados com alfinetes nas ná- 
degas.» 

N'esta passagem Duiaure não exaggcra nem inventa, como o leilor pôde 
facilmente vereficar no Glossário de Ducange e Carpenlier, nas palavras: Peni- 
tentiCR, processiones, villanice, lapides calenalos ferre, putaíjium, naticce, ele, 
Qucr-nos parecer que os penitentes que seguiam as procissões em completa nudez 
c que se faziam picar com alfinetes, eram prostituías, exactamente como as 
que levavam pedras atadas ás camisas, porque taes eram precisamente os cas- 
tigos ordinários, infligidos pela justiça secular ás mulheres de escândalo. Du- 
iaure cita-nos um exemplo notável, exfrahido por elle dos registros criminaes 
do parlamenlo do Paris : 

Anna Piedoleu, mulher de maus costumes, tinha uma casa de prostituição 
na rua Saint-Martin, em contravenção das disposições das ordenanças prebos- 
taes. O preboste d'essa cpocha, o famoso Hugo Aubriot, fazia executar rigoro- 
samente as leis, e tendo recebido uma queixa da visinhança, mandou os seus 
agentes a casa da Piedeleu, a quem tractaram com toda a indulgência, por isso 
que se limitaram a fazel-a desalojar, sem ([ue em seguida a prendessem. 
No emtanto a Piedeleu contava sem duvida com a protecção de algum alto 
personagem, capaz de f;izer frente ao preboste, porque em seguida a esta vio- 
lência querellou do magistrado, accusando-o de mui los crimes e apresentando 
testemunhas d'elles, no intuito de o perder. 

O parlamento, ouvidas as conclusões do advogado do rei, e evidenciada 
a falsidade da accusação, condemnou em 1374 a Piedeleu a ser passeada comple- 
tamente núa pelas ruas da cidade, levando na cabeça uma coroa de pergami- 
nho com o dislico de Falsaria. Foi assim arrastada ao pelourinho do mercado 
publico, e alli esteve duas horas exposta, indo em seguida para a prisão, d'ondo 
apenas saiu, quando mais tarde foi condemnada a desterro perpetuo. 

Os espectáculos d'esle género nas ruas tia cidade deviam ser demasiado 
frequentes n'aquella époeha, e o povo assistia a elics com extraordinário prazer. 
Como as ribaldas e proxenetas assim expostas tiritassem de frio e tossissem 
muitas vezes, em consequência dos rigores da estação e do seu estado de com- 
pleta nudez, os espectadores, sobre tudo a parte mais juvenil e mais gaiata, 
costumavam então cantar uma canção obscena, adrede composta para estes casos. 
Pode lèr-se o estribilho indecente, que a terminava no Journal du Bourgeois 
de Ptiris : 

Viilre C. a la loux; commére, 
Votre C. a la toux, la toux I . . . 

A iniciai C. facilmente será decifrada pelo leitor, curioso d'estes sarcas- 
mos da musa popular. 

Era natural que muitas d"aquellas desgraçadas respondessem ás canções 
impudicas e iiisultantes com injurias c pragas. Assim, quando a tosse epi- 
demica invadiu a população de Paris, no inverno dtí 1413, os indemnes ou 
mesmo os que já estavam curados d'aquella tosse incommoda e cruel zombavam 



2()'l- HISTORIA 

(los doentes, dizendo-llies entre vários outros cliistes, mais ou menos graciosos 
e livres : 

Votre C. a la luu.r, cntiiniére, 
Volre C. a la toiíx, la toií.v! . . . 



O estribilho ireste caso fazia allusão a toda a espécie de males, á lepra, 
á sarna, á tosse, tantas vezes rogados nas suas imprecações aos cruéis espe- 
ctadores do seu supplicio, pelas desgraçadas expostas ao frio e aos insultos no 
bárbaro pelourinho de mercado. Não havia compaixão para com estas peccado- 
ras, como já dissemos, e as creanças era quem mais encarniçadamente as 
perseguia. A auctoridadc julgava proceder de harmonia com o sentir una- 
nime da sociedade, recusando-ihcs toda a espécie de indulgência. 

Houve, no emtanto, um preboste de I'aris, que as tomou sob a sua pro- 
tecção e lhes concedeu um appoio lalvez exaggcrado. Foi este magistrado Am- 
brozio de Loré, barão de Juilly, nomeado em 1 i3G, e fallecido no exercicio do 
seu cargo em 14io. O povo de Paris não lhe perdoou haver favorecido a pros- 
tituição, deixando cahir em desuso os antigos regulamentos. Emquanto durou 
a sua administração, as prostitutas tiveram uma espécie de liberdade, vestindo- 
se como queriam e habitando em todas as ruas, segundo bem lhes parecia. 
Ambrozio, no seu leito de morte, arrependeu-se de ter sido tão paternal para 
com as mulheres publicas, e quiz reparar as desordens que a sua lenidade ha- 
via introduzido na policia dos costumes. 

«Uma semana antes da Ascensão, refere o Bouryeoiíí de Paris, no seu 
Diário, foi lançado um pregão cm todas as ruas da cidade, para que as ribaldas 
não usassem cintos de prata, nem- colleirinhos voltados, e para que fossem vi- 
ver nas bordeis, que lhes haviam sido destinados n'outro tempo.» 

Esta tardia satisfacção dada á opinião publica não fez olvidar os escân- 
dalos que a haviam precedido, e quando Ambrozio morreu, poucos dias depois, 
o Boiírgeois de Paris eiicarregou-se da oração fúnebre do alto funccionario, e 
declarou-o menos amante do bem publico, do ([ue todos os seus predecessores 
nos quarenta annos mais chegados. 

Accrcscenta o mesmo papel que o preboste tinha uma das mais bellas o 
honestas mulheres do mundo, mas «era tão lúbrico c dado aos prazeres venéreos, 
que linha trez ou quatro concubinas, e levava a sua fraqueza pelas nuiliíercs 
devassas ao ponto de consentir as prostituías por toda a parte, existindo no seu 
tempo em Paris um grande numero d'ellas, o que lhe grangeou entre o povo 
péssima reputação, por causa d'esta sua tolerância para com as prostitutas c 
onzeneiras.» 

Ambrozio de I.orc, antes de ser preboste de Paris e de ser tão benévolo 
para com as mulheres publicas, fora um dos mais valorosos cavalleiros das 
hostes de Carlos vii; no emtanto, os seus feitos de armas não o haviam tor- 
nado mais honesto, embora fosse contemporâneo de muitos cavalleiros de vida 
exemplar e bons eostumes. l'assára a sua mocidade na corte de (larlos vi, onde 
a cavallaria consistia apenas em torneios e mascaradas; não pertencia áquella 
plêiade de cavalleiros castos e honestos, que, como o marechal de 13oucicaut, 



DA PROSTITUIÇÃO 203 

pensavam que «a luxuria é a coisa d'esle inundo mais indigna de iim valente 
iiomem de armas.» 

O bom messirc João Le-Maingre, diz a respeito de Boucicaut «que o mare- 
chal nunca inferiu aggravo á castidade, quando foi governador de Génova, cidade 
em que as occasiões de peccado o procuravam sem cessar; mas o lidaigo tem 
cm si próprio as virtudes contrarias á sensualidade. Nunca pensou cm diver- 
lir-se deslionestamenie com as genovezas: era para ellas, como se fosse de pedra, 
embora as damas fossem muito galanteadoras c bem dispostas, e houvesse entre 
ellas algumas de rara formosura. Um dia em que sahiu a cavallo com a sua 
comitiva de oííicíacs pelas ruas de Génova, uma dama que estava penteando os 
abundantes e louros cabellos, chegou á janella para o ver passar. O marechal 
não fez caso, mas um dos seus officiaes não poude deixar de exclamar : «Oh ! 
que hella mulher I» O marechal fingiu não o ter ouvido, mas como o oíficial 
se voltasse de novo para ver a dama, disse-lhe com um olhar glacial que se- 
guisse o seu caminho, sem dar occasiào a escândalo e sem se importar com 
aquella mulher». 

O i)iograp!io, que escreveu os feitos de Boucicaut, accrescenta estas pala- 
vras: «Assim, o marechal está limpo do vicio carnal, e é da mais perfeita c 
completa continência.» 

Boucicaut havia sido educado na corte de Carlos v, que punha a casti- 
dade acima de todas as virtudes, segundo diz o seu biographo Cliristino de 
Pisan ; — e esta virtude era por elle severamente guardada nos pensamentos, 
nas palavras, e nas obras. Carlos v, tão severo para comsigo n'este ponto, não 
o era menos para com seus servidores, os qnaes desejava que fossem castos, 
«nos vestidos, nas palavras, nas obras, e em tudo.» Quando sabia que alguém 
da sua corte tinha deshonrado uma mulher, embora fosse seu favorito, despe- 
dia-o severamente da sua presença, c para sempre do seu serviço. 

No emtanto, não lhe faltava caridade christã para com os peccadores, 
e tendo em cOHsiderat;ão a fragilidade humana, jamais consentiu que um ma- 
rido condemnasse sua mulher a penitencia perpetua por crime de adultério, 
tolerando apenas que a conservasse encerrada em casa, quando fosse muito 
leviana, para não causar vergonhas á familia. 

Prohibia severamente que se introduzissem livros deshonestos na còrle 
da rainha e dos príncipes. Disseram-lhe um dia que um fidalgo da corte havia 
instruído o delphim em certo jogo deshonesto. O rei despediu immediata- 
mente o fidalgo, prohibindo-lhe formalmente que se apresentasse de novo na 
presença da rainha e de seus filhos. 

Chrístino de Pisan, que refere estas particularidades no Livro dos feitos 
e bons costumes do defunto rei Carlos, diz-nos ainda que o solicrano não ad- 
mittia á sua mesa os que proferiam palavras desbragadas, e que considerava as 
representações theatraes como predisposição para a luxuria. Accrescenta que o 
monarcha repetia frequentemente o texto da epistola de S. Paulo aos Corin- 
Ihios : — .l.s- más palavras corrompem os bons costumes. 

O reinado de Carlos vi e parte do de Carlos vu foram manchados por 
todos os vícios e crimes, que o rei Carlos v tanto procurara extirpar do seu, e 



2Utí nisroaiA 

a prostituição que este excellente monarclia soube severamente reprimir com o seu 
exemplo, não conheceu depois do seu tempo nem barreiras nem limites. 

Para se fazer ideia do grau de preversidade a que haviam chegado alguns 
nobres, que se entregavam a todas as aberrações da libertinagem, ij.ista lôr-se 
nos archivos de Nantes o processo criminal de Gil de Rctz, marechal de França, 
condemnado ao supplicio da fogueira em 1440. 

Gil de Retz era um dos mais poderosos senhores da Bretanha. Havia ser- 
vido valorosamente a Carlos vii na guerra contra os inglezes; combatera com 
Dunois e Lahire sob o estandarte de Joanna d'.\.rc, e era um homem de letíras. 
A leitura de Suetonio bavia-o, porém, incitado a imitar as monstruosas desor- 
dens dos imperadores romanos. .4paixonou-se, como Tibério e Nero, pelas sen- 
sualidades sanguinolentas, e o seu mais grato divertimento era corromper com abo- 
mináveis caricias umas infelizes crcanças, que fazia roubar por toda a parte. 
Quando estas innocentes creaturas eram bonitas, servia-se d'ellas como instru- 
mento de prazeres infames, ou degollava-as com as próprias mãos. 

A superstição e a magia eram os auxiliares favoritos das suas abomina- 
ções. Tinha uma capella magnifica onde havia cliantres e cónegos porcUe sus- 
tentados, e mantinha do mesmo modo um collegio de magos e feiticeiros, com 
os quacs fazia invocações ao espirito das trevas. 

Este homem execravel, que tantas analogias teve cora outro preverso, que 
mais tarde apparecerá n'esta obra, o marquez de Sade, foi alfim accusado pe- 
rante os tribunaes, preso conjunctamente com os principaes agentes das suas 
infâmias, e julgado por um tribunal extraordinário, que para este ca.so nomeou 
seu primo, o duque da Bretanha. As averiguações judiciaes chegaram a provar 
os horrores da accusação. Nos subterrâneos dos castellos de Chanfocé, de la 
Suze, de Ingrande, etc, foram encontrados os ossos calcinados e as cinzas das 
creanças, que o marechal de Retz havia assassinado, depois de ter abusado da 
sua innocencia. 

O próprio criminoso confessou tudo, e não podendo esperar indulgência da 
parte da justiça humana, pediu perdão ao juiz supremo, ante o qual ia com- 
parecer. 

Os depoimentos dos cúmplices de Gil de Retz iniciam-nos nas scenas 
verdadeiramente horríveis, de que era theatro o velho caslello de Chantocé. 
Henriet, cam.areiro do marechal, declara «que Gil de Sille e um certo Pontou, 
haviam entregado muitas creanças ao dito senhor de Retz, com as quaes crean- 
ças eile marechal se enthusiasraava e cohabilava pelo ventre, tendo com isso o 
seu prazer e deleite; que nunca tinha copula com alguma das dilas creanças 
mais que uma vez ou duas, e que depois as degollava por sua própria mão, e 
algumas vezes Gil de Sillé, Henriet e Pontou as degoliavam na camará do re- 
ferido marechal, e que alli mesmo eram as creanças mortas, limpando-se 
o sangue, que caía sempre no mesmo sitio. As creanças eram depois queima- 
das na mesma camará e as cinzas deitadas fora, e que o marechal sentia mais 
prazer em degolal-as, do que em ter copula com ellas.» 

Interrogado novamente, Henriet completou estas primeiras revelações com 
os seguintes pormenores. Disse que «tinha ouvido dizer ao dito marechal de 



DA PROSTITUIÇX» t07 

Relz que sp comprazia exlraordinariamenlc cm ciírlar a cabeça ás creanças de- 
pois de as haver gozado pelo ventre, segurando-lhes as pernas entro as suas. 
Que outras vezes se sentava sobre o ventre das creanças depois de lhes ter 
cortado a cabeça, e outras lhes fazia uma incizão no pescoço, por delraz, para 
que se esvaíssem em sangue, pouco a pouco, e n'esse estado as gozava até 
morrerem, e ás vezes mesmo depois de mortas, emquanlo estavam quentes. 
Dizia que ninguém no mundo podia saber ou fazer o que elle tazia. Havia oc- 
casiõcs, em que o mesmo marechal mandava esquartejar as creanças, goznndo 
extraordinariamente em ver espirrar o sangue. 

«O mesmo marechal, depoz ainda Henriet, para evitar que as creanças 
gritassem na occasião em que pretendia gozal-as, pendurava-as pelo peser)^to 
por meio de uma corda a três pés de altura a um canto do quarto, e antes de 
morrerem, desprendia-as, obrigava-as a excitarem-lhe o membro com a mão, 
e em seguida refocillava-se bestialmente sobre o ventre d'ellas, degollando-ns 
quando saciava a sua feroz bestialidade.» 

Tão espantosas revelações foram confirmadas por Estevam Pontou. o 
favorito do marechal e um dos seus cúmplices. Este miserável não precisou de 
ser submettido á tortura para confessar os crimes de seu amo e os seus, accrcs- 
centando novos pormenores aos que Henriet havia declarado. O marechal de 
Retz dava dois ou três escudos por cada creança que lhe levavam, e manda- 
va-as encerrar secretamente n'um dos seus castellos. As creanças eram indi- 
fferentemente dos dois sexos, e as meninas gosava-as também por meio de in- 
cisões no ventre, confessando que se deleitava mais assim, do que se as go- 
zasse pelo órgão sexual. 

Gil de Relz, depois d'estas revelações, não teve remédio senão confessar 
os seus crimes. 

Declarou que tinha muitas vezes gosado assim as creanças por ardor e 
deleite de luxuria, e que costumava niandal-as matar pelos seus confidentes, ou 
serrando-lhçs o pescoço com uma serra, ou cortando-lhes a cabeça, ou ([ue- 
brando-lhcs o craneo ás pauladas, ou de qualquer outro modo. Que outras ve- 
zes as esquartejava elle próprio ou os seus cúmplices, costumando também 
abril-as para lhes ver as entranhas, pendurando-as de um gancho de ferro para 
as estrangular. Que assim mesmo moribundas as gosava, e outras vezes lam- 
bem logo que morriam e emquanto os seus cadáveres estavam quentes, e que 
tinha um prazer extraordinário em vèr assim as bellas cabeças das creanças, 
e que terminava quasi sempre as suas moslruosidades por mandar queimar os 
cadáveres das suas victimas. 

Perguntaram-lhe quando e como concebera a infernal ideia d'aquella8 
sensualidades diabólicas, e respondeu : 

«Que havia começado aquelle género de vida em Chantocé, no anuo cm 
que seu avô, o sire de Suze, morrera; e que ninguém a isso o incitara, pois 
que se havia dado áquellas sensualidades e infâmias simplesmente para gosto 
e satisfação da sua grande luxuria.» 

Ao ouvirem estas espantosas revelações, feitas com a maior tranquilli- 
dade, os juizes benziam-se de assombrados. O mímstro d-' condemnado com os 



208 HISTORIA 

seus prevcrsos cúmplices; mas a coudemnayão não o anniquilou. Animou os 
seus cúmplices a jazerem uma boa morte, para que podessem d'alii a pouco 
vèr-se novamente na grande alegria do paraíso. 

O marcchiil foi suppliciado a 26 de outubro de lií-O junto da ponte de 
Nantes. Esfranguiaram-no sobre a fogueira, e entregaram o corpo á familia. 
Houve enlào muilas damas illustres que se apressaram a receber aquelle ca- 
dáver manchado, o encerraram n'uma urna, e o levaram sol-emnemenle á egreja 
dos Carmelitas, onde foi enterrado, deixando nos espectadores do supplicio a 
recordação do seu arrependimento e do seu fim chrislão. 



CAPITULO XIX 



SUM.MARIO 



ApparecimeDto das moléstias venéreas em Fiauça. — Origem da sypbilis, gallico ou mal f rancei .— ís- 
pantosos progressos d'eíta aQecçJo venérea em lins do seculu XV. e seu curso atravez da Edade-lktlia.— A elephan- 
tiasis o outras degenerarões da lepra. — A raenlagra easherpes. — A íwes !«//i(iiiarí(i.— Perigrinação aos lo- 
L'ares santo.;.— A pgreja de Xolre Dame em Taris.— O fogo .íar raio,— Vicio dos normandos.— O mal dos ardentes.— 
Seus horríveis estragos — O mal de Saint-llain e o fogo de Santo António.— Invocafões a S. Karcello e a Santa Ge- 
noveva.— A syphilis do século XV.— Os leprosos e as gafaria-s.— Policia sanitária a respeito dos lepmsos.— Caracteres 
gcraes da lepra. 




Jl APPAUECiMENTo, OU para melhor dizer, o deseiivolvinienlo das 
li moléstias venéreas, tanto cm França como em toda a Europa, 
mudou de certo modo a face da prostituição legal, e esteve 
mesmo a ponto de produzir o seu definitivo extermínio. Em 
presença das terriveis enfermidades que vinham atacar nos ór- 
gãos da vida a sociedade inteira, os homens mais iliiislrados e mais exemptos 
de preoccupações, tiveram de reconhecer que a libertinagem publica era a causa 
única de tão cruel flagello, ao passo que os espíritos meticulosos e crédulos o 
consideravam como um castigo do ceu, fulminado contra a incontinência, e 
applicado precisamente á fonte de todos os prazeres impuros. 

Foi então e só então que os magistrados se arrependeram amargamente 
de ferem auctorisado e organisado o exercício do peccado, que tão fataes con- 
sequências produzira, e o primeiro remédio que opj)ozei'am á invasão d'esta 
nova e terrível peste foi a suspensão dos regulamentos de tolerância, em vir- 
tude dos quaes havia em cada cidade mu foco permanente de infecção mor- 
bosa. 

iSo cmtanlo, bem depressa se julgou inútil estorvar o curso regular da 
prostituição, quando se reconheceu que o mal não provinha unicamente dos 
estabelecimentos tolerados. Adoptaram-se, é verdade, medidas de policia sani- 
tária que ainda até então não haviam sido prescriptas, c a vida dissoluta das 
mulheres publicas ficou submettida á inspecção da medicina. Foi um progresso 
notável no regimen da tolerância pornographíca, e desde aquella época a ad- 
ministração municipal teve de occupar-se muito a serio da saúde publica em 
todas as questões, que até esse tempo apenas tinham interessado á moral e á 
ordem social. 

Temos de tractar n'este capitulo da origem da syphilis, visto que as cir- 

HisTOBiA DA Prostituição. Tomo n— Folha 27. 



2)0 HISTORU 

cumstancias fizeram que !hc fosse dado o nome de mal francez, oiigallico, logo 
que esta liorrivel enfermidade explosiu na Europa, e visto que este nome se 
refere também aos acontecimentos que acompanharam o seu apparecimento em 
França. Seja-nos, licito, porém, antes de mais nada, desenvolver uma these 
que já adduzimus e sustentamos sobre a antiguidade das affecçôes venéreas. 

E' certo que estas aílecçõcs, assim como todas as epidemias e contágios, 
soffreram numerosas metaniorphoses, especialmente nos seus symptomas, em 
razão da variedade de condi^ws locaes, atmosphericas e naluraes que prece- 
diam o seu apparecimento. iNinguem ousa negar que esta liorrivel praga, que a 
sciencia ha perto de quatro séculos tem sempre considerado como um assom- 
broso Proteu, tivesse antes de 1493, ou 1496, os espantosos caracteres e so- 
bretudo o virus propagador, que se observai'am pela primeira vez n'aquella épo- 
cha, em que os casos de excepção passaram a ser casos geraes. Não obstante, 
o mal venéreo existia, exactamente o mesmo desde a mais remota antiguidade, 
como já demonstrámos, e nunca tei-ia assustado mais que outra qualquer en- 
fermidade chronica, se uma reunião de circumstaneias imprevistas e inapreciá- 
veis não lhe houvessem communicado subitamente os meios de se propagar c 
aggravar com uma espécie de furor. 

Já provámos, appoiados na auctoridade de Celso, de .\reteu e dos mais 
illustres médicos gregos e i-omanos, que a verdadeira syphilis, apesar de tão 
desarrazoadamente a quererem dar como contemporânea do descobrimento da 
America, não tardou em succeder em Roma á lepra e ás outras enfermidades 
cutâneas, importadas da Ásia e da Africa juntamente com os despojos dos povos 
conquistados. Não seria difficil fazer coraprehender, remontando áquellas pri- 
mícias mórbidas, que a espantosa libertinagem romana havia acalentado em seu 
seio os germens de todas as aíiecções venéreas, e que da sua impura fusão de- 
viam necessariamente resultar males desconhecidos, que voltavam sem cessará sua 
origem, corrompendo-a cada vez mais. Insi-stimos, todavia, em julgar que a 
transmissão do virus não era tão rápida nem tão frequente, como veio a ser, 
séculos depois, nos tempos modernos, e é alem disso muito provável que os an- 
tigos, assim como possiriam mais de quinhentas espécies de collyrios para as 
doenças dos olhos, tivessem não menor quantidade de receitas para as enfer- 
midades dos órgãos sexuaes. 

Passemos agora a seguir atravez da Edade-Media o curso do mal venéreo, 
sob differentes nomes, até chegarmos á sua ultima transformação com o nome 
de syphilis, ou grasse vérole. 

Esta enfermidade obscena existiu sempre no estado chronico em indivi- 
fluos isolados, reproduzindo-se por contagio com uma grande variedade de ac- 
cidentes, resultantes do temperamento dos enfermos e de uma multidão de cir- 
cumstaneias locaes, que seria impossível enumerar ou caractcrisar. No emtanto, 
o gérmen da enfermidade provinha sempre de um commcrcio impuro, e não se 
desenvolvia por si próprio, sem causa preexistente de infecção, no exercício mo- 
derado das relações sexuaes. A prostituição era o foco mais activo d'esta le- 
pra libidinosa, que se propagava mais ou menos violentamente, segundo o paiz, 
a estação, ou o próprio temperamento do individuo. Como apenas os libertinos 



I)A PROSTITUIÇÃO 211 

soíam approxiniar-se da fonte impura, o mal Cubava assim cireumscripto n'esta 
gente de vida desregrada, que não tinha ontacto algum com as pessoas lio- 
nestas. Havia époclias, porém, cm que por um conjuncto de factos physiologi- 
cos, a enfermidade se exacerbava e sahia dos seus limites ordinários, associan- 
do-se a outras enfermidades epidemicas ou contagiosas, muliiplicando-se com 
peiores symptoraas, e ameaçando contagiar a população inteira, dizimando 
desde logo uma grande parte d'ella. Depois de ter feito estes estragos, manifes- 
tos ou occultos, detinha de repente a sua marcha destruidora. Era a medicina 
que se oppunha aos progressos occultos do flagello? Não, era a religião, que 
se apressava a impor penitencias publicas, a religião, mais efficaz contra a mo- 
léstia do que a medicina, que aflasfava os perigos do contagio, fazendo guerra 
sem tréguas ao peccado da luxuria, sua causa immcdiata. A privação absoluta 
dos prazeres sensuaes durante um lapso de tempo bastante considerável, era 
n'estes casos o remédio salutar applicado pelo clero contra o desenvolvimento 
da obscena enfermidade. 

N'estes períodos críticos da salubridade publica, a prostituição legal desap- 
parecia completamente. Fechavam-se os bordeis, as mulheres publicas eram 
obrigadas a interromperem o seu perigoso fraPico, sob a ameaça de penas ar- 
bitrarias, e a policia municipal dictava ordens Ião severas sobre este assumpto, 
que desde o principio do contagio, no século xvi, a aucíoridade expulsava ou 
prendia Iodas as mulheres suspeiins, e as delinha em cárceres, ate que a epi- 
demia deixava de fazer estragos. 

Devemos lembrar aqui que o clima da Gallia era extremamente favorá- 
vel ás enfermidades epidemicas e a todas as alTecções cutâneas. Pântanos im- 
mensos e bosques impenetráveis mantinham cm todo o território uma humidade 
pútrida e maléfica, que os calores do estio saturavam de miasmas deletérios e 
venenosos. A terra, em vez de estar desinfectada pelo cultivo, exhalava sem 
cessar emanações mórbidas. Os alimentos e o modo de vida dos seus habi- 
tantes não eram também muito conformes com os preceitos da hygiene. Dor- 
miam no chão sobre pelles de animaes, sem outro abrigo contra as intempé- 
ries além de lendas de pelles, ou de miseráveis cabanas de colmo; comiam 
pouco pão, muita carne e muito peixe, creavam grandes rebanhos de porcos 
negros, que se apascentavam nas immediaçõcs dos bosques druidicos. Não é 
para admirar, portanto, que a elephaníiasis e as outras ramificações da lepra 
se tivessem perfeitamente acclimado nas Galiias no segundo século da era 
moderna. 

O sábio Areteu, que, segundo todas as probabilidades, escreveu no tempo 
de Trajano o seu tratado De curatione. elephantiasiit, diz que os celtas ou gau- 
lezes possuíam uma grande quantidade de remédios contra esta espantosa en- 
fermidade, e que empregavam contra ella sobretudo umas pequenas bolas de 
nitro, com as quaes esfregavam o corpo no banho. 

Marcello Empírico, que exercia a medicina em Bordéus, em tempo ilo 
imperador Graciano, refere que o medico Sorano emprehendeu a diílicíl em- 
preza de curar, s(5mpnte na província da Aquitania, duzentas pessoas atacadas 
de herpas sórdidas, que se espalhavam por todo o corpo. 



3 I 2 HISTORIA 

Já provamos (nie o mal vciíitco não era mais do que uma espécie de 
lepra, contrahida com o habito das relações sexuaes; explicámos também de 
([ue modo as abomináveis aberrações dos sentidos produziram, em casos excep- 
cionaes, o desenvolvimenío das forças do virus, Icvando-o a órgãos do corpo, 
menos próprios para o receber; applicámos, finalmente, ás origens da elephan- 
tiasis as liypoilieses, que mais adiante veremos formular aos médicos do sé- 
culo XV, por occasião do apparecimcnto do mal de Nápoles, enfermidade em 
que muitos homens de sciencia quizeram reconhecer os monstruosos effeitos 
das desordens da sensualidade anii-physica. 

Foi durante o século xvi que o mal venéreo percorreu a França com os 
caracteres appareníes de uma epidemia, e com o nome de lues inquinaria, ou 
inguinaria. Segundo a primeira denominação, este mal era uma impureza, tal- 
vez uma gonorrhèa, como a que se descreve na Biblia (Leritico, cap. xv); pela 
segunda era uma inflanimação dos tíanglios, onde se formava uma ulcera ma- 
ligna, que produzia a morte depois de sofTrimentos verdadeiramente horríveis. 
Gregório de Tours indica frcqueníemcnte esta enfermidade. Ruinart, na sua 
edição da obra d'estc historiador, explica que a ulcera inguinal matava o en- 
fermo como uma serpente: Lues inguinaria aic Jicebalur, quod nascente in 
inguine, vel in axilla, ulcera in modum serpenlis interficeret. 

O Glossário de Ducange, na edição dos Benedictinos, traz os dois nomes 
desta pestilência, que appareceu pela vez primeira em oiG, e que d'ahi em 
diante veio (lagellar por varias vezes as povoações dadas aos vergonhosos ex- 
cessos da libertinagem contra a natureza. Os doutos editores, porém, não se 
occuparam di> facilitar a interpretação d'estes dois nomes altribuidos á mesma 
enfermidade, pela comparação luminosa das passagens em que os elironistas 
contemporâneos fallaram d'ella. A origem infame d'esta enfermidade parece- 
nos suíTicientementc indicada no próprio horror que ella inspirava, e que não 
consistia apenas no terror da morte, por isso que os indivíduos por ella accomn\et- 
tidos pareciam castigados pela mão de Deus, por causa das suas impurezas. A 
intlammação purulenta dos órgãos sexuaes, os bubões, ou tumores das virilhas, 
o ílu\o de sangue dos intestinos, os abcessos gangrenosos dos músculos, dizem 
o sulíicienle a respeito da natureza d'este contagio obsceno. 

Reappareceu com outros symplomas em 9o4, depois da invasão dos nor- 
mandos, que talvez não fossem cxiranhos a esla recrudescência do contagio. 
Flodoardo, no emlanlo, absiem-se de qualquer conjectura impudica a este res- 
peito : 

«Em redor de Paris, em diversos logarcs dos seus subúrbios, diz elie na 
sua Chronica, havia muitos homens verdadeiramente aíllictos por causa de um 
fogo, que SC lhes manifestava em varias partes do corpo, e que os ia consum- 
mindo até que morte vinha findar o seu mariyrio. Alguns d'elles, os que se 
recolhiam a um logar santo, escapavam aos seus tormentos, e a maior parle 
foram curados cm Paris na egreja da Santa Mãe de Deus, Maria, de tal modo 
que se aliirma que todos os que para alli conseguiram Iransportar-se foram 
curados do .seu mal, e o duque Hugo lhes dava com que viver. Houve alguns, 
que ao voltarem a suas casas, sentiram-se novamente incendiados pelo fogo que 



DA PROSTITUIÇÃO ■ MS 

na casa de Deus se havia extinguido, e voltando á cgreja, ficaram novamente 
livres do seu flageilo.» 

Sauval, que nos fornece esta singela traducção, accrescenta que «como 
os remédios não serviam de nada, houve de recorrer-se á protecção da virgem 
na egreja de Notre-Dame, que por essa época servia de hospital.» 

Ellectivamente encontra-se no Grande Pastoral d'esta egreja, no anno de 
1248, um documento capitular relativo ás seis lâmpadas que, noite e dia, al- 
lumiavam o sitio em que jaziam os desgraçados enfermos d'esta cruel epide- 
mia, que se chamava fo(jo sagrado. Diz o texto: Vbi infirmi et morbo, qui 
ignis sacer wcalur, in ecclesia lahoranten consueverunt reponi. 

«A maior parte dos auctores que fatiaram d 'esta horrível enfermidade, 
diz o sábio compilador do Memorial portátil de chronologia (t. ii, pag. 839), 
estão de accordo cm attribuir-lhe os mesmos symptomas e os mesmos cffeitos. 
Invadia subitamente os indivíduos, queimava as entranhas, ou qualquer outra 
parte do corpo, que cabia aos pedaços, e debaixo da pelle lívida ia consum- 
mindo as carnes e cspbacelando os ossos. O que este mal tinha de mais es- 
tranho, era que obrava sem calor, e penetrava as suas viclimas de um frio gla- 
cial, jnas isto era apenas nos primeiros dias; em seguida a este frio mortal 
succedia um ardor tão vivo na região accommettida, que os doentes sentiam 
todos os symptomas de um cancro.» 

Os progressos do fofio sagrado apenas foram detidos pelos sábios conse- 
lhos da Egreja, que se exforçava por curar os enfermos a quem havia primei- 
ramente absolvido. O vicio dos normandos, porém, tinha-se inveterado nas 
províncias por ellcs invadidas. No anno de 994 reappareceu o mal dos arden- 
tes com as causas criminosas que pela primeira vez o haviam produzido, e este 
mal transmillido pela mais .sórdida libertinagem passou logo da França á Al- 
lemanha e á Itália. 

O século decimo foi extremamente propicio a todas as espécies de cala- 
midades que podem affligir o género humano. Acreditava-se que o anno mil 
traria o fim do mundo, e n'esta triste previsão os preversos que se julgavam 
destinados ao inferno passavam o resto dos seus dias entregues desenfreada- 
mente aos vicios habituaes. Chuvas continuas, grandes innundações e frios ex- 
cessivos vieram cm auxilio das epidemias despovoar a terra. Os campos por 
falta de cultivo transformavam-se em pântanos cujas emanações pestilentes in- 
fectavam a atmosphera. Os peixes morriahi nos rios e os animaes nos bosques, 
e todas estas corrupções produziam necessariamente um grande numero de en- 
fermidades. 

O mal dos ardentes appareceu de novo em toda a França. O rei Hugo 
Capeto foi uma das victimas da epidemia, por causa da sollicitude com que vi- 
sitava continuamente os enfermos. Era infallivel a morte dos atacados, quando 
a doença se enraizava n'aquelles organismos enfraquecidos. A horrivcl epide- 
mia contra a qual a sciencia houve de confessar-se impotente, por isso que o 
vicio lhe disputava passo a passo o terreno, recebeu o nome de mal sagrado, 
por causa da sua origem maldita, e «porque, segundo diz o livro da Excellencta 
de Santa Genoveva, n'isto da formação dos nomes casos ha em que a palavra 



214 < HISTORIA 

vem a significar oxacfamenle o conlrario ila ideia que se tem em vista». E com 
referencia ao mal sagrado: Morbus igneus, quem physici sacrum' ignem ap- 
pellant ea nominum insíilutione. qua nomen unius contrarii alterius signí- 
ficationem sortitur. 

A opinião vulgar, sem poder explicar a natureza d'este mal, aífribuiu a 
apparição d'elle a castigo do ceu, e a cura á intercessão da Virgem e dos san- 
tos. Com o andar dos tempos talvez os próprios padres da Egreja lhe tirassem 
o nome de mal sagrado, para, no intuito de lhe imprimir um sello infame e 
vergonhoso, lhe chamarem mal dos ardentes. Pouco depois, o povo chamava- 
Ihe também mal de Saint-Main e mal de Sanio Anlonio, porque estes dois 
beniaventurados tinham fama de haver curado grande numero de enfermos. 

O papa Urbano n, informado dos milagres devidos á intercessão de Santo 
Autonio, e que estavam sendo attcsíados por tantos enfermos, fundou sob a 
invocação do glorioso santo uma ordem religiosa, cujos membros deviam uni- 
camente iractar das vicíimas do mal dos ardentes. 

A propósito do esiabelecimenlo d'esta ordem religiosa, não devemos dei- 
xar de mencionar uma circumslancia interessante. E' sabido que o porco eslá 
sujeito á lepra, c que a carne d'este animal comida com excesso a pôde pro- 
duzir também : pois n'aquelle lempo começou o porco a ser considerado como 
o animal symbolico de Santo António. Uma praga conservada ainda no voca- 
bulário das ultimas camadas populares no tempo de Rabelais, que a consigna 
nos seus escriptos, dispensar-nos-ha de provar que o fogo de Santo António 
linha uma origem infame. A ralé do povo e Rabelais diziam ainda no século 
XVI : Que le feu Saint Antoine tous arde le boyau culier ! — Imprecação sór- 
dida, que se encontra tantas vezes nas obras d'estc escriptor. 

Houve ainda muitas recrudescencias memoráveis d'esia impureza nos an- 
ãos de 104.3 c 1089. A ultima foi a de 11. 30, no reinado de Luiz vi. A esle 
respeito diz Dubreul : 

«Uma exiranha enfermidade lavrou pela cidade de Paris e iogares cir- 
cumvisinhos, á qual o vulgo chamava [ogo sagrado, ou mal dos ardentes, por 
causa da violência interior d'esle coníagio, que queimava as entranhas. do doente 
no excesso de um ardor continuo, cuja causa os médicos desconheciam, não 
podendo por isso dar-llie remédio.» 

Não leve Santo António o privilegio exclusivo das invocações, preces e 
ollerendas dos enfermos pela cura do terrível contagio. Santa Genoveva, a pa- 
droeira de Paris, e São Marcollo collaboraram, segundo parece, para fazerem 
cessar a peste. Desde esta épocha, a capella da Santa em Paris foi transfor- 
mada em egreja com o titulo de Santa Genotena dos Ardentes, que conservou 
por muito lempo, mesmo depois do flagello ficar apenas reduzido a alguns ca- 
sos isolados. Notaremos, no eniianio, que os primeiros atacados da syphilis no 
século XV .seguiram naturalmente o caminho d'esia anliga egreja procurando 
n'ella os milagres referidos pela tradicção. Assim, os novos devotos de Santa 
denoveva confe.s.savam-se herdeiros directos dó mal dos ardentes, e pela mesma 
lei hereditária, os outros santos, como Santo António, S. Magin e S. Job, in- 
vocados desde tempos immcmoriaes na cura das enfermidades leprosas e sar- 



DA PROSTITUIÇÃO 815 

nosas, conservaram as suas afli'i!)uit:ões a respeito fia enfermidade venérea pro- 
priamente dita, que não era nova para elles. 

A partir, porém, do século xii até á apparição do mal de Nápoles, todas 
as enfermidades vergonhosas, nascidas de commercio impudico ou aggravadas 
por esse commercio, estavam absorvidas pela medoniia hydra da lepra, que se 
alastrava por toda a parte, multiplicando-se sob as formas as mais extravagan- 
tes. A lepra do século xn, tivesse ou não origem venérea, devia principal- 
mente á prostituição os progressos assustadores que teve n'aquella épocba, e 
que todos os governos trataram de atalhar por meio de medidas análogas de po- 
licia e salubridade. Não rcceiamos alDrmar que o desleixo ou suppressâo de si- 
milhantes medidas produziu a syphilis do século xv. 

Do silencio dos annaes médicos por espaço de meio século não devemos 
inferir que a lepra havia desapparecido da Europa até ao século xi, em que a 
vemos lavrar novamente com grande intensidade. A historia da vida privada na 
Edade-Media, seria um monumento irrecusável da existência inimterrupta da 
elephantiasis, se os escriptores ecclesiasticos não ministrassem abundantes da- 
dos que vêem confirmar este facto. Os cartórios das egrejas, conventos e mos- 
teiros fazem repetida menção dos leprosos. Gregório de Tours diz que elles ti- 
nham em Paris uma espécie de asylo em que limpavam o corpo e curavam as 
chagas. O papa S. Gregório falia de um leproso, a quem o mal havia desfigu- 
rado: que))í ile»AÍs cuíiieribus morbus elepliantinus defoédaverat. N'outro logar 
diz também que dois frades contrahirara a cruel enfermidade, a qual a tal ponto 
os corrompeu, que os membros lhes cabiam de podridão. Ao século viu, Nico- 
lau, abbade de Corbia, mandou construir uma enfermaria para leprosos, o que 
prova que não era pequeno o numero d'elles. .A lei de Rothario, rei dos lom- 
bardos, datada do anno de 630, é a base de todas as leis sobre este assumpto. 

Por toda a parle o leproso era separado do seio da sociedade, que o con- 
siderava comii morto, e se a miséria o obrigava a viver de esmolas, não ousava 
approximar-.se de ninguém, e annunciava a sua presença com o som de uma 
matraca. 

Apesar d'estas precauções legislativas, os leprosos conseguiam por vezes 
occultar a horrivel enfermidade e contrahiam matrimonio com pessoas sãs. D'a- 
qui a capitular de Pepino para a pronipla e immediata dissolução d'esles casa- 
mentos. Tem a data de 7137. 

Outra capitular de Carlos Magno em 789 prohibe aos leprosos, sob penas 
scverisssimas, o frequentarem a companhia das pessoas sãs. 

Compreiíende-se que as relações sexuaes deviam ser o mais perigoso au- 
xiliar do contagio, que não se propagava extraordinariamente, graças ao hor- 
ror geral que inspirava a enfermidade e s(d)re tudo á intervenção preventiva 
da policia municipal. 

(]omo já tivemos occasião de, observar, a influencia ecclesiastica era a que 
maior acção exercia sobre os costumes. A penitencia era ás vezes uma espécie 
de regimen bygienico, e a conns.são subsliluia as consultas medicas. O sacer- 
dote occupava-se da saúde pbysica e moral dos lieis, e não os mantinha geral- 
mente faltando no bom caminho da vida honesta, senão com o temor dos ma- 



816 HISTORIA 

les horríveis que Deus mandava como castigo e como seilo da sua divina, co- 
leraaos libertinos e infames. 

E' uma cousa perfeitamente averiguada que as epidemias coincidiam 
sempre com os tempos de maior corrupção social, e que as desordens dos cos- 
tumes públicos traziam comsigo as da economia sanitária. As classes morigera- 
das viam-sc com espanto accommeltidas dos males impuros, que deviam ser 
endémicos entre a immensa multidão de vagabundos, mendigos, libertinos c 
prostitutas, tanto das que vagueavam pelos campos cm cata de freguezes, como 
das que estanciavam nos bordeis mais Ínfimos. Nesta grande massa de gente 
miserável e perdida, era onde o virus venéreo deixava a sua funesta peçonha, 
os seus symptomas mais característicos e as suas mais horríveis metamorpho- 
ses. Caso extranbo! Nunca um physico, ou medico, havia penetrado nos im- 
mundos albergues d'esta escoria humana para estudar as enfermidades espan- 
tosas que alli fermentavam, produzindo as variedades mais monstruosas, devo- 
rando-se umas ás outras! . . . Felizmente os miseráveis que se entregavam a esta 
vida de infâmias e de opprobrios, ligados peia mais odiosa confraternidade, ja- 
mais se punham em contacto com a população sã e honesta, excepto em épo- 
chas de crises e perturbações sociaes, depois das quaes o rio impuro voltava 
ao leito immundo, deixando ao tempo, á i-eligião e á policia o cuidado de 
apagar da sociedade bem morigerada as seus fataes vestígios. 

Foi assim que a lepra se precipitou de súbito sobre todo o corpo social, 
como uma torrente que despedaça os diques, e tel-o-bia completamente ense- 
nenado, se a prudência e a energia dos poderes públicos não se apressassem 
a oppôr uma forte barreira á invasão do tlagello. As cruzadas tinham por assim 
dizer revolvido todo o lodo da sociedade, e misturado na mais extranha con- 
fusão a nobreza com o povo. Os regulamentos policiaes nada puderam contra 
o choque tremendo d'esse exercito de peregrinos que iam ao Oriente morrer ou 
fazer fortuna. A prostituição mais sórdida gangrenou aquellas hordas de gente 
indisciplinada. No regresso, depois das suas -aventuras na Terra Santa, todos 
os cruzados vinham mais ou menos suspeitos de lepra. Leprosos verdes, uns; 
leprosos brancos, outros, quasi todos elles traziam comsigo o amargo fructo da 
prostituição oriental. E' permittido alfirmar-se que n'aquella épociía a infecção 
ver)erea não era mais do que uma das formas da lepra. 

Tornou-se mister então submetter os ieprxisos a uma rigorosa policia de 
sanidade, que três séculos mais tarde foi preciso renovar contra o venéreo, e 
que tinha por fim atalhar a marcha do llagello. Do mesmo modo que determi- 
nava o código de Rothario, o leproso ficava tido por morto desde o momento em 
que entrava na enfermaria, e segundo esta ficção legal faziam-se-lhe exorcis- 
mos e funeraes. O sacerdote lançava-lhe por três vezes terra do cemitério na 
cabeça, dizendo-lhe n'essa occasião estas lúgubres palavras: 

«Guarda-te de entrar n'oufra casa que nãa seja o teu albergue. Quando 
faltares com alguém, coUoca-te contra o vento. Quando pedires esmola toca a 
tua matraca. Nunca te aliastes do teu albergue sem levares a libré de leproso. 
Não bebas agua em poço ou fonte em que outro beba. Não ponhas a mão nem 
um dedo sequer cm silios públicos, sem que tenhas luvas.» 



DA PROSTITUIÇÃO ?I7 

Era-lhe igualmente proliibido anelar descalço, passar cin ruas cslrcilas, 
cuspir para o ar, encostar-se ás parcJcs, ás aiTores ou a (|ual(iuer cousa que 
encontrasse no seu caminho, dormir á beira das estradas, ele, etc. Se mor- 
ria, nem sequer linha sepultura junto dos iieis deluntos; os seus companheiros 
de desgra(.'a eram obrigados a enterral-o no cemitério da enfermaria. IVunca 
mais podia, ainda mesmo que sarasse, enlrar no convívio dos outros homens, 
ou viver no interior das cidades sob o regimen da vida commum. 

Havia, no emtanto, muitos graus na enfermidade, que não era absoluta- 
mente incurável, nem se manifestava sempre por signaes apparentes; mas, 
como ílagellava de preferencia as classes pobres, nem os médicos pensavam em 
cural-a, nem os doentes em tractar-se. Os desgraçados que se viaiu acom- 
mettidos, ou por nascimento ou por contagio, consideravam-se como victimas 
destinadas a moi-rer do (lagello, entregavam-se a todos os csti'agos da enfír- 
midade, que por falia de tratamento se exacerbava a ponto de desti-uir lodos 
os órgãos vilães. 

A's vezes, o mal permanecia estacionário, e mesmo quando o principio 
mórbido subsistia no individuo, os eITeitos ficavam paralysados ou adormecidos 
em consequência de uma boa constituição, ou de qualquer outra causa inapre- 
ciável. O commercio com os leprosos evitou-se muito mais peio horror que 
estes desgraçados causavam, do que pelo rigor da lei que os tinha separado dos 
sàos sob pena de morte. 

Em compensação, porém, os leprosos communicavam livremente uns com 
os outros, tinham as suas mulheres, os seus filhos e o seu lar domestico. Nào 
se julgavam extranhos a nenhum dos sentimentos que impellem o homem a 
reproduzir-se, e assim se ia perpetuando a sua raça no meio de uma população 
que fugia da sua vista e mais ainda do seu contado. Eis o motivo porque a 
lepra ia passando de geração em geração, infestando já as pobres creanças no 
ventre materno. 

O que valia era não se multiplicarem os leprosos, como era de esperar, 
porque o gérmen, de morte que traziam comsigo dizimava-os sem cessar, de- 
pois de os haver convertido em cadáveres ambulantes. O tillio de um leproso 
era ordinariamente mais leproso (]ue o pae, e o mal assim transmitlido tomava 
novas forças. A familia mais numerosa extinguia-se d'este modo no espaço de 
um século. Eis o motivo porque a lepra dcsapparcceu quasi completamente 
com os leprosos ao cabo de alguns séculos, ainda que a maior parte delles fos- 
sem de temperamento muito ardente e exlremamente aptos para .se i'eproduzi- 
rera. 

O caracter mais geral da Ityira era uma erupção granulosa por tudo o 
corpo, e especialmente na cara. Os grânulos que sem cessar se renovavam dis- 
linguiam-se pela variedade das formas c cores : uns, duros e scccos, outros 
molles e purulentos, inteiros ou fendidos, brancos, roxos, amarellos ou verdes, 
todos elles repugnantes á vista c ao olfacto. Relativamente aos signaes unifor- 
mes da enfermidade, o celebre Guy de Chauliac enumera seis principaes, que 
Joubert define do seguinte modo na sua Grande Çirunjia, no capitulo que se 
inscreve Ladrerie: 

BUTORIA DA PKOSTnmçÃO. TuMO U— FoLHA 28. 



21 8 HISTOIUA 

«Redondez dos olhos e das orellias, depilação e luberosidade das sobran- 
celhas, dilalayão externa do nariz com aperto interno das fossas nasaes, feal- 
dade dos lábios, voz gangosa, hálito e cheiro de todo o corpo pestilentc, olhar 
fixo e horrível.» 

Guy de Chauliac, que vivia no século xiv, poude observar muitos indiví- 
duos acommeltidos, o que não succedeu a Joubert, o qual escrevia sobre este 
assumpto em fins do século xiv, quando a lepra já não existia senão de nome. 

Os signaes equívocos da lepra eram dezeseis : 

«kO primeiro é dureza e tuberosidade da carne, especialmente nas articu- 
lações e extremidades; o segundo, côr tenebrosa de morpheia; o terceiro, de- 
pilação c entumescencia das sobrancelhas; o quarto consumpção dos músculos; 
o quinto, insensibilidade, estupor c adormecimento das extremidades; o sexto, 
herpes e ulcerações no corpo: o sétimo, grânulos debaixo da língua; oitavo, 
ardor e picadas como de alfinete no corpo; nono, aspereza da pelle exposta ao 
ar, que mostra o aspecto de uma ave depennada; decimo, quando a pelle se 
molha, ])arece untada; undécimo, ausência quasi constante de febre; duodé- 
cimo, os doentes tornam-se astutos, mentirosos, coléricos, provocadores; de- 
cimo terceiro, teem o somno profundo e pesado; decimo quarto, pulso débil; 
decimo quinto, sangue negro ou muito escuro, ás vezes còr de chumbo ou cin- 
zento; decimo sexto, urina livida, branca, sólida e ás vezes cinzenta.» 

Veremos mais adiante que estes symptomas são quasi idênticos aos do 
mal venéreo, que não foi senão um renascimento da lepra, sob a influencia 
das guerras de Itália. 

A lepra tinha ainda muitos outros caracteres particulares, determinados 
pelas influencias locaes e climatéricas. Por exemplo, o mal dos o.rdentes, que • 
havia degenerado n'uma gonorrhéa virulenta, provinha ainda da copula com um 
leproso. N'esta doença, que chamavam ardor, incêndio, queimadura (em in- 
glez, brenning,) atacados os orgãc^s genitaes de erysipelas, ulcerações, flogo- 
sis, etc, etc, o enfermo sentia dores cruéis quando urinava. Um illustre me- 
dico do século XIII, chamado Theodorico, diz textualmente que «todo aquelle 
que tem copula com mulher que lenha conhecido leproso, contrahe um mal 
maw» (mauvaix mal.) 

N'oulro tractado de cirurgia, attribuido a Rogério Bacon, que escrevia pela 
mesma épocha, encontra-se uma descripção dos males horríveis que podiam ori- 
ginar-se de uma cohabitação d'esta espécie. 

Muitos médicos inglezes contemporâneos estudaram esta espécie de afife- 
cção venérea, que reinava em Londres nos séculos xiii c xiv, como teremos 
occasião de referir, quando fallarmos da Inglaterra. Um d'estes médicos, João 
de Gaddesden, consagra um capitulo da sua Prac/ica medicina, seu Rosa angli- 
cana, aos accidenlcs que resultam da cahabitação impura dos leprosos e lepro- 
sas: 

«Quem cohabita com mulher que haja tido copula com leproso, sente pi- 
cadas entre a pelle e a carne, c ás vezes essas picadas manifestam-se por todo 
o corpo.» 

Os médicos inglezes Ibrnecein-nos a respeito da lepra venérea maior nu- 



DA PUOSTlTtlIÇÃO 219 

mero ilc dados que os italianos c francezes, porque as leis contra os leprosos 
eram muito menos rigorosas na Inglaterra que nas outras nações ; assim, os 
casos do contagio leproso foram alli mais communs e graves que nos demais 
paizcs. 

Graças ás medidas enérgicas e geraes adoptadas em toda a Europa, com 
excepção talvez da Inglaterra, para atalhar os progressos da lepra e das enfer- 
midades que d'ella provinham, poude conservar-sc indemne do contagio a 
maior parte da população. Ao tempo de Malheus Paris, que escreveu ahi por 
melados do século xiii havia na Europa mais de dezenove gafarias, ou asylos 
de leprosos. Dois séculos mais tarde, as gafarias de França cahiam em ruinas, 
por falta de enfermos. Foi entáo que alguns parasitas se apoderaram d'ellas, 
valendo-se da supprcssão dos titulos de fundação e dos contractos de aluguel, 
de modo que pela ordenança de loi3 Francisco i provocou quasi inutilmente 
a acquisição d'esfes titulos, vendidos ou subfrahidos. 

