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Full text of "História geral dos jesuitas, desde a sua fundação até nossos dias. Coordenada por T. Lino D'Assumpção e illustrada sob a direcção de Roque Gameiro"









'^Êt- 







^^^ 




^ISTORIA GERAL 



DOS 



J ES U ITAS 



DESDE A SOA FUNDAÇÃO ATÊ NOSSOS DIAS 



Coordenada por T. LINO D'ASSUMPÇÃ0 



Jllustrada sob a direcção de roque Gameiro 



Livraria GUIMARÃES S C. 

<>S - r<UA DO MUNDO - 70 
LISBOA 



HISTORIA GERAL 



DOS 



J ESU ITAS 



HISTORIA GERAL 



[rOS 



jesuítas 



DESDE A SUA FUNDAÇÃO ATÉ NOSSOS DIAS 



Coordenada por^T. UNO D'ASSUMPÇÃO 



Illustrada sob a direcção DF ROQUE GAMEIRO 




LISBOA 
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL 

SOCieOArjK EDITORA 
LIVRARIA MODERNA Ij TYPOGRAPHIA 

(>5, Rua Augusta, gS 11 35, Rua Ivens, J-j 
MDCCCCI 




o fim da nossa instituição tiíío c 
outro senSo sepultar as más ac- 
ções, e afastal-at do conhecimento 
dos homens. 

Mariaka 



ANTES de nascer o sol, no dia quinze 
d' agosto de mil quinhentos e trinta e 
quatro, stte homens, envergando trajos de 
mendigos, sacola ao hombro, cajado de ro- 
meiro na mão, tinham subido a colina de 
Montmartre * e, depois de terem entrado por 
algum tempo na capella subterrânea da 
egreja, caminharam até o ponto mais alto 
da montanha a alguns passos da egreja e ahi 
pararam. 

\'oltando-se para o oriente, os seis ajoe- 
lharam, e durante um longo espaço de tempo 
concentraram-se num silencio contempla- 
tivo. 



' Montmartre foi chamado Mons Aíercurii, mons 
Martis, mons martyrum, isto é monte de Mercúrio, 
raonte de Marte, e monte dos Martyres. A origem 
d'estes diflerentes nomes vem de dois templos dedi- 
cados a Mercúrio e a Marte, e do martyrio de S. Di- 



Uma extensa linha de purpura destaca- 
va-se no horizonte; o vento, fazendo rama- 
Ihar a folhagem, annunciava o próximo des- 
pertar da natureza ; no ceu azul empallide- 
ciam as estrellas, c á medida que a sua luz 
se esvaía, a terra, saindo da sombra, reto- 
mava formas e colorido, imponente e visí- 
vel imagem da lei que rege tanto o mundo 
physico como o moral, tanto a vida como a 
morte, fazendo com que uma se succeda á 
outra por toda a parte e sempre. 

Novas gerações substituem as gerações 
extinctas ; o deserto torna-se habitado, as 
cidades convertem-se em solidão, c tudo o 



niz e seus companheiros, suppliciados, segundo reza 
a tradiíjão, n'aqueila montanha. Até ao d'outubro 
de iõi8 existiu ;illi um pedaço de muro com um ni- 
cho occupado por um idolo. 

Estes restos foram destruidos por um vendaval. 



HISTORIA GERAL 



que se engrandeceu cae ; tudo o que caiu 
surge. A sciencia, a gloria, o poderio, a luz 
e as trevas, as obras do homem e a obra de 
Deus, tudo nasce para morrer, tudo morre 
para renascer, nada ha que seja immutavel, 
nada que deixe de perecer ao nosso lado, de- 
baixo dos nossos pés c sobre as nossas ca- 
beças. 

A" direita d'aquelles seis homens, para 
além das planuras, que então a separavam 
da montanha, a cidade começava a dese- 
nhar-se no crepúsculo, e do seu recinto saia 
um rumor surdo e confuso, semelhante ao do 
mar longiquo. A' sua esquerda a abbadia de • 
S. Diniz ', onde o sino já chamava os fieis 
para a oração, erguia para os ares a sua fle- 
cha gothica, como se fosse um dedo immo- 
vel levantado para o ceu. Mas nem a cidade, 
nem a santa abbadia, nem esse sentimento 
de esperança que se apodera da alma reju- 
venescida a esta primeira hora do dia, os 
distraia do seu meditar. Nos seus rostos 
não se percebia a mais leve emoção. Ao 
vêl-os sem movimento, mudos, tomal-os-iam 
por estatuas .. . restos dispersos d"algum tem- 
plo pagão. 

O primeiro raio do sol dardejou por cima 
do horizonte como um farpão inflammadn ; a 
sombra recuou afugentada pela luz, e de todo 
deixou a descoberto tanto a planicie como a 
montanha. 

Um d'esscs homens exclamou: 

— Assim como o sol se apodera dos céus, 
assim nós nos apoderaremos dos corações c 
dos espiritosi 

Os companheiros sairam do recolhimento 
cm que se tinham ab3'smado e encararam-o. 
Elle continuou : 

— Seremos o facho da fé, que vae cami- 
nhando incerto e mal seguro na obscurida- 
de. Onde quer que penetrem os raios do sol, 

' 1'ma dama christã, chamada Calulla, recolheu o 
corpo de S. iJiniz e de seus dois companheiros S. 
Rústico e Santo Eleutherio, depois que foram mar- 
tyrisados, e lhes deu sepultura, sobre a qual se elevou 
uma ermida. Em 469, Santa Genoveva encontrando 
a ermida em ruinas fez alli construir uma egreja. 

Esia egreja sofTreu, com o andar dos tempos, va- 
rias ampliações e reformas, sendo a definitiva, e que 
lhe inspirou o caracter que ainda hoje conserva, a co- 
meçada por S. Luii em ia3i e terminada cincoenta 
annos depois. 



no paço dos reis ou na choça do indigente, 
na praça publica ou no lar domestico, ahi 
faremos ouvir a nosssa palavra. O mundo é 
nosso I 

— Assim seja! appoiaram os seis. Mestre 
ordenae e nós obedeceremos. 

Aquelle homem dizia a verdade, a sua exal- 
tação era justificada, qualquer que fosse a 
miséria e humildade da sua pessoa. P'ra um 
conquistador que faiava, prestes a realizar, 
melhor do que Alexandre, César, Carlos 
Magno, melhor do que todos os que até en- 
tão tinham dominado pela força e pelo fer- 
ro, o império universal. 

O mendigo que até então vivera de esmo- 
las, o fugido das prisões de Barcelona, o ro- 
meiro anonymo do Santo Sepulchro, o obs- 
curo collegial de Saiutc Barbe ia tomar 
posse do mundo, que tinha medido com a 
vista e subjugado com o pensamento. 

Era o apostolo d'uma nova religião, o ri- 
val de Christo, que vinha trazer á terra não 
a paz, a concórdia e a harmonia, mas a per- 
turbação, o ódio e a desordem universal. 

Os seis discipulos chamavam-se: 

Pedro le Fevre, 

F^rancisco Xavier, 

Jacques Laynez, 

Afionso Salmeron, 

Nicolau Bobadilha, 

Simão Rodrigues d Azevedo. 

O mestre era Igiiacio de Loyola. » 

Trazia na fronte e no olhar o extranho 
stygma mysterioso que indica ás multidões 
os homens nascidos para dominarem, os que 
attrahem os fracos e subjugam os fortes. Ti- 
nha em si o duplo poder do asceta enthu- 
siasta, e do politico paciente e astucioso, 
do illuminado e do legislador. Era senhor 
dos outros, porque o era de si próprio, por- 
que submettia os impulsos do seu coração 
aos seus cálculos, os seus cálculos ás suas 
inspirações, a carne ao espirito, o espirito á 
carne. 

Os seus companheiros eram outros tan- 
tos escravos, que não tinham outra vontade 
.senão a d'elle, que viam pelos olhos d'elle, 
tocavam pelas mãos d'elie, acredita\'am pela 
crença d'elle. 

Tendo-lhes estudado as almas, sondado 
as inlclliiíencias, guiava-os e transformava-os 



DOS JESUÍTAS 



3 



á sua vontade, como se trabalhasse em cera 
molle e obediente; e tão bem lhes lia no co- 
ração, como nos olhares. 

— Na presença de Deus, que nos ouve, 
continuou elle, façamos votos de Pobreza, 
Castidade e Obediência, e como complemento 
consagremo-nos ao serviço da Virgem Maria 
e de seu Filho morto na cruz. 

Os seus companheiros repetiram-lhc as 
palavras. 

— E agora o que nos convém fazer? per- 
guntou Francisco Xavier. 

— Levar palavra e ensino até os confins 
do mundo. 

— Eu atravessarei os mares*. 

— E a quem nos submetteremos ? disse 
Salmeron. 

— Ao papa. 

Jacques Laynez^ disse por sua vez: 

— E se os povos nos repelliremr 

— E" preciso convencel-os. 

— ^E se nos votarem o seu ódio? exclamou 
Rodrigues. 

— Antes solTrer o martyrio do que aban- 
donar a obra começada. 

— Explicae-nos o que seja a virtude da 
obediência, solicitou Le Fevre. 

— S. Gregório disse: «A obediência é a 
virtude que gera outras nas almas, e depois 
as conserva. Emquanto ella tlorir, estão as 
outras em flor . . . \'endo Christo o género hu- 
mano perdido e acabrunhado, em castigo da 
desobediência, fez-se obediente até soíTrer a 
morte na cruz...» Mais vale a obediência 
do que os sacrifícios. E assim é. Nos sacri- 
ficios é uma carne extranha que immolamos, 
na obediência é a nossa própria vontade que 
é immolada, e quanto mais importância ti- 
ver esta parte da nossa alma tanto maior 
será o preço do sacrifício que delia faremos 
pela obediência a nosso Senhor e Creador '. 

— E se a minha vontade se rebellar? obje- 
ctou Salmeron. 

— Despoja-te d'ella absolutamente. 
E depois, menos áspero: 

— Essa liberdade que o Creador nos ou- 



' Ignacio de Loyola, tempos depois, enviou Fran- 
cisco Xavier ao extremo oriente. 

* Jacques Laynez foi o segundo geral da ordem. 

• Carta de Ignacio de I.oyola sobre a virtude da 
obediência. 



torgou, convém que lha entreguemos de 
todo em todo, consagrando-a na pessoa dos 
seus ministros. Assim como os corpos celes- 
tes reagem uns sobre outros e reciproca- 
mente se encadeiam, de tal sorte que o as- 
tro inferior depende do superior por uma 
espécie de accordo e de hierarchia, assim 
também entre os homens; e visto que a au- 
ctoridade de um faz agir o outro, o que se 
consegue por meio de obediência, é preciso 
que aquelle que depende de outro seja um 
fiel e obediente servo, afim de que a força 
do que manda passe n'elle e o anime. 

Os seis homens achegaram-se de Igna- 
cio, para não perderem uma única das suas 
palavras. 

Elle continuou: 

— Tendes três meios para obter esta com- 
pleta obediência : o primeiro é de ver na 
pessoa do superior um homem não sujeito 
ao erro e ás misérias da vida, mas o próprio 
Jesu-Christo ; o segundo é de procurar cons- 
tantemente, e com cuidado prohibir a si 
próprio o que foi dito e ordenado pelo su- 
perior, e jamais o censurar; o terceiro é fi- 
gurar-se que tudo o que ordena o superior, 
é a vontade irrevogável de Deus. 

E, como elles parecessem atterrados pelo 
abysmo que se lhes abria aos pés, Ignacio de 
Loyola continuou : 

— Foi assim que fez Abraháo, quando re- 
cebeu ordem de immolar seu próprio filho '. 

E, saindo-lhe as palavras n'um jorro elo- 
quente, continuou : 

— A obediência da execução consiste em 
fazer o que fôr mandado ; a obediência da 
vontade, em não ter outra vontade que não 
seja a daquelle de quem se recebem as or- 
dens ; a obediência da intelligencia, em pen- 
sar o que pensa o superior, e em ter como 
bem mandado tudo quanto elle mandou. E 
todos fiquem convencidos: que os que vivem 
na obediência devem-se deixar levar e con- 
duzir, segundo a divina vontade, pela mão 
dos seus superiores, como um cadáver que 
se deixa voltar em todos os seutidos; ou 
ainda como o bordão que serve para tudo 
ao velho que a elle se arrima*. 

' Carta de Santo Ignacio sobre a obediência, 
í Constituições dos jesuitas 



HISTORIA GERAL 



Mestre, disse Frvincisco Xavier, antes 
da nossa separação, dae-nos o livro mys- 
tcrioso, que escrevestes dictado pela Vir- 
gem. 

Ignacio abriu o alforge, e tirou de dentro 
seis livros que distribuiu a seus discipulos. 

Cada qual o recebeu com respeito, beijou 
com amor, e collocou sobre o coração. 

Loyola, que voltava para Hispanha, mar- 
cou-lhcs novo encontro para dalli a dois an- 
nos em \'eneza. 

Depois desceram a montanha pelo mesmo 
caminho, e encaminharam-se para o sul. 

Uma nova epidemia se espalhava pela 
terra. 

Ignacio de Loyola, ficando só, e vendo-os 
descer: 

— Ide, disse elle, ide com as minhas ins- 
trucções, mas não com o meu pensamento. 
Sois o campo onde lancei a semente que vae 
germinar. Tive mais ardentes visões do que 
as vossas ; outros êxtases que me arrobaram 
da terra ; paixões mais incandescentes que 
me agitaram o coração ; pois visões, êxtases 
e pai.xões tudo submetti e domei. Ide e pré- 
gae. Ide e ensinae ; visto que vos desliguei as 
linguas, e vos insuHei tanto o meu espirito, 
como a minha vontade. 

E sentousc no declive da montanha que 
olha para a cidade. 

O ceu, que se mostrara puro ao nascer 
do sol, tinha-se coberto de espessas nuvens, 
o vento soprava com violência, torcendo as 
arvores, e Paris quasi que se sumia nas nu- 
vens de poeira levantadas pelo vendaval. 

Outro qualquer teria procurado um abrigo 
contra a tormenta ; mas elle sentia um par- 
ticular prazer em assistir áquella lucta dos 
elementos. O demónio do orgulho mostra- 
va-lhe, nas convulsões da natureza, a imagem 
da grande desordem moral, que elle ia des- 
encadear sobre a terra. E^ntão estendia a mão 
para a cidade como para uma presa, e o seu 
espirito, tomado de monstruosa vertigem, 
abysmava-se na contemplação do seu futuro 
poderio. 

Estava só, e comtudo repentinamente ou- 
viu uma voz que lhe falava, quer viesse do 
alto trazida pela tempestade, quer fosse a 
da própria consciência que se revoltava. 



Dizia-lhe a voz: 

— Foste um brioso capitão; porque tro- 
caste o talabarte pelo burel e depozeste a es- 
pada : 

E elle respondeu : 

— Porque tanto a minha força não estava 
na espada, que a metralha m'a quebrou no 
combate. 

— Tu amaste os prazeres da terra, as ale- 
grias da riqueza, o sorriso das mulheres; 
porque renunciaste a tudo isto? 

— Porque era escravo de tudo isso I 

— Percorreste a terra mendigando o teu 
pão, atravessaste o mar, adoraste o sepui- 
chro de Christo, e ahi magoaste o peito. 
Porque perdeste o santo fervor do romeiro 
c a humildade da fé ? 

— Porque a fé desapparcccu do coração 
dos homens, e os exércitos já não marcham 
á voz dos peregrinos. Outr'ora teria mostra- 
do á Europa o caminho da Ásia; teria im- 
peilido sobre o oriente as multidões do oc- 
cidente ; mas esse tumulo não passa d'uma 
ruina, o sangue das nações já não se derra- 
ma nos logares desertos, mas exgota-se por 
outras conquistas. Teria sonhado um novo 

*mundo, e ter-me-ia lançado á procura d'el- 
le, mas Christovam Colombo veiu antes de 
mim. Teria talvez abalado no seu throno o 
bispo de Roma; mas Luthero precedeume. 

— E para que pensar em coisas taes ? para 
que phantasiar tão grandes destinos ? 

— Porque o espirito que me anima me 
destina a reinar. Não posso cingir a fronte 
com a coroa dos reis, e a do martyrio anda 
pisada a pés. As grandes coisas que deviam 
renovar a face da terra foram já realisadas 
por outros. Por meu lado saberei deter o 
movimento que vae impellindo a terra para 
o futuro, e reinarei sobre as almas. 

— O reino de Christo já chegou. 

— Pois o meu chegará como o d'Elle. 

— Elle foi que indicou aos povos o cami- 
nho do ceu. 

— Eu saberei leval-os para o abysmo. 

— Elle ensinou a caridade ao mundo. 

— Eu lhe ensinarei o egoismo. 

— P2lle revelou a eterna verdade. 

— Eu lhe revelarei o sophisma e o erro. 

— Elle abriu o reino dos céus aos que es- 
cutassem a sua palavra. 



DOS jesuítas 



— Mas também disse: O meu reino não os céus pertencem a Jesus, a terra perten- 
é deste mundo. Ku partilharei com Elle o ce-me a mim. 

coração do homem. A voz já se tinha calado, e provavelmente i 

— Elle pregou o amor do próximo. subido ao ceu nas lufadas do vento. 




— Eu pregarei o da própria pessoa. Kspi- , 
rito mysterioso que me faias, d'onde vens e 
o que me queres? Debalde me procuras des- 
viar do meu caminho. Tracei-o e seguil-o- | 
liei sem a mais leve sombra de hesitação. Se 



Ignacio [sentiu a solidão em torno de si; 
num arranco supremo, pareceu-lhe que a 
alma o abandonava, e que elle ficava na 
terra como um corpo gelado; como uma es- 
tatua . . . que pensa. 



Antes da conversão 



IGNACio • de Loyola, descendente de nobre 
família, nasceu no castello de Loyola, 
em 1492, na província de Guipuzcôa em 
Hispanha. 

Escusado será dizer que os historiadores 
da Companhia de Jesus, fartaram-se de pro- 
digalisar milagres á beira do seu berço. 

Seus pães, conta um dos historiadores, 
conversando entre si sobre que nome haviam 
de dar áquelle filho, que acabava de nascer, 
a creança abriu a bocca, e pronunciou com 
voz clara c dístincta: «Inigo de Loyola é o 
meu nome.» 

Era sufficientemente maravilhoso da parte 
dum recem-nascido; mas se vos admiraes, 
ninda vereis mais. 

O pequenito ajuntou: «Façam um ana- 
gramma e encontrarão: O igtiis a Deo ille- 
cltis. — O fogo atraído por Deus. » 

Seus pães fizeram o anagramma e tendo-o 
achado certo, chamaram seu filho Inigo de 
IvOyola. Findo o que o embrulharam nos 
cueiros e deram-lhe mammínha. 

O mesmo auctor conta, com toda a serie- 
dade, que a (Companhia de Jesus é obra de 
Deus! 

a Muitos séculos antes do seu nascimento, 
escreve elle, o abbade Joaquim a tinha visto 
em espirito, e declarara, para consolação 
dos fieis, que lá para o fim dos séculos, na 



• Eneco no idioma cantabrico e Jnigo em csste- 
lano. Foi em i334 que Inigo tomou o nome de Igna- 
cio por devoçúo ao martyr d'Antiochia. 



sexta edade do mundo, appareceria na ter- 
ra uma ordem de homens apostólicos, os 
quaes consagrados a Jesu-Christo, cujo no- 
me adoptariam, dedicados duma maneira 
especial á Santa-Sé, distinctos pela condi- 
ção, combateriam, com as armas das suas 
palavras e a efficacia das suas acções, os 
falsos doutores, e confundiriam todos os in- 
novadores pela profundeza da sua doutrina 
e solidez dos seus raciocínios.» 

Preciso é confessar que se os fieis têem 
necessidade de ser consolados lá para o fim 
dos séculos, na sexta edade do mundo, têem 
que esperar melhor consolador que os je- 
suítas. 

Os primeiros annos de Ignacio de Loyola 
passaram-se na corte de Fernando e Izabel, 
e assim que a edade lho permittiu entrou 
ao seu serviço. 

Nada, então, annuncíava o extraordinário 
destino que o esperava; nada que revelasse 
n'elle o pensador profundo que creou uma 
egreja na Egreja; escravísou os reis; domi- 
nou o pontificado, que os dominava, e que, 
discriminando um a um todos os maus ins- 
tínctos de natureza humana, como um ge- 
neral em chefe discrimina os seus solda- 
dos, os reuniu em um corpo de doutrina, 
e codificou a forma de todos os sophismas. 

Altivo, valente, ignorante como um ver- 
dadeiro fidalgo híspanhol, sabendo ler mal 
c quasi que não escrever, poeta d'instincto, 
passou a juventude na ociosidade c cainn- 
teios palacianos. 



HISTORIA GERAI. 



Tinha vinte e nove annos, quando se lhe 
otVereccu ensejo de assignalur a sua cora- 
gem, distinguido-se na tomada de Najara. e 
pouco tempo depois em Pamplona. a que 
os franceses tinham posto cerco. 

Animada pelo seu exemplo, a guarnição 
fez prodigios de valor, e teria talvez rcpel- 
lido os assediantes, se Ignacio não tivesse 
caldo na brecha, com a perna direita que- 
brada por uma bala de artilhcria. 

André de Foix. o general francês, — que 
tinha admirado o valor de Ignacio, que de 
espada cm punho, só e já ferido, se obsti- 
nava em combater — no dia seguinte foi vi- 
sitar as fortificações arrazadas, e viu passar 
na sua frente uma liteira, no fundo da qual 
ia um ferido, que, erguendo-se a custo, sau- 
dou altivamente, embora com enfraquecida 
voz, um grupo de officiaes franceses: — Agra- 
deco-ihes, meus senhores, os cuidados que 
me deram; mas espero em Deus que, den- 
tro em pouco, lhes hei de poder pagar. 

André de Foix saudou delicadamente o 
terido, desejando-lhe prompto restabeleci- 
mente, c, rindo da hispanholada, perguntou 
quem era. 

Disseram-lhe que era um grande de His- 
panha, filho de D. Beltram, senhor de Onhez 
e Loyola, ha pouco fallecido, e de sua mu- 
lher Marina Saez de Licona y Balda, de 
quem tivera além d'aquelle, Ignacio, mais 
dez filhos. 

Ignacio, graças á protecção do seu pa- 
rente D. António de Manrique, duque de 
Najara e grande de Hispanha, fora collocado 
na corte, onde tão hábil e facilmente mane- 
java a espada em batalha ou duelo, como to- 
cava guitarra, á noite, nas serenatas d'amor. 
Além disso susceptibilis.simo em pontos de 
honra e em precedências de logar e pri- 
vilégios de pergaminhos, passava por sober- 
bo, violento, embora fosse meigo e delicado 
quando o não contrariavam. 

Ferido e em perigo de vida, fez-se trans- 
portar para o castello de Loyola, pouco dis- 
tante de Pamplona, e de que era senhor e 
castellão, naquella epocha, D. Martim Gar- 
cia, o mais velho dos seus sete irmãos. 

Quando o tiraram da liteira, da qual não 
saiu um único gemido em todo o caminho, 
pouco mais transportaram para o grande 



leito, do que uni molho de carne e ossos a 
que restavam poucos alentos de vida. 

Ignacio de Loyola, extremamente enfra- 
quecido pelo sangue que sairá das feridas, 
pelas dores horríveis que lhe causava a 
fractura mal pensada, chegou ás portas da 
morte, e a tal ponto que lhe foram adminis- 
trados os sacramentos da hora extrema, 
com assistência da familia, que lhe cercava o 
leito esperando que desse o ultimo suspiro. 

No dia de S. Pedro, invocando o santo 
apostolo, alcançou d'elle a cura. 

Confessemos que S. Pedro não podia fa- 
zer menos por aquelle, que tanto fez depois 
pelos seus successores ! 

Parece que a conversão de Ignacio de- 
via ser naturalmente determinada por esta 
maravilhosa cura, que todos os seus biogra- 
phos, mais ou menos ingenuamente relatam. 

Não foi. «Embora reconhecendo o favor 
do ceu, diz o Padre Bouhours, Ignacio não 
pôde desligar-se da terra.» 

Amava elle apaixonadamente uma das 
mais formosas mulheres da corte de Ma- 
drid, D. Izabel Rosella ; e o que mais agra- 
deceu ao príncipe dos apóstolos, na cura que 
lhe fez, foi poder tornar a pensar nos seus 
amores. 

Mas eis que,Uevantando-se do seu leito de 
dôr, e procurando dar os primeiros passos, 
viu que as feridas estavam cicatrisadas, mas a 
perna ficara deslocada e elle obrigado a co- 
xear I Os músculos tinham-se contraído ; um 
dos ossos, mal reduzido pelo cirurgião fran- 
cês, ou deslocando-se com os baldões da via- 
gem, formava uma saliência um pouco abaixo 
do joelho, e condemnava-oanunca mais poder 
ser o elegante da corte, o primoroso fidalgo 
amigo do luxo. 

Ignacio tomou desde logo o seu partido; 
e nisso revelou a indomável energia com 
que mais tarde emprehenderã e levará a cabo 
a sua obra. 

Affrontando os receios dos médicos, des- 
prezando dores atrozes, fez serrar a porção 
saliente do osso, e para alongar os múscu- 
los, submetteu-os a uma distensão continua 
por meio d'um apparelho de ferro ! 

A operação não deu o resultado que elle 
desejava, e Ignacio de Loyola viu-se coxo 
para todo o resto da sua vida. 



DOS jesuítas 




Ignacio ferido no cerco de Pamplona 



HISTORIA GERAL 



Depois, as dores crudelissimas, que soffre- 
ra, tinham-lhe cavado sulcos profundos nas 
faces, enrugado a fronte, e quasi que de todo 
encalvecido. 

Para se distrair dos enfados da demorada 
convalescença, começou a querer lêr roman- 
ces de cavallaria, que eram os que mais 
preoccupavam, então, os espiritos da nobreza 
hispanhola, até o momento em que Cervan» 
tes, com o seu immortal D. Quixolc^ lhes 
deu o golpe de misericórdia. 

No castello não se encontrou nenhum des- 
ses livros. 

Km vez dum romance da Tavola redon- 
da levaram-lhe um Fios Satictorum. 

\'ejamos agora em que meio se vae des- 
envolver a energia e actividade doentia d'este 
homem que fora moço e vigoroso, bello e 
nobre, valente e protegido, que podia aspi- 
rar a um amplo logar no banquete da vida, 
e distribuição da gloria, ás mais brilhantes 
victorias, tanto nos campos de batalha como 
no coração das mulheres. 

Que sonhos outrora, e que horroroso des- 
pertar ! 

Coxo, disforme, acabado e calvo, onde 
irá? Sol extincto, gravitará envergonhado e 
desapercebido na brilhante atmosphera da 
corte ? 

Qual o caminho que lhe resta ? 

Ainda bem Colombo, Vasco da Gama e 
{>abral não tèem descoberto novos continen- 
tes, já Albuquerque, Cortez, Pizarro e outros 
têem partido para os conquistarem. 

O novo mundo está-lhc vedado. Convem- 
Ihe fixar as vistas na velha Europa. 

Sobre a face d'esta velha Europa acabava 
de passar um vento de tempestade que fez 
oscillar nos seus thronos carunchosos as an- 
tigas realezas. Do norte ao sul, do nascente 
ao poente, elevam-se vozes mysteriosas que 
fazem estremecer os povos, e os seus echos 
rcspondem-se uns a outros cantando o hym- 
no dum porvir desconhecido. 

O mundo está ancioso ! 

F;, no meio d'um silencio de solenne an- 
ciedade, Luthero ergue a sua voz potente, e 
convida reis e povos á grande carniça da 
Egreja romana. 

A' sua voz a Allemanha accorda, cla- 
mando pela liberdade de consciência, e a 



Inglaterra não tarda a secundal-a. A Suissa 
agita-se ; a França applaude ; os Paizes Bai- 
xos preparam-se •, a própria Itália ouve es- 
sas vozes, sentindo correr -lhe o calafrio das 
coisas grandes ; e até os gelos da Suécia 
encontraram vozes para corresponderem a 
este alerta ! 

Roma debate-se em convulsões que pare 
cem d'agonia. 

Os príncipes allemães declaram-sc contra 
ella, porque, mercê da Reforma, poderão 
luctar contra Carlos V ; Henrique VIII, por- 
que quer ser o único senhor no seu país, 
porque deseja desfazer-se da mulher e locu- 
pletar-se com os bens dos religiosos ; os po- 
vos, porque esperam que esta porta que vem 
de abrir-se os leve ao caminho das liberda- 
des. 

E o que resta ao successor de S. Pedro 
para se defender de todos estes inimigos ? 

Um clero vicioso e ignorante, a insolência 
dos monjes, o nepotismo, a tyrannia do go- 
verno papal, o vergonhoso tráfico das indul- 
gências, das relíquias, dos benefícios, de 
tudo quanto era culto e religião. 

Para travar a lucta era preciso uma milí- 
cia mais forte do que a dos frades e mon- 
ges, e por isso menos fácil d'empoIgar; mais 
respeitada, porque seria menos visivel. Po- 
der terrível e mysterioso, como o dos tribu- 
naes vehemicos, cu)as sentenças só eram co- 
nhecidas depois da sua execução, as suas ban- 
deiras consagradas poderão indiffereptemente 
guiar os príncipes contra os povos, estes 
contra aquelles •, aproveitando-se tanto das 
derrotas como das victorias de uns e ou- 
tros. 

Não ousamos atfiançar que este enorme 
plano se desenhou nitída e fortemente no 
cérebro febril de Ignacio de Loyola. Mas se 
o não fixou logo em todo o seu desenvolvi- 
mento, presentiu a sua missão, e tanto que, 
segundo uma citação do Padre Jouvency, 
quando elle escreveu os Exercícios espiri- 
tiiaes «impondo-se o modelo de Chrísto, 
como um general combatendo os seus ini- 
migos, sentiu nascer em si o desejo de for- 
mar um exercito, de que Jesus seria o su- 
premo chefe e imperador». 

Aspirando á universalidade que tinha a 
doutrina de Jesus, só não aspirava aos meios 



DOS jesuítas 



pacíficos, cordcaes c santos de como cila con- 
quistou a terra. 

O velho homem estava transformado. Ti- 
nha caido no leito soldado ao serviço do 
rei de Hispanha e ia levantar-se ao serviço 
da Virgem Maria. 

Durante o dia devorava com incansável 
curiosidade as paginas do Fios Sanctorum ; 
admirava a coragem e resignação dos mar- 
tyres; a leitura das austeridadcs dos solitá- 
rios exaltavam-o; e quando a noite descia, 
quando o vento sibilava por entre as ameias 
e nos íVestóes do velho castello, quando, só 
no seu quarto escuro, ouvia os pios agouren- 
tos das aves nocturnas ou a chuva bater de 
encontro ás vidraças, quando um raio de lua, 
atravessando a clareira das nuvens penetrava 
pela alta e esguia janella ogival até á cama 
onde jazia, tinha visões que o transportavam 
pelos desertos fora, até o cimo do Calvário, 
e ahi, aos pés da cruz, chorava e implorava 
o perdão e a graça divinos. 

N'estes momentos acreditava nas suas la- 
grimas, e toda a sua alma vibrava sincera e 
enthusiasta. 



Uma noite levantou-sc e foi prostrar-sc 
deante d'uma imagem da Virgem. 

Emquanto batia no peito, e rojava a fronte 
no chão, quiz-lhe parecer que a santa Mãe 
de Deus lhe censurava o demorado repoiso, 
e lhe ordenava que começasse nova vida. 

Desde logo, Ignacio, jurou consagrar-se ao 
serviço de Maria. 

«Então, conta um dos seus biographos, 
toda a camará tremeu, os vidros da janella 
estalaram em mil pedaços, signal evidente 
que o diabo o deixava e se tinha despedido 
d'elle para sempre. E logo a Virgem lhe ap- 
pareceu tendo seu Eilho no regaço.» 

Porém, seja dito de passagem, emquanto 
Orlandini, o auctor citado, vê neste ponto 
a raiva do diabo, o padre Bouhours vê, ao 
contrario, um signal da alegria de Deus. 

Os bons historiadores jesuítas acham assim 
meio de contentarem todos os paladares. 

Existe ainda uma terceira classe á qual 
pertencem Ribadeneira e Maffei que não fa- 
lam nem na raiva diabólica, nem na alegria 
divina. 

Estes destinam-se ás pessoas de bom senso. 




HISTORIA GERAL 



II 



A vigília das armas 



A algumas léguas de Barcelona, no cimo 
d'uma montanha arida, massa de fra 
góes destacados do grande plató da serra 
de Lhena, elevava-se um rico mosteiro de 
benedictinos, cuja egreja possuia uma cele- 
bre e milagrosa imagem da Virgem Maria. 

A santa imagem attraía á montanha enor- 
me aflluencia de peregrinos, que corriam ao 
mosteiro para acharem cura ás doenças do 
corpo, e apaziguar as dores das almas tor- 
turadas. 

Era, naturalmente, por occasião das festi- 
vidades de Nossa Senhora, que as romarias 
eram maiores, e a da festa da Annunciação 
do anno de mil quinhentos e vinte e dois, 
foi uma das até então mais memoráveis. 

N'esta epocha, sem falar das guerras, e 
portanto dos impostos que d'ellas resultam, 
das tempestades e portanto da miséria que 
se lhes segue, uma peste mortifera caíra so- 
bre Barcelona e ameaçava propagar-se por 
toda a Hispanha. 

Ora, atravez da multidão compacta, os pe- 
regrinos viram chegar, no dia 24 de março, 
um cavalleiro alto, bem montado, ricamente 
vestido, parecendo de primeira nobreza, em- 
bora viesse sem acompanhamento de cria- 
dos nem de estafeiros, que de costume se- 
guiam ao lado do cavalleiro, a pé, junto do 
estribo. 

Este cavalleiro era Ignacio de Loyola. 

Antes, porém, de chegar d montanha san- 
ta, e quando caminhava só, absorvido no seu 
novo ideal, ao passo ligeiro da mula, pas- 



sou junto delie um moiro, com quem travou 
conversação. 

Seguindo o exemplo dos cavalleiros andan- 
tes, Ignacio não sabia falar senão da dama 
que era o objecto dos seus pensamentos. 

Deixou-o o moiro discorrer á sua vonta- 
de, sem o contradizer, contentando-se em 
pensar de si para si: que Mahomet era o 
unico propheta que tinha ensinado aos ho- 
mens a eterna e simples verdade. 

Mas, no andar da conversa, chegou-se a 
um ponto delicado, a virgindade de Maria. 
Foi viva e animada a contenda; propondo o 
moiro uma opinião media, que Ignacio for- 
malmente rejeitou encolerisado, « conside- 
rando, diz Orlandini, que era cavalleiro, e 
por isso obrigado de se vingar no moiro da 
affronta feita á sua dama». 

Emquanto pensava se devia convencer o 
seu contradictor, com uma d'aquellas espa- 
deiradas com que outr'ora despachava fran- 
ceses para o outro mundo, o moiro mudou 
de rumo. 

Ignacio, menos exaltado, e achando-se na 
bifurcação de dois caminhos, resolveu entre- 
gar ao juizo de Deus, ou antes ao da mula 
que montava, o que devia fazer, e disse: 

— Eu vou deixar a mula á vontade, para 
ir para onde quizer; se tomar pela estrada 
que seguiu o blasfemo, é que Deus quer 
que elle morra, e morrerá; se ella me con- 
duzir para outro sitio, é que esta vingança 
não está reservada para o meu braço!. . . 

O animal, na bella intenção de poupar uma 



DOS jesuítas 



i3 




A vigília iaa arrr.aa 



'4 



HISTORIA GERAL 



morte a seu amo c de deixar a Deus a sua 
iusliça. que Klle nunca encommenda aos ho- 
mens, tomou o caminho opposto áquellc por 
onde tinha en%'eredado o moiro. 

E aqui está como duma volta de mula, 
com a arreata soha. esteve dependente a 
Companhia de Jesus I 

As vésperas da Annunciação juntaram á 
noite, na capella de Nossa Senhora de Mon- 
serrate, enorme quantidade de peregrinos; 
mas foi em vão que elles procuraram entre 
si o rico e garboso cavalleiro que de manhã 
viram dirigir-se para o mosteiro. 

Tinha desapparecido. 

Alguns, porém, pretendiam reconhecei-o 
num individuo mal vestido, rosto pallido e 
olhar fixo que estivera toda a noite em 
frente ao altar, ricamente ornamentado, da 
\'irgem. 

Este individuo tinha, por único vestuário, 
um sacco de grossa linhagem, apertado na 
cintura por uma corda, segurando uma ca- 
baça, e na mão o bordão de romeiro. Um 
de seus pés estava descalço, e o outro, que 
parecia ferido, trazia uma espécie dVilper- 
cata feita de barbantes e troncos de vime. 

Era effectivamente Ignacio de Loyola. 

Como se fizera ta! transformação? 

Assim que a noite baixara, sairá da egre- 
ja, e encontrando um romeiro vestido de 
sacco propozera-lhe a troca de tão miserá- 
vel túnica pelo seu vestuário de gran-senhor, 
incluindo as botas, o chapéu e a camisa. 

O peregrino acceitou, mal prevendo que, 
dias depois, só por milagre escaparia de ser 
enforcado, como tendo assassinado e roubado 
o dono de tão ricas vestimentas I 

E sina dos jesuitas provocarem a desgraça 
alheia, até com as boas acções I 

Km vez de sair da egreja com os outros 
peregrinos, alli passou a noite, tendo-ihe 
accudido ao espirito uma singular idéa. 

Sabe-se que, segundo os antigos usos da 
cavallaria, o aspirante ds esporas d'oiro, de- 
pois de ter pendurado as armas n"uma co- 
lumna d'uma egreja, ahi passava a noite, 
que precedia á sua recepção, vestido d'alva 
branca, e orando a Deus, d Virgem e aos 
santos, ou meditando nos altos feitos e bel- 
las acções dos valerosos antepassados. 



Kra o que se chamava a riplia das ar- 
mas. 

Ignacio quiz também realizar a sua vigilia 
d"armas. 

A única coisa em que se afastou do for- 
mulário, foi que, em vez de vestir uma túni- 
ca branca, envergou um sacco de linhagem 
grosseira, sujo e esfarrapado. 

E desde então ficou-se chamando: o Ca- 
valleiro da Viríicm '. 

A peste, que assolava Barcelona, tinha fe- 
chado o porto ; e emquanto esperava a oc- 
casião de embarcar para a Terra Santa ; Igna- 
cio seguiu para Manreza, pequena cidade a 
três léguas de Monserrate, na qual havianjm 
convento dominicano e o hospital de Santa 
Luzia, onde eram recebidos os peregrinos e 
os doentes. 

Foi aqui que eile se refugiou, vivendo do 
pão que mendigava de porta em porta, 
deixando crescer as unhas, a barba e os ca- 
bellos. 

E, como se porcaria fosse santidade, a 
immundicie que lhe cobria a cara era tal que 
causava horror vêl-o, segundo diz Baillet. 

Jejuava toda a semana a pão e agua ; e só 
ao domingo comia algumas hervas, em que 
deitava cinza. 

Rezava sete horas por dia, disciplinava-se 
três vezes, e quando ia em peregrinação jun- 
tava aos habituaes cilicios de ferro á roda da 
cintura, outros de ortigas e cardos bravos. 

Tendo descoberto uma caverna no sopé 
da montanha^ abriu caminho por entre ma- 



' Os cavalleiros andantes compromettiam se por 
vqto a correr aventuras. Foram relativamente nume- 
rosos em Hispanha, nos tempos heróicos das guerras 
contra os moiros. Foi evidentemente d'esta institui- 
ção, que já acabava de desapparecer nos primeiros 
annos do século ivi, que Ignacio de Loyoia se inspi- 
rou no começo da sua conversão. 

' No seu recente opúsculo. Le Montserrat et Man- 
reje, o P. Mabille conta que, no próprio dia de sua 
chegada a Manreza, Ignacio, estando em oração no 
sanctuario de Nossa Senhora da Guia, situado pró- 
ximo da ponte que dá accesso para a cidade, «a Vir- 
gem lhe appareceu e lhe indicou, em frente da sua 
capella, a cova ou gruta, onde N. S. desejaria que 
elle se se retirasse». 

Ao mesmo tempo ouviu «uma voz dulcíssima di- 
zer-lhe : íMarcha-te Jgnjcio e cumple tu destino.» 
Desde então, ajunta o jesuita, «a estatua da Virgem 



I 



DOS jesuítas 



iS 



tagaes e espinhos, e alli elegeu moradia, di- 
zem uns ; embora affiancem outros : que só 
alli ia passar certos dias e certas horas, com 
a permissão do seu confessor, Fr. Guilherme 
de Pellaros, prior dos dominicos. 

Teve um êxtase «attestado por testemu- 
nhas Jidc dignas*, que lhe durou» dosabbado 
á tarde á hora de complectas, até o sabbado 
seguinte á mesma hora. 

Já o iam a enterrar, quando repararam que 
respirava e lhe batia o coração. Então saiu 
do êxtase, como d'um pacifico somno, e disse 
com voz terna e devota : 

Ai ! Jesus I 

Foi durante este lethargo que Deus lhe 
revelou a missão para que o destinava, diz 
ainda padre Bartoli, e lhe indicou os princi- 
paes traços da Ordem, da qual o reservava 
para ser o pae e o fundador*. 



teima sempre em se collocar na capella de maneira 
a fazer face á gruta d'lgnacio». A verdade é que du 
rante o tempo que Ignacio esteve em Manreza mo- 
rou ora no hospital de Santa Luzia, situado fora do 
recinto da cidade, ora no convento dos dominicanos 
dentro n'ella. Quanto á famosa gruta não a procurou 
senão depois de ter verificado que não se podia en- 
tregar aos seus eiercicios de penitencia, como dese- 
java, no hospital, e levou algum tempo primeiro que 
a descobrisse, porque «era — ■ segundo diz Bartoli — 
pouco conhecida e menos visitada pela gente da 
terra, ainda que situada a 600 passos de Manreza, e 
num sitio encantador que se chamava : o valle do Pa- 
raíso». 

* E' pena que os historiadores da Companhia não 
citem um único nome de taes testemunhas. Em geral 
todas as suas afBrmações relativas ás origens da Com- 
panhia são quasi sempre vagas, quanto ás fontes onde 
as foram colher. 

2 Esta visão que dura oito dias não seria uma sim- 
ples crise de catalepsia? Os pormenores precisos que 
fornecem «as testemunhas» além das supposições 
que os acompanham, parecem bastante caracteristi- 
cos : rigidez absoluta dos membros, que persiste de 
um a outro sabbaJo ; suspensão, pelo menos appa- 
rente, «de toJas as faculdades de maneira que Igna- 
cio parecia como morto», aponto que só deixam de 
o enterrar «quando percebem um bater que mal se 
sentia no coração»; despertar ncomo d'um somno» 
etc, etc... Uma tal crise era tanto mais verosímil 
quanto elle se achava enfraquecido pela doença, pelas 
penitencias, jejuns, vigilias, que elle próprio, mais tar- 
de, qualificará de coisas exaggeradissimas, e cujos re- 
sultados não tarjarão a manifestar-sesob afórma de 
perturbações mentaes e nervosas. Tal, por exemplo, 
a tentação, ou talvez mesmo a tentativa de suicídio, 
relatada por Bartoli e outros historiadores, de que 



Além desta imposição, e de revelações 
extraordinárias, como descobrir-lhe os segi'e- 
dos da essência divina^ e as operações inti- 
mas das três pessoas entre si, ' deu-lhe con- 
selhos de limpeza e decência, entre outros: 
reformas de vestuário, cuidados dos cabei- 
los e da barba, obrigação de se lavar e de 
vestir um habito menos nojento. 

Pareceram-lhe rasoaveis estes conselhos, c 
tratou de adquirir um habito limpo, embora 
modesto e de panno grosso. . . 

Assim vestido, subia a uma pedra, que 
durante muito tempo esteve em venera- 
ção á porta do hospital de Santa Luzia, e 
ahi fazia públicos sermões, que traziam ao 
caminho de Deus. muitas almas que d'elle 
andavam arredias^. 

Passa, como mais provável, que foi aqui 
que elle compôz o famoso livro dos Exerci- 
dos espirituaes. O caso é controverso, não 
só quanto á epocha da composição, como á 
originalidade do plano. 

D. Yepez, auctor das Chronicas geraes da 
Ordem de S. Bento, escreve: «Segundo a 

o curou o padre Pellaros «obrigando o a com"er a 
horas como toda a gentí, sob pena de lhe recusar a 
absolvição.» 

' Foi tal a nitidez da explicação que Ignacio escre- 
veu, quando voltou era si, um tratado, sobre a Trin- 
dade, em 48 folhas. . . que se perdeu ! 

2 O quarto que Ignacio occupou neste hospital 
foi transformado era capella em iÓ25. Os jesuítas abi 
collocaram a estatua do seu fundador, e a seguinte 
inscripção em hespanhol : 

S. Ignacio 

Orando en esta capilla 

Quedo arrebatado 

Cavo el cuerpo en el suelo 

Sobre los raisraos ladrillos 

Que oy se ven y adoran 

Subio el espirito ai cielo 

Y vio la gran religion 

Que havia de fundar 

Baxo el nombre de Jesus 

Su blason, fin, instituto 

Su p.ropagacion^en los dos mundos 

Sus empresas, conquistas y victorias 

Sus letras, santidad y martyríos 

Ocho dias duro Ia vision 

Lugar memorable 

Por el rapto de S. Ignacio 

Y por la revclacion 

De la Companía 

De Jesus 



HISTORIA GERAI. 



tradição de todos os religiosos de Monserrate, 
o padre João de Chanones communicou 
a Ignacio, seu tilho em J.-C, os Exercícios 
do padre Garcia de Cisneros, que se pratica- 
vam em Monserrate, os quaes o padre Igna- 
cio levou comsigo quando foi para Manre- 
za . . . e, achando-se repleto de fervor, os 
communicou a muitos, até que tendo-se tor- 
nado um homem perfeito e bem versado em 
toda a sciencia, cortou, alterou e ajuntou 
alirunia coisa ao litro Jo padre Cisneros, 
para assim formar os seus Exercidos, em 
harmonia com o seu Instituto. 

O livro de Garcia de Cisneros tinha o ti- 
tulo de Exercitatorium spirituale * e tora 
impresso em Monserrate. em castelhano e 
latim, em l^oo. 

A discussão das origens dos Exercidos 
pouco importa, a não ser como documento 
do estado mental de Ignacio. Quanto ao fundo 
e essência da obra, baste que digamos: que 
todos os doutores da Sociedade a recom- 
mendam; que um santo*, que foi aliás um 
excellcnte homem e um delicado escriptor, 
o louvou; e que um papa ^ lhe deu a sua 
approvação, embora com ella a inquinasse 
de plagiaria *, apesar de ter sido dictada 
umas vezes pela Virgem Maria, outras pelo 
archanjo Gabriel; o que c fora de duvida, 
dizem certos historiadores da Ordem, atten- 
dendo á ignorância litteraria de Ignacio. In- 
felizmente um outro historiador ■' affirma que 
o «santo os corrigiu, augmentou constante- 
mente, dando-lhes por fim a perfeição com 
que chegaram até nós». «O que dissipa a dif- 
ficuldade, que poderia suscitar ver um ho- 
mem sem estudos, e quasi sem experiência 



' Ignacio teve em seu poder o texto castelhano, 
que era o original, e fóra impresso, segundo a tradi- 
ção de Monserrate, para uso dos peregrinos. Os mon- 
ges recorriam de preferencia ao texto latino. 

' S. Francisco de Sallcs. 

' Paulo III. Carta de 3i de julho de 154S. 

* Annos depois, os jesuítas conseguiram que Inno- 
cencio X inserisse no breviário romano o testemunho 
preciso de que Ignacio fora o auctor dos Etercicios, 
e Alexandre VII confirmou esta declaração n'um 
breve de 12 d'ou(ubro de \hb-, e concedeu indulgên- 
cias plenárias a todos os que os praticassem. 

' Bartoli 



na direcção das almas, compor um tão admi- 
rável livro.» 

Dá vontade de perguntar: Então onde 
fica a inspiração divina e a intervenção de 
Gabriel ? 

Esta intervenção do archanjo Gabriel, que 
foi também um dos collaboradores do\4/co- 
rão, segundo a boa opinião dos doutores e 
theologos mahometanos, traz á memoria as 
approximações e semelhanças que se encon- 
tram nos Exercidos e nas Constituições com 
certos livros e rituaes das congregações mu- 
sulmanas, onde parece que Ignacio foi beber 
a sua inspiração, principalmente: 

— na forma do governo da Sociedade de 
Jesus, e em a natureza da obediência que 
ella exige dos seus adeptos; 

— no methodo de iniciação e de formação 
a que submette os seus discípulos; 

— nos diversos graus que estabelece entre 
os seus membros, e no occultismo que pratica; 

— finalmente, no fim que se propõe, e na 
confusão que estabelece entre a ordem espi- 
ritual e a ordem temporal ^ 



' Para que os leitores possam, desde já, apreciar 
a identidade, quasi que até de expressão, entre os tex- 
tos dos formulários musulmanos e os de Loyola, da- 
mos-lhes os seguintes frisantes exemplos : 



TEXTO MUSOLMANO 

"Tu seriis nas mãos do 
teucheikh (o geral) como 
o cadáver nas mãos do 
lavador dos mortos». 



{Livro dos seus apoios 
pelo cheikh Li-Snussi). 

"Os irmãos terão para 
com o seu cheikh uma 
obediência passiva e de 
todos os instantes; elles 
serão entre suas mãos, 
como o cadavernas mãos 
do lavador dos mortos.» 

(Ultimas recommenda- 
çoesdictadas a seu succes- 
sor pelo cheikh Muley-Ali 
el-Djemat.) 



Tl XTO DE LOYOLA 

«Que aquelles que vi- 
vem na obediência, se 
deixem levar e conduzir 
por meio do seu superior 
como o cadáver que se 
deixa voltar e manejar em 
todos os sentidos.!' 

(Const. da C. de J. 
Part 6, cap. 1.) 

«Devo-me entregar nas 
mãos de Deus e do supe- 
rior que me governa em 
seu nome, como um ca- 
dáver que não tem nem 
intelligencia nem vonta- 
de, como o bordão nas 
mãos do velho.» 

{Ultimas recommenda- 
çóes dictadas por Ignacio., 
poucos dias antes da sua 
morte, como «um testa- 
mento espiritual». 



DOS jesuítas 



»7 




o Senador Trevlsanl hospeda Ignaclo de Loyola 



if^ 



HISTORIA GERAI- 



Ao tim de cinco mezes de residência cm 
Manrcza, tendo cessado a peste em Bar- 
celona, embarca para Gaéta, onde chega 
com cinco dias de viagem, em começos de 
ihi^. Seguiu logo para Roma, para receber 
benção de Adriano VI, viajando descalço e 
jejuando, chegando alli em domingo de Ra- 
mos d'aquelle anno. Oito dias depois deixa 
a cidade eterna e toma o caminho de \'e- 
neza, onde devia de tomar passagem para a 
Palestina. 

Sem dinheiro, e sem credito, resolveu se 
dormir á mercê de Deus, ao abrigo d'um 
pórtico da praça de S. Marcos. 

Mas, emquanto extendido sobre as lages 
esperava o sol, Deus fez um milagre que lhe 
deu ceia e cama. 

Havia então em \'eneza um senador, cha- 
mado Marco António Trevisani, que, de cos- 
tume, dormia como um justo. . . sem insom- 
nias. Naquella noite, sem deixar de ser 
justo, debalde procurava conciliar o somno. 
Por fim, já fatigado de se mexer e remexer 
no leito, fechou os olhos e teve um sonho, 
no qual ouviu uma voz dizer-lhe que: «em- 
quanto elle dormia commodamente em coixão 
fofo, o sen'o de Deus tiritava com frio de- 
baixo das suas janellas». Trevisani Icvan- 
tou-se, foi procurar Ignacio e fel-o entrar cm 
palácio. 

No dia seguinte conseguiu uma audiência 
do doge André Gntti para o seu hospede, 
cuja protecção valeu a Loyola um logar na 
galera capitã, que partia para a ilha de 
C-hypre. 

Ao fim de quarenta e oito dias de viagem, 
Ignacio desembarcou, em 3i d'agosto, no 



• Obedece ao teu cheikh 
em tudo que elle te orde- 
nar, porque é o próprio 
Deus que manda pela sua 
vof ; desobedecer- lhe, c 
incorrer na cólera de 
L cus. Nunca esqueças que 
CS seu escravo, « que na- 
da deves fazer sem sua 
ordem.» 



(Pres-^nies dominicaes 
— Regra dos Dalmanios.) 



«O meio de submetter 
o seu pensamento está 
em cada qual se figurar 
que tudo quanto ordena o 
superior é de ordem e 
vontade de Deus... E' 
preciso que aquelle que 
depende de outro seja um 
servo dócil e obediente 
afim de que a virtude de 
aquelle que manda passe 
n'elle e o encha... 

{ Carta d 'Ignacio aos je- 
suítas portugueses sobre a 
obediencia.j 



porto de .latVa, e dalli tomou o caminho de 
Jerusalém, onde chegou a 4 de setembro d'a- 
quelle mesmo anno de i523. 

Podemos marcar aqui o fim da segunda 
phase da vida de Ignacio de Loyola, ou da 
primeira da sua vida de homem convertido, 
porque nos vae apparecer completamente 
outro. 

Ate agora temos estado em presença d'um 
espirito desvairado pelas visões, d"um louco 
que se impunha exaggeradaspenitencias, d'um 
convulsionario que martyrizava o corpo. 
D'aqui em deantevel-o-hemos outro comple- 
tamente transformado. 

Que vae elle fazer ao Santo Sepulchro ? 
Viver na solidão, orar, adorar, converter os 
intieis ? 

Foi esse o seu primeiro desígnio. 

Mas o provincial dos franciscanos, vendo 
que elle perturbava a tranquillidade das suas 
relações com os peregrinos, — não se sabe 
bem ainda como, mas ha quasi que a cer- 
teza que era por meio da pregação dos Exer- 
cidos, — o provincial, pois, usando do poder 
que lhe fora concedido pela Santa-Sé, de 
poder alli conservar ou fazer sahir os pere- 
grinos que bem lhe parecesse, deu ordem a 
Ignacio para abandonar os santos logares. 

Interroga Ignacio aquelles sitios desertos, 
para que lhe contem a paixão de Chriçto ; 
pede áquellas pedras sem voz e sem echo 
que o detVendam, que proclamem aos fran- 
ciscanos que o verdadeiro missionário de 
Christo é elle ; mas os desertos continuavam 
extensos, calmos e ardentes, as pedras mu- 
das e impassíveis. 

Deus esquecia-se d'elle. 

Foi então que a verdadeira transformação 
se realizou no seu espirito, e fez com que a 
reflexão substituísse o êxtase, o calculo o en- 
thusíasmo. Desappareceu o illuminado, para 
dar logar ao político que n'elle acabava de 
nascer. 

Nos fins de janeiro de i524, estava de 
volta a Veneza, ao cabo d'uma viagem de dois 
mezes. 

Os jesuítas asseguram que durante esta 
travessia, Deus manifestou claramente a pro- 
tecção que dispensava ao seu servo, fazendo 
com que o navio que o levava, um cha- 



DOS jesuítas 



'9 



veco velho e mettendo agua por todas as 
juntas, passasse são e salvo atravez duma 
tempestade quc^' fez % naufragar um galeão 
turco e um grande navio veneziano cujos ca- 
pitães tinham negado passagem a seu bordo 
a Ignacio. 

Desenha-se já aqui, sem rebuço, a fa- 
mosa morai dos jesuítas, para a qual chama- 
vam a cumplicidade do próprio Deus : — 
«Primeiramente nós; nós eternamente I» 

Convencido de que a sua ignorância era 
um obstáculo d realização dos seus novos 
projectos, com essa inquebrantável força de 
vontade que não mais o abandonará, resol- 
veu ir estudar, e n'essa intenção partiu para 
Barcelona. 

Porém, ao atravessar o Milanez, campo 
de batalha onde vém ao encontro Carlos V 
e Francisco I, caiu nas mãos dos hispanhoes 
que o tomaram por espião e estiveram a 
ponto de o pendurarem pelo' pescoço alto e 
curto. Livrou-se d'estes e foi aprisionado pe- 
los franceses, que o trataram melhor. Che- 
gou a Génova, depois de mil vicissitudes, e 
graças á protecção do general das galeras 
d"Hispanha, Rodrigo Portundo, que o reco- 
nheceu, conseguiu embarcar para Barcelona. 
Escapa tanto aos galeões do Dória como ás 
caravellasdo famoso Barba-Roxa, entãoligado 
com o rei christianissimo contra S. Magestade 
Catholica — o que mais uma vez prova que 
certos titulos têem menos valor e significa- 
ção do que simples alcunhas — , viu-se por 
fim em Hispanha. 

Chegado que foi a Barcelona, foi procurar 
D. Izabel de Rosello e D. Ignez Pascoal, a 
quem deu parte dos seus novos projectos; 
e assim desde logo assignalou um dos meios 
de que tanto elle como os seus discípulos 
jamais abandonarão para conseguirem os 
seus fins : — a protecção e o concurso das 
mulheres. . . ricas. 

D. Izabel promette-lhe pagar os livros e 
fornecer-lhe os objectos necessários para o 
estudo ; D. Ignez otVerece-lhe cama e mesa. 

Parece que acceitar estas coisas, não ficava 
mal a um aprendiz de santo, no século xvi. 
A nossa sociedade, hoje, aprecia desfavora- 
velmente o homem válido, que, a pretexto de 
qualquer missão divina, consente em viver á 



custa das mulheres <, ou de pedir esmola de 

porta em porta. 

Aos trinta e três annos de edade, não se 
envergonha de frequentar uma escola de 
creanças, e sentado entre ellas, em frente a 
essas mesas, que pouco mais eram do que 
uma vigota sobre dois espeques, começa a 
aprender os elementos da grammatica latina, 
mal <t a custo declinando hura hovce, ou 
conjugando amo, amas. 

Acerca d'esta ultima palavra, o nosso Pa- 
dre Francisco de Mattos diz : ao que havia de 
ser licção de conjugar o verbo amo, amas, 
era uma suspensão de sentidos, e tal eleva- 
ção do amor a Deus, que acabava em doce 
contemplação, o que, no custo do aprender, 
em todos costuma ser amargura.» 

Quando os discípulos não têem barbas, os 
mestres jesuítas d'hoje costumam accordal-os 
de semelhantes abstracções com alguns ca- 
rolos ou meia dúzia de palmatoadas. 

Com os estudos de grammatica misturava 
pregações na praça publica, e nos conventos 
de freiras. Elle, e o seu confessor Puygalto, 
intentaram converter as religiosas do mos- 
teiro de Nossa Senhora dos Anjos. Diz a 
historia que o conseguiram, bem como uma 
sova de pau dada pelos lacaios dos rapazes 
ricos e nobres dá terra, que faziam do mos- 
teiro o seu paraíso d'amor. O confessor de 
Ignacio morreu victima da aggressão, e este 
foi obrigado a ficar de cama durante cin- 
coenta e três dias! 

Alguns dos modernos historiadores en.xer- 
tam, neste periodo da vida de Ignacio, vá- 
rios milagres, e entre elles um da resurrei- 
ção dum rapaz que se enforcara, e a que 
elle restituiu a vida durante o tempo preciso 
para se confessar. • . e tornar a morrer; ou- 
tros, mais prudentes e abusando menos da 



'Para que se não lance um sentido deshonesto ás 
nossas palavras, embora nellas v.i uma censura ao 
procedimento de Ignacio de Loyola, que desde logo 
ensina os seus discipulos a explorarem o próximo, 
devemos, com Bayle, fazer esta justiça aos jesuítas : 
os seus costumes prestam-se menos geralmente ao 
escândalo, que os dos membros d'outras religiões. O 
segundo geral dos franciscanos apostatou, bem como 
o primeiro e o terceiro dos capuchinhos. A (Compa- 
nhia de Jesus, mais feliz ou mais hábil na escolha de 
seus chefes, não ollerece nada semelhante. 



HISTORIA GERAL 



simplicidade dos leitores, nada dizem a tal 
respeito. 

Ao cabo de dois annos de themas e tra- 
ductjóes, aliás pouco brilhantes, seu mes- 
tre, Jerónimo dArbebalo, aconselhou-o a que 
fosse estudar philosophia na universidade 
d'Alcalii, fundada, havia pouco tempo, pelo 
cardeal Ximenes, e onde chegou nos primei- 
ros dias d'agosto de idíG. 

Aqui, Ignacio occupa-se mais do seu ins- 
tituto, do que da lógica do Soto, da physica 
de Alberto-o-Grande, e da thcologia do Mes- 
tre das Sentenças, que era do que então 
constava o ensino na universidade d'Alcal;i. 

Querendo estudar tudo ao mesmo tempo, 
nada conseguia reter na memoria, e esteve 
a ponto de pôr os livros de banda. 

Entretanto ia alliciando os rapazes ricos 
que encontrava para seus discípulos; firman- 
do assim um outro meio dacção que a S. J. 
não deixará de aproveitar. 

Sem os conhecimentos precisos para pre- 
gador, Ignacio foi accusado de heresia e en- 
tregue ao tribunal da Inquisição, com alguns 
dos seus discípulos. 

Absolvidos, foi-lhes severamente prohibi- 
da a prédica, e obrigados a despirem uma 
espécie de habito pardo de que usavam, e 
que lhes dava apparencias de nova ordem 
religiosa. 

E desde então que Ignacio adoptou o cha- 
péu preto de largas abas, a batina e manto 
estreito, que até hoje se tem conservado 
como typo do vestuário jesuítico. 

Cabe aqui um episodio, que, como tantos 
outros, dará a conhecer o espirito especta- 
culoso de Ignacio, e como delle sae novo 
ensinamento para os processos terroristas 
da Companhia. 

Km frente d'um dos mais bellos palácios 
d'Alcalá, á sombra d'um grupo de magnífi- 
cos plátanos, uma multidão de ociosos en- 
tretinha-se em vêr uns rapazes fidalgos jo- 
garem a pella. 

A partida, vivamente disputada, terminou 
por uma bolla decisiva que fez applaudir 
enthusiasticamente o jogador. 

Um dos adversários vencidos, e senhor do 
palácio em frente do qual se jogava a parti- 
da, convidou os seus companheiros a seguil-o 



a casa, afim de tomarem alguns refrescos. 

— Agradeço, D. Lopo, disse um dos joga- 
dores, recebendo das mãos dum lacaio a 
capa de veludo que tinha tirado, para ter os 
movimentos mais livres. Se não vou comsigo, 
Mendonça, é porque tenho de ir ao convento 
de Santo Estevam, falar ao prior, amigo de 
meu tio, vigário geral para me alcançar o 
ser contemplado na chuva de graças que vae 
cair sobre Hispanha por occasião do nasci- 
mento do herdeiro do nosso rei D. Carlos. 

— Desejo-Ihe que seja feliz, Figueirôa. 
Mas aproveite a visita para nos livrar d'es- 
ses velhacos de sacco, e principalmente do 
seu atrevidíssimo chefe. A nossa cidade 
d"Alcalá precisa ser expurgada de semelhante 
peste. 

— Ainda esta manhã, disse outro fidalgo, 
fui obrigado a dar a bolsa a esses desvergo- 
nhados mendigos. O chefe do bando dirigiu- 
se-me, tratando-me pelo nome e appellidos, 
fez juntar o poviléu á roda de mim. . . e não 
tive mais remédio. . . 

— Esse Ignacio transtorna a cabeça das 
nossas mulheres com os seus Exercícios e 
visões. Minha mãe, a duqueza de Maquede, 

•á força de querer ter êxtases, está doentís- 
sima. 

— O mesmo acontece á minha boa tia 
D. Leonor de Mascarenhas. Já não faz outra 
cousa senão andar a ouvil-o. Estou vendo a 
minha herança em riscos de lhe passar ás 
mãos. 

— Mas o que é isso comparado com o 
que acaba de succeder a minha mãe D. Ma- 
ria de Vado? Não a fez ir de romaria, só, 
mal vestida e descalça ao convento da Santa 
Mónica de Jaen? Não obrigou a seguil-a 
minha irmãsinha mais nova? Não é isto mal- 
vadez, D. Francisco de Borja? 

— • Mas, respondeu timidamente um man- 
cebo magnificamente vestido, que parecia ter 
quando muito dezoito annos, diz-se que esse 
homem é um santo e que até faz milagres. 

— Elle, um santo ! exclamou Lopo de Men- 
donça; é um miserável hereje que está a 
pedir sambenito. Queimado seja eu em vida, 
se esse homem não merece a fogueira ! 

— Amen, meu irmão! E que Deus nos 
julgue... Disse uma voz lúgubre atraz do 
lidalgo. 



DOS jesuítas 



Este voltou-se rapidamente, e viu que Igna- 
cio, com os olhos no chão, mãos postas, pas- 
sava junto d'elle seguido dos seus discipulos, 
que entoavam o psalmo penitencial : Miserere 
mei. Deus! 

A multidão que rodeava os fidalgos e que 
parecia partilhar-ihes os sen- 
timentos para com Ignacio. 
por um d'esses reviramentos 
muito fáceis nos espiritos fa- 
natizados, aterrorizada com a 
oada lúgubre da psalmodia, 
afastou-se rapidamente do pa- 
lácio de Mendonça, como de 
um logar maldicto, e seguiu 
aquelle, que momentos antes 
tinha também escarnecido, in- 
do juntar sua voz á dos hu- 
mens de sacco, que entoavam 
o terrivel cântico de peniten- 
cia c de morte I 

Mendonça e os seus amigos 
olhavara-se silenciosamente, 
como quem sente a ameaça 
duma catastrophe. 

Neste momento, porém, 
chega um cavalleiro, correndo 
á rédea solta, e, passando na 
frente do grupo, grita: 

«Viva Deus! A nossa rainha 
deu á luz um filho, que se 
aprouver ao Senhor reinará um 
dia em Hispanha^; Deus nos 
salve ! 

— Salve! responderam os 
fidalgos com alegria; disper- 
sando-se para irem propagar 
a boa nova. 

D. Lopo, querendo por qual- 
quer motivo, dar um publico 
testemunho da sua alegria, 
lembrou-se, á entrada da noite, 
de offerecer á povoação dAlcalá o espectá- 
culo dum fogo de artificio, queimado no 
terraço do seu palácio. Mas emquanto elle 
se occupava com a disposição das peças, o 
fogo por acaso, ou por malvadez, pegou n'u- 
ma delias, e dentro em pouco o infeliz en- 
controu-se cercado de fumo e chammas. Os 

' Este filho foi Filippe II, o Demónio do sul. 



creados não sabem o que fazer! a fuma- 
rada sufloca-o. Quer tirar o fato, c a carne 
vem-lhe pegada aos farrapos incendiados. 
Debate-se, para se livrar daquelle circulo 
de fogo que esfuzia e se propaga em la- 
baredas e repuxos de côr, quer gritar e a 




Ermila de N. S. da Guia em Manreiía 

voz é abafada pelo estoirar das bombas. 

Depois as chammas extinguem-se, cessam 
j os ruidos, e quando, no meio do silencio, o 
vento leva para longe a espessa nuvem de fu- 
mo, os que tinham concorrido para se diverti- 
rem só viram que restava uma massa immo- 
vel, muda, fumegante ainda c que nada ti- 
nha de humano. 

De repente, no meio do silencio d'horror, 



HISTORIA GERAL 



ouviu-se entoar de novo o uliinio versículo 
do lúgubre psalmo: Misci-crc mei. Deus; e de- 
pois, lijnacio. voltando para o logar da triste 
scena, subiu ao terraço e ajoelhou junto do 
cadáver. 

A multidão attcrrada ajoelhou c escutou : 

— QucúuliJo sc/a cu em vida, se esse ho- 
mem não merece a fotxueira! disse Ignacio. E 
continuou; eu, miserável, já tinha esquecido 
essas palavras, mas Deus lembrou-se d'ellas. 
Meus irmãos, oremos para que a sua alma 
não seja condemnada no ceu, como o seu 
corpo foi carbonisado na terra. 

Demoramo-nos talvez de mais neste epi- 
sodio, em que o padre Bouhours também se 
demora, mas com intenção contraria á nossa, 
para darmos mais um subsidio para a apre- 
ciação moral de Igiiacio de Loyola, que não 
teme a justiça do próprio Deus que invoca, 
para vir insultar, com rezas sacrilegas, o 
cadáver d'um desgraçado que lhe era des- 
allecto. 

A companhia será formada á sua imagem 
e semelhança. 

A consciência publica, mesmo de hispa- 
nhol e naquella epocha, revohou-sc, e este e 
outros actos que ouvimos relatar na conversa 
dos fidalgos determinaram a prisão de Igna- 
cio. 

Como sempre, o captiveiro, dando-ihe a 
aureola de martjr. augmentou-lhe a influen- 
cia que elle já exercia sobre as mulheres. 
Continuaram a procural-o na prisão, para 
lhe ouvirem os discursos, as senhoras de pri- 
meira nobreza, taes como Thereza de Car- 
dena e Leonor de Mascarenhas, que foi de- 
pois governante de Fillipe II. interessaram-se 
por elle. 

Das accusações que lhe faziam arranjou 
uma defeza — muito em uso em todos os tri- 
bunaes — por contradicta, ou, nos casos pro- 
vados, por interpretações especiosas. 

Com o auxilio de seus protectores ao fim 
de quarenta e dois dias de prisão, o Santo 
Officiodeu-lhe a liberdade, no i." de junho de 
if>-27, com a condição de que tanto elle como 
os seus companheiros andariam vestidos co- 
mo os outros estudantes, e só lhes seria per- 
mittido pregar depois de terem cursado qua- 
tro annos de theologia. 

Prometteu... mas não cumpriu, o homem 



de Deus, que desde logo começou a pôr em 
execução o systema das restricçõcs mentaes. 

Por conselho do arcebispo de Toledo, se- 
guiu para Salamanca, com os discípulos. 

Aqui, recomeçou a pregar, e como na sua 
doutrina houvesse laivos de heresia, foi de 
novo encarcerado. A sentença que, á força 
d'empenhos, o absolveu pcrmittla-lhe que en- 
sinasse o catheclsmo, mas prohibia-lhe que 
entrasse em assumptos theologicos, em que 
era manifesta a sua Ignorância. 

^'endo, porém, que os ares de Hispanha 
continuavam turvos, e que a Inquisição o tra- 
zia d'olho, deixou os discípulos e partiu para 
França. Estes, vendo o abandono do chefe, 
que fugia ás consequências dos seus actos, 
renegaram-o, e voltaram a viver na socieda- 
de donde andaram arredados durante algum 
tempo pelos conselhos de Ignaclo '. 

Chegou a Pariz no começo de fevereiro de 
1258, e hospedou-se com outros estudantes 
hispanhoes, no bairro latino. Mas como um 
delles lhe roubasse o dinheiro que levava, 
foi obrigado a retlrar-se para S. Jacques- 
do Hospital. 

Possesso da mania de pregar e catechlsar, 
levou três dos seus compatriotas a venderem 
o que tinham e a segull-o para o hospital. 

É um facto a estabelecer desde já essa es- 
pécie de seducção e dominio que Ignaclo 
exercia sobre os seus discípulos, na sua maio- 
ria mais Intelligentes e illustrados do que 
elle! 

Esta nova sociedade pareceu suspeita, e 
foi denunciada a Matheus Ory, prior do con- 
vento dominicano da rua de S. Jacques, in- 
quisidor da fé e delegado pelo papa Clemen- 
te VII. 

Matheus chamou e ouviu Ignacio, e mau- 
dou-o em paz. 

Ao cabo de dezoito mezes d'estudos pre- 
paratórios, Ignaclo conseguiu entrar no colle- 
gio de Salnte Barbe, onde fez o curso de 
phllosophia. 

O principal do collegio, — um doutor por- 

' Os historiadores jesuítas, nunca se soube com 
que provas, afíiançam que todos elles tiveram mau 
fim: um morreu pobre e miserável longe da pátria; 
outro envenenou-se ; um terceiro foi enforcado como 
espião, e o que findou melhor fez-se frade, oque,pa- 
r;i os jesuitas, é um triste fim. 



DOS jesuítas 



a3 



tiifíués, chamado (louvca prevenido contra 
Ignacio, pelas informações do professor Pe- 
nha, quiz expulsai o: mas estava no destino 
de Ignacio ser constantemente accusado e 
ter sempre a habilidade de se fazer absol- 
\cr. 

A maioria dos seus biographos contam 
que neste collegio esteve vae não vae a re- 
ceber o castigo que os jesuítas, no futuro, 
tão liberalmente inrtingiram a seus discípulos. 

Eis como o facto é narrado na Apologia 
da Reforma, por Jurien. Tinha então trinta 
e sete annos. 

«Estava na sexta classe para aprender 
segunda vez grammatica, e pedindo ao re- 
gente que lhe marcasse a lição, pediu-lhe 
também que lhe desse com o chicote, como 
aos outros estudantes, quando elle a não sou- 
besse. Era um divertido espectáculo ver le- 
vantar a fralda da camisa a este venerável 
santo, no meio dum bando de rapazelhos, 
espectadores da comedia '». 

No meio destas varias provas, Ignacio pro- 
seguia no seu projecto de lançar os funda- 
mentos da Sociedade e de angariar discípu- 
los. Tinham-lhe dado como explicadores Pe- 
dro le Fevre e Francisco Xavier, ambos do 
mesmo collegio e estes seus mestres dentro 
em pouco se converteram em seus discípu- 
los pela seducção da sua palavra. 

Pedro nascera na Sabóia em i5o6, Fran- 
cisco Xavier, fidalgo navarro, tinha a mes- 
ma edade. Ambos eram instruídos. O pri- 
meiro dum caracter meigo e tendendo para 
a devoção; o segundo ambicioso, e amigo 
do louvor c da gloria. 

Ignacio soube tomal-os pelo seu lado fra- 
co. Mas se a conquista de Le Fevre foi fá- 
cil, a de Francisco Xavier custou mais tra- 
balho e habilidade. 

O fidalgo navarro resistia, e não poucas 
vezes zombava dos discursos de Ignacio, e 
francamente o repellía. Mas então, como ho- 
je, presa que o jesuíta marque, ha-de fatal- 
mente cair-lhe nas mãos. 

Um dia em que Ignacio se achava em ca- 



1 Rihadeneira nega o lacto, e diz que o principal, 
pelo contrario, se lançava aos pes de Ignacio, quan- 
do elle, não sabenUo a lição, pedia que llie dessem 
;om chicote. 



sa de Francisco Xavier, este propoz-lhe jogar 
uma partida de bilhar. Loyola recusou ; mas 
ín.stado acceitou, com a condição, de que dos 
jogadores, o que perdesse a partida seria con- 
demnado durante um mcz a fazer o que o 
outro lhe mandasse. 

Ignacio ganhou, — tinha jogo encoberto, — 
e ímpoz ao parceiro ouvir, durante um mez, 
tudo quanto elle lhe quizesse dizer. 

Acabado o tempo da paga, F'rancísco Xa- 
vier estava conquistado ' e Ignacio tratou logo, 
da admissão de Jacques Laynez e Salmeron, 
que se vieram otVerecer. 

O primeiro, pobre, sem protecções, ambi- 
cioso, de caracter tenaz e despótico, mas ve- 
lhaco soube adivinhar o futuro do Instituto 
de que se ia fazer membro, e de que foi o 
segundo geral *. Salmeron, que apenas con- 
tava dezoito annos, deixou-se arrastar por 
Jacques que tinha sobre elle um grande as- 
cendente. Simão Rodrigues e Nicolau AlTon- 
so, chamado Bobadilha, da aldeia do seu 
nascimento, completaram o numero dos seus 
seis primeiros discípulos. 

Rodrigues, que depois encontraremos, 
que na sua qualidade de português, natural 
das proximidades de ^'izeu, estabeleceu a 
Companhia em Portugal, era um enthusias- 
ta sombrio; Bobadilha um verdadeiro sol- 
dado religioso, manejando tanto a penna ou 
servindo-se da palavra, como da espada ou 
do punhal. Bem depressa o veremos a frente 
d'um exercito animar ao morticínio n'uma 
guerra de religião. 

Urgia que um laço índestructívcl aper- 
tasse e mantivesse a sociedade. Embora 
dedicados á sua pessoa, e ás ídéas que lhes 
soubera incutir, Ignacio, inferior a qualquer 
d"elles pela scíencia adquirida, mas superior 
a todos pelo conhecimento do coração hu- 
mano, percebeu que lhe convinha tel-os li- 
gados por um laço a Deus, a quem Elle se 
saberia substituir. 

Foi, pois, a Deus que elle os consagrou, 



' Dei vemos esta anecdota á conta do Padre Bou- 
hours, entre outros, com a qual ^o provam que a 
conquista da índia ao christianismo esteve depen- 
dente duma carambola ou duma negai! 

2 Em seu logar contaremos por que serie d'artificio$ 
e de habilidade elle o conseguiu. 



24 



HISTORIA GERAL 



como já vimos na introducção, a õ dagos- 
to de 1534. 

Depois de se terem reunido n'uma capella 
subterrânea da egreja de Montmarte, todos 
commungaram das mãos de Lc Fevre, o úni- 
co que ainda então era sacerdote de missa, 
subiram depois ao cimo da montanha, d'onde 
os vimos descer á conquista do mundo, no 
meio do desencadear horrive! da tempesta- 
de, como SC a natureza quizesse desde logo 
s)'mbolizar a desordem e a perturbação que 
iam levar á humanidade. 

Para seguirem seu mestre, Salmeron, Xa- 
vier c Laynez, tinham negócios a tratar em 
Hispanha. Encarrcgou-se elle d'isso, e dei- 
xou Paris nos primeiros dias de if>35, depois 
d'uma demora de quasi sete annos, marcan- 
do-lhes uma reunião para o mez de janeiro 
de i?'37, em \'eneza. 

Até aqui lemos mostrado Loyola prepa- 
rando-se para a sua missão, daqui em dean- 
te vcl-o-hemos a braços com os actos de 
essa missão. O espaço por tal forma se vae 
alargar, que chegará a causar vertigens. 

Para Ignacio acabou a vigília cias armas '. 

De volta á sua pátria, reviu todo o seu 
passado sem emoção alguma, c escolheu para 
moradia o azjlo dos pobres dAzpeicia. 

Ahi pregou o arrependimento, censurou a 
concubinagem dos padres que então era ge- 
ral e declarada, — pouco mais ou menos como 
hoje — ; «porque, dizem os historiadores, as 
suas amas usavam publicamente o penteado 
das mulheres casadas, e tractavam com elles 
como se fossem legitimas esposas». 

Durante a sua ausência, Pedro le Fevre, 
que governava a sociedade, ajuntou-lhe trcs 
novos sócios, Cláudio Lejay, da diocese de 
Genebra, João Codure, da cidade de Em- 
brun, c Pasquier-Brouet, de Bretencourt, na 
Picardia. 



I Passámos rapidamente sobre a vida de Ignacio 
em Paris. O leitor pouco se importaria com a discus- 
são de se elle levou ou não chicote, se aprendeu 
muito ou pouco. 

Quanto a este ultimo facto, o que parece certo é 
que a bagagem scientifica que trouxe da Universida- 
de não o sobrecarregava demasiadamente. Ha quem 
o accuse não só de não ter aprendido, como de pre- 
tender evitar que outros o fizessem. Para elle o fa- 
zer os Exercícios, valia mais que estudar. 



Km janeiro de 1 537, Ignacio chegou a Ve- 
neza encontrou-se com elle e reuniu-se aos 
seus companheiros. 

Foi aqui que elle conheceu o cardeal 
João Pedro CaratVa, arcebispo de Thea- 
te, depois papa, com o nome de Paulo IV, 
que, d'accordo com algumas almas devotas, 
havia fundado a congregação dos theatinos, 
e lhe propôz a entrada n"ella, o que Ignacio 
recusou. 

Como o cardeal fosse para Roma, elle, te- 
mendo lhe o resentimento. deixou de seguir 
os seus companheiros que para lá se diri- 
giam afim de pedirem a Paulo III que aben- 
çoasse a sua partida para a Terra Santa ; o 
que obtiveram por empenho de Pedro Ortiz, 
embaixador de Carlos V junto da Santa Sé, 
bem como a faculdade de receberem ordens 
das mãos de qualquer bispo. 

Km virtude d'esta faculdade o bispo d'Ar- 
be deu-lhes ordens de presbytero, em Ve- 
neza, em dia de S. João. 

Mas, por causa das guerras com os tur- 
cos, a passagem para a Terra Santa não se 
podia cffectuar. A romaria ao santo sepul- 
chro era o seu primeiro voto ; os aconteci- 
"mentos absolviam-o d'elles. 

O anno de i538 foi empregado em pre- 
gações cm Vicence, Montsalice, Trcvise, 
Bassano c Verona. 

Por certo que a fé dos seus discípulos não 
estava abalada •, tinha-os, sob a sua mão po- 
tente, submissos e dedicados ; mas era ne- 
cessário deslumbrar os olhos e o espirito da 
multidão. Para responder victoriosamente ás 
suspeitas ciumentas de que era alvo, torna- 
va-se necessário um milagre ; e o milagre 
fez-se. 

Tomou, com Laynez e Le Fevre o cami- 
nho de Roma. A duas léguas da cidade, em 
Storta, entrou n'uma capella onde, come- 
çando a orar, caiu em êxtase, e em visão. 



MalTci e Ribadeneira affiançam que Ignacio e os 
seus primeiros discípulos foram homens notáveis pe- 
lo saber; comtudo Pasquier, no seu Calhecismo dos 
Jesuítas, aflirma que nunca chegaram a doutorar-se 
em theologia. Le Fevre e Francisco Xavier bachare- 
laram-se em 1529; Ignacio, em i532; Affonso Salme- 
ron, em i535, e Laynez e Bobadilha, graduaram-se 
em Hispanha, e nunca o foram pela universidade de 
Paris. 



DOS JRSUITAS 



35 




A Gongi-egavào úa Grava ^a Santa Virgem 



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HrSTORIA GERAL 



no meio d'uiTia luz resplandecente viu appa- 
rccer Deus Pae, e Jesu-Christo, trazendo 
a cruz nos braços. O Padre Kterno apre- 
sentou Ignacio e seus discípulos a seu divino 
Filho, e os collocou sob a sua mão prote- 
ctora e omnipotente, c, designando-lhc o 
fundador, disse-ihe : «Quero que elle seja 
teu servo.» Jesu-Christo acolheu a nascente 
Companhia com expressão de inetlavel amor, 
e disse-lhe : 

íEu vos serei favorável era Roma». De- 
pois voltando os seus olhos, dos quaes saía 
um raio de luz de infinita doçura, para Igna- 
cio de Loyola, que encheu sua alma de inex- 
primível consolação, dirigiu-lhe estas pala- 



vras : «Quero que me sirvas». 1-^ neste mo- 
mento Santo Ignacio se viu associado, pelo 
Padre Eterno, a Nosso Senhor Jesu-Christo... 
e pouco lhe faltou para morrer de felicida- 
de.» 

Esta sociedade de Ignacio com Jesus era 
por elle formulada, referindo-se a ella, com 
estas palavras : Cuando cl Pcidrc Eterno me 
puso cou sii hijo! 

Em outubro de ib'i'] Ignacio, Le Févre e 
Laynez entraram em Roma. 

Alguns instantes ainda, ainda algumas 
novas provações, e o pensamento de Loyola 
vae triumphar. O sonho das suas noites e 
dos seus dias vac, hnalmentc, tomar forma e 
corpo. 



oiiatlHíí 



Fac-simile de Loyola 



DOS jesuítas 



37 



III 



As cortezãs romanas 



Eis-Nos em Roma, a capital do mundo 
christão, o sanctuario escolhido pelo 
chefe dos jesuitas; e é sobre a pequena 
praça de Pasquino, que se passa a extranha 
scena que vamos tentar descrever. 

O sol formoso da Itália já dardeja a sua 
luz dourada e quente sobre as sete colinas 
da cidade eterna, e, embora estejamos nas 
primeiras horas do dia. já uma enorme mul- 
tidão corre e se precipita em massa para a 
Piaiia d'il Pasquino '. O turbulento povo 
desde a véspera que ria a bom rir, por uma 
graça de Marforio, o alegre compadre de 
Pasquino. 

Este ultimo, tendo perguntado ao sigiior 
Marforio que opinião tinha acerca dum tal 
tedesco, chamado Martinho Luthero, o sr. 
Martorio tinha respondido «que era um ve- 
lhaco mais fino que seu patrono, visto que o 
bom S. Martinho não tinha dado senão a 
metade do seu manto ao diabo; emquanto 
Martinho Luthero queria roubar tudo a Deus, 
na pessoa do papa.» 

Por sua vez, Marforio tinha perguntado ao 
seu magnitico compadre «o que pensava elle 
de certos homens negros, havia pouco, che- 
gados com os gafanhotos*, para acabarem 
de devorar o que ainda restava de verdura 
no grande prado da Egreja romana. 



' Pasquino era uma bella estatua onde os críticos e 
satyricos da epocha afixavam cartazes com -.árias 
perguntas acerca dos casos do dia, e cujas respostas 
appareciam pregadas n'uma outra estatua de Mar- 
forio ou vice-versa. 

* Comam os historiadores contr.irios da Ccmp.inhin 



Roma inteira esperava a resposta de Pas- 
quino sobre os taes homens negros, em que 
toda a gente logo vira os jesuitas. Esta im- 
paciência ia finalmente ser satisfeita. 

O magnifico Pasquino, por uma bella 
manhã, respondeu assim a seu nobre com- 
padre: 

— Sr. Marforio, a um perguntador tão 
malicioso, um pobre alfaiate, como eu, não 
poderia nunca dar resposta conveniente. 
Portanto fui pedir, para isso, o auxilio duma 
santa. E ella quem fala: 

«Elevar-se-ha uma ordem de homens que 
engordará com os peccados dos povos; serão 
mendicantes, vagabundos, sem pudor, maus, 
o que os fará amaldiçoar da gente sensata e 
dos fieis. O diabo enraizará na alma desta 
gente quatro vicios principaes, a saber: 

a adulação, de que se servirão para 
obterem o que pedirem; 

a inveja, que lhes morderá o coração 
quando \irL'ni outros favorecidos; 

a hypocrisia, pela qual saberão agra- 
dar e insinuar-se; 

a calumnia, que fará com que attri- 
buam tudo que é mau aos outros, em- 
quanto que a si próprios attribuirão todo 
o bem . . . com o fim de vã-gloria, e para 



de Jesus que, pouco depois da bulia de instituiyão con- 
cedida aos bens padres, muitas terras foram infestadas 
por nuvens de gafanhoto?, tl.igello que precedia o da 
Companhia, e que annunciava as desgraças que cau- 
saria a nascente Sociedade. Os jesuitas, por seu la- 
do, dizem que os gnfanhotos sairam, no século xvii, 
da cabeia do janscnist.t Quesnel 



i8 



HISTORIA GERAI. 



seduzirem os simples erigir-se-hão em dou- 
tores c pregarão aos principes da Egreja. . . 
Familiares com as mulheres, elles lhes ensi- 
narão a enganar, com a máxima meiguice, 
maridos e am;intes, e a tirarem d'estes tudo 
quanto possa para lhes darem a elles. . . Re- 
crutarão os seus adeptos entre os negocian- 
tes tallidos, entre os ladrões, os debochados 
e os principes inimigos de Deus. . . Mas um 
dia ha de vir em que o povo abrirá os olhos, 
e então ver-se-ha esses homens vaguearem 
ao redor das habitações como cães damna- 
dos, encolhendo o pescoço como abutres es- 
faimados, emquanto o povo os perseguirá 
com grandes e clamorosas vozes, dizendo: 
• Desgraça sobre vós outros, filhos da deso 
lação!. . . » 

— Isto, sr. Marforio, continuava Pasquino, 
dirigindo-se sempre ao seu compadre, é o 
extracto d'uma prophecia de Santa Hildegar- 
da, abbadessa do mosteiro do Monte de S. 
Ruperto, no século xu. Mas temendo que 
imagines que tal monja era algo tonta, vis- 
to que nunca foi regularmente canonizada, 
fui ter com um sábio doutor, meu amigo, 
que morre de fome, o qual me traduziu es- 
tes versiculos do terceiro capitulo da epis- 
tola de S. Paulo a Timotheo. Não sei se ahi 
achareis uma resposta ao que me pergun- 
taes sobre os vossos homeus negi'os; em 
todo o caso, eis o que diz o Apostolo das 
nações: 

«I." Hade haver homens amorosos de si, 
avaros, soberbos, mendicantes, desobedien- 
tes a seus pães e mães, ingratos, Ímpios; 

• 2." Desnaturados, sem fé e sem palavra, 
calumniadores, intemperantes, deshumanos, 
sem affeição pela gente de bem; 

«3." Traidores, insolentes, cheios d'orgu- 
Iho... que terão apparencias de piedosos... 

• 4." Deste numero são aquelles que se 
introduzem nas casas, e que arrastam apoz 
de si, como captivas, mulheres carregadas 
de peccados. . . 

«f>." São estes corrompidos no espirito e 
pervertidos na fé . . . 

«Fugi de taes perversos!. . . » 

— Assim pensa também Pasquino. — 

— Bravo, Pasquino, clamou a multidão; 
bravissimo. Pasquino I Viva ! ! 

F, uma tempestade de gargalhadas e de 



applausos retumbou por toda a praça e foi 
accordar o écho adormecido do Capitólio. 

Um gigantesco transteverino, em cuja larga 
cara tostada peio sol se expandia uma ale- 
gria homérica, aproveitando um momento 
de silencio, extendeu um dos seus robustos 
braços para a estatua dizendo: 

— Illustrissimos senhores, a minha opinião 
é esta: o que está escripto é um retrato 
copiado do natural ; mas per Bacco ! eis os 
modelos que vém ver se elle está pareci- 
do 1 .. . 

K apontava para uma das entradas da praça. 

As vistas seguiram a direcção indicada 
pela mão do transteverino, e viram avançar 
uma singular procissão, em frente da qual a 
multidão se ia abrindo por si própria, repri- 
mindo a pouco e pouco as gargalhadas, e 
formando como que uma avenida ladeada 
por duas muralhas humanas, que conduzia 
directamente á estatua de Pasquino. 

Abria a procissão um grupo de formosas 
creanças, vestidas de branco, balouçando 
thuribulos em que ardia incenso; ou tirando 
de açafates punhados de folhas de rosas 
frescas, que atiravam para o ar. Logo após 
seguiam três grandes pendões levados por 
homens moços e robustos. 

No primeiro, viam-se ricamente bordadas 
com rubis as lettras J. H. S., monogramma 
já famoso, e que servia e servirá de timbre 
á Companhia de Jesus '. No segundo estava 
bordada a imagem da Mrgem com o Me- 
nino nos braços e esta letra em volta: Com- 
nninidade da Graça da Santa Virgem. O 
terceiro otterecia a figura seductora d'uma 
bella rapariga, que três anjos se apressavam 
em coroar, lendo-se no centro de cada uma 
das coroas as palavras: Virgindade, Dou- 
trina, Martyrio. Diversas allegorias cerca- 
vam a figura e exprimiam o symbolo: eram, 
primeiro uma phenix, sob que .se lia esta di- 
visa: FAle não c o iinico! depois um cres- 
cente de prata com esta simples palavra lati- 
na : Crescet (crescerá); por fim um sol de oiro, 
debaixo do qual e.stava bordada a seguinte 
inscripcáo : Brilhará sobre o universo-. 



' lá o reproduzimos a pag. 1 e significa Jesus, 
Dominuni Salvalor. 

* .Sobre a descripção d'esta bandeira leiase um li 



á 



DOS jesuítas 



Depois das bandeiras, e cercado d'um 
grupo de homens de sotaina, barrete qua- 
drado dos professos da Companhia, cami- 
nhava um padre de modos simultaneamente 
humildes e iriumphantes, simples e soiennes. 

Era o primeiro geral da Ordem dos Je- 
suítas, finalmente constituída. Kra Ignacio de 
Loyola. 

Na cauda vinha uma lonjía tila de mulhe- 



£9 

voz baixa, qual o cardiai ou príncipe da Egre- 
ja romana de quem fora a amante. 

A procissão terminava por compactas fi- 
leiras dos adeptos da Companhia, em trajos 
de noviços. 

Comtudo os pendões, chegados em fren- 
te da estatua, tinham sido obrigados a para- 
rem. 

Aili, uma massa enorme, impenetrável. 




r.r.z ce sa>arr.ar.c5 



res, quasi todas mocas e notavelmente for- 
mosas, e na sua maioria ricamente vestidas, 
embora no traje se notasse um quer que 
fosse de desarranjo ou de vistoso. 

Os olhares curiosos da multidão pareciam 
incommodar umas, assustar outras, e em mais 
de um rosto deslisavam silenciosas lagri- 
mas. 

A multidão, á maneira que aquellas mu- 
lheres iam passando e as reconhecia, ia- as 
saudando com os seus nomes, ajuntando em 



vro que tem por titulo : Admiravtl conformidade da 
Sociedjde de Jesus com a F.prejj. 



formando semi-circulo, barrava o caminho ao 
préstito. 

Um homem desligou-se do grupo dos pa- 
dres e veiu saber o que havia. Quando en- 
trou no semi-circulo, aberto na presença da 
estatua de Pasquino, achou-se face a face 
com o vigoroso transteverino, no qual a mul- 
tidão tacitamente tinha delegado o encargo 
de dar ao geral dos jesuítas a e.\plicação que 
elle lhe foi pedir. 

— Illustrissimo padre, disse o transteve- 
rino ao jesuita admirado, antes de deixar 
esta praça não desejaria tomar conhecimento 
d uma pequenina mensagem do nosso ma- 



HISTORIA GERAL 



gnitico Pasquino, que c dirigida a V. Rev."": 
Veja, diz elle apresentandolhe a satyra. 
leia, se lhe apraz, e verá. . . 

Loyola, tendo lançado um olhar rápido 
com o qual, ao mesmo tempo, viu o pa- 
pel e interrogou a physionomia da multi- 
dão, interrompeu o transtcverino, que ficara 
deante d'e!le com um ar dabandono e zom- 
baria. 

— António, respondeu Ignacio, olha tu 
também para alli, — e designava as filas da 
procissão feminina, - não verás por lá uma 
pobre creatura, a quem a tua falta de cui- 
dado, quem sabe senão também a tua cubi- 
ca, entregaram á prostituição, e que os meus 
conselhos, as minhas orações, a minha mão, 
que Jesus e a \'irgem se dignaram abençoar, 
acaba, emfim, de tirar doabysmo?... Anda. 
vê . . . procura I 

A' medida que o jesuita pronunciava es- 
tas palavras, com voz vibrante, e nas 
quaes habilmente dei.xava transparecer a 
emoção do homem sob a censura do mora- 
lista, o transteverino ia perdendo a presença 
d"cspirito. De zombeteiro que tinha sido 
passou a estar inquieto, e depois ficou som- 
brio e ameaçador. Deixando de impedir o ca- 
minho a Loyola, António deu alguns passos 
e mergulhou o olhar, de luz sinistra, nas fi- 
leiras da procissão feminina. 

Aqui, ouve-se um grito abafado, e uma 
das cortezãs desmaia nos braços das com- 
panheiras. 

Ignacio, desembaraçado do transteverino, 
e julgando poder aproveitar a diversão que 
astuciosamente tinha provocado, deu signal 
á procissão que continuasse ; mas a multi- 
dão, que farejava a pista d'um drama popu- 
lar, recusou deixal-a avançar, e apertou ainda 
mais o circulo formado ao redor de António, 
da rapariga desmaiada e das mulheres que 
a continham e procuravam reanimar. 

Este grupo, assim cercado, formava um 
ponto central para onde convergiam muitas 
dezenas de mil olhares ardentes e curiosos. 

Kntretanto, António, pescador da margem 
esquerda doTibre, conhecidíssimo em Roma 
pela sua força e valentia, pallido, com os 
dentes cerrados, ficara immovcl deante da 
rapariga desmaiada ; uma formosa mulher 
romana, em todo o vigor e expansão da mo- 



cidade, cujas formas, de modelação pura e 
sensual, se deixavam adivinhar sob um fle- 
xível vestido de setim branco bordado de 
rosas. 

A rapariga abriu os olhos, da cor e do 
brilho d'uma saphyra humedecida pelo or- 
valho, e ouviu cem vozes murmurar á sua 
roda: «E' Honorina, abella transteverina!.. .» 

Honorina era filha de António, o pescador. 
Até á edade de dezeseis annos fora a alegria 
e o orgulho de seu pae. Em vão os patrí- 
cios de Roma a perseguiam corri as suas se- 
ductoras olVcrtas, que ella repellia com o 
riso franco, ou por um estribilho cantante, 
saído dos seus dentes de pérola que abriam 
n'uma graça encantadora. 

Uma noite, a bella transteverina saiu de 
casa e nunca mais voltou. 

António, que lhe seria mais fácil duvidar 
do poder dos santos, que da virtude da filha, 
)ulgou-a morta; e com a força dos seus 
braços impoz silencio, por mais d'uma vez, 
aos que se atreviam a insinuar um rapto 
ou uma fuga, em companhia d'um mancebo 
estrangeiro e rico. 

Um dos visinhos, que não se quiz conven- 
cer da morte de Honorina, teve que bater-se 
com elle a punhal, e o seu cadáver impoz 
silencio a todos. . . 

E, comtudo, se elle pudera fazer emmu- 
decer as boccas que insultavam sua filha, 
nunca pudera apagar as suspeitas do seu 
coração de pae! ,E eis que a torna a ver, 
confundida na multidão das mulheres cujo 
arrependimento presente era uma revelação 
das faltas passadas. 

Honorina, Honorina !... E pronunciando 
também elle estas palavras com voz extra- 
nha, que fez estremecer a filha, António 
levou lentamente a mão á faca, fiel compa- 
nheira do transteverino. 

— Pae ! pae ! murmurou esta com voz es- 
trangulada, e ajoelhando-se deante do pes- 
cador. 

Um grande silencio reinou na multidão 
emocionada, e na amplidão da praça resoa- 
ram, como um clamor de maldícção, as pa- 
lavras sacudidas do pescador, que continua- 
va a gritar com esse extranho assento que a 
loucura dá ás palavras: 
-«Honorina! Honorina! 



DOS jesuítas 



3i 



Repentinamente viu-se, sobre a cabeça de 
Honorina, brilhar a lamina d'uma faca, mas 
logo entre esta e o peito da victima, que se 
otlerecia resignada, interpoz-se a mão d um 
homem que desarmou o pescador. 

Kste homem, que com o braço esquerdo 
sustinha o corpo flexível de Honorina, em- 
quanto a mão direita desembainhava a espa- 
da, era um barão allemão que habitava Ro- 
ma havia annos, que se filiara na Companhia 
de Jesus, e despira depois a lúgubre roupeta 
do jesuita, para trajar os brilhantes vestuá- 
rios de fidalgo rico. 

Uma scentelha de vingança e ódio illumi- 
nou a loucura do transteverino, e sem outra 
arma mais do que os seus robustos braços, 
avançou para o allemão. Este oppoz-lhe ao 
peito a ponta da espada, gritando-lhe que 
não avançasse. 

Mas António, com a vista animada por 
uma alegria selvagem, avança, embora a 
espada já lhe rasgue ■a pelle do peito e vá 
penetrando na carne. Avança, avança sem 
se deter, até que as suas fortes mãos se 
podem lançar ao pescoço do fidalgo e aper- 
tal-o como se fosse n"um torno. 

De repente os dedos abrem-se-lhe: levan- 
ta os braços, agita-os com ar dinsensato, 
solta um grito terrível repetindo o nome da 
filha, e cahe para traz, redondamente no 
chão, levando cravada no peito a espada do 
seu assassino I 

Tudo isto se passou com a rapidez d'um 
relâmpago. 

Vendo cahir o transteverino, a turba 
rugiu um d'esses clamores surdos que são 
prenúncios de morte. Mas o homem que di- 
rige a procissão, vendo emfim a passagem 
livre, deu signal para que ella se puzesse em 



marcha entoando o hymno Veni Creator Spi- 
ritus ! logo repetido pelos que o seguiam tan- 
to homens como mulheres. 

A própria multidão, depois de ter hesita- 
do um momento, uniu a sua voz ás dos que 
cantavam o hymno invocatorio. 

N'este momento um ofhcial da justiça pa- 
palina avançou para o assassino, que ficara 
immovel em presença da sua victima ensan- 
guentada, e batendo-lhe nas costas, disse-lhe 
que estava preso. 

— E eu reclamo esse homem como per- 
tencendo á Ordem de que sou o geral, res- 
pondeu Ignacio, intervindo por sua vez. 

—Mas não abandonou elle a Companhia, 
meu padre? 

— Abandonou, mas a Companhia é que 
o não abandonou a elle ! Respondo por este 
homem perante o supremo pontífice. Ide I. . . 

O orticial de policia inclinou-se, em signal 
de acquiescencia, e retirou-se. 

Comtudo, como na attitude da multidão 
se sentisse o quer que fosse de ameaçador, 
o geral dos jesuítas fez um signal ao homem 
que levava o pendão da \'irgem, para o en- 
tregar ao assassino, que assim ficou prote- 
gido pela sombra santa da Mãe de Deus! 

A procissão saiu da praça de Pasquino, 
na qual não ficou, dentro em pouco, senão o 
cadáver de António, e aos seus lados uma 
pobre louca c um velho ecclesiastico, o padre 
Postei. 

Bem depressa diremos que singular papel 
este padre representou no drama do jesui- 
tismo nascente. 

Antes, porém, devemos contar como Igna- 
cio de Loyola conseguiu obter da Santa-Sé 
a consagração solenne da Companhia de 
Jesus. 



33 



HISTORIA GERAL 



IV 



Trabalhos preparatórios 



E;i.-os emfim em Roma, na capital do 
mundo catholico, d onde nunca mais sai- 
rão, e donde farão irradiar os fios da teia 
em que vão envolver a terra toda. 

Alli, como alguém já disse, estará nas 
mãos do geral o punho da espada, cujo 
gume ferirá em toda a parte e ao mesmo 
tempo. 

O primeiro cuidado de Ignacio e seus 
companheiros foi de se dirigirem ao Vati- 
cano, alim de solicitaram a benção apostó- 
lica; mas como o papa se achava ausente, 
o cardeal Carafa. arcebispo de Thcate, vi- 
gário do soberano pontifice. não lhes pôde 
conceder senão a auctorisação de continua- 
rem a pregar. 

Os futuros jesuítas dividcm-se logo pelas 
cgrejas de Roma. Por toda a parte os en- 
contram, e a sua actividade não tem des- 
canso nem limites. Não tardaram, pois, em 
excitar o ciúme dos outros cleros, e chega- 
ram a ser obrigados a repellir a accusação 
de herejes. 

Quatro hispanhoes compromctteram-se a 
apresentar as provas de como Ignacio tinha 
sido. como hereje e feiticeiro, queimado em 
effigie em Alcalá, Paris e \'eneza. O pro- 
cesso subiu ao juizo de Benedicto Conver- 
sini, bispo de Bertinoro e governador de 
Roma que deu sentença d'abso!vição. 

Apezar disso, Ignacio tinha perdido a 
sua influencia no espirito do povo. 

Uma calamidade publica, de que soube 
tirar partido, lha reconquistou. 



O rigoroso inverno de iSSg causou cm 
Roma uma terrível fome. Os pobres expi- 
ravam de frio e de fome nas ruas; Ignacio e 
os seus companheiros davam-lhes por asyio 
a casa que um devoto tinha aberto á sua 
própria miséria; solicitavam a compaixão 
dos ricos, e livraram quatro mil desgraça- 
dos das garras da morte. 

Ainda hoje, como então, os jesuítas sabem 
especular com tudo, até com a caridade. Sc 
fosse esta a sua única especulação... Aben- 
çoada serial 

O cardeal Carafa, que sinceramente de- 
sejava a reforma da Egreja, e a morigera- 
ção clerical, como único meio de combater a 
onda crescente da Reforma, propoz a Igna- 
cio, como já dissemos, de o encorporar 
na ordem dos theatinos, que era então a 
mais honorifica e a mais influente de toda 
a Kgreja. 

Ignacio recusou. 

Trazia cm mente um projecto que devia 
collocal-o acima de todos, não estava, pois 
resolvido a ser subalterno n'uma companhia 
que tencionava supplantar. 

l-lsta recusa foi mal vista, e é fácil de 
imaginar que consequências d'ella soube- 
ram tirar os inimigos de toda a espécie, que 
Ignacio e seus companheiros tinham conci- 
tado contra .si. 

Além disso tanto os frades augustinianos 
como os de S. Domingos intrigavam por 
todos os modos e maneiras, alliando no com- 
bate as mais notáveis influencias, para afãs- 



i 



DOS JESUÍTA? 




António, o tranate 



verino, aeBaaainedc por um ncvivc i'-' Ccn.p&chia 



HISTORIA GERAL 



tarem estes peregrinos intrusos para mui 
longe da mesa. ja para clles servida com 
menos fartura, mercê dos eiVeitos da Re- 
forma, e na qual. até então, tinham tido os 
melhores logares. 

.Mas o fundador da companhia era um 
d'esses homens que têem de ser comparados 
ás torrentes impetuosas ; os obstáculos po- 
dem detel-os por algum tempo, mas para os 
tornarem depois mais pçderosos, mais terri 
veis. Além d isso sendo lucta o elemento 
natural d'Ignacio ; acceitou com alegria 
aquella que lhe era offerecida. O que o pa- 
pa e os cardeaes lhe não queriam conceder 
como favor, como já veremos, elle saberá 
impôr-lhes como necessidade ; o logar que 
as ordens rivaes recusam á sua ordem nas- 
cente, elle o tomará á força ; e por felizes 
aquellas se devem dar, se talvez em breve 
trecho, elle se dignar conceder-lhes que 
apanhem as migalhas do grande banquete 
ao qual, n'aquelle momento, o não querem 
admittir. 

Felizes todos, monges, frades, bispos, car- 
deaes e papa, se um dia poderem acolher- 
se humildes e trementes á sombra da ban- 
deira, que neste momento impedem que se 
desfralde sobre o horizonte do mundo catho- 
lico I . . . Mas desgraçado de quem quer que 
seja, religioso ou leigo, que ouse atacar de 
frente e a descoberto os companheiros de 
Jesus ! Esse então será preciso que caia, e 
cairá ; esse então será banido como Miguel 
Navarro, ou morrerá subitamente como 
Barreira; apodrecerá n'uma prisão como Mu- 
darra, ou será queimado vivo como Casti- 
Iha e Agostinho do Piemonte. 

Quaes foram os crimes d estes homens? 

Tinham criticado as obras de Ignacio e 
rido dos seus pretendidos milagres!! 

Ignacio reuniu os seus companheiros e 
disse-lhes : «O ceu fechou-nos a porta da 
Palestina ' para nos abrir a do universo. O 
nos.so pequenino numero não bastava para 
tal obra, elle o augmentou, e tanto, que já 
formamos um batalhão, e ainda o augmcntará 
mais. Mas os membros não se fortificam n'um 
corpo emquanto não estão ligados entre si 



' Não fechou tal, elles é que não quizeram espe- 
rar que se abrisse. 



pelo mesmo laço. E' preciso fazer leis que 
rejam a familia reunida á voz de Deus, e 
que não .só dêem vida á sociedade que va- 
mos estabelecer, mas que lhe assegurem 
uma eterna duração. Rezemos juntos e se- 
paradamente para que a divina vontade se 
manifeste.» 

Entretanto o papa vae-se demorando em 
Nice, a.ssistindo á entrevista de Carlos V c 
Francisco I ; mas Ignacio e os seus compa- 
nheiros é que não podem estar inactivos, e 
directa ou indirectamente os seus nomes ap- 
parecem na historia ligados a acontecimen- 
tos, alguns bem .singulares e extraordinários. 

P^ntre muitos escolheremos dois exemplos. 

Por aquella epocha, um padre de Sienna. 
espécie de Rabelais da Itália, ou o Floridor 
e Borromeu dos nossos dias, dividia o seu 
tempo entre a egreja e o thcatro. De manhã, 
dizia missa, e á noite representava as come- 
dias que elle próprio compunha, c na sua 
maior parte escriptas no género que os ita- 
lianos chamam comedia d' arte. Vma noite 
em que os espectadores se preparavam pa- 
ra rirem a bandeiras despregadas das chala- 
ças do improvisador, viram-o apparecer ves- 
tido de penitente, corda ao pescoço e der- 
ramando abundantes e amargas lagrimas. 
Faz uma confissão publica, pede perdão ao 
povo do escândalo que tinha dado, e acaba 
por declarar que era aos padres da Compa- 
nhia de Jesus que devia a sua conversão. 
Não sabemos se o publico achou esta come- 
dia imprevista tão boa como a que espera- 
va ver improvisar. O que não podemos ne- 
gar c a sciencia da inise-cn-scène, por parte 
dos jesuítas. 

Mas no que mais se empenhava a atten- 
ção de Ignacio, era em organisar e dar u 
máximo desenvolvimento possível á Congre- 
gação da Graça da Santa Virgem, origem de 
todas essas associações femininas, que sob a 
protecção de Maria, e compostas de mulhe- 
res de todas as classes e situações, teem 
vindo até nós, perturbando não só a vida in- 
tima da familia como a marcha progressiva 
da sociedade. 

Esta congregação foi in.stituida n'um ele- 
gante mosteiro, edificado com o dinheiro das 
damas romanas, que Ignacio soubera fazer in- 



DOS jesuítas 



3b 



tcressar se pela sua obrji piedosa. Os mem- 
bros desta nova instituição não la/.iam voto 
de espécie alguma, não estavam adstrictos a 
nenhuma regra, saiam e entravam á vonta- 
de no mosteiro de Santa Manha, que me- 
lhor se deveria chamar: de Magdalena a ar- 
repeiidida. 

Somente, de tempos a tempos, Ignacio per- 
corria as ruas da cidade eterna, á frente do 
singular regimento, de que se tinha consti- 
tuido coronel, e que conduzia cantando 
hymnos, quer para visitar alguma egreja e fa- 
zer estação, quer para ir a casa dessas pie- 
dosas protectoras que, á maneira da mulher 
de João da Vega embaixador de Carlos V, 
se encarregavam de catechisar as formosas 
peccadoras. 

Foi uma d'essas procissões que tentámos 
descrever no capitulo anterior e na qual se 
passou o drama que deixou na praça de Pas- 
quino o cadáver de António, louca a pobre 
Honorina sua tilha e junto delles um ho- 
mem vestido de padre. 

Este homem, alto magro, ossudo, com a 
fronte cortada de rugas e cercada de ca- 
bellos brancos tinha apenas quarenta annos, 
embora parecesse vergar ao peso dos ses- 
senta. 

Chamava-se Guilherme Postei e era tido 
como um dos clérigos mais instruídos da 
sua epocha, d'um espirito vivo, assimilável 
e ao mesmo tempo atrevido e audacioso. 
Nascido numa aldeia da Normandia, che- 
cara, unicamente levado pelo próprio mere- 
cimento, a ser nomeado professor da [uni- 
versidade de Paris. Francisco 1 e sua irmã, 
a rainha de Navarra, tinham-o em grande 
estima. Ignacio desejou chamar a si este ho- 
mem. Guilherme Postei fez-se seu discípulo 
e veiu ter com elle a Roma. 

Depois, um dia, a capital do mundo chris- 
tão ouviu falar d uma nova religião, ou pelo 
menos d' uma nova forma da religião de 
Christo, que se destinava unicamente ás mu- 
lheres e lhes annunciava um Messias do seu 
sexo, de quem o padre Postei se fazia o per- 
cursor. 

Misturando uma algaravia mystica, cheia 
de anciãs apaixonadas e de santos ardores, 
as ídéas de emancipação e de liberdade, 



muito approximadas das que no século pas- 
sado expozcram os sansímonianos a respei- 
to da mulher, o padre Postei bem depressa 
se viu seguido por uma multidão de prose- 
lytas. O S. João Baptista das mulheres pre- 
gava que Jesu-Christo so tinha tido em vista 
a salvação dos homens, mas que bem de- 
pressa appareceria uma redemptora femi- 
nina. ' 

Esta redemptora era esperada com im- 
paciência. 

O papa, occupado com Luthero, com o 
Concilio, com a discórdia entre Carlos V e 
Francisco I e mil outros embaraços, tinha 
coisas mais serias em que pensar do que 
cm a nova crença, embora ella ameaçasse 
tomar-lhe metade do seu throno pontifício. 

Devemos dizer que o padre Postei pre- 
gava a vinda do Messias feminino não no 
deserto, mas num velho templo de ^'esta, 
contíguo á egreja de S. Theodoro, e situado 
no local do antigo fórum romano. 

Foi para alli que elle conduziu Honorina 
louca, mas duma loucura branda e tran- 
quilla. 

Afastando-se do cadáver de seu pae, a 
pobre creança foi beijal-o na face já iria, 
dizendo-lhe: 

— Até breve, pae!... Depois seguiu sem 
resistência o padre Postei que a conduziu. 
E somente á noite os amigos do pescador 
vieram, emfim, buscar o cadáver que leva- 
ram a enterrar. 

Entretanto o padre Postei introduzia Ho- 
norina no templo de Vesta. Este monumento 
não era mais do que uma ruinaria, de que 
tinham desobstruído o interior, e n'aquella 
hora, uma turba enorme de mulheres de 
todas classes e edades, se achava alli reuni- 
da no meio da escuridão, visto que a cla- 
ridade não entrava lá dentro; salvo numa 
das extremidades do vasto recinto redondo, 
onde se apercebia uma espécie de nicho, 
cavado na espessura da parede, do qual saia 
uma luz deslumbrante, mitigada por uma 
grande cortina de setim, ricamente bordada. 
Era, diziam, nesse nicho que as vestaes con- 
sersavam o fogo sagrado, o qual. se se extin- 
guia, custava a vida da desgraçada que a 
seu lado adormecera. Para este ponto lu- 
minoso, pois, todos os olhares se dirigiam. 



?r, 



Historia géraL 



O padre Postei, depois de ter recebido os 
cumprimentos silenciosos da assembléa, que 
parecia começar a estar impaciente, subiu a 
um pedestal sem columna e pronunciou um 
discurso em estvlo mystico. que pareceu 
agitar com violência o seu nervoso audi- 
tório. 

— Minhas irmãs, disse elle terminando, a 
mulher annunciada que deve salvar as mu- 
lheres vae-se revelar emfim. De joelhos, ir- 
mãs crentes!. . . de joelhos I Eil-al 

N'este momento uma musica solenne se 
fez ouvir como se viesse de muito longe: o 
fumo do incenso, de cheiro penetrante, subiu 
até ás obscuras abobadas, e o grande vco 
de setim. corrido na frente do nicho, caiu 
de repente, deixando vêr uma mulher ves- 
tida á antiga com uma longa túnica branca. 
Assemelhava-se ella a essas vigorosas vir- 
gens do Ticiano. O seu magnifico busto 
sustentava uma cabeça expressiva, ornada 
de longos c bellos cabellos negros, apenas 
torcidos e caindo sobre os alvos e cheios 
hombros. Parecia ter quando muito, trinta 
annos; tinha os braços nus, os pés conche- 
gados n'umas sandálias, e n'uma das mãos 
um lyrio com que saudou a multidão, e de- 
pois falou. A sua voz forte, mas harmoniosa 
e vibrante, fez estremecer todas aquellas 
enthusiastas que a escutavam. Annunciava- 
Ihes uma nova era para a mulher, uma era 
de libertamente e de felicidade. . . 

O auditório admirado, persuadido, arre- 
batado aos últimos limites da exaltação, é 
repentinamente perturbado pela entrada tu- 
multuosa d'um bando de esbirros que inva- 
dem o templo, fazem brutalmente descer 
do nicho a redemptora que prendem, bem 
como ao padre Postei e a algumas das mais 
enthusiastas dentre as proselytas. Era um 
mandado do tribunal da inquisição que se 
executava. 

Todos esperavam que Ignacio de Loyola 
reclamasse o seu filiado, o padre Postei, 
como reclamara e protegera o assassino de 
António; mas Postei erà pobre de bens de 
fortuna e, pelo menos apparentemente, foi 
expulso da ordem. Dizemos apparentemente, 
porque Pasquier assegura ter visto Postei 
em Paris, alguns annos depois destes acon- 
tecimentos, na casa professa dos jesuítas, 



onde morreu centenário. Quanto á redem- 
ptora das mulheres, que era uma freira ve- 
neziana chamada D. .loanna, nunca mais se 
ouviu falar n'ella. 

Honorina mon-eu louca no mosteiro de 
Santa Martha; emquanto o seu seductor, o 
amigo de Ignacio, viveu honrado á sombra 
protectora da bandeira, que Loyola con.se- 
guira, por fim, ver abençoada pelo papa. 

Ignacio, cuja actividade não descança e que 
tão habilmente .serpêa por entre estes pe- 
quenos escândalos, como atravez dos gran- 
des obstáculos, continua em successivas re- 
uniões a discutir com os seus amigos as 
futuras constituições da ordem, e com bons 
argumentos soube convencei os que nada 
obteriam do papado por çimples prome.ssas, 
e que era precizo apresentar ideias praticas; 
expostas com clareza, e de molde a fazerem 
conhecer o espirito, as tendências, as regras, 
o fim e as vantagens da sociedade que que- 
riam fundar. 

Redigido que foi o plano das futuras con- 
stituições da ordem nas suas linhas geracs, 
Ignacio achou um protector efficaz no car- 
'deal Contarini, que se encarregou de fazer 
chegar o precioso memorial ao papa Pau- 
lo III. 

Kste leu, meditou, e, ou não comprehen- 
deu desde logo a importância da nova milí- 
cia, ou comprehendeu de mais, e hesitou em 
conceder a bulia de instituição, sem a qual a 
companhia, em vez de ser considerada uma 
tropa regular, ficaria reduzida a uma simples 
guerrilha, muito sujeitavel ao poder da Inqui- 
sição. Mas, instado por mil influencias, no- 
meou três cardeaes a quem deu por missão 
estudarem o assumpto. Estes pronunciaram- 
se clara e terminantemente contra a funda- 
ção de uma nova ordem religiosa; as antigas 
já eram por demais numerosas, como disse 
sem rodeios um dos três delegados, o car- 
deal Guidiccioni, homem d'um grande mé- 
rito e dum vasto saber '. 



' Esta opinião não era especiosa e unicamente des- 
tinada a combater a nova instituição. Uma commissão 
de cardeaes nomeada pelo papa, para fazer um relató- 
rio dos males de que enfermava o calholicismo e um 
plano de reformas da Egreja romana tinha escri^^to 
entre outras coisas o seguinte: — «Um outro abuso 



I 



tX)S JESUÍTAS 



E esta a versão verdadeira que se apura 
do estudo dos documentos contemporâneos. 
(>omprehende-se que não seja a dos jesuítas, 
por isso mesmo que é a verdadeira. Dizem 
elles que : mal o papa leu as (Constituições. 
immediatamente exclamara : t Kslá aqui o 
dí'do de Deus! o Seja qual fôr a authcntici- 



Santo, a questão estava lançada em bom 
caminho, e Santo Ignacio tratou de pedir a 
Cf)nfirmação duma approvacão tão enthu- 
siasta por um acto authentico: mas fizeram-a 
esperar, segundo os hábitos lentos e de pru- 
dência da corte romana. Durante todas estas 
negociações, os futuros icsiiitas não descan- 




Ignacio de Loyola prega contra as -amaa.. dos padres 



dade d"este aproposito, que parece ter sido 
inventado como uma revelação do Espirito 



a corrigir é o das ordens religiosas, porque estão por 
tal forma corrompida» que são um verdadeiro escân- 
dalo para os seculares, e um prejuízo pelo mau exem- 
plo. Julgam que é prudente abolil-as a todas, sem 
comtudo fazer injuria a quem quer que seja, mas 
prohibindo-lhes de receberem noviços. Desta ma- 
neira ficarão bem depressa esiinctas sem prejudicar 
pessoa alguma, e poder-se-hão substituir por bons 
religiosos. Quanto ao presente, parece-nos que se 
deve mandar sair dos mosteiros todos os que ainda 
não professaram». 



çaram em recrutar adhesões e formarem con- 
gregações e noviciados. Tinham já a abso- 



Lembra o decreto de 3 d'agosto de i8J3. 
Diziam mais os principes vermelhos; 

«Outro abuso perturba o povo christâo, por causa 
das religiosas que vivem sob a direcção dos irmãos 
conventuaes. Na maioria dos mosteiros de mulheres 
commettem-se sacrilégios públicos, com grande es- 
cândalo dos cidadãos. Que V. Santidade tire aos con- 
ventuaes toda a auctoridade sobre as religiosas, e que 
dè aos bispos ou a outros a direcção d'esses con« 
ventos.» 



3S 



HISTORIA GERAL 



luta confiança da Santa Sé. checando até a 
serem muitas vezes encarregados dos seus 
negócios, e Ignacio, comquanto o não fosse 
por eleição, era' para todos os efteitos o ge- 
ral reconhecido da companhia. 

Por seu mandado, Laynez e Le-Fèvre 
acompanham Ennius Philonardi. cardeal de 
Sant'Angelo, na sua legação de Parma, ci- 
dade que estava ameaçada da invasão dos 
sectários, no intento de a preservar da in- 
fecção. O delegado escolheu estes dois mis- 
sionários, que trataram logo de fazer a corte 
e de chamarem em seu adjutorio as mulheres 
d'alli mais distinctas pelo nascimento e pela 
belleza. Com o seu auxilio c d'alguns ecclc- 
siasticos conseguem formar uma congrega- 
ção. Por seu lado, Bobadilha fora enviado 
como embaixador pacifico para pôr um ter- 
mo ás discussões que fermentavam na ilha 
de schia, e Lejay partira para Brescia a 
op '.r a sua dialéctica aos innovadores que 
se eavarh a palavra da liberdade do pensa- 
m2nto. Pasquier-Brouet e Francisco Strada, 
uma nova conquista de Ignacio, seguiram 
para Sienna, com a missão de trazer ao rego 
do dever certos religiosos de vida desregra- 
da. Codure pregava em Pádua, onde esteve 
em riscos de dar contas muito apertadas á 
Inquisição. Simão Rodrigues c Francisco 
Xavier partiram para Portugal a instancias 
de D. João III, indo Xavier para evangelisar 
a índia e ficando Simão Rodrigues no con- 
tinente, para instituir aqui a ordem, como 
a seu tempo mais detidamente contare- 
mos. 

Emfim no dia 27 de setembro de 1540, o 
papa Paulo III (Farnese) publica a bulia 
Regiwini milttantis Fxclesice, instituindo a 
Companhia de Jesus. 

O pensamento de Ignacio de Loyola aca- 
ba de tomar corpo; o seu sonho gigantesco 
é emfim uma realidade, realidade terrivel, 
contra a qual a humanidade vae, desde já, 
ter que debater-se como se caísse nas gar- 
ras d'um abutre immenso, insaciável. No 
sopé do castello de Sant' Angelo, onde rei- 
nará sempre, na sua faustosa e santa ocio- 
sidade, o papa de Roma, viu-se elevar a Casa 
Professa, d'onde o papa uegro, como é cha- 
mado o geral dos jesuítas, vae começar a 
revolver o mundo. 



Antes de irmos mais além, convém que 
lancemos um olhar rápido á bulia da appro- 
vação da companhia, que pode ser conside- 
rada como o acto otticíal do nascimento da 
celebre sociedade. Contém ella o compendio 
das (Constituições * e merece ser examinada 
neste sentido. 

Na bulia de Paulo 111, este compendio das 
constituições está designado sob o nome de 
Plano de vida conforme aos conselhos evan- 
•íelicos, e ás decisões canónicas dos Santos 
Padres. 

O texto pontifical reduz-se a poucas pa- 
lavras, e é a supplica de ignacio, integral- 
mente inserida na bulia, que, realmente con- 
stitue esta. Paulo III constata, no estvio 
ottícial da Cúria que, «proposto para reger 
a Egreja militante», é ao pontífice romano 
que compete dispor dos favores apostólicos. 
Depois lembra que um plano de vida «con- 
forme aos conselhos evangélicos » lhe foi 
apresentado pelos jesuítas, cujos nomes cita 
, e já conhecemos, e termina declarando nada 
haver encontrado no tal plano que não sej^a 
piedoso e santo, e que, portanto, o authen- 
tíca com a sua assignatura. 

Resumamos esse documento, extrahindo 
d'ellc as mais essenciaes das suas disposi- 
ções. 

«Quem quizer, diz Loyola, pelejar por 
Deus, sob o estandarte da cruz e servir o 
único Senhor, e o seu vigário, o pontífice 
romano em a nossa sociedade, que desejá- 
vamos fosse chamada a Companhia de Je- 
sus, deve, depois de ter feito voto perpetuo 
de castidade, expôr-se a fazer parte d'uma 
sociedade principalmente instituída para tra- 
balhar pelo progresso das almas na vida e na 
doctrína chrístã, e pela propagação da fé... 
Deve também praticar de maneira tal que 
tenha sempre á vista: primeiramente a Deus, 
e depois a forma d'este instituto.» 

Segue depois esta forma, ou formula de 
vida, que se resume em dez fundamentos: 

I." A sociedade será governada por um 
prelado ou gerai eleito por ella, e a quem 
pertence exclusivamente o direito de gover- 
nar. E elle quem prescreverá qíiaes as coisas 



• Em capitulo especial trataremos mais detida- 
mente d'este código de leis jesuíticas. 



DOS JESUÍTAS 



que coiii'L'L'm ao Jim qia- Deus e a sociedade 
teem em visla, decidirá do lívau pruprio da 
vocação de cada um, bem como dos empre- 
ííos, os quaes eslardo iodos em sua mão; e, 
finalmente terá a auclondade de fa^er as 
cousíiluições, com o cousentimenlo d'aquelles 
que lhe são associados, em conselho onde tudo 
se decidirá pela maioria de rotos. 

2." Ustc conselho, nas coisas importantes 
e que devem subsistir, será composto do 
maior numero de membros da sociedade 
que o geral poder commodamente reunir. 
Serão consultados sobre as coisas ligeiras c 
momentâneas, todos os que se acharem no 
logar onde residir o geral. 

3." Os membros da sociedade compromct- 
tem-se por um voto particular, de forma tal 
que qualquer coisa que o pontificc romano 
lhes mandar para o progresso das almas e 
propagação da fé, em qualquer pais que seja, 
embora em terra de turcos ou de outros 
in/ieis, heréticos, scismaticos ou mesmo de 
quaesquer fieis, o executarão immediatamen- 
te sem tergiversação nem escusa. 

4." Os membros da sociedade promette- 
rão de nunca solicitarem estas missões em dif- 
ferentes países; obrigar-se-hão mais a nunca 
fazerem a este respeito nem directa nem in- 
directamente qualquer pedido ao papa; o ge- 
ral egualmcnte prometterá de não solicitar do 
papa destino e missã.o para a sua própria pes- 
soa, salvo com o consentimento da sociedade. 

5." Todos farão voto de obedecer ao ge- 
ral, em todas as coisas que se relacionarem 
com o Instituto. 

b." Os membros da sociedade farão voto 
perpetuo de castidade. 

7." Todos e cada um farão voto perpetuo 
de pobre/a, de forma que não possam adqui- 
rir liem em particular item em commum 
quaesquer direitos civis a betis immoveis ou 
quaesquer rendas ou usofructos. 

S." Comtudo, poderão, nas universidades, 
collegios, possuir rendas, e fundos applica- 
veis aos estudantes *, os quaes, depois de 
prova suficiente, poderão ser admittidos na 
companhia. 



' Hoje fazem exactamente o contrario. Teem es- 
tudantes de quem auferem lucros applicaveis ás suas 
pessoas. 



y." Os membros da companhia, que tive- 
rem ordens sacras, recitarão o otticio divino 
cm particular e não em commum nem no 
coro. 

K o papa, em virtude da sua auctoridade 
apostólica, declara abençoar e garantir com 
perpetua estabilidade tudo de que acabamos 
de expor os pontos principaes; tomar os as- 
sociados debaixo da sua protecção especial 
e da Santa-Sé; permittir-lhes de fazerem de 
plena vontade e direito próprio as constitui- 
ções que julgarem convenientes ao fim da 
companhia. 

Ainda assim, coisa curiosa, o papa declara 
que não quer que as pessoas que desejem 
professar n este género de vida, e serem 
admittidas na sociedade, excedam o numero 
de sessenta '. 

A bulia ajuntava : 

«Que ninguém no mundo tenha a temeri- 
dade de violar ou contradizer nenhum dos 
pontos aqui expressos da nossa approvação, 
do nosso acolhimento, da nossa concessão, 
e da nossa vontade. Se alguém o ousar ten- 
tar, saiba que incorrerá na indignação de 
Deus Todo-Podero.so e dos bemaventurados 
apóstolos Pedro e Paulo.» 

E fácil reconhecer a astúcia profunda, 
e consumada habilidade que redigiu esta 
forma de rida. A corte de Roína, inquieta, 
ameaçada n<i seu poderio, obrava, receben- 
do estes auxiliares, como os governos que 
chamam em seu auxilio um outro mais forte 
e ambicioso *, prompto a servil-os no m»)- 
mento para depois os dominar. O papado 



' Esta clausula restriciiva foi abolida pelo próprio 
Paulo III, na sua bulia de 14 de março de li^i. .\tiir- 
mam os jesuitas que ella fora introduzida na bulia 
da instituição a pedido de Ignacio de l.oyola; roas 
n'este caso o pensamento do papa ultrapassou o do 
fundador. O algarismo que Ignacio queriu restringir 
era o dos iniciados, dos jesuitas perfeitos, dos pro- 
fessos de quatro voios, dos quaes não serão ainda 
senão trinta e cinco sobre mil .1 morte de Loyola. A 
restricção do papa, ao contrario, extendia-se a quem 
quer que tizesse parte da companhia, inclusive aos 
congregados. Portanto nunca foi tomada no seu sen- 
tido stricto e litteral, e .intes mesmo de terem obtido 
a abrogação, os jesuitas já a illudiam, intcrpretandoa 
no sentido de Ignacio. 

2 Veja-se Portugal e Inglaterra, Cul)a e os iilstaiioi 
Unidos. 



HISTORIA GERAL 



imaginava adquirir instrumentos c cncon- 
trou-sc dominado por senhores. E expresso, 
n'este manifesto que todos ficarão submet- 
tidos á auctoridade do papa; mas também 
declara que todos os associados devem ter 
sempre cm vista: primeiramente a Deus e 
depois a forma do Instituto. Ora qual foi, 
em seguida, a primeira regra escripta na 
constituição d'estc instituto? Maiiifcslare sese 
im'icem: isto é, denunciarem-se mutuamen- 
te. E a quem: ao geral da ordem a quem 
os membros devem uma obediência cega. 



Qual é o fim do instituto? Um contemporâ- 
neo do fundador, Marianna, o disse: « Totinii 
n'iii>tii'ii uostrum vidctiir lume liabcre sco- 
ptim, ut walcfíicta injecta terra occultenliir. 
et hominum notitice subtrahentur : toda a 
nossa instituição parece ter por fim occultar 
debaixo da terra as más acções, c afastal-as 
do conhecimento dos homens.» 

Quanto aos votos de castidade, pobreza, 
obediência, e outros, que são apanágio dos 
santos ou dos homens de bem, veremos, no 
correr d'esta obra, como foram cumpridos. 



DOS jesuítas 




o jesuíta Bobaailha na batalha de Muhlberg 



ia 



HISTORIA GERAL 



y 



Ignacio geral eleito 



ASSIM que foi approvada pela Santa-Sé 
a nova milícia, Loyola pcnsouem dar- 
Ihc um chefe. Para isso fez chamar os seus 
companheiros que estavam espalhados den- 
tro c fora da Itália, e que podiam vir a Ro- 
ma. Francisco Xavier e Rodrigues acha- 
vam-se cm Portugal, mas quando se foram 
embora tinham deixado os- seus votos •. Pe- 
dro Lc Févre mandou o seu. O único que 
faltou foi Bobadilha. 

Como era de esperar, o lundador foi eleito 
por unanimidade, salvo um voto, que foi o 
seu; mas que não deu a nenhum dos seus 
companheiros. K como no jesuitismo ha des- 
culpa para tudo, Bouhours, apreciando este 
facto, diz: to seu voto não escandalizava ne- 
nhum dos seus companheiros, conservando 
o fiel. da balança sem pender mais para um 
lado do que para outro.» 

Ignacio escreveu na sua lista: «Eu só ex- 
ceptuado, dou o meu voto em Nosso-Senhor. 
para que seja nosso superior aquelle que 
se vir que reuniu o maior numero de votos«. 



' Eis o texto do voto de Francisco Xavier, tal co- 
mo o dá Banoli: «Eu, Francisco, não sendo actuado 
por nenhuma consideração humana, c não escutando 
senão a minha consciência, digo c declaro que é mi- 
nha opinião que se deve eleger por chefe da nossa 
companhia, aquelle a quem todos devemos obediên- 
cia, nosso amigo mestre e verdadeiro pae D. Ignacio. 
I>epois que nos reuniu a lodos, não tem grandes fadi- 
gas, ellc saber;i conservar-nos melhor do que ninguém, 
govemar-nos e dirigir-nos sem cessar para uma mais 
alta perfeição, porque tem de nós o mais intimo co- 
nhecimento. K depois da sua morte. — falo segundo 



Isto representa, segundo assegura Bartoli, 
a cobrir, com um acto de profunda humilda- 
de, uma prudência admirável e um maravi- 
lhoso tino.» 

O resultado do escrutínio siirprehendeu-o 
e affUgiu-o, affirmam os jesuítas. 

N'esta surpresa é que por certo ninguém 
acredita, nem tão pouco na humildade, mais 
um d'esses actos theatraes que estavam no 
seu temperamento de hispanhol, e com os 
quaes marcava, como já temos visto e vere- 
mos ainda, todos os acontecimentos em que 
tomava parte. 

Representada a comedia da dissimulação 
e da audácia, e feita uma segunda eleição, 
cedeu aos pedidos dos seus companheiros, 
depois de ter consultado o seu confessor, 
um franciscano, o qual, dada que foi a sua 
opinião, desapparcceu para sempre da vida 
de Ignacio. 

O acto canónico da eleição foi renovado 
no dia de Paschoa, — 17 d'abril de 1341. — 
Ignacio tinha então 49 annos. As fadigas do 
corpo e do espirito tinham-n'o encanecido 
e cavado rugas fundas no rosto. Mas n'aquel- 
la fronte calva brilhava o quer que fosse do 
génio: e a energia da sua vontade revelava- 



o sentimento profundo de minha alma, como se de- 
vesse morrer n'este mesmo momento, — julgo que 
D. Pedro l,e Févre deve tomar o seu logar ; e n'isto, 
tomo o testemunho de Deus, de como falo unica- 
mente segundo o meu pensamento. Em fé do que 
assigno com a minha própria mão. Francisco. Feita 
em Roma, hoje li de março de 1J40. 



DOS jesuítas 



43 



se na acuidade do seu olliar penetrante e tu- 
do n'elle annunciava que iria gosar, na tran- 
quillidade do mando, durante muitos annos, 
I) Iructo da sua ambição, afinal satisfeita. 

A 22 do mesmo mez, o mestre e os disci- 
pulos, depois de terem visitado as egrejas de 
Roma. dirigiram-se á de S. Paulo, fora de 
muros. Ignacio celebrou missa no altar da 
\ irgem, e multidão enorme encheu o templo. 

Antes de commungar, voltou-se para o po- 
vo, e, tendo em uma das mãos a hóstia e na 
outra a formula dos votos, leu esta com voz 
clara e distincta. compromettendo-se para 
com o soberano pontifice á obediência em 
relação ás missões *. Depois com as outras cin- 
co hóstias que consagrara, deu a commu- 
nhão a Laynez. Le ,Iay, Brouet, Codure e 
Salmeron, ajoelhados a seus pés, e d'elles 
recebeu o juramento e os votos. 

Eil-o senhor absoluto, elle e todos os que 
lhe succederam sem reconhecerem outra au- 
ctoridade se não a da própria Companhia. 
Foi pois deante delia que elle se inclinou no 
momento em que d'ella recebia a homena- 
gem da sua obediência. 

«A única differença que ha entre a pro- 
fissão do padre Ignacio de Loyola e a dos 
outros, diz o padre Bouhours, foi que, elle 
fez a promessa immediata ao vigário de Je- 
su-Christo, e os seus companheiros fizeram- 
na a elle mesmo, como ao seu geral e che- 
fe.» 

Para caminharmos com verdadeiro conhe- 
cimento dos factos, precisamos saber qual a 
organisação interna que Ignacio deu á sua 
sociedade embora ainda tenhamos que nos 
referir a ella. 

O seu principal cuidado foi isolal-a com- 
pletamente de todas as outras ordens reli- 
giosas, afim de que a sua prosperidade exclu- 
siva fosse a aspiração de cada um dos seus 
membros. Imprimiu-ihe para isso duas ca- 
racterísticas, a de ordem mendicante e a de 
ordem monástica. Elle próprio traçou as con- 
dições a que tinham de satisfazeres que d'ella 
quizessem fazer parte. 



• Esta palavra não tinha na intenção de Ignacio o 
sentido que hoje lhe damos, e tudo leva a crer que 
elle pensava unicamente em missões diplomáticas, de 
que queria que a ordem tivesse o privilegio. 



A admissão noutra qualquer ordem foi 
um impedimento para ser recebido na socie- 
dade de Jesus. 

O noviço deve, desde logo, renunciar a 
todas as atVeições de amisade e família, co- 
mo renuncia á sua própria vontade'. 

A companhia foi dividida em seis estados: 

I ." — Os noviços ; 

2." — Os irmãos temporaes formados ; 

3."— Os escolares approvados; 

4." — Os coadjutores espirituaes formados; 

h." Os professos de três votos ; 

<")■" — Os professos de quatro votos. 

Os noviços ficaram divididos em ires 
classes : 

I."— Noviços destinados ao sacerdócio; 

2." — Noviços para os otticios temporaes; 

3." — InditVerentes ; isto é os que entram 
na companhia para serem padres ou coadju- 
tores temporaes, segundo o destino que o 
superior lhes quizer dar. 

Os irmãos teniforacs formados occupam 
a ordem como sacristães, porteiros, cozi- 
nheiros, etc. ; o seu tempo de provação é fi- 
xado em dez annos ; aos trinta e três são 
admittidos a votos públicos. 

Os escolares approvados são aquelles que, 
tendo terminado o tempo de noviços e pro- 
nunciado os votos simples da religião, con- 
tinuam as suas provas, quer em estudos par- 
ticulares, quer no ensino até proferirem os 
votos solennes. 

Os coadiijtores espirituaes formados são 
empregados no governo dos collegios. nas 
pregações, no ensino, nas missões ou na 
administração : devem ter pelo menos trinta 
annos de edade e dez de votos simples de 
religião. 

Os professos de três votos são admittidos 
á profissão solenne por qualquer qualidade, 
mérito ou talento que os eleve acima dos 
coadjutores espirituaes formados, com quem 
partilham os cargos. 

Os professos de quatro rolos formam o 
primeiro annel da hierarchia. O professo de 
quatro votos é o jcsuita completo, o jesuila 
modelo, a maior das monstruosidades mo- 
raes que .se possa imaginar. Klle pas.sou por 

' O que c simplesmente selvagem, anti-social e des- 
huniano. 



H 



HISTORIA GERAL 



todas as provas ; pódc entrar nas congrega- 
ções em que se eleger o geral ; pôde ser no- 
meado provincial, secretario geral, assisten- 
te, geral ! 

Uma egualdade apparente e material, uma 
egualdade de alimentação, de alojamento 
reina em toda a sociedade. A única distin- 
cção consiste no vestuário dos irmãos coa- 
djutores, que deve de ser mais curto que o 
dos outros. 

A sociedade não contráe nenhuma obriga- 
ção para com os seus escolares ; estes é que 
se obrigam para com ella, a ponto de nem 
sequer poderem gosar dos seus bens sem o 
consentimento dos superiores. Sujeitos a esta 
resen-a deixam-lhes a propriedade delles. 

O tempo das provas é de três annos, dos 
quinze aos dezoito. 

Somente aos trinta annos, edade de Christo, 
se podem ligar pelos votos. 

Os professos não podem acceitar nenhuma 
dignidade ecclesiastica, a não ser que o papa 
os obrigue a isso, sob pena de peccado mor- 
tal. 

Ignacio decidiu que a sociedade seria go- 
vernada por um geral perpetuo e absoluto 
— que é nomeado pela congregação geral 
e não pôde recusar ; 

— que reside em Roma i 

— que faz só elle as regras, e só elle dis- 
pensa na sua execução ; 

— que governa e não prega ; 

— que delega os seus poderes nos provin- 
ciaese em outros superiores por três annos, no 
máximo, segundo lhe convenha ; 

— que approva ou reprova por sua única 
vontade os seus delegados, visitadores, com- 
missarios, provinciaes, etc. ; 

— que nomeia os administradores da so- 
ciedade, taes como o procurador e o secre- 
tario geral ; 

— que quebra por seu alvedrio a hicrar- 
chia, tendo poder para subtrair tal e tal 
membro á )urisdicção do seu superior imme- 
diato ; 

— que delega os examinadores para lerem, 
approvarem ou prohibirem qualquer obra 
composta pelos membros da sociedade. 

Além destes enormes e discrecionarios 
poderes, elle recebe todos os três annos um 
relatório dos provinciaes, que o informam 



da edade dos alumnos, das suas disposições, 
dos seus caracteres e progressos. 

Todos os dias os superiores de tal ou tal 
localidade dirigem um relatório ao seu pro- 
vincial, sobre os quaes este trabalha o rela- 
tório triennal para o geral. 

Pôde expulsar qualquer membro da com- 
panhia, salvo se este fôr professo, para o que 
necessita do consentimento do papa. 

Indica quaes os estudos a que deve ser 
destinado qualquer postulante ou professo ; 
envia-os para onde lhe approuver, termina- 
dos os estudos, e pelo tempo que lhe pare- 
cer. 

Pôde revocar ou chamar os missionários 
nomeados pelo papa, se o tempo da missão 
não fòr determinado. 

Pôde crear novas provincias, se assim o 
julgar opportuno. 

Estipula, para as casas professas e colle- 
gios, os contractos de compra e venda, de 
empréstimo, de contribuições de renda c 
outros. 

