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Full text of "Inspirações do claustro"

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Alice M. LongfeUow 




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J. J. mmM FREIRE 



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INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO 



SEGUNDA EDIÇÃO 



CORRECTA E ACCRESCENTADA COM UM 



juízo critico 



POR 



Jí. H. Pereira da Silva 







I COIMBRA 

Imi^en&a da Universidade 



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INSPIRAÇÕES DO dAUSTRO 



INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO 



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CORRECTA E ACCRESCENTADA COM UM 



juízo critico 



POR 



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COIMBRA 

Imprensa da Universidade 

1867 






HAAVARD OOLLEQE UBRARY 
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o que intenderdes que é útil, po- 
' deis sem receio piiblical-o. 

COURIEB. 

A natureza (1'esta publicação exige de si algumas pala- 
vras de explicação. Este prologo é filho da necessidade tam- 
somente. Longe de mim a vaidade dos discursos ociosos. 

Âs poesias presentes agradarão a bem poucos : agradarão 
apenas a algumas almas fortes, que não poderam ainda ser 
eivadas nem do cancro do septicismo, nem da mania do mys- 
ticismo : agradarão apenas a alguns homens completamente 
livres, que não subjeitaram-se ainda, si não ás luzes da ra- 
zão. Ora, estes homens sam bem raros na sociedade actual, 
porque a hyperbole dos systemas e das crenças traz em si 
não sei que talisman, que arrasta todos os espíritos, por 
bem formados que sejam. O eclectismò nas opiniões, que 
não sam essencialmente philosophicas, repugna ainda aos 
ânimos, e .é chrismado de absurdo. 

Eu tenho, por tanto, a maioria dos homens por meus 
inimigos. 

Pela mão invisível da Providencia fui arrojado ha três 
annos para o coração do claustro. Por essa inclassificável 
acção, de que hoje me espanto, tive as bênçãos de uns e 
os escarneos de outros. Eram ainda os homens mysticos e 
os scepticos que louvavam-me ou vituperavam-me. Pela mão 
invisível da Providencia fui arrojado outra vez para o tor- 
velinho da sociedade. Por isso tive a maldição de quasi todos. 
Eram ainda os mysticos, que não pejavam-se de cantar a 
palinodia dos louvores, que me haviam magnificamente dis- 
pensado, — eram os scepticos, que compunham d'este ac- 
contecimento um marcialico epigramma. 

Hoje, entre tanto, venho ofierecer ao publico o comple- 
mento de meus pensamentos durante meu triennio claustral. 

Serei recebido pelos mesmos homens : — por tanto, muito 
mal. 






VI 

N3o importa. 

Nos paizes eminentemente illustrados não aguarda-se mais 
pelo juizo da posteridade. Vivendo-se, goza-se já do nome, 
que antigamente depozitava-se nas ares mysteriosas do por- 
vir. No Brazil, porem, não é ainda assim. Eu tenho — gra- 
ças a Deus, — o consolo de poder esperar pelo futuro em 
minha pátria ! 

N'este sonho sedativo da consciência, — seja uma illusão 
embora, — adormecerei tranquillo. 

Entre tanto, — fervam os pensamentos da paixão. Os es- 
criptos poéticos, que apresento, não foram formados em de- 
lirio. Enthusiasma da raiva I que tenho eu com tigo ? 

A hora da inspiração é um mysterio de luz que passa 
inappercebivel. Com tudo, eu tenho consciência de que, por 
mais ethereo que seja aquelle momento, cantei tamsomente 
o que o imperativo da razão inspirava-me como justo. Não 
exclui, na verdade, o sentimento n'estas composições a que 
presidia a solidão, porque ninguém o pode, — mas também 
não sou cabalmente um poeta. Ha em mim alguma cousa 
de menos para completar o anjo das harmonia^ terrestre. 
Ha, por ventura, a reflexão gelada de Montaigne, que apaga 
os Ímpetos, que matta ás vezes a mesma sublimidade. Klo- 
pstok, eu não posso accompanhar teus voos ! 

Pelo lado da arte, meus versos, segundo me parece, as- 
piram a cazar-se com a proza medida dos antigos. 

Sabe-se que os latinos modulavam os períodos do dis- 
curso. Sabe-se que os italianos, em seu século clássico, imi- 
taram miudamente aquelles, de quem tinham herdado a 
litteratura. Sabe-se que os primeiros escriptores portugue- 
zes cadenciavam egualmente suas construcções. Sabe-se 
que, attingindo a musica prozaica a uma perfeição absur- 
da, desterrou-se completamente do discurso todo o artificio. 
A versificação triumphou sobre as ruinas da proza. Bocage 
deixa de ser poeta, para ser musico. A proza tinha expi- 
rado. 

Começa-se entam a procurar um accôrdo. O modulo dos 
latinos, estudado e seguido pelos italianos, quasi aperfei- 



VII 



coado pelos portuguezes, tinha algum tanto de justo e de 
bello. A proza recobrou os seus direitos. 

Tudo isto traz com sigo algumas perguntas necessárias : 

Athe onde irá a melodia da proza ? Será a proza um dia 
tam acabada de melodia, de rythmo, de harmonia mesma, 
. que venha a ser inútil a musica da forma poética ? Chegará 
um dia a litteratura a um tal grau, que distinga a proza e 
a poesia tamsomente pelo nuance dos pensamentos ? Nas- 
cerá um dia d'estas duas expressões mais ou menos bellas 
uma forma intermediaria, que expose tanto da singeleza da 
proza, quanto do artificio da versificação ? Será o futuro o 
mesmo que o passado, — e a proza, em um circulo cons- 
tantemente vicioso, voltará para a poesia, e a poesia de novo 
para a proza ? O Telemaco de Fenelon, os Martyres de Cha- 
teaubriand, os Dramas modernos, os Romances mesmos de 
agora, que sam por ventura arremedos de epopeas, não se 
levantam, como brados magestosos, contra esta ultima hy- 
pothese ? Teremos de viver continuamente no gyro deses- 
perador que descreveu o Ecclesiastes ? O que foi será o 
mesmo que ha de ser em toda a sua amplitude, — ou aquelle 
axioma sagrado admitte restricções ? Meu Deus I o vosso 
Christo, descendo de vosso eterno e fecundo seio, não trouxe 
á humanidade alguma idea nova, algum facto que inda não 
tivesse sido ? , 

Presentemente, — cuido eu, — nem uma resposta pode 
dar-se a estas questões, si não uma duvida. Pois ben^ : — 
meus versos representam esta hesitação, segundo penso. 
Procuram, a pezar meu, a naturalidade da proza, e recêam 
desprezar completamente a cadencia bocagiana. 

Alem d'isto, a quem canta pela razão, e pouco talvez pelo 
sentimento, esta forma singela, quasi não trabalhada, por 
ventura mais severa, é que melhor lhe pode convir. 

O aspecto social, que parecem ter estas composições, obri- 
gam-me ainda a não finalisar de súbito este prologo. 

O que cantas ? — perguntar-me-ão. 

O que podia eu cantar, incerrado nas muralhas solitárias 
de um claustro, ouvindo a cada hora os toques continuados 
de um sino que chama á oração, vendo uma turma de ho- 



VIII 

mens com vestidos talares negros, que levavam-me â recor- 
daç3o dos costumes dos tempos antigos, passeando sempre 
sobre um chão povoado de sepulchros, conversando com o 
silencio do dia e a solidão da noute ? 

Cantei o monge e a morte. 

Cantei o monge, porque elle soffre, — sqfifre muito. 

Cantei o monge, por que o mundo o despreza. Cantei o 
monge, porque elle é hoje uma cousa inútil e ociosa, em 
consequência de suas instituições anacbronicas. Cantei o 
monge, por que elle não tem culpa de ser mau, nem pôde 
por si só ser bom. Cantei o monge, por que elle poderia 
ser uma personagem quasi necessária, dando-se-lhe as leis 
communs da humanidade. 

Cantei o monge, por que elle é infeliz. Cantei o monge, 
por que elle é escravo, não da cruz, mas do arbitrio estúpido 
de outro homem. Cantei o monge, por que não ha ninguém, 
que se occupe de cantal-o. 

E por isso que cantei o monge, cantei também a morte. É 
ella o epilogo mais bello de sua vida : é seu único triumpho. 

Na verdade, ao homem sincero amante de sua pátria, 
doe-lhe dentro da alma ver tanta gente estaccionada, sem 
nada fazer, podendo produzir tanto bem. Não I a charidade 
que o Christo insinou, não é egoísta : — imagem real do 
pelicano, que arranca o coração para dal-o aos filhos ! 

Muitos, a quem tomam o cuidado de chamar — impios, 
— censuram o monge no monge. Eu deploro-o somente, 
por que elle não é criminoso. A instituição, a instituição 
é que, depois de lhe tirar o trabalho, hoj'em dia já não pre- 
cizo, de rotear montanhas, não lhe forneceu outro qualquer 
em ordem ás necessidades da epocha, mas antes convidou-o 
a uma espécie de ócio, no qual elle não pôde ser mais, que 
mau e desgraçado. 

Eu fallo com o coração entre as mãos acerca de todas 
essas cousas, — de todos esses padecimentos. 

Quórum para magna fui. 

Como esse Eneas, desenhado pela imaginação de Virgilio, 
sahindo do boqueirão das chammas, que ainda lavram, posso, 
— graças a Deus ! — fallar de Troya, sem correr seus riscos. 



IX 

• J 

Oh monges, — feitos assim como estais, constituidos d'este 
modo,— que sois mais que estas arvores infructiferas, de 
que falia o evangelho, que não servem, si não para o fogo? 

Si o homem Deus passasse por vós, como passou pela 
figueira estéril, não vos destruiria pela raiz, como o raio 
fulminante da maldição eterna ? 

Sede jesuitas, como sois, séde-o : mas sêde-o também, 
como os Anchiettas, os Nobregas, os Vieiras. Por que não ? 

Olhae : — ahi estam nossos sertões, nossas florestas se- 
culares, sombreando immenso gentio, acubertando um culto 
infame, defendendo bárbaros costumes, balouçando de ter- 
ror e de esperança. Ide, apóstolos do Unigénito do Eterno, 
atirae-vos a essas mattàs, pregae o evangelho, civilizae ! Não 
é esta a vossa missão? 

A civilisação do mundo ainda carece de vós. Os Thomés 
ainda sam úecessarios. 

Ide, athletas da charidade, marchae para a conquista do 
pensamento christão. Que vos falta ? Vosso mestre vos in- 
viava ás nações — munidos tamsomente da palavra. 

Os Nobregas não tinham mais do que vós, — e nós, — 
não nos invergonhemos, — fomos civilisados por elles. 

Eis-aqui porque a memoria dos filhos de Loyola me é 
cara, eis-aqui por que eu os canto também a elles, pelo que 
fizeram, — como vos canto a vós, pelo que podieis fazer. 

Ck)mmetteram erros, elles : mas não é um dos axiomas 
da historia — que os que imprehendem grandes cousas, 
commettam egualmente grandes erros ? 

Por essas convicções, — não escureço, — achar-me-ão sem 
duvida em contradicção nos meus cantares^ 

Meditae, porem, examinae o fundo, e lá incontrareis a 
unidade, o foco, o centro, o principio da luz, embora o 
prisma represente raios de diversas cores. 

O século passado para mim é sempre um século magnâ- 
nimo de crimes : mas nem um século escoou-se debalde no 
percorrer dos tempos : o século passado é também um sé- 
culo intelligente e progressista. Remontando-me algumas 
vezes ao seio d'elle, eu, com a alma fundida na educação 
do século dezenove, arripio-me de horror^ e canto a cha- 



u^' 



X 



ridade christan, que lá inconlro menoscabada. Procuro en- 
lam revestir-me com os ademães dos homens calholicos 
daquella epocha, esqueço-me exteriormente de mim, de- 
teslo-lhe a moda absurda de impiedade, e maldigo aquelle 
circulo de ferro, em que circumscreveu-se aquelle período 
de torpeza. Os meus — Claustros — e algumas composições 
mais assumiram esta cor. Quando, porem, limito-me ao 
meio-seculo, em que tenho apparecido, e deparo com tudo 
o que me cerca, digo: — Respeitemos nossos pais. — Si 
elles olharam para a charidade christan, para a fé evangé- 
lica, como para estatuas de irrizão, — collocaram todavia 
em um altar a liberdade. A liberdade também é filha do 
Christo. O meu poemeto — O monge — representa princi- 
palmente este estado. 

Eis-ahi, pois, a definição de meu trabalho. Julgae-o por 
essa maneira, — e sede rigorosos, sim, — porem justos. 

A despeito de toda esta minha confissão, eu sinto, como 
por instincto, que muitos, lendo este livro segundo seus 
próprios gostos, e não segundo o espirito que por todo elle 
domina, dirão que é uma collecção de orações e blasphe- 
mias. Não I eu não direi isto. Lembrarei somente que esta 
é a obra de um joven educado no seio de uma corporação 
religiosa. Ê esta toda a minha apologia. 

Não posso concluir este prologo sem cumprir com o dever 
sagrado do agradecimento para com o Rvm. Sr. cónego José 
Joaquim da Fonseca Lima, e padre mestre Domingos José 
de Britto, pelas lisongeiras expressões de animação e be- 
nevolência, que me dirigiram por vezes nas columnas do 
Noticiador Catholico. O illustrado publicista Sr. José Pedro 
Xavier Pinheiro é também para com migo credor de muita 
estima e gratidão, pelo modo distincto e acoroçoador, com 
que tractou-me em sua Revista no periódico Justiça. O Sr. 
Dr. Ricardo Gumbleton Dunt penhorou-me egualmente com 
as palavras de alento, que dispensou largamente com migo, 
na Aurora Paulistana. Julgo preencher um compromisso 
bem diíBcil, estampando n'esta pagina a abundância de mi- 
nha gratidão, muito mais ainda quando os liames da ami- 
zade não me estreitam a nem um d'elles. 



M joAouiN mmyu freire 



Era joven, e bem joven, ò Bahiano Junqueira Freire! Nas- 
cido DO dia 31 de Dezembro de 1832; entrou para o con- 
vento dos Benedictinos na edade de 1 9 annos, e nelle passou 
o tempo precioso da juventude. Conseguiu porem secula- 
risar-se em 1854, trocando então a solidão pela sociedade, 
e deixando a cellula do monge para se atirar na existência 
contrariada do mundo. 

A parca cruel arrebatou-lhe a vida immediatamente; cei- 
fou-a assim em flor, sem nenhuma piedade e no momento 
em que, ao desabrochar, já espargia tanto aroma, e pro- 
mettia á terra da pátria um génio admirável! 

Desappareceu do claustro ; não era porem o mundo des- 
tinado para elle ; desappareceu logo do mundo ; deixou to- 
davia para memoria um livro, pouco volumoso, mas rico 
de inspirações elevadas, de pequeno numero de paginas^ e 
resplandecente de poesia, e poesia verdadeira ! 

ãão tão raros os poetas ! Não faltam versificadores, prin- 
cipalmente nas linguas do meio-dia da Europa, cujas pala- 
vras se prestam excellentemente á rima, e é a phrase já 
por si harmoniosa e cadente ; os poetas que todavia nascem 
inspirados, e que a natureza enriquece com imaginação es- 
pantosa; os poetas verdadeiros, raros são, porque a Provi- 
dencia tem predilectos, e não podem ser estes humerosos. 

Era Junqueira Freire poeta 1 O pequeno livro das ins- 
pmÂçõEs DO CLAUSTRO O dcmoustra ; ardia-lhe no cérebro a 
chamma divina ; ainda quente deve estar o seu corpo, si 
bem que já sepultado na terra, e já d'elle falíamos como 
de uma cousa que foi, de uma nuvem que passou> e de 
um som que se sumiu no espaço. 



XII 

Parece que teve um presentimento de morte precoce : 
sabido do claustro, publicou o bello livro das inspirações, 
e logo que o entregou ao mundo, como para deixar-lhe a 
dor e a saudade, feixou os olhos, e desceu à sepultura I 

Não é novo este acontecimento na bistoria litteraria: Chat- 
terton morreu antes de 18 annos de edade, Gilbert cbegou 
apenas aos 29. 

Como Chatterton e Gilbert, sentia o poeta Junqueira Freire 
intensa necessidade de olhar para o céo e para a eternidade; 
no meio de suas dores do claustro, como aquelles seus 
irmãos, no meio das angustias da fome, appellava o vate para 
Deos, e no seio immenso do Creador do mundo encontrava 
abrigo e consolações : 

Porque se me extasia a mente ás vezes, 
E vaga, e vaga, aligera e perdida 
Pelas soidões do firmamento ethereo, 
Bem como o seraphim, que esguarda os mundos. 
Livre os celestes paramos percorre? 
Porque penetra, ás vezes arrojada. 
Nos mvsterios recônditos do jeterno, 
E toda entorna-se a seus pés, — bem como 
O alabastro de nardo aos pés do Christo?* 
Porque se abraça em incorpóreo amplexo 
Co'os angélicos seres de alem-astros, 
E, como as chaves das eternas portas, 
Abre os thesouros do poder do Altissimo, 
E nelles bebe inexhauriveis gozos ? 

Extasia-se assim Junqueira Freire, o poeta que a Bahia 
e o Brazir acabam de perder, quando á mente lhe fulgu- 
rava a imagem solemne da immensidade; sonhava, delirava, 
adivinhava, como sonham, deliram e adivinham os grandes 
génios que nascem feitos e não se formam no mundo. 

Poeta, que vida fora a tua ? tu o dizes quando pintas as 
dores do claustro. Ali se quebrou a tua juventude como o 
aço ao roçar da pedra ; perderam-se os teus gemidos pelos 



xm 

longos corredores e sombrias cellas ; ajoelhado ao pé do altar, 
e em cima de sepulturas, é que te Tinha o allivio, a espe- 
rança, e a voz do anjo, que te chamava para outro mundo, 
que devia ser o teu, pois que é o mundo que te merecia. 

Gosto de meditar, de noite, ás vezes. 

Como um infante, 
Espasmado no olhar, fitgndo o corpo 

Que tem diante^ 

Entre tantos cânticos e pela máxima parte cânticos de 
dor, que lhe arranca a solidão, parece que não ha esco- 
lha ; contém quasi todos bellezas que denunciam um génio 
poético da primeira plana : imaginação, sentimento, ideas, 
paixões, inspiração sublime, tudo se allia perfeitamente com 
a selecção da palavra, o apropriado da phrase, a maviosi- 
dade do verso e a justeza da rima. 

Junqueira Freire, si pela imaginação pertencia á eschola 
deSousa Caldas, Francisco Manuel, Almeida Garrett e Diniz, 
pela forma, vestes exteriores, e metrificação, recebeu de 
certo lições de Gonzaga, Camões, Garção, Bocage e José \ 
Basilio da Gama. 

Como é lindo e melancólico o cântico intitulado — Um 
pedido'^ l 

Com este cântico rivalisam em doçura e tristeza o da 
profissão de frei João das Mercês Ramos, a canção intitu- 
lada — Ella, — os versos aos jesuítas, cheios d'uma côr 
local brazileira, que muito agradara, e as elegias — Flor 
murcha do altar ^ Freira^ e Devota; derrama-se a poesia por 
todas as strophes, versos, phrases, e palavras ; sente-se com 
a sua leitura, e sente-se profundamente, a perda d'um génio 
que começava os seus voos, que já se podem chamar — 
\ôos de águia ! 

Ah ! si a dura morte se não apressasse a riscal-o do 
numero dos viventes ; si este joven de 22 annos tivesse 

1 Vid. pag. 11. 

2 Vid. pag. 14. 



XIV 



tempo de amadurar o seu ingenho, moderar e regularisar 
a sua inspiração, colher no estudo mais profundeza de pen- 
samentos, que grande poeta que fora, e quanta gloria der- 
ramaria sobre o seu paiz natal 1 

O cântico á profissão de frei João das Mercês denota o 
sentimento, magoa e dôr, que já haviam começado a apo- 
derar-se do seu espirito, e desbotar-lhe as cores mais suaves; 
o isolamento do claustro não poderá vencer as paixões do 
joven, e quebrar-lhes os brios naturaes ; aíTigurava-se-lhe 
o claustro um inferno medonho, aonde lhe haviam enterrado 
a existência para lh'a amargurar e emmurchecer ; no meio 
das suas angustias exhalava suspiros desesperados como os 
Claustros, Apostola, Converso, e Misantropo; ás vezes fe- 
lizmente o salvava o sopro divino, arrebatando-lhe o espi- 
rito e voos para as ideas melancholicas, religiosas e moraes, 
que brilham e resplandecem primorosamente na Meditação, 
Incenso do altar. Irmãs de caridjàde, e Pobre soberbo. 

Quereis ouvir como se perdia aquelle espirito poético, 
quando balançando entre a desesperação do isolamento e as 
crenças religiosas, entre as saudades da vida humana e a 
prisão da cellula, fazia soar a lyra com arrebatamentos do- 
lorosos? Lede o Cântico á profissão de frei João das Mercês^. 

Versos expressivos tem também o cântico da Meditação; 
ha um doer constante, e penar contemplativo, que se ob- 
serva nesta existência juvenil e ardente, que fere e rasga 
o peito, e chama as lagrimas aos olhos. 

^ Oh 1 morra o coração — gérmen fecundo 

De mil tormentos ; 
Desfalleçam-lhe as fibras — espedacem-se 

Os filamentos. . 

Isenta de paixões — de amor, ou ódio, 

Surja a razão ; 
Não obedeça escrava aos sentimentos 

Do coração. 

1 Vid. pag. 159. 



XV 



Torne-se o coração lâmpada extincla, 
Cinza DO lar; 
• E deixe que a razão veleje livre 

Em largo mar. 

Creia n'um Deus — e dos dulçores goze 

De almo ascetismo ; 
Não mais lhe rôa as visceras o cancro 

Do sceplicismo. 

A divida infernal, batendo as azas, 
Perdendo as cores, 
• Precepite-se súbito nas chammas 

Exteriores. 

E Deus, que vivifica o alvar pinheiro, 

E a tenra planta ; 
Que os soberbos calcina, e que os humildes 

Do pó levanta ; ' 

De minha vil baixeza, como os homens, 

Ah ! — não se peja ; 
Que elle mão cheia de mil dons em todos 

Largo despeja. 

Mas si té'qui parece deslembrado. 

Triste de mim ! 
Si não manda a guardar minh'alma dubía . 

Um cherubim f 

Si nunca se lembrar que um ente existe 

N'essa amargura 1 
Melhor não fora me gelasse o sangue 

A morte dura ? 

Bastam estes extractos para conhecer-se o génio poético 
que se escondia sob as vestes do monge; servem elles para 



XVI 

deplorar-sc o passamento prematuro de uma existência tão 
cheia de futuro, de um engenho tão ricamente mimoseado 
pela Providencia divina. Como era joven não podia escapar á 
sorte humana e aos defeitos da mocidade; ha nos seus cân- 
ticos alguma exaggeração de sentimentos, alguma extrava- 
gância de ideias : é defeito da edade. É também influxo da 
eschola de Lord Byron, cuja leitura se tem espalhado por 
todo o mundo, e produz nos cérebros juvenis tendências 
desordenadas, que só a edade, e a razão amadui^cida sabem 
evitar. 

O talento e o génio poético nascem espontaneamente, re- 
cebem porem da educação, do tempo, do estudo, e do 
mundo, o aperfeiçoamento necessário que lhe troca as vestes 
brilhantes e seductoras do fogo ardente pelos voos acertados 
e sublimes do enthusiasmo reflectido. 

Tem canções que revelam qualidades de Juvenal : a can- 
tata a Frei Bastos, que parece que ajuntava os dotes da 
poesia e oratória a vicios immundos que lhe estragavam o 
corpo e desseccavam-lhe o espirito, é interessantíssima, 
alem de piltoresca : denuncia a força do poeta, e a elevação 
do espirito que o animava^. 

Não foi infelizmente Junqueira Freire o único poeta dos 
nossos dias e da nossa terra que a morte ceifou na juven- 
tude, roubando á litteratura brazileira escriptos, que pro- 
mettia gloriosos o génio das florestas americanas. Dutra e 
Mello, Alvares de Azevedo, Francisco Bernardino, Pinheiro 
Guimarães, e Casimiro d^Abreu já também desceram ao se- 
pulchro, legando poesias inacabadas, que provam todavia 
que sobre este solo não espargiu somente o Creador da na- 
tureza favores divinos para o bem estar, crescimento, e ri- 
queza do povo, que o habita. Pretendeu também, em sua 
infinita bondade, que o espirito se elevasse, e a imaginação 
dos homens subisse à comprehensão dos seus mysterios, 
podendo satisfazer as precisões moraes da sociedade, que 
si necessita de marchar physicamente, não consegue forta- 

1 Vid.pag. 108. 



XVH 

lecer-se, e medrar sem o alimento para a alma, e a ins- 
trucção para o pensamento immaterial, que dirige o homem. 

Durante os tempos coloniaes enriqueceu-se a litteratura 
portugueza com os productos dos génios, que creoa á sua 
conquista dos Trópicos. Era de razão, porque formávamos 
todos o mesmo paiz, e um só reino. Basilio da Gama, Sousa 
Caldas, Durão, Alexandre de Gusmão, António José, Rocha 
Pitta, os dous Alvarengas, Gregório de Mattos, Benevides, 
os bispos de Coimbra e Elvas, Moraes, Bartholomeu Gus- 
mão, Cláudio Manuel, Mello Franco, São Carlos, António 
de Sá, Vidal de Negreiros, Camarás, Conceição Velloso, e 
tantos engenhos mais, nascidos no Brazil, enriqueceram as 
paginas da historia portugueza nas artes, sciencias, letras, 
e politica ; nos campos sanguinolentos da guerra, e nas agra- 
dáveis planícies da paz. Ergue-se com a sua emancipação 
politica uma nação nova, á qual D. Pedro i e José Boni- 
fácio ensinam os primeiros passos, e illustra o visconde de 
Cayrú com a sua instrucção variada. 

Brilham já a tribuna sagrada e parlamentar com uma 
gloria própria. Uma historia nacional se ergue á parte, e 
caminha o paiz para os seus destinos particulares. Animam 
associações litterarias o desenvolvimento espiritual. 

São Leopoldo practica o ramo histórico, acompanhado 
por J. F. Lisboa, eVarnhagem, Januário, e Pedro Branca 
entoam cânticos agradáveis. Abre Magalhães espaços novos 
para a poesia. Seguem-no Gonçalves Dias, Porto-Megre, 
Firmino, Norberto, Macedo, e tantos jovens talentos que 
fulguram no horizonte da pátria. Reúne e publica o Insti- 
tuto materiaes os mais importantes para a historia e geo- 
graphia. Já mesmo no theatro apparecem engenhos origi- 
ginaes, que traçam scenas copiadas do povo com quem 
vivem. 

Brilham ainda hoje mais as letras, na verdade, no seio 
da antiga metropoli ; não estão porém n'ella mais adiantadas 
as sciencias practicas e abstractas : e os progressos mate- 
riaes no Brazil tomaram sem duvida a dianteira ; a liberdade 
politica ganhou mais profundas raizes; e o amor ás insti- 
tuições tornou-se mais universal, e seguro. 






^ * 



XVIII 

Corra o tempo. Desappareçam todas as rivalidades, filhas 
de prejuizos antigos e hoje sem a menor base. A língua é 
a mesma; e ajudando-se ambas as litteraturas, honrar-se-ha 
cada uma das duas nações com o que é seu próprio, e lu- 
ctarão, sem o mesquinho espirito da inveja e despeito, no 
vasto e brilhante theatro da intelligencia humana, elogiando-se 
e estimando-se mutuamente. 

Assim o practicam os Estados-Unidos da America do Norte, 
e n3o deram elles á Inglaterra, durante os tempos coloniaes, 
vultos notáveis, que honrassem a mãe pátria, como o fez o 
Brazil para com Portugal. A independência das colónias 
britannicas forneceu-lhes occasiSo então de tornar conhecidos 
Franklin e Washington. Á nacionalidade que criaram, devem 
o impulso e movimento que recebem os espiritos actual- 
mente. Irving, Cooper, Story, Longfellow, Webster, Pres- 
cott, Banckroft, Wheaton e Maury, são vivas demonstrações 
de que a terra americana produz também talentos que honram 
a língua ingleza, e em todos os ramos dos conhecimentos 
humanos. Distingue-se porem a lilteratura propriamente da 
America; forma já uma espécie de nacionalidade; guarda 
como que uma autonomia. Ha no colorido, na expressão, 
e no próprio desenho a especialidade do compatriota de 
Washington; diíTerem as sociedades em pontos sensiveis, 
como pode a litteratura deixar de acompanhal-as, quando 
não è ella mais do que a imagem intellectual das socieda- 
des? 

Possue a Grã-Bretanha os seus clans e montanhezes, as 
suas luctas civis, e torneios do cavalheirismo, para que um 
Walter Scott os pinte, e poetise um Shakspeare, historia- 
dores nacionaes mais profundos do que Hume e Robertson. 
Apresenta a America do Norte os seus indios bravios, com 
os pittorescos costumes, e hábitos originaes, guerreando 
constantemente os invasores europeus, que vinham roubar- 
Ihes a terra, a caça, os lagos e os rios, aonde viviani e vi- 
veram os seus avós : é esta a primeira diíferença, histórica 
inteiramente. Nasce a segunda do estado actual do governo, 
instituições, leis, usos e tendências: que separação im- 
mensa entre os dois povos ! Apparece ainda uma terceira. 



XIX 

e notavelmente grave. O americano de hoje não é mais o 
descendente do iiiglez, é tão inglez como é este normando; 
'procede o povo inglez de hoje de uma única raça, saxónica, 
normanda, ou da primitiva, que encontraram os romanos, 
quando, no seu tempo de dominio universal, se apodera- 
ram das ilhas d'alem da Mancha ? De certo, não. Formou-se 
uma nação original da agglomeração de todos os povos, que 
para aUi se dirigiram, e que, inimigos ao principio, se 
foram, depois das successívas conquistas, approxímando e 
alliando, reunindo elementos heterogéneos, e fundindo as 
raças. É assim hoje o povo americano. A origem foi, em 
geral, britannica ; mas a torrente de colonisação, è as ten- 
dências da democracia, a tem metamorphoseado já, de 
modo a nem reconhecer-se talvez mais a tintura primitiva. 
Amalgama de AUemão, Inglez, Francez. Hespanhol, Ita- 
liano, e até de gente do Norte, tornou-se uma raça nova e 
distincta, cujos traços se manifestam á primeira vista, apesar 
da homogeneidade da lingua. Não pode portanto escapar a 
sua litteratura ás divergências sensíveis e graves, que se- 
param a sua sociedade da sociedade da antiga metrópole. 