Resulta d'aqui que no decurso de dois ou três séculos a grande lepra, ou 
elephantiasis, havia quasi desapparecido com os infelizes atacados, que não po- 
deram pcrpetuar-se por mais de três ou quatro gerações. 

Quanto á pequena lepra e suas ramificações, apesar de se occullarem 
sempre sob apparencias menos inquietadoras, foram enfraquecendo nos seus 
symptomas externos, muito embora o gérmen da enfermidade se manifestasse 
vivaz n'um sangue que o houvesse recebidn do nascimento ou por transmis- 
são contagiosa. 

A sociedade, que tinha repellido do seu seio os leprosos, viu-se novamente 
invadida por elles, ou por seus filhos, e a lepra perdendo alguns dos seus sym- 
ptomas horríveis, continuou a minar surdamente a salubridade publica. Por 
meio da prostituição esta infame enfermidade introduziu-se novamente nas clas- 
ses inferiores, e conseguiu insinuar-se até nas elevadas, graças ás suas secre- 
tas metamorphoses. Chegamos mesmo a crer que o mal de IWipoles, que não era 
mais do que uma resurreição da lepra, combinada com outros males, andou por 
muito tempo em silencio pelos antigos mysterios da libertinagem, antes de se 
apresentar á luz do dia em toda a Europa, sob o nome de mal venéreo. 

Já falíamos aqui do mal que havia infectado os lupanares de Londres, a 
tal ponto que foi preciso em 1 i30 fazer leis severas, prohibindo, sob pena de 
morte, dar entrada n'estes lupanares a mulheres atacadas d'este mal, e man- 
dando vigiar de perto as que estivessem em mau estado. Infirmitas nefanda, 
é o nome com que as leis sanitárias designavam o contagio, segundo lemos no 
tomo XXX das Tranisacçõe.'} Phílosophicas, de Guilherme Becketl. 

Ouçamos agora o testemunho de alguns médicos, no sentido de provar 
que as enfermidades venéreas não foram somente contemporâneas do descobri- 
mento da America: 

Guilherme de Salicef, medico- de Placencia no século .\in: — Na sua 
Cirurgia, cap. De apostemate in inguinihus, diz este homem de seieneia «que 
o bubão, ou abcesso dos ganglios se forma, quando o homem tem ama corru- 
pção no membro em connequencia de ter tido copula com uma mulher suja.» 

O mesmo clinico trata n'outro logar das pústulas brancas e vermelhas 



■}'20 HISTdlUA 

(lo membro, iliis gielas que n"elle se produzem, ou em redor do prepueio, o 
(jue provêem, diz el!c, espressamente «do commcrcio com mulher suja, ou com 
rameira». Lanfranc, famoso medico-cirurgião de Milão, que veio cstabelecer-sc 
eui Paris em 1495, desenvolve a mesma doutrina sobre as enfermidades dos 
órgãos genilaes, no seu livro celebre e de grande uuctoridade intitulado: 7'í'rt- 
clira, aeu af-s romplet.a chirurgiu': 

«As ulceras do membro, diz elle, são occasionadas por humores acres, 
(jue escoriam o sitio em que se detèem, ou também pela copula com mulher 
suja, que tenha conhecido recentemente um homem atacado da mesma enfer- 
midade.» 

Bernardo Gordon, medico muito celebre da faculdade de Montpellier, e 
que viveu depois de Lanfranc : — Este clinico professa as mesmas opiniões a 
respeito das enfermidades de (|ue temos fallado, e no capitulo De passionibus 
virga; da sua obra intitulada LiHum medicniw, expressa-se nos seguintes 
termos : 

«Taes enfermidades são numerosas. Ha os abcessos, as ulceras, os can- 
cros, as inchações, a dôr, as comichões, etc. As causas são internas ou exter- 
nas; externas, como por exemplo, uma queda, um golpe, a conjun,c(;ão carnal 
com uma nndher com a madre impura, cheia de pus, ou de virus, ou de ven- 
losidades, ou de matérias coi rompidas. Mas, se a causa é interna, estas enfer- 
midades produzem-se então por alguns humores corrompidos e malignos, que 
descem ao membro e ás partes inferiores.» 

João Gaddesden, medico inglez da universidade de Oxford; Guy de Chau- 
liac, da universidade de Montpellier; Nale.rio de Tarenta, da mesma universi- 
dade, c muitos outros doutores, que fizeram as suas observações cm ditíeren- 
tes paizes durante o século xvi, são unaniriies em reconhecer que o commer- 
cio impuro produzia enfermidades virulentas, que eram contagiosas, e que de- 
viam ser venéreas. 

Em todas estas enfermidades a lepra linha uma acção muito importante 
antes e depois da apparição do mnl de Nápoles. Os clinicos que estudaram a 
lepra, c deram publicidade a estes estudos, são unanimes em declarar que se 
communicava muito mais pelas relações sexuaes do que por qualquer outro 
meio. Estas relações eram raríssimas entre as pessoas sãs c as leprosas, mas. 
a imprudência e a libertinagem produziam-nasás vezes com grave damno da pes- 
soa sã, (|ue por sou iurno ficava afiecíada da lepra. 

liernardo Gordon, já por nós anteriormente citado, rcfert; que certa con- 
dessa atacada pela lepra foi a Montpellier, onde elle a traclou d'esta enfermi- 
dade. Um esludante de medicina, a quem o doutor collocára junto da enferma 
para Iractar d'elia, teve a desgraça de a requestar e de merecer os seus favo- 
res. A ccmdessa ficou gravida, mas o pobre do bacharel ficou leproso. (Lilhim 
medicinai, parle I, cap. 22.) 

Muitos fados análogos se encontram nos escriptos de Forcstus Paulonicr,. 
Pare e Fcrnel, que escreveram sobre a elcphanliasis, seguindo o con.senso una- 
nime das escolas de medicina e cirurgia. 

João Menardi de berrara resume nos seguintes lermos a questão, em 



DA l-ftOSTITUIÇAO 



221 



princípios do século xvi, sem dar conta <lc ([110 confunde a lepra e as enfermi- 
dades venéreas : 

«Os que têeui, diz clle nas suas Epislohe medicinales, pul)licadas em 
|.')2;3, commercio com uma mulher, que pouco anies se entregou nos braços de 
um leproso, de modo que conserve ainda o sémen na vagina, apanham umas 
vezes a lepra, e outras vezes enfermidades dilíerentes, mais ou monos graves, 
segundo as suas disposições.» 

Em todas estas citações reproduzimos a versão que Luiz, traductor e 
annotador de Astruc, para não alterar o texto do sábio auclor do tractado Ik 
inorbU- venereis julgou dever adoptar no interesse do seu systema. Em todo o 
caso, estas mesmas citações parecem-nos muitas vezes contrarias ao referido 
systema. Examinando, por exemplo, esta passagem de Menardi, é impossível não 
se reconhecerem as doenças venéreas n'essas differenles enjermidadea, maif, 
ou menos graves, produzidas por uma copula inprudente com uma pessoa mais 
ou menos leprosa. 

De resto, um commercio d'esta natureza que implicaria sem remissão a 
pena de morte para o leproso, tinha sido até julgado impossível pelo legislador, 
que não o previu em parte alguma do direito criminal. 

O direito consuetudinário regula tão somente o que diz respeito ás gafa- 
rias. Segundo o uso de Boulenois, quando se descobria depois da morte de um 
homem que tinha sido leproso e que tinha vivido apesar d'lsso na companhia 
dos sãos, estes deviam ser considerados como seus cúmplices, e todas as rezes 
de unha fendida, pertencentes aos habitantes da povoação em que o leproso 
vivera, eram confiscadas em proveito do senhor feudal. Cada parochia era 
d'este modo responsável pelos seus leprosos, e tinha obrigação de os sustentar, 
depois de lhes haver vestido uma espécie de libré, e de os ter encerrado em 
asylos, onde havia um leito, uma meza, e alguns utensílios de madeira e ferro. 
(Traité de la police, por Delamarre, tit, I, pag. 636.) 

Os leprosos, que consideravam a sua enfermidade como uma morte an- 
tecipada, procuravam incessantemente voltar ao seio da sociedade, mas todas 
as suas tentativas eram repellidas com horror. Todas as vezes que a incúria 
da policia urbana permittla a estes desgraçados dissimular a sua triste condi- 
ção, havia nas cidades um alvoroto indiscrlptivel, que obrigava immedlata- 
mente os magistrados a restaurar em todo o seu rigor as antigas ordenações. 

Em 1371, o preboste de Paris publicou o real decreto que lhe havia di- 
rigido Carlos v, em virtude do qual todos os leprosos eram obrigados a aban- 
donar a capital no praso de quinze dias, sob penas gravíssimas, tanto corpo- 
raes, como pecuniárias. 

Em 1388, a mesma auctorldade prohibiu aos leprosos a entrada na ci- 
dade de Paris, sem expressa licença por ella firmada. 

Em 1394 e 1 i02 eguaes prohibições se fizeram «sob pena de serem en- 
tregues ao carrasco e seus ajudantes, para serem açoitados, e depois de um 
mez de prisão desterrados do reino.» 

Não obstante estes rigores, as disposições da policia eram constantemente 
illudidas, por aquelle tempo, e a população sã ia perdendo o seu antigo hor- 



322 HISTORIA 

ror pelos leprosos, que já viviam no meio delia, como se não estivessem ata- 
cados de um mal contagioso, e isto porque a lepra diminuía notavelmente, ou 
peio menos os seus symptomas já não eram tão manifestos. 

O parlamento de Pafis, em II de julho de I4'>3, promulgou uma sen- 
tença contra um leproso, que havia casado com uma mulher sã. Esta mulher 
em quem, segundo parece, a lepra não se havia ainda manifestado, foi se- 
parada do marido, e prohihiu-se-lhe, sob pena de pelourinho e desterro, com- 
municar com elle. Consentiram-lhe, porém, que vivesse na cidade, com a con- 
dição de abandonar completamente a venda de fructas a que se entregava, pelo 
receio de que podesse coramunicar ao povo o contagio da lepra. 

Esta sentença é muito significativa, por isso que prova que os regula- 
mentos da lepra já eram mal observados no século xv, e ao mesmo tempo que 
os leprosos já podiam viver fora das gafarias. Xs consequências doesta relaxa- 
ção da antiga c salutar severidade deviam ser a reproducção da lepra e das en- 
fermidades d'ella provenienles. 

EtTectivamente, poucos annos antes da terrível irrupção do mal venéreo 
em Itália e França, os leprosos tinham multiplicado e reacccndido o veneno 
da elephantiasis, e a saúde publica estava solfrendo uma invasão violenta d'este 
mal, por meio da prostituição, á qual os leprosos de ambos os sexos levaram 
o seu funesto concurso. Por uma ordenação do preboste de Paris, datada de 
1d de abril de I48S, previnem-se «todas as pessoas atacadas do mal abominá- 
vel, perigosíssimo e contagioso da lepra, de que tèem de sahir de Paris antes 
da Paschoa, retirando-se para as suas enfermarias em seguida á publicação da 
dita deliberação do preboste, sob pena de um mez de prisão a pão e agua, e 
perda de seus cavallos e demais bens, além de um castigo corporal arbitrário; 
permittindo-se-lhes, no emianto que fizessem administrar o que lhes pertencia 
por meio de seus crea_dos ou creadas, no caso que Innlo uns como outras es- 
tivessem em boas condições de saúde.» 

R' claro que estes leprosos, que tinham cavallos e serventuários em bom 
estado de saúde, deviam fazer uma espanto.sa dilfusão da lepra pela parte sã da 
população que frequentavam, e esta lepra surda, dei\era-nos assim dizer, trans- 
mittida assim de individuo para individuo por meio dos prazeres venéreos, cor- 
rompia piíysicamente aquillo mesmo que o vicio já havia corrompido cora a sua 
impureza ou mancha moral. 

Não era já a lepra propriamente dita; era o resultado funesto da incon- 
tinência e devassidão dos bord;^is — uma enfermidade horrível, que a prostitui- 
ção trazia comsigo havia muito, e que tinha constantemente acalentado no) seu 
seio impuro. Era o mal venéreo, que os francezes denominaram desde o pri- 
meiro momento da sua apparição mal de Nápoles, eque os italianos, ou por es- 
pirito de contradicção, ou por um acto Je desforço, denominaram mal jrancez. 

O filho da lepra, herdeiro em linha recta das suas funestas tradicções e 
das suas impuras genealogias, não devia ser menos fatal á humanidade, do 
que a sua horrível progenitora. Fosse qual fosse o seu berço, nascesse nos im- 
mundos bordeis de Nápoles ou nas casernas da soldadesca aventureira, vémol-o 
dentro em pouco alastrar-se por toda a Europa, como um llagello sinistro, que 



DA PRosTiiuigSn 223 

era ao mesmo tempo uma terrível punição de todas as impurezas e aberrações 
sensuacs. 

Novo Proteu, assume todas as fornias c maiiiíesta-se por todos os modos, 
atacando a fonte da vida, e empeçonliando-a com o seu viver hediondo, que 
põe nas gerações futuras um stigma de maldiçSo. A sciencia confessa-se ven- 
cida, depois dos mais pertinazes esforços; os médicos mais eminentes nâo se 
atrevem a combatel-o, e evilam-no, como se lhe conhecessem uma força so- 
brenatural. Mais terrivel do que os seus predecessores, o novo flagello invade 
todos os povos e proj)aga-se em todos os climas. Não ha repressões policiaes, 
que o detenham, nem medidas sanitárias que o destruam. 

Filho de todas as impurezas dos séculos anteriores, o venéreo devia pu- 
nil-os severamente e oppôr um dique terrivel á espantosa corrupção da raça 
humana. Era como que um protesto da natureza contra lodos os extravios e 
aberrações da luxuria, accumulados em tantos séculos, e que sem clle, chega- 
ria a corromper toda a humanidade. 



CAPITULO XX 



SUMMARIO 



Nomes sclentificosda syphills: morbus iioous, peslUenlialis scorra, pudendaíira.— Henuminações popu- 
lares que Ib.i foram dadas.— Os saiivos. qm; tinham a poder dr a curar.— Cuincrdeocia du f.M apparecimenio m 
Itália com a expadi^So de Carlos viii — Qual foi a data precisa d'este apparecimen'o?— Ucsacordo a este reípt-lto 
eníre te médicos e os histDríadores.— Tradicfões relativaí ã sua uriíii^m.- .^s cuujuueçõc» dos planetas.— O Tjnho 
envcnonado codi u .^angue dos leprosos.- Caraehumana. — A bestialidade castigada por si própria.— .4 ei;ua e os ma- 
cacos— A syphilis da Eurjpa dío provém da America — Os médicos recusam a priocinio tratar d'e.sta enfermi- 
dade — Menardi e nutras notabilidades medicas sustentam que o mal venéreo procede da lepra da prustituição. 




uLGAJios cslarsufficientemenít^ dciiionslrado tjue o mal venéreo oão 
precisou de esperar pela descoberta da America para se introdu- 
zir na Europa, e fazer n'esta parte du iiiiiiidu os mais assolado- 
res progresso:^. Muitos factos c raciocínios aprcscntáiuus que 
comprovam a grande antiguidade d'csta cruel doenya, cujos vestí- 
gios se encontram atravez dos tempos, umas vez<'s combinada com outras en- 
fermidades, outras, e principalmente, com a lepra, da qual recebeu uma pliysio- 
nouiia completamente no\a. Em toJos os jiaizes foi sempre a prostitui^-ão o mais 
enérgico auxiliar d'este flagello, que os poderes públicos procuravam conter com 
lima espécie de cordão sanitário. Quando este cordão se quebrou peia incúria 
nys governos, o mal recebeu novos alentos, e voltou novamente a estabelecer 
os seus arraiaes nos centros da prostituição legal. 

Eis o motivo porque a lepra venérea appareceu ao mesmo tempo e com 
egual violência em França, Itália, Hospanha, Vliemanha e Inglaterra, no mo- 
mento historicu em que Christovam Colomb i voltava da sua primeira viagem 
ás terras do Novo Mundo. Não temos diUicuIdade alguma cm sustentar que o 
mal venéreo, ou pelo menos um mal análogo, foi conbecido na Europa, desdeo 
anno de 1483; que este mal, ou outro da mesma origem e da mesma Índole 
existia muito antes da descoberta das .Antilhas, embora não produzisse os mes- 
mos accidentes que nas latitudes temperadas; c que a expedição de Carlos riu 
à Itália contribuirá talvez para propagar e exacerbar esta odiosa enfermidade. 
No euitanto, apesar da França e a Itália se cxprobarem mutuamente pela priori- 
dade da infecção, nada tiveram que invejar uma à outra a este respeito, e tro- 
caram apenas as pestes que possuíam, e que tinham importado já de outros po- 
vus. Finalmente, desde que logrou pruvar-se o apparecimento do mal venéreo, 
a enfermidade mudou frequentemente de symptomas, de caracter e de nomes. 
BarojuA da PaosTituicÃo. Touo n— Volha 13. 



iíé HISTORIA 

Eiilrc estes, que foram numerosas, temos a distinguir os populares áot 
scientifieos. Os últimos eram quasi sempre latinos, e encontram-se em todos 
os livros e formulários de medicina, mas foram successi vãmente desappare- 
cendo para cederem o logar ao que Frascator inventou para as necessidades da 
sua fabula poética, na qual o pastor Sjpbilis é o primeiro atacado d'esta hor- 
renda enfermidade, em castigo de haver offendidõ os deuses. 

A maior parte dos médicos italianos ou allemães, que escreveram ahi por 
fins do século xv sobre o mal novo (morbus noius), sabido da sua antiga obs- 
curidade pelas guerras da Itália, José Grundbèclí, Carolino Gilini, Mcolau Leo- 
niccno, António Benivenio, Wendelin Hock de Brackenaw, Estevam Cataneo, 
etc, serviram-se da denominaçào usual de morbus galllcus (mal [rancei). 
Coratudo, como se estes bomens de scicncia se desgostassem de admittir na 
linguagem medica um erro, que era ao mesmo tempo uma calumnia, muitos 
d'elles inventaram outros nomes, mais dignos da scicncia e menos contrários 
á verdade bislorica. 

Grundbeck, o mais antigo de todos, accrescentou á denominação vulgar 
de mal francez a periphrase scorra pestilentialis, e a qualificação mentulagra, 
que quer dizer enfermidade dos membros genitaes. Gaspar Torella, que na sua 
qualidade de italiano se presava de mestre em latinismos muito superior a um 
allemão, adoptou o nome de pudeiidagra, enfermidade das partes pudendas. 
Wendelin Hock preferiu dizer memajra, porque pretendeu descobrir no mal 
francez a lepra da barba descripta por Pliriio (Hist. uai., lib. xxvii, cap. i). 
João António Robenel e João Almenar serviram-se da palavra patursa, sem 
que conhecessem a sua verdadeira significarão, o que nos permitte suppòr que 
era este o nome genérico da enfermidade na America. 

Todas as nações se defendiam da grave responsabilidade de haverem pro- 
duzido o mal venéreo, e cada qual lhe dava o nome da nação visinha, atlri- 
buindo a ci^ta o principio ou a origem do mal. Assim, os italianos, os allemães 
e os inglezes, que aceusavam a França de ler sido o berço do ílagello, deno- 
mina vam-no maio francese, frantzosen, ou (rantzosichen pochen, e frenchpox. 
Os francezes despicaram-se immediatamente, chamando-lbe mal napoUtain ; 
os flamengos e 'js hollandezes, os africanos e os mouros, os portuguezes e os 
navarros denominavam-no ínoi hespaahol ou castelhano; os orientaes charaa- 
vam-Ihe mal christão ; os asiáticos, mal português ;. os persas, mal turco; os 
polacos, mal allemão, e os russos, mal polaco. (Tract. De morbis venerein, de 
Astruc, lib. I, cap. i.) 

Os diversos symptomas da enfermidade derani-lbe lambem ditTerentís 
nomes^ que recordavam sobre tudo o estado pustuloso, ou canceroso da pellfi 
dos enfermos. Assim, os hespanboes chamavam-lbe bubas, ou boav; os geno- 
vezes, maio deVe lovelle; o^ toscanos, maio delle bolle ; os lombardos, maio 
delle brosulle, por causa das postulas uleerosas e multicores, que se manifes- 
tavam em todas as partes do corpo nos indivíduos atacados d'esta espécie de 
peste. 

Os francezes chamavam-lhe grosse vérole, para o distinguirem da petite 
iérole, que desde tfinpos immemoriaes havia sido classificada etitre as enfer- 



nA pnosTiTUiç.^o 2^7 

rnidades epidemicas, e que menos lemivcl do que a sua irtiià, se parecia com- 
tudo com ella pela variedade das puslulas e das ulcerações da face. D'aqui o 
nome genérico de verole, ou variole, formado do latim carius, e o nome anti- 
quado vau', que significava uma pelie branca e cinzenta, e que se applicava 
lambem a um dos metacs heráldicos, composto de peças iguaes, tendo a forma 
de campainhas, dispostas symelricamenle. Prelendia-se que esta disposição 
das peças do vair tinha certa analogia de aspecto com a pclic pintalgada e fen- 
dida dos desgraçados enfermos. 

Por toda a parte se erguiam clamores aos santos e santas, que se tinham 
por advogados contra a lepra, e que nos casos afílictivos d'esta doença costu- 
mavam ser invocados. Estes bemaventurados passaram por consenso unanime 
a ser os padroeiros das victimas do venéreo, e o que é mais, a darem os seus 
nomes á tcrrivel enfermidade, que as pobres victimas coilocavam sob a sua 
ígide tutelar. Deu-se então entre a lepra e o venéreo uma espécie de confra- 
ternidade, que se manifestou pelos nomes dos santos applicados indistincta- 
inente ás duas enfermidades, que se chamaram mal de Saint-Main, de S. Job, 
de S. Roque, e até mesmo de Santa llegina. Bastava que fosse attribuida a 
qualquer santo uma certa influencia para a cura das chagas e ulceras malignas, 
e os atacados do mal accudiam aos altares do santo, considerando-se seus en- 
fermos privilegiados. 

-Os médicos e historiadores, que foram os primeiros a escrever acerca da 
epidemia venérea dos últimos annos do século xv, estão quasi de accordo so- 
bre este ponto: —que o mal venéreo não se declarou manifestamente senão 
em seguida á expedição de Nápoles, mas quasi todos referem ao anno de 1494 
esta expedição, que se realisou apenas em i49.j. Este equivoco, porém, não é 
um erro histórico, porque antes de Carlos ix o anno começava na Paschoa, se- 
gundo o calendário de França. 

Alguns escriptores que fizeram uma confrontação de époclias entre a in- 
vasão de Carlos viu em Itália c a apparição da grosse vérole na Europa, não 
hesitaram em referir estes dois factos heterogéneos ao mesmo anno de 1494. 
Segundo esla opinião, a enfermidade venérea dataria do principio do referido 
anno, mas o rei de França não entrou em Nápoles senão em 2á de fevereiro 
de 1495, e como a festa da Poschoa se rcalisava em 19 de abril seguinte, é 
claro que só d'essc dia em diante começava a contnr-se o novo anno. 

Seria, portanto, mister para justificar a data de 1 494 apontada pelos mé- 
dicos e historiadores, que quizeram precisar o momento do apparccimento do 
flagello, que o chamado mal francez se tivesse manifestado cm Nápoles entre 
22 de fevereiro e 19 de abril do anno de 149o. 

Ha uma certa diíficuldade em admiltir que as auctoridadcs medicas c his- 
tóricas que dão ao apparccimento do flagello a data de 1494 se enganassem 
n'um anno. E' bem pouco provável similhante erro, tractando-se de um facto 
tão notável e recente. Notaremos ainda que os primeiros a estabelrcerem esta 
data foram os médicos italianos, c o anno em Itália começava no 1.° de ja- 
neiro, e não na Paschoa, como cm França. 

De todas estas contradicçõcs parece averiguada a existência de um accordo 



'2'2S liiSTiiklA 

intii' os ilaliaiios, tom o fim de accusarein a aveiitiuviía expedição dos fratice- 
zcs á Itália <le um mal, que cila talvez desenvolvesse e aggi-avasse, mas qiie 
em verdade não levou comsigo. 

'<0s médicos <lo nosso tempo, escrevia em 1497 Nicolau Leonieeno, no 
seu traetado De. morho gallico, não podcram ainda dar o verdadeiro nome a 
esla enfermidade; eoratudo chamam-lhe commummente mal francez, ou seja 
por pretenderem que o contagio se deve á vinda d'aquelles estrangeiros á Itália, 
ou então porque a Itália foi ao mesmo tempo atacada pelo exercito francez e 
por esta enfermidade. » 

Gaspar Torella, no seu traetado De doíore in pudendragra, é mais ex- 
plicito ainda : 

.. «Esla enfermidade, diz elle, foi descoberta quando os francezes entraram 
á mão armada em Ilalia, e sobre tudo depois que se apoderaram de Nápoles 
e ulli permaneceram ; por esta r izão os italianos lhe deram o nome de viaí 
francez, imaginando que era natural d'aquelle povo.». 

Estcvam Caíanco, no seu livro De morbo gaflico, que viu a luz da pu- 
blicidade em loOo, limita-se a recordar o mesmo facto: 

«O anno de 1494 do nascimento do Salvador, diz elle, na occasião em 
que Carlos viu, rei de França se apoderou do reino de Nápoles, c sob o pon- 
tificado de Alexandre vi, viu nascer em Itilia uma espantosa enfermidade, que 
jamais se havia visto nos séculos precedentes, e que era desconhecida em todo 
o mundo.» 

João de Viço faz coincidir lambem a passagem de Carlos viii pela Itá- 
lia, com a súbita invasão d'esta enfermidade, que nunca fora observada ante- 
riormente. 

A antipathia nacional dos italianos pelos vencedores não deixou de ro- 
bustecer e propagar esta errónea opinião, que se enraizou no povo com injus- 
tos rescnlimentos. Os francezes, pela sua parte, não se apressaram tanto a' 
queixar-se dos vencidos e a diíTundir a verdade que os justificaria imraediata- 
menfe, aprcsenfando-os como victimas do mal napolitano, porque os primei- 
ros auclorcs francezes, que fallaram do contagio, nada disseram a respeito da 
sua origem, nem apontaram como causa d'elle as delicias de Nápoles conquis- 
tada por (Carlos viu. 

Houve no emianio na Itália e na Allemanha muitos médicos e historia- 
dores mais imparciaes, qne não vacillaram cm proclamara innocencia dos fran- 
cezes sobre este ponto, approximando-se d'esto modo da verdade, que nem a 
seiencia nem a historia deviam dejvar empanar de nuvens. Uns confirmaram 
a data de I 494, alfribuida á invasão da peste venérea {lues venérea); outros 
foram mais longe em busca da sua origem, ou dos seus primeiros estragos ; ou- 
tros ainda, ou menos inslruidos, ou fingindo calculadamente igncirancia, trans- 
feriram para o armo de Ii96 a primeira invasão da enfermidade, que sup- 
pozeram importada da Hespanha, c por conseguinte da America. 

«No anno da no.ssa salvação de 1496, escrevia cm 1307 António Beni- 
venio, a(ipare<'cu uma nova enfermidade, não só em Itália, como em quasi to- 
dos os paizcs da Europa. Este contagio, que provinha da Hespanha, propa- 



4 PRdSTITUIÇÃíl ??'J. 

gou-se por toda a parle, primoiramente em Itália, em seguida em França, e 
depois pelos outros paizes da Europa, atacando uma infinidade de pessoas.* 

Aqui temos agora o pobre Carlos viii absolvido da aecusação terrivel, 
que o fazia, por assim dizer, réu de lesa-Europa ! Os historiadores vêem 
dVste modo em appoio da justificação dos francezes. António Cocaio Snbclico, 
que sabia por experiência própria o que era a ijrosse vérole {Elogia, de Paulo 
Jove) diz cathegoricamentc no seu Compendio histórico, publicado em Veneza, 
cm 1502: 

«Ao mesmo tempo (em 1496) um novo género de enfermidade começou 
a propagar-se por toda a Itália, desde a primeira invasão que os francezes fi- 
zeram no anno precedente (liOo), e é provável que por esta razão lhe chamas- 
sem mal francez, pois, segundo presumo, não prtde ter-se por averiguado d'onde 
procede esta cruel enfermidade, que nenhum século tinha visto até então.» 

Se a data de 1405 tivesse podido ser estabelecida e comprovada, a pro- 
cedência do mal decerto seria allribuida ao descobrimento da America. Em todo 
o caso a data em questão piíde evidentemente referir-se á propagação rápida e 
formidável da epidemia venérea. 

Para os sábios, porém, que seguiam cegamente a tradicção popular, era fora 
de duvida que o mal francez e o mal napolitano haviam precedido a trium- 
phante expedição de Carlos viii. 

«Os francezes, diz sensatamente Francisco Guicciardini, na historia do 
seu tempo, tendo sido accommettidos d'esta enfermidade, durante a sua perma- 
nência em Nápoles, e regressando em seguida á sua pátria, propagaram-n'a por 
toda a Itália. Esla enfermidade, absolutamente nova, ou ignorada até nossos 
dias no continente europeu, fez tantos estragos por espaço de muitos annos, que 
deve passar á posteridade como uma das calamidades mais funestas.» 

Guicciardini tinha razão attribuindo unicamente ao exercito do rei de 
França a propagação do mal por toda a Itália. E' claro que este mal se havia 
arreigado em Nápoles, antes da chegada dos francezes. 

Ulrich de Hutten, douto escriptor allemão, que tinha uma triste experiên- 
cia do contagio venéreo, indica o anno de 1493, como o do começo da epidemia, 
facto que elle não podia apreciar senão de outiva, por isso que redigia em Mo- 
guncia em 1519 o seu livro intitulado De morbi gallici curatione. 

«No anno de 1493, diz este illustre medico, um mal verdadeiramente 
pernicioso começou a fazer-se sentir não S(S em França, mas primeiramente eni 
Nápoles. O nome d'esta cruel enfermidade provém de se haver manifestado no 
exercito francez, que andava em guerra n'aquelle paiz, sob o commando de Car- 
los VIU.» 

Em seguida refere uma interessante particularidade, que nos explica o mo- 
tivo porque não existe accordo entre as datas históricas attribuidas á invasão 
do Dagello : 

«Não se fallou d'esta enfermidade, durante dois annos inteiros, a contai- 
do tempo em que havia principiado.» 

Ulrich de Hutten seguia a opinião dos médicos allemães, que considera- 
vam a enfermidade muito anterior á conquista de Nápoles pelos francezes. As- 



230 MISTORJA 

sim Wendelin Hoek de Bracknaw, que havia terminado os seus estudos médi- 
cos na universidade de Bolonha, repete o que ouvira dizer na ítalia a respeito 
da épocha primitiva do mal napolitano. 

«Desde o anno de 149i até ao presente de 'Io02, diz elíe, certa enfer- 
midade contagiosa, que chamam o mal francez, tem feito bastantes estragos.» 
N'outro logar, porém, declara o que a este respeito sabiam todos os seus 
collegas da .\llcmanha : 

«Este mal, para fallar com exactidão, começou no anno de 1483 de Nosso 
Senhor Jesus Christo, em consequência da conjuncção de muitos planetas no 
mez de outubro do mesmo anno, o que annunciava a corrupção do sangue e 
da bilis, a confusão de todos os humores e a abundância do humor melancó- 
lico, tanto nos homens como nas mulheres.» 

Os mais hábeis médicos allemães, L. Phrjsius, João Benito, etc, segui- 
ram o mesmo syslema, e atlribuiram a causa da enfermidade ás revoluções 
planetárias e às desordens atmosphericas do anno de 1483. 

Não foi esta ainda assim a única hypothese, nem a mais inverosimil, a 
que recorreram os historiadores, para explicar o apparecimento do flagello. N'este 
ponto seguiam elles a opinião do vulgo, e é de saber que o vulgo, especial- 
mente em Itália c n'aquplla época, está sempre disposto a attribuir origens ma- 
ravilhosas a tudo aquillo que não comprehende. O mal franrez, de preferencia 
a qualquer outro acontecimento, excitou a imaginação dos napolitanos, e pres- 
tou-se naturalmente ás invenções mais extravagantes, entre as quaes, no em- 
tanto, não seria impossivcl descobrir algum facto verdadeiro, envolvido em fa- 
bulas ridículas. 

Gabriel Fallope, que escreveu em '1560, muito tempo depois do aconte- 
cimento que refere, affirma que, por occasião da primeira guerra de Nápoles, 
uma guarnição hespanhola abandonou alta noite as trincheiras confiadas á sua 
guarda, dejjois de haver envenenado os poços e de ter aconselhado aos padei- 
ros italianos que misturassem gesso c cal no pão de munição das tropas fran- 
cezas. Este pão e a agua envenenada produziram a infecção venérea, segundo 
a relação do referido Gabriel Fallope. 

André Cisalpino de .\rezzo, que foi medico de Clemente viii, pretendia 
que o envenenamento dos francezes fora devido a outros processos, assegu- 
rando que testemunhas occulares lhe haviam referido o facto: 

«Depois da tomada de Nápoles, os francezes tiveram de sitiar Surama, 
praça guarnecida por hespanhoes. Estes sahiram da fortaleza durante a noite 
deixando á disprisição dos sitiados muitos tonneis de excellente vinho do Ve- 
súvio, em que se havia misturado sangue ministrado pelos leprosos do hospi- 
tal de S. Lazaro. Os francezes entraram na praça sem a minima resistência, e 
embriagaram-se com aquelle vinho envenenado. Ficaram logo enfermos, e os 
symptomas da enfermidade assimilhavam-se aos da lepra.» 

A verdade cobre-.se aqui de véus demasiadamente transparentes. 
Ha ainda outras tradicções, que se alTastam da opinião mais geral e me- 
nos inverosimil. Fioravanli, nos seus Cnprirrl meilirinali que |)iiblicou em 
1564, refere uma singular historia, a qual, segundo affirma, lhe fora minis- 



• DA rRUSTIlLilÇÃO 234 

frada por um certo Paschoal GibiloUa, de Nápoles, seu conlemporaoco. Durante 
aquella faniOvSa expedição de Mapoles, um dos factores da enfermidade, os vi- 
vandeiros napolitanos ({ue abasteciam os exércitos tiveram falta de rezes, e lem- 
braram-se — que infernal idéa! — de empregar a carne dos mortos como se 
fora de vacca, ou de carneiro. Os desgraçados que comeram carne humana, 
que a morte e a corrupção haviam envenenado, foram logo atacados por uma 
enfermidade, que não era senão a syphilis. 

Fioravanti não nos diz qual foi o thealro d'aquellas espantosas scenas de 
anlropophagia, mas como na sua narração apresenta os hespanhoes em presen- 
ça dos francezes, é de presumir que este facto isolado se desse por occasião do 
silio de alguma pequena praça da Calábria, occupada pelos hespanhoes. E' sa- 
bido que toda a carne corrompida pôde produzir efíeitos análogos aos do enve- 
nenamento, mas o que realmente não pôde admiltir-se é a idéa de Fioravanti 
de que os animaes por comerem outros da sua espécie fiquem sujeitos a uma 
enfermidade análoga ao mal napolitano. Era uma crença extremamente arrei- 
gada que o uso de carne humana causava enfermidades agudas, epidemicas e 
pestilenciaes. 

O illustre philosopho Francisco Bacon, barão de Veruiam, apesar de me- 
dico distinctissimo, não hesitou em repetir, na sua llisloria iSatural, a horrí- 
vel narração de Fioravanti : 

«Os francezes, diz elle, cujo nome tomou o mal napolilaiw, referem que 
havia no cerco de Nápoles fornecedores tão malvados, que vendiam carne de 
homens mortos na Mauritânia, e que se atlrihuia a origem da enfermidade a 
fào horrível alimento. Parece bastante verosímil este facto, porque os antropo- 
phagos das costas occidenlaes são muito propensos á varíola.» 

Procurar na anlropophagia a origem do mal de i\apoles não era ainda 
o cumulo do horror attribuído ás causas d'este odioso contagio, que se julgava 
commummente como um fructo do peccado e da maldição. Dois ílluslres médi- 
cos do século XVI, que não haviam observado mais do que os effeitos já de- 
crescentes do contagio, atiraram-lhe a ultima pedra, procurando demonstrar, 
com melhor intenção do que êxito, que o mal venéreo devia a sua origem á 
sodomia e á bestialidade. 

«Um santo leigo, refere João Baptista Helmont, no seu Tumidis peslis, 
querendo a todo o custo descobrir porque motivo este horrível mal havia ap- 
parecído somente no século passado e não antes, teve um êxtase milagroso, e 
durante elle uma visão extraordinária. Appareceu-lhe uma égua cheia de tu- 
mores, por onde o santo homem concluiu que no cerco de Nápoles, em que 
esta enfermidade appareceu pela primeira vez, algum soldado tivera copula, 
abominável e-om um animal d'aquella espécie atacado do mesmo contagio, o 
qual ímmediatamenle, e por eITeíto da justiça divina, infeccionara desgraçada- 
mente o género humano.» 

Mais tarde, em 1706, um medico inglez, João Linder, procurando des- 
cobrir as causas secretas da syphilis americana, não receiou alTirmar «que 
este mal tinha a sua origem na sodomia entre os homens e os grandes maca- 
cos, que são os satyros dos antigos.» 



fiS! HISTORIA 

E' conveniente notar que em todas as observações dos médicos que pri- 
meiro estudaram o mal de Nápoles, tanto em Ilalia, como em França e AUe- 
manha, não st' faz menção alguma da enfermidade, que Christovam Colombo 
trouxe das Anlillias, a qual cm caso algum jjudia aiitecipar-se a um mal aná- 
logo, nascido e acdimado na Europa, antes que o descobrimento da America 
trouxesse os seus amargos fructos. 

Christovam Colombo, voltando da sua primeira viagem á America, onde 
apenas se demorara um mcz, arribou ao porto de Paios no dia 13 de janeiro 
de 1493 com oitenta e dois marinheiros, ou soldados, e nove Índios. Pôde ser 
que o estado sanitário da tripulação não fosse dos melhores, o que é certo, po- 
rém, é que os historiadores nada dizem a tal respeito, constando apenas que 
partiu immediatamente para Barcelona com alguns companheiros de viagem 
afim de dar conta da sua expedição aos reis catholicos. 

«A cidade de Barcelona, diz Rodrigo Diaz, no seu tratado Contra las 
bubas, foi immediatamente infectada de um mal, que fez assustadores pro- 
gressos.» 

A vinte e cinco de setembro do mesmo anno, Christovam Colombo fez-se 
outra vez de vela com quinze navios, 1.^00 soldados, e grande numero de ma- 
rinheiros e arlifices. Qualorze d'estes navios voltaram a Hespanlia no anno se- 
guinte, e no fim d'cste anno Bartholomeu Colombo, irmão de Christovam, par- 
tia para a metrópole com três navios, trazendo a bordo Pedro Margarite, fidalgo 
catalão, gravemente enfermo de syphilis. Talvez não fosse elle o único atacado 
d'esta enfermidade, mas o diário de bordo não cila outro caso. 

O anno de 1493 multiplicou as relações marítimas entre as Antilhas e 
Hespanha. Por isso, quando Christovam Colombu, accusado de crimes imagi- 
nários, regressava carregado de ferros ao velho mundo, o navio em que vinha 
prezo transportava também duzentos soldados atacados do mal americano. Es- 
tes duzentos empestados desembarcaram em Cadix a 10 de junho de 1496. 
Nove mezes depois, o parlamento de Paris publicava um edito relativo aos en- 
fermos da grasse vérole. 

Sem receio de paradoxo, poderia muito bem suslentar-se que foi a Eu- 
ropa que empestou a America com uma enfermidade à qual o clima das Anti- 
lhas convinha melhor que o de Nápoles. Poderiam adduzir-se razões bem po- 
derosas para demonstrar que os aventureiros hespanhoes ao serviço do exer- 
cito do rei de Nápoles, regressaram á pátria infeccionados de virus venéreo, 
embarcando logo em seguida para a Ameiica sem estarem bem curados. De- 
masiado se conhece a inlluencia que a mudança de clima e de hábitos tiveram 
sempre sobre esta enfermidade inexplicável, que o calor adormece e o frio des- 
perta, augmentando-lhe a violência e os estragos. Finalmente ficará como^ 
cousa provável, senão provada, que o mal venéreo tal como appareceu na Eu- 
ropa abi por 1494 não era senão um infame producto da lepra e da liberti- 
nagem . 

Todos os médicos reconheceram, ainda que tarde, que o mal não era tal- 
vez tão novo, como a principio se julgava, e viram que a lepra e sobre tudo a 
f.lephantiasis Unham mais de um symptoma análogo com esta alTecção virulenta, 



DA PROSTITUIÇÃO 233 

que se rodeava de symptomas exlranlios, mas que em principio se mantinha 
sempre invariável. 

A opinião do vulgo tanto se manifestou a este respeito, que a medicina não 
poude deixar de lhe prestar attenção. E' caso notável que os mais audazes fun- 
dadores da sciencia se tenham limitado a repetir os boatos que a respeito da 
origem da syphilis corriam, sem assentarem n'um systema que teria sido pos- 
sível hast-ar em provas o experiências. N.)s primeiros tempos a epidemia era, po- 
rém, considerada como uma praga enviada pelo eeu e odiosa á natureza, se- 
gundo as prapriís expressões de José Grundbeck, auctor do mais antigo tra- 
ctado que se conhece sobre esta matéria, e os médicos recusavam-se a tractar 
dos enfermos que reclamavam os seus cuidados. 

«Os sábios, diz Torella, . evitam tractar esta enfermidade, persuadidos 
de que não a entendem. Por este motivo, os vendedores de drogas, os herba- 
narios e os charlatães julgam ser os únicos que a sabem curar.» 

UIrich de Hutten mais claramente se exprime ainda, confessando que o 
mal foi abandonado a si próprio e ás suas forças mysteriosas. antes que a me- 
dicina e a cirurgia tivessem a coragem de o tractar. 

«Os médicos, diz clle, espantados d'esla enfermidade, nSo somente evi- 
tavam approximar-se dos atacados, mas até mesmo fugiam d'ellcs, como de 
doentes desesperados. . . Emâm, no meio d'este desalento dos médicos, os cirur- 
giões arriscaram-sc pouco a pouco a pôr a mão em tão difíicil Iractamento.v* 

Claramente explicam esías circumstaneias a razão porque os primórdios 
da lepra venérea permaneceram tão obscuros e tão mal estudados, em todos os 
paizes nos quaes este ílagello appareceu quasi simultaneamente. 

No emtanfo, possuia-se a chave do enigma, e basfaria consultar as frâ- 
dicções das Cortes dos Milagres e dos antros da libertinagem, para averiguar de 
que maneira se produzia c transformava, sob a influencia da prostituição, ò 
monstro, o Proteu syphilitico. A verdade scientifiea andava provavelmente en- 
volta n'aquellas anecdotas que ate mesoTO os grandes médicos não desprezaram 
e foram muitas vezes buscar ás viellas mais suspeitas. João Menardi de Fer- 
rara, n'uma carta dirigida em loo2a Miguel Sanlanna, cirurgião que se dedi- 
cara ao traclaniento das moléstias venéreas, diz-lhe que a opinião mais antiga 
e mais geral é a que fixa a origem d'.cslc mal na épocha em que Carlos viu se 
preparava para a guerra da Itália, em 1493. 

«Esta enfermidade, diz elle, appareceu primeiramente em Valença de Hes- 
panha, por culpa de uma famosa corlezã, que mediante o preço de cincoenta es- 
cudos de ouro concedeu os seus favores a um individuo atacado de lepra. In- 
feccionada desde esse momento, a referida corlezã contaminou todos os man- 
cebos que a conheciam carnalmente, cujo numero dentro em pouco subiu a 
quatrocentos e tantos. Alguns d'cslps mancebos que seguiram á Kalia o rei 
Carlos importaram n'aquelle paiz o terrível contagio.» 

Menardi cita também este facto, e o mesmo faz o sábio medico natura- 
lista Pedro André Matbioli, que apenas muda os personagens e o logar da 
scena. 

Ouçamos este homem de sciencia : 

HreTOBU JVA pBoexirniçIo. Tnxo d— FmtTA 30. 



134 HIRTORTA 

«Ha quem diga que os francczcs contrahiram este mal cm consequência 
de haverem tido commercio impuro com mulheres leprosas, ao passarem D'uraa 
das montanhas da Ilalia. (Tracl. De morbo gallico.)')^ 

A identidade da syphilis e da lepra é claramente indicada n'esfas simples 
reminiscências de bnm senso popular; no emianto, os homens da scicncia 
aproveitavam-n'as, fechando os olhos ao grande ensinamento que ellas tào lu- 
minosamente encerravam. 

Outro medico de Ferrara, António Musa Brassavola, adraitlia provavel- 
mente a preexistência dos males venéreos e do virus que os communica, quando 
refere o seguinte faclo no seu livro acerca do mal francez : 

«No acampamento dos francczcs, diante de Nápoles, diz este illustre me- 
dico, havia uma cortezfl tão famosa como bella, que tinha uma ulc«ra de má 
qualidade no orifício da madre. Os homens que tinham copula com ella contra- 
hiam immediatamenlc uma afTecção maligna que lhes ulcerava o membro. Mui- 
tos homens foram victimas d'esle contagio, e em seguida muitas mulheres que 
que com elles tiveram copula contrahiram o mesmo mal, que por sua vez com- 
municaram a outros homens.» 

Vé-se, portanto, segundo esta opinião de António Musa Brassavola, que 
o mal de Nápoles não era senão uma complicação accidental do mal venéreo, 
que teria existido isoladamente em alguns indivíduos, antes de ser epidemico 
e de haver adquirido a sua prodigiosa actividade. 

Finalmente um dos mais illuslrcs homens de sciencia que fizeram a luz 
nas trevas da medicina, Paracelso, cxpoz uma Iheoria completamente nova a 
propósito das cnformidailcs venéreas, quando proclamou a sua afinidade com » 
lepra, na Grande Cirurgia (lib. i, cap. 8.) 

«A sy|)liilis, diz elle com es.sa convicção que só o génio pôde dar, teve 
origem no commercio impuro de um francez leproso com uma corlezã, que ti- 
nha bubões venéreos, a qual infestou logo quantos tiveram copula com ella. 
Foi assim, continua este hábil e audaz observador, que a syphilis, procedente 
da lepra e do bubão venéreo, assim como a raça das mulas sabe do cruzamento 
do cavallo com a burra, se estendeu por conlngio a todo o mundo.» 

Ha n'csla paFsagem da Grande Cirurgia mais lógica e mais sciencia do 
que em todos os cscriptos dos séculos xv. e xvi a respeito da aíTecção ven-^rea, 
cuja verdadeira origem nenhum medico tinha adivinhado. 

Paracelso considerava, segundo se vé, o mal de 14-94 como uma nova es- 
pécie da antiga família das enfermidades venéreas. 

O grande reformador da medicina chegou a esta conclusão depois de pro- 
fundos estudos sobre a natureza da enfermidade, considerada geralmenf*' a 
mais terrível e assoladora do seu tempo. 

Paracelso nasceu em Zurich cm 149:í. Philosopho distinclissimo, o sen 
espirito deuma penetração assombrosa resolvia facilmente os mais complica- 
dos problemas nos mais oppostos ramos do saber humano. 

Como medico, a sua reputação eguala á dos mais notáveis e audazes fun- 
dadores da medicina. Reformou os conhecimentos médicos do seu tempo, es- 



DA rKosiiTuiçAo 233 

tabeleceu novas theorias luminosas, e deu o maior impulso á scicncia, appli- 
cando-lhe todos os recursos do génio de que era amplamente dotado. 

A sua Grande Cirurgia foi o novo evangelho da sciencia de curar, e o 
ponto de partida de uma evolução coroada dos mais brilhantes resultados. 

Citamos com admiração as palavras do grande reformador, que soube 
lér claramente no livro da natureza o que, para tantos outros mestres illustrea, 
se conservara até então occullo no mais impenetrável myslerio. 

Paracelso justifica e auctorisa a nossa obscura opinião, embora ella seja 
contrariada pelos preconceitos ridículos de muitas outras auctoridades scien- 
tiflcas. 



CAPITULO XXI 



SUMMARIO 



Syroptoma» da syptillis. segundo f rascator.— TransformaçSo do vinis a paitir do anno de l-WC— TracU- 
mento Italiano polo mercúrio.— Tractamento fraccez.— Decreto do pailamento de Paris contia o mal de Napt le« em 
1497.— Pi-itneiroí hospitaea venéreos eai Paris.— Ordenajões do preboste de Paris e medidas policiaes no tempo de 
Luiz XII, Francisco i e Henrii[ue ii.— lnvas5o da sypliilis nas provindas desde 1494.— Os médicos recu.sam-se a ai- 
•iltlr aos enfermo».— Tritímp/io glorioso da muito alta e poderosa.daina D. Sypliilis, livro curioso e raris- 
ílmo attribuido a RabeUu e publicado sob o pseudonyrao de Martinho Dorciiesino.— Citação de uma pas-ag»m de 
Pantagruel.— Ot syphiliticoa edmlttidoj no bospital //o/e/-i)í«í, de Paris.— O hospital de Ourcine.—Dssapparlçíe 
dai gafarias em Fraa;a. 




luAEs FORAM OS symptoDQas e o tractamento mt^dico do mal na- 
politano nos primeiros tempos da sua apparição ? Não deve- 
mos julgar que este mal horrível, a principio tido como incu- 
rável, se manifestou nos primeiros tempos da invasão com o 
mesmo caracter e o mesmo aspecto da sua épocha de decadên- 
cia e do seu periodo estacionário. Pôde até mesmo aíBrmar-se, sem grandes re- 
ceios' de paradoxo, que esta enfermidade, com algumas excepções, se tornou 
actualmente no que era, antes do monstruoso consorcio da lepra e do virus ve- 
néreo. Desde 1540, segundo o testemunho de Guicciardini, que assignava á ori- 
gem da epidemia a data de 1494, o mal atenuava-se pouco a pouco, reprodu- 
dndo-se em muitas espécies differentes da primeira. 

Na sua origem, queremos dizer, no espaço de tempo que se seguiu à sú- 
bita e quasi univer.sal explosão d'este flagello, os sympfomas eram verdadei- 
ramente dignos do espanto que inspiravam, e comprehende-se que, em todos os 
paizes invadidos por elle, os regulamentos policiaes cuidadosamente modelados 
pelos que haviam servido n'outros tempos para a lepra, isolassem da sociedade 
dos vivos as desgraçadas victimas d'esta pesle vergonhosa. Suppunha-se além 
d'isto que o contagio era mais immediato, mais prompto, mais inevitável que 
o de outra qualquer enfermidade. Julgava-se como averiguado que a transmis- 
são do mal não se operava tão somente pela união carnal, mas que se reali- 
sava até mesmo pela respiração ou pelo olhar de um syphilitico. 

Toiíos os médicos que observaram a enfermidade entre os annos de 1494 
c 1514, primeiro periodo geralmente indicado para a sua invasão e desenvol- 
vimento, parecem assombrados das suas próprias observações. Todos ellet con- 



?38 HISTORIA 

cordam e se repetem até na descripção dos symptomas syphiliticos, que talvez 
não se manifestassem cgualmenle em todos os enfermos, mas que todavia for- 
mavam a conslitiiição primitiva do mal de Nápoles. 

Jcronymo Frascalor compendiou admiravelmente os tractados de Leoni- 
ceno, Torella, Calanco e Almenar, seus contemporâneos, no seu livro De mor- 
bis contagiosis, onde descreve os symptomas que elle próprio observara na 
épocha em que estudava medicina e professava philosophia na universidade de 
Verona. Frascator resume nos termos seguintes a descripção espantosa do mal 
de Nápoles na sua origem : 

«Os enfermos andavam trisles, indolentes, abatidos e pallidos. A maior 
parte d'elles tinbam cancros nos órgãos genitaes, cancros rebeldes e insidiosos, 
que não desappareciam nunca de um ponto senão para reappareccrem n'outro 
ponto. Em seguida appareciam-Jhes pústulas na pelle, que a uns começavam 
pela cabeça, o que succedia mais vulgarmente, e a outros em diversas parles 
do corpo, indistinclamente. Eram pequenas a principio, depois engrossando 
pouco a pouco, tomavam o tamanho e a forma de uma bolota. Havia pacien- 
tes em que estas pústulas eram pequenas e séccas ; n'outros grossas e húmi- 
das; umas vezes, li vidas ou esbranquiçadas; outras, duras e avermelhadas. 

«Ao cabo de alguns dias abriam, destillando continuamente uma abun- 
dante porção de humor repugnante e fétido. Desde que rebentavam eram ver- 
dadeiras ulceras que consumiam não somente as carnes, mas lambem os ossos. 
Alguns desgraçados tinham (luxões malignas que lhes corroiam já o paladar, 
já a tracheia artéria; umas vezes a garganta, outras os gorgomillos. 

aCertos pacientes perdiam os lábios, outros o nariz, outros os olhos, ou- 
tros finalmente as partes vergonhosas. 

