McKEW PARK COLLECTION
MAGELLAN
and the AGE of DISCOVERY
■^
PRESENTED TO
BRANDEIS UNIVERSITY • 1961
"^i^f^nt^ àt ^nm\
àcetca ìfos
pt^e0 i«
€yipoQrap])\a ìfo «Commercia irò porto»
1894t
MUNDO DO LIVR
L. da Trìndade, 11 - r
Tsltf. 2 8951 — LI&BOA
^^
'^'^/^^^^
,^^^e-j ^.i^-/'^'
%mm 8«Mii ilijs '|«rtu8itti<s iw ^tessiitiìt
I^ist^nil^ k ^nml
àcerca ìfo$
'ÌMÌM-^nnt% la Slp^ìik
^ijpo^ropljia ìfo «€om\ìuxdo ìfo porto»
1894
àcexca ìfos
CONQUISTA de Ceuta por El-Rei Dom Joào i — em
24 de agosto de 1 4 1 5 — , foi, corno refere um
historiador allemao, o primeiro élo da i!;rande ca-
deia que os marinheiros portuguezes esten deram
a roda da Africa até encontrar o paraizo da India.
De facto aquelle ousado emprehendimento nào tar-
dou em produzir outros de maior alcance. ^^ ,
No anno de 1480, reinando El-Rei Dom P^fOity "ij;
Pero da Covilha é o primeiro portuguez que chega a
Abyssinia por terra, seguindo depois pelo mar Roxo. a
costa orientai da Africa até Sofala.
Alfonso de Albuquerque lanca — em iDoy — os ali-
cerces a fortaleza de Ormuz (no mar Persico), cuja for-
taleza Portugal conserverà até o anno de 1622, quando
Xà Abas, rei da Persia, a retomàra com auxilio dos in-
197791
O MKMORIA ACERCA DOS l'ORTUGUEZES NA ABYSSINIA
glezcs. Existiam alli a esse tempo, cinco egrejas e um
con^•ento de Padres Agostinhos.
A prodigiosa actividade de El-Rei Dom Manocl le-
vou OS portuguezes ao descobrimento desde o Indo ao
Ganges, de toda a E^thiopia e Persia, com todos os ma-
res, portos, enseadas e ilhas, a toda a China e a de Ma-
laca.
Foi aquelle Soberano quem mandou à Abyssinia, na
qualidade de seu Embaixador, Dom Francisco Alvares,
o qual passados alguns annos — em i558 — publicou a
« Historia descriptiva da Ethiopia».
Damiào de Goes e Farla e Souza, julgam a obra de-
feituosa; todavia parece fora de duvida ser o primeiro
escripto detalhado àcerca da Abyssinia.
Miguel de Castanhoso publicou — em 1541 — a sua
interessante historia acerca da expedicào dos portugue-
zes sob o mando do valoroso Alfonso de Albuquerque.
Està historia, apesar de contar 843 annos depois da sua
publicacào, o governo italiano julgou acertado (no inte-
resse da sua recente expedicào a Abyssinia) mandar tra-
duzil-a sob o titulo: «Storia della spedizione Portughese
«in Abyssinia nel seculo xvi, narrata da Michelo de Cas-
«tanhoso».
Os primitivos exploradores portuguezes eram inva-
riavelmente seguidos de fervorosos missionarios das or-
dens religiosas que n'essas epochas remotas de preferen-
za se empregavam na propagacào da fé — as de Santo
Agostinho, S. Francisco e S. Domingos. Foram os mis-
sionarios d'essas ordens os primeiros que levaram a re-
ligiào christà a Africa, Asia e America.
Apenas organisada a Companhia de Jesus — em
MEMORIA ACERCA DOS PORTUGUEZES NA ABYSSINIA 7
1540 — , OS padres d'aquella ordem. especialmente os
portuguezes, prestaram importantes servicos a fé, a civi-
lisacào, a agricultura e ao commercio, em toda a vasti-
dào do territorio aonde o pendào das quinas tinha al-
cancado. A elles é igualmente devida a descoberta da
origem do Nilo. Os padres portuguezes Fedro Paes e
Francisco Lobo levaram a etfeito essa arrojada empreza.
Segue-se a narrativa, publicada em i6ó5, do Patriar-
cha Dom Joào Bermudez, o qual viera a Portugal na
qualidade de Embaixador do Rei da Abyssinia junto de
El-Rei Dom Sebastiao. O Patriarcha descre\'e com es-
pecialidade os combates e as victorias de Dom Christo-
vào da Gama na Abyssinia.