Convoca a sociedade em congregação ge- 
ral ; btm como as congregações provinciaes. 

Tem dois votos nas assembléas; e em 
caso d'empate o seu é preponderante. 

A denuncia, que é de principio absoluto 
na sociedade de Jesus, que é estabelecida em 
favor do geral, também o é contra elle. Su- 
premo espião, também é espionado por sua 
vez. 

A sociedade tem direito de inspecção so- 
bre o vestuário, alimentação e despczas do 
geral. 

E' vigiado por um admonitor nomeado 
pela congregação geral, que previne esta das 
irregularidades que observa no procedimento 
do geral. 

A sociedade tem direito de se oppôr a 
que o geral abandone as suas funcções para 
acceitar uma dignidade offerecida pelo papa, 
salvo o caso de imposição com pena de pec- 
cado mortal. 

A sociedade nomeia um coadjutor ou vi- 
gário que substitue o geral em caso de ne- 
gligencia, velhice ou doença d'este, reputada 
incurável. 

A sociedade tem direito a depôl-o ou mes- 
mo a expulsal-o da ordem se elle commetter 
pcccados mortaes que se tornem públicos, 



DOS jesuítas 



se desviar em seu proveito as rendas, c se 
alienar os iinmoveis da companhia. 

Quatro assistentes estão sempre junto de 
elle, encarregados de vigiar a execução des- 
tas disposições. 

Se um dos assistentes morrer ou se ausen- 
tar por um tempo indeterminado, o geral o 
substitue, salvo a approvação dos provin- 
ciaes. 

Os assistentes só podem ser escolhidos 



disposições vitaes, as constituições da com 
panhia de Jesus. Tudo aqui se encadeia, tudo 
se liga estreitamente, tudo concorre para 
a unidade, para o augmento e poderio da 
ordem. E' o código mais compacto, mais 
completo, mais vigoroso que tem saido da 
imaginação d'um homem. 

O dedo de Deus está alli, pelo menos no 
que ha de mais potente depois de Deus :— 
a lógica. 




nos professos das grandes províncias taes 
como Portugal, Itália, Hispanha, França e 
Allemanha. 

Se julgarem que o geral merece ser des- 
tituido, convoca, não obstante opposição de 
elle, uma congregação geral. 

Se o caso lhes parecer urgente depÕem-o 
elles próprios, depois de terem recolhido, 
por meio de cartas, os votos dos provinciaes. 

Todos os três annos, as congregações pro- 
vinciaes devem examinar entre si, e fora da 
influencia do geral, se será útil convocar 
uma congregação geral. O voto é por es- 
cripto. 

Taes são, no seu conjuncto e nas suas 



;;• :'irr.;r.i03 de Roma 

Deixaremos de parte se Ignacio teve ou 
não o dom do milagre. São coisas em que 
ninguém, hoje, pensa a sério. 

Os primeiros biographos passaram de leve 
sobre o assumpto; depois, para repararem a 
omissão, attribuiram-lhos aos centos, embora 
feitos depois de morto. Entre os que se di- 
zem authenticados, ha um d'uma imagem de 
Ignacio, impressa em papel, que deitou san- 
gue por um dedo, em iGb6, n"uma egreja 
da Sicília. O prodígio está contado n'um li- 
vro impresso cm Palermo, em it)68. 

Entre outros milagres jesuíticos, não resis- 
timos ao desejo de transcrever o que se se- 
gue, para vèr de que força são. 



46 



HISTORIA GERAL 



Havia um jesuita hespanhol que pelas 
suas qualidades de piedade e virtudes tinha 
recebido de Deus o dom de fazer milagres. 
O santo homem usava e abusava deste pri- 
vilegio, a ponto do superior, que nunca fora 
capaz de exorcismar o mais pequeno demó- 
nio, nem curar a mais insignificante consti- 
pação, lhe ter grande inveja, pelo que o 
prohibiu de continuar a exercer tal mister, 
allegando o mau exemplo e a grave infrac- 
ção de hierarchia. 

— Que só Deus lhe podia tirar o que Deus 
lhe havia dado, podia ter-lhe respondido o 
bom do thaumaturgo; mas preferiu caiar-se 
e dar assim uma licçao edificante de obediên- 
cia e respeito ás constituições de Ignacio. 

Ora um dia, passeava o bom do jesuita 
pelas ruas de Madrid, quando um pobre 
diabo, levado ao desespero pela traição da 
amante, resolveu acabar com a vida deitan- 
do-se da janella á rua. 

O homem a dar o salto mortal e o jesuita 
a levantar a cabeça. Eisquecendo-se momen- 
taneamente da prohibição do superior, esten- 
deu a mão direita em direcção do desgra- 
çado, e ahi fica elle com os braços e pernas 
abertas, muito admirado da sua nova aven- 
tura, suspenso a vinte pés do chão, entre 
ceu e terra! 

Como porém lhe parecesse pouco commoda 
a p,osição, esperneava e agitava-se. Mas quê! 
Nem descia nem subia ! Para cumulo ficou 
suspenso exactamente defronte da janella da 
infiel, que habitava uma casa fronteira á 
d'elle. 

A bella, para gosar tão raro e estranho es- 
pectáculo, veiu para a varanda, ria a bom rir, 
c cada gargalhada mais augmentava as care- 
tas e tregeitos do pobre tolo. 

O jesuita, já bastante arrependido do que 
tinha feito, dispunha-se a ir-se embora, quan- 
do o outro, com voz supplicante, o chamou. 
O jesuita, então, disse-lhe : 

— Espera ahi, vou alli ao convento e já 
venho. 



Correu ao superior, contou-lhe o succe- 
dido, pediu-lhe licença para acabar o mila- 
gre e prometteu nunca mais se metter em 
semelhantes assados. 

O superior foi inflexível; a inveja não cedeu 
logar á caridade christã, e mais uma vez re- 
cusou a auctorisação para tal milagre. O 
jesuita voltou então para o paciente: 

— Irmão, disse elle, perdoa-me em nome 
da boa intenção; queria salvar-te da morte 
certa, mas o meu superior prohibe-me que 
tal faça. O mais que posso é deixar-te n'essa 
posição em que estás. Vê lá se te convém. 

— Vá p'ro diabo! responde o outro. Que 
lindo serviço este, hein? Que tem você de 
se andar a metter nos negócios de cada um ? 
Pelo amor de Deus, meu padre, faça-me su- 
bir até ao meu quarto. 

— E-me impossivel, diz o padre. 

— Juro viver santamente. 

— Ou ficas onde estás, ou cáes. 

— Faço-me jesuita. 

— Sério ? 

— Palavra dhonra I Antes isso, que ficar 
aqui como um boneco de palha. 

— E>ntão espera mais um boccado, talvez 
-se arranje. 

Novos pedidos ao superior, e novas re- 
cusas. 

O jesuita voltou d'orelha murcha e cora- 
ção negro. 

— Paciência, irmão, nada posso para te 
salvar; escolhe: ou quebras as coslellas ou 
ficas onde estás. 

No mesmo instante entra o rival e abraça 
a amante. 

— Deixa-ma cair! gritou o desgraçado. 

— Cae! disse o jesuita. 

E o desgraçado caiu e esmigalhou a ca- 
beça d'encontro ás pedras da rua. 

Se n'esse tempo já houvesse a medalha 
milagrosa e elle a trouxesse, teria baixado 
á rua com a magestade d'um balão. 

E, como diz o poeta: 

J'cn passe, cl lics nwilleiirs! 



DOS jesuítas 



4-.. 



VI 



Da eleição á morte 



MAi. foi reconhecido e se sentiu installado, 
o novo poder accentua-se e faz pesar a 
sua acção sobre quasi toda a superfície do 
mundo conhecido. Impaciente por pôr em 
pratica todas as theorias, Ignacio lança em . 
todas as direcções o exercito de que é o ge- 
neral, e cujas fileiras vão augmentar dhora 
a hora. Onde quer que irrompa uma lucta, 
quer de povo contra povo, quer de povo con- 
tra rei, logo se vé correr qualquer membro 
da negra milicia ao campo da refrega, saben- 
do admiravelmente converter todas as bata- 
lhas em victoria própria, fazer de qualquer 
ponto de passagem um posto tirme, do mais 
pequeno consentimento tácito obter um ti- 
tulo formal, de qualquer acontecimento au- 
ferir proveito. 

A um signal de Loyola, o padre Araoz 
corre a luctar em Hispanha contra os domi- 
nicanos, seus eternos rivaes. A Hispanha 
abre as suas portas aos jesuítas, graças a 
Laynez, que, fazendo-se intermediário casa- 
menteiro, contracta a união do filho do im- 
perador Carlos V com a filha de D. João III, 
de Portugal. Este nosso rei, por seu lado, 
escolhe os jesuítas para irem missionar na 
índia portuguesa, e promettc-lhes a entrada 
em todas as suas colónias. Foi talvez para 
reconhecerem tal favor, que mais tarde aju- 
daram Filippe II a apoderar-se de Portugal! 

Os padres Le Févre c Lejay assistem 
triumphalmente ás dietas de Worms, Spira 
e Katisbonne. Ignacio faz representar a sua 



ordem no concilio de Trento por Laynez. 
Este perigoso, hábil e astucioso jesuíta, não 
menos ambicioso que seu mestre Ignacio, 
eleva, no meio das discussões do santo c 
irrequieto areópago, a sua palavra incisiva, 
que dentro em pouco levantará como um 
punhal sobre Theodoro dt Beze e os cal- 
vinistas de França. Francisco Xavier parte 
para ?i missão da índia. Outros missionários 
preparam-se para levar a bandeira da or- 
dem, mais do que a cruz de Christo, á China 
e ao Congo, ao Brasil e ao Paraguay, ao 
F^gvpto, á Abyssinia, ao Canadá, a toda a 
parte!. . . E já a Polónia, o Barbante, a Si- 
cília e a Córsega vêem elevar-se no seu solo 
os coUegios jesuíticos I 

A Irlanda catholica, principalmente por 
ódio aos ingleses, seus conquistadores e seus 
aggressores, parece disposta a revoltar-se 
contra Henrique VIII, o terrível rei d"lngla- 
terra, que acaba de erigir altar contra altar, 
e se declara chefe duma egreja indepen- 
dente da egreja de Roma ; e immediatamen- 
te Pasquier-Bruet e Salmeron correm, agi- 
tam e accendem no coração da verde Eriíi 
um incêndio terrível, que nem uma chuva 
de sangue é capaz de extinguir. 

Os protestantes dWIlemanha estão a ponto 
de concluir um tratado de paz com o impe- 
rador, e quando os dois partidos vão para 
assignar esse tratado, eis que entre elles se 
ergue Bobadilha, que, com a mão armada 
com um crucifixo, da o signal das terríveis 



4» 



HISTORIA GERAI. 



guerras de religiilo '. Na batalha de Muhlberg. 
em que as tropas imperiaes e papalinas se 
encontraram com o exercito dos príncipes 
lutheranos nas margens do Elba, a 24 dabril 
de iS5'4, Bobadillia, brandindo na impia mão 
o emblema dum Deus de paz e damor. 
conduziu ao combate os batalhões cathoh- 
cos, exaltados pelos seus discursos, pelo seu 
exemplo, pelas suas prophecias, e não ces- 
sou de os incitar a carnificina senão quando 
elle próprio esfalfado e ferido caiu quasi 
moribundo na planicic. onde o odioso fana- 
tismo acabava de fazer uma das suas mai^ 
sanguinolentas colheitas*. 

Sem duvida que taes serviços mereciam 
recompensa. Mas Ignacio promette ainda 
outros; a corte pontifícia assim o espera e 
conta com ellcs; além de que estava se- 
duzida e tranquilla por esse quarto voto 
d"obediencia especial á Santa- Sé, que tão ha- 
bilmente lhe tinham atirado como isca. 

Loyola viu, pois, confirmar e augmentar 
os privilégios da sua ordem ; a companhia 
de Jesus firmava-se em toda a parte ; os 
seus collegios e as suas casas professas 
construiam-se por toda a terra, levanta- 
vam-se egrejas sujeitas a um plano «archi- 
tectonico, caracterisado pelo artificio paciente 
d'uma combinação de linhas curvas, mes- 
quinhas e acanhadas, sem nobreza nem ele- 
vação; o numero dos seus membros au- 
gmenta de hora para hora ; a sua influencia 
cresce e engrandece-se constantemente. 



' Não queremos dizer que se devem tornar os je- 
suítas responsáveis de todo o sangue derramado n"es- 
ta deplorável querella; mas do muito que correu fo- 
ram elles os causadores. Bobadilha, dirigido por 
I.oyola, por tal sorte temia que os partidos depozes- 
sem as armas, que pregou contra o ínterim, lei pro- 
mulgada pelo imperador e que teria trazido a paz. 
Carlos V expulsou Bobadilha da AUemanha. Em 
Roma, este soldado de sotaina negra mereceu os 
elogios do papa, e a desapprovação, pelo menos ap- 
parente, do geral dos jesuítas a quem não convinha 
malquistar- se com Carlos V. 

* Hoje em dia, que já não conduzem batalhões á 
guerra, nem por isso deixam de incitar outras con- 
tendas que deixam no campo da batalha muitas af- 
feições, muitas deshonras e não poucos a intelligen- 
cia, a probidade e o brio. Se outr'ora brandiam a 
cruz no meio da refrega, hoje quebram a espada pa- 
ra terçarem as armas menos perigosas da calumnia e 
do ultraje. 



Nos seus primeiros annos um único papa 
se quiz oppòr. á invasão da sociedade jesuí- 
tica, quer fosse com receio d'esta nova po- 
tencia, quer na previsão dos excessos e dos 
crimes que dentro em pouco recochctariam 
contra o poder pontificio, quer unicamente 
por ciúme do papa negro, tornado um tanto 
ou quanto seu rival. Ignacio, então na ago- 
nia, não podia luctar contra a má vontade 
de Paulo ly. mas legou a vingança ao seu 
successor. 

Comquanto na sua mente não estivesse o 
nome de Laynez para lhe succeder, nem na 
da maioria dos professos, este, conquistando 
o generalato por meio d'uma bem urdida es- 
tratégia, mostrou, depois, que era digno 
d'elle, e mais que executor das doutrinas do 
mestre, um ampliador, um homem pratico 
que poz de parte completamente o que po- 
deria haver de intenção exclusivamente re- 
ligiosa na mente de Ignacio, para seguir 
numa ordem de idéas politicas c absorventes. 

Paulo IV' pouco tempo sobreviveu ao fun- 
dador da companhia de Jesus ; c mal o fe- 
charam no tumulo, Roma viu os sobrinhos 
do pontífice defuncto, um dos quaes comtu- 
do era cardeal, presos, lançados nas mas- 
morras por ordem de Pio IV, dedicado aos 
jesuítas, que tinham trabalhado pela sua elei- 
ção. Os accusados só compareceram peran- 
te os juizes para seguirem para o cadafalso 
onde lhes cortaram a cabeça. 

Os crimes que lhes imputaram eram os 
mesmos de todos ou quasi todos os filhos, 
sobrinhos ou parentes dos papas \ isto é, de 
terem mettido o braço até onde encontraram 
fundo no cofre pontificio, que a venda das 
indulgências já não conseguia encher; de se 
terem aproveitado da influencia que tinham 
sobre um velho octogenário para humilharem 
os seus rivaes, e encherem-se de honras, di- 
gnidades e riquezas. Concedemos tudo isto; 
mas o maior dos seus crimes, o que nunca 
lhes foi perdoado, foi de se terem mostrado 
hostis á companhia de Jesus '. 



' João, António e Carlos Caratta, foram encarre- 
gados da direcção da politica temporal da Egreja 
por seu tio o papa Paulo IV, que esperava utilísar os 
seus talentos, e principalmente os de Carlos Carafla. 
que tinha sido homem de guerra, e a quem fez car- 



nos IKSIIITAS 



49 




o voto doa proJ'ée808 



3o 



HISTORIA GERAL 



Ignacio, pois, tinha cumprido a sua missão. 
A ordem que clle tinha creado estava reco- 
nhecida, e sabia que deixava o futuro em 
mãos tíeis e dedicadas; podia pois morrer, 
tanto mais que a sua incurável doença de 
estômago torturava-lhe os dias de vida. 

Na sexta feira. 3i de julho de i35ó, uma 
hora depois que o sol começara a doirar o alti- 
vo zimbório da egreja de S. Pedro, uma mui 
tidão immensa e diversamente composta se 
agglomerava á entrada da casa professa dos 
jesuitas. Kstamos já longe da epocha em 
que Quirino Garzonio emprestava a sua hu- 
milde morada aos primeiros padres da com- 
panhia! Agora o pcipa-i!Cí>To habita um ou- 
tro \'aticano, largo, sumptuoso e imponente. 
Apezar de ser vastíssimo, o novo estabele- 
cimento era pequeno para conter a multi- 
dão, e na qual se viam não só os noviços 
da companhia e altos prelados, como os 
barões romanos, os e.vtrangeiros, os judeus 
convertidos, os monges de todos os hábitos 
e cores, a congregação da Graça da Santa 
Virgem e a élile das damas romanas. Todos 
téem pintado no rosto maguado a anciedadc 
e a tristeza. 

Ignacio de J.,oyola acabava de expirar aos 
sessenta e cinco annos de edade; trinta e 
cinco desde que tinha passado a noite na 
Vigiha das armas em Manreza; vinte e dois 
depois do voto de Montmartre; e quasi dez- 
eseis que dirigia, com o titulo de geral, a 
ordem fundada por ellel. 

As primitivas narrativas que chegaram até 



deal, para libertar a Egreja e a Itália do jugo perigoso 
de Carlos V, e depois de Filippe II. Esta empreza, 
apezar da alllança com Henrique II, não deu bom 
resultado, e terminou por um desastre completo e 
uma serie de exacções sobre o povo. Entretanto ven- 
do, como finos que eram, a preponderância que os 
jesuítas podiam e iam assumindo no governo da 
Egreja. manifestaram se abertamente contra elles. 
Quando o papa morreu, os seus inimigos, amparados 
e fortalecidos por Kilippe, encarniçaram-se contra 
elles, e o papa Pio V, creatura dos jesuitas, abando- 
nou-os á vingança do povo. Carlos Caraffa foi degre- 
dado e estrangulado; Joio Caraffa foi decapitado no 
mesmo dia, em seguida a um julgamento escandaloso 
no qual o juiz Tallantini fez torturar as testemunhas 
de defesa. Tempos depois o papa Pio V fez rever o 
processo e restituiu os bens aos Caraffas, um dos 
quaes, Vicente, ainda veiu a ser jesuíta e o sétimo 
geral da companhia, 



nós dos últimos momentos do primeiro ge- 
ral dos jesuitas, fazem-nol-o vèr tão thea- 
tralmente como tinha vivido. Sentindo que a 
morte se approximava, pòz-sc a propheti- 
sar o seu próximo passamento. Escreveu a 
D. Leonor de Mascarenhas, antiga aia de Fi- 
lippe II, que sempre se conservara dedica- 
da e fiel aos jesuitas, dizendo-lhe que a carta 
que lhe escrevia era a ultima que receberia 
d'elle, que naquclle momento se preparava 
para a ir recommendar junto de Deus. Na vés- 
pera da morte, enviou o padre João Polan- 
co, seu coadjutor havia nove annos, ter com 
Paulo V\\ encarregado de beijar em seu 
nome os pés de Sua Santidade. Chefe su- 
premo d'uma ordem potente, ordenou que, 
depois da sua morte deitassem o cadáver aos 
cães, «como não sendo mais do que uma 
pouca de lama e de abominável esterco." 
São estas as expressões que lhe presta um 
dos seus admiradores ! E erguendo para os 
seus discípulos o veu que encobre o futuro 
da ordem, faz-lh'a vêr radiante e gloriosa. 

Os companheiros de Jesus cercam silen- 
ciosos seu chefe na agonia, que sobre elles 
passeia o seu olhar quasi extincto, mas ain- 
da brilhante. Dos seus seis discípulos da 
primeira hora, apenas quatro se acham pre- 
sentes. Le Févre tinha já morrido em Roma 
e Francisco Xavier nas costas da China; 
mas cada um d'estes fora substituído por 
mil outros, e estes não são pobres theologos, 
insignificantes e ignorados professores: são 
homens eminentes, por qualquer titulo que 
seja, uns pelo sangue, outros pelo talento. 
Uns puzeram as suas riquezas á disposição 
da ordem, outros a sua energia e a sua de- 
dicação. Presentindo as grandes batalhas 
que terá de dar incessantemente, até á hora 
do triumpho supremo, a sociedade fundada 
por elle, Ignacio consagrou os seus últimos 
dias a organisar a nova milícia e a comple- 
tar-lhe o armamento. 

Assim pois, é com uma luz d'orgulho nos 
olhos, que investiga tudo o que o rodeia. 

Ignacio quíz morrer com a roupeta de je- 
suíta, e tendo-a envergado sentou-se no 
leito, amparado por Simão Rodrigues e Sal- 
meron ; á sua direita, e quasi tão moribundo 
como elle, Laynez ajoelha no chão, e, á es- 
querda, Bobadilha .sombrio e taciturno abre 



DOS JESUÍTAS 



Si 



na frente de lí^nacio uma carta do mundo. ' 
na qual estão traçadas a tinta vermelha as j 
doze províncias da companhia de Jesus. * | 
No resto do planisphero via-se, de distan- 
cia a distancia, espécies de marcos egual- 
mente vermelhos, os quaes, mais ou menos 
apparentes, indicavam, por certo, novos es- 
tados a conquistar ou prestes a submette- 
rem-se. As velas que illuminavam o quarto 
espalhavam n"elle uma luz vermelha, sinis- 
tra. Mas a um signal d'Ignacio, um noviço 
da ordem, que devia depois ser o primeiro 
biographo de Loyola, Pedro Ribadeneira, 
levantou-se e foi abrir as portas da janella 
que olhava para o oriente. E logo jorraram 
os raios do sol nascente, que deram novo, 
quente e luminoso tom á fúnebre scena. 

— O sol de Montmartre ! murmurou Igna- 
cio, ao ouvido de Salmeron. 

Depois extendeu uma das suas mãos so- 
bre o mappa, principalmente no sitio em que 
clle designava as provindas, e foi correndo 
o dedo magro, de unha espatulada, sobre os 
outros pontos apenas indicados. Mas eis que 
repentinamente, abrindo as duas mãos, e en- 
carando profundamente os seus discípulos 
cobriu com ellas quasi todo o mappa. 

Então Laynez, que vinha adivinhando no 
gesto e no olhar o pensamento do mestre, 
disse com voz vibrante : 

— Assim o juramos; assim o juro eu por 
todos I 

Loyola, repellindo os braços que o ampa- 
ravam, ergueu-se na cama, e arrancando o 
mappa das mãos de Bobadilha, elevou-o com 
ar de ineffavel triumpho acima da cabeça, 
sobre o seu craneo livido e nú, ao qual for- 
mavam, como que uma aureola de sangue, 
os raios do sol. 

— Companheiros de Jesus, disse elle com 
voz forte, e que fez estremecer todos que o 
ouviam, o mundo é grande, mas o caminho 



' Estas doze províncias jesuíticas, governadas pe- 
los professos de quatro votos, que teem a designação 
de provwciaes eram, á morte de l.oyola: a Itália, Por- 
tugal, Germânia superior, França, Germânia inferior, 
Aragão, Castella, Andaluzia, índias, Ethiopia e o 
Brasil 



está traçado ; companheiros de Jesus, avan- 
te !.. . 

E logo, recaiu sobre a cama, cerrando os 
olhos. Jacques Laynez levantou-se e, depois 
de lhe ter posto a mão sobre o peito, disse 
no meio d'um silencio solenne : 

— Irmãos e companheiros, nosso paelgna- 
cio já não existe ! 

Assim morreu Ignacio de Loyola. 

Este homem era verdadeiramente extraor- 
dinário, de qualquer ponto e sob qualquer 
luz que o consideremos, ora exaltado como 
um santo, ora condemnado como criminoso; 
hoje louvado como um grande génio, no dia 
seguinte chasqueado como um louco. 

Tanto na glorificação como no vilipendio 
ha exaggero. 

O homem que teve a concepção d'um po- 
der como o jesuitismo, não é um individuo 
vulgar. Bem sabemos que é aos seus dois 
discípulos, Laynez e Salmeron, a quem se 
deve attribuir em grande parte a poderosís- 
sima organisação da ordem, e talvez, ou 
pelo menos em parte, o seu completo e rá- 
pido desenvolvimento; sabemos também que 
foi a estes dois seus successores que temos 
de attribuir um bom quinhão da influencia 
terrível que o fundador da companhia de 
Jesus talvez apenas tivesse sonhado, e de 
que estes dois seus discípulos souberam ha- 
bilmente servír-se extendendo a sua acção. 
Mas, apesar de tudo isso, é a Loyola a quem 
reverte a gloria da instituição, se é que glo- 
ria pôde haver n'isso I 

Assim que Ignacio morreu, erigiram-lhe 
um altar na egreja do Apollinario. Gregório 
' XIII, tendo tomado sob a sua protecção o 
collegio germânico fundado por Ignacio, gra- 
vou sobre o altar a seguinte inscripção : 

SANCTO IGNATIO 

SOClETVnS JESU FUNDATORI, COI.l.KGlUM 

GERM.\NIENSi: 

AUCTORi SUO posurr 

A Santo Ignacio 

Fundador da sociedade de Jesus 

e do collegio germânico 

O collegio germânico elevou este monumenio 



b-2 



MSIOBIA GF.RAL 



VII 



o apostolo do Oriente 



ANTES de entrarmos em a noite sombria 
das machinações, intrigas e crimes dos 
jesuitas, repoizemos a vista em quadros cheios 
de luz, em acções repassadas d'um puro 
sentimento de caridade, abnegação e fé. 

Deveríamos, talvez, deixar este capitulo 
para quando, mais largamente tratarmos da 
acção dos jesuitas na Ásia; mas a figura que 
vamos desenhar é tão pouco jesuitica, me- 
rcce-nos tal respeito, que a desligamos do 
quadro geral, para lhe consagrarmos este 
pequeno plintho, onde pode ser vista em to- 
dos os sentidos. 

Queremonos referir a Francisco Xavier. 
Teve exaggeros, foi, por vezes, no seu zelo 
d'apostolo e missionário, levado á violência 
dos meios de proselytismo, mas não podemos 
esquecer que a sua acção christã concorreu 
em grande parte para a conservação e en- 
grandecimento do dominio português; e que 
hoje ainda, no extremo oriente, onde o seu 
cadáver incorrupto, é venerado por milhões 
d'homens de todas as crenças e de todas as 
raças, o seu nome anda ligado ao de Portu- 
gal, e é d'este uma espécie de palladio. 

Em que pese a alguém, é esta a verdade. 

Havia muito que Ignacio de Loyola tinha 
estudado o caracter de Francisco Xavier, 
antes de se abrir com elle e de lhe dar 
parte- dos seus projectos. P^rancisco era sin- 
cero nas suas crenças, cheio de enthusiasmo 
e de convicção. Convinha-lhe o papel dapos- 
tolo; mas teria repellido a idéa de ser o ins- 



trumento d'uma politica astuciosa e munda- 
na, de que nunca teve consciência. 

Portugal dominava nas índias orientaes, 
e D. João III encarregou o seu embaixador, 
D. Pedro de Mascarenhas, de alcançar seis 
jesuitas para irem missionar nas vastas con- 
quistas indianas. 

Loyola, consultado pelo pontífice, respon- 
deu: «Como pode isso ser? Pedem-nos seis 
padres para a índia, quando eu apenas te- 
nho dez para todo o mundo 1» 

Como só tinha à sua disposição Simão 
Rodrigues e Nicolau Bobadilha, olíereceu-os. 
Primeiramente foi Simão ' e como as febres 
não deixassem que Bobadilha saisse de Ro- 
ma, Ignacio designou Francisco Xavier, que 
partiu a 14 de março de 1540, da noite para 
o dia, demorando-se apenas o tempo preciso 
para fazer remendar a sua sotaina. 

Kntão no meio d'uma multidão, que pare- 
cia silenciosamente commovida, junto a uma 
das portas septentrionaes de Roma, Ignacio 
abraçou Xavier, que, depois de se ajoelhar 
aos pés, lhe pediu a benção. 

A historia conservou as palavras de des- 
pedida que Ignacio proferiu n'esse momento, 
em que um dos seus companheiros partia á 
conquista d'um novo mundo que elle ambi- 
cionava para Christo, mas sobre o qual a 
ordem deitará a sua mão. 



' Mais largamente nos referiremos a esta singular 
personagem, quando nos occupaimos dos jesuitas em 
Portugal. 



DOS jesuítas 



63 



Eil-as : 

€ Recebei a missão de que Sua Santidade 
vos encarrega pela minha bocca. como se 
fosse o próprio Jesu-Christo que vo-la offe- 
recesse, e alegrai-vos de encontrar nella com 
que satisfazer esse ardente desejo que todos 
nós sentimos de levar a 
fé para além dos mares. 
Não é somente a Palesti- 
na, nem uma provincia da 
Ásia, que vos esperam ; 
são terras immensas, rei- 
nos sem numero : um 
mundo inteiro. Só um 
campo assim vasto é di- 
gno da vossa coragem. 
Ide meu irmão, onde a 
voz de Deus vos chama: 
onde a Santa Sé vos en- 
via, e abrazai todos com 
o fogo que vos consome.» 

Francisco Xavier atra- 
vessou a França e os Py- 
reheos; passou, sem pa- 
rar, junto do dominio pa- 
terno, sem dizer o ultimo 
adeus a sua familia, a 
seus irmãos, que tinham 
seguido com honrosa glo- 
ria a carreira das armas, 
nem a Maria Azpilcueta. 
sua velha mãel 

Em fins de junho che- 
gou a Portugal; mas teve 
que esperar para o anno 
seguinte para partir para 
a índia •. 

D. João III queria já 
que os dois missionários fi- 
cassem em Portugal, mas 
o infante cardeal D. Hen- 
rique e seu conselho fizeram-lhe ver as van- 
tagens que resultariam para a coroa de ligar 
as colónias á metrópole pelo laço da reli- 
gião. 

O rei não concordou com o conselho e pe- 

' Sobre a situação de Portugal e suas colónias na 
epocha em que reinou João III, consulte-se cora pro- 
veito e encanto a Historia de Portugal por Pinheiro 
Chagas, enn publicação adeantada pela Emprega da 
Historii de Portugal. 



diu a Paulo III para conservar os dois je- 
suítas no reino. O papa. tendo consultado 
Loyola, estabeleceu um meio termo. Xavier 
partiria para a índia e Simão Rodrigues fi- 
caria em Portugal. 

João III acceitou o alvitre, e. antes de se 




Milagre jesuítico 

separar do seu missionário, entregou-lhe qua- 
tro breves. Dois d'elles, que o próprio rei 
impetrara da corte de Roma, nomeavam 
Francisco Xavier núncio apostólico no Orien- 
te e concediam-lhc todos os poderes neces- 
sários para ahi propagar e manter a !é. 

A 7 d'abril de 1341, as margens do Tejo 
amanheceram cheias áe enorme multidão. 
Os sons vibrantes dos clarins marciacs 
uniam se ás acciamacões da turba ; troca- 



^4 



HISTORIA GERAL 



vam-se adeuses, e com as saudades da pró- 
xima ausência, com os anceios dos perigos 
da travessia, havia no coração de todos es 
peranças risonhas do futuro. As naus, com 
as velas já infunadas pela brisa, balouça- 
vam-se sobre as ondas tocadas pelo vento 
norte, e o sol illumin;iva com a sua luz crua 
esta festa nacional. 

O vice-rei da índia. D. Martim Aftonso 
de Sousa, subiu para a nau almirante segui- 
do de F"rancisco Xavier, que acabava de se 
despedir de Simão Rodrigues; a armada 
aproou á barra, e horas depois sumiam-se 
no horizonte quente as manchas das ultimas 
vellas. 

Os escolhos que as as;uas occultam em 
seu seio não eram ainda então completa- 
mente assignalados aos navegantes. As tra- 
vessias eram longas, perigosas e cheias de 
trabalhos. Terriveis tempestades assaltaram 
a armada, separaram os navios e pozeram 
em perigo a vida das tripulações. N'esses 
momentos Francisco Xavier retemperava os 
ânimos abatidos dos marinheiros e pedia a 
Deus que apaziguasse o furor das ondas. 
Quando a tempestade se affastava, e as va- 
gas calmas se espargiam preguiçosas, jun- 
tava a marinhagem e a soldadesca á sua 
beira e tratava de ensaiar n'ellas as conver- 
sões que levava em mente fazer. 

Em fins d'agosto de 1641, o nosso missio- 
nário desembarcou emMoçambique;mez em 
que o calor se tornava insuportável até para 
os portugueses de ha muito alli estabelecidos. 

P^rancisco Xavier tinha então trinta e cin- 
co annos; estava no vigor da edade. De fi- 
gura meã, constituição saudável, tinha na phi- 
.sionomia o quer que fosse de magcstoso e 
meigo que inspirava re.speito e confiança. A 
sua fronte larga, os seus olhos azues e ex- 
pressivos, o colorido das faces animado, o 
andar lembrando ainda o antigo fidalgo, da- 
vam a toda a sua pessoa um conjuncto de 
gravidade que lhe conquistava desde logo as 
sympathias. 

Assim que desembarcou continuou pelo 
litoral africano a obra de regeneração á qual 
se tinha, em todos os momentos, consagra- 
do a bordo. Na armada evangelisava mari- 
nheiros e soldados ; na costa catechizava 
negros. 



A armada e as tripulações achavam-se em 
deplorável estado. O mar tinha-as fatigado, 
e a insalubridade da ilha, )á então tumulo 
de muitos portugueses, acabava de as inutili- 
sar. Com os dois companheiros, que se lhe 
tinham juntado, Paulo Camerino e Francisco 
Mansias ', Xavier, cura das almas, impro- 
visou-se medico dos corpos, enfermeiro 
e consolador dos que soffriam, irmão e 
servo de todos aquelles a quem o clima 
ainda não tinha abatido. Pregava de dia, e 
á noite ia para a cabeceira dos enfermos 
ministrar-lhes consolações e sacramentos. O 
somno para elle não chega mesmo a ser o 
repoiso. Deita-se o mais perto possível dos 
doentes ; e ao mais pequeno gemido, eil-o de 
pé. interrogando o soffrimento e adoçando 
as fadigas. 

O mais robusto temperamento não teria 
resistido a estes trabalhos. A natureza ven- 
ceu a dedicação. Pois assim mesmo devora- 
do pela febre, fraco, quasi agonisante con- 
tinua na sua missão sem um momento de 
descanso. 

Ao fim de seis mezes de demora em Mo 
çambique a frota apparelhou. Camerino e 
Mansias ficaram na ilha para tratarem dos 
doentes, e Francisco Xavier, acompanhando 
D. Martim Affonso de Sousa, singrou em 
Socotorá, em frente ao estreito de Bab-el- 
Mandel, depois d'uma feliz travessia, ilha 
que foi outr'ora a das Amazonas e de quem 
o nosso épico cantou : 

Ver;is defronte estar do Roxo estreito 
Socotor;i, co'o amaro aloé famosa. 

Queimada pelo sol, quasi inteiramente 
desprovida de vegetação e d'agua, e cujos 
habitantes viviam, como verdadeiros bárba- 
ros supersticiosos, separados do resto do 
mundo pelas aguas, falavam uma lingua des- 
conhecida, sem relação alguma com a dos 
conquistadores. Na impossibilidade absoluta 
de se explicar pela palavra, Xavier expri- 
mia-sc por gestos, e com o auxilio da pan- 



' Na transcripção dos nomes seguimos tanto 
quanto possível João de Lucena, de quem nos socor- 
remos em muito para traçar este capitulo. A maioria 
dos escriptores em vez de iVIansias, escreve Masilha. 



DOS jesuítas 



bò 



tomima. que entre selvagens, supre muitas 
vezes uma linguagem imperfeita, foi compre- 
hendido. Algumas palavras, algumas phra- 
ses foram sufficientes para subjugarem estas 
intelligencias grosseiras. Baptisou um grande 
numero de idolatras ; e tal foi a influencia 
qua exerceu, a confiança que inspirou, que 
lhe pediram para ficar alli e viver com elles. 

Mas um theatro mais vasto o chamava, 
outras regiões deviam de ouvir a sua palavra. 
A sua vida de missionário mal tinha começa- 
do. A' voz de Martim Aftbnso de Sousa 
partiu para Gôa. 

Não foi somente os indígenas que cUe 
quiz reconduzir á pratica das virtudes chris- 
lãs, teve que combater muitas vezes a dissolu- 
ção, as rapinas e a immoralidade dos conquis- 
tadores. Os próprios padres, longe de darem 
o exemplo, viviam dos mais vergonhosos trá- 
ficos, e, em vez de esclarecer e civilisar, fa- 
ziam-se odiar pelos vicios e depravados 
costumes. As primeiras sementes do chris- 
tianismo foram, como as da parábola evan- 
gélica, as que caíram sobre pedra. Os indios 
tmham volvido ao culto dos idolos, e de 
novo lhes sacrificavam victimas humanas. 
Com uma campainha na mão, qual pastor 
que convoca o rebanho. Francisco Xavier 
percorria as ruas de Gôa. chamando a si as 
creanças, reunindo-as numa cgreja. prégan- 
do-lhes sermões e ensinando-lhes normas de 
vida. Bem depressa as mães seguiram os fi- 
lhos, e nos costumes sentiu-se uma reforma 
benéfica. 

A fim de ser comprehendido por toda a 
massa dos seus ouvintes portugueses e in- 
dios, aprendeu e serviu-se dum idioma gros- 
seiro que tinha curso entre conquistadores e 
conquistados, e que, como acontece sempre 
quando duas linguas se fundem no cadinho 
popular, só põe em relevo os defeitos das 
duas, augmentados pela própria ignorância 
dos que as usam. Francisco Xavier era dou- 
to e versado em litteratura. Esta linguagem 
a que elle descia, os bellos efteitos que sa- 
bia tirar d'ella. a bondade estampada no seu 
rosto, os accentos de remorso ou de peniten- 
cia que fazia vibrar nos ouvidos do auditó- 
rio, arrastaram os menos convencidos '. 



' Diz l.ucena; «Porque Amónio Pereira, utn ho- 



De consenso unanime de todos os histo- 
riadores, a cidade mudou de feição, e uma 
aragem de senso moral (desconhecido á ge- 
neralidade dcs jesuítas) a beneficiou e re- 
frescou. 

Entretanto, soube por Miguel Vaz, viga- 
rão geral das índias, que uma outra região 
havia necessidade do seu ensino. Deixa Gôa, 
embarca para o cabo Comorim, alta mon- 
tanha, terra ardente que avança para o mar 
a quarenta léguas a oeste c em frente á ilha 
de Ceylão. 

Por toda a parte a sua palavra é avida- 
mente ouvida, e trinta povoações, dissemina- 
das pela costa, convcrtem-se á sua voz. 

Uma pobre mulher de Comorim, quasi a 
succumbir ás dores dum parto laborioso, 
ouve as palavras do missionário. A' falta 
d'um medico do corpo, o medico da alma 
sustem e reanima a doente! O baptismo, que 
ella supplica e recebe, é o remédio salutar 
que a salva. A natureza faz um esforço c 
os idolatras, que só esperavam um milagre 
para se converterem, caem aos pés de Fran- 
cisco Xavier. O seu grande meio d'acção era 
o allivio que elle levava ás dores physicas. 
E não era preciso mais para actuar sobre a 
imaginação dos povos. Mas tão continuados 
êxitos suscitavam-lhe não menos inimigos. O 
clero regular, e infelizmente naquellas para- 
gens não era da melhor agua, custava-lhe a 
softrer, sem um sentimento de rivalidade, a 
influencia sempre crescente do jesuita. Qs 
paravas, nome genérico da raça que occu- 
pava a costa da Pescaria, desde o Comorim 
até á ilha do Manar, adoravam ires deuses 
engendrados por uma substancia eterna e 
preexistente a todas as outras, chamada pa- 

mem fidalgo e bem conhecido por toda a índia, no 
lesternunho que deu da vida e obras do padre Fran- 
cisco, que diz entre outras coisas,- que onde quer 
que o P. chegava, tomava e falava em muito poucos 
dias a lingua da terra, como fizera á Malabar, a Malaia, 
ás de Maluco e Japão, as quaes, elle, António Perei- 
ra, sabia bem, e as praticava todas com o mesmo P. 
E Gaspar Lopes, contador d'el-rei, que serviu na ma- 
tricula geral, depoz no instrumento, que se tirou em 
Gôa, que o padre Francisco em Maluco (onde as lín- 
guas próprias são tão varias, que quasi cada ilhota e 
logar a tem ditferente) se entendia com os negros 
e elles :om o padre, de que se espantaram muito 
os portugueses ...» 



56 



HISTORIA GERAL 



rabrama. Estas três divindades eram : Miii- 
so, que reinava no céu; Visiiu, que julgava 
os homens; e Brahma que presidia li sua re- 
ligião '. N"esta theologia sente-se o quer que 
seja da do paganismo grego e romano. Os 
padres ou brahmanes pretendiam descen- 
der do deus Brahma. Eram esses que se 
precisava converter em primeiro logar; mas 
elles não estavam dispostos a dei.\arem-sc 
despojar do privilegio que possuíam de fazer 
milagres. A eloquência de Francisco Xavier 
naufragou sempre contra estes interesses 
petrificados, c a todas as suas tentativas os 
brahmanes davam como resposta: 

— E a superstição que nos faz viver e ás 
nossas famílias; se a superstição fòr des- 
truída, ficamos reduzidos á miséria. 

Sobre a costa do Malabar extende-se a pe- 
quena região de Travancor, limitada ao norte 
pelos estados do Samorim e pelo reino de 
Madure, de quem era tributário, ao oeste e 
ao sul pelo mar. Xavier ahí penetrou. Se se 
deve dar credito aos historiadores, em pouco 
tempo, perto de cincoenta egrejas se ele- 
vam, e em um único dia (elle próprio relata 
o facto numa das suas cartas) baptísa dez 



• Brahma foi, na epocha chamada brahmanica, o 
creador do mundo, dos deuses e de todos os seres. 
Na forma actual da religião indu, Brahma tem o lo- 
gar de primeira pessoa da trindade ou trimurli, mas, 
na realidade não é mais de que uma emanação de 
Visnu, segundo os visnucistas ou de Çiva^ segundo os 
çivistas. Em toda a índia só tem hoje um templo 
em PoUhar, perto de Adjemir, mas é adorado nos 
templos de Visnu e de Çiva. 

O brahmanismo divide o universo creado por 
Brahma em três regiões : uma superior composta de 
seis céus sobrepostos, residências dos diversos deu- 
ses, dois dos quaes mais elevados são o svargo (pa- 
raizo da índia) e o Brahma lolia ou Brahma-vrinda, 
(paraizo de Brahma^; a terra, bluimi, esta dividida em 
sete cor>tinentes (dvipaj concêntricos, separados por 
outros tantos oceanos e agrupados ao redor do Méru 
(a montanha santa) que sustenta o ceu; por tim a re- 
gião inferior, palala, dividida em cmco andares, mo- 
rada dos demónios, cujo ultimo é o naraha (ou in- 
ferno.) Todo este universo dura apenas um dia de 
Brahma, isto é 2:160 milhões de annos, para tornar 
a cair no cahos durante uma neite de egual duração 
a este dia, até que Brahma acorde e recomece a obra 
da creação. 

Brahma é representado com quatro cabeças e ou- 
tros tantos braços, com um rosário, e muitas vezes 
gobre um cysne ou um ganso. 



mil índios. Os padres de Travancor, mais 
fanáticos ainda e menos tolerantes que os 
da costa da Pescaria, não se contentam em 
ficar incrédulos; só se consideram tranquíllos 
e satisfeitos com a morte de Francisco Xavier. 
uma noite, assassinos assalariados por elles 
atacam-o ás frechadas; mas as frechas não 
lhe acertam e Xavier escapa ao perigo. Man- 
dam largar fogo ás choças em que se abriga, 
e as chammas deí.xamo passar sem lhe cha- 
muscarem sequer os cabellosi 

Um acontecimento inesperado põe termo 
a estas tentativas de homicídio. 

A região de Travancor foi invadida pelos 
bagadas, população de bandidos vinda de 
Bisnaga, capital do reino de Narsinga, situa- 
da a quarenta e cinco léguas ao sul da Cal- 
conda, e que tinha por chefe o naire ou rei 
de Madure. O rei de Travancor caminhou 
ao encontro d'este bando de saqueadores. 
No momento em que os dois e.xercitos, já 
cm frente um do outro, se preparavam para 
se atacar, Xavier, depois d'uma curta e fer- 
vorosa oração, tomou o crucifi.xo, e com voz 
inspirada: 

— Em nome do Deus vivo, exclamou cllc. 
'prohibo-lhes que vão mais altím; mando-lhcs 
que se separem e que volte cada um para 
suas casas. 

Depois d'um momento de hesitação, os 
bagadas retrocederam. Em reconhecimento 
por este serviço, quiz o rei que Francisco 
Xavier, d'alli em deante, tivesse o titulo de 
y;raudL'-pae, como elle usava o de grande 
monarcha. Não se converteu; mas deixou 
liberdade aos seus súbditos de abraçarem a 
religião christã. A submissão do príncipe 
teria sido talvez estéril; um milagre deter- 
minou as conversões '. 



' Renan escreve: «Todos os factos pretendidos 
milagrosos que se podem estudar de perto se resol- 
vem em illusão ou impostura. Se um único milagre 
podesse ser provado, não se poderia regeitar em glo- 
bo todos os das antigas historias; porque, no fim de 
contas, admittindo que um grande numero d'estes 
últimos fossem falsos, podér-se-ia ainda crer que cer- 
tos d'elles teriam sido verdadeiros. Mas não é assim. 
Todos os milagres discutiveis se esvaem. Não se fica, 
pois, auctorisado a concluir d'ahi que os milagres, 
que muitos séculos afastaram de nós e sobre os quaes 
não ha raeio de estabelecer um debate contradictorio, 
são sem realidade ! Em outros termos, não ha mila- 



DOS jesuítas 




Ignacio de Loyola envia Francisco Xavier á índia 



58 



HISTORIA GERAL 



Francisco Xavier tinha ido a Ce_vlão, ci- 
dade da costa do Malabar c ahi pregava sem 
êxito. A sua palavra não entrava nos ou- 
vidos, nem ia ao coração dos seus ouvin- 
tes. Um dos habitantes da cidade morreu. 
A familia e os amigos depozeram-o no tu- 
mulo, que foi immediatamente fechado. No 
dia seguinte Francisco Xavier juntou o povo 
e os parentes mais pro.ximos do defunto, e, 
seguido pela multidão, foi ao logar do sepul- 
chro. Primeiramente ajoelhou ; orou em si- 
lencio, emquanto a multidão o contemplava 
com espanto. Depois com o olhar inflammado 
na celeste confiança: 

— Hontem, disse elle, depozeram um 
morto n'este sepulchro : abri-o, examinae o 
corpo, e assegurae-vos todos de que não está 
alli senão um cadáver. 

Affastaram o lençol, abriram a mortalha 
e verificaram um cadáver hirto, pallido, im- 
movel. 

Então Xavier clamou : 

— Em nome de Deus vivo, mando que te 
levantes e que vivas, em testemunho da re- 
ligião que annuncio 1 

Ergueu-se o morto ; e u povo abraçou o 
chrislianJsmo '. 

Comtudo, na opinião do missionário, D. 
Martim Aftbnso de Souza deixava perecer 
a obra de regeneração começada em Gôa, 
aproveitando-se da desordem da vida dos 
conquistadores para se enriquecer. De volta 
a Cochim, a i5 de dezembro de 1544, Fran- 
cisco Xavier, d'accordo com Miguel Vaz, es- 
creveu a D. João III a seguinte carta pedin- 
do providencias. 

«Supplico a V'. M., pelo ardente zelo que 
tem pela gloria de Deus, e pelo cuidado que 



gre senão quando se crc n'elle, o que faz o sobrena- 
tural é a fé.» Com Francisco Xavier houve n'este caso 
um facto de illusão, convertido em milaproso pela in- 
tensidade da sua crença e da disposição dos espiritos 
que a elle assistiram ? ou uma simples estratégia, tão 
fácil no pdís dos fakires ? 

' E. Renan, já citado, escreveu estas linhas: «O 
monge que inventou a redoma com os santos óleos, 
foi o fundador do reino de França» ; que se podem 
applicar n'este momento ao milagre de S. Francisco 
Xavier nas suas consequências com a extensão do 
dominio português na Ásia. Não nos tinha já dado o 
milagre d'Ourique a autonomia e a nacionalidade ? 



sempre tem mostrado pela sua salvação eter- 
na, se sirva enviar aqui um ministro vigi- 
lante e corajoso, que só tenha a peito a con- 
versão das almas, que trabalhe independen- 
temente dos empregados do vosso fisco, c 
que se não deixe governai^ por todos esses 
políticos cujas vistas se limitam á utilidade 
do Estado. Que V. M. examine de perto o 
dinheiro que vae das índias cair nos seus 
cofres, e que compare as despezas que ahi 
faz pelo progresso da religião. Assim, tendo 
pesado as coisas d'uma e outra parte, jul- 
gará se o que dá equivale ao que lhe dão, 
c terá, por certo, motivo mais que suffi- 
ciente, para temer que, d'esses immen.sos 
bens com que a liberalidade divina o enri- 
quece, não conceda a Deus senão uma parte 
minima.» 

A denuncia do jesuita foi favoravelmente 
acolhida. Quando D. João de Castro subs- 
tituiu Affonso de Sousa, levou ordem formal 
de destruir a superstição idolatra em Gôa, 
desmantelar os pagodes e exilar os brahma- 
nes. 

Respeitando as intenções de P^rancisco 
Xavier, não podemos deixar de censurar es- 
tas e outras violências tão selvagens como 
ferozes e de fundo estúpido, que pretendem 
destruir pela força o que centenas de séculos 
tem arraigado nos corações, e que vão cau- 
sar a perda do tantas obras de arte d'uma 
indiscutível originalidade e d'um caracter tão 
particular. 

Teve Francisco Xavier um precursor nas 
índias? 

A tradição atiirma que S. Thomé, aquel- 
le dos discípulos que não quiz crer sem ver, 
allí missionou, comquanto outros o neguem, 
e entre estes o insuspeito Tillcmont. Fran- 
cisco Xavier estava convencido da verdade 
do facto, e quando fez a viagem a Melíapor, 
cidade da costa de Coromandel, onde Tho- 
mé, segundo a crença popular, fora marty- 
risado, ahi orou sobre o seu tumulo. 

E' positivo que quando os portugueses en- 
traram na conquista da índia, alli acharam 
um grande numero de povos chrístãos, o 
que causou a admiração tanto dos que chega- « 
vam como dos que estavam, por se encon- 1 
trarem com a mesma uniformidade de cren- 



DOS jesuítas 



í>9 



ças. Estes povos intitulavam-se christãos 
de S. Thomé, estavam então divididos em 
perto de mil e quinhentas aldeias e tinham 
um único pastor, bispo ou arcebispo, que 
lhes era enviado pelo patriarcha nestoriano 
de Babylonia ou de Mozul '. 

Estavam persuadidos de que o seu christia- 
nismo subsistia desde o primeiro século da 
Egreja, portanto firmes na sua crença. Fran- 
cisco Xavier tentou trazel-os ao seio do 
catholicismo. Para isso não hesitou em con- 
vocar um debate contradictorio, que deu 
occasião a uma das scenas mais caracte- 
rísticas e singulares do missionarismo no 
Oriente. 

Um dia, á roda d'uma espécie de estrado 
acharam-se reunidos os representantes de to- 
das as divisões da egreja da índia, os envia- 
dos das ricas egrejas meridionaes, bem como 
os das humildes egrejas do norte. A assem- 
bléa apresentava um aspecto singular. To- 
dos os homens empunhavam espadas ou 
lanças, cujas hastes eram guarnecidas de pe- 
quenas argolas d'aço que tilintavam ao mais 
ligeiro movimento; no braço esquerdo tra- 
ziam um escudo de pelle de rhinoceronte 
ou de hypopotamo. O seu vestuário consis- 
tia n"uma elegante túnica branca, apertada 
na cintura, corrida em pregas até os joelhos. 
Os anciãos de cada tribu usavam uma es- 
pécie de alva bordada aos lados e nas cos- 
tas, que só vestiam quando iam á egreja ou 
outras solennidades. Além disso, cada ho- 
mem tinha um cinturão de côr viva em que 
segurava um punhal de cabo de oiro ou pra- 
ta cinzelada. Os compridos cabellos eram 



' Os seus erros, que os afastam do catholicismo, 
eram, segundo contou fr. António de Gouvêa, reli- 
gioso augustiniano: sustentar que Jesu-Christo, Deus 
e Homem não são a mesma pessoa, que um é filho de 
Deus, o outro filho de Maria;— que o verbo de Deus 
desceu em Jesus no momento do seu baptismo, e a 
série de consequências que saem d'estas affirmações. 
Além d'isto não admittiam na cruz a imagem do Cru- 
cificado ;= não admittiam que as almas dos santos 
vissem a Deus depois do juizo final; = tinham só três 
sacramentos, o baptismo, a ordem e a euchnristia ; 
e o baptismo mesmo era administrado de tal manei- 
ra que o arcebispo D. Aleixo de Menezes rebaptisa- 
va todos que lhe vinham á mão. Não praticavam a 
confissão, e os santos óleos de que se serviam não 
eram de azeite mas de noz da índia. 



levantados na testa e meio cobertos por um 
lenço de seda enrolado com certo gosto, e 
com as pontas caldas ao lado. Os velhos 
usavam os cabellos rapados, bem como os 
que tinham renunciado ao casamento, e os 
que haviam feito a romaria ao tumulo de S. 
Thomé, em Meliapor. 

Os homens, na força da edade, eram admi- 
ravelmente bem talhados; e a pelle amarella 
e luzidia, pelas fricções do óleo do coco, 
dava-lhes parecenças de estatuas gregas fun- 
didas em bronze doirado. Os velhos tinham 
o porte magestoso, e todos estavam graves 
e concentrados. 

A certa distancia do circulo formado pelos 
homens via-se um outro de mulheres, ge- 
ralmente formosas, gracis e com ar modes- 
to. O uso frequente dos perfumes, luctando 
contra o calor áspero das regiões quentes, con- 
servava-lhes a pelle com uma brancura ró- 
sea, sob que se via correr o trama azulado 
das veias e das artérias. O seu vestuário 
consistia também n'uma saia branca, raiada 
d'azul ou côr de rosa, caindo abaixo dos joe- 
lhos em mais amplas pregas, deixando vêr 
as extremidades delgadas. Uma espécie de 
camisola de gaze fina e branca envolvia-lhes 
o busto, permittindo adivinhar o modelado 
das formas. 

As matronas mais graves cobriam a ca- 
beça com um longo panno branco, que com- 
pletamente as envolvia, deixando apenas o 
rosto a descoberto. Homens e mulheres tra- 
ziam nos pulsos e nos tornozelos grossas ar- 
golas de oiro ou cobre ocas, com pedrinhas 
dentro, que os mais leves movimentos faziam 
soar docemente. 

Emquanto esperavam a chegada de Fran- 
cisco Xavier, que os tinha convocado, os 
christãos de S. Thomé entregaram-se a um 
divertimento que lhes era peculiar; uma es- 
pécie de dança de roda, executada pelos ra- 
pazes, ensaiada e dirigida pelos velhos, can- 
tando, num longo hymno, os louvores e o 
martyrio do seu apostolo venerado. Depois 
sentaram-se e os escravos serviram-lhcs um 
repasto simples, composto de arroz cozido 
em agua, misturado com leite, e condimen- 
tado com gingibre e caril. 

A' chegada do missionário, todos se le- 
vantaram em silencio; os velhos extenderam 



éo 



HISTORIA GERAL 



os braços e offereceram a mão inclinando-se. 

O local escolhido para a reunião era uma 
vasta esplanada verde e assombreada por 
alias palmeiras, que descia em suave decli- 
ve até á praia em que vinham morrer as on- 
das do mar das índias. Uma eminência ar- 
borizada punha a assembléa ao abrigo do 
sol. O missionário levantou-sc no meio do 
silencio profundo, apenas perturbado pelo 
rumor monótono e chapinhante das ondas 
d"encontro á costa afastada. 

Francisco Xavier começou a falar, e, em- 
quanto o fazia, os rapazes tapavam a bocca 
com a mão esquerda, prova de respeito que 
tributavam aos pães, ao irmão mais velho. 
aos padres, aos chefes da tribu, e aos an- 
ciãos de cada egreja. 

Expoz elle os erros de Nestorio, a neces- 
sidade da unificação da crença ; os beneficies 
da sujeição a Roma, e até as conveniências 
politicas de seguirem todos a mesma religião 
que o rei de Portugal. Falou longamente, 
com toda a sciencia d'um graduado das uni- 
versidades de Hispanha e F'rança; digamos 
mesmo, com a astúcia d'um vasconço, a un- 
ção de padre, núncio pontifício, e vehemen- 
cia eloquente de apostolo sincero. 

Quando cllc terminou, respondeu-lhe um 
bello e magestoso velho, que pelo aspecto 
parecia centenário, e, depois de elogiar a elo- 
quência de Xavier continuou: 

«Meu irmão da Europa disse-nos boas 
palavras ; mas ha muitos séculos, — quando 
a mais velha arvore d'esta floresta era tão 
pequena, tão pequenina que a mais ligeira 
mosca azul teria feito vergar a sua haste — , 
um homem, um santo, um apostolo desceu 
até estas paragens, ainda idolatras, e reve- 
lou a nossos pães os mysterios divinos e sa- 
lutares da vida e morte de Christo. Nossos 
pães ouviram o enviado de Christo; acredi- 
taram nas suas palavras e fizeram-se bons. 
Ha quinze séculos que nós acreditamos o 
que nossos pães acreditaram » 

Depois, firmes em que a religião que se- 
guiam era a que lhes fora directamente en- 
sinada por um discípulo de Jesus; e de se 
declararem promptos a derramarem todo o 
seu sangue pela defesa d'aquella sua fé, con- 
cluiu : 

— Que o nosso irmão da P'uropa seja bem 



vindo entre nós; o seu Christo é o nosso 
Christo ; o que importa que não nos sirva- 
mos das mesmas palavras para o adorar? 
Nem todos os homens têem a mesma côr e 
nem por isso deixaram de ser creados por 
Deus. Disse *» 

Francisco Xavier, viu que não podia levar 
o convencimento áquellas almas tão crentes, 
e áo mesmo tempo tão sensiveis, e desistiu 
de as converter. 

Mais tarde a inquisição tomará esse en- 
cargo e pretenderá leval-o a cabo pelo san- 
gue c pelo fogo^. 

Em Malaca, encontrou Francisco Xavier 
três jcsuitas que Ignacio de Loyola lhe man- 
dara, António Criminal, João da Beira e Ni- 
colau Lancilotti, com os quaes repartiu a 
obra da conversão. Lancilotti foi encarrega- 
do de ensinar latim no coUegio da Santa- 
Fé * em Gôa, e Criminal e João da Beira fo- 



' A doutrina de Nestorio ainda hoje persiste na 
índia, talvez n'uma forma já muito adulterada e in- 
tercalada com dogmas catholicos ortodoxos. Mas 
nem aos nossos prelados no Oriente, e creio que 
nem á Propagação da Fé, lhes convém, na sua lu- 
cta diária contra o protestantismo, estar a levar o 
'exame da doutrina até á essência da própria doutri- 
na. Contentam se com as praticas exteriores do cul 
to... e os respsctivos emolumentos 

'' Se em toda a parte a inquisição - sepundo a 
phrase do sr. arcebispo d'Evora, no paneiíirico do 
padre António Vieira, declamado na Sé de Lisboa, 
pur occasiiío da celebração do seu terceiro centená- 
rio em ií<97 — foi um tribunal intame, nunca a infâmia 
por mais baixa, por mais vil, mais eivada e determi- 
nada por interesses munddnos do que no tribunal de 
Gòa, por ironia chamado o Santo O/fico. Os inqui- 
sidores chegaram a mandar prender nos seus cárce- 
res as mulheres que lhes resistiam, e ahi satisfaziam 
seus instinctos bestiaes, mandando-as queimar de- 
pois como herejes. 

' A origem d'este coUegio, affiançam os francisca- 
nos, é devido aos seus missionários e assim bem 
claramente o declara Fr. Fernando da Soledade, na 
sua Historia Seraphica, sem comtudo se referir de- 
pois á sua passagem para o poder da companhia. 
Outros, e parece que com mais razão, attribuem a 
fundação aos padres Miguel Vaz, vigário geral e Dio- 
go de Borba, alemtejano, pregador afamado que em 
i5;8 acompanhou D. João d'Albuquerque, bispo de 
Gôa Os dois instituiram uma confraria tendo por fim 
perseguir a idolatria e favorecer os christãos novos. 
Elaborados os estatutos, a projectada confraria re- 
cebeu o titulo de Santa Fé. Por morte do Padre Bor 
ba, e não existindo dos mordomos da confraria senão 
Cosme Annes, secretario d'estado, offereceu-o este 



DOS jesuítas 



6r 



ram enviados para a costa da Pescaria. 
Francisco Xavier embarcou no i." de ja- 
neiro de 154b para as Molucas, onde o es- 
peravam ásperos trabalhos e novos perigos. 
A peste tiniia-se manifestado entre as tripu- 
lações dos navios hispanhoes e dos portu- 
gueses, ancorados no porto da 
ilha de Amboino '. 

Os habitantes, aterrados, dci- 
,\avam morrer os pestiferos sem 
lhes levarem soccorro. A praia 
e as toldas dos navios estavam 
cheias de mortos e moribundos. 
Um único homem ousou atfron- 
tar o contagio, e o contagio res- 
peitou-o. Esse homem eraFran 

cisco Xavier. 

Emfim a peste cessou; e logo 

que os navios levantaram ferro. 

foi pregar o evangelho ás outras 

ilhas do archipelago, e por tim 

a Ternate, a mais importante de 

todas ellas. Aqui, converteu 

Neachilea Pocaraga. filha de 

Almanzor, rei de Tidore. que 

usava o titulo de rainha de Bo- 

'eife antes da conquista, nossa 

inimiga irreconciliável, e de 

quem fez uma fervorosa christã 

e uma alliada fiel de Portugal. 
Tantos trabalhos, tantas fa- 
digas, tantas travessias perigo' 

sas atravez dos escolhos do 

oceano oriental, estavam longe 

de esgotar as suas forças. 
Os habitantesdailhadeMoro. 

a sessenta léguas para o oriente. 

são cruéis, inhospitaleiros. fe- 
rozes. Filhos d"um solo estéril, 

revolvido pelas'tempestades, 

queimado pelos fogos subterrâ- 
neos, têera pai.xÕes violentas e sanguinárias, 

matam sem dó nem remorsos os seus inimigos 



e comem-lhes as carnes assadas ao fogo. 
Xavier escreveu a Loyola: 

«A região para onde vou está eriçada de 
perigos, e é funesta a todos pela selvageria 
dos seus habitantes e pelo uso de diversos 
venenos que ministram nas bebidas e nas 




Francisco Xavier anima 03 marinheiros durante as Sorrascaa 



carnes. E' o que tem impossibilitado muitos 
padres de os irem instruir. Quanto a mim. 



a Francisco Xavier, que com auctorização do governo 
o acceitou. 

Horácio Tursellin, primeiro biographo de Francis- 
co Xavier e seu contemporâneo, accrescenta: que Dio- 
go de Borba, fazendo abandono do seminário creado 
por elle, impoz como condição que seria elle o rei- 
tor ; e entrou para a companhia. 

' Esta gente, que alli estava havi.i perto de dois 



annos em cmco ou seis navios, fnra iiquellas repióes 
sem ordem de Carlos V. como se declarou na res- 
posta a uma reclamação de D João III, direndo-lhe 
que os podia castigar como piratas a fopo e sangue. 
Os navios portugueses eram os de Lourenço l'ires 
da Távora, que tendo ido para expulsar os caste- 
lhanos, tão desgraçados os encontr.iram que só tive- 
ram commlseraçSo para os amparar e recolher. 



6a 



HISTORIA GERAL 



considerando a extrema necessidade que el- 
les têem e o dever do meu ministério, que 
me obriga a libertar as almas da morte eter- 
na, á custa da minha própria vida, resolvi 
arriscar-me pela salvação delles. Toda a 
minha esperança, todo o meu desejo é de 
me conformar, tanto quanto me seja possi- 
vel, com a palavra do Mestre: «Quem quizer 
salvar a sua alma a perderá, e quem a perder 
por meu amor a encontrará. 

«Muitas pessoas, que aqui me dedicam a 
maior ternura, têem feito todo o possivei 
para me desviarem desta viagem. 

«Vendo que as suas lagrimas e as suas sup- 
plicas ficavam sem effeito, têem querido for- 
necer-me contra venenos. Nada tenho que- 
rido acceitar, com receio de que, levando o 
remédio, começasse a ter medo do mal. A mi- 
nha vida está nas mãos da Providencia ; não 
tenho necessidade de preservativos contra a 
morte, e pareceu-me que quantos mais re- 
médios tivesse, menor seria a minha confiança 
em Deus.» 

A ilha de Moro submetteu-se á voz do 
missionário, que voltou ás Molucas, a Mala- 
ca, e por fim a Gôa, em julho de 1567. Nuno 
Ribeiro, e mais sete jesuítas, enviados por 
Ignacio, ahi o esperavam. Os preceitos do 
fundador sobre a virtude da obediência ti- 
nham fructificado no espirito e no coração de 
Xavier. Um dos seus dois companheiros, 
Fnncisco Maneias, recusou deixar o theatro 
das suas pregações, e Xavier cxpulsou-o da 
companhia. 

E' n'esta epocha que se desdobra um dos 
episódios mais brilhantes desta vida cheia 
de heroísmo e de maravilhas. Alaradin, rei 
de Achem, na ilha de Samatra, não tinha 
até então querido reconhecer o nosso domí- 
nio, e havia muito tempo que elle nutria o se- 
creto plano de se apoderar de Malaca. Em 
a noite de 8 para 9 de outubro, forçou o 
'porto da cidade e ameaçou incendial-a com 
os seus brulotes '. 

Tendo tomado uns pescadores que encon- 
trou fora do porto, mutilou-os horrivelmente. 



' D'esta armada diz Lucena: «Eram as vellas, 
afora uma grande quantidade de balões, que são em- 
barcações pequenas, sessenta entre lanchas, fustas 
e gaieotas, que todas jogavam camaletes por proa 
e algumas meias espheras com seus falcões de coxia, 



e encarregou-os de levarem ao governador 
da fortaleza, Simão de Mello, uma intima- 
ção insolente, redigida com a emphase e o 
exaggero orientaes: 

«Bajaja Soora, eu que tenho a honra de 
trazer em vasos d'ouro o arroz do grande 
sultão Alaradin, rei de Achem e das terras 
que um e outro mar lavam, te advirto, para 
que escrevas a teu rei, dizendo lhe que eu 
estou aqui a pezar seu, lançando o terror na 
sua fortaleza com o meu altivo rugido, e 
que ahi estarei tanto tempo quanto me aprou- 
ver. Tomo em testemunho do que te digo, 
não só a terra e as nações que a habitam, 
mas todos os elementos e até o ceu da lua, 
e lhes declaro, por palavras da minha bocca, 
que o teu rei não tem reputação nem valor; 
que os seus estandartes abatidos nunca mais 
se poderão erguer sem licença d'aquelle que 
acaba de o vencer; que, pela victoria que 
temos alcançado, meu rei tem debaixo dos 
pés a cabeça do teu, que, de hoje em dean- 
te, é seu súbdito e seu escravo; e para que 
tu próprio confesses essa verdade, eu te 
desafio a combate no logar onde, ao presen- 
te, me acho, se tens bastante coragem para 
me resistir.» 

V.ra mais fácil desprezar este ridículo de- 
safio do que a armada de Alaradin. Eo con- 
selho, convocado por Simão de Mello, esta- 
va indeciso. Xavier apparece e dá coragem 
aos ânimos. Não são palavras de paz, que 
clle faz ouvir, mas um grito de guerra que 
sae do seu peito. Toda a altivez do sangue 
hispanhol se revolta debaixo da humilde rou- 
peta; lembra-se da sua origem, da sua mo- 
cidade destinada ás armas, de seus irmãos 
que foram valorosos capitães. Alguns navios 
tinham sido poupados pelas chammas, eil-o,s 
ahi vão, fracos mas intrépidos, tendo no tope 
dos mastros o pavilhão das quinas e nas 
vellas a cruz de Christo, ao encontro do ini- 
migo; mas apenas saldo do porto o navio 
almirante, um chaveco, que estivera até alli I 
varado na praia, mettendo agua por todas 
as juntas, sossobra e desapparece nas on- 
das. 



e outra muita artilheria, de que já então aquelles 
bárbaros tinham á nossa custa, e em nosso damno, 
muitos araiazens.» 



i 



DOS jesuítas 



63 



o jesuíta apazigua os murmúrios que o 
desastre levanta e os receios que eram jus- 
tificados, e promette um soccorro enviado 
pelo ceu. Eftectivamcnte, ao cair da noite, 
surgem no horizonte duas vellas latinas que, 
no dia seguinte se reúnem á frota. Eram as 
fustas de Diogo Soares, o Gallego, e de seu 
filho Balthasar. A 25 de outubro os portu- 
gueses perseguem os achemenses que tinham 
levantado ferro. Mettem a pique, incendeiam, 
ferem, matam e dispersam os navios inimi- 
gos. 

Seis mezes depois, nomeia Paulo Cameri- 
no, superior geral, em seu logar; confia os pa- 
ravas a Criminal, Henrique e Alonso Cy- 
priano ; vae a Baçaim visitar Garcia de Sá, 
successor no governo das índias de D. João 
de Castro, e a i5 d' abril embarca-se para o 
Japão com Cosme Torres, João Fernandes 
e o japonez Anjero de Cangoxma, convertido 
ao christianismo com o nome de Paulo de 
Santa-Fé. 

A tempestade o balouça e o obriga a na- 
vegar durante quatro mezes, e a i5 d'agosto 
de i549 o depõe na praia de Cango.vma. 
Alli se encontra a braços com uma popula- 
ção fanatizada pelos bonzos, que dispõem co- 
mo soberanos senhores da vida e dos bens 
dos homens, e, em nome da sua divindade, 
Amida ', fazem com que se precipitem do alto 
dos rochedos aos rios, ou que se sepultem 
vivos. Lá, como na costa da Pescaria, teve que 
luctar contra a ignorância, a superstição e 
o egoismo. Lá egualmente triumphou. Põe-se 
a caminho, com a costumada bagagem con- 
stituída pelos paramentos indispensáveis pa- 
ra dizer missa. Atravessa povos que despre- 
zam a sua pobreza. Mas em Firando, reino 
adjacente á ilha de Xamo, a armada portu- 



' Amida é um dos cinco nwns (Fathàgatas) ou 
Budhas eternos. Personifica no budhismo japonês a 
a virtude da caridade e do amor do Budha supremo. 
Para livrar os homens das misérias que sem cessar 
nascem da transmigração, para os conduzir á perfeita 
felicidade do paraizo, que elle preside na região Occi- 
dental, Amida dignou-se encarnar se elle próprio na 
pessoa de Càkvamuni o fundador do budhismo. Todas 
as seitas budhicas do Japão professam uma profunda 
adoração por Amida, votam-lhe um culto particular. 
Amida é na maioria das vezes figurado sentado sobre 
um lótus, com as pernas encruzadas, no meio d'um 
grande resplendor. 



guesa reconhece-o, e logo os mastros se em- 
pavezam, sòa a artiiheria como se um mo- 
narcha tivesse chegado, e o rei auctoriza-o 
a pregar o christianismo nos seus estados. 

Embarca de novo, e faz-se de vella para a 
ilha de Nifon a 27 d'outubro de i55o. A ci- 
dade de Yamangu.\i, antro de todos os ví- 
cios engendrados pela riqueza, abysmada na 
sodomia mais vergonhosa e nos mais repel- 
lentes deboches, resiste á sua palavra e é 
obrigado a retirar-se deante d"esta accusação 
universal : 

— Eis o bonzo impostor que quer que não 
adoremos senão a um Deus, e que cada um 
de nós apenas tenha uma mulher! 

Acompanhado por P^ernandes e por dois 
japoneses, que tinha convertido, partiu para 
Méaco, capital do império. Entra num de- 
serto gelado, onde a neve se e.xtende por 
toda a parte como um infinito lençol branco. 
Durante dois mezes, com os pés nus, res- 
guardando-se do frio com uma simples so- 
taina esburacada, levando n"um alforje ás 
costas alguns punhados d'arroz, seu único 
alimento, atravessa essas terríveis solidões, 
sem se queixar, sem um murmúrio, sem 
que um único instante perdesse a coragem, 
e quando, emfim, chega a Méaco, sabe que 
tudo foram trabalhos perdidos. E preciso 
pagar uma quantia enorme, (perto de dois 
contos da nossa moeda) para obter uma au- 
diência do Dayri, e Xavier não possue um 
real, porque já distribuirá em e.smolas uns 
mil escudos doiro, que o tinham obrigado 
a acceitar. 

Que vae fazer? Irá emfim depor o bor- 
dão e a saccola de peregrino? 

Volta atraz, recolhe alguns presentes, que 
na sua volta offerece a Oxindono, rei de 
Yamanguxi, e d'esta vez é ouvido, e obtém 
licença para pregar. 

Instruiu os japoneses e os chineses; ini- 
ciou-se nas subtilezas de todas as seitas em 
que se dividiam as crenças; argumenta e 
discute contra os bonzos que, para o emba- 
raçarem, falam uns poucos ao mesmo tempo 
e sobre ditVerentes assumptos. A bulia da 
canonização diz que: «as suas respostas bre- 
ves, claras e múltiplas pela graça, feriam ao 
mesmo tempo os ouvidos dos seus interlo- 
cutores». 



64 



HISTORIA GERAL 



"Embora me tenham embranquecido os 
cabellos, escrevia elle para Roma, estou mais 
robusto do que nunca; porque os trabalhos 
que se sotVrem para cultivar uma nação in- 
telligente que ama a verdade, e deseja a 
sua própria salvação, dão sufficicnte alegria. 
Nunca me senti tão consolado como em 
Yamanguxi, onde uma grande multidão de 
gente vem ouvir-me, com o consentimento 
do rei. ^'ejo o orgulho dos bonzos abatido, 
e os mais altivos inimigos do nome christão 
submettidos ao Evangelho, ^'ejo os trans- 
portes dalegria em que se comprazem estes 
novos christãos, quando, depois de terem 
vencido os bonzos na discussão, voltam to- 
dos triumphantes. Não me alegra menos 
ver o trabalho que elles teem, cada qual ao 
despique, para converterem os gentios, e o 
prazer que sentem em contar as suas con- 
quistas; por que maneira eiles se apode- 
ram dos espíritos, e como exterminam as 
superstições pagãs. Tudo isto me causa uma 
tal alegria, que com ella perco o sentir dos 
meus próprios males. Praza a Deus que. 
assim como me recordo destas consolações 
que recebi da misericórdia divina no meio 
dos meus trabalhos, eu possa não só con- 
tal-os, mas dar delles a experiência e fa- 
zel-os sentir um tanto ou quanto ás nos- 
sas academias da Europa. Estou certo que 
muitos dos moços que ahi estudam, viriam 
empregar na conversão d'um povo idolatra, 
o que teem d'animo e forças, se tivessem 
uma vez, sequer, gosado as celestes doçu- 
ras que acompanham as nossas fadigas.» 

No meio dos seus trabalhos apostólicos, 
que são partilhados por Torres e Fernandes, 
Francisco Xavier sabe que um navio portu- 
guês, do commando de Duarte da Gama, 
estava nas aguas de Bungo, considerável 
reino da ilha de Xamo. A 20 de setembro 
de i35i, dirige-se para Fucheo capital do 
reino. Os portugueses assim que o vêem 
chegar vão ao seu encontro, recebem-o com 
honras, e o rei escreve-lhe para que no dia 
seguinte vá a palácio. 

Apesar da repugnância de Xavier, prepa- 
rou-se tudo para que a recepção fosse bri- 
lhante e solenne. Fizeram-lhe comprehender 
que a impressão exterior das pompas mun- 
danas é necessária para actuar mais viva- 



mente sobre essas imaginações orientaes. 
Xavier consente, n'esse dia, em vestir uma 
sotaina nova, enverga a sobrepeliz, e põe 
uma estola de veludo verde bordada a oiro. 

Ao nascer do sol, o ctrtejo põe-se a ca- 
minho para o palácio. 

Trinta portugueses, cujos vestidos brilha- 
vam com o scintillar dos bordados e das pe- 
drarias, avançam descobertos, e precedidos 
por Duarte da Gama '. 

A musica das charamellas mantém a or- 
dem e o r3-thmo da marcha da multidão que 
segue o missionário. Cercam-o cinco homens 
um dos quaes leva o evangelho num sacco 
de setim brar.co ; c os outros um bastão de 
canna de Bengaila com incrustações de oiro. 
umas chinellas de velludo preto bordadas, 
uma imagem de Nossa Senhora, e um guar- 
da-sol. A guarda do rei afasta-se para o re^ 
ceber. Entra no palácio, e, acompanhado dos 
principaes senhores do reino, percorre ma- 
gnificas galerias, até que é introduzido na 
sala, onde o rei espera a comitiva, sentado 
no throno. 

\'ac o missionário para se lançar a seus 
pés, segundo o cerimonial do costume ; mas, 
at) seu aspecto, o rei levanta -se, três vezes 
se inclina, fal-o sentar a seu lado, e pede-lhe 
que desenvolva, na presença de toda a sua 
corte, os mysterios e as verdades da religião 
christã. Ao jantar para que foi convidado 
todos os assistentes ficaram tle joelhos. 

Uma tal protecção, que se não desmentiu 
um só instante, durante quinze dias, attraiu 
contra o missionário a cólera e a vingança dos 
bonzos. Fucarandono, seu chefe e seu orá- 
culo, amotinou o povo, e o dia marcado 
para a partida de Francisco Xavier quasi 
que esteve para .ser o da sua morte. Graças 
Á coragem calma e tranquillidade de que deu 
mostras, e á attitude bellica dos portugue- 
ses, pôde reembarcar-se no navio que o ti- 
nha conduzido. 

A 24 de janeiro de i552 desembarca cm 
Cochim, na costa do Malabar, onde, mal põe 
pé em terra, emprehende logo converter o 



' «Dos portugueses nenhum ficou nas naus, e to- 
dos se fizeram louçãos com cadeias de oiro sobre ri- 
cas sedas, que vestiam e concertos de pérolas nas 
gorras», diz João de Lucena. 



DOS jesuítas 




(jb 



HISTORIA GERAL 



rei das Maldivas, ilhas equatoriaes, no gran- 
de mar das índias, a cincocnta léguas do 
cabo Camorim ; e de concerto com um seu 
amigo, o negociante Diogo Pereira, tracta 
de dar execução a um antigo projecto, mui- 
tas vezes feito, de uma viagem á China. 

Pela segunda vez, usando dos poderes 
que lhe foram concedidos, lembra a virtude 
da obediência a um dos seus companheiros, o 
jesuita Gomes' reitor do collegio de S. Pau- 
lo, que tinha introduzido algumas alterações 
no plano destudos organisado pela compa- 
nhia. Gomes era protegido pelo governador 
das índias, D. Jorge Cabral ; mas este cedeu 
ás representações de Xavier, e Gomes se- 
guiu viagem para a Europa no primeiro na- 
vio de retorno. 

Antes da sua partida para a China, Xa- 
vier poz em ordem os negócios da compa- 
nhia. Gaspar Bargié foi nomeado reitor do 
collegio da Santa-Fé, e superior geral de 
todos os irmãos em missão n'este novo mun- 
do. Melchior Nunes partiu para Baçaim, 
João Lopes para Meliapor, Gonsalves Ro- 
drigues para Cochim e Luiz Mendes para a 
costa da Pescaria. Os missionários designa- 
dos para o acompanharem á China foram; 
Balthazar Gago, Duarte da Silva, Pedro Al- 
cáçovas, Gonçalo da Silveira e Francisco 
Rodrigues. 

N'uma carta de 9 dabril de ibb2, explica 
a D. João III o fim e as esperanças da sua 
nova empreza : 

«Vou partir para Goa d'aqui a cinco dias, 
para me fazer de vela para Malaca, d'onde 
tomarei o caminho da China com Diogo Pe 
rcira que está nomeado embaixador. Leva- 
mos ricos presentes que Pereira comprou, 
parte com o vosso dinheiro, parte com o seu 
d"elle ; mas vamos-lhe olferecer um mais 
precioso, tal que nenhum rei, que eu saiba, 
ainda fez a outro rei : é o Evangelho de Je- 
su-Christo; e se o imperador da China al- 
gum dia lhe conhecer o valor, estou certo 



' Quando tractarmos especialmente dos jesuítas 
em Portugal teremos occasião de ver como ao espi- 
rito cavalheiroso e mdependente, apesar de jesuítas, 
dos portugueses d'aquella epocha, repugnava a obe- 
diência mechanica, servil que a companhia impõe a 
seus sócios, reduzindo-os a menos que escravos. 



que preferirá este thcsoiro a todos os seus, 
por maiores que elles sejam. 

«Espero que Deus lançará os seus olhos 
de misericórdia sobre um tão vasto império, 
e que fará conhecer a tantos povos, que tra- 
zem a sua imagem gravada na fronte, o seu 
creador e o salvador de todos os homens, 
Jcsu-Christo. 

«O nosso empenho é tirar dos ferros os 
portugueses que estão captivos na China, de 
alcançar a amisade dos chins em favor da 
coroa de Portugal, e principalmente guerrear 
os demónios e seus partidários...» 

Mas um obstáculo, que elie não tinha pre- 
visto, transtornou os seus projectos. O go- 
vernador de Malaca, D. Álvaro d'Athaydc, 
esperava ser nomeado para a embaixada da 
China ; cioso da preferencia dada a Pereira, 
um simples negociante, recusou, na sua qua^ 
lidade de capitão-mór do mar, deixar par- 
tir a nau Santa Cru:[, sob pretexto de que 
os javaneses ameaçavam atacar Malaca. 
João Soares, vigário geral, mostra a D. Ál- 
varo as cartas patentes de D. João III e de 
D. Affonso de Noronha, governador das ín- 
dias, que conferem a Xavier uma auctorida- 
de absoluta; D. Aharo responde com a re- 
cusa. Xavier é núncio apostólico, e dá or- 
dem a João Soares de excommungar o ca- 
pitão-mór ; mas este, português dos quatro 
costados, atfronta a cxcommunhão, c faz 
apparelhar a nau para Sanchoan ilha situada 
na costa de Cantão. O missionário submct- 
te-se e embarca. 

Francisco Xavier desembarcara na ilha onde 
apenas havia uma pequena, pobre e miserá- 
vel população. «Os navios dos portugueses, 
escreve João de Lucena, que tinham alguns 
e acudiam ao padre, com suas caridades, 
eram todos partidos, sem ficar no porto mais 
do que um só, com pouca gente muito ne- 
cessitada, e a maior parte enferma, aos quaes 
o Padre d'antes costumava servir c buscar 
esmolas, e agora é forçado a lh'as pedir 
para não morrer. Não tinha comsigo pessoa 
nenhuma da nossa companhia, com quem se 
consolasse, o hospede fugira-lhe no navio 
que ficou, os mais eram de D. Álvaro d'Athay- 
de. Emlim, só com António China e outro 
moço Índio dos que sairam com elie de Goa se 
achou n'este passo. Quando em uma segun- 



DOS jesuítas 



h 



da feira 20 de novembro, vindo de dizer 
missa por um defuncto, o tomou a febre, re- 
colheu se á nau, em que estavam outros po- 
bres doentes, desejoso de os acompanhar 
e passar entre elles a própria pobreza e en- 
fermidade, já que os não podia curar e soc- 
correr nas suas. Mas indo o mal muito por 
deante, e sentindo-sc o padre dos grandes 
balanços da nau, por lhe impedirem, com a 
fraqueza da cabeça, a attenção das coisas 
divinas, pediu que o kvassem para terra^ 
Onde o metteram os dois moços n'uma chou- 
pana, que um português offereceu por com- 
paixão de o ver tão maltratado.» 

«Era a choupana coberta de ramos e ter- 
róes, aberta por diversas partes ao vento, 
sem abrigo algum do frio ; o tempo ia en- 
trando áspero, a falta de tudo crescia por 
horas, não havendo outro modo de provi- 
mento que o que António da Santa-Fé pe- 
dia e havia por amor de Deus.» 

Durou a doença doze dias, expirando na 
antemanhã de sabbado 2 de dezembro de 
i352, dez annos sete mezes e quatro dias 
depois de entrar na índia e aos cincoenta c 
cinco da sua edade, com a imagem de Chris- 
to nas mãos. 

«O padre Francisco Xavier era de justa 
estatura, conta ainda Lucena, mais grande 
que pequeno, não falto de carnes, bem for- 
mado e homem de grande compressão e 
forças, o rosto grave, e em boa proporção 
no comprimento e largura, a côr natural- 
mente branca e rosada de mais d'andar sem- 
pre inflammado, os olhos entre negros e 
castanhos, a testa larga, o nariz moderado, 
a barba preta, e em todo o semblante tinha 
com muito ar muita auctoridade. Trouxe sem- 
pre o cabello copado, não usou nunca mantos 
sobre a roupeta, que era pobre mas limpa. 
Andava com ella solta tomando-a, com am- 
bas as mãos, um pouco sobre o peito.» 

No domingo seguinte foi o seu cadáver 
enterrado no areal próximo d'uma cruz que 
os portugueses alli tinham erguido, e, como 
tumulo, aggiomeraram-lhe em cima um mon- 
tão de pedras. O enterramento fez-se sem 
solennidade alguma e o padre Bouhours es- 
creve: «e além de António de Santa-Fé, 
Francisco d'Aguiar e dois outros, mais nin- 
guém assistiu. Um historiador das índias 



diz : que o frio insupportavel que fazia nesse 
dia foi a causa d'isso, mas apparentemente 
o receio que teve a gente do navio de attrair 
a indignação do governador de Malaca, teve, 
pelo menos, tanta parte como o frio.» 

Dois mezes e meio depois da morte o na- 
vio que estava no porto partia para a índia, 
e António de Santa-Fé contractou com o res- 
pectivo capitão, Luiz d'Almeida, o transporte 
dos ossos para Gôa. Annuiu este, e a 17 de 
fevereiro de i553, mandou abrir a cova e o 
caixão para receber os ossos, e encontraram 
o cadáver inteiro e sem corrupção, o que 
em taes epochas era signal evidente de san- 
tidade. 

A 22 de março chegou o navio a .Malaca. 
O cadáver foi reverenciado já como o d'um 
santo ; mas só o governador Álvaro de 
Athaide se recusou a prestar-lhe qualquer 
homenagem, e depois enterrado fora da egre- 
ja. Como a cova fosse pequena e o cadáver 
entrasse á força, soffreu certa deformação 
nos hombros. 

Cinco mezes passados foi desenterrado se- 
cretamente por Diogo Pereira e João da 
Beira, encerrado num precioso caixão, e 
por fim, depois d'uma série de peripécias 
em que o dramático das situações se allia á 
piedade dos que o conduzem, apontou a 
Gôa. Em toda a parte, porém, onde elle ti- 
nha estado e aonde chegara a noticia da sua 
morte, da costa da Pescaria ao Japão, nas ter- 
ras que percorrera, em todas as ilhas d'es- 
ses mares que cem vezes atravessou, o lucto 
foi geral, e unanime o concerto de lagrimas 
e de lamentações. 

Quando a Santa (Jni{, que levava os 
seus restos mortaes, encontrava qualquer 
navio, este prestava honras fúnebres á me- 
moria do missionário. Troava o canhão e as 
bandeiras Huctuavam a meio pau. 

Por uma noite sombria e tempestuosa, 16 
de março de i5S4, o cadáver foi enviado 
para terra, no meio de enorme multidão, 
que se arredava para deixar passar o fúne- 
bre cortejo. Por vezes a lua, rasgando a ne- 
grura espessa das nuvens que cobriam o 
ceu, vinha fundir a sua luz clara com os 
clarões vermelhos e sinistros dos archotes, 
cujas chammas o vento fazia vacillar. Dois ho- 
mens, precedendo <> caixão, que era carre- 



68 



HISTORIA GERAL 



gado por quatro outros, iam na tVeiite en- 
toando a ladainha. Grande numero doutros 
formava o préstito, todos recolhidos e des- 
cobertos. A multidão, de joelhos, resava, e 
só os seus soluços interrompiam a fúnebre 
psalmodia, e assim o levaram a passar a 
noite na ermida de Nossa Senhora de Ri- 
handar, dentro do rio. a meia légua de 
Gòa. 

Na manhã seguinte, foram seis embarca- 
ções, onde os portugueses iam com bran- 
dões accesos, buscar o cadáver, que levaram 
para Gòa. Aqui, seis jesuítas carregaram o 



corpo, c depois de três dias de exposição 
publica «o metteram ao quarto n'um sepul- 
chro d'ab(^bada, que se abriíi no altar mór, 
á parte do Evangelho. i> 

Uma bulia de Urbano VIII, datada de 6 
d'agosto de i623, collocou Francisco Xa- 
vier em o numero dos santos. 

Deixamos propositalmcnte de narrar a parte 
maravilhosa da vida deste verdadeiro ho- 
mem de Deus, pois que para a sua gloria 
Jiasta a parte humana. O leitor que ponha 
esta vida em parallelo com a de Ignacio de 
Lovola e que decida qual d'elles é o santo. 



*^o//o L027TICK) e^ c^v^jh 




DOS JESUÍTAS 



«•3 



VIII 



Os, Exercícios espirituaes 



DA brilhante claridade do oriente, onde 
seguimos, não par em passo como se- 
ria nosso desejo, mas nas 
suas linhas geraes, a vi- 
da de Francisco Xavier. 
— que muitos outros je- 
suitas imitaram, sem ne- 
nhum a egualar, — obri- 
ga-nos o assumpto, a pe 
sar nosso, a ver se pe 
n et ramos n"essa noite 
sombria, sinistra, ener- 
vante e anniquiladora 
dos exercícios cxpiri- 
tuaes. 

Foram estes um dos 
mais poderosos mcins 
do que Ignacio lançou 
miío, e os seus compa- 
nheiros e discipulos se- 
guiram e aperfeiçoaram, 
para o absoluto domínio 
daquelles que, seduzi- 
dos por uma curiosidade 
tão mystica como doen- 
tia, tivessem a desgraça 
de praticar. 

E, pois, necessário 
que nos enchamos de 
coragem e os conheça 
mos tanto quanto possí- 
vel, para lhes compre - 
hendermos as intenções 
e ver a que resultados se 
chega com elles, nas 
mãos d'um director há- 
bil e sem respeito pela dignidade humana. 
Conhecidos que sejam, saberemos como cllcs 



podem anniquilar para sempre a liberdade 

individual e redii/ir o pi\ilicaiiti'. por meio 




Recepção ie Frar.oe;: :,.•.■■. ; ..,;-:-. 

duma continua c irreductivcl obsessão, a um 
mero semovente sem consciência, a pouco 



7u 



HISTORIA GERAL 



menos de que um mentecapto dócil, dirigí- 
vel pelo vontade alheia, atrophiado na voli- 
ção destinado a ser o verdadeiro cadáver tia 
mão do lavador dos mortos. 

Quem methodisou os exercícios, quem in- 
ventou a sua gradação era um verdadeiro 
psychologo, e um orgulhoso despresador do 
homem moral. 

Quando se estudam e se comparam o tex- 
to dos exercidos de Cisneros e o texto dos 
exercidos de Loyola, o que logo resalta não 
são tanto as semelhanças indiscutíveis que 
elles apresentam, mas sim as ditferenças 
fundamentaes que os separam. Ignacío to- 
mou a D. Garcia o titulo e as grandes linhas 
do seu livro, a duração, fora de uso, do re- 
tiro de trinta a quarenta dias *, a divisão 
d'estes dias por períodos qualificados de 
semanas e correspondendo ás diversas vias 
espirituaes, conhecidas dos m_vsticos: via 
purgativa, illumiiiativa, unitiva e contem- 
plativa':, a ordem dos diversos assumptos 
de meditação tirados da vida e morte de 
Jesu-Christo. Mas o que é o tudo em Cisne- 
ros é apenas a parte em Loyola, cuja obra, 
muito mais condensada, é, apesar do que con- 
tem de extranhn á d'aquelle. sensivelmente 
mais curta. 

Cisneros pretende que o homem trabalhe 
por si para a sua perfeição, e traça-lhe as 



' A duração normal dos exercícios é de trinta dias, 
mas pode ser prolongada ou abreviada pelo director, 
o qual se determina segundo as condições physicas e 
raoraes do paciente, e em conformidade com as vis- 
tas que a companhia pôde ter lançado sobre elle. — 
É egualmente ao director que compete fixar a dura- 
ção dos quatro cvclos ou semanas que deve atraves- 
sar o retirante. Poucas sandes e menos razões ha que 
possam impunemente ser detidas durante trinta ou 
quarenta dias n"um receio muito perto do terror, ou 
entregues a um enihusiasmo que confina com a allu- 
cinação. Ignacio diz que a sua experiência llje mos- 
trou que poucas pessoas são capazes de praticarem 
os exercicios á risca, e sem modificações, e por iSso 
recommenda estas. Encontram se as mesmas recom- 
mendaçõês e as mesmas reservas nos rituaes árabes, 
que prescrevem o kelua, ,'ou retiro de trinta a qua- 
renta dias, usado em um certo numero de congrega- 
ções musulmanas. 

' N'um dos principaes capítulos do meu livro i4s 
freiras de Lorvão, tracto mais desenvolvidamente 
d'esta forma de oração muito usada, principalmente 
pelos mysticos do século xvi e xvii, e de que foi con- 
sumada mestra Santa Thereza de Jesus. 



regras que deve seguir para que o consiga. 
Ignacio recommenda principalmente que elle 
se deixe trabalhar; nunca fala em fa^er os 
e.\ercicios mas em os receber. Ao lado, ou 
melhor ainda, acima do exercitante colloca 
— intermediário indispensável entre Deus e 
elle — o director, aquelle que dá os exerci- 
dos *, cuja funcção é de se assenhorear da 
imaginação e da sensibilidade d'aquelle que 
os recebe, afim de dispor, como senhor abso- 
luto, da vontade d'este. Emquanto o livro 
de Cisneros, escripto para monges, e cheio 
de subtilesas escholasticas, provoca o esforço 
individual e respeita a liberdade dos espíri- 
tos e das almas, o de Loyola, que se destina 
ás pessoas de todos os estados e de todas as 
condições, exige delias a obediência passiva! 
O E.xercitatorium de D. Garcia tem exclu- 
sivamente a feição do mysticismo hispanhol 
e escholastico, que Thereza de Jesus reno- 
vará; os Exercitia de Ignacio «teem, segun- 
do disse um adversário, fundidos no mesmo 
conjuncto os processos gnósticos das seitas 
musulmanas, e as subtilesas d'um catholi- 
cismo militante.» 

Não são conhecidas as fontes onde Igna- 
cio foi beber tudo quanto, das congregações 
musulmanas. se encontra nos exercicios e nas 
constituições, mas não será arriscado sup 
pôr que não seria preciso sair de Hispanha, 
n'aqueila epocha, para tomar conhecimento 
de taes congregações * uma das quaes, entre 
outras, a dos chadelya contava numerosos 
adeptos. Temos mais: a convçrsa e discus- 
são com o moiro a caminho de Manreza, e 
.sobre tudo essa viagem a Jerusalém, ainda tão 



' "O fructo dos exercicios, diz Bartoli, depende 
principalmente da habilidade de quem os dirige» e 
que esse director seja jesuíta, sem o que não ha sal- 
vação possível ! 

^ A ordem religiosa dos chadelya, a decima sexta 
em data das grandes ordens religiosas musulmanas, e 
uma d'aquellas cuja moral foi e se tem conservado 
mais pura, teve por fundador Sid-Abu-Médian, nas- 
cido em Sevilha em 1 126, e morto em iiijS ; mas foi 
buscar o seu título ao seu terceiro cheikh Sid-Abu- 
Hassenech-Chandely (i2o5ii56) cuja memoria ficou 
venerada em todo o islamismo. Esta ordem multipli- 
cou-se com uma grande rapidez, e os seus adeptos, 
disseminados na Arábia e na Hispanha, formaram 
grupos distinctos, dos quaes muitos d'elles ainda 
subsistem. 



I 



UOS JESUÍTAS 



pouco conhecida em todos os seus inciden- 
tes. O incontestável é que os empréstimos 
ás doutrinas musulmanas são flagrantes, e 
que os jesuitas para resolverem a questão a 
collocam no campo da inspiração divina, co- 
mo já tivemos occasião de escrever '. E certo 
que os que têem particularmente estudado 
as congregações religiosas dos árabes, che- 
garam ao convencimento absoluto de que 
foram estas que suggeriram a Ignacio o 
plano do seu instituto, e que o livro dos 
exercícios, ou antes o seu methodo d'appli- 
cação, se inspirou nos escriptos e nos pro- 
cessos musulmanos, facto que em si nada 
tem de reprehensivel -. Os despojos dos egy- 
pcios serviram, diz a Biblia, para com elles 
se edificar o tabernáculo no deserto, e nin- 
guém põe em duvida quanto e quantas coi- 
sas rituaes a religião christã adoptou do pa- 
ganismo. A adaptação tentada por Loyola 
não era menos legitima nem menos licita, 
com a condição de que não deveria ter ido 
tirar ao adversário se não as coisas boas, 
ou pelo menos as inditferentes, e confessar 
lealmente o empréstimo. 

E senão ve)a-se : O poder do supei ior, 
do .chetkh das congregações musulmanas, é 
absolutamente o do geral da companhia de 
Jesus; é-lhe prescripto que se sirva delle 



' Sobre este assumpto consultar : Uermann Muler 
— Les Origines de la compagnie de Jcsus^ que trata 
Jesenvolvidamente esta hypotese, e sobre cujas pa- 
ginas calcamos estas nossas. — No tim deste trabalho 
daremos ura rol de todos os auctores consultados, 
para guia dos leitores que queiram profundar os as- 
sumptos a que, pela natureza d'este escripto, somos 
obrigados a tocar de relance. 

' A fundação dos padres brancos foi inspirada ao 
cardeal Lavigerie por um pensamento análogo ao 
pensamento primitivo de Ignacio : ir buscar aos mu- 
sulmanos as suas próprias armas para com ellas os 
combater, ou antes, mais seguramente os attrair. 
Comtudo a maneira de proceder foi absolutamente 
differente. Loyola, não confessando, nem podendo 
confessar, o empréstimo, teve que afastar desde o co- 
meço tudo quanto exteriormente o podesse desco- 
brir ; tomou ao inimigo os seus quadros, o seu me- 
thodo de formação, e, até certo ponto, o seu e?pirito; 
e disse-se inspirado por Deus; i avigerie, pelo con- 
trario, trabalhando á luz franca do sol, e confessando 
altamente o seu tím sem necessitar involver na sua 
resolução a divindade, vestiu os seus monges de ára- 
bes, mas limitou-se ás semelhanças materiares e ex- 
teriores. 



icomo quizer, isto é palavra por palavra o 
como lhe aprouver t das constituições de Igna- 
cio. Este também pôde consultar seus ir- 
mãos, <imas com a condição que elles não 
possam contradizel-o se clle teimar numa 
o;"iniâo contraria á delles». Idêntica quanto 
a natureza, a sua au^toridade se exercita 
n'um quadro análogo. Herdeiro espiritual 
do fundador, d'clle retrata as virtudes e o 
espirito, como os successorcs de Ignacio as 
virtudes c o espirito de Loyola ; «juiz e inter- 
prete da regra é ao mesmo tempo seu de- 
positário, ellc communica d"esta o que bem 
entende e a quem quer ; é o homem que- 
rido de Deus o, a quem os seus subordina- 
dos, quaesquer que sejam a sua classe e o 
grau de iniciação, devem «obediência pas- 
siva» ; Ignacio adoptou a mesma coisa. Eleito 
pelos principaes da ordem, ou designado 
para o supremo poder pelo seu predeces- 
sor, nem um nem outro tem o direito de 
recusar o cargo. Como principalmente e so- 
bretudo deve de ser um homem de governo, 
as qualidades exteriores próprias para o pre- 
domínio da sua auctoridade e do seu presti- 
gio, desempenham um papel importante na 
sua escolha ou na sua indicação. «Não é. et- 
fectivamente, uma honra ou uma recompensa 
que se trata de conferir ao mais merecedor. 
é o interesse da communidade que é preciso 
salvaguardar por todos os meios, confiando 
a sua defesa ao mais forte, ao mais hábil, 
áquelle cuja auctoridade se imporá a todos 
desde o primeiro dia. sem difficuldadcs nem 
resistências '». Ao que Ignacio addiciona por 
sua vez, enumerando as qualidades neces- 
sárias ao chefe do seu Instituto; «que seja 
hábil em unir á benevolência e á doçura a 
aspereza e a severidade . . . precisa ter muita 
força de animo e de coragem para sustentar 
as fraquezas d'um grande numero, c em- 
prchendcr as grandes coisas para o serviçii 
de Deus... muito discernimento nas coi- 
sas exteriores para saber tratar dos negó- 
cios tão dilVerentes e com tão ditVerentes es- 
pécies de homens, quer por dentro quer 
por fora. . . Alem da saúde e da figura de- 
ve-se ter também cm conta a nobreza c as 
riquezas que teve no mundo. . . e, entre es- 



' Marabouts et Kouan, por Louis Rmu. 



HISTORIA GERAL 



tas coisas exteriores, preferir a ultiina, a boa 
reputação, c todas aquellas qualidades que 
sen'em para dar credito, quer para com os 
extranhos, quer para com os próprios mem- 
bros da sociedade '. 

Segundo as necessidades c os interesses 
do seu governo, o cheikii communica uma 
parte dos seus poderes aos seus delegados, 
que, escolhidos por elle, continuam a rece- 
ber e a transmittir as suas ordens. Em pri- 
meiro logar e «para os paises extrangeiros», 
elle nomeia vigários ou coadjutores qualifica- 
dos de iiaíb (enviado) ou de kJlifas, e cujas 
funcções correspondem ás dos pr'jj'i}iciaes 
na companhia de Jesus ; em segundo logar, 
os superiores locaes ou moqaddem-, os rei- 
tores dos jesuitas, nos quaes elle delega, na 
maior parte das vezes, o direito de conferir 
o uerd, isto é, a iniciação n'uma certa c de- 
terminada zona. 

As relações devem ser directas, tanto 
quanto possível entre o cheikh e os seus su- 
bordinados, e estão asseguradas pelos men- 
sageiros ou reqab, que sempre são membros 
da congregação, portadores decartasou men- 
sagens vcrbaes, cuja missão, clara ou secre- 
ta, é attestada quer pelo sinete do cheikh, 
quer por signaes revelados somente aos ini- 
ciados d'alto grau. Estes correios, absoluta- 
mente dedicados ao cheikh e á sua obra, po- 
dem ser ao mesmo tempo informadores dis- 
cretos, encarregados de tudo verem, de tu- 
do ouvirem e de tudo darem noticia ao su- 
perior geral ; tanto do que diz respeito ao 
estado temporal e espiritual da congregação 
da província, como da casa em que residiram 
ou estiveram de passagem. 

Ao constituições da companhia estabele- 
cem egualmente a necessidade de communi- 
cações regulares «entre a cabeça e os mem- 
bros da companhia». As communicações que 
sempre existiram entre as casas religiosas e 
d'uma mesma ordem e do mesmo instituto 



' Consiiiiiiçoes. Part. 9". cap i 

^ O modo de nomeação do moqaddem, varia se- 
gundo as congregações. N'um certo numero de or- 
dens c o cheikh que os designa, tal como o geral dos 
jesuitas designa os reitores ; em outros, pelo contra- 
rio, o moqaddem, eleito por aquelles a quem tem de 
governar, recebe do cheilih somente a investidura. 



tomam um caracter particular entre os je- 
.suitas. 

Nas outras ordens religio.sa.s, os provin- 
ciaes visitam as ditferentes casas, inquirem 
do estado espiritual de cada uma d'ellas e 
dão as providencias que julgam necessárias. 
Nos jesuitas as relações e informações, são 
conservadas, dizem as constiluições, «por 
meio de cartas ou de pessoas enviadas ás 
provindas ou d'ahi vindas». Qualquer jesuí- 
ta, noviço ou professo, pôde e deve, cm cer- 
tos casos, escrever directamente ao gerai, 
mas «os provinciaes e outros superiores de- 
vem de lhes escrever todas as semanas, se 
elle não está muito afastado; se porém, ha- 
bitam outras regiões, e que não tenham com- 
modidade para lhe escreverem tão amiuda- 
das vezes escrever-lhe-hão uma vez pormez. 
O geral, por seu lado, terá cuidado de lhes 
fazer escrever uma vez por mez.u 

O cheikh, na maioria das congregações 
musulmanas, tem a alta administração dos 
bens da ordem, no que é ajudado pelos 
ktian hábeis no manejo dos negócios^ e que 
occupam uma classe especial. São os coad- 
jiitoves ícmporaes dos jesuitas, como veremos 
"quando tratarmos da fallcncia do padre La- 
valette da companhia de Jesus. 

No livro já citado Ic-se: «os deveres que 
o iwrd ou a regra impõe a todos os seus 
adeptos para com o cheikh, on todas as cott- 
i^Tcgações miísidmaiias sem exxepção, resu- 
mem-se n'esta obediência absoluta, que tão 
bem define o peritidè ac cadarer dos jesui- 
tas.» 

Poderíamos alongar o parallelismo das re- 
gras musul.nanas com as constituições jesuí- 
ticas; mas o que fica dito basta, como exem- 
plo. É tempo de que entremos no estudo dos 
Exercícios onde, se nos podessemos demo- 
rar, veríamos muitas semelhanças com os 
dos árabes, e onde o que mais se procura é 
como que uma h}'pnotisação do individuo '. 

Nos Exercidos espirituaes, tudo gira em 



' O methodo de meditação próprio dos Exercí- 
cios, a applicacão dos sentidos, pelo qual o neophito ve, 
ouve, sente, gosta e apalpa pela imaginação os obje- 
ctos da nossa fc é ainda um plagio feito ao mysticis- 
mo árabe. O verdadeiro crente vè, apalpa, ouve, sente, 
gosta com uma voluptuosidade anticipada as delicias 
do seu paraiso, com um calafrio de terror os variados 



á 



DOS jesuítas 




Francisco Xavier e os Brahmanes 



74 



HISTORIA GERAL 



torno da «eleição», isto é da escolha que o 
retirante deve fazer de um estado da vida; 
ou, se essa escolha já está feita e irrevogá- 
vel, do partido que delia deve tirar para a 
maior gloria de Deus. A primeira vista nada 
mais justo nem mais rasoavcl. Mas, excla- 
maria Bossuet: «Que de cousas não são pre- 
judicadas pela concupiscência?.. .» 

Os exercícios da primeira semana, con- 
sagrada «á purificação da alma», são a pre- 
paração afastada, mas indispensável, para 
«uma boa eleição»; a sua duração depende 
do director, e, é, em geral, o duplo da du- 
ração marcada para as outras semanas '. 

Durante dez, doze ou quinze dias o reti- 
rante, <iintciramente privado da hf{ do dia», 
salvo para tomar as refeições, ou fazer as 
raras leituras que o director lhe tiver esco- 
lhido, deve não só: «se interdir o riso, como 
qualquer palavra que faça rir», mas ainda 
«qualquer pensamento capaz de dar alegria, 
como a lembrança do ceu ou resurreição». 
Não verá senão o seu director, não falará 
senão com elle, e estará na presença de 
Deus como um criminoso carregado de fer- 
ros na presença do seu juiz. As suas medi- 
tações, as quaes constarão pelo menos de qua- 
tro horas por dia - e uma pela noite fora, 
terão por assumpto exclusivo as verdades 
terríveis, que se devem representar com um 
realismo atterrador, c que a applicação dos 
setitidos tornará mais tangiveis, emquanto as 
trevas prolongadas augmentarão a intensi- 
dade das visões. Daremos um único exem- 
plo ^, tirado da meditação sobre o Inferno, 



sppplicios do seu inferno. Ignacio soube rejuvenescer 
o methodo, e por bem combinadas gradações conse- 
guiu multiplicar-|he o poder. 

' A palavra semana deve ser tomada por um pe- 
riodo indeterminado de tempo, e não como o cyclo 
ordinário de sete dias. Ignacio tem o cuidado de o 
explicar logo no começo dos Exercidos. 

* O padre António Carneiro que reduziu a uma 
semana os exercícios do seu padre Ignacio diz: «As 
horas de oração em cada dia, como dispõe o santo 
na primeira semana, eram cinco, mas commummentc 
não se fazem mais que quatro, duas horas de manhã 
e as outras duas de tarde. A primeira da manhã se 
se ha de ter no primeiro tempo expedito depois 
de nos levantarmos, a outra algum tempo antes de 
comer. As da tarde se hão de ter, a primeira depois 
de vésperas, e a outra uma hora antes de cear. . .» 

^ Este exemplo é tirado directamente da edição 



afim de que o leitor tenha uma idca do pro- 
cesso de Ignacio: 

«No primeiro ponto, verei com os olhos 
da imaginação esses fogos intensos, c as 
almas dos réprobos, como que encerradas 
em corpos de fogo. 

«No segundo ouvirei, com o auxilio da 
imaginação, os gemidos, os ais, os clamores, 
as blasphemias contra Jesu-Christo Nosso 
Senhor e contra todos os santos». 

«No terceiro, figurarei que respiro a fu- 
maça, o enxofre, o fétido d'uma sentina e de 
matérias em putrefacção. 

«No quarto, imaginarei gostar interiormen- 
te de coisas amargas, taes como lagrimas, 
a tristeza e o verme da consciência. 

« No quarto, apalparei as chammas vinga- 
doras, esforçando-me para comprehender vi- 
vamente, como ellas cercam e queimam as 
almas dos réprobos '. 

«Quando se tem obtido o que se deseja» 
isto c, quando o director, a quem o peniten- 
te não esconderá nem um único dos seus 
pensamentos, nem uma das suas impressões, 
achar este sufficientemente malleavel e do- 
mado, — perinde ac cadáver, — admitil-o ha 
-aos exercicios da segunda semana. 

Kstes começam por uma espécie de toque 
de clarim. O iniciado de Eleusis passava su- 
bitamente da morte á vida, das trevas á luz, 
aqui produz-se uma coisa análoga. Cer- 
tas cerimonias dos antigos mysterios su- 
bsistem ainda nas seitas musulmanas; pode- 
remos vêr um echo afastado d'ellas nos 
exercicios de Loyolar "^ Seja como fòr a fa- 



latina de Roma mdcvi, e pertence ao quinto dia. Na 
edição portuguesa, traducção do padre Miguel do 
Amaral, feita sobre a edição italiana do padre Pina- 
monte, e a mais espalhada em Portugal, este assum- 
pto é tratado no terceiro dia, e o que tem de horrí- 
vel e penetrante diluido em devotas considerações. 
Quem quizer tomar conhecimento mais intimo do 
original, e que não seja versado em lingua latina, po- 
de consultar a edição francesa annotada pelo padre 
Roothann, e traduzida do texto hispanhol. 

' "Tem-se visto exercitantes, diz o padre Bertoli, 
darem gritos de horror depois da meditação do in- 
ferno, e chamarem os loucos d'este mundo a virem 
contemplar, antes de ahi se precipitarem ás cegas, 
esta eterna prisão onde gemem os condemnados.» 

2 Ignacio preoccupou-se visivelmente em christia- 
nisar o seu methodo e em baptisar, por assim dizer, 
os seus plágios. Apezar d'isso elles fazem^lembrar os 



DOS JESUÍTAS 



mosa meditação do 7'eino de Jesu-Christo, 
-é chamamento ás armas, que vae sobre- 
saltar o iniciado jesuita até então mergulha- 
do no estupor, e que é subitamente acordado. 
Ao mesmo tempo são-lhe dadas as precisas 
attenuações do regimen; porque convém 
reanimar a sua coragem abatida, indicar-lhe 
o caminho por onde pôde fugir á condem- 
nação ',. n'uma palavra «de preparar a elei- 
ção.» 

Se a saúde do neophyto parece abalada 
pela sobrecarga dos dias anteriores, dever- 
se-ha supprimir o exercício nocturno ; po- 
derá então escolher «entre as trevas e a luz 
aproveitar da obscuridade ou serenidade do 
ceu, emquanto esperar», ou antes eraquanto 
esperarem por elle «alguma coisa para encon- 
trar o que deseja». Este que deseja é uma 
formula enygmatica de Ignacio que encontra- 
mos a cada passo. Mas o que quer dizer í 
O que deverá desejar esse exercitante lan- 
çado «na forma» cujos pensamentos, as affei- 
ções, t até as próprias sensações estão pre- 
viamente previstas, reguladas e ordenadas? 

«As lagrimas, as consolações», responde 
vagamente Ignacio e uma vez por todas. 
O musulmano que se serve com egual ha- 
bilidade d'esta formula, é mais explicito; 
o que elle deseja, o que elle procura é o 
êxtases, a absorpção. uma espécie de embria- 
guez mystica que confina com a inconsciên- 
cia e entrega o adepto áquelle que representa 
para elle a vontade e a intervenção divinas. 

O retirante, a quem é de toda a vanla- 



christãos novos de quem outr'ora dizíamos; «que 
cheiravam sempre a mouro». Hoje somos mais tole- 
rantes e até fazemos cónegos judeus. . . velhos. 

' Herrmann Muler conta que um amigo d'elle, ho- 
mem da primeira sociedade e sobre quem a compa- 
nhia de Jesus tinha lançado as vistas, e que praticou 
os exercícios conscienciosamente e de boa fé lhe 
dizia: "Desafio-o a que se entregue corpo e alma, 
durante trinta dias a esta disciplina de vida, tão ha- 
bilmente combinada, e no fim desse tempo aposto 
se não estiver mais ou menos allucinado, mas, em 
todo o caso, firmemente convencido que entrar, por 
qualquer titulo que seja — congregado ou filiado — 
na companhia de Jesus, é o fim de todo o homem 
ou antes de toJo o chnstão. Foi -me preciso mais de 
ura anno para readquirir o equilíbrio das minhas fa- 
culdades, e para me convencer a mim próprio de que 
não era obrigado sob pena de conde mnação eterna a 
fazer-me jesuita. .. 



gem ignorar o que lhe será prescriplo e de 
conhecer a pouco e pouco o que se espera 
delles, é advertido no quinto dia da segun- 
da semana da escolha a que deve proce- 
der. Na véspera, foi-lhe dado o ultimo gol- 
pe, na grande batalha da meditação dos dois 
estandartes, complemento da do reino e que 
tem de reiterar três fe^^es. As «regras duma 
boa eleição «são minuciosamente descriptas, 
bem como os pensamentos e as resoluções 
que o director poderá suggerir ao seu neo- 
phyto ; mas é a este mesmo director que 
pertence decidir do dia, hora e maneira de 
como elle deve proceder. 

Assim que está consummada a «eleição», 
fica o neophyto, d'alguma forma já profes- 
so, — embora deixando-o noviço, nunca dei- 
xam de o ligar por meio de votos, — prepa- 
rado para os exercícios da terceira, e depois 
da quarta semana. 

São estas duas séries de meditações, umas 
sobre a paixão e morte de Christo, outras 
sobre a sua resurreição, ambas imitadas de 
Cisneros, e d'um caracter muito differente 
dos exercícios da primeira e segunda sema- 
na. Ignacio, ou os seus continuadores, quasi 
que não apparece ahi senão nas annotações 
e nas diversas regras que acompanham as 
meditações, onde é preciso ir, por conse- 
quência, esmiuçar o seu verdadeiro pensa 
mento. Importa, «á maior gloria de Deus» ' 



' Esta fornjula Ad majorem dei gloriam, que se- 
gundo o jesuita Lancinius se encontra duzentas e 
quarenta e duas vezes nas constituições de Ignacio, 
suscitou uma tempestade de protestos no século xvi 
e ainda no xvii. O que, po'ém, os que protestavam 
contra esta então novidade na linguagem christã não 
sabiam é que ella era um novo empréstimo pedido 
ao islamismo, e que a maior parte das ordens religio- 
sas musulmanas altamente proclamam que o seu fim 
é trabalhar «para a grande gloria de Deus, e pela 
exaltação da verdadeira fé». 

O que os musulmanos, os hian em particular, en- 
tendem pela maior gloria de Deus é o triumpho dos 
verdadeiros crentes, e essa espécie de thcocracia es- 
pecial, baseada sobre a confissão absoluta e inicial 
dos dois poderes, espiritual e temporal. Para os filhos 
de Loyola a maior gloria de Deus é o domínio tem- 
poral e espiritual da companhia de Jesus, exercendo- 
se por meio d'uma theocracia universal, de que o 
papa é visivelmente o chefe, mas de que é chefe vir- 
tual o geral dos jesuítas. 

Um outro empréstimo que prova os traços profun- 
dos que o ascetismo musulmano tinha imprimido no 



7b 



HISTORIA GERAL 



que o retirante termine a sua laboriosa car- 
reira sob uma favorável impressão, princi- 
palmente que não se arrependa da eleição, 
que fez lim-emcuti'. 

A quarta semana prcpara-lhe, com arte de 
mestre, as transições para a saida. O que 
dá os exercicios deve diminuir-lhes o nume- 
ro e tratar de amenisar todas as coisas ; por- 
que o que n'cste momento deseja o iniciado, 



espirito Je línacio, é a assignatura que eile adoptou. 
«Desde o começo da sua volta para Deus, dizem 
os seus historiadores, elle comprazia-se em assi- 
gnàr as suas cartas: Pobre de todos os bens, Igna- 
cio: Os uan, de qualquer congregação que sejam, e 
em gera todos os musulmanos que aspiram ;i santi- 
dade, tazem assim preceder o seu nome d'uma for- 
mula, sempre a mesma a despeito de variantes. «O 
pobre segundo Deus, pobre de lodo<: os bens, ou sim- 
plesmente, <• o pobre» Ignacio adoptou a que estava em 
uso entre es musulmanos que elle procurava conver- 
ter, e simplesmente escolheu entre muitas aquella que 
melhor correspondia aos seus sentimentos de humil- 
dade ? O que foi pouco importa; o essencial é regis- 
tar o plagio, que nos parece absolutamente innegavel. 



ou antes o que desejam por elle, é um sen- 
timento de quietude, uma completa satisfa- 
ção que elle possa aitribuir á exccllencia da 
sua escolha. 

Em vista d'isso o paciente não pensará 
mais nas penitencias e contentar-se-ha em 
«guardaratempcrança». Ao acordar pela ma- 
nhã, occupar-se ha de pensamentos adequa- 
dos a conserval-o em alegria espiritual, que 
se deve esforçar por saborear; «gosará, se- 
gundo as estações, da frescura no estio, do 
calor do sol e do fogão no inverno, do perfu- 
me das flores e da belleza da paisagem. . . » 
Repetimos : a sua escolha cslá feita, e é pre- 
ciso que, voltando ás condições normaes da 
vida, não tenha de que se arrepender. 

Tudo isto é, muito hábil, e seguramente 
preparado e conduzido com muito tino. Não 
será, porém habilidade e tino em excesso ? 
Não sei se nos enganamos, mas parece-nos 
que o Evangelho leva á salvação com menos 
habilidades e mais respeito pela consciência 
humana. 



DOS jesuítas 



77 



ÍX 



As Constituições e as «Monitas» 



JÁ vimos, n'outro capitulo anterior, a hie- 
rarchia dos funccionarios da companhia 
de Jesus, e as principaes relações que os 
ligam e subordinam entre si. das quaes se 



poder sobre o geral, de tal sorte que todos 
omnipotentes para o bem e completamente 
ligados, sejam completamente escravos, quan- 
do queiram fazer o mal. Assim o dizem as 




"esemfcarque do cadáver de Francisco Xavier 



pode deduzir o seguinte principio que do- 
mina toda a Constituição : é bom que os 
superiores tenham muito poder sobre os seus 
subordinados, e por consequência que o ge- 
ral exerça uma auctoridade incontestável so- 
bre cada um dos membros da sociedade; 
em compensação a sociedade tenha muito 



constituições, somente o critério do bem e do 
mal:- é o interesse da companhia. 

A redacção das constituições, que Ignacio 
nunca julgou acabada e definitiva, e que não 
era definitiva nem acabada no momento da 
sua morte, está cercada da mesma lenda, que 
a composição do livro dos F..\crci>:ti>s. Kscu- 



78 



HISTORIA GERAL 



sado será dizer que cada escriptor jesuíta 
se julga obrigado a juntar mais um episodio 
a essa lenda, que chegou ao seu desenvolvi- 
mento no tim do século xvn, com a Histon\i 
de Bartoli, o historiador oHicial do Insti- 
tuto.» 

Daremos uma curta citação, como exem- 
plo. Depois de ter enumerado «as visões 
celestes, as frequentes apparições da Santa 
V^irgem e de Nosso Senhor», os «êxtases os 
arrobos em Deus, chammas interiores, raios 
de luz inflammada, cnthusiasmos da mais 
ardente caridade, lagrimas abundantes, vis- 
tas tão nitidas da gloria que penetravam até 
ás mais sublimes alturas, e tão numerosas 
que, por momentos, elle não acreditava, di- 
zia elle (a quem?), que a intelligencia huma- 
na podesse supportar mais...»*, depois d'esta 
«lista quasi sem fim de favores milagrosos 
durante os quaes Ignacio foi favorecido du- 
raiite os quarenta dias que consagrou ao 
exame d'esta uuica questão: — devem ou não 
as casas professas ter rendas fixas, ou se- 
rem unicamente sustentadas pelas esmolas 
dos fieis», Bartoli exclama triumphalmente: 
"pode-se concluir que não ha, no complexo 
das constituições, uma única palavra, uma 
única syllaba, que não tenha sido regada 
com as suas lagrimas, e sobre as quaes Deus 
não tenha espalhado jorros de luz. O Espi- 
rito Santo desceu sobre os apóstolos na for- 
ma de línguas de fogo, e Ignacio recebeu 
egual favor. Quando escreveu as constitui- 
ções, viu-se a chamma d'um resplendor des 
lumbrante assentar sobre a sua cabeça, como 
para attestar que elle estava então replecto 
da mesma luz divina e do mesmo fogo.» 

Por muito menos queimou a inquisição 
milhares de here/es ;mai^ aqui não é somente 
a heresia que oífende os sentimentos sincera- 
mente religiosos vendo comparar a funda- 
ção do Christianismo á incubação do jesui- 
timo, — mas a affoitesa com que Bartoli jul- 
ga imbecis todos os que o lerem; porque, 
no fim de contas, elle não escreveu a sua 
historia, unicamente para os seus noviços. 

A carta constitucional dos filhos de Igna- 
cio é dividida em dez partes, precedidas de 
um exame geral a que elle obriga previamente 
todos aquelles que desejam ser admittidos 
na sociedade. Este exame tem por fim ex- 



perimentar a vocação dos candidatos, de os 
instruir das obrigações que têem de execu- 
tar, e de coUocar os superiores nas condi- 
ções de julgarem do préstimo que podem 
ter. 

A sociedade declara que o fim é não so- 
mente trabalhar, com a graça de Deus, pela 
salvação e perfeição dos seus membros, mas 
também e ainda com mais energia e a mes- 
ma graça, pela salvação e perfeição do pró- 
ximo. Estabelece os três votos, de pobreza, 
castidade e obediência, como já vimos, a di- 
visão dos seus membros nas quatro classes 
atraz indicadas, e as condições de admissão 
e de expulsão dos seus sócios. Entre as 
condições de admissão notaremos esta como 
s3'mptomatica : O postulante antes de entrar 
para o noviciado fará a distribuição dos seus 
bens aos pobres, de preferencia á sua famí- 
lia; e se n'esta houver necessitados os supe- 
riores examinarão se será ou não convenien- 
te dar-lhes parte ou o total dos bensi 

Segue o corpo das constituições divididas 
em dez partes, cada qual sobre assumpto 
ditTerente. 

Na primeira trata-se da admissão ao no- 
viciado d'aquclles que querem entrar para a 
companhia. Além d'um complexo de cxcel- 
lentes qualidades moraes e intellectuaes, exi- 
ge-se, para ser admittido, uma bella figura, 
physionomia agradável e sympathica, facili- 
dade e graça no falar, boa saúde, e força 
suflíciente para os trabalhos que lhe serão 
confiados. A edade fixada para o noviciado 
é f)s quatorze annos feitos, e não se pôde 
ser admittido ao grau de professo antes dos 
vinte e cinco. 

A nobreza, a riqueza e o bom nome são 
títulos muito attendiveis e que podem contra- 
balançar certos defeitos. 

Está sujeito a uma infinidade de vexames 
entre outros os seguintes: 

A sua correspondência não é expedida 
nem entregue sem que seja lida pelos supe- 
riores, e é-lhes quasi que absolutamente pro- 
hibido falar com seus pães. 

Deve anniquilar plena e inteiramente a 
sua vontade, para em tudo se submetter á 
dos seus superiores. Não deve examinar 
quem manda, mas obedecijr como se Josse a 
Cliristo em pessoa ! 



DOS JESUÍTAS 



79 



A segunda parte trata da expulsão d'aquel- 
les que parecerem não possuir as qualidades 
requisitadas para fazerem parte da socie- 
dade. 

Notaremos que a companhia pódc expul- 
sar quem bem lhe approuver, sem satisfa- 
ções nem compensações. 

A terceira refere-se á convocação d'aquel- 
les que ficam, e do seu adeantamento nas 
sciencias e na religião. 

A quarta prescreve a maneira de formar 
nas sciencias, e em outros meios de ser mil 
ao próximo, aqucUes que por si próprios se 
adeantaram no caminho da piedade e da 
virtude. 

A quinta tem por assumpto a adopção, 
no corpo da sociedade, dos que já deram 
provas de que podiam ser admittidos. 

A sexta, do que devem observar, em re- 
lação a si os próprios, que já se acham incor- 
porados na sociedade. Fostes devem ter já, 
não diremos obediência ao superior mas a 
mais vil escravidão. 

A" ordem do superior, tudo deve ser in- 
terrompido, para se ir cumprir o que elle 
manda '. 

A septima parte concerne a distribuição 
d"aquelles, que, já incorporados, teem que 
ser encarregados dos trabalhos sociaes. 

A oitava parte trata da maneira de con- 
servar a união entre os que se acham dis- 
persos, e de fazer, de todos os membros da 
sociedade, um todo compacto c inalterável. 

Para que esta união seja mais fácil, ter-se- 
ha cuidado de não elevar um grande nu- 
mero de pessoas ao grau de professo. 

A obediência deve de ser o laço da união : 
e se um missionário, falta a ella, ou é subs- 
tituído ou lhe dão um companheiro para 
lhe lembrar o preceito. 

O que semear a divisão e a discórdia, en- 
tre os que vivem juntos, será apartado como 
se fora a peste. 

' Conta-se que Ignacio de Loyola, para experi- 
mentar a obediência d'um dos seus padres o man- 
dou chamar no momento em que este, dizendo mis- 
sa, ia consagrar a hóstia. O padre interrompeu o sa- 
crifício do altar e foi ter com Ignacio, que o mandou 
continuar com a missa. Não me parece que seja ne- 
cessário commentar este estado de espirito. . . dos 
dois. 



E' nesta parte que se determina a ocCa- 
sião, motivo, logar e modo das eleições, e 
como que a forma particular do governo do 
que chamariamos em linguagem moderna 
os corpos gerentes da companhia. 

A nona parte refere-se ao chefe da so- 
ciedade e ao governo que n'clle tem a sua 
origem. Determina quaes devem de ser as 
suas qualidades moraes e physicas ; e tirado 
do numero daquelles que sempre tenham 
sido considerados com um complexo de 
virtudes. 

A decima e ultima parte trata da maneira 
como todo o corpo social pode ser coru>er- 
vado e desenvolver-se em bom estado. Alem 
das virtudes religiosas, que para tal fim são 
recommendadas, é também prescripto que se 
devem de angariar todos os meios humanos, 
que se adquirem com tino c habilidade. 

Este código, que pedia, em muitas das 
suas disposições, além do máximo de que 
era permittido á natureza humana, que en- 
vilecia o individuo, provocou revoltas, recla- 
mações e protestos no seio da companhia 
e perturbações religiosas e sociaes; por isso 
muitas das suas disposições, se não foram 
eliminadas, foram interpretadas no sentido 
que attenuaram as naturaes rebeldias, que 
por mais duma vez se manifestaram, mes- 
mo depois de submettido o jesuita ás provas 
terríveis dos Exercidos. 

Mas a alma humana tem limites para a 
humilhação, felizmente para esta e em que 
pese aquelles que na companhia aspiram a ser 
professos de quatro votos, o que lhes per- 
mittírá espesínhar os seus companheiros e 
olharem com o m.ais profundo desprezo pa- 
ra o resto da humanidade, sabendo que são 
elles que dominam os reis em seus conse- 
lhos, o povo no púlpito, as famílias no con- 
fissíonario, e as creanças nas escolas. 

Se hoje não dominam directamente os 
reis, sabem com toda a arte dominar, por 
vezes, em muitos dos seus ministros. 

O defeito principal d'estas constituições é 
fazer residir a auctoridade suprema nas mãos 
d'um só homem. Pode objectar-se: que o po- 
der das congregações gcracs é superior ao 
do chefe supremo da ordem, e, como ja vi- 
mos, em certos casos, a sociedade tem o 
direito de o julgar, depòl-u c ate expulsal-o 



8o 



HISTORIA GERAL 



da companhia. Ora este direito é mais um 
papão inoftcnsivo do que um poder real, e 
parece se muito com a responsabilidade mi- 
nisterial nos paises onde existe... escripta. O 
certo é que o escândalo que causaria o pro- 
cesso, a vergonha que d'elle reverteria so- 
bre as instituições peia condemnação do seu 
chefe, basta para ter mão nos jesuitas, a 
quem assustaria o escândalo, e leval-os a 
supportar um máu governo, — um tyranno. 
como muitos foram, do que libertarcm-sc 
delle por meio d'um acto violento. 

K, depois, quem o julgaria e dcporiar Os 
professos de quatro votos? e lá diz o dicta- 
do : «Lobo não come lobo.» 

Além d"estas constituições publicas — de- 
pois veremos como esta publicidade se con- 
seguiu — haverá outras secretas ? As famo- 
sas Momta pertencem a este numero. 

Não nos repugna acreditar que haja or- 
dens secretas, não só para casos especiacs, 
e assim o provam as cifras encontradas e 
que em seu logar reproduziremos, mas tam- 
bém para outros geraes; mas d'ahi a crer 
na authenticidade das Muniía secreta So- 
cu-tatts Jcsti, vae uma grande distancia e 
mantemos a mesma opinião, que já n'outro 
trabalho tivemos occasião de estudar e des- 
envolver •; isto é : as Monita são uma satyra 
contra os jesuitas e não um código de leis 
por ellcs elaborado. 

Em reforço da nossa opinião, são todos 
os historiadores sérios contrários á. ordem. * 

Publicadas pela primeira vez em Cracó- 
via em 1614, cincoenta annos approximada- 
mente depois da morte de Ignacio de Loyo- 
la 3, estas instrucções tcem por auctor, se- 



' Vid. O catholicisinn da côrlc ao sertão. 

' Vid. especialmenle Les Jesuites por J. Huber, 
trad. par A. Marchand ; e Herrmann Muler op. cit. 

' Esta primeira edição foi publicada com o titulo 
de Monita privata societalis Jesu. A obra corrigida e 
augmentada foi depois reeditada no correr do século 
xvil, com o nome de Monita secreta, que se lhe 
conservou. l'ma multidão de versões foi posta em 
giro acerca da descoberta d'estas instituições secretas. 
Ora foi o duque de Brunswick que as encontrou no 
collegio dos jesuitas de Paderborn ; ora foram desço 
bertas nas casas jesuíticas d'Anvers, Pádua, Praga ; 
ora é sobre um navio das Índias que o manuscripto 
se encontra... Realmente n'este assumpto ha uma 
grande mistura de falsidades extggeradasque se jun- 



gundo uns, o quinto geral da companhia, 
Cláudio Aquaviva, segundo outros um ex- 
jesuita polaco, .leronymo Zahorowski, o 
qual, expulso da companhia em líii i, se te- 
ria vingado d'ella por meio duma satyra. 

Esta ultima opinião, á i.]ual se ailia o pa- 
dre Sommervogel, parece geralmente a mais 
appoiada e a mais verosímil. Ha coisas que 
não se dizem nem escrevem, principalrnentc 
quando se é jesuita. 

Gretzer, jesuita, que viveu no começo do 
século XVII, foi um dos primeiros a refu- 
tar as Monita, cf)nvindo, porem, que o seu 
auctor não era um ignorante das coisas do 
Instituto ; e d'ahi concluia que elle devia ter 
vivido no seio da companhia, e que portanto 
se tratava d'um jesuita expulso. Reduzidas 
assim ao seu justo valor, quer dizer, ces- 
sando de se ver n'ellas um código de leis, 
para só se encontrar um depoimento, as Mu- 
nita secreta conservam historicamente uma 
importância tanlo maior, quanto cilas defi- 
nem, sublinhando-o, o estado de decadência 
em que se achava a companhia, meio secillo 
depois da morte do seu fundador. E' ura 
livro vivido, uma pintura natural dos defei- 
*tos do governo dos jesuitas, da maneira como 
elles se introduzem nas casas e nas famí- 
lias, dos processos de que lançam mão para 
augmentarem as suas riquezas, extender 
a sua influencia, insinuar-se no espirito dos 
grandes e até nos conselhos dos príncipes ; 
substituir portanto a sua acção c a sua pre- 
pondencia á do clero, tanto secular como 
regular. Pintura exaggeradamente levada ao 
sombrio, por certo, mas comtudo d'uma tal 
parecença, que pôde ser allegada como uma 
prova da sua authenticidade. 

Obra mais d'um satyrico do que dum fai- 
sario, as Monita, no momento em que ap- 
pareceram, foram como um aviso, e denuncia- 



tam á verdade dos factos, e a deturpam. E' exacto 
que diversos manuscriplos das Monita se encontra- 
ram em diversas casas jesuíticas, mas ainda nunca se 
provou que taes encontros fossem anteriores á pu- 
blicação de 1614, de sorte que só o facto do achado 
não basta para estabelecer que elles sejam os aucto- 
res ; porque podiam tel-as copiado ou adquirido a ti- 
tulo de documento, e para necessidade de sua defe- 
za, como qualquer dos seus contrários as possue pa- 
ra a necessidade do ataque. 



DOS jesuítas 



8i 




Eorja e o seu companheiro apedrejados em Évora Monte 



82 



HISTORIA GERAL 



ram uma situação, que já não era cci.1o para 
prover de remédio. Infelizmente a questão 
não foi encarada por este lado, e os inimigos 
da companhia não viram nellas senão um 
thema para declarações. E emquanto os mais 
leaes dos seus adversários recusavam ser- 
vir-se d'ellas, os jesuítas com arte e manha 
tiravam partido «da calumnia» de que se 
diziam victimas. Pastas suppostasinstrucções, 
que clles \podiam desmentir á face do ceu e 
da terra, permittiam-lhes dissimular as suas 
principaes instrucções secretas ; e ainda que 
alguns fragmentos authenticos d'ellas servis- 
sem de trama ao pasliche de Zohorawski, ne- 
garam a obra no seu conjuncto, com certa 
vcrosemelhança. 

Apesar, comtudo, d' estas cathegoricas ne- 
gações, ou antes pelo que cilas teem de abso- 
luto, portanto de contradictorio, é de crer 
que existe no seio da companhia uma legis- 
lação occulta e tradições secretas. Legisla- 
ção e tradições que nunca foram submetti- 
das no seu conjuncto ao exame e approvação 
dos summos pontífices, e que, salvo os ini- 
ciados nos graus superiores, os membros da 
companhia ignoram na maior parte, ainda 
que regidos e governados por ellas i. 



' Provas mais do que sufficienles d'esta asserção 
pódem-se encontrar no jesuíta Miranda, que tendo 
sido chamado a Roma em lyJõ, como assistente de 
Hispaniia, escreveu : nAntes de ter ido a Roma, onde 
íui iniciado em todos oa segredos, ignorava o que 
era a nossa sociedade. O governo interior da nossa 



Terminando este rápido bosquejo das Mu- 
nita, diremos com ,). Huber: «O jesuíta 
intrigante não tem necessidade d'este guia 
do roubo. Nas mãos d'um homem menos 
hábil, estas instrucções, por vezes um pouco 
desastradas, provocariam facilmente o escân- 
dalo. Nas Moiiita abundam as passagens 
que provam que nos achamos a braços com 
uma satyra taes como: «Os nossos fundam 
coUegios unicamente nas cidades ricas, por 
que o fim da nossa sociedade é a imitação de 
Jesu-Christo Nosso Senhor, que procurava 
de preferencia as localidades pouco importan- 
tes.» — «O augmento dos bens temporaes da 
Sociedade dará começo á edade d'oiro.» Fi- 
nalmente parece impossível conciliar a pie- 
dade de que tem dado prova milhares de 
jesuítas, com as instrucções que se cncon 
tram nas Monita, e que não convcem senão 
a um bando de salteadores, patifes e velha- 
cos. Imputando-as á ordem, faz se-lhe mais 
bem do que mal, porque a exaggeração e a 
injustiça prejudicam ao aggressor e não á 
victima.» 



companhia é um estudo especial do qual nem os pró- 
prios provinciaes nada percebem. E' preciso estar 
revestido das funcções que exerço para ter d'ellas 
uma leve idéa » O outro testemunho é o do venerá- 
vel Palafox, bispo de Angelopolis (México), quequa- 
si um século antes de Miranda );i affirmava a existên- 
cia de instrucções secretas e escrevia a Innocencio X 
;is suas famosas cartas pedindo uma seria reforma 
da companhia. 



DOS JESUÍTAS 



83 



X 



o Segundo Geral 



UMA das individualidades mais importan- 
tes da companhia, depois de Ignacio 
de Loyola, é sem duvida Jacques Layncz, e 
comtudo é uma das menos conhecidas, das 
mais afastadas do foco luminoso em que 
ella colloca algumas outras de somenos gran- 
deza. 

Guardadas as devidas proporções, e sem 
intenção de blasphemia, Laynez foi para o 
jesuitismo o que S. Paulo tinha sido para o 
Christianismo. 

Mas d'onde vem esta proposital obscuri- 
dade dos historiadores da companhia? De 
uma particular philosophia da historia jesuí- 
tica, determinada, como em muitos historia- 
dores da Revolução franceza, pela theoria 
chamada do bloco. O instituto foi fundido 
em bronze, d'um só jacto, por Ignacio de 
Loyola, seu único legislador, seu único fun- 
dador; o instituto, filho perfeito d'um pae 
perfeitíssimo, subsistindo sem alteração, sem 
transformação, sem moditicações possíveis, 
principalmente sem desvios; egreja na Egre- 
ja, mas egreja ideal, sem rugas nem nódoas, 
incapaz de erro e de decadência, não reco- 
nhecendo senão um chefe: Ignacio, associa- 
do por Deus Pae a seu Filho bem amado ; 
tal é a companhia de Jesus aos olhos de 
seus filhos e de seus adeptos. 

A concepção é deveras grandiosa, e c de 
justiça confessar que suscita as energias e 
as dedicações apaixonadas. Mas por maior 
que seja não é verdadeiramente histórica. 

Baste estudar a acção de Laynez para 



nos convencermos da falsidade da theoria, 
e ao mesmo tempo podermos bem compre- 
hender a sua influencia não só no espirito 
de Ignacio como no dos códigos legislativos 
da sociedade de Jesus. 

Ignacio, Francisco Xavier e Laynez, todos 
elles estão d'accordo na conquista do mun- 
do, somente divergem nos meios : Ignacio 
quer conquistal-o como soldado, Francisco 
Xavier como missionário, Laynez como po- 
litico. 

Contava vinte e três annos quando chegou 
á Itália com os seus dez companhei-os da 
fundação, e se não foi o ultimo a discernir 
que havia mais e melhor a fazer pela nas 
cente sociedade, do que ir evangelisar moi 
ros na Palestina, nem por isso deixa de apro 
veitar a escola de Itália. Depois de ser cam 
po de batalha da Europa, a Peninsula ti 
nha-se constituído o seu centro diplomático 
Negoceia-se alli como em parte alguma 
tanto em Veneza, Roma, Florença, Nápoles 
e Milão, como nessas cortes minúsculas de 
Ferrara e Parma, entre outras, onde Laynez, 
como já vimos, foi catechisar «as damas da 
primeira sociedade» o que se pode conside- 
rar como um meio de continuar a sua edu- 
cação diplomática, emquanto a não vae com- 
pletar em Vianna ou em Hispanha junto de 
Carlos-Quinto, ou em Trento como assessor 
do cardeal de Lorena. 

Se combate Machiavelli e as suas doutrinas, 
se o seu fim é ditVerente, não lhe segue elle 



84 



HISTORIA GERAL 



os processos, formulados na phrasc «de que 
os fins justitícam os meios» que será um dos 
lemmas da companhia ? Não é elle quem se- 
greda a Ignacio. que ponha termo ás indeci- 
sões de Paulo 111, sobre a approvação das 
constituições, promettendo ao papa uma 
obediência iilimitada, a qual comtudo será 
limitada por elle, La3'nez, ás missões politi- 
cas? Não é elle que angaria em Trento a 
protecção de certos cardeaes e de certos 
prelados, sustentando em pleno concilio, que 
a cúria romyna não precisa ser reformada ', 
pronunciando-sc contra a obrigação de resi- 
dência, a que os conciliares queriam reduzir 
os bispos ? 

Não será tudo isto machiavelico, e o ele- 
mento da quinta essência da astúcia fundido 
na força e violência soldadesca de Ignacio ? 
Isto não quer dizer que Ignacio não fosse 
do seu temperamento também habilidoso — 
o soldado não vence só pelos golpes que dá, 
mas também pela estratégia com que os dá 
— mas La\'nez acrisolou essa qualidade, pela 
rara mestria com que insinuava ao mestre 
as suas vistas particulares; e tanto é que 
em muitos casos, já os primeiros discípulos 
o diziam, as palarras de Ignacio cohria}Ji 
as vistas de Laynei. 