«Frequentemente desfiguravam-lhc os membros uns tumores gommosos do 
tamanho de um ovo, e quando rebentavam destillavam um humor branco e 
mucilaginoso. Os membros quasi sempre atacados eram os braços e as peruas, 
que se cobriam de ulceras, quasi sempre incuráveis. 

«Mas, como se tudo isto não bastasse, manifestavam-sc ainda agudíssi- 
mas dores ao mesmo tempo que appareciam as pústulas, e ás vezes ainda an- 
tes d'ellas, dores prolongadas, insupportaveis, que se exacerbavam principal- 
mente de noite. A sede d'estas horríveis dores não era nas articulações propria- 
mente ditas, mas sim na massa dos membros e noa nervos. Havia enfermos 
que tinham pusiulas sem dores, ou dores sem pústulas, mas o mais vulgar era 
ler-se uma c outra cousa. 

«A isto vinha juntar-se o enfraquecimento dos membros, a falta de appe- 
tite, grandes insomnias, uma grande tristeza, e uma prostração invencível, pa- 
recendo que o corpo pedia constantemente o leito. 

«Em seguida inchavam o rosto e as pernas; algumas vezes ^obrevinha 
uma pequena febre e uma dôr de cabeça que não cedia .a nenhuma espécie de 
remédio.» 

Sentimos ter de recorrer à traducçâo pesada e incorrecta do simple» e 
ingénuo Jaull, que nus dá uma ideia bem pallida do eslylo firme, enérgico, 
«Jesanlc, poclico mc.mo de Frascalor; em hMlu o caso, queremos deixar a um 



B\ PRuSTITUIÇirt 139 

homem de sciencia a responsabilidade de nus dar d'csta passagem uma versão 
medica, em legar de uma reproducção lillcraria das opiniões do auctor. 

Depois da leitura d'esla di-seripção tão caraclerisliea, como se eompre- 
hcndc que o sábio Fraseator lenha negado na mesma obra a profunda analogia 
da lipra com o mal napolitano? Não sendo este ultimo mais do que uma com- 
plicação da lepra sob a influencia do virus venéreo, devia ter relações intimas 
com a peste inguinal do século vi e o mal dos ardentes do século ix, que não 
foram também senão transformações epidemicas da elephantiasis. O mal de 
Nápoles, porém, a partir do anno de lol4 tem também as suas metamorpho- 
ses, causadas sem duvida pelo que denominaremos um cruzamento de raças 
da enfermidade. 

João de Viço falla-nus também de seirros ósseos que sobrevinham aos 
enfermos, um anno pelo menos depois de atrozes dores infernas por todos os 
membros. Estes seirros (|ue atormentavam muito o paciente, sobre tudo de 
noite, terminavam sempre pela carie da espinha dorsal. 

Pedro Menardi, que tractava habilmente as afTecções syphiliticas quasi ao 
mesmo tempo que João de Viço (1514 a 1526) indica muitos outros sympto- 
mas do virus venéreo : 

«O principal signal do mal francez, diz elle no eap. iv do seu tractado 
De morbo gallico, consiste n'umas pústulas que nascem na extremidade do 
membro e á entrada da vulva, ou collo da madre, e n'uma grande comichão 
nas parles que contécm o sémen. O mais frequente é que estas pústulas se ul- 
ccrem, e digo o mais frequente, porque tenho visto enfermos, cujas pústulas 
se endurecem como verrugas e callos.» 

Parece que, durante este segundo periodo, o mal de Nápoles, apezar de 
algumas variações symptomaticas, conservou toda a sua intensidade. Mas de 
1526 a 1540 entrou n'um periodo decrescente, ainda que o mal venéreo se 
manifestasse n'essa epocha mais pelo tumor das glândulas inguinarias e pela 
depilação. 

«Ás vezes o virus afllue ás virilhas e entumece as glândulas, diz um 
medico francez, António Lecocq, publicando em 1540 o seu opúsculo De ligno 
sanio ; se o tumor suppura, é quasi sempre um bem. Esta enfermidade cbama-sc 
bubão; outros cluimam-n'a caoallo (poulain,) alkulindo burlescamente ao modo 
de andar dos pacientes, que abrem as pernas como se cavalgassem.» 

Pelo que respeita á depilação, este effcilo deve atlribuir-se mais ao tra- 
ctamenlo mercurial do que á própria enfermidade. 

«Ha seis annos a esla parte, dizia Fraseator em 1546, a enfermidade 
mudou consideravelmente. Tornaram-se raríssimas as pústulas, desapparece- 
ram as dores, e o que se nota mais são os tumores. Uma cousa que impres- 
siona em extremo, é a depilação. E ha ainda pcor: os dentes abalam-se e cos- 
tumam cahir também.» 

Era a consequência fatal do emprego do mercúrio na medicação italiana; 
em França, porém, o uso dos remédios vegelaes prevalecera, os accidentes 
da enfermidade ditTeriam de uma maneira essencial, o que nos permitle alBr- 
mar que o mal de Nápoles, affaslando-se da sua origem, chegara a ser ex- 



SiO HISTORIA 

clusivamente venéreo, separando-se da lepra e de qualquer outra affccção con- 
tagiosa, com que primitivamente contraiiira alliança adultera. 

Não trataremos de seguir a degeneração do mal de Nápoles. Foi nosso 
intento unicnmente fazer compreliender que a lepra existia ainda sob a appa- 
rencia do mal novo, e que os climas, os temperamentos, as circumstancias lo- 
caes influíam intimamente sobre as causas e effeilos da enfermidade. Era 
inútil demonsírar de outro modo a funesta acção que devia ter n'ãquella epo- 
cha a libertinagem publica sobre a saúde dos que a ella se entregavam. 

Ninguém pôde negar que o mal era de uma natureza tão communi-ativa, 
que podia dar-se o contagio em grande numero de casos, sem que o acto ve- 
néreo lhe servisse de vehiculo. Ainda assim, comprebende-se que se o llagillo 
penetrava sem se saber como no interior das famílias bonestas, devia ter tido 
por origem factos de prostituição. Nunca a frequentação de mulheres de má 
vida foi mais perigosa que nos cincoenta annos que se seguiram á primeira 
apparição do mal, porque só muito tarde se poude observar que este mal, nas-, 
eido de um commercio impuro qualquer, se transmittia mais rápida e segura- 
mente pelas relações sexuaes do que por qualquer outro contacto. 

Os costumes eram mais regulares em França do que na Itália, e os li- 
bertinos, para cujas necessidades se deixavam abertas as rasas de prostituição, 
viviam absolutamente fora da vida commum. Foi n'elles, portanto, que o mal 
napolitano exerceu desde logo os seus assoladores estragos, sem que a medi- 
cina e a cirurgia se dignassem prestar-lhe cuidados, que eram lidos como 
inúteis para o enfermo e vergonhosos para o facultativo. Alguns estudantes de 
má fama, boticários e velhas prostitutas eméritas, que faziam pagar bem 
caras as suas consultas e drogas, furam os únicos que ousaram tractar dos po- 
bres syphililicos, c não deixaram de lazer algumas curas, graças a certas re- 
ceitas empíricas, conhecidas de tempo immemorial para o tratamento de enfer- 
midades pustulosas. 

Só alii por 1327 é que nm respeitável medico, Th. de Bettencourt, ou- 
sou comprometter-sc a [lonlo de publicar investigações c. conselhos sobre a 
sypbilis n'um opúsculo intitulado Pioca quaresma de penitencia, ou purgatório 
do mal venéreo. 

Antes de Th. Bettencourt, apenas um medico francez, que se occuItoU 
sob o veu do anonymo, se arriscou a accrescentar um remédio contra a grosse 
vérole á sua paraphrase franceza do Regimen sanilatis, de Villeneuve, publi- 
cado em Lyon em loOI. Ao ver a scicncia tão extranha ao mal de Nápoles, 
pensar-se-hia talvez que essa horrível enfermidade não tinha entrado ainda 
em França, quando a verdade era que ella se havia propagado por toda a parte, 
apesar dos constantes esforços da auctoridade religiosa, politica e municipal. 
Devemos no emtanto observar que a enfermidade só raríssimas vezes accom- 
mellia as pessoas de costumes honestos, e que se concentrava, por assim di- 
zer, nas classes espureas da sociedade, nos homens e mulheres de vida desre- 
grada, nos vagabundos, mendigos e outra gente perdida. 

Nos arcbivos do parlamento de Paris e com data de março de 1497, en- 
confra-se uma ordenação d'onde consta que o bispo de Paris, João Simon, pre- 



DA PROSilTUlÇÃO 241 

lado alfaiiipuli' digno o venerável, havia (ornado a iniciativa das medidas de 
salubridade rechiniadas pela propagação da gronne rérole. Esla enlermidadí" 
eonlagidsa, «que lia dois annos a esta parle tem lido grande curso n'este rei- 
1111, pahnras textuaes da ordenação, tanto na cidade de Paris cunio iTiiuIros 
togares», fazia temer aos homens da sciencia que iidxas forças adquirisse sol) 
a inlluencia da primavera. 

Em consequência d'este receio, o prelado reuniu no seu palácio os ma- 
gistrados do Chaíelet para lhes submetíer as suas observações sobre ú assum- 
pto. Decidiu-se alli que se informasse o parlamento, e reunida a asscmbléa 
para deliberar, foi por ella nomeado um dos seus membros, .Martin Rellefaye, 
e um escrivão, para secundar os piedosos esforços do bispo e para se enten- 
der a este respeito com o prebosle de Paris. 

O parlamento promulgou uma ordenação, que fui publicada peias ruas, 
c que continha as medidas policiaes relativas á nova enf(>rmidade. Kstas me- 
didas haviam sidas discutidas em presença do bispo de Paris por ifíuilos dos 
grandes e notaceis per.sonageas de lodos os estados. 

Eis as principaes disposições adoptadas: 

Os forasteiros, tanto homens como mulheres, enfei-iuos da grosse ccrolr, 
deviam sahir da cidade, vinte e quatro horas depois da publicação da ordenação, 
sob pena de forca, devendo regressar ao seu paiz natal, ou ao iogar em <|ue 
havia sido atacados pela enfermidade. 

Para facilitar esla partida impreterivel, entrcgar-se-hia a cada um, quando 
sahissem as portas de Saiat-Denis, ou de Sainl-Jacques a somnia de quatro 
soldos parisis, tomando-se-lhes n'essa occasião os nomes, e prohibindo-se-lhes 
voltar á cidade sem estarem curados. 

Quanto aos enfermos que residiam em Paris, ao serem atacados da enfer- 
midade, eram obrigados a recolhcrcm-^e em casa, sem poderem sahii' á rua 
nem de noite nem de dia, sob pena de forca. 

Se estes enfermos encerrados nos domicílios eram polires, recommenda- 
va-se aos parochos das suas freguezias que lhes ministrassem alimentos. 

Os enfermos que não tinham domicilio deviam recolhcr-se ao arrabalde 
de Saint-Germain-des-Prés, onde se apropriara uma casa para lhes servir de 
hospital. Haveria também outras casas para as pobres mulheres enfermas, que 
eram menos numerosas que os homens, mas (|uc por vergonha <K-cullavani 
quanto podiam o seu estado de saiide. 

Previu-se desde logo que o hospicio pnnisorio de Sainl-Gerwnin não 
seria suííiente para o successivo augmento dos enfermos, e promettia-se aceres - 
ecntal-o com outros togares circumvizinhos, segundo as necessidades sanitárias. 

As despezas d'estas enfermarias ficavam a cargo da cidade, para o (|ue se 
levantaria um imposto especial em caso de necessidade. 

Dois agentes responsáveis seriam postados, um na porta de Sainl-Deuis 
e outro na de Saint-Jacques, para distribuir os quatro soldos a cada enfermo c 
para inscrever os nomes dos que recebessem esta indemnisação ao sahir da 
cidade. Haveria também nas outras portas agentes da policia sanitária para impe- 
direm que os doentes expulsos voltassem, ijuer ás claras, quer occultamente. 

BisToaiA DA Prustituição. Tohu a — FeLBA 31. 



242 HISTORIA 

O artigo mais importanle da ordenação é o oitavo, assim concebido : 

«Item. O preboste de Paris ordenará aos examinadores e agentes de 
vigilância que nos bairros cm que exei-cereni o seu cargo não permittam a ne- 
nlium dos enfermos transitar, conversar, ou communicar com pessoa alguma, 
e que onde quer que encontrem algum, o expulsem da cidade, ou o consti- 
tuam prisioneiro, para que seja castigado corporalmente, em harmonia com as 
disposições d'csta ordenação.» 

Este artigo prova que a sypliilis se considerava como uma espécie de 
peste, e que desde esta épocha se havia organisado em Paris um serviço de sa- 
nidade com os taes examinadores e agentes de vigilância, aggregados aos dis- 
trictos, ou bairros da cidade, e encarregados de fazer observar rigorosamente 
os regulamentos da hygiene publica. Em todo o caso, não se acreditava na in- 
fecção do ar durante a epidemia, por isso que se permittia aos enfermos perma- 
necerem na cidade, com a condição de não sahirem de suas casas. 

E' provável que as casas em que viviam enfermos fossem indicadas ao 
publico por algum signal exterior, como por exemplo, um feixe de palha pen- 
durado de uma janella, ou uma cruz negra de madeira pregada na porta. Uma 
designação creste género foi exigida mais tarde aos que habitavam casas infe- 
ctadas pela peste, por uma ordenação do preboste, de 16 de novembro de 1510. 

.\inda que esta ordenação e outras de data posterior relativas ás epide- 
mias não insiram qualquer medida preventiva contra as casas da prostituição, 
consta no emtanto que eram mandadas evacuar, c que se punham scllos nas 
portas até que melhorasse a saúde publica. 

O mesmo succedia com os banhos, que se mandavam fechar durante o 
periodo de contagio. 

Na primavera de 1 4-97, o numero de syphiliticos augmcntou de um modo 
considerável, segundo previra o excellcnte prelado : 

«Na sexta-feira, 5 de maio, o tribunal do parlamento levantava tima 
somma de 60 libras parisis (approxiraadamente Si^íOOO réis) sobre os fundos 
das multas, e fazia-a entregar a Nicolau Potier e outros encarregados dos doen- 
tes do mal de Nápoles, para que a dispendessem nas necessidades dos ditos 
enfermos.» 

Os registros do parlamento, em que encontramos consignado este facto, 
mencionam também com data de 27 de maio do mesmo anno as exhortações 
que o bispo de Paris dirigiu por diversas vezes aos príncipes, pedindo-lhes uma 
esmola, «por isso que, se os doentes do hospício Saint-Germain haviam sa- 
rado cm grande numero, outros soffriam cruéis privações, porque o dinheiro 
faltava, e n'aquclla occasião não se colhiam muitas esmolas.» 

O secretario do tribuna! propoz que se consagrassem a esta obra de ca- 
ridade uns quinze ou dezeseis escudos (.3o?5íOOO), que estavam depositados em 
cofre havia pelo menos dez annos, c nunca tinham sido reclamados. O tribu- 
nal mandou que esta somma fosse enviada ao prelado. 

Este documento prova que a caridade publica começara a cansar, prova- 
velmente porque o assumpto não era dos mais edificantes. Pelo que respeita 
aos curados, c de crer que não fossem verdadeiros syphiliticos, e que muitos 



DA PROSTITUIÇÃO 243 

mendigos fingiam ter a enfermidade para participarem dos benefícios da orde- 
nação. Elíectivamente as esperanças que poderiam inferir-se da carta do bispo 
ao parlamento não se realisaram, e as numerosas curas que este documento no- 
ticiava trouxeram um grande augmento de enfermos. A população sã de Paris 
assustou-se e pc<iiu energicamente a expulsão d'aquelles extranbos empestados, 
que causavam borror á vista. 

O prebosle de Paris alíendeu a estas reclamações unanimes e mandou 
apregoar ao som de trombetas a ordenação seguinte: {Registro azul do Chaíe- 
lel, f. 3). 

«Apesar de até agora ter sido ordenado ao som de trombetas, e pela voz 
de pregoeiro por todas as ruas (festa capital, para que ninguém podcsse alle- 
gar ignorância, que todos os enfermos de yrosse vérole desoccupassem a cidade 
e fossem, os extrangeiros para o seu paiz natal e os naturaes para extra-muros, 
sob pena de forca, succede que os referidos enfermos, desprezando o que fora 
disposto e publicado, voltaram de todas as partes, communicando pela cidade 
com as pessoas sãs, o que é uma cousa verdadeiramente perigosa para todos 
os habitantes de Paris: 

«Fica, portanto, expressa e formalmente intimado por el-rei e seu pre- 
boste a todos os ditos enfermos da referida enfermidade, sejam bomens ou mu- 
lheres, que inçontinenti desoccupem a dita cidade e seus subúrbios, e vão — 
os extrangeiros para os paizes da sua naturalidade, e os naturaes para longe 
da cidade e arrabaldes, sob pena de serem deitados ao rio, se forem encontra- 
dos passado o dia de boje. 

«Previnem-se todos os eommissarios e agentes de vigilância de todos os 
bairros para que prendam ou façam prender os que forem encontrados, afira 
de n'clles se executar este castigo. Dada na segunda-feira, 2-') de junho do 
1498.» 

Esta ordenação, que não admittia nem desculpa, nem demora, nem ex- 
cepção de espécie alguma, fora motivada pela presença em Paris de toda a no- 
breza, que tinha ido render homenagem ao novo rei Luiz xii, causando es- 
panto por essa époclia encontrarem-se a cada passo enfermos, que não podiam 
ser retidos nos domicílios, visto que a enfermidade por mais horrível que fosse, 
não os impedia de sahir a tomar ar. Fecliavam-se quasí sempre os olhos a es- 
tas infracções das leis polícíaes, quando os doentes, eram pessoas serias e de 
bom porte, mas o seu aspecto causava horror á população indemne, quando os 
via apparecer como corrupções vivas. 

«Não eram somente ulceras, diz Sauval, apropriando-se das palavras de 
Fernel, ulceras, que podiam tomar-se por bolotas, tal era o tamanho e a côr 
que tinham, e das quaes se dcsíillava um pus asqueroso e fétido, que obrigava 
os olhos a desviarem-sc com horror; os rostos manifestavam um negro esver- 
deado, e cobríam-sc de chagas, cicatrizes c pústulas, que nada mais horrível 
podia existir.» (Anlifj. de Paris, t. iii, pag. 27). 

O sábio Fernel, que vivia em fins do século xvi, accrescenla que esta 
primeira enfermidade venérea se assimílhava tão pouco á do seu tempo, que 
diíTicílmente se acreditaria que fosse a mesma. 



244 HISTORIA 

«Esta enfermidade, dizia em 1339 o auctor do Triumpho ijlorioso da 
inHitu alta e muilo poderosa dama Dona Syphilis, perdeu muito da sua pri- 
mitiva malignidade, e os povos já não são por elia Ião assolados.» 

O decreto do parlamento de 6 de março de 1497 (a data é de 1496, se- 
gundo o calendário pasclial) não deixa a menor duvida de que o mal de Ná- 
poles reinou por toda a França desde o anno de 1 494 ; no emlanto, não está 
bem averiguula ainda a época da invasão em cada província e em cada cidade. 
Os archivos municipaes c consulares suhministrariam documentos preciosos so- 
bre este assumpto. Astruc, no seu grande tractado monogi^aphico, cita somente 
dois factos, que fazem constar a apnarição do mal napolitano em Romans, no 
Delphinado, e em Puy, no anno de 1496: 

«A enfermidade das bithas, dizem os registros da universidade de Manos- 
(|ue, foi importada n'este anno por alguns soldados de Romans do Delpbinado, 
que estavam ao serviço do rei e do duque de Orleans, na cidade sua pátria, 
que estava ainda indemne, e não conbecia tal espécie de enfermidade, que 
também não reinava ainda na província.» 

IVuma clironica inédita da cidade de Puy, o aactor, Estevam de .Meges, 
natural da mesma cidade, refei-e que a grasse rerole appareceu pela primeira 
vez em Puy no decurso do anno de 1496. 

Õ extracto dos registros de Manosque é precioso, por isso que serve 
para provar que o exercito de Carlns viii, á volta da expedição de Itália, vinha 
infeccionado da nova enfermidade, e eífeclivamcnte esta enfermidade manifes- 
tou-se cm I i9.j, em lodo o caminho pei'corrido pelos restos d'aquelle exer- 
cito, que vinha em debandada depois da batalha de Fernova. 

Os soldados que trouxeram o mal a Romans tinham sem duvida feilo 
parle da rectaguarda sitiada em Novara co'rn o duque de Orleans, que alli sus- 
tentou um cerco formidável por espaço de cinco mezes. 

Desde a épocha em ([ue Asfruc andou recolhendo os makiiacs para a 
sua encyclopedia das enfermidades venéreas, um estudo mais allenio e minu- 
cioso dos archivos munieipaes de toda a França permilliu verilicar que o mal 
napolitano se estendeu de povoação em povoação até ás aldeias mais remotas 
e obscuras, -pelos annos de 1494 a 1196, o que está em harmonia com o decreto 
do parlamento de Paris, que observa em 6 de março de 1497 <aiuc a yrosse 
cérole tivera grande iniTemcnlo ireste reino ha dois annos a esta parle», quer 
dizer em I i93 e 1496. 

Só nas grandes cidades, a exemplo de Paris, é que se usou de rigor con- 
tra (js cnfeimos, e\pulsando-os sob pena de castigo. Nos outros pontos, evila- 
va-se apenas o seu contacto, deixando-os morrer em paz. 

Não acreditamos, como aífirmam alguns conlemporaneos, que a vigessima 
parle da população morresse victima d'aquella epidenifa, lanio em França como 
no resto da Europa. António Sabelico dizia em Io02: 

«Pouca gente morreu, relativamente ao grande numero de enfermos; 
mas foi pe(]ueno o numero dos que sararam.» 

ririch de Ilullen, (|uc chegou a julgar-se curado, c succumbiu aos pro- 
gressos latentes do mal na edade de trinta t' seis annos, dizia «que de cem 



DA PROSTITUIÇÃO 245 

enfermos apenas se curava um só, e que esfe recahia com frequência em es- 
tado muito peior que o primitivo.» (De morbi gallici curalione, eap. í.) Por- 
que a vida era mais liorrorosa que a morte para aquejles desgraçados, que não 
tinliam o direito de viver na sociedade dos seus similiiantes, e que não encon- 
travam nem remédio pliysico nem allivio moral para os seus atrozes soffri- 
mentos. 

Nos primeiros tempos do appareeimento do mal de Nápoles, pôde dizer-se 
que em neniiuma parle foi traclado, segundo as regras da sciencia ; os médicos 
abstinham-se geralmente de assistir aos enfermos, declarando, a exemplo de 
Bartholomeu Mortagnana, professor de medicina da faculdade de Pádua, que 
este mal fora desconhecido a Hippocrates, a (Taleno, a Avicena e a outros mé- 
dicos antigos; tinham além d'isso uma repugnância invencível contra a lepra, 
á qual succedia a syphilis. 

De resto, este mal vergonhoso parecia concentrado na classe abjecta que 
acalentava no seu seio o gérmen de tantas e tão repulsivas enfermidades, e 
por isso, no fim de contas, nenhum proveito tirarião de traclar males, pro- 
venientes, segundo diziam, do vicio, da miséria e da crápula. 

Envoltos pedantescamente na sua magestade doutoral, diziam «que na cura 
das enfermidades a indicação do traclamento devia ser extrahida da sua pró- 
pria essência, e por isso que nenhum indicio podiam tirar de um mal absoluta- 
mente desconhecido.» 

Os médicos francezes moslraram-se mais indifTerentes ou mais ignoran- 
tes que os ailemães ou italianos, abandonando completamente a toda a espécie 
de charlatães a cura de um mal que se lhes afigurava um problema insolúvel. 
Esta deserção geral dos homens da sciencia deu logar á invasão de uma mul- 
tidão de empíricos no tratamento das afíecções venéreas. Depois dos boticários 
e dos barbeiros, chegaram até os sapateiros a tractar d'estas doenças. D'aqui 
a diversidade dos remédios, a diíTerença de methodos, os ensaios infructiferos, 
os processos ridículos, antes de .se atreverem a empregar o mercúrio, e de se 
conhecer a efficaeia do tjaiac. As sangrias, as lavagens, os emplastos, as pur- 
gas, as tisanas, exerciam uma acção mais ou menos neutra, como na maior 
parte das enfermidades; no emtanto, as fricções, os banhos e os sudorificos 
tinham maior virtude, pelo menos na apparencia. 

«O melhor meio que encontrei para curar as dores e até mesmo as pús- 
tulas, escrevia Ttaspar Torella, que tinha experimentado em França esta me- 
dicação anodyna, é fazer suar o enfermo n'um forno quente, ou pelo menos 
n'uma estufa, por espaço de quinze dias seguidos, era jejum.» 

Era também muito usada em França a panaceia, que se suppunha tirar 
da vibora, quer dizer, vinho em que se deixavam morrer em infusão algumas 
víboras, caldo de víboras, carne de vibora cosida ou assada, decocto de víbo- 
ras, etc. 

Os cirurgiões foram os primeiros que se serviram do mercúrio para ob- 
terem um tratamento enérgico contra um mal rebelde a todos os remédios. O 
exíto correspondeu á ousadia, mas a ignorância ou a imprudência dos opera- 
dores occasíonou os mais terríveis accídentes, e muitos doentes, que feriara 



246 HISTORIA 

escapado da enfermidade, morreram então da cura. Gaspar Torella attribue aos 
effcilos do mercúrio a morte do cardeal de Segorbe e de Aífonso Borgia. 

Para evitar estes desastrosos eíTeilos foi necessário procurar um remédio 
menos perigoso e mais seguro, e julgou-se liaver encontrado a solução do pro- 
blema, quando o acaso fez descobrir na America as propriedades anti-sypbili- 
ticas do gaiac. Ulricli de Hultcn, que fora um dos primeiros a experimentar 
a eíficacia d'este remédio, refere que um fidalgo bespanbol, estando grave- 
mente enfermo de sypbilis, soubera Je um indígena o remédio mais eíiicaz para 
combater o mal, e trouxera á Europa a receita a que devia a saúde. 

Ulrich de Hutten attribue aos annos de 1315 ou 1317 a importação do 
gaiac na Europa. O facto refere-se de diíTei'ente modo nas notas das curiosas 
viagens de Jironymo Benzoni. (Edic. de Francjorl, 1394.): 

«Um bespanhol que bavia contrabido o mal por copula com uma prosti- 
tuta Índia e que soiTria cruéis dores, depois de beber agua de gaiac, que Ibe 
foi dada por um indio, ficou perfeitamente curado.» 

Desde aquella épocba, 1515 a 1517, começou a espalbar-se pela Europa 
que o mal napolitano podia curar-se com uma droga fornecida pela America, e 
desde então o povo, que faz sempre enormes confusões nas suas cbronicas 
oraes, persuadiu-se de que o remédio c o mal deviam ser compatriotas. 

As denominações de mal napolitano e mal francez não podiam sobrevi- 
ver por muito tempo a esta pi'eoccupação que colíocára o berço do mal junto 
da arvore que o curava, por isso os nomes de vérole e grosse vérole prevale- 
ceram por excellencia, como que para restituírem á America o que julgavam 
pertencer-lbe. 

As primeira curas devidas ao emprego do gaiac foram maravilbosas. Ni- 
colau Poli, medico de Carlos v, affirma.que três mil enfermos desesperados 
sararam quasi ao mesmo tempo á sua vista, graças ao decocto de gaiac, e que 
a cura d'aquellcs desgraçados parecera quasi uma resurreição. 

O grande Erasmo, que fora atacado de uma sypbilis terrível com dores 
phrencticas, ulceras e caries, depois de ter ensaiado onze vezes o tractamento 
mercurial, foi radicalmente curado com o gaiac, ao cabo de trinta dias. 

Este pau de gaiac foi por toda a parte acolbido como um dom do ceu, 
mas bem depressa se reconlieccu que o remédio tiniia também os seus incon- 
venientes, por isso que aos accidenles venéreos succedia com frequência uma 
consumpção mortal. Não obstante isto, foi conservando numerosos pai-tidarios 
até que foi destbronado por outro remédio, procedente também da America e 
cbamado pelos indígenas hoaxacan, ao qual os europeus deram o nome de pau 
santo (sancturn lignum). 

Este ultimo remédio foi mais usado em França do que nas outras nações, 
durante uma parte do século xvi, justificando o grande consummo, que teve, a 
sua denominação, por isso ([ue operou curas extraordinárias. 

Punba-se de infusão por espaço de vinte c quatro boras uma libra de 
pau santo cortado em pedaços miúdos. O decocto lomava-se em jejum, quinze 
ou trinta dias seguidos, produzindo um suor copioso, que diminuiu a intensi- 
dade do mal, ou muitas vezes o levava comsigo. 



DA PROSTITUIÇÃO 



247 



Os médicos francezes escreveram muitos tractados acerca da efricacia do 
gaiac e do pau santo, dos quacs faliam 'om uma espécie de respeito e de pie- 
dosa admiração : mas ainda assim não fizeram mais do que repetir os elogios 
que Ulrich do Hutten, na Allemanlia, e Francisco Delgado, na Itália, tinham 
antecedentemente feito d'este maravilhoso especifico, em reconhecimento das 
suas curas. 

«Oh santo lenho! clamava nas suas orações um doente, já alliviado dos 
seus padecimentos. Oh santo lenho! Serás tu da arvore bemdita da cruz do 
bom ladrão ?» 

A cura que se obtinha pelo pau santo ou pelo gaiac não era todavia tão 
radical que os vestígios do mal desapparecessem completamente. Signaes de- 
raasiadi! evidentes ficavam, pelos quaes se reconheciam os desgraçados que 
haviam escapado á aguda acção da enfermidade, sem se poderem subtrahir ao 
seu trabalho surdo e incessante. 

Eis o sombrio quadro que faz d'estes suppostos convalescentes o auctor 
do Triumpho glorioso da muito alta e muito poderosa dama Dona Syphilis: 

«Uns granulosos, outros inchados; estes cheioá de fistulas lacrymosas, 
aqucUes corcovados e gotlosos.» 

O mesmo auctor, que desejava aconselhar a continência c a moderação 
aos seus leitores, pondo-Jhcs diante dos olhos «o exemplo dos infelizes que pela 
abominável luxuria a que se entregam adquirem estas enfermidades», descre- 
ve-lhes d'este modo os prodromos não menos espantosos do mal napolitano : 

«Outros estão nos hospitaes do venéreo, cobertos de ulceras, de can- 
cros, de tumores pútridos, de erupções, de carnosidades e de outras cousas do 
mesmo género, que se adquirem ao serviço de Dona Prostituição.» 

Muitos annos antes da publicação d'esta obra singular, a poesia franceza 
apodcrara-se do assumpto deplorável, que Jeronymo Frascator devia celebrar 
no seu bello poema virgiliano, intitulado SijphiUs, sive morbus gallicus. João 
Droyn de Amiens, bacharel em leis e poeta conhecieo por dois poemas moraes 
e christãos, a Nau dos Tolos e a Vida dus três Marias, compoz uma bailada 
em honra da grosse vérole, a qual depois de ter dado a volta da França com a 
nova enfermidade, foi impressa em Lyon, em 1312, em continuação das poesias 
moraes de frei Guilherme Aiexis, monge de Lira e prior de Bussy. 

A bailada de mestre João Droyn é extremamente curiosa, por. isso que 
accusa a prostituição de haver propagado em França o mal de Nápoles, que o 
poeta attribue aos lombardos. De tudo isto pode inferir-se que as guerras de 
Luiz XII na Itália foram ainda mais funestas á saúde dos seus vassallos do que 
a primeira expedição de Carlos viii. 

Eis a paraphrase d'esta famosa bailada, que não reproduzimos n'este lo- 
gar na lingua em que foi composta, ematlenção ás pessoas pouco lidas no francez 
inculto d'essa épocha : 

«Joviacs amigos, de cabelleira ou gorra, pensae na vida, emendae-a a 
tempo! Cautella com os buracos, porque são perigosos! Fidalgos, burguezes, 
homens de lei, que dispendeis escudos, saúde e ducados, em banquetes, jo- 
gos e orgias, acautellae-vos em questões de amores, c tom^ae nota no vosso 



2i8 HISTORIA 

protocolo: — Foi por frequentardes taulox logares obscuros, que se engendrou 
a grasse vérole I . . . 

«Amao com prudência, coiupassadamenle, nada de excessos, nada de fo- 
lias! Cançar-vos para que! Evitae loucuras. Nunca o prazer nos deixe ex- 
haustos! Amae a virtude, sede cautellosos. Fugi, amigos, de gente corrupta! 
Foi por metlerdes a lança em concavidades damninhas, que se engendrou a 
grasse vérole I . . ■ 

«Escolhei mulheres de boa qualidade, mas nunca enlreis no antro sem 
candeia. INada de vergonhas! Procurae, apalpae, investigae, e só depois d'isto 
reine o prazer! Fazei como os aventureiros em presença duma bagagem aban- 
donada; esquadrinhae de alto a baixo. Foi por não serem os Lombardos cau- 
tellosos, que se engendrou a grosse vérole!. . . 

«Estribilho : Príncipe, sabeis que o santo Job foi virtuoso, mas as ulce- 
ras (|ue teve n'este mundo nos fazem recorrer á sua guarda. Foi para corrigir 
os luxuriosos que se engendrou a grosse vérole!...» 

Segundo as regras poéticas da bailada franceza, as três estrophes syme- 
fricas deviam terminar por uma volta ou estribiliio (envoi) de cinco versos, 
dirigidos a um príncipe. Ser-nos-hia dillicil descobrir a que príncipe foi dedi- 
cada a bailada de Droyn ; em todo o caso, fosse qual fosse, e por mais austero 
que se mostrasse, nenhum d'ellcs teria protestado n'aquclla épocha contra si- 
milhante dedicatória, tanto mais que os numerosos tractados então escriptos 
sobre o mal venéreo eram dedicados aos cardeaes, bispos e outros importantes 
personagens. 

O exame attento (Festa bailada fornecer-nos-hia ainda assumpto para ou- 
tras observações históricas. Veriannis n'ella, por exemplo, que o mal se reve- 
lava por alguns signaes externos, como se os doentes soflfressem assim o esty- 
gma da sua impureza, e que provinha sempre da união carnal e da luxuria. 

E' na verdade para admirar um tal rigor de oliscrvayão n'um poeta de 
uma épocha em que os próprios médicos acreditavam na propagação do virus 
pelo ar que se respirava, e pelo simples contacto. O vulgo via muito melhor a 
este respeito do que os homens da sciencia, e o seu bom senso assimilhava a 
grosse vérole á lepra, a filha á mãe. 

Dois scculos depois, o abbade de Saint-Marlin, que fdi a expressão viva 
de todos os preconceitos populares, repetia ingenuaiue^nlc i> que ouvira contar 
à sua ama de leite, além de muitas outras coisas de que fazia responsável o 
seu amigo João de Lorme, primeiro medico do rei : 

«E' de notar que o venéreo se pega pelo contacto da pessoa que o padece, 
dormindo com ella, ou andando-se descalço sobre a sua cama, c de outros mo- 
dos ainda. » 

João Droyn não foi o único poeta francez que cantou o mal napolitano 
antes de Fraseator. João Lemaire de Relges, o amigo intimo de Clemente Ma- 
rot e de Francisco Uabelais, historiograpbo e poeta de .Margarida de Áustria, 
traduziu em verso um conto intitulado 6' ítpído e yl íropo.v, que Seraphi no havia 
publicado em versos italianos, a respeito dos extranhos e horríveis elTeitos 
deste contagio nascido do prazer. .\ este conto original accrescentou outros de 



DA PROSTITUIÇÃO 249 

sua invenção, pgualmente consagradas ás contendas entre o Amor e a Morte. 
Exlraliimos da obra de Lemaire, que veio a lume em 1320, uma doscripçâo 
vigorosamente traçada dos estragos da enfermidade nas suas desgraçadas vi- 
ctimas. E' apenas uma paraphrase do poema, cujo texto não apresentamos na 
iingua original pelas razões aeima expostas : 

«Finalmente, o venéreo chegou à sua maturação e transformou-se em 
enormes bolbos. Jíuoca se vira na terra uma tal detV)rmidade! Não eram ros- 
tos humanos, eram [verdadeiros monstros. Os bolbos reproduziam-se por toda 
a parte, na fronte, no pescoço, na barba, no nariz; nunca se vira tanta gente 
com tão exhuberante tlorescencia ! O veneno, em seguida, graças ao seu poder 
occult", ia perfidamente atacar as veias e as artérias, communicando-lhes tão 
extranhos mysterios, que para a dòr, para a gotta, para o sofíriniento, em 
summa, só havia um remédio, um só, gritos, choros, prantos, imprecações, f' 
finalmente appellar para a morte, como o termo de tanto soffrimento.» 

■ João Lemaire, que foi como poeta o precursor elegante de Clement Ma- 
rot, seu discípulo, faz entrar nos seus versos a nomenclatura polyglotta daquella 
enfermidade, que os jocosos da épocba denominavam sourenir, ou recordação, 
em memoria da conquista de Mapoles. Os três contos allegoricos de Cupido e 
Atropos foram reimpressos em 15.39 juntamente com o Triumpho glorioso lio 
muilo alia e mui(o poderosa dama Dona Syphilis, rainha da fome dos Amores. 
Este triumpho não é mais do que uma serie de 34 figuras em madeira repre- 
sentando os accessorios do mal de Nápoles e do seu tractamento. Viam-se en 
tre as figuras Vénus, Cupido, os médicos, a dieta, etc, etc. 

Estas figuras compostas e executadas ao gosto de certa dança são acom- 
panhadas de decimas e oitavas perfeitamente rimadas, de modo que dão a en- 
tender que o supposto auclor era o próprio Rabelais. O grande philosopho vi- 
via por esse tempo em Lyon, onde exercia a medicina, compondo nas horas 
vagas estas e outras facécias para diversão dos pobres syphiliticos. 

Na sua velhice, o illustre e implacável crilico recordava-se ainda da ter- 
rível doença que observara em 1327, e por isso no livro v do Pantagruel, en- 
tre varias outras cousas impossíveis, cita o caso de um jovcn extractor da quinta 
essência, que se gabava de curar a syphilis «ainda a mais fina, como quem 
diz a de Rouen.» Um século mais tarde, o provérbio sobrevivia ainda á epide- 
mia, e Sorel, no seu romance de Francion (lib. x,) diz que <- venéreo de Rouen 
p lama de Paris nunca se vão de todo .senão com a peça.» 

.4pesar de personagens eminentes e do mais honesto compiirlamento te- 
rem sido, não se sabe bem como, vielimas d'esta enfermidade impudica, é dif- 
fiiMÍ negar-se que a prostituição fosse o principal intermediário do contagio c 
que os bordeis fossem o foco de tão espanlo><o mal. Em parte alguma a prosti- 
lituição existia regulanientada sob o ponto de vista sanitário, e só em 1684 po- 
demos encontrar uma medida policial que parece tomar em consideração a sa- 
lubridade dos estabelecimentos de libertinagem publica. 

E' fácil inferir d'este facto os terríveis eíTeitos que esta incúria da aucto- 
ridade produziria na saúde publica. Abandonando-se aos perigos da incontinên- 
cia, os libertinos, que iam, por assim dizer beber, o mal á sua própria fonte, 

RiíTOMA DA PnoeirruiçÃo. ~ Tomo a — Fslba 32. 



2o0 HISTORIA 

expunham ;i perigos inevitáveis as imilheres legitimas f!'estes imprudentes; 
as mulheres c os filhos, aos quaes os seus progenitores legavam cresle modo 
um virus incurável. 

.No principio da enfermidade, como vimos, os doentes eram mettidos 
nas enfermarias, ou expulsos das cidades, onde a sua presença inspirava re- 
ceios de contagio. Esta expulsão geral dos pobres atacados contribuiu neccs.sa- 
riamenle para propagar a infecção nos campos. 

Quando, porém, a experiência demonstrou que o mal venéreo, só podia 
communicar-se pela copula carnal, ou por outro contacto intimo e immediato, 
não houve inconveniente em deixar permanecer nas cidades e no convívio das 
pessoas sãs as victimas d'aquella triste e vergonhosa enfermidade, c|ue neces- 
sariamente devia aterrar os próprios libertinos. 

Não lemos a data exacta d'esla mudança de opinião e de policia sanitá- 
ria a respeito do mal napolitano e das suas victimas. Nos registros do parla- 
mento de Paris, lé-se com data de 32 de agosto de 1505 um decreto que au- 
ctori.sa a levantar do fundo das multas a somma necessária para o aluguer de 
uma casa destinada ao alojamento dos syphilitieos. 

Este decreto é o ultimo que faz menção d'estes hospitaes temporários. 
l)iz-nos também que o asylo de Saint-Germain não era suíficiente. E' muito 
provável que alguns annos mais tarde, a medicina, que a esse tempo havia es- 
tudado já o principio do mal venéreo, admittisse os syphilitieos de raistnra 
com os outros doentes do Hotel-Dieu, embora esta concessão se estendesse 
apenas aos que haviam contrahido em Paris a grasse vérole. 

Assim se passou de um a outro extremo, cahindo-se d'um excesso irou- 
tro peor. No Hõli'1-Dieu. os enfermos tinham uma cama para cada quatro, e a 
syphilis foi infeccionar muitos desgraçados que alli haviam entrado apenas 
com uma febre ou com uma constipação, e que sabiam contagiados, pejo \irus 
ou pelo mercúrio. 

Multiplicavam-se, portanto, os enfermos, apesar do mal linver diminuído 
de gravidade, e o Hotel-Vieu em pouco tempo não foi sufficienie para cnntel-ns. 

Foi mister pensar então em fundar hospitaes destinados especialmente ao 
tnicfamcnto venéreo. 

O primeiro hospital d'esta natureza foi estabelecido em lo36 por dccrelo 
do iiarlamento, devido ás informações dos commissarios encarregados da policia 
dos pobres. Duas salas do grande hosjiitai da Trindade tiveram este dcslitio. 
O salão do andar nobre, onde se costumava representar farças e autos, fni di-s- 
tinado a albergue dos syphilitieos, a sala do rez-do-cbão recebeu os atacados 
do mal que chamavam Sainl-Main c Sainl-Fíacre, e ainda os de outras mo- 
léstias contagiosas. 

Alguns mezes depois da ínstallação d'este hospital, já faltava espaço para 
o grande luimero de enfermos (lue chegavam a toda a hora. O parlamento, por 
decreto de :í i\r março de líiiT, ordenou aos mordomos da egrcja de Santo- 
Eustaquio que destinassem o hospital da freguezia ao alojamento dns |)ol)rcs 
enfermos sypliiiilicos e da enfermidade chamada de Saint-.)ínin, ou de quai's- 
quer outras do mesmo modo contagiosas. 



DA PKOSTITUIÇÂO 251 

Não havia ainda, porém, em Paris, apesar (J'eslas medidas sanitárias, 
um iiospilal exclusivamente reservado ás enfermidades venéreas, emquanto 
que a cidade ile Tolosa possuía um desde o aiino do ITi^S, denominado na 
lingua do paiz Hoiispital des Itowjnounéx de la llouijnu de AajjDles. (V. as 
l/fíí). de la hisl. du iMnijuedoc, por (1. de Catei, p. 237.) 

A' medida que se abriam novos asylos para os pol)res enfermos da sy- 
pliilis, manifestavam-se os estragos do mal nas ejasses inferiores, sobretudo 
nos vagabundos. A humanidade aconselhou então que se livrassem as pessoas 
sãs da vista e do contacto dos enfermos. Por toda a parte .se construíram iKt.s- 
pifaes, onde como nos cárceres se foram aceumulando todos os pobres em (|uc 
se suppnnha o contagio. 

Pouco tempo bastou, porém, para que a auctoridade não se ai'rependesse 
de ler supprimldo com demasiada leviandade as medidas policiaes relativas 
aos leprosos e syphiliticos. Recimheeeu, ainda que tarde, que não era talvex 
Ião grande a ditrerença entre estas duas classes de enfermos, e leve a idéa de 
restabelecer o antigo regimen das gafarias, ou lazaretos dos leprosos. Por isso 
preparou-se para os syphiliticos o grande hospital de S. Nicolau em Paris, 
perto da Biévre, na freguezia de S. Nicolau de Chardonnet. 

No emtanto, os recursos d'este hospital não haviam sido calculados para 
o augmento diário do numero de enfermos, e este numero eleva va-se em lo20 
a 660. Os lençoes e muitos outros artigos vieram a faltar completamente. O 
pailamento de Paris apiedou-se d'estes enfermos, que se encontravam na maiur 
necessidade, c intimou os administradores do Hoíel-Dieu a proverem Iodas as 
faltas do hospital de S. Nicolau. (V. Prouces de ['hist. de Paris, poi- Felibien 
e Lohineau, t. iv, p. 689 e 697.) 

Este hospital tomou o nome de Lourcines, e eram para elle enviados to- 
dos os syphiliticos que se apresentavam na repartição dos pobres e no Hotel- 
Dieu, onde até então haviam sido admittidos nos mesmos leitos dos não ala- 
riidos d'esta enfermidade. Tal foi a origem do iiospital do venéreo, e um de- 
creto de 24 de setembro de l5o9 diz-nos que Pedro Galandins «costumava 
administrar antes d'isto o dito Jiospilal de Lourciwes, onde vivia e assi.stia como 
medico aos syphiliticos.» (Ob. citada, l. iv, p. 778.) 

Ao mesmo (empo que se procurava isolar esta classe de enfermos, Ira- 
etava-se de encerrar nas gafarias os leprosos errantes, que tanlo haviam con- 
corrido para corromper a saúde publica, vivendo livremente entre a população 
indemne. 

Francisco i, por decreto de 10 de dezembro de loi3, quiz remediar a 
(jrai-i' desordem das gafarias, e tentou fazer encerrar n'ellas os leprosos, que 
mendigavam pelas aldeias. Era demasiado tarde para restituir ao domínio do 
estado os bens pertencentes á caridade publica, mas invadidos ha mais de um 
século pelos particulares. Além d'is{o, de que serviam as gafarias, se já não 
havia leprosos propriamente ditos? 

EITectivamente, os que por este nome se designavam, não eram cm ul- 
tima analyse mais do ([ue sypbiliiicos de vírus recente ou inveterado. .\ lepra 
e o venéreo haviam feito causa-commum, a tal pontoque Henrique iv, por um 



252 HISTORIA • 

edito de 1696 destinou as gafarias que ainda restavam para alojamento dos fi- 
dalgos pobres e dos soldados estropeados. 

Naquella épocha nem todos os syphiliticos estavam nos hospitaes e pôde 
dizer-se que a prostituição, ao passo que povoava as Cortes dos Milagres, as 
ia despovoando também, propagando ri'ellas sem cessar o antigo virus da lepra 
e o virus novo do mal venéreo. 



CAPITULO XXII 



SUMMARIO 



Os poetas da prostituii, Jn nu swiilo XIII.— Corrupção obscena da linguagem.— Christina de Pisan declara- 
guerra ás palavras torpes.— Influfncia do Romance da Rosa nos costumes.— A Arte de amar, de Guilherme de Lor- 
ris e JoSo de M-iin?.— Vingança das damas.— Antagonistas do Romance da /íosn.— Projecto de refoima das mulho- 
re.i publicas.— O campeão das damas.— Os poços do amor da Picardia e de Hainant. —Guilherme Coquillard.de Relras. 
—Os novos direitos e o código da libertinagem.— íVjcío iíí des. —Fraude a respeito da i|ualidade -do jíenero.- Kstel- 
lionato amoroso.— Litigio entre a simples e a astuta.- Antes de tudo, pague.— Retrato de unia velha proxeneta.- 
Nomenclatura das coi tez3s de Reims com as suas alcunhas — Oliva de GaieFatras.— Mariquitas de Traine-Poétes.— 
Morte de Cociuillart.— Seu epitaphio.— As coquilles de Coquillart. 



|s TRovEiRo.s do scculo xiii, como já dissemos, haviam sido os 
poetas da prostituição. As suas trovas, contos e romances, re- 
ílexo vivo da licença dos seus costumes e da obscenidade da 
sua linguagem tiveram funesta influencia na linguagem e.scri- 
Hpta e nos costumes populares, que longe de se depurarem, se 
preverteram cada vez mais, a exemplo dos que a alegria gauieza havia elevado 
ás nuvens nos seus contos licenciosos. Não s6 a linguagem foi sobrecarregada 
de uma enorme quantidade de palavras torpes e de locuções impudicas, mas 
aprendeu^" também a aproveitar a cada passo todos os logares communs do amor 
carnal. 

Os editores de Rufebeuf, os senhores Achilles Juvinal e o seu anteces- 
sor Meon, não se atreveram a publicar, nem mesmo supprimindo as palavras 
livres ou substifuindo-as com reticencias, muitas composições que provam 
■quanto aquelle desbragado troveiro se esquecia do respeito devido á decência 
publica. Os amadores d'este género de litteratura podem consultar o celebre 
manuscripto da Bibliotheca imperial, em que se encontra a pag. 213, a compo- 
posição intitulada Dit du c. . . et de la c ... , que principia assim : 

Une c. . . et une v. . . s'esmurent 
A' un marche oú aller durent. . . 

Uma outra composição, não menos desaforada, é a que se encontra a pa- 
ginas 24, sob o titulo de Dit des c. . ., e cuja invocação dirigida a um alto per- 
sonagem começa: 



254 HISTORIA 

. Signor, qvi les bons c. . . savez, 
Qui snvpz que le c. . . esl iels. ■ ■ 

(^onío estas, outras muitas que não reproduzimos ua sua integra, e das 
quaes nem mesmo damos a traducção dos primeiros versos, para não indiíínar- 
iiios o leitor avesso a taes desbragamenlos de expressões. 

Ninguém cvlranliava esta obscena linguagem nos contos jocosos, onde 
era sempre bem recebida como incentivo da gargalbada. A força de liabito fez, 
porém, com que ella passasse a obras mais serias e ate mesmo ás que se oc- 
cupavam da moral. Já citámos diversas passagens de uma antiga traducção da Bí- 
blia, para provar que os escriplorcs c poetas profanos se rescnliam sempre das 
más companhias que frequentavam. Esta inconveniência da linguagem não era, 
ainda assim, sensivel a todos, e mulheres de bons costumes, bem como homens 
de grande austeridade iiavia, que levavam a sua candura ao CNlremo de não 
se escandalisarem com as locuções triviaes ou dcsiioneslas, que tinham irrom- 
pido na lingua escripta e na fallada quasi ao mesmo tempo. Era mister possuir 
uma delicadeza excepciona! n'aquclla épocha para alguém se envergonhar ou 
oftcnder com aquella ingénua grosseria, que o uso propagara a todas as clas- 
ses, fazendo-a passar dos livros á conversação. 

\ amos ver como a discreta e jmdica dama Cbristina de Pisan se defen- 
dia da accusação de haver manchado as suas obras poéticas e moraes com esta 
prostituição da linguagem. Responde á muilo notável e compeiente pessoa de 
Gauthier Col, secretario do rei Carlos v : 

«Dizes que sem razão vitupero o (|uc se diz no Hnmance da Ito.sa, no 
Capitulo (la /?a^ão,em que se nomeiam os membros do homem pelos seus no- 
mes, e a ponto recordas o que disse n'outra parte já — que Deus creou Iodas 
as cousas boas, mas que emíim pela abominável mancha do peccado dos nos- 
nos primeiros pães se tornou o homem uma cousa immunda. Trago, em re- 
forço, o exemplo de Lúcifer, cujo nome é bello e a pessoa horrível, e concluo 
por dizer que o nome não faz a deshoneslidade da cousa, mas sim a cousa é 
(jue torna o nome desbonesto. E por isto dizes que me pareço com o pelicano, 
que se mata com o próprio bico, e conclues : — Se é a cousa que torna o nome 
desbonesto, que nome se pode dar á cousa, que não seja desbonesto?— A isto 
respondo desde já que nem sou lógica, nem vejo. a necessidade de taes dispu- 
tas. No emtanto, sempre accrescentarei que não poderia fatiar de modo algum 
de dcshonestidade, ou de vontade corrompida, mas se cm caso de enfermidade 
o julgasse conveniente, faltaria d'isso de modo que se entendesse o (|uc (|tieria 
dizer, sem fallar ainda assim deshoncslamente.» 

Cbristina de Pisan não receia, ao que se vè, entrar ii"uma discussão es- 
pinhosa e árdua a respeito dos casos em que era necessário chamar as cousas 
pelo seu nome, embora esse nome fosse desbonesto, e conclue por estabele- 
cer o principio de que só a dcshonestidade do coração produz a dcshonestidade 
das expressões. Tractando, porém, d'estc escabroso assumpto, nem se quer nota 
que vae cahir no defeito que censura a João de Meung e aos podas da sua cs- 
chola, por isso que se serve de palavras t(U-pes e iiulccenlcs, i]iie contrastam 
com a pureza das suas intenções. 