Si bem que entre o povo do Brazil e o de Portugal não 
appareça uma tão grande diíTerença, porque nem as insti- 
tuições, e governo das duas nações se distinguem em tão 
larga escala, e nem tem o Brazil modiflcado a raça con- 
quistadora com a infusão de sangue de outras raças diversas, 
como succedeu no Norte da America ; ha todavia no céo, 
na terra, nos mares, nos rios, na atmosphera, na distancia, 
nas producções da natureza, emfim, uma separação tão 
palpável, que já, durante os tempos coloniaes, distinguiram- 
se alguns poetas nascidos no Brazil, pelas vestes, colorido, 
e tendências de seus escriptos, dos vates da Lusitânia, si 
bem que a maior parte, educando-se, e vivendo na Europa, 
adoptaram inteiramente os hábitos portuguezes, e seguiram 
as inspirações de Ferreira, Quita, e Sá de Miranda. 

Souberam todavia tomar differente direcção, Cláudio Ma- 
nuel, Basilio da Gama, e Durão, que se podem appellidar 
os chefes da litteratura brazileira, qufe hoje, com a eman- 



XX 

cipaç3o politica, e a vida própria da sociedade, desenvolve 
a sua aatonomia, e segue os voos da águia, que paira 
sobre as alcantiladas cordilheiras, que se perdem no espaço, 
e espantam e embellezam os olhos dos viajantes. 

Erga-se pois a mocidade brasileira I Tenha fé nos seus 
destinos, e inspire-se com a pátria admirável, que lhe coube 
na partilha que fez da terra a Providencia divina 1 Desen- 
volva-se a sua litteratura no meio do seu clima esplendido 
e soberbo, e encontre ella no seu povo o apoio e protecção, 
a que tem indisputável direito I 



I 



PORQUE CANTO? 



Vae e clama. 
(Palavra do Senhor a Jeremias). 



Porque se me extasia a mente ás vezes, 
E vaga e vaga, alígera e perdida. 
Pelas soidões do firmamento ethereo, 
Bem como o seraphim que esguarda os mundos, 
Livre os celestes paramos percorre? 
Porque penetra, ás vezes arrojada. 
Nos mysterios recônditos do Eterno, 
E toda intorna-se a seus pés, — bem como 
O alabastro de nardo aos pés do Christo ? 
Porque se abraça em incorpóreo amplexo 
Co'os angélicos seres de alem-astros, 
E, como a chave das eternas portas, 
Abre os thesouros do poder do Altissimo, 
E n'elles bebe inexhauriveis gosos? 

Porque Deus — substancia eterna — 
D'onde minh'alma baixou, 
Quer ás vezes que ella suba 
Ás delicias, que deixou. 
1 



/ 



2 



Porque se me extasia a mente ás vezes, 
E por entre delíquios exaltados. 
Desce ás fataes, exteriores trevas, 
Aos insondáveis boqueirões do inferno, 
Bem como o anjo da soberba outr'ora 
Pela invisivel dextra fulminado? 
Porque prova um prazer terrível, forte, 
Em ver a imagem d'esse horror tremendo. 
Em ver a face d'esse cabos torvado, 
Em ver o orgulho do peccado infindo ? 
Porque no fundo da geenna ardente 
Sentir procura as emoções mais barbaras, 
Gostar deseja sensações de fogo. 
Como procura a fátua mariposa 
Chammas de luz, que ha de, talvez, queimal-a ? 

Porque Deus também ás vezes 
Para os abysmos nos lança, 
Para vermos seus castigos. 
Seus thesouros de vingança ! 

Porque se me extasia a mente ás vezes, 
E sente em si um vácuo desmedido. 
Uma infinita inanição ignota. 
Como talvez o espaço, o qual se estende. 
Se derrama e se perde a nossos olhos ? 
Porque procura — sequiosa, arfando — 
Encher esse vazio indefinível. 



3 



Qual para lábios tórridos, queimados, 
Enche-se um cálix de crystal suave ? 
Porque procura, um coração exlranho, 
Qualquer embora, — mas que o seu não seja, 
Para n'elle fundir-se inteiro, inteiro. 
Como vários metaes de varias sortes 
Ao mesmo fogo idênticos se ligam ? 

Porque Deus — saber eterno — 
Taes a nós nos quiz formar : 
Quiz a hera unida ao tronco, 
Quiz a terra unida ao mar. 

Porque se me extasia a mente ás vezes, 

E vaga pelo mundo, e julga os homens. 

Qual severo juiz, e os escarnece, 

E compondo um sarcasmo ás phrases suas • 

Co'o riso de Demócrito os insulta ? 

Porque descrê das affeições, que mostram. 

Francos, singelos, como o rir do infante? 

Porque despresa um coração de amigo. 

Que o foi por tempos, na apparencia ao menos, 

E falsario, traidor, demónio o chama. 

Por um assomo de suspeita ou cholera ? 

Porque da creação blasphema ás vezes, 

E tem por maus os sentimentos de homem, 

E a natureza dos mortaes exprobra 

Ante o Senhor, que noFa deu tam justa ? 



4 



Porque Deus também ás vezes 
O braço de nós retira, 
Para vermos os perigos, 
Em que noss'alma se atira ! 

Porque se me extasia a mente ás vezes, 

E n'um inlevo mentiroso sonha, 

E dá no seio de um prazer sem termos. 

Esbarrando no amor, como na imagem 

Da ventura maior que o mundo offerta ? 

Porque se abraça n'este amor terrestre, 

E as emoções mais physicas apura, 

E as quer, e as busca, e tresloucado as ama 

Co'a mesma devoção, que aos céos dedica ? 

Porque em tal modo o espirito embrutece, 

E vai sua alma estúpida tornando. 

Que ás plantas da mulher, que d'elle zomba. 

Chega a prostrar-se, e jura-lhe perverso 

Paixão eterna, além da campa; — e o corpo 

Dar ao martyrio por amor promette ? 

Porque Deus deixa a matéria 
Ter também sua victoria. 
Para que, — quando a alma vença, — 
Brilhe maior sua gloria I 

Porque se me extasia a mente ás vezes, 
— E quanto fui beber no ceu, no inferno, 



No mundo, em tudo, que medito ou vejo, 
Por meus lábios de vate se derrama 
Em torrentes de harmónica linguagem ? 

Porque Deus poz em meu peito 
Um thesouro de harmonia : 
Deu-me a sina de seus anjos, 
Deu-me o dom da poesia. 

Cantarei o ceu, o inferno, 
O mundo, — o que me approuver 
Cantarei a Deus, o homem, 
Os amores da mulher : 
Cantarei, em quanto vivo, 
Porque Deus assim o quer ! 



►*ôfr- 



o REMORSO DA INNOCENTE 



Á minha írman Maria Augusta 



Alma de serapbim, prenda do Eterno, 
Ai ! quem te despenhou do céo á terra? 



I 



Pelo sinete do crime 
Não é que está desbotada. 
Não chora. Suspira apenas, 
Por seus ais entrecortada. 

Tristesinha corre os claustros, 
' Tristesinha a suspirar. 
Vai juncto á lousa das freiras 
Ajoelhar-se a rezar. 

Reza orações de finados, 
.Reza a seu anjo da guarda : 
E da ílor dos lábios d'elle 
Perdão aos erros aguarda. 



Não sabe o nome dos crimes, 
As paixões não dobra o dorso; 
Mas n'aquelle peito ingénuo 
Mora inquieto um remorso ! 

Como reliquias sagradas, 
Conserva os primores seus; 
Mas doe-lhe não ser ainda 
Toda, toda — só de Deus. 



II 



Eil-o, o remorso da virgem, 
O remorso da innocencia, 
Que, como a idea do Eterno, 
Ameiga na consciência.- 

Rezou, rezou fervorosa. 
Beijando seu relicário; 
Arfou, — qual luz matutina 
Tremendo no alampadario. 

E um sorriso descorado 
Descerrou-lhe labio e lábio, 
Como o palor que desenha 
A fronte vasta do sábio. 



8 



Beijou a lage da campa, 

— Da campa, que ha de ser d'ella, 

E vai scismar merencória 

Na gelosia da celia. 

Por simpleza arreceando 

Que algum phantasn^^ nSo venha, 

A correr, aos ares dava 

Suas vestes de estamenha. 

Que as trevas do claustro e as tumbas • 
Bafejam tremor sagrado; 
E as virgens sempre imaginam 
Erguer-se um morto a seu lado. 



III 



Scisma a virgem mansamente 
Em pensamentos do céo. 
Mais cândida que as rolinhas. 
Mais cândida que seu véo. 

E scismava : — Ai ! que eu não seja 
Já para Deus menos bella. 
Como a bonina que murcha, 
Que eu arranco da capella ! — 



9 



E scismava : — Ai I que eu não tenha 
Um crime, sem eu saber! 
Qual será ? — Hontem de noute 
Eu não pude adormecer ! — 

E scismava : — Ai I que eu não seja 
Menos linda ao meu Senhor ! 
Já hoje eu corri do claustro : 
Dos mortos tive temor. . . — 

E scismava: — Ail que eu não seja 
Ré de um crime que eu não sei, 
Bem como o insecto escondido 
Na rosa qu'hontem cortei ! — 

Eil-a, a scisma da donzella, 
Da filha da solidão; 
Eil-o, o remorso que esconde 
Nas dobras do coração. 



IV 



o remorso do malvado 
É desespero e loucura, 
E a reminiscência d'elle 
O coração lhe tortura. 



10 

Mas o remorso da virgem 
Lhe cala na consciência. 
Gomo a placidez do justo, 
C!omo a visão da innocencia. 



'40»< 



PEDIDO 



Nào é verdade que possa- se bem 
escrever, quando se soffre. 

Ch4TEAUBRIAND. 



Bello joven, tu vaguêas 
Por campinas de esmeralda. 
Adormentas sobre as flores 
O doce amor que te escalda. 

Ainda o céo te apparece 
Vasta abobada de anil. 
A teus olhos não ha nuvem, 
Nem furacão, nem ftizil. 

Inda levantas os olhos 
A tua estrella feliz, 
Lês cada noute em seus raios 
Mil esperanças gentis. 

Depois das vizões ditosas 
De teu dourado dormir. 
Acordas falando amores 
Com prazenteiro sorrir. 



12 

Ao ardor meridiano 
Ouvem-te ainda cantar. 
Nao vês a magoa estampada 
Na face crepuscular. 

Pela escada da ventura 
Sobes cad'hora um degrau, ' 
Tua existência mimosa 
E um contínuo sarau. 

Bello joven, — no teu peito 
Não tocou a mão .da dor. 
Teu espirito innocente 
Pode bem pensar de amor. 

Bello joven, — só tu podes 
Co os sentimentos na mão, 
Falar palavras ardentes. 
Labaredas de paixão. 

Eu que tenho lutado contra a vida, 
Bebido n 'outro cálice de dores, 
Joven ! — não posso meditar doçuras. 
Cantar ternos amores. 

Eu que nunca senti nos olhos d'alma 
O traspassar dos olhos da donzella, 
Joven !. — não posso te pintar ardores 
Que não senti por ella. 



13 



E si eu quizera, disfarçando angustias, 
Cantar suave a tua bella Armia, 
Joven ! — de todos eu teria em paga 
Um riso de ironia. 



►«o^ 



MEDITAÇÃO 



Isto pensava, isto escrevo, isto tinha 
n'alma, isto vai no papel: que d^outro 
modo não sei escrever. 

Garbett. 



I 



Gosto de meditar de noute, ás vezes^, 

Como um infante, 
Espasmado no olhar, fitando o corpo, 

Que tem diante. 

Gosto de meditar de dia, ás vezes. 

Como o ancião, 
A quem ideas se erguem do passado 

Em borbulhão. 

O infante, o ancião I — os dous extremos 

Da existência ; 
Um à vida, outro á morte, eguaes amostram 

Egual tendência. 

Este é planta mimosa, delicada. 

Esperançosa : 
AquelFoutro hasteada e quasi murcha. 

Colhida rosa. 



15 



Este promette e cheiro e viço e ramas, 

Flores ao cento ; 
Aqueiroutro esgalhar espera as folhas 

A certo vento. 

E muitas vezes o sol cresta a plantinha, 

Denuda e mata : 
E vinga a planta antiga, — e quasi morta 
Revive intacta. 

O velho então é como o infante estúpido, 

Que nasce agora : 
Magina mil vizões : sem causa ri-se. 

Sem causa chora. 

Si fui infante estúpido e pasmado, 

Adulto louco : 
Si hei de ser velho, sem sentir^ sem alma, 

D'aqui a pouco. 

Antes quizera ser infante, — quasi 

Sem sensações : 
Nâo fora ao menos cônscio de remorsos, 

Nem decepções. 

Fosse por toda a vida infante néscio. 

Sem consciência : 
Morresse alfim apenas circumscripto 

Em minha essência. 



16 



I 



Porquê e para que rompeu meu corpo 

Do embryão ? 
Que melhor que não fora me abafasse 

A compressão? 

Fora melhor. E o olho vil do hypocrita 

Não me veria : 
Franzindo-me o nariz atraz das costas, 

Não se riria. 

Fora melhor. E a seiva de amargores 

Não me coara, 
E a precoce da estação das dores inda 

Não me chegara. 

Fora melhor. E o estigma da tristeza 

Não me sellara. 
Melancholica ronha os rins sensíveis 

Não m os gastara. 

O coração não fora um grosso livro 

De negras laudas. 

Não me açoutara a hydra dos remorsos 

Co'as férreas caudas. 



\ 



17 



Não me fora sem flores a existência 

Contínuo hynverno. 
Não me fora este mundo um campo estéril, 

Páramo eterno. . 

■ 

Onde só nascem, crescem e vicejam 

Males sem conto. 
D'onde se ceifa antecipado pranto. 

Enojo prompto. 

Porque e para que rompeu meu corpo 

k Do embryão ? 

Pela oiiseria, e para a morte interna 

Do coração ! 

E o Deus, que tem por escabello nuvens 

De ouro e marfim. 
De ofiendido, parece deslembrado, 

— Triste ! — de mim ! 

Deus 1 para que tiraste-me do imo 

Do embryão? 
PYa vida de minha alma, — ou para a morte 

Do coração ? 



f.» 



i8 



Hl 



Oh ! morra o coração, — gérmen fecundo 

De mil tormentos. 

Desfalleçam-lhe as fibras, — espedacem-se 

Os filamentos. 

Exempta de paixões, — de amor, ou ódio, 

Suija a razão. 
Não obedeça escrava aos sentimentos 

Do coração. 

Tome-se o coração lâmpada extincta, 

Cinza no lar. 
E deixe que a razão veleje livre 

Em largo mar. 

Creia n'um Deus,— e dos dulçores goze 

De almo ascetismo. 

Não mais lhe rôa as visceras o cancro 

Do scepticismo. 

A duvida infernal, batendo as azas. 

Perdendo as cores, 

Precipite-se súbito nas chammas 

Exteriores. 



19 



Sepulte-se a descrença em negras trevas 

De negro inferno. 
Creia a razão convicta nas justiças 
» Do Deus eterno- 

Sim : o viburno pequenino, humilde 

No prado agreste, 
Vegeta ao pé da realeza emphatica 

De alto cypreste. 

E Deus, que vivifica o alvar pinheiro 

E a tenra planta : 
Que os soberbos calcina, e que os humildes 

Do põ levanta : 

De minha vil baixeza, como os homens, 

Ah 1 — nao se peja ; 

Que elle mão cheia de mil dons em todos 

Largo despeja. 

Mas si té'qui parece deslembrado, 

Triste 1 — de mim : 

Si não manda aguardar minh^alma dúbia 

Um cherubim : 

Si nunca se lembrar que um ente existe 

N'essa amargura, 
Melhor não fora me gelasse o sangue 

A morte dura ? 



20 



Em sala, onde mil luzes por mil lâmpadas 

Reparte o gaz, 
D'ellas a mais pequena que se apague 

Que mal que faz ? ^ 



IV 



Qual rápido relâmpago no espaço 

Sóe discorrer, 
Tal, sem deixar pegadas de seu vôo. 

Foge o prazer. 

Foge o prazer como a andorinha leve 

Os ares corta : 
Como o primeiro feto — esperanças suas — 

A esposa aborta. 

Foge o prazer, qual setta que dispara 

índio sagaz : 
Qual no deserto a voz, que um echo apenas 

Nos valles faz. 

Alli — bem vejo — alli pompêa esplendida 

A scena aberta. 
E da platéa os vácuos atacados 

O povo aperta. 



1 



21 



Jutilosas menções, palmas soantes 

Rompem, murmuram. 

Melliflua orchestra, tympanos sonoros 

A dor lhes curam. 

Os vates das paixões enamorados, 

Como possessos, 
Trovam, philtrando em todos o requinte 

De seus accessos. 

Fugazes fadas no ademan phantastico 

Cysnes gorgêam. 
Depois, prendendo-se a audição aos cantos, 

Todos prantêam. 

Arrebatam-se as almas, — magnetizam-se 

Os sentimentos. 
Mudam de sua acção inda os mais frigidos 

Temperamentos, 

Lethargia fatal ! — ao outro dia 

Calmos accordam. 
E, somnambulos quasi, — aérias formas 

Só lhes recordam. 

A miséria da vida se lhes mostra 

Entam real. 
Catam novos prazeres : nem um d'elles 

De mais lhes vai'. 



22 



Qual rápido relâmpago no espaço 

Sóe discorrei", 
Tal, sem deixar pegadas de seu vôo, 

Foge o prazer. 



Hora da noute,— hora solemne e sacra ^ 

Á reflexSo : 
Quando do mesmo somno o pobre e o rico 

Dormindo estão. 

Gosto de vós, sombras da noute queda, 

Morte do dia. 
Que me amparais dos callidos esgares 

Da hypocrisia. 

Posso então retrahir-me em minba essência, 

Viver commigo. 
Não me rodêa do traidor a mascara 

Com xôr de amigo. 

Profundo o olhar do hypocrita, — profundo 

Como o oceano. 
Na retina lhe luz das trevas cega& 

O anjo iRsano. 



â3 



Sorri também. — Este sorriso estridulo, 

Oh ente vil, 
Por dal-o mesmo assim fazes, empregas 

Esforços mil I 

Sorri também : e seu sorriso — escarneo 

Da natureza. 
Seu sorriso — um preludio concebido 

De malvadeza. 

Quanta vez viração tépida e fresca ^ 

Serena os ares, 
E procella depois revolta horrenda 

Terras e mares ! 

Quanta vez mil delicias lá desmancha 

Vaivém da sorte ! 

Quanta vez o prazer da vida incauta 

Precede à morte 1 

Assim sorri o hypocrita um sorriso 

De fúria má. 
Mentiras, manhas impias seu demónio 

Grato Ihè dá. 

Hypocrita, que pizas o palácio 

E a palhoça e a cella, 

Deixa de teus furores esquecida 

Uma parcella. 



24 



N3o me toques na orla dos vestidos 

Co'a férrea mao : 

Deíxa-me entrege na soidSo da noute 

Á reflexão. 



17 de novembro de 18*)1. 



"i^0*« 



o APOSTOLO ENTRE AS GENTES 



A António Gonçalves Dias 

— Foste ao principio 
Sacerdote e propheta : 
Eram nos ceos teus cantos uma prece, 
Na terra um vaticinio. 

Gonçalves Dias. 



I 



Como o brado do anathema gravado 
Sobre a fronte do réprobo, — nas terras 
Pejado de baldões, invilecido 
Pelos filhos dos homens, que o repellem, 
Que não concebem a grandeza d'alma, 
Que não escutam o pulsar dos peitos, 
Que não attingem ao sublime e ao Sancto, 
— O ministro de Deus, — entregue ao mundo, 
A senda do viver percorre breve. 
Como o rocio, que no albor do dia 
Salpica as flores, e ao calor se estanca. 
E dorme o eterno somno em campa escura. 
Plácido, — como o espirito do justo: 
E ainda no olvido d'pssa mesma campa 



26 



Penetra o riso mofador dos homens, 

E o motejo do callido philosopho. 

Presumido de si, — » como a ignorância. 

Que lhe preside aos erros e aos sophismas. 

— Nem se queixa: — que é findo o seu martyrio. 

Única herança, que ao nascer lhe coube t 



II 



O varão do Senhor, — Moysés, o justo. 
Pulsou primeiro os nervos do psalterion. 
E o estro virgem resumbrou-lhe aos lábios, 
Como a torrente, — impetuoso e sancto. 
Subiu aos céos, nas azas dos archanjos. 
Um hymno a Deus, que lhe accendera a mente. 
E o typo entam de sua omnipotência 
Ao ser finito transmittiu-se. — O povo 
Ouviu na terra a incógnita linguagem, 
— A linguagem do Eterno. Ouviu-a extático 
O mundo inteiro, no estupor do .espanto. 
Como a explosão volcanica primeira. 
Estreme que era o fogo do propheta, 
E a voz e os olhos e o accento e o cenho ! 
Justiça do Senhor I — Após os tergos 
Sepultado o cavallo e o cavalleiro 
Nas aguas do mar-rubro : — e diante os olhos 
Esses vergéis da intacta Palestina, 



27 



Promettendo delicias suavíssimas. 
Como OS' olhos da noiva espreguiçados 
Nas expansivas, rutilas pupillas 
Do paranympho, que lhe assiste ás bodas 
Ao mando do Senhor, e á noute e ao thoro 
Lhe propheliza trefegos amores. 
Esses sublimes alcantis e cerros, 
D'onde desciam por quebradas trémulas, 
Lambendo os troncos de copudos cedros. 
Beijando as hasteas de mimosas flores. 
Entre os convulsos silices de gemmas. 
De mel e leite os trépidos arroios. 

Oh Palestina, oh virgem dos mysterios f 
Quem assentado em teus alpestres pincaros. 
Sentindo o vendaval soprar-lhe a grenha, 
E o cedro secular rompendo as nuvens. 
Como um gigante, — e ao sopé dos montes 
O rio a murmurar, como a donzella 
Juncto do amante a desfazer-se em queixas, 
E ao longe a voz dos vagalhões bramindo 
Horrenda mais que a confusão do inferno, 
— Quem poderá deixar de ser poeta 
Ao menos uma vez, — oh pátria de anjos. 
Oh Palestina, oh virgem dos mysterios ! 



28 



111 



Alli foi educado, entre as palmeiras 
E o cedro e o murmurar do regato e as penhas 
E o rugido dos mares e ás procellas, 
— O génio enthusiastico do apostolo. 
Elle entre as tribus assomou severo 
Ás portas de Sion, co'a voz constante, 
Como o rugido do leão das selvas. 
Vinha vestido de sinistro sacco, 
E predizia a vinda do Homem-sanclo, 
Do máximo dos vates : — mas as tribus, 
As Ímpias tribus, e os rabbis fanáticos 
Escarneceram do pregão do apostolo. 
Escarneceram do poder do Eterno. 



lY 



Elle descreu dos homens e da terra, 
E para alçar mais livre aos céos os olhos, 
Subiu também aos coruchéus altivos 
Das columnas do Egypto, que çampêam 
Aqui, alli, a recontar ás eras 
Em seus gastos lavores hieroglyphicos 
A vaidade dos reis e a falsa crença. 



29 



Em derredor o viajor parava, 
Fixava n'elle os curiosos olhos, 
E tremia de ouvir-lhe a voz prophetica. 
E em torno á fronte lhe brilhava um disco 
De fogo mais que sancto, — como alquando 
Moysés descendo do Sinai co'as taboas. 
Mas os homens alfim o escarneceram. 
Escarneceram do pregão do apostolo. 
Escarneceram do poder do Eterno. 



Elle escondeu-se na soidão das lapas, 
Nas desertas montanhas de Cassino, 
Fugindo Roma, — a dona dos triumphos, 
Roma, — a senhora das nações da terra, 
E os bailes d'ella e as civicas delicias 
E os aulicos salões, onde reinavam 
A mentira, a traição, o vicio, e o crime, 
Disfarçados nos rizos dos hypocritas. 
Nos ademães dos cortezãos immundos. 
Elle escondeu-se. — E os homens o seguiram, 
E o viram co'a cabeça reclinada 
Em pedra rigida, — e deitado em thalamo 
De urtigas. — Mas alfim o escarneceram, 
Escarneceram do pregão do apostolo, 
Escarneceram do poder do Eterno. 



30 



M 



Hoje, porem, elle nSo mais assoma 
Severo e forte ás portas da cidade. 
Como o bramido do leão das selvas. 
Nao mais remonta aos coruchéus altivos 
Das columnas do Egypto hieroglyphico, 
Co'o disco em torno do semblante acceso. 
Não mais asyla-se ao deserto e ás lapas. 
Não foge Roma, — a dona dos triumphos, 
Roma, — a senhora das nações da terra. 
Mas os filhos dos homens o escarnecem, 
Inda escarnecem do pr^ão do apostoío, 
Inda escarnecem do poder do Eterno. 



Yll 



Oh destinos do ceu ! — porque nãosomos 
Ainda agora os indios das florestas ? 
Porque degenerado em nossas veias 
Gira tam raro o sangue do tamoyo ? 
Porque esse fogo irrequieto e vivido, 
Como o corisco a recortar o ether, 
— Porque esse fogo, que accendia os olhos, 



31 



E o peito immenso do tupi guerreiro. 
Nos olhos e no peito de seus filhos 
Estanque e frio e gélido volveu-se ? 
Bárbaros eram. — ^^Mas ein ranchos longos. 
Nos tejupás pendido das imbiras 
Desamparando o vibrador tacape, 
E meneando os coUos inlaçados 
Das correntes das pérolas do rio, 
E assuberbando as pequeninas testas 
Co'o variegado kanitar nutante, 
E cingindo ao redor do esbelto corpo 
As multicores lindas arasoyas. 
Das araras á purpura roubadas, 

— Demandavam as ocas tenebrosas 
Dos severos e ascéticos piagas. 

E os consultavam nas emprezas árduas, 
E decora\'am seus orados sanctos, 
E decantavam seus poemas mysticos. 
Como o primeiro beijo da donzella 
Dado furtivo entre o amor e o pejo 
Nos lábios caldos do donzel, que a vida 
Expandir-se-lhe sente em moUes pulsos. 

— Oh ! que não somos os briosos tapes, 
Filhos da virgem da guerreira America f 

Era o supremo Deus omnipotente 
Tupá — o sábio auctor da linda lua. 
Do sol vermelho e das montanhas de ouro 
E dos busios marinhos, e dos cardos 



32 



Que o viajor nos areaes saciam, 
E do azulado beija-flor das veigas 
Que trebelha brincão entre os arbustos, 
Como os desejos sôfregos do amante. 

Que tinha? — Deus é Deus! — vozes não mudam 
O ser do Eterno — idêntico, — immutavel, 
Nos planetas do ceu — si. mundos forem — 
Ou só na terra, si ella é só no immenso. 
Jehovah, que expedia o archanjo ethereo 
Em vante dos exércitos hebraicos 
Co'o facho acceso em fogo inextinguivel : 
Brahma, que transmittiu a luz celeste, 
E o puro espirito e a energia e a forma. 
De que é principio, — aos fabulosos indios : 
Theos, que deu aos gregos mythologicos 
Um vasto olympo arcado de myriadas 
De lindos deuses, — symbolos dos gostos : 
Tupà, que ingendra no infinito espaço 
O trovão co'os bulcões vertiginosos 
E os chuveiros de pedra e o raio e a morte : 
— Tudo é Deus, tudo é Deus ! — o mais sam nomes. 



Ylll 



Nos adytos do mystico pagode 
O ministro de Brahma aspira incensos. 



e33 



O augure de Theos, assentado 
Na tripode tremente, auspícios canta. 
O piaga de Tupá, severo e casto. 
Nas ocas tece os versos dos oráculos. 
E o sacerdote do Senhor, — sosinho, — 
Cuberto de baldões a par do réprobo. 
Ante o mundo ao martyrio o coUo curva, 
E aos céus cantando um hymno sacrosancto. 
Como as notas finaes do orgam do templo, 
Confessa a Deus ; e — confessando — morre. 



3 



o jesuíta 



(SECIJLO XVIII) 



Deus é que dirige estas cousas : elle 
permitte que existam imperadores e al- 
gozes para que haja sanctos e martyres: 
elle eleva os impérios para que haja la- 
grymas; castiga para regenerar. 

Lacobdaibe. 



Era longe — bem longe : e eu vim primeiro 
Scindindo as ondas d'esse mar profundo. 
E por amor da Cruz vaguei sosinho 
Nas ínvias maltas d'esse novo mundo. 

O tamoyo gentil hervava as settas. 
Quando pelos vergéis, iam seus, me via : 
E co'os olhos phosphoricos ardendo 
 taquara fatal a mim tendia. 

E tendia a taquara, — mas-ao ver-me 
Quam sem temor e quam inerme estava, 
Trocando em doce o seu olhar fogoso, 
O arco e a setta pelo chão rojava. 



35 



De mim as tribus barbaras, indómitas, 
De mim o verbo do evangelho ouviram. 
E ergui a cruz nos pincaros dos montes, 
E após o verbo os povos me seguiram I 

Eu disse ás tribus : — Todas vós sois ricas, 
— Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta. 
Sois ricas tribus, — mas não sois felizes. 
Porque uma crença de um só Deus vos falta. 

E eu dei ás tribus uma crença doce, 
Qual uma chuva de manná celeste : 
E as tribus foram desde entam feUzes, 
Qual flor pomposa que os jardins reveste. 

E quando os reis da terra se esqueceram 
Das tribus dadas a seu sceptro forte. 
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra, 
— O povo geme: transmudae-lhe a sorte. — 

Eternos templos eu ergui sosinho. 

Eternos como a duração da terra. 

E sosinho sagrei altares tantos 

Ao Deus que aos impios c'o trovão atterra. 

Eu dei ás tribus uma crença doce. 
Eu levantei alcáceres eternos. 
Deram-me os homens prescripção e morte, 
Deram-me em premio as fezes dos infernos. 



A FLOR MURCHA DO ALTAR 



A PEDIDO DE FR. FRAUCISCO DA NAmiDADE GAMEIRO DA CUNHA 



— Quem não sabe ser Erasmo é 
que deve pensar em ser Bispo. 

La Bbuyeris. 



I 



Está murcha : — assim nos foge 
 briza que corre agora. 
Está murcha : — assim o fumo 
Cresce, cresce, — e se evapora. 
Está murcha : — assim o dia 
Em raios affoga a aurora. 

Está murcha : — assim a morte 
Do mundo as glorias desfaz : 
Assim um'hora de gosto 
Mil horas de dores traz : 
Assim o dia desmancha 
Os sonhos que a noute faz. 



37 

I 

Está murcha.... Ainda agora 
— Eu a vi — não era assim. 
Era linda, era viçosa, 
Âccesa como o rubim. 
Reinava, como a rainha. 
Sobre as flores do jardim. 



II 



Foi a donzella mimosa. 
Foi passear entre as flores. 
Foi conversar co'as roseiras, 
Foi-lhes contar seus amores, 
Julgando que sobre as rosas 
Não se reclinam traidores. 