Laynez recebeu de Ignacio a iniciação re- 
ligiosa,, e o que se pôde chamar a orienta- 
ção da sua vida ; mas disciplinando, enca- 
rninhando para um fim novo todas as suas 
forças raoraes, intellectuaes e physicas, o 
fundador fez mais uma obra de torcidella 
que de transformação. Laynez, pois, não foi 
transformado. Havia n'elle o quer que fosse 
de irreductivel, cantos d'alma inaccessiveis a 
todos, mesmo a Loyola. Kstes dois homens 
que caminhavam sob a mesma bandeira, pa- 
ra o mesmo fim, não falavam, no lundo, a 
mesma lingua, e quando Ignacio dizia ? 
maior íiloria de Deus; Laynez entendia: 



• O discurso de Laynez provocou vivos protes- 
tos. O arcebispo de Braga, o nosso D. Fr. Bartholo- 
meu dos Martyres, aliás amigo dos jesuítas, respon- 
deu-ihe com uma audácia e um vigor verdadeira- 
mente apostólicos, e terminou propondo aos padres 
do concilio, a quem Laynez negava a competência 
como reformadores da corte romana, que decretas- 
sem oque os illusirissimos cardeaef, necessitavam de 
uma illusínssima reforma. « 



maior podei- da conipaiihia. que cUe identi- 
ficava corn a maior gloria de Deus. 

Desde os primitivos tempos da sociedade, 
e ainda antes da primeira bulia de Paulo 
III, se accentuam no pequeno grupo duas 
correntes : a religiosa e mystica representa- 
da por Ignacio, Le Févre, Xavier, Codure, 
e sem duvida Bobadilha, e a corrente poli- 
tica dirigida por La^mez. Na occasiáo da 
eleição de Ignacio o duplo voto de Xavier e 
C^odurc, designando para reger o instituto, 
a Pedro Le Févre, caso o mestre já não 
existisse no momento da eleição, foi um avi- 
so que Laynez notou, para de futuro tomar 
as suas precauções. Depois viu que Ignacio 
chamou, para seu auxiliar na administração 
e direcção da companhia, a Jeronymo r«Ja- 
tal ', e com tal astúcia" trabalhou que três 
dias depois da morte do fundador era no- 
meado pigario geral, e assim em condições 
de preparar, os elementos com que pôde 
vencer a eleição do generalato, eleição que 
elle teve artes de protelar até 2 de julho de 
i358. 

Durante este longo interregno, um grupo 
dos mais importantes e primitivos discípulos 
de Ignacio separa-se d'elle ostensivamente, e 
emquanto uns recorrem ao papa contra o 
vigário geral, a quem accusam de concentrar 
toda a auctoridade em suas mãos, e de alon- 
gar indefinidamente a eleição do geral, (ju- 
tros reclamam contra a idéa de Laynez 
sair para Hispanha, afim de lá ir fazer a 
eleição com os seus apaniguados, e alli, com 
elles, alterar as constituições seu verdadeiro 
cuidado, sem audiência da Santa-Sé, 

Emfim uma lucta se trava entre Laynez e 
o papa, durante a qual Laynez vae anga- 
riando votos, dando nova redacção ás con- 



' ()a historiadores jesuitas não estão d'accordo a 
respeito da nomeação de Natal. Sachini e Bouhours 
dizem que esta nomeação foi feita por Ignacio, que 
chamou Natal de Hispanha apara o fa^cr gosar do 
supremo poder». Oriandini, que elle foi nomeado pe- 
los princinaes da companhia, e que recusou o titulo 
de vigário geral, para tomar o de vice-gerente Fi- 
nalmente Bartoli diz que elle foi nomeado por Igna- 
cio, que bem depressa se arrependeu da escolha. Na- 
tal quiz modificar as constituições, e Ignacio que cu 
tinha recebido de Deus, e as queria transmittir inta- 
ctas aos seus successores, teve que oppôr-se e reto- 
mar as rédeas do governo. 



DOS JESUÍTAS 



85 



stituições, formando uma maioria, e tal que 
chegou a tornar o papa indeciso, e a Icval-o 
a deixar correr os ncf^ocios da companhia ao 
sabor dos seus membros, tendo a prudência 
de collocar os recalcitrantes, sob a sua pro- 
tecção e a coberto das represálias do vigá- 
rio geral, que não era homem para 
facilmente perdoar. 

Devemos dizer que uma das cau- 
sas que Laynez apresentava para ad- 
diar a eleição era a guerra entre o rei 
catholico e o papa, que impedia a saí- 
da dos professos de Hispanha para 
virem a Roma. Mas feita que foi a 
paz, não teve remédio senão ceder e 
convocar os eleitores para o mez de 
|unho de i35S. Apezar, porém, da 
conclusão da paz Francisco de Borja 
e os outros provinciaes hispanhocs 
escusaram-se c de quarenta profes- 
sos, de que então já se compunha a 
sociedade, só vinte se acharam reu- 
nidos, e a congregação gera! abriu em 
K) de junho '. 

Sendo a maioria absoluta de vinte 
onze, La3'nez obteve treze votos ; 
quatro foram para Natal, e ires dis- 
persaram-se por Borja, Lanno\' e 
Pasquier-Brouet. O Laynez, eleito 
canonicamente, foi proclamado ge- 
ral, e todos foram prostrar-sc deantc 
delle e beijar-lhe a mão. 

Se nos alongámos, mais talvez do 
que era nosso intento, n'este ponto 
da acção e caracter de Laynez, foi para qui, 
no correr dos acontecimentos, o leitor possa 
encontrar por si próprio a explicação de mui- 
tos d'elles; que, por certo, ficariam obscuros 



' Além dos cinco da fundação Laynez, Salmeron, 
Pasquier-Brouet, Bobadilha e Simão Rodrigues, só 
votaram mais quinze professos, a saber os padres 
Canisius, Polanco, Natal, VVinch, Uomenech, Miron, 
Viole, De Barma, De-Lannoy, Vaz, Goyson, Plaz:i, 
Torres, Mercuriano e Gonçalves. 



na sua intenção, se apenas conhecêssemos 
a companhia dominada pelo mysticismo sol- 
dadesco de Ignacio, feita á sua imagem e 
semelhança, e não tivéssemos previas no- 
ções do e.spirito machiavelico e politico de 
Lavnez, que vae por vezes supplantar e ou- 




Ignacio de Loyola 

trás completamente annuliar parte das inten- 
ções de Ignacio'. 



' N'este capitulo haveria a estudar, se isso entras- 
se em nosso plano, o que ha de verdade no offereci- 
mento do chapéu cardinalicio a Laynez, e a sua 
candidatura a papa. Ribadeneira, foi o primeiro que, 
na sua Vtda de Lat/nej, contou o otfereciraento des- 
ta candidatura. A sua narrativa foi adoptada e am- 
pliada pelos historiadores da companhia. A historia 
do conclave de i55i) é hoje bem conhecida e não se 
encontra ahi traço de semelhante candidatura. 



Só 



HISTORIA GERAL 



XI 



TT 



rancisco de Borja 



RKTROGRADANDO, para reatar o fio dos acon- 
tecimentos, e partindo agora de 1546, 
quatro annos somente depois da publicação 
das constituições, a Sociedade de Jesus ti- 
nha já começado a apoderar-se da educação 
publica. 

Francisco de Borja, duque de Gandia, des- 
cendendo pela linha paterna de Alexandre 
IV (o famoso Borgia do papado) e vice-rei 
da Catalunha, fundou um collegio para elles, 
emquanto elle próprio se não fez jesuita. 
Ignacio enviou Le Févre dirigir o estabele- 
cimento. O papa e Carlos Quinto, embora 
mal dispostos para com a nova sociedade, 
concederam a este collegio os mesmos pri- 
vilégios que ás universidades de Alcalá e 
Salamanca. 

Depois cstabeleceram-se em Ferrara e 
Lovaina; fundaram collegios em Messina, 
Palermo, Saragoça, Coimbra e em todas 
as partes do mundo onde chegavam. Em 
Hispanha, porém, encontraram um adver- 
sário que esteve quasi não quasi a destruir 
a nascente sociedade. Foi esse Melchior 
Canus, dominicano, celebre pela sciencia, 
theologo judicioso, que contribuiu para pur- 
gar as escolas d'uma multidão de questões 
pueris e absurdas, que se discutiam e agi- 
tavam sem importância. Melchior predisse 
que a Sociedade de Jesus seria uma causa 
d'escandalo para a Kgreja Catholica, que 
arruinaria a fé no espirito dos povos, e cau- 
saria males sem conto. Ignacio, assustado 
com taes denuncias, tratou de fazer com 



que o dominicano visse com os seus olhos 
a bulia da instituição. Esta não fez senão 
confirmar Melchior na sua opinião; e mais 
do que nunca se oppoz a que os jesuítas 
abrissem collegio em Salamanca. Os jesuí- 
tas, para se verem livres d'elle, fizeram-o no- 
mear bispo das Canárias. 

Não eram somente os religiosos e os iheo- 
logos que condemnavam a Sociedade de Je- 
"sus. As suas doutrinas tinham sido julgadas 
por Carlos Quinto no throno, e depois no 
seu retiro de Yuste. 

Francisco de Borja, grande de Hispanha, 
duque de Gandia, descendendo, pelo lado 
materno, de Fernando ^', nascera em i3io, e 
fora educado por Joanna d'Aragão sua mãe 
n'uma ordem de sentimentos religiosos, que 
é preciso ser hispanhol e conhecer o Aragão 
d'aquellas epochas para bem comprehender 
quanto essa religião era feita de fanatismo, 
superstições, terrores e ao mesmo tempo hy- 
pocrisia e pequenez d'alma. Se o leitor fôr 
desde já fazendo entrar todos estes elemen- 
tos do sangue dos Borgias, com os factos 
que se seguem, poderá em poucas paginas 
formar por si o retrato d'aquelle que foi o 
terceiro geraJ dos jesuítas, que a Egreja ca- 
nonizou, para que emfim também podesse 
ter um Borgia santo! Grandes contas tem a 
cúria romana de dar a Deus, lá onde tudo 
se paga. Na edade de doze annos Borja, de- 
pois da morte de sua mãe, ficou entregue aos 
cuidados de D. João d'Aragão, seu tio, com 
quem desde logo começou a exercitar-se 



DOS JESUÍTAS 



87 



cm rezas, devoções e ninharias de sacristia. 
Aos quinze annos, seu pae collocou-o, na qua- 
lidade de pagem, junto de (^atharina, irmã 
de Carlos Quinto. Mas tendo esta princeza, 
despozado, em if>26, D. João III, Francisco 
de Borja ficou cm Hispaniia. Figurou com 
distincção na corte do imperador, o qual, 
bem como a imperatriz D. Isabel, sempre 
o trataram com a máxima amizade. Foi no- 
. meado estribeiro-mór, marquez de Lombay, 
e a imperatriz casou-o com uma das suas 
favoritas, D. Leonor de Castro, que a acom- 
panhara quando foi de Portugal '. 

Dolorosos acontecimentos, taes como a 
morte de sua avó D. Maria Henriques, e de 
(larcilaso de la ^"ega celebre poeta, a quem o 
ligava estreita amisade, reaccenderam n'elle, 
com grande intensidade, os sentimentos re- 
ligiosos que bebera com a educação dos pri- 
meiros annos, mas nenhuma morte produziu 
n'elle tanta impressão como a ds imperatriz 
D. Izabel -, na occasião em que os reis e toda 
a fidalguia de Hispanha se achavam em To- 
ledo para assistir ás cortes e ás festas que 
por essa occasião se celebraram, na prima- 
vera de iSSt)^ 

Na sua qualidade de estribeiro-mór teve 
que velar o cadáver em companhia de sua 
mulher, e depois de o conduzir a Granada. 

Foi de caminho «antes de chegar a Gra- 



' D. Leonor de Castro e Menezes, irmã de D. Ro- 
drigo de Castro,- commendador e alcaide-mór de Cêa, 
general de Zafin, era tílha de D. Álvaro de Castro, 
senhor de Torreão e de sua mulher D. Isabel de 
Mello e Barreto. 

2 Esta senhora era filha de D. Manuel. O cardeal 
Cicenfuegos,de quem em parte nos servimos para os 
pontos essenciaes d'este capitulo, referindo-se a esta 
princeza portuguesa diz : «... tão honesta, que pou- 
co antes de morrer pediu ternamente ao imperador, 
que nenhuma outra pessoa a lavasse e embalsamasse, 
nem tratasse do sou cadáver senão a marqueza de 
Lombay (mulher do Borja); de tão animoso coração, 
que, padecendo grandes dores no parto, em que deu 
á luz Filippe II, e pedindo lhe a marqueza que se 
queixasse um pouco para dilatar o coração, e a alma 
ao menos com um suspiro, lhe respondeu com inven- 
cível soffrimento em idioma português: Morrer sim, 
queixar-me não». Mandou-se enterrar com o habito 
de S. Francisco. 

' Este episodio da vida de Francisco de Borja 
inspirou ao sr. dr. Theophilo Braga um formosíssimo 
poemeto em prosa, publicado no Almanach Itlustra- 
do do Século, para 1900. 



nada, — escreve Cienfuegos, c o leitor que 
admire o estado de espirito d'um cardeal, — 
sendo perto de meio-dia, quando o marquez 
de Lombav ia com os olhos no cadáver, o 
coração no ccu c o corpo somente a cavai- 
lo, viu repentinamente dcante de si cheia de 
resplendor a sua ditosa avó soror Maria Ga- 
briela, antes duqueza de Gandia, c depois 
religiosa da descalcez, que subia vestida de 
immortalidade á gloria, acompanhada d"um 
esquadrão de luzes. Chegou-se ao neto, e 
com semblante amoroso lhe disse: Já d tem- 
po, filho^ de começares a subir o caminho, 
que Deus tem aparelhado, em que o sirvas. 
Ditas estas palavras, principiou ligeiramente 
a romper a ar o espirito volátil com o e.xer- 
cito mais brilhante e mais vistoso.» 

Chegando a Granada, foi fazer entrega do 
corpo á real capella, na presença das aucto- 
ridades ecclesiasticas, civis, nobreza e povo, 
e fazer o juramento, perante notários, de que 
era aquclle mesmo o cadáver que lhe tinham 
dado em deposito. 

Abriu-se o cai.vão, c Borja chegou-sc c 
afastou-lhe a toalha do rosto. E tal horror 
se apoderou d'elle que ficou extático, mudo 
e hirto. A decomposição invadira já o cadá- 
ver, olhos e bocca eram buracos negros de 
onde saiam os vermes, as faces azuladas, 
as mãos brancas como cera, e a podridão 
enchendo com o seu fétido toda a cathedral 
sem que houvesse incensos que o disfarças- 
sem. Recuam todos horrorisados e só Borja 
ficou junto do caixão, levantado em alto 
com a mão direita a toalha, a esquerda sobre 
o bordo da urna. e os olhos desmesurada- 
mente abertos. 

A situação não se podia prolongar. Pas- 
sado o primeiro momento de terror, chega- 
ram-se todos de novo e trataram de desper- 
tar Borja, que, ao cabo de ser sacudido com 
violência, tornou em si e exclamou: 

« Sunca mais, iiuuca mais servir a senhor, 
que me possa morrer. Assim morre triste o 
mais alto monarcha., como o mais vil meu- 
dii>o da teria? Pois uuiica mais servir a 
senhor que me possa morrer!» K largando 
a toalha, que lhe tiraram da mão e lançaram 
sobre o cadáver, dei.\ou-se conduzir d'alli 
para fora, levando no espirito a intenção de 
tratar sua mulher, d'alli em dcante, como 



88 



HISTORIA GERAL 



irmã. c de se fazer frade, se acaso enviu- 
vasse. 

Entretanto as honrarias palacianas cho- 
.vem sobre ellc e Carlos Quinto encarrega-o 
de governar a Catalunha. 

Kstava n"esle seu governo, e corria o anno 
de i5'4'2, quando chegaram a Catalunha os 
jesuítas Pedro Le Fcvre e António Araóz, 
cjue são desde logo admitidos em palácio, e 
o ultimo se apodera absolutamente do ani- 
mo de Borja. Conhece-lhe o espirito propenso 
ao mysticismo, a alma sujeita a terrores, o 
caracter com esse inexgotavel fundo de ha- 
bilidades especiaes aosBorgias, e a consciên- 
cia adaptável á realização de todas as intri- 
gas que levassem ao conseguimento d'um 
fim qualquer, que entrasse na sua cabeça 
teimosa. Era uma presa digna de seu mes- 
tre Ignacio, não só pelas qualidades que lhe 
reconheceu como pela situação social, e pre- 
ponderância que sabia ter Borja no espirito 
tanto de Carlos Quinto, como de seu filho 
Filippe. Não mais o largou, indo ter com elle 
onde quer que elle se achasse, e demoran- 
do-se algum tempo depois com elle em 
Gandia. Mas embora não estivesse com o 
discípulo em corpo, estava em alma, para 
o que deixou como seu substituto o padre 
André de Oviedo, reitor do collegio jesuítico 
de Gandia. 

Este não era homem de grandes escrú- 
pulos de m.eios, e quiz levar de vencida o 
companheiro e apressar a decisão definitiva 
do duque. 

O único obstáculo a superar continuava a 
ser a vida da marqueza, n'aquelle momento 
bastante enferma. Convinha que Bor)a se 
decidisse e que tomasse até a sorte da mu- 
lher como uma indicação divina para \estii- 
a roupeta. 

Um dia, passara ellc longas horas com 
Oviedo, fechados no oratório do palácio, e 
não se tratou doutro assumpto senão da 
probabilidade da marqueza morrer, unicoobs- 
taculo ao conseguimento dosfins do confessor. 
O jesuita quiz fazer a ultima experiência. Fin- 
giu que saía do oratório, recommendando a 
Borja que consultasse o crucifixo, que, entre 
amplas cortinas vermelhas, se elevava acima 
do altar, e habilmente se dissimulou entre os 
panejamentos do sitiai. Borja ficara eston- 



teado pelo esforço da discussão, e mais que 
tudo pela acção enervante d'uma atmos 
phera pesada, n'um ambiente perfumado e 
de luz sombria. O dia declinava, a luz verme- 
lha da lâmpada fazia sair reflexos avermelha- 
dos do corpo envernisado do Santo C>hristo. 
Borja dírige-lhe a supplica de conservar a 
\ída á duqueza, ou determinar o que melhor 
lhe aprouvesse. Então ouviu as seguintes pa- 
lavras: 

— Se queres que deixe a duqueza mais 
tempo nesta vida, eu o deixo em tua mão; 
porém avizo-te, que a ti não te contém isso. 

Borja, como bom jesuita, decidiu-se por 
si, e sacrificou sua mulher a Deus... com 
grande alegria de Oviedo. 

Morta a duqueza, deixando-lhe oito filhos, 
Borja escreveu a Ignacio pedindo-Ihe para 
entrar na companhia. Ignacio acceitou com 
alvoroço o pedido; e tal conta viu que lhe fa- 
zia aquellanovaacquisição, que logo lhe accei- 
tou a profissão'. Depois, para maior seguran- 
ça, solicitou e alcançou do papa dois breves 
que permittiam a Borja continuar a viver 
na sociedade secular, durante quatro annos 
depois da sua profissão, se assim o exigisse 
*a liquidação dos seus negócios. Em i55o, 
partiu para Roma ; m,as," temendo que o pa- 
pa o quizesse obrigar a acccitar o chapéu de 
cardeal, voltou para Hisptinha. Tomando or- 
dens de missa, dedicou-se á predica e ás 
missões e intrigas diplomáticas de Carlos 
Quinto-. 



• Para que se não perdesse tempo em arrebanhar 
tão boa ovelha, Ignacio não lhe impoz as provações 
dos outros noviços, e até acceitou a profissão por 
escripto, que existe nos archivos da sociedade e ú 
do theorseguinte: «Eu, Francisco de Borja, Duque de 
Gandia, peccador abominável, e indigno da vocação 
do Senhor e d'esta profissão, confiado na benigni- 
dade do Senhor do qual espero, que n'este ponto me 
ser^i propicio, faço voto solenne de pobreza, casti- 
dade, obediência, conforme o instituto da companhia, 
por privilegio, que me ha enviado o padre Ignacio, 
preposito geral, pelo qual rogo aos anjos e santos do 
Ceu, que sejam meus protectores e testemunhas; e 
o mesmo peço aos padres e irmãos, que estão pre- 
sentes. Km Gandia, dia de santo Ignacio o primeiro 
de fevereiro de mil quinhentos quarenta e oito.» 

•^ Borja trouxe uma cifra para se corresponder 
com Carlos Quinto; n'ella o imperador era tratado por 
Micer Augustino, e Francisco por Morales o-Santo. 
(Já?) 



DOS jesuítas 



89 



Poi cllc, e c conveniente que se saiba, 
para conhecermos quanto devemos aos je- 
suítas, quem veiu a Portugal para decidir a 



voções; o secreto a perda da autonomia 
portuguesa! D. Catharina e o jesuita tiveram 
longas conferencias ; mas fez-lhe comprehen- 




Trasladação de Francisco de Borja 



rainha D. Catharina a fazer com que o rei- 
no jurasse que a successão da coroa, na fal- 
ta de D. Sebastião, passaria ao neto de Car- 
los Quinto, o príncipe D. Carlos. O fim appa- 
rente da viagem seriam re/.as, prédicas c de- 



der que a situação não era azada para o com- 
mcttimento. Morja retirou-se descontente ; 
mas nem elle nem a companhia desistiram 
da cmpreza, como os factos infelizmente o 
provaram. Tentou outra vez Borja vir in- 



90 



HISTORIA GERAL 



trigar em Portugal, mas então levantaram- 
se contra elle as pedras das calçadas, na 
verdadeira accepção das palavras '. 

Pretendem os jesuítas que a entrada de 
Francisco de Borja para a companhia teve 
uma grande influencia sobre o espirito de 
Carlos Quinto, quando, aos 28 d'outubro de 
ibbb, abdicou em seu filho Filippe II. Apesar 
do testemunho de D. Álvaro de Toledo, confi- 
dente de (Carlos Quinto, o facto é pouco ve 
rosimil -. Seja como fôr, o ex-imperador^ que, 
com o seu profundo conhecimento dos ho- 
mens, sempre andou desconfiado com os je- 
suítas, escreveu a P"rancisco de Borja. A 
princeza Joanna, sua filha, que sabia as 
intenções que levaram seu pae a dirigir-sc a 
Borja, preveniu-o pela carta seguinte: 

«Não quero deixar, meu reverendo padre, 
de lhe enviar quanto antes este aviso, afim 
de que tenha tempo, antes de falar ao im- 
perador, de pensar em si na presença de 
Deus, c de deliberar sobre a resposta que 
lhe ha-de dar. E' da sua própria bocca que 
eu sei tudo o que acabo de lhe escrever, e 
não são rumores nem noticias duvidosas. Ks- 
tou convencida de que, se se lembrar neste 
momento do que deve á sua companhia, por 
certo não esquecerá a obrigação que tem de 
satisfazer meu senhor o imperador.» 

Ksta carta, que o encontrou em Alcalá, fez 
corroborar os boatos que então corriam de 
que Carlos Quinto; recolhido ao mosteiro de 
Yuste, da ordem de S. Jeronj-mo, queria ter 
comsigo o seu antigo valido, Francisco de Bor- 
ja, que elle imaginava que, por ter vestido a 
roupeta, se achava completamente desligado 
das coisas do mundo. Borja differe a ida 
de dia para dia, até que o ex-imperador im- 
pacientado o manda buscar por D. Fernan- 
do de Lacerda, duque de Medína-Cceli. 

F'oí solenne, para Borja, o momento em 
que penetrou na cella do monge de Yuste, 
outr'ora o potentíssimo monarcha, arbitro e 
senhor do mundo! Mas, para o jesuíta, era 



' O facto passou-se em Evoramonte, onde Borja e 
o seu companheiro andavam palpitando o povo so- 
bre o que aconteceria se D. Sebastião morresse, e 
Filippe II tomasse conta do reino. 

^ Koi em i547 que Carlos assentou, segundo os 
recentes trabalhos históricos publicados na Bélgica, 
num projecto de abdicação 



elle ainda Carlos Quinto, o seu protector e o 
bemfeitor de sua família. Perturbadíssimo 
ao aspecto d'esta grandeza voluntariamente 
abatida, e que elle agora via maior do que 
nunca a vira quando vivia aos pés do thro- 
no, quiz precipítar-se a seus joelhos ; mas o 
imperador levantou- o, e recebeu-o ein seus 
braços. 

A entrevista, que durou três dias, não deu 
resultado algum. Apesar de toda a sua elo- 
quência, o jesuíta não conseguiu demover o 
imperador da sua opinião, e este debalde 
convidou o seu antigo favorito a acompa- 
nhal-o no retiro. 

Francisco de Borja era do numero d'a- 
quelles para quem â santidade precisa dar- 
se em espectáculo â grande luz do mundo ! 

Os jesuítas, que a este tempo se viam a 
braços com a guerra que toda a gente em 
Hispanha lhes estava fazendo ', aproveita 
ram esta entrevista para espalharem o boato 
que Carlos Quinto mudara de opinião a res- 
peito da companhia ; e o facto é que taes 
imposturas calaram no animo de muitas pes- 
soas, e o que mais as confirmou n'esse sen- 
tido foi o ser Borja nomeado seu executor 
testamentario. Era o ultimo testemunho do 
amigo para com o amigo. Os jesuítas trans- 
tormaram-o logo em tropheu honroso da 
companhia I 

Por morte de Laynez e sua recommen- 
dação foi Borja nomeado geral, — o que foi 
sempre uma das suas ambições, superior 
até á de ser cardeal, (a outra era a cadeira 
pontíficia), o que por varias vezes rejeitou, — 
eleição que tivera o cuidado de preparar, 
insiiíuando nos espíritos dos sócios visões 
divinas que lh'a prognosticavam. 

N'este momento, os jesuítas espalhados 
pela terra e que, á morte de Ignacío, eram 
mil, estavam augmentados em três mil e 
quinhentos, resultado em grande parte de- 
vido aos trabalhos de Laynez, que tinha fi- 
xado o espirito politico e fundado o poder 



' Entre outros factos podemos desde já citar o 
sequestro d'um infeliz rapaz riquíssimo, que elles 
roubararp a sua mãe para fazerem jesuita, com mira 
na herança. Foi preciso qué as auctoridades á mão 
armada obrigassem os reverendos a entregar o no- 
viço, que, por fim, para elles voltou, passados tem- 
pos. 



DOS jesuítas 



91 



temporal da companhia de Jesus, que entre- 
gou nas mãos d'um continuador que em si 
concentrava as suas tendências e o m3sti- 
cismo de Ignacio. "\'irá depois Aquaviva, o 
organisador da minúcia, e a obra dos três, 
attingirá o seu máximo desenvolvimento. 

A" volta d'uma viagem, executada por or- 
dem do papa, a França, Hispanha e Portu- 
gal, Borja caiu doente em Ferrara, onde 
morreu em 2 d'outubro de 1672, com ses- 
senta e dois annos de edade. Transportado 
o seu cadáver para Roma, foi sepultado 
junto de Ignacio e de Laynez. 

Em 1617, depois de imponentes exéquias 
na casa professa a que presidiu o cardeal 
duque de Lerraa, primeiro ministro de F'\- 
lippe III, e neto de Borja. foi o cadáver de 
este exhuraado e conduzido para Madrid, 
onde o depositaram na egre)a dos jesuítas. 

Mal pareceria se um individuo canonizado 
pela cúria romana, não tivesse á sua conta 
uma dúzia de milagres. O que diria a pos- 
teridade dos canonizados? 

A figura de Borja tem lad os dignos de 
admiração, embora no seu conjuncto não 
inspire essa svmpathia que nos communica 
a de Francisco Xavier. Podia existir n a his- 
toria da companhia rigida na apparencia, 
como os seus traços phisionomicos, e ahi 
tinha o logar indisputável, que serviu para 
preparar o advento de Aquaviva; mas os 
jesuítas não o comprehenderara assim, e en- 
tenderam que alguns milagres poderiam dar 
uma luz menos sombria áquella ligura. Ma s 
como é de sina sua gafarem quasi tudo em 
que põem mão, os milagres que attribuem 
ao seu geral são do género do que dou como 
exemplo. 

Copio a Cienfuentes na íntegra, da tra- 
duccão de José Ribeiro Neves : 



*Em Tordesilhas comeu algumas vezes 
com seus filhos os condes de Lerma, con- 
descendendo em parte com os rogos de sua 
filha. Kstava um dia sentado com elles a 
mesa, e falando da profanidade e engano do 
mundo e dos trajes do palácio, quando a 
ponta de um osso, com a mais sensível e re- 
pentina violência, arrancou um dente a sua 
filha, deixando-lhe a bocca toda ensanguen- 
tada. Foi grande o sentimento e o assom- 
bro, assim por aquelle doloroso susto, que 
a obrigou logo a misturar o sangue com as 
lagrimas; como pela falta que o dente havia 
de fazer á .symetria do rosto, pois faltava em 
sitio mais descoberto ; e cuidava, que ao fa- 
lar, lhe faria a descrição feia e desaprasivel 
o riso, sendo ella uma das damas de maior 
formosura que teve naquelle século Hispa- 
nha. Compadecendo se da sua dôr, e da sua 
fraqueza, o padre Borja, e tomando na mão 
o dente caído, principiou a notar com festi- 
va brandura a vaidade mulheril na .esti- 
mação da .sua belleza, dizendo : «Ai I Jesus I 
E que feia ficará sem este dente a condessa!» 
E logo com a licença de pae, depois de le- 
vantar os olhos ao ceu, introduziu o dente 
no sitio d'onde tinha saido, e com o sem- 
blante incendido disse: — Comei, filha, e es- 
tae .segura, de que pelo menos este não vos 
tornará a cair. Ficou attonita a condessa, e os 
que estavam presentes a esta maravilha de 
tanta ternura, e mais quando experimentou 
que o dente estava seguro e fixo, a bocca 
sem sangue, e sem dôr alguma, proseguín- 
do a comida e com ella o assombro. Olha- 
vam uns para os outros, duvidando, se era 
realidade, ou sonho, e desde então a con- 
dessa, sendo própria aquella peça, a e.sti- 
mou como relíquia do santo Borja.» 

Que santo I E que dentista I 



93 



HISTORIA GERAI. 



Os jesuítas e a Universidade de Paris 



CoNHRCiDu O código dc Icis da S. J. ', 
e o espirito dos seus três primeiros ge- 
raes, diversos nas Índoles, no temperamento 
e na intelligencia, mas com a mesma intensi- 
dade de orientação absorvente e dominado- 
ra, vamos conhecer dos seus feitos m,ais im- 
portantes, no correr de três séculos, abando- 
nando, porém, para' maior clareza da exposi- 
ção, o svnchronismo delles, e estudando-os 
agrupados nas grandes regiões do mundo, 
em que a companhia predominou. 

O primeiro grupo de que nos vamos occu- 
par é o de factos passados alem dos Pyre- 
neos ; depois seguir-se hão aquelles que ti- 
veram por theatro as regiões do Oriente, e 
terminaremos com a historia da S. .1. em 
Portugal e no lírazil. 

No meio dos progressos da sociedade c do 
alvoroço que ella ia causando no mundo, 
Ignacio via com dolorosa magoa que a Fran- 
ça recusava submetter se ao seu jugo. 

Era uma rica presa ; mas difíkil de apa- 
nhar. Os jesuítas não tinham alli nenhuma 
existência official. Apenas alguns dos seus 
membros viviam occultos, ou pelo menos, 
pouco apparentemente. 

Ha na historia do jesuitismo três factos a 
notar, e todos três em honra da França: 
nunca fornecer nenhum geral á S. J., oppor- 
se tenazmente ao seu estabelecimento , e tel-a 



' t por esta forma abreviada que os escriptoref, 
etn geral, clesignam a Sociedade dc Jesus. 



expulsado quantas vezes lhe tem sido pre- 
ciso. Da primeira e ultima honra também 
Portugal se pôde gabar. Infelizmente, mercê 
d'um rei piedoso, foi dos primeiros reinos a 
abrir-lhes as portas, e com elles a da domi- 
nação de Castella. 

O bom senso pratico do francês fez-lhe 
logo adivinhar tudo quanto se pode esconder 
de perigoso sob a roupeta lisa, acanhada e 
negra do jesuita. Não precisou vel-os mano- 
brar, para analisar as suas doutrinas, des- 
mascarar-lhes os sophismas, e, forçado a to 
mar o veneno, a expcUil-o energicamente. 
Quando, em 8g, se pronunciou contra todas 
as tyrannias, englobou n'ellas os jesuítas, 

Comtudo houve um homem, cuja memo- 
ria deve ser ignominiosa, que lhes abriu as 
portas do seu paiz, em i55o. Esse homem 
foi Guilherme du Prat, bispo de Clermont, 
que deu asylo, n'um palácio que possuia na 
rua da Harpa, aos jesuitas que do convento 
dos cartuxos se tinham passado para o col- 
legio dos lombardos. Não contente com os 
admittir, doou-lhes bens consideráveis. Esta 
inesperada fortuna, que ficou estéril em suas 
mãos, ensinou-os a proseguirem na empresa 
de se fazerem reconhecer, e o seu primeiro 
acto foi solicitarem cartas-patentes de Hen- 
rique II. 

O parlamento manifestou-se desde logo em 
opposição, e representou ao monarcha que 
não havia necessidade alguma de augmentar 
o numero dos religiosos, já excessivo no rei- 
no, e que antes de tudo convinha que elles 



DOS jesuítas 



93 



communicassem a F.ustachio du Rellai, bis- 
po de Paris, e á universidade as bulias que 
tinham obtido dos papas. 

Ignacio, que fizera esta communinação a 
Melchior Cano, e que lhe produzira o resul- 
tado contrario ao que elle esperava, não es- 
teve disposto a satisfazer o pedido do par- 
lamento do rei de PVança. Foi preciso em- 
pregar a manha, c ladear o obstáculo. 

Para isso deu ordem a um dos je- 
.suitas de Paris para que fizesse os 
seus votos nas mãos do bispo de 
Clermont, que deu para isso com 
mi.ssão ao abbade de Santa Genove- 
va; e como, Ignacio, em tempo tivesse 
conhecido em Roma o cardeal de Lo- 
rena, soccorreu-se delle para obter 
as cartas-patentcs, que o parlamento 
se recusou registar, apesar das or- 
dens de Henrique II, apertado pelo 
Lorena. 

A resistência augmentava á medi- 
da que cresciam os empenhos. O 
bispo de Paris e a faculdade de theo- 
logia juntam-se ao parlamento. Aquel- 
la, no I." de dezembro, publica um 
decreto, que declara «a nova socieda- 
de, perigosa em matéria de fé, ini- 
miga da paz da Egreja, e antes nas- 
cida para a ruina do que para edifi- 
cação dos fieis». 

O decreto foi enviado a Roma, e 
Ignacio fez como se o não tivesse 
recebido. Esta vigorosa accusação, 
formulada por juizes competentes, 
provoca uma reacção geral contra 
os jesuítas. Os pregadores e os pa- 
rochos atacam-os claramente; os pro- 
fessores proHigam as suas doutrinas ; Eus- 
tachio du Bellai prohibe-lhes todas as fun- 
cções .sacerdotaes na sua diocese, no que é 
imitado por alguns outros bispos. 

Taes foram os primeiros passos dos jesuí- 
tas em França. Ignacio deixou prudentemente 
passar o vendaval. 

Em i5Gi, Laynez assiste ao colloquio de 
Poiss}'* e,com os empenhos de Lorena, obtém 



que a sociedade se estebeleça em Paris. O 
parlamento cançado da iucta, e continuando 
a ser intimado para registar as cartas-paten- 
tes que concediam, aos jesuítas os bens de 
Guilherme du Prat, tinha remettido o nego- 
cio aos bispos. Mas não foi sem condições 
que estes deram o seu consentimento. 

Exigiram que a sociedade tomasse outro 
nnme que não o de Sociedade de Jesus: 




Francisco de borja 

que o bispo diocesano tivesse sobre ella 
inteira jurisdição ; 

que elle bispo tivesse auctoridade para ex- 
pulsar da companhia aquelles cujo proce- 
dimento se tornasse escandaloso ; 

que os membros da sociedade, nada ú- 



' Com o fim de fazer um apaziguamento nos espi- 
rites exaltados pelas opiniões religiosas, Catharina de 
Medíeis, regente da França, na menoridade de Car- 



los IX, pensou resolver a questão por uma espécie de 
debate contradictorio entre os prelados catholicos e 
os ministros do culto protestante. O colloquio abriu- 
se em 1'oissy a 9 de setembro, e se os espíritos entra- 
ram irrequietos para elle, sairam de l;i eialtadissimos, 
e mais do que nunca longe de um accordo * cordeai- 
mente inimigos. 



94 



HISTORIA GERAL 



zessem em prejuízo dos bispos, part)chos, 
capítulos, freguezias e universidades ; 

que renunciassem a todos os privilégios 
contrários, embora declarados nas suas bul- 
ias dinstituição. 

O bispo de Paris, por seu lado, também 
tez varias reservas. 

O acto de recepção dos jesuítas foi regis- 
tado no parlamento, em i3 de fevereiro de 
i362. 

Não se teriam tomado maiores precau- 
çães contra malfeitores. Infelizmente de na- 
da serviram contra o espirito de tenacidade, 
manha e astúcia dos reverendos padres. 

Tinham um pé em F"rança, podiam ser 
expulsos, mas não saiam mais. 

A primeira condição que lhes fora impos- 
ta era de mudarem de nome; pois cm i5()4, 
tendo ílludído Julião de St. Germain, reitor 
da universidade, que lhes deu, sem consul- 
tar as faculdades, cartas de matricula, abri- 
ram um collegío com o nome (llcrmont da 
Sociedade de Jesus. Era uma acquisição fei- 
ta com o dinheiro de Guilherme du Prat, si- 
tuada na rua de S. Jacques. 

As primeiras licçÕes publicas realisaram-se 
no 1." d'outubro do mesmo anno de i5(')4. 
Os professores eram Maldonado, para phi- 
losophia e Vanegc para as humanidades '. 
Os cursos tiveram brilho e fama. A univer- 
sidade prcoccupou-se corri esta violação au- 
daciosa d'uma promessa exigida e solenne- 
mente feita. João Prévôt, reitor em logar de 
Julião, prohibiu-lhes todo e qualquer exercí- 
cio de classe até que tivessem provado em 
virtude de que direito professavam. O par- 
lamento, a requerimento dos jesuítas para 
lhes ser levantada a prohíbíção, mandou que 
eiies fossem interrogados por João Prévot, e 
fixou o interrogatório para 18 de fevereiro 
de i565. 

Foi impossível obter dos reverendos pa- 
dres uma resposta categórica. 

O reitor perguntou-lhes : 

— Sois seculares, regulares ou monges ? 

— Somos em França o que o parlamento 
disse que éramos, lales qiiales; isto é a so- 



' João Maldonado era hispanhol, tinha nascido em 
Casas de la Reina, na Extremadura, morreu em Ron- 
ce a 5 de janeiro de i583. 



ciedadc que é chamada do collegío de Cler- 
mont. 

— Sois monges ou seculares? 

— Não é aqui o logar para se nos fazer 
tal pergunta. 

— Sois verdadeiramente monges, regula- 
res ou seculares : 

— Já respondemos que somos o que o 
parlamento disse que éramos. 

A universidade não se deixou embair com 
estes subterfúgios jesuíticos, e, decidindo 
empregar para com elles todo o rigor, pro- 
hibiu os discípulos de irem ás licções de 
Clermont. Os jesuítas apellaram immediata- 
mente para o parlamento. A universidade 
incumbiu da sua defesa Estevam Pasquier', 
nomeou delegados de cada faculdade para 
acompanharem o piocesso, e Carlos Du- 
moulín ^ redigiu uma consulta em seu favor. 
Ao mesmo tempo os parochos de Paris, o 
prcboste dos mercadores, os magistrados 
municipaes, o cardeal de ChàtíUon, bispo 
de Beauvaís, conservador dos privilégios da 
universidade, os dois chancelleres de Nolve- 
Dame e de Santa Genoveva, os administra- 
dores dos hospitaes, e as ordens religiosas 
jnendicantes, requereram para que os pa- 
dres da S. J. não fossem recebidos nem co- 
mo regulares nem como collegío. 

O advogado dos jesuítas foi Pedro de 
Vcrsorís'', celebre casuidíco, notável pela 



■ Estevam Pasquier nasceu em Paris em i520 e 
morreu ahi a i\ d'agoslo de 10 1 5; foi celebre 
pela sua accusat^ão contra os jesuítas, pelos seus tra- 
balhos a respeito da França, e pelos versos qnc fize- 
ra a uma pulga que vira no seio da menina Desro- 
ches, e que tal êxito obtiveram em França, na His- 
panha e na Itália, que deram origem a uma quanti- 
dade de poesias sobre o mesmo assumpto. 

^ Dumoulin nasceu em Paris em i5oo, d'uma fa- 
mília alliada a Anna de Boleyn, mãe da rainha Isabel, 
e morreu em 27 de novembro de i;66. A superiori- 
dade de Dumoulin como jurisconsulto era por tal 
sorte reconhecida, que escreveu na cabeça das suas 
consultas : "Eu que não cedo a ninguém, e a quem 
ninguém tem nada que ensinar.» 

5 Pedro de Versoris nasceu em Paris em 10 de 
fevereiro de 1 528 e morreu a i5 de dezembro de 1 588. 
Os discursos de Versoris, único seu trabalho impres- 
so, estão citados na historia de Thou. Existe uma 
edição particular : Plaidoyers de feu maistre Pierre 
de Versoris ele. etc, 157S, sem indicação de logar 
nem de impressor. 



DOS JESUn AS 



95 



subtil chicana que empregava na defesa das 
causas pouco lisas, em que era especialista. 
No dia marcado, o parlamento reuniu-sc em 
sessão solenne. 

Era um singular e extranho processo 
aquelle cm que, sob apparencia de interesse 
particular, dois simples advogados iam agi- 
tar as mais importantes questões politicas, 
moraes e religiosas. D'um lado da vasta sala 
se mantinha deante de seus clientes, humil- 
de, modesto na attitude, o olhar velhaco, 
Versoris, altivo com a reputação dos seus 
passados triumphos, e dissimulando, debai- 
xo d'uma soberba tranquillidade, a fraqueza 
da causa que defendia ; do outro lado, Es- 
tevam Pasquier, então menos illustre que o 
seu adversário, mas que tinha por si a ver- 
dade, a justiça e o bom senso. No meio de 
um profundo silencio, \'ersoris tomou a pa- 
lavra. 

O seu discurso, preparado segundo o gos- 
to do tempo, ornado de quantas possíveis 
flores de rhetorica em uso n'aquella epocha, 
dizia em substancia que : 

Como a natureza não deixa sair as ser- 
pentes dos seus antros, durante a primave- 
ra, que tem de fazer desabrochar a flor do 
freixo, que lhes servirá de alimento, e não 
acaba com esta flor senão no fim do outom- 
no, depois de haver encerrado estas mes- 
mas serpentes, assim a Providencia divina, 
não tinha querido permittir as heresias de 
Luthero e de Calvino. senão estabelecendo 
a companhia de Jesus, que as devia comba- 
ter. Para demonstrar que esta companhia 
era milagrosa na sua origem e no seu des- 
envolvimento, o advogado disse que fora 
instituída por um homem de guerra. Contou 
em seguida a historia de Ignacio, da sua 
conversão, das suas viagens, dos seus estu- 
dos, e dos primeiros companheiros que reu- 
niu á sua volta. Referiu-se á confirmação 
dos estatutos da sociedade por Paulo líl, 
que a fixara em sessenta sócios. Fez obser- 
var que tendo sido alargado este limite, es- 
tes padres se multiplicaram de tal maneira 
que, quinze annos depois do seu estabeleci- 
mento, já possuíam doze províncias no an- 
tigo e novo mundo. Attribuiu estes rápidos 
progressos á utilidade que os povos aufe- 
riam dos__jesuitas para a instrucção das crean- 



ças. e assegurou que nada havia a temer 
d'uma ordem que, por um voto particular, 
renunciava ás dignidades ecciesiasticas. 

Procurando justificar os seus clientes da 
opposição que encontravam em França, e 
principalmente em Paris, representou-os co- 
mo uma cohorte de santos, comparou-os a 
muitas ordens religiosas a que também ti- 
nham sido suscitados obstáculos nos seus 
começos, e pretendeu fazer valer os jesuitss 
pela própria repulsão que suscitavam. Em- 
fim, depois de ter elogiado o seu -desinte- 
resse e a sua humildade, concluiu pela con- 
firmação do seu requerimento, e pediu que 
a mocidade podesse receber as suas licções. 

Estevam Pasquier falou por sua vez. Re- 
futou vigorosamente os argumentos e apolo- 
gias do seu adversário, e restabeleceu os fa- 
ctos com toda a exactidão. 

«Esta nova espécie de religiosos, disse 
elle, não só não deve ser aggregada ao cor- 
po da universidade, mas deve de ser inteira- 
mente banida, expulsa e exterminada da 
PVança.» 

E assim o provou com as antigas orde- 
nanças e constituições da universidade, e 
pela origem, estabelecimento e progressos 
dos jesuítas ; a fim de que o tribunal, con- 
frontando estas coisas entre si, pudesse jul- 
gar se vinha a propósito incorporal-os na 
universidade, c se deiles resultava utilidade ou 
prejuízo para a religião christã,e especialmente 
para a França. Alongou-se sobre a origem da 
universidade, sobre as suas leis, sobre as 
suas quatro faculdades, considerando- a como 
uma espécie de concilio geral, permanente- 
mente estabelecido ein Paris. Passando de- 
pois ao instituto jesuítico, disse, qne tendo 
sido regeitada pelos lutheranos da Allema- 
nha a auctoridade da Santa-Sé, estes pa- 
dres expozeram ao papa, que o seu primei- 
ro voto era de reconhecer o soberano pon- 
tífice acima de outra qualquer potencia, e 
que não havia nenhum príncipe, nenhum 
concilio, que não devesse submetter-se ás 
suas leis; que esta lisonja lhes ganhara o fa- 
vor de Paulo III, o qual, considerando os 
jesuítas como seus vassallos, julgou andar 
avisadamente approvandoos, ainda assim 
com certas rcstriccões. 

Ajuntou que tendo obtido de Júlio 111 a 



96 



HISTORIA GERAL 



permissão de receberem tantos indivíduos, 
quantos se lhe apresentassem, os jesuítas ti- 
nham vindo a Paris, onde foram bem rece- 
bidos pelo bispo Clermont, e pretenderam 
fazer approvar os seus estatutos pelo parla- 
mento; mas que Noel Brulat, então procu- 
rador geral no parlamento, se tinha formal- 
mente opposto a todos os seus requerimen- 
tos, e lhes havia demonstrado que se se que- 
riam retirar do mundo, podiam, sem intro- 
duzir uma nova ordem, fazer profissão 
em qualquer das ordens já existentes e ap- 
provadas pelos concílios; que havia os benc- 
dictínos, os bernardos, as ordens de Clunv e 
de Prciuoutrê, e outras de que a christan- 
dade tinha auferido grandes vantagens; em- 
quanto que a que elles pretendiam estabe- 
lecer era fundada snbrc uin caso muito in- 
certo; que o parlamento, não contente com 
estas rasões, tinha recorrido para a facul- 
dade de theologia, a qual, depois de ter ma- 
duramente deliberado sobre este assumpto, 
resolvera regeitar este instituto, como desti- 
nado á destruição do estado regular e se- 
cular; que foi isso que levxju os jesuítas a 
suspenderem os seus pedidos, ate que acha- 
ram occasião azada para apresentarem um 
requerimento ao tribunal, e pedirem que elle 
auctorisasse o seu instituto, não em forma 
de nova ordem religiosa, mas na de colle- 
gio; compromettendo-se a nada emprehen- 
dcrem em prejuízo do rei, dos bispos, dos 
parochos e dos capítulos, e protestando, 
pela sua parte, a renunciarem todos os 
privilégios que lhes tinham sido concedidos 
e contrários a esta renuncia ; que o tribunal, 
julgando que este requerimento se relacio- 
nava com a Egreja, o reenviara aos padres 
reunidos em Poissy, sob a presidência do 
cardeal de Tournon. 

Pasquier sustentou que este requerimento 
nunca fora recebido no tribunal pleno; que 
não tinha sido senão assignado pelo relator 
do presidente, que o não communicou senão 
a algumas pessoas das suas relações, e que 
n'elle apenas se decidia que a sociedade dos 
jesuítas seria consentida em forma de socie- 
dade e de collegio, e não como uma nova 
ordem religiosa; que os padres seriam obri- 
gados a tomar outro nome e não usarem o 
de jesuítas; e que seriam obrigados a con- 



formarem-se em tudo c por tudo com o di- 
reito commum, sem nada emprehederem 
sobre o espiritual e o temporal em prejuízo 
dos bispos, que previamente renunciariam 
aos privilégios exarados nas suas bulias, e 
que a não ser assim essa approvaçno não 
teria etfeito, nem seria executada. 

Depois d'esta fiel narrativa histórica, ajun- 
tou que como era uma approvação o que ti- 
nham obtido, ell js trabalhavam para a tornar 
valida e extensa; que tendo alcançado um des- 
pacho do parlamento, compraram a casa da 
rua de S. Jacques, para ahi estabelecerem 
moradia; que ahi, com menospreso das con- 
diçíjes que lhes tinham sido impostas, tinham 
collocado, como letreiro, sobre o portão: 
Collcíiio da Sociedade de Jesus; que ahi 
recebiam toda a espécie de alumnos, tanto 
internos como externos; que ensinavam o ca- 
thecismo do seu padre Auger; e que, não 
contentes com esta primeira irregularidade, 
ahi administravam os sacramentos da peni- 
tencia e da eucharistia, c mandavam pregar 
cartazes pelas esquinas para attrahírem o 
povo a sua casa, e noticiar ao publico qúo 
ensinavam gratuitamente. 

K concluiu dizendo: que a S. .1. a pretexto 
de gravemente ensinar a mocidade, não pnj- 
curava senão os seus beneficios; que de um 
lado empobrecia as famiiias extorquindo- 
Ihes testamentos, e, por outro, seduzia os 
moços sob uma falsa apparencia de devo- 
ção, e meditava revoluções e revoltas, que 
um dia rebentariam, para ruina do reino; 
que o segredo que esta sociedade tinha en- 
contrado de fazer um voto particular á 
Santa-Sé tinha levado o papa a conceder- 
Ihe tão grandes privilégios, que destruíam 
o direito commum; que quanto mais sub- 
missa ella se mostrava ao summo pontífice, 
mais ella se tornava suspeita aos franceses, 
que, reconhecendo o papa como chefe e 
príncipe da Kgre)a, estavam convencidos 
que elle era obrigado a obedecer acjs santos 
cânones e aos concílios ecuménicos, e que 
não estava em sua alçada pronunciar coisa 
alguma contra o reino nem contra os reis, 
nem discernir contra as sentenças do parla- 
mento, nem em seu prejuíso, na extensão 
da sua jurisdicçãf). 

\: terminou com uma peroração que os 



I 



DOS JE5UITAS 



97 




Antónia Wairdhove enterrada viva 



HISTORIA GERAL 



factos posteriores, transformaram em pro- 
phecia: 

«Se estes novos sectários forem por fim 
recebidos, disse elle, será alimentar no reino 
outros tantos inimigos, que não tardarão em 
se declararem contra o rei. Vós outros que 
soffrejs os jesuitas, vedes tudo isto, c ainda 
os toleraesi Não virá longe o dia em que 
sereis os primeiros juizes da vossa própria 
condemnação, quando virdes a christandadc 
perturbada por uma companhia de que se 
não conhecem nem os artifícios nem os de- 
sígnios.» 

Versoris replicou a Pasquier, e João Ba- 
ptista Dumunil, servindo de procurador ge- 
ral, discutiu a matéria a fundo, e concluiu 
pela expulsão dos jesuitas, fundando-se prin- 
cipalmente sobre estes motivos : que tinham 
prestado juramento a um geral hispanhol ; 
que eram extranjeiros, c qae se lhes não 
devia confiar a educação da mocidade; e, 
estando ligados por votos, não deviam ser 
recebidos na universidade para ahi ensina- 
rem publicamente. Quanto á fundação feita 
pelo bispo de Clermont, propoz que se esta- 
belecesse em Paris, com os bens legados 
pelo prelado, um collegio que teria o nome 
de Clermont, e ao qual se daria como reitor 
um homem de bem, que não seria de ne- 
nhuma ordem religiosa, e muito menos je- 
suíta. 

A causa durou duas audiências, e a opi- 
nião geral era que os jesuitas deviam suc- 
cumbir. Mas elles tinham angariado pode- 
rosos protectores, o parlamento adoptou 
um meio termo e marcou a decisão para 
o mez d'abril de i6()S. Assim, sem serem 
aggregados á universidade, os jesuitas pude- 
ram continuar publicamente as suas licções. 

O discurso de Pasquier attrahiu-ihe o ódio 
da companhia. Parece que elle tinha ferido 
justo, e que os seus argumentos haviam dei- 
xado uma viva impressão, se os apreciar- 
mos pelas injurias que os jesuitas assacaram 
contra elle. Scribanius, de Lafont, Richom- 
me e Félix de la Grace, esfacelaram-o em- 
quanto vivo; e nem a sua morte apaziguou 
a sociedade qúe tanto maltratara. Em 1624, 
seus três filhos publicaram, com privilegio 
real, uma obra para justificarem a memoria 
de seu pae das accusações caiumniosas que 



lhe foram feitas pelo famoso jesuíta Garasse. 
O memorial reproduz duas listas de inju- 
rias, por ordem alphabetica, que excedem 
em grosseria e imbecilidade tudo quanto se 
possa immaginar. Na palavra iolo, Garasse 
chama a E. Pasquier, tolo natural, tolo por 
sustenido, tolo por bemol, tolo na mais ele- 
vada gamma, tolo de duas solas, tolo de 
tintura reTorçada. tolo carmezim, tolo em 
todas as espécies de tolice. . .1 

E termina assim o seu livro: «Adeus, mes- 
tre Pasquier;adeus,penna sanguinária; adeus, 
advogado sem consciência; adeus, mono- 
philo sem miolos; adeus, homem sem huma- 
nidade; adeus, christão sem religião; adeus, 
inimigo capital da Santa-Sé dcRon-.a; adeus, 
filho desnaturado da Egreja, que publicaes 
e augmentaes os opprobrios de vossa mãe ; 
adeus, até esses raios que vos sepultarão 
debaixo d'outras montanhas, que não as do 
vosso Parnaso; adeus até esse grande par- 
lamento, onde não advogareis pela univer- 
sidade. « 

Vê-se que o estylo dos jesuitas foi sempre 
o mesmo. Os modernos roupetas não dege- 
neraram, e mostram-se dignos successores 
. do padre Garasse ' citado com grandes elo- 
gios na bibliotheca dos escriptores da socie- 
dade pela sua amenidade, a sua modéstia, 
a sua doçura, e todas as outras virtudes. 

O jesuíta Maldonado, cujas licções tinham 
levantado esta celeuma, foi mandado para 
Poitiers com mais nove dos seus companhei- 
ros. Tempos depois voltou a Paris, e foi ac- 
cusado de ter roubado uma herança, sedu- 
zindo no leito de morte o presidente de San- 
to André, obrigando-o a deixar todos os seus 
bens aos jesuitas. 

«Nada sae, dizia António Arnaud, advo- 
gando, em 1594 contra a S. J. nada sae 
da sociedade, ao contrario tudo entra para 
lá e ou ab-iutestato ou por meio de testa- 
mentos que todos os dias sabem captar, pon- 
do de um lado o terror do inferno nos espí- 
ritos perto da morte, e do outro, propondo- 
Ihes o paraíso, aberto áquelles que fazem 



' Haja vista em que tom foi ullimamente aprecia- 
da em Lisboa, por um d'elltís, a obra scientifica d'um 
medico distinctissimo, onde não sabemos que mais 
admirar se a filáucia da ignorância se o insulto. 



DOS JESUÍTAS 



99 



doações á companhia, como fez Maldonado 
ao presidente Montbrun de Santo André, ob- 
tendo d"elle todos esses moveis e bens, por 
uma confissão cheia d^impostura.» 

Os jesuitas empalmaram ainda sete mil li- 
bras de renda ao presidente Gondran de Di- 
)on, e fizeram-lhe doar por testamento dois 
escudos a sua irmã, sua única herdeirall Des- 
pojaram a casa dos Ballons, uma das mais 
ricas de Bordéus ; roubaram o irmão do 
marquez de Canillac, e retiraram doze mil 
escudos da venda das terras de Faigolles. 

Mas isto para elles tanto valia como pecca- 
ditos sem valor, e bagatellas insignificantes; 
e não contentes era se apoderarem das he- 
ranças trataram de ir lançando a mão dos 
herdeiros, continuando em França o que já, 
como vimos, iam praticando em Hispa- 
nha. 

Pedro Argraut, tenente criminal em An- 
gers, tinha casado com Anna Desjardins, fi- 
lha do medico de Francisco I, de quem hou- 
vera quinze filhos, a quem amava terna e 
egualmente. 

De todos elles, o que annunciava mais 
felizes disposições era seu filho mais velho. 
Pedro Argraut, que tinha sido um dos mais 
celebres advogados do parlamento de Paris, 
auctor de muitas obras estimadas, fazia con- 
stituir todo o seu orgulho n"este filho, no qual 
já via o seu successor. Teve, porém, a fatal 
ideia de confiar a sua educação aos jesuitas. 
Os reverendos padres, encantados com o es- 
pirito vivo e penetrante do moço Renato, 
julgaram que elle seria umaexcellente acqui- 
sição para a companhia. Por tal forma o 
doutrinaram, e illudiram, que lhe fizeram 
vestir a sotaina da ordem. Assim que o sou- 
be, Argraut intimou-os a que lhe entregas- 
sem o filho, e ameacou-os de que o iria elle 



próprio buscar se lho não mandassem. Para 
I não perderem a presa, fazem com que Re- 
nato saia do collegio para outra casa, e man- 
dam dizer ao pae que não sabem d'elle. 
Argraut pede um inquérito ; dirige-se ao par- 
lamento e obtém uma sentença que prohibe 
os jesuitas de Clermont de receberem o fu- 
gitivo, e ao mesmo tempo de communicarem 
a prohibição aos outros collegios da S. J. 
Os jesuitas não fazem caso do parlamento 
I nem das suas sentenças ; mas Argraut não 
j desanima, e dirige-se ao papa. 
' O rapto fora tão audacioso e causara tão 
grande escândalo, que o papa ordenou que 
I lhe enviassem as listas com os nomes de to- 
j dos os membros da companhia. 

Mas debalde ahi se procurou o de Re- 

; nato. Para lhe fazerem perder a pista, os je- 

: suitas tinham-o rebaptisado, por sua conta 

I e risco. O segredo foi por tal sorte guarda- 

j do, que, apezar da protecção do rei e do pa- 

I pa, Argraut não pôde obter justiça. Ao fim 

. de três annos de trabalhos e de inúteis pes- 

I quisas, para disfarçar a dor que o minava 

compoz um livro intitulado O poder pater- 

j no, de que Pasquicr e Bodin falam com lou- 

j vor. A eloquência do coração ahi se encon- 

I tra reunida á instrucção. O estudo não lhe 

mitigou as penas, e o desgosto matou-o em 

lõoi. 

Alguns annos antes da morte, por acto no- 
tariado, privou seu filho da sua benção, mas 
á hora da morte o coração do pae enviou- 
lh'a onde quer que elle se achasse. Os jesui- 
tas fizeram de Renato um monstro d"ingra- 
tidão, obrigando-o a refutarem o livro de seu 
pae ; que por fim appareceu á luz com o no- 
me d"um testa de ferro. 

Era assim que a S. J. preludiava em Fran- 
ça, preparando-sc para o assassínio. 



HISTORIA GERAL 



XIII 



Primeira tentativa de assassinio contra Guilherme 

de Nassau 



A cidade dAnvers', depois de ter sus- 
tentado corajosamente um longo cerco 
contra as tropas do príncipe Alexandre de 
Parma, lôra obrigada a render-se. Havia 
annos que os restos de dois supliciados se 
achavam expostos, segundo diz o historia- 
dor Metereu^, sobre as muralhas docastello. 
Recordavam aos habitantes uma acção exc- 
cravel, bem depressa seguida de outra da 
mesma natureza, que tinha roubado aos 
Paises Baixos, o mais illustre defensor da 
sua independência. Havia apenas duas ho- 
ras que os conquistadores tinham entrado 
na cidade, quando dois homens, a quem o 
seu exterior hypocrita e velhaco designava 
immediatamente, tanto como as suas roupe- 
tas, por dois filhos de Loyola, se dirigiram 
para as muralhas. Recolheram cora piedoso 
cuidado os ossos brancos e descarnados, e 
levaram-n'os nas dobras das sotainas. O ci- 
tado historiador acrescenta, «que todos 
aquelles ossos foram convertidos em relí- 
quias pelos reverendos padres». 

Pertenciam-lhes effectivamente. Tinham 
todo o direito de se apoderarem d'elles, de- 
pois de terem armado os braços que estive- 
ram a ponto de dar a morte ao libertador 
dos Paises-Iiaixos. 

Narremos como as coisas se passaram. 



' A antiga Antuérpia dos nossos escriptores. 

' Metereu, cônsul hollmdez, é o auctorda histo- 
ria em latim dos Paises-Baixcs, desde a acciamação 
de Carlos-Quinto como rei d'Hispanha, em I3i6, até 
o fim das guerras de religião. 



Para conquistar o logar que hoje occupa 
entre as nações da Europa, a Hollanda teve 
que sustentar três grandes luctas : a do mar, 
a da tyrannía e a dos jesuítas. O infatigável 
c paciente neerlandês soube arrancar o solo 
que povoa á avidez do mar, a sua indepen- 
dência ao despotismo de Filippe II, a sua 
tranquillidade ás intrigas dos filhos de Loyo- 
la ; e d'estas três victorias, todas gloriosas, 
-a ultima foi a mais difficil, porque os ini- 
migos, como sempre, trabalhavam na sombra 
e não recuaram em soccorrer-.se do punhal. 

Não é aqui o logar para se fazer a histo- 
ria da lucta que os Paises Baixos tão valo- 
rosamente sustentaram contra a poderosa 
casa d' Áustria e de Hispanha. Sabe-se que 
Flandres e a Hollanda, depois de terem es- 
tado sob o jugo do extranjciro, se revolta- 
ram, e reclamaram a sua parte á luz vivifi- 
cante do sol, que começava a illuminar a ve- 
lha Europa, e que se chama: — liberdade. 

Antes que terminasse o xvi século, que tão 
grandes commettimentos viu realisar, os Es- 
tados-Unidos da Hollanda já tinham tomado 
assento entre as nações independentes. Flan- 
dres foi menos feliz ; e somente nos nossos 
dias, três séculos depois, é que a Bélgica 
pôde emfim ser contada em o numero das 
nações. Se não conquistou a sua indepen- 
dência ao mesmo tempo que a Hollanda, 
pode queixar-se dos jesuítas. Foram elles, 
eííectivamente, os filhos de Loyola, que 
principalmente ajudaram o sombrio e cruel 
déspota Hlíppe II, a apertar no pescoço dos 



IX)S JESUÍTAS 



brabanções c flamengos a golilha da escra- 
vidão. Esses povos, revoltando-se contra 
Filippe, tinhain-se conservado catholicos; em- 
quanto que os hollandezes, querendo sem 
duvida quebrar até o ultimo élo que os pren- 
dia á Hispanha, entraram com enthusiasmo 
no caminho da Reforma. No auge da lucta, 
os jesuítas conservaram sempre uma grande 
influencia em Flandres-, emquanto que só 
viveram na Hollanda com a protecção 



poderoso núcleo, e puderam luctar, muitas 
vezes Com vantagem, contra os exércitos de 
Hispanha. Filippe, furioso e persuadido de 
que era ao talento do príncipe de Orange que 
devia attribuir os successos dos seus súbdi- 
tos revoltados, resolveu recorrer a todos os 
meios para se desembaraçar do seu temível 
inimigo. 

Tem-se accusado os jesuítas de ter servi- 
do o déspota híspunhol nos seus infames 




O Jesuíta Maldonado obriga o presidente de Santc André a fazer um test^.mentc 
em favor da S. J. 



das armas hispanholas. A consequência 
inevitável de tudo isto foi, que a Hollanda 
recuperou a sua liberdade, constituiu-se po- 
tente e feliz ; e a Bélgica teve que arrastar- 
se humilhada de grilheta aos pés, ainda du- 
rante mais de dois séculos I 

E' principalmente ao celebre príncipe de 
Orange, Guilherme conde de Nassau, cogno- 
minado o Taciturno, que a Hollanda deve 
ter visto os seus esforços coroados de êxito. 
Em iDyo este homem, verdadeiramente no- 
tabílissímo, puzera-se á testa do grande mo- 
vimento que por fim rebentou contra a do- 
minação de Filippe II, e contra as cruelda- 
des dos seus logares-tenentes. Rapidamente, 
diversas partes da Hollanda se ligaram n"um 



projectos de escravisar a Hollanda. Vamos 
vêr se taes accusações são fundadas. 

No dia 18 de março, anníversario natalí- 
cio de Francisco Herodes de \'aloís, duque 
d'Alençon e d'Anjou, tinham cerrado todos 
os negócios desde pela manhã em Anvers; 
dir-se-hia uma cidade entregue, depois dum 
longo cerco, ao inimigo e á fome. No porto, 
ouvíam-se os cantos alegres dos marinhei- 
ros, occupados em embandeirar os seus na- 
vios ; os galhardetes Huctuavam nas janellas 
de todas as casas ; os sinos das egrcjas rea- 
bertas, depois de oito mezes aos catholicos, 
badalavam sem descanço, e misturavam os 
seus estridentes sons aos rumores confusos. 



HISTORIA GERAL 



das vozes do povo, que se agitava nas ruas, 
e se comprimia em massa nos arredores da 
cidadella. 

N'uma das extremidades da praça tinha 
sido levantado um vasto tablado de madei- 
ra, servido por degraus, que os operários 
acabavam de forrar com alcatifas. Como 
acontece sempre, assim que o povo muda de 
senhor, cada qual augurava bem do reinado 
que ia começar; todos tomavam as suas es- 
peranças por realidades, e gratificavam libe- 
ralmente o novo duque com todas as quali- 
dades e virtudes possíveis. Era um concerto 
universal de louvores. Catholicos e reforma- 
dos amaldiçoavam por egual a dominação 
hispanhola, e encaravam esta nova alliança 
com a França como um penhor da paz e da 
liberdade de P^landres. Alguns até, que se 
pretendiam bem instruídos e iniciados nos se- 
gredos das cortes, chegavam a affirmar que o 
projecto de casamento, que fora outr'ora tão 
desejado, entre Izabel de Inglaterra e o du- 
que dAnjou era coisa decidida. Esta noticia 
encontrava poucos incrédulos, e já, em pre- 
sença das forças reunidas da França e da 
Inglaterra, se imaginava ver fugir os últimos 
destroços dos exércitos de Filippe II. 

Emfim o momento fixado para a cerimo- 
nia chegou. Um grande silencio succedeu ao 
tumulto, quando o duque appareceu acompa- 
nhado da nobreza e dos estados do Braban- 
te, e tomou assento n'um throno doirado, no 
meio do tablado. A sua direita, de pé e des- 
coberto Guilherme o Taciturno, príncipe de 
Orange. A fronte calva e apprehensiva, a fi- 
gura pallida, magra e severa deste homem 
que nenhum revez conseguira abater, e que 
tinha tomado como divisa : Tranquillo no 
meio da tempestade, formavam um contras- 
te flagrante com as ph\'sionomias risonhas 
e cheias de confiança dos fidalgos que o cer- 
cavam. Só elle, entre todos os actores e es- 
pectadores d'esta scena, pensava no futuro, 
e, sem desesperar da victoria, combinava 
ainda, no meio do seu triumpho, a maneira 
de o tornar durável, c procurava os apoios 
para aquelle throno que elle sentia estalar 
sob o manequim offerecido ás vistas do po- 
vo. Atrás d'elle, um mancebo de dezeseis 
annos, notável pela altivez do seu porte e pe- 
la audácia do olhar. Era Maurício, nascido 



do casamento de GuUherme com Anna, fi- 
lha do duque de Saxc, e que devia, digno 
herdeiro d'um heroe, continuar gloriosamen- 
te a obra de seu pae. 

Quando o duque dAnjou se sentou, o 
chanceller do Brabante, Dirk de Liesvalat, 
recebeu o seu juramento, prestado sobre o 
Evangelho, de observar as condições com que 
o acceitavam como soberano, deixando a to- 
dos plena liberdade de consciência, e de go- 
vernar, não de maneira arbitraria, mas segun- 
do o direito e a justiça. Findo o que, o burgo- 
mestre lhe apresentou uma chave de prata, 
como signal d'obediencia, e, no meio dos 
applausos da multidão, foi proclamado pelo 
arauto : duque de Brabante. 

Era geral o enthusiasmo, e subiu ao auge 
por uma circumstancia imprevista, que assi- 
gnalou o final d'esta cerimonia. 

No momento em que o duque descia os 
degraus, e em que o numeroso cortejo se ia 
pôr em andamento, uma mulher de edade 
avançada, encostando-se a um rapaz, afas- 
tou as ondas do povo que se aggiomeravam 
aos pés do throno. Quizeram os soldados, 
impcdir-lhe a passagem, mas o duque d'An- 
jou, julgando que a mulher lhe queria fazer 
qualquer pedido^ deu ordem para que a dei- 
xassem approximar. 

— Monsenhor, lhe disse cila, não venho 
pedir nada a V. A. mas fazer-lhc um pre- 
sente. 

— E qual ér perguntou o duque com um 
sorriso de incrédulo. 

— Não ria, príncipe. O presente que lhe 
trago, tel-o-hia offerecido a Guilherme d'0- 
range, se elle tivesse querido guardar para 
si o poder que hoje vos deu, e, acceitando-o, 
elle ter-me-hia agradecido. 

— -O mesmo farei eu. Mas de que se tra- 
ta ? 

— Eis meu filho, monsenhor, disse elia 
apoiando a mão no hombro do rapaz que a 
acompanhava. E um soldado que lhe trago. 
(>hamo-me Jacquelina Héranger ; meu ma- 
rido foi morto, servindo a causa da liberda- , 
de com Henrique de Bréderode. Eu e os 
meus quatro filhos recebemos-lhe o ultimo 
suspiro, e obrigou-me a jurar que educaria 
meus filhos no ódio contra a tyrannia hispa- 
nhola. O mais velho, que mal comprehendia 



I 



DOS JESUÍTAS 



io3 



I 



o que o pac ordenava, jurou sobre o seu 
cadáver que cumpriria a sua ultima vontade, 
e morreu no dia em que morreu outro heroe 
chamado Luiz de Nassau. O segundo de 
meus filhos, morreu como seu irmão ; e ha 
quinze dias disse a este: «Filho chegou a tua 
vez de vingares a morte de teu pae e de teus 
irmãos.» E para isso deixámos a nossa terra, 
Delft, e aqui viemos. Mande-lhe dar armas 
e que seja sempre collocado na primeira fila. 
Deus, que já me levou dois amparos da mi- 
nha velhice, por certo me conservará o ter- 
ceiro filho. Se este succumbir substituil-o- 
hei pelo ultimo, c depois d'este extremo 
sacrifício deixarei a vida, onde já não terei 
senão lagrimas que chorar. Filho, disse 
ella beijando-o nas faces, que tu tornes ou 
não a ver a tua velha mãe, lembra-te 
sempre das suas palavras: «Não poupes o 
teu sangue pela causa que defendes, que é 
a da justiça e a da liberdade. Emquanto um 
único pé hispanhol pisar a terra em que na.s- 
ceste, a espada não deve voltar á bainha. 
Adeus sr. Duque : volto para Delft. » 

Cumprimentou com dignidade, e rctirou- 
se com passo firme, deixando corte e povo 
profundamente admirados. Os bravos reben- 
taram espontâneos, e até o próprio Tacitur- 
no, que nunca deixava ler os seus sentimen- 
tos sobre o rosto, não pôde evitar a com- 
moção. 

Os arautos annunciaram ao som de cia' 
rins a partida do cortejo. O duque e toda 
a nobreza atravessaram a praça, por meio 
das alas compactas do povo. Guilherme ca- 
minhava a pé com as mãos nas costas, como 
era seu costume. N'um momento em que a 
multidão mais os apertava, sentiu que lhe 
mettiam imi papel na mão direita. \'oltou- 
sc rapidamente, mas não pôde descobrir 
quem se approximara d"elle. Leu o papel 
que continha estas palavras: 

«Abandone o cortejo: os seus dias estão 
ameaçados." 

Guilherme caminhou ainda algum tempo 
com a multidão, pensando no mysterioso 
aviso. A morte não o assustava n'um campo 
de batalha; mas temia-a por surpreza, n'uma 
odiosa embuscada; e quanto mais ouvia re- 
soar em torno de si os gritos de enthusias 
mo, mais lhe parecia a cUe também que o 



assassínio era o unico meio que restava a 
um rei que, não tendo podido vencer, tinha 
posto a sua cabeça a premio. Fez signa! a 
seu filho Mauricio de que lhe queria falar. O 
mancebo approximou-se, e Guilherme, sem 
lhe explicar o motivo da ordem que ia dar, 
disse-lhe ao ouvido: 

— Mauricio, vae sem demora dar ordem 
para que se fechem todas as portas da ci- 
dade : seja o que fôr que aconteça, não dei- 
xem sair ninguém. Corre, e vae ter com- 
migo ao palácio. 

Mauricio obedeceu. Alguns minutos de- 
pois, Guilherme com o chapéu puxado para 
a cara, e embrulhado n"uma capa, que seu 
filho lhe deixara, ao partir, aproveitou um 
momento em que ninguém reparava neilc, 
e, tomando pelas viellas, voltou para o pa- 
lácio. 

O dia declinava; os bairros da cidade que 
atravessava estavam silenciosos e desertos; 
apenas de longe em longe algumas mulhe- 
res ou alguns velhos, sentados nos degraus 
das portas, sem pensarem que o homem 
que viam passar como um fugitivo, ou um 
serviçal apressado era o heroe que tinha 
realisado o libertamento de Flandres. 

Fatigado por uma caminhada tão longa e 
rápida, Guilherme descançou um momento 
antes de entrar no palácio. Somente, o ru- 
mor das vozes, que chegavam de espaço a 
espaço, perturbava o soccgo que o cercava. 

Olhou a volta e nada viu. A noite era 
quasi fechada. Ouviu ruido de passos afas- 
tados, e, pela primeira vez. teve medo. Le- 
vou a mão á espada, e, dirigindo-se para u 
palácio, dis.se comsigo: 

— \'amos, quando o leão farejou as ratoei- 
ras dos caçadores, pode chegar ao antro. 

Mal tinha subido os primeiros degraus 
da escada, quando um homem atravessou 
apressadamente o pateo da entrada. E quan- 
do este ia a entrar no corredor, Guilherme 
que estava quasi a sair pela extremidade 
opposta, foi detido pelo intruzo que lhe vi- 
brou uma punhalada. 

— Miseravell grita Guilherme, agarrando 
com força o braço direito do assassino, que 
procurava desembaraçar o punhal das pre- 
gas da capa. No mesmo instante um clarão 
brilha nas trevas, e o príncipe d'Orange 



IJ4 



HISTORIA GERAL 



cae ferido, com o maxillar esmigalhado por 
uma bala, dum tiro dado á queima roupa. 
O assassino esperava poder fugir antes que 
se soubesse do crime; mas Mauricio (que 
tinha seguido os passos de seu pae) inter- 
ceptou-lhe o caminho, c ferindo o ás cegas, 
extendera-o a seus pés. com umas poucas de 
espadeiradas. Aos seus gritos, e ao estam- 
pido da pistola, correram alguns criados com 
luzes. Apesar da gravidade da ferida, e do 
sangue que corria abundantemente, Guilher- 
me não tinha perdido os sentidos. Tivera 
força para ordenar que poupassem o assas- 
sino, e soubessem d'elle quem eram os seus 
cúmplices. Uma tal ordem já era n'aquelle 
momento jdesnecessaria, porque, quando le- 
vantaram o assassino, só encontraram um 
corpo inanimado. 

Km poucos momentos, a noticia do assas- 
sinio do príncipe dOrange se espalhou em 
Anvers, e foi, no meio das alegrias e das 
esperanças do dia, como um raio que caisse 
desse ceu sem nuvens. Ignorava-se o nome 
do criminoso, e já vinte descripções do crime 
corriam de bocca em bocca; e só havia de 
accorde o horror que inspirava. Mas seria 
o crime um acto isolado? Que corações se- 
ria necessário pôr a nu para descobrir o 
pensamento que tinha armado o braço ho- 
micida ? 

Emquanto a multidão tluctuava incerta, 
excitada pela vingança e detida pela duvida, 
um nome foi pronunciado ao acaso, e logo 



as suspeitas se ligaram a el!e, como se se 
tivesse chegado o fogo a um rastilho de pól- 
vora. 

O novo soberano do Brabante, o duque 
d'Anjou, tinha-se já desfeito, diziam, de 
quem lhe tinha dado a coroa, e este primei- 
ro crime não era mais do que o signal para 
um morticínio geral. Esqueciam-se de Fi- 
lippe II e do seu eterno ódio, para não ve- 
rem senão o filho de Catharina de Medicis, 
o irjTião de Carlos IX. O medo tocou o re- 
bate d'uma nova Saiul-Barllidlemi, quando 
se soube que as tropas guardavam as por- 
tas da cidade, e o motim irrompeu berrante 
e impetuoso por toda a cidade. Atraves- 
saram-se correntes de ferro nas ruas, e le- 
vantaram-se barricadas. Homens e mulhe- 
res, velhos e creanças prcparavam-se para 
combater, e não se via em todas as mãos 
senão instrumentos de guerra e de morte. 
O palácio, onde o duque tinha procurado 
um asylo, estava cercado, e a onda popular 
rugia debaixo das janellas. 

Repentinamente a tempestade serenou, 
com a rapidez com que se tinha desenca- 
deado. Soube-se que o príncipe d'Oranje 
não tinha succumbido ás feridas, e que fora 
elle quem mandara fechar as portas da ci- 
dade. 

Mauricio, sabendo o perigo que corria 
o duque, tinha enviado emissários para 
socegarem o povo, e dízerem-lhe que, pelo 
fato que vestia, o assassino parecia hispa- 
nhol. 



DOS jesuítas 




Os jesuítas perante o parlamento de Faris 



io6 



HISTORIA GERAL 



XIV 



Os catholicos do Brabante 



PARA sabermos quem era o assassino, e 
como a religião soubera armar-lhe o 
braço homicida, devemos assistir a uma 
scena que dois dias antes se passou, n'a- 
quella mesma cidade de Anvers ; já toda en- 
galanada para os festejos a que acabamos 
de assistir, e bem longe de esperar que el- 
Ics haviam de ser perturbados de maneira 
tão trágica. 

Km i6 de maio de lõSu, dois homens 
conversavam num pequeno quarto d"uma 
casa em Anvers. Um delles parecia domi- 
nado por uma violenta emoção, por uma 
inquietação extrema; o outro estava perfei- 
tamente calmo. 

— Arruinado, meu padre, arruinado I ex- 
clamava o primeiro. Affianço-lhe que estou 
arruinado, sem recursos, e que só me resta 
mergulhar de cabeça no Escalda. 

Seria uma refinadíssima loucura ir-se 
deitar a afogar I disse o padre. 

K, tomando as tenazes, remexeu o brazei- 
ro, encheu um copo de vinho, e contem- 
plando, com a vista animada pela intempe- 
rança, o colorido do copo, que levara á al- 
tura dos olhos para ver a sua transparência 
com auxilio das chammas do fogão, ajuntou 
antes de beber: 

— .Meu irmão, nunca devemos duvidar, 
nem desesperar da Providencia. Que a von- 
tade de Deus seja feita I Acceitemos o mal e 
o bem como elle no-lo manda. E acabou de 
emborcar o copo. 

— Que o leve o"diabo, mais ás suasjna- 



ximas, respondeu o outro, dando, com tal 
força, um murro sobre a mesa que a garra- 
fa cambaleou, e por pouco que não se par- 
tiu. Sem perder a tranquillidadc, o padre, 
temendo novo murro mais sério para a exis- 
tência da garrafa, despejou-lhe o resto no 
copo, e poz este em segurança sobre a pe- 
dra do fogão. 

Gaspar Anastrc, que assim se chamava o 
homem com quem o jesuita conversava, con- 
tinuou no mesmo tom de mau humor : 

— Vós outros, que passaes a vida a fazer 
cruzes e a resmungar orações, capital que 
rende e não custa nada a adquirir, facil- 
mente vos resignaes á vontade de Deus, por- 
que não temeis que vos abram fallencia ; e 
sempre encontraes um numero suthciente de 
idiotas para vos comprarem absolvições e 
missas. i\las cu, que não vivo d'esses expe- 
dientes, faria uma linda figura, quando os 
meus credores viessem pedir-m.e o seu di- 
nheiro, se dissesse a uns: — Ameii, e a ou- 
tros: Seja feita a vontade de Deus. Podem 
ser bons catholicos mas não acceitam esta 
moeda. 

^Mas, emfim, diz o padre a qLiem a exal- 
tação de Gaspar em nada lhe tinha alterado 
a tranquillidadc, a sua posição não é talvez 
tão feia como a pinta. Sei, que no saque de 
Anvers, ha seis annos, o senhor forneceu á 
sua parte meio milhão para a contribuição 
de guerra, imposta pelos vencedores aos 
vencidos, os quaes, depois de se terem ba- 
tido como_ desesperados, se reconciliaram 



DOS JESUÍTAS 



107 



para roubarem de commum accordo. Mas, de 
então para cá, refez a sua fortuna. Ainda ul- 
timamente saíram três navios seus de Anvers, 
e todos com riquissimos carregamentos. 

— Assim é, redarguiu o mercador com 
ar sombrio, tinha-Ihes confiado tudo quanto 
possuia; eram as minhas ultimas esperan- 
ças, o golpe ousado que novamente devia 
enriquecer-me ou perder-me d'uma vez para 
sempre. 

- ¥. então ? recebeu más noticias ? houve 
tempestades nas costas de França ? Com- 
tudo eu não ouvi falar de nenhum naufrágio. 

— Não é dos mares, nem dos vemos que 
tenho de me queixar, mas d'um homem, 
dum demónio que soprou a revolta e a ruina 
deste pais. 

— E que negocio é esse que se complique 
com os de Guilherme de Oranger 

— -Pois não sabe que meios esse condem- 
nado hereje, que Deus faça soffrer eterna- 
mente I — ia a dizer como V. Rev. : Que 
seja feita a sua vontade I — não sabe que 
meios elle inventou para fazer face ás des- 
pezas de guerra? Pois não teve a astúcia, 
olTerecendo ao duque dAnjou, a soberania 
do Brabante, de obter de Henrique III e Ca- 
tharina de Medicis o estabelecimento d'um 
entreposto em Calais, onde vende, aos que 
navegam n' estas paragens, passaportes que 
são respeitados pelos gueii.x * do mar. 

— Comprehendo, disse o padre, o sr. não 
quiz pagar os dez por cento impostos aos 
hispanhoes e seus partidários, e os seus três 
navios cairam em poder dos piratas. 

— Eis a carta que m'o annuncia. 
Gaspar Anastre tirou do seio uma carta 

que tinha recebido na véspera, toda ella 
amarrotada e suja, como se andasse esque- 
cida n"uma algibeira ha mais de anno. Re- 
leu-a pela centésima vez, e algumas lagri- 
mas lhe cairam sobre o papel, emquanto o 
jesuíta, com os pés chegados ao fogo, enter- 
rado até ás orelhas numa grande poltrona 
estofada, e acariciando o queixo com a mão 
esquerda, saboreava a breves goladas o vi- 
nho que deitara no copo. 



' 1'enomiiijção que tomaram os revoltosos dos 
Paises-Banos, contra Kilippe II, na guerra da inde- 
pendência. 



Anastre levanta-se. Um relâmpago bri- 
lha nos seus olhos, e, esquecendo por um 
mstante a desgraça própria, para não pensar 
senão no ódio contra quem lh'a havia causa- 
do, exclama, batendo no hombro do padre : 

— Seria um crime aos olhos de Deus ma- 
tar Guilherme dOrange ? 

O padre voltou-se, e disse, cravando n el- 
le um olhar perscrutador : 

— Está então disposto a ganhar os oitenta 
mil escudos de oiro que o rei dHispanha 
promettc a quem lhe entregar esse homem 
vivo ou morto ? Não era um mau começo de 
vida. Oitenta mil escudos de oiro I A minha 
opinião é que seriam melhormente emprega- 
dos em pagar as tropas que vivem de pilha- 
gens, como o senhor por demais o sabe. 

O mercador ia a responder, mas a con- 
versa foi interrompida por um grande ruído, 
que se ouviu na rua. 

— O que será isto? perguntou o jesuíta, 
sem se mexer da poltrona. 

Gaspar, que fora á janella e levantara a 
cortina : 

— E o povo, diz elle, que dá berros dale- 
gria e bate as palmas, ouvindo a proclama- 
ção do burgo mestre Shoonhoven, o qual 
promette grandes festejos para depois dama- 
nhã, dia em que Anvers receberá o seu no- 
vo senhor, o duque de Anjou e dAlençon. 
E um bello triumpho para Guilherme dOran- 
ge : já dá e tira coroas. Mas também havia 
risos e folganças em Paris, na véspera da 
Sainí-Bartliélemi ! 

O jesuíta ficou silencioso. 

Gaspar veiu tomar o seu logar ao canto 
do fogão, e abandonou -se apparentemente ao 
seu ultimo pensamento : 

— O sr. falou ha pouco em oitenta mil es- 
cudos de oiro ! e lembrar-me que metade ou 
um quarto d'essa somma me bastaria para 
restabelecer os meus negócios. Tinha muito 
menos, mas muito menos do que isso, ha 
três annos, e agora estava a ponto de me 
reembolsar de todos os prejuízos. Mas actual- 
mente não ha confiança, e todas as bolsas 
estão fechadas. Quem me emprestaria um 
chavo, quando ninguém sabe o que será o 
dia damanhã. Não ha senão um único ho- 
mem em Flandres que tem o segredo de 
se levantar mais forte depois duma derrota, 



loS 



HISTORIA GERAL 



c de SC erguer no pedestal das suas próprias 
ruínas. Quem teria imaginado, durante o 
governo do conselho d'Estado, depois da 
morte de Requesens, que a influencia de Ar- 
chost, dedicado a Fiiippe II, não destruiria 
para sempre a de Guilherme ? Pois ntío des- 
truiu. Ausente c fugitivo soube semear a di- 
visão no conselho, e voltar contra os seus 
inimigos a arma com que o queriam ferir. 
Depois, quando D. João d' Áustria chegou, 
teve-o sempre em cheque com o archi-duque 
Mathias, a quem mandou á missa, depois 
de o ter embarrilado com bellas promes- 
sas, até á morte de D. João. A tomada 
de Maastricht destruiu o seu plano de cam- 
panha, a victoria de Gemblours dispersou as 
suas tropas, e eil-o de volta a Anvers, d'on- 
de o tinham expulsado ; vencido em todos os 
campos de batalha, dispõe dos estados como 
vencedor ; hereje, põe a coroa na cabeça do 
irmão de Carlos IX, filho de Catharina de 
Medicis ! Monstruosa alliança ! terrível eni- 
gma que faz duvidar da sabedoria humana I 
Deve de haver em tudo isto bruxedo, ou pa- 
cto occulto com o diabo. Acredita que pos- 
sam existir taes pactos ? 

— Por certo, respondeu o padre, e extra- 
nho até a sua pergunta, dirigida a um ho- 
mem da minha profissão. Se eu creio em 
Deus, por isso é que também creio no diabo. 

'Onde estaria o merecimento da fé, se o es- 
pirito maligno nos não impellisse para a in- 
credulidade ? O inferno prova o paraíso. 

— Mas então, meu padre, seguindo o seu 
raciocínio, todo o bom catholico devia olhar 
como um dever de consciência ferir o ho- 
mem que tivesse vendido a sua alma ao de- 
mónio ? 

— K certo que uma tal acção é de direito 
ordinário contra um herético, e que se a mor- 
te de um tyranno pôde ser proveitosa aos 
negociospublicos, quemquer que seja o pôde 
matar' \ comtudo não daria a ninguém o con- 
selho de o fazer. Pôde ganhar-se a vida eter- 
na d'outra sorte, que pelo martyrio. 

— Quer isso dizer que não é a acção em 
si que o torna hesitante, mas o medo das 
suas consequências? 



' Soares. D^fe^a da Fé. 



— Se assim fora, parece-mc que não seria 
só eu a pensar da mesma maneira. 

— Tem razão. Ha muitos homens que ali- 
mentam em seu coração o ódio e a vingan- 
ça ; muitos cujo sangue se accende á recor- 
dação d' uma injuria, e cuja mão vae invo- 
luntariamente ao cabo do punhal, suspenso 
á cintura ;'mas esses desejos de vingança são 
estéreis, esse ódio é impotente, porque quan- 
do elles vão para ferir, o medo deteiri-lhes o 
braço. 

— K é desses ? 

— Mas, continuou Anastre, puxando a ca- 
deira para a poltrona onde se conchegava o 
discípulo de Loyola, se se indicasse a um ho- 
mem de coragem, a um homem que, n'um 
caso dado, soubesse arriscar a sua vida, o 
dia, a hora e o logar em que a victima lhe 
seria entregue-, e se eu dissesse a esse ho- 
mem: «Amanhã Guilherme d'Orange deve 
deixar de viver, has-de ir sósinho ao palá- 
cio, c, no corredor escuro que leva ao seu 
gabinete de trabalho, ahi o matarás ; ás por- 
tas da cidade estarão ás tuas ordens os ca- 
vallos precisos para durante a noite chega- 
res ao acampamento do príncipe de Parma, 

'onde receberás o dinheiro promettido aos 
\ingadores do rei e da religião?» Julga que 
o homem a quem tal dissesse consentiria em 
me ouvir, e que o braço que executa se po- 
ria ao serviço da cabeça que pensa ? 

— E todas essas medidas estão já bem to- 
madas? perguntou o padre. Está certo que 
as coisas acontecerão assim ? 

— Tão certo como o homem, que por si 
próprio lançou o veneno na bebida do seu 
inimigo, está seguro que elle morrerá tão de- 
pressa levar a taça aos lábios. 

— N'esse caso, procure um cúmplice. 

— Creio que já o encontrei. 

— Eu sou, como o sr., apenas homem de 
bom conselho. 

— Cobardes ! é o que nôs ambos somos, 
exclamou Anastre. 

N'este momento bateram com violência á 
porta do quarto. O mercador e o padre em- 
pallideceram, temendo ]que a sua conversa 
podesse ter sido ouvida por algum visitante 
inopportuno, e não responderam. Bateram 
outra vez, e uma voz sumida disse : 

— Abra, mestre Gaspar. 



DOS JESUÍTAS 



109 



— Quem é? perguntou este. 

— Sou eu, Ysunco. 

— E um compatriota que me suggeriu a 
idéa, e que me prometteu toda a protecção 
de Filippe II. 

Ysunco entrou, acompanhado de Vanero, 
caixa de Anastre. Vinham elles communicar- 
Ihe qualquer coisa de importante, mas a vis- 
ta do jesuíta deteve-os. 

Percebeu este o enleio, e levantando-se 
disse: 



— Sei que aspiraes ao martyrio pela nossa 
santa fé; que o ceu vos proteja, c receba 
na sua gloria. 

Depois, sentando-se á mesa, escreveu um 
bilhete que deu ao rapaz: 

— Levae este bilhete a fr. António de Ti- 
mermann, um santo frade de S. Domingos, 
que vos confessará e dará a sagrada com- 
munhão e com ella a coragem necessária. 
Ide. 




Jaureguy animado ao assassínio pelo jesuíta 



— Eu vou para o vão d'aquella janella, e 
nada ouvirei. 

Vanero communicou que João Jaureguy, 
mais por fanatismo do que por qualquer re- 
compensa n'este mundo, se encarregava de 
expedir para o outro o de Orange; mas pre- 
cisava que alguém lhe abençoasse a empresa. 

— Se é para o serviço da Egreja, estou 
prompto a isso. 

E logo introduziram no quarto um rapaz 
forte, vigoroso, olhos encovados, no fundo 
dos quaes se adivinhava um mystico e ao 
mesmo tempo um vicioso. 

Ysunco e Vanero sairam, e o jesuita, sem 
mais explicações apresentou o crucifixo a 
Jaureguy, dizendo-lhe: 



Jaureguy na manhã do crime preparou-se 
para cumprir a sua odiosa missão, e foi o 
dominicano que o confessou e lhe ministrou 
a sagrada hóstia, sabendo que crime o seu 
penitente ia commetterll 

O jesuita, perdido no meio do povo en- 
carregára-se de introduzir na mão de Gui- 
lherme de Nassau o bilhete que o attraiu á 
emboscada. 

Quando os amigos do Taciturno levan- 
taram o corpo de Jaureguy, só tiveram que 
transportar um cadáver. Revistando-Ihe o 
vestuário encontraram-lhc papeis pelos quaes 
poderam ir na pista do crime, e prenderam 
\'anero, o caixa de Anastre e frei Timer- 



HISTORIA GERAL 



mann, que confessaram o crime e foram 
executados. 

Guilherme d'Orange, embora se julgasse 
ferido de morte, fez que se perdoassem aos 
seus assassinos as torturas que eram de lei. 

Os dois cúmplices foram estrangulados, e 
os restos dos seus cadáveres esquartejados 
expostos em vários logares da cidade e nas 
suas muralhas. 



Quatro annos depois, quando os hispa- 
nhoes entraram em Anvers, foram esses os 
ossos que vimos os jesuitas irem buscar e 
guardar como relíquias! 

Quanto ao banqueiro Anastre, soube 
fugir a tempo-, e foi já, a são e salvo junto 
do príncipe de Parma, que elle teve noti- 
cia do que acontecera em Anvers a 18 de 
maio. 



I 



DOS jesuítas 



XV 



o assassínio de Guilherme de Nassau 



SE não é fácil estabelecer a parte directa 
dos jesuítas na tentativa que deixamos 
narrada, e se tiveram a habilidade de escon- 
der da historia o nome do amigo de Anas- 
tre, já assim não acontece a respeito do se- 
gundo attentado contra o príncipe de Oran- 
ge, o qual desembaraçou, emfim Filippe II, 
e os filhos de Ignacio do seu mais rude 
adversário. Devemos, pois, narrar, com al- 
guns pormenores, este memorável aconteci- 
mento. 

Guilherme de Nassau sobrevivera á feri- 
da que lhe fizera Jaureguy. O rei dHispa- 
nha, que por momentos se julgou livre do 
seu formidável adversário, bem depressa o 
viu levantar-se do seu leito de sotfrimento, 
mais forte e mais temivel. A mulher 
do príncipe dOrange. Carlota de Bour- 
bon-Montpensier, tendo morrido de dôr e do 
medo que lhe causara o crime, o Taciturno, 
este, para ligar ainda mais a sua causa á dos 
I ctormados de França, casára-se com a filha 
do almirante de Coligny, traiçoeiramente as- 
sassinado em Paris, por occasião da matan- 
ça dos huguenotes. 

Parece que nesta epocha Kilippe II se 
tinha alliado aos Guises, que temiam, com a 
ascensão ao throno do duque dAnjou, vêr 
formar tão perto de França uma soberania 
cujo chefe era o herdeiro presumptivo de 
Henrique III, e'isso animara os príncipes 
lorenos a enviarem aos Paises-Baixos um ho- 
mem de sua confiança o qual, com dois 
golpes vigorosamente vibrados, desembara- 



çasse a Hispanha do libertador da Hollanda 
e os Guises do novo duque de Brabante. 
Escolheram elles para esta missão de san- 
gue um tal Salseda, que fora condemnado 
em Roma a ser enforcado, e a quem o du- 
que de Guise livrara da corda, a fim de que 
podesse dispor d'ellc á sua vontade. Kste Sal- 
seda devia de entrar em Flandres á testa dum 
regimento, que figuraria ir servir ás ordens 
do duque dAnjou e do príncipe dOrange. 
Depois, quando se tivesse insinuado favora- 
velmente no animo dos dois chefes da Hol- 
landa e do Brabante, então procuraria e en- 
contraria uma occasião favorável para lhes 
dar a morte. 

Salseda foi preso mal chegou a Flandres, 
confessou a conspiração e declarou que um 
jesuita o tinha animado nos seus intentos. 
Os depoimentos deste miserável, que de- 
nunciam a alliança que existia entre Filippe 
II e os Guises para entregar toda a Hollan- 
da ao primeiro, e a França aos segundos, 
foram communicados a Henrique III. Mas 
este monarcha indolente não pareceu ligar 
importância ao caso. Quem sabe, talvez, se 
não se lhe daria vêr-se livre de seu ir- 
mão, e se não quereria levar os príncipes 
lorenos a uma rebeldia manifesta? Isto pas- 
sava-se em i.^83. 

Tendo escapado a este perigo, Guilherme 
de Nassau não tardou em se ver exposto a 
outro. Um rico mercador de Flessinguc, cha- 
mado Jansen, formou o projecto, de. por 
meio de uma mipa fazer ir pelos ares o pa- 



HISTORIA GERAL 



lacio. em que o príncipe habitava com toda 
a sua familia. Este no^•o conspirador, em 
casa de quem se encontraram cartas do em- 
baixador de Hispanha em França, foi preso, 
condemnado c executado, em meados dabril 
de 1S84. 

Mal téem passado quinze dias e já o prin- 
cipe de Orange deixa introduzir junto de si, 
e insinuar-se-lhc na confiança, o homem que 
devia realisar o desejo de Filippe II c dos 
jesuítas seus instrumentos. 

Nos primeiros dias de maio de i585, Gui- 
lherme de Nassau admittiu a seu serviço um 
francocontense que lhe fora recommendado 
como um fervoroso reformado, o Hlho d'um 
martyr da nova religião. O verdadeiro 
nome deste homem era Balihasar Geraerts, 
mas pretendia chamar se Guyon, como seu 
pae, executado em Besançon, pela sua cren- 
ça. Diz a historia que exercia a profissão de 
advogado ou coisa que o valha, e era pe- 
queno e feio. 

Geraerts affectava um grande zelo reli- 
gioso ; frequentava assiduamente os templos, 
e nunca ninguém o encontrou sem uma bí- 
blia na mão. Tudo isto, porém, não passava 
de comedia, preludio do drama de sangue 
de que tinha concebido o entrecho. A ver- 
dade é que Geraerts era catholico, como de- 
pois confessou, e que tinha formado o pro- 
jecto de assassinar o príncipe dOrange, le- 
vado a isso pelas exhortaçÕes e animação 
de alguns ecclesiasticos. Já diremos quem 
foram esses indignos ministros de Christo 
O príncipe d' Orange mandou Geraerts a 
França d'onde voltou no começo do mez de 
julho. Foi introduzido sem ditticuldade junto 
do Taciturno, que estava ainda na cama, e 
d"elle soube a morte do duque d'Anjou. 
Geraerts saiu do quarto do príncipe, que lhe 
fez dar algum dinheiro, e o mandou vir 
depois para lhe confiar uma nova mússão. 
Geraerts confessou, nos interrogatórios, que 
n"esse mesmo dia se resolvera a matar Gui- 
lherme , mas que lhe faltou a coragem, 
quando viu que não tinha meios de fugir, 
depois de perpetrado o crime. O Taciturno 
parece que desconfiou de qualquer coisai 
porque, em kj de julho, quando Geraerts 
de novo se apresentou no palácio de Delft, 
não foi recebido pelo príncipe, a quem. 



dizia cJle. queria pedir o seu passaporte^ 
Por volta da uma hora da tarde, depois 
de uma longa demora no patco do palácio, 
Geraerts viu que se approximava (iuilhermc 
de Nassau, que saía para se dirigir ao sena- 
do. Geraerts caminha rapidamente para o 
príncipe, que parece não ter dado por elle 
alli, e descarrega-lhe á queímaroupa uma 
pistola carregada com três balas. 

— Senhor, tende piedade da minha alma 
e deste povo I . . . exclamou Guilherme, sen- 
tando-se ferido de morte. Os seus officiaes, 
vendo-o cambalear, sustiveram-o nos bra- 
ços, e fizeram-o sentar nos degraus da es- 
cada. Sua irmã, Catharina, mulher do con- 
de de Schwarzemburgo, que estava perto 
de seu irmão quando elle recebeu o tiro fa- 
tal, ajoelhou chorando á sua beira, e susten- 
tando nas suas mãos a cabeça do ferido, 
exhortando-o a recommendar-se a Deus, úni- 
co verdadeiro arbitro da vida e da morte. 
Mas o Taciturno já não podia falar, e ape- 
nas fez com a cabeça um signal de acquies- 
cencia ao que lhe dizia a irmã, á qual ainda 
teve força para sorrir. Levaram-n'o logo 
j)ara o seu quarto, deitaram-n'o na cama, 
mas pouco depois expirava nos braços de 
Luiza de Coligny, que foi tão cruelmente 
provada como esposa como tinha sido como 
filha! 

(iuilhermc de Nassau, príncipe d'Orange 
não tinha ainda cincoenta e um annosi 

Assim que a noticia da sua morte se es- 
palhou, um grito de dôr c de raiva subiu ao 
céu. Era a Hollanda que chorava o seu 
libertador, e pedia a vingança da sua morte. 
Comtudo, assim que ferira a sua víctima, o 
assassino tinha fugido, e, aproveítando-se da 
confusão em que todos ficaram, partira 
do pateo do palácio, ganhara as fortifica- 
ções da cidade, e já se preparava para atra- 
vessar o fosso, quando os guardas do prín- 
cipe, que tinham, por fira, ido em seu al- 
cance, se precipitaram sobre elle e o agarra- 
ram sem lucta ; porque o assassino, para 
mais facilmente fugir, tinha lançado fora 
uma ourta pistola, que foi encontrada, e car- 
regada com três bailas, como a primeira. 

Quando o interrogaram, em vez de res- 
ponder ás perguntas que lhe faziam, pediu 
bruscamente papel e tinta, c escreveu uma 



nos jesuítas 



ii3 




Jaureguy e Guilherme de Naeaau 



"4 



HISTORIA GERAL 



declaração, pouco mais ou Incnos foirnulada 
nos seguintes termos: 

• Chamo-me Balthazar Cicracrts, tenho vin- 
te e seis annos e alguns mezes de edade, e 
nasci em ^'illcf^anc no Franco-condado. Fui 
amanuense do secretario do conde de Mans- 
feld, .loão Dupré; e foi por isso que conse- 
gui obter as recommendaçÓes do conde, com 
as quaes procurei ganhar a conliança do prin- 
cipe dOrange. Hade haver seis annos que 
eu concebi o projecto de immolar Guilherme 
de Nassau. Fui levado a isso porque a sua 
realisação me pareceu faria alcançar a alta 
fortuna que, por certo, S. M. Catholica não 
recusaria a quem o libertasse do príncipe 
de Orange. Kstava a ponto de realisar o 
meu intento, quando soube que tinha sido 
antecipado por um homem da Biscaya(Jau- 
regu}'), e foi então que entrei para amanuen- 
se do secretario do conde de Mansfeld. Sa- 
bendo que a tentativa do biscainho não dera 
bom resultado, resolvi experimentar se seria 
melhor succedido. Cheguei a Tréves no mea- 
do de março ultimo. Alli, como os gritos da 
minha consciência começavam a ser-mc im- 
portunos, fui consultar um religioso, com 
quem travei conhecimento, e depois com qua- 
tro outros. Todos approvaram as minhas in- 
tenções, e as disseram abençoadas pelo ccu, 
todos me prometteram a gloria do martvrio, 
se succumbisse em tão santa empresa. 

«O primeiro destes cinco religiosos era um 
jesuíta, o segundo um franciscano de Tour- 
nai ; os outros três, ainda da companhia de 
Jesus. O franciscano chama-se Fr. (icr\-; dos 
jesuítas nunca direi o nome. 

«Munido da approvação destes cinco ser- 
vos de Deus, não tive que hesitar : Guilher- 
me de Nassau caiu aos meus golpes ; e eLi 
não me arrependo do que fiz '.» 

Sujeito á tortura, o assassino renovou a sua 
confissão, e juntou um pormenor importante. 
Confessou que, sendo principalmente com a 
mira nas recompensas terrestres, que havia 
praticado o crime, se tinha aberto com o 
principe de Parma, logar-tenente do rei de 
Hispanha e governador dos l^aises-Haixos, 



' Hisíoire Universelle de J. A. de Thou, livro 
LXXIX. Vide também Basnage, Histoire des Pays- 
Bas, etc. 



e que este, em vez de o repellir, o tinha gra- 
ciosamente recebido, e recommendado a 
Christovafn dAssomvilie, chefe do conselho 
da regência, o qual o animara com pnjmes- 
sas sem conto, e promcttera recompensas 
brilhantíssimas. 

Ualthasar Geraerts foi condcmnado ao ul- 
timo supplicio em 14 de julho. Longe de se 
mostrar arrependido, por muitas vezes re- 
petiu, dizendo : «Que se fosse preciso, para 
conseguir o seu fim, recomeçar mil vezes, 
que outras tanta o faria, quaesquer que fos- 
sem as torturas que hou\esse de solfrer. n 
Assim, quando ouviu a sentença que o con- 
demnava, e.vclamou : «Que era um athleta 
generoso da Egreja romana; que saberia 
morrer como morreram os antigos marty- 
res-, que os tormentos que tinha soffrido o 
remiram de seus antigos peccados ; mas que, 
quanto ao acto que o levava á morte, em vez 
de o ter como uma carga de consciência, o 
considerava como uma boa obra, de excel- 
lente acquisição para lhe abrir o caminho do 
ceu.» Depois assumia modos de inspirado, 
e designava-se como um novo Christo : Hccc 
homo ! 

A i5 de junho de i585, no meio d'uma 
multidão furiosa e impaciente, Balthasar Ge- 
raerts foi conduzido ao local destinado para 
o supplicio. O cadafalso tinha sido levantado 
em frente á casa municipal da cidade de 
Deift. Alli atormentaram o condemnado 
d' uma maneira atroz, segundo a lettra da 
sentença. Primeiramente queimaram-lhe com 
um ferro em braza a mão que commettera o 
crime ; depois arrancaram-lhe com tenazes 
ein fogo as partes mais carnudas do corpo; 
por fim, ainda com cUe vivo, esquarteja- 
ram-o, começando por lhe arrancarem as per- 
nas. Affirma-se que o desgraçado não deu 
um único grito, nem signal algum de dòr, 
não fez uma única contorsão; e só o viram 
persignar-se I Os algozes, furiosos, cevaram- 
se no cadáver insensível e desfigurado ; abri- 
ram-lhe o peito, tiraram-lhe o coração e ba- 
teram lhe com elle na cara, emquanto um 
oHicial de justiça dizia de tempos em tem- 
pos, com voz sepulchrah 

— Lembrae-vos de nosso pae assassinado! 

K a voz da populaça erguia-se amaldiçoan- 
1.1o o assassino, e abençoando a sua victima. 



DOS jesuítas 



Fin;ilmente o executor deu por terminado 
este repugnante espectáculo, cortando a ca- 
beça de Geraerts, e indo coilocal-a, espetada 
numa lança, no alto da torre da parte pos- 
terior do palácio, que fora a ultima moradia 
do defunto príncipe. 

Os ajudantes do carrasco tomaram as qua- 
tro partes do cadáver, e foram pendural-as, 
atadas por correntes de ferro, nos quatro 
bastiões da cidade; e o clero catholico subiu 
logo ao púlpito e enalteceu as qualidades e 
o heroismo do assassino, a quem chamou: 
o novo S. Balthasar. 

Segundo as declarações de Geraerts, fo- 
ram os jesuítas quem o incitaram e anima- 
ram ao crime, declarações espontâneas, e 
que não foram provocadas pela tortura. «Ia 
para o ceu, clamava o desgraçado, porque 
os jesuítas, homens de Deus, lhe tinham 
afRançado que o seu crime lhe abriria de 
par em par a celestial mansão!» 

E é tão certo que foram principalmente 
os jesuítas que animaram Geraerts a com- 
metter o crime, que o rei de Hispanha se 
apressou a encher os reverendos padres da 
HoUanda com os mais importantes favores, 
como quem lhes agradece tel-o desembara- 
çado d'um inimigo tal como Guilherme de 
Nassau *. Era necessário que Filíppe II com- 
pensasse a negra cohorte dos prejuízos que 
a justa indignação dos hollandeses fez sup- 
portar aos filhos de Loyola; os quaes den- 
tro em pouco perderam as esperanças de 
se firmarem como vencedores no solo neer- 
landês. 

Como desforra, tornaram-se ricos e pode- 
rosos no Brabante, e em Flandres. Ainda 
em vida de Ignacio de Loyola, se tinham es- 
tabelecido em Lovaína. Mas então, pouco 



' Filippe Jl concedeu cartas de nobreza á família 
do assassino. O fundador do collegio dos jesuitas 
em l.ovaina, Torrentins, primeiramente bispo de 
Anvers e depois arcebispo de Malines, compoz uma 
ode latina intitulada: In laudem Bullhajaris Gerardi, 
fortissimi tyrannicida' : Em louvor de Ralthazar Ge- 
rard corajoso matador d'um tyranno. Em 15S4, pu- 
blicou-se em Douai : O glorioso e triumphante mar- 
tyrio de Ballha^ar Gerard, acontrcido na cidade de 
Del/t; em Roma, em 1584: Bali. Geraldi Borgondi 
morte e coslan:;a per haver anima j^alo il principe 
d'Orange; em Bergamo, em t5o4: Mii^e Toscane di 
diveríi iiobiliss íh^t^-mí per Gherardo Bor^-ognos, etc. 



OU nada protegidos pela Hispanha, fizeram 
triste figura. Tinham casas em Lovaina e 
em Tournay; mas estas residências não pos- 
suíam rendas, n"ellas viviam daiuguei e as 
escolas não eram frequentadas. Mas com a 
chegada de Filippe II a Anvers tudo mudou. 
Ollereceram-lhes o seu concurso para domi- 
nar os povos daquellas regiões, que o vento 
da Reforma religiosa tinha agitado, e come- 
çavam a querer caminhar para a conquista 
da liberdade civil c nacional. A presença 
dos jesuítas era já tão considerada como 
uma coisa fatal, que assim que se soube em 
Flandres que elles tinham obtido de Filippe 
II a permissão de se estabelecerem, logo as 
universidades, os magistrados, o alto e o 
baixo clero, os concelhos municipaes, e todo 
o pais se levantou para deter os passos á am- 
bição dos filhos de Loyola. O logar-tenente 
de Ignacio cm Flandres, e seu embaixador, 
Pedro Ribadeneira viu os seus esforços nau- 
fragarem em presença duma implacável e 
universal repulsão. 

^'endo isto, os jesuitas fizeram-se peque- 
nos e modestos; e decididos a estarem de 
sobre-aviso para aproveitarem a primeira 
occasião, tão depressa cila se lhe apresen- 
tasse. F]mquanto esperam, com o dinheiro 
que de Roma lhes mandam do thesouro ge- 
ral da companhia, começam a fazer acquisi- 
ção de partidários. O seu espirito d"intriga 
serviu-os ainda melhor que o dinheiro. 

Em i.^òo, um rico negociante de Lovaina 
tinha-lhes dado uma casa. Mas, segundo as 
leis do pais. esta doação, para ser real e 
vállida, devia ter a approvação do Conselho 
d Estado. Dantemão certos duma recusa, 
os jesuitas puzeram em jogo todas as influen- 
cias que os auxiliavam para conseguirem a 
necessária approvação. 

Governava então os Paises-Baixos, Mar 
garída dAustria, filha de Carlos-Quinto, que 
fez saber aos magistrados de Lovaina que 
o seu desejo era ver bem despachada a pre- 
tensão da companhia de Jesus. O principe- 
bispo de Liége deputou dois dos seus có- 
negos, coin a missão de egualmenie apoia- 
rem o pedido dos jesuitas. Mas, ou porque 
o bispo tivesse dado aos seus prebendados 
instruccões secretas contrarias ás. de que os 
encarregara publioameiíle. mi porque esles 



ii6 



HISTORIA GERAL 



cedessem á voz da consciência, em vez de 
falarem a favor dos jesuítas, assignalaram 
com a máxima audácia as consequências 
fataes que resultariam do estabelecimento 
estável dos reverendos padres em Flandres, 
e concluiram, que lhes fosse prohibido pos- 
suírem quaesquer bens. O requerimento dos 
negros roupetas foi indeferido. 

Os jesuítas não se confessaram vencidos. 
E por tal sorte manobraram junto da go- 
vernante, que o marquez de Berghes, em 
nome de Margarida d" Áustria, fez saber aos 
Estados do Brabante que sua ama tinha resol- 
vido ser favorável á pretensão dos jesuítas. 
Depois d'uma viva discussão, os Estados ce- 
deram ; mas concedendo o solicitado privi- 
legio, ajuntaram-lhe taes restricções que 
quasi o annuilavam completamente. Mas que 
obstáculo era isso para os homens das res- 
tricções mentaes ? Os Estados, permittindo 
que possuíssem casa em Lovaina, prohi- 
biam-lhes que abrissem coUegio, e ao mes- 
mo tempo exigiam que a S. J. renunciasse a 
todos os seus privilégios. Os je.suitas com- 
prehenderam que nada custa prometter, e 
prometteram tudo quanto exigiam d'elles. 
Quando os Paises-Baixos .se revoltaram e 
pretenderam quebrar o odioso jugo de His- 
panha, os jesuítas por tal forma secundaram 
as intenções do duque d' Alba, que este som- 
brio e sanguinário ministro de Filippe II 
lhes consentiu que comprassem em Anvers 
uma vasta e magnifica propriedade, c que 
fundassem um seminário jesuítico. 

Este estabelecimento tinha-se já tornado 
considerável, quando, em 1578, os reveren- 
dos padres dalli se viram expulsos; e eis 
como. 

Já dissemos que F^landres e o Brabante 
evitaram pronunciar-se abertamente em fa- 
vor da Reforma, como fizera a Hollanda. 
Os representantes destas regiões — que D. 
João d' Áustria, succedendo ao duque d'Al- 
ba, procurava tornar a escravizar ao jugo 
híspanhol — quizeram até fazer uma mani- 
festação orthodoxa dos seus sentimentos re- 
ligiosos á face da Europa. Para tal, os Pas- 
tados do Brabante assignaram em Gand um 
pacto solenne, no qual estabeleciam as res- 
pectivas posições de Roma e da Reforma na 
Bélgica. Os termos d'esta carta religiosa, 



dando todas as garantias aos protestantes, 
eram evidentemente favoráveis ao catholicis- 
mo, cuja supremacia estabelecia. 'Assim 
pois, os catholicos tratararri de adherir á 
Pacificação de Gand. O archiduque Ma- 
thías, chamado pelos revoltosos, fez renovar 
este pacto em 1578 e ordenou que os diver- 
sos corpos do Estado jurassem acceítal-o e 
mantel-o. O clero brabanção não poz duvida 
em prestar o juramento exigido, e só os je- 
suítas se recusaram. A Pacificação de Gand 
parecia dever trazer a tranquilidade em se- 
guida d independência em Flandres e no 
Brabante ; comprehende-se que os reveren- 
dos padres, por si e pelo seu amo, o rei 
d Hispanha, não podiam acceitar um diplo- 
ma de taes consequências. Tanto fizeram 
que arrastaram os franciscanos para a op- 
posição que estes iniciaram, e sobre os quaes 
lançaram todas as responsabilidades no mo- 
mento do perigo. Esgotados todos os meios 
pacíficos, foi preciso recorrer aos de inti 
mídação, e por ultimo aos da força; e den- 
tro em pouco rebentou uma explosão popu- 
lar. 

Os franciscanos, que n'esta conjunctura 
tmha servido de compadres aos jesuítas, íb- 
ram os que mais sotfreram. 

Tinham elles, diz-se, estabelecido con- 
gregações de mulheres, nas quaes tanto os 
maridos flamengos como os brabanções pre- 
tendiam que o laço matrimonial tinha muito 
a solTrer do cordão de S: Francisco. Eram 
então os franciscanos que mais intolerantes 
se tinham mestrado em publico contra a Re- 
forma. 

Tm dia, porém, todos os maridos, que .se 
julgavam com queixas dos frades, reuniram 
se, e, formando um batalhão algo compacto, 
foram assaltar o convento de S. Francisco, 
onde entraram por assalto. Depois dum 
cerco com todas as negras da arte, sete fran- 
ciscanos foram sacrificados á honra marital 
ultrajada, outros foram açoitados publica- 
mente, e o resto d'elles expulsos. 

Os jesuítas tiveram artes para se arranja- 
rem de maneira, que se puzeram a coberto 
d'este vendaval. Contentaram-se em os pren- 
der em Gand e em Anvers : depois atira- 
ram com elles para bordo d'um navio que 
os levou a Malines e d'alli a Lovaina, on- 



DOS jesuítas 



L'7 



de foram encorporados nos collegios d'es- 
ta cidade. 

Successivamente se viram expulsos de to- 
das as cidades onde rebentou a revolta con- 
tra os hispanhoes ; e por toda a parte clles 
voltaram na rectaguarda das tropas trium- 
phantes do cruel Filippe II. 

Foi assim que entraram em Anvers, 
em Malines e n'outras localidades. Foi á 
sombra das bandeiras d'Hispanha, e muitas 



e ao qual o reitor Baiús conseguira dar um 
brilho e fama universaes. Os jesuítas tanto 
fizeram, que levaram o papa Gregório XII a 
condemnar Baius, pelo grande crime de ter 
na Historia ecclesiastica, de que era conti- 
nuador, censurado os frades de muitos ex- 
cessos, e escripto e sustentado que tal gente 
se náo podia approximar dos altares para ce- 
lebrar o sacrifício da missa saindo dos festins 
orgiacos, ou dos braços das amantes; o que 




Morumento erigido á memoria de Guilherme de Nassa-. 



vezes graças aos machados dos algozes de 
F"ilippe II, que os reverendos padres se es- 
tabeleceram solidamente em Bruxellas, e 
principalmente em Lovaina, onde por mais 
duma vez são accusados de serem elles pró- 
prios que applicam as disciplinas ás suas 
confessadas, a sós com ellas, para que o pu- 
blico não presenceie o religioso espectáculo 
da religião fustigando o peccado... nú em 
pello I 

N'esta ultima cidade, conseguem apode- 
rar-se completamente do ensino universi- 
tário, até então nas mãos dos franciscanos, 



era contrario á doutrina impia dos jesuítas. 

Não poremos ponto neste capitulo, sem 
noticiarmos um facto que tem tanto de hor 
rivel como de inhumano. 

Em iSyo tinham obtido a penitenciaria de 
Roma, e com ella uma inHuencia enorme, e 
não menor copia de proventos. Intervindo, 
como já vimos em todas as intrigas e perse- 
guições do duque d"Alba, denunciam ao tri- 
bunal da inquisição uma menina chamada 
Antónia \'andho\ve, que seguia a religião re- 
formada, e náo conseguindo que ella abju 
rasse... fazem-a enterrar viva! 



Ji8 



HISTORIA GERAL 



XVI 

Cresce a onda 



JÁ mostnimos o fogoso Bobadilha animan- 
do á carnificina os bataliiões imperiaes, 
e banhando- se no sangue dos protestantes 
derramado a jorros, mas não em tanta quan- 
tidade que satisfizesse os jesuítas. 

A planície de Muhlberg não loi o único 
iogar onde eilcs deram o signal da batalha. 
Era preciso que a nova Ordem se distin- 
guisse no meio da turba monachal, acocora- 
da na ociosidade e na impotência. Mas o 
imperador Carlos-Quinto, que sempre des- 
confiou do ardor guerreiro dos jesuítas, ser- 
viu-se o menos que pôde do concurso dos 
reverendos padres. 

Quando este soberano, — dando, pela se- 
gunda vez depois de Diocleciano, o espectá- 
culo d"um imperador enojado do poder, tro- 
cando a paz de obscuro retiro pelos resplen- 
dores ruidosos do supremo mando, — divi- 
diu os seus vastos estados entre seu filho e 
seu irmão, os jesuítas firmaram pé no solo 
germânico. Fernando, o novo chefe do Santo 
Império, mostrou-se-lhes tão favorável, que 
souberam fazer ao successor de Carlos- 
Quinto uma necessidade do favor que lhes 
concedia. 

Foi sob o seu reinado que os jesuítas fun- 
daram, em poucos annos, estabelecimentos 
tão numerosos como ricos e importantes, 
principalmente na Áustria, Baviera, Hungria, 
Polónia. Suissa, Sabóia e até na Suécia. O 
numero dos seus collegíos, seminários e ca- 
sas diversas cresceu de anno para anno ; e 
raro era o dia em que se não viam augmen- 
tar as suas rendas e riquezas. 



E', porém, -forçoso confessar que nestas 
regiões eram simultaneamente chamados 
tanto pelos povos como pelos soberanos ca- 
tholícos; porque tinham a habilidade de se 
apresentarem a uns e outros como defenso- 
res vigilantes da religião ameaçada pelo pro- 
testantismo cada vez mais invasor. Os pa- 
pas também nesta epocha protegiam a S. J. 
com todas as suas forças, porque os seus 
membros se achavam sempre dispostos a 
correr a todos os campos de batalha, e a 
cumprirem as suas menores ordens. 

Por seu lado os reverendos padres não 
poupavam meio algum para actuarem so- 
bre o espirito dos povos. Se os próprios 
historiadores da ordem nos não auctorizas- 
sem a isso, nunca nos atreveríamos a con- 
tar até que ponto os filhos de Loyola leva- 
ram a phantasmagoria dos seus meios. As 
sim, em tal região, são vistos, para attrahírem 
a admiração dos povos ignorantes e fanáti- 
cos, percorrendo as ruas, gritando com voz 
lúgubre e prophetica : 

«Que se abra o inferno para os peccado- 
res e o ceu para os escolhidos!...» N'ou- 
tros sítios, andam nus, e fiagellando-se com 
disciplinas. Seguindo o seu exemplo, insti- 
tuiram-se entre os devotos companhias de 
Hagellantes, que luctam entre si a ver qual 
d'elles ha-de mostrar mais fanatismo, mais 
indecencia e mais loucura I * 



' Ver, entre outros historiadores d'estas extrava- 
gâncias, os jesuítas Oriandini e Sacchini que as 
descrevem. 



nos JEsnn AS 



Km outros países, recorreram a novos 
meios adequados aos caracteres das povoa- 
ções. Assim organisaram mascaradas fúne- 
bres destinadas a lembrar ás multidões que 
todo o homem está sujeito á morte. t'oi-nos 
conservada á descripção d"uma dessas mas- 
caradas, porque não podemos dar outro ou- 
tro nome a isso que o leitor, vae ler. 

Pouco tempo andado que se tinham esta- 
belecido cm Palermo, na Siciiia, os reveren- 
dos lo3'olas organisaram "c hzcram circular 
ao longo das ruas desta cidade a mais ex- 
tranha procissão que se pôde imaginar. Na 
frente via-se um homem nú, ensanguentado 
e parecendo nas vascas da agonia, levado 
por outros homens simulando judeus, c cm 
volta dos quaes bellos rapazes revestidos de 
dalmaticas bordadas, com azas de pcnnas 
brancas nas costas, e com os instrumentos 
da paixão nas mãos, hguravam um coro de 
anjos, emcjuanto que um bando de odiosos 
diabinhos cabriolavam dum para outro la- 
do, perturbando os angélicos concertos, com 
infernaes blasphemias, e afastando a multi- 
dão com fachos resinosos intiammados. Em 
seguida vinha a Morte, num carro forrado 
de negro e puxado por cavallos pretos. Kra 
figurada por um esqueleto livido, odioso e 
por tal forma gigantesco que a caveira ul- 
trapassava os beiracs das mais elevadas ca- 
sas. Na mão direita uma grande foice, e na 
esquerda uma longa enfiada d'espectros en- 
cadeados e gemebundos, que representavam 
todas as edades da vida e todas as condi- 
ções sociaes. De tempos a tempos estes es- 
pectros clamavam em tom lúgubre, pedindo 
d Morte que lhes perdoasse e se detivesse, 
mas a .Morte impiedosa, surda, e muda con- 
tinuava o seu caminho, emquanto um coro 
de penitentes psalmodiava num tom lú- 
gubre cânticos mais lúgubres ainda I. . . 

Quem não reconhece nestas extra\agan- 
cias, ou melhor diremos, impiedades cal- 
culadas o espirito theatral de Ignacio de 
Loyola, e as mascaradas que ainda hoje se 
fazem pelas ruas e praças d aldeia e de cer- 
tas cidades por occasião do que é de uso 
chamar-se missões- , e que outra coisa não 
é senão um pretexto para certas entidades 
abrirem a bolsa, e nella recolherem o que 
muitas vezes \ae faltar para a boroa do po 



bre no dia seguinte? Comprchende-se que 
estas pantomimas idiotas, — que ainda hoje 
ha muita gente que toma a serio — façam 
rir alguns, mas naqueilas epochas causa- 
vam um grande effeito sobre as populações 
meridionaes, ás quaes eram particularmente 
dedicadas. K assim que os espíritos prepa- 
rados por tão odiosas phantasmagorias, es- 
tavam como que envolvidos n'um vcu de 
horrorosas trevas, os jesuítas então chega- 
vam, faziam luzir um consolador raio do 
eterno .sol de celeste beatitude, piomettendo 
salvação, perdão e graças á cidade que con- 
sentia em lhes abrir as portas, lhes dei- 
xava estabelecer casa, abrir collegíos, po- 
voar seminários, e que ab.solutamente se 
lhes entregava, abandonando-lhes a direcção 
das consciências, a orientação dos espíritos, 
o domínio temporal e espiritual ! . . . 

No tempo de Maxímílíano, successor de 
Fernando, os jesuitas viram os seus negó- 
cios seriamente compromettidos na Allcina- 
nha c na Hungria. Maxímílíano mostrou-sc 
mal disposto para com os lo\olcnses; os 
povos, que elle governava, já tinham apren- 
dido á sua custa quaes as virtudes jesuíti- 
cas; e tanto que, nos Estados dAustria, 
que no começo do seu reinado se reuniram, 
os deputados pediram que antes d'outra 
qualquer coisa, os jesuitas fossem expulsos 
do país. Ao mesmo tempo já rugia contra 
elles a cólera cm \'icnna, a tal ponto que 
os magistrados, para a acalmarem, .se viram 
na obrigação de expulsarem desta cidade, 
essencialmente catholica, todos os filhos de 
Loyola. 

O ódio publico aggiomerou contra os je- 
suitas um acervo de accusações, que os de- 
viam esmagar, senão absolutamente, pelo 
menos em grande parte. Baste que digamos 
que os reverendos padres nem a ínnocencia 
dos sáis alumnos respeitavam. Na líaviera, 
ao contrario, e é Sacchini que noi-o diz, fo- 
ram accusados de mutilarem as crcanças 
que recebiam nos seus seminários! Os advo- 
gados da S. J. affirmam que esta accusação 
1i)i unia calumnía, inventada pelos proies- 
lanies, ciosos da pureza dos educandos da 
companhia. O leitor curioso pode ver em 
Sacchini como os jesuitas provaram que um 
dos rapazes, que se dizia terem elics con- 



HISTORIA GERAI 



vertido cm eunuco, estava perfeitamente nas 
condições de ser pae de famiiia. 

Algum tempo depois de se terem estabe- 
lecido em \'alcntina, captaram a conriança 
dum \elho, e na hora da agonia obriga- 
ram-o, sob o terror das penas do inferno, a 
deixar-lhes os seus bens. Os legitimo» her- 
deiros queixam-se, c o governador obriga 
os jesuítas a sairem da região, partindo para 
\'eneza, onde tratam logo de pòr em pratica 
o seu methodo de seducção, apoderando-se 
do espirito das mulheres, como meio de 
dominio sobre os homens. O patriarcha de 
\'eneza, (iio\anni Trevisiani entregou ao se- 
nado da republica as reclamações e queixas 
que lhe tinham chegado de toda a parte a 
tal respeito. Os chefes do sombrio poder 
que governava os venezianos tiveram pro- 
vavelmente medo de ver estabelecer nas la- 
gunas de S. Marcos um poder ainda mais 
machiavelico, mais mysterioso ainda, mais 
terrível e mais concentrado do que o seu. 
Logo em i5õo, poucos annos depois da sua 
entrada em Veneza, os filhos de Ignacio 
de Loyola se viram ameaçados de serem 
expulsos da republica. Eram accusados de 
actos menos honestos com as mulheres ve- 
nezianas, e principalmente com as das per- 
sonagens mais elevadas em nobreza, digni- 
dade ou influencia. O jesuítas souberam apa- 
rar estes primeiros golpes, desviando-os para 
o patriarcha seu accusador, que diziam que- 
rer reunir todo o poder religioso nas suas 
mãos, a fim de poder luctar contra o poder 
secular, e talvez dominal-o. 

Entretanto, a cautella, o Senado foi prohi- 
bindo as mulheres venezianas de irem á casa 
dos jesuítas, como até alli, de os tomarem 
para confessores, e obrigou-os a abandona- 
rem o território dos grisões, infamando-os 
com a accusação de serem: — inimigos do 
evangelho, turbulentos, e homens jror tal 
forma vasios de senso moral que eram mais 
capazes de corromper a mocidade do que 
de instruil-a I 

E pela mesma epocha que atacam como 
eivado de heresia o testamento de Carlos 
Quinto, que nada lhes deixara. Fazem pren- 
der o bispo de Toledo, que tinha assistido 
aos últimos momentos do imperador, e de- 
nunciam á inquisição Constantino Poncc e 



Cacub, pregadores do defunto monarcha. c 
conseguem que o ultimo seja queimado vivo. 

Em Toscana, no monte Pulciano, violen- 
tam mulheres, frequentam logarcs infames. 
O padre (iombard, reitor do collegio, cor- 
rompe as penitentes, e mantém com cilas 
correspondências obscenas *. 

As coisas chegam a tal ponto que os ma- 
ridos vèem-se obrigados a prohibirem suas 
mulheres que os tenham como confessores. 

Em Roma expulsam do seu convento as 
religiosas instituídas pelo marquez des l'r- 
sins, e com a protecção de Pio IV', apodc- 
ram-se dos seus bens, mediante uma renda 
de cem escudos d'oiro *. 

David Wolf, núncio apostólico, fomenta a 
revolta na Irlanda. Filippe II vè-se obrigado 
a prohibir que os jesuítas de Nápoles, man 
dem para Roma sommas consideráveis, ex- 
torquidas por todos os meios. 

Em õ6i, Salmeron é formalmente accu- 
sado de exigir dinheiro aos seus confessados 
a troco da absolvição. Cita-se contra ellc o 
exemplo duma dama a quem clle exigiu e 
obteve mil escudos d'oiro, para a limpar 
dos peccados. Se fosse pobre ia para o in- 
ferno sem remissão nem aggravo, a não ser 
que outro jesuita, vendo que falhava o nego- 
cio com o primeiro, fizesse a limpeza mais 
cm conta. 

Ao mesmo tempo que no colloquio de 
Poissy juraram, para serem admittidos cm 
França, que renunciariam aos seus privilé- 
gios, illudem o papa, e obteem d'clle uma 
bulia que lh'os confirma. 

Em i563, pretendem entregar Joanna de 
Albret e seus filhos á inquisição, para asse- 
gurarem o dominio de Filippe II sobre a 
Navarra. Esta conspiração é descoberta por 
Isabel, rainha dlnglaterra. 

Em 1564, S. Carlos Borromeu rctira-lhcs 
os collegios que lhes tinha dado em a sua 
diocese. Apoderam-sc da egreja dos cóne- 
gos de Augsburgo, e são expulsos da cidade. 



' Depois os veremos condemnados em Portugal, 
pela Inquisição como solicitantes, isto é levando as 
confessadas a cederem ú sua lubricidade, por meio 
da seducção exercida no confessionário. 

^ Era este o processo de desappropriação dos je- 
suítas, mas em geral não pagavam a renda e ficavam 
com os bens. 



DOS jesuítas 




Assassinio do príncipe de Orange 



i6 



HISTORIA GERAL 



Em i665, é solicitada a sua expulsão da 
Hungria, e são recambiados para \'ienna. 

Em 1567, são lançados fora dos coliegios 
de Pamiers e de Tournon; mas acham meios 
de se estabelecerem cm Lyão, Marselha e 
Tolosa, 

Em i5G8. querem introduzir a inquisição 
cm Avinhão, mas o povo amotina-se, e obri- 
ga os magistrados a expulsal-os. 

Em irGq são expulsos de Segóvia, não 
por ódios religiosos, mas por verdadeiros 
crimes de direito commum; ao mesmo tein- 
po convertem-se em soldados e são enviados 
por Pio V contra os calvinistas que cerca- 
vam a cidade de Poítiers ; e onde, como sem- 
pre, são mais instigadores de carnificinas do 
que ministros de religião e paz. O seu empe- 
nho n'estas missões, é impedir que os bel- 
ligerantes cheguem a um accordo que termi- 
ne com o derramamento de sangue. 

Approximadamente pela mesma epocha 
(i566) a negra seita mostrou ás descanca- 
ras, em Sabóia, de que era capaz a sua 
ambição e a sua cobiça. Os filhos de Lo^yola, 
que havia pouco tempo tinham penetrado na 
região, por tal forma se haviam apoderado 
do espirito do duque reinante, que foi elle 
próprio quem convidou Laynez, então ge- 
ral, a mandar-lhe jesuítas para os seus esta- 
dos, afim de tomarem a direcção dos colie- 
gios. Laynez não se mostrou muito azafa- 
mado em satisfazer o pedido do duque, tan- 
to mais que sabia que a Sabóia era um pais 
pobre, e n'aquelle momento havia outras re- 
giões mais ricas a que lançar mão. Por- 
que, note-se bem, nunca se viu um jesuita 
em sitio onde só houvesse que fazer colheita 
d'almas I 

Laynez, apertado peio duque, mandou-lhe 
perguntar com quanto seriam dotados os es- 
tabelecimentos da companhia. O duque res- 
pondeu que os seus Estados eram muito po- 
bres para poderem estabelecer rendas em fa- 
vor da companhia, e que se contentaria em 
lançar uma nova contribuição, cuja impor- 
tância seria applicada á manutenção das ca- 
sas e dos coliegios da sociedade. Mas, fino 
como era, Laynez percebeu que por tal 
meio ficava sujeito a eventualidades, e á 
mercê de outrem, e não acceitou o alvitre, 
mas propoz outro. 



. Por aquelle tempo grande numero de pro- 
testantes de confissões diversas se tinha re- 
tirado para a Sabóia com as suas riquezas. 
Os jesuitas lembraram o sequestro dos bens 
desta gente, em seu favor 

Esteve o duque d'accordo, e tratou im- 
mediatamente de organisar uma expedição 
militar que procedesse d pilhagem á mão ar- 
mada, para cujo soldo concorreu o thesoiro 
pontificio, e a direcção da campanha des- 
poliação foi entregue aos jesuítas. Viu-se, 
então, um dos bons padres, o famoso Pois- 
sevin, d testa dos batalhões saboianos, 
incitando a soldadesca á mais horrível car- 
nificina. Como o papa precisasse de di- 
nheiro para outras empresas, cessou de 
pagar ds tropas do duque; este, sem meios 
para a lucta, diminuiu de enthusiasmo, e os 
jesuitas saíram da refrega com as roupetas 
ensanguentadas, cançados mas não saciados 
de matar gente, e sem os proventos que 
imaginavam. 

Foi também pela força das armas que en- 
traram na Suécia. 

A Suécia pertencia então a Sigismundo, 
rei da Polónia. Como os suecos não qui- 
zessem receber os jesuitas ; attendendo mes- 
mo a que por occasião do seu coroamento, 
Sigismundo tinha jurado aos Estados da 
Suécia que nunca inquietaria os seus súbdi- 
tos por questões de consciência, e que ja- 
mais alli introduziria os jesuitas, Sigismundo, 
faltando á fé jurada, marchou contra a Sué- 
cia á frente das suas tropas, a fim de com 
ellas escoltar os jesuitas. Mas os suecos op- 
puseram-se por tal forma, que bateram as 
tropas jesuíticas, e aprisionaram o próprio 
rei. Convocados os Estados, Sigismundo ju- 
rou que se conformaria com as suas deci- 
sões ; mas, digno discípulo dç Loyola, tão 
depressa alcançou a liberdade, e se viu na 
Polónia, pretendeu que os juramentos feitos 
não o obrigavam, e quíz recomeçar a lucta 
em fa\()r dos jesuitas. D'esia \ ez, porém, os 
polacos recusaram-se a isso. 

Em 1^73, publicam em Mumíel e em In- 
golstad uma apologia da carnificina conhe- 
cida na historia pela: Saint-Barthélemi^. 



'lá em outro labalho— O Calholicismo da Corte 
ao Sertão, estudando largamante este facto histórico , 



£>OS JESUÍTAS 



123 



Em 1574, fazem o panegírico de Henri- 
que III, que, em iSSg, farão assassinar. 

Em 1575 são os primeiros a filiarem-se na 
Liga. 

Em 1576, o jesuita Mojotim é o publico 
amante duma moleira d'Arenay, burgo do 
Poitou. 

Em i58i, Matheus Ricci entra na China, 
e, nos seus sermões mistura com as verda- 
des do christianismo os princípios da moral 
de Confúcio. 

Edmundo (^ampiau, Rodolpho Slicr\in e 
Alexandre Briant jesuítas, convencidos de 
conspiração contra a vida da rainha Isabel 
da Inglaterra, são condemnados á morte co- 
mo réus de lesa-majestade, e executados no 
dia I de dezembro de lõSi. 

Em i582, o jesuita Poíssevín, primeiro 
reitor do collegio dAvinhão, que tinha pre- 
viamente obtido de Manuel-Phíliberto, du- 
que de Sabóia, a admissão dos jesuitas 
nos seus estados, medidas rigorosas con- 
tra os valdenses, e que havia extendído a in- 
Huencia da S. J. no sul da França, toma 
parte na conclusão da paz entre Barthori, 
rei da Polónia, e o czar Ivan IV, desenvol- 
vendo n"esta negociação um notabilissimo es- 
pirito d'intriga. O povo revolta-se contra 
elle, mas Barthori consegue obter do sena- 
do uma egreja para os jesuitas. 

Em 1682, Pedro Coton, discípulo de Bo- 



indiquei a parte]de responsabilidade, que, por acaso, 
os jesuitas nelie podiam ter. 



badilha, ensina casos de consciência em 
Lyão, e tanto os explica e commette que 
uma das suas confessadas tem que dar d 
luz um jesuitinha. 

Em 1584, um inglês, chamado Guilherme 
Parry, obrigado por negócios desastrosos a 
abandonar o seu pais, vae para P>ança e 
faz-se catholico. Passa a Veneza c Milão, 
onde trava relações com o jesuita Palmio, 
que o anima a perseverar nas intenções de 
assassinar a rainha dlnglaterra. \'olta a Pa- 
ris, procura o jesuita Colbert, de cujas mãos 
recebe a communhão : e segue para Ingla- 
terra a procurar os meios de se insinuar 
junto da rainha. Teria, provavelmente con- 
seguido o seu fim, se não fora denunciado 
por um catholico, a quem quizera alliciar 
como cúmplice. Foi condemnado a ser en- 
forcado e despedaçado, sendo executado 
em 2 de março. Confessou, que á excepção 
duma, tinha entrado em todas as conspira- 
ções contra a rainha, como depois mais des- 
envolvidamente veremos. 

Os corsários atacam um navio que vinha 
da Escossia, e o jesuíta Criton, passageiro 
a bordo, lança ao mar uns papeis de que 
era portador. Estes papeis são salvos por 
acaso, e n'elles se encontra a prova d'uma 
raconspíção formada pelo rei dHispanha, o 
papa, e a casa de Guise, para invadir a In- 
glaterra. 

A penna cança, o espírito revoIta-se com 
a narrativa de tanta iniquidade, sacrilega- 
mente commettída em nome de Deus I 



H4 



HISTORIA GERAL 



XVII 



Os jesuítas e a Liga 



VOLVAMOS a França aos tempos pertuba- 
dos da Liga, e ahi encontraremos de no- 
vo os jesuítas armando o braço do assassi- 
no, para fazerem triumphar, por meio d"um 
crime, a causa em que se tinham empenha- 
do. Esse braço assassino encontramo-lo ago- 
ra n'um desequilibrado, n"um frade domini- 
cano que elles têem artes de dominar e con- 
verter em cego instrumento. 

Antes, porém, cumpre-nos dizer algumas 
palavras que resumam o estado politico-re- 
ligioso da França n'um dos mais desespera- 
dos momentos históricos da sua vida nacio- 
nal, para bem se comprehenderem os episó- 
dios do crime. 

Por morte de Carlos IX, tinha subido ao 
throno Henrique III, o filho predilecto de 
Catharina de Medicis. A situação era agita- 
da e difficil, com o país dividido em facções 
suscitadas por melindres da religião, e sem 
estarem ainda apagadas das pedras das calça- 
das as manchas de sangue da carnificina da 
Saint-Barthélemi. Henrique, fraco e sensual, 
fechava os olhos para não ver, os ouvidos 
para não ouvir, e adormecia embalado pela 
indolência e por mil repugnantes voluptuo- 
sidades, de vez em quando interrompidas 
por actos dum arrependimento extravagante, 
taes como essas capuchinadas, que nos pa- 
recem tão extranhas no meio de semelhante 
epocha, e que, comtudo, tão vulgares fo- 
ram '. 