DA PROSTITUIÇÃO 255 

O Romance da Rosa, qui- Cliristiiia de Pisan ataca d'esto iinxlo nas suas 
epistolas (J/ò-, da BiblioiluH-ii [inperial,) j.jdia com razão sor accusatlo de haver 
exercido unia influencia perniciosa no' pudor da linguagem e no estado dos 
costumes puidicos. l'ódc dizer- se no eintanfo que o Romance da Rosa foi por 
espaço de mais de d )is séculos o evangelho da galanteria franccza. 

O auctor da primeira parle d'este famoso poema, Guilherme de í.orris, 
que mo) reu nos fins do século xiii, deixando-o incompleto, prMendeu compor, 
sob uma forma allegorica, uma espécie de Arte de amar, ao gosto do seu tempo : 
no emtanto, não se illudia a respeito dos perigos de uftia paixão, que é ás ve- 
zes um mal lerrivel e incurável. 

«Não ha remédio nem mezinha ([ue aproveite. Fugir do amor eis Ioda a 
sua medicina!. . .» 

O poeta sabia talvez por experiência própria que o amor, por elle des- 
cripto com tanta soduc.ção, era epidemico entre os poetas da épocha. 

«.Muitos perdem com elle o juizo, o tempo, os haveres, o corpo, a alma 
e a salvação». 

riuilherme de í.orris lenlou neutralisar o contagio voluptuoso do seu 
assumpto por meio de reflexões cheias de prudência, e de sentimentos de uma 
nobre honradez. Não consegue, porém, realisar o seu fira, por isso que a doida 
mocidade (jue se havia enlhusiasraado com o seu Romance da Rosa, que en- 
cerra índa a arte do amor, só viu n'el!e pasto e exemplos de libertinagem, em 
vez de preceitos e de licções de moral. O poeta interrompeu o seu trabalho eró- 
tico, tlepois dç haver escripto quatro mil versus. 

Outro poeta se apresentou para completai' o Romance da Rosa. João de 
Meung, diz Chopinel, continuou o romance de Lorris, alTastando-se, porém, al- 
gum tanto do plano primitivo. Não quiz, no emtanto, imitar Ovidio, ou qualquer 
dos poetas clássicos do amor. Sob o pretexto da moralidade e da satyra dos cos- 
tumes, desencadeou na segunda parte da sua obra uma torpe enxurrada de in- 
jurias contra as mulheres, e para alTastar os seus leitores do perigoso escolho 
da galanteria, tractou de lhes apresentar em toda a sua nudez os amorosos 
incentivos das sereias, que se dedicam á perdição das almas e dos corjtos. 

Parece estar perfeitamente averiguado que João de .Vleung não foi frade 
dominico, segundo por muito tempo se julgou, pelo facto de haver sido enter- 
rado no claustro do convento dos jacobinos da rua de Saint-Jacques. Era dou- 
tor e professor de humanidades na universidade do Paris, por isso que o seu 
panegyrista, o prior de Salon, nol-o representa sentado no seu jardim da Tour- 
nelle e vestido com uma capa forrada de arminho, como homem de qualidade, 
diz o bibliogiapho .\nlonio Duverdicr. Oas escholas tiouxcra o habito de cha- 
mar as cousas pelo seu nome, e não fazia escrúpulo, alentado pelas suas boas 
intenções, do usar dos termos mais obscenos e de. pintar o amor com as co- 
res mais lúbricas, desprezando toda a espécie de veu. Apesar d'isso, jactava-se 
de ser homem honesto, de corarão ijenlil e animo leal. 

Se o Romance da Rosa, porém, era a leitura favorita dos jovens disso- 
lutos, as damas e as meninas novas, ([ue também o liam em segredo, não per- 
doavam ao auctor o havel-as ultrajado, especialmente n'uma extensa diatribe 



2(S6 HISTORIA 

contra o sexo feminino, que termina por estas palavra* : ^ínlhei-es honradas, por 
S. Diniz ! abundam tanto como a Phenix ! 

As damas, irritadas por este ultrage, resolveram castigar por suas pró- 
prias mãos o insultador Veio exacerbar-lhes a fúria outra opinião demasiado 
cruel, que o poeta ousara formular contra o bello sexo em geral: «Todas 
fostes, sois ou sereis, por obras ou por vontade, p. . .» 

A vingança das damas vem referida por André Thevet nos Verdadeiros 
retratos e cidas dos homens illustres (Paris, Kerver, 1584, 2 tomos in-folio;) 
e a tradicção do facto estava ainda tão presente na memoria de todos, que An- 
tónio Duverdier, sire de Vauprivas, publicando quasi ao mesmo tempo em 
Lyon a sua 'Biblioth. franceza, nVlla faz menção da desventura de João de 
Meung. A narração de Duverdier é muito menos conhecida que a de André 
Thevet. De mais a mais contém interessantíssimos pormenores, e por isso a 
transcrevemos textualmente, com o filo de provarmos que no tempo de Filippe, 
o Formoso, as damas da corte não tinham melhor fama que as cortezãs de pro- 
fissão : 

«Mestre João de Meung, diz o sire de Vauprivas, tendo vindo á corte- 
em certa occasião, foi apanhado pel.is damas n'uma das camarás do palácio real, 
e rodeado logo alli mesmo de muitos fidalgos, que por agradarem ás damas ti- 
veram de prometter auxilial-as no castigo que meditavam. Apenas João de 
Meung as viu armadas de fortes azorragues, e ouvindo que intimavam os fi- 
dalgos a despil-o, pediu-lhe a mercê de o deixarem fallar, jurando que não 
iria pedir-lhes o perdão do castigo que desejassem impor-lhe, bem que não o 
merecesse, o que lhe foi outorgado, depois de muitos rogos e instancias dos fi- 
dalgos. 

«Então João de Meung tomou a palavra e disse : 

«Senhoras minhas, uma vez que é preciso que eu seja castigado, pare- 
ce-me justo que m'o itifiijaia somente aquellas qut otTcndi. Ora como cu me 
referi ás damas licenciosas e de maus costumes e de nenhum modo ás que 
n'este logar vejo reunidas, se alguma de vós, formosas senhoras, se julga victima 
das minhas allusões, comece immediatamente a zurzir-me a pelle como a mais 
p. . . de todas quantas accusei. 

«Nenhuma houve que se determinasse a começar, receiando carregar com 
a infâmia do grosseiro apodo, e mestre João escapou incólume, deixando as da- 
mas envergonhadas e muito satisfeitos os fidalgos circu instantes, que celebra- 
ram o ca.so com grande risada. Alguns d'elles eram de parecer que havia alli 
damas que deviam por justo titulo e fama fomeçar o castigo.» 

O Romance da Rosa, em que abundam pormenores eróticos e palavras 
obscenas, foi para os francezes dos séculos xiv e xv o que o poema de Ovidio 
fora para os romanos. Escripto em magnifico pergaminho, e ornado de minia- 
turas, encontrava-se em todas as livrarias dos palácios e dos castellos; sabia-se 
de cór, era a cada instante citado, e d'elle se tiravam, como de uma fonte de 
refinada galanteria, todas as licçõcs e documentos da arte de amar. 

Mas este celebre romance, que tinha, apesar de tudo, um fim moral, não 
foi menos reprovado pelas mulheres perdidas^^e pelas pessoas de bons costu- 



DA PROSTITUIÇÃO 257 

mes, e uma multidão de poetas e prosadores, sem duvida por iiispiraçàn das 
damas, refutaram as accusações parciaes e deshonestas que ii'esse livro contra 
ellas st^ encontravam. 

Os dois mais famosos antagonistas do Romance lia Jtosa foram (".liristina 
de Pisan e Martin Lefranc, que .«-em deixarem de fazer justii,'a ao talento do au- 
etor, o censuram igualmente de haver sido injusto para com as mulheres, e de 
se ter deivado transviar nos torpes atalhos da prosfiluiçào. Eis a opinião que 
a famosa Chrislina de Pisan fez d'este livm, (jue tinha imnienso desejo de ani- 
quillar : 

«Por isso que a natureza humana é mais inclinada ao mal, julgo que 
esse livro pôde ser causa do resvalamento aos maus costumes, por isso que 
contem vida dissoluta, doutrina de decepí,"ão, vida de condeninaçào, diffamação 
publica, causas de suspeita e de incredulidade, e vergonhas para muitas pes- 
soas, p sobre tudo mui deshonesta leitura em vários pontos.» 

Christina de Pisan vivia em épocha menos despravada do (|ue aquella em 
que João de Meung apresentava a mulher como um vaso impuro de todos os 
vícios. Os costumes no reinado de Carlos, o Prudente, eram mais decentes que 
nos reinados anteriores ; no emtanto, a prostituição civil não deixava de ter os 
seus foros de cidade, no dizer d'esta virtuosa escriptora, que na sua Cite de.i 
dames queria mostrar que o seu sexo sobresahia ao outro em toda a espécie 
de méritos, e que no seu livro das Três Virtudes dava licyões de moral e de de- 
coro ás mulheres de todas as condições. Não esquecia também as mulheres de 
mà vida, e propunha-se convertel-as, restituindo-as à estima da sociedade. Por 
isso dizia a illustre dama : 

«Como seria bom para qualquer mulher, assim victimada á vergonha e 
ao peccado, voltar ao primitivo estado de virtude! E ser-lhe-hia fácil conse- 
guil-o, pois, assim como tem corpo forte para fazer o mal e soffrer muitas in- 
jurias, tel-o-hia também para ganhar a vida; assim ella quizesse, repetimos! 
que não lhe faltaria quem de boa vontade a ajudasse, lhe desse onde trabalhar, 
mas em recato e com toda a vigilância, para (|ue nào se expozesse novamente 
á impureza e ao vicio em que vivera. Fiaria, assistiria aos enfermos, teria uma 
pequena morada n'alguma rua decente, er)tre gente honesta, onde viveria sim- 
ples e recatadamente, sem que ninguém a visse jamais ébria, cheia de enfer- 
midades, ou armando pendências com a outra gente. Teria o máximo cuidado 
em que da sua bocca jamais sahisse palavra própria de bordel ou prostituição 
(puterie) ; fallaria sempre corteznienti- ; seria meiga e obsequiosa para toda a 
gente, e teria o maxmio cuidado em que nenhum homem a enganasse, porqui> 
n'èsse caso perderia todas as vantagens adquiridas. Por este caminho, poderia 
servir a Deus e ganhar honradamente a vida, e mais lhe aproveitaria assim 
um escudo, do que cem recebidos em peccado.» 

O projecto de reforma, imaginado por Christina de Pisan para destruir a 
prostituição, não leve outro resultado senão dar honra a sua aucíora. As mu- 
lheres publicas não renunciaram á sua deshoiira. nem Ião pouco veio a cari- 
dade ao seu encontro ofTerccer-lhcs tima pequena moraAa, nalguwa rua de- 
cente, entre gente honesta, nem trabalho, nem outro quabjuer meio de mudar 

BiSTOBiA Dl PBosTrrmçÃo. Tomo ii— Folha 3.'). 



258 HISTORIA 

de vida. Continuaram, porlaiilo, a ser d que eram até ahi; bêbadas, fallado- 
ras, bulhentas e escandalosa^^. 

O mesmo resultado leve o ata(|ue de Christina de Pisan a Joào de Meung. 
O Romance da Rosa, sempre lido e admirado, continuou a gosar da mesma po- 
pularidade, sendo uma espécie de breviário para os amantes e libertinos. 

Martin Lcfranc, o auctor do Campeão das damas, perdeu egualmentr a 
sua campanha contra a poesia erótica, tomando o Romance da Rosa para texto 
das suas declamações uioraes em defeza do sexo feminino. 

Lcfranc era, como se suppõe, preboste e cónego da egreja de Leuse cm Hai- 
naut. Homem dado a galanteios, e dotado de bom humor, tomou a seu cargo 
a defeza das damas' contra as insolências de João de Meung. 

O seu Campeão das damas não é mais de que um extenso panegyrico da 
vida feminina; no emlanto, serve-se com demasiada frequência do vocabulário 
do mesmo .íoão de Meung, som receio ile offender os castos ouvidos das pessoas 
a quem se dirige. 

Este facto comprova o que ja dissemos a respeito do desbragamento da 
linguagem lilferaria e do iiupudoí' dos poetas. Desde que se entrava no plano 
rcsvaladiço da tjaia scieacia, força era adoptar-se o .seu estylo, creado na eschola 
da libertinagem e dos bordeis. 

Frei Guilherme Alexis, monge de Lira na Normandia, no seu Grande 
hrazão dos falsos amores, composto em meiados do século .\v, não empregou 
linguagem mais decente du que o auctor anonymo do livro de Mallieolus, poema 
francez, composto no século xiv contra o matrimonio e as mulheres, c que se 
attribue a um bispo de Teronenne. 

.Vssim, .Martin Lcfranc, que julgava empregar honradamente os seus ver- 
sos em beneficio das damas, condemna severamente os poetas profanos e as 
suas academias, que elles chauiavam Poços do amor (fui/s d'am,oiir), porque 
todos os seus versos pareciam sahir d'elles. 

Vamos dar uma amostra cm paraphrase da cólera de Lcfranc contra os 
Poços do amor, que tinham o privilegio de attrahir a multidãx», sobre tudo na 
Picardia c no Hainault : 

«E' pelos amores (|ue versejam e compõem bailadas; é para os amores 
que afinara o seu alto engenho. INeste estudo passam os dias ; no serviço «lo 
amor se empregam, como se o amor fosse omnipotente. Fazem mal, ponjuc 
nem se defendem contra elle, que é impotente. 

«Nunca leste em vossos livros como os loucos pagãos versejavam em honra 
de Baccho, deus dos ébrios, e de Vénus, que tanto amavam? Era diante d'estes 
dois que elles entoavam os .seus versos e improvisos. Peior do que esses lou- 
cos faziam, se faz hoje na Picardia o no Artois.» 

Nos poetas dos séculos xv e xvi pode perfeitamente estudar-se o estado 
dos costumes e particularidades da vida dissoluta d'essas épochas, e pelo modo 
de vida de alguns d'clles podemos também avaliar o que seriam os hábitos da 
maior parte d'esscs versejadores, que, segundo Clemente .Marot, passavam o 
tempo nos bordeis. Quasi todos elles podem ministrar alguns dados a uma inves- 
tigação dos i-ostunies públicos d"a(iue||c tempo, mat, como seria irnpossi\ cl es- 



n\ PROSTiTinçÃn J59 

tildar as obras d'ossa plêiade de vates, linii(amo-n'os a evirahir dos versos 
de Coquillart e de Villon, os dois melhores poetas do seonio xv, o (|ue pikle in- 
teressar á historia da prostituição. 

(iiiilherme Coquillart, empregado publien em Reims, transportava para 
lís seus versos a gvria das rameiras da sua provineia. Deixou muitas obras de 
poesia joeosa, que foram muito estimadas no seu tempo, e que mereeiam real- 
mente esta grande estima, pelo seu espirito, um pouco licencioso, é certo, mas 
essencialmente franeez. 

Sob o titulo de Direitos aows, reuniu um grande r)umero de |)erguntas, 
que foram uma espécie de código da libertinagem. Vamos traduzir em para- 
phrase algumas d'essas perguntas com as suas respostas. 

Perguntam a este jurisconsulto de causas amorosas, s<' uma mulher 
joven deve amamentar seus filhos. Coquillart, poeta e entendido libertino, res- 
ponde em versos, cujo sentido é o seguinte: 

«Ella tem as mais bellas pomas, formas roliças, bem talhadas, seio de- 
licioso e delicado, n5o ha nada mais bello n'este mundo. 

«Transformada em ama, ficará repellente, chupada, cheia de farrapos: 
as pomas tornar-se-bão pelbancras; as formas roliças desapparecer5o.» 

Perguntam-lhe também, se quando .se propõe um negocio de amor a uma 
(Vessas perigosas- sereias, que nada fazem a não ser por dinheiro, esse nego- 
cio é venda, aluguer, empréstimo, permuta, ou mutuo, t^.oquillart responde que 
é um verdadeiro contracto, fundado n'este axioma do direito romano : Facio ut des: 

kE' para que dés, que eu faço. Eis a pura intenção do caso; sem dadi- 
vas ninguém ama n'este mundo.» 

Perguntam-lbe se uma mulher publica, tendo sido enganada por uma 
proxeneta, que a induziu a entregar-se, pôde e\igir indemnisação d'ella. Co- 
quillart condemna a proxeneta a indemnisar a pobre rapariga que se fiou nas 
suas promessas fraudulentas, e a proseguir gratuitamente no seu trafico du- 
rante um tempo determinado. 

O poeta falia de outro caso d'esta natureza que se refere igualmente á 
rubrica De dolo, e que nos demonstra que as proxenetas do século xv não 
eram mais humanas nem menos avarentas que as dos nossos dias. Faz em 
seguida o retrato de uma formosa proxeneta, a quem aponta nmi justiça á exe- 
cração publica, por isso que gente d'esln é n origem de todo o mal que ha no 
mundo. E, contando um logro pregado por esta infame a uma pobre prostituta, 
termina por exigir que ella pague uma boa multa. 

• Um ponto muito mais delicado se encontra no famoso questionário do 
poeta. Pergunta-lhe alguém se uma joven pôde abusar da credulidade dos ho- 
mens, a ponto de lhes vender três vezes a mesma cousa. 

«Gbega o primeiro, talvez um ricaço. Este paga-lhe a aprendizagem e a 
preciosa flor que vae colher. 

«Depois d'este, vem um estudante, umdoidivanasde boa casa, que julga 
fazer uma excellente conquista, e é o segundo a beber pelo copo. 

«Vem depois ainda algum papalvo, que paga, e passa o estreito. Parece- 
vos que será justo vender uma só cousa a três?» 



?6<l HISTÓRIA 

Coquillact é milito ami^o «la justiça para pormittir simiihante desaforo, 
uma fraude de tal onlem a respeito da qualidade do ^teiiero, e ordena que a 
nympha, eulpada de esfellioiíato amoroso, seja açoitada em castigo do seu crime, 

«Semi-núa, para se reconhecer o delictn, sohre uma cama, eom os den- 
tes cerrados, e o espirito entregue a devaneios amorosos. . .» 

O digno Coquillart, que na sua qualidade de funccionario, tinha que jul- 
gar frequentemente casos difficeis, desenvolve toda a sua sciencia juridica no 
famoso Jjligin entre a Simples e a Áslufa. 

«O que predomina n'esta peça, diz o abbade Goujet (Ribl. franc, t. x, 
pag. 160) é a obscenidade. Duas mulheres disputam entre si um amante. Os 
advogados sustentam o pró e o contra, expondo minuciosamente os direitos de 
cada parte, c estes direitos trazidos a publico estão longe de se fundar nos bons 
costumes das partes litigantes. O juiz interrompe os advogados ; estes voltam 
logo á questão. Segue-se a inquiriç.ão das testemunhas, é um processo em 
forma.» 

Um dos advogados, mestre Simon, sustenta largamente que se os homens, 
em virtude da sua força, não tivessem mais do que abaixar-se para salisfaze- 
rcín os seus desejos a respeito das mulheres, esta grande facilidade de praze- 
res sensuaes traria comsigo sérios inconvenientes, porque se seguiriam scenas 
de luxuria no meio das ruas, amesquinbar-se-hia o oflicio das prostitutas, to- 
lias as raparigas seriam i)erdidas, e todos quereriam possuirás mulheres mais bet- 
las e mais seductoras, .se cilas assim tão facilmente se abandonassem. 

Entre os depoimentos das testemunhas ha um muito interessante de uma 
velha proxeneta, que conta como a Astutu era uma mulher de vida licenciosa, 
a ponto dl- açular todas as mulheres publicas do bairro contra a Simplex, indo 
de noite acompanhada de seus adeptos lazer um sabbat infernal á porta da sua 
inimiga. U retrato d'e,sta proxeneta c uma id)ra prima de apodos burlescos e 
obscenos. Ella é a prinrezo dos bordeis, a ijravde esmoler da.s rdineiras, etc. 
etc. As testemunhas são um famoso rancho de prostitutas, cujos nomes e al- 
cunhas são curiosissimos, e denotam a persistência dos u.sos da prostituição: 
Mariquitas de Traine-Poelras, Atjoslinha, a Mal-talhada, fíeqnaudint, a Re- 
dondinha, Demoraut, a Porca, Guillemette, a Coxiraça, Michelor, a Pencuda, 
Clirisiina, a Descorada, Egypriaca, a Espalhajato, Henriqueta, a Panelleira, 
Lqurença, a Mal-encarada, Oliva, a (laste-Faíras, etc.', etc. 

Estas diver.sas alcunhas, que caracterisavam os defeitos ou as qualida- 
des das prostitutas, poderiam dar matéria a curiosos commentarios. A.ssim Oliva, 
Itaste-halras parece-nos ter merecido este nome por costumar perder 'os ho- 
mens que com ella se meltiam. N'aquclle tempo chamava-se fatras um mo- 
llio de chaves, c em sentido figurado, as trapaças e enganos. 

.Mariquitas de Trai ne-Poe trás devia a alcunha á immundicie da cami.sa, 
simiihante áquella que um escriplor cómico daeschola de Bruscambille nos re- 
presenta pintada por diante e dourada por detraz. De resto, é de presumir que 
o poeta (loquillart não fosse buscaros seus assumptos a Paris, e que recolhia nos 
seus versos tudo o que tinlia visto pelos próprios olhos na cidade de Reims. 

Coquillart toi magistrado excellenle, e João Juvenal dos Ursinos, arce- 



DA PROSTITUIÇÃO 261 

bispo de Reimí! chegou a no?Tieal-n seu executor testamentario em 1472; mas 
era poeta demasiado jocose e de costumes muito livres. Ha nas suas poesias 
muitas liberdades, que apezar de verdadeiramente engenhosas, Lafonlaine não 
teria imitado. Pelo que .se vè, o bom Coquillart não era muito escrupuloso a 
respeito da moralidade das pessoas que frequentava. Os seus versos iniciam-nos 
no seu género de vida, e o seu epitaphio, composto por Clemente .Marot, mos- 
tra-nos que morreu como tinha vivido. 

La morre est jeu pire qu'aux quilles, 
jVf qu'aux eschecs ne qu'au quillart: 
. Á ce meschant jeu Coquillart 
Perdit la cie et ses coquilles. 

Este epitaphio não foi comprehendido pelos biographos que o téem ci- 
tado. Suppuzeram elles que o bom Coquillart, tendo perdido uma grande som- 
ma ao jogo da morra, viera a morrer de pesar. N5o foi assim, segundo o 
abbade Goujet. Clemente Marot nos versos citados allude ás três conchas, ou 
coquillea de ouro, que o velho Coquillart usava no seu escudo. 

.4 nossa opinião, porém, diverge bastante da do commentador dos ver- 
sos de .Marot. Quer-nos parecer que ha no epitaphio em questão um jogo de pa- 
lavras e nada mais. 

A morra é um jogo de origem antiquíssima. Chamavam-lhe os romano.s 
micatio digitam, e consistia em levantar tantos dedos como o parceiro, decla- 
rando o numero com uma rapidez maravilhosa. E' fácil comprehender a allu- 
são indecente que o poeta oITerece ao espirito, comparando a morra com o jogo 
dò amor, pela analogia que ha entre ambos. 

Resulta d'aqui ter Coquillart perdido a vida e as coquilles, outra allusão 
indecente, no jogo do amor. Entendia-se em sentido metaphorico por coquãlc 
o órgão do sexo feminino, e por coquilles os testículos. Havia até um provérbio 
para as mulheres: — La coquille lui démange ; e outro para os homens — Les 
coquilles lui sonnent. 

Dada esta explicação philologica, é claro que Coquillart, á força de fre- 
quentar a c^jmpanhia das mulheres, contrahiu uma enfermidade vergonhosa, tão 
damninha, que o pobre homem perdeu a vida ás mãos do cirurgião, que teve 
de lhe cortar os testículos. Coquillart morreu elíectivamente em 1500, épocha 
em que o mal napolitano assolava a França. A sua morte foi em verdade bem 
pouca honrosa para um magistrado, mas muito natural para um poeta que 
nunca tivera outras musas senão as nymphas dos bordéis 



CAPITULO XXIII 



SUMMARIO 



Vida dos libertinos «; das mulheres publicas ao século xv.— A mocidade de Francisco ViUon— Suas p-o-iaf. 
—Seus processos e seu pequeno testamento. — Tabernas famosas.— Seu epitapliio.— O grande testamento de Vlllon. 
—A bella Heaulmière.— As mulheres alegres.— Saint-Genou e Brisepaille no Poitou.— Enné, exclamaçSo das pros- 
titutas.— Quadro domestico das ribaldas e dos seus amantes. — Bailada dos devassos.— As trutas u os porcos.— Vil- 
loD encommenda a sua alma.— A diaba de Montfaucon.— Os farsantes.— Os Sem cuidados. - A mocidade de Cle- 
mente Marot.— A lenda de Pedro Faifen.— Maeeia, devota e mulher publica. 




Jas obras lie Francisco Villoii pôde l'azer-se um excellente estudo 
do que era no século xv a vida dos libertinos e das mulheres de 
maus costumes. Villon, antes de entrar na prisão do Chatelet, 
onde foi condemnado a morrer no supplicio da roda, passara a 
mocidade nos bordeis, sem outras companhias que nào fossem 
as que por aquelles antros encontrava. Como elle próprio confessa, o jogo, os 
banquetes e as mulheres arrastaiam-ii'o ao crime, sendo castigado duas ou três 
vezes com os seus cúmplices. 

Villon era filho de uma familia honrada, ainda que pobre, que tinha o 
appellido de Corbeuil. O poeta adoptou o sobrenome ou alcunha de Villon, como 
quem diz ladrão, ou ratoneiro, quando as suas proezas na arfe o fizeram co- 
nhecer como um famoso marau entre os ribaldos da cidade de Paris. Dizia-se 
estudante, e pôde presuniir-se pelas suas poesias que estudou effectivamentc 
nas grandes eschólas da rua de Fouare, antes de ser proclamado mestre em ar- 
tes nas escolas da gyria e da prostituição. 

Comevou a sua carreira por alguns roubos de pequena importância, que 
apenas lhe proporcionavam uma boa comezaina em companhia dos seus ami- 
gos e amigas. Encarregava-se de obter sem despeza pão, carne, e sobretudo 
vinho, inventando partidas, e verdadeiros rasgos de engenho para enganar os 
tendeiros. O seu primeiro processo data de 1456, em que foi encerrado nas 
prisões do Petit Chatelet. Durante este primeiro captiveiro compoz o seu Pe- 
queno Testamento (Petit-TestamentJ em que commemora alguns factos da sua 
vida crapulosa. Accusa das suas faltas uma mulher a quem amava, e que nào 
nomeia. Era sem duvida alguma mulher publica, que teve de o pôr no meio 
da rua uma noite de inverno, intimando-o a que não voltasse mais. 



264 HISTORIA 

Vendo-se sem asylo e sem meios de subsistência, Villon teve de recor- 
rer ao roubo, para não morrer de fome, e deu-se á vida vagabunda pelas ruas 
de Paris. Apesar d'isso, recordando com prazer os bons tempos, que havia pas- 
sado com elia, deixa-lhe em herança o seu coração morto e gelado. «A'quella, 
diz o poeta-salteador, que duramente me expulsou, que fiquei para sempre 
privado de alegria, e alheio a todos os prazeres!» 

Uma passagem d'este curioso Pequeno Testamento diz-uos que os liber- 
tinos da Universidade costumavam ir passar o tempo e esquecer maguas á ta- 
t)erna do Abreutoir Popin, sita á beira do rio, defronte da rua Tbibantodé, e 
a outra espelunca não menos famosa chamada o baracn da Pomine da Pin, 
que ainda existia no século xvii. 

Francisco \ illon tinha apenas vinte e seis annos quando sahiu do Petit- 
Chatelet, para novamente se entregar aos seus preversos hábitos. A má socie- 
dade que frequentava foi-lhe o mais funesto possível. Continuou a viver á custa 
de mulheres publicas, que lhe concediam o privilegio de amante, mas não se 
contentava com o dinheiro que lhe provinha da indigna profissão das suas 
companheiras, por isso começou a assaltar os viandantes á mão arn)ada na es- 
trada real, de combinação com alguns homens depravados, que o ajudavam logo 
a dissipar a presa no jogo e nas comezainas a que se entregavam. 

Em 1461, depois de um d'estes assaltos, que, segundo parece, leve por 
theatro a aldeia de Ruel, nos arredores de Paris, foi outra vez preso em Me- 
lun com cinco dos seus cúmplices, julgado pelo tribunal do Chatelet e condem- 
nado a morrer na forca no patíbulo de Mont-fancon. 

Apesar disto, não tomou o caso muito a serio, e até compoz a propósito 
da suíi sentença um epitapbio em versos burlescos. 

. No eratanto, por conselho do seu advogado, não se conformou com a sen- 
tença do prebostado de Paris, e appellou para o parlamento. Emquanto espe- 
rava pela resolução do seu recurso, escreveu em verso o seu Grande Testa- 
mento, no qual introduziu com muito engenho e malícia todos os jogadores li- 
bertinos, e outro pessoal da prostituição contemporânea. O Grande Testamento 
não revela da parte do seu auclor cunfricção dos crimes (juc o haviam posto 
n'aquclle transe. E' apenas um echo fiel dos bordeis de Paris, e um espelho 
escandaloso da vida dos poetas, dos estudantes e dos vadiíjs. 

Villon começa por introduzir no seu testamento a bella Heaulmiére, que 
chegara a usar nos seus bons tempos cinto dourado, emblema de prostituta de 
alta voga, mas que no decahir da edade não tinha outro oilicio senão o de di- 
rigir e governar uma abbadia, ou lupanar. 

A bella Heaulmiére, tinha sido realmente formosa, e por isso muito re- 
questada por gente de qualidade, commerciantes, homens da egrcja, fidalgos, 
etc, que não regateavam o preço dos seus favores. Mas na epoclia em que es- 
tes favores se pagavam tão caros amava doidamente um rapaz ([ue não lhe dava 
senão maus tractos e grossa pancadaria, e que lhe comia tudo quanto ella ga- 
nhava com o suor do seu corpo. Como se vé, os costumes dos miseráveis pa- 
rasitas da prostituição não haviam ainda mudado no decurso de quatro sé- 
culos. 



IIA PROSTtTUlÇÃO â(i-') 

A vida fresta cortezã, segunda se dcprehende dos versos de Villon, leve 
Iodas as pliases desgrayadas, que são próprias da libertinagem e da itnpudiei- 
cia. Bella e requestada, apai\i)nou-se de niii parasita que lhe devitrava (|natilo 
possuía, e ainda por cima a maltratava rudemente. Alguns eommenladores do 
poeta obstinam-se em o suppòr amante da eortezíi, c dizem que a seu respeito 
se devem entender as magoadas queixas da Heaulmière. Ha nos versos de Vil- 
lon um bello quadro dos encantos da cortezã, nos tempos da sua triumphante 
juventude, e dos estragos que mçis tarde a edade, os solírimentos e os maus 
tractos n'ella produziram : 

«Q)ue foi feito, diz ella tristemente, cresses belios cabellos d'()uro, (fcs- 
sas avelludadas sobrancelhas, d'essa fronte polida, d'esse olhar sympalhico e 
tentador, d'esse nariz tão lindamente proporcionado, d'essas encantadoras ore- 
lhas, dos lábios vermelhos e frescos, emlim dVsse rosto delicioso' 

«Em que se transformaram aquellcs formosos hombros, aquelles braços 
e mãos tão primorosas e fidalgas, aquelle seio deslumbrante de alvura, mais 
puro e branco do que as assucenas? 

«A fronte enrugou-se, embranqueceu o cabello, despovoaram-se as so- 
brancelhas, apagou-se a luz do olhar, luz em (jue tantos amantes se queima- 
ram; o nariz perdeu toda a elegância, a barba cresceu desmedidamente, per- 
deram a còr os lábios, e emhm o rosto cobriu-se da pallidez dos cadáveres. 

«Fugiu a belleza. Encolheram-se os braços, descarnaram-se as mãos, cur- 
vou-se em abobada a espinha dorsal; pelle e ossos, eis o que resta de tudo 
(|uanto outr'ora se fez amar com delírio!» 

A bella Heaulmière, n'esta ultima phase da sua tormentosa existência, 
serve apenas para dirigir e aconselhar as raparigas. Vdion compõe uma faiTiosa 
bailada, i>m que registra os [irudentes conselhos Oados agora pela proxeneta 
ás suas discípulas. Da mesma bailada se conclue (jue as mulheres publicas per- 
tenciam na sua maior parte a cor|ioraçues de ollicios ou grémios, segundo já 
temos indicado : 

«Pensa bem n'tsto, bella luveira, que costumas ser minha discípula, e 
tu, Branca, a sapateira, porque é tempo de vos conhecerdes. Tirae o mais que 
puderdes á direita e á esquerda, não [)erdoeis a nenhum homem, poriiue as ve- 
lhas deixam de ter curso, como a moeda mandada retirar <la circulação. 

«E tu, gentil salcliíclicíra, tão hábil nu arte da dança, e tu, (iuilhermina, 
a tecelã, não vos ílludaes a respeito dos vossos amantes, porque todos eilcs vos 
darão com o pé em*sendo veliias, como moeda mandada tirar da circulação. 
«Joannica, a chapeilcíra, evita que o tedío te envolva nos braços, (latba- 
rína,* a correeira, não despeças desdenhosamente os homens. Oueni não é bella 
tem de ser amável. A feia velhice não inspira amor, é como a moeda mandada 
retirar da circulação. 

«Filhas, quereis saber por(|ue choro e me lamento? Porque ja não sou 
mais do que uma velha moeda mandada retirar da circulação." 

Esta bailada tem o merecimento.de nos mostrar que a pro.stituição se re- 
crutava no século xv entre as luveiras, as salchicheiras, as tecelãs, as cha- 
pelleiras e as sapateiras. Descobrimos a(|ui, no emfanto, uma particularidade 

UUTORU DÀ PROSTITinpÃO. ToUU II— toLHA 34. 



266 HISTORIA 

que mereço consignar-se. Essas mullieres punliam-se á janella para altraliirem 
os transeuntes, como se faz ainda na Hollanda e em Amste?-dam, onde em cer- 
tas ruas suspeitas, em casas ao rez-do-chão se vcem peias janellas atravez de 
cortinas transparentes muliicres semi-nuas ou voluptuosamente vestidas. 

Francisco Villon, que tinha em perspectiva as forcas patibulares do 
Montfaucon, e que talvez estivesse a esse tempo algum tanto arrependido dos 
seus erros com a esperança de escapar ao castigo, aconselha os seus leitores 
a que aprendam o baral, ou a táctica das mulheres publicas, que a um tempo 
arruinam a bolsa e a honra do próximo, por isso que diz : 

«São mulheres perigosas, que amam apenas por dinheiro. S(S as amamos 
por hora, ellas amam todos aquelies que trazem a algibeira bem provida. >^ 

O poeta lamenta-se de não haver frequentado as mulheres honradas, que 
o teriam preservado do vicio, em vez de o fazerem cahir n'elie. >'o cmtanto, 
não pôde deixar de recordar com uma certa complacência as companheiras da 
sua louca juventude; eram mulheres infames, mas Ião bellas, tão bem dispos- 
tas para o amor! Lembra-se lambem das licções que recebeu de duas d'ellas 
que lhe ensinaram a fallar alguma cousa o poicieein. Julgamos que Villon en- 
tende por esta expressão, cujo sentido exacto nos seria dillicil estabelecer, a arte 
de souteneur de raparigas, como quem diz dono de casa ou bordel, vivendo a 
custa do corpo das prostitutas. 

Das suas duas mestras falia por uma metaphora, que é mais intelligi- 
vel, ou que, pelo menos, tem sido explicada. «São, diz elle, raparigas bellas 
c galantes, que moram em Saint-Genon, perto de S. Julião, nos degraus da 
Bretanha de Poitou, mas não digo propriamente aonde é. Pensae n'islo durante 
três dias. Eu não sou fão doido que vá assim descobrir os meus amores.» 

Para comprehender esta linguagem figurada, c preciso confrontal-a com 
a passagem do fiartjanlaa. de Rabídais (liv. i, cap. 6) em (]ue se tracta de 
uma sórdida velha que exercia a profissão de parteira. «.A velha tinha vindo 
de Hrisepailk, perto de Sainl-íknou.'» O douto Leduchat, no seu commentario, 
explica que no Helphinado se designava dVste modo uma velha impudica. 
«Quer isto dizer, accrescenta elle, que já de ha muito a velha tem amachucado 
com os joelhos a palha da cama.» 

' Nas obras de Villon encontra-se a seguinte máxima morai para uso dos 
hons-mrantx do seu tempo : 

«Não ha thcsouro como viver cada (|ual ao seu gosto.» 

Faz um grande elogio das mulheres de Paris : H nesi hnn Iter (jae (h 
l'anx, diz cllc. O bico a (jue se refere é a lábia das parisienses, das ((uaes cita 
ainda ontrras (jualidades, accrescentando, porém, ijue estas mulheres não cos- 
liimavam fazer fortuna na vida airada. «Testemunhas, diz elle, Jac(|uelina, 
Perrette e Izabel, que diz Enné !v 

('.l<'inenle Marot, em nota á sua edição de Villon, diz que a palavra eíuic' 
era um juramento ou interjeição muito usada pelas prostitutas. Villon compa- 
dece-sc da pobreza d'estas três raparigas, a quem não pudera enri(|uecer, dese- 
jando-lhcs as migalhas da meza dos ("eleslinos e dos C.harlreux: não obstante 
todas as suas preferencias são |)ara .Vlargot, a quem dedica uma bailada, em 



MA PROSTITUIÇÃO 



á() 



que ollt" próprio é o heroe, c a sua nymplia a lieroina. Esta bailada oílerece-nos 
o quadro pilloreseo c cynico da vida domeslica ilas rihaldas o dos seus ainanfes. 

O poela e a sua nyinplia impudica viviam, segundo a bailada, no mes- 
mo bordel, en re hminhl. diz elle, níi /íohv ifucins noslre ('lai. Ouando appa- 
recem freguezes, o poela laz-llies as honras da easa, oITerece-lbes agua, queijo, 
pão e fruelas. O essencial é que elles paguem bem. A questão é de dinheiro. 
Quando o ha, a vida corre bem. Mas quando elli' se acaba, Deu.s do ceu, que 
vida aqueliai O poeta e a nvmpha descompôern-se mutuamente, elialurdando 
miseravelmente naquelle lodo em que se metterani. dritos, pragas, impreca- 
ções, pancadaria, lai é o quadro dos dias de fome. O poela lá o diz n'esta bai- 
lada : Onlarf acnns et ordure nou!i anil! 

E' impossível desciwer com cores mais vivas e reaes aquelle horrível e 
intamc concubinato, em que o homem vivia da prostitui(,'ão da mulher, a quem 
amparava e dava protecção. Villon laz-nos entrar n'aquelles all)ergues infectos 
lia libertinagem e c'a crápula. 

Nillon tiidia sido amante de Margot, a (juem espancava quando não lhe 
trazia dinheiro, l.endo-se, porem, o Grande Teskiwento, cncontram-se muitas 
rivaes de iVlargot, e do mesmo getirro exactamente. Assim o poeta falia de Ma- 
riquitas, o hlolo, e da famosa .loaniia de Urelanha, que tinham e.sehola pu- 
blica, iiiide (I disripnio dá lirròe.s ao mestre. 

I nia outra bailada do poeta diz-nos que os cómicos, os músicos e os 
jogadores formavam a llòr e a nata da prostituição. Villon distinguira-se sempre 
entre esta gente pelas suas loucuras e amores, apesar de pobre. Verdade seja 
que elle costumava tirar dinheiro ás mãos cheias da algibeira das suas amantes, 
ou melhor, dos frequentadores das suas amigas. Um dia roubou um rico ava- 
rento, chamado .lacques .lames, que gastava o seu dinheiro em trutas, e que 
comprava os seus prazeres o mais barato possível. 

Depois de ter feito em tom burlesco as suas ultimas disposições, o desgra- 
çado Villon recommenda a sua alma ás orações de todos os que se podem inte- 
ressar pela sua sorte I 

«As raparigas que costumam mostrar as pomas, para terem maior numero 
de freguezes.» 

E segue uma longa enumeração de todos aquelles que passam a vida nos 
oordeis, e (|ue foram n'outro tempo seus companheiros de crimes e loucuras. 

O recurso que até então havia retardado a execução de Villon teve um 
resultado que o poeta estava bem longe de esperar. Foi comprehendido no in- 
dulto (|ue Luiz XI concedeu aos presos por oceasião da sua feliz subida ao 
throno. O poeta escapou assim ao supplicio da forca, e voltou novamente '/s 
tabernas e ás mulheres. 

Tinha visto, porem, muito de perto as consequências de* um processo 
criminai para .se expor novamente ao mesmo lance. Mas, como era em dema- 
sia vicioso para morigerar o seu procedimento, não seguiu a este respeito nova 
linha de conducla. O que evitou d'alii em diante foi voltar a roubar nas es- 
tradas, ou cabir por qualquer outra forma nas mãos de justiça. 

Eoi por este tempo talvez (jue o poeta tomou parte n'aquelles famosos 



2(>S HISTORIA 

repiíes franches, comezainas ú cusin da hnrha longa, que foram celebradas em 
verso por um dos seus auhdilos, e que descendiam em linlia recta das suas an- 
tigas proezas (riUonerien.) Tractava-se sempre de' hoas comezainas á custa do 
próximo, e de arranjar, como n"outros tempos, carne, pão e vinho por algum 
rasgo de astúcia nas tendas dos vendedores de viveres. O poema dos Repues 
franches, que foi attribuido a Vilion, convoca para estas comezainas toda a 
turba militante da prostituição, as s-acerdotisax do amor, os cómicos, os liber- 
iinoí, os vibaldos, as proxenetas, ele, ele. 

csfylo do poema fal-o suppor muito posterior ao tempo de Vilion. 
OiuHito ás aventuras que ri'elle se referem, ha uma que pertence evidentemente 
ao cclclire estudante de Paris. 

1 us alegres companheiros foram uma noite fazer uma pastucada ao campo, 
perlo do patíbulo de Montfaucon. Iam bem providos de vitualhas, levavam 
pão e vinlio em abundância, e um grande pastel, que continha nada menos de 
seis frangos, e além de tudo isto, arec eu.r chacun une filie: Cada um levava 
a sua rapariga. 

Dois estudantes, nm dos quaes devia ser o próprio Nillon, iembraiam-.se 
de comer' a ceia d'aquelles joviaes companlieiros, que foram encontrar sentados 
á meza, n'uma espeeie de cabana, onde esperando comer como uns abbades, 
se divertiam a apalpar de alio a baixo as raparigas.» 

Os dois estudantes haviam-se disfarçado de diaiws, tinham mascaras 
horríveis e umas pesadas massas com que assaltaram os commensaes, grilando : 
*.4' morte estes patifes! Prendam com estas cadeias de ferro os ribaldos e as 
prostitutas, e levem-nos para o inferno!» 

Os convivas, tanto os do sexo forte, como as pobres raparigas, fugiram es- 
pantados, julgando-se nas unhas do diabo, e deixaram a ceia magnitica, ape- 
nas encetada, emquantc que os dois diabos, sentando-se muito pachorrenta- 
mente á meza, comeram e beberam com grande appelite, sem que a festa lhes 
custasse um real. 

Esta engraçada aventura foi alecerto a origem de outras contadas pelo 
velho Habelais a propósito de Vilion, e dos seus companheiros estudantes, dis- 
farçados em diabos, representando farças, mysterios e moralidades. Os actores 
nómadas d'estas composições dramáticas, eram todos consumados libertinos, 
ainda que ás vezes represeniasseni peças moraes e religiosas. No emtanto, as 
mais das vezes faziam comedias que não exigiam grandes apparatos de scena- 
rio, nem de trajos, como os myslerios. Este género de comedia popular era o 
que. mais convinha aos .seus costumes e modo de vida. 

Assim andavam de povoação em povoação, representando as suas farças 
com applausrt dos seus rudes espectadores, que só tractavam de rir, saboreando 
com delicia o Sal e pimenta da graça e vivacidade franceza. 

J-^stcs actores c poetas ambulantes viviam cora mulheres perdidas, ás 
quaes não apresentavam em scena, por is.so mesmo que elles próprios desem- 
penhavam os papeis de mulher, pintando a cara, ou cobrindo-a com uma mas- 
cara. Antes dos lins do século xvi nunca mulher alguma tomou parte (Mii França 
nas representações tlieatraes. O bom publico francez, que jamais .se escan- 



DA pnnsTiTurçÀo ' S69 

(lalisava do ouvir os mais obscenos dilos, não os loleraria na liocca de nma 
nnillier. 

No emianto, a verdade é que estas companhias cómicas, na sua maior 
parle compostas de poetas, estudantes, ajudantes de notários c jovens aventu- 
i'eiros de todas as ciasses, tiniiam costumes Ião livres e tão impudicos mesmo, 
que a auctoridade civil e judiciai teve por mais de uma vez de ordenar que 
se dissolvessem, impedindo-os de percorrer o paiz com o escândalo das suas 
rcpresenla(,ões. As companiiias de Basorhe, da Mère-Sone, do Prince des Snts, 
do Império de Orlemos, dos Sem-cuidados, foram ainda muito maisassociayues 
de libertinagem do que associações de gente de tlieatro. O produclo das f arca n, 
segundo a e\prcssã<t do tempo, era sempre destinado a fornecer a meza e o 
leito dos farra mes. 

jNos fins do século xv, os poetas profanos iam fazer a sua aprendizagem 
a estas alegres associações de lii)ertinos, onde cada qual esquecia o seu ver- 
dadeiro nome para tomar uma divisa, ou alcunha. João Bouchet inlitulava-se 
o Traressetir des nries periUeiises: Francisco Haber, o Baunij 'df liesse; Pedro 
Gringoire, o Mère Solte, etc. 

Clemente Marot, que foi auctor e actor de farças na companhia dos Sem- 
cuiiladosr encarregou-se de defender em verso os seus companheiros de ollicio 
contra os invejosos que os tinham accusado de passarem vida escandalosa, e 
que provocaram a sua expulsão de Paris no anno de 1512. 

Marot, porém, tinha demasiado interesse em occullar a verdade para não 
cobrir com uma capa de honestidade os escândalos de Sem-cuidados. A dar 
credito ás suas alfirmativas, os seus companheiros não tinham senão peccados 
veniaes. 

As obras do poeta estão cheias, no emtanto, do que elle chama as remi- 
niscências da sua verde juventude. Ainda assim, Calvino conseguiu eonvertel-o 
á reforma. 

Tal era a vida ordinária dos estudantes, que seguiam seus cursos até á 
edade viril, e que encontravam em Paris e nas cidades universitárias tantos 
pretextos de libertinagem. Por isso, quando Clemente Marot tinha apenas deze- 
nove annos já fazia este juizo hiperbólico das ribaldas da capital: «Quando as 
(|ueridas filhas do prazer encontram algum amante arrojado que lhes colloque 
um diamante diante dos olhos risonhos e alegres, ora! cahem logo de barriga 
para o ar!» 

Um contemporâneo de .Marot, Pedro Faifeu, que era estudante de Angers, 
e cuja lenda em rimas foi colligida por Carlos Bordigné no anno de 15:11, con- 
quistou uma fama quasi igual á de Villon pelos seus ditos e feitos celebres. No 
emianto, como o seu historiographo era sacerdote, teve de passar em silencio 
os factos mais indecentes e os conceitos mais impudicos do estudante de Angers, 
cuja celebridade rivalisava com a do estudante de Paris. N'esta lenda assim 
expurgada, não se encontra o quadro da prostituição dos estudantes, mas é 
licito julgar que Faifeu frequentava assim como Villon as tabernas e as mu- 
iheiTs, com as quaes gastava todo dinheiro que podia escamoteai- ao pi'oximo. 

Kis o modo como elle se vingou um dia de uma velha devota, chamada 



?70 " HISTORIA. 

Maceia, que elle (jualifica de Lorpidiim. como quem diz feiticeira. Em Raheiais, 
a palavra encontra-sc d'este modo Lourpidon. A velha malquistara o poeta 
com sua mãe, contando á boa senliora as partidas que a voz publica attribuia 
ao endiabrado estudante. Emquanto a beata ia d'este modo desfiando o seu rosá- 
rio de maledicências em detrimento de Pedro Faifeu, o estróina consegue fur-, 
tar-lhe & chave da porta, vae procurar uma ribalda alegre e folgazã, com a 
qual já havia combinado a troça, e introdul-a no quarto de Maceia, e faz en- 
tregar á velhota a chave o mais disfarçadamente possível. A gente honrada do 
bairro, vendo a prostituta á janella da beata, escandalisa-se, e vae pôr cerco á 
casa, insultando a vejha com os apodos de alcoviteira e dona de bordeis. Fai- 
feu, quando as cousas chegaram a este ponto, corre a casa de sua mãe e diz- 
Ihe, fingindo a maior indignação: 

— Como! Pois dá credito a esta maldita velha! AÍIirmo-lhe, sob a minha 
palavra, é enforcado seja eu, se minto, que n'este mesmo instante ella tem es- 
condida em casa uma prostituta, que destina para algum frade. Se d.uvida, 
peço-lhe que vônha ver, minha mãe! 

A excellente senhora vae eííectivamente em companhia da velha, que pro- 
testava contra a calumnia de Faifeu, mas ao chegara casa, julga-se victima tie 
uma illusão diabídica, e benze-se aterrada, eni presença de uma realidade 
incomprebensivel para cila. Abre a porta, no meio dos insultos e gritaria da 
gente (|ue alli estava, e vè correr ao seu encontro a abraçal-a uma mulher 
publica atiiunir. diz taifeu, isto é, vestida com todos os atavios e insígnias da 
|)rostiluição!. . . 



CAPITULO XXIV 



SUMMARIO 



Pbilolugia erótica.— Gyiia. ou dialeelo da proslituicão.— Origens d't'.sla gyiia.— Um autigo conto a les- 
pcitn de Wc e /loc— Commeniario de Rahi'lai? por I.educliat,— E»'oííVo verba, rto Al)hade d'Auliiaye.— O dicci jnario 
cómico de Leroux.— Riqueza da liujjiia erótica no século xvi.— Nooies antigos Oas muiliercs pulilicas.— S\non\nios 
formados do grego, do latim, do italiano, ctc— Synonymos tomados dos noaies danimaes.— Syuonymos relativos 
á vida errante das prostitutas. — Outros ainda relativos ao seu ollicio. — Outros i|iie as claísiiieam por categorias. 

— Periphrases e jogos de palavras licenciosas.— Nomes de santos disfarçados oii corrompidos — Novas addie;ões a 
nomemlatura ilo Abbade de lAuInayc— As mulheres de talão curto. -Provérbios moraos tirados da prostituirão. 

— Iliminutivo de Catbarina.— Antigos nomes dos bordeis « suas etymologias.— Antigos nomes dos parasitas da pros- 
tituição e suas etymologias.— Retrato de uma velha proxeneta feito pelo illusire Rabelais.— A sybilla de Panzousl. 

— Rêgnier. 




E A PHiLitiotíiA eiotica devesse entrar n unia liisloria geral da 
prostiluiç,lo, poderiumos eon.sagrar-lhe muitos eapiliilos lào no- 
vos como interessantes, por isso que não existe ainda nenhuma 
obra especial em que se tenham estudado a fundo as oriycns 
da língua, ou melhor, da gyria dos bordeis. Ksla lingua, que 
pôde chamar-se tecbnica, existe apenas indicada n'alguns diceionarios france- 
zes, emquanto (jue a maior parte dos glossários gregos e latinos lhe concedem 
logar amplo, inislurando-a por assim dizer sem o menor escrúpulo com a lin- 
gua oratória e lifteraria. 

Nada seria mais fácil do que extrahir dos glossários consagrados ás lín- 
guas antigas e clássicas tudo quanto se relaciona com a prostituição antiga, c o 
douto l'. Pierhugucs não precisou de fazer grande dispêndio de erudicção para 
compilai- o seu (llossariuin erotictau lingiue latinai, cujos artigos mais curiosos 
são obra de um notável philologo, o barão de Schonen, tão conhecido pelos 
seus interessantes trabalhos sobre os eróticos gregos, que o collocaram na pri- 
meira plana dos modernos eruditos 

Tudo está ainda por fazer para o conhecimento da antiga lingua erótica 
franceza. São enormes os maleriaes, mas no emtanto não foram ainda recolhi- 
dos para este fim. Se, como diz Boileau, 

Le latin duns Us mots brave l'honneteté. 