Ella foi co'os pés formosos 
Deixando mimoso rastro, 
Qual no ceu passou de noute, 
Correndo, fulgindo, um astro. 
E esta rosa foi cortada 
Com seus dedos de alabastro. 

A rosa ficou mais bella 
N'aquella virginea mão. 
Encheu de perfume os ares. 



38 

Talvez com mais expansão. 
Mas a virgem teve a pena 
De põl-a em seu coração. 

Entrou no templo a donzella 
Cuberta co'o veu de renda, x 
— Teme que aos olhos dos homens 
Sua modéstia se ofifenda : 
Gomo a cortina das aras. 
Que aos Ímpios se n3o desvenda. 

Leva a modéstia na fronte, 
Leva no peito a oração. 
Leva seu livro dourado, 
Leva pura devoção : 
Leva a rosa, — a linda rosa 
Nos dedos da breve mão. 

Rezou : — e depois ergueu-se, 
Dirigiu-se ao sanctuario. 
Modesta, — qual sua prece, 
Qual a luz do alampadario : 
E depoz a Unda rosa 
Ao pé do sancto calvário. 



39 



III 



Os anjos depois vieram, 
Respiraram sobre a flor. 
A flor cobrou mais belleza. 
Mais gala e mais explendor. 
Alli ao pé do calvário 
Deu mais expansivo odor. 

Alli parecia aos olhos 
Crescer, crescer... Mas agora? 
. Agora murcha — tam murcha — 
Não tem a gala de outr'ora. 
— Assim o fumo do tecto 
Cresce, cresce,— e se evapora. 

Assim as horas do tempo 
Correndo, correndo vam. 
Assim passou inda ha pouco 
O matutino clarão. 
Assim hontem foste infante. 
Assim hoje és ancião 

Murcha, murcha ! — não expande 
Jamais seu odor intenso. 



40 

Ha de seccar — feliz d'elia — 
JuDCto. á Cruz do Deus immenso. 
Ha de aspirar sobre as aras 
O cheiro do grato incenso. 

Feliz ! — sen leito de morte, 
Sobre as aras, ella tem. 
A prece que vai ao ceu, 
Sôbr'ella primeiro vem. 
A myrra que a Deus incensa, 
Incensa a ella também. 

(1853). 



o INCENSO DO ALTAR 



I 



Os sons do fácil orgam : 
A voz dos corypheus : 

As orações dos crentes : 
O susto dos atheus : 

Tudo apregoa e prova : 

— Aqui domina Deus I — 

Silencioso esteve, 

Ha pouco, — o sanctuario : 
Qual a mudez, que guarda 

Jazigo mortuário : 
Qual o terror do nauta 

Em mar tumultuario. 

As almas dos finados 
Erguiam-se do pó : 

Chocando-se torvadas. 

Cruzando as naves só: 

Contando ás columnatas 
As anciãs de seu dó. 



42 

Fugiram já, — fugiram 
Dos sacros peuetraes : 

Qual foge de repente, 

Da mente dos mortaes, 

Do mal a triste idea 

Com a dos bens reaes. 

Parificou-se o ether: 

Espectros mais nao ha. 
Sõbr'elles cáe a campa, 

E um õco baque dá. 
Sumiram-se no abysmo : 

Deus nao n'os ouve já. 



II 



Agora intôa o coro 

Hymnòs de compuncção. 
Levanta a voz dos crentes 

Altivola oração. 
Atheu I — medita : é tempo 

De ainda haver perdão. 

NSo te commovem alma 

Os cantos dos christãos ? 



43 

As notas, que produzem 
Do organista as mãos ? 

As DOtas, que percorrem 
Do templo pelos vãos ? 

Nem das nuvens de incenso 

O quente rescender? 
Que vam nas mãos das auras. 

No tecto esvaecer? 
— ímpio ! tu não tens alma, 

Ou não n'a queres ter ? 

Vê como sobe o incenso, 

Quaes globos de um bulcão. 

Vê como cresce a reza, 

Quaes lavas de um volcão. 

Vê como incanta a orchestra, 
Qual voz de um furacão. 

Vê tanto enthusiasmo 

Na face d'esses crentes. 

Vê tanta confiança 

Em almas tSo tementes. 

Vê tanta fé em Deus, 

— No Deus que não consentes ! 

Si não te mente, oh impio. 
Esse systema teu : 



44 

Si não é como o rizo 

De ambíguo phariseu : 
Como o fallar do hypocrita, 
Que tamisem é atheu : 

Que inferno de torturas 

 mente não te côa ! 
Ao doce som do orgam, 

Que pelos v3os reboa ! 
Aos cânticos sagrados, 

Que o povo e o coro inlôa ! 

Ás preces do ministro. 

Que ao Christo, por ti, ora I 
Á face d'esse templo, 

Que os lábios te descora I 
Qu'ao Deus, — que negas, ímpio, — 

E louva e reza e adora ! 

Compunge-te — e conhece 
De Deus a justa mão. 

Vem commungar* do cálix 
Dos gosos do christão ; 

Que sentirás arroubos, 

Que terás alma entam 1 

Vê como sobe o incenso, 

Quaes globos de um bulcão ! 



45 

E pelo tecto rompe, 

Quaes lavas de um vulcão l 
E aos céus leva a fragancia, 

— Veloz, qual um pegão f 

Vê como sobe o incenso, 
Que aromatiza o altar : 

Suave, — qual a briza 

Entre o fervor do mar : 

Suave, — qual dos anjos 
O doce respirar. 



Ill 



Ai 1 — praza a Deus que breve, 
Tam breve como a flor, 

Ardendo o incenso, — ardendo. 
Qual virginal rubor. 

Transponha aos céus a alma 
Do triste trovador I 



•40»^ 



o MISANTROPO 



AO MEU AMIGO 



LUPERCIO 6AHA6EH CHAMPLONl 



I 



Debalde procuro 
O campo, as florestas : 
Imagens funestas 
Me seguem té lá. 
Nas lapas, nas rochas, 
Debaixo da terra, 
Um busto me atterra, 
Um homem está. 

Go'os olhos brilhantes, 
Co'as faces formosas, 
Co'os lábios de rosas, 
Surri-se p'ra mim. 
Debalde lhe amostro 
Medonho o semblante : 
Co'um gesto galante 
Responde que — sim. 



47 

Na areia da fonte, 
Nas urnas do rio, 
Meu rosto sombrio 
Si incontra co'o seu. 
ÂjuDcta seus lábios, 
Bebendo commigo, 
— Faial inimigo 
Que o fado me deu. 

Correndo assombrado 
Do vulto gravoso. 
Veloz, pressuroso. 
Demando a soidão. 
Mas, inda correndo, 
Si volto co'os olhos, 
Incontro os sobrolhos. 
Da eterna vizão. 

E sempre a surrír-se. 
Qual moça innocente, 
Co'um modo contente 
Dizendo-me adeus. 
Renego-te, oh anjo 
Fatal, sempiterno. 
Ou venhas do inferno. 
Ou venhas de Deus ! 



48 



II 



Nos raies da aurora. 
Nos trÍDOs das aves. 
Nas brizas suaves. 
Na voz da manhã, 
£m pé, sobre os montes, 
Co'um brado que atterra, 
Maldigo essa terra 
Tam ampla, tam van. 

Os homens odeio, 
Ciom ódio profundo, 
Com ódio, que o mundo 
Não pôde intender. 
Èntam, quanto quero. 
Derramo do peito 
O fel, que, desfeito. 
Não posso conter. 

E clamo em discursos, 
Em odes atrozes, 
E os brutos ferozes 
Me temem de ouvir, 
Dos raios que attiro. 
Feridas as selvas, 



49 

De folhas, de relvas 
Se fazem despir. 

Maldigo as estrellas, 
As nuvens, a aurora, 
A queixa sonora 
Das aves do ceu. 
Maldigo esse incanto 
Que abysmos incobre, 

— Mulher que se cobre 
Co'as dobras de um veu. 

Maldigo a sciencia 
Que os homens tortura, 

— Formosa loucura 
De face louçan ; 
Procella da insânia. 
Pegão de sophismas. 
Montanha de prismas. 
Figura de Pan. 

Maldigo a virtude 
Instável cad'hora, 
Demócrito agora, 
Agora Catão : 
Phantasma versátil, 
Extranho, não visto. 
Que ri-se no Christo, 
Que chora em João. 



50_ 

Sedento da raiva 
Qae nunca me finda. 
Mais válido ainda, 
Maldigo meus pães. 
Depois, elevando 
A vista ao superno. 
Maldigo do Eterno, 
Por ser dos mortaes. 



Ill 



E sempre esse busto 
De homem que odeio. 
Me vem, sem receio, 
Constante, escutar. 
E a cada discurso. 
Que franco improvizo. 
Responde co'um rizo, 
E põe-se a calar. 

No seio das rochas 
Debalde me amparo. 
Que sempre o deparo 
Co'um rizo dos seus. 



51 

Castigo infinito, 
Tantalico, eterno. 
Que veiu do inferno 
Por ordem de Deus ! 



Em cima da rocha 
Me assento ferino 
Com gesto assassino 
Buindo um punhal. 
Mas elie desata, 
Deixando-me em pasmo. 
Com rude sarcasmo. 
Risada brutal. 

E corro demente 
Por ínvias devezas, 
Co'as faces accezas, 
Co'o ferro na mão. 
E o busto sinistro 
Recua voando. 
De frente me olhando 
Co'um rizo brincao, 

E sempre a surrir-se, 
Qual moça innocente, 
Co'um modo contente 
Dizendo-me adeus! 



52 

Castigo infinito, 
Tantalico, eterno, 
Que veio do inferno 
Por ordem de Deus ! 



-*»0»- 



A ORPHAN NA COSTURA 



Ella lhe ensinou a levantar suas 

r 

mãos puras e innocentes para o ceu, 
a dirigir seus primeiros olhares a 
seu Creador. 

Flechíer. 



Minha mãe era bonita, 
Era toda a minha dita, 
Era todo o meu amor. 
Seu cabello era tam louro, 
Que nem uma fita cíe ouro 
Tinha tamanho esplendor. 

Suas madeixas luzidas 
Lhe cahiam tam cumpridas. 
Que viiíham-lhe os pés beijar. 
Quando ouvia as minhas queixas, 
Em suas áureas madeixas 
Ella vinha me imbrulhar. 



lambem quando toda fria 
A minha alma estremecia, 
Quando ausente estava o sol, 
Os seus cabellos cumpridos, 



54 

Como fios aquecidos, 
Serviam-me de lençol. 



Minha mãe era bonita. 
Era toda a minha dita, 
Era todo o meu amor. 
Seus olhos eram suaves, 
Como o gorgeio das aves 
Sobre a choça do pastor. 

Minha mae era mui bella, 
— Eu me lembro tanto d'ella, 
De tudo quanto era seu ! 
Tenho em meu peito guardadas 
Suas palavras sagradas 
Co'os rizos que ella me deu. 

Os meus passos vacillantes 
Foram por largos instantes, 
Insínados pelos seus. 
Os meus lábios mudos, quedos 
Abertos pelos seus dedos, 
Pronunciaram-me : — Deus I 



Mais tarde — quando accordava 
Quando a aurora despontava, 
Erguia-me sua mão. 



55 

Paliando pela voz (l'ella, 
Eu repetia singela 
Uma formosa oração. 

Minha mãe era mui bella, 
— Eu me lembro tanto d'ella, 
De tudo quanto era seu ! 
Minha mãe era bonita. 
Era toda a minha dita. 
Era tudo e tudo meu. 



Estes pontos que eu imprimo. 
Estas qiíadrinbas que eu rimo. 
Foi ella que me ensinou. 
As vozes que eu pronuncio. 
Os cantos que eu balbucio. 
Foi ella que m'os formou. 

Minha mãe I — diz-me esta vida, 

Diz-me também esta lida. 

Esta retroz, esta lan : 

Minha mãe ! — diz-me este canto. 

Minha mãe ! — diz-me este pranto, 

— Tudo me diz : — Minha mãe ! — 



Minha mãe era mui bella, 
— Eu me lembro tanto d'ella. 



56 

De tudo quanto era seu t 
Minha m2e era bonita» 
Era toda a minha dita, 
Era tudo e tudo meu. 



■ÍW' 



• 



MEU FILHO NO CLAUSTRO 



CANÇÃO MATERNA 



Eu Dão sou tua mae que te preza ? 
Tu não vês meus cuidados maternos ? 
E me escondes as dores que sentes ? 
Não sei eu teus desgostos internos ? 

Eu te disse^ meu filho, eu te disse 
Que jamais te apartasses de mim. 
Tu quizeste, meu filho, tu foste. 
Tu agora padeces assim. 

Tu deixaste meu seio materno. 
Tu deixaste teu pae tam doente I 
Vê teu pae, como, gasto de angustias, 
Chora e geme — perdido e demente. 

Tu deixaste os logares da infância. 
Mais as flores do nosso jardim. 
Já não brotam, não cheiram fis flores. 
Já não deitam perfumes assim. 



58 



Já nao deitam botões as roseiras, 
Já d3o deitam si qaer uma flor. 
Elias sentem, percebem — coitadas — 
Que perderam também seu cultor. 

Eu beijei teu fantil jasmineiro, 
E pedi-lhe em teu nome um jasmim, 
Veiu a briza, moveu-lhe a folhagem; 
Percebi que negava-m'o assim. 

Tuas plantas bem sabem — coitadas — 
Que perderam seu lindo cultor. 
Elias sabem tambem^ que tu vives 
Sepultado no abysmo da dor. 

Teu presente, meu filho, é tao triste I 
Que será teu futuro e teu fim ? 
E quem pôde esperar mais herrores 
Quem começa com tantos assim I 

Tu quizeste ser monge, tu foste. 
Tu sabiste da casa paterna. 
Insultaste os maternos pedidos. 
Mais a queixa infantil e fraterna. 

Teus irmãos levantaram mil vozes 
Com seus lábios de ardente rubim. 
E clamaram, — coitados — chorando. 
Que não ha, como o teu, génio assim I 



59 



Tu cortaste os anneis dos cabellos, 

— Teus cabellos, que eu tanto estimava. 
Eu por elles chorei ... tu surriste, 

Tu mais fero que a fera mais brava í 

Eu por elles chorei : — que elles \eram 
Lindos fios de preto setim. 
Para seus tua irman os queria. 
Que os não tinha tam bellos assim. 

As mãosinhas da irman que te chora 
Teus cabellos, brincando, alizavam. . 
Quantas vezes meus lábios sedentos 
Teus cabellos, meu filho, beijavam ! 

Hoje — que é de teus lindos cabellos, 
Tam corridos, qual preto setim ? 
Hoje tens desnuada a cabeça, 

— E que frio não sentes assim ? 

Mas eu tive coragem p'ra ver-te 
Adornado de crepe feral. 
E te vi revestido a cadáver, 
Gomo a face do génio do mal. 

Eu a Deus perguntei : — Pois ao mundo 
Para as dores somente é que eu vim ? 
Para ver e sentir que meu filho 
Dá-me tantos martyrios assim ? 



60 



Nos degraus dos altares ao longo 
Te prostraste co'a face no chão. 
E juraste ao Eterno ante os homens 
Que meu filho não eras mais n3o. 

Blasphemei nesse instante do Ghristo 
Nos assomos do meu phrenezim. 
— Os amores de pae n3o sam nada. 
Os extremos de mãe sam assim t 

Blasphemei d'esse Deus que arrancava 
De meus braços meu filho querido : 
Que despia-lhe os trajos de seda, 
Para dar-lhe um funéreo vestido. 

Blasphemei d'esse Deus que \hé impunha 
Férreos votos, eternos, sem fim : 
Que seus filhos por victimas conta : 
Que quer tantos martyrios assim I 

É mentira. Essa lei violenta 
Não foi feita por Nosso Senhor. 
Nosso Deus não nos prende com ferros, 
Mas com laços de dócil amor. 

Não inveja da mãe os prazeres, 
Como rozas ornando o festim. 
Não lhe dá innocentes filhinhos, 
Para em vida arrancar-lh'os assim. 



61 



Blasphemei ! — e no reino das chammas 
Dos^demonios ouviu-me a cohorte : 
E rompeu n'ama horrível orchestra, 
Digna festa dos íilhbs da morte! 

 minh'alma riscou-a em seu livro 
De meu Deus o cruel cherubim. 
Não faz mal: foi por ti que perdi-a. 
Oxalá que eu ganhasse-te assim ! 

Mas tormentos opprimem teu peito 
Mais terríveis talvez que este inferno. 
Sim : tu sofifres, — eu sei, — mais angustias 
Do que soSre meu peito materno. 

Já não brinca o prazer em teus olhos 
Mais travessos, que vivo delphim. 
As tristezas, que afféam teu rosto, 
Mão ha d'ellas nos homens assim. 

Não me escondas, meu filho, estas penas, 
De pezares communs não me prives. 
Eu bem sei que sem mim — entre extranhos 
É difflcil a vida que vives. 

Vem, descerra, meu filho, estes lábios. 
Onde vi transpirar-te o carmim. 
Foste ingrato, é verdade : mas sabe 
Que eu te estimo, meu filho, inda assim. 



62 

Entre a febre teu pae se revolve 
Nesse leito que outr'ora foi teu. 
Grita, clama, tactéa, procura 
Só por ti — primogénito seu. 

Foste ingrato t — deixaste teus lares. 
Teus irmãos, mais teu pae, mais a mim. 
Tu quízeste ser monge, — meu filho, 
Tu agora padeces assim I 



■i^o^ 



MILTON 



AO joven poeta Odorico Octávio Odilon 



Fora devida ao génio outra homenagem: 
Mas a offrenda do pobre agrada ao sábio. 



Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 
Nos campos de Albion, tremente e cego, 
Inda tactêa inspirações e carmes. 
Vêde-o : — cançado lá se arrima á esposa. 
Que num abraço lhe sustenta o corpo. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 

Go'a pupilla sem luz procura embalde 
Fitar o sol, onde um archanjo habita. 
Vate divino, — elle enxergara outr'ora 
Nos raios d'este sol descendo os anjos. 
N'um de seus raios elle ainda* espera 
Que um anjo venha, e lhe esclareça a vista. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 



i. 



64 



Em Yâo a Olha que escrevea-lhe os cantos 
Dirige os olhos do cantor do Empyreo. 
Em vao a incerta e tremula rçtina 
Crava-se immovel no luzente raio. 
Nao mais o anjo, que elle vira outr'ora, 
Desliza lá do sol, baixando á terra. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 

Não mais o Éden, como d'antes, ilore, 
NSo mais o cedro vai topar co^as nuvens. 
Não mais o homem, pelos prados livre. 
Medita Deus, medita amor, — e dorme. 
Não mais essa mulher perfeita e nua 
Sonha innocencias, e innocencias falia. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos ioglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 

Milton, Milton não yê o ceu que canta, 
Não vê a terra cujas cores pinta. 
A esposa, a esposa è-lhe invisivel mesma ; 
Só pelo espinho reconhece a rosa. 
Chora entre os cantos, rouxinol celeste : 
Só pelos prantos reconhece os olhos. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 

Mesmo entre prantos mavioso canta 
O ceu e a terra e o lobrêgo do inferno. 



« 



65 



Abrem-lhe Homero as alvas mãos da esposa. 
Vai-lhe a filhinha transcrevendo os carmes. 
Em meio do labor correm-lhe as lagrymas, 
Que a esposa e a filha inxugam-lhe com ósculos. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero. 

Dorme depois, — e no dormir re-sonha 
Co'os lindos anjos, que pensou de dia. 
Antes do sol accorda, — e vai co'a esposa 
Ao som de cantos despertar a aurora. 
E sempre espera que n'um raio' acazo 
Desça algum anjo e lhe illumine a vista. 
Lá vai Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a eurva ante o moderno Homero. 

Cromwel no sólio venerou tal homem. 

• 

Depois um déspota acatou-lhe o orgulho. 
Pobre inda é livre, — como cego e velho 
Inda tactêa inspirações e carmes. 
Limpa-lhe a filha as lagrymas com ósculos. 
Sustém-lhe o corpo co'um abraço a esposa. 
Lá vài Milton, lá vai. Fátuos inglezes, 
Dobrae a curva ante o moderno Homero 



o 



POBRE E SUBERBO 



— A pobreza orgulhosa explica 
o cynÍBino de muita gente. 

Marquez de MabicX. 



I 



AUi ii'aquelle alvergue derrocado 

Pela sanha do norte 
Um velho existe, — que libara um dia 

Os ósculos da sorte. 

Ás portas lhe bateram os prazeres 

Dourados de ventura. 
Surriram-lhe os amores incantados 

Surrizo de doçura. 

Infindo pellotão de amigos nobres 

Subia-lhe as escadas. 
Co'esgares de paixão lhe olhavam ternas 

Âs damas affectadas. 

Tocou-lhe um dia na in tonada fronte 

O dedo da desgraça. 
E, qual fumo disperso pelos ares, 

Seu fastígio esvoaça. 



67 



Desappareceu, — qual vento, a chusma innuraera 

De tanto e tanto amigo. 
E os filhinhos ao peito, a esposa ao lado, 

— Chorava sem abrigo. 

Dominando a montanha, — hontem viçava 

Pinheiro alevantado. 
Rugiu de madrugada o sul teimoso : 

Eii-o no chão prostrado ! 

Talvez da providencia a mão piedosa 

Mostrou-lhe esta choupana. 
Pêlo aceno de Deus talvez a alçaram 

O colmo e a agreste canna. 



II 



Vegeta o velho alli. Si dorme, — accorda-o 

Dos filhos o lamento. 
Si accorda, — escuta a esposa repassada 

De dor, fome e tormento. 

Muito cedo a cabeça incaneceu-lhe 

Miséria e dissabor. 
Não sabe trabalhar : — eslava feito 

A paz, ao somn© e amor. 



68 



Problema incrível lhe parece ao menos 
Tam veloz decadência. 

E não sabe suster o azar da sorte 

Com constância e prudência. 

E não sabe buscar, — de tonto e fátuo. 

Em. Deus consolação. 
E não sabe incensar os pès do Etei*no 

Go'os fumos da oração. 



Ill 



Hontem de tarde ergueu-se. — A esposa e os filhos 

Em torno se ajuntaram ; 
E, como ecchôa um frémito de espectros, 

— Fome, fome! — gritaram. 

E pegou do bordão : — qual temulento, 

Foi caminho d'aldêa. 
Pedinchando, — era um grande que imperava 

Com voz ingente e chêa. 

O passageiro olhou-lhe os vis andrajos 

E o sobrecenho horrível. 
Meneou-lhe a cabeça, — e escarnec^u-lhe 

A nobreza rizivel. 



.69 

Avezado a mandar — um potentado 

Não deve pedir nunca ;• 
Embora os rins sensíveis lhe comprima 
' Â mão da fome adunca. 

Chamam-lhe a isso n'esse mundo os homens 
— Constância e pundonor .^ — 

E, dos nomes co'a cor, cuidam que apagam 
Da suberbia a côr. 



IV 



O velhinho voltou : — injusto e testo 

Maldiz o ceu e a terra. 
E torrentes de aífrontas e blasphemias 

Do peito desincerra. 

Assim como um tyranno, que aguardava 

Da turba a subjeição ; 
Mal-soffrido se assanha, quando escuta 

Ao seu dictame um «não.» 

E grave entrou no alvergue : — os olhos torvos, 

A catadura má. 
Hi vai fallar, — e a voz, que a raiva ingasga, 

Rouco mugido dá. 



70 



Nos olhos lhe adivinham os Glhinhos 
O bem, ou mal, que traz. 

Physionomistas por precizo inslincto 
 natureza os faz. 

E a mSe co'os filhos um funéreo pranto 
Entam do peito arrancam. 

Só n3o chorava o velho, — que co'a raiva 
As lagrimas se estancam. 

Pranto e pranto de morte alevantaram 

Os filhos, — recordando 
Que sustento mal-são, — herva dos campos 

Ainda irão catando. 



Ai ! — que entrasse do pobre na guarida 

Benfeitor generoso. 
Que na tripeça lhe deixasse adrêde 

Montão de ouro abundoso f 

Vel-o-ias — o velho, remoçado, 

Desamparar a choça ; 
Na ventura olvidar essa tristeza. 

Que o coração lhe roça. 



71 



Tal em lindo jardim roseira débil. 
Que o hynverno desnudara, 

Na primavera já pimpolha ovante, 
Como si não murchara. 

Porém talvez ao benfeitor nas costas 

Imbebera um punhal : 
Ou em dourada taça propinara-lhe 

Um toxico fatal. 

Sobre suberbo, — ingrato I Eil-a do velho 

Inteira a apologia. 
Ham de sel-o também os innocentes 

Filhinhos que elle cria. 

Os leõesinhos dos leões aprendem 
Sanha e sede de sangue : 

Vam gostando de ver os pães sedentos 
Tragar a prêa exangue. 

E — raríssimo caso, — que entre os trances 

E os soffrimentos seus, 
Uma só vez os lábios do velhinho 

Não invocaram Deus ! 

O nome do que só, — de seu espirito 
Deu alma aos céus e á terra. 

Quem sabe si no peito o velho, timido, 

— Como um thesouro, o incerra ? 



72 



Ou nado em ouro e per'las, — e educado 

Em luzido salão. 
Por ventura seus pães nSo lhe insinaram 

Siquer uma oraçSo ! 

Ai I — que vida o velhinho irá vivendo, 
— Que vida de' miséria, 

Té que se lhe desprenda o lasso espirito 
Das pêas da matéria I 



VI 



Mancebos, que passais, — deixae o velho 

Viver na paz da morte : 
Que um dia elle já foi, — como vós-outros. 

Rico dos dons da sorte. 

Mancebos, que passais, — deixae o velho 

Chorar ao pé da porta. 
Não n'o insulteis, — já que a desgraça d'elle 

Tam pouco vos importa. 

Sede, oh jovens brincões, — mais generosos, 

— E não n'o escarneçais. 
Mais antes venerae nas cans do velho 
As cans de vossos pães. 



73 



Bem vêdel-o tranzido. — A magra fome 

As vísceras lhe esfola. 
Não lhe olheis a arrogância, — oh bons mancebos, 

Mas dae, — dae-lhe uma esmolla. 

1851. 



h90»- 



os CLAUSTROS 



(SÉCULO XYIII) 



A Frei Arsénio da Natividade Moura 



Tu, qne sabes chorar a crença exangue^ 

— Crente ! — desamarás os ais de um crente ? 



I 



Dorme, dorme teu somno, oh van cidade, 
Dorme teu somno sensual e podre : 
Que as estrellas e a lua, — de offendidas, 
O inútil brilho em negro veu trocaram. 
Carranca enorme de chumbadas nuvens 
A côr dos céus trocou na côr do abysmo. 
É noite : e noite de pavor é ella. 
Sacra aos mysterios de esquecidos túmulos. • 
Sosinho o bardo aqui, — co'a noite e as trevas 1 
Só elle aqui : — que o mundo é morto agora 
Nos braços do lethargo, — irmão do nada. 

Só elle aqui co'as campas dos finados 
Na latidão dos claustros solitários, 



( 



75 



Que appontando có'o indice da morte 

Aos carcomidos dislicos das lapidas, 

Surrifido-se, lhe solvem o problema, 

— Árduo problema, — do que monta o mundo 

E a vida e os homens e a vaidade d'elles. 

Que ahi não haja uma alma, qual a sua, 

Que ria-se da guerra e paz do mundo, 

— Ai I que diífere a paz da* guerra d'elle ? — 

E, — qual vigia no arraial do exercito, 

A noute vele entre o dormir das armas, 

E a sós co'ò trovador, co'os seus inlêvos 

Venha, arroubada, commungar dos saibos 

Do absinthio amaro, — que chamaram — vida? 



Não : sosinho — é melhor. Sosinho o cysne 
No vazio dos céus mais livre adeja. 



Aqui não ha mister de alma bastarda. 
Impura, — como os vermes do sepulchro,— 
Que lhe immole a innocencia dos pensares. 
Quando na mente se fermentam índa 
Tumultuosos, — qual do ninho escasso 
O bando das alcyones garridas 
Desprega o vôo pelo vão dos ares. 
Aqui não ha mister de alma bastarda, 
Que as emoções mais intimas lhe insulte. 
Antes que saltem as ideas fora 



76 



Do cérebro, que apenas as continha, 
De pequenino, — e pelos lábios francos 
Em simples forma rápidas ressumbrem : 
Tal ao sereno exposta, — inteira a noute, 
Amphora cheia do licor mais puro, 
Lá por ante-manhan^ fervendo ao frio, 
— Aventou com fragor, — e a lympha clara 
Se expandiu pelo chão, que a foi sorvendo. 



Essa abstracção de espirito chymerica, 
Esse supposto coração de amigo. 
Existe algures ? — Morará no peito 
Da pomlnnha, que affaga entre os arrulhos 
A coUeira do esposo, — e abandonada, 
Deixando-o no pombal beijando os filhos, 
Deita a correr traz os cazaes visinhos ? 

— Ou morará, talvez, no adunco bico 
Do pelicano, que estrangula as vísceras 
Para dar a beber seu sangue aos filhos, 
E sendo adultos, desconhece-os todos? 

— Este ser ideal, typo dos anjos — 
Quem concebeu-o, escarneceu dos homens. 
Ou foi um parto de traição dos incubos 
Para mais tratear a mente aos vivos. 
Desesperar, — ganhar a si mais almas. 

Mas si é certo que existe um tal phantasma, 

— Ou vive lá com Deos, além dos mundos, 
Ou foi tolhido ao bardo egual thesouro. — 



77 



Antes sosinho ser. Si n'um despenho, 

De ignorante, cahir, — n'elle pereça 

De vez p'ra sempre. Assim lascado o seixo 

Das penedias da fragosa costa , 

Com ruido sonoro ao mar descendo 

Do gravitar nas azas necessárias, 

As vagas perfui^^ndo, — achou no pego 

E paz e olvido e supultara eterna : 

— Não no arranques de lá, braço de ferro, 
Para dar-lhe depois em troco a morte, 

— E que morte? — o morrer do renegado ! - 
No amargo travo da traição primeiro, 
Depois no ecúleo da calumnia torpe, 

No vasquqar, alfim, do desespero. 



II 



Também agora o ceu está despido 

Dos astros seus. — Nuvens de cinza o toldam, 

E os amigos da noute o desamparam. 

Também agora os claustros estam mudos, 

E parecem dormir um somno eterno, 

Quaes solitários paramos infindos, 

Onde não ha ouvir humano accento. 

É tudo morte : — e só de quando cm quando 

Quebra um tulao das naves a calada, 

E vem dizer que a natureza vive. 



78 



Oh quanta e quanta vez n'estas deshoras 
Não viram ellas levantar-se os monges, 
A transitar nos vácuos corredores, 
— Como de meigas turturinas aves 
Compacto bando a revoar nos ares, — 
Recatados e timidos e graves, 
Murmurando baixinho um psalmo lindo. 