» Sabe-se que Henrique III gostava de representar 
em publico, com os seus [menino», os mysterios da 



Estas condições deviam favorecer os pro- 
jectos dos jesuítas. Trataram logo de se pôr 
do lado da Liga, assim que a viram pode- 
rosa. O papa, que a principio tinha hesitado 
em se pronunciar por ella, tanto assim que 
lhe recusara um breve, dizendo «que não 
percebia bem o assumpto», acabou por lhe 
dar todo o auxilio desejável. Sabe-se que a 
Liga foi na sua origem uma espécie de união 
dos catholícos contra os huguenotes. Os Gui- 
ses, tendo-se feito nomear chefes da união, 
serviram-se desde logo ^'esta arma para lu- 
ctarem contra o rei, quer o quizessem abso- 
lutamente desthronar em favor dos príncipes 
Lorenos, quer somente pretendessem au- 
gmentar o poderio e a riqueza da sua casa. 
Bem depressa rebentou a lucta entre Hen- 
rique III e a Liga. Os jesuítas de França to- 
maram descaradamente o partido d'esta ; e 
um d'elles, o padre Mathieu, foi nomeado 
o Correio da Liga. Era este reverendo que 
se tinha encarregado da correspondência en- 
tre os Guises e o papa, e a sua vida era ir 
e vir de Paris a Roma e více-versa. Os je- 
suítas trataram de mostrar egual ardor. Os 
de Bordéus procuraram fazer revoltar esta 
cidade contra o poder do rei \ o marechal 
de Matígnon, porém, governador da Guianna, 
descobriu a conspiração, mas isso só deu 



Paixão, e que muitos fidalgos tiveram a mesma ma- 
nia Pertencem a este género de exhibições as mas- 
caradas que vimos os jesuítas representar na Si- 
cília, e as procissões grotescas que fizeram os frades 
para excitar o povo de Paris contra Henrique de 
Navarra. 



DOS jesuítas 



is3 



em resultado o serem enforcados alguns 
pobres diabos, que confessaram, antes de 
morrer, que tinham sido excitados pelos je- 
suitas, e que o plano traçado pelos de Loyo- 
la era de apunhalarem o governadora lim de 
intimidarem a guarnição. O marechal deMati- 
gnon, para não deshonrar o clero, ou para 
não augmentar a cólera d'este contra o rei. 



neravel. Tendo-se constantemente opposto 
ao projecto dos conjurados, incitados pelos 
lesuitas, foi por elles agarrado e lançado 
numa prisão. Bem depressa a populaça se 
reuniu e clamou que lhe dessem a morte. 
Kntão, um emissário dos jesuitas, parodian- 
do as palavras de que Pilatos se serviu para 
entreaar Jesus, grita: 




O duque de Gíuiae assaa-sinadc em Eloia 



contentou-se em expulsar os jesuítas de Bor- 
deos, donde sairam para Perigueux e Agen. 
Km 1589, excitam uma revolta em Tolosa 
contra a auctoridade real '. 

P"oi n'esta revolta que pereceu o primeiro 
presidente Duranti, magistrado integro e ve- 



' O historiador De T hou diz formalmente, pelo 
menos no seu manuscripto existente na Bibliotheca 
de Paris, que foram os jesuitas os instigadores d'esta 
revolta. Na obra impressa designa-os pelo titulo de 
novos doutores. 



— Eis-aqui o homem! 

Comtudo, á vista do primeiro presidente, 
os revoltosos param, hesitam. Duranti, per- 
feitamente calmo, pergunta-lhes: 

— Estou por acaso deante de jui/esr Se 
o estou qual é o meu crime r 

Ninguem ousa responder; mas um furioso 
descarrega-lhe á queima-roupa uma pistola 
em cheio no peito, e outros saltam sobre 
elle e o lardeiam com mil golpes. A popu- 
laça lança-se ao cadáver, arrasta-o pelas ruas, 



120 



HISTORIA GERAL 



e despedaça o em boccados. João Estevam 
Duranti tinha introduzido os capuchinhos na 
cidade, e tinha-os albergado em sua casa, até 
que lhes construíram um convento. Com- 
tudo o seu cadáver desfigurado ficou priva- 
do, durante três annos, das honras de se- 
pultura christã e das orações pelos mortos. 
Foram os jesuítas que amotinaram a popu- 
laça contra elle, e fora elle que dera entrada 
aos jesuítas em Tolosa. Exemplo a medi- 
tar. 

Poderíamos dar ainda outros exemplos 
das provas do zelo que a companhia de Je- 
sus desenvolveu pela Saiila /-/íív.?; entre ou- 
tros o seu procedimento para com o padre 
Edmen Auger, confessor de Henrique III. 
Este jesuíta, coisa rara na ordem, julgava 
em sua consciência que devia ser fiel ao 
seu real penitente, de quem, aliás, nunca 
tinha recebido senão deferências e provas 
de favor, chegando mesmo a lembrar a mui- 
tos franceses a fidelidade jurada ao seu so- 
berano. 

Comprehende-se que um tal procedimen- 
to, tão contrario á norma do proceder je- 
suíta, clamava vingança. Os superiores do 
padre Auger afastaram-o da corte, e rece- 
beu ordem de ir a Roma dar conta dos seus 



actos ao geral da companhia. Em caminho 
foi preso, degredado para Víenna e depois 
para Milão. Mas as fadigas e os desgostos 
impediram o honrado velho, quasi octoge- 
nário, de chegar ao seu ultimo exilio, e mor- 
reu em Cannes. 

O padre José Jouvcnci, historiador jesuíta, 
não pôde negar este facto, que mais uma 
vez vem em abono da absoluta falta de 
senso moral nos dirigentes da S. J. 

Entretanto a desordem no reino chegava 
ao seu auge. 

Henrique III, assustado com os progres- 
sos e o poder da Liga e os projectos do seu 
chefe, o duque de Guise, fizera assassinar 
este em Blois. Tal crime não fez senão 
accelerar a queda do throno pelo plano in- 
clinado em que os acontecimentos o faziam 
resvalar. Henrique III, aterrorizado, resol- 
veu recorrer aos huguenotes e ao rei de Na- 
varra, seu chefe, para luctar contra a Liga e 
contra os hispanhoes. A reconciliação reali- 
sou-se; c Henrique III, querendo fazer abrir 
as portas de Paris, de ha muito fechadas 
para elle, permanece em Saint Cloud, onde 
- os dois exércitos se preparam para marchar 
sobre a capital, quando um frade dominica- 
no o assassina. 



DOS jesuítas 



l»^ 



XVIII 



Jacques Clement 



No dia 3i de julho de ircio. Jacques de 
La Guesle c seu irmão, aquelle pro- 
curador geral no parlamento de Paris * atra- 
vessavam a planura de Vanves, tendo no- 
tado por varias vezes um individuo, que 
ora lhes apparecia na branca e longa faixa 
da estrada banhada de sol, ora desappare- 
cia por entre as vinhas que ella ia cortando. 
Repentinamente, do meio d"um vinhedo, 
saltou aquelle mesmo individuo, tantas vezes 
avistado, para o caminho, e a elles viram 
chegar-se um frade dominicano, moço ain- 
da, pallido, magro, e com uma luz sinistra 
no olhar sombrio. 

Os dois pararam os cavallos e fizeram-lhe 
um sem numero de perguntas, para segu- 
rança própria, c por ellas souberam que o 
moço frade se dirigia a Saint-Cloud a fim de 
talar ao rei, a quem ia entregar duas car- 
tas do primeiro presidente Achiles de Har- 
lav, e do conde de Brienne. cunhado do du- 
que d'Epemon. Para maior certeza apre- 



' Jacques de La Guesle, em seguida ao dia das 
barricadas, vendo que a cidade fícára entregue á fac- 
ção dos membros da Liga, que não reconhecia a au- 
ctoridade do rei, tinha procurado sair da capitaL Mas 
fora reconhecido n"uma das barreiras, e levado para 
a Bastilha. O seu captiveiro teria sido de longa dura- 
ção, porque fora designado aos rebeldes como ura 
dos mais tieis súbditos de Henrique IiL Circumstan- 
cias, porém, que a historia não conhece, abbreviaram - 
n'o. Jacques de La (íuesle, posto em liberdade, re- 
tirou-se para uma propriedade que possuía em Van- 
ves, e apressou-se em ir ter com o rei, ent.ío em 
Saint-Cloud. 



sentou um passaporte assignado, no Loiívre 
a 29 de julho de iD9t), em nome de Carlos 
do Luxemburgo. 

Como estava fatigado, acceitou a garupa 
que lhe offereceram no cavallo do irmão de 
•lacques, e, rezando o rosário, assim chegou 
com os dois ao palácio real. 

Jacques Clement nascera na cidade de 
Sorbonne, próximo de Sens, de pães po- 
bres. Natureza má, preguiçoso e dado aos 
vicios levava uma vida desregrada, embora 
educado por caridade no convento dos do- 
minicanos *. 

De ha muito que tinha formado o projecto 
de matar Henrique III, a quem os prega- 
dores em geral, e os da S. J. em particular, 
altamente apontavam ás vistas e designavam 
aos punhaes e trabucos dos bons catholi- 
cos, annunciando que a Kgreja santificaria o 
assassínio do Xero-Sardanapalo^ e que Deus 
recompensaria o seu auctor. De Thou, en- 
tre outros, artiança, que tendo-se dirigido Ja- 
cques Clement a Fr. Bourgoing, prior da 
sua ordem, e que era considerado como ura 
sábio, para saber «se podia em boa con- 
sciência matar Henrique de Valois,» o prior 
lhe respondera sorrindo: «que quando se 
concebiam tão altos projectos, não se pedia 



' Esta opinião e a de De Thou ; outros escriplo- 
res, porém, representam-o como um energúmeno 
sombrio, a quem o ascetismo impellia aos paroxismo 
da exaltação religiosa . 



(28 



HISTORIA GERAL 



conselho a ninguém!» Comtudo, tendo Cle- 
mcnt visitado por muitas vezes o seu supe- 
rior, acabara este por lhe dar esta resposta 
digna de nota: «Se aquelle que quer matar 
Henrique de \'alois não é levado a essa acção 
nem por um sentimento de ódio, nem por 
qualquer motivo de vingança, e apenas por 
um sentimento de puro amor lic Deus, por 
um j'eniadeíro ^elo pelo bem da religião e do 
Estado, elle pode leval-a a efleito sem pecca- 
do; e até essa acção pôde ser muito meriloria 
na presença de Deus, e o seu auctor, se fôr 
morrer no cadafalso, pode coutar que rae 
direitinho para o ceu. 

Mas quem o resolveu definitivamente ao 
crime foi o famigerado jesuita padre José 
Guignard. 

Não nos conta a historia quem indicou 
Clement a Guignard, o eerto é que estando 
íiquelle em oração na cgreja dos jacobinos ' 
Guignard se approximou d elle, e o resolveu 
a uma confidencia, a que o iogar solitário da 
egreja, a obscuridade das naves, trazida pelo 
dia quasi a findar, davam o tom mysterioso 
e enervante d uma confissão. 

Jacques Clement conta a sua mocidade 
violenta, o desejo qui tinha em creança de 
fazer o mal pelo mal, o prazer de arrancar as 
flores dos jardins, os fructos das arvores e 
pisal-os a pés, e o sentimento que tinha em 
saber que flores e fructos não podiam pade- 
cer. Depois tinha sonhos horríveis, visões 
funestas e sanguinolentas. Umas vezes ap- 
parecia-lhe o diabo, ficava acocorado aos 
pés da cama, extendia para elle a sua mão 
negra e de grandes unhas, e o acordava com 
gargalhadas dadas aos ouvidos, que pare- 
ciam sinos dobrando a defuntos. Outras 
era uma visão que se repetia todas as noi- 
tes. 

— Na obscuridade que me cercava, conti- 
nuou elle, eu via vir de longe, de muito lon- 
ge a ponta lusidía d'um punhal que ia avan- 
çando a pouco e pouco ; á medida que se 
approximava, crescia, lançando ura brilho 
extraordinário que me fascinava, e tomava 
a forma d'um punhal sustentado no ar por 



'O nome de jacobinos, dado aos padres dominica- 
nos em França, vem do nome de S. Jacobo, patrono 
da sua egreja em Paris. 



mão invisível. Então a meu lado se desenha- 
va a imagem d'uma coroa real: gottas de 
sangue, que caiam sobre as minhas mãos c 
que sentia correrem-me nas faces, appare- 
ciam sobre a lamina, e assim que eu as viai 
a coroa empallidecia e csvaia-sc nas tre- 
vas. 

Foi então que Guignard, explicando a vi- 
são, lhe declarou que a coroa que elle vira 
em sonhos era a de França, e o punhal o que 
devia ferir o t3ranno. 

•lacques Clement estremeceu. 

— Aconselha-me então o assassínio 1 excla- 
mou elle. 

— Já que o não podemos vencer pela guer- 
ra, c justo que o vençamos pelo ferro, que 
tantas victimas poupará. 

— Sim eu feria, feria sem dó se outrem 
me ordenasse. 

E contou que em outra visão, uma mulher, 
se apoderou d'elle, c noite e dia lhe não dei- 
xava um momento de tranquillidade. 

— Uma mulher da vossa phantasia. 

— Nãol uma mulher com existência real 1 e 
que já vi uma vez. E descreveu o Iogar em 
que a vira, a gente que a cercava, a com- 
mitiva que lhe fazia corte, e concluiu, que 
tal mulher, era um impossível para elle. 

-Quem sabe! não ha mulher impossível 
no mundo, disse o jesuita, retirando-se e 
deixando Jacques entregue ao seu delírio 
erótico. 

Suspeitara o jesuíta quem fora a mulher, 
e no dia seguinte foi ao convento buscar 
Clement, e com elle tomou Iogar na multi- 
dão que se arredava para deixar passar um 
cortejo, a que abria caminho um pelotão de 
guardas italianos. Vinham depois os macei- 
ros e um carro com a duqueza de Mayenne 
e outras duas senhoras. Na frente do carro, 
porem, ia uma outra mulher de pé, dos seus 
trinta e cinco annos approximadamente, mas 
ainda formosa, d'essa formosura que annun- 
cia paixões ardentes, e que substitue o en- 
canto e a frescura da juventude pela expres- 
são de voluptuosídade. Um vestido justo ao 
corpo desenha-lhe as formas arredonda- 
das ; os cabellos encrespados, alevantados á 
moda do tempo, libertam-lhe a fronte, bri- 
Iha-lhe a audácia nos olhos, o desdém res- 
pira-lhe nos lábios, e na mão agita uma the- 



DOS JESUÍTAS 



129 




^aaaal 



SuppliciG do pi-esiiente Erisaon e dos consé. 



L.arcr.e:' ■; larai: Duru 



i3o 



HISTORIA GERAI. 



soira com que se propõe abrir uma tonsura 
de frade na cabeça do rei de França. 

Jacques Clemcnt apertou convulsivamen- 
te o braço do jesuíta. A mulher que uma 
vez vira, e cuja imagem nunca mais deixara 
de o perseguir, era aquella. 

Guignard afastou-o d'alli para fora ; c, 
quando se acharam sós, o jesuíta disse-lhe 
que aquella mulher era Catharina Maria de 
Lorena, duqueza de Montpcnsicr. 

— Maria de Lorena ! Maldito eu seja ! E 
fugiu correndo para o convento. 

K n'essa noite, por volta das duas horas, 
revolvendo-se na sua enxerga, Jacques Cle- 
ment viu avançar a visão das mais vezes, 
mas então, dizer-lhe com voz, que lhe foi di- 
reita á alma : 

— Fere ! Fere sem dó I é a ordem de 
Deus ; e o premio sou eu 1 

Representada esta ignóbil comedia, combi- 
nada com Maria de Lorena e o jesuita dac- 
cordo com o prior dos jacobinos *, Jacques 
Clement recebeu no dia seguinte o passa- 
porte que o deixava sair de Paris, para ir 
cumprir a sua missão de sangue. 

No dia I d'agosto, por volta das sete ho- 
ras da manhã, Jacques de La (kiesle condu- 
ziu o frade até junto do rei. Henrique III, 
apesar da hora matinal, concedeu immedia- 
tamente a visita pedida pelo religioso de 
S. Domingos, pelos quaes sempre teve bas 
tante consideração. 

Estava o rei sentado n"uma poltrona con- 
versando com dois dos seus ofliciaes, Mont- 
pesat de Legnac e João de Levis, barão de 
Mirepoix, quando o procurador geral de La 
Guesle introduziu Jacques Clement, que te- 
ve o audacioso sangue frio de abençoar a 
victima, a um pedido desta, escolhendo com 
a vista o logar do peito em que havia de feril-a. 

— Dizem-me que me quer dar um aviso de 
grande importância? disse Henrique ao frade. 

— A.ssim é, sire, respondeu Jacques com 
voz firme. Esta carta, dum dos vossos me- 
lhores servidores, vos provara a confiança 
que em mim podeis ter. 



' As memorias do tempo chegam a allirmar que 
a princez4 passou o resto da noite na cella de Ja- 
cques Clement. . .! 



— K" uma carta de líricntic. Foi cllc qtic 
vos mandou cá? 

— Não, sirc; foi a vontade do ceu. Hen- 
rique persignou-se. — N'esse caso, continuou 
elle, dizei-me a que vindes, venerável men- 
sageiro. 

Jacques Clement cruzou os braços, em 
signal de quem obedece ás ordens do seu 
soberano; mas, reíilmente este movimento 
tinha por fim asscgurar-se se a navalha, que 
trazia aberta na manga esquerda do habito, 
se achava no seu logar. Ao mesmo tempo 
designava com a vista a Henrique III as pes 
soas presentes, como para lhe fazer comprc- 
hender que desejava falar a sós com elle. 
O rei fez signal aos três que se afastassem 
para o fundo do cjuarto. Jacques Clement 
tinha-se conservado impassível. 

- Approxime-se, meu padre, disse y\i:n- 
riqtie, lançando de novo a vista para a carta 
dapresentação. Diga. 

Jacques Clement appro\ima-se lentamen- 
te, fixando sobre a sua victima o olhar ter- 
rível e fascínador, a mão direita, por um 
gesto ordinário entre frades, escondia-sc na 
manga esquerda do habito. A sua pailídcz 
era tal que parecia um cadáver ambulante. 
De repente, como que uma mancha de san- 
gue se extendeu sobre aquella pallídez livi- 
da, e as narinas dilataram-se-lhe como as 
da fera que tem a presa ao seu alcance. 

— Kntãol disse o rei, erguendo-se um pou- 
co, e sem olhar para elle. 

O frade ínclínou-se, como quem vae obe- 
decer a uma ordem, e logo, com um movi- 
mento rápido, alça o braço direito e vibra 
uma punhalada no baixo-ventre do rei. 

Henrique dá um grito, leva a mão ao si- 
tio em que se sente ferido, encontra o cabo 
da arma, e arrancando-a da ferida, fere com 
ella o assassino no sobrolho esquerdo. N'este 
momento de La Guesle, tendo-se precipi- 
tado ao grito do rei, fazia recuar o frade, ba- 
tendo-lhe com o punho da espada, emquanto 
os outros, vendo cair o monarcha, o tres- 
passaram com as espadas de lado a lado. 

Jacques Clement não procurou fugir, nem 
defender-se. Tendo ferido Henrique, cruzou 
os braços sobre o peito. Derribado por de 
La Guesle, ferido pelos golpes de Montpesat 
e Levis, não deu um grito, e continuou a 



DOS jesuítas 



i3i 



cravar na victima o seu olhar infernal, que 
dentro em pouco se apagou n'uma onda de 
■~angue '. 

Os médicos julgaram ao principio que a 
lerida não era mortal, mas dentro em pou- 
co perderam as esperanças. N"essa mesma 
noite annunciaram que o rei tinha poucas 
horas de vida. N este momento supremo, 
Henrique encontrou toda a firmeza e cora- 
gem de que outr'ora dera mostras, antes 
que os prazeres o effeminassem e as ridí- 
culas superstições o pervertessem. Kncarou 
a morte sem medo; confessou-se ao seu 
confessor, e, antes de receber a absolvição, 
disse : 



' Foi, depois, ao seu cadáver mudo que pediram 
contas do crime Foi processado, condemnado, es- 
quartejado por qualro cavallos, os restos queimadosi 
e as cinzas lançadas ao Sena. 



— Como filho mais velho da Hgreja ca- 
tholica apostólica romana, quero morrer co- 
mo tal. 

Em recompensa, esta mesma Egreja san- 
tificará o seu assassino ! Depois recebeu os 
sacramentos, e tendo feito entrar no seu 
quarto todos que quizessem vel-o, prohibiu 
que vingassem a sua morte, tendo apren- 
dido em creança, disse elle, que Jesu-Christo 
manda perdoar aos que nos offendem. E, co- 
mo a seu lado se achasse Henrique de Na- 
varra, accrescentou : 

— \"isto que morro sem filhos é a elle a 
quem deveis reconhecer como chefe. 

Sentindo que as forças o abandonavam, 
recitou o Credo com voz enfraquecida, e 
morreu, pelas duas horas da tarde do dia 
2 de agosto, murmurando o quinto psalmo 
penitencial, com trinta e oito annos de eda- 
de e quinze de rei. 



l52 



HISTORIA GERAL 



XIX 



Paris vale bem uma missa 



Oattentado de Jacques Clement foi pu- 
blica e solennemente glorificado e exal- 
tado nas egrejas. O papa Sixto V não se pe- 
jou de lhe fazer o elogio. O successor de S. 
Pedro, esquecendo os preceitos do divino 
Redemptor, de que se diz vigário e repre- 
sentante na terra, não temeu ser apologista 
do assassino, que comparou a Judith, e a 
Eleazar. Animado pelo odioso exemplo do 
chefe do catholicismo, o clero francês, tanto 
secular como regular, fez de Clement um 
santo e um martyr, que teve estatuas, capei- 
las, rezas e devotos! 

Por seu lado, o duque de Mayenne, nas 
cartas que se apressou em expedir para to- 
da a parte, depois da morte de Henrique III, 
tratou de fazer pesar toda a responsabilida- 
de do crime sobre o seu auctor e seus con- 
frades. Falava do conselho que Clement ti- 
nha pedido ao prior do seu convento ; da 
maneira como este conselho fora dado; da 
obsecação de Jacques em matar o rei ; mas 
nem palavra sobre a intervenção, e talvez 
prostituição da duqueza de Montpensier 
por meio do padre Guignard 1 ! 

Em Tolosa, onde os jesuítas eram omni- 
potentes, fizeram com que o parlamento de- 
cretasse orações publicas, festejos e procis- 
sões para festejar a morte de Henrique 
III. Já vimos como aqui elles tinham feito as- 
sassinar o presidente Duianii, que aliás fora 
seu protector. 

O famoso padre Mariana, entre outros, 
recordando o crime do dominicano, que 



qualificou de empresa insigne e maravilliosa, 
ousou escrever: que elle considerava Jacques 
Clement como a honra da França! Bem de- 
pressa veremos, em relação a outra empre- 
sa insigne e maravilhosa, — esta toda inteira da 
responsabilidade da S. J. e executada por um 
dos seus filhos, — como os jesuítas, vendo cor- 
rer o sangue de Henrique III, apenas lamen- 
taram: que o golpe não tivesse sangrado de 
vez todo o sangue real da França ! 

Henrique III foi um triste rei, um mau 
príncipe, como foi toda a ninhada saida da 
loba liorentina. Tomou, com seu irmão Car- 
los IX, parte odiosa na carnificina de Sainí- 
Barthélemy ; todos conhecem a sua vida de 
deboches, interrompidos por mascaradas de 
penitencias burlescas; mas professou sem- 
pre um grande respeito pela religião christã 
e pelo dogma catholico, e tanto, que ainda 
no seu leito de morte, apunhalado por um 
padre, declarava submetter-se humildemente 
á vontade do papa, que horas depois havia de 
íazer do alto da cadeira de S. Pedro o elo- 
gio do seu assassino! Pois apesar de tudo 
isto, o seu castigo não devia vir das mesmas 
mãos que se dizem as únicas habilitadas a 
sustentarem Deus nos seus dedos I 

Os jesuítas aproveitaram-se das perturba- 
ções horrorosas que então rasgavam o seio 
da França para se irem introduzindo por 
toda a parte. Ainda em vida de Henrique 
III, tinham feito pacto e causa com o duque 
de Mayenne e a parte da Liga que reconhe- 
cia este como seu chefe. 



DOS JESUÍTAS 



l33 



Por morte Jo ultimo dos Valois, a coroa 
de França vinha de direito ao rei de Navar- 
ra, que desde então se chamou Henrique 
IV. Os da Liga pretendiam que este princi- 
pe, que havia renunciado a fé catiiolica, de- 
pois de a ter abraçado, — para se livrar da 
mortandade da Saint-Barthélemy — tinha por 
este único facto perdido os seus direitos ao 
throno. Mas, se n'este 
ponto, os membros da Li- 
ga estavam todos d'accor- 
do, divergiam, porem, so- 
bre quem devia succcdcr- 
Ihe no throno. Uns que- 
riam substituir a familia 
Valois pela de Lorena, c 
eram principalmente os 
nobres que apoiavam esta 
protecção ; outros, o povo 
ou antes a burguezia, prin- 
cipalmente a de Paris, ten- 
dia para uma republica de 
forma oligarchica, que lhe 
permittisse conservar o po- 
der em suas mãos ; c um 
terceiro partido, apoiado 
no dinheiro, pretendia fa- 
zer recair a coroa na ca- 
beça do rei d'Hispanha. 
A facção dos Z)f ^fsm' aca- 
bou por ser d'esta opinião. 
Foi a este ultimo partido 
que os jesuítas se ligaram. 
Parecendo na apparencia 
que trabalhavam pelos 
príncipes de Lorena, na 
realidade todas as suas 
forças estavam empenha- 
das no serviço do rei dHispanha, por cal- 
culo ou por gratidão, qualidade, aliás, pouco 
commum em alma jesuítica. E evidente que 
se Filippe II fosse rei de França, dei.xaria 
que os reverendos padres de Loyola tomas- 
sem parte grande na carniça, em que elle 
teria o melhor quinhão. 

Emquanto esperam melhores tempos vc- 
mol-os tomar parte em todos os movimentos 
que se manifestam. 

' Assim chamada por ser composta por dezeseis 
membros, cada um delles influentíssimo nos deze- 
seis bairros de Paris. 



Parece-nos conveniente notar que os je- 
suítas, alliando-se aos amigos de Hispanha. 
pouco se importavam com isso serem desa- 
gradáveis ao papa, n'aquelle momento pou- 
co alTeiçoado aos híspanhoes, o que mais uma 
vez prova, que a falada obediência dos je- 
suítas ao papa só existe quando os dois in- 
teresses se conjugam, até que um dia virá 




• Yieâo íe Jacques Clement 

em que os papeis se invertam, como actual- 
mente acontece, e que sejam os jesuítas que 
imponham a obediência ao pontífice. 

l^lippe, por mais d'uma vez se lamentou de 
que Sixto \' protegesse a causa dos prínci- 
pes de Lorena, e os escriptores assalariados 
pelo rei d' Hispanha, entre outras accusações 
ao papa, punham sempre em frente a de ser 
feiticeiro. Diziam que Sixto W, cm troca da 
sua alma e do seu corpo vendido ao demó- 
nio, tinha obtido deste seis annos de ponti- 
ficado. Infelizmente o papa morreu ao quin- 
to, o que deixou (icar por mentirosos os 



ii4 



HISTORIA GERAL 



pamphlctarios, ou fez suspeitar que o diabo 
roêra a corda no contracto. Mas o mais cu- 
rioso é que, para justilkarcm a perda da- 
quclle anno, atlirmavam que, queixando-se o 
papa já moribundo ao diabo daquella falta 
de lealdade, este lhe recordara, que no co- 
meço do seu pontificado, o papa quizcra fa- 
zer condemnar á morte um mancebo d'uma 
família patrícia de Roma, e como este re- 
clamasse, allcgando que as leis não permit- 
tiam dar a morte a quem ainda não tivesse 
completado uma certa edade, o papa dissera 
«que lhe dava um anno da sua vida para 
completar o que lhe faltava para poder su- 
bir ao cadafalso;» pelo que o fidalgo foi 
enforcado. 

— Como tudo se paga n"este mundo, 
concluía philosophicamentc o diabo, eis por- 
que levo agora o anno que me pertence. K 
carregou com o papa para o inferno I 

( )s jesuítas, que n'aquella epocha eram in- 
cessantes escrevinhadores, deixavam correr 
o libello contra o papa; se é que não foi al- 
gum d'elles que lhe deu curso. 

Entretanto Henrique IV, sustentado pelos 
huguenotcs e pela maioria dos fidalgos, oífi- 
ciaes e magistrados cathoiicos, que se ti- 
nham conservado fieis a Henrique III, quíz- 
se aproveitar da confusão que reinava en- 
tre os seus inimigos, cujas ambições se de- 
gladiavam aos pés do throno vago. Para não 
serem opprimidas pelo seu activo antago- 
nista, as diversas fracções da Liga approxi- 
maram-se entre si, e como nenhuma delias 
julgava poder deixar cair a mascara, e pa- 
tentear as suas vistas ambiciosas, concorda- 
ram desenrolar uma bandeira a que momen- 
taneamente se acolhessem, c reconheceram 
solennemente como rei de França e legitimo 
successor de Henrique III, um pobre velho 
sem energia e sem valor, o cardeal de Hour- 
bon, então prisioneiro. 

O parlamento de Paris, por um diploma 
de 21 de novembro de i58(), adjudicou a 
coroa de França a esse manequim de rei, 
que foi proclamado com o nome de Car- 
los X. O cardeal Caetano, legado do papa 
em França, e que tinha recebido do pontí- 
fice, por essa occasíão, auctoridade para i'lÍí- 
ficar e abater, plantar c arrancar, consagrou 
a pretendida realeza do cardeal de Bourbon, 



na apparencia, mas no fundo não quiz se- 
não consagrar a omnipotência papal e o seu 
direito a dispor das coroas. Encontra-sc em 
De Thou uma particularidade que merece 
ser assignalada. No parlamento, o legado 
quiz tomar logar debaixo do docel destinado 
para o rei, e onde não se admittia que nin- 
guém se sentasse, visto que o pobre Car- 
los X continuava sendo prisioneiro de Henri- 
que IV. Foi preciso que o presidente Hrisson 
agarrasse no braço de sua eminência c o 
impedisse de se sentar debaixo do docel real, 
O rei d'Hispanha reconheceu por sua vez a 
realeza risivel do cardeal, n'um manifesto 
em que pedia aos fidalgos cathoiicos que o 
fizessem também, para libertarem o solo da 
França dos hercjes, e poder depois ir ex- 
pulsar os intieis da Terra Santa. 

Henrique IV respondeu a tudo isto por 
uma série de conquistas que terminou trium- 
phalmente na batalha de Ivry, onde o du- 
que de Mayenne foi vergonhosamente batido. 
Bem depressa Paris viu o Bearnês trium- 
phante chegar ás suas muralhas. 

Aqui, a situação era desesperada. Para 
fazer diversão á fome, que começava a sen- 
tir-se, os chefes da Liga imaginaram novas 
procissões. Mas taes mascaradas não davam 
pão ao povo. Km vão o legado prodigalisava 
as indulgências, em vão os jesuítas e outros 
religiosos se esfalfavam no púlpito anathe- 
matisando Henrique IV; nada remediava os 
males. Proclamousc ao som de trompa que 
todos os que tivessem trigo para mais de 
dois meses, levassem o excesso ao mercado. 
O legado e o cardeal Gondi, bispo de Paris, 
concederam permissão para que se fundisse 
a prata das egrejas, com excepção dos va- 
sos sagrados necessários para as missas ; 
mas a fome augmentava sempre. O povo 
reunido nas praças publicas pedia pão com 
urros de fera. Os prelados, por proposta do 
duque de Nemours, ordenaram uma visita ge- 
ral em todas as communidades religiosas e 
ecciesiasticas, e que depois, pelo que se encon- 
trasse, se regularia a ração a dar d'esmola. 

\'aradc, reitor do collegio dos Jesuítas, 
pediu ao legado para ficar exempto d'esta 
visita. Mas o preboste dos mercadores op- 
poz-se com toda a energia, e disse-lhe na 
presença da assembléa dos prelados: 



tx)s jesuítas 



t35 



— Senhor reitor, o slu pedido não é de 
cidadão nem de christão! Por que ficaria o 
senhor exempto dessa visita? A sua vida 
vale mais do que a de qualquer de nós? 

Não havia que replicar. Varade submet- 
teu-se, e no collegio dos jesuítas foi encon- 
trada uma provisão de trigo, aveia, biscoitos 
e carne salgada para mais de um annolll 

Deram-se alguns soccoros aos pobres du- 
rante quinze dias. Tinha-se já dado caça a 
todos os cães e gatos da cidade, que eram 
cozidos em grandes caldeiras, com hervas 
e raizes, e todas a manhãs, na praça publi- 
ca, fazia-se a distribuição deste caldo, ao 
qual SC juntava um pedaço de carne daquel- 
les animacs e uma onça de pão para cada 
pessoa. 

Paris estava ainda longe de presenciar to- 
dos os horrores da fome e todas as vilanias 
da politica e ódio dos partidos. 

Como se tivesse formado na Liga uma 
outra facção para dar a coroa ao .sobrinho 
do cardeal que fora eleito rei, e que já 
tinha morrido na sua prisão de Fontcnoy, 
esta facção abandonou o duque de Mayenne 
e collocou á sua frente o jovem duque de 
Guise. Numa manhã fria de novembro pren- 
deram o primeiro presidente Brisson a que 
ja nos referimos, e (Cláudio Larcher, conse- 
lheiro do mesmo parlamento, e J. Tardif 
Duru, conselheiro no Chatelet, cujo crime 
era o de serem contrários ás ambições de 
uns e outros e desejarem a tranquillidade 
da França ! Os ife^esm apoderaram-se de 
Hrisson, arrastaram-o, sem outra forma de 
processo ao Petit-Chatelet e ahi o enforca- 
ram. Os outros dois magistrados tiveram 
a mesma sorte. Alguns amigos tiraram os 
cadáveres do patibulo, durante a noite e de- 
ram-lhcs sepultura. 

Sabe-se como Henrique I\', arim de tirar 
todo e qualquer pretexto á Liga, e julgando 
que IKvis valia l\-ni uma wissa, abjurou so- 
lennemente a religião protestante em S. Di- 
niz, e se fez filho da Egreja catholica apos- 
tólica romana, que vae, apezar isso, conti- 



nuar a perseguil-o, ate que o veja morto. 

No domingo, 23 de julho de iSyS, entre 
oito e nove horas da manhã, o rei todo ves- 
tido de branco, salvo a capa c chapéu que 
eram pretos, acompanhado de grande nu- 
mero de principes, nobres, oHiciaes do pa- 
lácio, pelos suissos da sua guarda, e ou- 
tros soldados e magistrados, precedido de 
doze trombetas, foi conduzido á abbadia de 
S. Diniz. As ruas viam-se decoradas com 
colgaduras, e juncadas de flores, e o povo, 
apezar da prohibição do núncio, corria cn- 
thusiasmado e gritava : viva o rei I 

A porta da abbadia esperava o monarcha 
o arcebispo de Bourges, cercado dos princi- 
paes bispos da Franca, e dos religiosos do 
mosteiro. Quando Henrique se approximou, 
o arcebispo perguntou: 

— Quem sois? 
Henrique respondeu: 

— Sou o rei. 

— O que pedis? 

— Ser admittido no seio da I-'greia catho- 
lica apostólica romana. 

— E assim o quereis deveras? 

— Assim o quero de todo o meu coração. 
E pondo um joelho em terra disse em alta 

voz: 

— «Protesto e jun) na presença de Deus 
todo poderoso de viver e morrer na religião 
catholica, apostólica, romana, de a proteger 
e defender contra todos, á custa do meu 
sangue e da minha vida. renunciando a 
todas as heresias contrarias a mesma Egre- 
ja.» 

F. ao mesmo tempo, entregou uma profis- 
são de fé escripta, foi introduzido na egre- 
ja, ahi renovou a profissão de fé, e assistiu 
ao Te-Deum e outros actos religiosos. 

Depois, á tarde, subiu ao altode.Montmar- 
trc a dar graças a Deus, no mesmo sitio d'on- 
de Ignacio de Lojola enviara os seus compa- 
nheiros á conquista do mundo; mal descon- 
fiando o convertido, que naquclle mesmo 
momento os jesuítas juravam a sua perda. 
e tramavam a sua morte. 



i36 



HISTORIA GERAL 



XX 



Pedro Barriére 



NUMquarlu retirado do collcgiodobjcsuitas, 
na quinta-fcira_i8 dagosto de iSgS, esta- 
vam cm conferencia secreta o padre \^ara- 
dc, reitor do collegio, e o padre João Gui- 
gnard professor de theologia, cuja figura 
ja vimos atravessar o drama que levou á 
cova Henrique III, c au patíbulo Jacques 
Clement '. 

A conferencia versava sobre a abjuração 
de Henrique de Navarra, que tinha dado um 
golpe mortal á causa da Liga, em que eram 
os mais acérrimos sequazes os jesuítas e os 
capuchinhos seus alliados. 

A situação era grave por quakjaer lado 
que se encarasse para a Liga, e, na opinião 
dos dois )esuitas, só havia um remédio radi- 
cal e era que: assim como Henrique III ti- 
nha saido de Paris e nunca mais lá voltara 
o mesmo succedesse a Henrique I\'. 

— Pois sim, replicou Varade, mas Jacques 
Clement também morreu. 

— -Mas não, por certo, o espirito que u 
animava. 

— E haverá outro que queira cingir a co- 
roa do martyrio ? 

— Há. K Pedro Barriére. 

— K quem vol-o disse ? 

— Christovam Aubr}', o mesmo que lhe 
recebeu as confidencias. 



' Comquanto nos permitíamos dar por vezes uma 
forma menos didáctica a esta successãode,'factos, fa- 
zemolo para imprimir uma certa vida a esses factos 
que nem por isso deixam de ser rigorosamente his- 
tóricos e comprovados por um grande numero dos 
mais insuspeitos testemunhos. 



() cura de 'SaiiilAiiarc dcs .Ires!'' 
Esse mesmo. 
E quando o viu ? 

— Hontem. Barriére chegou hontem a 
Paris vindo de Lyão, e a primeira coisa que 
pediu ao locandeiro que o hospedou, foi que 
lhe indicasse quaes eram os pregadores mais 
dedicados ao partido da união. 

\'arade ia pedir explicações mais preci- 
sas a Guignard, quando este lhe declarou que 
'Barriére estava no collegio e elle próprio as 
daria. 

Momentos depois, Barriére era introduzi- 
do, e ^"arade ficava a sós com elle. 

Era um mocetão dos seus vinte e sete an- 
nos, alto respirando força, e pouco á von- 
tade dentro nas vestes burguezas com que 
vinha vestido. 

O jesuíta, hypocríta e hábil em lèr na al- 
ma alheia, recebeu Barriére com humilda- 
de, mas logo adivinhou n'elle uma natureza 
na qual toda a energia vinha da força phy- 
sica mais que da intelligencia , que se entre- 
gava sem freio ao estimulo das paixões, e 
que seria muito fácil dominar. 

Barriére entregou ao jesuíta a .seguinte 
carta dappresentação: 

«Pedro Barriére, que lhe appresentará 
este bilhete, já me abriu o seu coração. 
Ouça-o pois, de confissão, socegue a sua con- 
sciência, destrua os seus escrúpulos, e que 
Deus dê ás suas palavras eloquência e per- 
suasão.» 

« Chrislovain Aubry. » 



DOS JESUÍTAS 



.37 



— E a melhor rccommendação que me 
poderia trazer. A heresia não conta maior 
inimigo que esse santo sacerdote que lhe 
deu esta carta. Sente-se. 

— F/ de joelhos que eu lhe quero lalar, 
meu padre. 



— Chama-se Pedro Barrière, se me não 
engano, a sua vinda aqui tem mais por fim 
contar-me a sua vida, as suas inquietações, 
os seus escrúpulos, do que pedir-mc a re- 
missão d'uma falta. 

— KtVectivamentc não me accusa a con- 




Jacques Clement assesaina Henrique III 



— Seja assim. K levantando-se foi com elle 
para o canto mais escuro do quarto, para junto 
da porta por onde Guignard tinha saido. 

— Estamos sósr 

— Absolutamente. 

O mancebo ajoelhou aos pés do jesuíta, 
e a confissão começou. 



sciencia nenhum grande peccado. Mas a idéa 
dum assassinio atormenta-mc a toda a hora. 
I)iga-me: haverá casos em que o crime de 
morte seja legitimo? 

— Para responder a essa pergunta preciso 
primeiramente conhecer o estado da sua al- 
ma. Kaie-me sem reservas. Onde nasceu? 



i38 



HISTORIA GERAL 



— l'.m Orleans. 

— Que profissão é a sua ? 

— Tenho sido soldado, e fiz a guerra no 
Lyonnês ás ordens do sr. de Albigni. 

— E bateu-se ? 

— Bati, meu padre. 

— K deu a morte a seus inimigos no cam- 
po da batalha? 

— Muitas vezes. 

— E sentiu remorsos ? 

— Nunca. 

— Parece-lhe então que por vezes a morte 
pode ser legitima? 

— Defendia a minha vida. Mas se me não 
atacarem ? 

— Parece ao contrario que a sua vida 
anda ameaçada, visto que taes projectos for- 
mou. 

-Não sou eu que estou cm perigo. 

— Quem é, então? 

-E' a santa causa da religião; e se por 
essa causa eu commettessc um crime, vossa 
reverencia dava-me a absolvição? 

— Conforme fosse o crime. 

E Barrière contou que era filhcj dum bar- 
queiro, que o pae tinha morrido afogado, e 
que elle, sem outros meios de vida, seguira 
a profissão de seu pae; mas tão depressa 
sua mãe, de quem era o amparo, morreu, 
sentara praça. — Ha alguns annos, continuou 
elle. fiz parte d'uma expedição mandada 
pelo defunto duque de Guise, para libertar 
a rainha de Navarra, que o rei tinha confiado 
a guarda do marquez de Canillac. A em- 
presa teve bom êxito. Margarida readquiriu 
a sua liberdade, mas eu perdi a minha, por- 
que fiquei preso damor por uma mulher 
que estava no segredo da fuga. Durante al- 
gum tempo, acreditei que ella gostava de 
mim, e de momento a momento esperava 
desposal-a. Mas convenci-me de que fora illu- 
dido, e que só me podia vingar, pelo esque- 
cimento, da sua perfídia. Eoi, pois, desde 
então que o desespero se apoderou de mim, 
e que sinto a necessidade de libertarme d elle 
pelo quer que seja de violento. Eis por que 
imaginei um assassínio. 

— E, provavelmente, quer matar o rival 
feliz que lhe roubou o coração d'essa mu- 
lher? disse friamente o jesuíta. 

— Desappareceram ambos, c ignoro onde 



param. Digame: para me libertar d'cstc 
inferno em que vivo na terra, não poderei 
gíinhar o paraíso assassinando Henrique de 
Navarra ? 

— E' a esse a quem quer matar? 

— E' um nome que se me não tira da 
ídéa. Porque ha de ser este e não outro, 
confesso que o não sei.' E' sobre isto que 
quero ser esclarecido. 

-Já confiou o seu projecto a Chrisiovam 
Aubr}- : 

— Já. 

— E o que lhe disse elle? 

■ Approvou as minhas intenções, e deu 
me aquella carta que leu. Mas tendo Hen- 
rique abjurado a sua religião, não será elle, 
no fundo, um bom catholico? 

— Nunca! nunca! replicoii Varade. Meu 
filho. Deus depositou em ti o ódio da impie- 
dade. Escolheu-te para ferires a heresia, e 
reserva-te um logar ímmenso no paraíso; 
por minha vez, pois, te ordeno que asse- 
gures a salvação da tua alma. 

— Obedecerei, meu padre. 

E dando-lhe a absolvição, e abençoando 

a empresa de Barricre, o jesuíta fel-o jurar 

"sobre um crucifixo que nunca declararia 

quem foram seus confessores e conselheiros. 

No dia seguinte Barrière foi ouvido de 
confissão por um outro jesuíta, de cujas 
mãos commungou, e paitiu para ir assassi- 
nar Henrique IV. 

Querem alguns que fosse \arade o pró- 
prio que entregasse o punhal com que Bar- 
rière devia ferir o rei; mas o que parece 
certo, ú que este o comprou, á saída da 
casa dos jesuítas, e que d'alli em dcante se 
occupava em o afiar, emquanto resava os 
Pãdre-Nussos da penitencia que lhe fora 
imposta! 

Soube que o rei estava cm S. Diniz, e para. 
ahi se dirigiu, chegando ate a encontrar-se 
com elle, quando Henrique saía da egrcja. 
Barricre confessou que tendo avançado n'este 
momento para executar o seu plano, se sen- 
tiu detido por uma secreta e inconcebível 
commoção. «Parecia-me, disse elle, que es- 
tava amarrado com uma corda pela cintura, 
c que alguém me puxava para traz, quando 
eu queria avançar para a frente.» 

Henrique I\' deixou S. Diniz, e loi dalli 



DOS JESUÍTAS 



.3, 



a Gournay, depois a Crecy, a Champ-sur- 
Marne, a Brie-Comte-Robert, e desta ultima 
localidade a Melun. Barriérc nunca mais o 
abandonou, aguçando constantemente o seu 
punhal, prcparando-se para se servir d'elle, 
e accusando-se da falta de energia que o 
dominava nos momentos precisos. Apro- 
veitando-se da facilidade com que qualquer 
se approximava do rei, resolveu, emtim, 
decididamente matal-o no dia 16 d'agosto 
de i3q3; mas antes que o seu braço se 
tivesse levantado e ferido, foi preso pelo 
grande-preboste da casa real. 

Eis o que se passara. 

Quando n'essa manhã, Barriere sairá da 
egreja, onde de novo se fora confessar, mas 
sem revelar d'esta vez ao confessor, que não 
era jesuita, o seu projecto, por pouco que 
não foi esmagado por um homem que, co- 
berto de suor e poeira atravessava a praça 
ao galope desesperado d"um cavallo. Este, 
ao grito que Barriere deu para não ser atro- 
peliado, empinou-se e chapou-se no chão, 
apesar dos esforços do cavalleiro, que, mal 
se levantou e encarou Barriere, exclamou: 

— E'eile: 

Barriere, embora não se recordasse das 
feições do cavalleiro, mas parecendo-lhe ex- 
tranha a exclamação, em vez de se appro- 
ximar, como fora a sua primeira intenção, 
atfastou-se ; emquanto uma grande multidão 
se juntava, e procurava ajudar o cavalleiro 
a levantar o seu cavallo. 

Assim que de novo se poz a caminho, o 
cavalleiro procurou logo o rei, e sendo in- 
troduzido, declarou chamar-se Brancaléon, 
ter sido gentil-homem da rainha Luiza, viu- 
va de Henrique III, e saber que o queriam 
:i^sassinar. 

ferguntado sobre quem era o assassino, 
e como soubera das suas intenções, contou : 
que em Lyon conversara com Seraphim Ban- 
chi, antigo agente protegido de Catharina de 
Medicis, c ao tempo ao serviço de Fernan- 
do, grã-duque da Toscana, que um homem 
de vinte e sete annos o procurara e lhe 
confiara o projecto que fizera de assassinar 
o rei, sem comtudo lhe dizer como se cha- 
mava. «Apressei-me em partir, mas a febre 
obrigou-me a demorar numa aldeia, a 
vinte léguas de Lyon, onde estive quinze 



dias entre a vida e a qriorte. Assim que as 
forças m'o permittiram parti, tremendo sem- 
pre de chegar já tarde, e posso aflirmar que 
o criminoso é o homem a quem o meu cavallo 
esteve a ponto de atropellar.i 

Dados os signaes e preso o assassino, co- 
meçou por negar o crime de que o accusa- 
vam. Mas tendo sido confrontado com Bran- 
caléone, reconhecido este ultimo, por tel-o 
encontrado em Lyon, em casa do padre Se- 
raphim Banchi, ouvido contar todos os inci- 
dentes das suas conversas com este, e ou- 
tros frades e padres daquella cidade, obje- 
ctou que taes conferencias tinham por fim 
fazer-se capuchinho, para expiar as inten- 
ções que formara de assassinar o rei. 

Como lhe perguntassem, porque, quando 
preso, ainda tinha comsigo um punhal de 
dois gumes cuidadosamente afiado, respon- 
deu: que fora o uso em coisas domesticas 
que o aguçara. O acusado foi condemnado 
á morte, e ouviu a sentença vomitando mil 
imprecações contra todos os herejes e os 
juizes, a quem chamava algozes. O suppli- 
cio do desgraçado ficou suspenso para o 
dia seguinte, porque se quiz interrogar o 
cura de Brie-Comte-Robert, que havia recen- 
temente ouvido Barriere de confissão; mas 
que negou responder, allegando o segredo 
profissional. Durante a noite, um frade de 
S. Domingos, Olivier Beringcr, abalou um 
pouco o animo de Barriere, que por fim se 
decidiu a confessar o crime em presença da 
tortura. 

«Reconheço o meu crime, disse elle, e es- 
tou contente, neste momento, por não tel-o 
levado a eftcito; amaldiçoo o pensamento 
que delie tive, bem como todos aquelles que 
a isso me instigaram, aftirmando-me, que se 
morresse na empresa, a minha alma seria 
levada para o ceu nas mãos dos an)os, para 
gosar, no seio de Deus, da eterna beatitude.» 
Barriere accrescentou que os seus conselhei- 
ros lhe tinham feito jurar, que, no caso de 
ser posto a tormentos, nunca dissesse o no- 
me d'elles, porque então seria condemnado 
ás penas do inferno por toda a eternidade. 

De Thou alliança, que não applicaram a 
tortura a Barriere propositalmente para que 
elle não compromettesse os jesuitas; e tanto 
assim que, dois annos depois, quando Hen- 



140 



HISTORIA GERAL 



rique IV entrou em Paris, e se procurou 
instaurar processo ao padre António Vara- 
de, o rei pediu que se puzesse pedra sobre o 
assumpto, hesitando em travar nova guerra 
com os filhos de Loyola, a quem já conhe- 
cia, e de quem pretendia ser poupado. Kn- 



ganou-se. Notou-se que os juizes, que assis- 
tiram á execução de Barriere, apressassem 
esta por tal forma, que assim que o maço 
do algoz caiu sobre o peito do paciente, este 
morreu immediatamente da primeira panca- 
da, a 3i d' agosto de iBcjS. 



DOS JESUÍTAS 



»4« 



XXI 



Entre dois attentados 



As tentativas contra Henrique I\', au- 
gmentaram a affeição dos que lhe eram 
dedicados, fizeram calar os gri- 
tos dos seus inimigos, e impuze 
ram silencio á critica de muitos 
dos seus actos. Os jesuítas, po- 
rém, apesar da abjuração de 
Henrique, nem por isso deixa- 
vam de se mostrar hostis á sua 
causa : e em todos os pontos em 
que se achavam estabelecidos 
foi necessário o emprego da forca 
e o derramamento de sangue para 
fazer reconhecer a auctoridade 
real. EUes excitavam o zelo dos 
catholicos contra o rei, cuja con- 
versão era representada como 
uma comedia politica, que daria 
como desenlace a ruina do ca- 
tholicismo em França, t'o depres- 
sa o Bearnês pudesse, sem perigo, 
largar a rédea ao seu odio de hc- 
reje. 

«Além de que, clamavam o- 
jesuitas, o santo padre, apesar d;i 
pretendida abjuração do rei de 
Navarra, ainda o não reconhe- 
ceu, nem absolveu. E' preciso, 
portanto, pelo menos, antes de se 
submetter, esperar a decisão do 
infallivel chefe da P'greja.» 

Para tirar todo e qualquer 
pretexto aos seus inimigos, Hen 
rique IV enviou o conde de Ne- 
vers como seu embaixador ao papa. Este 
embaixador, que nem como tal pôde ser re- 



cebido, nada conseguiu da cúria, ao que 

parece, em consequência das informações 



|^va^> 






1 r^ 




&J^m 


I^^^^^^^BiKiLr^ 


-s; iiiBVI 



que o cardeal de Plaisance mandava a Cle- 
mente VIII, dizcndo-Ihe que a Liga esta- 



142 



HISTORIA GERAL 



va a ponto de sair victoriosa em todo o 
reino. Ora, por occasião desta embaixada, 
os jesuítas de Roma representaram um duplo 
papel. Assim, o seu padre Bossevino mos- 
trou-se muito inclinado a secundar os esfor- 
ços do embaixador de Henrique IV, e tan- 
to que o papa o exilou. Ao mesmo tempo 
outros jesuítas intrigavam á ordem de F^i- 
lippe II dHispanha, e trabalhavam quanto c 
como podiam para fazerem abortar a em- 
baixada. Nevers partiu de Roma, por tal for- 
ma convencido das intrigas dos jesuítas a 
este respeito, que o cardeal Tolet jesuíta, a 
quem elle disse que se não havia de fechar 
o aprisco à ovelha desgarrada que ahi vol- 
tava, lhe respondera, sorrindo: «Que Jesus, 
o divino Pastor, não era obrigado a abrir a 
porta do curral áquelles que a tinham fe- 
chado com as costas; e citando ao mesmo 
tempo o exemplo de Santo André entre os 
gentios, o embaixador lhe respondera : 

— Não se enganará v. ex."" citando a au 
ctoridade de Santo André, não será a S. Fi- 
líppc a quem se quer referir?» 

O cardeal jesuíta não respondeu senão 
com um novo sorriso a esta allusão ao zelo 
da sua companhia pelo rei d'Hispanha. 

A má vontade da cúria romana irritou 
Henrique I\', e a maioria dos seus partidá- 
rios, inclusive os catholicos. As coisas exas- 
peraram-se a tal ponto que se chegou a pen- 
sar em crear em França um patriarcha, que 
fosse ao mesmo tempo chefe da egrcja 
gallicana, e a administrasse, independente 
de recurso ao papa. Mas apesar da Hispa- 
nha e dos jesuítas, apesar do papa e do cle- 
ro, apesar dos fanáticos e dos ambiciosos de 
toda a sorte, Henrique IV firraava-se de dia 
para dia nesse throno, cujos degraus ia dis- 
putando palmo a palmo. As principaes cida- 
des do reino caíam em seu poder ou se sub- 
mettiam vuluntariamente. A íim de contra- 
balançar a má impressão que fazia no espi- 
rito do povo em geral, e principalmente no 
dos catholicos, a recusa obstinada do papa 
em absolver e reconhecer Henrique IV', de- 
cidiu-se que o rei seria sagrado. Sendo Reims 
o logar ordinário da sagração dos reis de Fran- 
ça, e estando em poder da Liga, a cerimo- 
nia realisoLi-se em Chartres. Por esta occa- 
sião, travouse uma disputa bastante curiosa 



e que merece a pena ser contada, quanto 
mais não seja para alegrar a narrativa. 

Tratava-se de se saber se a uncção da 
sagração se podia fazer com outro azeite 
que não fosse o da santa redoma, visto que 
esta estava em poder da gente da Liga. Al- 
guns bispos foram d"opinião que elle não era 
essencialmente necessário para validar o acto. 
Houve até quem puzesse duvidas sobre a au- 
thenticidade desta garrafinha celeste, de que 
S. Remy não fala em seu testamento, c de 
que não fazem a menor menção Gregório de 
Tours nem outros prelados da epocha. En- 
trementes, alguém, suspeita-se que o arce- 
bispo de Tours, aventou a ídéa de que o 
chrisma milagroso da egreja de Marmontiers, 
perto de Tours, já tinha fornecido melhores 
provas que o da redoma de Reims, atten- 
dendo a que Sulpicio Severo conta textual- 
mente que: mil e duzentos annos antes da 
conversão de Clóvis, se vira descer um anjo 
do ceu e curar com uma boa esfregadella 
d"este bálsamo celeste a S. Martinho, que 
deslocara uma perna caindo por uma es- 
cada abaixo. Henrique IV foi pois sagrado 
com o chrisma de Marmontiers, pelo bispo 
de Chartres, Nicolau de Thou. 

Pouco depois, o rei dirigiu-se para Paris, 
onde .Carlos de Cosse estava tratando se- 
cretamente da rendição da capital. 

Aqui, todos se convenceram de que a resis- 
tência se tornava inútil, e a 22 de março as 
portas da cidade abriram-se ás tropas reaes. 
Alguns lansquenetes, querendo oppor-se, fo- 
ram rechaçados, bem como a gente da Liga 
reunida n'um posto de guarda do paço. Os 
napolitanos, que tinham sido chamados havia 
tempo pelo duque de Terso, e o seu gene- 
ral D. Diogo de Évora, recusavam capitu- 
lar, mas bem depre.ssa se entregaram sem 
queimar uma única escorva. Quanto ao po- 
vo, desde logo esqueceu os incitamentos 
dos jesuítas e mais membros da Liga ; e tan- 
to que apenas quatro mil homens foram suf- 
íicientcs para dominar este foco da revol- 
ta. Para não recordar o passado, foram tira- 
dos de todas as egrejas, conventos, mostei- 
ros e collegios os emblemas que podiam per- 
petuar a lembrança da Liga, c no dia 29, oi- 
to dias depois da sua entrada, Henrique as- 
sistiu a uma procissão solenne \ no dia se- 



DOS jesuítas 



«43 



giiintc o parlamento 'decidiu t]ue a procissão 
SC renovaria todos os annos ; c a 2 d'agosto, 
a universidade fez acto publico de submis- 
são, assignando a seguinte formula de jura- 
mento : 

« Prometto e )uro de querer viver c mor- 
rer na fé catholica, apostólica romana, sob 
a obediência de Henrique I\', rei christia- 
nissimo e catholico de França e Navarra. 
Renuncio a todas as Ligas c asscmbléas fei- 
tas contra o seu serviço, e nada intentarei 
contra a sua auctoridadc.» 

O exemplo da universidade foi seguido 
pelas ordens religiosas, á excepção dos ca- 
puchinhos e jesuítas, que pretenderam ser 
necessário esperar pela permissão do papa. 
Estes últimos tinham suas rasões para não 
prestarem juramento dobcdicncia, e de não 
reconhecerem a auctoridadc de Henrique 
IV. D'esta vez, ao menos, tinham cm mente 
poupar um perjúrio. Tal recusa fez com 
que a universidade declarasse : que era 
necessário intentar-lhes processo, e ella e 
o parlamento deram novo impulso a um 
começado contra elles, por occasião da sua 
entrada em França \ mas os seus protectores 
mais uma vez fizeram com que se lhe pu- 
zessc pedra cm cima. Comtudo, a tentativa 
exasperou os jesuitas, e persuadidos de que 
o parlamento tinha incitado a universidade 
a esta nova declaração de guerra, desembes- 
taram-se em suas casas contra o rei, contra 
o qual prophetisavam que, dentro em pou- 
co, se desencadearia a vingança do ceu. Co- 
mo o ceu. porém, não parecesse resolvido 



a acceitar esta Icttra, sacada pela S. J., nem 
determinar a ruina e morte de Henrique IV, 
os jesuitas provavelmente dirigiram-se ao 
inferno, que não tardou a fazer-lhes a von- 
tade, como vamos ver, com o novo atten- 
tado. 

O padre J. Jouvenci, historiador jesuíta, 
assegura que o ceu annunciou por meio de 
prodígios a catastrophe que ia realisar-se. 
Estas manifestações celestes, no dizer do 
historiador, — aliás condemnado por falsa- 
rio, — foram apparecer cruzes brancas nas 
roupetas dos jesuitas, principalmente quando 
estavam no altar, «as quacs cruzes não ti- 
nham sido figuradas nem trabalhadas peia 
mão do homem.» — O padre Jouvenci vê 
claramente n'cstas maravilhosas cruzes as 
immerccidas dores que a malícia dos homens 
ia fazer softVer á companhia. E. para pro- 
var que a primeira expulsão dos jesuitas de 
França não foi o resultado dos seus crimes, 
mas sim d'uma conjura de maus homens, o 
mesmo jesuíta accrescenta : «Algum tempo 
antes de 1574, um demónio, exorcismado pe- 
los nossos padres, vendo-se forçado a aban- 
donar o corpo do possesso, ameaçou o exor- 
cista c toda a sua ordem de os fazer expul- 
sar por sua vez, de todo o reino de 1-Van 
ça.» 

Com uma orientação histórica d'esta or- 
dem, o que ha a esperar do ensino da com- 
panhia de Jesus r Da sua ausência de senso 
moral que educação saberá ella dar ? 

O capitulo que se segue responderá com 
factos a estas perguntas. 



144 



HISTORIA GERAL 



XXII 

João Chatel 



O assassínio rcproduzia-sc no collegio 
jesuítico de Clermont, como as cabe- 
ças da hydra da fabula. l"m rapaz de cara- 
cter sombrio c exaltado, d"um espirito fraco 
e embrutecido por infames costumes, tinha 
sido educado pelos jesuitas para continuar a 
obra sanguinária de Jacques Ciement. Fi- 
lho d'um rico mercador de Paris, João Cha- 
tel estudara philosophia com o padre Gue- 
rct. Os reverendos padres desde logo apre- 
ciaram as disposições do seu discípulo. Ve- 
lhaco, \icíoso, gatuno, fanático, .João Cha- 
tel tinha todas as qualidades precisas para 
se tornar entre as suas mãos um instrumen- 
to das mais execráveis doutrinas. Era uma 
naturesa rica no seu género, e que, bem 
cultivada, promettía abundante fructo. 

Seguindo os preceitos do seu fundador? 
os jesuitas do collegio de Clermont actua- 
vam sobre a imaginação dos seus alumnos 
por meios materiaes, por uma espécie de 
phantasmagoria adrede disposta para os at- 
terrar, e perturbar a pouca rasão e um resto 
de idéas sãs, que elles, por acaso, ainda ti- 
vessem depois de os ouvirem e de terem vi- 
vido com elles. Como todos os outros, .loão 
Chatel foi sujeitado ao regimen da espiona- 
gem e da delação, dois princípios que são 
essencíaes e básicos na companhia de Jesus. 
Barricre fora detido a tempo na sua empre- 
sa, era occasião de lhe dar um successor, e 
João Guígnard, esse recrutador dassassmos, 
se encarregou disso. 

Os^[ sophismas dos mestres acabaram 
de desnortear o espirito de Joãu Chatel. Um 



dia, entrou elle na camará das mcdilaçõca, 
onde de ordinário eram introduzidos os gran- 
des peccadores. Era uma grande sala, d qual 
não chegava ruído algum do exterior, nem 
penetrava o mais ténue raio de luz. Ao meio 
caia suspensa uma lâmpada, que espalha- 
va em todo o recinto uma claridade sinistra. 
A' excepção da parte da sala, que se con- 
trapunha á porta d'entrada, e que era fecha- 
-la por um cortinado negro, com lagrimas 
prateadas c caveiras bordadas, as paredes 
eram nuas, e não tinham outros ornamentos 
senão pinturas, que representavam tudo 
quanto de mais macabro e bizarro pode in- 
ventar uma imaginação desorientada. Aqui, 
figuras de diabos disformes, em contorsões 
epilépticas, fazendo os mais horríveis tregei- 
tos, despedaçados por outros indivíduos 
cu)as formas é impossível descrever ; alli, 
esqueletos pendurados em forcas; montões 
d'ossos descarnados; mais longe mulheres 
nuas chicoteadas até que o sangue lhes es- 
pirre das carnes.; outras caídas por terra e 
os cães devorando-lhes as entranhas e os 
seios ; homens extorcendo-se nas chammas ; 
outros extendídos nas rodas, ou atenazados 
com ferros em braza. Hoje, este inferno me- 
dieval faria rir a toda a gente, n'aquella epo- 
cha só riam d'elle os jesuítas, e por isso o 
applicavam para facilmente se apoderarem 
das vontades vacilantes e enfraquecidas dos 
seus discípulos. 

Um jejum de vinte c quatro horas obser- 
vado por João Chatel, tinha precedido esta 
prova; e foi iiemulo,f_exliauslo e quasí anni- 



DOS jesuítas 



14!) 



quilado que se foi submettcr á terrível expe- 
riência. Mal dera poucos passos que a ver- 
tigem se apoderou dellc; a sua vista pertur- 
bou-se, as figuras monstruosas pintadas nas 
paredes começaram a animar-sc. os grandes 



O que vens fazer aqui ? Será para confes- 
sares os teus peccados? Até hoje não tens 
feito senão confissões mentirosas e sacrile- 
gas; nunca abriste a tua alma com sinceri- 
dade, e as absolvições que tens recebido, 




Tentativa de incesto de João Chatel 



olhos destas faiscavam, c ja o desgraçado 
não ouvia senão gritos, gemidos e o ranger 
dos dentes dos suppliciados. As pernas fal- 
taram-lhe e caiu redondamente no chão cla- 
mando: — graça e perdão! 

Uma voz lenta e sepulchral, saindo detraz 
do cortinado, disse : 

— João Chatel. ergue a cabeça e ouve. 



longe de te valerem aos olhos de Deus, te 
têem sobrecarregado com outros tantos pec- 
cados mortaes. 

— Perdão! Perdão! repetia João Chatcl. 

— O perdão não é para peccadores como 
tu, visto que o teu coração tem duvidado da 
misericórdia e bondade de Deus. Tu não 
praticas a caridade, nem amas o próximo. 

IQ 



146 



HISTORIA GERAL 



— E' certo. 

— Tu injuriaste teus pães I 
— E' verdade. 

— Levantaste olhos concupiscentes para 
tua irmã, e quizeste commetter o incesto ' I 

— E' verdade. 

— Has-de ser condemnado como foi o An- 
ti-Christo, condemnado para sempre, a não 
ser que uma grande acção meritória redima 
a tua falta. 

— Muitas vezes tenho dito a mim mesmo, 
que talvez Deus me perdoasse, se eu atíron- 
tasse os supplicios que dão a coroa de mar- 

— Lembra-te de que Jacques Ciement foi 
um miserável como tu, è que hoje gosa a 
hemaventurança eterna ^. 

— Então, murmurou Chatel, é permittido 
matar os reis ? 

— Por certo, quando estão fora do gré- 
mio da Egreja e não são approvados pelo 
papa. 

— • Visto isso, se eu ferir Henrique de Hour 



' Um historiador conta que este facto se deu em 
fins de dezembro de 1594. A família Chutei acabara 
de cear em companhia de Cláudio I.allemant, cura 
de S. Pedro dos Arcos, e commensal quasi effectivo 
da casa. Magdalena,a segunda filha, não assistia, por 
estar doente de cama, nem João, que havia dias se 
ausentara, por lhe ter o pae exprobrado a miserável 
acção de ter levantado a mão para sua mãe. A ceio 
corria, pois, triste e debalde o cura procurava con 
solar Dionisia, mulher de Pedro Chatel e mãe de 
João. Repentinamente ouviu-se um grito doloroso e 
de soccorro do lado do quarto de Magdalena, e viu- 
se fugir um homem, que derrubou os que se oppu- 
nham á sua passagem, e no qual Pedro e Dionisia re- 
conheceram seu filho! 

Effectivamente era elle, que fu(;ia depois duma 
lucta violenta na qual, debalde, procurara abusar de 
sua irmã! Pedro Chatel seguiu seu filho e foi apa- 
nhal-o junto d'uma das pontes do Sena, onde elle 
parara, indeciso se devia ou n.ío deitar-se a afogar. 
Foi d'alli que, depois d'uma discussão violenta, Pe- 
dro, já alta noite, o levou ao collegio dos jesuítas, 
e o entregou ao padre João (jueret, que, durante 
dois annos, fora seu orofessor de philosophia. Kicou 
então combinado que João passaria algum tempo no 
collegio, onde, na continuação do texto acima, vere- 
mos que qualidade de remédio Ob jesuítas applicaram 
ao desgraçado para o curarem. 

* Effectivamente, em muitas egrejas de Paris do 
partido da Liga, Jacques Ciement era venerado co- 
me santo, e o seu retrato figurava entre os registos 
dos bemaventurados em todos os livros de missa. 



bon, poderei remir os meus pcccados e res- 
gatar a minha alma ? 

— Lembra-te primeiramente de que Deus 
te ouve e que pune o perjúrio. Deixa germi- 
nar esse pensamento em teu coração, faze pe- 
nitencia, e a mesma voz que agora ouves te 
dirá quando convirá que conquistes o ceu. 

As intrigas de Hispanha contra a auctori- 
dade de Henrique IV continuavam constan- 
temente. O rei, segundo a opinião do seu 
conselho, tomou a resolução de lhe declarar 
a guerra, embora o adiantado do outomno 
lhe não permittisse operar energicamente 
nos Paises-Baixos. O marechal de Bouillon 
e o conde Filippe de Nassau entraram no 
mez d"outubro no ducado de Luxemburgo; 
mas foram obrigados a renunciar á campa- 
nha. Por seu lado, o rei ameaçava o Artois 
e o Hainaut d'onde os hispanhoes inquieta- 
vam a província de Cambréses. Henrique 
deixou o exercito, e voltou a Paris, onde en- 
trou a 27 de dezembro de 1594, entre seis e 
sete horas da noite, dirigindo-se logo ao pa- 
lácio da sua favorita, Gabriella d'Estrées. 
Quando elle se adiantava para receber dois 
dos seus officiaes, os srs. de Ragni e de Mon- 
tigni, que vinham cumprimental-o, um man- 
cebo que o tinha seguido, e que se aprovei- 
tara da confusão da chegada para penetrar no 
interior do palácio, approximou-se de Henri- 
que e vibrou-lhe repidamente uma punhala- 
da. O golpe dirigido ao pescoço, poderia ter' 
sido mortal, se o rei não se tivesse inclinado 
naquelle momento para abraçar os dois fi- 
dalgos. O punhal, pois, apenas feriu o lábio 
superior e quebrou um dente da victima. 
Henrique gritou que estava ferido, e imme- 
diatamente se fecharam as portas do palácio. 
O conde de Soissons, reparando na pallidez 
e perturbação de João Chatel, disse-lhe dei- 
tando-lhe logo a mão : 

— Ou tu, ou eu ferimos o reil 

.loão Chatel, que tinha deixado cair a ar- 
ma, foi immediatamente levado para o Fort- 
V-Evéque, e Henrique, sabendo que o homem 
que o pretendera matar era um discípulo dos 
jesuítas, pronunciou estas palavras, que a his- 
toria conservou: 

— Pois era preciso que os jesuítas fossem 
convencidos peia minha bocca ? 



DOS JESUÍTAS 



»47 



A noticia do crime espalhou-se logo em 
Paris, com a circumstancia de que o punhal 
estava envenenado; mas dentro em pouco 
se soube que a ferida não tinha gravidade. 
Nessa mesma noite cantou-se um Te-Deiim, 
e alguns dias depois, a 5 de janeiro de iSíj?, 
o rei assistiu a uma procissão que se orga- 
nisou em acção de graças, e que foi de Xotre- 
Dame a Santa Genoveva. 

João Chatel não negou o crime. O parla- 
mento delegou um certo numero de conse- 
lheiros para irem ao collegio de Clermont, 
apoderarem-se das chaves, e collocarem 
guardas ás portas da casa. Reuniram os je- 
suítas na mesma sala, e pediram a relação 
de todos os membros do collegio. Só falta- 
ram á chamadas três padres que se acha- 
vam doentes na enfermaria. Deixaram com 
estes o reitor, e os outros, em numero de 
dezesete, foram conduzidos, entre uma for- 
te escolta, a casa de Brizard, conselheiro 
do tribunal, e capitão do bairro em que 
funccionava o collegio. Nas ruas, o povo 
carregava-os de maldições, e tel-os-hia feito 
em postas, se os soldados os não proteges- 
sem. Foram logo todos encerrados na mes- 
ma sala e guardados á vista. Ao mesmo 
tempo, as porias dos quartos do collegio 
foram selladas e todos os membros da casa 
professa de S. Luiz considerados prisionei- 
ros. 

João Chatel, no seu primeiro interrogató- 
rio, iiáo tinha accusado nenhum dos seus 
mestres. O padre Gueret foi posto em liber- 
dade. Mas o parlamento, tendo continuado 
com o processo, sujeitou o assassino a se- 
gundo 'interrogatório, e ordenou que um 
conselheiro e o advogado geral procedessem 
a uma visita a todos os quartos do collegio, 
e que apprehendessem todos os escriptos 
que ahi encontrassem. 

Bem informado o parlamento deu a sua 
sentença pela qual : 

«...declarava o dito João Chatel accu- 
sado e convencido do crime de lesa-mages- 
tade divina e humana, e o condemnava : 

«. . .a fazer abjuração publica em frente da 
porta principal da egreja de Paris, apenas 
em camisa, com uma tocha de cera do pe- 
so de dois arráteis, accesa na mão, c alli, de 
joelhos, dizer c declarar que desgraçada e 



traiçoeiramente tinha commettido o miserá- 
vel, inhumano e abominável parricidio, e fe- 
rido o rei com um punhal na face •, e, por 
falsas e condcmnadasinstrucções, dissera no 
processo que era licito matar os reis, e que 
o rei Henrique IV\ ora reinante, não o era 
emquanto o papa lhe não desse a approva- 
ção; do que se arrepende e pede perdão a 
Deus, ao rei e á justiça. Feito isto será con- 
duzido e levado n'uraa carroça á praça da 
Greve, e alli atanazado nos braços e nas co- 
xas, e cortada a mão direitaque segurará opu- 
nha! com que procurou perpetrar o parrici- 
dio. Depois, o seu corpo será puxado e des- 
membrado por quatro cavallos, e os seus 
membros lançados ao fogo, consumidos em 
cinzas e as cinzas lançadas ao vento. . .» 

« . .ordena que os padres e escolares do 
collegio de Clermont, e todos os outros, que 
se dizem da dita sociedade, como corrupto- 
res da mocidade, perturbadores do socego 
publico, inimigos do rei e do Kstado, despe- 
jarão as suas casas e sairão para fora de 
Paris, e outras cidades e localidades em que 
têem collegios, no praso de três dias depois 
de intimados por esta sentença, e do reino 
no termo de quinze dias, sob pena de que, se, 
passado este tempo, forem encontrados, se- 
rão punidos como criminosos e culpados do 
dito crime de lesa-magestade.» 

« ...os bens que lhes pertencem, tanto moveis 
como immoveis, serão empregados em obras 
pias, e distribuídos da forma que o tribunal 
determinar. Prohibe a todos os súbditos do 
rei de enviarem alumnos para os collegios 
fora do reino que pertençam á mesma socie- 
dade, sob pena do mesmo crime de lesa-ma- 
gestade ...» 

Os commissarios delegados pelo parla- 
mento encontraram no quarto de João Gui- 
gnard, escriptas pela sua mão, as seguintes 
proposições : 

i." — Que se, no anno de 072, em dia de 
S. Bartholomcu, se tivesse sangrado a veia 
basílica, não teríamos passado da febre á 
doença que agora soffremos ; mas, por se ter 
poupado sangue, elles puzeram a França a 
ferro e fogo. (A veia basílica referia-sc a 
Henrique de Navarra e ao príncipe de Conde). 

2." — Que o Nero cruel (Henrique III) foi 
morto por um Clemente, e o frade tingido 



I4S 



HISTORIA GERAL 



despachado pela mão d'um frade verdadeiro. 

3.° — Diremos : ura Nero, do Sardanapalo 
de França, uma raposa do Bearnês, um leão 
de Portugal, uma loba d"Inglaterra, um grifto 
da Suécia e um porco de Saxe ? 

4." — Pensaes que seria bonito ver três reis, 
se reis se podessem chamar, a taes como 
o defunto tyranno, o Bearnês, e esse D. An- 
tónio, pretenso monarcha de Portugal ? 

5." — Que mais bello anagramma jamais 
se encontrou do que esse que se encontrava 
no nome do rei defunto, que dizia : I 'ilaiii 
Hérodes. 

6." — Que o acto heróico, practicado por 
Jacques Clement, como dom do Espirito 
Santo, assim chamado pelos nossos theolo- 
gos, foi justamente celebrado pelo defunto 
prior dos dominicanos, Bourgoing, como 
confessor e martyr, por muitas razões, tanto 
em Paris, o que eu ouvi com os meus pró- 
prios ouvidos, quando elle explicava o livro 
de Judith, como no parlamento de Tours, o 
que o dito Bourgoing, sellou com o seu 
próprio sangue e sagrou com a sua própria 
morte; e que era preciso desmentir o que 
os seus inimigos propalavam, que elle se 
desdisse á hora da morte, como acto de- 
testável. 

7." — Que a coroa de França podia e devia 
ser transferida a uma outra familia que não 
fosse a dos Bourbons. 

8." — Que o Bearnês, desde que se con- 
verteu á fé catholica, seria tractado mais 
suavemente do que merecia, se lhe abrissem 
uma coroa de frade n"algum convento bem 
reformado, para ahi fazer penitencia de to- 
dos os males que tinha causado á França e 
agradecer a Deus, de lhe ter dado a graça 
de se lhe ter feito reconhecer antes da m.orte. 

g." Que se acaso um rei se não pôde depor 
senão por meio da guerra, que se guerreie ; 
se se lhe não pôde fazer a guerra, que o as- 
sassinem. 

O parlamento condemnou João Guignard 
ás mesmas penas a que tinha condemnado 
João Chatel, da abjuração á porta da egreja, 
e depois a ser enforcado e estrangulado, 
o cadáver queimado e as cinzas lançadas ao 
vento. 

Esta sentença tem a data de 7 de janeiro 
de ôgS. 



Nos termos da sentença dada contra o je- 
suíta, quando este foi enforcado e estrangu- 
lado no cadafalso, o algoz atirou o cadáver 
para a fogueira, e depois as cinzas foram 
lançadas ao rio, como tinham sido as de João 
Chatel. 

Segundo uma folheto d'aquella época, 
aconteceu por esta occasião um facto que deu 
muito que pensar, e que moderou a alegria 
que tinham causado as sentenças do parla- 
mento. Qjando se deitou ao rio o que res- 
tava do jesuita, notou-se que o livro conten- 
do as doutrinas regicidas, e que o paciente 
levava pendurado ao pescoço, apenas cha- 
muscado pelo fogo, veiu á tona d'agua e des- 
ceu o Sena impellido por um formidável 
vento de leste. «Facto, diz o chronista, que 
foi considerado por muitos como um mani- 
festo e deplorável prognostico certo de que 
a companhia de Jesus, derribada por uma 
sentença do parlamento, voltaria ainda á 
tona dagua por uma sentença do inferno, 
para grande mal da nossa pobre França.» 

João Gueret, antigo professor de philoso- 
phia de João Chatel, accusado de ter sido 
informado pelo assassino do projecto que 
fizera de matar o rei, e não o ter desviado 
d'elle, foi condemnado a ser expulso de 
França por toda a vida, e os seus bens con- 
fiscados. Um outro filho de Loyola, o padre 
Alexandre Hay, jesuita escosses, foi igual- 
mente banido para. sempre. Este santo 
homem passava a sua vida ultrajando o rei. 
«Se Henrique passar pela frente do collegio, 
tinha elle por costume dizer, não hesito em 
me lançar sobre elle, d'uma janella abaixo, 
sô para ter o prazer de o esmagar.» 

A mesma pena foi applicada a João Le- 
bel, discípulo dos jesuítas, por incitar os seus 
companheiros a irem frequentar no extran- 
jeiro as escolas d'estes mestres do crime, e 
de possuir manuscríptos do seu regente, tra- 
tando os mesmos assumptos que o padre 
Guignard tratara e no mesmo espírito. 

Pedro Chatel foi condemnado a nove an- 
nos de degredo, a uma multa de 2:000 es- 
cudos, e ter a casa arrasada. O resto da 
família absolvida. 

Immediatamente, a casa dos Chatel foi 
arrasada, a charrua passou por sobre a terra 
em que fora edificada, e toda a superfi- 



I 



DOS jesuítas 



'49 



cie, assim posta, coberta de sal. Pouco 
depois foi alli construída uma pyramide, des- 
tinada a perpetuar a expiação do crime. Es- 
te monumento constava d'um corpo em 



Na tace que olhava para o sul lia-sc : 
«Tu que passas, cxtranho ou cidadão de 
esta cidade de Paris, ouve-me a mim pyra- 
mide, que fui outr'ora a casa de Chaiel ; 




João Thatel tenta contra a vida de Henrique 



forma de pilastra, assente sobre três de- 
graus, e coroado por uma pyramide, enci- 
mada por uma cruz. Km cada face da pi- 
lastra-base, lia-se uma inscripçao, que en- 
chia o fundo de cada uma d'cllas, encaixi- 
lhada numa espécie de pórtico. 



mas que por ordem do parlamento em ses- 
são solennc fui arrasada até os alicerces, 
em castigo d um crime espantoso. O que me 
reduziu a este lamentável estado, foi o cri- 
me d'aquelle que me habitava, crime que 
elle commetteu por ter sido educado numa 



i5o 



HISTORIA GERAL 



escola Ímpia, por mestres perversos que 
se glorificavam com o nome de salvadores 
da pátria. Kste filho, primeiramente inces- 
.luoso, bem depressa se converteu em par- 
ricida do seu príncipe, que, comtudo, aca- 
bava de salvar a sua cidade de se perder, 
e que, protegido pelo Senhor, cujo auxilio 
lhe fez merecer muitas victorías, pôde evitar 
o golpe dum assassino desesperado, em tro- 
ca duma ferida na bocca. 

»Retira-te, tu que passas; a minha infâ- 
mia, que manchou toda a nossa cidade, me 
impede de te dizer mais.» 

Em 2() de dezembro os jesuítas foram ex- 
pulsos do collegío de Clermont por ordem do 
parlamento, que obteve de muitos dos alum- 
nos declarações, confissões e confidencias 
que acabaram de perder completamente es- 
tes padres no conceito dos homens de bem. 
No ultimo dia do anno, foi lida aos jesuítas, 
reunidos na casa professa, a sentença que os 
expulsava. 

Esta leitura foi ouvida no meio d'um si 
lencío sinistro. O padre provincial. Clemen- 
te Dupuis, respondeu que obedeceria á sen- 
tença ; depois, fingindo uma grande humil- 
dade, pediu que lhe fosse permittido pedir 
algumas modificações na pena, e no dia se- 
guinte enviou ao parlamento uma petição 
n'esse sentido. Mas o grande tribunal ape- 
nas concedeu alguns dias de demora para a 



saída dos empregados e gente subordina- 
da. Os bens confiscados aos jesuítas foram 
distribuídos a differentes pessoas, e a biblio'- 
theca dos professos dada aos monges de 
S. Jeronymo. 

No domingo, 8 de janeiro de i5()5, todos 
os jesuítas saíram de Paris, li excepção do 
padre Gucret, e seis outros que ficaram pre- 
sos, até IO do mesmo mez, em que foram 
enviados para Lorena ajuntarem-se ao resto 
da alcatéa. 

Foi no meio dos applausos da multidão 
que a negra cohorte saiu da capital da Fran 
ça. Chegados ás portas, por onde deviam pas- 
sar, díz-se que os jesuítas se voltaram todos 
como impellidos pela mesma mola, e lança- 
ram um longo e sinistro olhar para a cida- 
de que os bania. 

Quem sabe se n'esse momento não pen- 
savam, já na hora em que haviam de voltar, 
e na maneira como se vingariam do ultraje 
recebido. Da multidão surgiram clamores de 
ódio e gritos de morte, c se o povo os não 
trucidou, foi porque appareceu a protegel-os 
um velho e venerando sacerdote, que lião 
era jesuíta. E assim como o algoz, lançando 
ao Sena as cinzas de Chatel e Guignard, dis- 
sera: «Deíxae passara justiça do rei» ; assim 
o venerando velho, extendendo a mão para 
os jesuítas, clamou: «Deíxae passar a justi- 
ça de Deus I» 



DOS jesuítas 



iSi 



XXIll 



Concessões inúteis 



FOI terrível a cólera d'A.quaviva, então ge- 
ral dos jesuítas, quando soube que a 
sua gente havia sido banida de PVanca, e im- 
mediatamente recorreu ao papa Clemente 
VIII para lhe fazer partilhar os seus senti- 
mentos de ódio contra esta nação. Clemente 
VIU, se não annuiu a todas as exigências dos 
jesuítas, partilhou em parte o resentimento 
do geral, e varias vezes repetiu ao embai- 
xador de Henrique IV, o cardeal d'Ossa, 
que estava em Roma tratando da absolvição 
do rei, «que era uma injustiça punir uma 
ordem inteira, pela falta de um ou dois dos 
^eus membros.» 

Este desabafo tem a vantagem de ser a 
confirmação da criminalidade dos jesuítas 
pela bocca íntallivel do papa. 

Apesar da sentença do parlamento que os 
bania, os jesuítas não abandonaram comple- 
tamente a França. Da Borgonha só saíram 
de todo quando os partidários do duque de 
Mayenne foram vencidos. N'outras locali- 
dades em que era despresada a auctoridade 
do rei, principalmente em Tolosa e no sul, 
contentaram-se em mudar de nome e de rou- 
peta, e ficaram. Pouco e pouco, como os am- 
phibios que vem resfolegar ao sol quando 
se julgam em segurança, os reverendos pa- 
dres, depois de terem farejado os ares polí- 
ticos, trataram de sair da sua ímmobilida- 
de e do seu silencio. Foi, sem duvida, a ten- 
tativas deste género que o parlamento 
quiz obstar pela sua sentença de i5()7, 
na qual prohibía a todo e qualquer je- 
suíta de ensinar publica ou particularmente. 



prohibição que de facto se não comprehen- 
deria, visto que, em i5(i4, os jesuítas tinham 
sido banidos, e a .sua sentença não tinha sido 
annullada. 

Os capuchinhos, a quem os jesuítas encar- 
regaram da defesa das suas doutrinas du- 
rante a sua ausência, mostraram-se dignos 
filhos de taes mestres, e de todo o clero re- 
gular e secular, foram os únicos que perti- 
nazmente se recusaram a resar pelo rei; e dos 
sete ou oito miseráveis que, durante o exí- 
lio dos jesuítas, quizeram seguir o exemplo 
de João Chatel, trcs d'eiles foram capuchi- 
nhos. 

Henrique IV, julgando conciliar o favor 
dos jesuítas, hesitou muito antes de auctorí- 
sar a sua expulsão. Mas assim que elles saí- 
ram de Paris, respirou mais livremente. 
\'em a propósito citar o trecho d'uma carta 
sua, datada de 17 d'agosto de i?(p, que se 
refere ao assumpto : 

«A'cerca do pedido dos *•*, ingenuamen- 
te respondi ao legado, que se eu tivesse duas 
vidas daria uma de boa vontade para satis- 
fazer sua santidade, mas como não tenho se- 
não uma, quero poupal-a e conserval-a para 
os meus súbditos, e com ella servir sua san- 
tidade e a christandade ; visto que esses ho- 
mens se mostram ainda tão apaixonados c 
atrevidos.onde ficaram no meu reino, que são 
insupportaveis, continuando a seduzir os meus 
súbditos, a intrigarem, não tanto para con- 
vencerem e converterem os de religião con- 
traria, como para se firmarem, conquistarem 
auctoridade no meu Kstado, enriquecercm-sc 



l52 



HISTORIA GERAL 



c augmentarcm á custa de todos, podendo di- 
zer que nem os meus negócios prosperaram, 
nem a minha pessoa ticou segura, senão de- 
pois que os *** foram banidos daqui.» 

Seria longo noticiar a serie de intrigas, 
protecções e influencias de toda a ordem que 
foram postas em actividade para que Henri- 
que IV consentisse na volta dos loyolenses. O 
rei. como vimos pela carta acima, tinha um 
grande terror d'aquelles homens. A primei- 
ra de todas as influencias era a do pa- 
pa, então amigo do^ jesuítas, que concedeu 
a absolvição a Henrique a troco da promes- 
sa da reentrada dos reverendos padres. 

O certo é que os jesuitas conseguiram que 
fossem tolerados nas jurisdicções dos parla- 
mentos de Bordéus e de Tolosa, onde tinham 
um grande numero de casas c de' coUcgios, 
e ahi recomeçaram os cursos, e, n'outras ju- 
risdicções, mudando de roupeta, foram pouco 
a pouco abrindo collegios, no meio de fraudes 
e luctas. Estas luctas, que alteravam a paz do 
reino, levaram Henrique IV a querer proce- 
der energicamente contra a seita de Ignacio; 
mas de novo o papa interveiu, e Henrique 
suspendeu o golpe, que mais tarde o ha-de 
ferir a clle. 

Não descançavam elles, porém, tal era a 
sede que tinham da carniça francesa. Quan- 
do Maria de Medicis partiu de Toscana, 
para vir matrimoniar-se com Henrique I^^ 
os jesuitas fizeram com que se lhe lançasse 
aos pés e intercedesse por elles uma pobre 
allucinada e louca, Maria Magdalena de 
Pazzi, a quem o povo attribuia muitos mi- 
lagres e chamava santa. Em França puze- 
ram em exercício certas machinas milagro- 
sas, que raras vezes deixam de produzir uma 
grande impressão no povo. Contaremos um 
d'esses expedientes, a fim de que o leitor fi- 
que conhecendo que não houve meio algum 
de manha, força, embuste ou violência de 
que os reverendos padres não lançassem mão 
para se sustentarem. Empregaram também 
meios honrados e de virtude, mas foram tão 
raros, tão filhos mais das circumstancias que 
das vontades, que desapparecem no acervo 
monstruoso dos inconfessáveis e criminosos. 

Assim, em 1^99, appareceu uma preten- 
dida endemoninhada, chamada Martha Bros- 
,sicr, da aldeia de Sologne, que tendo per- 



co.rrido por algum tempo a província em 
companhia de seu pae e de duas irmãs, 
entrou em Paris, alli pelo meado de abril. A 
sua chegada causou logo grande ruido. Os 
capuchinhos, que, como dissemos, tinham 
ficado encarregados dos negócios dos jesui- 
tas, mandaram ir a mulher ao seu convento, 
isto com grande espalhafato, e a exorcisma- 
ram, convertendo o exorcismo n'uma verda- 
deira farça. Parece que as palavras pronun- 
ciadas por Martha, durante a possessão, ten- 
diam a fazer considerar o seu estado como 
o da França, isto é, assim como ella ende- 
moninhada estava possessa dos filhos das 
trevas, assim a França o estava dos hugueno- 
tes. Convém dizer que o rei acabava de pu- 
blicar o celebre edito de Nantes *. A farça 
era, coino se vê grotesca; mas por isso mes- 
mo tinha uma grande influencia na multi- 
dão, e as coisas iam tomando um tal cami- 
nho, nas mãos dos capuchinhos, que o rei 
determinou mandar prender a endemoni- 
nhada. 

Parece que a prisão teve mais effeito do 
que a agua benta, porque durante quarenta 
dias de reclusão esteve sempre tranquilla, 
findos os quaes foi mandada para a terra. 
Os capuchinhos pregaram contra a justiça 
que assim usurpava funcções ecclesiasticas. 
Porém, apesar de todas as prohibiçÕes, 
houve um padre que foi buscar Martha, e 
partiu com ella para a Itália, provavelmente 
explorando-a. O rei requisitou que o padre 
voltasse a França e Martha, abandonada por 
elle, morreu de miséria em Roma. 

Como, porém, nenhum d'estes meios sur- 
tisse o desejado effeito ; os jesuitas recorre- 
ram até á protecção de La Varenne ^; d'on- 
de se vê a eterna applicaçáo da máxima de 
Loyola: «os fins justificam os meios. y> 

Graças a esta protecção, saída da lama 



' Por este diploma, como depois veremos mais 
largamente, Henrique IV extendia e confirmava os 
direitos e seguranças consentidas aos huguenoles por 
éditos ou tratados anteriores. As causas que deter- 
minaram este acto foram religiosas, politicas e so- 
ciaes. Era o respeito á consciência humana; era por- 
tanto a raiva, o rancor e o ódio jesuitic.o 

•^ Para que se comprehenda o nosso até, baste que 
se saiba que La Varenne era o fornecedor de mulhe- 
res para o rei! 



DOS jesuítas 



mais infecta, os jesuítas obteem restabele- 
cer-se abertamente, em i6o3, na cidade de 
^La Fleche. e, de concessão em concessão, 
conseguem que o rei, estando em Ruão. 
|>asse aos jesuitas cartas de restabelecimen- 
3, selladas com o seu selio grande. 



_i53 

de que apenas nos começamos a retempe- 
rar. As suas doutrinas são funestas a toda 
e qualquer auctoridade; e os seus actos não 
valem mais. Quem alistou, armou e impel- 
liu Barrière? foi um jesuita, o padre Vara- 
de. Quem excitou João Chatel ? os jesuitas 



I 




O jesuíta Guignard aonduzido ao eupplicio 



Recusa-se o parlamento a registar o di- 
ploma, e o seu presidente, tão grave como 
triste, dirigiu-se ao rei e disse-lhe: 

«Senhor, não queira obrigar o seu fiel 
parlamento a consagrar um acto que elie 
considera como fatal á paz do reino e peri- 
goso para a vida de \'. Maiestade. . . Os 
jesuitas teem sido sempre os incitadores de 
todas as discórdias dos tempos desgraçados 



Guignard e Gueret. A quem é attribuido, c 
com justo motivo, o assassínio de Henri- 
que III ? A sociedade de Jesus como corpo 
collectivo, que sempre se pronunciou contra 
ellel — Não tinha a horrível facção dos Deze- 
seis escolhido para chefe o padre Odon Pi- 
genat!... Se lançarmos os olhos para os 
diversos estados da Europa a licção será 
mais terrível I » O primeiro presidente, fa- 



,54 



HISTORIA GERAL 



lou ainda por algum tempo n'este tom, e, 
chorando, supplicou ao rei de não envolver 
o seu fiel parlamento n'uma medida que, 
cedo ou tarde, seria fatal para a França e 
para o rei. 

Henrique IV respondeu commovido: que 
acceitava os termos da representação, mas 
que não podia dar- lhe despacho. Agradeceu 
o zelo do seu parlamento; mas ajuntou que 
esse zelo ia muito longe, pretendendo op- 
pôr se ao que elle determinara fazer. «Re- 
flecti muito sobre este assumpto, continuou 
o príncipe, espero que a sociedade que de 
novo chamo tenha adquirido no exilio o ti- 
no e a prudência, e que quanto mais crimi- 
nosa foi julgada, tanto mais se esforçará pa- 
ra se mostrar innocente. Quanto aos perigos 
que esta medida me fará correr, estou acos- 
tumado a attVontal-os. O que resolvi está 
resolvido I ...» ' 

. Sete ou oito annos depois da sua reentra- 
da, já tinham valores na importância de 



• Nos historiadores da companhia correm outras 
respostas, mas escusado é dizer que são falsas, e fa- 
bricadas expressamente para defesa da sua causa. E' 
um facto provado, que é rara a pagina da Historia 
dos Jesuítas composta por elles, de que nos possamos 
fiar, tal é o tecido de mentiras com que elles a trans- 
formam. Henrique IV, desabafando com Sully disse- 
Ihe : «Por necessidade sou obrigado a fazer uma de 
duas coisas, a saber : ou admittil-os (os jesuítas) pu- 
ra e simplesmente... ou expulsal-os d'uma vez pa- 
ra sempre; ora isto, nas actuaes circumstancias, seria 
leval-os ao desespero extremo, e d'ahi aos intentos 
de attentarem contra a minha vida; o que me torna- 
ria esta mizeravel e sem animo, andando sempre em 
sobresaltos de ser apunhalado ou envenenado, (por- 
que esses homens teem amigos e correspondentes em 
toda a parte, e uma grande dextreza em disporem os 
espíritos conforme lhes apraz,) o que mais valia mor- 
rer logo ! . . • 



3oo:ooo escudos de oiro ' de renda. A sua 
casa de La Fléche tinha custado 600:000 li- 
bras *. Em Paris edificaram um noviciado, 
em cujo recinto, diz um escriptor da epocha, 
se podia estabelecer uma cidade. 

O rei tomou algumas precauções contra 
elles ; mas o que valem precauções onde 
nunca e.xistiu senso moral, (já vimos como 
elle faltou absolutamente a Ignacio de Loyo- 
la, e d'isso elle tirou um grande elemento 
de força), e em gente educada no regimen 
das reslricções menlaes. 

Baste um facto. O confessor do rei era o 
jesuita Cotton, pois este homem abusava 
do que sabia no confissionario, do que via e 
ouvia no palácio para informar o rei d'His- 
panha, o tradicional inimigo do rei e da 
França! 

E o padre Cotton^ era francês III 

Foi, a pedido de Cotton, que o rei con- 
sentiu na demolição da pyramide de .loão 
Chatel \ mas o que elles nunca conseguiram 
da historia, foi o esquecimento da memoria 
infamante que pesa sobre elles. 



• Com o cambio ao par, 34 contos da nossa moeda 

2 Mais de 100 contos de réis. 

' O padre Cotton, tendo perdido o valimento do 
rei, readquiriu-o eloglando-lhe os insrinctos sensuaes 
e aconeelhando-o sempre na protecção dos filhos II 
legítimos contra os legítimos. Este padre Cotton era 
além de tudo, um lúbrico incorrigível. Em Avinhão 
teve amores com uma freira. Uma outra das suas af 
feições mais do peito foi uma fídalguinha de Nimes, 
da família de Cloronsac a quem o jesuita escrevia 
cartas, das quaes extractamos o seguinte trecho : «Es 
pêro em breve poder-lhe pagar o capital e os juros 
da ausência... A afieição que lhe consagro é tal 
que não conto ter no paraíso uma completa alegria 
se lá a não encontrar.» 

Decididamente o padre Cotton sonhava com um 
paraíso de Mahomet. 



DOS JESUÍTAS 



ibb 



XXIV 



Liagarde e Ravaillac 



Os historiadores, e os maiores da Fran- 
ça, têem discutido se Francisco Ra- 
vaillac, assassinando Henrique IV, foi um 
instrumento de mandantes, bastante hábeis 
para lhe fecharem a bocca, mesmo no meio 
dos mais horríveis tormentos, ou se obede- 
ceu ás solitárias inspirações dum cego fana- 
tismo ? 

Não nos cabe a gloria de resolver em 
absoluto o problema; mas, sim, mostrar que 
se os jesuítas n'esie crime não foram os 
instigadores directos do criminoso, fizeram, 
pelo menos, tudo quanto esteve em seu po- 
der para lhe não desviarem o braço. O certo 
é que a Áustria, a Hispanha, Maria de Me- 
díeis e dEpernon, chefe do partido catholico 
de França, conspiraram juntos ou separada- 
mente para a morte do rei, e os jesuítas 
foram os confessores, as pessoas de con- 
fiança de todos estes interessados. 

Não nos cumpre estabelecer supposições 
que demonstrem que houve, pelo menos, 
um momento em que todos estes elementos 
de conspiração se entenderam e trabalha- 
ram daccordo; o nosso fim é mostrar, com 
factos irrefutáveis, que os jesuítas andaram 
envolvidos na conspiração, que alliciaram 
um assassino, e que por fim, sabendo que o 
rei ia ser morto, o não preveniram nem avi- 
saram. 

No primeiro caso temos a conspiração ur- 
dida em Nápoles, e o instrumento escolhido 
o capitão Lagarde; no segundo crime, levado 
a effeito por Francisco Ravaillac, Pedro Du- 
Jardin, mais conhecido pelo nome de capitão 



Lagarde, publicou um manifesto ' no qual 
se vê que, num certo momento, os jesuítas. 
Filippe III e o duque d'Epernon, estavam 
daccordo. 

Lagarde era um d"esses soldados aventu- 
reiros cuja vida era guerrear, a sua riqueza o 
espadeirão sempre afiado, sempre prompto 
a sair da bainha. Tinha servido muitos an- 
nos a FYança; e, em iõo8. voltando da Tur- 
quia, demorou-se em Nápoles, onde travou 
conhecimento com um tal La Bruyére, refu- 
giado da Liga, que vivia em relações d'ami- 
sade com outros refugiados alli residentes. 
Um dia, estes refugiados levaram o capitão 
a casa do padre Alagon, jesuíta hispanhol, 
tio do duque de Lerma, primeiro ministro 
de P^ilippe III e que com elles vis ia em gran- 
de intimidade. 

Por meio de lisonjas o jesuita procurou 
captar a sympathia e confiança de Lagarde; 
e assim que soube que elle tinha servido ás 
ordens do marechal de Biron*, cuja morte 
ainda lamentava, julgou-o nas condições de 
poder avivar nelle o ódio a Henrique IV e 
não temeu dizer-lhe: «Que Deus o tinha con- 
servado, a elle capitão, para servir a chris- 
tandade, e que, se elle o acreditasse, poderia 



' Factum du capitaine la Garde— 4.* vol. de TEs- 
toile, edt. de 1741. 

2 O marechal Biron, que teve grandes talentos 
militares, e foi sempre um militar valente, mais dis- 
soluto em costumes e insaciável em questões de di- 
nheiro, tinha conspirado com o rei d'Hispanha para 
desmembrar a França em proveito daquella, foi de- 
capitado como traidor em 3i de julho de i(>oa. 



iS6 



HISTOR/A GERAL 



ainda a vir a ser o homem mais feliz dos 
da sua condição, no reino do mais poderoso 
monarcha da terra, onde lhe seria abonada 
uma grossa quantia de dinheiro.» 

Lagarde resolveu tingir que se deixava se- 
duzir para conhecer a fundo a conspiração, 
e continuou frequentando o jesuíta, e ban- 
queteando-se nos festins que lhe otfereciam. 
fNo ultimo jantar a que foi convidado pelo 
secretario do defunto marechal de Biron, 
Hebert, quando já todos estavam a mesa, 
entrou na salla um homem desconhecido de 
Lagarde, mas que os convivas receberam 
com grandes caricias, e a quem pediram 
que se sentasse e jantasse com elles. Este in- 
dividuo, tão digno de ser accolhido n'aquella 
companhia, sentou-se, jantou, e tendo-lhe 
alguém perguntado que fim ç levava a Ná- 
poles, respondeu que era portador de cartas 
para o vice-rei, da parte d'um senhor fran- 
cês cujo nome declinou *. Disse mais, que 
esperava, no fim do jantar, obter resposta 
das cartas, para se retirar para França, onde, 
assim que chegasse, era preciso que, mesmo 
a preço de sua vida, matasse o rei, e isso 
trataria de fazer sem a menor hesitação.» 

Este homem, recebido em casa do secreta- 
rio do traidor, mensageiro do duque d'Eper- 
non, e que assim tão imprudentemente con- 
fessava a premeditação do crime era: — Fran- 
cisco Ravaillac. 

No dia seguinte, Lagarde foi levado por La 
Bruyére a casa do padre Alagon. Este reli- 
gioso homem recebeu-o de novo com mui- 
tas caricias, renovou a oíferta «se levasse a 
effeito o parricidio; perguntou-lhe se nada 
tinha ainda resolvido sobre o assumpto; se 
assim queria perder a occasião de se adean- 
tar na carreira, etc, etc. Na continuação da 
conversa o jesuita não dissimulou, (o que La- 
garde já sabiaj que Ravaillac se tinha en- 
carregado de e.xecutar o projecto, mas como 
se quizesse animar o capitão, dando-lhe pro- 
vas d'uma particular confiança, instou com 
elle para que se apressasse em auxiliar a 
missão, que elle o achava digno d'uma tal 
empresa, pela qual faria com que lhe con- ; 



' O duque d'Epernon, alliado da Hispanha, e chefe 
do partido catholico de França. 



tassem 5o:ooo escudos, e o fizessem grande 
d"Hispanha.» 

Lagarde perguntou ao jesuita como é que 
se poderia attentar contra a vida do rei, ao 
que o padre Alagon respondeu: — Com uma 
pistola quando elle andar na caça dos vea- 
dos I 

Então, pediu oito dias para pensar no 
caso, e n'esse Ínterim contou tudo a Zamet, 
irmão do celebre financeiro d'este nome. 
Saiu de Nápoles com um pretexto qualquer, 
e, tendo chegado a Gaêta, ahi recebeu uma 
carta de La Bruyère na qual «lhe falava 
ainda da execução do projecto.» Em Roma 
conferenciou com o ministro francês Ville- 
roy. Assim que chegou a França, foi logo a 
Fontainebleau procurar o rei a quem entre- 
gou a carta recebida em Gaêta. O rei res- 
pondeu-lhe que já estava ao facto de tudo. 
exhortou-o a servir fielmente, e terminou 
por lhe dizer, que reduziria a tal ponto os 
seus inimigos, que nada teria a temer d'elles. 

Tendo falhado esta tentativa, foi preciso 
lançar mão de Ravaillac, individuo nas con- 
dições de executar os maiores crimes. 

Ravaillac nascera em Angoulème , fora no- 
viço nos fciiillants ', onde apenas se demo- 
rou seis semanas, visto que os religiosos o 
mandaram embora «por causa das idéas ne- 
gras e das visões que o agitavam.» 

Pouco depois de ter saido do mosteiro, foi 
accusado de ter morto um homem ; mas o cri- 
me nunca se provou. A necessidade de vi- 
ver obrigou-o a exercer o ofiicio de solicita- 
dor de processos. Solicitando n'um em que 
era auctor, perdeu-o, e isso o reduziu á mi- 
séria, aggravada ainda com maluquices de fei- 
tiçarias. Sem outro meio de vida, dedicou-se 
a mestre de meninos. Entretanto seguia com 
enthusiasmo as idéas da Liga e não perdia 
um único d'esses sermões, nos quaes jesuí- 
tas e capuchinhos, principalmente, excitavam 
ao regicídio e faziam ver como uma gloria, 
digna d'eterna e celestial recompensa a mor- 
te do rei. 

Um homem n'estas condições era instru 
mento apropriado a executar os projectos dos 
inimigos de Henrique W \ pois reunia em si 



' Era assim denominado um dos ramos reformados 
da ordem de Cister. 



DOS JESUÍTAS 



^Í7 




Revaillac aesessinando Henrique lY 



i58 



' HISTORIA GERAL 



todas as qualidades d'cssas personagens vis, 
cuja missão consiste em executar as senten- 
ças de morte que secretamente são proferi- 
das contra as testas coroadas, ou quem quer 
que seja que esteja cm evidencia. Portanto, 
nada se poupou para lhe conservar e animar 
astenções homicidas. «Osqueoseduziram diz 
Mazera}', encontraram quem constantemen- 
te o obcecasse, sem que elle o percebesse ; 
fizeram-no instruir nas suas doutrinas, encan- 
taram-lhe o espirito com suppostas visões, c 
outros semelhantes artifícios.» 

Levaram a precaução até a fornccerem-lhe 
dinheiro, sem que elle soubesse precisamen- 
te donde elle vinha ; mas sempre quantias 
pequenas, com medo de que uma quantia 
maior, produzindo um certo bem estar, não 
o demovesse do intento '. 

N'uma das occasióes em que elle esteve 
em Paris foi hospedado em casa de uma tal 
Escoman — espécie de alcoviteira damores 
a serviço de varias damas da corte, e, entre 
outras de Henriqueta d'Entragues, marque- 
za de Verneuil, a antiga amante de Henri- 
que IV, — apedidod'esta. Aqui tiveram come- 
ço as revellaçóes dos projectos de que Ra- 
vaillac era instrumento, e também as des- 
confianças da marqueza de Verneuil, que, á 
cautella, mandou a Escoman viver para ca- 
sa duma sua amiga, M.He Du Tillet, cunha- 
da do presidente Séguier,e amante de D'Eper- 
non. Aqui. a Escom.an teve conhecimento per- 
feito e completo da conspiração contra a 
vida do monarcha, e então n'aquella consciên- 
cia, aliás até alli bastante accommodaticia, co- 
meçou a tomar vulto o remorso de se calar; 
e resolveu prevenir o rei. No dia da Annun- 
ciação (25 de março de 1609), saindo de ca- 
sa, encontrou Ravaillac, que lhe disse que vi- 
nha do bosque de Mal^erbe ^ e lhe declarou 
terminantemente que estava resolvido a pôr 
em pratica quanto antes o seu projecto. 

Não hesita mais ; corre ao Louvre, sup- 
plica que a deixem falar a rainha, dizendo 
que vae n"isso a vida do rei, e offerece for. 



' Le Grain, liv. 10. pag. ioo, diz: «que havia dois 
annos que Ravaillac seguia tenazmente a corte para 
matar o rei. Devia ser á custa de alguém ; e esse al- 
guém não é difficil dizer quem fosse. 

2 E' o castello de Malesherbes, residência então de 
Henriqueta d'Entragues. » 1 



neccr, como prova do que diz cartas impor- 
tantes que estão a ponto de partir para His- 
panha. A rainha não a recebe, e parte para 
Chartres e Anet. 

Ravaillac, tendo pensado na imprudência 
que fizera, revelando a proximidade do cri- 
me, e encontrando a Escoman, no dia de 
Corpo de Deus, supplicou-Ihe que nada dis- 
sesse do que elle lhe tinha contado ; «porque 
já se arrependera do que projectara. » 

Foi então que ella teve a idéa de ir aos 
jesuítas e de falar ao padre Cotton, que, 
como já dissemos, era o confessor do rei. 
Quando bateu á porta da casa professa já 
elle tinha saido, mas em seu logar falou ao 
padre procurador, que lhe disse que se qui- 
zesse encontrar o padre Cotton tinha que 
vir no dia seguinte muito cedo, porque elle 
devia de partir de manhã para Fontainebleau. 
Este religioso ajuntou que «se era coisa que 
SC lhe podesse dizer, elle lhe faria a mais 
fiel narrativa.» 

Volta ella, no dia seguinte de madrugada; 
c o padre procurador noticia-lhe que o con- 
fessor de rei já partira. Então confessa tu- 
do ao procurador e pede-lhe que o faça 
saber ao padre Cotton, para elle prevenir o 
rei. O procurador ouviu-a, prometteu fazer 
o que ella pedia, deu-lhe a bençam e man- 
dou-a em paz, advertindo-a, porém, «que era 
prudente hão se envolver cm coisas d'aquel- 
las ; visto que podia também ser accusada 
de cumplicidade.» Poucos dias depois a Es- 
coman era presa. 

() leitor imparcial que diga se este proce- 
dimento dos jesuítas denota ou não a sua 
cumplicidade no crime. 

Na manhã de 14 de maio de iGio Ravail- 
lac dirigiu-se á egreja de S. Severino, con- 
fessou-se ao jesuita d'Aubigny— a quem an- 
teriormente confessara as visões que tive- 
ra ', recebeu delle a communhão e ha até 
quem afiance — o que não era para admi- 
rar — que no acto d'esta o sacerdote aben- 






' Parece que Ravaillac não disse tudo quanto con- 
fessara ao jesuita, porque este, chamado a depor de- 
clarou não ter nunca visto Ravaillac; o que era men- 
tira. K curioso ver um assassino dizer a verdade, e 
poupar os seus instigadores e um padre negal-a im- 
pudentemente. 



DOS JESUÍTAS 



1S9 



coara o punhal, que horas depois devia atra- 
vessar o peito de Henrique de Navarra. 

Pelas quatro horas da tarde, o rei saiu do 
paço, para ir inspecionar os trabalhos deco- 
rativos para a entrada da rainha, que na vés- 
pera tinha sido sagrada em S. Diniz. Passa- 
ra um dia afflicto, tantos eram os prognósti- 
cos de morte que se succediara de momento 
a momento. O próprio passeio fora suggeri- 
do pela sua roda de cortezãos, na intenção 
de o distraírem. 

Ravaillac, sentado numa pedra á porta do 
Louvre. vigiava todos os movimentos. 

Henrique desceu e entrou para um coche 
de nova invenção, aberto por todos os lados, 
e do qual elle occupava o assento do fundo, 
tendo á sua direita o duque d'Epernon, e em 
frente o marquez de Mirabeau e Duplessis 
de Liancourt. Nos dois vãos das portinho- 
las, aonde então se accommodavam assentos, 
os marechaes de Lavardin e de Roquelaure, 
á direita, o duque de Montbayon e o mar- 
quez de la Force, á esquerda. O rei, a fim 
de estar mais livre, e menos observado, ti- 
nha dispensado os piquetes. 

O coche havia chegado á rua de la Fer- 
ronnerie, e ahi um embaraço de carroças ' 
obrigou-o a parar. Aproveitando-se da cir- 
cumstancia, Ravaillac, que o tinha seguido 
desde que elle sairá do Louvre, appro- 
ximou-se, como quem quer ver o rei mais 
de perto. N'este momento Henrique, que se 
inclinara para falar a Lavardin, dá repenti- 
namente um grito abafado e cae nos braços 
do duque d'Epemon, que no mesmo instan- 
te se vê coberto de sangue, que em golfadas 
sae do peito e da bocca do rei. Ninguém vi- 
ra o assassino, que tivera tempo de descar- 
regar por duas vezes o punhal no peito da 
sua victimal O primeiro golpe resvalara den- 
contro a uma costella, mas o segundo foi di- 
reito ao coração, segundo Pérélixe e TEs- 
toile, e á veia cava, segundo Rigaut e o Alur- 
citre Français, e matou Henrique quasi ins- 
tantaneamente I 

Vendo cair o rei, vendo-o banhado em 
sangue que saia a jorros, os fidalgos que o 
accompanhavam levantaram-se aterrados, 

' Ha quem affiance que este embaraço não foi for- 
tuito. 



gritando como loucos. Emquanto uns sus- 
têem o ferido, outros saltam do coche, c 
gritam que prendam o assassino. Este, po- 
rém, nem sequer pensava cm fugir. Commet- 
tido o crime, tinha ficado ao lado do coche, 
com o punhal ensanguentado na mão ; por- 
tanto foi logo preso sem lucta. conduzi- 
do, por ordem d Epernon, — que se consti- 
tuiu em governador do reino, como se já 
esperasse o trágico acontecimento, — pri- 
meiramente ao palácio de Retz e depois ao 
Louvre, emquanto não foi entregue ao grande 
preboste. O coche voltou para o paço, le- 
vando o corpo inanimado do rei. 

Não entra no plano d'este trabalho a nar- 
rativa dos acontecimentos políticos que se 
seguiram em França a este crime. Ravaillac, 
preso e sugeito á tortura, nada confessou, c 
teimou sempre em declarar que não tivera 
cúmplices ; mas não deve deixar de mencio- 
nar-se um facto symptomatico. Entre as pes- 
soas, que nos primeiros dias foram ver o pri- 
sioneiro, contou-sc o jesuíta Cotton, confes- 
sor do rei defunto, que não se cançou de re- 
commendar a Ravaillac que tpor modo al- 
gum accusasse innocentes." 

Não seremos nós, mas um historiador já 
citado ' que apreciará as palavras de Cotton 
e delias tirará as suas legitimas consequên- 
cias. «O que é que aproveitou aquelle que, 
indo visitar Ravaillac á prisão, o admoestou 
que não accusasse os innocentes, senão fazer 
lembrar ao criminoso a principal máxima 
d'essa damnada doutrina que consiste em 
não revelar os cúmplices, se se quer ganhar 
o paraíso, e dar ao acto a sua perfeição I n 

Já acima alludimos á confissão que Ravail- 
lac fez ao jesuíta dAubigni ; no correr do 
processo este, confrontado com o crimino- 
so, negou conhecel-o ; o que foi um indicio 
a mais da cumplicidade, pelo menos tacita, 
dos je.suitas. 

Durante a instrucção do processo, era voz 
publica que o attentado, se não fora devido 
directamente á instigação dos jesuítas, era 
resultante das suas doutrinas, discutidas nas 
escolas, publicadas em livros e pregadas no 
púlpito. 

A 27 de maio, Francisco Ravaillac foi con- 



• Le Grain. 



l(X) 



HISTORIA GERAI. 



demnado ao supplicio dos parricidas. Seus 
pães foram banidos do reino, e todos os pa- 
rentes que usavam o appellido de Ravaillac 
foram intimados a adopatrem outro. Depois 
de ter sotVrido por varias vezes a tortura, teve 
a mão regicida queimada com enxofre inflam- 
mado, atanazaram-ihe os seios, os braços, as 
coxas das pernas ; e nas horriveis chagas lan- 
çaram enxofre, pez e cera a arder! 

Terminaram este horrivel supplicio, que 
Ravaillac supportou com uma coragem ina- 
creditável, fazendo-o esquartejar por quatro 
cavallos, a cujas caudas lhes amarraram os 
braços e as pernas. O seu cadáver devia ser 
queimado, como fora o de João Chatel, e 



as cinzas lançadas ao vento ; mas a raiva po- 
pular não o consentiu. Repellindo os guar- 
das e os algozes, a multidão precipitou-se 
sobre os restos do cadáver, arrastou-os ao 
longo das ruas, e queimou-os quando bem 
lhe aprouve, no meio das pragas de toda a 
ordem, grande numero das quaes iam dirci- 
as ao jesuitas. . . que n'este momento eram 
graciosamente recebidos pela rainha que, 
emjim, se via governando a França, em nome 
de seu filho Luiz XIII, e logo chamava para 
seu confessor o padre Cotton I 

E, comtudo, todas as ordens religiosas as- 
sistiram ás exéquias do defunto monarcha, 
menos os jesuitas! 



DOS jesuítas 



i6i 




Supplicio de RavaiUac 



i6a 



HfSTORIA GERAL 



XXV 



Os apologistas do regicídio 



QUANKo teremos bastantes pennas. bas- 
tantes línguas, e suftkiente animo para 
publicar c escrever para a posteridade, ex- 
primir emfim a immensidade do seu amor e 
dos seus benefícios para a nossa pobre com- 
panhia, a sua humiidissima, e a mais que 
todos affectuosa e obediente serva. . .» 

O maravilhoso discurso de que citamos 
aqui alguns fragmentos foi pronunciado pelo 
padre Binet em La Flechc, quando toi tras- 
ladado o coração de Henrique W • para o 
collegio dos jesuitas. . . Depois das acções e 
das doutrinas dos santos homens, é curioso 
c até conveniente dar alguns exemplos da 
sua eloquência. 

"Foi elle que nos trouxe para onde esta- 
mos, continua o orador falando sempre de 
Henrique IV, foi elle que nos tornou a tra- 
zer, e nos firmou onde sempre estivemos. 
Deus eterno I Que testemunho do seu amor 
foi esse de nos dar o seu coração, o mais 
rico diamante do univer.so, o thesoiro da na- 
tureza, o doce recinto de todos os favores do 
ccu, o coração mais capaz de todo o 
mundo, mais precioso de que o firmamento, 
coração emfim de todos os nossos corações, 



' O padre Cotton, tinha obtido do seu real peni- 
tente, que, quando morresse, consentisse que o sen 
coração fosse levado para a casa dos jesuitas de La 
Fleche. Assim que o rei morreu o jesuita reclamou o 
cumprimento da promessa. Viram o chegar ao Lou- 
vre, com uma comitiva dos seus padres, e tomarem 
posse do coração, que o príncipe de Conde lhes en- 
tregou. E foi no próprio coche em que o rei íôra as- 
sassinado, que o dignitário jesuita foi transportado a 
sua casa de S. l-uiz Alguns dias depois, o provincial 



a vida das nossas vidas, a origem da nossa 
felicidade junto de Deus, o queridíssimo pe- 
nhor do amor de Deus para com a França I 
Céus I Terra I Que mimo este de nos legar 
o seu coração ! K que mais poderia elle fa- 
zer? Sire, por este coração eu vos oiíereço 
cem mil... e visto que falo a V. Magesta- 
de, peço-lhc que veja n"este bello espelho da 
face de Deus, se existe um jesuita no mun 
do que luio Iraga grafado csle coração no 
lwoço do scií coração- . . Ah! bárbaro! Ah! 
o mais desnaturado dos homens! Ah ! o mais 
cruel de todos os tártaros, .serás tu jesuita 
se deixares de consagrar o teu coração, e a 
parte mais terna do teu coração, ao serviço 
e á doce recordação d'este grande rei, o 
qual, dando-nos o seu coração, mais nos deu 
do que todos os potentados do mundo. Era 
agora que nós queríamos ter um peito de 
cristal, para que atravez d'elle se visse esta 
preciosa relíquia bem, mesmo no meio de 
nossos corações. 

«Di:^-se, que quando u))!a aincitdua, ahcrla 
por acaso, deixa cair o caroço, se o /ornar- 
mos e nelle gravarmos uma palupra-, ou al- 
gum lemma importante . . . se depois o fe- 



em pessoa, e os principaes padres da companhia le- 
varam o coração do rei para La Fléche, onde o de- 
puzeram na crypta da egreja. Notou-se que o padre 
Arnaud, o provincial, fizera esta viagem de carroa- 
gera, embora uma das condições de Henrique IV, 
fosse que o coração devia ser levado a pé. Mas para 
que se havia de iiicommodar sua reverencia, quando 
já nada havia que temer daquelle que tão generoso 
fora com elles, e que por fim lhes viera morrer ás 
mãos ! 



DOS jesuítas 



i63 



charmos na caxca c planlannox, teiuio-u co- 
berlo de sebo, papeis podres e iillra^es da 
iialiire-{a, ella bem depressa germinará, lan- 
çará hasle, fará tronco, povoar-se-ha de ra- 
mos, abotoará emjlór, expandir-se-ha e fa- 
cilmente dará o seu fr neto. Se se quebrar a 
casca, vcr-se-ha lá no mais fundo do caroçn 
de todí:s as amêndoas, tudo o que se linha ris- 
cado no caroço da primeiro. Assim este po- 
derosissimo monarcha tinha í^ravado em seu 
coração um amor paternal para com a nossa 
companhia, tinha ordenado que depois da 
sua morte o seu coração caísse cm nossas 
mãos, e nós o plantássemos em nossos cora- 
ções. E não loi por lalta de papeis podres, 
de estrume, de sebo, de iibellos ditVamato 
rios, de calumnias, de mentiras que tem pro- 
curado apodrecer a nossa innocencia, e com 
que fomos cobertos nos meses passados I 
Tudo isto serviu para aquecer os nossos co- 
rações, e n'elles (azer germinar e produzir 
mil ramos, folhas, flores d'alma, de lingua e 
d'alVeição etc, etc, etc.» 

Apesar d'esta eloquente prédica do padre 
Binet, apesar da engenhosa comparação do 
caroço do coi'ação de I [enrique I\' com o 
caroço d' uma amêndoa o clamor publico, 
que de toda a parte se levantou, em seguida 
^ ao attentado de 14 de maio de lOio, não 
pôde ser abafado, e a Franca em peso con- 
tinuou a tornai -os responsáveis deste cruel 
acontecimento. C) sr. de Lemonie, em pleno 
conselho, dirigiu a tal respeito sangrentas 
censuras ao padre Cotton; Sully, retirando- 
se para sempre da corte, onde não tornaria 
a rever o seu rei e o seu amigo, não hesitou 
cm formular a mesma accusação com todo 
o desassombro; Fouques de Lavarenne, em- 
bora partidário da companhia, fez-lhe, a este 
respeito, as mais ásperas censuras; emfim, os 
mais inditVerentes tiveram a convicção, que 
os reverendos tinham sido directa ou indire- 
ctamente os auciores d'este horrível attenta- 
do. Não se contentaram eni o dizer, escreve- 
ram-o, denunciaramo; denunciaram ao rei, 
ao parlamento, á indignação de toda a Fran- 
ca, certos livros dos jesuítas, e entre outros, 
n de João Mariana: De rege et regis insli- 
lulione. (Do rei e a instituição do rei). N"esta 
obra, de que jã falamos, Jacques Clement foi 
collocado cm o numero dos santos; foi appci- 



lidado a eterna gloria da liança; e cada 
linha d'este execravel livro era um outro in- 
citamento ao assassínio e ao regicídio. 

Vamos citar algumas passagens ao acaso 
da leitura: 

Depois de ter consagrado o direito da re- 
volução contra o chefe do P^stadcj, declara 
que o. Estado para sua defesa pode matar 

príncipe. 

«A mesma coisa, Cíjntinúa, é permlttlda 
a todo e qualquer particular que, sem espe- 
rança alguma de impunidade, e com des- 
prezo da vida, quizer ajudar a republica.» 

«Deve-se ter a mesma opinião, se a repu- 
blica opprimida pela tyrannia dum príncipe 
e não tendo os cidadãos a liberdade de se 
queixarem, tèem vontade de exterminarem 
a tyrannia, e de punirem os crimes públicos 
do príncipe como intoleráveis; d'esta sorte 
tenho para mim que não faz mal aquelle que, 
para agradar ao publico, tentar matal-o.» 

«Não damos esta permissão a qualquer 
nem a muitos, salvo se Isto não fôr recla- 
mado pela voz publica. Antes do acto deve- 
se ouvir o conselho de pessoas instruídas e 
experimentadas.» 

Quer isto dizer que os reverendos padres 
reservam para si a direcção exclusiva tanto 
dos punhaes como das consciências; é louvá- 
vel matar um rei, mas ha de ser com aiicto- 

1 Isação dos jesuítas. 

«!•".' um salutar pensamento fazer conven- 
cer os príncipes, que se elles opprimcm a re- 
publica, se elles se tornam Insupportaveis 
pelos seus vícios e infâmias, as suas vidas 
não estão muito seguras, e que não somente 
se usa de um direito matando-os, mas até se 
faz uma honra da acção digna de louvor.» 

«Allegar-se-ha que os padres do concilio 
de Constança, na sua sessão decima quinta, 
condemnaram este principio : — que um ty- 
ranno pôde ser morto por um dos seus súb- 
ditos ; mas este decreto do concilio não foi 
approvado nem pelo papa Martinho V, nem 
por sua santidade Eugénio I\', nem pelos 
seus successores, cujo consentimento é in- 
dispensável para tornar Infalliveis os decre- 
tos dos concílios ecclesiastlcos.» 

Aqui temos a S. J. a sustentar a infalll- 
billdade do papa. mesmo contra os concí- 
lios. 



164 



HISTORIA GÉRÀL 



«Ninguém pôde matar um rei por seu 
próprio alvitre. . . mas isso é pcrmittido de- 
pois que a sentença da deposição do prín- 
cipe seja dada pelo superior.» 

Sempre as mesmas doutrinas ! sempre a 
companhia tomando a si o privilegio e o 
monopólio da vida dos reis ; só ella tem o 
direito de marcar as victimas que entende 
deverem ser immoladas. 

Foi geral o clamor, assim que este livro 
appareceu ; os próprios afíeiçoados dos je- 
suitas tiveram que ceder á opinião publica. 
João Mariana, muito bem socegado na sua 
diocese de Toledo, não pôde ser pessoal- 
mente perseguido : por isso, como se nada 
pudesse lazer-se contra o auctor, contenta- 
ram-sc em accusar e condemnar a sua obra ; 
e o parlamento, em 8 de junho de i(3io, três 
semanas depois da morte de Henrique IV, 
publicou a seguinte sentença : 

«Visto pelo tribunal, o livro de João Ma- 
riana intitulado : De rege el regis luslilulio- 
ue, impresso tanto em Mayence como em 
outros logares, contendo muitas blasphemias 
execráveis contra o defunto rei Henri- 
que III, de felicíssima memoria, as pessoas 
e estados dos reis e príncipes soberanos, 
ctc, etc. 

«Ouvidas as conclusões do procurador ge- 
ral, e posta a matéria em deliberação; 

"Ordena que o dito livro de Mariana seja 
queimado pelo executor da alta justiça na 
presença da egreja de Paris ; 

«E fez e faz in'iibição e prohibição a to- 
das as pessoas de qualquer estado, qualida- 
de e condição que sejam, sob pena de cri- 
me de lesa-majestade de escrever ou lazer 
imprimir algum livro ou tratado em contra- 
venção com o dito decreto e disposições 
d'elíe. 

«Ordena que as copias, conferidas pelos 
originaes do presente decreto, serão envia 
das ás baliagens, e aos magistrados do seu 
districto, para ahi serem lidas e publicadas 
da forma e maneira costumadas, e nas es 
tacões das missas parochiaes das cidades e 
arrabaldes, no primeiro domingo de junho ; 
«Manda aos bailios e senescaes proceder 
á dita publicação, e aos substitutos do pro- 
curador geral do rei de prestar todo o apoio 
ii execução, e de informar o tiibunal acerca 



das suas diligencias, durante o correr do 
mez. 

«Feito no parlamento, cm 8 de junho de 
iGio. 

«Assignadii \'(n'siii.« 

O decreto foi executado no mesmo dia, e 
o livro queimado pelo algoz. 

A cólera publica serenou um momento 
com esta satisfação que lhe foi dada •, mas 
é excusado dizer que a execução d'um se- 
melhante decreto, acolhido com applauso 
pela multidão, produziu um effeito insignifi- 
cante naquelles contra quem era dirigido. 
Mariana continuou a ser considerado pela 
companhia como um dos luminares do seu 
século, viveu feliz, tranquillo e respeitado 
em Talavera até á edade de oitenta e sete 
annos, e os irmãos de França nunca per- 
doaram o ultraje publico, que fora feito a 
um dosseus, senão quandoobtíveram de Maria 
de Medíeis, ou por outra do duque d'Epcr- 
non, que foi durante estes primeiros meses 
o verdadeiro senhor da França, novos favo- 
res e novas concessões. A 20 d'agosto se- 
guinte, obtiveram cartas-patentes pelas quaes 
lhes era permittido dar licções publicas na 
sua casa noviça do bairro de S. Jacques, 
collegio de Clermont, e não só em theologia, 
mas ainda em todas as outras scieucias e ou- 
tros exercícios de sua profissão . . . São estes 
os termos das cartas-patentes. 

Sete dias depois, os jesuítas mandaram 
esta ordenança, eminentemente attentatoria 
dos direitos da universidade, á mesma uni- 
versidade para tomar d"ella conhecimento; e 
eis travada nova lucta. 

A universidade, por intermédio de La 
Martelière, que escolheu para seu advogado, 
recusou formalmente registrar as cartas-pa- 
tentes. O sr. de Montholon defendeu os je- 
suítas visto que em todas as epochas os fi- 
lhos de Loyola têem sempre encontrado ou- 
tros sufficientemente venaes para os defen- 
derem'. A discussão durou perto de quinze 



' Para que isto não pareça uma asserção gratuita 
darei, entre outros, um exemplo, hoje celebre, e que 
mostra como os jesuítas arranjam defensores entre 
os seculares l !m dos homens que, mais sem brio nem 
dignidade de qualquer espécie que fosse, se atreveu 
a escrever uma historia geral dos jesuitas, que é um 



DOS jesuítas 



l()D 



dias, c a 20 de dezembro de lõi 1. o celebre 
- advogado geral Servin, depois d um longo 
i discurso que ficou celebre nos annaes do 
parlamento, no qual relata todas as desor- 
dens, excessos e crimes dos jesuítas desde a 
sua fundação, até áquelle anno, formulou 
as seguintes conclusões : 

«Por estas razões, concluindo como de- 
vemos, em nome do rei, 
tanto para segurança da 
sua pessoa, como pelo bem 
da Egre)a, do Kstado e 
da iranquillidade publica, 
assim como pela honra 
e manutenção das Ictfras 
e sciencias, declaramos 
adherir á opposição da 
universidade; e no caso 
em que o tribunal tizer su 
bir a causa ao conselho, 
para ver e examinar os li- 
vros e escriptos de que ou- 
viu a narrativa, requere- 
mos que sejam prohibidos 
os requerentes de faze- 
rem licções publicas, ou 
funcçóes ecc lesiasticas, 
para a instruccão das 
creanças ou de outras 
quaesquer pessoas, nesta 
cidade de Paris, até que o 
contrario seja ordenado 
pelo tribunal, sob as pe- 
nas que este determinar." 
Todavia. Servin, na pri- 
meira parte do seu discur- 
so, propunha, como meio 
de conciliação, que os je- 
suítas se compromettessem por juramento a 
submetter-se aos seguintes quatro artigos, 
cuia leitura fez : 



I." Km caso algum, e sob qualquer pre- 
texto, mesmo por causa de moral ou reli- 
gião, se deve attentar ou fazer attentar con- 
tra a vida dos reis. cuja pessoa é sagrada 
e inviolável. 

2." As coisas temporaes devem ser sem- 
pre consideradas independentes do poder 
ecclesiastico. 




C livro do jesuíta Mariana queimado no patíbulo 



3." Os ecciesiasticos são, assim como os 
seculares, sujeitos como cidadãos ao poder 
temporal. 



lecido de falsidadej para os fazer santos a elles, e de 
calumnias para infamar os contrários, é Crétineau- 
Joly, de quem o seu biographo e amigo, o padre 
Maynard, aão se envergonhou de nolo representar 
como habilidoso de primeira agua parai falsificar, 
suppor, e em ultimo caso roubar ura documento, e 
praticar a arte dachjntjge. Vm tal homem seria mais 
apto para escrever os bastidores do jesuitismo, do 
que a Historia da companhia ; mas taes histo- 
riados tal historiador. Quando os jesuítas encon- 
iracraram Crétineau, em i8.)0, an.lavnm a cata 



d'um escriptor francas que não estivesse ligado a 
elles por nenhum laço apparente, e que, fingindo fa- 
zer uma obra imparcial e perfeitamente indepen- 
dente, consentisse em escrever© que elles lhe dictas- 
sem. Crétineau-Joly era o homem nas condições, e 
o negocio foi tratado e concluído mediante uma 
somma paga ao pretendido historiador, e cujo alga- 
rismo, o padre Moynard não precisa ao certo, mas 
que reconhece ter sido constituido, — pelo menos 
em parte, — em acções da Opera. Crétineau foi mo- 
rar para a casa professa Ai Rom.i, e ahi ia d.mJo 



i6(") 



HISTORIA GERAL 



O quarto artigo era um reconhecimento 
absoluto das liberdades da Kgreia ijallicana. 

O advogado geral declarou que, na falta 
de se não submetterem inteiramente a es- 
tas doutrinas, e de provarem que o faziam 
com toda a sinceridade, os obrigariam de 
qualquer maneira a restringirem-se ás clau- 
sulas e condições do seu estabelecimento em 
França. 

Depois de grande polemica acerca destes 
quatro artigos, o sr. de Montholon prometteu 
que os reverendos, de quem tinha advogado 
a causa, fariam tudo o que lhes pediam, e, 
a ^i de dezembro de ifui. o parlamento, 
jielo voto unanime de trinta e seis juizes, 
no numero dos quaes se contava o principc 
de (londé, proferiu a sentença solcnne, no 
sentido das conclusões do advogado geral. 

A 22 de fevereiro de 1612, os jesuítas, 
sob a direcção do padre Halthasar, seu pro- 
vincial, foram ao parlamento lazer a sua 
submissão, nos seguintes termos: 

«Tendo assistido á audiência do tribunal, 
sobre a qual interviu o accordam de 22 de 
dezembro ultimo, dado contra os padres je- 
suítas do collegio de Clermont, d'esta cidade 
de I^aris, requerendo o registo das cartas 
patentes do rei. de 22 d'agosto de 1610 
duma pai"te; e os reitores, deãos, syndicos 
e procuradores da universidade, que a isso 
se oppunham, da outra; os quaes, obede- 
cendo ao dito accordam, declaram que se 
conformam com a doutrina da Sorbonne, 
mesmo no que se refere á pessoa sagrada 
dos reis, manutenção da sua auctoridade 
real, e liberdades da Flgreja gallicana, desde 
sempre guardadas e observadas no reino, 
do que requereram e assignaram auto.» 

Os reverendos, dando adhesão aos qua- 
tro artigos propostos pelo advogado geral, 
não deixaram de fazer, como de costume, 
um bom numero de restricçõcs mentaes. 
que os deviam dispensar de cumprir a pa- 



fórma ao que uma legião de jesuítas, verdadeira- 
mente encarregados do trabalho, lhe iam fornecendo 
e de que elle tomava depois a responsabilidade pe- 
rante o publico. E' por isso que os jesuitas recom- 
mendam aos seus amigos a leitura d'esta obra, que, 
confessemol o, com bastante repugnância temos fo- 
lheado durante annos, sabendo, como não é segredo, 
qual a ausência de senso moral do sau escriba. 



lavra jurada, visto que fraude e perjúrio 
lhes andaram sempre na massa do sangue 
e na essência da instituição. 

N'estas diversas narrativas é dillicil, ou- 
por assim dizer quasi impossível, seguir ex- 
actamente a ordem das datas. As conspira- 
ções dos santos homens, ou as discussões 
que ellas suscitam, duram annos e annos, 
e antes que cheguem a .seu termo, outras 
conspirações são formadas por ellcs, outras 
discussões começam, novos attentados en- 
tram em via de execução. Precisamos pois 
voltar a traz, e (itarmos os olhos por uma 
ultima \ez sobre o lim d'este fatal anno 
(i()ioj, tornado celebre pelo crime de Ra- 
vaillac. 

Km ii) de novembro, acceitando as conclu- 
.sões de Servin, o parlamento tinha condem- 
nado um livro do jcsuita Sebastião Heissius, 
livro d'uma grande analogia com o de Ma- 
riana, e intitulado: Tratado do poder do 
papa lias coisas lemporacs. Os jesuitas puze- 
ram em campo, para impedirem a execução 
d:i sentença principalmente n'este assumpto, 
o núncio do papa, Ubaldini, que tinha um 
grande império no espirito da rainha mãe, 
e Maria de Medicis impoz silencio ao par- 
lamento. 

Houve, porém, um homem que se atreveu 
a alVrontar a rainha, o legado do papa e os 
jesuítas, foi Kdmundo Richei", syndíco da 
faculdade de theología da Sorbonne, e um 
dos homens mais illustrados e corajosos do 
seu século. Reuniu a faculdade, e num dis- 
curso enérgico, lhe prescreveu de secundar 
as intenções dos magistrados c de os slis- 
tentar, se assim fosse necessário, contra a 
própria fraqueza. Alem disso, publicou uma 
refutação do livro de Heissius, com o titulo: 
Do poder ecclesias/ico e politico. Juraram vin- 
gar-se os jesuitas e conscguiram-n'o. O seu 
espirito engenhoso inventou contra o sábio 
doutor perseguições e calumnías. Declara- 
ram-o herético, e publicaram que o seu ódio 
contra a S. J. provinha da sua immoderada 
amisade aos huguenotes, que, por esta ma- 
neira, queriam fazer paralysar os serviços 
que a companhia podia prestar á religião! 
catholica. 



DOS jesuítas 



167 



Os ultramontanos, que então estavam em 
maioria na Sorbonne, iiniram-se aos jesuítas 
para desconsiderarem o syndico e a sua dou- 
trina, e nunca lhe perdoaram nem a sua ener- 
gia nem a sua eloquência; e vinte annos de- 
pois, Richer pagou com a vida a refutação 
que tinha ousado fazer do pamphleto jc^ui- 
tico. A corspiração de que foi victima (iõ3o) 
foi executada no próprio palácio do cardeal 
de Richelieu, ao tempo ministro. 

O papa Trbano Mil acabava de derogar 
a bulia lançada por Sixto V em i58?, para 
impedir que não podassem ser elevados dois 
irmãos ao cardinalato. Ksta dispensa fora 
feita pelo pontitice em proveito de Richelieu, 
e ao mesmo tempo soube se que o chapéu 
tinha sido dado ao irmão deste ministro, Af- 
fonso du Plcssis. que, de frade cartuxo, pas- 
sava a arcebispo d"Aix, c depois de Lyon. O 
papa, porém, — visto que em Roma nada se 
ta/, pro Dco, — pòz como condição a este fa- 
vor extraordinário que o cardeal de Riche- 
lieu obrigaria Richer a escrever uma retra- 
ctação do seu livro : Do poder ecclcsiastico, 
ctc. Richelieu mandou fazer algumas tentati- 
vas neste sentido junto do sábio doutor ; 
mas achou-o irreductivel. O cardeal, dissi- 
mulando a cólera, convidou Richer a vir jan- 
tar com elle. Quando se levantaram da me- 
■~.i. o padre José, capuchinho, o seide e o 
braço direito de Riciíclieu. tingindo querer 
conversar com Richer, num quiirto próximo, 
alli propoz-lhe muitas perguntas sobre a au- 
ciLiridade do papa. O doutor ia expondo a 
sua opinião .sincera, mas de forma modera- 
da,, quando o padre José, elevando repenti- 
namente a voz, a rim de dar signal aos sequa- 
zes jireparados para a e.xecução do crime, 
disse, appresentando uma retractação já es- 
cripta a Richer : 

— K" hoje que vos haveis de retractar ou 
morrerl 

Mal disse estas palavras, logo a porta do 
quarto se abriu, dois jesuítas armados en- 
traram, e lançando-se sobre o venerável dou- 
tor, apontando-lhe os punhaes ao peito, obri- 
i;am-n o a assignar um papel, que nem lhe 
deram tempo para ler! 

Edmundo Richer morreu algumas sema- 
nas depois de magua c desespero. 



Comtudo as fraquezas e as concessões de 
Luiz .XIII só com grande custo consegui- 
ram desarmar os sicários da companhia, t, 
durante a primeira metade do seu reinado, 
teve que temer os mesmos punhaes que li 
nham sido afiados contra seu pae. A seguin- 
te carta, escripta a um amigo por uma das 
personagens mais eminentes da. epocha, é 
disso testemunho : 

«Senhor e amigo. 

fNão ignora pi>r certo que a raça dos 
Chatel e dos Ravaillac não está inteiramente 
destruída, nem se extinguiu com o fogo que 
os reduziu a cinzas. K uma hydra de sete 
cabeças, que, ou moribunda, ou mesmo mor- 
ta que seja, sabe resuscitar, crescer e até re- 
juvenescer \ de sorte que se uma das cabe- 
ças cae. logo nasce outra para o logar delia. 

«Ha já alguns dias ia carta é escripta em 
1 1 de fevereiro de 167?) um padre chamado 
Francisco Martel, accusado e convencido de 
muitos crimes capitães, e entre outros, de ter 
querido tentar contra a vida do rei por con- 
selho c a i)isiigi.uão de dois outros /csiiitiis, 
foi condemnado pelo parlamento de Ruão a 
ser rodado, e depois queimado conjuncta- 
mente com um seu criado, condemnado este 
a ser primeiramente enforcado, e as cinzas 
de ambos lançadas ao vento. 

«Este mau e desgraçado Francisco Mar- 
tel, padre da parochia dEtréan, próximo de 
Dieppe, tinha anteriormente exercido duran- 
te dez annos as funcçties d'advogado n aquel- 
la mesma cidade de Dieppe. com o nome de 
Nicolau, e consta que fora alli casado. Por 
morte de sua mulher,ordcnou-se de missacom 
o nome de Francisco, e á força dintrigas e de 
artihcios conseguiu obter o curato de Étréan. » 

A carta conta depois a historia duma con- 
spiração inventada por Martel e o seu cria- 
do Galeran ; conspiração que elles queriam 
revelar ao rei e que era tramada por um 
soldado hispanhol. 