Os padres da Companhia, Patriarcha Alfonso Men-
des, Melchior da Silva, Francisco Lobo e Nicolau Godi-
nho, escreveram igualmente sobre a Abyssinia. Este pa-
dre publicou em Roma, (em latimj, tres obras importan-
tes; uma refutando o que sobre a Abyssinia escrevera o
padre Dom Luis Urreta, hespanhol, e frade Dominicano.
A segunda àcerca da vida do padre Goncah'es da Sil-
veira, martyrisado na Africa orientai, em i 5 de marco
de i56i ; e a terceira: — «De Abassiorum Rebus de que
«Aithiopise Patriarchus Joanne Nonio Barreto & Andrea.
«Oviedo, i6i5)).
Que OS escriptos dos missionarios portuguezes eram
tidos em grande apreco nos seculos xvi e xvii, temos
muitas provas; entre outras uma carta geographica (da
qual possuimos um exemplar), publicada em Veneza no
tempo da Republica, intitulada : — «Abyssinia. dove sono
«le Fonti del Nilo, discrita secondo le relationi de' P. P.
«Mendes, Almeida, Paes, Lobo e Lodulfo)).
8 MliMORlA ACERCA DOS l'ORTUGUEZES NA ABYSSINIA
A historia da Abyssinia do Padre Balthazar Telles,
publicada em 1 660, merece particular attencào : — «His-
«toria general da Ethiopia a alta ou Preste Joao, e do
«que niella observaram os padres da Companhia de Je-
«sus, composta na mesma Ethiopia pelo padre Manoel
«d'Almeida, naturai de Vizeu, Provincial e Visitador que
«ibi na India, abreviada com novas relacóes e methodo
«pelo padre Balthazar Telles, naturai de Lisboa, Provin-
«cial da Provincia Lusitana».
Entre varias curiosidades, menciona o padre Manoel
d'Almeida, as ruinas de Accuma ou Axuma comò amos-
tras da belleza originai d'aquelles edificios; e outrosim
confirma a tradiccào dos artistas empregados em essas
construccóes, terem sido mandados vir do Egypto, por
ser desconhecida na Abyssinia a arte de lavrar a pedra.
O notavel historiador Joào de Barros, corrobora a
magnificencia das ruinas de Accuma, córte que diz fora
da Rainha de Saba e de varios Imperadores da Ethio-
pia.
Descreve aquellas ruinas, e faz mencao do que sobre
ellas affirma o douto Cardeal Baronio, nos seus annaes
ecclesiasticos. Diz figurarem alli varias ruinas, obeliscos,
etc, especialmente de uma egreja que mostra ter sido de
cinco naves, medindo duzentos e vinte palmos de com-
pimento e cem de largura. Distam estas ruinas tres le-
guas de Eremonia, e de Macuà trinta e cinco, em altura
de 14 graus e melo.
Joào de Barros descreve outras ruinas similares, de-
nominadas «Zimbabe», situadas a 170 leguas de Sofala,
na Africa orientai.
O padre Balthazar apoia a sua narrativa em cartas
MEMORIA ACERCA DOS PORTUGUEZES NA ABYSSINIA 9
pertencentes a missào da Ethiopia, entào archivadas no
cartono do Collegio, em Coimbra, algumas de i556.
Nào é fora de proposito mencionar os escriptos do
padre j esulta Damiào Vieira, o qual missionàra na India
quarenta annos. Entre seus trabalhos citam-se excellen-
tes memorias relativas a historia da India, corno tambem
um volumoso manuscripto sobre a descoberta da India,
que pertencera ao marquez de Fontes, antigo Embaixa-
dor em Roma. Affirma-se que esse manuscripto contém
detalhes e particularidades relativas a descoberta da In-
dia que nào existem na obra de Joào de Barros.
E tambem digna de attencào a carta publicada na
Colleccào de Ramusio, sob o titulo: «Lettere del padre
«maestro Francisco Xavier de Cangoxina, Città del Gia-
«pan, inderezzata a un Collegio de Scholari di detta Com-
«pagnia en Coimbra, Portogallo» ; datada de 5 de outu-
bro de i54g.
Merecem tambem estudo os escriptos do padre Pro-
curador em Roma, Dom Alvaro Semedo, da provincia
do Japào e da China, publicados em 1642.