A cantar do Senhor as maravilhas! 
Quanta vez em silencio respeitoso 
Nao ouviram toada e grave e doce, 
— Grave como o pensar de ancião edoso, 
Doce como o fallar de virgem pura, — 
De hymnos e psalmos e canções prophelicas, 
Perdendo os ecchos na expansão dos ares, 
Subindo em fumos á mansão do Eterno? 
Hoj'em dia — esqueleto do deserto, — 
Que mais ha hi? — o tumulo do nada ! 



Agora só na negridão das rochas, 
Um talisman rizivel meneando. 
Algum alumno, que sobeja ainda, 
Do fanatismo do caduco Egypto, 
Evocando os espíritos do inferno 
Nas extorsões do livido semblante. 
Murmurará ensalmos de demónios. 
Quem se erguerá do marroquino leito, 



79 



Abroquelado de oração piedosa, 

— Bem como invicto campeão da pátria 
Que a pátria vinga ao imbraçar do escudo, — 
Para applicar um valioso antidoto 

Ás sinistras tenções do anjo das trevas, 
E debellar-lhe os cálculos de sangue ? 

— Nem um si quer ! — os claustros estam quedos, 
Como os sepulchros negros, que os povoam, 
Como as columnas alvas, que os sustentam, 

— E nem um estalar de orgam saudoso 
Na terra um hymno a Jehovah disfere. 



EUes, depois — os cenobitas pios — 

Também nas azas de orações devotas 

Baixavam á rudeza d'estas claustras, 

E um responso feral e diffundido. 

Qual expansivo rescender de rosas, 

Cahia sobre a campa dos finados, 

E do peccado lhes roubava í pena. 

Entam — óleo de uncção — a reza sancta, 

Em lábios puros, — quaes candentes brazas, — 

Fervendo, — deslizava internecida. 

Hoje, que resta ao fervor antigo? 

— Pallidas preces, a desleixo, e mornas. 

Bem como a voz do indifferente hypocrita, 

Calam na lage, e ficam sepultadas. 



80 



111 



Modesto velho de mais longes eras, 

— Modesto como os olhos da donzella, — 
Assentado ao luar a sós com migo 

Nos degraus do vestíbulo da egreja, 
Fazendo prantos, me contou que houvera 
Arvorado acolá juncto do alpendre 
O dorido supplicio do Deus-Homem. 
Os monges co'os devotos, — co'as velhinhas, 
E as trementes velhinhas conduzindo 
Pela mão os nettinhos innocentes, 
— Vinham beijar-lhe o pé, todos os dias, 
Recitar-lhe uma antiphona eloquente, 
A qual, a humanas ouças passageira. 
Vistosa, aos anjos e formosa ao Eterno, 
Lá no tope da cruz resplandecia, 

— Como cheiroso e lindo ramalhete 
De mil corymbos de distinctas flores 
Tecido pelas mãos alfeninadas 

Das meninas donosas da campina. 
Hoje — que é d'ella — a cruz? — era um escândalo. 
Era, — inda mais, — um fanatismo estúpido. 
Era vergonha aos sábios d'este século, 

— E foi calcada aos pés, lançada ao fogo ! 



81 



O velho viu ainda a cruz do alpendre, 
-^ Teve esse gozo : — inda abraçou-lhe as travas. 
E quando os maus e os impios, quaes possessos. 
Entre sanha e blasphemia a espedaçavam, 

— EUe os olhou choroso e compassivo. 
E alçando aos montes os quebrados olhos 
Pediu a Deus inspiração, — incerto 

No que faria entam. E após um breve 
Fitar nos céus e meditar comsigo. 
Perdão balbuciou sobre os sacrílegos, 
E quedo foi dormir na crença^sua. 
EUe escutou também, uns dias antes, 

— Qual voz do Eterno insurdecendo as vagas, 
O psalmear dos monges alta noute, 

Que lhe accordou do somno, que dormia, 

— Desceu do leito e foi resar nas contas. 
Cuidoso alevantou-se ao romper d'alva, 

No solitário templo entrou, — benzendo-se, — 
Incostou-se ao festão de uma columna 
Co'os olhos no portão da sacristia. 
Esperava que a mão e a voz do preste, 

— Bem como uncção divina derramada 
Na cabeça do rei pelo propheta, — 

Por entre o incenso da oblação mais sancta 
Lhe abençoasse a incanecida fronte. 
Esperou, esperou. Não mais os monges 
Ouviu descer a liza escadaria, 
Nem subir os degraus das aras sanctas. 
Qual vaporosa nuvem no horisonte 

6 



82 



Pela sanha dos nortes impellída, 

— Desappareceram n'um relance. — É morto 
Nos claustros o pudor, no templo o canto. 

E o bom do velho sossobrado e timido, 

— Como si a vista e o sizo lhe torvasse 
O súbito clarão de um raio ao perto, 
Tomou aos lares, — foi narral-o á esposa, 
E pelos olhos deslizando o pranto 

Às faces lhe encheu, — como o oceiano I . 

E os monges — Onde iriam? — Os que unidos. 
Gomo nos céus os anjos entre os anjos, 
Na paz das cellas, na soidão dos claustros, 
Nao sabiam viver, si não comsigo, 
— Ódio dos povos em paizes bárbaros, 
Escameo das nações,— hoje divagam 
A vastidão do mundo — e seus errores. 

E vós que do solar bemquisto d'elles 

Os expellistes, — lhes tolhendo a pátria, 

E nella o respardar a muda crença, 

E o socégo da vida e os pães e amigos, 

— Vencestes. — Triumphae, entes descridos 1 

Esse monstro do inferno — esse homicida 

Ri-se co'o sangue da immolada victima. 

Vossa victoria é tal : — folgae com ella. 

Folgae em quanto é tempo, — em quanto a morte 

Os vermes seus não ceva á custa vossa : 

Em quanto os anjos de Lusbel treitentos ^ 



83 



Nao vos arrojam de uma vez p'ra sempre 
Ás etemaes, exteriores chammas ; 
Onde nao ha mais luz que o cabos das trevas, 
Onde não ha mais paz que o desespero, 
Onde não ha mais couto que a geenna. 
Onde não ha mais redem^ção que o inferno ! 



IV 



Feliz e vezes mil feliz aquelle, 

Que nos braços de irmãos, nos osc'los d'elles 

Deu aqui seu arranco derradeiro I 

Que em mortuária procissão solemne 

Desceu de lá da pequenina cella, 

E veiu aqui jazer entre os finados 

Sob a campa deserta ha tanto século t 

E, ao romper — d'alva uma oração formosa 

Cabia, — como o gottéjar do orvalho, — 

Na lage, — e vinha lhe ameigar as penas. 

E os filhos dos altares, desbordados. 

Hoje depararão um só no mundo. 

Que a secca pedra do sepulchro ignoto 

Vá borrifar co'a lagrima da prece ? 

Meu Deus ! — não ha si quer uma alma pia I 

Philosophos — christãos, si o bem fizeram, 

Não antolhavam recompensa d'elle. 



• • 



84 



O premio e a c'roa e a gloria a seus marlyríos 
Deus lh'os guarda nos céus, entre os archanjos. 

Já lá passaram as virtudes d'elles, 
Como chuveiro de ouro em dia breve. 
Porém as vastas columnatas gothicas 
D'esse edifício gigantesco e excelso 
Subejarão para attestar ás eras. 
Com brado eterno, — os benefícios d'elles. 

Nossos pios avós chamando os nettos 
Ao adro do cazal, — e os reclinando 
Por sobre a grama, no luar de prata, 
E em torno as nettas dedilhando os bilros 
Nas almofadas, — ou gyrando o fuso. 
Entre longo serão, — lhes vam contando 
As lendas, que da bocca auctorisada 
Dos pães beberam : — recitando a historia 
D'esses heróicos martyres da crença. 
Que os velhos guardam a-la-par da vida, 

— Como na mente casta a virgem ama 
O fagueiro sonhar do amor primeiro. 

— Assim dos justos a memoria vive 
No recordar das gerações passadas, 
Como o nauta conserva o ensejo augusto 
Da salvação nas vascas do naufrágio. 



85 



Quando este sedo de egoísmo e vidos. 
Entre o rugido e o horror do passamento 
Derradeiro, anciar, — bem como o dia 
Cede, morrendo, ao tremulo crepúsculo, 
E o crepúsculo á noute, — então que herança 
Que legará nas vésperas da morte 
Aos filhos seus,— aos séculos por vir? 
E qual será seu testamento ? Oh ! esse, 
— Obra de sangue e parto dos infernos, — 
Ha de sellal-o o anjo dos terrores I 
E só três nomes conterá : — três nomes 
Que ham de no mundo reboar maldictos. 
Como o trovão arrebentando os poios. 
Em férreas lettras ham de ler-lhe os filhos : 

FATUmADE E SACtVILEGIO E SANGUE ! 

Os nettos do futuro, — os nossos nettos 
Ham de amaldiçoar com mão de fogo 
Aos livres do presente, — e ao património 
De infâmia, que os avós lhes assignámos. 



Kl 



Eu, entretanto, — o bardo, que não vivo. 
Mas duro apenas n'essa férrea edade. 



8fi 



 qual minha nSo i\ — como do nauta 

Não sam as vagas, que singrando trilha, — J 

N'essa edade vilan, — pela qual passo, • ' 

Como a fumaça que o galerno extingue. 

Eu me consolo. — Do cantor mesquinho, 

Q'aos homens não, — a Deus ergue seus hymnos, 

— Na bastecida turma dos poetas. 
Que os thronos, os saraus, o amor celebram. 
Qual o pranto se esquece entre delicias, 

— Assim d'elle também, — vate dos luctos. 
Ha de memoria se perder. — Ao menos 
Que ninguém saiba a invilecida pátria. 
Que o abortou, para que visse acinte 
Sua miséria e dó : — torrão estéril. 
Onde immurchece o innocente e o justo, 
Como a roseira em tremedal plantada, 
E o mau e o impio a florescer nas hasteas. 
Como o cedro alteando o cimo às nuvens. 
Que ninguém saiba o século maldicto, 
Que o viu — nas urzes, pullular da túnica. 
Que o viu — nas urzes, vegetar do tronco. 
Que o viu — nas urzes, definhar das ramas. 
Eil-o final thesouro de ventura. 
Que a par da salvação — anciã o bardo, 

— Misérrimo I — que já não mais amima 
Na terra um sonho de bonança e gloria : 
A quem os lábios rubros da esperança 
Não mais surriem seu surrir de graças. 

Não : ~ que lhe sobra uma esperança : — o tumulo I 



87 



— Símilhante á bonina das campinas. 
Que, abrindo o cálix, entre nova e murcha. 
Saúda a tarde e prophetiza a noute, 
E a morte sua ao avançar do dia. 
Eil-a a flor derradeira de ventura. 
Que produz, moribunda, a débil arvore 
Dos inlêvos do bardo, — melancholica. 
Como o silencio e a negridão dos claustros. 



Yll 



Ai — claustros, claustros f — si fallar podesseis 

Aos séculos por vir — que testimunho. 

Que não daríeis, das virtudes altas 

D'esses heroes, que um dia vos alçaram ! 

Materiaes de pedernal, — sois mudos ! 

Não podeis levantar um brado ingente 

Para fazer ^uvir ao mundo inteiro 

A defensa de vossos fundadores 

Calumniados, pobres e proscriptos ! 

Sim : foram maus : — muito de mais amaram, 

Com puro amor, — religião e pátria. 

Sim : foram maus : — obedeceram, livres. 

No mundo a Deus, — na pátria a seu monarcha. 

Sem rojarem-se ás plantas inlodadas 

De usurpadores, nem vilões tyrannos. 

Sim : foram maus : — comprehenderam, sábios, 



88 



O espirito sublime do evangelho, 

— Da magestade d'essa crença nova, 

A qual, — na voz e nas acções doVerbo 
Co'a regeneração,— nos deu profusa 

— Dons nao gostados pelo velho mundo, 

— A liberdade coio saber gozal-a, 

E a charidade e o egtíolar os homem. 



m 



Oh perseguidos martyres da crença 

De nossos pães I — eu, pequenino bardo, 

Sentei-me ao pés do- túmulos dos vossos. 

Arredio dos vivos, e cortado 

Yos mando meu saudar por entre angustias I 



IX 



E vós outros, oh sábios doeste século. 
Talvez agora, — entre o dormir torvado,- 
Sonhais na perdição dos servos crentes, 
Dos servos do Senhor, que restam inda. 
Adejando co'as asas estanhadas 
Por sobre o leito commodo e felpudo 
Os inviados de Lusbel vos pintam, 



89 



— Como n'um quadro enérgico e fallante 
Da ceifadora guerra e seus horrores, — 
Vários desenhos de maldade varia 
Contra a mal firme fé da Cruz divina. 



Sim : — quereis reformar, oh philantropos, 
A natureza e a indole dos homens, 
E o sentimento innato e a fé co'a crença, 
— Que em vosso vago e túmido vasconço 
Nomeais — ignorância e prejuízo. — 
Reformae, reformae : — mas os phenomenos 
Das mãos do Eterno penderão, quaes d'antes. 
No aceno d'Elle as leis da natureza 
Se librarão, — como nos dedos dextros 
Do menestrel as notas do psalterion. 
E surdo a vosso mando presumpçoso 
O trovão rugirá — tremendo os impios. 
O raio baixará queimando o ether, 
Por sobre o ovante vértice do hypocrita. 
Ao prasme do que rege os céus e a terra. 
E como Deus os quiz na mente excelsa, 
Taes os homens serão, — até que um dia 
Na voz dos cherubins disser — não quero I — 
Para levar ao cabo a vossa impreza, 
Tornal-a digna do pensar de um sábio. 



9Í) 



É preciso sustar as leis constantes. 

Que o mundo em seu volver resguarda inteiras. 

Como o pobre christSo na mente adora 

Do bemfeitor, que o arrancou do abysmo, 

A voz e o rizo e o apertar da dextra. 

Quando, modesto, lhe fugiu dos olhos 

— Anjo de luz entre o terror das trevas. 
Mau grado vosso, — a omnipotência d'Elle 
Será provada na impotência vossa, 
Como entre os dedos de affanoso artifice 
No crysol, que não mente, o ouro impuro. 
Mudae,,— si podeis tanto, — a natureza, 
Arrematae perfeita a obra vossa, 
Arrebatae das mSos de Deus o sceptro, 

— E cantareis victoria, — oh philantropos 1 



XI 



Talvez eu tenha de sobrar ainda • 
Para ver o remate iniquo e torpe 
Dos planos sestros que machina o impío. 
Vel-o-ei arrojar-se, blasphemando. 
Como as hostes na sanha da mattança. 
Ás clausuras da paz do eremitério, 
— Sello da contricção dos meus e minha : 
Entrar, fulo de raiva, o sacro templo. 
Qual suberbo invasor de alheios muros, — 



91 



Combalir, derribar a cruz das aras, 

— Penhor, que herdámos de mais longes eras, 
Da fé de nossos simplices maiores, 

— Testamento da crença assignalado 
Co'o sangue d'elles, em cachões jorrado, 
Como precipitosa catadupa, 

Cryslaes golfando, — vastas chans alaga! 



XII 



Oh ! — si rolar por terra a cruz do claustro. 
Expire o bardo seu nos braços d'ella ! 
Mas ai de vós, — varões da nova edade. 
Mais sábios do que Deus, mais fortes que elle I 
Tramae, tramae co'a fúria dos demónios, 
Tramae contra o Senhor e os crentes n'elle ; 
Balda loucura ; — a cruz espesinhada 
Ha de erguer-se maior n'outro calvário ! 

1851. 



••*«- 



SOROR-ANGELA 



(ERâ de 1823) 



Canção dedieada ás virgens da Soledade 



Com fervor os guerreiros yictoríosos 
As de primor sabido, ufanos colhem, 
Capellas ImmurxaTeis, em que noutes 
Lidaste; e inteiro um dia, Angela egreja. 

Pabaguassú. 



Foi Deus — e não outrem — que os braços dos nossos 
Regeu no conflicto, — regeu na victoria. 
Foi Deus — e n3o outrem I bendicto o seu nome, 
Que aos nossos deu honra, deu fama, deu gloria 1 

Capellas formemos das vestes das aves, 
Das pennas das lindas araras rubentes. 
Capellas formemos p'ra as frentes sublimes 
Dos nossos guerreiros, dos nossos valentes. 

E os nossos valentes por Deus, — pela pátria 
Façanhas obraram de eterna memoria. 
Foi Deus que inspirou-as : — bendicto o seu nome. 
Que aos nossos deu honra, deu fama deu gloria ! 



93 



Gapellas formemos das folhas da pátria^ . 
Das folhas virentes do quente café... 

— Que caixos tam rubros, que flores tam alvas. 
Que as virgens coUieram-lhe agora de pé I 

Irmans, trabalhemos, concordes e sempre 
Durante esta vida ficticia, — illusoria. 
Deus ama. Deus manda. Deus benze o trabalho. 
Deus paga o trabalho co'os prémios da gloria. 

Os jovens guerreiros entrando em triumphó 
As testas adornem co'as nossas capellas. 
As nossas capellas sam verdes, bem verdes, 
Sam feitas por dedos de castas donzellas. 

Os jovens guerreiros que venham cingidos 
Das folhas da pátria, — da pátria vangloria. 

— Que venham ao templo do Deus infinito. 
Que deu-lhes triumphos e cantos de gloria. 

Ao templo, oh guerreiros I — ao templo do Eterno, 
Que aos povos oppressos liberta n'um dia ! 
Joelhos em terra ! — que vam nossas vozes 
Unir-se co'as vossas em doce harmonia ! 

Louvores Áquelle que humilha os senhores. 
Que os servos humildes levanta da escoria : 
Que os sceptros arranca de altivos monarchas. 
Que ao povo escolhido deu honra, deu gloria ! 



94 



O Deus das batalhas nos dias antigos 
Viu servos seus filhos, — e servos de extranhos: 
Viu servos seus filhos, — olhou -seu opprobrio, 
Olhou-os carpindo seus inales tamanhos. 

E o Deus das batalhas fechou seus imigos 
Em urna insondável, marítima, equorea I 

— Louvores, guerreiros ! ao Deus das batalhas, 
Que deu-vos triumphos e cantos de gloria I 

— Assim nós diremos aos nossos guerreiros. 
Quando elles entrarem nos templos sagrados. 
Hosanna, oh donzellas I — o Christo remiu-nos : 
Não mais nossos templos serão profanados I 

 face medonha dos bárbaros crimes 
Não mais será vista na brázila historia. 
Os crimes fugiram co'os homens da guerra, 
Na pátria ficou-nos o sceptro da gloria. 

Por arcos de folhas e flores da pátria 
Os nossos guerreiros terão de passar. 
E nós, das janellas mais altas do coro. 
Mais flores havemos sôbr'elles jogar. 

Não somos romanos : — tropheus não erguemos. 
Nem louros, nem pompas de fútil vangloria : 
Só folhas da pátria — cafés e pitangas — 
Taes sam nossos arcos, — lai é nossa glória ! 



I 



05 



A pátria saudemos 1 — e o nome de pátria 
Juntemos, guerreiros, ao nome de Deus. 
Não sentem, não sabem, não dizem tal nome 
Os Ímpios somente, — somente os atheus! 

Irmans, trabalhemos : — formemos capellas 

P'ra as testas dos filhos da nobre victoria. 

— Também seus triumphos, seus cantos sam nossos. 

Também nos pertence metade da gloria t 



-4oe-^ 



A FREIRA 



Crescei e multiplicae-vos. 
Palavra de Deus. 



Eu joven freira, bem triste choro 
Aqui cozida co'a cruz de Deus. 
Aqui sosinha, ninguém não sabe 
Dos meus desejos, dos males meus. 

Qual no deserto se praz a rola, 
Cuidam que a freira seja feliz. 
E a pobre freira, dentro da cella, 
Ninguém nao sabe que se maldiz. 

Em quanto a vida não se desdobra, 
E apenas rompe, róseo botão, 
A freira insonte pratêa de astros, 
Povoa de anjos sua soidão. 



97 



Uma palavra que ella profere 
É sempre um ente que ella creou. 
Uma florzinha que colhe acaso 
É uma amiga que ella incontrou. 

Conversa á nouto co'a estrella vésper, 
Âma o opaco de seu clarão. 
E sente chammas que julga dores, 
E o peito aperta co'a nivea mão. 

Ella não sabe que a estrella vésper 
Influe nas almas lascivo ardor : 
Que, não sem causa, no tempo antigo, 
A estrella vésper chamou-se — Amor. 

A estrella vésper produz nas virgens 
Extranho incêndio, volcão fatal : 
Quer seja freira — do Christo filha, 
Quer seja antiga pagan vestal. 

A estrella vésper... Fugi, meninas. 
Fugi dos raios do seu candor. 
A estrella vésper influe volúpia, 
A estrella vésper chama-se — Amor. 

E a casta freira, co'a mão na face, 
Por longas horas demora alli. 
E os tredos raios da estrella vésper 
Ella innocente recebe em si. 



é 



98 



E quando o sino tocou matinas, 
EUa tremeu de seu fragor: 
E a pobre moça — da vez primeira — 
Das rezas quasi sentia horror. 

E os olhos d^ella ficaram meigos. 
Como quem sofifre doce pezar. 
N3o mais pulavam, delphins nas ondas, 
E mal podiam brando oscillar. 

E os lábios d'ella — cravina ha pouco — 
Não mais vestiam carminea côr. 
E só nas faces lhe assomam rosas, 
Mas não são rosas de almo pudor. 

Entam a freira em vão se abraça. 
Em vão se coze co'a cruz de Deus. 
Entam a freira procura em tudo 
A causa, o allivio dos males seus. 

Mas ella o sabe. Não é o Ghristo 
De que ella espera algum signal. 
O Christo deu-nos remido o mundo : 
E o bem que ha n'elle supera o mal. 

O mundo, o mundo... eu freira afflicta. 
Eu vejo o mundo... como é gentil ! 
Ah I eu preciso d'essa palavra 
Que arrasta os homens aos mil e aos mil ! 



99 



Palavra immensa, dívÍDa e sancta^ 
Que inspira aos homens tanto labor ! 
Palavra fértil, fecunda e grande, 
Mysterio, influxo, talvez, de amor ! 

Porém as velhas, que me aconselham, 

E que se dizem cheias de Deus, 

Clamam — não cessam — clamam que o mundo 

É todo feito de vãos atheus. 

Mas ah ! quem sente chammas no peito 
Por uma bella palavra só : 
Quem á porfia corre por ella, 
Rompendo globos de grosso pó : 

Quem* verte prantos na mão do pobre. 
Que a Deus e á sorte reproches dá : 
Quem trava o braço d'outrem, que passa, 
Temendo o abysmo, que vê mais lá : 

Quem toma ao seio mulher, que firme 
No seio d'elle deixa o pudor : 
Quem entre beijos lhe ensina aos lábios 
Caudaes palavras de áureo licor : 

Ah ! não, não pôde — como ellas dizem — 
Ser insensível, ser vão atheu. 
O atheu não sente, não verte prantos. 
O amor não entra no peito seu. 



100 

o mundo, o mundo... eu freira afflicta, 
Eu vejo o mundo... como é gentil I 
N5o, Tão lhe inxergo aberto o abysmo. 
Tu mentes, mentes, alma senil I 

Sim : velhas sanctas, velhas ufanas. 
Que vos dizeis cheias de Deus, 
N3o ! — este mundo que Deus remiu 
N3o é composto de v3os atheus. 

Ô mundo, o mundo... eu freira afflicta. 
Eu vejo o mundo... como é gentil I 
Mas eu fechada na estéril cella 
Existo preza n'um ócio vil ! 

Aos mornos raios da estrella vésper 
Minha innocencia toda perdi. 
Inteiras noutes de acerba scisma 
Eu, néscia amante, passei alli. 

A estrella vésper tem certos raios 
Que traiçoeiros voltam p'ra lá. 
Fugi, meninas, da estrella vésper, 
Temei dos gostos que ella vos dá. 

Ha certos raios da estrella vésper 
Que sam vampyros de argêntea côr : 
De nossos lábios — com vítreos beijos - 
Extrahem, sugam todo o rubor. 



101 

Aos mornos raios da estrella vésper 
Minha innocencia toda perdi. 
Mas a innocencia, que sai da infância, 
Ai ! não se perde somente alli ! 

A estrella vésper, amphora sôka. 
Bóia de prata em mar de annil. 
Clama incançavel — Amae, donzellas,— 
E as fibras lavra flanmia subtil. 

Entam lá dentro da afflicta virgem 
Salta um desejo, ferve um pesar. 
Tenta um allivio, acha uma angustia, 
Lympha em brazido, volcão no mar. 

Mas a innocencia que a moça immola 
No altar sagrado de um peito egual, 
Matta o desejo, forma o remanso, 
Offerta um gozo sempre real. 

Quando a virginea côr se esvaece, 
Murcho o carmineo, róseo botão, 
A estrella vésper que fez o estrago, 
A estrella vésper não basta não. 

O mundo, o mundo... eu freira afflicta. 
Eu vejo o mundo... como é gentil ! 
Não, não lhe enxergo aberto o abysmo. 
Não lhe deparo volcões aos mil. 



o mando, o mundo... só n^elle eu posso 
Achar a parte a quem faltei. 
Eu devo, eu devo pagar ao homem 
Esse pedaço que lhe arranquei. 

Seu coração — nobre fragmento — 
Sente um vazio, que ha de doer. 
Mesmo sua alma geme incompleta. 
Quasi roubei-lhe todo o seu ser. 

O paranympho — anjo o mais bello, — 
Anjo das núpcias, feito por Deus, 
Por Deus guiado, conduz as virgens 
Para os pedaços que sam mais seus. 

Leva-me oh anjo, — que é tempo : — eu quero 

Achar a parte a quem faltei. 

Eu devo, eu devo pagar ao homem 

Esse pedaço que lhe arranquei. 

Ao mundo, ao mundo... Leva-me, oh anjo. 
Abre estas azas : vou sobre ti. 
Interno impulso me diz, meu anjo, 
Que não vás longe, — que basta alli. 

Minha sanguínea cõr se esvaece, 
Perdi as rosas de almo pudor. 
A estrella vésper — com vitreos beijos — 
Sugou-me aos lábios todo o rubor. 



t03 

Leva-me, oh anjo. Tenho no peito 
Que me trasborda — ? vasta porçSo. 
A estrella vésper que fez-me o estrago, 
Nem cruz, nem claustros, não bastam não. 



•«o*' 



I 



A DEVOTA 



A Bomma perfeição consiste em 
vagar o espirito para Deos. 

S. Thouaz. 



Que rezas, que rezas, — tremendo co'os lábios, 
Co'a baça pupilla nas córneas immota ? 
Battendo nos peitos co'as mãos descarnadas, 
Co'as mãos no rosário, — velhinha devota ? 

Coitada da velha, — que ou sinta pezares, 
Ou sinta dulçores, não sabe chorar ! 
Que o sorvo da vida, de acéticos travos, 
O pranto nos olhos lh'o poude estancar I 

Agora só reza nas contas bemdictas. 

Só reza contricta, — que pode mais ai ? 

Que o tempo, que as rugas, que os annos que foram, 

Contínuo lhe faliam da lousa final. 

Que a vida, que vivem os homens na terra, 
É sonho, que a infância sonhou, a scismar. 
Feliz quem mais soube dormir este somno, 
Quem soube este sonho mais longo sonhar ! 



105 

Âi — quem me poderá sondar os arcanos 
Do peito da velha ! — Que rica seara, 
Que messe tam vasta de tanta verdade. 
Que o joven não sega, não rega, não ara ! 

Qual võo do tempo nas asas das eras, 
Tal é da sciencia do velho o condão : 
Que quantos mais dias de vida lhe excorrem. 
Mais largas verdades crescendo lhe vam. 

Velhinha, — é tam noute! — no chão do cruzeiro 
Que rezas, — sustendo dos nortes o açoute? 
Oh — não te arrecêas das ruas desertas, 
Oh — não te amedrentam as larvas da noute ? 

Não sentes, devota, — press3es nem arfagens, 
Quaes vagas dos mares, — no peito torpente? 
O mau sobrecenho da morta velhice 
Torrou-te os sentidos d'esta alma fervente ? 

Oh — sim : — como a estrada que os sec'los trilharam. 
Está callejado teu bom coração : 
E das penedias na silice alpestre 
Tornou-se-te a tua senil sensação. 

Que braço tam forte de ferro abysmou-te 
Das penas no fogo, — dos males no fundo? 
Quem n'esta tristura, — volcão que devora, — 
Quem n'esta tristura lançou-te ? — este mundo t 



106 



Por isso ao cruzeiro levantas os olhos, 
CQ'a baça pupilla nas córneas immota : 
Por isso acarinhas um só pensamento» 
— A imagem do Eterno, — velhinha devotai 

A imagem do Eterno, — qual canno brazido. 
Qual tocha das aras, — te brilha no aspeito. 
A imagem do Eterno, — que o mundo repelle. 
Adoras, — qual mimo de amores, no peito. 

E o ch3o do cruzeiro co'os nortes, que zunem. 
Soprando os cabellos da velha tremente : 
E a noute co'as larvas medonhas, — tam feias, 
E o ether cerrado de névoa somente : 

E as aves nocturnas co'os cantos de agouro. 
Nos vãos do cruzeiro, — nos seus coruchéus : 
Lhe faliam de um Ente, — que os homens esquecem, 
Lhe faliam na terra de um Dens que ha nos ceust 

Oh — beija fervente mil vezes, velhinha. 
Sim, — beija os emblemas de teu relicário. 
Recita, — tremendo, recita essas rezas. 
Correndo nos dedos o grosso rosário. 

E vós — oh donzellas gabadas de lindas. 
Que tanto vos rides da velha — coitada ? 
Deixae-a que suas camaldulas gyre, 
No frio ladrilho da cruz assentada. 



107 



É calvo o cruzeiro, — tam alto, tam alvo, 

w 

Qual de caramelos lucente alcantil : 
Ê como um espectro : fugi oh donzellas, 
Do espectro, que topa co'o arco de aimil 1 

E todo este quadro de horrenda poesia. 
De assombros, — nSo trava de seu coração. 
Sua alma nSo teme phantasticos trasgos, 
Sustida nas asas de linda oração. 

É seu gozo todo : — prostrar-se nas lages, 
Nas lages marmóreas d'aquelle calvário : 
Liberta das vistas viperias do mundo 
Rezar mais devota no bento rozario. 

Um dia, — era joven, mimosa dos homens, — 
Os homens lhe deram um throno real. 
Mas hoje, — velhinha, — co'os pés do cruzeiro 
Se abraça contricta, — que pode mais ai ? 



-40«* 



FREI BASTOS 



Anjo de luz, porque te despenhaste 
no inferno? — A historia escrevia o teu 
nome na pagina das hençaos: tu mes- 
mo o riscaste, e o foste escrever na pa- 
gina das maldições. 

Alexandre Hebculano. 