Por esta proesa foram os dois presos, eii 
viados para Ruão e ahi processados. Os jui- 
zes instauraram o processo, e ao rim de oito 
dias, dizia o respectivo libello : 

« I ."Que -Martel. sendo ainda cura de Etréaii. 
tinha recebido por empréstimo do seu vigá- 
rio quarenta libras, c que, chegada que loi 
a epocha do pagamento, negou a divida tre> 



i68 



HISTORIA GERAL 



vezes na presença do juiz de paz. do seu es- 
crivão c do deão ; 

«2." Que Martcl. nv niez dagosto ultimo, 
lòra acusado de sodomia ; cujo crime con- 
fessou com Jacques Quinet e Nicolau Gale- 
ran, seus criados, e que o tinha ainda ten- 
tado com um terceiro ; 

«3." Que tendo cm sua casa feito subir a 
um banco um rapaz, a fim de lhe alcançar 
>.]ualqucr coisa, que se achava em sitio eleva- 
do, lhe tinha atirado um laço de corda ao 
pescoço, deitado a baixo, e que por certo <> 
estrangularia se lhe não accudissem ; c que 
se livrou do processo por desistência da par- 
te com quem se compoz ; 

«4." Que o dito padre tinha um \izinho 
cíiamado Christovam Auvray, de quem era 
inimigo, e que querendo o fazer assassinar 
pelo seu criado Galeran, este o feriu grave- 
mente com um tiro de pistola, fugindo de- 
pois para Paris onde viveu á custa de Mar- 
tel ;^ 

«?." Martel confessou mais que tendo ido 
ao encontro de Galeran a Paris, partiu com 
elle para Ruão, onde os dois compraram a 
mecha e a pólvora com que lançaram fogo 
e reduziram a cinzas a casa de Christovam 
Auvray; que depois d'isto os dois partiram 
para Dieppe em companhia de Ambrósio 
Guyot, jesuita. . . 

«Emfim, para cumulo destes crimes, dos 
quaes um arrasta ao outro, o processo pro- 
vava que Martel, ^estando em Ruão, tinha 
ido a casa do primeiro presidente, e lhe fi- 
zera a declaração da conspiração; e ahi con- 
fessou que o seu desígnio era ser admittido 
;l presença do rei para o matar, e que dois 
/csiiitíis, Ambrósio Guyot c Chapais, íiiilia>ii 
sitio seus conselheiros e seus iiislii^adores. 

«A' vista desta confissão foi revistado e 
encontraram-lhe no cós uma navalha seme- 
lhante á de Ravaillac. 

«O jesuita Chapuis, recebeu ordem para ti- 
car preso em casa do seu reitor, e diz-sc que 
bem depressa será julgado; Ambrósio Guyot 
foi levado para a cadeia. 

«Galeran declarou que não tivera conhe- 
cimento do plano regicida de seu amo ; mas 
que sabia que Martel e Ambrósio Guyot ti- 
nham amiudadas conferencias, e que o je- 
suita tinha trazido dois soldados hispanhoes 



de Flandres, que moraram muito tempo cm 
companhia de Martel, e a quem este fizera 
varias promessas. 

«.Mais confessou Martel, que o jesuita A. 
Guj^ot lhe tinha etfectivamente enviado os 
dois soldados ; que elle lhes tinha falado mal 
do rei e do seu governo, para os sondar, e 
que A. Guyot o tinha conduzido, a elle Mar- 
tel, ao refeitório dos jesuítas de Dieppe. 

«Acabam de ser encontrados, em casa 
dum parente de Martel, cartas datadas de 
maio ultimo, na qual Martel manda cumpri- 
mentos para Ambrósio Guyot, e ordena que 
lhe diga que peça a Deus e á Virgem Maria 
de apressar e proteger o e.vito do plano que 
ambos tinham feito antes da partida.» 

A instrucção do processo continuou acti- 
vamente, e quando os elementos esmagado- 
res para os jesuítas começavam a ser irrefu- 
táveis, eis que uma ordem regia ordena que 
se archive o processo! 

O parlamento de Ruão não se atreveu a 
resistir a tal ordem mas lavrou um termo 
no qual declarava que todos e cada um dos 
seus membros era extranho a esta incrível 
absolvição, que a innocencia se defendia por 
outros meios, e que repugnava á honra em- 
pregar os expedientes postos em acção para 
conseguir a impunidade. 

O devoto rei dia a dia mais conciliava as 
sympathias dos reverendos padres. Por con- 
selho do seu confessor, o padre Caussin, e 
com a permissão do cardeal ministro, a quem 
as macaquices religiosas não desagradavam, 
pòz o reino sob a protecção da Virgem. Os 
jesuítas foram pouco e pouco açambarcando o 
ensino da mocidade, c nunca a companhia 
se viu tão poderosa e rica em França. Mas 
a sua ambição ainda não estava saciada, e 
coisa alguma conseguia apaziguar o seu es- 
pirito de turbulência e invasão ; não cessava 
de renovar queixas e libellos, e sempre, con- 
stantemente tratando a questão do poder dos 
papas sobre os reis e sobre os poros. 

Santarelli, jesuita italiano, publicou esta 
doutrina em um novo livro dedicado ao car- 
deal de Sabóia, e approvado por Vitelleschi, 
geral da ordem. Jamais qualquer auctor tinha 
tratado esta doutrina de maneira mais revol- 
tanlel Portanto, a i3 de março de 1626, o li- 



DOS jesuítas 



160 




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HISTORIA GERAL 



\ TO foi queimado cm Paris pelo algoz, como 
já fora o de Mariana. Mas taes execuções 
não tinham influencia alguma sobre o espiri- 
to dos jesuitas, e o parlamento agitou de no- 
vo a questão da sua expulsão, e citou para 
comparecerem á sua barra o pro\ incial, trcs 
reitores e três professores da companhia. Kl- 
les compareceram, atravessando, por entre 
os clamores de maldicção, as alas do povo 
que tinha concorrido para os ver passar. 

Foi o padre Cotton, provincial, o primei- 
ro a ser interrogado. 

«Acredita, perguntou lhe o presidente, que 
o papa possa excommungar e depor o rei de 
França ? 

— O rei c o filho mais velho da Kgreja, e 
nada fará que obrigue o papa a essa extre- 
midade. 

— Mas partilha ou não a opinião do seu 
geral, que dá este poder ao pontifice ? 

— O nosso geral segue a opinião de Ro- 
ma, onde está, c nós seguimos a de F^rança, 
onde vivemos. 



— K se esti\csscm cm Roma ? 

— Seriamos romanos.» 

Continuava o processo, mas as pressões á 
roda do rei foram taes, que clle deu ordens 
terminantes para que fosse archivado. 

Em meados de i(')3i, novo requerimento 
foi feito ao rei pela universidade contra os 
jesuitas, e o rei estava a ponto de ceder aos 
jesuitas obcecado pelo seu confessor, (^aus- 
sin, quando Richelieu, que não se liie dava de 
proteger a companhia, comtanto que ella não 
pretendesse ser um estado no Estado, um 
poder que fizesse sombra ao seu poder, se 
pronunciou a favor da universidade, que en- 
trou na posse dos seus privilégios, por um 
decreto de 8 de junho de i63i. 

Os jesuitas curvaram a cabeça perante a 
mão de ferro do cardeal, que reconheciam 
tão velhaco, e mais resoluto que todos os da 
sLia ordem juntos, e, a datar d"então, e em 
quanto este ministro governou o reino, mal 
deram signal de si. 

I)csforram-sc depois! 



DOS JESUÍTAS 



171 



XXVI 



Os jesuítas nas ilhas britannicas 



LARGUEMOS OS jesuitus dc França no apo- 
geu do seu domínio, gosando o fructo da 
sua tenacidade, dos seus expedientes ora ca- 
vilosos ora iiabiiidosos e até dos seus crimes, 
e vejamos o seu trabalho sinistro na Ingla- 
terra, apparelhando esse cadafalso onde tai> 
tos deixaram a vida e a que por fim os ve- 
remos subir, em desaggravo da justiça, con- 
vencidos, mas não arrependidos. 

Quando no nieio da grande tempestade 
religiosa que revolveu o mundo, a compa- 
nhia de Jesus elevou pela primeira vez a sua 
bandeira, a Inglaterra acabava de se libertar 
da auctoridade de Roma. Sabe-se como foi 
operada esta separação. Henrique \'III, esse 
real e terrível Harba-A-iil da historia, queria 
obter do papa que este auctorisasse o 
divorcio com Catharina d'Aragão, sua pri- 
meira mulher, que pretendia substituir por 
Anna de Holeyn. O pedido do monarcha 
inglês era injusto em si, e ia d'encontro ils 
leis da Egreja romana. Infelizmente os che- 
fes d'esta Egreja já tinham annuido a outros 
pedidos semelhantes, e legitimado uniões tão 
illegitimas como a que Henrique \'III con- 
tractou com Anna de Holeyn, antes mesmo 
que o papa se pronunciasse, o que o prínci- 
pe inglês SC não esqueceu de objectar. O 
pontífice estava portanto cmbaràçadissimo. 
Se no solo britannico ainda naquelle mo- 
mento se mantinha a religião catholica, era 
porque a sustentava o sceptro e principal- 
mente a espada real, que Henrique VIII ti 
nha posto ;í sua disposição. Por outro lado, 



a mulher repudiada pelo monarcha inglês era 
tia do imperador Carlos-Quinto, cujo soc- 
corro e protecção tinham uma importância in- 
calculável no continente para a Egreja roma- 
na. Carlos Quinto venceu. (Clemente excom- 
mungou Henrique VIU, que se vingou pros- 
crevendo o catholicismo dos seus estados, e 
dechirando-se chefe da egreja anglicana. 

lestas grandes coisas já estavam consumma- 
das antes da creaçao da companhia de Je- 
sus. Por isso, nas doze províncias formadas 
por Ignacio de Loyola não ligura a Inglaterra. 
Os jesuítas consideravam a grande ilha co- 
mo um pais inimigo, e não tiveram alli se- 
não missões. 

Assim, pois, que a guerra foi formalmente 
declarada entre o papa e Henrique \'III, 
logo alli correram os membros da negra co- 
horte, que apenas tinha meses de existên- 
cia. Era uma rica província catholica que es- 
capava ao chefe da Egreja de Roma, c que 
se tratava de reconquistar em proveito do 
geral dos jesuítas. Naquelle tempo, eram 
avaliados em perto de 8:000 contos da nossa 
moeda os rendimentos das ordens religiosas 
de que Henrique \III se apoderou. Os es- 
critores catholicos clamam em altas vozes 
mostrando estes algarismos, que para ou- 
tros, ao contrario, representam a condemna- 
cão da ordem de coisas de que os primeiros 
lamentam a perda. O facto é que os ingleses 
acharam que tal somma tinht melhor desti- 
no"*servindo a nação, do que sendo gosada 
por um corpo religioso, fosse elle catholico 
ou anglicano. 



'7= 



HISTORIA GERAL 



K' fácil d'adivinliar como estas riquezas 
de que Roma acabava de ser despojada ani- 
mavam os jesuítas a intentarem para si a 
conquista da Inglaterra. Pasquier Brouet e 
Salmeron foram, como já dissemos, os pri- 
meiros padres expedidos de Roma em soc- 
corro do catholicismo agonisante na Grã- 
Bretanha, não só sob o pé de Henrique VIII, 
mas também ao peso da reprovação do po- 
vo inglês. Os dois missionários impelliram á 
revolta os irlandeses, que se tinham conser 
vado catholicos, e que ainda o são, apesar 
das perseguições, ou talvez por causa d'ellas, 
e principalmente porque a religião prose ri- 
pta foi e será para elles um laço d'u"adoiro 
e fortissimo. Os dois jesuítas nada conse- 
guiram na Irlanda, senão juntarem, com as 
suas intrigalhadas, mais algumas ondas de 
sangue, ás ondas de sangue que então se 
alastravam naquelle desgraçado país. De- 
pois duma curtíssima missão na Irlanda, 
procuraram ver se podiam penetrar na In- 
glaterra; mas o terror que inspirava o terrí- 
vel Henrique VIII, fez-lhes voltar os passos 
para a Kscossia, onde John Knox, discípulo 
de (>aIvíno e chefe da reforma ii'aquellc 
pais, levantava então a sua voz potentíssi- 
ma, ao som da qual se desmoronavam os 
conventos e as egrejas catholicas. Retoma- 
ram, pois, com sombria e concentrada cóle- 
ra, o caminho da Itália. Ainda depois, por 
diversas vezes, outros discípulos de Loyola 
atiçaram o fogo que sempre mais ou menos 
ardeu na Irlanda. 

Durante todo o reinado de Henrique VIU, 
os jesuítas mal punham pc em Inglaterra, 
logo os expulsava a inexorável e vigilante se- 
veridade do déspota tão poderoso como cruel. 
A sua influencia parece, porém, querer fa- 
zer-se sentir no que os historiadores ingleses 
chamam a romana da graça, e que foi 'uma 
revolta bastante séria realisada em favor do 
catholicismo. O exercito de romeiros, com 
mandado por um fidalgo decerto condado do 
norte, era guiado por padres paramentados 
com as vestes sacerdotaes ; as suas bandei- 
ras eram pendões d'egreja, nos quaes esta- 
vam representadas as chagas de (Jhristo. 
Além d'isso os peregrinos traziam na mai>ga 
do braço direito bordado o nome de Jesus. 
A verdade, porém, é que n'esse tempo ainda 



Ignacio de Loyola andava em instancias junto 
do papa para instituir a sua ordem. Esta re- 
volta rebentou em seguida ao ultimo acto de 
Henrique VIII, pelo qual elle acabou de que- 
brar o laço espiritual, que por tão longo tem- 
po tinha ligado a Inglaterra á corte ponti- 
fícia. 

Depois que fez morrer Anna de Boleyn 
no cadafalso, Henrique VIII, a fim de mos- 
trar a todo o mundo que estava, então mais 
do que nunca,resQlvído a marchar no caminho 
que o afastava de Roma, e pôr, pelo terror, um 
termo aos esforços tentados pelos partidários 
da cúria, fez publicar um edito que punia 
Cíim a pena de prisão e de confiscação de 
bens todo o individuo que sustentasse a au- 
ctoridade do bispo de Noma, e com a morte 
aquelle que ousasse tentar restabelecel-a cm 
Inglaterra. Este diploma obrigava, além d'is- 
so, a toda e qualquer pessoa provida em 
um emprego ecciesíastíco ou civil, ou que 
possuísse qualquer dom, carta ou privilegio 
da coroa, a renunciai; ao papa por meio de 
juramento, sob pena de ser declarada culpa- 
da de alta traição I. . . Qualquer que fosse a 
C()lera da Santa-Sé, em presença de taes me- 
didas, teve que se resignar a vãs ameaças ; 
e foi só no reinado de Maria Tudor, a filha 
cruel de Henrique VIU., que essas ameaças 
se realisaram. Então surgem triumphantes 
os jesuítas na terra inglesa, e dirigem as \in- 
ganças religiosas de que Maria Tudor se fa- 
rá executora. Depois do reinado epliémen» 
duma creança, Eduardo VI, filho de Hen- 
rique e irmão de Maria, esta subiu ao throno. 

A rainha Maria, filha de Catharina d'Ara- 
gão, era catholíca como sua mãe, e, pouco 
depois de ter sido investida no soberano 
poder, escolheu para seu marido o filho de 
Carlos-Quínto, aquelle que devia ser chama- 
do Eílíppe II. Esta escolha era significativa, 
e fora feita contra a vontade do parlamento, 
e o voto geral da nação. Maria tinha-se de- 
cidido a fazel-o pelos conselhos que recebia 
de Roma. Parece que taes conselhos eram 
tão violentos, que o próprio Carlos-Quinto, 
catholico e protector do catholicismo, julgou 
do seu dever attenuar-lhes o elfeíto por meio 
de prudentes admoestações, chegando até 
a prender um certo cardeal Polé, legado do 
papa, inglês filho d'uma grande família, que 



DOS jesuítas 



173 



"iitr'ora liiilia conspirado contra Henri>.]uc 
\ 111, apesar d'e5te ter sido seu amigo e bem- 
tcitor. A rainha fez saber um dia á Ingla- 
terra que quanto antes tinha de volscr á re- 
ligião que seu pae havia proscripto. No dia 
seguinte levantaram-se os cadafalsos e ac- 
cenderam-se as fogueiras para os recalci- 
trantes. Cadafalsos e fogueiras taes foram 



gloso. Sabe se que a infeliz .loanna Gray fo' 
uma das suas victimas. 

Por morte de Kduardo \'I, sem energia 
para reagir, a pobre mulher deixou-se accla- 
mar rainha d Inglaterra por um partido pode- 
roso. \'encida e feita prisioneira da sua rival, 
obteve primeiramente o pervião da vida; mas 
-Maria Tudor, sacrilicou-a logo ao seu zelo 




Oa jesuítas otrigam o dr. Richer a retractar o aea livro 



os argumentos de que Maria se serviu em 
primeira linha, cmquanto reinou, para des- 
truir o protestantismo na Inglaterra ! 

Mas na cinza das fogueiras, e no sangue 
que escorria dos patíbulos, o protestantismo, 
como acontece a todas as crenças persegui- 
das, encontrava uma nova c potente seiva, 
que bem depressa o mostrara iVondoso c 
lorte cobrindo toda a Inglaterra. 

Durante o seu reinado, a sanguinária Ma- 
ria, como à historia chama á filha mais 
velha de Henrique VIM, nunca cessou de sa- 
crilicar assim nos altares do fanatismo reli- 



pelo catholicismo. cujos adversários tinham 
tentado um esforço em nome de Joanna Gray, 
que foi condemnada á morte. Não deixa de 
ser necessário recordar, que, quando Maria 
Tudor teve que luctar contra Joanna Gray. 
para se assegurar dos seus partidários da re- 
ligião reformada, lhes jurou que nada muda- 
ria ãs leis de Kduardo. Dar-se-ha caso que 
os jesuítas já lhe tivessem ensinado as sub- 
tilezas da sua odiosa theologia ? 

Seja como for, os jesuítas alcançaram em 
Inglaterra, durante este reinado, uma impor- 
tância qiK' dc\iam perder no icinado seguiu- 



'74 



UISTORIA GERAL 



te, para nunca jnais a rca«.i>.|iniii cm ; e c esta 
influencia que tem feito recair sobre elles 
uma parte do odioso que as execuções dos 
protestantes fizeram pesar sobre a memo- 
ria de Maria. Algumas dessas execuções ti- 
veram pormenores terríveis e capazes de fa- 
zer detestar a quem quer que seja o fanatis- 
mo religioso, os crimes que elle provoca e os 
ministros de que se serve! pjs porque esboça- 
remos aqui, a traço rápido, o supplicio d'al- 
gumas das \iciinias de Maria Tiidor. 

Km ihb'.\ Hooper, bispo de (ilocester, 
j;i em avançada edade, foi condemnado á 
morte por não ter querido abjurar a crença 
de que tinha sido mestre durante longos an- 
nos. Por um requinte de crueldade, fizcram- 
no sotVrer o ultimo supplicio no meio do reba- 
nho de que fora pastor. Hooper era, mesmo 
na opinião dos escriptores catholicos, um ho- 
mem notabilissimo e um bom padre, como 
a sua morte provou. Ligado ao poste da fo- 
gueira, onde devia morrer queimado, em 
volta da qual os soldados contêem a multi- 
dão, elle dirige meigos sorrisos, alVectuosas 
e consoladoras palavras á turba, a quem o 
terror faz silenciosa e immovel. A fogueira 
está accesa, já as chammas envolvem a vi- 
ctima, e ainda ella sorri para consolar os que 
a vêem morrer I Por certo, por um calculo 
inquisitorial dos algozes, a lenha da foguei- 
ra era verde cárdia lentamente de forma que 
a parte inferior do corpo da victima estava 
quasi toda consummida e ainda a morte lhe 
não tinha dado o descanço eterno. Durante 
três quartos dhora, emquanto as carnes assim 
se iam torrando vagarosamente, o bispo de 
(ilocester soffreu este horrível martyrio com 
uma constância que só teve como egual a 
dos primitivos martyres do christianismo. Já 
uma das suas mãos tinha caido reduzida a 
carvão, e ainda a outra se extendia para 
abençoar o povo peia derradeira vez. 

A um outro padre anglicano nem sequer lhe 
consentiram esta ultima consolação de rezar 
em alta voz. Como elle recitasse um psalmo 
em inglês, segundo o uso dos reformados, 
ordenaram-lhc que se calasse ou rezasse em 
latim. Como não obedecesse, mataram-no 
espetando-lhe as alabardas no corpo. 
. Tm lai Hi.iiner, ministro das carniliciíias 



de Maria Tudor, tinha uma alegria selvagem 
em mart3'risar os christãos, que recusavam 
ser papistas, e nem ás mulliercs poupava os 
tormentos. 

Uma d'cstas condemnada a morrer queima- 
da, pediu que a não executassem emquanto 
não desse á luz o lilho que trazia no ventre, e 
que não devia ser condemnado pela religião 
da mãe. 

— Ah ! a loba herética está prenhe ! excla- 
mou elle com alegria feroz, pois tanto me- 
lhor; isso evitará de gastar lenha n'outra fo- 
gueira para queimar o lobinho!... 

A pobre mulher foi levada á fogueira, e 
quando as labaredas começavam aqueimar- 
Ihe as carnes, foram taes as dores da des- 
graçada, que deu á luz, caindo a creança no 
meio das chammas. Um dos guardas, solda- 
do grosseiro, saiu da forma e precipitou-se 
para retirar a innocente victima do brazeiro, 
mas o tigre que presidia ao supplicio impe- 
diu-lhe que levasse a cabo a sua (jbra d'hu- 
manidade ! 

(^usta recordar taes horrores \ e comtudo 
os jesuitas associavam-se a todos elles, pro- 
curando depois justifical-osi Os seus histo- 
riadores não se cançam de elogiar a sangui- 
nária Maria, e por pouco que não conver- 
tem no de saiila, aquelle epitheto com que a 
historia marcou a rainha cruel. 

Assim que sobre esta fúria coroada caiu 
a campa da sepultura, o protestantismo 
inglês ergueu-se de novo, mais forte, mais 
tirme depois da tempestade, do que ti- 
nha sido durante a calmaria que lhe propor- 
cionara Henrique VIII. Deve-se notar que 
tendo Maria Tudor, para obedecer ao papa, 
dado á egreja cathoiica todos os bens confis- 
cados por seu pae em proveito da coroa, so- 
brecarregou o seu povo de impostos para sa- 
tisfazer os gastos que fazia seu marido, Fi- 
lippe II, occupado em secundar Carlos-Quin- 
to, no continente, e que muito pouco se im- 
portava, se a rainha, por suas extorsões, aca- 
bava por se alienar completamente o espiri- 
to dos .seus súbditos. Filippe apenas vivera 
cinco meses com sua mulher, a qual, apai- 
xonada e ciumenta, passava os dias a escre- 
ver-lhe cartas que inundava de lagrimas, ella 
que tinha os olhos seccos na presença das 
maiores crueldades que lazia execut.u^I 



DOS jesuítas 



175 



Kmfim, Isabel subiu ao throno dlnglater- 
ra. Todos sabem que esta mulher celebre, 
danimo viril quiz ser e foi verdadeiramente 
fci. Convencida que os jesuítas eram seus 
inimigos e da terra de que era soberana, 
declarou-lhes francamente a guerra sem tré- 
guas. Baniu-os para sempre, c pronunciou sen- 
tença de morte contra os que d'entre elles 
afrontassem as suas ordens ou contra aquelles 
dos seus súbditos que lhes dessem guarida. 
Os Iilh5s de Loyola, porém, dizem que o 
que lhes atraiu a cólera da rainha d Ingla- 
terra, foi ella ver nelles a mais temivel das 
milícias que guerreava em favor do papa 
e do catholicismo, de quem Isabel se decla- 
rara a adversaria. 

Mesmo sob este ponto de vista, o mais fa- 
vorável para o jesuitismo dlnglaterra. as me- 
didas de severidade tomadas por Isabel con- 
tra elle podem ser justificadas. 

Quando por morte de sua irmã ella assu- 
miu o governo fez acto de submissão d Santa- 
Sé, notificando ao papa a sua elevação ao 
throno. Recebeu até considerações lisonjei- 
ras dos bispos catholicos que foram lelici 
tal-al O historiador Hume diz que ella não 
fez, a este respeito, senão uma única exce- 
pção, que recaiu n'esse abominável bispo de 
Londres, n"esse Bonncr que tinha sido o che 
fc dos algozes de Maria Tudor. E" mais que 
provável que este procedimento de Isabel 
lhe fosse dictado por uma politica de tino. 
Chamada a governar um pais revolvido por 
tantas tempestades, e sentindo ainda vacil- 
lar-lhe o throno aos embates dos passados 
vendavaes, Isabel julgou prjdente conciliar 
todos os partidos. Foi nesta intenção que 
perdoou até aquelles que, para agradarem á 
rainha .Maria, ou para e.vecutarem suas or- 
dens, a tinham privado da liberdade, e che- 
gado a pôr-lhe a vida em perigo. Não é tam- 
bém menos presumivel que, se a corte de 
Roma tivesse aproveitado prudentemente, 
discreta e habilmente os primeiros passos 
dados por Isabel, o catholicismo ter-se ia 
-■alvo, não por completo em Inglaterra, mas 
" seu naufrágio não teria sido total e irre- 
mediável. O papa Paulo IV respondeu a Isa- 
bel com um desatino tão pouco prudente co 
mo injurioso. Pretendia que a Inglaterra era 
um feudo da Santa-Sc e que, por consequên- 



cia, Isabel não podia ser soberana sem o 
consentimento d'elle papa, e que alem d'is- 
so as sentenças pronunciadas pelos seus pre- 
decessores, Clemente N'IIe Paulo III, contra 
o casamento de Henrique VIII com Anna de 
Bole3n, mãe de Isabel, não tendo sido annu- 
ladas, esta ultima era bastarda e, portanto, 
inhabil para succeder no throno. aComtudo, 
a)untava ironicamente o pontífice, estamos 
dispostos a mostrarmonos indulgentes, com- 
tanto que a filha illegitima do tyranno Hen- 
rique renuncie as suas pretenções a uma co 
roa que não lhe pertence, e se submetta a 
tudo que nos aprouver ordenar lhe.» Isabel 
sentiu-se profundamente magoada com a in- 
juria que lhe dirigiu o altivo Paulo IV, e 
quasi toda a nação inglesa se mostrou indi- 
gnada com tão extranhas pretenções do pa- 
pa. Isabel soube conservar habilmente o fo- 
go que a mão imprudente do pontífice aca- 
bava de reaccender, e que bem depressa de- 
\ia consumir os destroços do catholicismo. 
O povo inglês julgou ver no procedimento 
do summo pontífice uma intenção de resta- 
belecer na Inglaterra o tributo de S. Pedro, 
e os mil outros elos da humilhante cadeia do 
despotismo romano. Alem d"isso, Maria Tu 
dor tinha tornado o catholicismo odioso. Isa- 
bel, que era o ídolo do seu povo, depois de 
prudentes demoras, lançou mão duma oc- 
casião favorável, e, sem grandes amarguras, 
applaudida pela maioria dos seus súbditos, 
separou completamente a Inglaterra de Ro- 
ma. 

Cremos que os jesuítas não foram ouvi- 
dos nem achados no procedimento impoliti- 
co de Paulo IV para com a Inglaterra. Este 
papa mostrou-se sempre pouco favorável á 
companhia, que delle se vingou, como ja 
dissemos, sobre seus sobrinhos, assim que 
elle morreu. Laynez, então, geral da ordem, 
era bastante hábil para não perceber que, 
em tal conjunctura, os raios pontificios não 
podiam deixar de reanimar o incêndio atea- 
do por Henrique MU; além d"isso, o rei de 
Hispanha, Filippe II, esse alliado dos jesuí- 
tas, procurava então casar com Isabel, que 
durante muito tempo o embalou com pro- 
messas, até que se julgou bastante forte para 
romper abertamente com Roma. 

I"'aul(> \\ procurou, debalde, trazer Isabel 



i7t) 



HISTORIA GERAL 



;io seio da Egrcja romana por meio da bran- 
dura. Pio ^■ tentou chegar ao mesmo re- 
sultado pelo terror. Filippc II, que já não 
esperava poder ser marido de Isabel, uniu 
as armas dHispaniia, aos raios pontifícios; 
mas tudo foi perdido. As blandícias de Pau- 
lo I\', as excommunhões de Pio V, a famosa 
.vnijJa de Filippc 11, tudo vciu naufragar 
contra a tenacidade inglesa. Então, como 
ultimo recurso, o.s papas açularam os jesuí- 
tas contra Isabel, c desde logo começamos 
a cncontral-os nas ilhas britannicas envolvi- 
dos em todas as intrigas, que tiveram como 
objecto o dcsthronamcnto c, quiçá, a morte 
da rainha. 

Na Irlanda, suscitaram por diversas vezes 
revoltas que apenas deram como resultado 
fazer correr rios de sangue n'aquelle des- 
graçado pais. Ao mesmo tempo, organisa- 
vam conspirações na Inglaterra, taes como 
a dos Polc, membros da familia real, aos 
quaes Isabel perdoou a morte. O duque de 
Norfolk foi menos feliz. Tendo sido desco- 
bertas as suas machinações, foi condemnadci 
á morte e executado cm 1571. O centro de 
l(;das as intrigas, mais ou menos criminosas 
contra a rainha Isabel, era a casa d'um tal 
Rodolphi, mercador italiano estabelecido em 
Londres e zeloso catholico. Kra alli, que sob 
diversos disfarces, os jcsuitas vinham pôr 
em acção os planos concebidos em Roma 
ou em Hispanha. 

Km 1.^81, dc«cubriu-sc uma nova conspi- 
ração formada contra a rainha dlnglaterra 
pelos jesuítas. Segundo De Thou, Isabel, 
tendo suspeitas de que alguma coisa se ma- 
chinava contra ella, enviou a França alguns 
moços que se introduziram, como perten- 



cendo a famílias catholicas inglesas, no se- 
minário de Reims, vasto viveiro de piedosos 
conspiradores, instituído pelos Guises. Por 
meio d'estes confidentes, que estavam ao cor- 
rente de tudo que se tramava no seminário, 
soube que três jesuítas ingleses tinham par- 
tido para Inglaterra a fim de darem novo 
alento aos tramas formados contra ella. 
P'oram presos todos os três, mal chegaram a 
terra inglesa. Edmundo Campien, um d'cllcs, 
e seus dois companheiros negaram constante- 
mente que tivessem tenção de pôr em pra- 
tica qualquer projecto contra a vida da rai- 
nha. Comtudo, forçoso era que fosse grande 
o motivo que os levava a afrontar a lei que 
bania com a pena de morte os jesuítas de 
Inglaterra. Houve, porém, testemunhas in- 
suspeitas que juraram serem os três jesuítas 
chefes d'uma conspiração que devia privar 
a rainha do throno c da vida. Os espiões 
do seminário de Reíms fizeram saber que os 
jesuítas contavam com o auxilio d'um par- 
tido enorme, á testa do qual, tão depressa 
rebentasse a revolta, se collocaria uma per- 
sonagem importante da Inglaterra. Os três 
jesuítas foram enforcados em dezembro de 
irí^i, com outros padres catholícos seus 
cúmplices. A estas execuções seguiram-se 
severos éditos contra os jesuítas, e contra 
aquelles que mantivessem relações com el- 
Ics. Foi cgualmente prohibido a todo e qual- 
i.|ucr súbdito inglês ir ao continente estudar 
ou morar nos collcgios, seminários e ou- 
tras casas da companhia. As perturbações, 
que então rebentaram com toda a violência 
na Irlanda, obrigaram Isabel a lançar mão 
d'esta severidade contra os princípaes aucto 
rcs d"ellas. 



DOS jesuítas 



127 




Jonjura de William Parry 



I 



HISTORIA GERAL 



XXVII 



William Parry 



MAS. Jc loi-las as conspirações iramadas 
pelos jesuítas contra a pessoa de Isa- 
bel a melhor provada é a de 1384. Naquellc 
anno, no mez de janeiro, desembarcou em 
Inglaterra um certo William Parry ', in- 
glês de nascimento, mas que desde muito 
habitava o continente. Parry tinha em tem- 
po servido na casa da rainha; mas fora 
obrigado a sair de Inglaterra depois duma 
tentativa de assassinio, que lhe teria custado 
a vida sem a indulgência regia. Segundo 
Hume, Parry era catholico. De Thou diz 
que era protestante, mas que se convertera 
em França ao catholicismo. Como quer que 
fosse, este homem foi tomado, primeiramen- 
te neste ultimo pais, como espião de Isabel. 
e por isso repudiado pelos outros ingleses 
refugiados. De Paris seguiu para Lyon e 
d'aqui passou á Itália, onde se ligou com 
os jesuítas, e entre outros com um certo 
padre Palmio, que por tal sorte soube atear 
nelle o zelo catholico, que fez com que par- 
tisse para Inglaterra firmemente resolvido a 
trazer o seu pais á sua antiga religião, por 
todos os meios possíveis. O historiador De 
Thou, provando assim a sua imparcialida- 
de, conta que um jesuíta chamado Wiat, ou 
Wast, fizera tudo quanto estava em seu po- 
der para tirar da cabeça de Parry a idéa do 
crime; porque parece provado que William 
estava decidido a recorrer ao assassinio, se- 



' Já de passagem nos referimos a este facto que, 
agora aqui tem maior desenvolvimento, pela sua im- 
portância par.3 o conlicrimento di moral e intenções 
daS. J 



não encontrass e outro meio de derribar do 
tlirono a herética Isabel. Mas, admittindo 
que tivesse havido um jesuíta homem de 
bem, bastante ousado para se oppòr aos fu- 
nestos desígnios da sua companhia, os seus 
esforços ficaram sem valor. Outros jesuítas 
convenceram Parry que tudo quanto ellc 
projectava era bom e licito. Um núncio do 
papa deu-lhe previamente a absolvição, de 
tudo o que podessc fazer, um outro pro- 
metteu-lhe cartas de Roma que lhe dariam 
completa approvação dos seus piedosos pro- 
jectos. Parry escreveu ao pontífice pedíndo- 
Ihe esta approvação, sem a qual não queria 
voltar á Inglaterra, e foi um jesuíta, o pa- 
dre Cudret, que se encarregou de enviar a 
carta ao papa, promettendo que elle próprio 
faria apoiar vivamente pelos seus o pedido 
de Parrj-. Devemos dizer, em abono da ver- 
dade, que Parry nunca recebeu a approva- 
ção pontifícia que solicitara; apesar d'isso 
conseguiram resolvel-o a tentar a empresa. 
Tma vez em Inglaterra, e como ainda hesi- 
tasse, entregaram-lhe uma carta urgente do 
cardeal de Como, com data de Roma em 
3 1 de janeiro, na qual, diz De Thou, este 
príncipe da Egreja, depois de lhe ter dado 
a benção em nome do santo-padre, instava 
vivamente com Parry para que perseverasse 
ii'iim tão loiii'ai'L'1 intento. 

William Parry, assim excitado, não hesi- 
tou, e julgou do seu dever cumprir tudo 
quanto tinha promettido. A fim de melhor 
realisar os seus projectos, procurou ligar-se 
com alguns fidalgos ingleses, e conseguir 



DOS JESUÍTAS 



179 



uma audiência da rainha Isabel, a quem 
supplicou que lhe perdoasse tudo. Segundo 
Hume. Parrv teria então renunciado, pelo 
menos temporariamente, ao seu projecto de 
assassinar a rainha; tentou por varias vezes 
persuadil-a a que revogasse os seus decre- 
tos contra o catholicismo, e, para obter este 
resultado, chegou a declarar-lhe que a vida 
delia rainha corria perigo, se o não fizesse. 
Parece que, apoiado por altas personagens, 
inimigas secretas da Reforma, conseguira 
fazer-se nomear membro da Camará dos 
Communs, donde não tardou a ser expulso 
por um discurso atrevido, no qual censurou 
alta e severamente as medidas de rigor to- 
madas contra o catholicismo. 

F"urioso por esta desconsideração, e mais 
ainda pela prisão que se lhe seguiu, instado 
muito de perto pelos jesuítas, e por alguns 
padres catholicos taes como Allen, clérigo 
inglês, que, alguns annos annos depois, foi 
nomeado cardeal. Parrv voltou ao seu antigo 
projecto de assassinar a rainha, destruindo 
com ella o protestantismo na Inglaterra. O 
crime foi assim premeditado. Isabel seria 
assassinada quando fosse passear ao-jardim, 
como era seu costume, e o que fazia quasi 
sempre sem comitiva. Um barco esperaria 
o assassino no Tamisa, para fugir á ira po- 
Dular, que por certo se desencadearia á no- 
licia do attentado. Mas, julgando ter neces- 
sidade dum cúmplice para que a tentativa 
não falhasse, associou-se um outro inglês 
chamado Nevil, e seu parente. Nevil, se- 
gundo alguns historiadores, não attendeu ás 
idéas homicidas de Parry senão para as fa- 
zer abortar; segundo Hume, elle era de boa 
fé cúmplice d aquelle agente dos jesuítas. 
.Mas, emquanto Parr}' procurava uma occa- 
sião favorável para assassinar a rainha, em- 
quanto os jesuítas preparavam surdamente 
o movimento revolucionário que devia apro- 
veitar-se do crime, o conde de Westmore- 
land, fidalgo inglês, morre no e.xilío, e Ne- 
vil, ao tempo pobre, mas que era próximo 
parente do conde, começa a c,alcular que, 
fazendo-se denunciante da conspiração tra- 
mada contra a vida da rainha, poderia obter 
o titulo, os bens e as honras do defunto 
conde. Sem nada dizer a Parrv, foi pro- 
curar o conde de Leicestcr, camarista da 



rainha, e Walsingham, um dos seus minis- 
tros, a quem descobriu a conspiração. Im- 
mediatamente Parry foi preso. Interrogado 
acerca do crime que meditava, começou por 
negar, e somente confessou que tentava o 
restabelecimento da religião catholica roma- 
na. Mas, acareado com Nevil, acabou por 
C(jnfessar tudo, .somente lançou para sobre 
o seu denunciante todo o odioso do projecto 
e a auctoría de tentar contra a vida da sobe- 
rana. Pediu aos juises a graça de o tratarem 
«não como Caim que desespera da sua sal- 
vação, mas como o publicano que ingenua- 
mente confessa as suas faltas.» 

Escreveu também á rainha pedindo-lhe o 
seu perdão, representando que seria mais 
proveitoso para ella perdoar-lhe do que en- 
vial-o ao supplicío. Reiterou as suas decla- 
rações por muiti-s vezes, e, para attenuar o 
seu crime, fez valer a circumstancia de lh'o 
terem elogiado como uma boa acção. Estas 
declarações comprometteram os padres ca- 
tholicos em geral, mais particularmente o 
núncio do papa, e principalmente os jesuí- 
tas. Um membro da companhia foi por essa 
occasião preso em Inglaterra, onde se tinha 
introduzido disfarçado, sem duvida para ser 
testemunha do que se ia passar, e para que a 
sua ordem obtivesse larga parte na víctoria 
que se preparava, á custa d'um cobarde as- 
sassínio, para a Egreja romana. Este jesuíta, 
chamado Creígthon, começou por negar que 
tivesse conhecimento do projecto formado 
por William Parry, e acabou por confessar 
que este lhe dera parte d'elle; mas susten- 
tou até o fim que não lhe tinha dado ne- 
nhum conselho que o animasse ao assassínio 
da rainha, e que, pelo contrario, se não can- 
çara de lhe repetir que esta máxima : é bom 
salvar muitas pessoas por causa de uma, era 
má, a menos que, para seguil-a, se não ti- 
vesse recebido ordem expressa de Deus, ou 
uma inspiração divina. 

William Parry convencido do crime de 
alta traição, foi condemnado ao ultimo 
supplicío e executado a 2 de março de 
1D84. Atado a um alto poste, e antes que 
a vida o abandonasse, abriram-lhe o peito 
e tiraram-lhe as entranhas, que foram alli 
mesmo queimadas; por fim esquartejaram 
o cadáver e cada hoccado d"elle foi en\ia- 



i8o 



HISTORIA GERAL 



do a cada unia das quatro portas de Lon- 
dres I 

Pouco tempo depois desta execução, um 
fidalgo do condado de Warwick, exaltado 
pelas pregações fanáticas, veiu a Londres 
resolvido a assassinar a rainha. Preso, suici- 
dou se na prisão. Muitos outros individuos 
foram também accusados de terem lorma- 
do o mesmo projecto. Comprehendem-se, 
pois. os rigores que Isabel usou com os ca- 
iholicos em geral e sobretudo com os jesui- 



tas. Era um direito de legitima defesa, e 
ella matava para que a não matassem. Alem 
d'isso, a ordem de coisas religiosas que Isa- 
bel representava tinha por si a maioria da 
nação inglesa. Rainha illegitima, excommun- 
gada, ba.starda para Roma e para os parti- 
dários de Roma, Isabel foi para o seu povo, 
que elc\()U a um grau de prosperidade até 
então desconhecido, uma grande rainha, uma 
soberana bem amada; c isu> põe ponto na 
questão. 



DOS JESUITA.- 



l8l 



XXVllJ 

Maria Stuart 



FOI por aquella mesma epocha, isto c. i tenções, preterições sérias que não dcjxa- 
em 1587, que se terminou pelo cutelio ; vam de assustar Isabel, que temia que as 
do algoz a grande contenda 
que por tão longo tempo exis" 
tiu entre a rainha d'Inglater- 
ra e a rainha d'Escossia, essa 
celebre e desgraçada Maria 
Stuart. Parece-nos necessário 
dar alguns pormenores sobre 
esta contenda, tanto mais que 
os jesuítas tiveram um pa- 
pel importante, e que a maio- 
ria das conspirações, que se 
tramaram contra Isabel, fo- 
ram em nome e no interes- 
se de Maria Stuart. 

Esta princeza, depois de 
ter brilhado algum tempo na 
corte de França e sobre o 
throno dum rei ephemeroi 
Francisco III, voltou, em i56i, 
a reinar na Escossia, seu pais 
natal. Alem disso tinha di- 
reitos á coroa d'Inglaterra, 
admittindo que Isabel fosse, 
como pretendiam os catholi 
cos, filha illegitima de Hen- 
rique VIII. Estes direitos, Ma- 
ria Stuart, se dispoz a revin- 
dical-os. Logo após a morte 
da sanguinária Maria Tudor. 
Maria Stuart, então mulher 
do delphim, filho de Henri- 
que II, quarteou as armas 
d Inglaterra, e tomou o titu- Mallogro da conspiração da polror-i. 

lo de rainha d'este pais. Qua- 

si todos os catholicos ingleses se mostra- 1 armas de França se unissem aos raios do 
ram dispostos a sustentar as suas pre- I Vaticano para as fazerem triumphar. Fe- 




HISTORIA GERAL 



lizmente para Isabel, Francisco II não tar- 
dou em seguir seu pae ao tumulo, e Maria 
Stuart, abandonando, lacrimosa, a sua bella 
França, que tanto amava, foi reinar na sel- 
vagem Escossia. 

Este ultimo pais estava então agitado pe- 
las primeiras convulsões da Reforma. Do 
alto das cumiadas caledonianas, a voz for- 
midável de John Knox tinha respondido ás 
vozes de Luthero e de Calvino. 

A rainha regente, Maria de Ouise, viuva 
do ultimo rei, e mãe de Maria Stuart, lucta- 
va a custo para se não deixar arrastar pela 
torrente que engrossava de dia para dia, e 
ameaçava destruir até os últimos vestígios 
da antiga religião. 

Isabel aproveitou-se destas circumstan- 
cias. A agitação religiosa vinha em seu au- 
xilio, e elle soube alimental-a. Fez mais: 
impelliu á revolta um irmão natural de Ma- 
ria Stuart, o conde de Murra}', que acabou, 
mercê do oiro inglês, do concurso dos adver- 
sários da Egreja romana, e principalmente 
das imprudências da rainha dEscossia, por 
prival-a da auctoridade e da liberdade. Esta 
pobre mulher, que pagou com a morte as 
suas e as alheias faltas, parecia apostada 
em dar rasão aos seus accusadores. Assim 
st não foi cúmplice na morte de Darnlej', 
seu segundo marido, pareceu que o tinha 
sido, casando-se, alguns dia depois, apesar 
das representações dos seus líeis amigos, 
com o odioso Bothwell, que toda a gente 
apontava como sendo o assassino do infeliz 
Darnley. 

Entre os detestáveis conselheiros que con- 
tribuiram para desvairar a imprudente rai- 
nha da P2scossia, é de justiça não esquecer 
os jesuítas. Estes tinham invadido o reino 
e assestado as suas baterias contra Isabel, 
esperando que em breve d'alli partiriam á 
conquista da Inglaterra. Maria, catholica 
zelosa, rival de Isabel como mulher e co- 
mo rainha, deixou-se seduzir pela esperança 
de restabelecer na terra inglesa os derri- 
bados altares. Esta pretenção, que nem se 
quer procurava disfarçar, quando teria sido 
mostra de tino renunciar a ella, foi a prin- 
cipal causa da sua perda. 

N'um dia do anno de 1.S68, Maria mal e 
a custo escapada das m:1(is do seus snbditos 



revoltados, desembarcou em Wirkington, 
no território inglês, e veiu entregar-se ao 
poder de Isabel. Mas a infeliz fugitiva tinha 
contado demais com a generosidade da sua 
rival, que não viu nella senão uma inimiga, 
e a constituiu logo sua prisioneira. 

Foi durante a longa detenção de Maria 
que rebentaram diversas conspirações con- 
tra Isabel. Estas conspirações tinham todas 
por fim ou por pretexto dar a liberdade a 
Maria Stuart, que os conspiradores queriam 
fazer acclamar rainha d'Inglaterra. O duque 
de Norfolk, que pagou, como já dissemos, a 
sua empresa com a cabeça, tinha tomado as 
armas na esperança de casar com a prisionei- 
ra. A belleza incomparável d"esta, belleza 
cuja recordação vive ainda na memoria dos 
povos, serviu, não menos que o zelo religioso, 
de incitamento ás conspirações contra Isa- 
bel. Em todas estas conspirações figuram os 
jesuítas, e por consequência foram elles que 
contribuíram para a morte de Maria Stuart. 
Em lins de i586, o jesuita John Ballard pei- 
tou um novo conspirador, um rapaz de l)o- 
thic, condado de Dervy, chamado Antony 
Bakington, pertencente a uma boa familia, 
e d'um grande zelo pela religião catholica. 
Por esta causa tinha passado secretamente 
em França, onde encontrou o jesuita Ballard. 
Bem depressa, Bakington dotado d' uma ima- 
ginação viva, exaltado, mal lhe mostraram 
um retrato de Maria Stuart, ficou logo apai- 
xonado por ella, e jurou consagrar a vida á 
liberdade da real prisioneira, restituil-a ao 
throno de que tinha sido despojada, e a sen- 
tal-a naquelle a que tinha direito, segundo 
a decisão do papa. 

Este cavalleiro errante foi posto em rela- 
ções com Lim fanático de feição mais sinis- 
tra, chamado John Savage, sobre o qual 
os jesuítas tinham uma grande preponderân- 
cia, tendo-lhe incutido uns princípios con- 
ducentes ao fim a que o destinavam. Estes 
dois homens associaram-se para assassinar 
Isabel, cuja morte devia ao mesmo tempo 
causar a liberdade da rainha da Escossia, e 
o triumpho completo da fé romana. 

Diz-se que o embaixador hispanhol se 
envolveu na conspiração, e que Maria 
Stuart livre e duas \ezes rainha, devia 
desherdar seu filho herético e adoptar Fi- 



DOS jesuítas 



i83 



lippc II, que poria uma esquadra ás suas 
ordens. 

Assegura-sc mais, que o jesuita Ballard 
fora quem excitara Hakington a assassinar 
Isabel, figurando-lhe o acto como dos mais 
meritórios perajite Deus. Esta conspiração, 
que devia rebentar em a noite de S. Bartho- 
lomeu, data bem escolhida, foi descoberta, e 
enviados ao cadafalso liakington, Sa\agc e 
doze dos seus cúmplices, seis dos quaes fize- 
ram as mais completas confissões do trama. 

As consequências d'este conluio não recaí- 
ram unicamente sobre a cabeça d'aquelles 
que o tinham concebido ou foram seus ins- 
trumentos. Maria Stuart achou-se gravemen- 
te compromettida. Isabel, que á maneira que 
envelhecia se ia lembrando cada vez mais 
que era filha de Henrique VIII, resolveu 
dcsembaraçar-se de todo em todo da sua 
viva prisioneira. Maria Stuart, pois, ao fim 
de um captiveiro de dezoito annos, compa 
receu perante o tribunal e foi condemnada 
a morte. Tinha então quarenta e seis annos. 

Não temos por missão justificar a rainha 
dlnglaterra deste acto cruel, de que ella 
própria quiz fazer parecer que se envergo- 
niiava, negando que o tivesse ordenado, e 
lançando todas as culpas sobre os seus mais 
que zelosos servidores. Chegou até a orde 
nar que Davidson, que expedira a ordem 
para a execução da rainha da Escossia, fosse 
processado. Este homem destado, infeliz 
bode expiatório, teve que pagar uma multa 
enormíssima e que o arruinou esteve preso 
durante uns poucos d'annos. Mas esta de- 
monstração não illudiu ninguém, e ficou 
firmado na opinião publica que Isabel, la 
zendo morrer Maria Stuart, se quizera vin- 
gar duma riv;il que a tinha humilhado, e 
desembaraçar-se d'uma inimiga que servia 
de bandeira a todos os descontentes do seu 
reino, e de pretexto aos seus adversários do 
continente. 

O que é certo, e, até certo ponto, pode 
)ustificar a cruel resolução de Isabel, é que 
o povo inglês celebrou com espontâneas ma- 
nifestações de regosijo esta morte, que elle 
considerava como devendo pôr termo pro- 
vável ás perturbações que quasi sem des- 
canço agitavam a Inglatarra. 

E, comtudo, a morte de Maria Stuart, foi 



o signal para novas tentativas contra a vida 
de Isabel. O oapa e os jesuítas procuraram 
impellir o rei da Escossia, filho de Maria 
Stuart. a vingar a morte de sua mãe ; mas 
este, que se tinha feito protestante para ficar 
rei, entendeu que o melhor era continuar 
nas boas graças de Isabel, de quem espe- 
rava ser herdeiro e successor. 

Então os jesuítas dirigiram-se aos irlan- 
deses, sempre dispostos a tomar armas em 
nome da sua crença proscripta. Diversas 
revoltas rebentaram neste desgraçado país, 
que se não submetteu senão pelo esgota- 
mento de forças e de sangue, e só nos últi- 
mos annos do reinado de Isabel. 

Em 1601, os hispanhoes, que os jesuítas, 
tinham introdusido na Irlanda, foram por 
fim expulsos, por occasião da revolta do 
conde de Tryonc. 

Pelo mesmo tempo, o papa fulminou uma 
nova cxcommunhão contra Isabel. () rei de 
Hispanha, Filippe II, furioso por ter sido lu- 
dibriado por ella, fez partir para a Inglaterra 
a íírande armada; os príncipes de Lorena 
suscitaram-lhe outros embaraços no conti- 
nente, e no seio do próprio reino se urdia 
uma conspiração que tinha por chefe o con- 
de d'Es'sex, favorito da rainha. A machina- 
ção do conde enviou o seu auctor ao patí- 
bulo; a esquadra hispanhola naufragou con- 
tra os rochedos da Inglaterra; os raios do 
papa recochetarara na affeição dos ingleses 
pela sua rainha : visto que o amor dos po- 
vos foi sempre o melhor escudo dos reis. 

Isabel morrea cm i6o3; e a sua morte 
reanimou os jesuítas, de quem ella foi sem- 
pre a implacável inimiga. 

A ascensão ao throno d 'Inglaterra e da 
Irlanda de James, rei da Escossia, reuniu 
emfim as três partes do reino britannico. 

Como este príncipe era filho de Maria 
Stuart os catholicos viram-o chegar a In- 
glaterra cheios de esperanças, embora elle 
tivesse abraçado a Reforma; mas isto não 
passava, diziam, d"uma vã mascara, que 
elle se vira forçado a afivelar, para os seus 
interesses, mas que lançaria fora na pri- 
meira occasião favorável. O filho de Ma- 
ria Stuart, muito embora não fosse catho- 
lico como sua mãe, não podia deixar de se 
mostrar propicio áquelles que tinham sido 



.8i 



HISTORIA GERAI. 



partid;irios desta e seus amigos, áquellcs 
que ainda pranteavam a sua morte cruel, que 
tantas vezes tentaram vingar!... Immedia- 
tamentc se reatam os tios de mil intrigas. 
Do seminário dos jesuítas cm Roma, do de 
Reims '. partem ordens e agentes. O supe- 
rior gerai da missão d' Inglaterra, Henrique 
Garnet, cujo nome vae bem depressa con- 
quistar uma terrível celebridade, recebia as 
ordens de Roma, e transmíttia-as aos seus 
subordinados. 

As contendas que tinham rebentado entre 
os padres catholicos ingleses, e cujo espirito 
de dominação os jesuitas podiam em grande 
parte revindicar. estavam apaziguadas. Estas 
contendas eram o resultado das pretenções 
dos jesuitas ao governo dictatorial da Egreja 
catholica na Inglaterra, pretenções que, sus- 
tentadas por Garnet, Watson e seus acoly- 
tos, admittidas por Blackwell, arcipreste da 
egreja perseguida, tinham sido repellidas pe- 
los padres catholicos ingleses que não perten- 
ciam á companhia de Jesus. Mas o interesse 
commum faz emmudecer por momentos os 
interesses oppostos e reune-os num só feixe, 
embora mais tarde venham a dividir-se. Em- 
tim. tudo se agita c prepara para um trium- 



• O seminário de Reims tinha succedido ao de 
Douai, que o rei d'Hispanha havia dado aos jesuitas 
para n'elle serem educados os rapazes cathohcos da 
Inglaterra, e que a cólera e vingança popular tinham 
destruído. O seminário de Reims ern creação do car- 
deal de í.orena. 



pho por tanto tempo desejado e esperado. 
Comprehende se qual fosse a raiva dos filhos 
de Loyola, quando viram que o de Maria 
Stuart illudira as suas esperanças, e ado- 
ptara seguir invariavelmente a linha de go- 
verno que Isabel tinha, com tanta energia, 
traçado contra ellesi 

James era um monarcha indolente, que 
sempre se deixou governar pelos que o cer- 
cavam; mas, embora essencialmente egoísta, 
não era distituído de espirito d'observacão, 
e estava convencido de que não reinaria 
em paz senão deixando que a Inglaterra c 
a Escossia caminhassem livremente na via 
da Reforma. James, cuja mãe morrera ás 
mãos do algoz, e de quem o filho devia 
egualmente subir ao patíbulo, tinha jurado 
reínfíT com socego e morrer em paz. Longe, 
portanto, de se mostrar favorável aos jesui- 
tas, renovou contra elles as ordenanças de 
Isabel, e manteve-lhes a severa execução. 
A fim de provar aos seus súbditos a sinceri- 
dade do seu protestantismo, viram-o, quer 
fo.sse por manha política, quer por zelo e 
convicção, escrever a favor dos dogmas da 
egreja anglicana. 

Mas, como para os jesuitas não ha socego 
nem tranquillidade emquanto têem vivo um 
inimigo, juraram vingar-se, e lançaram de 
novo mão dos meios até alli empregados, 
na esperança de que tendo falhado tanta vez 
a jogada, era possível que d'esta o golpe 
fosse certeiro e efficaz. 



uos jesuítas 



185 



XXIX 



A conjura Raleigh 



TiMio jurado vingar-se, os jesuítas agru- | na, o herdeiro legitimo do throno d'Inglater- 

param em redor de si todos os des- j ra, como bisneto da princeza Margarida, fi- 

contentamentos políticos e religiosos, e pro- I lha mais velha de Henrique VII, mulher de 

curaram renovar contra James 1 O'^ ;iiteiii.i- June^ [\\ rei da Escossía. Mas os jesuítas 




M.:-2 Judith Tresr.am oírira seu marido a ume 



;laga3 na 



dos i]ue tanfis vezes tinham ameaçado a vi- 
da c a coroa de Isabel. Começaram por con- 
testar a legitimidade do rei que os não consen- 
tia nos seus estados, apezar de ser James, 
falta de representantes da linha ra.isculi- 



objectavam que o testamento de Henri- 
que VIII excluía da herança regia os mem- 
bros da linha da Escossia. Comtudo, tal acto 
da vontade pessoal do rei. podia consti- 
tuir lei r Os ingleses não foram dessa opi- 



i86 



HISTORIA GERAL 



nião, c eram clles, os verdadeiros juizes da 
causa, que sentenciaram em favor de James, 
recebendo-o e acclamando-o como rei, no 
meio da alegria geral. 

Mas os jesuítas pouco se importavam com 
o fundo da questão, e para elles era-lhes 
perfeitamente sem importância a legitimida- 
de ou illegitimidade de James Stuart; o que 
elles queriam era aquclle rotulo especioso 
para poderem atar ao facho da sedição, que 
tentavam lançar no foco amortecido, mas 
não extincto, dos incêndios políticos. 

N'essas intenções trataram de proCLirar 
alguém que oppozessem a James ; e en- 
contraram Arabella Stuart, filha do conde 
de Lenno}, próxima parente do rei e des- 
cendente, como elle, de Henrique VII. Al- 
guns descontentes, com a mira de satisfaze- 
rem os seus interesses, declararam-se em fa- 
vor dos de Arabella. Certos fidalgos e cor- 
tesãos, que tinham queixas do rei, entraram 
também na conspiração, que assim se viu for- 
mada pelos mais contradictorios elementos. 
Entre elles figuravam, com as personagens 
políticas desfavorecidas por James I, pela 
parte que tinham tomado na morte de sua 
mãe, taes como Raleigh e Cobham, os puri- 
tanos como lord Grey, os catholicos como 
Clarke, atheos e libertários como Brokc c 
C.opley, emfim indivíduos como sir Grilfin 
.Markham, que não eram nada n'este mundo. 

O jesuíta Watson era o eixo d"este trama, 
e quem conseguira dar cohesão a estas di- 
versas partes constituintes. 

De Thou é d'opinião, e não nos parece 
fora de propósito, que, sendo os jesuítas os 
instigadores da conspiração, os conjurados 
estivessem em relações com Filippc II e es- 
perassem ser soccorrídos por elle. 

A sua intenção era casar Arabella Siuart, 
com o duque de Sabóia. 

Segundo o historiador, que acabamos de 
citar, o que fez descobrir a conjura foi que 
Raleigh, no momento em que ella ia reben- 
tar, como partisse para ir collocar-se à tes- 
ta dos conspiradores, dissesse com ar sombrio 
e agitado a sua irmã, a quem muito amava: 

— Pede a Deus que eu volte do logar pa- 
ra onde vou I 

A irmã de Raleigh communicou o caso 
exiranho a algumas pessoas, julgando que 



tão singular despedida se relacionasse com 
algum desses ducllos muito vulgares n'aquel- 
la epocha. 

Mas, os que conheciam Raleigh diziam 
que não eram as consequências d'um duello, 
que podiam tel-o lançado n'aquelle estado 
de espirito. O rumor de tudo isto chegou á 
corte, donde Raleigh estava, por assim dizer 
banido, c onde o seu caracter emprehende- 
dor e firme nas resoluções o faziam temer ; 
e sem mais provas, foi ordenada a sua pri- 
são. Os outros conjurados foram também 
immedíatamente presos, e o proces.so instau- 
rado com rapidez. A maioria dos prisionei- 
ros confessou os preparatórios da conjura ; 
mas só lord Cobham fez confissão completa. 

A conspiração fora descoberta em junho 
de i()o3, c no mez de novembro seguinte, 
depois dos debates que foram anímadissí- 
mos, foi pronunciada a sentença contra C^lar- 
ke, Watson, Broke, irmão de lord Cobham, 
contra este revelador, bem como contra lord 
Grey e Griffin Markham. Raleigh obteve ser 
condemnado a prisão perpetua. 

O jesuíta Watson e Clarke foram execu- 
tados a 29 de novembro, Broke a 5 de de- 
zembro, Cobham, (irey e Markham levados 
ao cadafalso, dois dias depois, no castello de 
Winchester, onde então residia a corte, fu- 
gida de Londres por causa duma epidemia. 

No momento em que Markham, que devia 
ser o primeiro degolado, já tinha o pescoço 
sobre o cepo e no ar brilhava o machado do 
algoz, o sclicrijf de Hampshire suspendeu- 
Ihe o braço, em cumprimento d'uma ordem 
do rei, trazida por um correio do palácio. O 
mesmo se repetiu com os outros dois con- 
demnados; e tendo passado por este transe 
terrível, o sc7R'r/^'annuncioii-lhes que o rei 
lhes perdoava. 

Díz-se que esta conjura, que custou a vi- 
da a três pessoas, tinha sido forjada por Cé- 
cíl, ministro do rei, que se queria tornar ca- 
da vez mais imprescindível, e que desejava, 
alem d'isso, desfazer-se dos seus amigos, 
taes como Raleigh, n'aquelle momento seus 
mortaes inimigos. Comtudo, parece averigua- 
do que Raleigh, homem dos mais notáveis 
dentão, furioso por se ver caido na ínimisa- 
de de James, a quem ajudara a sentar-se no 
ihrono d' Inglaterra, procurara todos os meios 






DOS jesuítas 



187 



de SC vingar; e Sully, que era naquella epo- 
cha embaixador de Henrique IV junto de 
James I, com o titulo de marquez de Ros- 
n\', diz-nos em suas Memorias que Raleigh 
lhe tinha secretamente olferccido os seus ser- 
viços eCobhamaccusou-o formalmente. Ajun- 
temos mais, que um historiador inglês, Da- 



vid Humc, não parece convencido da cum- 
plicidade de Raleigh, e lança todo o odioso 
da conspiração sobre os jesuítas. 

Estes últimos não se demoraram em ensaiar 
nova desforra desta recente derrota, e tal, 
que poucas vezes se encontra na historia tra- 
ma mais infame, como o leitor vae ver. 



i88 



HISTORIA GERAL 



XXX 



A conspiração da pólvora 



Nos últimos dias doutubro de ibob, ao 
cair da noite, um homem completa- 
mente envolvido n'um manto, e que pare- 
cia caminhar com precaução ao longo das 
ruas de Londres, evitando com cuidado as 
mais frequentadas, e escolhendo as mais es- 
cusas, foi bater á porta duma casa situada 
próximo do palácio de Westminter. Ksta 
casa bastante grande, mas muito arruinada, 
parecia não ser habitada. Nenhum ruido, 
nenhuma luz passava atravez das janellas 
cautelosamente fechadas. Silenciosa e negra, 
esta casa formava um contraste sensivel com 
Westminter, onde os preparativos para a 
próxima abertura do parlamento enchiam 
todo o edifício de bulha e movimento. Com- 
tudo, mal o individuo que indicamos fez um 
signal particular sobre o postigo da porta, 
que este se abriu, e um ultimo reflexo do 
dia, perdido na atmosphera luminosa de 
Londres, fez brilhar no fundo d'esta aber- 
tura estreita os olhos desconfiados d'um ho- 
mem e o cano ameaçador d'uma pistola. 
Algumas palavras foram trocadas em voz 
baixa atravez do postigo, que logo se fe- 
chou, e a porta abriu-se sem ruido, apenas 
tanto quanto foi necessário para dar passa- 
gem ao recemchegado ; depois a casa fi- 
cou de novo silenciosa e fechada como um 
tumulo. 

O individuo em questão seguiu o seu in- 
troductor e deu com elle entrada n'uma sala 
baixa e húmida onde se achavam em dis- 
cussão acalorada onze individuos ; embora 
KkIos falassem em \(>/ baixa. A' chegada 



do homem, que acabava de ser introduzido 
por um d'ellcs, todos se levantaram com 
grande desconfiança, e alguns levaram as 
mãos ás armas, de que estavam largamente 
providos. Mas todos estes symptomas amea- 
çadores se dissiparam quando reconheceram 
o recemchegado. 

— O padre Oswald Tcsmund I exclama- 
ram todos com alegria, cercando-o immc- 
diatamente. 

— Km carne e osso, meus irmãos ! O po- 
bre e perseguido filho da P^greja catholica. 
o religioso aborrecido da companhia de Je- 
sus ! Uu, se preferem, o digno juastcr 
(Ireenwill, episcopal moderado, e quando é 
preciso, puritano feroz I Que Deus faça ex- 
piar aos inimigos do seu santo nome, todas 
as mentiras de que elles me obrigam a ser- 
vir ! 

— Sede bemvindo ! meu padre ; disse 
adiantando-se para elle um dos circumstan- 
tes, e duas vezes bemvindo, se nos trazeis 
boas noticias. 

— Infelizmente, não ! Os nossos irmãos 
de França nada podem fazer em nosso fa- 
vor; os de Itália não se atrevem. Quanto a 
S. majestade catholica, o rei de Hispanha e 
das índias, declarou francamente que nada 
faria por nós! A desgraçada Egreja catholica 
d' Inglaterra não pôde contar senão com o 
zelo dos seus próprios filhos. 

— Por certo I e o mundo inteiro o teste- 
munhará. Mas esteve com o reverendo pa- 
dre Garnet ? Nós esperavamol-o esta noite. 

— O nos.so superior geral julgou que se- 



DOS jesuítas 



'ia mais prudente não sair neste momento 
do seu retiro ; muitos e gravissimos interesses 
estão nas suas mãos, para que exponha a 
sua pessoa sem necessidade absoluta. Dele- 
gou-me em seu logar, visto que o padre Ge- 
rardo tem que partir esta noite em missão 
do nosso superior-geral, para o continente. 
No tom com que estas palavras foram 
pronunciadas havia como que urr.a ironia te- 



aquelle a quem tinham chamado o padre 
Osvvald Tesmund, a hora actual é apropria- 
da para a celebração dos santos mysterios, 
de que não podem gosar senão clandestina- 
mente, a preço de mil perigos, tal qual como 
os primitivos christãos nas catacumbas de 
Roma. Unam-se a mim pelo espirito e com 
a intenção para que o santo sacrifício seja 
agradável ao Altíssimo, como outrora foi o 




i3 jeauita Sarne; 



nue. que aquelles a quem eram dirigidas, 
não deixaram de não perceber. 

— Não lhes tinha eu dito, murmurou ao 
ouvido d'aquelle dos presentes que parecia 
presidir á reunião um homem d'ar feroz, 
longo bigode grisalho, cara cortada de cica- 
trizes, que todos estes frades se parecem 
uns com os outros I 

— Cala-te, meu caro Fawkes I E ao ouvi- 
do : — Os bons padres saltarão o fosso com- 
nosco, ou cairão dentro. Confia em mim. 
Tenho tudo previnido. 

— Assim sejal. . . 

— Assim, pois, meus (ilhos, continuou 



de Abel. chame o sorriso dos anjos e a 
benção do ceu sobre nós, e ao mesmo tem- 
po os raios celestiaes e a maldição eterna 
sobre os nossos perseguidores, esses Cains 
sequiosos de sangue I . . . 

Immediatamente o individuo que introdu- 
zira o jcsuita preparou um altar, no qual o 
padre celebrou missa, e tendo consagrado 
doze partículas, depois que elle commungou, 
voltou-se com ellas na patena, e logo o que 
parecia mais graduado de lodos se levantou 
e approximou do sacerdote. 

— O que quereis? perguntou este. 

— O corpo e o sangue dAquellc que sem 



igo 



HISTORIA GERAL 



se queixar, se deixou extendere pregar numa 
cruz infame para salvar o mundo. 

— E estaes prompto a sotTrer por Elle, 
como Elle sotVreu por nós ? 

— Estou I 

— A sortrer e a morrer em silencio? 

— Juro! 

— Sem dizer, se tiverdes que sotírer o 
supplicio, em vez do triumpho: Meu Deus 
porque me abandonaes r 

— Nem isso I Juro! 

— Recebei, então, o corpo e o sangue 
dAquelle que morreu sem se queixar, por- 
que tal era a vontade de seu Pae 

K o padre deu a hóstia ao individuo que 
de novo se ajoelhou para a receber. Aos 
onze outros foram feitas as mesmas pergun- 
tas e deram es mesmas respostas, e com- 
mungaram por sua vez. l'm destes, respon- 
dendo ao padre, foi agitado d'um rápido 
tremor e ficou pallido como um cadáver. O 
homem a que tinham dado o nome de 
Fawkes fez notar esta circumstancia ao que 
parecia ser o chefe da reunião ; este apenas 
se contentou em encolher os hombros. Foi 
o único symptoma que daria a perceber, a 
um observador attento, que aquella reunião 
tinha por ílm outra coisa que não a simples 
celebração dum rito proscripto. As palavras 
do padre estavam calculadas de modo a fa- 
zer suppôr que se dirigiam ao zelo dos que 
o cercavam nos limites reconhecidos da re- 
ligião ; as respostas formuladas com o mes- 
mo cuidado. 

Assim que acabou a missa, o padre reto- 
mou os seus vestidos seculares e retirou-se 
apressadamente. Este padre, como já vimos, 
vivia occulto em Londres como o nome de 
Greenwil, e fazia-se passar umas vezes por 
um patrão escossès, outras por um antigo 
soldado das guerras dos Paises Baixos ; mas 
o seu verdadeiro nome era Oswald Tes- 
mund, jesuita inglês, logar tenente, o sociiis, 
o espião de Garnet superior geral da missão 
d'lnglaterra. 

— Deus nos ajude I disseram todos os con- 
jurados com voz sombria mas firme, levando 
a mão aos punhos das espadas. 

Estes doze homens eram Roberto Ca- 
tesby, fidalgo de boa familia, e muito C(jn- 
siderado, a quem o zelo exaltado pela re- 



ligião tinha levado a conceber o plano da 
conspiração ; Thomaz Piercy, da familia do 
conde de Northumberland ; Thomaz Win- 
ter, que já tinha sotírido pela sua crença ; 
Guy F"awkes, soldado feroz, antigo official 
ao serviço de Hispanha ; Francis Tresham, 
Ambrósio Rookwood, rapaz levado a en- 
trar na conspiração pelo ascendente que so- 
bre elle exercia Catcsby, o chefe dos cons- 
piradores, Roberto Winter, irmão de Tho- 
maz ; o cavalleiro Everard Digby, homem 
de muita distincção que tinha gosado parti- 
cular confiança de Isabel :, Roberto Keies, 
Christovam Wright, John Grant, e por fim 
Tom Bates, criado de Catesby. 

(^atesby daccordo com os jesuítas tinha 
procurado levar o rei d Hispanha a fazer 
nova intervenção em Inglaterra, uma como 
desforra do desastre da gi-ande armada. 
Como Filippe se recuzasse a isso, e até 
mandasse um embaixador ao successor de 
Isabel, os jesuítas quizeram ficar por alli, 
continuando, sem perigo, no seu trabalho de 
sapa; mas Catesby, que já se achava muito 
compromettido para recuar, pensou e pla- 
neou fazer voar por meio d'uma explosão 
de pólvora o parlamento, no dia da sua 
abertura, durante a sessão real, matando 
assim o rei, e todos que com elle estives- 
sem I 

A casa em que os conjurados se reuniam 
era contigua ao palácio de Westminter, e 
fora alugada por um dos conjurados, que, 
na sua qualidade de gentil-homem da guar- 
da, devia morar próximo da corte. Na extre- 
midade do jardim, que dependia d'esta casa, 
existia um velho casarão encostado ás pare- 
des da camará do parlamento. Foi alli que 
começaram a abrir uma mina, consagrando 
de/.eseis horas ao trabalho e oito ao des- 
canso; repartido o serviço por tal forma que 
nunca era interrompido, e que dois d'entrc 
elles estavam sempre trabalhando. De dia 
cavavam a mina, e á noite enterravam os 
entulhos no jardim. Mas obstáculos impre- 
vistos vieram suspender o andamento da ex- 
cavação. A presença da agua a uma certa 
altura tornava impossível continuar a mina 
até os alicerces; e furar uma parede de três 
metros de largura, composta de pedras de 
carrada, não era coisa íacil para homens 



DOS jesuítas 



191 



sem practica de tacs trabalhos. Comtudo, 
animados constantemente por Catesby, con- 
tinuavam com uma perseverança e energia 
dignas de melhor causa. Fizeram esforços 
inauditos para furarem a muralha, mas os 
dias passavam sem que o trabalho avanças- 
se, quando certa manhã ouviram um ruido 
extranho sobre suas cabeças. Fawkes infor- 
mou-se e soube que era um subterrâneo abo- 
badado, por debaixo da camará dos lords, 
que estava convertido em armazém de car- 
vão, donde n'aquellc momento era retirado 
pelo comprador; e que assim que este o 
tivesse transportado todo, o subterrâneo fi- 
caria vasio. Desde esse momento, pararam 
os trabalhos, e o subterrâneo foi alugado 
pelos conjurados. De noite transportaram 
trinta c seis barris de pólvora, por cima 
dos quaes foram collocadas barras de ferro 
e grandes pedregulhos, para tornar a explo- 
são mais terrivel, e depois tudo cuidadosa- 
mente coberto com feixes de madeira, matto 
sccco, e, para não provocarem suspeitas, 
deixaram as portas abertas, podendo-se alli 
entrar como d" antes. Kmquanto não chegava 
o momento terrivel, cada qual tratou d'ou- 
tros meios conducentes a assegurar o bom 
êxito da conspiração. 

Ou\' Fawkes pediu com ardor e obteve a 
honra de lançar fogo ao rastilho. Um navio 
fretado por Tresham ' estacionaria no Ta- 
misa, prestes a transportal-o immediatamcn- 
te a Handres, onde devia publicar um ma- 
nifesto ou apologia dò feito, e enviar circu- 
lares implorando a assistência de todos os 
reis catholicos. 

Lord Piercj-, que se não tinha ainda com- 
pletamente desligado da corte, e que podia 
entrar em palácio sem despertar suspeitas. 



' Tresham era casado com Judith Tresham, abso- 
lutamente dominada pelo jesuíta Garnet, que além 
de confessor passava por seu amante. Tresham era 
louco pela mulher; mas a este amor a de--ota, por 
ordem do confessor, oppunha de ha muito uma seve- 
ridade glacial. No dia em que o dinheiro de Tresham 
foi necessário aos conspiradores, Garnet sacrificou- 
se, e aconselhou Judith a que correspondesse ás ca- 
ricias de seu marido, comtanto que elle auxiliasse a 
conspiração O pobre homem, que pela mulher ven- 
deria a alma ao diabo, esteve por tudo, e a sua pri- 
meira contribuição foi da bagatella de duas mil li- 
bras sterlinas. Caro amor ! 



ticou encarregado de se apoderar da prin- 
cezinha Isabel, e conduzil-a a Dunchurch, 
logar marcado para o encontro geral dos 
conspiradores. 

Alli, Catesby devia proclamal-a rainha de 
Inglaterra ; depois partindo para Warvick- 
shire com todos os seus, conquistaria, dizia 
elle, todo o povo para a sua causa, publican- 
do em nome d'um governo provisório uma 
declaração abolindo certas medidas vexató- 
rias. 

Finalmente ficou tratado que um prote- 
ctor, cujo nome foi sempre um mysterio, se- 
ria nomeado para governar a Inglaterra em 
nome da rainha menor, até que esta chegas- 
se á edade de tomar as rédeas do Estado. 

Assim tudo combinado, scpararam-se e as- 
sentaram que não se escreveriam uns a outros 
nem trocariam mensagem de espécie algu- 
ma; devendo, porém, reunir-se ainda uma ul- 
tima vez em casa de Piercy, na véspera da 
sessão real do parlamento. 

Ahi fôramos Jesuitas Gerardo e Tesmund, 
disseram duas missas, e de novo tizcram ju- 
rar aos conjurados resolução e segredo, lin- 
do o que entoaram todos em voz baixa, co- 
mo quem repete uma senha de rect)nheci- 
mento, o hymno latino : 

(Jeií/cm aii/er/e per/idam 
Crcdciiliiini df finibus, 

Ul Christo landes dcbilas 
Pcrsolfamiis alacritcr. * 

Estava tudo preparado, quando no sabba- 
do, 28 do outubro á noite, um dos membros 
do parlamento, lord iMonteagle, recebeu uma 
carta sem assignatura -, que um desconheci- 
do entregou ao seu criado, e se retirou sem 
esperar a resposta. 

Eis a carta : 



' Traducção litteral ; Fa^et desapparcccr a gente 
pérfida das /romeiras dos fieis, para que alegremente 
rendamos a (lliristo os louvores que lhe são devidos. 

2 Ha quem ligue um romance d'amor a esta trai- 
ção. Uma íilha de Piercy teria surprehendido a ulti- 
ma reunia» dos conjurados, e como em tempo tives 
se amado Monteagle, embora este houvesse recente- 
mente casado com outra, mandou-lhe o aviso que 
salvou o rei e os membros do parlamento c fez cair 
a cabeç.i de seu pae. 



HISTORIA GERAL 



uMilord, 

«A amisadc que consagro a alguns dos 
• seus amigos faz-mc pensar na sua conser- 
"vação. Aconselho-lhc. se quer viver, a pro- 
« curar um pretexto qualquer que o dispen- 
«sc de assistir á abertura do parlamento... 
«Não despreze este aviso: retire-se para as 
usuas propriedades, onde poderá esperar 
"sem perigo um grande acontecimento... 
«Kmbora não haja apparencia alguma de 
.«qualquer movimento, acredite que se pre- 
.ipara uma catastrophe terrivel, sem que 
«aquelles que hão de ser as victimas saibam 
«donde ella partiu. Não faça pouco caso 
Md"este aviso ; siga-o porque lhe será útil, 
«sem em nada o prejudicar, porque o peri- 
«go passará durante o tempo preciso para 
«queimar esta carta. Espero que d'ella fará 
«bom uso, e j)eço a Deus que o proteja com 
"a sua santa protecção.»' 

Lord Monteagle não fez caso do aviso, mas 
o seu mordomo que estava presente quando 
elle o recebeu, e que observara a perturba- 
ção que lhe causara a leitura, apanhou o pa- 
pel, assim que Monteagle partiu, leuo, e, li- 
gando-lhe mais importância que seu amo, 
correu apressadamente ao paço, e entre- 
gou-o a um dos camaristas do rei. 

Ordem foi dada immediatamente para se 
fazerem as mais minuciosas investigações em 
todo o edifício do parlamento e nas casas vi- 
sinhas *. Os subterrâneos não foram esque- 
cidos, e o conde de Sulfolk, seguido duma 
grande escolta, penetrou no deposito onde 
Guy Fawkes, vigiava os barris, tendo em 
mão o murrão, e esperando o signal para 
largar fogo ao rastilho. Vendo-se descoberto, 
o velho aventureiro quiz largar fogo imme- 
diatamente, más lançaram-se sobre elle, e 
assim evitaram que se commettesse o crime. 



' bavid Hume, Historia de casa de Sluart, reinado 
de James / e J. A De Thou, Historia universal. De- 
vemos notar que De Thou concorda com o auctor in- 
glês em afirmar que os jesuítas foram cúmplices de 
Catesby. ' 

' Foi o rei que, se não era valente, era em compen- 
sação de intelligencia tina c penetrante, que lendo a 
carta disse: que o acontecimento annunciado não po- 
dia ser outro senão a explosão d'uma mina. 



A abertura da sessão foi addiada, c á tar- 
de, ás quatro horas, o rei e o seu conselho 
fizeram ao prisioneiro um primeiro interro- 
gatório ; mas sem resultado. 

Entretanto um filiado da S. .1. correu a 
prevenir Catesby do que acontecia, o qual 
reuniu immediatamente os conjurados que 
estavam em Londres, montaram a cavallo e 
fugiram para os condados de Warwick e de 
VVorcester, nos quaes Digby tinha já começa- 
do as hostilidades, e onde uma e.xplosão de 
polvora,'que elles tinhani a seccar,os queimou 
horrivelmente. A lucta tornava-se, pois, im- 
possivel, e as tropas reaes facilmente se apo- 
deraram do castcllo em que elles se tinham 
intrincheirado. Os dois Wright morreram no 
ataque ; Grant, Digby. Roockvvood, e Bates 
ficaram prisioneiros ; Robert Winter, Tres- 
ham, Littleton e alguns outros conseguiram 
escapar, mas quasi todos foram capturados 
pouco depois. Catesby seguido de Piercy 
de Thomas Winter fugiu para uma torre, 
onde se fortificou, e onde lhe deram bata- 
lha, morrendo os dois priíneiros e sendo 
Winter feito prisioneiro e conduzido á Torre 
de Londres, com outros conjurados ainda 
vivos. 

No meio de toda esta tragedia, na qual os 
jesuitas excitaram as paixões em vez de 
pregarem a paz, uma outra tragedia mais 
intima, mas não menos horrivcl, se passava 
numa das masmorras da Torre de Londres. 

Tresham, a quem o amor pela mulher 
levara a toma parte na conspiração, aciía- 
va-se moribundo em conscq.uencia das feri- 
das recebidas. Vendo chegar a morte pediu 
que o deixassem ainda uma ultima vez ver a 
esposa. Por seu lado estasollicitava egual fa- 
vor, mas por motivos muito difterentes, por- 
que, dominada pelo jesuita, não tinha pena 
nem remorsos do que praticara. O que a 
fazia tremer era que o seu confessor po- 
desse ser envolvido na conspiração por al- 
guma imprudência de palavra de seu mari- 
do; e servindo-se da sua infiuencia sobre o 
espirito do moribundo, foi impôr-lhe a rc- 
tractação de tudo quantia dissera até allil 
Como este não podia escrever dictou ao seu 
criado uma declaração, na qual pedia que 
não dessem credito ás suas anteriores accu- 
sações. Momentos depois expirava e mistress 



DOS JESUJTAS 



193 




Os solipses 



•94 



HISTORIA GERAL 



JudithTresham, saia satisfeita por ter obtido, 
a custa dum prejurio a hora extrema, a sal- 
vação do jesuiia '. 

Dois meses depois, os conspiradores foram 
julgados, separando-se, portm, do processo 
d'estes, o do padre Garnet, que não conse- 
guira evadir-sc como tinham logrado os seus 
dois sicários, os jesuítas Osw ald Tesmund c 
Gerard. 

Todos foram condemnados á morte e sir 
Everard Digb)', Robert Winter, John Grant 
c Bates foram executados a 3o de janeiro 
de 1606, junto da egreja de S. Paulo. No 
dia seguinte foram enforcados no velho pá- 
reo do palácio de Westminster, não longe 
do sitio escolhido para a explosão, Thomaz 
Winter, Rookwood, Robert Keys e Fawkes. 

Consummadas as execuções a justiça tratou 
do processo do padre Garnet, que tinha sido 
separado dos outros conspiradores, como 
dissemos, attendendo á qualidade do accLi- 
sado. 

De i3 de fevereiro a 2(') de março, Hen- 
rique Garnet foi interrogado vinte e seis ve- 
ses. O celebre jurisconsulto inglês, Coke, 
procurador régio, pediu a condemnação do 
criminoso. Garnet foi convencido de reu de 
alta traição, e a sentença executada em ? de 
maio. Vm criado de Garnet, suicidou-se na 
prisão; e um outro jesuíta, preso n'essa con- 
junctura, o padre Oldcorne, foi também en- 
forcado. Segundo o padre Rapin, este ulti- 
mo jesuíta, que fora deixado em liberdade, foi 
preso, julgado e executado por ter dito pu- 
blicamente : «Que o mau resultado da con- 

' Esta mulher, depois Je ter em vão procurado 
salvar o padre Garnet, saiu d'lnglaterra e foi refu- 
giar-se na Itália, onde, mercê da alta protecção de 
Aquaviva, geral dos jesuítas, conseguiu entrar n'um 
convento, onde chegou a ser abbadessa. O que se- 
riam as súbditas de tal superiora ? Diz a chronica 
que morreu muito velha, e notável pelas suas virtu- 
des. Geralmente certas crcaturas costumam dar a 
Deus o que o diabo ja não quer. 



spíração nem por isso tornava as intenções 
menos justas.» 

Quatro annos depois da execução do pa- 
dre Garnet, um jesuíta, chamado André Kn- 
daímon, publicou, com a approvação de 
Aquaviva, uma Apolotçia do superior da 
missão d'Inglaterra, onde se cxforçou por 
estabelecer a innocencía do seu consócio. 
Mas o que achou de melhor para o justifi- 
car, foi dizer que o padre Garnet só .soubera 
da conspiração no confissionario, e que o 
ceu estava tão contente com o procedi.nento 
do supplíciado, que tinha feito um milagre 
expressamente para o provar. O panegy- 
rísta relata grave e longamente esse pro- 
dígio que resumiremos em poucas pala- 
vras. 

Um calholíco, testemunha da execução do 
padre Garnet, tendo querido alcançar relí- 
quias d'este martyr, guardou uma espiga de 
trigo, sobre a qual tinham caído algumas 
gottas de sangue d"este novo santo, porque, 
nos termos da sentença, o carrasco, depois 
de ter enforcado o jesuíta, e emquanto ainda 
vivesse^ lhe abriria o peito, e lhe tiraria o 
coração, para ser queimado. «Ora, a.ssegura 
o auctor da Apologia, aconteceu que a mu- 
lher d'este piedoso catholico tendo precí.sa- 
mcnte guardado esta espiga em um vaso de 
cristal, viu que o sangue caído sobre ella 
reproduzia admiravelmente as feições do 
bemaventurado Henrique Garnet!" Os je- 
suítas fizeram grande bulha com o milagre, 
que lhes foi contestado por uns, e de que 
outros pretenderam dar a seguinte explica- 
ção, dizendo : «que o retrato d"um jesuíta, 
que tanto sangue fizera derramar, não po- 
dia ser desenhado senão com sangue». 

A companhia de Jesus foi de novo e mais 
severamente expulsa da Inglaterra. Alguns 
que se atreveram a afrontar o decreto d'ex- 
pulsão, foram condemnados ao ultimo sup- 
plício. 



DOS jesuítas 



iqS 



XXXI 



Ultimas tentativas na Inglaterra 



A companhia de Jesus não tentou esta- 
belecer-se de novo no reino britanni- 
co senão no reinado de Carlos I, filho e suc- 
cessor de James Stuart. Este principe tinha 
casado com uma catholica, e parece ter que- 
rido approximar-se de Roma. O famoso 
Lawd, bispo de Londres, ao qual Carlos 
deu uma grande parte na direcção dos ne- 
gócios ecclesiasticos, fez tudo quanto pôde 
para dar corpo áqueilas suspeitas, principal- 
mente modificando a liturgia da egreja angli- 
cana e approximando-a do cerimonial roma- 
no. Ha até quem affirme que os jesuítas qui- 
/eram pòr este prelado em relações com Ro- 
ma, chegando-Ihe a ofterccer secretamente, 
diz-se, o chapéu de cardeal, da parte do papa. 
Mas Lawd recusou ; ainda não julgava o 
momento opportuno, e, provavelmente tam- 
bém queria obter da Santa-Sé concessões 
que lhe facilitassem a reunião das duas egre- 
jas. Um tal Prynne, tendo-se atrevido a as- 
signalar as tendências da corte e os proje- 
ctos de Lawd, , teve as duas orelhas corta- 
das, os seus bens confiscados, e condemna- 
do ainda em cima a prisão perpetua. Mas 
as medidas extremas longe de prevenirem o 
perigo, não fazem, na maioria dos casos, se- 
não com que elie chegue mais depressa. A 
Inglaterra fez ouvir um surdo murmúrio de 
descontentamento, que não tardou em se 
transformar n'um formidável clamor. Car- 
los respondeu a esta agitação elevando a ar- 
cebispo de Cantobéry, isto é, á mais alta 
dignidade do reino, esse mesmo Lawd, que 
passava por preparai- o caminho peio qual o 



papismo, como diziam os ingleses, devia de 
entrar triumphante na Grã-Bretanha. O rei, 
dotado d'um caracter impetuoso, inclinava- 
se, no seu intimo, para o dogma catholico, 
que concede aos reis privilégios imprescri- 
ptiveis, e lhes ensina que elles possuem a 
coroa, não pelo voto da nação, mas pela 
vontade de Deus. Não tardou pois, que 
ao fermento das discórdias politicas se vies- 
sem juntar as questões religiosas. Em 1641, 
manifesta-se a grande revolta de Rogério 
More e de Phèlim 0'Neale, na qual os ca- 
tholicos irlandeses commetteram um grande 
numero d'atrocidades. 

Sabe-se que Carlos I morreu no cadafalso, 
e os jesuítas têem sido accusados d'esta 
morte pelas suas intrigas; e taes accusações 
não são sem fundamento. Efectivamente os 
jesuítas impelliram tanto quanto poderam o 
infeliz monarcha no caminho fatal que lhe 
custou vida e throno ; mas que, se o tem 
percorrido até o fim, lhe teria permittido er- 
guer sobre a Grã-Bretanha um sceptro des- 
pótico e de direito divino, ao abrigo do qual 
o catholicismo podia esperar o seu restabe- 
lecimento e os jesuítas o seu triumpho ; por- 
que etíectivamente já estava chegada a epo- 
cha em que o catholicismo se tinha crista- 
lisado na formula jesuítica. No meio do ruí- 
do das armas, que n'este momento se ouve 
simultaneamente nas três partes do império 
britannico, por mais d'uma vez clamou a 
voz elevada dos reverendos padres animan- 
do os combatentes. Alguns dentre elles pa- 
liaram com a vida ás mãos do carrasco a 



ig6 



HISTORIA GERAL 



sua intervenção, e bem depressa a ordem 
toda inteira ia ser obrigada aachatar-se sob 
a mão potente c brutal de Cromvvell. 

Durante todo o tempo do protectorado, os 
jesuítas, com excepção d'algumas tentativas 
isoladas e sem importância, estiveram redu- 
zidos a um estado de impotência extrema 
cm toda a Inglaterra. Com a restauração de 
Carlos II, julgaram que tudo ia mudar; mas 
enganaram-se. C^arlos II, que tinha a escola 
do exemplo paterno, longe de favorecer os 
jesuitas, perseguiu-os de novo, annuindo as- 
sim d supplica do parlamento, que fizera da 
sua expulsão uma condição da abrogação 
das leis feitas contra os catholicos. 

Hludida nas, suas esperanças, a compa- 
nhia imaginou preparar um reinado mais 
favorável aos seus interesses. Carlos II não 
tinha filhos; o herdeiro presumptivo da coroa 
era seu irmão o duque de York. Os jesui- 
tas tal rede extenderam ao redor do prín- 
cipe herdeiro, que d'elle fazem a sua victima. 
O duque convertera-se ao cathoiicismo, e os 
jesuitas conseguiram que se dirigisse ao papa, 
e trataram de o fazer acciamar rei, mesmo 
ainda em vida de seu irmão. Diversas cons- 
pirações foram descobertas nos últimos an- 
nos do reinado de Carlos II e, mais ou me- 
nos, sempre se encontram os jesuitas envol- 
vidos n'cllas. 

Dissemos que o duque se fizera catholi- 
co, mas guardava todas as apparencias de 
protestante — o que está na moral jesuíti- 
ca — ; os jesuitas, porém, quando julgaram 
o momento propicio para a lucta aberta, de- 
teçminaram-o a fazer pcofissão publica da fé 
romana. O padre Simons, seu confessor, e 
um outro jesuita, que dirigia a consciência 
da rainha ', levaram o duque a este passo, 
cujos resultados já veremos. O duque quasi 
que nem se chegou a sentar no throno. No 
momento em que os jesuitas, guiados pelo 
padre Peters, seu chefe, a quem James, 



' Esta rainha era portuguesa, (ilha de l). João IV, 
e quando foi para Inglaterra levou comsigo nada me- 
nos de sete frades para uso da sua consciência . 



emfim rei, confiou uma parte da adminis- 
tração dos negócios públicos, esperavam do- 
minar na GrãHretanha, uma rovolução me- 
donJia lança o rei fora do throno, e o impelle 
para o exilio com f)s seus funcsios instiga- 
dores e conselheiros. 

James II foi morrer no desterro, perto de 
Paris. Os jesuitas, que ainda se não con- 
fessaram vencidos, tentaram por outras ve- 
zes reentrar em Inglaterra, em seguida ao 
cavalheiro de S. Jorge, como foi chamado 
o filho de James II, a quem elles fizeram 
casar com a filha do rei reinante da Polónia, 
neta do famoso Sobieske; bem como com 
o celebre e romanesco pretendente, o prín- 
cipe Carlos-Eduardo, filho do cavalheiro 
de S. Jorge, ou James III do nome em 
Inglaterra e Irlanda, e VIII em Kscossia, 
segundo os seus partidários. 

O príncipe Carlos-Eduardo era talvez, dos 
descendentes da casa Stuart, o que menos 
mereceu a sua desgraça. Parece, porém, que 
sob a direcção dos jesuitas tinha feito uma 
dessas philosophias especiaes para uso dos 
reis, e que nada pei"mittem de bom aos povos 
amantes da sua liberdade. (2arlos-Elduardo 
foi morrer á Itália, algum tempo depois da 
destruição da companhia. Seu irmão, Hen- 
rique-Benedicto, duque de York e cardeal, 
morreu nos primeiros annos da revoluçã<j 
francesa, pensionista de Jorge III da Ingla- 
terra, que se sentava no throno, que ellc 
cardeal tinha direito de occupar, segundo 
as doutrinas em que fora educado. 

Cremos ter esboçado rapidamente a his- 
toria do jesuitismo na Inglaterra. A partir, 
porém, de James II, quasi que mal se di- 
visa, atravez do progresso do povo''inglês, a 
roupeta negra, fatal, sinistra do jesuita. Se 
o cathoiicismo é ainda hoje proscripto da 
Inglaterra, só pode e deve accusar os jesui- 
tas do facto. 

K comtudo, um bom observador dos últi- 
mos tempos, já pode hoje alli sentir a mão 
dos mysteriosos obreiros de todas as vergo- 
nhas nacionaes. 



( 



DOS jesuítas 



iâ? 




iq8 



HISTORIA GERAL 



XXXII 



Os jesuítas no pelourinho 



EM meados do século xvii appareccu á luz 
um libcllo anti-jesuitico intitulado: Les 
Jésiiiles >«/.s sur 1'F.chafaud, pour plusivurs 
crimes capitaux par etix coimytis dans la 
proviuce de Giiycnite, par le siciír Pierre 
Jtirriífiic, ci-dcvant jcsiiita, profés dii qiia- 
triàne twii, et predicateur. 

Kste livro, dividido em doze capítulos ou 
discursos, foi um dos primeiros e mais 
documentados gritos de guerra contra os je- 
suítas, e, comquanto seja muito restricto o 
espaço de que dispomos, não podemos dei- 
xar de nos referir a clle, embora de manei- 
ra rápida. 

(J capitulo 1.", que pouco mais é do que 
um.a introducção, é destinado a demonstrar 
que os jesuítas teem por uso atacar sempre 
aquelles de quem possam desconfiar, que 
venham a descobrir os seus crimes. 

No capitulo 2." relatam-se os crimes delesa- 
mai^estade commellidos pelos fesiiilas. Entre 
vários factos curiosos em apoio do enuncia- 
do cita-se o seguinte : Tendo o exercito de 
Luiz XIII sofírido uma derrota nas fronteiras 
da Picardia, emquanto o resto da França la- 
mentava o desastre das tropas nacionaes só 
os jesuítas folgaram com elle. «No collegio 
de Bordeaux, onde eu me achava, diz Jarri- 
gue, íoi tal a alegria, que uma dúzia de je- 
suítas, tendo transportado secretamente e sem 
ruído as vassouras dos seus quartos c al- 
guns molhos de lenha para a torre da egre- 
ja, ahi fizeram uma fogueira, e cantaram um 
Te-Deum em acção de graças pelas victo- 
rias dl) imperador e do hispanlioi, e leram 



poesias que tinham composto em louvor dos 
dois. Tendo-se espalhado o boato do que .se 
passara na casa, e a que excessos d'insolen- 
cia a alegria tinha levado alguns d'elles, o 
reitor, que o soube, tractou de dissimular o 
caso, e o provincial, que teve noticia d'el- 
le, pediu ao bom francês que o informa- 
ra, de não fazer mais publico este negocio. 
Ora quem cala consente.» O provincial Pi- 
tard fez suprimir da collecta da missa a sup- 
plica pelo rei. 

No capitulo 3." são contadas as iisiupaçóes 
e anlidatas (falsificaçõesj amimeltidas pelos 
jcsiiilas. Segundo o escriptor que resumimos, 
os crimes d'este género, de que elle tem co- 
nhecimento, são numerosíssimos. Coitaremos 
o seguinte ca.so contado por Jarrigue. 

Os jesuítas do collegio de Bordeaux li- 
nham-se apoderado com títulos falsos da pro- 
priedade de Tillac, que pertencia a um fi- 
dalgo bordelense, o qual foi esbulhado delia, 
graças ás habilidades dos padres Malescot e 
Sabbatheri, o primeiro superior, c o segundo 
procurador da província. Um velho jesuíta, 
o padre Dubois, tendo conhecimento do ca- 
se, foi contal-o ao provincial. Este attendeu-o 
de tal maneira, que quiz recorrer a vias de fa- 
cto para o obrigar a calar-se. Dubois, porém, 
e não fora jesuiia, desconfiando das inten- 
ções do seu superior, quiz repartir o fardo 
que lhe pesava nas costas, ou preparar ar- 
mas para sua defesa. Para isso, certo dia, 
occultou no seu quarto três padres dos mais 
considerados, e pediu a Lim tal Rivière, ao 
tempo escolar ilo collegio dos jesuítas, e de- 



DOS JESUÍTAS 



'99 



pois cura no aixchispaJo de Bordcaux, que 
lhe viesse falar, c depois que lhe repetisse 
o que sabia das manobras fraudulentas do 
provincial e do procurador. Este Rcviérc, 
)ulgando-se sósinho com um homem em 
quem linha inteira confiança, contou tudo. 
Entretanto, pediu ao padre Dubois que não 
disesse nada, "Com medo, de que algum de 
nós seja enforcado !» Forte com esta confis- 
são testemunhada, o padre Dubois oppoz 
aos maus tratamentos do seu provincial, uma 
denuncia ao geral, que era então Mucio 
Mtelleschi. «Comprehende-se que os chefes 
da ordem trataram immediatamente de aba- 
far o escândalo, ajunta Jarrigue. O padre 
Dubois foi nomeado procurador da casa de 
Bordeaux, c Mallescot saiu da província. 
Mas para ir onde r pergunta o accusador ao 
jesuita, á roda ou ao cadafalso ? Nunca ! mas 
simplesmente para a reitoria de TournonI» 
O capitulo 4." tem por summarioestaaccu- 
sação : «Assassiiiiox íie crciDiças ciigciladas, 
commclltiios pelos /esiiilas. E' tão monstruo- 
sa a accusaçáo que precisava de provas abso- 
lutamente irrefutáveis, e Jarrigue não apre- 
senta senão indicies vagos. Conta ellc que 
administrando os jesuítas o riquíssimo asylo 
dos engcitados. para se livrarem de despe- 
zas, entregavam as creanças a prostitutas 
que as deixavam morrer de fome, ou de de- 
sastres que propositalmente não evitavam. 
Ao contrario, todas as creanças cujos pães 
concorriam secretamente, com uma mezada 
eram fortes e bem tratadas. 

Os capítulos \', \ I, \ii, \iii, i\ e \ são 
consagrados por .larrigue a formular accusa- 
ções dimpudicicia contra os jesuítas: impiidi- 
cicias nas suas classes; tiiipiuiícicias nas suas 
visitas; vilanias eommettidas nas suas egre- 
/as; impiidicicias nas suas casas; impiidici- 



cias nas sitas viagens e nas casas de campo; 
emjim, impiidicicias dus jesmtas nos conven- 
tos de freiras. 

Não podemos nem devemos revolver aqui 
essa lama infame, na qual o auctor dos 
Jesnitas no Pelourinho arrasta longamente, 
cruelmente os seus antigos sócios, que clle 
accusa de não terem respeitado, nos seus des- 
regramentos, nem a edade, nem o se.xo das 
suas victimas! Nos seis capítulos, cujos sum- 
marios acabamos de transcrever, Jarrigue 
cita numerosos factos, nomes próprios, e 
testemunhos de muitas pessoas ainda vivas. 
Parece comprazer-se na dcscripção minucio- 
síssima das torpezas a que se entregavam os 
seus confrades, da província. Somente ha 
expressões taes que elle reserva para o la- 
tim, o que lhe dá um sabor torpe ainda 
mais áspero. 

O capitulo XI accusa os jesuítas de fazerem 
moeda falsa. Os accusados são alguns mem- 
bros isolados da ordem cujos nomes declara. 

O capitulo XII trata das vinganças c ingra- 
tidões dos jesuítas. A relação das que o pa- 
dre conta e nós sabemos encheriam um vo- 
lume, e por mais d uma vez os nossos leito- 
res encontrarão nas paginas d'este livro. 

Calcule-sc que escândalo produziu seme- 
lhante publicação, que o jesuita Beaufés pro- 
curou refutar, e a que Jarrigue replicou de 
maneira triumphante. 

Diz-se que Jarrigue por fim se tornou a 
recolher aos jesuítas, congraçado com os 
seus irmãos, e que publicou uma retracta- 
ção. 

Essaretractação, — que tem todo o caracter 
d'um documento, se não em todo apocripho, 
pelo menos indeciso e violentado, — o mais que 
consegue é attenuar algumas das accusações. 
sem diminuir o valor geral do libello. 



^ 



HISTORIA GERAL 



XXXIII 



Os solipses 



Oi; rRo livro que, cm seguida ao que aca- 
bamos de descrever, caiu a fundo so- 
bre os tilhos de Loyola foi o que tem por 
litulo: .1 Mojuircltia dos Solipses. Esta pala- 
vra solipses, conjugada com a de monar- 
cliia, signitica "homens que q^uerem ser os 
únicos a reinar», c parece que este titulo 
convinha por tal forma aos jesuítas, que lo- 
go toda a gente lho applicou, tão depressa 
a palavra foi creada. Kstc livro curioso é, 
sob o veu da allegoria, a mais completa re- 
Nclaçáo que até nos tem chegado acerca da 
mysteriosa S. .1. 

Daremos delle uma rápida dcscripção. ba- 
seada, quanto aos nomes e coisas, na clure 
ou explicação que vem junta á edição publi- 
cada em Irlanda, em 1G48 '. 

Depois de ter dado uma idéa geral da 
.\h)uarcliia dos Solipses, ou da companhia 
de Jesus, depois de ter dito que o poder do 
chefe d'esta monarchia extranha é tão gran- 
de, tão absoluto, que, qualquer coisa que 
elle faça ou mande fazer, por muito oppos- 
las que as suas ordens sejam á rasão, á jus- 
tiça, ou ás leis divinas e humanas, os seus 
súbditos devem-lhe obedecer cegamente e 
sem reHectircm , o auctor nos introduz com 
elle na capital do império dos solipses e nos 
industria nos meios empregados pelos jesuí- 
tas para attrairem ás suas fileiras os recru- 



' Quem desejar conhecer este libello a funtlo, 
acompanhado da respectiva chave, pôde vêl-o na Bi- 
bliotheca Nacional de Lisboa, n'uma traducção hispa- 
nhola, largamente annotada. Madrid — 1770. Na mes- 
ma bibliotheca se encontra o texto latino. 



las pertencentes ás familias ricas ou podero- 
sas e para os conservarem comsigo. Deve- 
mos notar aqui que, ao contrario do que 
tantas vezes se tem repetido, o auctor do li- 
vro attesta que o poder tyrannico de que o 
geral está revestido é a origem de continuas 
e violentas agitações ■ no seio d'esta socie- 
dade. ■ 

Depois de descrever a magnificência di's 
casas, ou antes dos palácios que os jesuítas 
possuem em Roma e na campina romana, e 
o esplendor verdadeiramente real de que se 
cercava o despótico Aquaviva, esse Aridins 
Clui'ii/s, que foi o primeiro que, á imitação 
dos papas e dos soberanos, deu a mão a 
beijar a seus ministros e dignitários, diz-nos 
que os jesuítas — e isso já nós o sabíamos — 
quando os, seus interesses o exigem sacrifi- 
cam em todos os altares, sustentando em 
Roma o que negam em Paris, condemnando 
hoje o que defendem amanhã. Prova depois 
que não acreditam em coisa alguma... se- 
não em si ! 

Passando aos collegios dos jesuítas, o au- 
ctor da Monarchia traça uin quadro d'e]les 
pouco lisonjeiro, e que dana um desmentido 
completo ás pretenções dos panegyristas da 
companhia que affirmam a excellencia dos 
seus mcthodos e dos . seus professores '. 



' Quanto aos methodos são todos baseados no 
desenvolvimento da memoria, e unicamente applica- 
dos úquelles dos discípulos cujos pães tenham um 
nome ou uma situação em evidencia, para que sir- 
vam de annuncio e de recommendação á exploração 
industrial entre os idiotas que desejam ter os filhos edu- 



DOS jesuítas 



20I 



"Querem s;ibcr. diz clle no capitulo \i. 
quaes as principacs questões que os soli- 
pses tratam nos seus cursos de philosophia: 
Eis o fiel resumo : 



V.m theologia, por exemplo, as ques- 
tões são mais sérias ; discutese ahi qual é 
a air dus espírilos, ou prova-se que as in- 
teiiigencias celestes se comprazem com o 




Revogação cio edito de Nantes 



- Is nutnchas que se rcciíi na lua são ou não 
produzidas pelo ladrar dos cães? 

cados nos jesuítas, porque lá loi ou c educado o filho 
de ,Fulano e de Sicrano com excellente resultado ; 
raal suppondo que o rapaz vae ser um simples con- 
tribuinte. 



ruiar dos tambores. Não é admirável r . . . » 
O auctor assignala que os solipses não fa- 
zem caso senão daquelles de quem precisam, 
de quem são verdadeiros sabujos no momen 
to em que elles se lhes tornam necessários. 
para depois os não conhecerem. 



HISTORIA GERAL 



• A veneração que os outros christãos 
lêem pelo papa, lê se no capitulo vii, em 
nada se parece com a que os jesuítas pro- 
fessam pelo seu geral. Basta um pronunciar- 
Ihe o nome para todos os outros baterem 
com os pés. Mal o vêem. logo se rojam por 
terra. Atropellam-se, pisam-se, esmagam-se 
para se approximarem d'elle, para o servi- 
rem em tudo que elle quizer. . .« 

O auctor da Moiiarchia dos Soltpscs, pas- 
sando ;i forma singular do governo dos je- 
suitas e aos seus dignitários, attesta que 
n'uns não ha nem justiça nem moralidade, e 
nos outios nem moralidade nem justiça I «Os 
principaes cargos, diz elle, são de ordinário 
desempenhados pelos mais ineptos, ou dados 
em recompensa dos grandes crimes... En- 
tre os dignitários, deve-se contar o numero 
extremamente grande dos denunciantes. Este 
cargo é o melhor caminho para a elevação 
aos mais altos empregos da ordem. . . » 

N'este livro os jesuítas estão divididos em 
cinco classes que são: os professos de qua 
tro votos, os coadjutores espirituaes, os es- 
colares, os professos simples, os coadjutores 
temporaes ou jesuítas leigos, e por fim os 
noviços. Diz-nos mais, que estes jesuítas 
leigos, extremamente numerosos, tinham 
adquirido tal poder, eram tão turbulentos e 
intrigantes, que os professos de quatro vo- 
tos se viam forçados a conquistar lhes a 
amisade, e a submetterem-se-lhes, na alter- 
nativa de se verem perseguidos por eiles e 
afastados das dignidades. Para obviarem a 
este estado de coisas resolveram, durante 
um interregno, reduzil-os á sua primitiva 
humildade. Mucio V^itelleschi, que foi então 
nomeado geral, prometteu, jurou até que fa- 
ria isso. Mas os coadjutores temporaes por 
tal forma trabalharam contra os projectos 
dos seus adversários, e assustaram de tal 
maneira o seu novo geral, que este teve de 
ceder e curvar-se perante o vendaval que 
elles tinham desencadeado, e que ameaçava 
a completa destruição de tudo. O auctor 
conta o caso d'um jesuíta da Sicília condem- 
nado á forca por uma série de crimes, 
que os jesuítas livraram da corda e depois 
fizeram reitor d'iim collegío, allegando : «que 
sendo evidentes as provas da infâmia era 
preciso desiruil-as não só por meio d uma 



absolvição, mas ainda pelos favores conce- 
didos ao culpado, que assim ficaria com- 
pletamente justificado aos olhos do mundo.» 
O auctor conclue : «Achei tão singular esta 
jurisprudência, que dei logo a demissão do 
cargo que exercia.» 

O capítulo \ da Moncirchia de Solipscs c 
particularmente digno de attenção. E' n'elle 
que estão explicadas, embora n'uma forma 
sempre allegoríca, mas perfeitamente com- 
prehensível, as leis que regem a S. J. «O 
numero d'essas leis é immenso ; diz elle, che- 
gam a encher quinhentos volumes. São com- 
postas de uma infinidade de regulamentos, 
para tudo quanto se refere á sociedade em ge- 
ral, e com as declarações particulares dos gc- 
raes da ordem, visitas e estatutos que descem 
ás mais pequenas minúcias tanto em relação 
aos cargos como ás pessoas, e em geral so- 
bre tudo que diz respeito á companhia. Alem 
d'isso cada província tem as suas leis, cada 
collegío e cada casa os seus privilégios par- 
ticulares. O que se nota em todas estas leis, 
é principalmente a submissão dos jesuítas 
ao seu chefe, e os seus continues esforços 
para lhe submetterem o universo, por to 
dos os meios possíveis, sejam ou não legí- 
timos. » Eis um resumo d'essa extranha le- 
gislação, que nem toda a cohorte dos rou- 
petas conhece : 

I ." Quem quer que seja que uma vez se 
alistou sob as bandeiras de Ignacio, por qual- 
quer forma que fosse, por escolha ou ao aca- 
so, por vontade ou ímpeilído, deve renunciar 
a qualquer outro soberano, e subtrair-se a 
outra qualquer lei, mesmo á da natureza. 

2." Não respeitará quem quer que seja se- 
não por ordem do seu chefe supremo, que 
venerará acima de tudo e de todos. 

3." Todas as palavras d"este chefe supre- 
mo, todas as suas acções serão para os seus 
súbditos outras tantas coisas sagradas. . . E, 
embora pareçam más, contrarias á natureza 
é obrigado a elogial-as e a apoial-as com 
boas e solidas rasões. 

4.' (3s inimigos do geral serão os de todos 
os membros da ordem, inimigos que se de- 
verãoj^magoar c tratar de perder por lodos 
os ineios.i 



uos jesuítas 



2o3 



Devemos fazer ainda outra menção ao ar- 
tigo X, que, traducção tiel do sentido intimo 
das coiis/ituiçõcs, ordena a todos os jesuitas 
«de se não importarem com a sua reputa- 
ção nem com a dos outros, quando denun- 
ciarem alguém com justiça ou sem eila ! A re- 
putação dos membros da ordem não é par- 
ticular, desde o momento em que se entrou 
para ella.» Estas leis, diz o jesuíta revela- 
dor, são sanccionadas por ásperos castigos, 
que esperam aquelles que ousarem infringil- 
as. Mas para animar á obediência, lê-se no 
fim esta sentença, que é como a alma de taes 
leis : «Quem quer que seja que estiver sob o 
dominio do chefe da companhia deve não con- 
siderar-se como homem mas como uma besta 
selvagem domada e domesticada.» Salvo seja! 

As revelações contidas no artigo XII são 
verdadeiramente terriveis. O auctor deixa- 
nos entrever os abysmos de iniquidades que 
existem no fundo da S. J. e nos quaes os 
fracos e os innocentes são absorvidos e des- 
apparecem, emquanto que os criminosos au- 
dazes e poderosos vivem em plena tranquil- 
idade, insultando ainda por cima as suas 
victimas. Vè-se ahi que a morte, mas a morte 
verdadeira e violenta era um dos castigos em 
uso entre os jesuitas ; revelação que o pró- 
prio Mariana não hesita em fazer. 

O auctor da Monarcliia de Solipses nos 
faz em seguida conhecer os meios emprega- 
dos pelos jesuitas para extenderem por toda 
a parte o seu poder e o seu dominio. Egual- 
mente nos edifica a respeito de numerosas 
obras devidas a pennas da S. J. e que são 
mais principalmente destinadas a deslumbrar 
do que a esclarecer, sem exceptuar as suas 
His/ofias e Relações piedosas, que não pas- 
sam de verdadeiros romances, na maioria dos 
casos. 

Dois capítulos são depois destinados a es- 
tudar á luz da verdade os trabalhos dos je- 
suitas na China, aliás bem pouco apostóli- 
cos, como a seu tempo veremos. 

O capitulo XVIII, que tem por titulo : Os 
(Msamentos dos solipses e a educação de seus 
filhos, nos inicia nas velhacarias de que se 
servem os filhos de Ignacio de Loyola, para 
se assenhorearem do espirito das mulheres, 
e principalmente das viuvas ricas, e para le- 
varem os filhos familias a lançarcm-se por 



si próprios n'esse fundo e negro ab3'smo que 
se chama: — companhia de Jesus. 

O auctor ainda nos fala das enormes ri- 
quezas dos jesuitas, de que em parte indica 
as origens pouco limpas '. 

O ultimo capitulo do singular livro deixa 
entrever as guerras intestinas que muitas ve- 
zes se travam no seio da S. J., e que são 
tanto mais terriveis, quanto mais se passam 
no segredo das suas casas, e cujo triumpho 
vale tanto como a derrota. 

E' considerado como auctor deste tremen- 
do e de todo o ponto, virgula por virgula, 
verdadeiro libello o jesuita Júlio Clemente 
Scotti, que se escondeu sob o pseudónimo 
de Lucius Cornelius Europ;eus ^. Quem quer, 
porém, que seja o seu auctor, o livro, como 
o de Jarrigue, pregou os )esuitas n um eter- 
no pelourinho de vergonha e infâmia de que 
até hoje se não conseguiram desamarrar. Ou- 
tros escriptorcs completaram o supplicio á 
franca luz do dia e sem receio da pérfida 
gente. Na mesma epocha, Pasquier publica- 
va o seu Cathecismo dos jesuitas, ataque 
cheio de finura e de malícia, Nicolau Per- 
rault e António Arnauld, o grande jansenísta, 
edificaram o mundo descobrindo os arcanos 
da moral relaxada dos filhos de Loyola •, o 
primeiro por meio de extractos dos escrípto- 
res, casuidicos e doutores loyolenses ; e o se- 
gundo com os próprios actos d'esta gente. 
Emfim, o celebre Pascal, entrando por sua 
vez na lucta, acabou de derrotar a negra co- 
horte, que de então até hoje só tem tido 
quem a defenda aquelles que como os jesuí- 
tas enlermam da mesma perversão aespirí- 
to ou tentam occultar alguma manna de ca- 
racter ou darem largas á mais complicada 
imbecilidade, e isto com raras excepções. 



' Ainda hoje se a auctoridade policial chamasse os 
jesuitas a declararem-lhe a procedência dos bens 
que possuem em Portugal, por certo não arrancaria 
resposta clara e definitiva. O capitulo Esmola dos 
fieis, seria a fonte inexgotavel onde a policia não en- 
contraria uma única indicação com que podesse apre- 
ciar o que seria útil e moralisador que se soubesse. 

2 A Monarchia dos Solipses foi escripta em latim, 
e impressa pela primeira vez, em Veneza, em 1Ó45, 
com o titulo de: Lucius Cornelius Europaei Monarchia 
SoUpsoTum. A primeira tradução franceza é de Res- 
tant, Amsterdam, i7>4i '" '•í- 



HISTORÍA GEIíAL 



XXXIV 



Port-Royal 



CONTINUAVAM OS Ijcsuitas triumphantes c 
dominadores, urdindo e tecendo a teia, 
cm que iam involvendo toda a França, quan- 
do uma d'essas questiúnculas theobgicas, que 
se afiguram inis nadas, por ta! forma avolu- 
mou e cresceu, que em breve se converteu 
em tufão violento, derribando para sempre, 
no conceito dos homens illustrados e da gente 
séria, a seita jesuítica. D'esse retiro de estu- 
do, santidade, sciencia pura e austera mo- 
ralidade, chamado e conhecido pelo nome 
de Povt-Roval ' sairam dois homens, prin- 



' Port-Royal-deí Champs era um mosteiro fundado 
em 1204, perto de Chevreuse a seis léguas de Paris, 
destinado a cistercienses, cujo comp irtamento não 
foi dos mais edificantes. Em 1002, Angélica Arnauld 
reformouas, e o mosteiro tornou-se exemplo de vir- 
tude e santidade. Alguns annos depois, sendo já o 
edifício pequeno para a communidade, a madre An- 
gélica comprou uma casa em Paris, a fim de transferir 
para alii parte das suas religiosas. Esta casa, situada 
na extremidade do arrabalde de S. Jacques,no local 
onde hoje se acha o hospital da Maternidade, íicou- 
se chamando Port-Uoyal de Paris, para se distinguir 
da casa mãe, que continuava a ser Port-Royjl-dfs- 
Champs. O mobteiro de Paris adquiriu logo grande 
popularidade. As marquezas d'Aumont, de Sable, a 
princeza de Guémené, Madame de Sevigné, Isabel 
Choiseul-Praslin, e um grande numero de senhoras 
de elevado nascimento, algumas das quaes sefi/eram 
religiosas assim que enviuvaram, concederam grandes 
dons a esta casa, ou lhe legaram todos os seus bens. 
Em rasão da sua importância, a casa de Paris subor- 
dinou a do campo, e toda a communidade ficou su- 
jeita ao arcebispo de Paris. 

Em i636, o edifício dos Campos serviu d'asylo aos 
sábios que apostolisavam o jansenismo e que, para 
fazerem concorrência aos jesuitas, então senhores do 



cipalmenle, que se podem considerar como 
gloria do seu século e honra da humanida- 
de, que romperam contra a seita perigosa, 
que ia levando a perversão aos costumes, 
santificando as ruins paixões, desculpando 
todas as perversidades, comtanto que fossem 
respeitadas umas certas apparencias, e satis- 
feitas em numerário contribuições proporcio- 
nadas á falta e aos meios do peccador. 

Ksses dois homens, a que acabamos de 
alludir, foram António Arnauld, a quem 
depois nos referiremos, e Blaise Pascal, de 



ensino da mocidade, estabeleceram pequenas escolas 
em varias localidades. Foi das necessidades d'esse en- 
sino que sairam os compêndios, que vieram até nos- 
sos dias, e que os da minha geração ainda conhece- 
ram e n'elles alguma coisa aprenderam, taes como : 
Tratado de lógica. Jardim das raives gregas., Metho- 
do de latim, Metbodo grego., Ensaios de moral e a 
Bíblia^ chamada de Sdcj'. Entretanto trava-se a guer- 
ra com os jesuítas; o papa e o rei tomam o partido 
d'esta gente ; e em agosto de 1664 o arcebispo de Pa- 
ris, com um grande apparato militar, como se fosse 
tomar uma fortaleza de guerra, invadiu Port-Royal 
de Paris; prendeu dezeseis religiosas, que distribuiu 
pelos diversos mosteiros da cidade, e mandou as ou- 
tras para Port-Royal des Champs, onde estabeleceu 
uma guarnição encarregada de as privar de qualquer 
communicação com a sociedade exterior, inclusive de 
descerem ao jardim. Foi-lhes igualmente prohibido 
receberem noviças. 

No mosteiro de Paris ficaram as religiosas que se 
submetteram á doutrina dos jesuítas e á sua moral 
relaxada. Estas, filiadas ao jesuitismo, declararam-se 
contra as suas irmãs honestas e christãs, e em 1707 
intentaram-lhes um processo, para as obrigarem á 
partilha dos bens, a que não tinham direito algum 
Comtudo, as religiosas de Port-Royal tendo per.sis- 



DOS jesuítas 



"205 



quem passainos ia a occupar-nos c cuja 
penna fez peior e mais funda chaga na S. 
J. do que todos os decretos de expulsão de 
rehse papas. Destes sem- 
pre se riram os jesuitas: 
da sentença de Pascal 
nunca mais houve appel- 
lação nem aggravo. 

Raros dos grandes no- 
mes da humanidade te- 
rão gosado mais inviolá- 
vel gloria do que o de 
este ultimo. Depois de 
ter excitado a admiração 
d"um século fundamen- 
talmente devoto e geral- 
mente esclarecido, elle 
tem vindo atravessando 
todos os tempos que se 
lhe seguiram sem que 
o seu nome tenha perdi- 
do coisa alguma do pri- 
mitivo brilho, embora 
n esses tempos ria ^"ol- 
taire, duvidem os encv- 
clopedistas, ou destruam 
os atheus da revolução. 
A nossa epocha, toda de 
critica e analyse, demo- 
lidora systematica de 
passadas glorias não tem 
conseguido derrubar do 
pedestal esta grande fi- 
gura, sempre grande por 
qualquer lado que se 
examine. Outros, e dos 
maiores, celebraram os 
prodígios precoces da 
sua intelligencia, essa vi- 
da tão curta, e comtudo 
amplamente cheia pelo 
trabalho, sempre coroa- 
do de êxito, as suas vir- 
tudes, os seus soflrimen- 
tos, o seu est}'lo nobre, 
vivo, penetrante, nei-voso, sublime, único; 
a graça e jovialidade do seu espirito, a se- 

tido nas suas crenças, os jesuítas obrigaram o rei a 
destruir a communidadc. 

Km II de junho, o cardeal de Noailles, arcebispo 
de Paris, publicou contra estas um decreto de sup- 



\era e altiva gra\idade do seu pensamen- 
to; aqui, só trataremos de esboçar a lucta 
por elle travada contra a S. J. e victoria. 




í%S.-- 



Retrato de Pascal 

que deixou para sempre a sua contendora 
mal ferida. 



pressão. A lo doutuhro, o chefe de policia d"Argen- 
son escoltado por numerosa tropa, foi intimaras re- 
ligiosas que tinham de sair da abbadia ; e concedeu- 
lhes um quarto d'hora p.ira fazerem os devidos pre- 



ao6 



HISTORIA GERAL 



ILrrcI lalai Ull.ilis .viiiuio* liircmos: 
como o poeta; dardo implacável que os je- 
suítas nunca mais puderam arrancar da fe- 
rida e que ha quasi duzentos e cincoenta an- 
nos está sangrando, enfraquecendo-os dia 
a dia. 

Foi na moral que Pascal os feriu, foi, em 
honra da moral christã, que elle os amar- 
rou no pelourinho, d'onde não ha forças hu- 
manas que os arranquem '. 

A edadc media tinha assistido ao trium- 
pho completo, e ao mesmo tempo á com- 
pleta desvirtuação do christianismo. Que- 
brando a antiga instituição politica, e assu- 
mindo por sua vez o poder dos césares, a 
Kgreja não se deteve senão quando se con- 
siderou senhora absoluta do homem. Essa 
primitiva religião, toda espiritual na sua es- 
sência, viu-se obrigada a converter se em 
material para se apoderar da sociedade, dis 
solvel-a dominando-a, e submetter comple- 
tamente o homem. Da bainha tira a espada, 
faz correr rios de sangue para comprimir os 
povos, e mantel-os sob o seu jugo. O Ksta- 
do passa para a Kgre)a ; a Egreja aspira a 
passar toda inteira para os conventos; os 
meios de salvar as almas confundem-se com 
os de as governar. O culto perde a sua an- 
tiga e celeste simplicidade ; desnatura-se nas 
cerimonias e nas devoções, ou antes idola 
trias dos santos, das relíquias, das imagens, e 
n uma multidão d'observai;cias qual d'ellas 
mais tresloucada ou ma:s estúpida. De- 
pravam-se os costumes ; a ignorância e a 
violação dos deveres tornam-se universaes. 



parativos. Depois mandaram-nas com orJem de pri- 
são para diversos mosteiros do reino. 

O edifício foi arrasado; e os bens roubados pela 
auctoridade concedidos As matronas pouco dignas do 
Pori-Royal-de-Pjris. 

A raiva dos jesuitas nem sequer respeitou o re- 
pouso dos sepulchros. As campas foram levantadas, 
os túmulos violados, e os ossos, confundidos e de- 
pois divididos em porções, dispersos por vários ce- 
mitérios, i-iastava este uuico facto na vida dos je- 
suitas para a sua eterna condemnação. 

1 O dardo mortal fica preso no seu flanco. Virgi- 
lio. Eneida, liv. iv. v. 73. 

2 O leitor encontrará este assumpto claramente 
exposto no Elogio de Pascal, por M. Bordas Demou- 
lin, premiado pela Academia Francesa, em 3o de ju- 
nho de i''<42, de que este capitulo é um resumo. 



Nunca se falou tanto de pureza, e nunca, 
talvez, a vida foi menos pura. 

Longe de a regiilarisar, a religião perver- 
tida ainda mais a perverteu. Os mais temi- 
veis e os mais augustos mysterios, brinque- 
dos de consciências degradadas, são um cha- 
mariz nublico á prevaricação. Algumas ve- 
zes a communhão precede o crime, c a con- 
fissão segue-se a este. No sanctuario assiste 
o vicio e a voluptuosidade de companhia 
com a cubica insaciável, que audaciosamente 
trafica com todas as funcções as mais sagra- 
das. A faculdade de peccar vende-se e com- 
pra-se com o negocio das indulgências ', o 
ceu é posto em almoeda e quaesquer libe- 
ralidades, ou praticas cultuacs ridículas, al- 
cançam o perdão das mais abomináveis ac- 
ções. A casiiistíca^ triste rilh;' da escholastica, 
acaba por transtornar as idéas moraes com 
as suas subtilezas e distincções, que trans- 
formam os vicios em virtudes. A corrupção 
trasborda, «e os christãos, como bem nota 
Fleury, quasi que não ditíerem dos pagãos, 
senão por vãs cerimonias, que não melhoram 
os homens.» 

Mas no meio de toda esta desordem da 
Egreja, na sociedade sentia-se a influencia do 
christianismo, o seu espirito renovador en- 
che o homem sem obstáculos, e o leva in- 
sensivelmente para o seio de Deus. E em- 
quanto por fora o opprimem, elle vae-se li- 
bertando por dentro, elevando-se a uma com- 
munhão immediata com a rasão soberana, 
principio primeiro da sua força. Então uma 
resurreição geral se opera nos espíritos, que 
se dirigem para o Creador ; e essa resur- 
reição, que vem com a das antigas lettras, 
e dos antigos conhecimentos, tornam indis- 
pensáveis uma reforma. Os seus próprios 
filhos pedem á Egreja de seguir o impulso 
reformador, mas desde muito que os pontífi- 
ces tinham succumbido á corrupção geral, 
de que alguns pareciam ser modelos esco- 
lhidos. E como teimassem cm repelir a rc- 



' A cúria romana tinha uma tabeliã do preço das 
absolvições para cada peccado desde o mais horrivel 
;'i falta mais simples ; tal qual como hoje os jornaes 
artísticos da Itália têem para os adjectivos dos can- 
tores e cantoras desde assombroso génio até ao mais 
insignificante distinclo. Negociata a mesma, applica» 
ção diversa. 



DOS JESUÍTAS 



207 



forma voluntária, provocaram a erupção da 
reforma violenta. 

A sociedade é abalada nos seus funda- 
mentos, tudo é analysado e criticado ; tudo 
cae por terra, em presença d uma lógica 
cega que vae ás ultimas consequências sem 
regulador nem attenções ; e nada a Kgreja 
comprehende, nada quer ouvir ; e pretende 
só deter a avalanche destruidora e revolu- 
cionaria perseverando nos mesmos males e 
vicios que tinham desencadeado a tempesta- 
de. Desta cegueira do interesse próprio nas- 
ceu a companhia de Jesus, como já vimos, 
que fez tremer os reis e que agora vamos 
vel-a tremer por sua vez na presença de 
Pascal. 

Pelos esforços d"esta milícia numerosa, 
hábil, dedicada até o crime, quando os seus 
interesses estavam d"accordo com os de Ro- 
ma, ou elia os sabia torcer a esse ponto, 
que tanto se insinuava entre os illustrados 
como entre os ignorantes, entre os ricos co- 
mo entre os pobres, nas cortes, nos thro- 
nos, nas multidões, que governava todas 
as consciências, conseguiu-se por vezes fa- 
zer parar o protestantismo mas nunca se lhe 
fez moça. 

A Egreja tinha sido arrastada pelos jesuí- 
tas a uma lucta deplorável contra o espirito 
novo que, no fim de contas, era o glorioso 
lilho d'essa mesma Egreja. 

Com o poder crescente dos jesuítas pa- 
recia esvair-se a esperança d'uma reforma 
pacifica na Egreja. A reforma fora da Egreja 
privada de orientação c d'apoio, conduzia 
pouco a pouco á inteira destruição do chris- 
tianismo. Os abusos dum lado e os exces- 
sos do outro, aqui o ódio ao poder, iá uma 
obediência submissa e o medo da rasão; e em 
parte alguma a alliança fecunda, a alliança 
indispensável tanto á Egreja como ao Estado 
da ordem e da liberdade I 

Tal era a feição dos negócios christãos, 
quando Porl-Royal saiu á arena armado 
com o génio de Pascal. 

Um humilde ermo, consagrado ao si- 
lencio e á oração, tinha-se tornado, por um 
maravilhoso concurso de circumstancias em 
f((C() de luz e no derradeiro refugi»-) da liber- 
dade religiosa. Lá reinava a amabilidade sim- 



ples de Jansenius ' e a philosophia de Des- 
cartes, essa immortal declaração dos direi- 
tos de pensamento-, lá floresciam os costu- 
mes da Egreja primitiva, e o conhecimento 
da antiguidade sagrada e profana; lá tinham 
guarida as provas solidas da fé, se esclare- 
ciam os princípios da rasão, e as regras da 
linguagem. Recordando a simplicidade dos 
patriarchas, dos apóstolos e dos primitivos 
romanos, os .seus entretenimentos eram a 
agricultura e os oHicios. As almas ávidas de 
perfeição evangélica, os e.scriptores ciosos 



' Jansenius fora um bispo de Ypres, que, quando 
morreu, deixou um livro intititulado Augustinus, no 
qual tazia reviver a doutrina de Santo Agostinho so- 
bre a Graça. Despresando profundanienie os escho- 
lasticos admirava os sectários da predestinação. De- 
clarava pelagiana— heresia que exaggira a energia do 
homem para a virtude, negando o enfraquecimento 
original da vontade, e a necessidade da graça — a dou- 
trina sustentada pelo jesuíta Molina, e recusava reco- 
nhecer com os dominicanos alem da graça effica^, 
uma outra graça chamada su/ficienie, que podia tam- 
bém, por vezts, não ser bastante. Os seus principios 
e o ódio aos jesuitas, que altamente manifestou em- 
quanto viveu, não lhe tinha feito perder a amisade 
dos dominicanos. O seu livro levantou todas as paixões 
contra ;i sua memoria. Assim que appareceu foi logo 
atacado pelos jesuitas de Lovaina: os partidários da 
doutrina que elle explana, vieram á liça e defende- 
ram-n'o com ardor, e a Inquisição interveiu para pro 
hibir o ataque e a defesa. Urbano VIII confirma o de- 
cretodo Santo-Officio, e nota o Auguslinus como con- 
tendo proposiçóeshereticas. Os jansenistas não fazem 
caso da bulia de Urbano VII. Alguns annos depois, o 
syndico da faculdade de Paris, extraiu áo Augustinus 
cinco proposições a fim de as submetier ao exame 
da Santa-Sé. O papa condemna as taes proposições ; 
os jansenistas replicam que elle fez muito bem emas 
condemnar, somente taes proposições não existem 
no livro de Jansenius, e ao mesmo tempo conseguem 
que a inquisição d'llispanha condemne nada menos 
de vinte e duas extraidas de livros jesuitas. Vinte e 
oito bispos franceses allirmam que elVectivamente as 
taes proposições se encontram no livro de Jansenius. 
Os jansenistas declaram que a condemnação não 
lhes faz moça, porque são simplesmente discipulos 
de Santo Agostinho, de quem o bispo de Ypres não 
fez mais do que explicar a doutrina. Aqui entra na 
batalha o mais temível adversário dos jesuitas, o gran- 
de Arnauld. Este doutor, que tinha sido expulso da 
universidade de Paris, subjugada então pelos jesuitas, 
por causa dos seus principios jansenistas, voltava a 
travar combate,] mas os jesuitas obrigam-n"o a refu- 
gíar-se na Bélgica, onde o fazem perseguir pelos seus 
sicários. Mas esta victoria foi sol ile pouca dura par;» 
os loyolenses, porque \eiu perturbnl-H a publicação 
das Cartas Frovinçiacs. 



•io8 



HISTORIA GERAL 



de SC comprchcndcrcm a si próprios c de 
bem dizerem, iam alli procurar conselhos 
com os exemplos. Emquanto Racine ahi for- 
mava o seu gosto incipiente, a duqueza de 
Longueville ahi dava largas á ternura do seu 
coração, nos suspiros da penitencia, e impri- 
mia a este ermo qualquer coisa da majes- 
tade da sua real procedência. Lá revolteavam 
os instincios d'independencia, que attrairam 
mais de um nobre destroço da Fronde; lá 
respirava o ódio aos jesuítas n'essa família 
dos Arnauld, que justamente tem sido com- 
parada a uma d'essas rijas gentes da anti- 
ga Roma. Com os seus estóicos .'imigos— de 
Nicolc, Maistre, Sacy, Renaudod, Hermant, 
Tillemont — Arnauld, que um grande século 
chamou o grande Arnauld, era a columna 
deste pórtico christão. 

Port Ro\'al resolveu combater os jesuítas 
e os protestantes, escoiínar os costumes sem 



alterar os dogmas, destruir a thcocracia sem 
quebrar a unidade catholica, empresa tão 
nobre como vasta c diíHcii, e da qual, alguns 
erros nunca poderão embaciar a gloria. 
Port-Royal é a rasao reclamando na hlgreja 
o seu logar natural, sob a protecção da scien- 
cia e da virtude ; é a lucta do espirito genui- 
namente christão contra um christianismo 
llexivel, ambicioso, mundano ; é a santa in- 
surreição contra a mais insupportavel das 
tyrannias, aquella que ataca as consciências! 

E tal é a força das idéas, que foi preciso 
as forças reunidas de Roma c de Luis XIV 
para abafarem a voz livre d'alguns solitários. 

Foi, pois um bello triumpho para Pascal, 
quando tantas almas santas confiaram do 
seu zelo a salvação da sua causa, quando 
todos esses homens, a quem não faltavam 
nem os conhecimentos nem o talento lhe en- 
tregaram a pcniia como ao mais digno. 



DOS jesuítas 



20q 



XXXV 



As Provinciaes 



Egerairrente sabido que foi o processo 
de Arnauld ' perante a Sorbonne, que 
provocou as Provinaaes e a guerra regular 



e os jesuítas por tal forma tinham intrigado, 
movido em seu favor as mais altas, e até as 
mais peccaminosas influencias, que alto e 




Autc-de fé de uma calvinista 



c encarniçada entre jesuítas c )ansenistas. 
Vencer Arnauld, seria anniquilarPort-Royal 



bom som annunciavam a condemnação de 
Arnauld. O clero secular sustentava este, 



' António 'Arnauld nasceu'em Paris em 1612 e 
morreu em Bruxellas em 1694. Era tilfio d'aquelle 
outro António Arnauld que já vimos em 1394 advo- 
gar os privilégios da universidade de Paris contra os 



jesuítas. António Arnauld doutorou-se em theologia 
em 1641, quando j;i convertido ;is doutrinas de Jan- 
senius. Dois annos depois publicou o seu livro Dafre 
quente communhão, onde havia laivos de critica á mo- 

27 



HrSTORlA GERAI. 



contra as ordens religiosas unidas então aos 
jesuítas. 

Perante este golpe imminente surgem as 
Proniicidcs como um protesto antecipado. 

As ProrincÍJfs, que são em numero de 
desoito, appareceram primeiramente por fo- 
lhas separadas de oito paginas in 4.", á ex- 
cepção das três ultimas, ás quaes o auctor 
deu maior desenvolvimento. A sua primitiva 
publicação foi anonyma, e só mais tarde é que 
saíram á luz com o nome de Liiis de Mon- 
tai te. Chamavam-se então as Peíiles Lei três; 
tmas o livreiro, ou os amigos, diz Sainte- 
Beuve ', mandando as provas tinham posto o 
título de Carta escripta a um provincial por 
um dos seus amidos. O publico, para abre- 
viar chamou-lhe Provincial, consagrando por 
esta locução imprópria a popularidade da 
peça.» 

As Provinciaes diz-se que foram impres 
sas pela maior parte num dos moinhos que 
então e.xistiam em Paris entre a Ponte No- 
va e a Pont-au-Clhvige. Pedro Lepetit, ce- 
lebre livreiro e impressor do rei. tinha-se en- 
carregado da publicação, para o que se ser- 
via d'uma espécie de tinta cujo segredo pos- 
suía. Esta tinta adheria ao papel sem que fos 
se preciso molhal-o, e scccava logo, de forma 
que permittia imprimir as cartas de noite e 
distribuil-as no dia seguinte. «Nunca, diz o 



ral dos jesuítas. As disputas suscitadas pelas doutrinas 
de Jansenius estavam então no seu auge. Arnauld, 
tendo escripto duas cartas acerca d'umii absolvição 
negada por um padre de S. Sulpicio, os seus inimi- 
gos extrairam d'ella duas proposições que foram con- 
demnadas pela Sorbonne, e elle expulso da faculdade 
de theologia (i65ij). Voltou entno a recolher-se no 
retiro de HortRoyal, e não saiu d'alli senão ao tim 
de doze aunos, por occasião da paz de Clemente IX 
(i''68).Onze annos depois, tendo recomeçado a guer- 
ra contra os jesuitas, estes por tal forma o cjlumnia- 
ram junto do rei, que e lie julgou prudente retirar-se 
para a Bélgica. O seu espirito foi um dos mais pliilo- 
sophicos do século xvii, e um dos mais vastos, e o seu 
temperamento impetuoso não tinha descanço. Um 
dia que Nicole, mais brando e contemporisador, lhe 
objectava que era tempo de descançar : — Descan- 
çar I clamou elle, não terás por ventura tempo para 
isso durante a eternidade ?!• 

' Sobre o assumpto póJe consultar-se com gran- 
de proveito para o conhecimento geral da epocha 
e particular da questão, a obra capital de ^ainte- 
Beuvf, Pori-Royol. 



padre Daniel, nunca o correio fez maior ne- 
gocio. Foram enviados exemplares para to- 
das as cidades do reino; e embora eu fosse 
pouco conhecido dos srs. de Port-Royal, del- 
les recebi, n'uma cidade da Bretanha aonde 
me achava, um grande maço d'ellas, com o 
•porte pago.» 

A apparição do admirável pamphlelo de 
Pascal ' poz em alvoroço os jesuitas, os de- 
votos e apaniguados d'estes e deu o alerta 
ao bando sempre prompto dos seus sicários. 
Fizeram- se desde logo activíssimas pesqui- 
zas para descobrir o impressor. Por ordem 
do rei, foi preso e interrogado Carlos Sa- 
vraíx, um dos livreiros de Port-Royal, e 
tanto elle como sua mulher e seus caixeiros 
tiveram que responder perante o juiz do 
crime ; mas todas as perguntas ficaram sem 
resposta. Fizeram-se outras buscas domici- 
liarias, inclusivamente em casa do livreiro 
Lepetit \ mas, no momento em que alli che- 
gavam os agentes da auctoridade, a mulher 
do impressor subiu á ofllcina, agarrou nas 
formas, e, encobrindo-as com o avental, foi 
escondel-as em caía dum visinho, onde n'es- 
sa noite se tiraram trezentos "exemplares da 
segunda carta, e no dia seguinte mil e du- 
zentos. 

Esta publicação custava muito cara aos 
jansenistas; até que se lembraram e adopta- 



' Na impossibilidade de incluir no texto d'este li- 
vro a traducção das Provinciaes ou d'algumas d'el- 
las, damos os respectivos resumos, taes quaes se 
acham publicados nas edições deffinitivas. 

I." — Das questões dd Sorbonne, e da invenção do 
poder próximo, de que os molinistas se serviram para 
obterem a censura contra M. Arnauld. 

■2..' — Da graça sufficiente. 

3.'— Para servir de resposta á precedente. —Injus- 
tiça, absurdo e nullidade da censura contra M. Ar- 
nauld. 

4.' — Da graça actual sempre presente, e dos pecca- 
dores d'ignorancia. 

5." — Desígnios dos jesuitas estabelecendo uma mo- 
ral nova. — Duas sortes de casuísticos entre elles : 
muitos relaxados, alguns severos ; rasão d'esta difTe- 
rença. — Explicação da doutrina da probabilidade — 
Multidão dauctores modernos e desconhecidos sub- 
stituídos aos Santos Padres. 

6." — DifTerentes artifícios dos jesuitas para se frustra- 
rem á auctoridade do E -angelho, dos concílios e dos 
papas — Algumas consequências que se seguem das 
suas doutrinas sobre a probabilidade.— Relaxamento 



DOS jesuítas 



ram a seguinte combinação para a colloca- 
ção das cartas 8/, 9.* e 10.*. «Em vez de 
dar estas cartas, expunha o sr. de Saint- 
Gilles, aos nossos livreiros Savraux e Des- 
prez, para as venderem e depois prestar-nos 
contas, fazemos tirar de cada uma doze res- 
mas, que prefazem seis mil exemplares, 
guardamos três mil para dar, e os outros 
três vendemol-os aos mencionados livreiros, 
mil e quinhentos a cada um a um soldo o 
exemplar. Kllcs depois vendem-os a dois sol- 
dos e seis dinheiros o exemplar; d"esta ma- 
neira recebemos cincoenta escudos, com que 
pagamos a edição á farta, ficamos com três 
mil exemplares de graça, e ninguém perde no 
negocio. » 

As Peliies Lettres, ao mesmo tempo que 
exasperavam os jesuítas, e despertavam a cu- 
riosidade publica sobre quem seria o seu au- 
ctor, coUocavam um marco miliiario na his- 
toria da lingua francesa, onde até então na- 
da|tinha apparecido q .le lhes parecesse, e de- 
pois nada ainda appareccu que as excedesse. 

A forma era absolutamente nova; o plano, 
simultaneamente simples e rigoroso, não é 
previamente indicado; mas, á maneira de 
Platão, vae saindo de si próprio, segundo o 
curso das idéas, o que sustem sem cessar a 
curiosidade e prepara para as surpresas. 

As três primeiras cartas referem-se ao 



em favor dos beneficiados, dos padres, dos religiosos 
e dos serviçaes. - Historia de João d'Alba. (Este 
João d' Alba, accusado pelos jesuítas de lhes ter rou- 
bado certos objectos, defendeu se com a doutrina 
dos amos, allegando que não roubara, mas que como 
não estava satisfeito com o ordenado, tinha junto 
o que julgara conveniente e justo que lhe fosse dado. 
O processo não teve sentença.) 