O francez é mais modesto, ou pelo menos mais timido. Esta lingua erótica 
tão rica e ás vezes tão engenhosa, não costuma espandir-se a não ser nos 



Zn HISTORIA 

chistes, nos romances lilierliiios, nas poesias livres, nos cantos alegres e nas 
trovas deslionestas. Por outro lado está cuidadosamente cerceada da linguagem 
|iropi'ianiente dita, e desterrada dos vocabulários, onde sii penetra graças a um 
disfarce convenienie e honesto ; mas nem por isso perdeu a sua existiíncia e 
a sua originalidade, perpetuando-se de hocca em bocea, pela tradicção, conser- 
vando os seus arcliaismos, as suas metaplioras, as suas imagens, os seus 
provérbios, e até as suas onomatopeias. Tem alguns pontos de contacto com 
a outra gyria não menos interessante e pittoresca dos ladrões e assassinos e 
com o calão do populacho. Tem a sua razão de ser, e apezar de não se elevar 
jamais á linguagem da gente honesta, apezar de estar f(ira da lei da grainma- 
tica, apezar de não fazer parte do curso de humanidades, conserva-se ainda 
cheia de vida, e não eiivelhecerá jamais, por isso que assenta sempre sobre 
as mesmas l)azes e não precisa de se estender a novos objectos. 

Seria fácil provar n'um estudo philologico a respeito da gyria da prosti- 
tuição (|ue esta gyria é contemporânea da linguagem vulgar, e que se tormou 
de uma mistura confusa de todos os idiomas e dialectos, como se houvesse tido 
a pretenção de ser uma lingua universal. 

Ha enecíivamente nesta extranha gyria, nascida do capricho e da oppor- 
luiiidade, do acaso e da occasião, uma multidão de palavras que nem seiíuei- 
perderam o seu caracter nacional e que se fizeram francezas permanecendo gre- 
gas, latinas, italianas, allemãs, ou hespanholas. Parece que a prostituição, 
sempre de sua natureza errante e vagabunda, teve de estabelecer entre os seus 
filiados de ambos os sexos uma linguagem de convenção, que se fallava e en- 
tendia igualmente nas dilTerentes províncias da França, n'uma éjjocha em que 
duas cidades vizinhas eram ás vezes exiranhas nma á outra por causa dos seus 
dialectos. 

l'm auclor francez parodiou livriMuente o conto de Heródoto, o qual atlri- 
hue a Psametico, rei do Kgypto, um singular invento para descobrir qual fosse 
a lingua primiliva. mãe de todas as outras. Segundo esse auctor, tratava-se de 
saber i|ual liniia sido a primeira palavra da lingua franceza, e as academias 
declai'aram-se incompetentes peraiite esta espinhosa e dillicil (|uestão. 

I) sábio, que se occupava da solução desta enorme dilliculdade, lembiou-se 
um dia de consultar uma mulher demente, por isso que os loucos costumam 
ter a sciencia infusa, na opinião de alguns aucfores. A louca havia sido cor- 
iezã. 

— Tiveste alguma vez na lua vida copula com uni mudo:' Perguntou-llie 
o sábio, assumindo o seu tom mais doutoral. 

— Muitas vezes, respondeu a mulher. 

— Muito bem. Dize-me, e nunca podesle arrancar-lhe ucua palavra qual- 
(|uer n'essa occasião? 

Decerto. C.ostumam dizer Kiv e hov. 

— Mas isso são palavras latinas, mulher! 

— Nada, fillio, são francezas: cm et cela (isto e aquillo.l 

Kste conto merece ser invocado em appoio da venerável antiguidade; do 
dialecto erótico. 



PA fKOSTITUIÇÃn 2" 3 

A obra iiuo Iracta mais circunislanciadamenle iFesta mysleriosa linguagem 
ó por certo o commentario de Gargantua e Panlaurnel, por J. Leducliat. Esle 
lionesto pliilologo, apesar dos seus protestos, não tiniw escrúpulo em chamar 
as cousas pelo seu nome, c em questões de erudicy;\o nada lhe parecia inde- 
cente. Remettemos o leitor para este celebre commentario, (|ue outro philoiogo, 
E. .íohanneau, completou depois no mesmo gosto,- excedendo ainda as obsceni- 
dades requintadas de Rabelais. . 

Ha um terceiro commentador do auctor do Ganjantna; que se consagrou 
particularmente a estudar a lingua erótica no seu auctor favorito. E' o douto 
e paiiKigruelico abbadc dAuInaye, ijue na'edade de oiteirta annos publicou 
uma edi<,'ão de Kabelais (Paris, Desoer, 1820, 'i volumes.) Sob o titulo de 
Erótica verba, inseriu no terceiro volume da sua edição um pequeno glossário, 
(|ue não lhe foi apenas ministrado pelo auctor commenlado, e que necessita de 
desenvolvimento na explicaçào das palavras. O audacioso abbade hesitou sem 
duvida ante os perigos da matéria, apesar de haver collocado o seu ensaii 
pornologico sob a égide (Peste dislico de Tabourot : 

l'iili(liiluni xcriplori, opus iif deapice, nainquc 
Si lascira leijis, iiuieiiiosa leges. 

Esle glossário tem o defeito de i'egislrar simplesmente por ordem alplia- 
betica locuções na sua maior parte antigas, sem accrescentar a nenhuma d'ellas 
os commentarios etvmologicos e históricos de que tanto precisavam. 

O diccionario cómico de Leroux, ([ue foi reimpresso três ou ([uatro vezes 
no século passado, offerece uma nomenclatura muito mais completa ijuc a da 
Erolica Verba de Estanislau de Tlulnave, e aeerescenta a cada palavra alguma 
citação ([uc lixa o seu sentido e propriedade. Este diccionario cómico carece 
infelizmente de erudição critica, e o compilador, que estava longe de conhecer 
as melhores fontes da antiga linguagem, não teve escrúpulo cm tornar mais 
escabroso ainda o assumpto, juntando-lbe definições que excedem frequente- 
mente a indeccncia das próprias palavras. 

Não entraremos, nem mesmo com reservas c cautcllas, nas escabrosidades 
de similhanlc assumpto, e limitar-nos-hemos a fazer noia.r (juc a lingua eró- 
tica franceza, i[ue se apresenta aberta e francamente do século xiii em diante, 
procede habitualmente pelo pleonasmo, traduz para seu u.so palavras das lín- 
guas estrangeiras, ou apropria-se d'ellas com a própria consonância indígena: 
procura imagens de .sentido figurado, tem eciuivocosc trocadilhos, e obsta sem 
cessar á monotonia do discurso pela;; mais singulares combinações philologicas. 
Dir-se-hia que todas as palavras e Iodas as plirases da lingua geral podem 
em caso de necessidade applicar-se a esta lingua particular, que assim se enri- 
quece continuamente à custa de toda a tecbnologia 

\ lingua erótica, segundo nota o abbade de I Aulnayc, é sem contradicçái) 
uma das mais ricas de todas as linguas tecbnicas. Assim é ([ue no século wi, 
por exemplo, não havia menos de trezentas palavras para exprimir o acto ve- 
néreo. (V. esta palavra na Erótica Vfrha.) Oiianto ás partes genitaes dn ho- 

HiSTORix DA PsosmoiçÃo. Tomo ii — Folb* 3ò. 



274 HISTORIA 

mem r da nuillxT havia tanilictii ([uatriiccDlos nomes ilifTiTontrs. para as desi- 
gnar, distinclos pela sua piHoresra variedade e singulares attribuieões. 

Um capitulo da linguagem erótica pertence essencialmente á historia da 
prostituição. F' o que contém as denominações populares, sob as quacs as 
mulheres de má vida eram designadas em certas épochas e eircumslancias, os 
synonymos mais ou menos decenles, inventados para caracterisar as casas de 
prostituição sob os seus diversos aspectos. 

Já em outro logar explicámus etymoiogicamente os nomes usuaes das 
mulheres publicas, das suas pi-o\ene(as, dos seus amantes e das suas moradas 
no século xiii. Nu emlanlo, esla M')menclalura especial nào permaneceu estacio- 
naria, astes foi augmentandii rum os contingentes fornecidos a cada passo pela 
imaginação dos poetas e narradores. Eis o motivo porque no século xvi a lin- 
gua franceza foi sobrecarregada com essas excrecencias eróticas, similhanles 
a \errugas produzidas peln mal napolitann. 

Bastar-nos-ha citar aqui a extensa iMuimeraí-ào que o abbade de iMuinaye 
apresenta nosen 'í/o.v.yíT.r/oem seguiila a palavra miiJlfrrs publicas. Depois d'isto. 
mencionaremos alguns do estranhos nomes que não se eni-<mtram nos livros. 
intprpref,indii-ii'^ e iiivcstioando d si'U \i'rdadeiro sentidii. 



I'»I WKAS l\TRoniT7II'AS NA MXGUAC.ÍíM EUOTlí.A FIlANflEZIi 
fAM\ OESir.NAK AS PROSTITl'rAS 

Accrochfiise.a. i\e- nrrrorher, agarrar, pendurar. 

Alicnires : Amhuhaijei< ; Hn.ijns^es: fíaJiince.s de boncher, qm pksent toules 
Kijrtes df rixuuks : Balanças de carniceiro (|ue pesam toda a espécie de carnes: 
Baraihres : Hnssnra: fíezzoches; Hlanchisseuses de tuyait.r df pipe, lavadeiras 
de tubiis dl' cacbimbits; [ionsolrs: HourheUuses ; fírnjidonnes ; raignardières ; 
CaiUes, palavra derivada di' ca/V/c. codorniz: Camhi-oase.s: Canioiúères : Cham- 
pi-sses. eram as que viviam no campo; Cloislrières, as que não sahem do an- 
tro; Cocquat,ri.t, devoradoras de homens; Coignée.i; Courieu.ies ; Courtisanes: 
Dewoieslles de marais; J)rnu'n)es; Drues: Emoignanles ; Esquoceresse.i ; Fetv- 
mes de cotirt talou; Fennves folies de son corp ; lllUs d' amour ; Filies de joie: 
mies de jiibilation; Filleíes de jiis : Folies [em mes; Folieuses; Gatloises ; Jan- 
nefons; Gast; Gimthieres ; (iaupes; Gonilines; Gouges; Goiunes; Gourgan.di- 
nes; Grues; Hnrrebanes ; Uollières- Hores; Hourieuses; Hourrieres; Lesbiaes ; 
i.esbias ou saphicas; Lescheresses ; Levriers d'àmour; Linottes eoijfées ; Londié- 
res ; Lo^ires, Lobas, prostitutas nocturnas; fjjnces; M and fies ; Maranes ; Mo- 
randos : MnrtínqaUs ; Mn rimes; Mochees ; Musequines ; Panv n nesses ; Panton- 
>'irres; fe.lrrines de Vénus; 1'ellires ; Persnnnières; Poiísiiquenses ; Prêtes.ies 
de Vénus: riedresiieuses ; Rénéleuses ; Itibaudes e liibauldes. liigobeles ; Hous- 
.■i"cv'in's: S'i,es de- iiuit ; S:i.ffrele.s ; Snnrdites; Snaldrines ; Tendriers de houcbr 
<■' de reins; Tireuse.i de rJnnigre ; Tuupies; Tottses ; Trot/ieres : Vingères; 17/- 
Int.ikrcs : Vogageres ; Waunes ; Fsagères. ele. etc; 

Kiilre estes n.nnes, que nem IuiIds iuiviam passadn da lingna escripta á 



LlAjHKOSillLIlfÀU ■ila 

tall;ul;i, ou nce-crrxa, ("iicontraiii-si- imiitos liiados da anliguiilade grc^a f la- 
tina, e por (■(jiisftiuinte purameiílp liltcraiios, romo estes: 

Alicaiirs de Alicariív. 

Ámbiibuyes, de Ambubaiíe. 

Lesbines, de Lesbue. , 

Uaximes, de Ma.rimif. 

Mocltcex, de Moichiv. 

Haralhres, de linrailira. 

Um pequeno numero d'elies são imila(,'ôes do italiano, <l() hespanlioi, do 
baivo bretão, do provençal e do laiifiurdoc, laes eomo : 

Bagasse-t, de Baijasse. 

Scaldrines, de Sgaaldrini'. 

liicnldes', de Iticalde. 

Ha outnis, que por despic/n oii sairasmo nHNirdani as analogias inora< « 
ou piíysicas, ijue podia haver entre as prostitutas i- diversos aiiiniaes: 

Cocqualri.r, de crocodilo. 

Lecriers d'ainoar, leíjres do .'loior. 

l.inolles, pinlasilgos. 

louves, lobos. 

l.yces, cães de ca(;a. 

Iloussecaignes, cadellas, cm languedor. 

Wauces, lobos famintos. 
Outros alludiam á vida errante e vagaliunda d'estas desgraçadas: 

Bourbeleuses, que andam no iodo. 

Champisseis, campestres, do campo. 

Canlonières, as das esquinas. 

Gaullières, as dos bosques. 

Uollières, andarilhas. 

Posliqueuses, as da posta ou L+uifio. 

Uaraudes, as vagabundas. 

Tattpies, as que andam por toda a parte. 

Trulíières, as que trottam noite e dia. 

\'iayère.<s, as dos caminhos. 

Muitos referem-se a particularidades imlçcentes da prolissào de uieretri/, 
taes são. 

Bezoches, Drues, Uourrièrcs. etc. 

A vida alegre d'estas mulheres com os seus amantes acha-se imlicada 
pítr alguns nomes: 

Filies de joie, mulheres alegres, ou de alegria. 

Galloise.t, de tjalle, alegria. 

Goudiíieíi, ou (jaudlnes. de (jaudere, folgar. 

Goiíines de iioija, gosar. 

Iligobetes, de riijober,- passar hem a vida. 

As dillerentcs classes de mulheres estão designadas nCstas deinminav;óes : 
IctToc/icíf.sr.s'. as ipte se agarram aos transeuntes. 



?70 HISTORIA 

Hiiiisnir. a'- (|iie flianinni a atlciiçào saudando. . 

Caiyn.ardJrrfs, as (jue Ircquenfam a companhia dos tnisoravcis. 

fourtisanes, as que vivem nas cortes do amor. 

Demoiselle.s du maraia, as que têem o pé no lodo. 
Drouiius, as que trazem comsigo todos os utensílios. 

Ilrms, as que esperam ás esquinas das ruas. 

I.escheresneít. as que tinlisni a al)ominavel industria das fel o i rires romã 
nas. 

I.oudiiire.s, as (]uc possuem apenas uma larimiia. 
Maranes, as morenas, as ciganas. 

Sourdileft, as que caliiram na vicio por seduc^;ão. 

Salfreies, as que usam- bordados de ouro. 

As peripl)rases, que procedem pela maior parle de alguma locução pro- 
verbial, não pr(>cisain de commentaiios. 

Algumas das denominações foram tiradas da tcclinologia do direito con- 
suetudinário, como personnières, que participam da acção ou cúmplices: nsa- 
jlèrex, terrenos baldios, pertencentes a toda a gente. 

Outros nomes haviam-se tornado genéricos, por causa da qualidade or- 
dinária (ias mullieres que os tinham ou recebiam, bem que tacs nomes fossem 
de santos, disfarçados ou' corrompidos, tacs .como .lanneloii, diminutivo de 
.leaiine, Joanna ; Mnnjni,. diminutivo de Marriarile, Margarida. 

Finalmenlc outros ainda, tacs como Camhrnuses, Arrehanes, ctc, que 
nunca foram explicados, exigiriam uma larga dissertação etymologica, que não 
estamos muito dispostos a emprehender. 

O Abbide de r-AuInaye, na sua nomenclaturra dos synonymos emprega- 
dos no século xvi para qualificar as prostitutas, fez numerosas omissões, entre 
os quaes apontaremos apenas as seguintes : 

Ancelks, serventes ou escravas (de Ancillae). 

Baçjues, anneis em sentido figurado. 

ítas-cnlz. 

fíringues, onomalopeia, irrequietas, buliçosas. 

Hrimbdeuses, que tocam campainhas. 

Capres, de cabras, pela sua lubricidade. 

Clwueltef:;' áVes líocturnas! 

Chérre.-i, o mesmo de Capres, cabras. 

Ildlière.i, amigas dâ alegria e do prazer. 

■(■'dnscpurs, irnixãs da alliánça. 

('riipierielles, galantes. 

Haures, sentido muito (li)scuro aclualmcnle. 

Ilorres, trutas. 

íinaíjes, imagens, quer dizer pintadas, cheias di; arrcl)i(|ues. 

PeauUes, prostitutas de marinheiros. 

Poupines, bonecas. 

PaiUasses, Palllardes, (|uc dormem sobre a palha. 

Seraiiies, ou Siráie.s, traiiloras, asiuias, sereias. 



IIA PROSTITUIÇÃO Zí, 

O (liccionario coiiiíl-o de l.croux uoòresccntaria ainda uns vinlc nomes 
talvez, todos elles baixos e grosseiros, coliiidos pelos andores do século xvi 
no lodo da prostiluiyão, e registrados por Bcroaldc de Aervilleno seu Moijendt 
parvenir. 

Quanto ás periphrases inventadas para exprimir o mesmo assumpto soh 
todas as suas phases, são innumeraveis e estão na Índole do bom bumor france/. 
Por isso julgamos desnecessário accrescentar mais alguma ás que o abbade de 
TAulnaye teve o cuidado de apontar, como (|ue para dnr um* ideia das que 
ainda poderiam ser aproveitadas depois d'elle. 

Lniad'estas peripbrases, famines au court, talon, não seria comprebensivel 
pelo simples confronto d'este provérbio : l.a heaiué de la caurl r'fiii d'aroir It 
lalon court. 

Uma passagem do livro v de Rabelais faz-nos comprebender o que (|uer 
dizer ter u talão curlo. Paliando da rejuvcnesccncia que a rainba de (Juinl;i 
operava nas suas mulberes vellias, observa Rabelais, que depois de voltarem a 
novas, Kacaienl les lalons plxs courtz que o natural, e por isso ao em-oti- 
trarem-se com os lioniens eram sujeitas ou propensas ;> cabir de costas.» 

Apesar d'esta multidão de apodos ou designações applicadas ás mulberes 
de má vLda, o sou nome por e\cellencia e caracteristitto Ibi sempre Putain, 
palavra que não foi completamente desterrada da linguagem e do*eslylo até 
fins do reinado de Luiz xiv, visto que se encontra ainda nas comedias de Mo- 
lière. No século xv e século xvi, esta palavra apparecia ainda em toda a parte, 
no foro, no púlpito, nos livros de moral e de jurisprudência, nos de bistoria, 
nas obras de poesia e de litteratura. Até mesmo se encontra em livros escrip- 
tos por mulberes. 

O Abbade de TAuInave cita quatro provérbios, em que a sabedoria das 
nações se dirige á putain com esta ingénua grosseria: 

Amour de putain, feu d'éloiippes. 
Amor de prostituta é fogo de estopa. 

Putain fait com me corneille: 
flus se lave, pliis noire est elle. 
A prostituta é como a gralha : 
(Juanlo mais se lava, mais suja. 

Quand maisti-e coud et putain jili', 
Peiile pratique est en ville. 

Em porlugucz lia um provérbio equivalente a este ultimo e muito mais 
pittoresco ainda: Quando a prostituta fia, o soldado reza e o e.tcriruo pergunta 
a ijuautos estamos do me:, mal vae a todos três. 

O quarto provérbio, citado pelo Abbade de TAuInavc, é o seguinte: 

Jamais putain n'aima preudliom, 
Ni graxse galine au chopoií. 

A Iraduccão d'este ultimo ditado popular é a seguinte: !\aiir(t mulher 
perdida amou linmem honrado, nem (/allinhu ijurda rapãu. 



?73 HlSTORiA 

Outros [iroverbids relalivos a cslas imillitTos, com a detioininavào de /ò/- 
/cA [emines, provatn-nos que i> bom senso popular dava um sentido moral às 
palavras (|ue recordavam um pensamento deslionesto, a fim de collocar por as- 
sim dizer o remédio ao lado do mal : 

Folies feiíimes n'ainient que pour pasture. 
As (íortt^zãs amam sii por interftsse. 
« 

Se nesta vasta nomenclatura não figura o nomií Calin, é porque nào foi 
introduzido na língua ei'Otioa senão em épocha muito próxima dos nossos dias. 
Uisse-se durante muilo tempo Calin, nnno diminutivo de Caíhénne, Latiiarina, 
nome muito usual entre as filhas do povo. .4. palavra veio a ser pouco depois 
synonymo de poupe, por isso que as crianças chamam assim ás suas bonecas, 
e <l'aqui passou naturalmente para as mulheres licenciosas, que ficam toda a 
vida solteiras, o que se chama proverbialmente coiffer sainie Calhcrinc, pentear 
Santa Catliarina, como quem diz veslir santos. De Calin lez-se logo Calauí, 
sem que a mudança de terminação conseguisse rehabililar o diminutivo. 

O infame logar em que a prostituição assentou os seus arraiaes, o bordel, 
cujo nome conseguiu insinuar-se nas satyras de Boileau e nos contos di' Vol- 
taire, parece (|ue nunca inspirou o estro dos inventores de synonymos. O ab- 
bade de lAulnaye apresenta apenas cinco ou seis, que nem sequer ainda li- 
liliam curso na linguagem usual, rescrvando-se apenas para a lingua escripta : 

Clnpaire, derivado de clapier, coelheira. 

Curatrie, que revela a ideia de curato ou prebenda. 

Eschecinaíje, que parece conter um torpe jogo de palavras. 

Paillhre, que dá a entender que similhanlcs antros não tinham outros 
leitos senão uma pouca de palha. 

Peaullre, uma barcaça de rio. 

Ptitefji, como quem diz feudo de prostitutas. 

No emtanto, a palavra bordel teve sempre preferencia, ainda que a si- 
tuação ou o regimen dos antros da prostituição mudassem completamente em 
consequência das disposições e regulamentos a respeito da prostituição legal. 
Os bordeis, que tinham sido os primeiros albergues da libertinagem publica, já 
não e\.isliam em parte aíguma, s^ccepto n'algumas cidades da província, na 
èpocha em que as muliien^s de vida dissoluta tinham o direito de manter boi- 
Jeis em certas ruas de má fama, onde viviam dos productos do olficio sob a tu- 
tela da policia munici|)al, e mediante » pagamento da respectiva licença. 

Os amantes, os companheiros, ou os protectores d'eslas mulheres poixii- 
das, toilos es.ses parasitas infames ila prostituição, tinham o nome genérico de 
inaqueraux. Outros nomes havia, porém, ainda para designar estes miseráveis, 
e nomes que soavam muito melhor a seus próprios ouvidos. Denominavam-se 
ás vezes : 

Calinières, porque attrahiam com alfagos. 

Calnis, pelo mesmo motivo. 

I'axse-inane,iiii.r. valentões. 



PA PBOSTlxriçS" 579 

roíirrntiers. piir;|uo favurecinin o trafiro das Mias amand-s. 

Courtriers, a mesma iJoia 

Chnlands, frcguczes da casa. 

Coliafres, que devoravam n [iroducto do impura commpioin das sua* 
desgraçadas companheiras. 

Gniilliarda. a mesma ideia. 

Hollierií, que viajavam com suas amantes pelo paiz. 

Francs-gonlierx, bons amigos. ' 

Eialons, cavallos de cobrição. 

í.escheurs, que engordavam eom a substancia da casa. 

Lapins, coelhos. 

Lesbins, sodomitas. 

Mignons, queridos, prediletos. 

Maquignons, protectores, auxiliares do impnio trafico. 

Paillards, que dormiam sobre palha. 

Os homens desprcziveis, que assim se consagravam ao mais vil concu- 
binato, do qual tiravam o seu único rendimento, eram os depositários, senJio 
op inventores da giria da prostituição, e nas tabernas, onde passavam o dia. 
bebendo, comendo, jogando, blasphemando e dormindo, nã'i dei\a\ani de v- 
Nelar a depravação dos sons jostumes na linguagem de que usavam. 

Ouantii ás mulheres infames que intervinham nos tráficos secretos da 
prostituição, eram apontadas ao desprezo e reprovação das pessoas honestas 
com o nome genérico de maqunrilfs. Este (jualificativo correspondia a l^das a»' 
condições do seu abominável oflit-in, c era indilTerentemente admittido. lantn no 
pstyjo elevado, como na linguagem mais vulgar, ou mais rasteira. Os poetas 
da corte no scimhi xvi empregavam -no a cada passo, bem ci>mo os jurisi-on- 
snltos e legisladores. 

Este nome, que não Coi excluido da linguagem culta até ao século xvu, 
bastava, segundo parece, para todas as necessidades. .4s pessoas, a quem re|in- 
gnava servir-se d"elle, costumavam dizer courrih'e. ou courreiiere, corretora ; 
as palavras enirfinftteuse c appareilltasi', mediadora, ou agenciadora, vieram 
mais tarde, e resentem-se já do estylo académico. 

Também se recorria a periphrases, que revelam a intenção de atlagar a 
susceptibilidade d'estas damas: ambassntrires d'amonr, embaixatrizes do amor .■ 
coHri7í'7'r?'r.ç (/»> lolontes. conciliadoras de .vontades; iDun-handrs d" chair 
frairhf, eommerciantes de carne fresca ; .s«n./TO(?íífi.s d'amoHr, sentinellas do 
amor. etc. 

\s que exerciam este odioso (_■ lucrativo trafico so recebiam de toda a 
parte injurias e maldições. O próprio libertino, que as empregava em serviço 
dos seus próprios prazeres, comprehendia bem a infâmia e toda a indignidade 
destas mediadoras. Felizmente não eram mulheres as negociadoras dVstes in 
fames contractos: eram velhas. 

O retrato de uma d'estas infames velhas, devido a um poeta do século 
xvt. c iiN)a passagem notabilisima que se attribuin a Francisco Rabelais na 
primeii'a edição completa das suas obras, e que havia appareciílo em \ort\ 



?8fl HISTORIA 

n uma collccvão de poesias de Francisco Habert. Este Habcrt era um amigo ijr 
Rabelais, e pôde suppòr-se cora algumas probabilidades que quizesse salvar do 
olvido as Epistolas a duas velhas de costumes dilferentes, que Rabelais, a esse 
tempo cura de Mendon, não podia nem queria publicar com o seu nome. 

De reslo, o retrato da veliia mediadora encontra-se feição por feição na 
Syhilla de Panzoust, que figura entre os personagens allf^oricos do Pantagruel. 

«Aelba desdentada, infame e miserável, velba sem graça, de hypocritas 
virtudes, velba traidora, iniqua mediadora, velha que trazes a deshonra c o 
crime a solteiras e casadas! Tu nunca soubeste o que é a caridade, mulber 
infame, que só sabes ter rancores e azedume! A tua asquerosa e feia pelle ex- 
cede em fétido tudo quanto ha de mais immundo! Velha! Tu nunca fallaste 
bem de pessoa alguma: tu fazes do teu leito um bordel. O teu ubre pode 
muito bera araraaraentar o próprio diabo do inferno. Velha! Tu exerces o infer- 
nal poder de Medeia v. Circe ! Velha maligna, execravel e infecta, que envene- 
nas com a voz os elementos, não receias ser castigada um dia por teus cri- 
mes sórdidos e impudicos, ante Deus e ante os homens? Pensas que has de 
ficar impune, velha maldita, tendo perdido tantas donzellas, tendo vcndiílo 
contra íod.i a lei e justiça mulheres honradas e de boa familia '!...)* 

\s cores enérgicas d'estc quadro serviram depois de modelo a Réguier 
par-a o retrato da sua Macette, que é o prototypo ijas corruptoras tia prostitui- 
ção no tempo de Henrique iv. 



CAPITULO XXV 



SUMMARIO 



A prostituiç5o lefral considerada por ura moralista coiim as |iartes secretas do corpo social.— Ultimos ves- 
tígios e transformai;(jes (la prostituição rtrliL^iosa — li iQanif|Ucisino e a feiticeria — Mctamorphose diabi-lica da 
prostituirão hospitalar. — Os iucuhos e surcubns siilisliluem os deuses lai es e os .semideuses aprestes. — Os dni 
sios dos saulezes. — S. .^Kostinlio alliriiia e .'■'. Cliiysostomo nega. — SoiiUos dos ]'abtiinos judeus adoptados pelos 
doutores da E^Teja. — Adão e os diabos. — Multiplicação siibiciiatural dos primeiros homens. — Variedades úe 
pesadellos. — Opinião de Guiberto de Nogunt. — Opinião do padru (lostadau. — JJtymolojjia das palavras incubo p 
succubo — O prefeito Mumnolo. — Os succubos do bispo Eparchio. — O incubo da mãe de Guiberto Noffent. — 
O báculo e o exorcismo de S. H-Tnardo. — Decisão do papa Innoceiício viii. — A vida a.«citica, predispondj para 
os attentailos dos incubos e succubos. —Doutrina dos casuistas acerca dos sonhos impudicos. — Armella Nicolau. 
— Angela de Fohgno. — Correspoiíiieucia de Soror Gertrudes com Satanaz. — O demónio e as virgens. — Joanna 
Harbiller. — Os incubos quentes u os incubos frios. — Cuufissões das suas victiraas. -- O mau cheiro do diabo — 
Filhos gerados pelo diabo. — DistincçSo entre n incubismo e a feiticeiia. — Os incubos c succubos discutidos pui 
plena academia no secii n \vn. — Seus feitos explicjidos pela sciencia e pela razão. 




piuisTiTUiçÃo LEGAI, chcgáfíi, ao qiK' parecia, a possuir todo n 
desenvolviíiuTilo rcgitlar e n(H-cssai'io. Tinha o st-u código, os 
seus usos, os seus cotumes, es .seus privilégios, muitos outros 
accessorios e até mesmo a sua lingua privativa. Vivia, por as- 
sim dizer, em perfeito aceordo com a aucloridade ecclesiastica e 
civil. Estabelecera o seu império em certas ruas, a certas horas, mediante cer- 
tas condições de policia urbana. Fazia parte iHtegrante da organisa(,'ão do corpo 
social, do ([uaI era, segundo a c\tranha expressão de um antigo escriptor, «as 
palies secretas, que o pud )r manda occuilar, mas (|ue não se ani(|uillariain 
sem destruii" os bons costumes, (jue são como ipie a cabeça e o coração de um 
paiz morigcrado». 

Apesar d'isto, porém, ao lado da prostituição legal, reconhecida ou tole- 
rada pelos poderes públicos, encontravam-se ainda os mal apagados vestígios, 
muito degenerados, de certo, da prostituição hospitalar e da prostituição reli- 
giosa, aquellas duas companheiras do paganismo entre os povos primitivos. 

X prostituição religiosa, propriamente dita, persistia ainda obscuramente 
no culto tradiccional de alguns santos, aos quaes a superstição popular conser- 
vara as attribuiçõcs obscenas de Pan, de Priapo e dos deuses lares. Estes des- 
varios constituíam, porém, e felizmente, raras excepções, annexas a certas pe- 
regrinações mysteriosas, a certas capellas ou sanctuarios extravagantes, que se 
conservavam pagãos apezar ilas suas invocações christãs. 

HiBTORU TIA PbostituiçIo. Tomo II— KoiBA 36 



282 HISTORIA 

Estas impudicas reminiscências da idolatria estavam como que escondi- 
das no fundo dos campos, até (jue alguma das monstruosas heresias, que não 
cessavam de se reproduzir no próprio seio da religião de Jesus, vieram dar 
largo desenvolvimento á prostitui(,-ão religiosa. 

O maniqueismo pioduzira a heresia dos \'aa<le.s, e a Vauãeric, apesar 
do fogo e do ferro a lerem sem cessar procurado extirpar da sociedade, bro- 
tava aqui e alli vários rebentões, que davam fructos impuros, e desappareciam 
dahi a pouco em cinzas nas fogueiras. Não será destituido de interesse pro- 
curar, nas frias cinzas destas heresias maniqueiasc dos Vaudes, o principio vi- 
tal da prostituição religiosa. 

Outra espécie de heivsia \eio tamhein contribuir para o desenvolvimento 
dVsta prostituição. Tendo (ido a mesma origem, a uova heresia separnu-se 
bera depressa do mani((ueismo. e pareceu dirigir-se para um lim inteiramente 
opposto. A feiticeria, instituindo o culto dos demónios, apoderou-se logo da 
prostituição como de um poderosd meio de acção sobre os seus hori-i\eis ade- 
ptos. A prostituição infernal nãi> iardou a arrastar comsigo uma depravação 
inaudita, qui' servia de laçn invizivel entre as feiticeii'as de todas as idades e 
pai/.es, e era a almH das suas assembleias infames. 

Pelo que respeita á prostituição hospitalar, essa crédula e ingénua lilha 
da prostituição religiosa apparecia ainda de vez em quando no sanctuario da 
vida domestica, sendo ordinariamente a sua causa ordinária os desvarios e ex- 
citações (Ím imaginação. Esta espécie de prostituição era ainda rellexo das cren- 
ças e mysterios do paganismo. O commercio carnal dos espíritos com os ho- 
mens e as mulheres passava então por um fado inconleslavel, e este maldito 
commercio, que a egreja considerou por muito tempo c(jnit> uni dos s\mptomas 
ria preversão diabólica, ha\ ia abertit a poria ;'i libertinagem secreta. 

A impudica supersti(;ão dos incubos e succubos tinha origem nos hábi- 
tos da prostituição lios^iitalar, e os chrislãos de ambos os sexos persuadiam-so 
de lerem relações lúbricas com os demónios e os anjos, que participavam 
egualmenie de um e outro sexo, assim como os pagãos cohabilavam com os 
.seus deuses lares, ou entravam ás vezes em communicação directa com os 
faunos, satvros, na.yades e semi-deuses agrestes. 

Temos, pois, de examinar o que era a prostituição na Kdade-Media, sob 
as suas Ires phazes distinctas, a lieresia, a feiticeria, c a superstição dos incu- 
bos e succubos. 

Estes demónios chamados pelos gaulezes drusios (dnissi) já exerciam as 
suas violências e seducçoes nocturnas na époclia em (|ue Santo Agostinho re- 
conhecia a sua existência e aKenlados, declaiando que seria imprudência ne- 
gar um facto tão bem estabelecido: li hoc M(jare imprudenlia oidealur. Mui- 
tos Padres da Egreja, c entre elles S. .loão ("hrvsosthomo negavam este fado, 
pronunciando-sc contra os ados de luxuria attribuidos aos demónios incubos 
e succubos. 

A religião hebraica, porém, dava a estes demónios uma origem contem- 
porânea da dos primeiros homens, e a Egreja christà adoptou a opinião dos rab- 
binos lia interpretação do famoso capitulo do (ieiiesis, em i)ue se vêem os li- 



DA PROSTITUIÇÃO SSâ 

llios de Deus tomar por imilliercs as lillias ilos liumens, e procrearetii uma raça 
de gigantes. 

Os doutores e coneilios, apesar d'isto, não foram tão longe como os in- 
terpretes judeus, que referiam a lenda dos demónios, como se o facto se tivesse 
dado á sua vista. Assim, .segundo estes veneráveis personagens, «durante cento 
c trinta annos, em que .idão se absteve de cohahilar com sua mulher, vieram 
ter com ellc diabn.s, (|uc conceberam por obra do venerando pae da raça bu- 
mana, e pariram diabos, espíritos, espectros noi turnos e phantasmas. i^O numdu 
e.ncantatlo, por Baltliazar Becker, .4msterdam, 1694, 4 voí. i, ICíí.) 

Os rabbinos e os demonologos, uma vez a contas com a genealogia dos 
demónios da noite, proseguirani ousadamente n'este caminbo, e descobriram 
que se o pae Adão tivera copula com succubos, a nossa mãe Eva, pela sua 
parte, não deixara de entrar em communicação carnal com os inculios, contri- 
bumdo assim pcilldamente para a multiplicacrii do r;fneni liumaud. 

Qualquer que fosse o valor destas lendas dci mundo antidiluviano, a 
existência dos incubns e succubos não estava provada por iiini;uefn, e attribuia- 
se-lhe o èíTcito do pesadelo. Estes linspedcs incomniodos, que visitavam du- 
rante a noití- os jovens de ambos os sexos, nem sempre atti-iitavam contra a 
sua castidade. Umas vezes sentavam-se a .seu lado, murniurando-llíes ao ou- 
vido insen.satas illusucs, outras pesavam sobre o peito das iiHiocentes vicfimas, 
que julgavam afogar-.sc, e despertavam nur liiu, cbeias de espanto e innunda- 
das d.e sutu frio. 

Mais vulgarmente, porém, este demónio, macho ou fêmea, e ás vezes 
dotado simultaneamente dos dois sexos, cevava os seus furores luxuriosos na 
victima que havia escolhido, e que um somno pesado como o chumbo lhe en- 
tregava indefesa. iJonzella ou mancebo, o cúmplice involuntário dos prazeres 
do espirito maligno, perdia a sua virgindade ou innoceneia, sem conhecer jamais 
o ser invisível a quem merecia tão horrorosas caricias. Ao despertar, não po- 
dia duvidar da impura oppressào que havia sotVrido, quando via com assom- 
bro as provas irrecusáveis que lhe mancbavam o leito. 

Tal era a opinião geral, não s/i do |)o\o, senão também dos homens mai.s 
illustrados e eminentes. 

«Citam-se por toda a parte, diz o piedijso (luiberto de Nogent, nas me- 
morias da sua vida (De riía suo, lib. i, cap. l:{| exemplos de demónios que 
se fazem amar das mulheres e se lhes introduzem nos leitos. Se a decência 
nol-o permitlisse, havíamos de referir muitos destes amores diabólicos, entre 
os quaes sabemos de alguns bem terríveis por causa dos atrozes solTrimentos 
que fazem ter a estas pobres creafuras. emquanto (|uc outros contentau)-se 
apenas de saciar a sua lubricidade.» 

Tacs demónios eram, cllectivamente, mui diílerentcs em génios e i-apri- 
chos. Uns amavam coukj \ erdadeiros galans, aos quaes procuravam imitar em 
tudo; menos néscios talvez, ou niais preversos, davam-se a inciiveis excessos 
de libertinagem. A maior parte dellcs não se distinguiam dos homens nos re- 
sultados da paixão: mas alguns juslilicavam a sua natur'eza superior idin ver- 
dadeiros prodígios de incontinência e luxuria. 



^4 HISTORIA 

A fondiicta das vicfinias paru com os seus diabólicos oppressores era 
lambem dilTerenfo. Umas acosfumavam-se logo á opprcssão do diabo, e viviam 
com elle no melhor acecrdo; outras sentiam' n'cste indecente commercio tanta 
aversão c repugnância ao tyranno como a si próprias. Quasi todas guardavam 
silencio sobre o que se passava n'estes casos de união infernai, f|ue a Egreja 
anathemalisava, desviando os f)lhos com horror. 

«Não restaria mais que demonstrar, dizia o reverendo Costadau em pleno 
século XVII, como os demónios podem ter commercio carnal com os homens e 
as mulheres, mas a matéria r demasiado obscena, para a expressarmos na 
nossa língua.» 

Osescriplos dos theologos, dos pbilosophos, dos médicos e dos demonologos 
da Edade-Media estão cheios de observações eircumstanciadas a respeito dos ineu- 
bos e succubos, que encontravam poucos incrédulos, antes que a sciencia hou- 
vesse explicado naturalmente todas as suas proezas. O christianismo acceitára 
á conta do diabo e dos seus súbditos, os detestáveis actos de violência e sedn- 
cção que o paganismo desde a mais remota edade attribaia aos deuses subal- 
ternos e aos demónios occullos e nocturnos. Uns e outros exerciam os mesmos 
actos de prostituição phantastica, mas os espíritos íntísíveis, que d'clla se tor- 
navam culpados, não eram detestados pelos pagãos, como o foram pelos ehris- 
tãos, a quem a Egreja recommendava (jue se defendessem sem. tréguas nem des- 
canço contra as insidias do diabo. 

Não obstante, se a opinião vulgar não podia pôr em duvida os horríveis 
atlentados que estes malignos espíritos faziam contra á espécie humana durante 
o .somno, a^)hilõsophia negou em alta voz estes attenlados, quando se -entregou 
ao exame dos factos, averiguando os phenomenos do pesadèllo. 

Chamava-se incubo (incubns) o demónio que tomava a figura de homem 
para cohabitarcom uma mulher adormecida ou acordada. Esta palavra deríva-se 
do verbo latino incubare, que significa estar deitado sobre outro. Os gregos cha- 
mavam ao incubo demónio sallmlnr ou invasor, que acommelte ou se atira a 
alguém. N'uni antigo glossário manuscrípto, citado por Ducange, a palavra in- 
cubo tem esta definição : «Incubi rei incuhones, uma espécie de diabos que 
costumam brincar com as mulheres.» Ducange çxtrahe também das Glosas ma- 
nuseriplas, para intelligencia das obras medicas de .\lexan(lre de Tralles, uma 
passagem (|uc prova que os sábios confundiam antigamente, sob a denominação 
de incubo, o demónio do pesarlcllo e o solírimcnto tiuc elle causava ao dor- 
mente : 

«lucubim esi jnissio in qn<t dortirienies siijjorori el a dceiíionibuK opprinii 
lidenlnr.» 

A etimologia de suecubo (tmccubus) não dilTere da de incubo, senão pela 
mclamorphose do demónio, transfoi-mado agora em mulher, succubare, axib-cu- 
bare, rubare -w.b, isto ^, estar deitado debaixo de outro. Não obstante, Ducange 
não admittiu esta ()alavra nem o seu derivado no seu (ilossario. 

Verdaile seja que os succubos são mais rar^s (|ue os incubos nas narra- 
ções da Edade-Mcdia, |)on|iie cslcs iillimus, apesar dos exorcismos c das penas 
ecciesiaslicas, não deixavam ,is mulheres em descanço por aquelle tempo. De- 



!>A PKOSTITUIÇÃU 9*6 

pois de haverem lejto milagres nas lendas dos saiilos, vinham agora ostentar 
novas proezas à luz da historia. Gregório de Tours referc-nos a morte do pre- 
feito Mummulo (I.ib. vi), enviando demónios obscenos ás damas gaulezas, 
que desejava condemnar. O mesmo ciironista dá a entender que o próprio Sa- 
tanaz não desdenhava muitas vezes entregar-se a esse passatempo. 

Um santo bispo do Auvergnc, chamado Euparchio, acordou uma noite 
com a ideia de ir orar á sua egreja. Levantou-se com etteito e dirigiu-se á sé 
episcopal, que foi encontrar toda ilhiminada por uma luz extranha e cheia de 
demónios, que praticavam as maiores abominações diante do altar. Entre elles 
estava o próprio Satanaz, vestido de mulher, que sentado na cadeira prehilicia 
presidia áquelles mysterios de impudica iniquidade. 

— Infame cortezã! bradou o bispo indignado, não te contentas de man- 
char tudo com as tuas profanações, e vens ainda sujar com o teu corpo repu- 
gnante a cadeira consagrada a Deus! 

— Uma vez que me chamas cortezã, disse-lhc o principe das trevas, deixa 
estar que te heide inflammar a carne com o fogo da luxuria! 

Satanaz desfez-se eomo o fumo e junto com elle a sua cõrle diabólica, mas 
d'ahi a pouco lá cumpria a sua palavra, fazendo sotTrer ao sanio bispo todas 
as torturas da concupiscência carnal. 

Um historiador tão grave como (Ircgorio de Tours, (luiberfo de .\ogent, 
referia com a mesma boa fé cinco séculos mais tarde os insultos que sua mãe 
tivera que sofircr da parte dos- incubos, que a belleza d'aquclla mulher attra- 
hia sem cessar para junto d'ella. «Uma noite, conta elle, durante uma dolorosa 
insomnia, que lhe fazia innundar de lagrimas o leito em (jue jazia, o demó- 
nio, segundo o seu costume de tentar os corações aillictos, apresentou-se 
subitamente a seus olhos, que o somno não conseguia cerrar, e opprimiu-a 
cruelmente com um peso asphyxiante.» A pobre senhora nem podia mover-se, 
nem queixar-se, nem mesmo respirar, mas no intimo d'alma implorou o auxi- 
lio divino, e viu immediatamente o seu anjo da guarda junto da cabeceira. 

«Santa Maria, ajuda-nos! exclamou o anjo custodio em voz doce e sup- 
plicante; e dizendo isto lançou-se sobre o demónio, para o obrigar a largar a 
sua presa. O espirito infernal ergueu-se logo para resistir a tão inesperado ata- 
que, mas o anjo deitou-o por terra com um estrépito que fez tremer a casa 
toda. .4s creadas levanlaram-se assustadas e inquietas e correram ao quarto de 
sua ama, que pallida, desvairada e semi-morta de terror, lhes contou o perigo 
de que havia escapado e de que manifestava ainda signaes bem evidentes. iGui- 
berto: De vita sua, lib. I, cap. 13.1 

Os anjos da guarda, porém, nem sempre estavam no seu poslíj para pres- 
tarem auxilio n'esles lances ás débeis creaturas, e o demónio tinha então todo 
o partido. Não obstante, a Egreja podia ainda arrebatar-lhes a presa, como se 
prova pelo memorável exorcismo de que se tracta na vida de S. Bernardo, es- 
cripta pouco tempo depois da sua morte. 

Uma mulher de Nantes tinha relações impudicas com um demónio que 
a visitava todas as noites, quando estava deitada com seu marido, sem que o 
pid)rc homem acordasse. Xo cabo de seis annos d'c!>li' adultiMÍo diabólico, a 



?8(Í HISTORIA 

peccadoiii qiu' nunca /'aliara em sirnilhantr cousa, resolveu contar tudo ao seu 
confessor, e em seguida a seu marido, que liorrorisado d'ella a abandonou. 

O incubo ficou assim senhor absoluto da sua victima. Uma noite conlou- 
Ihe o seu infernal amante que o illusire São Bernardo devia ir áqu^lla cidade. 
A victima esperou com impaciência a chefiada do santo, e foi proslrar-se a seus 
pés, pedindo-lhe que a livrasse d'aquella obsessão diabólica. 

São Bernardo aconselhou-llie que fizesse o signa! da cruz ao deitar-se, e 
que pozesse a .seu lado no leito um báculo que lhe deu. — Se o demónio vier, 
disse o santo varão, não o temas. Desafia-o a que se approxime de li. l)ei\a 
estar que não lhe hade faltar que fazer! 

Etrectivamente o incumbo apresenlou-se como de costume para usurpar os 
direitos do marido, mas encontrou o báculo de S. Bernardo, e não poude lazer 
.senão andar em volta delle colérico e ameaçador. Uma barreira insuperável se 
erguia entre os dois. 

No domingo seguinte, dirigiu-se S. tiernardo á cathedral acompanhado dos 
bispos de .Nantes c de Chartres. Uma multidão immensa aecudira ao templo para 
receber a benção do santo, que ordenou que a lodos os assistentes se distri- 
buíssem velas a(-ce.sas, coutando-lbes cm seguida a historia daquella miilbei- 
dailH ao> prazeres do demónio. IJepois dislo, e\orcis(nou o espirito, pi'ohibiudo- 
Ihe peia aucforidade de Jx*sus-(^',bristo que atormentasse aquella mulher ou ou- 
tra ijuaUiuer. Conelui<lo o exorcismo, ordenou que todas as luzes se apagassem 
ao mesmo lempo, e a potencia no demónio incubo extinguiu-se i-ompleta- 
mente. 

Se S. Bernardo não duvidava da realidade da copula dos incubos com as 
mulheres, não é de exlranhar também que S. Thomaz de Aquino se occupasse 
extensamente d'estes audazes demónios libertinos, na sua Sumtna Theologicv 
(Questio LI, art. 3). A auctoridade d'estes dois grandes santos era sufliciente 
para desculpai' as desgraçadas, que julgavam soíTrer bem apesar seu esta ex- 
tranha prostituição, e que não possuíam o talisman preservativo do báculo de 
S. Rernardo. Nada mais vulgar que as revelações d'este género no tribunal da 
penitencia, e o confessor tirava d'eslas confidencias a convicção do facto, (|ue 
combatia sempre inutilmente com exorcismos e orações. 

O papa Innocencio viii não se mostrava menos supersticioso (juc os seus 
contemporâneos, quando reconhecia n estes termos de uni breve apostólico a 
existência dos incubos e succubos: 

n,\on sine ingenli inolfslia ad iiosiruiii yerceiíu audiíuin cuinijluras 
utriusque sexus personos proprice .lalutia inunemores-, fi a fuh calholica de- 
ciantes, doemonibus incuhis et auecubis abuli.» 

Não foi S(í a confissão sacramental que revelou os mvslerios do Incubii- 
inu e suvcítbistnu; revelaram nos especialmente as declarações voluntárias ou 
forçadas que a inquisição aiiaucou aos accusados, nas innumeraveis causas de 
ft.-iticeria, que encheram as fogueiras e patíbulos de lodosos paizes ihi Europa. 

Foi sempre a imaginação a culpada única de Iodas as cdiras nocturnas 
que se imputavam ao diabo, mas, segundo a crença dos antigos, as trevas per- 
tenciaiii ;ios rspiíilns iiiIVriíaes, e o somno dos homens achava-se exposto as- 



DA PROSTITUIÇÃO t87 

sim á nialclaclc íJ'cstes audores do peccadu. Eram laiubeui accusados de em- 
progarem o sonho como um dos meios de tenta^'ão dos peccadores adormecidos. 

"O diabo, diz o sábio António de Tor(|uemada, procura principalmente 
fazer cahir no peccado da luxuria os que dormem, fazendo-os s(mhar com pra- 
zeres carnaes, até que os obriga a polluções, de maneira que comprazendo-se 
n'ellas logo que despertam, são a causa de que pequem mortalmente. (Ilexa- 
meron) . 

I5ay1c, na sua Hc-iposía ás penjaiilas de um Promncial, cita a este res- 
peito a doutrina dos casuistas sobre os sonhos, que por muito tempo se attri- 
buiram aos incubos e succubos. 

«Os mais remissos concordam que somos obrigados a rogar a Deus que 
nos preserve de sfmhos impuros. Dizem elles que se pecca sempre nos seguin- 
tes casos: quando se tizeram cousas próprias para excitar as impurezas du- 
ríliite <t sonho: quando ao acordar não se deplora o ter-se sentido prazer com 
os sonhos; quando finalmente se emprega quali|uer artificio para os reprodu- 
zir.» fOeuvres ih lki\jk, I. iii, p. o63.) 

l'(i(le dizer-se até certo ponto que os incubos e succubos nasceram nos 
conventos de ambos os sevos, porque a vida ascética predispõe niaravilhosa- 
inentc o espirito e o cor|Mi para esta prostituição involuiil;iria, que se realiza 
em sonhos c que o mysticismo considera como obra dos demónios nocturnos. 

«As religiosas, diz Bayle, altribneni á nialicia de Satanaz <«k maus pen- 
samentos que téem, e se notam certa tenacidade ou insistência nas suas sen- 
savões, imaginam que o infernal tentador' as persegue mais de |iorfii, (|ue lhes 
faz cerco, que se apodera linalmenle dos seus corpos.» 

A biographia de muitas d'estas santas martyres dos seus próprios senti- 
dos faz-nos conhecer as provas que tinham de sotfrer para guardarem a sw\ 
pureza e para escaparem ás violências ou as seducvões dos anjos maus. Uma 
religiosa de Santa Úrsula da communidade de Vannes, chamada Armclia .Nico- 
lau, «pobre rapariga idiota, villã de íiasciruenlo e servente de condição», como 
a qualifica o seu hi.storiador, olíerece-nos um dos últimos exemplos do impé- 
rio que o diabo podia exercer pbysica e moi'alnicnle ao mesmo Icmpo, sobre 
aquellas reclusas ignorantes, crédulas e apaixonadas. 

Esta pobre rapariga, que viveu nos lins do século wiii, coineç.-ara por s»' 
exaltar nos ardores do amor divino, antes de ser viclima dos incubos. 

A seu respeito diz o auetor anonymo da Eschola do paro amor de Deux. 
iilieria nas siihius e aos ujnoraiUes, p. :{'i- da nova edigão de Colónia : 

«Parecia-lhe estar sempre em companhia dos demónios, (|ue .sem cessar 
a provocavam a enlregar-se-lhes. J'or espaço de cinco ou seis mezcs que du- 
rou o mais forte d'aquella grande batalha, era-lhe impossível dormir de noite, 
por causa dos espectros espantosos com (|ue ns demónios a alnrmentavam, to- 
mando horriveis c monstruosas figuras.» 

E' o (|ue se chama pòr o remédio ao lado do mal, e a pobre freira cada 
vez se sentia mais forte para resistir áquelles terríveis tentadores, que em vez de 
lon)arem formas agradáveis e sympatbicas para facilitarem a seducvão, se indi- 
gnavam de seus desdéns e a maltratavam cruelmente. 