Porque te affogas, Bossuet brazileo. 
No immundo pego da lascivia impura ? 
Porque teus louros triumphaes nodôas 
Co'as roxas fezes do azedado vinho ? 
Porque contínuo tua gloria assopras 
Nos leves bafos do charuto ardendo ? 
Porque te affogas, Bossuet brazileo, 
No immundo pego da lascivia impura ? 

Desces do altar á crápula homicida. 
Sobes da crápula aos fulmineos púlpitos, 
Alli teu brado lizonjêa os vicios. 
Aqui alrôa, apavorando os crimes. 
E os lábios rubros dos femineos beijos 
Desparam raios que as paixões atterram. 
Porque te affogas, Bossuet brazileo. 
No immundo pego da lascivia impura ? 



J09 

No alcouce infame que assassina o génio 
Âs horas passas que a sciencia chora. 
No fofo leito que os instantes mancham 
Os céus insultas co'o burel que extendes. 
Nos torpes versos que o prazer te inspira 
O inferno evocas, — e os demónios brincam, 
Porque te aifogas, Bossuet brazileo. 
No immundo pego da lascivia impura ? 



Para as canções que celebraram Milton 
Deu-te o Senhor poética ardentia. 
Para esses dons que Bossuet vestiram 
Deu-te o Senhor o fulmen da eloquência. 
Duas coroas te intrançava a gloria : 
Duas coroas desmanchou teu génio. 
Porque te affogas, Bossuet brazileo, 
No immundo pego da lascivia impura? 



Lá sobre os astros Bossuet te amava, 
Ao escutar-te os estasis primeiros. 
Tirava o resplendor da argêntea fronte, 
D'onde a Turenne a convicção partira. 
Ia c'roar a testa egual á d'elle, 
Que p novo mundo produzia quasi. 
Porque te affogas, Bossuet brazileo. 
No immundo pego da lascivia impura ? 



o cego de Âlbion também te olhava 
Co'os novos olhos que no ceu lhe deram. 
Elle esperava — e os seraphins com elle — 
Um Paraízo ÍDCOgníto, mais bello. • 
Depois, te achando sepultado em lama, 
A Lamartíne reservou seus louros. 
Porque te affogas, Bossuet brazileo, 
No immundo pego da lascívia impura ? 

Ah t Bossuet sobre as estrellas pára. 
Quanto é dif&cil a subida aos montes ! 
Voltaire abriu um boqueirão na terra. 
Oh I como é fácil o pendor do abysmo ! 
Mas tu subiste a Bossuet a um tempo, 
E ao mesmo tempo té Voltaire descias. 
Porque te affogas, Bossuet brazileo, 
No immundo pego da lascívia impura ? 

Salve, poeta, que teus vícios cantas, 
Que a noute e a plebe e a crápula desejam ! 
Salve, orador, que os púlpitos respeitam, 
Que anathemas irónicos desferes I 
Mescla atrevida de sublime e baixo, 
Bossuet com Voltaire, três vezes salve ! 
Salve por mim, — oh malfadado génio. 
Onde as cidades nem os claustros cabem t 
Tu, poeta, orador, — porque te affogas 
No inunundo pego da lascívia impura? 



v 



j 



o RENEGADO 



Canção do |udea 



I 



Vae, Ímpio bastardo, 
Vae, monstro sem crença ! 
É vasta, é immensa 
A estrada que vês. 
Pendida se inclina 
Por lúbrica esteira. 
Suave ladeira 
PVa as chammas, talvez. 

Teu pae te renega 
Na voz do propheta 
Co'a bocca repleta 
De atroz maldição. 
Guberto de cinza, 
Co'o sacco vestido, 
Com pranto dorido 
Se prostra no chão. 



112 

 mae, que te amava 
Com tanta ardentia, 
Maldiz de tea dia 
Co'os carmes de Job. 
Hebréa formosa. 
De rosto ingraçado, 
Por ti, malfadado. 
Se cobre de dó. 

Com penna de ferro 
Teu nome riscado 
Do livro segrado, 
Da lei de Moysés ! 
Teu nome famoso, 
Das tribus querido, 
Agora exprimido 
Debaixo dos pés ! 

Oh tu, desgraçado, 
Mesquinho perjuro, 
Que abraças impuro 
Uns erros fataes 1 
Que insino a teus filhos, 
Que exemplo que legas ! 
Na lei que renegas. 
Renegas teus pães ! 



113 



II 



, Talvez mais que os nossos, 
Irás vagabundo 
De rastros no mundo 
Sem termo, sem fim ! 
Nas selvas, nas cortes 
Os homens com gosto 
Lerão em teu rosto 
Signal de Caim. 

Na jura que quebras. 
No crime que attentas, 
Excitas, augmentas 
Dos nossos a dor. 
Pízando nas tábuas. 
Que foram-te intregues, 
Aflfrontas, persegues 
Ao mesmo Senhor. 



m 



Outr'ora no Egypto 
Nascemos escravos, 

8 



Valentes e bravos, 
SofFrendo sem dó. 
GoDteDtes nos tractos, 
Vivendo na penúria. 
Cuspimos na fúria 
Do mau Pharaó. 

Depois nos erguemos 
No meio da praça, 
Em rude ameaça 
Battendo co'os pés. 
E o rei por dez vezes 
Tremeu contemplando 
Um Deus pelejando 
Na m3o de Moysés. 

Depois nossos crimes, 
Qual chuva de settas. 
Mau grado aos prophetas, 
Encheram o ar. 
Castigo do Eterno, 
Sentimos na frente 
O alfange furente 
De Sahnanazar. 

E o campo três vezes - 
Vestiu-se de ossadas, 
Ao longo espalhadas 
Por Nabuzardan. 



145 

E, farto de crimes, 
Tornou-se demónio 
O rei babylonio, 
Progénie de Can. 

Soífrendo, esperamos. 
Dos tempos no gyro, 
O nome de Cyro, 
Surrizo de Deus. 
Previsto, anciado 
Na voz do vidente. 
Chegou de repente. 
Livrando os hebreus. 

Ao jugo dos gregos 
Gurvando-nos quasi, 
Beijámos a baze 
Do Ídolo Ammon. 
Depois adorámos 
Co'um medo. mais feio 
O monstro que veiu 
De lá de Ascalon. 

Não basta, não farta 
Ao ceu irritado 
O sangue espalhado 
Dos bons Macchabeus. 
Não basta que Tito, 
Que Roma viessem, 



nc 

Que até desfizessem 
O templo de Deus. 

Errantes, dispersos, 
— Castigo que pasma ! - 
Andámos phantasma 
Por toda a nação. 
Ha mais de mil annos 
Soffremos calados 
Por crimes passados 
De abominação. 

E vamos correndo, 
Correndo na terra 
De incontro co'a guerra 
Terrível, cruel. 
E vamos correndo. 
Nós povo escolhido, 
Nós povo querido 
Do Deus de Israel. 

Ah 1 foram mui grandes 
Os erros passados. 
Os altos peccados 
Do povo immortal ! 
A voz dos prophetas 
Perpetua se cala : 
Nao clama, não falia 
Nem mesmo de mal. 



117 

Do vate dos threnos, 
Do filho de Helcia 
A crua elegia 
Faria-nos bem. 
Choráramos junctos 
Com saDCta saudade 
A vidua cidade 
De Jerusalém. 

Mas sempre nas eras 
Paternas que lemos, 
Luctámos, vencemos 
As perseguições. 
Talvez que bem cedo 
Tenhamos completas 
Dos nossos prophetas 
As auceas vizões. 

E agora no mundo, 
De ha tanto previsto, 
Assome esse Christo, 
Messias real. 
E ajuncte n'um ponto 
Com phrases de brazas 
Debaixo das azas 
O povo immortal. 

E venha c'um sceptro 
Mais bello, mais novo 



118 

Tirar o seu povo 
Do abysmo de dó. 
£ cumpra-se á letlra 
O carme jucundo. 
Que, já moribundo. 
Nos disse Jacob. 



lY 



E agora meu filho. 
Nas tábuas cuspindo. 
Nos deixa, surrindo, 
— Meu filho I que dor ! 
E vae tresloucado 
Seguindo, adorando 
Um Ídolo infando, 
Um Christo impostor. 

Escuta, meu filho, 
O brado materno, 
E ao rosto paterno. 
Vem, tira-lhe o -dó. 
Si o Christo que abraças 
Não fora loucura,. 
Seria impostura 
A voz de Jacob. 



119 

O Christo que abraças, 
Os erros que arrogas. 
Por mil synagogas 
Damuados estam. 
Ha mais de mil annos 
Que sam reprovados 
Por sábios sagrados 
Da crença de Abram. 

Têem sido julgados 
Por sanctos doctores. 
Profundos leitores 
Da lei de Moysés. 
E os nossos rabbinos, 
Co'a raiva do velho, 
O falso evangelho 
Pizaram aos pés. 

Escuta, meu filho, 
O brado materno, 
E ao rosto paterno. 
Vem, tira-lhe o dó. 
O Christo dos nossos 
Não vem perseguir-nos. 
Vem antes unir-nos 
N'um povo, n'um só. 

Ah t voha, meu filho, 
Á mãe que te chora. 



120 

Ao pae que te adora, 
Qae geme por ti. 
Âh f entra de novo 
No nosso conjuncto, 
E canta componcto 
Os ais de David. 



Mas ah t renegado. 
Bastardo, descrente. 
Mais Ímpio que a mente 
Do Ímpio Caim I 
Riscou-se, apagou-se 
Teu nome execrado 
Em pleno, sagrado, 
Geral Synhedrim. 

Ah ! réprobo infame, 
Nem mesmo compuncto. 
No nosso conjuncto 
Nao podes entrar I 
Ja leio em teu rosto 
O estigma candente. 
Que te ha de na frente 
Perpetuo ficar. 



121 > 

Nem pátria conservas. 

Nem nome paterno, 

E o povo do Eterno 

Teu povo nao é. 

Vae, Ímpio 1 — e que, ao ires. 

Em meio á viagem. 

Te ingula a voragem 

Que abriu-se a Core. 



•*c^• 



o MONGE 



(SÉCULO XIX) 



I 



De embate aos sinos, pelos vãos da torre, 
Nocturnas aves correm. Surdo dobro 
Era quasi seu choque incerto e vago 
Nos ocos bronzes. A soidSo profunda 
Âugmentava o pavor, crescendo a noute. 
Alli a mente, em extasis prendida. 
Prolongava estes sons, pensando n'eUes. 

Ninguém vivia : a profundez do somno 
Tinha co'os mortos irmanado os vivos. 

Eu te saúdo, viração da noute, 

Frescor suave e triste t As tuas pennas 

Sam duras settas de gelado ferro, 

Que, os cabellos riçando, entra por elies, 

E nullifica o cérebro, passando, 

E vai ao coração que pensa angustias. 

Fácil não toca a neve aqui no peito. 

Não toca ? — Sim : mas não inrija as fibras. 

Mas não extingue o sentimento nunca. 



123 

Vem recolher-se aqui, fugindo ao gelo, 
Inteiro, inteiro o espirito, — der fraco. 
Eu te saúdo, viraç3o da noute 1 
Que som me trazes de pesados passos. 
Quebrando esta soidSo I N'estas deshoras 
Podem viver somente o louco e o vate. 

Não t nem um d'elles. Viração da noute, 
Transporta-me seu nome. O louco e o vate 
Não amam sós as trevas e o silencio. 
Também o desgraçado estima a noute. 



H 



Bella aragem da noute t uns lábios de anjos 
Não é que te respiram ? Teus anhelos 
Não sam de um génio bom que Deus nos manda ? 
O teu sereno arfar alembra aos homens 
Quasi um gozo do ceu. Lá n'outras eras 
Algum sentiu-te assim, desfez-se em lagrimas. 
Pensou poeta e plácido em teu seio. 
Sobre teu dorso esperdiçou seus males, 
Consolou-se talvez, — e crente e altivo 
Chamou-te quasi um Deus. — Mentiu-te ao todo ? 
D'onde o consolo que nas asas libras 
Tácito e sancto assim, descer-nos pode. 
Si não de la do ceu ? Dentro em mính'alma 



124 

Ea sÍDto, eu siato o impalso dè adorar-te. 
Sé minha musa, oh viração da noute t 

Leva-me, pois, extasiado e livre 

Aos lares do infeliz. Si alguém se queixa, 

Quero co'os d'elle compartir meus males. 



Ill 



Vejo uma cruz : entrelaçado n'ella 
Férreo cilicio com sanguíneas manchas. ' 
O livro do christSo na tosca meza 
Os queixumes de Job mostrava aos olhos. 
Esplendidas de pranto as próprias lettras 
Estavam inda, — e a pagina molhada. 
Das torrentes de dor de alguém que leu-a 
Quasi por si imprecações fallava, 
Quasi bramia, ao ver-se. A luz, tremendo. 
De espaçx) a espaço a crepitar, gemia. 
Como intendendo a voz que enchia oulr'ora 
De maldições, de lagrimas, de preces 
Os campos de Hus. 

Oh plaga que geraste 
Uma alma pura de poeta e de anjo, 
Salve por mim ! Tu pelo Eterno foste 
Abençoada um dia, antes que livre 



125 

 mão de Satanaz te ardesse a terra. 
Segunda vez abençoou-te o Eterno, 
E deste a gramma e o cyparizo e as flores. 
Por mim, solo immortal, trez vezes salve ! 

Talvez pensava assim, cruzando a cella. 
Extasiado um monge. Eu vi seu rosto, 
E li seu coração, seu pensamento. 
Eram-lhe as faces maceradas, lividas 
Co'os livores da dor. Forçados sulcos 
Cavou-lhe fundo o percorrer do pranto. 
Não foi o tempo que incolheu seus vizos. 
De enorme vastidão — dos gregos copia — 
Parecia-lhe o cérebro um gravame. 
Que apenas sustentava. Os cilios grossos 
Dòs olhos o fuzil lhe escureciam. 
Mais do que a nuvem que não cobre o raio. 

E passeava em rápidas pegadas, 

« 

Fallando ás vezes, e parando a instantes. 



IV 



Christo — exclamou — tu padeceste um dia 
Quanto, milhões de séculos vivendo. 
Não podia soffrer somente um homem : 
Porém remiste a humanidade inteira. 



426 

Eu, parte d'ella, sou remido, — e soffro 
Debaixo de teu nome. O meu martjrio, 
Férreo phantasma que pezado marcha 
Go'o vagar do que vai degraus da forca 
Que mãos de infames lá no ceu prenderam, 
É v3o, é v3o. O sangue, que destillo 
Gotta por gotta das rabadas veias, 
Cai inútil no cbao. Regada d'elle 
 linda hervinha, horripilando, expira. 
Eu mesmo, eu vejo arripiar-se a terra. 
Si uma golphada d'este sangue a insoppa. 
Tudo reprova o sacrificio estéril ! 

Deus ! teu filho deixou teu seio eterno 
Para salvar a humanidade, — e eu soffro 
Debaixo de teu nome inúteis penas! 

Déspotas d'alma, déspotas do peito 

Subjeitaram á dor, á raiva, ao crime 

Os simplices do Christo. A natureza. 

Norma por Deus nos corações plantada 

Áquem e alem da vida, em rudos tractos, 

— Não, não ndorreu, — mas transformou-se ao todo. 

Nas praças de Sião, montões de povo 
De vario modo entre clamor seguiam 
O heroe da redempção. Fallando aos homens 
Co'esse estylo aos Demosthenes ignoto 
Pronunciou uma palavra, — e as selvas, 



127 



As solidões, os leoninos antros 

Pareceram gemer co'o pezo de homens. 

As cidades christans» co'a mão na face. 

Com redomas de sangue em tomo aos olhos, 

O flebil grito de Raquel sem filhos 

Levantaram de novo. Orphans mesquinhas 

Aos altos da montanha em âncias sobem. 

Clamam de lá pelo cantor dos thrénos. 

Cançam em breve, — e descançar procuram 

Sobre o tronco do cedro. O espectro negro... 

Seu nome — Assolação — ... co'a immensa mole 

Surgiu de um boqueirão que abriu o inferno. 

Seu coilo reclinou lá no oriente, 

E co'a ponta de um pé bateu no occaso. 

Onde incUnado o sol tremeu três horas. 

E as cidades christans, co'a mão na face, 

Com redomas de sangue em tomo aos olhos. 

Espavoridas, por seus filhos clamam, 

— Clamam, fugindo e lamentando em balde. 

Yoltae, voltae das solidões, das selvas. 
Piedosos christãos. Alguém mentiu-vos, 
Alguém vos disse o que não disse o Chrislo. 
Deus não é mysanthropo : estima a todos. 
Como outr'ora os formou nos campos de Ásia. 

Por seus dedos miríficos formado 
Foi a familia o molde do universo. 
Conselho aos anjos — não liame eterno — 
Foi do Christo a palavra. ímpios devotos, 



i28 



Peíores que os atheus, mancharam tado. 
Té com seu Deus hypocrítas sophismam. 
Deus n3o è misanthropo : estima os homens. 
Gomo outr'ora os formou nos campos de Ásia. 

— N9o sophismámos, nSo. Essa palavra 

Léde-a no livro eterno : intacta existe. 

Ninguém, ninguém poude augmentar-lhe um ápice. 

Sam immutaveis sempre as lettras d'elle. 

Lede outra vez, e meditae mais serio, 

E depois conclui. — 

Sim t que eu conclua 
O opprobrio a vós ou a blasphemia ao Ghristo ! 
Oh ! que infames que sois ! Co'a face em rizos 
Podeis guardar tam atro fel no peito ! 
Quereis a conclusão ? — tomae-a, hypocrilas, 
Tomae-a em mim. 

Não vedes nos meus olhos 
Fervendo a insânia ? e exasperado o monge 
Té ao meio da fronte alçava os cilios. — 
Não vedes manchas de livor de feltro 
No concavo das faces, onde outr'ora 
Pintou-me a natureza ardentes rozas ? 
Não ouvis minha voz ? profunda e rouca, 
Gomo incontrando espedaçados órgãos. 
No peito forma-ise e lá mesmo expira. 
Quereis saber a causa ? ouyi-me, hypocrítas. 



129 









^ 



j O rosto 
.icrespados cilios 
ô ao topete acima, 
jccultando os olhos, 
iS fachos moveis, suspendidos 
olidão da pallidez da fronte 
^r uma occulta linha. As mãos, o corpo 
Tremiam... que abysmei-mel 

Estanque e mudo 
Algum tempo íicou. Depois olhando 
Em derredor de si, qual ante o povo 
Lá na tribuna o orador prepara. 
Para romper, os ademães co'a idea. 
Abriu de novo os resequidos lábios 
Co'um gesto que punhal cortou-me as fibras. 

Antes de abrir-se-me a paixão no peito, 
Quando em botão as affecções me estavam, 
Fui arrojado aos cárceres eternos. 
Inda incerta a razão, timida e néscia, 
Balbuciava apenas. Tenra infante 
Pronunciava, arremedando os homens. 
Qualquer primeira voz que ouvia acaso : 

9 



130 



Perdido viajor, no campo á noute 

Ao longe divisando a luz que a terra 

De seus hálitos pútridos accende. 

Lá vai, lá corre em anciãs após ella, 

E chega, e topa co'a illusão, co'o nada. 

Phantasia infantil era-me tudo. 

Julgava o pyrilampo estrella em terra, 

Anjos do mar a rutila ardentia. 

Palácio de ouro o sol, estofo as nuvens. 

Magica fada a virgem que eu amava, 

Que eu temia depois, fugindo delia 

Co'o peito acceso de paixões ignotas. 

Que parecia-me aguçadas dores. 

Tanto que ea cria na justiça humana. 

Tanto que eu respeitava a Deus e aos velhos I 

E um velho... um velho... — atroador remorso. 

Si és um supplicio, vinga-me d*aquelle, — 

Um velho me f aliou. Qual no deserto, 

Querendo Satanaz tentar ao Christo, 

Subindo ao alto, lhe amostrava o mundo. 

Tal sequioso me agarrara o velho 

Para apontar-me ao ceu. Depois tremendo 

— ímpio ! nem o porvir falta ao remorso, — 

Mostrou-me o templo não — mostrou-me horrendo 

Um edifício negro, erguido e vasto. 

Manchando o azul do ceu. 

• . 
Que vês, infante? 
Elle m'o perguntou. 



131 



Que vejo ? — aquella 
Pasta de lama escurecendo os ares. 

Amas o ceu ? 

E porque não, bom- velho - 
Não é tanj bello o ceu ? O annil que o pinla 
Não é melhor de perto ? A estrella d'alva, 
Que vem correndo assim antes da aurora, 
Não é,' talvez, um parsaro de prata. 
Que eu poderei prender, chegando a elle ? 
Não è um berço tam bonito a lua. 
Que sempre, e sem que pare, imbala a infantes ? 
Não posso um dia, de manhan, sosinho. 
Sem accordar ninguém, chegar-lhe á beira. 
Algumas gottas aparar de orvalho, 
Lavar-lhe aquellas nódoas, — e mais bella 
Tornal-a depois d'isto ? — Ah, velho, escuta : 
Eu quero o ceu : mas dizem que p'ra tel-ò 
É preciso morrer ? 

Pobre innocente. 
Não é preciso, não. Querel-o basta. 
Querer somente e entrar. Não vês, infante ? 
Vai-se p'ra lá por terra : — a porta d'elle 
Eil-a visivel acolá bem franca. 

Tam feia, velho? — a porta d'elle — aquella 
Pasta de lama escurecendo os ares ? 



• • 



i:i2 



Por fora, infante... 



E, velho, é só por fóra? 
Mas ah ! por fóra eu vejo o ceu tam lindo ! 

E toda a tarde me chamava o velho, 
E me apontava ao ceu, — qual no deserto. 
Querendo Satanaz tentar ao Ghrísto, 
Subindo ao alto lhe amostrava o mundo. 

E acostumou-me : — e eu ja chamava aquella 
Pasta de lama escurecendo os ares 
Co'o nome, oh \ sim, de ceu. Infante ainda 
Blasphemei, blasphemei co'os lábios do impio. 

Tu foste criminoso, oh velho indigno. 
De meus nefandos obrigados actos. 
És réu, és reu, — Atroador remorso, 
Si és um supplicio, vinga-me d'aquelle. 

Tu, anjo atterrador, que o somno travas 
Do mau que apenas adonnece, e accorda 
Ânxio, torvado nas vizões que inspiras, 
Á minha justa voz das trevas surge, 
Corre, vem com teu séquito de fúrias, 
Tu, ministro das choleras do Eterno. 
Povoa o leito seu de horríveis serpes. 
De vizões, de tortor : — vinga-rae d'elle. 



Basta-lhe só na vida este castigo, 

O mais tenha-o depois no ÍDferno mesmo. 

E vim depois, — e n'um furor sagrado, 
Louco religioso, entrei n'um templo. 
Com lagrymas de a Aor — devota insânia 1 — 
Prostrei-me soluçando ao pé das aras, 
No jaspe dos degraus. Alli co'o choque 
Do corpo ardente em flammas de delirio 
Sobre o frio do chão, senti... Quem pode 
Verter esse mysterio em lingua de homem ? 
Não I alli, sem acção, cahido ao longo. 
Não, não morri. Mính^alma tam somente 
Sem ideas parou : pensar não poude. 
Sumiu-se, aéreo pó, a intelligencia. 
Ficou-me o coração fervendo em sangue, 
Volcão represso, — e congelado o corpo 
Unido alli co'a pedra.. Estatua em terra, 
ídolo gêsseo que do altar cahira. 
Não sei que mundo foi, não sei que abysmo 
Que confuso habitei. Súbito estrala 
Funéreo canto que evocou-me á vida, 
Dizendo — morto — em destroçadas vozes. 
Depois alguma dextra ergueu-me o corpo, 
E vi... Não sei que vi... Cegou-me os olhos 
O vitreo grosso das sanguíneas lagrymas. 
Pulverea sombra de subtil memoria 
Faz-me pensar que li. Prece ou contracto 
Não sei que foi. Um juramento eterno 



134 



Fiz ao Senhor sobro os altares d'elle ? 

Não lembra-me, d3o sei. Somente o dizem 

Extranhos homens, de negror vestidos, 

— Homens ? quem sabe si demónios eram ? 

Seraphins infernaes, do inferno faliam, 

E seu irmão, satânicos, me chamam ! 

Co'a voz tremenda, ameaçando as fúrias, 

Dizem que fiz um immortal protesto. 

Que ha de seguir-me ao ceu que ouviu-me as vozes. 

Que ha de sèguir-me aos penetraes do abysmo. 

Clamam — infames ! — que co'as próprias unhas 

Rasguei, abri o coração ao Christo, 

E com seu sangue borrifei meus lábios, 

E com seu sangue sigillei meu pacto. 

Quando, esgotada essa vizão terrível, 

Vizão que a dor me realiza e a raiva, 

Olhei-me a mim, desconheci-me quasi. 

É bem real, Pythagoras, teu sonho I 

O Démon que inspirava-te era um anjo. 

Dos arcanos do ceu alguns tiveste. 

Ás almas dos mortaes transmigram, passam 

De corpo em corpo, ou d'uma essência em outra. 

Corpo nem alma os mesmos me ficaram. 

Homem que fui não sou. Meu ser, meu todo 

Fugiu-me, esvaeceu -se, transformou-se, 

Vivo, mas acabei meu ser primeiro. 

Labil reminiscência inda me antolha 

Fugazes sombras da passada vida. 



135 



Para maior suppIicío> aqai n'um quadro 

Esses dous tempos comparados vejo 

Ante mim sempre, que os refuso em balde. 

Eu te creio, Pythagoras, nos sonhos ! 

As almas dos mortaes transmigram, passam 

De corpo em corpo, ou d'uma essência em outra. 

Si eu não morri, sou transfuga da vida. 
Dista, dista de mim minh'alma antiga. 

A toga férrea que estreitou-me os artos. 
Como azinhavre devorou-me as carnes 
Osso, esqueleto, pelas fibras prezo, 
Vou caminhando, — e caminhando rinjo. 
Folga, Loyola : — eu preenchi teu mando. 
Até te intrego o teu supérfluo «quasi.» 
Eu sou cadáver, sou 1 — Olha-me e julga. 

É pouco ainda este soffrer tam duro 
Feito por vós, hypocritas sagrados ? 
Não basta aqui a conclusão das dores ? 
Vossos tropheus, que em lagrymas se insoppam, 
Innegrecidos, húmidos de sangue, 
Gruor gottejam dos rasgados peitos. 
Que lancinados dos seus topes pendem, 
— E a gloria vossa não se farta iniqua, 
E não vos pode encher victima tanta ? 
Polyphemos cruéis, milformes hydras, 



1:M) 

Monstros peiores que os horríveis monstros 
Que a mao de Homero bosquejava o medo» 
Portentos de terror — quereis mais pasto ? 
Pois sim ! — Abri as leoninas garras» 
E destampae vosso infernal sarcasmo ! 
De vosso instincto a furiosa insânia 
Vou talvez sacial-a. Ouvi-me ainda. 



Yll 



Marmóreo cárcere apertou-me os ossos 
Carcomidos» esquálidos» sem forma» 

— E o dom que extrema os animaes e os homens 
Aqui perdi-o. Oh tu, filho do Eterno, 

Ouve meu brado acrysolado e puro 
No lar do coração — que afilicto o amaste ! 
Uma palavra te pulou dos lábios» 
Gladio de fogo, omnipotente e sancta, 

— E n'ella vôa a Hberdade aos povos. 
Uma palavra também salta em chammas» 
Gladio de sulphur, peçonhenta e grande, 
D'esse rival que Tântalo te emula» 

— E n'ella vôa a escravidão dos povos. 
Filho do Eterno que impossíveis podes 
Té quando em burla deixarás teu reino ? 
Cai debaixo do inferno o mesmo Empyreo ! 



137 



Deus I em teu nome Satanaz impera t 

Aqui nos claustros os demónios moram, 

— E o monge verga ao desespero q coUo, 

E julga mao divina a mão que o toca, 

E blasphema do Christo, e as aras cospe, 

E a cruz e a Biblia entre delirios piza. 

 crença augusta que no peito aperta. 

Que no leite materno haurira iqfante, 

Que nos crystaes da dor sahir procura, 

Disse — Sois livre§ — indistincta aos homens, 

E diz ao monge — Escravo I — E o monge insano 

Piza mais uma vez a cruz e a Biblia. 

Tal o furor que a escravidão excita ! 

Tal sou, tal é o monge, — ente não-homem 
A quem privou-se a liberdade, — e n'ella 
Privada topa a consciência em nada. 
O crime e a raiva no seu peito habitam. 
Cobrem-lhe a face mascaras de louça. 
Onde um surrizo angélico se imprime 
Nos templos e nas praças. Em sua alma 

ê 

Contínuo instigações malvadas fervem. 

Que sceleratos espantosos planos 
Não têem nascido aqui ! Frontaes annosos. 
Tectos sombrios, seculares muros, 
Respondei-me, fallae. Em vosso espaço 
Go'o dia emenda-se a mudez da noute ? 



i38 

Oh I quanto prova este silencio eterno ! 
Si eu fora ao mundo arremessado acaso. 
Em qualquer polo, no torrão, no gelo, 
A estas horas meditara em crimes ? 
Blasphemara de Deus perante a lua. 
Cujo orvalho me queima ? O leito, o somno 
Ser-me-ia travado á meia-noute ? 
Mais afflictivo que o labor de escravo, 
Ócio infamante, eu te renego em balde ! 
Geram-se os vicios em teu moUe seio, 
E te beijando, e te cingindo o collo. 
Boceja, estira-se a lascivia, — e dorme. 
Trucida as almas solidão forçada. 
Barbariza, asselvaja. As pandas azas 
Bate a virtude, e nas familias pousa. 
Tenra plantinha, nos desertos nasce 
Um certo amor que abandonado expira. 
Ou torrentes de tóxicos dimana. 
Aqui o coração se volve em raio, 
Os ossos em punhaes, a mente em fúria. 
Aqui em fel a inspiração se embebe. 
Aqui de opprobrio a candidez se mancha. 
Aqui converte-se a virtude em crime. 

Mas ah I lá chama ás orações o sino t 
Um sacrilégio mais I Senhor I perdoa I 
Vou emendar imprecações com psalmos. 
Vai em teu templo reboar meu brado. 
Que aos céus não sobe, cavernoso e rouco. 



139 

Minha voz, minha yoz conspurca as aras» 
Irónica e gelada. Em atro cofre 
Ardem-me dentro renegados gritos. 
Cada palpite maldições me clama. 
Blasphemia pulsam-me as artérias todas. 
Senhor I eu nSo sou reu, — tu bem o sabes,* 
De sacrilégio tal ! Perdoa ao impio, 
— Ao Ímpio feito por mais impios que elle. 

Agora ride, hypocritas sagrados ! 
Eis-aqui vossa obra. Algozes, vêde-a I 
É cruel, como vós ; mirae-vos n'ella. 
Não mais clameis que edi6cou-a o Christo. 
Contumelia infernal ! — Senhor 1 teu filho 
Fora teu filho, si creasse os males ? 