Sóbe de interesse o itinerario do padre Jeronymo
Lobo, cujo manuscripto originai pertencera à Bibliothe-
ca dos Condes da Ericeira, e fora traduzido em francez
por mr. Le Grand, e publicado em Amsterdam em 1728.
As bibliothecas dos marquezes de Castel Melhor e
dos Condes da Ericeira eram afamadas pelos valiosos
documentos que continham relativos às descobertas dos
portuguezes. Muitos d'esses padróes de gloria nacional
ficaram sepultados nas ruinas do terramoto de lySS; al-
guns foram felizmente parar a varias bibliothecas estran-
geiras. Em Roma, Florenca, Bologna e Veneza, tive eu
IO MEMORIA ACERCA DOS PORTUGUEZES NA ABYSSINIA
a fortuna de compulsar algumas reliquias do outr'ora
levantado Portugal.
Revertendo ao itinerario do padre Jeronymo Lobo,
é mister confessar que contém informacào de alto inte-
resse, inclusive uma carta geographica da Abyssinia, na
qual estào designadas as egrejas dos padres Jesuitas e
suas residencias. Este notavel membro da Companhia
foi perseguido, e até encarcerado em Macuà, de onde
conseguiu evadir-se para Lisboa, de cujo ponto passou
a Roma em servico da missào da Abyssinia. Nào fora,
porém, bem acolhido pela Curia. Regressou a Goa, e
alli occupou o cargo de Reitor d'aquella Provincia; e
passados varios annos regressou a Lisboa, fallecendo de
idade avancada na Casa Professa de S. Roque, a 29 de
Janeiro de 1678.
O padre Lobo nào perdeu o tempo na Abyssinia, nem
mesmo escapou a agudeza de seu espirito investigador
apontar Macuà corno ponto estrategico e chave da Abys-
sinia. Os italianos assim o reconheceram ha poucos an-
nos, quando occuparam aquella cidade.
Os abexins favoreceram e trataram bem os portu-
guezes emquanto careceram do seu auxilio, nas dissen-
sóes internas ; passado o perigo, a sua conducta tornou-
se insupportavel. O proprio Patriarcha Dom Joào Ber-
mudez foi preso, e se conseguirà a liberdade, elle mes-
mo declara devel-a ao auxilio de tres portuguezes, cujos
nomes menciona: — Manoel de Soveral, Peropalha e De-
nis de Lima. O Patriarcha conseguiu por fìm abandonar
o paiz em i565.
É innegavel que os padres da Companhia praticaram
importantes servicos à religiào e à civilisacào; nào é,
MEMORIA ÀCERCA DOS PORTUGUEZES NA ABYSSINIA I I
porém, menos exacto que o seu empenho de avassallar
e de amontoar riquezas, foram causas de seu despresti-
gio no sedilo passado.
Na Abyssinia, a impopularidade contra a Companhia
chegou aos frades indigenas, os quaes se sentiram des-
considerados e humilhados por estranhos.
Quanto fica relatado àcerca da extraordinaria influen-
cia e poderio dos portuguezes nos mares Roxo e Persi-
co, està comprovado em documentos irrefragaveis, so-
bretudo os relativos aos annos de i5t2 e i5i4 — 1606
e i6go, OS quaes encerram materia de subido interesse
com referencia a Abyssinia e a Persia.
Figuram entre aquelles documentos, as capitulacóes
negociadas pelo general do exercito de Ormuz e mar
Roxo, Antonio Machado de Brito com Calil Baxa de
Bassora; comò tambem os da missào do Dr. Gregorio
Pereira Fidalgo, na qualidade de Embaixador de El-Rei
Doni Pedro 11 junto do Rei da Persia, para felicital-o
pela sua elevacào ao throno, e para ratificar a Liga ef-
feituada por Francisco Pereira da Silva, capitào-mór da
armada de alto bordo do Estreito de Ormuz e mar Roxo.
O espirito esclarecido e eminentemente pràtico do
insigne Alfonso de Albuquerque manifestam-se em toda
a sua magnificencia n'aquellas paragens.
Damos por terminada a nossa investigacào, a qual
tivera por objecto reunir dados historicos àcerca dos
primeiros portuguezes que penetraram na Abyssinia.
e?
o
03
O
O
•D
O
CO
•C\l
Ti C\J
C •
® »H
Soveral, Visconde de
197791
Soveral, Visconde de
Memoria acerca dos
Portuguezes na Abyssinia
Ìt7791