>88 msTORU 

Outra mystica, Angela de Foligno, cujas tentações diabólicas descreve 
Martin dei Rio, nas suas Disquisitiones magiccB, tinha de haver-se também 
com grosseiros demónios, que a golpeavam sem piedade, depois do lhe have- 
rem inspirado desejos, que não chegavam a ver realisados. Não tinha no corpo 
sitio algum que não fosse ferido por aquelles cruéis incubos, de modo que não 
podia mover-se, nem ao menos levantar-se do leito, e elja própria diz : «^on 
est in me inembrum, quod non sit percussum tortura, et panalum a dcemoni- 
hiís et semper sum infirma, et semper estupefacta et plena doloribus in om,ni- 
hux meinbris méis.» 

iVão obstante isto, os incubos não conseguiam os seus desejos, apesar de 
não cessarem de a atormentar. 

Segundo os demonoiogos mais'bem informados, um demónio incubo tomava 
,a figura de um homiinculo negro e cabelludo, mas tinha sempre o cuidado de 
conservar certa cuusa da natureza dos gigantes, como um gl<irioso attributo da 
sua origem paterna. Nos interrogatórios de um grande numero de processos de 
teiliceria encontra-se a prova d'estas enormidades, que não existiam por certn 
a nào ser na depravada imaginação dos pacientes. 

Kste coramercio absnrdf) tornava-se ás vezes duradouro, e a. desgraçada 
qu<' o solTria sem vontade, ou que se habituava a elle como uma questão de 
libertinagem, permanecia assim em poder do demónio annos inteiros. Cilam-sc 
numerosas possessas que amavam eOectivamente o diabo e lhe correspondiam, 
•loão Wier conta que no seu tempo umajoven religiosa, chamada dertrudes, de 
qualorze annos de edade, dormia todas as noites com" Satanaz, e que o prín- 
cipe das trevas tanto se fizera amar d'aquella menina, que ella lhe escrevia nos 
termos mais ternos e apaixonados. N'uma syndicancia que se verificou um dia 
na abbadia de iNazareth, perto de Colónia, onde esta religiosa havia introdu- 
zido o seu infernal ainante, descobriu-se na sua cella, a io de março de 156o, 
uma carta de amor dirigida a Satanaz e cheia de pormenores horríveis acerca 
das suas noites libidinosas. 

De resto, os auctores nào estão de accordo a respeito das predilecções li- 
cenciosas que se atlribuiam aos incubos, e a controvérsia demonologa sobre 
este ponto tomou por vezes grande vulto. O celebre Lancre assegura que os de- 
mónios não se niettem com as donzellas; Martin dei Rio allirma o contrario : 
Bodin sustenta que os demónios tèem horror á sodomia e á bestialidade : Prie- 
rías considera-os como inventores d'estas infames aberrações. 

Esta divergência de opinião a respeito do grau de preversidade, que se 
atlribuia ao espirito maligno, prova unicamente mais ou menos depravação vn- 
enlre os casuislas que se occupavam de questões tão delicadas. 

Não procuraremos explicar a espécie de impossibilidade (|ue se oppunha 
ao commercio de um demónio com uma donzella. 

Lancre, no seu Tableau de Vinconstance des mantais anges et démons, 
refere que uma donzelloua de edade avançada lhe contara «que o diabo não faz 
ajuntamento com as donzellas, porque não pôde commeller com ellas adultério, 
por isso espera que se cazcm.» 

Eis uni i'\tranbo riM|nihl(' de malícia da parte do diabo, pois julgava que 



DA PROSTITUIÇÃO 289 

não era ainda suHiciLMile peccado violar uma dunzclla c esperava a opporluni- 
dade do adultério. Ainda assim, n'outras passagens do seu livro, Lanerc da- 
nos a entender que o demónio tinha mais compaixão da fraqueza das donzellas 
do que da sua iiinocencia. 

«Se não receiasse oflender a vossa imaginarão, diz o abbade Bordelon, na 
curiosa Histoire des imaginations, de M. Oullle, reterir-vos-hia aqui o que os 
demonograplios contam a respeito das dores que solTriam as mulheres, ([uando 
tinham commcrcio com os demónios, e o motivo porque sollriam estas dores.» 

No emianto, parece demonstrado pelas revela(,'ões de um grande nUmero 
de feiticeiras e possessas, que diziam ter copula carnal com o tentador desde a 
edade de dez annos, que elle nem sempre esperava que as suas escolhidas es- 
tivessem aptas para o matrimonio para as possuir. Os demonogra( hos sem entra- 
rem em pormenores especiaes a respeito da deslloração das donzellas por obra 
dos incubos, citam muitos casos em que as virgens conheceram o diabo antes 
da puberdade. 

Deve notar-se todavia que a maior parte d'estas desgra(,'adas eram filhas 
de feiticeiras consagradas ao demónio e ás suas obras, desde o seu nascimento, 
.íoanna Herviller, que foi condemnada á fogueira, como o tinha sido sua mãe, 
por seotenç,'a do parlamento de Paris, confessou que a auctora dos seus dias a 
tinha apresentado ao diabo «na figura de um homem alto e negro, vestido 
também de negro, ealvado de botas e esporas, que trazia espada e linha um 
cavallo cá porta.» .loanna tinha então doze annos, e desde o dia d'a(|uella apre- 
sentavão, o diabo «tinha cohabitado com ella do mesmo modo que os homens 
com as mulheres, exceptuando que o sémen era frio. Isto continuou por muito 
tempo, cada oito ou quinze dias, ainda mesmo quando estava deitada com seu 
marido, que não percebia cousa alguma.» 

Dois ou três factos do mesmo género, citados também por Bodin, indi- 
cam que certos incubos, mais espertos e depravados que os outros, mostravam 
grande empenho em colher as primícias da virgindade. Em lolo, a abbadessa 
de um mosteiro de Hespanha, Magdalena de la (^ruz, foi deitar-se aos pés do 
papa Paulo iii, pedindo-lbe a absolvição pelo facto de se ter sacrificado desde 
a edade de doze annos a ura espirito maligno, em figura de um woii.ro prelo, 
continuando n'este execravel commercio por espaço de trinta annos. 

«Sou de opinião, accrescenta Bodin, que Magdalena de la Cruz fora con- 
sagrada a Satanaz pelos seus próprios pães desde o ventre de sua mãe, por isso 
que confessou que aos seis annos, que é a edade do conheciuíento nas meni- 
nas, Satanaz lhe apparecera, e que a seduzira aos doze, que é a edade da pu- 
berdade nas mulheres.» 

Outra Jovcn hespanhola, que fora desflorada pelo demónio na edade de 
dezoito annos, não quiz arrepender-se do que havia feito, e foi queimada n'um 
auto de fé. 

Havia duas espécies de incubos, implicitamente reconhecidos como laes, 
os frios e os quentes. 

António de Torquemada explica de uma maneira bem singular a_inva- 
são de certos diabos frios no corpo do homem: 

BiSTOBiA DA Prostituição. Tomo ii— Folha 37. 



290 ■ HISTORIA 

«Ainda <|U(' os diabos st\jani inimigos dos liomens, diz cllc no seu llexa- 
iiicron, cnlruin nos seus eorpos, não laiit(j pela vontade de lhes fazerem damno, 
como peio desejo de um eaior vivificante; porque estes diabos são os que ha^ 
bitam em logares profundissimos, seeeos e frios, e porisso desejam os sítios 
húmidos e quentes.» 

Seja como fòr, quando um diaho entrava no corpo humano, e alli an- 
dava às voltas, revelava a sua presença pelo excessivo calor que causava em 
todas as partes que estavam em contacto com elle. Assim Santa Angela de Fo- 
ligno, que tinha de precaver-se sem cessar contra as sollicitações do diabo, 
sentia á sua approximação um tal togo no órgão sexual, que se via forçada a 
applicar-lbe um ferro candente para extinguir assim o incêndio que n'clle se 
desenvolvia sob a influeticia da lubricidade infernal. 

Apesar do fogo interno ou externo, que os incubos quentes traziam com- 
sigo na cohabitação nocturna, o seu principio algido fazia-se sempre sentir de 
algum modo durante o próprio acto da obsessão. Depois de ter fallado do sen- 
timento de frio e de honor (jue os possessos do demónio sotTriam no meio dos 
seus espantosos transportes, Bodin diz que «taes copulas não são illusões nem 
enfermidndes}^, e atlirma que não dilTcrem das relações sexuaes ordinárias senão 
pela frialdade do sémen. 

A este respeito dá um extracto dos interrogatórios feitos, perante Adriano 
de Fer, magistrado de Laon, ás feiticeiras de Longny, que foram condemnadas 
á fogueira por terem tido copula com os incubos. 

Margarida Bremon, mulher de Noel de Lavaret, confessou ter sido con- 
duzida por sua mãe certa noite a um campo, em que se reuniam as feiticeiras: 

«Havia n'aquelle sitio, diz ella textualmente, seis diabos em forma hu- 
mana, mas verdadeiramente horríveis. . . . Acabada a dança, os diabos atira- 
ram-se ás feiticeiras e tiveram copula com ellas. Um d'elles, com (|uem ella 
dançara, agarrou-a e beijou-a duas vezes. Em seguida cohabitou com ella por 
espaço de meia hora, mas o seu sémen era frio.» 

.loanna Guillemin «reporta-se ás palavras de Margarida, e accrescenta 
que estiveram juntos, ella e um demónio, mais de meia hora, e que o sémen 
diabólico era como o gelo». (Drmunonianie des .sorcière.s. lih. ii, cap. 7). 

.loão Bodin nota uma circumslancia completan)ente análoga no processo 
da feiticeira de Biévie, que foi instaurado e julgado pela justiça do senhor de 
Boue, bailio de Vermandois. Esta feiticeira confessou que Satanaz, a quem 
chamava seu companheiro, cohabitava com ella ordinariamente, c (jue o seu 
sémen era muito frio. 

Os historiadores da feiticeria e os jurisconsultos não .se limitavam a re- 
gistrar estas extranhas |)arlicularidades. O seu íim principal era procurar a causa 
delias, e julgaram tel-a eiicontra<l(j, cslribando-sc na aucloridade de S. Thomaz 
de A(|uino. 

«l'ns, diz o ingénuo Bodin, opinam (|ue os demónios /ii//í/n'(7//(>,s-, ou suc- 
cubos recebeni o sémen dos homens c se servem d'elle com as mulheres, como 
demónios eiihnaltux, ou incubos, como diz S Thomaz de Aquino, cousa que 
parece incrivel.» 



DA PROSTITUIÇÃO 291 

O mesmo aucfor, (|ue de eoiisa alfjimia se admira, nos mais sinistros 
arcanos da demonomania, adia a explicação dVste plicnomeno n'um versículo 
da Bíblia, em presença de qual os commentadores ficaram mudos e confundidos. 
Diz elle: 

«Talvez a passagem da lei de Deus, que diz: Maldito xejn o que der o 
seu seineii a Molnrli, se possa entender a respeito d'esles.» 

Não era este, porém, o único caracter distinctivo da possessão diabólica: 
o cheiro pestilencial que o demónio e\bala\a de todos os seus membros com- 
municava-se quasi immediatamente aos bomens e ás mulheres que visitava. 
I)'aqui a origem de locuções proverbiacs, que ainda hoje se usam: Cheirar como 
o diabo; apestar coí/ío o demónio, etc. Os possessos, que tinham tido copula 
com o tentador, apestavam tudo em torno de si, e reconheciam-se especial- 
mente pelo hálito insupportavel. 

Diz o ingénuo Bodin, rcferindo-sc a Cardan : 

«Os cspiritos malignos são íVtidos c" d(i mesmo niodd se consideram os 
logares por elles frequentados. (>reio que vem d'ai|ui o lerem i>s antigos cha- 
mado ás feiticeiras (atenies, e os gascões felilleros, pelo seu fétido repugnan- 
tíssimo, que procede, segundo creio, da copula com o diabo.» 

Todos os demonographos concordatn na allirmação d'esle horrível fétido, 
que ordinariamente annunciava a passagem do diabo, c sabia da bocca dos pos- 
.sessos. 

«Pódc allirmar-se, accrescenta, que as mulheres, que de si próprias tèem 
o hálito muito mais doce c agradável que os bomens, em consequência d'esta 
copula diabólica se tornam tristes, feias, horrorosas e fétidas.» 

Não é tudo ainda: o abominável commercio dos incubos produzia ás ve- 
zes fructos monstruosos, e o demónio tinha um prazer maligno em introduzir 
assim a sua progénie na raça humana. n'este modo se explicavam todas as 
aberrações da natureza nas obras dar geração. Os monstros tinham então a sua 
razão de ser. 

Spranger escreve «que os allemães, tendo mais experiência em feitícerias, 
por isso que as tiveram desde tempos immemoriaes, e em maior numero que 
nos outros paizes, são de opinião que d'essas copulas sabem ás vezes filhos, 
que elles chamam Wechsel-Kind. Estas crianças são muito mais pesadas que 
as outras, estão sempre doentes, e seriam capazes da csgolarem três amas de 
leite- sem saciarem a sua fome diabólica.» ( Démonologie des sorciéres, lih. ii, 
ca|i. 7.) 

Martinho Lutbero, nos seus Colloquios. reconhecia a verdade dVste fa- 
do, tanto mais insuspeitamente, que elle próprio era arguido de ser um d'estes 
filhos do diabo, a quem as camadas populares da liba de França chamavam 
rhampis, como quem diz, achados, ou gerados no campo. 

No século XIII, um bispo de Troves, chamado (íuichart, foi accusado tam- 
bém de ser filho de uni incubo, chamado 1'enim. o qual. segundo diziam, pn- 
zcra lodos os sciis d<'ni()nicos as serviço do prelado, seu amado lillio. \ . .\iiiir. 
Mnnoires de I' .[nidriiiie des hif<rrlplioiis. I. vi, p. (iOIÍ.) 

(ts inctibds linbani, portanto, a aptidão de crear filhos bastante fortes e 



292 KISTORIA 

hábeis para alcaiii^^arem no mundo unia elevada posição. Ordinariamente, po- 
rém, estas vergonteas infernaes eram apenas umas espantosas parodias da 
humanidade. Rodin falia de um nionstro desta espécie, nascido em 1365 na 
aldeia de Selicmir, |)crlo de IJresiau, e que livera por pães uma feiticeira e 
Satanaz : 

«Era um monstro horrível, diz elle, sem cabeça nem pés, com a bocca 
no hombro esquerdo, ciir de figado, que gritava com clamor espantoso quando 
o lavavam.» 

De resto, Bodin apresenta varias opiniões acerca dos resultados da pros- 
tituição diabólica. 

«Outras feiticeiras, diz elle, parem diabos á maneira de crianças, que 
para logo cohabilani com as suas amas, cgualmente feiticeiras, sem que (Fahi 
a pouco se saiba o que foi feilo d'clles. A respeito d'esta copula de diabos, 
Santo Agostinho, S. João Chysoslhomo e S. (Iregorio ÍNazianzeno sustentam, 
contra Laclancio e Josephus, que é infecunda: e que, se o não c, mais facil- 
mente produz um demónio que um homem.» 

O vulgo, porém, não duvidava que o demónio tivesse a faculdade de se 
reproduzir sob a forma humana, e considerava succubos todos estes filhos do 
inferno. i\o emtanto, pôde concluir-se (|ue a maior parle das obras do incu- 
bismo eram estéreis. 

"O homem feiticeiro que tem copula com o diabo, como com uma mulher, 
diz líodin, não é incubo ou ephiidlln, é hijphialto uu succubo.» 

A este respeito conta muilas historias de succubos sob a responsabili- 
dade de Spranger, de Cardan e de Pico de Mirandola. Spranger refere que um 
feiticeiro allemão cohabitava assim diante de sua mulher c de seus filhos, que 
o viam no leito sem verem a mulher succuba. 

fico de Mirandola conheceu uni sacerdote feiticeiro, chamado Benito 
Berna, que na cdadc de oitenta annos declarou ter cobabilado por mais de qua- 
renta vezes com um succubo disfarçado de mullier, que o acompanhava sem 
que ninguém desse por elle, e que se chamava Hermiona. 

Cardan cila o caso de um outro sacerdote de noventa annos, que tinha 
cobabilado por espaço de mais de cincoenta com- um demónio em forma de 
malltfr. É para noiar-se um facto curioso: os inciibos diiigiam-se de ordinário 
ás mulheres mais bellas e jovens, assim como os succubos aos homens mais 
bonitos e bem proporcionados. 

Ouanto aos feiticeiros e feiticeiras, que iam procurar nos seus conciliá- 
bulos iioclurnos os detestáveis prazeres que o diabo jamais lhes recusava, 
iraquella monslruosa prmniscuidade de sexos e de edades, eram quasi sempre 
feios, velhos e repugnantes. I'ódc, poi'lanlo, considerar-se o incubismo como 
uma espécie de iniciação na feiticeria, que desprezava complclamente o pudor 
e levava a libertinagem ale aos ullimos limilcs do possível. i'or via de regra, 
o incubo não cnconlrava complacência alguma na pessoa que desejava e pre- 
tendia: era apenas o preludio do pcccado. O feiticeiro, pelo conlrario, pre- 
verlido c dado de li;i nuiilo ao diabo, dci\ava-se arrastar á perdição e vivia 
cxclusivamenlc ua pr;itica das obias das Irevas. 



DA PROSTITUIÇÃO 293 

E' conveniente, portanto, estabelecer utna distinc(,'ão muito significativa 
entre o incuijismo e a feificeria, dizendo que esta era a |)rostitui(,'ão das iiui- 
llieres veliias, e aquelle a da juventude. 

Apesar de tantos factos, de tantas revelações e de tantos exemplos me- 
moráveis, certos demonograplios negaram a existência dos incubos e succubos. 
O sábio astrólogo Aggripa e o celebre medico Wicr, attribuem á imaginação os 
principaes malefícios d'aquelles demónios nocturnos. «As mulheres são dotadas 
de grande imaginação, e julgam fazer o que não fazem», diz Wier. Os médi- 
cos mais illustrados do século xvii eram já d'este parecer, e não obstante, 
n'este mesmo século, em que ainda se queimavam feiticeiras, que confessavam 
ter tido copula com o diabo, discutia-se nas escliolas e academias a tbeoria dos 
incubos e succubos. 

A ultima vez que esta singular theoria se debateu em França, sob o du- 
plo ponto de vista religioso e scientifico, foi nas conferencias do celebre /?i//'?aií 
il'Ádresse, que o medico Tbeoplirasto Renaudot havia estabelecido em Paris, 
exclusivamente para zombar ao mesmo tempo da Faculdade de medicina e da 
Academia franceza. Estas conferencias que se celebravam uma ou duas vezes 
por semana no salão do Ihireau, sito na rua da Calanãrf, na cifi', attrahiam 
ura numeroso auditório, curioso de ouvir os oradores que tomavam parte na dis- 
cussão. 

Tractavam-se alli as questões mais espinhosas, e Theophrasto Renaudot 
dirigia os debates com uma seriedade imperturbável. A discussão sabia frequen- 
temente dos limites do que n'esse tempo se chamava honestidade, e agora cha- 
mamos decoro, ou decência, mas como todos estavam ávidos de saber, ninguém 
via nas opiniões dos oradores nem um átomo de malicia ou zombaria. 

>'a conferencia 128, que se realisou na segunda-leira, 9 de fevereiro de 
1637, um curioso da natureza, como ao tempo appellidavam os aíTeiçoados da 
physica e das sciencias naturaes, apresentou a seguinte these á discussão : 

Dos incubos e succubos: poderão os demónios procrear? 

O assumpto não era novo; era, coratudo singular e de sensação. 

Inscreveram-se immediatamente quatro oradores. 

O primeiro a tomar a palavra foi um medico pouco favorável ao sys- 
tema dos demónios incubos e succubos. (Considerou este facto como effeito de 
uma enfermidade chamada pelos gregos ephijallos, e pelo vulgo pesndHlo, e de- 
tiniu-a — uma diíficuldade invencível de respiração, voz e movimento, com 
oppressão do corpo, sentindo-se por sonhos um peso sobre o estômago. Se- 
gundo elle, a causa d'esta enfermidade é um vapor grosseiro, que occupa prin- 
cipalmente a parte posterior do cérebro e impede a sabida dos espíritos ani- 
niaes, destinados ao movimento das partes. 

Accrescenta que o vulgo attribue estes edVilos e perturbações ao espirito 
maligno, de muito melhor vontade do que á malignidade de um vapor ou de 
qualquer humor grosseiro, ou mucoso, que faz oppressão n'aquelle ventrículo, 
cuja frialdade e debilidade, produzidas pela falta de espíritos, são as causas 
mais manifestas. Conclue em consequência d isto por dizer, ([ue este estado 
mórbido, nu qual nenhuma iniluencia tem o diabo, não podia produzir a con- 



394 HISTORIA 

cep^-ão, «que sendo um eíTeito de faculdade nalural, e estado da alma vegetativa, 
não podia convir ao demónio, que é um puro espirito.» 

Esta tlieoria da geração devia produzir uma viva curiosidade na assem- 
biéa, que nem sequer suspeitava as faculdades da alma vegetativa; o segundo 
orador, porém, que era um sábio empanturrado na leitura dos clássicos gregos 
e latinos, tomou a defeza dos demónios, c quiz provar a realidade das suas co- 
pulas com creaturas humanas, factos que não podiam negar-se sem desmentir 
uma infinidade de pessoas de todas as edadcs, sexos e condições a quem ha- 
viam succedido. 

Em seguida, cita muitos outros personagens illustres da antiguidade e 
da Edade-Média, que foram procreados pelos deuses falsos ou pelos demónios. 
«São verdadeiros incubos, diz elle, os faunos, os satyros, e o principal d'elies, 
faii, chefe dos incubos, chamado pelos hebreus Haza, assim como ao chefe 
dos succuhos chamavam Ijíith. Ha ainda os Nephesolienses, que os turcos tèein 
por lilhos do demónio: e pode succeder que sejam por dois motivos, ou por- 
que os demónios se apoderem das mulheres e transportem para ellas sémen 
extranlio, ou porque, e é o mais provável, possam fazer sémen próprio, porque 
tudo quanto é natural pode ser feito pelos demónios. E mesmo que não podes- 
sem fazer seiíifii jiroprio, nem por isso deve concluir-sc que não esteja nos seus 
recursos produzir uma creatura perfeita.» 

Havia na assembléa grande numero de damas, que não perdiam uma pa- 
lavra d 'esta discussão. 

O terceiro orador reconheceu como facto incontestável o commercio dos 
incubos e succubós com as creaturas humanas, mas era de opinião que estes 
espiritos malignos não podiam procrear, e explicava assim a sua idéa: 

«Pelo que respeita ao succubo, direi que é bem claro não poder de forma 
alguma procrear, por isso que não tem logar conveniente para receber o .sé- 
men, e falta-lhe o sangue para alimentar o feto durante os nove mezes da ges- 
tação.» 

A respeito do incubo, não cortava tão peremptoriamente a questão. Recor- 
dava as três condições principaes que requer a geração, a saber: «a diversi- 
dade do sexo, o ajuntamento do macho e da fêmea e a eílusão de alguma ma- 
téria, que contenha em si a virtude procreadOra.» T.oncorda que o diabo pode 
em caso de necessidade dispor das duas primeiras condições, mas nunca da 
ultima, do tal .senien |)ropno e conveniente, dotado de espíritos e de calor vi- 
tal, sem o que, é iíifecundo e estéril; porque o diabo não tem scnwn, que se 
produz n'um corpo actuainícnte vivo, como não é o do tentador. Quanto a tra- 
zer doutra parte o sémen, isso não deve admittir-se por falta de espiritos, que 
não podem conservar-.se, a não sci' |ior uma irradiação que se faz das parles 
nos vasos cspcrniaticos. 

O (|uarlo orador, hniiiein douto c prudente, veio muito a pi'oposito acal- 
mar a anciedade do auditório, declarando «(|uo não ha nada de .sobrenatural 
no incubismo. (|ue não c mais do (|uc um s\mptoma da faculdade animal, 
acompanhado de três ciiHiumstancias, a saber: a respiração impedida, parai v- 
sação do movimento e uma imaginação volupluo.sa.» Reiíabililou o pesadcllo, 



DA PROSTITUIÇÃO 



295 



cujas causas e elkilos explicou, e terminou a discussão por dar um conselho 
aos circumslanles, que era absterem-se de dormir de barriga para o ar c dos 
perigos de uma imagiiia(,-ào voluptuosa, «elleito da abundância ou qualidade do 
sémen, o ([ual enviando a sua espécie á pbanlasia forma um objecto agradá- 
vel e remove a potencia motriz, e esta a faculdade expellifiva dos vasos es- 
permaticos.» 

Todos se retiraram satisfeitos d'estas doutas investigações no mundo en- 
cantado, ás quaes o douto Becker não havia ainda levado á luz da duvida e 
da razão. 

Depois de Theopbrasto Renaudot e até aos nossos dias, a theologia e a 
sciencia tem-se occupado ainda da questão de incubos c succubos, tão arraiga- 
dos na credulidade popular, que era impossível destruil-os completamente. As 
proezas d'estes demónios subalternos são ainda hoje pontos de fé entre os ha- 
bitantes do campo. Voltaire zombou d'esta crença com o seu inllexivcl bom 
senso, mas pouco faltou para que não o accusassem de desacatar o diabo, dis- 
putando-lhe as suas antigas prerogativas. 

Antes de Voltaire, um medico ordinário do rei de França, de Sainf-André, 
descobriu a verdadeira causa d'esta superstição, de que tracfou nas suas Cartai 
sobre a magia, malefícios e feiticeiros. 

«O incubo, diz elle, é ordinariamente uma quimera, que não lem outro fun- 
damento senão um sonho, uma imaginação enferma, e na maior parle dos casos 
a imaginação das mulheres.. . . O artificio não lem parte menos importante na 
historia dos incubos. Uma mulher, uma rapariga, uma beata libertina, que 
apparenta virtudes para occultar vicios, faz passar o seu amante por um incubo 
que a tornou possessa. Ha espíritos succubos, e incubos que não teem mais ra- 
zão de ser que o sonho ou os delírios da imaginação. Um homem ouve fallar 
cm succubos, e d'aqui imagina ver e gozar em sonhos as mulheres mais bellas 
e voluptuosas.. . .» 

De Saint-André resume d'este modo e mui sensatamente as circumstan- 
cias em que se podia produzir a superstição dos incubos e dos succubos, e 
não podemos deixar de louvar a sua sensatez, n'uma épocha cm que os casuis- 
tas e os doutores da Sorbonna não vacillavam em reconhecer a potencia geradora 
do demónio. Assim, por exemplo, o P.'' (^ostadau, que era um jcsuita muito 
douto, escrevia n'aquella mesma épocha, no seu celehve Traité des signes, o 
seguinte: 

«O caso é muito singular e importante para poder ser traclado á ligeira. . . 
Não menos dillicilmenteo acreditarianios, se não estivéssemos convencidos por 
uma parte do poder do demónio, e por outra não encontrássemos uma infini- 
dade de cscriptores de primeira ordem, papas, theologos e philosophos, (|uc 
sustentaram e provaram a existência d'esta espécie de demónios succubos c 
incubos. HaefTectivamente pessoas tão desgraçadas, que tiveram com elles com- 
mercio vergonhoso e cxecravel.» 

A Egreja e-o parlamento livcram de fazer leis contra estes desgraçados, 
que consideravam como cúmplices, bem que fossem involuntários, da prosti- 
liluição diabólica, c só a fogueira era sulTiciente para os purificar d'esta man- 



296 HISTORIA 

cha horrível, quando a penitencia não se encarregava de os trazer ao caminho 
do perdão. As victimas do siiccubismo e do incubismo tinham motivos de in- 
dulgência que invocar, apresentando-se como taes. A jurisprudência ecclesiastica 
e civil mostrava-sc implacável com outra espécie de prostituição infernal, a dos 
feiticeiros e feiticeiras, que se consagravam de boa vontade a Satanaz, pres- 
tando-se a toda a espécie de abominações nos seus sabhats, ou reuniões no- 
cturnas. 

Taes eram em França e em toda a Europa, durante o século xvi e mesmo 
no século xvii, os derradeiros vestígios da prostituição hospitalar e da prosti- 
tuição religiosa. 



CAPITULO XXVI 



SUMMARIO 



A |irostituir,ãi> na li'iticei'r:i. — Oiisens do snlihat. — Via.apns nocturnas ric Diana o i]i' HiTodiadns. — Capi- 
tular cíiutra os feiticeiros.— Leis ecciosíasticas.— A mais anti;;a drscripção do sahhat —As ohras do dialio, segundo 
os interrogatórios dos processos da ft-itícei-ia. — Cliepada dos feiticciíos ao mhlKit. — Adoi"ação do-bode. —Horrorosos 
sacríficios ao diabo. — O pec.rado supcr-contra-vaturnm. — A ronda do xnhhat. — Diversos testemunlios era seu 
appoio. — Pliysiologia ol)scena de Satanaz. —O sdhhat da Vnuderie d'Arras. — O sahhat de Gaulridi. -Impurezas ■ 
dos feiticeiíos e leiticeiras.— r.astrarão magica. —As vellias leiticeiras. — Signaes dialiolicos.-Os feiticeiros de So- 
doHia — Snpplicio dos sodomitas no inferno. — Incestos do snlihat.— Accusação de bestialidade. — As serpentes da 
caverna de Norcia. — O cão das religiosas do r.olonia e de Tolosa. —Consequências da demononjauía. — A verdade 
sobre os actos ila prostituiçiio da feiticeria.— .lustificaçrio ria jurispni lencia ila Edade-Media. 




iMuisiiTUiç.lo na Iciliceria não era, como o iiicultismo, iitiia 
conseqiicrii-ia acciticnlal da ob.sessão diabólica, senão o resnl- 
(ado ordinário da possessão: era o estado haiiifuai dos iioinens 
c das nuillieres consagrados voluntariamente ao demónio, e de 
yi certo modo o sello do pacto abominável que os lifjava com o 
poder internai, com aqiielle que se denominava o aiietor do peecado. 

E' claro, pois, que a feitic(M'ia tinha dois caracteres principaes, um dos 
(|uacs poilia ser o etTeito e o outro a causa: aqui dava satisfação aos mais in- 
fames caprichos da preversão humana; alli empregava a intervenção dos maus 
espíritos nas obras sobrenaturaes c malditas. 

IVeste modo, o principio da feiticeria cm todas as (!'pochas consistia no 
mutuo accordo entre o homem e o diabo: o primeiro, subincllcndo-sc corpo e 
alma á dominação do segundo: este comparlilbamlo de certo modo com o seu 
escravo o poder occullo, que o Ser Supremo deixara a Satanaz, ao prccipital-o 
da morada celestial nas profundezas dos abysmos. Tal era a recompensa d"a- 
iiuella \i)luntaria escravidão; tal era o mysterio da feiticeria, que podia deliiiir-se 
uma vergonhosa prostituição do homem, (|uc se vendia e entregava ao diabo. 
Coniprchendc-se agora o que seria na sua origem a feiticeria, (jiie evi- 
dentemente servia de pretexto a extianhas aberrações de uma vergonhosa 
promiscuidade, por isso os antigos olhavam com profundo desprezo os feiti- 
ceiros, cujas reuniões secretas não eram mais do que execráveis conciliábulos 
de libertinagem. 

Os legisladores e philosophos da antiguidade foram sempre unanimes em 
comlcmnar e impor castigos rigorosos aos magos e ás suas odiosas com|)anhei- 

Bl8T0BI\ DA PBnSTITDIçiio. ToMO H— FoLBA 38. 



298 HISTORIA 

ras. Apesar d'isso, puJoinos apenas lazer conjectutas a respeito do que se pas- 
sava tias suas reuniucs iioL-tiirnas, visto tião se encoutrareiu nos poetas gregos 
c romanos senão liinilailissiiuas desL^ripções. S(3 em Pelronio e Apuleyo se en- 
eiiiitram duas ou Ires passagens que deixam suspeitar o que não dizem. As 
narraeões, que ao tempo se faziam d"estas spintrias magieas e danças volu- 
ptuosas, achavam então muitos incrédulos, que não ll»es ligavam importância, 
ou não viam n'ellas malieia alguma. 

Horácio diz expressamente em muitas passagens das suas odes e episto- 
las que as velhas IViliceiras eoinmeltiain gi'aiides indeceneias á luz da lua, e que 
duranlc a noite nos campos e nos bosques os jovens iam rcunir-se aos choros 
úr sat\ros c nymphas i nintiihnrionqiir leris cum ■■iíili/ris choril. 

,\ão era aimla o suíiliní (|a Edade-Mcdia com os seus monstruosos liorro- 
i'cs, (|uc parecem lei- sido rcalmcnlc um inveiiío do demónio, e (|ue tinham 
lodos os i'equisilos para lazer crer no poder e intluencia do príncipe das trevas., 

O verdadeiro salibui já existia nosjjovos do Norte, onde a feiticei'ia ar- 
r.ista\a a todos os c\ti'avios e aherracóes da imaginação mais depravada. Aquel- 
les povos esla\am ainda muilo próximos do estado primitivo da natureza para 
não se di'i\arem arrastai' a eslcs excessos pelas suas paixoi's hrutaes, e a su- 
perstição que instigava a(|uclla grosseii-a sensualidade enconlrava-os dóceis ás 
suas crenças c aberrações. 

Os imperadores romanos, para manterem a sua anctoridade nos paizes 
conquistados, procuraram destruir n'elles a magia, os seus adeptos e as suas 
praticas. A fiallia, sobretudo, estava infestada de feiticeiros, e Tibério não eon- 
.seguiu expurgar esta província romana, senão fazendo uma guerra implacável 
aos druidas e á sua religião. 

Talvez não venha fora de proposiio notar aqui que os demónios incuhos 
a que se refere Santo Agostinho e que elle chama Drusil (quos Galli Dntsios 
imncnpanl) foram confundidos com os druidas pelos antigos escriptores; e Ho- 
din, citando esta mesma |)assagein. reproduzida nas Elijinoliniias de Izidoro 
de Sevilha, accrescenta : 

«Todos se tem enganado com a palavra Danios, que deve lèr-se Dnixios. 
como quem diz diabos dos bo.siines, aos (juaes os latinos chamaram Sfilranos. 
K' verosímil o (|ue iliz Sanio Agostinho, a respeito de nossos pacs haverem 
chamado antigamente a eslcs diabos Dntsios, para os distinguirem dos druidas, 
que viviam também nos bosques. 

A analogia de nome provinha mais laUcz da similhança do ipie da dif- 
ferença entre Drusitis e nruidas. 

O cbrislianismo teve de augmentar ainda os rigores da perseguição con- 
Ira os cúmplices da demonomania. iNo tempo do imperador Valente (3t3l-:$7S) 
começaram a ser iiueimados os feiticeiros; mas a feiticeria e o druidismo ti- 
nham Ião profundas raízes nos costumes d<)s gaulezes, ijue nem depois de mui- 
tos stículos de sanguinoleiilos esforços se logrou exiinguil-os a fogo e a ferro. 
Iv claro (pie o {Iruidismo e a feiticeria encerravam desde esse lempo nos seus 
usos, ou pelo menos nas suas cereinonias, uma multidão de escandalosos por- 
menores da pi'o>liluição hospilalar e religiosa. 



IIA IMIOSTITUH.IÀII Í99 

Afiezar (Pisso, nos aiictoirs clirislãos não se (rata das assembleias mi- 
ctiirnas de feiticeria antes do século sexlo, ou do sétimo. Todos os códigos dos 
povos l)arbaros, a l.i'i nipiinria. a Lfi Snlica, a Lei dos liurqQndfís e a Lei 
dos Mlemães, comminavam tão somente uma penalidade terrive! contra os fei- 
ticeiros, sem todavia (ts accusarem do prostituição diabólica. 

O monumento mais antiiijo que faz menção do snhhnl, ou de uma junta 
tenebrosa de mullierí>s (|ue linlia por lim obras de magia, é uma capitular, 
cuja data não foi fixada de uma forma bem autbentica, e que talvez não seja 
anterior a (larlos Magno. ( Vcja-se a «ollecção de líaluze, Cfipiltdnria rctiuni, 
fragm. cap, 13.) 

Esta capitular não subministra iionnenores muito explícitos a respeito 
das viagens aéreas que os feiticeiros julgavam fazer em companbia de Diana e 
de Herodiades, montados em animaes phantasticos, que os conduziam prova- 
velmente' a uma assembléa geral da feiticeria. 

Eis a curiosa passagem, (|ue pai-ece pertencer aos cânones de um conci- 
lio, e (|ue frequentes vezes foi truni'ada e adulterada: 

«lllnd Piiiim ni))i, csi omillcndiim quod quifdain sci-lfraitc nnilicrr.s. re- 
ifti. iiDsi Sitiiiiiiiin i-on>'crKa', difiiitiniim liliisioinhus fi iilifníiasmaiilnis .sedii- 
cliv, ciriliiiii ft iirofilfiiiuin .v^ miciiiniis horis nim flinna, dea fini/oiinnuti, 
iv/ (•///(( Hffoiliiidc ei inHiimera muJíiladine mulifrinti. i'iiiiiinri' super ijuns- 
ihnn lii'slliis, e: mui ta rum lerroriim spuiiii uilemiiestif nociis sileulio jicriruit- 
sire, ejiisíiiie jussilius. reluí dixiihuv nhedire el rerlis Doclihiis iid ejiis serri- 
liiim ecncari.» 

Ilécon beee-.se claramente a partida das feiticeiras para o sahbdl ; mas 
não assistimos á cbegada d'esta infernal comitiva, nem sabfemos o que iam fa- 
zer á reunião. E' licito suppòr (|ue os animaes pbanfasticos em que immtavam 
durante estas viagens aéreas não eram senão os demónios, (|ue mais tarde ve- 
remos servir |)ara este mesmo uso ás feiticeiras. 

Não podemos duvidar de que fosse o snhhnt esta reunião tíi ysteriosa : 
(|uer dizer, uma reunião illicita, clandestina em que se prestava culto ao diabo 
e este culto devia ser erriçado de indeeeneias, infâmias e monstruosidades, 
(|ue foram sempre estas as praticas da feiticeria. Mas se o facto existia já, fal- 
tava ainda n'esse tempo a palavra saMmi. para o significar, .lulgamos ('om 
boas razões (|ue esta palavra não é anterior ao século xii, o que não impediu 
os sábios de a dei'ivarem do nome de Haccbo, porque as bacchanaes tinbam al- 
guma relação com as orgias nocturnas celebradas em bonra do demónio, com 
danças lúbricas, festins opíparos e monstruosas libertinagens. 

E' evidente que esta douta etymologia, apesar das relações que jKkle ba- 
ver entre stihhal e Baccbo, cabe jtor terra perante uma impossibilidade de data, 
e poi' isso (levemos attendcr síímenle á etymologia mais natural. 

"O povo, (|ue deu o nome dií suhhai i\> juntas ou conciliábulos dos fei- 
ticeiros, diz Calmei, mo seu Traclado das apparições dos espíritos, (luiz appa- 
rentemente com|)arar piu' uma extiMiiba irrisão estas assembléas ás dos judeus 
e ait {|ue estes praticavam nas suas suiagogas, no dia de salijiiido." 

Todos os (lemoiiologos, (|ue não querem pas.sar por ignorantes, occiípa- 



:íOO historia 

rain-se em procurar nas antigas lestas de Baccho a origem do sabhat dos de- 
mónios. Assim, segundo Lcloyer, no seu livro dos Especlros (Lib. iv, c. 3) os 
iniciados cantavam Saboé nas bacclianaes, c os feiticeiros nas suas reuniões 
bradavam, voz em grita: liar! Sabhat! Sabhat! 

Mais provável é, porém, que os cbristãos, não tendo menus liorror aos 
judeus (|ue aos feiticeiros, fingissem confundil-os na mesma reprovação, attri- 
l)UÍndo-ihes o mesmo culto, os mesmos costumes, as mesmas profanações. 

A mais antiga descripção do sabhat diabólico temol-a n'uina carta do papa 
(iregorio ix, dirigida collectivamenle ao arcebispo de Moguncia, ao bispo de 
Hildcsbeim e ao doutor (_!onrado, em 1234, para Ibes denunciar as iniciações 
dos bereges. 

<vQuando recebem um neopbyto, diz o pontífice, e quando elle entra 
peia primeira vez nas suas assembleias, vè um sapo enorme, do tamanbo de 
um pato, ou maior ainda. Uns beijam-no na bocca, outros por dctraz. Em 
seguida, o neopbylo encontra um bomem pailido, de olbos muito pretos, c tão 
débil c cmfermiço que não tem senão os ossos e a pelle. Beija-o, e encontra-o 
frio como neve, e logo depois d'este beijo esquece facilmente a lei catbolica. 
Em seguida fazem um festim, depois do qual desce um gato preto, que vae col- 
locar-se dctraz de uma estatua, collocada ordinariamente no logar da assembleia. 
O neopbyto beija primeiramente esse galo por dctraz, depois o que preside á 
reunião e os oulrus (]uc são dignos d'isso. Os imperfeitos recebem somente o 
beijo dl) clicfc a ([uem juram obediência: cm seguida, apagam as luzes e eom- 
mettem toda a espécie de impureza. (Historia ecclesiuslica úe Fleurv, t. xvii, 
p. o3.) 

Aqui temos, |)ois, o subíxu, (jue o século xvi nos descreveu multas vezes 
com tão minuciosos pormenores; mas esta assembleia de bcrejes-, ainda (|uc si- 
milbante á dos feiticeiros, inoslra-aos mais a prostituição na bercsia do i|ue na 
fciliccria. 

O .sabhat propriamente dito, remonte ou não á mais alta antiguidade, não 
foi bem conbecido até ao .século xvi, quando a inquisição se occupou d'elle a 
serio n'uma multidão de processos, em que os pobres feiticeiros referiam com 
certo orgulbo as monstruosas inaravilluis de que baviam sido testemunlias, 
actores ou cúmplices. Os interrogatórios d'estes processos permittein-nos nive- 
lar com a máxima exactidão as principaes obras da prostituição, (|ue tinliam 
por ibeatro o sabhat dos feiticeiros. 

A maior parte dos liistoriadores, que referem eátes pormenurcs deplorá- 
veis da |)i'osliluição bumana, eram dotados de uma fé inquebrantável, e attri- 
buiam de boa mente ao diabo lodos os crimes (|ue os seus crédulos vassallos 
llic imputavam. Depois de liaver reunido um ()equeno numero d'estes iiorri- 
veis testemunlios, ticamos convencidos que, se a imaginação tinba uma inven- 
cível influencia nas sensações dos dcmonomaniacos, a fraude e a astúcia abu- 
.savam com frequência da sua fraqueza moral, em proveito da lubricidade de 
uns c cm prejuízo do pudor dos outros. 

As feiticeiras ([uc queriam ir ao sablial começavam a prcparar-se com 
invocações. Em seguiila punbam-se completamente nuas, e esfregavam o corpo 



DA PROSTITUIÇÃO liOl 

com um i-ei'lo unguento, c á Imra mairadn, fcilo o signal convencionado, mon- 
lavani n'uma vassoura c saliiam pelas cliainincs das suas casas, clevando-se 
nos ares a uma aliara considerável. 

Ordinariamente encontravam nos orifícios das chaminés uns diabinhos, que 
linliain recebido a missão de as conduzir atravez do espaço. JN'este caso as fei- 
ticeiras, ou bruxas, cavalgavam n'elles, ou enl.ão agarravam-sc-ihe ao rabo ou 
aos cornos. 

Chegavam ao sahbal com])I(>lamente nuas e reluzindo coin a uniura magica 
(|ue as tornava invisiveis c impalpáveis, excepto aos demónios e feiticeiros. A 
receita para compor o unguento destinado aos familiares do sabbat, encòntra-sc 
ainda formulada nos livros de magia. Provavelmente perdeu toda a sua virtude, 
visto que ninguém faz uso d'ella hoje em dia; n'outros tempos, porém, não 
era inútil para augmenlar as forças, que cada ([ual tinha de gastar n'essas in- 
fernaes orgias. 

Untados com a gordura magica, feiticeiros e feiticeiras chegavam comple- 
tamente nús ao sabhal, e nús voltavam. Esta nudez absoluta prova que o 
sahbat era uma entrevista de abominável prostituição. Bodin refere muitas his- 
torias, cuja responsabilidade deixamos á conta d'ellc, em que nos descreve como 
os homens e as mulheres iam a estas entrevistas nocturnas. 

l'm pobre iiomem, que vivia perto de Loches na Turenna, notou que sua 
mulher se ausentava de noite, sob o pretexto de ir fazer a barrella a casa de 
uma visinha. Chegou a desconfiar d'ella, e cheio de ciúmes ameacou-a de 
morte, se não lhe dissesse a verdade. A mulher confessou que ia ao sahbnt e 
oITereceu-se em prova do que dizia a levar alli o marido. 

Elfeciivamente foram os dois, e viram-se logo em companhia de feiticei- 
i'os e demónios; mas o pobre homem teve medo, e pcrsignou-se invocando i? 
nome de Deus. No mesmo instante, tudo desappareccu, até a própria mullier d(» 
aprendiz de feiticeiro, ([ue andou núa e erranie (tclos campos até ao dia seguinte. 

Outra anccdota idêntica: 

Uma jovcn estava em Lyão deitada com o seu amante, que não podia 
dormir. A rapariga levanta-se sem fazer ruido, accende uma luz, pega n'uma 
caixa de unguento e esfrega com ella todo o corpo, depois do que é transpor- 
tada. O galan levantase, serve-se tam!)em da mesma untura, conforme vira 
fazer á sua rihalda, pronuncia as mesmas palavras magicas que lhe ouvira e... 
chega ao sabbat quasi ao mesmo tempo que a Joven. A' vista dos demónios, 
porém, e das suas horríveis altitudes, é tão grande o seu (error, que encom- 
menda a alma a Deus. 

«Toda a companhia desappareccu instantaneamente, diz Bodin, e o pobre 
rapaz íicou só e nú, voltando logo a Uyão, onde accusou a sua ribalila de fei- 
ticeira. A rapariga confessou e foi condemnada a morrer queimada.» 

O emprego do unguento magico para os feiticeiros se transportarem, não 
era sempre indispensável, sobretudo para os da profissão, ijue não precisavam 
mais do (|ue metlcr entre as pernas nma vassoura ou um pau quahiucr par.i 
voarem como uma Mecha pelos ares ate ao logar da reunião diai)olica. Bodin as- 
segura que este pau ou vassuui^a bastava ás feiticeiras IVancczas, que ncllc ca- 



303 HISTORIA 

valgavam (It-strainciilt', sem [)n'iMsart'ri) de uniiiionlos, tMiit|iiaiilo iiui- os tVili- 
ceiras italianas liiihain que unlar-.so <!(is pés á cal»('ç;a antes do montarem iki 
bode que as i-onduzia ao fiahbat. 

Esta (lillcrenva de meios de transporte aéreos, usados peios feifieeiros, 
explica a diversidade dos trajos nas antigas gravuras que representam os mys- 
terios do stibhai. Umas feiticeiras estão níias, e são as que se untam: outras 
estão vestidas, e são as que, como diz Lancre, «vão ao sahbai sem se untarem 
de gordura, nem lêem de passar pelos tui)OS das chaminés.» 

A mesma distineção se nota entre os leiticeiros, dos quaes os mais no- 
vos não levam fato algum, em(|uanto que os mais velhos levam largas túnicas 
e capuzes. 

Os demonologos não estão de acccordo acerca do que se passava no sab- 
bat. pelo que se pode inferir que se passavam alli muitas cousas, na sua maior 
parte ridículas, mas havendo algumas infames tamlwm. Depois de se ter lido e 
comparado todas as descripçôes que nos restam do tahbní. reconhece-se que 
esta horrível promiscuidade de sexos e de edades não devia ter mais que um 
fim, e (jue esta liherlinagcm se realisava de quatro modos: pela adoração do 
hoile, por festins sacrílegos, por danças ohscenas e pelo commercio impudico 
dos demónios. 

Estas (juatro priricipaes funcçòes do sn.bbal em Iodas as épocas e paízes 
estavam ilcvidamente estabelecidas nos interrogatórios e provas dos processos 
sobre feiliceria. 

IVãí) se pôde dizei' com certeza em que consistia a adoração do bode; mas 
deve crér-se que as praticas sempre detestáveis d'esie crime variavam segundo 
os legares e os lerapos. Vinha a ser ordinariamente uma espécie de homena- 
gem, seguida de investidura diabólica, e acompanhada de tiábuto, imitando cm 
tudo os usos do feudalismo. O novo fcudatario do diabo acccitava-o por amo c 
senhor, preslava-lhe juramento de fidelidade e vassallagem, olTerecia-lhe um 
sacrifício e recebia em troca os eslygmas ou sellos do inferno. Era este, pois, 
o fundo da ceremonia, que se praclicava de muitas maneiras com um prodi- 
gio.so alarde de espantosa libertinagem. 

O diabo, que presidia em toda a parle ao snlibnl, ou pelo menos se fazia 
representar por algum dos seus escolhidos, tomava ordinariamente a figura de 
um bode gigantesco, branco, ou preto, d'esse animal impuro, que foi sempre o 
svnibrdo da lubricidade. O bode diabólico linha, porém, algumas particularida- 
des características. Segundo uns, tinha dois cornos na frente, e outros dois 
no occiput, ou então sómcnle Ires cornos na cabeça com uma espécie de luz 
no corno do meio. Segundo oulros, tinha em cima do pescoço uma cara de hn- 
mem negro. (Trailif de Vinconalance de.-: démons. por De í.ancrc, pag. Tíí e 128.) 
O demónio tomava lambem a forma de alguns oulros animaes não me- 
nos lúbricos do que o bode. 

•<\i, (juando estive na Touiiicllc, refere o bom lie l.aiicrc, alguns pro- 
cessos em que se dizia apparecer o diabo no sulibai, na ligura de um grande 
lebrcii negro. .N'oulros ainda, presidia cm ligura de iim grande boi de bion/c' 
deitado por leria, on como um boi vivo i|ue repousa.» 



DA PROSTITUIÇÃO 



303 



o 



Outras vezes S;ilaita/. ou Belzehutli vinlui rcceluT a adoraràn dos seus 
siihililos e súbditas, soba f(>rni;i de um pássaro iie^ro, do taiiiaiibo de um ganso. 

Em varias cireuinslaiieias, assumia a forma iiuinana, aceieseenlando-lhe 
vários aliributos do seu poder infernal. Umas vezes era vermelho, outras ne- 
!;ro: ora tinha uma eara no sitio em que os lombos terminam, ora tinba-a so- 
bre a nuea, Jazendo symetria a do outro lado, como o deus .lano da niytbo- 
logia. 

Casos bavia ainda em que tomava uma conliguraçào extravagante, eomo 
veremos de uma passagem de Prierias, que n'outro logar citaremos. 

vHa quem diga, refere De Lanere, que no sabbat o diabo é eomo um 
rande tronco de arvore, escuro, sem braços e sem pés, eom uma espécie de 
rosto humano, grande e espantoso.» 

Finalmente, depois de haver recolhido todas as opiniões relativas ao diabo, 
De Lanere traça o retrato seguinte : 

«O diabo no sabhal está si-ntado n'uma cadeira negra, eom uma eoròa 
de cornos negros, sendo o mais alto do meio da lesta como que uma espécie de 
facho que illiimiiia a assembleia. Tem os cabellos erricados, rosto pallido e som- 
brio: olhos redondos, grandes, muito abertfis, inllammados e borrendíis; barba 
de bode: o resto do corpo mal feito, em forma de honieui e de bode: mãos e 
pés como os de uma creatura humana, com excepção que os dedos são todos eguaes e 
agudos, armados de largas unhas : o rabo comprido como o de um burro, e co- 
bre eom eile as partes vergonhosas. Tem a voz espantosa e a|)resenla-se com 
HUM espécie de gravidade solieriia, e com a expressão de uma pessoa nielan- 
ehídica e triste.» 

Tal era o terrivel senhor, a quem os feiticeiros e teiliceiras prestavam ju- 
ramento de fé e homenagem nas assembleias do sabbat. «Ha muita gente d'esfa 
(|tie adora o bode e o beija no trazeiro.» Nestes próprios termos o declarou 
■M> rei *'.arios ix o famoso feiticeiro Trois-Ecliciles. (Démovnmanif, lib. ii, eap. 
IV. I ile l.ancie falia em muitos logares deste osculo indecente, que se costu- 
mava dar lambem nas partes vergonhosas do diabo : 

^<0 irazeiro d'aquelle poderoso senhor, diz elle, na obi'a cilada, a paginas 
7<J» linha a forma de uma cara, e era esta eara que se beijava, e não outra 
parte mais indecente.» No emtanto, segundo as declarações de uma joven. cha- 
mada .íoanna Hostilapits, residente em Sare, a qual não tinha ainda quatorze 
ânuos, quando foi consagrada á prostituição do sabbat, «os grandes beijavam o 
diabo por detraz, e elle beijava o trazeiro aus pequenos.» 