YIll 



Na torre havia-se calado o sino, 
E o echo apenas resoava ao longo. 
Também o monge immudeceu com elle, 
Fechou a cella, e caminhou soturno 
Pelas naves afora. Um som compresso, 
Quasi carpido, na abafada cella. 
Ficou ainda a reflectir-lhe as vozes. 

E eu alli, imbevecido em âncias. 



140 

Fiquei chorando, — e lamentei-lhe a sorte. 

Aos moDtes do Senhor ergui meus olhos, 

E disse uma oração. Rezando ainda, 

Senti nas veias affluir-me a calma, 

— E cri que o monge a conseguiu commigo. 

Inda corria a viração da noute 

Com fresca madidez. Pedi-lhe as azas, 

E fui saudoso a meditar meus carmes. 



"^ò^^ 



o APÓSTATA 



CANÇXO DO CATHOLICO 



Não sentes por sôbre a face, 
Como um raio inopinado. 
Esse anathema sagrado, 
Essa férrea excommunhão? 
Não sentes a espada nua 
De Roma no teu semblante, 
De Roma, — eterno gigante, 
Sustendo infernos na mão ? 



Ah I triste, perjuro infame. 
Que esqueces esse legado, 
Sancta herança do passado, 
Sancta crença de Jesus I 
Que a negras voragens desces, 
E julgas que ao ceu te elevas I 
Que por turbilhões de trevas 
Trocas um reino de luz I 



142 

Ah I triste, que te abysmaste 
N'um precipício insondável 
Com esse orgulho execravel 
Que Lusbel inspira aos seus I 
Que duas vezes perdeste 
Esse don)inio sagrado, 
Paraizo resgatado 
Go'o sangue puro de Deus ! 



Ah ! triste, que espedaçaste, 
Com sacrilégio altanado, 
O juramento prestado 
Juncto á fonte baptismal I 
Co'o perjúrio que fizeste. 
Tu, infante estremecido. 
Cravaste um punhal buido 
No coração paternal I 



Ah ! triste, que te desgarras. 
De queda em queda passando. 
Como do monte rolando 
Costuma a pedrinha vir. 
Ah ! onde, christão perjuro, 
Parará teu baque infindo ? 
Ou irás sempre cahindo 
De um em outro nadir ? 



143^ 

Âh t triste, que insano clamas. 
Com teus sophismas cruentos, 
Que de livres pensamentos 
Preciza o espirito teu I 
E com Luthero te abraças. 

Tu, apóstata ignorante, 

• 

Na convicção protestante, 
Preludio certo do atheu I 



Vai, apóstata, perjuro, 
Com esse raio gravado, 
Esse anathema. sagrado. 
Essa férrea excommunhao 1 
Nao sentes a espada nua 
De Roma no teu semblante, 
De Roma, — eterno gigante, 
Sustendo infernos na mao ? 



o CONVERSO 



CANÇÃO DO LIBERTINO 



Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 
Quero arrojar-me a dédalos de trevas, 
A dédalos de luz. Precizam homens 
D'esses mysterlos que a razão fascinam. 
Ainda que depois se cerre em noute, 
A face de um crepúsculo me agrada. 
Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 



Salve, Religião, sublime idea. 

Que tanto incautas feiticeira as almasi 

Sobre teu inventor mil bênçãos caiam ! 

Prophela do Senhor ! seja o teu nome 

Ainda além dos séculos bemdicto I 

Deste n'uma illusão um gozo aos homens. 

Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 



145 

Em meu orgulho esmigalheí-te insano, 
Pizei-te aos pés, incantadora crença f 
Julguei achar na liberdade um muro. 
Achei poeira, mais que a tua, etherea. 
Tu, minha crença, tu somente és firme. 
Espancas um remorso aos pés de um padre. 
Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 

Mil sanctos teuâ, co'os corações de fora, 
Aos repulsos de Deus consolam mesmo. 
Sempre seguro estou co'a crença minha. 
Tenho, em falta de Deus, quem chame ainda. 
Com áureos seraphins, gentis archanjos, 
Tu^ minha crença, os erros me rodéas. 
Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 

Levado em turbilhões de excelsos crimes, 
Té'gora estive em barathros de inferno. 
Nao me lembra o que vi : mas sei que errava 
Por lagoas de asphalto, ares de enxofre. 
Tu, de lá me arrancaste, oh crença minha. 
Mais bellos sam teus insondáveis erros ! 
Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio. 

Sou cbristão outra vez : sou teu : venceste. 
Quero arrojar-me a dédalos de trevas, 
A dédalos de luz. Precizam homens 
D'esses mysterios que a razão fascinam. 

10 



146 



Ainda que depois se cerre em uoate» 
 face de um crepúsculo me agrada. 
Templo, abysmo de Deus^ abre-me o seio. 



ELLA 



Eu lhe queria tanto, quanto os des- 
graçados querem ao^ que os estimam. 

Eugénio Sue. 



Eu sei, oh virgem, que em teu peito íddoCuo 
Tenho palpites, lá. Sei que tua alma 
Ficou pensando co'as ideas altas. 

Que te inspirei profundo. 

Inda em teus olhos reconheço ao longe 
Todo o meu pensamento. Alto gravada 
Em tua mente a minha mente existe. 

Pertences^me p'ra sempre. 

Rasgnei-te, sim, do coração mais imo 
Um veu cerrado de innocencia fátua. 
Mas não te nodoei : quiz que ficasses 

Gasta assim mesma, — e sábia. 

Tal na floresta a cândida pombinha 
Penetra o ninho do amoroso pombo : 
E comòll'antes, nos rosaes florentes. 

Vai arraiando ainda. 



148 

N3o, d3o temo de ti. O amor que sentes 
Nâo é da terra não, — nem segue o corpo. 
O amor que sentes, nem comtígo expira. 

É mais que immorredouro. 

Has de amar-me na terra, — e além dos astros. 
Eu te ensinei um sentimento eterno. 
Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos. 

Oh ! has de amar-me sempre ! 

Mo te forcei, nem te prendi com ferros. 
Tua vontade é, como d'antes, livre. 
Mas voluntária nem coacta podes 

Amar a outro amante. 

Um vate, um vate colligou-te aos seios. 
Tu déste-lhe o perfume de teus lábios. 
O nó do abraço te estreitou seu corpo. 

O mais foi um poema. 

Tu recebeste os hálitos de um vate. 
Tu lhe bebeste a inspiração aos tragos. 
O fogo que do ceu lhe desce em línguas. 

Mulher I também ardeu-te. 

Para os homens de Deus' foste sagrada. 
Podeste ser-lhes dos mysterios cônscia. 
És, oh vestal, a cúmplice divina 

Dos celestes oráculos. 



149 

t — ■■— ^— .^— — ■ 

Estás agora iniciada eterno. 
Amaste-me : eu te quiz. Julguei-te digna 
De sêres-me a Sybilla de meus cantos, 

O anjo de meus versos. 

Has de amar-me na terra, — e além dos astros. 
Eu te ensinei um sentimento eterno. 
Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos, 

Oh I has de amar-me sempre ! 

Eu sei que um negro, espantador phantasma 
Go'as asas brônzeas te apparece á noute» 
^ té deixando a pallijílez manchada. 

Te grita — Monge I — e passa. 

Eu sei que involto na pancada aeria 
Do meio-dia te revoa um sylpho. 
Que no concavo d'alma se te inrola. 

Também dizendo — Crime ! — 

Listras de sangue, de manhan, te cortam 
O brando annil que náda-te nós olhos. 
E assim mais bella, temerosa e pávida, 

Pensas em mim, — e choras. 

Em presença da aurora, aos raios d'ella. 
Lá do tremulo seio em que me escondes. 
Arrancas as canções que me inspiraste 

Travado co'as delicias. 



150 

Meus versos cantas para o sol que nasce, 
Para o gorgeio matinal dos pássaros, 
E de ininh'harpa as harmonias cazas 

Co'o cicio das arvores. 

Depois um rizo te assombréa a face, 
Limpa-te o sangue dos annileos olhos, 
E co'o nome de — Vate — assoletrado 

Desfazem-se-te as nódoas. 

Os alvos braços — emulos do jaspe — 
Cá para o sul onde eu habito extendes, 
E nas asas da aurora um beijo ardente 

Envias a meu cárcere. 

Entam — que passe o tétrico fantasma, 
E grite embora — Monge ! — e troe o sino 
Que toca ao meio-dia, e n'elle involto 

Proclame o sylpho — Crime ! — 

Que ceu te pode ^nuvear um rizo ! 
Que espectro pode sustentar-te o canto f 
Que sylpho não desmancha-se nos ares 

Ao sopro de meus versos ! 

Guarda no seio o talisman que dei-te. 
Deante das vizões, meus carmes canta. 
Insulta os gritos de sinistra inveja, 

Que dizem — Monge, e Crime ! - 



151 



Mâu grado aos mundos, ^rás minha agora. 
Eu te ensinei um sentimento eterno, . 
Has de amar-me na terra, — e além dos astros. 

Oh t has de amar^me sempre I 



'^o^•- 



SAUDAÇÃO 



AO natalício do IEU AII60 OLYIPIO lAIllO GEATES 



O mundo antigo está ás garras 
com o moderno. 

Laoobdaire. 



I 



Quebrae a lousa impura que vos fecha, 

PhaDtasmas do passado. 

Surgi da cinza, oh séculos de outr'ora, 

Ouvi, ouvi meu brado. 

Deixae na campa esse sudário immundo. 

Essa toga da morte. 

Tomae da vida, do prazer, das galas 

O sobranceiro porte. 

Vinde saudar a obra que sonhara 

Vosso espirito ardente. 

Virí^e baixar a frente respeitosa 

Ao século presente. 



i53 

Co'os olhos longos ao porvir que vemos 

Nobre torlor soffrestes. 

E os louros immortaes que nao cingistes, 

Olhae aqui, — sam estes. 

Novos Baptistas, na soidão clamastes. 

Clamastes na cidade. 

£ a vosso brado os cardines, rangindo, 

Soaram — Liberdade I 

Honrosa lucta, sublimado anhelo 

Foi toda a vossa vida. 

Mas nao entrastes, ai ! jMoysés modernos. 

Na terra promettida. 

Âssistiu-vos cruel o desespero 

Á ultima extorsão. 

Destes ainda o derradeiro espiro 

Nas mãos da escravidão. 

Nao podestes pizar o brônzeo coUo 

De déspotas collossos. 

Mas armas de outra tempera forjastes 

Para os vindouros vossos. 

Esse phantasma atroz — vestido a crimes,- 

Seu nome... Assolação,— 

Cahiu depois de vós, — e livre assoma 

Do Christo a redempção. 



154 

Resuscitae : vosso ideal sublime 

Vencea, triampha agora. 

E o semblante dos déspotas que restam 

Atterra-se, descora... 



II 



Este século ditoso 
Resume os bens do passado. 
Bebe a seiva dos arbustos 
Que mil campinas têm dado. 

Tem a sciencia dos tempos 
JuDCta com outro ideal, 
Como um tope variado 
De um jardim universal. 

Tem um futuro mimoso 
Yizao de felicidade. 
Tem dous verbos incarnados 
— O Progresso e a Liberdade. 



155 



111 



E foi, Olympio, um século tam grande 

Que te deu o Senhor. 

Deu-te com elle um coração altivo, 

Cheio de pátrio amor. 

Deu-te a vida n'um século de vida. 

De luz e de verdade. 

Deu-te a missão de athleta denodado 

Da sancta Liberdade. 

Encheu-te o coração de amor da pátria 

No mais subido excesso. 

Encheu-te o coração das sympathias 

Dos crentes do Progresso. 

Assim teu peito inteiro apenas basta 

Para tam grande Nume. 

Alli não cabe mais. Tudo o que sobra 

Extingue-se em seu lume. 

Mas si acazo em seus Íntimos refolhos 

Um vácuo ainda existe, 

Grava-lhe alli co'a pátria o pobre nome 

Do trovador tam triste. 



156 

O trovador também ama o progresso, 

Respeita o pátrio amor. 

Si n3o queimasse-lhe esta chamma o peito, 

N3o fora trovador. 



DEIXAS-ME 



AO nu AMIGO E C01LE6A FRANKLII AMÉRICO DE MENEZES DOREA 



Montserrate 29 de novembro de 1852. 

Estas alpestres rochas, que se apartam, 
Deixam vazia a insaciável vista : 
 dura ausenqía do prazer de vel-a& 

A mente me contrista. 

Este susurro das travessas vagas 
Causa saudades vívidas e ternas : 
Por toda a vida — e além da morte — deixam 

Memorias quasi eternas. 

Estes sophás de acolxoada relva 
Deixam no peito sensações de menos : 
Deixam a falta do prazer mais puro, 

Dos gostos mais amenos. 

Estas serenas brizas salitradas 
Frizando a face das cerúleas aguas, 
Adormecem um pouco a dôr no peito. 

Esquecem negras maguas. 



458 

Mas nada dUsso em meu ardente peito 
Tantos volcões atéa de saudade, 
Como esta ausência necessária e dura 

Da dócil amizade. 

E tu, bardo feliz do sentimento, 
Gentil cantor das affecções suaves, 
— Doce, bem como o gorgear sonoro 

Das innocentes aves : 

, Tu, que sabes cantar tam sanctos bymnos. 
Gomo dos anjos as canções supernas, 
Deixas-me n'alma fervidas saudades. 

Saudades sempiternas. 

Deixas-me em mar de anciedade infinda, 
Timido nauta — duvidoso, incerto : 
Deixas-me n'alma o vácuo da existência, 

Deixas-me um vão deserto. 



A' PROFISSÃO 

De Frei João das Mercês Ramos 

— Entretanto o ceu se levanta sereno 
e pomposo como para um dia de festa. 

Caulob Lacbetelle. 

Ea também antevi dourados dias 

N'esse dia fatal : 
Eu também, como tu, sonhei contente 

Uma ventura egual. 

• 

Eu também ideei a linda imagem 

Da placidez da vida ; 
Eu também desejei o clastro estéril, 

C!omo feliz guarida. 

Eu também me prostrei ao pé das aras 

Com jubilo indizível : 
Eu também declarei com forte accento 

O juramento horrivel. 

Eu também affirmei que era bem fácil 

Esse voto immortal : 
Eu também prometti cumprir as juras 

Doesse dia fatal. 



j 



160 

Mas eu nSo tive os dias de ventara 

Dos sonhos que sonhei : 

Mas ea n3o tive o plácido socégo 

Que tanto procurei. 

Tive mais tarde a reacção rebelde 

Do sentimento interno. 

Tive o tormento dos cruéis remorsos 

Que me parece eterno. 

Tive as paíx5es que a solidão formava 

Grescendo-me no peito. 

Tive, em logar das rosas que esperava. 

Espinhos no meu leito. 

Tive a calumnia tétrica vestida 

Por m3os a Deus sagradas. 
Tive a calumnia — que mais livre abrange 

Oh Deus i vossas moradas t 

llludi-mo'-nos todos ! — Concebemos 

Ura paraizo eterno : 

E quando n'elle sôffregos tocámos, 

Achámos um inferno I 

Virgem formosa entre vizão phantastica 

Que tam real parece I 

Mas quando a mSo chega a tocal-a quasi, 

Lá vai, lá se esvaecei 



101 



Sonho da infância que nos traz aos lábios 

Um rizo mais que doce : 

Mas uma voz, um som... — some-se o sonho, 

Gomo si nunca fossQ. 

Tu filho da esperança I — tu juraste 

O que também jurámos. 

Tu accreditas, innocente I — ainda 

O quanto accreditámos t 

Oh t que não soffra as dores que nos ferem 

Teu joven coração 1 

Que o futuro que esperas não se torne 

Terrível illusão 1 

Que sobre nós — os filhos da desgraça — 

Levantes um tropheu : 

E que não aches, — como nós achámos — 

Inferno em vez de ceu I 

24 de outubro de 1852. 



■•40*- 



41 



CANTO 



Olfereeld« ••fllovena «luniBOA úo eéílegko úo 0. TlceBle 
de Pavio, p«r oceaolAo de feafcjareni • MeaMO SaBeie) 

» M de Jallie de fl9M 



Loavae^ meninos^ ao Senhor. 

PSALMO. 

Duas fileiras de brilhantes jovens 

Go'um doce rir nos lábios, 

Abatendo co'os raios da eloquência 
Os presumidos sábios : 

 voz modesta do christão convicto. 

Sem ódio, sem vaidade. 
Despindo os erros do sophisma ornado. 
Laureando a verdade : 

Os olhos limpos do divino athleta, 

Immovel, inspirado. 
Descortinando a negridão da infâmia 

Do século passado : 

A turba dos philosophos, submersa 

Nas vagas mais impuras, 
Abysmando no inferno, onde bebeu-as, 

As sophicas loucuras : 



163 

Parecendo torDado o mundo inteiro 

Um plano infindo, immenso : 

Só pelas duas alas dominado 

De exercito tam denso : 

De um resplendor de archanjos e de luzes 

N'um. throno divinal 
A cruz sublime, — como o sol que expande 

A luz universal : 

Curvados todos ao sagrado aspecto 

Do symbolo christão : 
Todos, na fé do crente, murmurando 

Um hymno, uma oração : 

Eis do futuro o prazenteiro quadro, 

O quadro consummado, 
Que pela mSo segura d'estes jovens 

Terá de ser pintado 1 

Eis o futuro innevoado e negro, 

Que já tememos tanto, 
Convertido em hosanna de alegria. 

Em jubiloso canto ! 

Si nossos pães fizessem no passado, 

Quanto agora fazemos : 
Si em nós, seus filhos, cressem, — como agora 

N'esses filhinhos cremos : 



164 

N3o seria o presente uma palavra 
De lucto» magoa e dó : 

Nem o futuro um calculo provável. 
Uma esperança só ! 

Não t — este longo exercito de jovens 
Athletas da sciencia, 



Mau grado a muitos nos imprime n'alma 
O selio da evidencia. 

Os filhos do porvir, na mesma taça, 
O mesmo leite bebem : 

 mesma nutrição no mesmo prato 
Seus corações recebem. 

Este sustento egual, na flor dos annos, 
Na infância da sciencia, 

Ha de lhes dar ás ínnocentes almas 
Uma uniforme essência. 

Essência — como aquella que se forma 

Lá no seio materno : 
Essência, — que já mais ha de mudar-se. 

Que ha de existir eterno t 

Assim a vida inteira d'estes jovens, 

Athletas da sciencia, 
Será d'estes principies, que recebem, 

A certa consequência. 



165 

Âs luzes da scieDcia mais profunda 

Serão seu elemento : 
A crença pura do evangelho saneio 

Será seu complemento. 

Não é, por tanto, uma esperança apenas 

A vizão do futuro : 
É un^ verso prophetico e sagrado, 

Um calculo seguro f 

Eia, pois, — guerreiros 
Do saber brilhante, 
Eia, pois,— athletas 
Da cruz triumphante, 
Levantae um brado, 

— O brado de — avante í — 

O brado de — avante — 
Retumbe nos ares : 
Transponha seguro 
As terras, os mares : 
Penetre nos bosques, 
Nos Ínvios logares ! 

O brado de — avante — 
Atterre os descrentes, 

— Os homens, que a vossos 
Desejos ardentes 

Apenas têem rizos, 
Escarneos mordentes. 



106 

O brado de — avante — 
Revele aos paizes 
Os vossos trabalhos. 
Fadigas e oizes, 
Os vossos triamphos 
Sublimes, felizes! 

O brado de — avante, — 
Qual bálsamo sancto, 
Qual doce palavra, 
Qual fervido canto, 
Aos crentes console, 
Inxugue seu pranto. 

O brado de — avante — 
Retumbe nos ares : 
Transponha seguro 
Âs terras, os mares : 
Penetre nos bosques, 
Nos Ínvios legares I 

Avante, oh jovens I — que os exforços vossos 
Deus os coroa. O heroe da charidade, 
Vicente, o sancto, o amante da sciencia, 
Philosopho também, que soube outr'ora 
Confundir a philosophos, — extende 
Seus olhos para vós. Lindo futuro 
Impetrou para vós do Omnipotente. 
Eu vejo-o mesmo sobre acceza nuvem 
Baixar aqui, e abençoar-vos todos ! 



167 

cSéde seguros do porvir» meus filhos, 
Que eu vol-o guardo cá. 

O Senhor inclinou a. vista immensa : 
Compadeceu-se já.i» 

Foi elle, shn, que nos fallou : ouvimos 
O oráculo divino. Eia ! o futuro 
Vosso nSo pode ser vizão que foge I 



"»0*- 



J 



SAUDADE 



Ao meu amigo Frei Bento da Trindade Cortez, 
actualmente no Mosteiro do Rio de Janeiro 



... porque lagrimas também sam amor. 
Db. J. J. B. de Oliveira. 






Em minhas horas de nocturna insomnia, 
Co'os olhos fitos no porvir longíquo, 
Eu penso em mim, — e na segunda idea 

Incontro-me comtigo. 

Eu te pranléo no arrebol da aurora, 
Que em teu exílio meditando esperas. 
Involto n'um crepúsculo te inxergo 

A deplorar teus fados. 

Nas nuvens tinctas de sanguíneas listras 
Lagrimas verto que sõbr'ellas mando. 
Partem, — porém do caminhar cançadas 

Descahem no oceano. 

Desesperado entam, maldigo o espaço, 
Maldigo o ceu e a terra, o vácuo e o pleno. 
Em cada creação deparo um erro. 

Nem acho Deus tam sábio. 



169 

E na mính'.alma se desenha ao vivo 
Melhor, mais bello, mais ditoso um mundo. 
Tiro do nada, sem ausência e males. 

Um orbe todo novo. 

O amor da pátria que os tyrannos banem 
N5o choraria maldições e sangue. 
Nem tu nem eu seriamos cortados 

Por divizoes de abysmos. 

Mas quando ainda não acabo o sonho, 
Divizo armadas que vam mar em fora. 
Desperto, e caio nos aéreos braços 

Da chymera sublime. 

E mais amargo te lamento a sorte, 
Tu, marlyr feito pelas mãos dos bonzos. 
Invoco o ceu que intornarà sôbr'elles 

Alabastros de anathema. 

Ligando a mim teu coração dorido, 
Que a teus amigos em penhor deixaste, 
Tactêo n'elle as emoções tam vivas. 

Que em teu desterro soffres, 

Conheço as ajGQicções que te saltéam. 
Nobre proscripto. O sol, a lua, os astros 
Cruzam teu ponto, e trazem-me sinceros 

Tuas ingénuas dores. 



ítftaa alma, 

SAur ,'^ 



r 



-^jerpêam. 
Ao meu amigo Fre ' ' {^ ^ ^Xi^^n^^ 



actualmente no i 



^lôornaa fronte, 
y^I^ profundo génio, 

'V''^*<6mida idea, 
•;.yjrio cabe nos claustros. 

Em mi ^^ do covil immundo 

Co'os 



Eu ,».^'5^ao(ie 



*^ ''\g ,icio8 se alaparda. 
jti^ ^b a indolência dorme. 



li'*" NSo pôde, nâo, ser lua. 

j^ nas flumineas umas, 
(i^^Vi arrancar do eqooreo fundo? 
l"»^ **. Bílis bello, em áureo ingaste, 
S»^ No collo de uma \irgem? 



- de *^ **° ^®^" 



Ai' 



js túmulos 



Pobre, grosseiro, nâo numeroso, 
que importa isso? Para pregar as 
tábuas de un? ataúde qualquer pe- 
quena força basta. 

Alexasdbb Herculano. 



Aos túmulos, aos túmulos, mmh'harpa ! 
Choremos sobre a lapida esquecida 

Dos homens que já foram. 
O ceu acceita o pranto dos pequenos. 
Não te acobardes, n3o. Vamos, minh'harpa, 
Depor também na lousa dos finados, 
Como a viuva, um óbolo mesquinho. 
Mesquinho só na terra. Além das nuvens 
Um thesouro se torna aos pés do Etenio. 
Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande : 

— Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa I 



Da grimpa do mosteiro atroa o bronze, 
E de fúnebres sons os ares pejam. 
Como a tremenda vdz da eternidade. 
Que as nuvens baixa, e perde-se no immenso. 
Bem I — este som diz: — morte ! — e apraz aos tristes, 
Apraz a nós, minh'harpa I 



172 



Não te assaste» por tanto, a voz amiga» 

Que ha de chorar por nós» mau grado aos vivos» 

Quando nãó formos mais t 
Tua missão» minh'barpa» é grande» é grande : 

— Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos» aos túmulos» minh'harpa t 



Pobre instrumento» — as tuas áureas cordas» 
Onde pulsavas o prazer e a vida» 
Estalaram por si ! — Estas que sobram 
Sejam sagradas á tristeza e ao lucto. 
Maguas somente restam-te. Immudece» 
Ou canta» soluçando» as maguas mesmas. 
Estás cançada de chorar tam joven ? 
Já não sam tua essência as grandes dores» 

Teu alimento as lagrymas ? 
Tua missão» minh'harpa» è grande» é grande 

— ^^Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos» aos túmulos» minh'harpa ! 



Não vês aqui este sepulchro aberto. 
Gomo si a terra se estivesse rindo» 

Para abraçar seus filhos ? 
Vamo'-nos junctos debruçar sôbr'elle. 
Nossos primeiros pães, cheios de susto» 
Templos aos manes levantaram quasi. 
Tinham razão, talvez. Christãos mais sábios 



473 

Amemos com recato a tumba ao menos, 
Tua missão, mÍDh'harpa, é grande, é grande 

— Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa t 



Assim, mính'barpa, a nossa vida inteira 
Devêramos passar, cantando em threnos 
Esse jazigo, onde se esconde a ossada 

Dos séculos que passam. 
Aqui também na podridão, nos vermes 
Ha de o futuro em esqueleto immenso 

Cahir, esvaecer-se, 
Aqui também inspirações se bebem 

No balito dos mortos. 
Aqui se incontra inexgotavel messe 

De solidas ideas. 
Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande : 

— Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos, aos túmulos, minh'harp»l 



Sim : fiquemos aqui. — Aquelle arbusto. 
Que das frestas da lapida desponta. 
Nasceu talvez do peito de um cadáver. 
A seiva humana em suas hasteas corre. 
Aquella flor inda transpira s»iie. 
Lá para o meio da soidSò nocturna 
Talvez falle do ceu, talvez do inferno. 



174 

Sim : fiquemos aqui. D^aqueilas folhas 
Talvez saia uma voz preciza ao mundo, 
Talvez algum recato aos vivos traga. 

Talvez de nós careçam. 
Sim : fiquemos aqui soturnos ambos. 

Esperando seu brado. 
Tua miss3o» minh'harpa, é grande, é grande : 

— Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos, aos túmulos, mibh'harpa ! 



N3o te apavore o aspecto das tumbas. 
Esta bocca sarcóphaga que a terra 
Aqui a nossos pès abriu medonha 

Não è para ingolir-nos. 
O nosso cálix de abundantes dores 

Não transbordou ainda. 
Tua missão, minh'harpa, é grande, é grande 

Sagremo'-nos á morte. 
Aos túmulos, aos túmulos, minh'harpa ! 



A MORTE NO CLAUSTRO 



Por occaiilAo da morte do venerando ancifiot 
Frei Manuel da Piedade B<M*I»a. 



Eu não sou um historiador das cousas humanas. 

BoBSUET. 



I 



Eu vi-o, eu vi-o, — e o coração tranzido 

Retalhou-se-me entam nas fibras intimas. 

Eu vi-o, eu vi-o,-^ escancarando a bocca, 

Roncava na garganta ingasgo horrendo. 

Eu vi-o, eu vi-o, — em contorsões, em âncias, 

Estrebuxando os membros impotentes. 

Não lhe era aspecto nas feições mudadas, 

E a voz apenas lhe restava rouca. 

Elle pedia — o velho agonizante — 

Pedia ainda do prelado a bençam. 

Tu só, consolo certo dos afflictos, 

Tu só religião, precizo culto. 

Tu lhe ministras varonil conforto, 

E os paroxismos agfos lhe minoras. 

Oh f por que vem tam tarde, irremissivel. 



176 

Esse momento necessário e certo, 
Em qne teu brilho fascinante assoma/ 
Fatal verdade atterradora, — eterna i 
Como fulmineo meteoro súbito, 
 fronte esmagas, quando leve a roças ! 



Tremer fazia os Íntimos dos ossos 
O grave som do compassado sino. 
Que do dioso incanecido velho 
 agonia fatal annunciava. 
Ungido foi co'o óleo sacrosancto : 
E em volta ao leito supplices murmuram 
Preces ardentes, oraçQes piedosas, 
Que seus irmãos sinceros lhe repetem, 

— Pedindo a Deus e á Virgem mais que pura, 
Pedindo aos sanctos martyres celestes, 
Pedindo agora aos divinaes pontíGces, 

Aos confessores do aílrontado Ghristo, 
Ás puras virgens, e ás mulheres castas, 

— Guardem-n'o pios da perpetua morte. 



Eu vi-o, eu vi-o, — em convulsão serena, 
— Quanto do justo o passamento é doqe. 
Desprender seu espirito cançado 
Da cadéa que o liga á vil matéria, 
E voar, e voar, com* leves asas. 
Emanação de Deus, — de Deus ao seio. 



177 



A derradeira paz — fraternos ósculos 
De seus irmãos já recebia o triste : 
Oh t phantai^a da vida ! como passas 
Rápido tanto I oh tempo mentiroso 
De existência fallaz e momentânea t 
Homem ha hí tam vão que inda confie* 
N'esses teus ouropéis de podre gloria ? 
Ha hi quem seja de razão tam fátua, 
Que eterno julgue teu brilhar ephemero, 
Que a tuas breves decepções se abrace ? 
Ha hi quem seja em seu olhar tam cego. 
Que pretenda esquivar-se á natureza ? 
Loucos mortaes 1 — onde esconder-vos livres, 
Que não vejai& o cherubim da morte. 
Galopando em aligero ginete, 
Co'a fouce em riste, ás fauces apontando ? 



II 



Pelos claustros soturnos estrugia 

O grave e compassado andar dos monges. 

Eu te quizera ter prezente agora 

 ti, vaidoso atheu, nas horas mortas. 

Eu quizera notar com lynceos olhos 

De rasgo a rasgo os vizos de teu rosto. 

Eu quizera apanhar, uma por uma. 

As contorsões doridas, — as angustias, 

12 



178 

Que por tuas feições reverberassem. 
Tomara a consciência acovardada 
Sondar-t'a sim, — porém protal-a, nunca I 

Nao vés, não vés ? — silenciosos, quedos. 
Em dous extensos renques se dividem : 
Talvez disseras que estes homens eram 
Negras estatuas, que embiemassem morte I 

Sonora voz levanta-se d'entre elles, 
Gonvidando-se a virem contentissimos 
Prostrar-se aos pés de Jehovah potente. 
€ Vinde, — cantavam, — vinde, e adorémol-o.» 
Cahiram todos, debruçados, curvos. 