7."— Do methodo de dirigir a intenção segundo os 
casuísticos — Da permissão que elles dão de matar 
em defeza da honra e dos bens, e que elles extendem 
até os frades e padres. — Questão curiosa, proposta 
por Caramuel, para se saber se é licito aos jesuítas 
:issassinarem os jansenistas. 

8"— Miximas corrompidas dos casuísticos acerca 
dos juises, dos usurários; o contracto Mohatra, os 
fallidos fraudulentos, as restituições, etc. — Diversas 
extravagâncias dos mesmos casuísticos. 

9.' — Da falsa devoção á Santa Virgem introdusí- 
da pelos jesuítas. — Diversas facilidades que elles in- 
ventaram para qualquer se salvar sem trabalho no 
meio das doçuras e dos conimodos da vida. (A pri- 
meira edição de Ladévotion aisée do padre Le Moy- 



processo de Arnauld; as questões relativas 
á gi'aça^ ahi são tratadas levemente ; o seu 
principal fim é attrair o interesse para o lado 
dos jansenistas, e a animadversão sobre os 
seus inimigos. E' como um preludio que des- 
perta a altenção do publico. 

A quarta serve de transição ás seis que se 
seguem, e onde são expostos e Hagelados, 
com uma verve que não se exgota, os inacre- 
ditáveis paradoxos dos casuísticos. Nas oito 
restantes, tornam a ser tratadas as grandes 
questões da obra ; a moral dos jesuítas e a 
contraversia da graça, mas com a dialéctica 
e a impetuosidade d'uma eloquência esmaga- 
dora. De principio a fim são uma lucta sem 
tregoas, onde a mudança d'armas só tem 
por fim ferir com mais força. 

Estas três partes bem distinctas das Pro- 
vinciaes tem cada qual o seu estylo, e a sua 
exposição peculiar. Primeiramente é uma 
narrativa animada, viva, das intrigas e dos 
surdos tramas que se praticam á sombra dos 
claustros ; narrativaque traz successivamente 
para o palco os jacobinos, os molinistas, os 
jesuítas e põe a claro a conspiração contra 
Porl-Royal. Na segunda parte tudo se pas- 
sa entre dois actores. O casuístico, agarra- 
do de frente, toma a nossos olhos todas as 
transformações, mas mostrando-se sempre 
falso, sempre ridículo, muitas vezes horri- 



ne da S. J. é de 1O57) — Suas máximas sobre a ambi- 
ção, a inveja, a gula, os equívocos, as res'ricções men- 
taes, as liberdades que são permittidas ás raparigas. 
(O padre Bauny atlirma que as donzellas são senho- 
ras da sua virgindade, como são do seu corpo, e que 
podem fazer d'elle o que bem lhes aprouver, com exce- 
pção da morte ou corte de membro ! Por isto julgue- 
se do resto). Vestidos das mulheres, o jogo, e o pre- 
ceito d'ouvir missa. 

IO.'-- Mitíga>:ão que os jesuítas deram ao sacramen- 
to da penitencia, pelas suas máximas relativas á con- 
fissão, á absolvição, ás occasiões próximas de peccar, 
á contricção e ao amor de Deus. 

II.' — F.scripta aos reverendos padres jesuítas. — 
Que se podem refutar com zombarias os erros ridí- 
culos. — Precauções com que se devem empregar, e 
que foram observadas por Montalte, mas que o não 
foram pelos jesuítas. — Chacotas ímpias do padre Le 
Moyne, e do padre Garasse. 

12.* — Refutação das chicanas dos jesuítas acerca 
da esmola e da simonía. 

i3.« — Que a doutrina de Lessius sobre o homicídio 
ú a mesma que a Je Victoria. — Como é fácil passar 



HISTORIA GERAL 



vel e abominável. Kmfim, a partir da uiulc- 
cima carta, Pascal arreda de todo cm todo 
o artificio, dirige-sc directamente ;i ordem in- 
teira dos jesuítas, ou ao confessor do rei, a 
quem chama pelo seu nome, e deixa-se le- 
var pela impetuosa liberdade do seu tempe- 
ramento. 

Da collecção, as primeiras Pro;'/;;aat's são 
as que ficaram mais populares, graças á ele- 
gância dos pormenores, ao movimento dra- 
mático e a uma singular audácia de critica. 

Mas quando Pascal, depois de se ter en- 
tretido na sua brilhante introducção, avança 
para combater os desertores da moral chris- 
tã, quando os vae perseguir no antro das 
suas subtilezas, quando, á luz do dia, exp(5e 
ao desprezo do mundo o espantoso lixo das 
suas impudentes máximas-, então, sustenta- 
do pela verdade, elle assume uma força 
invencível e provoca o applauso universal 
das almas rectas, dos homens de bem. Di- 
gnamente vingou o christianismo e consolou 
a moral o escriptor que imprimiu uma eter- 
na infâmia n'essa doutrina da probabilidade 
a qual, disfarçando todos os crimes, ao sa- 
bor de qualquer casuístico, santifica as al- 
mas deixando-as a chafurdar na mesma cor- 
rupção; que profligou esse methodo commo- 
do de dirigir a intenção, concedendo o pri- 
vilegio do vicio, em troca d'alguns vãos pen- 
samentos damor a Deus; que condemnou 
esse delirio taxativo da vida humana, quando 
declara gravemente que se pode matar um ho- 
mem que nos tirou seis ou sete ducados, 
um escudo, ou até uma maçã; emfim que vo- 
tou ao despreso e á irrisão todas as inconce- 



da especulação á pratica. — Porque é que os jesuítas 
se tem servido d'esta villã distincção, e quanto é inú- 
til para os justificar. 

14.* — Relutam-se, com o auxilio dos Santos Padres, 
as raaximas dos jesuítas sobre o homicídio. — Res- 
ponde-se de passagem a algumas das caluranias d'el- 
les, e compara-se a sua doutrina com o formulário 
que se observa nos julgamentos crirainaes. 

i5." — Que os jesuítas eliminam a calumnia do rol 
dos crimes, e que não teera escrúpulo em se servirem 
d ella contra os seus inimigos. 

|6.* — Calumnias horríveis dos jesuítas contra pie- 
dosos ecciesíasticos e santas religiosas. 

17* — Escripta ao reverendo padre Annat (confes- 
sor do rei). — Faz ver, esclarecendo o equivoco do 
Siinlido de Jansenius, que não ha heresia algumn na 



biveis apologias da mentira, da avareza, da 
simonia. da libertinagem, do roubo e do as- 
sassínio. 

Como um orador que. depois de ter me- 
dido as suas forças, sente sob a mão um au- 
ditório dócil, se entrega a todos os enthu- 
siasmos da sua alma, assim Pascal, senhor 
emfim do publico a que subjugou, irrompe 
impetuoso nas ultimas Provinciaes. Corre 
direito aos seus inimigos, e mostra-lhcs a 
physionomia d'um juiz inexorável e terrível. 
Accusa, acabrunha, triumpha. Já não é o 
advogado do jansenismo, é o mestre que en- 
sina. Sente-se n"elle a força secreta d'um par- 
tido todo inteiro. A cólera, a indignação, a 
vingança respiram nas suas palavras;é o vigor, 
o nervo, a vchemencia concentrada de De- 
mosthenes. Com que arte clle sabe produzir 
esses novos e poderosíssimos accentos I A 
verdade é que as Provinciaes, no seu con- 
juncto, são um grande discurso, conduzido 
com uma admirável ordenação. Quando du- 
rante' tanto tempo o vimos a sangue frio 
expor as torpezas dos ca.suisticos, inhibin- 
do-se de as censurar, por uma precaução 
cruel, sentimo-nos consolados depois quan- 
do deixa que o sentimento moral ulcerado 
desabafe e reclame uma satisfação prom- 
pta. E' então que Pascal, pondo de parte 
o sarcasmo, se torna eloquente, e o leitor 
sente-se allivíado na sua indignação. O que 
fica de gracejo, não é senão disfarçada amar- 
gura, e todos os golpes vão fundos e despe- 
daçam. Ao dom ínHexivel de deduzir que ca- 
racterisa Pascal, se junta não só a paixão, 
mas uma profunda sensibilidade c um mei- 



Egreja. — Mostra-se, pelo consenso unanime de to- 
dos os theologos, e principalmente dos jesuítas, que 
a auctoridade dos papas e dos concílios não é infal- 
livel nas questões de facto. 

i8.' — Escripta ao reverendo padre Annat, jesuíta. 
— Faz-se ver ainda mais invencivelmente, pela pró- 
pria resposta do padre Annat, que não ha nenhun^a 
heresia na Egreja, que todo o mundo co.idemna a 
doutrina que o.s jesuítas attribuem ao sentido de .lan- 
senius, e que todos os fieis permanecem nos mesmos 
sentimentos sob a matéria das cinco proposições. — 
Nota-se a differença que ha entre as questões de di- 
reito e as de facto; e prova-se que, nas questões de 
facto, se deve ter mais em conta o que se vê do que 
o que nos é contado por qualquer auctoridade hu- 
mana que seja. 



I 



DOS jesuítas 



3l3 



go amor dos homens. A ultima carta, onde 
é desenvolvida a doutrina da graça, c repas- 
sada de enternecedora uncção. 

Como fosse difficil responder a um tal li- 
vro, os jesuítas consejíuem que o parlamento 



dos lesnitas estava minado pela base, a 
casuidica arruinada e por tal forma que, 
apesar da araisade de Luis XIV pelos je- 
suítas, apesar da protecção com que os 
protegia, líossuet pôde fazel-a condemnar 



w 



f^ y - f r^-^A>-»^ 




Cafnclicos roubando creanças 



de Provença o condemne, e fazem-n'o quei- solennemente pela assembléa do clero de 

mar pelo algoz. De todas as refutações era < 1700, que deu esta tardia, mas gloriosa ho- 

a que menos valia, e a mais desastrada. Não menagem ao vencedor dos abusos e da men- 

se repara o que é irreparável. O dominio tira. 



214 



HISTORIA GERAL 



XXXVI 



Revogação do edito de Nantes 



SE houve acto glorioso d' um rei foi sem 
contestação o edito de Nantes ; se hou- 
ve acto que jesuítas e clericaes nunca perdoa- 
ram foi este, que trouxe a paz á França, a li- 
berdade ás conscicneias, e, com ella, o reco- 
nhecimento da dignidade humana. 

Hm matéria religiosa o homem pode e de- 
ve pensar como quizer; quem quer que tra- 
balhe para lhe impor uma crença, devia ser 
banido da communidade como prejudicial e 
perigoso. 

As religiões d'Estado foram e continuam 
a ser origem de incalculáveis males sociaes. 
Uma nação só entra verdadeiramente no ca- 
minho do progresso intellectual no dia em 
que, sem entraves, ou protecções officiaes 
cada qual segue a religião que lhe apraz. 

Quando, no seu logar, alludimos ao edito 
de Nantes, não desenvolvemos proposital- 
mente o assumpto, para o ligar com o da 
sua revogação, e assim poupamos ao leitor 
o ter que rememorar factos, que intimamente 
se ligam com os que vamos relatar, e que du- 
rante mais dum século fizeram correr rios 
de sangue em França, graças á ambição e 
intolerância da três vezes diabólica socie- 
dade. 

Os protestantes do reino queixavam-se de 
terem sido abandonados pelo rei, e, mais de 
uma vez, tinham reclamado d'elle com ins- 
tancia algumas garantias contra os seus ini- 
migos. Henrique IV, apesar da sua abjura- 
ção, cujo motivo, como já vimos, se encerra 
nesta phrase : Paris vale bem uma missa, 
tinha ficado huguenotc d'alma. Comtudo não 



quiz afrontar a crença da maioria dos seus 
súbditos, nem sacrificar a religião da sua in- 
fância áquella que os seus interesses políti- 
cos, e ao mesmo tempo, justiça é dizel-o, 
a salvação da F^rança, lhe tinham feito abra- 
çar. Resolveu, pois, pôr d'accordo tanto 
quanto possível os dois ramos do christia- 
nismo, e fazer com que aquclles, que por 
tanto tempo o tiveram por chefe, com quem 
tinha ganhado batalhas, e que por elle ti- 
nham prodigamente derramado o seu san- 
gue, pudessem, ao menos, viver tranquillos 
nos seus estados e gosarem da prosperidade 
publica. O edito de Nantes, publicado pelo 
rei em 3o d'abríl de iScjB, realísava estes 
seus intentos. Foi acolhido com enthusiasmo 
pelos huguenotes ; a parte mais sã dos ca- 
tholicos acceitou-o sem murmurar, conside- 
rando-o, como na realidade era, uma medi- 
da justa e conciliadora; mas os reverendos 
padres, saíram logo a campo, pondo em ac- 
ção todas as influencias de que dispunham, 
para lhe obterem a revogação quasi imme- 
diata. O parlamento, que contava no seu 
seio um grande numero de. filiados secreta- 
mente á companhia, recusou, durante alguns 
mezes, registar o edito real. Henrique não 
cedeu, e, em resposta ás observações que 
lhe foram dirigidas a este respeito, pronun- 
ciou, no começo de 1 599, um dos mais admi- 
ráveis discursos que da bocca de rei tem 
sai do. 

«Recebi, meus srs., as supplicas e obser- 
vações da minha corte do parlamento, que 
me foram apresentadas pelo presidente, o 



DOS jesuítas 



2l5 



M". Scguier. K receberei todas as que me fo- 
rem dirigidas de boa parte, como de pes- 
soas affectas ao meu serviço, ou que devem 
sel-o. Quero crer que haja quem tenha otten- 
sas dos hugucnotes, mas todos sabeis que a 
religião catholica não se pódc manter senão 
pela paz, e a paz do Estado é a paz da Kgre- 
ja. Se portanto amaes a paz, e se me amaes 
a mim, é preciso que o mostreis, o que não 
tendes feito duvidando de mim ; porque fa- 
zeis exactamente o que os extranjeiros c os 
nossos inimigos não tem querido fazer. . . e 
não é isto grave r Todos os príncipes da 
christandade me consideram como o filho 
mais velho da Egreja, como rei christianissi- 
mo, o papa tem-me por catholico . . c vós 
que sois o meu parlamento, me pondes em 
desconfiança com os meus súbditos, e que- 
reis que elles duvidem da minha crença. 

« Sou catholico, rei catholico, catholico ro- 
mano, c não catholico jesuita. Conheço bem 
os catholicos jesuítas ; e não vou com essa 
gente nem com os seus semelhantes que con- 
sidero fazedores de matadores de reis. Que- 
ro ser como o pastor que prefere arreba- 
nhar as ovelhas com doçura e não com cruel- 
dade. . . Porque vos não fiaes nas palavras 
que já vos disse? O papa e o rei d Hispa- 
nha, fiaram-se na minha palavra, e vós ou- 
tros não quereis ter confiança nella! A mi- 
nha intenção é de conservar o estado que 
adquiri ; e não o posso fazer senão por meio 
da paz. Bem sei que o meu reino senão pô- 
de salvar senão conservando a religião catho- 
lica; mas nem a religião nem o Estado se 
podem salvar sem mim, e comtudo ha espí- 
ritos fracos, indecisos por superstição, e mais 
ainda illudidos por gente da Egreja em infi- 
nitas coisas que não são o que lhes dizem, a 
ponto tal que já houve quem me viesse per- 
guntar se se fariam duas egrejas eni Paris, 
[ uma catholica e outra de huguenotes, e que 
seria extranho ver que os huguenotes teriam 
egrejas em Paris para alli pregarem. 

«Tenho por timbre seguir a opinião d"aquel- 
les que me servem ; quando me dão bons 
conselhos adopto-os logo, e se vejo que a 
sua opinião é melhor que a minha, mudo 
esta immediatamente. Não ha entre vós um 
único que venha ter comigo e me diga: Se- 
nhor, vos fazeis tal coisa que li injusta con- 



tra a rasão, que eu o não ouça de boa von- 
tade. 

«Actualmente trata-se de fazer cessar to- 
dos os falsos boatos : de fazer com que não 
haja distincção entre catholicos e hugueno- 
tes: de trabalhar para que todos sejam bons 
franceses, e que os catholicos convertam os 
huguenotes pelo exemplo da vida ; mas não 
se deve dar occasião aos ruins boatos que 
correm por todo o reino, e vós sois a causa 
d'isso por não terdes promptamente verifi- 
cado o edito. 

«Eu tenho recebido de Deus mais graças 
e beneficios que nenhum de vós outros ; e 
por isso desejo não lhe ser ingrato. Eu pró- 
prio não sou por meu natural propenso á 
ingratidão; embora o não pudesse ser para 
com Deus ; mas espero que Elle, pelo me- 
nos, me faça a graça das boas intenções. 
Sou catholico, e não quero que ninguém no 
meu reino aftecte ser mais catholico do que 
eu. 
j «Ser catholico por interesse nada vaie. . . 
i Diz-se que eu quero favorecer os hugueno- 
I tes, e dahi suscitaram a desconfiança contra 
mim. 

«Se eu pensasse em arruinar a religião 
catholica, conduzir-me-hia de outra maneira. 
Faria vir vinte mil homens, expulsaria todos 
aquelles que cu entendesse, c quando man- 
dasse a alguém que saisse, saberia fazer-me 
obedecer. Diria : — Senhores juizes é preciso 
registar o edito, ou os faço morrer ; n'esse 
caso, porém, eu seria um tyranno. E eu não 
quero conquistar este reino pela tyrannia, 
mas sim pela lei natural e pelo meu traba- 
lho 

«As vossas demoras e as vossas ditficul- 
dades dão azo e assumpto a desinquietações 
nas cidades; e até em Tours, já se fizeram 
procissões contra o edito ; e era alli exacta- 
mente onde menos que em outra qualquer 
localidade, se não deviam fazer visto que 
fui eu que elegi o seu arcebispo. Repe- 
tiram-se as mesmas coisas em Mans, para 
inspirar aos juizes a rejeição do edito ; e 
isto só se pratica por uma ruim inspiração. 

«Impedi que taes coisas se repitam; peço- 
vos que facaes de modo que eu não lenha 
que me occupar outra vez d esic assumpto. 



3l6 



HISTORIA GERAL 



e que seja esta a ultima. Façam-o ; assim 
lh"o mando c assim lh'o peço.» 

Os jesuitas do parlamento tiveram que cur- 
var-se perante a lirmeza do rei, e o edito foi 
veriricado e registado. 

Kis as suas principacs disposições: 

Qualquer senhor de feudo, com direito de 
alta justiça podia ter em seu castello exerci- 
do pleno da religião reformada ; todo o se- 
nhor sem alta justiça, podia admittir até trinta 
pessoas ás cerimonias do seu culto. O intei- 
ro excrcicio desta religião ficava auctorisa- 
do em todas as localidades que estivessem 
sob a jurisdição immediata d'um parlamento. 
Os calvinistas podiam fazer imprimir, sem 
licença superior, todos os livros, nas cidades 
onde a sua religião fosse permittida. Fica- 
vam declarados aptos para todos os empre- 
gos e dignidades do estado. Em vista d'isto 
Henrique IV fez duques e pares os senho- 
res de La Trémouillc e de Rosnj'. 

Para este effeito foi expressamente creada 
uma camará no parlamento de Paris, com- 
posta de um presidente e de quinze conse- 
lheiros, a qual julgaria todos os processos 
dos reformados, não só do districto de Pa- 
ris, como da Normandia e Borgonha. 1^' 
vcnlade que nunca, um único calvinista foi 
admittido de direito entre os conselheiros 
desta junsdicção, comtudo os catholicos, 
quasi sempre, tiveram como timbre applicar 
hoa justiça aos huguenotes, cumprindo as- 
sim imparcialmente a sua missão. Estes pri- 
vilégios ligaram os calvinistas ao resto da 
nação; e as discórdias religiosas não reco 
meçaram senão uns dez annos depois da 
morte de Henrique IV. Em 1621, os refor- 
mados, que começavam a ser opprimidos e 
ultrajados, levantaram a cabeça e declara- 
ram guerra ao rei de França, que assim 
faltava á fé jurada. 

A guerra civil continuou com successos 
vários, até que os huguenotes, tendo por ul- 
timo ponto fortificado a Rochella, ahi foram 
vencidos por Richelieu, e obrigados a sub- 
metterem-se. 

As hostilidades ficaram suspensas por al- 
gum tempo, e reduzidas a altercações e dis- 
cussões. De parte a parte imprimiram-.se 
grossos livros, que provavelmente nem to- 
dos loram lidos, c que depois ninguém pen- 



sou em lèr. Os jesuitas procuravam conver- 
ter os huguenotes, e estes empregavam to- 
dos os meios de attrairem os catholicos. Mas, 
a não ser isto, o país esteve tranquillo em 
matéria de religião até o fim do reinado de 
Luiz XIII e menoridade de Luiz XIV. Nas 
perturbações da Fronde, viram-se figurar 
padres e bispos; mas não eram questões re- 
ligiosas que SC dirimiam com o sangue. Ca- 
tholicos e huguenotes deram tréguas á mutua 
execração, e os jesuitas, a quem Richelieu ti- 
nha a rédea curta, mantiveram-se socegados, 
como a fera que tem á sua beira farta presa 
para se saciar. 

1'ma das suas virtudes, se tal palavra se 
pôde applicar a tacs individues, d de saberem 
esperar com impaciência, de desappareccrem 
quando isso se lhes torna necessário, de forma 
que quasi se chega a esquecer a sua existên- 
cia, para se mostrarem de cabeça erguida no 
momento favorável para o triumpho. 

Assim amadornados durante uijia grande 
parte do século xvii, deviam ter um des- 
pertar terrível e horroroso para a humani- 
dade, antes do começo do século xviii \ 
obtendo por fim a revogaçãO' do edito de 
Nantes, que fez correr rios de sangue nas 
(À'1'í'imes, entregar ás torturas e ao cadafalso 
milhares de christãos, e terminar esta nova 
série de longas carnificinas pelo regicídio 
perprctado ^or Damiens. 

Por morte do cardeal de jMazarin, LuizXl\', 
fingindo sentir muito a morte do seu minis- 
tro, quiz ser o único senhor no seu reino. 
Alcançou-o ? Quasi. Em França apenas 
houve quatro pessoas que conseguiram por 
vezes dominar o grande rei, e até reinarem 
em seu nome : as suas duas amantes Mon- 
tespan e Maintenon, e os seus confessores 
Lc Chaise e Le Tellier. Estas diversas in- 
fluencias concorreram alternativamente para 
renovarem em França as disscnçóes religio- 
sas e as perseguições dos calvinistas. Luiz 
XIV detestava naturalmente os huguenotes, 
e tratou sempre de ir minando o edificio da 
religião d'clles. Por sua determinação, foi-lhes 
prohibido casarem com mulheres catholicas, 
— - o rei preferia casal-as com os seus súbdi- 
tos catholicos e fazer d'cllas suas amantes ; 
- - foram excluídos tanto quanto possível das 



DOS jesuítas 



217 



confrarias das artes e officios, c por ultimo, 
compradas as abjurações dos mais tibios por 
meio de dinheiro. Em 1681, o conselho do 
rei publicou uma declaração pela qual os fi- 
lhos tinham o direito de renunciarem a reli- 
gião de seus pães quando tivessem sete 
annos de edade I Fortes com esta decla- 
ração, os catholicos começaram nas provin- 



meia hora. Os supplicios seguiram-se á der- 
lotn, e o intendente do Delphinado fez rodar 
o neto do pastor Chamier, que tinha concor- 
rido para a redacção do edito de Nantes. 
Cruéis e fataes medidas que davam poucos 
proselytos ao catholicismol Quanto mais os 
homens soffrem pela sua religião, tanto mais 
se li^am a ella. Se os catholicos soubessem 




iesuita Du Chaila 'ustiçal: pelo povo 



cias roubando as creanças para as fazerem 
abjurar, e aboletando soldados em casa dos 
pães para os terem submissos. Os mestres 
d'escola calvinistas foram prohibidos de re- 
ceberem pensionistas; e os reformados fica- 
ram inhibidos de serem notários, advogados 
e até procuradores. 

Em 1682, os huguenotes ousavam desobe- 
decer em alguns districtos. No Delphinado e 
no Vivarais, duzentos ou trezentos infelizes, 
que tinham tomado as armas para defende- 
rem ;i sua religião infamemente perseguida, 
luram batidos c dispersados cm menos de 



a historia das perseguições feitas aos chris- 
tãos, nos primeiros séculos da Egreja, tra- 
tariam d' outra forma homens, seus irrnãos 
em Christo. 

Assim pois o protestantismo não foi aba- 
lado, e mais do que nunca se firmou em 
França, embora se escondesse áapproxima- 
ção dos soldados e dos carrascos •, mas de 
vez em quando os chefes levantavam a ca- 
beça, excitando primeiramente por meio de 
pregações incendiarias o fanatismo da gente 
do povo, e depc^is revoltando-se á face do ceu. 
e defendendo a sua causa com as armas na 

a8 



2l8 



HISTORIA GERAL 



mão. Foi principalmente no Languedoc, c 
nas regiões visinhas que as sedições reben- 
taram. 

Appareceram, como sempre em piíases de 
exaltação religiosa, prophetas, pregadores e 
chetes de movimentos, uns sinceros, outros 
e.xpioradores d"aguas turvas. Inspirados que 
recebiam o espirito divino, possessos que 
horrorisavam. convenciam e excitavam ; e 
até creanças recebiam o dom prophetico, 
• que se não era bastante, segando as pala- 
vras d"um chefe, para fazer mover as mon- 
tanhas, era sulHciente para praticar milagres.» 
A execução leal e honrada do edito de 
Nantes restabeleceria a paz, apagaria as fo- 
gueiras, inutilisaria os cadafalsos. Os jesuítas 
incitaram ainda mais as perseguições, que 
foram desencadeadas com uma selvageria 
própria de cannibaes. O delirio religioso dos 
reformados, e o ódio sanguinário dos catho- 
licos tocaram o seu auge. Em todas as Ce 
vennes se organisou a rebellião. O grito de 
guerra dos insurgentes era : Fora os impos- 
tos e viva a liberdade de consciência! Esta 
divisa era toda a parte seduzia a populaça. 
Não entra no plano d'este livro, onde a 
matéria abunda, qualquer que seja o ponto 
do mundo para onde lancemos as vistas, já 
cançadas de ver tanto sangue deriamado, 
mal um jesuita põe pé em qualquer região, 
enumerar todos os horrores, todos os exces- 
sos que n'esta epocha deshonraram as duas 
seitas em guerra; de um e outro lado ha que 
censurar e lamentar ; mas os primeiros au- 
ctores de todo o mal foram os reverendo? 
padres da S. J. que provocaram a revoga- 
ção do edito de Henrique IV. 

O rei resolveu por fim acabar d'uma vez 
com os herejes, e mandou contra elles um 
exercito commandado pelo marechal de Mon- 
trevel , besta sanguinária que fez uma cam- 
panha feroz e cruel. Por sua ordem os 
prisioneiros eram queimados e rodados. En- 
tão, vendo assim desconhecidas as leis de 
guerra, os huguenotes entraram no caminho 
das represálias e trataram de exceder a gente 
do rei, se isso era possível, em barbaridade 
A guerra assumiu então uma feição hor- 
rorosa. As tropas reaes eram insufficientes 
de dia para dia para suffocarem a revolta ; 
os huguenotes vencidos e parecendo anniqui- 



lados aqui, logo os viam resurgir noutro sitio 
mais intrépidos e mais numerosos. Era então 
ditticil seguil-os e surprehendel-os nas caver- 
nas e nos rochedos inaccessiveis onde se refu- 
giavam; e ai! dos soldados catholicos que se 
encontrassem na sua passagem. Faziam-nos 
cm postas, depois de lhes terem infligido 
as maiores torturas. Christo disse: «que 
não fizéssemos aos outros o que não quería- 
mos que os outros nos fizessem. . . » Os hu- 
guenotes das Cévennes diziam aos seus ca- 
ptivos: «o que tu fizeste aos outros, vae 
agora ser-te feito a ti.» 

Muitas vezes nas refregas levavam vanta- 
gem aos seus inimigos, e até n'um combate 
regular derrotaram as tropas do «porco' que 
reinava em Versailles.» 

Ao marechal de Montrevel succedeu, em 
1704, o marechal de Villars. Como lhe era 
diílicil travar lucta com os rebeldes propoz- 
Ihes uma amnistia. .. 

Alguns recusaram categoricamente-,oulros 
entraram em combinações. Os huguenotes 
lactaram ainda longo tempo antes de accei- 
tarem as capitulações que lhes eram offerc- 
cidas, quasi que em nome do rei. As mulhe- 
res tinham jurado uma guerra d'exterminio; 
e souberam fazer comprehcnder aos homens 
quanta cobardia haveria na traição aos jura- 
mentos dados.' 

Então o furor redobrou dos dois lados ; 
os protestantes resolvem se, mais do que 
nunca, a vingar os irmãos immolados ; os 
catholicos, á testa dos quaes encontramos 
os jesuítas, declaram aos heréticos uma guer- 
ra d'exterminio. 

O rei, porém, ao mesmo tempo que envia- 
va tropas sobre tropas para reduzir os re- 
beldes, não desprezava, para a execução 
completa dos seus projectos, o concurso 
dos membros da S. J. Um d'elles, e dos mais 
infiuentes, notável pela sua immoralidade, 
que corria parelhas com a sua intolerância 
em matéria de religião ^, o abbade du Chai- 

> Pode chamar-se porco a Luis XIV sem oftensí 
para a sua pessoa, visto que no decurso de toda a sua 
longa vida, apenas tomou um único banho ; facto que 
a historia do seu reinado archivou como notável. 

'■^ Não pareçam irreconcihaveis estas duas coisas tão 
contradictorias no mesmo individuo. O papa Alexan- 
dre VI, o Borgia, cujas inliiniissimas immoralidades. 



DOS jesuítas 



219 



la, foi enviado a Nimes como inspector das 
missões. 

Ao poder espiritual que o reverendo de- 
via de exercer, o rei, por favor especial, deu- 
Ihe poderes extraordinários em matéria tem- 
poral, e que deviam ser apoiados por uma 
companhia d'archeiros. Du Chaila bem de- 
pressa se converteu n'um i espécie de regulo. 
Supprime, fere e mata ao sabor da sua phan- 
tasia. Manda reabrir as prisões que enche 
de huguenotcs, agglomerando-os em pilha. 
A impunidade anima-o, e a sua arrogância 
não conhece limites. Nenhum excesso lhe re- 
pugna, nenhum deixa de commetter. EUe, 
que vem pregar uma religião tão nobremente 
inaugurada pela simplicidade e pobreza dos 
apóstolos, tem um palácio, e n"elle sumptuo- 
sos quartos; lança impostos, e atira o oiro 
ás mãos cheias para satisfazer os seus dese- 
jos, as suas mais vergonhosas paixões. O seu 
nome basta para fazer tremer todas as fa- 
milias ; ao aspecto das suas guardas todos fo- 
gem; e qualquer homem vestido de preto, e 
de cabeção e volta, é temido como um es- 
pião de Du Chaila. Emfim, durante algum 
tempo, a população de Nimes curvou a cabeça 
á força d'aquelle despotismo ; mas bastou 
uma faisca, para fazer rebentar o incêndio, 
que já se julgava extincto. 

Nas instrucções que lhe deram de Paris, 
vinha a auctorisação para fazer entrar n'um 
convento duas filhas d'um fidalgo, recente- 
mente convertido á fé protestante. As duas 
meninas agradaram ao abbade, que, em vez 
de as encerrar no claustro, as mandou levar 
para o seu palácio, onde as pobres senho- 
ras foram immoladas á sua lubricidade. Mas 
o povo que tinha perdoado. o seu despotis- 
mo, a quem elle tinha pretendido assassinar 
os ministros da sua religião, não lhe perdoou 
a seduccão das duas meninas, e correndo ao 



incluindo os incestos, são bem conheci Jas, era devoto 
de Nossa Senhora, e severo em matéria de religião. 
Os salteadores da Calábria, a vendem luzes e fizem 
promessas á Madona; pan que Ihee proporcione 
um passageiro rico a quem assassinem e roubem ; e 
é vulgirissimo encontrar nas casas das desgraçadas 
que vendem o corpo ao primeiro que passa, a lam- 
parina accesa em frente d'umi imagem da Senhora 
das Do>-es ou do Senhor dos Passos da Gr-aça, para 
lhes darem boa sorte naquelle dia. 



palácio solta as duas victimas, e os outros 
prisioneiros, deita a mão ao seductor, que 
sem perder a audácia, chama os seus guar- 
das. 

— Kstão muito longe para te ouvirem, lhe 
responde um dos da turba. 

— O que me querem? 

— O que tu querias de nós, ha poucas ho- 
ras ainda; o que exiges dos nossos parentes 
e amigos, ameaçando-os com o supplicio e 
a tortura... uma abjuração. 
. — Nunca ! 

— Renuncia essa religião que tantos crimes 
e infâmias te tem teito commetter! 

— Quem te mandou matar meu irmão ? 
grita um. 

— Quem te fez prender meu filho ? per- 
gunta um velho. 

— Abjurai abjurai clamam todos. 

— Nunca I 

— Então morre. E no mesmo instante caiu 
trespassado de dezenas de golpes. 

Continuam as carnificinas e as crueldades 
de parte a parte; formulam-se accordos que 
uns acceitam, outros regeitam ou traem: ha 
quem se venda, quem, esmorecido da lucta, 
caia no desanimo, mas a pacificação não che- 
ga, e Villars é substituído pelo duque de Ber- 
vick. Assim foram precisos succederem-se 
três marechaes de França, ao mando do rei 
e dos seus confessores jesuítas, para anní- 
quílar os insurrectos, e assegurar a execu- 
ção do edito que tinha revogado o de Nan- 
tesl 

Berwick, mais feliz que os dois marechaes 
seus collegas que o tinham precedido n'es- 
ta sanguinária empresa, conseguiu abafar a 
revolta, e o calvinismo depoz as armas, de- 
pois do marechal ter feito assassinar mais 
de duzentas pessoas nos suppliciosl Os que 
escapavam, ou ]á tinham fugido, refugiaram- 
se em Hollanda e na Allemanha, para onde 
levaram muitas artes, muita intelligencia, 
milita actividade, muita fonte de receita e de 
riqueza publica e o melhor do seu mais ge- 
neroso sangue. 

Quando os exilados chegavam ao logar do 
exilio, os povos iam-lhes ao encontro cantan- 
do psalmos, e juncando-lhes o caminho com 
palmas e ramos verdes. 



HISTORIA GERAL 



XXXVIl 



Vinganças e peccadilhos 



ANTES de ir mais além convém que retro- 
grademos alguns annos, e nos demore- 
mos uns instantes contando um crime par- 
ticular da santa companhia, que teve de novo 
a velleidade de cair no seu peccado favorito: 
— o regicídio. 

Em 1673, epoclia em que Luis XIV, ain- 
da resistia ao império que os seus confesso- 
res jesuítas queriam tomar sobre elle, e he- 
sitava em ordenar as perseguições que aca- 
bamos de narrar, os reverendos começaram 
a duvidar d'elle, e a detestai o como haviam 
feito a Henrique I\" e por instigação jesuítica, 
organisou-se um trama contra os seus dias. 
O delphim devia ser sacrificado com seu pae, 
porque era preciso cortar o tronco e os ra- 
mos. 

Era esta a expressão de que se serviam 
os conjurados, em numero de três, que de- 
viam levar a effeito o crime, com a cumplici- 
dade da gente do paço que se approximava 
do rei. O crime devia ser commettido por 
meio de cheiros e de perfumes. Os três aucto- 
res d"esta empresa, julgando que todo o cle- 
ro estaria daccordo com os jesuítas, tiveram 
a imprudência de deixar escapar algumas 
palavras a tal respeito, na presença dum 
respeitável ecclestastico, o abbade Biache, 
parocho de Rueil. Este, aterrado com o ter- 
rível segredo, correu immediatamente ao no- 
viciado dos jesuítas e pediu que iniormassem 
o padre P^errier, confessor do rei, do que ti- 
nha sabido. 

«Consultei, diz o abbade Biache nas suas 
Memorias, o padre Guillosé, o padre Seigne 



c o reitor, mas fiquei surprchendido de os 
ver, cada qual de per si e sem conhecimento 
uns dos outros, quererem-me afastar de fa- 
zer o que estava em meu poder para impe- 
dir a realisação da conjura, dizendo-me que 
o conselho que me davam era conforme a 
vontade de Deus, que não permitte estes 
grandes acontecimentos, tal como aquelle 
que tanto me parecia assustar, senão para 
grandes desígnios que a sua Providencia oc 
culta aos homens. Que era opinião d'ellcs 
que não só o padre Ferrier confessor do 
rei, como outro jesuíta a quem me tinha 
dirigido, estavam firmemente resolvidos a 
não se entrcmetterem para fazerem suspen- 
der o curso d'uma tal empresa; e os três 
reverendos recusaram terminantemente oc- 
cupar-se do negocio, deixando a Deus o 
cuidado de fazer as coisas como entendesse; 
dando-me a comprehender que muitas vezes 
a intenção podia jiistijicar a mais condem- 
navel acção, e que era possível que o ceu, 
no seu alto de juizo, tivesse determinado que 
este projecto seguisse o seu curso. 

lO meu terror augmentou ao ouvir es- 
tas extranhas palavras. Fui logo consultar 
o padre Texier fbenedictino) prior da abba- 
dia de Saint-Oermain-des-Prés, que me acon- 
selhou de maneira differente, levando-me e 
animando-me a fazer todo o possível para 
evitar ião funesto golpe. 

«Depois, não me dando ainda por satis- 
feito, fui ouvir o padre PoufTé, parocho de 
S. Sulpicio, e meu confessor, que se encar- 
regou de avisar o rei ; e para melhor o con- 



DOS jesuítas 




A :o;-mo8a ^adiere e:-:or;iS!naia 



HISTORIA GERAL 



seguir, fomos ambos perguntar á duqiieza 
liAiguillon, o que devíamos fazer. A sua 
opinião foi que se escrevesse uma carta ao 
sr. Le Tellier, secretario dKstado, avisan- 
do-o do que se tramava; e como o crime se 
devia levar a etteito por meio de perfumes, 
que o rei apreciava muito n'essa epocha, a 
carta notaria que se áe\\a acabar com o ga- 
binete de perfumes...» 

Assim, pois, a duqueza d'Aiguilion, te- 
mendo os homens poderosos, que se acha- 
vam d testa d'esta conjura, não se atreveu 
a aconselhar uma accusação directa e quiz 
que se contentassem de prevenir o rei, por 
meio duma carta anonyma. O seu effeito foi 
a suppressão do quarto dos perfumes; mas 
não se fez busca alguma dos conjurados. 

As Memorias de Blache contêem a narra- 
tiva das perseguições de toda a espécie de 
que foi victima, por causa da revelação que 
fizera. Os três conjurados, que elle reviu 
ainda depois, cinco vezes tentaram con- 
tra a sua vida; teve muitas entrevistas 
com o padre La Chaise, que lhe censurou 
não ter seguido o conselho dos três jesuítas 
do noviciado: são pessoas de tino, dizia o 
jesuita, e muito experimentadas em todos os 
casos de consciência por mais intrincados 
que sejam, e cujas opiniões se devem seguir 
com toda a segurança, como sendo de au- 
ctores graves. . . e além d'isso niu^ucm de- 
ve nietter a mão onde Deus po^ o dedo.» 

Foi ainda a revogação do edito de Nan- 
tes, e a ordem de reduzir a França a ruí- 
nas, e de derramar tanto sangue innocente, 
)usto c santo, que poz fim ás tentativas cri- 
minosas dos jesuítas contra Luis XIV. Dalli 
para o futuro, o grande rei era, delles jesuí- 
tas, pouco mais do que uma chancella sub- 
missa á vontade d"elles; um poder escravi- 
sado a outro poder mais elevado : o dos jesuí- 
tas. O padre La Chaise, seu confessor, respon- 
sabilisava-se para com os sócios pela docilida- 
de do real penitente, docilidade absoluta, 
cega, idiota cm matéria de religião. O po- 
bre abbade Blache, foi obrigado a calar-se 
até á morte do padre La Chaise. 

Alguns dias depois (fevereiro de i70(j), es- 
creveu á ex-amante do rei, aMaintenon, con- 
tando-lhe tudo, accusando os jesuítas e pe- 
dindo justiça. ' 



A resposta da matrona foi fazer com que 
o abbade fosse encerrado na Bastilha, onde 
morreu com oitenta e dois annos de edade, 
na mais negra miséria I 

Justo castigo de quem se atreve a accusar 
gente tão santa como os jesuítas! 

Pouco mais ou menos pela mesma epo- 
cha, uma outra victima, uma crcança, foi ex- 
piar n'um cárcere o crime grande de ter fal- 
tado ao respeito á S. .1. 

Um dia que Luiz XIV foi assistir no col- 
legio jesuítico de Clermont a um espectáculo 
theatral, cheio de baixas e insípidas lísonjas 
para o rei, este despedindo-se do reitor dis- 
se : 

— Não me ai.lmir(i do que vejo, se é o meu 
collegio. 

— Effectivamente é o collegio de V. Ma- 
jestade, disse o reitor; e tomamos nota de 
taes palavras. 

E assim que o rei partiu foram chamados 
canteiros que passaram a noite a fazer des- 
apparecer a antiga inscripção, que datava de 
Guilherme Duprat, fundador d'esta casa e 
bispo de Clermont, Collegium Claromonta- 
iiiim Socieíaíís Jesu (collegio de Clermont da 
sociedade de Jesus), para o substituírem por 
uma lapide de mármore preto, onde grava- 
ram em grandes lettras d'oiro, Collegium 
Ludovici Magni (collegio de Luiz o Grande). 

Um dos estudantes, envergonhado com tão 
baixa lisonja, e ao mesmo tempo ingrato re- 
pudio do nome do homem que lhes dera en- 
trada em França, compoz o seguinte dístico 
latino, que passou de mão em mão dos seus 
camaradas, e chegou até á corte, obtendo 
um êxito colossal. 

Eil-o: 

Sustulil hiiic Jesum posuií que iusignia regis 
ímpia geus : alium ucscií habere deum ' 

lestes versos foram para a desgraçada 
creança uma sentença de morte lenta e cruel. 
Foi lançada na Bastilha, e d'allí transferida 
para a ilha de Santa Margarida, onde mor- 



' Traducção litteral : Ímpia raça ! cila tira dalli a 
JesuSy e lhe substitue as armas do rei; ella não sabe 
ter outro deus. 



DOS jesuítas 



323 



reu aos quarenta e sete annos de cdade ! 
Tinha espiado com trinta e um annos de 
masmorra o crime commettido no collegio I 

A ira dos jesuítas foi implacável ; e elles 
que tudo podiam, nunca imploraram o per- 
dão dum peccadilho de rapaz, que tão fá- 
cil lhes seria obter. 

Se nos primeiros annos do reinado de 
Luiz XI\', os jesuitas tiveram que luctar pa- 
ra conservarem as posições que tinham con- 
quistado em França, no fim ja não luctavam, 
dominavam e opprimiam. Luiz XIV, velho, 
favoreceu os jesuitas, que já não o apoquen- 
tavam sobre os peccados da mocidade, e que 
tiveram todo o cuidado de o levarem a casar 
com a Maintenon, que com o padre Le Tellier 
governavam, ou antes, tyrannisavam o rei- 
no, e a quem se devem as atrocidades da 
Revogação cio edito de Xaules, como já vi- 
mos. 

Não seria Luiz XI\' velho, dominado pelo 
capricho da amante, que consentiria na 
representação do Tartufo, essa terrivel e 
immorredoura satyra, representada em 1607. 
Ainda hoje se pasma da audácia de Moliére 
expondo á irrisão publica um poder tão ter- 
rivel como o que se atacava. Nada iguala 
tal audácia, senão o talento do auctor d'esta 
comedia immortal . Mas os jesuitas vingaram- 
se delle, condemnando-o no púlpito das suas 
egrejas ao fogo eterno, e fazendo com que, 
depois de morto, lhe fosse negada a sepul- 
tura ecclesiastica, o que ainda mais nobili- 
tou a gloria do grande commediante e do 
profundo philosopho. Chegou a ser necessá- 
rio uma ordem regia para que os restos mor- 
taes d'esse homem, que dá hoje mais gloria 
a PVança, do que qualquer dos seus grandes 
reis, tivesse um canto de terra onde lhe abri- 
ram uma cova ! 

Nada diremos do <2siietisinu ' cuja his- 
toria se pode ler nas historias geraes do 



' O Quteiismo foi a doutrina d'alguns mysticos.cujo 
principal fundamento é que é necessário o anniqui- 
lamento de si próprio para se conseguir a união com 
Deus; que a perfeição do amor a Deus consiste em 
cada qual se conservar n'ura estado de contemplação 
passiva, sem fazer reflexão alguma, nem uso algum 
das faculdades da alma, e a olhar como indilTerente 
tudo que possa acontecer em tal estado. 



tempo. Notaremos apenas que os jesui- 
tas fizera.Ti primeiramente acreditar ao bom 
Fenelon, que acolhia esta doutrina, que o 
sustentariam, mas assim que viram que o 
rei se pronunciava contra ella, mudaram logo 
de opinião, e descobriram quarenta erros no 
livro das Máximas dos Santos motivo da 
disputa na qual Bossuet se mostrou o mais 
forte argumentador, e Fenelon o melhor 
christão. 

Pouco tempo antes da morte de Luiz XI\ 
os jesuítas sopraram as cinzas quasi extin- 
ctas do jansenismo, e delias fizeram sair 
ainda a questão do abbade Quesnel e a bulia 
Umgenitus ', duas coisas que reanimaram o 
ardor dos combates religiosos cm França. 

Saint-Simon escreveu que a gente séria 
queria que o auctor fosse intimado a recti- 
ficar as proposições m.al soantes do seu li- 
vro. «Mas não era esse o interesse do padre 
Le Tellier, continua o duque de Saint-Simon, 
este queria estrangular este negocio pela au- 
ctoridade, e convertel-o em pretexto para 
uma perseguição de longos annos, a fim de 
estabelecer em dogma a fé profanada pela 
escola jesuítica, a muito custo até então, to- 
lerada pela egreja de França. EUe queria, 
portanto, uma condemnação em globo, que 
caisse sobre tudo, e que se salvasse por uma 
forma vaga que podesse servir conforme as 
necessidades do momento. 

Para attingir este resultado, a companhia 
desejava envolver na questão o papa e o rei 
de França, a fim que, amparada igualmente 
por estes dois poderes, a sua escola deslum- 
brasse a ignorância ou a fraqueza de certos 
bispos, atraísse outros pela ambição, obri- 
gasse todos os theologos a serem publica- 
mente pró ou contra, engrossasse infinita- 
mente o partido jesuítico, e lhe permittisse 
anniquilar o outro d'uma vez para sempre, 
por meio d'uma perseguição aberta e uma 
inquisição contra aquelles. egualmente sob 
as vistas da auctoridade de Roma ou do rei, 
e por este modo acostumar todas as cabe- 
ças a vergarem-se ao jugo, e de grau em 



' Quesnel, da escola jansenisia, tinha publicado uma 
traducção do Novo 1 estamento, com breves refle- 
xões moraes, que é um dos livros mais profunda- 
mente chrisiãos da Egreia, e por isso condemnado 
pela cúria romana. 



234 



HISTORIA GERAL 



grau crigil-o cm artigo de fc. . . E c infeliz- 
mente o que vemos hoje. . . » 

D'Aubenton e Fabroni, dois «rdentes je- 
suítas, assediaram o papa no seu gabinete, 
c como que o tiveram em cárcere privado, 
para lhe arrancarem a bulia, conhecida pela 
Uiiiíxciíiiiis ' que lhes dava rasão e condemna- 
ria o padre Quesnel. O papa objectou em 
vão que a esse respeito tinha contraído um 
comprimisse solenne com o Sacro-collcgio 
e o cardeal de La Tremouille. 

«^'abroni, contínua o duque de Saint-Si- 
mon, encolerisou-se e tratou o papa de crean- 
cola ; sustentou a bulia tal qual a tinha redi- 
gido, tal qual como elle a queria, e disse-lhe, 
que, se tinha feito a tolice de dar tal pala- 
vra, era conveniente que a não aggravasse 
sustentando-a ...» 

O duque de Saint-Simon conta também 
que o padre Lc Tellicr o consultou sobre o 
etfeito que produziria esta bulia na corte e 
na cidade. Nada mais curioso do que a nar- 
rativa desta entrevista entre o jesuíta e o fi- 
dalgo. 

«... Kntão, diz Saint-Simon, o padre zan- 
gou-se, porque eu tinha posto o dedo na fe- 
rida, apesar das suas astúcias e cavillações. 
Não sendo senhor de si, desatou a dizer-me 
coisas de que, estou bem certo, compraria 
por alto preço o silencio; tantas e taes 
me disse sobre o fundo, e sobre as vío 
lencias para fazer acceitar a bulia, por tal 
forma enormes, atrozes e terríveis, que eu 
cai numa verdadeira syncope. Ainda o vejo 
cara a cara, entre duas velas, não havendo 
entre ambos mais que a largura da mesa, 
transtornado repentinamente pela vista e pelo 



' A nossa universidade de Coimbra tem esta nódoa 
na sua historia, a de ter acceitado e jurado esta bulia 
o que era, na phrase do sr. dr. Theophilo firaga, na 
sua Historia da Universidade «a abdicação da liber- 
dade scientifica» «... Kra também um attentado con- 
tra as consciências, contra o qual reagiram o cardeal 
de Noailles, arcebispo de Paris e mais sete prelados». 
Comprehendiamos que a jurasse a faculdade de theo- 
logia; mas que o fizesse todo o corpo docente, só pro- 
va que os lentes nada mais viam nem sabiam, e isso 
Deus sabe como, do que as sebentas que impingiam 
aos alumnos. O sr. dr. Theophilo Braga, continuando 
a referir-se ao assumpto escreve : «os interesses da 
universidade não consistiam no desenvolvimento do 
ensino, mas em assumptos ascéticos.» 



ouvido, c comprehcndi, emquanto elle falava, 
o que vinha a ser um jesuíta!» 

Para se ajuizar das restricções com que 
esta gente obedecia ao successor de S. Pe- 
dro, baste que se saiba que, quando Luiz XIV 
humilhava o pontífice, os jesuítas punham-sc 
sempre do lado do poder temporal! 

O clero de França d' então não via com 
grande prazer o domínio da nação pelos fi- 
lhos de Ignacío de Loyola. Em 1G68, o bis- 
po de Pamiers excommungou três jesuítas 
da sua diocese, e o de Arras censurou a 
obra do padre Gobat, e toda a companhia 
que elle representava «como um viveiro on- 
de se creava gente destinada a devastar a 
vinha do Senhor." Emfim, em 1701, a as- 
sembléa geral do clero pronunciou-se contra 
a moral dos jesuítas. 

Antes de largarmos o reinado de Luiz 
XIV, não esqueçamos uma historia que de- 
monstrará como os confessores do rei usa- 
vam do poder que ellc lhes concedia. Em 
1680, o padre La Chaise quiz apoderar-se 
do mosteiro de Charonne, situado n'um dos 
arrabaldes de Paris. Parece que os jesuítas 
teriam querido entrar no convento, e como 
tal lhes não fosse permittido, inJe ira.'! Além 
disso o padre La Chaise cubicava a cerca 
do mosteiro. Então persuadiu o rei e o ar- 
cebispo que devia alli collocar uma certa 
abbadessa para reformar aquella casa, e in 
troduzir nova disciplina. Escusado será dizer 
que a abbadessa índicadíi era creatura dos 
jesuítas. Como as constituições de Cister não 
permittiam o que La Chaise queria, as 
monjas oppuzeram-se à entrada da jesuita 
no mosteiro. Consultado o papa deu-lhes ra- 
são. Mas o padre La Chaise por tal forma 
intrigou que alcançou do parlamento uma 
sentença em que o convento era declarado 
e.xtincto, as religiosas expulsas á mão ar- 
mada, e lançadas na rua, onde muitas, para 
viver, se viram obrigadas a mendigar. 

Na impossibilidade de registar todas as 
infâmias dos jesuitas n'este reinado, citare- 
mos mais dois ou três factos, que levariam 
qualquer ás galés, mas que, á vista d'outros 
feitos dos jesuitas, podem ser considerados 
como simples peccadílhos. 



DOS jesuítas 



216 



l 



Vimos como se apoderaram d'um mos- 
teiro á força ; vamos agora vêr como empre- 
gam outros meios para os mesmos fins. 

Havia na Aisacia, província que então 
pertencia á casa d'Austria, um rico priora- 
do, chamado de S. Morand, que convinha 
sobremaneira aos reverendos jesuitas, tanto 
mais que tinha bons rendimentos, o que era 
um incentivo á cubica de suas reverencias. 



priorado, e expulsam in coutineuti os bene- 
dictinos, importando-se pouco com as suas 
reclamações. 

Despertado assim o apettite, lançaram as 
vistas a dois outros priorados, o de Santo 
Ulrich, e o d'Ellemberg, próximos d'alli, e 
que elles disseram fazer parte do de S. Mo- 
rand. Deitado o olho á presa, eis como lhes 
veiu ás mãos. Um dia convidaram o archi. 




Uma das visões de Cadière 



Intelizmente o priorado achava-se na posse dos 
monjes benedictinos, desde tempos esqueci- 
dos, e parece que os filhos de S. Bento es- 
tavam pouco dispostos a cedel-o aos sócios 
de Ignacio de Loyola. 

Os jesuitas começaram por obter do archi- 
duque, soberano da Aisacia, o consentimen- 
to para que dois padres da S. J. se podes- 
sem estabelecer nas terras de S. Morand, 
sob pretexto de que os monges de S. Bento 
eram pouco zelosos no cumprimento dos 
seus deveres, como pastores d'almas. Feito 
isto, e com títulos falsos, conseguem uma 
bulia que lhes transfere todos os bens do 



duque para assistir a uma representação 
theatral, no fim da qual, á maneira d'epiIo- 
go, S. Agostinho, (os doispriorados em vista 
pertenciam á regra d'este santo), apparecia 
em scena, e exprobava com vehemencia o 
relaxamento dos seus religiosos, e offerecia 
os dois priorados a Ignacio de Loyola, que 
surgia n'esta occasião e acceitava com todo 
o gosto o presente, declarando que não 
havia gente mais digna de possuir, não só 
aquelles priorados como todos os outros do 
mundo, do que seus filhos. 

Applaudiu o archiduque a comedia, e os 
jesuitas expulsaram os legítimos proprieta- 

29 



226 



HISTORIA GERAL 



rios, e tomaram posse cia dadiva de S. Agos- 
tinho! 

Quando a Alsacia passou para o dominio 
da França, os benedictinos atacaram os lará- 
pios perante os tribunaes, e S. Morand foi 
dado em beneficio a um religioso da ordem 
de Cluny, que partiu immcdiatamente com 
a communidade para tomar posse do edifí- 
cio. Mas não tinha contado com os jesuítas, 
ou não os conhecia taes quaes eram e sem- 
pre foram. Primeiramente tentaram oppôr-se 
d viva força á execução da sentença, para o 
que requisitaram o auxilio dos soldados al- 
lemães ; mas vendose obrigados a sair, pe- 
diram aos seus rivaes que os deixassem ain- 
da tranquillos durante quatro dias no mos- 
teiro, que depois sairiam de boa vontade. 
Vamos já vêr como aproveitaram o favor 
que lhes foi concedido. 

Quando o novo prior e os seus monges 
de Cluny se apresentaram, passados quatro 
dias, na abbadia, não tiveram dificuldade 
nenhuma em entrarem porque o edifício não 
tinha uma única porta nem janellal Penetra- 
ram nos dormitórios e no refeitório e nem 
um único movei ; nas adegas e nos celleinos 
nada, no cartório e na egreja, a mesma lim- 
peza. Tudo tinha sido roubado pelos jesuí- 
tas, que nem sequer deixaram os santos nos 
altares, e que, para completarem o saque, 
arrancaram e levaram as lapides de mármo- 
re e as pedras das campas I 

Em 1661, o parlamento de Mctz teve que 
julgar um processo promovido contra os je- 
suítas de Lorena pelas ursulínas de Màcon. 
Eis, em resumo, esse caso tão singular co- 
mo instructivo, extraído da sentença do par- 
lamento. 

Em começos de 1649 o reitor dos jesuítas 
de Metz soube que as ursulínas de Mâcon 
desejavam ir estabelecer naquella cidade 
uma communidade da sua ordem. Justa- 
mente os reverendos padres possuíam então 
allí uma casa que não lhes servia para nada, 
e que traziam alugada pela módica somma 
de cento e sessenta libras tornezas approxi- 
madamente. Tal casa, acanhada e em mau 
estado, de modo algum podia convir ás ur 
sulinas; mas os jesuítas, que viram um bom 
negocio, não o largaram mais. Assim o rei- 
tor, o padre Forget, imaginou um plano para 



fazer com que as ursulínas comprassem a 
casa e a pagassem caro. Um jesuíta traçou 
uma planta, alçado e cortes da magnifica 
propriedade á venda, nos quaes se via o 
edifício em excel lente estado, e graciosa- 
mente decorado no meio d'uma cerca fres- 
ca, florida e cheia de sombra; a egreja com 
o seu campanário, terminado em flexa, e no 
alto girando ao vento um bello gallo doira- 
do; e os interiores com largos dormitórios, 
refeitório, cozinhas, casas de capitulo, e to- 
das as mais dependências que convinham a 
uma casa religiosa. A verdade, porém, é 
que a casa estava a cair, quasi que nem ti- 
nha cerca, e achava-se condemnada hygie- 
nxamente pela sua situação sobre um ribeiro 
que juntava todas as ímmundícies, na proxi- 
midade das latrinas publicas, e na qual não 
havia peça habitável. 

O digno reitor, com a sua planta e mais 
desenhos, apresentou-se á superiora das ur- 
sulínas de Mâcon, que, seduzida pelas habili- 
dades do desenhador, e fíando-se na palavra 
do reverendo padre, comprou por oitenta mil 
bellos francos, dinheiro de Metz, ou appro- 
.ximadamente trinta mil libras tornezas de 
França, uma barraca que nem valia a me- 
tade, e absolutamente imprópria para uma 
casa religiosa. Feito o contracto, as ursulí- 
nas chegam a Metz para tomarem posse da 
bella casa, e encontram uma pocilga. Recla- 
mam do reitor a rescisão do contracto, feito 
por elle de má fé; mas o jesuíta faz ouvi- 
dos de mercador, até que, cançadas do lu- 
díbrio, as ursulínas lhe instauram um pro- 
cesso. 

Em 10 de maio de 1601, o parlamento de 
Metz annulou a venda, levantou os embar- 
gos feitos pelos jesuítas nos bens das freiras, 
e declara a sentença dada contra o reitor 
extensiva ao provincial. E, note-se que esta 
burla não é feita por um individuo isolado, 
mas sim como quem trata em nome de toda 
a ordem, e por isso, á falta do geral, foi de- 
clarado responsável o provincial. 

Não é edificante esta historia? Não é mil 
vezes peor do que a do taberneiro que ven- 
de gato por lebre? 

Nos uitimos annos do reinado de Luiz XIV, 
conta o auctor da Historia geral da origem 



DOS JESUÍTAS 



2Í7 



i' progressos da companhia de Jesus (publi- 
cada em 1741) via-se nas ruas de Paris uma 
pobre mendiga, que contava, aos que lhe 
davam esmola, a sua triste historia, na qual 
os jesuítas figuravam, como tristemente ten; 
ligurado em tantas outras. Esta desgraçada 
tinha sido aia d'uma dama que tinha por 
confessor o jesuíta De La Rue, a qual, ten- 
do caido doente de perigo, entregou ao 
confessor uma somma de dez mil libras, 
para elle, depois da sua morte, dar á cria- 
da; isto para evitar a esta questões e em- 
baraços com os seus herdeiros. O jesuíta 
guardou o dinheiro, mas tão bem que quan- 
do a senhora morreu, e a criada veiu recla- 
mar os dez mil francos ao reverendo, este 
negou que os tivesse. A infeliz foi se quei- 
xar ás auctoridades, e os jesuítas, graças 
ao valimento que tinham junto de Luiz XI \', 
fizeram-n a encarcerar na Bastilha, donde 
não saiu senão por morte d'este rei. Ainda 
nos primeiros annos da Regência era vista 
esmolando nas ruas de Paris, de porta em 
porta, e contando a todos a sua desgraça. 

Em 7 de março de 1718, o procurador 
rcgio de Rennes, auctorísado pelo chanceler 
d"Aguesseau, foi denunciar ao parlamento 
um novo crime dos jesuítas. 

«Um homem chamado Ambrósio Ghuys, 
natural de Marselha, depois de ter commer- 
ciado durante trinta ou quarenta annos no 
Brasil, formou o projecto de voltar a Fran- 
ça. Eftectivamente, no mez d"agosto de 1701, 
desembarcou em Brest, mas doente e na 
avançada idade de oitenta e sete annos. 

•iMas os jesuítas desta localidade, saben- 
do pelos seus confrades do novo mundo, 
que este individuo trazia comsígo lettras no 
valor de dois a três milhões de francos, fo- 
ram immediatamente, depois do desembar- 
que, á hospedaria onde o velho se alojara, 
e daccordo com o estalajadeiro, fizeram que 
fosse dado um quarto afastado ao doente, 
com o pretexto que em caso de morte, co- 
mo elle era extranjeíro, o arrematante das 
contribuições se poderia assenhorear dos 
seus bens. 

«Entretanto, Ambrósio Ghu3's, querendo 
fazer o seu testamento, pediu aos jesuítas 
que mandassem vir um tabelliao, e quatro 



ou cinco pessoas para servirem de testemu- 
nhas. 

«Mas os jesuítas, espertos como são, te- 
mendo que a coisa se tornasse notória, dis- 
farçaram o seu jardineiro em tabelliao, e 
quatro ou cinco jesuítas em burguezes da 
cidade, emquanto que um outro membro 
da S. J., o padre C^hauvel, se conservava 
á cabeceira do d(jente, desempenhando o 
papel de confessor. Assim, Ambrósio Ghuys 
julgou ter feito um testamento que não fez, 
e os jesuítas conseguiram occultar a toda a 
gente a situação d'este homem, as suas ri- 
quezas e o seu próximo fim. 

«Fizeram mais, e levaram a precaução ao 
extremo. De medo que Ambrósio desco- 
brisse tudo aos padres da parochia, evita- 
ram, d'accordo com o estalajadeiro, que 
elles viessem á estalagem, não chamaram 
medico, e deixaram-o ir morrendo sem soc- 
corro d'especíe alguma. 

«Tal era a triste extremidade dum ho- 
mem desgraçado por ser rico, quando os 
os jesuítas determinaram levar a cabo o seu 
projecto, o de se assenhorearem de tudo que 
possuía o moEÍbundo. Para isso trataram de se 
apoderar d'elle e transportai o para a casa 
jesuítica, o que foi executado por intermédio 
do padre Chauvel, que se apresentou n'uma 
chalupa na costa des Recouvrances, e levou, 
com ajuda da sua gente, todos os bens de 
Ghujs, e o próprio Ghuys. 

«Este doente portal forma tratado, gemendo 
com mil dores, não tardou a morrer. Assim 
que constou a sua morte logo começaram a 
correr os mais infamantes boatos contra os 
jesuítas. O padre Roígfiam, reitor da fregue- 
zia de S. Luiz, tomado d'horror e possuído 
da justa indignação que merece este excesso 
de inhumanídade, intimou os jesuítas ([ue lhe 
entregassem o cadáver. Estes padres, depois 
duma vã resistência ás imposições que lhes 
eram dirigidas, viram-se obrigados a e.xpo- 
rem á sua parte o despojo mortal da sua 
victima. Alli o foram buscar o parocho com 
a sua collegiada e lhe fizeram os ofticios fú- 
nebres. 

«Este negocio provocou um grande escân- 
dalo. Os jesuítas de Brest começaram desde 
logo a fazer acquisições importantes, e tan- 
tas jóias se viram em suas mãos, que se 



228 



HISTORIA GERAL 



tornou necessário denuncial-os á justiça." 
O parlamento da Bretanha tomou a peito 
o libello do seu procurador geral, e quiz fa- 
zer seguir vigorosamente o processo ; mas 
os jesuítas conseguiram subornar as teste- 
munhas, impediram o seu andamento e a 
companhia de Jesus, protegida e ampla- 
mente patrocinada pelo rei fe seu ministro, 
naquellc momento omnipotente, foi bastante 
poderosa, apesar da evidencia de um tal 



crime, para triumphar contra as leis e con- 
tra a justiça. 

Quando Luis XIV' morreu, legou o seu co- 
ração aos jesuítas ; quanto á alma já de ha 
muito estava em poder do diabo, se Deus se 
não amerceiou do facínora que tinha revoga- 
do o edito de Nantes ... o que seria para 
duvidar da sua justiça ! 

Ha crimes para os quaes não ha arrepen- 
dimento nem punição sufficientes ! 



DOS JESUÍTAS 



329 




O paire Girará surprehendldo em colloquio cora & íormosa Cadière 



«âo 



HISTORIA GERAL 



XXXVIIl 



A formosa Cadière 



EM 10 doutubro de 1751, uma enorme 
multidão se achava, desde manhã cedo, 
aggiomerada em frente do palácio de justi- 
ça da cidade de Aix. 

Ao examinal-a, dir-se-ia que todo o sul da 
França tinha enviado representantes a este 
congresso ao ar livre, embora entre a turba 
se vissem outras e muitas physionomias por 
onde SC podia julgar que das cidades do 
norte, quem sabe se da própria capital, tam- 
bém tinha concorrido gente dquella reunião. 

E não era só gente do povo que esperava 
com anciedade a hora de entrar no palácio. 
Tão depressa este abriu as portas, que se 
precipitou um grande numero de pessoas 
gradas da região, senhoras das primeiras fa- 
mílias, e prelados dalta jurisdicção. F-stes in- 
divíduos privilegiados obtiveram, já se sabe, 
os melhores logares i;o tribunal, não sem al- 
guma dilficuldade, e por vezes foi preciso 
recorrer aos coutos das alabardas dos archei- 
ros da cidade, e ás coronhas dos mosquetes 
do regimento da Picardia, alli de guarnição, 
para manter a ordem e evitar os atropella- 
mentos. 

Tal azáfama explicava-se pela novidade 
da causa, que o parlamento d'esta cidade ia 
)ulgar. Era o processo do jesuita Girard e 
da formosa Cadière. 

Vamos resumir o mais breve que nos for 
possível este processo, de uma grande voga 
na sua epocha, porque, até certo ponto, te- 
ve grande inHuencia nos destinos do jesui- 
tismo em França. Ao mesmo tempo procu- 
raremos passar ao lado do que n'elle ha de 



escabroso, e só diremos quanto baste, para 
que as mães que nos lerem livrem suas fi- 
lhas da inHuencia do jesuita, começando por 
afastal-as dos collegios onde os reverendos 
padres possam ter entrada. 

Em 1728, os jesuítas tiveram o credito ne- 
cessário para fazerem nomear reitor do real 
seminário da marinha, em Toulon um dos 
seus, o padre João Baptista Girard. Perten- 
cia elle na S. J. á classe dos pregadores, e 
durante dez annos occupou o púlpito de Aix 
com grande fama, que o nrecedeu em Tou- 
lon. Bem depressa aqui não se falava d'ou- 
tra coisa entre a gente devota, senão do pa- 
dre Girard, que começou a ser o SaiifAu- 
toninho onde te porei do beaterio. Mas fo- 
ram principalmente as mulheres, que profes- 
saram por sua reverencia o maior enthusias- 
mo... e talvez tivessem rasões especiaes 
para isso! 

O padre Girard tinha grande instrucção, 
maneiras unctuosas d'exposição, um orgam 
vocal magnifico, que realçava o valor da sua 
palavra. A sua dicção era agradável,- e o 
gesto largo. Sem ser bella, a sua physiono- 
mia tinha o quer que fosse de simultanea- 
mente estactica e expressiva. Os olhos pe- 
quenos e vivos brilhavam atravez de longas 
sobrancelhas pretas, e a fronte larga, e em 
ligeira fuga para traz, fazia suppôr um enthu- 
siasta. O padre Girard tinha então quarenta 
e oito annos. 

N'aquelle tempo não se falava d'outra coi- 
sa em Toulon senão de Catharina Cadière, 



DOS JESUÍTAS 



33 1 



conhecida pela formosa Cadiere, que uns di- 
7.'\íim doida, outros consideravam santa. Aos 
quinze annos, Catharina lia livros ascéticos; 
aos dezeseis já tinha devorado todas essas 
elocubrações, cheias duma falsa espiritua 
lidade, que não são, na maioria dos casos, 
senão o echo dos devaneios d'uma imagi- 
nação desequilibrada, do delirio d'uma fe- 
bre interior e occulta ou peor ainda. Aos 
dezesete a formosa Cadière passava a vida 
nas egrejas, nos logares de devoção, ou n'um 
oratório que lhe arranjaram em casa. Tinha 
visões em que lhe appareciam umas vezes 
Christo outras santa Theresa e mais santas. 
Resava e jejuava ; confessava-se todos os 
dias e commungava aos domingos; applicava 
em si fortes disciplinas que chegavam a ras- 
gar a fina e assetinada pelle. Porque, a verda- 
de é que Catharina Cadicre merecia a antono- 
másia de formosa, com que o povo a distin- 
guira. Mas ou porque ignorasse que era bel- 
la, ou porque quizesse ofFerecer essa belle- 
za a Deus, Catharina passava sempre vaga- 
rosa, recolhida e rcsando, atravez das alas 
que os rapazes da cidade, os mais ricos e 
considerados, lhe faziam, assim que ella ap- 
parecia na rua ; e os seus olhares ardentes, co- 
mo flechas de fogo iam dencontro aquella 
formosa e invencível belleza, como se des- 
sem n'uma estatua gelada. 

No interesse da sua ordem, e, sem (alai 
d'outro sentimento, provavelmente por um 
impulso d'amor próprio pessoal, o jesuite 
não descançou emquanto a não teve por con- 
fessada. 

Por seu lado Catharina, é de crer que se 
sentisse lisonjeada pelos desejos do reveren- 
do Girard, cuja reputação já se achava fir- 
mada em Toulon. Girard, cm vez de acal- 
mar as perturbações d'esta alma, perturba- 
ções que não seriam, talvez, senão a contra- 
pancada do impeto dos sentidos, os echos 
mal interpretados da voz da natureza, ani- 
mou-a a novas loucuras. O jesuíta, em vez 
de prohibir á sua linda penitente certos li- 
vros, foi elle, pelo contrario quem lhe for- 
neceu os mais prejudiciaes. Kntre outros 
poz-lhe nas mãos um do jesuíta hispanhol 
Luiz Henriquez, que tem por titulo : Occií- 
piições dos sa)ttos no ceii, e no qual o au- 
ctor, que mais parece um crente de Ma- 



foma, do que um discípulo de Christo, nos 
descreve os bemaventurados gosando larga- 
mente, c com toda a energia das aspirações 
celestes, os praseres mais vivos que ofterece 
a terra '. 

O padre Girard parecia ter-se dedicado 
inteiramente á sua nova, bella e santa peni- 
terrte. Não se passava um dia sem que os 
dois se encontrassem, e ou o padre ia pro- 
curar a penitente no oratório d'esta, ou era 
esta que ia ao confissionario da capella do 
Seminário. As coisas chegaram a tal ponto 
que outros sacerdotes, menos santos, por 
certo, menos moços, e talvez com menos do- 
tes physícos já começavam a extranhar tanta 
assiduidade. Comtudo tal era a confiança 
quasi unanime na santidade de Catharina e 
na virtude do padre, que nada de offensivo 
para qualquer dos dois se formulava aberta 



' O livro do padre Luiz Henriquez, de que esta- 
mos longe de exagerar as divagações beatamente 
eróticas, foi publicado em i53i,com a approvação 
do provincial jesuita de Castella, 

Prova, no capitulo XXIV, que cada santo tem casa 
própria no ceu, e que Jesu-Christo, habita um pa- 
lácio magnifico ; que alli ha ruas muito largas, 
grandes praças, casas fortes, e muralhas de defesa. 

Diz no capitulo XXIV que será um soberano pra- 
ser beijar e abraçar os corpos dos bemaventurados ; 
que estes tomarão banhos á vista uns dos outros, que 
para isso haverá lagos agradabilíssimos, onde todos 
nadarão como peixes; e que cantarão tão agradavel- 
mente como se fossem calhandras e rouxinoes. 

Affiança no capitulo LVilI que os anjos se vesti- 
rão de mulheres, e que se mostrarão aos santos com 
vestuários de damas, cabellos frisados, saias com an- 
quinhas, e roupa branca da mais rica. 

Conta no capitulo XLVII que os homens e mu- 
lheres se divertirão com mascaradas, banquetes é bai- 
les. 

No capitulo XXVII descreve as ruas do Paraiso 
ornadas de tapetes e de ricas colgaduras e tapeça- 
rias; e que todas as historias do mundo estão gra- 
vadas nas muralhas. 

Diz no capitulo LX, que os anjos não terão casa 
particular, isto para mais facilmente puderem ir 
d'um para outro lado, e alegrarem a paisagem. 

O capitulo LXV é destinado a dizer-nos que as 
mulheres cantarão melhor que os homens, a fim de 
que o praser seja miiior. 

Capitulo LXXlll : as mulheres resuscitarão com 
os cabellos mais compridos, penteados com fitas, 
taes quaes como se estivessem n'este mundo. 

No capitulo LXXlll, que as pessoas casadas co- 
habitarão como se estivessem n'esla vida, ç tçrSo fi- 
lhos que serão mesmo uns anjinhos,! 



33} 



HISTORIA GERAL 



c publicamente ; somente, por sobre esta in- 
timidade espiritual um observador perspicaz 
poderia ver formar-sc a nuvem da maledi- 
cência, que d'um momento para o outro en- 
grossará. Repentinamente a nuvem descar- 
regou, e terrível foi a tempestade que d'ella 
saiu. 

Mas, chegados a este ponto, nada mais 
nos resta do que transcrever, pura c simples- 
mente, embora com o recato que exige a 
decência, a queixa que, em nome de Catha- 
rina Cadiére, foi levada ao parlamento, /'wr 
encantamentos, rapto, incesto espiritual, abor- 
to e suborno de lesleinunhas ; 

contra o padre João Baptista (jirard, jc- 
suila, reitor do Sentifiario real da marinha, 
em Toulon. 

Catharina Cadicre expõe assim a sua pe- 
tição: 

«Nasci em Toulon. Perdi meu pae ainda 
creança; mi-^ha mãe ficou viuva, com alguns 
meios de vida, que ordinariamente procura- 
va no commercio. Nunca tive inclinação para 
o casamento ; o meu desejo era fazcr-me re- 
ligiosa. Attraida pela fama do padre Girard, 
escolhi-o para director da minha consciência. 

"O primeiro anno passou-se sem nada de 
extraordinário; mas um dia o padre Girard 
assoprou sobre mim e produziu em todo o 
meu ser uma mudança que não me pareceu 
natural. Deixei de poder resar, e a minha 
saúde alterou-se. O padre Girard vinha ver- 
me todos os dias. Nas syncopes que eu sof- 
fria, o padre Girard não chamava ninguém. 
A'oltando em mim, muitas vezes o via ení 
altitudes indecentes '. 

iUm dia, ao sair d"uma longa syncope, es- 
tava estendida no chão. O padre Girard es- 
tava. . . (seguem-se pormenores que nos obri- 
gariam a entrar no terreno da pornographia : 
por tal forma são revoltantes.) 

«O padre Girard, temendo as consequên- 
cias do seu amor, fez-me tomar uma bebida 
que me occasionou uma grande perda de 
sangue. N'essa occasião examinava cuida- 
dosamente as minhas deieccõcs. 



' Dizem alguns commentadores (i'esie caso que o 
jesuíta SC servira do magnetismo sobre a sua peni- 
lente, evidenti^'mente hysierica, para abusar da sua in- 
nocencia. 



«Foi por essa epocha que elle me fez ra- 
ptar, aconselhando-me em não falar nisso á 
minha familia, e conduziu-me ao convento 
de Ollioule, a uma légua de Toulon. A com- 
munidade recebeu me como se eu fora uma 
santa. Obteve a permissão de me ver sem 
testemunhas. As scenas da cella de Ollioule, 
não dilíerem em coisa alguma das do meu 
quarto em Toulon. Qiiaesquer que fossem as 
precauções tomadas pelo padre Girard, um 
dia foi surprchendido dando-me um beijo 
atravez das grades do locutório. Escrevia- 
me a miúdo, sem que essas cartas nunca 
fossem abertas pela superiora. Recebi d'elle 
mais de oitocentas. A menina Gravier, con- 
fessada do santo-homem, veiu em seu nome 
pedir-m'as; entreguei-lhas e só uma foi pro- 
duzida no processo. Na sua correspondên- 
cia brinca sempre com certo ar devoto '. 



' Como amostra dessa correspondência erótica 
daremos apenas alguns trechos : 

Do padre Girard a Maria Cadihre: «E preciso 
que M. (Cadicre desappareça e se abstraia de si, para 
que só exista o seu esposo e seja elle quem obre, 
que fale e que se mostre.» 

«Não pense nunca o que se passa em si nem á sua 
beira, mesmo em relação aos males que lhe são en- 
viados, senão o preciso para me dar conta de tudo.» 

« Entre gue-se com uma cega confiança á direcção 
de Deus; abstenha-se de qualquer pergunta, de qual- 
quer raciocinio e principalmente, não rejeite seja o 
que fór.» 

«Não raciocine jamais comsigo] emfim, esqueça-se 
e deixe fazer... Estas duas palavras encerram a mais 
sublime disposição.» 

«Que prazer que me dá, querida filha. . . se é ver- 
dade que Nosso Senhor lhe concede graça de se 
esquecer de si própria, como vae ter plena liberdade 
d'acção 1» 

«Tenho uma fome immensa de a tornar a ver e de 
ver tudo. Sabe de mais que não peço senão o meu 
bem . . . Hei-de fatigal-a . . . E que tem isso ; não fico 
eu também extenuado? E )usto que estas coisas vão 
de meias. Adeuf, minha tilha, rese por seu pae, por 
seu irmão, por seu amigo, por seu filho, pelo seu 
servo. Eis qualidades bastantes para interessar um 
bom coração. . .u 

«Trago sempre comigo aquella a quem escrevo ; 
ella está sempre comigo, embora fale e trate com 
outras pessoas.» 

De Alaiin ('.adi' re ao padre Girard: kE eu lani- 



DOS JESUI TAS 



233 



«O padre Girard dcu-mc uma formula de 
confissão, na qual pretendia que a impureza 
não era crime. 

«Do convento de Oliioule fui levada para 
a casa de campo de minha mãe. O bispo 
de Toulon tinha alli também uma vivenda e 
eu fui admittida a falar-lhe e exorcismou-me. 
No dia seguinte ao d'esta entrevista, o bispo 
teve outra com o prior 
dos carmelitas, acerca 
de tudo quanto se ti- 
nha passado entre mim 
c o padre Girard. 

«Apesar do segredo 
que tinham pedido, o 
procedimento do jesui- 
ta foi sabido : as suas 
confessadas abandona 
ram-o, o prior dos car- 
melitas, que me tinha 
dado a absolvição, foi 
suspenso. O bispo es- 
tava feito com os jesuí- 
tas. O padre Girard 
chegou de Marselha a 
lõ de novembro. As- 
sim que o vi, cai com 
uma convulsão. A iS, 
a justiça veiu a casa 
de minha mãe;, cha- 
maram-me e obriga- 
ram-me a jurar. Meu 
irmão interveiu, e, ten- 
do-se ouvido um ad- 
vogado, ficou decidido 
entre nós que eu leva- 
ria queixa aos tribu- 
naes, na jurisdicção de 
Toulon, para me li- 

\ rar da que me era contraria. O presidente de 
Brest mandou-me presa para as ursulinas. 



Uma ordemde prisão confirmou a medida que 
fora tomada contra mim. As religiosas, para 
fazerem a corte aos jesuítas que dirigiam esta 
casa, acabrunharam-me com maus tractos. 
Debalde minha mãe solicitou a graça de me 
poder servir ; em seu logar puzeram junto 
de mim a irmã dum jesuita, que é uma ver- 
dadeira luria. 




(Uma visão de Hosa Botharel 



«A meu pedido mandarám-me dois padres 
para me confessar, os quaes. a primeira coisa 



bem, também eu o trapo sempre comigo, tão que- 
rido me é. Abençoo o Senhor pela coragem que lhe 
deu em me exhortar cada vez mais á perseverança. 
As victorias, pelo que vejo, dãolhe prazer e aviven- 
tam o seu zelo; mas pode ser que o combate o ame- 
dronte. . . Quanto ao mais, cumprirei ;í risca as suas 
ordens» 

• O meu maior desejo é submetter-me, como uma 
creança, ás ordens de meu pae. Sinto, por um-etFeiío 



sensível da misericórdia divina, que devo abandonar- 
me inteiramente A vontade do ceu. Kspero o com 
impaciência para que mate a fome que tem de me 
ver. Não tema pelo seu bem. Elle é-lhe absoluta- 
mente dedicado. Venha o mais depressa possível 
satisfazer a sua curiosidade; mas com uma condi- 
ção, que a minha submissão o indemnisará uma vez 
para sempre de todas as suas penas, e que não con- 
tará mais tão exactamente comigo para o futuro. 
Faça me a justiça de acreditar que lhe sou intima- 

3o 



334 



HISTORIA GERAL 



que fizeram foi pedir que me retractasse, no 
que eu não consenti. 

«O padre Girard, cujo amor se tinha trans- 
formado em ódio, vinha incitar as religiu 
sas contra mim. Os jesuitas intrigavam, e eu 
não conseguia obter um advogado. O rei 
reenviou o processo á camará grande do 
parlamento, para ahi ser julgado em ultima 
instancia. Esta camará nomeou por commis- 
sarios os srs. Fanton e o abbade de Char 
levai. O sr. d'Argent, procurador geral, che- 
gou a Toulon a 1 1 de fevereiro e os com- 
missarios a i3 do mesmo mez. As persegui- 
ções diminuíram. Comtudo, a 23 de fevcrei 
ro, um mandado de captura foi expedido 
contra mim e contra o meu confessor, o 
prior dos carmelitas ; mas o padre Girard 
ficou livre. Tendo recebido uma simples as- 
signação, solfreu, como eu, um interrogató- 
rio, no qual eu persisti na minha primeira 
declaração. A sr.' Guerin fez-me então be- 
ber um copo de vinho, que cila tinha sem 
duvida composto, e que me produ/.iu um ef- 
feito terrível. 

"O abbade Charlcval, interessado na gloria 
da sua becca, quiz intimidar-me. E foi ao 
cabo de onze horas dinterrogatorio que cu 
fui confrontada com o padre Girard. 

«Este sabe perfeitamente por que meios se 
pôde perturbar um espirito e não é noviço 
em composições de bebcragens. 

«O sr. Aubin, procurador no parlamento, 
tomou a minha defesa, d'accordo com mes- 
tre Chandon, sjmdico dos advogados. Reuni- 
dos os commissarios a lo de março foram 
acareadas as duas devotas do padre Girard. 
as meninas Bothare! e Lallemand. Eu fui le- 
vada, como prisioneira d'Estado, ao conven- 
to de Ollioule, para ser confrontada com as 
religiosas. Osr.Aubine minha mãe, tinham-se 
offerecido para responderem por mim ; mas 



mente unida no sagrado coração de Jesus, meu que- 
rido padre.» 

Se o leitor quizer saber como sob estas apparen- 
rencids d'amor mystico se disfarçava, e mal, a mais 
torpe sensualidade leia o que foi o niolinismo, pro- 
cure nos autos da inquisição, archivados na Torre 
do Tombo, e nelles encontrará um grande numero 
de frades, padres, jesuitas c freiras condemnadas por 
essa devassidão sob formas mysticas. Veja também 
o que ha escripto sobre solicitanies e sygilistas. 



isso foi-lhes negado. Quando alli cheguei, tu- 
do me recusaram, inclusive uma enxerga pa- 
ra me deitar. 

"Fui depois levada para Ai.\. O ollicial 
de diligencias era provavelmente portador 
duma ordem para me fazer encarcerar no 
.segundo convento da Visitação, desta cida- 
de. As religiosas puzeram duvidas em me 
receberem, e durante três horas fiquei ex- 
posta á curiosidade publica. Os jesuitas ti- 
nham alliciado gente para me insultar. Em- 
tim, as portas abriram-se, e lá dentro fui 
maltractada, recusaram-me criada que me 
servisse, e quando me davam os ataques que 
me deixavam como morta, era chamado um 
padre para me exorcismar, como se estivese 
endemoninhada. 

«Antes e depois da minha chegada, debalde 
pedi que me acaieasscm, e que me deixas- 
sem ouvir a leituia das minhas cartas. Pio- 
ram alliciadas testemunhas em todos os con- 
ventos, onde, se urdiu uma verdadeira intri- 
ga de claustro. 

«Em vão espalhavam que tudo isto era uma 
conspiração de família, uma intriga do prior 
dos carmelitas para comprometter o padre 
Girard. Verdade é, que foi este prior quem 
me abriu os olhos, e me fez ver quanto eu 
estava longe da perfeição a que aspirava; inas 
sinto-me animada pela justiça; nem eu nem 
minha familia ignoramos a influencia dos je- 
suitas; só tenho que oppor-lhes a minha in- 
nocencia, o meu sexo, a minha condição, a 
minha edade ; tendes deante de vós uma ra- 
pariga de vinte annos, cujo coração ainda 
está puro. O padre Girard, não podendo ex- 
plorar-me como santa, procura perder c en- 
xovalhar aquelle que me desenganou, o prior 
dos carmelitas. 

'< Ser me -ha mais dirticil desculpar a minha 
credulidade; mas figure-se uma rapariga de 
desoito annos, entre as mãos d'um homem 
d'este caracter, c facilmente me perdoarão. 
.\ sua moral seduziu-me ; e abandonei-me 
sem pensar. Minha mãe, tão simples como 
eu, estava longe de suppor o crime. Qual- 
quer outra teria desconfiado do padre Gi- 
rard; mas quando ella o ouviu louvar a mi- 
nha santidade, teve a simplicidade de o acre- 
ditar. Espero do tribunal uma sentença que 
vingará a religião ultrajada, oftendida na pes 



DOS jesuítas 



23S 



^oa d'uma rapariga seduzida pelos meios 
mais indignos e os mais criminosos.» 

O padre Girard del"endeu-se com muita 
habilidade ; mas não convenceu da sua inno- 
cencia senão aquelles que estavam suborna- 
dos para o absolverem. 

«Imputam-me, disse elle, os crimes de sor- 
tilégio, de incesto espiritual, de provocação 
de aborto e de suborno de testemunhas. 

«A magia forma o principal capitulo dac- 
cusação; foi por este meio diabólico que eu 
abusei da minha penitente; foi pelo prestigio, 
pelos encantamentos que satisfiz a minha 
paixão. 

«Que credito pode dar o tribunal ás pa- 
lavras duma rapariga que, depois de me ter 
feito passar por um santo, me apresenta hoje 
como um debochado, que leva a sua paixão 
aos extremos requintes V 

«A Cadicre dizia-me todos os dias que ia 
morrer; que tinha grandes hemorrhagias; e 
eu consenti em examinar as suas dejecções : 
fingiu ter sede, e nada mais natural do que 
dar-lhe agua I Envenenam esta bebida, e pu- 
blica-sc que este veneno destruirá o fructo 
que trazia em seu seio. Se eu fora feiticeiro 
empregaria outros meios. 

«Eu compuz essa bebida em casa da Ca- 
diére, mas se eu fosse magico, não a teria 
manipulado em minha casa: Ksta bebida foi 
seguida duma grande perda de sangue ; de- 
ve-se attribuir isto a um etíeito natural ou ás 
manhas da Cadière r 

«Não subornei testemunhas.» 

(Aqui passamos sem transcrever as obsce 
nidades de que está cheia a defesa do padre 
(iirard.) 

E terminou o seu discurso dizendo : «Não 
duvido do bom êxito da minha causa, da 
confusão dos meus accusadores e do resta- 
belecimento da minha honra, fortemente com- 
promettida pelas accusações feitas contra 
mim.» 

O procurador geral apresentou as suas 
conclusões a 1 1 de setembro de lySi. Com- 
prado pelos jesuitas, elle pedia que a Cadiè- 
re fosse condemnada a abjurar, em frente 
da porta da egreja de S. Salvador, e depois 
enforcada e estrangulada. Mas o tribunal 
julgou doutra maneira. Posta a questão a 
votos, encontraram- se doze que condemna- 



vam o padre Girard a ser queimado, sete 
que o absolviam, um que provocava a sua 
interdicção, e um outro que o mandava res- 
ponder no foro ecclesiastico. 

Quanto á Cadière, doze votos foram para 
que fosse entregue a sua mãe; três pela pri- 
são perpetua; três pela prisão sem determi- 
nação de tempo, e seis pela entrada n'um 
convento. 

Em vista disto foi entregue a sua mãe. O 
povo, que, como vimos, se agglomerava em 
frente do palácio da justiça, levou em trium- 
pho o advogado Maliverny que tinha tomado 
a sua defesa. Os juizes vendidos aos jesuitas 
foram apupados. 

O parlamento tendo accoroado em que o 
padre Girard devia ser julgado no foro ec- 
clesiastico, preparou assim a absolvição de 
este. Quiz elle escapar se por uma porta tra- 
vessa, mas o povo, assim que o reconheceu, 
por pouco que o não mata. 

A Cadière, seus irmãos e o prior dos car- 
melitas foram acompanhados a suas casas 
por uma multidão de gente de todas as ge- 
rarchias sociaes. 

Dissemos acima qiie muitos se \ enderam 
aos jesuitas ; cumpre também dizer que ou- 
tros o não fizeram, e que pelo contrario lo- 
graram a santa gente. 

Os jesuitas contavam tão pouco com a 
absolvição de Girard, que nas vésperas do 
julgamento foram procurar um magistrado 
que devia julgar na causa, e pondo-lhe sobre 
a mesa uma bolsa com uma grande som- 
ma declaramlhe ser uma restituição que 
estão encarregados de lhe fazer. O magis- 
trado declarou que ninguém lhe devia nada, 
e mesmo que os seus módicos meios de vi- 
da nunca lhe teriam permittido perder tal 
quantia. Insistiram os jesuitas, e iam dei- 
xando a bolsa sobre a carteira. O magistra- 
do percebendo que, a titulo de restituição, lhe 
queriam comprar o voto, tomou o dinheiro 
e foi immediatamente distribuil-o pelos hos- 
pitaes. Chega o dia do julgamento, e o nosso 
juiz, convencido da culpabilidade do padre 
Girard, opina, e vigorosamente, pela sua 
condemnação. 

Os jesuitas, informados do que acontece- 
ra, voltam a casa do conselheiro e dizem-lhe: 



:3o 



HISTORIA UERAL 



cQuc sim I que clVectivamente se tinham en- 
ganado e que a restituição não lhe dizia res- 
peito. E visto que o tinham confundido com 
outra pessoa, lhe vinham pedir o dinheiro. 

— .Meus srs., respondeu o magistrado, 
quando cu recusava esse dinheiro os srs. in- 
sistiram para que eu o acccitasse ; e como 
julguei que o seu desejo era que eu distribuísse 
essa quantia pelos pobres, foi o que fiz, e 
para prova aqui têem os recibos dos estabe- 
lecimentos de caridade que foram contem- 
plados. 

Durante alguns annos, tanto a Cadiérc co- 
mo sua familia, e as pessoas que por ella se 
interessaram sotfreram toda a sorte de per- 
seguição ; e a pobre victima deveu a vida ao 
retiro para onde foi viver, sempre ignorado 
dos jesuítas. 

Este processo teve um enorme echo ; e o 
escândalo que d'elle resultou fez um grande 
mal á S. J. ; e assim devia ser. A absolvição 
d" um jesuíta, dignitário da sua ordtm, viva- 
mente protegido por ella com toda a vehe- 
mencia, e publicamente defendido, por um 
voto de maioria, equivalia a uma condemna- 
ção, sobretudo se levarmos em linha de conta 
os meios de captação, d'intimidação dos só- 
cios do padre Girard ; se pensarmos no 
espirito d'intriga aesses jesuitas, e da enor- 
me influencia de que ainda então dispu 
nham ; porque a companhia de Jesus estava 
longe ce ter decrescido nos começos do sé- 
culo XVIII. 

Em 1710, segundo os cálculos do padre 
Jouvenci, existiam 1390 estabelecimentos je- 
suíticos e 20:000 )esuitas. 

K tanta terra no mundo por arrotear I 

Ligado a este drama, anda um episodio 
de somenos importância, mas egualmente 
typico, e que vem em apoio dos que afir- 
mam que, no século xvii, muitos jesuitas já 
se contavam entre os mais dissolutos daquella 
epocha. 

Este episodio é o conhecido na historia 
das libertinagens dos jesuitas pelo da «Fuga 
de Rosa Botharel.» 

Esta rapariga, filha dum marítimo de Tou- 
lon, começou por ser uma visionaria como a 
í-adiere. 



Certa manhã, por volta das seis horas, es- 
tando bem acordada, viu a Jesu-Christo, ves- 
tido com uma túnica branca, as mãos desco- 
bertas até o começo dos braços, os pés nús, 
com modo majestoso e resplandecente. Dou- 
tra vez, viu ainda .lesu-Christo, tendo n'uma 
das mãos o coração do padre (lirard, e 
com a outra lhe tirava o delia, unindo de- 
pois os deis c encorporando um no outro. 
Escusado será dizer como o jesuíta intei"pre- 
tou esta visão, e do proveito que delia sou- 
be tirar. 

Quando, depois dabsolvida, Catharina (>a- 
diere dcsappareceu da cidade, para fugir á 
perseguição dos jesuitas e seus apaniguados, 
uns e outros empregaram todos os meios ao 
seu alcance para saberem do seu paradeiro. 
Mas se os jesuitas tinham assalariados, a sua 
victima tinha protectores, e o .sitio onde ella 
se achava continuou sendo um segredo. 

Soube-se, algum tempo depois, que Rosa 
Botharel, igualmente victima da lubricidade 
do padre Girard, e que fora amiga intima 
de Catharina, tinha estado ultimamente com 
esta, a fim de a accompanhar e tratar n'uma 
grave doença que se seguira ao processo. 

Por ordem do primeiro presidente do tri- 
bunal foi presa e encarcerada no hospício 
de Toulon. Durante um anno os emissários 
tanto do bispo como dos jesuitas, senhores 
desta casa de correcção, interrogaram a pri- 
sioneira, pediram, ameaçaram para que ella 
declarasse onde se tinha homísíado Cathari- 
na Cadière, e nem uma palavra conseguiram 
que tal denunciasse. 

Como nada obtivesssem, resolveram fa- 
zei-a morrer lentamente pela fome, e para 
isso lançaram-n'a numa das masmorras da 
casa. 

E vem um )esuita e salvou-a ! 

Um jesuíta, sim, o rev. padre Courtez I 

Mandado pela companhia para adminis- 
trar os últimos sacramentos áquella que ti- 
nha sido condemnada a morrer de tão hor- 
rível morte, deu-lhe a vida e a liberdade. y 

Mas não vão julgar que no coração de , 
Courtez brotou um sentimento de desinte- ' 
resscira piedade. Rosa era realmente for- 
mosa . , . 

uh.t priir élre devol, cn nen esl /?j.s nioiiis howmil 



DOS jesuítas 



237 



Havia muito tempo que o padre Courtcz da prisão por meio d uma escada de corda; 
cubicava aquella que já tinha sido amante tal qual como num dos bellos romances da 
do padre Girard; e Deuséque sabe porque epocha, c. . . fus.m com ella. 




Z caraiao d-3 Ff. Luiz Hínriquez 



-ireço a pobre Rosa Botharel pagou a sua 
iberdade. 



As auctoridades correram em perseguição 
dos fugitivos, mas perderam-lhes a pista; e 



O padre Courtez arranjou i"azel-a evadir 1 nunca mais se ouviu falar d"elles 



l 



238 



HISTORIA GERAL 



XXXIX 



Os Convulsionarios 



MORTO Luiz XIV assumiu a regência de 
França o duque dOrlcans, durante a 
menoridade de Luiz XV ; e durante este pe- 
riodo dextrcma degradação moral a S. J. 
continuou a progredir. Era aquelle o seu ver- 
dadeiro meio dacção ; aquella a constituição 
social que mais convinha ao desenvolvimen- 
to dos seus interesses. Um dos maiores ami- 
gos dentão da companhia foi o famoso car- 
deal Dubois, ministro favorito do Regente. 
O cardeal possuia todas ás qualidades de ca- 
racter que o tornavam digno d'aquella ami- 
sade. 

Todos sabem que este ministro, tão cele- 
bre pelos seus vicios infames como pelo seu 
real talento, foi creado cardeal em 1720, 
quando já era arcebispo de Cambrai. Foi 
Massillonquem teve a fraqueza, para não nos 
servirmos doutra palavra, de o sagrar. 
Conta-se que antes da cerimonia, Dubois 
tendo pedido previa e successivamente ao ce- 
lebre pregador as ordens de presbytero, di i- 
cono, sub-diacono e ordens menores, indis- 
pensáveis para poder ser bispo, iMassillon, 
impacientado, exclamava: «Se lhe parece pe- 
ça-me também o baptismo». Mais se diz, que 
o cardeal era casado '. 

Morreu em 1725, pouco tempo antes do 
seu patrão, o duque d'Orleans, deixando 
uma fortuna considerável e uma memoria 
justamente condemnada. Ora foram os jesuí- 
tas que trabalharam junto do papa, para o 
demoverem a conceder a este homem u cha- 



péu de cardeal '. Dubois estabelecera novos 
impostos c acabara por exgotar os recursos 
da França. Morreu sem ter recebido o via- 
tico. Quanto a seu patrão, o duque d'Or- 
leans, esse morreu nos braços da amante; o 
que fez dizer «que o duque d'Orleans tinha 
morrido nos braços do seu confessor ordi- 
nário.» 

No reinado de Luiz XV, o cardeal de Fleu- 
ry, que de simples preceptor d"cste prínci- 
pe, depois da morte do duque d'Orleans, foi 
elevado a primeiro ministro e governou a 
França, mostrou- se ainda mais favorável aos 
jesuítas, com os quaes se achava ligado, ao 
que então corria, por um laço secreto-. 

O rei tinha desposado Maria Lckzinscka, 
íilha de Estanislau de Polónia, princeza vir- 
tuosa, mas de temperamento frio, umí tanto 
ou quantobeata, e mais velha do que Luiz XA', 
que era então pouco mais do que um ado- 
lescente. Luiz gostava de sua mulher, era-llic 



» Quando o cardeal morreu foi publicado o se- 
guinte epitaphio do homem que a França viu san- 
tificando dia a dia as orgias do Regente : 

Rome rougit d'avoir rougi 
Le maquereau qui git ici. 

2 Tem-se confundido o cardeal Fleury com o ab- 
bade Fleury, auctor d'uma Historia ecclesiastica. Es- 
te ultimo, sacerdote virtuoso, illustrado e sem ambi- 
ções, foi confessor de Luiz XV, cujo cargo lhe foi ti- 
rado pelo cardeal a fim de dar ao jesuíta Linières, e 
no texto veremos para quê. 



DOS jesuítas 



239 



fiel, apesar das seducções que o cercavam. 
Um dia a princeza de Carignan fez compre- 
hender ao cardeal Fleury, que o rei cedo ou 
tarde havia de ter amantes, e que portanto 
mais valia te! as desde já, comtanto que lhe 
fossem dadas por mãos amigas c experi- 
mentadas. 

Estando o cardeal daccordo, por ver no 
expediente mais um elo que o prendesse á 
confiança do monarcha, escolheram a sr.* 
de Mailly para supplantar a rainha no cora- 
ção do rei. Mas o trama não surtiu effeito, 
e o rei continuava com uma assiduidade rara 
a dar provas da sua fidelidade conjugal. 

Foi então que se lançou mão doutro meio. 
Como a rainha já era confessada dum je- 
suíta, tratou-se de escolher outro sócio para 
o rei. Então o confessor da rainha, pondo 
ao serviço d'uma causa ignóbil a voz do ceu, 
fez saber á real confessada, «que tendo cum- 
prido a missão do seu estado, dando uni her- 
deiro ao throno, faria uma coisa edificantíssi- 
ma para o mundo e muito agradável a Deus, 
cohibindo-se tanto quanto possível das volu- 
ptuosidades da carne, dedicando-se á mais 
excellente virtude da mulher eh ristã: -a cas- 
tidade. " 

Beata, e principalmente fria por tempera- 
mento, fatigada também por successivos 
partos, a rainha entrou de boa mente no ca- 
minho que o jesuita lhe indicava. Por um 
lado, Luiz, que começava a dar ouvidos aos 
seus pérfidos conselheiros, tendo-se embria- 
gado uma noite, foi ao quarto da rainha, que 
lhe repelliu as caricias avinhadas, com ac- 
centuado nojo; então o rei, ferido no seu 
amor próprio, jurou que não receberia duas 
veses a mesma aftVonta, e saiu do quarto de 
sua mulher para nunca mais lá voltar. 

Desde este momento, e sob a influencia 
dos conselheiros corruptores que o cerca- 
vam, Luiz XV entregou-se á effervcscencia 
das suas paixões. A condessa de Mailly foi 
a sua primeira amante, á qual o rei não tar- 
dou em associar sua irmã, a sr.' de Vinti- 
mille. Sabe-se como é longa a lista das cor- 
tezãs tituladas que se desdobra desde a 
Mailly até .loanne \'auhermier, conhecida 
pela condessa Dubarry. Emquanto Luiz XV^ 
nos seus petits appariemenls, passava a vida 
■ i mesa e nas voluptuosidades, o cardeal de 



Fleury governava a França, e governava-a 
mal. Protegidos pelo cardeal-ministro, os je- 
suita-s julgavam que se abria para elles uma 
nova era de brilhante prosperidade. Mas já, 
no horizonte do mundo apparecia a nuvem 
d"onde sairá o raio que vae ferir e destruir 
por algum tempo o edificio do jesuitismo. Já 
se tinham ouvido os primeiros ruidos por 
occasião do processo da formosa Cadiere; o 
attentado de Damicns, immediatamcnte se- 
guido da fallencia do padre La Valette, ia des- 
encadear a tempestade com toda a sua vio- 
lência. ' 

Em 1743 morreu o cardeal de Ff ury, e 
ministros menos bem dispostos a favor da 
S. .T. tinham succedido no poder a este pro 
tector dos filhos d'ígnacio de Loyola. O in- 
cêndio das discussões religiosas estava aba- 
fado, quasi extincto ; os jansenistas haviam 
esquecido a famosa bulia Unií^enitits^ come- 
cava-se mesmo a ninguém sepreoccupar com 
os jesuítas, a não ser talvez o papado, que 
depois de Innocencio XIII ' mostrava vellei- 
dades de recomeçar a estudar os projectos 
de reforma da famosa seita catholica, tantas 
vezes iniciados e outras tantas postos de 
parte. O successor d'este ultimo pontífice, 
descontente com os jesuítas, tinha já dado o 
signal das primeiras hostilidades. A compa- 
nhia de Jesus, pois, precisava d'uma nova e 
sufficientemente forte diversão, e tractou de 
aproveitar a primeira occasião que se apre- 
sentasse, e, em ultimo caso, creal-a. 

O jansenismo moribundo procurava então 
volver á vida por naeio dos milagres do cemi- 
tério de S. Medard, do diácono Paris e dos 
convulsionarios. Os jesuítas aproveitaram 
esta circumstancia, e trataram de a explo- 
rar habilmente. 

O diácono Paris, irmão dum conselheiro 
do parlamento, tinha morrido pronunciando 
um ultimo anathema contra a bulia Uni- 
íXenitus, o que lhe creou tantos amigos co- 
mo inimigos. O diácono foi inhumado no 
claustro de S. Medard, e alli começou sem 
demora a fazer milagres. .Os devotos iam 



1 In.iocencio XIII, tendo-se atrevido a dizer que iu 
tratar de reformar ;i S. )., morreu, no dia seguinte, 
de repente ! 



2^0 



HISTORIA GERAL 



rcsar cm /i-ancés, sobre a sua campa, por- 
que então, aos olhos dos jansenistas era um 
crime rcsar cm latim. Ora o principal mila- 
gre que o diácono fazia era que todos que 
SC approximavam da sua sepultura entravam 
cm convjLilsõcs. As mulheres sobretudo, do- 
tadas dum systema nervoso vibratil e de fá- 
cil excitação, entregavam se ás mais extra- 
nhas contorsões, c ás vezes a atrozes sof- 
frimentos, graças á incrivel protecção do 
novo santo, á hysteria excitada e também d 
cumplicidade burlona de certos compadres. 
Estes últimos eram chamados soccorrislas, e 
os seus soccorros, solicitados ardentemente 
pelas fanáticas convulsionarias, con^istiam 
n'uma espécie de serviços d'algQzes. 

«Os soccorrislas, diz Dulaure, na sua cx- 
ccllcnte Historia cie Paris^ rapazes vigoro- 
sos, davam formidáveis murros nas costas 
das mulheres, no peito, nos hombros. Estas 
desgraçadas, não satisfeitas, pediam aos seus 
carrascos que as maltratassem mais cruel- 
mente. Os soccorrislas punham-se lhes sobre 
o corpo com os pés, pizando-lhes as coxas, 
o ventre, o seio, espezinhando-as ate hcarem 
extenuados. Estas pobres mulheres achavam 
tudo isto ainda muito brando; insaciáveis de 
solírimentos, faziam com que lhes desancas- 
sem as costas com achas de lenha, e que 
igualmente lhas applicassem no peito e na 
barriga. Joanna Mouler, uma convulsionaria 
de vinte e trcs annos apenas, além d' isso 
formosíssima, fazia que lhe batessem cem 
vezes de seguida com um ferro de suster a 
lenha nos fogões. E cmquanto era assim 
tratada, animava-se-lhe o rosto e'exclamava: 
Como é bomi Como isto me faz bem! Ande, 
meu irmão, bata com mais força se podei 
Algumas outras enguliam carvões ardentes, 
outras faziam com que lhes dessem espadei- 
radas; mas a obra mais meritória era a cru- 
cificação. Uma rapariga, extendida numa cruz, 
deixava que nella a pregassem de pés e mãos. 
Devo dizel-o, porque tenho d'isso a máxima 
certeza, que em mysteriosas assembléas, re- 
unidas em algumas cidades da França, se re- 
petiam muitas vezes estas horríveis scenas, e 
ainda numa epocha muito próxima da nossa '.» 



' ÍJulaure publicou os seus trabalhos históricos de 
1S23 a 1827. 



Imprímiu-se uma \'icia de S. Paris, os 
jesuítas trataram de fazer anathematisar es- 
te livro, Roma pronunciou excommunhão 
maior contra quem lesse esta Vida, c con- 
demnou o livro a ser queimado (29 d'agosto 
de 1731) *. 

Comtudo a França, sem ter fé absoluta 
nos milagres dos convulsionarios, continuava 
a ser mais pelos jansenistas contra os bispos 
do partido romano e dos jesuítas. Estes exi- 
giam dos moribundos que acceitassem a bulia 
sob pena de serem privados de sepultura 
christã, e recusavam o viatico e a extrema 
uncçãt) a quem quer que não apresentasse 
um bilhete de confissão no qual se declaras- 
se partidário da bulia. O arcebispo de Pa- 
ris poz-se á frente de todas estas persegui- 
ções, que foram mais favoráveis do que prc- 
judiciaes á causa do jansenismo. O cura de 
Santo Estevam do Monte tendo, como tan- 
tos outros ecciesiasticos, recusado o viati- 
co a alguém que não estava munido d'a- 
quellc bilhete, foi citado perante o parla- 
mento. 

Não compareceu, e o rei convidou os ma- 
gistrados a não continuarem a importarem- 
se com o que faziam os padres. O papa veiu 
intrometter-se na questão, e escrevinhou uma 
bulia a este respeito; o parlamento não fez 
dignamente caso d'ella, e continuou a cha- 
mar á sua beira o arcebispo de Paris e os 
seus sequazes. Luiz XV, cujo coração se in- 
clinava para os jesuítas, mas que se não sen- 
tia com coragem de luctar por elles contra 
a França em peso, publicou um edito que 
dizia em substancia : 

«Que a bulia devia ser recebida com sub- 



' Para este elTeito levantou-se um grande cadafai- 
so na praça do convento da Misericórdia em Roma 
e a trinta passos uma fogueira. Os cardeaes subiram 
ao estrado, e o livro ligado todo com pequenas cor- 
rentes de ferro, foi apresentado aocardeal-deão. Este 
entregou-o ao inquisidor-mór, que o passou ao otli- 
cial de justiça. Este por sua vez deuo ao preboste, este 
a um archeiro, este por fim ao carrasco. O executor 
das altas justiças ergueu o braço com o livreco, vol- 
tou-se gi-avemente para os quatro pontos cardeaes 
depois desamarrou o volume, rasgou-lhe as folhas 
uma a uma, molhando cada uma d'ellas em pez der- 
retido e atirando com tudo á fogueira; emquanto 
a canalha, incitada pelos jesuítas, gritava: «Morram 
os jansenistas 1» 



UOS JESUÍTAS 



241 




Fuga de Rosa Bothars 



242 



HISÍORIA GERAL 



missão, ainda que. no tim de contas, não 
fosse um artigo de fé; 

«Que os bispos podiam dizer tudo quanto 
quizessem, com tanto que fosse caritativa- 
mente ; 

«Que a recusa de sacramentos seria jul- 
gada pelos tribunaes ecciesiasticos e não pe- 
los civis, salvo em caso d'appellação por 
abuso ; 

«Que tudo que ate alli se linha feito sobre 
a questão seria sepultado no esquecimento.» 

Kste edito insiíínificante não satisfez nem 



os jansenistas, nem o parlamento e muito 
menos a companhia de Jesus. EUa murmu- 
rou altamente contra o rei; os nomes mais 
odiosos lhe foram chamados por ella; orga- 
nisou uma nova e sanla liga, que, na inten- 
ção, não devia ser menos terrível do que a 
primeira, e pregou por toda a parte, princi- 
palmente nos seus coUegios, o ódio contra o 
tyranno que queria derribar a santa egreja. 
1''," d'cstas perseguições que muitos querem 
ver a origem da tentativa dassassinio contra 
o rei, de que nos vamos occupar no capitulo 
.seguinte. 



DOS jesuítas 



243 



XL 



Damiens 



EM 5 de janeiro de lySy, véspera de Ruis, 
das seis para as sete horas da noite a 
companhia dos guardas de serviço no palá- 
cio de Versailles recebera ordem daccom- 
panhar o coche que ia conduzir a Trianon 
o rei e o delphim. Luis XV tinha formado 
tenção de ir cear e dormir a Trianon. O du- 
que d'Ayen, capitão de dia, tinha já tomado 
logar á direita do coche, e logo o rei se en- 
caminhou para o corredor da entrada, ac- 
companhado do delphim, e seguido por uma 
turba de cortezãos pressurosos, á frente dos 
quaes se achavam o marechal de Richelieu, 
o chanceler de Lamoignon e o ministro da 
justiça, Machault. Os cem suissos apresenta- 
ram armas ao soberano, que se encaminhou 
apressadamente para o coche, porque fazia 
um frio excessivo. 

Dissemos que era perto de sete horas, e 
por conseguinte já noite escura, e o local 
mal illuminado por algumas luzes que tra- 
ziam os criados ; portanto ninguém viu pas- 
sar um homem por entre os guardas, e mis- 
turar-se com os cortezãos que cercavam o 
rei. Kste ultimo fez um movimento para 
subir para o coche, quando o viram vol- 
tar-se repentinamente, emquanto que pro- 
curava introduzir uma das mãos por de- 
baixo do casaco que o abafava, como quem 
procura saber donde lhe sae unia gota de 
sangue que lhe vem ao collete. 

O tumulto é indcscriptivel. O duque d' Ayen 
tira a espada e corre para o rei, que ampa- 
ra o pequeno príncipe ; os guardas agitam- 
sc e brandem as armas; todos gritam con- 



tra o assassino, e todos os olhares procuram 
na multidão, que enche o pateo de Momra- 
re, o assassino. 

— F^oi este homem que me feriu ; disse 
Luiz XV, designando com a mão um indivi- 
duo, que, por um movimento quasi inaper- 
cebido no meio do movimento geral, se ti- 
nha misturado com os cortezãos, somente, 
como todos estes, tinha-se esquecido de ti- 
rar o chapéu. 

O duque d'Aven arremessa-se ao desgra- 
çado cujo olhar desvairado parecia efíecti- 
vamente indicar como auctor da tentativa 
d"assassinio e que foi preso sem que tentas- 
se fugir ou reclamar. 

Emquanto o arrastam para o vestíbulo do 
palácio, apenas pronuncia estas palavras : 

— Tomem cautella com o Delphim c que 
não saia durante o dia I . . . » 

Estas palavras augmentaram ainda mais o 
terror de que já estavam tomados os assis- 
tentes, e que as ouviram. 

O homem foi arrastado para uma casa do 
rez-do-chão, chamada a sala dos guardas. 
Ahi, revistaram-no, e encontraram-lhe um 
canivete de duas folhas. Como se suppoz 
que não fora com tal arma que elle tentara 
matar o rei, continuaram a revistal-o até que 
o puzeram nu, sem nada mais lhe encontra- 
rem que o mencionado canivete. 

O assassino chamava-se Roberto Francis- 
co Damiens. Nascera a 9 de janeiro de 1716 
em Tienloy, pequena cidade de Artois. Seu 
pai, que fora rendeiro, morrera arruinado 
depois de ler fallido. Damiens, vendo-se sem 



244 



HISTORIA GERAL 



recursos pelo lado da lamilia, li/cra-sc suc- 
cessivamentc lacaio, soldado, serralheiro, co- 
zinheiro, etc. Kra homem de pouco va- 
lor imellcctual c moral, espirito sombrio, 
descontente, c um pouco desequilibrado. Ti- 
nha já estado preso na Bastilha por injurias 
contra o governo, e d'alli sairá mais descon- 
tente, mais violento, com o coração ulcera- 
do e nas disposições de qualquer teniativa 
contra quem quer que fosse. 

Foram os jesuítas que o impelliram a ten- 
tar contra o rei I Assim se disse então, as- 
sim o clamaram todos ; e se não foram elles 
que .secretamente o impelliram ao crime, io- 
ram elles os designados pela opinião publi- 
ca como cúmplices e excitadores do crimi- 
noso. 

Ha um facto, occorrido durante o julga- 
mento, que deu muito que pensar então, e 
que até hoje ainda não foi sufflcientemente 
esclarecido. Quando o parlamento tomou 
conhecimento da causa, Luiz XV evitou que 
uns poucos de juizes tomassem assento no 
tribunal, conservando os presos em suas ca- 
sas, com guardas á porta. Isto deu pretexto 
a que se julgasse que a camará plena, para 
obedecer a ordens vindas de cima, não ti- 
nha querido fazer cair a responsabilidade do 
crime de Damiens sobre cúmplices que se 
desejava poupar, justamente por .serem ini- 
migos do parlamento. 

A 26 de março, preparado já o processo 
Damiens, compareceu este perante a camara- 
plena; não sendo permittido assistir aos de 
bates senão os magistrados, os príncipes de 
sangue, os pares, os fidalgos da casa real, 
os officiaes do tribunal, e alguns raros pro- 
tegidos. 

Damiens mostrou, diz-se. durante a au- 
diência uma coragem extraordinária e uma 
alegria quasi insolente. .Sustentou .sempre 
que fora a religião que o levara a ferir o rei, 
que nunca tivera tenção de o matar. Uma 
das testemunhas declarou que ouvira dizer 
ao reu, quando preso : «que se tifexse jd car- 
iado o pescoço a quatro ou cinco ímpios^ ellc 
não leria lenlado coiilra o rei.» 

Nos soffrimentos horríveis das torturas or- 
dinárias e e.\traordinarias, quando as cunhas 
de ferro ihe tinham já esmagado os ossos 
dos joelhos, confessou que tinha ouvido di- 



zer a um lai Ferriéres, criado dum irmão 
dum conselheiro do parlamento, na presen- 
ça de seu amo, «que não se acabaria de vez 
com as que.stões religiosas da epocha, em- 
quanto o rei vivesse, e que seria uma obra 
meritória matal-o». 

Foi condemnado aos supplicios que já rela- 
tamos por mais duma vez, mas que n'estaoc- 
casião assumiram um caracter mais selva- 
gem do que das outras vezes, o que demons- 
trou que um século andado na vida da hu- 
manidade em nada tinha influído na forma 
da penalidade. 

Vamos descrever esses supplicios, para 
com essa descripção evidenciarmos que Vol- 
taire melhor teria feito em .se calar, quando 
criticou o supplicio dos Tavoras. A nação 
que supplicia Damiens, não pode accusar 
quem quer que seja de selvagem. 

Damiens foi posto a nu. Os ajudantes do 
carrasco ligaram-o fortemente a um poste 
por. meio de correntes e argolas de ferro. 
Be.suntaram-lhe a mão direita com enxofre 
e outras matérias inflammaveis, e depois 
fizeram-lhe extender esta mão, que segurava 
uma faca, sobre um brazeiro ardente. O en- 
xofre e o pez incendiaram-se logo, e ouviu-se 
o tisnar das carnes do desgraçado. Damiens 
não soltou um grito; e quando a mão ficou 
queimada até o punho, olhou com uma es- 
pécie de curiosidade para o coto negro aver- 
melhado, que lhe terminava o braço. Era 
este o primeiro acto da tragedia. 

A um signal do carrasco, os seus ajudan- 
tes agarraram em grandes tenazes em braza 
e com ellas começaram a arrancar pedaços 
de carne de todo o corpo do infeliz, que se 
conservava calado, sem dar um gemido. Mas 
quando o carra.sco, avançando por sua vez, 
com uma colher de ferro na mão, na qual 
levava chumbo e resina derretidos, e lh'os 
lançou nas chagas vivas e sangrando, ouvi- 
ram-se por llm iii-i^os terríveis, que parecia 
fazerem .sorrir os carrascos, -a quem a im- 
passibilidade do paciente tinha exa.sperado, 
e magoado no seu orgulho de feras. 

Desamarraram Damiens, e deixaram-n'o 
descançar, ou respirar, segundo a expressão 
do algoz. Entretanto approximaram-se qua- 
tro cavallos, montados por quatro palafre 
nciros, e aos arreios de cada um ligaram 



DOS jesuítas 



2l5 



c.ida uin dos braços c pernas do criminoso. 
Os cavalleiros fustigaram os cavallos, che- 
garam-lhe com força as esporas, e os ani- 
maes arrancaram com impcto, cada um para 
seu lado. Deslocavam-se as articulações, ex- 
tendiam-se os músculos, os ossos estalavam 
horrivelmente, mas os membros não se se- 
paravam do corpo, e ao fim de três quartos 



cadáver foram lançados e consumidos num 
fogueira. 

E a multidão applaudia com delírio o sap- 
plicio, e no momento em que os carrascos S2 
serviam do bisturi para terminarem aquella 
horrível lucta entre os cavallos e o paciente, 
uma bella dama, de pé, na varanda duma 
janella que dominava a praça, e donde podia 




Cari:aiura acerca la tuUa » Unigenitus» 
(Publicação ãa epochaj 



dhora deste supplicio, os cavallos achavam- 
se extenuados, e Damiens vivol Então o al- 
goz desceu e cortou os principaes múscu- 
los, os cavallos esporeados fizeram um es- 
forço desesperado, e três delles partiram a 
galope doido arrastando um um braço, e 
cada um dos outros uma perna. IJm dos aju- 
dantes do carrasco, cortando a outra perna 
do desgraçado permíttiu que o ultimo ca- 
vallo, arrastando-o, fosse ao encontro dos 
seus companheiros I 

Então, juntos os membros dispersos do 



gosar o espectáculo á sua vontade, deixou 
escapar, com um grito de dó e de terror, 
esta memorável phrase: 



«Pobres cai-allos! 
sofrido.» 



. como c7/c'.s- i.ici\';ii ler 



Com certeza era confessada dos jesuítas. 

Disse-se n'essa occasião, que Damiens tinha 
feito declarações, mas que por ordem do rei 
foram supprimídas ou truncadas. O certo é 
que, nessa epocha, cinco jesuítas de Paris. 



240 



HISTORIA GERAL 



sairam furtivamente do seu coUeiíio, diiigi- 
ram-se a toda a pressa para a barreira do 
Throno. onde os esperava uma berlinda pu- 
xada por excellentes cavallos de posta, na 
qual ganharam a fronteira de França mais 
próxima emquantci que um delles dava en- 
trada na Bastilha I 

Mais se verificou que Damiens fora du- 
rante muito tempo pensionista dos jesuítas 
em Bethune. que tinha servido como criado 
no collegio de Paris, e que, contradictoria- 
mcnte com as suas declarações, o padre La 



Tour, jesuita, era o seu confessor; e o padre 
Deiaunay, jesuita também, lhe tinha presta- 
do vários auxílios, por vezes. 

Convém dizer que, quando o despiram, 
lhe encontraram uma importante somma de 
iulzes em oiro. 

Esperava Luiz XV melhor occaslão e en- 
sejo para se declarar abertamente contra a 
S. J. ? 

Se assim foi, ella se apressou em lh'a dar. 
com a famosa failencia do padre Lava- 
iettc. 



DOS JESUn AS 



247 



XLI 



A bancarrota do P.' Lavalette 



LAVAi.ETTf, destinado a dar o golpe de 
misericórdia na S. J. em França, no sé- 
culo xvni, foi o Francisco Xavier do nego- 
cio e das especulações gigantescas. Em 1748 
fora enviado para as missões da Martinica, 
como parocho da freguezia de Corbet ', pe- 
quena parochia a três léguas da cidade de 
S. Pedro. Era um homem emprehendedor, 
intelligente, bastante illustradOT activo e so- 
bretudo ambicioso de reputação. Em 1748 
foi nomeado superior, da casa que a compa- 
nhia tinha na ilha, e pouco tempo depois 
procurador geral das missões das ilhas do 
Vento. Progresso e.xtraordinario, incrivel,mas 
natural. Lavalette tinha estabelecido na Mar- 
tinica uma casa commercial e bancaria, que 
havia conseguido atrair a si todos es capi- 
tães da colónia, tornando-se o centro exclusi- 
vo de todos os negócios e de todos os pro- 
ductos indígenas*. Os seus navios sulcavam 



' António La\alette ou La Valette, que de ambas 
as formas corre na historia, estava então no vigor da 
cdade, porque tinha nascido em 1707. 

' As operações bancarias e commerciaes do pa- 
dre Lavalette eram geralmente assim. O dinheiro das 
colónias francesas era o que chamamos moeda fraca 
isto é valia um terço menos em relação á moeda da 
metrópole. Um negociante da Martinica levava ao re- 
verendo banqueiro, por exemplo, 10:000 francos que 
queria mandar para Marselha, e pelos quaes o padre 
Lavalette lhe dava uma lettra de igual quantia, saca- 
da sobre os irmãos Lionci, seus correspondentes, a 
dois e até a dois amos e meio de praso. Por este 
meio o colono não perdia senão 1 :00o francos, na 
supposição de ter o dinheiro a juro de 5 0|0 ; muitas 
vezes, porém, não perdia nada, porque ;i letra era re- 
cebida como dinheiro corrente, emquanto que man- 



o Occamj em lodos os sentidos, e os mais 
sólidos bancos da Europa se punham, por 
impulso próprio, ás ordens do feliz especu- 
lador. O seu commercio avaliava-se em mi- 
lhões de francos. Com os bcneficios realisa- 
dos tinha conseguido comprar grandes ter- 
renos na bahia de S. Domingos, que mediam 
perto de vinte kilometros dextensão por 
cinco de fundo ; e para cuhivar as suas pro- 
priedades ruraes tinha comprado em vários 
mercados quinhentos negros escravos. La- 
valette era pois um precioso banqueiro, cu- 
jo zelo era de justiça que fosse largamente 
recompensado; e as honras com que a S. 
J. o tinha distinguido não eram mais do que 
um legitimo pagamento. 

Comtudo, esta pro.spendadc devia desfa- 
zer-se por si própria e a queda seria 
tanto mais pesada quanto maior era a altura 
de que elle ia despenhar-se. 



dando o dinheiro directamente para França perdia 
3 :00o francos. O padre Lavalette, porém, em vez de 
enviar o dinheiro para Marselha, ficava com elle 
comprava géneros coloniaes, como assucar, café, etc. 
que expedia para Amsterdani, Lisboa ou Marselha. 
Vendidos estes, entrava-lhe nos cofres a scmma in- 
tegral de 10:000 francos. Então faria comprar peças 
d'ouro em Portugal, a preço de 41 francos, que ven- 
dia na Martinica a ôG ; realisando logo um beneficio 
de 3 :00o francos. Ora, como bastavam cinco mezes 
para uma operação d'este género, podia recomeçai- a 
quatro ou cinco vezes, pelo menos, até á data do 
vencimento. Portanto todas as vezes que o padre La- 
valette passava, por conta alheia io:coo francos para 
:i Europa, realisava com a operação nad.n menos de 
ij:ooo de lucros Confessemos que era um lindo 
desconto. 



24- 



HJSTORIA GERAL 



Lavalcite tinha dois correspondentes espc- 
ciacs cm Marselha, armadores e banqueiros, 
os irmãos Lionci. Estes consignavam a La- 
valctte navios carregados de mercadorias cu- 
ropets, c o jesuíta rcenviavalhos com géne- 
ros coloniaes. Especulação ordinária ; bcne- 
licios espantosos. 

Cego pela sua prosperidade milagrosa, o 
jcsuita não via no horizonte um ponto negro 
ijue ia engrossando : a França e a Inglaterra 
começavam a desentenderem-se e repentina- 
mente rebentou a guerra, depois conhecida 
pela dos sele aiiiios. Os corsários ingleses 
encontraram nas suas correrias os navios de 
Lavalette, os quaes em vez de chegarem a 
Marselha, subiam o Tamisa a reboque dos 
seus captores. 

Os irmãos Lionci, em face da iallencia, 
visto que SC achavam a descoberto de perto 
de dois milhões de francos, foram ter com 
o padre Sacy, correspondente de Lavalette 
em Paris, para obterem um á conta imme- 
iliato de 5oo:ooo francos, a fim de fazerem face 
aos compromissos mais urgentes. No fim de 
liilaçõcs e evasivas sem conto, o jesuíta 
acabou por declarar que a S. .1. não podia 
fazer nada. 

- — Mas nesse caso não somos nós sós os 
perdidos, é a multidão dos correspondentes, 
que estão ligados comnosco que ficarão 
ep.ualmcnte desgraçados I 

— Pois que se desgracem, respondeu o je- 
suíta ; nós nada podemos fazer I 

A" vista de tal resposta, os Lionci eiitre- 
gai"am-se ao tribunal. 

C) seu banco tinha uma enormidade de 
lettras sacadas ou acceítcs por Lavalette, e 
os cônsules de Marselha, pronunciando a fal- 
lencia, condemnavam este. 

Naturalmente o jesuíta tinha desappareci- 
do. 

Os credores furiosos recorreram ao ge- 
rai, evidentemente responsável das conse- 
quências dos actos, que um membro da 
compa;ihia não podia levar a etíeito sem a 
sua auctorisação e liscalisação. O padre 
Ricci embrulhou-se hypocritamente na capa 
de Job, e, como Pilatos, lavou as mãos de 
todo aii.ielle negocio. 

O processo foi levado ao parlamento de 
Paris; c desta vez assumia uma alta gravi- 



dade, pela própria gravidade do tribunal. O 
parlamento imitou os juizes de Marselha, e 
declarou a S. J. solidaria das dividas de La- 
valette. A alegria foi enorme e geral cm to- 
da a França. Os jesuítas eram devedores de 
três milhões de francos '. 

«A sentença, diz Voltaire, foi recebida com 
applausos c palmas intermináveis pelo pu- 
blico. Alguns jesuítas, que tinham tido o 
atrevimento ou a simplicidade d'assistírem á 
audiência, foram apupados pela multidão. A 
alegria foi tão universal como o ódio. . . » 

A ordem tinha perdido a cabeça — não ad- 
mira, roubavam-lhe a alma — o seu oiro, — 
e no meio dos debates tínha-se defendido 
com as suas Constituições. 

«Se as vossas constituições vos defendem 
respondera o presidente, apresentai- as I 

Falta imperdoável I E, essas famosas con- 
stituições foram então, pela primeira vez cm 
França, entregues á grande luz da publici- 
dade, e aterraram toda a gente pelo espirito 
absolutamente subversivo em que eram con- 
cebidas. A S. J. tinha dado armas con- 
tra si. O relatório do abbade Chamelín, 
membro do parlamento, documento que con- 
tinha um quadro completo do jesuitismo, 
decidiu o tribunal pronunciar uma sentença 
provisória, em i8 d'abril de 1761, pela qual 
supprímía oitenta collegios da companhia de 
.Icsus, e a dar a sentença definitiva cm agos- 
to de 17Õ2, cujos príncipacs tópicos são os 
. seguintes : 

«Declara os ditos chamados jesuítas in- 
admissíveis, mesmo a titulo de sociedade 
c collegío; feito isto, ordena que com o dito 
instituto a dita sociedade e collegío serão e 
ficarão banidas de França irrevogavelmente, 
e que nunca poderaoser readmittidos seja 
qual for o pretexto, denominação ou for- 
ma... O mesmo tribunal determina muito 
expressamente que ninguém possa propor, 
solicitar ou pedir em tempo algum ou em 
qualquer occasião o chamamento ãos ditos 



' Quando esta sentença foi pronunciada, as famo- 
sas constituições da S. J. acabavam de ser publicadas 
em Praga ; e foi com ellds em mão que os advogados 
dos credores do padre Lavalette provaram a solida- 
riedade que existia entre todas as casas jesuíticas; e 
que sendo a sociedade um todo indivisível só o seu 
chefe era apto a possuir em nome da ordem toda. 



DOS jesuítas 



249 




32 



2Í>0 



HISTORIA GERAI. 



iiislitu/ii c socicJaJc, sob pena para aquoUcs 
que tiverem feito as ditas propostas, oii que 
a ellas tenham assistido ou adherido, de se- 
rem considerados como conniventes no esta- 
belecimento duma auctoridade opposta ú do 
rei, e até como favorecendo a doutrina do 
rcgicidio constante c perseverantemente sus- 
tentado na dita sociedade 

A sentença do parlamento de Paris com- 
pletava a sua obra, prohibindo aos súbditos 
do rei de frequentarem os collegios, seminá- 
rios, retiros, casas, congregações, pensões, 
escolas da sociedade; intimava aos jesuitas a 
ordem de despejarem todas as casas, colle- 
gios, seminários, noviciados, residências, ca- 
sas professas ou de exercicios e geralmente 
todos os estabelecimentos, qualquer que fos- 
se a sua denominação, permittindolhes, po- 
rém, que se pudessem retirar para qualquer 
localidade do reino que lhes aprouvesse, e 
ahi residirem sob a auctoridade dos ordiná- 



rios, sem que lhes fosse permittido viver em 
commum, reconhecer a auctoridade do seu 
geral, e usarem a roupeta da S. ,1. Era cgual- 
mcnte prohibido aos jesuitas poderem pos- 
suir qualquerbeneticio, canonicamente, cadei- 
ra ou outro qualquer emprego a cargo d'almas 
ou municipal, salvo se se prestassem a lazer 
um juramento, cuja formula seria redigida 
por uma sentença do parlamento, que con- 
cedia aos jesuitas, se elles a requeressem, 
uma pensão alimentícia strictamente neces- 
sária. 

Em novembro de i 7<Í4, o duque de Choi- 
seul fez com que o rei assignasse um edito 
pelo qual a sociedade de Jesus deixava de 
existir em Franca '. 



. ' Quíindo tratarmos da extincção Jos jesuitas cm 
Portugal, nos occuparemos largamente do modo e 
maneira como tal extincção foi conseguida (l'um dos 
mais dignos entre os dignos pontífices da Egreja ro- 
mana, o papa (Clemente XIV. 



DOS jesuítas 



25l 



XLII 



Os jesuítas na Suécia 



JA n"um outro capitulo ' tivemos occasião, 
por incidente, de nos referirmos aos je- 
suitas na Suécia. Completaremos, agora, em- 
bora o mais rapidamente que nos seja possí- 
vel, a historia d'esta gente n'aquellas regiões, 
onde eram pouco de molde as tendências, 
aspirações e inHuencia jesuíticas. 

F^oi instigado por sua mulher, ardente ca- 
tholica, que João III da Suécia - encetou 
negociações com Roma para reatar as rela- 
ções religiosas do seu povo com a Santa Sé. 
O jesuíta Stanislau Warcewicz chegou clan- 
destinamente a Stockholm em 1 574, e con- 
quistou completamente o rei. Depois da sua 
partida, João III introdusiu uma lithurgia ca- 
tholico-romana, e tomou outras medidas con- 
forme o seu plano. Dois mezes depois, che- 
garam o jes jita Lourenço Nicolaí, norueguês 
de nascimento, c um padre secular, Fe}!, 
belga. O primeiro foi nomeado pelo rei pro- 
fessor d"uma faculdade de theologia, nova- 



' Vide Cresce a onda. 

' A Reforma foi conhecida na Suécia desde iSig 
graças a Olaus Petri (i552), discípulo de Luthero e 
fervente admirador das suas idéas. Mas foi preciso 
o curso de duas gerações para que ficasse consoli- 
dada. Gustavo Wasa serviu-se d'ella como um dos 
mais poderosos instrumentos para a sua obra de re- 
construcção politica, e depois da dieta de Vesteras, 
os bens da Egreja, o seu poder politico e a sua su- 
prema auctorldade paísaram .is mãos do rei, de tal 
sorte que por pouco a Egreja quasi foi uma institui- 
ção do Estado. Entretanto, graças á traducção da 
Bíblia em Sueco, o Evangelho penetrou no povo e 
operou a sua íntluencia sobre as consciências. Sobre- 
veiu depois uma reacção em favor do catholicismo 
no reinado do semí-catholico loão III, e no do catho- 



mente fundada em Stockholm, e os pastores 
protestantes da capital e os estudantes de 
theologia sem excepção foram obrigados a 
assistirem aos cursos do jesuita. Nicolaí não 
declarou o segredo da confissão a que per- 
tencia, mas tratou de refutar os reformado- 
res com as suas próprias obras. O rei .sus- 
tentou este jogo e estas intrigas, e por meio 
d'ellas conseguiu algumas conversões. A fim 
de formar collaboradores, Nicolaí enviou 
seis dos seus discípulos mais distinctos a 
Roma, onde se deviam formar no collegio 
allemão daquella cidade. A mascara caiu 
então, e não foi já fácil domar a opposição 
que começou a manifestar-se entre os theo- 
logos protestantes. O rei João fez submet- 
ter á Santa Sé uma serie de desiderala, 
que precisavam ser attendidas, para que a 
obra da conversão da Suécia podesse ser 
um facto consumado. Os mais importantes 
d'estes desejos eram : a supressão do celi- 



lico puro Sigismundo ; mas esta reacção só deu como 
resultado o tríumpho completo do protestantismo, 
sob o impulso do duque Carlos (o Carlos IX da his- 
toria). Pelo synodo dTpsala (líqS) o clero e o povo 
da Suécia adheriram como um só homem ao luthe- 
ranismo. D'estas luctas, o povo sueco saiu com um 
ardor e um enthusiasmo juvenis pelo Evangelho de 
Jesus, e foi esta fé ardente que lhe deu, apesar da 
sua fraqueza numérica e da sua pobreza, a força de 
vencer, sob Guatavo-.^dolpho, a potente liga da re- 
acção ciitholica, de defender a obra de l.uthero na 
própria pátria de Luthero, e de salvar o mais pre- 
cioso bem da humanidade ; empresa esta que pode 
egualar-se aos mais altos feitos das mais celebres 
historias. (La Suêde, son Peuple et son Industrie. Sto- 
ckholm, lijOO). 



ibj 



HISTORIA GERAL 



bato. a communhão sob as duas espécies, c 
a celebração do culto em linijua nacional. 

Em 1S77. o papa mandou o jesuita An- 
tónio Possevino c dois outros membros da 
ordem a Stockholm, para desfazerem os últi- 
mos escrúpulos do rei. Possevino impressio- 
nou este profundamente, ameaçando-o com 
a condemnação eterna, e obrigou-o a decla- 
rar se alto e bom .som, na sua presença, 
membro da Kgreja catholica, e a confiar a 
educação e a instrução de seu filho, herdeiro 
da coroa, aos jesuítas. Só então, o manhoso 
jesuita é que lhe confessou que o papa 
nunca poderia consentir num certo numero 
de coisas pedidas pelo rei; mas, compromet- 
tia-se a voltar immediatamente para Roma. 
a fim de fazer tudo que fosse possivcl e que 
contribuísse para a salvação do rei e do Ks- 
tado. 

As historias de Possevino tinham produzido 
o desejado effeito no animo do rei; e tanto, 
que este ficou crente que seu pae tinha sido 
condemnado eternamente. Assim, logo que 
o jesuita se despediu d'elle, João chorou 
abundantes lagrimas e exclamou por entre 
soluços: «De boa vontade desejaria cortar 
os dedos dos pés, só para ailívíar meu pae 
dos tormentos que está sotfrendo no infer- 
no.» Dois outros jesuítas substituíram Pos- 
sevino na corte, e ahi continuaram a obra das 
trevas e do domínio das consciências. O pa- 
pa repelliu os pedidos do rei. Possevino, 
voltou em grande pompa, na qualidade de 
vigário apostólico para a Scandinavia, e paí- 
ses visinhos, sem comtudo confessar ao 
rei a decisão do papa, contentando-sc em 
o fortificar nas suas convicções catholicas. 
Alguns mezes, depois da partida do jesuíta 
para a Polónia, João conheceu a recusa do 
papa. Tal recusa tão profundamente o aba- 
lou que declarou não querer dar mais um 
passo pela conversão do reino. 

Possevino foi de novo encarregado de en- 
direitar o negocio «pelos seus talentos e com 
a sua habilidade,» e de fazer acceilar ao rei 
a resposta de Roma. O jesuíta encarregou- 
se d'esta ditlicil missão. Começou por enviar 
ao rei uma carta de Filíppe II, recheada de 
lisonjas e elogios acerca da sua conversão 
á Egreja romana, incítando-o a restaurar o 
catholicismo na Suécia, para o que lhe offe- 



recia um soccorro immediato de 200:000 ;[t'- 
cJiíiios. Taes demonstrações apaziguaram o 
rei, que recebeu o jesuita com distíncção; 
mas este não conseguiu dar-lhe uma impres- 
são duradoira. A recusa de Roma magoava 
profundamente o monarcha, que temia que a 
empresa lhe fizesse perder a coroa; e tendo 
dito ao jesuíta, que se o papa conhecesse a 
situação do país, lhe teria concedido o que 
elle pedia, Possevino lhe respondeu: «O Es- 
pírito Santo que dirige a Egreja e inspira a al- 
ma do papa. sabe disso mais que nós todos.» 
Finalmente recorreu á pressão moral, e amea- 
çou o rei com 05 castigos do céu. O rei 
ficou firme, contínou a favorecer os catho- 
lícos, sem comtudo renunciar aos seus pro- 
jectos, mas foi recuando a pouco e pouco 
em presença da opposíção protestante sus- 
tentada por seu irmão Carlos, duque de Su- 
dcrmanland. Apoz um levantamento contra 
os jesuítas de Stockholm, o rei prohibíu ao 
padre Nícolai o exercício das suas funcções, 
e substítuiu-o por um lutherano animado de 
disposições conciliadoras para com o catho- 
licismo. Nícolai deixou a Suécia com a maior 
parte dos seus discípulos; dois somente d'en- 
tre elles ficaram a pedido do rei, com o en- 
cargo de celebrarem o culto na capella real, 
e de dirigirem a educação catholica dos seus 
(ilhos. 

Em i582, por morte da rainha Joanna, o 
rei desposou uma prínceza lutherana. L'm 
dos jesuítas retirou-se d'Stockholm; e o rei 
entregou a faculdade de theología aos pro- 
testantes. 

Km 1S87, o herdeiro do throno, Sigis- 
mundo, tinha sido eleito rei da Polónia. Por 
morte do rei João, acontecida em 1692, o 
duque Carlos ficou encarregado da regên- 
cia. Então reuniu em Upsala um concilio 
nacional que afastou a lithurgia de' seu ir- 
mão e tomou a peito repor no antigo vigor a 
confissão d'Augsburgo. Quando Sigismundo 
veiu para occupar o throno com um accom- 
panhamento de jesuítas, os Estados do reino 
puseram-lhe condições que representavam a 
extirpação do catholicismo. Sigismundo ce- 
deu com alguma hesitação. Seu tio, depois 
de lhe ter infligido uma derrota militar em 
Stangebro, fez com que o Reíschstag o obri- 
gasse a sair da Egreja catholica e a gover- 



DOS JESUÍTAS 



253 



nar os seus estados em pessoa, ou de man- 2,av as suas duvidas philosophicas, se refu- 

dar seu lilho para a Suécia, no praso de giou sob a auctoridade da Egreja romana, 

cinco mezcs, e a fazel-o educar na religião os jesuitas voltaram de novo, mas, felizmen- 

nacional. te para a Suécia, por pouco tempo. 




jesuítas sacrificandc ao diabo 
(J/iima eelaiiipa do eeoilo xviii 



Sigismundo, absolutamente dominado pe- 
los jesuitas, repelliu esta intimação, e o thro- 
no passou a mãos mais dignas na pessoa 
de seu tio Carlos IX. 

No reinado de Christina, i.]ue, para soce- 



Na Dinamarca c Noruega naufragaram 
por completo os trabalhos dos jesuitas, pro- 
vando assim estes dois povos quanto pre- 
savam a dignidade nacional e a honra das 
suas mulheres c lilhas. 



2S4 



HISTORIA GERAL 



XLIII 



Pobre Polónia! 



EJ a exclamação que geralmente se ouve 
quando se trata d"esta infeliz nação ; e 
comtudo ella tem a sorte que merece pela 
acquiescencia que sempre mostrou aos jesuí- 
tas, sem querer ver que foram elles a causa 
de todas as suas desgraças. 