Em seguida, o diabo urinava n'uma espécie de tubo ou agulheiro, e as 
Nelhas feiticeiras corriam a molhar no liquido infecto e ardenie peiínas de gálio, 
com que aspergiam a assembleia, (^omo se vè, era uma exeeravel parodia tbi'- 
eeremonias da missa. 

hA's vezes, refere ainda De Lanere, adora va-se o diabo uo sabbui. com 
as costas voltadas para elle; outras vezes com os pés para o ar, depois de ac- 
eender uma vela de pez negro no corno do meio, e também o beijavam por dianie 
c por deti'az.» 

.\d processo de muitas feiticeiras, ijue foram julgadas e condemnailas ao 



304' HISTORIA 

to;,'') em Veniun, cm 15i-i, eslas desgraçadas confessaram 71'c eram sercns de 
lodos os inimiijos do inferno, e que tiiiliam eommeltido muitos pecrados enor- 
mes. Cada uma (Fellas tinha o seu nome dialjolieo; umas preslavam liomena- 
gein ao seu senlior, heijando-lhe o liombro. outras o trazeiro, outras a boeea. 

Além do lieijo, havia a otliírcnda, e os es('riptorcs omiltem de propósito 
a declaração do que fosse essa olf(;renda. Era simplesmente uma moeda de en- 
xofre, representando uma imagem phanlastica, como as que se encontraram 
nas exeavaçõps da AIsacia ? Era um emblema mysicrioso, como um ovo de 
serpente, um ramo de verbena, um dente de lobo, ou qualquer outro objecto 
dedicado á magia negra? 

Não recusamos considerar esta olFerenda como uma iniciação impudica, 
pela qual o neopiíyto se entregava corporalmente a Satanaz, enfcudando-se ao 
inimigo por um acto carnaL Também se pretende que o diabo dava algumas 
moedas aos que lhe beijavam o trazeiro. 

Havia também os estygmas diabólicos. O chefe do sahhat, Satanaz ou 
f!cl/.eijulli, marcava os seus adoradores, como se costumam marcai' as rezes de 
utn iet)anho. Esta marca fazia-se com a extremidade ardente do sceptro, que 
o principe das trevas tinha na mão, ou com uin dos seus cornos, e iinprimia-se 
nos lábios, ou nas pálpebras, no hombro direito ou nas nádegas dos homens. 
As mulheres eram marcadas nas pernas, nos sobaeos, no olbo esquerdo, ou 
n.is |)artes secretas. Esta marca indelével representava umas vezes uma lebre, 
outras uma pata de sapo, um gato ou um cão. Era por estes signaes especiacs 
que se reconheciam as prostituías do diabo. 

Terminada a adoração com uma multidão de praticas tão extranhas como 
repugnantes, celebrava-se a festa com banquetes, cantos e danças, como pre- 
paração para as scenas libidino.sas. No dizer de algumas feiticeiras, mais ingé- 
nuas qu(! as outras, os banquetes servidos sobre um panno dourado oHercciam 
ao appetite dos convivas «toda a classe de viveres com pão, sal e vinho.» Mas, 
segundo a maioria das testemunhas oculares, não eram senão sapos, carne de 
enforcados, cadáveres exluimados dos cemitérios, corpos de crianças por bapti- 
sar, animaes mortos, e tudo sem sal nem vinho. 

Procedia-se em seguida á benção da meza, fazendo-se em torno (Fella 
uma procissão com velas accesas, e entoando-se canções impuras em honra do 
demónio, o rei do festim. 

E' provável que eslas orgias da meza tivessem por fim exaltar os senti- 
dos d"aque!lcs desgraçados e preparal-os para os monstruosos actos de prosti- 
tuição, que completavam a ronda do snhhal . 

Não pdilcmos dizer ao cerio o (|ue fosse esta ronda, visto (jue cada (|ual 
a de.sçi'evia com particularidades novas. Se era uma dança, é licito crèi' (|ue o 
seu fim principal era a provocação á liberlinagem, porque dava occasião ás 
altitudes as mais indecentes, a contorsões e movimentos ob.scenos. A maior 
parti' do corpo choreographico aprcsentava-se em completa nudez; alguns an- 
davam em camisa com um grande galo alado ás costas ; quasi todos elles tra- 
ziam sapos nos hombros. 

A CNiilação á dança era o grilo Unr! liar! Us espectadores, os velhos 



DA PROSTITUIÇÃO 305 

nigromantes, os feiticeiros centenários e os demónios veneráveis, repetiam em 
choro: Sabhat! Sabbat ! 

Havia na assembléa coriplicus de ambos os sexos, que davam saltos e 
voltas prodigiosas, c faziam supremos esfor(,'os para excitarem a luxuria dos 
assistentes e para satisfazerem a impura malicia do principe das trevas. 

A ronda continuava (Keste modo até aos primeiros alvores da madru- 
gada, até ao cantar do gallo, c emquanto durava o ruido das vozes e dos ins- 
trumentos infernaes, cada par se entregava por seu turno, com ardor plirene- 
tico á mais espantosa prostituição. Era então que se commettia o decimo-quinto 
crime capital, de que os feiticeiros podiam tornar-se réus contra a lei divina 
e humana: — a copula carnal com o diabo, (fírmonomanie, lib. iv, cap. o.) 

Os jurisconsultos da demonomania procuraram caracterisar este crime, 
pelo testemunho dos próprios que o haviam commettido. Eis o que Nicolau Rémy 
conia, a propósito das immundas caricias que os concorrentes ao sahhal deda- 
)'avam haver recebido dos diabos: 

«Hic igitur, sive pir inciihi'1. site saccithef fcemina, liherum iu utroque 
natura; debel esse o/ficium, nihilque nmnino intercedere qiiod id vel minimum 
moretur atque im.pediat, si pudor, metus, horror, sensusque aliqiiis acrior in- 
ijruil ; illicet ad irritum redeunt omnia e lumbis e/foeaqtie prorsus sit natura.» 
( Dwmonol., lib. iii, Lugd., 1o9o.) 

Resulta daqui não estarem menos expostos os Aiiticeiros que as feiticei- 
ras ás torpezas do diabo. No emtanto, mais de um theoiogo e muilos crimina- 
listas ousaram tomar a defeza do diabo c provar que elle tinha horror ao pec- 
cado contra naluram ; mas, ao que parece, não conseguiram rehabilitar n'esfe 
ponto o espirito maligno, pois que Sylvestre Prierias, que escrevia o seu fa- 
moso tractado De slrigimaqaruni doemonumque mirandam, em presença da in- 
(|UÍsi(,'ào romana, sustenta doutoralmente que a sodomia era uma das preroga- 
livas do diabo. E falia na monstruosidade diabólica do luembrus (/enilalis bifor- 
catus, de maneira que entrava ao mesmo tempo nos dois vasos. 

Bayle, para dar nome ás espantosas enormidades, que se produziam na 
imaginação desenfreada dos demonomaniacos, inventoa uma plira,se, que não 
logrou ter curso entre os theologos e os criminalistas. Chama peccado super- 
contra-naturam ao coito alternado ou simultâneo, que o diabo hermaphrodita 
fazia ordinariamente no sabbat com um c outro sexo. 

Um inquisidor loreno, Nicolau, Rémv, dedicou-se com toda a sua curio- 
sidade e paciência de frade a reconhecer os caracteres da copula carnal com os 
demónios. Para esse fim foi interrogando com todo o cuidado as desgraçadas 
victimas da prostituição diabólica, e concluiu por descobrir que nada era mais 
doloroso do que soífrer as caricias do espirito immundo : A'í7í,/7 esl friíjidius, 
ingratiusque, diz elle. 

Todos estavam de accordo a respeito da impressão de horror glacial que 
haviam soffrido nos braços do diabo : era um coito frio, aílirmavam elles, e 
além de frio, desagradabilissimo e infeclo. Muitas das feiticeiras ficavam enfer- 
ntas para toda a vida, em consequeucia d'esfa copula diabólica. Hémy, que não 
linha o menor escrúpulo a respeito do deshragamcnto das suas perguntas, obteve 
BuTORiA DA Phobtiiuição. Tomo n— Folha 39. 



306 HISTORIA 

importantes roveliicõcs da parlo das rihalílas ilo diabo. Estas dcsgraí.'adas, a quem 
o salihal consagrava desde a mais tenra edade a uma prostituição mysteriosa, 
não se envergonhavam de descobrir todos os pormenores do horrivel commer- 
cio que tinliam com os demónios. Podia fazer-se a pii\sioiogia erótica de Sata- 
naz em presença das declarações formacs, que Nicolau Rémy recebeu da bocca 
das próprias feiticeiras eméritas do seu tempo, especialmente de Aleixa, Clau- 
dia, Nicolina e Didacia, que tinham frequentado os sahhats das montanhas dos 
Vorges. Todas ellas narravam circumstanciadamente as agudas dores que tinham 
sollrido por occasião da copula com o tentador, e até mesmo os irreparáveis 
estragas, que Ihestinha feito nas entranhas o penis do demónio, umas vezes 
pesado e de grandeza desmarcada: outras agudo c penetrante como um 
fuso. 

Hémv, historiando Ião pacientemente estas minuciosidades, parece ate 
certo ponto compadecido d'aquellas desgraçadas, que eram apenas victimas de 
uma invencível obsessão, e nem sequer peccavam por deleite, mas eram pas- 
sivamente e a seu pesar instrumentos dos execráveis prazeres do demónio, sem 
se poderem subtrahir a esta escravidão oppressora e maldita. Com todas estas 
aftenuantes, as feiticeiras convictas de se terem enrai-allndo com o detnonio 
eram (|ueimadas sem piedade. 

O que está perfeitamente averiguado é (juc, soh o pretexto de feiliceria 
ou magia, o sahhai abria um vago e sombrio campo á mais abominável |)rosti- 
tuição. iNão eram os demónios (|ue lucravam na saturnal desbragaila ; os espíritos 
das trevas figuravam apenas em effigie n'estas reuniões, embora fossem a alma 
da tenebrosa orgia. O snhhal, despojado do seu apparato diabólico e phantas- 
lico, reduzia-se a um congresso de libertinagem, em que o incesto, a sodomia 
e a bestialidade eram os peccados mais saborosos. f)e Lancre, sem queriT al- 
tenuar as culpas, que elle propi'io altribuia á Inconstância dos demónios, 
vè-se obrigado a confessar ([ue o diabo linha menos parle do <]ue se dizia nas 
abominações do sabbat. 

«A mulher, diz elle, prostituo- se diante de seu marido, sem (|ue ello te- 
nha por isso zelos ou desgosto ; até ás vezes lhe serve de alcoviteiro; o pae des- 
flora sua filha sem repugnância, nem vergonha : a mãe colhe sem escrúpulo 
as primícias de seu filho; o ii'mão as do sua irmã.» 

Por isso, todo o feiticeiro era considerado peia lei como incestuoso, só 
pelo facto de haver concorrido ao salibat, ainda (|ue não tivessse nem pães, 
nem filhas, nem irmãs. 

O nono crime comnuim aos feiticeiros, sígundo os cânones da Rgreja, 
foi .sempre o incesto, «que, segundo Hodin, é o crime de (|ue foram sempre 
convictos os feiticeiros, por(iuc Satanaz lhes faz comprohendor (|ue nunca houve 
perfeito feiliceiro ou oiícantadur, (|uc luVi fosso gorado por um pae cm sua fi- 
lha, ou por um hlho em sua mãe.» 

Temos uma doscripção circumslanciada dos crimes do siibbal, na sentença 
proferida pelo tribunal dWrras em 1 ItiO contra cinco mulheres o muitos ho- 
mens, accusados de rauderie, ou feiticeria. Entre os condemnados, havia um 
pintor, um poeta e um sacerdote do setenta annos do edade, que, segundo to- 



o 



DA PROSTITUIÇÃO 307 

(las as probabilidades, fora o auc-lor (Keslas libertinagens misturadas com um pou- 
cochinho de heresia. 

"Oiiando queriam ir á rnwierie, ou ao sahhai, serviam-se de um un- 
guento fornecido pelo próprio diabo, c montados num pau de vassoura, voa- 
vam até ao sitio da reunião, por cima das cidades, dos bosques c das aguas. 
Era o diabo que assim os transportava. Chegados aiíi, encontravam as raezas 
postas e cobertas de iguarias, e presididas por um demónio em figura de bode, 
de cão, de macaco, e até algumas vezes em figura humana. Faziam-se-lhe obla- 
ções, prcstava-se-lhe homenagem, adoravam-no, e a maior parte dos concor- 
rentes davam-ihe logo alli a alma e o corpo. 

«Beijavam-no no trazeiro, tendo velas accesas na mão. . . E apenas co- 
miam e bebiam, tinham coliabilação carnal lodos juntos c(Mn o próprio diabo, 
o qual tomava alternadamente ligura de homem e de mulher, e tinham coba- 
bilação com elle os homens e as mulheres. K commeltiam também o peccado 
de sodomia e outros peccados repugnantes e enormes, tanto contra Deus, como 
contra a natuueza, chegando ale o inquisidor a dizer que não se atrevia a no- 
mear estes peccados, com receio de (|uc os ouvidos innocentes fossem sabedo- 
res de tão grandes, terríveis c cruéis monstruosidades. {}lem. <le Jacqufs Dii- 
elerq., lib. iv, c. i). 

Bodin acreditava cegamente na copula carnal com os diabos, mas nunca 
se referiu ás desordens aiiti-physicas do sabbai, e isto provavelmente por jul- 
gar, como tantos outros demonologos, que o peccado contra a natureza não 
causava menos horror aos diabos do que aos homens. 

No emtanto, a "renva vulgar não fazia tanta justiça aos demónios, e jul- 
gava-os entregues no sabbat a todas as abominações da lubricidade. Um monge 
inglez, Evesham, que em I 196 desceu aos infernos, guiado por S. Nicolau, re- 
fere nos termos seguintes o (|ue viu de mais extraordinário: 

«Ha um supplicio mais abominável, vergonhoso e horrível, ao qual es- 
tão condemnados os que, durante a sua vida mortal, se tornaram réus d'esse 
crime que um cbristão não pôde nomear e que inspirava horror até mesmo aos 
próprios pagãos. Estes miseráveis eram acommettidos por monstros enormes, 
que pareciam de fogo, e cujas formas espantosas excedem tudo quanto a imagi- 
nação pôde conceber. Apesar dos seus esforços e de toda a sua resistência, 
viam-se obrigados a soflrer as suas execráveis copulas, que lhes arrancavam 
gritos penetrantes e horríveis. Em seguida, cabiain sem sentidos e como mor- 
tos, mas tinham que voltar á vida, renascendo para o mesmo supplicio. Oh! A 
multidão d'cstes desgraçados era Ião numerosa como os castigos que sollriami 
N'aquelie logar horrível, não reconheci nem procurei reconhecer ninguém, tanto 
1'oi o horror que me inspiraram a enormidade <lo crime, a obscenidade do sup- 
plicio e o fétido insupportavcl que alli se cxhalava.» {Ilrande Chronique, de 
-Matth. Paris, trad. de A. Huillar-Lirchoilcs, t. ii, pag. 20.'j.) 

Os feiticeiros não tinham, pois, o menor escrúpulo em imitar os costu- 
mes do diabo, que assim lhes dava o exemplo dos vicios mais detestáveis, não 
só no inferno, como também na terra. O sabhat foi em todos os tempos e pai- 
zes uma eschola de sacrilégio e prostituição. N'elle se reuniam todos os feiti- 



.'{08 HISTORIA 

ceiros e feiticeiras, diz Anlonio de Toniueinada, no seu Hfxameron, «e muitos 
demónios eoni elles, em figura de esbeltos mancebos e formosíssimas mulheres, 
e se unem aili aifernadaiiiente, consummando d'est'arte os seus desordenados 
e sórdidos appetites.» 

O mesmo succedia,. ainda fora do sabbat, quando Satanaz andava atraz 
dos homens. No tempo de Guiberto de Nogent, que refere esta tentação diabó- 
lica, certo monge perigosamente enfermo teve de receber os cuidados de um 
medico judeu, muito hábil em malefícios, e sentiu o fatal desejo de vér o diabo. 
Este, evocado pelo judeu, appareceu ix cabeceira do enfermo, e promelteu-lhe 
a saúde, a riqueza e a scieneia, em troca de um sacrifício. 

— Seja, disse o frade. Mas em que consiste o sacrifício ? 

— O sacrifício do que ha de mais delicioso no homem, respondeu o ten- 
tador. 

— Falia. 

O diabo exj)licou-se immediatamente. 

«Oh crime! Oh vergonha I exclama indignado Guiberto de Nogent (í>p 
vila sua, lib. i, cap. 2(5.) E u sollicitado era sacerdote!. . . E o miserável fez 
o que se lhe exigiu ! E por esta horrível castração veio a renegar da fé christã.» 

Os feiticeiros, como o seu infernal padroeiro, tinham extranhos caprichos, 
e costumavam arrancar os órgãos sexuaes ás victimas da sua maldade, para 
as consagrarem ás abominações do sablml. 

«Elles não tèem, diz Bodin, o puder de tirar um único membro ao ho- 
mem, á excepção das partes viris, o que fazem na .4llemanha, (jbrigando essas 
partes a recolher-se no ventre. E a este respeito refere Spranger (lue um ho- 
mem de Spira, julgando-se privado das suas partes viris, se fez examinar por 
médicos (! cirurgiões, que nada lhe encontraram, iicni ferida neni cousa alguma. 
O homem foi depois d'isto fallar com uma feiliccira, que lhe restituiu a sua 
faculdade viril.» 

Este attentado da feiticeria contra a virilidade renovava-se a cada passo, 
sol) o nome de nó da ayulhela, e quando o feiticeiro não praticava no paciente 
a castração magica, tirava-lhe e apropriava-se, por assim dizer, da alma e da 
potencia do seu sexo. Os demonologos iiilerpretam este facto, dizendo (jue o 
diabo aceeitava em sacrifício os allributos e tropheus da luxuria, emquanto que 
os feiticeiros se reservavam o seu uso poi' conta própria, afim de podeieiu oc- 
correr aos monstruosos excessos do sabhai. 

Entre estes excessos devemos incluir o crime de bestialidade, que foi ao 
(|ue parece vulgarissimo nas assembléas nocturnas (hjs feiliceiros. Esle crime 
execra\el, tão fre(|uenle nos povos antigos, s('i rar^issiiiias vezes apparccia nos 
trihunaes dos povos modernos, onde era sempre castigado com a pena capital. 
O culpado era queimado com o seu cúmplice, fosse qual fosse a catiiegoria que 
este ultimo tivesse na escala zoológica. E, como este crime era inberente á fei- 
ticeria, a jurisprudência da Edade-Média linha como suspeito de bestialidade 
(|ual(|iier individuo de um ou outro sexo, que tivfsse figui-ado nas orgias do 
sabbal. Bodin expressa-sc a este respeito com uma reserva (juc prova bem lodo 
o horror que esta immundicie lhe inspirava: 



DA PROSTITUIÇÃO 309 

«A lei de Deus, no capitulo xxii do E.vodo. manda que não se deixe vi- 
ver (I feiticeiro, quando ordena (|ue (jucin conimetter acto carnal com uma bosta 
seja castigado de morte. Este preceito da lei divina refere-se especialmente ás 
preversidades monstruosas, quando diz: «Não offerec rás a Deus nem o prcç,'» 
da fornicação nem o preço do cão.» Isto diz respeito á bestialidade carnal dos 
homens com os cães.» 

O mesmo Hodin fallára já n'outro logar destas infâmias, que .elle hesi- 
tava cm considerar como um acto carnal do demónio : 

«A's vezes, diz elle, o appetite bestial de algumas mulheres faz crer que 
seja lenlação do demónio, como succedeu no anno de 1566 na diocese de Co- 
lónia. Havia n'um convento um cão, que todos julgavam o próprio demónio. 
Este lúbrico animal levantava as saias das religiosas para abusar d'ellas. Em 
Tolosa, havia uma mulher que se servia de um cão para o mesmo fim bestial, 
e o n ferido animal queria fornical-a diante de toda a gente. A mulher leve de 
confessar a verdade e foi queimada.» 

Não obstante, bastaria que Hodin se recordasse da descripção do sahhal, 
para ser de mui diversa opinião. O espirito das trevas tomava habitualmente 
a forma do cão, do touro, do asno, ou do bode para receber o sacrificio dos 
seus adoradores. Bodin, pouco depois, arrepende-se de ter justificado Satanaz 
á cusia da raça humana : 

«Pôde succeder, diz elle, rectificando a opinião anterior, que Satanaz 
seja ( nviado por Deus, pois é certo que d'Elle vem todo o castigo por meios or- 
dinários ou extraordinários, para vingar similhantes torpezas, como succedeu 
no mosteiro de Mont-de-Hesse, na AUemanha, onde as religiosas eram demo- 
níacas, e foram encontrados nos seus leitos cães, que as esperavam impudica- 
mente para commetler o peccado que se chama peccado mudo.i> 

Bayle, nas suas Ik.spostds ás questões de um Provincial, quiz, ao (|ue pa- 
rece, explicar todas as obras lúbricas altribuidas ás feiticeiras, provando (|ue 
quasi todas ellas eram velhas libertinas, que não podiam já encontrar a satis- 
fação dos sentidos, senão nos desvarios immundos de um commercio sobrena- 
tural (í diabólico. 

«Antes do diluvio, diz elle, no capitulo o7, o gosto dos demónios era 
mais delicado, pois não queriam senão mulheres jovens e bellas ; com o tempo 
foram-se tornando menos exquisitos, e chegaram por lim ao extremo opposto 
de não quererem já senão velhas e feias. Cazam somente com as velhas, se é 
licito servirmo-nos d'esta palavra para explicarmos o commercio carnal que 
tèera com as feiticeiras, e (|uc começa regularmente depois da primeira home- 
nagem que ellas tributam, címtiiiuando isto de cada vez (jue voltam ao saJihiU.» 
(V. Bydin, cap. iv e vii do livro ii da sua Déinoiwinanie.) 

Todos os escriptores que se occuparam critica e philosophicainent<! do 
exame dos arcanos da feiticeria, faliam da espécie de furor uterino que o diabo 
excitava de preferencia nas velhas. O sábio e grave professor Thomaz Erasto 
confessou que havia feiticeiras de todas as edades, mas demonstra doutoral- 
mente que todas ellas eram velhas, porque a velliic(; em certas naturezas fe- 
mininas exalta as paixões physicas, em vez de as extinguir. 



310 HISTORIA 

«Antes <le serem feiticeiras, diz elle, estas iniiliíeres eram libidinosas, e 
cada vez se tornam mais, nas suas relaçõ<'s com os demónios.» 

(>ompai'a-as com as caljras velhas, que nunca estão satisfeitas c(mi o maclio. 
Hinc procerhio apnd noslro.s jaclus e.s-l locas, relutas cajiras libeniiiis liyere 
salis jamnrulis. E acerescenta : «Não é de evtranhar que mulheres d'esta classe, 
tendo perdido todo o temor de Deus, e iodo o pudor sexual, se entreguem a 
excessos de que a edade não preserva as outras mulheres, mais dignas de com- 
paixão do que de odio.» 

Os demónios, esses mestres de impurezas, como lhes chama um mystico, 
eram muito dados a extravagantes e sórdidas desordens, e não se podia fre- 
quentar a sua companhia sem contrahir os mais deploráveis hábitos. A IVilice- 
ria era uma eschola de perdição, em (|ue o homem e o diabo competiam em 
questões de lubricidade e incontinência. 4 iniciação consistia sempre em qual- 
quer peccado horrivel, em que Satanaz tomava parte. Basta citar um facto, en- 
tre milhares d'e[les : a Svbilla de Norcia, tão celebre na Edade-Média, como 
director;! de uma e.schola de magia, onde iam iniciar-se muitos amadores do 
género, com giaves riscos e perigos. Era uma espécie de rainha de um povo 
de encantadores, que recebia de um mo. lo singular os curiosos que se iipre- 
sentavam na sua caverna : 

«A sybilla e os magos que habitavam no seu reino, diz Bayle, tomavam 
todas as noites a figura de uma .serpente, e era mister que todos os que entra- 
vam na caverna tivessem primeiramente deleitação venérea com alguma d'es- 
las serpentes. Era esta a iniciação, e assim se pagava o direito de entrada.» 

Leandi'o Àlberti diz isto mesmo na sua ])escrilt. di Iníln Itália, p. '27S. 
Citamos o texto original: 

«/.a noite., tanto i mascoti quanto le femine doventano spaventose serpi, 
insieme con la sihilla, e che tutti cjudli clie desiderano entrarei gli besofina 
primieramente pigliare lascivi piaceri con le detie stomacose serpi. >> 

Havia continuamente uma grande allluencia de peregrinos, que ousavam 
emp.rehender a aventura. A sybilla dava audiência a todo o mundo, e ás vezes 
liunava o logar das serpentes |)ara fazer h mra aos seus hospedes. Durante este 
(empo, as bellas fadas que foi-mavam a sua corte transformavam-se em serpen- 
les, em lagartos, escorpiões, crocodillos, etc, para tomarem parle n'um sabbat 
medonho, em (|ue, segundo Braz de Vigenère, nas suas notas aos Tnldeaur de 
plalle peinture de IMiilostrato, se viam fazer o mais sórdido e horroroso ser- 
viço. Desgraçado d'aquelie qiuí não obedecia ás ordens da sybilla ou as execu- 
tava mal! Yiniia a ser dentro em pouco victima da lubricidade dos reptis, até 
(|ue era libertado pela feliz chegada de um monge ou eremita. 

Fica, portanto, bem averiguado por estes e outros factos análogos que a 
íeiliecria teve sempre por objecto a prostituição. Exceptuando um pequeno nu- 
mero de magos crédulos e de feiticeiros convictos, lodo a(|uelle (jue se tinha 
iniciado servia ou fazia servir os outros no mais abominável commercio de li- 
bertinagem. O sablial era um campo aberto jiara Iodas as torpezas. Alii se reu- 
nia uma mnllidão de liijcrtinos de ambos os sexos de parceria com alguns cré- 
dulos e fascinados. 1'ode inferir-sc pelas revelações dos accusados ih)S diversos 



DA PROSTITUIÇÃO 311 

processos de leiticcria ([iic lodo o proveito do sabhai rccahia de ordinário ii'uin 
individuo apenas, que prosliluia donzellas de tenra edade, e experimentava nas 
suas iniciadas as odiosas invenções da sua preversidade. 

Km muitas eircumstancias o papel do dialio pertencia a um malvado qual- 
([uer, (|ue al)usava d'elie para satisfazer os seus liorriveis capricitos, recebendo 
um trilnito olisceiío das miseráveis mulheres que atlraliia ás suas reuniões no- 
cturnas. 

N'um dos últimos processos de leiticeria, em \{S'.M, o cura de (".ordet, 
julgado e condemnado em Epinal, foi accusado de haver introduzido no sabbal 
a ribalda Catliarina, apresentando-a a Persin, homem grande e negro, frio como 
o gelo, até mfsmo iio coilo, diz o processo, o (jual Persin, vestido de encar- 
nado, estava sentado n'uma cadeira coberta de velludo preto, e picava na testa 
os seus neophvtos para os fazer renegar de Deus e da Virgem. (Irc/ifpe.v rf'J?pt- 
nal, citados por E. Regin.) 

N'um processo do mesmo género, que teve, poucos annos antes, uma 
enorme publicidade, soube-se que outro padre de Marselha, chamado Luiz Gau- 
fridi, entregou a alma ao diabo, com a condição de que elle lhe daria virtude 
para inspirar amor ás mulheres síimcnte soprando sobre ellas. Elfectivamente 
o padre soprou sobre VIagdalena, filha de um fidalgo provençal chamado Ma- 
dolo de la Paiud, quanilo cila tinha apenas nove annos. Soprou lambem sobre 
outrHs mulheres, qne não lhe recusaram cousa alguma, e a referida Magdalciia 
continuou, bem a pesar seu, a ter relações com o padre, (|ue a final a fez en- 
ti'ar na ordem das religiosas UrsuLinas. 

Finalmente, este .seductor da innocencia, perseguido pela inquisição, con- 
fessou os seus crimes, declarando que tivera muitas liberdades com IVÍagdalena, 
tanto em casa como na egreja, de noite c de dia; que a conhecera carnal- 
mente, e lhe lizei-a até no corpo diversos signaes e caracteies diabólicos: que 
a levara ao xabhal, onde fizera em sua presença grande numero de acções es- 
candalosas, Ímpias e abomináveis em honra de Lúcifer. Luiz Ciaufridi foi (|uei- 
mado vivo em Ai\, na praça dos Jacobinos, depois de haver feito retractação 
.publica, levando uma corda ao pescoço, uma vela na mão e os. pés descalços. 

Poderia citar-se uma grande multidão de processos de feiticeria, nos 
quacs se vè a depravação moral cobrir-se com a capa da possessão do diabo e 
attribuir todas as suas prcversidades á tyrannia infernal, e reconhecer-se até 
sem grande custo que muitos dos que pretendiam ter cedido a um poder oc- 
culto de irresistível prestigio, nem sempre acreditavam na intervenção dos de- 
mónios. Os libertinos envergonhados, obrigados pela sua posição ou estado a 
mostrarem-se continentes, ou a occullarem, pelo menos, sob apparencias res- 
peitáveis a eITervescencia das suas paixões sensuaes, os sacenloles e os frades, 
eram os que ordinariamente se entregavam á tentação do demónio, assistindo 
a estes horríveis conciliábulos. 

O sabbal era o pont() de reunião de tudo (juanto havia de mais preverso, 
e por isso celebrava-se em sitios remotos, no meio dos bosques, nas monta- 
nhas, entre os rochedos, e o theatro d'estas assembléas nocturnas leve sempre 
desde tempos immemoriaes o mesmo destino. 



312 HISTORIA 

Part'L'P-nos, pois, demonsfradn (\no os feiticeii'os, senão lodos, pelo me- 
nos a grande maioria d'ciles, não se serviam da magia senão para obras de 
prostitui^'ão, 6 que, se as feiticeiras iam ás vezes de iioa fé, quer dizer, cegas 
e fascinadas pela própria imaginação, os diabos que tinham copula com ellas, 
pertenciam em ultima analvse á peior espécie de libertinos. 

D'es(e modo se ex|)lica bem a razão porque a justiça ecclesiastica e se- 
cular tractava com lanto rigor os feiticeiros e feiticeiras. E' porque conipre- 
bendia na feiliceria os actos mais execráveis da depravação bumana, e quando 
condemnava um feiticeiro, impunlia-liie a penalidade do incesto, da sodomia e 
da bestialidade, como se fora culpado de todos estes crimes. 

•lulgiimos baver provado que a feiticeria, ou melbor a libertinagem, se 
propagara de tal modo na Europa, no século xvi, que o famoso Trois-Écbclles, 
condemnado ao fogo em 1571, o perdoado com a condição de denunciar todos 
os seus cúmplices, disse a el-rei que podia calcular-se n'uns trezentos mil 
o numero de feiticeiros de toda a França. 

«Foi tão grande o numero de feiticeiros ricos e polires, diz Rodin, que 
uns lizeram escapar os outros, de maneira que esta praga se multiplicou sem- 
pre como um leslemunbo perpetuo da impiedade dos accusados e da repugnân- 
cia dos juizes, que tinham o dever de instaurar os processos.» 

No reinado de Francisco i, não havia mais de cem mil feiticeiros, se- 
gundo o calculo do padre Crespei, no seu traclado De la linine. de Satan. Trois- 
Écbelles, que era por certo auctoridade na matéria, revelou que este numero 
havia triplicado em menos de meio século. 

Filesac, doutor da Sorbonna, e também muito competente em estatística 
demoníaca, escrevia ein KiOO fiue os feiticeiros eram mais numerosos (|ue as 
proslilotas, e cila em appoio do seu dito dois versos de Planto, onde o escri- 
ptor lalino diz (|ue as prostituías eram mais numerosas que as moscas no 
estio : 

Nam nuvc lenormm et scnrtnrum plus est. ferr 
Quiuii olim miiscariiin est, cum caletur maxiniò. 
Trucul. : Act. i, scen. i. 

Era caso para fazer julgar pela inquisição metade da população de França. 
e os jurisconsullos viam-se obrigados a applicar Ioda a severidade das leis para 
reprimirem a comipçáo dos costumes públicos, corrupção (|ue ameaçava destruir 
a soi'iedade nos seus fundamenlos. Attribuiam-se por prudência ao diabo mui- 
tos actos detestáveis, que s(í [jrovavam a preversão dos homens, pai"a conser- 
var II horror salutar que a crueldade do vulgo linha pelo siMini . Se as cou- 
sas se aprcsenlassem evaclamente como eram, esla reunião de libcrlinos seria 
inuilo mais fre(|ucnlada. A curiosidade auxiliaria enlão admiravelmeníe a de- 
pravação moral e physica. 

Os Iribunaes moslravam-se implacáveis com os feiliceiros, mas sabiam 
perfcitamenle (|ue o diabo era cxtranbo aos crimes que a libertinagem lhe im- 
putava. I'óde, jjortanto, juslificar-se até certo ponio a Icrrivel legislação da 
Edade-Média a respeilo dos feiticeiros, c provar-se ([ue a sociedade se via obri- 



DA PROSTITUIÇÃO 313 

c;ada a defender-sc a ferro c fogo confra a assustadora ganf^rena da prostituição 
publica. 

Foi longa e terrível a lucta contra esta superstição libidinosa, e durante 
muitos séculos o clarão sinistro das fogueiras illuminou a velba Europa, pro- 
curando extirpar da sociedade um cancro tão profundamente radicado. 

A civilisação, pnrém, foi maiseflicaz do que as fogueiras inquisitoriaes, e 
só á luz brilhante por cila irradiada se apagaram nos lobregos recessos das 
montanhas os últimos vestígios dn prostifui(;ão diabólica. Satanaz, isto c, o vicio 
e a ignorância, a superstição e o crime não puderam resistir por muito tempo 
a essa luz trium|)bante, e os horri^(•is sahhnis nocturnos desappareceram com- 
pletamente. 



HwTORU DA PnoíTTrmçÃo Tomo ii— Rolha 40 



CAPITULO XXVII 



SUMMARIO 



A prostitulfSo por meio da linresia na Edade-Média — O inauir|ueismii reapparecc em todas as lieretías.— 
Keuuiues secretas.— Fim d'estas reuniões e meios de 'pi» se serviam. -Os hnlqaros, ou bougérex » a sua doutriua 
—Sua destrui^'So em I^Yança — K liougerie.— Pnlants e Cittliavux.- liltymologia d 'estes dillei entes nomes. — Sta- 
dÍDííS, Fraticeile.í e Beg<fbards.— Us diseiplinantes.— Suas reuniões impudicas.— \'aDtaiíens raoraes da flageUa>,'.lo, 
segundo os casuislas.— Abusos rpie a liljertinagem lazia cia llagellarão.— Retralíj de um disviplinanle, por Pico de 
Mirandola — Flageilações publicas em Krançíi —Procissão dos açoitados, no rein.idn ile HMirii]Ue iii.— Os novos 
adamltas. — Picard, seu propheta. — Ceremonial dõ matrimonio entre estes seetarios. — Os Tiirlupins. — Origem 
d'este nome. — Seus trajos indecentes. — Irmandade dos pobres. — .loanna Dabeotoune, queimada viva no Marche- 
aux Pourceau.!.- A cauderie d'Arras.— Os anabaptistas. — Seus dogmas de prostituirão.— Hayle zomba dVlles e 
corabatc-os pelo ridículo. - Os bons e maus berejes. — Os reformados, ealumniados por causa das suas assembléas. 
—A corte de Koma, denominada a Grande Prostituía.— A lioresia declara guerra á prostituição. 




iMii.s já nos primeiros séculos da era eliristã como a prostituição 
sagrada seguiu o paganismo, e como se foi reproduzindo e con- 
tinuando na heresia ; vimos também esta ultima, fundada na sa- 
tisfação dos sentidos, e multiplicada até ao infinito no seio da 
I Egreja de ('liristo, d'onde apenas sahia para se entregar desen- 
freadamente a todos os excessos das paixões physicas. Comprehende-se perfei- 
tamente que o christianismo, no sou principio, invocando apenas as nobres e 
generosas expansões do espirito, devia empregar meios rigorosos para reprimir 
e suffocar as seitas que corrompiam os costumes e ameaçavam o futuro da nova 
sociedade, dando plenos poderes ás forças cegas e brutaes da matéria. 

No emtanio, as perseguições emanadas da auctoridade dos concílios, e di- 
rigidas pelo braço secular das egrejas grega c latina, não lograram aniquilar 
a heresia, embora fizesssem desapparecer da lace da lerra os hercsiarchas e 
herejes. Depois de guerras sangrentas, e depois de innumeraveis supplicios, o 
principio da heresia permaneceu vivo e perseverante, porque este principio 
não era outra cousa senão a prostituição sagrada. 

Eis o motivo porque a heresia, variando de fiírma e mudando de nome, 
reappareceu sem ces.sar na Edade-Média; eis o motivo porque a prostituição 
procurou quasi sempre refugiar-se na heresia, como n"um baluarte, dVinde po- 
dia arrostai' com audácia a moral do Evangelho e a austeridade do dogma 
chri.stão. 

Havia, não ha duvida, nas differentes seitas da heresia doutores e philo- 
sophos, que de boa fé se consagravam ás discussões metaphysicas e não pro- 



31 G 



HISTORIA 



curavam mais que a verdade com paixão, senão com discernimento; o vulgo, 
porém, os espirilos falsos c preversos, as imaginações fracas e depravadas, as 
naturezas ardentes e vicijisas, eram arrastadas pelo desejo de gosos materiaes, 
c não viam na religião sendo um pretexto de vergonhoso sensualismo. Não se 
poderia explicar melhor o motivo da longa pei'sistencia da heresia, que recor- 
ria sempre ás mesmas seducções, e que obtinha em toda a parte o mesmo re- 
sultado. 

Desde o século xii até nossos dias, a heresia fez em França numerosas 
invasões, nas quaes se reconhece ordinariamente o gérmen do maniqucismo e 
o fruclo da prostituição. Bayle, no seu Dictionnaire, oceupou-se do maniqucis- 
mo, para demonstrar (|ue esta forma de heresia nascera naturalmente do c(m- 
traste das paixões que travam lucta na vida do homem. 

«Como pôde ser, diz elle, no artigo Guarin, que o género humano seja 
attrahido para o mal por um incentivo insuperável, e se desvie d'elle pelo re- 
ceio dos remorsos, da infâmia, ou de muitas outras penas?. . . O maniqueismo 
sahiu apparentemente de uma grande meditação sobre este deplorável estado 
do homem.» 

Bayle racionava como um philosopho, mas a maioria dos maniqueos não 
eram capazes de raciocinar sobre islo, nem mesmo de comprehender o racioci- 
nio. .\ceeitavam a olhos fechados um dogma e um culto, <iue lhes favoreciam 
a sensualidade e as desordens, e d'esle modo a religião não era para elles mais 
do que uma continua excitação á libertinagem. 

Iremos demonstrar agora, a largos Iraços que seja, a existência da pros- 
tituição na heresia quasi em todas as épochas, em França pelo menos. Devemos 
antes dê mais nada observar que em toda a heresia, a partir do século vii, os 
sectários tinham reuniões secretas e nocturnas em togares desertos ou fecha- 
dos. Estas reuniões tinham por lim, ou pelo menos por pretexto, a pratica do 
culto. Os dois sexos umas vezes achavam-se reunidos n'estas assembléas reli- 
giosas, outras separados, e conciliábulos mysleriosos havia nos quaes apenas 
os homens tinham direito a ser admittidos. 

Em grande numero de casos, Iractava-se apenas de orar em commum, 
e por isso tudo se passava na melhor ordem e na mais liei observância de 
todas as conveniências. NVjutros, porém, havia grandes desordens e abusos, 
por causa da impureza de alguns falsos apóstolos e neophylos, e a opinião pu- 
blica apoderava-se da fama d'estes escândalos das reuniões heréticas. Accusa- 
vam os berejes de apagarem as luzes a um signal combinado, e de se entre- 
garem nas trevas a todas as impurezas (la sensualidade. Uuiros atlribuiam-lbes 
os mais vergonhosos excessos de pronuscuidade, e havia ainda quenj os cen- 
surasse de ultrajarem a natureza com abomináveis hábitos de sodomia. 

Os Hulíjara.s, que não se muiliplicai-am cm França até lins do século xii, 
tinham começado a es|)albar-se pela Europa desde o século x, estabelecendo-se 
na Bulgária, onde tiveram uma espécie de papa, ou chefe espiritual. Da pala- 
vra Huljiaroii, destinada a designar os habitantes da nação veiu a fazer-se o 
nome da seita, propagando-se por todos os paizes com a heresia, que não era 
senão o antigo maniqueismo. 



1)A PROSTITUIÇÃO 317 

Ksti! nome foi logo coitou) piílo na língua IVaiiceza, que ao tempo se lal- 
lava, e em vez de Hulgaros, eomeyou a dizer-se fiuatjare.s e Bowjiãres; de 
Hoiujutreu fez-se depois llouijres, eompreliendendo-se, sob esta qualilicavào 
genérica todos os homens depravados que se eonformavam em seus costumes 
com a doutrina e exemplo dos verdadeiros Bultjaros. 

listes herejes consideravam como ura sacrilégio o acto das relavõcs sc- 
xuaes, ainda mesmo no estado do matrimonio, por isso que não permittiam a 
copula conjugal, senão com a mira de procrear filhos, e ás vezes esqueciam 
este destino providencial da humanidade para prohibirem absolutamente ao ho- 
mem lodo o commercio carnal com a mulher. Tão monstruosa heresia contra 
a lei natural expòz os búlgaros ás mais graves accusações, que elles mesmos 
talvez conlirmassem cora o seu género de vida. 

Ainda assim, esta heresia tinha feito espantosos progressos, sobre tudo 
no Laiiguedoc, quando Filippe Augusto, segundo uma chronica nianuscri|)ta, 
citada por Ducange, mandou seu lillio destruir a heresia dos Uomjrea do paiz. 

A mesma chronica accrescenta, cora a mesma data de 1225: «]N'este 
aimo juram queimados os liouijres irmãos João, que eram da ordem dos frades 
pregadores.» 

Quanto á heresia, que accendeu fogueiras por toda a Europa, não se sabe 
verdadeiramente se era culpada das horríveis impurezas que a voz do povo lhe 
attribuia. Sabe-se apenas que a heresia que os chronistas contemporâneos (|ua- 
liticam de execravel — omiiiunt errorum fas exirema, diz o monge (fAuxerre 
— linha por synonymo a palavra Houguerie, e isto justificaria só por si os ri- 
gores da legislação a respeito dos liuUjaros. 

S. Luiz, apesar da sua caridade e clemência, não hesitou era comminar 
a pena de morte contra estes herejes : 

«Se alguém fòr suspeito de bougrerie, a justiça deve prendel-o e envial-o 
ao bispo, e se se provar o peccado, deve ser queimado o hereje.» 

Para se subtrahirem á reprovação geral que os perseguia em França, os 
Imlgams não encontraram melhor meio que mudar de nome. Etlectivaraenle 
procuraram confundir-se com os albigenses, que os repeilirara com horror e 
raisturar-se com os i'alares e Calhares, que não quizeram lambem ser conla- 
rainados por este nome infame. Chamaram-se, pois, successivamenle 1'ateri- 
aos, Falares, Calhares, Jovinianos, ele. Mas, sob estes nomes lodos, eram 
ainda suspeitos de bouguerie, e não escapavam á fogueira, quando cahiain nas 
mãos dos inquisidores. A historia pode accusal-os de haverem lambem provo- 
cado 110 reinado de Luiz xiii, pelo horror que geralmente inspiravam, a cru- 
zada contra os albigenses, com os (juaes havia empenho em confundil-os. 

A etymologia pôde até certo ponto descobrir nos nomes d'esles herejes 
a prova das torpezas que caracterisavam a sua impura seita. O nome de bul- 
yari deriva-se de bulga, que significava ao mesmo tempo alforjes de couro, 
bolsa e as bragas do homem. Menaje e Leduchat não se detiveram n'esta ob- 
servação etyraoiogica, que é todavia bastante para dar a entender tudo quanto 
por causa do decoro deixamos de explicar. 

O nome de Paíermi "parece ter sido formado por conlracçào de Palerni e 



318 HISTORIA 

Paleniiadi, liorojes igualmente maiii(|iiei)s, qiie no lempo de Santo Agostinho 
pretendiam que as partes inferiores do corpo humano haviam sido creadas, não 
por Deus, mas sim pelo diabo, e (jue por conseguinte não tiniiam o menor es- 
crúpulo em se servirem d'ellas para Ioda a classe de usos vergonhosos. 

(hnnium cr illis parlibufí flafiiloram licentiam tribuentes, impurissimè 
viinmí, diz Santo Agostinho. Tempos depois, o nome d'estes herejes conver- 
tia-se em l'(ilelin, ou PakiUn, palavras que ficaram na lingua, e significavam 
que estes lierejes usavam de toques obscenos nos proselytos, que queriam ar- 
rastar para a sua seita. 

O nome de Cnthari, segumio o doulor dodofrcdo Henschenius, citado por 
Ducange, provinha da palavra allemã calers, que significa demónio incubo, e 
"ato, e este epitheto applicado aos Búlgaros alludia ás suas reuniões ou juntas 
de libertinagem (])ropter nocturnas coitiones.) 

Vm requinte de libertinagem levava estes sectários a impõr-se lodo o 
•'cnero de priva(;ucs e a alleclar um com|deto desprendimento das cousas mate- 
riaes. Todavia era. isto apenas uma mascara hypocrita de continência e abnega- 
ção, sob a (|ual maior facilidade encontravam para se entregarem ás suas pai- 
xões e a todos os extravios da sensualidsde. As suas austeras praclicas .le de- 
voção davam uma e.specie de attractivo ás suas desordens occultas, sendo sempre 
a proslituição o iman do proselytisrao e o laço occulto da heresia. 

.Nem de outro modo pôde e\plicar-se o favor que encontrava cada nova 
metamorphose do maniqueismo, apesar da perseguição catholica. 

.Muitas seilas nascidas fora de França, a dos Siadings em \2'.i2, a dos 
Fralricelks em 1296, a dos fíeiígliayds nu l>p(j}iim em 1312, e muitas outras 
não menos extranhas, não tiveram uma existência tão longa e tão persistente 
como a dos linUjaros, porque não eram tão favoráveis aos maus instinclos do 
homem. Quando em 1259 appareceu a S(;ifa dos disciplinanles, ninguém sus- 
peitou sequer que as penitencias voluntárias d'estes peccadores, que se açoita- 
vam em publico, fossem um invento de luxuria. 

Os proselvtos d'esta séila iam <le dois em dois em procissão, precedidos 
de cruzes e bandeiras, nús até á cintura i solis pudendis honeste relaiis) mesmo 
no meio do inverno, e açoitavam-se muluamenle com correias de couro, sol- 
tando gemidos e derramando abundantes lagrimas. Ensanguentavam as carnes, 
e era então que mais fervorosamente se flagellavam. 

Não é tudo ainda: altas horas da noite iam ao campo, ao meio dos bos- 
ques sombrios, ou togares isolados e de má reputação, e alli no meio das tre- 
vas, ou á In/ de archotes redobravam as suas ílagellações, os seus grilos e as 
suas loucuras impudicas, l<'acil mente 'se calculam as consequências dVstas reu- 
niões de homens e de mulheres semi-núas, (|ue se exaltavam com o espectá- 
culo d'esta indecente pantomima, em que lodos eram adores e chegavam gra- 
dualmente ao ultimo paroxysmo do êxtase libidinoso. 

Os casuistas confessavam que esta llagellação individual ou reciproca li- 
nha como resultado ordinário a .sobreexcitação dos sentidos, mas pretendiam 
que o pacicnie era mais meritório, se n'esses momentos domava os Ímpetos da 
natureza, guaniandu a sua castidade sob o império ilo tnais vivo desejo de 



UA PKosrrruigAo 319 

pcccar. Outros cdsuistas, pelo contrario, sustentavam que o oflVito iininediato da 
flagcllaí,'ão era re|)riinir os mo\iinenlos desordenados da carne, caslifíando as- 
sini o demónio que se aloja nas parles vergonhosas. 

Seja eomo fòr, não pôde duvidar-se que os disciplinantes, lendo tomado 
do paganismo o indecente cerenionial <las Luperrae.s, não encontrassem n'estas 
penitencias publicas um aguillião de libertinagem e uma extranha deleita^,'ão sen- 
sual. O uso da llagella^;ão na anliguidade era bem conhecido de todos os liber- 
tinos, que a empregavam como uma espécie de predisposição para os prazeres 
do amor. Na Edade-Média, porém, a flagellação erótica raras vezes se empre- 
gava, a não ser no mais profundo raysterio e tinha tomado um caracter de fe- 
rocidade sanguinária, que se reproduzia nos actos dos disciplinantes. 

Pico de Mirandola, no seu Traclado contra os asirolojios, (\Áb. iii, cap. 
i7.) indica-nos o que devia ser a llagellação dos herejcs, descrevendo o refi- 
nado prazer que tinha um libertino, quando .se fazia açoitar até lhe rebentar o 
sangue de todas as partes do corpo. 

Este infame chegava pela dor á voluptuosidade, e só á vista do pro|)rio 
.sangue é que attingia o supremo deleite sensual, num phrenesi libidinoso indes- 
criptivel. 

A seita dos disciplinantes, que vinha da llalia, e se propagou rapida- 
mente por toda a Europa, não teve f*rande curso em França no anuo de I :'■')'.», 
porque a auctoridade ecciesiastica apressou-se a condemnar e perseguir esta he- 
resia, que não era senão um odioso espectáculo da prostituição. Uiu século mais 
tarde, porém, os disciplinantes reappareceram em França, especialmente nas 
províncias do Norte e do Levante, continuando as suas penifi-ncias publicas 
com disciplinas armadas de pontas de ferro, entoando cânticos e incitando-s<' 
mutuamente a ter grande firmeza na mão. 

Havia penitencia commuin, na qual homens e mulheres com a cabeça c 
o rost(> cobertos e de espáduas nuas trocavam entre si grande numero de açoi- 
tes : e penitencia individual, em que cada um recebia da mão do ijeral da de- 
coçuo um numero de açoites proporcionado á culpa que queria expiar. Os 
penitentes proslravam-se por terra em posições análogas ás ditlerenles classes 
de peccado. O perjuro levantava três dedos da mão, o adultero deitava-se de 
barriga para bai\o, o ébrio fingia beber, o avaro representava enterrar um thf- 
souro, c todos elles punham a descoberto a parte do corpo em (jue deviam re- 
ceber a llagellação. O ciíefe da confraria distribuía com vigor os açoites, se- 
gundo os peccados que lhe indicava a muda pantomima do penitente. 

O povo acendia em tropel a estes escandalosos especiaculos e admirava 
com enthusiasmo a constância dos marlyres, que não se cançavam nem de dar 
nem de receber açoites. Em 1343, durante a peste negra, havia em França 
mais de S00:000 disciplinantes, e entre elles damas e cavalheiros, ávidos da 
llagellação publica, que abandonavam os seus castellos, as suas famílias, e es- 
queciam o brilho dos brazões heráldicos, para se inscreverem nestas irmanda- 
des de fanáticos e libertinos. 

Ignora-se como a seita desappareceu em tão pouco tempo, mas a llagel- 
lação religiosa sobreviveu aos seus seclai'ios, e para não ultrajar o pudor pu- 



.120 



HISTORIA 



blico, coiicenlrou-se no retiro do claustro. Apesar d'isto, sahiu novamente das 
eellas monásticas, ousando passear pelas ruas de Paris, quando o rei Henrique 
III estabeleceu a ordem dos penitentes, e figurou elle próprio nas procissões 
dos açoitados. Este derradeiro ensaio de flagellação publica prova sufficiente- 
mente quanta parte tinha a libertinagem em similhantes actos de devoção, si- 
mulada ouincoberente. 

Na maior parte das heresias provenientes do maniqueismo, os sectários 
não se envergonhavam da nudez do corpo, considerando-a até como uma con- 
dição essencial das jiraticas do culto, mais ou menos abominável, que pi-estavam 
a f)eus. Os Adamilas, que nunca deixaram de existir no seio da egreja christã, 
onde evitavam, todavia, causar escândalo, não exigiam esta nudez senão nas 
ceremonias secretas, mas um dos seus adeptos, chamado Picard, nome que tal- 
vez designe o seu paiz natal, não se contentou com uma nudez temporária ou 
accidental e aconselhou aos seus discípulos. que andassem sempre nús. Pica?-d 
dizia-se filho de Deus, e pretendia que o Pae celestial o tinha enviado ao mundo 
como um novo Adão, para restabelecer a lei natural, e o que elle chamava lei 
natural consistia n'estas duas cousas: — nudez completa e communidade de 
mulheres. 

r 

(Ihamaram-se Picarás, ou Pkardo,^ os que ouvii'am as prédicas d'estp 
propheta impudico c quizeram viver segundo a sua lei. No emtanto, as rela- 
ções entre os dois sexos não se verificavam, sem que o chefe da seita o orde- 
nasse. Assim, quando_ um sectário sentia desejos sensuaes para com alguma das 
suas correligionárias, conduzia-a á presença do Mestre e formulava assim o seu 
requerimento : 

— O meu espirito inílammou-se por esta mulher. 
O Mestre respondia com estas palavras da Riblia: 

— Crescile et muíliplicamini. 
E o negocio concluia-se. 