Ante a face de Deus Tu, ente infame, 

Torpe illusor dos próprios sentimentos, 
N5o te curvas, — susténs de Deus a vista? 
Âh i perdôã-me o excesso, irmão em Christo, 
Atheu não és, — que não n'os ha no mundo I 
Tu te prostras também — também cahiste 
De joelhos em terra involuntário ! 
Interna violência e força ignota 
Obrigou-te a ser homem por momento. 
Deixar de bruto a condição que ostentas! 

Não achas não sei qué sonoro e mystico 
No recitar monótono dos psalmos ? 
Não achas não sei quê triste e pathetico, 
— Um merencório effluvio de dor terna, 



179 

Do miserável Job nas próprias pragas ? 
Segue esse não sei quê — por Deus soprado. 
Que em teu intimo foro apenas sentes. 
Mas que indizivel definir não sabes. 
Segue esse não sei qué da consciência. 
Que é certo a voz íngenita do Eterno. 
Apprende aqui, — oh ente depravado, 
A ter fè no Senhor que te creara. 
Serás entam feliz, — si olhar quizeres. 
Alem da vida ephemera da terra. 
Outra vida nos céus, — que não se acaba. 

Ouve-as agora — as derradeiras preces, 

O psalmo dos degraus, que um rei propheta, 

Sonoro dedilhando o decacbordo. 

Insuflado por Deus, cantara um dia. 

cDo imo de meu peito (eil-os que dizem) 

A ti. Senhor, clamei no mesmo abysmo ; 

Os meus prantos. Senhor, — meus rogos ouve ! » 

Pouco depois passasses por ventura 
Pelo extenso salão e mudas crastas. 
Em solemne calada distinguiras 
O pizar do pilão pezado e ouço 
Por estóicos coveiros manejado. 
Depois o baque da sonora lapida. 
Que fecha — esmaga o pútrido cadáver. 
Depois talvez uma oração ainda 



180 

Dos lábios do chrístão baixou sòbr'elle. 
Depois mais nada alli — fora o silencio. 



Ill 



N'estes claustros, aqui, talvez, — quem sabe? 
Talvez n'este sepulchro immuudo mesmo. 
Após alguns minutos mais escassos 
D'esse meu vegetar insulso e momo, 
Me pilarão — triturarão meus ossos 
Deshumanos tumbeiros. — Eu comtigo. 
Podre cadáver, dormirei eterno, 
Feito meu corpo em terra e cinza e nada. 

1851. 



CANTO FÚNEBRE 



lecltado na occaaifto de «opaltaiHie o cadaTei* do meu amigo 
I.alB da França Bebouças a 141 de Abril de tUftS 

A alma foi feita para viajar no ceu. 

YOUNG. 



Oh ! porque não ? — porque não posso agora 
Chorar-lhe a morte ? — Que poder tam forte 
Ha hí que pare a um coração de amigo 
No derramar as emoções que o partem ? 
Que mão ha hi tam férrea que comprima 
Tam dentro em mim meus sentimentos de homem ? 
Quem manda á idéa que não pense angustias. 
Quem manda ao peito que não soffra maguas, 
Quem manda á voz que não ^e expanda em queixas, 
Quem manda ao pranto que não corra em fios ? 
Oh ! porque não ? — porque este gosto extremo 
Em lhe chorar a morte ham de tolher-me ? 
Oh I porque não ! — Hei de chorar-lhe a morte, 
Bem como outr'ora lhe cantava a vida. 

Reminiscência atroz f que vario quadro 
Vens a ineus olhos destampar agora ! 



182 



Como os aoneis de uma cadéa extensa, 

Prezos, cozidos, incarnados, firmes, 

Os meus dias estam co'os dias d'eUe. 

Um só minuto d'essa vida instável 

Que vivo ainda, d3o correu na terra 

Sem um minuto d*essa vida innocua 

Que elle viveu, — e que findou iam cedo i 

Entre elle e mim era partida a vida : 

Meia vida perdi co'a morte d'elle. 

Si adulto apenas, eu olhei ao mundo» 

E achei-o infame, e escarneci-lhe as pompas, 

E co'alma feita a um scepticismo innato 

Descri do amor que os homens divinizam, 

— Não descri da amizade ! — Elle provou-m'a. 

Elle foi meu amigo ! — oh nome augusto, 

Que sabe os homens remontar aos anjos I 

Quem sabe ser amigo em si resume 

As virtudes do ceu e os bens divinos. 

Elle foi meu amigo — único o último — 

Que tinha uma alma conformada á minha. 

Era-lhe braza o coração fervente : 

Assimilava a si minhas angustias, 

E, como o fogo, as consumia lento» 

E as minhas sensações purificava. 

Elle sabia compr*hender profundo 

O coração phosphorico do vate. 

Elle era vate í — Em floridos poemas. 

Em suaves canções, em temas lyras 

Correu seu estro merencório ou lindo. 



183 



Corria agora socegado e triste, 
Como um regato em áridos desertos : 
Corria agora mais travesso e alegre» 
Como um barquinho velejando esbelto. 
Nos áureos fastos da poesia pátria 
Ha de seu nome se inscrever eterno. 
Désse-lhe Deus mais dias de existência, 
-»- Fora seu nome o sol para os mais astrçs ! 

Reminiscência atroz ! que vario quadro 
Tu vieste pintar ante meus olhos ? 
Que vale uma lembrança, uma saudade ? 
Elle morreu f... a sua gloria é morta ! 

Oh 1 que eu nao possa lhe chorar a morte, 
Bem como outr'ora lhe cantava a vida ! 

Ah ! não devo chorar. Além dos mundos 

Eu vejo o ceu, vejo o infinito, o immenso : 

É o throno sem fim do Deus Eterno : 

E a Deus lá em cima vam junctar-se os justos. 

É lá que a vida parará perpetua, 

Ê lá que os tempos, sem correr, immoveis, 

Nao succedem-se mais, — sam sempre eternos. 

Lá — elle, o justo, o virtuoso, o amigo 

A vida que de Deus tomou, nascendo. 

Foi a Deus intregal-a, e unir-se a elle. 

Não chorarei : — que essa terrena vida 
É um crisol que as sensações apura, 



m.^ 



184 

Para chegar a Deus mais casto o espirito. 
N3o chorarei : — que a occasi3o da morte 
É o degrau mais alto para o Eterno. 
Antes devo pedu* ao ceu que appresse 
Meu momento também. Quero ir bem cedo 
A Deus e a elle unificar-me eterno. 



to^ 



POEMA FÚNEBRE 



Dedicado a meu irmão Frei Henrique de Sancta Rosa Ribeiro, ^ 

por occasião da morte de seu irmão Raymundo Alvares Ribei- 
ro, sucoedida a 23 de abril de 1853. 



Choraram Germânico até os desconhecidos. 

Tácito. 



I 



Choremos todos um amor de menos. 
Si uma flor, que murchou, seutímos tanto, 
É que faltou-nos seu odor suave, 
Que nos dizia — amor — quando exhalava. 
Choremos todos um amor de menos. 
Si lã se esconde no oceano a lua, 
E si nos parte o coração saudoso, 
É que sem luz os olhos nos ficaram, 
Sem esse amor que ella inspirar-nos sabe. 
Choremos todos um amor de menos. 
Si algum pharol n3o vemos na tormenta, 
E si nos fogem da esperança os raios, 
É que visámos o naufrágio urgente, 
E a perda amarga da visão da pátria. 



486 

Que delicias de amor nos predizia. 
Choremos todos um amor de menos. 
Si a morte crãa nos arranca o amigo, 
Si damos prantos á memoria d*elle, 
É que de nós pVa sempre separou-se 
Um coração que concluia o nosso, 
E o gozado prazer nSo mais gozamos, 
E d'outro amor o nosso amor faliece. 
Choremos todos um amor de menos t 
Choremos todos o mancebo, o amigo. 
Que a nossos braços nos arranca a morte. 
Choremos todos uma flor crestada, 
Que nao dá mais odor : a linda lua. 
Que se escondeu nas ondas do oceano, 
Que mais n3o luz : esse pharol brilhante. 
Que se apagou nas vascas da tormenta, 
E a pátria desviou-nos: esse amigo. 
Que d'outro amor o nosso amor enchia. 
Choremos todos sua perda infausta. 
Choremos todos o passado gozo. 
Choremos todos um amor de menos ! 



II 



Era um dia formoso. — O sol brilhante 
Mais esplendidos raios diffundia, 
E mais ardentes júbilos mostrava. 



187 



Como do infante as faces que inrubecem 
Á mais e mais, quando a alegria augmenta. 

N'um vaporoso sonho de poeta 
Três formosas vizoes eu vi — tam novas — 
Què mais ao ceu que á terra pertenciam. 
Séria matrona erguia-se a primeira 
Com magestoso porte e honesto rizo. 
Gentil donzella erguia*se a segunda 
Co'o tímido pudor nos olhos ternos» 
— Anjo ineffavel de modéstia altíva l 
Estava ante ellas um loução mancebo 
Co'os vivos olhos alongados, fixos, 
Respirando prazer, amor e pejo. 
Como n'um templo a vista indefinida 
Do crente que no peito as rezas volve. 
Internecido em amoroso arroubo. 
Fita á donzella, que, em pudor e rizo, 
No chão a vista invergonhada crava. 
Era um anjo de luz entre dous anjos. 
Que d'elle a luz primeiro recebiam, 
E seus raios depois commímicavain. 
Como a dextra dp Eterno a graça infunde. 
E onde era o centro fecundante e vivo, 
E onde era a acção do mobile primeiro^ 
 humana vista distinguir não pôde. 
E cada qual d'estas imagens vagas 
Era foco de luz, fonte de brilhos : 
Bem como o sol — vivificante fogo — 



188 



Seus próprios raios, circulando» espalha 
Na vastidão do espaço, — e a luz que o cerca. 
Vai reflectir pelos ethereos corpos, 
Pelos astros do ceu — e o firmamento 
Com extranho clarão pompéa á noute. 

Eram assim minhas vizões formosas. 
As três imagens de meu vago sonho. 
Que mais ao ceu que á terra pertenciam ! 



Ill 



O mancebo fallou. O norte intenso, 
Que ia cruzando infurecido os ares. 
Foi transformar-se em zephiro satidavel. 
Quando o mancebo desprendeu seus lábios. 
O terreno vapor, que ao ether sobe. 
Do chão, dos mares, tórrido ou aquoso," 
Que vai no espaço assimilar-se em nuvens, 
Que o ceu em crepe mortuário inluctam. 
Parou também a aspiração que tinha, 
Quando o mancebo desprendeu seus lábios. 
As lindas flores dos jardins da terra. 
Que pelo sol crestadas, estuavam. 
Tentando em si desnaturai esforço, 
A seiva toda do âmago chamaram 
Ao caUx globuloso — e cheiro e bálsamo. 



189 

Mais Dovo e activo respiraram todas, 
Quando o mancebo desprendeu seus lábios. 
O sol também mais orgulhoso e altivo, 
Subiu ao seu zenith — seu throno ethereo — 
Para mirar na direcção dos raios, 
Na baixa terra a imagem da innocencia, 
 incarnação do espirito dos anjos. 
Quando o mancebo desprendeu seus lábios. 

— O vento forte e as nuvens se sumiram, 
Não exhalaram mais o mar e a terra, 
Bálsamo novo as flores respiraram, 

O sol subiu ao seu zenith sublime; 
Parada, estanque, a natureza attende, 
£ o mancebo loução desprende os lábios. 

— Crê-me, oh donzella ! a omnipotente dextra 
Formou meu coração p'ra ser contido 

Bem dentro do teu peito — qual se esconde 
Thesouro immenso em urna pequenina. 
Tua alma pura, cândida, innocente, 
Como o gemer de solitária rola. 
Também foi feita para unir-se á minha. 
Somos dous corações fundidos ambos 
N'um coração que um sentimento eguala : 
Duas felizes almas derramadas 
N'uma alma só que um pensamento ajunta. 
Quando teus olhos — como ardentes fachos — 
Chammas de puro amor, em mim se fitam, 
Não encontras também meus olhos quentes 



m) 



Fitos nos teus em fogo de ternura ? 

Quando, depois de instantes de silencio. 

Depois de um lindo e passageiro arroubo, 

A ponto os nossos lábios se desprendem, 

N3o temos dicto tanta vez n'um brado 

As mesmas expressões, as mesmas pbrases ? 

N3o pensamos também na mesma idea ? 

Quando um incerto e vago sentimento 

De amor, de timidez, de zelo ou magua. 

Ambos os nossos corações comprime, 

N3o temos arrancado ao mesmo tempo 

Doridos ais ou tépidos suspiros ? 

Dous corações e duas almas somos. 

Que um sentimento e um pensamento ajuntam. 

Deus quer-nos juntos, porque assim formou-nos ; 

Seremos junctos, venturosos, lindos, 

Como as aves do ceii no espaço livre. 

Deus quer-nos juntos — porque assim formou-nos, 

Quer-nos ditosos, venturosos, lindos ! 

Nao carecemos de riqueza immensa. 

Para gozarmos nossa immensa dita. 

N3o carecemos de um solar vetusto, 

De um castello feudal, de um régio alcaçar. 

Nem de um palácio de riqueza immensa. 

Que nos devam conter a immensa dita. 

Não carecemos do poder do mundo, 

De um diadema excelso de rainha, 

De um sceptro forle de riqueza immensa, 



491 



Que nos venham ornar a immensa dita. 

Não carecemos de renome ou fama, 

D'esses prestigies frívolos de gloria, 

D'essa vaidosa voz, geral, inútil, 

Que nos venha espalhar a immensa dita. 

Templo maior mais digno, mais sublime 

É nosso coração : immenso alcaçar. 

Onde pôde habitar o amor somente I 

Chegámos n'elle : — que elle é amplo, extenso. 

Capaz, bastante a concluir n'um foco 

Duas vidas irmãs, eguaes, fundidas. 

É só no coração que. a dita existe, 

É n'elle só que ser feliz se pôde. 

Só do seu centro partem-se, despedem-se. 

Brilhantes raios de immortal ventura. 

£ si meu coração co'o teu se eguala. 

Si junctos somos pela mão do Eterno, 

É que a ventura em nós também se dobra, 

E duas vezes mais felizes somos. 

Deus nos quer juntos — porque assim formou-nos, 

— Quer-nos ditosos, venturosos, lindos 1 — 

Assim fallava o fervido mancebo : 
Seu coração pulsava arrebatado, 
Forte, ancioso, inquieto, ardente. 
Como o oceano em vagalhões revolto, 

— E parecia, entre os arfantes pulsos, 
Querer pular no coração da virgem. 






193 

E as pupillas da virgem rutilavam 
Saltantes, doudas, como incertos fogos 
No mar á noute co'o ferver das ondas. 
E do prazer a lagrínia correu-lhe 
Do lado esquerdo pela face quente, 
E foi por ella tremula cahindo, 
Como um regato de cristal ao longe, 
E muito tempo lhe pendeu da face, 
Qual pende em Socos do penhasco o gelo, 
— E a tez ardente resfriou-lhe um pouco, 
E pelas veias circulou-lhe o sangue. 
Que todo havia concorrido ao rosto. 
E a seu estado natural volvida 
Era a donzella uma vízao celeste, 
Que vè-se em sonho, e se dizer nao pôde. 

E a matrona surriu. E os fracos olhos 

Lagrimas raras de prazer manaram, 

Bem como gottas de ligeira chuva. 

E levantando a vista ao ceu sereno, 

E erguendo a dextra sobre a filha e o joven, 

E os abraçando em apertado amplexo, 

— Sublime, excelsa, qual no templo assoma 

Do sacerdote o divinal semblante, — 

De Deus a bençam derramou por elles. 



193 



lY 



E um disco enorme (Je ventura e gloria 
Cobriu minha vizao. E as três imagens 
Eram três centros de brilhantes raios, 
De mysterios de luz. Entam meus olhos 
De tamanho clarão feridos, cegos, 
Nao viram mais esta vizão distincta. 
Perante a vista ainda restou por horas 
Um turbilhão de luz no mesmo estado. 
Depois de grau em grau foi-se apagando, 
E se extinguiu. — Um vórtice de trevas, 
Inrolando no ar, veio involvel-a. 



Entam a voz de uma verdade amarga 
A meus ouvidos resoou tremenda, 
Como o ribombo do trovão rolante! 

Um grito extenso, querelloso, trémulo. 
Nos ares se partiu. — Como um rangido 
De ferro em ferro, o guincho desatou-se. 
Depois subindo lamentosa escala. 
Era de um doudo a gargalhada bruta, 
De vivo incêndio o crepitar nas matas, 
O çom de um raio no escachar o tronco. 

13 



494 

Por íim descendo em gradação medonha, 
Já muito ao longe terminou-se o guincho 
Na querellosa voz que começara. 

Ave sinistra ! — incrédulos ou sábios 

Teus mortuários cânticos não temam ! 

Eu não I que sei temer-te. — Instincto ou alma 

Existe em ti que prophetiza a morte. 

Talvez o Eterno te formou de modo, 

Que teu olfacto peregrino ou próprio. 

Do moribundo os hálitos perceba, 

Assim como formou-te a voz horrível 

Para dizeres lôbregos lamentos. 

Entam a voz de uma verdade amarga 
A meus ouvidos resoou tretíienda 
Como o ribombo do trovão rolante ! 

Entam o lindo zephiro saudável 
Transformou-se outra vez em norte intenso. 
O mar e a terra respirou vapores. 
Que subiram ao ar formando nuvens, 
Que o ceu em crepe fúnebre inluctaram. 
Entam as flores dos jardins da terra 
Esgotaram a seiva e a força e a vida, 
E o cheiro activo e o bálsamo perderam. 
E o sol formoso, que eu sonhava ha pouco, 
Contra o nosso hemispheriò a face tinha. 
Entam a voz de uma verdade amarga 



195 

A meus ouvidos resoou tremenda. 
Como o ribombo do trovão rolante ! 



VI 



Torvos os olhos, trémulos os lábios, 
Pallida a face em lagrimas banhada, 
Rugada a testa juvenil — tão linda. 
Cabida pelo collo a espessa coma. 
Um lúgubre ululado ao ar desata 
Uma triste mulher. Chamou-se esposa 
N'um instante somente, — e n'outro instante 
Da viuvez a sorte e as dores prova. 



VH 



— Elle, meu Deus! o esposo da minh'alma 
Aqui no' coração viveu té'gora. 

Como n'um templo. — Elle morreu p'ra sempre, 

— E resta o coração que elle habitava, 
Qual fica o templo a que se tira o Sancto. 
E resta o coração. . . que é este agora ? 
Taça vazia do Ucor divino. 

Que outr'ora a encheu e a perfumou tam doce I 
Amplo jardim de arbustos decepado. 
Sem flores mais que imbellecel-o possam ! 
Taes para mim os meus amores eram ! 



196 

Doce licor que o peito me imbebia, 
Flores que a fronte oinavam-ine em grinalda, 
Saneio que tinha na minha alma um templo ! 
Ah I meu amor se consummou tam cedo!... 

A minha vida se acabou co'a d'elle, 

Qual murcha a planta quando o pé lhe arrancam. 

— Tirae-me aqui, Icvae-me longe, amigas, 

Lcvae-me longe as vestes do noivado. 

Esla capella, que cingiu-me a testa, 

Que eu tenho aqui tam natural, tam nobre. 

Foi elle que m'a deu. Seus próprios dedos 

Foram que em mim esta capella ataram. 

Depois, de mim três passos afastou-se 

Para mirar-me assim, — e achou-me bella 

Como sua alma, e me chamou «Divina, 

«Viz3o de Deus, ou seraphim, ou fada. 

«És bella, oh minha irmã, — entam me disse, 

«Como os anjos do ceu, — quando te adorna 

«A fronte esta capella. — Era nossas bodas 

a Irás ovante, presumpçosa, altiva, 

«De teu brilhante resplendor cercada.» 

Levae-me longe esta infeliz capella, 

Levae-me longe este presente, amigas, 

Levae-me longe as vestes do noivado. 

Tirae-me as jóias que este collo infeitam, 
De que me ornei para agradar-lhe os olhos. 
N3o mais eu tenho o meu amor tam bello. 



197 

P'ra quem me infeite de luzidas jóias. 
Levae taes jóias para longe amigas, 
Levae-me longe as vestes do noivado. 



/ 



De meus dedos, aqui, vinde arrancar-me 
Estes anneis de rútilos brilhantes. 
Estes ornatos de alegria e luxo. 
Mas este annel, que vedes mais pomposo. 
Mais fulgurante aqui — bem como um astro — 
Por compaixão I não m'o tireis, amigas. 
Que foi de meu amor signal eterno. 
Impresso pela mão do amante esposo. 
Os mais infeites me arrancae, amigas, 
Levae-me longe as vestes do noivado. 

Fatal doença, que poder tiveste 

Que de meus braços o levaste á morte ! 

Tam joven inda o meu esposo l Agora, 

— ^Viver, agora, começava apenas. 

Pois agora somente era que amava. 

Quando lhe urgira o passamento extremo, 

Luctando já entre mortaes transidos. 

Essas tocantes phrases lhe escutamos : 

€ Morrer tam cedo t — e o seraphim que eu tenho, 

tEsta esposa infeliz, que amo extremoso, 

c Único anhelo á vida ao pé da morte, 

cEsta esposa infeliz tam cedo a deixo!» 

Fui eu, fui eu seu pensamento extremo I 

E n'essa convulsão que ultima a vida, 



Quando a paílida bocca abriu forçado, 
Quando lançou seu derradeiro expiro, 
Inda tentou articular meu nome. 
Que entre-partido lhe ficou nos lábios, 
E o fim, e o resto — transportou-o á campa 1 

Campa cruel, que o meu amor incorras. 
Não lhe comprimas o mimoso corpo, 
Que eu já cuidei para intregar-te agora. 
Já que não podes reverter-lhe a vida, 
Dá-lhe um socégo plácido na morte, 
Campa cruel, que o meu amor incerras I 

EUe não era para mim somente 
Amor inútil, isolado, ou fátuo. 
Co'o seu amor vivifico e fecundo 
Queria a todos, como a si queria. 
Choremos todos um amor de menos. 
Choremos todos : que partiu tam breve 
Da terra aos céus um coração de amigo. 
Mas foi unir-se áquella Essência eterna, 
D'onde seu puro espirito partira. 
Entre os anjos nos céus elle revoa ; 
Que um anjo elle era cândido e formoso. 
Isto consola : — mas em quanto a vida 
Na terra me durar, — contínuo e sempre 
Chorarei pelo amor que d'elle tive, 
E com meu pranto copioso e ardente 
 lamental-o insinarei a todos. 
Choremos todos um amor de menos. 



•40^■ 



NENIA 



A FILHA DE S. VIGENTE DE PAULO, FALLECIDA NA CIDADE DE lARUNNA 



Si ella fora mais affortunada, sua 
historia seria mais pomposa: mas 
suas obras seriam menos cheias, e 
com titules suberbos teria talvez ap- 
parecido vazia diante de Deus. 

BOSSUET. 



I 



Olhae nos ares : lá sobem, 
Brilhando de accezas.Iíslras, 
Espheras áureas de nuvens 
Formosas, porem sinistras. 

Sinistras, sim : que na terra 
Tal espectáculo existe. 
Que é alegre para os anjos, 
Que para os homens é triste. 

É assim aquelle aspecto 
De nuvens de ouro e saphira : 
Tam prazenteiro que é elle ! 
Não sei que pezar inspira. 



Olhae DOS ares : lá sobem, 
Brilhando de accezas listras, 
Espheras áureas de nuvens 
Formosas, porem sinistras. 

E lavas de ardentes hynmos 
Rebentam dos bojos seus : 

— Sam anjos lindos que intõam 
Mysteríos sanctos de Deus. 

Sam musicas de outra pátria, 

— Sam do ceu,— sam anjos, sim: 
A voz das virgens da terra 

Não tem harmonia assim. 

Que bellezs^aão reflectem 
Os ares, a terra, o mar I 

— Mas que silencio que guardam 
Tam próprio para chorar ! 

Olhae nos ares : lá sobem. 
Brilhando de accezas listras, 
Espheras áureas de nuvens 
Formosas, porem sinistras. 

Entes do ceu ! — quem inspira 
Vossa linguagem canora ? 
Perdestes outr'ora um anjo. 
Que vindes buscar agora? 



201 

Talvez que baixasse ao inundo 
Algum de vossos irmãos : 
Talvez que o ceu nos mandasse 
Algum de seus cidadãos. 

E completasse entre os homens 
Sua. divina missão : 
£ suba, em nuvens douradas^ 
De novo a sua mansão. 

Olhae nos ares : lá sobem. 
Brilhando de accezas listras, 
Espheras áureas de nuvens 
Formosas, por^m sinistras. 



II 



Quem és, virgem christan ? — qual é teu nome ? 
Por pátria tua — que nação te cabe ? 
Porque sobem-te ao ceu espheras de ouro ? 
-— D'entre os homens ninguém, — ninguém o sabe, 

Foste — qual chuva argêntea que, passando. 
Fecundação pelos vergéis acorda : 
Mas á vista do sol ninguém na terra 
Das chrystallinas gottas se recorda. * 



202 

Assim, christan, passaste pela terra, 
Extranha ao mundo, e plácida, e quieta : 
Nem a lage que cobre o teu cadáver 
Molhou-a co'o seu pranto algum poeta. 

Nem cahiu-te no féretro uma lagrima, 
— Nem uma só de sentimento grato : 
Lagrima a preço de ambição comprada 
Não n'a tiveste d'esse povo ingrato. 

Não te adornaram a virginea frente 
Inúteis louros de Stael famosa. 
Não manejaste as aulicas intrigas. 
Que celebraram Maintenon vaidosa. 

Não te coube o poder da grande Áspasia 
Pelos altivos sophos decantada. 
De Calharina o formidável sceptro 
Não te pezou na dextra delicada. 

Foste — qual chuva argêntea que, passando. 
Fecundação pelos vergéis acorda : 
Mas (i vista do sol ninguém na terra 
Das chrystallinas gottas se recorda. 

Nem elegias ternas de saudade 
Sobre o tumulo teu disse um poeta. 
Do ministro de Deus a vez apenas 
Poude-se ouvir monótona e quieta. 



203 

Mas Deus, que lé nas vísceras dos homens, 
Fez abaixar do ceu espheras de ouro. 
Tua alma pura, circumdada de anjos. 
Foi levada ao Senhor, como um thesouro. 

Os cantores seraphicos te intôam 
Nenias, que nunca os homens escutaram : 
Saudosas nenias, inauditas, novas, 
Que os poetas da terra te negaram. 

Quem és, virgem christan ? — qual é teu nome ? 
Por pátria tua que nação te cabe ? 
Porque sobem-te ao ceu espheras de ouro ? 
— D'entre os homens ninguém, ninguém o sabe. 



Ill 



Parae, impios, parae, — em quanto eu firo 

Âs cordas do alaúde. 

Mudos ouvi-me o cântico da morte, 

 nenia da virtude. 

Virgem christan I — um trovador mesquinho 

Na terra ainda existe. 

Que intorna sobre a campa, que te incerra,' 

Uma palavra triste. 



204 

N3o é um caDto sobranceiro — como 

Aguía que os céus devassa : 

É a querula voz de homem affetto 

Aos hymuos da desgraça. 

Virgem christan ! — tu que ínxugaste em vida. 

As lagrimas do pobre, 
Acceita agora as lagrimas do bardo 

Na lage que te cobre. 

Tu has de ouvir no ceu, onde subiste, 

Meu luctuoso canto. 
A linguagem das lagrimas é tua : 

Intenderás meu pranto. 

Abaixa os olhos : — sobre o teu sepulchro 

Curvado está um homem : 

Lagrimas verte, — e d'essas que, cahindo, 

Seccando, se consomem. 

Sou eu, — sou eu, — co'a lyra nos joelhos, 

Go'a voz trenoiente e preza : 

Go'os vagos dedos affinando incerto 

A corda da tristeza. 

Dá-me, dá-me uma lagrima somente. 

Oh virgem, — que eu precizo : 

Uma lagrima, nâo! — lá não ha d'ellas 

Dá-me, dá-me um surrizo. 



205 

Paráe, impios, paráe, — em quanto eu firo 

Âs cordas do alaúde. 

Mudos ouvi-me o cântico da morte, 

À nenia da virtude. 



lY 



Oh virgem ! — na campa que tem teu cadáver 
Estive inclinado, — joelhos no chão. 
Co'o triste alaúde coberto de crepe 
Tentei entoar-te funérea canção. 

«■ 
Minh'a1ma em sublime delirio voava, 

Minh'alma voava, sabia de mim. 
Meu triste alaúde coberto de crepe 
Ficou n'uma estatua de duro marfim. 

Mính'alma voava suspensa no espaço, 
Minh'alma voava — por onde — não sei. 
Aos lados e acima somente o infinito. 
Por baixo somente sepulchros achei. 

E tudo deserto, — silencio de tumbas, 

Yastissimo aspecto de immensa soidão : 

E tudo espirava bellezas horríveis 

De um mundo que de homens não pode ser, não. 



206 

Entam repentina no vago do espaço 

Não sei que harmonia que ouvi que rompeu ; 

Nao sei si partia de vozes extranbas, 

Nao sei si partia do espirito meu. 



O cadáver que jaz n'esta campa 
Esse mundo o não teve intendido. 
Esse mundo não deu o seu pranto, 
— Esse pranto comprado e vendido. 
É dos céus o cadáver da virgem. 
Que esvoaça do mundo mentido. 

O cadáver que jaz n'esta campa 
Sentimentos dos anjos conteve. 
Salamandra que vive nas chammas, 
N'este mundo esta virgem esteve. 
N'este mundo os preceitos do Christo 
Em sua alma ella sempre os reteve. 

O cadáver que jaz n'esta campa 
Esse mundo o tractou com desprezo : 
Que esse mundo escarnece as virtudes, 
Quando d'ellas se sente surprezo. 
Lá nos antros escuros do peito 
Da verdade o louvor fica prezo. 



207 

Perguntais sua pátria qual era? 

— Perguntae-o aos dous poios da terra : 

— Flor eterna que em todo o universo 
As raízes profundas aferra : 

— Povo de homens christãos que nos orbes 
Nunca um déspota enorme os desterra. 

■ 

O seu nome quereis ? — Consultae-lhe 
Que palpites seus peitos tiveram. 
Sentireis, no cadáver gelado, 
Que valentes, que sôfregos eram. 

— Caridade I — seus peitos palpitam : 

— Caridade ! — seus lábios disseram. 

Foi seu astro esse nome divino. 
Esse nome que o Christo insinou. 
Para os cárdines longes da terra 
Essa virgem christan se atirou. 
Co'esse nome do Christo nos lábios. 
Mil ferozes nações arrostou. 

Esses martyres loucos da guerra 
Exhumou do cruor da batalha. 
Foi pensar a familia do pobre 
Na modesta cazinha de palha. 
Foi as chagas limpar do mendigo 
Com fibrosa e macia toalha. 