A Polónia tinha sentido a influencia da Re- 
forma ; o espirito evangélico ia lavrando no 
país, a liberdade de consciência accentua- 
va-se. Era preciso destruir complectamente 
esta bella obra e o cardeal Hoius encarre- 
gou-se disso chamando os jesuítas, dando- 
Ihes um collegio em Braunsberg e enchen- 
do-os de fa\ores. Comtudo, aqui como em 
toda a parte, sentiram a repulsão geral, que 
provoca sempre a vista d"um reptil, e só 
muitos annos depois é que conseguiram do- 
minar como triumphadores, graças aos col- 
legio'1 nos quaes, educando os filhos das pri- 
meiras famílias, nelles torciam e deforma- 
vam os espíritos, privando-os de todos os sen- 
timentos d'altivez e independência. 

Estevam Bathor\' de Siebenburgen, domi- 
nado pelos jesuítas, sustentou-os por todos os 
meios ao seu alcance. Fundou para elles a 
sua principal fortaleza, a universidade de 
Wilna, no meio d'uma população pertencen- 
te á fé protestante ou á egreja grega; deu- 
Ihes collegios nos países protestantes da 
Livonia, em Riga e em Dorpat, a despeito 
da aversão que tal gente ahi suscitava, e que 
por varias veses se manifestou, nas primei- 
ras cidades, por ataques dirigidos contra as 
suas pessoas. Estevam Bathor\- levou seu ir- 
mão Christovam, príncipe reinante de Sie- 



benburgen a admittir os jesuítas nos seus 
estados. 

Ahi, mal chegados, emprehenderam uma 
propaganda coroada de bons resultados; mas 
em i588, a requerimento dos povos, que se 
queixavam das suas intrigas, das desordens, 
perigos e inquietações que os santos homens 
causavam, foram obrigados a sair de Sieben- 
burgen. 

Sigismundo, que succedeu a Estevam, foi 
um fantoche nas mãos dos filhos de Loyola. 
Afastaram do seu conselho todos os patrio- 
tas, fizeram com que os assumptos clencaes 
tomassem o passo aos negócios públicos, e 
dominaram o pais durante quarenta e cinco 
annos que tantos durou o seu infausto reina- 
do. O empenho dos jesuítas era fazer com 
que os cossacos, que seguiam a religião gre- 
ga, passassem para o ritual romano, e assim 
alheavam da coroa as sympathias d'essas 
hordas que, no anterior reinado, tinham for- 
necido um grande exercito á Polónia. A 
maior parte das receitas publicas eram da- 
das aos padres, faltando para as mais ur- 
gentes necessidades da nação; em i585 as 
coisas tinham chegado a tal estado que não 
foi possível organisar uma expedição para 
trazer a Moldávia e a ^'alachia á dependên- 
cia da Polónia! As fronteiras do reino (iça- 
ram abertas aos ataques dos tártaros e dou- 
tros povos. Em compensação, o clero con- 
tava 40:000 membros e possuia 160:000 pro- 
priedades; os jesuítas espalhados no pais 
eram já cni numero de 2:000, e dirigiam 
cincoenta magníficos collegios. Em 1G27, a 



DOS JESUÍTAS 



255 



urdem linha na Poli>nia iim rcnJimcnto an- 
nual de 400:000 Horins, somma enorme para 
aquella epocha. A sua rapacidade era tal, 
que o rei João Sobieschi se viu na necessi- 
dade de fazer, em 1679, serias representa- 
ções n"esse sentido ao geral da companhia. 
Kntretanto um espinho existia cravado no 
coração dos jesuítas: a universidade de Cra- 
cóvia recusava recebel-os no seu seio e, com- 
posta de homens de bem, nem sequer dese- 
java ter com elles relações pessoaes. 

Por meio de mil astúcias, e com a com- 
pleta ausência de escrúpulos, já tinham con- 
seguido fundar na capital uma casa professa, 
um noviciado e um coUegio. Como a univer- 
sidade se recusava a acolhel-os sob qualquer 
pretexto, resolveram impor-se pelos conhe- 
cidos meios theatraes. Eternos comediantes 
sem crenças religiosas, sem noção alguma 
da probidade social, imaginaram forçar a 
mão aos universitários com uma parodia 
dactos públicos de philosophia e theologia, 
realisados no seu collegio por occasião da 
festa de Ignacio de Lovola.' Para esta come- 
dia, que se devia seguir a um jantar succo- 
Icnto e bem regado com os capitosos vinhos 
da Hungria, foram convidadas as notabili- 
dades da cidade e o corpo docente da uni- 
versidade. Este, porém, em vez de se dei- 
xar cair na rede, protestou contra a come- 
dia, e reclamou contra ella perante o rei e 
o pontífice. Mas não foi só a universidade 
que recusou o convite. Todas as ordens re- 
ligiosas, á excepção dos franciscanos, o re- 
geitaram, e para que a regeição geral tives- 
í se um caracter de protesto, tempos depois, 
: festejando os carmelitas descalços a canoni- 
zação de Santa Thereza de Jesus, todos que 
tinham deixado de assistir ás festas jeiuiti- 
cas concorreram a esta otficialmente. 

Os jesuítas, porém, alcançaram do rei, 
apesar duma revolta da população, um res- 
cripto que lhes pcrmittia abrirem escolas. 
Para o conseguirem tinham feito crer ao 
príncipe que a universidade era rebelde ás 
suas ordens; emquanco, por outro lado, tra- 
tavam de attírmar aos Estados, que elles je- 
^uitas estavam do melhor accordo com a uni- 
versidade. 

O rei, persuadido por esta gente de que a 
academia da capital estava revoltada, tinha 



feito marchar a tropa contra ella, ás ordens 
dos jesuítas. Estes padres fizeram correr por 
mais d'uma i'c\ o sangue dos iiinocenles. Xa 
cidade correu elle a Jorros. F. emqiianto que 
estes religiosos uao eslai'am saciados da car- 
ni/icina, o braço dos bai-baros. que tinham 
chamado para exercerem estas crueldades, 
fá caiiçafam, e os próprios soldados, compa- 
decidos das riclitnas, acabaram por se recu- 
sarem a matar mais getite '. 

A' vista de tanta infâmia, de tantas vidas 
sacrificadas ao capricho d'uma seita, que não 
se recommendava por qualidade alguma mo- 
ral ou social n'aquella nação, um grito de 
horror se elevou em toda a Polónia, e nos 
Estados que se reuniram em \'arsovia, a 4 
de março de 1626, foi decretado que os je- 
suítas fechassem as suas escolas de Cracó- 
via, e que cessassem de aggredir a universi- 
dade. Mas o appoio do rei fez com que os 
jesuítas dilatassem o seu acto dobediencia aos 
Estados até i534. 

Ainda no reinado de Sigismundo, os je- 
suítas, apoiados pela cúria romana, fizeram 
com que este rei reconhecesse o falso Dmi- 
tri ^ por príncipe legitimo da Rússia e a sus- 
tentar taes pretenções á mão armada. Os je- 
suítas esperavam, com o auxilio d"este aven- 
tureiro, estabelecer-se definitivamente ia Rús- 
sia, e não conseguiram senão estimular as 
hostilidades entre as duas nações e fazerem 
derramar mais sangue. 

As mesmas influencias determinaram o 
rei a pòr-se ao serviço da Áustria , e a de- 
fender os interesses d"esta nação contra os 
da Polónia. Contra os bohemios enviou os 



' Cf, Lilterae Acadeiniae Cracovie sis ad Acade- 
miam Lovaniensiem igjulii lúij. Esta carta encon- 
tra-se no Alercure Jésiittique, T. 2. p. 3i8e seguintes. 
Merece ser lida de principio a fim. Delia apenas da- 
mos o resumo e os principaes tópicos. 

2 Aventureiros que se faziam passar pelo filho de 
Ivan IV, o Terrível mandado assassinar, aos sete an- 
nos, por Boris Godunof usurpador do throno da Rús- 
sia. O Dmitri dos jesuítas parece ter sido um d'esses 
membros da pequena .lobreza da Rússia de Oeste 
(s^lacta) reduzida a servir nas grandes casas. Nunca 
se soube o seu verdadeiro nome. Ainda ultimamente 
os jesuítas publicaram uma obra em 3 vol. na qual 
pretendem, com documentos, que elles dizem au- 
thenticos, provar os serviços que, por occasião d'esta 
enorme burla, fizeram á Rússia. 



ibG 



HISTORIA GERAL 



cossacos cm auxilio do imperador austríaco; 
mandou egualmentc reforços á Hungria, e 
arrastou assim o pais a uma i>uerra desas- 
trosa contra o sultão. 

Na politica interior Ibi et^ualmcntc inspi- 
rado pelos jcsuitas, e Muzkowski, historiador 
contemporâneo, diz, com razão: «Tudo o que 
nestes últimos annos se tem feito de mal em 
a nossa pátria, deve ser imputado aos jesuí- 
tas.» 

Quando Sigisinundi» morreu (ii)33) o pais, 
cuja cultura e a sciencía, o commercio e a in- 
dustria, tinham sido florescentes, estava ar- 
ruinado. 

A Livonia. acÍKu a se perdida para sempre; 
uma parte da Polónia prussiana encontrava-se 
em poder da Suécia; o thcsouro exhausto; a 
litteratura em decadência. 

Os jesuítas tinham introduzido o gosto do 
panegyrico, da lizonja servil, as expressões da 
língua nacional foram lardeadas de macarro- 
nismos, e pouco a pouco, sob a sua influencia 
a beila língua de Kochanowski c de Skarg se 
foi alterando para dar iogar a um míxtiforío 
bizarro. 

A Sigismundo succedeu I^adislau ( it)3i- 
1648J que, indignado com a interferência dos 
jesuítas nos negócios políticos, os afastou da 
corte, e procurou tírar-lhes a educação da 
mocidade, mas não conseguiu anniquílar-lhcs 
o poderio. Seu irmão, João Cazímiro, que lhe 
succedeu no throno, era jesuita e cardeal. 
O poder que os loyolenses tinham conser- 
vado na Polónia, mostrou-se, quando em : "'24 



a população atacou o seu collegio de Thorn, 
e elles fizeram abafar a desordem em ondas 
de sangue derramado ás suas ordens. 

O jesuita Possevino, que já vimos mano- 
brando traiçoeira e velhacamente na Suécia, 
aqui o encontramos representando um gran- 
de papel. Por seus exforços, uma parte 
do ritual e da orthodoxia grega da Lithuania 
passaram a ser romanos. Os jesuítas para 
isso fundaram collegios, traduziram os livros 
litúrgicos em língua nacional, edificaram con- 
ventos, e fizeram tantos milagres, que no 
correr do século xvii foram canonizados tan- 
tos santos na Líthuanía, como não tinham 
sido em todos os séculos anteriores ! 

Comtudo o baixo clero e o povo ficaram 
fieis á religião grega, e portanto sentiram logo 
a força dattracção da Rússia, onde domina- 
va a egreja a que elles pertenciam. Foi, 
pois, para a Rússia que os partidários da 
egreja grega voltaram os seus olhos, e a 
Rússia não tardou em intervir nos negócios 
polacos, na intenção de proteger os seus cor- 
religionários. Os dissidentes do reino excluí- 
dos, em 1733, das funcções publicas e do 
Reíchstag, lançaram-se nos braços do pode- 
roso império vizinho, para, com o seu au- 
xílio, adquirirem os seus direitos. Km troca 
a nação começou a odial os. Para obterem 
a paz, começaram a desejar a dissolução da 
Polónia, e saudaram-a com alegria em 1772. 

Os jesuítas viam o complemento da sua 
obr;i ! 

/■Y;//.s Puluiu\v ! 



UOS JESUÍTAS 



267 




33 



2 58 



msrORIA GERAL 



XLIV 



Theocratas e autocratas 



QivMio rebentou a guerra entre Ivstevam 
Bathory e Ivan l\' o Jerrirel^ o jesuíta 
Possevino foi encarregado por aquelle de 
negociar a paz. O russo manhoso fez crer 
ao jesuita que tinha tenção de se submetter á 
egreja de Roma, e n'esse sentido Possevino 
concluiu, em i583, um tratado que deteve a 
marcha triumphante dos polacos. Mas Ivan, 
em vez de se submetter, apenas concedeu al- 
guns favores aos catholicos romanos .lo seu 
império. 

Como o czar não consentisse jesuítas na 
jlussia, foi na Lithuania que ellcs estabele- 
ceram o seu ponto estratégico, afim de en- 
trarem e conquistarem influencia na Rússia. 
O seu primeiro cuidado foi de educarem mis- 
sionários russos, e de lhes designarem a sua 
pátria como campo d'acção. E assim pene- 
traram na Urkania, na Podolia, em Nolh}- 
na e na Rússia Branca '. 

Em i6!S4, disfarçados, entraram na Rús- 
sia, na comitiva do embaixador austríaco 
(iirovsky. Sob a protecção d'esta embaixa- 
da celebraram o culto romano em Moscou, 
e conseguiram formar uma pequena colónia 
jesuítica nesta cidade. Abriram uma escola 
para rapazes russos, espalharam registos de 
santinhos, escriptos cdtholicos-romanos em 
língua russa, e não occultavam a sua ínten- 



• l)ava-se o nome de Rússia branca a unu parte 
da Lithuania que comprchcnJia os palatinatos de No- 
vogroJtích, de Minalii, de Minski, de Msciblaw, de 
Wiiepesck e de Polotsko. Passaram para o poder da 
Rússia em 1773 e 17 .3, excepto o primeiro. 



cão de romanísarem a Rússia. (3s numero- 
sos adherentes que obtiveram em Moscou 
fizeram-lhes crer que a empresa seria fácil. 
O seu maior empenho era a conversão das 
mulheres, e era voz publica que as suas re- 
lações com ellas, estavam muito pouco d'ac- 
cordo com a devoção de que faziam gala. 

Os cubículos onde se recolhiam com ellas 
passavam simplesmente por logares infames. 
.\o mesmo tempo eram accusados de servi- 
rem d'agentes e de espiõe.'-- á Áustria, assim 
como a outras potencias catholicas. 

O patriarcha .loaquím, que tinha reconhe- 
cido o perigo que ameaçava a egreja grega, 
a moral da família, e o progresso da socie- 
dade moscovita, trabalhou quanto pôde para 
obter a expulsão dos intrusos em 168S. 

O imperador Leopoldo de Áustria de- 
balde pediu que lhes permittisscm voltar a 
Moscou ; mas o governo russo objectou, que 
tal gente se intromettia nos nCi,ocíos públi- 
cos, e recusou. 

Os jesuitas não se deixaram vencer peia 
expulsão. \'oltaram mascarados de padres se- 
culares ou de religiosos d'outras ordens. Mas 
assim que perceberam que o governo tole- 
rava a sua presença, lançaram a mascara, 
estabeleceram ás descancaras um collegio 
ein Moscou e fizeram numerosos proselytos. 
i'or contemplação para com a corte de ^'ien- 
na o governo tolerou estes attentados. Mas 
quando rebentaram as dissençóes entre as 
duas cortes, Pedro o (ii-aihic expulsou os 
jesuítas em 17 nj. 



UOS JESUn AS 



■ibij 



Durante trinta annos os jesuitas tinham-sc 
estabelecido na Rússia, e por duas vcses ti- 
nham sido expulsos. 

Pedro o Graudc, tendo concedido liberda- 
de de culto aos catholicos, os franciscanos e 
os dominicanos preencheram o logar dos je- 
suitas '. Pela annexação da Rússia liranca, 
em 1772: os jesuitas recairam sob a domi- 
nação russa. Catharina II fez mais do que 
toleral-os, favoreceu-os, mesmo depois da 
suppressão da ordem. Convinha lhe ter em 
casa esses despeitados de todos os governos, 
outros tantos instrumentos insidiosos para 
auxiliarem a sua politica. Alem de que, sob 
o ponto de vista religioso, a protecção dada 
pela mesma soberana aos encyclopedistas c 
a Voltaire, não devia lisonjear muito os ho- 
mens de Loyola. Mas, para estes, a religião 
em si, era coisa de pouca valia. O que elles 
pretendem é a pratica exterior do culto e os 
proventos que daqui resultam. 

A Rússia Branca converteu-se no seu quar- 
tel general. Ahi estabeleceram um novicia- 
do com setenta alumnos. uma rica bibliothe- 
ca e adquiriram propriedades habitadas por 
i3:f>oo servos. 

No reinado do imperador Paulo, e minis- 
tério de Galitzin. chegaram os jesuitas ao 
seu apogeu. 

Entrcgaram-lhes a egreja catholica de S. 
Petersburgo, e elles abriram nesta cidade 
uma escola e um seminário, augmentaram, 
com o consentiiTiento do czar, os seus esta- 
belecimentos, e acabaram por se apodera- 
rem dos destinos da Egreja catholica na 
Rússia, fazendo nomear metropolitano uma 
creatura delles. Reclamaram a intervenção 
da sua ordem nos outros países, como, por 
exemplo na Hispanha. Paulo protege-os, não 
só no seu império, mas airtda íora, quer 
fosse junto do grãoturco, como do summo- 
pontifice. Obteve para elles a auctorisação 
de se reunirem na Rússia e de abrirem es- 
colas em nome da Sociedade de Jesus. Foi 
cracas a esta protecção do governo russo 
que o numero de membros da ordem se 
achou tão considerável, quando a Santa Sé 



' Kste facto vem mais uma vez em apoio de que a 
i>iierra aos jesuitns nada tem Je contrario n religião, 
• Ic que elles Ifiram e sHo os mais perigosos inimigos. 



consentiu na sua restauração, como era quan- 
do ella fora supprimida! 

O que admira, no fmi de tantos benefícios 
prestados por Paulo aos jesuitas, é que estes 
o não fizessem assassinar I 

No reinado dAlexandre, os )esuitas espa- 
Iharam-se por toda a Rússia indo ate á Si- 
béria e ao Cáucaso. 

A sua propaganda, que se dirigia princi 
palmente ás pessoas de alta posição, come- 
çou a inquietar vivamente o clero russo. 
Alexandre não gostava dos jesuitas, mas to- 
lerava-os, e tratou de limitar as suas conver- 
sões e a sua propaganda a certos pontos. 
Quando os jesuitas lhe oiTereceram os seus 
serviços na China, com a condição que lhes 
seria permittido inaugurar as suas missões 
junto dos pagãos e dos mahometanos das 
províncias russas, o czar agradeceu, mas não 
acceitou lanios favores. Por fim, os receios 
que inspirava a habilidade das suas con- 
versões acabou por decidir da sorte dos je- 
suitas na Rússia. 

Em 181 5 foram banidos de S. Peters- 
burgo e de .Moscou, e cm 1820 de toda a 
Rússia ! 

«Não é uma exageração dizer, com Hu- 
ber ', que a S. J. tem tentado dirigir e tem 
dirigido efiecti vãmente, durante dois séculos, 
os destinos do mundo. 

Nenhuma ordem da Egreja catholica exer- 
ceu maior inHuencia sobre toda a vida pu- 
blica. Assim, nas tormentas politicas, o po- 
vo, que poupa os outros religiosos, volta o 
seu furor contra os jesuitas, porque vê n'el- 
les os esteios dos maus governos. A S. J. 
tem desenvolvido toda a sua energia, todo o 
seu poder para a restauração da theocracia 
da edade-media, para o restabelecimento 
d'uma monarchia catholica universal , ins- 
trumento ao mesmo tempo poderoso e pas- 
sivo do soberano pontífice de Roma. Foi 
n"esse sentido que os jesuitas sustentaram 
ora a politica de Filippe II, ora a de Fer- 
nando II, ora a de Luiz XIV. Nenhum ex- 
forço, nenhum sacrifício lhes pareceu áspero 
para attingirem o seu fim.» 



' SfiD d'este auctor muitas das paginas em que 
se contam bastnntes factos da historia dos jesuitas, 
narrados neste livro, e principalmente as que se re- 
ferem aos jesiiit.is na Siiocia, Polónia e Rússia. 



26o 



HISIORIA GERAL 



«A verdade, a moral, a consciência c o 
dever foram sacrificadas no altar d'cste 
Ídolo.» 

«A boa nova dum reinado de liberdade e 
de amor, tal como Christo o annunciára, 
mudou-sc, na bocca dos missionários da S. J., 
na pregação do poder temporal do papa, 
d' um reino fundado sobre a escravidão espi- 
ritual, sobre o ódio intolerante e sanguiná- 
rio. Um tal reino não ye funda nem subsiste 



durante um certo tempo senão peta força 
material, e a deliquescencia intellectunl e 
moral dos povos. Mas o espirito, se pôde ser 
detido no seu desenvolvimento, não se con- 
segue nunca abafal-o. Por isso certos êxitos 
brilhantes dos jesuitas foram de pouca du- 
ração. O plano jesuítico papal só se poderia 
realisar se viesse a extinguir-se a vida physi- 
ca e moral das nações. A S. J. não poderá 
triumphar senão sobre o cadáver dos povos.» 



DOS .jesuítas 



2t>l 



XLV 



Uma falsa relíquia 



JÁ agora não deixaremos estas regiões iria: 
do norte, sem contar um outro cxpedien 
te jesuítico, que vem 
mostrar que elles não 
recuam ante qualquer 
meio, por mais sacrí- 
lego que seja, para se 
introduzirem numa re- 
gião appetecida. 

Gregório, monge c 
exarciía patriarchal. 
recebeu communica- 
ção particular e pes- 
soal do facto que va- 
mos narrar, c que 
elle, por sua vez, le- 
vou ao conhecimento ^ 
de Sophorne, protosv- 
nello do patriarcha de 
Constantinopla, em 
data de Trebizonda, 
a ifí de maio de .626. 

Em i<>i4, Schab- 
Abbas, sophi ou rei 
da Pérsia, fez uma ir- 
rupção nos domínios 
de Teimuraz, rei da 
Geórgia; donde levou 
um grande numero de 
captivos, e com estes 
a princeza Coraban, 
m ã e de Teimuraz. 
christá como o prínci- 
pe seu filho e os seus 

súbditos. Schab-Abbas tratou ao principio 
a princeza com ioda a consideração, para 
levai a a abraçar o mahometismo. 



N um dia, em que elle procurava con\en 
cel-a a abjurar, ella por tal forma se cxaliou 




Maria Leckziniska, mulher de Luiz XV 



e com tal vehemencia defendeu a sua cren- 
ça, que, vituperando a Mahomet de falso 
propheta e de impostor, levuu Scliab-Abbus 



HISTOKIA UKRAL 



a mandal-a deitar numa caldeira d aiíua a 
ferver, e que o seu cadáver fosse lançado 
ao monturo. 

As suas terríveis ordens foram executadas. 

Coraban tinha tido como aia uma mulher 
chamada Moada. que, tendo ido na sua com- 
panhia, fora vendida a um persa, a quem 
persuadiu a tirar o cadáver da mart\ r rai- 
nha da montureira, para o enviar ao rei da 
Geórgia, que não deixaria de lhe pagar por 
todo o preço os restos de sua mãe. O persa, 
para não perder o negocio, foi á noite bus- 
car o cadáver, e deu-o a guardar a Moacla, 
depois de embalsamado, e posto num caixão. 

Kxistiam então na Pérsia dois jesuítas mis- 
sionários, que resolveram apoderar-se do ca- 
dáver, para egualmente o levarem ao rei da 
Geórgia, esperando por este meio acrcdita- 
rem-se junto delle e introduzirem a S. ,1. 
nos seus estados. Mas quando, chegada a 
noite, foram á procura do cadáver, já não o 
encontraram. 

Não desanimaram com tão pouco. Tinham 
concebido um projecto lucrativo e haviam de 
realisal o; faltava-lhes o cadáver da martyr, 
elles teriam artes para encontrarem outro, e 
á falta deste, desde que fossem os primeiros 
a dar noticia ao (ilho da santa morte da mãe. 
estavam convencidos de que seriam bem 
agasalhados. Nestas intenções puzeram-se 
a caminho da Geórgia. 

A certa altura da jornada encontraram o 
corpo dum mancebo que acabava de ser as- 
sassinado. Immediatamente trataram de ti- 
rar partido do encontro. Desceram dos ca- 
vallos, cortaram a cabeça ao cadáver, e, met- 
tendo-a n uma caixa, tornaram a seguir via- 
gem, com grande espanto dos seus compa- 
nheiros de caravana, que não podiam ima- 
ginar para que serviria aos jesuítas aquella 
cabeça. 

Quando chegaram a Geórgia, mandaram 
contar ao rei o martyrio de sua mãe, acres- 
centando que SC davam por muito felizes de 
terem podido apoderar-se da cabeça do ca- 
dáver, a lim de a conservarem como santa 
reliquia, destinada, por certo, á veneração a 
que tinha direito. 

Teimuraz, transportado de alegria por tal 
noticia, foi ao encontro dos jesuítas e da pre- 
ieni.lid.1 reliquia, com todo o clero e a sua 



corte. Recebendo-a devotamente, fel-a levar 
para a egreja do mosteiro de S. .lorge Al- 
berdale, um dos mais ricos e considerados 
do seu pais. E, para testemunhar aos jesuítas 
o seu reconhecimento, quiz dar-lhcs grandes 
presentes, e conceder-ihes uma grande e bella 
casa na sua cidade capital. 

Os jesuítas recusaram com grandes ma- 
nifestações de humildade os presentes c a 
casa: «Somos, diziam elles ao príncipe, uns 
pobres religiosos d'um instituto apostólico, 
unicamente dedicados á maior gloria de Deus 
e a salvação das almas. O único favor que 
pedimos, é que nos seja permittido ficar mo 
rando no mosteiro de S. Jorge, a fim de ser- 
mos os únicos guardas da santa icliquía de 
vossa mãe.» 

Teimuraz concedeu-lhes o que elles pe- 
diam. Era tão pouco. . . 

Não tardou muito em que não começasse 
a correr noticia de grandes milagres feitos 
por intermédio da santa, e por virtude da 
sua pretendida reliquia. Taes boatos atraí- 
ram logo grandes multidões de peregrinos e 
ricas otVerendas; e, pela ordem natural das 
coisas, os jesuítas foram sendo successíva- 
mente os senhores da egreja, do convento e 
dos monges. Asotlertas servíam-lhes para fa- 
zerem presentes ás pessoas gradas, e assim 
irem conquistando fama e credito. Os mila- 
gres augmentavam de dia para dia, e a con- 
fiança de Teimuraz n'elles t<>rnou-se illimi- 
rada. 

O negocio progredia maravilhosamente, 
quando Teimuraz recebeu uma carta de Moa- 
cla, que lhe enviava a verdadeira relação da 
morte de Coraban, e ao mesmo tempo lhe 
dizia que tinha tido a felicidade de salvar o 
cadáver da santa martyr. 

Esta noticia causou grande alvoroço. Ao 
mesmo tempo o rei da Geórgia fez pazes 
com o da Pérsia, que a pedido daquelle lhe 
restituiu Moacla e o corpo de (Coraban. As- 
sim que este chegou á Geórgia, todos, que 
tinham conhecido a rainha em vida, reco- 
nheceram o cadáver como sendo o d'ella! 

Os jesuítas, vendo descoberto o seu sacrí- 
lego ardil, fugiram e homísíaram-se em casa 
dos seus protectores, que até então tinham 
comprado com valiosos presentes. 



DOS jesuítas 



363 



o rei queria punil-os, mas os seus de- 
>.licacios apaziguaram a sua justa cólera alie- 
nando que os jesuítas podiam ter sido en- 
ganados, mas que andaram em tudo aquillo 
de boa fé, e que eram tão santos que por 
suas supplicas a cabeça fizera milagres. O 
rei perdoou, com tanto que os jesuitas sais- 
sem dos seus estados. 

Ainda bem não tinham saido da Geórgia 
que alli cliegaram os mercadores que tinham 
assistido a degolação do cadáver, e conta- 
ram publicamente e por miúdo a scena re- 
pugnante e extranha que tinham presencca- 



do, sem comtudo lhe perceberem a inten- 
ção. 

A narrativa chegou aos ouvidos do rei, 
que quiz que os mercadores lha fossem con- 
tar. Kntão, transportado da mais justa cóle- 
ra, sentiu um grande pezar em ter dei.xado 
sair os jesuitas, jurando que, se os tivesse á 
mão lhes faria o mesmo que ellcs tinham 
feito ao cadáver; mandou retirar do altar a 
rcliquia jesuítica, e depois de ter feito com 
que os bispos canonizassem sua mãe. decre- 
tou para o seu cadáver as honras de mart\r 
da fé. 



264 



HISTORIA GERAL 



XLVI 



Carnificinas na Itália 



NA Itália, os jesuítas cspalharam-se nas 
cidades, campos e aldeias, onde secun- 
daram o poder secular e a inquisição nos 
seus exforços para domarem a liberdade de 
pensar. Encontraram fácil acolhimento nas 
classes elevadas, para quem o etnbruteci- 
mcnto da massa geral era e é um elemento 
da existência e exploração; e mais de uma 
princeza se submetteu aos famosos exercí- 
cios espirituaes. Tomaram parte, como já 
dissemos, na perseguição sanguinária dos 
valdenses ao norte e ao sul da Itália. 

O duque Manuel Felisberto de Sabóia, 
querendo reconduzir os seus súbditos here- 
ticosao catholicismo. tinha pensado que o con- 
seguiria por meio d'uma discussão pãcitica, 
e para cila pediu licença ao papa. 1-^stc Jl- 
clarou que herejes nunca se le\a\ain pnr 
bem, e que o melhor meio de conversão era 
a justiça para com os infiéis, e, em caso de 
insuccesso, a violência e a força. 

Km que mãos estava a religiãn que Ru- 
ma apregoa como sendo de paz ! 

Laynez enviou o já nosso conheciíio Pus- 
sevino á corte do duque, e parece que foi sob 
a influencia d'este jesuita que o príncipe, que 
se estava inclinando para o protestantismo, 
se decidiu a usar de violências com os seus 
súbditos, que não pensassem pela cartilha do 
jesuíta. Possevino percorreu os valles de Pie- 
monte e da Sabóia, onde re.sidiam os valden- 
ses, e fez um relatório ao du<.|ue acerca das 
crenças d'esta gente. 

Km vista do que Kelisberto encarregou o 
governador Pignerol de destruir este refugio , 



da liberdade de crença, e de expulsar os pre- 
gadores heréticos. Ferrier executou esta or- 
dem com o maior zelo, e, para dar um exem- 
plo terrível, fez queimar os herejes mais re- 
calcitrantes, e assiin espalhou o terror entre 
os outros. O duque ticou então convencido 
de que somente a força devia ser emprega- 
da para operar as desejadas conversões, e 
fez marchar contra os herejes um exercito 
de dois mil homens. Possevino acompa- 
nhou a tropa e iníiammava a toda a hpra a 
crueldade da soldadesca, e por onde passa- 
va era um inquisidor feroz. K' elle próprio 
que conta, que efVectivamenteo duque exhor- 
tou (js bispos a não se contentarem com os 
meios persuasivos, mas a tratarem os rebel- 
de-» d"acC()rdo com os inquisidores, segundo 
todas as exigências do direito, e a castigar 
principalmente os pregadores recalcitrantes, 
porque «a exemplo dos archotes, elles não 
se cancem de incendiar os valles dos Alpes 
e o resto da Itália.» «Este expediente, ajun- 
ta Possevino, nunca foi em occasião alguma 
despresado desde o tempo dos apóstolos, em 
conformidade com os éditos da Kgreja, dos 
imperadores e d"um antigo uso.» «Portanto 
executaram-se uns dois ou três pregadores 
vindos de fora.» Isto aconteceu em i56i. 
Mais tarde, Possevino procurou ímpellír u 
rei de Krança a fazer uma carnificina nqf; 
valdenses, e declarou em presença do gover- 
nador de Turim, que se não se atalhassem 
a tempo os progressos d'esta seita, ella se 
tornaria por tal forma terrível que nem todo 
o poder do rei bastaria para a exterminar. 



DOS JESUÍTAS 



265 



No mesmo icmpo os jesiiitas iiailar;im ;i 
perseguição contra os valdenses de Casal di 
San Sisto, c de Guardiã P^iscalda na Calá- 
bria. Mais de mil c quatrocentas pessoas de 
Guardiã foram lançadas na prisão de Mnn- 
talti ; as suas casas íoram incendiadas, os 
vinhedos arrasados c os bens dcstruidos. A 
aldeia de San Sisto foi reduzida 
a cinzas e sessenta dos seus 
habitantes enforcados. 

Eis como a justiça jesuiiica 
era feita. 

Muitos daqueiles desgraça- 
dos estavam encurralados n"uma 
casa. O algoz chegava, agarra- 
va um após outro, tapava lhes 
os olhos e conduziaos a uma 
larga praça, não muito distante 
da casa. Depois obrigava-os a 
ajoelhar, cortava-lhes a cabeça 
com uma faca, c deixa\a-os no 
sitio em que tinha commettido 
o assassinio em nome do napa. 
Km seguida tirava a venda dos 
olhos da cabeça decepada, e pu- 
nha-a em outra victima, a quem 
degolava com a mesma faca es- 
correndo sangue. O auctor d'es- 
ta narrativa viu assim assassi- 
nar oitenta e oito victimas. «Os 
velhos, diz elle, iam alegremen- 
te para a morte, os moços tre- 
mendo.» O mesmo auctor viu 
serem conduzidas cem mulhe- 
res a tortura e depois á morte : 
cmfim, no espaço de onze dias, 
foram executados dois mil ho- 
mens, condemnados a prisão 
mil e seiscentos e mais de cem 
suppliciados nos campos. U pa- 
pa que assim representava a Chrisio na 
terra chamava- se Pio I\'. 

Os jesuítas foram a alma de todas estas 
carnificinas. 

A intluencia dos jesuiias na loscana não 
toi grande; havia alli como que um capricho 
cm os contrariar, e por isso estiveram sem- 
pre em lucta con.stante com os dominicanos. 
No Piemonte, na corte dos Fainesios de 
';'arma, foram omnipotentes, na sua quali- 



dade i.le confessores do príncipe. Já vimos, 
nos primeiros capítulos, como foram mal 
succedido^ em \'eneza, e dahi lhes veiu 
uma tal ou qual prudência com que se foram 
introduzindo em muitas das cortes italianas. 
Quando rebentou o conHicto entre Urba- 
no Mil e o duque Kduardo de Parma, e 




Execução de Eamier.a 

que este ultimo e os seus estados unam ex- 
commungados, os jesuítas, que tinham adqui- 
rido riquezas enormes, pesando dum lado 
os raios pontifícios e do outro as suas rique- 
zas, decidiram-se por estas, e ligaram-se ao 
duque. Km i.^.^i tinham tido em Nápoles um 
bom accolhimento e conquistado as boas gra- 
ças da nobreza, que os encheu de dadivas 
c doações. Giannone assegura que em me- 
nos de um século souberam adquirir bens 
immensos na cidade e em lodo o reino «.le 



26Ó 



HISTORIA GERAL 



Nápoles. No começo do século wni eram 
apenas vinte e um, mas possuíam duzentos 
e noventa c três collegios duma ijrandeza 
considerável. .,\iunte-se, diz Giannone, os 
outros collegios que tèem construído até 
hoje, c ficaremos convencidos de que ordem 
alguma jdmais adquiriu tantas terras e accu- 
mulou tantas riquezas em século e meio 
como a S. .1.» Km 171?. os jesuítas foram 



obrigados a abandonar pela primeira vez 
o reino das Duas Sicilías, e os seus bens 
foram sequestrados, porque tinham toma- 
do partido pelo rei na sua questão com o 
papa. 

Em i7'i7, o rei Victor Amadeu da Sarde- 
nha prohíbiu aos membros das confrarias de 
terem escolas publicas, medida esta que fe- 
riu os jesuítas no coraçã j. 



IJOS JKSUn AS 



2Õ7 



XLVII 



o Empório jesuiia 



DEi-ois da Itália, onde os jesuitas accudi- 
ram com maior vehemencia foi á Alie- 
manha, a fim de tomarem o passo á Refor- 
ma que ahi caminhava triumphante, a re- 
conquistar as posições perdidas para o ca- 
tholicismo, c ao mesmo tempo enriquecer a 
ordem com os despojos dos vencidos, e com 
os bens das ordens religiosas que mais conta 
lhes faziam. 

Km i35i, Lovola tinha fundado em Roma 
o primeiro collegio da sua ordem: no anno 
seguinte erigiu o collegiiim geniiaiiiciini, des- 
tinado ao ensino de allemães que se quizes- 
sem consagrar á conversão dos protestantes 
da sua pátria. Logo no primeiro anno o col- 
legio allemão contou vinte e dois alumnos, 
no segundo vinte e cinco, e foi-lhe annexa- 
do um pensionado para rapazes fidalgos. De- 
pois, fundou-se em Roma um estabeleci- 
mento destinado ao ensino de alumnos hún- 
garos, e o collegio ficou desde então cha- 
mando-se: collegiiini fíei-míiiiicu-hiiiigariciim. 

Em I f>4o, o jesuíta Lefèbre visitou as mar- 
gens do Rheno allemão e no anno seguinte, 
como ja dissemos, Bobadilha e Le Fa}- se- 
guiram-o a Allemanha. Os dois últimos ga- 
nharam rapidamente as sympathias do du- 
que Guilherme W da Baviera e do impera- 
dor Fernando 1, e Guilherme chamou em 
i.^4i( os membros da ordem - a professar 
theologia na universidade de Ingosltadt;oseu 
successor Alberto \' fundou em 1S57 um 
collegio de jesuit .s na mesma cidade, e dois 
annos depois um outro em Munich. Os re- 
cemchei-ados obtiveram em ib?H a introJu- 



cção da inquisição na Baviera para torturarem 
os protestantes, sendo expulsos aquelles que 
recusavam abjurar, e condemnados ás mais 
severas penalidades os magistrados que os 
tivessem tolerado. Alberto pensou em resta- 
tabelecer o catholicismo no ducado de Bade, 
e executou os seus designios em 1D70 e ib-ji. 

Fernando acolheu os jesuitas em Nienna 
em ibbi, e fez-lhes consideráveis doações, 
abrindo um vasto campo á sua actividade, e 
todos os seus- cofres á sua ainda maior cu- 
bica. Km if>.^8 foram auctorisados a ensinar 
e a pregar em todos os paises hereditários 
do império, e obtiveram a concessão perpe- 
tua de duas cadeiras de theologia na univer- 
sidade. Em 1539, estavam em condições de 
installarem uma tv'pographia. e em i3(Í2, já 
eram oitenta em Vienna. 

O protestantismo tinha tido um grande des- 
envolvimento na Áustria ; quando os jesui- 
tas aqui chegaram apenas uma vigésima ou 
uma trigésima parte da população perten- 
cia À religião roman.i. Os frades eram obje- 
cto do escarneo publico, e no espaço de vinte 
annos nem um só padre tinha saido da alta 
escola de \ ienna, e mais de tresentas paro- 
chias estavam sem parocho. 

Fernando, inspirado por Pedro C>anisius, 
erigiu um collegio jesuíta em Praga, e alguns 
annos depois dotou o Tyroi e a Hungria com 
a mesma instituição. A ordem não tardou 
em se formar no bispado de Augsburg, e o 
cardeal bispo Othon Truchess de ^^'alouryg 
transmittiu lhes, em i.m33, a universidade no- 
vamente fundada cm Dílligen bem como o 



2Ó8 



UISIORIA GERAL 



seminário, o cicmi um coUegio Jc jcsiiitas. 
que recheou de doações. Em if^jg, os jesuí- 
tas penetraram na cidade de Augsburg e alli 
fundaram um collegio e um gymnasio dy- 
ceu). O bispo de Warzburg chamou-os em 
i?Õ4. o arcebispo de iMayence em i365, o 
bispo de Tréves em 1^70 e o abbadc de 
Kulda em i373. Em ibHi estabeleceram-se 
em Colónia, em Coblence, em Spira ; em 
ií«S(). fundaram collegio em Regensburg, c 
em Munster; em 1 ?()? em Hildesheim, em 
i5>uõ em l^aderborn, em 1604 em Constân- 
cia, em 1IÍ12 em Bomberg, em i6i3 em Pas- 
sau. em i(")ib em Eichstiedet. Os seus cen- 
tros estratégicos eram \'ienna, Colónia, In- 
golstadt; de Xienna irradiavam para todo o 
império austriaco; de Colónia sobre todo o 
baixo Rheno: de Ingolstadt sobre toda a Al- 
lemanha do sul. E era eiles chegarem e lo- 
go se acabava a tolerância religiosa e come- 
çavam as perseguições. 

F.m 1.^54, Pedro Canisius publicou a sua 
Siímwj Ja Doutrina Chrislã. Esta obra foi 
traduzida em muitas linguas e teve um tal 
êxito, que cento e trinta annos depois da pri- 
meira edição já se contavam outras quatro- 
centas. Deste livro extraiu-se um catecismo, 
para uso dos catholicos allemaes, onde se 
avivava a polemica contra os protestantes. 
Em 1573, os jesuítas emprehendem a lucta 
contra a Reforma nos dominios do abbade de 
Fulda : no anno seguinte extendem-o Eichs- 
feld, por ordem do arcebispo de Mayence. 

O arcebispo de Trèves, e o bispo de 
Worms vão em seu auxilio. Depois da queda 
do arcebispo Gebhard de Colónia, o partido 
romano do Rheno e da Westphalia levantou 
a cabeça e em breve tempo poz em derrota 
os partidários da no\a doutrina. Em i3Mi, o 
bispo Júlio de Wurzburg, com o auxilio dos 
jesuítas, converte ses.senta mil herejes. Escu- 
sado será dizer que a força militar concor- 
reu na maior parte para esta victoria. 

.Maximiliano II da Áustria inclinava-se in- 
timamente para a Reforma, e não concedeu 
favores particulares aos jesuítas. Preservou- 
i>s, por espirito de tolerância, de serem ex- 
pulsos, mas durante o seu reinado não con- 
seguiram fundar collegio algum. Foram mais 
felizes no governo de Rodolpho II. Este prín- 
cipe fora educado na côric de Eilippc II, e 



ahi linha adquiridn o udio CDUtra ns proics- 
tanies, e portanto, alma acanhadi e espirito 
pequeno, encheu os jesuítas de favores, e 
deu-lhes accesso em todas as cidades da ino- 
narchia. Em i.^Ni, fundaram elles um colle- 
gio em Brunn e penetraram na Silesia ; em 
if>83 o imperador auctorisa-os a entrarem na 
Hungria, donde seu pae os tinha expulsado. 
Em 1 570, o archiduque Carlos da Styria di- 
rigiu um chamamento á S. J. e transmittiu- 
Ihe, em 1 .^73 um collegio cm Graetz, que de- 
pois elevou a universidade, em 1.385. Sob o 
reinado do archiduque Fernando os jesuítas 
adquiriram uma influencia sem limites, isto 
porque tinham sido seus mestres e elle pró- 
prio se confessava jesuita. Numa romaria 
que lizera ao Loretto, pronunciara em prc. 
senca da imagem daquella egreja «a sua ge- 
neralissima», como elle lhe chamava, o voto 
de fazer uma guerra d'exterminio ao protes- 
tantismo; e tão depressa chegou ao poder, 
como logo cumpriu a palavra. 

Durante cinco annos os jesuítas e os inqui- 
sidores percorreram a Styria para limparem 
a região, por meio da morte e da expulsão 
dos protestantes, pelo arrasamento dos seus 
templos, e destruição de suas escolas. Fer 
nando, como discípulo reconhecido dos loyo- 
lenses, continuando a confessar-.se a elles, 
nada lhes recusava, c a sua única preoccupa- 
ção como príncipe era engrandecel-os. Assim 
augmentou'lhes o collegio de Graetz, prepa- 
rou um estabelecimento para a Ordem em 
Laybach, e conferiu-lhes o rico senhorio de 
Mullstad, com isenção dos direitos dalfan- 
dega e deu-lhes os mais extensos direitos de 
soberania; fundou collcgios em Klagenfurt c 
cm Léoben, e fez construir um magnifico 
edifício para a universidade de (iraetz. 

Vão depressa cingiu a coroa imperial, Fer- 
nando não poz limites á sua muniticer.cia. 
Entregou a universidade de Vienna nas mãos 
dos jesuítas, reunindo-a ao collegio que elles 
já possuíam n'aquella cidade, e auctorisou-os, 
segundo bem lhes parecesse, a proverem as 
cadeii"as das faculdades de philosophia e de 
thcologia;e deu-lhes uns sobre outros bens na 
liõhemia, na Moravia c na Sile.sia. Ha quem 
atliaiice que por este meio se tinham torna- 
do senhores de um terço dos rendimentos 
da Bohemia. 



DOS JESUÍTAS 



2(X) 



O impcmilor kv mais ainda. Provocou a 
erecção dos collcgios de Cloniitz, de Briinn 
c em outras cidades da Moravia. Reuniu a 
universidade de Prafía ao collegio dos jesui- 
las desta cidade: ordenou que o reitor do 
coUegio fosse sempre reitor da universidade 
e director supremo do ensino na Bohcmia. 
Comtudo, no meio desta degradação moral 
apparece um homem, o arcebispo de Praga, 
sutticientemente honrado e enérgico para re- 
sistir a esta invasão, e impede a 
S. J. de cantar victoria. . . eiVe- 
ctiva. 

As riquezas da companhia eram 
accumuladas á custa das outras 
ordens religiosas, principalmente 
da dos benedictinos. 

Em seguida ao edito de resti- 
tuição, todos os bens catholicos. 
que tinham sido dados aos pro- 
testantes, deviam reverter aos 
seus primitivos possuidores. Mas 
a cubica insacictvel dos jesuítas 
fez com que a maior parte delles 
lhes viessem ás mãos; e assim 
conseguiram açambarcar consi 
deraveis possessões, principal- 
mente na Bohemia. As ordens 
religiosas despojadas intentaram 
acções contra os jesuítas, cuja 
controvérsia não foi cm fa\or 
destes, nem em sua honra. Os 
três bispos-eleitores da Allema- 
nha e .Maximiliano da Baviera in- 
tervieram em favor das antigas or- 
dens religiosas, e dirigiram uma carta col- 
lectiva ao papa. pedindo-lhe que defendesse 
o direito de propriedade contra as intrigas 
dos jesuitas. A questão durou um quarto 
de século; a paz de Westphalia pôz termo 
ao escândalo, dando aos protestantes a maio- 
ria dos bens em litigio. 

Conta-se que até os próprios jesuitas se 
admiravam da prodigalidade de Fernando. 

«Guardae, guardae sempre, exclamava o 
imperador, porque nunca maiíi tereis um 
protector como eu. . . » 

.\s insinuações dos jesuitas e o e.xemplo 
do archiduque Fernando determinaram o 
imperador Rodolpho II a emprehender uma 
vasta contra-refòrma na Áustria, na Bohe- 



mia e na Hungria. l'.m Salzburg o arcebispo 
tmha, segundo as indicações dos jesuitas, 
expulsado os prote.stantes, em i588; mas 
na Hungria, a empresa encontrou fortes re- 
sistências. -Manifestou-se uma re'.olta por 
tal forma ameaçadora que Rodolpho, para 
salvar a coroa, teve que sacrificar os jesuitas. 
concedendo a liberdade de consciência. Com- 
tudo, como os bens na Hungria os sedusiam. 
os jesuitas, e principalmente o famigerado 




Conde de Choiesul 

.loão de Mellen, encontraram um expediente 
para illudir a liberdade coni|uistada e con- 
cedida. O imperador não estava em condi- 
ções dexterminar os inimigos dos jesuitas. 
devia, com certas reservas mentaes, abster- 
se de empregar a violência, e tolerar a re- 
forma até que as suas forças lhe permittis- 
sem recorrer ás armas. 

A attitude cheia de duplicidade de Rodol- 
pho teria provocado uma nova revolta, se 
.seu irmão Mathias não se tivesse encarre- 
gado do governo da Hungria, da Áustria e 
da Bohemia, assegurando a plena liberdade 
de consciência. O próprio Rodolpho, para 
prevenir novas defecções, teve por carta re- 
gia de lõoi), de prometicr aos protestantes 



270 



HISTORIA GERAL 



da Bohcniia i> livre exercício do seu culto c 
uma serie doutras concessões anti-iesuiticas; 
mas a dcsconriança geral estava por tal for- 
ma radicada no espirito dos povos, que loi 
obrigado a ceder a seu irmão Matliias o 
resto dos seus estados. 

.Ma\imiliano I da Havicra tinha sido edu- 
cado ao mesmo tempo que o archiduque 
Fernando, sob a direcção dos jesuítas de 
Ingolstadt, e foi uma verdadeira macliina 
de perseguição manobrada pelos seus pre- 
ceptores. Adolpho II encarregou se de cas- 
tigar a cidade de Donauwerth, que tinha per- 
turbado uma procissão catholica: c n"isso 
mostrou o seu zelo selvagem. 

Por essa epocha, a linguagem dos jesuítas 
em relação aos protestantes, tcrnava-se mais 
atrevida d^ dia para dia. Wíndeck propunha 
simplesmente que fossem assassinados todos 



os lutheranos o os outros herejes. Ao mes- 
mo tempo, a S. .1. declarava que a paz de 
Nuremberg era prejudicial para a Kgreja, 
que não obrigava senão aquelles que a ti- 
nham assígnado: e ameaçava o imperador 
Fernando I com a condemnação eterna por 
a ter tratado. Entrementes, o duque Wolf- 
gang de Neuburg tinha-se convertido ao 
catholicismo, e abria aos jesuítas um vasto 
âmbito á sua actividade nos seus domínios, 
e sob a direcção dos sanguinários roupetas 
começou a perseguir os seus súbditos. 

Como se vè. tudo estava provocando a 
guerra, conhecida pela dos Trinta aiinos, e 
pode-se attimar que foram os jesuítas que 
incendiaram o rastilho. 

«Os príncipes que n'esta lucta terrível de- 
fenderam a causa de Roma, representaram, 
diz GiVíerer. o papel que os jesuítas llies dis- 
tiibuíram.» 



UOS JtSUITAb 



a?! 



XLVlil 



A Guerra dos Trinta annos 



SK O imperador Mathias se decidiu final- 
mente, apesar d'um sentimento de re- 
pulsão, a designar o archiduque Fernando 
da Stvria para seu successor. esse acto foi 
ainda obra dos jesuítas. A Bohemia e a Hun- 
gria escolherain Fernando para seu rei; mas 
não lhe foi possível obter a coroa da Alle- 
manlia. Fernando tinha jurado conformar-se 
com a carta-majestatica de Rodolpho, mas 
antes disso tinha feito voto solenne de nun- 
ca fazer qualquer concessão aos protestan- 
tes em prejuiso da Egreja catholica. 

Os constantes ataques dirigidos pelos je- 
suítas contra a carta majestática contribuí- 
ram poderosamente para despertarem as sus- 
peitas dos bohemios; e assim, a sua revolta 
que rebentara em todos os estados de P'er- 
nando, foi o signal da expulsão geral da com- 
panhia de Jesus. Mas a victoria da Monta- 
nha- Branca determinou para o desdobra- 
mento d'um drama de sangue na Bohemia. 
Os jesuítas impelliram Fernando a castigar 
os rebeldes com as penas mais terríveis; o 
protestantismo foi perseguido pelos meios 
mais cruéis; nenhuma das regiões assoladas 
pela guerra dos Trinta j/íhos padeceu aba- 
los mais violentos, mais profundos do que a 
Bohemia. No fim da guerra, a ruína mate- 
rial do país era completa. 

.Milhares de povoações esta\tim redusídas 
a cinzas, e um grande numero delias nun- 
ca mais se reedificou, ficando apenas a lem- 
brança do logar em tque existiram. As cida- 
des eram montões de ruínas, e longo tenipo 
apresentaram \estigios da destruição. A po- 



voação achava-se dizimada, e os que tinham 
sido poupados pelo ferro ou pelo fogo haviam 
morrido de fome cu da peste. Antes da guer- 
ra, havia na líohemía três milhões de habi- 
tantes ricos e remediados, depois não se en- 
contrava senão mendigos. A industria e o 
commercio arruinados; os habitantes mais 
emprehendedores expulsos, e com elles os 
capitães. As Horcstas tinham invadido os 
campos; os aldeãos não possuíam alfaias 
agrícolas, nem sementes, nem anímaes de 
trabalho, e tanto que em muitos logares se 
via o trabalhador atrelado á charrua, e os je- 
suítas banqueteando-se. com os seus cel'ei- 
ros e adegas bem fornecidas, e lamentando 
nos seus festins que não houvesse mais po- 
vos a perseguir, mais terras a devastar ! 

O jesuíta Balbinus. historiador da Bohe- 
mia, admira-se de que ainda se encontrasse 
gente n'aquella região I .Vias a ruína moral foi 
mais terrível ainda do que a ruína material. 
A tlorescente cultura, que se tinha desenvol- 
vido na nobreza e na burguezia, uma litte- 
ratura nacional riquíssima, e que não podia 
ser substituída, tudo isto tinha desappareci- 
do, a própria nacionalidade fora supprimida! 

A Bohemia estava aberta á actividade dos 
jesuítas, que queíma\am em massa todas as 
obras da litteratura tchéque; tizeram em- 
pallídecer c extinguir-se na memoria dos po- 
vos o nome do grande santo da nação, .loão 
Huss, e substituíram á sua memoria o do vi- 
gário geral d^ arcebispo de Praga, que o 
rei Wenceslau tinha feito lançar ao .Moldau 
por causa duma questiúncula de hícrarchia- 



i-Ji 



HISTORIA GERAI. 



e não por se ter recusado a trair o segredo 
do confissionario. «O apogeu do poder dos 
jesuítas na Boheniia, diz Toinek, marca para 
a Boheniia a epocha da decadência a mais 
profundada sua cultura nacional; é á inHuen- 
cia da S. .1. que se deve o atraso de mais de 
um século, que softreu o despertar d este in- 
feliz pais.» 

Em todos os oJtros estados hereditários, 
a excepção da Hungria, Fernando procedeu 
com crueldade para ser agradável aos jesui- 
tas. A liberdade de consciência, que nos tem- 
pos do infortúnio elle tinha concedido a Bai- 
xa Áustria, foi annullada, sob pretexto de que 
ella tinha sido concedida aos partidários da 
contissão dAugsburg, e não aos outros par- 
tidos ccciesiasticos. 

Na sua opinião, os protestantes da Baixa- 
Austria não eram lutheramos. Na Sibéria 
os jesuítas accompanhavam os dragões de 
Lichtenstein para converterem a população 
protestante. Luiz XIV não foi, como vimos, 
senão um imitador de Fernando II. 

Os jesuítas foram os auciores j^incipaes 
do edito de destituição, que fez entrar a 
guerra niima nova phase. Elles invadiram 
a frente das tropas imperiaes os países pro- 
testantes, e levavam as soldadescas brutaes 
aos mais cruéis extermínios. Estute /en'eii- 
tcs, escrevia o jesuíta Forer de Dillingen ás 
tropas encarregadas da execução do edito na 
Suabía. «Se encontrardes resistência, accen- 
dei um fogo tal, que os anjos sintam as la- 
b; edas queimarem lhes os pés, e vejam der- 
reicrem-se as cstrellas.» 

Tão feroz como estúpido ! 

Depois vieram as tentati\as dassassinio 
na pessoa de Gustavo Adolpho, tramadas 
pelos jesuítas. 

Km Krfurt. iançaram-se aos pés do rei 
e imploraram a sua graça. « Bem vos conhe- 
ço, lhes disse elle, e a Deus dareis contas 
do sangue que tendes feito derramar, (co- 
nheço- vos melhor do que imagínaes; bem 
sei que sois os auctores de todas as desgra- 
ças da Allemanha, as vossas intenções são 
perversas, as vossas doutrinas perigosas, o 
vosso procedimento criminoso. .Accreditem 
o que lhes tligo. síg.•^m o exemplo dos outros 



clérigos, e não se impoineni com os negó- 
cios do. estado.» 

Fernando III foi obrigado, em 1645, a con- 
lirmar a liberdade religiosa na Hungria e 
a dar aos protestantes noxcnia egrejas, que 
lhes tinham sido roubadas peia força ou pela 
astúcia. 

Quando se tratou de terminar a guerra e 
de concluir a paz, os jesuítas esforçaram-se 
para que continuassem as hostilidades e a 
lucta. Foi, porém, debalde. A paz concluiu- 
se; mas ainda assim levaram Fernando IH 
a continuar a perseguição nos seus estados. 

Leopoldo I, discípulo dos jesuítas, foi le- 
vado pelos seus conselheiros espirituaes e 
os seus confessores, a ferir gravemente a 
constituição da Hungria, para perseguir os 
protestantes. Os meios de que lançou mão 
lembram os horrores commettidos na liohe- 
mia. Escoltados pelos dragões imperiaes, os 
jesuítas emprehenderam a obra da commís- 
são em 1C71. Os húngaros rcvoltaram-se c 
rebentou uma g:ierra que occupou quasí que 
uma geração. 

Em i683, quando os turcos victoriosos 
avançaram até ás muralhas de Víenna, e 
que Leopoldo se viu obrigado a fugir, ma- 
nifestou-se na capital uma explosão de có- 
lera contra os jesuítas. Elles foram decla- 
rados responsáveis d'essa politica que não 
acarretava senão desgraças. 

Sob a direcção de Francisco Rakocz}- 
a insurreição húngara cantou víctoría. O 
vencedor quiz expulsar os jesuítas; mas os 
protectores da ordem lizeram addíar esta 
medida. A expulsão ^t> se realisou em 
1707. 

A Áustria e a Baviera colheram em me- 
dida de cogulo os fructos da dominação dos 
jesuítas: isto é, a compressão de todas as 
tendências progressivas, e a bestealisação 
systematica do povo. 

A misei"ia profunda que se seguiu á guer- 
ra de religião, a impotência politica, a deca- 
dência intellectual, a corrupção moral, uma 
liiminuição espantosa da povoação, o empo- 
brecimento de toda a Allemanha, tal foi em 
iiraiule parte .1 obra d:i S, .1, 



DOS jesuítas 



27J 



XLJX 



Os jesuítas em Hispanha 



A.MKs de passannos ao Extrcmo-Oricnrc, 
onde os jesuítas nos preparam surpre- 
zas inacreditáveis, convém que 
lancemos um rápido olhar so vj~ 

bre a sua situação em Hispa- 
nha, e logo encontraremos em 
nosso caminho milhares de fa- 
ctos a provar-nos que basta es- 
tudar a historia dos jesuitas 
numa nação para a vermos re- 
produzida n'outra. E o caso não 
c para admirar. Na moral jesuita 
não existe virtude nem vicio ; a 
consciência individual, que exa- 
mina e julga, está subordinada 
cegamente pela obediência a 
vontade alheia, e como quem 
inanda só se importa com o que 
imagina o bem da Ordem c 
sem olhar aos meios, dahi 
resulta a uniformidade geral de 
proceder dos sectários de Igna- 
cio de Loyola. Já vimos que 
Carlos Quinto se mostrou pou- 
co enthusiasta pelo novo insti- 
tuto, e que Pilippe II — embo- 
ra se servisse deites nos Paises- 
Baixos, em França, e depois ve- 
remos como se aproveitou dos 
seus serviços em PortLigal — 
não sentiu neuhuma predilecção 
por elles. Parece até que che- 
gava a confessar que a S. .1." 
era a única instituição eccle- 
siastica que elle era incapaz de comprchen- 
der, tanto que quando, em ifxSS. insistiu 
junto de Sixto V para que este reformasse 



as ordens religiosas, tinha quasi que exclusi- 
vamente em vista os jesuitas. K' possível que 



TEPHA1VV6 
8/n"HOR!V5t 




ictraco lie EsLev&m i:iiLÍ,or\ 



esia aversão lhe fosse inspirada pelos domi 
nicanos. que receavam ver-se supplantados 
pelos jesuitas nos direitos e prerogativas da 

35 



274 



HISTORIA GERAL 



sua ordem. O celebre theolof;o Joniiiiico 
Miguel Cano chegou a chamar aos discípu- 
los de Loyola os precursores do Antechris- 
to '. Mas qualquer que Tossem os obstácu- 
los, nada impediu que a companhia flores- 
cesse, adquirisse casas, collegios, e se apo- 
derasse da educação da mocidade. 

Já vimos como Francisco de Borja lhes 
entregou a universidade de Gandia, que ti- 
nha instituído, e como, tornado jcsuita, em- 
penhou toda a sua influencia para augmen- 
tar o poder dos seus sócios na pátria que 
clle renegara, vestindo a roupeta. O jesuíta 
pôde ficar falando — e isso nem sempre — a 
língua da terra em que nasceu ; mas o seu 
sentimento pátrio perdeu-se no momento em 
que fez o primeiro voto. Pode querer usar, e 
por vezes invoca, o seu direito de cidadão, 
quando isso faz conta á ordem, mas não 
tem pela sua pátria nem amor, nem alíeição, 
e não cumpre nenhum dos deveres que ella 
impõe aos outros cidadãos. Parasita no solo 
nacional, é um inimigo tanto mais para te- 
mer quanto mais se mascara d'amigo. 

Quando Filippe II projectou fundar uma 
monarchia autocrática universal, na qual só 
seria tolerada a Egreja romana, os jesuítas 
foram os seus melhores apoios. Elles ajuda- 
ram-o a apoderar-se de Portugal, fazendo-o 
casar com uma infanta portuguesa; servi- 
ram os projectos que elle nutria a respeito 
da França durante as guerras da Liga; au- 
xiliaram-o na lucta contra a Inglaterra, e 
procuraram manter o seu poder, bem como 
o catholicismo, nos Paises-Baixos. 

Em i556 alcançam de Filippe auctorísa 
cão para se estabelecerem nestas ultimas 
províncias, com a condição, de que não 
poderiam adquirir bens immoveís nestes es- 
tados. Como já vimos, os Estados de Flan- 
dres protestaram; mas os jesuítas, protegi- 
dos por Margarida d' Áustria, fundaram col- 
legios cm Lovaina e em Anvers. Os leitores 
lembram-se de como elles ahi flagellavam 
as damas da alta sociedade uma vez por 



• Melchior Cano tinha visto Ignacio Je l^oyola em 
Roma e assistido aos primeiros passos da nova com- 
panhia ; conhecia as suas constituições, o que os 
jesuítas faziam onde quer que chega -am, e tudo isto 
o levou a oppor-se ú sua introducção na Hispanha. 



semana, o que foi um escândalo publico. 
Expulsos por varias vezes, só se firmaram 
no tempo de Alexandre Farncse. 

O leitor já está informado dos vários atten- 
tados contra Guilherme de Nassau; convém 
que lhe digamos agora que em lôyS Pedro 
Pame foi preso em Le3'dc, no momento cm 
que se dispunha a assassinar o lilho de 
Guilherme, Maurício de Nassau, confessan- 
do que tinham sido os jesuítas quem para 
tal o seduziram e corromperam. 

Para manter o seu poder em Hispanha, 
os jesuítas tiveram que sustentar uma lucta 
continuada com os dominicanos, cuja ordem 
fornecia os confessores para os reis. 

Por morte de Filippe IV, Maria d'Austría, 
sua viuva, confiou o posto de primeiro mi- 
nistro e a dignidade de inquisidor-mór, ao 
seu confessor o jesuíta Nithard. Vejamos co- 
elle se houve com os cargos. 

Filippe IV dHíspanha, e terceiro de Por- 
tugal, desceu á cova em i663, vinte e cinco 
annos depois de ter perdido a coroa portu- 
gueza. No mundo deixava um filho de três 
annos de idade, doente, enfesado, entregue 
á tutoria da mãe, a rainha D. Marianna 
d'Austria «mais caprichosa e obstinada do 
que discreta e prudente, mais ambiciosa do 
mando do que hábil para o governo, mais 
orgulhosa do que dócil aos conselhos das 
pessoas entendidas; e o peor ainda, mais 
amante dos austríacos de que dos hespa- 
nhoes, mais aftecta á corte de Vienna do 
que á de Madrid». 

A seu lado. tinha D. Marianna, como con- 
fessor e director, o jesuíta Nithard; contra 
si o filho bastardo de seu marido, D. João 
d"Austria, havido da cómica Calderon, e ten- 
do, portanto, um fundo muito pronunciado de 
cabotino. Em roda da regente e do jesuíta 
agrupavam-se os fidalgos por elles protegi- 
dos; em volta de D. João todos os descon 
tentes da corte, animados pelo ódio que o 
povo consagrava ao confessor. 

D. João fizera-se conhecido por alguns 
feitos militares, mas ultimamente não tinha 
sotlrido senão revezes, dos quaes accusava 
a felonia de D. Marianna, impedindo que lhe 
fossem enviados os soccorros de que tinha 
urgência nas occasiões upportunas. D. João, 



J 



DOS jesuítas 



275 



como depois se verificou, além do espirito 
mesquinho e ingrato, não possuia nenhuma 
qualidade de homem de estado, fazendo con- 
sistir toda a sua sciencia de governar num 
desdobramento espectaculoso de etiquetas 
palacianas, em favorecer os seus amigos, jus- 
tificando também o velho rifão português, 
e talvez hispanhol : «se queres conhecer o 
vilão, mette-lhe o governo na mão». 

Mal o rei expirou, o primeiro cuidado da 
viuva foi nomear o jesuita para substituir, 
no conselho da regência, instituido por D. Fi- 
lippe antes de morrer, ao cardeal Sandoval. 
arcebispo de Toledo, então fallecido. 

Apesar dos grandes serem n"aquella epo- 
cha o que tinham sido antes e continua- 
ram a ser depois, um acervo dintrigantes, 
degoistas sem dignidade, despinhas curvas 
ao poder, e o povo viver num embruteci- 
mento quasi a resvalar na abjecção, esta es- 
colha levantou murmúrio na corte e gritaria 
e motins no povo. O écho d'este estado de 
coisas chegou a Portugal e obrigou o auctor 
do diário Moiisíruosiciadcs do Tempo c iAt 
Fortuna a escrever: 

«Na corte de Madrid não deixava de ha- 
ver tumultos, insotVridos os grandes de que 
governasse tudo o confessor da rainha, pa- 
dre da companhia, dando escandalosos mo- 
tivos o seu valimento com a rainha.» 

Os clamores foram de tal ordem que a 
nomeação do jesuita foi considerada como um 
ultraje publico ao thalamo viuvo. 

De lonje, D. João aviventava as desor- 
dens, preparando-sc para pescar, nas aguas 
turvas, a regência do reino. 

A rainha luctou quanto pôde para defen- 
der e conservar o valido. Mas, ameaçada por 
D. João d' Áustria, que se approximava de 
Madrid com gente armada, vendo engrossar 
na corte o numero dos descontentes, che- 
gando-lhe aos ouvidos as ameaças populares, 
resolveu ceder, tanto mais que o pontífice 
ititerviu na contenda ; a.ssim o diz, nas se- 
guintes palavras, o author que acabei de ci- 
tar : 

«Em Madrid não andavam menos turvas 
aa aguas, que em Portugal. Com a demasia 
do confessor da raiirha, cresceu o escândalo 
da corte, como crescia a opinião da malicia; 
não defino se bem ou mal fundada, mas sem 



duvida persuadida de motivos mais nascidos 
da liberdade que da cautela, porque, sem 
esta, e com aquella estava o dito confessor 
muitas horas fechado com a rainha ; e uma 
occasião procurada, de ordinário é uma cul- 
pa convencida. A titulo de confissão era o 
retiro, e para esta basta o dos ouvidos e não 
o dos olhos. Chegou ao pontiíice a noticia, 
e seria encarecida com as hipérboles de que 
se vale a inveja. Mandou sua santidade cha- 
mar a Roma o dito confessor, que ou devia 
obedecer, ou perigar na repugnância, e de 
uma c outra sorte o havia de atormentar o 
medo, porque de ambos se via ameaçado do 
castigo, e não devia ceder o divino ao hu- 
mano, principalmente quando o ódio tem oc- 
casião para se apadrinhar do zelo.» 

A resolução do abandono do confessor foi 
tomada no meio de lagrimas e suspiros, pro- 
curando a rainha agrupar um certo numero 
dapparencias favoráveis ao jesuita. Assim 
annunciou-se que este se retirava a seu pe- 
dido e instancias, conservando-se lhe todas 
as honras e proventos, e concedendo-lhe o 
titulo de embaixador em Roma ou na Alie 
manha, a fim de que podesse residir ou no 
seu pais ou na Itália, a seu bel-prazer. 

No dia 23 de fevereiro de i66i), tinha se já 
D. .loão approximado de Madrid na véspera 
e enviado um ultimatiim á rainha para que 
expulsasse o confessor. O padre Nithard 
saiu de Madrid. Levava-o em seu coche o 
cardeal dAragão, cuja companhia e soccor- 
ro o livraram de ser trucidado pelo povo ; 
mas não dos insultos, arremessos de pedras 
e de immundicies que então, o populacho 
de Madrid, só tinha que abaixar-se para apa. 
nhar nas tortuosas e porcas ruas, por onde 
ia passando o pesado carroção, em caminho 
de Fuencarral. Mo dia seguinte, o jesuita, 
acompanhado por um secretario e alguns 
criados, dirigiu se para Biscaia, a fim de vi 
sitar, antes de sair para sempre de Hispa- 
nha, o convento de Santo Ignacio de Loyola. 

Quando Nithard saia de Madrid, no meio 
dos impropérios da multidão, ia sorrindo e 
dizendo : A Dios, hijos. yo nu- voy '. 



' Segundo Lafuente, n'um manuscripto da Real 
Academia d'Historia, escripto por um jesuita, encon- 
tra se a seguinte noticia da sahiJa de Nithard : «El- 



276 



HISTORIA GERAL 



Estava a côrtc livre do valido, bem como 
os grandes dHispanha, que por bocca de 
um dellcs. que mais arrogante se dirigira ao 
jesuíta delle tivera a seguinte resposta : «Ou- 
ça lá, o sr. c que me deve respeitar, porque 
tenho todos os dias o seu Deus nas minhas 
mãos e a sua rainha a meus pés.» D. Ma- 
rianna não se deixou vencer de todo e, com- 
prando a I). João. com o logar de vice-rei de 



lectivamente o padre confessor por mais duma vez, 
e até de joelhos, solicitou que a rainha consentisse 
na sua retirada, e que ella sempre lhe rogara com 
lagrimas que desistisse de tal intento. Os superiores 
lios jesuítas foram a casa d'elle persuadilo da con- 
veniência da sua salda. (Repare o leitor como estas 
duas coisas se contradizem: o jesuíta quer retirar-se, 
e os superiores — v.lo convencel-o da necessidade de se 
retirar). Nithard recebeu a ordem com firmeza e se- 
renidade christã ; não acceitou as grossas sommas 
que alguns magnates seus amigos lhe queriam dar 
para a viagem, nem levar comsigo outra bagagem que 
não fosse o seu habito e o seu breviário ; accrescen 
tando : que depois da sua partida se foi revistar sua 
casa e se lhe encontraram os cilícios com que se 
mortificava todos os dias >> 

O auctor da noticia extendeu-se ! Quiz provar de- 
mais, e não reparou que, se alguém pode acreditar 
no uso dos cilícios que se não vêem, ninguém se 11- 
lude com a comedia de cilícios esquecidos Que bem 
observado é o Tartufo de Molière. 



Aragão, para onde elle partiu, deixou a op- 
posição sem chefe, e censurando um proce- 
dimento que SC parecia muito com uma des- 
lealdade. 

Mas, para não perder a orientação, a rai- 
nha conliou a sua consciência ao padre Moia. 
Moia escreveu, com o pseudónimo de Ama- 
deu Guimenius, um resumo de casuistica con- 
tendo pormenores por tal forma obscenos 
que a Sorbonnc, que submetteu o livro á cen- 
sura, não se atreveu a citar as passagens 
mais escabrosas. Com o duque d'Anjou, Fi- 
lippe V, os jesuítas apoderaram-se da con- 
sciência do rei de Hispanha. Luiz XI\^ de- 
ra-lhe por confessor o padre Daubenion ', 
com ordem de lhe mandar um relatório se- 
creto de tudo que se passasse na corte de His- 
panha. Mas taes foram as intrigas d'este es- 
pião de sotaina que chegou a ser preciso 
afastal-o da corte. Outro jesuita, inculcado 
por Luiz XIV, o substituiu. A consciência de 
Fiiippc \ e a de seu filho, foram assim man- 
tidas L'm tuiella, até que Carlos III delia se 
libertou, e á Hispanha dos jesuitas. 

' Este jesuíta em de tal ordem que o famoso car 
deal Dubois, o amigo do regente, como já vimos, o 
tinha escolhido para ser o confessor de Luiz XV..I;i 
se vê que era homem de confiança 



DOS jesuítas 



277 




Expulsão dcs jes-oitas em Paria 



27^ 



HISTORIA GERAL 



L 



lempre os mesmos 



QUANDO O geral Lourenço Ricci, respon- 
deu ao papa, que lhe expunha a neces- 
sidade de reformar a S. J. «Que ella seria 
o que era ou deixaria de existirii, disse uma 
grande verdade. 

Em qualquer parte do mundo, onde entrem 
os jesuítas, reproduzem-se as mesmas intri- 
gas, as mesmas capitações, e os mesmos 
crimes para o predomínio da ordem, para n 
drenagem da riqueza publica e particular 
para os seus thesoiros, sempre insaciáveis. 

A Hispanha não se esquivou á lei geral. 
Alguns exemplos bastarão para prova evi- 
dente. 

Jd em 1.^71 Benio Ayres Montano, pres- 
bvtero hispanhol, escrevia a Filippe II, com 
data de 18 de fevereiro de Anvers, para o 
cxhortar a que ordenasse ao governador, 
que mandava aos Paises-Baixos, que não ti- 
vesse communicação com os jesuítas, nem 
tomasse algum para seu pregador ou confes- 
sor. E as rasões eram: — Que elles abala- 
vam o ceu c a terra para chegar aos seus 
desígnios; — que têem espias em toda a 
parte; — que são vingativos, cheios de ódio 
e de rancor ; — que são soberbos, arrogan- 
tes ; jactam-se de ser os únicos sábios e 
os únicos dignos de ser companheiros de 
Jesu-Christo; — que são profundamente m\'s- 
teriosos. 

F"ilippe II sabia-o por demais. Serviu-se 
delles, como de muitos outros instrumentos 
egualmente vis, mas nunca os estimou. 

O venerável Jeronymo Baptista de Lanu- 
za, provincial dos dominicanos de Hispaniia, 



e depois bispo de Albarazem e de lialbastro, 
um dos mais santos e mais sábios theologos 
e prelados da Egreja, na sua supplica, apre- 
sentada em 22 d'agosto de ir>97 ao mesmo 
Filippe II, contra asprohibiçÓes anti christãs, 
que, por solicitação dos jesuítas, tinham sido 
feitas a todos os dominicanos de Hispanha 
pelo núncio, e pelo inquisidor geral da parte 
do papa, para de nenhum modo falarem so- 
bre os auxílios da graça de Deus nos seus 
tractados e licções de theologia, nas suas con- 
clusões, nos seus sermões, e até nas suas 
conversações particulares, o que era, diz La- 
nuza, mandar-lhes da parte do papa renegar 
formalmente d'esta divina graça, c da fé 
christã que é inseparável d'ella. Eis o que o 
sábio e santo bispo chama aos jesuítas: — 
inimigos mortaes da graça de Deus; — es- 
piões vigilantíssimos e denunciantes infatigá- 
veis ; —novadores ; — conjurados para des- 
truir a Egreja; — desobedientes ás mesmas 
ordens do pontífice; — verdadeiros come- 
diantes; — semelhantes aos soldados que por 
escarneo saudaram a Christo ; — perigosos e 
perniciosos enganadores; — não reconhe- 
cem o juízo da Egreja, como regra suprema 
da sua fé, porque preferem a doutrina da 
sua companhia e as decisões dos seus dou- 
tores : — inventores dos erros da maior con- 
sequência ; — inimigos da doutrina sã ; — fa- 
náticos partidários de Molína ; — dominado- 
res dos reis; — inimigos de visita e de refor- 
ma; — cruéis e vingativos. E todas estas al- 
legações eram copiosamente provadas. 
Mas não são os extranhos que no período 



DOS jesuítas 



279 



de saiiíidade da companhia clamam contra 
ella. O padre Fernando de Mendonça, je- 
suíta hispanhol, enviou ao papa Clemente 
VIII, e à congregação geral da sua compa- 
nhia um memorial expondo quanto se torna- 
va necessário tratar d'uma reforma da S. J. 

«Os geraes da nossa companhia, escrevia 
elle, vendo-sc perpétuos, e sem obrigação de 
dar contas, tornam-se insolentes e tyrannos, 
absolutos e intractaveis, commettendo mil 
injustiças c aggravos, sem que ninguém os 
possa impedir.» 

Depois expõe que, tanto os visitadores co- 
mo os procuradores que vão a Roma, são to- 
dos creaturas do geral por interesse ou me- 
do, c, á espera sempre de novos cargos, fa- 
zem tudo quanto o geral quer. 

«Não se buscara entre nós senão inven- 
ções para ter dinheiro por meio de enga- 
nos, e outros processos injustos, vexando e 
carregando as almas dos penitentes com mil 
sortes, e modos de tirar dinheiro, o que en- 
vilece e profana os sacramentos, que os 
nossos assim vendem.» 

Descreve-lhes a ambição excessiva, a cu- 
bica de se introduzirem em toda a parte, o 
amor da vagabundagem e o empenho de se 
entremetterem em todos os negócios, e ter- 
mina accusando-os de violadores do sigillo 
da confissão! 

Depois é a universidade de Salamanca que, 
em 6 de março, escreve uma carta a todas 
as universidades da Hispanha, a respeito 
dos deputados que ella mandou á universi- 
dade de Lovaina, contra as violências que 
lhes fizeram os jesuítas em 1Õ24. Mas, quem 
lhes deu em Hispanha o verdadeiro golpe 
mortal, embora depois ficassem ainda es- 
trebuchando e nos nossos dias pretendam 
alli levantar a cabeça, e recomeçar a mor- 
der nas heranças, protegidos por uma sobe- 
rana da casa dAustria, foi o venerável D. 
João de Palafox, bispo da Povoa dos Anjos 
na America '. 

1 João de Palafox y Mendoza nasceu em iúoj em 
Fitero, na Navarra, e morreu em i d'outubro de itJ5o 
em Osma. Era filho de Jayme de Palafox, marquez 
d'Ariza, e estudou nas universidades de Huesca, Al- 
calá e Salamanca. Doutorou-se em direito, e nas cor- 
tes que Filippe IV reuniu em Mouzon, em novembro 
'<t it')2(), foi nomeado fiscal do conselho de guerra, 



Da chamada primeira carta do santo bis- 
po ao papa Innocencio X transcrevemos al- 
guns dos principaes trechos*. 

«Ha mais de quatro annos, santíssimo pa- 
dre, que estou em duvida se daria aviso a 
vossa santidade do que aquelles, que n'es- 
tas províncias estam encarregados da defen- 
sa da jurisdicção ecclesiastica, da direcção 
das almas, e da conservação dos direitos dos 
bispos, tem que soffrcr aos religiosos da com- 



Em 25 doutubro de iõío foi feito fiscal das índias 
sendo já sacerdote, thesoureiro e cónego da cathe- 
dral de '1 arazona, cargo que possuiu desde 1024 a 
i63o. Em 1Ó29 acompanha a imperatriz D. Maria á 
Allemanha, na qualidade de confessor e capellão-mór, 
com ordem expressa de tomar nota e estudar os 
principes, reinos e províncias por onde passasse. Esta 
viagem d 'estudo e observação durou dois annos. Ten- 
do, em 1Ó39, vagado a mitra de Puebla de los Angeles, 
em a Nova Oranada, e sendo alli preciso um homem 
de bem e fundamentalmente christão que dirigisse 
aquella christandade e cohibisse muitos abusos, foi 
D. João escolhido para bispo. Quiz recusar a honra, 
mas a consciência obrigou-o a curvarse ao peso dos 
encargos. Partiu, pois, para o seu destino e seu ver- 
dadeiro martyrio em vida. Em 1642, foi nomeado vi- 
ce-rei, presidente, governador e capitão general da 
Nova Hispanha, emquanto não ia exercer esses car- 
gos o duque de Escalona, e no curto espaço de seis 
mezes que teve o governo, encontrando exhausto o 
thesouro real, poz n'elle 600 mil pesos e soccorreu 
Habana, que se achava a braços com grandes neces- 
sidades, por lhe ter o inimigo bloqueado a entrada 
do porto, mandando-lhe um navio que a libertou do 
aperto em que se achava. Organisou as milicias de de- 
fesa colonial, limpou a terra de salteadores e execu- 
tou outras medidas de utilidade publica. Regeitou o 
arcebispado do México, contentando-se com a sua 
mitra de bispo, gastando todos os rendimentos d'ella 
e muitos dos seus próprios na edificação da cathe- 
dral, fundação de três seminários, dum coUegio pa- 
ra donzellas, esmolas e dezenas de coisas que mos- 
travam que á caridade do seu coração se alliava um 
grande bom senso pratico das necessidades dos po- 
vos confiados ao seu báculo Em i65o, volveu a His- 
panha, e três annos depois era apresentado na sé de 
Osma, onde morreu ; declarando que não queria ser 
embalsamado, mas sim que lhe abrissem o peito, e 
dentro lhe puzessem um papeiem que estivessem es- 
criptos estes três nomes: Jesus, .Maria, José. O que se 
cumpriu. 

' Esta carta é longa, e temos pena de a não poder 
dar na integra, como um dos elementos mais sérios 
e mais esmagadores contra os sectários de Ignacio 
de Loyola. Comparada com a da edição que possuí- 
mos occuparia approximadamente i3 das paginas do 
texto d'esta Historia. A segunda carta occupar-nos-ía 
umas 28 paginas.be ambas aconselhamos a leitura. 



aSo 



HISTORIA GERAL 



panhia de Jesus, que se oppõem a todas es- 
tas coisas, por causa da sua grande aucto- 
ridade, da abundância de suas riquezas. 
do império que aitribuem a si, e da liberda- 
de que tomam... Contentaram-se ao prin- 
cipio de nos roubar por via do seu poder, 
e das suas riquezas muito superiores ás 
nossas, (como a inundação de uma tor- 
rente impetuosa) o esplendor do culto divi- 
no, o nosso amparo, e das cathedraes, des- 
pojando-nos dos dizimos, que nós possuia- 
mos. .Mas ao presente esforçam-se por nos 
arrancar das mãos a nossa jurisdicção, e o 
nosso bago. Passam depois ao que ha de 
mais santo, e mais próprio dos bispos, que 
é a administração dos .'-.acramentos,- na qual 
pretendem elevar as suas izenções, e os seus 
direitos acima das bulias dos papas, dos 
concílios geraes, das declarações da sede 
apostólica ; de sorte, que a companhia tem 
por uma sanguinolenta affronta a resistência 
de um bispo, que defende constantemente 
os decretos da Egreja. 

«Assim é necessário, santíssimo padre, ou 
arriscar a vida para conservar a jurisdicção 
da egreja, ou abandonar esta para conser- 
var a vida. . . 

«Achei, santíssimo padre, nas mãos dos je- 
suítas quasi todas as riquezas, todos os ca- 
bedaes, e toda a opulência d'estas províncias 
da America Septemtrional . . . Dois dos seus 
coUegios possuem ao presente 3:ooo car- 
neiros, além dos rebanhos de gado grosso ; 
e ao mesmo tempo, que todas as cathedraes. 
e todas as ordens religiosas apenas tem três 
engenhos de assucar, só a companhia possuc 
seis dos maiores. Um destes engenhos vale 
ordinariamente meio milhão de pezos, e tal- 
vez mais, alguns chegam a um milhão : 
e tendo esta casta de bens, que lhe rendem 
todos os annos cem mil pezos, esta única 
provinda da companhia, onde não ha mais, 
que dez coUegios, possue seis engenhos, como 
eu já disse. .\lém de tudo isto, tem herdades 
de tão prodigiosa extensão, que, ainda que 
estejam apartadas uma da outra 4 e ''> lé- 
guas, com tudo as terras de umas e outras 
vêem tocar-se entre si. Também tem riquíssi- 
mas minas de prata, e augmentam tão desme- 
didamente suas riquezas, que. se continuarem 



a marchar n'estc passo andando o tempo, 
serão os ecclesíastícos obrigados a ser men- 
digos da companhia, os seculares seus ca- 
zeiros, e os religiosos ír-lhes pedir esmola 
ás portas. 

«Devemos ajuntar a opulência dos seus bens, 
que é e.xcessiva, uma industria maravilhosa 
em os fazer valer, e os augmentar todos os 
dias e também á do seu commercio. Tem 
armazéns públicos, praças de bestas, açou- 
gues, lojas para negociações as mais vis, c 
mais indignas da sua profissão. 

«A resolução que tomoLi a minha egreja 
em um cabido, a que eu assisti, como bispo, 
de fazer intimar aos seculares que nas ven- 
das, que fizessem ás pes.soas isentas, reser- 
\assem os dizimos, porque não os podem 
alienar com prejuízo das cathedraes. . . foi a 
origem de todo o ódio, perseguição, c furor, 
com que estes religiosos se levantaram con- 
tra mim, e ao mesmo tempo contra a minha 
dignidade: porque, vendo elles que d'aquelle 
modo se punham limites a esta impetuosi- 
dade, com que amontoavam riquezas tão 
grandes., e em todos os tribunaes onde 
nos obrigam a ir com as suas demandas, 
pela razão, e justiça da nossa causa ; con- 
verteram os processos da justiça em in- 
jurias atrozes, as petições de direito em li- 
bellos difamatorios, escrevendo, e obrando 
contra mim, porque eu me tinha opposto á 
companhia para defender a minha egreja, c 
os pobres : e o fizeram com tanto atrevi- 
mento, e soberba, como se a dignidade epis- 
copal fosse inteiramente inferior á sua pro- 
fissão, pregando escandalosamente contra 
mim nos púlpitos. . . tratando das profissões 
santas, e catholicas, como se fossem suspei- 
tas... inquietando os poderes seculares, 
acon.selhando-lhes que me lançassem fora 
d'este reino, e animando os ministros d'el-rei 
a tão grandes sacrilégios. Teem passado a 
outra pretensão violenta, e ainda mais pre- 
judicial, tocante á jurisdicção, e administra- 
ção dos sacramentos. . . que elles adminis- 
tram a grande numero de pessoas seculares, 
que teem nas suas terras, sem para isto te- 
rem algum poder, nem jurisdicção : e (o que 
muito para exiranharj elles os casam, e as- 



DOS JESUIJAS 



281 



sim os obrigam a matrimónios nullos c in- 
válidos- . . 

«Aprovcitando-sc os padres da companhia 
da minha auzcncia, cm quanto 
cu estava occupado na visita 
do meu bispado, e os tribunacs 
d'csta província, com a qualida 
de de verificador geral, que sou, 
começaram a não pedir já licen- 
ça de pregar, e confessar ; e 
ainda que mandassem vir ou- 
tros de novo, elies os faziam 
confessar e pregar sem licença 
minha, nem do meu vigário ge- 
ral .. . Prohibiram-lhes, confor- 
me o concilio de Trento, con- 
fessar, e pregar os seculares, 
até que tivessem alcançado li- 
cença de mim, ou do meu vigá- 
rio geral... Responderam e.\ 
tra-judiciaimente que tinham 
privilégios para confessar sem 
approvaçião nem licença. E co- 
mo se lhes pedisse que mostras- 
sem os seus privilégios para 
confessar sem aprovação nem 
licença, responderam que tam- 
bém tinham privilégios para os 
não mostrar. 

«Fez-se-lhes instancia por ver 
at menos este ultim.o: respon- 
deram que não eram obriga- 
dos. . . e continuaram a pregar 
e confessar, ainda que se lhes 
tivesse prohibido. O meu vigá- 
rio geral os declarou e.xcom- 
nv ngados. Logo estes intrusos 
juizes conservadores declara- 
ram, com uma e.xtranha temeri- 
dade, que o meu provisor, e cu 
tinhamos incorrido em censu- 
ras. Foi a sua temeridade tanto 
adeante, que publicamente me 
declararam excommungado ! 
Os jesuitas, que tèem grande credito no 
palácio do vice -rei do .México, e no do ar- 
cebispo D. João de .Manosca, o obrigaram 
mandar prender João líaptista de Hcrrera, 
neu promotor... O arcebispo o decla- 
rou publicamente c.xcuinmungado, mandou o 



mcttcr no aljube, pôl-o aos ferros, e alli está 
ainda. . . como poderia estar em Inglaterra. 
«Nos documentos que remetto, verá vos- 
sa santidade, como os Jesuitas concitam os 




Estatua de Olans Fetri (jesuíta) 

fieis para que se levantem contra seu bispo, 
lhe recusem a obediência, que lhe devem, 
quebram o vinculo espiritual da sujeição, le- 
vantam altar contra altar, e formam um scis- 
ma abrindo assim porta a um sem numero 

de peccados, c escândalos, em que caem 

36 



282 



HISTORIA GERAL 



os heis; c tudo isto, porque os jesuitas se 
não querem sujeitar ao sagrado concilio de 
Trento! 

Que podem fazer os jesuitas ao grande 
monte e sommas immensas de dinlieiro que 
accumulam, senão servirem-se delle para se 
fazer senhores nos negócios embaraçados, 
combater a verdade, levar avante as suas 
pretensões, levantar-se acima dos cânones, 
perseguir os que se iiies oppõem, abusando 
dos seus privilégios e atormentando os bis- 
pos, os outros religiosos, c os seculares, que 
todos clamam contra as acquisiçõcs, e grande 
credito destes padres'?. . . 



«No tempo em que eu fui obrigado a pro- 
hibir aos jesuitas de confessar, succedeu que 
uma viuva rica do México, chamada D. Bea- 
triz de Manilha, morreu, e lhes deixou 7:000 
pezos em dinheiro, e rendas, ainda que no 
bispado tinha grande numero de parentes 
pobres, órfãos, e desamparados. Esta deixa 
deu tal confiança aos jesuitas, que de repente 
viram tão grande somma de dinheiro entre 
as suas mãos, que começaram a fazer uma 
cruel guerra, porque tinham abundantemente 
que gastar em demandas. . . Todo o mundo 
sabe que o padre Diogo de Monroy, reitor 
do collegio da Povoa dos Anjos, disse estas 
palavras, que fazem conhecer a verdade do 
que eu tenho dito : leve o diabo a companhia; 
Pois de que serviriam estes -:oon pesos (cen- 
to e cinco mil cruzados portugueses), se não 
servissem para ganhar esta demanda ?» 

Os jesuitas tinham conseguido erigir em 
universidade o seu collegio de Madrid, com 
dez mil escudos doiro de renda, apesar da 
opposição de todas as universidades da His- 
panha, as quaes por certo ninguém attribui- 
rá a pecha de não cathoiicas. Assumindo 
esta importância académica, os jesuitas fize- 
ram doutor um dos seus, chamado Roza, e 
elegeram-no para interprete da Escriptura 
Sagrada. Mas as doutrinas que este doutor 
de contrabando expunha eram tão contra- 
rias ao dogma da Egreja, que as universida- 
des, depois de a estudarem a fundo, as ex- 
tractaram, e as denunciaram á inquisição de 



Madrid, reduzidas a forma de symbolo '. 

Um escripto d'este jesuita tinha já sido 

condemnado em Roma em 1628. Longe de 

se submetter a esta censura, Roza publicou 

' Novo syiiibolo da fé, a maneira jesuítica. 

1 
Creio que ha dois deuses, um dos quaes, no sen- 
tido figurado e segundo a geração eterna, é ao mesmo 
tempo Pae e Mãe do Filho; e o outro, no mesmo 
sentido figurado, c segundo a geração temporal é a 
Mãe e o Pae, donde se segue que o nome de Malri- 
Pater convém tanto a Deus Pae, como á bemaven- 
turada Virgem Maria, como se um e outro fosse 
hermaphrodita e um e outro tivesse dois sexos. 

II 
Creio cm Jesu-Christo, Filho único d'um c outro, 
no sentido figurado c segundo as gerações eterna c 
temporal. 

III 

Creio que Jesu-Christo, como homem, foi concebi- 
do e nascera da Virgem Maria, como de pae e mãe. 
no sentido figurado, e pela virtude paterna e materna 

IV 
Creio que Jesu-Christo, não soffreu, e que não mor- 
reu verdadeira e realmente, porque não podia mor- 
rer. 

V 

Creio que foi sepultado, mas que não morreu ver- 
dadeira e realmente. 

VI 

Creio que a sua alma desceu aos infernos no sen- 
tido figurado, pois que não foi separada do seu corpo. 

VII 
Creio que resuscitou dos mortos no mesmo sentido 
em que morreu. 

VIII 

Creio que subiu aos céus, que está sentado á direi- 
ta de Deus Padre, e que de lá virá a julgar os vivos 
e todos os que tem morrido até hoje. 

IX 
Creio no Espirito Santo, que falou pela bocca dos 
prophetas, embora estes se enganassem muitas vezes. 



Creio que a Egreja é santa, na sua maior parte, 
creio também na communhão dos santos. 

xr 

Creio na remissão dos peccados que se hade ope- 
rar por uma chegada súbita do Espirito Santo sobre 
os Ímpios. 

XII 

Creio na ressurreição da carne, na sua maior parte; 
creio também na vida eterna, mas tenho as minhas 
duvidas que isto não seja bem assim ! 



DOS jesuítas 



í83 



varias Apologias ainda mais revoltantes. Sou- 
be-o a congregação do ludex e condemnou, 
pelo seu decreto de 9 de setembro de i632, 
todas as obras e todos os libellos apologéti- 
cos que Roza e seus sócios tinham publica- 
do. Os jesuitas tomaram a defesa do seu he- 
rético companheiro, e tiveram empenhos e 
artes para impedirem que a inquisição de 
Madrid recebesse o decreto de Roma. 

A" vista de tão clamoroso escândalo, Fran- 
cisco Roales, doutor de Salamanca, capellâo 
de Flippe IV, propoz-se perseguir aberta- 
mente os jesuitas e publicou contra elles um 
documento, que é uma completa e irrespon- 
divel accusação. 

«Eu ataco toda a S. J.. porque muitas das 
obras de Roza foram compostas, distribuí- 
das e vendidas publicamente em Madrid em 
nome da socieciade e para defesa da socie- 
dade. Farei ver, que Roza se vangloria de 
estar ligado á Egreja, e que o papa não 
a pôde nem citar, nem obrigar a comparecer 
no seu tribunal. Estabelecerei que, segundo 
os argumentos d"este jcsuita, as decisões da 
Santa Sé, bem como a dos concílios geraes 
cm casos de doutrina, e quanto ás pessoas, 
tem sido por vezes nullas e perniciosas, e 
que ainda o podem ser: que c permittido a 



cada qual innovar etn matéria de religião, 
contra o unanime sentimento dos padres e 
doutores da Egreja. 

«Provarei que Roza espalha e prega em 
publico, em linguagem vulgar, os seus pestí- 
feros dogmas, e que por vezes os faz impri- 
mir clandestinamente ; que seduziu e arras- 
tou aos seus erros, por diabólicos artifícios, 
muitos grandes de Hispanha, bastantes bis- 
pos, alguns doutores e certas mulhersinhas. 
Demonstrarei que o regimen da sociedade, 
que se diz de Jesus, favorece, auctorisa, ap- 
prova e preconiza o cruzeiro de Roza.. .» 

Roales continuava os seus P. P. que são 
uma verdadeira carga a fundo nas doutrinas 
religiosas dos pseudo-catholicos, que se cha- 
mam jesuitas, e terminava pedindo que, «se- 
gundo as formalidades do direito e da justi- 
ça, os jesuitas em geral e cada um em parti- 
cular fossem considerados como suspeilos e 
perigosos na fé, condemnados a abjurarem 
publicamente, e a purgarem-se de todos os er- 
ros e de todas as heresias de que elle os ac- 
cusava.f 

Os jesuitas tiveram bastantes empenhos 
na corte de Filippe l\ para afastarem a 
tempestade e isto animou-os a lançarem-se 
sem receio no caminho do crime. 



2^4 



HISTORIA GERAL 



LI 



Crimes provados de direito commum 



A província jesuítica de Sevilha, nos lins 
da primeira metade do século xvii, era 
uma das mais consideradas da S. J. Tinha 
trinta e duas casas difterentes e setecentos a 
oitocentos jesuítas. Só na cidade de Sevilha 
existiam seis estabelecimentos dedicados a 
Ignacio de Loyola. Um d"esses estabeleci- 
mentos, o collegio de Santa Hermenegiida, 
tinha por procurador ou administrador tem- 
poral um tal irmão André de Villar. Este 
homem, querendo augmentar a riqueza, e 
portanto a importância do coHcgio que admi- 
nistrava, concebeu o projecto de commerciar 
por conta do mesmo collegio. E como para 
muitos os negócios «são o dinheiro dos ou- 
tros», Villar tratou de pedir dinheiro em- 
prestado a toda a gente ; mas dirigia-se de 
preferencia, para o que elle chamava uma 
obra pia, ás almas devotas e ás consciências 
timoratas, ás quaes promettia, além d'outros 
juros, os das recompensas celestes e perdão 
divino. Dentro em pouco, e com a ajuda dos 
seus sócios, que empregavam todos os meios 
para indirectamente o auxiliarem na colhei- 
ta, tinha conseguido alcançar empréstimos 
na importância, enorme para aquella epocha, 
de quarenta e cinco mil ducados. 

Com este dinheiro o jesuíta fex.-se simul- 
taneamente agrónomo, mercador, constru- 
ctor, armador, industrial de toda a espécie : 
construiu casas, comprou propriedades, ga- 
dos, pannos, ferro, açafrão, canella, bauni- 
lha; depois revendia tudo, comprava de no- 
vo, fazia construir navios, carregava-os de 
mercadorias, enviava-os ás colónias híspa- 



nholas, donde os seus agentes e caixeiros 
lhe mandavam productos coloniaes que elle 
vendia na Europa, e tudo isto com o con- 
sentimento dos superiores e cid majorem Dei 
íilonam. No começo a casa Villar & Loyola 
realisou enormes benefícios; depois, ou por 
ínhabilidade, desastre, ou por que Deus quí- 
zesse provar ao mundo que os jesuifis abu- 
savam do seu nome, o jesuíta, em vez de 
reembolsar os credores que lhe pediam o 
seu dinheiro, respondeu-lhes que «não tinha 
um chavo em caixa, e nem sabia como havia 
de pagar-lhes ' !» 

Comprehende-se qual o clamor que tal 
noticia levantou contra os jesuitas ! Duzentas 
ou trezentas famílias se acharam logo redu- 



' Jii dissemos n'um outro capitulo que foi tal o 
abuso dos jesuitas em Hispanha, sugando enormes 
sommas de dinheiro e enviando- as para o seu the- 
soiro em Roma, que Filippe II se viu obrigado a 
prohibir-lhes, por um decreto do seu real conselho, 
que angariassem dinheiro nos seus reinos, e que por 
forma alguma, ou por qualquer pretexto que fosse o 
fizessem sair dos seus estados. A maior parte d'estás 
sommas, principalmente no século xvii e seguinte 
eram empregadas na sustentação d'um luxo muito 
pouco catholico. Se se arguiram os frades de gulo- 
tões, os jesuitas so, n'esies dois séculos, se differen- 
çaram d'elles na finura dos manjares, e na especiali- 
dade dos mais finos vinhos ; na delicadeza das suas 
roupas brancas, feitas do linho mais cuidadosamente 
fiado e propositalmente tecido para elles. Como não 
eram obrigados a coro em commum, occupavam o 
tempo que deviam dar a Deus na combinação das 
intrigas e nos gosos da vida, que, no fim de contas, 
tanto para os jesuitas como para os outros mortaes, 
«são dois liias I» 



DOS jesuítas 



28S 



zidas á miséria, pela bancarrota immincnte. 
Foi então que o provincial interveiu e, a 8 
de março de it)4t), n'Lima reunião de credo- 
res, que se realisou na casa professa de Se- 
vilha, propoz-lhcs reembolsal-os com 3o % 
dos seus créditos. Os credores recusaram 
terminantemente, pretendendo, e com razão, 
que não era ao irmão Mllar, mas á própria 
companhia a quem tinham em- 
prestado o seu dinheiro, e que, 
se a caixa do procurador estava 
vasia, a da companhia estava suf- 
ficientemente recheada para os re- 
embolsar integralmente. E assim 
se dissolveu a reunião. Dois dias 
depois, os credores souberam que 
um d' entre elles tinha acceitado 
as propostas do provincial, e que 
se tratava de fazer com que, pe- 
los meios judiciaes, todos elles 
adherissem ao arranjo '. Os jesuí- 
tas fizeram immediatamente no- 
mear um liquidante da fallencia, 
homem de sua confiança, que fa- 
zia os pagamentos em conformi- 
dade com as indicações dos je- 
suítas e na qual o maior numero 
de credores eram fictícios. Os 
credores verdadeiros clamar?m 
indignados; formularam uma 
queixa vehemente, e bem apoia- 
dos de provas dirigíram-se a Filip- 
pe IV^ Os jesuítas responderam 
mandando prender \'illar, que 
então, e só então, accusaram de 
ter, sem auctorisacão dos seus su- 
periores, emprehendido um nego- 
cio extranho á companhia e con- 
trario ás regras do seu instituto. 

André Villar, porém, foi posto em liber- 
dade, tão depressa apresentou duas cartas 
dos seus chefes provando que estes, se não 
tinham approvado os seus negócios, sabiam 
e consentiam a sua casa de commercio. 

O que, sobretudo, suscitou a indignação 
geral contra os jesuítas, foi uma carta do pa- 
dre provincial, junta ao processo, e na qual 



este dignitário da companhia, respondendo 
ao irmão André Villar, que lhe aconselhava 
que se compozesse com os credores, lhe res- 
pondia em substancia : «Nós devemos muito 
para que possamos pagar. O nosso credito 
está perdido; portanto nadi mais temos a 
fazer do que salvar o nosso dinheiro da me- 
lhor forma que nos for possível I etc.» 




' As memorias do tempo asseguram que este cré- 
Jor recebeu o seu credito por inteiro, para se pres- 
t.ir a esta comedia. 



Sigesmundo 11!, rei da Polónia e da Suécia 

Não nos é possível narrar todas as phases 
d'este processo, que durou muito tempo e 
causou um grande ruído. Limitar-nos-hemos 
a dizer que os jesuítas acharam meio de evi- 
tar, pelo menos em parte, a execução das 
sentenças que os credores a custo alcançaram 
da justiça do rei. Mas de que elles se não li- 
vraram foi da infâmia de failídos fraudulen- 
tos com que a posteridade os marcou, embo- 
ra elles se ficassem rindo. 

Quanto ao irmão André Nillar, como bom 
jesuíta, conhecendo de que laia eram os seus 



286 



HISTORIA GERAL 



sócios, disse-lhes adeus, fez lhes presente 
dos votos, que por mais duma vez tinha ju- 
rado, c casou-sel 

Este processo poz a claro outra inlamia 
dos jesuítas. 

A requerimento dos credores da fallencia, 
o conselho real de (^astella encarregou um 
dos seus membros de examinar todos os li- 
vros de contas do collegio de Santa Hermc 
negilda, bem como a caixa do procurador. 

Entre os livros existia um que tinha por 
titulo: Livro das obras pias. Lendo-o com 
attenção, encontrou-se n'elle a prova de que 
os bons filhos de Ignacio de Loyola estavam 
indevidamente de posse d'uma .somma de 
8?:ooo ducados, pertencente a um fidalgo de 
Sevilha, chamado D. Rodrigo Barba Cabeça 
de Vacca, a qual somma havia sido confia- 
do, trinta annos antes, por um tio deste fi- 
dalgo aos jesuitas d'este collegio. 

Tinha elle querido subtrair este dinheiro 
ás contingências d'um processo, que lhe in- 
tentava uma mulher que pretendia ser sua 
filha, e a quem elle recusava reconhecer se- 
melhante qualidade. 

João de Monsalva, o auctor do deposito, 
linha pedido aos depositários que conservas- 
sem esta somma para seu sobrinho e da qual 
elles levantariam todos os annos, dos juros 
respectivos, oitocentos ducados para obras 
de caridade. Ora, parece que os bons pa- 
dres, assim que D. João morreu, entenderam 
que o melhor era ficarem com o capital e os 
juros. Mas levaram a generosidade a darem 
todos os annos, a titulo de esmola, ao sobri- 
nho de D. João, tão descaradamente espo- 
liado, uma pequena quantia, com que clles 
cumpriam o legado de oitocentos ducados, 
deixados por Monsalva I 

O delegado do conselho régio obrigou os 
jesuitas a restituírem o que tinham roubado, 
e D. Rodrigo entrou, não sem custo, na pos- 
se dos seus 83:ooo ducados. 

E' pela mesma epocha que succedeu a co- 
nhecida historia do ferrador de Madrid; o qual 
pretendendo os jesuitas burlai-o, foi elle que 
se divertiu á custa dos reverendos padres, e 
pelo ridículo os obrigou a entregarem o que 
lhe queriam extorquir. 



Um ferrador de Madrid, não sabendo que 
fazer dum filho que tinha, na intenção de 
lhe assegurar o futuro, fel-o entrar na com- 
panhia de Jesus, onde o rapaz foi perfeita- 
mente recebido, graças a uns dois mil duca- 
dos que o noviço levava de piso. 

Mas o rapazote era tão fundamentalmente 
estúpido, que os jesuitas, não sabendo que 
fazer d'elle, niandaram-no de presente ao 
pae. 

— Pois muito bem, meu filho, diz o pae 
olhando para o rapaz, que vinha dos jesuitas 
mais idiota do que para lá fora; não vale a 
pena a gente desconsolar-se por tão pouco. 
Não podes ser jesuíta, pois serás ferrador. 
Se tens que ser torrado no inferno, vaes-te 
já accostumando com a forja ! 

Depois, pensou nos seus mil ducados que 
os jesuítas se tinham esquecido mandar com 
o rapaz; e foi pedír-lh'os. 

Os bons padres responderam a esta recla- 
mação com uma enorme conta de alimentos, 
educação, edificação, santificação, o diabo... 
prodigaiisadas ao rapaz; e conseguiram en- 
contrar um juiz que deu por boas taes contas. 

Ora o ferrador, vendo que dois mil duca- 
dos era dinheiro de mais para uma roupeta 
de jesuíta, jurou que havia de tirar lhes os 
juros, e fazendo envergal-a ao filho, man- 
dou-o para a olHcina, assim vestido, apren- 
der o ollicio. 

E Madrid cm peso corria para ver o je- 
suíta a dar ao folie, com a gravidade d'um 
padre mestre ! 

Os jesuítas, para fazerem cessar o escân- 
dalo, entregaram os dois mil ducados ao fer- 
rador, o qual, recebendo parabéns pelo es- 
tratagema, respondia sempre, alludindo aos 
clientes a que calçava! 

~ í^ommigo não levavam a melhor; já 
estou de ha muito acostumado a lidar com 
elks. 

Nesta capital vivia uma mulher rica que 
tinha por confessor um jesuíta; caindo doen- 
te, mandou chamar este, e tal artes o bom 
padre empregou que a resolveu a fazer um 
testamento pelo qual deixava todos os seus 
bens á companhia, com manifesto e crimi- 
noso prejuiso de todos os seus parentes. O 
confessor voltou satisfeitíssimo para casa, e 



DOS jesuítas 



287 



ao recreio, em tom de brincadeira, pediu a 
recompensa do serviço que tinha prestado. 

Mas, por um destes acasos verdadeira- 
mente raros, aconteceu viver n'aqueila casa 
um outro )esuita, íilho d'uma casa illustre, 
c cujo sangue nobre se revoltou contra este 
crime, que desde logo pensou na maneira 
de desfazer o que o seu camarada tinha fei- 
to, e de que se louvava como de uma acção 
heróica. 

Saiu, foi a casa da doente, n'uma occasião 
cm que sabia que se não achava lá o con- 
fessor, e, mercê da roupeta, abriram-Ihe a 
porta; porque é uma das máximas dos je- 
suítas de não deixarem approximar quem 
quer que seja das victimas, que já têem ap- 
parelhadas. 

Este jesuíta, homem de bem, levou com- 
sigo um tabellião, e, depois de convencer 
santa e honradamente a enferma de queella 
devia deixar os seus bens aos seus legíti- 
mos herdeiros, fez com que cila fizesse novo 
testamento nesse sentido. 

Horas depois morreu a mulher, e, aberto 
o testamento, víu-se que deixava como her- 
deiros universaes os jesuítas, e já o confessor 
começava a mandar pôr na rua os sobrinhos 
da defunta, seus legítimos herdeiros, quando 
um d'estes lhe apresentou o codícílío e ex- 
pulsou, por sua vez, os larápios. 

Os jesuítas indagaram e souberam donde 
partira o golpe, e e.xpulsaram o padre ho- 
nesto da companhia, onde evidentemente 
não podia viver um homem de bem. 

Felizmente o rei tomou-o sob a sua pro- 
tecção, c assim escapou de morrer ás mãos 
dos seus antigos companheiros, sotfrendo a 
mesma sorte do padre Ximencs, a quem os 
jesuítas assassinaram, em id33, por não ter 
aconselhado uma de suas confessadas, que 
fizesse testamento em favor delles. 

Uma chronica de 1784 conta o seguinte 
edificante caso : 

O collegío jesuítico de Granada possuía 
uma propriedade rústica nas proximidades 
da cidade, chamada Capasacena. A admínis- 
cração desta vivenda foi dada ao padre Bal- 
thasar, que se enamorou duma mulher 
daquelles sítios, casada, e cujo marido o je- 
nta empregou nos trabalhos do campo. 



com salário avultado, para o ter longe e se- 
guro emquanto lhe seduzia a mulher. 

O marido, porém, começou a desconfiar 
do padre, achou felicidade de mais o au- 
gmento da jorna, e vigiou de perto. 

Um dia Balthasar, suppondo o marido lon- 
ge, veio de Granada e entregou-se sem pre- 
cauções ao amor ; mais eis que surge o pa- 
ciente apanha-o no leito, e faz verificar o 
adultério. 

Seguia o processo seus tramites, quando o 
reitor de Granada resolveu salvar a honra 
do convento, e fez com que fossem ouvidas 
novas testemunhas que provaram : — que a 
mulher era já edosa, apesar de contar ape- 
nas vinte e oito annos ; e que o assassinado 
era um santo. Ninguém sabia porque, mas 
todos juraram que jamais o tinham visto sem 
ser com umas contas na mão I 

As testemunhas d'accusação foram regei- 
tadas, e o processo foi conduzido de forma 
tal que o pobre marido foi condemnado a 
morrer na forca I 

O reverendo padre Balthasar, morto em 
flagrante crime d"adulterío, foi canonizado 
pelos Loyolenses, collocado o seu nome en- 
tre o de outros santos raartyres, taes como 
o padre Girard, cujos peccadilhos )á n'outro 
logar contámos. 

O padre Mena, compatriota e contempo- 
râneo do padre Balthasar, foi homem de 
grandes talentos exteriores. Fazia bellas pré- 
dicas, falava a toda a hora de Deus e da 
eternidade : era magro, pallido, olhos enco- 
vados, e sempre de roupeta usada e as ine- 
vitáveis contas na mão. 

Este jesuita, que vivia em Salamanca, era 
confessor duma menina e.xtremamente sim- 
ples. Um dia disse-lhe que Deus tinha de 
terminado que elle i^ircsse com cila em união 
conjugal; mas tjue era preciso para isso 
guardar inviolável segredo. Pareceu isto ex- 
tranho áquella sincera devota, e foi consul- 
tar sobre o caso os doutores da universida- 
de. O padre Mena, porém, como hábil e ex- 
perimentado n"outras empresas do mesmo 
género, foi advertir aquellcs doutores, que 
tendo-sc encarregado da direcção espiritual 
duma devota toda cheia de escrúpulos, ella 
por certo os iria enfastiar com bagalellas, e 



288 



HISTORIA GERAI. 



que desde já os prevenia que era tempo 
perdido aquellc em que a estivessem ouvin- 
do; que o melhor que tinham a fazer era 
dizcr-lhe que seguisse ás cegas as ordens do 
seu confessor. A lama de santo de que go- 
sava o bom padre afastou do espirito dos 
doutores qualquer idéa de velhacaria, e, sem 
mais pensarem no caso conformaram-se 
com as indicações que o jesuita lhes deu. 

A devota foi ter com elles c vciu persua- 
dida de que tudo quanto o padre Mcna man- 
dava, era como se fosse mandado directa- 
mente pelo ceu, e passou a viver com o seu 
confessor, e a dar liihos d Hispanha. que tanto 
então precisava de homens. O padre não in- 
terrompeu o curso das suas funcçõcs e conti- 
nuou a ser o mesmo santo varão que Sala- 
manca venerava. 

A inquisição que, como se sabe nunca vi- 
ra com bons olhos a S. J., informada do que 
se passava resolveu dar um castigo exem- 
plar, na pessoa do jesuita, e apoderandò-se 
d'elle, lançou-o nos cárceres do Santo-Oifi- 
cio de Valladolid. A> sociedade correu logo 
em auxilio de iMena, e luctou com todo o seu 
poder contra a inquisição, e conseguiu que 
certos médicos attestassem que o encarcera- 
do se achava gravemente enfermo, e assim 
obtiveram que elle fosse transferido para a 
enfermaria do collegio jesuítico, sob a guar- 
vla dos ofliciaes do .'^anto-Officio. Mas como 



não era possivcl fazer abafar aquelle nego- 
cio, tão escandaloso e notório fora, como ti- 
nham sido tantos outros, recorreram a uma 
dessas situações thcatraes tanto da essência 
da S. J. desde ate o seu fundador. 

Declararam que o padre Mena tinha mor- 
rido; arranjaram ura boneco com uma mas- 
cara de cera que se lhe assemelhava, fecha- 
ram-no no caixão, e pediram aos ofliciaes do 
Santo-Orticio que tivessem a caridade de lh"o 
ajudarem a levar para a egrcja. 

E emquanto os sinos tocavam a linados, e 
os sócios engrolavam os piedosos psalmos á 
beira da éça, o venerável Mena galopava 
n'uma bella mula, dizendo adeus á inquisi- 
ção * I 



' Por esta occasião um ouiro jísuita, o padre Sa- 
las ensinou a seguinte doutrina : que um religioso de 
uma ordem apprcvado, que tivesse a verdadeira pro- 
babilidade d'uma revelação divina de que Deus o dis- 
pensava do seu voto de castidade para se casar, po- 
dia usar d'esta dispensa provável, embora duvidosi. 
Parece que tal opinião era algo arriscada, porque o 
auctor, ou advertido ou convertido, fel-a retirar do 
resto da edição do seu livro, muito embora a deixas- 
se correr mundo nas íolhas já impressas. 

Estou em crer que eite expediente demonstra mais 
uma velhacaria do que o arrependimento d'um erro. 

Alem d'isto antes do livro impresso o original com 
a famosa opinião foi lido e approvado pelos superio 
res da S. J , sem cuja approvação não saia livro algum 
;i luz, das m.^os de qualquer jesuita que fosse. 



DOS jesuítas 



3»V) 



LU 



Burlões 



Oauctor do Thcatro jesuitico • conta a 
seguinte historia, que é mais uma pro- 
va da completa ausência de sentimento pá- 
trio nos jesuitas, e ao mesmo tempo um do- 
cumento da falta de seriedade com que tra- 
ctavam os negócios mais importantes. 



ás casas religiosas. Este pedido representava 
uma verdadeira contribuição de guerra. 

Os encarregados de receber as diversas 
quotas dirigiram se em primeiro logar aos 
jesuitas, não duvidando que em tal crise ei- 
les dessem uma grande somma para ajudar 




Horrores da guerra doe Trinta annos 



O rei d'Hispanha, em guerra com o da 
França e falto de dinheiro, pediu um auxilio 

' O auctor d'este livro, hoje extremamente raro, 
tem uma historia curiosa que convém narrar para que 
possamos avaliar da auctoridade das suas affirma- 
ções. 

Sua mãe, irmã do marquez de Mortara, governa- 
dor de Milão, era dama d'honor da rainha Isabel de 
l-'ran>;a, mulher de l'ilippe IV dilispanha. Este, ten- 
do-a seduzido e sabendo-a no seu estado interessante, 
tratou de a casar com o Marque/, de ()uintana, um 
dos mais ricos tidalgos da sua corte. O marquez por 
tiil forma se apaixonou por sua mulher c tantas pro- 



a tirar o rei dos apuros em que se via, tanto 
mais que eram lavradores, creadores de ga- 



vas de estima lhe deu, que ella julgou de seu dever 
descobrir-lhe o segredo, e confessar que antes de 
casar com elle j.-i vinha pejada do rei. Mas quaesquer 
que fossem os protestos de fidelidade e d'amor de- 
pois do seu casamento, que ella lhe deu, tal noti- 
cia foi como um golpe mortal no coração de seu ma- 
rido, o qual sem uma palavra de censura, sem uma 
única demonstração de menos respeito, começou a 
definhar-se e dois mezes apoz a terrível revelação 
era cadáver. 

A marqueza, assim que deu á luz, recolheu-se a um 

37 



2Q0 



HISTORIA GERAL 



do, agiotas, banqueiros, fabricantes de moe- 
da, cambistas, advogados, proprietários de 
empresas de viação, mandarins na China, 
herdeiros e testamenteiros, emlim senhores 
e possuidores de todas as actividades sociacs 
que rendem grossos dinheiros. 

Estes padres responderam aos cobradores 
que fossem pedir ás outras casas religiosas, 
porque eiles jesuitas dariam tanto como 
aquelia que mais tivesse dado, e até tanto 
como todas as outras juntas. 

C^om esta resposta dos jesuitas, os encarre- 
gados da contribuição foram ter com os ou- 
tros religiosos, e fizeram com que muitos 
dessem o que não podiam, só para que a 
quota dos jesuitas fosse tanto mais avul- 
tada. 

Feita a lista voltaram com ella aos jesuí- 
tas, e reclamaram o cumprimento da pro- 
messa feita e da palavra dada. 

Os reverendos sacerdotes responderam 
que dinheiro não tinham, mas que dariam 
três conselhos que, se S. Majestade os qui- 
zesse seguir, produziriam mais de doze mi- 
lhões. Contado isto ao conde-duque dOliva- 
res, foi grande a alegria d'este, e já sentia os 
ducados em ouro a cairem-lhe em chuva 
dentro dos cofres, sem se lembrar que tra- 
ctava com jesuitas. Mandou pois chamar o 
provincial c disse-lhe que se explicasse. 

Vem o santo homem, e, com um sorriso 
muito descaminho e de devoto, expoz o seu 
plano. 

O prim.ciro conselho, era dar <> rei todas 
as cadeiras de lentes das universidades de 
Hispanha aos jesuitas, que elles se obriga- 
vam a rcgel-as sem estipendio de espécie al- 



convento, d'onde velou cuidadosamente pela educa- 
ção de seu filho. Tempos depois professou e ahi mor- 
reu. Antes, porem, narrou toda a sua historia a seu fi- 
lho que, em vez de entrar no mundo com o titulo bri- 
lhante de marquez de Quintana, fez se frade e pro- 
fessou na ordem de S. Domingos. 

Foi com o nome de Ildefonso de S. Thomaz, que 
elle compoz este livro, destinado a defender as varias 
congregações religiosas das calumnias inventadas con- 
tra ellas pelos jesuitas. Daclara elle que não narra um 
único facto que não seja de toda a -S .1 ou d'algum 
dos seus membros, de quem a communidade não te- 
nha tomado a defesa e protecção, e portanto assumi 
do a responsabilidade. Acrescenta mais, que, se nas 
outras ordens religiosas, um dos seus membros preva- 



giima, e que assim S. .M. podia lançar mão 
dos ordenados dos professores, o que mon- 
tava a mais de 400:000 mil ducados por an- 
no ; representados por um fundo de mais de 
8 milhões. 

Era o segundo conselho, obter o rei do 
papa que este reduzisse a reza do breviário 
a um terço do que está determinado pelos 
cânones ; que, obtido isto, o rei faria impri- 
mir breviários e diurnos com a nova reza; e 
que os que d'elles se quizessem servir, em 
compensação da massada de que ficavam al- 
liviados, pagariam 10 ducados por cada bre- 
viário e 3 por cada diurno. Este expediente 
daria tanto ou mais do que o primeiro. 

C) terceiro consistia em o rei lhes mandar, 
a elles jesuitas dizer todas as missas que 
constituíam os legados das outras ordens re- 
ligiosas, tanto da Hispanha como das suas 
colónias, missas que elles diriam de graça, 
e das quaes o rei receberia a paga I 

E'. fácil de vèr a burla, servindo os inte- 
resses da ordem e o ódio que ella votava ás 
outras congregações religiosas. 

Mas, o que é mais para admirar, é que o 
ministro de Filippe IV tomou os conselhos 
a sério e quiz tentar pôl-os em execução. 
Começou pelo primeiro, por aquellc que 
os jesuitas até pagariam a dinheiro contado, 
pelo ensino ; mas o pessoal universitário op- 
poz-se generosamente a que tal protervia se 
lealisassc; e o padre mestre Basilio Ponce 
de Leon, professor de véspera na universi- 
dade de Salamanca, escreveu uma memoria 
doutíssima, que eu vi, diz o auctor do llu-a- 
Iro Jesuítico^ nas mãos do doutor D. Miguel 
.loão de \'ímbodí, secretario do eminentíssi- 



rica, é logo castigado ou expulso, e que nos jesui- 
tas não são, por assim dizer, os indivíduos que pec- 
cam, mas que o relaxamento é geral. E justifica isto 
com as palavras dos jesuitas Azevedo e Villa Santa, 
que tendo renovado a seita dos lUuminados, e pre- 
sos por isso e perguntados pelos actos abominá- 
veis que praticavam, responderam,: — «que se era por 
isso que os tinham prendido, podiam também ir pren- 
der toda a sociedade.» 

O rei d'Hispanha reconheceu o auctor do Theatro 
jesuítico como seu filho e fel-o bispo de Placencia, 
um dos melhores e mais importantes bispados d'His- 
panha, depois do de Toledo. 

O livro, impresso em (Coimbra i(J54, é otferecido 
ao papa Innocencio X. 



ijos jesuítas 



agi 



mo cardeal l'".spinola, ao tempo arcebispo de 
(Iranada. 

N'es.sa memoria, absolutamente irrefutá- 
vel, elle convencia os jesuítas de toda a sor- 
te de heresias, e concluía que a intenção 
delles era de se apossarem de todas as ca- 
deiras d'ensino, afastar delias os outros re- 
ligiosos, e depois estabelecerem sem contra- 
dicção o ejisino das suas perniciosas doutri- 
nas. 

O papa, como era bem de prever, não 
quiz concordar com o segundo e terceiro 
expedientes. Respondeu que, pelos tempos 
desgraçados que iam correndo, havia mais 
necessidade de augmentar que de diminuir 
as orações; e pelo que se referia ás esmolas 
das missas, que ellas eríim um meio de sus- 
tentar muitos padres e muitos frades que 
não dispunham das riquezas da companhia 
de Jesus. 

E assim foi que os jesuitas nem sequer 
deram um perro cliico para as necessidades 
do Estado ; e ainda em cima se ficaram rin- 
do da ingenuidade do ministro que os tinha 
tomado a sério. 

Este pobre conde-duque estava- destinado 
a ser ludibriado a toda a hora pelos jesui- 
tas. 

Souberam elles que nas serras de Gra- 
nada existiam umas pastagens foreiras á co- 
roa, mas das quaes havia mais de cincoenta 
annos se não recebiam os foros, ou por dif- 
ficuldade de cobrança, em serras invias, ou 
talvez, e é o mais provável, porque a coroa 
tinha ditticuldade em estabelecer os seus di- 
reitos. Os jesuitas, allegando a e.xtrema pe- 
núria em que viviam, e a inutilidade de taes 
terrenos para o rei, pediram que lhes fos- 
sem concedidos; e o conde-duque logo lhes 
deferiu a pretenção. Immediatamente vão 
os jesuitas a Granada, intentam acções judi 
ciacs, fazem penhoras, esbulham uns e ou- 
tros exigindo a todos o pagamento de divi- 
das já montando a sessenta annos de exis- 
tência, de forma que os neros se acharam 
por este processo onerados com os débitos 
dos avós. 

Como doutrina christã de pobres mis- 
sionários, confessemos que merecia pouco 
raenos do qiie a forca. Granada esteve a 



ponto de os correr á pedra, e elles de lar- 
garem fogo a Granada. 

E assim pagaram os santos homens áquella 
cidade, uma das que mui generosamente os 
accolhera, os serviços que ella lhes fizera. 

Não sairemos de Granada sem contar 
mais uma historia intima das innumeraveis 
gentilezas dos bons homens. 

Eernando e Isabel tinham auctorisado os 
primitivos habitantes da cidade de Santa-Fé, 
a desviarem do rio Genil um canal que le- 
vasse agua a regar as suas terras, com a 
clausula de que ninguém se poderia servir 
delia sem o consentimento dos habitantes e 
seus successores. Havia muitos annos que 
os jesuitas appeteciam a posse de tal agua, e 
para isso empregaram mil artifícios e artima- 
nhas, mas encontraram sempre a opposição 
irreductivel dos moradores da cidade, pro- 
prietários do canal. Lembraram-se de com- 
prar uma pequena courella de terreno nas 
proximidades do canal, com o fim de se 
apoderarem da agua, de forma que os ha- 
bitantes de Santa Fé, se quizessem beber, 
teriam que \ir-lhes pedir pelo amor de 
Deus. 

Era então reitor do collegio o padre Fon- 
seca, c que mandou a um outro jesuita archi- 
tecto que fizesse um moinho de madeira, e 
construído de tal forma, que podesse ser 
montado e posto a moer no espaço d'uma 
hora. 

O padre architecto cumpriu as ordens do 
seu superior; c quando tudo esteve prompto, 
foi o moinho conduzido em carros para a 
já niencionada courella, e n'uma noite as 
peças foram coUocadas no seu logar, e, com 
ajuda dos creados e mais pessoal que man- 
daram vir d'outras propriedades ruraes, abri- 
ram uma valia e conduziram para a courella 
toda a agua do canal. 

Os trabalhos foram dirigidos de tal ma- 
neira, que antes da meia noite já as mós gi- 
ravam e moiam trigo! Depois veiu um no- 
tário, a quem a gente do collegio declarou 
que tinham visto o moinho trabalhar na cou- 
rella sem opposição de pessoa alguma. 

Julgavam os jesuitas que, estando assim 
de posse e tendo juizes peitados, ninguém 
seria capaz de os expulsai' «.ralli, nem de 



HISTORIA GERAL 



rchaver a agua. Mas apenas nascei, o dia e bunaes perdas e damnos, a reconstruccao do 

que os defraudados souberam o que se pas- moinho e a posse absoluta da agua. 

sava reuniram-se, dirigiram-se ao moinho A demanda correu seus termos e por ve- 

arrazaramo, encheram a valia de terra e zes os jesuítas estiveram a ponto de saírem 

pedras e reconduziram as aguas para o pri- triumphanies, até que por Hm venceu a jus- 

. . , tica e os "atunos ficaram sem moinho e tive- 

mitivo canal. ^ 

Os jcsuitas. tal vendo, reclamaram dos tri- ram que pagar as custas do processo. 



JJOb JESUri Ab 



293 




o jeeulta Nithard expulso de Madrid 



2Q4 



HISTORIA GERAL 



LIJI 



As cifras de Aquaviva 



COMO nem todos os negócios dos jcsuiias 
se relacionavam com a salvação eterna 
sua e daquelles a quem elles exploravam, a 
titulo de lhes encaminharem a vida para a 
gloria do Paraiso, os geraes tinham inventa- 
do umas cifras, por meio das quaes se com- 
municavam com os seus subordinados, sem 
que extranhos podessem saber do que se 
tratava, caso a correspondência lhes viesse 
ás mãos. 

D'essas cifras, encontramos duas, n'um có- 
dice outrora archivado no cartório do colle- 
gio de Santo Antão de Lisboa dos jesuitas, 
e pertencente á colleccão dos Rl'<íísIos. 

O códice a que nos referimos, tem por ti- 
tulo na primeira pagina 

OlH\iic)tciíi<i do .V. P.e Cerai Claii- 
dro Aqiiapiva^ do 

ítíl d'(S'/., 

é, senão em tudo eguaj, pelo menos seme- 
lhante a um do mesmo titulo que existe no 
cartório da universidade de Coimbra e de 
que em outro livro já publicámos importan- 
tes extractos '. 

No verso da pagina do ante rosto abre com 
a cifra que em seguida reproduzimos, e que 
noutra disposição e menos completa se acha 
repetida na foi. 34 ç com o titulo : 

Alfabeto ciiihiado a los Prole" de Espaíia 
a los 2.) de Marco de A'-. 



íV que vamos copiar intitula-se: 
Cifra do padre Cláudio Aquapi)'ã i5Si. 





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• o (latholicismo da Cfirte ao Sfrl.lo por T. Lino 
il'Assumpção. 



A este exemplar estão juntas as seguintes 
observações : 

Vau duplicadas a/i;'" cifras con niime- 
ros p" 1/ se piiedan rariar specialmèle las 
vocales cn q se lia^e mas difícil el desci- 
frar. 

Xiillas scraii qiiales qiiieres otras cifras y 
de las sobredichas las q hiiriereii iiii pi/ii/o 
eu Sj-ma o debaxo. 

A outra cifra é a seguinte, á qual vem 
junta a seguinte observação: 

Pi/edese lainbieii usar de los uuuwrns de 
los lados para q aya diueisidad y para inayor 
breuedad. 



DOS jesuítas 



295 



cu líA lill. !■. (".. i;iAUlllO .\(>UA VIU.V 



1 Papa 

2 Key 

3 Reina 

4 Emperador 

i Cardenal 
ô Núncio aplcõ 

7 Arçobispo o Bispo 

8 Consejo 

ij Inquisicion 

10 Inquisidor 

1 1 Sospechoso de la foe 

1 1 Notado a la inquisicion 

|3 Apóstata de alg' Reli- 

gion 
14 Tener opin.°" exor. 

dinri^s è phiã 
i5 Tener opiões exorJi- 

niias en iheol' 
ló Heresia 

17 ViKey corregidor ogo- 

verníioi" 

18 Duque 
IQ Marques 

20 Conde 

21 Provisor 
21 Dineros 

23 General 

24 Roma 

ib I,os q estan cõ cl gral 
20 Compaiíia 
27 Espaiía 
26 Itália 

29 índias 

30 Germânia 
3i Francia 
3i Collegio 

33 Fundador 

34 Proíesso de 4. (y 3 vo- 

tos 

35 Ha/er profession 

30 Profession 

3/ Coadiutor Spúal 

3S Votos de la Comp' 

39 Visitador 

40 Provincial 
4i Consultores 

42 Reytor 

43 Ministro 

44 Procurador de laComp* 
43 Predicador 

146 Confessor 
47 Confessionário 
i 



1 Calhedratico de prima 

2 Graduado 

3 La Seiíora 

4 Presidente de las dis- 

putas 
3 Substituto de prima 
b Adelantado 

7 Letrado 

8 Ayuntamiento 

9 Emcndacion de la es- 

tampa 
io(.>orrector de la estampa 

1 1 Doto en controvérsias 

12 Ayudante de la corre- 

ction 

10 Ruin estampador 

14 Buen lector ou phiã 

i5 Buen lector en theolo- 

gia 
lõ Erudicion 

17 Salariado 

18 El librero 

19 Imprimidor 

20 Bibliopola 

21 Mercador de libros 

22 Moldes 

23 Sobrestante de la im- 

pression 

24 Basilea 

23 Capitulares 

26 Bibliotheca comum 

27 Anveres 

25 Leon de franijia 

29 Canárias 

30 Veneçia 
3i Cal«;idonia 

32 Casa de emprenta 

33 Grangeador 

34 Doctor en theologia 

(Maestro G artes 
j3 Hazer actos para docto- 
rarse 

36 El grado dei doctorado 

37 Bachiller 

35 Los instrumentos de 

la iprêta 
3y Provisor de libros 

40 Auctor aprovado 

41 Correspondientes 
41 Rhetorico 

43 Humanista 

44 Gramático 
43 Scriptuario 

46 Lector 

47 Cátedra 



48 Penitente o hija de con- 

fession 

49 Absolver de casos re- 

serv'"' tenicdo licen- 
cia 

3o Lector 

3i Escolar 

32 Sobervio 

33 Arrogante 

34 Colérico iracundo 

35 Lascivo 

56 Amistadde mochachos 

57 Murmurador 

38 Cizanador 

39 Parcial 

Co Inobedientc 

Gi Pegado a la hazicnda 



Fingido 

Apassionado 

Falto de ingenio 

Indiscreto, imprudête 

Falta de buena y sana 
doei"" 

Apóstata dela Comp* 

Tentado de la voca- 
cion 

Pegado apariètes des- 
ordenad"'* 

Platicas desonestiis 

Jocaraientos desones- 
tos 

Lascívia 

Actual pecado carnal 

Peligroso en la cõver- 
saciõ 

Muger 

Solicitar 

Muger casada 

Marido 

Habito indecèie 

Penitencia 

Probaçion 

Aver encubierto impi' 
dim'o essêcial quãdo 
entro en la comp* 

No ser fiel a la compa- 
nia 

Tratar con dineros 

Tener dineros aparte 



8ó Confessarse tuera de la 
cõp* 

87 Cruzada 

88 Hechar de la compania 

89 Absolver de los votos 
<)0 Saliose de la compaiíia 
91 Solicitar en confession 
1)2 Escandaloso 
93^Confesso 



48 Oyentcs 

49 Leer libros apócrifos 



3o Orador 
5: Lacayo 
52 Licenciado in utroque 

33 Doctor in utroque 

34 Competidor 

35 Professor de artes 

56 Erros de estampa 

57 Autor reprovado 

58 Autor apócrifo 

39 Autor sospechoso 
60 Autor escorrecto 
01 Inclinado a Iccr mu- 
chos libros 

62 Autor escabroso 

63 Humorista 

64 Corto de vista 

63 Libro mal incadernado 
6ó Poço visto en auctores 

67 Deudor de la biblioteca 

68 Defectuoso en su olVi- 

çio 
Ó9 Muy amigo de nuevas 
opiniones 

70 Tratados morales 

7 1 Conclusiones mathe- 

maticas 

72 Disputa 

73 Relection coniplida 

74 Mal argumentador 

75 Gramática 

76 Leer 

77 Gramática de Nebrissa 

78 António de Nebrissa 

79 Estãpa peregrina 

80 Privilegio real 

81 Aprobaciõ dei ordinário 

82 No vio el catologo de 

los libros prohibidos 

83 No es buen pagador 

84 Trata en moldes 

83 Tiene ditTerèçia de mol 
des 

86 Oppositor lorastero 

87 Licençeadura 

88 Privar de la lectura 

89 Quitar la obligaciò de 

leer 

90 Dexo la lectura 

91 Leer de cátedra 

92 Ingenioso 

93 Autor moderno 



296 



HISTORIA GERAL 



Como os leitores vêem, esta ciíra era des- 
tinada a fazer capacitar quem quer qae lesse 
carta escripta por este processo, que se tra 
tava apenas e innocentemente d'assumptos 
litterarios ou de livraria. Alem disso é curio- 
so reparar nas equivalências, no fundo das 
quaes se nota uma ironia, nem sempre do 
melhor gosto, taes como chamar aos actos 
Jcslintwslos, tratados de moral, e ao crime de 
solicitar para elles as penitentes no confis- 
sionario, ler de cadeira! 

Neste mesmo códice se encontra outra 
cifra, na qual as lettras do alphabeto são 
representadas por algarismos, com a nota 
de que os que figurarem cortados não tèem 
\alor e são alli collocados unicamente para 
embaraçar qualquer extranho que queira de- 
cifrar o escripto. 

Quando tratarmos dos jcsuitas cm Portu- 
gal daremos outro exemplo de cifra. 

Encheríamos dezenas de grossos volumes 
SC quizessemos contar a historia completa 
dos jesuitas na Europa. As paginas que dei- 
xamos escriptas já por si são suficientes pa- 



ra demonstrar o que foram e o que valeram, 
e, como sempre, a Historia continuará a 
ser a mestra da vida. 

Quem não aproveitar dos exemplos 
que ella nos otíerece, é porque a demên- 
cia lhe transtorna a verdadeira visão das 
coisas, ou porque inconfessáveis interesses 
obrigam a fechar os olhos d evidencia dos 
factos. 

Por algumas dezenas de homens de bem, 
perdidos no meio daquelle mysterioso e per- 
vertido acervo, quantos milhares de instiga- 
dores e de instrumentos de todos os crimes 
e de todos os vicios ? 

Vamos seguil-os no Extremo (Jriente e 
ahi veremos que a moditicaçáo foi apenas 
no requinte da perversidade. 

Se na Europa eram maus sob apparencias 
christãs, na Ásia nem estas respeitaram, e 
vel-os hemos trocar a roupeta de Ignacio pe- 
las túnicas de mandarin, e a doutrina de 
Christo pela philosophia de Confúcio, prati- 
cando os cultos gentílicos, e levantando a 
espada das perseguições sobre as christan- 
dai.lcs que não renegarem como elles. 



UOS JESUÍTAS 



2y7 




'jnganga dum íerrcdor 



3S 



i9^ 



HISTORIA GERAL 



LIV 



Os bonzos da Europa 



Di:KANri: o periodo que c de uso chairiar 
se a Edíuic-meJia, quando as nações 
morriam, nasciam, e se transformavam, no 
meio d"cssa immensa e tumultuosa procissão 
de povos que, como avalanciíe, se precipita- 
vam sobre a Europa, a Ásia ia-se pouco e 
pouco fechando ás vistas do veiiio mundo, 
como se fora um livro escripto n"uma iin- 
guageni que ninguém já comprehendesse, 
de que apenas se tinham idéas vagas, mercê 
d'algumas citações mais ou menos correctas, 
mais ou menos obscuras, dispersas cm ou 
tros Mvros. Quando esta mjsteriosa trepida- 
ção terminou, quando as vagas deste mons- 
truoso Huxo humano se apaziguaram e vol- 
veram ao seu equilíbrio, na epocha em que 
as cruzadas fizeram nascer uma espécie de 
refluxo da Europa para a Ásia, esta a'trahiu 
de novo a attenção daquelia. Depois, .Mar- 
co-Polo, rasgando uma parte do mysterioso 
veu, mostrou aos seus contemporâneos admi- 
rados os esplendores d'essa terra tão rica. 
e á qual o afastamento dava extranho pres- 
tigio. Desde então, todas as cubicas sobrex- 
citadas da Europa, não viram em seus so 
nhos senão um deslumbramento e uma per- 
petua miragemd'essas grandesHorestas asiati 
cas, povoadas de aves desconhecidas com ma 
gnificas plumagens, de feras com ricas pelles. 
onde não havia arvore que não e.\halasse per- 
fumes penetrantes e não distillasse essências 
divinas; onde os mares, como as trevas, se en 
trcabriam, para que num momento se pode^- 
sem ver os thcsoiros que continham ; onde 
emfim, no seio de populações hospitaleiras, 



SC clc\a\am os thronos mara\ilhosos c cons 
tcllados de diamantes do (irão-Mogo!. do 
Grão-Khan !. . . 

Foi \'eneza que reatou as relações da Eu- 
ropa e da Asia. Até o fim do século xv esta 
poderosa republica, soberana no Mediterrâ- 
neo, e que, graças ás suas immensas gale- 
ras, era senhora da única passagem até en- 
tão conhecida que conduzia á Asia meridio- 
nal, a passagem pelo isthmo de Suez c mai 
\'ermelho, viu os seus mercadores patrícios 
arrogarem-se o monopólio do commcrcio 
asiático. Depois, um dia, Génova, niío tendo 
querido luctar com a sua rival, o rei de His- 
panha concedeu a Christovam Colombo os 
navios com os quaes elle, caminhando para 
o oeste, lhe encontrasse um novo caminho 
para a Asia. Sabe-se como o celebre geno- 
vez descobriu a America imaginando ter 
chegado á Asia. 

A Hispanha tinha assim a sua parte, e 
uma rica parte; e Portugal, rival da Hispa- 
nha, quiz também ter a sua, e Vasco da 
Gama encontrou-lhe o tão desejado caminho 
da índia, dobrando o cabo da Boa Esperan- 
ça, que Bartholomeu Dias tinha descoberto. 
A espada d"Albuquerque acabou de estabe- 
lecer os direitos dos portugueses na Asia 
meridional, cuja exploração eifectivamcnte 
lhes pertenceu durante muito tempo, á ex- 
cepção da China e do Japão, que lhes fica- 
ram fechados, muito embora lá pode.ssem 
commerciar. liem depressa o nosso commer- 
cio deslumbrou a Europa, e Lisboa tomou-su 
o empório de todos os productos orientacs 



DOS jesuítas 



20q 



t"es como os linissimos tecidos Je c;ichemi- 
ra, as ricas especiarias das iMolucas, o pre- 
cioso chá, as magnificas porcelanas, a seda, 
os perfumes, o coral do mar das índias, as 
pérolas dos golphos Arábico e Pérsico, os 
diamantes de Golconda, etc. 

.Manifestou-se, então, o enthusiasmo pelas 
viagens de descobrimento e pelas conquistas 
de colónias longiquas. D'esta grande carni- 
ça, cada potencia tratou logo de pedir a sua 
parte ; e os jesuítas, potencia de pouco tem- 
po, não pediram nada, mas entraram logo 
a tomar posse do que lhes viesse ás mãos. 

Koi nas Missões ' que a companhia de Je- 
sus encontrou os elementos da influencia oc- 
culta ou invisivel, mas sempre real e terri- 
vel, de que tinha gosado na Europa. 

Já vimos n"um dos primeiros capitulos 
d"este livro como Francisco Xavier, durante 
a sua missão de dez annos, lhes soube pre- 
parar os caminhos, salvo na China onde a 
morte o impediu de entrar. O Japão, rebel- 
de aos esforços do missionário, devia de ex- 
citar ardentemente a cubica dos jesuítas. 