Os Picardos, que julgariam perder a sua liberdade original renunciando 
á sua querida nudez, viram-se obrigados a procurar fora de França um retiro 
onde podessem subtrahir-se ás perseguições da inquisição. Reí'ugiaram-se, por- . 
tanto, na Bobemia, junto dos Hussilan, que apesar de herejes, se indignaram 
das infâmias d"aquelles miseráveis, e os exterminaram até ao ultimo, sem pie- 
dade nem mesmo para mm as mulheres, que estavam todas gravidas, e recu- 
saram obstinadamente vestir-se na prisão, onde deram á luz, no meio de gar- 
galhadas e cantando canções horríveis. (V. Hayle, Diclion.) 

Parecia que a prostituição não poderia chegar a novos excessos, quando 
cm \'M'.\ os Pirardos resuscitarani em França sob o nome de Turlupins. Este 
nome, cuja etymologia não foi bem determinada, parece fazer allusão á vida 
errante c brutal, que tinham estes novos adamitas, escondiílos como os lobos 
no fundo das íloresias. Não só andavam completamente nús como os Picardos, 
senão que, á imitação dos cynicos gregos, «faziam a obra da carne á luz do dia, 
em presença de todo o mundo.» São palavras de Bayle, ao tractar d'estes he- 
rejes. 

A sua doutrina era pouco mais ou menos a dos liegardos, que foram con- 



DA PROSTITUIÇÃO 321 

clemnados pelo concilio de Ravena cm 1312. Ensinavam que o homem ('■ livre 
para obedecer a lodos os instinclos da natureza, e que a |)erfeição consiste n'uma 
liberdade sem limites, .\ccrescentavam ainda que a creatura deve orpulhar-se 
de tudo quanto recebeu do Oeador. Eis o motivo porque tinham em tanta es- 
tima o seu estado de nudez. 

INo emtanto, íoram obrigados a vestir-se, por causa do frio sem duvida, 
mas ainda assim, deixavam a descoberto os attributos do seu sexo, ostcntamlo 
sem pudor o que julgavam divino. O douto (lenebrad diz expressamente na sua 
Chronica, que esta seita detestável se fazia reconhecer pela nudez parcial com 
que descaradamente se apresentava em toda a parte. 

Estes infames multiplicaram-se na Saboya e no Delphinado, mas a sua 
principal associação era em Paris, presidida por uma mulher chamada Joanna 
Dabentonne, que foi queimada viva no Mairhc-iiu.v-Pmirceaux, perlo da praça 
de Sainl-Honoré. Foram ao mesmo tempo queimados os livros da confraria e 
muitos dos pregadores d'esta superstição religiosa, que havia tomado o nome 
de Irmandade dos Pobres. 

Carlos V encarregou Jacques de More, da ordem de S. Domingos, de ir 
ás províncias meridionaes da França extirpar tão execravel heresia. Jacques de 
Mure, (|ue tinha o titulo de inquisidor dos Bougres, não teve compaixão com 
o.s sectários de ambos os sexos, surprehendidos em flagrante delicto. Desde en- 
tão não ficou d'essa irmandade impudica mais do que o nome proverbial de 
lurlupin. que se usa no sentido de chocarreiro ou truão sem graça, provavel- 
mente em recordação das prédicas excêntricas e dos vestidos ridículos da seita 
de Joanna Dabentonne. 

Houve ainda outras heresias em que a mais criminosa prostituição se 
cobria com o manto religioso. .4ssim, a famosa rauderie d'Arras no século xv 
não era mais do que um simulacro da doutrina dos mudes, misturada com a 
feiticeria, e que servia de pretexto ás assembléas nocturnas, cheias de abomi- 
náveis mysterios. 

iNo capitulo precedente, referimos parte dos mysterios que os feiticeiros 
praticavam no ceremonial ordinário do sabbat; outras reuniões havia ainda, 
que nada tinham que ver com o diabo, e que não tinham mais decência. Eram 
feitas por uma associação de libertinagem, organisida por sacerdotes apostóli- 
cos, que pregavam o mais sórdido epicurismo e pregavam com o exemplo e com 
a palavra. O inquisidor da diocese dWrras, auxiliado pelo conde d'Étampes, 
governador do Artois, dirigiu ao principio as perseguições contra as mulheres 
publicas, que eram os apóstolos mais perigosos da vaiiderie; pouco depois fo- 
ram comprehendidos n'estas perseguições judiciaes homens do povo, fidalgos, 
e personagens de representação, prevertidos já pela nova heresia. 

Submettidos á tortura, osjaccusados fizeram espantosas revelações c mui- 
tos d"elles foram condemnados á fogueira. Durou mais de trinta annos esta 
horrível perseguição contra os vauderes dWrras, e accendeu milhares de fo- 
gueiras no Artois. 

Vauderes, Anabaptistas, Adamitas e Maniijueos, apezar da violência das- 
perseguições, rena.sciam sempre das próprias cuizas, tão certo é que a liberti- 

UuToRiA DA Prostituição. Tomo ii— Folua 41. 



322 HISTORIA 

nagem (em alfractivns irrcsisfivcis para certas nalurczas prevcrsas, débeis ou 
depravadas! Ainda assim, varias heresias invertidas pela prostituição percor- 
reram a Europa sem entrar em h'ança, ou pelo menos sem alli fazerem gran- 
des progressos. Assim, os Anabaptistas, que chegaram a ter exércitos na Hol- 
landa e na Allemanha, appareceram apenas isoladamente em alguns estados 
do rei christianissimo. E comtudo estes herejes abriam largo campo á prosti- 
tuição, quando ensinaram que toda a- mulher é obrigada a prestar-se á sensua- 
lidade de todos os homens, e que todo o homem é igualmente obrigado a sa- 
tisfazer todas as mulheses. 

Bayle, mettendo a ridículo a impossibilidade material de similhante dou- 
trina, pensa com razão que era uma fabula inventada pelos adversários dos 
anabaptistas, afim de os tornar ao mesmo tempo odiosos e ridículos. A dou- 
trina do coraniunismo das mulheres, não é tão depravada com esta abominação, 
porque não tira ao sexo fraco a liberdade de recusar, nem compromette a cons- 
ciência de ninguém. E' demasiado absurdo estabelecer como principio que o 
matrimonio é contrario á lei de Deus, e (|ue a mulher, para se conformar com 
esta lei, deve pertencer successiva ou simultaneamente a todos quantos a sol- 
licitarem. O sexo mais fraco estava entregue, segundo esta detestável heresia, 
ás paixões brutaes e "depravadas do sexo mais forte. A prostituição introdu- 
zira-se d'este modo no código religioso d'aquelles fanáticos, que deram ao 
mundo o odioso espectáculo dos seus estranhos desvarios no meio das mais 
horríveis scenas de assassínios, incêndios e roubos, tanto é verdade que a i)ros- 
tituição pôde comparar-se a un) caminho coberto de llores, conduzindo a ut» 
horrível ab ysmo ! 

Os anabaptistas não eram senão maniqueos disfarçados, assim como a maior 
parte dos lierejes, que procuraram fundar seitas depois do século xn, e que 
tinham todo o cuidado em não confessarem a sua origem commum. De resto, 
em cada heresia, havia bons e maus, puros e impuros, de maneira que cada 
qual seguia os impulsos da,sua natureza, segundo obedecia mais ou riienos ao 
espirito (ui á matéria. P('ide, portanto dizer-se com o sábio Beausobre, histo- 
riador do maniqueismo, que os maniíiueos foram sempre calumniados. Deve 
crér-se*tudo quanto geralmente se dizia das suas assembléas nocturnas e dos 
horrores que se praticavam alli no meio das trevas? Similhantes accusaçòes 
reproduziram-se em todos as épochas, e é de notar que os pagãos attribuiam 
aos primitivos christãos os costumes dissolutos e as praticas sacrílegas, que 
os christãos attribuiram depois aos herejes. 

E' muito de suppor (|ue o christianismo e o paganismo se servissem das 
mesmas armas contra os seus adversários, a (|uem combatiam, calumniando-os 
do mesmo modo. Tanto na heresia como no christianismo (trimitivo houve sem 
duvida naturezas ardentes, exaltadas e [)reversas, que se aproveitaram do culto 
para a satisfacção dos seus sentidos, e que d'esle modo auetorisaram a crença 
geralmente estabelecida no vulgo acerca das aboniinaçõ(>s praticadas nas reu- 
niões secretas, em que se apagavam as luzes. 

Os próprios protestantes não estiveram na sua origem ao abrigo das 
injuriosas suspeitas a (|iic tiavam margem as reuniões nocturnas de ambos os 



r>A PROSTITUIÇÃO 32ÍÍ 

sexos. Como estas reuniões se ruileavam de um profundo mysterio, para se 
subtrahirem á curiosidade e á perseguição dos catlioiieos, como preferiam as 
noites mais escuras e os logares mais sombrios e retirados, suppoz-se que a 
nova seita tiniia motivos para occultar as suas cermonias e as suas doutrinas. 
O povo foi sempre muito propenso a diffundir estas indignas falsidades e a 
dar-lhes inteiro credito. 

«Ouvi contar, diz Brantòme, nas suas Dnmes galanles, ouvi contar que 
quando os luiguenotteá fundaram, a sua religião, tinham as suas predicas de 
noite e em silios occultos, temendo ser surprehendidos e castigados, como fo- 
ram um dia na rua de Saint-Jacques, cm Paris, no tempo de Henrique ii, 
on^e algumas illustres damas estiveram a ponto de ser surprehendidas. Logo 
que o ministro concluía a sua prédica, recommendando-lhes a caridade, apa- 
gavam-se as luzes, c cada um e cada uma a exercia com o seu irmão e a sua 
irmã, segundo a sua vontade e poder. O que eu não ouso crer, embora me as- 
segurem que é verdade; mas é possível também que seja mentira e calumnia.» 

No emtanto, e apesar da asserção do catholíco abbade Brantòme, que 
refere as aventuras da bella Grotlerelle, pôde dizer-se com visos de verdade que 
nunca os innovadores do século \vt em França deram iogar aos escândalos 
com que os anabaptistas e os adamílas dos Paizes-Baivos oITendiam o pudor pu- 
blico. Nunca em toda a historia das innovações religiosas de França poderia 
enconlrar-se facto algum simílhante áquclla indecente reunião que teve Iogar 
em Amsterdam, a 13 de fevereiro de I53'j, na qual sete homens e cinco mu- 
lheres, cedendo ás excitações e exemplo de um proplicta anabaptista, se des- 
pojaram das suas vestes, as arremessaram ao fogo e sahiram para a rua em es- 
tado de complcla nudez. (Hclal. des lamuítes des Anabapt, por L. Hortênsia.) 
Só entre os convulsionarios do século xviii c ([ue se encontra em França algu- 
ma analogia com aquella cegueira da prostituição religiosa. 

Esta persistência da prostituição na heresia em todos os tempos e paizes 
prova superabundanlemente a excellencia da moral evangélica, a única que 
tinha poder para combater os grosseiros appetites da sensualidade. .4 heresia 
começa desde que o christão, assaltado pelo demónio da carne, quebra os la- 
ços da continência e se entrega aos funestos instinetos que o impellem ao vi- 
cio. Se os discípulos de Luthero e de Calvino chamaram á corte de Rdina a 
Cirande Prosiiluki, foi porque a Egreja romana, na épocha cm que apparece- 
ram estes reformadores, havia esquecido completamente os preceitos deJesus- 
Christo. 

Foi então que a heresia, purificada no Evangelho, ao passo que a Santa 
Catbedr^a se transformara, por assim dizer, no sanctuario da prostituição, fez 
cíirar de vergonha o catholicísmo, apontando a depravação dos .seus ministros 
e a corrupção dos seus sectários. A heresia teve a gloria de i^estabelecer a cas- 
tidade de costumes na Egreja de Jesus. 



CAPITULO XXVIII 



SUMMARIO 



Os antigos seraionarios fazem a historia ila priistituifão ilo seu tempo, — a prostituiçãn, segundo Dulsure. 
—Opinião de Henrique Estienne. — A prédica de Olivier Maillard.— Os vendiltiões do templo.— Numero de raullieres 
publicas era Paria no seeuln xv.— Admiração do poeta António Astezani.-Os namorados ua E^reja.— Préaava-se em 
francez ou em latim?— Olivier Maillard em Saint-.Iean-en- Greve. —Extracto dos seus sermões e dos de Miguel 
Menot relativos a prostituição. — Desenvolvimento da prostituição no tempo de Luiz xi. Carlos viu e Luiz xii.— Mães 
que vendem as filhas.- Filhas que recorrem á prostiluição para ganharem o dote.— Estylo macarronico de Menot.— 
O corretor do amor e as cinco mulheres. — Corrupção dos ecciesiasticos. — As concubinas ap ão e agua. — Mvsteiios 
dos convi ntos, segundo Theodorico de Niem. — Os jogos de palavras no púlpito do italianíj Barletta. — Causas do 
progresscida prostituição. 




EMos extrallido as provas d'esta historia das obras ílos poetas 
que na sua maior parte passavam vida errante e iii)ertina, e 
provámos que estas obras eram o espelho liei dos costumes da 
époeha em que foram eseriptas. Não é somente nos poetas 
onde iremos agora procurar os vestígios da corrupção publica 
desde o fim do século xv até aos primeiros annos do século xvi. 

E' aos sermonarios dos' pregadores contemporâneos que iremos l)uscar 
agora cores novas, mais fidedignas e mais audaciosas para completarmos o e\- 
tranho quadro de uma corrupção geral, que demonstra bem a impolencia das 
leis divinas e humanas contra o demónio da sensualidade. 

Dulaure, que na sua Historia de l'aris se serviu egualmente dos anti- 
gos sermonarios para pintar o estado moral da sociedade n'aquella mesma 
époeha, não exaggera quando apresenta a prostituição como a rainha Irium- 
pbante do século xv, e accrescenta que era um dos efteitos dos vicios do go- 
verno. 

«A prostituição auclorisada pelos reis, diz o implacável Dulaure, era 
também favorecida por um grande numero de celibatários, sacerdotes e frades 
e peja libertinagem dos magistrados, homens de guerra, etc. Dulaure não sus- 
tenta a Ihese da Apologia de, fleraclio, em que Henrique Estevam se esforça 
por demonstrar que tudo vac de mal a peior n'este mundo «porque, por grande 
que fosse n'esse tempo a corrupção, diz elle, pequena era ainda assim, em 
comparação da que se lhe seguiu, visto que foi sempre gradualmente cres- 
cendo.» 

Os sermonarios, sobretudo os que eram escriptos em estylo simples ou 
trivial, ao alcance do povo, ollerecem-nos testeiiitinhos incontestáveis da prc- 



320 _ HISTORIA 

versiihulc lio seu feculo, e podcmos-acceilar como verdadeiros a maior parte 
dos factos referidos ii'esses discursos oratórios. Olivier Maillaid, Miguel Menot, 
João Cleréo, (iuillierme Pepin e .muitos outros pregadores celebres, que não 
se importavam de cultivar no púlpito llores oratórias, tinham maior acção e 
auctoridade sobre o seu auditório, composto de gente simples, quando fallavam 
com a eloquência do coração, do lioni senso c da honradez, quando entiavam 
francamente na pintara dos vicios e torpezas que pretendiam verberar e cor- 
rigir. 

Eram ás vezes grosseiros e livres nas suas expressões e nos exemplos 
de que se serviam para se tornarem mais inlelligiveis ao seu auditório, mas 
por isso mesmo impressionavam muito mais, obtendo resultados extremamente 
louváveis, embora á custa de meios, que estavam longe de o ser. 

Podemos aitirmar que esícs sermões, apezar de nos parecerem hoje ri- 
dículos c escandalosos, operavam então grande numero de conversões verda- 
deiras, c o pregador ao descer da cadeira da verdade via o confessionário cheio 
de arrependidos. Actualmente muitos são os que se riem á custa d'estes anti- 
gos sermonarios, que tinham 'tão extravagantes movimentos oratórios, e que 
empregavam tão excêntricos recursos, acompanhados de gestos ridículos, mas 
não SC faz uma ideia perfeita da espécie de publico que accudia a ouvir as pa- 
lavras, bem pouco edilicantes pr.ra nós, d'aquelles frades pregadores. 

') publico d'esses bí ms iL^mpos, no qual o sexo feminino estava por certo 
em maioria, iião se reçommcndava nem pela decência dos costumes nem pela 
pureza das intenções. Aquellas mulheres apre,senlavam-se na egreja impudica- 
mente vestidas, para, segundo a phrase da época, fazerem caçada aos olharea, 
provocando os homens, marcando-lhes entrevistas mesmo na casa do Senhor, 
procurando aventuras e lazèn'^ contractos de galanteria ou vendas de amor. 

«Se quabjuer homem levasse o sou cavallo á egreja para o vender, diz 
o andor de um poema latino manuscripfo, intitulado Mntheolus bigamus, pra- 
ticaria uma coisa em extremo incoavenicnie. (^>ue direjnos então das mulheres 
que, sob pretexto <lc religião, vão á egreja para se venderem a si próprias? 
Não serão mais culpadas ainda ' Não convertem a casa do Senhor n'um mer- 
cado de prostituição?» 

O mesmo poeta enumera Iodas as egrejas c capellas de Paris em que se 
realisava esta feira de prostituição. 

Paris contava no século xv cinco ou seis mil mulheres dedicadas á pros- 
tituição legal, segundo o calculo de um escriplor contemporâneo. IJm poeta 
italiano, António Astczani, qu(> viajava em França por esse tempo, escrevia 
n'uma das suas cartas datadas de Paris: 

«Vi aqui com grande admiração uma multidão innumeravcl ne mulheres 
em extremo bcllas, de maneiras tão graciosas e lascivas, que seriam capazes 
de iiillammar o prudente Neslor e o velho Priamo. (v. Jennne d'.\rr, por Her- 
ryat Saiiit-Prix, ]). lill.) 

lloniáinos iroutro logar, cxtrabindo o fado do .lonrnal dn hourijeois de 
Paris, que António de Loré, preboste da cidade, deixou augmentar desmedi- 
damcnli' o niimcio das ribahias, a|)czar das disposições policiaes em contrario. 



DA PROSTirUigAO 



327 



a poiílii lie lazer iiuliniiar n pniprio redactor do ./o/thííL .Nenhuiua duvida te- 
mos de (|ue estas ribaldas, que costumavam inostrar-se à porta das egrejas com 
os seus rozarios e livnts de devoção adornados de ouro e prata, formavam a 
parte mais assídua do auditório n'estas prédicas a que assistiam para arranja- 
rem fi'e^ue/es. 

t:iemente de Marol, que se pòz em evidencia no seu IHalofio ihs íia;,o- 
rados, declara lia ver encontrado a sua bel la na cgreja. Era provavelmente a 
mesma costureira de quem tanto se enamorou, antes que a peccadora lhe dei- 
xasse bem dolorosas recorda(.'ões. 

O seu amigo pergunta-llie onde se apaixonou tão subitamente. 
" — N'uma egreja, responde o poeta dando um suspiro. Foi alli que co- 
meçaram os meus amores. 

O amigo ri ás gargalbadas, c observa-lhe: 

— Ahi téem as nossas devoções. 

l)iscreteou-se muito alim de averiguar se o pregador, que se dirigia a 
este galante auditório, fallava francez ou latim. Uns sustentaram que os ser- 
mões, pregados em lingua vulgar, se escreviam logo em latim para a impres- 
são: outros, pelo contrario, pensaram que visto fallarem os advogados no foro 
em latim, não deviam os p.i-égadores scrvir-se da lingua vulgar. A disputa, 
apcíar de toda a copia de erudieção com que foi tractada por uma e outra 
paiMe, está ainda pendente, e é agora occasijo de a resolver. Notaremos desde 
já ([ue Olivier Maillard, tendo pregado em Bruges eni francez (V. este sermão 
em i de agosto, lá f.) não havia de pregar em latim era Paris, em Tours, i- 
cm Poitiers. E' provável que os seus sermões, reproduzidos peia stenographia, 
na occasião em que eram pregados, fossem traduzidos em latim macarronicd, 
exactamente como os do italiano riuilherme Barletla, que pregava na sua lin- 
gua em \eneza sermões, que não eram publicados senão em latim. O latim ma- 
carronico era até muitíssimo próprio para reproduzir a linguagem burlesca e 
livre d'aquelles pregadores populares. 

Olivier Maillard, cuja reputação estava solidamente estabelecida, no tempo 
de Luiz XI, pregava ordinariamente em Saint-Jean-en-Grève, e é de crer que 
a pí.pulação immunda das ruas visinbas accudisse em tropel aos seus sermões, 
que tinham sempre por objecto a luxuria e a libertinagem do seu tempo (hiijus 
lempuns), diz o pregador a cada momento. Chama a todas as cousas pelos seus 
riomes, sem empregar periphrases, a não ser para accrescenlar mais alguns 
traços ás suas grosseiras pinturas. Xão se preoccupa com a santidade do logar 
em que pronuncia as suas invectivas contra os agentes e os actos da prostitui- 
ção, e parece mesmo com|)razer-se em tomar as suas expressões do vocabulá- 
rio do vicio ((ue llagella: mas, apesar d'esla licença de termos e de imagens, 
não o podemos accusar de uma immoralidade, qae não existe no seu pensa- 
mento. 

Devemos recordar a(|ui uma circumstancia bastante attendivel : — n'a- 
quelle tempo a obscenidade da linguagem não era consequência immediata de 
uma vida ob.scena e desbragada, e nos assumptos mais graves, mais sérios i' 
mais dignos, o emprego de uma palavra li\re ou de uma tigura indecente não 



328 HISTORIA 

ei'a considerado como um ultraje aos ouvidos castos, ou às consciências ho- 
nestas. Para se apreciar bem o que era a prostituição parisiense em fins do sé- 
culo XV, jjasta extraliir dos sermões de Olivier Maiiíard e de Miguei Menot o 
que alli se diz a respeito dos iierdeis, das prostitutas, dos libertinos, e de to- 
das as impurezas e infâmias que elles censuram aos seus contemporâneos. 

^'as citações que vamos fazer, servir-nos-liemos do estylo elegante de 
Henrique Estienne, quetraduziu um grande numero d'estas passagens na sua 
Introdacção ao traclado das maravilhas antigas e modernas, ele. 

Estienne, como bom protestante que era, attribuia malignamente ao ca- 
(iinjirismo as liberdades e indecencias dos seus pregadores, sem se lembi'ar 
que l.utbero e Caivino, tanto nos seus sermões como nos seus escriptos, não 
guardaram maiores reservas ao descreverem os excessos da Grande Prostituta 
Romana. 

Comecemos pelos logares de libertinagem: 

«Ha prostitutas em todas as ruas de Paris». Maillard. (Jnadrat/. serni. 23. 

N'outro logar (|ueixa-se dos proprietários, dizendo : 

«Alugam as suas casas ás prostitutas e aos alcoviteiros dos dois sexos. 
Em tempos, o rei S. Luiz mandou construir fora da cidade uma casa para as 
mulheiTs publicas. Actualmente ha Ixji-deis por todas as esiiuioas das ruas.» 

l)irigindo-se aos magistrados, para os exbortar a rumprir a antiga dis- 
posição do santo rei, diz: 

«O que é feito das ordenações de S. Luiz? O santo rei [wescreveu que 
nunca os bordeis estivessem perto dos collegios e casas de educação, e agora a 
primeira cousa que os estudantes encontram ao sahir das aulas, é o bordel.» 

lí ataca oulra vez ainda os proprietários, (|ue apenas cuidam de obter 
bom alugueres: mas, ao mesmo tempo confessa que se as riltaldas fossem ex- 
pulsas das grandes cidades, a libertinagem seria muito mais escandalosa. 

Menot accrescenta que não havia apenas bordeis estacionários e regula- 
mentados, masque a libertinagem estava em toda parle, e não havia casa alguma 
izenta de impureza. Tanto nas cidades como nos subúrbios, não se via outra 
mercadoria senão mulheres publicas! Esta mercadoria era de todas as edades 
e de todas as condições. Velhas e novas, casadas e solteiras, criadas e amas, 
todas faziam o (|iie o pregador chama lurruni rorporis, tra(i<;o do seu corpo. 

As tabernas e as estalagens eram n'es(e tempo, como sempre, albergues de 
prostituição. Miguel Menot põe najsoca dos rapazes casados.de fresco estas pa- 
lavras: 

«Sabeis qne não podemos trazer sempre as nossas mulheres atadas á cin- 
tura, nem mettidas na manga, e todavia a nossa juventude não pode passar 
sem mulheres. Entramos nas tabernas, nas hospedarias, nos banhos e n'outros 
togares onde encontramos raparigas liabeis no seu oHicio e (|ue se dão por pouco 
dinheiro. Será por ventura um mal servimo-nos -.i'ellas como de nossas mu- 
lheres?» 

Os banhos pubiicíjs s(M'viam também |)ara estes encontros amorosos. Mail- 
lard falia d'elles muitas vezes, e no sermão De peceati stipendio diz ao seu 
auditório : 



DA PROSTITUIÇÃO 329 

«Senhoras, não vão aos banhos, e não façam n'elles o que sahem.» 

As egrejas, que a prostituição não respeitava melhor do que as tabernas 
ou os banhos, eram ás vezes eomo que uma succursal dos bordeis. 

«Se as columnas das egrejas tivessem olhos, exclama Maiiiard, o vissem 
o que se passa em redor d'ellas, se tivessem ouvidos para ouvir, e ptdessem 
fallar, o que diriam ? De mim confesso que o não sei, mas, reverendos sacerdo- 
tes, o que me dizeis a isto?» (Quadrag. Serm. II.) 

Encontra-se etTectivamentc em todos os penitenciaes antigos a designa- 
ção especial do peccado de luxuria commettido n'unia egreja, ou durante os 
officios, ou depois das ceremonias de culto, o que estabelecia muitos graus 
n'este peccado e na sua penitencia. Maiiiard admirava-se até de que os santos 
sepultados nas egrejas, onde taes abominações se conimettiam, não se erguessem 
dos seus túmulos para arrancar os olhos aos libertinos e ás suas infames ri- 
baldas. Nem Maiiiard, nem os outros pregadores do seu tempo, nos dão circums- 
tanciados pormenores a respeito das ribaldas de profissão. Apesar de as deno- 
minar vis meretrizes, não dei\a de se compadecer d'ellas: 

<\0h pobres peccadorasl exclama eile. Oh mulheres mundanas, que vi- 
veis como os cães (socim canum), não sejaes duras de coração; convertei-vos, 
convertei-vos!. . .» 

N'outro logar, exhorta-as a voltar para Deus com os seus cúmplices de 
libertinagem, para não perderem as suas almas nas delicias do mundo: 

«Oh peccadoresi Oh companheiros d'essas desgraçadas! Rogo-vos, em 
nome de Jesus-Christo, que não deixeis perder a alma nos deleites munda- 
nos ! . . . » 

N'()utro sermão intima-as a converterem-se, chamando-lhes filhas do 
diabo. Dirige-se também ás cortezãs, que occultam a sua vergonhosa profissão, 
exerccndo-a secretamente (vos secretce meretrices quce facitis pejora publica), 
Vê-se que mostra um sentimento de caritativa compaixão para com estas des- 
graçadas victimas da sensualidade. 

(Juanto aos agentes da prostituição, mostra-se implacável, denunciando-os 
ao ódio e desprezo das pessoas honradas e invocando contra elles todo o rigor 
das leis : 

«Estarão aqui os encarregados de fazer justiça? Pergunto-vos, magistra- 
dos, que castigos infligis aos corretores da prostituição n'esta cidade?» 

De outra vez dirige-se também aos magistrados, convidando-os a casti- 
gar a excitação á libertinagem : 

«Appello para vós, senhores da justiça, que não castigaes similhantes 
preversas», diz elle referindo-se ás mulheres perdidas que, depois de haverem 
traficado comsigo mesmo nos bordeis, traficam também com as outras, corrom- 
pcndo-as e vendendo-as, por assim dizer em hasta publica. O pregador eleva- 
se ás regiões da eloquência, quando exclama: «Se houvesse n'esta cidade, um 
homem que roubasse dez soldos, seria açoitado pela primeira vez. Se reinci- 
disse, cortar-lbe-iam as orelhas, ou qualquer outra parte do corpo. Se tornasse 
ainda a roubar, iria á forca. Dizei-me agora, homens da lei, qual é peior: Rou- 
bar cem escudos ou uma mulher?» 

BUTOBIA DA PROSTTTtnçÃO. ToMO n — FoLHA 42 



330 HISTORIA 

Esta passagem do sermonario confirma o que já aqui dissemos a respeilo 
do [irimeiro ollicio das maqiierelles. 

Ollvier Maillard é' implacável no seu zelo contra todos os seres infames 
que auxiliam a prostikiitjão e vivem á custa d'ella. Enche-os de vitupérios, 
aponta-os á aversão de todos, procura-os com os olhos c designa-os até mesmo 
com o gesto, no meio de um auditório eommovido pelas suas palavras ardentes. 
«Dizei-me agora, mães, incitaste vossas filhas ao peceado? E vós, mu- 
lheres, com os vossos contractos impudicos impelliste outras mulheres á abo- 
minação? E vós também, oh maquerelles ! o que tendes a dizer a este res- 
peito?» {Sermon., 37.) 

As mulheres a quem o zeloso franciscano se dirigia, baixavam a cabeça 
de envergonhadas, e procuravam fugir d"esta penitencia publica, que tanto as 
fazia soffrer, arrancando-lhes a mascara. 

Chega a pedir que as esfollem vivas, a essas impudicas proxenetas! í)es- 
crcve-as como inspiradas pelo demónio e não occulta que são quasi tão nume- 
rosas em Paris como as desgraçadas a quem procuram incessantemente cor- 
romper. 

Mas, no meio d'esta multidão de vis creaturas, quem elle mais detesta e 
abomina são as mães que [irocuram a prostituição de suas filhas, sob o pretexto 
de lhes arranjarem um dote. A essas entrega-as o pregador sem remissão ás 
chammas do inferno. 

Lança os olhos em torno de si por todo o auditório, como que para des- 
cobrir algumas d'essas mães desnaturadas, c o auditório commove-se e espera 
anciosaraente o anathema: 

«Ha, diz elle, entre vós muitas mães que vendem suas próprias filhas: 
c essas infames prestam-se a ser as alcoviteiras das innocentes, obrigatido-as 
a ganharem o dote com o suor dos seus corpos!» 

Era mister que essa pnislituição infame fos.se muito fre(|uente por essa 
épocha, por isso que os pregadores não se cançam de a analhematisar. Mcnot 
denuncia-a quasi nos mesmos termos de Maillard : 

«.As mães, diz elle, condemnam suas filhas com os exemplos que lhes dão, 
com a inclinação ao luxo o ás vaidades que lhes fazem crear, e com a dema- 
siada liberdade que lhes c(mcedem. E o que c peor ainda, o que declaro com 
as lagrimas nos olhos, meus irmãos, c que chegam a vender as suas filhas aos 
corretores da prostituição!» 

Todos os pregadores estão de accordo sobre esta horrível exploração das 
filhas por seus pães. Maillard diz expressamente a estas mães de familia: 

«Mães que daes a vo.ssas (ilhas roupas e vestidos abertos e decotados, 
para que ellas possam ganhar indecentemente o seu dote!» 
E aos pães de familia : 

«E vós também para que daes a vossas filhas, senão para as prostituir- 
des, vestidos indecentes, e para que as pintaes como ididos ?>> 

Tudo quanto de perlo ou de longe se referia ao trafico da prostituição 
merecia as censuras, ás vezes pessoaes, do pregador, que fulminava n vicio 
do alto da cáthedra evangélica. Assim, dejiois de haver marcado com um ferro 



n\ PROSTITUIÇÃO nni 

om braza as mães proxenetas, Maillanl volta-se para as damas que n'aquelle 
momento estavam cocliichando umas com as outras, e diz-lhes: 

«Senhoras, não sois também do numero d'aquellas que fazem ganliar o 
dote a suas filhas com o suor do seu corpo?» 

As mulheres publicas rofíavam-lhc que não se occupasse d'ellas c que 
tomasse antes á sua conia os barbeiros c os boticários, por exemplo. 

«Já vos disse, f^ritava o ind imavel Maillard que certa dama que parece 
recatada c uma mediadora de lihertinafícm, c muitas outras ha não conhecidas 
e que eu igualmente vos denunciarei!» 

Os sermões d'este terrível franciscano produziam tal clíeito no mundo 
da libertinagem, que as prostitutas costumavam dizer aos seus frequentadores: 

— Já ouviste o pregador? Receio que vocês todos se mettam a fiades e 
preguem também contra as mulheres! 

Estes sermões dão-nos a entender que n'aquella époeba os alcoviteiros 
não eram menos perigosos do (|ue as suas vis competidoras no degradante 
otficio. O pregador ataca sem cessar os alcagoles que os ricos, os membros do 
parlamento, os clérigos e os cónegos empregavam no serviço dos seus amores 
illicitos. Em muitas passagens vè-se que as prostitutas tinham lonieredores, 
que anilavam pela cidade em procura de frcguezia. 

«Meretrizes, diz elle no seu sermão 43, os vossos acarretadores de fre- 
guezes procuram-vos por toda a parle os mais ricos, ou aquelles por quem vos 
sentis mais inclinadas.» 

N'oulros logares chama-os procuradores. .4inda assim, não lhes attribue 
toda a responsabilidade do peccado, pois reprehende o penitente que quer des- 
culpar a sua falta, lançando-a á conta ({'esses miseráveis traficantes de carne 
humana: 

«Não lance á conta da consciência do intermediário o peccado de luxu- 
ria aquelle que por obra d'elle possuir uma rapariga.» 

Aconselha os intermediários a arrependerem-se dos seus peccados para 
evitarem a condemnação eterna. 

«Ouvi, oh pobres peccadores, hlasphemadores, usurários e alcoviteiros, 
e vós também, oh vis meretrizes! não temeis ser condemnados?» (Serm. I.) 

Miguel Menot refere-se muitas vezes também nos seus sermões a estas 
intermediarias da libertinagem, e nem sequer as exborta á emenda dos seus 
crimes, como se estivera convencido da sua impenitencia, e condemna-as sem 
remissão a todas as penas do inferno. Eis como as trácia : 

«A alcoviteira que pòz muitas raparigas no olíicio irá fatalmente a ga- 
lope para as profundas do inferno. E será tudo? Não, peccadora endurecida, 
não será isto só! Em punição dos teus crimes, todas as que excitas"te ao mal 
te servirão de carrascos e hão de queimar-te o corpo maldito!» (Serm. qua- 
ilnuj. 2) 

Olivier Maillard, no seu sermão pregado em Saint-Jean-en-Grève, no pri- 
meint domingo do advento, faz-nos uma curiosíssima descripção do papel que 
desempenhavam os alcoviteiros nos negócios em que tomavam parte. Diz (|ue 
um dVstes agentes da prostituição (aliqui.i maquerellus) foi encarregado de 



332 HISTORIA 

levar da parte de um magistrado um formoso annel a qualquer filie de joie, 
que quizesse acccitara prenda j relril)uil-a com o seu corpo. São cinco as que 
o agente infame vae procurar, por llie parecer que estão no caso. A primeira 
é picarda, a segunda, poitevina, a terceira, da Touraine, a quarta, lyoneza e 
a quinta, parisiense. O alcoviteiro vae a casa da primeira e bate á porta : 

— Traz! Trazl Traz! 

— Quem é? pergunta a criada, vindo á janella. 

— Abre, responde o mensageiro, e diz a tua ama que sou criado do res- 
peitável senlior Fulano, e que preciso fallar-lbe. 

A criada vae dar parte á ama, e volta no mesmo instante, dizendo ao 
alcoviteiro : 

— Minlia ama não recebe recados de ninguém. Pôde retirar-se. 

«Esla mulber é virtuosa!» exclama o pregador. 

O mensageiro da luxuria do magistrado vae bater á porta da poitevina. 

A criada abre a porta e apresenta-o a sua ama, que lhe responde : 

— Diga a seu amo que eu não sou quem elle pensa. (Uiciíe mayi^tru 
vesiro quod non sum de illis.) 

«Esta segunda mulber é também virtuosa, diz o pregador, mas muito 
menos que a primeira.» 

O mensageiro vae a casa da terceira, entra e mostra-lhe o annel : 

— Que bonito! exclama a rapariga. Gosto muito d'elle I 

— Pois se o quer, será seu, diz-lbe o enviado. 

— Não, que receio que meu marido o saiba. 

«Esta mulber é má, exclama o pregador, porque o mal consiste na in- 
tenção, e é só o receio do escândalo que a impede de passar a vias de 
facto.» 

O alcoviteiro é ainda mais amavelmente recebido pela terceira, que Ibe 
diz : 

— O annel é bonito, não ba duvida, mas meu marido é muito ciumento, 
e se soubesse o que me pedem far-me-bia os ossos n'um feixe; porisso, não 
posso fazer a vontade ao senhor Fulano. 

«Esla mulher, diz o pregador, não acceita, mas é o receio do castigo que 
a impede e não o temor de Deus.» 

O mediador vae por fim a casa da ultima que nasceu em Paris e em 
Paris tem vivido. Esta acceita logo, guarda o annel e diz ao alcoviteiro : 

— Diga a seu amo que meu marido vae para fora na quarta-feira, e 
nesse dia irei visitar o senhor Fulano. 

«Esta mulher, diz Olivier IVlaillard, é a peior de Iodas quatro.» 

A etoíjuencia dos pregadores, troveja indignada contra a incontinência dos 
sacerdotes e religiosos, e comprehende-se que, ao apontarem as impurezas e es- 
cândalos do clero regular e secular, se submettiam á opinião commum. Tão 
vergonhosa e depravada era n'aquella épocha a conducla de uma grande parte dos 
eccicsiasticos, que fechar os olhos a esle respeito, seria o mesmo que approvul-a. 
Olivier iVIaillard é inílcxivelcom a gente da lígreja, (|ue tem concubinas de porias 
a dentro ou que l're(iuenla as mulheres publicas, e chega a dizer que os i)is- 



DA PROSTITUIÇÃO 333 

pos e sacerdotes que entram em casas de pessoas honestas deslionram todas as 
mulheres que as habitam. A cada instante talla em sacerdotes cunciibinarii e 
fornicara e verbera asperamente as mulheres que se abandonam a clérigos e 
frades, (lo*, mulieres, quiv Jalis corpus vestriiin curialibus, monachis, pres- 
byteris. Serm. 36.) 

.\nathematisa os que passam a noite com mulheres, e vão em seguida 
dizer missa; os que dão presentes ás prostitutas; os que dão objectos de ouro 
ás penitentes, obrigando-as a ganhar estes presentes com o suor do corpo; os 
que fyzem dos seus inferiores agentes de prostituição : os que nos banquetes 
faliam obscenamente; os que .se encarregam do dote das raparigas casadouras, 
e finalmente todos os que commettem abominações. 

Miguel Menot não é menos explicito a respeito dos excessos dos eccle- 
siasticos. Prohibe que a eucharistia seja ministrada ás amas dos padres, que 
não são senão suas concubinas. Falia de muitas raparigas seduzidas pelos pa- 
dres, (|ue as encerram ás vezes um anno inteiro nas suas residências. 

U mesmo pregador diz ainda n'outro logar que quando os homens de 
armas entravam nas povoações, a primeira coisa que procuravam era a amiga 
do parocho. E a respeito dos prelados accrescenta que devia fazer-se um pre- 
gão, aconselhando a todas as mulheres que se acautellassem d'elles, porque 
além das que tinham em casa, era grande a freguezia d'ellas por toda a cidade, 
e tinham um prazer especial em enganar maridos. Não havia casa rica (lúe não 
tivesse o prelado por compadre, e succedia quasi sempre que o marido tomava 
por compadre o que já era pae, sem o pobre homem desconfiar. 

Os pregadores são muito mais reservados, quando faliam dos costumes 
dissolutos de certos conventos de mulheres, mas em todo o caso dizem o bas- 
tante para se adivinhar a prostituição que n'elles havia. 

«Theodorico de Niem, diz Duiaure na sua Historia de Paris, conta 
que os conventos de freiras eram uma espécie de serralhos para uso dos bis- 
pos e dos frades; d'esta libertinagem resultavam filhos que se faziam também 
frades. Algumas religiosas tomavam remédios para abortar e outras matavam 
os filhos.» 

Olivier Maillard dizia com toda a razão: 

«.\nles não tivéssemos ouvidos para ouvir os lamentos das criancinhas 
arremessadas ás latrinas ou aos rios !» 

Grande devia ser por certo a desmoralisação, visto que o próprio Mail- 
lard nem sequer ousava fallar dos incestos e outros peccados de luxuria, que 
censurava aos seus contemporâneos: 

«Callo-me, diz elle, callo-me a respeito dos adultérios, dos estupros, dos 
incestos e dos peccados contra a natureza.» 

Gabriel Barletta, que não foi mais do que um echo de Maillard e .Menot 
na Itália, é menos reservado n'este ponto quando diz aos seus compatriotas: 

«Oh ! Quantos sodomitas e ribaldos vemos por ahi ! Que o exorcismo im- 
peça a lingua do sodomita, que faz torpezas com as crianças. . . Destruidores 
da natureza, malditos sejaes vós ! Maldito seja também o que não cohabita com 
sua mulher pela via natural ! Maldito seja o que faz torpezas com os animaes!» 



33 i HISTORIA 

Barlclla satyrisava do púlpito os vicios de seu tempo, e fazia trocadilhos 
espirituosos, tars como este : em vez da palavra carnalitate.i, significando im- 
puresas rarnnes, empregava carãinaUtales, rcferindo-se aos cardcaes, a quem 
accusava principalmente d'esto género de acções lihidiíiosas. 

Maillard esforç-a-se também por verberar as impurezas carnaes, mas não 
ataca ninguém em particular. Limita-se a accusar os ribaldos de viverem como 
os porcos. «l''o,s qui vkntis sicut. porei.» {Serm. 57.) 

O íamoso pregador envergonba-se do seu século, e exclama indignado : 

«Deus meu, Deus meu ! Eu creio que desde que o Verbo se fez homem 
e desceu a este mundo de iniquidade, nunca houve tanta corrupção de costu- 
mes, como a que n'este momento reina em l'aris í» 

Os progressos da prostituição conslituem uma consequência inevitável dos 
progressos do luxo. A causa do mal foram a garridice e a vaidade. As mulheres 
entregavam-se escandalosamente a estas duas paixões perigosíssimas, e ])ai'a 
occorrerem ás despesas dos atavios frívolos e ás phantasias e extravagâncias 
da moda, deram-se a todos os vicios, mercadejando ignohilmenie com ns seus 
encant' s. 

" Direis lalvez, senhoras, exclama Maillard justamente indignado, que vos- 
sos maridos não vos dão o suíiicienie para as dcsjjczas com as modas, e por 
isso tendes necessidade de o adquirir com o trabalho dos víjssos corpos. Pois 
em verdade vos digo que leve o diabo tal trabalho, senhoras!» 

A historia fios costumes prova-nos que sem[)re o lu\o c a prostituição 
estiveram na rasão directa. 

Lu.ro e luxuria são irmãos, dizia o padre André, num dos seus celebres 
sermões jocosos. 



CAPITULO XXIX 



SUMMARIO 



A ríiiti', pschola dos ciistunirs do povo. — Propensão dos iie(|ueiios para imitaiein os grandes. — Malícia do 
vulso. — Branca, mãe- de S. Luiz e Tliiliaut, et Dcto de Clianipapne. - Canção dos esludanU-s de Paris a respeito do 
Núncio. — A côi le de França no leinpo dos suecessores de Luiz i.\. — Canção da Torre de Nesle.— Corte -virtuosa de 
Carlos V —Depravação da corte de Carlos vi —A luxuria no torneio de Saiut-Deuis.— Galeria dos retratos no palácio 
Harbetle.— As inascaias e os vestidos injpuilicos.— (I baile rios A!dente,'-..-Os dois Agostinhos do palácio de Tour- 
nelles.- Os sermões de Jaci|ues Legrand.- Cólera de Izabel du Baviera e da sua corte.— Castigo dos seus favoi itos e 
de seus cúmplices. — Odette.—ds amores rio riu-^pie d'Orleans — O senhor de Canny e sua mulher.— A corte de Carlos 
vil e as suas diversões.— A menna de Fromerileau.— Ignt-z Rorel salva o rei de Fi-an>;a com ura bom conselho.— Uma 
([uadra de Kiancisco i.— Os parisienses iusullam a citncubiua do lei — As mascaradas da côite. — A lesta dos Loucos 
e as ta)'ia(0)-ín,'.-.— Decretos contra as mascaras. —A lesla de Conaidie. — O dia dos Innocentes.— Costume oiigiual 
—Um epigramma de iMarot. — Libeitinagem esfuiiluosa. — Ariivinliaçnes amorosas.— Costume indecente da noite nu- 
pcial.— O casamento de Hercules de Kste com lienata de Krança- // horior delia ciladella.~0 pelourinho do ma 
triíiionio. 




'oitTKds tempos a fòrt(> de França era, segundu uma expressão 
eonsa^írada, a eselioln dos coslumes do povo. Era o incentivo e 
o modelio, tanto do mal como do bem, corrom|)endo com o seu 
exemplo, ou depurando também a moral publica. Todos os que 
ncão participavam das prerogativas da nobreza tinbam continua- 
mente os oibos filos na eonducta dos grandes, procurando imital-os cm tudo, 
para se assimiihareni o mais possível á casta privilegiada. Se a prostiluiyão en- 
trava na corte, espalhava-se logo em seguida pela cidade, o mais descarada- 
mente possível. Eis o motivo por que as épochas mais dissolutas Ibram sem- 
pre aquellas em que a licença e a depravação da eòrte tiveram uma íunesta in- 
fluencia nos costumes do paíz. 

A' vista d'isto, comprebende-se bem todo o rigor com que o soberano 
devia velar pela manutenção da decência e da lionestídade no interior de sua 
casa, porque era até certo ponto responsável pelos escândalos que tão funes- 
tos resultadss costumavam produzir. Os povos eram sempre propensos a imi- 
tar os vícios de (|ue eram testemunbas. 

Verdade seja que a calumnia, prompta a espalliar o seu veneno sobre 
tudo quanto é brilbante, feria ás vezes injustamente algumas reputações irre- 
prcbensiveis. (".omtudo, se isto era suiricíente para entreter a malícia do vulgo, 
não bastava ainda assim para a auclorisar a entregar-sc a excessos que o pró- 
prio vulgo condemnava como vergonhosas excepções. 



336 



HISTORIA 



Assim, na corte de Luiz ix, cujos costumes eram tjío exemplares como 
o exigia a rigidez de caracter do santo rei, a calumnia não deixou de enlamear 
a boa reputação de sua mãe, e não obstante, não foi Thibaut, conde de Cham- 
pagne, quem assim desacreditou a rainha Branca de Castella. 

Toda a gente sabia que a paixão do conde galanteador não oftendia de 
modo algum o leito conjugal de Luiz viii, porque esse amor não passava de 
uma phantasia innocente do poeta, que escolhera para dama dos seus pensa- 
mentos a rainha. Em honra do elevado objecto dos seus amores platónicos, o 
moço conde compunha canções apaixonadas, que fazia escrever nas paredes 
dos seus castellos de Troyes e de Provins, e elle próprio as cantava, acompa- 
nhando-se do seu alaúde. Tudo se limitava apenas a isto, e o povo sabia-o 
perfeitamente. 

No emtanto, a rainha Branca, apesar de toda a sua piedade, tinha na 
opinião de muita gente relações menos platónicas com o cardeal legado de Roma 
na corte de França, e os estudantes da universidade de Paris, que tinham al- 
guma razão de queixa da intervenção da cúria nas suas (luestôes com a auclo- 
ridade ecclesiastica, vingaram-se do cardeal legado, dedicando-lhc este dístico, 
que Mathieu Paris nos conservou na sua chronica : 

Heu ! nuirinnir strati, cindi, mersi, spoliuli ! 
Mentula Legati noa facit islã pati! . . ■ 

Os suppostos amores do legado com Branca de Castella não produziram 
elleitos mcraes funestos sobre o povo, que tinha diante dos olhos, como um 
imponente contraste, a circumspecção e honestidade do joven monarcha, a se- 
veridade das suas ordenações e o virtuoso exemplo da sua corte. 

No reinado dos successorcs de Luiz i\ a corte de França conservou as 
tradicções de honestidade, que devia especialmente ao reinado d'este piedoso 
monarcha. Os differentes reis que se succederam desde Fiiippe, o Atrevido, até 
Carlos V, tiveram como ponto de honra, segundo uma antiga expressão, não 
empanar a esplendida pureza dos Lizes, e foram, senão austeros nos seus cos- 
tumes, pelo menos extremamente rigidos a respeito dos costumes da corte. As- 
sim, vimos já Fiiippe, o Famoso, implacável para com as suas três noras, as 
heroinas da Torre de Nesle, e a prisão d'estas princezas, seguida de um pro- 
cesso á porta fechada, demonstrou ao povo que o manto das tlores de liz não 
se havia feito para capa da prostituição. 

Fiiippe, o Formoso, dava assim, á custa da sua própria familia, satis- 
fação aos sentimentos moraes dos seus vassallos, que perpetuaram a recordação 
das horríveis desordens de Margarida de Borgonha n'uma canção, que ainda 
em nossos dias anda na bocca das amas de meninos. Conta-se que os estu- 
dantes, ao passarem defronte da Torre de Nesle, quando iam ao Prr-aux- 
Clercs, sitio habitual dos seus passeios e diversões, cantavam em voz baixa 
este estribilho : 

Iji tour, prends garde de te Iniaser nbnttre! 
O qUe quer dizer: Torre, cuidado, não te deixes derribar! Não obstante, 



DA PROSTITUIÇÃO 337 

aquella famosa loriL', tlioafrn das or^'ias de três priíicezas, ou do nina so, (|iie 
a historia não averiguou ainda heni este ponto, não foi derriliada aló niciados 
do século xvii. 

A corte de (".arios v não foi menos lionesfa que a de S. Luiz, e deve 
crèr-se que exerceu salutar intluencia sobre os costumes públicos. O prudente 
nionarciia não só teve cuidado em manter n'ella as virtudes que emanam da 
nobreza do coração, mas quiz até que as damas de Paris tivessem frequentes 
relações com as damas da corte, atim de que se tornassem mais perfeitas, (>s- 
forçando-se mutuamente em progredir no caminho do bem. 

Chrislina de Pisan diz que as mulheres de estado de Paris eram convi- 
dadas para o palácio de Saint-Pol, quando o rei ou a rainha alli se apresen- 
tavam em plena corte. A soberana, que era bella, boa c allavei, rccebia-as 
attenciosamente. Dançava-se, cantava-se, e em seguida havia um alegre ban- 
quete, passando-se tudo na melhor ordem e decência, em conformidade ccmi 
os costumes severos e honestos do monarcha. 

O historiographo dos feitos e costumes de tlarlos v faz-nns observai- ([ue 
da nobreza do coração mascem os bins costumes e as acções virtuosas, a abs- 
tenção de todos os hábitos e acções vis, a abundância das graças, o louvor, a 
honra, a cortezia, o amor, a caridade, a paz e a tranquillidade. 

Por morte d'este rei, porém, o aspecto da corte mudou subitamente, como 
se o pudor e a castidade houvessem descido com Carlos v ao sepulchro. O jo- 
ven rei Carlos vi, sobretudo seu irmão Luiz, duque d'Orleans, estavam sedentos 
de prazeres e eram favorecidos nas suas prcversas disposições por seus tios, os 
duques d'Anjou, de Bourbon, de Borgonha e do Berry, que haviam supportado 
com violência a t\ rannia moral de seu virtuoso irmão. Opinam todos os histo- 
riadores que a prostituição pareceu haver-se desencadeado na corte de França 
desde o casamento de Carlos vi com Isabel de Baviera. Já falíamos das espan- 
tosas loucuras que assignalaram o famoso torneio de S. Diniz em 1380. 

«Estas justas, segundo a pittoresca expressão de um contemporâneo, fo- 
ram scenas da mais espantosa libertinagem.» 

.\a ultima noite da festa todos se mascararam, e esta mascarada deu lo- 
gar a scenas incríveis. Começou-se por posições indecentíssimas, e afinal pas- 
sou-se á realisação de verdadeiras loucuras. Segundo um chronista, não houve 
ninguém, tanto homens como mulheres, que não tivesse a sua aventura obs- 
cena. 

«E' fama, diz .loão Juvenal dos 1'rsi