Pelos trivios desertos da estrada. 
Pelos sórdidos cantos das ruas, 



208 

« 

Recolheu os infantes expostos 
Pelas mies deshamanas e cruas ; 
Jnvolveu em felpudas mantilhas 
Suas carnes geladas e nuas. 

Porém nunca prostrou-se nos thronos 
Nem rojou pelos pès do monarcha. 
Claridade I — este nome sagrado, 
Como as tábuas da lei dentro da arca. 
Caridade I — entre o mármore e o colmo 
Âccepções difFerentes nlo marca. 

Caridade í — evangelho em resumo — 
Entre os homens não faz distincção. 
Ama o pobre — que acima dos ricos 
Doesse amor tem maior precizSo. 
Vale menos um sceptro p'ra ella : 
Vale mais do mendigo o bordão. 

Caridade ! — evangelho em resumo — 
Nem senhores nem servos conhece. 
— Como o servo estremece, morrendo, 
D'este modo o senhor estremece. 
E a nobreza comprada no berço 
N'uma campa co'o pobre fenece. 

Assim foi esta virgem. — Mil vezes - 
Os feridos colheu da batalha. 
Os mendigos tomou pelas ruas. 
Consolou na cazinha de palha. 



209 

Involveu os infantes expostos 
Em fibrosa e macia toalha. 

Porem hoje o seu corpo é cadáver. 
Tem sua ahna a celeste mansão. 
O Senhor a chamou por seus anjos, 

— Que completa viu sua missão. 

E partiu d'entre nós... E da virgem. 
Ninguém d'ella se lembra mais não. 

Nos semblantes de inférmos, de pobres 
Da ventura já brilha o retrato. 
O menino que a vida lhe deve, 
Esse mundo ao depois fél-o ingrato : 
Por que o homem no leito de estofo 
Julga infâmia o que lembra o grabato. 

E partiu d'entre nós... E não teve 
 canção funeral do poeta, 

— Do inspirado de Deus para o mundo, 
Do escolhido — terrestre propheta. 

Do propheta divino somente 
EUa teve uma prece quieta. 

E partiu d'entre nós... E seus anjos, 

— Seus irmãos — uma nenia intoaram. 
E no arjassombrado e tranquillo 
Harmonias do ceu resoaram. 

14 



210 

E de nuvens espheras douradas 
Para os altos de Deus a levaram. 

E perante esse aspecto de gloria 
Toda a terra quedou-se serena : 
Como o triste, ante os rizos alheios. 
Sente mais augmentar-se-lhe a pena : 
Gomo a taça de néctar do rico 
As artérias do pobre invenena. 

Mas a terra reflecte bellezas, 
Essa terra, esse vácuo, esse mar ! 
Porém tudo — mudez e silencio, — 

— Atalaia que põe-se a espiar : 
Porem tudo assombrado e tranquillo, 
Gomo quem preludia chorar. 

E partiu d^entre nós... E seus anjos, 

— Seus irmãos — uma nenia intoaram. 
E do nuvens espheras douradas 

Para os altos de Deus a levaram. 
E essa terra, esse vácuo, esses mares 
Na mudez da tristeza ficaram. 

Tu, oh ceu, na escriptura dos anjos. 
Mais um anjo em teus choros registras. 
Tu mandaste-o buscar por teus anjos 
Sobre nuvens de fulgidas listras. 



211 

Mas a terra íicou merencória, 
Qual gigante co'as faces sinistras. 



VI 



Tal foi repentina no vago do espaço 
Aquella harmonia que ouvi que rompeu. 
Nao sei si partia de vozes extranhas, 
N3o sei si partia do espirito meu. 



1 de fevereiro de 1854. 



. • 



os OOUS CADÁVERES 



Amp ■uiBca úm TeBcmadi* aacUto ~- • Pr. Fr. Smmé de 0anete 
clieUMUca e •llTelm, falIceM* • •• de Biertçe, e de mee Jo- 
▼en ABilse Fr. Henrl^ae de ttmmmtm Mmmm mikelre, ISelleeMo 
• M de MceMe Mee. 



FelizeSy^ nAo b6 pela honradez da 
vida, como pela opportanidade da 
morte. 

Tácito. 



I 



As lamentáveis orações que escuto 
Dizem que é tempo de choral-os inda. 
Precizam certas dores longa ausência 
Para tornar-se fortes. Nem no tempo 
É que se inxugam lagrimas de amigos. 
E as lamentáveis orações que escuto 
Dizem que é tempo de choral-os inda. 



II 



Em dous dias somente á terra demos 
Dous cadáveres nossos. E essa terra 



213 

Duas fauces abriu para íngolil-os, 
— Duas fauces terríveis. Parecia 
Por duas boccas horrorosa rir-se 

Com sardónico aspecto. 



Ill 



Entre as preces de morte aqui trouxemos 
Primeiro um ancião. Vivera um dia, 
Mas um dia completo. A sua aurora 
Fora risonha : o seu zenith mais bello : 

Mais bello o seu occaso. 
De sua historia as paginas douradas 
Todas n um verbo apenas se resumem, 

— No verbo da virtude. 
E vós, filhos do mundo, — e vós, que tendes 
Menoscabado, ironizado os claustros. 
Vede aquelle sepulchro. Âlli na pedra 
Lereis vossa loucura, alfim vencida 
De pejo e confusão, — indo esconder-se 
Por entre as nossas orgulhosas pahnas 

De fúnebre victoria. 
E esse quadrado, povoado ao longo 
De cadáveres mil, attesta aos impios 
Que esta insânia da cruz não cai ainda. 
Vinde estudar na lapida dos túmulos 
A sorte do porvir. Aqui se enastram 



214 

Nas flores do martyrio immensos nomes 
Que figuram no cea. Aqui lançámos 
Âo mundo inteiro uma solemne prova 
Do que elle chama — as ambições do monge. 
Inclinae vossa fronte em nossas campas» 
Oh Ímpios,— e apprendei ! Aqui se escondem 
Do monge as ambições mortas com elle. 
Perguntae, perguntae ás mesmas campas 
— Quaes ellas foram ? — Uma prece humilde 

Depois de sua morte. 

Taes do monge ancião, que inda chorámos. 
As ambiçõçs na vida e além dos túmulos. 

Foram cumpridas, ellas. Seu cadáver 
Entre as preces de morte aqui trouxemos. 



IV 



Tinha troado luctuoso o bronze 

Gravosos sons de morte. 
De dobres e orações os ares pejam. 
Da dor o espectro, o génio dos lamentos 
Nos tectos pousa, em lagrimas folgando. 

E o campanário immudeceu : nas auras 
De todo em todo o lúgubre ruido. 



215 

Voando, esperdiçou-se em ténues ecchos. 
Somente as orações crebras susurram 
Pela extensão dos solitários claustros, 
E tudo o mais era silencio e nada. 
Quando outra vez o acostumado bronze 

Mais outra morte clama : 



Era um joven que um passo apenas dera 

No caminho da vida. Uma pegada 

Marcou somente nos degraus do mundo : 

Desceu, — e deu no tumulo a segunda. 

Un\ momento parara ante os altares 

Cantando o Eterno em maviosos hymnos : 

Foi toda a vida sua esse momento : . * 

E remontou-se ao ceu, findado o canto. 

Quando de tarde internecida e meiga 

Falia entre as folhas dos rosaes a briza. 

Um som — quási canção — se expande ao longo, 

Melodioso, sim : porénii mais bello 

Era o seu hymno harmonioso e brando. 

Quando sobre a montanha aérea orchestra 

De altivos rouxinoes em fortes trinos 

De musica atrevida os ares enchem. 

Para os ouvir o camponez deserta 

O innocente tugúrio, — e as feras bravas 



216 



E as torreDtes caudaes e os noites foram : 
Mas nada d^isso a soa vok copia. 
Nem a harpa immortal tangida ootr*ora 
Pelo joven David nos régios paços» 
Do possesso Saol calmando as fonas. 
Traduz o sen cantar. Já para a terra 

Era de mais oavfl-o. 
Tinha excedido ha mnito o ser de humano, 
E já tocava á perfeiçSo dos anjos. 
Talvez que predzasse o etbereo throno 

Mais de um cantor, qual elle. 
Ou d'entre os choros seus — Deus, por momentos, 
Tj^raum anjo que viesse ao mundo 
Cantar cançdes do ceu, — dizendo aos homens 
Goino se adora a Deus na pátria eterna. 



VI 



Cantor» cantor* do ceu ! tu não morreste. 

Nem mudaste de pátria. 
N3o pode, n3o, ser teu nem um dos orbes. 
Si na terra passaste, oh sim, — viagem. 
Missão de Deus foi isso em nossa esphera. 
A pátria tua é tam somente o Eterno I 
Tu gemias, eu sei, eu vi-te, eu mesmo, — 
Gemias, circumscripto em teu segredo. 
Com saudades tle lá. Cuidando ás vezes 



217 



 sós comtigo 6 tua ídea estares. 
Em quentes preces ao Senhor pedias 
Sua mensagem concluir comtigo. 
Lá no Golgotha assim, na cruz suspenso. 
Entre dores ao Pae rogava o Christo 

Que lhe passasse o cálix. 
Deus emfim te attendeu, cantor sagrado. 
Almas dignas de Deus — Deus sempre as ouve. 

Não choremol-o, não. Um pranto estéril 
Sobre os manes de um anjo —^.insulto fora. 
Gravemos só em sua campa um nome, 

E o mais em nossos peitos ; . 

22 de abril de 1854. . - 



Al 



Pela rallcclnieiilo da Tcncranda anclfta — Frei Mareelllna do 
Caraçfta de Jeaiu^ aceaDtecIde em Junha de Ittftd na moatelro 
da SIa de Janeira. 



Sam velhos que batalharam, 
E que jamais renegaram 
A sua divisa e fé. 

Muniz-Bakbbto. 



Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge, 

Deixaste a tua cella? 
Para o báculo ainda um dia tinhas. 

Um dia para a mitra I 
Nao tinhas mais que performar no mundo ? 
Esgotaste da vida o vário calix, 
Onde, a par do prazer que á tona sobe, 

Assentam magoa e fezes? 
Saciaste-te bem de dor, de gozos I 

Fartaste-te da vida ? 
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge. 

Deixaste a tua cella ? 

Era cedo, talvez. Ainda as faces 
Âlardiavam mocidade e vida. 



219 

Na fronte ainda o ébano luzente 

Entremeava a prata. 
Rija, sonora, da tribuna eterna, 
 voz ainda estremecia as turbas. 

Apavorava os grandes. 
Podias espalhar mais bem no mundo. 

Si fosses mais um dia. 
Porque deixaste o teu mosteiro, oh monge. 

Deixaste a tua cella? 

Foras um homem necessário agora. 
Precizavam de ti victimas tantas. 

Ai ! tantos desgraçados t 
A mão iniqua de sagrados ódios 
Sobre o coIlo innocente alçou de novo 

A secure de Herodes. 
Co'a garganta infantil cozida ao cepo. 
Do algoz romano pávidos ouviram : 

— Obediência oú morte ! — 
Obedeceram. — A tortura, o açoute, 
O ergástulo, o patíbulo, as pantheras. 

Dos Ímpios Neros foram. 
Hoje ha Neros christSos mais brutos que elles. 
Sam de todas as epochas os typos 

De crime, de ferocia. 
Não ha, porem, amphitheatro e feras. 
Conhecem mais o soifrimento, as dores, 

O que mais damna os homens. 
Dam-nos apenas cárcere e desterro I 



y 






220 

Ah ! Q desterro t... prolongada estatua 

De morte que do ceu se prende ao inferno, 

— De morte que nao finda I 
Ai ! para tantos mizeros agora 

Que necessário foras t 
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge. 

Deixaste a tua cella? 

N3o viste as salas húmidas do pranto 

Dos mizeros proscriptos. 
Não viste o panno dos sagrados muros 

Transudando de lagrimas. 
Não viste o coruchéu do templo annoso 
— Testemunha da dor, — curvar-se a ella. 

Em respeito á desgraça. 
Não viste á noute nos soturnos claustros. 
De par em par fendendo-se os sepulchros, 
Rangindo os ossos, levantar-se os mortos 
Brandindo maldições em férreos carmes 

Sobre os filhos sacrílegos. 
Mui agra fora a teus provectos annos 

Uma scena de sangue. 
Ah t tanto horror te causaria infernos ! 

Foste feliz : — morreste. 
Quando os pequenos, tam do Christo amados. 
Fossem vistos de ti, — pallidos, tristes 
Ck)'ás faces cavas do soffrer profundo. 
Castigados sem crime, em hóstia á raiva 

De phariseus hypocritas... 



221 

Uma lagrima taa, um gesto, um brado, 

De bálsamo lhes fora. 

Por que deixaste o teu mosteiro, oh moDge, 

Deixaste a tua cella ? 

Também foste proscripto. A dor do exilio 

N3o era-te ignota. 
Ah I quantas vezes desejaste em âucias 

Voltar á pátria cara t 
Na pedra tumular da avita gloria, 
Sobre o pó dos tropheus, pobre, aviltado. 
Seus maus destinos Portugal prantéa, 

E pranteando dorme. 
Ossada de nação co'os pès em terra, 
Co'as mãos a custo sustentando o craneo, 
A cada sopro do suão vacilia. 
Mas inda assim amavas-lhe os destroços ! 

Lá o teu berço estava. 
Mas ah I os toqueis matinaes não soam 

Nas cupolas da Arrábida. 
Jazem seus claustros pavorosos ermos. 
Murmura ainda nas extensas naves 

O ruido do sangue. 
Nas vácuas cellas estampado impera 

O crime de seus filhos. 
Só esta idea te rasgava as veias. 

Te amargurava o peito. 
Receaste, avistando-lhe as ruinas, 

Desfallecer chorando. 



222 

Mas esses prantos qae o sablime excita 

CoDtéem suave gozo. 

Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge. 

Deixaste a tua cella ? 

Hoje de li. do ceu a vista inclina 

Para a dor dos pequenos. 
Uma prece de ti merecem, querem 

Tam innocentes almas. 
Roga por elles ao Senhor que os ama. 
Prostra-te ainda diante o sólio eterno 

Orando pelos impios.. 
Talvez o Christo lhes perdoe o crime. 
Dizendo ainda ao Pae, qual disse outr'ora : 

— N3o sabem o que fazem. < 
Talvez subiste ao ceu por ímpios tantos. 
Seria lá preciza a prece tua, 
Para abrandar-se a cholera divma, 
Que já baixava em laminas de fogo 
Nas mãos do archanjo qúe assolara o Egypto, 
Sobre a cabeça gravida de crimes 

Dos phariseus modernos. 
Por que, sinSo por isto, ao ceu subiste ? 
Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge. 

Deixaste a tua cella ? 



MAIS UM TUMULO 



Pelo falleelmeDto do venerando anel&o — Frei José de B, Bento 
Bamaalo, a !• de septembro de tSftd. 



1 



Mais um tumalo aberto I Amacia lyra, 
Tempera as* cordas de/tristeza e lucto. 
Ahl não te esqueça teu dever funéreo 1 

Nossa missão è esta. 
Intornemos na pedra um ai, um carme, 

E alabastros de preces. 
Cantemos sempre os males que se findam 

No liminar da morte. 
Merece cantos uma dor que expira. 
Quem boje desce á profundez do nada 

Foi infeliz, — foi monge. 



II 



Mas ab 1 que imagem me arrebata extranba 

A tétricos abysmos I 
Quem és ? — ar€banjo ou fada ? — As longas vestes 



224 



Vitreas, tam de crystal, os ares quebram 

E refrangentes choques ! 
Que cor, que face trauspareute, annílea. 

Qual índigo de louça I 
Que cor, que face, que platiueos olhos, 

Quaes pallídas estreitas ! 
Onde me arroubas, ai ! que cahos, que abysmos 
Que gelos glaciaes, que moveis plagas, . 

Que campos fluctuautes ! 
Quantas campas aqui quebram-se e correm ! 
Quantos craneos, — que horror f — de sánie sujos, 

Surgem medonhos d'ellas ! 
Eis t de um lado levantam-se, frangendo. 
De negras togas adornados todos. 

Altivos esqueletos I 
Ah t esfoutros, porem, forcejam, luctam. 
Tremendos uivam, por querer debalde 

Transpôr-se do sepulchro. 
Algum grilhão, talvez, lhes prende as plantas 

Lá na raiz da rocha. 
Anjo, demónio, deusa, incauto, ou fada, 

Ah ! dize-me o que vejo ! 

Que crâneo immundo em desespero appontas, 

Demónio, deusa, archanjo I 
Não reconheço-o não. A pátria minha 
Não é aqui. A região dos mortos. 
Zona do ceu, do inferno, elysio, averno, 
Gurgite infindo, tenebroso ou claro. 



225 

Pegos de luz ou turbilhões de trevas, 

Nao me pertencem inda. 

Outra nação, aqui, de essência extranha. 

Este logar occupa. 

Deixa^me, pois, voltar demónio ou anjo. 
Transporta-me outra vez ao ser que tinha. 
Não tenho ainda o meu dever completo. 

Minha missão me chama. 
Concede-me um instante, um verso, um canto, 

Uma improviza nenia. 
Quem hoje desce á profundez do nada 

Foi infeliz, — foi monge... 



Ill 



«Não cantarás, » ^tterradora brada 

A meu ouvido a fúria. 

«Não cantarás» me repetiu, inchado, 

E rebentou, tinnindo. 



FIM. 



15 



NOTAS 



Meditação — pag. 14. 

Eu conheço o ingénuo descarnado e commum d*esta peça poética, 
8Í sen nome é este. Tenho vergonha de chamar isto — meu. Nâo é 
por orgulho que o digo, nem por falsa modéstia : é pela verdade, que 
eu amo, pela: verdade, a quem eu gosto de sacrificar toda a exterio- 
ridade ridicula, toda a convenção puramente social que a possa in* 
cobrir. Não posso me alargar muito n^estas notas, — e me perdoarão 
alguma cousa p<fuco desinvolvida, porque a brevidade não traz sem- 
pre a clareza. Si me fosse licito deixar de fazel-as, seria melhor. Para 
quem leu somente o prologo, sam ellas inúteis. Quem, porem, teve 
a paciência de ler socegado, — o que eu acho difficil, — todas essas 
composições, a qual mais contradictoria em ilt)parencia, esse preci- 
sará de alguma cousa mais. £u não o saciarei entretanto, porque não 
posso. 

A peça presente foi impressa ha dous annos ou mais no Noticiei-' 
dor Catholico, As poucas pessoas que lêem este periódico, applau- 
diram — cu Paginas do coração,— nome que lhe dei entam, e que, 
por extravagantemente romântico, risquei agora. £ por isso que estas 
poucas pessoas gostaram, que eu também o deixo ir ahi. 

O apostolo entre as gentes — pag. 25, 

Esta composição era bem indigna de ser offerecida ao Sr. Dr. Gon- 
salves Dias. Entretanto, ha dous annos, tive o arrojo bastante im- 
prudente de lh'a dedicar ! Hoje, sepultado conscienciosamente na con- 
vicção de meu nada litterario, devo pedir-lhe o perdão de minha in- 
solência. 

Quanto ao pensamento geral d*esse poemeto, dirão que ha hi pan- 
theismo. 

Não o sei. Confesso que não tinha essa intenção. Como cousas peio- 
res terão de assacar-me ainda, calo-me aqui. 

Milton — pag. 63. 
• O pensamento doesta composição é bebido, qnasi inteiramente, no 
auctor que canto. 

Eu a dedico ao meu amigo — Odorico — Octávio — Odilon. Tam 
pobre offerta ! — Não lhe peço perdão, comtudo. Sua alma de poeta 
está mais acostumada a amar, do que a perdoar. Conheço-a bastante. 

O Renegado — pag. 111. 

Não faço mais, n^esta composição, do que desimpenhar como po- 
dia o papel do judeu. Pobre povo ! orgulhosos da predilecção de Je- 
hovah, que julgam que ainda lhes assiste, erram ás porções por todo 
o mundo, mas não ha fundirem-se em nem uma nação ! Ah ! uma la- 
grima siquer sobre elles... O primeiro dever do christão é chorar o 
de^açado. 

* Éu espero que muita çente se arrípie com um sancto horror do 
que diz o pobre judeu ahi. Mas era-me preciso pintar a verdade, ou 
renunciar a impreza. 



228 

E o caso de dizer com Beranger : 

Mais il prêche en sot, 
Moi; je ris en sage. 

O Monge — pag. 122. 

£a não devia dizer nada acerca doesse meu reverso dos Claustros. 
O exposto no prologo vale para aqui. 

Devo, todavia, confessar que em uma e outra composição ha por de 
mais. Dizem que Napoleão, no rochedo de Sancta Helena, ezdamara 
que — não era atheu quem o queria ser. — Ha pouco tempo tamhem 
o grande Kossuth em um celebra — meeting — disse que — si esti- 
vessem em seu lugar, veriam que tinha febre, quando erit obrigado 
a repetir discursos. — £u digo uma e outra cousa do poeta, talvez 
com mais verdade. A inspiração ou a razão, segundo o profundo Cou- 
sin, — profundo apezar dos padres, — a inspiração ou a razão não é 
voluntária. A Poesia, isto é, o pensamento inspirado não vem segundo 
o desejo. Espera-se mais, e dá menos : espera-se menos, e dá mais. 
Ha por isso, duas linguagens para o poeta : uma da inspiração ou da 
razão : outra do raciocínio ou da iutelligencia. Ha alguma cousa de 
machina cartesiana na primeira : porém que machina sublime ! 

O Converso "^'psig. 144. 

Quem se horripilou pelo pobre — judeu— horripilar-se-á, copn me- 
lhor razão acazo por este pobre — converso. — 

Minha intenção aqui é fazer o libertino, apezar de seu tom de sa- 
tyra, apezar de si mesmo, dar claramente a preferencia á religião 
christan. Eu acho que o poeta lyrico, — não so o épico, como queria 
Chateaubriand, — deve incerrar o universo. E por essa convicção que 
en, em minhas composições, faço-me, — não sceptico, como dirão, não 
pyrrhonico sublimado, qual Montaigne, — mais apenas encvclopedi- 
co, nome que tem-se tornado tam escapdaloso, que se tem hoje mo- 
dificado pelo de ecléctico. Eu confesso-me, pois, ecíectico: quero dizer 
que tenho a ambição de abarcar o mundo, não como Alexandre em 
seu todo, mas como os Apicios em seu melhor. Si divizo lá n'um ponto 
do ceu um crepúsculo de poesia, tomo o pegaso de Homero, ou o anjo 
de Milton, e para lá me arrojo. Si sonho que n'uma caverna do abysmo 
esconde-se mna figura poética, para lá me incaminho também pela 
mão de quem guiou Orpheu, ou pela mâô de quem guiou o Dante. 

Eu sei que os hipocritamente devassos devotos, — segundo a bella 
phrase do Br. Lopes de Mendonça, — não gostam dMs80. Ficam todos 
com os cabellos irriçados, como si vissem o tal monstro de Yirgiiio. 
Esses mesmos, que não poderão ouvir sem horror alguma de minhas 
insignificantes e mortas canções, estariam preparados para assistir 
com toda a satisfação religiosa a um auto de fé, hoje, agora, mesmo. 
Ai! quantos d'elles não estarão me olhando de revéz, sentindo sanctas 
, saudades da boda Inquizição. 

E com effeito, meu livro, Jano de duas faces, figura versátil de 
Frotheu, que vai- se metamorphoseando a cada pagina, estatua pro- 
phètica de Daniel forjada de não sei quantos metaes, e finalmente 
de barro,: — meu livro, pedra de escândalo, insânia de impio, ignorân- 
cia de libertino, que entre-tanto faz mal,— meu pobre livro merece 
bem a fogueira, e com elle o renegado, ou o apóstata, que o fabricou. 

Eu o reconheço. 



2-29 

Si foBse possively porem, que os homens piedosos me ouyfssem, eu 
lhes diria que meu primeiro tentamen poético, assim como apresento, 
não é de nem uma sorte um livro philosophico nem dogmático : eu 
lhes pediria que não se assanhassem a ponto de alevantar-me cada- 
falsos, como o infurecido X)e-MaÍ8tre, (]ue lhes serve de norma : que, 
com quanto eu receba com toda a paciência própria de meu espirito 
o epitheto de — impio — que elles me dam, lembrem-se todavia de 
que Helvécio, segundo elles mesmos, foi muito impio, e foi um bom- 
homem, etc., etc, etc. 

, Este meu livrinho não é, como disse já, sinão um acanhado ensaio. 
E uma pequenina messe, tal qual é. possível com a edade ainda em 
£or. Os fructos da mocidade sam sempre temporãos ; mas ha de se 
perdel-08, quando o sol tem obstinadamente esperdiçado tanto raio 
para amadurecel-os á força ? 

Transparece, portanto, aqui, um estudo rápido e passageiro, mais 
como uma ambição versátil, multicor, incerta, do que como um tra- 
balho methodico, sereno, profundo,— apanágio da edade madura. Ha . 
mais desejos, que pensamentos : mais crepúsculo, que iuz : mais du- 
vidas, que proposições : mais presentimento, que fé. Ha uma vocação 
ardente, indeterminada, insaciável, quasi infinita, para uma imagem, 
que não se define ainda, — para um incógnito, que, qualquer que seja, 
deve ser grande. Ha uma contemplação do immenso, — um desespero 
talvez. 

Creio que o estado de solidão monástica, por espaço de três annos, 
me fez algum mal.... 

Assim, esto livrinho tomou-se um labyrintho, onde eu mesmo custo 
a achar o fio. O que eu sei dizer, é que foi uma colheita do que, se- 
gundo meu gosto, achei de bello em tudo. A religião do Christo,— > 
este pen'samento verdadeiramente digno de Deus,— abastava-me de 
inspirações. 

Kão sei 8Í as recolhi todas, mas sei que as copiei bem mal. Nem 
todos tudo podemos, segundo a bella expressão de Virgílio. Ao mesmo 
passo as outras religiões, mais ou menos theologicas, mais ou menos 
philosophicas, adereçavam-se cada uma com seu bello, e desafiavam- 
me com elle. ,. 

Não me senti bastante fórte para lhes resistir. Foi n^esse periodo, 

— quem sabe si de tentação ? — que escrevi — A Btligiào do poeta, 

— impressa no Notidador Catholico, N^essa espécie de bosquejo, que 
fiz entam, das religiões, percebe- se bem o estado de meu espirito. 

Julgo que, ao dizer isso, sou verdadeiro e franco. 

Deixas-rael — pag. 157. . * 

O joven a quem é dedicada esta mesquinha composição, conta ape- 
nas dezesete a desoito annos. Eu deposito sobre o talento d*este moco 
as mais formosas esperanças. Nem uma de suas poesias viu ainda 
luz jpublica. Entretantor tem já em sua voluntária obscuridade pro-* 
duzido algumas que lhe merecerão o salve de poeta, logo que appa- 
recerem. 

Eu ardo por saudal-o primeiro que todos. Ao menos, si nem um 
mérito tenho por mim, contentar-me-ei com o que resultar, para minha 
consciência, acclamando um génio. 



230 

Soa pontual aqui no dever eagradOí que Pope nos impõe, de favo- 
recer o mérito de pressa. 

Saudade — pag. 168. 

Dirão que sou cabeça de motim, e que, como precipitd-me no abys- 
mo, quero arrastar a todos em minha queda. iBda oem — que eu sei 
a linguagem dos devotos. 

Eu nâo me atreveria a dirigir esta poesia ao meu antigo compa- 
nheiro de claustro e de soffrímento, si n&o conhecesse que sua alma 
está muito acima da alma do frade. Com isto tenho respomlido a todos. 
Talvez mais tarde eu tenha de provar com factos o que acabo de di- 
zer, em uma obrita que tenho planejado. 

A morte no dauêtro — pag. 175. 

Esta composição tinha outro titulo, com o qual foi impressa. Sab- 
stitui-o por este pela justa critica de um ámigo. 

Nfto obstante é uma d'essas composições, de que me invergonbo. 
Imprimo-a, porém, — porque pode agradar ainda a algum, como agra- 
dou já uma vez. Ha algumas pessoas de um gosto tom esquisito... 

Eu assisti á morte d*este monge, — e pela primeira vez á morte de 
um homem. Fui tam impressionado, que corri a escrever, com anciã, 
esse espectáculo medonno. Sahiu uma cousa commum, e entretanto, 
monstruosa. 

Aqui começam minhas composições fúnebres. Careciam ellas de 
muitas notas, de muitos esclarecimentos; impossiveis n*e8te livrinho. 
Eu, me reservo para melhor menç&o. 

E-me precizo, todavia, dizer uma cousa. No canto fúnebre á morte 
do meu melhor amigo França-Reboiiças, digo que tenho uma alma 
feita a um scepticismo innato. Ha hi quasi uma hyperbole poética. 
Meu scepticismo não é um pyrrhonismo absoluto, mas essa duvida 
que Descartes acconselhava, essa duvida do Dante : 

• 

Ghe noD inéo che saper, dobbiar m^aggrada. 
Isto sou eu, e não mais. Que importa, poirem, o que eu seja? 



•40^- 



índice 



Prologo do auclor v 

Juízo critico xi 

Porque canto ? 1 

O Remorso da Innocente 6 

Pedido H 

Meditação 14 

O Apostolo entre as gentes 25 

O Jesuita 34 

A flor murcha do altar 36 

Ô Incenso do altar. 41 

O Misantropo. . . 46 

A orphan na costura 53 

Meu filho no claustro 57 

Milton 63 

Pobre e soberbo. . . . ; 66 

Os claustros. . . . .' 74 

Soror-Ângela ;....: 92 

A Freira 96 

A Devota. 104 

Frei Bastos 108 

O Renegado - 111 

O Monge 122 

O Apóstata .* 141 

O Converso 144 

Ella 147 

Saudação 152 



132 

Deíxas-me 157 

Á profissão de Frei João das Mercês Ramos 159 

Canto offerecído aos jovens aluiunos do collegio de 

S. Vicente de Paulo 162 

Saudade 168 

Aos túmulos 171 

A morte no claustro 175 

Canto fúnebre 181 

Poema fúnebre 185 

Nenia 199 

Os dous cadáveres 212 

Ai! 218 

Mais um tumulo 223 

Notas 227 



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Vende-se nas Livrarias de Viuva More em Coimbra e Porto; 
e em Lisboa na de A. M. Pereira, 50-Rua Augusta-52. 



A sahir brevemente: 

Chateaabriand^ Atola, Renato e Aventuras do Der- 
radeiro Abencerrages traducção de Theophilo Braga. 

1 vol. em 18.°, 500 réis. 



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V •. 



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AN OVEMHJE FQ IF THIt MOK It 
HOT nCTURNO» TO THC UMUWY ON 
On BCFOM THE LAST DATE STAHPBD 
KLOW. HON-RECEIPT OF OVEUDUB 



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