Francisco Xavier nada ou quasi nada con- 
seguira d'elles; e quando lhes pregava que 
renunciassem os prazeres, que desprezas- 
sem os bens e os gozos terrenos, o próprio 
padre Charlevoix confessa que os japoneses 
o consideravam doido. Os successores de 
Francisco Xavier na missão do Japão foram 
mais hábeis do que elle; e pondo em pra- 
tica a devoção fácil, a moral accommodati- 
cia, conseguiram não ir d"encontro ás idéas, 
quacsquer que ellas fossem, dos povos que 
elles queriam explorar, ou se preferem: — 
christianizar á sua maneira. Nem sequer 
pensaram em tomar a praça d'assalto; pelo 
contrario, foram entrando com pés de lã, 

' A sociedade de Jesus tem seis espécies destabe- 
lecimentos, que são : i.* os coUegios; 2.° as casas de 
noviciado ; 3." os seminários ; 4." as residências : i" 
as missões ; 6." as casas professas. Só os três últimos 
podem ser considerados como verdadeiros conven- 
tos d'esta ordem muito pouco religiosa. As miss<'es, 
como o seu nome indica, são estabelecimentos fun- 
dados nos países onde os jesuítas mandam alguns 
dos seus implantar a sua influencia, de preferencia a 
lazer conhecer o nome de (>hristo. Já vimos um 
exemplo d'estes quando tratámos dos jesuítas na In- 
glaterra. As residências são casas professas quasi, por 
assim dizer embrionárias. 



pelas viellas tortuosas, prestando-.se sempre 
a todos os arranjos com os que se deci- 
diam a seguir uma coisa, que os jesuítas 
alcunhavam de religião de Chrísto. Quanto 
estavam estabelecidos os termos da capitu- 
lação, os bons padres eram o mais condes- 
cendentes possível. 

— D'hoje em deante, diziam os japoneses 
\encidos e convencidos, queremos ser lllhos 
de Chrísto e não de l)aí-Both '. Já não te- 
memos a Jemma-0, rei dos infernos, mas a 
Satanaz, o diabo dos chrístãos. Não ou\ ire- 
mos senão os bonzos negros da Europa, que 
não tingem de vermelhão uma metade do seu 
craneo rapado, como fazem os nos.sos iicfíos 
e os nossos jenvnabos. Depois d isto, quacs 
são as regras que elles querem impor aos 
filhos do Japão? 

— Muito poucas, responderam os jesuítas, 
em tom insinuante. Em primeiro logar obser- 
vareis o descrnco dos domingos e dias san- 
tos. 

— Mas os bonzos da Europa não sabem 
que isso não é possível? Todo o dia é um 
dia de trabalho para o japonês, qualquer que 
seja a sua situação. 

— Pois sim; n"esse caso guardareis aquel- 
les que puder ser. 

— Mas já vos dissemos que isso é absolu- 
tamente impossível ! 

— Nesse caso jejuareis, meus filhos; isto 
é essencial. 

— Mas como pode isso ser, se estamos 
acostumados a comer três vezes ao dia? 

— Ahl se estaes acostumados... o caso 
é outro. Mas o que não fareis é ir aos pa- 
godes adorar esses monstruosos ídolos a que 
chàmaes deuses. . . Sim? 

— Isso faremos; salvo se o príncipe ou o 
imperador não mandar, como acontece mui- 
tas vezes, que vamos aos /;rc7,s, para agra- 
decer ou implorar os grandes sins (deuses). 

— N'esse caso, quando uma tal ordem vos 
obrigar, prostrar-vos-eis na frente dos ído- 
los, mas rezareis a JesuChristo, e lhe otfe- 



' Dai-Both ou Dai-Bulh, significa liiteralmente o 
Grande Deus. Alguns auctores pensam que este Dai- 
Both é o mesmo que Amida, a quem já nos referi- 
mos numa nota anterior; outros confundem-o com 
xaca ou Budhu, cujo nome ficou para designar a seita 
do budhismo. 



HISTORIA GERAL 



recereis a homcnasícm que exteriormente 
prestaes a Jcbisii ou a IXií-Kohii, a Fat^i- 
nian ou a Fottví '. 

— Os bonzos da Europa são ent^enhosos 
e grandes doutores; faremos o que ellcs di- 
zem, visto que queremos ser seus irmãos. 

— O baptismo vos fará tal qual nós so- 
mos. Vinde, pois, com vossas mulheres e 
filhos receber essa agua salutar e regenera- 
dora. 

Os japoneses assim catechizadus dcixa- 
vam-sc alegremente baptisar;mas raros eram 
os que levavam os filhos, e nunca levaram 
nem as mulheres nem as filhas. 

Segundo a maioria das noticias que temos 
d'estas regiões, os japoneses creavam seus fi- 
lhos com meiguice nunca ralhavam com el- 
lcs, e se os viam manifestar repugnância por 
qualquer coisa, não teimavam, deixando ao 
tempo e á persuasão a execução do que 
tinham projectado. Quanto ás mulheres, os 
japoneses como os chineses, extremamente 
ciumentos, não as expunham, senão o mais 
raramente possível, ás vistas de extranhos. 
Comprehende-se. assim, a sua repugnância 
em levarem as mulheres e filhas aos bonzos 
da Europa, deante dos quaes seriam obriga- 
das a descobrirem a cabeça para receberem 
o baptismo. E era tal a força d'este uso, que 
os jesuítas, temendo uma derrota, preferi- 
ram conceder ás japonesas o nome de chris- 
tãs, sob palavra, e sem nenhuma das ceri- 
monias impostas pela Egreja. Os próprios 
missionários da S. J. confessaram que nunca 
administram o baptismo e a extrema-unccão 
a mulheres. 

D'esta maneira velhaca, qualquer c mis- 
sionário. 

Em i633 e i()36 três religiosos, os padres 
António de Santa Maria, Francisco dAlma- 
da e João Baptista Moraes, accusavam so- 
lennemente os jesuítas de mi.sturarem as 
crenças christãs com os ritos pagãos •, de 
desnaturarem a doutrina da Egreja apro 
priando-lhe crenças gentílicas. As queixas 



' Jebisu é o Neptuno japonês; Dai-Koku o seu 
Plutão; Fatziman, o seu deus Marte; Fottei ú a divin- 
dade que preside aos prazeres. I ossitoliu é a Fortu- 
na japonesa; JaUuti é simultaneamente Apollo e Es- 
culápio. Oarma inventou o chá, quinhentos annos 
untes de J. C, segundo a lenda de Sin. 



subiram á cadeira pontifícia, e um breve de 
164^', renovando outro de 1'aulo III, ordena- 
va a observação do ritual e a pureza do en- 
sino. Os lesuitas reagiram contra o breve, e 
accusaram os seus accusadores das faltas 
que elles commettiam, e desculpavam-se da 
má observância do ritual pela falta de pa- 
dres ; mas no momento em que outros de 
outras ordens religiosas se promptificavam 
a ensinar e a administrar os sacramentos, 
não o consentiam, c preferiam que os novos 
convertidos morressem sem confissão a se- 
rem confessados por um franciscano ou do- 
minicano. O mesmo fizeram quando, em 
itng rebentou no Japão uma perseguição 
contra os catholicos '. Os jesuítas, querendo 
a todo o transe conservar a sua fatal inlkicn- 
cia, impediram os missionários dominicanos 
de confessarem os desgraçados que as tor- 
turas dizimavam sem cessar, e de lhes 
administrarem os sacramentos, isto sob pre- 
texto, de que as parochias onde os seus ri- 
vacs queriam exercer o mister de sacerdotes 
de Christo lhes pertenciam a elles jcsuitas... 
que o não exerciam. 

Na doutrina dos bons reverendos, a perda 
das almas c nada em comparação com a 
perda do pi-cd(jminiol 

E como se tudo isto fosse pouco para a 
congregação de Loyola, os seus membros 
inventaram uma vida de Christo para uso 
dos asiáticos; como, dois séculos depois, um 
outro mventará uma historia de França para 
uso dos seus discípulos. 

N'esta historia de .lesu-Christo, elle não 
nasce n'uma mangedoura, mas nas purpuras 
d'um leito real, vive no meio das honras, 
morre gloriosamente, e nunca sobe o infa- 
mante patíbulo da cruz! O Memorial do do- 
minicano Diogo Collado faz a accusação em 
forma e terrível. Para lhe destruírem o ef- 
feito, os jesuítas da Europa annuncíaram que 
tinham em seu poder documentos que des- 
faziam por completo as accusações de Col- 
lado. Collado desafiou os a que os publicas- 



' Leia -se — Sumario de varias cosas acerca de lo 
religiosos de Santo Doininffoy de la compatiia.N^es- 
ta obra encontr;ise uma carta em mau latim do je- 
suita o P.'' Zola, que confirma plenamente a accusa- 
ção. 



nos jesuítas. 



3o I 



sem, mas a santa ijcnte houve poi- melhor 
não se defender 1 

Mas como haviam de elles ler tempo pa- 
ra os officios de missionários, se todas as 
suas horas eram occupadas com o movimen- 
to dos seus armazéns, e na expedição das 
mercadorias que neiles amontoavam I 

Ksta transformação de missionários em 
traficantes, — n'isto os imitam os missioná- 
rios protestantes dos nossos dias, — causa re- 



Os jesuitas desculpavam aos japoneses to- 
das as faltas em matéria religiosa, menos que 
faltassem com as oiíerendas ás suas egrejas, 
entre as quaes preferiam as barrinhas de 
ouro e prata, as pedras preciosas c as se- 
das. 

Accusados d'cste mercantilismo tão con- 
trario á doutrina christã, os reverendos ne- 
gociantes começaram por negar o facto. Co- 
mo este fosse claramente provado, abaixa- 




jesuíta Mena seduz a coníessada 



paro mas explica-se, quando attendermos a 
que os jesuitas tiveram sempre por lim prin- 
cipal, se não único, angariar elementos de 
lorça para luctarem na Kuropa. As missões 
lhes offereciam occasião de ganharem a glo- 
ria que fascina e cega, a riqueza que subor- 
na e corrompe; e eis porque tão diligentes 
se mostravam nellas. E eis porque procura- 
vam obter por assim dizer a sua adjudicação 
dos reis e papas, mas adjudicação com o ex- 
clusivo. Ainda hoje é esse o seu processo; e 
a obra simultaneamente missionaria e mer- 
cantil da Propaí^andci Jidc no oriente asiá- 
tico, não é mais do que a continuação das 
antigas missões. 



ram o tom, e o jesuita Cevicos confessou que 
apenas tinham exportado alguns fardos de 
sedas. Quaesquer que fossem os euphemis- 
mos empregados para disfarçarem as ne- 
gociatas, nunca enganaram ninguém, e até 
um dos geraes, Thyrsis (ronzales, para dar 
uma espécie de satisfação publica, ordenou 
que os jesuitas se desfizessem dos seus 
navios. Escusado será dizer que não fize- 
ram mais que mudar temporariamente de 
bandeira e o jesuita Mendoza confessa «que 
a S. J. possue enormes rendimentos, e que 
nenhum homem, por muito ávido e ambicio- 
so que seja, possuiu nunca tantas rique- 
zas» . 



?02 



HISTORIA GERAL 



K caso para repetir com o nosso povo: 

«Quem cabritos vende e cabras não tem. 
dalgiires lhe vem !" 

Km 1664. foi publicado,— para que dos ne- 
gócios mercantis dos reverendos padres não 
íícassem duvidas-o contracto feito entre os 



armadores de Dieppe e o superior da niissãa 
da Nova França e Enneaiont Massc da coni- 
paniiia de Jesus, para o carregamento do na- 
vio a Craca de Deus. Os padres Biard e 
Massé, como representantes da S. J., tinham 
direito a metade de todas e cada uma das 
mercadorias, vitualhas, abonos, c geralmente 
da totalidade da carga do mencionado navio. 



DOS JESUÍTAS 



3o3 



LV 



Lobos contra cordeircs 



ALLEGANHo quc Fiaiicisco Xavier tinha es- 
tado a pregar o Evangelho no Japão, 
os jesuítas pretendiam ter adquirido nestas 
vastas regiões um direito exclusivo de pro- 
priedade ; e, por surpreza, alcançaram de 
Gregório XIII uma bulia que muitos dos 
seus successores foram obrigados a revogar, 
e que determmava : «Que nenhum padre ou 
religioso, excepto os da companhia de Jesus, 
fosse ao Japão, sem auctorisação expressa 
da Santa- Sé, quer para pregar o Evange- 
lho, ou para ensinar a doutrina christã, pa- 
ra administrar os sacramentos ou para exer- 
cer quaesquer funcções ecclesiasticas, e isto 
sob pena d'excommunhão maior.» Este pa- 
pa mandava mais: que esta bulia fosse lida 
onde quer que os padres da companhia o 
julgassem necessário. 

Os missionários apostólicos desejam e não 
temem a concorrência e a cooperação; mas 
os negociantes esfaimados querem privilé- 
gios exclusivos. Os jesuítas não podem ne- 
gar que o papa, publicando esta bulia, cedeu 
ás suas insistentes solicitações, e o jesuíta 
Colin, de quem se dizem maravilhas nos ca- 
tálogos dos escriptores da ordem, confessa 
ingenuamente o facto. Reconhece mais, que 
a S. J. o solicitou para impedir que os reli- 
giosos d'outras ordens fossem ao Japão ; e 
pretende que foi um grande acto da compa- 
nhia tel-o alcançado. «Praza* a Deus, diz 
este jesuíta, que isso sirva de exemplo para 
a China, para a Tartaria, para o Mogol e 
outras nações da Ásia.» 

hm virtude deste privilegie), os jesuítas go- 



vernaram por muito tempo e sem bispo o 
vasto império do Japão, que então con- 
tava sessenta e seis reinos e mais de duzen- 
tas províncias. Tinham um dos seus que ha- 
viam feito sagrar bispo ; mas que obrigavam 
a estar em Macau, sem lhe consentirem que 
puzesse pé no Japão ; e ai do religioso de 
qualquer outra ordem que se atrevesse a 
querer trabalhar na vinha do Senhor, em 
terrenos que os jesuítas julgavam ser sua 
propriedade exclusiva, que começava por .ser 
excommungado, e depois banido por todos 
os meios , se antes d'isso não concitavam 
contra elle uma sedição. De forma que os 
religiosos doutras ordens, principalmente os 
dominicanos e franciscanos, que se iam in- 
troduzindo no Japão, a maior lucta que ti- 
nham a sustentar era com os reverendos pa- 
dres, aos quaes muitos d'aquelles tiveram a 
audácia imperdoável de quererem sujeitar 
ás practicas orthodoxas. Caro o pagaram ; 
bem como as queixas que faziam d.elles aos 
pontífices. 

O exemplo mais frisante da perseguição 
dos jesuítas aos mís.sionarios e padres d 'ou- 
tras ordens, é a que elles promoveram con- 
tra D. Luiz de Sotelo, um missionário verda- 
deiramente segundo o espirito do Evangelho, 
nomeado bispo de Oxus pelo papa Paulo V. 

Pois foram taes as perseguições dos jesuí- 
tas, irritados por esta nomeação, vendo nelle 
principalmente um homem que procuraria 
impedir os seus abusos, e muito princípal- 
mrnic o seu mercantilismo, que empregaram 
todos os meios de o demorar longo tempo nas 



>04 



UIS.TORIA GERAL 



Kilippinas. Por fim i-otelo, tendo encontrado 
modo de illudir a vigilância dos agentes dos 
lovolas, teve occasióes de se embarcar num 
)unco chinês que se fazia de vella para o 
.lapão. Ora durante a sua ausência, seve- 
ras ordens tinham sido dadas pelo rei da ilha 
de Ycso, onde era a diocese de Sotelo, para 
que os christãos fossem perseguidos, e con- 
dcmnado á morte quem quer que lhes desse 
guarida. Por certo os negociantes chineses, 
que tinham recebido Sotelo a seu bordo, te- 
meram cxpor-sc ás consequências da presen- 
ça do bispo de Oxus entre elles. Mas ha 
quem alliance, provas na mão, e entre ou- 
tros o padre Diogo Collado, que os jesuítas 
impclliram os chineses a entregar o prelado 
aos seus perseguidores. O venerável bispo, 
entregue aos commissarios imperiaes em 
Nanganaki. na ilha de Kinbiu, foi lançado 
numa prisão", e por rim conduzido ao derra- 
deiro supplicio, ao martyrio, na cidade Je 
Ormura. 

Os jesuítas escavam vingados da carta de 
accu.iação, qu,; o venerável apostolo tinha es- 
cripto contra elles, e enviado ao pontílice, 
na qual se lêem períodos como 'este que ci- 
tamos para amostra, embora seja um dos 
mais benignos: 

«Que direi eu, Santo Padre, do escândalo, 
do vexame, e da perturbação, que este pro- 
cedimento (o dos jesuítas) causa entre os 
Méis? Não ha palavras para o narrar! A ma- 
neira de obrar dos jesuítas é a cau.sa de que 
muitos esfriem na devoção, e o que ha de 
peor ainda, é que a maior parte perde a fé. 
Segue-se d"ahi que os infiéis vendo este mr- 



tivo d"escandalo, fazem da nossa lei o as- 
sumpto das suas mofas. Alguns ha que ima- 
ginam que ha dois deuses em a nossa reli- 
gião: um que é rico e poderoso, e o outro 
humilde e pobre que é desprezado pelo ri- 
co ... » 

Fizeram mais e peor. e a historia regis- 
tou o facto de elles terem feito prender por 
soldados armados, junto ao altar onde se 
achava com o sacramento nas mãos, reves- 
tido dos paramentos epíscopaes, cercado do 
seu clero, o arcebispo de Manílla, que le- 
varam amarrado, deitaram-n'o n'uma barca, 
e o foram desembarcar numa ilha deserta '. 

Querem os leitores saber o crime d"este 
)iuil}\ido, que obrigou os santos jesuítas a 
uni desacato sacrílego? Este prelado, que 
se chamava Hernando Guerrero, tinha re- 
cusado aos jesuítas de Manílla um terreno 
que separava o arcebispado da casa dos rc 
vcrendos padres, que era da maior conve- 
niência para estes, e que além d'í;,so tinha 
censurado em publico a vida escandalosa 
dos )esuitas, e queixado delles para Roma! 

Nas desculpas que tentam dar d"esta 
perseguição, o mais que podem dizer em 
seu favor, é que não levantaram a mão so- 
bre o prelado, senão quando clle, um octo- 
genário, vencido pela fadiga, deixou cair ó 
sacramento de sua mão enfraquecida e tie- 
mula! Preciosa distincção, digna dos discí- 
pulos d'Escobar. 



' Ver sobre o assumpto, para que se não julgue 
uma invenção de libello, na Defensa canónica a carta 
escripta ao rei dHispanha, por Mg.'^ Palalox, ouiro 
prelado perseguido pelos filhos d'Ij4nacio. 



DOS jesuítas 




Carlos III 



3a6 



HISTORIA GERAL 



LVI 



Perseguidores e perseguidos 



As intrigas incessantes áos jesuítas, a sua 
intervenção nas questões politicas do 
império, foram as causas primeiras de mui- 
tas perseguições de que os christãos foram 
victimas, e por vezes também os próprios 
jesuítas. 

Assim foram eiics que persuadiram a um 
rei de Arima, que se fizera christão á moda 
jesuita, que reclamasse certas províncias que 
o cubo ' lhe tinha tirado. Este rei julgava 
ter poder sutficiente para se medir com o 
seu suzerano , e, se ficasse vencedor que 
magnifico porvir para os jesuítas que lhe ha- 
viam aconselhado a lucta ! Os bons padres 
tinham tido a cautella de fazer desherdar o 
filho mais velho do monarcha, que se não 
queria fazer christão-, em proveito do seu 
segundo filho, baptisado pelos missionários 
jesuítas, e que era inteiramente gíjvernado 
por elles. Parece que um tal Daifaqui, se- 
cretario de certo ministro imperial, que lhes 
servia de intermediário e d'espião, vendo que 
o que não devia passar duma intriga de 
corte se ia convertendo em rebellião, denun- 
ciou o trama ao imperador. O rei dArimii 
foi decapitado \ e o padre iMorejon, jesuita, 
que tinha delineado o negocio, só a muito 
custo escapou. . . mas sempre escapou. 

Quasi pelo mesmo tempo, outro jesuita 
representou um papel ditíerente junto do 



' Cubo á o chefe temporal de todo o governo; Dai 
rc o espiritual. Até iSí^i os dois poderes estiveram 
iuiitos no mesmo individuo. 

' Ha mesmo quem alfirme que os jesuitas insinua- 
ram, que, no mtereese da religião que tinha abraça- 
do, devia tirar, a este filho idolatra, uma vida, que 
elle não queria consagrar a Deus, 



rei de Oruma. Este principe, que reinava 
n'uma parte da ilha de Kiusiu, tinha recebi- 
do o baptismo, e tratava favoravelmente os 
jesuitas. Mas, além de ser o seu pais um 
dos menos ricos do Japão, os bons padres 
desejavam, â custa deste rei, serem agradá- 
veis ao cubo. Convidaram o imperador a 
mandar uma armada ao porto de Nanga- 
salii, capital do reino de Oruma, prometten- 
do, por meio dos seus neoph3'tos, de lhe en- 
tregarem o rei e a cidade. O imperador apro- 
veitou-sc d'esta traiçãíj ; e recompensou di- 
gnamente os seus auctores. Tão depressa se 
viu senhor de Nangasaki, que d'alli expulsou 
os jesuitas e todos os seus adherentes, pro- 
clamando que não podia ter confiança nos 
homens que tinham \endido o seu bemfei- 
tor. 

Kxpulsos d'um logar, os jesuitas iam re- 
fugiar-se em outro, e continuavam publi- 
ca ou clandestinamente a recrutar neophytos, 
e a colher conversões, ou, em bom português, 
a arrebanharem contribuintes, lim quasi úni- 
co das suas missões, e motivo por que elles 
as queriam fechadas aos outros missionários. 

Numa revolta contra Nobunanga, ante- 
penúltimo cubo da raça imperial, ha sérias 
presumpções de que os jesuitas se não esta- 
vam d'accordo com Aquéki, o general revol- 
tado, foram elles que impediram outro ge- 
neral, Ucondono, de correr a defender o 
cubo, fazendo com que presenciasse a lucta 
desesperada do imperador sósinho contra 
os revoltosos, e por fim o incêndio do seu 
palácio. Ucondono era baptisado. 

Com a subida ao ihrono do (ilho de No- 



DOS JESUÍTAS 



3o7 



bunaiiga nós assistimos ao prcdominio Jos 
jesuítas no império. 

Não é aqui o logar, e com bem magoa o 
dizemos, de fazer a historia do Japão, e das 
traições politicas em que os jesuitas se acha- 
ram sempre envolvidos. Outras paragens 
nos esperam, e onde. como aqui, encontrare- 
mos estes sectários mais entregues á politica e 
aos negócios do que á sua missão evangélica. 

Se o dictado diz que: «quem semeia ven- 
tos colhe tempestades», niinca foi elle tão 
certo como no Japão, onde as intrigas poli- 
ticas dos jesuitas desencadeavam o vendaval 
perseguidor, que muitas vezes os envolvia; 
e que se muitos o affrontaram com coragem 
de mart^Tes, outros deram o miserável exem- 
plo da tergiversação, da fuga, e até da apos- 
tasia! 

A idéa primitiva das missões baseada na 
fé como guia, e no amor como meio, foi 
grande e boa, bella e santa. Havia n'ella 
um forte laço que podia um dia reunir glo- 
riosamente os fragmentos dispersos pelo 
mundo da grande cadeia humana. Estará o 
christianismo privado para sempre d'essa 
immensa gloria? 

Não o sabemos; mas se assim for queixe- 
se dos seus ministros desastrados, cupidos, 
brutaes, sanguinários e infiéis ao seu man- 
dato, e principalmente dos jesuitas. 

O cubo Xogun-Sama, depois de ter so- 
lemnemente fechado o seu império aos jesui- 
tas e ao credo que elles ensinavam, tinha 
permittido, parece que num interesse com- 
mercial, que residissem em Nangasaki, ci- 
dade quasi toda christã, e onde o exercício 
do culto era publico. Os jesuitas. julgando a 
tempestade desfeita, começam a espalhar-se 
em catechese pela archipelago ; então uma 
horde de algozes cae sobre o christianismo 
japonês. Todos aquelles dos seus membros 
que não quizeram abjurar as suas crenças 
são condemnados a horríveis tormentos, que 
só a morte, mas uma morte demorada e 
lenta, termina. Os carrascos queimam, de- 
capitam, vasam metaes derretidos nas feri- 
das que abrem nas carnes, esfacelam estas 
1 chicote, e violentam as mulheres, antes 
de as matarem. Pareciam em barbaridade 
queicrcm imitar o que na mesma epoclia a 



santa Inquisição andava commeltendo em 
nome de Christol 

Os christãos japoneses deram milhares de 
victimas á perseguição; e entre elles, houve 
rasgos de verdadeiro heroísmo. Tal houve 
que a si próprio se foi denunciar! 

Knxrt essa multidão de martyres figura 
um mulher portuguesa, condemnada a mor- 
rer queimada, com seu íilho, uma creança 
de quatro annosi Já as chammas lhe lam- 
biam as carnes, quando a creança, n"um 
desespero que se não descreve, pedia á mãe 
que a salvasse. A pobre mulher, a quem 
os gritos do filhinho tinham despedaçado o 
coração de mãe, pediu aos algozes que apa- 
gassem as chammas, que ella estava por 
tudo quanto elles quizessem, comtanto que 
lhe salvassem o filho. Mas no momento em 
que o amor materno assim se revelava, e 
que tudo sacrificava á conservação do filho, 
passava um jesuíta, arrastado pelos execu- 
tores das sentenças imperiaes. e ímpoz á 
mãe o sacrifício do filho. Klla então aper- 
tou-o com delírio ao peito, e para não ouvir 
os seus gritos dilacerantes, começou a can- 
tar a Sah'e Rainha. A creança, sutVocada 
tanto pelo abraço materno, como pelo fumo, 
apenas gemeu por alguns instantes. A mãe 
ainda cantou por algum tempo o seu hymno 
entre as chammas, até que a morte a em- 
mudeceu. 

Estes miseráveis, que impõem sacrifícios 
d"estes a uma mãe, por certo nunca tiveram 
filhos; e quando os haviam, lançavam-os aos 
cães. 

Em quanto as mulheres assim morriam 
em confissão da sua crença, quatro jesuítas. 
Chrístovam Ferreira, João Morales, João 
Baptista Porro e Diogo Mourai apostata- 
vam, renegavam o seu Deus e a sua reli- 
gião; e um d'elles, o Ferreira, chegou a 
presidir ás torturas infligidas aos seus anti- 
gos neophytos. Quem sabe mesmo se elle 
não apostatou por ordem superior, para ser 
um commandatario nos negócios e um pro- 
tector junto do Xagun. 

Em 1Õ35 já quasi não havia christãos 
no Japão, e desde muito que os jesuitas ti- 
nham retirado para irem e.stabelecer as suas 
casas commerciaes cm paragens mais segu- 
ras e mais lucrativas. 



;<us 



HISTORIA GERAL 



LVll 



Os jesuítas mandarins 



Afama das conquistas levadas a elíeito 
pelos europeus na Índia, tinha au- 
gmentado a desconfiança nata dos chineses 
para com os extranjeiro<;, que elles confun- 
diam como sendo todos d'uma mesma na- 
ção. Foi em vão que, em i58i e i582, os 
padres Miguel Ruggieri e Pazzio, da S. J. 
tentaram estabelecer-se na China. Os domi- 
nicanos, maltractados no Japão pelos seus 
rivaes, tinham egualmente tentado entrar 
no império, mas sem resultado. Kntretanto 
a companhia não desanimava e ia educando 
um adepto do noviciado de Roma, .Matheus 
Ricci, para realisar os seus intentos no ix'i- 
no dos celestes. 

Matheus Ricci é, depois de i^'rancisco Xa- 
vier, aquelle dos missionários ijue se tornou 
mais celebre, e de quem os seus sócios mais 
teem exaltado a gloria. Se ainda o não cano- 
nizaram, só se pode attribuir o facto á pro- 
verbial ingratidão dos reverendos padres. 

Matheus Ricci foi para Roma em idôS, 
ahi estudou três annos de direito, findos os 
quaes entrou, na edade de dcsoito annos, 
como noviço para a S. .1. 

Ricci, de começo preparado para a missão 
da China aprendeu mathematica, astronomia 
e chimica, adquiriu noções de artes raecha- 
nicas, principalmente de relojoaria, desco- 
nhecida dos celestes, e a fundo a lingua d'es- 
tes, porque tinha pouca confiança de con- 
quistar adeptos pelos meios mimicos de Xa- 
vier. 

Quando se julgou bem sabedor da lingua. 
embarcou para Cantão, que era, ao tempo. 



o local onde se fazia o commcrcio com a 
China; mas nessa occasião já os jesuítas ti- 
nham sido assignalados como perigosos in- 
trusos. A fama das victorias e conquistas 
portuguesas haviam amedrontado o impera- 
dor da China, e Ricci julgou, no momento 
mais acertado, ir para Macau. 

Nos começos de setembro de i.^S3. por or- 
dem dos seus superiores, embarcou para a 
China, e em dez dias chegou a Tchan-Tchen, 
mas disfarçando a sua qualidade de jesuita, 
pela de mestre em astronomia e chimica, 
trajando á maneira dos U-ílrados, e procu- 
rando fazer conversões por meio de insinua- 
ções e como quem trata de religião por mero 
passatempo intellectual. 

Existiam na China três seitas principaes : 
a de Fô, a de Lauzu ou Li-Laokun, e a de 
Confúcio. Os sectários de Fô são uma es- 
pécie de atheus pyrrhonicos, que professam 
que tudo na terra é illusão. que .só real é 
o nada, que faz, pela sua simplicidade, a 
perfeição de todos os seres, e com o qual 
todos se devem confundir por uma .soberana 
quietação da alma, um adormecimento com- 
pleto do espirito. Os partidários d'esta seita 
existem principalmente nas classes baixas da 
sociedade chinesa. A religião de Li-Laokun 
é uma espécie de epicurismo misturado com 
stoicismo. O estado perfeito nesta seita é o 
bem-estar, a que elles chamavam apathia. 
E' a religião dos ricos. A terceira seita, mais 
elevada, e na qual as crenças são mais pu- 
ras e os adeptos mais intelligentes, a seita 
dos Icl/rados c das pliilosuplias, considera 



DOS JKSUnAS 



(.onlLiico com ci seu Deus, e professa uma inspirado por Deus para a reforma d'cste 
moral que por tal forma se approxima da novo mundo.» 



de Christo «que, segundo o padre Martini, 
dir-se-ia que ílonfucio teve uma inspira- 



()s mandarins c geralmente toda a corte 
imperial, eram uma subdivisão desta seita 




cão divina que lhe correu o veu'dos nossos 
santos mysterios.» O padre La Comte, mis- 
sionário jesuita, ajunta «que quasi se julga- 
garia que Confúcio não foi um puro philoso- 
plio, formado pela rasão, mas um homem 



porque a doutrina de ('onfucio tem soiVrido 
muitas interpretações. 

l'elo que se vê. todas estas seitas tèem 
uma idéa pouco distincta de Deus ; e tanto 
que na lingua não existe palavra para cxpres- 



3io 



HISTORIA GERAL 



sar o que nos entendemos ctuno Deus. As 
suas differcntes divindades são concebidas 
um pouco á maneira do euhemerismo. isto 
é, homens que depois de uma passagem 
mais ou menos longa, foram habitar o céu. 
O céu é o próprio Deus para os chineses, 
isto é. uma inteiligencia suprema que se es- 
tende sobre a terra e o resto dos mundos 
que os faz nascer, conserva ou destroe, para 
os fazer renascer de novo, porque os chine- 
ses crêem geralmente na metempsycose. 

\'èse já a grande difíiculdade de fazer 
comprehender o grande m^^sterio da Trinda- 
de a povos que não teem uma idéa precisa 
de Deus, e nem sequer palavra para a expri- 
mir. Ricci, no dizer do seu biographo e só- 
cio o padre dOrleans, ladeou a difíiculdade 
da seguinte maneira. Compoz para uso dos 
chineses um pequeno catecismo onde quasi 
que não incluiu senão os pontos coliformes 
d lui naliiral, isto é, os que humanamente 
se comprehendiam; não dizendo, pois, uma 
única palavra nem da Trindade, nem do nas- 
cimento de Christo, nem da Redempção, 
nem de nenhum do> mysterios do christia- 
nismo I O que fez dizer a um critico, aliás 
moderado, Moreri, no seu diccionario, que 
o svstema adoptado pelo padre Ricci «nun- 
ca seria capaz de instruir esses pobres infiéis 
na verdade dos nossos mysterios.» Prova 
isto, mais uma vez, que em toda a parte os 
jesuítas se não serviram do christianismo se- 
não como um exceilente pretexto, que com 
arte, sabiam adaptar ás circumstancias, e 
que punham de parte, como bandeira esfar- 
rapada, desligada da sua haste doiro. 

Apesar de tudo isto, apesar das precau- 
ções de que usava o padre Ricci, apesar da 
sua deferência pelas idéas dos discípulos de 
Confúcio, apesar dos serviços que prestava 
aos lettrados a sciencia que lhes communi- 
cava, apesar dos presentes que fazia aos 
mandarins, e a astúcia com que procurava 
tel-os propícios, a sua missão pouco ou na- 
da augmentava. Os mandarins e os lettrados 
acolhiam bem o missionário, mas o povo não 
o podia solfrer, e cada vez lhe manifestava 
maior hostilidade. Km vão, para se popula- 
risar, Ricci se mostrava vestido á chinesa co- 
mo os lettrados, sectários de Confúcio, e as- 
sim fazia vestir os seus companheiros. Ape- 



sar d'isso a populaça amotinada por alguns 
hodians, padres de Fò,aggrediu os dois com- 
panheiros de Ricci, que, menos prudentes 
do que elle, quizeram por ventura, pregar 
em publico. Expulso de Cantão, passou ao 
vizinho reino de Kian-Sy; depois vae a Nan- 
kin, e em 149Í1 chega a Pekin, capital do 
império chinês. Não se sabe grande coisa 
d'esta longa peregrinação, mas é de suppor 
que fosse mais uma excursão d'homem de 
sciencia acommodaticia, do que de ferveroso 
apostolo. A sua entrada na capital dos ce- 
lestes foi assim contada : 

«Por este tempo a Corêa tinha sido invadi- 
da pelos japoneses, e esta diversão no norte 
parece ter sido aproveitada pelos jesuítas no 
sul. Ricci accumulava as suas funcçõcs de 
medico com as de mechanico, relojoeiro, as- 
trónomo e astrólogo. 

«Os seus confrades contam que um man- 
darim do mais alto grau, que o imperador 
^'an-Lié chamara das províncias do sul pa- 
ra oppor á invasão japonesa, tendo um filho 
doente e á morte, íoi consultar o missiona- 
do, que prometteu restituir a saúde ao en- 
fermo, com a condição que o pae o levaria, 
a elle missionário, a Pekin. Ricci fez a cura 
e o mandarim cumpriu a palavra, e nunca 
deixou de proteger o Ictlrado da Europa». 

Entrado emtím na capital do celeste im- 
pério, o mandarim, seu protector, para o in- 
troduzir na corte, fez presente ao imperador, 
entre outros mimos enviados pelo jesuíta, 
duma sineta que tocava por si. 

Esta sineta era um relógio, então desco- 
nhecido na China, e que fez o espanto do 
rei, das suas mulheres e da imperatriz mãe, 
que passava horas esquecidas a admirar 
aquella engrenagem. Mas tanto lhe mexeram 
que o relógio parou, e Ricci foi chamado a 
toda a pressa. Introduzido á presença do 
1 imperador, este disse lhe lastimosamente: 
j —Está morto' 

— Mas resuscitará, filho do ceu, respon- 
! deu o missionário, accrescentando, como 
; bom cortezão, se a.ssim o desejaes. 
1 E Ricci, dando corda ao bicho fez de no- 
vo ouvir o -seu tic-tac regular aos ouvidos da 
ingénua majestade. 

E foi assim que o padre Maiheus Ricci 
1 conquistou as boas graças do imperador Van- 



1 



DOS jesuítas 



3ii 



I^ic, e SC lhe tornou necessário, não só para I 
llie dar corda e manter em andamento a j 
quantidade enorme de relógios com que lhe 
encheu o palácio, como por quaesquer outros 
meios. O certo é que foi debalde que o tri- 
bunal Ci-pu, esse guarda da orthodoxia dos 
dogmas de Confúcio, solicitou do imperador 
que expulsasse o extranjeiro. Assim prote- 
gido, o missionário poz mãos á obra, e tra- 
tou logo de edificar uma egreja e de abrir 
um collegio jcsuita. 

Ricci morreu cm 1610, deixando os negó- 
cios da companhia a bom caminho; o seu 
protector Van-Lié não tardou em o seguir 
ao tumulo. Mas a este tempo já os jesuítas, 
que accudiram ao chamado de Matheus Ric- 
ci, tinham manobrado tão habilmente, que 
eram tidos em grande conta na corte impe- 
rial. E depois só elles sabiam concertar as fa- 
migeradas sinetas que faziam as delicias dos 
imperantes, bem como afinarem uma espi 
nheta que Ricci tinha dado de presente ao 
imperador. No reinado do successor de Van- 
Lié, os jesuítas estabeleceram uma academia 
em Pekin, onde recebiam como membros os 
lettrados e mandarins. 

A fim de assegurarem a inriuencia cres- 
cente de que gosavam na China, os missio- 
nários jesuítas, tentaram ver se podiam in- 
troduzir no povo o respeito pela cruz, cu)a 
significação tinham tido o cuidado de occul- 
tar até alli. Por muitas vezes se viram 
apparccer da noite para o dia signaes de 
cruzes, abertas nas pedras. Uma chamrra bri- 
lhante que tremulava acima da terra, indicava 
quasi sempre d'antemão a presença do sym- 
bolo christão aos neophitos e aos seus hábeis 
directores, que logo se davam pressa de cor- 
rer em grande pompa processional para ex- 
traírem o emblema sagrado, de que assim 
faziam objecto duma devota escamoteação. 

Em 1(196, fizeram mais e melhor, fizeram 
a invenção, (é esta a palavra) duma lapide 
de mármore na qual se lia, «em caracteres 
chins e egj^pcios ou cophtas, que no anno 
õ!i6 de Jesu-Christo, certos padres tinham 
jdo áquellas paragens annuncíar um Deus 
irino em pessoa, a segunda pessoa da Trin- 
dade feita homem, a Virgem Maria, ctc. 
e que quatro imperadores chineses tinham 
adoptado esta crença.» 



O fim da inrcnção era mostrar aos chinas, 
o mais immovel dos povos do universo, e o 
que menos gosta que o sacudam na sua im- 
mobilidade, que tem, por isso, o mais pro- 
fundo horror pelas novidades, que a religião 
christã não era coisa nova, nem mesmo na 
China. 

Passaremos em claro a serie de agitações 
politicas, invasões e revoluções que altera- 
vam a paz, as d3nastias e o governo na 
China, durante estas epochas, e nas quaes, 
como em toda a parte, mais ou menos en- 
contramos os jesuítas envolvidos, o que os 
sujeita a inttermítencias do mando ou de per- 
seguições, nas quaes sempre padece a mul- 
tidão christã, alheia ás intrigas dos seus ir- 
requietos e intromettidos missionários. 

E" no meio d'esta indcscriptivel confusão, 
que se extende por todo o império, que aporta 
á China o jcsuita André Xavier Cofier, c é 
recebido pelo neto daquellc Van Lie, tão 
protector dos homens dos relógios. 

Este príncipe que se mantinha na provín- 
cia de Chan-L3', acolheu graciosamente o jc- 
suita, o qual lhe prometteu maravilhas, se 
clle se fizesse christão, ou, pelo menos, ami- 
go dos jesuítas. Cofier, esperando concessões 
importantes d"estc pretendente, se elle su- 
bisse ao throno. impellia-o a proclamar alta- 
mente as suas pretensões, e a mostrar-se 
disposto a sustentai as com vigor. O moço 
príncipe, tanto desejo tinha de ser imperador, 
quanto medo das consequências que um de- 
sastre podia acarretar sobre clle, como tinha 
acontecido aos seus competidores. Cofier 
presagia lhe mil victorias, e um reinado pa- 
cifico sobre o throno imperial, se elle con- 
sentisse em se baptisar. ou pelo menos em 
deixar baptisar suas mulheres e seus filhos. 
Tum-Lié consentiu n'esta ultima combinação, 
comtanto que os baptismos fossem clandes- 
tinos. Ora não era isso o que os jesuítas 
queriam, que só tinham empenho nas con- 
versões imperiaes, para por meio d'ellas li- 
garem a si o imperador na presença dos seus 
súbditos. Nesta occasião, uma das mulheres 
legitimas de Tum-Lié deu á luz uma crean- 
ça do se.xo masculino, que foi immediata- 
mente atacada dum mal súbito. Aproveitan 
do-sc da occasião Cotier declara alto c bom 



3l2 



HISTORIA GERAL 



som que a creança morrerá se não for ba- 
ptisada, e assim se conseguiu o baptismo do 
rocemnascido. 

Uma outra mulher do imperador resolvcu- 
se a acceitar o baptismo, levada a isso por 
uma das muitas comedias inventadas pelos 
jesuitas para conseguirem os seus tins, e do 
género de uma que já vimos ter surtido tão 
bom elVeito com Francisco de Borja. Os je- 
suitas liaviam-lhe feito presente d'um quadro 
representando o Menino Jesus. Numa occa- 
sião em que eila passava na frente da ima- 
gem, uma voz, que parecia sair da tela. dis- 
se-lhe : «Se não seguires a minha lei, laço-tc 
morrer I» 

Apesar destes e outros milagres, as prin- 
cezas, fieis ao gyncceu imperial, não queriam 
ser baptisadas peio jesuíta, mas pelo (Iraii- 
Je-Colao, chanceler ou primeiro ministro do 
imperador. 

A habilidade do jesuíta corria risco de 
naufragar contra o ímmutavel rochedo da 
etiqueta chinesa. Que fazer: Uma noticia 
falsa, parece que feita de cncommenda, caiu 
como um raio sobre o palácio. Dizia-se que 
o exercito imperial tinha sido batido pelo 
usurpador, que vinha a marchas forçadas 
acabar de destruir os restos da família Ta- 
mingiana. Cofier corre, apresenta o baptismo 
como o único meio de conjurar a desgraça 
immincnte. e por tal forma actua no espi- 
rito assustadiço das mulheres, que no mesmo 
dia baptiza a mãe do imperador a quem cha- 
ma Maria, e as suas duas esposas legíti- 
mas, uma das quaes recebe o nome de He- 
lena, outra o de Anna. 

Desmentida a noticia da derrota, o jesuiia 
convence o rei que o baptismo das suas mu- 
lheres a tinha convertido em triumpho. Não 
se sabe ao certo se o imperador se baptisou 
ou não; o que não olVerece duvidas é que, 
querendo conhecer o horóscopo do filho ba- 
ptisado, o padre Cofier se encarregou disso. 
como o faria qualquer astrólogo chinês e 
prognosticou gravemente «que a creança se- 



' Ebte episodio c textualmente copiado da li'iefve 
Relalion do muito reverendo padre Boym. liis pois 
os nossos amigos jesuitas transformados em a^t^o- 
loROs e adivinhos ; ollicios que na Kuropa, e até alli 
mais perto, em íjóa, tinham levado muita gânte á fo- 
gueira em nome de Deus. 



ria feliz por ter nascido á meia noite, á mes- 
ma hora que o Filho de Deus, e que estando 
o sol conjugado com o signo do Dragão, se- 
ria como um sol que daria brilho a toda a 
China, evidentemente representada pelo dra- 
gão. Tum-Lié. encantado com a prophccía, 
mandou presentes riquíssimos ao coUegio 
dos jesuitas em Macau, e encheu de bens e 
honrarias o padre André Cofier e os seus 
companheiros. 

Mas ao, mesmo icmpo que o jesuíta assim 
prognosticava um feliz destino ao filho de 
Tum-Lié, representante dos imperadores le- 
gítimos do celeste império, um seu confrade 
representava o mesmo papel junto de Chun- 
Tchí, lilho de Vsan-Quei, o usurpador, e 
promettía-lhe, na sua qualidade de astrólo- 
go, para ellc e sua descendência, a posse 
gloriosa c bem depressa tranquílla do thro- 
no imperial. Este .sócio, o padre Adão Schall, 
foi egualmente abarrotado de honrarias e 
presentes por Chun Tchi, como o padre .\ii- 
dré Cofier o fora por Tum-Lié. 

Mas como a victoría dos dois era impôs 
sivel, os jesuitas trataram de viver bem com 
ambos, prognosticando a um e a outro vi- 
ctorias sobre victorias. até o momento em 
que o usurpador Vsan-Quei cáe com todos 
os seus tártaros sobre as províncias que ain- 
da reconheciatn a auctoridade de Tum-Lié, 
conquísta-as, derrota as tropas ímperiaes, e 
aprisiona o infeliz príncipe com toda a sua 
família. Imraedíatamente faz degolar o des- 
cendente de Van Líé, e seu filho, aquelle a 
quem Cofier tinha promettido um brilhanle 
destino. Mas como o padre Schall tinha pre- 
dicto a victoria a Chun-Tchi, e como o j^a- 
órc Schall era superior de Cofier, e Chun- 
Tchi, mais j-iodero-so que Tum-Lié, a profe- 
cia de Adão Schall é que foi considerada 
como verdadeira. 

O prestigio dos jesuitas era devido ás ni- 
gromancias astrológicas de Schall, sobre o 
espírito do tártaro conquistador. Quando 
este morreu, em i(36i, pouco mais de cin- 
coentn annos depois da chegada á China do 
padre Ricci, os jesuítas já alli contavam trinta 
c oito residências e cento e cincoena egrejas. 

Foi durante a vida de (]hun-Tchi, que o 
padre Adão Schall obteve as honras e o ti- 
tulo de mandaiim de primeira classe. 



DOS JESUÍTAS 



3i3 



(J i|iie diria Francisco Xavier, se resusci- consei\ar até o ultimo momento sobre o es 
tasse c visse o seu successor de palanquim, pirito do monarcha chinês, que este, ao ex- 
carregado por quatro homens, protegido do pirar, lhe confiou a educação e a tutella de 
sol, avançando entre as zumbaias do povo, seu filho e successor. Os jesuitas tratam lu- 
cile, apostolo, que sempre andou descalso, go de aproveitar esta menoridade, que lhes 




Exéquias de Lourenço Ricci (Estampa caricata do século xviiy 



a pé, sem comitiva c carregando os pouco 
iornidt)s alforges ? ! 

Ksta situação permittc aos jesuitas deri- 
varem, para os seus thesoiros em Roma, rios 
de dinheiro alcançado. Deus sabe por que 
meios, na China. 

Infelizmente C+iun-Tchi morreu moço ain- 
da, deixando por herdeiro uma creança. Tal 
era a iniluencia qiic d r;idic Ad;l<i soubera 



entrega, com a pessoa do soberano, as ré- 
deas frouxas do seu immenso império. Kntre 
Roma e Pekin trocam-se ambiciosas pala 
vras. Sobre toda a superfície do império chi- 
nês, formam se e disciplinam-se batalhões 
de neophytos jesuitas ' ás ordens dos reve- 

' Propositalmente descrevemos /esm/iJi em vez de 
chrisião.i, visto que pouco ou nada havia de commum 

(.-nlrt; jcMiitismo e chrisliiuiiimo. 

^o 



3i4 



HISTORIA GERAL 



rendos padres. A Europa escuta admirada 
os ruidos mysteriosos que lhe vêem dessas 
longiquas regiões da Ásia, e vê que sobre 
elles se extende a negra capa do jesuíta, 
prestes a empolgar a China, e todo o extre- 
mo oriente, constituindo alii um reino orga- 
nisado á feição bestial do que já tinham no 
Paraguay. 

De repente, sabe-se que o christianismo foi 
proscripto na China, que os jesuitas foram 
banidos, e que o padre Adão Schall fora 
precipitado do mais elevado degrau do thro- 
no, numa masmorra, para d"alli caminhar 
ao supplicio. Tal noticia era verdadeira. As 
perpetuas intrigas, a desmedida ambição, a 
incessante e insaciável avidez dos filhos de 
Ignacio, as suas eternas questões com os 
missionários de outras ordens, acabaram de 
suscitar no celeste Império uma nova con- 
vulsão, que se resolvera na expulsão dos 
reverendos padres. Os regentes do reino, 
nomeados por Chun-Tchi, segundo as indi- 
cações de Schall, e que lhe eram inteira- 
mente devotados, tinham tentado luctar con- 
tra a tempestade que acabou por se desen- 
cadear contra os jesuitas, e tiveram que os 
abandonar, para não serem arrastados com 
clles. Comtudo o padre Schall teve ainda 
amigos e influencias que conseguiram li- 
vral-o da morte. Parece que, passados os 
primeiros terrores d'esta reacção, os jesui- 
tas não tiveram que soffrer grandes violên- 
cias, as quaes findaram de todo, alguns an- 
nos depois, quando o filho de Chun-Tchi 
chegou á maioridade. 

Foi então, que elles obtiveram uma espé- 
cie de rehabilitação do padre Schall, a quem 
erigiram um magnifico mausoléu. Para mais 
uma vez accentuarem que o jesuitismo na 
China é coisa fundamentalmente alheia ao 
christianismo e differente da lithurgia catho- 
lica, a trasladação dos restos mortaes do pa- 
dre Schall assumiu todo o desenvolvimento 
d"uma cerimonia pagã. 

O préstito era formado por um pelotão 
de gente, abrindo a marcha e levando, á ma- 
neira chinesa, pendões representando figuras 
d'homens, de mulheres e de diversos ani- 
maes. Seguiam-se depois os sacerdotes de 
Confúcio recitando louvores em honra do 
defunto: na frente do caixão, coberto de ri- 



cos pannos, sob um palio a cujas varas se- 
guravam lettrados, ia uma dúzia de crean- 
ças com defumadores de cobre á cabeça, 
perfumando o caminho. Apoz do caixão vi- 
nham os missionários jesuitas, nenhum dos 
quaes trajava a negra roupeta, mas vestidos 
de sedas e galas á chinesa, ostentando mui- 
tos d'elles as insígnias das altas dignidades 
com que o imperador os tinha amerciado. 
O succcssor do padre Schall, o jesuita Ver- 
biest, vestido de grande mandarim, cami- 
nhava na frente d'esta mascarada, d'estes 
sacerdotes de Christo transformados cm 
bonzos, destes modestos missionários con- 
vertidos em soberbos dignitários do celeste- 
imperio. Não esqueçamos- - particularidade 
notável d'esta trasladação dum sacerdote 
catholico — que, segundo o costume invaria 
vel dos chineses, os bonzos, levando as ima- 
gens de Confúcio e d'outros santos da lenda 
china, se tinham incorporado no cortejo, do 
qual faziam também parte toda a espécie 
de jograes, charlatães, saltimbancos, uns a 
largos passos sobre altas andas, outros mon- 
tando cavallos rápidos ou aos saltos c cam- 
balhotas pelas ruas, e tudo isto ao som dos 
gongs e dos tans-tans chineses, que consti- 
tuía, com o estalar dos foguetes, o esfu- 
ziar das bixas de fogo, e o rebentar dos 
trac-iracs, o mais infernal de todos os ruí- 
dos!... ' 

Além de directores duma fundição de 
peças dartílheria, — o que não parece ser a 
mais própria das missões d'um sacerdote,— 
foram os jesuitas encarregados da delimita- 
ção dos confins entre a Rússia e a China, c 
com tal arte se souberam haver, que ambas 
as partes se deram por satisfeitas com o re- 
sultado diplomático. 

Parece-nos ter dito, não por certo tudo, ^ 
mas o sufficiente para que o leitor possa H 
fazer idéa do que íoi o mandarinato jesui- i 

tico na China. Precisamos agora encarar 
esta gente sob outro ponto de vista; o único 
que os devia ter levado á China, desde que 
se attreveram a de«fraldar, como sua pro 
tectora. a bandeira do christianismo. 



' Cf. acerca il'estas honras fúnebres, happer, Hf- 
ciiril il'.\mh(issa,i «, elç. 



UOi> JESUÍTAS 



3ib 



LVIJI 



Como elles missionavam na China 



PARA se estabelecerem na China, os je- 
suítas tinham lançado mão dos meios já 
empregados no Japão. O padre Ricci, o 
apostolo da China, não tinha organisado o 
seu catecismo, como elle próprio o confessa '. 
senão com aquelles pontos da doutrina chris- 
tã, á primeira vista comprehensiveis á rasão 
humana. Os successores d"cste padre rizeram 
ainda melhor. Percebendo que os iettrados 
não gostavam de ver Confúcio considerado 
em o numero dos condemnados, imagina- 
ram presentear o grande philosopho chinês 
com uma espécie de revelação, d'intuição 
da crença e dos dogmas da egreja catholica, 
e por consequência d'um logar no ccu dos 
christãos '. 

Por outro lado. para não suscitarem nem 
desprezo nem perigos aos seus calecume- 
nos, os jesuitas permittiam-lhes que escon- 
dessem as cruzes, que, segundo elles, não 
era o symbolo da redempçao do mundo, pelo 
sangue de Deus I Directores indulgentes, con- 
sentiam aos seus neophytos a maior parte 
das suas antigas superstições, .\ssim, pois, 



' Cf. Memorijs do padre Matheug Ricci, da S. J. 

' Ver sobre o assumpto as Memonas do pidre Le 
Comie, missionário jesuíta na China, T. i.", Historia 
da China, do padre Martini, outro jesuita, livro iv ;e 
ainda a Moral de Confúcio, livro publicado em 1088, 
no quil Confúcio se nos apresenta com dore apósto- 
los como Christo, um discípulo bein amado, etc , 
•aifim, segundo os missionários jesuitas, Confúcio te- 
ria sido um primeiro typo de Jasu-Christo. O abbade 
Renandot bem claramente revelou esta expressão e 
•sta idéa, na sua Dissertação sobre as scienci is dos 
chinies. 



elles podiam tomar parte na festa das Lan- 
íenias, na das Almas, nas de Phelo, o in- 
ventor do sal \ que honrassem com um culto 
particular os idolos domésticos; que recitas- 
sem as suas na-moo-mi-to fo (rezas das con- 
tas chinesas: conjunctamente com o rosário 
catholico : que se munissem do ///-;;/ (espé- 
cie de passaporte para o outro mundoj, 
comtanto que recorressem á Extrema-Unc- 
ção ! Mais ainda, sob condição que se resga- 
tariam por meio de dadivas mais ou menos 
avultadas, conforme as posses de cada um, 
feitos aos seus directores, podiam-se ter 
uma infinidade de esposas e de concubinas; 
tomar mulher entre as suas mais próximas 
parentas, e até entre as irmãs '. 

O que completa este retrato dos missio- 
nários chineses, é que, como os chineses não 
teem idéa do Deus supremo, nem mesmo 
palavra para a exprimir, os jesuitas, para 
mais commodamente angariarem proselytos, 
contentaram-se em annunciar o Deus dos 
christãos á China com o nome de TíV?/, que 
significa o ceu e até o ceu material, segundo 
o padre Rhodes. jesuita, que faz esta ultima 



' Navarrete (T. 1.°) diz formalmente e como coisa 
que os missionários jesuitas não negavam, que estes 
auctorisavam muitas vezes os chineses a casarem 
com suas irmãs. Segundo o mesmo historiador, a 16 
de fevereiro de 17 1, Pedro de Moraes, jesuit;i, lhe 
dissera, em presença de testemunhas, que um mis- 
sionário da companhia tinha dado dispensa a um ir- 
mão para casar com uma irmã, e que tendo «sta mor- 
rido, este singular christão alcançara dispensa para 
casr.r com outra irmã. 



3ib 



UlbTORJA GERAL 



c importante accusação aos seus sócios, n um 
diccionario d'estc missionário, que foi im- 
presso pela sagrada congregação... 

A' vista disto, o que mais nos admira é 
que os resultados obtidos pelos jesuítas não 
fossem ainda maiores. E" verdade que o 
preço secreto que os bons padres punham 
as suas commodas indulgências, ás suas tão 
benignas dispensas, devia impedir que mui- 
tos neophvtos passassem do limiar da egre- 
ja. -Vlém disto os chineses eram talvez des- 
contiados de mais para não verem que uma 
religião tão fácil, e tão cheia d'accommoda- 
cões, não passava dum pretexto para enri- 
quecer os que a pregavam. Mas o peor, pa- 
ra os jesuítas, foi a entrada na China de 
mis.sionarios d'outras ordens religiosas. Os 
franciscanos e os dominicanos tendo conse- 
guido penetrar nesta mis.são, — apesar de 
todos os exforços dos jesuítas, que chegaram 
a usar da violência para com dois d'clles, 
fr. João Baptista Moraes e fr. António 
António de Santa Maria — levaram ao co- 
nhecimento do papa o que era no fundo o 
missionário jesuíta na China. 

Em 1645. Innocencio X publicou um de- 
creto, conlirmando outro expedido no anno 
anterior pelo Santo-Olhcio, e depois de so- 
ienne deliberação dos cardeaes, pelo qual se 
determinava a todos os missionários das ín- 
dias, e particularmente aos da S. .).. que, de 
futuro, pregariam aos idolatras os dogmas 
da egreja catholica em toda a sua integri 
dade, e que não tolerariam resto algum de 
surperstição nos caihecumenos, quaesquer 
que elles fossem. O padre Morales, tendo 
voltado á China com este decreto, o deu a 
conhecer aos jesuítas em 1640. que fingiram 
recebel-o com a máxima humildade, mas 
não fizeram caso algum delle. O superior 
da companhia nas índias escreveu ao pa- 
dre Morales que elle e seus irmãos obede- 
ceriam ao papa em tudo <]ne fosse possircl. 
Não nos parece que se comprometlessem 
demasiadamente com esta promessa. Os je- 
suítas da Europa fizeram attenuar por Ale- 
xandre \'II o que incommodava os seus mis- 
sionários, e as coisas continuaram como até 
alli. Como se não via emenda nos jesuítas, 
os dominicanos mandam a Roma o padre 
Navarette, que foi depois arcebispo de São 



Domingos. A fim de se esclarecer sobre o 
assumpto, a Santa-Sé enviou á Ásia três vi- 
gários apostólicos, escolhidos na congregação 
das missões, não tendo ligações algumas nem 
com os jesuítas nem com os dominicanos, e 
que pareciam dever ser fieis informadores. 
A fim de lhes dar um caracter mais sagra- 
do, o papa revestiu-os da dignidade episco- 
pal. Pois, querem sabor como os jesuítas da 
China acolheram estes três delegados do so- 
berano pontífice ? 

Eis o que diz a esse respeito o secretario 
da Propaganda, relatando o respectivo pro- 
cesso : 

«Os jesuítas começaram por difamar es- 
tes vigários apostólicos nas reuniões pu- 
blicas e até nas egrejas, e, dando origem a 
um condemnado schisma, fizeram crer ao 
povo que elles eram bispos heréticos, e que 
todos os sacramentos administrados por elles 
ou pelos outros padres eram nuUose sacrílegos, 
que mais valia morrer sem elles que admi- 
nistrados por taes mãos. . . Fizeram os trans- 
portar para Gòa , e serviram-se dos prínci- 
pes idolatras para expulsar os outros, che- 
gando mesmo, para isto, a servirem-se de 
malfeitores e de apóstatas.» 

Peor ainda foi o que fizeram a um legado 
do papa, o cardeal de Tournon, enviado em 
170G para aplanar algumas difficuldades das 
missões asiáticas. Os jesuítas por tal forma 
o perseguiram que se constituíram seus car- 
cereiros, depois de obterem do imperador 
que o expulsasse da China, obrigando o a 
recolher-se a Macau. O cardeal, morreu 
nesta cidade, onde, á hora da morte, conse- 
guiu escrever uma carta para o bispo de Co- 
non, que é uma das mais terríveis accusa- 
cões contra a S. J. «Saber-se-ha com hor- 
ror, lè-se nessa carta, que aquelles que de- 
viam naturalmente ajudar os pastores da 
egreja são esses que os tem provocado e ar- 
rastado aos tribunaes dos idolatras, depois 
de terem tido o cuidado d'excítar contra el- 
les o ódio no coração dos pagãos, e levado 
esses pagãos a armarem-lhes laços e a op- 
primíl-os com maus tractos; com despreso 
da dignidade episcopal e da santidade da 
relisíão .'» 



/ 



l-]stas cartas correm impressas; e póJemse tam- 



DOS JESUÍTAS 



i.7 




..-.tenor ie uma egreja jesusuca na Chmí. 



3i8 



HISTORIA GERAL 



Em outra carta, dirigida ao bispo de Au- 
ren, diz o prelado que os iosuitas loram 
mais bárbaros com clle de que os gentios. 

Aos jesuítas chama «homens que sacudi- 
ram inteiramente o iugo da obediência e do 
temor de Deus». 

Destas cartas colhe-se como certo que os 
lovolas, dispondo do animo do imperador, 
iam até obter sentenças de morte contra 
aqueiles que na vida de missionários que- 
riam seguir a doutrina apostólica, sem se im- 
portarem de conquistar a dignidade de man- 
darins. 

Cm papa. amigo dos jesuitas. Clemente XI. 
não pôde, porém, tolerar o seu intolerante e 
cruel procedimento, e solennemente o con- 
demnou por uma bulia de 171 5. Mas os re- 
verendos padres das missões recebiam as 
bulias como os pachás temidos dos sultões 
recebiam os //>wíi«s do glorio.so padischah. 
Por veses até, se o conteúdo era desfavorá- 
vel aos seus interesses, nem sequer simula- 
vam que respeitavam o /irmaii, e atiravan^ 
simplesmente com clle á cara do portador; 
que por muito feliz se devia )ulgar, se lhe 
não acontecesse o mesmo que ao cardeal de 
Tournon, e outros taes como o sr. Pain. 
bispo de Hiepolis, eos srs. Maigrot, Leblanc, 
etc. etc. 

Segundo o seu pertido costume, os jesuí- 
tas trataram de attribuir ás .suas victimas, 
as perversidades que elles praticavam, e de 
desvirtuarem na Europa as intenções c os 
actos, depois de lhes haverem comprometti- 
do na Ásia a liberdade e a vida. Assim, para 
se justificarem perante o papa e a chri.stan. 
dade europêa dos maus e infames tractos 
que tinham feito soffrer ao cardeal de Tour- 
non, e das accusaçóes que tinham determi- 

bem ler no: Kcril de M. M. des Missions etrangèrcn 
sur faffaire de Chine. Esta obra está cheia de pro- 
vas esmagadoras contra os jesuítas, dos quaes desco- 
bre o procedimento bárbaro para com o legado, as 
extranhas transacções com as superstições chinesas, 
as intrigas e até os crimes. 



nado a ida d'cstc legado a China, consegui 
ram obter um certo numero dattestados, que 
os declaravam innocentcs em todos os pon- 
tos. Todos sabemos como taes gracioso? at- 
testados se conseguem. Uns são filhos da 
amisade pessoal, outros dos empenhos, mui- 
tos c muitos dos interesses e até das amea- 
ças. 

Infelizmente muitos dos signatários tão de- 
pressa souberam a que fins taes favores eram 
de.stinados vieram declarar em publico que 
as suas firmas lhes tinham sido extorquidas 
pelo engano ou pelo terror. Para dar um 
exemplo, citaremos uma Declaração do pa- 
dre Miguel Fernandes, frade franciscano, an- 
tigo missionário na (^hina ', na qual este re 
ligioso declara «livremente e sem que lho 
peçam, mas unicamente para prestar teste- 
munho á verdade, e para descargo de con- 
sciência, que reconhece ier-se afastado do ca- 
minho dircilo^ e que andou mal. dando aos 
jesuitas certos attestados, etc.» O padre Fer- 
nandes, no fim da sua declaração, confessou 
que o que o levou a dar taes attestados, foi, 
alem do medo dos maus tractos por parte 
do imperador e dos seus mandarins jesuitas, 
a crença em que estes o tinham induzido de 
que o cardeal de Tournon fora em missão 
para destruir todos os missionários que não 
pertencessem ao clero secular. Ajunta que 
um jesuita, o padre Franqui, lhe mostrou a 
copia dum tratado com as assignaturas de 
religiosos de varias ordens, no qual os signa- 
tários se compromettiam a sustentarem .se 
mutuamente. Mais diz o franciscano, que de- 
pois que dera o attestado aos jesuitas vivia 
atormentado de remorsos e inquietação. Es- 
creve que no momento em que dera o attes- 
tado dissera : «Queira Deus que esta decla- 
ração não me seja pendurada ao pescoço no 
dia do juizo final I. . . » 



' Esta Declaração fulminante encontra se no Ecril 
de 1710 de M. M. des missions etrangéres, paginas 
204 e seg. 



DOS jesuítas 



LIX 



um imperador de contrabando 



EMQUANTo viveu Kang-Hi, o discípulo dos 
jesuítas, conservaram estes o seu poder, 
c as suas riquezas no celeste império; mas, 
desde logo, e isto resulta claramente diiraa 
carta do padre Gaubil da S. J., só havia a 
canalha que se deixasse alcunhar pelos mis- 
sionários loyolenses, cora o titulo de christá. 
Foi, por certo, para dar um desmentido a 
esta verdade, e para fazer subir alguns fu- 
ros á gloria cm declínio dos jesuítas, que os 
bons padres, em i*53i, imaginaram mandar 
um dos seus á Europa, como embaixador 
extraordinário do imperador da China junto 
da Santa-Sé. 

Foi este embaixador, verdadeiramente ex- 
traordinário, que entregou ao papa Alexan- 
dre VII, e ao geral dos jesuítas Alexandre 
Gottofridi, uma certa carta escripta n'um pe- 
daço de seda amarella, que tanto maravilhou 
a Crétineau-Joly. Mas o que o auctor da 
Historia religiosa, politica e litteraria, 
da companhia de Jesus teve o cuidado de 
não dizer nem divulgar, embora não fos- 
se a scena menos curiosa desta comedia, foi 
que o risível embaixador, para dar maior 
brilho e realce, credito c importância á sua 
cmb.\ixada, apresentou ao papa um peque- 
no, que elle dizia ser chinês, rilho c herdei- 
ro do imperador Tum-Lié, e que lhe fora 
confiado, a elle jesuíta como penhor da obe- 
diência que seu pae jurara ao summo pontí- 
fice, e de reconhecimento á companhia de 
Jesus. 

Para que esta farça fosse tomada a serio, 
o pretendido príncipe foi pomposamente in- 



stallado na casa professa dos reverendíssimos 
padres de Roma, e todos os dias uma mul- 
tidão de curiosos ia ver o herdeiro do celeste 
império, sentado no alto do throno, numa 
sala decorada á chinesa, recebendo os sala- 
maleques de meia dúzia de mandarins e de 
dignitários iraperiaes, que o tinham accompa- 
nhado á Europa, mas que, apesar da exacti- 
dão do vestuário e do comprimento dos bi- 
godes, cheiravam terrivelmente a mascara- 
dos carnavalescos. 

Infelizmente para o embaixador extraor- 
dinário e para o seu príncipe de contraban- 
do, vieram entretanto cartas da (>hína, pelas 
quaes se soube que TumLíé e seu filho úni- 
co tinham sido assassinados pouco tempo 
depois da partida do jesuíta Boym, o em- 
baixador I 

Alem d'isso, ura frade de S. Domingos re- 
conheceu, no intitulado filho do imperador 
chinês, um rapazito de humilde origem, edu- 
cado e creado por caridade numa casa da 
ordem dominicana, donde tinha saído para 
entrar, como creado, ao serviço do reveren- 
do padre Boym. 

Descoberta a fraude, os jesuítas, como os 
comediantes de feira, desarmaram a barra- 
ca, e nunca mais talaram no seu imperador. 

Felizmente para os jesuítas, naquelle tem- 
po ainda não havia telegrapho para a China. 
nem potencias alliadas, nem jornaes, e por 
isso os celestes ignoraram sempre i> milagre 
dubíquídade d'um dos seus. realisado pelos 
jesuítas. 

Ainda assim, com o successoi de Kang-Hi 



HISTORIA GERAL 



xcncediT de Iiim Lie. as coisas não corre- 
ram absolutamente de feição para a santa 
gente, apesar dos seus esforços c]ue por ve- 
zes degeneraram em verdadeiras persegui- 
ções, os franciscanos, dominicanos, capuchi- 
nhos e lazaristas conseguiram penetrar na 
China. Rivaes ciosos do êxito dos jesuítas. 
como estes dizem, ou testemunhas indigna- 
das das intrigas e abominações dos íiihos de 
Lo\<ila, como aquclics pretendem, os outros 
missionários denunciaram os jesuitas ao papa 
e á christandade. Desde logo, tanto na Chi- 
na como no Japão, começou a haver ques- 
tões, conflictos, lactas, batalhas entre os je- 
suítas d"uma parte, e as religiões das diffe- 
rentes ordens de outra, o que escandalísou 
todo o mundo christão, e suscitou a atten- 
ção dos chins. 

Os adversários dos jesuitas obtiveram, por 
varias vezes bulias pontifícias que condem- 
navam estes ; mas tendo o imperador Yong- 
Tching, successor de Kang-Hi, publicado um 
decreto pelo qual obrigou todos os missio- 
nários a jurarem. d'alli em deante, para que 
podessem ficar nos seus estados, a confor- 
marem-sc com os usos do celeste império, 
todos os missionários á excepção dos jesuitas, 
se negaram terminantemente a tal sacrilégio, 
alto e bom som declararam que para ser 
christão era absolutamente necessário esco- 
lher entre Jesus e Confúcio. Então a perse- 
guição e a morte começou a ser a paga dos 
seus trabalhos apostólicos, emquanto os je- 
suitas continuavam na China e na corte en- 
contrando meios de accommodarem Christo 
c Confúcio. 

Mas, se os jesuitas não podem reclamar 
para si a gloria da conversão da China ao 
christianismo, e antes a elles se deve o an- 
niquillamento de muitos trabalhos apostóli- 
cos, verdadeiramente desinteressados d'ou- 
trás ordens religiosas, têem, porém, a ha- 
ver n'este balanço de actividades, os seus 
trabalhos litterarios e scientificos. Os padres 
Gaubil, Martini, Bouchet, Le Comte e mui- 
tos outros nos fizeram conhecer uma parte 
da Ásia, até então quasi ou completamente 
desconhecida na Kuropa ; deram-nos conhe- 
cimenío das diversas religiões, dos usí)S e 
cxtranhos costumes destas singulares para- 
gens, da sua geographia, da sua historia, da 



sua zoologia, da sua flora, etc, ctc. ; em- 
bora muitos erros, allusões e crendices de 
que estão cheios os seus trabalhos n'este gé- 
nero '. 

Para serem os únicos a explorarem a 
\asta missão da China, os jesuitas, como já 
dissemos, puzeram tudo em acção, até pa- 
ra destruírem o effeito das bulias de mui- 
tos papas que prohibiam severamente qual- 
quer alliança das superstições chinesas com 
os dogmas catholicos, excitarem o impera- 
dor a publicar um edito, que bania da China 
todos os bonzos da Kuropa que não seguis- 
sem o culto de Confúcio I 

Nenhum missionário se sujeitou á aposta- 
sia, excepto os jesuitas que encontram na 
applicação das restricções mcntaes modos e 
maneiras de tudo fazerem e de tudo descul 
parem. 

Innocencio XIII, irritado com a continua 
desobediência e com os escândalos crescen- 
tes que elles suscitavam, prohibiu-lhes que 
recebessem mais noviços em qualquer parte 
do mundo. Este pontífice tomava medidas 
para libertar a egreja e a humanidade do 
negro flagello, quando uma morte repentina 
livrou a companhia d'este seu inimigo. 

Benedicto XIV e Clemente XIII ouzam le- 
vantar a mão contra esta arca terrível, da 
qual a humanidade já tinha visto sair tantos 
males. Uma vez entrada n"este caminho, a 
Santa Sé não se atreveu a recuar, impellida 
pelo universal clamor que a ella se erguia 
tanto dos reis como dos povos. 



' São os próprios jesuitas que confessara que os 
seus sócios nos hospitaes se serviam d'um dente de 
cavallo marinho para fazerem estancar o sangue das 
sangrias; o que quer dizer que em vez de destruirem 
as superstições dos seus cathecumenos, se deixavam 
eivar d'ellas. O padre Boym, que nos conservou este 
facto, ajunta gravemente «que a experiência tem de- 
monstrado que a virtude deste dente para fazer pa- 
rar Iluxos de sangue depende, em parte, da epocha 
em que foi tirado ao animal.» Acerca das maravilhas 
de taes dentes conta mais o bom padre: «Um dia um 
capitão malabar foi encontrado morto na tolda do 
navio, no meio da sua equipagem egualmente morta 
e apunhalada como elle. Mas emquanto os outros 
cadáveres jaziam em poças de sangue, o capitão, lar- 
deado de golpes não tinha vertido uma gotta sequer. 
Mas assim que lhe tiraram do pescoço um pequenino 
dente de cuvallo marinho que trazia pendurado, o 
sangue saiu logo a jorro por ledas :is feridas"» 



DOS JESUÍTAS ^,^1 

Apesar J'isso os icsuitas conseguiram ain- ignorante do populacho, cos jesuitasab. ndo- 

da algum tempo na China, á força de astúcia nam a sua missão apostólica, c ficam na China 

e de iiabilidadc, conservar a sua intkien- como mecânicos, pintores, gravadores, mu- 

cia e a sua riqueza. O chefe do celeste império sicos. relojoeiros, astrónomos, e assim" con- 




Bonuos japoneses em oraçãc 



mandou aos missionários que seguissem o servam durante algum temp.. ainda a digni- 

culto de Confúcio, c os jesuítas obedece- dade de mandarim. 

'""^' Quanto aos jesuítas missionários, ja de ha 

Os bonzos cos grandes excitam o fanatismo muito que não havia noticias delles. 



332 



HISTORIA GERAL 



LK 



O Chnstianismo na índia 



QuvNho no capitulo VII d'este livro acom- 
panhámos Francisco Xavier á índia, 
tivemos occasião de dizer que, quando os 
portugueses alli entraram já lá encontraram 
estabelecido o christianismo, e consideran- 
do-se esses christãos como discipulos dire- 
ctos de S. Thomé '. 

O povo conservava esta lenda, na forma 
em que a conta Abdias Babvionio. 

Uma noite, diz a lenda, certo brahmane 
muito respeitado, entrando num dos mais 
santos pagodes, viu que os deuses da 
triade indu se levantaram no momento em 



' O nosso Gouvêa conta assim a lenda. Na re- 
partição que se fez de todas as partes do mundo en- 
tre os apóstolos, couberam as índias a S. Thomé, 
que depois de ter introduzido o christianismo na 
Arábia Feliz e na ilha Dioscorida, hoje conhecida 
por Socotora, chegou a Cranganor, onde ao tempo 
residia o principal rei da costa de Malabar. Foi alli 
que se reallsaram todas as aventuras que se podem 
ler na Vida d'este apostolo, escripta pelo pretendido 
Abdias Babylonio. O apostolo, tendo estabelecido 
muitas egrejas em Cranganor, foi á cidade de Can- 
tão, e passando ao lado opposto, hoje conhecido pela 
costa de Coromandel, deteve-se em Meliapor, onde 
converteu o rei e todo o seu povo; d'ahi seguiu pa- 
ra a China, d'onde voltou a Meliapor. Taes e tantas 
foram as conversões que aqui effectuou, que a inveja 
e o ódio por ellas suscitados em dois brahmanes. fi- 
zeram revoltar o povo que, junto a elles, apedrejou 
o apostolo. E como um dos brahmanes notasse ain- 
da alguns sFgnaes de vida no corpo do santo, quando 
já derribado por terra, acabou de o matar através- 
sando-o com uma lançada. Por muito antiga que seja 
esta tradição não ha auctoridade alguma que a con- 
firme, parecendo ter a suti origem nas fabulas dos 
manicheos, que inventaram diversos Actos sob o no- 



que. segundo o costume, elle os ungia com 
óleo perfumado. Os três deuses, desde 
longos séculos, immoveis sobre os seus 
pedestaes, tendo- se erguido, desceram do 
altar e sairam vagarosamente do pago- 
de. O brahmane ficou por tal forma sur- 
prehendido com o espectáculo, que, sem 
pensar na inconveniência do que fazia, diri- 
giu a palavra ás divindades, e perguntou- 
Ihes porque assim abandonavam um templo 
onde eram por tal forma honradas ? 

Foi I 'isHu quem lhe respondeu, com es- 
tas palavras : 

— Elle chegou ! 

O brahmane comprehendeu logo o que o 
deus queria dizer, c sem se oppôr á saída 
dos três fugitivos, foi com toda a gente da 
cidade até á borda do mar, sobre o qual a 
noite começava a espalhar a escuridão. Re- 
pentinamente viram, no meio das trevas, 
brilhar uma luz scintillante, que depois co- 
hecerám não ser astro do firmamento, nem 



me dos apóstolos, e entre outros os de S. 1 home e 
da sua evangelisação das índias Jacques Tolluis, 
suppõe que este Thomé, pretendido apostolo da ín- 
dia, é um discípulo do heresiarcha Manes, e isto fun- 
dado no testemunho de I heodoreto. Os jesuítas Ma- 
galhães e Comte fazem menção da ida de S. Thomé 
á China ; mas monsenhor Maigrot, bispo e vigário 
apostólico na China, demonstra que estes missioná- 
rios tomaram pelo apostolo S. Thomé a um tal Ta- 
mo, um dos mais insignes trampolíneiros (são as 
suas próprias pnlavras) que teem entrado na Chi- 
na, e que se constituiu chefe da seita de Foé, cha- 
mada a seita dos contemplativos, e que entrou na 
China em 58í. 



DOS JESUÍTAS 



323 



fachti da terra, mas que >l' achava exacta- 
mente collocada na linha em q;ie as aguas 
se confundem com o azul do espaço. 

Pouco a pouco a luz augmentou, cresceu, 
e em breve se converteu n'um sol deslum- 
brante, que illuminou mar e terra. O povo 
foge aterrado a vista de tal prodigio, e eis 
que uma voz meiga se eleva e diz : 

— Paz aos homens de boa vontade I 

Os Índios viram então no meio delles um 
desconhecido, vestido com trajos extranhos, 
e cuja phisionomia imponente quasi que oc- 
cultava uma longa barba prateada. 

Era o apostolo S. Thomé, que desde logo 
começou a sua missão e%'angelica, seguido 
immediatamente dum numero considerável 
de discípulos. 

Esta lenda, que recordamos, não nos ser- 
ve senão para affirmar que o conhecimento 
do christianismo deve ser antiquíssimo n'a- 
quellas partes do Oriente, tanto mais que 
nas assignaturas do concilio de Nícéa. já ap- 
parece a d"um prelado que se dá o título de 
bispo da Pérsia e das índias, e que além 
d'isso, um antigo escriptor. citado por Sui- 
das. diz que os habitantes da índia interior* 
os iberianos e arménios foram baptisados no 
tempo de Constantino o Grande. 

Os príncipes infiéis concederam grandes 
privilégios aos christáos da costa, entre ou- 
tros Cerão Perumal, imperador de toda a 
costa do Malabar, e fundador da cidade de 
Calecut. Em virtude das concessões d'este 
príncipe os christãos indus gosavam de todos 
os direitos da nobreza do pais, tomavam a 
direita aos naires, e quasi que não depen- 
diam senão do seu bispo tanto no temporal 
como no espiritual. 

Estes privilégios, juntos a outros que o rei 
de Cranganor concedeu depois a um arménio 
alli estabelecido, chamado Thomaz Cana ou 
Mar Thomaz, estavam gravados em lami- 
nas de cobre, na língua dn pais, e foram 
conservados até á chegada dos portugueses 
á índia*. 



• Esta índia interior não pode ser senão a Ethio- 



pia. 



* Conta-se que estas laminas se perderam da se- 
guinte maneira. Um bispo, que as tinha em seu po- 
der, receiando perdel-as, contiou-as a guarda d'um 



Todos os christãos do Malabar se dizem 
descendentes d'cste Mar ' Thomaz, o que não 
está d'accordo cora a alta antiguidade a que 
remontam a sua religião. 

E' difficil dizer em que tempo Mar Tho- 
maz se estabeleceu na índia. Gouvêa fal-o 
contemporâneo de Cerão Perumal. E' com- 
tudo presumível que vivesse ainda antes do 
século VI, pois que Cosmas *, que escreveu 
por 547, diz ler encontrado egrejas christãs 
estabelecidas n'estas paragens, muitos annos 
antes que elle publicasse a sua Topograghia 
christã. 

.\lguns annos depois da fundação da cida- 
de de Couláo. com a qual começa a era 
comnium do Malabar, isto, é 822 de J. C. ^ 
dois padres syriacos foram de Babylonía 
para a índia: chamava-se um delles, segun- 
do Gouvéa, Mar Xabro e o outro Mar Proel * 

Chegados a Coulão, e vendo o rei que el- 
les eram mui venerados dos christãos, pro- 



commerciante português, que se estabelecera era 
Cochim. Este pouco ou nenhum caso fez do deposi- 
to, que poz a um canto do armazém, e tempo depois 
nem elle nem ninguém já sabia do destino das taes 
laminas. 

' Mar é uma palavra syriaca que corresponde ao 
nosso Dom. 

^Cosmas, appallididj Iniicopleuste, isto é «via- 
jante cosmographo na India-^ mercador e viajante do 
se:ulo VI depois de J. C, nasceu em Alexandria. Com- 
merciou muito tempo na Ethiopia e n'uma parte da 
Ásia, abraçou depois a vida religiosa, e escreveu di- 
versas obras geographicas ou theologicas, das quaes 
a mais importante era uma Descripção da terra, hoje 
perdida. Ha d'elle somente uma curiosa Topo^ra- 
phia christã do Universo (em grego) que não fornece, 
no hm de contas, pormenor algum sobre as viagens 
do auctor. Cosmas pretende provar que a terra é um 
quadrilongo, limitado por muralhas sobre as quaes 
assenta a abobada celeste! O seu systema sideral par- 
ticipa da mesma orientação scienlitica. A Tcpogra- 
phia foi publicada pela primeira vez em 1700, pelo pa- 
dre .Montfaucon, na sua Collecção de padres e escri- 
piores gregos, copiada d'um manuscripto da biblio- 
theca de Florença. O editor, D. Bernardo de Mont- 
faucon, um dos homens mais sábios do seu século, 
teria sem duvida descoberto o nestorianismo d'este 
escriptor, ^e os dogmas desta seita se parecesiem 
um pouco menos com os da religião orthodoxa. 

' Segundo Gouvèa o anno de it)02 corresponde ao 
de 680 da fundação de Coulão, era esi.i que diiTere 
da de Calecut. 

* Ha quem pretenda que se deva antes ler : Mar 
Sapor e Mar Peroses. 



3i4 



HISTORIA GEkAL 



digalisou-lhes muitos favores, c concedeu- 
lhes, entre outros privilégios, o de edifica- 
rem egrejas onde lhes aprouvesse, e de con- 
verterem ao christianismo quem quizessc se- 
guili». 

t.)s christãos indus fizeram conhecer ao 
arcebispo de Gòa, D. Aleixo de Menezes, taes 
privilégios escriptos em chapas de cobre nas 
linguas e caracteres malabares, canarins, bis- 
nagas e tamulos, que eram as linguas em 
curso n"aquella costa. Os christãos da região 
contavam estes nomes em o numero dos 
santos ', faziam menção d"elles na sua li- 
thurgia. e tinham muitas egrejas sob a sua 
invocação. 

O arcebispo Menezes, creatura. ou antes 
verdadeira chancella dos jesuitas que o ac- 
companhavam, e até faziam milagres - para 
lhe glorificarem o poder de que elles usaram 
e abusaram como veremos, considerou taes 
santos como nestorianos, porque os não en 
contrava no martyrologio romano, riscou- 
lhes os nomes dos livros lithurgicos, e mu- 
dou a invocação das egrejas. 

Tal serie de prosperidades tornou os chris- 
tãos Índios tão poderosos que sacudiram o 
)ugo dos príncipes infiéis, e elegeram um rei 
da sua nação. O primeiro eleito chamou-se 
Beliarte, e condecorou-se com o titulo de rei 
dos christãos de S. Thomé. Durante algum 
tempo conservaram a sua independência sob 
os seus reis naturaes, até que um delles, 
que, segundo o costume estabelecido na In 



' Chamavara-lhes, segundo diz GouvC-a, Gadejagal 
que parece ser uma corrupção do syriaco Cadishé. 

í A fim de actuarem sobre o espirito singello dos 
Índios, os jesuitas, n'uma occasião em que, á porta da 
egreja, o arcebispo dava a bancam com o Santissimo 
fizeram incidir sobre elle a refieicão dos raios do sol, 
por meio d'um espelho que um d'elles coliocava para 
isso em foco, e assim dar ao povo a impressão d'uma 
aureola divina cercando a fronte do prelado. Este es- 
tratagema, tão simples como ellicaz, era o mesmo em- 
pr<:gado pela freira da Annunciada para se fazer 
passar por santa. 



dia, tinha adoptado por filho o rei de Diam- 
per, morreu sern descendentes, e este rei 
pagão lhe sue cedeu, com todos os seus di- 
reitos sobre os christãos da índia. Passaram 
depois, por meio d" uma outra adopção, para 
a jurisdicção do rei de Cochim, d qual esta- 
vam submcttidos pela maior parte, no mo- 
mento em que nós. os portugueses, chegá- 
mos á índia. 

Quando, á volta do descobrimento do Bra- 
sil, Pedr' Alvares Cabral alli foi, dois chris 
tãos de Cranganor se embarcaram com elle, 
na intenção de irem a Roma, c virem depois 
por .Mossul, onde residia o seu patriarcha. 
José e .Mathias. que assim se chamavam os 
dois christãos, chegaram a Portugal, onde 
Mathias morreu. José seguiu para Roma e 
dalli para ^'e^e/a. O resto da sua viagem é 
desconhecido '. 

Em i5o2, quando \'asco da Gama chega- 
va a Cochim. os christãos enviaram-lhe uma 
deputação pela qual lhe representavam: que 
visto vinha conquistando a índia, como vas- 
sallo dum rei christão, elles lhe pediam 
que os honrasse com a sua protecção, e a do 
seu rei, do qual, desde logo, se declaravam 
súbditos. Estes deputados apresentaram a 
^'asco da Gama um bastão de madeira vei- 
melha, cm cujas extremidades encastoadasem 
prata, pendiam três campainhas. Era, diziam 
elles, o sceptro dos reis que tinham tido n'ou- 
tros tempos, e dos quaes o ultimo havia 
morrido pouco antes da chegada dos por- 
tugueses. O (jama recebeu-os com muita 
amisade, fez-lhes boas promessas, única coi- 
sa que naquelle momento lhes podia dar. 

Mal sabia esta pobre gente que males lhe 
viria da religião que ella tinha como egual á 
sua-, mal sabia que abusos e violências a 
religião romano-jesuitica havia de fazer á 
religião do Evangelho. 



' Sob seu nome corre uma noticia, impressa em 
muitas collecçôes de viagens, com o titulo de Nave- 



(jação de José índio. 



uos jesuítas 



32b 



LXl 



Os jesuítas no Industão 



JÁ vimos como Francisco Xavier, não ten- 
do podido convencer os christãos da In 
dia a adoptarem o credo romano, houve 



Aterrados ás suas antiquissimas tradições, 
os christãos da índia rejeitavam com indi- 
gnacã(^ tudo o que em contrario lhes quizes- 




Z carieal le Tourncn er.vsnenado peles jesuítas 



por bem levar a lu/ do Evanj^filho a outros 
mais cegos, e continuou na sua peregrina- 
rão apostólica. Os que se lhe succederam 
nãii lhe seguiram o exeiíipid. 



sem ensinar. Kmbora não tivessem senão 
um único bispo, ordinariamente s\ riaco de 
nação, que o patriarcha de Mossul lhes 
envia\a. tinham, |-'iirém, muitos \.\u\í>iarc<:. 



326 



HISTORIA GERAL 



padres que lhes explicavam os seus livros 
escripios em syriaco, a sua lingua lithurgica. 
Além dos caçaiurcs muitos outros christãos 
se tinham dedicado ao estudo c liam esses 
livros. 

Os primeiros missionários que trabalha- 
ram pela conversão dos malabares foram 
os franciscanos, que partiram, sob a direcção 
de Kr. Henrique de Coimbra, na armada de 
Pedro Alvares Cabral, e desde logo os en- 
contramos na Angediva, e em Calecut, onde 
três foram victimas dos moiros, rectilheiído 
o resto ;i armada. 

Seguiram para Cochim onde esperaram 
novos companheiros, com os quacs se espa 
Iham por toda a costa e suas ilhas, fundan- 
do collegios e edificando egrejas. Vão a Diu, 
Damão e (^abul, com Affonso d' Albuquer- 
que entram em Gòa, e ahi dedicam ao .seu 
patriarcha S. Francisco a mesquita maior 
dos moiros. Em ib66, encontramos Fr. Vi- 
cente de Lagos em Cranganor. Este missio- 
nário, a quem faltava o auxilio do braço se- 
cular, por causa do afastamento em que 
estava de Gòa, percebendo que somente por 
meio de sermões nada faria, recorreu ao 
vice-rei pedindo-lhe que estabelecesse alli um 
collegio, onde os filhos dos Índios Ibssem 
instruídos nas lettras e nos ritos da F^greja 
romana, para que de futuro fossem ordena- 
dos sacerdotes, e pregassem aos da sua na- 
ção, empresa esta em que não foi bem sue 
cedido '. 

Foi então que os je-suitas, vendo que esta 
empresa não tinha o êxito desejado, mas 
que a missão .seria lucrativa, lembraram-se 
de começar a ensinar a lingua syriaca ás 
creanças da região ; e, depois de ordena- 



' O insuccesso podia muito bem ter vindo da ma- 
neira como o ensino era ministrado. Nas entrelinhas 
d'um caso, que Fr. Fernando da Soledade nos dA co- 
mo milagroso, nós podemos ler o systema pedagógico 
de Fr. Vicente. Desconhecia elle o respeito que os 
Índios teem pela própria dignidade e castigou um 
dos seus alumnos ; não nos diz como o chronisla, 
mas é de suppór que fosse por meio de inevitável 
palmatória ou das nãc menos inevitáveis disciplinas. 
Deu-se o pae do discípulo por oflendido, e dirigiu-se 
com os outros pães ao collegio para tomarem satis- 
fação ao franciscano, este formou os discípulos em 
ordem de batalha, e fez com que elles corressem os 
pães n pedra ! 



d:is, viram que e!"a tão funda a tradição 
nos espíritos indígenas, que não só não ou- 
savam pregar contra os seus antigos prela- 
dos, mas que nos seus propiios collegios os 
jesuítas tinhiTn o desgosto de as ouvirem 
su.stentar suas antigas opiniões e fazerem 
mensão do patriarcha de Babylonia na sua 
lithurgia. 

Foi* porém, do estudo do .syriaco, a que 
os jesuítas se dedicaram muito em especial 
para os seus negócios, que elles vieram a 
conhecer quantos cn-os havia na religião dos 
antigos christãos, c abrirem assim uma nova 
era de perseguições cm nome de Chri.sto. 

O arcebispo D. Aleixo de Menezes foi o 
mais tenaz perseguidor de.sta pobre gente, 
animado e instigado pelos seus sequazes da 
negra roupeta '. E' durante a administração 
d'este prelado que os jesuítas reinam sem ri- 
vaes na índia, prejudicando e perseguindo os 
missionários das outras ordens religiosas, se- 
nhores absolutos de certas regiões, tanto ao 
norte como a leste da península índustanica, 
e em parte na região immediatamente ao re- 
dor de (iòa, onde tinham que partilhar a in- 
fluencia com os dominicanos, em cujas mãos 
se achava a inquisição. 

D'essa influencia gosaram até á subleva- 
ção universal d'estes christãos, cançados da 
sua avareza, e da sua tyrannia, sublevação 
que, fazendo perder á companhia de Jesus 
um posto tão lucrativo, não contribuiu pouco 
para as conquistas que alli fizeram os hol- 
landeses. 

Pjiiquanto nós os portugueses fomos se- 
nhores no Industão, as missões jesuítas f\o- 



1 Foi por instigação dos jesuítas que este prelado 
reuniu um synodo em Diamper, destinado a impor o 
dogma romano aos christãos da índia. N'este synodo 
os representantes das antigas crenças ou eram indi- 
vidualidades affectas ao arcebispo, por elle compra- 
das com promessas ou presentes, ou então pouco ar- 
gutos crentes, só lidos nos Evangelhos, e incapazes 
de resistirem ás subtilesas discutidoras dos jesuí- 
tas Francisco Roz e António Toscano. O synodo, 
que reuniu a 20 de junho de iSyj, fechou as suas 
sessões a 26 do mesmo mez, tendo approvado tudo 
quanto os jesuítas quizeram. Teve sete sessões e dis- 
cutiu n'ellas mais de i5o decretos, muitos dos quaes 
levantaram opposição da parte dos raros que alli es- 
tavam sem subserviência aos jesuítas e firmes na 
crença tradicional I 



DOS jesuítas 



327 



resctrara e os seus negócios prosperaram. 

Sc o padre Criminal, que d'aqui toi do coi- 
legio de Coimbra com outro italiano c um 
gallego, foi morto pela intemperança de lín- 
gua e falta de tino com que otfendia a reli- 
gião indu, irreverência proposital com que af- 
frontava os pagodes indígenas e suas divinda- 
des, os que se lhe succederam foram mais 
accommodaticios e seguiram as pisadas dos 
seus companheiros da China e do Japão. A tim 
de plantarem commodamente a bandeira de 
Loyola, velaram mais ou menos habilmente- 
aviltaram com maior ou menor vergonha a 
cruz de Christo. 

Daremos ainda algumas mostras da sua 
maneira de proceder, recommendando ao lei- 
tor, que deseje ter mais amplas informações, 
as memorias publicadas a este respeito por 
Navarette, Collado, etc, as accusações feitas 
contra os reverendos padres pelos francis- 
canos, dominicanos, capuchinhos, c princi- 
palmente as bulias publicadas pelos papas 
sobre a prostituição dt) christianismo opera- 
da pelos jesuítas, em proveito dos interesses 
da sua ordem, em toda a parte onde se ele- 
vava uma das suas residências, verdadeiros 
bazares industriaes '. 

Um dos principaes trabalhos dos jesuítas 
era impedirem a entrada de missionários 
d'outras ordens nos territórios por elles ex- 
plorados, c perseguirem com uma violência 
muito pouco christã os audazes que ousas- 
sem ir-lhes no encalço. Mas quando Portu- 
gal passou ao dominio dos Fiiippes, os fra- 
des de S. Domingos, melhormente ampara- 
dos, começaram a fazer-lhes uma concor- 
rência muito séria •, depois veiu a França, e 
os missionários de differentes ordens corre- 



' Aquclles que acharem que estas expressões são 
por demais fortes, diremos simplesmente que são ex- 
traídas dos adversários religiosos dos jesuítas, bispos 
e legados, e que alem disso, podem-nosser perraitti- 
das quando três papas (UrbanoVIII em i633, Clemente 
IX em 16Ó9, Clemente X, em .byi) as applícaram aos 
filhos de Loyola, velando-as mais ou menos com a 
uncção epistolar especial da cúria. 

«Os jesuítas commerciantes ! exclama em 1750 o 
auctor das Memorias acerca do estabelecimento dos 
jesuítas na Índia, mas isso é um facto publico e no- 
tório! Apesar de todas as prohibições, os jesuítas es- 
tão de posse d'um rico comraercío. A sociedade nas- 
ceu commerciante e commerciante ha-de morrer!» 



ram a conquistar a sua parte na colheita 
evangélica. 

Como era de prever, os jesuítas acolhe- 
ram muito mal estes intrusos. As questões 
e os debates escandalosos eram incessantes, 
e trataram de empregar contra os missioná- 
rios das outras ordens as forças c as ener- 
gias que nunca empregaram na difusão do 
christianismo*. 

Foi então que a christandade ficou perfei- 
tamente edificada acerca dos meios empre- 
gados pelos missionários jesuítas para fun- 
darem egrejas da sua seita na Ásia. As ac 
cusações caem de toda a parte, e os jesuí- 
tas não' conseguem defender-se da principal 
d'ellas, isto é, que sob apparencias d'ensino 
religioso elles quasi não tratam senão dos 
seus interesses coramerciacs. O padre Tel- 
lier publicou um livro, no qual pretendia de- 
fender os seus sócios, livro que Arnaud re- 
futou triumphantemente, provando á eviden- 
cia que não passava duma reles apologia 
das superstições que os reverendos padres 
permittiam aos seus neophitos, com um fim 
exclusivamente mercantil. O papa Innocen- 
cio X deu rasão ao doutor jansenista, e 
condemnou a obra do jesuíta. 

Mas, facto curioso, que demonstra quanto 
c alheia a obra do christianismo á S. J., é 
ver que, sendo os seus missionários tão fá- 
ceis de contentar no dogma que ensinam ás 
gentilidades, compondo para estas uma dou- 
trina vaga que não escandalise as religiões 
pagãs; emquanto fazem isto, perseguem com 
encarniçamento verdadeiramente sanguiná- 
rio as christandades de S. Thomé; e só por 
que aquellas submettem-se aos jesuítas, e 
estas, independentes e fortes na velha cren- 
ça, nem sempre os attendem. Então a in- 
quisição vem em auxilio dos jesuítas e or- 
ganisam-se essas carnificinas em que tanto 
os que assassinam como os que morrem mar- 
tvres, invocam o nome de Christo. 



' Ainda hoje na Índia, a chamada Propaganda Fi- 
de do que menos trata é de religião, do que mais 
se occupa é da cobrança das rendas, esmolas e do- 
nativos com que enriquece os thesoiros do Vati- 
cano. 

E' triste dizel-o, se não fosse o apoio que alli te- 
mos das auctorídades inglesas já de ha muito esta 
succursal jesuítica teria escorraçado da Índia, c ate 
de Goa, todos os bispos portugueses! 



k 



3.-S 



HISTORIA GERAL 



Dos destroços destas cgre)as aproveitou- 
sc a conquista hollandesa. Depois veiu a 
França e reclamou também o seu quinhão 
na carniça indu soItc a qual já estavam de- 
vorando com sofreguidão aquelles e os in- 
gleses. A Dinamarca chegou e quiz também 
a sua parte : e os argumentos decisivos para 
a partilha eram o mosquete e a artilheria. 
K nós, portugueses, tornados odiosos, bem 
como os hispanhoes, pelas atrocidades que 
tínhamos commettido cm nome da religião, 
éramos e.xpulsos com ignominia pelos inva- 
>ores, com alegria pelos indígenas I 

No meio do contlicto, os príncipes indus 
iam levantando aqui c alli os derribados 
thrònos; e o famoso Mogol, Aureng-Zeyb, 
depois de ter conquistado Bengala, os rei- 
nos de Nisapur, de Golconda e todo o norte 
do Industão, assentava em Delhi a sua nova 
capital, e tomava o titulo faustoso de Rei 
dn MiiHíjo. Os jesuítas, em parte expulsos 
do sul da península, foram bem tratados 
pelo conquistador Mogol, que parecia não 
ser absolutamente fanático, apesar de mu- 
sulmano '. Em attenção aos serviços que 
lhe fizeram os jesuítas, suspendeu os éditos 
de perseguição contra a religião christã, que 
foi tolerada até o fim do seu reinado em 
todos os seus estados. 

C>omtudo os jesLiitas continuavam a luctar 
para reconquistai" o seu antigo poderio no 
Industão. Nt) Madure, um príncipe indu tinha 
constituído uma espécie de soberania. Os 
jesuítas conseguiram introduzír-se ahí e fo- 
ram tolerados. Em Pondichery, possessão 
francesa, os seus estabelecimentos floresce- 
ram, apesar da grande lucta com os capu- 
chinhos, que a final foram vencidos, mercê 
da intervenção de Luis XIV, já nos últimos 
annos da sua vida. e dominado pelos con- 



' Conti<-se d'este dominador, que um dia, cança- 
do com as continuas apoquentações dos faliires, or- 
denou que os agarrassem a todos, lhes despissem 
os farrapos em que faziam gala, os vestissem com 
roupas novas, e que as velhas fossem queimadas. 
Quizeraro oppôr-se os (akires, mas a ordem foi cum- 
prida, e Mogol, depois dos farrapos redusidos a cin- 
zas, fez procurar nestas e guardou os pesos d'oiro 
que os tingidos pobres traziam escondidos. Fez uma 
obra de aceio c uma operação financeira 



fessores que trocavam absolvições de pec- 
cados da mocidade por favores á S. .1. Mas, 
onde a bandeira de Loyola não podia has- 
tear-se â sombra d'uni pavilhão de monar- 
cha europeu, os je-suitas procuravam firmal-a 
aos pés do throno de qualquer rajah indu, 
ou no meio do seu povo. O seu padre Cons 
tantino Beschi, que tinha cuidadosamente 
estudado as línguas que se falavam na ín- 
dia, a começar pelo sanscrito, a língua ec- 
clesíastíca da índia, para estabelecer a sua 
influencia duma maneira incontestável, mas- 
carou-se de brahmane e fez- se passar como 
tal. Depois, compoz em linguagem indígena 
poesias populares e o seu nome tornou-sc 
assim conhecido. Emfini, á força d'acrobatí- 
ces, fez- se passar por santo, á maneira da 
terra, e obteve uma tal auctorídade entre o 
povo d"esta parte do Industão que o sobera- 
no o fez seu primeiro ministro. Desde então, 
I) reverendo padre, que, no dizer dos seus 
confrades, tinha renunciado aos ritos euro- 
peus, nunca mais appareceu em publico se- 
não magnificamente vestido, montado n'um 
cavallo de preço, ou estirado n'um rico pa- 
lanquim, e sempre acompanhado por uma 
escolta de cavalleiros índios, dos quaes uns 
desfraldavam bandeiras, e outros tangiam 
os ruidosos instrumentos de que se compõe 
a musica indiana. 

«O padre Beschi, confessa Crétincau- 
.loly^ não era jesuíta se não o menos possí- 
vel.» Não o e.a por fora, mas por dentro 
era tanto ou mais do que qualquer outro. 

Até o fim do século xvii a S. J. pôde, 
graças aos seus missionários, explorar a maior 
parte da Ásia meridional. No tempo de 
Luiz XV, o almirante Duquesne dizia que de- 
pois dos hollandeses, eram os jesuítas os que 
faziam maior commercio na índia. «E quem 
sotVre com isto, lamentava o celebre marinhei- 
ro, são os negociantes fianceses ; tanto mais 
que ha jesuítas desfarçados que mandam as 
mercadorias a outros jesuítas egualmente 
desfarçados, por conta da companhia.» 

Não esqueçamos registar que uma das 
fontes de receita dos jesuítas no Oriente era 
emprestar dinheiro a juros a 25 e mesmo a 
3o 0]0. 

Para almas devotas e amigas do próximo 
era um lindo sacrificio ! 



UOS JESUÍTAS 



LXII 



As pérolas de Cochim 



Oí miibionarius da S. J. tinham de co- 
meço dado pouca importância aCochim, 
c d região que lhe era dependente. Compre - 
hende-se. Anão ser apimenta, abundante em 
toda a índia, pouco meus produzia a terra, em 
que se pudesse negociar. Quanto íís almas, 
podiam viver na idolatria nativa. O bispo tra 
tava de as catechisar branda e suavemente. 

Mas, eis que os jesuítas são informados 
que no seu porto se pescavam as mais hei- 
las pérolas da costa, e esta noticia por tal 
sorte lhes foi ao fundo dalma, que logo se 
sentiram dominados por um cntranhavel amor 
aos povos daquella cidade. Os habitantes de 
Cochim eram em grande parte idolatras, con- 
vinha partir para lá e ajudar o diocesano a 
convertei os I 

Chegam, pr ^põem ao bispo a obra evangé- 
lica que este acceita. cheio de alegria, na es- 
perança de ver augmentar o seu rebanho; e 
eis os reverendos padres installados. 

A pe.sca das pérolas era quasi que a úni- 
ca industria dos Índios da localidade. Pre- 
gando em nome dos interesses da religião e 
do bispo, os jesuitas pensavam na maneira 
de assegurarem os interesses delles, e eis o 
plano que i^clinearam e que seguiram, de- 
pois, á risca. 

O primeiro passo foifa/eremcomprehender 
brandamente, mas insistentemente aos seus 
catechumenos que. visto que tantí) elles jesui- 
tas padeciam e sofriam para os ensinar e pre- 
parar-lhes um bom logar no ceu, era justo que j 
em compensação tivessem parte nos lucros , 
da industria de que elles viviam. Para isso. j 



sem os quererem prejudicar em coisa algu- 
ma, propuzeram-lhes que lhes vendessem as 







r.a Ir.Jia ■ /.'.s^,. 



iipn iiii''(/oricn i 



pérolas pescadas, pelo mesmo preço que cos- 
tumavam vendel-as aos negociantes portu- 
gueses que iam buscal-as. Annuiram os pes 

4* 



33o 



HISTORIA GERAL 



cadorcs. e >.]uando chegou a cpoclia cio anuo 
cm que era de uso os portugueses irem a 
procura Jc mercadoria, tiveram que retirar- 
-ic sem pérolas, visto que estavam todas nas 
mãos dos jesuítas. 

No anuo seguinte, o mesmo expediente, 
repetido e seguidamente até que os merca- 
dores dei.xaram de aili ir. 

Foi então que os jesuitas declararam aos 
pescadores que. visto já lá não irem compra- 
dores, elles não podiam pagar-lhes as pé- 
rolas pelo preço por que ate alli tinham com 
binado; e que por isso ficou muito menor. 

Mas. não contentes com isto, suas reve- 
rencias, cuja cubica nada satisfaz, reduziram 
os pescadores a trabalharem unicamente por 
conta da S. .1. e aos dias. 

N'este negocio souberam interessar o go- 
vernador, que SC fez sócio dos jesuitas na 
exploração dos desgraçados, concedendo 
áquelles o privilegio da pesca. 

O bispo de Cochim, vendo então que qua- 
lidade de gente tinha admittido na sua dio- 
cese, despediu os jesuitas, ordenando lhes 
que se retirassem, ordem esta a que elles fi- 
zeram ouvidos de mercador. Desconfiando 
de que os podessem banir á força, tanto a 
consciência lhes bradava que o que estavam 
praticando era uma infâmia, trataram de se 
retirar para uma ilhota no meio da bahia da 
pescaria, ahi se fortificaram em pé de guer- 
ra, e, considerando-se como outros senho- 
res feudacs, sem suzerano, redobraram de 
rigor com os pescadores, a quem obrigavam 
a estar tanto tempo debai.xo d agua. que mui- 
tos lá dei.xaram a vida. 

O bispo de Cochim denunciou a usurpa- 
ção ao papa c ao rei d'Hispanha, e obteve 
bulias dum e decretos do outro contra os 
jesuitas, que deram como resposta ás inti- 
mações de despejo as mais sonoras e irri- 
tantes das suas gargalhadas I 

Então o prelado congrega e arma os pes- 
cadores, já de ha muito exasperados, e vae 
á sua frente atacar a fortaleza que cáe em 
poder dos atacantes depois duma encarni- 
çada defesa. 

Comtudo, piotcgidos pelo governador, e 
pelo privilegio que este lhes tinha concedido, 
os jesuitas nem foram enforcados, como 
bem o mereciam, e cm altos brados recla- 



mavam os pescadores, nem expulsos da dio- 
cese, como o bi.spo desejava ardentemente. 
Kste ultimo contentou-se em se dirigir com 
todo o -seu .clero ao local da pescaria, amal- 
diçoal-o em nome de Deus, e cital-o a nunca 
mais produzir peiolas, emquanto os jesuitas 
fossem os arrematantes e concessionários. 
«E as aguas obedeceram, escreve o ingénuo 
auctor de quem extraímos este episodio ; 
mas assim que os jesuitas se foram, conti- 
nuaram a produzir pérolas, e mais bellas e 
cm maior quantidade do que d'antes.i) 

Os jesuitas, na índia, sempre se mostra- 
ram hostis aos bispos. E tanto quanto pude- 
ram impediram que elles se estabelecessem; 
e comtudo esta gente ainda se atreve a glo- 
rificar os seus missionários na índia I 

Innocencio XIII, cm 1723, não temeu de- 
clarar que os jesuitas se tinham feito os t'.s'- 
piõt-s, os bdeguius, os carcereiros c os algo- 
■{CS dos outros missionários, dos prelados das 
índias, dos vigários apostólicos e dos lega- 
dos da Santa Sé. 

O cardeal de Tournon tinha já dito dos 
tilhos de Ignacio de Lo3'ola : «Quando os 
demónios tivessem saído do inferno para 
virem a Pekin, não teriam feito pcior á reli 
gião e á Santa-Sc do que u que fazem os je- 
suitas.» 

Dissemos já noutro Jogar que um missio- 
nário jesuíta tinha permittido a um chinês 
casar com duas de suas irmãs. Cm outro, 
segundo allirma o padre Ibancs de Echevcr- 
ny, ainda fez mais. porque peimittiu a uma 
portuguesa, que tinha envenenado seu mari- 
do de concerto com o amante, que se ca- 
sasse com este, e celebrasse estas terríveis 
bodas um mez apoz de commettido o crime. 
O padre Ibanes, admirado do caso, pergun- 
tou a este singular director d"almas, que se 
chamava Pedro Canavari, «como tinha elle 
podido dar tal dispensa;^» An que o jesuíta 
responder;! «que nem linha pensado n is- 
so." 

Não acabaríamos mais se quízesscmos dar 
conta de indo quanto os jesuitas toleraram, 
auctorisaram e até perpetraram nas diversas 
missões asiáticas. 

Na Conchinchina, no Toiíkim, no reino de 
Sião e do Pegu os filhos de Loynla tiveram 



DOS JESUÍTAS 



33 1 



" mcsniu procedimento Jo que na índia. 
C-hina e Japão. 

Por uni martyr, iini dedicado, um missio- 
nários verdadeiramente apostolfco, quantos 
i^anhadores, quantos egoistas. quantos ana- 
ticos e perseguidores : 

Alli também procuraram tornar-se domi- 
nantes, ou fazerem-se tolerar, afeiçoando 
tanto quanto possivel o christianismo ás su- 
perstições daquellas diversas regiões, fazen- 
do-se acceitar dos reis, ou, se estes os repcl- 
liam, caindo sobre os povos ; mas sempre 
lisonjeando os vicios d'uns e outros, e ex- 
plorando uns e outros em seu proveito. Alli 
também, como em todas as outras pa. tes, a 
sua pi'esença levou a sangientas revoluções. 
No momento em que Carlos I, para cuja 
morte concorreram em parte as intrigas je- 
suítas, morria, em Inglaterra, no cadafalso 
que para elle ergueia o povo em revolta, 
um rei de Sião cia egualmente executado 
por uma sentença popular á ledacção da qual 
não foram extranhos os jesuitas. Alli tam- 
bém, os outros obreiros do Evangelho, os 
delegados da Santa-Sé se viram perseguidos 
pelos tílhos de Ignacio. 

Nas suas Memorias His/oricas ' o padre 
Norberto diz, que os missionários jesuitas 
commetteram tantos crimes na Conchinchi 
na e no Tonkim que por cinco veses os vi- 
gários apostólicos, em nome do pontífice, os 
intimaram a sair d'alli. Os jesuitas resisti- 
ram emquanto poderam, e por todos os 
meios que lhes foram possíveis, chegando até 
a excitarem os seus catechumenos a renun- 



' Tom. \'. ediç. III 4.'. 



ciarem a nova religião de preferencia aos 
seus diiectores. 

Vendo chegado os missionários franceses 
á Conchinchina, e parecendo que iam sendo 
bem recebidos, os filhos de Loyola, para os 
expulsar começaram por usar e até abusar 
da calumnia e da traição; depois empregaram 
a manha, e, para chamarem a si a multidão, 
que continuava a concorrer á egreja írancê- 
sa, transformaram as egrejas jesuitas em 
verdadeiros bazares, onde faziam correr lo- 
terias. Como este meio era bastante onero- 
so, inventaram representar comedias nas 
mesmas egrejas, ou antes farças que des- 
pertavam a gargalhada dos conchinchineses. 
sem lhes suscitarem sentimento algum de 
religião. Por fim, vendo que todos estes 
meios eram impi^oficuos, recorreram á for- 
ça: e.xpulsaram os missionários da sua egre- 
ja, na qual se introduziram poi" meio da es 
calada e do arrombamento, como se fosse 
uma cidadella inimiga. 

Enojado com tudo isto. e confundindo 
todos os missionários no mesmt) desprezo, o 
rei da Conchinchina publicou, em 1690, um 
edito contra o christianismo. Era o que os 
jesuitas queriam. Desembaraçados dos seus 
inimigos, ficaram n aquellas paragens lon- 
gínquas, onde podiam continuar as suas ne- 
gociatas, sem medo das censuras doutros 
missionários mais ap<istolicos e menos nego- 
ciantes. 

Os bicves de Innocencio XI, cm i(J8o, e 
de Clemente XIII, em 17Ò2, «condcmnaram 
os usos idolatras dos missionários jesuitas 
no Tonkim e na Conchinchina, o commercio 
que ahi faziam e os males que causavam aos 
outros missionários.» 



Tò-i 



HlsrORIA GERAL 



LXIll 



Lalli-Tollenda] 



NÃO nos apartaienios d estas regiões in- 
dustanicas sem relatarmos mais um 
d esses crimes em que os jesuitas se acham 
envolvidos. 

Lalli Tollendal era descendente d'uma 
antiga família irlandesa, cujos avós tinham 
vindo para França, seguindo a fortuna dos 
Stuarts. Moço ainda, tomou armas em ser- 
viço de Luiz X\', e não tardou em se dis- 
tinguir entre os mais valentes officiaes seus 
camaradas. Em Fontenoy, disse aos soldados 
do seu regimento : «Marchae contra os ini- 
migos da França, e não atireis senão quan 
do a ponta das baionetas estiverem no peito 
dos seus soldados.» 

Luiz -W, testemunha de tanta valentia, 
nomeou-o brigadeiro no campo da batalha. 
Pela mesma época, Carlos Kduardo, neto 
de .Tames II, tentou uma empreza desespe- 
rada, que occultou ao próprio rei de Fran 
ça. Atravessou o canal de S. Jorge, com o 
desígnio de sublevar a Escossia com a sua 
presença, e de fazer uma nova revolução 
na Grã-Bretanha. O conde de Lalli foi o 
priracirn que imaginou fazer enviar cm seu 
soccorro um exercito de dez mil homens. 
Esta expedição (1746) que os rigores do 
tempo transtornaram, iniciou se com inacre- 
ditáveis victorias, c. desde então, Lalli foi 
considerado capaz de executar as mais 
arriscadas empresas. Em ijSj, recebe a 
grã-cruz de S. I-uiz, é nomeado tenentc- 
general do exercito c enviado como gover- 
nador militar a Pondichéry. com plenos po- 
deres para flscalisar e punir todos os abu 



SOS que, cedo ou tarde, de\iain determinar 
a fallencia da companhia francesa das ín- 
dias e a perda daquellas colónias para a 
Finança. 

Muita gente de má nota, trapaceiros e 
gatunos, Á frente dos quaes se achava o 
reverendo padre La\aur da companhia de 
Jesus, tinha interesse em continuar aquelle 
miserável estado de coisas para se ir enri- 
quecendo, embora arruinando e deshonran- 
do a França. 

Foi n'estas circumstancias qiie Lalli, de 
pois de se ter demoi'ado por algum tempo 
na ilha Bourbon, entrou no porto de Pondi 
chéry, a 28 de abril de 17^8. O navio, cha- 
mado dointc di'Pi-oi'cuce, que o transporta- 
va foi recebido a tiros de peça. . . com bala, 
que lhe a\ ariaram o costado. Este singular 
engano, ou esta malvadez dalguns subalter- 
nos, foi de mau agoiro para os marinheiros, 
sempre supersticiosos, c até para Lalli. que 
o era um poucf), embora pretendesse appa- 
rentar o contrario. 

Us principaes do governo, com o padre 
Lavaur, discutiam a chegada do novo gover- 
nador, bem como a extensão dos puderes de 
que \inlia re\'estido para reformar a admi- 
nistração, quando Lalli, seguido dos seus 
ofUciaes entrou na sala das sessões. Vinha 
colérico pelo acolhimento que lhe tinha sido 
feito, e tomou logo aquella gente que o es- 
pera^a como outros tantos inimigos a com- 
bater, culpados a punir. 

— A acção desse oHicial de marinha, di- 
zia elle, é iniame... (Carregar de metralha 



UOb JESUn A^ 



3;-;:^ 



as peças que de\iam salvar á minlia chega- 
da I A vella grande ficou dcpedaçada, e o 
que é peior, um marinheiro gravemente fe- 



dade de inimigos me esperam: sei com que 
quantidade de trampolineiros tenhu que me 
haver. 




Supphcio cl'uma portuguesa no Japão 



rido. \ ou ser ine.voravel com os culpados, i 
— Quem sabe se isso não foi resultado duma l 

imprudência, objectou um dos otHciaes. ; 

— Não foi, esse homem tem cúmplices e 

c preciso que eu os conheça. Sei que qiiali- 



Um murmúrio geral de protesto se elevou. 

-Sei, continuou Lalli, com voz forte; sei, 

)a disse. Não conheço a arte de mascarar 

as palavras, c chamando as coisas pelo .seu 

nome, chamo trampolineiros áqiielles que 



334 



HISTORIA GERAL 



se enriquecem ;i custa do seu pais, c ao-- 
que preparam uma lallencia infame de que 
sairão milionários. Hspero que me entre- 
guem quanto antes os seus respectivos re- 
latórios, sobre os negócios de que cada um 
está encarregado; preciso examinal-os. V. di- 
rigindo-se ao jesuita: 

— E' o senhor o padre Lavaur. reitor da 
companhia de Jesus ? 

Sou eu. general. 

— Pois desde hoje ha de rcstringir-se uni- 
camente as funccões do seu ministério. O 
senhor está aqui para evangelisar e não para 
go\ ernar. Não o esqueça. 

-Não o esquecerei, general. 

— .Muito bem. E, agora senhores officiaes 
tratae de restabelecer a disciplina entre as 
nossas tropas, atim de que, dum instante 
para outro, estejam promptas a combater. 
L'ma esquadra inglesa vinha crescendo a 
bombordo da minha; os ingleses conhecem- 
me, odeiam-me e temem-me; eu odeio-os 
mas não os temo. Guerra, pois aos ingleses, 
mas guerra também á indisciplina, á desobe- 
diência e á ladroeira. 

E a recepção acabou ao elle pronunciar 
estas palavras, de que ninguém se esquece- 
ria, e o jesuita, menos que ninguém. 

(Cercado de inimigos e de traidores Lalii 
teve que combater só, e desamparado dos 
magnates da colónia, contra os ingleses, ao 
mesmo tempo que reformava a administra- 
ção, exigia severas contas do emprego dos 
dinheiros públicos, e prohibia o padre La- 
vaur de tornar a entrar no edifício do con- 
selho. 

Evitou um desembarque dos ingleses; re- 
tomou a importante praça de S. David, que 
o seu antecessor no governo, Dupleix. tinha 
deixado cair em poder dos ingleses, que 
expulsou de todos os pontos aos arrcdoies 
de Pondichery. 

Na tentativa de reconquistar Madrasta foi 
menos feliz, mas não menos arrojado e va- 
lente. Mas em todas estas empresas, em que 
gastava o que era seu, e raras vezes conse- 
guia que alheios lhe prestassem os meios 
necessários, teve de luctar mais com os ini- 
migos de casa do que com os extranhos, que 
não deixavam de o perseguir c calumniar. 



Nendo <.|ue eiani intructiferos os seus es- 
forços para a reconquista que tentara, vol- 
tou a Pondicherx , resolvido a administrar e 
conservar, esperando melhor occasião para 
então reconquistar. Os seus inimigos, com 
o padre La\aui- á frente, romperam ás cla- 
ras contra elle. O jesuita subia ao púlpito 
para lhe imputar todos os males que se es- 
tavam solírendo, c que no (im de contas só 
deviam ser attribuidos ás traições d'elle je- 
suita e dos seus amigos. Todos aquelles a 
quem a violência c severidade do general 
tinha molestado fizeram causa commum 
com o reverendo padre, repetiam as calum- 
nias que elle inventava, e procuravam alie- 
nar-lhe o povo e o exercito. De todas as 
partes se desencadeavam ódios, opprimiam- 
n'o com censuras, com cartas anonymas, e 
satyras. Todos estes desgostos aggravaram- 
Ihe a saúde e as febres acabaram por pros- 
tral-o. O padre Lavaur subiu ao púlpito, 
declarou que o general estava doido, e man- 
dou afixar cartazes convidando o povo á re- 
volta e a abrir a porta aos ingleses. 

— A bençam de Deus, dizia o jesuita, será 
para todos os que se abrigarem á sombra 
do pavilhão inglês, que vem trazer-nos a paz 
e o libertamente. 

C) povo amotinou-sc e atacou o palácio do 
general; mas á vista deste, só e desarmado, 
recuou e não se atre\'eu a aggredil-o como 
o jesuita instiga\a. 

Foi então que o homem que diziam louco, 
aproveitou a occasião para levantar os espí- 
ritos d'uma parte dos habitantes, e, n'um 
rasgo de eloquência viril, fez jurar, aos que 
o queriam assassinar, que antes se deixa- 
riam trucidar do que entregar a cidade aos 
ingleses, como os aconselhava o jesuita. 

.Mas, ao mesmo tempo que o general, 
aproveitando este momento de cnthusiasmo, 
organisava novos meios de defesa, o reve- 
rendo padre Lavaur, seguido de Duval de 
Lerit, governador civil, e d"um grande nu- 
muro de officiaes da guarnição, abria a porta 
aos atacantes, a i5 de janeiro de 1761. 

Depois d' uma resistência desesperada, o 
conde Lalli-Tollendal, exgotado de forças, 
coberto de feridas, caiu em poder dos sol- 
dados inimigos; mas o almirantado inglês 
concedeu-lhe a permissão de voltar a Fran. 



DOS JESUÍTAS 



33b 



ca, sob palavra; mas aqui cspcravam-nVj 
novas desgraças mais cruéis do que todas 
as que tinha soiVrido até alli ; o ódio dos 
seus inimigos perseguia-o até á beira da se- 
pultura. 

Alguns meses depois, Lalli, que viera leal- 
mente apresentar-se ao rei para se justificar, 
foi en\ iado para a Bastilha, afim de esperar 
alli o JL Igamento do processo que lhe foi 
instaurado. 

Conta a tradição, que aquella cclkila fora 
a mesma em que Voltaire estivera preso 
quando moço, e onde annos depois foi visi- 
tar o prisioneiro, por quem se interessava, 
conhecendo a injustiça das accusações, che 
gando a propor-lhe a fuga, o que Lalli-Tol- 
lendal. cônscio da sua innocencia, repciliu 
com altivez. 

Voltaire, então, promeiteu-lheinteressar-se 
por elle ; mas todos os seus exforços foram 
baldados, e Lalli-Tollendal não conseguiu a 
reparação a que tinha direito senão depois 
da sua morte. 

Um dos inimigos mais terríveis que Vol- 
taire assignalára a Lalli era o jesuíta Lavaur, 
que tinha seguido o general a Paris e que 
empregava todos os meios para o perder. O 
santo homem, queixando-se da miséria em 
que o tinham lançado os acontecimentos de 
Pondichery. solicitava do governo uma mó- 
dica pensão de quatrocentos francos, para 
ir passar o resto dos seus dias no fundo do 
Péngord, entregue á oração. Pois quando 
morreu, pouco depois, encontraram-lhe no 
espolio i:23o.ooo francos em oiro, diaman- 
tes e lettras de cambio. Na mesma caixa 
foram-lhe achadas duas memorias, uma 
cm favor de Lalli-Tollendal, para o caso 
deste sair triumphante, a outra que o accu- 
sava dos crimes mais horríveis. 

Qualquer que seja o desprezo com que a 
justiça devia tratar as memorias deste mi- 
serável, fez uso da segunda contra o general, 
e ao fim de dois annos, a /"cyvj, gloriosa por 
poder abater a /íu\ia, satisfez a vingança 
posthuma do padre Lavaur, e a 6 de maio 
de i7<")o, l^alli foi obrigado a ouvir de joe- 
lhos a sentença que o declarava culpado e 
convencido de ter traído os interesses do 
rei. do Kstado, da companhia das índias. 
d abuso il auctoridade. vexames e cxaccões. 



e portanto condemnado a ser decapitado. 

Depois de ouvir ler esta sentença Lalli le- 
vantou se. e tirando um compasso escondido 
n'uma das mangas da veste, feriu-se com 
elle no coração; mas a ferida, que lhe im- 
pediram de repetir, não foi mortal, c o algoz 
apoderou-se delle. 

Para maior martjrlo do condemnado, e 
sob motivos puramente especiosos, decidi- 
ram que lhe seria applicada uma mordaça 
de ferro, e com ella o fizeram subir para a 
carreta destinada a conduzil-o á praça de 
Greve. 

Chegando ao cadafalso, espalhou a vista 
sobre o povo, como quem quer falar; mas 
a mordaça não lhe permittia fazei h. Subiu 
a escada fatal com firmeza heróica, poz-se 
de joelhos e extendeu o pescoço sobre o ce- 
po. O ajudante do algoz vibrou o golpe, que 
lhe levou o craneo sem o matar, e foi pre- 
ciso que o algoz terminasse a operação, fa- 
zendo cair a cabeça com um outro golpe. 
Os juizes por este bom serviço receberam 
uma gratificação de sessenta mil francos, e 
uma pensão de seis mil foi concedida ao 
conselheiro relator e ao mesmo tempo in- 
ventor da mordaça de ferro. 

No mesmo dia em que Lalli expirava no 
patíbulo, seu filho, uma creança de treze 
para quatorze annos íque foi depois o conde 
Gerard de Lalli-Tollendal, par de França, 
morto em i83o) era informado do mysterio 
do seu nascimento, e da morte ignominiosa 
de seu pae, que elle jurou vingar, e não ter 
um momento de descanço emquanto não jus- 
tificasse a sua memoria. 

Ksta justificação reparadora, pedida com 
perseverança, foi obtida em iii de maio de 
177.S. 

Havia dias que Voltaire agonísava, quan- 
do recebeu do filho de Lalli uma carta em 
que lhe participava a decisão que annulava 
a sentença do parlamento que tinha condem- 
nado seu pae. \'oltaire reanimou-se para es- 
crever o seguinte bilhete ; 

«O moribundo )\'snsala, s^ibciuii) a i;;.?"- 
de iiofci ; abi\içj tcniaiiwiiU' o sr. de Lalli : 
c rc qiw o i\'i Liiiida é o defensor da jiisti- 
ea. . . Minte pois xa/ixjeilo.» 

Kstas linhas foram as ultimas que \ oitai 
re escreveu, 



336 



HISTORIA GKKAL 



LXIV 



Jesuítas, abexins e cophtas 



AKthiopia de sob-lo-Kgypto dos antigos, 
a que corresponde a Abyssinia d'hoje- 
foi convertida ao christianismo no reinado de 
Constantino, pelo apostolo Frumentius, en- 
viado, segundo se diz, pela imperatriz He- 
lena. Dois séculos depois, no tempo do im- 
perador Justiniano, uns missionários vindos 
do Kgypto alli introduziram as doutrinas de 
l-Aitvchio ' no grosso da nação, que ficou 
nionophisista. sem nunca entrar de todo no 
catliolicism<j. 

Dando credito ao nosso Fr. .loão dos San- 
tos, no que ellc escreveu na sua Klliiopia 
Oriental, firmando-se na auctoridadc dos 
chronistas da ordem de S. Domingos, te- 
riam sido os iVades dominicanos os primeiíos 
que, antes doutras ordens religiosas, foram 
a Abyssinia procurar converter os seus ha- 
bitantes ao credo romano. 

Foi isto no pontificado do papa João .\II, 
no anno de i3iG, e oito os missionários que 
partiram de Roma e uma freira «do terceiro 
habito da mesma ordem, matrona \eneravel 
e de grande respeito, assim por sua cdadu 

' (iul\ chio, loi, no século v, abbade d um grande 
mosieiro, e chefe dos monges i|ue habitavam em 
communidade ao redor de Constantinopla. .A aversão 
de Eutychio contra o nestorianismo precipitou o no 
excesso opposto. Ha unidade de pessoa, concluiu a 
unidade da natureza de J. Christo, no qual a nature- 
za humina «seria absorvida coroo uma gotta de chu- 
va de leste pelo Oceano, confundida como o cobre c 
o estanho nos sinos das noss;isegre)as •■ Esta opinião 
destruía o mysterio da redempção dos homens, e fa- 
zia o seu auctor recair na heresia de Cerintho e dos 
gnósticos. 



como por sua muita virtude, a qual se cha- 
mava (^lara, e na lingua dos abe.\ins Imata.» 
Os missionarit)s foram bem recebidos «e ga- 
nharam tanto as vontades dos reis e senho- 
res d'aquellas terras, que em breve tempo 
lhes edificaram conventos.» O principal d'eí- 
tes foi o de lílurimanos '. 

Pela alliança concluída por D. Manuel 
com a rainha Helena cm i3i4, Portugal en- 
trou em relações com os abexins, e no tem- 
po de D. João III o iicgiis Onatidhiguel 
mandou o patriarcha D. João Bermudes a 
Lisboa, pedir au.xilio contra os musulmanos 
que ameaçavam invadir a Abyssinia. I). 
João III ordenou a D. Fstevam da Gama, 
governador da índia, que enviasse o soccor- 
ro pedido, e D. .loão Bei"mudes acompanhou 

' «Os religiosos d'este convento, diz Fr. João dos 
Santos, teem três maneiras devida religiosa, a saber: 
activa, contemplativa e mixta, que participa de am- 
bas. Dentro da cerca, que é muito grande, est.i um 
hospital, de que tem cuidado certos religiosos, aga- 
salhando n'elle peregrinos c pobres com muita cari- 
dade ; aqui residem os que a ol)ediencia manda exer- 
citar na vida activa. Em outra parte da mesma cèrc.i, 
estão umas cellas muito pequenas, distantes umas 
das outras, mettidas entre arvores silvestres, brenhas 
e lurnas, onde residem outros religiosos em muita 
oração e contemplação, guardando continuo silencio. 
.Mguns comem somente ervas; outros trazem cingi- 
das cintas de ferro sobre a rarne nua; alguns jejuam 
muitos dias a pão e agua; e outros continuamente, 
fazendo vida solitária como antigamente faziam os 
nK)nges do Egypto e 'i'helias. Os mais religiosos es- 
tão no convento occupados no coro, estudo, confis- 
sões, pregações, e no mais que a santa obediência 
lhes manda." 



DOS jesuítas 



337 



a expedição. A Oimiidiiií>;iicl succcdeu o nc- 
gus Cláudio, que por tal sorte se viu amea- 
çado pelos selvagens gallas d'um lado, e pe- 
los moiros do outro, que perderia os seus 



terceiía que feriu. l*or lim, ao cominando, 
primeiramente de Aíl'on.so Caldeira e depois 
do de Ayres Dias, os nossos tiveram de no- 
vo a victoria por si, derrotaram completa- 




Um Imperador ie cor.Lra Lance 



estados, se lhe não fosse em au.xilio, em 
i56i, umpequenoexercitoportuguêscomman- 
dado por D. Christovam da Gama, irmão de 
D. Kstevam, que em duas batalhas derrotou 
os inimigos, mas foi derrotado e morto na 



mente a moirama, e conservaram assim a 
independência do negus. 

Corh os portugueses, que d custa do seu 
sangue manti\eram então a autonomia dos 
abe.\ins, entraram os jesuítas, na Abissínia e 

■»■> 



338 



HISTORIA GERAL 



desde logo assumiram uma importância e 
preponderância tal que os tornaram verda- 
deiros senhores do país. 

O sr. Pinheiro Chagas escreveu a res- 
peito d'ellcs: «Mas alli como em toda a 
parte a ambição desvairou-os e perdeu-os. 
Tornaram-se pesados, tornaram-se impor- 
tunos e déspotas, a ponto que um monarcha 
mais enérgico expulsou -os no século xvii.» 

No meio dos seus interesses mercantis, o 
que mais preoccupava os jesuítas em maté- 
ria de religião era o jejum dos abexins. Ti- 
nham alli os christãos, por costume, jejua- 
rem de sol a sol. Os jesuítas, tão fáceis em 
matérias de religião muito mais importan- 
tes, viram n'este uso um peccado gravíssi- 
mo contra Deus, que era necessário extir- 
par, impondo o preceito de se jejuar, nos 
dias de obrigação, somente até o meio dia. 
Por seu lado os abexins teimavam em je- 
juar até á noite *. 

Os jesuítas ímpelliram os reis a submet- 
ter os recalcitrantes pela força a um je)um, 
por assim dizer de moeda fraca, como era 
a religião que elles pregavam. Um d'estcs 
reis, Zela-Christo, creatura dos reverendos 
padres, obteve a conversão de muitos dos 
seus súbditos á paulada e á espadeirada, 
quando os argumentos e a oratória jesuítica 
pareciam não produzir effeíto. Conta-se que 
em seguida a uma victoria sobre os seus ri- 
vaes, Zela-Ghrísto, tendo-se apoderado d'al- 
guns padres schísmatícos, que não queriam 
transigir com a questão do jejum, fez enfor- 
car a todos que preferissem a forca ao je- 
jum mitigado. E os jesuítas cantaram um 
Te-Denm em louvor d'esta victoria: 

. \d majorem Dei ííloriam ! 

Ao mesmo tempo que procuravam cstabc- 
lecer-se na Kthiopia, os jesuítas ensaiavam 
firmar-se mais abaixo, nas margens do Nilo 



egypcio. Existiam n'aquellas paragens, uma 
ordem de christãos conhecidos pelo nome 
de cophtas ' que os pontífices, por mais de 
uma vez tinham querido chamar ao seio do 
catholícismo; mas em vão. 

Comtudo em i56i, acreditou-se na pos- 
sibilidade d'essa fusão. Um cophta, que se 
achava em Roma sem dinheiro, lembrou-se, 
para encher a bolsa e poder voltar para a 
sua terra, de falsificar cartas assignadas pelo 
patriarcha d'Alexandría, nas quaes a egreja 
cophta, por orgam dos seus dignitários, ex- 
punha o seu desejo de se ligar emfim á de 
Roma. Foi incalculável o alvoroço e a ale- 
gria no Vaticano; e o cophta cheio de cari- 
cias e de presentes. Quando partiu, fizeram- 
n'o acompanhar por jesuítas, que receberam 
i como missão concluir a grande obra da re- 
i união espiritual do oriente com o occidente. 
Chegados que foram a Alexandria, os mis- 
1 sionarios víram-se abandonados pelo coph- 
I ta, que desappareceu, provavelmente rindo 
j do logro que tinha pregado a gente tão es- 
! pertá, como tem por fama os reverendos 
j padres. Estes foram, sem introductor, pro- 
curar o patriarcha cophta, que esteve longo 
} tempo sem perceber do que se tratava, e 
I como os jesuítas se excedessem na lingua- 
I gem estiveram quasi quasí a pagar com o 
corpo os ultrajes que dirigiam á egreja dos 
I cophtas e aos seus fieis. 

Em 1677 tentaram nova missão de união; 
mas como dava poucos resultados e nenhuns 
interesses, abandonaram para sempre a terra 
dos pharaós. 



' Cf. Histoire de ce qui s'est passe au royaume 
d'Eliopie pendant tes années 1624, 25 et 26, etc. Pa- 
ris, 1629, Chez Cramoisy. 



' Os cophtas são, como os abexins dos tempos de 
Justiniano, eutychianos, único erro de dogma que 
os separa da Egreja romíina. O seu clero está sob 
a dependência d'uin patriarcha eleito pelos bispos e 
pelos principaes leigos que seguem aquella forma do 
christianismo. Os padres são ordinariamente simples 
operários; e embora tenham ampla liberdade para se 
casarem, poucos se aproveitam d'ella, observando a 
continência, e sendo muito respeitados pelo povo. 
Estes teem sob a sua jurisdicção os diáconos, possuem 
conventos de ambos os sexos, onde se professam os 
três votos. 



DOS jesuítas 



339 



LXV 



No sertão africano 



N'uM livro publicado em 1891 ' — do qual 
extrahiremos aqui algumas paginas, 
como temos feito de tantos outros — , referin- 
do-nos a uma busca que fizemos nos manus- 
criptos da bibliotheca dEvora, que se rela- 
cionam com missões no interior africano, es- 
crevíamos : 

«... m3s na febre actual de descobertas em 
Africa, na serie de estudos encetados para 
o cabal conhecimento d'aquella nossa pos- 
sessão, se são de grandíssimo interesse e 
máxima vantagem os trabalhos scientificos 
de Ivens e Capello, as digressões arriscadas 
e pittorescas de Serpa Pinto, e as disserta- 
ções jurídicas e históricas de Corvo e Lu- 
ciano Cordeiro, também se não devem des- 
prezar, como factor de estudo, as missões 
dos capuchinhos ou carmelitas, a catechese 
dos jesuítas ou as visitas de um ou outro 
bispo que se tivesse atrevido a penetrar pelo 
sertão. 

«Como o amor da religião da maioria do 
nosso clero só o leva a fazer catechese na 
secretaria dos negócios da justiça junto dos 
ministros, á procura das freguezias rendosas, 
dos pingues bispados, ou das conezias riquís- 
simas, louvemos os bispos que têem a cora- 
gem de abandonar a metrópole. 

«Fora, porém, da utilidade geral de publi- 
cações d'esta ordem, além do interesse que 
ha em passar a letra redonda tudo quanto 



' O Caiholicismo da Corte ao Sertão, i vol.ín-iz." 
Paris - Guillard, Aillaud & C." — i^yi. 



existe inédito na bibliotheca de Évora, ha 
também n'esta publicação como que um in 
teresse singular, e vem a ser : fazer bem evi- 
dente o valor quasi insignificante da cate- 
chese religiosa. 

«Em these, esta precisa invariavelmente, 
para avançar, do auxilio do braço civil. Na 
historia das missões ha grandes inverdades 
que convém tirar a limpo. Da leitura dos re- 
latórios dos missionários vê-se que o nego- 
ciante ia sempre na vanguarda do sacerdote, 
e onde aquelle não se estabelecia, este não 
podia ficar. Era commum o frade arrabido 
ou o jesuíta encontrar pelo sertão fora nego- 
ciantes ou mercadores; a inversa era rarís- 
sima-, mas o negociante, e então o negociante 
da Africa, não era escríptor, e os monges 
tinham chronicas e annaes. 

«As expedições de descoberta ou conquista 
levavam sempre uns frades, poucos, que di- 
ziam a primeira missa aos pés da cruz er- 
guida junto ao padrão das quinas, e quasi 
sempre ficavam, se ficavam, no aldeamento 
primitivo. 

«As levas de ecclesiasticos, maiores ou me- 
nores, seguíam-se depois, e nem sempre a 
Africa foi a melhor quinhoada em homens 
de sciencía e tacto. Os jesuítas, que possuíam 
em alto grau a habilidade de saber adaptar 
os seus missionários, punham todos os cui- 
dados na escolha dos que deviam seguir para 
índia, China ou Japão, onde eram precisos 
homens hábeis, sábios, íntelligcntes, imagi- 
nosos e enérgicos, para travarem lucta com 
essas civilisaçóes já com as .suas leis codifi- 



Í4à 



HlStORlA GÈftAL 



cadas, suas religiões defendidas por um sa- 
cerdócio constituído, e suas philosophias or- 
ganisadas. Alli, onde a tradição escripta 
conservava os usos, e a poesia nacional sus- 
tentava as crenças, era preciso mais alguma 
coisa do que ensinar a fazer o signal da 
cruz, e a repelir a doutrina * \ mas na Africa ; 

«Geralmente nas missões a parte moral, 
aquella que eleva o individuo, e poderia fa- 
zer do bugre um homem civilisado, era com- 
pletamente desprezada em beneficio de um 
formulário devoto. 

« O missionário, tendo subido os rios peri- 
gosos • doentios, atravessado os mattos in- 
hospitos, com os linguas e as recommenda- 
ções para o gentio amigo, se conseguia che 
gar a casa do principal, e se este estava de 
accordo em se converter e deixar converter 
a sua gente, dava começo então á cate- 
chese. 

«Tratava-se em primeiro logar de ensinar a 
fazer o signal da cruz. Reunida a população 
no terreiro do aldeamento, principiava o mis- 
sionário a persignar-se e a fazer com que os 
negros o imitassem. O que primeiro de que 
qualquer outro conseguia benzcrse por si, 
recebia um premio, e passava a ensinar ou- 
tros menos habilidosos no traçado das quatro 
cruses s\mbolicas. 

«Depois, seguia-sc o ensino do •yW)v 
Nosso^ Are Maria c poucas orações mais, e 
do catechismo especialmente a parte meta- 
physica e mysteriosa. Kntretanto destruiam- 
se os amuletos e Ídolos, perseguiam se os 



' A' imitação de S. Paulo que, explorando uma 
crença pagã, disse aos athenienses : Ignoto Deo Quod 
ergo ignorantes cotilis et hoc ego annunlio vobis: as- 
sim os jesuitas encontraram no Chu-King («espécie 
de código de moral e da governação, fundado sobre 
as revoluções passadas, sobre os exemplos dos bons 
reis, e discursos dos seus sábios conselheiros») dou- 
trina para affiançarem ao imperador Khang-hi »que 
sua majestade não devia encarar a religião christã 
como uma religião extranjeira, pois que nos seus 
princípios e pontos fundamentaes, era a mesma que 
a antiga religião de que os sábios e primeiros impe- 
radores da China fizeram profissão, adorando o mes 
mo Deus que os christãos, reconhecendoo, como el- 
les reconheciam, como Senhor do céu e da terra». 

Entre estes jesuitas hábeis e os intransigentes que 
iam á .\frica derribar os Ídolos, parece-nos que hii 
grande vantagem para estes últimos, sob o ponto de 
vistj catholico. 



feiticeiros ou sacerdotes sertanejos ; aparta- 
vam-se umas dúzias de casaes para se cele- 
brarem outros tantos matrimónios, erguia-se 
a cruz no terreiro ou no logar anteriormente 
occupado pelo cepo informe da china ', e o 
padre, na intima convicção de que tinha 
conrcrtido o gentio, passava, na companhia 
do xalona -, a prolongar a conversão. 

«Acontecia que na volta encontrava, quasi 
sempre a doutrina esquecida, o manipanso 
no logar da cruz, c algumas momices mais 
ajuntadas ao tradicional rito gentílico. K os 
santos varões (porque alguns o eram) escre 
viam cheios de contentamento quantos milha- 
res de conversões faziam n'aquellas viagens 
arriscadas e incommodas de três ou quatro 
mezes. K, sem nem de longe suspeitarem o que 
era o homem, elles tratavam de ensinar quem 
era Deus! Tão ingénuos que acreditavam, e 
acreditam, que com quinze dias ou três se-